A Ilusão Americana
Eduardo Prado
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Livraria e Oficinas Magalhães
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Ortografia atualizada de conformidade com o Dicionário Aurélio eletrônico Século XXI, nov. 1999
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©2002 — Eduardo Prado
O Escritor de “A Ilusão Americana”
Leopoldo de Freitas
A Ilusão Americana
II
III
IV
V
Apêndice
Notas e variantes
“... Sinto a dupla felicidade de louvar, através do homem que tanto prezo; terra que tanto amo.”
Eça de Queiroz, o primoroso estilista da Casa de Ramires, assim disse do fino espírito do dr. Eduardo Prado, num artigo da Revista Moderna de Julho de 1898.
Ninguém melhor do que o romancista português apreciou e literariamente analisou as qualidades, o talento e as preferências do vigoroso escritor brasileiro, nesta célebre publicação na cidade de Paris.
O dr. Eduardo Prado foi publicista que se distinguiu com brilhantismo em nossa literatura. Ele era nacionalista, muito amava as causas da pátria brasileira, não obstante os tempos que passou em viagens mundiais, instruindo o seu espírito, distraindo-se e observando civilizações diferentes.
Nascido nesta capital de S. Paulo, em 1860, era filho do consórcio da ilustre Sra. d. Veridiana da Silva Prado com o dr. Martinho Prado.
O dr. Eduardo Prado escutou as portas do saber desde muito moço e tendo concluído o bacharelato, na Faculdade de Direito, que nos países latinos se tornou um complemento do batismo, pouco depois defendeu teses, e doutorou-se, foi quando empreendeu suas peregrinações.
Escritor e jornalista, ele revelou-se desde estudante na imprensa acadêmica e depois no Correio Paulistano. Escreveu as monografias e brochuras: Viagem ao Rio da Prata; Viagens; Viagem ao Oriente; O problema da Imigração; A Arte no Brasil; Fastos da Ditadura Militar no Brasil; A Ilusão Americana; Conferência sobre a vida e a ação do Padre Anchieta; Discursos proferidos no Instituto Histórico de S. Paulo; A Bandeira Nacional; Vida do Padre Manoel de Morais; Terra Roxa, este manuscrito perdeu-se; numerosos artigos da redação d’O Commercio de São Paulo e que foram publicados nas Coletâneas.
“Em tudo isto, — acertadamente disse o inolvidável literato dr. Afonso Arinos, no seu discurso de 18 de Setembro de 1903, na Academia Brasileira: — encontramos Eduardo Prado com os seus contrastes, o seu sarcasmo, a sua vivacidade, a singular harmonia entre as coisas sérias e as coisas alegres, as coisas leves e as coisas profundas.”
Brasileiro e americanista, o fluente e brilhante escritor paulista empregou as energias da sua inteligência, os recursos da observação e a coragem das idéias, na ocasião em que se operou neste país a transformação do regime governamental.
Eduardo Prado veio para a fileira do combate aos políticos que fizeram a República.
Achava-se então na Europa, e pertencendo a comissão representativa do Brasil na Exposição Universal de Paris, tinha colaborado no excelente livro Le Brésil en 1889 com a publicação dos dois artigos L’Art e Immigration; fez uma viagem ao país de Portugal, que ele tanto estimava afetuosamente e apreciava espiritualmente e logo na "Revista de Portugal", o escritor com o pseudônimo de Frederico de S., principiou a tratar dos “Acontecimentos do Brasil” em artigos que antecederam os Fastos da Ditadura Brasileira.
Estas publicações ecoaram com vibração intensa por todas as cidades deste país. Ignorava-se quem era Frederico de S., que analisava e criticava com o rigor da sua lógica aos desmandos e aos erros do novo regime proclamado pelo exército e armada em nome do povo.
Soube-se mais tarde que esse vigoroso escritor era o dr. Eduardo Prado que com a sua costumada independência declarava:
“O Brasil está neste momento sob o regime militar. Quanto tempo durará esse regime? No tempo do Imperador, quando o soberano resistia aos ministros, se estes insistiam — a coroa cedia.
Hoje quando o marechal Deodoro pensar de um modo e os seus ministros de outro quem cederá?
A espada que não tremeu ao ser desembainhada contra as instituições que o general jurara defender, não precisará mesmo reluzir de novo para fazer emudecer e sumir-se debaixo do pó da terra os novos ministros, talentosos patriotas, mas patriotas desarmados!”
Patriota na acepção legítima da expressão o dr. Eduardo Prado “agarrou-se às tradições do passado sem temor de ser esmagado no caminho; segurou-se ao rochedo da nossa História, viveu nela, viveu por ela e morreu fiel a ela...” Então respondeu de uma vez aos seus adversários e detratores:
“Anti-patriotas, nós? É uma injustiça! Nós que exaltamos a coragem do nosso povo, a sua energia, a sua constância; que temos um imenso amor pela sua História, pelo drama da conquista desta terra; que, com reverência, amamos a nossa raça e tudo que a ela se refere: as lendas da sua vida primitiva, as tradições do seu passado; que amamos a língua que falamos, a arte de nossos pais d’além mar; que temos imensa ternura pelo homem do campo, que com ele convivemos, ouvindo-lhes as longas narrativas e o pitoresco falar: nós, que temos votado a vida ao estudo de tudo quanto é brasileiro — nós não temos patriotismo!...”
Ainda é o dr. Afonso Arinos, no formoso discurso acadêmico de 1903 quem nos conta: — Moniz Barreto, “aquele moço de gênio que morreu em Paris aos trinta anos, depois de ter-se nos revelado um pensador, disse verbalmente a mim que Eduardo Prado era uma das mais completas organizações de escritor que ele jamais vira.”
E das suas qualidades de escritor de combate que as condições do Brasil obrigaram-no a adotar, disse o fulgurante estilista Eça de Queiroz:
“...Todos os seus livros são guerras e ele intelectualmente um guerrilheiro.
Desde a primeira página ao primeiro frêmito, as idéias alçam o pendão, as ironias despedem a sua flecha, os argumentos brandem a sua clava, as citações clamam, as cifras silvam e, na pressa e excitação da lide, tudo rompe, um pouco tumultuariamente, num arranque para avante, contra a causa detestada que urge demolir!...
E mesmo quando em dias de paz, recolhido e quase ajoelhado, gloriflca, como na Apologia do padre Anchieta, ainda alguma confusão se estabelece no seu estilo — mas docemente alvoroçada e enternecida, como a de turba piedosa que se empurra para um altar amado.
É que os seus livros são sempre atos intensamente vivos, ora uma hoste em marcha ora um povo em prece... Ele concebeu e trabalhou todos os seus livros num momento de urgência, por impulsivo patriotismo para atacar idéias ou homens de quem receava a desorganização do Estado ou para animar aqueles que reagiam contra essa desorganização pela força latente de alguma virtude social.”
Eça de Queiroz confirma esta apreciação da índole do publicista Eduardo Prado e da situação que coube ao Brasil transformado em República pelo pronunciamento militar e pela ação dos propagandistas democráticos, dizendo:
“Assim a vitória do Jacobinismo político e do fanatismo positivista determinou essas veementes crônicas de Frederico de S., Os Fastos da Ditadura, que acompanharão, na História, a ditadura com um silvar, de certo amortecido, mas perenemente desagradável de látego.
Assim as tendências norte americanistas da República provocaram esse esplêndido libelo, A Ilusão Americana, o mais forte que se tem construído contra a raça neo-anglo-saxônia, tal como a moldaram na América um solo novo, o uso muito duro da escravatura, o contato violento com as raças bárbaras, o excesso de democracia utilitária e a carência de uma tradição.”
Valente beluário foi o dr. Eduardo Prado, e como tal mestre na redação de panfleto, gênero de literatura que costuma aparecer nos períodos de agitação partidária e de veemência de paixões políticas.
Ainda é o romancista Eça de Queiroz quem nos vai dizer acerca da arte de panfletário em que o talento do dr. Eduardo Prado teve relevo:
“Todos os seus livros políticos desde os Destinos do Brasil, perfeito estudo de psicologia social são, pois panfletos... Certamente realizam e com singular rigor, a definição de panfleto formulada por Paulo Louis Courier, mestre panfletário deste século.
— Que é um panfleto? — "Uma idéia muito clara saída de uma convicção muito forte, rigorosamente deduzida em termos curtos e límpidos com muitas provas, muitos documentos, muitos exemplos..."
— E também:
“A mais corajosa, mais útil, mais pura ação, que um homem pode praticar no seu tempo, porque se a idéia é boa, derrama a verdade e, se é má, logo aparecerá quem a corrija, e a correção produzirá exame, comparação, prova e, portanto aproximação da verdade!...”
— A visão que este vibrante escritor tinha das coisas era: Como um fino dardo que vara horizontes.
A esta clara visão ele junta um raro poder de deduzir, de desfiar, de sutilmente desfiar, e de ligar depois os fios sutis numa trama miúda e resistente que, quando combate, se torna aquela rede de ferro com que os gladiadores no circo imobilizavam para a morte os contendores e quando solicita ou propaga, aquela doce rede de seda aconselhada pelos santos padres para docemente pescar as almas...
A todas estas superiores potências junta a potente paciência de esquadrinhar os textos, desenterrar os documentos, amontoar os exemplos, percorrer toda a História e toda a Natureza, para recolher um fato, um precedente, uma analogia, de sorte que a sua lógica, bem armada e destra, sempre combate sobre uma maciça, formidável muralha de prova.
E em todo este esforço, ajudado por uma memória de prodigiosa diligência e segurança. Ora, a memória é a décima Musa, ou talvez, a mãe das Musas.
A sua maneira de utilizar esses dons, o seu Estilo — é o melhor, o mais adequado a um publicista e, participa superiormente da natureza desses dons. É limpo, transparente, seco, quase nu, sem roupagens roçagantes e bordadas que lhe embaracem a carreira destra, ou deformem as linhas puras do raciocínio.
Não há nele molezas, repousos, tendências a vaguear e a cismar, mas sempre o mesmo ímpeto elástico o anima e arremessa.
Ainda menos tenta essas fugas vistosas de foguetes que estala nos ares, cuidadoso em nunca perder o solo maciço da Realidade, que a todos, como a Anteu, comunica força invencível; quando, por vezes, atinge a essa plenitude e abundância sonora que se chama Eloqüência, é porque, inesperadamente o exaltou a grandeza da verdade entrevista, um arranque generoso de indignação, alguma brusca emoção de piedade, ou aquela segura proximidade do triunfo, que solta todo som aos clarins...”
Desta forma completa e clara o apreciado escritor d’Os Maias tratou a individualidade literária e política do dr. Eduardo Prado, cavalheiro cuja amizade cultivou com extremosa afeição; espírito cujo brilhantismo, ele, perfeitamente admirou.
O feitio da sua intelectualidade de pugilista apareceu nitidamente no valente panfleto que é o livro A Ilusão Americana.
Embora, como escreveu o Poeta Olavo Bilac no seu discurso-resposta ao do dr. Afonso Arinos, na Academia Brasileira: “O escritor d’A Ilusão Americana exagerou bastante os perigos do que ele chamava e do que vós mesmo chamais a nossa: Desnacionalização.
...Tive e tenho para mim que Eduardo Prado foi sempre um firme, um puro e excelente brasileiro, no Brasil e na Europa, no Sertão e no boulevard.”
Outro panfleto ardente que a pena de Eduardo Prado escreveu é A Espanha e no qual trata do auxílio poderoso que os Estados Unidos deram aos cubanos insurgidos para conseguirem, afinal, a sua independência como nação, sem contudo deixar de fazer comentários à situação dos “povos da América do Sul que são fracos, são mal governados e, não pagando os juros da sua dívida ao estrangeiro estão prejudicando ou projetam prejudicar os interesses de cidadãos de países fortes...”
Mais adiante declara acerca do mesmo fato:
“A luta dos Estados Unidos e da Espanha é, talvez, o prólogo de um drama universal, representado em formas novas, com desprezo pela arte antiga e pelas convenções fora da moda, tais como o Direito, em geral, e o único Direito Internacional, muito especialmente.
Nos países fracos, devia ser proibido o estudo desse pretendido Direito, origem de perigosas ilusões entre os povos e de uma falsa confiança entre os governos de boa fé.
A guerra atual justifica essa opinião...” Coletâneas — vol. I, pág. 371.
O publicista Eduardo Prado com “a sua lógica bem armada e destra” expõe e confronta as fases do conflito hispano-norte americano e possuído de simpatia pela cavalheiresca nação de Cervantes, exaltou a sua atitude em face da política do Tio Sam.
E este “drama universal representado em formas novas” parece que era a visão dos tempos previstos pelo malogrado escritor.
Tempos que agora são de luto, sangue, horror, miséria e calamidade causada pela Guerra Atroz, no mundo inteiro.
Vem a propósito traduzir aqui o conceito do crítico dinamarquês Georges Brandés quando discutiu com o jornalista Clemenceau sobre o paradoxo de Fred. Nietzsche: “A moral da segurança necessária”, — Revue Suisse, Bib. Universelle.
Disse o autor das “Novos Rumos da Literatura”:
“Embora considere a guerra presente uma demência coletiva, recuso admitir que os agravos estejam de um lado só, les torts soient d’un seul côté...
Esta guerra como quase todas as grandes guerras é uma guerra econômica.
Naturalmente nenhum beligerante concordará nisto, pois, é mais conveniente dar aparências aos fatos. Pois cada povo não luta pela liberdade? Conforme declaram os seus intelectuais. — Desde a Rússia, a clássica terra do Absolutismo; a Alemanha, o país dos burgueses afidalgados e do caporalismo; a Grã Bretanha, que nunca deixou de se esforçar pela conservação da sua superioridade industrial no mundo; a França que nestes últimos anos aumentou consideravelmente o seu império colonial...
A verdade é que cada uma destas potências luta pela supremacia econômica.
Veja-se porém o que acontece: Cada nação se julga campeão de uma civilização superior e serve-se dos mesmos argumentos... Quanto às atrocidades digo que:
O homem é um animal feroz, capaz de tudo, uma vez que estiver armado e livre: só pensa em destruir, incendiar e matar. Ah! e, como os civilizados suportam a guerra? ...
Sim, depois de cada carnificina humana, nos consolamos em exclamar: Esta foi a última. É o que se dizia depois da de 1870: — Será a última guerra da Europa; puro engano! Nenhuma guerra é a última: a guerra é eterna como a maldade dos homens é perpétua.”
Pela sua vez o dr. Rudolf Kjellen, prof, na Universidade de Upsal, na sua monografia sobre os Problemas políticos da Guerra mundial, escreveu que:
“A guerra é um cataclisma geológico, uma catástrofe horrível! Que o seu problema é extenso e complexo, tem muitos problemas entreligados: o problema geográfico-histórico; o problema nacional freqüentemente ligado ao da raça; o problema sociológico e político que consiste em determinar até que ponto a política interior de um país pode influenciar a sua política exterior; finalmente, o problema Econômico, sem dúvida o mais imperioso e que parece dominar todos...”
Talvez fosse atendendo aos fatores destes problemas de sociologia, de política e de economia que o publicista Eduardo Prado na ocasião em que a guerra civil dividia extremamente as opiniões no Brasil escreveu A Ilusão Americana, denunciando com a sua argumentação as práticas dos Estados Unidos com as outras nações continentais e latinas
Seja como for, esse livro teve uma imensa popularidade; no momento em que o governo federal do Brasil negociava com o dos Estados Unidos amparo para a sua legalidade; pela sua vez a autoridade policial de S. Paulo confiscava a primeira edição que aqui aparecia e, o seu ilustrado autor foragia-se no sertão para garantir a sua liberdade, como também a vida contra a exaltação dos jacobinos.
A Ilusão Americana nos recorda um episódio de nossas lutas jornalísticas pelo princípio da liberdade neste país.
Éramos, então, prisioneiros d’Estado quando, cuidadosamente, um moço oficial, de nossa amizade, entregou um exemplar dizendo-nos: Veja este livro. Veio de S. Paulo e o governo proíbe que circule! ...
Mais de vinte anos decorreram desta poça de calamidade nacional. A intervenção da esquadrilha dos Estados Unidos nas águas do Rio de Janeiro cooperou bastante para o desastre da Revolução, celebraram-se diversas conferências pan-americanistas e agora pouca importância é ligada aos vôos expansionistas da grande Águia de Washington, cujas garras suplantam raios...
E do dr. Eduardo Prado, do seu luminoso espírito e da bondade do seu coração, restam reminiscências sinceras, pois ele faleceu prematuramente em 1901.
Foi o seu amor pela literatura e a tradição brasileira que o tomaram contrário “à imposição das instituições anglo-saxônicas da América do norte ao nosso país...”
LEOPOLDO DE FREITAS
Março — 1917 — S. Paulo.
Pensamos que é tempo de reagir contra a insanidade da absoluta confraternização que se pretende impor entre o Brasil e a grande república anglo-saxônia, de que nos achamos separados, não só pela índole e pela língua como pela história e pelas tradições do nosso povo.
O fato de os Estados Unidos e o Brasil se acharem no mesmo continente é um acidente geográfico ao qual seria pueril atribuir uma exagerada importância.
Onde é que se foi descobrir na história que todas as nações de um mesmo continente devem ter o mesmo governo? E onde é que a história nos mostrou que essas nações têm por força de ser irmãs? Em plena Europa monárquica não existem a França e a Suíça republicanas? Que fraternidade há entre a França e a Alemanha, entre a Rússia e a Áustria, entre a Dinamarca e a Prússia? Não pertencem estas nações ao mesmo continente, não são próximas vizinhas, e deixam porventura de serem inimigas figadais?
Pretender identificar o Brasil e os Estados Unidos, pela razão de serem do mesmo continente, é o mesmo que querer dar a Portugal as instituições da Suíça. porque ambos os países estão na Europa!
A fraternidade é uma mentira.
Tomemos as nações ibéricas da América.
Há mais ódios, mais inimizades entre eles do que entre as nações da Europa.
O México deprime, oprime e tem por vezes, invadido Guatemala, que tem sangrentíssimas guerras com a república do Salvador, inimiga rancorosa da Nicarágua, feroz adversária de Honduras, que não morre de amores pela república de Costa Rica. A embrulhada e horrível história de todas estas nações é um rio de sangue, é um contínuo morticínio. E onde fica a solidariedade americana, onde a confraternização das repúblicas?
A Colômbia e Venezuela odeiam-se de morte. O Equador é vítima, nunca resignada, ora das violências colombianas, ora das pretensões do Peru. E o Peru? Já não assaltou a Bolívia, já não se uniu depois a ela numa guerra injustíssima ao Chile? E o Chile já não invadiu duas vezes a Bolívia e o Peru, não fez um horroroso morticínio de bolivianos e peruanos na última guerra, talvez a mais sangrenta deste século?
E o Chile não tem somente estes inimigos: o seu grande adversário é a República Argentina. Este país, que tem usurpado territórios à Bolívia, obriga o Chile a conservar um exército numeroso, e ninguém ignora que um conflito entre aqueles países é uma catástrofe que, de um momento para outro, poderá rebentar. O ditador Francia, o verdugo taciturno do Paraguai, que Augusto Comte coloca entre os santos da humanidade venerados no calendário positivista, por ódio aos argentinos e aos outros povos americanos, enclausurou o seu país durante dezenas de anos.
A República Argentina é a adversária nata do Paraguai. Lopez atacou-a, e ela secundou o Brasil na sua guerra contra o Paraguai. E que sentimento tem a República Argentina pelo Uruguai?
Não há um só homem de estado argentino que não confesse que a suprema ambição do seu país é a reconstituição do antigo vice-reinado de Buenos Aires, pela conquista do Paraguai e do Uruguai.
Eis aí a fraternidade Americana.
Voltado para o sol que nasce, tendo, pela facilidade da viagem, os seus centros populosos mais perto da Europa que da maioria dos outros países americanos; separado deles pela diversidade da origem e da língua; nem o Brasil físico, nem o Brasil moral, formam um sistema com aquelas nações. Dizem os geólogos que o Prata e que o Amazonas foram em tempo dois longos mares interiores que se comunicavam. O Brasil, ilha imensa era por si só um continente. As aluviões, os levantamentos do fundo daquele antigo Mediterrâneo soldaram o Brasil às vertentes orientais dos Andes. Esta junção é porém, superficial; são propriamente suas e independentes as raízes profundas e as bases eternas do maciço brasileiro. Por isso não vêm até às praias brasileiras as convulsões vulcânicas do outro sistema. Quando muito, chegam as vibrações longínquas, tênues e sutis que os instrumentos registram, mas que os sentidos não percebem. Conta o missionário jesuíta Samuel Fritz, que em 1698, uma terrível erupção andina transmudou o Solimões*, o rio brasileiro, num “rio de lama”, e que, apavorados, os índios viam naquilo a cólera dos deuses. Parece que, na ordem política, tais têm sido as erupções espanholas e revolucionárias que, afinal conturbaram as águas brasileiras. A torrente, porém, não é só de lama, porque é de lama e é de sangue...
Estudem-se, um por um, todos os países ibéricos americanos. O traço característico de todos eles, além da continua tragicomédia das ditaduras, das constituintes e das sedições, que é a vida desses países, é a ruína das finanças.
E na ruína das finanças o ponto principal é o calote sistemático, o roubo descarado feito à boa fé dos seus credores europeus. Os ministros da fazenda das repúblicas espanholas, por meio de empréstimos que não são pagos, têm extorquido mais dinheiro das algibeiras européias do que jamais a Europa tirou das minas de ouro e prata da América. Tomemos os fantásticos orçamentos destes países, e, no meio dos déficits pavorosos e das mais indecentes falsificações, na irregular contabilidade pública que conservam estes países, onde os dinheiros do estado são gastos e apropriados pelos presidentes com uma sem-cerimônia de que é incapaz o Czar da Rússia, o que é que vemos? Lá está o celebérrimo orçamento da guerra a tudo devorar. Lá estão as dezenas de generais, as centenas de coronéis e os milhares de oficiais.
É a prova de que não existe fraternidade americana.
Se as nações americanas vivessem ou pudessem sequer viver como irmãs, não precisariam esmagar de impostos o contribuinte nem arrebentar os respectivos tesouros, defraudando os credores com a compra desses armamentos e aparatos bélicos tão destruidores da prosperidade nacional.
Falemos agora da grande república norte-americana, e vejamos quais os sentimentos de fraternidade que ela tem demonstrado pela América latina, e qual a influência moral que ela tem tido na civilização de todo o continente.
No último quartel do século passado, homens extraordinários, da velha estirpe saxônia, revigorada pelo puritanismo, e alguns deles bafejados pelo filosofismo, surgiram nas treze colônias inglesas na América do Norte. Resolveram constituir em ação independente a sua pátria; e não lhes entrou nunca pela mente fazer proselitismo de independência ou de forma republicana da América. Nem isso era próprio da sua raça.
O fim que tiveram em vista foi um fim imediato, restrito e prático. Fazendo a independência da sua pátria, tinham como aliados os reis de França e de Espanha. Como poderiam eles querer que este último, a quem eram gratos pela sua intervenção em favor da independência, perdesse as suas ricas colônias americanas? Se alguma simpatia houve entre eles pela emancipação de outros países da América, essa simpatia apareceu trinta ou quarenta anos depois quando já toda América latina, à custa de sacrifícios, ultimava a sua independência sem auxílios norte-americanos.
É altamente cômica a ignorante pretensão com que escritores franceses superficiais procuram, ligar a revolução americana à revolução francesa, querendo por força que as idéias revolucionárias francesas tenham influído na América, quando, a ter havido alguma influência, foi antes da América sobre a França.
A pessoa de Franklin, com os seus calções pretos, sem espada ao lado, nem bordados, nem plumas, com os seus grossos sapatos de enfiar, o seu prestígio de sábio e de libertador, passeando através das galerias de Versailles; a fama de ter ele sido um simples operário na sua mocidade, isso sim foi uma influência real em França. Quando ele, no seu ceticismo cheio de bonomia, ria-se da pomposa divisa que lhe arranjou Turgot, o célebre: Eripuit cœlo fulmen sceptrumque tyrannis, — dava uma prova de que ao seu terrível bom senso não escapava a insensatez suicida da aristocracia francesa.
Quando rebentou a revolução, quando ela começou a matar e a incendiar, houve em toda a América uma grande simpatia por Luiz XVI e Maria Antonieta, os antigos aliados, os generosos protetores da independência americana. Pouco tempo depois o governo de Washington rompeu relações diplomáticas com a república francesa. Onde a solidariedade republicana, onde a fraternidade?
Vejamos na história: Que auxílio prestou o governo americano à independência das colônias ibéricas da América — Qual tem sido a atitude dos Estados Unidos quando estes países têm sido atacados pelos governos europeus — Como os tem tratado o governo de Washington — Qual tem sido o papel dos Estados nas lutas internacionais e civis da América latina — Qual a sua influência política, moral e econômica sobre estes países.
Tudo o que se vai ler neste trabalho é referente a esses pontos, que serão todos discutidos, embora nem sempre na ordem da sua enumeração.
À Inglaterra principalmente, e não aos Estados Unidos, deve a América latina a força moral que lhe permitiu fazer a sua independência. Foi William Burke a primeira voz que na Europa se declarou em seu favor escrevendo um vibrante panfleto, advogando a independência da América do Sul(1). O Abbé de Pradt e posteriormente Canning, que foi quem praticamente tornou possível, isto é, tornou efetiva e certa esta independência, já oficialmente aconselhada por Lord Welington no congresso de Verona(2). A independência das nações latinas da América em nada foi protegida pelos Estados Unidos.
À Inglaterra deveram então serviços consideráveis as nações que lutavam pela sua emancipação política.
O Sr. Carlos Calvo diz que a atitude dos Estados Unidos e a proclamação da doutrina de Monroe pesaram de uma maneira decisiva no ânimo do governo inglês quando * este, em agosto de 1822, pelo órgão de Lord Vellington, tomou no congresso de Verona a defesa dos países hespano-americanos, contra quem a Santa Aliança pretendia intervir em favor da Espanha.
Esta afirmação é errônea. Em primeiro lugar a chamada doutrina de Monroe só foi proclamada pelos Estados Unidos quinze meses mais tarde, isto é, em dezembro de 1823. E qual foi a atitude dos Estados Unidos em relação às colônias revoltadas? Um autor hispano-americano, o sr. Samper, da Colômbia, diz: “Enquanto a los Estados Unidos, es curioso observar que siendo esa potencia Ia más interesada en favorecer nuestra independencia, bajo el punto de vista político y no poco bajo el comercial, se mostró sin embargo mucho menos favorable que Inglaterra, indiferente por lo común hácia nuestra revolución y muy tardía en sus manifestaciones oficiales, como parcimoniosa en procurarnos los auxilios de armamento que solicítábamos, con nuestro dinero, de los negociantes y armadores”(3).
Muito antes da mensagem de Monroe, o embaixador americano, Rush, tinha recebido de Canning a confidência de que a Santa Aliança pensava em intervir na América a favor da Espanha, e Canning acrescentara estar disposto a se opor diretamente a esse plano se tivesse a cooperação dos Estados Unidos. Rush mandou as declarações de Canning ao seu governo que as recebeu com grande satisfação porque até àquela ocasião, segundo o contou depois Calhoun, que fazia parte do gabinete, os Estados Unidos não tinham julgado prudente intervir em vista do grande poder da Santa Aliança. Monroe tratava os seus secretários com consideração diversa da que usam os semi-bárbaros presidentes de outras repúblicas da América com os irresponsáveis que se prestam a ser seus ministros; comunicou a notícia de Londres ao gabinete, e consultou a Jefferson se devia aceitar o proposto auxílio da Inglaterra(4). Até então, a atitude dos Estados Unidos tinha sido toda de reserva, de abstenção, e, para uma nação que se quer apresentar como a protetora dos latinos-americanos, é forçoso confessar que essa política não era de fraternidade, mas sim de egoísmo. Ainda em 1819 o governo americano recusara receber os cônsules nomeados por Venezuela e pelo governo de Buenos Aires, alegando vários pretextos(5), e só a 9 de Março de 1823 é que reconheceu a independência das repúblicas espanholas.
Fortalecido e animado pela iniciativa da Inglaterra, em 2 de dezembro de 1823, o presidente Monroe disse na sua mensagem: “Devemos declarar por amor da franqueza e das relações amigáveis que existem entre os Estados Unidos e aquelas potências (européias), que consideraremos qualquer tentativa da sua parte para estender o seu sistema a qualquer parte deste hemisfério como coisa tão perigosa para a nossa tranqüilidade como para a nossa segurança. Com as colônias existentes e as dependências das mesmas potências não temos intervindo nem interviremos.
Em relação, porém, aos governos que declararam a sua independência e que a têm mantido, independência que, depois de grande reflexão e por justos princípios, nós reconhecemos, toda interferência, por parte de qualquer potência européia, a fim de oprimi-los e de qualquer modo dominar os seus destinos, não poderá ser encarada por nós senão como uma manifestação pouco amigável para com os Estados Unidos.”
Eis aí a famosa doutrina!
A nunca assaz ludibriada e escarnecida ingenuidade sul-americana viu nesta declaração um compromisso formal, solene e definitivo, de aliança com os Estados Unidos, aliança tão sensata aliás como a do pote de ferro com o pote de barro. Há setenta e um anos que o governo americano tem acumulado declarações sobre declarações, que equivalem quase que a retratações; há setenta e um anos que escritores, oradores, políticos americanos explicam que aquilo não é um compromisso nem uma aliança; há setenta e um anos que, por palavras, atos e omissões, o governo de Washington praticamente demonstra a significação restrita, e, por assim dizer, platônica das palavras de Monroe, e ainda hoje, há quem tenha superstição de tomar aquilo ao pé da letra. A estultícia parece que é invencível.
Poderíamos encher páginas e páginas de extratos de livros, de jornais e de discursos de americanos interpretando a chamada doutrina num sentido bem diverso da interpretação jacobina que hoje é acreditada no Brasil.
Preferimos, porém, relatar simplesmente os fatos.
Quem conhece os documentos oficiais americanos daquela época sabe que toda a política interior e exterior dos Estados Unidos estava subordinada aos interesses da instituição peculiar, eufemismo com que se costumava designar a escravidão. Os Estados Unidos, desde que sabiam que qualquer país americano estava disposto a abolir a escravidão, eram imediatamente hostis à independência desse país.
O pobre Haiti era o objeto do ódio americano. Hamilton, da Carolina do Sul, declarou na câmara dos representantes que a independência do Haiti, por forma alguma, devia ser tolerada; Hayne, acompanhado por todo o seu partido, queria que o simples fato de um país qualquer reconhecer a independência do Haiti fosse motivo para a ruptura das relações diplomáticas com os Estados Unidos. Em 1825, o governo de Washington pediu ao Czar da Rússia a sua intervenção junto à Corte de Espanha para que esta cessasse de hostilizar as suas antigas colônias, já de fato independentes, e especialmente a Colômbia e o México. E isto, dizia o secretário d’estado Henry Clay a Middleton, ministro americano em S. Petersburgo, porque o México e a Colômbia prosseguindo em sua hostilidade contra a Espanha, podiam eventualmente tomar conta de Cuba e ali acabar com a escravidão. Henry Clay mandou também pedir ao México e à Colômbia que adiassem a sua expedição libertadora de Cuba, e Middleton recebeu ordem para insistir junto ao Czar, chefe da Santa Aliança, porque os Estados Unidos faziam questão de impedir a independência de Cuba. O México e a Colômbia lembraram aos Estados Unidos o cumprimento da sua promessa contida na célebre mensagem de Monroe. Henry Clay respondeu que a mensagem continha* com efeito uma promessa, mas que os Estados Unidos tinham-na feito a si mesmos e não a um outro país, e que por isso nenhum país tinha o direito de exigir o cumprimento da mesma promessa.(6)
Os países hispano-americanos quiseram, parece que mais uma lição prática da doutrina de Monroe. Convocaram o célebre congresso de Panamá, assembléia destinada a la alianza de todas las Americas, à mútua fraternidade, etc., etc. Compareceram só os representantes de quatro países. Os Estados Unidos depois de muita hesitação, nomearam dois representantes que nunca chegaram a Panamá.
As instruções dadas a estes (1826) são talvez o melhor comentário da doutrina de Monroe. Delas resulta principalmente que os Estados Unidos não estavam por forma alguma dispostos a fazer suas as brigas da América latina com as potências européias. E nunca, mas nunca, os Estados Unidos mudaram de modo de pensar e de proceder.
Vamos ver os muitos fatos em que aquele governo, por seus atos, deu a interpretação autêntica da doutrina que os sul-americanos têm falseado. Antes, porém, daremos uma opinião valiosa, e que destrói pela base a crendice que se quer espalhar no Brasil que os Estados Unidos não consentem na América outro governo senão o republicano.
Os sul-americanos que isto dizem afirmam uma falsidade, e os que se regozijam com isso bem merecem o desprezo que os americanos lhes votam. Haverá coisa menos digna do que um cidadão desejar que a sua pátria não tenha a livre disposição dos seus destinos e esteja, quando se trata da escolha ou da mudança da sua forma de governo, dependente da vontade do estrangeiro?
Felizmente a nação americana, tenham sido embora grandes as faltas dos politiqueiros que tanta vez a têm desonrado, conta no mundo do pensamento homens do mais alto valor, herdeiros legítimos dos heróis da independência.
Eis aqui como um desses homens julga a doutrina de Monroe, na interpretação forçada e indigna que lhes querem dar os jacobinos brasileiros, que põem a república acima da pátria:
“Querer firmar o princípio de que os Estados Unidos não podem consentir na América nenhum sistema político diferente do seu, ou que não podem tolerar nenhuma mudança política tendo por fim substituir a forma republicana pela forma monárquica, seria ir além das pretensões do congresso de Laybach e de Verona que, pelo menos, tinham temor da destruição da sua obra política, enquanto que os Estados Unidos não podem ter esse temor”.(7)
Em 1786, um jovem brasileiro, Maia, estudante de Montpellier, disfarçando-se com o pseudônimo de Wandek e rodeando-se de mil mistérios, tentou aproximar-se de Jefferson, então embaixador dos Estados Unidos em Versailles. Aproveitando-se de uma viagem de Jefferson pelo sul da França, encontrou-se com ele em Nîmes, e aí falou-lhe da independência do Brasil, com que sonhava, e pediu-lhe o auxílio dos Estados Unidos. Jefferson desanimou-o, como se evidencia das cartas que o embaixador escreveu a Jay, Secretário de Estado, dando-lhe conta da entrevista que tivera com o jovem brasileiro. Em 1817, um emissário pernambucano foi aos Estados Unidos pedir auxílio; foi ludibriado, e o governo de Washington apressou-se em dar conta de tudo ao ministro português Correia da Serra. Por ocasião da independência do Brasil, não recebemos prova alguma de boa vontade por parte dos americanos, e só depois de outros países reconhecerem a emancipação do Brasil é que os Estados Unidos reconheceram a nossa autonomia.
Note-se que a célebre doutrina de Monroe data de 1823; foi na mensagem presidencial desse ano que aquele presidente estabeleceu a não intervenção da Europa nas coisas da América. Ora, dois anos depois, em 1825, é que a nossa independência foi reconhecida por Portugal, pela intervenção inglesa, representada na pessoa de Sir Charles Stuart, depois Lord* Rothesay. Mais tarde é que os Estados Unidos celebraram com o Brasil um tratado de amizade, comércio e navegação. O ministro americano no Rio, Raguet, opôs grandes embaraços à nossa nascente nacionalidade, embaraços que foram só em parte removidos pelo seu sucessor, William Tudor.
Para se fazer uma idéia do que foi a missão de Raguet basta percorrer rapidamente, a sua correspondência.(8)
Raguet acusa a nossa esquadra no Rio da Prata de covardia (pag. 20); diz que com o povo brasileiro é inútil apelar para a razão e para a justiça (pag. 32); Raguet em termos grosseiros ameaça o ministro dos estrangeiros de uma guerra com os Estados Unidos (pag. 27): “Isto não é um povo civilizado” (pag. 54).
Tal foi o procedimento de Raguet e tais foram as suas grosserias, que Henry Clay, Secretário d’Estado, mandou-lhe um despacho (pag. 108), estranhando as suas maneiras, e dizendo-lhe que era preciso não esquecer que, afinal de contas, o Brasil era um país cristão.
O governo americano ligou-se por esta época inteiramente aos governos que faziam pressão sobre o Brasil por motivo de questões de presas marítimas no Rio da Prata.
Durante as nossas lutas no Rio da Prata encontrámos sempre a oposição norte-americana entorpecendo a ação das nossas esquadras, desrespeitando os nossos bloqueios, conluiando-se com os nossos inimigos, e para depois, valendo-se das dificuldades iniciais da nossa independência política, fazer-nos exigências desmedidas e exorbitantes reclamações. O primeiro representante americano que veio ao Rio de Janeiro, ao findar o período colonial, deu origem a um desagradável incidente diplomático, faltando ao respeito à família real o que era uma injúria feita ao país.
O representante americano que tratou das reclamações de presas no Rio da Prata, depois de atropelar as negociações, rompeu bruscamente e retirou-se sem que houvesse motivo para essa desfeita, que foi aliás reparada pelo sucessor daquele diplomata William Tudor, que firmou conosco um tratado de amizade, comércio e navegação.
Leiam-se as insolentes mensagens do presidente Jakson ao congresso americano, referindo-se ao Brasil e aos outros países da América do Sul.
Aquele general sem escrúpulos, que foi o patriarca da corrupção na sua pátria, em suas mensagens ao Congresso, exprime-se com grosseira arrogância em relação ao Brasil e aos outros países da América do Sul.
Em 1830, não havendo mais guerra no Prata nem no Pacífico, o Secretário da Marinha insiste pelo aumento da força naval nas costas da América do Sul: “É preciso”, diz o secretário John Branch, “não diminuir as nossas forças, que são indispensáveis para a defesa dos nossos interesses perante aqueles governos instáveis e incapazes”.(9)
As exigências do governo americano foram enormes, e da própria correspondência do ministro Tudor se evidencia o desarrazoado de algumas das reclamações.
Assim, tratava-se, por exemplo, da escuna United States capturada pela nossa esquadra quando tentava forçar o bloqueio levando munições de guerra aos nossos inimigos. Era porventura possível duvidar da legitimidade da apreensão? William Tudor num dos seus despachos ao seu governo refere-se a exagerações das reclamações, e noutro despacho parece sentir que as coisas se tivessem arranjado pacificamente, e compraz-se em dar o plano de uma possível expedição naval americana contra o Brasil para bloquear Pernambuco, a Bahia e o Rio de Janeiro. E enquanto assim se exprimia o diplomata americano, da sua própria correspondência resulta que, por esse tempo, a escuna de guerra brasileira Ismenía salvava de piratas na costa de África um negociante americano, conservando-lhe um grande carregamento de marfim.
Da correspondência de Raguet vêem-se os contrabandos feitos nas costa do Brasil pela Morning Star Philadelfia; a insolência do comandante Biddle da Cyane com a nossa flotilha ao mando do almirante Pinto Guedes, vê-se a manobra fraudulenta do navio americano President Adams, saindo de Montevidéu com falso manifesto para Boston, e tentante ir abastecer o porto de Buenos Aires que o Brasil bloqueava.(10)
O Brasil teve de ceder às imposições norte-americanas, e pagou pelas reclamações a quantia de 427:259$546 réis, que naquele tempo valiam seis ou sete vezes o que valem hoje.(11)
Leiam-se os States Papers americanos do tempo, e há de se ver que, quando tratava com o nosso governo o almirante francês Roussin, que se apresentou na barra do Rio de Janeiro com a sua esquadra a nos fazer exigências, o ministro americano deu-lhe o seu apoio moral, e esteve bem esquecido de Monroe e da sua doutrina.(12)
Quando a Inglaterra e a França intervieram na República Argentina contra Rosas, o governo americano, que convivia em perfeita harmonia com aquele monstro, o que fez? Nada.
Entre as recomendações que o governo de Washington faz a William Tudor há a de preparar o espírito do governo brasileiro para a notícia que logo lhe seria dada do governo americano haver reconhecido D. Miguel como rei de Portugal. Com efeito no dia 1.° de Outubro de 1830 o presidente dos Estados Unidos recebeu oficialmente o sr. Torlades, encarregado de negócios de D. Miguel. O governo americano foi o único governo que reconheceu o rei absoluto e usurpador de Portugal!
Por essa época, o governo dos Estados Unidos tinha já organizado o seu plano de guerra contra o México, outra prova da solidariedade e da fraternidade americana.
A má fé do governo de Washington começou com a questão do Texas. Favoreceu quanto pôde a revolta daquele território, animou-o a separar-se do México para mais depressa absorvê-lo e depois declarou a guerra ao México, verdadeira guerra de conquista humilhou aquela república até ao extremo, e arrebatou-lhe metade do seu território. Ó fraternidade!
E a doutrina de Monroe o que era feito dela? A Inglaterra estendia as suas conquistas ao oeste do Canadá até chegar ao oceano Pacífico. Antes já arrebatara, contra todo o direito, as ilhas Malvinas ou Falkland à Confederação Argentina.
E será possível falar nas ilhas Malvinas sem recordar um dos maiores atentados contra o direito das gentes, neste século, atentado perpetrado por uma força naval dos Estados Unidos*, e aprovado e sancionado pelo governo de Washington? Em 1831, os argentinos tinham uma colônia nas ilhas Malvinas. Alguns navios de pesca, americanos, não quiseram obedecer a umas ordens do governador da colônia. Daí um conflito administrativo e diplomático entre o cônsul americano em Buenos Aires e o governo argentino.
Estava a questão neste pé quando a corveta americana Lexington saiu de Buenos Aires comandada pelo capitão Silas Duncan, foi às ilhas Malvinas, bombardeou o estabelecimento argentino, desembarcou tropa, matou muitos colonos, incendiou todas as casas, arrasando as plantações, levando os sobreviventes presos, uns para os Estados Unidos, e abandonando outros, em grande miséria, nas costas desertas* do Uruguai. Destruído o estabelecimento argentino, a Inglaterra tomou conta das ilhas.
O governo argentino em 1839 reclamou satisfação.
E o que lhe respondeu o governo americano pela palavra do Secretário d’Estado Daniel Webster?
Que o governo americano aguardava a decisão final do conflito existente entre a Inglaterra e a República Argentina a respeito da soberania das Ilhas Malvinas.
Ora em 1831, por ocasião do atentado americano nas Malvinas, a soberania argentina existia de direito e de fato sobre as Malvinas. De direito, reconheceram-no os mesmos Estados Unidos, porque na mensagem presidencial de 17 de novembro de 1818 referente à independência das antigas províncias unidas do Rio da Prata atribuía-se-lhe a soberania dentro dos limites do antigo vice-reinado de Buenos Aires que compreendia as Malvinas; de fato, eram argentinas as Malvinas, porque eram colonizadas por argentinos e administradas por autoridades argentinas desde 1829; só dois anos depois é que a Inglaterra se apossou dessas ilhas.
Como é que os Estados Unidos de quem tantas vezes tem-se dito que não consentirão que um país europeu se aposse de uma polegada de território americano, não duvidaram, no caso presente, pôr em dúvida a soberania argentina nas Malvinas em conflito com a usurpação inglesa?
E a República Argentina em 1884 renovando a sua reclamação obteve a mesma resposta. Propôs submeter o caso a arbitramento; o governo de Washington negou-se.
Eis aí a sinceridade americana quando fala na doutrina de Monroe e sustenta a teoria do arbitramento para a solução dos conflitos internacionais.
Mais tarde e em * Honduras, alargou a Inglaterra impunemente os seus domínios sem que saísse a campo a tal doutrina, e quando Schomburgh intrometeu-se em território brasileiro na lagoa dos Piráras, na fronteira da Guiana inglesa, retirou-se diante da energia da diplomacia brasileira, que nessa ocasião não encontrou e altiva nem pediu então o menor apoio em Washington, apesar de Monroe e da sua doutrina.
Correm os tempos, e o Brasil, a República Argentina e o Uruguai, em legítima defesa, empreendem a mais justa das guerras contra Lopez, do Paraguai. Lá encontramos a diplomacia americana a nos criar embaraços e, representada nas pessoas dos ministros Washburn e general Mac-Mahon, íntimos de Lopez, espectadores mudos e impassíveis das suas crueldades, seus verdadeiros cúmplices pelo silêncio e até pelo louvor.
Quantas dificuldades não criaram esses homens aos exércitos aliados? Ainda aí mostraram os americanos do norte qual a sua compreensão da fraternidade americana. Washburn e Mac-Mahon, abusando das suas imunidades, eram espias e auxiliares de Lopez, traindo o exército aliado.
E o procedimento do Brasil tinha sido todo de correção e lealdade em emergências bem graves para a república norte-americana.
Aquele grande país dera ao mundo um exemplo bem desmoralizador pelo seu apego à escravidão.
Enquanto no Brasil não houve escravocratas que tivessem o cinismo de querer legitimar a iníqua instituição, nos Estados Unidos, onde os senhores de escravos foram muito mais cruéis que no Brasil, publicaram-se livros, sermões, com a apologia científica e até religiosa da escravidão, e chegou o momento em que metade do país julgou que, para conservar e estender a escravidão, valia a pena sacrificar a própria pátria americana. O escravismo sobrepujou o patriotismo. E rompeu a guerra civil mais terrível e mais sangrenta de que reza a história. O governo de Washington deixou logo, aos primeiros tiros do forte Sumter, em Charleston, de dominar parte do território. Os rebeldes criaram uma verdadeira esquadra de corsários. O governo americano, que a ignorância ou a má fé estão agora querendo apresentar aos brasileiros como indefesso propugnador do progresso e das idéias liberais e humanitárias em matéria de direito internacional, tinha-se recusado a aderir ao tratado de Paris, de 1856, pelo qual fora abolido o corso como recurso bárbaro abandonado pelas nações cultas. Por uma punição providencial, foi contra os interesses do governo americano que se organizou o corso mais ativo e terrível de que há notícia. Os corsários sulistas correram todos os mares do globo. Nesse tempo, a marinha mercante americana era talvez a segunda do mundo. Com o desenvolvimento da corrupção política nos Estados Unidos, o favor feito aos poucos ricos armadores nacionais, a pretexto de protecionismo, tornou por tal forma cara a construção naval que a marinha mercante americana por assim dizer desapareceu. Os corsários sulistas tinham pois, naquele tempo, presas ricas e numerosas em que saciar a sua sede de vingança e principalmente de lucro.
Diante do incremento tomado pela revolta sulista, não foi possível às nações estrangeiras desconhecer nas relações internacionais, a personalidade jurídica dos confederados, nome esse que os revoltosos assumiram. De fato, senhores de vários pontos, dispondo de fortalezas, os rebeldes dominavam uma parte do território de que o governo de Washington, ao cabo de muito tempo, não se tinha podido apoderar. As nações estrangeiras não podiam deixar de considerar os confederados como beligerantes. Nem outra doutrina podia prevalecer. De outro modo, bastaria a qualquer governo declarar simplesmente rebeldes ou piratas as forças de terra ou de mar ao serviço dos seus adversários para privá-las de todos os direitos de guerra. Ora a revolução é um direito, segundo as teorias modernas, e as nações estrangeiras não devem entorpecer por qualquer modo, ainda que indireto, o exercício desse direito. Grocio diz que uma nação onde há uma revolta deve ser considerada pelos terceiros, isto é, pelos outros países, como duas nações separadas, cada uma com os seus direitos de beligerante. Os tratadistas de direito internacional dizem que para isso é preciso: 1.° que a revolta tenha já algum tempo de duração, não tendo podido o governo sufocá-la; 2.° que os recursos da revolta sejam importantes; 3.° que ela domine um parte do território quer marítimo quer terrestre. Ora os confederados estavam nesse caso, e o próprio governo americano criara um precedente contra si quando, em 1837, reconhecera como beligerantes os revoltosos do Texas, sem fazer caso das reclamações do México.
O reconhecimento dos insurgentes como beligerantes é coisa muito das tendências do direito internacional moderno. É uma medida aconselhada pelos próprios interesses da humanidade. O título de beligerante confere certos direitos; mas, a esses direitos correspondem certos deveres que, a bem de todos, devem ser cumpridos pelos beligerantes. Se se nega todos os direitos aos insurgentes, como pretender impor-lhes os deveres gerais da guerra? E ao interesse da humanidade convém que esses deveres sejam respeitados. Ora, se não há direito a que não corresponda um dever, também não há deveres a que não correspondam também direitos. Bluntschli, o oráculo do direito internacional, diz que, desde que os rebeldes se acham militarmente organizados, devem ser reconhecidos como beligerantes, e diz mais que o direito internacional atual fez um progresso mostrando-se disposto a conceder a qualidade de beligerante a um partido revolucionário. As leis da humanidade, diz ele, assim o exigem.(13)
Não tardaram os corsários sulistas em aparecer nos portos do Brasil, e o governo brasileiro manteve-se na maior discrição e na atitude a mais correta, somente permitindo que os navios fizessem água e recebessem carvão apenas em quantidade suficiente para, em marcha lenta, se transportarem ao mais próximo porto estrangeiro. O governo americano julgou dever reclamar pro forma, e o ministério dos negócios estrangeiros do Brasil, numa nota luminosa e digna, nota que é hoje clássica em direito internacional, defendeu o procedimento do governo imperial, e o próprio secretário de estado do governo de Washington, o eminente Mr. Seward, um dos mais notáveis estadistas americanos, deu-se por satisfeito com a justificação contida em a nota brasileira, assinada pelo ministro de estrangeiros, o conselheiro Magalhães Taques. Seward disse, em resposta, que se rendia à evidência demonstrada naquela nota habilíssima (most able note)(14). O amor próprio brasileiro, naquele tempo, podia ter satisfações destas.
Terminada a guerra civil, houve o grande litígio entre a Inglaterra e os Estados Unidos, a célebre contenda conhecida pelo nome de “Questão Alabama”. O governo do Brasil foi escolhido pelas altas partes litigantes para ser um dos árbitros entre as duas grandes nações. Não podia ser mais solenemente reconhecida do que foi então a lealdade e a correção do governo do Rio de Janeiro(15). Anos mais tarde, surgiu um litígio derivado ainda da guerra civil americana. O conflito era entre as duas grandes repúblicas do mundo, entre a França e os Estados Unidos. O árbitro único escolhido foi o Imperador do Brasil. No tribunal que funcionou em Washington, representou o soberano brasileiro o sr. barão de Arinos. No tribunal do Alabama, que funcionou em Genebra, o juiz brasileiro foi o falecido barão depois visconde de Itajubá. Vê-se, por isso, qual não era o prestígio do Brasil. Hoje, querendo os Estados Unidos fechar o mar de Behring, e, retrocedendo estranhamente para épocas passadas, restabelecer o mar clausum que Selden e Freytas defenderam no século XVII contra Grocio, o fundador do* direito internacional moderno, a Inglaterra opôs-se à pretensão e os dois países recorreram a um arbitramento. Parece que os tempos estavam mudados... Os Estados Unidos já não apelaram para o governo do Brasil, e o governo de Washington, que querem agora apresentar como o paladino da fraternidade americana, nem por sombras pensou em recorrer aos seus colegas presidentes de repúblicas latinas. Os Estados Unidos preferiram a arbitragem de algumas anacrônicas chancelarias de velhas e carcomidas monarquias européias!
Não seriamos completos em nossa demonstração de que os Estados Unidos, embora contem ilustres escritores de direito internacional, são mais egoístas e prepotentes em suas práticas do que as monarquias européias, se não nos referíssemos ao célebre incidente do Trent. O vapor deste nome, vapor inglês, levava, como passageiros, dois enviados diplomáticos representantes dos Estados Confederados, os srs. Sliddel e Mason, que iam, como enviados extraordinários e ministros plenipotenciários, em missão especial, um deles para Londres outro para Paris. Pois bem, um navio de guerra americano em alto mar, deteve o vapor inglês e violentamente arrancou de bordo os dois passageiros. Este ato, contrário ao direito das gentes, esse desrespeito ao pavilhão de uma nação neutra, esta felonia contra os dois diplomatas despertou a indignação de todos os governos, e o governo de Washington viu-se obrigado a censurar o oficial que perpetrou tão feia ação, mas aproveitou-se dela conservando por muito tempo os dois prisioneiros. Este ato é apenas menos condenável do que a vilania que contra nós praticou Solano Lopez, aprisionando em plena paz o vapor brasileiro Marquês de Olinda, vapor que levava o coronel Carneiro de Campos, presidente de Mato Grosso. Esta proeza parece que foi vivamente aconselhada a Lopez pelo cidadão uruguaio sr. Vazques Sagastume, hoje ministro no Rio de Janeiro, e portanto um dos corifeus da fraternidade americana.
Com o seu imediato vizinho meridional, o México, a política dos Estados Unidos terá sido uma política de fraternidade?
O fato mais importante dessa política, qual foi?
Foi uma guerra.
E essa guerra contra o México é pintada com verdade e eloqüência pelo historiador americano H. H. Bancroft:
“A guerra dos Estados Unidos contra o México foi um negócio premeditado e determinado de antemão. Foi o resultado de um plano de salteio, que o mais forte organizou deliberadamente contra o mais fraco. As altas posições políticas de Washington eram ocupadas por homens sem princípios, tais como os senadores, os membros do congresso, sem falar do presidente e do seu gabinete, e havia a grande horda dos demagogos e dos politiqueiros, que se comprazia em satisfazer os instintos dos seus partidários. Estes eram os senhores de escravos, os contrabandistas, os assassinos de índios, que, com as suas ímpias bocas maculadas de tabaco, juravam pelos sagrados princípios de 4 de julho, que haviam de estender o predomínio americano do Atlântico até ao Pacífico. E esta gente, despida das noções do justo e do injusto, estava disposta cinicamente a reter tudo quanto pudesse saquear, e invocando para isso o princípio único da força.
“O México, pobre, fraco, lutando para obter um lugar entre as nações, vai agora ser humilhado, espezinhado, algemado e vergastado pela brutalidade do seu vizinho do norte. E este é um povo que tem o maior orgulho da sua liberdade cristã, dos seus antecedentes puritanos! Veremos como os Estados Unidos começaram, então, a empregar toda a sua energia em descobrir plausíveis pretextos para roubar a um vizinho mais fraco uma vasta extensão de terra. E para que? Para aí estabelecer a escravidão.”(16)
A guerra foi precedida da intrusão americana no Texas, dos subsídios que os americanos deram à revolta por eles mesmos fomentada naquele território, cuja independência não tardaram em reconhecer como medida preparatória da anexação, que foi a gota de água que fez transbordar a paciência dos mexicanos. E esta paciência já tinha sido posta à prova de mil modos, por anos e anos numa longa série de vexames. As reclamações americanas multiplicavam-se. Extintas hoje, isto é, pagas a bom dinheiro pelo México, renasciam daí a meses. E as reclamações eram extraordinárias. Bancroft, entre outras, cita a reclamação de um americano que por cinqüenta e seis dúzias de garrafas de cerveja recebeu 8:260 dólares.(17)
Uma vez, o comissário americano Voss recebeu o dinheiro, e este não apareceu (Bancroft, pag. 320).
Em 1818, estando os Estados Unidos em paz com a Espanha, o general Jackson invadiu a fronteira da Flórida, capturou e guarneceu um forte espanhol, apoderando-se de Pensacola e de Barrancas.
Mais tarde, também sem declaração de guerra, o general Gaines fez incursões no México. Estava, pois, nas tradições do governo de Washington o começar a guerra contra o México, sem prévia declaração para de surpresa romper as hostilidades e invadir o território. E assim foi.
Vejamos agora como foi feita a guerra. Os americanos fizeram-na de um modo bárbaro. “O bombardeio de Vera Cruz durou quatro dias; foi horrível e inteiramente desnecessário”. (Bancroft, pag. 547). “O saque, as matanças de feridos no campo de batalha, os prisioneiros queimados vivos, são fatos confirmados pelas mais elevadas autoridades oficiais.”(18) “As barbaridades ilegítimas cometidas quase sempre com impunidade por uma massa indisciplinada como era o exército americano, estão, infelizmente, por demais verificadas (Bancroft, pag. 547). E isto estava de acordo com a opinião pública.
Leiamos as expressões dos jornais americanos:
Dizia um: “Devemos destruir a cidade do México, arrasando-a ao nível do solo. Façamos o mesmo com Puebla, Perote Jalapa, Saltillo e Monterey e feito isto, devemos ainda aumentar as nossas exigências”.
Dizia outro: “Aniquilemos os mexicanos, levemos a destruição e a morte a todas as famílias, façamo-lhes sentir um jugo de ferro, e assim seremos respeitados”.(19)
E o México perdeu quase metade do seu território.
Faz-se muito cabedal do fato dos Estados Unidos terem mais tarde intimado à França a retirada das suas tropas do México. Foi um serviço, mas como não tem o México pago caro este serviço? O governo de Maximiliano não se pôde manter, embora tenha sido o governo mais honesto que o México tem tido desde a independência. Maximiliano era um estrangeiro. Houvesse um príncipe mexicano, que aquela população, de índole monárquica, aceitaria unânime a monarquia. Demais, Maximiliano não quis sancionar os grandes abusos do clero, sobretudo em relação aos bens da Igreja. Não esqueçamos que o decreto abolindo os contratos agrícolas dos peones, revogação de uma lei antiga pela qual os trabalhadores das haciendas ficavam verdadeiros escravos, sujeitos até aos açoites, atraiu, contra o príncipe liberal, os ódios das chamadas classes conservadoras, que sabemos o que são, em toda a América latina. Parece que há uma fatalidade para os chefes de estados libertadores: Alexandre II da Rússia, despedaçado pelas bombas niilistas, Maximiliano fuzilado, Lincoln assassinado, e D. Izabel do Brasil exilada. O martírio é a consagração dos grandes feitos em prol da humanidade! No México, o sentimento monárquico é irresistível. Não pode restaurar a monarquia mas tem tornado impossível a república.
Porque no México não há, não houve, nem há de haver república. O notável escritor americano Gronlund diz que, se os Estados Unidos, na época da sua independência, tivessem encontrado um príncipe inglês, como o Brasil encontrou um príncipe português, a monarquia se teria estabelecido nos Estados Unidos(20). E o tempo teria feito desta monarquia um regime bem diferente do regime de opressivo monopólio e de cruel plutocracia que é hoje a essência mesma do governo norte-americano. Se se pode dizer isto dos Estados Unidos, com muito mais razão se dirá o mesmo do México.
A República, no México, como noutros países da América latina nunca será uma coisa impessoal; a república aí será sempre um homem. Foi Juarez, homem representativo, homem que representou o ódio ao estrangeiro. Ora, o ódio pode destruir; o ódio pode ser a verdadeira expressão do sentimento nacional num momento dado, mas o ódio não cria coisa alguma. Augusto Comte tem uma das suas intuições geniais, quando quer que as sociedades humanas tenham o amor por base. Só o amor é criador. Por isso Juarez nada criou. Don Sebastian Lerdo de Tejada, ministro e sucessor de Juarez, foi uma transição entre a política do ódio indígena e a concepção jurística da sociedade. Homem de lei, jurisconsulto pretendeu pôr tudo em artigos de códigos. Espiava-o o militarismo, surto comum e inevitável de toda a América Ibérica. Deposto e expulso Lerdo, pelo general Diaz, voltou o México ao militarismo sistemático. O general Diaz e o general Gonzalez revezam-se, há vinte e tantos anos, no poder, e o poder deles é praticamente absoluto. A constituição, copiada da constituição, americana, dá ao presidente quase todos os poderes. O congresso é nada, as eleições uma farsa.
O furor imitativo dos Estados Unidos tem sido a ruína da América. Péricles no seu célebre discurso do Cerâmico, disse: “Dei-vos, ó atenienses, uma constituição que não foi copiada da constituição de nenhum outro povo. Não vos fiz a injúria de fazer, para vosso uso, leis copiadas de outras nações”. Há muita grandeza na exclamação do gênio grego. Há uma presciência de tudo quanto descobriu a ciência social moderna que, afinal, se pode resumir nisto: As sociedades devem ser regidas por leis saídas da sua raça, da sua história, do seu caráter, do seu desenvolvimento natural. Os legisladores latino-americanos têm uma vaidade inteiramente inversa do nobre orgulho do ateniense. Gloriam-se de copiar as leis de outros países!
Todos os países espanhóis na América, declarando a sua independência, adotaram as fórmulas norte-americanas, isto é, renegaram as tradições da sua raça e da sua história, sacrificando ao princípio insensato do artificialismo político e do exotismo legislativo.
O que colheram desse absurdo, diz a triste história hispano-americana deste século. O Brasil, mais feliz, instintivamente obedeceu à grande lei de que as nações devem reformar-se dentro de si mesmas, como todos os organismos vivos, como a sua própria substância, depois de já estarem lentamente assimilados e incorporados à sua vida os elementos exteriores que ela naturalmente tiver absorvido. No Brasil tivemos a independência, fato lógico do desenvolvimento da sociedade colonial; a monarquia mantida foi o respeito da tradição e a conservação do país na sua índole histórica que ninguém pode mudar. O constitucionalismo e o sistema parlamentar adotados foram, até certo ponto, uma revivescência do passado, uma reprodução das cortes lusitanas, e coisa que muito se harmonizava com a organização quase espontânea, mas sempre representativa, e mais poderosa do que se julga, dos governos municipais e locais da colônia.
As idéias liberais do século, consagradas nas instituições coevas da independência acharam uma base histórica em que se firmaram. E isto deu ao Brasil setenta anos de liberdade.
Mais tarde, foi em 1889 cometido no Brasil o mesmo grande erro em que os hispano-americanos tinham caído no primeiro quarto do século, isto é, quando artificialmente se quis impor ao Brasil a fórmula norte-americana.
A perda da liberdade foi a conseqüência imediata, fatal, da desgraçada idéia. E nós, tardiamente, fomos tomar parte na fastidiosa e desalentadora tarefa em que vivem, há noventa anos, os hispano-americanos, isto na longa, vã, tormentosa, sangrenta e já degradante e inútil tentativa, quase secular, de querer implantar na América latina as instituições de uma raça estranha.
O grande orador americano Henry Clay falava, uma vez, em 1818, no congresso americano em favor das colônias espanholas revoltadas contra a metrópole: “Acredita-se geralmente em nosso país que os sul-americanos são muito atrasados e supersticiosos para se constituírem em nações livres. É uma injustiça. E a prova de que eles não estão tão atrasados é que estão adotando as nossas instituições e as nossas leis”(21). O insigne historiador Von Holst diz que Clay afirma um contra-senso; porque esta imitação servil, essa sim, é prova de incapacidade.(22)
O México copiou pois a constituição norte americana. Uma disposição constitucional dizia mais que o presidente era inelegível para o período presidencial imediato à sua presidência. Daí o híbrido e imoralíssimo pacto de Diaz e de Gonzalez. Diaz elege Gonzalez com a condição de Gonzalez eleger de novo a Diaz. E isto dura há mais de vinte anos. Agora, parece que Diaz não quer largar, e já fez reformar a constituição, revogando a incompatibilidade, vai-se fazer reeleger, e* Gonzalez vai ficar logrado. Fala-se já em revolução gonzalista, e o estado de sítio funciona no México com a mais invejável regularidade.
Eis aí o serviço que os Estados Unidos prestaram ao México livrando-o de um governo que, embora incriminado de estrangeiro, foi o mais brando, o mais civilizado, numa palavra, que jamais teve aquele desgraçado país. E não se limitaram a isso os bons ofícios da irmã república. Depois de haver retalhado o território mexicano em 1848, e sobretudo depois da vitória definitiva da república no México, os Estados Unidos constituíram sobre aquele país um verdadeiro protetorado, que mexicanos imprevidentes foram aceitando, sem ver que era a ruína e o descrédito da sua pátria. O duunvirato Diaz-Gonzalez atraiu para o México uma nuvem de aventureiros que patrocinados pela legação americana, apresentavam-se querendo concessões e privilégios, que lhe eram dados a troco de favores pessoais, de ações beneficiárias e de outras mil formas da fraude financeira. O México, a pretexto de armarem-no com todos os instrumentos modernos de progresso, foi a presa submissa e opima dos americanos. Tudo foi ali objeto de privilégio, tudo motivo para concessões com garantias de juros e outras vantagens onerosas para o tesouro. Os concessionários corriam para Nova York, e na bolsa de Wall Street obtinham dos incautos o dinheiro que desejavam. Quer imperasse Diaz ou reinasse Gonzalez o método era sempre o mesmo. Muitas vezes, membros do governo de Washington eram sócios dessas alicantinas, e se o governo mexicano fazia alguma pequena dificuldade em entregar o dinheiro, logo agia sobre ele a pressão diplomática. Diaz e Gonzalez amontoavam grandes fortunas e Washington rejubilava. Os jornais americanos anunciavam com entusiasmo os progressos da iniciativa americana, dizendo que a conquista financeira do México era apenas o prelúdio da conquista política que mais tarde viria. Nesse tempo, o ilustre Lerdo de Tejada que vivia em Nova York exilado, dizia a quem escreve estas linhas: “Os generais mexicanos, no meu tempo, roubavam nas estradas; agora roubam nas companhias. É um progresso”. A principal figura desta roubalheira, figura pouco simpática, mas parece que um pouco inocente nesses crimes, foi o general Grant. Aquele soldado feliz era um homem de curta inteligência, ignorante em matéria de negócios e, em todo o caso, um indivíduo sem grandes delicadezas. Logo que se tratava de um assalto qualquer às piastras mexicanas, o iniciador da idéia ia ter com o general Grant, e este logo dava-lhe o seu nome, o seu prestígio e a sua influência. Chegou então ao auge a jogatina e a imoralidade. O México, a pretexto de aplicação no seu solo de capitais yankees, era praticamente governado pela legação americana. O México deixou de ser dos mexicanos. Alguns patriotas protestavam; mas os generais Diaz ou Gonzalez dispunham logo do recurso de prender os patriotas e de proclamar o estado de sitio. O ilustre orador, o notável poeta do México, o sr. Altamirano, no meio do abaixamento geral, ergueu, contra a aliança americana, a sua voz eloqüentíssima “Não!” bradava ele no congresso “mil vezes a nossa pobreza antiga do que a ignomínia que presenciamos. O leão mexicano era livre na liberdade ampla das nossas serranias. O estrangeiro desleal e corruptor tem-no agrilhoado, e julga-se ainda seu benfeitor, dizendo que são de ouro* as cadeias com que o subjuga! Não! Vincula quamvis aurea tamen vincula sunt!” Enquanto esta voz ilustre se levantava no México, em Nova York, num grande banquete de confraternidade (financeira já se vê) entre figurões americanos e notáveis mexicanos, banquete presidido pelo general Grant, o sr. Evarts, um dos mais conhecidos estadistas americanos, antigo secretário de estado, usava de linguagem que bem justificava a indignação patriótica de Altamirano.
O sr. Evarts passava por ser o homem mais espirituoso dos Estados Unidos, mas, muitas vezes, apesar de homem letrado, tocava as raias da vulgaridade. Isto é muito comum nos Estados Unidos. Há aí muita gente com reputação de espirituosa, mas naquele país que, tendo tido a honra de ser a pátria de Edgar Poe deixou-o morrer na miséria e no desprezo geral, negando-lhe até hoje um monumento, as chocarrices dos profissional wits ou espirituosos de profissão, são muita vez acolhidas com entusiasmo. Eis o que dizia o sr. Evarts, entre as gargalhadas dos yankees, e os sorrisos, amarelos, dos mexicanos: “A doutrina de Monroe e por certo uma boa causa, mas, como todas as coisas boas antiquadas, precisa de ser reformada.
Essa doutrina resume-se nesta frase: A América para os americanos. Ora, eu proporia com prazer um aditamento: Para os americanos, sim senhor, mas, entendamo-nos, para os americanos do norte (aplausos). Comecemos pelo nosso caro vizinho, o México, de que já comemos um bocado em 1848. Tomemo-lo (hilaridade). A América Central virá depois, abrindo nosso apetite para quando chegar a vez da América do Sul. Olhando para o mapa vemos que aquele continente tem a forma de um presunto. Uncle Sam é bom garfo; há de devorar o presunto (aplausos e hilaridade prolongada). Isto é fatal, isto é apenas questão de tempo. A bandeira estrelada é bastante grande para estender a sua sombra gloriosa de um oceano a outro. Um dia ela flutuará única e ovante do pólo norte ao pólo austral.”
Comentários são estes do sentimento geral do povo americano.
Em 1836 no congresso americano, exclamava o senador Preston:
“A bandeira estrelada não tardará em flutuar sobre as torres do México, e dali seguirá até ao cabo Horn, cujas ondas agitadas são o único limite que o yankee reconhece para a sua ambição.”
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Continuava, porém, no México a orgia dos melhoramentos.
A repartição mexicana de estatística começou a ser de uma fantasia e de uma imaginação pasmosas. Concessão de caminho de ferro que fosse objeto de um decreto do executivo era imediatamente inscrita nos relatórios e nos outros documentos oficiais, não como um simples ato legislativo, mas como uma realidade efetiva. Eram mais tantos e tantos milhares de quilômetros de linha que se davam como feitos, e que os mapas do governo, destinados ao estrangeiro, traçavam orgulhosamente em longos riscos multicores. Qualquer tentativa de uma nova indústria, de uma cultura estranha era imediatamente classificada como uma fonte já criada e abundante de riquezas imensas.
Foi então que no Brasil houve ingênuos que começaram a se inquietar com a grande balela do café do México, e foi depois de 1er algumas daquelas estatísticas ultra fantasistas, que o sr. Quintino Bocaiúva fez propaganda republicana nuns artigos com este título: Olhemos para o México. Muita outra gente quis, mais ou menos por esse tempo, que os brasileiros olhassem também para a República Argentina, e viajantes boçais que dali vinham, depois de curto passeio, vinham republicanos. Tinham visto os restaurantes luxuosos de Buenos Aires, admirado as carruagens das cocottes e dos empregados públicos prevaricadores, tinham contemplado a arquitetura riquíssima dos bancos sem ver a fraude e a ruína que lá iam por dentro. Voltavam para o Brasil, e vendo os nossos ministros e parlamentares andando de bonde, vendo os modestos edifícios dos nossos bancos (então ainda acreditados), concluíam que o Brasil era um país atrasado e que a culpa era da monarquia.
É, porém, muito grande a força das coisas. Antes de rebentar a falência fraudulenta, não da República Argentina, mas dos maus governos daquele belo país, terminou escandalosamente o consórcio financeiro do México e dos Estados Unidos. Partiram as primeiras reclamações dos pobres acionistas defraudados; os infelizes que contribuíram para as extraordinárias empresas pomposamente patrocinadas pelos generais de uma e de outra república, começaram a perceber, embora tardiamente, que tinham sido atrozmente espoliados. As minas nada rendiam, as terras concedidas eram lhanos estéreis, serras inacessíveis ou pântanos e mangues pestilentos nas costas inóspitas do golfo ou do Pacífico. E nessas fantásticas criações, nos ordenados das diretorias, nos estipêndios à imprensa, nas remunerações a funcionários mexicanos e a diplomatas dos Estados Unidos, escoaram-se, volatilizaram-se os milhões de dólares subscritos. O grito das vítimas foi medonho. A princípio, o grande prestígio do general Grant foi um dique que por algum tempo conteve a onda da indignação que afinal irrompeu por toda a parte, nos meetings, na imprensa e nos tribunais de Nova York. A célebre empresa do caminho de ferro do Tehuantepec foi declarada em falência; os bancos suspenderam pagamentos, houve suicídios entre os figurões comprometidos, um filho de Grant foi arrastado aos tribunais, e o pobre general sofreu grandemente na sua popularidade, quando o seu nome se achou envolvido em tantos litígios escandalosos. A maior parte dos decantados melhoramentos do México ficaram adiados indefinidamente, o tesouro daquela república saiu arrebentado da luta, continuando debaixo do domínio de Diaz e de Gonzalez — o México é ainda hoje uma vítima, depauperada, da amizade e da fraternidade norte-americana.
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Esta rápida exposição demonstra o que é a fraternidade dos Estados Unidos para os países latinos. Vimos o México; vamos agora à América Central.
“Está no destino de nossa raça”, dizia na sua mensagem de 7 de janeiro de 1857 o presidente Buchanan “o estender-se por toda a América do Norte, e isto acontecerá dentro de pouco tempo se os acontecimentos seguirem o seu curso natural. A emigração seguirá até ao sul, nada poderá detê-la. A América Central, dentro de pouco tempo, conterá uma população americana, que trabalhará para o bem dos indígenas”. O senador G. Brocon em 1858: “Temos interesse em possuir Nicarágua. Temos manifesta necessidade de tomar conta da América Central, e, se temos essa necessidade, o melhor é irmos já como senhores àquelas terras. Se os seus habitantes quiserem ter um bom governo, muito bem e tanto melhor. Se não quiserem, que vão para outra parte. Vão-me dizer que há tratados, mas que importam os tratados se temos necessidade da América Central? Saibamo-nos apoderar dela, e se a França e se a Inglaterra quiserem intervir, avante ó doutrina de Monroe!”
A extraordinária história do flibusteiro Walker é das que melhor pintam a má fé norte-americana e o desprezo profundo que os governos dos Estado Unidos têm pela soberania, pela dignidade e pelos direitos das nações latinas da América. Houve um momento em que os americanos julgaram chegada a ocasião de conquistar a América Central. Tendo já conquistado metade do México, a conquista da América Central deixaria o que hoje resta do México independente, apertado entre dois territórios americanos, isto é, fadado a uma absorção rápida. Um aventureiro, William Walker, saiu em 1853 de S. Francisco, à frente de um pequeno exército de bandidos, formado debaixo das vistas protetoras das autoridades americanas. Este bando armado invadiu o território mexicano de Sonora, e Walker proclamou-se presidente do novo território, anexando-o por sua própria autoridade aos Estados Unidos. Teve, porém, de desistir do seu propósito e de render-se às autoridades federais americanas de San Diogo, que o tiveram de julgar pelo crime cometido e pela quebra da neutralidade, mas que, como era de esperar, absolveram-no. Por esse tempo, na infeliz república de Nicarágua tratava-se de uma eleição presidencial, o que nas repúblicas hispano-americanas é sinônimo de guerra civil. Estavam em campo dois candidatos, generais, já se vê, por sinal chamados, um Castellon e outro Chamarro. Mais ou menos eleito Chamarro, foi meio deposto por seu rival Castellon que, para fortalecer a sua situação teve a idéia desastrada de convidar a Walker a vir ao Nicarágua ajudá-lo a defender a constituição e o princípio da autoridade. Walker formou novo exército, e partiu de S. Francisco em maio de 1855.
Imediatamente, o ministro de Nicarágua em Washington, o sr. Marcoleta, queixou-se energicamente, mas o Secretário d’Estado Marcy fingiu ignorar o caso e não atendeu ao reclamante. Logo teve lugar a primeira batalha. Os nicaragüenses aliados de Walker parece que fugiram aos primeiros tiros, mas os 56 americanos que ele comandava levaram tudo de vencida, dando a Walker um imenso prestígio. Logo depois, outras vitórias do mesmo teor em Baía das Virgens, San Juan del Sur e Rivas, e sem resistência, Walker entrou em Granada. A cidade foi saqueada durante três dias, e Walker tendo feito uma proclamação garantindo a vida dos moradores, os principais destes voltaram às suas casas, e foram fuzilados sem demora nem processo. O ministro americano Wheeler, que estava feito com Walker, empenhou-se sobretudo para que aparecesse um cidadão importante chamado Mayorga, a quem deu todas as garantias, dizendo-lhe que ficava debaixo da proteção da bandeira estrelada dos Estados Unidos. Mayorga caiu na armadilha, e o ministro americano entregou-o a Walker, que o fuzilou logo com muitos outros cidadãos de Nicarágua(23). Walker arranjou logo uma espécie de tratado de paz com um general Corral, e fez presidente nominal da república a D. Patricio Rivas que, sob a pressão do medo, logo que pôde, fugiu das mãos de Walker, no que andou com prudência, porque dias depois o general Corral (outro protegido da legação americana) foi fuzilado. Walker ficou senhor absoluto do país, e a 12 de julho de 1856 proclamou-se ditador, tendo já o seu embaixador Vigil sido recebido solenemente pelo governo de Washington a 12 de maio do mesmo ano. A 22 de setembro Walker expediu um decreto restabelecendo a escravidão na Nicarágua. A escravidão havia sido abolida ali havia trinta e dois anos. Grande parte da imprensa americana e a maioria do congresso saudou com júbilo este decreto escravagista. As outras nações da América Central reconheceram o perigo, declararam guerra a Walker, que começou a receber grandes recursos dos Estados Unidos. A guerra seguiu com vária sorte. Walker incendiou completamente a cidade de Granada e recolheu-se a Rivas, praça que se rendeu ao general Mora em l de maio de 1857; e graças à intervenção do capitão Davis, comandante do navio de guerra, americano Saint Mary’s, Walker pôde escapar, refugiando-se com o seu estado maior e 260 soldados a bordo do mesmo navio de guerra, que os transportou para Nova Orleans, onde foram recebidos no meio de aplausos populares.(24)
Em Nova York houve um meeting em honra e favor de Walker. O presidente dos Estados Unidos, Buchanan, mandou um telegrama encomiástico a respeito de Walker, dizendo “que os heróicos esforços de Walker excitavam a sua admiração e a sua solicitude”(25).
Em Nova Orleans, sempre com a benevolência do governo de Washington, começou o aventureiro a organizar outra expedição. Denunciado pelos agentes diplomáticos centro-americanos, foi preso, sendo, porém logo solto mediante pequena caução.
Equipando o navio Fashion, partiu a 11 de novembro para Punta Arenas, onde desembarcou com 400 homens, sem que se opusesse a isto o Saratoga, vaso de guerra americano. O capitão Paulding, da marinha americana, chegando depois, obrigou Walker a render-se e trouxe-o para Nova York. Walker foi entregue aos tribunais, mas estes não o processaram, sendo, porém, processado e repreendido o capitão Paulding, por ter excedido as suas instruções e ter contrariado o governo de Washington, declarado protetor de Walker. Em agosto de 1860, Walker desembarcou em Truxillo (Honduras), apoderou-se da fortaleza e saqueou a cidade. O capitão Salmon, comandante do Icarus, navio de guerra inglês, intimou Walker a restituir a propriedade roubada. Walker recusou e fugiu. Foi perseguido, apanhado, o governo de Honduras, fê-lo julgar e fuzilar(26). O desastre final de Walker produziu indignação nos Estados Unidos. Quiseram fazer dele um herói sublime. O poeta Joaquim Miller exaltou-o e atribuiu-lhe:
A piercing eye, a princely air
A presence like a chevalier
Half angel, half Lucifer.
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Quem há, versado na história latino-americana, que não tenha na lembrança o bárbaro bombardeamento de S. João de Nicarágua (Greytown) em 1854? O comandante de um vapor americano matou cruelmente com um tiro de carabina, à entrada daquele porto, o patrão de um barco de pesca. As autoridades exigiram a entrega do criminoso. O ministro americano opôs-se; houve manifestações de desagrado ao ministro, e tanto bastou para que os Estados Unidos mandassem a Nicarágua a corveta Cyane, que exigiu todas as reparações, o pagamento de uma longa lista de pretendidos prejuízos sofridos por americanos, e 30:000 dólares de indenização ao ministro, pelas assuadas. Isto sob pena de bombardeio em vinte e quatro horas. A população, julgando que o caso se limitaria a algumas bombas arremessadas contra a pequena cidade, que apenas contaria umas quinhentas casas, retirou-se para o interior. O comandante do vaso de guerra inglês Bermuda protestou solenemente, declarando que só a fraqueza do seu navio impedia-o de opor-se pela força ao bombardeio. No dia seguinte, depois de atirar algumas bombas, o comandante operou um desembarque, e as suas tropas incendiaram todas as casas. A cidade ficou inteiramente destruída, e o prejuízo causado a estrangeiros pela destruição de mercadorias subiu a mais de 2.000:000 de dólares.(27)
Este crime não teve outra punição além do justo estigma da história.
Quando a Inglaterra começou a se apoderar dos territórios que cercam Belise e das ilhas Honduranas que constituem hoje o Honduras inglês, a pobre república de Honduras em vão apelou para a proteção do governo de Washington, alegando contra a violência que lhe era feita a doutrina de Monroe.
Nesta questão da Centro-América, longe de se opor à intervenção européia, o governo americano solicitou até a interferência da Inglaterra no assunto pelo tratado de 19 de abril de 1850, conhecido pelo nome de tratado Clayton-Bulwer. Por esse tratado os Estados Unidos associaram-se à monarquia européia para regularem a construção e a neutralidade do projetado canal de Nicarágua. E, coisa notável, uma das conseqüências deste tratado foi os Estados Unidos reconhecerem solenemente o domínio inglês no Honduras em detrimento das repúblicas espanholas no Centro América. Na cláusula 1a. deste tratado os dois governos concordavam que nem um nem outro poderia ocupar, fortificar, colonizar ou assumir ou exercer qualquer domínio sobre Nicarágua, Costa Rica, a Costa dos Mosquitos ou qualquer parte da América Central.
Em 29 de junho de 1850 o ministro inglês em Washington, sir Henry Lytton Bulwer, declarava que o governo inglês excluía daquela cláusula os estabelecimentos ingleses de Honduras, e a 4 de julho o secretário d’estado anuía numa nota admitindo que ficavam fora do tratado os estabelecimentos ingleses em Honduras(28).
Só em 1855 o ministro americano em Londres, Buchanan, solicitou que a Inglaterra abandonasse a ilha de Ruatan e outras de que a Inglaterra se tinha apoderado na costa de Honduras, assim como o território entre os rios Sibun e Sarstoon, e que a possessão inglesa de Belise se limitasse à parte dos tratados anglo-espanhóis de 1783 e 1786, e que a Inglaterra abandonasse a Costa dos Mosquitos. Lord Clarendon, ministro dos negócios estrangeiros da Inglaterra, repondeu com uma redonda negativa. E Monroe?(29)
Quando se formou na Europa, com sede em França, a malograda companhia do canal interoceânico, que obteve uma concessão do congresso colombiano, o governo de Washington saiu-se logo com a doutrina de Monroe, fazendo um terrível escarcéu. O velho Lesseps, porém, foi de Panamá a Nova York, foi a Washington e, como por encanto, toda a oposição cessou por parte da secretaria d’estado. Anos depois, tudo isto ficou explicado por ocasião do célebre processo de Panamá, e soube-se porque as influências americanas, os homens do governo de Washington deixaram de lado Monroe e a sua doutrina. No processo de Panamá verificou-se que milhões de francos foram misteriosamente gastos para acalmar escrúpulos e para suavizar a doutrina de Monroe. Eis qual tem sido o papel dos Estados Unidos em relação à grandiosa idéia do canal interoceânico. Aquele país tem empregado toda a sua influência para atrasar e embaraçar por todas as formas a grandiosa empresa, prometedora de benefícios para a humanidade, e isto para não prejudicar as companhias dos caminhos de ferro transcontinentais. É mais um serviço que lhe devem a Colômbia, o Equador, o Peru, a Bolívia e o Chile, países cuja prosperidade tanto necessita do canal de Panamá.
Quando em 1888 a esquadra italiana ameaçou os portos da Colômbia e do Equador, exigindo violentamente satisfações e indenizações, que proteção às suas irmãs violentadas deu a república norte-americana?
Nenhuma.
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Quer-se apresentar o governo americano aos brasileiros como o grande amigo das nações deste continente, como o seu protetor nato, e, no furor disso demonstrar, há jornais brasileiros, de tão atrofiado patriotismo, que chegam a colocar o Brasil como que debaixo do protetorado americano, fazendo do Rio de Janeiro o vassalo e de Washington o suserano. É contra esta falsa idéia, contra este esquecimento do pundonor nacional, que queremos reagir, relembrando aos nossos compatriotas o que tem sido a política americana.
Para o México, ela tem sido um algoz e para a América Central um inimigo.
Continuemos agora a ver o que os Estados Unidos têm feito contra outros países, sem esquecer a pobre república do Haiti, a quem os Estados Unidos tanto tem atormentado, a pretexto de indenização por prejuízos sofridos por americanos, nas muitas revoluções haitianas. Haiti e S. Domingos, já têm sido várias vezes ameaçados por navios de guerra da união americana, sempre a pretexto de indenizações reclamadas. E aqueles pobres países julgavam-se isentos destas reclamações; todos os seus governos tinham decerto, cautelosamente, expedido decretos dizendo de antemão que não se responsabilizavam pelos prejuízos que as suas revoltas causassem* tanto em terra como no mar!
Não é tão grande como se pensa no Brasil o empenho que têm os Estados Unidos de que a Europa não possua territórios na América.
A Dinamarca já lhes quis ceder a ilha de S. Thomaz; os habitantes aceitaram a idéia, mas os Estados Unidos recusaram. No momento dominava naquele país uma política de retraimento, reação do período anterior das invasões do México e da América Central. O presidente Grant mostrou-se disposto a adquirir Cuba, e hoje, que os Estados Unidos preparam-se com uma nova esquadra para fazer política exterior(30), as vistas americanas são para outro porto das Antilhas, para* o porto magnífico do Haiti, o Molhe S. Nicolas, cuja posse é exigida pela marinha americana para centro da estação naval do golfo, e para dominar completamente a passagem dos estreitos antilhanos. O governo americano, nestes últimos tempos, tem já tido as necessárias complicações com o Haiti, desavenças preparatórias para a conquista, que em documentos oficiais já ultimamente tem sido aconselhada e reclamada.
Devemos, a respeito de Cuba, mencionar de passagem a expedição que fracassou em Round Island em 1849, a que foi batida em Cardenas em 1850, a de 1851, comandada pelo caudilho Lopez, que, batido, foi executado, com cinqüenta dos seus companheiros(31).
Os patriotas cubanos que têm sonhado com a independência da pérola das Antilhas, puseram a princípio, grandes esperanças na doutrina de Monroe. Julgaram que os Estados Unidos não podiam deixar de protegê-los contra a metrópole. Como poderia a águia americana consentir que, à sombra das suas asas poderosas, continuasse uma parte do livre solo americano debaixo do jugo espanhol? Nova York, por muitas vezes, tem-se tornado o quartel general dos conspiradores cubanos. A legação de Espanha, em Washington, diversas vezes tem protestado contra a quebra das leis da neutralidade por parte do governo americano, que tem deixado organizarem-se verdadeiras expedições armadas contra o governo de Cuba. Qual tem sido o proceder do governo americano sem falar na célebre expedição Lopez? A princípio, deixa que a conspiração gaste dinheiro em Nova York, frete navios, compre armas, e à última hora vira-se contra ela, a polícia americana põe-se de acordo com o serviço de vigilância mantido pela legação espanhola, e os pobres patriotas são burlados nas suas esperanças. Mais de uma vez, as expedições têm chegado a sair de portos americanos, têm aportado a Cuba e têm sido invariavelmente batidas pelos espanhóis. Os patriotas cubanos, talvez injustamente, acusam sempre os seus auxiliares, americanos mercenários, de traição. Uma vez, a tripulação inteira de um navio, composta de americanos, foi inexoravelmente fuzilada em Cuba e, apesar da emoção que este fato produziu nos Estados Unidos, o governo do Washington nem por isso tomou a defesa da causa da independência cubana. Tem sempre abandonado esta causa, vendendo à Espanha a posse indefinida de Cuba, a troca de favores comerciais, isenções de direitos para produtos americanos, etc., etc. O frio egoísmo e o requintado maquiavelismo não são, pois, o privilégio exclusivo da negregada diplomacia das cortes européias.
Ninguém ignora que a república, então chamada da Nova Granada (hoje Colômbia*), concluiu com os Estados Unidos um tratado a respeito da construção de um caminho de ferro no istmo de Panamá, o mesmo caminho de ferro que mr. de Lesseps comprou depois por vertiginosa quantidade de milhões, por conta dos pobres acionistas da companhia do Canal.
Fez-se o caminho de ferro, e Panamá tornou-se um lugar de um trânsito espantoso. Trânsito do ouro que vinha da Califórnia e de americanos que iam para a Califórnia. Do ouro nada ficava em Panamá, mas dos americanos alguns ficavam, e estes exerciam diariamente a sua brutalidade contra os pobres habitantes, desgraçados south americans destinados a sucumbir ao contato do yankee. No dia 15 de Abril de 1856 as provocações americanas cansaram a paciência dos naturais de Panamá.
Os americanos começaram a fazer fogo de revólver contra os passantes, estes reagiram a pedra, depois a tiro. Numa palavra, houve um tumulto enorme e muitos mortos de parte a parte. Resultado: intervenção americana, intimação para o governo do istmo ser independente de Bogotá (isto é, entregue aos yankees) e 400:000 dólares de indenização.
Quem, porém, devia pagar as vidas dos neo-granadinos, tirados pelo americanos, e as suas casas incendiadas por estes? Veio o costumado ultimatum e o governo de Bogotá deu-se por muito feliz por ter somente de pagar a exorbitância que lhe era exigida pela força e contra todo o direito.(32)
Os Estados Unidos têm muitas relações com o Peru, e estas relações não têm trazido grandes benefícios para esta república latina.
A república do Peru sofreu também violências americanas.
Durante uma das muitas revoluções daquele país, vários navios americanos, entre outros a Lizzie Thompson e a Georgiana, aproveitando-se do fato dos navios de guerra peruanos estarem com os revoltosos, empregaram-se ativamente no contrabando do guano contra disposição expressa das leis peruanas. Os navios de guerra revoltosos entregaram-se ao governo, fato que deu muito prestígio ao princípio da autoridade e consolidação da república no Peru, que depois disso (1860) tem gozado de inalterável felicidade de riqueza e poderio, como sabemos. Um desses navios revoltosos, o Tumbes, logo que voltou ao serviço da legalidade, aprisionou, como era direito e dever do governo peruano, os navios contrabandistas. O que fez o governo de Washington? Reclamou cada vez mais insolentemente, rompeu as relações diplomáticas, andou procurando nos arquivos quanta espécie de reclamação havia, juntou tudo, lançou um ultimatum; e o pobre Peru teve de pagar.(33)
A história do Peru, depois do grande período trágico e heróico da conquista e depois de findo o domínio colonial, é bem simples. Tem sido setenta anos de desgraça que transformaram a mais rica possessão da coroa espanhola num dos países mais pobres e infelizes do mundo. Quatorze lustros de regime republicano! Houve, porém, um período de ilusória prosperidade, e é de estranhar que então alguém também não nos dissesse: Olhemos para o Peru! O grande período da nevrose e da megalomania financeira na Argentina foi o período da grande importação do ouro europeu, o período correspondente, no Brasil, foi o da fundação das finanças republicana, foi a época do papel. No Peru, a época pode ser chamada a época do guano.
Durante centenares se não milhares dê anos, segundo os cálculos do sábio Raymondi, os pelicanos do mar, as aves dos rochedos, as gaivotas das praias, revestiram as fraldas dos penhascos, as planuras e encostas dos ilhotes e das enseadas fragosas, de uma grande e profunda coberta de dejeções que constituíram uma enorme massa de matéria alcalina e fosfatada com que a indústria começou, há uns trinta anos, a revigorar as terras exaustas pelas culturas seculares. Para os vales da Virgínia depauperados pela esgotante cultura do tabaco, para os campos da Inglaterra e da Alemanha, foi levado, em grandes carregamentos, o adubo salvador, comprado a peso de ouro no Peru. Isto que devia ser a riqueza da infeliz nação foi uma causa de desgraça. O esterco, que ia ao longe fertilizar as terras estéreis, serviu para ativar a putrefação do governo e do país todo. O guano foi declarado propriedade nacional e a sua extração era objeto de concessões feitas a particulares. Os particulares eram, em regra, parentes ou amigos dos homens do governo, e tornavam-se, em todo o caso, seus sócios. O tesouro recebia grendes proventos do guano, já em troca das concessões, já sob forma de direitos de exportação. Foi nesse tempo que o governo peruano viu-se preso de um bem singular motivo de inquietação ou de susto, susto que parece ser próprio aos estadistas financeiros, em vésperas de grandes desastres. Também no Peru se perguntava na imprensa, no congresso, em conversas particulares: O que fazer dos saldos do tesouro? Pergunta insensata!
Há um conto oriental — do homem a quem o destino deu um milhão por dia com a condição do homem gastá-lo todo no tempo compreendido entre duas auroras.
A falta do cumprimento desta condição era a morte do infeliz. Prazeres, gozos, prodigalidades, tudo isto bastou, nos primeiros dias, para consumir o milhão diário. Em pouco tempo veio a fadiga, o esgotamento e debalde trabalhava a imaginação do homem para achar o meio de esvaziar os últimos sacos de ouro que ainda estavam cheios quando já alvorecia a aurora do novo dia. Apareceu o Anjo da Morte e anunciou ao desgraçado o seu fim. Lamentou-se o homem: Não consegui gastar o meu milhão! E o Anjo da Morte respondeu-lhe: — É que tu esquecestes o único meio que havia para isso! — Qual era? — Fazer o bem!
Ora, os países, vitimados pela superabundância de dinheiro, só têm um meio de escapar a esse mal, aliás singularíssimo. É fazer o bem. E há tantos modos de um governo ser benfazejo! Não falamos de socorros públicos, de grandes esmolas coletivas, de dinheiro distribuído pelos pobres ou pelos soldados, sinais certos estes do esfacelamento do caráter nacional, fatos próprios das tiranias expirantes e dos pretorianismos insaciáveis. A ciência política caminhou desde a antiguidade. Hoje, o dinheiro público, que vem do imposto, sendo mais do que é necessário para os serviços públicos, o que há a fazer é pagar as dívidas do estado, se o estado tem dívidas. Se as não tem ou se não convém liquidá-las por qualquer razão, não há outro alvitre honesto senão a diminuição dos impostos.
Os Estados Unidos, há bem pouco tempo, tinham um saldo embaraçoso, uma grande reserva metálica que muito deu que falar. Por alguns anos prevaleceu, até certo ponto, nesse particular, a política honesta e sensata, de aplicar esse saldo à amortização da dívida. Os protecionistas não queriam consentir na diminuição dos impostos de entrada, que eram os que mais avolumavam o* saldo. A tentação era, porém, muito grande e muito pequenos eram os escrúpulos dos políticos. Em pensões escandalosas, em subsídios injustificáveis foi malbaratado o saldo. Apareceu o déficit no orçamento. O tesouro, para favorecer os ricos proprietários das minas, continuou a permitir a livre cunhagem da prata, foi transformando um metal desvalorizado numa moeda também depreciada e, em virtude da célebre lei de Gresham — que a moeda depreciada faz emigrar a moeda de valor — o ouro emigrou para a Europa, e o país todo caiu na pavorosa crise econômica em que hoje se debate, sobrenadando no naufrágio os grandes capitalistas e os homens do monopólio, sendo, porém, a classe pobre, os operários, mergulhados na miséria a mais negra.
O Peru, dizíamos, achou-se em sérias dificuldades diante de tanto dinheiro. Não lhe veio à mente a idéia de fazer o bem, que seria, no seu caso, o pagamento das dívidas nacionais ou a diminuição dos impostos. Por essa época, o ministro das relações exteriores mandou uma circular às legações peruanas, ordenando-lhes que, convocando os principais economistas dos países onde se achassem acreditadas, expusessem-lhes a situação financeira do Peru e pedissem àqueles luminares da ciência conselho e opiniões para aquele grave caso. O Peru sofria, o Peru ia morrer talvez e desesperado recorria à ciência, perguntando-lhe quais os remédios para o seu mal, para a terrível doença: a pletora de dinheiro. Variaram talvez os alvitres, mas a doença desapareceu por si, antes de ser aplicado ao enfermo o receituário da douta faculdade. Dois generais de boa vontade, os generais Pardo e Prado, secundados por outros colegas, por muitos coronéis e por um exército todo metido a político, acabaram com os saldos, e o Peru deixou de ser exceção na América espanhola, ficou tão falido como qualquer outra república, dando-se a integralização na quebradeira hispano-americana.
Nessa época de desmoralizações administrativas que chegam até à legenda, foi grande no Peru a maléfica influência dos Estados Unidos. Os aventureiros americanos enchiam Lima. Como no México, esses aventureiros eram apresentados pela legação americana, por ela patrocinados, e o posto de ministro americano no Peru tornou-se muito lucrativo. De vez em quando, lá iam boas somas em indenizações a yankees concessionários de guanos ou de qualquer outra coisa e que se pretendiam lesados pelo governo. Ora, esses movimentos de capitais, não se dão sem deixar algumas aparas nas mãos da diplomacia de Washington. Falava-se também, às vezes, em doutrina de Monroe, o que não impediu a Espanha de agredir o Peru e o Chile, bombardear Valparaiso sem que dos Estados Unidos partisse uma voz sequer em favor dos países vítimas da violência daquela nação européia. A esse propósito escrevia um ilustre argentino:
“A doutrina de Monroe não convém à América do Sul, e o exemplo mais curioso que citei é o desse bombardeio de Valparaiso. A esquadra norte-americana dos mares do sul assistiu impassível ao bombardeio de Valparaiso, porque, em virtude da doutrina de Monroe, as potências européias ficam excluídas de toda a intervenção na América. Em virtude dessa doutrina aquela esquadra deveria opor-se ao bombardeio, mas para se opor eficazmente ela precisaria do apoio das esquadras da França e da Inglaterra presentes no porto, e essas esquadras, ainda em virtude da tal doutrina, abstiveram-se e deu-se o bombardeio. Por este exemplo vê-se de que utilidade pôde ser a doutrina Monroe para a América do Sul(34).
Voltemos, porém, ao Peru.
O guano foi diminuindo pouco a pouco.
O governo do Peru lançou mão do trabalho dos chins, reduzidos nas guaneiras, a verdadeiros galés e na realidade escravizados nas estâncias e nas fazendas de açúcar. Esse tráfico de escravos amarelos era feito por umas casas americanas, e quase sempre sob a bandeira estrelada que protegia a escravidão asiática, já na Peru, já em Cuba. O porto de saída desses desgraçados era Macau. O governo português começou a se impressionar com o escândalo, e o relatório que Eça de Queiroz, cônsul de Portugal na Havana, apresentou ao governo demonstrando as monstruosidades cometidas contra os chins, apressou talvez o fechamento do porto de Macau à emigração chinesa. Houve americanos estabelecidos no Peru e ligados aos agricultores peruanos que se enfureceram com a supressão do tráfico amarelo, e foi então que se organizou uma das mais hediondas empresas de pirataria de que há notícia. Foi armado um grande navio, que saiu mar em fora e demandou o pequeno grupo de ilhas perdido no oceano Pacífico conhecido pelo nome de ilha da Páscoa, e que hoje foi anexado pelo Chile.
Essas ilhas, célebres pelos estranhos monumentos graníticos que lá deixou uma raça desaparecida, pelos vultos colossais de pedra esculpida plantados nas encostas das montanhas, por uma civilização ignota, eram povoadas de polinésios, raça suave e inofensiva, de uma inocência paradisíaca, que o contágio exterminador do homem civilizado ainda não vitimara. Os flibusteiros desembarcaram na ilha, mataram as crianças, os velhos, e quase todas as mulheres, e acorrentaram e algemaram os homens válidos que, atirados ao porão do navio, foram trazidos para o Peru como escravos. Quando a notícia deste horrível atentado ecoou na Europa, o governo inglês comoveu-se e ordenou ao ministro de Inglaterra em Lima que informasse sobre o assunto. Verificada a exatidão da notícia, o governo inglês exigiu inexoravelmente que os infelizes escravizados lhe fossem entregues pelos cidadãos republicanos da América.
Recolhidos a bordo de um navio de guerra inglês, os desgraçados que tinham escapado à ferocidade americana, foram restituídos às suas ilhas, devendo sua salvação ao espírito cristão da Inglaterra, às sociedades humanitárias compostas* de burgueses, de mulheres religiosas e de curas de aldeia, que naquele país, que é o mais poderoso e livre do mundo, têm bastante influência para mover a imprensa, a opinião e o governo em favor de uns míseros selvagens, perseguidos a milhares de léguas de distância.
Era esta e originava fatos desta ordem a situação política e financeira do Peru, quando houve a guerra com o Chile. Depois da utilização das guaneiras que estavam quase esgotadas, no extremo sul do país e na costa boliviana, descobriram-se, ou antes, começaram a ser utilizados, os chamados campos de nitrato de soda, isto é, grandes e espessas camadas dessa substância, provindas parece que de feldspatos decompostos pela ação das águas termais e sepultados hoje nos areais do deserto de Atacama. Esses nitratos são, como o guano, adubos de grande valor para as terras. Assim, aquela região de absoluta aridez, começou a dar a terras distantes a fertilidade que ela mesma não tinha. Afluíram para Atacama os grandes capitais e as grandes energias dos chilenos. A concorrência foi fatal a peruanos e a bolivianos. O Chile foi logo senhor da indústria dos nitratos. Começaram as autoridades bolivianas a vexar por todas as formas fiscais e administrativas os chilenos. Daqui incidentes diplomáticos, conflitos, questões e, por fim, a guerra.
Nessa guerra havia: de um lado, o pequeno exército chileno triplicado pelo número de voluntários; do outro, havia dois exércitos desmoralizados por longos anos de intervenções na política, desorganizados pelos pronunciamentos, desprestigiados pelas confraternizações, aviltados pelas traições e pelas falsidades que são a sorte comum da vida de todo o exército que se mete em política. A vitória, árdua, gloriosa nas suas dificuldades, terrível nos seus efeitos, coroou a energia da administração chilena. A guerra estava a findar quando se deu a célebre intervenção norte-americana, episódio curiosíssimo da história da América do Sul.
O ministro americano Hurlbuth era o legítimo representante dos interesses fundidos das casas americanas e dos políticos peruanos nos escândalos da exploração do guano e dos mil negócios que, à sombra da diplomacia norte-americana, tinham já arruinado o Peru. A vitória chilena era a desorganização de toda aquela federação de interesses e de corrupção. Era presidente dos Estados Unidos o general Garfield e chefe do gabinete ou secretário de estado, o famoso James C. Blaine.
Singular e estranha personalidade era a deste quase grande homem! Havia nele como que um último alento do sopro heróico dos tempos da independência e da grandeza intelectual dos estadistas americanos. Ele era uma espécie de Hamilton, de Clay, de Webster, ou de Seward, mas era incompleto, era desigual e desequilibrado. Faltava-lhe a grandeza moral daqueles vultos ou talvez simplesmente a sua estrela. Na audácia, na vastidão dos seus projetos, era de um arrojo quase genial. Na execução, os seus meios eram fracos, as suas hesitações eram longas, os seus recursos pareciam poucos, os seus aliados eram ignóbeis, seus motivos dir-se-iam pessoais e mesquinhos, talvez imorais; a sua política era tortuosa e a mise en scene, embora espetaculosa, nunca deu-lhe, aos olhos dos seus compatriotas, senão esse prestígio incompleto, que sempre lhe bastou para dar-lhe a audácia dos grandes intuitos sem, contudo, garantir-lhes o sucesso. A razão de tudo isto era, quem sabe, se simplesmente a diferença que há entre o tempo dos grandes homens a quem Blaine sucedeu na política, e a degenerescência da antiga tradição dos velhos estadistas americanos.
Os pais da pátria americana, os fundadores da constituição, viveram num período histórico de pureza moral, em tempos de patriotismo e de abnegação. Blaine floresceu no império do industrialismo e da finança, na expansão de todos os despotismos do monopólio e de todas as corrupções da plutocracia. Não é uma simples banalidade a velha proposição de Montesquieu de que as repúblicas precisam ter como fundamento a virtude. Esse foi o fundamento da república norte-americana. Será inviável e uma fonte perene de males, qualquer outra república que não tiver o seu berço banhado na atmosfera da virtude cívica. As sociedades políticas e as formas do governo precisam de nascer puras para ter a vida longa e próspera. Os organismos políticos são como os organismos animais e vegetais; quanto mais perfeitos nascem e quanto mais robusta é a sua infância, mais garantias apresentam de duração.
Nunca se viu uma república nascer disforme para a vida da violência, do crime, da discórdia, da corrupção e do erro para daí se adiantar até à virtude, à paz e à verdade.
Imaginará alguém porventura a república romana nascendo com Sila e Catilina e acabando em Fabrício e Cincinato? A crença universal sempre atribuiu à humanidade em seu aparecimento a frescura de todas as forças vivas.
A podridão é própria dos túmulos e não dos berços. O que há a esperar de uma existência humana cuja infância não tiver sido inocente?
Querer justificar a corrupção e o crime quando aparecem, por assim dizer, identificados e consubstanciados com uma república que começa, dizendo que tudo isto é próprio das instituições novas, é falsear a verdade histórica. Não; o nascer das repúblicas, se não for rodeado do perfume da abnegação, se não fumegarem em roda do seu berço o incenso puro e a mirra incorruptível do sacrifício e do patriotismo, não promete e não dará nunca no futuro senão crimes e desgraças.
A república norte-americana não teve a sua infância corroída pela corrupção, nem a sua puerícia se passou nos jogos sangrentos das guerras civis. Era ela já quase secular quando o seu solo foi fratricidamente regado pelo sangue de seus filhos, e os vícios contra os quais lutam hoje os patriotas, as faltas que lhe apontam os pensadores, são vícios de hoje, faltas atuais, que se não podem justificar no exemplo dos antepassados. A lição da história da independência e os exemplos das gerações extintas são espelho de virtude.
Blaine foi e tinha que ser o estadista da sua época.
Tinha bela presença, a sua voz era insinuante, o seu olhar era agudíssimo, o seu sorriso era cheio de finura. Foi chamado o homem magnético. Era um grande orador e um escritor de raça. A sua ilustração era vasta em assuntos da política nacional, deficiente no resto dos conhecimentos humanos, mas o seu talento supria tudo. Fez-se grande e subiu por si. Os seus adversários atribuíam-lhe grande número de capitulações de consciência com os interesses de grandes financeiros, e sua pobreza sabida era um pouco contraditória com o luxo de sua vida, com o seu belo palácio de Washington, com os vastos salões, cheios de objetos de arte e de retratos, bustos, estátuas, medalhas, quadros, gravuras e mil outras recordações de Napoleão, herói da especial admiração de Blaine. O estadista republicano tinha idéias dominadoras e o temperamento cesariano. De todas as paredes da casa de Blaine, o olhar profundo de Bonaparte cravava-se nos visitantes. Napoleão não terminara a conquista da Europa e nos abismos dos seus pensamentos estava a ambição de dominar o Oriente e a Ásia. Blaine via na política mais do que a arte de ganhar eleições, o seu talento de orador pedia talvez um teatro igual ao teatro em que representam os Gladstone e os Salisbury. Debaixo das ogivas de Westminster, a palavra da eloqüência pode decidir da sorte de um povo. Nas estreitezas do sistema presidencial, o presidente pode ser um incapaz, um incompetente teimoso, armado de imenso poder contra o qual são inúteis todos os esforços do talento. Blaine sentia-se afogado naquele meio, e toda a sua imaginação volvia-se para a política exterior. Na política exterior ele foi o lisonjeiro por excelência do espírito da dominação americana sobre todo o continente. Ele imaginava a águia americana pairando, de pólo a pólo, com as asas poderosas expandidas. A águia simbólica ele não a via protegendo os fracos com a sua sombra, como acredita a ingenuidade de alguns sul-americanos. Ele queria que ela dominasse, que o seu olhar perscrutasse as solidões geladas do pólo, os vales profundos dos Andes, as planuras do Amazonas, a vastidão dos pampas e o infinito dos mares. Ele queria que o bico adunco daquele pássaro apocalíptico rasgasse os inimigos, e que as garras colossais se apoderassem de todo o continente de Colombo. Blaine no poder, era uma ameaça para toda a América.
Quando chegava ao seu termo a guerra do Pacífico, Blaine era secretário de Garfield, e Blaine teve uma ocasião de tentar fazer prevalecer a política que ele mesmo chamou a política imperial dos Estados Unidos.
O presidente Hayes, embora tivesse sido derrotado pelos eleitores, acabava de exercer o seu mandato usurpado, ocupando ilegalmente a cadeira de presidente em que o colocara um voto fraudulento do Supremo Tribunal encarregado da apuração eleitoral. O patriotismo de seu competidor, o presidente eleito, Tilden, preferiu deixar o usurpador na suprema magistratura a abrir um conflito que levaria, com certeza, o país a uma nova guerra civil. O general Garfield, apenas eleito, confiou a direção da política internacional a Blaine, e a atenção deste volveu-se logo para a luta entre o Chile, o Peru e a Bolívia.
A primeira destas nações estava em vésperas de colher o fruto das suas árduas vitórias, impondo aos vencidos uma paz garantidora dos interesses, da tranqüilidade e da segurança do Chile no presente e no futuro. Começaram a se agitar no Peru e em Nova York os interessados americanos, sócios de peruanos e bolivianos nas concessões de guanos e na extração dos nitratos. A consagração da vitória chilena era o fim definitivo do regime das concessões, dos privilégios e dos mil abusos, tão úteis aos americanos, na desordem financeira do Peru e da Bolívia. O ministro americano Hurlbuth, em Lima, os seus colegas generais Adams, em La Paz, e Kilpatrick em Santiago, entraram na combinação. Era preciso uma intervenção dos Estados Unidos em favor dos vencidos, e contra o Chile, e em benefício direto dos especuladores americanos e seus sócios.
Já dissemos que, por ocasião da guerra do Paraguai, os ministros americanos Washburn e general Mac-Mahon constituíram-se os defensores acérrimos de Lopez, foram seus comensais, testemunhas, e, pelo silêncio, cúmplices das suas horríveis atrocidades. Iludido pelas notícias dos seus diplomatas, o governo de Washington considerou Lopez, por muito tempo, como a vítima simpática do bárbaro exército aliado. Foi preciso que o ilustre coronel Von Versen, que há pouco morreu general do exército alemão e ajudante de ordens do Imperador Guilherme II, foi preciso que este europeu, um dos prisioneiros de Lopez que mais sofreram da sua tirania, fosse libertado depois de Lomas Valentinas pelo marquês de Caxias e, indo aos Estados Unidos, escrevesse a verdade sobre Lopez, para desfazer no espírito do governo de Washington a indisposição que, contra o Brasil, tinham criado a falsidade das informações diplomáticas. O governo americano esteve até em termos de mandar uma esquadra à América do Sul para proteger a Lopez.
Em relação ao Chile, deu-se a mesma coisa. O governo americano quis arrancar ao Chile o resultado das suas vitórias. As informações dos ministros americanos no Pacífico medraram depressa no ânimo de Blaine, sempre disposto à política da intervenção, de arrogância e de quase despotismo em relação aos outros países da América. Os especuladores do guano e dos nitratos falaram-lhe de grandes lucros para o comércio americano e, entre a administração americana e os especuladores, houve acordos, combinações e arranjos muito suspeitos. Em resultado disto tudo, Blaine despachou para o Chile, como medianeiro de paz, Mr. Trescott, que levava como seu secretário Mr. Walker Blaine, filho do Secretário de Estado. O enviado extraordinário, em missão especial, levava instruções de proteger a todo o transe os interesses dos homens dos guanos e dos nitratos e ordem para, esgotados os meios suasórios e de conciliação destinados a apressar a paz, dar um ultimatum ao Chile, impondo-lhe dentro de certo prazo a retirada das suas tropas do território do Peru e da Bolívia. Era a mais brutal intervenção, a mais injustificável das prepotências.
Mr. Trescott, em Lima e em Santiago, tinha-se posto de acordo com o ministro de França, e sua ação contra o Chile devia ser conjunta com a da diplomacia francesa. Era interessada nesta questão dos guanos uma grande casa judia, os Dreyfus, de Paris, de quem fora advogado o então presidente da República Francesa, que os jornais republicanos, nesse tempo, chamavam ainda o íntegro Grévy, alguns anos antes do processo em que ficou provado que o seu genro Wilson tinha, no palácio do presidente, agência montada de venda de empregos e condecorações.
Onde estavas ó doutrina de Monroe!? As duas grandes repúblicas do mundo achavam-se reunidas num esforço comum em razão dos interesses pessoais dos seus chefes. Os Estados Unidos, que são contra a ingerência européia em negócios americanos, associaram-se a uma nação européia contra uma nobre república sul-americana numa empresa de verdadeira extorsão.
Neste ínterim, numa estação de caminho de ferro, em Washington, ao lado de Blaine, caía assassinado pelo fanático Guiteau o presidente dos Estados Unidos, o general Garfield. Em menos de vinte anos, dois presidentes dos Estados Unidos eram assim trucidados: Lincoln e Garfield.
O presidente assassinado foi substituído pelo vice-presidente Arthur. Diz-se que os príncipes herdeiros são em geral os chefes da oposição. Nas repúblicas, o vice-presidente é o inimigo natural do presidente efetivo. Quem é segundo é sempre contra quem é primeiro. Nas repúblicas sul-americanas, o vice-presidente acaba, quase sempre, conspirando contra o presidente, muitas vezes depondo-o, a menos que, mais prontamente, o presidente em exercício não suprima por qualquer forma o seu rival. Nos Estados Unidos as coisas não chegam a este ponto, mas os vice-presidentes que têm assumido o governo têm feito sempre o contrário dos seus antecessores. A subida de Arthur foi um grande golpe para Blaine e para a sua política. Enquanto o diplomata Trescott achava-se no Chile, foram pouco a pouco transpirando na libérrima imprensa americana, imprensa que atravessou mais de um século sem a menor coerção, imprensa que, mesmo durante a tremenda guerra civil, não sofreu grandes peias nem restrições, — as notícias vagas a princípio e depois afirmativas e positivas do conluio de Garfield, de Blaine, e dos negociantes de Nova York contra o Chile. Achava-se reunido o congresso, e nos Estados Unidos, o governo não ousa sonegar documentos nem esclarecimentos de certa ordem ao poder legislativo. A comissão dos negócios estrangeiros, da Casa dos Representantes, ocupou-se da missão Trescott e, numa reunião, levantou-se o deputado democrata Perry Belmont que, com provas nas mãos, demonstrou a iniqüidade e a vergonha do governo americano ir ser o procurador dos especuladores peruanos e americanos junto ao Chile. A impressão foi imensa nos Estados Unidos. O governo chileno, com uma audácia extraordinária, mandou aparelhar os seus encouraçados, empenhados na guerra contra o Peru, à espera do ultimatum de Mr. Trescott. Viesse esse ultimatum, e os navios de guerra chilenos partiriam para S. Francisco para vingar a afronta. O presidente Arthur, porém, pôs um termo ao grande escândalo. Despediu Blaine do poder e substituiu-o pelo sr. Frelinghuysen. Este telegrafou logo a Trescott dizendo-lhe que se retirasse do Chile, e teve a franqueza de dar ao ministro chileno em Washington uma cópia das instruções de Blaine a Mr. Trescott. Deu-se então um incidente de um cômico singular. O ministro dos negócios estrangeiros do Chile perguntou a Mr. Trescott se era verdade que ele tinha ordem de apresentar-lhe um ultimatum. Trescott negou a pés juntos. Então o ministro chileno mostrou-lhe a cópia das próprias instruções dadas a Trescott. Desmoronou-se tudo, e assim terminou, no opróbrio e na vergonha, a orgulhosa embaixada que os Estados Unidos mandaram ao Pacífico!
Blaine, porém, e o espírito de intrusão e de prepotência diplomática que existe em certos meios americanos, tiveram, anos depois, a sua desforra. Rompera a guerra civil no Chile, e Blaine achava-se de novo na secretaria de estado, servindo desta vez com o presidente Harrison, que mais tarde também o despediu. Os homens de grande superioridade intelectual são, nas repúblicas, pouco compatíveis com a mediocridade dos círculos governamentais. Desde o começo da guerra civil chilena, o ministro americano Patrick Egan, anarquista irlandês de mau nome, declarou-se em favor dos insurgentes, protegendo-os por todos os modos com quebra manifesta dos seus deveres. Como é sabido, os principais chefes da revolução eram os homens mais ricos do Chile, grandes capitalistas, industriais e banqueiros opulentos. Esta circunstância explica talvez a singular atitude da legação americana. Derrotado e aniquilado o partido de Balmaceda, houve reclamações americanas, já por prejuízos sofridos, já por desacatos feitos a marinheiros americanos. O novo governo chileno, ainda em luta com mil dificuldades, pediu um prazo. A resposta que lhe deu o governo americano foi a ordem à esquadra de mandar alguns encouraçados a Valparaiso e um insolentíssimo ultimatum. O governo chileno teve que ceder, Blaine tirou a sua desforra, e mais uma vez o governo de Washington humilhou uma república sul-americana.
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Temos visto que não há país latino-americano que não tenha sofrido as insolências e às vezes a rapinagem dos Estados Unidos. Para terminar, lembraremos dois fatos acontecidos com o Paraguai e com Venezuela.
Em 1853 o Paraguai fez um tratado geral de comércio e navegação com os Estados Unidos. O senado americano não ratificou o tratado, mas apesar disso o governo de Washington nomeou seu cônsul no Paraguai o sr. Hopkins. Este senhor, apesar das suas funções consulares, pretendeu logo, à moda americana, ganhar muito dinheiro em mil especulações. Embalde tentou levantar capitais em Londres e em Paris. Teve então a idéia genial de comprar em Nova York um navio em péssimo estado (Não é de hoje que ali se vendem navios avariados!) e fê-lo segurar por 60:000 dólares.
Este navio naturalmente naufragou na viagem, e com o dinheiro do seguro Hopkins achou-se à testa do capital necessário para fundar a “Companhia do comércio e navegação do Paraguai”.
Este cônsul tornou-se logo exigentíssimo junto do governo paraguaio, e foi tão insolente que o governo de Assunção cassou-lhe o exequatur. Para se ver livre de embaraços Hopkins declarou que a sua segurança pessoal estava ameaçada, assim como a dos seus compatriotas, e reclamou o auxílio do navio de guerra americano Water Witch, e este auxílio lhe foi dado. O sr. Hopkins, à testa de marinheiros armados, desembarcou e foi ao consulado buscar os papéis de tal companhia.
Estavam as coisas neste pé quando a situação ainda mais se agravou. O comandante da Water Witch quis passar por um canal, cujo trânsito era proibido aos navios. O forte de Itapiru fez alguns tiros de pólvora seca para prevenir o americano. Este, porém, desprezou o aviso, e respondeu com uma descarga geral de bala contra o forte, que por sua Vez fez-lhe fogo vivo e certeiro que causou sérias avarias a Water Witch, onde morreram muitos marinheiros, mas e só então, o navio americano virou de bordo, desistindo do seu propósito.