KOREAEBOOKDOCUMENT1.2.0Titits & FirulasMauro Gonalves RuedaeBooksBrasil.comeBooksBrasil.com>para.xmlcapa.jpgnormal.sty{ para.xml  smaller.sty small.styZ) normal.sty3 large.sty> larger.sty1I"ccapa.jpg ndice TITITÍS & FIRULAS     Primeira Parte     Segunda Parte Tititís & Firulas Mauro Gonçalves Rueda Versão para eBook eBooksBrasil.com Fonte Digital Documento do Autor maurorueda5@hotmail.com ©2003 — Mauro Gonçalves Rueda Índice TITITÍS & FIRULAS     Primeira Parte     Segunda Parte (Meio Que Poesia\Mais Que Catarse) TITITÍS & FIRULAS (POESIA)   Mauro Gonçalves Rueda São José do Rio Preto. Março de 1.999.     Para: Joyce & Maricy. Márcio, Rô e Flora Jacovani. Moisés e Pelé. Roberto e Mara Ferreira. Minha mãe, meus irmãos e irmãs.     Tititís & Firulas (Primeira Parte) 1 rabisco numa linha torta uma reta na linha do horizonte repousa a esperança da criança vertical (mente) não triste contente mira o céu pressente não o vazio nem o ausente querubins presentes cantam em coro louvores deus ouve e chora uma nuvem de chuva do céu na terra verticalmente cai a chuva corre horizontal mente a vida da gente sorria... 2 escrevo numa linha torta uma seta na linha do horizonte repousa a esperança da criança verticalmente não triste contente mira o céu uma criança na lembrança atrás da porta... 3 ora desperto o céu aberto explode em mil sóis.. na escala da vida refaço meus bemóis 4 juro por qualquer bobagem que te amaria pena que sei tens a beleza das flores contudo és uma pobre alma vazia. 5 olhos entreabertos, sorrindo, desperto. pura, dura agonia. e esse destino da gente que nunca soube o que é felicidade?.. Penso: um dia serei contente!. 6 emudecido diante dos absurdos da vida, carrego nos ombros o meu fardo de culpas. talvez pareça demais: esses estranhos seres roubaram-me a vida e a paz. 7 fotografias recortadas de folhas de jornais. o olhar, o sorriso, a beleza, a ternura.. meu amor é somente uma idéia de te amar Sandra Bréa. 8 sonho e sina bela menina. deslumbrante magia. em noite de luar. fingido, disfarço e digo não te amar. 9 minha alegria não vale nada. faca afiada, dois gumes que cortam e não dizem da fada esfarrapada. 10 no túmulo das dores em que jaz a poesia, ardem velas cansadas. quando o cemitério de palavras faz-se deserto, ninfas e anjos passeiam à céu aberto. 11 no silêncio da madrugada assassino a fotografia da minha amada. “síndrome da vaca louca”, pobrezinha, a sangrar, ela muge desesperada. 12 as paredes sulcadas emudecidas, fadadas ao fim, ainda choram por mim. penso: a vida será eternamente assim... quando penso início tudo se me retrata o fim. 13 resolvo de vez a velha solidão. companheira inseparável, brinca e mora em meu coração. o lá fora existente é mera ilusão. 14 não fossem os pulsos costurados, o poema inacabado, a mesa posta para o repasto, essa faca de aço ferindo o compasso, juro que comporia a derradeira canção. arrancaria do peito e, dar-te-ia, meu pobre coração!. 15 meu medo é navalha, adaga afiada, caco de vidro, feto em formol.. meu medo é segredo, escorpião no coração! meu medo é feito a canção. 16 a boca crua crava os caninos em meu pescoço. não há dor, um pouco de medo, talvez. após saciada, ela, vampira, adormece. mas, ambos sabemos, que esta vida não vale nada. 17 poeta aborrecido, sinto-me morto, perdido. quisera ser, de vez, pela vida esquecido. 18 a palavra não grassa se a poesia é escassa. na alma baça, nada permanece, tudo passa. a vida resta vazia. e a beleza perde o brilho e a graça. 19 da janela, ela acenava-me e partia. partia e sorria. sorria e eu ficava. ficava e morria. 20 insones madrugadas e, tudo era tão nada. o céu de estrelas salpicado, você absorta ao meu lado. a poesia? ah, a poesia! era tudo e nada. por si (só) ela se fazia. 21 a vagar pelo mundo, correndo mil estradas, desci ao fundo do fundo e tornei porque sei: no fundo do fundo eu nada encontrei. 22 no espelho, o capeta ria a troçar zombeteiro. quase compactuávamos a minha imbatível tristeza. um dia, despertei pelo avesso: quebrei o espelho e ri. o capeta, coitadinho, são cacos que depois varri. 23 queria um pé de sonhos lá no fundo do quintal. veio alguém e me disse: — mas isso não é normal. o que me importa o que é ou não, normal?! até hoje, continuo acreditando em fadas azuis, pelo meu quintal brincando. 24 quero morrer bem mansinho. feito um passarinho, quieto, num canto, sozinho. 25 minha vida é feito a poesia. dessas que a gente lê e, sem querer, pega-se a chorar de alegria. 26 no poema a esperança é uma lança. dessas que, cravada na alma, nos torna de novo crianças! 27 verso repentino: do ventre da moça — de louça —, ouvi a sorrir, meu futuro e destino. 28 a menina queria. eu dizia, não! bela menina, nunca soube porque não. é que o amor sempre, nos deixa doentes. mas não nos rouba a razão. 29 febricitante sentimento desesperado: de tanto te amar, trago no peito o coração dilacerado. 30 a rubra rosa no sorriso. o mel pelos lábios fruindo. quando chegar primavera, transformo-me em beija-flor e trago o mel de teus lábios, minha flor!. 31 pai e filha sentados ao meio-fio. o tempo parco parece parado. o pai cismando: desempregado. a filha não. esperança e canção. a filha viceja. flor do cerrado. quem permuta um fio de luta? o sonho a labuta? quem permuta silente solidão? da menina não!. de um pai e seu coração?! quem? 32 coração de pai.. um suspiro, um ai! pai amigo, bondoso. pai sem sorriso entredentes. nem triste, nem contente. (parece, às vezes, indiferente. contudo, não é!). é um jeito — sem jeito —, de contar seu amor. amor simples, calado. alado ao lado do ente amado. coração e amor de pai: um suspiro.. Deus!, quantos ais!.. 33 não diz (não) o coração ferido. cala-se, encolhido. tamanho da solidão.. medida extremada para coração tão nada. coração miúdo. chora não, pequeno! olha este poeminha sereno rindo-se da gente. diz a verdade, diz. não o medo. das mentiras, segredos. o que fere, magoa, é o sim e o não. feito faca fincada do amor que nos mente. sem saber-se doente nada diz. no peito sangrando queda-se mudo sem ter paz coração infeliz! 34 a vida a morte. a lâmina, dois cortes. nem o azar, nem a sorte. nem o sim, nem o não. a vida, a morte. o que ilude: ilusão. 35 serena a calma resta a sombra da alma. o resto, não. o resto? ilusão. 36 que canto este canto tanto meu rolando em pranto?!. 37 vazio, frio, roto, torto, morto.. o amor findo: fiasco do destino. desatino que destoa do resto. tudo o mais sempre resto. 38 não (se) afobe afogue na bebida este gosto amargo da vida. hoje o amor é pranto. alma ferida. ferida alma. sem sonho. sem paz. sem paz, sem sonho. o que resta da vida?. 39 como contar o amor findo? fenda se abrindo, faca ferindo, enquanto você sorria... como contar?. 40 não é sua nem é minha esta rua reta. restos de vazio no vazio que nos resta. não é sua nem é minha o que nem era mas convinha. 41 ata dura essa sina assaz (s) sina (d) a gente. 42 flores entre olham (se) (me) entre flores sepulto (me) (se) fores flores. 43 a casa vazia. abarrotada a casa. vazia a vida. asa e vida a z a r sem a r como respirar?. 44 todas as palavras são asas. são palavras todas as pás. o que lavram meras palavras?. 45 como se o tempo — cortado seu ritmo —, arrastasse os passos, fora do compasso e nem desejasse chegar. de tal e de fato vi a vida passar. como se o tempo exaurido, estancado, avesso aos tropeços (toda a vida) arrastasse os passos fora do eixo para nunca voltar. 46 na caixa jogos. a vida & ao seu lado, solidão. se não me amas porquê me enganas? jogo doentio guardado em alguma caixa. vazio jogo doentio dentro do vazio. 47 você me suga. nada balbucio. se me enganas.. se me enganas, nada balbucio. você me suga. 48 findou. adeus. jogos dentro de uma caixa adeus vá para os confins e um breve adeus. 49 entrementes sorrias lâmina nos pulsos sulco eunuco flácida flecha mecha de sangue em cabelos e desvelo no joelho o futuro observa a selva mecânica pele em flor flor da pele concerne urgente mente o que sente sóbrio poeta lavrando eras entre heras quimeras tudo se perde do que se ganha entre mentes rias.. 50 entre vejo ante vejo posto o que entre tenho atenho-me (a tenho) em ser o que não desejo. 51 cláusula primeira: clausura. na prisão do eu ser o que sonha ser o que restrito queda-se aflito sem ter como poder voar!. 52 não se lavra a palavra na lida sem dar-lhe da vida a própria vida em frases perdidas feridas cicatrizes lábios em silêncio na lida lavra-se a palavra à pá. o tempo destino em pó migalhas de sonhos sulcados por lágrimas lambe das mãos e da testa o suor. a terra recobre a palavra. a alma é sopro. alento e calma. 53 de repente percebe-se no espanto o pranto. manto implacável da dor. a frialdade da lápide espanta, contraria.. não a alma, a caixa vazia. de repente, faz-se ausente o sorriso a voz o olhar, de quem via-se contente por nos contentar. e a lida finda. a alma, não! passarinho solto da prisão por outros prados searas e ninhos foi cantar. agora, a saudade, dolente, na solitude, é o que nos força, saudosos a chorar!. 54 tem preço o apreço ante o tropeço o que meço e adormeço antes do início após o meio em que reconheço que todo apreço por si é um preço?!... 55 a cada passo traço um compasso a cada passo passo à passo refaço o espaço medida exata para o laço da lida da vida em que traço meu compasso. 56 reflito não atônito nem aflito no que reflito e se me fito faço-o ante o conflito porque reflito deveras contrito. 57 versos entre sonhos destino adverso da pobreza das dívidas brotam-se-me versos. não o corte no pulso no peito a ferida da lida revolvida da qual me despeço não meço a dor se feneço pelo avesso versos teço. 58 que alegria descobrir no que não há? ou se há, porque não descubro onde está? ser poeta em tempos sórdidos! seres mórbidos! melancolia de minha alma. é fria a fatia. o fátuo fogo esfria. envelheço e tropeço nos escombros do que seria. do que poderia. contudo, não é. jamais será. fio tênues versos. de faces doridas. macérrimos versos. a poesia é toda a alegria perdida. viver é morrer-se. da morte, arranco a vida. 59 assombro em meio aos escombros amiúde descubro e desperto o que distante tão perto perdido tanto tempo deserto meu coração eis o que me resta eis o que vos oferto. 60 a dor flor sangrando poema nefando da alma que envelhece com seus pântanos. álacres palavras iridescentes seres na noite sombria tudo e nada melancolia a dor de uma existência vazia flor sangrando na cripta fria. 61 versos seres alados jamais calados gritam por si o que passado o que há por vir de fato tanto inconteste pelo sonho que me reveste a alma em poesia é que versos os penso alados embalde luto na solidão vagando searas com o silêncio rufam asas de versos seres alados que gritam por nós o destino — às vezes —, atroz atrás os passos sons fantasmas de sonhos mortos de versos tortos seres alados. 62 que entreolha não revela na noite este amante açoite. feito verso trespassa o coração a dor da traição. o amor é enxovalho chacota riso demente. pura e casta adormece fingindo fugindo traindo a poesia o companheiro. prazer, loucura, dinheiro? estéril geladeira espalhada no leito. frígida indiferente não sente não p/rosa e rouba este resto de vida torta... 63 na fumaça baça a vidraça. coca-cola formol diazepan suicídio na borra do café no pé frieira olhos congestionados pensamentos sonhos desejos.. calado! boca selada, cerrada janela que violenta o vento. meu tormento não cabe; não sabe meu sentimento. dor, ferida, agonia na fumaça. a mulher fria embaça: a alma, a vida e a poesia. 64 nem ter ser talvez menta bala, frase, verbo. não e nunca adunca a forma disforme atormenta o desejo a pureza das crianças inocentes. os sobreviventes da noite calada parvo e pouco que me sei nada ser talvez nem ter e no peito o moribundo poeta roto suspira a sala vazia o café, o cigarro o segredo o revólver na gaveta esconde o futuro... 65 a caneta antiga pena verso mordaz o que lhe apraz? compraz? na boca ranço gosto tempo perdido sonhos mortos. remonto ao vencido herói de galocha e não me encontro no avesso do espelho. só o sonrisal só o ponteiro do relógio inexistente resisto descontente tristeza fútil! melancolia tola! sem aflição a camisa-de-vênus guarda a frase não dita. masturbar o corpo carente a carne. a alma esfuma, foge... não me apraz este gozo mórbido. mas gozo!. 66 por acaso ou não perde-se a esperança com ou sem razão? o caso não conta faz-se de conta que tudo vai bem não conta o acaso no caso de casar-se este por acaso. nem as flores nem há flores no vaso. e as paredes manchadas guardam tudo e nada sei que o acaso me salva do amor inexistente doente faz de conta que sonsa um dia desses nos encontramos pela casa fria... vazios. 67 lua lua lua pedaço da vida que perdi pela rua. 68 forço o nó em pó deste laço enlaço o pescoço o caroço da azeitona o sorriso da atriz a voz do cantor se me perdoas lambo pés e mãos se não há perdão não haverá canção somente o laço (em que) no qual me embaraço rimo não rio o verso trôpego meu compasso. 69 absorto nunca percebi que estou morto. distração, amiga! se por acaso ainda sinto este desejo de entrar em você, desculpe-me. quedar-me-ei sereno. talvez, eunuco? afinal, o que há de melhor no veneno senão o próprio veneno?. 70 lá fora aqui dentro fora-dentro lá-aqui dentro-fora aqui-lá em qualquer todo lugar não adianta fugir estarei estou em todo lugar!. 71 ontem não raro espanto o falo na garganta havia sol de repente você abriu as pernas e mergulhei em seu lago bem fundo no fim do mundo alguém gritou: — desperta, poeta!. — my name?. mauro mouro bronco brucutu dinossauro mourejando laborando morro de rir trocadilhos tortuosos tuas entranhas apagam o sol do papel dentro de você fico mirando o céu amanhã desperto há muito o mandrix desapareceu da praça. 72 ok, baby! essa saia justa não é justo meu torcicolo a espinha dorsal deve ser o mal se você falasse menos e chupasse mais balas de hortelã? acho que vou ver um filme na TV. 73 de maluca a nuca e as bolas azuis. o céu estrelado meu olhar parado vidrado chupar lamber suas orelhas e os brincos derreter sorvete ao sol sob a metade do dia posto pastando em seu gramado molhado acre de suor. 74 feras primaveras quimeras tempo ido perdido dentro de uma jaula as feras que alimento com tormento poesia sentimento.. sinto muito!.. 75 hoje nunca será tarde mesmo que você lancinante dor doril com cerveja e um bolero candelabro meia luz cheirar umazinha vezinha só piedade nunca será tarde demais se você der eu morro em paz. 76 quando a enfermeira rapou meus pentelhos dopado & conduzido à mesa cirúrgica circuncidado perdi a pele o escalpo bandida sioux apache comancheira! o pinto em ataduras mumificado preso apontando para o umbigo mais 45 dias jejuando — porra! estourei os pontos no espanto da menina eu sofria ela ria l5 anos é cócegas. eu 25. ela: “põe!”. eu: “não!”. até hoje continuo criando cabelos na palma da mão. vida besta!. 77 bons tempos parecem perdidos envelhecer & lembrar é= a sofrer viver é arte magia º loucura da soma de todos os versos este vazio acaba em melancolia é o que fica perdura não se apaga nem se perde é= a sofrer até que a sorte nos separe amém!. 78 não rola o pranto no prato de sopa no linho da mesa branca toalha manchada. brindemos o pão & o vinho pelo vão do tempo o pranto coagula em vão. 79 amor & mandiopã kolantil-gel + suspiro paixão X vitamina C sorvete de morango lambida no pescoço o caroço? cospe! na língua o fogo ardendo febril feito a primeira paixão quem esquece a melhor da pior foda que se deu na vida?. é feito o “pop”: a 1a. camisinha a gente sempre aquece & esquece o 1.° aborto é uma merda que nos emputece por toda a vida. e assim tocamos a boiada. um dia mete outro idem azia, benzinho! dá leitinho, dá! ah, os biquinhos! só a cabecinha, vai?!... 80 complexa a poesia requer sensibilidade palavras lapidadas feito diamantes pérolas paciência silêncio, solidão, paixão... complexa a poesia requer rima e vergonha tudo rima falta decência vergonha competência no vestibular o poeta esteta das palavras entra com tudo pena que as bolas (as duas) jamais passaram pela porta: batem mas não são convidadas... 81 que tristeza esta de fim de festa? carente o poeta, na solidão da madrugada silente, sente e sofre. sofre e mente. contorcendo-se em dor finda em úlcera o amor. com sazon uma bundinha e imaginação para quê tristeza? para quê poesia? poesia sem bunda é uma bosta!. 82 nesta luta com palavras e rimas é um vai-e-vêm que ninguém imagina imagina rima angina angelical vai, gina!, vai!. 83 os pés.. aliás, centenas, milhares os pés encardidos, movem-se rapidamente. rostos, máscaras, contrastes contritos destacam-se em fuligem, fadiga, estresse, desesperança.. é verdade! de alguns lábios, podemos ouvir palavras e risos. algumas frases dóceis, amenas, outras iracundas, outras ainda, se nos soam apáticas, conformistas.. como se fosse violentada e tangida, a multidão apressada não perde o ritmo, o compasso, o tempo... no contrapasso, refaz-se. ainda que aturdida, coletiva. são solidários, acredito. há uma certa necessidade dessa massa sentir-se menos patética, desumana. os gestos e os ríctus confundem-se. selva de pressa do agora do imediatismo urgente na mesmice afinal, parafernálico é o caos. o gado estoura pelas avenidas. somente um colibri chora lágrimas urbanas as 18 horas... 84 de repente a melancolia fatias de melancia no brilho do aço de faca no prato o reboco restos de uma primavera alaridos de jardins no peito, o coração farrapos humanos cabisbaixos e feridos vorazes máquinas balas de hortelã gosto amaro nos lábios a tristeza, caso à parte um verso branco refaz a paisagem batom manchando o colarinho a veia pulsa rítmica velhos, antiquíssimos carnavais, frases desfeitas, estilhaços.. mansa apatia do sonhar crepúsculos derramados.. do alto da plataforma a vista acompanha a inquietude, o desassossego lá embaixo o tráfego urgente a moça sorri uma lágrima teimosa nem sei bem porque.... 85 tempo irado de carranca cismando inseto urbano mascando chicletes jornal sangrento apertado sob o sovaco suarento um toque de poesia na correria desenfreada saudade de tudo e nada pupilas dilatadas sob trovoadas barrocas medo e insegurança na próxima esquina a faixa e o sinal do trânsito o destino inconteste, descontrole se o avião pousasse nesta longa avenida hora do ‘rusch’ impertinente fumaça de repente a chuva alagando as almas óleo na calçada bitucas de cigarros velozes sob marquises o pastor no radinho louvado o senhor bastaria uma bala perdida um beijo de despedida... 86 a voz enfática que vela revela, visceral a morte certa seres estranhos colarinhos e gravatas concreto e argamassa nas orelhas e pênis o poeta azul o poste a menina pianíssima a melancolia em meio aos espigões os dedos buscando notas no teclado arredio floram (nostálgicos) a menina e a cerveja saudade do interior Flora sorria inocente o poema baila ao longo da avenida digerindo diazepan olhar congestionado indaga o que ocorreu nos últimos quinze anos. Flora sorrindo anoitece suburbanamente crepuscular a barraquinha a mesa, os copos, as vozes.. às vezes, Flora sorria. o poeta esperando pelas estrelas no céu... 87 entediantes dos sapatos os calos seguem ruborizado crepúsculo não ter mais para onde ir nem aonde chegar a mala abarrotada são velhos fantasmas conhecidos antigos o que restou lá atrás o que se desconhece após a primeira curva caminho longo cigarro, solidão, asma, apáticos, anêmicos sonhos, desejos sufocados... são realmente silentes os pensamentos.. atormentado, aturdido sob o fardo segue pesado sobre os ombros repensar quimeras arquiteto de planos sendo atropelado pelo tempo parco tanta distância essa melancolia a saudade a vida salto para o palco mas.. nunca houve palco algum para o salto final... 88 por fim, descubro os dedos dos pés. sei que não enxergo um palmo adiante do nariz. a cerveja azeda a madrugada. se penso em você e esta lua alvíssima — penso, não vejo —, as melancias no quintal o estômago embrulhado o olhar embaçado mergulho a cara no que escrevo nada desejo sequer almejo a manhã desperta a porta aberta e meus pulmões.. desesperado procuro pelos óculos mas nada sequer a lupa nesta labuta me salva penso: — porra, meus óculos! porquê você os mastigou, afinal?. 89 mutucas e vampiros sugam meus artelhos enquanto o sol derrete o meio-dia já não resta poesia no colarinho que sufoca abarrotado de expectativas e vazio de esperanças danço no contrapasso do compasso. a vida engana-me um tanto morto quase absorto suponho o futuro em minha miopia. alegria vazia de alegria. feito um cavalo manco recosto-me no barranco do destino os pulsos cortados a falta de sorte é o que me alenta tão casmurro aprendo a ser burro!. 90 nem o caos sorria. almíscar no pescoço. o fumo/fumaça que evola. radiola antiga, velha intriga do amor apressado. embriagado te amo. sóbrio odeio. nostalgia barata. no bilhetinho guardado. o futuro envelhece sob camadas de esperanças. de forma que, vou enlouquecendo em meio a sonhos baratos e versos mancos, brancos, apáticos. nada disso importa! sou velha sombra morta, atrás da porta. berro um palavrão. as pessoas não entendem. nem eu. 91 não conta esta rua lua antiga pergaminhos lixo poético meu coração não, não conta a solidão a rima o amor a lama o que te deixo. sob o travesseiro a lágrima o sal e as cantigas cansado de tudo e de todos concluo: melhor esquecer e morrer. com sorte, talvez, eu nem sinta a dor e o medo. coisa mais besta!. 92 caótica a candura do verso frente ao futuro dentro do aquário a ampulheta braços de estivador para a dor a vida é fera lá fora e dentro do peito a sorte é faca morte certa em dois gumes lanças & espadas empadinhas e tubaína discutimos política falamos alto berramos enfim mas ninguém nos salva da fome do governo do poetariado esta classe sem pose, masco ramos de capim.. não importa. basta disso tudo. acho que é isso. mais ou menos o fim!... 93 quando a vejo quando há vejo se há: vejo quando eu a vejo. quando? 94 absorto não o morto em decúbito o dorso o torso torcicolo na geral a torcida torce o morto absorto abstêm-se abstêmio não torce. 95 felicitamos a fórmula em meio às flâmulas festivas firulas fornicam a nossa massificada consciência. 96 tudo seria somenos não fosse fácil ou fútil o ócio fixo em mente o vazio não sorrio entrementes todo poeta esteticamente não obstetra parto e deixo a porta aberta. 97 relapso relato o lapso sou o que traça no traço o que sou e faço mesmo quando relapso forço o traço me refaço sem métrica ou compasso narro e abro ocupo meu espaço. 98 que o poeta lavra sepultura que cava trêmula a mão que sufoca o coração não a rua passos apressados parco tempo para o café, o amor, a cerveja, a própria existência. versos que o poeta lavra e lava a lava que queima teima na solidão o poeta que enterra o coração. 99 a dor sem medida exata para a vida existência perdida jogo paciência em minha demência porque te amo nada importa-me a vida a vida é louca tão breve pouca a vida.. o que importa, afinal?. 100 Porque há sempre este q. que nos faz sofrer? um que de querer mais forte que se viver ou morrer. um que que indaga questiona perquire inquire sabendo não haver resposta ou quem possa responder por quê?. Tititís & Firulas (Segunda Parte) 1 da vida, a morte é o que realmente me intriga. 2 fazer & refazer o que já feito bilhões de vezes à perfeição o imperfeito. eu desatento com este mero esboço dou-me por satisfeito imperfeito. 3 aos trancos pela vida e barrancos tento ser poeta não me afetam a rima a palavra o verso imperdoável sim, o café na madrugada pobre e falido sem um tostão uma caneta é tudo o que possuo. no mais, aos trancos, e barrancos, tento ser. 4 mais que arte desafio escrever de estômago vazio. a poesia é fome. a fome sem nome, sem grana, sem fama.. na solidão do cigarro, as palavras adquirem vida vida própria, preciosa, precisa. 5 declaro para os devidos afins que nada tenho a dizer. escrevo por preguiça fugindo da lida nadaquefazer entedia o ócio dos ossos fóssil & fácil sentimento atormentando o momento em que me atormento vazio pensamento divago aborrecido sem direção sem sentido não encontro um fim para o início ou o meio em que vivo ou finjo sentir.... 6 de repente na madrugada mais que o desejo o beijo o pênis nas coxas o vazio o nada o poema perdido lapso pernilongo cego tateando a bunda ofício orifício buraco melancólico observando o teto o que tece a aranha tece púbis pasmacento no momento a lua lambe o umbigo da rua perdido completamente apático conto carneiros sonhando acordado antevejo o que desejo a lua sorrindo o céu se abrindo o gozo vindo de repente.... 7 na boca a língua lambe lépida a mente rouba-me todos os sonhos e miojos miolos. 8 atua a minha voz tangendo fantasmas sob o lençol frio nos pés iogurte mancha o colarinho seios cartão descrédito fato inédito a revista em piquadrinhos no ninho e casulo louvo as paredes as unhas roídas a vida arranha assanha a borboleta na vidraça baça a taça de sangue enluarada. 9 feito um velho carro de bois pela longa estrada vou rangendo sob o sol desatento um jato passa a moça sorrindo sabonete, cotonete, vinagre, shampôo... no elevador o sarro tetas moles vida dura o café amarga o mouse 1 gigabaite de memória fodida talvez seja o cigarro neurônios estressados rangendo rodas e o sorvete derrete asfalto e prédios antigos tusso e rio melancolia amara feito um velho esfalfo-me enfarado a perseguir estrelas e cometas. 10 não luto em vão com palavras são asas chicletes via Internet interno-me neste hospício difícil/mente minto e trago pílulas/cápsulas nos bolsos sobrevivo o que sou o que careço apanho pelo céu o que mereço verso sem rima atropelado nu pela avenida berro e uivo sob as lagartas de um tanque que esmaga-me e manchado de sangue mastigo a carne hambúrguer indigesto não presto não luto em vão com a dor e a solidão sou o que elas me dão... 11 brega muito brega prega sobre praga bolero e empadinha café de rodoviária moscas varejeiras trechos de falas jornais manchados cães e gatos sapatos e fumaça traças no pensamento miséria e lascívia meus chinelos cueca samba-canção na testa ruga preocupação prestações vencidas beco sem saída é tudo tal e qual vida querendo imitar a vida novela piegas na “Central do Brasil” a atriz escreve prometo chorar mas borro as calças no primeiro disparo a bala é brega bem no coração acho que vou morrer será bom ou ruim?. 12 a minha amada é um amor hoje foi dia de visitas os comprimidos deixam-me sereno eu disse a ela: “vou fugir, marijuana!”. sacana, ela ria segurando meu tênis. (eu troco as palavras) vou visitar os doentes na enfermaria ateei fogo no colchão e raptei o papa. disseram-me que eu deveria parar. definitivamente, estou ficando cansado dessa porra! escrevo para a minha mãe porque acham que eu enlouqueci pirei? hoje não quero mais nada. desisti de tudo. até de “marijuana”. a minha doce amarga. 13 no meio da festa levei um tiro na testa. eu disse: — porra, isso dói! dor de cabeça a bala no cérebro incomoda os pentelhos. acho que urinei numa taça e vovó dizia: — comporte-se, menino!. mas ninguém entende ninguém me entende. estou triste. meu amor não me vê. olha mas não me reconhece mais. acho que é o tempo. tomei melhoril páradorpára! agora teço uma prece com pressa antes que tudo termine o carnaval o feriado o domingo o sol a bala na testa a festa deus!, porquê sempre me abandonam no escuro?!. 14 agora todos os dias são iguais os lençóis e as borboletas nas paredes filetes azuis na cela uma tela nela a vida sangra em video-clipe ou teipe? não importa o que entorta atrás da porta um olho me observa rio pra cacete e sei que nada vai mudar. por isso, nesse lixo dou-me ao luxo de esperar não importa a fatalidade entre grades grandes olhos observam-me atentos... 15 pé ante pê inda vou te comer! mastigar, engolir e depois suicidar-me feito um palhaço. mas você é tão mesquinha e feia que nem vale a pena que me corte uma veia deu-me na telha de repentelho diante do espelho o olho do cu vermelho e você nem aí e você numas e eu por fora completamente espremendo minha vida ralando a bunda de segunda à janeiro que se foda se eu morrer mando um postal azia e sonrisal outro dia você me come, me chupa, mastiga, e cospe o bagaço. 16 entrementes o prepúcio do prefácio é o frontispício do que não fácil faço alface do que somenos importância em que as circunstâncias são-me impróprias para o impropério meros artefatos da língua artifícios do olfato que o ofício não traço na linha que me re(s)ta afeta a retina a abundante debutante que passa ultrapassa devassa pudica mente entreolha-me arfante elefantíase boçal isso aqui vai mal ser normal e coisa e loisa e tal no etecétera é que me ferro facilmente descerro cerro meus portais e vivo somente de ais... 17 não estremeço se o olho fita o que não vejo à meio tom o arpejo do desejo não o beijo previsto quando visto-me e avisto pelo olhar disto de você que me olha e nem me vê se por acaso a vir direi não estremeço me derramo pelo chão opostos entre versos somos avessos pelo avesso do fim em que tropeço meço a métrica enfarado dessa tessitura que não suporta a candura da sombra morta. 18 o que mais nos atrozes atrai na madrugada posto que tudo repete-se nada que qualquer fada não disponha-se interagindo haja vista a pista do que nos dista mais que inexista não o que entregosto lambe lépida a língua esta mingua amingua do amor extinta sem que se perceba o que quer sinta por distração cilada que trai o que atrai para si sob o manto pranto de estrelas pérolas auréolas que nos minta entrevírgulas sucintas... 19 em frangalhos velhos versos espantalho sou todo avesso e atrapalho. tanto que não caibo no ressaibo. 20 a pane psicológica (ilógica) atropela a rima. o que me angustia o que me alucina não a rima ou a sina. tampouco o que na mente, me adoece. o que me aborrece, na mente, fantasma presente. não sou eu o eu que sente. e sentindo refuta a luta entre o eu e o outro. o que me adoece? a mente q. sente. 21 a mente a única demente que mente ou sente? a mente sente? 22 entre faço o pré fácil pós fazendo o que feito. não rima, bem sei o que desfaço. sem métrica ou compasso é fácil fazer o prefácio. 23 o id. — o ego o ego — o id(iota). quem manda comanda desvario sacripanta o ego ou o id.? você quem sabe. ou não se decide?. 24 entre mentes o que absorvente absorto dissolve a tarde crepuscular ardente asfáltica pressa de presa perplexa que tão somente mente, consente doentia/mente de repente não compensa — conclui estressado —, (o salário, horário, ilusão comprada à prestação...): o pobre coitado. da vida, o malfadado enfara o coletivo a massa que passa (a) boiada. tão nada!. estrelas brotam melancolicamente. a cismar, o ser pega-se a sonhar.... 25 o que não traço no compasso é que me embaraço. fumaça de óleo pelos ares/altares em que ajoelhas e oras/bolas! 26 um olho mira o que não chora. um outro chora o que não mira. sob pneumáticos já não sonhas. suicídio coletivo no cartaz de aviso. acolá, jaz. que o senhor o tenha e guarde em paz. reflexo da fé em infalível fórmula firula outorgada por tudo e nada. faca afiada. ferida famélica. sobrevida. o que não faço retrato no compasso em que me embaço sem rima na sina do contra passo danço à medida em que retrocedo avanço e jamais me alcanço. 27 a lua na rua nadam nas retinas sonhos de meninas e meninos. descerro o destino. cerro portas e janelas quem me esquece tanto me espera em pranto. sou pouco tão nada e tanto.. tanto que me espanto nas retinas com que fitam-me a lua a tua a nossa menina minha/nossa sina(s). 28 finda a estrada, com ela, os sonhos, a jornada. o que deixamos é o que fomos. o que seremos é o que merecemos. mais nada! 29 o amor! somente o amor, recrudesce a dor, e nos faz perdoar. que a humanidade jamais deixe de amar. 30 na manhã partida o beijo guardado, no cinzeiro esquecido, nos lábios molhados. sangue da aurora rompendo a manhã. meu corpo cansado anseia por lençóis. minha alma faz tranças nos cabelos do tempo e, jamais descansa!. 31 poeta das madrugadas manuseio as palavras e sulco entre nuvens, um caminho de estrelas. uma delas, é você que, sorri lá do alto e me acena. 32 saudade, mãe! bulindo no peito e nas lembranças. um beijo, mãe! ainda continuo — apesar do tempo —, a mesma criança!. 33 o céu desaba pelo avesso do avesso em que me desconheço. após o céu desabado, adormeço acordado. 34 pela fresta meu olho mira, contesta. a testa franze o cenho em transe. colóquio e meus óculos são duas gemas. adoro ipanema quando a vejo no cinema. 35 a palavra é. sustento de pé intocável e o mundo imenso penso tão só a pedra de mó no jazz sentimental. se me dizem não, creio seja normal. 36 eu digo calo-me imbuído nos bemóis e sustenidos. nada disso se me parece fazer sentido. sinto-me ido. 37 louçã e lívida loquaz a palavra paz. impávida, ávida, a vida nos apraz. 38 bandeiras ao vento bananeiras/cimento tremulam sob o sol concreto o tormento eu que não me contento canto e me arrebento grudado às saias da mãe baiana de pernas bambas em meu sustento. 39 calo sufocado pela ira revolto envolto em névoa o que nos preserva o que me reserva nesta sangrenta selva?. 40 mãe preta, mãe de leite. branco franzino atarracado nas tetas fartas de mãe preta. pensavam fosse enfeite. o menino branco matando a fome e a fome nunca teve cor. que deus a tenha mãe preta, sem nome!. 41 para todos nós o pão redime na redenção a fome da carne para a alma na calma a benção feito o verso e as linhas nas palmas das mãos. 42 caí, rolei pelos degraus da escadaria. sobrou nada cacos estilhaços colados à esmo nunca mais serei o mesmo. 43 réu confesso pedaço do sol despenca do céu derretido permaneço anjo avesso mira um olho o outro/cego morreu. 44 nada de especial na espacial mesosfera nada que me prenda surpreenda os deuses exilados de capela são tão reais quanto a lenda. 45 luz puralimpidamente semente do destino luz que empurra ilumina a sina deste menino luz lucidamentepura puramenteluz reluz.. 46 timidamente timbre e som nas cordas vocais em consoantes vogais.. o eco são seqüências de ais. 47 um gosto de amora encarnado nos seios sem receio a língua lépida desliza os lábios brincam passeiam. 48 a poesia lamenta a desestrutura psicológica do psicodélico poeta e pede escusas ao leitor pudississimamente chocado pelo ismo do abissal ácido resgatado por um chegado proveniente do nepal. 49 no conflito luto aflito contra o que em meu ser deseja o normal. no embuste sangrento um é tormento o outro, bacanal. 50 desanoitece a tessitura fenece no sol despontando cristalino o olhar orvalho na relva corpo na relva a mata transparente do corpo na entrega tragando a manhã. 51 entrei na dança sem saber dançar. à cada passo errado vi um sonho perdido e a festa findar. jamais desisti, vou continuar. mesmo não sabendo onde desejo chegar. 52 falsos, nos adoramos, numa festa pagã. na orgia, deus baco, vinho e flauta de pã. hoje tudo o que me resta, é essa envenenada maçã. 53 porra!, que coisa mais chata: o amor que te alimenta é o mesmo que me mata. 54 porque você sorria com os cabelos molhados, bicos dos seios eriçados e os lábios sedentos.., de repente, percebi, a ereção que fez-se tormento. 55 felicidade amorfa! nem parece ser o que tinha que.. 56 quando te vejo, desperta a aflição. olhos no chão, frases desconexas.. mas o que mais me trai é esse batuque descompassado, atabalhoado, dentro do peito.. pobre coração sem jeito!. 57 sem inspiração mexo no pinto. coisa sem graça para um poema. contudo, não vamos nos atazanar. uma das cabeças tem que funcionar. 58 não fale alto porque, de fato, não faz sentido. o tom da voz, somos nós. timbre, altura, intensidade, duração.. a voz que vale, brota mansa, vem do coração. 59 a tarde labirinto em que me perdi em sonhos; à qual exponho-me derretendo sob o sol asas e novelos em cristal diluído.. a tarde, não resolve meus sentimentos. 60 agora sei: para a morte, falta-me um pouco de sorte. por uma fresta meu olho que vê observa atento a modorra do dia. cismarento creio seja o verão porque, a chuva, se me parece ilusão. os urubus estão sorrindo sobre o muro. no escuro silente dessa tarde pachorra, ainda sonho em ser quem sabe, contente e, no ano passado, não mais ter que sofrer. a morte não sabe mas as avencas murcharam. os seios da louca, a fé que tão pouca, minha voz já rouca, frontispício do fim. a morte é frágil porque já morri ontem. mas hoje não tem carnaval. falta um pouco de sorte. no mais, não passo, de mero pacote. prestes a explodir. 61 na tormenta do introspecto sentir, o calendário inexiste. porquanto, o bestiário de palavras faz-se em diário que não lava a mente ou a alma apascenta. sou eu que desperto em meio ao caos futurista sem ter uma pista. olhos injetados pelo sangue macerado, observo no espelho um futuro já passado. 62 alegria embalsamada de poeta aos tropeços.. viro-me pelo avesso e não encontro-me mais do que o que desconheço. estipulo o meu preço pelo verso que teço. ora, senhoras! oras, senhores! sei que pouco valho não mais que a intenção! contudo, pulsa-me o coração. essa promessa de ilusão, qual cigarra em meu peito. não há flores, nem primavera. tudo não passa de vã promessa. mercador de quimera, semeador de palavras! contudo insisto: já fiei-me no que sinto. hoje vou aos tropeços. o que me separa de desconhecidas eras? não sei responder. tudo o que sei, é que tenho que morrer, para poder sobreviver com essa alegria embalsamada! 63 aprender a sofrer sem porque do silêncio. conheço de cor seu sorriso e olhar. sei o que você guarda para me dar. aprendi com a solidão os mistérios da carne, os segredos da canção. e nada disso me interessa! essa vida urgente, refeita dos escombros! este resto de mim que parece nunca ter fim. na projeção programada é que te pego descuidada. e você sente medo, nunca aprendeu a sangrar. nunca aprendeu a sofrer. meu desejo viola suas muralhas. você não sabe nada do que tentei dizer. aprender a sofrer no silêncio posto.. enquanto corres nunca olhas para o lado. este é o segredo: conheço há muito, tudo o que encontra-se à minha volta. mesmo o já passado, o que há que vir e o que jamais será!. 64 há este resto de esperança no velho que todos os dias, volta a ser, a eterna criança?.. 65 quisera morrer de alegria, alisando os pentelhos de alguma vadia. no afago moroso afogar-me no poço e descobrir o olho por onde brota o mel. 66 de concreto e aço o compasso da canção. na harmonia a lâmina fria das notas. os acordes dissonantes entrelaçam-se aos bemóis. são acidentes que a pauta nem sente. as escalas em tons maior e menor sustentam alegorias nos instrumentos. tempo, intensidade e duração, deixemos para os valores das notas ou figuras: semibreve, mínima, semínima, colcheia, semicolcheia, fusa e semifusas.. a música e a musa, parecem confusas. contudo, com um pouco de concreto e aço, comporemos uma bela tumba para o hino à são joão e, sobretudo, para guido d’arezzo que, inventou de inventar tamanha confusão. 67 a loucura é o que me segura a barra nesse tormento. não fosse a loucura, esta vida não seria coisa que se ature.. 68 a poesia é a sobrevida que me resta. com ela, às vezes, choro. com ela, é que faço festa. no mais, há muito teria enfiado uma bala na testa. 69 suburbano poeta caminho lento pela periferia do que penso viver.. penso, inevitavelmente, em você. o coração em chamas. o olhar no distante, cansado.. mais do que casado, guerrilha inútil pelos quintais do sofrer. mais que sofrer à sombra do abacateiro, invento novos caminhos e nunca saio daqui. corto os pulsos e o sangue coagula sobre a terra entre raízes e esterco! não, não morro! consolo-me com a possibilidade de que um dia, suburbano passarinho venha, em meu crânio, construir o seu ninho. 70 nada mais importa para o submerso verso. para o bem comum, nada mais importa. vida torta, folha seca, alma morta. nada mais importa se o bem que a gente tem sequer, ao menos, nos conforta!. 71 o sol expôs mais cedo seus raios segredos. lavou-me os olhos, levou-me o medo. a vida passa nas ruas e praças. minha dor, grassa, no espelho, embaça. na claridade da manhã, meu segredo e afã. famélico destino dos mistérios gozosos. esboço um bocejo, apático verdugo: tudo o que possuo é o que menos desejo. 72 Kalícia001@(?).com: poeta de mentalidade mediana, não arrisco a rima ufana do bem querer. contento-me com a saudade que desperta a imagem a lembrar-me você. quando mais forte que a poesia e minha vida vazia, algo dentro querendo sofrer, rebusco a imagem do que mais gosto: tocar tuas mãos! (eu que jamais toquei-as..), e sentir a ternura que me vem de saber que, este carinho, eu jamais vou perder. 73 ontem eu sabia: um dia eu também serei feliz! contudo, nunca disse nada à ninguém. na mesma plataforma, continuo a esperar esse trem que — hoje sei —, nunca existiu e nem vêm. 74 sonhava febril borboletas pelo quarto no parto dos versos.. sair pelo mundo, sumir por aí, pelas estradas que jamais tornam... buscar um canto na cantiga de roda, onde pudesse brincar com os anjos e os lençóis límpidos nos varais. nunca mais ter que voltar! sonhava febril a delirar. não sei bem porque, mas, às vezes, gostaria de nunca mais despertar!. 75 no mapa da alegria, descobri, voraz, minha fantasia. ilusão: não me servia!. 76 o vento que varre as ruas varreu meus pensamentos. meus sentimentos, varreu. os cabelos da menina morena; o sorriso, as palavras, o vento varreu. o vento que varre as ruas ergueu-lhe a saia. deus!, nunca mais saí do “mundo da lua”. 77 tento renovar, escarafunchar, rebuscar, reinventar o que também já foi feito. as palavras, loucas e tantas e no entanto, santas e poucas. escassas... nada inova a poesia, a prosa. provêm do fato o meu dúbio desdém. por várias gerais décadas e milênios, tudo se me retrata o mesmo. mesmo o que ainda está por vir. eu que julgo-me aquém, compactuo-me com a fatalidade. feito e é vero o fato de que ninguém é feliz de verdade! porquanto, a poesia, bateu em minha porta. mas eu, nunca soube o que é poesia!... 78 andava meio torto a chorar pelos cotovelos e a sentir pelos joelhos.. olhos vermelhos feito o sol do oriente; a alma, ocidente descarnado, gelado, quando num sonho a reconheci. não que procurasse em sonho, me salvar. é que, vazio que me encontrava, jurei nunca mais despertar! deitado em seu colo, criamos raízes e rasgamos o solo. despertei pela metade. uma parte — a outra, ainda resta no sonho em seu colo, em seu solo, e sabe que o mesmo, nunca mais serei. 79 o nome para esta fome é loucura, ilusão. resta um resto de esperança em cada frase, ou canção. visionário sem visão do futuro, sinto-me obscuro. recostado no muro, tenho pouco tempo e tudo é vão. às vezes grito aflito, para espantar o inimigo. contudo, o pior inimigo, é o amigo dizendo não. não tenho a menor vocação para esta alegria. meu sangue é quente e é do fogo que gosto. o risco do fracasso é o que me atrai à cada passo. sei que cada momento é de paz ou tormento. não me apontem com o dedo em riste: triste perco a razão. eu, somente eu, sou meu próprio inimigo e irmão. não me faças concessão, porque sei o valor exato de cada ato; de todo sim e de todo não. o nome para a minha fome é a dor que me consome. sou eu quem faço o meu próprio destino. por isso, não me estendas a mão. 80 por conta de umas tantas tontas ilusões dei de sonhar com castelos encantados realejos meu amor! donzelas arcabouços dragões fadas azuis bardos trovadores naves espaciais e tudo o mais. por conta da canção abri o coração te amei feito um menino sem rumo em desatino outra vez. depois pra me deitar em teu regaço e ser pedaço do teu ser sonhei que era muito mais que um trovador. não sei, talvez, fugaz amante.. mas um dia despertei aqui sozinho sem carinho sem magia sem você e tudo o que restara era a minha solidão. jurei que nunca mais eu sonharia e, matei você. 81 te contei conto sem fim a casa o espelho o jardim. teu sorriso nossa dor oceano transbordou. veio a noite e era assim: o chão de estrelas e capim; o orvalho em teu olhar.. de prata. te adorei feito um pagão me tomaste pela mão descobri teu mundo enfim o teu chão o teu não meu sim quimera. veio o tempo e carregou nossos sonhos teu amor e a manhã nos trouxe sim brisa doce de jasmim lapidamos a canção entalhamos o refrão no jornal e agora que estamos sós neste mundo de ilusão faz de conta conta não que já fomos vinho e pão. 82 queria poder falar de amor contar que sou um sonhador queria ser talvez ator e te adorar até à dor queria ser um pescador e me afogar de tanto amor quisera ser um trovador saber fingir ser teu senhor queria ser o mar sem fim te aprisionar dentro em mim quisera ser um beija flor sugar tua fonte roubar-te o ardor e enfim ser o que sou parte de um sonho que alguém sonhou. 83 o tempo voa o tempo não atua à toa. o tempo fragmenta o momento voa o tempo fala cala nada o tempo estanca o tempo não recua flutua atento o tempo tão veloz tão lento o tempo bom atroz carícia e tormento modelador da vida destino do idoso do menino. 84 água na boca do rio água no colo do mar água que do céu caiu água que corre a cantar água que mata a sede água para se banhar água que brota da fonte água que brota do olhar água mágoa desafio água lágrima de dor água solidão vazio água meu bem afogou água!.... 85 rápida rapidamente urgente/mente engendro-me pelas vias do momento em que me atormento as vaias e veias varizes nos versos adverso o tempo em que refaço o esboço bosquejo do desejo pálido ávido de sonhos e saias e coxas e seios no receio da lâmina na veia a carótida paródia nódoa mancha na manhã já mansa ensaiando o bocejo que antevejo pelo vão da janela e penso nela ela e tudo à minha volta minha vida de volta o jeito de ser sonhar sofrer cigana silvana suzana natália suely margherita na mente girando rolando ribanceira e a solidão umbral da ilusão a poesia o pão vera helena ana a bagana sob o viaduto e a gente de luto no protesto manifesto de torquato capinam e marcinha na grama do ibilce havia poesia na voz de telminha fernandinha no violão do benê na canção de valença e era tudo o que eu sonhara findou o carro o jornal o cigarro anfetaminas festivais e eu desesperado e só desesperadamente somente desesperado aulas com alex canto violão fernanda saudade cidade yonei tropicalismo morreu vamos foder na grama vamos foder a paciência da censura do ai-5 glauber rocha de pedra e pau patrícia pagú plínio marcos rapadura nos tempos da brilhantina não usávamos vaselina eu com 25 ela com 13 quando eu circuncidado estourei os pontos e os miolos na avenida andaló por causa de um aborto quase morro um dó filhodaputa e a puta gritava foda-se! eu dizia e sorria porque não me visitavam no hospício e me faziam ingerir aquelas porcarias eu ria fumando um baseado (não recomendado) (nem recomendo) passeando pelado pela república e neguinho trepando cheirando zoando com a física a química e o cacete cursinho faculdade karatê punheta na gaveta a cara enfiada na boceta e ela rindo cócegas do barato corri por aí pra me perder pra te esquecer me ferrei em são paulo campinas tatuí cassilândia paranaíba barretos frutal santa fé do sul na zona lendo “helena” do machado na praça sem graça sem grana sem fama e eu nem aí nem aqui acolá na minha desapareço poeta solitário sem itinerário dormindo sentado na redação do jornal embarquei no trem errado fui parar em catolé com saudade da família minha prima quase no teclado do piano arranjo musical na madrugada tão nada fiquei a ver navios atracando sem ter cais eu e meus ais fantasmas e insônia na penumbra de um quarto mastigando teu retrato foi então que eu pirei feito um filhodaoutra e nunca mais voltei a ser normal feito essa gente que trabalha bebe/come dorme/trepa morre e consente nem percebe nem sente a vida passar por isso vivo da profissão de sonhar observando as estrelas até o meu dia chegar aí, um abraço para quem ficar. vou novamente navegar e que se danem os que desconhecem o outro lado da vida! aquele lado sem sol que deixa na alma da gente uma ferida que, um dia, amanhece rouxinol.... 86 o que não faria um dia por você? tirante a poesia pequena natália, sem seu sorriso — que sempre me valha —, o resto, seria morrer. 87 juro que desdigo o que digo a língua no umbigo tento mas não consigo. vamos dar no pé oh, mulher!. 88 atrás do armário componho meu fadário de lamentos e ilusões. a natureza morta na tela estática. o pássaro que me roça com suas asas de paixão. assexualizado anjo — eunuco dos eunucos do paraíso —, de olhar postos no inimigo invisível no terreiro de alá confundo a rima e rimo raimundo com as ancas da bailarina que rodopia, ergue as pernas e sequer percebe êxtase dos tês. penso que posso morrer na visão do prazer. peço perdão e sei que estou perdoado. a carne é fraca, aprendi de menino. mastigando hóstia. brincando de médico com a filha da vizinha. a preta enorme e eu diminuto. duas enormes tetas e uma porta para entrar. o médico aprendiz, diplomado aos sete anos. no confessionário, nada a declarar. sequer um palavrão. anjinho torto, sem asas, segurando um risinho. meu fadário atemporal no sangue da circuncisão. Deus perdoa, bem sei, os poetas de coração. se a carne é fraca, a poesia redime. virgem puríssima livrai-me da tentação! meu coração pura tormenta, já não suporta! saio de detrás do armário um rosário nas mãos e, ardendo nas chamas da perdição. os culpados são otários em potencial. perdido pelo casarão. a culpa sobre os ombros. a mãe percebe porque é provida do poder da adivinhação. o pai é pura distração, mergulhado em problemas. monto no cavalo e vamos pelos pastos. pai apeia, ajeita a sela. continuo no trote sonhando o galope. há pai que fica sendo anjo da guarda. cúmplice no pecado. sorrindo orgulhoso, desafia-me no galope. penso que um dia, nos tornaremos confidentes. mas ele dispara, desaparece numa curva para nunca mais... e eu volto para casa mais vazio que o alforje da existência. juro nunca mais pecar e, o primeiro pecado, foi jurar. em meu fadário não cabe arrependimento. hoje, homem feito, sei o valor da saudade. a inocência perdida na infância insone. os louros que deixem aos poetas! (ensinou-me belchior) meu instinto animal fareja lauras: jambo, loiras, morenas, pretas sem distinção sem discriminação. contanto que dêem o que foi feito para ser dado. o anjo besta, bunda branca da candura, observa-me de soslaio, e, dá por cumprida, a sua missão. adeus, amigão! trago uma brahma feito um brâmane em êxtase e redenção.... 89 o vivo sorria o morto absorto mergulhado em seu mundo ia fundo. havia em sua palidez algo impossível de ser narrado. enquanto o vivo sorria. o morto quieto, solene, introspecto, cismava em ser alado. enquanto o vivo ria, o morto criava asas, levantava vôo e desaparecia. o vivo ria de bobo. o morto, sério, cumprida a sua missão, o seu papel, ruflava suas enormes asas e ascendia para o céu. 90 da porteira via-se a estrada. pela estrada ia-se e mais nada. para onde ia-se pela estrada? e a estrada que de vista se perdia, onde daria?. foi devido à imaginação alada que jamais tornei para junto da porteira. mas até hoje não sei responder mais nada. 91 carantonha espiava o céu abrasador. a caboclinha tinha lá sua filosofia. descalça, longas tranças, sorriso ancho nos lábios — puro mel! —, quem diria, sonhava?. meu coração, menino acocorado, permanecia calado. pensava que se ela um dia partisse, eu morreria ali: de cócoras, enfarado. destino malfadado! o primeiro a partir fui eu. ela permanece lá, naquele canto da memória, junto à porteira, a mirar o céu. a vida é urgente, o menino, perdeu-se pelo mundo. ela não, espera junto à porteira, por uma vida inteira que ainda não aconteceu. 92 distraído, alguém veio e roubou-me os sonhos, a ilusão. as madrugadas são lentas, dolentes, silentes.. meu olhar, indaga às estrelas a razão de tanto sentir, se já não possuo sonhos nem ilusão. luzidias, piscam-me confidentes sem nada dizer. e agora, como vou descobrir, ou saber?. o vento da madrugada assobia uma cantiga antiga cantiga a contar coisas sobre reis, castelos, donzelas e reinados... e eu aqui, parado. esperando sem sonhar. nem adormecido, nem desperto, sinto que meus sonhos e ilusão, hoje são gotas de orvalho, cabem na palma da mão. disso tenho certeza, porque ainda restou-me este imenso coração. 93 se disparo na carreira quem segura? ligeiro um pé de vento, sequer me atormento. o coração comanda meus sentimentos. sou do mato e de ferro. se santo andré para barretos. de barretos, para o mundo. parece que foi há séculos, mas não passa de segundos. que o diga meu peito e o pensamento alado que não abandona a velha casa de fazenda tendo lucéia ao meu lado. que o diga o menino que me espia e fica-se rindo. esse não há quem de jeito!. esse fugiu, feito um passarinho, da gaiola em meu peito. 94 a tarde cai. ou melhor, despenca cabelo de milho, ramagem e folhas de avencas. a tarde esvai-se numa pachorra sonolenta. cismando coisa e loisa. não morosa. ou delicada. um segundo tão nada e a tarde esvai-se. na cidade grande turbulenta a tarde se arrebenta. aqui não: sensação ou impressão de cair é feito uma cascata. o crepúsculo estira os músculos boceja, e, ora veja, vai aos poucos se firmando. é assim que sem que se perceba, a noite chega quando a tarde cai. eu sei porque, já nem careço ver. nesta hora dolente, meu coração dana a bater num ritmo que mais lembra um lamento, um ai... 95 não se explica a saudade do que não sabido. a estrada longa desaparecendo para lá, muito mais. nem explica-se porque às vezes, quem mais amamos perdemos. e, perdidos, passamos o resto da existência, relembrando e sofrendo. 96 abarrotado meu coração vazio rio em meio ao deserto nem distante nem perto. saudade, solidão, melancolia... já nem sei o que sinto, se o que sinto não sei dizer. vivo e luto não paro, nem desejo fenecer. fico aqui sentindo como quem partindo e a estação restando lá atrás, num lugar chamado nunca mais. sou todo coração. coração em busca da paz. 97 no bang-bang pela sobrevivência, não pude evitar. somente atiro para matar. sinto muito, minha nega. dez bilhões de neurônios atônitos. pedi tequila e charuto. quando o cara sacou seu colt 45 eu disse que a minha hora, não havia chegado. forasteiro arretado, chapéu atolado, caçador de recompensa. que deus o tenha!. eu disse tragando a bebida, frente ao espanto do garção. meu cavalo aporrinhado veio prostrar-se ao meu lado e segredou-me bufando: — emboscada, kid!. — kidisgrama! —, respondi. foi quando choveu bala. foi chumbo e fumaça. mas, como bala de revólver de mocinho jamais acaba, durante duas horas, atirei sem parar. nem pontaria fazia. para quê? se a gente atira no que vê e acerta o inocente?!. bala perdida é besteira porque, nada se perde. dizia meu avô, caçador de búfalos em oquilarroma. galopando e atirando. atirando e galopando, fui reunir-me com os caciques das tribos apache, comanche e sioux. a gente passando o cachimbo da paz, no maior barato enquanto joplin rolava o maior blues no gramofone. foi aí que baixou o santo hendrix entupido de madrix e ferrou na guitarra. a gente naquela zorra e pinta a louca do tchê-qué-vára: — aí, negada..fodeu!. — porquê, mermão? perguntei, viajandão. — sujô geral na baía dos porcos. — filhodamãe o fidel!. vociferou aquele japa que gritava: — tora!, tora!, toraaaa!., meu amor!. mandei os dois tomar no cu já meio jururu e traguei uma dose do santo daime? mas ninguém dar-me quis. exceto algumas indiretas do fala/bella a bella e do pastor heidi/ir mais cedo que berrava: — váderetrosatanás!. cansado do tiroteio, resolvi dar um taime e bati em retirada. tava descansando puto da vida ao ver a ida pelada na playboy. (confesso: sou ciumento). ela tinha que mostrar o que eu imaginava para todos os tupiniquins punheteiros? perdi o tesão e mastiguei a revista. dormi com azia. sonhei com zélia duncan tão meiga! encafifado com minhas dívidas: maiores que o rombo da previdência. pensei no sonho: que porra de pesadelo!. (essa vida não vale nada, contudo, admiro aqueles que, por ela passam..). e o gugu fazendo glugluglu, gargarejo com mamonas e tiriricas enroscados na garganta. a santa. falar em santa, o batimais perguntou para o rubim: — to cuma sensação estranha, prodígio. — qualé? qual foi?. indagou o rubim. — cê já teve a estranha sensação de estar cagando para dentro?. perguntou o homem-morcego. — liga não, acostuma. respondeu robin que também era rubinho e rubim. o rulk, verde de raiva, descabelado e atazanado: — eu quero o meu beibedól!. num canto mais afastado, nero, todo delicado, ameaçava tocar fogo. hitler de meias cor-de-rosa e calcinhas du loren, berrava: — o mundo é meu! eu quero!. santa inquisição dos meus derepentelhos!. balbúrdia fenomenal. um saiu do camarim cantando algo assim: — tá todo mundo lôco, oba!. — todo mundo, o caralho!. berrou sem compostura, fernando henrique. — pelos ossos, ócios e algas do guimarães!. fanhou o lula que insistia que menas fome já era um bom princípio do começo. quércia mascava um raminho, sentado no colinho do fleury. erundina grasnava feito patativa — o falo é meu!. descia do céu, escoltado por belos arcanjos são abelardo chacrinha, prestes a organizar a palhaçada. fizeram um minuto de silêncio, para o cazuza que, cagando e andando cantava: — a burguesia fede e é foda!. de picuá cheio eu disse: — patrícia luchesi, ou dá ou dezzi! — tô de paquete e, além disso, a primeira camisinha, a gente sempre esquece. concluí: vai na mão mesmo. enfiaram um supositório de cripitonita no supermen que morreu estertorando. mas a-dor-ou!!!. entre tapas e beijos, o pessoal da casseta fazia o trenzinho da alergia. a maravilha da mara pegou no cajado, já convertida, louvando a universal do reino record. e o mago do paulo um coelho ficou rico transformando merda em livros. depois dessa, despertei. atoleimado, cantarolando sapo cururu, antes no teu do que no meu! tropecei e me arrebentei-me (duplo sentido). fiquei ali, todo espalhado. a empregada varreu. o lixeiro recolheu. o que eu era tá enterrado no teu estou (o que restou), esperando na fila, pra reivindicar, o tempo perdido que levei para escrever essa porra que bem sei, ninguém vai ler. 98 na tarde modorrenta, enfarado, sinto-me enclausurado. o sol derrete casas, campos, pessoas e asfalto. na mente: mote e glosa para o verso e a escassa prosa. contudo, nada me alenta, ante à tormenta do sentir. questiono o próprio existir. inconvincente explicação para o fadado coração.. fadado a perder o ritmo, o compasso nesta falta de espaço em que o coração comprimido, queda-se abatido, feito um pobre trovador que, sem musa, para a lua e estrelas, canta o seu amor. humilhado, pela alegria fria, abraço a existência vazia! teu sorriso, derretido na lembrança, lança fagulhas nos projetos futuros. teu sorriso é um quarto escuro. tateio às cegas em busca de seios, amparado pela ilusão. o sol derrete meus sonhos, minhas mãos. poeta de ponta de vila e mesa de bar, busco no silêncio de teus lábios palavras e frases com as quais inspirar meu coração de sonhar. verto sonhos e seivas nas lágrimas que não lavam da alma, a aflição. o poema não sustenta o que a solidão afugenta. leio jornais, trago cerveja, fumo, mas não encontro a paz. sou um menino aflito a mirar o infinito pelo horizonte de todos os horizontes, a saudade vai se perder. como se pudesse — um dia —, outra vez, ter você. entretanto, no espanto, reinvento o viver. feito o condenado à cada segundo esquecendo a morte para, na morte, ir ter. a tarde também agoniza e nem me avisa. desliza mansa com o sol poente. penteia com seus raios as tranças do milharal. brisa mansa sopra teus cabelos. molhados pensamentos: breves ao relento, sob o sereno dócil, ameno. é um carinho aflito, chegando mansinho; abrindo cancelas na distância, na canção.. salpica de estrelas este céu. faz brotar uma lua de prata, derramando-se em serenata. pirilampos pelas matas. o riacho corre, cantarola baixinho.. e o coração quer virar estrelas; cerzir o manto negro, com fios de ouro; escrever a palavra singela; feito a ternura que expõe-se, não espera.. é feito o pensamento que inventa novo mundo; sem pressa na prece que fala ao coração. tudo é fantasia! tudo é ilusão! contudo, esta é a vida e assim, meu coração! bichinho calado, que um dia, — ainda sonha —, em tornar-se alado. 99 hoje sei que meu corpo encontra-se ali: plantado no fundo do quintal, junto à cerca de arame. mas não me importo porque todos os dias, alguém que desconheço vai até onde me encontro e rega a cova rasa. por isso, meus cabelos continuam crescendo e sinto o gosto do barro em meus lábios descarnados... a terra modela meus ombros pernas seios nádegas.. vez em quando de meu ventre nu uma semente brota e rasgando lentamente a terra que nos cobre a todos explode para fora para o alto apontando o infinito para o final dos tempos estarei pronta para o parto e, quando a primavera chegar serei toda a florada de uma nova era e encantarei os olhos que mirarem o canto do quintal junto à cerca de arame... 100 o poeta está morto! roto, torto, feito um rato de porão ou, esgoto. feito, quem sabe, assombrada assombração?! o poeta morto em seu pobre caixão. ninguém sabe ao certo se morreu de desgosto; se foi por amor ou simples ilusão!.. talvez, paixão?! que arde e finda em vão. ou ainda, parada cardíaca? tristeza, agonia, solidão? o poeta está morto. embora, nem pareça. sorri o poeta, enquanto fingindo-se de morto, pensa? irônico, descrente, maluco, macambúzio.. o morto enfartado, necessita de repouso. requer às pressas, ser, devidamente, enterrado. poeta fingido, ainda que morto, parece sorrindo. bom biriteiro — convêm ao brasileiro —, quem sabe um samba canção? como diria noel rosa: “em feitio de oração”. qual o quê? morto não tem precisão. carece de prece e pressa na consumação. anunciemos no jornal: “o poeta morreu!”. não faz mal! todos morremos cedo ou tarde um dia. passam os poetas, fica a poesia. a poesia com suas musas, estrelas, sonhos, flores, primaveras e magia.. morrer é natural, para um poeta nem tanto normal. o cigarro, as madrugadas, a cerveja, os sentimentos... tudo influi frui na morte, na poesia. morto e, sorrindo.. basta observar atentamente, nos lábios, o sorriso demente. não mais que pura ironia. não duvidem se de repente o poeta morto, piscar. parece troça ou piada. que nada, poeta é assim: bicho estranho, sem começo ou fim. e esse chinfrim! poeta sofre por precisão. talvez, por defeito, (sabe-se lá se, não por nascença?!), traz dentro do peito — uns dizem ser crendice —, não um, mas dois corações. um deve ser alegre. o outro, triste, doente. um chora, o outro ri. um goza, o outro sofre. para morrer de verdade, tem que ser planejado: os dois corações, param, sofrem calados. ali, naquele caixão vagabundo, nem cabe metade do mundo. no peito do poeta, sim: cabe o universo e nunca tem fim. o poeta está morto, mas parece ouvir. será que, mesmo morto, o poeta continua a sentir? o decote da moça é tão generoso que o morto parece um olho abrir! sorriso zombeteiro que intriga o mundo inteiro. há quem diga ilusão. nós, porém, sabemos que não. o poeta morto, desanoitece a vigília. na contra mão da história, desce à terra, com um certo orgulho. quase nada de glória. mas a vida é mesmo assim: quando se chega ao fim, o que mais nos interessa? a morte também não passa de mera ilusão?! por isso, o poeta morto, sorria dentro do caixão. a compor a mais terna eterna fraterna sempiterna canção... o poeta, ora, o poeta está simplesmente morto!. São José do Rio Preto, 1.999. Mauro Gonçalves Rueda. * * * ©2003 — Mauro Gonçalves Rueda maurorueda5@hotmail.com Versão para eBook eBooksBrasil.com __________________ Janeiro 2003 KOREAEBOOKSTYLEFILE_1.1.0?{U/Qc  Times New Romandefaultdefaultverdanahr_file_0 para0hr_file_0 para0verdanahr_file_0 para1hr_file_0 para1Times New Romanhr_file_1 para0hr_file_1 para0Times New Romanhr_file_1 para1hr_file_1 para1Times New Romanhr_file_1 para2hr_file_1 para2Times New Romanhr_file_1 para3hr_file_1 para3Times New Romanhr_file_1 para4hr_file_1 para4Times New Romanhr_file_1 para5hr_file_1 para5Times New Romanhr_file_1 para6hr_file_1 para6Times New RomanbrbrTimes New RomanparaparaTimes New RomanfiggrfiggrTimes New Romanfig.contfig.contTimes New Roman tablepara tableparaTimes New RomanlistparalistparaTimes New RomanfontfontKOREAEBOOKSTYLEFILE_1.1.0?{U/Qc  Times New Romandefaultdefaultverdanahr_file_0 para0hr_file_0 para0verdanahr_file_0 para1hr_file_0 para1Times New Romanhr_file_1 para0hr_file_1 para0Times New Romanhr_file_1 para1hr_file_1 para1Times New Romanhr_file_1 para2hr_file_1 para2Times New Romanhr_file_1 para3hr_file_1 para3Times New Romanhr_file_1 para4hr_file_1 para4Times New Romanhr_file_1 para5hr_file_1 para5Times New Romanhr_file_1 para6hr_file_1 para6Times New RomanbrbrTimes New RomanparaparaTimes New RomanfiggrfiggrTimes New Romanfig.contfig.contTimes New Roman tablepara tableparaTimes New RomanlistparalistparaTimes New RomanfontfontKOREAEBOOKSTYLEFILE_1.1.0?{U/Qc  Times New Romandefaultdefaultverdanahr_file_0 para0hr_file_0 para0verdanahr_file_0 para1hr_file_0 para1Times New Romanhr_file_1 para0hr_file_1 para0Times New Romanhr_file_1 para1hr_file_1 para1Times New Romanhr_file_1 para2hr_file_1 para2Times New Romanhr_file_1 para3hr_file_1 para3Times New Romanhr_file_1 para4hr_file_1 para4Times New Romanhr_file_1 para5hr_file_1 para5Times New Romanhr_file_1 para6hr_file_1 para6Times New RomanbrbrTimes New RomanparaparaTimes New RomanfiggrfiggrTimes New Romanfig.contfig.contTimes New Roman tablepara tableparaTimes New RomanlistparalistparaTimes New RomanfontfontKOREAEBOOKSTYLEFILE_1.1.0?{U/Qc  Times New Romandefaultdefaultverdanahr_file_0 para0hr_file_0 para0verdanahr_file_0 para1hr_file_0 para1Times New Romanhr_file_1 para0hr_file_1 para0Times New Romanhr_file_1 para1hr_file_1 para1Times New Romanhr_file_1 para2hr_file_1 para2Times New Romanhr_file_1 para3hr_file_1 para3Times New Romanhr_file_1 para4hr_file_1 para4Times New Romanhr_file_1 para5hr_file_1 para5Times New Romanhr_file_1 para6hr_file_1 para6Times New RomanbrbrTimes New RomanparaparaTimes New RomanfiggrfiggrTimes New Romanfig.contfig.contTimes New Roman tablepara tableparaTimes New RomanlistparalistparaTimes New RomanfontfontKOREAEBOOKSTYLEFILE_1.1.0?{U/Qc  Times New Romandefaultdefaultverdanahr_file_0 para0hr_file_0 para0verdanahr_file_0 para1hr_file_0 para1Times New Romanhr_file_1 para0hr_file_1 para0Times New Romanhr_file_1 para1hr_file_1 para1Times New Romanhr_file_1 para2hr_file_1 para2Times New Romanhr_file_1 para3hr_file_1 para3Times New Romanhr_file_1 para4hr_file_1 para4Times New Romanhr_file_1 para5hr_file_1 para5Times New Romanhr_file_1 para6hr_file_1 para6Times New RomanbrbrTimes New RomanparaparaTimes New RomanfiggrfiggrTimes New Romanfig.contfig.contTimes New Roman tablepara tableparaTimes New RomanlistparalistparaTimes New RomanfontfontJFIFHHC    $.' 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