Fausto
Johann Wolfgang von Goethe
(1749-1832)
Tradução
António Feliciano de Castilho
(1800-1875)
Versão para eBook
eBooksBrasil.com
Fontes Digitais
www.dlc.ua.pt/castilho/
Universidade de Aveiro
Obras integrais disponíveis:
O Presbitério da Montanha
Mil e Um Mistérios
Tradução do Fausto, de Goethe
Castilho a Francília [Terceira Epístola]
[O Cedro]
Departamento de Línguas e Culturas
ANTÓNIO FELICIANO DE CASTILHO (1800-1875)
NO BICENTENÁRIO DO SEU NASCIMENTO
Autoria de:
Silas O Granjo
Fausto
Clássicos Jackson
Vol. 15
W. M. Jackson Inc. Editores, 1956
Capa
Do cartaz do filme Faust
de Friedrich Wilhelm Murnau
Alemanha, 1926
Fonte digital
ChiaroScuro
www.celtoslavica.de/chiaroscuro
©2003 - Johann Wolfgang von Goethe
ÍNDICE
Nota do Editor
Advertência
Prólogo do Autor
Diálogo Preliminar
Quadro I
Quadro II
Quadro III
Quadro IV
Quadro V
Quadro VI
Quadro VII
Quadro VIII
Quadro IX
Quadro X
Quadro XI
Quadro XII
Quadro XIII
Quadro XIV
Quadro XV
Quadro XVI
Quadro XVII
Quadro XVIII
Quadro XIX
Quadro XX
Quadro XXI
Áureas Núpcias de Oberon e Titânia
Quadro XXII
Quadro XXIII
Quadro XXIV
Notas
Nota do Editor
A presente edição em eBook do Fausto de Goethe, não é, como se encontra no website da Universidade de Aveiro, a reprodução integral da 2a. Edição de 1919 da Livraria Clássica Editora, de A. M. Teixeira. Aos estudiosos das obras de Goethe e, particularmente, de Castilho, recomendamos que visitem o site original: www.dlc.ua.pt/castilho.
Não é, tampouco, reprodução do volume XV dos Clássicos Jackson que, a despeito do soberbo prefácio de Oto Maria Carpeaux, deixou de fora a dedicatória que a seu irmão fazia Castilho, resgatada aqui, de conformidade com a fonte digital da Universidade de Aveiro.
Não sendo reprodução exata da fonte digital, uma vez que nos utilizamos da edição da W.M.Jackson, de 1956, para a apresentação gráfica, introduzindo elementos gráficos que não constam das duas fontes digitais citadas, deixamos de reproduzir, para não induzir a erro algum incauto leitor, a capa da 2a. edição.
Não conservamos, também, os números das páginas correspondentes à 2a. edição, de 1919, conforme a fonte digital. Para uma referência exata, caso necessária, o eventual leitor deverá visitar o website da Universidade de Aveiro, recorrer à segunda edição impressa ou alguma outra, caso exista, que a reproduza literalmente.
Boa leitura!
eBooksBrasil
FAUSTO
Goethe
Traslada ao português por
ANTÓNIO FELICIANO DE CASTILHO
AO SEU BOM IRMÃO
JOSÉ FELICIANO DE CASTILHO
COMO PEQUENO RECONHECIMENTO
DE IMENSA DÍVIDA
OFERECECASTILHO.
ADVERTÊNCIA
A tragédia Fausto de Goethe aclamado imperador pontífice dos poetas da Alemanha, é obra indubitavelmente única no seu género.
Em menos de meio século todas as nações têm forcejado para a ler e estudar nos próprios idiomas. Em toda a parte os mais soberbos talentos lhe sentiram em si os influxos triunfais, ao mesmo passo que o senso das turbas mal sabia como se houvesse com as trevas e monstros desta cordilheira de poesia rebentada a súbitas de profundezas desconhecidas.
De nenhum outro livro se tem dito e escrito tanto; é por que este é que foi o verdadeiro padrão que estremou o mundo poético antigo do mundo poético hodierno. Pode-se-lhe já hoje, sem medo de arriscar a profecia, aplicar o que o diabo e os anjos dizem da Margarida no final da primeira parte do poema: - Sentenciada! - Salva!
Como quer que seja, o indubitável é que esta Bíblia ou Alcorão, esta como que filosofia mal distinta, esta reforma da religião poética, merece e necessita que se teime ainda (e Deus sabe até quando) em na discutir; que só depois de bem padejado o grão na eira e levado no vento o palhiço, é que se averigua que abastança entrou para a tulha, e com que pão se pode contar, se ainda assim o gorgulho se não meter meeiro com o lavrador.
Para que tais apurações (que segundo as mostras têm ainda de tardar) se possam vir a fazer, claro está que a primeira condição é conhecer-se a coisa que tem de ser sentenciada. Daqui a multidão de traduções da tragédia Fausto tentadas em todos os países em que há literatura; daqui o acolhimento que mais ou menos a todas elas se concede, e daqui também o continuar-se na própria Alemanha o estudo dum sem conto de dificuldades de que o poema original nasceu inçado e ouriçado para os seus próprios conterrâneos.
Em Portugal corria já de anos a esta parte uma certa adoração pânica do nome de Goethe, e o contagioso assombro da tragédia Fausto, apenas enxergada mui por longe entre neblinas. O primeiro português que se determinou em empreender o descobrimento desta região nova da arte foi, não me consta de outro, meu irmão José Feliciano de Castilho durante a sua estada em Hamburgo, há hoje o melhor de trinta anos. Versado já, como quer que fosse, na língua alemã pelo trato com os da terra, entendeu que bom serviço faria aos da nossa, passando-lhes para vulgar o que por lá se lhe deparava de mais afamado e esplêndido, de mais convidativo e fecundo por entre as produções ubérrimas da caudalosa veia dos Germanos.
Assim escreveu excertos da Messiada de Klopstock, trechos de Wieland, e anos depois, e já em tempos mais chegados, a tradução do Guilherme Tell e da Maria Stuart de Schiller, e finalmente a do Fausto.
Aqui porém houve de reconhecer que todo o seu alemão laboriosamente granjeado naquelas versões, não bastava para autor tão abstruso no pensamento, tão fora do comum no estilo, e tão cheio de nós górdios na linguagem; e que não havia remédio senão socorrer-se a algum valente e zeloso auxiliar. Deparou-lho a sua boa estrela na pessoa de um amigo, o Sr. Eduardo Laemmert, alemão residente como ele e já de muito no Rio de Janeiro, erudito notável, e hoje sabedor por igual das duas línguas.
Aqui sobre a minha mesa tenho eu o autógrafo precioso da tradução interlinear e fidelíssima que o Sr. Laemmert fez, não só em obséquio à amizade, mas também em razão do afecto que lhe merecem os créditos da terra em que nasceu, e os da que hoje ama como segunda pátria.
Nada mais curioso que este inédito; sente-se em cada frase e em cada palavra a probidade, o escrúpulo quase beato do intérprete. O como ele depois de colocar as palavras portuguesas na confusa ordem das alemãs as concerta fora do hipérbato segundo a nossa ordem usual! O como procura e acha as frases, os modismos quando os há, que melhor se correspondem com os do idioma que transplanta! A sinonímia com que os termos embaraçosos do original vêm com ilustrada crítica trocados em miúdos! E sobretudo a franqueza de verdadeiro sabedor, com que às vezes declara que não aventa o senso ou a intenção do seu poeta, senso e intenção que os mais finos alemães não dissimulam escapar-lhes a miúdo.
Com esta colaboração, pois, levou meu irmão a cabo a sua tradução em metros variados do, em mais de um sentido, terribilíssimo e verdadeiramente diabólico poema Fausto.
Se louvores fraternos não foram proibidos pelos melindres da decência, e repugnantes ao pejo natural, folgaria de aquilatar o muitíssimo que na sua versão, miudamente examinada e confrontando-a ponto por ponto com outras estrangeiras, descobri de paciente investigação, de assisada crítica, de tino divinatório, de acerto e de ousadias felizes de linguagem, e não raro também de valentia no metro e originalidade na rima.
Outros com menos suspeições para juízes encarecerão isso tudo se a obra algum dia sair a público. Com pesar meu ponho este se por não saber o que a este e outros seus inéditos literários e poéticos, quase todos semi-improvisos de horas furtadas a imperiosas ocupações de maior monta, o autor fará por derradeiro quando vir que lhe falecem os ócios indispensáveis para minuciosas e prolixas emendações, coisa mal compatível com as índoles como a sua, impetuosas, precipita das, ferventes, indomáveis. A abundância estrepitosa, brilhante, esplêndida, é do seu; nada lhe custa; a paciência dos aprimoradores sumos recusou-lha a natureza, que raro ou nunca dá tudo a um só homem.
O seu Fausto, o seu Tell, a sua Stuart, e bem assim o seu drama Pujol, feito em colaboração com o nosso amigo Jacques Arago, as suas comédias originais O amor e a morte, Os estudantes de Coimbra, O mundo, e outros seus improvisos, formariam uma colecção festejável no juízo dos partidários das nossas boas letras, se quem tal fundiu não carecesse do necessário lazer e gosto para o limar e brunir à horaciana: nove anos e dez aperfeiçoamentos!
Porque pois traduzi eu o Fausto, se já em Portugal, e como que de portas a dentro, se achava traduzido? Direi isto francamente e em poucas palavras.
A primeira leitura que meu irmão me fez do seu Fausto, com aquele fogo e intimativa que lhe anima a declamação, e que nem na prática mais correntia e doméstica o desacompanha, maravilhou-me, absorveu-me, aturdiu-me; nada mais vi que excelências e formosuras! Como porém somos conhecidos de largos anos, e sei que a qualificação de grand dupeur d’oreilles que a si mesmo dava Andrieux, em ninguém acertou nunca mais à própria que em meu irmão, requeri logo segunda leitura, feita por outrem, despida de prestígios e pausada.
Nesta, posto não desaparecessem os motivos da minha primeira admiração, tive azo de ir descobrindo suas máculas das que o Horácio perdoava:
...........quas aut incuria fudit,
aut humana parum cavit natura;e sobretudo reconheci que a pressa e fogo do trabalho deixara por muitas partes menos clareza, e em algumas outras menos vernaculidade, do que fora para desejar em obra destinada por sua natureza a estudo e meditação de muita e boa gente.
Enfim como quer que não haja dois gostos perfeitamente semelhantes, e cada qual abunda no seu senso, muita coisa me ocorria naquele escrito, que, sem me provocar censura nem merecer tacha de menos boa, desdizia do que eu tivera preferido por mais fluente, mais expressivo, ou por qualquer outra razão mais aceitável aos ouvidos do nosso povo.
Para melhor explicar ao tradutor todas estas minúcias, ou por ventura impertinências, comecei traduzindo a sua tradução mais achegada e conchegadamente à índole portuguesa.
Não sei se mereci, sei que obtive, a sua aprovação a essa primeira amostra. Animei-me, prossegui instado por ele e por ele próprio coadjuvado.
Nesta luta fraternal entre o Fausto português improvisado e o Fausto português reconsiderado e reconstruído de frase a frase e de palavra a palavra, se consumiu inteiro o ano que lá vai de 1870.
O como de tão prolixo trabalho, se a algum curioso importar por ventura conhecê-lo, aqui vai francamente declarado.
Estão simultaneamente abertas à roda de nós, a tradução textual e ilustrativa do Sr. Laemmert, a de meu irmão, em certo modo filha da precedente, a portuguesa do Sr. Ornellas, e quatro francesas em prosa raro entremeada de pequenos trechos em verso.
Sobre cada período do poeta alemão são sucessivamente chamados a depor todos estes sete interpretes e acariados uns com os outros com a maior severidade de crítica. A minha consciência está para ali como júri imparcial incumbido e ávido de liquidar entre tantos depoimentos diversos, muita vez confusos e não poucas vezes contraditórios, as máximas probabilidades de certeza, quando a certezas se não chegue.
Passos há, devo confessá-lo, em que nem sequer boas probabilidades se liquidam; discute-se, reestuda-se, medita-se de novo e quando Deus quer transfere-se para hora melhorada, ou para outro dia, a solução da dúvida com que o actual momento se não atreve, até que afinal, atinada a verdadeira, ou a mais plausível, ou a menos ruim sabida da dificuldade, diligenceio expor a coisa a nosso modo, que todos a entendam sem esforço e a possam escutar sem desagrado nem estranheza.
Devo declarar explícita e solenemente que a terem-me desacompanhado as luzes, a sagacidade investigativa com que meu irmão, só ele, me auxiliou para eu poder refundir acertadamente o seu primeiro tentame, nunca eu daria conta dele.
Logo nas primeiras jornadas me houveram faltado as forças, a fé, o ânimo e a vontade, porque (e aí vai outra revelação arriscada a graves perigos) a minha crença nas excelências, nas vantagens, no préstimo real e efectivo da tragédia Fausto, não era nem é ainda hoje tão exaltada, tão ardentemente devota como a de meu irmão; diferença essa fundamental, que a miúdo nos fazia perder em altercações escusadas o tempo que melhor se lograra em apressar a tarefa começada.
De tão espinhoso labirinto, ao cabo de tantos dias de trabalho ininterrupto, e não poucas noites desveladas até sol fora, saiu a presente versão, por mim ditada, e escrita pela própria pena que lançara a primeira.
Fora essa, até por ser a primeira, obra de muito maior mérito e dificuldade, posto que a segunda, pelo tempo que se lhe consagrou, e pelo valioso concurso de circunstâncias que segundo se vê a favoreceram, poderá talvez obter maior número de sufrágios. Uma recomendação, e para mim a mais invejável, tem ela já; e vem a ser a generosa preferência que meu irmão mesmo lhe liberalizou; acto esse que, ainda mais do que a mim, o honra a ele.
Aqui seria já supérfluo ponderar uma verdade, que à primeira vista pareceria paradoxo, a saber: que dadas certas circunstâncias pode um poeta de consciência verter a obra de outro sem aliás lhe conhecer a língua, muitos factos o comprovam. Monti, que deu à Itália a melhor tradução da Ilíada, pelo menos a que se lê com maior gosto, não sabia o grego.
Os salmos de David, centenares de vezes passados a diversas línguas por poetas excelentes, nunca talvez o foram do idioma original. O Oberon, que traduzido directamente do alemão pela Marquesa d’Alorna tão dessalgado saiu, que mal deixa adivinhar porque é que a Wieland se dera a qualificação de Voltaire do Norte, o Oberon veio a ser um dos mais saboreados poemas em nossa língua, saído da pena de Filinto, que nos declara não saber palavra do alemão; o meu admirável poeta Machado d’Assis, ornamento brilhantíssimo das letras brasileiras, deu-nos lindos fragmentos de poesias orientais tomadas não dos textos primitivos, senão de uma interpretação inglesa; e sem me andar à procura de mais exemplos, eu próprio, que do dinamarquês e do sueco não entendo uma sílaba única, traduzi poesias suecas e dinamarquesas, e fui por competentes juizes aprovado. Tudo esteve em ter quem minuciosamente mas interpretasse. Quanto ao grego, peço meças em ignorância ao Vicente Monti. O mestre que tive dessa língua, no meu primeiro tirocínio de humanidades, desconhecia-a quase tão crassamente como os seus ouvintes, o que me fez perder-lhe para logo todo o gosto; e todavia não foi isso parte para eu não dar uma tradução de Anacreonte e outra do Rapto de Europa, por Moscho, com as quais os raros que têm voto na matéria não ficaram mal avindos.
Por aqui me cerro, ponderando só que me parece questão ociosa esta de se perquirir se um tradutor sabe ou não a língua do seu original; o que importa, e muito, é se expressou bem na sua, isto é, com vernaculidade, clareza, acerto e a elegância possível, as ideias e afectos do seu autor.
Fazem-se retratos do sol para o tornar, como quer que seja, conhecido de quem fito a fito o não encararia; e como se avém na empresa o desenhador? Não podendo encará-lo em frente, copia-o da imagem estampada no espelho reflector; aí desapareceram os esplendores que deslumbram, mas as feições do astro descobriram-se. Este símile da física, tão sabido de toda a gente, explica, me parece, com assaz de propriedade, o como se podia fazer, e se fez, das já mencionadas traduções, esta novíssima reprodução da maravilha germânica. Neste particular, tenho que não há mais contas que pedir, nem mais explicações que dar a curiosos.
Outra e derradeira declaração.
A divisão e subdivisões do poema, como neste livro aparecem, não pertencem ao original, nem também o descritivo do cenário e outras particularidades da execução teatral.
Goethe, como também Molière, como todos os dramaturgos da Grécia e da Itália antiga, transcuravam miudear com estas e semelhantes circunstâncias os seus grandiosos poemas, ainda que o subsídio de tais acessórios bem poderia contribuir para lhes completar as obras aclarando-as e para solver de antemão de modo autêntico e, por que assim o digamos, oficial, muitas perplexidades, muitas dúvidas, muitos perigos de desacerto, em que forçosamente laborariam empresários e actores quando pretendessem expor tais dramas aos seus públicos, especialmente em países remotíssimos, em civilizações quase em tudo outras, quando dos primitivos usos e costumes pouquíssimo ou nada subsistisse.
Em Molière e Goethe, sendo aliás ambos directores de teatro, custa realmente a explicar esta omissão, e em Molière ainda mais, que além de empresário fora também actor, como o fora Plauto, que lhes legara o mau exemplo tal como já o havia recebido de predecessores seus, poetas e comediantes da grande Grécia. Fosse qual fosse a causa desta falta deplorável, o caso é que todos esses notabilíssimos engenhos a cometeram com dano seu e prejuízo ainda maior para quem lá para ao diante os pretendesse interpretar conscienciosamente.
Todas essas lacunas me pareceu indispensável preencher; preenchi-as pois como pude pela reflexão e conjecturando, isto e, apalpando muita vez por entre sombras cerradíssimas. Outros fariam ou farão melhor; eu fiz o que pude. E por aqui me cerro quanto a isto.
Ao segundo Fausto, ao Fausto da velhice de Goethe, não me atrevi, seria esse um trabalho ainda mais fragoso e, quando as dificuldades se vencessem, menos acondicionado para ser bem aceito da nossa gente.
Na segunda parte, dizem alemães, é que o autor mais se despendeu em gentilezas e esmeros líricos. Pode ser; contemplado nos reflectores não o parece; e depois quando essas excelências acidentais e de mera forma, rara vez traduzíveis, sejam tais como no-las querem encarecer, tantos e tão crespos são no último Fausto os enigmas filosóficos, tão abstruso o senso das ficções, e as ficções mesmas tão desnaturais, tão inverosímeis, tão impossíveis, (ia-me quase escapando tão absurdas) que o bom gosto e o bom senso, que tão benévolos perdoaram e receberam a lenda velha do Dr. Fausto, não sei como se haveriam com o Fausto último. O primeiro, o nosso, foi um gigante; o último figura-se ao espírito da nossa consciência o homúnculo, um produto abusivo das forças da arte.
Agora é que de vós me despeço a valer, leitores caríssimos, para vos deixar já à pratica de muito melhor poeta, e inquestionavelmente um dos maiores de todo o mundo.
Castilho.
F A U S T O*
PRÓLOGO DO AUTOR
Está o Poeta no seu camarim, passeando e falando consigo mesmo, antes de compor o livro
Tornai-me a aparecer, entes imaginários,
que me enchíeis outrora os olhos visionários!
Poder-vos-ei fixar?... Tenho inda coração
capaz de se render à vossa sedução?...Chegam... que densa turba! Envolve-me... Não posso
furtar-me ao seu triunfo. Eis-me, Visões, sou vosso.Vai-se-me em névoa o mundo. Emanações subtis
que exalais, vem tornar-me aos anos juvenis.
Que imagens que trazeis de dias tão risonhos!...
Caras sombras! sois vós? aéreas como em sonhos?Como recordação de lenda já perdida,
volve o amor, a amizade, e reassumem vida;
torna a dor a doer. Oh vida! oh labirinto!
de novo o mesmo sois. Já renascer me sinto.Cá ’stão os bons d’outrora, entes que já gozaram
horas de oiro, e também... como elas se escoaram.
Não me hão-de ouvir agora os mesmos, bem o sei,
para quem noutro tempo os versos meus cantei.
Sumiu-se, aniquilou-se aquela amiga turba,
que nem com som mortiço os ecos já perturba.
Vibra meu canto agora a ignota multidão,
cujo aplauso, ai de mim! me aperta o coração;
e os a quem meu cantar outrora foi jucundo,
erram, se inda alguns há, dispersos pelo mundo.Ai, plácida mansão, de espíritos morada!
revive na saudade, há tanto descorada!Começa em vagos sons meu estro a palpitar,
qual de uma harpa eólia o triste delirar...
Já sinto estremeções; o pranto segue ao pranto,
e o duro coração se abranda por encanto.O que foi, torna a ser. O que é, perde existência.
O palpável é nada. O nada assume essência.
DIÁLOGO PRELIMINAR*
Um teatro ambulante, ainda em osso
O EMPRESÁRIO, O POETA (homem idoso), O GRACIOSO DA COMPANHIAEMPRESÁRIO
Amigos! (que ambos vós já bastas vezes
nas aflições e apertos me salvastes)
vingará na Alemanha a nossa empresa?
Quero agradar ao público, e preciso,
que o público é real, e eu vivo dele.
Dêmos que está já pronto o barracório,
o teatrinho armado, e cada ouvinte
no seu lugar, ansioso de festança.
Repimpam-se, arqueando as sobrancelhas;
vem todos com tenção de embasbacar-se.
Eu na arte de embair não sou dos pecos,
hoje porém, confesso, estou com susto.
Não anda o povo afeito a mãos de mestre,
mas lê, lê muito; um ler que mete medo.
Como hei-de eu conseguir que ele ache em tudo
novidade, substância, e graça às pilhas?
’Stou nas minhas três quintas quando vejo
acudir-me gentio às rebatinhas,
chegar inda com dia, antes das quatro;
atirar-se ao balcão do bilheteiro
como em tempo de fome à padaria,
e esmurrarem-se à pesca de um bilhete.
Milagre tal em tão mesclada gente,
só poetas de truz. Toca a tentá-lo!O POETA
Não me fale ninguém do populacho,
a cujo aspecto a inspiração desmaia,
remoinho humano, que nos leva à força.
Ascenda-se ao recesso aberto a poucos,
ao mundo celestial da fantasia,
onde poetas só tem gozos puros,
onde amizade e amor com mão divina
a paz do coração produzem, velam.
O que então do imo peito nos prorrompe,
e nem sempre na voz logra exprimir-se,
embrião, que talvez contém portentos,
que vezes não o afoga a actualidade!
Mas não raro igualmente esmeros de arte
do diuturno desprezo alfim triunfam.
Quem de brilhos se paga abdica os evos.
Vão à posteridade as obras-primas.O GRACIOSO
Mas que é posteridade, ou que te importa?
Não trate eu de agradar aos com quem vivo,
ao cheiro do louvor dos porvindoiros!
Quem nos pede folgança é o nosso povo;
fartemos-lhe a vontade. É boa gente,
e gente que se vê. Na alternativa
entre ausente e presente, este é quem ganha.
Como lhe hás-de agradar? mui facilmente.
Quem deseja com gosto ser ouvido
há-de aos gostos da turba acomodar-se.
Quanto mais auditório, mais efeito
fará nele o protótipo de génios,
que, dando rédea larga à fantasia,
lhe leva a par o sólito cortejo
de afectos, de paixões, de luz, de graças...
e, para adubo um grão de extravagância.EMPRESÁRIO
Muita acção sobretudo. Os circunstantes
querem ver e mais ver. Chovam sucessos
uns sobre outros a flux. Folga a plateia,
na curiosa abundância embasbacada;
entra o poeta em moda, e cresce em fama.
Pela turba é que a turba se conquista:
cada qual tem seu gosto; o que um refuga,
outro vem que o prefere. Assim, dar muito
cifra a receita de agradar a todos.
Armar de peças mil uma só peça
é que é o non plus ultra; afortunado
o poeta que o logra: é mestre cuque
de chanfana afamada entre os fregueses.
Há comédia que chegue a um embrechado,
que se arma, enquanto o demo esfrega um olho,
e enquanto esfrega o outro, se desmancha?
O compacto! a unidade! história; petas.
Que vale ao ramalhete ser tuchado,
se a crítica lá está que ri do junco,
e a uma e uma as flores lhe desfolha?O POETA
Mas que ignóbil mister! que oprobrioso
para artistas de lei! Já nós lá vamos?
já se admite a aldrabice desses tunos,
que dão gato por lebre em coisas d’arte?EMPRESÁRIO
Barro o sarcasmo. O artífice de jóias
convenho em que se esmere em ferramenta;
achas, quem quer as faz co’uma podoa.
Apuros, para quê? para que ouvintes?
Este vem aborrido, aquele impando
de festim lauto; e, o que é pior, não poucos
da Babel jornalística aturdidos.
Vem aqui, como vão às mascaradas:
matar tempo; açodados, porém frios...
curiosos, quando muito. E as damas? essas
trá-las o empenho de assoalhar os luxos;
são actrizes gratuitas; são figuras
que só trabalham pelo amor da glória.
Já basta de quiméricos Parnasos.
Obténs enchente; aplaudem-te; vês nisso
motivo de ufanar-te? Observa atento
a gente que em Mecenas se te arvora:
metade dela é fria, o resto bronco.
Um tomara-se já no fim da peça,
para se ir ao baralho que o namora.
Outro está já na ideia pregustando
a noite que vai ter entre os abraços,
no seio nu de delirante Frine.
Para relé tão pífia invocar musas!
valha-vos Deus, basbaques da poesia!
Se agradar pretendeis, teimo na minha:
dai acção, mais acção, acção que farte;
O ponto é pôr os cérebros num caos;
contentá-los em cheio era impossível...
.................................
(Vendo ao poeta quase a ponto de se ir em delíquio)
Que tens? é pasmo? é êxtase? são dores?O POETA
Deixa-me, por quem és; busca outro escravo!
Para ajudar-te na perversa empresa
de derrancar no mundo o siso, o gosto,
querias que o poeta assim brincando
seus foros naturais renunciasse?
Como é que ele os afectos senhoreia?
Com que poder subjuga os elementos?
Não será co’a harmonia entre ele e o mundo?
Ele a absorver do mundo as maravilhas,
e a expandi-las depois com brilhos novos?
Enquanto indiferente a natureza
vai torcendo no fuso o eterno fio,
e a tão discorde multidão dos entes
se entrebate estrondosa e dissonante;
quem vos tira a expressão pela fieira,
e a vivifica e inunda de harmonias?
Tantos entes diversos, desconjuntos,
quem os une em convívio harmonioso?
quem transforma paixões em tempestades?
quem acende arrebóis na mente escura?
No caminho da amada quem semeia
as flores mais louçãs da primavera?
Quem de ténues folhinhas entretece
c’roa, que a todo o mérito premeie?
Quem funda Olimpos? quem despacha deuses?
A força do homem, convertida em estro.O GRACIOSO
Bem! Pois saca proveito dessa força!
Dê coisas de sustância a tal poesia
- mal comparado - à laia dos namoros:
Encontram-se uma e um; foi mero acaso.
Há simpatia; ninguém sabe o como.
Nenhum pensa em fugir, nem quer, nem pode.
Vão, mole-mole, uns laços invisíveis
prendendo os corações. Cresce o deleite;
dá-se às invejas pasto; acordam zelos;
principia a amargura; e quando a gente
mal se precata, armou-se uma novela.
Dêmos também nós outros na comedia
coisas deste jaez! Enterra em cheio
a mão na vida humana; toda a gente
a vive, sim, mas poucos a conhecem.
Por onde quer que a mires, é curiosa.
Mãos à obra, poeta!
Ouve um conselho!
Imagens a granel; clareza pouca;
erros mil; de verdade um raio apenas.
Oh que misto! oh que pinga saborosa!
Ninguém há que a não trague, e que a não louve.
A flor da mocidade então se apinha;
espia o desenlace; exalta a peça,
onde crê ver inspirações divinas.
Cada alma terna então sorve com ânsia
suave melancólico alimento;
ora isto, ora aquilo a impressiona;
cada um vê na cena o que em si acha;
ei-los prestes às lágrimas e aos risos;
à audácia, à execução vozeiam loas.
São de ruim contento os Padres Mestres.
Noviços, qualquer coisa os enamora.O POETA
Já vão longe os meus tempos de noviço,
manancial de cânticos perenes,
ignorância do mundo, inexperiência
que num botão de flor Édens previa.
Então sim, que topava em cada vale
boninas que ceifar. Eu nada tinha...
e tinha tanto!: o anelo da verdade,
cobiça d’ilusões.
Oh! restitui-me
esses d’outrora indómitos impulsos:
a dita agri-dulcíssima; a energia
do aborrecer, do amar. Oh! restitui-me,
se podes, restitui-me a mocidade!O GRACIOSO
A mocidade, meu amigo, é boa
para coisas que eu sei: - Num contra muitos,
por exemplo, é boníssima. - No aperto
de nos saltear um rancho de moçoilas,
à porfia a pender-se-nos do colo,
é mais que boa, é óptima. E no curso,
quando o prémio além-meta nos acena,
mas inda ao longe! E quando, ao fim de valsa
rodopiada, frenética se deve
levar o mais da noite em bonachira!
Agora lançar mão das áureas cordas,
costume vosso antigo, e dedilhá-las
com graça e fogo, volitar no rumo
de assunto que vos praz... senhores velhos,
ninguém vo-lo proíbe; é jus da idade;
e nem menos por isso vos honramos.
Diz que a velhice é nova infância! história;
não é tal; continua a infância antiga.EMPRESÁRIO
Basta de altercações; queremos obras.
Venha coisa que sirva. Eu cá não creio
no que dizeis de estar-se ou não disposto.
Todo esse rodear de palavrório
só diz: míngua de veia; é procurá-la.
Quem uma vez se recebeu co’a musa,
ganhou jus marital; resiste? obrigue-a.
Sabeis o que se quer: bebidas fortes;
fermentá-las, e já. Quem não fez hoje,
amanhã não tem feito; um dia é muito.
Audácia pois! Agarra pelas repas
a ocasião fugaz; não tens remédio,
segue-a no voo, e está logrado o empenho.
No teatro alemão tudo se admite,
bem sabeis; nada pois de acovardar-te.
Pede afoito cenários, maquinismos,
lua, sol, astros, água, luz, rochedos,
feras e aves sem conto. Na barraca
podes meter a criação em peso.
Voa sem confusão, desde o superno
empíreo, à vária terra, ao negro inferno!
QUADRO I
[Prólogo no Céu]
O Empíreo. Ao meio o Senhor, no trono. À roda a corte celestial, com as suas jerarquias: anjos, arcanjos, querubins, serafins, tronos, potestades, dominações, virtudes, e coros.
CENA ÚNICA
O SENHOR, a sua corte, logo depois MEFISTÓFELES*
(Acercam-se do trono os três Arcanjos)
RAFAEL (cantando)
No coro sideral o sol vai prosseguindo,
qual na origem lho hás dado, o curso harmonioso.
Tonitruante baixo em teu concerto infindo,
só mandando-lho tu, Senhor, terá repouso.
Sua luz dobra a nossa, enchendo-nos de espanto
não podermos sondar-lhe a portentosa essência.
Como o fora a princípio, ó sacra Omnipotência,
teu sol é hoje ainda enigma, assombro, encanto.GABRIEL (cantando)
E da terráquea esfera a máquina esplendente
segue em seu torvelino, eterno, arrebatado;
por que ora à luz dos céus florido Éden se ostente,
ora descanse envolta em negro véu bordado.
O mar espuma, troa, investe as brutas fragas,
que o repulsam desfeito, em nunca finda guerra.
Mas na perpétua luta, as rochas como as vagas
seguem juntas, sem termo, o volutear da terra.MIGUEL (cantando)
Dos solos contra o mar, do oceano aos continentes,
jogam-se os temporais com ímpeto profundo;
zona de assolasses e criações potentes,
que desfaz e refaz perpetuamente o mundo.
Ígnea precede a morte ao trovejante horror.
Mas nós, os cortesãos da tua imensidade,
gozamos luz e paz por toda a eternidade.
Bendito sejas tu, Senhor! Senhor! Senhor!OS TRÊS (juntos)
As tuas criações enchem os céus de espanto;
nem o arcanjo lhes sonda a portentosa essência.
Como o fora a princípio, ó sacra Omnipotência,
teu mundo é hoje ainda enigma, assombro, encanto.MEFISTÓFELES (cortejando ao Padre Eterno)
Inda enfim cá tornei. Visto quereres
saber por mim o que lá vai no mundo,
pronto; que antigamente (inda me lembra)
gostavas de me ouvir. É só por isso
que me tornas a ver entre esta súcia.
Tem paciência! Eu, retóricas sublimes,
é coisa que não gasto; e mesmo escuso
deste augusto congresso expor-me às vaias.
Co’o meu patos tu próprio te ririas,
a não teres perdido esse costume.
Sei cá palavrear de sois! de mundos!
Toda a minha sabença é perder homens.
O deusito da terra está na mesma:
parvo como ab initio. Melhor fora
(digo eu cá) não lhe teres infundido
o raio dessa luz, que lá se chama
Razão, e que na prática só presta
para o tornar mais bruto que os mais brutos.
Com licença da Tua Majestade,
o que ele me parece, é gafanhoto
pernilongo, com mescla de cigarra,
já voador, já saltão, já num relvado
co’a sua solfa velha a estrugir tudo.
E vá lá, se da erva não saísse
inda era meio mal; mas tem o sestro
de se andar sempre à cata de imundícies.O SENHOR
Parece-se contigo. O teu regalo
é esse: acusar sempre. Então no mundo
nada há bom?MEFISTÓFELES
Não senhor. Quanto eu lá vejo
passa até de ruim. Chega a haver dias
que eu próprio tenho lástima dos homens,
coitados! nem me animo a atormentá-los.O SENHOR
Viste Fausto?
MEFISTÓFELES
O Doutor?
SENHOR
Sim, o meu servo.
MEFISTÓFELES
Servo teu? guapo servo! o rei dos parvos.
Seu comer e beber são do outro mundo.
Pasce-se no fervor da cachimónia,
que o traz há muito aéreo; em suma, é doido,
e ele próprio o suspeita. Ambiciona
cá do céu as estrelas mais formosas,
da terra gozos máximos. Nem perto
nem longe, vê, nem sonha, em que se farte.O SENHOR
Por enquanto, anda à toa; em breves dias
lhe darei claridade. O fazendeiro
antevê, no abrolhar, a flor e o fruto.MEFISTÓFELES
Quer Vossa Majestade uma apostinha?
Verá se também este se não perde,
uma vez que me deixe encaminhá-lo.O SENHOR
Deixo, enquanto for vivo. Onde há cobiças,
é natural o errar.MEFISTÓFELES
Muito obrigado.
Pois co’os vivos também é que me eu quero;
com defuntos embirro; o meu regalo
é tentar caras rechonchudas, frescas;
sou como o gato: de murganho morto
não faço caso; o meu divertimento
é correr e arpoar aos que me fogem.O SENHOR
Como queiras. Permito-te que o tentes.
Se lograres caçá-lo desbaptiza-o,
e inferna-o muito embora. Mas, corrido
fiques tu in æternum, se confessas
que o bom, dado que errar às vezes possa,
nunca nos sai da estrada, a recta, a nossa.MEFISTÓFELES
Bom. Não lhe há-de tardar o desengano,
Ganhei tão certo a aposta, como é certo
chamar-me eu Mefistófeles. Se eu vingo
na empresa, a palma do triunfo é minha.
Há-de se regalar de comer terra,
como a tia serpente.O SENHOR
Alargo a vénia.
Outorgo, enquanto andares nesse empenho,
poderes incarnar, viver co’os homens.
Aos demos como tu, maraus e alegres,
nunca os aborreci tão cá de dentro,
como aos demais que a minha essência negam.
O homem cansa depressa; e quando cansa
nada mais quer fazer. Em razão disso
é que eu houve por bem dar-lhe estes sócios
que o despertam, activam; potestades
criadoras até!(Voltando-se para os anjos)
Vós outros, filhos
legítimos de Deus! regozijai-vos
nesta mansão das perenais delícias,
aqui onde o poder que vive eterno
e eternamente cria, vos enlaça
com vínculos de amor indissolúveis.
E essas do mundo cambiantes cenas,
ide assentando na vivaz memória!(Cerra-se o empíreo, dissipando-se os espíritos).
MEFISTÓFELES (só)
E está bem conservado. Não desgosto
de o ver de vez em quando. O meu sistema
de não quebrar com ele inteiramente,
mesmo assim, não é mau. Tamanho vulto
conversar tanto à mão co’um diabrete
não é leve honraria.
E se eu lhe ganho a aposta! oh! que ufania!...
QUADRO II
Aposento gótico, altamente abobadado. Uma porta ao fundo, e janela à direita. Entre um fogão, que fica à esquerda, arredado da parede, e o primeiro plano, uma porta que deita para um corredor. É noite. Por uma fresta ao alto côa o luar. Estantes. Alfarrábios volumosos. Pergaminhos. Máquinas. Retortas. Vidros. Esqueletos, etc.; tudo em grande confusão.
CENA I
FAUSTO (dessocegado, sentado numa poltrona de sola e pregaria de cobre, com a cabeça fincada nas mãos, e os cotovelos na mesa de estudo, na qual derrama luz frouxa um candeeiro aceso.)
Ao cabo de escrutar co’o mais ansioso estudo
filosofia, e foro, e medicina, e tudo
até a teologia... encontro-me qual dantes;
em nada me risquei do rol dos ignorantes.
Mestre em artes me chamo; inculco-me Doutor;
e em dez anos vai já que, intrépido impostor,
aí trago em roda viva um bando de crendeiros,
meus alunos... de nada, e ignaros verdadeiros.
O que só liquidei depois de tanta lida,
foi que a humana inciência é lei nunca infringida.
Que frenesi! Sei mais, sei mais, isso é verdade,
do que toda essa récua inchada de vaidade:
lentes e bachareis, padres e escrevedores.
Já me não fazem mossa escrúpulos, terrores
de diabos e inferno, atribulados sonhos
e martírio sem fim dos ânimos bisonhos.Mas, com te suplantar, fatal credulidade,
que bens reais lucrei? gozo eu felicidade?
Ah! nem a de iludir-me e crer-me sábio. Sei
que finjo espalhar luz, e nunca a espalharei
que dos maus faça bons, ou torne os bons melhores;
antes faço os bons maus, e os maus inda piores.
Lucro, sequer, eu próprio? Ambiciono opulência,
e vivo pobre, quase à beira da indigência.
Cobiço distinguir-me, enobrecer-me, e vou-me
co’a vil plebe confuso, à espera em vão de um nome.
E chama-se isto vida! Os próprios cães da rua
não quereriam dar em troco desta a sua.(Depois de longa pausa meditativa)
Só falta recorrer às artes da magia.
No espírito há poder; na voz cabe energia,
que a transforma em cominando. Então, consociada
a palavra ao querer, talvez lhe seja dada
força para arrancar com soberano império
à natureza avara o íntimo mistério.
Se o chego a conseguir... que júbilo! que dita!
Não precisarei mais, desde essa hora bendita,
após trabalhos mil como esses que frustrei,
dar por certas ao mundo as coisas que não sei.
Ser-me-á fácil dizer o vínculo profundo
que uniu partes sem conto, e fez do todo um mundo;
ver a força motriz de tanto movimento,
e consignar-lhe a causa. Ah! desde esse momento
em que o cerrado enigma alfim me for notório,
foi-se o torpe chatim de estulto palavrório.(Depois de pausa, e voltando-se comovido, para a fresta por onde entra o luar)
Oh minha lua cheia, oh minha doce amiga!
Possas tu não mais ver em tão cruel fadiga
o homem que tanta vez dos céus hás contemplado
a desoras velando, em livros engolfado.
Melancólica amante! a claridade tua
achou-me sempre a ler. Se hoje um teu raio, ó lua,
me levasse a pairar nos cumes apartados,
a borboletear nos antros frequentados
dos espíritos só, a saltitar liberto
da científica névoa, em fundo de um deserto,
à luz crepuscular que tácita derramas
aos selvosos desvãos, por entre as móveis ramas!
Que refrigério d’alma um banho nesse rócio
não dera, amada lua, às febres do teu sócio!(Silêncio. Cai em desalento. Depois levanta-se, e percorre com a vista o aposento)
Que masmorra que é isto! E aqui me vou gastando
neste covil infecto, abominoso, infando,
lôbrega escuridade a que o celeste dia,
prazer da terra toda, um raio a custo envia
pelos vidros de cor em treva mascarado.
Para onde quer que fuja o olhar do emparedado,
bate nesta Babel de livros bolorentos,
pastagem da polilha, informes, sonolentos,
e em rumas de papeis, do tempo denegridos,
caótico tropel de abortos esquecidos,
que trepa, galga, encobre, enluta, afeia, inunda,
a casa desde o solho à abobada profunda;
sem falar no sem-fim de drogas, pós, essências,
máquinas, que sei eu! misérias, importâncias,
que já me infundem tédio. E a isto se apelida
o meu mundo! Isto é mundo, ou esta vida é vida?(Dolorosamente)
E inda perguntarás, pobre homem, donde vem
a angústia que te rala, e as forças te retém?
Toda a gente a gozar dos bens que o Factor Sumo
lhe faculta na terra; e eu... neste ascoso fumo
entre ossos de animais e esqueletos!
Sus! Sus!
Fausto, longe daqui! Torna-te ao ar, à luz!(Vai a sair. Retrograda lentamente)
Mas... agora me ocorre; é bom tentar. Vejamos
que nos diz no seu livro o sábio Nostradamus*.
Não há guia melhor.(Tira da livraria um calhamaço, e põe-no numa alta estante de coro, que está colocada a um lado do proscénio)
Aqui se põe patente
dos planetas o influxo; e logo em continente,
percebido o teor da natureza, tomo
com ela intimidade, e a meu sabor a domo;
trato-a de igual a igual. A espíritos é dada
esta mútua influência. Eis a teoria achada...(Pausa)
Sim; mas o praticá-la! O humano entendimento
não pode só por si colher o pensamento
que o nosso abstruso autor depôs nestas figuras.Génios que me cercais, volantes e às escuras,
se me ouvis, respondei!(Continua a folhear o livro. Encara na estampa do Macrocosmo)
Que imagem peregrina!
que inefável delícia enleva repentina
todo todo o meu ser! enchentes de doçura,
nunca de mim sonhada! A mão que tal figura
aqui delineou, à fé que era divina,
pois só vê-la me acalma, a dor já me não mina.O coração me exulta, alegre, alvoroçado,
sôfrego, crente, certo, ufano, endeusado
de atingir afinal explicação completa
do enigma que há já tanto os dias me inquieta.Dar-se-á que eu seja um deus? Não sei. A claridade
que me cresce em redor, não é da humanidade.
Neste debuxo morto avisto claramente
a vivaz natureza, universal nascente,
estar-se em criações contínuas prorrompendo.
Vejo-o c’os olhos d’alma. Agora, agora intendo
a sentença do sábio:(Em tom de quem recita coisa decorada)
- «O mundo espiritual
«a ninguém é vedado. O porque o julgas tal
«é por teres o senso obtuso, e o coração
«defunto. Rompe a inércia! Expulsa a indecisão,
«discípulo covarde, e engolfa-te brioso
«no arrebol que entrevês.»(Contempla a estampa)
Quadro maravilhoso!
Como tudo se tece e junto se unifica!
Nora imensa e possante, esplendorosa, rica,
música e gemedora, esvaziando e haurindo
das matrizes dos céus, com jogo alterno e infindo,
vida e morte, uma à outra amplíssimo tesoiro,
tudo permisto e a flux nos alcatruzes de oiro,
e tudo de auras mil de bênçãos ventilado,
almo consolo empíreo ao mundo trabalhado!
Que visão teatral! mas ai! visão somente!
Oh Natureza enorme, oh tentação presente,
hei-de entrar-te...
Mas como? Onde é que tens sumidos
os seios da abundância, a que andam suspendidos
céu e terra? O meu ser, murcho, desanimado,
almeja ir lá sugar leite caudal, jorrado
a quanta sede há ’í! vê que só eu definho
faminto na abundância.(Voltando impaciente uma porção de folhas do livro)
Avante! Outro caminho!
(Dá com a figura do Espírito da Terra)
Acho influição melhor nesta figura.
É Génio mais vizinho este da Terra.
Recresce-me vigor; como que entrada
de um vinho novo me referve a mente.
Ouso ao mundo lançar-me: aos bens e aos males;
Arcar com temporais; sentir sem medo
O estrondo de um naufrágio.(A ser possível, o teatro representará tudo que no decurso da fala se vai mencionando)
Olha o negrume
que lá vai pela abobada! Sumiu-se
de todo a lua. A lâmpada vasqueja...
apagou-se, fumega. Raios rubros
sinto zunir-me em derredor das fontes.
Da abóbada me sopram calafrios...Bem te pressinto, Espírito invocado!
Aparece! Todo eu já sou tumulto.
Transforma-se o meu ser: anseio, anelo
por novas sensações. A ti me entrego.
Obedece! Mando eu. Sai! sai! Não tremo;
custe-me embora a vida.(Pega do livro, e profere em baixa voz a fórmula da evocação do Espírito. Acende-se uma chama avermelhada e trémula. Aparece nela o Espírito.)
CENA II
Um ESPÍRITO e o dito
ESPÍRITO
Quem me chama?
FAUSTO
Horrendo aspecto!
ESPÍRITO
Pois me evocaste
da minha esfera,
eis-me...FAUSTO (afastando os olhos, e como quem foge)
Não posso!...
ESPÍRITO
(Durante esta fala, Fausto vai fazendo os gestos e accionados que o Espírito denuncia)
Olha-me! Espera!
Já que almejaste
por ver e ouvir-me,
podes falar!
Olha-me firme
sem titubar!
Aos teus conjuros
obedeci.
Bem! Que me queres?
Pronto! Eis-me aqui.
Pasmas, covarde?
foge-te a cor?
perdeste a fala?
tremes de horror?
O sábio, o forte,
o sem segundo,
o que em seu peito
criava um mundo,
o que nutria
orgulho tal,
que a nós, Espíritos,
se cria igual,
aí jaz por terra
convulso, exausto!
Quem me dá novas
do antigo Fausto?
Tu, que ousaste apostrofar-me
no teu carme,
co’a insolência mais que rara
de afrontar-me cara a cara,
mal que aspiras
o ar que efundo,
já deliras,
já no fundo
mais profundo
do teu ser,
verme calcado,
sentes a vida
quase perdida!FAUSTO
Eu ceder-te, fogo fátuo!
Nunca tu presumas tal!
Sou Fausto; sou Fausto;
de ti sou igual.ESPÍRITO
Neste mar,
neste mar tempestuoso
do viver e do actuar,
subo, desço, não repouso,
vou e venho sem cessar
neste mar.
Morredoiras vidas,
mortes renascidas
em fogosas lidas,
sem jamais parar...
eis de que eu fabrico
no imenso tear
as roupas fulgentes
que o rico mais rico,
que o Ente dos Entes
se digna trajar.FAUSTO
Génio activo e infatigável,
bem que abarques todo o mundo,
eu, espírito incansável,
posso crer-me a ti segundo.ESPÍRITO
Segundo a um ser, tua invenção,
mas a mim não.(Desaparece.)
CENA III
FAUSTO (só)
A ti não! a quem então?
Eu que de Deus imagem ser me cri,
nem sequer posso comparar-me a ti?(Batem à porta)
Que raiva! Não me engano... Há-de ser Wagner,
o aluno cá de casa. E lá se perde
tão bela ocasião. Vem este mono
dar-me quebra a visões desta importância!
CENA IV
WAGNER, de roupão e barrete de dormir, com um candeeiro na mão. FAUSTO vira-se de mau humor.
WAGNER
Queira-me perdoar o interrompê-lo.
O Mestre estava agora declamando;
não ’stava? Dou que lia alguma cena
do seu teatro grego. O que eu gostava
de ser também um dia actor dramático!
É coisa que anda em moda, e rende fama.
Um moralista cénico, até dizem
ser mais útil que um padre.FAUSTO
Ah, sim, se o padre
é moralista cómico; há bastantes.WAGNER
O que me faz cabeça, é como pode
quem vive no seu canto, e não vê mundo
salvo algum dia santo, e só o observa
de longe e por um óculo, repito,
como pode ser guia de costumes.FAUSTO
E certo que o não pode, se em si mesmo
não sentir lá por dentro o fogo sacro.
É só co’a inspiração própria, espontânea,
que se domina a turba, O chocho, o inerte,
como de seu não tem, mas quer pôr mesa,
pilha aqui, sisa ali; mistura, assopra
no seu fogareirinho um lumezito,
e sai-se co’um pitéu de mistifório,
que só porcos ou cães o tragariam.
Se gostas, prol te faça. Mas banquete
que seduza, e convide, e preste aos homens,
só dos miolos teus podes guisá-lo.WAGNER
E eu a cuidar que nos sermões, o tudo
era a voz, o accionado, o tom solene!
Que lanzudo que eu era!FAUSTO
Arma aos benesses
sem faltar ao decoro. Farfalhices
e guizalhada a bobos só pertencem.
A paixão verdadeira, o senso recto
escusam de artifício. Assunto sério
não se anda à caça de vistosas frases.
Os discursos de alardo e de oiropeles
com que os vícios zurzis, servem e aprazem
como o vento do outono às folhas secas.WAGNER
Deus me acuda! A arte é longa, a vida breve.
Já de tanto estudar chego a ter dores
de cabeça e de peito. O achar caminho
certo, seguro, que nos leve às causas,
tem busílis. Primeiro que lá chegue,
pode mil vezes dar o triste à casca.FAUSTO
Engano, engano! Onde há nuns alfarrábios
nascente milagrosa em que de um sorvo
se fartem para sempre as sedes d’alma?
Refrigério eficaz para tais sedes
só em ti o acharás.WAGNER
Mas um bom livro!
Não será gosto o recuar nas eras,
ver o que era o saber da primitiva,
e compará-lo ao de hoje? Que progresso!
que esplêndido subir!FAUSTO
Pois não! já vamos
pelo sétimo céu! Wagner amigo,
o mundo velho é livro arqui-brochado
com sete selos. Isso, que vós outros
apelidais o espírito de um século,
é simplesmente o vosso próprio espírito,
a debuxar fantasmas que abalaram.
Mas que espelho tão pífio a quem o observa!
Faz nojo; faz fugir; bem comparado,
como um barril do lixo, ou como um sótão
de cacaréus sem préstimo nem graça;
ou, por melhor dizer, como comédia
em barraca de feira, alardeando
pomposas vistas, máximas de arromba,
que em falsetes de títeres chimpadas,
são da plebe regalo e maravilha.WAGNER
Conhecer o que o mundo e os homens sejam
a toda a gente agrada.FAUSTO
E essa tal gente
que chama conhecer? Quem é que pode
dar à mínima coisa o nome próprio?
Os raros, que algo disso entreluziram,
e que, em vez de o esconder a sete chaves,
foram à doida assoalhar no vulgo
seu pensar e sentir em toda a parte,
acabaram na cruz ou na fogueira.
.................................
.................................
Amigo, por quem és, vai alta a noite.
Basta por hoje.WAGNER
Eu cá por mim gostoso
velara a ouvir tal sábio a vida inteira.
Mas enfim cá me vou. Levo inda uns pontos
por aclarar; nas boas horas fiquem
para amanhã, que é Páscoa d’Aleluia.
Eu moirejo a estudar, e sei já muito,
mas inda não sei tudo.(Sai)
CENA V
FAUSTO (só)
Como estes crendeirões esperam sempre!
Fossam na terra, à cata de um tesoiro,
dão co’uma vil minhoca, e ficam pagos!
Mas aqui, aqui mesmo, onde há tão pouco
me conversava um génio, como pude
ouvir a voz deste homem? Todavia
bem hajas tu, misérrimo vivente,
pois vieste arrancar-me ao desespero
que me ia aniquilar.
Tão monstruosa
era aquela avejão, que me sentia
a par dela pigmeu.
Ter eu suposto
que era imagem de Deus! Crer-me chegado
à intuição da verdade, já despido
na plena luz o invólucro terreno!
e exceder querubins! e a meu talante
por toda a natureza insinuar-me,
fruindo gozos da criadora essência!!...
Pago bem caro o orgulho. Trovejou-me
tremenda voz: «És nada.»
Sim. Nem posso
equiparar-me a ti! Pude evocar-te
mas reter-te não pude. Vi-me a um tempo
sumo e ínfimo. Espírito inclemente,
co’um mero Vade retro me atiraste
de novo ao flutuar da sorte humana.A quem já buscarei para instruir-me?
e de que hei-de temer-me?
É bem que eu ceda
ao meu impulso actual, ou que o resista?
Que maior jus terão sobre a existência
Os males do que a força?
És tu, matéria,
parte vil do meu ser, és tu quem sempre
vem contrastar do espírito os arrojos.
Como na vida há bens, fora da vida
já não cremos que os possa haver maiores.
Altos assomos d’alma, que haveriam
de nos dar a ventura, eis que os afoga
um mar d’interessículos mundanos.
Quando audaz fantasia arranca o voo,
brada insofrida: Eternidade, és minha!...»
leva-lhe as asas repentino raio;
esperança, alegria estão desfeitas,
e um cantinho qualquer então lhe basta.
Mas se a vaidade é ida, aí vem cuidados
ralar-nos o interior e destruir-nos
alegria e descanso; não sossegam;
trajam máscaras mil; agora a casa,
logo o paço, a mulher, a prole, os servos,
fogo, punhal, venenos, mar. Trememos
com receios quiméricos; choramos
perdas sonhadas, ilusórias, nulas.(Pausa)
Deus, eu! Pois eu não vejo claramente
que não sou Deus? Imagem sua! imagem
mais depressa de um verme: um verme vive
a afuroar na terra, a alimentar-se
do pó da terra, enquanto um passageiro
o não pisa e sepulta.
E em a realidade
que é senão pó tudo isto que me cerca,
em tanta prateleira acumulado?
toda essa pedantona bugiaria,
que inda ao mundo dos vermes me afeiçoa?
Ali é que hei-de achar o que me falta?
Terei de ler milheiros de volumes
para saber que em tudo e em toda a parte
os homens tem vivido a atormentar-se?
não havendo senão de longe em longe
num sítio ou noutro alguém que se não queixe?(Encarando no esqueleto)
Que me estás tu daí zombeteando,
caveira despejada? Entendo a mofa:
dizes que os teus miolos, quando os tinhas,
também como hoje os meus, esfervilhavam;
tudo era afadigarem-se às escuras
em demanda da luz que vivifica;
por gosto erravas, mísero, qual erro,
traz a verdade e em vão.(Virando-se para as máquinas)
Se até vós mesmos,
instrumentos, que nunca houvestes alma,
estais co’as vossas cordas e cilindros,
rodas e dentes, a meter-me à bulha!
Eu ter-vos, eu supor-vos chave mestra
de tanto arcano, estar-lhe ansioso à porta,
forcejar... e afinal desenganar-me
de que a chave não diz co’a fechadura!
Ciosa de seus véus a natureza
nem ao mais claro dia se descobre;
e o que ela nos não mostre por si mesma
não lho hão-de arrancar máquinas.
Conservo
para aí todas essas velharias
porque eram de meu pai, que eu fruto delas
inda o não vi; nenhum! Olha a roldana,
como está do candeeiro enfumaçada!
Pudera! um lucubrar de tantos anos!
Melhor eu me tivera descartado
de tão reles herança, encargo e carga
que me faz suar tanto! O que homem herda
só o pode chamar seu quando o utiliza.
Haver que nos não presta é simples ónus.
Só no uso consiste a propriedade.(Encara numa âmbula de vidro, que está na
prateleira)Mas, que atracção possante,
dalém, a todo o instante,
me está chamando o olhar?
Âmbula cristalina,
teu brilho me fascina,
me alegra e me ilumina.
Nesta alma, selva escura,
graças a ti fulgura
esplêndido luar.(Tira a âmbula)
Salve, ó cristal que eu tiro
do ocioso teu retiro
com fé, com devoção!
Conténs a quinta essência
da indústria, da ciência,
a inércia, a sonolência,
a morte fulminante.
Sê-me, ó licor prestante,
refúgio e salvação.Miro-te, e a dor se acalma.
Empunho-te, e já n’alma
se infiltra placidez.
Outra maré que estua:
Que ímpeto em mim actua!
e sobre a face tua,
vítreo estendal das vagas
me arroja a ignotas plagas
onde outros céus já vês.Ígnea carroça alígera
aí vem tomar-me. Parto.
Já por caminho insólito
da terra vil me aparto.
Remonto no éter fluido.
Sacudo a humanidade.
Engolfo-me nos vórtices
da suma actividade.Oh! que existir magnífico!
Sublimo-me até Deus.
Sus, verme; sus, blasfemo,
que o ínfimo ao supremo
alças nos sonhos teus!De insanos terrores zomba!
Costas vira ao sol da terra!
Portão que a todos aterra,
eis braço audaz que te arromba.
Por um acto só pendente
da minha própria vontade,
provarei que a humanidade
é também omnipotente;
que não passam de delírios,
abortos da mente insana
esses infernos-martírios
com que a morte à vida engana.
Almejo ir com ledo rosto
devassar o passo estreito,
onde o humano preconceito
tão vivos fogos tem posto.
Partamos! É vinda a hora;
rompa-se a treva cerrada;
embora no arrojo, embora,
meu ser se resolva em nada.(Tira um copo lavrado)
Desce! Vem! Sai do cofre esquecido
(e há bem anos) oh taça, que hás sido
dos avitos festins o prazer.
De conviva a conviva girando
nenhum triste, em te aos lábios chegando,
resistia ao teu ledo poder.
Cada um quando a vez lhe chegava,
sua trova às figuras cantava
do teu fúlgido insigne lavor,
e depois te enxugava de um trago.
Como em voz a sorrir inda vago,
tempos bons do meu flóreo verdor!
Agora estou sozinho;
não há já ’í vizinho
a que haja de passar-te.
Agora já não tenho
que me apurar o engenho
nos teus primores d’arte.
Bom! Venha este licor que súbito inebria;
dele é que te hei-de encher; eu mesmo o preparei;
nenhum lhe chega em força.(Depois de ter vazado o veneno, da âmbula
para o copo, diz com solenidade:)Aurora do grão dia!
Com este tetro misto alfim te brindarei!(Ao chegar a taça aos lábios tangem campas; ouvem-se anjos a cantar)
CORO DE ANJOS* (não vistos pelo espectador, sons que chegam da Igreja vizinha)
Cristo ressuscita!
Jubilai alturas!
Paz às criaturas,
salvas e seguras
da prisão maldita!(Continuam a ouvir-se ao longe repicar os
campanários da cidade.)FAUSTO
Que divina toada e inesperado encanto
dos lábios me repulsa o líquido letal!
Este repique ao longe é já o sinal santo
que anuncia aos fieis o júbilo Pascal?
Será este cantar o do celeste coro
que outrora em dia igual, trocando em festa o choro,
por cima do sepulcro aberto ao Redentor
hosanas entoara à nova lei do amor?CORO DE MULHERES (que cantam, sem serem vistas
também, no próximo templo)Por nós, seus devotos
aqui foi trazido;
aqui, entre votos
de aromas ungido,
aqui o envolvemos
no linho mais fino.
Como é que o perdemos,
o Mestre Divino?CORO DOS ANJOS (que não são vistos)
Ressurgiu Cristo amante,
ileso, triunfante
de tanta provação.
Traz por coroa ufana
a humana salvação.FAUSTO
Vozes celestiais, potente suavidade,
que assim baixais ao pó, de mim que pretendeis?
Não faltam por aí fracos em quem podeis
empregar-vos em cheio. Oiço-vos, é verdade,
mas falece-me a fé... Sem fé, que racional
daria seu assenso ao sobrenatural?
Àquelas regiões, donde oiço a boa nova,
não ouso abalançar-me. E ainda todavia,
só porque na puerícia os mesmos sons ouvia,
como que reverdeço, e o crer se me renova.
Ai, domingo Pascal, o que eras algum dia!
Coavas por mim dentro um ósculo celeste.
O argentino repique era uma profecia...
Ai, dia do Senhor, que júbilos me deste!
Era-me êxtase orar. Impulso irresistível,
inefável saudade, encanto indefinível
me levava a girar nos campos florescentes,
ou no mais ermo bosque, onde em silêncio fundo,
debulhando-me à farta em lágrimas ferventes,
sentia dentro n’alma abrir-se um novo mundo.
Este alegre cantar era, naquela idade,
um bando de folgança à pronta mocidade:
Vinha lá primavera! Inda hoje estas lembranças
de boa fé tamanha e tão pueris folganças
tanta força em mim tem, que junto ao passo extremo,
depois de resoluto... hesito, se não tremo.
Bem hajais! Prossegui!... oh cânticos celestes,
que abrir-me enfim soubestes
a fonte onde a ternura as lágrimas encerra.
Por vencido me dou: reconquistou-me a terra.CORO DOS DISCÍPULOS (Invisíveis para o espectador)
Do avarento moimento arrombado
reascendeu para o trono paterno,
Deus de Deus, luz de luz, sempiterno,
perenal Criador incriado.
Ai de nós! ai, que invejas ao Mestre!
De ora avante sem ele tão sós
cá ficamos no exílio terrestre,
Ai saudades! ai céus! ai de nós!CORO DOS ANJOS (invisíveis para o espectador)
Da corrupção da morte
alou-se incorruptível.
Discípulos do forte,
fugi da mesma sorte
da culpa à herança horrível!
Aos que amam de verdade,
cumprem a caridade,
e para a eternidade
chamando os homens vão,
a esses, pia gente,
o que chorais ausente
é, foi, será presente:
pai, mestre, amigo, irmão!
QUADRO III
Fora de portas. Variado campo. Ao fundo escureja a porta baixa e arqueada da cidade. À direita do espectador, um oiteirinho, com sua pedra tosca em cima para assento. Do lado fronteiro, vista de montes ao longe, e mais perto um rio com seus barquinhos a ir e a vir. Também se descobrem, por aqui por acolá, veredas rústicas, com gente passeando em várias direcções. Ao meio de um terreiro, há uma tília copada (árvore grande que em Alemanha se encontra em todas as povoações, fora de portas, para os bailaricos do povo).
CENA I
Vem sucessivamente aparecendo OFICIAIS DE OFÍCIO, CRIADAS DE SERVIR, ESTUDANTES, BURGUESES, UM MENDIGO, UMA VELHA, DUAS SENHORITAS, UM RANCHO DE SOLDADOS, e PASSEANTES DE TODA A CASTA, que vem saindo da cidade, a espairecer-se.
(Diversos oficiais de ofício)
UM
Por aí!
OUTRO
Não é caminho
para a casa do monteiro?O PRIMEIRO
Nós gostamos mais do oiteiro
do Moinho.UM OFICIAL
Para a parte da cascata
é que era o melhor recreio.SEGUNDO
Isso é caminho que mata,
não passeio.OUTRO
Tu que votas? que é que fazes?
TERCEIRO
Sei cá? vou c’os mais.
QUARTO
Rapazes,
é mister que alguém decida.FAUSTO
Toca a Burgdorf; é subida,
mas vale a pena; verão
belas moças de feição;
cerveja de encher o papo;
e para um chibante guapo,
como todos vocês são,
muito labrosta pimpão
com quem se jogue o sopapo.QUINTO
Já te não lembram, farsola,
as duas vezes que lá
te derrearam as costas?
Queres terceira! Se gostas
sopeteia, vai; eu cá
não caio na corriola.UMA CRIADA DE SERVIR
Escusas de aporfiar!
Torno já para a cidade.OUTRA
Verás que o vamos achar
além no olmedo a esperar
comidinho de saudade.A PRIMEIRA
E eu com isso que aproveito?
Se eu gostasse do sujeito,
valeria a pena; assim
só para o ver no terreiro
ser teu constante parceiro
no bailarico, isso sim!
Olha que bem para mim!OUTRA
Vem decerto acompanhado.
A PRIMEIRA
Sim?
A OUTRA
Sim; disse-me que vinha
com ele o tal Carapinha,
que assim tinham ajustado.UM ESTUDANTE (para outro)
Ih! que pernas que elas tem!
Parecem-me ventoinhas.
Digo que estas cachopinhas
dão calças à gente. Vem!
Vem daí! mexe-te! avia,
senão perdemo-lhe a pista.
Eu cá dos gáudios na lista
só acho três de valia:
pinga forte, esperto fumo,
e servas embonecradas.UMA DONZELA BURGUESA (afirmando-se nos estudantes)
Mocetões assim, no rumo
das tristes de umas criadas!
É força de indignidade!
Não podiam conseguir,
em mais nobre sociedade,
objectos a quem servir?SEGUNDO ESTUDANTE (ao primeiro)
Forte correr! Pouco atrás
vem duas tão bem vestidas,
tão elegantes! Verás.
São duas páscoas floridas.
... Ai ai ai, que vem com elas
a minha bela das belas.
Oh! que dita! A minha, a minha
formosíssima vizinha,
o meu anjo, o meu amor!
co’o seu passo miudinho
aposto seja o que for
que nos alcança o ranchinho.PRIMEIRO
Que seca de emprazadoras!
Anda daí, companheiro.
Deixa-as lá. Não ’stão primeiro
criadas, do que senhoras?
Achavas agora graça
em perder o rasto à caça
que vai fugindo? Vem, vem!
Olha que a mão que mais destra
varre ao sábado, também
domingo a amimar é mestra.UM BURGUÊS
O tal Burgomestre novo
não me cheira. A nomeação
fê-lo soberbo co’o povo:
vara na mão do vilão.
Que bem tem feito à cidade?
O que eu vejo cada dia
é crescerem sem piedade
vexames e tirania.UM MENDIGO
Oh meus devotos senhores!
Minhas santinhas floridas!
Lançai vistas condoídas
A quem só vos canta dores!!
Co’a vossa bendita esmola
calai-me as lamúrias tristes!
A esmola que repartistes
também voss’alma consola.
Almas devotas e pias,
haja festa para todos!
Sobras dos ricos são bodos,
e trégua a mil agonias.OUTRO BURGUÊS
Ao domingo, ou num dia de festa,
não conheço delícia como esta
de estar a gente
nas suas terras,
mansa e contente,
forra a perigos,
falando em guerras
co’os seus amigos.
Diz que a Sublime Porta
tudo em barulho traz.
E a nós que nos importa
que haja lá guerra ou paz?
A Turquia é no cabo do mundo.
Onde há pois outro bem mais jucundo
do que isto de estar
um homem pregado
na sua janela,
vazando quod ores,
e a ver pelo rio
os barcos pintados
de tanto feitio,
que sobem, que descem,
a remos e à vela!
Corre o dia satisfeito;
chega a noite regalada;
vai-se ao leito
prosseguir sonhando a eito
nesta paz abençoada.TERCEIRO BURGUÊS
Assim digo eu também, senhor vizinho.
Deixá-los lá matar-se os tais Turquescos,
com tanto que haja paz neste cantinho,
vivendo todos como bons Tudescos.UMA VELHA (a uma Senhorita)
Psiu! Como vai casquilha!
Certo é que a mocidade
é quem no mundo brilha.
Ai, benza-te Deus, filha,
que a tal graciosidade
seria maravilha
que resistisse alguém.
É só esse desdém
esse ar de soberbia
que lhe não fica bem.
Sorria!... Isso que tem?
Sorria!... Vá... sorria!
Assim. Ora inda bem.
Não sabe? Tenho um dedo,
que tudo me adivinha,
e diz que esta rosinha
nutre, mas em segredo,
um bicho que a definha...
amores, bem me entende,
e eu sei quem eles são;
e dar-lhe o que pretende
está na minha mão.SENHORITA
Que impertinência! Oh Águeda,
Deixe-me! tenha siso!
E forte causticar!
Para me governar
conselhos não preciso,
Se alguém nos visse agora
aqui sós de palestra
com esta bruxa-mestra...
Suma-se, vá-se embora(Aparte para as companheiras)
E contudo o certo é
que em noite de Santo André
me amostrou distintamente
a figura que há-de ter
o futuro pretendente
com quem me hei-de receber.A OUTRA
Tal qual, sem tirar nem pôr.
Mandou-me o espelho mirar,
e vi nele um militar,
que há-de ser o meu amor.
E que figura tão linda
que ele era entre os mais soldados!
Desde então, dez mil cuidados
tenho posto em no buscar,
e não o encontrei ainda.SOLDADOS (cantando)
Castelos roqueiros,
e altivas donzelas
de assalto levar;
¿onde há, bons guerreiros,
coroas mais belas
para um militar?
Se é agra a vitória,
a glória é sem par.
Tocou-se a rebate.
Vencer ou morrer!
Voe-se, ao combate!
Isto é que é viver.
Caí, fortalezas!
Rendei-vos, belezas!
Triunfo e cantar!
Se é agra a vitória,
a glória é sem par.
Ao som dos peloiros
ceifaram-se os loiros.
Avante, soldados!
Por nós são os fados.
Avante! marchar!
CENA II
A maior parte dos ditos, que giram ad libitum. FAUSTO, WAGNER
(Wagner é um amigo e discípulo do Doutor Fausto)FAUSTO (conversando e caminhando com Wagner para o proscénio)
Descoalharam-se os rios e ribeiros.
Bem haja a primavera! Já nos viça
por todas essas veigas esperança.
O inverno, já caduco, aí vai buscando
refúgio pelas serras. Pobre inverno!
ver como ainda está baldando raivas
por se vingar da fuga! e nós a rirmos
dos tiros mortos, que de lá nos lança,
granizo imbele, que realça os verdes,
mal que um raio de sol os desmortalha.
Por toda a parte desabrolham vidas.
Que folgazão que é o sol! Como se alegra
de entrajar de matiz a natureza!
Como inda por aqui lhe minguam flores,
supre-as com tanta gente pintalgada.(Continua sempre a sair gente da cidade)
Vira-te para trás! Desta eminência
olha para a cidade; o formigueiro,
que do escuro da porta vem surdindo!
Não há quem neste dia não cobice
vir ao campo assoalhar-se. Este alvoroço
co’o ressurgir de Cristo, é clara mostra
de outra ressurreição em todos eles.
- Da casa-sepultura, - das canseiras
da oficina ou do trato; - da estreiteza
dessas vielas, que apelidam ruas,
- do soturno dos templos, - é o instinto
quem os promove à luz. Vê com que anseio
se atira a turbamulta ao campo, às quintas!
Que barcadas de gente jubilosa
sobem, descem, transpõem a movediça
veia do rio! Vê-me aquele bote
além, além, o último; de cheio
já mete a borda na água; até as sendas
dos montes lá ao longe estão querendo
quebrar-nos olhos co’as garridas cores
do gentio que as peja. Já cá chega
o estrondear da aldeia. O céu do povo,
se há céu do povo, é isto; o rapazio,
os homens feitos, tudo grita, salta,
ri, tripudia. Aqui me sinto eu homem,
e me é dado que o seja.WAGNER
Honra e proveito,
Senhor Doutor, é o passear convosco.
Mas eu, se dirigisse este passeio,
não vinha para aqui; nunca achei graça
ao que cheira e tresanda a grosseria.
Este zangarrear cantigas toscas,
estes jogos de bola, esta algazarra,
tudo isso odeio; implica-me co’os nervos.
Andam doidos; parecem-me possessos.
Nem é cantar nem festa; é só balbúrdia.CAMPONESES debaixo da tília. (Canto e dança, ao som de uma rabeca)
VOZ
Viva o bailarico!
Já está no terreiro
o nosso ovelheiro
de graças mais rico;
laços no pelico,
flores por cimeiro.CORO
Dancemos, voemos à volta do til,
rapazes e moças do balho gentil!
Zina, zana, zana,
zana, zana, zim.
Rabeca magana,
tocar sempre assim!VOZ
Tão sôfrego vinha
que esbarrou no seio
de esbelta mocinha,
que assim reconveio:
- «Olha que lorpinha
«que ao balho nos veio!»CORO
Dancemos, voemos à roda do til,
rapazes e moças do balho gentil!
Zina, zana, zana,
zana, zana, zim.
Quem viu nunca, ai mana!
ovelheiro assim?VOZ
E como vai dando
co’os seus calcanhares!
Gire, gire o bando!
Saias pelos ares!
Ai, já vão cansando;
pendam-se aos seus pares!CORO
Dancemos, voemos à roda do til,
rapazes e moças do balho gentil!
Zina, zana, zana,
zana, zana, zim.
Apertar com gana
braços de marfimVOZ
- «Não seja atrevido,
«que eu não sou daquelas
«com quem se tem rido»
Baldadas cautelas!
Co’o seu repelido
fugiu dentre as belas.CORO
Dancemos, voemos à volta do til,
rapazes e moças do balho gentil!
Zina, zana, zana,
zana, zana, zim.
Rabeca magana,
tocar sempre assim!UM CAMPÓNIO VELHO (trazendo uma infusa, e dirigindo-se para Fausto)
Guapa acção, sô Doutor! Num dia destes
vir juntar-se co’a gente cá de fora,
toda ignorante, um sábio dessa polpa!
Aceite-nos portanto esta infusinha.
Melhor não se encontrou. Que a pinga é fresca,
isso é; mas o que importa mais que tudo
é ser de boamente oferecida
para que a beba em gosto, e tantos anos
lhe acrescente de vida, quantas gotas
contêm no bojo.FAUSTO
Bem hajais! Aceito
o refresco oportuno; e correspondo
com outro tanto afecto ao de vós todos.(Reúne-se o povo à roda)
OUTRO CAMPÓNIO VELHO
Quem nos dias ruins não faltou nunca,
bem devia na festa aparecer-nos.
Aqui está, vivo e são, mais de um salvado
pelo pai do senhor, quando as malinas
levavam tudo a eito; e a não ser ele,
inda agora durava a epidemia.
O senhor nesse tempo era um crianço,
e mesmo assim andava em roda viva
co’o paizinho por casa dos enfermos.
Caíam como tordos os defuntos,
e ele sempre de pé. Livrou de boa!
Livrou? Quis de propósito salvá-lo,
para bem nosso, o Salvador do mundo.TODOS
Viva, viva tempos largos
quem nos põe à morte embargos!FAUSTO
Reservai para Deus as vossas graças!
Quem ensina a salvar, quem salva é Ele.(Vão-se todos para o fundo, e depois a pouco e pouco vão-se dispersando, ficando só Fausto e Wagner a conversar no proscénio.)
CENA III
FAUSTO e WAGNER, passeando
WAGNER
Mestre! mestre! Que arroubo hão-de causar-lhe
estas aclamações! Feliz quem saca
do talento e saber tão belos frutos.
Correm todos a vê-lo; os pais aos filhos
o apontam; é o oráculo das turbas.
Emudece a rabeca; a dança estaca;
formam alas ao sábio; as carapuças
voam pelo ar; e quase lhe ajoelham,
nem que fora o viático.FAUSTO
Subamos
um pouco mais a encosta, e poisaremos
além na pedra.(Sobem e sentam-se na pedra)
Quanta vez, meu Wagner,
não vim eu assentar-me aqui, sozinho,
co’a mente desvairada, consumido
do orar e de jejuns, rico de esp’ranças,
firme na fé! Que choros e suspiros,
que estorcer destas mãos, a ver se obtinha
do poder sobre-humano o fim da peste!
Estas aclamações soam-me a escárnio.
Se bem me leras no íntimo, verias
que nem filho nem pai merecem glórias.
Meu pai era um sujeito obscuro, honrado,
crendeirão, todo entregue a vãs teorias
sobre o teor do enigma Natureza.
Logrou ter seus prosélitos. Fechavam-se
numa cozinha negra, onde tentavam
toda a casta de récipes co’a mira
na fusão dos contrários: Leão ruivo,
(peralvilho montês) ia a consórcio
co’a tenra Flor de lis em banho morno;
passados logo a fogo mais intenso,
levantavam fervura ambos os noivos,
cada qual em sua câmara, e se uniam,
feitos os dois um só; bastava aquilo
para surdir num íris de mil cores
dentro no copo a juvenil princesa.
’Stava pronto o remédio; era tomá-lo,
o enfermo ia puxando, e ninguém punha
nem suspeição de culpa ao mata-sano.
(Morre quem tem seus dias acabados!)
Aqui verás com que infernais mistelas,
socolor de atacar a epidemia,
fomos por todas estas vizinhanças
muito mais peste do que a própria peste.
A quantos mil não propinei eu mesmo
a bebida funesta! e vendo-os ir-se,
ouvia ao mesmo tempo encomiados
por coisa grande os brutos assassinos!WAGNER
Que aflição por tão pouco! A probidade
que mais tem que exigir, quando se exerce
honrada e pontualmente o que aprendemos?
Enquanto foi rapaz, novel no ofício,
ia-se com seu pai, que era o seu mestre,
e exemplar que na cópia se revia.
Cresceu, adiantou conhecimentos;
nada, mais natural. Depois, seu filho,
se o tiver, lançará mais longe a barra.FAUSTO
Que ditosa ilusão, supor que ao homem
seja dado emergir do mar dos erros!
O que é mister saber, ninguém no atinge,
e o que se alcança para nada presta.(Após alguns momentos de absorção:)
Fora com tais tristezas, que destoam
deste festivo dia!
Cede, ó alma, aos rebates da alegria!Que lindeza de tarde! Olha os casais fronteiros
engastados no verde, e como estão festeiros,
banhados no esplendor do sol que vai fugindo!
Mais um dia vivido, um dia mais que é findo.
Vê-lo lá vai agora, o astro procriador,
alegrar sucessivo, e encher de almo calor
terras, céus, regiões, montes, cidades, povos,
que em círculo sem termo avista sempre novos.
E eu, eu, que o sigo assim co’os votos e co’a mente,
sem asas, preso ao solo e escravo eternamente!
Que delícia montar num raio vespertino,
e acompanhar no curso ao grão farol divino,
vendo sob os meus pés, na imensa profundeza,
sem eu lhe ouvir nem som, girar a redondeza!
montes a trajar sol; vales escurecidos;
os regatos de prata, em oiro convertidos!
Abismos e alcantis da serra mais bravia
não serviram de empacho à minha etérea via.
Oh! pasmo! aí vem o mar co’as mornas enseadas!
Que é isto, ó sol! quem faz que aos olhos meus te evadas?
Cansei-me eu de o seguir? Como? Por quê?
Reassumo
do querer força nova; hei-de alcançar-te, ó sumo
voador luminoso, eterno fugitivo,
fartar-me em ti de luz, vulcão perene-activo.
O dia me precede; a noite me acompanha;
por cima os céus; aos pés a undísona campanha.(Pausa)
Que aprazível sonhar! mas ah, que o sol no entanto
cada vez mais se aparta e me desfaz o encanto.
Nas sedes do infinito, ó alma, em vão te abrasas:
prende-te ao solo o corpo; o corpo não tem asas...
não tem, não pode ter. Mas todos, por instinto,
já sentiram por certo o mesmo que em mim sinto:
cobiças de transpor, anseios de subir.
Quando na madrugada em giros se vê ir
subindo pelo azul a esperta cotovia,
que, já sumida à vista, inda o seu canto envia;
quando as águias reaes, sobre os pinhais da serra
pairam lá pela altura; e sobre o mar e a terra
o grou retorna à pátria, ao ninho, aos seu amores...
quem não inveja a sorte àqueles voadores?WAGNER
Quimeras, também eu tenho sonhado;
mas dessa casta nunca. Isto de campos
depressa me enfastia; o ser alado
para quem gosta será bom, concedo,
mas eu não tenho inveja ao passaredo.
Tem lá comparação co’os gozos d’alma
do que anda a viajar de livro em livro
e de página em página! Há delícia
para alegrar no inverno as seroadas
como isto, que até dá calor aos membros?
Desenrolando um nobre pergaminho,
parece-me que a bem-aventurança
toda se embebe em mim.FAUSTO
Sim. Por enquanto
não aspiras a mais. Conheces uma
das duas sedes d’alma; o céu te livre
de sentires a outra.
Albergo dentro
dois espíritos, dois; forcejam ambos
por se fugir: - um deles, voluptuoso,
abraça a terra; os órgãos o segundam;
o arraigam nela; - o outro, desdenhando
este mundo, este pó, se evade em busca
das regiões que nossos pais habitam.
Ah! se entre o céu e a terra existem entes
dotados de poder, eia! aos meus rogos,
do doirado nevoeiro onde se ocultam
descendam presto!
Dessem-me uma capa
de tal condão, que, em me embarcando nela,
me visse por encanto em longes terras...
não a trocava por nenhumas galas,
nem por manto de rei.WAGNER
Tate! Não chame
por essa indigna cáfila de trasgos
que (toda a gente o sabe) andam sem termo
a remoinhar-nos pelos ares turvos
e a chover-nos a súbito desgraças.
- Os do norte com dentes navalhados
e lancetas por língua, a nós se atiram.
- Os do nascente secam-nos, consumem
o pulmão afanado. - Quando saltam
do deserto africano às nossas terras,
abrasam-nos. - Os d’oeste entram suaves,
mas para logo nos afogam tudo:
gados, campos, casais. Pérfidos todos,
alegram-se de ouvir nosso desejo
co’a mira sempre em convertê-lo em males;
folgam de nos servir para burlar-nos;
mensageiros do céu se nos inculcam,
e com doçura angélica nos mentem.
Mas, basta de passeio. Olhe que o dia
já se quer despedir lá do horizonte,
soltas as frias cãs; desce a cacimba.
Nesta hora é que é delícia o lar caseiro.
Não se demore!...
Que pasmar é esse?
que mira no crepúsculo?(Avista-se um grande cão preto, que vai fazendo todos os movimentos indicados no diálogo)
FAUSTO
Um cão preto!
Não vês como anda à doida a espolinhar-se?
agora pelo chão da sementeira,
logo sobre o restolho?WAGNER
Há muito o vejo.
mas isso que nos monta?FAUSTO
Observa, observa!
Que julgas tu que seja aquele bruto?WAGNER
Eu sei? algum cão d’água que perdesse
a peugada do dono, e ande, a seu modo,
naquele desatino a procurá-lo.FAUSTO
Vê-lo em torno de nós caracolando
de giro em giro, e cada vez mais perto?
Se a vista me não mente, vai deixando
rasto de lume após.WAGNER
O que eu só vejo
é um canzarrão preto. Isso é no mestre
alguma ilusão óptica.FAUSTO
Suspeito
que anda a armar-nos em roda imperceptíveis
mágicos laços com que os pés nos tolha.WAGNER
E eu entendo que a pobre da alimária
o que faz é saltar, medrosa e incerta,
por só nos ver a nós, em vez do dono,FAUSTO
O círculo se aperta; ei-lo conosco.
WAGNER
Então já vê se é cão, ou se é fantasma.
Ele grunhe, ele agacha-se de rojo,
abana a cauda... Nada disso é novo;
nunca vi cão que não fizesse o mesmo.FAUSTO (falando ao cão)
Boca, boca, vem cá!
WAGNER
Tem graça o perro.
Sempre gostei de um bruto desta casta:
- Se o dono pára, assenta-se; - falou-lhe,
salta-lhe doido em cima; - lambe e ladra;
- busca o perdido; - aboca da corrente
a bengala do amigo, e à mão lha torna.FAUSTO
Tens razão; sim, tudo isso é mero ensino,
que não entendimento.WAGNER
A cães tão mestres
não fica mal a um sábio o afeiçoar-se.
Este caiu-lhe em graça, e não me admira:
discípulo melhor não no há no mundo.(Entram pela porta da cidade.)
QUADRO IV
O anterior camarim de Fausto.
CENA I
FAUSTO, entrando pela porta do fundo, que deixa aberta, seguido de um grande cão d’água preto
FAUSTO
Lá deixei planície, prados,
tristemente sepultados
na mudez da noite escura.
A alma pura sobre a impura
já cá dentro predomina
com sutis pressentimentos;
calca a essência alta e divina
as terrenas sensações.
Oh! que insólitos momentos!Redimi-me das paixões,
que no âmago consomem
o melhor dos meus dois eus.
Só respiro afecto ao homem;
só respiro afecto a Deus.(Voltando-se para o cão, que anda desassossegado)
Pára aí, cão! Já basta de corridas.
Que fariscas à porta? Ali tens lume;
vai-te deitar ao pé! Toma, cachorro,
a almofada melhor que tenho em casa.(Atira-lhe para o pé do fogão a almofada de cima da cadeira em que se costuma sentar)
Já que lá no caminho da montanha
a correr e pular nos divertiste,
hei-de tratar-te bem, se o mereceres.(Senta-se à mesa, e espevita o candeeiro)
Aqui sim, no meu cantinho
vendo rir-me o candeeiro,
gozo o bem de estar sozinho,
e esquecer o mundo inteiro.N’esta mansa claridade
reamanhece o coração!
Dentro, há paz, serenidade;
raia luz, fala a razão;
refloresce a esp’rança amante;
e um saudoso instinto envida
em nosso ânimo anelante
o grão Ser, o Autor da vida.(Uiva o cão)
Não me uives, cão! Tapa essa boca, bruto!
Belo acompanhamento às harmonias
que vão dentro de mim! Costume é de homens
zombar do que transcende a sua esfera;
belo e bom muita vez os incomodam,
por isso rosnam; queres tu, cachorro,
fazer-te igual juiz? rosnar como eles?(Pausa)
Por demais é cansar-me. O júbilo celeste
foi-se, não volta mais. É força de desgraça,
oh minha alma sedenta, achar no ermo agreste
abundante matriz, entrar a encher a taça,
e cair, sem ter morto o ardor com que vieste!
Comigo é sempre assim. Paciência! O que inda val
como compensação, é esta ânsia inata
que nos ala o querer, do ínfimo escuro val,
às altas regiões, onde a alma se dilata,
em comunicação co’o sobrenatural.
Salve, ó revelação! Teu mais brilhante assento
é o Evangelho Santo, o Novo Testamento.
Cobiço perscrutar o texto primitivo,
e co’a maior lealdade, e o escrúpulo mais vivo,
transplantar, se puder, à locução materna,
à minha língua amada, a augusta frase eterna.(Abre a Bíblia no Evangelho de S. João)
No princípio era o Verbo. É esta a letra expressa;
aqui está... No sentido é que a razão tropeça.
Como hei-de progredir? há ’í quem tal me aclare?
O Verbo!! Mas o Verbo é coisa inacessível.
Se apurar a razão, talvez se me depare
para o lugar de Verbo um termo inteligível...Ponho isto: No princípio era o Senso... Cautela
nessa primeira linha; às vezes se atropela
a verdade e a razão co’a rapidez da pena;
pois o Senso faz tudo, e tudo cria e ordena?...
É melhor No princípio era a Potência... Nada!
Contra isto que pus interna voz me brada.
(Sempre a almejar por luz, e sempre escuridão!)
... Agora é que atinei: No princípio era a acção.(Voltando-se para o cão)
Entendamo-nos, cão. Se te agrada o meu quarto,
não me tornes a uivar, que já ’stou mais que farto.
Não tolero ao meu lado um atrapalhador.
Desempata: - eu ou tu! - Dei-te abrigo e calor;
sou o teu hospedeiro, e da hospitalidade
não quero as leis quebrar. Tens plena liberdade:
se te agrada sair, bem vês a porta aberta.(Vai-se o cão transformando, do modo que a fala indica)
Mas... que é isto que observo? Assim se desconcerta
das coisas o teor, o ser da natureza!
Sonho, ou velo?... O meu cão não tinha esta grandeza,
nem este corpanzil. E o súbito denodo
com que se ergueu de um pulo! Isto de todo em todo
não é já cão; os cães não tem esta figura.
Então, que génio mau, que horrenda diabrura
hospedei eu em casa? Ui! como vai crescendo!
Que hipopótamo é este! Horrendo vulto, horrendo!
Vibra chamas do olhar! ameaça co’a dentuça!...
Teu diabólico ser debalde se rebuça;
apanhei-te. Ora espera; e tu verás se o signo
do grande Salomão contra o poder maligno
de vós, relé do inferno, essências vis e imundas,
te não vai atirar de súbito às profundas.ESPÍRITOS MAUS (no corredor)
Um de nós lá caiu na esparrela.
Companheiros, cautela, cautela,
não entreis em tal casa. Podemos
cá de fora observar; observemos.
E era um lince do inferno, o coitado
que lá jaz na armadilha atrusado
a tremer como um triste raposo.Sus, escravos do perro tinhoso,
vogai para cá!
vogai para lá!Acima e abaixo!
Com isso faredes
que o sócio oprimido
se livre do empacho
das magicas redes.
À obra! Sentido!
Sois-lhes todos devedores
de favores.
De os pagar é vinda a hora.
Ponde-o fora
da prisão que o desalenta.
Leva! Gira! Aferventa! Aferventa!FAUSTO (abrindo um vade-mecum de magia)
Atiro-me ao bruto; primeiro, co’a fórmula
dos quatro chamada:«Arda a Salamandra! Retorça-se a Ondina!
«Esvaia-se o Silfo! Da terra na mina
vá Gnomo lidar!»
(Quem não soubesse a fundo os elementos,
o seu poder, as suas qualidades,
por nenhum modo punha leis a génios.)(Torna-se ao livro)
«Tu, se és Salamandra, salta flamejante!
«Se Ondina, difunde-te em vaga espumante!
«Se és Silfo, em meteoro te exala brilhante!
«Íncubo, Íncubo! acode! Protege a vivenda!
«Sai do chão, sai! Acabe tão longa contenda!»
Nenhum dos quatro é nele; está bem visto.
Nem se ergue, nem se move; olha-me fito,
imóvel que nem órbitas de crânio.
Inda lhe não fiz mossa. Em vão persiste;
a est’outra imprecação não me resiste:(Voltando ao livro)
És tu do inferno prófugo,
bruto animal?
Então, encara, pícaro,
este sinal
que espanta as negras cáfilas
do antro infernal!(Continua o bicho a inchar, esconde-se atrás do fogão; cresce até o tamanho de elefante; vai-se ainda desenvolvendo cada vez mais.)
Oh! que balofo inchar! que pelos hirtos!
Podes tu ler, maldito, o ente incriado,
o inefável, o que enche a imensidade,
o que expirou na cruz alanceado,
e redimiu da culpa a humanidade?Olha aquilo! Emprazado atrás do lume,
cresce, intufa-se; é vulto de elefante.
Mais? enche tudo; em breves audiências,
vêl-o-eis desfeito em névoa.(Ao bicho)
Não me esbarres
pela abóbada! Aqui! Aqui! Lançar-te
já já aos pés do Mestre! Toma tento,
que eu não ameaço em vão; bem o tens visto.
Tisno-te ao fogo sacro; não te exponhas
ao corisco trisulco! não provoques
das artes em que excedo a mais terrível!
CENA II
FAUSTO, e MEFISTÓFELES, que, dissipada a névoa, sai de trás do fogão, em trajo de estudante em jornada
MEFISTÓFELES
Que berreiro, Senhor! às suas ordens.
FAUSTO
O recheio do cão cifrou-se nisto!
Um viandante escolar! faz rir, faz.MEFISTÓFELES
Salve,
luzeiro do saber! Fez-me, confesso,
suar a bom suar.FAUSTO
Como te chamas?
MEFISTÓFELES
Ridícula pergunta para um sábio
que timbra tanto em desprezar palavras,
não pode ver sem tédio as aparências,
e só aspira ao âmago das coisas.FAUSTO
Dos entes como tu saber-se o nome
(Blasfemo, Tentador, Pai da Mentira)
é para logo conhecer-lhe as manhas.
Quem és pois?MEFISTÓFELES
Quem eu sou? Parte da força,
que, empenhada no mal, o bem promove.FAUSTO
Não te percebo o enigma.
MEFISTÓFELES
Sou o espírito
que estorva sempre. E com razão, pois tudo
quanto nasceu merece aniquilado;
portanto era melhor não ter nascido.
Meu elemento é o que chamais vós outros
Destruição, Pecado, o Mal, em suma.FAUSTO
Dizes que és parte, e eu vejo-te completo!
MEFISTÓFELES
Falo verdade chã. Retro bazófias!
Cada homem (microcosmo de loucuras)
imagina-se um todo; e eu sou, confesso,
parte da parte que era tudo in ovo;
parte da treva, mãe da luz, sim dessa
vaidosa luz, que à sua mãe pleiteia
foros de universal; por mais que o tente
não lhos há-de usurpar; quem lhe deu posses
para mais que abraçar as superfícies?
penetra num só corpo? (e inumeráveis
são eles) só os tinge e aformosenta;
e o mais pequeno em seu correr a embarga.
Deixál-a; tenho fé que cedo acabe;
se perece a matéria, está perdida.FAUSTO
Já sei o que és, e qual teu nobre empenho.
Como não podes destruir o todo,
pões-te a tomar desforra em ninharias.MEFISTÓFELES
Consigo pouco, é certo. O oposto ao Nada,
o Que quer que é que existe, o mundo bronco,
por mais que em vulnerá-lo me desvele,
fica-me sempre ileso. Em vão lhe arrojo
ondas, procelas, fogos, terremotos;
ao cabo, terra e mar ficam serenos.
Pois a relé nojosa, a corja humana!
Não há meter-lhe dente. Ando, há que tempos,
a matar neles, sem parar na faina,
e a espécie a medrar sempre em sangue, em forças.
É para endoidecer! De ar, água, e terra,
do quente e frio, do húmido e do seco
mil germes brotam... Se não pilho o fogo,
ficava-me sem nada.FAUSTO
E opões à força
eterno-activa, criadora, amante.
pobre demónio, o punho teu fechado!
Busca outro ofício, aborto vil de caos.MEFISTÓFELES
Pensarei nisso, e falaremos. Posso
ir-me embora; pois não?FAUSTO
Pedes-me vénia!
Não te percebo. És livre. Mas, agora
que já sei quem tu és, outorga franca
para me vires ver, quando quiseres.
Aí tens a janela, aqui a porta,
e além a chaminé, que se não fecha.MEFISTÓFELES
Bom; mas para sair, força é dizê-lo,
acho um certo empecilho: e é ver pintado
no limiar um pé de feiticeira.FAUSTO
Tens medo ao pentagrama! Essa é bonita!
E quando entraste, diabão do inferno,
emandingou-te acaso? Um génio desses
deixa-se assim lograr?MEFISTÓFELES
Repare o sábio!
Aquele pentagrama está mal feito.
O ângulo que aponta para a rua
não fechou bem.FAUSTO
Ditoso acaso. Temos
portanto que estás preso, e eu sou teu dono.
Foi o tal bico-aberto uma fortuna.MEFISTÓFELES
O cão vinha a correr; não viu a coisa.
Agora é que reparo no busílis.
Não há sair; não há.FAUSTO
Pela janela.
MEFISTÓFELES
É uma lei de espectros e demónios:
sai-se por onde se entra; à entrada livres,
forçados no sair.FAUSTO
Regulamentos
até no inferno! Bravo! Então convosco
também, senhores meus, pode haver pactos?MEFISTÓFELES
Mau é nós prometermos; que faltar-vos
nenhum de nós vos falta; é pagamento
rés-vés; nem meio chavo se lhe sisa.
... Essas explicações são contos largos;
ficam para outra vez. Agora, peço
co’a maior ânsia, deixe-me ir embora!FAUSTO
Mais um instante: lê-me a buena-dicha!
MEFISTÓFELES
Basta de me emprazar. Solte-me e breve
há-de tornar-me a ver então prometo
satisfazer-lhe em cheio as veleidades.FAUSTO
Não te armei laço algum. Se estás na rede,
foi por teu alvedrio. Asno me julgas
que havendo às mãos o demo, o lance a monte,
e que fique boca aberta a ver se torna?MEFISTÓFELES
Mui bem. Se leva em gosto a convivência,
também eu; já não parto. O que lhe ponho
por condição, é que há-de permitir-me
entretê-lo tão só co’as minhas artes.
É nobre passatempo,FAUSTO
Assino, pondo
por condição também, que essas tais artes
me possam divertir.MEFISTÓFELES
Dou-lhe a certeza,
caro amigo e senhor. Vai regalar-se
numa só hora mais que em todo um ano
do seu viver monótono. Os cantares
que se hão-de ouvir a espíritos mimosos,
e as imagens formosas, sedutoras,
que esse coro gentil virá mostrando,
será tudo real, que não prestígios
de nenhuma arte oculta enganadora.
Haverá para o olfacto almas delícias.
Depois para o paladar tão finos gostos
como nunca os provou. Depois volúpias
até às fibras íntimas. À obra!
Tudo é prestes.
Espíritos potentes!
Podeis principiar. Eis-nos presentes.
CENA III
OS MESMOS. Sai do corredor um bando de ESPÍRITOS, cantando
ESPÍRITOS
(Ao som dos seguintes cânticos, Fausto, que se havia sentado na sua cadeira, vai a pouco e pouco descaindo no sono)
Some-te, abóbada
torva e sombria!
Éter cerúleo,
verte a alegria
neste lugar!
As nuvens sumam-se!
Brilhar, cardumes
dos sois noctívagos!
Suaves lumes,
brilhar! brilhar!
Lindezas célicas,
cercai este homem
com danças lânguidas
que todo o tomem
de almo langor.Co’as vossas túnicas,
lindezas puras,
velai no tácito
das espessuras,
ninhos de amor,
onde, abraçando-se
amantes pares,
mil votos férvidos
mandem aos ares
de amar sem fim.
Como prolíficas
da flor vem flores,
do amor delícias,
- destas amores
brotem assim.
Sus, cachos túrgidos!
Presto aos lagares,
espúmeas púrpuras,
que entre dançares
à luz brotais!
Correi quais Ródanos,
fulgi quais lagos,
espelhos trémulos,
dos cumes vagos,
nus de vinhais!
E vós, ó pássaros,
que irrequietos
sempre andais sôfregos
de haurir afectos,
luz e prazer;
eia, aos céus rútilos
das madrugadas!
Voai às ínsulas
afortunadas,
onde há viver,
torrões fluctívagos
respira em cânticos
de noite e dia,
e onde sem véus
o amor e o júbilo
de mil dançantes,
de horas suavíssimas
fazendo instantes,
relembram céus.
Vão, espairecem-se
pelos oiteiros,
por vales flóridos,
ou nos ribeiros
retoiçam nus.
Vários e unânimes
cada qual mira
a estrela próspera
por quem suspira,
e que o seduz.MEFISTÓFELES
Adormeceu. Bem haja a criançada aérea,
que assim mo acalentou!(Apontando para Fausto)
Inda homem não és, vil filho da matéria,
para reteres preso um génio como eu sou.(Dirige-se aos Espíritos)
De visões mágicas
povoai-lhe os sonhos,
fáceis, risonhos
filhos do ar!
Adormecestes-mo.
Dure profundo
o seu jucundo
feliz sonhar.(Saem os Espíritos.)
CENA IV
MEFISTÓFELES, FAUSTO adormecido, depois uma ratazana
MEFISTÓFELES
Agora toca a ver se desfazemos
o encalhe da soleira. Quem nos dera
dente de rato aqui!... Pedi-lo e tê-lo,
tudo foi um; já lhe oiço a roedura;
não tarda uma unha negra. Esconjuremo-lo!
«O Senhor dos ratos, murganhos e moscas,
«das rãs, percevejos e mais sevandijas,
«ordena que roas as figuras toscas,
«que ele unta de azeite nestas pedras rijas.(Sai do buraco uma ratazana, e chega-se à soleira da porta do fundo)
Saiu do buraco; já chega à soleira.
Brio, ratazana, que a obra é só tua!
Rapa do triângulo a ponta cimeira
do degrau na aresta que dá para a rua!Ali é que o pé do diabo esbarrou.
Mais dois raspõesinhos, e acabas, meu filho.
... Zan... zan...Belamente. Mil graças te dou.
Podes-te ir embora; desfez-se o empecilho.(Volta o rato para o buraco)
Sonha, Fausto, sonha, que eu salto a soleira.
Fica-te, meu sábio, e até à primeira.
CENA V
FAUSTO, acordando
Olé, já outra! pois não seria
tudo isto, e os génios que eu via e ouvia,
mais do que abortos da fantasia?
e o que eu supunha demónio astuto
não passaria de um mero bruto?
QUADRO V
O mesmo camarim de Fausto
CENA I
FAUSTO, depois MEFISTÓFELES, trajado como ele mesmo indica no diálogo. Batem.
FAUSTO
Bateram. Entre! Quem virá moer-me?
MEFISTÓFELES (de fora)
Sou eu.
FAUSTO
Entre!
MEFISTÓFELES
Repita-mo três vezes!
FAUSTO
Pois pela vez terceira, entre!
MEFISTÓFELES (entrando)
Ora graças!
Voltei ou não voltei?
Manos a l’obra!
Toca a deitar cá fora. Eu já no intuito
de lhe furtar a mente a hipocondrias,
aqui venho, entrajado à fidalguinha:
- corpete carmesim bordado de oiro,
- capa de gorgorão, gorra enfeitada
com sua pena de galo,- e o coruscante
chanfalho à cinta. Não percamos tempo.
Vestir como eu, e andar! Livre dos cepos,
verá o que é viver.FAUSTO
Mudar de pele
não muda interior. Com quaisquer trapos
há-de ir comigo o meu viver terrestre.
Já sou velho de mais para brinquedos,
e para descartar-me de cobiças
inda muito rapaz. Que há nesse mundo
que me possa atrair? Priva-te! Abstém-te!
Eis o eterno refrão com que nos quebram
o bichinho do ouvido a toda a hora.
De manhã, quando acordo, é sempre aflito
e ansioso de chorar, pela certeza
de que o dia que enceto é, como os outros,
incapaz de cumprir-me um só desejo,
nem um só. Pois se eu sei que a expectativa
do mínimo prazer já chega eivada
de sua improbação, e cada almejo
do meu férvido sangue há-de ir gelar-se
ante as carrancas do viver prosaico!
À noite é-me forçoso entrar num leito
onde já sei me aguarda o labirinto
da turbulenta insónia, e, se olhos cerro,
medonho pesadelo! O Deus que me enche
rege-me a seu talante, influi, domina
té o âmago mais fundo o meu composto.E tamanha potência nada pode
fora de mim nos mínimos objectos!
Dura carga é viver! quem dera a morte!MEFISTÓFELES (ironicamente)
Devagar, devagar! Hóspeda é essa
que dispensa convite e zanga a todos.FAUSTO
- Feliz o herói que, na embriaguez da glória,
no instante mesmo em que lhe pega os loiros
com sangue hostil nas fontes a vitória,
cai fulminado ao silvo dos peloiros!
- Feliz o amante que depois do enleio
de louca dança, e no auge do delírio,
súbito expira no adorado seio,
e antes da morte vislumbrou o Empíreo!
- E feliz eu, se quando, face a face,
logrei tratar com génio alto e possante,
nesse extra-vida glorioso instante
morte improvisa os dias meus soprasse!MEFISTÓFELES (ironicamente)
Assim será; mas certo sujeitinho,
certa noite que eu sei, não teve a força
de tragar certo líquido.FAUSTO
Já vejo
que também gostas de espiar.MEFISTÓFELES
Não digo
que tudo sei, mas sei que farte.FAUSTO
E ignoras
o porque eu não bebi? Foi porque a ponto
uns conhecidos sons, ecos da infância,
me arrancaram do horrendo labirinto
por onde eu tumultuava, e me puseram
nos meus primeiros, meus saudosos dias!...
e era tudo fantástico!
Mal haja quanto humano artifício enleia as almas,
e com suaves forças lisonjeiras
na mundanal caverna as traz cativas.
- Maldita a presunção, que ilude ao homem.
- Malditas as miragens, que nos cegam.
- Maldita a glória vã.- Maldito o sonho
dos póstumos laureis. - Maldito o gozo
do possuir: de ter esposa, filhos,
servos, campos ubérrimos. - Maldito
o Mamon, que envidando-nos seu oiro,
ora nos lança às íngremes façanhas,
ora (e só para uns frívolos recreios)
por cima dos deveres nos afofa
preguiceiros coxins. - Maldita a vinha
co’o seu néctar balsâmico - Maldita
essa das graças graça, amor chamada.
- Maldito o esperar sempre. - A fé maldita.
- Maldita sobre tudo a paciência!CORO DE ESPÍRITOS (invisíveis)
Ai ai! desta feita deixaste arrasado
c’oa força do murro tão lindo universo;
já tudo em ruínas desaba disperso.
Já é! Ver um homem com Deus comparado!Andar, companheiros, levar por ’í fora,
para os sumidoiros do vácuo sem fundo,
os cacos e entulhos da fábrica mundo.
Pasmava-se dela; choremo-la agora.Sus, filho do barro, sus, sus, potentado!
Em troca do mundo, que já destruiste,
extrai de ti outro, melhor, menos triste!
Profere o teu Fiat, e logo é criado!Vida nova, clara vida,
corra limpa de mistérios!
Encha os âmbitos etéreos
o cantar do teu Edén!Ao factor do novo mundo
fama em cânticos florida
alce em coro adorando
glória, glória, glória, Amen!MEFISTÓFELES
Aí tem no que os meus pajens lhe cantaram
regras do bom viver; de mais acerto
nem conselheiros velhos as dariam.
Aproveite a lição! Torne-se ao mundo!
Fuja do viver só, que estagna a mente,
os sentidos embota, e mole-mole
chucha os sucos vitais. Mau passatempo
é esse de cevar melancolia,
feros abutres d’alma. Em sociedade,
por mui ruim que seja, ao menos sente-se
com homens homem. Não direi que desça
a conviver co’a sórdida gentalha.
Figurão não sou eu; mas se lhe serve
comigo acompanhar na aventureira
jornada deste mundo, pronto e às ordens!
Aqui tem um criado, um companheiro,
um pau mandado, o mais pontual dos servos.FAUSTO
E eu que te hei-de pagar?
MEFISTÓFELES
Depois veremos;
não é coisa de pressa.FAUSTO
Ai, nada, nada,
que eu sei de cor as manhas dos diabos:
não dão ponto sem nó. Venha o primeiro
que pelo amor de Deus a alguém servisse.
Vamos às condições: propõe-nas franco.
No tomar um tal servo há seus perigos.MEFISTÓFELES
Obrigo-me a servi-lo em tudo e à risca
enquanto vivo for, e obedecer-lhe
aos acenos até, sem cansar nunca.
Depois, quando lá em baixo nos toparmos
trocamos os papéis.FAUSTO
Pouco me afreimo
do teu depois, e mais do teu lá em baixo!
Escavaca este mundo, e engendra um novo,
que se me dá, se é deste que deriva
tudo que me contenta, e o sol que doira
os meus males é este? Em se acabando
mundo e sol para mim, saia o que saia;
e não há mais dizer. Que me interessa
que lá se odeie ou se ame? haja ou não haja
um abaixo e um acima?MEFISTÓFELES
Então já pode
no pacto conchavar-se. O que eu lhe afirmo
é que estes dias que passarmos juntos
lhe hão-de por minhas artes dar tais gostos
quais os não teve alguém.FAUSTO
Pobre diabo,
que hás-de tu dar-me? O espírito de um homem
como eu sou, foi jamais compreensível
aos da tua relé? Tens iguarias
que não matam a fome; oiro que fulge,
mas que igual ao mercúrio, escapa aos dedos;
jogo em que é certa a perda; uma beldade
que até nos braços meus soltando arrulhos,
já está piscando o olho ao meu vizinho;
pompas de glória, um fumo!
O que eu preciso,
se o tens, são frutos a pender de copa
sempre frondosa, e que antes de apanhados
não tenham já por dentro o podre e os vermes.MEFISTÓFELES
Bem; tudo isso há-de ter; conte comigo
Desde agora, amiguinho, à rédea solta.
Folgar e mais folgar! Leva de escrúpulos!
Tudo quanto bem sabe, é permitido.FAUSTO
Se eu me acosto jamais em fofa cama,
contente e em paz, que nesse instante eu morra!
Se uma só vez com falsas louvaminhas
chegares por tal arte a alucinar-me
que eu me agrade a mim próprio; se valeres
a cativar-me com deleites frívolos,
súbito a luz da vida se me apague.
Vá! queres apostar?MEFISTÓFELES
Se quero! Aposto.
FAUSTO
Aperto mais: Se me chegar momento
a que eu diga: «Demora-te! És formoso»
então aos teus grilhões entrego os pulsos;
então a morte aceito; os sinos dobrem;
já livre estás de mim. Dessa hora avante,
quede o relógio! Caiam-lhe os ponteiros!
Acabou-se-me o tempo.MEFISTÓFELES
Olhe o que afirma,
que entre nós outros nada esquece.FAUSTO
Embora!
Não me obriguei de leve. O que eu padeço
não é escravidão? Ser logo servo
de outro ou de ti, que monta?MEFISTÓFELES
Às suas ordens,
desde já. Tem a nata dos serventes
para este bródio de barrete fora,
meu querido Doutor!
Mais uma nica.
Há morrer e viver. É bom primeiro
pôr o preto no branco: um tudo-nada;
duas regritas só.FAUSTO
Que é! Papeladas
até no inferno, rábula! Bem mostras
entender pouco do que seja um homem.
Não vai librado o meu destino inteiro
na palavra que dou? Sendo o universo
um turbilhão perene, achas que possam
quatro letras de borra agrilhoar-me?
(E é geral todavia o preconceito)
Feliz o que tem fé: não se aventura
a coisas em que é tarde o arrepender-se.
De pôr num pergaminho uns papa-ratos,
e assiná-lo, é que todos estremecem,
por entenderem... que a palavra humana
que na pena é já morta, assume vida
se a uma pele defunta a incorporaram.
Vá! Que exiges, espírito danado?
pergaminho? papel? mármore? bronze?
letra de pena, de buril, de escopro?
Escolhe!MEFISTÓFELES
Ih! que facúndia, e que fogachos
sem quê nem para quê! Basta um farrapo
de papel fino ou grosso, e uma gotinha
do sangue próprio, com que assigne em baixo.FAUSTO
Se nessas pataratas fazes luxo,
vá lá!(Arregaça o braço esquerdo; Mefistófeles pica-lhe a veia; Fausto molha no sangue a pena, e assina com ela o pergaminho que Mefistófeles lhe apresenta.)
MEFISTÓFELES
Isto do sangue é burundanga
que tem seu quê.FAUSTO
Não te violo a avença;
não tenhas medo. As minhas posses todas,
já daqui tas obrigo. Inchei de modo
que só posso caber na tua esfera.
O Factor Sumo pôs-me em bando. Encontro
cancelos a vedar-me a natureza.
O fio do pensar quebrou-se. Há muito
que de todo o saber vivo enjoado.
Deixar-me ora engolfar em vosso abismo,
deleites sensuais, paixões fogosas!
Rompam já ’í portentos e portentos,
qual a qual mais possante a enfeitiçar-me!
Mergulhemos no vórtice dos tempos,
no encapelado mar das aventuras.
Sigam-se embora, como queiram, dores
a deleites, ou júbilos a mágoas.
Tudo, menos a inércia, o mal dos males,
o que mais vexa a dignidade humana.MEFISTÓFELES
Não ponho restrições; peça por boca!
Se as primícias quiser libar de tudo,
de qualquer coisa (por fugaz que seja)
se quiser na voadura apoderar-se,
não faça cerimónia; e que lhe preste!FAUSTO
Entendamo-nos bem. Não ponho eu mira
na posse do que o mundo alcunha gozos.
O que preciso e quero, é atordoar-me.
Quero a embriaguez de incomportáveis dores,
a volúpia do ódio, o arroubamento
das sumas aflições. Estou curado
das sedes do saber; de ora em diante
às dores todas escancaro est’alma.
As sensações da espécie humana em peso,
quero-as eu dentro em mim; seus bens, seus males
mais atrozes, mais íntimos, se entranhem
aqui onde à vontade a mente minha
os abrace, os tacteie; assim me torno
eu próprio a humanidade; e se ela ao cabo
perdida for, me perderei com ela.MEFISTÓFELES
Pode crer (há muitos mil janeiros
que eu ando a roer nisto), inda não houve
homem nenhum que desde o berço à cova
lograsse digerir esse fermento.
O complexo do mundo (e pode crê-lo,
pois lho afirma um diabo) é incompreensível
a todos salvo a Deus. Só ele brilha
na luz perpétua; a nós enclausurou-nos
nas trevas sem limite; e a vós, aos homens,
alterna dia e noite.FAUSTO
E eu quero.
MEFISTÓFELES
Entendo.
O mau é que a arte é longa, e a vida breve.
Dou que não leva a mal uma lembrança.
Tome por sócio um vate, e dê-lhe largas.
Deixe-o campear nos páramos dos sonhos,
até ao ponto de ajuntar às prendas
do meu caro Doutor os dons mais nobres:
valor leonino, rapidez de cervo,
estro d'Itália, madurez do Norte.Deixe-o ver se, por artes de berliques,
o faz a par magnânimo e velhaco;
se lhe improvisa uns férvidos amores
como os tinha em rapaz, e juntamente
segundo o plano dele arrazoados!
Figurão tal, quem dera vê-lo! Eu curvo
chamava-o logo - «Senhor Dom Mundinho!»FAUSTO
Mas então eu que sou, se me é defeso
ao ápice aspirar da humanidade,
alvo constante de meus crus anseios?MEFISTÓFELES
É...? o que é... e acabou-se. Erga o toitiço
emperrucado com milhões de crespos,
ponha salto em tacões maior de vara,
que não cresce uma aresta.FAUSTO
Em mal, que é certo.
Quanta ciência em mente de homem cabe
toda em balde juntei; por mais que explore,
força nenhuma se criou cá dentro;
não cresci a grossura de um cabelo,
e em nada do infinito estou mais perto.MEFISTÓFELES
Senhor meu! Ver as coisas desse modo
é vê-las como o vulgo. A nós compete
pensar com mais juízo, enquanto há vida
para se desfrutar. Eu t’arrenego!
Se tem por coisa sua os pés, os braços,
cabeça, et cœt’ra... ao mais de que se apossa
porque o não tem por seu? Merco seis urcos,
de seis urcos a força ajunto à minha.
Levo-me pelo ar, porque possuo
mais vinte e quatro pés. Fora tontices!
Vamos por esse mundo. O que lhe eu digo
é que um palerma que esperdiça o tempo
em perpétuo hesitar, é como besta
levada pela beiça à roda, à roda,
por mão de um trasgo em árida charneca
insulada entre flóridos pastios.FAUSTO
E onde nos vamos?
MEFISTÓFELES
Vamo-nos primeiro
pôr já já daqui fora, que em tal sítio
só mártires. E chama-se isto vida!
uma eterna moedeira dos rapazes
e de si próprio! Deixe-me esse inferno
ao seu vizinho Pança! Há quantos anos
anda aí como o boi no calcadoiro!
e inda assim o mais fino do que sabe
não lhe é dado ensiná-lo aos estudantes.
.................................
Passos no corredor... Algum que chega.FAUSTO
Não me é possível recebê-lo agora.
MEFISTÓFELES
Coitado! Estar à espera há tanto tempo,
e ao cabo... Não consinto. Eu lho recebo.
Faça favor, empreste-me a batina,
mais o barrete.(Fausto despe o trajo de Doutor, e Mefistófeles atavia-se com ele)
Cáspite! Que estampa!
que vera efígies de Doutor chapado!
Deixe por minha conta o mais da festa.
Dê-me este quarto de hora; e vá no entanto
para a nossa viajata aperceber-se.(Fausto vai-se pela porta da esquerda para o corredor.)
CENA II
MEFISTÓFELES (só)
(Voltado para a porta por onde saiu Fausto)Descarta-te do siso e da ciência,
máximas forças do homem! Crê somente
nas ficções dos espíritos falazes,
e és meu sem redenção! Deu-te o destino
alma que, desdenhando os bens do mundo,
só aspira vaidosa a bens sem termo.
Com este posso eu bem. Voto arrastá-lo
por quanto há ’í de frioleiras chilras
ao mais bruto viver. Já o estou vendo
escabujar de raiva, inteiriçar-se
aferrado à matéria. À boca, aos olhos,
(quando o vir mais sedento e mais faminto)
hei-de-me regalar de negacear-lhe
fartos manjares, rescendentes vinhos.
Dar-se ao diabo este asneirão foi luxo,
que ele ia ao fundo pelo próprio peso.
CENA III*
O MESMO, e UM RAPAZOLA, simplório e acanhadíssimo.
RAPAZOLA
Eu vim há pouco tempo. Desejava
falar, podendo ser, a um grande sábio
que diz que mora aqui.MEFISTÓFELES
Muito obrigado
por tanta cortesia. Encontra um homem
como todos os mais. Já viu a terra?RAPAZOLA
O meu empenho todo é que me tome,
Senhor Doutor, à sua conta. Eu venho
co’as melhores tenções; dinheiro, trago
quanto me baste; e sou rapaz sadio,
bem vê. Lá a mãezinha, essa, coitada,
é que lhe custou muito eu vir-me embora.
Mas eu, sim, eu... percebe-me? trazia
na ideia outra tineta: era uma ânsia
de vir para a cidade, e aprender tudo...
como o outro que diz...MEFISTÓFELES
Pois, meu menino,
sou por dizer-lhe que acertou co’a a porta.RAPAZOLA (depois de ter estado a considerar mudamente no aspecto da casa; e mudando para o tom de aborrido)
Falo a verdade. Quem me dera ver
já bem longe daqui! Estas paredes,
estes tectos arcados, aborrecem-me.
Faltam-me o espaço e o ar; nem folha verde,
nem árvore descubro. Em me sentando
no banco duro de uma sala destas,
já não vejo, não oiço, e nada entendo.MEFISTÓFELES
Tudo vai do costume. Um pequenito
recém-nascido esquiva-se da mama,
depois já busca o bico, e chuchurreia.
Aplico el cuento: as tetas da ciência
vão sabendo melhor dia a dia.RAPAZOLA
Quem já me dera pendurado nelas!
Mas se eu não sei trepar!MEFISTÓFELES (sentando-se doutoralmente na cadeira de Fausto, e deixando o rapaz em pé)
Vamos por partes.
Que faculdade elege?RAPAZOLA
Eu sei! queria
tornar-me sabichão de maço e mona.
Queria compreender a natureza
e abarcar a ciência; o que se avista
na terra, e o que há no céu.MEFISTÓFELES (que em todo o diálogo vai, de vez em quando, tabaqueando o caso, de uma grande caixa, que tirou do bolso, e pôs em cima da mesa)
E deu co’a estrada.
O tudo está em conservar o acúmen
da aplicação científica, evitando
pestes scientiæ as distracções.RAPAZOLA
Percebo.
E essa gana trago eu. Só lembro o gosto
que eu teria, aos domingos de bom tempo,
em saltar por ’í fora.MEFISTÓFELES
Foge a vida
more fluentis aquæ. Necessário
se faz logo com regra aproveitá-la.
Siga, amiguinho, siga o meu conselho,
que não se há-de dar mal.(Levanta-se)
E antes de tudo
muito colegium logicum; por ele
é que um novato aprende a enfiar justinho
os pés da mente em botas à espanhola,
que assim é que é seguir, sereno e cauto,
pé ante pé, a via das ciências,
em vez de andar pulando a um lado e a outro,
qual fogo fátuo em chão de cemitério.
Depois, levam-se meses a ensinar-lhe
o que antes de ensinado é já sabido,
como o comer, como o beber, et cœtera;
Naturæ donam, sapiência infusa,
mas vulgar, mas sem brilho e sem relevo.
Acode um sábio; espostejou-se a coisa:
«Um, dois, três.» Sim senhor, é o que lhe digo.
A alma, que de ideias nos faz teias,
é como o tecelão, quando se esmera
em obra de examina: a cada piso
que ele na apianha dá, mil fios move;
voa, indo e vindo a lisa lançadeira;
no ordume a trama às cegas se entretece;
um golpe só fez tudo.
Ora o filósofo
bate a pata do espírito, e provou-nos
que o que é, devia ser; sendo o primeiro
isto, e aquilo o segundo, é consequência
ser o terceiro assim, e o quarto assado.
É corolário pois, que suprimidos
o primeiro e o segundo, era impossível
que existissem jamais terceiro e quarto
«Bela demonstração!» proclama à uma
a escola toda... mas nem meio ouvinte
nos saiu tecelão.
Pretende um sábio
conhecer e pintar qualquer vivente:
lança-lhe a garra e avia-o. Tem sem dúvida
todas as partes dele. O que lhe falta?
Unicamente o seu vivaz liame:
Encheiresin naturæ o chama a química.
Zomba de si, sem perceber que zomba.RAPAZOLA
A modo que não pesco.
MEFISTÓFELES
Em pouco tempo
há-de entender melhor, quando já saiba
reduzir e classar.RAPAZOLA
Faz-me tudo isto
confusão tal, que sinto, me parece,
galgas de azenha a andar-me no miolo.MEFISTÓFELES
Logo depois, tratar da metafísica.
Com ela buscará sondar a fundo
o que no humano cérebro não cabe;
mas ou lá caiba ou não, nunca nos falta
para uma pressa um termo altissonante.
Agora, estes seis meses mais chegados,
há-de ir empregando em costumar-se
a ser em tudo tudo arranjinho.
Cada dia cinco horas para a aula,
entrando sempre ao toque da sineta;
a lição bem de cor, trinchada em párrafos.
Disto saca um proveito: é ficar certo
de que o seu mestre não falseia o livro,
nem lhe acrescenta um jota. Não obstante,
desunhe-se a escrever na caderneta
quanto ele proferir como ditado
pelo Espírito Santo.RAPAZOLA
Entendo à légua;
e é muito bom conselho. Uma pessoa,
levando para casa a coisa escrita,
vai até mais segura e mais contente.MEFISTÓFELES (tornando a sentar-se)
Mas torno a perguntar; que ciência elege?
RAPAZOLA (depois de ter estado a cuidar entre si)
Lá da jurisprudência Deus me livre.
MEFISTÓFELES
E acho que tem razão. Não sei que exista
faculdade mais chocha. Herdam-se e testam-se
leis e direitos, tais e quais se coam
de bisavós a avós, de pais a filhos
o sangue eivado, a tísica, as alporcas.
Não há mudar, não há progresso: aviso
chama-se parvulez; o benefício
degenera em trabalho. És descendente
de Fuão? mal por ti: do teu direito
real e inato, é que o Pretor não cura.RAPAZOLA
O teiró que eu já tinha a tal ciência
tresdobrou desta feita.(À parte)
Isto é que é mestre.
Que achadão! que fortuna!(Alto)
E a teologia?
Talvez que...MEFISTÓFELES
De enganá-lo é que eu não gosto.
Na teologia há mil caminhos falsos
difíceis de evitar; há mil peçonhas
tão ruins, que estremá-las de remédios
é quantas vezes foro de impossíveis.
Também nesta ciência, o mais seguro
é não pensar por si, mas jurar sempre
na palavra do mestre. Em suma, os textos
boias são que, em se a elas aferrando,
nunca um bom nadador se vai ao fundo.RAPAZOLA
Mas as palavras devem ter sentido.
MEFISTÓFELES
Deverão, deverão; mas não é caso
para tanto ralar, porque onde falta
ideia que se intenda, acode um texto
que vem de molde, e calafeta o rombo.
O palavrório é tudo. Com palavras
se esgrime, contra ou pró, nas magnas teses.
Com palavras arranja-se um sistema.
As palavras tem fé. De uma palavra
não se cerceia um til.RAPAZOLA
Eu bem conheço
que tanto perguntar é de importuno;
mas gostava de ouvir-lhe um poucochinho
sobre a ciência médica.MEFISTÓFELES
Esse estudo
leva três anos só; que são três anos
para um campo tão vasto? em se apontando
a boca de um caminho, é como um gamo:
correr e mais correr.(À parte)
Leva de embófias!
Vou falar chão, como a diabo cumpre.(Alto)
O essencial da medicina é fácil.
Lê por dentro e por fora o mundo e o homem,
e afinal vê sair-lhe cada coisa
conforme aprouve a Deus. Esbaforis-vos
num corropio à roda da ciência,
e cada qual por fim... pilha o que pilha.
Saber aproveitar as circunstâncias
é que cifra o saber. Pois bem! Figura
não lhe falta, e suponho-lhe ousadia.
Que mais quer? fie em si; verá se os outros
se não fiam também.
Co’o mulherio
é que mais se precisa habilidade.
Os seus ai-ais e ui-uis, perene tema
de eternas variações, curam-se todos
co’a mesmíssima droga. Ao que bem sabe
ser magano à socapa, inda a primeira
há-de vir que resista; é que um sujeito
com Carta de Doutor merece crédito,
e a arte que ele pratica excede a todas.
Anos empata um suplicante avulso
em vencer nicas; um Doutor fez tudo
no primeiro rompante: pede o pulso,
dão-lho logo; tacteia-o brandamente,
regala-se a estudá-lo, e vai no entanto
co’o meigo olhar incendiando a linda;
depois, sem má tenção, sem falsos pejos
apalpa-lhe a cintura, a ver não traga
demasiado aperto no espartilho.RAPAZOLA (pulando de contente, e esfregando as mãos)
Por aí! por aí! Dessa maneira
vê-se o que há e não há.MEFISTÓFELES
Meu caro amigo,
toda a teoria é névoas; auriverde
só a árvore da vida.RAPAZOLA
À fé que ouvi-lo
é para mim como um sonhar delícias.
Se me desse licença, ateimaria
em causticá-lo, até roçar no fundo
poço tal de saber.MEFISTÓFELES
Vá, não se acanhe;
até onde eu chegar...RAPAZOLA
Eu des