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HISTÓRIA DE MANON LESCAUT

Abade de Prévost

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História de Manon Lescaut
Abade de Prévost
s.m. do tradutor

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Fonte Digital
Digitalização de edição em papel
Clube do Livro, 1943

© 2002 — Abade de Prévost


ÍNDICE

Introdução
Prefácio do Autor
Primeira Parte
Segunda Parte


História de Manon Lescaut

 

Abade de Prévost


INTRODUÇÃO

 

O LIVRO notável de que hoje damos a lume a tradução é, sem dúvida, o primeiro e, talvez, o único romance de costumes com que foi dotada a época em que viveu o seu autor; e seguramente o podemos considerar como o prelúdio brilhante do romance moderno.

Manon Lescaut não tem, porventura, precedentes algum no seu gênero, e mais de um autor contemporâneo foi beber a inspiração do seu trabalho neste primor literário de Francisco Prévost d’Exiles, célebre escritor e padre francês.

Têm-se escrito muitos volumes em que se tenta fazer ensaios sobre o caráter da mulher e descrevê-la; mas, um capítulo de todos esses estudos fica sempre incompleto: — é o da mulher observada nos amores passageiros, em que a sua fidelidade é voluntária e em que os laços que a prendem ao homem podem ser despedaçados à sua vontade, segundo o seu capricho e inconstante fantasia.

Manon Lescaut é a página de mais relevo desse capítulo, que ninguém terminará, porque é infinito como o próprio amor. — Variante e movediça como as águas do oceano (disse Shakespeare, falando da mulher) quem poderá desenhar com perfeição o que sem cessar varia de forma?

Manon nem por isso é um tipo criado pela poética imaginação do autor; em todas as épocas existiu. No século de Péricles, chama-se Aspásia; Demóstenes ama-a, chamando-lhe Laís; é a Impéria da Roma dos Papas; é a Margarida Gautier do século atual.

Avaliar, literariamente, o que é Manon Lescaut, é querer analisar a graça, a elegância da frase e a mordacidade da idéia. A tarefa é difícil, e, no entanto, uma das mais vigorosas penas da França conseguiu vencê-la nas seguintes linhas que aqui reproduzimos.

É Júlio Janin quem fala:

Manon Lescaut é um desses primores de literatura, vibrantes de paixão e de amor, primores que só os homens de gênio concebem, num momento de entusiasmo, que eles, decerto, não encontram duas vezes durante a vida.

“Livro maravilhoso! história admirável! drama patético, que é passado no último degrau da escada social! Como esta pobre mulher resvala por sobre o opróbio, à força de beleza e juventude! Como este rapaz evita a desonra à força de amor e dedicação! E, depois, quando os seus lábios, ávidos ainda de prazer, têm esgotado o cálice da voluptuosidade, vem a morte que santifica todo este delírio; e não só a morte, mas também o perdão”.

Em menos palavras, ninguém decerto diria mais.

E Júlio Jonin não exagerou. Manon há de ficar na história da literatura como um monumento que nem a mão destruidora dos anos poderá derribar.

São estas as únicas obras que ficam perduráveis na memória dos vindouros. O livro é a melhor lembrança que o sábio e o observador podem legar às gerações futuras.

Quantos heróis têm passado, cujos nomes nem já lembram? Vede porém se Camões há de esquecer nunca, se Garrett pode ser olvidado, se Walter Scott deixou de existir, se Balzac ou Alexandre Dumas Filho, hão de desaparecer da memória dos homens...

Decerto que não; nos livros que deixaram têm eles a voz duradoura, que os fará viver, através das idades.


PREFÁCIO DO AUTOR

 

MUITO embora eu pudesse ter contado as aventuras do cavalheiro des Grieux nas minhas memórias, pareceu-me que, havendo tão pouca ligação entre umas e outras, o leitor sentiria prazer maior, vendo-as em separado.

Uma narrativa tão longa teria interrompido desmarcadamente o fio da minha própria história.

Bem longe estou de nutrir a pretensão de escritor correto; mas não ignoro que uma narração qualquer deve ser liberta de todas as circunstâncias, que a tornem pesada e obscura; é este o preceito de Horácio:

Ut jam nunc dicat jam nunc debentia dici,
Pleraque differat et præsens in tempus omittat.

Não era precisa tal autoridade para se demonstrar uma verdade tão simples, pois o bom senso é o axioma em que esta regra se funda.

Se o público achou algum interesse na história da minha vida, não duvido afirmar-lhe que não ficará menos satisfeito com a adição que ora lhe faço.

Verá, na conduta de des Grieux, um terrível exemplo da força das paixões. Vou darcrever um rapaz cego à luz da razão, que recusa ser feliz para se precipitar voluntariamente no abismo dos maiores infortúnios; que, possuindo todas as qualidades, com que os homens se podem nobilitar no mundo, prefere, espontaneamente, uma vida obscura e vagabunda, a todos os favores da Natureza e da Fortuna; que prevê todas as suas desgraças, sem as querer evitar, que as sofre, que, afinal, é por elas esmagado, sem ao menos tirar partido dos conselhos e lenitivos, que incessantemente lhe oferecem, e que podem a todos os momentos pôr um termo a seus males; enfim, um caráter ambíguo, um amálgama da virtudes e de vícios, um contraste perpétuo de bons sentimentos e de más ações. Tal é o fundo do quadro que apresento.

As pessoas sensatas não olharão esta obra como um trabalho inútil. Além do prazer que há numa leitura agradável, poucos incidentes se encontrarão nela que não sirvam para a morigeração dos costumes. E, na minha opinião, presta-se um bom serviço ao público, quando o podemos instruir, recreando-o.

Não se pode refletir nos preceitos da moral, sem que tenhamos de pasmar, vendo-os igualmente estimados e aborrecidos, e a nós mesmos perguntamos qual a razão desta incoerência do coração humano, que admira idéias do bem e da perfeição, afastando-se delas na prática.

Se as pessoas duma certa ordem de conhecimentos e de instrução quiserem examinar qual é o motivo mais vulgar das suas conversas, ou mesmo das suas meditações solitárias, fácil lhes será observar que vão sempre até às considerações morais. Os melhores momentos da sua vida são aqueles que passam, ou sós ou com um amigo, conversando, de coração a larga, acerca da magia da virtude, das doçuras do afeto, dos meios de alcançar a felicidade, das fraquezas naturais que nos afastam dela e dos remédios que as podem curar.

Horácio e Boileau apontam estes colóquios como um dos traços mais belos com que arquitetam a imagem da vida venturosa. Como é que tão facilmente nos precipitamos do alto destas maravilhosas idéias e nos nivelamos com o comum dos homens. Ou eu me engano muito ou a razão que vou dar explicará claramente essa contradição das nossas idéias e da nossa conduta — é que não sendo os preceitos da moral mais do que princípios vagos e gerais, será muito difícil aplicá-los na especialidade aos costumes e às ações humanas.

Exemplifiquemos a questão; as índoles benfazejas olham a brandura e a humanidade como virtudes dignas de serem queridas em extremo, e uma força irresistível inclina-as a pô-las em prática; mas, chega o momento dessa prática, ei-las hesitantes: — Será a ocasião própria para as executar? Sabemos por acaso até que ponto as devemos levar? Não haverá engano no fim a que as destinamos? Mil dificuldades surgem: receamos ser enganados, ao passo que a beneficência e a liberalidade nos impelem; de passarmos por fraoos e covardes, quando não somos senão sensíveis e ternos; numa palavra, tememos exceder ou não cumprir os deveres que se acham encerrados nas noções gerais da bondade e da doçura. Nesta incerteza, não há senão a experiência ou o exemplo para determinar qual deva ser o rumo do coração. Ora, a experiência não é vantagem de que todos disponham e que todos mesmo possam usar; ela depende das situações diferentes, em que cada um se acha colocado, conforme a sua fortuna. Não resta mais do que o exemplo a servir de norma no exercício da virtude.

É precisamente para leitores desta ordem que obras como a atual podem ser de extrema utilidade, muito mais, quando escritas por pena guiada pela honra e pelo bem senso. Cada fato narrado é um facho do luz, uma lição instrutiva, que supre a experiência; cada aventura é um modelo, pelo qual nos podemos formar; não falta senão apropriarmo-la às circunstancias em que nos encontremos. Toda a obra é um tratado de moral agradavelmente posta em ação.

Talvez, algum leitor severo se ofenda ao ver que eu, na minha idade, vou escrever aventuras de amor e de paixão; mas, se os raciocínios que acabo de expor são sólidos, justificam-me; se forem errados, no erro está a minha desculpa.

***

O público leu com muito interesse o último volume das “Memórias dum Homem de qualidade”, que contém aa aventuras do cavalheiro des Grieux e de Manon Lescaut. Trata-se dum rapaz com dons brilhantes e amáveis, que, arrastado pela ardente paixão que consagrava à mulher que lhe agradou, prefere uma vida vagabunda e de libertinagem a todos os triunfos que o seu talento e a sua condição social podiam conquistar-lhe; dum desgraçado, escravo do amor, que prevê as suas desgraças, sem ter a energia de evitá-las; que as sente vivamente, que se afunda nelas e que desdenha empregar os meios para ser mais feliz; trata-se, finalmente, dum moço conjuntamente cheio de vícios e de virtudes, pensando bem e procedendo mal: — amável pelos seus sentimentos, detestável pelos seus atos. Eis um caráter bem singular!

O de Manon Lescaut é ainda mais estranho. Ela conhece a virtude, aprecia-a mesmo, e no entanto comete as mais indignas ações. Ama o cavalheiro des Grieux com intensidade extrema: contudo, o desejo de viver no luxo e na abundândia, a vaidade de brilhar, levam-na a trair o seu amor por esse homem com um rico financeiro. Que arte não foi preciso desenvolver para atrair a atenção do leitor e inspirar-lhe uma funda comiseração, motivada pelos funestos infortúnios, que se abatem sobre esta moça pervertida!

Ainda que um e outro sejam muito devassos, lamentam-se, porque se vê nitidamente que os seus desvairamentos derivam das suas fraquezas morais e do ardor das suas paixões, e que, além disso, eles próprios condenam a sua conduta, convindo em que é criminosa.

Deste modo, o autor não ensina o vício, muito embora o exponha claramente. Pinta os efeitos dum amor violento, que torna útil a razão, desde que alguém se entregue inteiramente a esse amor: narra uma cegueira de alma que, não sendo capaz de sufocar por completo no coração o sentimento da virtude, impede, no entanto, que tal sentimento se pratique. Numa palavra, este livro põe a nu todos os perigos de desregramento. Depois de o lerem, não haverá rapazes ou moças que queiram parecer-se com des Grieux e com a sua amante. Se são dissolutos, os remorsos e as desventuras acabrunham-nos.

Quanto ao resto, o caráter de Tiberge, esse exemplar eclesiástico amigo de des Grieux, causa admiração. É um homem prudente, cheio de compaixão e de religião: um amigo generoso e sincero: um coração sempre condoído pelas fraqueza daquele a quem dedica o seu puro afeto. Como a piedade ê nobre, quando se alia a uma bela índole!

Nada direi do estilo desta obra. Não se notam nele, nem a retórica, nem a afetação, nem os argumentos sofísticos: — foi a própria Natureza que o escreveu. Como um escritor empertigado e artificioso parecerá lamentável, se o compararmos com estas páginas eloqüentes e simples! O autor deste volume não corre atrás do espírito ou daquilo que se convencionou chamar assim. O seu estilo não é laconicamente limitado; é um estilo correto, amplo e expressivo. Compõem-no apenas pinturas e sentimentos — mas pinturas exatas, sentimentos naturais.


PRIMEIRA PARTE

 

SOU obrigado a fazer remontar o leitor até à época, em que, pela primeira vez, encontrei o cavalheiro des Grieux: cinco ou seis meses antes da minha partida para Espanha.

Ainda que raras vezes abandonasse a minha solidão, a amizade e carinho que tinha a minha filha levavam-me a fazer algumas pequenas viagens, que eu encurtava tanto quanto me era possível.

Voltava, um dia, de Ruão, onde fora, a seu pedido, solicitar o andamento de uma causa, no parlamento da Normandia, acerca da herança de umas terras às quais tinha pretensões pelo lado de meu avô materno. Tendo tomado pela estrada de Évreux, onde dormi a primeira noite, cheguei no dia seguinte, ao jantar a Passy, distante daquela cidade cinco ou seis léguas.

Ao entrar na povoação, fiquei surpreendido de ver todos os seus habitantes em alarme. Saíam precipitadamente de casa em turbamulta e corriam para defronte da porta de uma péssima estalagem, diante da qual se viam duas caleças. Os cavalos que estavam ainda atrelados e que pareciam mortos de fadiga e de calor mostravam que os dois veículos tinham chegado havia pouco tempo.

Detive-me um momento para me informar da causa de tão grande tumulto, mas poucos esclarecimentos obtive de uma populaça curiosa, que nenhum caso fazia das minhas perguntas e que avançava constantemente para a hospedaria, acotovelando-se no meio da maior confusão. Por fim, como um archeiro de bandoleira a tiracolo e de mosquete ao ombro, aparecesse à porta, chamei-o e pedi-lhe que me iniciasse nos motivos de uma tal desordem.

— Não é nada, senhor — disse ele — Trata-se, apenas, duma dúzia de mulheres perdidas que conduzimos ao Havre, onde devem embarcar para a América. Há algumas bem bonitas, e talvez seja isso o que excita a curiosidade desta gente.

Ter-me-ia retirado, ouvindo esta explicação, se me não tivessem detido os lamentos de uma velha, que, saindo da estalagem e pondo as mãos na cabeça, gritava que era uma barbaridade, uma cousa que fazia horror e compaixão...

— Que é? — perguntei-lhe.

— Ah! senhor, entre e veja se o espetáculo não é capaz de comover o coração mais empedernido.

A curiosidade fez-me apear do cavalo, que entreguei ao meu palafreneiro, e entrei na estalagem, não sem grande custo, depois de ter aberto caminho por entre a multidão. E vi, com efeito, bastante para ter motivo de me enternecer.

Entre as doze mulheres, que estavam ligadas pela cintura seis a seis, havia uma, cujos modos e figura iam tão pouco de acordo com a sua atual posição, que fora dali tê-la-ia tomado por pessoa de elevada hierarquia. A tristeza que se lhe desenhava no rosto, a imundície de que seu vestido estava coberto, desfeavam-na tão pouco, que a sua vista inspirou-me respeito e compaixão.

A pobre rapariga procurava voltar-se, tanto quanto a sua cadeia lho permitia, a fim de esconder o rosto aos ávidos olhos dos espectadores e esse esforço para se ocultar era tão natural que bem parecia ser originado pelo mais nobre sentimento da modéstia e do pudor.

Como os seis guardas, que acompanhavam esta desgraçada turba estavam, também, no mesmo aposento, chamei o chefe em particular, e tratei de elucidar-me sobre a sorte desta bela rapariga. Apenas me pôde fornecer algumas informações incompletas.

— Fomos buscá-la ao Presídio, por ordem do tenente-general da polícia, e todas as probabilidades são de que ela não estava lá encerrada pelas suas virtudes. Tenho-a interrogado várias vezes durante a jornada, mas obstinou-se em não responder, e ainda que não recebesse ordem de a poupar mais do que as outras, não tenho deixado, por isso, de lhe manifestar uma certa deferência, porque me parece que esta rapariga vale alguma cousa mais do que as suas companheiras. Ali está um rapaz — ajuntou o archeiro — que poderá, melhor do que eu, instruí-lo sobre a causa da sua desgraça: tem-na acompanhado desde Paris, sem cessar um instante de carpir-se. Por força que é seu irmão ou seu amante.

Voltei-me para o canto do compartimento, onde o rapaz estava sentado. Parecia absorto numa profunda meditação; nunca vi imagem mais viva e perfeita de dor. Estava vestido com simplicidade, mas distinguia-se, logo à primeira vista, um homem não nascido da plebe e que teve educação. Aproximei-me dele; levantou-se, e descobri nos seus olhos, no seu todo, nos seus movimentos, uma tal finura e nobreza, que senti logo em mim a força irresistível da simpatia que me inspirava.

— Não o quero importunar — disse-lhe sentando-me a seu lado — mas poderia satisfazer-me a curiosidade que tenho de saber quem é esta linda rapariga, que não me parece ter nascido para a triste sorte em que a vejo lançada?

Respondeu-me amável, mas tristemente — que não podia dizer-me quem ela era sem se dar a conhecer a si próprio e que tinha sobejas razões para se conservar incógnito.

— No entanto, posso dizer-lhe o que estes miseráveis já não ignoram — continuou ele indicando os archeiros: — é que a amo, e com uma paixão tão violenta que faz de mim o mais desgraçado de todos os homens. Debalde, empreguei em Paris todos os meios para obter a sua liberdade. Os pedidos, a astúcia e a força, tudo foi inútil e impotente. Resolvi, portanto, segui-la, embora tenha de ir ao fim do mundo. Embarcarei com ela e passarei para a América. Mas, sobretudo, o requinte da crueldade, é estes marotos — ajuntou o rapaz falando dos archeiros — não permitirem que eu me aproxime dela. O meu desígnio era de os atacar cara a cara a algumas léguas de distância de Paris. Tinha-me associado com quatro homens que prometeram auxiliar-me, mediante uma soma considerável; mas os poltrões deixaram-me só, e fugiram-me com o dinheiro. A impossibilidade de vencer pela força fez com que depusesse as armas. Pedi aos archeiros que me deixassem, ao menos, segui-los, oferecendo-lhes uma recompensa: a ambição do lucro levou-os a acederem ao meu pedido, mas todas as vezes que consentem em que eu fale à minha amante, outras tantas querem ser pagos, de modo que, em pouco tempo, a bolsa ficou-me esgotada, e hoje, que estou sem um soldo, têm a crueldade de me repelir brutalmente, ao menor passo que dou para dela me aproximar. Ainda não há um instante que, pelo fato de eu lhe dirigir a palavra apesar de todas as suas ameaças, ousaram levantar sobre mim a coronha do mosquete. Sou desgraçadamente forçado, para satisfazer a sua insaciável cobiça e para me achar em circunstâncias de continuar a jornada a pé, a vender aqui um mau cavalo em que até hoje tenho vindo montado.

Ainda que esta narração parecia ser feita com a maior tranqüilidade de espírito, contudo, ao acabá-la, algumas lágrimas, borbulhando dos seus olhos, deslizaram pelas faces do desconhecido.

Esta aventura pareceu-me das mais extraordinárias e tocantes.

— Não quero obrigá-lo a descobrir-me o seu segredo, mas se posso ser-lhe útil em alguma cousa, da melhor vontade o servirei — disse-lhe eu.

— Ah! — continuou ele — nem mesmo antevejo a esperança dum dia poder mudar de sorte. Forçoso é submeter-me a todo o rigor do meu destino. Irei para a América, e lá ao menos serei livre com aquela que amo. Escrevi a um dos meus amigos, que terá à minha disposição alguns socorros, no Havre. O único embaraço com que agora luto é só a despesa da minha condução até lá, e procurar a esta pobre criatura — acrescentou ele, fitando tristemente a sua amante — algum alívio durante a jornada.

— Pois vou tirá-lo desse embaraço — afirmei eu; — aqui está algum dinheiro que de todo o coração lhe peço queira aceitar. E bem pesaroso estou de não o poder servir doutro modo.

Dei-lhe quatro luíses de ouro, sem que os guardas o percebessem, pois estava bem persuadido de que se soubessem que ele era senhor desta soma, vender-lhe-iam ainda mais caro as suas pequenas condescendências. Ocorreu-me, mesmo, a idéia de negociar com eles, para obter ao moço namorado a liberdade de falar continuamente à sua amante até ao Havre. Fiz sinal ao chefe para se aproximar de mim, e propus-lhe as minhas condições. Pareceu-me um pouco envergonhado, de todo o seu descaramento.

— Não é, senhor — respondeu ele, perturbado — que nós nos recusemos a deixá-lo falar a esta rapariga; mas o seu desejo é estar sempre ao pé dela e isto incomoda-nos. É justo, pois, que pague esse incômodo.

— Pois bem, vejamos quanto querem para que esse incômodo deixe de se fazer sentir.

Teve a audácia de me pedir dois luíses! Dei-lhos imediatamente.

— Mas tomem cuidado, — ameacei eu — não pratiquem alguma ladroeira, pois vou dar a minha morada a este moço para que me possa informar do que ocorrer, e contem que posso fazê-los castigar.

Assim, custou-me esta curiosidade seis luíses de ouro.

O bom modo e o vivo reconhecimento com que o rapaz me agradeceu acabaram de me convencer de que ele era bem nascido e que merecia as minhas liberalidades. Dirigi algumas palavras à sua amante antes de sair. Ela respondeu-me com uma modéstia tal e tão encantadora que não pude deixar de fazer, retirando-me, mil reflexões sobre o caráter incompreensível das mulheres.

Tendo voltado de novo à minha solidão nada mais soube da continuação desta aventura. Passaram-se dois anos, espaço bastante para eu a esquecer totalmente, até que o acaso fez com que me pudesse elucidar de todas as suas circunstâncias e pormenores.

Acabava de chegar a Calais, de volta de uma viagem a Londres com o marquês de..., meu discípulo. Estávamos hospedados, se bem me recordo, no Leão de Ouro, onde por motivos particulares nos vimos forçados a passar o dia inteiro e a noite seguinte. Seria meio-dia, quando, ao darmos um passeio pelas ruas, pareceu-me reconhecer num indivíduo que passava o mesmo rapaz que havia encontrado na estalagem de Passy. Estava muito mal vestido e ainda mais pálido do que a primeira vez em que eu o tinha visto; contudo, a sua fisionomia era em demasia distinta para que por mim fosse reconhecida imediatamente.

— Tenho necessidade de falar àquele homem — disse eu ao marquês.

Em seguida, aproximei-me do desconhecido.

— Ah! senhor! — exclamou ele, beijando-me a mão, — que felicidade não é a minha de poder ainda uma vez mais mostrar-lhe o meu eterno reconhecimento.

Perguntei-lhe donde vinha. Respondeu-me que acabava de chegar do Havre, de volta da América.

— Não me parece achar-se em melhores circunstâncias do que outrora — continuei eu. — Vá ao Leão de Ouro, onde estou hospedado, que não tardo lá um instante.

Com efeito, corri logo à hospedaria, cheio de impaciência para conhecer os detalhes do seu infortúnio e os pormenores da sua viagem à América. Tratei-o com as maiores provas de amizade, ordenando que não lhe faltasse cousa alguma. Não esperou que eu lhe pedisse para me contar a história da sua vida.

— Procede tão nobremente comigo — disse-me ele — que nunca perdoaria a mim próprio o usar da mais pequena reserva para com o senhor. Quero contar-lhe não só as minhas desgraças e sofrimentos, mas também as minhas extravagâncias e vergonhosas fraquezas; estou certo que condenando-me não poderá, contudo, deixar de me lastimar.

Devo advertir, nesta altura, o leitor de que escrevi esta história logo depois de a ter ouvido, podendo portanto assegurar que nada há mais exato e fiel do que a minha narração. E digo fiel até na relação das reflexões e sentimentos que o moço aventureiro exprimiu com a melhor graça. Eis pois a sua história, a que procurarei não juntar, até o fim, nada que não seja dele:

***

— Tinha eu dezessete anos, e havia acabado os meus estudos de filosofia em Amiens onde meus pais, que são duma das mais distintas famílias de P..., me tinham mandado educar. A minha vida era tão regular, tinha tão bom comportamento, que os meus mestres me apontavam como um exemplo a todos os meus camaradas do colégio. Não que eu fizesse esforços extraordinários para merecer este elogio, mas, naturalmente dócil e sossegado, aplicava-me ao estudo por índole, e contavam-me no número das virtudes a aversão natural que eu tinha ao vício. A minha família, o êxito dos meus estudos e algumas perfeições exteriores haviam-me tornado conhecido e estimado de toda a gente honesta e respeitada da cidade.

Fiz os meus exames públicos com unânime aprovação de todos os espectadores, a ponto do bispo, que a ele assistia, me propor a minha entrada na vida eclesiástica, onde de certo, dizia ele, não deixaria de adquirir mais distinção e renome do que na ordem de Malta, a que meus pais me destinavam. E tanto assim, que eles me obrigaram já a trazer a cruz, com o nome de cavalheiro des Grieux. Chegadas as férias, preparava-me para regressar ao lar doméstico, para junto de meu pai, que tinha prometido enviar-me imediatamente para a Academia. O único pesar que tinha ao retirar-me de Amiens, era deixar ali um amigo a quem me unia a maior ternura e amizade. Era um pouco mais velho do que eu. Tínhamos sido educados juntos, mas os seus bens eram assaz medíocres, e portanto foi obrigado a tomar o estado de eclesiástico e a ficar em Amiens para aí continuar os estudos necessários a esta profissão. Possuía inúmeras qualidades. Há de conhecê-lo pelas melhores, no decurso da minha narração, e principalmente por um zelo e generosidade no afeto que excedem os mais célebres exemplos que a história antiga nos apresenta. Se houvesse, então, seguido os seus conselhos, teria sido sempre honrado, honesto e feliz; se ao menos me tivesse aproveitado das suas repreensões, à borda do precipício onde os meus vícios me arrastavam, teria salvo alguma cousa no naufrágio da minha fortuna e da minha reputação. Mas desgraçadamente o meu amigo não colheu outro fruto dos seus cuidados e dedicação, do que o pesar de os ver olvidados e algumas vezes duramente recompensados por um ingrato que só via nos seus bons conselhos uma ofensa, ou os olhava como inoportunos.

Havia determinado já o dia em que deveria sair de Amiens. Porque não antecipei vinte e quatro horas a minha partida? Se assim o tivesse feito, decerto, ao entrar em casa de meus pais, levaria comigo toda a minha inocência.

Na própria véspera do dia fatal em que tinha de deixar essa cidade, andando a passear com o meu amigo, que se chamava Tiberge, vimos chegar a diligência de Arraz, e seguimo-la até à estalagem, onde estes carros fazem alto. Não nos moviam outros motivos, além da curiosidade.

Apearam-se quatro mulheres, que se retiraram imediatamente; mas ficou uma, muito nova, que esperava no pátio da estalagem que um homem de idade avançada, e que parecia servir-lhe de guia, fizesse descarregar a sua bagagem. Pareceu-me tão linda, tão encantadora, que eu, que até então nunca tinha pensado nem na diferença dos sexos, e muito menos olhado para uma mulher com mais atenção do que para qualquer outra criatura; — eu, cuja inocência era por todos admirada, achei-me de repente exaltado até ao transporte. Até então tinha o defeito de ser demasiadamente tímido e fácil em perder o sangue frio; mas, nesse momento, longe de me intimidar por esta fraqueza, dirigi-me resolutamente para aquela que já considerava como dona absoluta de meu coração.

Embora ela fosse mais nova do que eu, retribuiu os meus cumprimentos sem embaraço algum. Perguntei-lhe o que a levava a Amiens e se ali tinha alguém conhecido. Respondeu-me ingenuamente que seus pais a mandavam para aquela cidade, a fim de entrar para um convento.

O amor tinha já por tal forma esclarecido o meu coração, no tão diminuto espaço de tempo que nele residia, que olhei logo este desígnio como um golpe mortal dado nos meus desejos.

Falei-lhe de modo que lhe fizesse compreender os meus sentimentos, porque ela mostrava uma experiência maior do que a minha. Era contra sua vontade que a mandavam para um convento, sem dúvida para impedir a sua tendência natural para os prazeres sensuais, — tendência que já se havia manifestado e que no futuro causou todas as suas e as minhas desgraças.

Combati a descaroável intenção de seus pais por todas as razões que o meu amor e a minha eloqüência escolástica me sugeriram.

Não afetou nem rigor nem desdém; apenas me disse, depois de um momento de silêncio, que bem previa quanto ia ser desgraçada, mas que tal era aparentemente o desígnio do céu, pois que nenhum meio se lhe antolhava de o evitar.

A doçura do seu olhar, o ar cheio de encantadora tristeza ao pronunciar estas palavras, ou antes o ascendente do meu destino, que me arrastava à minha perda, não me deixaram um só instante para refletir na resposta.

Assegurei-lhe que se ela quisesse depositar confiança na minha honra e na ternura infinita que já me inspirava, empregaria todas as minhas forças para a libertar da tirania de seus pais, e para fazê-la feliz. Mil vezes me admirei, mais tarde, da ousadia e facilidade com que então me expressei, mas, decerto, não se teria feito do amor um deus, se ele não operasse, tão repetidas vezes, grandes prodígios.

Disse-lhe muitas cousas eloqüentes.

A minha bela desconhecida sabia perfeitamente que na minha idade não se engana ninguém; confessou-me que, se por acaso eu pudesse dar-lhe a liberdade, ser-me-ia devedora de alguma cousa mais cara, para ela, do que a própria vida.

Repeti-lhe que estava pronto a tudo empreender; mas não tendo bastante experiência do mundo para imaginar, num golpe de vista, todos os meios que poderiam estar ao meu alcance para a servir limitei-me a esta única promessa bem vaga que, certamente, não devia ser de grande auxílio, nem para ela, nem para mim.

O seu velho argos tinha vindo para junto dela, todas as minhas esperanças iam naufragar, se a argúcia do seu espírito não fosse tanta que pudesse bem suprir a esterilidade do meu. Fiquei surpreendido de que, à chegada do seu companheiro, me chamasse primo, e que, sem se desconcertar, me dissesse que visto a felicidade que tivera em me encontrar, transferia a sua entrada no convento para o dia seguinte, a fim de dar-se o prazer de cear comigo.

Percebi perfeitamente a mentira, e propus-lhe irmos hospedar-nos numa estalagem, cujo dono havia sido cocheiro de meu pai muito tempo, antes de se estabelecer em Amiens, e que me era inteiramente devotado.

Fui eu quem a conduziu até lá, ao passo que o seu velho companheiro parecia resmungar de mau humor, e o meu amigo Tiberge, que não compreendia a mais pequena cousa desta cena, me seguia sem pronunciar uma palavra. Não tinha ouvido a nossa conversa, ficando a passear no pátio, enquanto eu falava de amor à minha linda amante.

Receando repreensões de Tiberge, desembaracei-me da sua companhia, pedindo-lhe que se encarregasse dum serviço meu. Assim, tive o prazer, ao chegar à hospedaria, de me achar a sós com a soberana do meu coração.

Não tardou muito que conhecesse que era muito menos criança do que eu mesmo me julgava. Meu coração achava-se engolfado em mil sentimentos agradáveis, dos quais eu nem a mais leve idéia tinha: um fogo ardente e voluptuoso começou a correr-me nas veias; estava num como transporte que me tirou por algum tempo o dom da palavra e que não me deixava exprimir senão com os olhos.

Manon Lescaut — foi assim que ela me disse chamar-se — pareceu-me muito satisfeita e lisonjeada com o efeito que em mim produziram os seus encantos. Percebi que não se encontrava menos comovida do que eu. Confessou que me achava amável e que estava encantada de me dever o favor da sua liberdade.

Quis saber quem eu era, e tendo-lhe dito, a sua afeição aumentou para comigo, pois que, sendo duma família plebéia, ficara satisfeitíssima de ter conquistado um amante da minha condição. Conversámos sobre a maneira de resolver o problema que nos preocupava. Depois de muitos e vários planos, assentamos em que o único meio melhor era a fuga. Para isso, era preciso iludir a vigilância do homem que a acompanhava e que apesar de ser um simples criado, não era criatura de quem se menoscabasse a esperteza.

Concordamos em que eu faria, naquela mesma noite, arranjar uma sege de posta e que no dia seguinte de madrugada, quando todos ainda estivessem dormindo, sairíamos da hospedaria, dirigindo-nos diretamente a Paris, onde nos casaríamos tão depressa lá chegássemos.

Os meus fundos orçavam por uns cinqüenta escudos, fruto das minhas economias; os dela seriam talvez o dobro.

Imaginamos, como crianças que éramos, que esta soma nunca se acabaria, e acreditamos cegamente no êxito das nossas outras combinações.

Tendo ceado com mais satisfação do que em dias de minha vida tinha sentido, saí para ir executar o nosso projeto. Os meus arranjos de partida foram tanto mais fáceis quanto, tendo eu tenção de me retirar para casa de meus pais no dia seguinte, as malas já estavam preparadas. Portanto, limitei-me a alugar a sege, ordenando que estivesse pronta às cinco horas da manhã, momento em que as portas da cidade estariam abertas; encontrei, porém, um obstáculo com que não contava, e que esteve a ponto de frustrar inteiramente todos os meus planos.

Tiberge, ainda que apenas mais velho do que eu três anos, era um rapaz sisudo e dum comportamento muito regular, e estimava-me com uma dedicação extraordinária. O encontro duma rapariga tão bonita como Manon, a minha diligência em conduzi-la à hospedaria, e o cuidado que eu mostrara em dele me desembaraçar, despertaram-lhe suspeitas do meu amor para com ela. Não tinha ousado voltar à estalagem, onde me havia deixado, receando ofender-me com a sua volta; mas tinha ido esperar-me em minha casa, onde o encontrei sentado, não obstante serem já dez horas da noite. A sua presença desgostou-me, e facilmente Tiberge percebeu o contratempo que a sua visita me causava.

— Estou certo — disse-me ele, sem o menor rebuço — que meditas alguma cousa que me queres ocultar; bem vejo isso pelo teu modo.

Respondi-lhe bruscamente que não era obrigado a dar-lhe parte de todas as minhas ações.

— Não; é verdade, — continuou ele — mas sempre me tens tratado como amigo, e a amizade requer alguma confiança e franqueza.

Tanto instou comigo, que não lhe pude ocultar o segredo, e fiz-lhe uma inteira confidência da minha paixão.

Recebeu-a com tão evidentes provas de descontentamento que muito me fez recear; arrependi-me, sobretudo, de lhe ter descoberto o plano da minha fuga.

Disse-me que era sobejamente meu amigo para se não opor, com todas as suas forças, às minhas tenções, e que se por meio da persuasão eu não renunciasse a esta miserável e criminosa idéia, advertiria alguém, que com toda a certeza havia de impedir-me a sua execução. Neste sentido, fez-me um discurso que durou mais de meia hora, acabando por declarar que me denunciaria, se eu não lhe desse a minha palavra de honra de me conduzir com mais juízo e tino.

Estava desesperado por me ter traído tão pouco a propósito. Contudo, o amor abrira-me os olhos de tal modo no curto espaço de duas ou três horas que notei não lhe ter dito que a minha fuga devia realizar-se no dia seguinte, e resolvi portanto enganá-lo com o auxílio duma mistificação.

— Tiberge — respondi — acreditei sempre que eras meu amigo, e quis avaliar até que ponto chegava a tua amizade. É verdade que amo, e nisto não te enganei, mas a respeito da minha fuga, não é isso resolução que se tome no ar. Vem amanhã ter comigo às nove horas, mostrar-te-ei, se puder, a minha amante; então, julgarás se ela merece que eu dê por sua causa este passo.

Depois disto saiu, tendo-me feito de novo protestos de afeto.

Levei a noite a pôr em ordem todos os meus negócios, e ao romper do dia dirigi-me à pousada de Manon, que já me esperava à janela, e que apenas me viu veio logo abrir-me a porta, saindo sem fazer o menor ruído.

A sua bagagem consistia apenas num saco com alguma roupa branca, de que eu me encarreguei. Metemo-nos na sege e saímos imediatamente da cidade.

Contarei mais adiante qual foi o procedimento de Tiberge, vendo que tinha sido por mim enganado. O seu zelo não esfriou por isso, e ver-se-á a que excesso ele o levou, e quantas lágrimas eu não deveria derramar ao lembrar-me qual fora sempre a recompensa que dei a tão nobre dedicação.

Íamos tão depressa que chegámos a São Diniz antes de anoitecer. Eu montava a cavalo ao lado da carruagem, o que nos havia impedido de conversarmos, a não ser em ocasião de mudas; mas logo que nos vimos tão próximos de Paris, isto é, quase em segurança, tratamos de jantar, pois desde que tínhamos saído de Amiens nada havíamos comido.

Por mais enamorado que eu estivesse de Manon, ela fez-me sentir que a sua paixão por mim não era menor.

Éramos tão pouco reservados nas nossas carícias, que nem paciência tínhamos para esperar que estivéssemos sós. Os postilhões e estalajadeiros olhavam-nos com admiração, surpreendidos de verem duas crianças como nós amarem-se com tanto fervor.

Os nossos projetos de casamento foram esquecidos em São Diniz; violamos os direitos da Igreja e achamo-nos esposos sem fazermos sobre isso a menor reflexão. A verdade é que, com a minha índole terna e constante, toda a minha vida teria sido feliz se Manon me houvesse sempre sido fiel. Quanto mais a conhecia, mais descobria nela novas qualidades dignas de estima. O seu espírito, o seu coração, a sua ternura e beleza, formavam uma cadeia com elos tão fortes que eu fazia consistir toda a minha ventura em nunca sair dela.

Terrível mudança! o que hoje constitui o meu desespero poderia ter constituído a minha felicidade! Se ao presente sou o mais desgraçado dos homens, devo-o a esta mesma constância, de que só esperei o mais belo de todos os futuros, a mais perfeita recompensa de amor.

Alugamos um quarto mobilado, em Paris, na rua V... e para minha desdita junto da casa de M. de B..., célebre arrematante das rendas do Estado.

Três semanas decorreram, durante as quais estive tão entregue à minha paixão que não pensei um só momento na minha família, nem nos cuidados em que meu pai deveria estar por motivo da minha ausência. Contudo, como nem o desregramento, nem o vício influíam na minha conduta, e Manon se comportava também com a maior decência, a tranqüilidade em que vivíamos fez-me recordar pouco a pouco o meu dever.

Resolvi reconciliar-me, se possível fosse com meu pai. A minha amante era tão simpática que não duvidei um instante de que ela não lhe agradasse se eu encontrasse meio de lhe fazer conhecer o seu bom comportamento e as suas virtudes; numa palavra, lisonjeava-me a idéia de obter de meu pai a permissão de a desposar, tendo perdido completamente a esperança de o poder fazer sem o seu consentimento.

Comuniquei este projeto a Manon e fiz-lhe compreender que além dos motivos de amor e do dever, o da necessidade deveria ser tomado em linha de conta, pois os nossos fundos sofriam grande desfalque e eu começava a convencer-me de que não eram inesgotáveis.

Manon ouviu com a maior frieza esta proposta. No entanto, as razões que ela opôs pareceram-me devidas mais à sua ternura e ao receio de que meu pai não quisesse aceder à nossa vontade, uma vez que conhecesse o lugar para onde tínhamos fugido, do que ao golpe cruel que ela me preparava.

À objeção da necessidade, respondeu-me que ainda nos restava com que vivêssemos algumas semanas, e que passado este prazo ela acharia recursos na afeição d’alguns parentes que tinha na província e a quem escreveria. Adoçou ao mesmo tempo a sua recusa por meio de carícias e afagos tão ternos e apaixonados, que eu, que não tinha a menor desconfiança do seu coração e do seu amor, concordei com todas as suas resoluções.

Havia-lhe confiado o encargo de pagar a nossa despesa ordinária, bem como a administração de todos os nossos fundos; mas depois desta conversa, notei que a nossa mesa era mais bem servida e que ela havia feito algumas compras dum valor considerável; como não ignorava que não deveríamos ter mais do que doze ou quinze dobrões, signifiquei-lhe o meu espanto por este aumento aparente da nossa opulência. Disse-me, rindo, que não me desse isso cuidado.

— Não te prometi que encontraria recursos? — exclamou.

Amava-a com muita simplicidade para ter dela a mais leve suspeita. Certa ocasião, em que eu saíra depois do meio-dia, advertindo-a de que talvez me demorasse mais tempo do que de costume, fiquei surprendido de que me fizessem esperar, quando voltei, dois ou três minutos.

Éramos servidos por uma rapariga pouco mais ou menos da nossa idade. Quando veio abrir-me a porta perguntei-lhe a razão da demora. Respondeu-me, toda embaraçada, que não me tinha ouvido bater. Apenas tinha batido uma vez e, por isso, perguntei-lhe:

— Mas se não ouviste, como vieste?

Este argumento fê-la titubear, e não tendo esperteza bastante para me responder, pôs-se a chorar, afirmando-me que Manon a havia proibido de abrir a porta até que M. de B... saísse pela outra escada que dava para o gabinete.

Fiquei tão aturdido que nem forças tive de entrar em casa. Desci sob pretexto dum negócio e ordenei à rapariga que dissesse a sua ama que eu voltava em breve, intimando-a, porém, a que não lhe fizesse saber o que me tinha dito a respeito de M. de B...

Tão grande foi a minha consternação, que não pude deixar de derramar copiosas lágrimas ao descer a escada, e isto sem saber quais eram os sentimentos que as originavam. Entrei no primeiro café, sentei-me a uma mesa, e, apoiando a cabeça entre as mãos, procurei desenvolver e estudar tudo quanto se passava no meu coração.

Não ousei relembrar o que acabava de ouvir; queria considerar isso como uma ilusão; e por duas ou três vezes estive decidido a reentrar em casa, sem mostrar que sabia tudo. Parecia-me por tal forma impossível que Manon me traísse, que temia injuriá-la com tal suspeita.

Eu adorava-a, certamente; não lhe tinha dado mais provas de amor do que dela tinha recebido; porque motivo a acusaria então de ser menos sincera, menos constante do que eu?

Que razão poderia Manon ter para me atraiçoar? Ainda não haviam decorrido três horas que ela me tinha feito as mais ternas carícias, recebendo as minhas com transporte; não conhecia melhor o meu coração do que o seu.

— Não, não, — repetia eu — não é possível que Manon me tenha traído. Não ignora que eu só vivo para ela. Sabe muito bem que a adoro, e isto não é uma razão para que possa ser odiado!

Contudo, a visita e a saída furtiva de M. de B... intrigavam-me. Lembrava-me ao mesmo tempo das pequenas compras feitas por Manon, compras que excediam muito as forças das nossas riquezas presentes. Isto parecia denunciar liberalidades dum novo amante. E essa confiança que ela me tinha mostrado em recursos por mim desconhecidos? A falar a verdade, custava-me dar a tantos enigmas um sentido tão favorável como o meu coração desejava.

Por outro lado, quase que a não tinha perdido de vista desde que estávamos em Paris. Em ocupações, passeios e divertimentos, tínhamos estado sempre um ao lado do outro. Meu Deus! um instante de separação ter-nos-ia afligido bastante. Era preciso repetirmo-nos sem cessar que nos amávamos; morreríamos de inquietação sem isso. Como poderia eu, pois, imaginar que Manon pensasse um só momento em outrem que não fosse eu?

Por fim, julguei achar a chave deste mistério.

— M. de B... — disse comigo mesmo — é homem que trata de muitos negócios e tem imensas relações; os parentes de Manon ter-se-ão talvez servido deste homem para lhe mandar dinheiro. Talvez ela já tenha recebido algum, e hoje é muito provável que lhe fosse levar mais. Manon fez sem dúvida empenho em me ocultar esta circunstância, talvez para me fazer alguma agradável surpresa. Quem sabe se ela me estaria neste momento falando nisso, se em lugar de vir para aqui torturar-me eu tivesse entrado em casa? Estou bem certo que nada me ocultará, se eu lhe falar nisso.

Fortaleci-me tanto nesta opinião, que ela conseguiu aplacar muito a minha tristeza. Voltei imediatamente para casa. Beijei Manon com a minha ternura costumada. Recebeu-me perfeitamente. A princípio, tentei descobrir-lhe as minhas conjeturas, que me pareciam, agora mais do que nunca, verdadeiras; mas dominei-me na esperança de que havia de chegar o momento em que ela me contasse tudo quanto se tinha passado.

Serviram-nos a ceia. Sentei-me à mesa muito alegre, mas à luz do candieiro, colocado entre mim e ela, pareceu-me divisar sinais duma profunda melancolia no rosto e nos olhos da minha querida amante. Notei que o seu olhar me era dirigido dum modo muito diferente do costume: não podia, contudo, atinar se era por amor ou por compaixão, ainda que me pareceu originado por um sentimento de languidez e de ternura. Fitei-a igualmente com a mesma atenção, e talvez não lhe custasse menos a ela do que a mim, avaliar, pelo meu olhar, o estado do meu coração. Não pensávamos nem em falar nem em comer. Por fim, lágrimas abundantes correram de seus lindos olhos. Lágrimas pérfidas!

— Oh! meu Deus! Tu choras, querida Manon! Sofres a ponto de chorar, e nem um só dos teus pesares me contas!

Não me respondeu senão com suspiros, que apenas contribuíram para aumentar a minha inquietação.

Levantei-me, todo trêmulo, conjurando-a por tudo quanto de mais sagrado podia haver no amor, a dizer-me a causa das suas lágrimas; eu mesmo também chorei ao enxugar as suas: estava mais morto do que vivo. Um bárbaro ter-se-ia enternecido diante das provas da minha dor e dos meus temores.

Enquanto isto se passava, ouvi o ruído que faziam várias pessoas subindo a escada. Bateram à porta muito de leve. Manon deu-me um beijo e fugiu dos meus braços, fechando-se no seu gabinete. Pareceu-me que estando um pouco em desalinho, querer-se-ia esconder aos olhos dos estranhos que haviam batido. Eu próprio fui abrir a porta.

Apenas a tinha aberto, fui agarrado por três homens, que imediatamente reconheci serem criados de meu pai. Não exerceram sobre mim a menor violência, mas, como dois dentre eles, me tivessem seguro pelos braços, o terceiro apalpou todas as minhas algibeiras, donde tirou um pequeno canivete, único ferro que trazia comigo. Pediram-me perdão de serem forçados a faltar-me ao respeito, dizendo-me que se assim o faziam era por ordem de meu pai, e que meu irmão mais velho me esperava em baixo dentro duma carruagem. Estava tão perturbado que me deixei conduzir sem resistência e sem murmurar a menor palavra. Meu irmão estava efetivamente à minha espera. Meteram-me na carruagem ao lado dele, o galope para São Diniz.

Meu irmão abraçou-me ternamente, mas não me disse nada, de sorte que tive toda a liberdade de que necessitava para pensar no meu infortúnio.

Achei que tudo quanto acabava de acontecer-me era tão obscuro que nem na menor conjetura podia encontrar um vislumbre de luz.

Tinha sido cruelmente atraiçoado; mas por quem? Tiberge foi o primeiro que me veio à idéia. Traidor, dizia eu, podes encomendar a tua alma à Deus, se as minhas suspeitas se confirmarem. E, contudo, raciocinando melhor vi que ele ignorava o lugar onde eu estava, e que conseqüentemente não podia ter sido o denunciante. Acusar Manon!... era exatamente do que o meu coração não queria tornar-se culpado. Aquela tristeza extraordinária que tanto a acabrunhava, as suas lágrimas, o terno beijo que me tinha dado ao retirar-se, tudo isto me parecia enigmático; mas não sei porque me sentia levado a explicá-lo como um pressentimento da nossa comum desgraça; e enquanto me irritava pelo incidente que a ela me havia arrancado, tinha a ingenuidade de julgar que Manon era ainda mais digna de lástima do que eu.

O resultado da minha meditação foi o persuadir-me de que teria sido visto nas ruas de Paris por alguém do meu conhecimento, e que disso tinha sido avisado meu pai. Uma tal idéia consolou-me. Contava ficar quite por algumas repreensões ou mesmo por alguma violência que teria de sofrer da autoridade paterna.

Resolvi, portanto, suportar tudo com paciência e prometer quanto de mim se exigisse, a fim de que melhor se me facilitasse a ocasião de voltar mais prontamente a Paris, e ir restituir a vida e a alegria à minha querida Manon.

Em breve, chegamos a São Diniz. Meu irmão, surpreendido com o meu silêncio, imaginou-o motivado pelo receio. Procurou consolar-me, assegurando-me que eu nada tinha a temer da severidade de meu pai, contando que estivesse disposto a entrar sem relutância no cumprimento dos meus deveres e a tornar-me digno da afeição que ele por mim sentia. Obrigou-me a passar a noite em São Diniz, tomando a precaução de fazer dormir os três lacaios no meu quarto.

O que me causou um grande desgosto foi o achar-me na mesma estalagem em que tinha ficado com Manon na viagem de Amiens para Paris. O estalajadeiro e os criados conheceram-me, adivinhando ao mesmo tempo a verdade da minha aventura. Ouvi dizer ao dono da casa:

— Ah! é aquele lindo rapaz que passou por aqui há seis semanas, com uma rapariguinha a quem parecia amar tanto! Como ela era bonita! E que festas que se faziam as pobres crianças! É pena que os tenham separado.

Eu fingia não ouvir e ocultava o rosto o mais que podia.

Meu irmão tinha, em São Diniz, uma sege de dois lugares em que partimos na manhã seguinte, e chegamos a nossa casa ao cair da noite. Falou a meu pai antes de mim para o predispor favoravelmente, contando-lhe a docilidade com que eu me tinha deixado conduzir, de modo que fui recebido muito menos asperamente do que esperava. Contentou-se em fazer-me algumas repreensões pela falta que eu havia cometido, ausentando-me sem sua autorização.

Quanto ao que dizia respeito à minha amante, disse-me que eu tinha merecido tudo quanto me acontecera, lançando-me assim às cegas nos braços duma desconhecida; que formava melhor opinião da minha prudência, mas que esperava que esta pequena aventura faria que para o futuro eu tivesse mais juízo.

Aceitei a prática unicamente na parte que se conciliava com as minhas idéias. Agradeci a meu pai a sua bondade em me perdoar e prometi-lhe que dali em diante teria uma conduta mais regular e submissa.

Triunfava, ainda que em segredo, pois pelo caminho que as cousas tomavam, não duvidava de que pudesse ter a liberdade de me evadir de casa antes mesmo do fim da noite.

Sentamo-nos à mesa para cear: mofaram todos de mim pela minha conquista de Amiens e sobretudo pelo rapto desta fiel amante. Sofri de cara alegre e da melhor feição todos os motejos. Estava até encantado por poder falar na mulher em que a minha mente só pensava. Mas, algumas palavras de meu pai fizeram com que a minha atenção redobrasse.

Falou da perfídia e dos serviços interesseiros de M. de B... Fiquei atônito, ouvindo-lhe pronunciar tal nome e roguei-lhe submissamente que se explicasse melhor. Voltou-se para meu irmão perguntando-lhe se não me havia contado toda a história, ao que ele respondeu que, tendo-me eu mostrado tão tranqüilo durante a jornada, não julgara dever aplicar-me este remédio para me curar da minha loucura. Notei que meu pai hesitava em dar todas as explicações. Pedi-lhe, supliquei-lhe com tanta instância, que satisfez por fim a minha vontade, ou para melhor dizer, assassinou-me cruelmente com a mais horrível de todas as narrações.

Perguntou-me primeiro se eu havia tido sempre a boa fé de acreditar que era amado pela minha amante. Respondi-lhe ousadamente que estava disso tão convencido que nada me podia infundir a menor dúvida.

— Ah! ah! ah! — exclamou ele rindo com todas as suas forças — é admirável! Tu és um pateta e ficam-te muito bem esses sentimentos. É pena, meu pobre cavalheiro, fazer-te entrar na ordem de Malta, quando tens tantas disposições para um marido sofredor e pacífico.

Acrescentou a isto mil outros motejos sobre o que ele chamava a minha tolice e a minha credulidade.

Por fim, como eu não respondesse, continuou dizendo-me que segundo o cálculo do tempo que podia fazer desde a minha partida de Amiens, Manon apenas me tinha amado doze dias.

— Porque — ajuntou ainda meu pai — sei que saiste de Amiens a 28 do mês passado; estamos a 29 do corrente; há doze dias que M. de B... me escreveu; suponho que lhe foram necessários oito para estabelecer conhecimento com a tua amante: assim, quem tira onze e oito dias de trinta e um dias, espaço decorrido de 28 de um mês a 29 do outro, ficam doze pouco mais ou menos.

As gargalhadas dos presentes recomeçaram.

Eu escutava tudo, mas o coração ia-se-me confrangendo de tal modo que temi não poder resistir até ao fim a triste comédia.

— Sabe então, — continuou meu pai, — que M. de B... está de posse do coração da tua princesa, pois quer talvez divertir-se comigo, fazendo-me convencer que é por um zelo desinteressado pela minha honra e bom nome de todos os meus que me avisou. É exatamente dum homem como ele, e de quem não sou conhecido, que se devem esperar sentimentos tão nobres! Soube por ela que tu eras meu filho; e para se desfazer de ti como dum importuno, escreveu-me indicando o lugar onde te ocultavas e as extravagâncias no meio das quais vivias, dando-me ao mesmo tempo a entender que seria preciso empregar a força para te dominar; ofereceu-se para me facilitar os meios de te prender, e foi debaixo da sua direção e mesmo da de tua amante, que teu irmão achou a forma de te fazer cair na ratoeira. Felicita-te agora da duração do teu triunfo! Sabes vencer rapidamente, cavalheiro; mas não sabes conservar as tuas conquistas!

Não tive força para ouvir por mais tempo uma arenga de que cada palavra me trespassava o coração. Levantei-me da mesa, e ainda bem não tinha dado quatro passos, quando caí sem sentidos. Fizeram-me voltar a mim por meio de prontos socorros. Abri os olhos para derramar uma torrente de lágrimas, e a boca para proferir as mais tocantes e tristes lamentações. Meu pai, que sempre me quis ternamente, empregava todos os meios que a sua afeição lhe sugeria para me consolar. Escutava-o mas não o ouvia. Lancei-me a seus pés; pedi-lhe de mãos erguidas que me deixasse voltar a Paris para ir apunhalar M. de B...

— Não — dizia eu — o coração de Manon não lhe pertence, forçou-a talvez brutalmente. Manon ama-me. Não o sei eu muito bem?!... Ameaçou-a, talvez, com a morte, para a obrigar a abandonar-me. Que não faria ele para me roubar uma tão linda amante? Oh! meu Deus! seria possível que Manon me traísse e deixasse de amar-me!?

Como eu persistisse na loucura de querer voltar imediatamente para Paris e me levantava mesmo a todos os momentos para sair, meu pai viu que na exaltação em que me achava, nada seria capaz de conter-me. Conduziu-me para um quarto no último andar da casa, onde deixou dois criados, para me fazerem sentinela à vista. Não era senhor de mim. Mil vidas que tivesse tê-las-ia dado para estar em Paris um quarto de hora apenas. Compreendi que, tendo-me desmascarado tão abertamente, não me permitiriam facilmente que saísse do meu quarto. Medi com a vista a altura das janelas. Não vendo meio algum de fugir por este lado, tentei seduzir os meus dois guardas. Comprometi-me por mil juramentos a fazer um dia a sua fortuna, se consentissem na minha evasão. Pedi, acariciei-os, cheguei até às ameaças; mas tudo foi inútil.

Perdi, então, toda esperança. Resolvi morrer, e atirei-me para cima da cama com a firme intenção de não a deixar senão com a vida. Passei a noite e o dia seguinte nesta situação, e recusei totalmente toda a comida que me serviram.

Meu pai, veio à tarde visítar-me. Teve a bondade de lisonjear os meus pesares pelas mais doces consolações. Ordenou-me tão imperiosamente que comesse alguma cousa, que eu obedeci para respeitar as suas ordens.

Alguns dias se passaram, durante os quais nada tomei senão na sua presença e só para me conformar com a sua vontade. Meu pai continuava sempre a dar-me os bons conselhos que podiam restituir-me a razão e inspirar-me o desprezo que merecia a infiel Manon. Era certo que eu já a não estimava; como poderia estimar a mais volúvel e pérfida das criaturas? Mas a sua imagem, as suas feições encantadoras, que eu tinha indelevelmente gravadas no espírito, subsistiam ainda. Eu bem o sentia.

— Posso morrer, — dizia eu — deveria mesmo morrer depois de tanta vergonha e tanta dor; mas antes mil mortes do que esquecer a ingrata Manon.

Meu pai estava espantado de ver como a minha afeição continuava tão fortemente. Conhecia a minha honra e brio, e não duvidando de que a traição de Manon me infundisse justo desprezo para com ela, imaginou que a minha constância era resultante menos desta paixão em particular do que dum fraco para com todas as mulheres em geral.

Aferrou-se por tal modo a esta idéia que não dando ouvidos senão à muita afeição que me consagrava, disse-me um dia:

— Cavalheiro, é verdade que até hoje formei tenção de te fazer entrar na ordem de Malta; mas vendo que a tua inclinação não é para o celibato, antes ao contrário amas as belas mulheres, estou resolvido a procurar-te uma que te convenha e agrade. Dize-me o que pensas a este respeito.

Respondi-lhe que para mim não havia já distinção alguma entre as mulheres e que depois da desgraça que me tinha acontecido, detestava-as a todas igualmente.

— Procurar-te-ei uma que se pareça com Manon, e que te seja mais fiel — disse meu pai.

— Ah! se ainda me estima, é Manon que me deve restituir; esteja certo, meu querido pai, de que ela não me traiu, pois não era capaz de tão negra e cruel baixeza. É o pérfido B... que nos engana, a meu pai, a ela e a mim. Se soubesse quanto Manon era terna e sincera!... Se a conhecesse, também meu pai a amaria.

— És uma criança — disse-me meu pai — como podes ainda estar cego até esse ponto, depois do que a seu respeito te contei? Foi ela própria quem te entregou a teu irmão. Até o nome lhe deverias esquecer, e aproveitar-te, se tivesses juízo, da indulgência com que te tenho tratado.

Eu bem reconhecia que meu pai tinha razão. Existia, porém, uma força involuntária que me fazia tomar assim o partido da minha infiel amante.

— Mas — continuei eu — o certo é que sou o desgraçado alvo da mais covarde de todas as perfídias. Sim, — acrescentei, derramando lágrimas de despeito — bem vejo que não passo de uma criança. A minha credulidade não lhe custava muito a enganar. Mas sei muito bem o que tenho a fazer para me vingar.

Meu pai perguntou-me quais eram as minhas tenções.

— Irei a Paris, — respondi eu — deitarei fogo à casa de B... e queimá-lo-ei vivo com a pérfida Manon.

Esta bravata fê-lo rir e não serviu senão para que eu fosse vigiado ainda mais cautelosamente na minha prisão.

Aí passei seis meses, durante o primeiro dos quais pouca mudança houve nas minhas disposições. Todos o meus sentimento não passavam duma alternativa perpétua de ódio e de amor, de esperança ou de desespero, segundo a forma sob a qual Manon me acudia à mente. Umas vezes não via nela senão a mais amável de todas as mulheres, e ardia no desejo de a tornar a ver; outras, considerava-a como uma desleal e desprezível amante, e fazia mil juramentos de nunca mais a procurar senão para a punir.

Deram-me livros que serviram para tranqüilizar-me alguma cousa o espírito. Li, novamente, todos os meus autores prediletos. Adquiri um gosto infinito pelo estudo. O senhor verá, mais tarde, a utilidade que disto resultou para mim. A experiência que me dera o amor fez que eu percebesse muitos trechos de Horácio e Vergílio, que até então me eram obscuros. Fiz um comentário amoroso ao quarto livro da Eneida, que destino ainda hoje a dar a lume, e julgo que o público ficará satisfeito com a obra. — Mas ai! — dizia eu ao escrevê-lo — era um coração como o meu que a fiel Dido precisava.

Tiberge veio visitar-me um dia na minha prisão. Fiquei surpreendido do júbilo com que me abraçou. Ainda não tinha, contudo, provas da sua afeição que ma pudessem fazer olhar por outro prisma que não fosse uma simples amizade de colégio, tal qual ela se estabelece entre rapazes pouco mais ou menos da mesma idade. Achei-o tão mudado, depois dos cinco ou seis meses que passei sem o ver, que a sua presença e o tom das suas palavras infundiram-me respeito. Falou-me mais como um prudente conselheiro, do que como um amigo de escola. Lastimou o erro em que eu tinha caído e felicitou-me pela minha cura, que julgava muito avançada. Enfim, exortou-me a aproveitar deste erro da mocidade para bem julgar da vaidade dos prazeres mundanos. Olhei-o com espanto, o que ele notou.

— Meu caro amigo, — continuou Tiberge — não te digo nada que não seja solidamente verdadeiro, e de que eu não esteja convencido por um sério exame. Eu tinha tanta tendência para a voluptuosidade como tu; mas o céu havia-me concedido ao mesmo tempo o gosto da virtude. Comparei o fruto que poderia obter duma e outra, e não levei muito tempo em conhecer a diferença entre ambas. O socorro do céu veio em auxílio das minhas reflexões, e concebi, desde então, um tal desprezo pelo mundo que não podes imaginar a sua veemência. Adivinharás, por acaso, o que me retém na sociedade e que me impede de ir refugiar-me num ermo? É unicamente a terna amizade que tenho por ti. Conheço a excelência do teu coração: nada haverá de bom de que tu não sejas capaz. O veneno do prazer desviou-te do justo caminho. Que perda para a virtude! A tua fuga de Amiens penalizou-me tanto, que a datar de então ainda não tive um instante de prazer e alegria. Podes julgar a este respeito pelos passos que tenho dado.

Contou-me que, tendo visto que eu o havia enganado, fugindo com a minha amante, montara a cavalo para me seguir; mas que, tendo eu cinco ou seis horas de avanço sobre ele, impossível lhe fora o alcançar-me; que, no entanto, chegara a São Diniz meia hora depois da minha partida; que, certíssimo de que eu teria ficado em Paris, passou a procurar-me, inutilmente durante seis semanas; que corria todos os lugares, onde julgava poder encontrar-me e que uma noite, reconhecendo a minha amante no teatro, mas vestida com tão grande luxo que imaginou logo que ela devia tudo isso a algum novo protetor, tinha seguido a carruagem de Manon até casa e que soubera então por um criado que quem pagava toda a despesa era M. de B...

— Não satisfeito com isto, — continuou ele — voltei no dia seguinte para saber da própria boca de Manon o que era feito de ti. Despediu-me bruscamente, apenas me ouviu falar no teu nome, e fui obrigado a regressar à província sem nenhum esclarecimento mais. Foi aí que soube então da tua aventura e da consternação a que ela te reduziu, mas não quis ver-te sem estar certo de que te encontrarias mais tranqüilo.

— Então, viste Manon? — perguntei-lhe eu, suspirando. — És mais feliz do que eu, que estou condenado a não tornar a vê-la.

Tiberge repreendeu-me por este suspiro, que bem denotava ainda a minha fraqueza por essa mulher perdida. Lisonjeou-me ao mesmo tempo sobre a bondade do meu caráter e sobre as minhas inclinações, e isto de tal modo, que me fez nascer logo, nesta primeira visita, um forte desejo de renunciar como ele a todos os prazeres do mundo, para entrar no estado eclesiástico.

Encantou-me por tal modo esta idéia, que apenas me achei só não pensei em outra cousa. Lembrei-me do discurso do bispo de Amiens, que me tinha dado os mesmos conselhos, e os presságios felizes que havia formado a meu respeito, se eu me resolvesse a abraçar tal carreira. A crença também se mesclava às minhas considerações. Levarei uma vida santa e cristã, dizia eu comigo mesmo, ocupar-me-ei só do estudo e da religião, o que não me deixará pensar nos perigosos prazeres do amor. Desprezarei o que o geral dos homens admira; e como sinto perfeitamente que o meu coração não ama senão o que estima, terei assim menos inquietação do que desejos.

Sobre estes raciocínios formei de antemão um sistema de vida pacífico e solitário. Imaginava-me já numa casa retirada, com uma pequena mata e um regato de água pura ao fundo do jardim; uma biblioteca composta de livros escolhidos; um pequeno número de relações virtuosas e de bom senso; uma mesa boa, mas frugal e moderada. Juntava a isto um bom amigo em Paris, que me informasse das notícias do dia, menos para satisfazer a minha curiosidade, do que para encontrar um divertimento nas loucas agitações dos homens.

— Não serei então feliz? Não se realizarão todas as minhas aspirações?

É certo que este projeto lisonjeava bastante as minhas inclinações. Mas, ao fim dum plano tão prudente e sensato, sentia que o meu coração esperava ainda alguma cousa mais, e que para nada desejar na minha encantadora solidão, era forçoso ter Manon na minha companhia.

Entretanto, Tiberge, continuando a fazer-me freqüentes visitas para me fortalecer no desígnio que me havia inspirado, forçou-me a declarar as minhas intenções a meu pai. Ele confessou que, sendo seu intuito deixar aos filhos a livre escolha da sua carreira, de modo algum se oporia ao meu desígnio, não reservando para si mais do que o direito de me ajudar com os seus conselhos. E, na verdade, aconselhou-me ponderadamente, não com o fim de me fazer pôr de lado a minha resolução, mas antes ao contrário, para me levar a persistir nela conscientemente.

A abertura das aulas aproximava-se. Combinei com Tiberge que entraríamos ambos no seminário de São Sulpício; ele para acabar os seus estudos de teologia, e eu para começar os meus. O seu talento e aproveitamento, já bem conhecidos do prelado da diocese, fizeram-lhe obter um benefício considerável antes mesmo da nossa partida.

Meu pai julgando-me totalmente curado da minha violenta paixão deixou-me seguir sem a menor dificuldade da sua parte.

Chegámos a Paris. O hábito eclesiástico substituiu a cruz de Malta e o nome de padre des Grieux o de cavalheiro. Apliquei-me com tanto afã ao estudo, que em poucos meses fiz progressos extraordinários. Nele empregava eu uma grande parte da noite, e não perdia nem um instante do dia. A minha reputação formou-se, tão brilhantemente que já me felicitavam pelas dignidades que eu não podia deixar de obter; e sem que eu o solicitasse o meu nome foi inscrito na lista dos benefícios eclesiásticos. Os deveres religiosos não eram esquecidos; mostrava o maior fervor nos exercícios devotos. Tiberge estava encantado do que ele considerava como obra sua; e muitas vezes o vi chorar, aplaudindo-se daquilo a que chamava a minha conversão.

Que as resoluções humanas estejam sujeitas a modificarem-se, nunca a mim me admirou: uma paixão as faz nascer, uma outra as pode destruir; mas, quando penso na santidade das que me conduziram até São Sulpício, e na alegria interior que o céu me fazia sentir ao executá-las, fico horrorizado da facilidade com que eu as calquei aos pés. Se é certo que o socorro celeste é sempre igual à força das paixões, que me expliquem então como, ou por que funesto ascendente, podemos ser arrastados para longe do nosso dever num abrir e fechar de olhos, sem nos sentirmos capazes da menor resistência e sem o mais leve remorso.

Julgava-me totalmente liberto das fraquezas do amor. Parecia-me que prefiria a leitura duma página de Santo Agostinho, ou um quarto de hora de meditação cristã, a todos os prazeres dos sentidos, sem excetuar mesmo aqueles que Manon me poderia oferecer. Contudo, um instante desgraçado fez-me recair no precipício, e a minha queda foi tanto mais irreparável quanto, achando-me de repente no mesmo abismo que tinha saído, os meus novos desvarios levaram-me ainda mais para o fundo.

Tinha passado já um ano em Paris sem querer saber de Manon. Ao princípio, uma tal violência feita ao meu coração alguma cousa me custou, mas os conselhos sempre presentes de Tiberge e a minha própria reflexão fizeram-me triunfar. Os últimos meses tinham decorrido tão tranqüilos, que eu julgava já poder esquecer pra sempre essa encantadora, mas pérfida criatura. Aproximava-se o tempo em que eu devia sustentar um debate público na Escola de teologia; mandei pedir a muitas pessoas de consideração que se dignassem honrar o meu ato com a sua assistência. Por esta forma, o meu nome espalhou-se por todos os bairros de Paris: chegou mesmo aos ouvidos da minha infiel amante. Estou bem certo de que ela o não conheceu sob o título de padre; mas um resto de curiosidade, ou talvez mesmo o arrependimento de me ter traído (nunca pude saber qual destes dois sentimentos a guiara), fez-lhe tomar interesse por um nome tão semelhante ao meu. Veio, pois, à Sorbonna, juntamente com outras damas. Assistiu ao meu exercício, e sem dúvida que não teve grande trabalho para me reconhecer.

Não tive a menor notícia desta visita. Como se sabe, há nestes lugares gabinetes particulares para as senhoras, onde elas ficam ocultas por meio duma persiana. Voltei a São Sulpício coberto de glória e vitoriado por mil cumprimentos. Eram seis horas da tarde. Vieram avisar-me, um momento depois da minha chegada, de que uma dama perguntava por mim e queria ver-me.

Corri imediatamente ao locutório. Meu Deus! Que apariçãa surpreendente! Encontrei Manon. Era ela, mais amável e mais sedutora do que nunca a vira! Estava no seu décimo oitavo ano: os seus encantos ultrapassavam tudo quanto sobre eles se pudesse dizer. Que figura tão fina, tão doce, tão atraente! Era o próprio amor com forma humana! Toda ela me pareceu um perfeito enlevo.

Fiquei atônito diante dela e não podendo conjeturar qual seria o fim desta visita, esperei, de olhos baixos e tremendo, que ela se explicasse. A sua agitação foi, durante alguns segundos, igual à minha mas vendo que o meu silêncio continuava, levou as mãos aos olhos para ocultar as lágrimas. Disse-me, com voz tímida, que confessava a sua infidelidade, e que bem merecia o meu ódio, mas que se na verdade eu tinha sentido por ela algum amor, levei a crueldade ao requinte, deixando passar dois anos, sem procurar saber do seu destino, e que mostrava ainda uma crueldade maior, vendo-a tão consternada junto de mim sem lhe dizer uma só palavra. Não saberia exprimir a perturbação do meu espírito, ao ouvi-la.

Sentou-se; eu fiquei de pé, meio voltado, não ousando encará-la diretamente. Muitas vezes, comecei uma resposta que não conseguia acabar. Enfim, depois dum esforço supremo, exclamei dolorosamente:

— Pérfida Manon!

— Ah! Pérfida! Pérfida!... Repetiu-me, chorando amargamente, que não pretendia justificar a sua perfídia.

— Então, que queres? — interroguei eu ainda.

— Quero morrer, se o seu coração me não for restituído, porque sem ele não posso viver!

— Pede pois a minha vida, infiel! — respondi a meu turno derramando copiosas lágrimas, que em vão tentei impedir — a minha vida que é a única cousa que me resta para te dar, porque o meu coração nunca deixou de pertencer-te!

Apenas tinha acabado de dizer estas imprudentes palavras, Manon, levantando-se exaltadamente, correu a beijar-me. Subjugou-me com as mais apaixonadas carícias; chamou-me com todos os nomes que o amor inventa para exprimir as suas mais vivas ternuras. Eu correspondia-lhe ainda frouxamente.

Que fuga tão espantosa da situação tranqüila em que me encontrava para a agitação tumultuosa que sentia renascer! Estava aterrado. Tremia como acontece quando nos achamos de noite no meio duma vasta planície deserta e que nos sentimos assaltados por um pavor secreto, que não nos abandona, sem termos observado largo tempo o terreno, onde nos achamos.

Sentamo-nos um junto do outro. Estreitei as suas mãos nas minhas.

— Ah! Manon — disse, contemplando-a tristemente — nunca esperei a negra traição com que pagaste o meu amor. Bem fácil te foi enganar um coração que era todo teu e cuja felicidade se resumia em agradar-te e obedecer-te. Dize-me, agora, se encontraste um outro tão terno e tão submisso. Não, não; a natureza não fez dois corações da têmpera do meu. Dize-me ao menos se alguma vez de mim te lembraste com saudade. Que importância devo eu ligar a esse arrependimento que te trouxe hoje até junto de mim para me consolares? O que vejo é que cada vez estás mais encantadora; mas em nome de todos os desgostos que por ti tenho sofrido, promete-me, minha bela Manon, se me serás mais fiel para o futuro.

Respondeu-me com tocantes palavras dum sincero arrependimento, e jurou-me uma fidelidade eterna por meio de protestos tais, que me enterneceu a um ponto inexprimível.

— Minha querida Manon — continuei com uma mistura profana de expressões teológicas e amorosas, —: és em demasia adorável para uma mulher. Vou perder o meu futuro e a minha reputação por tua causa, bem o sei; leio o meu destino nos teus olhos encantadores; mas do que não serei eu capaz pelo teu amor? Os favores da fortuna não me interessam; a glória parece-me fumo; todos os meus projetos da vida eclesiástica não eram mais do que criações de louca imaginação; enfim, todos os gozos diferentes dos que espero alcançar com a tua posse, são para mim bem desprezíveis, pois que eles não prevaleceriam um só momento no meu coração, sob os teus olhos.

Ao passo, porém, que lhe prometia um geral esquecimento de todas as suas faltas, quis, contudo, ser informado de que modo se tinha deixado seduzir por M. de B... Manon contou-me que, tendo-a ele visto à janela, havia ficado loucamente enamorado, e fizera-lhe a sua declaração como arrematante geral das rendas do Estado, isto é, observando-lhe numa carta que a paga seria proporcional aos favores; que ela, a princípio, capitulara sem outro intuito que não fosse extorquir-lhe alguma soma considerável com que ambos pudéssemos viver comodamente, mas que, fascinada depois pelas mais deslumbrantes promessas, pouco a pouco fora cedendo; que eu, no entanto, bem deveria avaliar os seus remorsos pela dor com que a tinha visto acabrunhada na véspera da separação; que, apesar da opulência de que ele a rodeara, nunca havia tido um só momento de felicidade, não só porque, segundo disse Manon, não achava em M. de B... a delicadeza dos meus sentimentos e a amabilidade das minhas maneiras, mas porque, no meio do turbilhão dos prazeres que ele sem cessar lhe oferecia, havia no fundo do seu coração a imagem viva do nosso amor e os remorsos da sua infidelidade. Falou-me de Tiberge e da confusão extrema que a sua visita lhe causou.

— Uma espada que me cravassem no corpo não me teria doído tanto. Voltei-lhe as costas, pois que não poderia suportar a sua presença — declarou ela.

Manon continuou, dizendo-me por que forma havia sido sabedora da minha estada em Paris, da transformação da minha carreira, e dos meus exercícios na Sorbonna. Assegurou-me que tinha estado tão agitada durante o meu ato, que bem lhe custou não só a reter as lágrimas, mas mesmo os seus gemidos e os seus gritos, que mais duma vez estiveram para rebentar. Enfim, disse-me que tinha sido a última a sair daquele lugar para ocultar a sua comoção e a desordem das suas feições, e que não tendo escutado senão a voz do seu coração e a impetuosidade do seu desejo, correra direita ao Seminário na firme idéia daí morrer se eu não estivesse disposto a perdoar-lhe.

Onde se encontraria o bárbaro a quem tão vivo e sincero arrependimento não comovesse? Quanto a mim, senti, nesse momento, que teria sacrificado a Manon todos os bispados do mundo cristão. Perguntei-lhe qual o rumo que devíamos dar aos nossos destinos. Disse-me que era preciso sair imediatamente do Seminário e tratarmos de arranjar um lugar seguro, onde pudéssemos viver. Acedi a todas as suas vontades sem replicar. Manon entrou na sua carruagem para me ir esperar à esquina da rua; e eu, um momento depois, escapei-me do locutório, sem ser visto do porteiro. Subi para o lado dela, e no caminho entrámos numa loja de adeleiro. Tornei outra vez a ornar-me com os galões e a espada. Manon pagou a despesa, pois eu não tinha nem um soldo, e temendo que encontrasse algum obstáculo à minha saída de São Sulpício, nem ao menos quis que eu fosse à cela buscar o dinheiro que lá possuía. Os meus tesouros eram além disso medíocres, e Manon estava suficientemente rica com as liberalidades de M. de B... para desprezar aquilo que me fazia abandonar. Em casa do próprio adelo combinámos o que havíamos de fazer.

Para engrandecer a meus olhos ainda mais o sacrifício que ela me fazia de M. de B..., Manon resolveu não ter para com ele a menor atenção.

— Deixar-lhe-ei todos os seus móveis, são dele; mas levarei, porque é de justiça, todas as jóias e perto de sessenta mil francos que lhe arranquei durante dois anos. Não lhe dei nenhum poder sobre mim, portanto podemos viver sem receio em Paris, onde alugaremos uma casinha cômoda e elegante para passarmos a nossa vida.

Afirmei-lhe que se não havia perigo para ela, havia-o para mim, e bastante, porque cedo ou tarde não deixaria de ser reconhecido e continuamente havia de estar exposto à desgraça que já uma vez sobre mim pesara. Manon deu-me a entender que teria pena de deixar Paris, e eu temia tanto causar-lhe o menor desgosto, que afrontaria tudo, contanto que lhe agradasse; porém, achamos um meio termo, muito razoável, que foi o de alugarmos uma casa nos arrabaldes de Paris, donde nos seria fácil vir à cidade quando o prazer ou a necessidade a ela nos chamassem. Escolhemos Chaillot, que é pouco afastado. Manon voltou imediatamente a sua casa. Eu fiquei-a esperando junto à pequena porta do jardim das Tulherias.

Uma hora depois, estava de regresso, vindo numa carruagem de aluguel, com a criada que a servia, e algumas malas onde os seus vestidos e tudo quanto tinha de precioso estavam encerrados.

Não tardamos em chegar a Chaillot. Dormimos a primeira noite na estalagem para termos tempo de procurar uma casa que nos conviesse e que achamos no dia seguinte.

A minha felicidade pareceu-me, a princípio, estabelecida por forma inquebrantável. Manon era a doçura e a complacência em pessoa. Tinha para mim tão delicadas atenções que me cheguei a julgar perfeitamente indenizado de todos os meus sacrifícios. Como havíamos adquirido ambos uma certa experiência, não será para admirar que fizéssemos algumas reflexões sobre a estabilidade da nossa fortuna. Sessenta mil francos não era soma que pudesse durar tanto tempo como a nossa vida. Além disso, não estávamos dispostos a restringir a nossa despesa, pois não era de certo a economia a primeira virtude de Manon, nem tão pouco a minha.

Eis o plano que propus:

— Sessenta mil francos, — disse-lhe eu — podem sustentar-nos durante dez anos, pois nos bastam dois mil escudos anuais se continuarmos a viver em Chaillot. Aqui, passaremos uma vida pacífica e simples. A nossa única despesa extraordinária será a do custeio duma carruagem e o teatro. Estabeleceremos uma regra. Tu gostas da ópera: iremos lá duas vezes por semana. Quanto ao jogo, tomaremos nele cuidado por tal modo que as nossas perdas nunca excedam dois dobrões. É impossível que, no espaço de dez anos, não haja mudança na minha família; meu pai é idoso: pode morrer. Então, estaremos ao abrigo de todos os receios.

Esta linha de conduta não teria sido a ação mais louca da minha vida, se houvéssemos tido o bom senso de a seguirmos à risca. Mas, a nossa boa vontade não durou mais dum mês. Manon tinha a paixão dos prazeres e eu estava louco por ela. A todos os momentos, surgiam novas ocasiões de despesa, e longe de a censurar pelas somas que ela gastava com profusão, era eu o primeiro a adivinhar-lhe os pensamentos e a ir ao encontro dos seus menores desejos. A nossa habitação em Chaillot começou a ser para ela um encargo.

O inverno aproximava-se, todos voltavam para a cidade e o campo ficava deserto. Manon propôs-me o regresso a Paris. Não acedi à proposta; mas para a satisfazer em alguma cousa disse-lhe que podíamos alugar na capital um quarto mobilado para passarmos as noites, quando acontecesse demorarmo-nos demasiadamente nas visitas que muitas vezes fazíamos durante a semana, pois o incômodo de voltarmos na mesma noite e fora de horas para Chaillot era o pretexto que ela invocava para deixar a casa. Assim, ficámos com duas habitações: uma urbana, outra rural. Esta mudança trouxe rapidamente a desordem aos nossos negócios, sendo a origem de duas aventuras que nos perderam para sempre.

Manon tinha um irmão que era soldado da guarda real; desgraçadamente, porém, deu-se a circunstância de morar na rua que nós habitávamos em Paris. Reconheceu sua irmã, vendo-a um dia de manhã à janela, e correu imediatamente à nossa casa. Era um homem brutal e sem os mais leves princípios de honra. Entrou no nosso quarto, praguejando horrivelmente e, como conhecia parte das aventuras de sua irmã, acabrunhou-a com injúrias e acusações.

Eu tinha saído momentos antes, o que sem dúvida alguma foi uma grande felicidade quer para ele, quer para mim, que não estava disposto a sofrer o mínimo insulto. Quando voltei para casa, já ele tinha saído. A tristeza de Manon denunciou-me que na minha ausência alguma cousa extraordinária se havia passado.

Contou-me a cena vergonhosa que acabava de ter com seu irmão e as ameaças que ele lhe fizera.

Ressenti-me por tal modo com a afronta, que correria a vingar-me imediatamente se as lágrimas da pobre rapariga não me retivessem a seu lado.

Enquanto eu conversava com ela nesta aventura, o soldado da guarda real entrou no aposento onde estávamos, sem mesmo se fazer anunciar. Decerto, não o receberia tão polidamente como o fiz se o tivesse conhecido; mas, tendo-nos cumprimentado com ar risonho, teve ensejo de dizer a Manon que lhe vinha pedir desculpa do seu arrebatamento, pois a julgara entregue à vida dissoluta e fora esta opinião que excitara a sua cólera; mas que, tendo-se informado de quem eu era com um dos nossos criados, soubera a meu respeito cousas tão favoráveis que lhe fizeram nascer o desejo de viver de bem conosco.

Ainda que esta informação, que obtivera dum dos meus lacaios, alguma cousa tivesse de ofensiva e de bizarra, recebi os seus cumprimentos com dignidade. Pensei que, por este modo, causaria prazer a Manon. Ela parecia encantada com o fato de seu irmão estar pronto a reconciliar-se.

Convidamo-lo para jantar, ao que ele anuiu prontamente.

Em poucos momentos, tomou tanta confiança, que, tendo-nos ouvido falar da nossa volta para Chaillot, quis absolutamente acompanhar-nos, e forçoso nos foi dar-lhe um lugar na nossa carruagem. Foi uma espécie de tomada de posse, porque bem depressa se costumou a visitar-nos e com tanto gosto que fez da nossa casa a sua, e tornou-se também senhor de tudo quanto nos pertencia. A mim chamava-me seu irmão, e sob pretexto da liberdade fraternal, quase trouxe todos os seus amigos para a nossa casa de Chaillot, onde os banqueteava à nossa custa. Fez que pagássemos todas as suas dívidas. Eu fechava os olhos a tão grande desaforo para não desagradar a Manon, a ponto mesmo de fingir que ignorava que seu irmão lhe extorquia continuamente somas consideráveis. É verdade que, sendo um jogador vicioso, tinha a delicadeza de lhe pagar uma parte do dinheiro que lhe pedia quando a fortuna o favorecia; mas, os nossos recursos eram medíocres para darem azo por muito tempo a despesas tão pouco moderadas.

Estava a ponto de ter com ele uma explicação categórica para nos libertarmos das suas exigências, quando um funesto incidente veio poupar-me este desgosto, mas causando-nos outro maior, que nos arruinou completamente.

Tínhamos ficado um dia em Paris, para aí dormirmos, como tantas vezes nos acontecia. A criada, que ficava em Chaillot, veio avisar-me no dia seguinte, logo de manhã, que tinha havido fogo em casa durante a noite e que bastante trabalho houvera para o extinguir.

Perguntei-lhe se a nossa mobília havia sofrido algum dano. Respondeu-me que tinha sido tal a desordem com a multidão dos estranhos que foram em socorro, que ela nada podia afirmar ao certo. Tremi pelo nosso dinheiro que estava guardado num pequeno cofre. Corri imediatamente a Chaillot. Trabalho baldado! O cofre tinha desaparecido!

Foi então que conheci que se pode amar o dinheiro sem avareza.

Esta perda causou-me uma dor tão profunda, que cuidei perder também o juízo. Rapidamente compreendi a que novas desgraças tornava a ficar exposto. Conhecia Manon; tinha aprendido em demasia que por muito fiel e delicada que me fosse durante a fortuna, era preciso não contar com ela na miséria. Amava ela muito a abastança e os prazeres para que mos sacrificasse.

— Perdê-la-ei! — exclamei comigo mesmo. — Desgraçado cavalheiro, vais ficar ainda uma vez sem aquela que amas.

Esta suspeita perturbou-me por tal forma que eu pensei por alguns momentos em acabar com todos os meus males, suícidando-me.

No entanto, ainda conservei a presença de espírito suficiente para examinar se nenhum recurso me restava para o futuro. O céu fez-me nascer uma idéia que diminuiu de certo modo o meu desespero: julguei que me não seria impossível ocultar esta perda a Manon, e que pelo engenho ou por qualquer favor do acaso, poderia prover às nossas necessidades, sem que ela sentisse a menor falta.

— Julguei — dizia comigo mesmo para me consolar — que vinte mil escudos nos bastariam durante dez anos. Suponhamos que os dez anos estão decorridos, e que nenhuma das mudanças que eu esperava na minha família ocorreu. Que partido tomaria? — Não sei, mas o que teria feito neste caso quem mo impede de fazê-lo agora? Quantas pessoas vivem em Paris que não têm nem a minha instrução nem as minhas qualidades naturais, e que no entanto angariam os meios de subsistência com o seu próprio esforço!

A Providência — acrescentei ainda, reflexionando nos diferentes estados da vida — não dispôs tudo tão sabiamente? A maior parte dos grandes e dos ricos não passam duns néscios. Isto é claro para quem conhece um pouco o mundo. Ora, nesta distribuição há uma justiça admirável. Se juntassem o talento à riqueza seriam demasiadamente felizes, e os restantes homens demasiadamente miseráveis. As qualidades corporais e espirituais são concedidas a estes últimos para se tirarem da miséria e da pobreza. Uns tomam parte na riqueza dos grandes, contribuindo para os seus prazeres, e enganam-os; outros servem para instruí-los e procuram fazer deles alguma cousa, o que na verdade é bem raro conseguirem, mas não é esse o fim da sabedoria divina. Colherão sempre um fruto dos seus trabalhos, que é o de viverem à custa daqueles a quem instruem; e de qualquer modo que se tome a questão, sempre acharemos um excelente rendimento para os pequenos, na toleima e ignorância dos ricos e dos grandes.

Estas considerações acalmaram-me alguma cousa. Resolvi primeiro ir consultar Lescaut, o irmão de Manon, que conhecia perfeitamente Paris e de quem tive bastante ocasiões de observar que o seu dinheiro não provinha, nem dos seus bens, nem tão pouco do seu soldo. Apenas me restavam vinte dobrões que milagrosamente tinha metido na algibeira. Mostrei-lhe o estado das minhas finanças, explicando-lhe o meu infortúnio e comunicando-lhe os meus receios. Ao mesmo tempo, pedi-lhe que me dissesse se haveria para mim um partido a escolher, entre o de morrer à fome ou o de fazer saltar os miolos de desespero. Respondeu-me que o suicídio era o recurso dos tolos, e que, quanto a morrer de fome, só quem assim o queria assim o tinha: que dependia de mim examinar do que seria capaz, e que em todo o caso contasse com o seu auxílio e conselhos em todas as minhas empresas.

— Isso, na verdade, é muito vago, senhor Lescaut — respondi eu. — A minha situação pede remédio mais pronto e enérgico. Que hei-de eu dizer a Manon?

— A propósito de Manon — atalhou ele: — Que é que lhe causa tanto receio? Não tem na beleza e na figura da minha irmã um meio de pôr termo a todas as dificuldades quando assim o desejar? Uma rapariga como ela devia sustentar-se a si, a mim e ao senhor.

Lescaut cortou-me a resposta que tanta infâmia merecia, para continuar, dizendo-me que antes da noite me garantia mil escudos a dividir entre nós, se eu quisesse seguir o seu conselho porque conhecia um homem tão liberal no capítulo dos prazeres, que estava bem certo de que nada lhe custaria a dar esses mil escudos para obter os favores duma mulher como Manon.

Interrompí-o nesta altura.

— Tinha-o em melhor conceito — respondi eu; — parecia-me que o motivo que o senhor teve para me conceder a sua amizade, era um sentimento totalmente oposto àquele que agora patenteia.

Confessou-me, imprudentemente, que sempre tinha pensado do mesmo modo, e que tendo sua irmã violado uma vez as leis de seu sexo, não obstante havê-lo feito com o homem que mais amava não se havia contudo reconciliado com ela, senão na firme esperança de tirar o maior partido da sua repreensível conduta.

Só então é que pude julgar que ambos havíamos sido logrados pelo senhor Lescaut.

Por muito má impressão que tais palavras me causassem, a imediata necessidade que eu tinha do seu auxílio forçou-me a responder, rindo-me, que um tal conselho era o recurso a que apenas se recorreria na derradeira extremidade. Pedi-lhe que me indicasse um outro caminho.

Propôs-me, então, que me aproveitasse da minha juventude e da figura elegante com que a natureza me havia dotado, para alcançar relações amorosas com alguma velha dama generosa.

Este expediente, que me teria levado a ser infiel a Manon, não teve ainda o meu voto.

Falei do jogo como do meio mais fácil e mais conveniente à minha situação.

Respondeu-me que o jogo, conquanto fosse um bom recurso, necessitava ser estudado; que pretender jogar, confiando apenas nas esperanças usuais do ganho, era o meio de completar a minha ruína; que procurar exercê-lo só e sem auxílio, usando dos pequenos meios que um homem hábil emprega para corrigir a falta de sorte, seria ocupação demasiadamente perigosa; que havia um terceiro meio, e era o da sociedade, mas que a minha juventude fazia-lhe recear que os senhores confederados não me julgassem ainda com as qualidades necessárias e próprias para entrar na liga. No entanto, prometeu-me os seus bons ofícios junto deles; e — o que eu nunca teria esperado de tal indivíduo — ofereceu-me dinheiro para quando me achasse totalmente desprovido dele. O único favor que, porém, lhe pedi, no momento, foi o de não informar Manon dos precalços que tivera e do objetivo da nossa conversa.

Saí de sua casa muito menos satisfeito do que quando para lá entrei; arrependi-me até de lhe ter confiado o meu segredo. Ele não tinha feito em meu auxílio nada que eu mesmo não pudesse obter sem a minha indiscreção; e temia muito que ele faltasse à promessa de nada dizer a Manon.

Tinha, também, motivo para recear, atendendo à confissão dos seus sentimentos, que Lescaut estivesse resolvido a tirar partido de sua irmã segundo as suas palavras, arrebatando-ma, ou pelo menos aconselhando-a a deixar-me, para tomar novas relações com outro amante mais rico e mais feliz.

Sobre isto fiz mil reflexões, que não tiveram outro resultado senão o de atormentar-me e renovar o desespero que de manhã me invadira.

Assaltaram-me, muitas vezes, tentações de escrever a meu pai, fingindo uma nova conversão, a fim de obter dele algum dinheiro; mas vinha logo a lembrança de que, toda a sua bondade, me tinha conservado preso seis meses numa estreita cadeia, pela minha primeira falta, e bem certo estava de que, depois dum escândalo tal como o que a minha fugida de São Sulpício deveria ter produzido tratar-me-ia ainda mais rigorosamente.

Enfim, esta confusão de pensamentos trouxe-me finalmente uma idéia que num instante me apaziguou, admirando-me eu de que há mais tempo não me tivesse lembrado dela: foi a de recorrer ao meu amigo Tiberge, no qual bem certo estava de encontrar sempre o mesmo zelo e amizade.

Nada há tão belo, nada faz mais honra à virtude do que a confiança com que nos dirigimos às pessoas, cuja probidade é geralmente reconhecida. Sente-se que não há risco a correr: e se nem sempre as achamos em circunstâncias de nos prestarem auxílio, temos a convicção de que ao menos encontraremos a bondade e a compaixão.

Olhei como prova da proteção do céu o ter-me lembrado do Tiberge tão a propósito, e resolvi procurar a maneira de o ver antes da noite. Voltei imediatamente para casa para lhe escrever um bilhete e indicar-lhe um lugar próprio para a nossa entrevista. Pedi-lhe silêncio e discreção, como um dos mais importantes serviços que me poderia prestar na situação em que me encontrava.

A alegria que a esperança de o ver me inspirava d’algum modo velou os sinais de pesar que Manon não poderia deixar de ler em meu rosto. Falei-lhe da nossa desgraça de Chaillot, como duma bagatela que de modo algum a devia inquietar: e sendo Paris a cidade do mundo, onde ela se achava com mais prazer, em nada a contrariou o ouvir-me dizer que ficaríamos aí até que se reparassem em Chaillot alguns ligeiros estragos do incêndio.

Uma hora depois, recebi a resposta de Tiberge, prometendo ir ao lugar que eu lhe designava. Esperei com a maior impaciência por esse momento, ainda que cheio de vergonha por ter que me apresentar diante dum amigo, cuja presença era já uma acusação de todos os meus desvarios; mas a opinião que formava da bondade de coração de Tiberge e o meu amor por Manon deram-me força e audácia.

Tinha-lhe pedido que fosse ao jardim do Palácio Real. Quando cheguei, já ele lá estava, e apenas me avistou correu a abraçar-me, apertando-me muito tempo entre os seus braços e molhando-me o rosto com as suas lágrimas.

Disse-lhe que me apresentava na sua presença envergonhado e cheio de remorsos por motivo do meu mau comportamento e ingratidão; que a primeira cousa que lhe suplicava era que me dissesse se ainda podia considerá-lo como amigo, tendo merecido tão justamente perder a sua estima e a sua afeição.

Respondeu-me, no tom mais terno e amável, que nada seria capaz de o fazer renunciar a esta qualidade; que as minhas próprias desventuras e, se eu lho permitia as minhas faltas e erros, tinham duplicado a sua ternura para comigo, mas ternura amargurada pelo mais profundo pesar precisamente como se deve sentir por quem nos é caro e que vemos correr à sua perda sem lhe podermos prestar socorro.

Sentamo-nos num banco.

— Ai de mim — continuei eu com um suspiro partido do fundo do coração — a tua paixão deve ser enorme, se me asseguras que é igual às minhas desgraças e loucuras. Tenho pejo de tas patentear, pois que a causa delas não é gloriosa; mas os efeitos são por tal modo tristes, que não há precisão de ser-se tão meu amigo como tu és para se ficar comovido.

Pediu-me como sinal de amizade que lhe contasse, sem o menor disfarce, tudo quanto me tinha acontecido depois da minha fuga de São Sulpício. Satisfi-lo, e, longe de atenuar a mais leve cousa da verdade, ou de diminuir o vulto aos desvarios, para os tornar mais desculpávéis, falei-lhe da minha paixão com toda a eloqüência que ela me inspirava. Representei-lha como um desses reveses particulares ditados pelo destino inflexível, que cavam a ruína dum ser miserável, e dos quais é tão impossível defender-se a virtude como o é ao bom senso evitá-los. Fiz-lhe uma patética pintura dos meus desgostos, do meu desassossego, da desesperação em que me achava duas horas antes de o ver, e daquela em que ia cair, se os meus amigos me abandonassem tão implacavelmente como a sorte; enfim, por tal forma enterneci o bom Tiberge que decerto ele estava tão acabrunhado e compadecido dos meus sofrimentos como eu o estava pelo sentimento dos meus próprios males.

Não se cansava de me abraçar, exortando-me a que tivesse coragem e resignação; mas, como ele baseava os seus conselhos na minha separação de Manon, fiz-lhe compreender claramente que essa separação era o que eu olhava como o maior dos meus infortúnios, e que estava disposto não só a sofrer a maior crueldade da miséria, mas até a mais dura morte, que preferia a um remédio para mais insuportável do que todos os meus infortúnios.

— Explica-te, então — disse-me ele — em que te posso eu valer, se te revoltas contra todas as minhas propostas?

Não me atrevi a dizer-lhe que era da sua bolsa que tinha necessidade; mas, Tiberge compreendeu-o, por fim, e ficou algum tempo calado e pensativo, como quem hesitava na resolução a tomar.

— Não julgues, — tornou-me ele — que o meu devaneio provenha de resfriamento de zelo e amizade; mas em que alternativa me colocas tu, se tenho necessidade ou de recusar o único auxílio que tu aceites ou de faltar ao meu dever concedendo-to? Pois não será tomar parte nos teus desatinos dar-te meios para os continuares? No entanto, — continuou Tiberge após momentos de reflexão — imagino que é provavelmente o estado violento em que a indigência te lança, que não te deixa escolher a melhor vereda a trilhares. Para que se avalie a virtude e o bom senso é indispensável a tranqüilidade do espírito.

Vou tratar de alcançar-te algum dinheiro. Permite-me, porém, meu caro cavalheiro — ajuntou Tiberge abraçando-me — que te imponha só uma condição: é a de me dizeres onde moras, e que sofras com paciência os meus sermões para de novo te conduzir ao caminho da virtude, porque sei que a amas, e da qual só te afasta o ardor das paixões.

Concedi-lhe do melhor grado o que ele desejava, pedindo-lhe que lastimasse a malignidade da minha estrela, que tão mal me fazia aproveitar os conselhos de um amigo virtuoso. Levou-me, depois, a casa de um banqueiro seu conhecido que me adiantou, sob a responsabilidade de Tiberge, cem dobrões, pois, como já disse, o meu amigo não era rico e não possuía aquela soma. O benefício eclesiástico de Tiberge valia mil escudos, mas como era o primeiro ano que o possuía, ainda não havia recebido o seu rendimento, e era sobre o fruto futuro dos seus trabalhos que ele me fazia este empréstimo.

Senti todo o preço da sua generosidade. Fiquei comovido a ponto de deplorar a cegueira dum amor fatal, que me obrigava a postergar todos os deveres. Durante alguns momentos, teve a virtude bastante força para se erguer altiva contra a minha paixão e eu senti, pelo menos, neste instante luminoso, a vergonha e a indignidade do meu procedimento; mas, infelizmente esta luta durou pouco. Um olhar de Manon ter-me-ia feito precipitar do céu; e admirei-me, ao achar-me de novo junto dela, de que pudesse ter considerado vergonhosa uma ternura tão justa por uma criatura tão encantadora.

Manon tinha um caráter extraordinário. Nunca mulher alguma, na sua posição, teve menos amor do que ela ao dinheiro; mas, não podia estar tranqüila por muito tempo, quando o receio de que ele lhe faltasse a vinha atormentar. Eram os passatempos e os prazeres as suas primeiras necessidades; nunca teria gasto um soldo se se pudesse divertir sem o despender. Nem sequer se informaria do estado da nossa fortuna, contanto que pudesse passar os dias agradavelmente; de modo que, não sendo excessivamente inclinada ao jogo, nem capaz de deixar-se deslumbrar pelo fausto das grandes despesas, era bem fácil satisfazê-la, oferecendo-lhe diariamente diversões de que ela gostasse. Era tão necessário para Manon viver assim ocupada pelo prazer que não havia outra maneira de dominar o seu humor e as suas tendências. Ainda que tivesse por mim um terno amor e eu fosse o único homem que pudesse fazer-lhe sentir as doçuras desse afeto, estava seguro de que a sua ternura não seria bastante forte para subsistir contra certos receios. Ter-me-ia preferido ao mundo inteiro, com uma fortuna medíocre; mas não duvidava de que Manon me abandonasse por algum novo B..., logo que me não restassem mais do que a constância e a ternura para lhe oferecer.

Resolvi, pois, regular a minha despesa particular por tal modo que estivesse sempre em estado de prover às suas exigências, preferindo antes privar-me das cousas indispensáveis a faltar-lhe a ela com o supérfluo. A carruagem era o que me dava mais cuidado, pois não tinha meios de poder sustentar um cocheiro e cavalos.

Patenteei todos os meus temores ao senhor Lescaut, não lhe ocultando que tinha recebido cem dobrões dum amigo. De novo ele tornou-me a repetir que, se quisesse tentar os azares do jogo, não desesperava de que, sacrificando uma centena de francos para fazer a boca doce aos seus associados, eu pudesse ser admitido por sua interferência na Liga dos jogadores. Por maior que fosse a minha repugnância em enganar alguém, deixei-me arrastar por uma cruel penúria.

Lescaut apresentou-me, nessa mesma noite, como um dos seus parentes, acrescentando que eu escava tanto mais disposto a conseguir os meus fins, quanto é certo que tinha necessidade dos maiores favores da fortuna. Contudo, para fazer crer que a minha miséria não era a de um pobretão, disse-lhes que eu estava disposto a dar-lhe de cear. O oferecimento foi aceito com entusiasmo e tratei-os magnificamente. Falaram muito tempo da gentileza da minha figura e das minhas felizes disposições. Pretendiam que havia muito a esperar de mim, pois que tendo eu na fisionomia o que quer que fosse que denotava um homem honrado, ninguém desconfiaria dos meus artifícios. Enfim, agradeceram ao senhor Lescaut o ter recrutado para a ordem um noviço com o meu mérito, e encarregaram um dos membros dessa ordem de me fornecer por alguns dias as instruções essenciais.

O principal teatro das minhas explorações devia ser o hotel da Transilvânia, onde havia uma banca de faraó (l) e vários outros jogos de cartas e de dados. Esta espelunca pertencia ao príncipe de R... que então habitava em Clugny, sendo a maior parte dos seus servos filiados na nossa associação.

Afirmá-lo-ei para minha vergonha! Aproveitei-me em pouco tempo das lições do meu instrutor. Adquiri, sobretudo, imensa habilidade em empalmar as cartas; com o auxílio dum par de punhos, fazia as escamoteações com tanta destreza que enganava os olhos mais perspicazes, e arruinei, sem ostentação, muitos jogadores honestos. Esta perfeição extraordinária ativou tanto o progresso da minha fortuna que me achei em poucas semanas na posse de somas consideráveis além daquelas que de boa fé partilhava com os meus associados.

Então, não receei descobrir a Manon a nossa perda de Chaillot, e para a consolar, ao dar-lhe esta desagradável notícia, aluguei uma casa mobilada, para onde fomos viver com opulência e segurança.

Tiberge, durante este intervalo de tempo, não havia deixado de me visitar, freqüentes vezes. A sua moral e os seus sermões eram intermináveis. A toda a hora, lembrava-me o mal que eu fazia à minha conciência, à minha honra e à minha fortuna. Recebia os seus conselhos com amizade, e ainda que não tivesse a menor tenção de os seguir, agradecia-lhe interiormente as suas palavras, porque bem conhecia o sentimento que as ditava. Algumas vezes, motejei-o risonhamente mesmo na presença de Manon, exortando-o a não ser mais escrupuloso do que um grande número de bispos e outros padres, que sabem perfeitamente conciliar uma amante com um benefício.

— Vê — continuava eu, mostrando-lhe Manon, — e dize-me se há erros que uma tão bela causa não justifique.

Tiberge enchia-se de paciência e até mesmo a levou muito longe; mas, quando viu que as minhas riquezas iam em aumento e que não só lhe tinha pago os seus cem dobrões como além disso tinha alugado uma nova casa e duplicado a minha despesa, engolfando-me cada vez mais nos prazeres, mudou inteiramente de tom e de maneiras. Queixava-se da dureza do meu coração; ameaçava-me com os castigos do céu, predizendo-me uma parte das desgraças que infelizmente não tardaram a abater-se sobre mim.

— É impossível que as riquezas que servem para alimentar os teus desatinos sejam adquiridas legitimamente — disse ele. — Assim como as alcançaste, do mesmo modo as perderás. A punição mais terrível que Deus poderia dar-te seria a de deixar-te gozá-las tranqüilamente. Todos os meus conselhos, — juntava ainda Tiberge — têm sido inúteis: e bem prevejo que não tardará que eles se tornem importunos. Adeus, ingrato e fraco amigo. Possam os teus criminosos prazeres desvanecer-se como uma sombra! Possam a tua fortuna e o teu dinheiro naufragar sem recurso, e tu, ficando só e nu, sentires a vaidade dos bens que tão loucamente te embriagam! Será então que me hás-de encontrar pronto a estimar-te e a servir-te: mas rompo hoje todas as ligações contigo, e detesto a vida que levas!

Foi mesmo no meu quarto e diante de Manon que ele fez esta arenga apostólica. Levantou-se para se retirar. Quis retê-lo, mas Manon impediu-me, dizendo que Tiberge era um doido que forçoso seria abandonar.

O seu discurso, porém, não deixou de me impressionar. Noto as diversas ocasiões em que o meu coração se sentiu inclinado ao bem, pois que é a estas recordações que eu devo uma parte da força moral que tive nas mais desgraçadas circunstâncias de minha vida. As carícias de Manon dissiparam em breve o desgosto que esta cena me causou e continuámos na nossa vida de gozo e de amor.

O aumento das nossas riquezas redobrou a nossa afeição. Vênus e Pluto nunca tiveram escravos mais felizes. Meu Deus! para que chamaram ao mundo um lugar de misérias, quando nele se podem fruir tão encantadoras delícias! Pena é serem bem pouco duradouras. Que outra felicidade ambicionariam os mortais, se elas fossem permanentes? A minha ventura teve, pois, a sorte comum: a de durar pouco e de ser seguida de amargos pesares.

Tinha ganho somas tão avultadas ao jogo que pensei finalmente em colocar parte do meu dinheiro. Os meus criados não ignoravam os meus êxitos, sobretudo o de quarto e a aia de Manon, diante dos quais muitas vezes conversámos sem desconfiança. Esta rapariga era linda e o meu criado particular estava dela enamorado. Ambos tinham de tratar com amos jovens que imaginaram poder enganar facilmente. Conceberam esse desígnio, e executaram-no tão desgraçadamente para nós que nos deixaram numa situação de que nunca mais foi possível sairmos.

Uma noite fomos cear com Lescaut; já passava da meia hora quando voltamos para casa. Eu chamei o meu criado, Manon a sua aia: nem um nem outro apareceram. Disseram-nos que não tinham sido vistos depois das oito horas e que ambos saíram depois de haverem feito transportar algumas caixas, isto segundo as ordens que diziam ter recebido de mim.

Pressenti uma parte da verdade, mas não formei a esse respeito uma idéia que não fosse excedida pelo que descobri ao entrar no meu quarto. A fechadura do meu gabinete fora forçada e o dinheiro roubado com toda a minha roupa. Enquanto refletia neste incidente, Manon, toda assustada, veio dizer-me que a mesma pilhagem havia sido feita nos seus aposentos.

O golpe pareceu-me tão cruel que só um esforço extraordinário de razão é que impediu que eu me entregasse desatinamente aos gritos e lágrimas. O temor de comunicar o meu desespero a Manon fez que eu afetasse uma aparente tranqüilidade. Disse-lhe, rindo, que me vingaria em algum pato no hotel da Transilvânia; no entanto, ela pareceu-me tão sensível à nossa desgraça, que a sua tristeza teve maior força para a afligir do que a minha alegria fingida para a impedir de sofrer.

— Estamos perdidos! — exclamou, com as lágrimas nos olhos.

As minhas próprias lágrimas traíam o meu desespero e a minha consternação. Com efeito, estávamos por tal modo arruinados que nem tínhamos uma camisa!

Resolvi mandar chamar imediatamente Lescaut. Aconselhou-me a que fosse, mesmo àquela hora, a casa do intendente geral da polícia e do preboste de Paris. Fui, para maior desgraça minha, porque, além de que os passos que dei e os que obriguei a dar a estes dois oficiais de polícia, não surtiram resultado algum, dei a Lescaut o ensejo de conversar com sua irmã e de inspirar-lhe, na minha ausência, uma horrível resolução.

Falou-lhe de G... M..., velho libertino que pagava com mão larga os prazeres sensuais, e fez-lhe uma pintura tão lisonjeira das vantagens que Manon teria em se amancebar com ele, que perturbada como estava pelo nosso infortúnio, prontamente acedeu ao que seu irmão lhe insinuava.

Este “honesto” negócio foi concluído antes do meu regresso, e a execução ficou retardada para o dia seguinte, isto para que Lescaut pudesse primeiro prevenir G... de M...

Surpreendi-o, esperando-me ainda em minha casa: Manon deitara-se, tendo dado ordem ao criado para me dizer que, estando fatigada, me pedia que a deixasse só durante aquela noite. Lescaut saiu depois de ter-me oferecido alguns dobrões, que aceitei.

Eram perto das quatro horas da madrugada, quando me deitei, e como por muito tempo estive pensando nos meios de recuperar a minha fortuna, adormeci tão tarde que não pude acordar serião perto do meio-dia.

Levantei-me, rapidamente, para ir saber da saúde de Manon; disseram-me que ela havia saído uma hora antes com seu irmão, que a viera buscar numa carruagem de aluguel. Ainda que este passeio dado com Lescaut me parecesse misterioso, esforcei-me por suspender as minhas suspeitas. Deixei decorrer algumas horas, que passei a ler. Por fim, não podendo já dominar a minha inquietação, passeava agitadamente por toda a casa. Foi então que vi no quarto de Manon uma carta fechada, que estava em cima da mesa. Pelo sobrescrito, vi ser para mim; a letra era de Manon. Abri a carta, tremendo convulsivamente; era concebida nos termos seguintes:

“Juro-te, meu caro, que ainda és o ídolo do meu coração e que não há no mundo ninguém que eu possa amar tanto como te amo a ti; mas não vês, meu pobre querido bem, que, no estado a que ficamos reduzidos, a felicidade seria a mais tola das virtudes?

“Julgas que se possa ser terna, quando a miséria nos bate à porta? A fome seria capaz de causar-me algum equívoco fatal; renderia qualquer dia o derradeiro suspiro pensando que ainda suspirava de amor. Adoro-te, fica certo disso; mas deixa-me por algum tempo o encargo de tornar a restabelecer a nossa fortuna. Desgraçado do que me cair nas mãos! Trabalharei para tornar rico e feliz o meu amor. Meu irmão te dará notícias de Manon, e dir-te-á quanto ela chorou ao ver-se obrigada a deixar-te”.

Depois da leitura desta carta, fiquei num estado difícil de descrever, porque ainda hoje ignoro quais os sentimentos que, então, me dominavam. Foi uma dessas situações únicas, nunca sentida até então: não seria possível narrá-la a outra pessoa porque ninguém seria capaz de formar sobre ela uma idéia exata; e sabe Deus quanto custa explicá-la a nós mesmos, porque, sendo única no seu gênero, a memória não a liga ou pode comparar com outras quaisquer nem a aproxima de nenhum sentimento conhecido.

No entanto, fosse qual fosse a natureza das emoções que então me agitavam, devia haver nelas uma mescla de dor e de despeito, de ciúme e vergonha. Bem feliz teria sido se nelas não tivesse entrado ainda mais amor!

— Manon ama-me, quero acreditá-lo; mas não seria mister, — exclamava eu — que ela fosse um monstro para me odiar? Que maiores direitos se podem ter sobre um coração do que eu sobre o dela? Que me resta a fazer por Manon depois de tudo o que lhe sacrifiquei? E, no entanto, abandona-me! E a ingrata julga-se ao abrigo das minhas argüições só com o dizer-me que não deixa de amar-me! Tem medo da fome!... Deus do amor, que grosseria de sentimentos e como é triste a retribuição que dá à minha delicadeza! Só eu não temi essa fome — eu, que me exponho a ela voluntariamente por Manon, renunciando à minha fortuna e às doçuras do lar paterno; eu que me coíbo até do necessário para satisfazer as suas menores vontades e caprichos! Adora-me, diz ela. Se me adorasses, ingrata, bem sei de quem seguirias os conselhos e não me terias abandonado sem ao menos me dizeres adeus! É a mim a quem se deve perguntar qual é a dor cruel que se sente, ao separarmo-nos da pessoa que se adora. É preciso perder-se o juízo para que alguém voluntariamente se exponha a essa dor.

As minhas lamentações foram interrompidas por uma visita que, decerto, eu não esperava: — a de Lescaut.

— Vedugo — disse eu, levando a mão ao punho da espada — onde está Manon? Que fizeste dela?

Este movimento assustou-o. Respondeu-me que, se era assim que eu o recebia, quando vinha dar-me conta do serviço mais considerável que me poderia ter prestado, se retirava e nunca mais tornaria a pôr os pés em minha casa.

Corri à porta do quarto, que fechei cuidadosamente.

— Não imagines — repliquei, voltando-me para ele — que podes mais uma vez zombar de mim, enganando-me com as tuas histórias: defende a tua vida, ou dize-me onde é que está Manon.

— Apre, que é impaciente! — atalhou Lescaut. — É esse o único motivo que me traz aqui. Venho anunciar-lhe uma felicidade com que, decerto, o cavalheiro não contava e reconhecerá certamente, depois de ouvir-me, que me é devedor de grandes obrigações.

Quis ser esclarecido imediatamente.

Contou-me que Manon, não podendo conformar-se com a idéia de que havia de chegar um dia em que ela não tivesse de comer e, sobretudo, não podendo conciliar consigo mesma a necessidade em que se achava de restringir as nossas despesas e modo de vida, tinha-lhe pedido que a apresentasse a G. de M... que passava por homem generoso.

Lescaut não teve pejo algum em me confessar que o conselho fora dele e que também fora ele quem preparara as cousas para esta traição!

— Levei-a a casa de G... de M... — continuou Lescaut — hoje de manhã, e este digno homem ficou por tal modo encantado com a sua beleza que a convidou logo a ir fazer-lhe companhia por algum tempo na sua casa de campo, onde ele foi passar vários dias. Eu — acrescentou Lescaut — compreendendo num relance quanto este arranjo deveria ser vantajoso para o senhor, dei-lhe a entender que Manon havia sofrido perdas consideráveis, e por tal modo excitei a sua generosidade que começou por presenteá-la com duzentos dobrões. Agradecendo-lhe a dádiva, disse-lhe que ela bastava para o presente, mas que o futuro acarretaria grandes necessidades a minha irmã, pois que ela se havia encarregado de sustentar um irmão ainda moço que nos tinha entrado em casa, depois da morte dos nossos pais, e que se ele a julgava merecedora da sua estima não a deixaria sofrer por amor dessa pobre criança, que ela considerava como metade de si própria. Esta narrativa enterneceu-o a ponto de prometer alugar uma casa confortável para o senhor e para Manon: o cavalheiro des Grieux, é esse pobre órfão que ele se comprometeu a vestir e alimentar, fornecendo-lhe todos os meses quatrocentos francos, que somam no fim do ano, se a tabuada não mente, quatro mil e oitocentos francos. Deu ordem ao seu intendente antes de partir para o campo, para que procurasse uma casa e a tivesse pronta no seu regresso. Tornará, então, a ver minha irmã, que me encarregou de o beijar mil vezes por ela, assegurando-lhe que o ama mais do que nunca.

Sentei-me, pensando neste extravagante destino que me impunha a minha estrela. Tinha o meu espírito dividido entre sentimentos tão opostos e por conseguinte numa incerteza tão difícil de terminar, que fiquei muito tempo sem responder ao tropel de perguntas que Lescaut me fazia, umas atrás das outras. Foi nesse momento que a honra e a virtude me fizeram sentir mais uma vez o peso dos remorsos, e então deitei os olhos, suspirando, para Amiens, para a casa de meus pais para São Sulpício enfim, para todos os lugares onde havia vivido na inocência. Que abismo me não separava agora dessa vida feliz e sossegada! Via a felicidade de longe, como uma sombra que atraía ainda os meus desejos e me causava pesares, mas que era fraca em demasia para excitar os meus esforços.

— Por que fatalidade — dizia eu — me tornei culpado? O amor é uma paixão bem cândida; como se transformou para mim numa fonte de desatinos e misérias?! Quem me impediria de viver tranqüilo e virtuoso com Manon? Porque não havia eu de desposá-la antes de ter obtido dela a menor concessão? Meu pai, que tanta amizade e ternura me consagrava, não o teria consentido se eu lho tivesse pedido, com todas as instâncias legítimas? Ah! decerto que sim; meu pai mesmo tê-la-ia amado como uma mulher encantadora, muito digna de ser a esposa de seu filho. Eu seria feliz com o amor de Manon, com a afeição de meu pai, com a estima das pessoas honradas, com bens de fortuna e com a tranqüilidade da virtude. Revés funesto!... Que infame papel vêm aqui proporcionar-me? Pois que! Iria eu compartir?... Mas haverá que ponderar, se foi Manon quem deliberou o plano e se eu a perder sem uma tal condescendência?

— Senhor Lescaut — exclamei eu, fechando os olhos como para afastar da mente tão vergonhosas reflexões — se teve idéia de bem servir-me, agradeço-lhe o empenho. Poderia, porém, ter seguido outro meio mais honesto: mas o plano que acaba de detalhar-me é definitivo, não é assim?... Não pensemos, pois senão em nos aproveitarmos das suas diligências e em realizarmos o seu projeto.

Lescaut a quem a minha cólera, seguida de um tão longo silêncio, havia causado algum receio, ficou satisfeitíssimo ao ver-me tomar um partido muito diferente daquele que esperava. Não era covarde e de futuro tive bastantes provas da sua intrepidez.

— Sim, sim, — apressou-se a responder-me — foi um bom serviço que lhe fiz, e verá que havemos de tirar dele mais vantagens do que mesmo o senhor espera.

Combinamos então de que modo podíamos evitar as suspeitas que G. de M... pudesse conceber da nossa fraternidade ao ver-me mais adiantado em anos do que ele talvez imaginasse. Não achamos outro meio senão o de eu afetar diante dele um ar simples e provinciano fazendo-lhe crer que estava resolvido a entrar na vida eclesiástica e que ia para isso todos os dias ao colégio. Resolvemos também, que iria muito mal vestido a primeira vez que fosse admitido a ter honra de o visitar.

G. de M... voltou à cidade três ou quatro dias depois. Ele próprio conduziu Manon à vivenda que o seu intendente havia tido o cuidado de preparar. Lescaut, informado por Manon da sua chegada, avisou-me e corremos ambos a sua casa. O velho amante já tinha saído.

Apesar da resignação com que me havia submetido à sua vontade, não pude reprimir o queixume do meu coração, quando novamente a vi.

Achou-me triste e acabrunhado. A alegria de a tornar a ver não era suficiente para destruir o desgosto que a sua infidelidade me infundira. Ela, ao contrário, parecia arrebatada e cheia de alegria, por me ter outra vez a seu lado. Estranhou, portanto, a minha frieza, acusando-me por isso. Não pude conter-me sem lhe chamar pérfida e infiel ainda que estes nomes fossem acompanhados de constantes suspiros.

A princípio, zombou da minha simplicidade; mas, quando viu o olhar triste em que a envolvia e o desgosto que me causava uma ação tão contrária ao meu humor e aos meus desejos, retirou-se para o seu gabinete. Seguí-a imediatamente. Achei-a lavada em lágrimas. Perguntando-lhe o motivo de um tal choro, respondeu-me:

— É bem fácil adivinhá-lo. Como queres tu que eu viva, se a minha presença já não serve senão para te tornar triste e carrancudo? Ainda não me fizeste uma só meiguice e há uma hora que aqui estás; recebeste as minhas carícias com majestade do Grão-Turco no seu serralho!

— Escuta, Manon — disse eu, beijando-a; — não te posso ocultar que tenho o coração moralmente ferido. Não quero falar do que sofri com a tua fuga imprevista, não quero falar da crueldade que praticaste, abandonando-me sem ao menos me dirigires uma palavra de consolação, depois de teres passado a noite fora do meu leito; tudo isso fará esquecer o encanto da tua presença. Mas julgas que possa pensar, — sem soltar um suspiro, sem derramar abundantes lágrimas, — na triste e desgraçada vida a que tu queres forçar-me nesta casa? Ponhamos de parte a minha família e a minha honra; são razões tão fracas que não devem entrar em concorrência com um amor como o meu; mas não imaginarás tu que este mesmo amor se sinta ofendido por ser tão mal recompensado, ou antes tão cruelmente tratado por uma ingrata e dura amante?...

Manon interrompeu-me.

— Basta! — disse ela — É inútil atormentares-me com repreensões que me despedaçam a alma, porque vêm da tua boca. Bem vejo o que te ofende. Pensei que consentisses no projeto por mim formado de restaurarmos a nossa fortuna, e era para poupar a tua delicadeza que eu havia começado a executá-lo sem previamente te haver prevenido; mas, renuncio a ele, pois que não o aprovas.

Acrescentou que só me pedia alguma complacência para o resto daquele dia: que tinha recebido já duzentos dobrões do seu velho amante e que ele lhe havia prometido trazer-lhe à noite um belo colar de pérolas juntamente com outras jóias, e além de tudo isto, metade da pensão anual que lhe estabelecera.

— Deixa-me só o tempo, — continuou Manon, — de receber os seus presentes: juro-te que não se poderá gabar dos favores que de mim obteve ou há de obter. É verdade que mais dum cento de vezes me beijou a mão, mas é justo que pague este prazer, e não será excessivo se o fizer com cinco ou seis mil francos, pois é preciso haver proporção entre as suas riquezas e a sua idade.

Esta resolução de Manon foi para mim muito mais agradável do que a esperança dos cinco mil francos. Tive ocasião de conhecer que o meu coração não havia perdido de todo os sentimentos da honra, pois tão satisfeito se mostrava por fugir à infâmia. Mas tinha nascido para as pequenas alegrias e para as longas dores. Logo que demonstrei a Manon, por mil carícias, quanto me julgava feliz pela sua resolução, disse-lhe que era preciso prevenir Lescaut para que as nossas combinações fossem tomadas de comum acordo. A princípio, insurgiu-se; mas os quatro ou cinco mil francos em dinheiro de contado conciliaram-no conosco. Concordou-se em que iríamos todos cear com G. de M... e isto por duas razões: uma, para termos o prazer duma cena agradável, fazendo-me Lescaut passar por um estudante irmão de Manon; a segunda, para impedir que esse velho libertino tomasse demasiada liberdade com a minha amante atendendo ao direito que julgava ter já adquirido sobre ela, pagando adiantado e tão generosamente.

Lescaut e eu tratamos de arranjar uma carruagem para estar pronta à porta, pois quando G. de M... tratasse de se retirar para o quarto, onde deveria passar a noite com Manon, esta, em lugar de o seguir, viria passá-la comigo.

Chegada a hora da ceia, G. de M... não se fez esperar muito tempo. Lescaut estava na sala com sua irmã. O primeiro cumprimento do velho foi oferecer à sua bela um colar, braceletes e brincos, tudo de pérolas, valendo pelo menos mil escudos. Contou-lhe logo em seguida, em belos luíses de ouro, a soma de dois mil e quatrocentos francos, montante da metade da pensão. Acrescentou ao seu presente muitas amabilidades ao gosto da corte. Manon não lhe pôde recusar alguns beijos; eram outros tantos direitos que ela adquiria ao dinheiro que lhe caía nas mãos. Eu estava à porta, de ouvido à escuta, esperando que Lescaut me mandasse entrar.

Veio buscar-me pela mão logo que Manon guardou os brilhantes e o dinheiro; conduziu-me junto de G.. de M... e ordenou-me que lhe apresentasse os meus cumprimentos. Fiz duas ou três reverências das mais profundas.

— Desculpai, senhor, — disse-lhe Lescaut, — é um rapaz muito novo. Está ainda bem longe, como vê, da vivacidade parisiense, mas espero que o havemos de domesticar. Terás o prazer e a honra de ver aqui muitas vezes o senhor G. de M..., — acrescentou ele voltando-se para mim; — trata pois de aproveitar as lições de tão bom mestre.

O velho amante pareceu sentir prazer em me ver. Deu-me duas ou três pancadinhas nas faces, dizendo-me que eu era um rapaz gentil, mas que era preciso ter muita cautela em Paris, onde a mocidade se entregava facilmente à devassidão.

Lescaut assegurou-lhe que eu era naturalmente tão sisudo, que não falava noutra cousa que não fosse em ser padre, e que todo o meu prazer era o de fazer capelinhas.

— Parece-se muito com Manon, — continuou o velho, levantando-me o rosto com a mão.

Respondi-lhe, com um ar apalermado:

— Senhor, os nossos corpos têm grandes pontos de contacto. É por isso que amo minha irmã como a mim mesmo.

— Ouve? — disse ele a Lescaut. — O rapaz tem espírito. É pena que tenha tão pouco uso da sociedade.

— Oh! meu caro senhor! — exclamei eu — tenho visto muita gente nas igrejas da minha terra e estou certo de que hei-de encontrar em Paris ainda maiores tolos do que eu.

— Veja — acrescentou G. de M...; — é admirável para um rapaz da província...

Toda a nossa conversa durante a ceia decorreu pouco mais ou menos neste tom. Manon, que era travessa, esteve, porém, muitas vezes a