KOREAEBOOKDOCUMENT1.2.0Do Terrorismo e Do EstadoGianfranco SanguinettiProjeto PeriferiaeBooksBrasil.com~[ç>para.xml300.jpgnormal.styÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿ‡ì3para.xmlsBQ smaller.styÄKQ small.styUQ normal.styf^Q large.sty·gQ larger.styqî7300.jpgö¨´indice.jpg Do Terrorismo e Do Estado Gianfranco Sanguinetti Título original: Del Terrorismo e Dello Stato ù La teoria e la pratica del terrorismo per la prima volta divulgate Tradução: João Neves e Joaquim Clemente a partir da edição francesa de Jean-François Martos tendo paralelamente consultado o original italiano Coletivo Periferia www.geocities.com/projetoperiferia Versão para eBook eBooksBrasil.com Fonte Digital Digitalização da edição em pdf originária de www.geocities.com/projetoperiferia Capa Dante e Virgilio no Inferno Adolphe-William Bouguereau (1825-1905) ©2003 — Gianfranco Sanguinetti GIANFRANCO SANGUINETTI DO TERRORISMO E DO ESTADO A teoria e a prática do terrorismo divulgadas pela primeira vez Índice Prefácio à edição francesa Advertência do Autor Índice de Remédio para Tudo Dedicatória aos Maus Operários de Itália e de Todos os Países Prefácio à edição portuguesa Capítulo X — Do Terrorismo e do Estado Notas   DO TERRORISMO E DO ESTADO Prefácio à Edição Francesa        Muito embora em Itália se publiquem numerosos livros sobre o terrorismo, poucos foram tão lidos e nenhum tão ignorado pela imprensa como este. Editado em fins de Abril de 1979, distribuído lentamente por um número restrito de livrarias, Del Terrorismo e dello Stato esgotou-se ao fim dos três meses do Verão, e até hoje não foi reeditado em Itália devido a algumas dificuldades que me foram criadas por uma estúpida e grosseira perseguição jurídico-policial, da qual falarei mais tarde. Para já, é mais interessante interrogarmo-nos sobre a razão do silêncio quase completo que envolveu um livro abordando um assunto de que se fala quotidianamente, mas sempre do mesmo modo falso, nas primeiras páginas de todos os jornais italianos, bem como na rádio e na televisão de Estado. Esta última fê-lo muito em especial numa rubrica ad hoc que precedia o telejornal, mas, como muitas pessoas mo referiram, unicamente para que uma amálgama heteróclita de peritos em terrorismo convocados para o efeito dissesse que as teses deste livro «não são convincentes». O mais curioso é que nem a televisão nem os jornais em causa ousaram evocar essas famosas «teses» sobre o terrorismo italiano, «teses» que, no entanto, a televisão e os mesmos jornais se esforçaram por qualificar como «não convincentes». Receariam antes que o fossem, para tão zelosamente as escamotear? Temeriam esses jornais e a televisão que os meus argumentos pudessem ser considerados pelo público mais persuasivos do que as suas canhestras fantasias sobre o terrorismo, pois todos fizeram da sua omissão um dever? E porquê tantas precauções? Que diabo de tão escandaloso se encontrará escrito neste livro para que até os que se sentiram na obrigação de falar nisso o mantenham secreto? Ou será que Do Terrorismo e do Estado revela mesmo segredos de Estado?      Na verdade assim é: este livro contém segredos de Estado . O fato de serem os seus próprios serviços secretos quem organiza o terrorismo e puxa os seus cordelinhos não constituirá o principal segredo do Estado italiano? E é precisamente isso que se encontra sobejamente demonstrado em Do Terrorismo e do Estado .      O que efetivamente não é convincente , não são de certo os meus argumentos, mas sim o comportamento contraditório do Estado e dos seus fiéis servidores em relação ao meu livro, pois se por um lado falam nele sem nada dizerem, nem que seja para fazer com que os italianos pensem que o que digo «não é convincente», por outro, e alguns dias após a «recensão» televisiva, a polícia política e um magistrado, conhecido pelo seu mal sucedido zelo em tentar tornar verosímeis todas as mentiras oficiais sobre o terrorismo, iniciavam uma complexa e tenebrosa perseguição jurídico-policial de que eu constituía o alvo. Deverei pois pensar que cometi o crime de não ser «convincente»? Se o nosso Código previsse um tal delito, todas as prisões da Europa não seriam bastantes para encerrar os nossos políticos, os nossos jornalistas, os nossos magistrados, os nossos polícias, os nossos sindicalistas, os nossos industriais e os nossos curas. Não, não foi disso nem por isso, que me acusaram, mas antes por ter sido demasiado convincente ao acusar o Estado dos seus crimes, fato que levou o dito Estado a tentar vingar-se mas, como se verá, com o inepto embaraço dos culpados que se querem fazer passar por inocentes. Os homens que governam este Estado são, como é sabido, os mesmos que, desde a época do massacre da Piazza Fontana e para não serem inculpados, se vêem por assim dizer perpetuamente obrigados a acusarem outros dos seus crimes e de todos os crimes, como se quisessem efetuar uma demonstração suplementar da teoria de Madame de Staël segundo a qual «a vida de qualquer partido que tenha cometido um crime político fica para sempre ligado a esse crime, quer para o justificar, quer para o fazer esquecer à força de poder ».      Uma série de acusações disparatadas, tão grosseiramente abusivas e arbitrárias que ruíram uma após outra praticamente sem que os meus advogados tivessem de intervir, sucederam-se ao longo de seis meses e, ao sabor dos caprichos de quem as imaginou, iam do delito de contrabando ao de terrorismo, passando naturalmente pelos de posse de armas e de associação subversiva.      De todas estas acusações que, a ser seguida a letra da lei, me podem valer de vinte a trinta anos de prisão, ou, pelo contrário, cobrir de ridículo quem as congeminou, há duas que, com algum esforço e certa boa vontade, poderiam encontrar uma base de sustentação na realidade, enquanto as demais são completamente falsas e extravagantes.      Contrabandista, de certo o fui, o que muito me honra, pois não terei sido eu quem, a partir de 1967, contrabandeou de França as idéias motrizes da revolução moderna, as idéias da Internacional Situacionista? E também admito que, tendo em vista as condições em que se encontra o Estado italiano desde o contrabando do mal francês, esse meu delito não lhe foi proveitoso, pois no nosso país a propagação do mal deu-se de forma mais rápida e profunda do que em outras paragens, sendo a doença doravante inextirpável. Infelizmente para os meus acusadores, os termos do nosso Código, bem como as disposições do Tratado de Heisínquia, não prevêem sanções para o contrabando de idéias e, como todos muito bem o sabem, quando o Estado italiano se ocupa com idéias não é de certo no fito de as desalfandegar. Assim, a acusação de contrabando soçobra miseravelmente, mesmo que se tenha procurado desesperadamente, mas sem qualquer sucesso, camuflá-la por detrás de outros pretextos de direito comum.      Quanto à acusação de associação subversiva, e muito embora ignore o que o velho código fascista, ainda em vigor, entende precisamente por isso, confesso que também ela poderia ter um certo fundamento, pois pertenci, mas aberta e não clandestinamente, à Internacional Situacionista até à sua dissolução, ocorrida no já remoto ano de 1972. Este inquisitio post mortem contra a IS só me parece risível porque, a seguir os mesmos critérios, um magistrado mais amante da equidade deveria também abrir um inquérito contra a Liga dos Comunistas de Marx, a Associação Internacional dos Trabalhadores e emitir mandatos de captura contra os descendentes de todos os que albergaram Bakouníne durante a sua permanência em Itália.      A acusação de posse de armas não tem qualquer fundamento, e não é por ter sido várias vezes dirigida contra mim, sempre sem sucesso, que a mesma passa a ser mais verosímil. Contrariamente ao que o presidente Pertini afirma em seu delírio senil, parece-me que a guerra civil ainda não começou — e a prova é ele ainda ser presidente desta coisa que se assemelha a uma República — sendo pois inútil possuir armas. E, de toda a forma, quem me acusa de posse de armas deveria primeiramente encontrá-las ou, ao menos, introduzi-las em minha casa, e tal ainda não aconteceu.      Mas onde o arbitrário se alia à mais obtusa das arrogâncias é quando o mesmo procurador da República pretende que «segundo o conteúdo dos documentos das Brigadas Vermelhas existem estreitas relações entre a ideologia deste grupo e a da Internacional Situacionista da qual o dito Sanguinetti é representante». Para além do fato de a secção italiana da Internacional Situacionista já não existir desde 1970, não podendo eu, portanto, ser o seu «representante»; também para além do fato, ignorado apenas por ignorantes, de a IS nunca ter tido uma ideologia, porque as combateu todas, inclusive a da luta armada, é ainda necessário assinalar pelo menos duas coisas: para já seria menos infrutífero que os magistrados se instruíssem antes de acusarem e, em seguida, que é bastante mais fácil fazer sobressair as «relações estreitas» entre a ideologia policial do supracitado procurador e a das Brigadas Vermelhas, do que as existentes entre esta última e a teoria situacionista. E nada neste mundo é mais radicalmente oposto ao que escrevi sobre as Brigadas Vermelhas do que aquilo que elas nos contam sobre si próprias com o apoio de toda a imprensa burguesa e burocrática. Por último, recordo, para não me alongar numa argumentação por demais cômoda, que em Itália facilmente se encontram publicações da IS e que numerosos são os que as conhecem, contrariamente à voz deste ou daquele Autônomo encarcerado; e todos podem verificar que em nenhum caso «existem relações estreitas» entre estes escritos e os documentos das fantasmagóricas BVs, ao invés do que o impertinente procurador pretende. * * *      Paralelamente, e enquanto as autoridades levavam a cabo esta canhestra perseguição com grande acervo de golpes baixos — que tinham porém o mérito de serem públicos e oficiais, como o são os despachos de pronúncia, as buscas, a vigilância permanente e as escutas telefônicas ù, obscuras e vis personagens, facilmente identificáveis pelo seu comportamento policial, com menos escrúpulos mas sem maior sucesso, conluiavam-se na sombra com propósitos de provocação ou de intimidação. Não sendo um intelectual, nem pretendendo viver dos meus escritos, nunca aspirei a receber um reconhecimento público melhor do que este, assente no que eu próprio, por minha conta e risco, edito num país onde já ninguém ousa expor-se ao perigo de dizer às pessoas aquilo que não se quer que elas ouçam — ou seja a simples verdade sobre o terrorismo e sobre o resto.      Para uso do leitor estrangeiro, e para fazer à Itália a publicidade que ela merece, acrescento ainda que vários forasteiros foram presos na fronteira pela polícia italiana, trazidos pela força de volta a uma grande cidade e demoradamente interrogados só por possuírem um exemplar deste livro; que a magistratura também abriu um inquérito contra os que o distribuíram; e, por último, que a DIGOS, mesmo sem qualquer mandato de apreensão, arbitrariamente se locupletou com os poucos exemplares que pôde encontrar.      Desde já se anula qualquer dúvida que porventura tenha existido: eu disse a verdade . E, pelo mal que me desejam, compreendo que a minha obra é boa, pois não teria provocado um tal ódio Se ninguém me tivesse escutado. Com efeito, e dentre as numerosas pessoas que leram o que escrevi, e que são de idades, condições e opiniões variadas, muitas o aprovaram, poucas dele duvidaram e nenhuma o refutou.      Após a primeira edição deste livro, sucederam-se numerosos acontecimentos que, para além de não exigirem qualquer alteração em toda a minha argumentação e conclusões, as confirmam até, tanto na sua globalidade como em relação a pormenores. Assistimos à eliminação de Alessandrini, um magistrado que se tornara um empecilho, primeiro por ter desmontado o processo fabricado da Piazza Fontana, e depois porque, horas antes da sua morte oficialmente atribuída a subversivos, interrogara um ex-chefe do SID sobre os falsos testemunhos prestados por este último e por altos funcionários como Andreotti e Rumor aquando do mesmo processo. A seguir foi a vez de um discípulo de Moro, o honorável (1) Mattarella, presidente da Região Siciliana, conhecer o mesmo fim que o seu mestre, e pelos mesmos motivos, nas vésperas da formação do primeiro governo regional de compromisso entre a Democracia Cristã e o PCI. Também, e por repetidas vezes, vários polícias foram sumariamente abatidos a fim de fazer vingar sem oposição as lois scélérates (2) que ultrapassam e revogam as ainda por demais tolerantes leis fascistas, bem como a constituição republicana. Mas a mais importante de todas as novidades ocorridas no ano passado é certamente a que se segue: o PCI, vendo desaparecer com o fim de Moro a perspectiva de uma participação ativa e imediata no poder, adotou uma atitude de recuo, fazendo da sua participação ativa no espetáculo do terrorismo e da sua repressão o seu cavalo de batalha. Esta é manifestamente a principal novidade ocorrida após a saída da primeira edição deste livro, e merece a nossa atenção pois demonstra uma vez mais que os estalinistas não só sabem perfeitamente que é o poder quem dirige o terrorismo, mas também que, os que hoje em dia pretenderem o poder em Itália deverão demonstrar que sabem dirigir o terrorismo — o que é tão verdadeiro que levou um ex-ministro socialista a declarar recentemente numa entrevista: «Em Itália é com o terrorismo que se faz política».      Até 7 de Abril de 1979, o PCI contentara-se em lançar alguns estúpidos apelos rituais contra o terrorismo, com os quais retomava por sua conta, ou fingindo nelas acreditar, todas as versões oficiais dos atentados, provando assim à Democracia Cristã a sua boa vontade e a todos a sua má consciência. Mas, a partir desse dia, os estalinistas, por intermédio de magistrados a eles afetos, começaram a aproveitar a sua rica e vasta experiência de meio século na descoberta de falsos culpados, na encenação de processos falsificados e na produção de falsos testemunhos e de provas pré-fabricadas.      Assim, e como o seu duplo objetivo era de fazerem valer os seus méritos junto dos democratas cristãos e o de se verem livres de uma força política limitada mas incomodativa, pois situava-se à sua esquerda e insultava-os, os estalinistas encontraram nos Autônomos os bodes expiatórios de dez anos de assassínios, de chacinas e de terrorismo. Não houve crime cometido na década de 70 que não tivesse encontrado o seu autor na pessoa deste ou daquele Autônomo: desde homicídios insolúveis ao caso Moro, desde raptos misteriosos a roubos de obras de arte e de cavalos de corrida, tudo foi resolvido de pronto e como por encanto, pois cada delito encontrou o seu culpado e cada culpado teve como recompensa o cárcere. O gênio da harmonia e da invenção (3) de um simples magistrado estalinista não foi de certo suficiente para se obter uma solução tão harmoniosa dos processos desta última década: toda a organização oculta e pública do partido foi mobilizada a fim de se provar que a Autonomia era a luta armada, e o único dirigente autônomo que — como por acaso — ficou em liberdade, o ingênuo Pifano, foi rapidamente preso na posse de um belo saco contendo dois lança-mísseis russos, de resto já obsoletos, fornecidos ao dito Pifano pela FPLP, organização palestina estalinista, e notoriamente ligada por laços de gratidão reciproca aos serviços secretos italianos, como o próprio general Miceli o reconheceu. Assim, e se até esse momento as ligações entre a Autonomia e o terrorismo não haviam podido ficar demonstradas, o zeloso Pecchíoli (4) aproveitou logo a oportunidade para, algumas horas depois, declarar orgulhosamente ao Parlamento que, perante um fato tão eloqüente, ninguém continuaria a ter o direito de duvidar que os Autônomos constituíam a direção estratégica do terrorismo, como já o sustentava, mas sem provas, o magistrado estalinista Calogero. Os pobres Autônomos, que pela sua parte nada compreendiam quer de terrorismo, quer de revolução, viram-se assim, qual presa cobiçada, no matadouro dos estalinistas e da magistratura, sem sequer saberem como nem porquê. Só nos resta desejar-lhes que a prisão seja mais proveitosa para a sua instrução do que o foi a liberdade.      Estes admiráveis métodos estalinistas de acusação nada têm de original quer quanto ao seu engenho, quer quanto à sua grosseria, pois assemelham-se bastante aos utilizados nos famosos processos de Moscovo, nos anos trinta: a única diferença é a de os Autônomos presos não terem sido declarados culpados de todos os crimes — e a incongruência de um tal procedimento jurídico não pode ser imputada aos estalinistas, pois ninguém duvida que a mesma desapareceria rapidamente caso os estalinistas controlassem o poder e pudessem, no decurso dos interrogatórios, usar os seus já comprovados e infalíveis métodos.      Para os serviços secretos e para os chefes de bando democratas cristãos, que nos últimos anos sofreram tantas humilhações judiciais — não, claro, pela honestidade dos juizes, mas antes pela sua incompetência —, estes grandiosos processos contra os Autônomos, tão habilmente montados, abrem perspectivas inesperadas e de novos campos de ação: com efeito, desde essa altura, o espetáculo do terrorismo fez imensos progressos, e se até aí conseqüências judiciais desagradáveis impediam, em certa medida, os serviços secretos italianos de irem mais longe, agora que os estalinistas mostraram ser aliados hábeis e incondicionais, há razões para crer que, como Ulisses, esses serviços abrirão « asas para loucos vôos, sempre derivando para a esquerda ». (5)      Agindo assim, os burocratas do PCI não fazem nada mais do que aquilo que são capazes de fazer e incapazes de não fazer quando se encontram prestes a chegar ao poder: estes burocratas sabem perfeitamente que têm, hoje mais do que nunca, todas as razões para serem desonestos, pois é no período atual que se joga a sua missão histórica, e é natural que ponham em jogo todas as suas forças quando o que está em jogo é toda a sua fortuna (6) ; para além disso possuem uma outra razão para demonstrarem sem mais delongas a sua completa desonestidade histórica, pois com certeza não ignoram que é unicamente pela sua desonestidade, e não pelas suas tão dissimuladas virtudes, que a burguesia os pode utilizar em seu serviço. E, para sermos mais precisos, os estalinistas sabem bem que devem incessantemente inventar e descobrir conspirações contra esta democracia burguesa, seja para fingir que a amam, seja para demonstrar ao mundo os perigos que a mesma correria sem eles.      Se o PCI se comporta deste modo na vida pública, também age com a mesma desprezível baixeza na sua «vida privada» nas fábricas, indicando aos patrões quais os operários «terroristas» a despedir e a denunciar à justiça do trabalho, pelo simples fato de esses operários não quererem deixar-se subjugar e praticarem o absentismo — ou seja, pelo simples fato de lutarem .      Contrariamente ao que espera o sutil Berlinguer, os patrões e os homens mais avisados da Democracia Cristã concluem inversamente que quanto mais o PCI se mostra útil sem estar no governo, tanto mais é inútil integrá-lo nele; de forma que tudo aquilo que os estalinistas fazem para de qualquer forma chegarem ao poder é precisamente o que os mantém afastados dele, com a agravante de alienar o que lhes restava de simpatia e de ilusões eleitorais. Mas este é o drama dos estalinistas, e não nos diz respeito, pelo menos enquanto se não tornarem assaz malévolos para voltarem a praticar a sua arte preferida, ou seja, o crime político. Entrementes, e quanto ao que nos interessa de momento, é preciso ainda ter presente que o terrorismo burguês e o terrorismo estalinista, que visam os mesmos objetivos, mostram-se tal como sempre o foram, e dão à classe operária uma excelente oportunidade de reconhecer e de combater todos os seus inimigos, burocratas e burgueses. * * *      O servilismo ativo com que toda a intelectualidade de esquerda inicialmente tolerou, e depois fez suas, as teses acusatórias oficiais sobre o terrorismo e contra os Autônomos, poderia parecer por demais espantoso a quem quer que ignorasse que a dita intelectualidade se comportou da mesma maneira sempre que teve a oportunidade de se comportar de outra. A versão estatal e estalinista dos fatos foi aceite ponto por ponto e, consequentemente, entregue à publicidade sem o mínimo respeito pela verdade histórica ou pela pretensa «dignidade intelectual». Aliás, é notório o papel desempenhado pelos intelectuais italianos, na sua maioria pró-estalinistas, durante este último meio século na difusão de todas as mentiras sobre o socialismo e a revolução. Hoje em dia, e como já não podem mentir sobre o «socialismo» soviético, ou chinês, ou cubano, têm que se reduzir a uma propaganda desenfreada das suas mentiras sobre a democracia burguesa, por cuja salvaguarda aceitam de boa vontade todos os sacrifícios, incluindo o de dela prescindirem. Assim, foi sem protestos, e em homenagem ao fetiche das garantias democráticas, que foi aprovado o decreto governamental sobre a detenção preventiva, sobre o aumento das penas para os delitos de terrorismo, e sobre a «posse de documentos subversivos» (7) , enquanto as novas disposições sobre a detenção preventiva permitem, de agora em diante, manter um acusado sob prisão por doze anos sem qualquer processo . Doravante, a magistratura italiana, cuja sabujice para com o poder nunca foi um segredo de Estado e não carece de prova, nem sequer precisará de dar-se ao trabalho de demonstrar a culpabilidade de quem quer que seja para o condenar de fato a 12 anos de prisão, e isto só para começar: a partir deste momento, a acusação coincide com a condenação, e a ficção de uma legalidade democrática em Itália chegou ao seu termo, até como simples ficção . A Itália é uma república democrática alicerçada na exploração do trabalho e em éditos de encarceramento (8) .      Numa passagem da Fenomenologia do Espírito , pouco conhecida dos nossos intelectuais e relativa ao terrorismo dos governos, Hegel dizia: «O governo não pode pois apresentar-se como outra coisa senão como uma facção. O que se designa por governo é tão só a facção vitoriosa, e é precisamente no fato de ser facção que se encontra a imediata necessidade do seu declínio; e o fato de ela estar no governo torna-a inversamente facção e culpada... O ser-se suspeito substitui-se ao ser-se culpado, ou tem-se o significado e o efeito.»      Quando o arbitrário já não teme apresentar-se como aquilo que sempre foi, quando o ser-se culpado ou inocente já não tem qualquer importância , pois a condenação passa a ser a única certeza, o que combate o arbitrário já não descobre razões de temer o ser culpado : condenado por condenado, antes por um crime honroso. Não nos podemos deixar governar inocentemente. E, esperando pela destruição de todas as prisões, demos ao inimigo boas razões para as encher, não certamente caindo na bem montada armadilha do terrorismo, mas antes combatendo abertamente e de todas as maneiras quem presentemente dele se serve e o pratica, ministros, políticos, patrões e polícias.      Nestes nossos dias, o jesuitismo intelectual chama «democracia» ao arbitrário, «liberdade» à liberdade de mentir, e «testemunho» à delação sistemática e obrigatória: « Sic delatores, genus hominum publico exitio repertum et ne poenis quidem unquam satis coercitum, perpraemia eliciebantur » (9) , dizia Tácito que, no entanto, contrariamente aos nossos intelectuais, confessava preferir os perigos da liberdade à quietude da escravatura. Os mesmos intelectuais, depois de terem debatido dilatadamente a coragem, concluíram, orgulhosos, que hoje é preciso ter-se a coragem de se ser cobarde. O raciocínio mais em voga nestes nossos tempos é simples: se se ama a democracia, é preciso defendê-la; para a defender, é preciso combater os seus inimigos; para se combater os inimigos da democracia, nenhum sacrifício é demasiado: a nobreza do fim justifica todos os meios; portanto, nenhuma democracia para os inimigos da democracia! O que não era essencialmente uma democracia deixou agora de o ser visivelmente.      E quem são então esses inimigos da democracia? Os inimigos da democracia são todos os que objetivamente a põem em perigo, os que defendem idéias incompatíveis com a mesma, e todos os que, não apoiando este Estado, apoiam objetivamente os seus inimigos. Numa palavra, os inimigos desta «democracia» são todos os que praticam a democracia.      Se em 1924, em lugar de Mussolini, houvesse esta democracia, tão sincera, tão pronta a pretender-se o contrário do que efetivamente é, poderíamos ter a certeza de que se teria encontrado forma de acusar esquerdistas do assassínio de Matteotti (10) , como hoje em dia se faz em relação ao de Moro. Mas como Mussolini necessitava manos de mentiras do que o presente Estado, também não precisava de se servir de intelectuais como Leo Valiani para que estes nos falem dos crimes do Estado com a mesma admiração de quem se pusesse a gabar as virtudes de Catão.      Bem sei que a intelectualidade italiana tem bastas razões para se sentir temerosa e ser desonesta e conheço até de cor os seus argumentos justificativos, o que me leva a nem sequer pôr a hipótese de lhe recusar a liberdade de ser desprezível. O que acho fastidioso é o fato de estes intelectuais intervirem constantemente, nos diários e semanários, a propósito do terrorismo, como se uma força obscura os impelisse a publicar as provas da sua tacanha baixeza e como se ainda fosse preciso dela convencer quem quer que seja, quando, muito pelo contrário, teriam todo o interesse em a confinarem às suas obras, de forma a que não fosse conhecida nem dos seus contemporâneos nem da posteridade.      Por exemplo, nenhum destes grandes pensadores em matéria de terrorismo formulou, até ao presente, o mais simples raciocínio sobre o seguinte: se as fantasmagóricas Brigadas Vermelhas fossem, como se diz, um agrupamento espontâneo de subversivos, e se Negri e Piperno fossem, como se pretende, os chefes das BVs, porque é que estas astuciosas BVs teriam deixado prender os seus chefes, que no entanto afirmam não o serem, sem mesmo procurar ilibá-los, o que, a mais não ser, permitiria recuperá-los? Se, pelo contrário, Negri e Piperno não são os chefes das BVs e nem sequer seus militantes, deveriam em toda a justiça ser publicamente declarados inocentes destas acusações pelos hipotéticos subversivos das BVs, e isto pelo menos por três boas razões: para não se deixarem atribuir abusivamente chefes sem contra tal protestarem, para não serem acusados de fazerem condenar inocentes em seu lugar e, por último, porque, estando protegidos pela clandestinidade, não incorreriam em risco algum ao declararem inocentes os presentes acusados.      Mas como, muito pelo contrário, nada disto se produziu, havemos de concluir que os verdadeiros chefes das BVs têm, uma vez mais, o mesmo interesse que o nosso Estado em fazer crer que Negri e Piperno são os seus chefes. Esta nova convergência de interesses entre o Estado e as BVs não é nada fortuita nem extraordinária, e não pode surpreender senão os estúpidos que não se apercebem que as BVs são o Estado , ou seja, um dos seus múltiplos apêndices armados.      Ora, até estes simples raciocínios, que só por si chegariam para provar a enormidade e a fragilidade da mentira generalizada sobre o terrorismo, são muito elevados para serem formulados pelos nossos livres pensadores — tão livres que chegaram ao ponto de não pensarem mais . Pelo contrário, superam-se uns aos outros na ânsia de provarem incoerentes teorias sub-maquiavélicas, como a que pretendia demonstrar que a dissolução do Potere Operaio, ocorrida há já seis ou sete anos, fora uma simulação diabólica que deveria permitir aos seus dirigentes e militantes melhor se dedicarem à luta armada. E isto é repetido ao longo de meses sem se aperceberem que a hipótese é absurda, precisamente pelas próprias razões que a mesma invoca: se o Potere Operaio fosse na verdade uma capa para uma atividade terrorista, porque haveriam os seus chefes de renunciar a uma proteção legal tão preciosa?      A verdade é bem diferente e, como de costume, para a encontrar basta inverter a mentira desavergonhada com a qual a pretendiam camuflar: não foi de certo o Potere Operaio que fingiu dissolver-se para melhor se dedicar ao terrorismo, mas sim o famigerado SID que efetuou uma dissolução fictícia para melhor fazer esquecer o seu terrorismo passado e melhor praticar o atual. Outros pensadores assalariados, de Scalfari a Bocca, raciocinam da mesma forma fraudulenta quando, embora admitindo que, conforme o demonstrei, a estratégia das BVs visa impedir o acesso do PCI ao poder, fazem derivar isto não da aversão que este partido suscita em certos setores do capitalismo italiano e dos serviços secretos, mas da aversão dos estalinistas soviéticos pelos seus homólogos italianos. Os nossos pensadores de trazer por casa concluem pois que Moro teria sido raptado com o apoio do KGB e dos serviços secretos checoslovacos. Os capitalistas italianos, os militares e os agentes do SISDE, do SISMI, do CESIS, da DIGOS e da UCIGOS (11) , da mesma forma que Carter, sentir-se-iam felizes se vissem o PCI no governo italiano, mas isso infelizmente não é possível porque os russos e o KGB não o querem: que azar! Se por detrás do caso Moro se encontra o KGB, quem se encontrará então por detrás das calinadas de Bocca e de Scalfari?      Será possível que estes indivíduos se tenham içado a tais píncaros pelas suas próprias forças?      Como quer que seja, esta curiosa e estúpida teoria, que Pertini, após a ter conhecido, se apressou a fazer sua, serve claramente para tranqüilizar a má consciência de quem quer fazer crer que este Estado, por estar em guerra com o terrorismo, não o pode dirigir.      Pela minha parte, noto com legítima satisfação que o meu livro, que inicialmente obrigou ao silêncio todos os que são pagos para falar, obrigou depois os mesmos indivíduos a espalharem-se ao comprido, propagando aos quatro ventos uma interminável série de enormidades que visava contrariar as verdades que com este livro começam a circular à solta pelo país.      Numa acepção totalmente diferente, pode, por oposição, invocar-se a Rússia, pois a Itália atual e a Rússia de Estaline são porventura os únicos Estados do mundo que se mantiveram exclusivamente graças à polícia secreta: na Rússia descobria-se por todo o lado «contra-revolucionários», e qualquer opositor era acusado de o ser; na Itália de hoje descobre-se por todo lado «revolucionários», e o mais banal dos extra-parlamentares, por muito tímido que seja, tem direito a esta acusação. Piperno, Scalzone e os outros seriam, segundo os juizes e os jornalistas, os chefes, cérebros e estrategos da revolução italiana. Defendi-os aqui enquanto inocentes, mas não me passaria pela cabeça defendê-los como revolucionários, pois não são nem culpados nem revolucionários: na realidade, todos estes autônomos não passam de políticos ingênuos, e mesmo como políticos são incompetentes e falhados — nunca se viu revolucionários almoçar com magistrados, como o fazia Negri, ou jantar conversando com um ex-ministro do gênero de Mancini, como o fazia Piperno —, e revolucionários também não o são por mil outras razões tão evidentes que é inútil relembrá-las. A revolução italiana segue um caminho totalmente diferente e idéias totalmente diferentes, e de boa vontade dispensa tais dirigentes, tais cérebros e tais estratégias, assim como dispensa todos os que nada compreenderam do terrorismo, ou seja, da contra-revolução.      É conhecida a paixão do mais livre dos povos, o povo grego da Antigüidade, pelo enigma, por ele considerado como o Hic Rhodus, hic salta da sabedoria. Confrontado com um enigma, o sábio deveria resolvê-lo sob pena de morte : era uma luta onde o que não obtinha a vitória não podia implorar nenhuma clemência. A acreditar numa lenda referida por Heráclito, e também por Aristóteles, o mais sábio dentre os gregos, Homero, morreu de desespero por não ter sabido resolver um enigma. Quem não resolve o enigma é por ele enganado; quem se deixa enganar não é sábio; quem não é sábio morre, porque o sábio é um guerreiro que deve ou saber defender-se ou perecer, e porque trava sozinho o combate onde deve provar aquilo que vale.      Um eminente helenista observou que a formulação do enigma «encerra em si a origem remota da dialética, chamada a expandir-se sem solução de continuidade a partir da esfera enigmática — tanto segundo a estrutura do Agon como segundo a própria terminologia». Nietzsche também já havia dito que a dialética «é uma nova forma de arte do Agon grego»      Ora o terrorismo italiano é o último enigma, da sociedade do espetáculo , e só quem raciocinar dialeticamente o poderá resolver. É devido à falta de dialética que este enigma continua a enganar e a destruir todas as vítimas que este Estado sacrifica liberalmente sobre o seu próprio altar, pois é graças a este ainda não resolvido enigma que o mesmo Estado provisoriamente se mantém. É pois necessário e suficiente resolver este enigma não só para se pôr termo ao terrorismo como também para se provocar o desmoronamento do Estado italiano. Só quem nisso tiver interesse resolverá, de forma prática, este enigma. Mas quem é que tem interesse em resolver o enigma do terrorismo? Pessoa alguma, evidentemente, com exceção do proletariado, pois só o proletariado sente essa urgência e dispõe de motivos, força e capacidade necessárias para destruir o Estado que o engana e explora. O desiderato de todas as provocações destes últimos anos e da campanha pedagógica de endoutrinamento de massas que se lhe seguiu, foi o de teleguiar o pensamento das pessoas, obrigando-as a pensar certas coisas, pois com o terrorismo o Estado lançou um desafio mortal ao proletariado e à sua inteligência: os operários italianos nada podem fazer senão aceitar esse desafio, mostrando assim serem dialéticos, ou então aceitarem passivamente a inevitável derrota. Todos os que hoje falam de revolução social sem denunciar e combater a contra-revolução terrorista têm um cadáver na boca.      Tendo chegado ao cúmulo da impostura, o Estado nunca se sentiu tão seguro de si, mas também nisso se engana mais do que julga pois engana menos pessoas do que esperava, e até mesmo menos do que as que seria necessário. Mas mais particularmente este Estado desacreditado engana-se ao crer ser sempre crido, ou, por outras palavras, quando acredita que as mentiras que todos os órgãos de informação propalam sobre o terrorismo são suficientes para corromper a totalidade da população, pela simples razão de esta não ter acesso a nada de diferente. O proletariado que, como se sabe, não possui qualquer meio de se exprimir livremente, não pode assim exteriorizar sequer a sua legítima incredulidade quanto à farça tragicômica do terrorismo, a menos que cale de uma vez para sempre o bico a todos os sicofantes que falam de forma já nossa conhecida, e aos seus mandantes que são também os mandantes do terrorismo e beneficiários da exploração.      Dito isto, nunca, nem mesmo em tempo de guerra, o Estado italiano pretendeu, recorrendo a uma intoxicação sistemática, corromper tantos espíritos com tão pequenos dispêndios.      Na Itália de hoje, tudo o que é manifestamente falso, e apenas isso, encontra uma colocação, vende-se, compra-se e é fonte de lucros: a encenação e a propagação da infecção terrorista é um empreendimento colossal e rentável que dá emprego a dezenas de milhares de jornalistas, chuis, agentes secretos, homens de leis, sociólogos e especialistas de todo o calibre; «só a verdade não tem clientes», como dizia Montesquieu em tempos menos enganosos, mas tal deve-se a ela não carecer deles.      Espero que este prefácio ajude o leitor estrangeiro a compreender melhor quais as forças, quais os interesses e quais os temores que fizeram com que, numa escassa dezena de anos, a Itália se tornasse o país da mentira — e do enigma — para retomar o titulo do célebre livro de Ciliga sobre a Rússia de Estaline (12) . Nesta península berço do capitalismo moderno, sede do papado, centro do cristianismo e do euro-estalinismo, lugar privilegiado de experimentação contra-revolucionária, da Contra-Reforma às atuais ações dos serviços secretos e dos estalinistas, passando-se pelo fascismo ù, onde os vestígios das glórias pretéritas atraem tantos visitantes estrangeiros, confluem hoje os dejetos pútridos da decomposição de tudo o que marcou este milênio, e toda a população se acha empestada pelos miasmas fétidos do cristianismo, do capitalismo e do estalinismo em estádio último de infecção, apoiando-se ainda uns aos outros num derradeiro instante perante a iminência ameaçadora da mais moderna das revoluções, encontrando-se todos aqui para levarem a cabo a mais desapiedada e a mais desesperada das repressões, disputando-se todos a propósito de qual o sistema mais eficaz de se condenar a história que os condenou.      Mas quaisquer que sejam as peripécias que nos esperam, a única certeza é a de que os acontecimentos obrigarão o proletariado italiano a fazer suas as palavras de Lucius Junius Brutus: Juro nec illos nec alium quemquam regnare Romae passurum . (13) Janeiro de 1980 Gianfranco SANGUINETTI   ADVERTÊNCIA DO AUTOR        Quem tem medo de idéias, tem hoje medo de poucos livros: todas as semanas o mercado oferece-nos uma infinidade de livros e nenhuma idéia, enquanto as pessoas procuram agora as suas idéias fora do mercado e das livrarias. E, em Itália como no Irã, é na rua que as pessoas encontram o que procuram.      Tudo leva a crer que se no nosso país o pensar por escrito ainda não se encontra proibido, tal se deve menos à liberalidade dos legisladores do que ao fato de não se correr qualquer risco de se ler algo que tenha garra; de forma que quem quiser ler um livro que valha a pena tem de o escrever ele próprio , visto este setor da produção social estar, tal como os demais, sujeito à falsificação e à poluição correntes. Com efeito, os mesmos editores que hoje publicam de tudo guardam-se bem de publicar tudo: e, dado o que eles publicam, pode ter-se a certeza que é naquilo que eles não ousam publicar que se encontram as coisas mais interessantes. Quero referir aqui uma prova fácil, sem a qual poderia pensar-se que é devido à falta de escritos Interessantes que os editores italianos não publicam nada de interessante.      Durante os dois anos subsequentes ao sucesso do escandaloso panfleto que publiquei sob o pseudônimo de Censor (14) , vários editores burgueses fizeram-me saber que estavam perfeitamente dispostos a fechar os olhos ao conteúdo subversivo do que escrevo para não renunciarem aos lucros que, em sua opinião, as minhas publicações lhes proporcionariam. Quando me dispunha a escrever um outro livro, denominado Remédio para Tudo , o editor Mondadori apresentou-se a propor-me um contrato de edição segundo o qual, para além do livro em questão, o editor ficaria com o monopólio das minhas publicações — por um período de dez anos — o que constituía manifestamente uma pretensão acima das suas possibilidades, e que, por conseguinte, recusei. Esse editor limitou-se pois a pagar adiantadamente o livro em questão, que comprava, por assim dizer, de olhos vendados .      Mas quando os zelosos dirigentes desta célebre casa editora puderam ler o manuscrito definitivo, ficaram literalmente aterrorizados, como se ninguém tivesse ainda conseguido demonstrar o que, por escrito, dizer-se pode sobre este Estado e todo o seu espetáculo. Segundo os especialistas de marketing, as idéias subversivas poderiam com certeza vender-se bem, e em todo caso bem melhor do que a ausência de idéias cuja venda é a especialidade desses cavalheiros: mas em tempos nos quais os operários já não querem ser operários, não nos devemos espantar muito por os editores terem medo de ser editores. Pode pois dizer-se que, no presente caso, esses audaciosos managers mais do que de olhos vendados compraram o meu livro de mãos atadas , pois deveriam e poderiam imaginar que eu não iria escrever nem um elogio deste mundo, nem uma vã lamentação. Esperavam eles fazer um bom negócio com a subversão e, em vez disso, pagando para não comprarem, perderam o seu capital num mal calculado investimento de risco! É a estes incapazes, mas apesar de tudo divertidos gestores de casas editoras, que se assemelham os gestores de toda a nossa falida economia: ninguém se deverá espantar se muito em breve, e não só devido aos méritos dos seus managers, esta descambar para a ruína mais completa. (15)      Aguardando a possibilidade de neste país se fazer também um pouco de Irã , mas certamente para melhor, de momento publico apenas a dedicatória e o prefácio de Remédio para Tudo , acompanhando o capítulo relativo ao terrorismo que o nosso Estado impunemente pratica, há mais de uma década, contra o proletariado; quanto ao resto do livro, esse pode esperar. Entretanto, a verdade sobre * terrorismo, que poderá de imediato ser lida aqui, * só aqui, não tem editores, mas, como se vê, também não precisa deles: esta verdade recusa violentamente a clandestinidade que lhe pretendem impor, e é capaz de ser a precursora de um samizdat italiano.      A partir de agora, os seus inumeráveis inimigos, do centro, de direita e de esquerda, deverão apresentar-se como tal, expondo-se a um combate em campo aberto, pois todas as suas mentiras já não a conseguem silenciar. E diga-se hoje o que se disser, dentro de dez ou vinte anos, ou mesmo antes, quando tudo se tiver tornado claro para todos, o que será recordado é aquilo que escrevo sobre o terrorismo, e nada dos rios de tinta que todos os mentirosos profissionais e todos os imbecis fazem hoje correr sobre esta matéria.      A quem tem medo da verdade, ofereço algumas verdades de meter medo, e — a quem não a teme, uma razão para provar que o terrorismo da verdade é o único que beneficia o proletariado. Milão, Março de 1979. * * * «Sei que não te tornarás cúmplice de uma operação que, para além do mais, destruiria a DC... A primeira observação a fazer é a de que se trata de uma coisa que se repete... Presentemente fala-se menos disso, mas o suficiente para que saibas como é que as coisas se passaram, e tu, que sabes tudo, estás certamente informado disso. Mas... para fazer com que reine a calma na corte... podes contactar imediatamente Pennacchini que sabe tudo (em pormenor) melhor do que eu... Ainda há Miceli e... o coronel Giovannoni, que Cossiga estima... Depois de um certo tempo, a opinião pública compreende... O importante é convencer Andreotti que se ele jogar a carta da vitória, constituir-se-á provavelmente um bloco de opositores intransigentes.» — Aldo Moro, carta a Flaminio Piccoli , tornada pública só em 13 de Setembro de 1978. «Sei que a exigência de uma verdade intransigente se encontra bastante difundida. Mas também sei que muitas coisas... carecem de reserva, de silêncio... E isto no interesse dos objetivos que se pretende atingir. É justamente por isso que, desde o dia da minha tomada de posse neste ministério, não cessei de relembrar a todos o dever da discrição e, poderia mesmo dizer, a sabedoria do silêncio.» — Virginio Rognoni, ministro do Interior, 24 de Agosto de 1978. « E quando o acaso faz com que o povo fé não deposite confiança em ninguém, como por vezes acontece por ter sido anteriormente enganado pelas coisas ou pelos homens, daí decorre necessariamente, a ruína. » — Maquiavel, Discursos sobre a Primeira Década de Tito Livio.   REMÉDIO PARA TUDO   Discursos sobre as próximas oportunidades de arruinar o capitalismo em Itália ÍNDICE Dedicatória aos maus operários de Itália e de todos os países PREFÁCIO CAPÍTULO I Das objeções que serão formuladas contra estes Discursos, e da sua refutação CAPÍTULO II Breve discurso sobre os recentes progressos realizados pelos nossos inimigos na sua decomposição CAPÍTULO III É difícil provocar desordens, e fácil incrementá-las CAPÍTULO IV Invectiva contra Enrico Berlinguer CAPÍTULO V Se se devo preferir um compromisso sem história, ou uma história sem compromisso CAPÍTULO VI Se vale mais trabalhar sem viver, ou viver sem trabalhar CAPÍTULO VII Discurso aos bons operários de Itália CAPÍTULO VIII O que é efetivamente esta democracia, e porque não encontra ela senão defensores ineptos e desonestos CAPÍTULO IX Arrazoado sobre os intelectuais: para que servem, o que são, o que valem, se é permitido insultá-los e se isso é suficiente ou não CAPÍTULO X Do terrorismo e do Estado CAPÍTULO XI Prolegômenos a toda a ideologia futura que se apresentar como revolucionária CAPÍTULO XII Breve mas irrefutável discurso de um revolucionário do Século XIV sobre a maneira de se impedir a repressão CAPÍTULO XIII Da sabotagem considerada como uma das belas artes CAPÍTULO XIV Contribuição mínima à elaboração de novas formas de criminalidade CAPÍTULO XV A utopia, estádio supremo do espetáculo Remédio para tudo, ou constituição invulnerável da felicidade pública ÍNDICE DOS NOMES INSULTADOS   DEDICATÓRIA AOS MAUS OPERÁRIOS DE ITÁLIA E DE TODOS OS PAÍSES   « Não chegou ainda, sem dúvida, o tempo de praticar o bem. O bem que cada um pratica é um paliativo. É preciso que advenha um mal geral assaz grande para que a opinião geral sinta a necessidade de medidas apropriadas para se praticar o bem. O que produz o bem geral é sempre terrível, ou parece extravagante em se começando por demais cedo .» — Saint-Just, Escritos Póstumos.        É a vós, maus operários, que endereço este panfleto que, se não esgota as obrigações que tenho para convosco, é no entanto a dádiva maior que nestes tempos vos poderia fazer, pois procurei aqui expressar por palavras essa mesma insubordinação total, estrondosa e salutar que vós exprimis ainda melhor e sempre mais radicalmente através das vossas ações e das vossas lutas contra o trabalho. E se, por ora, nem vós, nem quaisquer outros, podeis esperar mais de mim, sem todavia vos contentardes com menos, não vos deveis queixar de não vos haver eu dado mais do que isto. Podereis talvez criticar-me por não ter sabido descrever aqui toda a miséria contra a qual vos revoltais hoje, e que é bem grande, ou por não ter sabido relatar toda a riqueza da vossa revolta, que não é pequena; mas, nesse caso, não sei qual de nós terá menos obrigações para com o outro: se eu para convosco, pois encorajastes-me a escrever o que nunca escreveria só por mim mesmo, ou se vós para comigo, pois em o escrevendo, eu não vos teria satisfeito.      Tomai pois este Remédio para Tudo como tudo o que se recebe de um amigo, sempre considerando mais a intenção de quem dá do que a qualidade daquilo que se recebe. E a minha intenção é, tal como a vossa, a de ser nocivo a este mundo que vos é nocivo, a de desmascarar os que são pagos para vos enganar e a de privar de toda a reputação aqueles que ainda gozam de alguma. Mas se ataco aqui frontalmente homens hoje conhecidos que depressa serão sepultados pelo olvido ou pelas próprias conseqüências dos seus abusos, importa-mo menos desagradar-lhes do que atingir por intermédio deles todas as instituições desta sociedade, instituições que eles tão bem representam e tão mal defendem, sempre na esperança de, por sua vez por elas virem a ser defendidos. O meu único desejo é o de que uma tal leitura seja capaz de incitar os que ainda trabalham sem protestar, os bons operários, a serem menos bons , e aqueles que, como vós, já se revoltam, os maus operários portanto, a tornarem-se ainda piores.      Escrever estas coisas contra este mundo é mais fácil do que lê-las, e lê-las é mais fácil do que fazê-las; e quanto a mim, o que escrevo preferiria lê-lo, e o que leio preferiria vê-lo e fazê-lo. Apesar de tudo isso, considerar-me-ia como pouco prático se hoje não usasse, para certos fins, a pena um pouco melhor do que tantos outros dizem utilizar as armas, e de uma maneira, quero crer, menos ineficaz , pois serão as penas que farão trabalhar as armas, e não as armas as penas, como desejariam os proprietários desta sociedade e os ingênuos fanáticos da luta armada, que também quanto a isto estão mais de acordo do que julgam.      Se vós, os maus operários, considerardes que estes Discursos não são muito inferiores à ambiciosa intenção que vos anima, e que também me anima, não deixarei de na próxima vez fazer pior, incitado por este desejo natural, que foi sempre o meu, de cometer sem qualquer respeito tudo o que possa atingir os donos do nosso mundo, do nosso tempo, da nossa vida. Se para além disso encontrardes nestas páginas uma única razão suplementar para desencadear novos e mais violentos ataques contra todos os que vos oprimem e vos exploram, os burocratas e os burgueses, e para desmistificar com violência os mistificadores que pretendem ainda falar em vosso nome e em vosso lugar, Remédio para Tudo terá satisfeito todos os meus desejos, e eu não saberia desejar-lhe nada melhor.   Prefácio à Edição Portuguesa   «A vitória pertencerá aos que tiverem sabido provocar a desordem sem a amar.» — Guy Debord, Internationale Situacionniste , número 1, 1968.        A inteligência é talvez a coisa melhor distribuída no nosso país: todos pensam ser tão bem dotados que mesmo os que, como os nosso dirigentes, são habitualmente dificílimos de contentar em tudo o resto, não desejam ser mais inteligentes. E visto não ser verosímil que todos se enganem a este respeito, é pois necessário perguntar-se como, e por que razão ou misteriosos interesses, esta inteligência possuída por um tão grande número aparece tão pouco neste nosso país — e sem dúvida que em nenhuma ocasião, nem mesmo excepcional, naqueles que, seja por estarem no poder, seja por procurarem alcançá-lo, nos dizem continuamente que se são incapazes é por nossa culpa e que se a Itália caminha para a ruína, não é por culpa deles.      É um fato que este país, que se autoproclama livre e democrático, é na realidade dirigido por algumas centenas de heróicos imbecis, os quais temem muito mais as conseqüências da inteligência dos outros do que as da sua própria estupidez, travando aquela a todo o custo para melhor darem livre curso a esta, e isto ainda agravado por a sua estupidez não correr sequer o risco de ser publicamente sancionada nas nossas esporádicas feiras eleitorais, embora quotidianamente a usem a seu bel-prazer. Numa tal organização social e política, que tão oportunamente estes senhores talharam à sua própria imagem, parece-me perfeitamente normal que qualquer voz que se eleve da mediocridade dominante e com ela em nada transija, seja naturalmente reduzida ao silêncio graças a uma multiplicidade de mecanismos quase automáticos, que talvez constituam a única coisa ainda relativamente eficaz no meio desta ineficácia geral.      Pela minha parte, nunca me julguei mais perfeito do que qualquer outro: pelo contrário, muitas vezes desejei ter a inteligência e a imaginação tão prontas e vivas como outro qualquer. Apenas desfrutei a boa sorte de me embrenhar, desde muito jovem, num caminho ao longo do qual encontrei algumas das melhores inteligências que estes tempos, contra a sua própria vontade, produziram; e não me custa admitir que isto já me permitiu ser nocivo a este mundo, ou seja, aos seus proprietários, não tanto como o desejaria mas certamente muito mais do que a modéstia das minhas forças, só por si, me teria permitido esperar.      Naturalmente não exagero estes primeiros resultados pois não me contento com eles; sei também que ninguém será suficientemente injusto para atribuir a uma só ou a algumas pessoas a falta ou o mérito de terem lançado a nossa sociedade de classes numa guerra, em que as forças multicolores da conservação se encontram, doravante, na defensiva e numa situação cada vez mais precária. Para isto contribuíram inicialmente, para além de circunstâncias históricas favoráveis, inumeráveis jovens proletários que, muito embora não sejam conhecidos pelos seus nomes e apelidos, não deixam de ser os seus principais protagonistas.      Posso ainda afirmar, sem temer ser desmentido, que estes últimos dez anos de lutas de classes já nos permitiram colher tais frutos e tanto nos mostraram a incapacidade e a abjeção dos nossos inimigos burgueses e estalinistas, que não podemos deixar de considerar com extrema satisfação os recentes progressos da subversão de toda a ordem dominante; e é-nos permitido esperar tais encorajamentos do futuro que, se entre as ocupações dos homens existe hoje uma que seja séria e tenha um porvir sólido, ouso crer que é a mesma que já escolhera numa época menos propícia do que a atual para certas escolhas.      Trabalhar contra este mundo , obtendo resultados palpáveis — isto é, não nos contentando com essa principal compensação ideológica que consiste na «oposição» impotente ù, eis uma tarefa de grande fôlego de que também advém alguns inconvenientes. Mas trabalhar para este mundo não é muito mais fácil e, quer objetiva quer subjetivamente, cada vez mais se torna quase impossível ; e quando digo isto não penso apenas no novo desemprego seletivo para onde o nosso capitalismo em bancarrota lançou toda uma geração de jovens proletários, dando prova de uma imprudência e de uma imprevidência das quais ainda não mediu todas as conseqüências. Na realidade a questão ultrapassa tanto as nossas fronteiras como os erros grosseiros dos nossos políticos e dos nossos economistas. Todos os pretensos «gravíssimos problemas do nosso tempo» derivam unicamente de um fato muito simples: de para cada um e para todos ter chegado o tempo de se resolver todos os problemas e de os resolver diretamente, cada um por si, e portanto também coletivamente.      Que isto seja de fato possível , eis o que é demonstrado pelo terror que a crueza desta perspectiva é capaz de provocar no seio de todos os atuais patrões da alienação e dos seus lacaios políticos e sindicais. Que isto seja presentemente necessário , e para além disso urgente, eis o que, pelo contrário, não carece de nenhuma demonstração específica, pois a nossa sociedade de classes, que já era essencialmente inabitável, agora é-o de forma visível, e quem não compreender isto deve renunciar a compreender o resto.      Os políticos, os economistas, os psicólogos, os sociólogos, os intelectuais, os especialistas em opinião pública e todos os outros imbecis que abrem as pernas ao poder evocam incessantemente estes «gravíssimos problemas», recusando-se contudo a designá-los pelo nome : eles que, frenéticos, se babam de gozo sempre que os donos lhes pedem para farejar um novo fenômeno através do qual se manifesta a mesma crise, eles que tanto amam as definições e os rótulos, ei-los agora que encontram mil pretextos para nunca designarem pelo nome aquilo que a sua ciência não pode resolver, mas que não gostariam ver resolvido por outras pessoas . Na realidade, o seu ofício é agora sobretudo o de se mostrarem necessários aos seus empregadores, e é precisamente esta a sua preocupação dominante neste período em que o proletariado pensa que tanto eles como os patrões não são necessários. Apesar de um tal fenômeno poder parecer curioso, não se poderá contudo afirmar que é esse fenômeno que determina a novidade da época, porque não passa de uma conseqüência dela, e nem sequer é a mais interessante; e se há qualquer coisa de surpreendente neste fenômeno de debandada geral, é tão só o crédito extravagante que estes especialistas continuam a merecer dos que lhes continuam a dar emprego, esperando deles não se sabe bem o quê. E nisto, como em tudo o resto, confirma o velho adágio: tal senhor, tal servo.      Perante um semelhante panorama de decomposição do velho mundo, a falsa consciência que ainda reina, mas que já não governa , tem a sem-vergonha de acusar a jovem geração proletária, que relançou a ofensiva contra a sociedade do espetáculo, de não estar à altura de resolver as questões que se encontram na origem da sua revolta e na raiz da crise com a qual se debatem todos os poderes constituídos, mas a verdade é precisamente o contrário, pois aquilo de que na realidade a jovem geração proletária é acusada é de levantar questões que o poder não pode resolver , uma vez que é o próprio poder que é posto em questão.      E os tais famosos «problemas», silenciados ou falsificados por todos os pensadores escravizados, em que é que eles efetivamente consistem? O que é que eles precisamente são? A sociedade dividida em classes, o trabalho, a propriedade, as próprias condições em que se é obrigado a sobreviver e a produzir, da mesma forma que tudo o que se deve produzir e consumir, as mentiras da «democracia» e da «liberdade» burguesas, bem como as mentiras burocráticas do «comunismo» e da «igualdade», em suma, a sociedade do espetáculo na sua globalidade, começam a não funcionar a partir do próprio momento em que a sua realidade é posta universalmente em discussão e é atacada por uma recusa que não é momentânea ou parcial, mas permanente e total.      Todos os proletários puderam, à sua custa, verificar que trabalhar para este mundo significa muito simplesmente trocar a sua vida e o seu tempo por um miserável salário que no entanto garante a sobrevivência e a sua precariedade perpétua. E é precisamente o trabalho assalariado que hoje em dia é posto em questão e, posteriormente, recusado por mil diferentes maneiras e em mil diferentes ocasiões. O operário italiano, sempre mais dialético do que os seus patrões, redescobre hoje uma verdade, que o velho Hegel havia candidamente referido, sem ponderar as suas conseqüências ou prever o seu seguimento: «Trabalhar significa: aniquilar o mundo ou maldizê-lo».      Até ao presente, os operários limitaram-se a maldizer este mundo ; trata-se agora de o aniquilar.      «Nunca trabalhem!», podia ler-se nos muros de Paris há dez anos, durante a revolução; e em fevereiro de 1977, esta mesma palavra de ordem reaparecia nas paredes de Roma, tendo nesse entrementes sido reforçada pelo simples fato de haver sido traduzida para polaco pelos operários de Stettin, Gdansk, Ursus e Radom, em 1970 e 1976, e também para português pelos operários de Lisboa, em 1974.      A superação da economia encontra-se por todo o lado na ordem do dia, e os proletários, recusando o trabalho, mostram que sabem perfeitamente que este é agora sobretudo um pretexto para os manter permanentemente sob controle , obrigando todos os operários a ocuparem-se sempre com outras coisas que não os seus verdadeiros interesses: É preciso que façam desaparecer do seu pendão a divisa conservadora: «Um salário equitativo para um dia de trabalho equitativo» e inscrevam a palavra de ordem revolucionária : «Abolição do salariato!» (Marx). Aliás, até Lord Keynes teve de admitir, no seu célebre Tratado da Moeda , que «o problema econômico não é, para quem tiver os olhos postos no futuro, o problema permanente da espécie humana» — e nisto mostrou-se menos obtuso do que os seus atuais epígonos e ardentes e serôdios zeladores. O fato fundamental já não é o de existirem todos os meios materiais para a construção da vida livre de uma sociedade sem classes, como presentemente acontece, mas antes o de «o subemprego cego destes meios pela sociedade de classes, não poder nem interromper-se, nem ir mais longe. Nunca uma tal conjuntura existiu na história do mundo.» (Debord).      Conheço muitos operários que se ocupam de economia política de forma bastante mais séria do que o desgraçado Franco Modigliani (16) , e com sucesso bem maior do que o inepto Giorgio Napolitano (17) , mas fazem-no na perspectiva oposta , ou seja, adia sua destruição. Esses operários põem em prática as suas descobertas teóricas, e a sua crítica do sistema econômico ultrapassa e invalida a tão injustamente célebre crítica que Piero Sraffa (18) julgou fazer-lhe. E, inversamente, estes operários começam a teorizar os primeiros resultados práticos das suas experiências diretas sobre a fragilidade da economia . Lêem o panfleto de Paul Lafargue, O Direito à Preguiça , que, muito embora tenha sido escrito em fins do século passado e seja portanto ignorado pelos nossos ignorantes economistas, permanece seguramente a obra de crítica pura da economia política mais importante e mais moderna surgida após Marx. Lafargue prediz com grande antecipação, e com ainda maior lucidez, as razões que conduziriam o capitalismo ao consumo moderno, bem como as características mais relevantes daquilo que designa por «a era da falsificação», que nós hoje podemos contemplar, indica as suas irremediáveis contradições e, por último, aquilo que as resume e as resolve todas: a recusa do trabalho e a superação da economia.      Os operários foram finalmente obrigados a aperceber-se que as cores de que o espetáculo dominante se serve para camuflar a sua monstruosa face são as mesmas funestas cores produzidas pela fábrica de cancro de Cirié : uma fábrica que, como todos sabem, destruía os operários ao mesmo ritmo que produzia corantes. Esta fábrica pode ser, com propriedade, considerada a admirável quintessência de todas as outras: a única diferença é que neste caso, o ciclo destrutivo das forças produtivas era ligeiramente mais veloz e mais radical do que nas demais. Mas todas as fábricas possuem uma semelhança íntima com a fábrica de cancro. * * *      O capitalismo deve reinar ou desaparecer , como outrora se disse de Luís XVI. Mas para reinar deve agora saber prever constantemente, e constantemente evitar o ponto de ruptura do equilíbrio instável que existe entre tudo o que o mesmo capitalismo deve impor e infligir a todos — as renúncias, os sacrifícios, os constrangimentos, o tédio, os danos — e aquilo que todos objetivamente podem e subjetivamente estão dispostos a tolerar. Hoje em dia, o próprio desenvolvimento do capitalismo é tal que, enquanto o limiar de tolerância tende a baixar, tanto por razões históricas como por razões puramente biológicas, a quantidade de tudo o que este tipo de sociedade tem de nos impor devido às suas próprias necessidades particulares de sobrevivência tende, muito pelo contrário, a subir sem cautela nem discernimento e, por assim dizer, pela sua própria inércia, de forma absolutamente autônoma e independente das necessidades reais dos homens e até das suas mais primordiais e irredutíveis exigências de sobrevivência. A sociedade espetacular-mercantil, esse imenso motor imóvel, necessita agora de obrigar toda a gente a movimentar-se para a sustentar e defender a sua própria imobilidade anti-histórica. Mas as Colunas de Hércules da alienação, o limiar que nunca ninguém deveria transpor, já não se encontram em paragens remotas, no cabo do mundo e do conhecimento humano, mas sim junto de cada um de nós, seja qual for o sítio onde nos encontramos. E cada um de nós deve ser capaz de transpor esse limiar, se não quiser « negar a experiência do que está por detrás do Sol, do mundo sem gente » (19) — ou seja, a experiência do negativo em ação , que é já a negação prática de todas as limitações arbitrariamente impostas à maior parte da humanidade, ao proletariado obrigado a viver no embrutecimento, sem nunca conferir a mínima realidade aos seus talentos, às suas capacidades mutiladas, aos seus desejos não reconhecidos.      Descartes asseverava: «a minha terceira máxima é a de procurar sempre... antes mudar os meus desejos do que a ordem do mundo». Hoje em dia os tempos mudaram, e com eles os homens e os seus desejos e aspirações, e é preciso que se abandone toda a incerteza e todo o escrúpulo; e a nossa primeira máxima será portanto a inversão da do filósofo: procurar sempre antes mudar a ordem do mundo do que os nossos desejos . E, desta vez, o proletariado deve tentar não fracassar, mas vencer, pois só um violento desejo de vitória pode assegurar a vitória dos seus desejos mais autênticos, que são também os menos confessados.      Todo o mundo industrial desenvolvido assemelha-se agora a um subúrbio sinistro e sem fim, de que Cirié, Seveso e os seus arredores são simultaneamente o centro anti-histórico e a imagem do seu porvir , se este mundo continuar ainda por algum tempo sob a direção dos que se autoproclamam os seus «responsáveis» políticos e econômicos. E o capitalismo espetacular moderno pode já contemplar o seu rosto nas imagens, em geral censuradas, das crianças monstruosas nascidas recentemente em Seveso, como num espelho mágico que lhe revelasse o seu futuro próximo.      Os nossos burgueses filantropos bem podem lamentar que isso seja assim ; mas dentro em breve lamentarão ainda mais que isso não seja assim, pois a quantidade de tudo o que esta sociedade nos impõe e nos inflige já ultrapassou o limiar para além do qual qualquer equilíbrio penosamente arquitetado é destruído com violência, e não pode ser restabelecido senão pela violência, mas, de uma forma sempre mais provisória .      Em tais condições, quando o desenvolvimento da sociedade de classes, em todas as suas variantes burguesas e burocráticas, se opõe não só aos interesses da grande maioria mas também às mais elementares condições fundamentais da simples sobrevivência da espécie e dos indivíduos, e, sobretudo, à sua própria vontade; para o proletariado a questão não é a de retardar ou, ainda menos, a de evitar uma guerra social que já começou ; também não é a de se empenhar, esgotando-se, numa multiplicidade de pequenas escaramuças, incessantemente renovadas por incessantemente condenadas ao malogro, escaramuças «pela defesa» de não se sabe bem o quê «do salário, do emprego, do país», como ladra em pura perda a canalha sindical e estalinista; a questão é, muito pelo contrário, a de os operários contra-atacarem passando à ofensiva, e a de vencerem em toda a extensão do teatro da guerra, que é mundial, como mundial é a atual crise de todos os poderes, pois o que hoje está em jogo não é senão o destino do mundo . No entanto, não é de forma alguma em nome duma qualquer pretensa «missão histórica», mais ou menos inevitável e profetizada, que o proletariado é chamado a tornar-se a classe da consciência histórica, mas porque só a partir desta posição de superioridade fundamental pode atacar e combater com sucesso o conjunto das forças da inconsciência , que se encontram todas, e apenas elas, representadas «democraticamente» no capitalismo atual e, neste momento, as principais manifestações destas forças são as suas derrotas, os seus desastres e as suas infâmias.      O capitalismo, desde os seus primórdios, foi combativo, e por muito tempo foi-o contra as outras formas retrógradas de poder e de organização social que se opunham à sua expansão: o capitalismo impôs-se e saiu vitorioso das guerras em que se empenhou, porque e enquanto a sua atividade de desenvolvimento e de conquista correspondia a necessidades e possibilidades históricas determinadas — das quais, aliás, nenhum dos seus ideólogos jamais esteve verdadeiramente consciente, da mesma forma que hoje em dia nenhum deles está consciente de que a tarefa do capitalismo se encontra historicamente terminada . Agora que ele já conquistou o mundo, encontrando-se esgotado pelos seus próprios êxitos e gerido pelos herdeiros balofos dos conquistadores de outrora, cabe-lhe defrontar-se de novo com aquilo que precisamente lhe permitiu alcançar um tal poderio: o proletariado. A paz social em que por tanto tempo, desde o malogro da revolução na Rússia e em toda a Europa, repousou, quase lhe tinha feito esquecer a existência do seu velho inimigo; além do mais não há dúvidas que, nos tempos modernos, o capitalismo perdeu já completamente a sua combatividade de antanho. E todos os seus esforços visam doravante impedir uma guerra Social para a qual não se tinha preparado, e que já duvida ganhar , mas da qual o seu próprio desenvolvimento precedente, tão exaltado ainda há pouco, criou todos os pressupostos.      O proletariado, ao contrário, sempre esteve no centro de um conflito quotidiano e permanente, por vezes aberto e mais freqüentemente surdo, mas sempre violento, que dura, há já um século e meio; mas agora a classe que esteve continuamente em guerra contra as condições da sua própria opressão, deve necessariamente perecer ou sobrepor-se a todas as outras classes que, intermitentemente em guerra e paz, nunca estão tão prontas a atacar ou tão preparadas para se defenderem. Por outro lado, a própria natureza desta guerra exige que as classes proprietárias nunca possam aniquilar o seu inimigo, ou seja, abolir o proletariado, sem simultaneamente abolir as estritas condições da sua própria supremacia , elas têm necessidade do proletariado, este não tem necessidade delas . Eis o fundo da questão.      Como se tudo isto não bastasse, é preciso notar que a lógica de um tal conflito também encerra o fato de que, enquanto as classes proprietárias são obrigadas a considerar cada uma das suas vitórias como provisória, e cada trégua que o proletariado lhes concede como incerta, o proletariado é obrigado pela sua própria condição a nunca poder aceitar qualquer paz, a menos que essa seja a paz do vencedor. E é precisamente este fato que obriga hoje os proletários a aumentarem cada vez mais as suas imensas pretensões, em contrapartida às suas derrotas passadas, as quais também eram provisórias: e assim os operários do mundo inteiro precipitam hoje no mais profundo dos desesperos, e com uma freqüência cada vez maior, essas mesmas forças que se lhes opunham e que acabavam de obter a vitória; é precisamente assim que os proletários se impõem a si próprios a necessidade superior de ganhar, não esta ou aquela batalha individual, mas toda a guerra . * * *      Marx afirmava que os homens não enunciam problemas que não possam resolver, e eu acrescento que hoje chegamos ao ponto em que não é possível resolver-se um único problema sem os resolver todos . Eis a razão pela qual este panfleto se intitula Remédio para Tudo .      A nossa força reside justamente no fato de nos defrontarmos com todos os problemas , e de termos tanto a necessidade como a possibilidade de os resolver todos . A fraqueza dos nossos inimigos, burocratas e burgueses, consiste no fato de também eles se encontrarem confrontados com todos os problemas, mas na necessidade imperativa de não os resolver todos — quer dizer, na verdade não se acham em condições de dar remédio a problema algum. Eis pois exatamente qual é hoje a sua situação: não são capazes de resolver quaisquer problemas, já nem sequer estão em estado que lhes permita impedir os outros de os resolver, nem se encontram na posição de poderem continuar a coabitar com todos estes problemas. Não nos devemos pois espantar com o pavor e a confusão que agora reinam nas suas fileiras.      Até há cerca de dez anos, a maioria dificilmente conceberia que o que quer que fosse pudesse mudar; hoje em dia todos consideram impossível que o que quer que seja continue como dantes . E no entanto ainda não se passaram dois lustros sobre a altura em que os resignados pensadores da esquerda impotente pomposamente decretaram que este mundo tinha, a partir desse momento, atingido o seu ordenamento definitivo, e que não havia outra «escolha» senão entre as mentiras russa, chinesa ou cubana, que nessa altura balofamente alimentavam as suas desonestas controvérsias. Marcuse, o iludido, pretendia ainda demonstrar-nos o desaparecimento do proletariado, que alegremente se teria dissolvido na burguesia; e Henri Lefebvre, o desiludido, já perorava sobre o «fim da história». Confundiam os seus pobres sonhos com a realidade, confessando assim canhestramente que a realidade de então era tudo o que sonhavam. Mas a partir de 1968, tiveram que submeter-se à percepção dolorosa da estupidez de que enfermavam: Marcuse resignou-se ao silêncio, e Lefebvre resignou-se a voltar ao redil, falando por conta dos estalinistas franceses.      Hoje, quando o tempo das desordens começa, por todo o lado, a perturbar o sono das classes dominantes, todos estes patéticos ideólogos em crise de idéias até o público perderam, mas quase sempre obtiveram em troca um emprego inesperado como advogados de defesa do velho mundo. Em Itália, onde a crise é mais grave, esses ideólogos perderam depois toda a compostura e, a cada avanço da subversão, ei-los que envergam, pressurosos, a toga dos pais da pátria, ei-los que desbobinam, como um velho relógio de cuco, as mesmas ininterruptas banalidades sobre a defesa da ordem republicana e as costumeiras trivialidades em favor das instituições democráticas com a convicção afetada e repleta de auto-suficiência dos pregadores de uma igreja em crise de fiéis, pois não há quem acredite no milagre que prometem, o de a história parar como por encanto perante as suas fórmulas mágicas.      Sempre que tais ideólogos se mostram na televisão, ou que na primeira página dos jornais nos convidam sem pejo algum a apreciar as delícias desta «democracia» nascida, o caralho, da resistência, como eles nasceram da estimável cona da mãe, os Valiani, os Amendola, os Asor Rosa, os Moravia, os Bobbio, os Bocca, etc., demonstram continuar a não querer compreender que os sobressaltos violentos e contraditórios que alimentam crônicas da imprensa provam unicamente que a sua época chegou ao termo e que um mundo novo se encontra em vias de nascer. Estas velhas cariátides que esperam suster por mais algum tempo o templo dessacralizado e em vias de desmoronamento das mentiras e dos abusos dominantes, estes extremistas do consenso e fanáticos da legalidade sabem que as suas leis já não comandam o futuro e que antes de se julgar os homens novos urge julgar as velhas leis; e, aliás, a «democracia» e a «liberdade» que estes senhores apregoam a ponto de nos foderem o bicho do ouvido, e o resto, para eles são o que as cores são para um cego de nascença , e a prova disto é simples, pois se conhecessem o verdadeiro sentido destes termos, de certo que deles não se serviriam com tanta leviandade, aplicando-os à nossa miserável República. Mas quando a verdadeira democracia se impuser — ou seja, quando todo o poder de decisão e de execução pertencer aos Conselhos Operários Revolucionários, onde cada delegado possa a todo o momento ser demitido pela base —, nessa altura veremos que todos estes cavalheiros, que hoje nos falam a torto e a direito de democracia, combatê-la-ão ou, ainda mais provavelmente, pôr-se-ão em fuga como é seu costume. Mas perante os apelos peremptórios e insolentes com que hoje nos importunam, os jovens proletários são obrigados a concluir que estes mistificadores respeitados são tão solidários na corajosa defesa de todas as mentiras e abusos correntes, tal não se passa por acaso, mas por disso lhes advirem elevadas remunerações.      Quantos milhões recebe mensalmente, ou semanalmente, o honesto Leo Valiani para escrever o que escreve? E o que é que ele escreveria se tivesse uma vida e um salário de operário? E Bocca? E os outros todos?      Lichtenberg dizia não conhecer um único homem no mundo que, tendo-se transformado num canalha por mil táleres, não tivesse preferido continuar honesto por metade da soma.      Desaparecei, palhaçada grotesca, charlatães de males incuráveis: vós temeis coisas demais para serdes temidos, e respeitais demasiado para que vos respeitem! Julgais tudo erradamente, enquanto as pessoas começam a julgar-vos acertadamente: não vos dais conta de que metade do país ri de vós e que a outra metade vos ignora? Sabei ao menos que perante a farsa tragicômica que é a vossa própria existência, a corte marcial da nossa crítica vai celebrar as suas saturnais! E que nem sequer se me exprobre o recorrer à invectiva: desde Dante, todos os que consideraram de forma imparcial os nossos poderosos do momento foram sempre obrigados a recorrer à invectiva, pois não basta julgar os atos e os discursos dos homens; é também necessário julgar os homens pelos seus discursos e pelos seus atos .      Até ao presente momento, o conjunto do país nada mais foi do que um mero espectador dos seus ministros e de todos os que o enganam e lhe falam em seu nome; a partir de agora, o país tratará de julgá-los e de dar a César o que é de César: vinte e três punhaladas. * * *      Nas épocas em que reina a inteligência, os homens podem ser julgados com base no uso que dela fazem; nos séculos de decadência, mas contando, no entanto com pessoas hábeis, é preciso julgá-las segundo os seus interesses e o seu mérito, naqueles em que, pelo contrário, uma extrema mediocridade esbarra com grandes dificuldades, como este em que nos encontramos, devemos considerar as condições gerais em que os homens vivem, as pretensões dos que se encontram no poder, seus pavores, os seus interesses particulares, fazer desta mistura a regra do nosso juízo valorativo. Se hoje assistimos ao espetáculo edificante que quotidianamente nos é oferecido por todos advogados defensores do velho mundo, que tomam a palavra com ardor e precipitação para ejacularem rotativamente ou em conjunto a sua argumentação, é justamente porque tais advogados temem que essa sua oportunidade seja a última e também porque sentem confusamente, mas não sem razão, que o tribunal da história está prestes a mandar executar uma sentença que já tardava. E se nas suas vãs perorações estes mercenários defensores de todos os abusos se mostram por vezes temerários isso deve-se unicamente ao fato de, tendo o pavor ultrapassado um certo limite, a coragem e a covardia poderem produzir por alguns instantes mesmos efeitos.      Se por uns tempos os políticos e intelectuais tanto se agitaram à volta da palavra coragem , principalmente para perguntarem uns aos outros qual o significado preciso da mesma . E se depois de um semelhante clamor nem sequer conseguiram estar à altura de dar uma resposta, não será preciso irmos muito longe para encontrarmos a razão disso: regra geral, os homens, do que mais falam é daquilo que mais carecem, sobretudo nas situações em que mais sentem essa necessidade. Assim, enquanto um pedinte falará de dinheiro, Franco Rodano fala de coragem. Lama, Moravia, Arpino, Calvino, Vasco Pratolini, Elio Retri e cem outros também parecem disputar a primazia nesse campo e até o repugnante Antonalio Trombadori dissertou sobre a questão — e, pelo menos neste caso, mostrou-se bastante temerário, falando de corda em casa de enforcado. E quase todos falaram assim para acusarem de covardia Montale e Sciascia, que pelo menos tiveram a coragem mínima de manifestarem publicamente o desinteresse e o asco que este Estado lhes inspira, Estado que o estalinista Amendola teme ver desmoronar-se antes de conseguir compartilhá-lo com os democratas-cristãos.      Tudo isto demonstra que se pode dizer da coragem o que Marx dizia da consciência: não é de certo a coragem dos homens que determina a sua condição social, mas, inversamente, a sua condição social que determina a coragem ou a covardia; e basta considerar o caráter provisório e a presente fragilidade da posição social que estes usurpadores ocupam numa sociedade de classes tão pouco segura de si como a nossa, para se ficar suficientemente a par da sua pretensa «coragem». Para além disso, escusado será dizer que ninguém lhes pede para serem corajosos.      A covardia existiu sempre, mesmo se nem todas as épocas tiveram a oportunidade de a ver no poder; no nosso século, a covardia gostaria de estar em maioria mas, já se encontrando majoritária no governo, tem os seus heróis e atribui-se publicamente as dignidades e todas as honras que em outros tempos eram reservadas para a coragem. Esta controvérsia político-intelectual sobre a coragem não fez outra coisa senão salientar ainda mais a profunda covardia de todos os que nela participaram, pois se não é possível dotar alguém de coragem, também não se lhe pode retirar a covardia, e nem sequer escondê-la, pois não conheci nenhum covarde que tivesse a simples coragem de admitir sê-lo , ao menos para melhor se esconder.      Estas balofas e aborrecidas «polêmicas» periódicas, que constituem o principal passatempo de todos os eunucos do poder , ou seja, dos intelectuais, demonstram uma vez mais a incurável pusilanimidade dos que nelas participam: as armas da sua «crítica» não cortam pois encontram-se, como diria Camões, «recobertas pela ferrugem da paz» social de que por demasiado tempo esses intelectuais beneficiaram, tendo isso terminado numa data ainda recente. E sabe-se bem que a fraqueza é talvez o único defeito impossível de se corrigir, precisamente por os seus efeitos serem inimagináveis, e ainda mais prodigiosos do que os das mais ardentes paixões.      O arcaísmo das instituições que estes corajosos senhores pretendem defender, possivelmente até para evitarem a infelicidade de terem que se defender eles próprios, instituições que no entanto eles já nem sabem fazer funcionar, o seu caráter arcaico, dizia, nem sequer é de molde a fazê-las respeitar ou a torná-las veneráveis; muito pelo contrário, elas desacreditam-se de dia para dia, envelhecendo ainda mais depressa do que os seus corifeus. E, à medida que a sua decadência se vai tornando mais e mais evidente, inspiram um desprezo mais e mais universal, pois já nem sequer têm a capacidade de ser nocivas. O mundo político caiu assim numa imbecilidade desastrosa, e isto no presente momento em que a globalidade da sociedade se tornou mais inteligente . Presentemente, esta inteligência e esta imbecilidade são igualmente nocivas ao poder que, destarte, se encontra sob constante ataque vindo do exterior, e minado no seu próprio interior.      A guerra social que se prepara já movimenta todos os indivíduos e todas as classes da sociedade porque, ao pôr em jogo os interesses de todos, atribui a todos um interesse no combate e apela a cada um no sentido de escolher o seu campo: de um lado todos os que hoje temem uma guerra que já não conseguem evitar , caso dos capitalistas e dos burocratas do partido dito comunista, e do outro, todos os que não têm qualquer poder sobre as suas próprias vidas, e o sabem .      Nos capítulos que se seguem falarei portanto contra a ordem de coisas vigente, mas fá-lo-ei numa desordem relativa : tratá-lo com ordem seria conceder demasiadas honras ao meu tema, pois quero demonstrar que disso é ele incapaz — Saint Just já o afirmou: «a ordem presente é a desordem coligida em leis». E antes de concluir este prefácio direi que, como é evidente, Remédio para Tudo não quer nem pode ser um remédio para todos , pois na verdade esta obra propõe-se ser nociva a muitos e procura vir a ser útil a um maior número; a utilidade de um tal panfleto será pois medida com base nos prejuízos que o mesmo for capaz de causar, direta ou indiretamente, de imediato ou dentro de pouco tempo, aos proprietários da alienação, pois tudo o que é nocivo não é ipso fato inútil; só tudo o que é inútil é sempre nocivo. Espero ser claro , mas se houver quem persista em não me compreender, isso preocupar-me-á menos do que deveria preocupar a pessoa em questão: alguém disse que nesta época não se pode mais permanecer insensível a nada do que ela produz, e, se ela produz certos livros, tal significa que também produziu quem os saiba ler .      Os proprietários deste mundo, bem como os seus «críticos» assalariados, ficarão exasperados, despeitados por terem de reconhecer que só os seus inimigos absolutamente irredutíveis se encontram em condições de o compreender realmente e a classe dominante verá com justificada inquietação os seus verdadeiros problemas, expostos unicamente por aqueles que trabalham com vista à sua subversão. Os nossos ministros e todos os políticos inquietar-se-ão, e não sem razão, por terem de ler os nossos escritos para se poderem enfim contemplar com realismo, mas na perspectiva da destruição de todos os seus poderes. Os chefes dos serviços secretos da burguesia, dedicando-se há uma dezena de anos às provocações, aos assassínios e ao terrorismo de Estado, ficarão justificadamente furiosos por verem as suas manobras sempre desmascaradas precisamente por aqueles contra quem as mesmas são sempre concebidas; e mesmo a morte de Moro aparecerá enfim na sua verdadeira e sinistra luz. Os grandes burgueses em decomposição não me quererão, é claro, perdoar nem este panfleto nem o resto, e alguns deles pretenderão acusar-me de traidor à sua classe , como já o fez há cerca de dois anos Indro Montaneffi (20) , pois assestei todas as minhas armas contra a dita alta burguesia donde provenho: ora bem, tenho muita honra em que me seja feita uma tal acusação, pois não há humilhação que essa burguesia sobejamente não mereça; e a classe operária, que foi vítima de inúmeras traições de classe por parte dos seus pretensos representantes, terá uma certa razão em se felicitar considerando que um pouco da mesma sorte também coube à classe adversa.       Remédio para Tudo será portanto também um ajuste de contas com toda esta malavita que a classe dominante democraticamente impõe à classe dominada, bem como um acerto de contas com tais ou tais indivíduos concretos que até ao presente abusaram por demais impunemente da paciência da classe explorada, ou antes, do silêncio a que a mesma se encontra reduzida. Como no inferno, também aqui haverá uma diversidade de fossos, precipícios e condenados, desde os burgueses aos estalinistas, desde os mentirosos profissionais aos burocratas sindicais, desde os políticos aos intelectuais, e por aí afora — de modo que no fim poderei também eu dizer ao leitor: Podes agora julgar as pessoas que acima acusei, e as suas faltas, que são a causa de todas as vossas desgraças .   Capítulo X Do Terrorismo e Do Estado   «Essas astúcias que sustém o Estado, passes de prestidigitação Que chamamos profundos desígnios políticos (Como no teatro, o néscio parolo, Não se apercebendo das cordas, Pasma ante uma auréola que voa)... Mas suponhamos que em plena representação A máquina, mal montada, se desconjunta, Os cenários entreabrem-se e tudo deixam ver: Logo o truque entra pelos olhos dentro! Como é simples! Que grosseira trapaça Vede pois o nó da polé!... Que pobre máquina aciona Os pensamentos dos monarcas e os planos De que misérias depende a sua Sorte!... Apavorados os campônios fogem, Tremendo ante o Prodígio inaudito... Ei-lo! Olhai! Como todos se arrepiam e tremem!» Swift, Ode ao Honorabilíssimo Sir William Temple , 1689.        Todos os atos de terrorismo, todos os atentados que tiveram e têm poder sobre a fantasia dos homens, foram e são ou ações ofensivas ou ações defensivas . Se fazem parte de uma estratégia ofensiva, a experiência há muito demonstrou que estão sempre condenados ao malogro. Se, pelo contrário, fazem parte de uma estratégia defensiva, a experiência mostra que estes atos podem obter algum sucesso, que no entanto é momentâneo e precário. Os atentados dos palestinos e dos irlandeses, por exemplo, são atos de terrorismo ofensivo , enquanto a bomba da Piazza Fontana e o rapto de Aldo Moro são, pelo contrário, atos de terrorismo defensivo .      Contudo não é apenas a estratégia que muda, conforme se tratar de um terrorismo — ofensivo ou defensivo, mas também os estrategos . Os desesperados e os iludidos recorrem ao terrorismo ofensivo; pelo contrário, são sempre e unicamente os Estados que recorrem ao terrorismo defensivo, quer porque se encontram mergulhados numa grave crise social, como o Estado italiano, quer porque a temem como o Estado alemão.       O terrorismo defensivo dos Estados é por eles praticado direta ou indiretamente , com as suas próprias armas ou com as de outrem. Se os Estados recorrerem ao terrorismo direto , o mesmo será dirigido contra a população — como aconteceu, por exemplo, com a carnificina da Piazza Fontana, com a do Italicus , e com a de Brescia. Se, pelo contrário os Estados decidirem recorrer a um terrorismo indireto , este deverá parecer dirigido contra o próprio Estado — como, por exemplo, aconteceu com o caso Moro.      Os atentados diretamente realizados pelos corpos destacados ou pelos serviços paralelos do Estado não são usualmente reivindicados por ninguém, mas são sempre imputados e atribuídos a este ou àquele «culpado» cômodo, como Pinelli ou Valpreda. A experiência provou que esse é o ponto mais fraco de um tal terrorismo, o que determina a extrema fragilidade do uso político que do mesmo se pretende fazer. É até a partir dos resultados desta experiência que os estrategos dos serviços paralelos do Estado procuram agora dar uma maior credibilidade, ou pelo menos uma menor inverosimilhança, aos seus próprios atos, quer reivindicando-os por esta ou aquela sigla de um grupo fantasma, quer fazendo-os inclusive reivindicar por um grupo clandestino existente, cujos militantes são aparentemente, e por vezes crêem-no, estranhos aos desígnios do aparelho de Estado.      Todos os grupúsculos terroristas secretos são organizados e dirigidos por uma hierarquia que permanece clandestina para os próprios militantes na clandestinidade, o que reflete perfeitamente a divisão do trabalho e dos papéis própria desta organização social: na cúpula decide-se e na base executa-se. A ideologia e a disciplina militar protegem os verdadeiros chefes de todos os riscos, e a base de toda a suspeita. Qualquer serviço secreto pode inventar uma sigla «revolucionária» e levar a cabo um certo número de atentados, que a imprensa se encarregará de propagandear, e a partir dos quais lhe será fácil formar um pequeno grupo de militantes ingênuos, que dirigirá com a maior das facilidades. No caso de um pequeno grupo terrorista espontaneamente constituído, nada de mais fácil no mundo para os corpos destacados do Estado do que nele se infiltrarem e, graças aos meios de que dispõem e à extrema liberdade de manobra de que gozam, de se aproximarem da cúpula original, substituindo-a por elementos seus, quer pelo assassínio dos chefes iniciais, que regra geral se produz quando de um conflito armado com as «forças da ordem», prevenidas de uma tal operação pelos seus elementos infiltrados, quer por determinadas prisões realizadas em altura oportuna.      A partir desse momento, os serviços paralelos do Estado passam a dispor a seu bel-prazer uma organização perfeitamente eficaz, formada de militantes ingênuos ou fanáticos, que não pede outra coisa senão ser dirigida. O pequeno grupo terrorista original, nascido das ilusões dos seus militantes sobre as possibilidades de se levar a cabo uma ofensiva estratégica eficaz, muda de estratégia e nada mais passa a ser senão um apêndice defensivo do Estado, que o manobra com a maior agilidade e a melhor das seguranças, segundo as sua próprias necessidades do momento, ou segundo aquilo que julga ser as suas próprias necessidades.      Da Piazza Fontana ao rapto de Moro, o que mudou foram os objetivos contingentes, que o terrorismo defensivo atingiu, mas aquilo que nunca pode ser alterado por quem se encontra na defensiva é a meta a atingir . E a meta a atingir, desde 12 de dezembro de 1969 a 16 de março de 1978, e ainda hoje, foi sempre a mesma, que é a de fazer crer a toda a população, que já não suporta este Estado ou está em luta contra ele, que ela tem, pelo menos, um inimigo em comum com este Estado, inimigo do qual ela será defendida pelo Estado sob a condição de este não mais ser posto em causa por quem quer que seja. A população, que geralmente é hostil ao terrorismo, e não sem razão, deve assim convir que, pelo menos neste campo , ela carece do Estado, em quem deverá portanto delegar os poderes mais amplos para que ele possa enfrentar com vigor a árdua tarefa da defesa comum contra um inimigo obscuro, misterioso, pérfido, impiedoso, em suma, quimérico . Perante um terrorismo sempre apresentado como o mal absoluto , o mal em si e para si, todos os outros males, bem mais reais, passam para um segundo plano, e devem mesmo ser esquecidos; uma vez que a luta contra o terrorismo coincide com o interesse comum , essa luta torna-se o bem geral e o Estado que generosamente a conduz passa a ser o bem em si e para si. A infinita bondade de Deus não poderia sobressair e ser apreciada como convém se não existisse a malvadez do diabo.      O Estado, enfraquecido em extremo pelos ataques de que quotidianamente é alvo de há dez anos a esta parte, e com a sua economia debilitada, por um lado, devido aos ataques do proletariado e, por outro, devido à incapacidade dos seus gestores, pode assim esconder uma e outra coisas, incumbindo-se solenemente de encenar o espetáculo da sacrossanta defesa comum contra o monstro terrorista e, em nome desta piedosa missão, pode exigir de todos os seus súbditos uma porção suplementar da sua exígua liberdade, porção essa que vai reforçar o controle policial sobre o conjunto da população. «Estamos em guerra», e em guerra contra um inimigo tão poderoso que o mínimo desacordo ou conflito seria um ato de sabotagem e de deserção: o recurso à greve geral só é legítimo quando se protesta contra o terrorismo. O terrorismo, e «a emergência», dum estado de emergência e de «vigilância» perpétuas, eis os únicos problemas existentes, ou pelo menos os únicos de que é permitido e necessário ocuparmo-nos. O resto não existe, ou é esquecido, e em todo o caso silenciado, distanciado, removido para o inconsciente social, perante a gravidade da questão da «ordem pública». E, face ao dever universal da sua defesa, todos são convidados à delação, à baixeza, ao medo: pela primeira vez na história, a covardia torna-se uma virtude sublime, o medo é sempre justificado, e a única «coragem» não desprezível é a de se aprovar e apoiar todas as mentiras, todos os abusos e todas as infâmias do Estado. Como a crise atual não poupa país algum deste planeta, já não existe qualquer fronteira geográfica da paz, da guerra, da liberdade, da verdade: esta fronteira passa pelo próprio interior de cada país, e todos os Estados se armam e declaram guerra à verdade.      Fulano não acredita no poderio oculto dos terroristas? Pois melhor fará em mudar de opinião perante as tão bem filmadas imagens de três terroristas alemães prestes a embarcarem num helicóptero, e que dispõem de tanto poder que a seguir conseguiram mesmo escapar aos serviços secretos alemães, mais hábeis a filmar a sua presa do que a capturá-la.      Beltrano não acredita que cem ou duzentos terroristas são capazes de infligir um golpe mortal às nossas instituições? Pois veja o que cinco ou seis dentre eles foram capazes de fazer, em poucos minutos, a Moro e à sua escolta e admita, portanto, que o perigo que ameaça as instituições (aliás tão amadas por mais de 50 milhões de italianos) é um perigo real e terrível. E se houver ainda alguém que queira afirmar o contrário? É um cúmplice dos comunistas! Todo o mundo convirá assim que o Estado não pode deixar-se abater sem se defender: e, custe o que custar, esta defesa é um dever sagrado e imperativo para cada um de nós. E isto porque a República é pública, o Estado é de todos, cada um de nós é o Estado e o Estado é todos nós, pois todos nós gozamos as vantagens que ele nos proporciona de forma tão igualmente repartida: não será isto a democracia? E por isso o povo é soberano, mas ai dele se não a defender!      Estais convencidos? Ou, depois do caso Moro, ainda credes, pobres cidadãos em maré de crítica, que é ainda e sempre o Estado, como quando da Piazza Fontana, quem organiza os atentados? Ignóbeis suspeitas! A dignidade das instituições sente-se atingida: Zaccagnini chora, até há uma fotografia que mostra isso. Cossiga também chorou, a coisa viu-se mesmo no telejornal, e acabai de uma vez para sempre de acusar de todas as faltas e a propósito de tudo e de nada aqueles que não hesitam em sacrificar a vida de outrem em nome da defesa das nossas mui democráticas instituições. Ou será que ainda credes, pobres cidadãos, que nós os ministros, os generais, os