KOREAEBOOKDOCUMENT1.2.0A Torre de BabelMauro Gonalves RuedaeBooksBrasil.comeBooksBrasil.comm>para.xml300.jpgnormal.stypara.xmltC smaller.styC small.styC normal.sty= C large.styC larger.sty |7300.jpg?Xindice.jpg A Torre de Babel Mauro Gonçalves Rueda Versão para eBook eBooksBrasil.com Fonte Digital Documento do Autor maurorueda5@hotmail.com maurorueda@uchoanet.com © 2003 — Mauro Gonçalves Rueda   Índice Prefácio Flash Histórico O Poeta Morisson que o Filme não Revelou      Alexandre Fontoura Mistérios      Alexandre Fontoura Os Mestres      Poema de Morrison Light My Fire      Densmore/Krieger/Manzarek/Morrison A TORRE DE BABEL The End      The Doors O Fim   A TORRE DE BABEL (Poemas)   Mauro Gonçalves Rueda. São José do Rio Preto — 1.998.     “Alguns nascem para o suave deleite, outros para os confins da noite. A única obscenidade que conheço é a violência” (Morrison)     Para: Joyce e Maricy. Zélia Duncan, por “Catedral” e Titãs por “Epitáfio”. Para a imensa família que habita os recônditos de meus cômodos mais secretos. Para todos os que lutaram e lutam pela liberdade e direitos do ser humano. Para todos os que mantêm vivo o legado do poeta James Douglas Morrison.   PREFÁCIO “Somos conduzidos ao massacre por plácidos almirantes. Lerdos e obesos generais tornam-se obscenos pelo sangue jovem” (Jim Morrison)        Tudo o que posso adiantar é que os poemas deste livro, foram inspirados e escritos após várias sessões do filme “THE DOORS” com as letras de Jim Morrison, martelando com suas “lambadas” metafóricas e a fragmentação das figuras de linguagem, todos os conceitos convencionais da época. Seus versos ardendo na pira entre a genialidade e a loucura —, em madrugadas insones frente ao vídeo; rompendo as amarras da mediocridade e do silêncio de um novo tempo. E mais, uma vasta gama de recursos no fazer poético enriquecido por canções irreverentes e outras quase sombrias, feito sua própria lápide e epitáfio. Me parece (e tão somente), um longo passeio pelo tempo. E não foi há tanto tempo assim, na realidade.      Talvez um dos momentos mais importantes na formação de Jim Morrison tenha ocorrido em uma viagem de carro, com os pais, quando ainda era um menino. No caminho, passaram por vários indígenas americanos, espalhados pela estrada, depois de um acidente.      Morrison declarou, ao longo de sua vida, repetidamente, que as almas de alguns desses indígenas pularam para dentro de sua própria alma. E fãs diziam que o cantor, em alguns shows, parecia entrar em transe, recebendo algum espírito.      Era na poesia que o músico podia expressar suas maiores angústias e sua intensa relação amorosa com a vida. Muitos poemas, contos, anotações, foram produzidos a todo tempo, em quaisquer lugares, em qualquer pedaço de papel, partitura, ou até mesmo em espelho.      Seu maior desejo era ser levado a sério como poeta. Seu comportamento selvagem, no entanto, cegava as pessoas para suas palavras, sua mensagem. Hoje, sua vida ainda fascina e surpreende e sua poesia ganhou espaço e prestígio.      Muitos desses trabalhos foram reunidos no livro “American Prayer”, compilados por Danny Sugerman, que pode ser lido, em inglês, no site oficial da banda * .      Ainda, sobremaneira, a irreverência, o místico e a busca irrefreável de um mundo que jamais poderia ser encontrado junto à sociedade hipócrita com seus costumes e limites para o artista e seu poder de criação quando ele descobre em si próprio, tudo o que procura no “lá fora” e mesmo nas religiões e dogmas. Como se o Halo ou Fluído Universal, não estivesse além do próprio SER e sua capacidade de auto/construção ou, ainda, destruição de seus princípios e anulação do próprio ego. O que resultaria no “Ser somente mais um entre milhares”, sem qualquer identidade. O grande e irreverente “Lagarto Rei” vagando pelo imenso deserto da existência. Brincando com o fogo da eternidade incompreensível, indecifrável, feito nalgum velho jogo ancestral. O Xamã — velho índio que seduz e encanta feito a serpente do deserto — desafio entre liberdade e grilhões. Caminho sem volta para o “Lagarto Rei” estirado sob o sol de alguém que o conduza de volta para a realidade.      O irreverente e genial Morrison, excedeu seus limites e ele era, segundo seus próprios companheiros, “um fardo de TNT”, através dos desafios constantes e, à exemplo de tantos outros grandes artistas que ousaram colocar-se contra o sistema e suas regras de conduta, entre outras imposições ao ser humano, acabou perecendo. Ou, como costumo dizer — foi devidamente suicidado pelo “Monstro SIST”. Coisas do Rauzito, claro.      Gostaria de poder me aprofundar mais sobre a vida e a obra do artista, no entanto, apesar de eu haver adquirido algumas revistas e documentos, fui sutilmente “lesado” por algum apaixonado e fiquei sem os dados. E também, me falta tempo e paciência. É um trabalho de pesquisa com convite à exaustão. E meu tempo é agora. Amanhã não sei. No entanto, basta assistir ao filme, prestar atenção na adaptação de algumas letras e/ou, pesquisar pelos sítios e outras paragens da WWW que, seguramente, os interessados encontrarão excelente material sobre o grupo e o poeta Morrison.      Abaixo, dois artigos daqueles que pesquisaram à fundo e podem acrescentar o necessário sobre o grupo e, muito principalmente sobre o poeta, Jim Morrison. Revista Clássicos do Rock — Editora Scala —, e, Alexandre Fontoura, um exímio pesquisador e mestre em se tratando da banda e seu líder.   O autor, 29 de Março de 2003 São José do Rio Preto.   FLASH HISTÓRICO **        Em 08 de Dezembro de 1.943, nascia, na Flórida, James Douglas Morrison, que ficaria mundialmente conhecido como o poeta Jim Morrison. Em Fevereiro de 1.964, Jim Morrison pedia transferência da Florida State University para o departamento de Artes Cênicas do UCLA, onde Ray Manzarek já estava estudando cinema. Em 1.965, John Densmore e Robby Krieger começam a tocar juntos, num grupo — Psychedelic Rangers.      Bacharelado em cinematografia, Morrison passou longa temporada escrevendo poemas e letras que, viriam fazer parte dos dois primeiros discos do “The Doors” (As Portas), tirado de uma linha de um poema de William Blake. “As portas da percepção” — a linha de Blake —, “se as portas da percepção estiverem limpas, o homem poderá ver as coisas como elas são verdadeiramente, infinitas”. “Naquela época — afirmava Ray —, estávamos com as portas da percepção limpas em nossas mentes, então nós vimos a música como um veículo para, a conversão de uma nova religião, uma religião do próprio, de cada homem como Deus. Esta era a idéia original por trás do Doors”. A primeira música do Psychjedelic Rangers, chamava-se “Paranoia”.      Coincidência? Em 1.975, exatos 19 anos depois, a Phillips lança no Brasil, o LP “Novo Aeon”, nem tanto psicodélico quanto os Rangers, mas com uma música de Raul Seixas que receberia o título de “Para Nóia”, um dos bons discos de Raul com títulos como “Caminhos”, “Tente Outra Vez”, “Sunseed” e outras, além de “Novo Aeon”.       Em Janeiro de 1.967, é lançado o primeiro album, The Doors, após longos períodos de turbulência. Lançada em Abril, três meses depois, a música “Light My Fire”, alcança a primeira colocação nas paradas americanas. Ao longo de uma carreira — curta, aliás —, o imprevisível Morrison, deixa de atender a mãe que o procurava num hotel em Washington DC. E o tímido imprevisível que, no início da carreira cantava de costas para a platéia, continua aprontando. Torna-se o primeiro rock star a ser preso no palco durante um show e é acusado de “exibição indecente”, “quebra da paz” e “resistência a prisão”. Em, 1.968, voltaria a ser preso e acusado por vadiagem e bebedeira em público. No dia 07 de Fevereiro de 1.969, Morrison, volta a ser detido por dirigir embriagado e sem licença. e no dia 05 de Março, a cidade de Miami, lança uma procuração de prisão de Morrison. Acusação: “Conduta obscena, exposição indecente, profanidade pública e bebedeira em público”. Ainda no mesmo mês, ele gravaria pequena coletânea de seus poemas, sem acompanhamento musical, no Elektra Studios.      Após ser atração principal, no dia 13 de setembro de 1.969, do Rock & Revival Show, no Varsity Stadium, em Toronto em meio a Chuck Berry, Jerry Lee Lewis, Gene Vincente, Litle Richard, Fats Domino e, pela primeira vez, John Lennon e The Plastic Ono Band, o vocalista volta a “entrar em cana” por bebedeira e interferência no vôo de uma aeronave. Em 28 de março de 1.970, é julgado e considerado culpados das acusações de Phoenix a passar três meses na cadeia. Em abril, Simons & Schuster publica “The Lords an The New Creatures”, de James Douglas Morrison. Neste mesmo ano, Jim e Patrícia Kennealy se casam. Ainda em 70 é preso mais uma vez: bebedeira. Também em 70, grava vários poemas, que mais tarde seriam usados em Na American Prayer. No dia 12 de Dezembro, é realizada a última apresentação do The Doors com Jim Morrison, no Warehouse, em New Orlean.      Após o lançamento de mais alguns singles, no dia 03 de junho, Jim Morrison é encontrado morto na banheira do apartamento que estava dividindo com Pam Courson. A voz se cala. No dia 08, ele é enterrado no cemitério Perelachaise, em Paris. Em 1.978, após a morte de Pamela, é lançado o Album “Na American Prayer”, com os poemas de Morrison. Nos ano 90, Oliver Stone lança o filme contando a história do The Doors, com o ator Val Kilmer interpretando o vocalista Jim Morrison.   O POETA MORRISON QUE O FILME NÃO REVELOU Alexandre Fontoura ***        James Douglas Morrison nasceu no dia 8 de dezembro de 1943 na cidade de Melbourne, Florida - EUA. Sagitariano, ele era poeta de corpo e alma. Seus amigos mais íntimos eram os outros membros da banda, sua namorada Pam e aqueles que o acompanharam desde o começo de sua carreira.      Antes de ser um músico, Morrison era um poeta, muitas vezes incompreendido. Sua sinceridade, seu jeito de expor a mais dura realidade sobre a humanidade em suas poesias conquistaram grande multidão, mas também afastavam aqueles que não compreendiam suas atitudes. Sua escrita virou porta-voz de um movimento, de uma alternativa ao status-quo social, na sua “in your face poetry” (poesia na cara).      Do seu filósofo favorito, Friedrich Nietzsche, Morrison tirou alívio e incentivo para dizer “sim para a vida”. Ele não era mais um suicida do rock, como muitos acreditam, mas escolheu intensidade ao invés de duração. Tornou-se o que Nietzsche definia como “aquele que não nega, que não diz não, que se atreve a se criar”.      Uma outra citação do filósofo influenciou a vida do músico: “Dizer sim à vida até diante de seus problemas, mais estranhos e difíceis; o desejo de viver acima de exaustão mesmo diante dos maiores sacrifícios — isso é o que chamo de Dionísio, o que entendo como a passagem para a psicologia do poeta trágico. Não para se dispor do trágico e da compaixão, mas para transformar-se na alegria eterna de transformação, acima de qualquer terror ou piedade”. Foi justamente a sede insaciável de Morrison que o matou e não a vontade de morrer.      Van Gogh, Rimbaud, Baudelaire, Poe, Blake, Artaud, Nijinsky, Byron, Dylan Thomas, Brendan Behan, Jack Kerouac, aqueles que sentiam a vida muito intensamente para agüentar vivê-la. Os loucos, intragáveis, perdidos, indomáveis, os artistas resistentes e cabeças-duras, insistentes em serem fiéis a sua natureza a qualquer preço — essa era a linha com a qual Morrison se identificava. Ser um poeta significava muito mais que escrever, pintar ou cantar; significava ter uma visão e a coragem para realizá-lo, independente de quaisquer posições.      Quando perguntado por uma revista pop como se preparava para o estrelismo, Morrison respondeu: “Parei de cortar o cabelo”. O que ele não disse foi que também havia se entregado às drogas. Como tantos outros (Jimmy Hendrix e Janis Joplin, faleceram um ano antes de Jim Morrison, também com 27 anos de idade), o cantor usava as drogas para abrir a mente, expandir a consciência, a imaginação, para “ter acesso” a um mundo de outra forma fechado.      O interesse de Jim Morrison pelo desconhecido é bem documentado em suas poesias e escrituras. “Há coisas que sabemos. E há coisas desconhecidas, e entre elas, existem as portas (the doors)”, dizia. Apesar dessa frase ser, freqüentemente, atribuída ao poeta William Blake, eram as palavras de Morrison. Seu compromisso em desvendar o desconhecido desde o início de sua carreira, foi justamente o que acabou por terminar com o homem e com a banda.      Ele se recusava a comprometer sua arte. Este foi o seu bem e também o seu mal, ir até o fim dessa busca ou morrer tentando: tudo ou nada. E justamente por ele não industrializar ou popularizar o que escrevia, não conseguia fingir desespero ou êxtase. O que fazia não era mero entretenimento nem simplesmente a realização de movimentos já condicionados; ele era brilhante e desesperado, motivado pela necessidade de “testar os limites da realidade”, sondar o sagrado e explorar o profano.      E isso o deixou louco para criar, para ser real. Essas mesmas qualidades o fizeram volátil, perigoso e o deixaram num conflito perverso consigo mesmo. Procurava consolo e alívio nas mesmas substâncias que inicialmente o inspiraram e o fizeram criar: — as drogas.      As teorias do teatrólogo surrealista francês, Antonin Artaud, a respeito do confronto (discutidas no livro “O teatro e seu duplo”) tiveram influência marcante em Morrison e também no grupo como um todo. Em uma das passagens mais fortes do livro, Artaud faz um paralelo entre a peste bubônica e a ação teatral, afirmando que o teatro tem que conseguir afetar a catarse no espectador da mesma forma que a peste bubônica purificou a humanidade. A meta? “Que eles (espectadores) fiquem apavorados e acordem”.      “Quero acordá-los. Eles não entenderam que já estão mortos”, dizia o músico.      Morrison iria gritar “Acordem” mil vezes na tentativa de sacudir o público e tirá-los de seu estado adormecido, “ninguém sai daqui vivo” ele cantava na música “Five to One”. E quando se confronta o tipo de medo e terror evocados por músicas como “The End”, algo dentro da gente muda, se altera, deixa de ser.      Final da década de 60 e as bandas cantavam sobre amor e paz, mas com The Doors era diferente. Quando a música acabava permanecia o silêncio, a serenidade, a conexão com a vida e a confirmação da existência de cada um. Mostrando o Inferno, The Doors levava seu público ao “Céu”. Evocando temas sobre a morte, mostrava que estavam vivos.      E no final, depois de conquistar a América do Norte e todo o resto do Ocidente, depois de ser perseguido nas cortes de seu país, depois de ser ridicularizado pela imprensa, resolveu deixar tudo e ir para Paris, ateliê de tantos outros artistas do passado, para tentar firmar sua vida como poeta.     “Sempre fui atraído pelas idéias contra a autoridade. Gosto das idéias referentes a quebra de sistema — destronamento da ordem estabelecida.” (Morrison)   MISTÉRIOS (Alexandre Fontoura)        A morte de Jim Morrison tem sido um mistério há três décadas. Muitos são os boatos a respeito do que aconteceu na noite de 3 de julho, em 1971, em Paris. Alguns dados não são fáceis de compreender, como a demora em avisar à Embaixada Americana na França sobre a morte de um cidadão norte americano fora de seu país de origem.      De fato, Morrison sumiu. Para a maioria das pessoas que acredita na morte do artista, uma coisa é certa: James Morrison tinha ido ao cinema com sua namorada, Pamela, na sexta-feira, dia 2 de julho. Na manhã do dia três, o que consta no atestado de óbito é que ele foi achado na banheira, às 5h da manhã, por Pam.      É entre a saída de sexta à noite e o corpo encontrado na banheira na manhã seguinte que existem todas as especulações e incertezas sobre o caso. Por muito tempo acusaram Pamela Courson de ter cometido o crime já que os dois se separavam e voltavam. Pamela estava em Paris e Morrison foi lá para visitá-la.      Drogas — Outras especulações giraram em torno do uso das drogas e da suposta confissão de Pamela sobre ter, propositalmente, mentido ao cantor quanto ao tipo de droga que estavam consumindo (cocaína versus heroína).      Uma dose mais alta de heroína do que era de costume teria resultado na morte. Morrison já havia optado por uma vida marginal, rodeada pelas drogas. Mas entre os amigos mais chegados e familiares do poeta, sabia-se que Pam, também viciada, era a única pessoa que realmente enfrentava o cantor nos momentos difíceis, firmando o pé no chão quanto às suas opiniões sobre o que quer que fosse.      É sabido que Pamela, conversando com uma colega, disse sentir-se culpada pois as drogas que usaram pertenciam a ela. O curioso é que, no laudo médico e no atestado de óbito, nada consta sobre o uso de cocaína ou heroina. O laudo foi escrito por um médico chamado por Pam e que, mais tarde, diante do sensacionalismo em torno da figura de Morrison, se recusou a comentar o assunto.      Simulação — A outra hipótese, na qual muitos fãs talvez acreditem, seria a de que o ídolo ainda estaria vivo. Alguns dados parecem até apontar para essa possibilidade: apenas duas pessoas teriam visto o corpo de Morrison, Pamela e o médico francês que passou o laudo médico. Aparentemente, o caixão contendo o corpo foi selado sem ao menos notificarem a Embaixada Americana em Paris.      No fim-de-semana em que Morrison morreu, correu notícia sobre o acontecimento e os repórteres começaram uma busca pela verdade. Pam afirmou aos que conseguiram falar com ela que “Jim não está morto, ele está muito cansado e está descansando em um hospital”.      Quando Clive Selwood (empresário da sede da Elektra em Londres) tomou conhecimento dos rumores, ligou para a filial da gravadora em Paris. A partir daí foram feitas as ligações para a polícia e para a Embaixada Americana. Nenhum registro havia sido encaminhado para prefeitura ou qualquer outro órgão responsável. Ninguém foi notificado antes da segunda-feira póstuma ao ocorrido. A maioria das pessoas, incluindo a mídia, só foram avisadas depois do enterro, realizado em Paris, no dia 8 de julho em 1971.      Vários depoimentos afirmam que Morrison falava em fingir sua própria morte e começar de novo com os colegas. O poeta estava sob muita pressão, drogas e problemas com a justiça norte-americana. No final de outubro de 1970, o músico foi sentenciado com 70 anos de prisão por atentado ao pudor e trabalhos voluntários por exibição imoral, mas foi solto provisoriamente após seu advogado pagar uma fiança de US$50.000      Jimmy Hendrix e Janis Joplin haviam morrido pouco menos de um ano antes, também com 27 anos de idade. Pamela Courson morreu de overdose, três anos mais tarde, também com 27 anos.      Homenagem — O caixão de Jim Morrison foi enterrado no cemitério francês Père Lachaise, ao lado de grandes personalidades, filósofos e escritores (entre esses, Oscar Wilde) e desde então, todo aniversário de nascimento e morte de Jim, o local se enche de fãs, que passam o dia prestando homenagens.      Toda essa movimentação no cemitério gera grande insatisfação a outras pessoas cujos túmulos de familiares também estão no local. Por isso, existe um movimento em prol da remoção do jazigo do poeta, o que ocorreria em 3 de julho de 2001, quando completava-se o leasing do espaço onde foi colocado a sepultura de Morrison.      Fãs do artista ainda esperam que, com a remoção, seja requisitada uma perícia na arcada dentária para que seja confirmada a morte de Jim Morrison.   Os Mestres (Poema de Morrison)   Eis a nossa entrega Habitamos uma cidade A cidade forma — física, mas sobretudo psiquicamente — um círculo. Um Jogo. Anel de morte com o sexo no centro. Guiar até ao perímetro suburbano. Descobrir aí zonas de sofisticado vício e tédio, de prostituição infantil. Mas é nesse sujo anel implacável apertando as ruas do comércio diurno que fervilha a única multidão viva, nossa estirpe, artérias vivas, noite viva. Cobaias doentes em pensões baratas, quartos reles, bares, casas de penhor, teatro de variedade e bordéis; arcadas moribundas que nunca morrem. Ruas e ruas de cinemas de sessão contínua. À jogada sobrevêm o Jogo Ao sexo sobrevêm o Clímax Todos os jogos contêm a idéia de morte. Saunas, bares, piscinas interiores. O nosso chefe ferido jaz sobre os azulejos. Hálito e longos cabelos de cloro. Inválido, seu ágil corpo de pugilista. Ao lado um jornalista creditado, confidente. Gosta de sentir-se entre homens com profundo sentimento da vida. Mas a maioria na imprensa são abutres sobrevoando a cena à cata da curiosa arrogância americana. Câmeras dentro do esquife entrevistam os vermes. Só o genocídio revolveria a terra expondo os vermes escondidos. Revelando a vida dos nossos insatisfeitos loucos. A câmera fotográfica, deusa todo poderosa, satisfaz-nos desejos de omnisciência. Espiamos os outros desta distância e ângulo: pedestres que passam cá e lá na lente como insetos aquáticos raríssimos .. Os poderes do Yoga. Ser invisivel ou diminuto Ou gigante tocando as coisas longínquas. Mudar o curso da natureza. Partir para toda a parte no espaço e no tempo. Convocar os mortos Exaltar os sentidos, captando imagens inacessíveis de acontecimentos noutro mundo, nas zonas profundas da nossa mente e das outras mentes. .. A arma do caçador furtivo é uma extensão do seu olho. Ele mata com mau-olhado. O voyeur é um masturbador, o espelho o seu emblema, a janela sua prece Filmes são coleções de retratos inanimados submetidos a inseminação artificial. Os espectadores são vampiros mansos O xamã personifica a sessão. O pânico sensual, deliberadamente suscitado por drogas, cânticos, danças, lança o xamã no transe. Voz alterada, gestos convulsivos. Está fora de si. Todos estes histéricos profissionais, escolhidos precisamente pela sua tendência psicótica, foram em tempo tidos em consideração. Punham o homem em contato mediúnico com o mundo dos espíritos. As travessias mentais deles asseguravam o eixo da vida religiosa da tribo.   LIGHT MY FIRE (Densmore/Krieger/Manzarek/Morrison)   You know that it would be untrue You know that I would be a liar If I was to say to you Girl, we couldn’t get much higher Come on baby, light my fire Come on baby, light my fire Try to set the night on fire The time to hesitate is through No time to wallow in the mire Try now we can only lose And our love become a funeral pyre Come on baby, light my fire Come on baby, light my fire Try to set the night on fire, yeah The time to hesitate is through No time to wallow in the mire Try now we can only lose And our love become a funeral pyre Come on baby, light my fire Come on baby, light my fire Try to set the night on fire, yeah You know that it would be untrue You know that I would be a liar If I was to say to you Girl, we couldn’t get much higher Come on baby, light my fire Come on baby, light my fire Try to set the night on fire Try to set the night on fire Try to set the night on fire   A TORRE DE BABEL   1 Daqui avisto a torre. É de papel ou de Babel a torre que aponta para o céu? Não sei. Ninguém sabe. Há tantas fronteiras, tantos idiomas!... O que nos separa, afinal? Uma simples torre imaginária?!...   2 Frases frágeis, palavras dissipam-se com o vento. Um rio de sangue e vinho tinge a aurora. Os mortos caminham, arrastam correntes e sonham. A serpente observa, o lobo do homem sorri. Mas a humanidade resiste. Novos tempos pairam sobre a torre de Babel.   3 O segador sorri de dentro do espelho. Conhece a alma dos homens, as lágrimas dos anjos, nossos versos e sonhos. O céu nunca mais será o mesmo. Sob o chapéu, um índio observa novos horizontes. Na taça das madrugadas, o teu sangue inocente sacia a sede da humanidade.   4 Muros manchados pelo sangue derramado. Frases etéreas no altar consagrado. Areia de todos os desertos. Dos corações vazios, dos lábios selados.. A noite eterna dos loucos profetas e as crianças sacrificadas pelo fogo. Tudo clama por justiça.. Enquanto nós inventamos baladas e segredos inúteis. O tempo soterrado no vazio do olhar...   5 Há um velho sentado na calçada. Enquanto isso, o trem passa distante. Nuvens choram o futuro, eu sei. E também sei que ainda é cedo. Porque há medo no sorriso dos lobos e a meninas dançam nuas pelas florestas. Eu também já fui jovem um dia. Por isso posso enxergar muito além. Por isso eu prefiro esperar. Porque sempre, sempre haverá madrugadas em meu olhar distante.   6 Quando o aço das ferraduras, roubarem o fogo das pedras frias e aquele cavaleiro solitário surgir pelas veredas com seu manto negro e sua espada de sangue, então despertaremos com o sol da meia-noite e alguns velhos amigos dirão: — É cedo para morrer. Mas há muito eu descobri que nunca é cedo ou tarde. Sobretudo, para a morte.   7 Eu sonho com você sorrindo um sorriso antigo de pérolas e ilusões. Seus longos braços e seus cabelos dourados no espelho do tempo, na lagoa de prata, eu sonho e me esqueço. Há jazidas em meu coração e por isso, beberemos à vida do mesmo vinho, na mesma taça onde termina a estrada.   8 Você nunca aprendeu a sofrer e chorar? Línguas de fogo estão lambendo consciências. E você permanece acorrentada ao medo. Poeira cósmica cega nossos olhos e corremos sobre os trilhos. O campo era verde e havia milho e trigo. As primaveras nos despertavam para que pudéssemos sonhar. E agora? Somente a torre da igreja permanece intacta. A cidade foi soterrada pelas areias dos desertos. Há tantos desertos à nossa volta! E nós ainda nem cantamos aquelas velhas canções...   9 Talvez eu devesse partir agora porque as estrelas ainda continuam brilhando. Eu sei disso: lutei a vida toda e toda luta é boa e minhas mãos não tremerão. Porque as feras estão no fundo do fosso. Ou quem sabe, eu jamais estive aqui? O luar clareia meus passos.. E liberdade é somente uma conquista para aqueles que conhecem o fim da estrada.   10 Bem, todas as pontes estão desmoronando lá fora. Crateras e abismos loucos nos convidam para o salto. Não há mais tempo para criarmos asas. Você tem papel e lápis.. então escreva. Não espere o passado te alcançar. As lápides não caminham. As chamas brotam todos os dias. E construímos cidades para destruí-las um dia. Então, não perca mais tempo. Há muito eu descobri que o fogo é o segredo do sol. Contudo, nunca saia de mãos vazias...   11 Das criptas romperão as frases da eternidade. Os incautos ouvirão os sons dos sinos. Nós estaremos sentados junto ao fogo, observando as estrelas e tecendo mantos para os filhos do vento. Do alto dos montes as fontes jorrarão e o futuro será tudo o que deixarmos para viver no passado.   12 Horas absurdas e tempos amargos para o que já perdeu as cores. Flores murcham nos canteiros e quintais. Não me venha com o teu sorriso e teus lábios! Os loucos são mansos enquanto os selvagens forjam a vingança. Dança a serpente de olhos verdes sobre arames farpados que separam quintais. Não há calabouços para tanto ódio. Enquanto teu sorriso não liberta, o sol derrete o asfalto e racha as pedras sobre as quais pisaremos um dia.   13 Ouço a voz dos aflitos. Um corvo pousa sobre meu ombro. Todavia, sabe que trago na testa o sinal... Um velho índio me acena e me aponta as sombras. As pradarias movem-se lentamente. Os coyotes entristeceram e o grande pássaro de fogo já está a caminho. Somos poucos mas lutaremos.   14 Com as mãos em conchas trago deste veneno. Fontes em luzes brilhantes descem dos céus, rasgam as rochas e são conosco. O pastor perdeu seu rebanho enquanto a cidade agoniza. Meus cabelos trançados contra o vento furioso. A pira acesa derrete as velas. Dentro da caverna dos sonhos, minha alma abraça a luz.   15 Houve um tempo em que podíamos voar e éramos serenos. Não havia a voz. Somente o silêncio em ouro e prata, eram nossas tranças. Até que um dia, perdemos a inocência e inventamos as guerras e as cidades.   16 Bem, eu te conheço e sei o que escondes atrás da máscara. Os palcos estão sendo destruídos na cópula dos sons. Crianças febris entregam seus corpos. Mas jamais conheceram suas almas. Os acordes das guitarras valsam. São todos um e a brincadeira somente começou. As crianças não enlouqueceram. Mas já sentem o caos vigente.   17 O fulgor das estrelas não adentra as cavernas. Os desejos aprisionam os meninos sedentos com seus instrumentos rígidos. Ninguém deseja a salvação. A contorcionista do eterno porvir abre seus lábios e sacia os desejos secretos dos meninos escravizados.   18 Grotesca a tarde em arabescos e vitrines coloridas mergulha nas retinas e nos ensina o sofrimento e a perdição. Já não somos mais os mesmos.   19 Que cavalguem o asfalto os arautos da modernidade. Vassalos, reis, senhorios e serviçais. Tranquem todos os cofres de almas e vilanias nas prisões sombrias. Nos guetos e fossos. Então, combatei por nós. A ponte e os portais conspiram em segredo para a inevitável queda do reino que, certamente, um dia viria...   20 Doce o leite dos teus seios. Que derramas sobre o ventre da terra sedenta. Doce na morte, na vida... Cicatrizando as feridas que amargam feito fel. Doces teus lábios, olhos, sorriso e a ternura feita em mel. Doce: Andie MacDowell!   21 Das frases roubemos o sal. Pelo Universo tantos sóis. No olhar que vigia as tumbas dos antigos reis. Múmias do Grande Arquiteto do Universo... embrulhadas em gaze e papiros e recheadas pela areia ancestral de um tempo que jamais será.   22 Em chamas o corpo sob as cobertas e lençóis. Meu pacto com os mortos. A luta contra os vivos. Por enquanto o Condor diz aos Andes e os malucos já podem voar em meio às nuvens. Meus mortos dançam sobre o telhado. Você pode compor a nova canção para aqueles que virão. Por enquanto uma vela arde sobre um crânio. Sob a tênue luz das estrelas, o doente profana a carne fria. A única certeza no ventre da vela é que amanhã já não poderemos mais ser os mesmos.   23 A madrugada fria lá fora sussurra segredos que o vento arrasta para distante. Escrevo quase no escuro porque a luz da vela já se apaga. Alguns corpos transpiram, automóveis decolam e passam sobre o muro. Minha solidão e meu medo já não me aprisionam. Contudo, não consigo evitar as lágrimas que meu coração insiste em sangrar.   24 Por esta fresta vejo o futuro, o vazio nos bancos das praças. Nuvens carregadas que deslizam. Lençóis que se rasgam. Pulsos cortados. Há um espelho dentro em meu cérebro. Guardem suas armas, senhores! O inimigo apenas acaba de nascer.   25 Cuidado agora porque os justos já não fazem sacrifícios. As preces já não podem evitar o naufrágio. A rua e a massa confundem o trânsito. Na calada da noite, crianças aflitas cavam trincheiras e sonham com suas amadas. Há muito perdemos a infância porque outro dia, em breve, há que chegar. Caminho à margem do rio que me orienta e me leva. Não vou olhar para trás. Não posso vê-la acenando porque estou aflito, já não tenho mais como voltar e nem sei para onde ir. Estou só. Somente um homem desesperado caminhando ao longo de um rio.   26 Os corações estão aflitos. São frágeis. Os olhares buscam por esperanças inúteis. A chuva começa a cair. Talvez alguém acenda a lareira. Alguns partem e jamais tornam. A faca do destino afiada nos desafia. Agora não é tarde e nem amanheceu. As velas ainda ardem. Nas ruas vazias há um resquício de vida. Não posso gritar porque roubaram minha voz. Galos cantam ao longe. E se por acaso a morte não puder esperar pelo sol, quero que saibam que minhas mãos já se encontram estendidas...   27 Os olhares tristes e os corações empedernidos. A pressa apressa o futuro ido. Borboletas voam por sobre nossas cabeças. Por isso, às vezes, acreditamos nas palavras. Vulcões despertam enfurecidos. Quem nos dera alguém pudesse compreender o que sentimos. Já não podemos mirar no espelho, os olhos frios das crianças assassinadas!   28 Do futuro esperado coisas que caem do céu. Sobre a mesa do destino, vou amadurecendo o que me resta. Longa é a avenida da vida em que caminhamos. Ao meio fio naufragam os sem cigarros. A cerveja amarga as lágrimas dos poetas, enquanto esperamos por discos voadores e patenteamos milagres. As chagas abrem-se rachando asfalto e as rugas não esperam. Nem espera a neve que torna brancos os cabelos. Do futuro esperado —sobre o palco—, as entranhas do passado.   29 Filhos do sol e das noites esquecidas, atropelamos meia hora para a aflição diária. Nas folhas de jornais a minha melancolia. O aborrecido no alto do viaduto, observa a sorte para a minha morte. Tenho a solidão das praças, a fome que aflige e a miséria escondidas. Nos bolsos vazios, natais e heranças. Nada me desfia a fibra deste ódio. O morto e o mito no conflito de um prato.   30 Vazios e monumentais tormentos. Colossais labirintos pelas veias serpentes e veneno. E eu sei o segredo da velha arca. Este firmamento e a melancolia das carnes. Tudo o que se cava e mais, as bocas que nos tragam. Da energia da terra e das ervas alucinógenas. Ouço sussurros entre paredes. Mas nada nos protege da mente. Nem o desvio da morte. Ou a sorte que nos persegue... Nada que eu tenha plantado para saciar a sede e a loucura das almas. Por isso, arrebento os móveis. Enquanto os sensatos algemam meus pulsos e sentimentos.   31 Nunca é tarde e nós sabemos disso. Enquanto nuvens desgarradas e solitárias nos observam, vamos planejando este resto de alegria. Temos todo o tempo para a Nova Era. Se fossemos loucos, quem sabe a felicidade?.. Por aqui já não existem mais carruagens. E as catedrais estão sendo demolidas. Compomos canções e adormecemos à sombra das quimeras. O mendigo me observa mas conhece o preço e a dor de ser normal. A humanidade está aflita agora. Enquanto isso, em meio as ervas, procuro uma fotografia.   32 Escrevo. Enquanto lavas as mãos, escrevo. E já não posso parar. Há uma fenda na parede do futuro. Busco pelo mistério da vida enquanto arranco fantasias.. E aqueles que cospem sobre meu corpo, desconhecem os poderes das palavras. Estão todos atônitos! Feito um pobre camponês, continuo cultivando o meu pedaço de terra. Olhares frios me observam das sombras.   33 Agora as cicatrizes já não doem mais. Enquanto corcéis alados batem suas asas pelo céu.. não vou deixar que meu cigarro se apague aqui na solidão. As fábricas apitam e a poesia não paga o arroz e a farmácia. Meu sofrimento refaz as tranças das madrugadas. Por isso, faço as malas para partir. Qualquer verbo me ampara na queda. Corremos tanto para perder o mesmo trem. As frases brotam frias e cortam feito navalhas. Meu sangue tinge as areias do tempo, enquanto envelheço este meu coração revolucionário.   34 Não tenha medo. Do alto observaremos a cidade. Os homens não sabem o que fazer. Meus pulmões doem. Contudo, continuarei correndo. Desligue o computador, garota! O sol se espalha sobre os telhados das casas sombrias. Meus presságios não podem nos salvar. Eu tenho uma calça puída e um sentimento roto. Contudo, ainda prefiro observar a cidade aqui do alto..   35 Um copo de vinho enquanto a chuva cai. Cal branca em paredes manchadas. Ruas de pedras, ancestrais pensamentos. Não uivarei para a lua nova. Agora é tempo de salvarmos o que restou dos estragos dos bombardeios. A carroça, o feno, as pernas e braços amputados.. Mesmo que não valha a pena, destruiremos as guilhotinas e desfiaremos as cordas. Não haverá cadafalso enquanto pudermos plantar as vinhas em meio ao caos.   36 Indomáveis desejos arrastando-nos por veredas e picadas. Sonhos que anuem o flagelo das almas. Minha vida perdida, vendida por um fio. O caos incrustado no olhar do cego que ouve as vozes e sabe as vezes tantas que deixei rolar este rio. Seixos e algas marinhas nos cabelos. Os acordes que criam vida e a avidez insaciável do poder. Mesmo o trabalho escolar e o arcanjo que nos guia.. Nada poderá nos impedir o sonho e a razão.   37 Em pouco tempo terei passado. Ouvirei os risos insanos, os comentários hipócritas. Eu, viandante sem pousada, poeta sem descanso, já não posso culpá-los pela ironia. Levarei nos bolsos minha cota de sonhos logrados. Cavalgando estrelas, rompendo fronteiras, os tempos e Eras, beberei de outras fontes. Lavarei meu coração e limparei minha alma. O que aqui restar, já não terá importância porque em pouco tempo, terei passado para ser esquecido.   38 Com tochas nas mãos eles adentrarão a negra floresta. Nas choupanas os sabres guardam segredos. Não há rima, não há medo. Somente passos seguindo em frente. Para cada destino haverá sempre uma razão. O mero gozo nunca me atrai, senão o sofrimento. Deixem que desabem os edifícios! Agulhas que rasgam veias. O concreto nas mãos; os anéis do tempo e as tinas de água; a côdea do pão; a hemorragia das bolsas de valores... Agora, um corpo jovem arde sobre o fogo. O momento é propício para debandar ou permanecer. Os planetas já se alinharam. Não se calam escopetas; nem se grita por socorro. Ainda restam zumbis e segredos nesta floresta em que o esquecimento ainda sacrifica os inocentes...   39 A cidade torta em espirais de fogo. O triste jogo diário.. Eles enlouquecem e desejam nosso sangue e nossas cabeças. Contudo, as estrelas ainda sonham a nossa magia. Há restos de frases espalhadas pelas avenidas. Bem, quanto ao medo.. Já não há mais nada à ser temido...   40 Hoje, os tempos nos afligem e os sonhos são frágeis. Luas de sangue cavalgam as nuvens. Os loucos já não recitam seus versos e as madrugadas nos parecem eternas. Poucos estão sorrindo agora e lá fora as crianças conspiram. Os girassóis e as ervas já não brotam mais. Há o medo estampado nos olhares. Estamos aflitos e não temos para onde fugir...   41 Vamos sair e gritar. Nunca estivemos tão abandonados e algumas pessoas já começam a fugir. Os dias e as horas são frágeis. É necessário a loucura geral. O escândalo e a hipocrisia. Ninguém gritará por nós. Ou saímos e lutamos ou tudo estará terminado. E as aves. Não sei, mas creio que, elas jamais tornem a pousar em nossos quintais.   42 Os rios já não correm mais e as estrelas se esconderam. Há risos de crianças brotando dos calabouços. Homens fogem de jatos enquanto viadutos caem. Caem dos céus bombas e restos de madrugadas. Não podemos mais fingir que tudo está em seu lugar. Façamos algo enquanto ainda há tempo. E este luar que —às vezes—, insiste em voltar!   43 Em breve amanhecerá a manhã dos desesperados. As estradas foram interditadas. Há jovens brincando lá fora. Os pés fazem a poeira se levantar. Mentes atormentadas buscam a paz. Tudo está mudado e os cabelos já não crescem feito as relvas. Há fogo em edifícios, ruas e casas. Um mendigo me observa enquanto o vento sopra os lençóis nos varais. Anjos cegos batem contra nossas janelas. Os cães choram o fim dos tempos. Enquanto os filhos carregam suas armas, os pais estão ajoelhados. Somente uma menina brinca com sua boneca de pano. Inocência esquecida!..   44 Neste momento em que as palavras valem tão pouco. E as promessas foram todas esquecidas.. Nesta hora em que os deuses bocejam espantados e todos os trens correm fora dos trilhos.. E que o sol e a lua já não guardam mais seus segredos.. E a política tornou-se “Senhora do Universo”... E todas as sementes Já não vingam mais. Agora em que nos encontramos todos resignados. Agora, embora seja tarde, recorremos aos sonhos e à simplicidade... Agora... agora quando já não há tempo —seguramente—, para mais nada!...   45 Todas as estradas já não nos levam para onde sonhávamos. Sob as estrelas as chamas crescem e crepitam as achas atiradas ao fogo. Escravos e cativos, lamentamos a inocência que nos roubaram. Algumas poucas pessoas ditam nossos destinos, enquanto miramos estrelas sem um sinal de protesto. Bem, do outro lado do rio, o velho nos observa. Seu olhar de Eras e sua espera Ancestral nos contam que ele também se sente solitário feito um lobo enquanto adormecemos para —simplesmente—, sonhar.   46 Há muito estamos perdidos e há trevas em nossos corações. Há muito estamos fugindo e já não confiamos uns nos outros. Há pântanos pútridos e crianças enfermas à nossa volta. Sorrisos néscios e palavras cruas brotam de nossos lábios. Já não sepultamos nossos mortos e fincamos facas em nossos próprios corações. Marchamos impotentes e sem esperanças. Os frágeis se arrastam na lama. Eu sonho em preto e branco, enquanto minha alma continua sua busca. Nunca admitiremos a batalha perdida, os erros cometidos e o sorriso nos lábios daqueles que nos enganaram. Agora não há mais tempo. Então, já não bastam as lágrimas. O espelhos partiu-se em mil pedaços. E nossas consciências foram profanadas por aquilo que nos disseram. O sempre é tarde, garota! Muito, muito tarde!   47 Lutaremos até à morte e venceremos o medo. O futuro é somente algo subjetivo. O futuro nos espera feito o dia de amanhã. Já não precisamos morrer novamente. Vamos enxugar as lágrimas e marcharemos em frente. Não desejamos o abandono e as aflições porque nunca se morre antes.. As pedras rolam, os rios continuam seu curso e os amantes não desistirão enquanto houver paixão. Por isso, sigamos em frente. O caminho é longo mas ainda sabemos por onde estamos indo...   48 Por nós choram as ervas e colibris, enquanto mãos colhem estrelas. No início havia o velho sonho, depois, a esperança feita em chamas que arderam por muito tempo. Os homens assassinaram as crianças todas, enquanto um ancião, sofria calado. Restos de madrugadas nos espiam. Primaveras mortas clamam por justiça. A loucura nos abre suas portas e nós atravessamos.. Porque é tudo o que ainda nos resta: a loucura!...   49 Ainda continuo mirando estrelas nas madrugadas. O frio da solidão e o vento sussurrando em meus ouvidos uma canção antiga.. Sinto-me na poeira cósmica. Mas minha alma aponta para o infinito. Sou feito o pinheiro aqui em frente: eu o plantei e amei. E ele, ele toca as estrelas com suas mãos de carinho. É assim o meu destino: a doçura de um momento que, vai se juntar às estrelas.   50 Não sou triste nem contente, porque é chegada a hora da partida. Todos partem um dia, afinal. A madrugada silenciosa e o leito dos amantes. Bilhões de estrelas me acenam e sorrio feito um menino puro e simples. Olha para o céu, criança. Ainda é tempo quando não nos esquecemos que o amor vale a existência. Ainda que tenhamos que sonhar, mesmo que tenhamos que partir...   51 O rádio está tocando uma canção antiga e às três da madrugada uma fábrica apita. Cães ladram e esse tempo raro, meus sonhos tantos, as palavras forjadas, o orvalho feito lágrimas, a espera... A eterna espera da vida eterna! A insônia, os insetos, as janelas dos olhos.. Bem sei: tudo chega ao fim, tudo passa. Enquanto a canção fala sobre primaveras e crianças que brincam por entre nuvens com suas asas de algodão...   52 Estou brincando com as areias do deserto. O vento que sopra apaga minhas pegadas e me conta novos segredos. Há navios e cidades sob meus pés. Rios que correm a cantarolar. Dunas erguem-se à minha frente. Eu continuo sorrindo. Caminho o meu caminho, traço o meu destino quando há estrelas e o frio que gela a minha alma. Refaço versos enquanto procuro o oásis. Lá distante, um míssil acaba de passar pelo buraco de uma agulha. E eu, bem, eu ainda continuo acreditando no amanhã...   53 Já não basta rasgar os panos ou tingir os lençóis... Não vamos permanecer sentados ao meio fio esperando a carruagem dos malucos. Nem os pássaros saltarão dos edifícios em construção. Nem os supermercados nos convidarão para a festa. Há um rio sob nossos pés e já não queremos confeccionar novas bandeiras. Amanhã a lua nos mostrará sua face. Os ponteiros do relógio já não correm mais. E todos os bares baixam suas portas. Algo em nós foi assassinado, criança. Mas nós, nós seremos mais fortes quando o sol tocar nossas mãos.   54 Facas e palavras. Fogo nas mentes. Enquanto as bocas entreabertas pedem mais, o cantor despenca do alto. Uma águia pousa. Repousa o espírito rarefeito do Deus desenhado. Com sua velha guitarra, em meio à nuvens de segredos e fumaça, repousa.   55 Há sorrisos em seu jardim e violinos sobre o telhado. Distante a estrada e seu corpo na sacada. Vozes e lamentos quando tudo é tão frio e os olhares parecem desertos. Os frágeis sonham com crianças aladas. Nos perdemos há muito por seus jardins e as pedras atiradas no poço do esquecimento. Há uma sombra esperando junto ao pórtico. Enquanto sua mansão arde em chamas na madrugada eterna.   56 O segredo em medo posto. Sob as cobertas e os lençóis, gritamos para as plantas e os discos voadores que passeiam feito trens fora dos trilhos. Nossas crianças correm atrás de balões coloridos. Hoje já não somos os mesmos. Os escravos do rei servem e choram. Os guerreiros depuseram suas armas inúteis. Não há lugar para todos nessa velha arca. Políticos doentios armam palcos enquanto o vento sopra as areias de um tempo remoto.   57 Os jovens e os inocentes estão dormindo em paz enquanto os calçados militares deixam marcas no asfalto. Nos embriagamos todos os dias úteis e buscamos a salvação fugindo da realidade cruel. Nós somos fortes mas ainda não aprendemos que nossos sonhos poderiam ter mudado a história e o destino... Então, vamos permanecer eternamente calados, ouvindo o toque dos tambores. Eles já avançam pela grama do jardim. Na calada da noite que, jamais terá fim...   58 Seremos práticos e sorriremos. Mesmo quando a dor riscar o espaço e nossas crianças quedarem-se atônitas. Sim, seremos mansos. Os cordeiros são sacrificados porque há necessidade do sangue derramado. Dentro das mansões, velhos discutem política religião e o tempo.. O tempo é urgente, impaciente. Não falaremos sobre flores. Nem sobre estrelas ou amor. Apenas e tão somente, procuraremos ser práticos e tragaremos o sangue dos inocentes abandonados.   59 Erga a cabeça. Não há porque chorar. Agora as estrelas estão brilhando. Cada sonho talvez possa ser transformado em canção. Os anjos estão sorrindo. Mesmo quando há lágrimas que caem. Vamos, você pode e deve acreditar... Nunca é demasiado tarde quando o tempo é todo nosso e nossos corações ainda continuam batendo ao compasso da esperança. Nunca é demasiado tarde para despertar e tentar outra vez!   60 Vamos brincar! Segure em minhas mãos, formaremos um largo círculo. Os pés tocando as areias e as nuvens nos cabelos. O vento que sopra anuncia um novo tempo. As canções envelheceram. Envelheceram nossas leis, nossos corpos e verdades. Contudo, nossos corações são feito as crianças... Vamos brincar porque o amor, ele nunca envelhece. Porque não podemos deixar que os donos do mundo venham roubar nossa inocência. E isto, isto é tudo.. tudo o que ainda nos resta!   61 Talvez fosse a madrugada, o ébrio poema de um tempo mórbido.. Esse desgosto de asas cortadas! As ilusões e as velhas escrituras.. Talvez.. No entanto, o meu sonho é um navio naufragado nas areias do deserto que ainda me acolhe.   62 O pó e a carne de algum tempo remoto, saciam o fim do banquete ao qual a minha alma se entrega. Porque renegam-me os entes queridos? E nunca mais poderei compor versos sem uma taça de sangue que venha trazer-me o alento perdido! Sentado no alto do monte, observo a cidade que arde em chamas. Sem guerra e sem paz. Apenas vazio, bate meu coração angustiado.   63 Eu, o proscrito, deixo pegadas por onde passo. A dor que me alimenta, é a hipocrisia que te mata. Sacia tua sede enquanto ainda verto seiva. Não deixes para amanhã, o sacrifício. Sempre estive só enquanto riam os piratas desta minha agonia. Trago da fonte o sangue do sol e reinvento outros motins. Se me calo agora os anjos desfazem-se em nuvens e pó. Permaneço só e adentro o espelho da eternidade com amor e com medo do que jamais poderei viver.   64 Venham! Aproximem-se! Juntos, despertaremos a besta adormecida há séculos. Vamos cantar baladas e nos atiraremos nas piscinas vazias. Dormiremos pelas mansões abandonadas com seus milhares de quartos e quadros góticos. Seremos incômodos feito o cravo fincado nas mãos. E as estrelas brindarão conosco. E o sol tornará mais uma vez. Ainda que seja... Venham todos para a festa da besta e dos segredos empoeirados!   65 Sonhos congelados, decrépitas gerações, indomáveis forças ocultas! Charcos, pantanais, estradas, vales... Sombrios vales! Passos silenciosos pelas estradas das trevas. Falsos sorrisos, gestos mumificados, o sândalo que perfuma o medo em meio a velhas sombras retorcidas. No umbral da porta a máscara cai. Quem são nossos amigos? Quem são nossos inimigos? Olhares vazados pela ira dos deuses. Com amor adormeceremos sob os escombros. E as palavras.. Bem, as palavras, já não dizem mais nada.   66 Lagartos azuis secando-se sob o sol. Na velha monotonia dos desertores, sonhamos. Ruas mortas no desassossego das larvas. Galáxias adormecidas nas mentes pútridas. Toda a vilania das tardes outonais. Ventos e furacões em nossos corações patéticos. A poesia morta será tudo o que nos restar quando a hora nos contar o que jamais desejamos ficar sabendo.   67 O sorriso encanta a fotografia de um tempo esquecido, remoto.. Remontamos a história e brindamos velhas gerações. Enquanto isso, a madrugada cai lá fora. Todos os astros despencam dos céus e a auréola do destino pairando sobre cabeças e corações.   68 As casas e cidades choram o abandono. Enquanto os jornais distorcem as notícias. Olhares nos vigiam sedentos. Ainda assim, sorrimos. Nosso medo derrete juntamente com os telhados. Quando desejamos versos, nós os fiamos. Os astros estão alinhados no alto de nossas cabeças. A torre da igreja já está sendo lambida pelas chamas. Tragamos refrigerantes e nos tornamos borboletas. Tatuados na paisagem do ontem ou do jamais...   69 Os ratos nos calabouços, a agulha na veia e o segredo que não é. Tudo se resume em correr contra o tempo. Nas noites frias, embalsamando os tristes senhores donos do poder, nossa alegria fria. Nossos gestos contidos e as gargalhadas dos loucos. Os loucos: que colhem estrelas com as mãos e os mansos pensamentos!   70 Mortos os poetas que lambem os lápis e a tarde sem fim da agonia entristecida. Há uma criança ajoelhada no jardim. Muitas pessoas esperam por algum secreto milagre. Mas as flores secam nas janelas onde há vasos. Nos deliciamos com velhas promessas. Armados com pedras, pau e saudade, marchamos rumo às velhas mentiras da história que um dia nos contaram.   71 Há muito, muito tempo estamos calados! Enquanto cavamos trincheiras com nossos olhares entristecidos. Há muito, muito tempo esperamos pela luz do sol. Mas jamais soubemos muito sobre as estrelas. As ruas estão desertas, garota! Os rios já não correm para o mar. As crianças dançam sobre as lâminas e os vidros cortantes. Nossos corpos ardem em febre. Morremos aos poucos. E no entanto, permanecemos calados. Quebramos os móveis e derrubamos as paredes. Mas não dizemos nada. Porque já não há nada que possa ser dito agora.   72 Nossas canções são leves enquanto mentiras. Embora pesem sobre nossas cabeças. Nos fingimos de mortos neste cenário absurdo. Você me acena enquanto sigo meu caminho. Há lobos e corvos por trás dos montes. Este resto de esperança que nos guia... Bolas de fogo mergulham do céu. A ira dos vagabundos e dos anjos descalços.. Para tudo há um tempo e nós, comodamente, continuamos acreditando no amanhã.   73 Neste tempo, somente nos pegamos confusos. Já não somos as crianças que sorriam para as lentes fotográficas. Apesar do frio, da violência e do medo, permanecemos nas esquinas.. Confusos feito mísseis e balas perdidas. Choramos e gargalhamos sobre as mármores dos sepulcros. Nossos ídolos se foram. Nossos sonhos se perderam. Sabemos chegada a hora. Contudo, agora, somente nos pegamos confusos e cansados.. Nada mais...   74 Talvez fosse a manhã em que o sol racha o asfalto e um rio de sangue corre à céu aberto.. Os edifícios estão desmoronando. Os homens têm pressa. E eu sinto sono. Em meu cérebro, formigas transitam calmas. Não, não sinto medo desta inevitável morte súbita. Porque há muito aprendi a partir. As ervas brotam e crescem. Perguntamos ao jornaleiro da esquina sobre o que nos resta. Ele sorri e nos diz: — Talvez fosse a manhã.. Respondemos sempre: — É, talvez...   75 Algumas pessoas gritarão. Mas as lágrimas são antigas. Flores enfeitam as janelas. Continuamos abrindo portas. Não sabemos onde nos levam os corredores. No fim do túnel, os malucos acendem velas e criam asas iridescentes. Preces inúteis de almas cansadas. Fincadas em ganchos de câmaras frias. Já não ousamos gritar. A palidez dos que despertam. Amputaremos o tempo desta velha engrenagem. Existir é desafiar toda a natureza. O olhar atento perscrutando por uma fresta o paraíso inexistente. Deixem a lâmina na borda do precipício. As canções ainda falam sobre flores, estrelas e sonhos. Enquanto as sombras marcham em direção ao vento..   76 O que nos importa creio, a provável loucura?! O silêncio talvez seja a muleta para o verso que sangra. As portas estão abertas, senhores! As crianças são anjos e os anjos são bons! Cavem sepulturas e escrevam nos muros. Desenhem na lápides o fim que se aproxima. Imortal, minha alma não consta dos arquivos e registros de nascimentos. O cigarro no cinzeiro, meus longos cabelos, sangrar sem nexo.. As portas — todas elas —, estão abertas. E eu vos convido para o próximo passo.   77 À qualquer momento você poderá ser o próximo. Quantos ainda resistem? Há alguém atrás da porta? Que rua esta nos leva? Eu sempre pedi tão pouco! Quase nada.. As palavras são navalhas. O riso amarga nos lábios e na paciência. Mas nada disso importa. Porque estou saindo. Morrer é tão fácil! Não diga nada. As horas velozes roubam-nos o futuro. Sei que jamais tornarei a ser o mesmo. Meu corpo arde em chamas. Enquanto você canta baladas nostálgicas. Agora, uma criança me estende a mão. Partimos porque sabemos que o tempo é pouco. Quase nada para o que virá após a curva desta estrada.   78 Dormem pálidos, deuses de mármore em seu quintal florido. A sua piscina e a hora exata. Enquanto fumo o vento assobia em minha janela. Destruo a métrica e as rimas todas, tossindo. Escrevo para os dementes e os abandonados. Aranhas tecem fios em meu cérebro. Se alguém vier perguntar-me algo, direi que estive ausente. Porque faz frio aqui neste velho porão. Sorria com seus dentes cravados em brancos lençóis. Eu somente sou só eu e isso não faz a menor diferença. Meus óculos esquecem o tempo perdido em que os sonhos eram livres. E os livros contavam histórias de esperança e paz...   79 Velhos navios ancorados nos cais. Tudo é deserto agora. A tempestade de poeira recobre a torre da catedral. Insistimos em continuar vivendo. Sonhamos com a Nova Era. Inventamos palavras. Repudiamos a violência. Somos todos inocentes. No imenso salão, casais giram a valsa. Violinos sem escalas quebram o antigo silêncio. Taças do vinho tinto sobre o linho imaculado. Somos soldados naufragados num tempo qualquer. Ainda que todos nós saibamos que esse tempo, ele jamais existiu. Esse tempo que, provavelmente, jamais existirá!   80 As sombras despertam. Sentado à porta da casa observo atentamente o céu. Os hospitais estão abarrotados. Notícias frescas no pão matutino. Borboletas despertam no jardim do abandono. Estou de frente para a estrada que nos leva. O sol ainda arde. Com seu fogo e seu calor. Cabelos emaranhados. Olhar sonolento. Alegria vencida. Quando o trânsito se torna caótico, é que penso em você.   81 Ouço sua voz vir vindo no vento. Varrendo as memórias, despertando as canções com versos que falam de amor. Aprisionado ao tempo, entre varandas e quintais eu me sinto tão só! Na lembrança antiga, o seu sorriso guardado. Perdi os sonhos e a voz. Perdi a voz e o verbo. Você sabia das coisas.. Hoje eu sei como tudo termina. Porque, inevitavelmente, um dia... Bem, um dia, todos partimos. E restam somente velhas e entristecidas canções que o vento ainda teima em soprar no deserto que se fez em nossos corações.   82 Hoje a melancolia tomou conta de tudo. Adentrou por uma fresta e se instalou em minha alma. A madrugada é longa e o céu sarapintado por estrelas me faz ainda mais distante. Errante, penso em tudo o que se perdeu. Porque sempre acabamos perdendo. E resta sempre esse desassossego, esse talvez.. Astros incandescentes bailam pelo céu. As ruas jamais terão fim. Ambos sabemos disso tudo. Embora continuemos nos perdendo um pouco à cada madrugada. Enquanto as lágrimas, as lágrimas criam atalhos nas faces do tempo.   83 Pássaros imaginários pousam sobre o telhado. São almas fatigadas que vagam pelas estradas quando as horas morrem e se tornam sombrias. São restos de sonhos, são vidas vazias. São ilusões aflitas que se perderam um dia. São anjos cansados, vencidos, feridos. São — bem sei —, sentimentos escondidos que trago no peito. Mas que, no entanto, me fogem pelo olhar.   84 Rotas são as palavras, puídas as frases que nada revelam amalgamadas na mente nos porões da (de) mente (s). O que importa é o que se sente. Os lábios cerrados não revelam segredos. As asas estão partidas em fatias. Você me observa mas não consegue me enxergar. Amanhã nos esqueceremos das promessas e da chuva. Porque somos todos mais ou menos parecidos. Abra os olhos agora, porque o trem está para partir. Não acene, nem diga adeus. Lembre-se que o tempo, o tempo jamais envelhece. E sobretudo, não esqueça: as palavras e frases são artefatos e artifícios que nunca duram por mais que meros segundos.   85 Cartões postais. Senhores sonolentos metidos em pijamas. Desdobramento espiritual. Do alto da cidade, observo telhados e quintais. Deve amanhecer de repente. Você sabe meu medo. Sei também seus segredos. Nada diremos. No entanto me preparo para uma possível ruptura. No espelho, sangue coagulado. Nos varais, melancolia. Jarros de barro na varanda. Olho d’água no quintal. Cartões postais de outros mundos restam na memória, guardados. Até um dia, quem sabe? Meu corpo repousa sob cobertas. Mas continuo sentindo frio.   86 Vocês podem ver, eu sei. Sinuosas estradas, dunas e espirais. Basta abrir a porta. Basta estar atento. Não os olhos cegos da serpente adormecida. Palavras que formam frases adocicadas. Nada disso é real. Nada disso é fácil ou agradável. Vocês podem sentir apesar do medo. É a loucura o que salva. Não a visão de um belo jardim onde tudo é tão normal. Vocês podem ver. Vocês podem sentir. Eu sei porque fazemos parte do tudo e do nada.   87 Todos os dias nos perdemos um pouco. Nesse medo que nos acorrenta. E observamos nossas crianças aflitas. Nos disfarçamos de heróis e choramos às escondidas. Todos são demasiados perfeitos! Talvez a vida fosse serena e nossos sonhos fossem simples. Contudo, para que sonhar? Se o que sabemos da vida são somente os seus males?! Há uma hora em que tudo nos cansa. E desejamos partir. Portanto, esta é a hora. Porque já não sabemos nada sobre a vida, afinal. É, talvez fosse necessário o amor e a paz que não nos deixaram cultivar.   88 As borboletas e os pássaros são azuis e sobrevoam pelo céu da cidade. Os jatos de fogo e fotografias nos policiam atentos. Somos muitos mas poucos se dispõem a sair para a morte. Porque viver — hoje —, significa, necessariamente, morrer. Minha cabeça e meu cérebro podem explodir em mil pedaços. Estamos irremediavelmente sós e necessitamos de ajuda. Gritaremos pelos amigos, mas todos estão surdos contando seus dólares. Nosso tempo também se esgota. E por mais que procuremos não encontramos a saída. As borboletas e os pássaros partiram. E nós, já não conseguimos erguer a cabeça e mirar o horizonte   89 Eu preciso sair por esta porta. Todos os dias digo ao espelho o quanto a tristeza nos fere. E que esta ferida não cicatriza. Eu preciso partir e no entanto, permaneço aqui parado. Espero como se houvesse um momento exato para cada coisa nesta vida que se fez sem sentido. Enquanto isso, o inimigo continua avançando. Seguindo sempre em frente. Alguns passam por cima de minha sombra já morta. Eles não percebem mas há lágrimas em meus olhos cansados.   90 As pessoas estão sorrindo. As avenidas são longas. Os automóveis deslizam pelo negro asfalto. Há fumaça de cigarros e frases que brotam dos lábios que sorriam. Eu somente caminho e observo. Toda loucura é gratuita. Posso inventar uma canção que fale sobre coisas simples. Enquanto os edifícios proliferam e tocam as nuvens. Um bêbado cria frases proféticas e prolixas. Eu queria estar ao teu lado. Sentir o teu corpo ardendo. Mas um dia, tudo passa. Por isso, estou sozinho. E caminho por esta longa avenida que me arrasta ao esquecimento.   91 Todas as torres e pirâmides segredam-me os desertos percorridos. As areias e o vento sibilam. Antigos sonhos, antigas civilizações. O frio das estrelas e as tempestades de areia. Quanto ao sol, lega-me a febril miragem dos lobos e dos deuses com suas longas tranças. Algo ocorreu um dia enquanto eu procurava a fonte dos segredos desta e de outras existências...   92 Eu vejo a longa estrada e sonho com velha fotografias. Você permanece frente ao espelho como se a eternidade refletisse todos os seus desejos. Não cantaremos o futuro incerto. As cidades se transformam, as nuvens mudam de lugar, os vagabundos estão em silêncio e contemplam o infinito. Não sabemos de nada, garota! No entanto, escrevo frases em velhos muro manchados pelo sangue dos inocentes. Frágeis frases que choram as nossas dores e medos...   93 Silenciosos e aflitos corações! Você sempre me olhou por fora para jamais conseguir ver nada. As suas mãos estão abarrotadas de sonhos e ouro em pó. Enquanto isso, a casa começa a desmoronar. Você se arrasta pelas sombras e corredores de meus sentimentos. No silêncio da manhã, alguns versos abstratos. Às vezes, penso que podemos salvar o que restou do que fomos. Mas você tem andado ocupada nesses últimos tempos absurdos. Por isso, meus passos, seguem os seus e se perdem por aí. Todavia, eu sei há muito, quando tudo começou a desmoronar.   94 As flores bocejam nos canteiros. O mato cresce à nossa volta. As mãos implacáveis do tempo roubam-nos da idade, a paciência. Envelhecemos obscuros e perdemos nossos sonhos antigos. Os cães ladram lá fora no escuro enquanto esperamos que o dia desperte. No entanto, perdemos a noção do tempo. Nossos flácidos desejos esgotaram-se sem grandes alegrias. Fantasias soterradas do ontem. Por isso cravamos facas em nossos próprios corações. Pelo mero prazer de não continuarmos nesta longa jornada solitários.   95 A sua risada soa pelo deserto. A cidade ainda continua morta. Os corpos caminham sem vida. Às vezes a melancolia é tudo o que resta. Olhares absortos, vozes frias, sonhos mortos, vencidos... O que restará depois? O sol ainda arde nessa tarde esquecida em silêncio, ervas e embriaguez.   96 Por detrás dos muros ou em meio às frases, pensamentos são lâminas. Nada com que sonhar. O tempo furioso arde sob este sol de sangue. Esse tempo de violência, segredos e sussurros tantos. O que pensarão neste momento, as velhas mentes assassinas? Essas crianças que restaram abandonadas a nos mirar com seus olhares de animais feridos?   97 O vento continua soprando sua canção ininterrupta de presságios. Anuncia o abismo e velhos templos soterrados. Memórias esquecidas em velhas cavernas e taças de vinho. Os ponteiros do relógio derretem esse dia partido ao meio. Corações empedernidos, flores mortas e rostos estampados nas rochas do esquecimento. A mente embotada espera por um dia que — nós sabemos —, jamais virá.   98 Eu estou fora de casa. No entanto ela fica bem ali do outro lado da rua deserta. Pira, fogueira em chamas. As pessoas estão gargalhando enquanto o vento sopra uma estranha canção falando sobre nuvens gordas e prados. Falam sobre canteiros e flores, menina. Ainda ouço o tráfego lento e as aves enfurecidas da imaginação. O céu escureceu de repente e os brancos lençóis nos varais acenam por nós o adeus negado. Eu estou fora de casa e talvez algum dia, todos nós saibamos para onde nos levam as estradas dos sonhos guardados.   99 Folhas em branco carregadas pelo vento. Pérolas e pedras — velhas frases —, ainda teimam em falar sobre sonhos. Sonhos mortos ou perdidos. As lápides são frias. Os corações estão inquietos. O medo subjuga os fracos. Os fuzis estão prontos e as inúteis bandeiras bailam ao vento. Quando amanhecer — se voltar a amanhecer —, nos entregaremos ao inimigo. Essa guerra não é nossa. Nunca foi. Eu não disse que deveríamos marchar para as trincheiras em busca da linha de fogo. Há papéis picados sobre corpos sem vida. Hoje não tenho certeza de nada. Somente penso: se após esta noite, ainda haverá alguma manhã que nos possa resgatar do medo.   100 Estamos ocupados e não podemos gritar ou cantar neste momento. Nossas bocas estão lacradas com pizzas e sorvetes. As guitarras emudecidas restaram inúteis pelos cantos do porão. Sonhamos com o futuro sem nos atinarmos que o futuro foi ontem. O novo é sempre o mesmo velho de sempre. Corram todos para as janelas da eternidade! As ruas estão vazias e sujas. Os mendigos habitam as canções de Dylan. Sabemos das facas e balas perdidas. Os navios continuam navegando desertos. As víboras fugiram há muito. A cidade será destruída em breve. Nós faremos palavras cruzadas e assistiremos filmes em D.V.D. Inventamos partidos e religiões e, no entanto, continuamos destruindo as estranhas catedrais. Alguém puxou o lacre da granada mas não havia intenção no gesto. Por isso, já podemos adormecer em paz. Criem seus acordes e liguem seus instrumentos. Os meninos e as meninas estão prontos e esperam ansiosos para esta viajem. O tempo é atroz e os dias tão longos! Sabemos que tudo isso não tem mais importância. A granada nos observa e sabe que nos sentimos vazios e cansados de tudo. Talvez alguns fiquem chocados com esta Torre de Babel. Contudo, é provável que continuem sorrindo lagoas azuis enquanto as ruínas estão cedendo ao peso dos séculos e das palavras...   (FIM) Mauro Gonçalves Rueda. São José do Rio Preto — 1.998.   THE END (The Doors)   Come on, turn the lights out, man Turn it way down Hey Mister Lightman You gotta turn those lights way down, man! Hey, I’m not kidding, you gotta turn the the lights out Come on! What do we care...? This is the end Beautiful friend This is the end My only friend, the end Of our elaborate plans, the end Of everything that stands, the end No safety or surprise, the end I’ll never look into your eyes again Can you picture what will be So limitless and free Desperately in need of some stranger’s hand In a desparate land Come on, baby! And we were in this house and there was a sound like silverware being dropped on linoleum, and then somebody ran into the room and they said: “Have you seen the accident outside?” And everybody said: “Hey man, have you see the accident outside?” Have you seen the accident outside Seven people took a ride Six bachelors and their bride Seven people took a ride Seven people died Don’t let me die in an automobile I wanna lie in an open field Want the snakes to suck my skin Want the worms to be my friends Want the birds to eat my eyes As here I lie The clouds fly by Ode to a grasshopper... I think I’ll open a little shop, A little place where they sell things And I think I’ll call it “Grasshopper”... I have a big green grasshopper out there Have you seen my grasshopper, mama? Looking real good... Oh, I blew it, it’s a moth That’s alright, he ain’t got long to go, so we’ll forgive him Ensenada The dog crucifix The dead seal Ghosts of the dead car sun Stop the car I’m getting out, I can’t take it Hey, look out, there’s somebody coming And there’s nothing you can do about it... The killer awoke before dawn He put his boots on He took a face from the ancient gallery And he...he walked on down the hallway, baby Came to a door He looked inside Father? Yes, son? I wanna kill you Mother...I want to... Fuck you, mama, all night long Beware, mama Gonna love you, baby, all night Come on, baby, take a chance with us Come on, baby, take a chance with us Come on, baby, take a chance with us Meet me at the back of the blue bus Meet me at the back of the blue bus, Blue rock, Blue bus, Blue rock Blue bus Kill! Kill! This is the end Beautiful friend This is the end Mmy only friend, the end Hurts to set you free But you’ll never follow me The end of laughter and soft lies The end of nights we tried to die This is the end   O FIM   É o fim Querido amigo É o fim Meu único amigo, o fim De nossos planos detalhados, o fim De tudo que está de pé, o fim Sem segurança ou surpresa, o fim Nunca vou olhar em seus olhos outra vez Consegue imaginar como será Tão sem limites e livre Desesperadamente precisando da mão de algum estranho Em uma terra de desespero Perdidos numa imensidão romana de dor E todas as crianças estão loucas Todas as crianças estão loucas Esperando pela chuva de verão Há perigo nos limites da cidade Siga pela estrada do rei, baby Cenas misteriosas dentro da mina de ouro Siga pela estrada do oeste, baby Monte a cobra, monte a cobra E siga para o lago, o antigo lago, baby A cobra é comprida, sete milhas Monte a cobra Ela é velha e sua pele é fria O oeste é o melhor O oeste é o melhor Venha para cá e faremos o resto O ônibus azul está nos chamando O ônibus azul está nos chamando Motorista, para onde você está nos levando? O assassino acordou antes do amanhecer Calçou suas botas Pegou um rosto na antiga galeria E seguiu pelo corredor Ele foi até o quarto onde sua irmã morava E então ele visitou seu irmão E então ele, ele seguiu pelo corredor E ele foi até uma porta, e olhou para dentro Pai, sim filho, eu quero te matar Mãe, eu quero... Venha, baby, vamos nos arriscar Venha, baby, vamos nos arriscar Venha, baby, vamos nos arriscar E me encontre atrás do ônibus azul Fazendo um rock triste Em um ônibus azul Fazendo um rock triste Venha! Mate, mate, mate, mate, mate, mate É o fim Querido amigo É o fim Meu único amigo, o fim Dói te libertar Mas você nunca iria me acompanhar O fim do riso e das leves mentiras O fim das noites em que tentamos morrer É o fim.   Notas (*) – Site oficial da banda: http://www.thedoors.com (** ) – Dados: Revista “Clássicos do Rock” — Editora Escala Ltda.. (***) – Alexandre Fontoura escreve para o Especial JB — Jornal do Brasil [jbonline.terra.com.br] — com vários artigos em sites da banda “The Doors”. A ele, nossos agradecimentos.   PROIBIDA A REPRODUÇÃO TOTAL OU PARCIAL DA OBRA. DIREITOS RESERVADOS PARA MARICY REGINA DE CASTRO RUEDA E JOYCE DE CASTRO RUEDA. REGISTRADO NO EDA DE ACORDO COM A LEI N.° 9.610/98. FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL. BY: MAURO GONÇALVES RUEDA. ©2003 — Mauro Gonçalves Rueda maurorueda@uchoanet.com maurorueda5@hotmail.com Versão para eBook eBooksBrasil.com __________________ Março 2003 KOREAEBOOKSTYLEFILE_1.1.0G!]7s + Times New RomandefaultdefaultTimes New Romanhr_file_0 para0hr_file_0 para0Times New Romanhr_file_0 para1hr_file_0 para1Times New Romanhr_file_0 para2hr_file_0 para2Times New Romanhr_file_0 para3hr_file_0 para3Times New Romanhr_file_0 para4hr_file_0 para4Times New Romanhr_file_0 para5hr_file_0 para5Times New Romanhr_file_0 para6hr_file_0 para6Times New Romanhr_file_0 para7hr_file_0 para7Times New Romanhr_file_0 para8hr_file_0 para8Times New Romanhr_file_0 para9hr_file_0 para9Times New RomanbrbrTimes New RomanparaparaTimes New RomanfiggrfiggrTimes New Romanfig.contfig.contTimes New Roman tablepara tableparaTimes New RomanlistparalistparaTimes New RomanfontfontKOREAEBOOKSTYLEFILE_1.1.0G!]7s + Times New RomandefaultdefaultTimes New Romanhr_file_0 para0hr_file_0 para0Times New Romanhr_file_0 para1hr_file_0 para1Times New Romanhr_file_0 para2hr_file_0 para2Times New Romanhr_file_0 para3hr_file_0 para3Times New Romanhr_file_0 para4hr_file_0 para4Times New Romanhr_file_0 para5hr_file_0 para5Times New Romanhr_file_0 para6hr_file_0 para6Times New Romanhr_file_0 para7hr_file_0 para7Times New Romanhr_file_0 para8hr_file_0 para8Times New Romanhr_file_0 para9hr_file_0 para9Times New RomanbrbrTimes New RomanparaparaTimes New RomanfiggrfiggrTimes New Romanfig.contfig.contTimes New Roman tablepara tableparaTimes New RomanlistparalistparaTimes New RomanfontfontKOREAEBOOKSTYLEFILE_1.1.0G!]7s + Times New RomandefaultdefaultTimes New Romanhr_file_0 para0hr_file_0 para0Times New Romanhr_file_0 para1hr_file_0 para1Times New Romanhr_file_0 para2hr_file_0 para2Times New Romanhr_file_0 para3hr_file_0 para3Times New Romanhr_file_0 para4hr_file_0 para4Times New Romanhr_file_0 para5hr_file_0 para5Times New Romanhr_file_0 para6hr_file_0 para6Times New Romanhr_file_0 para7hr_file_0 para7Times New Romanhr_file_0 para8hr_file_0 para8Times New Romanhr_file_0 para9hr_file_0 para9Times New RomanbrbrTimes New RomanparaparaTimes New RomanfiggrfiggrTimes New Romanfig.contfig.contTimes New Roman tablepara tableparaTimes New RomanlistparalistparaTimes New RomanfontfontKOREAEBOOKSTYLEFILE_1.1.0G!]7s + Times New RomandefaultdefaultTimes New Romanhr_file_0 para0hr_file_0 para0Times New Romanhr_file_0 para1hr_file_0 para1Times New Romanhr_file_0 para2hr_file_0 para2Times New Romanhr_file_0 para3hr_file_0 para3Times New Romanhr_file_0 para4hr_file_0 para4Times New Romanhr_file_0 para5hr_file_0 para5Times New Romanhr_file_0 para6hr_file_0 para6Times New Romanhr_file_0 para7hr_file_0 para7Times New Romanhr_file_0 para8hr_file_0 para8Times New Romanhr_file_0 para9hr_file_0 para9Times New RomanbrbrTimes New RomanparaparaTimes New RomanfiggrfiggrTimes New Romanfig.contfig.contTimes New Roman tablepara tableparaTimes New RomanlistparalistparaTimes New RomanfontfontKOREAEBOOKSTYLEFILE_1.1.0G!]7s + Times New RomandefaultdefaultTimes New Romanhr_file_0 para0hr_file_0 para0Times New Romanhr_file_0 para1hr_file_0 para1Times New Romanhr_file_0 para2hr_file_0 para2Times New Romanhr_file_0 para3hr_file_0 para3Times New Romanhr_file_0 para4hr_file_0 para4Times New Romanhr_file_0 para5hr_file_0 para5Times New Romanhr_file_0 para6hr_file_0 para6Times New Romanhr_file_0 para7hr_file_0 para7Times New Romanhr_file_0 para8hr_file_0 para8Times New Romanhr_file_0 para9hr_file_0 para9Times New RomanbrbrTimes New RomanparaparaTimes New RomanfiggrfiggrTimes New Romanfig.contfig.contTimes New Roman tablepara tableparaTimes New RomanlistparalistparaTimes New RomanfontfontJFIFHHC    $.' 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