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OS RUBAYAT

Omar Khayyan

Versão em português de Alfredo Braga

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Os Rubayat
Omar Khayyan
Versão em português de Alfredo Braga

Versão para eBook
eBooksBrasil.org

Fonte Digital
http://www.alfredo-braga.pro.br

Imagens:
Edmund Dulac (1882-1953)
Willy Pogany (1882-1955)
Fonte digital:
www.bpib.com

© 2003 — Omar Khayyan


 

Índice

Sobre as traduções dos Rubaiyat de Omar Khayyam
Alfredo Braga
O Autor
Alfredo Braga

OS RUBAYAT


 

 

Noite, silêncio, folhas imóveis;
imóvel o meu pensamento.
Onde estás, tu que me ofereceste a taça?
Hoje caiu a primeira pétala.

Eu sei, uma rosa não murcha
perto de quem tu agora sacias a sede;
mas sentes a falta do prazer que eu soube te dar,
e que te fez desfalecer.

Acorda... e olha como o sol em seu regresso
vai apagando as estrelas do campo da noite;
do mesmo modo ele vai desvanecer
as grandes luzes da soberba torre do Sultão.

Omar Khayyam


 

 

Sobre as traduções
dos Rubaiyat
de Omar Khayyam

Alfredo Braga

 

Octávio Tarqüinio de Souza, Manuel Bandeira, Jamil Almansur Haddad e outros de língua portuguesa, ao se depararem com os Rubaiyat, procuraram fazer as suas traduções através daquelas de Edward Fitzgerald e também sobre as versões francesas como as de Dulac, Grolleau, Toussaint e tantas outras, cada uma com os seus méritos, ou deméritos.

Num ensaio de Borges, onde se aborda a obra poética do persa, ele atribui a Fitzgerald, antes do que a simples tradução, a quase incrível e fantástica “invenção” dos Rubaiyat, e comenta certas ênfases, tanto da época, como as do próprio autor, um erudito cavalheiro que depois de longas viagens por remotos lugares, também procurava impressionar os seus curiosos e pudicos leitores, e leitoras, em seus saraus e salões vitorianos.

Fitzgerald preservou as rimas, mas carregou o texto com exagerados orientalismos e outros estilismos esperados pelos seus contemporâneos; depois os franceses, cada um à sua maneira, foram insinuando os seus maneirismos; e depois os nossos, desde então têm ido, de roldão, repetindo o justo pudor dos tradutores: aquele de se respeitar os “originais”. Mas, no caso dos Rubaiyat de Omar Khayyam, depois de novecentos anos, a que originais eles querem se referir? Aos românticos floreios? Aos voleios e volteios de um certo e afetado modo de se escrever “poeticamente”? Ora, mas acima de tudo, e antes de mais nada, não seria Khayyam quem nos devia interessar primeiro? Se assim for, será necessário rever os textos em que o persa desenvolve os seus cristalinos enunciados de geometria, ou de álgebra; creio que então íamos compreender melhor a voz desse poeta exageradamente traduzido: pontual, concisa, elegante; e é exatamente o que Borges nos aponta em seu Rubaiyat. Repare-se na sobriedade do vocabulário, na simplicidade da construção e do fraseado: É uma cuidadosa “arqueologia” da literatura, é a recuperação, mais do que a mera transcrição, de um modo de ver, de pensar, de dizer. O Rubaiyat de Borges é a melhor orientação para se verter Khayyam para outra taça, sem perder o fino buquê, ou a ácida agulha.

Qualquer tradução é uma opinião, e quase nunca é o que pretendia ser; será um reflexo daquilo que o tradutor alcança ver, ou pôde ver. A de Manuel Bandeira não sustenta o rigor e a finura que subsistem nos rubaiyat, à distância de nove séculos e sob a camada de muitas traduções sobrepostas. A adição de regionalismos, como o “sei não” (e aquelas reticências...) soa mal, não quadra, é apenas outra redução infeliz. De certo modo prefiro a de Octávio Tarqüínio de Sousa: é simples, amorfa, ou ingênua e confusa, mas ainda guarda parte da perplexidade e da lúcida amargura de Khayyam, sem perder o ritmo de ponto e contra ponto entre as metáforas e as imagens.

Um homem erudito e sofisticado, que sabe da assombrosa trajetória dos astros, da pureza da rigorosa geometria e da elegante álgebra, que percebe a inconseqüente soberba dos homens sábios (e a dos outros) e caminha entre rosas, tulipas, lindas mulheres e finos vinhos, provavelmente não ia se entregar a tão imponente singeleza para falar do último gesto, daquele “ato inelutável” de um outro crepúsculo:

Cavaleiro que vejo ao longe na neblina
Do crepúsculo, aonde irá? Sei não. Por Vales
E montanhas? Sei não. Estará amanhã estendido...
Sobre a terra?... Ou debaixo da terra?... Sei não.

Creio que um Patativa do Assaré, se fosse traduzir Khayyam, havia de achar outras maneiras de recontar aquela mesma inquietação, sem alterar simplicidade por rusticidade. Octávio Tarqüínio, durante a sua convalescença, “entre Cannes e Nice, em vez de decifrar palavras cruzadas”, preferiu assim:

Vejo um cavaleiro que se afasta
na bruma da tarde.
Irá ele atravessar florestas,
ou planícies áridas?
Aonde vai? Não sei.
Amanhã estarei deitado
sobre a terra ou debaixo dela?
Não sei.

Se formos ler os Rubaiyat, em qualquer tradução, também encontraremos Pessoa, ou Whitmam, que não o traduziram, mas o conheciam. E quando Borges aproxima as “negras noites e os brancos dias” do tabuleiro do xadrez, “rifão de Omar”, diz ele, talvez em resposta a este verso do persa: “Somos os peões deste jogo do xadrez que Deus trama”, e a este: “Velho mundo, sob o passo do cavalo branco e negro dos dias e das noites”, Omar Khayyam aflora.

E continua, em outros poetas; está nos dias e nas noites dos setenta e cinco anos de Walt Whitmam, que também se estendem até nós, como ele queria, ou quando aquele outro de língua espanhola, ou castelhana, diz: “Neste verão completarei cinqüenta anos; a morte me desgasta, incessante”; Omar tinha escrito: “Os meus cabelos estão brancos, tenho setenta anos de idade”; e isto: “O tempo estraga a minha bela rosa”; e naquele outro árabe, também colhido por Borges, em seu Museu, que apesar do reconhecimento e da glória diz:“Oxalá eu tivesse nascido morto.”; essa mesma angústia aparece, de outra maneira, nos versos de Khayyam: “Feliz a criança que expirou ao nascer; mais feliz quem não veio ao mundo.”; e ainda aparece, em outro lugar, com Ricardo Reis:

Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais é nada.

Ou esses versos ainda seriam de Omar Khayyam, noutra Autopsicografia de Fernando Pessoa?

São vários poetas a falar, em várias épocas, em vários modos, em vários lugares; mas o que têm a dizer, e como dizem, é tão próximo, é como se estivessem juntos, na mesma mesa daquela taverna, ou daquele bar. São esses os poetas que vão traduzindo a poesia. Quando Borges diz que os livros conversam entre si, através dos escritores, não está divagando; o diálogo continua, claro, sereno, até por entre os ruídos das traduções, e da aflita agitação das opiniões, e dos estilos. E seguem, conversando, ao lado de Khayyam e de Shakespeare (nem mármore, nem áureos monumentos de reis hão de durar mais que estas rimas) e de outros que, apesar de tudo, “resistem aos tradutores e aos atores”... e àqueles portentosos diretores-tradutores mais as suas espantosas “releituras”.


 

 

Omar Ibn Ibrahim El Khayyam nasceu em Nichapur, na Pérsia, em 1040 e morreu nessa mesma cidade em 1120.

Khayyam significa, em persa, fabricante de tendas; ele adotou esse nome em memória do pai que era fabricante de tendas.

Além de poeta Omar Khayyam foi matemático e astrônomo. Dos seus livros de ciência chegaram até nós o Tratado de Algumas Dificuldades das Definições de Euclides e as Demonstrações dos problemas de Álgebra. Em 1074, diretor do Observatório de Merv, fez a reforma do calendário muçulmano.

Rubaiyat é o plural da palavra persa rubai, e quer dizer quadras, quartetos. No rubai, o primeiro, o segundo e o quarto versos são rimados, o terceiro é branco.

Nesta “tradução”, não mantivemos a rima, nem a métrica “originais”.


 

Os Rubaiyat

Omar
Khayyan

Versão em Português de
Alfredo Braga


 

OS RUBAYAT
Omar Khayyan

1
Nunca murmurei uma prece,
nem escondi os meus pecados.
Ignoro se existe uma Justiça, ou Misericórdia;
mas não desespero: sou um homem sincero.


 

2
O que vale mais? Meditar numa taverna,
ou prosternado na mesquita implorar o Céu?
Não sei se temos um Senhor,
nem que destino me reservou.


 

3
Olha com indulgência aqueles que se embriagam;
os teus defeitos não são menores.
Se queres paz e serenidade, lembra-te
da dor de tantos outros, e te julgarás feliz.


 

4
Que o teu saber não humilhe o teu próximo.
Cuidado, não deixes que a ira te domine.
Se esperas a paz, sorri ao destino que te fere;
não firas ninguém.


 

5
Busca a felicidade agora, não sabes de amanhã.
Apanha um grande copo cheio de vinho,
senta-te ao luar, e pensa:
Talvez amanhã a lua me procure em vão.


 

6
Não procures muitos amigos, nem busques prolongar
a simpatia que alguém te inspirou;
antes de apertares a mão que te estendem,
considera se um dia ela não se erguerá contra ti.


 

7
Alcorão, o livro supremo, pode ser lido às vezes,
mas ninguém se deleita sempre em suas páginas.
No copo de vinho está gravado um texto de adorável
sabedoria que a boca lê, a cada vez com mais delícia.


 

8
Há muito tempo, esta ânfora foi um amante,
como eu: sofria com a indiferença de uma mulher;
a asa curva no gargalo é o braço que enlaçava
os ombros lisos da bem amada.


 

9
Que pobre o coração que não sabe amar
e não conhece o delírio da paixão.
Se não amas, que sol pode te aquecer,
ou que lua te consolar?


 

10
Hoje os meus anos reflorescem.
Quero o vinho que me dá calor.
Dizes que é amargo? Vinho!
Que seja amargo, como a vida.


 

11
É inútil a tua aflição;
nada podes sobre o teu destino.
Se és prudente, toma o que tens à mão.
Amanhã... que sabes do amanhã?


 

12
Além da Terra, pelo Infinito,
procurei, em vão, o Céu e o Inferno.
Depois uma voz me disse:
Céu e Inferno estão em ti.


 

13
Não vamos falar agora, dá-me vinho. Nesta noite
a tua boca é a mais linda rosa, e me basta.
Dá-me vinho, e que seja vermelho como os teus lábios;
o meu remorso será leve como os teus cabelos.


 

14
Tenho igual desprezo por libertinos ou devotos.
Quem irá dizer se terão o Céu ou o Inferno?
Conheces alguém que visitou esses lugares?
E ainda queres encher o mar com pedras?


 

15
Na sombra azulada do jardim
o ar da primavera renova as rosas
e ilumina os meigos olhos da minha amada.
Ontem, amanhã... é tão grande o prazer agora.


 

16
Bebo, mas não sei quem te fez, ó grande ânfora;
podes conter três medidas de vinho, mas um dia
a Morte te quebrará. Numa outra hora perguntarei
como foste criada, se foste feliz, ou por que serás pó.


 

17
Como o rio, ou como o vento,
vão passando os dias.
Há dois dias que me são indiferentes:
O que foi ontem, o que virá amanhã.


 

18
Não me lembro do dia em que nasci;
não sei em que dia morrerei.
Vem, minha doce amiga, vamos beber desta taça
e esquecer a nossa incurável ignorância.


 

19
Khayyam, enquanto erguias a tenda da Sabedoria,
caíste na fogueira da dor; agora és cinzas.
O Anjo Azrail cortou as cordas da tua tenda
e a Morte vendeu-a por uma ninharia.


 

20
É inútil te afligires por teres pecado;
também é inútil a tua contrição:
além da morte estará o Nada,
ou a Misericórdia.


 

21
Cristãos, judeus, muçulmanos, rezam,
com medo do inferno; mas se realmente soubessem
dos segredos de Deus, não iam plantar
as mesquinhas sementes do medo e da súplica.


 

22
Na estação das rosas procuro um campo florido
e sento-me à sombra com uma linda mulher;
não cuido da minha salvação: tomo o vinho
que ela me oferece; senão, o que valeria eu?


 

23
O vasto mundo: um grão de areia no espaço.
A ciência dos homens: palavras. Os povos,
os animais, as flores dos sete climas: sombras.
O profundo resultado da tua meditação: nada.


 

24
Eu estava com sono e a Sabedoria me disse:
A rosa da felicidade não se abre para quem dorme;
por quê te entregares a esse irmão da morte?
Bebe vinho; tens tantos séculos para dormir.


 

25
Admito que já resolveste o enigma da Criação;
e o teu destino? Aceito que desvendaste a Verdade;
e o teu destino? Está bem, viveste cem anos felizes
e ainda tens muitos para viver; e o teu destino?


 

26
Ninguém desvendará o Mistério. Nunca saberemos
o que se oculta por trás das aparências.
As nossas moradas são provisórias, menos aquela última.
Não vamos falar, toma o teu vinho.


 

27
Olha, um dia a alma deixará o teu corpo
e ficarás por trás do véu, entre o Universo
e o desconhecido. Enquanto não chega a hora,
procura ser feliz. Para onde irás depois?


 

28
Os sábios mais ilustres caminharam nas trevas da ignorância,
e eram os luminares do seu tempo.
O que fizeram? Balbuciaram algumas frases confusas,
e depois adormeceram, cansados.


 

29
A vida é um jogo monótono que dá dois prêmios:
A Dor e a Morte.
Feliz a criança que expirou ao nascer;
mais feliz quem não veio ao mundo.


 

30
Na feira que atravessas não procures amigos
ou abrigo seguro. Aceita a dor que não tem remédio
e sorri ao infortúnio; não esperes que te sorriam:
Seria tempo perdido.


 

31
O mundo gira, distraído dos cálculos dos sábios.
Renuncia à vaidade de contar os astros
e lembra-te: vais morrer, não sonharás mais,
e os vermes da terra cuidarão do teu cadáver.


 

32
Aquele que criou o Universo e as estrelas
exagerou quando inventou a dor.
Lábios vermelhos como rubis, cabelos perfumados,
quantos sois no mundo?


 

33
Velho mundo sob o passo do cavalo branco e negro
dos dias e das noites, és o palácio triste onde mil Djenchids
sonharam com a glória e mil Bahrams com o amor,
e a cada manhã acordavam chorando.


 

34
Sono sobre a terra, sono debaixo da terra.
Sobre a terra, sob a terra: homens deitados.
Nada em toda a parte. Deserto.
Homens chegam, outros partem.


 

35
Enquanto o rouxinol lhe entoava um hino,
murchou a bela rosa por causa do vento sul.
Lamentaremos por ela ou por nós?
Quando morrermos, outra rosa desabrochará.


 

36
Se não tiveste a recompensa que merecias,
não te importes, não esperes nada;
já estava tudo nas páginas daquele livro
que o vento da eternidade vai virando ao acaso.


 

37
Quando me falam das delícias que na outra vida
os eleitos irão gozar, respondo:
Confio no vinho, não em promessas;
o som dos tambores só é belo ao longe.


 

38
Bebe vinho, ele te devolverá a mocidade,
a divina estação das rosas, da vida eterna,
dos amigos sinceros. Bebe, e desfruta
o instante fugidio que é a tua vida.


 

39
Bebe o teu vinho. Vais dormir muito tempo
debaixo da terra, sem amigos, sem mulheres.
Confio-te um grande segredo:
As tulipas murchas não reflorescem mais.


 

40
Baixinho a argila dizia
ao oleiro que a torneava:
Já fui como tu, não te esqueças,
não me maltrates.


 

41
Oleiro, vai com cuidado, trata bem a argila
com que Adão foi conformado.
Vejo no torno que moves a mão de Feridun,
o coração de Khosru... o que fizeste?


 

42
A tulipa rubra nasce no campo que foi regado
pelo sangue de um altivo rei.
A violeta brota do sinal de beleza que palpitava
na face de uma doce adolescente.


 

43
Há tanto tempo giram os astros no espaço;
há tanto tempo se revezam os dias e as noites.
Anda de leve na terra, talvez aonde vais pisar
ainda estejam os olhos meigos de um adolescente.


 

44
As raízes do narciso que se inclina suave,
bebem a vida nos lábios mortos de uma mulher.
Pisa leve a relva macia, ela nasce das cinzas
de rostos tão belos quanto as tulipas.


 

45
O oleiro ia modelando as alças e os contornos
de uma ânfora. O barro que ele conformava
era feito de crânios de sultões
e mãos de mendigos.


 

46
O bem e o mal se entrelaçam no mundo.
Não agradeças ao Céu
pela sorte que te coube, nem o acuses:
Ele é indiferente.


 

47
Se em teu coração cultivaste a rosa do amor,
quer tenhas procurado ouvir a voz de Deus,
ou esgotado a taça do prazer,
a tua vida não foi em vão.


 

48
Vai com prudência, viajante.
A estrada é perigosa, a adaga do destino
é acerada. Não colhas as amêndoas doces,
são venenosas.


 

49
Um jardim florido, uma bela mulher, e vinho.
Eis o meu prazer e a minha amargura,
o meu paraíso e o meu inferno.
Mas quem sabe o que é Céu e o que é Inferno?


 

50
Com a tua face como a rosa, com o teu rosto belo,
como o de um ídolo chinês, não sabes
o que o teu olhar faz do rei da Babilônia?
Um bispo do xadrez, que foge da rainha.


 

51
A vida passa. O que resta de Bagdad e Balk?
A aragem mais leve é fatal à rosa já desabrochada.
Bebe o vinho, e contempla a lua:
lembra-te das civilizações que ela já viu morrer.


 

52
Ouve o que a Sabedoria diz todos os dias:
A vida é breve.
Não te esqueças, não és como certas plantas
que rebrotam depois de cortadas.


 

53
Mestres e sábios morreram
sem se entenderem sobre o Ser e o Não Ser.
Nós, ignorantes, vamos apanhar as tenras uvas;
que os grandes homens se regalem com as passas.


 

54
O meu nascimento não aumentou o Universo,
nem a minha morte lhe fanará o esplendor.
Ninguém me dirá por quê vim ao mundo,
ou porquê um dia irei embora.


 

55
Iremos nos perder na estrada do amor,
e o destino nos pisará, indiferente.
Vem, menina, taça encantada, dá-me de beber
em teus lábios, antes que eu me torne pó.


 

56
Só de nome conhecemos a felicidade.
O nosso melhor amigo é o vinho;
afaga a única que te é fiel: a ânfora,
cheia do sangue das vinhas.


 

57
Não te inquietes, a vida é como um suspiro.
As cinzas de Djenchid e de Kai-Kobad volteiam
na poeira vermelha que tolda o ar.
O Universo é uma miragem, a vida é um sonho.


 

58
Senta-te e bebe, felicidade que Mahmud não teve.
Escuta os sussuros dos amantes, são os Salmos de Davi.
Não te importes com o passado, não sondes o futuro,
não percas este instante: Eis a paz.


 

59
Pessoas presunçosas e obtusas inventaram
diferenças entre o corpo e a alma.
Sei apenas que o vinho apaga as angústias
que nos atormentam, e nos devolve a calma.


 

60
Que enigma os astros que andam pelo espaço.
Agarra-te à corda da sabedoria, Khayyam.
Presta atenção à vertigem
que faz cair perto de ti os teus companheiros.


 

61
Não temo a morte. Prefiro esse ato inelutável
ao outro que me foi imposto no dia em que nasci.
O que é a vida, afinal? Um bem que me confiaram
sem me consultarem e que entregarei com indiferença.


 

62
Estou velho, e a paixão que me inspiraste
vai me levar ao túmulo: não cesso de encher a taça.
Esta paixão tem razão contra mim:
o tempo estraga a minha bela rosa.


 

63
Podes me perseguir, miragem de outra ventura,
podes modular a tua voz, mas só escuto aquela
que já me encantou. Dizem-me: Deus te perdoará.
Recuso o perdão que não pedi.


 

64
Um pouco de pão, um pouco de água,
a sombra de uma árvore, e o teu olhar;
nenhum sultão é mais feliz do que eu,
e nenhum mendigo é mais triste.


 

65
Tantos carinhos, tantas delícias,
tanta ternura no começo do nosso amor.
Mas agora o teu prazer
é dilacerar o meu coração. Por quê?


 

66
Vinho, bálsamo para o meu coração doente,
vinho da cor das rosas, vinho perfumado
para calar a minha dor. Vinho, e o teu alaúde
de cordas de seda, minha amada.


 

67
Falam de um Criador...
e Ele deu forma às criaturas para destruí-las?
Por que são feias? Por que são belas?
Quem é o responsável? Não compreendo nada.


 

68
Todos pretendem andar pelo Caminho do Saber.
Uns o procuram, outros afirmam tê-lo encontrado.
Um dia uma grande voz dirá: Não há caminho,
nem atalho.


 

69
Brinda ao resplendor da aurora, e dedica
o vinho vermelho desta taça, em forma de chama,
ou de tulipa, ao sorriso meigo de algum adolescente.
Bebe, e esquece que o punho da dor te prostrará.


 

70
Vinho! Que palpite em minhas veias,
que inunde a minha cabeça. Silêncio!
Tudo é mentira. Copos! Depressa!
Envelheci muito.


 

71
Do meu túmulo virá um tal perfume de vinho
que embriagará os que por lá passarem,
e uma tal serenidade vai pairar ali,
que os amantes não quererão se afastar.


 

72
No turbilhão da vida são felizes aqueles
que presumindo saber tudo não se instruem.
Fui buscar os segredos do Universo e voltei
invejando os cegos que encontrei pelo caminho.


 

73
Alguns amigos me dizem: Não bebas mais Khayyam.
Respondo: Quando bebo, ouço o que me dizem
as rosas, as tulipas, os jasmins;
ouço até o que não me diz a minha amada.


 

74
Em que pensas? Nos que já morreram? São pó no pó.
Pensas nas virtudes que tiveram? Sim? Deixa-me sorrir.
Toma este copo, vamos beber; ouve sem inquietação
o vasto Silêncio do Universo.


 

75
Não faças planos para amanhã.
Sabes se poderás terminar a frase que vais dizer?
Talvez amanhã estejamos tão longe deste albergue,
como os outros que já se foram há sete mil anos.


 

76
Conquistador de corações, belo moço
de olhos brilhantes e altivo semblante,
senta-te e apanha um copo. Eu te contemplo,
e penso na ânfora que serás um dia.


 

77
Há muito tempo a minha mocidade se foi.
Primavera da minha vida, passaste como passaram
as outras primaveras: sem que eu percebesse.
Partiste, como se vão os melhores dias.


 

78
Sente todos os perfumes, todas as cores,
todas as músicas; ama todas as mulheres.
Lembra-te que a vida é breve,
e que breve voltarás ao pó.


 

79
Não terás paz na terra, e é tolice acreditar
no repouso eterno. Depois da morte
teu sono será breve: renascerás na erva
que será pisada, ou na flor que murchará.


 

80
O que realmente possuo?
O que restará de mim depois da morte?
É tão breve a vida, uma fogueira:
Chamas, e depois, cinzas.


 

81
Convicção e dúvida, erro e verdade:
são palavras, como bolhas de ar;
brilhantes, ou baças: vazias,
como a existência dos homens.


 

82
Escuta, isto ninguém te contou:
Quando a primeira alba clareou o mundo,
Adão já era uma criatura dolorosa,
que pedia a noite, ansiava a morte.


 

83
Não pedi para nascer. Recebo, sem espanto ou ira,
o que a vida me entrega. Um dia hei de partir;
não me importa saber qual o motivo
da minha misteriosa passagem pelo mundo.


 

84
Colhe os frutos que a vida te oferece
e escolhe as taças maiores;
não creias que Deus vá fazer as contas
dos teus vícios e das tuas virtudes.


 

85
Os meus cabelos estão brancos,
tenho setenta anos de idade.
Agarro agora a felicidade; amanhã,
talvez não me restem forças.


 

86
Nunca procurei saber onde encontrar
o manto da mentira e do ardil,
mas sempre andei à procura
dos melhores vinhos.


 

87
Alguns sábios da Grécia sabiam propor enigmas?
É absoluta a minha indiferença por tanta inteligência.
Dá-me vinho, minha amiga; deixa-me ouvir o alaúde,
olha como lembra o vento que passa, como nós.


 

88
É o mês do Ramadã. Amanhã o sol
vai iluminar uma cidade silenciosa;
os vinhos dormirão em suas urnas
e as mulheres à sombra dos bosques.


 

89
Somos os peões deste jogo do xadrez
que Deus trama. Ele nos move, lança-nos
uns contra os outros, nos desloca, e depois
nos recolhe, um a um, à Caixa do Nada.


 

90
A abóbada celeste se parece a uma taça emborcada;
sob ela, em vão, erram os sábios.
Ama a tua amada como a ânfora ama o copo;
olha, boca a boca, ela lhe dá o seu próprio sangue.


 

91
O amor que não consome, não é amor;
a brasa tem o mesmo calor de uma fogueira?
Aquele que ama, pelas noites e dias,
vai se consumindo no prazer e na dor.


 

92
Não aprendeste nada com os sábios,
mas o roçar dos lábios de uma mulher em teu peito
pode te revelar a felicidade.
Tens os dias contados. Toma vinho.


 

93
O vinho dá-te o calor que não tens;
suaviza o jugo do passado e te alivia
das brumas do futuro; inunda-te de luz
e te liberta desta prisão.


 

94
Nunca rezei nas mesquitas, mas antes
ainda sentia uma tênue esperança.
Agora gosto de me sentar lá;
aquela sombra é propícia ao sono.


 

95
Na terra cheia de cores alguém caminha:
não é muçulmano, não é infiel, nem pobre, nem rico;
não acredita na Verdade e não afirma nada.
Quem é esse, intrépido e triste?


 

96
Um dia pedi a um velho sábio
que me falasse sobre os que já se foram.
Ele disse:
Não voltarão. Eis o que sei.


 

97
Olha, a rosa estremece ao sopro do vento;
um pássaro entoa um hino; uma nuvem paira.
Bebe, e esquece que o vento vai ressecar a rosa,
levar a nuvem refrescante e o canto do rouxinol.


 

98
Onde estão os nossos amigos? Já morreram?
Ainda os ouço na taverna...
já se foram? ou estarão embriagados
de tanto terem vivido?


 

99
Quando eu não mais viver, não haverá mais rosas,
nem lábios vermelhos, nem vinhos perfumados;
não haverá auroras, nem amores, nem penas:
o Universo terá acabado, pois ele é o meu pensamento.


 

100
Podes sondar a profunda noite que nos envolve
e ir pelo mistério adentro. Em vão.
Adão, Eva, como deve ter sido amargo aquele beijo
que nos gerou tão desesperançados.


 

101
Cansado de perguntar aos sábios, perguntei à taça:
Para onde irei depois da morte?
Ela me respondeu baixinho: Bebe em minha boca,
bebe longamente: não voltarás.


 

102
Eu estava numa olaria e mil ânforas murmuravam.
Então uma delas disse: Silêncio, deixem
que esse homem se lembre dos oleiros
e dos compradores de ânforas que já fomos.


 

103
Nesta noite caem pétalas das estrelas,
mas o meu jardim ainda não está coberto delas.
Assim como o céu derrama flores sobre a terra,
verto em minha taça o vinho da cor das rosas.


 

104
Queres saber como será o amanhã? Tolice.
Confia, ou o fado justificará os teus receios.
Não te apegues, não questiones livros nem pessoas,
nosso destino é insondável.


 

105
A aurora encheu de rosas a taça do céu,
e o último rouxinol canta o seu meigo canto;
e ainda há quem pense em honras e glórias...
Vem, menina... que sedosos são os teus cabelos...


 

106
Vai um cavaleiro pelas sombras do entardecer.
Aonde irá, por serras e por vales?
e onde estará deitado amanhã?
Sobre a terra, ou debaixo dela?


 

107
O vinho é da cor das rosas;
talvez não seja o sangue das uvas, mas das rosas;
e o azul desta taça talvez seja o céu cristalizado;
e não seria a noite a pálpebra do dia?


 

108
Mais outra aurora. Como em todas as manhãs,
deparo a beleza do mundo, e não posso agradecer:
há tantas rosas, tantos lábios. Vem minha amiga,
pousa o teu alaúde, os pássaros estão cantando.


 

109
Homem ingênuo, pensas que és sábio
e estás sufocado entre os dois infinitos
do passado e do futuro. Não podes sair.
Bebe, e esquece a tua impotência.


 

110
O que farei hoje? Ir à taverna? Ler um livro?
Um pássaro passa. Aonde irá? Já não o vejo.
Embriaguez de uma ave no céu azul e morno;
melancolia de um homem que ainda se lembra.


 

111
Mais vinho, minha amiga,
as tuas faces ainda não estão rosadas.
Um pouco mais de tristeza, Khayyam,
tua amada vai te olhar, vai sorrir.


 

112
Não tragam lâmpadas, os meus amigos adormeceram;
estão imóveis, pálidos, como ficarão no túmulo.
Não tragam as lâmpadas,
os mortos não precisam delas.


 

113
Estudei muito e tive mestres eminentes
e me orgulhava dos meus progressos e triunfos.
Agora lembro-me do sábio que eu era: era como a água
que toma a forma do vaso, como a fumaça ao vento.


 

114
Guardo as minhas tristezas como a ave
se esconde para morrer. Dá-me vinho, minha amiga,
e escuta os meus gracejos: Vinho, rosas, lábios,
e a tua indiferença pela minha dor.


 

115
Despe-te dessas roupas que te envaidecem
e que não trazias ao nascer;
os teus conhecidos não te cumprimentarão mais,
mas em teu peito cantarão os Serafins do céu.


 

116
Aconteceu o que eu já esperava: Ela me deixou.
Quando eu a tinha era tão fácil a renúncia;
junto dela, como estavas só, Khayyam;
ela se foi para te refugiares nela.


 

117
Ah, Senhor, destruíste a minha alegria,
ergueste uma muralha entre mim e a minha amada,
pisaste a minha bela seara; vou morrer,
e Tu, cambaleias, embriagado.


 

118
Silêncio, dor da minha alma,
deixa-me procurar um remédio.
É preciso viver; os mortos não se lembram
e eu quero rever a minha amada.


 

119
É grande a tua dor? Não lhe dês atenção.
Lembra-te dos outros que sofrem inutilmente.
Procura uma linda mulher; mas cuidado, evita amá-la,
e ela, que não te ame.


 

120
Rosas, taças, lábios vermelhos:
brinquedos que o Tempo estraga;
estudo, meditação, renúncia:
cinzas que o Tempo espalha.


 

Para mais informações sobre poesia persa, consultar o número 14 da Revista Poesia Sempre, da Fundação Biblioteca Nacional. Poesia Sempre – Rua da Imprensa 16, 11° andar – Centro – Rio de Janeiro, RJ – 20030-120 – Tels: (xx21) 2544-8597 / 2544-8514 / 25544-8703 – Fax: (xx21) 2220-1009 – E-mail: poesia@bn.br.

A seriedade da tradução de Fitzgerald é rigorosamente contestada no livro Rubaiyyat, El poema original del místico Sufi, Traducción directa del persa: Omar Ali-Shah y Robert Graves – Versión española: Alejandro Calleja, Coleccion Maestros Sufis, Ediciones Dervish International, Buenos Aires, 1989.


 

© 2003 — Omar Khayyan
Versão em português
© 2003 Alfredo Braga

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