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O SERTANEJO

José de Alencar

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O Sertanejo
José de Alencar

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Edição baseada na digitalização da edição em papel da
José Olympio, 1955
Retido apenas o texto do Autor.
As notas da edição digitalizada e prefácio foram omitidos, mas levados em conta na revisão.
Ortografia atualizada de conformidade com o Dicionário Aurélio eletrônico Século XXI, nov. 1999
Variantes ao texto digitalizado estão devidamente indicados por links no texto.

©2002 — José de Alencar


ÍNDICE GERAL

PRIMEIRA PARTE
Capítulo I
O comboio
Capítulo II
O desmaio
Capítulo III
A chegada
Capítulo IV
A herdade
Capítulo V

Capítulo VI
A malhada
Capítulo VII
Moirão
Capítulo VIII
Dois amigos
Capítulo IX
Puxão d’orelha
Capítulo X
O rosário
Capítulo XI
A comadre
Capítulo XII
Alvoroço
Capítulo XIII
Explicação
Capítulo XIV
Desobediência
Capítulo XV
A cavalhada
Capítulo XVI
O vizinho
Capítulo XVII
A jura
Capítulo XVIII
Desengano
Capítulo XIX
Ao cair da tarde
Capítulo XX
O aboiar

SEGUNDA PARTE
Capítulo I
A saída
Capítulo II
A monteria
Capítulo III
O Dourado
Capítulo IV
O sorubim
Capítulo V
A carreira
Capítulo VI
Os bilros
Capítulo VII
A volta
Capítulo VIII
Emboscada
Capítulo IX
Repreensão
Capítulo X
A infância
Capítulo XI
Adolescência
Capítulo XII
Anhamnm
Capítulo XIII
A viúva
Capítulo XIV
A trama
Capítulo XV
Tentação
Capítulo XVI
O fojo
Capítulo XVII
A intimação
Capítulo XVIII
A carta
Capítulo XIX
A resposta
Capítulo XX
O casamento
Capítulo XXI
Deus não quer
Conclusão
Notas
Variantes


O SERTANEJO

 

José de Alencar


PRIMEIRA PARTE


I
O COMBOIO

 

Esta imensa campina, que se dilata por horizontes infindos, é o sertão de minha terra natal.

Aí campeia o destemido vaqueiro cearense, que à unha de cavalo acossa o touro indômito no cerrado mais espesso, e o derriba pela cauda com admirável destreza.

Aí, ao morrer do dia, reboa entre os mugidos das reses, a voz saudosa e plangente do rapaz que abóia o gado para o recolher aos currais no tempo da ferra.

Quando te tornarei a ver, sertão da minha terra, que atravessei[1] há tantos anos na aurora serena e feliz de minha infância?

Quando tornarei a respirar tuas auras impregnadas de perfumes agrestes, nas quais o homem comunga a seiva dessa natureza possante?

De dia em dia aquelas remotas regiões vão perdendo a primitiva rudeza, que tamanho encanto lhes infundia.

A civilização que penetra pelo interior corta os campos de estradas, e semeia pelo vastíssimo deserto as casas e mais tarde as povoações.

Não era assim no fim do século passado, quando apenas se encontravam de longe em longe extensas fazendas, as quais ocupavam todo o espaço entre as raras freguesias espalhadas pelo interior da província.

Então o viajante tinha de atravessar grandes distâncias sem encontrar habitação, que lhe servisse de pousada; porisso, a não ser algum afouto sertanejo à escoteira, era obrigado a munir-se de todas as provisões necessárias à comodidade como à segurança.

Assim fizera o dono do comboio que no dia 10 de dezembro de 1764 seguia pelas margens do Sitiá buscando as faldas da Serra de Santa Maria, no sertão de Quixeramobim.

Uma longa fila de cargueiros tocados por peões despeja o caminho nessa marcha miúda e batida a que dão lá o nome de carrego baixo; e que tanto distingue os alegres comboios do norte das tropas do sul a passo tardo e monótono.

Os recoveiros armados de sua clavina e faca de mato formavam boa escolta para o caso de necessidade. Além deles, acompanhava a pesada bagagem uma caterva de fâmulos de serviço doméstico e acostados.

Adiante do comboio, e já muito distante, aparecia a cavalgada dos viajantes.

Compunha-se ela de muitas pessoas. Dessas, vinte pertenciam à classe ainda não extinta de valentões, que os fazendeiros desde aquele tempo costumavam angariar para lhes formarem o séquito e guardarem sua pessoa; quando não serviam, como tantas vezes aconteceu, de cegos instrumentos a vinganças e ódios sanguinários.

Em geral essa gente adotara um trajo em que a moda portuguesa do tempo era modificada pela influência do sertão. Aqueles, porém, traziam um gibão verde guarnecido de galão branco, uma véstia amarela e calções da mesma cor com botas pretas e chapéus à frederica.

Larga catana à ilharga, trabuco a tiracolo e adaga à cinta, além dos pistoletes nos coldres, completavam o equipamento destes indivíduos cuja sinistra catadura já de si incutia mais susto do que as próprias armas.

Traziam mais, presa à borraina da sela e suspensa às ancas do animal, a larga machada que servia-lhes no caso de necessidade para abrir a picada na mata virgem, ou improvisar uma ponte sobre o rio cheio. Utensílio indispensável daquele tempo ao viajante, que muitas vezes o transformava em arma terrível.

Ia de cabo a essa força um homem de exígua figura, magriço, que trajava como os seus companheiros, com a diferença de trazer a farda de pano verde e o chapéu de feltro agaloados de prata.

Esta escolta acompanhava duas pessoas que eram sem dúvida os donos do comboio.

A primeira, homem de cinqüenta anos, de alto porte e compleição robusta, mostrava pelo chapéu armado e pela farda escarlate com galões dourados ser um capitão-mor de ordenanças. Montava cavalo ruço-pedrês, o qual dava testemunho de seu vigor na galhardia com que suportava o peso do corpulento cavaleiro, além de umas vinte libras da prata dos arreios.

A segunda personagem, dama de meia idade, mas bem conservada e prazenteira, manejava com donaire o seu cavalo castanho, também ajaezado de prata como o de seu marido. O vestido de montar era de fino droguete verde-garrafa com alamares de torçal de ouro, e o chapéu, em forma de touca, ornado de um cocar de plumas tricolores, que ao movimento do cavalo se agitavam em torno da cabeça.

Atualmente viaja-se pelo nosso interior em hábitos caseiros; não era assim naquele bom tempo em que um capitão-mor julgaria derrogar da sua gravidade e importância, se fossem vistos na estrada, ele e a esposa, sem o decoro que reclamava sua jerarquia.

Acresce que o capitão-mor Gonçalo Pires Campelo e sua mulher D. Genoveva estavam a chegar à sua fazenda da “Oiticica”, onde pretendiam entrar antes de uma hora com a solenidade, que ali era de costume, sempre que os donos voltavam depois de alguma ausência.

A última pessoa da cavalgada, ou antes a primeira, pois rompia a marcha, era D. Flor, a filha do capitão-mor. Formosa e gentil, esbeltava-lhe o corpo airoso um roupão igual ao de sua mãe com a diferença de ser azul a cor do estofo.

Trazia um chapéu de feltro à escudeira, com uma das abas caídas e a outra apresilhada um tanto de esguelha pelo broche de pedrarias donde escapava-se uma só e longa pluma branca, que lhe cingia carinhosamente o colo como o pescoço de uma garça.

Na moldura desse gracioso toucado, a beleza deslumbrante de seu rosto revestia-se de uma expressão cavalheira e senhoril, que era talvez o traço mais airoso de sua pessoa. No olhar que desferia a luminosa pupila; na seriedade de seus lábios purpurinos, que ainda cerrados pareciam enflorar-se de um sorriso cristalizado em rubim; na gentil flexão do colo harmonioso; e no garbo com que regia o seu fogoso cavalo, assomavam os realces de uma alma elevada que tem consciência de sua superioridade, e sente ao passar pela terra a elação das asas celestes.

O sôfrego baio mastigava o freio e espumava; porém a mão firme da linda escudeira, calçada de comprido guante de seda, que lhe vestia o braço até à curva, retinha os ímpetos do animal, impaciente desde que aspirava as emanações dos campos nativos.

A chapada, que os viajantes atravessavam neste momento, tinha o aspecto desolado e profundamente triste que tomam aquelas regiões no tempo da seca.

Nessa época o sertão parece a terra combusta do profeta; dir-se-ia que por aí passou o fogo e consumiu toda a verdura, que é o sorriso dos campos e a gala das árvores, ou o seu manto, como chamavam poeticamente os indígenas.

Pela vasta planura que se estende a perder de vista, se erriçam os troncos ermos e nus com os esgalhos rijos e encarquilhados, que figuram o vasto ossuário da antiga floresta.

O capim, que outrora cobria a superfície da terra de verde alcatifa, roído até à raiz pelo dente faminto do animal e triturado pela pata do gado, ficou reduzido a uma cinza espessa que o menor bafejo do vento levanta em nuvens pardacentas.

O sol ardentíssimo coa através do mormaço da terra abrasada uns raios baços que vestem de mortalha lívida e poenta os esqueletos das árvores, enfileirados uns após outros como uma lúgubre procissão de mortos.

Apenas ao longe se destaca a folhagem de uma oiticica, de um joazeiro ou outra árvore vivaz do sertão, que elevando a sua copa virente por sobre aquela devastação profunda, parece o derradeiro arranco da seiva da terra exausta a remontar ao céu.

Estes ares, em outra época povoados de turbilhões de pássaros loquazes, cuja brilhante plumagem rutilava aos raios do sol, agora ermos e mudos como a terra, são apenas cortados pelo vôo pesado dos urubus que farejam a carniça.

Às vezes ouve-se o crepitar dos gravetos. São as reses que vagam por esta sombra de mato, e que vão cair mais longe, queimadas pela sede abrasadora ainda mais do que inanidas pela fome. Verdadeiros espectros, essas carcaças que se movem ainda aos últimos arquejos da vida, inspiraram outrora as lendas sertanistas dos bois encantados, que os antigos vaqueiros, deitados ao relento no terreiro da fazenda, contavam aos rapazes nas noites de luar.

Quem pela primeira vez percorre o sertão nessa quadra, depois de longa seca, sente confranger-se-lhe a alma até os últimos refolhos em face dessa inanição da vida, desse imenso holocausto da terra.

É mais fúnebre do que um cemitério. Na cidade dos mortos as lousas estão cercadas por uma vegetação que viça e floresce; mas aqui a vida abandona a terra, e toda essa região que se estende por centenas de léguas não é mais do que o vasto jazigo de uma natureza extinta e o sepulcro da própria criação.

Das torrentes caudais restam apenas os leitos estanques, onde não se percebe mais nem vestígios da água que os assoberbava. Sabe-se que ali houve um rio, pela depressão às vezes imperceptível do terreno, e pela areia alva e fina que o enxurro lavou.

É nos estuários dessas aluviões do inverno, conhecidos com o nome de várzeas, onde se conserva algum vislumbre da vitalidade, que parece haver de todo abandonado a terra. Aí se encontram, semeadas pelo campo, touceiras erriçadas de puas e espinhos em que se entrelaçam os cardos e as carnaúbas. Sempre verdes, ainda quando não cai do céu uma só gota de orvalho, estas plantas simbolizam no sertão as duas virtudes cearenses, a sobriedade e a perseverança.

O capitão-mor havia sesteado a quatro léguas da fazenda, e partira à tarde quando já quebrara a força do sol, contando chegar à sua casa à noitinha.

Nessas horas do ocaso o sertão perde o aspecto morno, acerbo e desolador que toma ao dardejar do sol em brasa. A sombra da tarde reveste-o de seu manto suave e melancólico; é também a hora em que chega a brisa do mar e derrama por essa atmosfera incandescente como uma fornalha, a sua frescura consoladora.

À medida que se aproximava da fazenda, o capitão-mor Campelo ia observando com maior atenção o estado dos terrenos que atravessava, e a propósito dirigia a palavra, umas vezes à sua mulher, outras a um dos acólitos, o que parecia o cabo da escolta, e que lhe ficava mais próximo.

Ao longo do caminho, de um e outro lado, alvejavam, entre as maravalhas dos ramos queimados pelo sol, as ossadas dos animais que já tinham sucumbido aos rigores da seca.

— A seca por aqui foi rigorosa, D. Genoveva, disse o capitão-mor.

— Há de ver, sr. Campelo, que poder de gado se perdeu.

— Com isso já conto eu; as ossadas que temos encontrado estão mostrando. Não é um boi que lá está caído, Agrela?

— Lá ao pé da marizeira, sr. capitão-mor? Aquele já esticou a canela.

— Aposto que deixaram entupir as cacimbas? acudiu D. Genoveva.

— Não duvido, respondeu Campelo.

Nesse momento chegavam os viajantes a uma pequena elevação, donde se avistava ao longe, sobre aquela mata adusta, a copa verde e frondosa de uma prócera oiticica.

Um dos acostados que trazia a trombeta a tiracolo, levou-a à boca, e tocou uma alvorada cujos sons festivos derramaram-se pelo espaço e encheram a solidão.

O fogoso cavalo em que montava a gentil donzela, já excitado desde que primeiro sentira as auras da terra natal, com os rebates da trombeta se arremessou impetuoso pelo caminho da fazenda.

D. Flor deixou-o desafogar aquele generoso anelo que também lhe assomava n’alma ao reconhecer os sítios onde passara a sua infância e lhe corriam felizes os anos da juventude.

Logo abaixo da eminência, o caminho dividia-se; uma trilha estendia-se pelos tabuleiros, a outra serpejava pelo doce aclive que já ali formavam as abas da próxima serra. Sobre essa lomba, cujo terreno estava menos abrasado por causa das filtrações da montanha, as árvores ainda conservavam a folhagem, que tornava-se mais esbatida e virente, à proporção que se avizinhavam das cabeceiras do Sitiá.

Foi por este último caminho que tomou a donzela.

— Flor! gritara D. Genoveva, chamando-a.

Mas ela voltou-se para sorrir à sua mãe, fazendo-lhe um gesto prazenteiro, e deixou-se levar pelo árdego ginete.

A moça breve desapareceu encoberta pelo mato aí mais fechado, e revestido ainda de alguma rama, embora rara e crestada.

Com a rapidez do galope, o vento agitava os cabelos castanhos da donzela, fustigando-lhe o rosto, e ela experimentava um indizível prazer, como se a terra de seu berço lhe abrisse os braços carinhosa, e a estivesse apertando ao seio, e cobrindo-lhe as faces de beijos.

Cerrando a meio os olhos, engolfada nessa ilusão, parecia-lhe que a terra natal tomava as feições da ama que a criara, da boa Justa, de quem se apartara pela primeira vez com tamanha saudade.

De repente o brioso cavalo que relinchava de alegria, erriçou a crina e soltou do peito um ornejo surdo, lançando os olhos pávidos para a esquerda do caminho.

D. Flor pensando que esse terror proviria de ter o baio pressentido no mato a carniça de alguma rês, afagou-lhe o pescoço com a mãozinha afilada, excitando os brios do animal por uma carícia da voz.

Mas o cavalo estacou espavorido, com o pêlo híspido e as narinas insufladas pelo terror.


II
O DESMAIO

 

A par com a comitiva, mas por dentro do mato, caminhava um viajante à escoteira.

Parecia acompanhar o capitão-mor, porém de longe, às ocultas, pois facilmente percebia-se o cuidado que empregava para não o descobrirem, já evitando o menor rumor, já afastando-se quando o mato raleava a ponto de não escondê-lo.

Sua paciência não se cansava; tinha caminhado assim horas e horas, por muitos dias, com a perseverança e sutileza do caçador que segue o rasto do campeiro. Não perdia de vista a comitiva, e quando a distância não lhe deixava escutar as falas, adivinhava-as pela expressão das fisionomias que seu olhar sagaz investigava por entre as ramas.

O cavalo cardão, que ele montava, parecia compreendê-lo e auxiliá-lo na empresa; não era preciso que a rédea lhe indicasse o caminho. O inteligente animal sabia quando se devia meter mais pelo mato, e quando podia sem receio aproximar-se do comboio. Andava por entre as árvores com destreza admirável, sem quebrar os galhos nem ramalhar o arvoredo.

Tinha o cavalo um porte alto e linda estampa; mas nessa ocasião, além da fadiga da longa viagem que devia emagrecê-lo, sobretudo por uma seca tão rigorosa, o animal vaqueano conhecia que não era ocasião de enfeitar-se, rifar e dar mostras de sua galhardia. De feito tinha mais aspecto de um grande cão montado por seu senhor, do que de um corcel.

Era o viajante moço de vinte e um anos, de estatura regular, ágil, e delgado de talhe. Sombreava-lhe o rosto, queimado pelo sol, um buço negro como os compridos cabelos que anelavam-se pelo pescoço. Seus olhos, rasgados e vívidos, dardejavam as veemências de um coração indomável.

Nesse instante o constrangimento a que a espreita o forçava, tolhia-lhe os movimentos e embotava a habitual impetuosidade; mas ainda assim, nesses agachos de caçador a esgueirar-se pelo mato, percebia-se a flexibilidade do tigre, que roja para arremessar o bote.

Vestia o moço um trajo completo de couro de veado, curtido à feição de camurça. Compunha-se de véstia e gibão com lavores de estampa e botões de prata; calções estreitos, botas compridas e chapéu à espanhola com uma aba revirada à banda e também pregada por um botão de prata.

Ainda hoje esse trajo pitoresco e tradicional do sertanejo, e mais especialmente do vaqueiro, conserva com pouca diferença a feição da antiga moda portuguesa, pela qual foram talhadas as primeiras roupas de couro. Ultimamente já costumam fazê-las de feitio moderno, mas não têm o valor e estimação das outras, cortadas pelo molde primitivo.

Trazia o sertanejo, suspensa à cinta, uma catana larga e curta com bainha do mesmo couro da roupa, e na garupa a maleta de pelego de carneiro, com uma clavina atravessada e um maço de relho.

Quando a comitiva chegou à eminência donde se avistava a oiticica, o viajante acompanhou com os olhos a donzela até que seu vulto gracioso desapareceu entre o arvoredo; e dando volta ao cavalo afastou-se vagarosamente do caminho da fazenda.

Não tinha, porém, andado vinte braças, que sua fisionomia traiu súbita inquietação. Reclinando sobre o arção, perscrutou com o olhar o mato que o rodeava. Ouvia-se ao longe um leve crepitar, semelhante ao rugir do vento nas palmas crenuladas da carnaúba.

O que, porém, mais preocupava o sertanejo era a cálida rajada que ao passar escaldara-lhe o rosto. Arripiando caminho avançou contra o bochorno para verificar a causa, que tinha logo suposto.

Seu cavalo cardão rompeu o mato a galope, como quem estava acostumado a campear o barbatão no mais espesso bamburral; e com pouco o sertanejo, atalhando a distância, avistou D. Flor parada além, no caminho.

A donzela debalde fustigava o baio, que recuava cheio de terror. Também ela sentira-se envolta por uma evaporação ardente, que se derramava na atmosfera, e oprimia-lhe a respiração, mas, ocupada em vencer a relutância do animal, não prestara ao incidente maior atenção.

Nisso levantou-se no mato um fortíssimo estrépito que rolava como o borbotão de uma torrente; e a donzela viu, tomada de espanto, um turbilhão de fogo a assomar ao longe e precipitar-se contra ela para devorá-la.

Conhecendo então a causa do terror que assustara o animal, e pressentindo o perigo que a ameaçava, lembrou-se a donzela de retroceder; mas outro bulcão de chamas já arrebentava por aquela banda e tomava-lhe o passo.

O incêndio, causado por alguma queimada imprudente, propagava-se com fulminante rapidez pelas árvores mirradas que não passavam então de uma extensa mata de lenha. A labareda, como a língua sanguinolenta da hidra, lambia os galhos ressequidos, que desapareciam tragados pela fauce hiante do monstro.

No seio do denso pegão do fumo, que já submergia toda a selva, rebolcava-se o incêndio, como um ninho de serpentes que se arremetiam furiosas, enristando o colo, brandindo a cauda, e desferindo silvos medonhos.

Ao mesmo tempo parecia que a tormenta percorria a floresta e a devastava. Ouvia-se mugir o vento, agitado pelo ressolho ardente e ruidoso das chamas; um trovão soturno repercutia nas entranhas da terra, e a cada instante, no meio do constante estridor da ramagem, reboavam com os surdos baques dos troncos altaneiros, os estertores da floresta convulsa.

Do meio desse torvelinho, o dragão de fogo se arremessava desfraldando as duas asas flamantes, cujo bafo abrasado já crestava as faces mimosas de D. Flor, e a revestiam de reflexos purpúreos.

Entre as duas torrentes ígneas que transbordavam inundando o campo e não tardavam soçobrá-la, a donzela não desanimou, e fez um supremo esforço para arrancar seu cavalo do estupor que lhe causava o terror do incêndio.

Negros rolos de fumo. porém, a envolveram, e sufocada pelo vapor ela sentiu desfalecer-lhe a vida.

Então com um gesto de sublime resignação cruzou as mãos ao peito, reclinou a linda fronte, e abandonou-se à morte cruel que vinha ceifar-lhe sem piedade a primícia de sua beleza, quando apenas desabrochava.

Nenhum grito lhe rompeu do seio nessa tremenda angústia; com o nobre pudor das almas altivas recalcou o supremo gemido, e em seus lábios mimosos a voz feneceu exalando apenas esta palavra, que resumia toda a sua aflição:

— Jesus!...

O corpo desmaiado resvalou pelo flanco do baio, mas não chegou a cair. Um braço robusto o suspendeu quando já a fralda do roupão de montar arrastava pelo chão.

Apenas o sertanejo conheceu o perigo em que se achava a donzela, rompeu-lhe do seio um grito selvagem, o mesmo grito que fazia estremecer o touro nas brenhas, e que dava asas ao seu bravo campeador.

No mesmo instante achava-se perto da moça, a quem tomara nos braços. Para salvá-la era preciso voltar antes de fechar-se o círculo de fogo, que já o cingia por todos os lados com exceção da estreita nesga de terra por onde acabava de passar.

Não houve de sua parte a mínima demora; o campeador devorou o espaço, e não se poderia dizer que chegara, pois sem parar voltara sobre os pés. Mas o incêndio tinha as asas do dragão; retrocedendo, achou-se o sertanejo em face de um bulcão de chamas que o investia.

As duas trombas de fogo, que desfilavam pelo campo fora, se haviam encontrado, não frente a frente, mas entrelaçando-se, de modo que deixavam ainda, de espaço em espaço, restingas de mato poupadas pelas chamas.

Arrojou-se o mancebo intrepidamente nessa voragem. Estreitando com o braço direito o corpo da donzela cujo busto envolvera em seu gibão de couro, com um leve aceno da mão esquerda suspendia pelas rédeas o bravo campeador que, de salto em salto, transpôs aquelas torrentes de fogo, como tantas vezes sobrepujara os rios caudalosos, abarrotados pelas chuvas do inverno.

Fustigado pelas chamas que já o atingiam, e instigado também do exemplo, o baio, saindo afinal do torpor que dele se apossara, disparou à cola do brioso campeador; porém, menos intrépido e ágil, muitas vezes tropeçou no braseiro, donde a custo pôde safar-se.

Para rodear a coluna de fogo que lhe cortava o caminho da fazenda, teve o sertanejo de dar grande volta, que o levou aos fundos da habitação, completamente deserta nesse momento, pois todos os moradores e gente do serviço, avisados pelo toque da trombeta, haviam acorrido para o terreiro da frente a receber os donos e festejar a chegada.

Saltou o mancebo em terra sem esperar auxílio, e atravessando a varanda deitou o corpo desfalecido de D. Flor no longo canapé de couro adamascado, que ornava a sala principal.

Compôs rapidamente, mas com extrema delicadeza, as amplas dobras da saia de montar, para que não ofendessem o casto recato da donzela, descobrindo-lhe a ponta do pé, nem desconcertassem a graciosa postura dessa linda imagem adormecida. Com os olhos enlevados na contemplação da formosa dama, agitava como leque a aba do seu chapéu de couro, refrescando-lhe o rosto.

Não assustava ao sertanejo a imobilidade da moça; durante a corrida, apesar do estrépito do incêndio e do esforço que empregava para arrancá-la às chamas, não cessara um instante de ouvir sobre o peito a palpitação do coração de D. Flor, a princípio violenta, mas que foi moderando-se gradualmente.

Conheceu que não passava isso de um simples desmaio causado pelo vapor do incêndio. Com o repouso e a inspiração do ar mais vivo e fresco, a donzela não tardaria a voltar a si. Mas se não receava já pela vida preciosa que salvara, todavia não se desvaneceu completamente a inquietação do mancebo pelas conseqüências que podia ter aquele susto para a saúde e tranqüilidade de D. Flor.

Este desvelo extremo enchia-lhe os olhos, os feros olhos negros, que fuzilavam procelas nos assomos da ira e que agora, ali em face da menina desfalecida, se quebravam mansos e tímidos, espreitando a volta do espírito gentil que animava aquela formosíssima estátua, e estremecendo ao mesmo tempo só com a lembrança de que as pálpebras cerradas pelo desmaio se abrissem de repente, e o castigassem com mostras de desprazer.

Indefinível era a unção desse olhar em que o mancebo embebia a virgem, como para reanimá-la com os eflúvios de sua alma, que toda se estava infundindo e repassando da imagem querida. Ninguém que o visse momentos antes, lutando braço a braço com o incêndio, gigante contra gigante, acreditara que esse coração impetuoso encerrasse o manancial de ternura, que fluia-lhe agora do semblante e de toda sua pessoa.

A respiração da donzela, sopitada pela vertigem, foi-se restabelecendo; o seio arfou brandamente com o primeiro alento, e na face que parecia de alabastro perpassara um frouxo vislumbre de cor.

Ajoelhou então o sertanejo à beira do canapé; tirando do peito uma cruz de prata, que trazia ao pescoço, presa a um relicário vermelho, deitou-a por fora do gibão de couro. Com as mãos postas e a fronte reclinada para fitar o símbolo da redenção, murmurou uma ave-maria, que ofereceu à Virgem Santíssima como ação de graças por haver permitido que ele chegasse a tempo de salvar a donzela.

Terminada a oração, volveu a vista em torno como se temesse que as paredes se crivassem de olhos para espiá-lo, e perscrutou o semblante da donzela com uma expressão pávida e suplicante. Afinal, trêmulo, pálido, qual se cometesse um crime, curvou-se e beijou a franja que guarnecia o fraldelim do roupão, como se beija a mais santa das relíquias.

Tênue suspiro exalou dos lábios já rosados da donzela; a mão esquerda moveu-se com um brando gesto que a aproximara do seio. O mancebo retraíra-se vivamente para o lado da cabeceira: e à medida que os sinais do recobro se manifestavam na menina, ele, sempre voltado para o canapé, sem tirar-lhe os olhos do semblante, se afastava de costas em direção à varanda. Cada movimento de D. Flor era um passo que ele dava, pronto a desaparecer da sala como uma sombra.

Já próximo à porta, violenta comoção o abalou. Dos lábios frouxos da donzela se desprendera em mavioso queixume um nome, e esse nome era o seu:

— Arnaldo!

Irresistível impulso arrojou-o para a donzela; mas, como o cedro que o vento inclina, sem arrancá-lo do solo onde lançou a profunda raiz, o sertanejo tinha dentro d’alma um poderoso sentimento, que lhe encadeava os assomos da paixão, e o soldava ao pavimento.

Foi lentamente e com supremo esforço tornando do primeiro elance, até que, arrancando-se enfim ao encanto que ali o prendera, desapareceu da sala.

Levantara-se então um grande alarido no terreiro da casa.


III
A CHEGADA

 

Quando o capitão-mor reconheceu os primeiros sinais de incêndio, preveniu a gente de sua escolta.

— Queimada, Agrela? disse ele surpreso. Neste tempo e nestas paragens, não pode ser.

— É que vem de longe, observou o tenente fincando as esporas no cavalo. Toca avante a escolta.

O troço de cavaleiros disparou com a machada em punho, desbastando o mato de uma e outra banda para formar um largo aceiro que impedisse o fogo de propagar-se pela floresta.

Enquanto eles abatiam as maravalhas e ramadas altas que facilmente concebiam a chama e a comunicavam, os peões, chamados a tempo, arredavam para longe todo esse chamiço, isolando os grossos troncos, que se não podiam facilmente derrubar na ocasião.

No meio dessa faina que o capitão-mor dirigia em pessoa e animava com a palavra e o exemplo, soou um grito de aflição. Partira de D. Genoveva, a quem de repente acudiu a idéia do perigo que podia correr a donzela nesse instante, se é que já não fora vítima da horrível catástrofe:

— Minha filha!... Flor!... bradava a desolada mãe.

E ora queria atravessar por dentro da mata abrasada, levada pelo desespero à busca da menina; ora voltava-se para o marido com as mãos postas, suplicando-lhe que a amparasse naquela ânsia.

Rápida contração frisou o rosto grave e plácido do capitão-mor, que logo dominou-se. Podia medir-se a energia que recalcou a primeira impulsão, pela força com que o velho se firmou na sela, vergando ao seu peso o espinhaço da cavalgadura à feição de um arco.

— Não se assuste, D. Genoveva! disse com voz sossegada. Nossa filha não corre perigo.

— Decerto, acudiu Agrela; a doninha passou antes que o fogo chegasse ao caminho, senão teria voltado.

— Esteja descansada, minha mulher. D. Flor já chegou à nossa casa, observou o capitão-mor e tornou ao serviço: Agüenta, rapazes!

— Quem sabe, sr. Campelo; Flor é tão animosa! Talvez teimasse em passar para mostrar que não tem medo.

— Mas, senhora dona, insistiu o Agrela, se tivesse acontecido alguma cousa, de que Deus nos livre e guarde...

— Amém! disse a dama.

O capitão-mor tirou o chapéu, gesto que toda a escolta imitou.

— Por força que se havia de ouvir!

— Com esse barulho do fogo, que parece uma trovoada!...

— Lá o grito da doninha, não digo nada, mas o rincho do cavalo chega longe; e então quando o fogo começasse a chamuscar-lhe a pele!

— Convença-se do que lhe digo, senhora, acrescentou o capitão-mor.

— A prova aí está! Não ouve, senhora dona? Um cavalo que está rinchando lá em casa?

— É verdade! exclamou D. Genoveva.

Agrela aplicou o ouvido.

— E não é outro senão o baio!

— Está vendo, D. Genoveva?

A inquietação da mãe abrandou um tanto, mas não serenou de todo. Nessas ocasiões, quando um grande susto abala profundamente o coração, deixa uma incredulidade que se não desvanece com palavras, e muitas vezes resiste à própria realidade.

É só depois que ao coração, como ao lago revolto pela tempestade, volta a bonança, que ele recobra sua limpidez, na qual espelha as celestes esperanças.

— Enquanto meus olhos não virem Flor, eu não fico sossegada, sr. Campelo.

O capitão-mor voltou-se para Agrela.

— Minha senhora dona já pode passar, disse o tenente. Olá, o Xavier e o Benteví!

— Pronto! disseram dois sequazes acudindo à ordem do cabo.

— Ordena o sr. capitão-mor que acompanhem à casa a sra. D. Genoveva? perguntou Agrela.

— Ordenamos!

— Até logo, sr. Campelo. Não se demore; já basta de aflições.

O capitão-mor fez à mulher uma respeitosa cortesia, e enquanto ela se encaminhava à fazenda, tornou ao serviço que sua gente empreendera para atalhar o incêndio, e salvar as matas vizinhas, ameaçadas de ficarem reduzidas a cinzas.

O trabalho avançara rapidamente a ponto de poder D. Genoveva atravessar para o outro lado sem necessidade de fazer grande volta. O aceiro aberto na direção da fazenda, tinha cortado a tromba do incêndio que o vento impelia naquele rumo, de modo que não foi difícil ilhá-lo nessa porção de terreno já devastada, onde brevemente, consumido pela chama todo o combustível, começou a apagar-se, ficando apenas o brasido.

Todavia, não era prudente abandonar esse imenso borralho, donde o vento a cada instante levantava enxames de fagulhas, que inflamavam-se no ar e podiam atear novamente o fogo no mato cheio de gravetos e chamiços.

Agrela não descansou enquanto não extinguiu de todo o fogo na largura de umas dez braças, e ainda assim postou de espaço a espaço vigias que aí deviam ficar durante a noite, para dar aviso de qualquer acidente, quando por si não o pudessem remediar.

Durante essa arriscada e árdua tarefa, a gente da escolta e do comboio não deixava de torcer-se com a impaciência de Agrela, mas ali estava o capitão-mor que não somente não se poupava para dar o exemplo, como não duvidaria esborrachar com um murro a cabeça do primeiro que respingasse contra o seu tenente.

Com pouco apareceu o reforço da gente da fazenda, que avisada pela chegada de D. Genoveva, corria em socorro, e deu a última demão ao serviço.

— Podemos seguir, sr. capitão-mor, se V. S. não manda o contrário.

— Vamos!

Só então o capitão-mor Campelo resolveu-se a deixar aqueles sítios para dirigir-se à sua casa da qual se achava ausente havia meses, e a que tão a propósito voltara para salvá-la da ruína de que não escaparia com certeza, se o fogo continuasse com a violência em que ia.

Entretanto havia chegado D. Genoveva ao terreiro, onde a aguardava novo susto.

Toda a gente da casa, agregados e servos, apinhada no meio do pátio, em frente ao caminho, esperava ansiosa que aparecesse a cavalgada para recebê-la com as alvíssaras, toques e aclamações de prazer que eram de uso em tais ocasiões.

D. Genoveva, apenas entrou no terreiro, sem atender às festas com que a saudavam, foi em altas vozes perguntando pela filha às primeiras pessoas que lhe saíam ao encontro.

— Flor?... onde está Flor!...

Esta pergunta instante deixou a todos surpresos. Não podiam compreender como a dona lhes pedia novas de uma pessoa, que devia estar a essa hora em sua companhia e chegar justamente com ela e o marido.

A hesitação que se pintava em todos os semblantes, o espanto que já assomava nos gestos de alguns, lançou outra vez a mãe extremosa na mesma, senão mais cruel aflição.

— Minha filha!... gritou com um clamor de angústia. Não viram minha filha?... Ela não chegou?... Então, meu Deus, está morta! O fogo a queimou!...

A dama se arremessara da sela ao chão, e estorcendo os braços convulsos, arrancava os cabelos que se desgrenhavam revoltos pelas espáduas.

Nem uma das mulheres presentes, crias de sua casa e fâmulos, se animava a consolar a dor suprema da mãe, que perdera a filha. Limitavam-se a acompanhá-la com o pranto e a velar sobre ela, para ampará-la, se afinal desfalecesse com o atroz suplício.

Foi o capelão, o padre Teles, quem no exercício do santo ministério dirigiu palavras de conforto à mãe aflita.

— Lembre-se a dona que mais sofreu a mãe de Cristo, vendo seu filho não só morto e crucificado, mas coberto de baldões. E ela bebeu resignada esse cálice de amargura!...

Mas outro grito soou aí perto, que a todos estremeceu:

— Minha mãe!

Na janela da casa assomara o vulto de D. Flor, que também inquieta pela sorte dos pais a quem estremecia, soltava uma exclamação de desafogo, avistando sua mãe.

D. Genoveva caiu de joelhos, dando graças a Deus que lhe restituía a filha; e quando ergueu-se foi para estreitar ao peito a donzela que se lançara em seus braços.

— E meu pai? interrogou a menina assustada.

— Não lhe aconteceu nada; sossega; ficou atrás para apagar o fogo; eu é que não podia descansar enquanto não te visse perto de mim, livre de perigo... Que desespero, quando cheguei, e ninguém sabia de ti! Como não morri, meu Deus!

— Já passou! murmurava D. Flor. Agora sossegue, que aqui está sua filha querida.

— Sim, sim; parece-me que ainda mais te quero depois que te chorei perdida.

A esse tempo já toda a gente de serviço corria para o lugar do fogo.

Entre as mulheres que cercavam a dama e sua filha, nem uma tomara maior parte nas aflições, como nas alegrias maternais, do que uma sertaneja alta e robusta sem corpulência, que mostrava no semblante rude, porém amorável, uma franqueza de cativar.

Era essa a Justa, a ama de D. Flor, cujo amor pela menina às vezes causava ciúmes a D. Genoveva, tamanha era a devoção da carinhosa aldeã por sua filha de criação.

Apenas se desprendeu dos braços de sua mãe, D. Flor se atirou com efusão à Justa, que esperava essa carícia, como seu foro e juro de segunda mãe. A alentada sertaneja não se contentou com qualquer afago, dos que se costumam fazer às moças; tomou a menina ao colo, e conchegando-a a si como fazia outrora quando a trazia aos peitos, comeu-a de beijos desde as macias tranças dos cabelos até à ponta dos pequeninos pés, calçados de coturnos de cetim escarlate.

— Olhem só, gentes!... como veio bonita!... Está-se rindo, hem!... Teve saudades de sua mamãe?... Teve!... Teve!... Não havia de ter!... Por que não voltou logo?... A gente tanto tempo aqui penando!... Pois agora há de pagar! Tome! Um, dois, três... cem!... Ah! cuida que não me hei de desforrar?

Tudo isto interrompido por mil carinhos e entremeado dessa ingênua garrulice com que as mães falam aos filhinhos de colo, e que eles parecem entender; misteriosa linguagem do mais sublime afeto, formada de arrulhos, de caricias e de ternos balbucios.

D. Flor deixava-se acariciar; e cheia de risos, mostrava no semblante o contentamento que sentia banhando-se nessas efusões de amor.

— Então lembrou-se muito de mim, mamãe Justa? disse D. Flor.

— Nem se fala, gente!

A donzela pôde enfim receber as festas das companheiras da Justa. Com todas mostrou-se afetuosa, porém mais especialmente com uma moça que no seu tímido receio não ousava aproximar-se.

— Adeus, Alina; vem abraçar-me.

Entraram afinal as duas senhoras na sala principal.

— Ainda não me disseste, Flor! tornou D. Genoveva, sentando-se no sofá e chegando a filha para junto de si, como que ainda receosa de que lha arrebatassem. O fogo assustou-te muito, ou não havia nada quando passaste?

— Pensei morrer! exclamou D. Flor erriçando-se à lembrança do transe horrível que passara. Está bom; não fique outra vez aflita! Para que falar mais destas cousas?

— Não; conta, Flor!

— Foi um milagre. O baio espantadiço empacou; a princípio não sabia o que era; quando descobri o fogo, quis voltar. Estava cercada; via as labaredas correrem para mim, e pareciam-me estarem folgando e rindo do medo que me causavam. Mas a fumaça de repente sufocou-me, e não soube mais de mim!... Vi que era chegada a minha última hora e encomendei-me a Deus.

— Jesus! pôde afinal proferir D. Genoveva em quem se repetia a ânsia já passada da filha. E como escapaste, Flor?

— Não sei, minha mãe; respondeu a menina ingenuamente. Disse-lhe já que foi um milagre; não pode ser outra cousa. Nossa Senhora quis valer-me!

— Pois foi mesmo Nossa Senhora da Penha de França! afirmou a Justa, que ouvia de pé. E porisso há de ter a sua novena de arrojo este ano, que foi a minha promessa, se trouxesse a minha filha e todos a salvamento.

— Obrigado, mamãe!

— Mas, Flor, como chegaste a casa sem que te acontecesse nada?

— Não posso lembrar-me! respondeu a menina pensativa, e evocando do íntimo as vagas impressões que lhe flutuavam no espírito. Desde que a fumaça cobriu-me toda, como se fosse a minha mortalha, não vi mais nada; só dei acordo de mim aqui, neste canapé!...

— Neste canapé! exclamou D. Genoveva atônita.

— E deitada, como se tivesse dormido.

— Foi a minha Senhora da Penha, que a trouxe nos braços. Porisso ninguém viu quando chegou.

— É verdade! exclamaram outras vozes de mulher.

— Eu tinha acordado; não sabia onde estava, nem tinha idéia do que me acontecera. Ergui-me; e começava a reconhecer a casa, quando ouvi gritos no terreiro; corri à janela e dei com minha mãe.

A moça proferindo estas últimas palavras lançou os braços ao pescoço da mãe, e ambas ficaram enlaçadas naquela ardente efusão com que novamente se restituíam uma à outra.

A maneira por que a donzela fora salva do incêndio, ficou sendo um mistério. A maior parte da gente da fazenda atribuiu o caso à intervenção divina, e acreditava que Nossa Senhora da Penha fizera um milagre em favor da menina, e pela intercessão da Justa. Outras, sem afirmar, supunham que a menina, trazida à casa pela disparada do cavalo, que se encontrou atado ao pilar da varanda, apeara-se fora de si e caira desmaiada de susto no sofá, não se recordando dessas circunstâncias pelo abalo que sofrera.

Quanto a D. Flor, cogitando depois sobre o acontecimento que ameaçara a sua existência recordava-se de um grito que ouvira ao perder os sentidos e de um vulto que surgira de repente a seus olhos já anuviados pelas sombras da morte.

Mas essa impressão que ao despertar exalava-se em um nome murmurado à flor dos lábios, seria a fugaz reminiscência deixada por confusa realidade ou ilusão apenas da fantasia turbada pela vertigem?


IV
A HERDADE

 

A morada da Oiticica assentava a meio lançante em uma das encostas da serra.

Erguia-se do centro de um terrado revestido de marachões de pedra solta. Por diante, além do terreiro, descia a rampa com suave ondulação até à planície; atrás da habitação, remontava-se ao dorso de uma eminência donde caía abrupta sobre um vale profundo que a separava do corpo da montanha.

Na frente elevava-se no terreiro, a algumas braças da estrada, a frondosa oiticica, donde viera o nome à fazenda. Era um gigante da antiga mata virgem, que outrora cobria aquele sítio.

Na ocasião da derrubada, sua majestosa beleza moveu o fazendeiro a respeitá-la, destinando-a a ser como que o lar indígena da nova habitação fundada aí nesses ermos.

As casas da opulenta morada eram todas construídas com solidez e dispostas por maneira que se prestariam sendo preciso, não somente à defesa contra um assalto, como à resistência em caso de sítio.

Ocupava a maior área do terreiro um edifício de vastas proporções que prolongava duas asas para o fundo, flanqueando um pátio interior, bastante espaçoso para conter horto e pomar.

À extremidade de cada uma dessas asas prendiam-se outros edifícios menores, alguns já trepados sobre os píncaros alpestres, porém ligados entre si por maciços de rochedos que formavam uma muralha formidável.

A tapeçaria e alfaias da casa eram de uma suntuosidade que se não encontra hoje igual, não só em toda a província, mas quiçá em nenhuma vivenda rural do império.

Naquela época, porém, os fazendeiros tinham por timbre fazer ostentação de sua opulência e cercar-se de um luxo régio, suprimindo assim em torno de si o deserto que os cercava.

Havia fazendeiro, e o capitão-mor Campelo era um deles, que não comia senão em baixela de ouro, e que trazia na libré de seus criados e escravos, bem como nos jaezes de seus cavalos, brocados, veludos e telas de maior custo e primor do que usavam nos paços reais de Lisboa os fidalgos lusitanos.

Datava do fim do século dezessete a primeira fundação da herdade ou fazenda, como já então se entrava a chamar esses novos solares que os fidalgos de fortuna iam assentando nas terras de conquista, à semelhança do que outrora o haviam feito no reino outros aventureiros, também enobrecidos pelo valor e pelas façanhas.

Naturalmente lembraram-se nossos avoengos de pôr esse nome às granjas de maior tráfego pela razão de representarem os grossos cabedais e grandes posses de seus donos. Daí veio a designação no norte aos casais de criação, como no sul aos prédios de lavoura.

O gado de várias espécies, que os primeiros povoadores tinham introduzido na capitania do Ceará, se propagara de um modo prodigioso por todo o sertão, coberto de ricas pastagens.

Sucedera o mesmo que nos pampas do sul; as raças se tornaram silvestres, e manadas de gado amontado, que ainda hoje na província chama-se “barbatão”, vagavam pelos campos e enchiam as matas.

Chegando a notícia desta riqueza às capitanias vizinhas, muitos de seus habitantes, já abastados, vieram estabelecer-se nos sertões do Ceará; e ali fundaram grandes herdades, obtendo as terras por sesmaria.

Nessa ocupação do solo, a cobiça de envolta com o orgulho gerou as lutas acérrimas e encarniçadas que durante o século dezoito assolaram a nascente colônia.

Entre todas, avulta a guerra de extermínio das duas poderosas famílias dos Montes e Feitosas[2], que se acabou pelo aniquilamento da primeira. Desta bárbara contenda ficou sinistra memória não só na crônica da província, como no escólio de sua topografia.

Com outros sesmeiros, veio de Pernambuco o velho Campelo, que tinha fundado a herdade, e a transmitira por sucessão havia já vinte anos ao filho, atual capitão-mor.

No tempo da fundação da fazenda ainda o formoso e ameno sertão de Quixeramobim, que os primeiros povoadores haviam denominado “Campo maior” por causa da extensão, achava-se quase inabitado.

Apenas se encontravam alguns ranchos onde se acolhia uma população vagabunda de aventureiros, que percorriam o sertão, vivendo das rapinas e dos recursos que lhes oferecia a fartura da terra.

Só em 1755 fundou-se sob a invocação de Santo Antônio de Pádua a primeira freguesia, a qual mais tarde foi criada vila pela carta régia de 13 de junho de 1789, que a separou do termo de Aracati.

Sob o domínio do atual dono, a fazenda continuou a prosperar e com o volver dos anos adquiriu novas pertenças, com que mais se excedia, não lhe faltando nenhuma das comodidades e recreios que pedia um viver à lei da grandeza.

Tal era a herdade a que chegara o capitão-mor nessa tarde de 10 de dezembro de 1764.

Tornava ele do Recife, aonde à volta de cada três anos costumava fazer uma viagem. Desta vez levara a família para mostrar a capital de Pernambuco a D. Flor, que ainda não a tinha visto; pois só para visitar a avó em Russas ou para assistir aos ofícios da semana santa no Icó, havia a donzela alguma rara vez deixado a Oiticica onde nascera.

Ao cabo de sua jornada, já em terras da fazenda, fora o capitão-mor atalhado pelo fogo, que afinal conseguira extinguir com sua gente.

Concluído o serviço, encaminhara-se para a casa e acabava de parar no terreiro, embaixo da oiticica.

Às aclamações com que o acolheu toda a gente da fazenda pressurosa ao seu encontro, respondeu com um aceno repetido da mão esquerda; e apeou-se afinal sem esforço, mas guardada a pausa e medida de que jamais se desairava.

Ali deu audiência de chegada a todas as pessoas, que uma após outra, desde o capelão e o feitor até o último dos escravos, vieram saudá-lo dando-lhe boa-vinda; a cada um escutava com paciência, examinando-lhe as feições para notar a mudança que porventura fizera, e dirigindo-lhe alguma breve pergunta.

Depois que passou o último da turma, volveu o capitão-mor os olhos para o seu feitor.

— Falta um!

— Com licença de vossa senhoria, parece-me que estão todos.

— E o Arnaldo?

— Esse não se conta; desde o dia em que o sr. capitão-mor saiu de jornada, que ele também desapareceu da fazenda.

— Ah! Então é que pediu-nos licença, e nós lha concedemos.

— Com certeza que há de tê-la pedido, acrescentou o Agrela.

Descarregou o capitão-mor no feitor um olhar que o aturdiu:

— Manuel Abreu, chegámos e vimos achar o fogo nas matas da Oiticica a meia légua de nossa casa; e ninguém na fazenda soube, nem acudiu em tempo. Como foi isto, Manuel Abreu?

— Com licença do sr. capitão-mor, saberá vossa senhoria que eu não sei. Ainda não estou em mim com um caso destes!

— Pois amanhã há de estar averiguado quem foi o causador do incêndio, para lhe ser lançado conforme a culpa.

Dirigiu-se o fazendeiro ao pórtico da casa, cujos degraus subiu, para entrar na sala pintada de florões a fresco pelo teto e pelas paredes, e guarnecida de móveis de jacarandá forrados de moscóvia com tachas de prata.

Ali estavam ainda D. Genoveva e a filha que se levantaram para recebê-lo.

Então, só então, quando todos os deveres de dono da propriedade estavam cumpridos, consentiu o capitão-mor que afinal pulsasse o seu coração de pai.

Cingindo com o braço o talhe de D. Flor, cerrou-a ao peito; no desusado alvoroto que perpassou-lhe a fisionomia sempre calma e serena, se reconhecia que a alma fora profundamente percussa.

Depois que abraçou a filha, sem arroubos, solene mas prolongadamente, o capitão-mor levou-a para o sofá e sentando-a defronte de si esqueceu-se a fitá-la, como se não a tivesse visto por largo trato e se quisesse recuperar dessa privação de sua imagem.

Este pormenor mostrava o relevo do homem que era o capitão-mor. Formalista severo, adicto às regras e cerimônias, que se esmerava em observar escrupulosamente, imbuído de uma gravidade que tinha por essencial ao decoro de uma pessoa de sua categoria e posição, sujeitava todos os afetos como todos os interesses a essa rigorosa disciplina das maneiras.

Não era, porém, esse modo do Campelo a afetação ridícula de meneios em que se requinta a fatuidade; e sim uma temperança de gesto e de palavra, que se comediam pelo receio de descaírem em vulgaridades.

Nascia tal resguardo do nobre estímulo de manter o estado que lhe havia criado a fortuna. Campelo provinha de sangue limpo, mas plebeu; e almejando um pergaminho de nobreza, que enfim alcançara, ele queria merecê-lo por seus dotes e ser primeiro fidalgo na pessoa, do que no brasão.

Assentava bem esse temperamento do gesto no porte avantajado do capitão-mor e imprimia-lhe ao aspecto muita dignidade.

Sua compleição robusta ostentava-se na plenitude do vigor aos toques dessa moderação inabalável; e a fisionomia cheia, plácida e séria, impunha a quantos lhe falavam um irresistível acatamento.

Enquanto o capitão-mor comprazia-se em contemplar a filha, D. Genoveva referia ao marido o perigo a que havia por milagre escapado a donzela; e no meio da sua narrativa não deixou de insinuar uma doce exprobração à fleuma que o marido conservara quando ela lhe comunicara seus terrores.

— Eu tinha fé em Deus que nos havia de conservar nossa filha, D. Genoveva, respondeu serenamente Campelo.

Já de todo caíra a tarde; e as sombras da noite se desdobravam pelas encostas da serra.

Os viajantes recolheram aos seus aposentos, enquanto não chegava a hora do terço de Nossa Senhora, que antes da ceia se devia rezar na capela, em louvor e graça pela chegada dos donos da casa.

A campa tangida vivamente soltava os repiques argentinos, sombreados pela surdina dos longos pios das aves noturnas, e dos ulos da brisa nas grotas da serra.


V

 

Retirando-se da sala ao despertar da donzela, Arnaldo saíra fora no pátio.

Aí encontrou ao lado de seu cavalo o baio, que o acompanhara; prendeu este amarrando as rédeas a um dos pilares da varanda, e meteu-se pelo arvoredo para não ser visto da gente da casa.

Ao atravessar por detrás da habitação, lançou de passagem, do alto da eminência, um olhar para o terreiro, e percebeu o que lá se estava passando com a chegada de D. Genoveva.

Bem desejava ficar-se aí, nessa posição, assistindo de longe àquela cena e tomando nela a sua parte, ao menos com os olhos e o pensamento. Mas chamava-o além outro cuidado, que mais o dominava naquele instante.

Quem o observasse nesse momento notaria a expressão de ternura com que seu olhar envolvia a pessoa da Justa, como que acariciando-a.

Era sua mãe, a quem abraçava de longe enquanto o segredo que o trazia arredado da casa lhe não permitia receber sua benção.

Nessa ocasião sentiu que lhe puxavam pela aba do gibão; sem nenhuma surpresa voltou-se. Encontrou, como esperava, uma cabra rajada, cujos chifres indicavam ser já bem idosa; levantou-a pelas mãos, e reclinando-se, abraçou-a com efusão. Depois dessa carícia afastou o animal e com o gesto impediu que o seguisse.

Deu soga ao cavalo e desceu rápido a encosta rodeando para sair em uma várzea que demorava cerca de meia légua da casa, ao longo de uma das vertentes da serra e cabeceiras do Sitiá.

De um relance d’olhos investigou o descampado. Apeando-se, endireitou a um ponto onde notara vestígios de palhas recentemente queimadas. Era precisamente o que ele buscava; ali tinha começado o fogo que se comunicara ao arvoredo próximo, e depois se propagara pelas matas da fazenda.

Junto às cinzas, havia no chão uns sinais que não eram de pegadas humanas, nem rasto de qualquer animal conhecido. Esteve observando-os o sertanejo por algum tempo, e seguiu-lhes o traço, que ali perto ia perder-se no mato.

Acompanhou Arnaldo por algum tempo aquela pista por entre o arvoredo, apesar do escuro que já aí reinava. Afinal parou descobrindo entre o lastro das folhas secas uma pegada, que não fora de todo apagada.

Reclinou-se então quase de bruços e esteve a estudar os traços indistintos e quase imperceptíveis daquele vestígio deixado por um pé humano, que aí passara de fresco.

A profunda investigação do antiquário que se obstina em decifrar nas linhas confusas do hieróglifo o sentido ignoto, não exige decerto mais forte contenção do espírito, nem tão poderosa reminiscência.

Entretanto pouco demorou-se no exame o sertanejo, que ergueu-se com a feição de quem acabava de confirmar-se em uma suspeita:

— Não me enganei!

Deliberou então voltar; mas depois de haver gravado na memória a lembrança do sítio, com essa energia de percepção que o hábito da observação dá ao olhar do homem educado nas brenhas para a luta incessante do deserto.

Tornando ao mesmo lugar, o sertanejo contornou a mancha negra que deixara a labareda no chão e que fora como a cabeceira da ígnea torrente, cujo sulco rompia a selva.

Do lado oposto, oculto por uma grande touça de carnaúbas, o massapé, fazia um ressalto, formando uma coroa no alagadiço da várzea. Ali crescia entrelaçado com os estipes das palmeiras, um arvoredo viçoso apesar da estação, e que abrigava sob a rama verdejante uma choça de pegureiro.

O colmo da cabana era de palha da carnaúba, como do tronco eram os esteios e cumeeira, e dos talos a porta, aberta nesse momento. O interior constava de um só repartimento com uma emposta de esteira da mesma palha, levantada a meio da choupana.

A um lado via-se um balaio com o feitio de mala e tampa também de palha de carnaúba trançada; fronteiro um catre cujo leito era formado das aspas da palmeira que fornecera todo o material da habitação.

Quando o sertanejo chegou à porta da cabana, estava deitado no catre um homem que pela sua imobilidade parecia dormir. O parecer era de um velho no período da decrepitude.

Os cabelos compridos até se mesclarem com a barba, formavam como um capelo d’alva que lhe cobria todo o busto. Sob este rebuço das cãs, apenas se lhe distinguiam das feições as pálpebras, cerradas naquele momento.

O trajo do ancião compunha-se unicamente de uma túnica estreita de algodão, tinta de preto e cuja teia mal urdida era de grosseiro fio. Os pés tinha-os descalços e cobertos de poeira e cinza.

Arnaldo aproximou-se do catre e apertou a mão do velho:

— Bem-vindo, Arnaldo. Já sabia que estavas de volta, disse o velho sem mover-se.

— Como o soubeste, Jó, se acabo de chegar?

— Não careço de abrir os olhos para ver-te, filho. Desde esta manhã que eu te sinto chegar; ouço os teus passos.

— E quando eu chego, não te ergues daí para dar-me um abraço depois de tão longa ausência! disse Arnaldo com doce exprobração.

— Também já te abracei, filho, quando entraste, e ainda te tenho dentro d’alma.

O mancebo, habituado a essa linguagem mística, não mostrava a menor estranheza; ao contrário reclinou para o catre e estreitou o ancião ao peito.

O velho ergueu-se para corresponder à carícia de seu jovem amigo.

— Antes de tudo, Jó, diz-me, se alguma cousa te faltou? perguntou Arnaldo com solicitude.

— Que pode faltar à fera no meio das brenhas?

— O sossego, Jó; e não ando errado, pois vim encontrar uma cilada, que nos armaram. Mas felizmente cheguei a tempo.

— Deixa que se cumpra a vontade de Deus, filho. Ele proibe que arrisques a tua mocidade por causa de uma poeira que se está esboroando a cada momento.

— É preciso que abandones por algum tempo a cabana, Jó! tornou o sertanejo com o tom resoluto.

— Porventura deixo eu nesta cabana a minha sina, para que abandonando-a, me esconda à cólera celeste, que pesa sobre mim?

— Não é a cólera celeste que te ameaça, é a vingança de um inimigo traiçoeiro que deitou fogo à mata da fazenda, e o fez de maneira que as suspeitas recaem sobre ti.

O velho sacudiu os ombros.

— Eu conheci os sinais de um rasto apagado no lugar onde começou o incêndio; e já sei de quem é esse rasto. Mas na fazenda o ignoram; e não faltará quem lance a culpa ao velho Jó.

— Outras maiores pesam sobre este mísero pecador, filho; e ainda não acabaram de afundar pela terra a dentro.

— O capitão-mor é severo, e duro de abrandar.

— Mais dura é a miséria, filho, que já calejou-me a alma. Não se teme da iniqüidade dos homens quem se entregou nas mãos de Deus.

— Faz o que te peço, Jó; afasta-te destes sítios ao menos por alguns dias, até esquecer o perigo por que passou a casa com seus moradores.

— Eu sou o peregrino da morte, Arnaldo; quantas vezes já to hei dito! Ando em romaria após ela, que fugiu-me sempre até este momento. E quando enfim me sai ao encontro, posso eu voltar-lhe o rosto e arredar-me para longe? Não o farei decerto; nem tu o exigirás.

— Não o exijo por ti, senão por mim.

— Também por tua causa, não devo demorar-me neste mundo, onde estou roubando-te uma parte dos pensamentos e cuidados dessa mocidade, que merece melhor destino. Não vês como tombam na mata os troncos velhos e carcomidos para deixar que remontem-se os jovens e robustos madeiros?

— Não me entendeste, Jó; quando te rogo por amor de mim, é porque se ficares aqui, e da fazenda te vierem buscar, achar-me-ão primeiro.

— Não farás isto.

— Enquanto eu vivo, ninguém te ofenderá, juro-o pelas cinzas de meu pai. Ninguém, ainda que seja o capitão-mor em pessoa!

O mancebo pronunciou estas palavras com uma articulação enérgica; mas logo após súbita emoção lhe ofuscou a voz.

— E tu sabes que o capitão-mor é a sombra de meu pai neste mundo.

O ancião ergueu-se pronto:

— Caminha, Arnaldo; eu te seguirei aonde fores.

— Não sairás assim por teu pé, que deixarias o rumo para te buscarem.

Proferindo estas palavras o mancebo cingiu os rins do velho com os braços, e carregou-o aos ombros por um largo trato, até dentro da mata e o pousou em uma cepa de gameleira.

Tornou então atrás, cortou uma palma de carnaúba que esgarçou com a faca, e entrou na cabana, onde apagou os rastos que aí tinham deixado seus passos.

Para conseguí-lo, sassara a poeira, prurindo sutilmente o chão com os folíolos da palha verde, de modo que a terra parecia intacta de qualquer impressão*, e apenas ao de leve frisada pelo sopro da viração.

Concluída a tarefa dentro, saiu fora, andando sempre de costas, e expungindo do caminho pelo mesmo processo não somente o rasto que agora ia deixando, como os anteriores.

Chegou assim ao sítio onde ficara o velho, o qual em completa contradição com a sua tenacidade recente, deixara-se conduzir como uma criança dócil e submissa.

Carregou-o outra vez Arnaldo aos ombros, e desta vez levou-o até um bamburral espesso e impenetrável, que embrenhava as fragas alcantiladas de um grupo de penhascos.

Mergulhando por baixo dessa espessura, em um ponto onde mais fechada se mostrava, o sertanejo surdiu ao cabo de algumas braças em uma fenda de rochedo, que formava a boca de uma gruta.

A poucos passos, achou-se em uma cripta aberta na rocha viva, e que recebia a claridade de estreitas fisgas da lapa côncava que lhe servia de abóbada.

O sertanejo triscou fogo e acendeu um rolo de cera amarela guardado numa greta da pedra.

A um canto via-se no chão a cama feita de um couro de boi em cabelo, servindo-lhe de cabeceira a armação dos chifres do mesmo animal presos à caveira.

Da parede granítica da caverna pendia uma canastrinha também de couro de boi em cabelo, como ainda hoje se usam no sertão, e chamam-se bruacas.

— Aí está a cama, e aqui dentro as provisões, disse Arnaldo. Prometes não sair deste retiro enquanto não passar o perigo, Jó?

— Vai em paz, filho. Estou bem aqui; e como não estaria, se essa é já meia sepultura, que me começa a enterrar em vida? Guarde-te Deus!

Arnaldo não se demorou na gruta senão o tempo necessário para instalar o novo habitante desse eremitério. Uma vez fora, desandou o caminho percorrido, desvanecendo todo o indício de sua passagem até o ponto onde havia deixado o seu cavalo, que o esperava sem nenhuma impaciência, resmoendo um abrolho mais novo de mandacaru.

Cavalgou e afastou-se, não deixando após si o mínimo traço de sua ida à choça do velho Jó. Se alguém se lembrasse de rasteá-lo, não descobriria senão que passara a cavalo pela várzea na direção das vertentes.

— Amanhã nos entenderemos, Aleixo Vargas, disse entre si o moço sertanejo.

E buscou no recôndito da floresta a sua malhada favorita. Era esta um jacarandá colossal, cuja copa majestosa bojava sobre a cúpula da selva como a abóbada de um zimbório.

Ali costumava o sertanejo passar a noite ao relento, conversando com as estrelas, e a alma a correr por esses sertões das nuvens, como durante o dia vagava ele pelos sertões da terra.

É este um dos traços do sertanejo cearense; gosta de dormir ao sereno, em céu aberto, sob essa cúpula de azul marchetado de diamantes, como não a têm nos mais suntuosos palácios.

Aí, no seio da natureza, sem muros ou tetos que se interponham entre ele e o infinito, é como se repousasse no puro regaço da mãe pátria acariciado pela graça do Deus, que lhe sorri na luz esplêndida dessas cascatas de estrelas.

Arnaldo desaparelhara o animal que também tratou de buscar a sua guarida. Os arreios e a maca de pelego foram guardadas na bifurcação dos galhos do jacarandá, enquanto o viajante encostado ao tronco fazia uma tão rápida como sóbria refeição.

Compunha-se esta de uma naca de carne de vento e alguns punhados de farinha, que trazia no alforge. De postre um pedaço de rapadura, regado com água da borracha.

Era noite cerrada.


VI
A MALHADA

 

Nos últimos ramos, lá no tope do jacarandá, havia o sertanejo armado a rede, em que se embalava.

Devia de achar-se mais de cem pés acima da terra; e nessa grande altura, suspenso por duas finas cordas de algodão trançado, estava mais tranqüilo do que se pousasse no chão, onde o poderiam incomodar a má companhia dos répteis e a visita de alguma fera.

Ali, em seu pavilhão de verdura, grimpado nos ares, não tinha outros vizinhos além de uma juriti, que fabricara o ninho no próximo galho, e acabava de ruflar as asas à sua chegada para dar-lhe a boa-noite.

Através do rendilhado da folhagem, como por entre os bambolins de fina escócia de uma recâmera, o sertanejo recostado no punho da rede, que oscilava ao frouxo balanço, descortinava toda a devesa que se estendia das encostas da serra pelos tabuleiros, até onde a vista alcançava.

A meia distância ficavam as casas da fazenda, que ele via do alto como um mapa desenhado na superfície da terra.

Neste momento o pátio interior se iluminava de muitos fachos. Ao clarão que fazia, Arnaldo reclinado para ver melhor, avistou gente a mover-se e divisou o airoso vulto de D. Flor.

Transportava-se o capitão-mor à capela com sua família para assistir ao terço, e todo o povo da fazenda concorria à devoção que nessa noite de chegada tinha uma intenção especial e solenidade maior que de costume.

Cessaram os repiques do sino; o sertanejo adivinhando que estavam na reza ajoelhou também num ramo da árvore, e com sincero fervor acompanhou de longe no seu nicho agreste a oração que lá se estava elevando ao Senhor pela boa volta e feliz chegada dos donos da Oiticica.

Começou a ladainha cantada.

O coro religioso, derramando-se pela floresta, impregnava-se dos ruídos e murmúrios da ramagem afiada pela brisa, o que lhe dava um timbre grave e sombroso.

Ainda que não se eximisse de todo ao místico sentimento de que se repassava essa melopéia cristã no seio da profunda solidão, o sentido do mancebo estava especialmente concentrado no esforço de abstrair do coro uma voz, para escutá-la, a ela somente.

Ou porque em verdade sua residência errante e aventureira no deserto lhe houvesse exercido as faculdades ao mais alto grau, dando-lhe admirável força de percepção; ou porque se deixasse enlevar de uma grata ilusão, o certo é que Arnaldo distinguia naquele concerto uníssono uma melodia radiante, de uma límpida suavidade, que entretecia o canto sonoro como fio de ouro urdido em tela de seda.

De princípio o ouvido do sertanejo experimentou a mesma sensação dos olhos quando os fere a luz: houve uma fascinação que não lhe deixava discernir as vozes, mas logo após começou a destacar o timbre mavioso de D. Flor, com tamanho vigor que já não escutava ele senão esse hino celeste, surdo para toda outra cantoria.

Terminou o terço; sumiu-se o clarão dos fachos; naturalmente a família passava à mesa da ceia. Pouco depois apagaram-se os fogos e apenas ficou por algum tempo a lâmpada da casa de jantar, que era costume deixar até de todo concluir-se a tarefa diária.

Enquanto bruxoleou ao longe, no seio das trevas, a luz solitária, Arnaldo esteve embevecido a contemplá-la, como se a trêmula irradiação lhe desenhasse formoso painel.

Era assim todas as noites em que malhava ali, na sua pousada, quando as correrias da vida errática do sertanejo não o levavam pelo mundo sem destino.

Essa luminária, ele a amava como sua estrela. As almas que vivem no campo, ao relento, sob um firmamento cravejado das mais brilhantes constelações, todas têm um astro de sua particular devoção, um amigo no céu com quem se entretêm e conversam nos serões das noites ermas.

Para Arnaldo todas essas meigas virgens do céu lhe eram irmãs; conhecia-as pela cintilação, como se conhece pelos olhos a menina faceira que se embuçou na sua mantilha azul. A cada uma saudava pelo nome, não o que inventaram os sábios, e sim o que lhe dera sua fantasia de filho do deserto.

Mas esquecia-as o ingrato, quando brilhava a outra, a estrela da terra, porque esta lhe falava de D. Flor e seus raios eram como os olhos castos da formosa donzela que vinham misteriosamente, no segredo da noite, afagar-lhe os seios d’alma.

Afinal também apagou-se a luz.

Recostara-se o sertanejo outra vez à rede quando a ramagem cascalhou perto e os galhos do jacarandá estremeceram abalados por alguma forte percussão.

Arnaldo pôs a cabeça fora da rede, e perscrutando a folhagem descobriu duas tochas acesas no meio das trevas, mas de uma luz baça e sulfúrea.

Os mais intrépidos caçadores do sertão, curtidos para todo o perigo, não se podem eximir de um súbito arrepio, quando lhes chamejam no escuro da mata esses olhos vidrentos cujos lumes gáseos fervilham dentro n’alma.

Há um quer que seja de satânico na pupila da onça, como na de toda a raça felina; e é por essa afinidade que nas antigas lendas o príncipe das trevas aparece mais freqüentemente sob a figura de um gato negro, miniatura do tigre.

Daí provém talvez o supersticioso terror que inspira a fosforescência desses olhos ao mais valente sertanejo, ao temero[10] que jamais pestanejou em face da morte, e nem se abala com o medonho rugido da fera.

Não produziram, porém, igual efeito em Arnaldo as duas tochas que brilhavam entre o negrume da noite, alguns pés abaixo do lugar onde se achava:

— Bem aparecido, camarada, disse o mancebo a gracejar.

A onça espasmou a cauda rebatendo as ancas, e dentre as belfas túmidas escapou-lhe um rosnar manso e crebro como rir de contentamento.

— Sim, senhor, entendo. Quer saber como cheguei? Bom, para o servir, muito obrigado. E o amigo, como lhe foi por cá estes tempos que não nos vimos? A seca tem sido grande, e os garrotes estão pela espinha, não é assim? Paciência, meu rico, aí vem o inverno e com ele reses gordas e carniça à farta. A chuva não tarda; esta manhã vi passar o “tesoureiro”[3].

Entanto o tigre continuava a grunhir o seu riso de fera com uns agachos de rafeiro, que lhe espreguiçavam o torso mosqueado.

— E da dona, que novas me dá? continuou o sertanejo no mesmo desenfado. Está guardando a casa? E o senhor anda ao monte? Pois boa caça, amigo, e cortejos à sua dama.

Com esta despedida Arnaldo, que se debruçara ao punho da rede para conversar com a onça, recolheu o corpo, disposto a acomodar-se.

Levantou-se porém, um rumor dos garranchos que estalavam. Era a onça que saltara a um galho superior, com ímpetos de galgar o cimo da árvore; mas hesitava, receosa de que os ramos altos e menos válidos se partissem com o peso de seu corpo e o choque do arremesso.

— Nada, camarada, dispenso as suas ternuras por esta noite. Cheguei da viagem e estou cansado. Pode continuar seu passeio. Boa-noite.

E o sertanejo, alongando a perna, enxotou a importuna com um pontapé atirado ao tufo da folhagem que ficava por baixo da rede.

Aquietou-se a onça e o rapaz deitou-se mui sossegado, sem mais importar-se com a presença do terrível hóspede, que lhe estava a uma braça de distância. Este curto espaço, porém, a fera não ousava transpô-lo com receio de precipitar-se.

Os sertanejos escoteiros que ainda agora em jornada para Bahia ou Pernambuco, sem outro companheiro mais do que seu cavalo, percorrem aquelas solidões também por mim viajadas outrora ainda no alvorecer da existência; esses destemidos roteadores do deserto costumam pernoitar na grimpa das árvores, onde armam a rede e aí ficam ao abrigo das onças que não podem trepar pelos troncos delgados, nem pinchar-se à frágil galhada.

Não somente por esta razão estava Arnaldo seguro de si, mas também pela confiança em sua superioridade, já mais de uma vez provada pela fera. Assim, pois, esqueceu-se dela, para engolfar-se de novo nas cismas que lhe estavam afagando a mente.

Nesse enlevo d’alma, a fantasia arrebatava-o com a pujança que ela costuma adquirir nos ermos, em comunicação com o infinito que a envolve e a concebe no seio imenso que se chama a natureza. Compreendem-se os êxtases dos anacoretas nas solidões da Tebaida. Como não se exaltarem ao céu, essas almas tão desprendidas da humanidade, que desparzem nos ares a fragrância de sua flor?

O corpo de Arnaldo estava ali; mas seu pensamento discorria além, e nesse instante revia D. Flor, melhor do que se a tivesse diante dos olhos; pois não lhe embaciava a sua límpida visão o deslumbre que a presença da gentil donzela causava-lhe sempre, depois de certa época.

A moça caminhava diante dele com o passo airoso e modulado que era dela e só dela, pois nunca o mancebo vira outra mulher andar assim. Quando ele caçava lá para as bandas da Junça, demorava-se a ver as garças reais passeando pelas margens da lagoa, porque elas tinham o pisar altivo e sereno de D. Flor.

Vagueava a menina pelo campo, arfando-lhe docemente o talhe grácil com a ondulação da marcha; e ele, Arnaldo, a seguia, respirando-a com a aragem que agitava-lhe os folhos do vestido, e que folgava nos crespos dos cabelos castanhos.

Esses cabelos eram os seus enlevos. Quando a menina sentia-se fatigada, reclinava ao ombro dele, que, então criança como ela, a carregava e sentia as tranças macias e perfumadas cobrirem-lhe o rosto acariciando-o como as asas de uma rola.

Neste ponto de seu meigo sonho, o mancebo inclinava a fronte sobre uma touça da ramagem e roçava timidamente o rosto pelas folhas, anediando-as com a mão, na cisma de serem as madeixas, que tanto amava. Puerilidades do coração, sempre menino, ainda sob as cãs do ancião.

Se a brisa vinha bafejar-lhe as faces, impregnada da fragrância dos campos, ele entreabria os lábios para beber-lhe as emanações, que se afiguravam à sua imaginação o hálito perfumado de D. Flor, ao voltar-se para falar-lhe.

Se a juriti arrulhava no ninho, respondia-lhe Arnaldo docemente, com um quérulo gorjeio. A rola arrufava-se de prazer escutando os ternos requebros que lembravam-lhe a companheira. E ele cuidava-se a conversar com a menina, e a responder-lhe às perguntas curiosas.

Estes sonhos de todas as noites ali passadas ao relento eram talvez recordos, em que sua alma se revivia no passado, e que a esperança entrelaçava de fagueiras ilusões.

No meio dos devaneios que lhe embalavam a mente, o sertanejo adormeceu.

A onça que se agachara entre a ramagem desenganada da espera, esgueirou-se pelo mato, e foi-se ao faro de alguma novilha desgarrada.


VII
MOIRÃO

 

Quando buscava o pouso, tinha Arnaldo resolvido um encontro para o dia seguinte.

Vieram depois as namoradas recreações da fantasia, que o absorveram todo e acalentaram-lhe o sono; mas sob esse devaneio velava o propósito do ânimo deliberado, como sob a camada de flores viça a rija vergôntea do arvoredo.

Dormia, pois, o mancebo com aquele sono cativo dos homens de vontade, que se governam ainda mesmo quando sopitados no letargo dos sentidos, tão poderosa é a energia moral nessas organizações.

Arnaldo mais que nenhum homem possuía a admirável faculdade de reger o sono; no remanso do corpo o espírito sabia manter de vigia uma percepção íntima, que o advertia do menor rumor como da mais leve alteração, em torno de si.

A vida do deserto tinha apurado essa lucidez. Tantas vezes obrigado a pernoitar no meio dos perigos de toda casta, entre as garras da morte que o assaltava sob várias formas, no pulo do jaguar como no bote da cascavel; o sertanejo aprendera essa arte prodigiosa de dormir acordado, quando era preciso.

Podia-se dizer dele que reproduzia o antigo mito grego e tinha o dom especial de repartir-se em dois, para que um velasse, enquanto o outro se entregava ao repouso.

Foi ao primeiro vislumbre da alvorada que o sertanejo determinou acordar para ir em busca do Aleixo Vargas, que provavelmente não era outro senão o sujeito cujo rasto ele havia reconhecido no mato próximo à cabana do velho Jó.

Antes, porém, do momento marcado, despertou o rapaz subitamente, abalado por um ruído estranho, que soara no embastido da folhagem e que, apesar de frágil, repercutira dentro dele como a vibração do grito da araponga no seio da floresta.

Achou-se de todo acordado a tempo ainda de escutar atentamente o mesmo som, duas vezes reproduzido uma após outra, e conhecer-lhe a origem. Acabavam de triscar um fuzil não mui distante e petiscar fogo do isqueiro.

Se alguma dúvida lhe restasse, desvanecera-se com o cheiro de fumo, delator da primeira baforada do cachimbo, que se acabava de acender.

— Bom; cá está o meu homem. Já não preciso de ir-lhe ao rasto; tenho-o à mão.

A floresta ainda estava imersa no alto silêncio da modorra; apenas a fresca e sutil aragem que precede o primeiro dilúculo e é como o hálito da alvorada, frolava mansamente as franças das árvores. No azul do céu nenhum palor anunciava o raiar da luz.

Quedou-se o sertanejo com o ouvido atento aos menores rumores que vinham do lado onde pitavam. Nada lhe escapou, nem o roçar do corpo pela casca do pau e os chupos dados ao tubo do cachimbo, nem o grosso ressonar, que pouco depois substituiu aqueles primeiros ruídos.

Da sua escuta deduziu o sertanejo quanto lhe convinha. Ficou sabendo que o cachimbador era o próprio Aleixo Vargas, cujo assoprado pitar ele conhecia tanto como o ronco nasal do dorminhoco. Gizou o ponto da floresta em que se achava o sujeito, e com tal exatidão que lá iria de olhos fechados em linha reta. Finalmente firmou-se na certeza de que tinha seguro o homem, cujo sono espreitava dali mesmo e sem mover-se.

Arnaldo conhecia todas as árvores da floresta, como conhece o vaqueiro todas as reses de sua fazenda, e o marujo as mínimas peças do aparelho de seu navio. Esses habitantes da selva tinham para ele uma feição própria, que os distinguia; chamava-os a cada um por seu nome.

Não admira, pois, que em resultado de sua observação ele dissesse para si:

— Está no angico da grota!

As barras vinham quebrando, como diz o povo, exprimindo com essa imagem as faixas de luz que listram o horizonte ao despontar da aurora, e que parecem as túnicas d’alva a desdobrarem-se pelo firmamento.

O sertanejo adiantou alguns passos pela copa da árvore, a jeito de ver lá na quebrada um casalinho, que aparecia em uma aberta do mato.

Precisamente nesse instante abriu-se a porta do rústico albergue, e saiu ao terreiro Justa, a quem logo cercou um bando de galinhas, frangos e pintos à gana do milho pilado que a roceira vascolejava em uma coité.

Acompanhava-a uma cabra que, deixando a mulher às voltas com a gente do poleiro, foi, como de razão, ali perto dar os bons dias aos moradores de um chiqueiro, que lhe responderam com um berredo dos mais alegres, no meio de cabriolas de toda a espécie.

Demorou-se o rapaz um instante a olhar para a mãe, cujo vulto ele lobrigava ainda indeciso, movendo-se nas labutações caseiras, à luz frouxa do crepúsculo matutino. Uma vez, como a Justa em seu giro se voltasse para o lado da mata, estendeu o filho a mão direita aberta, murmurando com um sorriso:

— A bênção, mãe!

Cumprido o preceito da piedade filial, Arnaldo, que nem um instante perdera de espreita o vizinho adormecido, pensou que era tempo de realizar o seu intento, e portanto começou um passeio aéreo pela rama das árvores, que se entrelaçava, formando com os galhos um como travejado pavimento, a que servia de dossel a verde copa embastida.

O sertanejo andava tão fácil e seguro por aquele jirau como pelo pavês de um sobrado. Muitas vezes, quando menino, correra por ali atrás dos macacos e sagüis que o não venciam na agilidade, pois agarrava-os à mão nas grimpas da floresta. Era tanto para admirar-se a rapidez como o jeito e sutileza com que resvalava por entre o chamiço, a ponto que se não ouvia o arfar de uma só folha.

A um tiro de arcabuz estava o sítio que Arnaldo designara com o nome de grota: era o despenhadeiro de um profundo barranco. Os detritos, acumulados pelos enxurros nas covoadas que ali formava o terreno, alimentavam as árvores altaneiras cujas vastas copas ensombravam o tremedal.

Entre essas árvores a mais pujante era um angico secular, que lançava as grossas raízes a meio do precipício. O formidável tronco, crescendo a princípio obliquamente. na direção da outra rampa do desfiladeiro, como a atravessá-lo, no centro voltava-se a pino e subia verticalmente a grande elevação, onde repartia-se em vários esgalhos confluentes.

De escancha sobre um desses ramos, com as pernas engalfinhadas nos interstícios e o corpo recostado no rústico espaldar formado pelos outros galhos, dormia a sono solto um homem ainda moço, de insólita e desconforme robustez.

O toro, tinha-o corpulento, mas de uma mesma grossura desde os ombros até os artelhos, de modo que estando de pé e com as pernas fechadas, parecia um toco de pau cortado na altura de dez palmos do chão. Essa prancha de carne rematava em uma cabeça pequena e redonda, semelhante à maçaneta de um balaustre, e assentava em dois pés enormes que mais pareciam as cunhas de uma escora.

Do seu aspecto, bem como da força de que era dotado, lhe viera a alcunha de Moirão, nome que nas fazendas tem o peão onde se jungem as reses para a ferra. Muitas vezes, jactando-se de sua pujança, agüentara no laço um boi bravo à disparada, sem abalar-se do lugar onde se fincava, nem sequer titubar.

Arnaldo surdira em um ramo superior, a cavaleiro do sujeito, a quem estava agora observando a seu vagar. Comprazia-se o rapaz em admirar a robustez estampada na musculatura dessa organização atlética, que produzia em sua alma uma emoção artística. Para ele, sertanejo, filho do deserto, tão poderosas manifestações da força tinham majestade e beleza épicas.

Entretanto bastava um gesto seu para aniquilar o colosso. Estendesse ele o braço, travasse-lhe do pé e emborcasse-o no precipício, que em um fechar d’olhos estaria o Moirão reduzido a migas, nas arestas dos alcantis.

Arnaldo não demorou seu espírito nesta idéia senão o tempo necessário para a repelir.

Ao cabo de alguns intantes, desprendeu-se o rapaz do silêncio em que se envolvera e donde não transpirava nem o sopro de seu hálito; algumas folhas rumorejaram em torno, e a casca do pau rangeu ao roçar do corpo que sentava-se.

Como não bastasse esse tênue arruído para despertar o madraço, o rapaz quebrou uma haste de cipó. Com a folha que deixara em uma das pontas começou a fazer cócegas nas largas ventas rombas do Moirão, que dava com as mãos às tontas para enxotar a mosca impertinente.

Afinal abriu o dorminhoco as pálpebras, pestanejou com a claridade do dia, esfregou os olhos e ficou pasmado a encarar com o Arnaldo, que se estava rindo, mui lampeiro, ali por cima dele, comodamente sentado em um ramo da árvore.

— Salve-o Deus, Aleixo Vargas, disse o sertanejo em tom jovial. Que sonata tão regalada, homem! Apostaria que anda tresnoitado, se não soubesse que você em ferrando a dormir é como jibóia quando enguliu veado.

— Hanh!... bocejou o outro estremunhando.

— É você, Arnaldo?

— Acorde de uma vez, amigo!

— Onde estou eu?... Ah! já sei; arranchei-me aqui para madornar um pedaço e pegou de mim uma tal bebedeira de sono que estou que não posso comigo.

— Pelo que mostra não teve lá muita saudade do seu catre da fazenda, Aleixo Vargas, que logo na noite da chegada veio pôr-se de poleiro cá pelas matas!

— Não sabe que despedi-me do Campelo?

— Ainda não encontrei quem me desse tal nova, respondeu Arnaldo, iludindo os termos da pergunta.

— Então você não tornou à casa depois da chegada?

— Depois da chegada do capitão-mor ainda lá não fui.

— Pois é como lhe digo, Arnaldo; deixei duma vez o homem, por não poder mais aturá-lo.

— Que lhe fez o capitão-mor, Aleixo Vargas, que tanto o amofinou?

— São contos largos, amigo Arnaldo, que levariam muito tempo, e eu já sinto cá pelo estômago uns repiques de fome que estão chamando ao almoço.

— Guarde lá seu segredo, Aleixo Vargas; e que não lhe coma a língua. Quanto ao almoço descanse. Aqui temos no meu farnel para quebrar o jejum.

— Sempre o conheci precavido, rapaz. Não é à toa a fama que você tem e que eu bem experimentei, quando cheguei a este excomungado sertão.

— Não é tanto assim. Ali está você, Aleixo Vargas, que é um barra. Não foi debalde que lhe puseram o nome de Moirão.

— Ah! isso cá de pulso, não se fala, que ainda não encontrei homem para mim, nem touro tão pouco. Eu dizia, rapaz, era acerca da ligeireza, que, a ser verdade o que se conta, não há por toda esta ribeira quem lhe deite poeira nos olhos.

— De que serve a ligeireza, se não é para fugir? A força é melhor, não lhe parece, Aleixo! disse o rapaz a sorrir.

— Sem dúvida. A força é tudo neste mundo, disse o Aleixo entufado de sua jactância.

— Também eu penso assim; ainda que todos os dias vê-se um caroço de chumbo deitar ao chão o homem mais valente, e uma broca derrubar o tronco mais grosso.

Moirão levantou os ombros desdenhosamente:

— São casos que acontecem.

Arnaldo foi à sua malhada no jacarandá e tornou com o alforge em que tinha as provisões. Consistiam em carne de vento, farinha e queijo do sertão.

O mancebo foi expedito na refeição e comeu com a rapidez a que o havia acostumado sua vida agreste. O Moirão, porém, almoçou pausadamente, como quem se desempenha de negócio grave; e de vez em quando conversava com uma borracha de vinho que trazia à cinta e era a sua inseparável.

— Não molha a goela, rapaz? Olhe que esta farinha assim à seca é uma bucha capaz de entalar a um jacaré.

— Eu prefiro o vinho cá de minha terra!

Proferindo estas palavras a sorrir, Arnaldo bebeu dois ou três goles d’água numa cabaça onde guardava sua provisão e com isso rematou o almoço.

Aleixo fez uma careta de nojo à cabaça, e para dar tônico ao estômago, que se lhe tinha embrulhado com a vista d’água, escorropichou o odre na garganta.


VIII
DOIS AMIGOS

 

Concluíra Moirão sua grave ocupação e acendendo o cachimbo preparava-se a fazer o quilo com igual pachorra.

Recostou-se afinal ao tronco da árvore, soltando uma baforada de fumo que o envolveu como uma nuvem densa.

— Então, Arnaldo, como foi isto por cá, amigo? Seca muita, já se sabe! Olhe, digam vocês o que quiserem. isto não é terra de cristão.

— De cristão é que ela é, Aleixo Vargas; pois ao cristão ensinou o divino mestre a paciência e o trabalho. Para quem não serve a minha terra é para aqueles que não aprendem com ela a ser fortes e corajosos.

— Pois é coisa que se aprenda, morrer de fome e de sede ainda mais?

— Tudo aprende o homem, quando não lhe falta coragem. O cavalo deste sertão de Quixeramobim caminha o dia inteiro, come um ramo de juá, e só bebe água quando encontra a cacimba. Aonde há mais valente campeão?

— Eu cá prefiro andar pelo meu pé, mas em terra capaz, a empoleirar-me no tal bicho que só tem pele e ossos.

Arnaldo não respondeu, e Aleixo continuou a envolver-se em um turbilhão de fumaça que dava-lhe o aspecto de um éolo pintado na tabuleta de alguma taberna clássica.

Depois de breve pausa o sertanejo reatou o fio da conversa:

— Ora, Aleixo, que somos amigos há tanto tempo e nunca experimentei as minhas forças com você.

— Para que isso? perguntou Moirão com sua habitual fatuidade.

— Bem sei que não posso medir-me com você; mas queria saber até onde chega meu pulso. Talvez não seja lá dos mais fracos e ninguém está mais no caso de julgar do que o barra deste sertão.

A ponta de ironia que acerava o sorriso do mancebo era tão sutil, e o tom afável da palavra a envolvia de modo que Moirão não podia percebê-la, ainda que fosse dotado de maior perspicácia do que lhe tocara em quinhão.

— Isso lá é verdade. Ainda não encontrei homem que não derrubasse: uns torcem mais, outros menos; porém no fim de contas lá vão todos ao chão rebolindo que é um gosto.

— Vamos a ver se eu sou dos que torcem mais, disse Arnaldo com volubilidade.

— Então quer mesmo, rapaz? Chegue cá, e pendure-se a este braço; com as duas mãos, não faz mal.

Moirão arregaçou a manga da camisa, e descobrindo um braço grosso e musculoso como a perna de uma anta, fincou o cotovelo no tronco do angico.

— Queda de braço, não, disse Arnaldo: há de ser queda de corpo.

— Ah! Você quer tirar lérias comigo, rapaz?

E o latagão derreou-se novamente no tronco do angico despedindo de si um rolo de fumo tão grosso, que parecia o da chaminé da herdade.

— Suponha você, Aleixo, que em vez de camaradas éramos dois sujeitos que se traziam de olho e que aproveitavam esta ocasião de se descartarem um do outro.

Moirão começou a cantarolar um mote de sua composição:

Quando eu vim de minha terra
Eu era Aleixo pimpão;
Agora fiquei Moirão
Aqui neste pé de serra.

Debalde tentou Arnaldo cativar a atenção do minhoto: ele embrulhava-se lá na sua cantiga; não queria ouvir.

— Bem: já vejo que você não é meu amigo.

— Donde tirou isto? perguntou Moirão tornado ao sério. Olhe, rapaz, que eu não sou homem de dares nem tomares, e quando trato um tal de amigo, é deveras. Aqui neste sertão ninguém ainda se benzeu com este nome senão um, que se chama Arnaldo Louredo; e ando por aqui já há uns pares de anos.

— Se fosse amigo verdadeiro de Arnaldo, não lhe recusaria o que ele pede.

— Fala-me neste tom, rapaz, que já o entendo. Então é sério?

— É um favor.

— Pois faço-lhe o gosto.

Aleixo meteu o cachimbo em um esgalho. Apoiado fortemente sobre o grosso ramo da árvore, a qual estremeceu com seu peso, estirou os dois braços, que alongaram-se como os arpéus de um guindaste, para abarcarem o corpo delgado de Arnaldo.

Mas o sertanejo escapou-lhe ao arrocho e galgando os ramos superiores da árvore, suspendeu-se a um deles, trançando os pés. Então deixou-se cair a prumo, agarrou o adversário pelas axilas, e com uma força que não se esperava de seu talhe franzino arrancou o colosso do galho em que se apoiava.

Um instante o rapaz embalançou o corpanzil sobre o precipício, onde parecia que iam ambos despenhar-se. Afinal, receando que o peso enorme lhe rompesse os músculos, escanchou o latagão no ramo do angico.

Moirão segurou-se automaticamente à árvore. Sua fisionomia, de ordinário simplória, tinha nessa conjuntura uma expressão idiota. O êxito da luta o deixara estupefato. Por algum tempo ficou na mesma posição, imóvel e basbaque.

Até que arrancou-se a essa pasmaceira com um arremessão.

— Foi este diabo! exclamou, batendo com a chanca no tronco do angico. Onde é que já se viu pegar um cristão queda de corpo em cima das árvores? Isto é para bugios ou caboclos, que tanto vale, pois são da mesma raça. No chão era outra coisa, rapaz.

— Experimentemos no chão. Não custa, disse Arnaldo com indiferença.

Desta vez o empenho era de Aleixo que ardia por tomar a desforra da surpresa. Prontamente escorregou pelos galhos e tronco da árvore até ao chão. Saltando no meio de uma clareira, calcou os pés no solo com força, e com o corpo rijo como o poste de que tomara o nome, disse:

— Ande agora para cá, rapaz, que há de ver o que é um barra.

Aleixo tinha razão. Em terra firme não havia força de homem que o pudesse abalar, quanto menos tirá-lo do lugar. O mais vigoroso touro do sertão, ele o sustentava sem toscanejar, pela ponta do laço de couro cru.

As largas chancas do colosso pareciam fincadas no chão como as grossas raízes de uma gameleira, e o corpo obeso e direito figurava uma ponta de rochedo, que surdia da terra.

Arnaldo caminhou para o colosso e erguendo os braços entregou-se àquele grilhão vivo.

A fina compleição do talhe foi o que livrou-o de ser logo esmagado no arrocho. Enquanto Moirão, cerrando-o ao peito, buscava estringí-lo como as roscas de uma serpente, o mancebo colava-se ao adversário para atenuar a violenta pressão.

Apenas Aleixo acochou o corpo do outro, suspendeu-o aos ares, como faria com um toro de pita; porém ao mesmo tempo os dois braços do sertanejo esticaram-se para logo se retraírem rapidamente, e os punhos, como dois malhos de ferro brandidos por molas rijas, bateram no crânio do minhoto.

Uma nuvem de sangue cobriu os olhos do colosso que vacilava. Arnaldo amparou-o para que não tombasse e reclinando-o com uma solicitude para estranhar naquela circunstância, deitou-o de supino sobre a relva.

Ao cabo de poucos instantes, Moirão tornou do desmaio, mas para cair no pasmo em que o deixara a primeira luta. Desta vez, porém, estava realmente assombrado. O que lhe acontecera não era cousa deste mundo; andava aí uma influência sobrenatural. Quem o derrubara não fora seu camarada, o Arnaldo, mas a própria pessoa do demo na figura do rapaz. Nem haveria meio de persuadí-lo que ele, Aleixo, fora vencido duas vezes numa queda de corpo, tão expeditamente, e ainda mais por um magriço. Eram artes do Tinhoso.

Quando ao abrir dos olhos deu com o sertanejo em pé junto de si, levantou a pesada manopla e atravessou-a pelo rosto com um jeito que parecia arremedar o sinal da cruz.

Arnaldo ergueu o busto do Moirão e encostou-o ao tronco de uma árvore. O colosso ainda aturdido não opôs a menor resistência e se deixou sentar como um marmanjo

A fisionomia do sertanejo, na qual, desde o encontro com Aleixo, um gesto volúvel e descuidado apagara a natural energia, tomou a expressão grave e resoluta.

— Aleixo Vargas, eu sou seu amigo, disse o mancebo com a palavra breve.

O Moirão abaixou a cabeça.

— Duvida?

— Do Arnaldo não, que livrou-me do dente dos tapuias.

O sertanejo não deu atenção à reserva mental do minhoto, que persistia em tomá-lo pelo capeta na figura de rapaz.

— No sertão os homens ou são irmãos ou inimigos. E quantas vezes não tirei eu das garras da onça uma rês sem dono? Não me tem, pois, a menor obrigação, Aleixo Vargas; nem me deve reconhecimento. Mas sempre o conheci, desde que chegou à fazenda, como homem bom e verdadeiro, diferente da maior parte de seus companheiros. Foi isso que me fez seu amigo.

— Obrigado, rapaz! disse o colosso enternecido.

— E é como seu amigo que vou falar-lhe. Ontem à tarde, quando o capitão-mor chegava à Oiticica, encontrou uma grande queimada no mato do caminho.

Arnaldo fitou o olhar severo no semblante do colosso:

— O fogo, foi você quem o deitou, Aleixo Vargas, por detrás da cabana do Jó, junto ao rasto do velho que vai ser acusado por essa maldade.

— Fui eu mesmo! respondeu Moirão erguendo-se.

— O capitão-mor e a família podiam estar agora reduzidos a cinzas.

— Se não fosse o danado do vento que empurrou o fogo para a serra e não me deixou cercá-los, eles haviam de ficar bem torradinhos. Então o velho tarugo que tem três dedos de banha!... Que bom torresmo não daria!...

O Moirão soltando essa pilhéria esparramou a cara em um riso alvar.

— Não lhe pergunto, Aleixo Vargas, a razão que, do homem bom que você era, fez ontem um malvado. Em tempo dará suas contas a Deus. Mas aviso-lhe, eu Arnaldo, o sertanejo, que, se descobrir mais seu rasto a uma légua em roda da Oiticica, vou por ele até onde o encontrar. E nessa hora pode encomendar sua alma.

— Como se entende isto? disse o Moirão fustigado pela ameaça.

— Qualquer outro que tivesse praticado sua façanha já não estaria aqui, porém amarrado por minha mão na polé da fazenda e entregue à justiça do capitão-mor. Um amigo é diferente: não o trairei jamais denunciando-o, e ainda menos abandonando-o ao poder de estranhos. Se ele ofender-me, decidiremos essa questão, entre nós, lealmente.

Aleixo quis falar. Atalhou-o o sertanejo com o gesto vivo:

— Ouça-me. Você é um homem de força e um homem de vontade, Aleixo Vargas. Antes de lhe dar este aviso, quis mostrar-lhe que tinha poder de cumprir minha palavra, porque de dois homens que se estimam e se acham em luta convencidos ambos que têm razão, o mais fraco deve ceder ao mais forte.

— Visto isto tem-se você na conta de mais forte? perguntou Aleixo.

— Não sei o que chama força, Aleixo; para mim força é poder. Mais volumoso do que você é um touro, que o vaqueiro derruba com dois dedos.

— Que venha para cá esse tal vaqueiro duma figa! exclamou Aleixo abespinhando-se.

Arnaldo deixou passar a refega; e continuou com a voz breve, imperativa, mas calma.

— Se você fosse o mais forte, eu não empregaria a astúcia, como faria contra um estranho ou um inimigo. Embora me custasse, respeitaria sua vontade desde que não podia vencê-lo de frente. O mais forte, porém, sou eu; e proíbo-lhe que de agora em diante se aproxime da Oiticica na distância de uma légua.

O sertanejo erguera a fronte com um assomo de indômita altivez. Nesse momento iluminava-lhe a nobre fisionomia um reflexo dessa majestade selvagem que avassala o deserto, e que fulgurava nos olhos do cavalheiro árabe e do guerreiro tupi.

Moirão calou-se um tanto enquanto ruminava as idéias:

— Lá vai, rapaz; escute bem. Que você tem pautas como o diabo e ligou-me, é cousa que está se vendo; nem lhe vale nada esconder o pé de cabra aí nessa bota esquerda.

Arnaldo sorriu-se da superstição do companheiro:

— Como é que um enguiço de gente podia derrubar um homem desta marca, se não tivesse o diabo no couro? Isto com certeza. Mas hei de arranjar por esta redondeza um bom amuleto que tenha a virtude de fazer espirrar o demo do corpo de qualquer criatura, por mais que ele se lhe meta nas tripas. Depois do estouro, então veremos quem é o dunga.

— Eu também tenho o meu! disse Arnaldo a sorrir, mostrando o relicário que trazia ao pescoço.

— Ah! é aí que está a mandiga. Pois eu hei de tirar-lhe o feitiço.

— Que mais? perguntou motejando o sertanejo.

— Agora quanto à camaradagem, isso é caso diverso. Se você carece do braço de um homem ou mesmo da vida para cousa de seu serviço, nem precisava destas partes: não lhe dava senão o que já lhe pertence. Mas o que você pede, Arnaldo, não posso fazer.

O Moirão carregou a manopla ao peito que arfou como o desabe duma montanha e arrancou estas palavras com um surdo estertor, segurando o lóbulo da orelha direita.

— Estou desonrado. Jurei por esta orelha que, se não a vingasse antes de um mês, havia de cortá-la para que não vejam nela minha vergonha. Ah! você não sabe, Arnaldo!

— Sei! disse o sertanejo pousando a mão no ombro do companheiro com um gesto severo e triste.

— Quem lhe contou?

— Ninguém. Eu vi.

O Moirão escancarou os olhos espantado e benzeu-se outra vez. Não era ele dos mais supersticiosos, porém os modos estranhos do sertanejo naquela manhã despertavam em seu espírito as abusões da época.


IX
PUXÃO D’ORELHA

 

Enquanto o Moirão esconjurava o espírito maligno, que via diante de si, na figura do rapaz, Arnaldo recolheu-se um instante.

Depois de curta reflexão tornou ao camarada com uma expressão afetuosa, que disfarçava a severidade do olhar:

— A gratidão é depois da honra a primeira virtude. Foi ela que o iludiu na simplicidade de seu coração, Aleixo Vargas; porisso já lhe perdoei.

— A gratidão?... repetiu Moirão com surpresa inquiridora.

— Antes de vir para Oiticica, você era agregado do coronel Fragoso na fazenda das Araras. Um dia o velho frenético deu-lhe dois berros; você azoou e respondeu rijo. Acode a gente, e lá ia o meu Aleixo Vargas para a golilha, quando felizmente apareceu o moço, filho do coronel, que pediu por seu agregado e livrou-o da gargantilha de ferro e do resto. Mas o velho era emperrado e não consentiu que ficasse mais um instante em suas terras o atrevido que levantara a voz diante dele. Foi então que você apareceu na Oiticica sem dizer donde vinha, e entrou no serviço do capitão-mor.

— De quem soube isto, Arnaldo? perguntou o colono cuja surpresa aumentava.

— Amigo Aleixo, nasci e criei-me nestes gerais: as árvores das serras e das várzeas são minhas irmãs de leite; o que eu não vejo, elas me contam. Sei tudo quanto se passa embaixo deste céu, até onde chega o casco de meu campeão.

O sertanejo observou a impressão que deixavam suas palavras no semblante de Moirão, que não opôs a mínima denegação ou dúvida à estranha asseveração. Ao contrário, pareceu afirmar com uma inclinação da cabeça a crença em que estava de achar-se conversando com o diabo em pessoa.

Arnaldo prosseguiu:

— No Recife, oito dias depois de chegado, seguia você pelo aterro dos Afogados, quando tomou-lhe o caminho um luzido cavalheiro. Era o capitão Marcos Fragoso, filho do velho coronel, o mesmo que tinha livrado da golilha a seu antigo acostado. Vinha ele de passar na Rua Nova pela casa do capitão-mor, onde vira ao balcão da janela D. Flor, cuja beleza o cativara. Sabendo que Aleixo era da casa, encomendou-lhe que nessa mesma tarde fosse ao Carmo, onde ele morava, para levar à donzela uma prenda com seus recados de amor.

Os olhos de Moirão, não tendo mais que abrir, começaram a esbugalhar.

— Que podia recusar o Aleixo ao homem que o livrara da infâmia e talvez da morte?

— Da infâmia, atalhou Moirão vivamente, que a morte é uma topada: trás-zás e está uma pessoa descansada.

— Quanto era seu, Aleixo Vargas, podia e devia dá-lo ao capitão Marcos Fragoso, se o exigisse; mas não aquilo que não lhe pertencia. Era assoldado do capitão-mor Campelo; seus serviços pertenciam a ele, e só a ele que lhe pagava. Não tinha licença de empregar-se às ordens de outro e para faltar com o respeito à filha donzela de seu patrão.

Moirão ficou um momento aturdido com estas palavras e acabou fincando um murro conciencioso no meio da testa.

— Pascácio!

— Foi seu bom coração que o arrastou; mas arrependeu-se a tempo e quis salvá-lo. Você procurou o capitão Fragoso em sua morada e recebeu dele a prenda com o recado. Em chegando à casa faltou-lhe o ânimo; e não se admire que eu o atirasse ao chão, quando uma fraca menina o fazia tremer de maleita, a você, Aleixo, a quem chamam de Moirão, e que nunca pestanejou na boca de um bacamarte.

— Isso de mulher, não sei o que tem que dá arrepios na gente.

— Enquanto o capitão-mor se demorou no Recife, por mais que lhe pedisse o Fragoso e que você prometesse, não se animou. Tenho certeza, porque não o perdi de vista. Nunca reparou um grilo que o acompanhava para toda a parte? Era eu.

Proferiu o sertanejo estas palavras com um riso sarcástico, apontando para a árvore, junto da qual se achava o companheiro:

— Eí-lo aí!

Voltando-se, o minhoto deu um salto prodigioso para fugir do grilo que saltara de seu lado. Uma avantesma, que lhe surgisse ali, diante dos olhos, envolta em sua mortalha e com a competente cara de caveira, não lhe incutiria tão profundo terror.

Um tanto corrido do seu pânico, o Aleixo, vendo o grilo sumir-se entre a folhagem, disse ao sertanejo:

— Acabe de uma vez!

— No meio do caminho apertou-lhe a tentação, e daí veio a mofina que o aflige. Lembre-se, porém, que você a procurou por suas mãos.

— Conte como foi! disse Moirão, com arrebatamento.

— Já não se recorda? perguntou Arnaldo estudando-lhe a fisionomia.

— Quero ouvir!

— É melhor esquecer.

— Não: diga o que sabe. Também viu?

— Tudo.

— Pois então repita, disse Moirão com a pertinácia de um mulo.

Os caracteres vingativos, quando sofrem alguma ofensa, em vez de afastarem o pensamento dessa recordação dolorosa, ao contrário revolvem-se nela e saturam-se de fel, como para exacerbar a própria ira e prelibar o prazer da vingança.

Era este o sentimento que dominava Moirão naquela circunstância, animado ainda pelo desejo de verificar as particularidades de um fato que flutuava confusamente em seu espírito.

Arnaldo suspeitou do que movia o minhoto à insistência.

— Vou fazer-lhe a vontade, Aleixo. Foi uma tarde ao escurecer. A família tinha chegado ao rancho; você incumbiu-se de levar o escabelo de apear a D. Flor, e quando ela descia o último degrau, ofereceu-lhe a prenda do capitão Fragoso, dizendo-lhe que a mandava um cavalheiro, seu namorado. É isto?

— Até aí vai direito.

— D. Flor, que segurava as dobras de seu roupão de montar, com a ponta do pé afastou a prenda, e, chamando pelo capitão-mor, disse-lhe vivamente: “Meu pai, este homem faltou-me ao respeito”. Então?... O resto não carece.

— Diga, Arnaldo! bufou o colosso.

— Então o capitão-mor aproximou-se e, segurando-o pela orelha direita, o levantou do chão onde você estava de joelhos, até que o pôs em pé.

— E m’a teria arrancado com certeza, se não me erguesse na ponta dos pés. Um insulto como este, Arnaldo, só a morte o apaga. Eu queria tê-lo aqui diante de mim, neste momento, para mostrar-lhe o que é um homem. Dizem que é um brutamonte; pois venha para cá.

Deixou Arnaldo que amainasse a cólera do Moirão.

— Sou seu amigo, Aleixo; já lho disse, e avalio quanto custa a um homem de brio não desafrontar sua honra. Mas eu não consinto que ninguém neste mundo ofenda ao capitão-mor e sua família; portanto, se você não abandonar seu projeto, tenha a certeza de que me há de encontrar pela frente.

— Com você não brigo; isto é decidido. De brincadeira como hoje, sim; mas a valer, não.

— Então desiste?

— De que?

— Da vingança.

— Isso nunca!

— Neste caso você sabe o que se faz duma árvore que ameaça cair-nos em cima?

— Corta-se.

— É o que eu farei, se não houver outro meio de arredá-lo. O mesmo direito tem você, Aleixo; e como a sorte é vária, se for eu que venha a morrer, desde já lhe perdôo. Afianço-lhe que, apesar de tudo, havemos de ser amigos no outro mundo como fomos neste.

O mancebo estendeu cordialmente a mão ao companheiro, que a sumiu em sua manopla:

— A estas mãos, Arnaldo, não pode morrer nunca. Minha honra, você não a pode atacar, que é um amigo, e para poupar minha vida não atacarei nunca a daquele que a salvou uma vez.

— Do mesmo modo procederia eu, Aleixo, se fosse de minha vida que se tratasse. Mas é do repouso, da felicidade e da vida dos entes mais queridos que tenho neste mundo; porque o capitão-mor serviu-me de pai e sua mulher D. Genoveva muitas vezes, quando eu era criança, me acalentou ao peito como seu filho.

Moirão enfronhou-se em uma carranca, sinal de profunda cogitação. Afinal, reconhecendo-se incapaz de resolver a terrível colisão, deu segundo murro na testa, e arrancou pelo mato fora.

Era este um meio físico de atenuar a dificuldade de sua posição, subtraindo-se por enquanto ao dilema fatal em que se achava colocado entre a honra e a amizade.

O sertanejo, quando o viu desaparecer através da ramada, tomou a mesma direção, seguindo-lhe a pista, mas de longe e a esmo. Certo de não poder perder o rumo e de acompanhá-lo como à sua sombra por entre a espessura do mato, ele demorava-se a examinar a copa das árvores, os rastos dos animais, as moitas de ervas e todos os acidentes do caminho.

O homem da cidade não compreende esse hábito silvestre. Para ele a mata é uma continuação de árvores, mais ou menos espessa, assim como as árvores não passam de uma multidão de folhas verdes. Lá se destaca apenas um tronco secular, ou outro objeto menos comum, como um rio e um penhasco, que excita-lhe a atenção e quebra a monotonia da cena.

Para o sertanejo a floresta é um mundo, e cada árvore um amigo ou um conhecido a quem saúda, passando. A seu olhar perspicaz as clareiras, as brenhas, as coroas de mato, distinguem-se melhor do que as praças e ruas com seus letreiros e números.

Arnaldo estivera ausente daqueles sítios algum tempo. Ao passar por eles observava sua fisionomia, tão inteligente e franca para ele, se não mais do que a face do homem; e lia nesse diário aberto da natureza a crônica da floresta. Uma folha, um rasto, um galho partido, um desvio da ramagem, eram a seus olhos vaqueanos os capítulos de uma história ou as efemérides do deserto.

A observação do sertanejo foi interrompida por vago rumor que, apesar de remoto, não lhe escapou. Conhecida a causa, deixou-se ficar onde estava.

Com pouco ouviu-se um vozear de prática animada, e cinco homens, trajados como usava a gente do povo naquele tempo, de braga, véstia e gibão, surdiram do mato. Estavam armados com um arcabuz ao ombro e uma parnaíba à bandoleira.

O da frente era Manuel Abreu, feitor da Oiticica; os outros, serviçais da fazenda.

— Oh! cá está quem sabe do diabo do velho! exclamou o feitor, dirigindo-se a Arnaldo. Bem aparecido!

— Quer alguma cousa de mim, sr. Manuel Abreu? perguntou o sertanejo.

— O senhor capitão-mor mandou-me procurar o velho Jó que deitou fogo no mato da fazenda.

— Procure-o, disse Arnaldo laconicamente.

— Não está má a encomenda! Que temos feito desde o romper do dia? Mas o renegado do bruxo abandonou a toca e sumiu-se.

— Cá para mim é trabalho perdido. O velho está nas profundas. Tinha-lhe chegado a hora e ele estourou. O fogo foi pegado pelo enxofre que ele tinha no corpo, o canalha do bruxo.

— Deixe-se dessas histórias de feitiçaria agora, João Coité, que arrepiam os cabelos da gente, ponderou o feitor.

— É mesmo: fica um homem com as pernas bambas, como se tivesse no bucho uma vez de cachaça.

— Uma não terá você, Buriti; mas duas, com certeza.

— Pois é isso, homem. O primeiro trago é que põe a gente banana; o outro conserta.

— Que é que está bolindo ali no mato? Não ouviram gemer?

— Há de ser o caipora; respondeu um mais desabusado.

— Nicácio! Não brinque com estas cousas.

Entretanto Arnaldo seguia adiante sem preocupar-se com os outros. Nesse momento havia parado, com os olhos fitos em uma moita de mimosas, plantas a que o povo dá o nome de “malícia de mulher” por descobrir no súbito fechar das folhas de leve tocadas uma semelhança com as esquivanças das meninas sonsas.

O arbusto, exposto aos raios do sol, tinha em geral os folíolos abertos; mas, justamente do lado do nascente um olhar atilado notaria certa flacidez dos pecíolos, que todavia não bastava ainda para murchar as ramas.

— Chuva!

Arnaldo proferiu esta palavra, dirigindo-se a Nicácio que estava a seu lado; possuído do vivo prazer que a vinda do inverno desperta sempre no homem do sertão, sua alma expandiu-se para dar aos outros as alvíssaras dessa alegria.

— Deus a traga! disse Nicácio.

— Esta noite! tornou o mancebo mostrando ao longe no horizonte um nimbo, tão pequeno, que parecia antes um gavião pairando.

— Porisso eu vi esta manhã uma formiga de asas, acudiu o Buriti.

— Mas então, amigo Arnaldo, que nos diz? Sabe ou não sabe onde está o diabo do velho?

Voltou-se o mancebo com um modo frio:

— Quando o senhor capitão-mor Campelo m’o perguntar, eu lhe responderei.

— Ah! É isto? Pois tenha paciência, que lhe vamos na cola. Não o largo enquanto não me der conta da carcaça do Jó, que a leve o demo logo duma feita.

Arnaldo encolheu os ombros e continuou a andar mui descansado e indiferente por entre as árvores. O feitor e seus acólitos iam-lhe no encalço, quando súbito o perderam de vista. Correram-lhe sus, bateram o mato; mas nem sombra lobrigaram mais do mancebo.

— É à toa! disse o João Coité. Se o diabo do surrão velho já o embruxou também.


X
O ROSÁRIO

 

Era por formosa manhã de dezembro, a terceira que raiava depois da chegada do fazendeiro à sua casa da Oiticica.

Assomando sobre o capitel da floresta erguida no oriente como o pórtico do deserto, o sol coroado da magnificência tropical dardejava o olhar brilhante e majestoso pela terra, que se toucara de toda a sua louçania para receber no tálamo da criação ao rei da luz.

Na umbria da serra e da espessa mata que a cinge, a fazenda ainda permanece no crepúsculo da alvorada, quando já o dia fulgura pelas várzeas e campinas d’além.

Mas ao fluxo da luz, que sobe e a inunda como a corrente de um rio caudal, aquela zona ensombrada vai rapidamente imergindo-se nos esplendores da aurora.

Com a irradiação da manhã derrama-se a aura que anima a solidão. Dessa terra combusta por longo e abrasado estio, já ressumam os viços que anunciam a poderosa expansão de sua fecundidade.

Na noite seguinte à chegada, como previra Arnaldo, tinha caído a primeira chuva. Desde então, com pequenos intervalos, passavam os aguaceiros do natal que são os repiquetes do inverno.

Embora falhem muitas vezes essas promessas, o sertanejo, como os animais e toda a natureza que o cerca, recebe sempre com intenso prazer as alvíssaras de bom ano.

A primavera do Brasil, desconhecida na maior parte do seu território, cuja natureza nunca em estação alguma do ano despe a verde túnica, só existe nessas regiões, onde a vegetação dorme como nos climas da zona fria. Lá a hibernação do gelo; no sertão a estuação do sol.

A primeira gota d’água que cai das nuvens é para as várzeas cearenses como o primeiro raio do sol nos vales cobertos de neve; é o beijo de amor trocado entre o céu e a terra, o santo himeneu do verbo criador com a Eva sempre virgem e sempre mãe.

Nunca vi o despertar da natureza depois da hibernação. Não creio, porém, que seja mais encantador e para admirar-se do que a primavera do sertão. Aqui a transição se opera com tal energia que assemelha-se de certo modo à mutação.

Aquela várzea que ontem ao escurecer afigurava-se aos vossos olhos o leito nu, pulverento e negro de um vasto incêndio, bastou o borraceiro da noite antecedente para cobrí-la esta manhã da virescência sutil, que já veste a campina como uma gaze de esmeralda.

Não há em cada uma das raízes do capim seco e triturado mais do que um broto imperceptível; porém rebentam os gomos com tanto luxo e abundância que, à guisa dos tênues liços de uma teia cambiante, formam esse gaio matiz da primavera.

Aquela árvore também que ainda ontem parecia um tronco morto já tem um aspecto vivaz. Pelos gravetos secos pulula a seiva fecunda a borbulhar nos renovos para amanhã desabrochar em rama frondosa.

Que prodígios ostenta a força criadora desta terra depois de sua longa incubação! Dela pode se dizer sem tropo que vê-se rebentar do solo o grelo e crescer, assistindo-se ao trabalho da germinação como a um processo da indústria humana.

Nas abas da serra onde as árvores tinham conservado a verdura, sentia-se passar pela floresta um estremecimento como de prazer. A brisa da manhã enredando-se pela ramagem rociada não mais arranca os murmúrios plangentes da mata crestada. Agora o crepitar das folhas é doce e argentino, como um harpejo sorridente.

Não eram somente as matas, os silvaçais e as várzeas que se arreavam com as primeiras galas do inverno. O espaço, até ali mudo e ermo na limpidez de seu azul diáfano, começava por igual a povoar-se dos pássaros, que durante a seca se refugiam nas serras e emigram para climas amenos.

Já se ouviam grazinar as maracanãs entre os leques sussurrantes da carnaúba e repercutirem os gritos compassados do cancã, saltando pela relva. O primeiro casal de marrecas, naquele instante chegado das margens de Parnaguá, a centenas de léguas, banhava-se nas águas de um alagado produzido pela chuva.

D. Flor, retida em casa no primeiro dia pela fadiga da jornada e no segundo pelos chuvisqueiros que tinham encharcado o terreiro, aproveitou a bonita manhã para rever os sítios da infância depois de longa ausência.

Neste momento desce esquiva e ligeira os degraus da varanda e desaparece por entre o arvoredo do pomar, volvendo um olhar na direção da casa, para certificar-se que não se apercebiam de sua ausência.

Não entrava nesse cuidado da donzela o receio de uma falta. A ingênua altivez de sua índole não a deixaria nunca praticar ato que ela julgasse repreensível, nem recorrer a disfarces para esconder suas intenções.

O que a fizera esgueirar-se pelo quintal não passava de uma fantasia de moça. Quando saía a passear pela fazenda era costume abalar-se meia casa para ter o contentamento e a fortuna de acompanhar a doninha.

Não havia agregada ou escrava que não disputasse a honra de abrir-lhe o caminho, levá-la à sua palhoça, para oferecer-lhe o presente que lá tinha guardado. As mais moças brigavam a quem lhe daria a fruta mais bonita ou lhe descobriria o ninho de beija-flor. Depois vinham as crias que também porfiavam nas cabriolas e algazarras com que festejassem a marcha triunfal.

Em outras ocasiões D. Flor deleitava-se no meio dessa procissão, que lhe formava uma corte de princesa daqueles sítios; nessa manhã desejou passear só, talvez que para estar mais presente nos sítios queridos que ia percorrer, e dos quais andara separada tantos meses.

Trajava a donzela um roupão de sarja, guarnecido de fraldelim pardo, que debuxava a galba palpitante de seu talhe gracioso. A fímbria ao de leve arregaçada por causa da orvalhada, mostrava o pé de menina calçado por um borzeguim preto com o salto escarlate.

Trazia, ainda na mão, uma capelina de soprilho com rocais da mesma fazenda e franjas de alvas rendas de Guimarães. Logo que chegou ao quintal cingiu a cabeça com esse toucado, que abrigava-lhe a cútis mimosa dos raios do sol, moldurando-lhe o rosto gentil, como uma grande magnólia silvestre de cuja corola surgisse sua beleza.

A donzela, deixando o pomar, deu volta ao redor do edifício e foi sair próxima ao casalinho da Justa, para onde se encaminhou.

A sertaneja estava neste momento sentada na soleira da porta, e acabava de ordenhar suas cabras. Perto dela via-se um alguidar onde ia deitando a conta de cada uma. As chuvas das últimas noites haviam enchido as tetas, que já dificilmente apojavam com a seca.

Quando a Justa viu a poucos passos sua filha de criação, levantou-se com ímpeto de contentamento e abriu os braços de modo a receber Flor, que lançou-se-lhe ao colo. Para estreitá-la ao peito, a sertaneja, que não tivera tempo de se desvencilhar do tarro seguro na mão esquerda, nem de lavar a mão direita úmida de leite, cruzou os pulsos, afastando-os de modo a não tocar a menina.

Este movimento aproximou da espádua de D. Flor o púcaro no qual a donzela, enquanto deixava-se abraçar, punha os lábios e bebia a rir uns goles de leite. Justa, a quem os brincos da filha querida faziam mais menina que ela, prestou-se à travessura e prolongou-a para gozar da ventura de conservar a moça por mais tempo abraçada

— Que bom leite, mamãe Justa! E que saudades que eu tinha dele! O de lá é aguado, não se parece com o nosso! De qual é? Da Cambraia?

— Não, meus carinhos, é da Mochinha. A Cambraia está amojada.

Esqueceu tudo quanto tinha que fazer a boa sertaneja, no alvoroto de receber a filha. Não havia no casalinho maior festa, desde a Circuncisão até São Silvestre, do que lhe trazia D. Flor sempre que aí vinha.

A cabana constava de três peças: uma servia de varanda, outra de dormitório, a última era a cozinha. Todas as portas e janelas estavam abertas, de modo que o ar e a luz entravam francamente com a fragrância dos campos. O chão era de massapê, mas tão rijo e varrido que não se via sinal de poeira.

À exceção da cozinha, cada aposento tinha uma rede de algodão muito alva. No dormitório a rede faz as vezes de cama; na varanda faz as vezes de sofá, e é o lugar de honra que o sertanejo, fiel às tradições hospitaleiras do índio seu antepassado, oferece ao hóspede que Deus lhe envia.

O primeiro cuidado de Justa foi correr ao quarto e tirar da sua mala de couro uma rede também de algodão, porém de ramagens encarnadas, com dois palmos de renda na franja matizada. Imediatamente substituiu a outra por esta, que ela ainda não achava bem chibante para sua filha querida.

— Agora pode sentar-se, meu bem, disse a sertaneja abrindo as dobras.

D. Flor encostou-se à aba da rede, e fincando no chão a ponta do borzeguim, começou a embalar-se, enquanto a ama ia buscar tudo que tinha de melhor em casa para oferecer-lhe:

— Prove deste queijo que está tão fresquinho! É o primeiro deste ano. Agora com as chuvas as cabrinhas sempre deram para um coalho.

Depois do queijo fresco, que ainda estava no chincho, vieram os balaios de biscouto, as rosquinhas de carimã, flores de alfenim, em suma toda a provisão de gulosinas* que a sertaneja havia feito à espera de sua filha de criação.

D. Flor beliscou em tudo como uma rola para dar à sua mamãe, de cada cousa que provava, um novo prazer.

— Agora basta, mamãe Justa; não faça de sua filha uma gulosa que é muito feio.

— Iche!... respondeu a sertaneja com o seu muxoxo especial. Em D. Flor tudo é bonito.

— Está me deitando a perder.

— Torno a dizer! O que nos outros é feio e não se atura, se meu querubim fizesse, todos haviam de ficar encantados.

— E se eu não lhe quisesse mais bem? Era bonito, diga, mamãe Justa?

— Isto não pode, ainda que queira! disse a sertaneja sorrindo.

Justa arrastara um estradinho coberto de couro e sentara-se defronte da donzela para conversar. Enquanto falava, levada pelo hábito de sua vida laboriosa, tirara um fuso da cintura, e por distração mais do que para aproveitar o tempo, começara a fiar as pastas de algodão que estavam dentro de uma cabaça suspensa à parede.

D. Flor abandonou a rede, e tirando das mãos de mamãe o fuso, acomodou-se mui sem cerimônia no colo da sertaneja, que já não cuidava em outra cousa senão em ninar o seu querubim.

— Espere, mamãe; deixe-me ver seu rosário, disse D. Flor, desatando o pequeno ramal de contas pretas que a sertaneja trazia ao pescoço.

Deitando-o no regaço de seu roupão, tirou do bolso um pequeno embrulho de tafetá, atado com um torçal de prata. Havia dentro um grande rosário, todo ele de contas de ouro, com os padre-nossos de coral e as coroas de marfim. A cruz era de azeviche com o Cristo de jaspe.

A donzela cingiu o pescoço de sua mamãe com cinco ou seis voltas do rosário e deixou-lhe afinal pender sobre o peito a cruz, que teve o cuidado de colocar de chapa, mostrando a imagem do Redentor.

— Aqui tem! É um rosário completo com duas coroas e mais um mistério. Assim não carece de passar duas vezes, quando rezar sua novena.

Justa não dava sinal de si. Ficara maravilhada com a riqueza e formosura daquele mimo e estava em êxtase, imóvel como uma estátua, receiosa* de que o seu menor gesto maculasse aquele primor.

Acabando de arranjar o rosário, afastou-se D. Flor para observar o efeito:

— Está uma dona, mamãe!

Foi então que Justa despertando correu à menina, e como costumava em seus momentos de efusão, suspendeu-a nos braços, tomando-a ao colo da mesma forma que fizera quando a trazia aos peitos, e afogando-a de beijos e carícias.

No dia seguinte ao da chegada, quando se arrumou a bagagem, tinha-se feito uma distribuição geral de presentes pela gente da fazenda. Cada uma das pessoas que ficaram havia recebido uma peça de vestuário, um traste de uso, ou qualquer outra lembrança. Os homens o receberam da mão do capitão-mor; as mulheres da mão de D. Genoveva; as moças e meninas da mão de D. Flor.

Mas a donzela, além daqueles presentes, tinha três especiais, que havia reservado para mais tarde: um era o de Alina, sua companheira de infância, outro era o da sua mamãe Justa. Faltava-lhe dar o terceiro.


XI
A COMADRE

 

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