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O ABC DOS DIAS
DE JOÃO VIUDETUDO

A cantiga e o pensado de João Viudetudo

Arthur Caria Filho


“O ABC dos DIAS de João Viudetudo”
A cantiga e o pensado de João Viudetudo
Arthur Caria Filho

(Apêndice do Livro “Mirante dos Jequitibás” de Arthur Caria Filho)

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Fonte Digital
Documento do Autor
arthurcaria@hotmail.com

©2003 — Arthur Caria Filho


Índice

Prefácio do Autor
O ABC DOS DIAS


O ABC dos DIAS
de
João Viudetudo

A cantiga e o pensado de João Viudetudo.

(Apêndice do Livro
“Mirante dos Jequitibás”
de Arthur Caria Filho)

Obra
de ARTHUR CARIA FILHO


 

Prefácio do Autor.

 

     O ABC, poesia mnemônica de origem remota e que é bastante utilizada pelos poetas populares do Brasil, usa a simples técnica de começar cada estrofe do poema com as sucessivas letras do alfabeto. O que garante, sem dúvida, mais poder à difusão oral do mesmo.
     João Viudetudo (personagem importante em “Mirante dos Jequitibás”) é um artista da feira de Estribeira. Um artista popular. Cantador, repentista, cordelista e observador, ele é muito apreciado pelo povo, mas esta é uma apreciação da qual as classes mais abastadas já não lembram mais que existe. Ele tem a percepção do desobrigado. E é essa liberdade que compõe cada partícula do genuíno poeta popular.
     Neste seu ABC dos Dias, ele expõe “a sua cantiga e o seu pensado” voltando-se principalmente para respostas, recados e conselhos para o viver diário.
     Pode ser lido antes ou depois de “Mirante dos Jequitibás”.
     O seu estilo é livre.

ARTHUR CARIA FILHO
2003.


 

O ABC DOS DIAS

 

A gente vive assim: anão
Quando come é dia sim,
Quando fome é dia não.
Enquanto os dias vão-vêm
Vou cantando o meu pensado:
Rico é que é cupim
Pobre nunca é ocado

 

Boca de encher a vontade tenho
E de engolir molhado.
Cerco, rodeio, engenho:
Nunca vou ficar parado.
Injustiça não engulo
Prefiro a Santa Dieta
Dizer que povo é mulo
Sai pra lá que isso me reta.
Pra esses aí dou um recado:

 

Cupins do oco
De um tronco podre caído,
Levado enxurrada abaixo,
Boiando que nem coco,
Em águas nervosas;
perdido.

 

Despenca numa cachoeira;
Atinge a queda derradeira,
Deságua no sufoco;
bebido.

 

E tudo é pau, é madeira
Tudo é normal na bandalheira
Pelo cacetete, pela palmatória
Muxoxar a história cara a cara,
Tete a tete , pau a pau

 

Fossilizados no futuro
Num aglomerado de equívocos
Somos Cento e Cinqüenta Milhões
Incandescentes
E ressalve-se quem puder

 

Guardadas as caras,
Tome-lhe pau ...
A destroçar os cacos
Dar em gente honesta.
Desmanchar barracos
Alimentar a festa.

 

Há pau desde o começo
Pau latina mente
desvariada
Até o fim.

 

Isso já tem precedente:
Em Pirango do Norte,
o maior cajueiro do mundo,
mais de 1/2 quilômetro abrangente,
fica no Rio Grande do Norte,
Um século de idade, profundo,
de tudo o que é pau antecedente

 

Já comum sua incomum
Anomalia genética,
Foi um Oppenheimer de pau oco
Que delineou sua ética

 

Know-how muito é preciso,
Pois acompanhar seus galhos
É missão impossível.
Só tem galho intrincado
Deveras inexprimível.
Entorta, entorta até o dia
Em que presos ficarão;
Braseiros filhos do pau,
Ao pau voltarão.

 

Leio a vida nas passagens
Enchendo a minha viola
Eu entorno a zanga seca
Não sou manso de gaiola
A minha fé é obesa
E eu sou um teimoso retado
Enquanto os dias vão-vêm
Vou soltando o meu pensado:
Pra os que sobem muito
Também tenho um recado:

 

Muito fácil é subir na vida
Sobre as costas dos coitados.
E se a riqueza é esperteza
Eu que fique abobalhado
Pois que o bobo ainda diverte
E o esperto é desavisado

 

Nada nunca se compara
À fé e à força na estrada
Com o coração de criança
Nenhuma viagem é desastrada
Firmo forte o pé no chão
E lasco minha cantarada

 

Os meus dias são minha vida
Minha riqueza encarnada.
Ando neles, bebo deles,
Vivo eles sem parada.
Gosto do não e do sim
Só não gosto do nada.

 

Pior do que o nada
É a tal da traição;
Quando se é amigo
Coisa dessa pode não;
Uma vez amigo
Amigo até em frente ao Cão.

 

Que o mundo tá cheio disso
Somos carecas de saber
Que o mundo tá cheio de vício
Até dá pra entender
O que não pode é amigo
Do amigo esquecer.
Pra os que matam as semanas
Aqui vai um pensado:

 

Rara é uma Segunda-feira
Em que eu não fique encantado
E mais difícil é uma Terça
Que me deixe desalmado
Quarta-feira é então
Um calor, uma alegria
Quinta-feira é um primor
De graça e de harmonia

 

Sexta-feira é Sexta-feira
O povo acorda mais sortudo
Muito mais João Viudetudo
Violeiro da Bahia
Cantou a semana inteira
Ele canta todo dia

 

Todo dia e mais o Sábado
Merece comemoração
Tem mulher bonita sorrindo
Tem cabra se divertindo
Nem importa de que jeito
O que importa é a diversão

 

Um Domingo é um Domingo
Do descanso e da oração
Seja você pobre ou rico
Classe média ou remendado
Dia de dizer a Deus, de qualquer jeito,
Obrigado!

 

Vou no fim dessa trovada
Alertar quem quer que seja
Para as três desgraças do homem
Que a vida lhe enseja:
Uma delas é o saber,
Que é mesmo que uma faca
Serve útil se amolada
Mas imola sem demora

 

Xará dela é a desonestidade
Que corre junto à hipocrisia
Se alastram imensidade.
Vira um troço que vicia
Matando a humanidade
Morta-viva em agonia.

 

Zanga não me dobra não,
Faço dela o meu jantado.
Enquanto os dias vão-vêm
Vou cantando o meu pensado:
Juro vou cantar no enterro
Dos gastadores do humanado.
A gente vive assim: anão
Quando come é dia sim,
Quando fome é dia não.


O ABC dos Dias de João Viudetudo” (*)
Obra de Arthur Caria Filho Copyright - 2003.
(*) Apêndice do Livro “Mirante dos Jequitibás” (2002) do mesmo autor).

Proibida a reprodução sem a devida autorização escrita do autor.


©2003 — Arthur Caria Filho
arthurcaria@hotmail.com

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Fevereiro 2003

 

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