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BRASIL, PAÍS DO FUTURO
Stefan Zweig


Brasil, País do Futuro
Stefan Zweig

Edição
Ridendo Castigat Mores

Versão para eBook
eBooksBrasil.com

Fonte Digital
www.jahr.org

Copyright:
Autor: Stefan Zweig
Tradução: Odilon Gallotti
Charge: SF Delfim Vieira
Edição eletrônica: Ed Ridendo Castigat Mores
(www.jahr.org)


ÍNDICE

APRESENTAÇÃO
AUTOR
Prefácio
Introdução
História
Economia
Civilização
RIO DE JANEIRO
A entrada no porto do Rio de Janeiro.
O Rio de Janeiro.
O Rio antigo.
O verão do Rio.
Algumas coisas que amanhã talvez hajam desaparecido.
Jardins, morros e ilhas.
As ruas pequenas.
Passeio pela cidade.
Arte dos contrastes.
SÃO PAULO
São Paulo.
Visita ao café.
MINAS GERAIS.
Visita às cidades do ouro.
O vôo sobre o norte.
A BAHIA.
Fidelidade à tradição.
Igrejas e festas.
Visita ao açúcar, ao fumo e ao cacau.
RECIFE
Vôo para a Amazônia.
Despedida.
Tabela cronológica.


BRASIL,
PAÍS DO FUTURO

 

STEFAN ZWEIG


APRESENTAÇÃO

Nélson Jahr Garcia

 

     “Brasil, país do futuro” é realmente uma obra; trabalho cuidadoso e preciso de quem soube observar, sentir, viver este país. Há pesquisa de gabinete, que se percebe na citação de dados e cifras. Há, também, a observação sensível de um intelectual respeitável.
     Tratado e, ao mesmo tempo, livro didático sobre História do Brasil. Relatos coerentes que, inclusive, desmitificam certas concepções ilógicas e incoerentes como, por exemplo, a de que o Brasil teria sido descoberto por uma casualidade, a tal da calmaria enfrentada por Cabral.
     As percepções sobre a realidade brasileira em nada se assemelha à de inúmeros viajantes estrangeiros que se limitaram a conhecer nosso país através de vista aérea, ou por detrás dos vidros de automóveis confortáveis. Stefan Zweig viu de perto, subiu morros das favelas cariocas, participou de festas na Bahia e Recife, andou por São Paulo.
     O livro é perfeito no que retrata o que o Brasil havia sido e era, mas precário em relação ao que seria. Mania de europeus, principalmente os de origem semita: prever errado. Marx previu revoluções na Inglaterra e Alemanha, que ocorreram na Rússia, China, Cuba, contrário do previsto. Stefan Zweig previu evolução tecnológica, fim das favelas, tudo diferente.
     Zweig colocou os óculos vermelhos de Kant e viu um Brasil róseo, viu beleza na miséria, riqueza no triste, alegria na dor.
     O único defeito da obra: eurocentrismo: ver o mundo a partir do padrão europeu. Os rios sinuosos são vistos como um problema, face ao traçado retilíneo dos rios da Europa. Montanhas, planícies, praias, mangues são considerados comparativamente a uma realidade que não é nossa. Foi essa mania que fez da África o único continente do mundo a ter fronteiras definidas por réguas; separaram tribos, ignoraram os limites geograficamente naturais e criaram problemas que não se sabe serão resolvidos algum dia.
     Ressalvada essa pequena restrição, o livro é ótimo. Não é uma historiazinha do Brasil recitando nomes e datas sem significado, há explicações econômicas, políticas, sociais e culturais que esclarecem nossa razão de ser. É o livro que sempre quis ler, li, li novamente e vou continuar a reler.


AUTOR

 

     Stefan Zweig nasceu a 28 de novembro de 1881 em Viena. Estudou Filosofia e começou a escrever poesias, dramas e traduziu inúmeras obras francesas para o alemão. Pacifista, sonhava com uma Europa unida.
     A primeira guerra mundial o desanimou. Iniciou escrevendo pequenas histórias que o tornaram famoso. Sua origem judaica o obrigou a abandonar a Áustria. Problemas de consciência, somados à angústia devido à guerra, levou-o ao suicídio em Petrópolis, em 22 de janeiro de 1942.
     Suas inúmeras obras foram divulgadas em várias línguas, inclusive “Brasil, país do futuro”, hoje esgotado e raro, graças à falta de sensibilidade e bom senso dos editores brasileiros de livros em papel.


PREFÁCIO

 

     Não é isto apresentação, ou introdução, que, felizmente, o nosso público dispensaria, à fama mundial de Stefan Zweig: é um agradecimento. Foi ele nosso hóspede, aqui viveu algum tempo; foi da Bahia ao Amazonas, de Pernambuco a São Paulo, de Minas ao Rio Grande; demorou, porém, no Rio de Janeiro. É um namorado de nossa terra e de nossa gente.
     O Brasil é como as mulheres bonitas: têm apaixonados de toda a sorte, até os desinteressados. Não querem nada, nem um olhar, nem um sorriso, nada. Basta-lhes amar. Chamam a isso “namoro de caboclo”: até a namorada o ignora... Era assim o amor cavalheiresco. Goethe resumiu-o, numa frase: “Se te amo, que t’importa?” Zweig é assim.
     Seus livros são editados em seis e mais línguas, — alguns em dezoito! — às vezes em edições duplicadas: inglês para Inglaterra e Domínios e inglês para a América do Norte... Espanha e Íbero-América... Portugal e Brasil... É o escritor mais impresso, mais adquirido e mais lido do mundo: ensaios, biografias romanceadas, ficção pura. O autor é um encanto de convivência, de conversação, de simplicidade: ternura e poesia. Podendo estar, festejado, nos Estados Unidos, como Maurois, ou na Argentina, como Waldo Franck... aqui está, aqui esteve, sem ruído, no Brasil. Aqui, não foi ao Catete, nem ao Itamarati, nem às Embaixadas, nem à Academia, nem ao D.I.P., nem aos Jornais, nem aos Rádios, nem aos Hotéis-palaces... Andou, virou, passeou, viajou, viveu. Não quis nada, nem condecorações, nem festas, nem recepções, nem discursos... Não quis nada.
     A Bahia desejou ser vista por ele e convidou-o. Ficou comovido, mas pôs condição: nem ajuda de custo, nem hospedagem oferecidas, nem recepção, conferência, nada. Gostava do Brasil, gostaria da Bahia, não queria mais. Queria Ver, sentir, pensar escrever, livremente...
     De tudo, este livro, este grande livro, livro de amor presente e esperança futura que sai em imensas edições, na América, na Inglaterra, na Suécia, na Argentina, em francês e alemão também — seis de uma vez, a menor, a brasileira... É o mais “favorecido” dos retratos do Brasil. Nunca a propaganda interesseira, nacional ou estrangeira, disse tanto bem do nosso país, e o autor, por ele, não deseja nem um aperto de mão, nem um agradecimento.. Amor sem retribuição. Amor de caboclo supercivilizado: a namorada vai saber agora e ficará confusa de tanto bem querer. Ele, porém, já partiu.. Deixou apenas esta declaração. Declaração de envaidecer à formosura mais presumida. Os “pátriaamada”, os “ufanistas” ficarão de cara à banda, pois ninguém até hoje escreveu livro igual sobre o Brasil... O amor faz desses milagres. Se ele fosse político, ou diplomata, ou economista, ficar-se-ia perplexo; a explicação é só esta, Stefan Zweig é poeta: é hoje o maior poeta do mundo, poeta com ou sem versos, mas com poesia, sentida, vivida, escrita pelo mais suave prosador do mundo...

Afrânio Peixoto.
Julho, 1941.


INTRODUÇÃO

 

     Outrora os escritores, antes de darem um livro à publicidade, costumavam escrever um pequeno prefácio, no qual declaravam por que motivos, de que pontos de vista e com que intenção haviam escrito a obra. Era bom hábito, pois criava desde logo, pela franqueza e pelas palavras dirigidas aos leitores, conveniente entendimento entre um e outros. Desejo, pois, dizer, com a maior sinceridade possível, o que me levou a ocupar-me com um tema, na aparência, muito afastado do meu habitual círculo de atividade.
     Quando, no ano de 1936, devia partir para Buenos Aires a fim de tomar parte no congresso do P.E.N.C., recebi convite para, aproveitando essa viagem, visitar o Brasil. Minhas expectativas não eram lá muito grandes. Eu tinha, sobre o Brasil, a idéia pretensiosa que, sobre ele, tem o europeu e o norteamericano, e tenho agora dificuldade de recordá-la. Imaginava que o Brasil fosse uma república qualquer das da América do Sul, que não distinguimos bem umas das outras, com clima quente, insalubre, com condições políticas de intranqüilidade e finanças arruinadas, mal administrada e só parcialmente civilizada nas cidades marítimas, mas com bela paisagem e com muitas possibilidades não aproveitadas — país, portanto, para emigrados ou colonos e, de modo nenhum, país do qual se pudesse esperar estímulo para o espírito. Uma visita de dez dias a tal país parecia-me suficiente para quem não é geógrafo, colecionador de borboletas, caçador, sportsman ou negociante. Demorarei lá oito ou dez dias e depois regressarei depressa, assim pensei, e não me envergonho de confessar esse meu modo insensato de pensar. Acho mesmo importante fazê-lo, porque ele é mais ou menos o mesmo que ainda é corrente nos círculos europeus e norteamericanos. O Brasil, no sentido cultural, ainda hoje é uma terra incógnita como, no sentido geográfico, o foi para os primeiros navegadores. Muitas vezes fiquei surpreso de ver que idéias confusas e deficientes, mesmo pessoas cultas e interessadas por coisas políticas, possuem sobre esse país que, indubitavelmente, está destinado a ser um dos mais importantes fatores do desenvolvimento futuro do mundo. Quando, por exemplo, a bordo, um negociante de Boston, de modo bastante depreciativo falou sobre pequenos países sulamericanos e eu tentei lembrar-lhe que só o Brasil compreende um território maior do que os Estados Unidos, julgou ele que eu estava gracejando e só se convenceu da minha afirmativa diante dum mapa. Encontrei num romance — de autor inglês muito conhecido — o engraçado pormenor de fazer o seu protagonista ir para o Rio de Janeiro a fim de nesta cidade aprender o espanhol. Mas esse autor é apenas um dos inúmeros indivíduos que não sabem que no Brasil se fala português. Todavia não compete a mim, está claro, fazer censuras pretensiosas a outros por seus poucos conhecimentos; eu próprio, quando parti pela primeira vez da Europa, nada, ou, ao menos, nada de seguro sabia sobre o Brasil.
     Deu-se então a minha chegada ao Rio, que me causou uma das mais fortes impressões de minha vida. Fiquei fascinado e, ao mesmo tempo, comovido, pois se me deparou não só uma das mais magníficas paisagens do mundo, nesta combinação sem igual de mar e montanha, cidade e natureza tropical, mas lambem uma espécie inteiramente nova de civilização. Aqui havia, inteiramente contra a minha expectativa, um aspecto absolutamente próprio, com ordem e perfeição na arquitetura, e no traçado da cidade, aqui havia arrojo e grandiosidade em todas as coisas novas e, ao mesmo tempo, uma civilização antiga ainda conservada de modo muito feliz, graças à distância. Aqui havia colorido e movimento; os olhos não se cansavam de olhar e, para onde quer que os dirigisse, sentia-me feliz. Apoderou-se de mim uma ebriedade de beleza e de gozo que excitava os sentidos, estimulava os nervos, dilatava o coração e, por mais que eu visse, ainda queria ver mais. Nos últimos dias da minha permanência no Brasil viajei para o interior ou melhor para lugares que julguei situados no interior. Viajei doze, quatorze horas para São Paulo, para Campinas, pensando com isso aproximar-me do coração deste país. Mas, quando de volta examinei o mapa, verifiquei que com essas, doze ou quatorze horas de viagem de trem apenas havia penetrado até um pouco abaixo da pele; pela primeira vez comecei a fazer idéia do incrível tamanho deste país, que propriamente já quase não deveria ser qualificado de um país, mas sim antes de um continente, um mundo com espaço para trezentos, quatrocentos, quinhentos milhões de habitantes e uma riqueza imensa sob este solo opulento e intacto, da qual apenas a milésima parte foi aproveitada. Um país em desenvolvimento rápido, mas apenas incipiente e, apesar de toda a atividade operante, construtiva, criadora, organizadora, um país cuja importância para as gerações vindouras não podemos calcular, mesmo fazendo as mais ousadas combinações. E com surpreendente velocidade desvaneceu-se a presunção européia que muito superfluamente trouxera como bagagem. Percebi que havia lançado um olhar para o futuro do mundo.
     Quando o navio zarpou — era uma noite estrelada e, apesar disso, essa cidade com seus colares de pérolas formados pelos focos de luz elétrica tinha um brilho, mais belo e mais misterioso do que as estrelas — estava eu certo de que não era pela última vez que via esta cidade e este país e sabia bem que propriamente nada vira ou em todo o caso não vira bastante. Fiz o propósito de logo no ano seguinte voltar, mais bem preparado e para permanecer maior tempo, para outra vez e mais intensamente experimentar a sensação de viver no que se está desenvolvendo, no porvir, no futuro, e então gozar mais conscientemente a segurança da paz, a boa atmosfera hospitaleira. Mas não pude realizar a minha intenção. No ano seguinte ainda continuava a revolução da Espanha e pensei comigo: espera, até que se tenha uma época mais tranqüila... Em 1938 deu-se a queda da Áustria e de novo esperei um momento de mais calma. Em 1939 efetuou-se a da Checoslováquia, depois ocorreu a invasão da Polônia e em seguida teve início a guerra de todos contra todos, na nossa Europa suicida. Cada vez mais veemente era o meu desejo de me retirar do mundo que se destrói, e de passar algum tempo no mundo que se desenvolve de maneira pacífica e fecunda; afinal cheguei de novo a este país, mais bem preparado do que anteriormente, a fim de tentar fazer dele uma pequena descrição.
     Sei que essa descrição não é completa e não pode ser completa. É impossível conhecer inteiramente o Brasil, esse mundo tão vasto. Passei cerca de meio ano neste país e precisamente só agora sei que, apesar de toda a diligência em aprender e de todo o viajar, ainda não posso dizer que conheço o Brasil e sei também que uma vida inteira não bastaria para conhecê-lo. Não vi uma série de Estados, dos quais cada um é tão grande como a Alemanha e a França ou maior do que elas, não percorri as regiões de Mato Grosso e Goiás, que mesmo as expedições científicas não percorrem inteiramente, nem as florestas do Amazonas. Não tenho, pois, um conhecimento perfeito da vida primitiva dessas povoações espalhadas por um território gigantesco e não posso dar uma noção clara da existência de todas essas classes que apenas têm contacto com a civilização: a dos barqueiros que navegam nos rios, a dos caboclos da região do Amazonas, a dos garimpeiros, a dos vaqueiros e gaúchos, a dos seringueiros e a dos sertanejos de Minas Gerais. Não visitei as colônias alemãs de Santa Catarina, cujas casas antigas, diz-se, têm pendurado o retrato do imperador Guilherme e cujas casa, novas, ao contrário, têm o retrato de Adolfo Hitler, nem as colônias japonesas do interior de São Paulo, e não posso dizer com segurança a ninguém se realmente ainda algumas tribos indígenas das matas virgens são canibais.
     Das paisagens dignas de serem vistas, algumas só conheço de fotografia, gravuras e livros. Não fiz a viagem de vinte dias de subida no rio Amazonas entre as florestas grandiosas em sua monotonia, não cheguei até as fronteiras do Brasil com o Peru e a Bolívia, e por causa das dificuldades da navegação na estação desfavorável tive que deixar de fazer a viagem de doze dias no Rio São Francisco, o grande rio do interior do Brasil e tão importante na sua história. Não subi o Itatiaia, o monte de três mil metros de altura, de cima do qual se divisa o planalto brasileiro com seus cimos até os longes, na direção de Minas Gerais e do Rio. Não vi a maravilha da cachoeira do Iguassú, que em espumante catarata precipita enormes massas d’água e cuja grandiosidade, segundo o testemunho de visitantes, excede de muito a do Niágara. Não penetrei com machadinha e facão na espessura da mata virgem. Apesar de todo o meu viajar, olhar, aprender, ler e procurar, não penetrei muito além da orla da civilização do Brasil. Tenho que me consolar com a idéia de haver encontrado apenas dois ou três brasileiros que puderam afirmar conhecer o âmago quase impenetrável de seu país, e com a de que estrada de ferro, vapor ou auto, meios esses também impotentes contra a vastidão fantástica desta terra, não me teriam levado muito além dos lugares até onde fui.
     Não me é possível expender conclusões definitivas, predições e profecias sobre o futuro econômico, financeiro e político do Brasil. Os problemas do Brasil relativos à economia, à sociologia e à civilização são tão novos, tão especiais e, sobretudo, dispostos de modo tão indistinto, em conseqüência da vastidão do país, que cada um deles exigiria um grupo de especialistas para esclarecê-lo inteiramente. É impossível ter uma noção completa dum país que ainda não tem uma vista de conjunto completa de si próprio e se acha em crescimento tão rápido que toda estatística e todo relatório já estão atrasados quando impressos. Do grande número de aspectos quero salientar principalmente um que me parece o de maior atualidade e coloca hoje o Brasil numa posição especial entre todas as nações do mundo no que respeita ao espírito e à moral.
     Esse problema central que se impõe a toda geração e, portanto, também à nossa, é a resposta à mais simples e, apesar disso, a mais necessária pergunta: como poderá conseguir-se no mundo viverem os entes humano pacificamente uns ao lado dos outros, não obstante todas a. diferenças de raças, classes, pigmentos, crenças e opiniões? É o problema que imperativamente sempre se apresenta a toda comunidade, a toda nação. A nenhum país esse problema, por uma constelação particularmente complicada, se apresenta mais perigoso do que ao Brasil, e nenhum o resolveu duma maneira mais feliz e mais exemplar do que a pela qual este o fez; é para gratamente testemunhar isso que escrevi este livro. O Brasil resolveu-o duma maneira que, na minha opinião, requer não só a atenção, mas, também a admiração do mundo.
     O Brasil, pela sua estrutura etnológica, se tivesse aceito o delírio europeu de nacionalidades e de raças, seria o país mais desunido, menos pacífico e mais intranqüilo do mundo. Nele ainda são nitidamente reconhecíveis, já nas ruas, as diversas raças e sub-raças, de que é constituída a sua população. Aqui vivem os descendentes dos portugueses que conquistaram e colonizaram o Brasil, aqui vive a descendência aborígene dos que habitam o interior do país desde épocas imemoráveis, aqui vivem milhões provindos dos negros que nos tempos da escravatura foram trazidos da África, e milhões de estrangeiros, portugueses, italianos, alemães e até japoneses. Segundo o modo de pensar europeu, seria de esperar que cada, um desses grupos assumisse atitude hostil contra os outros, os que haviam chegado primeiro contra os que chegaram mais tarde, os brancos contra os negros, os brasileiros contra os europeus, os de cor branca, parda ou vermelha, contra os da raça amarela, e que as maiorias e as minorias em luta constante pelos seus direitos e prerrogativas se hostilizassem. Com a maior admiração verifica-se que todas essas raças, que já pela cor evidentemente se distinguem umas das outras, vivem em perfeito acordo entre si e, apesar de sua origem diferente, porfiam apenas no empenho de anular as diversidades de outrora, a fim de o mais depressa e o mais completamente se tornarem brasileiras, constituindo nação nova e homogênea. Da maneira mais simples o Brasil tornou absurdo — e a importância desse experimento parece-me modelar — o problema racial que perturba o mundo europeu, ignorando simplesmente o presumido valor de tal problema. Ao passo que na Europa agora mais do que nunca domina a quimera de quererem criar seres humanos “puros”, quanto à raça, como cavalos de corrida ou cães de exposição, a nação brasileira há séculos assenta no princípio da mescla livre e sem estorvo, da completa equiparação de preto, branco, vermelho e amarelo. O que em outros países está teoricamente estabelecido apenas no papel e no pergaminho, a absoluta igualdade dos cidadãos na vida pública, bem como na vida privada, aqui existe de fato, na escola, nos empregos, nas igrejas, nas profissões e na vida militar, nas universidades, nas cátedras. É tocante ver já as crianças que apresentam todos os matizes de cor da pele humana, voltarem da escola de braço dado, e essa união de corpo e de alma se estende até as classes mais elevadas, nas academias e nos empregos públicos. Não há distinções de cores, exclusões, separações presunçosas. Ao passo que entre nós cada nação inventou uma palavra de ódio ou de motejo para aplicar à outra, como sejam, “Katzelmacher”, ou “Boche”, o vocabulário brasileiro absolutamente não encerra um termo depreciativo para o preto ou para o crioulo, pois quem poderia, quem quereria aqui jactar-se de ser de presumida raça pura? Se a afirmativa de Gobineau, de haver encontrado em todo o Brasil apenas um indivíduo de raça pura, o imperador D. Pedro II, pode ser exagero, o legitimo, o verdadeiro brasileiro tem certeza de ter no seu sangue algumas gotas de sangue indígena. Mas — coisa apreciável não se envergonha disso, bem pelo contrário. A mescla, suposta destrutiva, esse horror, esse “pecado contra o sangue” na opinião dos nossos endemoninhados teóricos de raças, é aqui meio de união de uma civilização nacional, conscientemente utilizado. Sobre esse fundamento se tem erguido segura e constantemente, há quatrocentos anos, uma nação e — fato milagroso — a constante penetração e adaptação recíproca, sob o mesmo clima e as mesmas condições de vida, produziram um tipo absolutamente próprio, o qual de nenhum modo possui todas as qualidades “dissolutivas” proclamadas ostensivamente pelos fanáticos da mitológica pureza de raça. É raro que em qualquer outra parte do mundo se possam ver mulheres e crianças morenas mais bonitas do que essas criaturas gracis e de maneiras tão suaves; é com alegria que se vê no semblante tostado de muitos estudantes inteligência unida a uma modéstia e polidez tão tranqüilas. Certa brandura e uma suave melancolia criam aqui um tipo muito próprio e oposto ao do norteamericano, que é mais enérgico e mais ativo. O que aqui “se destrói”, são apenas os contrastes fortes e, por isso, perigosos. Essa dissolução sistemática dos grupos mais “nacionais“ que “raciais”, que aqui são unidos e sobretudo unidos para a luta, facilitou extremamente, a criação duma consciência nacional única, e é surpreendente que a segunda geração já se sinta só brasileira. Em geral, o filho de estrangeiro é nacionalista. São sempre os fatos, com sua força inegável e visível, que contraditam as teorias dos dogmáticos. Por isso, o experimento do Brasil com sua completa e consciente negação de todas as diferenças, presumidas e insignificantes, de raças e de cores, por seu resultado visível, é a contribuição talvez mais importante para dar cabo dum desvario que, mais do que qualquer outro, acarretou intranquilidades e desgraças ao mundo.
     E agora se sabe por que o indivíduo sente a alma tão aliviada logo que pisa esta terra. Primeiramente, pensa que esse efeito calmante é apenas alegria dos olhos, e gozo dessa beleza sem par que, por assim dizer... de braços abertos chama a si o indivíduo que acaba de chegar. Mas em breve se reconhece que essa disposição harmônica da natureza aqui se transmitiu ao modo de vida de uma nação inteira. Alguém que acabou de fugir da absurda exaltação da Europa, saúda aqui a ausência completa de qualquer odiosidade na vida pública e particular, primeiramente como coisa inverossímil e depois como imenso benefício. A terrível tensão que há um decênio repuxa os nossos nervos, aqui desaparece, quase completamente; todos os antagonismos, mesmo os sociais, aqui, são muitíssimo menos acentuados e não têm uma seta envenenada. Aqui a política com todas as perfídias ainda não é o ponto cardeal da vida privada, não é o centro de todo o pensar e sentir. Logo que alguém chega. a esta terra, a primeira surpresa, que depois todos os dias felizmente se renova, é a de ver a maneira amistosa, e não fanática, pela qual os entes humanos vivem neste gigantesco território. Sem querer, respira ele de novo, sente-se bem por haver saído do ar mefítico do ódio entre raças e classes inimigas, e de se achar nesta atmosfera mais humana.
     Sem dúvida, há aqui menos intensidade na maneira de viver. Os seus habitantes, sob a influência imperceptivelmente depressiva do clima, desenvolvem menos força impulsiva, menos veemência, menos dinamismo, portanto desenvolvem menos, precisamente as qualidades que hoje em dia, numa superestimação trágica, se apregoam como os valores morais dum povo. Mas nós que experimentamos na nossa própria sorte as terríveis conseqüências dessas exaltações psíquicas, dessa avidez e ganância de poder, sentimos que essa forma mais suave e mais serena da vida é um benefício e uma felicidade.
     Longe de mim querer dar a ilusão de que no Brasil já tudo se acha no estado ideal. Muita coisa ainda se acha em início e em transição. A maneira de vida de uma grande parte da população ainda está muito abaixo da maneira de viver de grande parte da nossa. As atividades técnicas e as industriais desta nação de cinqüenta milhões de habitantes, por enquanto, só são comparáveis às de pequenos países europeus. O mecanismo da administração ainda não está bem regulado e muitas vezes tem paradas incômodas. Com um percurso de algumas centenas de quilômetros em direção ao interior chegamos ainda a um meio primitivo, atrasado de um século. Quem chega pela primeira vez ao país, terá que primeiramente adaptar-se, na vida quotidiana, a pequenas faltas de pontualidade e inexatidões, a certa deficiência de energia, e certos viajantes que vêem o mundo, observando-o do hotel e do auto apenas, podem dar-se ainda ao luxo de regressar do Brasil com a presunção de superioridade em civilização e de achar muita coisa neste país atrasada e deficiente. Mas os acontecimentos dos últimos anos alteraram essencialmente a nossa opinião sobre o valor das palavras “civilização e cultura”. Já não estamos dispostos a simplesmente equipará-las à idéia de “organização” e «conforto». Nada favoreceu mais esse erro funesto do que a estatística que, como ciência mecânica, calcula em quanto importa num país a fortuna do povo e quanto é, na mesma, a parte de cada um; quantos autos, quantos banheiros, quantos rádios e quantos seguros correspondem a cada habitante. De acordo com essas tabelas os povos mais cultos e mais civilizados seriam os que têm a maior produção, o maior consumo e o maior número de fortunas individuais. Mas falta nessas tabelas um elemento valioso, o cômputo do espírito de humanidade, que, em nossa opinião, representa o mais importante índice da cultura e da civilização. Vimos que a mais elevada organização não impediu povos de aplicarem essa organização unicamente no sentido da brutalidade, ao invés de o fazerem no sentido humano; vemos que a nossa civilização, no curso dum quarto de século, pela segunda vez, está periclitando. Por isso já não estamos dispostos a reconhecer uma classificação de acordo com o valor industrial, financeiro e militar dum povo, mas sim avaliar o grau de superioridade de uma nação pelo seu espírito pacífico e humanitário.
     Nesse sentido — o mais importante, segundo a minha opinião — o Brasil parece-me um dos países mais modelares e, por isso, uns dos mais dignos de estima. É um país que odeia a guerra e, ainda mais, que quase não a conhece. Há mais de um século, com exceção da guerra do Paraguai, que foi insensatamente provocada por um ditador que perdera a razão, o Brasil tem resolvido todas as questões de limites com seus vizinhos por meio de acordos e arbitragens internacionais. O seu orgulho e os seus heróis não são apenas guerreiros, mas estadistas, como Rio Branco e Caxias, que com prudência e firmeza souberam evitar e acabar guerras. O Brasil, cujo idioma se limita ao seu território, não tem desejos de conquistar territórios, não possui tendências imperialistas. Nenhum vizinho pode exigir dele alguma coisa e ele nada exige de seus vizinhos. Nunca a paz do mundo foi ameaçada por sua política, e, mesmo numa época de incertezas como a atual, não é possível imaginar que o princípio básico de sua idéia nacional, esse desejo de entendimento e de acordo, se possa jamais alterar. Esse desejo de conciliação, essa atitude humanitária, não tem sido o sentimento casual dos diferentes chefes e dirigentes do país; é o produto natural dum predicado do povo, da tolerância natural do brasileiro, a qual no curso da sua história sempre se confirmou. O Brasil é uma nação em que não existiram perseguições religiosas sangrentas, nem fogueiras de inquisição. Em nenhum outro país os escravos foram tratados relativamente com mais humanidade. Mesmo suas revoluções interiores e mudanças de regime se efetuaram quase sem derramamento de sangue. Os dois imperadores, que a vontade do Brasil de se tornar independente fez deixarem o país, dele se retiraram sem sofrer vexames e, por isso, sem ódio. Mesmo após rebeliões e intentonas que foram sufocadas, desde a independência do Brasil o, cabeças não pagaram o ato de insurreição com a vida. Quem quer que governe o povo brasileiro, inconscientemente é forçado a adaptar-se a seu espírito de conciliação; não constitui uma casualidade o fato de o Brasil — que entre todos os países da América durante decênios foi a única monarquia ter tido como imperador o mais democrata, o mais liberal de todos os soberanos. E hoje, que o Governo é considerado como ditadura, há aqui mais liberdade e mais satisfação individual do que na maior parte dos nossos países europeus. Por isso na existência do Brasil, cuja vontade está dirigida unicamente para um desenvolvimento pacífico, repousa uma das nossas melhores esperanças de uma futura civilização e pacificação do nosso mundo devastado pelo ódio e pela loucura. Mas onde se acham em ação forças morais, é nosso dever fortalecermos essa vontade. Onde na nossa época de perturbação ainda vemos esperança de um futuro novo em novas zonas, é nosso dever indicarmos esse país, essas possibilidades.
     E por isso escrevi este livro.


HISTÓRIA

 

     Durante milhares e milhares de anos jaz incógnito e anônimo o gigantesco território brasileiro com suas florestas verde-escuras e sussurrantes, suas montanhas e seus rios e seu mar ritmicamente sonoro. A tardinha de 22 de abril de 1500, de repente aparecem no horizonte algumas velas brancas; caravelas bojudas e pesadas, com a vermelha cruz portuguesa em suas velas, aproximam-se da costa, e no dia seguinte chegam à praia desconhecida os primeiros escaleres.
     É a frota portuguesa que, sob o comando de Pedro Alvares Cabral, em março de 1500 zarpara da foz do Tejo, a fim de repetir a inolvidável viagem de Vasco da Gama, cantada por Camões nos “Lusíadas”, aquele “feito nunca feito”, em torno do Cabo da Boa Esperança, em demanda das Índias... Ao que se veio a dizer, ventos contrários desviaram os navios da rota de Vasco da Gama, para essa ilha desconhecida — pois primeiramente é denominada ilha de Santa Cruz, essa costa, de cuja extensão ainda não se faz idéia. Desde que não se considerem como descobrimentos as viagens de Alonso Pinzon, que chegou às proximidades da foz do Amazonas, e a duvidosa descoberta de Vespuccio, parece pois que o descobrimento do Brasil teria cabido a Portugal e a Pedro Alvares Cabral, graças apenas a uma singular combinação entre os ventos e as ondas. Os historiadores, porém, há muito que não estão mais propensos a dar crédito a esse “acaso” pois Cabral levava consigo o piloto de Vasco da Gama, o qual conhecia exatamente o caminho mais próximo, e a fábula dos ventos contrários perde de valor, em face: do testemunho de Pero Vaz de Caminha, que se achava a bordo e afirmou expressamente que eles,. “sem haver tempo forte ou contrário”, se haviam afastado do Cabo Verde. Como nenhuma tempestade os houvesse desviado tanto para oeste que, em vez de contornarem o cabo de Boa Esperança, subitamente aportassem ao Brasil, uma determinada intenção ou — o que ainda é mais provável — uma ordem secreta de seu rei — fez com que dirigisse Cabral o seu curso para oeste. Isso torna mais provável a hipótese que a Coroa portuguesa, já muito antes do descobrimento oficial, tivesse conhecimento secreto da existência e da situação geográfica do Brasil. Há nesse ponto ainda grande segredo. Os documentos que poderiam desvendá-lo desapareceram para sempre, com a destruição dos arquivos, por ocasião do terremoto de Lisboa, e o mundo provavelmente nunca saberá o nome do primeiro descobridor do Brasil. Parece que, logo após o descobrimento da América por Colombo, um navio português foi enviado para explorar essa nova parte do mundo e, de regresso, levou novas informações, ou, já antes de Colombo obter audiência, tinha a Coroa portuguesa conhecimento mais ou menos certo dessa terra, no oeste longínquo. A favor disso há também certos elementos. Mas o que quer que soubesse, evitava Portugal dá-lo a conhecer ao vizinho invejoso; na época dos descobrimentos a Coroa tratava todas as novidades relativas a explorações náuticas como segredo militar ou comercial de Estado, cuja divulgação a potências estrangeiras era punida com a pena de morte. Mapas, portulanos, roteiros, relatórios de pilotos, do mesmo modo que ouro e pedras preciosas, eram encerradas na Tesouraria de Lisboa, como preciosidades, e, particularmente no caso do Brasil, uma divulgação prematura era inoportuna, pois, de acordo com a bula papal Inter Caetera, legalmente pertenciam aos espanhóis ainda todas as regiões até a distância de cem léguas a oeste do Cabo Verde. Um descobrimento oficial dentro dessa zona, nesse momento, só teria aumentado as posses do vizinho, e não as próprias. Não era, pois, do interesse de Portugal anunciar, antes de tempo, tal descobrimento, se de fato ele se dera. Era preciso estar legalmente garantido que essa nova terra pertencia não à Espanha, mas sim à Coroa portuguesa, e isso Portugal, com manifesta previdência, garantira a si por meio do Tratado de Tordesilhas, que em 7 de junho de 1494, portanto pouco depois do descobrimento da América, ampliara a zona portuguesa, das primitivas cem léguas para trezentas e setenta a oeste do Cabo Verde — justamente, pois, tanto que abrangesse ela a costa do Brasil, ao que se diz, ainda então não descoberta. Se essa ampliação foi uma casualidade, não deixou de ser uma casualidade que concorda admiravelmente com o desvio de Pedro Alvares Cabral, da rota natural, desvio que, por outro modo, é inexplicável.
     Essa hipótese, levantada por alguns historiadores, de um anterior conhecimento do Brasil e de uma instrução secreta del-Rei dada a Cabral, para que se desviasse muito para oeste, a fim de que por uma “maravilhosa casualidade” — “milagrosamente”, como escreveu ele ao rei da Espanha — pudesse descobrir a nova terra, ganha também muito de credibilidade pela maneira como o cronista da frota, Pero Vaz de Caminha, dá ao rei notícia do descobrimento do Brasil. Ele não manifesta admiração ou entusiasmo de inesperadamente ter aportado à nova terra: consigna apenas secamente o fato, como uma coisa natural. Igualmente o segundo cronista, que é desconhecido, diz apenas “che ebbe grandissimo piacere”. Nem uma palavra de triunfo, nenhuma das suposições, usuais, em Colombo e em seus sucessores, de que, com isso, se houvesse atingido a Ásia — nada mais do que uma notícia fria, que parece mais confirmar um fato. conhecido do que anunciar um novo. Assim, por um ulterior achado de documentos, poderia Cabral talvez ainda perder definitivamente a glória de haver descoberto o Brasil, a qual, aliás, já é contestada com o aportamento de Pinzon ao norte do rio Amazonas. Mas, enquanto não tivermos tal documento, deve o dia 22 de abril de 1500 ser considerado a data em que esta nova nação entrou para a História Universal.
     A primeira impressão causada pela nova terra aos navegadores que a ela aportam é excelente: terra fértil, ventos amenos, fresca água potável, abundantes frutos, habitantes afáveis e não perigosos. Quem quer que chegue ao Brasil nos anos seguintes, repete as palavras hínicas de Américo Vespuccio, que, aqui chegando um ano depois de Cabral, exclama: “Se algures na terra existe o paraíso terrestre, não pode ele estar longe daqui!” Os habitantes que nos primeiros dias aparecem, em inocente traje de nudez, aos descobridores, e lhes mostram o corpo nu “com tanta inocência como o rosto”, os acolhem afavelmente. Mas são sobretudo as mulheres que, por seu corpo bem feito e sua condescendência rápida e sem preferências, (gratamente gabada também por todos os cronistas posteriores) fazem esquecer aos navegantes as privações de muitas semanas. Por enquanto não se dá uma verdadeira exploração ou ocupação do interior do novo território, pois Cabral, após o cumprimento de sua incumbência secreta, tem que, o mais depressa possível, prosseguir para sua meta oficial, para as Índias. A 2 de maio, após uma permanência de, ao todo, dez dias, ruma para a África, depois de ordenar a Gaspar de Lemos que com um navio percorra a costa na direção do norte e em seguida regresse a Lisboa, levando a notícia do descobrimento e alguns exemplares de frutos, de vegetais e de animais da nova terra.
     A nova de que a frota de Cabral, seja em cumprimento de uma incumbência secreta, seja por mero acaso, atingiu essa nova terra, é recebida com agrado, mas sem verdadeiro entusiasmo, no palácio real. Em cartas oficiais é ela transmitida ao rei da Espanha, a fim de ficar garantido para Portugal o título legal de posse. Todavia a comunicação de que o novo território é uma região “sem ouro, nem prata, nem nenhuma coisa de metal”, a princípio confere pouco valor ao descobrimento, Portugal descobriu nos últimos decênios tantas terras e se apossou duma parte tão grande do mundo que a capacidade colonizadora desse pequeno país verdadeiramente está de todo esgotada. O novo caminho marítimo para as Índias garante-lhe o monopólio das especiarias e, só com isso, já uma riqueza imensa. Sabe-se em Lisboa que em Calicut, em Malaca, a riqueza em pedras preciosas, tecidos custosos, porcelanas e especiarias, que há séculos se tornou lendária, está pronta para sofrer uma ousada pilhagem, e a sofreguidão de, com um assalto, arrebatar para si todo esse mundo de cultura superior e de fausto oriental impele Portugal a uma exaltação de intrepidez e de heroísmo, que dificilmente, na História Universal, outra se lhe iguala. Mesmo os “Lusíadas” quase não conseguem tornar compreensível essa nova expedição, semelhante à de Alexandre Magno, que um punhado de homens empreende, a fim de, com alguns navios, conquistar simultaneamente três continentes e, além disso, todo o oceano desconhecido. É que o pequeno e pobre Portugal, que, quase apenas há dois séculos, se libertou do domínio árabe, não possui dinheiro; o rei, toda vez que prepara uma frota, tem de antemão que empenhar o rendimento dela a banqueiros e comerciantes. Portugal também não possui soldados em número suficiente para guerrear ao mesmo tempo, os árabes, os indús, os malaios, os africanos, os selvagens e, em todos os lugares dos três continentes, estabelecer colônias e fortalezas. Contudo, como por milagre, extrai de si todas essas forças; cavaleiros, camponeses, e, conforme certa vez disse Colombo, indignado, até alfaiates abandonam as oficinas, as mulheres, os filhos, todos as suas profissões, e afluem, de todo o país, para os portos. Não os assusta o fato de que, segundo as célebres palavras de João de Barros, se torne “o oceano o mais freqüente túmulo dos portugueses”, pois a palavra “Índias” possui poder mágico. O rei sabe que um navio que regressa de Golconda compensa o prejuízo de dez que se perdem; um homem que resiste às tempestades, aos naufrágios, aos combates, às doenças, está rico para si e para seus descendentes. Como a porta que dá para a tesouraria do mundo de então está arrombada, ninguém quer permanecer na “pequena casa” da pátria, e essa vontade unânime dá a Portugal um êxtase de força e de coragem que, por um século, faz do impossível possibilidade e da inverossimilhança realidade.
     Nesse tumulto de paixões, um evento de tanta importância histórica como o descobrimento do Brasil apenas é notado. Nada é mais característico do menosprezo desse fato, do que, em sua epopéia, Camões, entre seus milhares de versos, referir-se apenas vagamente ao descobrimento ou à existência do Brasil. Os marinheiros de Vasco da Gama levaram para Portugal tecidos custosos, jóias, pedras preciosas e especiarias e, sobretudo, a notícia de que nos palácios dos samorins e dos rajás havia milhares de vezes mais do que aquilo. Como, ao contrário, é sem valor o que leva Gaspar de Lemos! Alguns papagaios variegados, algumas amostras de madeira, alguns frutos e a desenganadora informação de que nada se podia obter aqui dessa gente nua. Não leva nem uma pepitazinha de ouro, nem uma pedra preciosa, nem especiarias, nenhuma daquelas preciosidades de que um punhado vale mais do que florestas inteiras de pau-brasil, tesouros que facilmente se podem obter com alguns golpes de sabre, com alguns tiros de canhão, ao passo que os troncos de pau-brasil têm que ser derrubados antes que possam ser serrados, embarcados e vendidos. Se essa Ilha ou Terra de Santa Cruz encerra riquezas, elas só podem ser riquezas potenciais, e têm que ser conquistadas com trabalho penoso de anos. Mas el-Rei de Portugal necessita de lucros rápidos, imediatos, para saldar as suas dívidas. É, pois, preciso dirigir as vistas para as Índias, a África, as Molucas, o Oriente. Por isso, a Terra de Santa Cruz se torna a Cordélia desse rei Lear, a irmã desprezada entre as três irmãs, a Ásia, a África e a América, e, apesar disso, a única que, na hora do infortúnio, se manterá fiel.
     O fato de Portugal, inebriado por seus êxitos fantásticos, a princípio quase não se importar com o Brasil é, pois, a conseqüência da lógica inexorável das necessidades, o nome dessa terra não penetra no povo, não lhe dá trabalho à fantasia. Os geógrafos alemães e italianos assinalam a esmo em seus mapas a linha da costa com o nome “Brasil” ou “Terra dos Papagaios”, mas a Terra de Santa Cruz, essa região, deserta e verde, nada tem que atraia navegantes e aventureiros. Mas, se o rei D. Manuel não tem tempo nem propensão para convenientemente aproveitar e proteger esse novo território e ao mesmo tempo não está disposto a conceder a outros nem sequer um palmo do mesmo, porque o Brasil lhe protege a via marítima para as Índias e, sobretudo, porque Portugal, em sua ebriedade de aventura e de ânsia de conquistas, bem gostaria de, com sua mãozinha, abarcar todo o globo terráqueo. Tenaz, perseverante e habilmente pugna ele com a Espanha pelo reconhecimento de que esse território, de acordo com o Tratado de Tordesilhas, se acha compreendido na zona pertencente a Portugal; quase surge conflito entre os dois países por causa dum território de que nenhum deles verdadeiramente precisa, pois ambos só desejam pedras preciosas e ouro. Mas, a tempo reconhecem quão absurdo seria voltarem armas um contra o outro, quando têm necessidade de homens e de balas para saquearem as novas terras que do céu subitamente lhes caíram nas mãos. Em. 1506 chegam a um acordo, que confirma o direito de Portugal, até então exercido apenas platonicamente.
     Da Espanha, a poderosa vizinha, já não há agora que temer. Mas os franceses, que, por ocasião da divisão do mundo entre a Espanha e Portugal, não tiveram o seu quinhão, começam, visivelmente, a dedicar sua atenção a este vasto e belo pedaço de terra ainda não povoado e organizado. Cada vez mais aparecem aqui navios procedentes de Dieppe e do Havre, a buscar pau-brasil, e Portugal ainda não possui nos portos do Brasil navios e soldados, a fim de impedir essas piratarias. Seu titulo de posse legal não passa de um pedaço de papel, e a França, com uma única investida, de cinco, talvez até apenas de três navios armados, poderia apoderar-se da colônia inteira, se quisesse fazê-lo. Para defender a extensa costa é, pois, necessário uma coisa: povoá-la. Se o rei de Portugal quiser fazer do Brasil um território português e conservá-lo para si como bem da Coroa, terá de se resolver a enviar para ele portugueses. O território com sua gigantesca vastidão e com suas ilimitadas possibilidades quer e pede mãos, e cada uma que a ele chega acena para Portugal, solicitando outras e outras. Desde o começo, através de toda a História do Brasil, repete-se este apelo: gente, mais gente! É como se fosse a voz da natureza que quer crescer e desenvolver-se, e para sua verdadeira finalidade, para sua grandeza, necessita do indispensável auxiliar: o homem.
     Mas como encontrar colonos no pequeno país, já meio exangue? Portugal, no começo de sua época de conquistas, possui, no máximo, trezentos mil adultos disponíveis do sexo masculino. Destes, um décimo, os mais vigorosos, os melhores, os mais destemidos, já seguiram para bordo e desse décimo nove décimos já pereceram no mar, em combates e em doenças. Como as aldeias estejam despovoadas e os campos abandonados, cada vez se torna mais difícil encontrar soldados e marujos, e, mesmo entre os amigos de aventuras, não se encontra nenhum que queira ir para o Brasil. A camada mais vital, mais intrépida do país, a dos fidalgos, dos nobres e dos soldados, recusa-se a emigrar para lá, pois sabe que na Terra de Santa Cruz não há ouro, pedras preciosas, marfim, e nem mesmo glória para se ir buscar. Os eruditos, os intelectuais, por sua vez, que irão fazer lá, naquele ermo, isolados de toda a civilização, e os comerciantes, que negócios irão realizar num país de canibais nus? Que poderão trazer para Portugal de suas maçantes viagens de ida e volta, quando um único carregamento procedente das Molucas compensa mil vezes o risco? Mesmo os mais pobres camponeses de Portugal preferem lavrar a própria terra a correrem o risco de naquela terra estranha e desconhecida serem devorados pelos canibais. Nenhum nobre, nenhum homem de posição, nenhum rico, nenhum indivíduo civilizado. revela, pois, a mínima vontade de embarcar para essas costas desertas, e por isso os que nos primeiros anos habitam o Brasil, quase não passam de alguns marujos que deram à costa, alguns aventureiros e desertores de navios, indivíduos que por acaso ou preguiça aqui ficaram, e eles se limitam a fazer o que de melhor podem fazer para o rápido povoamento: procriam inúmeros mestiços, os chamados “mamelucos”; diz-se que um deles gerou trezentos. Mas, ao todo, permanecem só algumas centenas de europeus numa terra que já então é tão grande como a Europa.
     Por isso torna-se uma necessidade imperiosa promover com violência e método a imigração. Portugal emprega para isso o método da deportação já experimentado na Espanha: todos os alcaides do país são intimados a não mais condenarem delinqüentes, no caso de estes se declararem dispostos a seguir para o Brasil. Para que abarrotar as prisões e para que sustentar criminosos durante anos às expensas do Estado? É melhor degredá-los, pelo resto da vida, para a nova terra; lá, afinal de contas, ainda poderão ser úteis. Como acontece sempre, é o adubo forte e não muito limpo que melhor torna o solo bom para uma futura colheita.
     Os únicos colonos que voluntariamente para aqui se dirigem sem serem indivíduos libertados de grilhões, indivíduos com estigma, com sentença judicial, são os cristãos novos, os judeus recém batizados. Mas, mesmo eles não vêm para cá de modo inteiramente voluntário, e sim por previdência e medo. Com maior ou menor sinceridade receberam o batismo em Portugal, a fim de escaparem à fogueira; todavia, com razão, não se sentem por isso mais seguros, à sombra da Inquisição. É melhor, pois, se retirarem a tempo, para uma nova terra, enquanto a mão sanhuda do Santo Oficio ainda não intervém do outro lado do Atlântico. Grupos de judeus batizados e também de não batizados fixam residência nos portos; esses judeus são verdadeiramente os primeiros colonos desta terra. Esses cristãos novos constituem as primeiras famílias da Bahia e de Pernambuco e, ao mesmo tempo, os primeiros organizadores do seu comércio. Com o conhecimento do mercado mundial tratam do corte e do embarque da madeira vermelha, do pau-brasil, que então é o único artigo de exportação do Brasil e cuja concessão comercial um desses colonos, Fernando de Noronha, obteve do rei, por longo prazo. Não só navios portugueses, mas também estrangeiros, aparecem aqui com bastante regularidade, a fim de buscarem essa carga singular, e, pouco a pouco, se formam desde Pernambuco até Santos pequenos povoados marítimos, berços das futuras cidades. Entrementes, em diversas expedições, frotas, pequenas e grandes, avançam até o Rio da Prata e fazem mapas da costa. Mas, desconhecido e sem limites atrás da estreita faixa que para o mundo então representa o Brasil, continua a jazer todo o gigantesco território.
     O progresso do Brasil, nos três primeiros decênios, é lento, perigosamente lento. Cada vez mais navios estrangeiros visitam os novos portos — ilegalmente, no modo de pensar de Portugal — a fim de buscar madeira. Em 1530, afinal, el-Rei se decide, para pôr ordem, enviar ao Brasil uma pequena frota sob o comando de Martim Afonso de Souza, o qual apanha logo, em flagrante, três navios franceses e, como primeira impressão, comunica ao soberano o que, desde muito, todos lhe haviam comunicado, a saber, que o Brasil deve ser colonizado, senão o perderá a Coroa. Mas, como sempre, desde o começo da época heróica, os cofres estão vazios; as guarnições nas Índias, as fortalezas na África e a manutenção do prestígio militar, em suma, do imperialismo português, atraem para si todo o capital e toda a energia. Por isso há que tentar uma experiência para “povoar a terra”, ou melhor, uma experiência que nos Açores e em Cabo Verde já dera bom resultado: promover a colonização por meio da iniciativa privada. O território que, por assim dizer, ainda está inabitado, é dividido em doze capitanias, e cada uma delas é doada, com plenos direitos hereditários, a um cidadão, o qual te que se obrigar a desenvolver, por meio de colonização, essa faixa de terra, ou melhor, esse reino — o que aliás é de seu próprio interesse. O que é doado a cada um desses capitães é verdadeiramente um reino: cada um desses territórios não é menor que o próprio Portugal e alguns são tão grandes como a França ou a Espanha. A um nobre que em Portugal nada possui, a um oficial que — em batalhas nas Índias deu boa prova de si e solicita recompensa, a um historiador, como João de Barros, a quem o rei deve gratidão, a todos eles é doada, a cada qual, com uma penada de tinta, uma parte do Brasil, portanto uma região enorme, na expectativa de que, então, eles levem gente para lá, cultivem o território doado e indiretamente o conservem para a pátria.
     Essa primeira tentativa de pôr certo método na maneira inteiramente casual e desorganizada de colonização é imaginada com superioridade de espírito. As vantagens para os donatários são imensas; além do direito de cunhar dinheiro, são-lhe concedidos, em troca de pequenos deveres, todos os direitos de um príncipe soberano. Se, com efeito, eles soubessem atrair uma população, seus filhos e netos deveriam ter o mesmo valor que qualquer monarca da Europa. Mas os presenteados são, em sua maioria, pessoas já não muito novas, que há muito consumiram o melhor de suas energias no serviço prestado ao rei; aceitam o território doado como herança para os filhos e netos, sem, todavia, com trabalho enérgico o colonizarem para si próprios. Nos primeiros decênios revela-se que só duas capitanias prosperam, a de São Vicente e a de Pernambuco, — esta última denominada Nova Lusitânia, — graças à racional plantação de cana de açúcar. As demais, por indiferença de seus donatários, falta de colonos, hostilidade dos aborígenes e diversas catástrofes no mar e em terra, em breve caem em estado de anarquia. Toda a costa está ameaçada de retalhar-se; isoladas umas das outras, sem acordo entre si, sem lei comum, sem poder militar, sem fortificações e soldados, acham-se as capitanias constantemente expostas à pilhagem por parte de qualquer poder inimigo e até por parte de qualquer corsário atrevido. Desesperado, escreve a 12 de maio de 1548 Luiz de Góes a el-Rei: “... se com tempo e brevidade Vossa Alteza não socorre a estas capitanias e costa do Brasil, ainda que nós percamos as vidas e fazendas, Vossa Alteza perderá a terra... ” Se Portugal não der uma organização unitária ao Brasil, estará este perdido. Só um representante resoluto do rei, um governador geral, que também leve consigo poder militar, poderá estabelecer ordem e, ainda a tempo, congregar numa unidade os pedaços em que o Brasil se está desfazendo.

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     É um fato decisivo para a História do Brasil ouvir a tempo el-Rei D. João III o brado de socorro, e a 1o. de fevereiro de 1549 enviar como governador geral Tomé de Souza. homem que já deu provas de seu valor em África e nas Índias, com a incumbência de em um qualquer lugar, de preferência na Bahia, fundar uma capital, de onde todo o território deverá ser administrado por um governo central.
     Tomé de Souza, além do necessário funcionalismo, traz consigo seiscentos soldados e quatrocentos degredados, os quais todos mais tarde se vão domiciliar na cidade ou fora dela. Desembarca-se o material mais necessário para construir uma cidade, e imediatamente todos põem mãos à obra; em quatro meses é edificada uma muralha de fortificação para proteger o local, levantam-se casas e igrejas onde anteriormente existiam apenas míseras cabanas de barro. Instala-se no, por enquanto ainda muito provisório Palácio do Governo, uma administração para a colônia e outra para a cidade, e, como o mais evidente sinal de uma justiça, que afinal é introduzida e já é extremamente necessária, constrói-se um cárcere, primeira advertência de que se quer, no futuro, ordem rigorosa. Todos deverão sentir que já não são indivíduos abandonados, esquecidos, exilados e sem pátria, indivíduos sem direitos e deveres, mas sim que estão sujeitos às leis da pátria e sob a proteção delas. Com a fundação de uma capital e a constituição de um governo geral, o organismo do Brasil, até então apenas amorfo, adquiriu um coração e um cérebro.
     Tomé de Souza traz consigo seiscentos soldados ou marinheiros e quatrocentos degredados, ao todo mil homens, com armaduras ou com camisas de trabalho. Mais importantes do que esses mil homens, cujo valor está nos braços e na força, serão para o destino do Brasil os seis homens de batinas pretas e singelas que o rei enviou com Tomé de Souza para direção e conselho espirituais. É que esses seis homens trazem o que de mais precioso um povo e uma terra necessitam para sua existência, trazem uma idéia, a idéia verdadeiramente criadora do Brasil. Esses seis jesuítas possuem uma energia nova e que ainda absolutamente não foi gasta, pois sua ordem é nova e está cheia do santo fervor de dar provas do seu objetivo. Ainda vive o seu fundador, Inácio de Loyola; ainda sua vontade ascética, sua férrea energia pensante e o entusiasmo perfeitamente consciente de seu objetivo lhes dão o exemplo visível da auto-disciplina; como em todos os movimentos religiosos, nos jesuítas a intensidade espiritual e a pureza de costumes, nos primeiros anos, e antes do verdadeiro êxito, se acham no mais alto grau. Em 1550 os jesuítas ainda não constituem um poder espiritual, secular, político e econômico, como nos séculos ulteriores, — e toda forma de poder diminui a pureza moral de um ente humano, como a de um partido. Sem posses, tanto os indivíduos como a ordem, personificam eles só uma determinada, vontade, portanto um elemento ainda de todo espiritual, ainda não inteiramente imiscuído no que é secular. E chegam na melhor hora, pois para sua grandiosa concepção, a de, por meio de campanhas espirituais, restabelecer a unidade religiosa do mundo, o descobrimento de um novo continente representa um lucro inaudito. Desde que, em 1519, na dieta de Worms, o feroz alemão ateou a guerra religiosa mundial, mais de um terço, quase a metade da Europa, já abandonou a Igreja, e o catolicismo, outrora a “ecclasia universalis”, está quase reduzido a uma posição de defesa. Que vantagem, pois, se fosse possível conquistar, a tempo, para a velha e verdadeira fé, os novos mundos que de repente surgiram, e com isso se pudesse criar como que uma segunda e mais larga frente atrás da primeira! Como os jesuítas nada exigem, nenhum salário, nenhuma preferência el-Rei D. João III aprova-lhes a intenção de conquistarem essa nova terra para a religião e permite que seis desses soldados de Cristo acompanhem a expedição. Mas, na realidade, esses seis homens não se limitarão a acompanhar, irão dirigir.
     Com esses seis homens começa algo de novo para o Brasil. Todos que antes deles chegaram ao Brasil, fizeram-no em cumprimento de ordem ou vítimas da violência, ou refugiados; quem até então desembarcava na costa do Brasil queria tirar alguma coisa desta terra, madeira ou frutos, ou aves, ou minérios, ou entes humanos; nenhum deles pensara em uma retribuição à terra. Os jesuítas são os primeiros que nada querem para si e tudo querem para esta terra. Trazem consigo plantas e animais para cultivar o solo; trazem medicamentos para curar os enfermos, livros e instrumentos a fim de ensinar os incultos; trazem sua crença e a disciplina de costumes estabelecida pelo seu mestre; trazem, sobretudo, uma idéia nova, a maior idéia de colonização existente na História. Antes deles, entre os povos bárbaros, e, ao lado deles, sob o regime espanhol, colonizar significava exterminar os aborígenes, ou transformá-los em animais; descobrimento, para a moral dos conquistadores do século dezesseis era igual a conquista, subordinação, sujeição, privação de direitos, escravização. Eles, ao contrário, como “os únicos homens disciplinados de seu tempo”, conforme diz Euclides da Cunha, passando por cima desse processo de colonização pelo roubo, pensam no processo de edificação por meios morais, pensam nas gerações vindouras e, desde o primeiro instante, estabelecem na nova terra a equiparação moral de todos entre si. Precisamente porque a população aborígene vive num nível baixo, não deve ser ainda mais rebaixada, reduzida à animalidade e à escravidão, mas sim elevada à condição de seres humanos e conduzida, pela mão do cristianismo, à civilização ocidental: nesta terra deve desenvolver-se uma nação nova, por cruzamento e educação. A essa idéia fecunda deve, afinal de contas, o Brasil ter-se tornado, dum conglomerado dos mais diversos elementos, um organismo, e dos elementos mais evidentemente opostos entre si, uma unidade.
     Os jesuítas, está claro, sabem que uma tarefa de tal importância não poderá realizar-se imediatamente. Não são sonhadores vagos e confusos e seu mestre Inácio de Loyola não é nenhum Francisco de Assis, que acredita numa suave fraternidade entre os homens. São realistas, e, graças a seus exercícios, sabem dia a dia refortalecer a sua energia, para vencerem no mundo a imensa resistência das fraquezas humanas. Sabem que a sua tarefa é perigosa e demorada. Mas precisamente o fato de absolutamente visarem, desde o começo, um alvo longínquo, colocado a séculos de distância, na eternidade, distingue-os tão grandiosamente dos funcionários da Coroa e dos guerreiros que querem para si e para a pátria lucros imediatos e visíveis. Os jesuítas sabem perfeitamente que serão necessárias gerações e gerações para que se complete esse processo de “abrasileiramento” e que cada um deles que arrisca a vida, a saúde e as forças nesse começo, jamais verá os menores resultados de seus esforços. É um trabalho penoso, de semeadura, que eles começam, é um empreendimento árduo e, na aparência, sem esperança. Mas o ter ele início numa terra de todo inculta e numa terra sem limites aumenta-lhes a energia, em vez de a diminuir; assim como a vinda oportuna dos jesuítas é para o Brasil uma sorte, o Brasil é, por sua vez, uma sorte para eles, porque é a oficina ideal para seu apostolado. Só pelo fato de ninguém no Brasil haver atuado antes deles, e ninguém atuar a seu lado, podem eles aqui realizar em toda extensão uma experiência de importância histórica. Matéria e espírito, substância e forma, uma terra deserta, inteiramente inorganizada e um método de organização ainda não experimentado combinam-se para criar algo novo e vivo.
     Uma felicidade especial nesse ditoso encontro de uma poderosa tarefa com uma energia ainda mais poderosa, que se prepara para realizá-la, é a presença de um verdadeiro chefe. Manuel da Nóbrega, a quem a incumbência, recebida de seu provincial, de seguir para o Brasil nem dá tempo de ir a Roma receber instruções pessoais do superior geral da Companhia, Inácio de Loyola, está na plenitude de seu vigor. Conta trinta e dois anos e estudou na Universidade de Coimbra, antes de haver ingressado na Companhia. Mas não é seu especial saber teológico que lhe confere grandeza histórica, e sim sua enorme energia e sua força moral. Nóbrega — que é estorvado por um defeito no falar — não é como Vieira um grande pregador, nem como Anchieta um grande escritor. É, antes de tudo, um lutador, na concepção de Loyola. Nas expedições para libertar o Rio de Janeiro ele é a força impulsiva do exército e o conselheiro estratégico do governador geral; na administração revela as capacidades ideais de um organizador genial, e à clarividência que se sente em suas cartas, junta uma energia heróica que faz não temer sacrifício algum de si próprio. Somadas apenas as viagens de inspeção que naqueles anos empreendeu ele do norte para o sul, do sul para o norte e através do território, já elas encerram centenas e quiçá milhares de noites cheias de preocupações e de perigos. Em todos aqueles anos é ele governador ao lado do governador, mestre dos mestres, fundador de cidades e pacificador, e não há acontecimento importante na História do Brasil daquela época a que não esteja ligado o seu nome. A reconquista do porto do Rio de Janeiro, a fundação de São Paulo e Santos, a pacificação das tribos inimigas, a criação de colégios, a organização do ensino e a libertação dos aborígenes são sobretudo obra sua. Por toda parte era Nóbrega o iniciador; podem seus discípulos e sucessores, de Anchieta a Vieira, ter-se tornado mais populares do que ele no Brasil, mas não fizeram mais do que desenvolver idéias dele; onde construíram, já encontraram os alicerces. Na História do Brasil, essa “obra sem exemplo na História”? foi a mão de Nóbrega que escreveu a primeira página, e todos os traços feitos por essa mão enérgica e firme permaneceram indeléveis até o presente.

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     Os primeiros dias após a chegada dedicam os jesuítas a tomar conhecimento da situação. Antes de ensinar querem aprender, e imediatamente um deles trata de, o mais depressa possível, aprender o idioma dos aborígenes. Já à primeira vista se vê que estes ainda se acham no mais baixo grau da época nômade. Andam inteiramente nus, não conhecem o trabalho, não possuem ornamentos, nem os mais primitivos utensílios. O de que precisam para comer tiram das árvores ou dos rios; logo que consomem tudo o que encontram numa região, mudam-se para outra. Constituem uma raça de boa índole e mansa; guerreiam-se entre si, apenas para fazerem prisioneiros, que devoram no meio de grandes solenidades. Mesmo esse uso canibalesco, porém, não deriva de uma especial crueldade de sua natureza; ao contrário, esses bárbaros dão ainda uma de suas filhas ao prisioneiro como esposa e o tratam muito bem até matá-lo. Quando os sacerdotes tentam desabituá-los do canibalismo, esbarram mais com admiração, da parte deles, do que com verdadeira resistência, pois esses selvagens ainda vivem fora de toda noção de civilização ou de moral, e devorar prisioneiros para eles não significa senão um prazer tão inocente como beber, dançar ou dormir com mulheres.
     Esse ínfimo grau do modo de viver parece a princípio um obstáculo invencível para a obra dos jesuítas, mas, na realidade, facilita-lhes a tarefa. Como essas criaturas nuas não possuem idéias religiosas ou morais, é muito mais fácil incuti-las nelas do que em povos em que já domina um culto próprio e em que magos, sacerdotes e xamanes com indignação se opõem ao missionário. A população aborígene do Brasil, ao contrário, é, como diz Nóbrega, um “papel em branco” que macio e dócil aceita a nova prescrição e acolhe todo ensino. Por toda parte os aborígenes recebem sem nenhuma desconfiança os “brancos”, os sacerdotes: “Onde quer que vamos, somos recebidos. com grande boa vontade”. Sem hesitação deixam que eles os batizem e de boa vontade e gratos seguem — e por que não? — os sacerdotes, os “brancos bons”,. que os protegem contra os outros, os “brancos maus”. Naturalmente os jesuítas, como realistas experimentados e sempre atentos, sabem que esse assentimento. indolente e irrefletido, que o ajoelhar-se e o persignar-se de canibais, absolutamente ainda não é verdadeiro cristianismo; mesmo no mais célebre defensor de sua missão em São Paulo, em Tibiriçá, observam-se às vezes reincidências no canibalismo. Os jesuítas não esperdiçam o tempo com estatísticas ostentadoras relativas às almas já conquistadas; sabem que sua verdadeira tarefa está no futuro. Em primeiro lugar é preciso apenas fazer com que essas massas nômades se fixem em sítios, para que se possa tomar conta de seus filhos e dar-lhes instrução. A atual geração, canibalesca, esta já não é possível civilizar de fato. Mas será facil educar, de acordo com a civilização, as crianças, portanto as gerações vindouras. Por isso, para os jesuítas, o mais Importante é criar escolas em que, muito previdentemente, começam com aquela idéia de mescla sistemática que fez do Brasil uma unidade e que sozinha o manteve como unidade. Conscientemente reúnem crianças das choças dos selvagens com os mestiços, já numerosos, e insistentemente solicitam que enviem crianças brancas de Lisboa, ainda que sejam apenas as crianças abandonadas, desamparadas, que são apanhadas nas ruas de Lisboa. Todo elemento novo que favoreça a mescla, é bem recebido por eles, mesmo o constituído pelos — “moços perdidos, ladrões e maus que aqui chamam de patifes”. Eles têm interesse em criar os mestres do povo por meio do próprio sangue do povo, pois os aborígenes no ensino religioso confiam mais nos irmãos da mesma cor ou de cor mesclada, do que nos estrangeiros, nos brancos. Ao contrário dos outros, os jesuítas pensam exclusivamente nas gerações vindouras; realistas e calculistas exatos e clarividentes, são os únicos que têm uma visão verdadeira do Brasil futuro, e, ainda antes que qualquer geógrafo tenha idéia da vastidão desta terra, eles pautam seu trabalho por um padrão exato. O que eles fazem é um plano de campanha para o futuro, e o objetivo desse plano, que permanece fixo através dos séculos, é a constituição desta nova terra no sentido duma única religião, dum único idioma, duma única idéia. Haver sido alcançado esse objetivo é um motivo de eterna gratidão do Brasil a esses missionários que tiveram a idéia de fazer dele uma nação.

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     A verdadeira resistência com que em seu grandioso plano de colonização, esbarram os jesuítas, não provém, como a princípio poderia esperar-se, dos aborígenes, dos selvagens, dos canibais, e sim dos europeus, dos cristãos, dos colonos. Até então, para aqueles soldados evadidos, marinheiros desertados, para os degredados, o Brasil era um paraíso exótico, uma terra sem lei, sem restrições e deveres, uma terra em que podia cada um fazer e deixar de fazer o que bem lhe aprouvesse. Sem serem seriamente importunados pela justiça ou pela autoridade, podiam eles permitir-se livre curso aos instintos desregrados; o que na pátria era punido com grilhões e ferrete, no Brasil era considerado prazer permitido, de acordo com a doutrina dos conquistadoras:- “Ultra equinoxialem non peccatur”. Eles se apossavam de terras, onde quisessem e na quantidade que quisessem; capturavam aborígenes onde quer que os encontrassem e, a chicote, os obrigavam a trabalhar. Apossavam-se de toda mulher que encontravam, e o enorme número de mestiços patenteou, em breve, a difusão dessa poligamia desenfreada. Não havia ninguém para lhes impor autoridade, e, por isso, cada um desses indivíduos que, em sua maioria, ainda traziam nas espáduas as marcas do ferrete da casa de correção, vivia, como um paxá, sem se importar com direito e religião e, sobretudo, sem jamais mover as mãos para realmente trabalhar. Ao invés de civilizarem a terra, aqueles primeiros colonos mesmos estavam asselvajados.
     Impor disciplina àquela corja brutal, habituada ao ócio e à violência, é tarefa árdua. O que mais horroriza aos piedosos sacerdotes é a desenfreada poligamia e a devassidão. Mas, doutra parte, como culpar esses homens de viverem aqui em concubinato, se não têm eles possibilidades de casar legalmente e constituir família? Como constituírem família, base única da sociedade, se aqui não há mulheres brancas? Por isso, Nóbrega insiste junto a el-Rei para que de Portugal envie mulheres: “Mande Vossa Alteza mulheres órfãs, porque todas casarão”. E como não é de esperar que os fidalgos de Portugal mandem suas filhas para essas terras longínquas, a fim de que procurem elas esposo entre esses devassos, Nóbrega, em sua grande nobreza de espírito, chega a pedir ao rei que envie também as jovens decaídas, as meretrizes das ruas de Lisboa. No Brasil todas encontrariam esposo. Após algum tempo as autoridades religiosas e seculares conseguem estabelecer certa ordem nos costumes. Mas na colônia inteira esbarram eles com uma resistência encarniçada: com a questão da escravidão, que do começo ao fim, de 1500 até quase 1900, é o ponto nevrálgico do problema brasileiro. A terra precisa de braços e não os há aqui em quantidade suficiente. Os poucos colonos não bastam para plantar cana e para trabalhar nos engenhos. Ademais, esses aventureiros e conquistadores não vieram para esta terra tropical, a fim de aqui trabalhar de enxada e pá. Querem aqui ser senhores; por isso, resolvem a dificuldade, apanham os aborígenes como os caçadores apanham lebres e, a chicote, os fazem trabalhar, até que os infelizes caem sem forças. A terra pertence-lhes, argumentam esses aventureiros, com tudo que existe em cima e em baixo dela, portanto lhes pertencem também todos aqueles animais bípedes de cor escura; é-lhes indiferente que esses pereçam ou não no trabalho; para substituir um que morre, vão buscar na alegre caça de índios sessenta outros, e ela constitui um divertido esporte.
     Contra essa cômoda idéia intervêm então, energicamente, os jesuítas, pois a escravidão com o despovoamento da terra vai diretamente contra seu plano grandioso e bem traçado. Não podem tolerar que os colonos reduzam os aborígenes a animais de trabalho, porque eles, discípulos de Loyola, impuseram a si, precisamente como a mais importante tarefa, conquistar esses selvagens para a fé, para a terra e para o futuro. Todo aborígene lívre é-lhes um ser necessário para o povoamento e para a civilização. Ao passo que é do interesse dos colonos atiçar as diferentes tribos a constantes combates entre si, a fim de que elas depressa se exterminem e, após toda luta, possam ser comprados os prisioneiros como mercadoria barata, procuram os jesuítas conciliar as tribos entre si e isolá-las umas das outras, no vasto território, por meio do estabelecimento de povoados. O aborígene, como futuro brasileiro e cristão conquistado, constitui para eles a substância talvez mais preciosa desta terra, substância mais importante do que a cana, o pau-brasil e o fumo, por causa dos quais ele é escravizado e exterminado. Como o alimento essencial, o alimento querido por Deus, querem eles colocar na gleba esses entes humanos ainda incultos, como o fazem com os frutos e as plantas que consigo trouxeram da Europa, em vez de permitir que eles depereçam e se asselvagem ainda mais. Expressamente exigem, pois, do rei que seja determinada a liberdade dos aborígenes; segundo o plano dos missionários, não deverá haver no Brasil futuro uma nação de senhores, de brancos, e uma nação de escravos, de escuros, mas sim apenas um povo único e livre, numa terra livre.
     Sem dúvida,, mesmo uma carta e uma ordem régias a três mil milhas de distância perdem muito de sua força imperiosa, e uma dúzia de sacerdotes, dos quais a metade se acha sempre percorrendo o território em viagens de missões sem repouso, é muito fraca contra a vontade interesseira da colônia. Para salvarem ao menos uma parte dos aborígenes, têm os jesuítas que transigir na questão dos escravos. Têm que concordar em que sejam escravos dos colonos os índios feitos prisioneiros em lutas “justificadas”, isto é, em lutas de defesa contra os aborígenes, e naturalmente essa cláusula do acordo encontra a mais flexível e elástica interpretação. Além disso, a fim de não serem inculpados de impossibilitarem o progresso rápido da colônia, vêem-se na contingência de aprovar a importação de negros da África. Mesmo esses homens de espírito elevado e humanitário não podem subtrair-se à opinião da época, para a qual o escravo negro é — evidentemente uma mercadoria como o algodão ou a madeira. Nessa época, em Lisboa, uma capital européia, já existem dez mil escravos negros. Nessas condições, por que não permitir que a colônia também os possua? Até os próprios jesuítas se vêem na necessidade de adquirir negros para si; com todo o sangue frio declara Nóbrega que adquiriu três escravos e algumas vacas para o primeiro colégio. Mas os jesuítas se mantêm firmes e inflexíveis no princípio de que os aborígenes não podem ser caça livre para qualquer aventureiro que aqui chegue; eles defendem cada um dos seus neófitos, e essa inflexibilidade com que lutam pelo direito dos brasileiros de cor, será a sua desgraça. Nada tornou tão difícil a situação dos jesuítas no Brasil quanto essa luta pela idéia brasileira do povoamento e da nacionalização do território por meio de homens livres, e com tristeza. reconhece isso um deles, quando escreve: “Teríamos vivido muito mais tranqüilos, se só houvéssemos ficado nos colégios e nos houvéssemos limitado a unicamente prestar Serviço religioso.” Mas o fundador da Companhia não fora em vão soldado; educara seus discípulos para a luta por uma idéia. E essa idéia eles trouxeram com suas vidas para a nova terra: a idéia de nacionalizar o Brasil.

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     Ter Nóbrega, em seu plano de conquista do futuro império, reconhecido imediatamente o ponto exato em que deveria ser lançada a ponte para o porvir, revela que grande estrategista era ele. Pouco depois de sua chegada à Bahia, criou sua primeira escola, e com os padres que posteriormente chegaram visitou, em viagens penosas e fatigantes, todo o litoral, desde Pernambuco até Santos, e fundou casa em São Vicente. Mas ainda não encontrou o ponto conveniente para o colégio principal, para o centro espiritual e religioso que pouco a pouco deverá atuar sobre todo o território. À primeira vista essa procura cuidadosa, bem deliberada, dum conveniente fulcro, é incompreensível. Por que não transfere Nóbrega seu quartel general para a Bahia, a capital, a sede do Governo e do Bispado? Mas nesse ponto percebe-se, pela primeira vez, um antagonismo oculto que com o tempo se vai tornar patente e, afinal, até violento. A Companhia de Jesus não quer começar essa obra sob as vistas do Estado e nem mesmo do Papa; desde o começo têm os jesuítas em relação ao Brasil um problema e um objetivo mais elevado do que serem aqui apenas um elemento colonizador, com função de ensino e de auxílio, subordinado à Coroa e à Cúria. O Brasil para eles é um objeto de experiência decisiva, um objeto para a primeira prova da capacidade de realização da força organizadora da Companhia de Jesus, e Nóbrega di-lo sem rodeios: “esta terra é nossa empresa”, e com isso quer dizer: somos responsáveis pela sua realização perante Deus e a humanidade. Os jesuítas tinham, sem dúvida, um objetivo especial, examinado a fundo por eles e não inteiramente perceptível pelos outros. Eis o motivo da desconfiança oculta que os acompanhou no Brasil, desde o começo, através da História. O que, consciente ou inconscientemente, se esforçam por conseguir, não é apenas a formação duma colônia portuguesa entre todas as outras colônias portuguesas, mas sim a duma comunidade teocrática, dum tipo novo de Estado, não sujeito às forças do dinheiro e do poder, como tentaram mais tarde criar no Paraguai. Desde o primeiro instante quiseram com o Brasil criar algo sem par, algo novo, algo de modelo, e uma concepção como essa teria de entrar, mais cedo ou mais tarde, em conflito com as idéias mercantis e feudais da corte portuguesa. Certamente não pensavam em se apossar do Brasil com o intuito de dominá-lo e explorá-lo para sua Companhia e para os fins desta, como afirmam seus inimigos.
     Que, porém, eles queriam, em relação ao Brasil, mais do que serem aqui apenas pregadores do Evangelho, que com sua presença queriam implantar e realizar aqui mais e alguma coisa diferente do que realizavam as outras ordens, sentiu-o desde logo o Governo, que, agradecido, se servia deles, mas os vigiava com uma leve suspeita, sentiu-o a Cúria, que não estava disposta a dividir sua autoridade espiritual com ninguém, sentiram-no os colonos, que em sua colonização meramente interesseira se consideravam estorvados pelos jesuítas. Exatamente porque não queriam nada de visível, mas sim a realização dum princípio espiritual, idealista e, portanto, incompreensível para as tendências da época, tiveram os jesuítas desde o começo, constante oposição contra si, a qual, por fim, haveria de vencê-los, expulsando-os da terra em que, apesar de tudo e de todos, plantaram a semente fecunda. Foi, portanto, muito bem deliberadamente que Nóbrega, a fim de evitar, por maior tempo possível, esse conflito de competições, quis estabelecer sua Roma, sua capital espiritual, longe da sede do Governo e do Bispado; só onde ele pudesse atuar sem ser impedido e vigiado, poderia dar-se aquele processo lento e laborioso de cristalização que ele não perdia de vista. Essa transferência do centro de ação do litoral para o interior importa, tanto no ponto de vista geográfico, como no do objetivo de catequese, numa vantagem bem considerada. Só uma encruzilhada do interior, protegida, pela cadeia de montanhas, contra agressões de piratas vindos do mar e, apesar disso, próxima do oceano, mas também próxima das diversas tribos que tinham que ser conquistadas para a civilização e cuja vida nômade tinha de ser transformada em vida de sede fixa, poderia ser a célula germinativa ideal.
     A escolha de Nóbrega recai em Piratininga, a cidade de São Paulo de hoje, e a evolução histórica ulterior revelou a genialidade de sua decisão, pois a indústria, o comércio e o espírito empreendedor do Brasil, ainda após centenas de anos, seguiram sua escolha inspiradora. No mesmo local em que ele com seus auxiliares, a 25 de janeiro de 1554, levantou aquela “paupérrima e estreitíssima casinha”, acha-se boje uma grande capital moderna, com seus arranha-céus, fábricas e ruas movimentadíssimas. Nóbrega não poderia ter feito melhor escolha. O clima desse planalto é temperado, o solo é fértil, existe perto dali um porto, e rios garantem a comunicação com grandes cursos d’água, com o Paraná e o Paraguai, e por meio destes com o Rio da Prata; de Piratininga podem os missionários avançar em todas as direções para as diversas tribos e fazer irradiar sua obra de catequese. Além disso, não há por enquanto nenhuma colônia de degredados corruptora das costumes, na proximidade da pequena povoação, a qual sabe logo conquistar por meio de pequenos presentes e bom trato a amizade das tribos vizinhas. Sem muita dificuldade os aborígenes deixam que os sacerdotes os reunam para formarem pequenas aldeias, para constituírem aqueles comunidades, muito semelhantes às coletividades russas de hoje, e pouco tempo depois já pode Nóbrega dizer: “Vai-se fazendo uma formosa povoação”. A Companhia ainda não possui, como mais tarde, ricos bens de raiz, e os parcos meios a princípio apenas permitem a Nóbrega desenvolver o colégio em pequenas proporções. Mas, em todo caso, em breve se forma no colégio uma série de sacerdotes, brancos e de cor, que, uma vez aprendido o idioma dos selvagens, vão como missões volantes de tribo a tribo, a fim de as irem tirando da vida nômade e conquistando para a fé. Acha-se estabelecido um entroncamento, a primeira “escola para muitas nações de índios”, e rapidamente se forma entre o missionário e as tribos domiciliadas um sentimento leal de solidariedade. Por ocasião do primeiro assalto por bandos errantes, já são os recém batizados que, com devotado sacrifício, sob o comando de seu chefe Tibiriçá, repelem o ataque. A grande experiência de povoamento de orientação religiosa, que depois na república jesuítica do Paraguai vai ter a sua criação sem par, está iniciada.
     Mas a fundação de Nóbrega constitui também um grande progresso no ponto de vista nacional. Pela primeira vez se estabelece certo equilíbrio para o futuro Estado. Ao passo que até então o Brasil era propriamente apenas uma faixa de litoral com suas três ou quatro cidades marítimas no norte, as quais comerciavam exclusivamente com produtos tropicais, começa então também no sul e no interior a desenvolver-se a colonização. Em breve essas energias que lentamente foram reunidas, de modo fecundo avançarão para o interior e, por curiosidade própria e sofreguidão, irão explorar terras e rios, em toda extensão. Com a primeira povoação disciplinada do interior a idéia preconcebida já se transformou em ação.

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     O Brasil conta apenas uns cinqüenta anos de idade, quando, após movimentos fetais incertos, pela primeira vez começa a dar sinais de vida própria e verdadeiramente consciente. De modo lento vão aparecendo os primeiros resultados da organização colonial. As plantações de cana da Bahia e de Pernambuco, embora ainda feitas de modo primitivo, fornecem abundantes lucros. Cada vez mais chegam navios a fim de buscarem matérias primas em troca de mercadorias; ainda não são muitos os que se arriscam, a viajar para o Brasil, e quase nenhum livro dá ao mundo notícia deste vastíssimo mundo. Mas precisamente essa maneira hesitante e esporádica pela qual a colônia atrai para si a atenção do comércio mundial, é, em última análise, a felicidade do Brasil, porque lhe permite um desenvolvimento orgânico. Em tempo de conquistas e de violências é sempre, antes uma vantagem para um território permanecer despercebido e não cobiçado; os tesouros que Albuquerque viu nas Índias e nas Molucas, as presas que Cortez levou do México e Pizarro do Peru para a pátria, desviam do Brasil, de maneira verdadeiramente feliz, a atenção e a cobiça das outras nações. A Terra dos Papagaios continua a ser considerada como uma quantidade desprezível, pela qual nem a própria metrópole, nem os outros países seriamente se interessam.
     Não é, pois, propriamente um ato manifesto de guerra fundear em 10 de novembro de 1555 uma pequena frota com o pavilhão francês na baia de Guanabara e numa de suas ilhas desembarcar algumas centenas de homens, pois o Rio de Janeiro então ainda não é uma cidade, nem apenas um povoado. Na meia dúzia de choças esparsas que ali existem, não há um soldado, um funcionário da Coroa portuguesa, e o singular aventureiro que ali iça a bandeira, não encontra oposição alguma à sua ousada aventura. Figura equívoca e atraente, aquele cavaleiro de Rodes, Nicolau Durand de Villegaignon, meio pirata, meio erudito, é um tipo perfeitamente autêntico da Renascença. Conduziu Maria Stuart da Escócia para a corte do rei da França, distinguiu-se na guerra e deleitou-se nas artes. Ronsard tece-lhes louvores, e a corte o teme, porque ele é de conduta imprevisível, espírito de azougue, a quem toda atividade regrada repugna e que desdenha do melhor emprego, das mais altas dignidades, a fim de, livre e desembaraçado, poder entregar-se a seus caprichos, muitas vezes, fantásticos. Para os huguenotes ele é católico, e para os católicos, huguenote. Ninguém sabe a que causa serve, e ele próprio não sabe de si talvez senão que gostaria de realizar algo de grande e especial, algo diferente do que os outros realizam, algo de mais brutal, mais ousado, mais romântico e mais singular. Na Espanha ter-se-ia tornado um Pizarro ou Cortez, mas seu rei, inteiramente ocupado com o país, não organiza conquistas coloniais. Por isso o sôfrego Villegaignon tem que inventar uma. Reúne alguns navios, enche-os de algumas centenas de homens, na sua maioria huguenotes que se sentem mal na França dos Guises, mas também católicos que querem vir para o Novo Mundo, e ávido de glória, como é, previdentemente traz logo consigo um historiador, André Thevet, pois o que sonha não é nada menos do que fundar uma França Antártica, da qual quer ser criador, governador e talvez até príncipe com poderes absolutos. Até que ponto a corte francesa tinha conhecimento desses planos, até que ponto ela os aprovou e mesmo favoreceu, dificilmente se poderá saber. É provável que, no caso de bom êxito, Henrique II se tivesse apossado do seu feito, como fez Isabel da Inglaterra com os dos seus piratas Raleigh e Drake; primeiramente deixa Villegaignon tentar sua sorte apenas como particular, a fim de não cometer uma falta para com a Coroa portuguesa com uma missão e anexação oficial.
     Villegaignon, como soldado experimentado, tendo primeiramente em vista a defesa, constrói logo depois de sua chegada, na ilha que hoje tem o seu nome, um forte que denomina Coligny, em homenagem ao almirante huguenote, ao passo que, como prova de respeito ao seu rei, denomina ostentosamente Henrivile a futura cidade fronteira, que, por enquanto, não passa de pântanos e colinas desertas. Inescrupuloso em coisas religiosas, como para essa sonhada colônia não mais encontre na França outros católicos, manda buscar em 1556 um carregamento de calvinistas de Genebra, cuja presença na pequena colônia em breve vai dar lugar a rixas religiosas. Pregadores de duas religiões, que mutuamente se qualificam de hereges, são demais numa pequena ilha. Mas, em todo o caso, a França Antártica está fundada e os franceses, porque não toleram roubos de escravos, dentro de pouco tempo se acham em ótimo acordo com os aborígenes, com os quais entretêm vivo comércio. A partir de então navios franceses viajam regularmente entre a França e esta colônia, ainda não oficialmente reconhecida por ela, como se a mesma fosse seu porto.
     Essa invasão absolutamente não pode ser indiferente ao governador português na Bahia. Segundo o princípio de direito então em vigor, as águas do litoral brasileiro constituem um mare clausum e navios estrangeiros não têm permissão de aportar às costas desse mar e de nelas comerciar. Instalar um forte com militares estrangeiros no melhor porto da colônia importa na separação entre o sul e norte e, com isso, na destruição da unidade do Brasil. A mais natural obrigação do governador geral seria desarmar os navios estrangeiros e arrasar tudo o que o inimigo construíra, mas ele não tem poderio para um empreendimento militar de tal vulto. As poucas centenas de soldados que vieram para o Brasil, entrementes já há muito se fizeram agricultores ou donos de plantações, e, após anos de vida cômoda, estão pouco dispostos a vestir novamente a armadura; à geração nova ainda falta qualquer sentimento nacional, qualquer idéia de comunidade. Em Portugal não há a noção exata do perigo, e, como sempre, também não há o dinheiro necessário para uma expedição rápida. O Brasil ainda continua para a Coroa a não ser suficientemente importante para que por sua causa se prepare uma frota dispendiosa. Por isso têm os franceses muito tempo para constantemente se fortalecer e entrincheirar. Só quando um novo governador geral, Mem de Sá, em 1557 é enviado para a Bahia, começam os preparativos para uma ação contra os intrusos. Mem de Sá deposita toda a confiança: em Nóbrega e submete-se inteiramente à sua autoridade espiritual. É de novo Nóbrega quem com toda a sua energia férrea exige uma atuação oportuna contra os franceses. Os jesuítas conhecem melhor o Brasil e estão mais preocupados com o seu futuro do que os negociantes de Lisboa, que dão valor às terras exclusivamente pelo rendimento momentâneo das especiarias produzidas pelas mesmas; os jesuítas sabem que, se os huguenotes franceses conseguirem fixar-se definitivamente nesta colônia, com isso estará para sempre destruída não só a unidade do Brasil, mas também a da religião. O governador geral e Nóbrega alternativamente enviam cartas e mais cartas para Portugal, a fim de pedir que se “faça socorrer a esse pobre Brasil”. Mas Portugal, um segundo Atlas, tem que suportar sobre os fracos ombros um mundo inteiro, e ainda decorrem dois anos até que afinal, em 1559, alguns navios cheguem ao Brasil e Mem de Sá possa pensar numa pequena ação militar contra os intrusos.
     O verdadeiro chefe da expedição é Nóbrega, que, junto com Anchieta, conseguiu o maior número possível de seus neófitos, a fim de fortalecer a tropa portuguesa, que é fraca. Junto com o governador geral aparece ele, em 18 de fevereiro de 1560, diante do Rio, e, logo que em 15 de março chegam de São Vicente as tropas auxiliares que rapidamente foram reunidas, desencadeia-se a tempestade sobre o forte de Villegaignon. Para nós hoje essa importante ação, -sem dúvida, parece uma espécie de guerra entre sapos e ratos. Cento e vinte portugueses e cento e quarenta índios investem contra o forte Coligny, que é defendido por setenta franceses e alguns indígenas. Os franceses não conseguem resistir e a tempo refugiam-se na terra firme, junto dos aborígenes seus amigos, a fim de nos morros novamente se entrincheirarem. Para os portugueses isso é uma vitória, pois o forte Coligny, a bastilha, está tomada; sem perseguirem ou aniquilarem os franceses, regressam eles para a Bahia e São Vicente.
     Mas é apenas uma meia vitória, pois os franceses continuam no Brasil. Foram rechaçados ao todo cerca de um quilômetro, portanto uma distância que hoje de automóvel se percorre em um a dois minutos. Eles se acham livremente no porto como antes, continuam seu comércio, carregam e descarregam navios, constróem no Morro da Glória outro forte, incitam os tamoios, os índios que são seus amigos, contra os portugueses, e o primeiro ataque a São Paulo por parte de membros dessa tribo foi provavelmente organizado por eles. Mas Mem de Sá não tem forças para expulsar os intrusos. Como sempre no Brasil, desde o começo até hoje, a falta é a mesma: há pouca gente. Mem de Sá não pode dispensar um só braço na Bahia; se o fizer, a produção do açúcar, o principal elemento da economia do Brasil, cessa; além disso,. uma terrível peste matou a maior parte da população. Sem ajuda de Portugal é, pois, impossível expulsar os franceses de suas posições, e essa ajuda faz-se esperar interminavelmente; os colonos de Villegaignon permanecem, sem serem molestados, mais cinco anos no Rio. É novamente Nóbrega quem incessantemente insiste junto à Corte, advertindo-lhe muitas vezes que, se em vez de Portugal, são os franceses que continuam a enviar socorros, a Coroa perderá definitivamente a Baia do Rio de Janeiro e com ela o Brasil. Afinal a rainha escuta suas insistentes súplicas e envia de Lisboa Estácio de Sá, que com as tropas auxiliares preparadas no Brasil, ataca o inimigo. De novo têm início com massas liliputianas as ações bélicas. A 1o. de março de 1565 Estácio de Sá entra com sua frota de guerra na baia de Guanabara e assenta seu acampamento ao pé do Pão de Açúcar, além donde hoje é o bairro da Urca. Mas, fato que hoje nos custa conceber, antes que se dê o ataque ao Morro da Glória, cuja distância ao Pão de Açúcar, de auto, se percorre exatamente em dez minutos, passam-se mais de vinte meses. Só a 20 de janeiro de 1567 Estácio de Sá com seus soldados se lança no ataque ao inimigo. E, num combate de poucas horas e com uma perda de vinte ou trinta homens, dá-se a decisão de importância histórica: se no futuro essa cidade se chamará Rio de Janeiro ou Henrivilie, se o Brasil será um país de língua portuguesa ou de língua francesa. Com duas ou três dúzias de soldados travavam-se então, tanto nas Índias como na América, combates que deveriam determinar a forma e o destino do nosso continente por séculos. Estácio de Sá, ferido por uma flecha, paga a vitória com a sua vida. Mas dessa vez a vitória é decisiva. Os franceses fogem para seus quatro navios e não levam para a França senão a notícia do fumo, cujo alcalóide, em homenagem ao embaixador Jean Nicot, é mais tarde denominado nicotina. Sobre os destroços do forte francês, no Morro da Glória, um bispo benzerá a igreja da futura capital do Brasil.
     Foi um combate liliputiano, mas salvou a unidade do Brasil: o Brasil pertence aos brasileiros. Mas agora é preciso desenvolver a colônia, e para isso se seguem quase cinqüenta anos de completa paz para ela. Lentamente se vão alargando os limites para a Paraíba, para o Rio Grande do Norte e para o interior; as povoações dos jesuítas em São Paulo começam a desenvolver-se de modo fecundo, as plantações do litoral fornecem produtos em abundância, e, além da sempre crescente exportação de açúcar e de fumo, prospera outro negócio, um negócio pouco decente, a importação de “marfim preto”. De mês para mês trazem-se carregamentos cada vez maiores de escravos africanos da Guiné e do Senegal, e os infelizes que não morrem durante a viagem, nos navios abarrotados e fedorentos, são vendidos no grande mercado da Bahia. Durante algum tempo essa multidão de negros e o surpreendente número de mamelucos gerados pelos portugueses, esses mestiços de todos os matizes, ameaçaram fazer desaparecer a influência civilizadora européia; nas cidades do litoral existe, duma parte, um punhado de empresários, que, se enriquecem sem limites, e, doutra parte, um sem número de escravos; sem o trabalho equilibrante dos jesuítas, que, por toda a parte, no interior do país,. instalam fazendas e educam os aborígenes para o cultivo do solo, impedem o extermínio destes e, sem preconceitos, favorecem a mestiçagem, talvez o Brasil se tornasse um país africano, porque a Europa se mostrava absolutamente indiferente. Essa Europa, envolvida em numerosas guerras, não tem mais colonos para fornecer, e lá só se encontram poucos indivíduos sagazes, que paulatinamente vão compreendendo o valor desta terra; já em 1587 Gabriel Soares de Sousa escreve em seu roteiro as seguintes palavras proféticas: “Estará bem empregado todo cuidado que Sua Majestade mandar ter deste novo reino, pois está capaz para se edificar nele um grande império o qual com pouca despesa deste reino se fará tão soberano que seja um dos estados do mundo”.
     Mas há muito já se foi o tempo em que o Portugal que dominava a metade do mundo, ainda poderia ajudar a alguém, pois seu grandioso sonho romântico, de, para si e para a religião cristã, conquistar os três continentes inteiros, se acabou. O pequeno e valoroso país não se contentara de possuir ambas as costas da África, a oriental e a ocidental, e de submeter as Índias a seu monopólio comercial. El-Rei D. Sebastião, o último e o mais usado sonhador dessa família heróica, sonha com uma cruzada que, duma vez para sempre, deverá dar cabo do poderio muçulmano. Ao invés de distribuir suas melhores forças, seus cavaleiros, seus soldados, pelas colônias e conservar por meio de organizações práticas — o reino dos “Lusíadas”, qual um cavaleiro do Gral, vestido de armadura de prata, reúne todo o seu poder para formar um só exército e traslada-se para a África, a fim de com um só golpe aniquilar o inimigo hereditário, os mouros. Mas o golpe aniquilador não atinge os mouros e sim a ele próprio, e na batalha de Alcácer-Quibir, nessa última e seródia cruzada do Ocidente contra o Oriente, em 1578, é completamente aniquilado o exército português e morto D. Sebastião. A grande exaltação da vontade vingou-se cruelmente: Portugal, o pequeno país, que queria submeter a si o universo, perdeu sua própria independência, e a Espanha usurpou para si o trono que se achava vago. O país, exausto por milhares de batalhas, não pode oferecer resistência; Portugal como reino independente desaparece da História por sessenta e dois anos, de 1578 a 1640. Todas as suas colônias, e portanto também o Brasil, tornam-se possessões da coroa da Espanha.
     Filipe II domina por um instante mundial um império também mundial, que excede de muito o de Alexandre e o de Augusto; além da Península Ibérica, pertencem a esse habsburguês Flandres e toda a América já conhecida, três quartos da África e o reino das Índias conquistado pelos portugueses. E esse sentimento de força e de grandeza reflete-se na arte ibérica. Cervantes, Lope de Vega, Calderon produzem suas obras admiráveis; toda a riqueza do globo terrestre flui para esse país triunfante.
     O Brasil pouco participa desse triunfo e não tem dele vantagens; ao invés de ganhar em poder, a colônia, que até então não era importunada, pelo fato de, sem o provocar, pertencer ao Reino Ibérico, recebe a visita de todos os inimigos da Espanha; piratas ingleses saqueiam Santos, incendeiam São Vicente; os franceses estabelecem-se temporariamente no Maranhão; os holandeses invadem a Bahia e ali se apoderam dos navios. O Brasil tem que dolorosamente sentir quanto novas potências, desde o aniquilamento da “Invencível Armada”, disputam à Espanha o domínio dos mares. É verdade que nenhum desses atos de pirataria é de maior importância; eles causam apenas pequenos prejuízos e inquietações, que absolutamente não podem impedir o desenvolvimento da colônia. A situação para o Brasil só se torna perigosa quando na Holanda surge um plano bem traçado e bem estudado, não só de saquear portos, mas também de conquistar “het Zuckerland”, como esses bons comerciantes denominam o Brasil, de acordo com o seu melhor produto comercial.
     A Holanda, organizada exemplarmente no ponto de vista comercial, conhece bem o valor do Brasil, e dificilmente poderiam haver passado despercebidas aos seus atentos negociantes as palavras dos “Diálogos das grandezas do Brasil”, que diziam possuir este mais riquezas do que as Índias. Por isso não é uma casualidade o fato de em 1621 fundar-se em Amsterdam, segundo os moldes da Companhia das Índias, uma companhia das “Índias Ocidentais” com grande capital, ao que se diz, apenas para comerciar com o Brasil e a América do Sul, na realidade, porém, com uma segunda intenção, a de se apossar do Brasil para a Holanda e para o seu monopólio comercial. Nessa companhia há bons calculistas, que sabem que para um tão grande objetivo é necessário empatar grandes capitais. A fim de ocupar o Brasil e, coisa mais importante, a fim de depois conservá-lo em seu poder, não se pode, como fizeram os franceses, mandar dois ou três navios com colonos cansados da Europa e marinheiros às pressas assoldadados; é necessário preparar uma verdadeira frota e nela embarcar um exército treinado. Nada mostra mais evidentemente o desenvolvimento e a importância que o Brasil adquiriu aos olhos do mundo nesses últimos cinqüenta anos do que o vulto dos preparativos para a agressão. Ao passo que Villegaignon aqui aporta com dois ou três navios para fundar a França Antártica e então se travam os combates decisivos entre setenta e cem guerreiros improvisados, a companhia holandesa prepara desde logo vinte e seis navios com mil e setecentos soldados exercitados e com mil e seiscentos marinheiros.
     A primeira investida é contra a Capital. A 9 de maio de 1624 a Bahia é tomada quase sem resistência e os holandeses levam consigo imensa pilhagem. Só então desperta a Espanha; são enviados mais de cinqüenta navios com onze mil homens, que, com as tropas auxiliares indígenas vindas de Pernambuco, reconquistam a Bahia, antes que chegue a segunda frota holandesa com trinta e quatro navios. Reconhecendo-se o valor da colônia até então desprezada, já se centuplicaram os esforços para se conservar a posse da “Terra do Açúcar” — Forçada a recuar na Bahia, a companhia holandesa prepara-se com novos reforços para um novo ataque, e neste é bem sucedida. Em 1635 é ocupada a cidade de Recife e nos anos que se seguem, além da Bahia, todo o litoral do norte. A partir de então existe durante vinte e três anos, no norte do Brasil, um governo holandês.
     A atividade colonizadora desses vinte e três anos de governo holandês é, sem dúvida, grandiosa. Supera de muito tudo o que os portugueses fizeram em cem anos. Os holandeses possuem idéias de organização claras e já experimentadas. Não confiam a imigração e a administração a casuais elementos anárquicos, não enviam para o Brasil o refugo do seu país, e sim os seus melhores homens, providentemente escolhidos. Maurício de Nassau, que, como governador da coroa holandesa, administra a nova possessão, além de descender de sangue real, é um verdadeiro fidalgo, espírito perspicaz, superior e tolerante. Traz um estado maior de especialistas, engenheiros, botânicos, astrônomos, eruditos, para colonizar, para europeizar o Brasil. Nada é mais típico da inferioridade do material de civilização que, em comparação com os franceses e os holandeses, enviam para o Brasil os portugueses, do que não possuirmos acerca dos anos de juventude do Brasil nenhuma descrição de valor verdadeiramente literário, da autoria de um português, a não serem as cartas dos jesuítas, ao passo que os franceses, já, após poucos anos, dão ao mundo a obra sobre a “França Antártica”, e Maurício de Nassau faz com que por Barleus seja escrita aquela modelar obra de luxo, com estampas e plantas, que eterniza sua glória e suas atividades.
     Maurício de Nassau faz boa figura na História do Brasil. Como humanista trouxe a idéia de tolerância, permite a todas as religiões livre ação, possibilita a todas as artes fecundo desenvolvimento, e mesmo os velhos colonos não podem queixar-se de violência. Na cidade de Recife, em sua homenagem denominada Mauricéia, constroem-se palácios e casas de pedra, abrem-se ruas limpas, e as regiões circunjacentes são exploradas por geógrafos. Importam-se prensas hidráulicas modernas, para a indústria açucareira, tomam parte no comércio negociantes fugidos de Portugal, toda a vida pública é orientada para a estabilidade e o progresso. Garantem-se aos portugueses os seus direitos e aos aborígenes a sua liberdade. De certo modo, com bases humanitárias, realiza Maurício de Nassau o mesmo ideal do povoamento pacífico que com bases religiosas procuram conseguir os jesuítas.
     Mas a sorte do Brasil não se decide no Brasil e sim na Europa. Em 1640 Portugal libertou-se da Espanha e sob D. João IV readquiriu sua própria coroa. Com isso dai em diante toda a ocupação do Brasil pela Holanda não tem mais base jurídica. Um armistício dá repouso aos dois países e, como, por sua parte, a Holanda, a nova potência marítima, entra em conflito com a potência marítima, ainda mais nova, a Inglaterra, pode recomeçar-se a luta pela libertação do Brasil; pela primeira vez são forças brasileiras nacionais que a ateiam. Dessa vez não é tanto Portugal, mas sim já a própria colônia que luta pela sua unidade e liberdade. De novo são elementos eclesiásticos que assumem a chefia da luta,. porque reconhecem a importância vital de manter a terra brasileira livre de toda infiltração por elementos protestantes, cuja presença poderia trazer da Europa para o Brasil a guerra religiosa homicida. Em 1649 o Padre Antônio Vieira, uma das figuras diplomáticas mais geniais de sua época, funda em Lisboa uma companhia contra a holandesa, a “Companhia Geral de Comércio para o Brasil”, que, por iniciativa própria, prepara uma frota, e ao mesmo tempo improvisa-se no Brasil, de parceria com os proprietários daqui, que querem reaver suas plantações e engenhos, um exército nacional. Dá-se então um fato surpreendente. Enquanto Portugal ainda negocia com a Holanda e discute se o litoral brasileiro, e quanto deste, deve ficar com ele, e antes que a frota, que Portugal quer enviar em auxilio, parta, os brasileiros atuam por iniciativa própria; passo a passo são os holandeses rechaçados, Maurício de Nassau deixa o Brasil, e a 6 de janeiro de 1654, capitula Recife. o seu último baluarte; os holandeses retiram-se definitivamente. Ao passo que o utópico reino dos “Lusíadas” desaparece tão depressa como foi criado pelo momento fecundo de Portugal, o Brasil se conserva integro para si próprio.
     De um modo geral, o episódio holandês na História do Brasil representa uma sorte para este. Durou bastante para, por uma administração exemplar, fazer ver o que neste país, com organização boa e humanista, pode ser realizado e, por outro lado, não durou bastante para perturbar a unidade da língua e dos costumes portugueses; ao contrário, precisamente a ameaça por parte dum domínio estrangeiro criou e fomentou o sentimento nacional. Do norte ao sul, a colônia sente-se agora um país unido, que está unanimemente decidido a com violência afastar do seu organismo toda intervenção violenta em sua vida nacional: tudo o que é estrangeiro terá que dora em diante, amalgamar-se com o que é brasileiro, se aqui quiser manter-se. Na aparência, com essa guerra, o Brasil foi readquirido para Portugal, mas, na realidade, o foi já para si próprio.

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     Nessa guerra entre portugueses e holandeses pela primeira vez aparece esse novo elemento ainda desconhecido em suas energias e qualidades: o brasileiro.
     Lentamente começou a moldar-se o tipo brasileiro, e a princípio de maneira assaz antagônica. O litoral e o interior do país apresentam um aspecto absolutamente diverso. Nas cidades do litoral penetra constantemente sangue novo: imigrantes, comerciantes, marinheiros e escravos; nas aldeias do interior, ao contrário, conserva-se o mesmo sangue. Os habitantes do litoral são negociantes ou industriais primitivos; seu verdadeiro domicílio está além-mar e, sem quererem, com seus produtos e planos estão com os olhos sempre dirigidos para a Europa. Para os colonos, ao contrário, o domicílio é o solo, e só o solo gera o sentimento completo de união.
     A energia mais forte é a dos homens do interior. Eles residem onde não há segurança, e, afeitos ao perigo, começam a gostar dele. Sobretudo em São Paulo começa a formar-se um tipo curioso, o paulista. Constituído de portugueses ou de filhos de portugueses, que têm, no sangue, dum lado, o gosto da vida nômade dos índios, e, doutro lado, o gosto das aventuras dos antepassados europeus, essa nova geração não gosta de lavrar a terra que possui. Há muito que para eles esse trabalho grosseiro é feito por escravos, e a maneira lenta de adquirir riquezas não condiz com seu sangue irrequieto. Com lavoura e criação de gado não se enriquece, enquanto não são elas exercidas em grande escala, com centenas de escravos, e eles querem enriquecer à maneira de conquistadores, enriquecer de uma só vez, ainda que seja com risco da própria vida. Por isso, os habitantes de São Paulo, várias vezes no ano, se reúnem em grandes grupos, para, como bandeirantes, a cavalo, com um bandeira à frente e com um troço de servos e escravos, como outrora os salteadores, se embrenharem pelo interior, não, porém, sem antes fazerem benzer solenemente sua bandeira, numa igreja. Às vezes se reúnem até dois mil homens para tais entradas, e então, por alguns meses, a cidade e os povoados ficam sem homens. Eles próprios não sabem dizer o que vão procurar; são impelidos, em parte, pela aventura, em parte, pela esperança de um achado inesperado, nessas terras imensas e ainda não exploradas. Desde os dias em que os tesouros do Peru e as minas de Potosi foram descobertas, não cessam os boatos acerca dum lendário Eldorado. Por que não estaria ele no Brasil? Por isso os paulistas vadeiam os rios, sobem e descem morros, seguindo por caminhos escabrosos sempre novos, na direção em que o vento impele a bandeira que vai na frente, sempre impulsionados pela esperança de algures toparem com as minas lendárias. Enquanto o precioso metal não se deixa encontrar, enquanto o “hércules do sertão”, Fernão Dias, não descobre ao menos as esmeraldas, trazem eles outro produto: entes humanos. Nos primeiros decênios, essas entradas nada mais são que bárbaras e cruéis caçadas de escravos. Aos paulistas parece mais simples e, ao mesmo tempo, mais interessante, ao invés de comprarem negros no mercado da Bahia, capturarem com cavalos e cães, os aborígenes em sortidas animadas, que excitam os sentidos. Mas, afinal, acham que o mais cômodo é, ao invés de perseguirem com cães os índios amedrontados até grande distância pelas matas a dentro, irem simplesmente buscar os índios das colônias, onde os jesuítas os haviam estabelecido, com tanta ordem, e já os haviam ensinado a trabalhar.
     Está claro que essa cavalaria salteadora é de todo ilegal, pois el-Rei afirmou expressamente que os aborígenes são livres, e Anchieta queixa-se desesperado: “Para este gênero de gente não há melhor pregação que espada e vara de ferro”. Por mera cobiça de lucros, esses bandos destroem a obra de colonização dos jesuítas, penosamente realizada durante anos e anos; despovoam-lhes as colônias, levam o terror a regiões longínquas em que reina paz, escravizam e roubam seres humanos não só indefesos, mas também já civilizados e conquistados para o cristianismo. Mas os paulistas, graças à rápida adesão de muitos mestiços, já são tão fortes que preceitos e leis não podem intimidá-los; mesmo as bulas do Papa, contra essas entradas e bandeiras, não têm poder no sertão, nas matas virgens. Esse roubo de entes humanos cada vez se torna mais brutal e ao mesmo tempo vai penetrando mais no território, e na obra de Debret, “Vogage pittoresque au Brésil”, do começo do século dezenove, ainda encontramos um dos mais horrendos quadros, que representa a maneira pela qual homens, mulheres e crianças, todos nus, ajoujados a longas varas, são conduzidos como gado por esses brutais caçadores de índios.
     Todavia, esses bárbaros têm, na História do Brasil, um grande mérito. Foi sempre a cobiça, em si desprezível, de lucros rápidos, uma das mais potentes forças que impeliram o homem para regiões longínquas, foi ela que propeliu os navios fenícios, foi ela que atraiu os conquistadores para os continentes desconhecidos, foi ela que, não obstante ser o pior dos instintos, obrigou a humanidade a sair da estagnação e das comodidades. Assim, os bandeirantes, que só querem arrebatar e roubar, paradoxalmente realizam a obra civilizadora da construção do Brasil, pois, por suas penetrações bárbaras e sem objetivo, favorecem o conhecimento geográfico do país. Da Bahia, subindo o rio S. Francisco, de São Paulo, descendo o rio Paraná e o Paraguai, em direção a Minas, subindo a Serra e em direção a Mato Grosso e Goiás, atravessando as matas virgens, procuram e abrem os primeiros caminhos para o território incógnito e, enquanto despovoam, também povoam. Em certos lugares alguns deles deixam-se ficar; com isso originam-se novas células de povoamento, novos centros, dos quais nervos e artérias se estendem para regiões ainda não trilhadas. Operando com a mais encarniçada inimizade contra o plano de povoamento dos jesuítas, eles, com seus sôfregos avanços para o incógnito, aceleram a obra da penetração; representam “uma parte daquela força que constantemente quer o mal, e, apesar disso, cria o bem”, segundo as palavras de Goethe. Também eles tiveram boa parte na obra da criação do Brasil.
     São também paulistas os que em uma de suas entradas penetram nos vales inteiramente inabitados de Minas Gerais e ali no Rio das Velhas encontram o primeiro ouro. Um dos bandeirantes leva a nova para a Bahia e outro para o Rio de Janeiro. Imediatamente de ambas as cidades e de muitos outros lugares se estabelecem correntes migratórias para essas regiões inóspitas. Os donos de plantações levam consigo seus escravos, os engenhos são abandonados e soldados desertam; em alguns anos origina-se na zona do ouro um pequeno grupo de cidades: Vila Rica, Vila Real, Vila Albuquerque, com um total de cem mil habitantes. Pouco depois se descobrem diamantes. De um momento para outro o Brasil se torna a mais rica fonte de ouro do mundo e a mais preciosa possessão da coroa portuguesa, pie desde logo garante para si a quinta parte de todo o ouro achado, bem como todo o diamante com mais de vinte e quatro quilates.
     A nova província oferece a princípio o aspecto de um completo caos. Como nos primeiros tempos da colonização, naqueles vales remotos, porque ainda não são fiscalizados pelo Governo, sentem-se os intrusos fora da lei e do dever, e o governador geral esbarra como a seu tempo os jesuítas com decidida oposição, logo que quer introduzir ordem e disciplina. Os paulistas defendem-se contra os “emboabas”, os intrusos procedentes do litoral, e dão-se desesperadas lutas, nas quais afinal vence a autoridade de el-Rei. Em última análise é só a cobiça que reúne em bandos os cavadores de ouro, os quais não querem repartir com mais ninguém. as inesperadas riquezas. Mas, por trás de sua obstinada oposição, inconscientemente já atua como vontade mais elevada um sentimento de nacionalidade. Com essas primeiras revoltas contra a autoridade portuguesa os paulistas de modo puramente instintivo exigem, sem todavia formularem sua vontade, que toda riqueza do solo brasileiro pertença ao Brasil, acham absurdo que o ouro que eles — ou melhor, seus escravos — extraem, seja — empregado para a construção de palácios e de gigantescos conventos a milhares de milhas de distância, além-mar, num país que em toda sua vida nunca hão de ver. De certo modo esse primeiro levante, rapidamente dominado, dos cavadores de ouro, contra a autoridade portuguesa, já é o preâmbulo da grande luta pela independência, que, na mesma cidade, no mesmo lugar, meio século mais tarde, irá novamente descarregar suas forças reprimidas. É que o ouro, a mais valorizável substância, deu ao Brasil, pela primeira vez, a consciência de sua riqueza; desde o instante do descobrimento do ouro o Brasil não mais se considera devedor e obrigado a gratidão para com a metrópole; julga-se um país livre, que já pagou cem vezes mais do que, devia.
     Esse turbilhão do ouro não dura ao todo mais de cinqüenta anos. Essa preciosa fonte seca, o que para Portugal é uma catástrofe. Mas repete-se sempre na História do Brasil o mesmo fenômeno curioso: o que para a metrópole, para Portugal é uma desgraça, torna-se uma vantagem para a colônia. Logo que cessam as remessas de ouro para Portugal, irrompe neste uma gravíssima crise financeira, que o Marquês de Pombal não pode dominar e que em seu curso ulterior tem como conseqüência a expulsão dos jesuítas e a queda desse ministro. Pelo descobrimento do ouro dá-se uma nova perturbação do equilíbrio e, com isso, uma primeira consolidação da distribuição dos habitantes do Brasil. Novamente grandes massas humanas se trasladam para o interior, que até esse momento é pouco habitado; e mesmo quando o ouro da areia dos rios se acaba, os cavadores de ouro de outrora, que nem ali e nem noutra parte têm domicilio, preferem, a voltar para o litoral, fixar residência nas altiplanuras férteis de Minas Gerais. Com isso de novo — como anteriormente aconteceu com São Paulo — se povoa uma província e se adquire uma nova via de comunicação, o rio São Francisco. Cada vez mais o Brasil de um simples litoral se vai tornando um verdadeiro país.
     Mais importante, porém, do que todo o ouro extraído, é para o Brasil o sentimento poderosamente fortalecido de seu próprio valor. Em parte em lutas contra os franceses, que no norte avançam contra o Maranhão, em parte por destemidas incursões em regiões incógnitas e por crescente povoamento do oeste, a população, pelas suas próprias forças, vai ganhando o vale do Amazonas, Mato Grosso, Goiás, Rio Grande do Sul, e uma série de outras províncias, cada uma das quais em território é tão grande como os ou potentes países da Europa, como a Espanha, a França e a Alemanha, ou maior que eles. Numa época em que os Estados Unidos da América do Norte, cuja superfície é igual à do Brasil, conhecem apenas um sexto do seu território, o Brasil se estende quase até os atuais limites, e há muito tempo que a pequena metrópole não mais é padrão, pois, desenhada dentro dos imensos limites desta colônia, parece tão pequena como uma mancha de tinta numa enorme toalha. Quando, em 1750, no Tratado de Madrid, se procura fixar definitivamente os limites do Brasil com as possessões espanholas, tem a Espanha que reconhecer, indignada, que o Brasil já há muito tempo não pode ser limitado pelas antiquadas linhas do Tratado de Tordesilhas, e que pelo direito mais forte do seu trabalho colonial, tornou írritos e nulos todos os parágrafos desse tratado. Pelos fins do século dezoito começa a Europa, começa o Brasil mesmo a compreender como, em sua maneira calma, perseverante, se tornou ele grande, poderoso, unido nos anos que aparentemente decorreram sem acontecimentos de importância. Quanto mais se afasta de sua infância, de sua dependência financeira, tanto mais necessariamente sente a inconveniência e a injustiça de seu livre desenvolvimento ainda ser, de maneira mesquinha, entravado pela tutela impolítica e, além disso, inábil, de Portugal.
     Para haurir de sua colônia os maiores lucros possíveis, a Coroa portuguesa envolve o Brasil numa rede de leis que interrompe suas regorgitantes artérias de comunicação com o comércio mundial; o Governo, por exemplo, não permite precisamente ao país, em que o algodão cresce livre e exuberante, a fabricação de artigos têxteis, a fim de forçar o Brasil a importá-los de Lisboa, e proibições como essa se vão multiplicando até chegarem ao despotismo e à estupidez. Assim é que, em 1775, um decreto proíbe fabricar sabão; veda-se a produção de álcool, a fim de obrigar os consumidores a beber mais vinho português. O governador recusa-se a, em seu palácio, receber alguém cujos trajes não sejam de tecidos portugueses. Proíbe-se a um país que já possui dois milhões e meio de habitantes, plantar arroz; a suas cidades não se permite, no século da filosofia e da “Aufklaerung” a impressão de jornais, e nem mesmo de livros; não é permitido a nenhum brasileiro possuir navio, a nenhum estrangeiro viver no Rio de Janeiro, e mal lhe é permitido aportar a esta cidade. Fecha-se o Brasil como se fecha o jardim particular do rei de Portugal. Mesmo no século dezenove, quando Humboldt quer percorrer o Brasil para escrever sua grandiosa obra, que verdadeiramente desvenda o Brasil ao mundo, confidencialmente se ordena às autoridades que, quando um “certain baron Humboldt” aparecer, lhe criem todas as dificuldades possíveis.
     Por isso é fácil compreender com que atenção e entusiasmo os brasileiros acompanham a luta pela independência dos Estados Unidos, que à força se libertam de uma tutoria mais suave e mais inteligente e conseguem sua liberdade. Os primeiros organizadores da forma de vida do Brasil, os jesuítas, que se foram tornando cada vez tanto mais malquistos no país quanto mais sua organização se volvia para o que é comercial e fazia concorrência aos colonos, tiveram, por ordem do Marquês de Pombal, de deixar o país. Mas com isso absolutamente não se deram aos brasileiros poderes e direitos sobre seu próprio destino; os vice-reis governam o país exclusivamente para o proveito de Portugal e pouco se interessam pelo desenvolvimento independente do Brasil. Lenta, secreta, mas irresistivelmente, se forma um partido anti-português, ou melhor, um partido que então ainda poderia facilmente ser satisfeito com a simples garantia de igualdade de direitos e com a permissão de o Brasil comerciar com o resto do mundo. O brasileiro, por natureza, não é radical nem revolucionário; com mão leve e hábil ainda seria possível sem dificuldade conservar a posse do país. Mas em Lisboa não se compreendem os seus desejos, e mesmo o Marquês de Pombal, que em vão procura conduzir Portugal a idéias mais esclarecidas e mais condizentes com a época, apesar de alguns melhoramentos econômicos, não concede ao Brasil o completo desenvolvimento orgânico de suas forças. A expulsão dos jesuítas, por ele ordenada, como paliativo, como calmante, e que se realiza sob intensa oposição das povoações partidárias deles, de modo algum se revela ao país como uma vantagem moral ou um lucro material; ao contrário, a hostilidade que os colonas até então opunham a esses organizadores religioso-comerciais dirige-se agora toda contra Portugal. Já anteriormente, por várias vezes, haviam surgido em Minas Gerais, na Bahia e em Pernambuco diversas rebeliões contra os funcionários fiscais de Portugal, mas, porque a elas faltavam ligações entre si, foram sufocadas. Em sua maioria haviam sido revoltas puramente locais contra um novo imposto ou uma nova restrição, explosões impulsivas duma massa abandonada e, por isso, não verdadeiramente perigosa para a autoridade de Portugal. Só no fim do século dezoito tem início, com os conspiradores da Inconfidência Mineira, um movimento nacional inteiramente consciente de seu objetivo e cheio de idealismo.
     A Inconfidência Mineira é uma conspiração de jovens e por isso uma conspiração romântica, com discursos afoitos e poesias enfáticas, inabilmente preparada, mas, apesar disso, duma energia característica dessa época. Em 1788 um grupo de jovens estudantes brasileiros discute vivamente na Universidade de Montpellier a necessidade de uma libertação nacional e até procura pôr-se em contacto com Jefferson, o embaixador dos Estados Unidos em Paris, a fim de obter para a sua causa auxílio dessa república. Não há uma verdadeira ação, mas a idéia não morre, e logo que alguns desses estudantes chegam a Ouro Preto, que então é a cidade de maior vida intelectual, constitui-se um grupo com propósitos revolucionários, sob a chefia de José Alvares Maciel, que acaba de chegar de Coimbra, e Joaquim José da Silva Xavier, que, sob o nome de Tiradentes, se tornou o mui decantado herói desse primeiro movimento de libertação verdadeiramente brasileiro. São sempre homens de profissão intelectuais os que se reúnem nesses conventículos: médicos, poetas, religiosos, magistrados, gente da mesma camada social, que está em ascensão e na mesma ocasião dirige a revolução na França — homens que gostam de discutir e que se entusiasmam por livros e idéias, homens que gostam de falar e, dessa vez, falam demais. Em seu entusiasmo, os conspiradores, ainda muito antes de haverem planejado e organizado bem a conspiração, já se vêem chegados à meta e, de boa fé, precipitadamente, procuram adeptos para o seu plano, ainda absolutamente teórico. Assim, o governador, constantemente informado por espiões que se insinuam entre os conspiradores, pode dar-lhes o golpe antes que eles próprios se hajam decidido a atuar. A maior parte deles é condenada à deportacão para a África, o poeta Cláudio Manuel da Costa suicida-se na prisão e só um, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, que perante o tribunal, livre e heroicamente, confessa sua convicção, é executado, da maneira mais cruel, a 21 de abril de 1789, no Rio de Janeiro, e os pedaços de seu corpo martirizado são expostos em vários lugares de Minas Gerais “para terrível escarmento dos povos”. Mas com isso absolutamente não se extingue a centelha do movimento de libertação: ela continua sob as cinzas. No fim do século dezoito o Brasil, como todos os seus vizinhos sulamericanos, desde a Argentina até a Venezuela, está inteiramente pronto para se libertar da Europa e espera apenas que chegue a sua hora.