KOREAEBOOKDOCUMENT1.2.0O SertanejoJosé de AlencareBooksBrasil.comeBooksBrasil.comþóO=para.xmlcapa.jpgnormal.styÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿ‡ÀN para.xmlG] smaller.styLe small.styQm normal.styVu large.sty[} larger.sty`… ~9capa.jpgÞ¾ indice.jpg O Sertanejo José de Alencar Versão para eBook eBooksBrasil.com Edição baseada na digitalização da edição em papel da José Olympio, 1955 Retido apenas o texto do Autor. As notas da edição digitalizada e prefácio foram omitidos, mas levados em conta na revisão. Ortografia atualizada de conformidade com o Dicionário Aurélio eletrônico Século XXI, nov. 1999 Variantes ao texto digitalizado estão devidamente indicados por links no texto. ©2002 — José de Alencar ÍNDICE GERAL PRIMEIRA PARTE Capítulo I O comboio Capítulo II O desmaio Capítulo III A chegada Capítulo IV A herdade Capítulo V Capítulo VI A malhada Capítulo VII Moirão Capítulo VIII Dois amigos Capítulo IX Puxão d’orelha Capítulo X O rosário Capítulo XI A comadre Capítulo XII Alvoroço Capítulo XIII Explicação Capítulo XIV Desobediência Capítulo XV A cavalhada Capítulo XVI O vizinho Capítulo XVII A jura Capítulo XVIII Desengano Capítulo XIX Ao cair da tarde Capítulo XX O aboiar SEGUNDA PARTE Capítulo I A saída Capítulo II A monteria Capítulo III O Dourado Capítulo IV O sorubim Capítulo V A carreira Capítulo VI Os bilros Capítulo VII A volta Capítulo VIII Emboscada Capítulo IX Repreensão Capítulo X A infância Capítulo XI Adolescência Capítulo XII Anhamnm Capítulo XIII A viúva Capítulo XIV A trama Capítulo XV Tentação Capítulo XVI O fojo Capítulo XVII A intimação Capítulo XVIII A carta Capítulo XIX A resposta Capítulo XX O casamento Capítulo XXI Deus não quer Conclusão Notas Variantes O SERTANEJO José de Alencar PRIMEIRA PARTE I O COMBOIO        Esta imensa campina, que se dilata por horizontes infindos, é o sertão de minha terra natal.      Aí campeia o destemido vaqueiro cearense, que à unha de cavalo acossa o touro indômito no cerrado mais espesso, e o derriba pela cauda com admirável destreza.      Aí, ao morrer do dia, reboa entre os mugidos das reses, a voz saudosa e plangente do rapaz que abóia o gado para o recolher aos currais no tempo da ferra.      Quando te tornarei a ver, sertão da minha terra, que atravessei [1] há tantos anos na aurora serena e feliz de minha infância?      Quando tornarei a respirar tuas auras impregnadas de perfumes agrestes, nas quais o homem comunga a seiva dessa natureza possante?      De dia em dia aquelas remotas regiões vão perdendo a primitiva rudeza, que tamanho encanto lhes infundia.      A civilização que penetra pelo interior corta os campos de estradas, e semeia pelo vastíssimo deserto as casas e mais tarde as povoações.      Não era assim no fim do século passado, quando apenas se encontravam de longe em longe extensas fazendas, as quais ocupavam todo o espaço entre as raras freguesias espalhadas pelo interior da província.      Então o viajante tinha de atravessar grandes distâncias sem encontrar habitação, que lhe servisse de pousada; porisso, a não ser algum afouto sertanejo à escoteira, era obrigado a munir-se de todas as provisões necessárias à comodidade como à segurança.      Assim fizera o dono do comboio que no dia 10 de dezembro de 1764 seguia pelas margens do Sitiá buscando as faldas da Serra de Santa Maria, no sertão de Quixeramobim.      Uma longa fila de cargueiros tocados por peões despeja o caminho nessa marcha miúda e batida a que dão lá o nome de carrego baixo; e que tanto distingue os alegres comboios do norte das tropas do sul a passo tardo e monótono.      Os recoveiros armados de sua clavina e faca de mato formavam boa escolta para o caso de necessidade. Além deles, acompanhava a pesada bagagem uma caterva de fâmulos de serviço doméstico e acostados.      Adiante do comboio, e já muito distante, aparecia a cavalgada dos viajantes.      Compunha-se ela de muitas pessoas. Dessas, vinte pertenciam à classe ainda não extinta de valentões, que os fazendeiros desde aquele tempo costumavam angariar para lhes formarem o séquito e guardarem sua pessoa; quando não serviam, como tantas vezes aconteceu, de cegos instrumentos a vinganças e ódios sanguinários.      Em geral essa gente adotara um trajo em que a moda portuguesa do tempo era modificada pela influência do sertão. Aqueles, porém, traziam um gibão verde guarnecido de galão branco, uma véstia amarela e calções da mesma cor com botas pretas e chapéus à frederica.      Larga catana à ilharga, trabuco a tiracolo e adaga à cinta, além dos pistoletes nos coldres, completavam o equipamento destes indivíduos cuja sinistra catadura já de si incutia mais susto do que as próprias armas.      Traziam mais, presa à borraina da sela e suspensa às ancas do animal, a larga machada que servia-lhes no caso de necessidade para abrir a picada na mata virgem, ou improvisar uma ponte sobre o rio cheio. Utensílio indispensável daquele tempo ao viajante, que muitas vezes o transformava em arma terrível.      Ia de cabo a essa força um homem de exígua figura, magriço, que trajava como os seus companheiros, com a diferença de trazer a farda de pano verde e o chapéu de feltro agaloados de prata.      Esta escolta acompanhava duas pessoas que eram sem dúvida os donos do comboio.      A primeira, homem de cinqüenta anos, de alto porte e compleição robusta, mostrava pelo chapéu armado e pela farda escarlate com galões dourados ser um capitão-mor de ordenanças. Montava cavalo ruço-pedrês, o qual dava testemunho de seu vigor na galhardia com que suportava o peso do corpulento cavaleiro, além de umas vinte libras da prata dos arreios.      A segunda personagem, dama de meia idade, mas bem conservada e prazenteira, manejava com donaire o seu cavalo castanho, também ajaezado de prata como o de seu marido. O vestido de montar era de fino droguete verde-garrafa com alamares de torçal de ouro, e o chapéu, em forma de touca, ornado de um cocar de plumas tricolores, que ao movimento do cavalo se agitavam em torno da cabeça.      Atualmente viaja-se pelo nosso interior em hábitos caseiros; não era assim naquele bom tempo em que um capitão-mor julgaria derrogar da sua gravidade e importância, se fossem vistos na estrada, ele e a esposa, sem o decoro que reclamava sua jerarquia.      Acresce que o capitão-mor Gonçalo Pires Campelo e sua mulher D. Genoveva estavam a chegar à sua fazenda da “Oiticica”, onde pretendiam entrar antes de uma hora com a solenidade, que ali era de costume, sempre que os donos voltavam depois de alguma ausência.      A última pessoa da cavalgada, ou antes a primeira, pois rompia a marcha, era D. Flor, a filha do capitão-mor. Formosa e gentil, esbeltava-lhe o corpo airoso um roupão igual ao de sua mãe com a diferença de ser azul a cor do estofo.      Trazia um chapéu de feltro à escudeira, com uma das abas caídas e a outra apresilhada um tanto de esguelha pelo broche de pedrarias donde escapava-se uma só e longa pluma branca, que lhe cingia carinhosamente o colo como o pescoço de uma garça.      Na moldura desse gracioso toucado, a beleza deslumbrante de seu rosto revestia-se de uma expressão cavalheira e senhoril, que era talvez o traço mais airoso de sua pessoa. No olhar que desferia a luminosa pupila; na seriedade de seus lábios purpurinos, que ainda cerrados pareciam enflorar-se de um sorriso cristalizado em rubim; na gentil flexão do colo harmonioso; e no garbo com que regia o seu fogoso cavalo, assomavam os realces de uma alma elevada que tem consciência de sua superioridade, e sente ao passar pela terra a elação das asas celestes.      O sôfrego baio mastigava o freio e espumava; porém a mão firme da linda escudeira, calçada de comprido guante de seda, que lhe vestia o braço até à curva, retinha os ímpetos do animal, impaciente desde que aspirava as emanações dos campos nativos.      A chapada, que os viajantes atravessavam neste momento, tinha o aspecto desolado e profundamente triste que tomam aquelas regiões no tempo da seca.      Nessa época o sertão parece a terra combusta do profeta; dir-se-ia que por aí passou o fogo e consumiu toda a verdura, que é o sorriso dos campos e a gala das árvores, ou o seu manto, como chamavam poeticamente os indígenas.      Pela vasta planura que se estende a perder de vista, se erriçam os troncos ermos e nus com os esgalhos rijos e encarquilhados, que figuram o vasto ossuário da antiga floresta.      O capim, que outrora cobria a superfície da terra de verde alcatifa, roído até à raiz pelo dente faminto do animal e triturado pela pata do gado, ficou reduzido a uma cinza espessa que o menor bafejo do vento levanta em nuvens pardacentas.      O sol ardentíssimo coa através do mormaço da terra abrasada uns raios baços que vestem de mortalha lívida e poenta os esqueletos das árvores, enfileirados uns após outros como uma lúgubre procissão de mortos.      Apenas ao longe se destaca a folhagem de uma oiticica, de um joazeiro ou outra árvore vivaz do sertão, que elevando a sua copa virente por sobre aquela devastação profunda, parece o derradeiro arranco da seiva da terra exausta a remontar ao céu.      Estes ares, em outra época povoados de turbilhões de pássaros loquazes, cuja brilhante plumagem rutilava aos raios do sol, agora ermos e mudos como a terra, são apenas cortados pelo vôo pesado dos urubus que farejam a carniça.      Às vezes ouve-se o crepitar dos gravetos. São as reses que vagam por esta sombra de mato, e que vão cair mais longe, queimadas pela sede abrasadora ainda mais do que inanidas pela fome. Verdadeiros espectros, essas carcaças que se movem ainda aos últimos arquejos da vida, inspiraram outrora as lendas sertanistas dos bois encantados, que os antigos vaqueiros, deitados ao relento no terreiro da fazenda, contavam aos rapazes nas noites de luar.      Quem pela primeira vez percorre o sertão nessa quadra, depois de longa seca, sente confranger-se-lhe a alma até os últimos refolhos em face dessa inanição da vida, desse imenso holocausto da terra.      É mais fúnebre do que um cemitério. Na cidade dos mortos as lousas estão cercadas por uma vegetação que viça e floresce; mas aqui a vida abandona a terra, e toda essa região que se estende por centenas de léguas não é mais do que o vasto jazigo de uma natureza extinta e o sepulcro da própria criação.      Das torrentes caudais restam apenas os leitos estanques, onde não se percebe mais nem vestígios da água que os assoberbava. Sabe-se que ali houve um rio, pela depressão às vezes imperceptível do terreno, e pela areia alva e fina que o enxurro lavou.      É nos estuários dessas aluviões do inverno, conhecidos com o nome de várzeas, onde se conserva algum vislumbre da vitalidade, que parece haver de todo abandonado a terra. Aí se encontram, semeadas pelo campo, touceiras erriçadas de puas e espinhos em que se entrelaçam os cardos e as carnaúbas. Sempre verdes, ainda quando não cai do céu uma só gota de orvalho, estas plantas simbolizam no sertão as duas virtudes cearenses, a sobriedade e a perseverança.      O capitão-mor havia sesteado a quatro léguas da fazenda, e partira à tarde quando já quebrara a força do sol, contando chegar à sua casa à noitinha.      Nessas horas do ocaso o sertão perde o aspecto morno, acerbo e desolador que toma ao dardejar do sol em brasa. A sombra da tarde reveste-o de seu manto suave e melancólico; é também a hora em que chega a brisa do mar e derrama por essa atmosfera incandescente como uma fornalha, a sua frescura consoladora.      À medida que se aproximava da fazenda, o capitão-mor Campelo ia observando com maior atenção o estado dos terrenos que atravessava, e a propósito dirigia a palavra, umas vezes à sua mulher, outras a um dos acólitos, o que parecia o cabo da escolta, e que lhe ficava mais próximo.      Ao longo do caminho, de um e outro lado, alvejavam, entre as maravalhas dos ramos queimados pelo sol, as ossadas dos animais que já tinham sucumbido aos rigores da seca.      — A seca por aqui foi rigorosa, D. Genoveva, disse o capitão-mor.      — Há de ver, sr. Campelo, que poder de gado se perdeu.      — Com isso já conto eu; as ossadas que temos encontrado estão mostrando. Não é um boi que lá está caído, Agrela?      — Lá ao pé da marizeira, sr. capitão-mor? Aquele já esticou a canela.      — Aposto que deixaram entupir as cacimbas? acudiu D. Genoveva.      — Não duvido, respondeu Campelo.      Nesse momento chegavam os viajantes a uma pequena elevação, donde se avistava ao longe, sobre aquela mata adusta, a copa verde e frondosa de uma prócera oiticica.      Um dos acostados que trazia a trombeta a tiracolo, levou-a à boca, e tocou uma alvorada cujos sons festivos derramaram-se pelo espaço e encheram a solidão.      O fogoso cavalo em que montava a gentil donzela, já excitado desde que primeiro sentira as auras da terra natal, com os rebates da trombeta se arremessou impetuoso pelo caminho da fazenda.      D. Flor deixou-o desafogar aquele generoso anelo que também lhe assomava n’alma ao reconhecer os sítios onde passara a sua infância e lhe corriam felizes os anos da juventude.      Logo abaixo da eminência, o caminho dividia-se; uma trilha estendia-se pelos tabuleiros, a outra serpejava pelo doce aclive que já ali formavam as abas da próxima serra. Sobre essa lomba, cujo terreno estava menos abrasado por causa das filtrações da montanha, as árvores ainda conservavam a folhagem, que tornava-se mais esbatida e virente, à proporção que se avizinhavam das cabeceiras do Sitiá.      Foi por este último caminho que tomou a donzela.      — Flor! gritara D. Genoveva, chamando-a.      Mas ela voltou-se para sorrir à sua mãe, fazendo-lhe um gesto prazenteiro, e deixou-se levar pelo árdego ginete.      A moça breve desapareceu encoberta pelo mato aí mais fechado, e revestido ainda de alguma rama, embora rara e crestada.      Com a rapidez do galope, o vento agitava os cabelos castanhos da donzela, fustigando-lhe o rosto, e ela experimentava um indizível prazer, como se a terra de seu berço lhe abrisse os braços carinhosa, e a estivesse apertando ao seio, e cobrindo-lhe as faces de beijos.      Cerrando a meio os olhos, engolfada nessa ilusão, parecia-lhe que a terra natal tomava as feições da ama que a criara, da boa Justa, de quem se apartara pela primeira vez com tamanha saudade.      De repente o brioso cavalo que relinchava de alegria, erriçou a crina e soltou do peito um ornejo surdo, lançando os olhos pávidos para a esquerda do caminho.      D. Flor pensando que esse terror proviria de ter o baio pressentido no mato a carniça de alguma rês, afagou-lhe o pescoço com a mãozinha afilada, excitando os brios do animal por uma carícia da voz.      Mas o cavalo estacou espavorido, com o pêlo híspido e as narinas insufladas pelo terror. II O DESMAIO        A par com a comitiva, mas por dentro do mato, caminhava um viajante à escoteira.      Parecia acompanhar o capitão-mor, porém de longe, às ocultas, pois facilmente percebia-se o cuidado que empregava para não o descobrirem, já evitando o menor rumor, já afastando-se quando o mato raleava a ponto de não escondê-lo.      Sua paciência não se cansava; tinha caminhado assim horas e horas, por muitos dias, com a perseverança e sutileza do caçador que segue o rasto do campeiro. Não perdia de vista a comitiva, e quando a distância não lhe deixava escutar as falas, adivinhava-as pela expressão das fisionomias que seu olhar sagaz investigava por entre as ramas.      O cavalo cardão, que ele montava, parecia compreendê-lo e auxiliá-lo na empresa; não era preciso que a rédea lhe indicasse o caminho. O inteligente animal sabia quando se devia meter mais pelo mato, e quando podia sem receio aproximar-se do comboio. Andava por entre as árvores com destreza admirável, sem quebrar os galhos nem ramalhar o arvoredo.      Tinha o cavalo um porte alto e linda estampa; mas nessa ocasião, além da fadiga da longa viagem que devia emagrecê-lo, sobretudo por uma seca tão rigorosa, o animal vaqueano conhecia que não era ocasião de enfeitar-se, rifar e dar mostras de sua galhardia. De feito tinha mais aspecto de um grande cão montado por seu senhor, do que de um corcel.      Era o viajante moço de vinte e um anos, de estatura regular, ágil, e delgado de talhe. Sombreava-lhe o rosto, queimado pelo sol, um buço negro como os compridos cabelos que anelavam-se pelo pescoço. Seus olhos, rasgados e vívidos, dardejavam as veemências de um coração indomável.      Nesse instante o constrangimento a que a espreita o forçava, tolhia-lhe os movimentos e embotava a habitual impetuosidade; mas ainda assim, nesses agachos de caçador a esgueirar-se pelo mato, percebia-se a flexibilidade do tigre, que roja para arremessar o bote.      Vestia o moço um trajo completo de couro de veado, curtido à feição de camurça. Compunha-se de véstia e gibão com lavores de estampa e botões de prata; calções estreitos, botas compridas e chapéu à espanhola com uma aba revirada à banda e também pregada por um botão de prata.      Ainda hoje esse trajo pitoresco e tradicional do sertanejo, e mais especialmente do vaqueiro, conserva com pouca diferença a feição da antiga moda portuguesa, pela qual foram talhadas as primeiras roupas de couro. Ultimamente já costumam fazê-las de feitio moderno, mas não têm o valor e estimação das outras, cortadas pelo molde primitivo.      Trazia o sertanejo, suspensa à cinta, uma catana larga e curta com bainha do mesmo couro da roupa, e na garupa a maleta de pelego de carneiro, com uma clavina atravessada e um maço de relho.      Quando a comitiva chegou à eminência donde se avistava a oiticica, o viajante acompanhou com os olhos a donzela até que seu vulto gracioso desapareceu entre o arvoredo; e dando volta ao cavalo afastou-se vagarosamente do caminho da fazenda.      Não tinha, porém, andado vinte braças, que sua fisionomia traiu súbita inquietação. Reclinando sobre o arção, perscrutou com o olhar o mato que o rodeava. Ouvia-se ao longe um leve crepitar, semelhante ao rugir do vento nas palmas crenuladas da carnaúba.      O que, porém, mais preocupava o sertanejo era a cálida rajada que ao passar escaldara-lhe o rosto. Arripiando caminho avançou contra o bochorno para verificar a causa, que tinha logo suposto.      Seu cavalo cardão rompeu o mato a galope, como quem estava acostumado a campear o barbatão no mais espesso bamburral; e com pouco o sertanejo, atalhando a distância, avistou D. Flor parada além, no caminho.      A donzela debalde fustigava o baio, que recuava cheio de terror. Também ela sentira-se envolta por uma evaporação ardente, que se derramava na atmosfera, e oprimia-lhe a respiração, mas, ocupada em vencer a relutância do animal, não prestara ao incidente maior atenção.      Nisso levantou-se no mato um fortíssimo estrépito que rolava como o borbotão de uma torrente; e a donzela viu, tomada de espanto, um turbilhão de fogo a assomar ao longe e precipitar-se contra ela para devorá-la.      Conhecendo então a causa do terror que assustara o animal, e pressentindo o perigo que a ameaçava, lembrou-se a donzela de retroceder; mas outro bulcão de chamas já arrebentava por aquela banda e tomava-lhe o passo.      O incêndio, causado por alguma queimada imprudente, propagava-se com fulminante rapidez pelas árvores mirradas que não passavam então de uma extensa mata de lenha. A labareda, como a língua sanguinolenta da hidra, lambia os galhos ressequidos, que desapareciam tragados pela fauce hiante do monstro.      No seio do denso pegão do fumo, que já submergia toda a selva, rebolcava-se o incêndio, como um ninho de serpentes que se arremetiam furiosas, enristando o colo, brandindo a cauda, e desferindo silvos medonhos.      Ao mesmo tempo parecia que a tormenta percorria a floresta e a devastava. Ouvia-se mugir o vento, agitado pelo ressolho ardente e ruidoso das chamas; um trovão soturno repercutia nas entranhas da terra, e a cada instante, no meio do constante estridor da ramagem, reboavam com os surdos baques dos troncos altaneiros, os estertores da floresta convulsa.      Do meio desse torvelinho, o dragão de fogo se arremessava desfraldando as duas asas flamantes, cujo bafo abrasado já crestava as faces mimosas de D. Flor, e a revestiam de reflexos purpúreos.      Entre as duas torrentes ígneas que transbordavam inundando o campo e não tardavam soçobrá-la, a donzela não desanimou, e fez um supremo esforço para arrancar seu cavalo do estupor que lhe causava o terror do incêndio.      Negros rolos de fumo. porém, a envolveram, e sufocada pelo vapor ela sentiu desfalecer-lhe a vida.      Então com um gesto de sublime resignação cruzou as mãos ao peito, reclinou a linda fronte, e abandonou-se à morte cruel que vinha ceifar-lhe sem piedade a primícia de sua beleza, quando apenas desabrochava.      Nenhum grito lhe rompeu do seio nessa tremenda angústia; com o nobre pudor das almas altivas recalcou o supremo gemido, e em seus lábios mimosos a voz feneceu exalando apenas esta palavra, que resumia toda a sua aflição:      — Jesus!...      O corpo desmaiado resvalou pelo flanco do baio, mas não chegou a cair. Um braço robusto o suspendeu quando já a fralda do roupão de montar arrastava pelo chão.      Apenas o sertanejo conheceu o perigo em que se achava a donzela, rompeu-lhe do seio um grito selvagem, o mesmo grito que fazia estremecer o touro nas brenhas, e que dava asas ao seu bravo campeador.      No mesmo instante achava-se perto da moça, a quem tomara nos braços. Para salvá-la era preciso voltar antes de fechar-se o círculo de fogo, que já o cingia por todos os lados com exceção da estreita nesga de terra por onde acabava de passar.      Não houve de sua parte a mínima demora; o campeador devorou o espaço, e não se poderia dizer que chegara, pois sem parar voltara sobre os pés. Mas o incêndio tinha as asas do dragão; retrocedendo, achou-se o sertanejo em face de um bulcão de chamas que o investia.      As duas trombas de fogo, que desfilavam pelo campo fora, se haviam encontrado, não frente a frente, mas entrelaçando-se, de modo que deixavam ainda, de espaço em espaço, restingas de mato poupadas pelas chamas.      Arrojou-se o mancebo intrepidamente nessa voragem. Estreitando com o braço direito o corpo da donzela cujo busto envolvera em seu gibão de couro, com um leve aceno da mão esquerda suspendia pelas rédeas o bravo campeador que, de salto em salto, transpôs aquelas torrentes de fogo, como tantas vezes sobrepujara os rios caudalosos, abarrotados pelas chuvas do inverno.      Fustigado pelas chamas que já o atingiam, e instigado também do exemplo, o baio, saindo afinal do torpor que dele se apossara, disparou à cola do brioso campeador; porém, menos intrépido e ágil, muitas vezes tropeçou no braseiro, donde a custo pôde safar-se.      Para rodear a coluna de fogo que lhe cortava o caminho da fazenda, teve o sertanejo de dar grande volta, que o levou aos fundos da habitação, completamente deserta nesse momento, pois todos os moradores e gente do serviço, avisados pelo toque da trombeta, haviam acorrido para o terreiro da frente a receber os donos e festejar a chegada.      Saltou o mancebo em terra sem esperar auxílio, e atravessando a varanda deitou o corpo desfalecido de D. Flor no longo canapé de couro adamascado, que ornava a sala principal.      Compôs rapidamente, mas com extrema delicadeza, as amplas dobras da saia de montar, para que não ofendessem o casto recato da donzela, descobrindo-lhe a ponta do pé, nem desconcertassem a graciosa postura dessa linda imagem adormecida. Com os olhos enlevados na contemplação da formosa dama, agitava como leque a aba do seu chapéu de couro, refrescando-lhe o rosto.      Não assustava ao sertanejo a imobilidade da moça; durante a corrida, apesar do estrépito do incêndio e do esforço que empregava para arrancá-la às chamas, não cessara um instante de ouvir sobre o peito a palpitação do coração de D. Flor, a princípio violenta, mas que foi moderando-se gradualmente.      Conheceu que não passava isso de um simples desmaio causado pelo vapor do incêndio. Com o repouso e a inspiração do ar mais vivo e fresco, a donzela não tardaria a voltar a si. Mas se não receava já pela vida preciosa que salvara, todavia não se desvaneceu completamente a inquietação do mancebo pelas conseqüências que podia ter aquele susto para a saúde e tranqüilidade de D. Flor.      Este desvelo extremo enchia-lhe os olhos, os feros olhos negros, que fuzilavam procelas nos assomos da ira e que agora, ali em face da menina desfalecida, se quebravam mansos e tímidos, espreitando a volta do espírito gentil que animava aquela formosíssima estátua, e estremecendo ao mesmo tempo só com a lembrança de que as pálpebras cerradas pelo desmaio se abrissem de repente, e o castigassem com mostras de desprazer.      Indefinível era a unção desse olhar em que o mancebo embebia a virgem, como para reanimá-la com os eflúvios de sua alma, que toda se estava infundindo e repassando da imagem querida. Ninguém que o visse momentos antes, lutando braço a braço com o incêndio, gigante contra gigante, acreditara que esse coração impetuoso encerrasse o manancial de ternura, que fluia-lhe agora do semblante e de toda sua pessoa.      A respiração da donzela, sopitada pela vertigem, foi-se restabelecendo; o seio arfou brandamente com o primeiro alento, e na face que parecia de alabastro perpassara um frouxo vislumbre de cor.      Ajoelhou então o sertanejo à beira do canapé; tirando do peito uma cruz de prata, que trazia ao pescoço, presa a um relicário vermelho, deitou-a por fora do gibão de couro. Com as mãos postas e a fronte reclinada para fitar o símbolo da redenção, murmurou uma ave-maria, que ofereceu à Virgem Santíssima como ação de graças por haver permitido que ele chegasse a tempo de salvar a donzela.      Terminada a oração, volveu a vista em torno como se temesse que as paredes se crivassem de olhos para espiá-lo, e perscrutou o semblante da donzela com uma expressão pávida e suplicante. Afinal, trêmulo, pálido, qual se cometesse um crime, curvou-se e beijou a franja que guarnecia o fraldelim do roupão, como se beija a mais santa das relíquias.      Tênue suspiro exalou dos lábios já rosados da donzela; a mão esquerda moveu-se com um brando gesto que a aproximara do seio. O mancebo retraíra-se vivamente para o lado da cabeceira: e à medida que os sinais do recobro se manifestavam na menina, ele, sempre voltado para o canapé, sem tirar-lhe os olhos do semblante, se afastava de costas em direção à varanda. Cada movimento de D. Flor era um passo que ele dava, pronto a desaparecer da sala como uma sombra.      Já próximo à porta, violenta comoção o abalou. Dos lábios frouxos da donzela se desprendera em mavioso queixume um nome, e esse nome era o seu:      — Arnaldo!      Irresistível impulso arrojou-o para a donzela; mas, como o cedro que o vento inclina, sem arrancá-lo do solo onde lançou a profunda raiz, o sertanejo tinha dentro d’alma um poderoso sentimento, que lhe encadeava os assomos da paixão, e o soldava ao pavimento.      Foi lentamente e com supremo esforço tornando do primeiro elance, até que, arrancando-se enfim ao encanto que ali o prendera, desapareceu da sala.      Levantara-se então um grande alarido no terreiro da casa. III A CHEGADA        Quando o capitão-mor reconheceu os primeiros sinais de incêndio, preveniu a gente de sua escolta.      — Queimada, Agrela? disse ele surpreso. Neste tempo e nestas paragens, não pode ser.      — É que vem de longe, observou o tenente fincando as esporas no cavalo. Toca avante a escolta.      O troço de cavaleiros disparou com a machada em punho, desbastando o mato de uma e outra banda para formar um largo aceiro que impedisse o fogo de propagar-se pela floresta.      Enquanto eles abatiam as maravalhas e ramadas altas que facilmente concebiam a chama e a comunicavam, os peões, chamados a tempo, arredavam para longe todo esse chamiço, isolando os grossos troncos, que se não podiam facilmente derrubar na ocasião.      No meio dessa faina que o capitão-mor dirigia em pessoa e animava com a palavra e o exemplo, soou um grito de aflição. Partira de D. Genoveva, a quem de repente acudiu a idéia do perigo que podia correr a donzela nesse instante, se é que já não fora vítima da horrível catástrofe:      — Minha filha!... Flor!... bradava a desolada mãe.      E ora queria atravessar por dentro da mata abrasada, levada pelo desespero à busca da menina; ora voltava-se para o marido com as mãos postas, suplicando-lhe que a amparasse naquela ânsia.      Rápida contração frisou o rosto grave e plácido do capitão-mor, que logo dominou-se. Podia medir-se a energia que recalcou a primeira impulsão, pela força com que o velho se firmou na sela, vergando ao seu peso o espinhaço da cavalgadura à feição de um arco.      — Não se assuste, D. Genoveva! disse com voz sossegada. Nossa filha não corre perigo.      — Decerto, acudiu Agrela; a doninha passou antes que o fogo chegasse ao caminho, senão teria voltado.      — Esteja descansada, minha mulher. D. Flor já chegou à nossa casa, observou o capitão-mor e tornou ao serviço: Agüenta, rapazes!      — Quem sabe, sr. Campelo; Flor é tão animosa! Talvez teimasse em passar para mostrar que não tem medo.      — Mas, senhora dona, insistiu o Agrela, se tivesse acontecido alguma cousa, de que Deus nos livre e guarde...      — Amém! disse a dama.      O capitão-mor tirou o chapéu, gesto que toda a escolta imitou.      — Por força que se havia de ouvir!      — Com esse barulho do fogo, que parece uma trovoada!...      — Lá o grito da doninha, não digo nada, mas o rincho do cavalo chega longe; e então quando o fogo começasse a chamuscar-lhe a pele!      — Convença-se do que lhe digo, senhora, acrescentou o capitão-mor.      — A prova aí está! Não ouve, senhora dona? Um cavalo que está rinchando lá em casa?      — É verdade! exclamou D. Genoveva.      Agrela aplicou o ouvido.      — E não é outro senão o baio!      — Está vendo, D. Genoveva?      A inquietação da mãe abrandou um tanto, mas não serenou de todo. Nessas ocasiões, quando um grande susto abala profundamente o coração, deixa uma incredulidade que se não desvanece com palavras, e muitas vezes resiste à própria realidade.      É só depois que ao coração, como ao lago revolto pela tempestade, volta a bonança, que ele recobra sua limpidez, na qual espelha as celestes esperanças.      — Enquanto meus olhos não virem Flor, eu não fico sossegada, sr. Campelo.      O capitão-mor voltou-se para Agrela.      — Minha senhora dona já pode passar, disse o tenente. Olá, o Xavier e o Benteví!      — Pronto! disseram dois sequazes acudindo à ordem do cabo.      — Ordena o sr. capitão-mor que acompanhem à casa a sra. D. Genoveva? perguntou Agrela.      — Ordenamos!      — Até logo, sr. Campelo. Não se demore; já basta de aflições.      O capitão-mor fez à mulher uma respeitosa cortesia, e enquanto ela se encaminhava à fazenda, tornou ao serviço que sua gente empreendera para atalhar o incêndio, e salvar as matas vizinhas, ameaçadas de ficarem reduzidas a cinzas.      O trabalho avançara rapidamente a ponto de poder D. Genoveva atravessar para o outro lado sem necessidade de fazer grande volta. O aceiro aberto na direção da fazenda, tinha cortado a tromba do incêndio que o vento impelia naquele rumo, de modo que não foi difícil ilhá-lo nessa porção de terreno já devastada, onde brevemente, consumido pela chama todo o combustível, começou a apagar-se, ficando apenas o brasido.      Todavia, não era prudente abandonar esse imenso borralho, donde o vento a cada instante levantava enxames de fagulhas, que inflamavam-se no ar e podiam atear novamente o fogo no mato cheio de gravetos e chamiços.      Agrela não descansou enquanto não extinguiu de todo o fogo na largura de umas dez braças, e ainda assim postou de espaço a espaço vigias que aí deviam ficar durante a noite, para dar aviso de qualquer acidente, quando por si não o pudessem remediar.      Durante essa arriscada e árdua tarefa, a gente da escolta e do comboio não deixava de torcer-se com a impaciência de Agrela, mas ali estava o capitão-mor que não somente não se poupava para dar o exemplo, como não duvidaria esborrachar com um murro a cabeça do primeiro que respingasse contra o seu tenente.      Com pouco apareceu o reforço da gente da fazenda, que avisada pela chegada de D. Genoveva, corria em socorro, e deu a última demão ao serviço.      — Podemos seguir, sr. capitão-mor, se V. S. não manda o contrário.      — Vamos!      Só então o capitão-mor Campelo resolveu-se a deixar aqueles sítios para dirigir-se à sua casa da qual se achava ausente havia meses, e a que tão a propósito voltara para salvá-la da ruína de que não escaparia com certeza, se o fogo continuasse com a violência em que ia.      Entretanto havia chegado D. Genoveva ao terreiro, onde a aguardava novo susto.      Toda a gente da casa, agregados e servos, apinhada no meio do pátio, em frente ao caminho, esperava ansiosa que aparecesse a cavalgada para recebê-la com as alvíssaras, toques e aclamações de prazer que eram de uso em tais ocasiões.      D. Genoveva, apenas entrou no terreiro, sem atender às festas com que a saudavam, foi em altas vozes perguntando pela filha às primeiras pessoas que lhe saíam ao encontro.      — Flor?... onde está Flor!...      Esta pergunta instante deixou a todos surpresos. Não podiam compreender como a dona lhes pedia novas de uma pessoa, que devia estar a essa hora em sua companhia e chegar justamente com ela e o marido.      A hesitação que se pintava em todos os semblantes, o espanto que já assomava nos gestos de alguns, lançou outra vez a mãe extremosa na mesma, senão mais cruel aflição.      — Minha filha!... gritou com um clamor de angústia. Não viram minha filha?... Ela não chegou?... Então, meu Deus, está morta! O fogo a queimou!...      A dama se arremessara da sela ao chão, e estorcendo os braços convulsos, arrancava os cabelos que se desgrenhavam revoltos pelas espáduas.      Nem uma das mulheres presentes, crias de sua casa e fâmulos, se animava a consolar a dor suprema da mãe, que perdera a filha. Limitavam-se a acompanhá-la com o pranto e a velar sobre ela, para ampará-la, se afinal desfalecesse com o atroz suplício.      Foi o capelão, o padre Teles, quem no exercício do santo ministério dirigiu palavras de conforto à mãe aflita.      — Lembre-se a dona que mais sofreu a mãe de Cristo, vendo seu filho não só morto e crucificado, mas coberto de baldões. E ela bebeu resignada esse cálice de amargura!...      Mas outro grito soou aí perto, que a todos estremeceu:      — Minha mãe!      Na janela da casa assomara o vulto de D. Flor, que também inquieta pela sorte dos pais a quem estremecia, soltava uma exclamação de desafogo, avistando sua mãe.      D. Genoveva caiu de joelhos, dando graças a Deus que lhe restituía a filha; e quando ergueu-se foi para estreitar ao peito a donzela que se lançara em seus braços.      — E meu pai? interrogou a menina assustada.      — Não lhe aconteceu nada; sossega; ficou atrás para apagar o fogo; eu é que não podia descansar enquanto não te visse perto de mim, livre de perigo... Que desespero, quando cheguei, e ninguém sabia de ti! Como não morri, meu Deus!      — Já passou! murmurava D. Flor. Agora sossegue, que aqui está sua filha querida.      — Sim, sim; parece-me que ainda mais te quero depois que te chorei perdida.      A esse tempo já toda a gente de serviço corria para o lugar do fogo.      Entre as mulheres que cercavam a dama e sua filha, nem uma tomara maior parte nas aflições, como nas alegrias maternais, do que uma sertaneja alta e robusta sem corpulência, que mostrava no semblante rude, porém amorável, uma franqueza de cativar.      Era essa a Justa, a ama de D. Flor, cujo amor pela menina às vezes causava ciúmes a D. Genoveva, tamanha era a devoção da carinhosa aldeã por sua filha de criação.      Apenas se desprendeu dos braços de sua mãe, D. Flor se atirou com efusão à Justa, que esperava essa carícia, como seu foro e juro de segunda mãe. A alentada sertaneja não se contentou com qualquer afago, dos que se costumam fazer às moças; tomou a menina ao colo, e conchegando-a a si como fazia outrora quando a trazia aos peitos, comeu-a de beijos desde as macias tranças dos cabelos até à ponta dos pequeninos pés, calçados de coturnos de cetim escarlate.      — Olhem só, gentes!... como veio bonita!... Está-se rindo, hem!... Teve saudades de sua mamãe?... Teve!... Teve!... Não havia de ter!... Por que não voltou logo?... A gente tanto tempo aqui penando!... Pois agora há de pagar! Tome! Um, dois, três... cem!... Ah! cuida que não me hei de desforrar?      Tudo isto interrompido por mil carinhos e entremeado dessa ingênua garrulice com que as mães falam aos filhinhos de colo, e que eles parecem entender; misteriosa linguagem do mais sublime afeto, formada de arrulhos, de caricias e de ternos balbucios.      D. Flor deixava-se acariciar; e cheia de risos, mostrava no semblante o contentamento que sentia banhando-se nessas efusões de amor.      — Então lembrou-se muito de mim, mamãe Justa? disse D. Flor.      — Nem se fala, gente!      A donzela pôde enfim receber as festas das companheiras da Justa. Com todas mostrou-se afetuosa, porém mais especialmente com uma moça que no seu tímido receio não ousava aproximar-se.      — Adeus, Alina; vem abraçar-me.      Entraram afinal as duas senhoras na sala principal.      — Ainda não me disseste, Flor! tornou D. Genoveva, sentando-se no sofá e chegando a filha para junto de si, como que ainda receosa de que lha arrebatassem. O fogo assustou-te muito, ou não havia nada quando passaste?      — Pensei morrer! exclamou D. Flor erriçando-se à lembrança do transe horrível que passara. Está bom; não fique outra vez aflita! Para que falar mais destas cousas?      — Não; conta, Flor!      — Foi um milagre. O baio espantadiço empacou; a princípio não sabia o que era; quando descobri o fogo, quis voltar. Estava cercada; via as labaredas correrem para mim, e pareciam-me estarem folgando e rindo do medo que me causavam. Mas a fumaça de repente sufocou-me, e não soube mais de mim!... Vi que era chegada a minha última hora e encomendei-me a Deus.      — Jesus! pôde afinal proferir D. Genoveva em quem se repetia a ânsia já passada da filha. E como escapaste, Flor?      — Não sei, minha mãe; respondeu a menina ingenuamente. Disse-lhe já que foi um milagre; não pode ser outra cousa. Nossa Senhora quis valer-me!      — Pois foi mesmo Nossa Senhora da Penha de França! afirmou a Justa, que ouvia de pé. E porisso há de ter a sua novena de arrojo este ano, que foi a minha promessa, se trouxesse a minha filha e todos a salvamento.      — Obrigado, mamãe!      — Mas, Flor, como chegaste a casa sem que te acontecesse nada?      — Não posso lembrar-me! respondeu a menina pensativa, e evocando do íntimo as vagas impressões que lhe flutuavam no espírito. Desde que a fumaça cobriu-me toda, como se fosse a minha mortalha, não vi mais nada; só dei acordo de mim aqui, neste canapé!...      — Neste canapé! exclamou D. Genoveva atônita.      — E deitada, como se tivesse dormido.      — Foi a minha Senhora da Penha, que a trouxe nos braços. Porisso ninguém viu quando chegou.      — É verdade! exclamaram outras vozes de mulher.      — Eu tinha acordado; não sabia onde estava, nem tinha idéia do que me acontecera. Ergui-me; e começava a reconhecer a casa, quando ouvi gritos no terreiro; corri à janela e dei com minha mãe.      A moça proferindo estas últimas palavras lançou os braços ao pescoço da mãe, e ambas ficaram enlaçadas naquela ardente efusão com que novamente se restituíam uma à outra.      A maneira por que a donzela fora salva do incêndio, ficou sendo um mistério. A maior parte da gente da fazenda atribuiu o caso à intervenção divina, e acreditava que Nossa Senhora da Penha fizera um milagre em favor da menina, e pela intercessão da Justa. Outras, sem afirmar, supunham que a menina, trazida à casa pela disparada do cavalo, que se encontrou atado ao pilar da varanda, apeara-se fora de si e caira desmaiada de susto no sofá, não se recordando dessas circunstâncias pelo abalo que sofrera.      Quanto a D. Flor, cogitando depois sobre o acontecimento que ameaçara a sua existência recordava-se de um grito que ouvira ao perder os sentidos e de um vulto que surgira de repente a seus olhos já anuviados pelas sombras da morte.      Mas essa impressão que ao despertar exalava-se em um nome murmurado à flor dos lábios, seria a fugaz reminiscência deixada por confusa realidade ou ilusão apenas da fantasia turbada pela vertigem? IV A HERDADE        A morada da Oiticica assentava a meio lançante em uma das encostas da serra.      Erguia-se do centro de um terrado revestido de marachões de pedra solta. Por diante, além do terreiro, descia a rampa com suave ondulação até à planície; atrás da habitação, remontava-se ao dorso de uma eminência donde caía abrupta sobre um vale profundo que a separava do corpo da montanha.      Na frente elevava-se no terreiro, a algumas braças da estrada, a frondosa oiticica, donde viera o nome à fazenda. Era um gigante da antiga mata virgem, que outrora cobria aquele sítio.      Na ocasião da derrubada, sua majestosa beleza moveu o fazendeiro a respeitá-la, destinando-a a ser como que o lar indígena da nova habitação fundada aí nesses ermos.      As casas da opulenta morada eram todas construídas com solidez e dispostas por maneira que se prestariam sendo preciso, não somente à defesa contra um assalto, como à resistência em caso de sítio.      Ocupava a maior área do terreiro um edifício de vastas proporções que prolongava duas asas para o fundo, flanqueando um pátio interior, bastante espaçoso para conter horto e pomar.      À extremidade de cada uma dessas asas prendiam-se outros edifícios menores, alguns já trepados sobre os píncaros alpestres, porém ligados entre si por maciços de rochedos que formavam uma muralha formidável.      A tapeçaria e alfaias da casa eram de uma suntuosidade que se não encontra hoje igual, não só em toda a província, mas quiçá em nenhuma vivenda rural do império.      Naquela época, porém, os fazendeiros tinham por timbre fazer ostentação de sua opulência e cercar-se de um luxo régio, suprimindo assim em torno de si o deserto que os cercava.      Havia fazendeiro, e o capitão-mor Campelo era um deles, que não comia senão em baixela de ouro, e que trazia na libré de seus criados e escravos, bem como nos jaezes de seus cavalos, brocados, veludos e telas de maior custo e primor do que usavam nos paços reais de Lisboa os fidalgos lusitanos.      Datava do fim do século dezessete a primeira fundação da herdade ou fazenda, como já então se entrava a chamar esses novos solares que os fidalgos de fortuna iam assentando nas terras de conquista, à semelhança do que outrora o haviam feito no reino outros aventureiros, também enobrecidos pelo valor e pelas façanhas.      Naturalmente lembraram-se nossos avoengos de pôr esse nome às granjas de maior tráfego pela razão de representarem os grossos cabedais e grandes posses de seus donos. Daí veio a designação no norte aos casais de criação, como no sul aos prédios de lavoura.      O gado de várias espécies, que os primeiros povoadores tinham introduzido na capitania do Ceará, se propagara de um modo prodigioso por todo o sertão, coberto de ricas pastagens.      Sucedera o mesmo que nos pampas do sul; as raças se tornaram silvestres, e manadas de gado amontado, que ainda hoje na província chama-se “barbatão”, vagavam pelos campos e enchiam as matas.      Chegando a notícia desta riqueza às capitanias vizinhas, muitos de seus habitantes, já abastados, vieram estabelecer-se nos sertões do Ceará; e ali fundaram grandes herdades, obtendo as terras por sesmaria.      Nessa ocupação do solo, a cobiça de envolta com o orgulho gerou as lutas acérrimas e encarniçadas que durante o século dezoito assolaram a nascente colônia.      Entre todas, avulta a guerra de extermínio das duas poderosas famílias dos Montes e Feitosas [2] , que se acabou pelo aniquilamento da primeira. Desta bárbara contenda ficou sinistra memória não só na crônica da província, como no escólio de sua topografia.      Com outros sesmeiros, veio de Pernambuco o velho Campelo, que tinha fundado a herdade, e a transmitira por sucessão havia já vinte anos ao filho, atual capitão-mor.      No tempo da fundação da fazenda ainda o formoso e ameno sertão de Quixeramobim, que os primeiros povoadores haviam denominado “Campo maior” por causa da extensão, achava-se quase inabitado.      Apenas se encontravam alguns ranchos onde se acolhia uma população vagabunda de aventureiros, que percorriam o sertão, vivendo das rapinas e dos recursos que lhes oferecia a fartura da terra.      Só em 1755 fundou-se sob a invocação de Santo Antônio de Pádua a primeira freguesia, a qual mais tarde foi criada vila pela carta régia de 13 de junho de 1789, que a separou do termo de Aracati.      Sob o domínio do atual dono, a fazenda continuou a prosperar e com o volver dos anos adquiriu novas pertenças, com que mais se excedia, não lhe faltando nenhuma das comodidades e recreios que pedia um viver à lei da grandeza.      Tal era a herdade a que chegara o capitão-mor nessa tarde de 10 de dezembro de 1764.      Tornava ele do Recife, aonde à volta de cada três anos costumava fazer uma viagem. Desta vez levara a família para mostrar a capital de Pernambuco a D. Flor, que ainda não a tinha visto; pois só para visitar a avó em Russas ou para assistir aos ofícios da semana santa no Icó, havia a donzela alguma rara vez deixado a Oiticica onde nascera.      Ao cabo de sua jornada, já em terras da fazenda, fora o capitão-mor atalhado pelo fogo, que afinal conseguira extinguir com sua gente.      Concluído o serviço, encaminhara-se para a casa e acabava de parar no terreiro, embaixo da oiticica.      Às aclamações com que o acolheu toda a gente da fazenda pressurosa ao seu encontro, respondeu com um aceno repetido da mão esquerda; e apeou-se afinal sem esforço, mas guardada a pausa e medida de que jamais se desairava.      Ali deu audiência de chegada a todas as pessoas, que uma após outra, desde o capelão e o feitor até o último dos escravos, vieram saudá-lo dando-lhe boa-vinda; a cada um escutava com paciência, examinando-lhe as feições para notar a mudança que porventura fizera, e dirigindo-lhe alguma breve pergunta.      Depois que passou o último da turma, volveu o capitão-mor os olhos para o seu feitor.      — Falta um!      — Com licença de vossa senhoria, parece-me que estão todos.      — E o Arnaldo?      — Esse não se conta; desde o dia em que o sr. capitão-mor saiu de jornada, que ele também desapareceu da fazenda.      — Ah! Então é que pediu-nos licença, e nós lha concedemos.      — Com certeza que há de tê-la pedido, acrescentou o Agrela.      Descarregou o capitão-mor no feitor um olhar que o aturdiu:      — Manuel Abreu, chegámos e vimos achar o fogo nas matas da Oiticica a meia légua de nossa casa; e ninguém na fazenda soube, nem acudiu em tempo. Como foi isto, Manuel Abreu?      — Com licença do sr. capitão-mor, saberá vossa senhoria que eu não sei. Ainda não estou em mim com um caso destes!      — Pois amanhã há de estar averiguado quem foi o causador do incêndio, para lhe ser lançado conforme a culpa.      Dirigiu-se o fazendeiro ao pórtico da casa, cujos degraus subiu, para entrar na sala pintada de florões a fresco pelo teto e pelas paredes, e guarnecida de móveis de jacarandá forrados de moscóvia com tachas de prata.      Ali estavam ainda D. Genoveva e a filha que se levantaram para recebê-lo.      Então, só então, quando todos os deveres de dono da propriedade estavam cumpridos, consentiu o capitão-mor que afinal pulsasse o seu coração de pai.      Cingindo com o braço o talhe de D. Flor, cerrou-a ao peito; no desusado alvoroto que perpassou-lhe a fisionomia sempre calma e serena, se reconhecia que a alma fora profundamente percussa.      Depois que abraçou a filha, sem arroubos, solene mas prolongadamente, o capitão-mor levou-a para o sofá e sentando-a defronte de si esqueceu-se a fitá-la, como se não a tivesse visto por largo trato e se quisesse recuperar dessa privação de sua imagem.      Este pormenor mostrava o relevo do homem que era o capitão-mor. Formalista severo, adicto às regras e cerimônias, que se esmerava em observar escrupulosamente, imbuído de uma gravidade que tinha por essencial ao decoro de uma pessoa de sua categoria e posição, sujeitava todos os afetos como todos os interesses a essa rigorosa disciplina das maneiras.      Não era, porém, esse modo do Campelo a afetação ridícula de meneios em que se requinta a fatuidade; e sim uma temperança de gesto e de palavra, que se comediam pelo receio de descaírem em vulgaridades.      Nascia tal resguardo do nobre estímulo de manter o estado que lhe havia criado a fortuna. Campelo provinha de sangue limpo, mas plebeu; e almejando um pergaminho de nobreza, que enfim alcançara, ele queria merecê-lo por seus dotes e ser primeiro fidalgo na pessoa, do que no brasão.      Assentava bem esse temperamento do gesto no porte avantajado do capitão-mor e imprimia-lhe ao aspecto muita dignidade.      Sua compleição robusta ostentava-se na plenitude do vigor aos toques dessa moderação inabalável; e a fisionomia cheia, plácida e séria, impunha a quantos lhe falavam um irresistível acatamento.      Enquanto o capitão-mor comprazia-se em contemplar a filha, D. Genoveva referia ao marido o perigo a que havia por milagre escapado a donzela; e no meio da sua narrativa não deixou de insinuar uma doce exprobração à fleuma que o marido conservara quando ela lhe comunicara seus terrores.      — Eu tinha fé em Deus que nos havia de conservar nossa filha, D. Genoveva, respondeu serenamente Campelo.      Já de todo caíra a tarde; e as sombras da noite se desdobravam pelas encostas da serra.      Os viajantes recolheram aos seus aposentos, enquanto não chegava a hora do terço de Nossa Senhora, que antes da ceia se devia rezar na capela, em louvor e graça pela chegada dos donos da casa.      A campa tangida vivamente soltava os repiques argentinos, sombreados pela surdina dos longos pios das aves noturnas, e dos ulos da brisa nas grotas da serra. V        Retirando-se da sala ao despertar da donzela, Arnaldo saíra fora no pátio.      Aí encontrou ao lado de seu cavalo o baio, que o acompanhara; prendeu este amarrando as rédeas a um dos pilares da varanda, e meteu-se pelo arvoredo para não ser visto da gente da casa.      Ao atravessar por detrás da habitação, lançou de passagem, do alto da eminência, um olhar para o terreiro, e percebeu o que lá se estava passando com a chegada de D. Genoveva.      Bem desejava ficar-se aí, nessa posição, assistindo de longe àquela cena e tomando nela a sua parte, ao menos com os olhos e o pensamento. Mas chamava-o além outro cuidado, que mais o dominava naquele instante.      Quem o observasse nesse momento notaria a expressão de ternura com que seu olhar envolvia a pessoa da Justa, como que acariciando-a.      Era sua mãe, a quem abraçava de longe enquanto o segredo que o trazia arredado da casa lhe não permitia receber sua benção.      Nessa ocasião sentiu que lhe puxavam pela aba do gibão; sem nenhuma surpresa voltou-se. Encontrou, como esperava, uma cabra rajada, cujos chifres indicavam ser já bem idosa; levantou-a pelas mãos, e reclinando-se, abraçou-a com efusão. Depois dessa carícia afastou o animal e com o gesto impediu que o seguisse.      Deu soga ao cavalo e desceu rápido a encosta rodeando para sair em uma várzea que demorava cerca de meia légua da casa, ao longo de uma das vertentes da serra e cabeceiras do Sitiá.      De um relance d’olhos investigou o descampado. Apeando-se, endireitou a um ponto onde notara vestígios de palhas recentemente queimadas. Era precisamente o que ele buscava; ali tinha começado o fogo que se comunicara ao arvoredo próximo, e depois se propagara pelas matas da fazenda.      Junto às cinzas, havia no chão uns sinais que não eram de pegadas humanas, nem rasto de qualquer animal conhecido. Esteve observando-os o sertanejo por algum tempo, e seguiu-lhes o traço, que ali perto ia perder-se no mato.      Acompanhou Arnaldo por algum tempo aquela pista por entre o arvoredo, apesar do escuro que já aí reinava. Afinal parou descobrindo entre o lastro das folhas secas uma pegada, que não fora de todo apagada.      Reclinou-se então quase de bruços e esteve a estudar os traços indistintos e quase imperceptíveis daquele vestígio deixado por um pé humano, que aí passara de fresco.      A profunda investigação do antiquário que se obstina em decifrar nas linhas confusas do hieróglifo o sentido ignoto, não exige decerto mais forte contenção do espírito, nem tão poderosa reminiscência.      Entretanto pouco demorou-se no exame o sertanejo, que ergueu-se com a feição de quem acabava de confirmar-se em uma suspeita:      — Não me enganei!      Deliberou então voltar; mas depois de haver gravado na memória a lembrança do sítio, com essa energia de percepção que o hábito da observação dá ao olhar do homem educado nas brenhas para a luta incessante do deserto.      Tornando ao mesmo lugar, o sertanejo contornou a mancha negra que deixara a labareda no chão e que fora como a cabeceira da ígnea torrente, cujo sulco rompia a selva.      Do lado oposto, oculto por uma grande touça de carnaúbas, o massapé, fazia um ressalto, formando uma coroa no alagadiço da várzea. Ali crescia entrelaçado com os estipes das palmeiras, um arvoredo viçoso apesar da estação, e que abrigava sob a rama verdejante uma choça de pegureiro.      O colmo da cabana era de palha da carnaúba, como do tronco eram os esteios e cumeeira, e dos talos a porta, aberta nesse momento. O interior constava de um só repartimento com uma emposta de esteira da mesma palha, levantada a meio da choupana.      A um lado via-se um balaio com o feitio de mala e tampa também de palha de carnaúba trançada; fronteiro um catre cujo leito era formado das aspas da palmeira que fornecera todo o material da habitação.      Quando o sertanejo chegou à porta da cabana, estava deitado no catre um homem que pela sua imobilidade parecia dormir. O parecer era de um velho no período da decrepitude.      Os cabelos compridos até se mesclarem com a barba, formavam como um capelo d’alva que lhe cobria todo o busto. Sob este rebuço das cãs, apenas se lhe distinguiam das feições as pálpebras, cerradas naquele momento.      O trajo do ancião compunha-se unicamente de uma túnica estreita de algodão, tinta de preto e cuja teia mal urdida era de grosseiro fio. Os pés tinha-os descalços e cobertos de poeira e cinza.      Arnaldo aproximou-se do catre e apertou a mão do velho:      — Bem-vindo, Arnaldo. Já sabia que estavas de volta, disse o velho sem mover-se.      — Como o soubeste, Jó, se acabo de chegar?      — Não careço de abrir os olhos para ver-te, filho. Desde esta manhã que eu te sinto chegar; ouço os teus passos.      — E quando eu chego, não te ergues daí para dar-me um abraço depois de tão longa ausência! disse Arnaldo com doce exprobração.      — Também já te abracei, filho, quando entraste, e ainda te tenho dentro d’alma.      O mancebo, habituado a essa linguagem mística, não mostrava a menor estranheza; ao contrário reclinou para o catre e estreitou o ancião ao peito.      O velho ergueu-se para corresponder à carícia de seu jovem amigo.      — Antes de tudo, Jó, diz-me, se alguma cousa te faltou? perguntou Arnaldo com solicitude.      — Que pode faltar à fera no meio das brenhas?      — O sossego, Jó; e não ando errado, pois vim encontrar uma cilada, que nos armaram. Mas felizmente cheguei a tempo.      — Deixa que se cumpra a vontade de Deus, filho. Ele proibe que arrisques a tua mocidade por causa de uma poeira que se está esboroando a cada momento.      — É preciso que abandones por algum tempo a cabana, Jó! tornou o sertanejo com o tom resoluto.      — Porventura deixo eu nesta cabana a minha sina, para que abandonando-a, me esconda à cólera celeste, que pesa sobre mim?      — Não é a cólera celeste que te ameaça, é a vingança de um inimigo traiçoeiro que deitou fogo à mata da fazenda, e o fez de maneira que as suspeitas recaem sobre ti.      O velho sacudiu os ombros.      — Eu conheci os sinais de um rasto apagado no lugar onde começou o incêndio; e já sei de quem é esse rasto. Mas na fazenda o ignoram; e não faltará quem lance a culpa ao velho Jó.      — Outras maiores pesam sobre este mísero pecador, filho; e ainda não acabaram de afundar pela terra a dentro.      — O capitão-mor é severo, e duro de abrandar.      — Mais dura é a miséria, filho, que já calejou-me a alma. Não se teme da iniqüidade dos homens quem se entregou nas mãos de Deus.      — Faz o que te peço, Jó; afasta-te destes sítios ao menos por alguns dias, até esquecer o perigo por que passou a casa com seus moradores.      — Eu sou o peregrino da morte, Arnaldo; quantas vezes já to hei dito! Ando em romaria após ela, que fugiu-me sempre até este momento. E quando enfim me sai ao encontro, posso eu voltar-lhe o rosto e arredar-me para longe? Não o farei decerto; nem tu o exigirás.      — Não o exijo por ti, senão por mim.      — Também por tua causa, não devo demorar-me neste mundo, onde estou roubando-te uma parte dos pensamentos e cuidados dessa mocidade, que merece melhor destino. Não vês como tombam na mata os troncos velhos e carcomidos para deixar que remontem-se os jovens e robustos madeiros?      — Não me entendeste, Jó; quando te rogo por amor de mim, é porque se ficares aqui, e da fazenda te vierem buscar, achar-me-ão primeiro.      — Não farás isto.      — Enquanto eu vivo, ninguém te ofenderá, juro-o pelas cinzas de meu pai. Ninguém, ainda que seja o capitão-mor em pessoa!      O mancebo pronunciou estas palavras com uma articulação enérgica; mas logo após súbita emoção lhe ofuscou a voz.      — E tu sabes que o capitão-mor é a sombra de meu pai neste mundo.      O ancião ergueu-se pronto:      — Caminha, Arnaldo; eu te seguirei aonde fores.      — Não sairás assim por teu pé, que deixarias o rumo para te buscarem.      Proferindo estas palavras o mancebo cingiu os rins do velho com os braços, e carregou-o aos ombros por um largo trato, até dentro da mata e o pousou em uma cepa de gameleira.      Tornou então atrás, cortou uma palma de carnaúba que esgarçou com a faca, e entrou na cabana, onde apagou os rastos que aí tinham deixado seus passos.      Para conseguí-lo, sassara a poeira, prurindo sutilmente o chão com os folíolos da palha verde, de modo que a terra parecia intacta de qualquer impressão * , e apenas ao de leve frisada pelo sopro da viração.      Concluída a tarefa dentro, saiu fora, andando sempre de costas, e expungindo do caminho pelo mesmo processo não somente o rasto que agora ia deixando, como os anteriores.      Chegou assim ao sítio onde ficara o velho, o qual em completa contradição com a sua tenacidade recente, deixara-se conduzir como uma criança dócil e submissa.      Carregou-o outra vez Arnaldo aos ombros, e desta vez levou-o até um bamburral espesso e impenetrável, que embrenhava as fragas alcantiladas de um grupo de penhascos.      Mergulhando por baixo dessa espessura, em um ponto onde mais fechada se mostrava, o sertanejo surdiu ao cabo de algumas braças em uma fenda de rochedo, que formava a boca de uma gruta.      A poucos passos, achou-se em uma cripta aberta na rocha viva, e que recebia a claridade de estreitas fisgas da lapa côncava que lhe servia de abóbada.      O sertanejo triscou fogo e acendeu um rolo de cera amarela guardado numa greta da pedra.      A um canto via-se no chão a cama feita de um couro de boi em cabelo, servindo-lhe de cabeceira a armação dos chifres do mesmo animal presos à caveira.      Da parede granítica da caverna pendia uma canastrinha também de couro de boi em cabelo, como ainda hoje se usam no sertão, e chamam-se bruacas.      — Aí está a cama, e aqui dentro as provisões, disse Arnaldo. Prometes não sair deste retiro enquanto não passar o perigo, Jó?      — Vai em paz, filho. Estou bem aqui; e como não estaria, se essa é já meia sepultura, que me começa a enterrar em vida? Guarde-te Deus!      Arnaldo não se demorou na gruta senão o tempo necessário para instalar o novo habitante desse eremitério. Uma vez fora, desandou o caminho percorrido, desvanecendo todo o indício de sua passagem até o ponto onde havia deixado o seu cavalo, que o esperava sem nenhuma impaciência, resmoendo um abrolho mais novo de mandacaru.      Cavalgou e afastou-se, não deixando após si o mínimo traço de sua ida à choça do velho Jó. Se alguém se lembrasse de rasteá-lo, não descobriria senão que passara a cavalo pela várzea na direção das vertentes.      — Amanhã nos entenderemos, Aleixo Vargas, disse entre si o moço sertanejo.      E buscou no recôndito da floresta a sua malhada favorita. Era esta um jacarandá colossal, cuja copa majestosa bojava sobre a cúpula da selva como a abóbada de um zimbório.      Ali costumava o sertanejo passar a noite ao relento, conversando com as estrelas, e a alma a correr por esses sertões das nuvens, como durante o dia vagava ele pelos sertões da terra.      É este um dos traços do sertanejo cearense; gosta de dormir ao sereno, em céu aberto, sob essa cúpula de azul marchetado de diamantes, como não a têm nos mais suntuosos palácios.      Aí, no seio da natureza, sem muros ou tetos que se interponham entre ele e o infinito, é como se repousasse no puro regaço da mãe pátria acariciado pela graça do Deus, que lhe sorri na luz esplêndida dessas cascatas de estrelas.      Arnaldo desaparelhara o animal que também tratou de buscar a sua guarida. Os arreios e a maca de pelego foram guardadas na bifurcação dos galhos do jacarandá, enquanto o viajante encostado ao tronco fazia uma tão rápida como sóbria refeição.      Compunha-se esta de uma naca de carne de vento e alguns punhados de farinha, que trazia no alforge. De postre um pedaço de rapadura, regado com água da borracha.      Era noite cerrada. VI A MALHADA        Nos últimos ramos, lá no tope do jacarandá, havia o sertanejo armado a rede, em que se embalava.      Devia de achar-se mais de cem pés acima da terra; e nessa grande altura, suspenso por duas finas cordas de algodão trançado, estava mais tranqüilo do que se pousasse no chão, onde o poderiam incomodar a má companhia dos répteis e a visita de alguma fera.      Ali, em seu pavilhão de verdura, grimpado nos ares, não tinha outros vizinhos além de uma juriti, que fabricara o ninho no próximo galho, e acabava de ruflar as asas à sua chegada para dar-lhe a boa-noite.      Através do rendilhado da folhagem, como por entre os bambolins de fina escócia de uma recâmera, o sertanejo recostado no punho da rede, que oscilava ao frouxo balanço, descortinava toda a devesa que se estendia das encostas da serra pelos tabuleiros, até onde a vista alcançava.      A meia distância ficavam as casas da fazenda, que ele via do alto como um mapa desenhado na superfície da terra.      Neste momento o pátio interior se iluminava de muitos fachos. Ao clarão que fazia, Arnaldo reclinado para ver melhor, avistou gente a mover-se e divisou o airoso vulto de D. Flor.      Transportava-se o capitão-mor à capela com sua família para assistir ao terço, e todo o povo da fazenda concorria à devoção que nessa noite de chegada tinha uma intenção especial e solenidade maior que de costume.      Cessaram os repiques do sino; o sertanejo adivinhando que estavam na reza ajoelhou também num ramo da árvore, e com sincero fervor acompanhou de longe no seu nicho agreste a oração que lá se estava elevando ao Senhor pela boa volta e feliz chegada dos donos da Oiticica.      Começou a ladainha cantada.      O coro religioso, derramando-se pela floresta, impregnava-se dos ruídos e murmúrios da ramagem afiada pela brisa, o que lhe dava um timbre grave e sombroso.      Ainda que não se eximisse de todo ao místico sentimento de que se repassava essa melopéia cristã no seio da profunda solidão, o sentido do mancebo estava especialmente concentrado no esforço de abstrair do coro uma voz, para escutá-la, a ela somente.      Ou porque em verdade sua residência errante e aventureira no deserto lhe houvesse exercido as faculdades ao mais alto grau, dando-lhe admirável força de percepção; ou porque se deixasse enlevar de uma grata ilusão, o certo é que Arnaldo distinguia naquele concerto uníssono uma melodia radiante, de uma límpida suavidade, que entretecia o canto sonoro como fio de ouro urdido em tela de seda.      De princípio o ouvido do sertanejo experimentou a mesma sensação dos olhos quando os fere a luz: houve uma fascinação que não lhe deixava discernir as vozes, mas logo após começou a destacar o timbre mavioso de D. Flor, com tamanho vigor que já não escutava ele senão esse hino celeste, surdo para toda outra cantoria.      Terminou o terço; sumiu-se o clarão dos fachos; naturalmente a família passava à mesa da ceia. Pouco depois apagaram-se os fogos e apenas ficou por algum tempo a lâmpada da casa de jantar, que era costume deixar até de todo concluir-se a tarefa diária.      Enquanto bruxoleou ao longe, no seio das trevas, a luz solitária, Arnaldo esteve embevecido a contemplá-la, como se a trêmula irradiação lhe desenhasse formoso painel.      Era assim todas as noites em que malhava ali, na sua pousada, quando as correrias da vida errática do sertanejo não o levavam pelo mundo sem destino.      Essa luminária, ele a amava como sua estrela. As almas que vivem no campo, ao relento, sob um firmamento cravejado das mais brilhantes constelações, todas têm um astro de sua particular devoção, um amigo no céu com quem se entretêm e conversam nos serões das noites ermas.      Para Arnaldo todas essas meigas virgens do céu lhe eram irmãs; conhecia-as pela cintilação, como se conhece pelos olhos a menina faceira que se embuçou na sua mantilha azul. A cada uma saudava pelo nome, não o que inventaram os sábios, e sim o que lhe dera sua fantasia de filho do deserto.      Mas esquecia-as o ingrato, quando brilhava a outra, a estrela da terra, porque esta lhe falava de D. Flor e seus raios eram como os olhos castos da formosa donzela que vinham misteriosamente, no segredo da noite, afagar-lhe os seios d’alma.      Afinal também apagou-se a luz.      Recostara-se o sertanejo outra vez à rede quando a ramagem cascalhou perto e os galhos do jacarandá estremeceram abalados por alguma forte percussão.      Arnaldo pôs a cabeça fora da rede, e perscrutando a folhagem descobriu duas tochas acesas no meio das trevas, mas de uma luz baça e sulfúrea.      Os mais intrépidos caçadores do sertão, curtidos para todo o perigo, não se podem eximir de um súbito arrepio, quando lhes chamejam no escuro da mata esses olhos vidrentos cujos lumes gáseos fervilham dentro n’alma.      Há um quer que seja de satânico na pupila da onça, como na de toda a raça felina; e é por essa afinidade que nas antigas lendas o príncipe das trevas aparece mais freqüentemente sob a figura de um gato negro, miniatura do tigre.      Daí provém talvez o supersticioso terror que inspira a fosforescência desses olhos ao mais valente sertanejo, ao temero [10] que jamais pestanejou em face da morte, e nem se abala com o medonho rugido da fera.      Não produziram, porém, igual efeito em Arnaldo as duas tochas que brilhavam entre o negrume da noite, alguns pés abaixo do lugar onde se achava:      — Bem aparecido, camarada, disse o mancebo a gracejar.      A onça espasmou a cauda rebatendo as ancas, e dentre as belfas túmidas escapou-lhe um rosnar manso e crebro como rir de contentamento.      — Sim, senhor, entendo. Quer saber como cheguei? Bom, para o servir, muito obrigado. E o amigo, como lhe foi por cá estes tempos que não nos vimos? A seca tem sido grande, e os garrotes estão pela espinha, não é assim? Paciência, meu rico, aí vem o inverno e com ele reses gordas e carniça à farta. A chuva não tarda; esta manhã vi passar o “tesoureiro” [3] .      Entanto o tigre continuava a grunhir o seu riso de fera com uns agachos de rafeiro, que lhe espreguiçavam o torso mosqueado.      — E da dona, que novas me dá? continuou o sertanejo no mesmo desenfado. Está guardando a casa? E o senhor anda ao monte? Pois boa caça, amigo, e cortejos à sua dama.      Com esta despedida Arnaldo, que se debruçara ao punho da rede para conversar com a onça, recolheu o corpo, disposto a acomodar-se.      Levantou-se porém, um rumor dos garranchos que estalavam. Era a onça que saltara a um galho superior, com ímpetos de galgar o cimo da árvore; mas hesitava, receosa de que os ramos altos e menos válidos se partissem com o peso de seu corpo e o choque do arremesso.      — Nada, camarada, dispenso as suas ternuras por esta noite. Cheguei da viagem e estou cansado. Pode continuar seu passeio. Boa-noite.      E o sertanejo, alongando a perna, enxotou a importuna com um pontapé atirado ao tufo da folhagem que ficava por baixo da rede.      Aquietou-se a onça e o rapaz deitou-se mui sossegado, sem mais importar-se com a presença do terrível hóspede, que lhe estava a uma braça de distância. Este curto espaço, porém, a fera não ousava transpô-lo com receio de precipitar-se.      Os sertanejos escoteiros que ainda agora em jornada para Bahia ou Pernambuco, sem outro companheiro mais do que seu cavalo, percorrem aquelas solidões também por mim viajadas outrora ainda no alvorecer da existência; esses destemidos roteadores do deserto costumam pernoitar na grimpa das árvores, onde armam a rede e aí ficam ao abrigo das onças que não podem trepar pelos troncos delgados, nem pinchar-se à frágil galhada.      Não somente por esta razão estava Arnaldo seguro de si, mas também pela confiança em sua superioridade, já mais de uma vez provada pela fera. Assim, pois, esqueceu-se dela, para engolfar-se de novo nas cismas que lhe estavam afagando a mente.      Nesse enlevo d’alma, a fantasia arrebatava-o com a pujança que ela costuma adquirir nos ermos, em comunicação com o infinito que a envolve e a concebe no seio imenso que se chama a natureza. Compreendem-se os êxtases dos anacoretas nas solidões da Tebaida. Como não se exaltarem ao céu, essas almas tão desprendidas da humanidade, que desparzem nos ares a fragrância de sua flor?      O corpo de Arnaldo estava ali; mas seu pensamento discorria além, e nesse instante revia D. Flor, melhor do que se a tivesse diante dos olhos; pois não lhe embaciava a sua límpida visão o deslumbre que a presença da gentil donzela causava-lhe sempre, depois de certa época.      A moça caminhava diante dele com o passo airoso e modulado que era dela e só dela, pois nunca o mancebo vira outra mulher andar assim. Quando ele caçava lá para as bandas da Junça, demorava-se a ver as garças reais passeando pelas margens da lagoa, porque elas tinham o pisar altivo e sereno de D. Flor.      Vagueava a menina pelo campo, arfando-lhe docemente o talhe grácil com a ondulação da marcha; e ele, Arnaldo, a seguia, respirando-a com a aragem que agitava-lhe os folhos do vestido, e que folgava nos crespos dos cabelos castanhos.      Esses cabelos eram os seus enlevos. Quando a menina sentia-se fatigada, reclinava ao ombro dele, que, então criança como ela, a carregava e sentia as tranças macias e perfumadas cobrirem-lhe o rosto acariciando-o como as asas de uma rola.      Neste ponto de seu meigo sonho, o mancebo inclinava a fronte sobre uma touça da ramagem e roçava timidamente o rosto pelas folhas, anediando-as com a mão, na cisma de serem as madeixas, que tanto amava. Puerilidades do coração, sempre menino, ainda sob as cãs do ancião.      Se a brisa vinha bafejar-lhe as faces, impregnada da fragrância dos campos, ele entreabria os lábios para beber-lhe as emanações, que se afiguravam à sua imaginação o hálito perfumado de D. Flor, ao voltar-se para falar-lhe.      Se a juriti arrulhava no ninho, respondia-lhe Arnaldo docemente, com um quérulo gorjeio. A rola arrufava-se de prazer escutando os ternos requebros que lembravam-lhe a companheira. E ele cuidava-se a conversar com a menina, e a responder-lhe às perguntas curiosas.      Estes sonhos de todas as noites ali passadas ao relento eram talvez recordos, em que sua alma se revivia no passado, e que a esperança entrelaçava de fagueiras ilusões.      No meio dos devaneios que lhe embalavam a mente, o sertanejo adormeceu.      A onça que se agachara entre a ramagem desenganada da espera, esgueirou-se pelo mato, e foi-se ao faro de alguma novilha desgarrada. VII MOIRÃO        Quando buscava o pouso, tinha Arnaldo resolvido um encontro para o dia seguinte.      Vieram depois as namoradas recreações da fantasia, que o absorveram todo e acalentaram-lhe o sono; mas sob esse devaneio velava o propósito do ânimo deliberado, como sob a camada de flores viça a rija vergôntea do arvoredo.      Dormia, pois, o mancebo com aquele sono cativo dos homens de vontade, que se governam ainda mesmo quando sopitados no letargo dos sentidos, tão poderosa é a energia moral nessas organizações.      Arnaldo mais que nenhum homem possuía a admirável faculdade de reger o sono; no remanso do corpo o espírito sabia manter de vigia uma percepção íntima, que o advertia do menor rumor como da mais leve alteração, em torno de si.      A vida do deserto tinha apurado essa lucidez. Tantas vezes obrigado a pernoitar no meio dos perigos de toda casta, entre as garras da morte que o assaltava sob várias formas, no pulo do jaguar como no bote da cascavel; o sertanejo aprendera essa arte prodigiosa de dormir acordado, quando era preciso.      Podia-se dizer dele que reproduzia o antigo mito grego e tinha o dom especial de repartir-se em dois, para que um velasse, enquanto o outro se entregava ao repouso.      Foi ao primeiro vislumbre da alvorada que o sertanejo determinou acordar para ir em busca do Aleixo Vargas, que provavelmente não era outro senão o sujeito cujo rasto ele havia reconhecido no mato próximo à cabana do velho Jó.      Antes, porém, do momento marcado, despertou o rapaz subitamente, abalado por um ruído estranho, que soara no embastido da folhagem e que, apesar de frágil, repercutira dentro dele como a vibração do grito da araponga no seio da floresta.      Achou-se de todo acordado a tempo ainda de escutar atentamente o mesmo som, duas vezes reproduzido uma após outra, e conhecer-lhe a origem. Acabavam de triscar um fuzil não mui distante e petiscar fogo do isqueiro.      Se alguma dúvida lhe restasse, desvanecera-se com o cheiro de fumo, delator da primeira baforada do cachimbo, que se acabava de acender.      — Bom; cá está o meu homem. Já não preciso de ir-lhe ao rasto; tenho-o à mão.      A floresta ainda estava imersa no alto silêncio da modorra; apenas a fresca e sutil aragem que precede o primeiro dilúculo e é como o hálito da alvorada, frolava mansamente as franças das árvores. No azul do céu nenhum palor anunciava o raiar da luz.      Quedou-se o sertanejo com o ouvido atento aos menores rumores que vinham do lado onde pitavam. Nada lhe escapou, nem o roçar do corpo pela casca do pau e os chupos dados ao tubo do cachimbo, nem o grosso ressonar, que pouco depois substituiu aqueles primeiros ruídos.      Da sua escuta deduziu o sertanejo quanto lhe convinha. Ficou sabendo que o cachimbador era o próprio Aleixo Vargas, cujo assoprado pitar ele conhecia tanto como o ronco nasal do dorminhoco. Gizou o ponto da floresta em que se achava o sujeito, e com tal exatidão que lá iria de olhos fechados em linha reta. Finalmente firmou-se na certeza de que tinha seguro o homem, cujo sono espreitava dali mesmo e sem mover-se.      Arnaldo conhecia todas as árvores da floresta, como conhece o vaqueiro todas as reses de sua fazenda, e o marujo as mínimas peças do aparelho de seu navio. Esses habitantes da selva tinham para ele uma feição própria, que os distinguia; chamava-os a cada um por seu nome.      Não admira, pois, que em resultado de sua observação ele dissesse para si:      — Está no angico da grota!      As barras vinham quebrando, como diz o povo, exprimindo com essa imagem as faixas de luz que listram o horizonte ao despontar da aurora, e que parecem as túnicas d’alva a desdobrarem-se pelo firmamento.      O sertanejo adiantou alguns passos pela copa da árvore, a jeito de ver lá na quebrada um casalinho, que aparecia em uma aberta do mato.      Precisamente nesse instante abriu-se a porta do rústico albergue, e saiu ao terreiro Justa, a quem logo cercou um bando de galinhas, frangos e pintos à gana do milho pilado que a roceira vascolejava em uma coité.      Acompanhava-a uma cabra que, deixando a mulher às voltas com a gente do poleiro, foi, como de razão, ali perto dar os bons dias aos moradores de um chiqueiro, que lhe responderam com um berredo dos mais alegres, no meio de cabriolas de toda a espécie.      Demorou-se o rapaz um instante a olhar para a mãe, cujo vulto ele lobrigava ainda indeciso, movendo-se nas labutações caseiras, à luz frouxa do crepúsculo matutino. Uma vez, como a Justa em seu giro se voltasse para o lado da mata, estendeu o filho a mão direita aberta, murmurando com um sorriso:      — A bênção, mãe!      Cumprido o preceito da piedade filial, Arnaldo, que nem um instante perdera de espreita o vizinho adormecido, pensou que era tempo de realizar o seu intento, e portanto começou um passeio aéreo pela rama das árvores, que se entrelaçava, formando com os galhos um como travejado pavimento, a que servia de dossel a verde copa embastida.      O sertanejo andava tão fácil e seguro por aquele jirau como pelo pavês de um sobrado. Muitas vezes, quando menino, correra por ali atrás dos macacos e sagüis que o não venciam na agilidade, pois agarrava-os à mão nas grimpas da floresta. Era tanto para admirar-se a rapidez como o jeito e sutileza com que resvalava por entre o chamiço, a ponto que se não ouvia o arfar de uma só folha.      A um tiro de arcabuz estava o sítio que Arnaldo designara com o nome de grota: era o despenhadeiro de um profundo barranco. Os detritos, acumulados pelos enxurros nas covoadas que ali formava o terreno, alimentavam as árvores altaneiras cujas vastas copas ensombravam o tremedal.      Entre essas árvores a mais pujante era um angico secular, que lançava as grossas raízes a meio do precipício. O formidável tronco, crescendo a princípio obliquamente. na direção da outra rampa do desfiladeiro, como a atravessá-lo, no centro voltava-se a pino e subia verticalmente a grande elevação, onde repartia-se em vários esgalhos confluentes.      De escancha sobre um desses ramos, com as pernas engalfinhadas nos interstícios e o corpo recostado no rústico espaldar formado pelos outros galhos, dormia a sono solto um homem ainda moço, de insólita e desconforme robustez.      O toro, tinha-o corpulento, mas de uma mesma grossura desde os ombros até os artelhos, de modo que estando de pé e com as pernas fechadas, parecia um toco de pau cortado na altura de dez palmos do chão. Essa prancha de carne rematava em uma cabeça pequena e redonda, semelhante à maçaneta de um balaustre, e assentava em dois pés enormes que mais pareciam as cunhas de uma escora.      Do seu aspecto, bem como da força de que era dotado, lhe viera a alcunha de Moirão, nome que nas fazendas tem o peão onde se jungem as reses para a ferra. Muitas vezes, jactando-se de sua pujança, agüentara no laço um boi bravo à disparada, sem abalar-se do lugar onde se fincava, nem sequer titubar.      Arnaldo surdira em um ramo superior, a cavaleiro do sujeito, a quem estava agora observando a seu vagar. Comprazia-se o rapaz em admirar a robustez estampada na musculatura dessa organização atlética, que produzia em sua alma uma emoção artística. Para ele, sertanejo, filho do deserto, tão poderosas manifestações da força tinham majestade e beleza épicas.      Entretanto bastava um gesto seu para aniquilar o colosso. Estendesse ele o braço, travasse-lhe do pé e emborcasse-o no precipício, que em um fechar d’olhos estaria o Moirão reduzido a migas, nas arestas dos alcantis.      Arnaldo não demorou seu espírito nesta idéia senão o tempo necessário para a repelir.      Ao cabo de alguns intantes, desprendeu-se o rapaz do silêncio em que se envolvera e donde não transpirava nem o sopro de seu hálito; algumas folhas rumorejaram em torno, e a casca do pau rangeu ao roçar do corpo que sentava-se.      Como não bastasse esse tênue arruído para despertar o madraço, o rapaz quebrou uma haste de cipó. Com a folha que deixara em uma das pontas começou a fazer cócegas nas largas ventas rombas do Moirão, que dava com as mãos às tontas para enxotar a mosca impertinente.      Afinal abriu o dorminhoco as pálpebras, pestanejou com a claridade do dia, esfregou os olhos e ficou pasmado a encarar com o Arnaldo, que se estava rindo, mui lampeiro, ali por cima dele, comodamente sentado em um ramo da árvore.      — Salve-o Deus, Aleixo Vargas, disse o sertanejo em tom jovial. Que sonata tão regalada, homem! Apostaria que anda tresnoitado, se não soubesse que você em ferrando a dormir é como jibóia quando enguliu veado.      — Hanh!... bocejou o outro estremunhando.      — É você, Arnaldo?      — Acorde de uma vez, amigo!      — Onde estou eu?... Ah! já sei; arranchei-me aqui para madornar um pedaço e pegou de mim uma tal bebedeira de sono que estou que não posso comigo.      — Pelo que mostra não teve lá muita saudade do seu catre da fazenda, Aleixo Vargas, que logo na noite da chegada veio pôr-se de poleiro cá pelas matas!      — Não sabe que despedi-me do Campelo?      — Ainda não encontrei quem me desse tal nova, respondeu Arnaldo, iludindo os termos da pergunta.      — Então você não tornou à casa depois da chegada?      — Depois da chegada do capitão-mor ainda lá não fui.      — Pois é como lhe digo, Arnaldo; deixei duma vez o homem, por não poder mais aturá-lo.      — Que lhe fez o capitão-mor, Aleixo Vargas, que tanto o amofinou?      — São contos largos, amigo Arnaldo, que levariam muito tempo, e eu já sinto cá pelo estômago uns repiques de fome que estão chamando ao almoço.      — Guarde lá seu segredo, Aleixo Vargas; e que não lhe coma a língua. Quanto ao almoço descanse. Aqui temos no meu farnel para quebrar o jejum.      — Sempre o conheci precavido, rapaz. Não é à toa a fama que você tem e que eu bem experimentei, quando cheguei a este excomungado sertão.      — Não é tanto assim. Ali está você, Aleixo Vargas, que é um barra. Não foi debalde que lhe puseram o nome de Moirão.      — Ah! isso cá de pulso, não se fala, que ainda não encontrei homem para mim, nem touro tão pouco. Eu dizia, rapaz, era acerca da ligeireza, que, a ser verdade o que se conta, não há por toda esta ribeira quem lhe deite poeira nos olhos.      — De que serve a ligeireza, se não é para fugir? A força é melhor, não lhe parece, Aleixo! disse o rapaz a sorrir.      — Sem dúvida. A força é tudo neste mundo, disse o Aleixo entufado de sua jactância.      — Também eu penso assim; ainda que todos os dias vê-se um caroço de chumbo deitar ao chão o homem mais valente, e uma broca derrubar o tronco mais grosso.      Moirão levantou os ombros desdenhosamente:      — São casos que acontecem.      Arnaldo foi à sua malhada no jacarandá e tornou com o alforge em que tinha as provisões. Consistiam em carne de vento, farinha e queijo do sertão.      O mancebo foi expedito na refeição e comeu com a rapidez a que o havia acostumado sua vida agreste. O Moirão, porém, almoçou pausadamente, como quem se desempenha de negócio grave; e de vez em quando conversava com uma borracha de vinho que trazia à cinta e era a sua inseparável.      — Não molha a goela, rapaz? Olhe que esta farinha assim à seca é uma bucha capaz de entalar a um jacaré.      — Eu prefiro o vinho cá de minha terra!      Proferindo estas palavras a sorrir, Arnaldo bebeu dois ou três goles d’água numa cabaça onde guardava sua provisão e com isso rematou o almoço.      Aleixo fez uma careta de nojo à cabaça, e para dar tônico ao estômago, que se lhe tinha embrulhado com a vista d’água, escorropichou o odre na garganta. VIII DOIS AMIGOS        Concluíra Moirão sua grave ocupação e acendendo o cachimbo preparava-se a fazer o quilo com igual pachorra.      Recostou-se afinal ao tronco da árvore, soltando uma baforada de fumo que o envolveu como uma nuvem densa.      — Então, Arnaldo, como foi isto por cá, amigo? Seca muita, já se sabe! Olhe, digam vocês o que quiserem. isto não é terra de cristão.      — De cristão é que ela é, Aleixo Vargas; pois ao cristão ensinou o divino mestre a paciência e o trabalho. Para quem não serve a minha terra é para aqueles que não aprendem com ela a ser fortes e corajosos.      — Pois é coisa que se aprenda, morrer de fome e de sede ainda mais?      — Tudo aprende o homem, quando não lhe falta coragem. O cavalo deste sertão de Quixeramobim caminha o dia inteiro, come um ramo de juá, e só bebe água quando encontra a cacimba. Aonde há mais valente campeão?      — Eu cá prefiro andar pelo meu pé, mas em terra capaz, a empoleirar-me no tal bicho que só tem pele e ossos.      Arnaldo não respondeu, e Aleixo continuou a envolver-se em um turbilhão de fumaça que dava-lhe o aspecto de um éolo pintado na tabuleta de alguma taberna clássica.      Depois de breve pausa o sertanejo reatou o fio da conversa:      — Ora, Aleixo, que somos amigos há tanto tempo e nunca experimentei as minhas forças com você.      — Para que isso? perguntou Moirão com sua habitual fatuidade.      — Bem sei que não posso medir-me com você; mas queria saber até onde chega meu pulso. Talvez não seja lá dos mais fracos e ninguém está mais no caso de julgar do que o barra deste sertão.      A ponta de ironia que acerava o sorriso do mancebo era tão sutil, e o tom afável da palavra a envolvia de modo que Moirão não podia percebê-la, ainda que fosse dotado de maior perspicácia do que lhe tocara em quinhão.      — Isso lá é verdade. Ainda não encontrei homem que não derrubasse: uns torcem mais, outros menos; porém no fim de contas lá vão todos ao chão rebolindo que é um gosto.      — Vamos a ver se eu sou dos que torcem mais, disse Arnaldo com volubilidade.      — Então quer mesmo, rapaz? Chegue cá, e pendure-se a este braço; com as duas mãos, não faz mal.      Moirão arregaçou a manga da camisa, e descobrindo um braço grosso e musculoso como a perna de uma anta, fincou o cotovelo no tronco do angico.      — Queda de braço, não, disse Arnaldo: há de ser queda de corpo.      — Ah! Você quer tirar lérias comigo, rapaz?      E o latagão derreou-se novamente no tronco do angico despedindo de si um rolo de fumo tão grosso, que parecia o da chaminé da herdade.      — Suponha você, Aleixo, que em vez de camaradas éramos dois sujeitos que se traziam de olho e que aproveitavam esta ocasião de se descartarem um do outro.      Moirão começou a cantarolar um mote de sua composição: Quando eu vim de minha terra Eu era Aleixo pimpão; Agora fiquei Moirão Aqui neste pé de serra.      Debalde tentou Arnaldo cativar a atenção do minhoto: ele embrulhava-se lá na sua cantiga; não queria ouvir.      — Bem: já vejo que você não é meu amigo.      — Donde tirou isto? perguntou Moirão tornado ao sério. Olhe, rapaz, que eu não sou homem de dares nem tomares, e quando trato um tal de amigo, é deveras. Aqui neste sertão ninguém ainda se benzeu com este nome senão um, que se chama Arnaldo Louredo; e ando por aqui já há uns pares de anos.      — Se fosse amigo verdadeiro de Arnaldo, não lhe recusaria o que ele pede.      — Fala-me neste tom, rapaz, que já o entendo. Então é sério?      — É um favor.      — Pois faço-lhe o gosto.      Aleixo meteu o cachimbo em um esgalho. Apoiado fortemente sobre o grosso ramo da árvore, a qual estremeceu com seu peso, estirou os dois braços, que alongaram-se como os arpéus de um guindaste, para abarcarem o corpo delgado de Arnaldo.      Mas o sertanejo escapou-lhe ao arrocho e galgando os ramos superiores da árvore, suspendeu-se a um deles, trançando os pés. Então deixou-se cair a prumo, agarrou o adversário pelas axilas, e com uma força que não se esperava de seu talhe franzino arrancou o colosso do galho em que se apoiava.      Um instante o rapaz embalançou o corpanzil sobre o precipício, onde parecia que iam ambos despenhar-se. Afinal, receando que o peso enorme lhe rompesse os músculos, escanchou o latagão no ramo do angico.      Moirão segurou-se automaticamente à árvore. Sua fisionomia, de ordinário simplória, tinha nessa conjuntura uma expressão idiota. O êxito da luta o deixara estupefato. Por algum tempo ficou na mesma posição, imóvel e basbaque.      Até que arrancou-se a essa pasmaceira com um arremessão.      — Foi este diabo! exclamou, batendo com a chanca no tronco do angico. Onde é que já se viu pegar um cristão queda de corpo em cima das árvores? Isto é para bugios ou caboclos, que tanto vale, pois são da mesma raça. No chão era outra coisa, rapaz.      — Experimentemos no chão. Não custa, disse Arnaldo com indiferença.      Desta vez o empenho era de Aleixo que ardia por tomar a desforra da surpresa. Prontamente escorregou pelos galhos e tronco da árvore até ao chão. Saltando no meio de uma clareira, calcou os pés no solo com força, e com o corpo rijo como o poste de que tomara o nome, disse:      — Ande agora para cá, rapaz, que há de ver o que é um barra.      Aleixo tinha razão. Em terra firme não havia força de homem que o pudesse abalar, quanto menos tirá-lo do lugar. O mais vigoroso touro do sertão, ele o sustentava sem toscanejar, pela ponta do laço de couro cru.      As largas chancas do colosso pareciam fincadas no chão como as grossas raízes de uma gameleira, e o corpo obeso e direito figurava uma ponta de rochedo, que surdia da terra.      Arnaldo caminhou para o colosso e erguendo os braços entregou-se àquele grilhão vivo.      A fina compleição do talhe foi o que livrou-o de ser logo esmagado no arrocho. Enquanto Moirão, cerrando-o ao peito, buscava estringí-lo como as roscas de uma serpente, o mancebo colava-se ao adversário para atenuar a violenta pressão.      Apenas Aleixo acochou o corpo do outro, suspendeu-o aos ares, como faria com um toro de pita; porém ao mesmo tempo os dois braços do sertanejo esticaram-se para logo se retraírem rapidamente, e os punhos, como dois malhos de ferro brandidos por molas rijas, bateram no crânio do minhoto.      Uma nuvem de sangue cobriu os olhos do colosso que vacilava. Arnaldo amparou-o para que não tombasse e reclinando-o com uma solicitude para estranhar naquela circunstância, deitou-o de supino sobre a relva.      Ao cabo de poucos instantes, Moirão tornou do desmaio, mas para cair no pasmo em que o deixara a primeira luta. Desta vez, porém, estava realmente assombrado. O que lhe acontecera não era cousa deste mundo; andava aí uma influência sobrenatural. Quem o derrubara não fora seu camarada, o Arnaldo, mas a própria pessoa do demo na figura do rapaz. Nem haveria meio de persuadí-lo que ele, Aleixo, fora vencido duas vezes numa queda de corpo, tão expeditamente, e ainda mais por um magriço. Eram artes do Tinhoso.      Quando ao abrir dos olhos deu com o sertanejo em pé junto de si, levantou a pesada manopla e atravessou-a pelo rosto com um jeito que parecia arremedar o sinal da cruz.      Arnaldo ergueu o busto do Moirão e encostou-o ao tronco de uma árvore. O colosso ainda aturdido não opôs a menor resistência e se deixou sentar como um marmanjo      A fisionomia do sertanejo, na qual, desde o encontro com Aleixo, um gesto volúvel e descuidado apagara a natural energia, tomou a expressão grave e resoluta.      — Aleixo Vargas, eu sou seu amigo, disse o mancebo com a palavra breve.      O Moirão abaixou a cabeça.      — Duvida?      — Do Arnaldo não, que livrou-me do dente dos tapuias.      O sertanejo não deu atenção à reserva mental do minhoto, que persistia em tomá-lo pelo capeta na figura de rapaz.      — No sertão os homens ou são irmãos ou inimigos. E quantas vezes não tirei eu das garras da onça uma rês sem dono? Não me tem, pois, a menor obrigação, Aleixo Vargas; nem me deve reconhecimento. Mas sempre o conheci, desde que chegou à fazenda, como homem bom e verdadeiro, diferente da maior parte de seus companheiros. Foi isso que me fez seu amigo.      — Obrigado, rapaz! disse o colosso enternecido.      — E é como seu amigo que vou falar-lhe. Ontem à tarde, quando o capitão-mor chegava à Oiticica, encontrou uma grande queimada no mato do caminho.      Arnaldo fitou o olhar severo no semblante do colosso:      — O fogo, foi você quem o deitou, Aleixo Vargas, por detrás da cabana do Jó, junto ao rasto do velho que vai ser acusado por essa maldade.      — Fui eu mesmo! respondeu Moirão erguendo-se.      — O capitão-mor e a família podiam estar agora reduzidos a cinzas.      — Se não fosse o danado do vento que empurrou o fogo para a serra e não me deixou cercá-los, eles haviam de ficar bem torradinhos. Então o velho tarugo que tem três dedos de banha!... Que bom torresmo não daria!...      O Moirão soltando essa pilhéria esparramou a cara em um riso alvar.      — Não lhe pergunto, Aleixo Vargas, a razão que, do homem bom que você era, fez ontem um malvado. Em tempo dará suas contas a Deus. Mas aviso-lhe, eu Arnaldo, o sertanejo, que, se descobrir mais seu rasto a uma légua em roda da Oiticica, vou por ele até onde o encontrar. E nessa hora pode encomendar sua alma.      — Como se entende isto? disse o Moirão fustigado pela ameaça.      — Qualquer outro que tivesse praticado sua façanha já não estaria aqui, porém amarrado por minha mão na polé da fazenda e entregue à justiça do capitão-mor. Um amigo é diferente: não o trairei jamais denunciando-o, e ainda menos abandonando-o ao poder de estranhos. Se ele ofender-me, decidiremos essa questão, entre nós, lealmente.      Aleixo quis falar. Atalhou-o o sertanejo com o gesto vivo:      — Ouça-me. Você é um homem de força e um homem de vontade, Aleixo Vargas. Antes de lhe dar este aviso, quis mostrar-lhe que tinha poder de cumprir minha palavra, porque de dois homens que se estimam e se acham em luta convencidos ambos que têm razão, o mais fraco deve ceder ao mais forte.      — Visto isto tem-se você na conta de mais forte? perguntou Aleixo.      — Não sei o que chama força, Aleixo; para mim força é poder. Mais volumoso do que você é um touro, que o vaqueiro derruba com dois dedos.      — Que venha para cá esse tal vaqueiro duma figa! exclamou Aleixo abespinhando-se.      Arnaldo deixou passar a refega; e continuou com a voz breve, imperativa, mas calma.      — Se você fosse o mais forte, eu não empregaria a astúcia, como faria contra um estranho ou um inimigo. Embora me custasse, respeitaria sua vontade desde que não podia vencê-lo de frente. O mais forte, porém, sou eu; e proíbo-lhe que de agora em diante se aproxime da Oiticica na distância de uma légua.      O sertanejo erguera a fronte com um assomo de indômita altivez. Nesse momento iluminava-lhe a nobre fisionomia um reflexo dessa majestade selvagem que avassala o deserto, e que fulgurava nos olhos do cavalheiro árabe e do guerreiro tupi.      Moirão calou-se um tanto enquanto ruminava as idéias:      — Lá vai, rapaz; escute bem. Que você tem pautas como o diabo e ligou-me, é cousa que está se vendo; nem lhe vale nada esconder o pé de cabra aí nessa bota esquerda.      Arnaldo sorriu-se da superstição do companheiro:      — Como é que um enguiço de gente podia derrubar um homem desta marca, se não tivesse o diabo no couro? Isto com certeza. Mas hei de arranjar por esta redondeza um bom amuleto que tenha a virtude de fazer espirrar o demo do corpo de qualquer criatura, por mais que ele se lhe meta nas tripas. Depois do estouro, então veremos quem é o dunga.      — Eu também tenho o meu! disse Arnaldo a sorrir, mostrando o relicário que trazia ao pescoço.      — Ah! é aí que está a mandiga. Pois eu hei de tirar-lhe o feitiço.      — Que mais? perguntou motejando o sertanejo.      — Agora quanto à camaradagem, isso é caso diverso. Se você carece do braço de um homem ou mesmo da vida para cousa de seu serviço, nem precisava destas partes: não lhe dava senão o que já lhe pertence. Mas o que você pede, Arnaldo, não posso fazer.      O Moirão carregou a manopla ao peito que arfou como o desabe duma montanha e arrancou estas palavras com um surdo estertor, segurando o lóbulo da orelha direita.      — Estou desonrado. Jurei por esta orelha que, se não a vingasse antes de um mês, havia de cortá-la para que não vejam nela minha vergonha. Ah! você não sabe, Arnaldo!      — Sei! disse o sertanejo pousando a mão no ombro do companheiro com um gesto severo e triste.      — Quem lhe contou?      — Ninguém. Eu vi.      O Moirão escancarou os olhos espantado e benzeu-se outra vez. Não era ele dos mais supersticiosos, porém os modos estranhos do sertanejo naquela manhã despertavam em seu espírito as abusões da época. IX PUXÃO D’ORELHA        Enquanto o Moirão esconjurava o espírito maligno, que via diante de si, na figura do rapaz, Arnaldo recolheu-se um instante.      Depois de curta reflexão tornou ao camarada com uma expressão afetuosa, que disfarçava a severidade do olhar:      — A gratidão é depois da honra a primeira virtude. Foi ela que o iludiu na simplicidade de seu coração, Aleixo Vargas; porisso já lhe perdoei.      — A gratidão?... repetiu Moirão com surpresa inquiridora.      — Antes de vir para Oiticica, você era agregado do coronel Fragoso na fazenda das Araras. Um dia o velho frenético deu-lhe dois berros; você azoou e respondeu rijo. Acode a gente, e lá ia o meu Aleixo Vargas para a golilha, quando felizmente apareceu o moço, filho do coronel, que pediu por seu agregado e livrou-o da gargantilha de ferro e do resto. Mas o velho era emperrado e não consentiu que ficasse mais um instante em suas terras o atrevido que levantara a voz diante dele. Foi então que você apareceu na Oiticica sem dizer donde vinha, e entrou no serviço do capitão-mor.      — De quem soube isto, Arnaldo? perguntou o colono cuja surpresa aumentava.      — Amigo Aleixo, nasci e criei-me nestes gerais: as árvores das serras e das várzeas são minhas irmãs de leite; o que eu não vejo, elas me contam. Sei tudo quanto se passa embaixo deste céu, até onde chega o casco de meu campeão.      O sertanejo observou a impressão que deixavam suas palavras no semblante de Moirão, que não opôs a mínima denegação ou dúvida à estranha asseveração. Ao contrário, pareceu afirmar com uma inclinação da cabeça a crença em que estava de achar-se conversando com o diabo em pessoa.      Arnaldo prosseguiu:      — No Recife, oito dias depois de chegado, seguia você pelo aterro dos Afogados, quando tomou-lhe o caminho um luzido cavalheiro. Era o capitão Marcos Fragoso, filho do velho coronel, o mesmo que tinha livrado da golilha a seu antigo acostado. Vinha ele de passar na Rua Nova pela casa do capitão-mor, onde vira ao balcão da janela D. Flor, cuja beleza o cativara. Sabendo que Aleixo era da casa, encomendou-lhe que nessa mesma tarde fosse ao Carmo, onde ele morava, para levar à donzela uma prenda com seus recados de amor.      Os olhos de Moirão, não tendo mais que abrir, começaram a esbugalhar.      — Que podia recusar o Aleixo ao homem que o livrara da infâmia e talvez da morte?      — Da infâmia, atalhou Moirão vivamente, que a morte é uma topada: trás-zás e está uma pessoa descansada.      — Quanto era seu, Aleixo Vargas, podia e devia dá-lo ao capitão Marcos Fragoso, se o exigisse; mas não aquilo que não lhe pertencia. Era assoldado do capitão-mor Campelo; seus serviços pertenciam a ele, e só a ele que lhe pagava. Não tinha licença de empregar-se às ordens de outro e para faltar com o respeito à filha donzela de seu patrão.      Moirão ficou um momento aturdido com estas palavras e acabou fincando um murro conciencioso no meio da testa.      — Pascácio!      — Foi seu bom coração que o arrastou; mas arrependeu-se a tempo e quis salvá-lo. Você procurou o capitão Fragoso em sua morada e recebeu dele a prenda com o recado. Em chegando à casa faltou-lhe o ânimo; e não se admire que eu o atirasse ao chão, quando uma fraca menina o fazia tremer de maleita, a você, Aleixo, a quem chamam de Moirão, e que nunca pestanejou na boca de um bacamarte.      — Isso de mulher, não sei o que tem que dá arrepios na gente.      — Enquanto o capitão-mor se demorou no Recife, por mais que lhe pedisse o Fragoso e que você prometesse, não se animou. Tenho certeza, porque não o perdi de vista. Nunca reparou um grilo que o acompanhava para toda a parte? Era eu.      Proferiu o sertanejo estas palavras com um riso sarcástico, apontando para a árvore, junto da qual se achava o companheiro:      — Eí-lo aí!      Voltando-se, o minhoto deu um salto prodigioso para fugir do grilo que saltara de seu lado. Uma avantesma, que lhe surgisse ali, diante dos olhos, envolta em sua mortalha e com a competente cara de caveira, não lhe incutiria tão profundo terror.      Um tanto corrido do seu pânico, o Aleixo, vendo o grilo sumir-se entre a folhagem, disse ao sertanejo:      — Acabe de uma vez!      — No meio do caminho apertou-lhe a tentação, e daí veio a mofina que o aflige. Lembre-se, porém, que você a procurou por suas mãos.      — Conte como foi! disse Moirão, com arrebatamento.      — Já não se recorda? perguntou Arnaldo estudando-lhe a fisionomia.      — Quero ouvir!      — É melhor esquecer.      — Não: diga o que sabe. Também viu?      — Tudo.      — Pois então repita, disse Moirão com a pertinácia de um mulo.      Os caracteres vingativos, quando sofrem alguma ofensa, em vez de afastarem o pensamento dessa recordação dolorosa, ao contrário revolvem-se nela e saturam-se de fel, como para exacerbar a própria ira e prelibar o prazer da vingança.      Era este o sentimento que dominava Moirão naquela circunstância, animado ainda pelo desejo de verificar as particularidades de um fato que flutuava confusamente em seu espírito.      Arnaldo suspeitou do que movia o minhoto à insistência.      — Vou fazer-lhe a vontade, Aleixo. Foi uma tarde ao escurecer. A família tinha chegado ao rancho; você incumbiu-se de levar o escabelo de apear a D. Flor, e quando ela descia o último degrau, ofereceu-lhe a prenda do capitão Fragoso, dizendo-lhe que a mandava um cavalheiro, seu namorado. É isto?      — Até aí vai direito.      — D. Flor, que segurava as dobras de seu roupão de montar, com a ponta do pé afastou a prenda, e, chamando pelo capitão-mor, disse-lhe vivamente: “Meu pai, este homem faltou-me ao respeito”. Então?... O resto não carece.      — Diga, Arnaldo! bufou o colosso.      — Então o capitão-mor aproximou-se e, segurando-o pela orelha direita, o levantou do chão onde você estava de joelhos, até que o pôs em pé.      — E m’a teria arrancado com certeza, se não me erguesse na ponta dos pés. Um insulto como este, Arnaldo, só a morte o apaga. Eu queria tê-lo aqui diante de mim, neste momento, para mostrar-lhe o que é um homem. Dizem que é um brutamonte; pois venha para cá.      Deixou Arnaldo que amainasse a cólera do Moirão.      — Sou seu amigo, Aleixo; já lho disse, e avalio quanto custa a um homem de brio não desafrontar sua honra. Mas eu não consinto que ninguém neste mundo ofenda ao capitão-mor e sua família; portanto, se você não abandonar seu projeto, tenha a certeza de que me há de encontrar pela frente.      — Com você não brigo; isto é decidido. De brincadeira como hoje, sim; mas a valer, não.      — Então desiste?      — De que?      — Da vingança.      — Isso nunca!      — Neste caso você sabe o que se faz duma árvore que ameaça cair-nos em cima?      — Corta-se.      — É o que eu farei, se não houver outro meio de arredá-lo. O mesmo direito tem você, Aleixo; e como a sorte é vária, se for eu que venha a morrer, desde já lhe perdôo. Afianço-lhe que, apesar de tudo, havemos de ser amigos no outro mundo como fomos neste.      O mancebo estendeu cordialmente a mão ao companheiro, que a sumiu em sua manopla:      — A estas mãos, Arnaldo, não pode morrer nunca. Minha honra, você não a pode atacar, que é um amigo, e para poupar minha vida não atacarei nunca a daquele que a salvou uma vez.      — Do mesmo modo procederia eu, Aleixo, se fosse de minha vida que se tratasse. Mas é do repouso, da felicidade e da vida dos entes mais queridos que tenho neste mundo; porque o capitão-mor serviu-me de pai e sua mulher D. Genoveva muitas vezes, quando eu era criança, me acalentou ao peito como seu filho.      Moirão enfronhou-se em uma carranca, sinal de profunda cogitação. Afinal, reconhecendo-se incapaz de resolver a terrível colisão, deu segundo murro na testa, e arrancou pelo mato fora.      Era este um meio físico de atenuar a dificuldade de sua posição, subtraindo-se por enquanto ao dilema fatal em que se achava colocado entre a honra e a amizade.      O sertanejo, quando o viu desaparecer através da ramada, tomou a mesma direção, seguindo-lhe a pista, mas de longe e a esmo. Certo de não poder perder o rumo e de acompanhá-lo como à sua sombra por entre a espessura do mato, ele demorava-se a examinar a copa das árvores, os rastos dos animais, as moitas de ervas e todos os acidentes do caminho.      O homem da cidade não compreende esse hábito silvestre. Para ele a mata é uma continuação de árvores, mais ou menos espessa, assim como as árvores não passam de uma multidão de folhas verdes. Lá se destaca apenas um tronco secular, ou outro objeto menos comum, como um rio e um penhasco, que excita-lhe a atenção e quebra a monotonia da cena.      Para o sertanejo a floresta é um mundo, e cada árvore um amigo ou um conhecido a quem saúda, passando. A seu olhar perspicaz as clareiras, as brenhas, as coroas de mato, distinguem-se melhor do que as praças e ruas com seus letreiros e números.      Arnaldo estivera ausente daqueles sítios algum tempo. Ao passar por eles observava sua fisionomia, tão inteligente e franca para ele, se não mais do que a face do homem; e lia nesse diário aberto da natureza a crônica da floresta. Uma folha, um rasto, um galho partido, um desvio da ramagem, eram a seus olhos vaqueanos os capítulos de uma história ou as efemérides do deserto.      A observação do sertanejo foi interrompida por vago rumor que, apesar de remoto, não lhe escapou. Conhecida a causa, deixou-se ficar onde estava.      Com pouco ouviu-se um vozear de prática animada, e cinco homens, trajados como usava a gente do povo naquele tempo, de braga, véstia e gibão, surdiram do mato. Estavam armados com um arcabuz ao ombro e uma parnaíba à bandoleira.      O da frente era Manuel Abreu, feitor da Oiticica; os outros, serviçais da fazenda.      — Oh! cá está quem sabe do diabo do velho! exclamou o feitor, dirigindo-se a Arnaldo. Bem aparecido!      — Quer alguma cousa de mim, sr. Manuel Abreu? perguntou o sertanejo.      — O senhor capitão-mor mandou-me procurar o velho Jó que deitou fogo no mato da fazenda.      — Procure-o, disse Arnaldo laconicamente.      — Não está má a encomenda! Que temos feito desde o romper do dia? Mas o renegado do bruxo abandonou a toca e sumiu-se.      — Cá para mim é trabalho perdido. O velho está nas profundas. Tinha-lhe chegado a hora e ele estourou. O fogo foi pegado pelo enxofre que ele tinha no corpo, o canalha do bruxo.      — Deixe-se dessas histórias de feitiçaria agora, João Coité, que arrepiam os cabelos da gente, ponderou o feitor.      — É mesmo: fica um homem com as pernas bambas, como se tivesse no bucho uma vez de cachaça.      — Uma não terá você, Buriti; mas duas, com certeza.      — Pois é isso, homem. O primeiro trago é que põe a gente banana; o outro conserta.      — Que é que está bolindo ali no mato? Não ouviram gemer?      — Há de ser o caipora; respondeu um mais desabusado.      — Nicácio! Não brinque com estas cousas.      Entretanto Arnaldo seguia adiante sem preocupar-se com os outros. Nesse momento havia parado, com os olhos fitos em uma moita de mimosas, plantas a que o povo dá o nome de “malícia de mulher” por descobrir no súbito fechar das folhas de leve tocadas uma semelhança com as esquivanças das meninas sonsas.      O arbusto, exposto aos raios do sol, tinha em geral os folíolos abertos; mas, justamente do lado do nascente um olhar atilado notaria certa flacidez dos pecíolos, que todavia não bastava ainda para murchar as ramas.      — Chuva!      Arnaldo proferiu esta palavra, dirigindo-se a Nicácio que estava a seu lado; possuído do vivo prazer que a vinda do inverno desperta sempre no homem do sertão, sua alma expandiu-se para dar aos outros as alvíssaras dessa alegria.      — Deus a traga! disse Nicácio.      — Esta noite! tornou o mancebo mostrando ao longe no horizonte um nimbo, tão pequeno, que parecia antes um gavião pairando.      — Porisso eu vi esta manhã uma formiga de asas, acudiu o Buriti.      — Mas então, amigo Arnaldo, que nos diz? Sabe ou não sabe onde está o diabo do velho?      Voltou-se o mancebo com um modo frio:      — Quando o senhor capitão-mor Campelo m’o perguntar, eu lhe responderei.      — Ah! É isto? Pois tenha paciência, que lhe vamos na cola. Não o largo enquanto não me der conta da carcaça do Jó, que a leve o demo logo duma feita.      Arnaldo encolheu os ombros e continuou a andar mui descansado e indiferente por entre as árvores. O feitor e seus acólitos iam-lhe no encalço, quando súbito o perderam de vista. Correram-lhe sus, bateram o mato; mas nem sombra lobrigaram mais do mancebo.      — É à toa! disse o João Coité. Se o diabo do surrão velho já o embruxou também. X O ROSÁRIO        Era por formosa manhã de dezembro, a terceira que raiava depois da chegada do fazendeiro à sua casa da Oiticica.      Assomando sobre o capitel da floresta erguida no oriente como o pórtico do deserto, o sol coroado da magnificência tropical dardejava o olhar brilhante e majestoso pela terra, que se toucara de toda a sua louçania para receber no tálamo da criação ao rei da luz.      Na umbria da serra e da espessa mata que a cinge, a fazenda ainda permanece no crepúsculo da alvorada, quando já o dia fulgura pelas várzeas e campinas d’além.      Mas ao fluxo da luz, que sobe e a inunda como a corrente de um rio caudal, aquela zona ensombrada vai rapidamente imergindo-se nos esplendores da aurora.      Com a irradiação da manhã derrama-se a aura que anima a solidão. Dessa terra combusta por longo e abrasado estio, já ressumam os viços que anunciam a poderosa expansão de sua fecundidade.      Na noite seguinte à chegada, como previra Arnaldo, tinha caído a primeira chuva. Desde então, com pequenos intervalos, passavam os aguaceiros do natal que são os repiquetes do inverno.      Embora falhem muitas vezes essas promessas, o sertanejo, como os animais e toda a natureza que o cerca, recebe sempre com intenso prazer as alvíssaras de bom ano.      A primavera do Brasil, desconhecida na maior parte do seu território, cuja natureza nunca em estação alguma do ano despe a verde túnica, só existe nessas regiões, onde a vegetação dorme como nos climas da zona fria. Lá a hibernação do gelo; no sertão a estuação do sol.      A primeira gota d’água que cai das nuvens é para as várzeas cearenses como o primeiro raio do sol nos vales cobertos de neve; é o beijo de amor trocado entre o céu e a terra, o santo himeneu do verbo criador com a Eva sempre virgem e sempre mãe.      Nunca vi o despertar da natureza depois da hibernação. Não creio, porém, que seja mais encantador e para admirar-se do que a primavera do sertão. Aqui a transição se opera com tal energia que assemelha-se de certo modo à mutação.      Aquela várzea que ontem ao escurecer afigurava-se aos vossos olhos o leito nu, pulverento e negro de um vasto incêndio, bastou o borraceiro da noite antecedente para cobrí-la esta manhã da virescência sutil, que já veste a campina como uma gaze de esmeralda.      Não há em cada uma das raízes do capim seco e triturado mais do que um broto imperceptível; porém rebentam os gomos com tanto luxo e abundância que, à guisa dos tênues liços de uma teia cambiante, formam esse gaio matiz da primavera.      Aquela árvore também que ainda ontem parecia um tronco morto já tem um aspecto vivaz. Pelos gravetos secos pulula a seiva fecunda a borbulhar nos renovos para amanhã desabrochar em rama frondosa.      Que prodígios ostenta a força criadora desta terra depois de sua longa incubação! Dela pode se dizer sem tropo que vê-se rebentar do solo o grelo e crescer, assistindo-se ao trabalho da germinação como a um processo da indústria humana.      Nas abas da serra onde as árvores tinham conservado a verdura, sentia-se passar pela floresta um estremecimento como de prazer. A brisa da manhã enredando-se pela ramagem rociada não mais arranca os murmúrios plangentes da mata crestada. Agora o crepitar das folhas é doce e argentino, como um harpejo sorridente.      Não eram somente as matas, os silvaçais e as várzeas que se arreavam com as primeiras galas do inverno. O espaço, até ali mudo e ermo na limpidez de seu azul diáfano, começava por igual a povoar-se dos pássaros, que durante a seca se refugiam nas serras e emigram para climas amenos.      Já se ouviam grazinar as maracanãs entre os leques sussurrantes da carnaúba e repercutirem os gritos compassados do cancã, saltando pela relva. O primeiro casal de marrecas, naquele instante chegado das margens de Parnaguá, a centenas de léguas, banhava-se nas águas de um alagado produzido pela chuva.      D. Flor, retida em casa no primeiro dia pela fadiga da jornada e no segundo pelos chuvisqueiros que tinham encharcado o terreiro, aproveitou a bonita manhã para rever os sítios da infância depois de longa ausência.      Neste momento desce esquiva e ligeira os degraus da varanda e desaparece por entre o arvoredo do pomar, volvendo um olhar na direção da casa, para certificar-se que não se apercebiam de sua ausência.      Não entrava nesse cuidado da donzela o receio de uma falta. A ingênua altivez de sua índole não a deixaria nunca praticar ato que ela julgasse repreensível, nem recorrer a disfarces para esconder suas intenções.      O que a fizera esgueirar-se pelo quintal não passava de uma fantasia de moça. Quando saía a passear pela fazenda era costume abalar-se meia casa para ter o contentamento e a fortuna de acompanhar a doninha.      Não havia agregada ou escrava que não disputasse a honra de abrir-lhe o caminho, levá-la à sua palhoça, para oferecer-lhe o presente que lá tinha guardado. As mais moças brigavam a quem lhe daria a fruta mais bonita ou lhe descobriria o ninho de beija-flor. Depois vinham as crias que também porfiavam nas cabriolas e algazarras com que festejassem a marcha triunfal.      Em outras ocasiões D. Flor deleitava-se no meio dessa procissão, que lhe formava uma corte de princesa daqueles sítios; nessa manhã desejou passear só, talvez que para estar mais presente nos sítios queridos que ia percorrer, e dos quais andara separada tantos meses.      Trajava a donzela um roupão de sarja, guarnecido de fraldelim pardo, que debuxava a galba palpitante de seu talhe gracioso. A fímbria ao de leve arregaçada por causa da orvalhada, mostrava o pé de menina calçado por um borzeguim preto com o salto escarlate.      Trazia, ainda na mão, uma capelina de soprilho com rocais da mesma fazenda e franjas de alvas rendas de Guimarães. Logo que chegou ao quintal cingiu a cabeça com esse toucado, que abrigava-lhe a cútis mimosa dos raios do sol, moldurando-lhe o rosto gentil, como uma grande magnólia silvestre de cuja corola surgisse sua beleza.      A donzela, deixando o pomar, deu volta ao redor do edifício e foi sair próxima ao casalinho da Justa, para onde se encaminhou.      A sertaneja estava neste momento sentada na soleira da porta, e acabava de ordenhar suas cabras. Perto dela via-se um alguidar onde ia deitando a conta de cada uma. As chuvas das últimas noites haviam enchido as tetas, que já dificilmente apojavam com a seca.      Quando a Justa viu a poucos passos sua filha de criação, levantou-se com ímpeto de contentamento e abriu os braços de modo a receber Flor, que lançou-se-lhe ao colo. Para estreitá-la ao peito, a sertaneja, que não tivera tempo de se desvencilhar do tarro seguro na mão esquerda, nem de lavar a mão direita úmida de leite, cruzou os pulsos, afastando-os de modo a não tocar a menina.      Este movimento aproximou da espádua de D. Flor o púcaro no qual a donzela, enquanto deixava-se abraçar, punha os lábios e bebia a rir uns goles de leite. Justa, a quem os brincos da filha querida faziam mais menina que ela, prestou-se à travessura e prolongou-a para gozar da ventura de conservar a moça por mais tempo abraçada      — Que bom leite, mamãe Justa! E que saudades que eu tinha dele! O de lá é aguado, não se parece com o nosso! De qual é? Da Cambraia?      — Não, meus carinhos, é da Mochinha. A Cambraia está amojada.      Esqueceu tudo quanto tinha que fazer a boa sertaneja, no alvoroto de receber a filha. Não havia no casalinho maior festa, desde a Circuncisão até São Silvestre, do que lhe trazia D. Flor sempre que aí vinha.      A cabana constava de três peças: uma servia de varanda, outra de dormitório, a última era a cozinha. Todas as portas e janelas estavam abertas, de modo que o ar e a luz entravam francamente com a fragrância dos campos. O chão era de massapê, mas tão rijo e varrido que não se via sinal de poeira.      À exceção da cozinha, cada aposento tinha uma rede de algodão muito alva. No dormitório a rede faz as vezes de cama; na varanda faz as vezes de sofá, e é o lugar de honra que o sertanejo, fiel às tradições hospitaleiras do índio seu antepassado, oferece ao hóspede que Deus lhe envia.      O primeiro cuidado de Justa foi correr ao quarto e tirar da sua mala de couro uma rede também de algodão, porém de ramagens encarnadas, com dois palmos de renda na franja matizada. Imediatamente substituiu a outra por esta, que ela ainda não achava bem chibante para sua filha querida.      — Agora pode sentar-se, meu bem, disse a sertaneja abrindo as dobras.      D. Flor encostou-se à aba da rede, e fincando no chão a ponta do borzeguim, começou a embalar-se, enquanto a ama ia buscar tudo que tinha de melhor em casa para oferecer-lhe:      — Prove deste queijo que está tão fresquinho! É o primeiro deste ano. Agora com as chuvas as cabrinhas sempre deram para um coalho.      Depois do queijo fresco, que ainda estava no chincho, vieram os balaios de biscouto, as rosquinhas de carimã, flores de alfenim, em suma toda a provisão de gulosinas * que a sertaneja havia feito à espera de sua filha de criação.      D. Flor beliscou em tudo como uma rola para dar à sua mamãe, de cada cousa que provava, um novo prazer.      — Agora basta, mamãe Justa; não faça de sua filha uma gulosa que é muito feio.      — Iche!... respondeu a sertaneja com o seu muxoxo especial. Em D. Flor tudo é bonito.      — Está me deitando a perder.      — Torno a dizer! O que nos outros é feio e não se atura, se meu querubim fizesse, todos haviam de ficar encantados.      — E se eu não lhe quisesse mais bem? Era bonito, diga, mamãe Justa?      — Isto não pode, ainda que queira! disse a sertaneja sorrindo.      Justa arrastara um estradinho coberto de couro e sentara-se defronte da donzela para conversar. Enquanto falava, levada pelo hábito de sua vida laboriosa, tirara um fuso da cintura, e por distração mais do que para aproveitar o tempo, começara a fiar as pastas de algodão que estavam dentro de uma cabaça suspensa à parede.      D. Flor abandonou a rede, e tirando das mãos de mamãe o fuso, acomodou-se mui sem cerimônia no colo da sertaneja, que já não cuidava em outra cousa senão em ninar o seu querubim.      — Espere, mamãe; deixe-me ver seu rosário, disse D. Flor, desatando o pequeno ramal de contas pretas que a sertaneja trazia ao pescoço.      Deitando-o no regaço de seu roupão, tirou do bolso um pequeno embrulho de tafetá, atado com um torçal de prata. Havia dentro um grande rosário, todo ele de contas de ouro, com os padre-nossos de coral e as coroas de marfim. A cruz era de azeviche com o Cristo de jaspe.      A donzela cingiu o pescoço de sua mamãe com cinco ou seis voltas do rosário e deixou-lhe afinal pender sobre o peito a cruz, que teve o cuidado de colocar de chapa, mostrando a imagem do Redentor.      — Aqui tem! É um rosário completo com duas coroas e mais um mistério. Assim não carece de passar duas vezes, quando rezar sua novena.      Justa não dava sinal de si. Ficara maravilhada com a riqueza e formosura daquele mimo e estava em êxtase, imóvel como uma estátua, receiosa * de que o seu menor gesto maculasse aquele primor.      Acabando de arranjar o rosário, afastou-se D. Flor para observar o efeito:      — Está uma dona, mamãe!      Foi então que Justa despertando correu à menina, e como costumava em seus momentos de efusão, suspendeu-a nos braços, tomando-a ao colo da mesma forma que fizera quando a trazia aos peitos, e afogando-a de beijos e carícias.      No dia seguinte ao da chegada, quando se arrumou a bagagem, tinha-se feito uma distribuição geral de presentes pela gente da fazenda. Cada uma das pessoas que ficaram havia recebido uma peça de vestuário, um traste de uso, ou qualquer outra lembrança. Os homens o receberam da mão do capitão-mor; as mulheres da mão de D. Genoveva; as moças e meninas da mão de D. Flor.      Mas a donzela, além daqueles presentes, tinha três especiais, que havia reservado para mais tarde: um era o de Alina, sua companheira de infância, outro era o da sua mamãe Justa. Faltava-lhe dar o terceiro. XI A COMADRE        Flor voltara a embalar-se na rede, e Justa fazia outra vez corrupiar o fuso às castanholas de seus dedos ágeis.      A donzela correu com os olhos toda a casa, como se esperasse a presença de mais alguém; foi ao terreiro da casinha e frustrada em sua esperança, dirigiu-se à ama com uma carinhosa exprobração:      — Que é feito de Arnaldo, mamãe Justa? Há três dias que chegámos e ainda ninguém o viu.      — Arnaldo? Minha filha não sabe? É verdade que eu nem me lembrei de contar-lhe.      — O que? perguntou a moça inquieta. Que lhe aconteceu?      — Nada de mal. Foi que, no mesmo dia da saída do senhor capitão-mor, ele veio despedir-se de mim, que também ia fazer uma viagem.      — Aonde?      — Não disse; mas eu cuido que é para as bandas da Serra Grande, atrás de uns barbatões que o vaqueiro Inácio Góis pediu-lhe para agarrar. Nisso de campear não há quem lhe ganhe. Nem o pai que era afamado. Em todo este sertão não havia vaqueiro como o sr. Louredo, meu defunto que Deus tem. Pois o filho ainda passa. Minha Flor não se lembra daquele novilho que ele foi pegar lá no fundo do Piauí? Gastou três meses; mas trouxe o mocambeiro amarrado à argola da cilha.      A donzela prestava à ama vaga atenção, distraída por uma idéia que a notícia suscitara em seu espírito. Mas, desprendendo-se dessa cisma interior, tomou à conversa.      — E mamãe não tem medo que lhe aconteça alguma cousa, aí por esses desertos?      A sertaneja abanou a cabeça com um gesto de confiança, e o rosto banhado de um ingênuo orgulho:      — Que lhe há de acontecer?      — Eu sei? algum perigo.      — Está defendido. Enquanto tiver no pescoço o bentinho, não lhe acontece mal.      — Aquele relicário vermelho?      — Ninguém sabe quem deitou, respondeu a sertaneja afirmando com a cabeça. No mesmo dia de nascido, apareceu com ele e não se viu entrar em casa viva alma, nem a criancinha saiu da minha rede. Só quando eu acordei, ainda assim como sonhando, senti um cheiro de incenso e vi uma alvura que me cegou. Havia de jurar que eram asas de anjo. Quando olhei para o pequeninho ele estava rindo-se e a brincar com o relicário, como se já tivesse juízo para entender.      — Nunca me contou isso, mamãe Justa! observou a menina surpresa.      — Meu homem não gostava que eu falasse nestas cousas, e então ficou no esquecimento o milagre do bentinho. Mas o senhor capitão-mor e a dona sabem tudo.      — Então esse relicário tem a virtude de livrar a pessoa de qualquer risco e desastre?      — De todo o perigo, seja do fogo ou d’água, de ferro ou veneno, respondeu a ama com o tom da mais profunda convicção.      — Esta certeza que você tem, mamãe Justa, é que eu não vejo. Só por que não se sabe donde veio o relicário?      — Pois não está se vendo, meu bem, que foi um anjo que o pôs ao pescocinho da criança, mandado por Nossa Senhora da Penha de França? Porque eu o tinha oferecido a Mãe Santíssima para seu devoto, quando ainda o trazia nas minhas entranhas, e então ela quis protegê-lo. Agora repare que, saindo Arnaldo um menino tão travesso que ninguém podia com ele, nunca lhe aconteceu nada, mesmo nada; nem um arranhão de unha de gato, ou uma queda da goiabeira. Sumia-se um dia inteiro, metia-se no mato, ou andava cercando os magotes para montar nos poldros brabos, e estava mais seguro por lá, do que se eu o guardasse aqui junto de mim, no terreiro. Não se lembra daquela pobre, aí para as bandas de Russas, que enquanto ensaboava uma roupinha, os porcos lhe comeram o filho, mesmo dentro de casa?      — Coitada! Esqueceu-se de fechar a porta.      — Se tivesse proteção do céu podia deixar aberta, ainda que lhe andassem as onças no terreiro. Era o mesmo que se um benzedor lhe fizesse o signo Salomão no batente: ninguém entrava.      — Agora por falar nas travessuras de meu colaço, mamãe Justa, lembrou-me de uma cousa que me sucedeu na viagem.      — Pois conte, meu querubim, que estou mesmo ansiosa de saber como lhe foi por lá pelo Recife, se achou muito bonita a cidade e teve festas e regozijo?      — Depois contarei tudo. Agora é só o que sucedeu na ida.      — Pois sim.      — Estávamos já perto do Recife e tínhamos atravessado um rio chamado das Tabocas, onde se deu uma grande batalha no tempo dos Flamengos.      — Sei; o velho Anselmo sempre falava nessa guerra que também ele andou por lá pelejando.      — Eu ia adiante, esquipando, quando um cavalo bravio, que andava pela várzea a pastar, correu furioso para brigar com o lazão.      — Jesus! Que perigo!      — Foi apenas o susto. Quando o cavalo se atirou como uma onça para morder o lazão, um homem apareceu não sei donde que o agarrou pelas orelhas e saltou em cima.      — Bravo! Já estou-lhe querendo bem sem o conhecer.      — O cavalo corcoveava pela várzea, que parecia uma cabra; mas o sujeito meteu-lhe as esporas e lá se foram os dois aos trancos, pela várzea fora. Foi então que me lembrei de Arnaldo quando montava em pêlo nos poldros bravos, e andava a escaramuçar pelo campo até amansá-los.      — É verdade; era um capetinha. Mas o susto não fez mal à minha filha? perguntou a ama com terno desvelo, como se falasse de um perigo recente.      — Não, nem disse nada à minha mãe para não afligí-la. O mais curioso, porém, é que o tal sujeito que me livrou dava uns ares com Arnaldo.      — Deveras?      — Eu não lhe vi a cara, porque ele tinha um lenço de rebuço, e também foi um relance, enquanto montava. Mas o corpo, nunca vi cousa mais semelhante.      — Que me está dizendo, meu querubim?      D. Flor fez uma pausa de hesitação, ao cabo da qual fitou os olhos na ama:      — Quem sabe se não era mesmo meu colaço, mamãe Justa?      — Ele? Arnaldo? Que idéia! se andava tão longe, por este sertão a dentro! Capaz de fazer o que o outro fez, isso sim; e mais, e muito mais por meu querubim, que ele é meu filho e criou-se nestes peitos.      — Não podia ser ele! disse Flor com a voz lenta, e recaindo na cisma anterior.      Porventura seu espírito, recordando o fato e combinando-o com a notícia da ausência que Arnaldo fizera da fazenda, laborava em dúvida, apesar da denegação que lhe escapara dos lábios.      Ouviu-se um manso balar e um piso rijo, mas compassado. Com pouco apareceu na porta que dava para a cozinha uma bonita cabra rajada, das maiores que se criavam naqueles pingues sertões.      Ao avistá-la, Justa estendeu a mão dizendo:      — Ande cá, comadre [4] : venha dizer adeus à sua filha, que você ainda não viu.      A cabra como se entendesse a sertaneja, caminhou com passo lento e grave qual convinha a uma matrona e veio apoiar a cabeça na espádua da donzela que abraçou e acolheu com meiguices ao lindo animal.      — Adeus, mamãe bebé, como passou? Vamos a saber... Teve saudades de sua filha? Qual! Você é uma ingrata!      D. Flor, que levantava com a mão esquerda a cabeça da cabra para falar-lhe, fez com o índice da mão direita um gesto risonho de ameaça infantil:      — Por que não me foi encontrar no terreiro com sua comadre, quando eu cheguei?      — Estava esperando por Arnaldo, observou a Justa. É um faro que ela tem para conhecer aquele filho, que é uma cousa por maior. Desde tres-ant’ontem à tarde, quando minha filha chegou, que ela começou a chamar, a chamar, e não saiu mais lá do cocoruto à espera dele.      — Então a senhora quer mais bem a ele do que a mim? atalhou a donzela voltando-se para a cabra com uma feição graciosa que debalde pretendia tornar-se em carranca.      — É para pagar o mais que eu lhe quero a você, meu querubim, replicou Justa rindo-se.      — Não deve ser!      — Mas se é!      Flor dirigiu-se outra vez à mamãe bebé.      — E que notícias me dá de seu querido, dona? Bem mostra que é seu filho; ingrato como a mamãe.      — Ela que apareceu, é que Arnaldo não tarda por aí.      A cabra fitou seus olhos de topázio cheios de inteligência na donzela; volveu a cabeça para fora e afastando-se com o mesmo passo cadente foi colocar-se no meio da varanda, voltada para a porta.      Aí ficou imóvel até que, decorridos instantes, ergueu a pata direita e começou com ela a bater o chão, recuando a passo e passo para logo depois avançar e retrair-se de novo. Afinal caminhou direito à porta.      Arnaldo pisava a soleira.      O sertanejo dos dias antecedentes, o filho do deserto, livre e indômito como o cervo das campinas, ficou lá fora. Quem entrou foi um mancebo tímido e acanhado no qual todavia a aparência rústica do trajo e o enleio do gesto não escureciam a nativa beleza do perfil e o molde airoso do talhe.      O filho e a mãe abraçaram-se estreitamente no meio da varanda, onde se encontraram correndo um ao outro. Depois desse desafogo das saudades, Justa voltou ao estradinho levando o filho pela mão até o lugar onde ficara D. Flor.      — Adeus, Arnaldo! disse a donzela com ingênuo prazer.      O sertanejo parara em face da donzela com os olhos baixos e respondeu em voz submissa:      — Adeus, Flor.      Ou por espontâneo movimento, ou para subtrair-se ao enleio dessa posição, Arnaldo voltou-se para a cabra que lhe seguira os passos, e estendeu-lhe as mãos. O carinhoso animal pousou nas palmas de seu filho de leite as patas dianteiras, e daí com um salto alcançou-lhe as espáduas.      Ficaram assim os dois abraçados. Arnaldo prolongava de propósito a carícia, perplexo sobre o que devia fazer. Por fim a cabra separou-se e foi sentar-se defronte no seu canto, com os olhos fitos no grupo.      — E a mim não se abraça? perguntou D. Flor a sorrir.      Arnaldo estremeceu. Vendo-o atônito e mudo, Justa impeliu-o ao de leve pela mão.      — Anda daí, Arnaldo; abraça tua colaça. Estás tonto da viagem?      — Deixe-o; eu vou abraçar mamãe bebé, disse a donzela, zombando do vexame de seu irmão de leite.      — Ora vejam que partes! insistiu a ama.      Levantando-se passou o braço pela cintura de cada um, obrigando-os ambos a aproximarem-se.      D. Flor pousou timidamente a mão no ombro do rapaz e sua cabeça roçando-lhe o peito ouvia-lhe as rijas e violentas palpitações. Quando desprendeu-se do rápido abraço leve rubor carminou-lhe as níveas faces; mas apagou-se logo no gesto da linda fronte, a qual erguera-se com a expressão altiva e senhoril que era o toque de sua beleza.      Arnaldo não se animara a cingir o talhe da donzela. Se tocara-lhe o corpo, fora ao impulso da mãe; logo, porém, recuara voltando as costas para esconder a veemente comoção.      Sua fisionomia tinha a lívida rigidez de um espectro. Calcava a mão sobre o peito para comprimir o coração, que saltava-lhe aos ímpetos, como um poldro selvagem. Deu alguns passos para a porta vacilando como um ébrio.      — Onde vais tão cedo, Arnaldo? perguntou Justa.      Nesse momento soou lá fora, para o lado da várzea, grande estrépito. O gado mugia; os cães latiam furiosos e no meio do alarido destacavam-se vozes humanas a clamar:      — Ecou!... Ecou!... Arriba, gente! Isca, Roldão!... Valente!...      Ao primeiro rumor, Arnaldo assumiu-se, vibrando a fronte. Já era outro homem, ou antes, tornara ao que era. Do peito vigoroso rompeu-lhe o brado formidável que nenhum vocábulo traduz, rugido humano com que o sertanejo afirma no deserto o império do rei da criação.      De um ímpeto ganhou a porta e desapareceu. XII ALVOROÇO        O ponto de onde vinha o alarido era a várzea fronteira à casaria da fazenda.      O capitão-mor Campelo saiu fora ao terreiro para conhecer a causa do alvoroço. Agrela o seguia.      Não tardou que se reunissem ao grupo D. Genoveva e D. Flor, que chegara acompanhada por Justa, e curiosa de saber a razão do ímpeto de Arnaldo.      As criadas e escravas acudiam à janela enquanto os fâmulos e agregados corriam ao lugar do acontecimento para melhor verem o que ali estava passando, e sendo possível, tomarem parte na função.      Na várzea já estavam muitos indivíduos pela maior parte moços ou criados do vaqueiro, que atualmente no sertão designam com o nome de “fabricas”. Faziam largo cerco ao redor de uma coroa de mato, balsa emaranhada que enricavam os talos espinhosos das carnaúbas.      Armados uns de arcabuzes e clavinotes, outros de parnaíbas e facas do mato, excitavam-se mutuamente a avançar; nenhum contudo se resolvia a ser o primeiro. Não que lhes faltasse a coragem, provada nos azares da vida áspera do sertanejo; mas o perigo desconhecido nunca deixa de infundir um vago assombro que, se não abate o valor, entorpece a resolução. Não são todos que ousam afrontá-lo a sangue frio.      Até aquele momento ignorava-se o que havia no capoão; e a cousa tomava feição de mistério que nesses tempos supersticiosos dava tema para as mais absurdas visões.      Um dos cães do curral tinha farejado o quer que era no matagal e dera aviso. Logo acudiu toda a matilha que não cessava de latir e com ela os rapazes, que a estumavam para investir.      Entretanto a brenha permanecia silenciosa; não se ouvia o menor sussurro e as folhas do arvoredo apenas aflavam com o brando sopro da viração. Esta placidez, que devera tranqüilizar, era precisamente a causa do terror, porque transmitia ao acidente um aspecto estranho e inexplicável.      — É onça com certeza! dizia o José Pina.      — Se fosse onça, já tinha espirrado.      — Eu conheço pelo latido do Ferro!      — Para mim, não é senão defunto! observou o Quinquim da Amância.      — E mais de um.      — Qual defunto! exclamou o João Coité que chegava esbofado da corrida.      — Então é o lobisomem!      — Cousa pior! Sou capaz de apostar minha alma em como não é outro senão o velho bruxo!      — É verdade! exclamaram muitas vozes em roda.      — Vamos a ver, que é o mais certo, observou o Buriti.      — Não é o filho de meu pai que se mete nessa, observou João Coité. Se fosse gente ou coisa deste mundo, aqui tinham um homem que vale por três, mas com o Tinhoso não quero súcias.      Esta profissão de fé arrefeceu o entusiasmo dos companheiros e houve quem suscitasse a idéia de chamar o capelão para atacar o inimigo com as armas da Igreja, e obrigá-lo a sair do mato, onde se encafuara.      A esse tempo chegou Arnaldo à várzea. Colhendo na passagem a nova do que havia, enrolou no braço direito o gibão de couro e com a faca desembainhada investiu para o mato, onde penetrou e desapareceu.      Foi um instante de ansiedade para os que ali se achavam. Arrependidos uns de não terem acompanhado o destemido rapaz, outros de não haverem obstado àquela temeridade, aguardavam o desfecho do estranho acidente.      João Coité, convencido de que Arnaldo já estava embruxado pelo velho, preparava-se para algum acontecimento e por causa das dúvidas tinha o polegar à altura da testa pronto para benzer-se.      O Quinquim da Amância, que lembrara-se do lobisomem, fez com a vara de ferrão um grande signo-salomão e saltou dentro, no que o acompanharam todos os rapazes, crentes de que assim ficavam preservados de virarem raposas.      — O que é? o que é? gritou o Manuel Abreu, que chegava com o resto de sua gente.      Nessa ocasião ramalhou o mato; logo depois abriu-se a folhagem e apareceu Arnaldo puxando pela orelha a um tigre enorme, que o seguia gacheiro e humilde.      O assombro da gente durou até que o sertanejo com o singular rafeiro sumiu-se na ponta do mato, que se prendia à floresta e formava como um braço arqueado a cingir a várzea.      Não foi menor a surpresa das pessoas que observavam a cena do alto do terreiro. As mulheres não tiveram ânimo de a acompanhar até o fim, horrorizadas com a idéia de que a fera pudesse de repente lançar-se a Arnaldo ou a qualquer dos outros e estraçalhá-los. D. Flor também sentiu um calafrio que obrigou-a a cerrar as pálpebras; porém tinha império sobre si e alma para admirar os rasgos de coragem.      O que maravilhava a esses homens valentes e habituados às façanhas do sertão não era a coragem de Arnaldo, mas a submissão do tigre.      A luta de um homem só contra o tirano das florestas brasileiras não era novidade: sabiam que o sertanejo afronta a onça e a abate a seus pés. Se eles não o tinham feito, conheciam ou de fama ou pessoalmente mais de um caçador para quem essa proeza era divertimento.      O tigre brasileiro, apesar de Buffon que o não conheceu, é um animal formidável pela força e pela intrepidez. Há exemplo de penetrar em um rancho ou acampamento, e arrebatar dele um homem, zombando dos tiros com que o perseguem os companheiros da vítima.      Arrasta o cavalo ou boi que matou e faz frente aos caçadores, afastando-se com rapidez não obstante o grande peso da carga. Azara refere o caso de um que levou com o boi morto outro boi vivo preso à mesma canga.      Toda essa força e braveza cedem à agilidade do homem. Não compreendia, porém, a gente da fazenda o império que o rapaz sertanejo exercia sobre a fera a ponto de a levar à trela como a um sabujo.      Da mesma forma que o leão, a pantera e todo animal por mais cruel que seja, o tigre brasileiro pode ser domesticado. Naquela época havia caçador nos sertões que tinha dessas fantasias; embora mais de uma vez fosse obrigado a ir à cola do fugitivo, a quem apertavam saudades das brenhas.      Uma cousa, porém, era o tigre manso e outra muito diversa o tigre bravio, que saíra da mata açulado pela fome e que deixava-se arrastar por Arnaldo, sem opor-lhe a menor resistência, nem dar qualquer sinal de cólera.      Não atinando com a explicação natural do fato, buscava-a aquela gente na superstição. Atribuíam todos à feitiçaria esse poder incompreensível que o sertanejo exercia sobre a fera.      João Coité era de opinião diferente. Para o visionário aquela onça não era o que mostrava, porém o bruxo velho Jó, que tomara a figura do animal, a fim de não ser conhecido.      — E senão, vejam como veio correndo o outro enguiço de Satanás que ele já enfeitiçou? Aquilo é que sentiu o fortum de enxofre.      Já se tinha dispersado a gente, e recolhidos aos aposentos ou tornados às labutações jornaleiras, os agregados cismavam sobre o caso, que dava tema vasto à tagarelice.      No terreiro, à sombra da oiticica, ainda se achava o capitão-mor Campelo com seu tenente Agrela e o padre Teles, capelão da fazenda.      Já entrado em anos, porém ainda verde e bem disposto, o sacerdote, mais por índole do que por estudo e convicção, dava o exemplo de uma tolerância benévola que todavia estava bem longe da simonia de certos padres desabusados, como então os havia nas colônias, e para os quais a religião era uma indústria, o altar um balcão.      Praticavam as três pessoas acerca do fato a que tinham assistido, e o capitão-mor, perplexo acerca da opinião que devia tomar sobre tão estranho caso, ouvia aos seus dois ajudantes, o do espiritual e o do temporal:      — Tem-se visto sujeitos neste sertão que lidam com as cobras mais assanhadas, como a cascavel e a jararaca, as enrolam ao pescoço ou as trazem no seio sem que lhes façam mal, observava Agrela.      — Eu conheci nos Cariris, aderiu o capelão afirmando com a cabeça, um caboclo que tinha criação delas.      — Esse poder que uns têm sobre as cobras, outros o terão sobre as feras, como acabámos de ver, tornou Agrela.      — Mas esses não são feiticeiros, Agrela? O seu poder não vem de artes ocultas?      — Assim pensa toda a gente, sr. capitão-mor. Mas para mim tenho que são cousas naturais, ainda que não as sei explicar.      — Que dizeis a isso, padre Teles? perguntou o fazendeiro voltando-se para o capelão.      — É fora de toda a dúvida que neste caso admirável do qual fomos testemunhas, assim como no das cobras e outros semelhantes, há uma virtude sobrenatural, que não pertence ao mortal, mas lhe foi transmitida por um poder superior.      — Qual poder, padre Teles? O do inferno? interrogou Campelo.      — O do céu, sr. capitão-mor. Deus, como ensinam as sagradas escrituras, pode operar o milagre, ou por si diretamente, como fez Jesus ressuscitando o Lázaro e restituindo a vista ao cego, ou por meio dos Santos e de suas relíquias. Assim foi que Moisés separou as ondas do Mar Vermelho e Josué fez parar o sol; e também que a túnica de Elias dividiu as águas do Jordão, o sudário de Paulo curou os enfermos, os ossos de Eliseu ressuscitaram os mortos, além de outros inúmeros exemplos.      — Acreditais então que fosse um milagre? interrogou novamente o capitão-mor.      — Acredito que o Senhor quis salvar o filho da Justa, ou por intercessão do santo da especial devoção da mãe, ou pela virtude de alguma relíquia preciosa que o rapaz traga consigo.      — Ele tem um bentinho! observou o capitão-mor pensativo; e o traz desde que nasceu.      — Se a onça conservasse seu natural feroz e carniceiro, com certeza estava perdido o rapaz. E como o modo de salvá-lo era esse de amansar a fera, o que se viu mais de uma vez nos circos romanos, e que o Senhor especialmente usou com Daniel na cava * dos leões, não há cousa que nos espante naquela ação que presenciámos, pois infinito é o poder de Deus, e mais estupendos milagres tem operado para manifestar aos mortais sua onipotência.      — Amém! disse o capitão-mor que se descobrira respeitosamente, sendo imitado no gesto e na palavra pelo ajudante.      Terminada a prática religiosa, o padre Teles, obtendo vênia, retirou-se ao seu aposento.      Permaneceram no terreiro o capitão-mor e Agrela.      Esses dois homens formavam no físico, tanto como no moral, perfeito contraste. De Campelo já se disse que era sujeito robusto e corpulento, de marca superior ao estalão humano. Agrela, franzino e de exígua estatura, parecia ao lado do fazendeiro um espadim à fiveleta de um mata-mouro.      Quanto ao moral, o que tinha o capitão-mor de pausado e formalista, pagava-lhe o ajudante em viveza e prontidão. O tempo que o primeiro consumira a tomar uma resolução, bastaria ao outro para realizá-la.      Daí provinha naturalmente a volubilidade e inconstância do gênio do moço, assim como a tenacidade do velho em sustentar sua resolução uma vez tomada.      Entretanto por contraprova do anexim. que — “dois gênios iguais não fazem liga”, — fora precisamente o contraste daquelas duas naturezas a solda que as unira a ponto de já não fazerem mais de uma pessoa, embora repartida por dois corpos.      O capitão-mor Gonçalo Pires Campelo, ali presente, não seria o mesmo opulento fazendeiro que era, comandante das ordenanças da freguesia de Santo Antônio de Quixeramobim e o maior potentado daquela redondeza, se arredassem dele o Agrela, seu ajudante.      Eqüivaleria a amputar-lhe uma faculdade d’alma e a mais ativa. A energia, de que o velho dera tantas provas e que lhe granjeara admiração e respeito, desapareceria como a rigidez do aço privado de sua têmpera.      Nem podia ser doutra forma, pois essa energia resultava da combinação dos dois caracteres. Com a volubilidade de seu gênio, Agrela tinha em qualquer circunstância um alvitre pronto e o comunicava ao capitão-mor, em cuja vontade lenta, mas robusta, essa lembrança tomava logo a força de uma inabalável resolução.      A mesma transfusão operava-se acerca do pensamento. O capitão-mor, que tinha aliás o senso claro e reto, para não dar-se ao trabalho de meditar, incumbia o seu ajudante dessa ocupação secundária e limitava-se a colher a suma. Não admira, pois, que, apenas retirado o padre Teles, se voltasse o Campelo para o mancebo e lhe perguntasse:      — Que vos parece, Agrela?      — De que, sr. capitão-mor? Do que disse o padre Teles?      — Sim, homem; estais pelo milagre?      — Minha idéia é, como já disse ao sr. capitão-mor, que estas coisas não são comuns; mas também não se podem chamar impossíveis. Elas têm uma causa natural, conhecida dos que especulam estes arcanos da natureza.      — Há então uma causa oculta; e essa tanto pode ser milagre como feitiçaria.      — O sr. capitão-mor há de ter visto muitas vezes, como eu, o passarinho que vai piando meter-se ele mesmo na boca da cascavel.      — É verdade.      — Aí está uma cousa bem natural e de todos os dias que já ninguém estranha. Esse terror que a cobra causa ao passarinho a ponto de obrigá-lo a entregar-se, eu acredito que um homem forte e valeroso inspire a outro homem, quanto mais a um tigre, a ponto de torná-lo manso e inofensivo. E o sr. capitão-mor tem em si uma prova desse predomínio.      — Então pensais que em tudo aquilo não houve senão a valentia do rapaz e o medo da onça?      — Assim me parece.      — Acertastes, Agrela; não foi outra cousa.      Nesse instante viu o ajudante a Arnaldo que subia a encosta na direção do terreiro; e indicou-o ao capitão-mor. XIII EXPLICAÇÃO        O sertanejo curvou-se e beijou a mão ao fazendeiro, costume patriarcal já em voga no sertão e que ele praticava por um impulso d’alma, pois habituara-se desde a infância a respeitar no velho Campelo um outro pai, além do que lhe dera a natureza.      Arnaldo e Agrela trocaram fria saudação. Havia entre ambos um afastamento, que já o capitão-mor havia percebido com pesar, pois desejava ligar entre si os dois mancebos, como os trazia unidos em sua afeição.      O ajudante foi arredando-se à feição de retirar-se.      — Onde ides, Agrela? perguntou Campelo.      — Ali, ao quartel!       Pois ide! disse o capitão-mor acenando-lhe com a mão.      O velho sentia que ia cometer uma fraqueza e não queria testemunha.      — Então, qu’é da onça?      — Lá se ficou no mato.      — É de bom acomodar, tornou o capitão-mor a rir.      — Ah! somos conhecidos velhos, respondeu o rapaz no mesmo tom.      — Como então?      — É uma história.      — Pois conta lá.      — Se não tem que contar!... Cousas do mato.      — Vai dizendo.      — Eis o caso. Essa dona e seu companheiro apareceram aqui na vizinhança haverá um ano. Como eu ando sempre a bater por estes matos, parece que os importunava; e então assentaram de acabar-me a casta. Não dava mais um passo, que não me andasse no rasto algum dos dois camaradas.      — Não eram maus os pajens!      — Não eram, não; mas a mim é que não me serviam, que sempre foi meu costume andar só, pois é o meio de andar seguro. Então passei a saber dos tais amigos o que pretendiam deste cearense.      — Ah! E que responderam?      — Se eles ignoram as regras da cortesia... No que afinal têm desculpa, pois nunca foram à Corte, nem ao menos ao Recife. Portaram-se como dois vilões. O que eles queriam, bem adivinhava eu; era apanharem-me descuidado e torcerem-me o gasnete. Mas eu transtornei-lhes o plano.      — Vamos a ver a façanha.      — Não foi nenhuma, sr. capitão-mor; manha sim, houve alguma. Um dia que o macho saiu à carniça mais longe, lá para as bandas do Quixeramobim. aproveitei a ocasião, e fui visitar a moça que tinha ficado na furna deitada com os dois cachorrinhos.      — Entraste na furna, rapaz?      — Pois não havia de fazer as minhas cortesias à dona? Já se sabe, fui no rigor: bem eucourado, com o pelego enrolado no braço esquerdo, e a minha faca flamenga à mostra.      — E a cuja como te recebeu?      — Com toda a bizarria, lá isso não se pode negar. Assim que me viu, rangeu os dentes, levantou-se a prumo sobre os quadris, e estendeu a munheca, talvez para dar-me um aperto de mão. Eu, que sou desconfiado, fui metendo-lhe um palmo de ferro entre as costelas, com o que a bicha deu-se por satisfeita.      — Mataste-a?      — Era minha intenção. Mas quando eu ouvi os cachorrinhos a grunhirem como se estivessem chorando, e reparei nos olhos que lhes deitava de longe a onça estendida no chão; lembrei-me que ela era mãe e ia deixar os filhinhos ao desamparo. Então não sei o que se passou cá em mim, que tirei leite da janaguba * , curei a ferida e fui buscar água na cacimba para dar-lhe a beber e aos cachorrinhos.      — Bem mostras que és um bom filho, Arnaldo, e nem podia ser doutra sorte com a mãe que Deus te deu * . Mas vamos ao resto da história, que está curiosa.      — Mal tinha acabado de agasalhar a dona, aí chega o marido.      — Devias esperar por ele.      — Não digo que não; mas o tal, ou vinha arrenegado da vida, ou era de gênio arrebatado, pois não quis saber de explicação: foi juntando e pinchou-se-me em cima com uma gana de três dias. Espetou-se na ponta da faca; mas não se contentou com uma sangria; foi só à terceira, que emborcou no chão e toca a estrebuchar.      — Estou vendo que também não a mataste, e que não é outra senão a tal de ainda agora.      Arnaldo sorriu, mas a expressão jovial que animou-lhe a fisionomia retocou-se de um laivo melancólico.      — Não sei o que é viverem duas criaturas da mesma vida e unirem-se para sempre; nem o saberei nunca.      — Por que não o hás de saber, Arnaldo? Para que tenho criado em minha casa, como filha, a Alina, senão para dar-te nela uma boa mulher, como tu a mereces? Justa ainda não te disse?      — Morrerei só, como tenho vivido, replicou o mancebo com vivacidade. Mas isso não impede que eu sinta quanto há de ser triste ver-se uma criatura desamparada do seu companheiro, daquele que a defende e a proteje. Foi o que eu senti, naquela ocasião: os filhos a grunhirem outra vez; a mãe a gemer; ele a arquejar que me cortava o coração; e no meio de tudo uns quebrados de olhos tão ternos que ninguém diria fossem daquela ralé carniceira. Afinal de contas, eis-me feito cirurgião e enfermeiro dos feridos e criador dos cachorrinhos.      — Aí está o segredo.      — Durante um mês, todos os dias era meu divertimento curar os meus enfermos, e levar-lhes água e a comida, sobretudo peixe, de que eles gostam muito, e não faz má dieta.      — E acabaram por ficar amigos?      — Amigos não, camaradas. Eles sabem que eu não os temo, e que também não lhes quero mal; por isso me respeitam. Uma vez, porém, íamos brigando.      — Ah! isso é que estava para perguntar-te: pois sempre tive esse animal na conta do mais traiçoeiro que se cria nas matas, com exceção da cobra.      — No fim da seca passada, um dia que faltou-lhes a carniça e a fome apertou, tiraram-se de seus cuidados e fizeram as contas ao meu Corisco.      — E então?      — Ficaram com a água na boca, e as boas lambadas de relho, que meti-lhes no costado.      — Deste-lhes de relho? E eles agüentaram como um sendeiro, sem respingar nem tugir? Então não admira que se deixem puxar pela orelha, como há pouco.      — Não deixaram de resmungar seu tanto; mas lembraram-se do que lhes tinha acontecido, e preferiram o couro ao ferro, no que mostram bem a casta que são. Desde aí é aquela mansidão que o sr. capitão-mor viu.      — Ora está a cousa explicada, sem milagres, nem feitiçarias. Ao cabo tudo vem dar nisto: que és um bravo, Arnaldo, valente como as armas!      — Valentia é a do sr. capitão-mor que enxotou dez homens armados só com um chiqueirador.      O capitão-mor sorriu-se dessa recordação de uma das mais famosas entre suas façanhas; e erguendo-se do banco onde estivera sentado, passeou um momento, enquanto compunha novamente com sua ordinária expressão de gravidade a fisionomia que durante a narrativa do mancebo se havia desarmado.      — Bem: agora saibamos outra cousa. Estivemos ausentes cerca de quatro meses de nossa fazenda da Oiticica pela necessidade de prover a certos negócios na cidade do Recife. Durante nossa ausência consta-nos que Arnaldo abandonara a fazenda; e tornando nós com o favor de Deus à nossa casa no sábado, só hoje ao quarto dia de nossa chegada nos aparece. Que quer isto dizer, Arnaldo?      — Também andei em viagem, respondeu o mancebo concisamente, mas com mostras de respeito.      — Sua obrigação era ficar na Oiticica, donde ninguém se arreda sem nossa licença.      — Uma vez já pedi permissão ao sr. capitão-mor para dizer-lhe que eu não pertenço ao serviço da fazenda. Não sei lidar com os homens; cada um tem seu gênio: o meu é para viver no mato.      Tornou o Campelo ainda mais fechado:      — Quer dar em bandoleiro, como esses que aí andam ao cosso pelo sertão, acabando o gado das fazendas, à fiúza de matar barbatão e praticando toda casta de maldades em suas correrias?      Arnaldo ergueu a fronte com um assomo de escândalo contra a injuriosa suspeita.      — O sr. capitão-mor não pode temer isso de mim. Conhece-me bem.      — Conheço, disse o velho fazendeiro, descansando solenemente a larga mão sobre o ombro do rapaz, a título de reparação da injustiça.      — Vivo de pouco e Deus me dá de sobra. Não careço do alheio, nem o cobiço. Tão pouco se ligará com bandoleiros quem não pode acostumar-se à gente de melhor avença. Procuro o sertão, e moro nele para estar só. Mas fique vossa senhoria descansado, que se não presto para camarada ou vaqueiro, quando se tratar de o defender e acatar, a si e aos que lhe são caros, pode contar que não tem servidor mais pronto, nem mais devoto. Minha vida lhe pertence, é dispor dela como lhe aprouver.      O capitão-mor se aproximara e com a voz tocada pela comoção murmurou, enquanto com um movimento rápido da mão direita abarcava ao mancebo o peito esquerdo:      — Pois eu não sei que é de ouro este coração?      Recobrou-se, porém, imediatamente; outra vez formalizado, dirigiu-se a Arnaldo, guardada a gravidade e a distância.      — Agradecemos a sua dedicação, Arnaldo; mas uma fazenda, e ainda mais, rica e importante como a Oiticica, não dispensa um regime, que mantenha quantos a ela pertencem na obediência e respeito do dono. Essa regra e disciplina não se guarda sem muito rigor, sobretudo para coibir os maus exemplos, que são motivo de escândalo para os bons e de excitação para os maus.      — Porisso é que torno a pedir ao sr. capitão-mor que me tenha como estranho à fazenda. Sou um vagabundo que aí anda pelos matos, e que não pede senão que o deixem viver nestes campos onde nasceu.      O capitão-mor prosseguiu sem referir-se às palavras do mancebo.      — Na tarde de nossa chegada, quando Manuel Abreu, nosso feitor, deu-nos parte de sua ausência, Arnaldo, eu disse na ocasião que lhe tínhamos concedido a nossa licença. Depois considerei que tal não houve; deu-se equívoco de nossa parte. Mas não podíamos voltar atrás, sem quebra de nossa palavra; e pois ficou sendo verdade que eu consenti na sua viagem.      Campelo fitou no semblante do rapaz um olhar, que ia sublinhar sua palavra.      — Esta circunstância fortuita nos privou de usar da severidade precisa para reprimir a desobediência a nossas ordens; e desta arte poupou-nos um desgosto, pois Arnaldo sabe quanto prezamos o filho daquele que foi nosso vaqueiro e amigo, o bom Louredo, que Deus tenha em sua santa paz.      Arnaldo travou da destra do capitão-mor e beijou-a com fervor, estreitando-a ao seio. Esquivou-se aquele à efusão.      — Esperamos que não aconteçam mais faltas como esta, que nos ponham na dura necessidade de esquecer a afeição que nos merece. Sabe, Arnaldo, que lhe destinamos o lugar que serviu seu pai, de nosso primeiro vaqueiro. Só demoramos a realização desta vontade, enquanto não completava Alina os dezoitos anos, para que tivesse uma boa carreira, capaz de entender com o serviço da queijaria e o trato das crias. Agora vamos avisar a D. Genoveva para que trate das bodas que se podem fazer na Páscoa.      O semblante do sertanejo manifestava o íntimo confrangimento d’alma ao ouvir aquelas palavras do capitão-mor. Foi com um tom seco e incisivo que retorquiu:      — O que posso asseverar ao sr. capitão-mor é que não serei nunca nem vaqueiro de fazenda, nem marido de mulher alguma.      — Há de ser!      — Outro Arnaldo sim; este não!      — Há de ser, e quem o diz é o capitão-mor Gonçalo Pires Campelo, insistiu o velho com a pachorra sonolenta que precedia as formidáveis explosões de sua cólera.      O primeiro impulso de Arnaldo foi desabrir-se contra a resolução que o velho acabava de anunciar com a fórmula solene da vontade inabalável. Mas ele queria e venerava aquele velho com amor de filho. Reservando-se para defender mais tarde e no momento preciso sua liberdade, conteve-se nesta ocasião. Se opusesse à tenacidade do fazendeiro seu caráter indomável, o choque havia de ser terrível.      Embora não esperasse evitar o rompimento, todavia seu desejo era afastá-lo quanto fosse possível, e muito mais naquele momento em que tinha o coração ainda comovido pelas provas de afeição do velho.      Limitou-se o sertanejo a dizer:      — Sabe Deus o que será.      — Com ele o deixo, e rogue-lhe, Arnaldo que o faça um homem para honrar a memória de seu pai. XIV DESOBEDIÊNCIA        O capitão-mor encaminhou-se para a casa. Ao deitar o pé no primeiro degrau do pórtico, voltou-se e gritou ao sertanejo que já descia a encosta:      — Torne cá, Arnaldo.      O mancebo acercou-se outra vez do terreiro.      — Diga-me onde anda o velho Jó, que deitou fogo ao mato da fazenda, na tarde de nossa chegada.      Arnaldo teve um sobressalto. A tremenda colisão que ele evitara poucos momentos antes apresentava-se sob outra face.      — Asseguro ao senhor capitão-mor que não foi o velho Jó quem deitou fogo ao mato.      — Sabemos do contrário.      — Juro se for preciso.      — Não basta um juramento suspeito, pois o velho é seu camarada; são precisas provas que destruam a acusação.      — Quem o acusa? Eu respondo por ele; o sr. capitão-mor não confia em minha palavra? disse o mancebo ressentido.      — Sabemos que Arnaldo é pessoa de bem e de verdade; e prestamos a maior fé ao seu depoimento. Mas todas as vozes se unem para lançar ao velho Jó a culpa do fogo; e nós não podemos por uma simples asseveração desprezar tantos testemunhos e dispensar a devassa de um caso de aleivosia que por sua gravidade demanda punição exemplar, a fim de que se não repita, e ponha em risco as vidas tão preciosas de nossa esposa e filha. Sem falar do desprezo das ordens terminantes que temos dado.      — Aleivosia houve, sr. capitão-mor, porém não foi Jó quem a cometeu, nem teve parte ou ciência dela.      — Que assim fosse... Ele que se apresente e confie de nossa justiça, que não lhe faltará, como jamais faltou aos que a ela recorreram.      Calou-se Arnaldo. Tinha fé na retidão do capitão-mor; mas também conhecia seus rigores e escrúpulos. Que provas podia exibir contra a suspeita geral corroborada pelo testemunho de todos os embusteiros, de quem era o velho malquisto?      Ele sabia a verdade; mas como comunicá-la a outrem, quando não tinha dela mais documento do que um rasto, àquela hora já apagado? Demais, para desviar de Jó a imputação, era necessário lançá-la a Aleixo Vargas, o autor da maldade.      Campelo observava a perplexidade do sertanejo e cravando nele os olhos interrogou:      — Arnaldo sabe onde está o velho Jó?      — Sei, sr. capitão-mor, respondeu o mancebo com a voz firme e sustendo francamente o olhar do velho.      — Vai dizer-nos aonde; ou vai trazê-lo à nossa presença para evitar aparato de prisão e suspeita de fuga.      — Nem uma nem outra cousa posso eu, meu senhor.      — Por que não pode?      — Não sou denunciante, nem esbirro.      — Mas é um rapaz estonteado. Manda-lhe o capitão-mor Gonçalo Pires Campelo...      Arnaldo interrompeu-o.      — Por Deus e por sua filha, a quem o senhor mais quer neste mundo, peço-lhe que me ouça primeiro, sr. capitão-mor.      Campelo reteve-se e disse:      — Fale, que ouviremos.      — Minha vida lhe pertence, sr. capitão-mor, já lho disse. Se lhe apraz, pode tirar-ma neste momento, que não levantarei a mão para defendê-la, nem a voz para queixar-me. Essa ordem, porém, que vossa senhoria quer dar-me, se meu pai ressuscitasse para mandar-me cumprí-la, eu lhe diria: “não! ” Rogo-lhe, pois, pelo que tem de mais caro, que não exija de mim semelhante sacrifício, para não me colocar na dura necessidade de o recusar.      — Atreve-se a desobedecer-nos? disse Campelo, contendo a borrasca prestes a desabar.      — Se vossa senhoria obrigar-me.      — Pois manda-lhe o capitão-mor Gonçalo Pires Campelo que vá imediatamente buscar o velho Jó e trazê-lo aqui à nossa presença.      O velho proferiu estas palavras com a solenidade de que ele costumava revestir-se nas ocasiões graves, e com o olhar que fazia tremer a vista aos mais valentes.      Arnaldo, em cujo semblante perpassou uma sombra de melancolia, levantou a cabeça e cruzou o olhar sereno com o irado lampejo do velho:      — Ao senhor capitão-mor Gonçalo Pires Campelo, digo-lhe eu, Arnaldo Louredo, que não!      O fazendeiro estendeu a mão para travar o braço do mancebo; porém este retraiu-se de um salto e colocou-se em distância.      — Como amigo, podia fazer de mim o que bem quisesse. À força, não!      Foi então que a ira terrível do velho fez explosão, estalando como a cratera de um rochedo vulcânico ao arremessar a lava.      — Agrela!      Este brado que ele repetiu três vezes uma sobre outra abalou os ares, estremecendo a casa e reboando pelos ecos da montanha.      O ajudante, que já vinha aproximando-se, acudiu e o terreiro encheu-se de homens d’armas, trabalhadores e escravos, que haviam corrido ao brado do fazendeiro. Todos eles tinham avistado de longe o capitão-mor, que se voltara para chamar o ajudante, e o Arnaldo em pé junto ao banco da oiticica.      — Agarre-me este atrevido! gritou Campelo ao Agrela que saía a seu encontro. Quede?      Ao voltar-se o capitão-mor não vira mais Arnaldo e debalde buscou-o com a vista.      — Eu o vi, acudiu Agrela, perto deste banco.      — Onde meteu-se então?      — Daqui não saiu que também nós o enxergámos ali, e ninguém o viu passar, observou Manuel Abreu.      — Procurem-no! bradou novamente Campelo, em um segundo acesso de cólera.      Arnaldo tinha-se efetivamente sumido, e de uma maneira incompreensível. Visto por todos que haviam primeiro acorrido e que asseguravam ainda tê-lo encontrado no terreiro, desaparecera de repente como uma sombra que se houvesse dissipado.      Entre os que se cansavam na pesquisa estava o João Coité que disse com um ar triunfante:      — Não querem acabar de convencer-se que o capeta do rapaz é feiticeiro!      Já a esse tempo haviam saído ao terreiro D. Genoveva e a filha, inquietas pela irritação do fazendeiro, cuja causa vieram a saber ali, e muito as penalizou, principalmente pela razão da Justa.      Nenhuma delas, porém, se animava naquele momento a falar ao capitão-mor que passeava de um para outro lado, pensando no desaparecimento de Arnaldo.      Veio Agrela comunicar a inutilidade da pesquisa.      — Ele não está aqui e também não saiu, porque além de não o ter ninguém visto fugir, não há rasto nem vestígio de sua passagem.      O terceiro acesso de ira foi ainda mais terrível que os outros:      — Pois vão desencová-lo ainda que seja no inferno e tragam-no vivo ou morto. O capitão-mor Gonçalo Pires Campelo não seja dono da Oiticica, nem pise mais a soleira de sua porta, se...      Não acabou o velho de proferir o formidável juramento, que fez tremer quantos o escutavam. D. Flor alçando-se para cingir o pescoço do pai, com a mão mimosa fechou-lhe a boca murmurando-lhe ao ouvido:      — Por sua filha, que bebeu o mesmo leite que ele, não jure, meu pai.      O velho quedou-se um instante, ao cabo do qual travando a mão de D. Flor caminhou com ela para a casa. Chegado a um aposento interior onde ninguém o podia ver, desabafou sua ternura pousando-lhe na face um beijo. Depois vieram ao encontro de D. Genoveva, que os chamava para o almoço.      Não tardou que aparecesse a Justa, aflita com o que tinha acontecido e ainda mais com as conseqüências que daí podiam resultar. Faltando-lhe o ânimo para aparecer naquela ocasião ao capitão-mor, esperou que saíssem da mesa.      — Que foi o que aconteceu, meu Jesus de minha alma? disse a sertaneja, correndo para D. Flor. Não foi senão castigo, minha filha.      — Castigo de que, mamãe Justa?      — Do pecado da soberba em que eu caí esta manhã enchendo-me daquele filho, e da proteção de Nossa Senhora da Penha de França. Nunca a gente se deve gabar do favor de Deus e dos Santos; mas deve-se fazer ainda mais humilde para merecer a sua graça. Foi o que me ensinou o sr. padre Teles e eu não fiz caso, para agora ser bem castigada.      — Quem pecou por soberba não foi você, Justa, mas seu filho que chegou a desobedecer ao sr. Campelo, cousa que até hoje nunca se tinha visto nesta fazenda, disse D. Genoveva.      — Como isto foi, minha Mãe Santíssima, é que eu ainda não sei! Ele que adora o sr. capitão-mor, e daria a vida para serví-lo, como é que havia de faltar-lhe com o respeito? Só se foi alguma tentação do inimigo!      — Ou estouvamento de rapaz, que é o mais certo, tornou D. Genoveva.      — Arnaldo sempre foi de gênio arrebatado, disse D. Flor; mas são uns ímpetos que passam logo, porque ele tem bom coração.      — E agora, senhora dona, o que vai ser de meu filho, se não me valer com sua intercessão e mais a de meu querubim?      — O sr. Campelo, você bem sabe, Justa, quando diz uma cousa há de se fazer por força; ninguém o arreda dali. O melhor é você ir ter com seu filho e trazê-lo à presença do meu marido para pedir perdão da desobediência e cumprir com o que ele mandar. Assim conte que não lhe acontece nada, porque ele era muito amigo do defunto Louredo e também de seu pai.      — Pois eu vou fazer o que me diz a senhora dona. Agora onde o acharei, a esse filho de meus pecados?      D. Flor sorriu-se.      — Manda mamãe bebé procurá-lo, que ela dá com ele.      — É mesmo!      Foi-se a Justa. D. Genoveva tornou às lidas da casa, que depois de tão longa ausência reclamava mais que nunca o seu governo, para voltar ao arranjo e ordem em que ela costumava trazê-la.      Flor tinha destinado essa manhã para abrir seus baús e tirar os enfeites e galanterias de que a tinham acumulado, durante a estada no Recife, a ternura de sua mãe e a generosidade do pai.      Para ajudá-la nessa tarefa e gozar do prazer de admirar aquelas bonitas cousas, chamou Alina; e ambas dirigiram-se à direita do edifício, onde ficavam seus aposentos.      Havia de ser então mais de nove horas da manhã. O sol, ainda ardentíssimo apesar dos anúncios do inverno, dardejava no céu do mais puro azul, em cuja imensidade não se descobria nem um esgarço de nuvem ou tênue vapor. Majestosa serenidade do clima tropical, em que aliás se ostenta a pujança dessa natureza em repouso, e se pressente a violência de suas comoções, quando percutida pela tempestade.      Já a alegria e animação que sempre traz a manhã nessa estação ardente, ia-se dissipando; e começava a calma da soalheira, que infunde no sertão indefinível melancolia. XV A CAVALHADA        O camarim ricamente alcatifado à moda do tempo era esclarecido por uma janela que abria para o terreiro, e da qual se descortinava ao longe a mata a cingir as faldas da serra.      As duas moças, reunindo as forças e galhofando da própria fraqueza, tinham conseguido, depois de muitas risadas, arrastar para o meio da casa um baú da Índia, coberto de marroquim amarelo e cravejado de tachas de prata.      Aberto o cadeado e virada a tampa, D. Flor sentou-se à frente em um estradinho baixo forrado de veludo, e Alina ajoelhou-se ao lado com os olhos cheios de prazer e curiosidade.      Da rnesma idade que a filha do capitão-mor, e também formosa, tinha essa moça o tipo inteiramente diverso. Era loura, de olhos azuis, e corada como uma filha das névoas boreais.      Foi ela talvez um dos primeiros frutos dessa anomalia climatológica do sertão de Quixeramobim onde, sob as mesmas condições atmosféricas, se observa com freqüência e especialmente nas moças, aquela notável aberração do tipo cearense, em tudo mais conforme à influência tropical.      Alina era filha de um parente remoto de D. Genoveva. Ficando órfã em tenra idade, o capitão-mor, a pedido da mulher, a tinha recolhido com a mãe viúva, prometendo educá-la e arranjá-la.      A primeira parte dessa promessa o fazendeiro já a tinha cumprido, repartindo com a órfã a mesma educação que dera à sua filha querida. Quanto ao resto havia quem afirmasse que ele destinava Alina para o Arnaldo, e só esperava que a moça completasse os dezoito anos.      D. Flor tirou de dentro do baú galanterias de toda a sorte, das mais finas e custosas que então se vendiam nas lojas e tendas do Recife, onde ainda se mantinham os hábitos de luxo oriental com que as colônias do Brasil ofuscavam a metrópole.      Alina soltando gritozinhos de prazer, não achava expressões para manifestar sua admiração; com os olhos e a alma cativos do objeto que D. Flor lhe havia passado, deixava-se ficar em êxtase, até que outra louçainha a vinha disputar por sua vez.      Já a tampa do baú estava cheia de estofos que Alina aí fora arrumando, depois de os admirar, quando D. Flor, encontrando uma comprida caixa coberta de primavera que procurava, ergueu-se com ela.      — E este vestido, Alina? Quero saber o seu gosto.      D. Flor tirara de dentro da caixa uma peça de escarlatim, e desdobrando o lindo estofo de seda arrugou-o com a mãozinha faceira, e deixou-o cair da cintura como o folho de uma saia.      — Que maravilha, Flor! exclamou a órfã cruzando as mãos.      — Quanto mais quando estiver no corpinho gentil de certa pessoa que eu conheço!      — Não é seu? perguntou Alina pesarosa.      — Em mim, não ficaria tão bem como na dona. Quer ver?      D. Flor levou Alina surpresa diante do trumó e aí envolveu-a nas dobras do estofo carmesim * .      — É para mim., Flor?      — E para quem mais podia ser, menina? Cuidou então que todo este tempo, no meio de tantas festas, não me tinha lembrado de si, ingrata?      — O bem que você me quer, Flor, eu sei; mas eu é que não mereço estas lindezas.      — Merece meu coração que é maior preciosidade do que todas as galas do mundo, respondeu D. Flor sorrindo-se.      As duas amigas e companheiras de infância abraçaram-se com efusão e encheram-se mutuamente de carícias. Quando acabaram de desafogar sua ternura, a filha do fazendeiro tornou ao baú, deixando a outra ainda em contemplação diante do estofo de seda desdobrado sobre o trumó.      Não era admiração unicamente o que sentia Alina: era quase adoração, mas inspirada pela linda tela, em cujo brilhante matiz revia porventura naquele instante o resplendor dos sonhos de sua imaginação.      — Está vendo este listão, Alina? disse D. Flor, voltando-se para mostrar o objeto.      — Como é bonito!      — Fica-me bem?      — Fica uma jóia. Com ela você parece uma princesa encantada, Flor.      Alina tinha razão. A faixa de chamalote azul que a moça acabava de passar a tiracolo, prendendo-a ao ombro direito com o broche de ouro, dava ao seu talhe airoso um porte regíneo.      — Já leu? perguntou D. Flor mostrando com a ponta do dedo as letras bordadas na fita.      — À MAIS FORMOSA, disse Alina soletrando.      Esse era efetivamente o dístico lavrado a fio de ouro em uma e outra banda da faixa de chamalote.      — Foi uma sorte da cavalhada, disse a moça.      — Conte, Flor.      As duas meninas acomodaram-se nos poiais da janela.      — De todas as festas que vi no Recife, as mais luzidas, foram as que se deram em regozijo pela chegada do novo governador D. Antônio de Menezes, conde de Vila Flor.      — Você viu o conde, Flor? Que homem é? perguntou a linda sertaneja, para quem ver um conde era quase ver o rei.      — Um fidalgo de nobre parecer, como meu pai. Fizeram-se muitos folguedos e aparatos em honra sua; nenhum, porém, como a cavalhada. Foi mesmo no largo do Palácio. Armaram uns palanques muito vistosos com seus toldos de sedas amarelas e carmezins em redor da teia guarnecida de arcos e galhardetes de todas as cores.      — Como havia de estar chibante!      — Muitas donas, já se sabe, e as filhas todas com suas galas mais ricas...      — Mas a fermosura era você, Flor, que enfeitiçou com esses olhos todos os cavalheiros, e até príncipes que lá houvesse.      — Deixe-me contar, menina, observou D. Flor com um gracioso amuo: senão acabou-se a história.      — Estou ouvindo, princesa.      — Já os palanques estavam apinhados de damas e cavaleiros, quando chegou o conde governador, que deu o sinal para começarem os jogos. Então entraram, cada uma de seu lado, duas quadrilhas adereçadas com roupas muito lindas, uma de verde e amarelo, que era a dos pernambucanos, e outra de encarnado e branco, que era a dos lusitanos. Correram primeiro as lanças; depois jogaram as canas e alcanzias, fazendo várias sortes como costumam.      — Assim não vale, Flor; deve contar tudo como foi.      — Não se lembra você, Alina, das cavalhadas que se deram, fazem dois anos, no Icó, por ocasião da festa? Pois foi a mesma cousa, só com a diferença que lá no Recife eram mais ricas, e os cavalheiros tinham outro garbo e gentileza.      — Mas qual das duas quadrilhas ganhou? Você não disse.      — A pernambucana, menina; não tinha que ver. Mas a outra disputou-lhe a palma com muita galhardia, que a todos mereceu grandes louvores. Veio depois o jogo das argolinhas e então os cavalheiros reunidos em uma só banda correram três vezes. Eu recebi um anel que me ofertou na ponta de sua lança um dos vencedores...      — Gentil cavalheiro? perguntou Alina vivamente.      — Dos mais guapos que lá se apresentaram. Meu pai veio a saber que era o capitão Marcos Fragoso, filho do coronel Fragoso, que foi nosso vizinho.      — O dono da fazenda do Bargado. Mas o filho não mora aí.      — Não; tem outras fazendas para as bandas do Inhamuns; mas parece que vive mais no Recife.      — E a argola que ele ofereceu-lhe foi esta, Flor? perguntou Alina, mostrando um aro de ouro preso ao atacador do listão.      — Esta? respondeu a moça faceiramente. Esta é outra história. Foi um caso que a todos causou surpresa.      — Na cavalhada mesmo?      — Sim; foi a última sorte. Num mastro que estava erguido para esse fim no meio da praça, suspenderam de um fio de seda este argolão de ouro, com as fitas a voar como se fossem galhardetes. Era o prêmio mais invejado por todos os cavaleiros para terem o orgulho de o ofertar à dama de seus pensamentos e porisso também a proeza demandava maior esforço e destreza, pois além de ficar o argolão muito alto, com o tremular das fitas sopradas pelo vento estava em constante agitação.      — E eu já sei quem ganhou! disse Alina.      — Sabe você mais do que eu, menina.      — Como então?      — Escute. Os cavalheiros armaram-se de umas lanças finas, muito compridas para poderem chegar ao tope do mastro, e ainda assim era preciso que se erguessem sobre os estribos para alcançar o alvo. Da primeira investida nenhum tocou na argola, nem da segunda: e de ambas elas, muitos dos campeões no ímpeto de mostrar sua proeza, levantaram-se tanto dos arções, que rolaram em terra.      — Coitados! disse Alina a rir.      — Na terceira investida poucos restavam; e dentre estes, o mais esforçado e brioso era o capitão Marcos Fragoso...      — Eu já esperava!      — Por que, menina?      — Pois não foi ele que primeiro lhe ofereceu a argolinha?      — Que tem isso?      — Tem que o cavalheiro de D. Flor por força que havia de ser o mais brioso e esforçado de quantos lá estavam.      — E se fossem dois os meus cavalheiros?      — Deveras?...      — Foi o que aconteceu. O Marcos Fragoso que ia na frente, com um bote certeiro enfiou o argolão na ponta da lança.      — Bravo!      — Mas ao mesmo tempo outro cavaleiro que vinha contra ele à disparada, também com a lança em riste, enfiava o argolão pelo outro lado, de modo que os dois ferros ficaram atravessados em cruz.      — E esse cavalheiro, quem era?      — Não se soube. Via-se que não era dos campeões, pois estava com trajo de cidade; e além disso tinha a cara amarrada com um lenço que lha cobria toda, deixando apenas a descoberto os olhos, por baixo da aba do chapéu.      — Que bioco!      — Houve quem visse o embuçado sair do meio do povo, pular na teia, apanhar a lança no chão, saltar na sela de um cavalo desmontado que passava, e correr sobre o mastro, onde chegou justo no momento em que o Fragoso ia tirar o argolão, e para lho disputar.      — E o que sucedeu?      — Os dois campeões forcejaram cada um de seu lado para arrancar o argolão, mas não o conseguiram. Foi então que o desconhecido correu sobre o seu contrário e arrebatou-lhe a lança da mão. Todos aplaudiram a façanha, menos o Fragoso que ficou passado no meio da praça, enquanto o vencedor, chegando ao palanque onde eu estava apresentou-me o argolão na ponta das duas lanças, repetindo — “À mais formosa”.      — E você, Flor, o que fez?      — Eu, menina, não sabia o que fizesse de contente e ao mesmo tempo acanhada que fiquei, vendo todos os olhos fitos em mim. Foi minha tia D. Catarina, que recebendo o listão o passou pelo meu ombro, com o que redobraram os aplausos à proeza do desconhecido. E acabou-se a história; que eu não vi mais nada, nem dei por mim desse momento em diante até que tornámos à casa.      — E o desconhecido?      — Ouvi depois que desaparecera assim como viera, de repente, antes que o pudessem descobrir; e não se soube mais dele.      — Mas você não desconfiou quem seria? Pois pelo modo parece que era pessoa conhecida.      — Quem podia ser, menina? E como havia eu de suspeitar?      — Pela voz. Ele não lhe falou?      — Três palavras.      — Pelo jeito do corpo, e modo por que montava a cavalo. Não reparou?      — Naquele instante, entretida como estava com a festa, não me lembrava de mais nada.      Alina calou-se um instante sob a preocupação da idéia que lhe acudira ao espírito, e depois inclinou-se para falar à companheira com a voz submissa e tímida expressão.      — Não se parecia com Arnaldo?      — Quem, Alina? O embuçado?      Alina confirmou com um gesto.      — Que lembrança! tornou D. Flor com surpresa.      — É porque você não sabe que Arnaldo desapareceu da fazenda no mesmo dia em que o senhor capitão-mor partiu.      — Sei, que já me contou mamãe Justa. Arnaldo foi à Serra Grande atrás de uns barbatões.      — Isto é o que ele diz.      — Mas, menina, que razão tinha ele para esconder-se?      — Não sei, Flor, respondeu Alina esquivamente.      A filha do capitão-mor não insistiu, e divagando os olhos pela floresta, ficou pensativa enquanto Alina inclinando a fronte absorvia-se também de seu lado em íntimas reflexões. XVI O VIZINHO        Um tropel de animais que ressoou perto de casa tirou as duas meninas de sua distração.      Ambas, impelidas por igual movimento de curiosidade, debruçaram-se à janela e retraíram-se tomadas de surpresa pelo que viram.      Luzida quadrilha de cavalheiros acompanhados de seus pajens acabava de parar no terreiro. Eram todos mancebos, bem parecidos e trajados com o apuro e gala que então usavam ainda mesmo no sertão, as pessoas de grandes posses.      O Agrela, que fora prevenido da aproximação dos forasteiros desde que de longe os tinham avistado, saíra a recebê-los.      — Olhe, Alina, aquele mais alto, que tem a casaca de seda açafroada. Sabe quem é?      — O Fragoso, de quem você falava pouco há? *      — Ele mesmo.      — É um galante fidalgo.      Nesse momento o mancebo avistando as moças fez com o chapéu profunda saudação a D. Flor, que respondeu confusa e recolhendo-se da janela.      — Que virá ele fazer à Oiticica? perguntou ingenuamente a filha do fazendeiro à sua camarada.      — Não adivinha, Flor? disse Alina sorrindo.      — Eu não, menina.      — Dí-lo a cantiga: Saudades que me deixaste, Saudades me levarão. Aonde foram-se os olhos, Vai após o coração .      D. Flor ouvindo a copla que Alina cantarolou à meia voz com ar malicioso, correu a ela para fazer-lhe cócegas, e retribuindo-lhe a amiga, desataram ambas a rir da mútua travessura.      Entretanto o capitão-mor Campelo, saindo ao patamal * , convidava os hóspedes a entrarem. Adiantou-se o mancebo, que vestia casaca de seda cor de açafrão, e saudou o fazendeiro com estas palavras:      — O capitão Marcos Fragoso, de jornada para sua fazenda do Bargado com estes amigos que lhe fizeram o obséquio de sua companhia, não podia, passando a primeira vez pela Oiticica, faltar à cortesia de saudar o sr. capitão-mor Gonçalo Pires Campelo, como vizinho, e ainda mais como filho de um velho amigo seu, o coronel Fragoso.      — O capitão Marcos Fragoso e seus amigos serão sempre bem vindos à nossa casa, e nos darão prazer se quiserem receber o agasalho que lhe oferecemos de boa vontade.      — Era nossa intenção pedí-lo, para refrescar da calma; depois do que seguiremos para o Bargado, onde já deve estar a nossa comitiva, da qual nos separámos pouco há na encruzilhada.      Entrados na sala, o Marcos Fragoso designou ao capitão-mor seus amigos cada um por seu nome e indicações:      — Este amigo é o capitão João Correia, do terço do Recife; estoutro é o licenciado Manuel da Silva Ourém, de Lisboa, que veio visitar e conhecer nossos sertões; aquele é o alferes Daniel Ferro, filho do dono das Flechas nos Inhamuns, ambos meus parentes e vizinhos.      — Estão todos em sua casa, disse o capitão-mor, convidando-os a sentarem-se.      Depois de alguns cumprimentos dos recém-chegados e encarecimentos das excelências da Oiticica, por sua posição aprazível, granjeio das terras e boa casaria, o capitão-mor disse, retribuindo a cortesia:      — Vão os senhores ver também a fazenda do Bargado que é das mais belas deste Quixeramobim. No tempo em que ali morava o finado coronel Fragoso, poucas podiam competir com ela; mas depois que ele morreu tem estado ao desamparo. O sr. capitão Marcos não quis ser nosso vizinho como foi seu pai; os mancebos gostam mais da praça; não há que estranhar.      — Costumo demorar-me no Recife, é certo, senhor capitão-mor; mas tenho minha casa nas Araras, onde fico mais perto de meus parentes, que são todos de Inhamuns. Meu pai gostava mais do Bargado.      — E tinha razão.      — Não digo o contrário; foi ele de natural reconcentrado e amigo da solidão.      — Isso era. Em tantos anos que tivemos de vizinhança receberíamos dele três visitas, se tantas, observou Campelo.      — Eu que ali me criei nunca vim à Oiticica, porque ele não gostava de trato e comunicações que o tirassem de seus hábitos sertanejos.      — E como consumia o tempo neste deserto? perguntou o licenciado Ourém.      — Quanto a isto não falta em que ocupar-se um homem ativo, acudiu o Daniel Ferro.      — Basta a labutação da fazenda, acrescentou o capitão Fragoso. Se não acredita, Ourém, eu o emprazo para Bargado.      Voltando-se depois para o capitão-mor prosseguiu:      — Sabendo do desamparo em que vai a minha fazenda resolvi passar aí o inverno e vim com estes amigos assistir às vaquejadas. Durante a minha estada conto prover o necessário para tornar o Bargado ao estado próspero em que o deixou meu pai, que não é de razão se perca tão rica herdade.      Na continuação da prática veio a falar-se do Recife e das festas que houve pela chegada do Conde de Vila Flor:      — Nunca mais se descobriu quem foi aquele embuçado que se intrometeu no jogo d’argolinha? perguntou o capitão-mor.      — Oh! Ele terá o cuidado de sumir-se de minha vista, pois sabe quanto lhe sairia cara a graça! redarguiu Marcos Fragoso com arrogância de voz que mal encobria o vexame produzido pela alusão.      — Aquilo foi uma surpresa vil, acudiu o Ourém em abono do amigo. Se não fosse o imprevisto do ataque, nunca lograria o intruso arrebatar o argolão ao nosso Marcos Fragoso, que é campeão para maiores façanhas.      — Todos nós sabemos que é; mas também que o outro, o embuçado, não lhe fica após disso, não há quem possa duvidar. O mesmo repente do assalto, como ele o praticou, surdindo num relance não se sabe donde, e arremetendo como um raio, não é proeza para qualquer.      Esta observação partiu do alferes Daniel Ferro, que apesar de amigo e parente, não deixava de ter sua ponta de rivalidade com o Marcos Fragoso.      — Todos os dias a estão fazendo nossos vaqueiros, Daniel Ferro, sem que lhe mereçam nota, quanto mais os gabos que lhe dá agora.      — E que pensa, Fragoso, que nossos vaqueiros não seriam homens para pedir meças em jogos de destreza aos mais esforçados paladinos de outras eras? Por mim tenho que nunca Roldão, Lançarote, ou algum outro dos doze pares de França, estacou na ponta de sua lança um cavalheiro à disparada com tanta bizarria, como tenho visto topar um touro bravo na ponta da aguilhada.      — Lá isso é verdade, acudiu o João Correia.      — Certo que é; mas não se medem proezas de cavalheiros com agilidades de peões, tornou o Fragoso e continuou voltando-se para o capitão-mor com ar prazenteiro. O atrevimento do vilão não causou nenhum mal em suma, pois restituiu a prenda à pessoa a quem a destinei desde o princípio da cavalhada; e não foi senão o medo do castigo que o moveu a amparar-se com a boa sombra da sra. D. Flor, que mais santa guarda não podia dar-lhe sua estrela.      Marcos Fragoso ao entrar na sala, relanceara disfarçadamente a vista para as portas interiores, com o sentido de surpreender por alguma fresta os olhos curiosos que porventura dali estivessem espreitando.      Havia no fundo da sala, entre as portas do serviço, duas janelas gradeadas como o locutório dos conventos, e de que ainda se encontram amostras nas casas construídas pela gente abastada até princípios deste século.      Esse crivo miudíssimo, tecido de rótulas delgadas, servia para esclarecer o corredor de passagem, vedando ao olhar curioso do hóspede a vista do interior, mas permitindo às pessoas da casa esmerilhar o que ia pela sala.      Nem é de admirar se encontrasse na morada de nossos antepassados essa semelhança com os conventos, quando o teor da vida íntima tanto se parecia com a regra monástica, e as mulheres tinham no seio da família o mesmo recato das freiras.      Pareceu a Marcos Fragoso que por detrás da primeira das rótulas se haviam condensado umas sombras vagas, as quais ao proferir ele as últimas palavras se agitaram para logo dissiparem-se.      Suspeitara o mancebo que uma daquelas sombras era de D. Flor e porisso lhe dirigira com um olhar o galanteio, que afugentou por momentos o vulto curioso.      Não se enganara Marcos Fragoso. Eram efetivamente D. Flor e Alina que tinham vindo espreitar os hóspedes pela rótula, não só trazidas de impulso próprio, como também a recado de D. Genoveva, que as mandara escutar quem eram os forasteiros e qual motivo os trazia à Oiticica.      Era costume da casa, e não só desta como de todas as grandes fazendas, não deixar partir os hóspedes sem os regalar; e isso usavam os ricaços, não tanto por obséquio e satisfação dos estranhos, como principalmente por ostentação do fausto com que se tratavam.      Não perdiam ocasião de fazer alardo da suntuosa baixela de ouro e prata, de que especialmente se ufanavam, e na qual fundiam tal quantidade de metal precioso que chegaria em nossos tempos para levantar um palácio.      Logo que o capitão-mor saiu a receber com mostras corteses os hóspedes, D. Genoveva ordenou os aprestos necessários para o regalo, o qual em poucos instantes, e, como por arte mágica, estava servido sobre uma mesa coberta de tão ricas alfaias que lembravam os banquetes das Mil e uma Noites .      — Chama o sr. capitão-mor, disse D. Genoveva a um criado.      Este foi à porta da sala, abriu-a de par em par, e disse perfilando-se:      — Está na mesa.      O capitão-mor fez com a cabeça um gesto afirmativo que significava estar ciente, e voltou-se para os hóspedes:      — O senhor capitão Marcos Fragoso e seus amigos sem dúvida dão-nos o gosto de jantar na Oiticica; mas enquanto não chega a hora vamos tomar algum refresco.      — Se nos dá licença, ficámos de jantar no Bargado onde nos esperam, tornou o capitão Fragoso, que não queria abusar da hospitalidade, talvez para melhor usar dela mais tarde.      — Como queiram; não deixarão, porém, nossa casa sem bebermos um copo em honra da visita com que nos obsequiaram.      — Certamente que não faltaremos a tão grato dever.      À mesa não apareceram nem D. Genoveva, nem as duas moças. O capitão-mor unicamente, acompanhado de seu ajudante Agrela e de seu capelão, padre Teles, fez as honras do banquete.      Era meio-dia, quando os viajantes despediram-se do capitão-mor Campelo, depois de agradecerem a fidalga hospitalidade que tinham recebido. Montando a cavalo partiram, seguidos pelos pajens.      Quando transpunham o terreiro, o capitão Fragoso voltou-se de chofre e logrou seu intuito surpreendendo na janela as duas moças que estavam a espiar a cavalgada. O mancebo inclinou-se, cortejando-as com o chapéu.      Enquanto D. Flor respondia ao cortejo com polido recato, Alina, que se esquivara vergonhosa avistou de repente entre a ramagem das árvores, o vulto de Arnaldo, cujas feições tinham nesse momento sinistra expressão.      O sertanejo, do lugar sobranceiro em que se achava, de pé sobre a carcaça de um velho angico derrubado, fitava o olhar cheio de ameaças no capitão Marcos Fragoso. Quando o raio desse olhar perpassou pela janela, a moça estremeceu de terror, e não pôde conter um débil grito, que rompeu-lhe do seio.      — Que é? perguntou D. Flor voltando-se.      — Não é nada. Um susto à-toa.      — De que?      — Nem eu sei. Ali no mato...      — Alguma onça, como esta manhã?      — Sim; creio que foi.      Entretanto a cavalgada descia a encosta e desaparecia na volta do caminho.      Arnaldo viu-a passar imóvel, mas abalado por ardente emoção. Depois que perdeu de vista os cavalheiros, aplicou o ouvido aos rumores que ia levantando pelo caminho o tropel dos animais. Sua alma arrastada por uma cadeia misteriosa acompanhava aquele homem que viera perturbar-lhe a existência, e não podia desprender-se do elo a que estava soldada para sempre.      Quando afinal apagou-se o último ruído da cavalgada, Arnaldo vergou a cabeça ao peito e assim permaneceu longo trato, imerso em tristeza profunda, e acabrunhado por uma dor imensa, como nunca sentira. XVII A JURA        Absorto como estava, o sertanejo afastou-se maquinalmente da casa, na direção da serra.      Não tinha consciência do que se passava em torno de si; não via os objetos que o rodeavam, nem ouvia os rumores da solidão; mas guiava-o através da floresta o admirável instinto do filho das brenhas, esse sentido delicadíssimo que vela sempre e adverte ao vaqueano da aproximação do perigo, antes que os outros órgãos possam denunciá-lo.      Apesar de inteiramente alheio a si, o mancebo caminhava com extrema cautela, por entre o mato, como quem, receoso da batida ordenada pelo capitão-mor, tratava de escapar-lhe.      Da mesma sorte que os autômatos, obedecendo à pressão da mola que os põe em movimento, executam evoluções regulares, o corpo dos homens de têmpera vigorosa tem a propriedade de reter em si os impulsos da vontade e dirigir-se por essa norma, ainda quando a alma entra em repouso e abandona por assim dizer o invólucro de sua materialidade.      Ao passo que o mancebo vagava por entre a espessura, seu espírito debatia-se no turbilhão de sensações que o assaltara. Debalde tentou destacar uma idéia desse caos e refletir sobre o acontecimento, que lhe subvertera a existência. Como uma folha convolta pelo remoinho de vento, sua mente era arrastada por um tropel de impressões a que não podia subtrair-se.      Foi quando serenou esse primeiro alvoroto, que seu pensamento desprendeu-se, mas ainda confuso e desordenado. Tinha ele parado em frente de um arbusto morto e olhava-o com expressão compassiva.      — Eu era como esse angelim, que nasceu no outro inverno. Quando ele crescia e copava, não sabia que a seca havia de chegar e despí-lo das folhas, matando-lhe a raiz. Como ele, eu não vi a desventura que vinha roubar-me toda a minha alegria!...      “Cego que eu fui!... Pensei que este doce engano havia de durar sempre, sempre!...      Ao redor de mim tudo mudava. Os grelos que brotaram quando vim ao mundo, já estão árvores da mata. Os garrotes de meu tempo ficaram touros e morreram de velhice. Os poldrinhos com que eu brincava em menino cansaram de campear.      As bezerrinhas do ano em que saí a vaquejar com meu pai tornaram-se novilhas e delas nasceram outras, que produziram todo gado novo.      As ramas do maracujá que rebentam com as primeiras águas cobrem-se de flores; das flores saem os frutos que espalham na terra as sementes e das sementes brotam novas ramas, que por sua vez cobrem-se de flores, até que murcham e secam.      Tudo muda. Passam os anos e levam a vida. Mas ela, Flor, eu acreditava que havia de ser sempre a mesma, sempre solitária e sempre donzela, como a lua no céu, como a Virgem em seu altar. Eu a adoraria eternamente assim, no seu resplendor; e não queria outra felicidade senão essa de viver de sua imagem. Nenhum homem a possuiria jamais. Deus não a chamava a si, e a deixava no mundo unicamente para mim.”      Um riso amargurado cortou-lhe a meditação.      — E de repente apagou-se o encanto! Flor tem dezenove anos. Sua mãe casou-se dessa idade, e há de estar pensando no enxoval da filha. Noivos não faltam. Já apareceu o primeiro, esse capitão Marcos Fragoso. É moço, bem parecido, rico e fidalgo, pode agradar-lhe e...      Arnaldo estremeceu ante o pensamento que despontava, e arredou o espírito dessa idéia que incutia-lhe horror.      — Já uma vez, prosseguiu ele, tinha-me enganado. Quando brincávamos juntos, cuidava que havíamos de ser meninos toda a vida; que eu poderia sempre carregá-la em meus braços; e ela nunca me veria triste, que não me abraçasse. E um dia ficou moça; e eu, que era seu camarada, não fui mais senão um agregado da fazenda!...      Mas então ninguém veio roubá-la à casa onde nasceu, e a estes campos que nos viram crescer juntos. Eu a via a todas as horas e podia adorá-la de longe, como a santa da minha alma. Agora?... Vai casar-se; um homem será seu marido! E ela deixará de existir para mim! E eu não verei mais o anjo do céu que me consolava!”      Arnaldo retraiu-se como quem concentra as forças para soltá-las de arremesso.      — Não! exclamou ele com um gesto enérgico. Flor não pertencerá a nenhum homem na terra. Ainda que seja à custa de minha salvação eterna!      Proferida esta surda exclamação, arrojou-se pelo mato e momentos depois surdia na entrada da caverna, para onde quatro dias antes havia transportado o velho Jó.      Sentado em uma saliência do rochedo, com o corpo imóvel e hirto, com as pernas dobradas e estreitamente unidas ao peito, com os cotovelos fincados nos joelhos e a cabeça inserida entre os dois braços, o ancião parecia uma múmia indígena arrancada a seu camucim e ali esquecida.      Entretanto seu espírito andava longe, lá fora da caverna, perscrutando o que se passava. Nenhum rumor soava na floresta, que seu ouvido atento não distinguisse, para determinar-lhe a causa, e conhecer se era a queda de um fruto, a passagem de um animal, ou o farfalhar da brisa.      Ele percebera aos primeiros ruídos a aproximação do sertanejo, e o reconhecera antes que penetrasse na caverna. De um relance leu na fisionomia do mancebo, sem que suas pupilas extáticas se movessem nas órbitas.      Arnaldo parou na entrada, com os olhos fitos no velho: seu gesto denunciava uma hesitação rara em tão decidido caráter. Jó esperava que ele falasse.      — Vieste confiar-me um segredo, filho; eu escuto, disse afinal o velho.      — Vim para ver-te, Jó... respondeu o mancebo com uma reticência.      — Eu conheço os pensamentos dos homens, como tu, filho, conheces as manhas do gado barbatão. Teu passo era de quem vinha impaciente de chegar; e o motivo que te trazia assim pressuroso está aí dentro, e tu o escondes. Já duas vezes te veio aos lábios.      Não surpreendeu Arnaldo essa admirável sagacidade a que estava habituado, pois ao velho devia ele em grande parte a perspicácia de que era dotado.      — Queres saber o que me trouxe? Eu te digo.      Arnaldo aproximou-se do velho e pôs-lhe a mão no ombro:      — Tu que viveste longos anos, e conheces todos os segredos dos homens, deves saber também o que eu desejo.      — Fala; tudo quanto a desgraça ensina ao pecador, eu o sei.      — Se um homem quiser roubar-me o bem que me pertence, e que faz toda a minha felicidade, posso matá-lo, sem tornar-me assassino?      O velho Jó ergueu-se de chofre e completamente transfigurado. As cãs erriçaram-se no crânio e os olhos saltaram-lhe das órbitas.      — Por ouro, filho, não derrames nem uma gota de sangue de teu irmão; porque essa gota basta para manchar todo o tesouro e torná-lo maldito.      Travando das mãos do mancebo e conchegando-o a si, o velho prosseguiu:      — Não sabes o que é o ouro, filho? Oh! eu sei, que m’o ensinou o demônio da cobiça. É o sangue derramado pelo punhal do sicário, que vai esconder-se nas entranhas da terra e coalhar-se em ouro. Ao calor do corpo, esse coalho derrete-se, e o sangue tinge as mãos do homem. Porisso os alquimistas para fazer ouro ferviam sangue numa caldeira; mas eles não o tinham bastante, porque é preciso muito, muito sangue, para dar um queijo de ouro!...      Jó soltou uma risada alvar e continuou a desarrazoar; mas as palavras rompiam-lhe dos lábios roucas e desconexas, de modo que já não era possível distinguí-las, nem compreender-lhes o sentido.      Arnaldo estava afeito a estes acessos, pois não mostrou o menor abalo; e acompanhando os gestos do velho com um olhar de comiseração, esperou que findasse o desordenado e soturno monólogo.      Efetivamente foi Jó serenando e tornou à posição anterior, mas para soçobrar no abismo de recordações, que se abrira nas profundezas de sua alma.      — Jó! disse Arnaldo com império.      O velho ergueu a cabeça e fitou no mancebo a pupila baça, como um homem que emergiu das trevas.      — Jó! Queres ouvir?      — Fala.      — Não é ouro, nem riquezas, que eu receio perder; é outro bem e mais precioso.      — A tua alma? perguntou o velho cravando os olhos no mancebo.      — A minha alma, sim.      — Pecaste, filho?      — Não; minha mão está pura, mas duas vezes hoje ela escapou de manchar-se no sangue de meu semelhante. Uma vez foi para defender a vida do capitão-mor; devia ferir?      — Devias, filho. Quem com ferro fere, com ferro será ferido.      — A outra vez foi para defender-me a mim.      — Ameaçaram tua vida?      — Quiseram roubar-me o que mais amo neste mundo.      — Tua mãe?      — Não.      — Uma mulher?      — Sim.      — Os antigos cavaleiros tinham por timbre disputar a dama de seus pensamentos nos torneios e desafios, e o vencedor recebia em prêmio a mão da mais formosa. Esses tempos vão longe; agora não é mais com a espada e a lança que se rendem as donzelas.      — Em meu caso, tu que farias, Jó?      — Já não sou deste mundo.      — Mas outrora? Foste moço um dia: teu coração há de ter amado uma nmlher; nesse tempo de tua mocidade, que farias?      — Não me perguntes, filho, que não me lembro mais do que fui: pergunta a teu coração, que é moço, e vive; o meu está morto.      — Já perguntei; e ele respondeu-me.      — O que, filho?      — Não te direi, não; nem a mim mesmo eu tenho coragem de repetí-lo.      — Pensa em tua alma, Arnaldo.      — O que é minha alma sem a sua adoração, Jó?      Arnaldo demorou-se na caverna até a tarde, quando despediu-se do velho e ganhou a mata.      A essa hora já os acostados da fazenda que o capitão-mor enviara à sua procura, desenganados de encontrá-lo, ou tinham voltado a casa ou andavam longe a bater o mato. Não obstante, ele aplicou o sentido, para verificar se não havia cousa suspeita.      Percebeu então um rumor cadente que se aproximava como o som rijo e breve da pata de um animal no solo duro. Arnaldo conheceu quem era que o procurava e atinou com o motivo:      — É a mãe que soube e afligiu-se.      Tinha parado à espera. Com pouco surdiu dentre a ramagem a comadre, que chegando perto de seu filho de leite, levantou a pata dianteira para acariciá-lo; depois do que fitando nele os olhos, voltou a cabeça para trás na direção donde viera.      — Já sei, respondeu o rapaz afagando o pescoço da cabra; foi sua comadre que mandou chamar-me, e aí vem. Não é?      Fazendo um aceno ao inteligente animal Arnaldo foi ao encontro da mãe; esta que vinha perto correu a abraçá-lo, apenas o avistou.      — Jesus! Filho de minha alma! Que foi isto com o sr. capitão-mor, meu Deus? Uma cousa que nunca, nunca sucedeu, em dias de minha vida, nem de teu pai, havia de suceder agora contigo, por minha desgraça! Tu perdeste o teu bentinho? Não, aqui está. Então foi por que te esqueceste de rezar?      — Quando menos se espera, vêm os dias maus, sem que se ofenda a Deus. Nós vivíamos felizes há tanto tempo, mãe!      Arnaldo proferiu as últimas palavras com a voz comovida, e apoiou a fronte na face da cabreira, que lhe tinha lançado os braços ao pescoço para conchegá-lo a si.      — Graças à Virgem Santíssima, ainda se há de remediar tudo. Tenho fé na minha Senhora da Penha, ela que sempre me tem valido.      Ergueu Arnaldo a cabeça com gesto brusco e arrancou-se dos braços da mãe, para aplicar toda a atenção ao estrépido que lhe ferira o ouvido. A mãe sorriu com disfarce.      — Flor? interrogou o sertanejo em tom submisso.      Justa afirmou com a cabeça. XVIII DESENGANO        Arnaldo traspassou com o olhar a espessura da folhagem que lhe ocultava a formosura de D. Flor, e instintivamente retraiu-se com o enleio em que sempre o lançava a presença da donzela.      Justa o deteve, segurando-lhe o braço e apontando para dentro do mato.      — Ela falou ao pai. O sr. capitão-mor, tu bem sabes, não tem ânimo de recusar nada àquela filha, que é a menina de seus olhos. Então prometeu que, se hoje mesmo voltares arrependido à sua presença para suplicar o perdão de tua falta, ele esquecerá tudo.      Arnaldo atalhou a mãe com um gesto de enérgica repulsa:      — Não cometi nenhum crime para carecer de perdão, mãe.      Justa denunciou no semblante a estranheza que lhe causavam as palavras do filho:      — Pois não desobedeceste ao sr. capitão-mor, Arnaldo?      — Para desobedecer-lhe era preciso que ele tivesse o poder de ordenar-me que fosse um vil; mas esse poder, ele não o possui, nem alguém neste mundo. O sr. capitão-mor exigiu de mim que lhe entregasse Jó, e eu recusei.      — Mas, filho, o sr. capitão-mor não é o dono da Oiticica? Não é ele quem manda em todo este sertão? Abaixo de El-rei que está lá na sua corte, todos devemos serví-lo e obedecer-lhe.      — Pergunte aos pássaros que andam nos ares, e às feras que vivem nas matas, se conhecem algum senhor além de Deus? Eu sou como eles, mãe.      — Tu és meu filho, Arnaldo. Lembra-te do que foi para teu pai esta casa onde nasceste, e do que ainda é hoje para tua mãe.      — Os benefícios, eu os pagarei sendo preciso com a vida; mas essa vida que me deu, mãe, se eu a vivesse sem honra, meu pai lá do céu me retiraria sua bênção.      — Que vai ser de mim, Senhor Deus? exclamou a sertaneja na maior aflição.      — Sossegue, que nada há de acontecer. Tenho o meu bentinho, continuou Arnaldo a sorrir e tocando no seu relicário: não há mal que me entre, nem feitiço que me enguice. Adeus! De longe mesmo guardarei aqueles a quem eu quero bem, ainda que eles me queiram mal.      — Ouve, Arnaldo! disse a mãe buscando reter o filho. Eu te peço!      — Quando precisar de mim, mande sua comadre chamar-me.      — Não te vás, filho, que te perdes!      Justa enlaçou o colo do filho com os braços e exclamou voltando-se para o mato.      — Flor, ele não me quer ouvir!      As folhas agitaram-se, e instantes depois surgiu da verde espessura, como das cortinas de um dossel, o vulto gracioso de D. Flor, com as faces tocadas de leves rubores.      — Ele não quer ir, minha filha. Nem ao menos consente que eu, sua mãe, lhe peça e rogue. Fecha-me a boca, e logo com o nome do pai. Fale-lhe, Flor! Talvez a você, que sabe dizer as cousas, ele ouça! Eu sou uma pobre sertaneja e não sei senão querer bem a você e a este filho de minha alma.      A donzela aproximou-se do colaço, que a esperava atônito e pálido. Pousando-lhe a mão mimosa no ombro disse, voltando-se para a Justa e dirigindo sua resposta a ambos, mãe e filho.      — Ele vai!      O suave contacto desses dedos melindrosos bastou para abater a energia do ousado sertanejo. Ali estava ele agora tímido e submisso, não se atrevendo a balbuciar uma palavra, nem sequer a erguer a vista ao encontro dos olhos altivos que o dominavam.      D. Flor sorriu-se no meigo desvanecimento do poder que ela, frágil menina, exercia sobre essa natureza pujante; mas o assomo de faceirice passou rápido e não perturbou o nobre impulso de seu coração.      — Vim buscá-lo, Arnaldo, para levá-lo a casa, disse ela repassando a voz maviosa de um mago encanto. Não me acompanha? Ainda não lhe dei a lembrança que trouxe do Recife.      Arnaldo arrancou-se com esforço ao lugar onde estava, e murmurou promovendo o passo:      — Vamos!      Justa bateu palmas de contente.      — Eu logo vi que só você, Flor, era capaz de fazer o milagre!      — Pois eu sou a fada encantada! disse a moça, fazendo com este gracejo uma alusão aos brincos da infância.      Flor dirigiu-se a casa acompanhada pelos dois. Pouco adiante encontrou Alina com as escravas, que a ficaram esperando, enquanto ela acudia ao chamado da ama.      O olhar doce e melancólico de Alina fitou-se no semblante de Arnaldo, que nem pareceu dar por sua presença. O sertanejo ia completamente alheio de si, e preso do condão que o arrastava mau grado seu. Não tinha consciência do que fazia, nem já lembrava-se do sacrifício que exigiam de seus brios.      Irresistível devia ser a paixão que submetia assim a um caráter indomável e altivo ao ponto de rojá-lo na humilhação, ao simples aceno de uma mulher!      Ao sair da mata, Flor avistou ao longe, no terreiro, o capitão-mor, sentado à sombra da oiticica, ao lado de D. Genoveva. Voltando-se para Arnaldo, que a seguia maquinalmente, mostrou-lhe o vulto do fazendeiro.      — Lá está meu pai, que nos espera.      — Chegando diante dele, filho, ajoelha e pede perdão.      — De joelhos?... exclamou com voz surda e profunda o sertanejo, cuja alma entorpecida afinal sublevava-se.      Flor compreendeu a emoção de Arnaldo e quis aplacar-lhe a revolta dos brios.      — Eu ajoelharei também, disse ela com adorável meiguice.      Estas palavras, porém, bem longe de serenarem o ânimo do mancebo, ainda mais o alvoroçaram, confirmando a suspeita de que só com este ato de humildade obteria entrar de novo nas boas graças do capitão-mor.      — Nunca! bradou ele, retrocedendo.      — Arnaldo! disse D. Flor.      — Eu lhe peço, Flor, não exija de mim semelhante vergonha. Não posso, é mais forte do que a minha vontade. Se é preciso que eu ajoelhe, aqui estou a seus pés, mas aos pés de um homem, não. Morto que eu estivesse, as minhas curvas não se dobrariam.      — Não é um homem, Arnaldo, é meu pai, respondeu a donzela, erguendo a fronte com altiva inflexão.      — É seu pai, mas não é o meu, embora eu o respeite mais do que um filho.      — Venha, Arnaldo, insistiu a donzela fitando o olhar imperioso.      A alma do mancebo fascinada por este olhar debatia-se numa cruel perplexidade. Flor travou-lhe do pulso e levou-o sem resistência.      Quando, porém, a donzela subindo a encosta, assomou no terreiro, e que o vulto do capitão-mor destacou-se em frente, revestido de sua habitual solenidade, ouviu-se um grito sinistro como o que solta o gavião ao desabar da procela.      Arnaldo, no momento em que Flor largava-lhe o pulso para ir ao encontro do pai, de um salto arrojara-se para trás e desapareceu na mata próxima, antes que as pessoas presentes a esta cena voltassem a si da surpresa.      O capitão-mor, que se preparava para receber o rapaz e conceder-lhe finalmente o perdão já obtido pela ternura da filha, ergueu-se arrebatado pela cólera. Ao seu brado formidável acudiu Agrela com a escolta, e desta vez dirigidos pelo capitão-mor em pessoa, deram nova batida na mata à busca de Arnaldo.      Justa acreditou que desta vez o filho estava irremediavelmente perdido, e a própria D. Flor, apesar do império que tinha sobre a vontade do pai, não se julgava com forças para obter novamente o perdão de seu colaço.      Entretanto Arnaldo já ia longe. Muito antes que a gente da fazenda penetrasse na floresta, alcançara o lugar onde na véspera o tinha deixado Moirão, quando tão bruscamente dele se despedira.      Imitando o canto da sariema, o que era um sinal dado a seu cavalo para que o seguisse, o sertanejo aproveitando a frouxa luz da tarde foi no rasto do Aleixo, que aliás não tomara a menor cautela para disfarçá-lo.      Ao cabo de um estirão de caminho parou e observando pelo céu a direção do rasto, disse consigo:      — Não há que ver, está no Bargado. Eu o sabia. Corisco!      O inteligente animal acudiu ao chamado do senhor, que o montou mesmo em pêlo, e instantes depois corria pelo cerrado, como se trilhasse uma vargem aberta e descampada.      É um dos traços admiráveis da vida do sertanejo, essa corrida veloz através das brenhas; e ainda mais quando é o vaqueiro a campear uma rês bravia. Nada o retém; onde passou o mocambeiro lá vai-lhe no encalço o cavalo e com ele o homem que parece incorporado ao animal, como um centauro.      A casa da fazenda do Bargado ficava no meio duma chapada. De muito longe Arnaldo avistou os fogos que brilhavam no seio das trevas, pois já era noite fechada.      Chegando a um lanço de clavina, apeou-se o mancebo e deu senha ao cavalo para avançar no mesmo rumo. O Corisco, prático nessas empresas, agachado por entre o arvoredo, aproximou-se até dar rebate aos cães da fazenda, que partiram em matilha a acuá-lo.      No meio dos latidos, e dos gritos do vaqueiro a estumar os cães, ouviu-se uma voz cheia que dizia:      — José Bernardo, amigo, não maltrate a menina!      — Com certeza é a suçuarana, observou outra fala.      — Se fôssemos conversar com a rapariga. Topam?      — Depois da ceia, Aleixo Vargas!      Antes de ouvir o nome do Moirão, já Arnaldo o tinha reconhecido pela voz, o que não lhe causou surpresa; antes confirmara a sua conjetura.      Quando o Corisco recuando afastou a matilha para longe, o sertanejo que já havia tomado o lado oposto, acercou-se da casa com a cautela necessária para não ser pressentido. Era fácil empresa, pois o arvoredo prolongava-se até perto do terreiro.      Da sala principal, que abria para a varanda, escapava-se o rumor de falas alegres e de risos festivos, intermeados com o tinir dos pratos e o triscar dos copos.      Pela janela do outão pôde Arnaldo observar de longe o interior.      O capitão Marcos Fragoso banqueteava-se com seus hóspedes. As viandas já em parte consumidas indicavam que a ceia estava a terminar; e efetivamente os pajens não tardaram em servir o desser * , no qual entre os figos, passas e nozes do reino trazidas do Recife com a bagagem, figuravam grandes terrinas de coalhada, e os requeijões, frutos das primeiras águas.      Corria a prática viva e animada entre os quatro mancebos, que ao acompanhamento dos copos trocavam os remoques ou rebatiam-nos com a réplica pronta e chistosa. Jovens e amigos, esses corações, que não cuidavam de refolhar-se uns para os outros, estavam revendo-se nos semblantes e gestos com a franca expansão, natural aos convivas de uma mesa lauta, reunidos em alegre companhia, e excitados pelas copiosas libações de vinhos generosos.      Se Arnaldo conhecesse a cidade como conhecia o deserto e seus habitantes; se estivesse habituado a observar a fisionomia do homem com a perspicácia do olhar que penetrava a mais basta espessura, e investigava o semblante, o gesto, o porte da floresta; com certeza adivinharia o que falavam entre si os quatro mancebos.      Mas, embora suspeitasse do assunto do colóquio, não podia atinar com o rumo que este levava, nem portanto saber o que devia esperar. Mortificava-o isso; pois fora precisamente para desde logo desenganar-se que ele tentara essa empresa, e custava-lhe tornar sem haver alcançado seu intento.      Não podia aproximar-se mais do edifício por causa do clarão de um fogo que estendia pelo terreiro além uma faixa de luz.      Junto desse fogo estavam sentados sobre couros o vaqueiro e outra gente da fazenda, com Aleixo Vargas; todos ocupados em despachar os largos tassalhos de carne, os quais iam cortando à vontade da carcaça de uma vitela, ainda enfiada na estaca de braúna que lhe servia de enorme espeto, e estendida por cima do brasido que a estava acabando de assar.      A rês fora morta à chegada do dono da fazenda. Uma banda, tinham-na cortado para cozinhar; a outra, aí estava de espetada. Dela haviam tirado o lombo para a ceia dos fidalgos; e do resto pretendiam os acostados dar conta naquela mesma noite, o que sem dúvida conseguiriam com a formidável colaboração de Aleixo Vargas.      Nesse momento os cães, sentindo novamente rumor no mato, investiram a latir:      — Que é lá isso? gritou o vaqueiro erguendo-se. Temos novidade?      — É a bicha que volta.      — Pois então? Não há de cear também? Deixa a outra, amigo José Bernardo.      A súcia levantara-se para seguir o vaqueiro ao outro lado, curiosa de saber o que havia. Desse breve instante aproveitou-se Arnaldo para atravessar o terreiro e coser-se à varanda.      Pôde então escutar o resto da conversa.      — Simule quantas razões lhe aprouver, primo Fragoso, é debalde: não me convence de que o mais chibante casquilho do Recife se lembrasse de vir a este sertão ferrar bezerros e comer coalhada escorrida, que aliás não é mau petisco.      — Eu estou com o Ourém, disse o capitão João Correia; não lhe acho muito jeito de fazendeiro, cá ao nosso amigo.      — Bom caçador de boi, é ele, observou o Daniel Ferro. Quando está nos Inhamuns seu divertimento é atirar no gado barbatão.      — E ande lá que não há de ser má caçada.      — Excelente! afirmou Fragoso.      — Mas então, Ourém, que feitiço é este que traz o nosso amigo encantado por estas paragens?      Marcos Fragoso preveniu a réplica:      — Já que tamanho empenho fazem em conhecer a verdadeira tenção desta jornada, não a ocultarei por mais tempo, nem é de razão; pois a quem primeiro comunicaria resolução de tanta monta do que a amigos de minha maior estimação?      O mancebo reteve a palavra um instante, como para observar a surpresa que suas palavras iam causar nos companheiros e prosseguiu sorrindo:      — Um desses próximos dias far-me-eis a graça de acompanhar à Oiticica, onde irei pedir ao capitão-mor Campelo a mão de sua filha, a formosa D. Flor.      Esta comunicação foi recebida com bravos pelos companheiros.      — À gentil noiva! exclamou Ourém enchendo os copos.      — E à ventura de tão acertado himeneu!      Foi heróico o esforço que fez Arnaldo para conter-se ao ouvir o nome de D. Flor de envolta com tais efusões. Reagindo ao violento impulso que o arrojava contra aqueles homens, arrancou-se dali, e afastou-se precipitadamente.      De longe voltou-se.      Na sala, à claridade das lâmpadas, destacava-se o vulto elegante de Marcos Fragoso que se erguera da mesa.      O sertanejo murmurou:      — Roga a Deus que te livre desta tentação. XIX AO CAIR DA TARDE        Os borraceiros do Natal tinham continuado a cair por volta da madrugada; e o sertão de Quixeramobim, o mais formoso de todo o dilatado vale da Ibiapaba, vestia-se cada manhã de novas galas ainda mais brilhantes do que as da véspera.      A terra, que adormecia com o fechar da noite, já não era a mesma que despertava ao raiar do sol. Como se a houvesse tocado o condão de uma fada, ela transformava-se por encanto: e mostrava-se tão louçã e donosa que parecia ter desabrochado naquele instante, como uma flor do seio da criação.      Aí via-se realizada a graciosa lenda árabe dos jardins encantados, surgindo dentre os ermos e sáfaros areais à invocação de um nume benéfico. A gentil feiticeira dos nossos sertões é a linfa, que, descendo do céu nos orvalhos da noite e nas chuvas copiosas do inverno, semeia os campos de todas as maravilhas da vegetação.      Era por tarde.      O capitão-mor Campelo estava, como de costume, sentado em uma cadeira de alto espaldar, forrada de couro e colocada no largo patamal, que se prolongava de um e outro lado pelo alicerce, como um passeio.      O fazendeiro, terminado o jantar que naquele tempo era ao meio-dia, fazia regularmente a sesta até passar a força do sol, como ainda hoje se usa pelo sertão. Depois do que vinha sentar-se ali, no pórtico da casa, onde já achava a sua cadeira senhorial, trazida por um pajem.      Abrigado pela sombra do edifício que ia cair sobre o terreiro, entendia com os negócios da herdade e provia a tudo quanto dependia de suas ordens. Se era preciso, montava a cavalo, e transportava-se ao lugar onde se fazia necessária sua presença, qualquer que fosse a distância, e devesse embora voltar alta noite ou pela madrugada.      Em tudo isto, porém, não se afastava uma linha daquela gravidade metódica e pausada, que formava a compostura de sua pessoa e que ele julgava um dever imprescindível de sua importância e riqueza.      Nessa tarde logo ao sentar-se, despediu o capitão-mor o pajem para chamar a toda pressa o Inácio Góis, que servia-lhe de vaqueiro da fazenda desde a morte do Louredo, pai de Arnaldo, o qual tivera por muitos anos esse emprego.      Chegou o Inácio Góis quando o fazendeiro acabava de dar ordens a Manuel Abreu, o feitor.      — Que notícias nos traz da novilha, Inácio Góis? perguntou-lhe o capitão-mor de chofre.      — Qual, sr. capitão-mor, a Bonina da senhora doninha? disse o Inácio Góis embaraçado.      — A Bonina, sim; desde ontem que desapareceu e até agora ainda não deu conta dela. Que vaqueiro é um, Inácio Góis, que não sabe por onde lhe anda o gado?      — É uma cousa que não se explica mesmo, sr. capitão-mor. Já bati todo este matão, e nem sinal de novilha. Nunca se viu uma cousa assim. Faz a gente imaginar!...      — Não tem que imaginar, Inácio Góis; se amanhã cedo a Bonina não estiver no curral, ficamos sabendo que nosso vaqueiro só presta para curar bicheiras.      O Inácio Góis abaixou a cabeça, e retirou-se humilhado em seus brios de vaqueiro pelo remoque do fazendeiro. Outros, mais graduados e mais atrevidos do que ele, não ousavam afrontar o cenho do mandão de Quixeramobim.      D. Flor tinha assomado ao lume da porta, ainda a tempo de ouvir estas palavras.      — Não te aflijas, disse o fazendeiro voltando-se para a filha; que a Bonina há de aparecer até amanhã.      — Se Arnaldo estivesse aqui, já ele a teria descoberto, replicou a menina com um ligeiro enfado.      O capitão-mor ficara impassível, como se não ouvisse as palavras da filha e entre elas o nome de Arnaldo cuja revolta provocara por vezes nos últimos dias as explosões de sua cólera.      Um fenômemo singular se havia operado no espírito do dono da Oiticica. A mesma estranheza do fato inaudito de uma desobediência formal a suas ordens, atuando em sentido inverso, desvanecera a primeira e violenta impressão produzida pelo acidente.      Essa anomalia explica-se mui facilmente; era uma reação. Passada a comoção, o capitão-mor tornara ao seu natural, e na soberba do mando absoluto, que avassalava todo aquele sertão, nada mais natural do que abstrair-se da recordação importuna, a ponto de ter por impossível o acontecimento.      Assim nos dias anteriores evitara toda a alusão ao caso inexplicável; e quando agora a filha pronunciara o nome de Arnaldo, ele já se tinha por tal modo imbuído da incredulidade, que o ouvira sem abalo.      D. Flor admirou-se dessa indiferença, a qual era para surpreender após o formidável arrebatamento que três dias antes excitara no velho a última evasão do sertanejo. O límpido olhar da donzela buscou no semblante paterno a significação daquele gesto, e não achou ali senão a calma e serena expansão da força em repouso.      O capitão-mor erguera-se um instante, e observava além na várzea, que dilatava-se em volta da encosta, alguma cousa, que lhe excitara a atenção.      Desceu então a donzela ao terreiro e foi sentar-se nos bancos à sombra da oiticica, onde a acompanhou Alina, enquanto D. Genoveva tomava o seu lugar em uma cadeira rasa ao lado do marido.      O Agrela, que desde o aparecimento do fazendeiro na porta, aproximara-se como de costume para estar às ordens, conversava com o Padre Teles, a alguma distância, recostado ao socalco do alicerce.      Assim completou-se o painel de família que ordinariamente, fazendo bom tempo e não sobrevindo incidentes, observava-se no terreiro da fazenda da Oiticica à primeira hora da tarde, logo depois da sesta, quando o sol ainda forte não permitia o passeio aos vários pontos da herdade.      D. Flor parecia triste. A expressão já séria de seu formoso perfil estava nessa ocasião ainda mais nítida e correta. Era sempre assim. Quando a alma assumia-se em profundo recolhimento, as gentis feições, que ela animava em sua expansão, apresentavam uns tons puríssimos, como se fossem cinzeladas no mais fino jaspe.      Desde a véspera desaparecera do curral a Bonina, uma novilha de alvura deslumbrante, que entre outras o capitão-mor escolhera por sua beleza para dar à filha, e desta recebera o nome de uma flor predileta.      Este sumiço e ainda mais a circunstância de não encontrar-se o rasto da rês, o que fazia presumir a morte da mesma, eram sem dúvida a causa da tristeza da donzela; mas essa perda não bastaria para preocupar-lhe o espírito com tanta insistência.      D. Flor tinha bom coração; e sem dúvida alguma distribuia a sua afeição com os brutinhos, seus companheiros de solidão. Como em geral todas as moças, ela gostava de cercar-se desses confidentes discretos e alegres sócios de travessura.      Ela tinha amizade ao seu cavalo; gostava de ver e afagar os bezerrinhos e novilhas seus preferidos; fazia saltar as cabrinhas e erguerem-se direitas sobre os pés até a altura de seu rosto, para receberem uma carícia; queria bem às suas graúnas e sabiás; gostava de garrular com o seu periquito.      Mas as efusões de ternura, em que se derrama o coração afetuoso de outras moças, que fazem de um passarinho um idílio e de uma corça um romance, é o que não tinha D. Flor, não fria, mas esquiva e comedida na manifestação de seus sentimentos.      Seu pai inspirava-lhe profunda veneração, e sua mãe extremos de amor; entretanto esse afeto sincero, capaz da maior dedicação, apenas denunciava-se pela meiguice inalterável com que ela deixava-se adorar por esses entes queridos.      Acaso pressentia ela que não podia dar-lhes maior júbilo e felicidade do que essa de confiar-se ao seu amor? Talvez; mas era sobretudo efeito de índole. Sua alma delicada e altiva tinha um recato natural, que a resguardava, e impedia de abrir o íntimo seio aos olhos, inda mesmo dos que mais queria.      D. Flor afligira-se quando soube do desaparecimento da novilha; mas essa mágoa já se teria desvanecido, se não encontrasse alimento.      Quando um pesar qualquer nos aflige e, desprendendo o espírito das impressões exteriores, obriga-o ao recolho, muitas reminiscências e pensamentos sopitados na memória adormecida surgem aos olhos d’alma então voltados para o íntimo.      Assim aconteceu à donzela. O fato ainda recente da revolta de Arnaldo foi o primeiro que despertou em seu espírito, e absorveu-lhe as cismas.      O sertanejo era seu colaço e camarada de meninice. Embora depois de certa época suas existências, a princípio unidas pela intimidade infantil, se tivessem apartado na adolescência, que as chamava cada uma ao seu diverso destino, todavia ela ainda conservava ao seu companheiro a amizade que lhe consagrara em criança. Demais, bastariam para incomodá-la, a aflição que essa desavença causava à Justa, sua mãe de leite, a quem ela muito queria, e a desconfiança do desgosto que seu pai sentira com a ingratidão do filho do Louredo, criado por ele, e tão estimado sempre.      Destas mágoas recentes, o espírito da donzela remontando insensivelmente aos acontecimentos anteriores, recordou a visita de Marcos Fragoso com seus amigos à Oiticica; e daí enleou-se pelas reminiscências ainda vivas de sua viagem ao Recife e das festas que lá assistira.      Então, já desvanecida a surpresa que essas novidades deviam causar-lhe, a ela filha do sertão, acudiram-lhe à mente idéias envoltas e ignotas, que sua imaginação cândida não sabia formular, e lhas apresentava apenas em vago esboço.      Muitas daquelas donzelas, e das mais formosas, que haviam concorrido às festas, tinham seus cavalheiros que se nesses jogos as tomavam para rainhas de suas façanhas e gentilezas, antes e fora daí lhes rendiam o culto de seu afeto e viviam cativos de sua beleza. De algumas soubera que já eram noivas, e de outras que não tardariam a ser pedidas.      Teria ela, Flor, também algum dia o seu cavalheiro, que fizesse proezas para merecer-lhe um olhar? Possuiria o belo parecer e outras prendas do Marcos Fragoso? Ou o excederia no garbo da pessoa e gentileza das ações?      Depois imaginava que esse cavalheiro, ainda seu desconhecido, chegava à Oiticica; ela o via falando na sala com seu pai; era elegante, vestido a primor, e de uma nobreza de gesto como só a podiam ter os reis; mas não lhe via o rosto. Então seu pai a chamava; as palavras que lhe dizia e o mais que se passava, nunca o adivinhou seu espírito que neste momento perdia-se em um tropel de confusos pensamentos, enquanto leve rubor acendia-lhe a nívea tez.      Alina também estava triste; mas as suas próprias mágoas a preocupavam menos do que a melancolia cismadora de sua companheira. A órfã, ao contrário da filha do capitão-mor, tinha uma dessas naturezas que não sabem viver em si e para si, mas carecem de transportar-se para outras, em que se difundam, e de quem recebam o estímulo que não encontram no próprio seio.      Ao inverso das parasitas, que absorvem a seiva estranha e nutrem-se dela, estas naturezas pródigas transmitem a sua substância. São como as flores privadas de estigma, que só viçam para comunicar o seu pólen ao seio das outras, e como estas não dão fruto na própria árvore, também elas não sabem sentir senão as alegrias e as tristezas dos seres a quem amam.      Alina chegando ao terreiro ainda vira o Inácio Góis e perguntou a D. Flor:      — Que disse o vaqueiro, Flor?      — Nada, respondeu concisamente a outra.      — Então não há esperança?      D. Flor respondeu com a cabeça, fazendo gesto negativo.      — Coitada da Bonina! murmurou a órfã.      E mais pesarosa da perda da novilha do que a própria dona, levou a mão aos olhos para esmagar as lágrimas que borbulhavam; e ficou-se a olhar para a companheira, buscando adivinhar-lhe os tristes pensamentos para repassar-se deles.      Logo que as duas meninas se haviam sentado nos bancos da Oiticica, o Agrela que as vira de esguelha dirigirem-se para aquele ponto, achou jeito de tornar ambulatória a sua prática, e principiou a percorrer o terreiro ao lado do capelão.      Sua direção aparente era o muro ensosso, espécie de barbacã, levantado em volta do terreiro. Tinha ele, porém, uma linha objetiva, que seu olhar indicava a cada instante fitando-se rápido, mas veemente, no formoso semblante de Alina.      Porisso a cada volta, a linha declinava, formando um ziguezague, que não tardava cortar em uma de suas projeções a área coberta pela copa frondosa da oiticica. Padre Teles, que talvez por indícios anteriores percebera a estratégia do ajudante, prestava-se de boa vontade à manobra; mas com disfarce para não acanhar o rapaz.      Foi mais adiante a complacência do capelão, pois ao passarem junto dos bancos, deu-se por fatigado, e sentou-se indicando ao companheiro o lugar, que ficava-lhe à direita entre ele e a moça.      — Aqui, disse, travando familiarmente do Agrela pelo braço; vamos descansar um tanto.      O mancebo ao sentar-se roçou de leve e sem querer a saia de Alina que, distraída e voltada para Flor, não se apercebera da aproximação dos dois passeadores. Sentindo o frolido de suas roupas, a moça acudiu surpresa para retrair-se com um movimento mais assustado e evasivo do que exigia a circunstância.      Compreendeu Agrela e significação dessa repulsa e ergueu-se de pronto:      — Não foi minha a culpa, mas do sr. capelão, disse ele com um azedume, que debalde buscou diluir no tom galhofeiro.      — Tem lugar! murmurou Alina.      Com estas palavras a moça erguera os olhos; e fitou-os no semblante de Agrela com um gesto tão meigo e compassivo que parecia exprobrar a si mesma de o ter magoado.      — Esse lugar é de outro, eu sabia, respondeu o mancebo com a mesma acrimônia.      Alina corou, curvando a fronte como para subtrair-se ao olhar que penetrava-lhe os seios d’alma.      Padre Teles tinha-se aproximado de D. Flor a pretexto de a consolar da perda de sua novilha favorita, mas talvez para deixar em liberdade o ajudante de quem era camarada e cujos amores desejava favorecer.      Aproveitando o ensejo, Agrela dirigiu ainda algumas palavras rápidas à moça.      — Essa melancolia é pela ausência dele? Não se aflija! Tenho ordem de descobrí-lo, vivo ou morto.      — Arnaldo! balbuciou Alina.      — Sim, Arnaldo. A ordem, eu a cumprirei em sua intenção. Não me agradece? concluiu o mancebo com ironia.      A moça não pôde falar, mas exprimiu seu pensamento por um gesto eloqüente, cerrando ao seio as mãos enlaçadas para a prece.      Nessa ocasião voltava o padre Teles, e Agrela apartou-se com ele do grupo das duas moças. XX O ABOIAR        O sol transmontara.      As sombras das colinas do poente desdobravam-se pelos campos e várzeas e cobriam a rechã desse candor da tarde, que em vez da alegria da alva matutina tem o desmaio, a languidez e a melancolia da luz que expira.      Por aquelas devesas já envoltas no umbroso manto, só destacam-se as copas das árvores altaneiras ainda imergidas nos fogos do arrebol, e que de longe parecem as chamas de um incêndio rompendo aqui e ali do seio da mata.      O gado espalhado pelas várzeas solta os profundos e longos mugidos com que se despede do sol, e que propagam-se pelo ermo, como os carpidos da natureza ao sepultar-se nas trevas.      Respondem as vacas nos currais, e os bezerros misturam seus berros descompassados com os balidos das ovelhas e borregos, também já recolhidos ao aprisco.      Lá das matas reboa o surdo estridor em que se condensam os cantos de todos os pássaros, e o grito de todos os animais, para formar a grande voz da floresta, que exala-se, sobretudo nessa hora, abafada e sombria das espessas abóbadas de verdura.      No meio, porém, desse concerto e do borborinho que ainda levantava a labutação diária, atravessava o espaço uma nota dorida, plangente, ressumbro de saudade infinda. Se a alma da solidão se fizesse mulher, ela não tiraria do seu mavioso seio um suspiro tão melancólico e tocante como o arrulo da juriti ao cair da noite.      Nessa hora a lida jornaleira das fazendas torna-se mais pressurosa, como para aproveitar os últimos instantes do dia.      Os lenhadores voltavam do mato carregados de feixes, enquanto os companheiros conduziam à bolandeira [5] cestos de mandioca, ainda da plantação do ano anterior, para a desmancharem em farinha durante o serão.      As mulheres livres ou escravas, umas pilavam milho para fazer o xerém; outras andavam nos poleiros guardando a criação para livrá-la das raposas; e os moleques as ajudavam na tarefa, batendo o matapasto, ou dando cerco às frangas desgarradas.      As cozinheiras, encaminhando-se para a fonte a fim de lavar ali na água corrente a louça de mesa e fogão, assim como as caçarolas, cruzavam-se em caminho com as lavadeiras que já recolhiam-se com as trouxas de roupa na cabeça.      Nos currais tirava-se o leite, acomodavam-se os bezerros, e cuidava-se de outros serviços próprios das vaquejadas, que já tinham começado com a entrada do inverno, porém, só mais tarde deviam fazer-se com a costumada atividade.      Era a este, de todos o mais nobre dos labores rurais, que o capitão-mor costumava assistir regularmente, para o que todas as tardes à hora da sombra transportava-se ele do seu posto no patamal da casa, e vinha com a família sentar-se defronte do curral na mesma poltrona, que o pajem levara após si.      D. Genoveva entendia mais particularmente com o leite, o qual ali mesmo distribuía; uma parte entregava-a às doceiras incumbidas dos bolos e massas; outra repartia pelas crias, e o resto era levado à queijaria. Isto quando não tinha chegado ainda a força do inverno, porque nesse tempo havia tal abundância, que enchiam-se todas as vasilhas e até os coches onde os cães do vaqueiro iam beber.      O narrador desta singela história teve em sua infância ocasião de ver na fazenda da Quixaba, próxima à serra do Araripe, esse aluvião de leite, na máxima parte desaproveitado pelo atraso da indústria, e que podia constituir um importante comércio para a província.      Enquanto a mulher ocupava-se com esses misteres caseiros, o capitão-mor percorria os currais, tomando contas aos vaqueiros, mandando apartar os novilhos que era costume reservar para bois de serviço; indicando a rês que se devia matar para o gasto da casa; e assistindo a esfolar e esquartejar, no que se comprazia com a perícia dos carniceiros.      No tempo da ferra, tratava de apurar os garrotes apanhados na safra do ano anterior, escolhendo os da propriedade para deixar o dízimo do vaqueiro, segundo as condições do trato, que ainda são atualmente as mesmas em voga no sertão da província.      Com estes e outros serviços das vaquejadas deleitava-se o capitão-mor, que achava nessa vida ativa e agitada as emoções das lides e façanhas guerreiras, para que o atraía sua índole.      Mais de uma vez, quando algum touro bravo resistia aos moços do vaqueiro e acuado pelos cães no meio da várzea, bramia escarvando o chão, aceso em fúria, com os olhos em sangue, o velho capitão-mor sentindo repontarem-lhe uns ímpetos de juventude, vestia o gibão de couro e as perneiras, montava no seu ruço, e empunhando a vara de ferrão na esquerda, arremetia contra o animal, topava-o no meio da carreira, e o trazia ao curral pela ponta do laço.      Naquela tarde, não se entreteve o fazendeiro, como em outras, com a inspeção do gado, pois recolheu-se mais cedo que de costume; e sua fisionomia que só nos raros, mas terríveis, transportes de ira, perdia a calma e apática serenidade, mostrava nessa ocasião sintomas visíveis de descontentamento.      Caminhava o capitão-mor com o passo grave e pausado, medido pela cadência de sua alta bengala de carnaúba, rematada em um castão de ouro lavrado, o qual tocava-lhe pelos ombros. Sua contrariedade denunciava-se, para quem lhe conhecia a solenidade do gesto, na freqüência com que ele concertava o chapéu armado, como se lho incomodasse.      D. Genoveva ia ao lado do fazendeiro e embora não escapassem à sua solicitude estes sinais de impaciência, todavia não se animava a interrogá-lo diretamente e esperava que ele se decidisse a comunicar-lhe seu pensamento.      O extremoso amor da boa senhora não se animava a infringir o respeito e submissão que tinha pelo marido.      D. Flor e Alina tinham passado adiante e já iam longe, apesar da sujeição a que obrigaram seu pé leve e ágil para acompanhar a marcha lenta do capitão-mor. Atrás, mas em distância conveniente para não escutar a conversa dos donos da fazenda, seguia o ajudante.      O capitão-mor concertou ainda uma vez o chapéu armado, e retendo o passo, disse para a mulher:      — Não temos vaqueiro, D. Genoveva.      Depois do que, avançando o passo retido, continuou sua marcha para a casa. D. Genoveva, que esperara a continuação da confidência, animou-se então a perguntar:      — E o Inácio Góis?      — O Inácio Góis é um cangueiro; e mal pode consigo. Não viu o que sucedeu com a Bonina? Se lhe tivesse ido logo no rasto, como era sua obrigação, a novilha não havia de sumir-se. Mas ele nem conhece o gado de sua entrega! Pergunta-se-lhe por uma vaca, e o homem não faz senão encher as ventas de tabaco!      Contrariado e prevenido por causa do desaparecimento da novilha que dera de mimo a D. Flor, o capitão-mor achara o vaqueiro em faltas que ainda mais o indispuseram.      — Desde que tivemos a desgraça de perder o Louredo, que o nosso gado anda à mercê de Deus, D. Genoveva. É tempo de pôr cobro a isso. O Inácio Góis nunca prestou nem mesmo para vaqueiro duma fazenda, quanto mais para nosso vaqueiro geral com o governo de todas as fazendas. Esse lugar, nós o guardamos para o Arnaldo, que já está em idade de serví-lo; portanto, senhora, cuide com toda a presteza no enxoval da Alina, para casá-la quanto antes com o rapaz. É o que havemos resolvido.      O fazendeiro tinha parado para dizer estas palavras à mulher, cuja surpresa pintou-se-lhe no semblante.      — O Arnaldo? Mas ele não fugiu, sr. Campelo? interrogou a dona suspeitando que o marido tivesse esquecido aquela circunstância.      O velho voltou-se com ênfase para a mulher, e disse-lhe fincando rijo no chão a ponteira de ouro de sua bengala:      — Há de aparecer e há de casar, que assim o determinamos, D. Genoveva.      D. Genoveva calou-se, e por algum tempo seguiu o marido silenciosamente; mas levado pelo fio das idéias, seu espírito passara a outro assunto, pois de repente voltou-se para perguntar ao marido:      — E Flor?      O capitão-mor refletiu antes de responder:      — Já temos pensado no seu futuro, D. Genoveva, disse o capitão-mor.      — Ela está com dezenove anos.      — Até os vinte não é tarde.      — Mas o noivo?      — Eis a dificuldade. Lembramo-nos primeiro, de nosso sobrinho, Leandro Barbalho, de Pajeú de Flores. Agora com a vinda do Marcos Fragoso ao Bargado, estamos em dúvida, qual nos convenha melhor.      — O Marcos Fragoso, sr. Campelo, o filho do coronel? Acha que Flor pode casar com ele?      — Se formos a esperar que apareça um mancebo com dotes para merecer a nossa filha, D. Genoveva, ela não casará nunca, pois onde está esse? Nem que vamos a Lisboa procurá-lo na melhor fidalguia do reino, acharemos um marido como nós o queríamos para Flor. Assim que temos de escolher entre o que há; e o Marcos Fragoso é dos poucos; as maldades do pai, ele não as herdou, com o grosso cabedal de sua casa.      — Diziam tanta cousa desse moço no Recife! observou D. Genoveva abaixando os olhos com o recato calmo de uma senhora.      — Rapaziadas que passam; quando for marido de Flor, ele não se atreverá a faltar-nos ao respeito; pois sabe que não lhe perdoaríamos o menor descomedimento.      — O Leandro sempre é parente.      — Mas não é tão abastado como o Marcos Fragoso; e não tem o seu porte fidalgo, respondeu o capitão-mor que era homem das formas.      Lá no campanário da capela, acabava de soar a primeira badalada do toque de ave-maria. O som argentino da sineta vibrando nos ares foi repercutir ao longe no borborinho da floresta, de envolta com o mugir do gado e os rumores da herdade.      O capitão-mor parou, e descobrindo-se, pôs o joelho em terra para fazer sua oração mental. As pessoas de sua família o imitaram; e por toda a extensão da fazenda, a faina jornaleira interrompeu-se um momento. O carregador arreara o seu fardo; o trabalhador cessara o serviço; e todos de joelhos, com as mãos postas, rezaram a singela oração da tarde.      Ainda retiniam as últimas badaladas das trindades, quando longe, pela várzea além, começaram a ressoar as modulações afetuosas e tocantes de uma voz que vinha aboiando.      Quem nunca ouviu essa ária rude, improvisada pelos nossos vaqueiros do sertão, não imagina o encanto que produzem os seus harpejos maviosos, quando se derramam pela solidão, ao pôr do sol, nessa hora mística do crepúsculo, em que o eco tem vibrações crebras e profundas.      Não se distinguem palavras na canção do boiadeiro; nem ele as articula, pois fala ao seu gado, com essa outra linguagem do coração, que enternece os animais, e o cativa. Arrebatado pela inspiração, o bardo sertanejo fere as cordas mais afetuosas de sua alma, e vai soltando às auras da tarde em estrofes ignotas o seu hino agreste.      A voz que aboiava naquele momento tinha um timbre forte e viril, que não perdia nunca, nem mesmo nas inflexões mais ternas e saudosas. Ainda quando sua melodia se repassava de suavíssimos enlevos, sentia-se a percussão íntima de uma alma pujante, que brandia às comoções do amor, como o bronze ferido pelo malho.      O gado dos currais, que já se tinha acomodado e ruminava deitado, levantando-se para responder ao canto do aboiador, mugia não ruidosamente como pouco antes, mas quebrando a voz, em um tom comovido, para saudar o amigo.      Alina estremecera, escutando os sons vibrantes da canção: e seu olhar vago, volvendo em torno cruzou-se além com o olhar de Agrela, que de longe a fitava. Nesse relance chocaram-se as almas de ambos. À muda interrogação da moça, o ajudante respondera afirmando; e à súplica instante que seguiu-se, opôs um pálido sorriso, cuja ironia tinha um travo amargo e triste.      Transida de susto por esse sorriso, a moça inclinou-se para sua companheira e murmurou-lhe ao ouvido:      — Arnaldo!      — Aonde? perguntou Flor distraída.      — Não ouve?      D. Flor aplicou o ouvido. Também ela conhecia os módulos frementes daquela voz, que enchia o deserto.      — E agora? continuou Alina palpitante. Se ele vem?... O sr. capitão-mor!...      — Meu pai o castigará, Alina; e será um benefício para ele, que está se perdendo. Arnaldo já não é criança; carece emendar-se.      Alina retraiu-se como uma sensitiva. Esperava achar proteção em D. Flor; e a severidade da donzela, que bem revelava neste incidente a contrariedade de seu humor, a desanimou.      Nas outras pessoas o aboiar, que se aproximava cada vez mais, não causara a menor impressão, como cousa muito comum no sertão. Apenas alguns dos agregados e vaqueiros lembraram-se que era esse o modo de cantar de Arnaldo; e viram que antes deles já o gado havia reconhecido o filho de seu antigo vaqueiro.      De repente uns gritos no curral chamaram para ali a atenção. Voltou-se o capitão-mor, e inquiriu do Agrela com o olhar a causa do rumor.      — É a Bonina que apareceu, disse o ajudante apontando para a novilha parada junto à cerca.      O capitão-mor para ali encaminhou-se tão satisfeito que alterou a sua habitual circunspeção. D. Flor, porém, tinha-se adiantado com Alina e já abraçava a ingrata, quando o pai aproximou-se.      Indagou o fazendeiro do caso; e Inácio Góis, insinuando-se como o descobridor da Bonina, começara uma história em que se derramaria sua habitual loquela, quando D. Flor o atalhou:      — Ali está quem a trouxe, meu pai!      O capitão-mor ergueu os olhos na direção indicada pela filha, e viu parado a pequena distância Arnaldo montado no cardão. O mancebo tirou o chapéu e ficou imóvel.      O ânimo de quantos assistiam a esta cena ficara suspenso no pressentimento de um novo e terrível assomo de cólera da parte do fazendeiro. Entretanto o mancebo aguardava tranqüilamente o choque, embora o olhar e atitude indicassem a resolução em que estava de não ceder.      A fisionomia do capitão-mor conservava sua habitual seriedade. A surpresa que a animara um instante, cedera à concentração da vontade sempre morosa e tolhida, quando não a arrebatava a paixão.      Tendo demorado por algum tempo o olhar no semblante do mancebo, retirou-o afinal para volvê-lo na direção do Agrela. Este, porém, que previra o movimento, simulou uma distração a propósito e esquivou-se à consulta.      Então o capitão-mor revestiu-se de toda a solenidade de aparato e estendeu majestosamente a mão para Arnaldo, o qual apeando-se pronto veio beijá-la comovido.      — Vá tomar a bênção à sua mãe, disse o fazendeiro paternalmente.      Depois que a filha satisfez-se de acariciar a ingrata Bonina, o capitão-mor, passando a título de recomendação um novo capelo no Inácio Gróis, tornou à casa acompanhado pela família.      D. Flor dirigiu-se pressurosa a seu camarim; e tomando ali um objeto que procurava, saiu com Alina em busca do casalinho da Justa.      Era noite já. O crescente da lua que surgia no horizonte azul esparzia sobre a terra uma claridade tênue e indecisa que flutuava na atmosfera como gaze finíssima, tecida de fios de prata.      Além, no terreiro dos agregados, trilavam os sons cristalinos da viola, a ralhar no meio do sussurro da conversa. Mais longe, em frente às casas dos vaqueiros, a gente de curral fazia o serão ao relento, deitada sobre os couros, que serviam de esteiras.      Uma voz cheia cantava com sentimento as primeiras estâncias do “Boi Espácio”, trova de algum bardo sertanejo daquele tempo, já então muito propalada por toda a ribeira do São Francisco, e ainda há poucos anos tão popular nos sertões do Ceará. Vinde cá meu Boi Espácio, Meu boi preto caraúna; Por seres das pontas liso. Sempre vos deitei a unha. Criou-se o meu Boi Espácio No sertão das Aroeiras; Comia nos Cipoais, Malhava nas capoeiras. Foi este meu Boi Espácio Um boi corredor de fama; Tanto corria no duro, Como na varge de lama. Nunca temeu a vaqueiro, Nem a vara de ferrão; Temeu a José de Castro Montado em seu alazão.      Os tons doces e melancólicos da cantiga sertaneja infundiram um enlevo de saudade, sobretudo naquela hora plácida da noite.      Entretanto no casalinho, Flor e Alina encontraram-se com Justa, que avisada pelo rumor das vozes acudia a recebê-las. Ao clarão do fogo aceso na cozinha próxima avistaram um vulto, que ambas reconheceram, apesar de quase desvanecido na sombra do canto escuro.      Fora um nobre impulso do coração que ali trouxera D. Flor naquele instante. Não tendo pouco antes agradecido a Arnaldo o serviço que este lhe prestara, vinha mostrar à ama o seu contentamento e acompanhá-la na alegria que devia sentir vendo restituídas ao filho as boas graças do dono da Oiticica.      Em caminho, porém, a efusão deste sentimento se acalmara, e de todo aplacou-se ao entrar na choupana. Abraçou com meiguice sua mãe de leite, e entregou-lhe o objeto que trazia na mão: uma bolsa de teia de prata como se usava naquela época.      — Esta bolsa, mamãe Justa, é que eu trouxe do Recife para Arnaldo. Tinha feito tenção de não lha dar mais, por causa da desobediência que ele praticou, sobretudo depois de enganar-me, fugindo de minha companhia. Mas como ele achou a Bonina e voltou arrependido, eu quero perdoar-lhe, como meu pai. Aqui a tem; entregue-a da minha parte, como mimo que lhe faço.      — Obrigada, minha Flor! Como ele vai ficar contente!...      O vulto surgiu da sombra. Era Arnaldo, o qual aproximando-se de Justa, tirou-lhe das mãos a bolsa e foi arremessá-la ao fogo.      — Pague aos seus criados, disse ele com a voz áspera.      — Arnaldo! exclamou Justa escandalizada.      P. Flor erguera a altiva fronte, e com um gesto de plácida dignidade atalhou a ama:      — Fez bem; ele não merecia uma lembrança minha. E retirou-se.   FIM DA PRIMEIRA PARTE SEGUNDA PARTE I A SAÍDA        Raiava uma formosa madrugada.      Os primeiros vislumbres desmaiavam no céu o azul denso das noites dos trópicos; e para as bandas do nascente já estampavam-se os toques diáfanos e cintilantes da safira.      A frescura deliciosa das manhãs serenas do sertão no tempo do inverno derramava-se pala terra, como se a luz celeste que despontava trouxesse da mansão etérea um eflúvio de bem-aventurança.      A Oiticica, assim como em geral as vivendas campestres, despertava sempre aos primeiros anúncios do dia; e a labutação jornaleira começava ali ainda com o escuro. Nesse dia porém madrugara mais que de costume.      Quando o sino da capela bateu as matinas, e segundo uma usança militar observada nesta e em outras fazendas, com os ruflos do tambor e os clangores da trombeta soou o toque da alvorada, já havia na herdade rumor e agitação, especialmente para o lado da cavalariça.      A luz das bugias e candeias do interior avermelhava os vidros das janelas; e por esses painéis esclarecidos passavam as sombras das pessoas que moviam-se pressurosas dentro da vasta habitação.      Pouco depois ouviu-se no terreiro tropel de animais de sela, que os pajens para ali conduziam à destra. Ao clarão dos archotes, podia-se distinguir o vulto do Agrela e dos homens da escolta.      Abriu-se a porta principal da casa, e apareceu no patamal o capitão-mor com a família. As senhoras montaram rapidamente, servindo-lhes de escabelo o degrau da escada, e a comitiva partiu à marcha batida.      Os cavalos aspiram ruidosamente as emanações do campo e soltam os breves e alegres nitridos, que são o riso de contentamento do brioso animal. Ao estrépito do passo cadenciado, os passarinhos adormecidos ainda, espertam assustados e batem as asas num vôo brusco.      Adiante vão Flor e Alina; seguem-se D. Genoveva com o capitão-mor e logo após padre Teles, e o Agrela à frente de uma escolta menor da que sempre acompanhava o fazendeiro em suas jornadas.      Ao chegarem à várzea, saiu-lhes ao encontro Arnaldo, que também incorporou-se à comitiva, tomando lugar à esquerda do Agrela, depois de saudar ao fazendeiro e família.      Já o crepúsculo da manhã começava a bruxolear as formas indecisas das árvores, que todavia ainda flutuavam pela várzea como visões noturnas embuçadas em alvos crepes.      D. Genoveva e as moças, vestidas de amazonas, com seus roupões de fino droguete guarnecido de alamares, trajavam com o mesmo, se não maior, luxo e primor das fidalgas de Lisboa; pois naquele tempo era sobretudo nas casas dos opulentos fazendeiros do interior que se encontravam o fausto e os regalos da vida.      O capitão-mor ia, como o Agrela e Arnaldo, vestido à sertaneja, todo de couro, da cabeça aos pés; e empunhava como eles, à guisa de lança, uma aguilhada, que chamam hoje vara de ferrão, e cujo conto apoiava no peito do pé. Trazia também preso ao arção da sela o laço de relho trançado.      O trajo do fazendeiro distinguia-se dos outros pela riqueza. Era de uma camurça finíssima, preparada de pele de veado, e toda ela bordada de lavores e debuxos elegantes. A véstia, o gibão, e as luvas tinham os botões de ouro cinzelado; e eram do mesmo metal e do mesmo gosto, o broche que prendia a aba revirada do chapéu, e as fivelas dos calções ou perneiras.      A aguilhada também fazia diferença das outras. A haste cuidadosamente polida, tinha o lustre de um verniz escarlate usado pelos índios. O conto era de prata, como a ponteira, onde engastava o ferrão.      Todavia Arnaldo não trocaria por esta a sua vara de craúba, que ele com a ponta da faca havia nas horas de repouso coberto de toscos desenhos, onde talvez escrevera a história de sua vida. Cada uma daquelas miniaturas era uma cena do grande drama do deserto.      Nesse dia o moço sertanejo tinha juntado a suas armas habituais, que eram a faca de ponta e a larga catana, um par de pistolas que levava à cinta por dentro do gibão, e o bacamarte que herdara do pai. Sua fisionomia revelava atenção múltipla e intensa; enquanto o seu olhar rápido perscrutava os arredores, seu ouvido atento colhia o menor rumor da floresta.      Havia naquela época entre os abastados criadores da província essa bizarria de se vestirem de couro à sertaneja, e associarem-se assim por mero recreio às lidas dos vaqueiros, cujo ofício desta arte enobreciam. Nisso não faziam senão imitar os castelões e fidalgos da Europa que também se trajavam de monteiros, à moda rústica, para ir à caça.      O sertão do norte oferecia então aos ricos fazendeiros uma ocupação idêntica à das correrias de lobos e outros animais daninhos, em que se empregava a atividade dos nobres no reino. Eram as vaquejadas do gado barbatão, que se reproduzia com espantosa fecundidade, por aqueles ubérrimos campos ainda despovoados.      Durante a seca as boiadas refugiavam-se nas serras, e escondiam-se pelas lapas e grotas, onde passavam os rigores da estação ardente, que abrasa a rechã. Com a volta do inverno, logo que as vargens cobrem-se dos verdes riços de panasco e mimoso, saía o gado silvestre das bibocas onde buscara abrigo, e derramava-se pelos sertões.      Antes da grande seca de 1793, foi tal a abundância do gado selvagem em todo o sertão do norte que, segundo o testemunho de Arruda Câmara, entrava nas obrigações do vaqueiro a tarefa de extinguí-lo para não desencaminhar as boiadas mansas, que andavam soltas pelos pastos.      O primeiro mês, deixavam-no tranqüilo a refazer-se e engordar. Nem era preciso mais, tão forte é a seiva desses pastos, saturados do sal que ali deixaram as águas do oceano, quando cobriram toda a vastíssima região. Ao cabo daquele tempo, entravam as correrias dos fazendeiros, e também a dos vagabundos que viviam nômades pelo sertão.      Era a uma dessas monterias * ou vaquejadas que naquela madrugada saía o capitão-mor, e a presença de sua família indicava ainda um traço de semelhança entre os nossos costumes sertanejos daquela época e as tradições da nobreza européia. Como as castelãs de além mar, as nossas gentis fazendeiras tomavam parte nesses jogos fidalgos, e animavam com sua graça o ardor e os brios dos campeões.      Quem observasse naquele instante as damas que faziam esquipar seus ginetes à frente da comitiva, notaria sem dúvida o contraste da afoiteza e galhardia que mostravam em seu gesto, com o recato e meiguice do trato familiar e íntimo. Nas destemidas cavalheiras que afrontavam sorrindo os tropeços do caminho, e saltavam por cima de um tronco derribado ou de barrancos e atoleiros, não reconhecera decerto D. Genoveva, a modesta e laboriosa caseira, e as duas meninas tão mimosas.      São assim as filhas do sertão: eu ainda as conheci de tempos bem próximos àqueles; suas tradições recentes ainda embalaram o meu berço. Esposas carinhosas e submissas, filhas meigas e tímidas, no interior da casa e no seio da família, quando era preciso davam exemplo de uma bravura e arrojo que subiam ao heroísmo.      A idéia da monteria tinha partido do dono do Bargado, o capitão Marcos Fragoso, que por uma carta mui cortês mandara convidar o seu poderoso vizinho e a família.      O primeiro impulso do capitão-mor foi recusar o convite. Com a idéia que ele fazia de sua importância e da posição que tinha naquele sertão sujeito à sua vontade onipotente, pareceu-lhe que derrogaria aceitando favores de outrem.      A generosidade era um direito seu; ele a dispensava quando lhe aprouvesse, mas não a recebia. Como os antigos reis, esse potentado não reconhecia igual dentro de seus domínios; todos os moradores, pobres ou ricos, de Quixeramobim, ele os considerava como seus vassalos.      Com muito jeito conseguiu D. Genoveva persuadir o marido da conveniência de fazer uma exceção daquela vez, a fim de que ela e sua filha melhor conhecessem o Marcos Fragoso, antes de ajustar-se o casamento. Campelo consentiu afinal; mas recomendou à mulher que observasse bem os aprestos do convívio, a fim de excedê-los em um festim para o qual se propunha a convidar o vizinho e seus hóspedes.      Do outro lado da várzea, ao entrar no tabuleiro, havia à borda do caminho um casebre de emboço coberto de palha. Ao avistar essa habitação isolada, o capitão-mor que investigava com olhar de dono os lugares por onde ia passando, observou-a atento.      — Agrela! disse estacando o ruço e apontando para o teto da casa.      O ajudante seguindo a direção indicada aproximou-se da cabana e examinou o topo da carnaúba que servia de cumieira:      — Cortada de fresco? perguntou Campelo.      — Não há uma semana, respondeu o ajudante.      — Traga já o atrevido à nossa presença, Agrela.      O ajudante imediatamente deu ordem à gente da escolta, que foi descobrir o dono do casebre numa rocinha de mandioca, a poucas braças de distância. O homem vinha assustado.      — Como te chamas? perguntou o fazendeiro.      — José Venâncio, para respeitar e servir ao sr. capitão-mor.      — José Venâncio, quem te deu licença de cortar aquela carnaúba?      — Saberá o sr. capitão-mor que eu não cortei nas terras de Oiticica, mas lá na várzea do Milhar.      — A ordem que demos, José Venâncio, é de não cortar carnaúba, em qualquer parte deste sertão.      — Eu não sabia, sr. capitão-mor; pois não seria capaz de desobedecer a vossa senhoria. Era preciso que estivesse doudo.      — Acha que ele não sabia, Agrela? perguntou o Campelo a seu ajudante.      — O José Venâncio veio morar para estas bandas há pouco tempo e tem-se portado bem. Entendeu mal a ordem; mas não obrou com malícia.      — Por esta vez, e atendendo à informação do nosso ajudante, ficas perdoado; mas não caias noutra, José Venâncio.      — Juro, sr. Capitão-mor!      — A carnaúba é um presente do céu: é ela que na seca dá sombra ao gado, e conserva a frescura da terra. Quem corta uma carnaúba ofende a Deus, Nosso Senhor; e nós não podemos deixar sem castigo tão feio pecado. Vai em paz, José Venâncio.      O matuto curvou de leve o joelho, fazendo submissa reverência ao capitão-mor, que prosseguiu no meio de sua comitiva.      Durante essa curta demora ocorreu um incidente no grupo das senhoras. D. Flor que havia parado perto de uma touceira de carnaúba, descobriu a umbela de uma trepadeira, aberta naquele instante e aproximou-se para colhê-la; mas não pôde alcançar o pâmpano que ficava muito alto, e entrelaçado com os talos da palmeira.      — Ajuda-me, Alina!      — Você vai ferir-se, Flor! exclamou a companheira.      — Medrosa! tornou a donzela, cedendo de seu intento.      A orvalhada da noite, de que estavam cobertas as folhas, a tinha borrifado. Ficara encantadora assim, com os cabelos salpicados de aljôfares. De longe ainda lançou à flor os olhos cobiçosos e insensivelmente volveu-os na direção de Arnaldo, com insistência.      O sertanejo, que de parte acompanhava os movimentos de Flor, surpreendido por seu olhar, ergueu a cabeça com um gesto de revolta. A donzela voltou-se com uma dignidade fria e desdenhosa para um homem da escolta.      — Apanhe aquela flor, Xavier.      Antes que os outros ouvissem a ordem, já Arnaldo arremessara o cavalo à touça de carnaúbas, e colhia a flor que veio apresentar à donzela.      — Obrigada! disse-lhe ela, e deu a flor a Alina.      A posição de Arnaldo na fazenda tinha-se modificado de certo modo desde a tarde do aparecimento da Bonina, quinze dias antes. É isso que explicava sua presença ali, naquele momento, reunido à comitiva.      O capitão-mor no dia seguinte o tinha declarado vaqueiro geral de suas fazendas; e todos o consideravam como tal, e o tratavam nessa conformidade, exceto ele próprio, que fazia suas reservas.      O rasgo do fazendeiro naquela tarde, se a todos admirou, a ele o comovera profundamente. Depois de sua desobediência, só uma graça especial podia mover o ânimo do capitão-mor em seu favor.      O Campelo não era cruel, como outros muitos potentados do sertão; mas o seu rigor em manter o respeito à sua autoridade, tornara-se proverbial. Nesse ponto mostrava-se inflexível.      Referiam-se como exemplos, casos de indivíduos a quem ele mandara buscar aos confins do Piauí e às matas da Bahia, onde se haviam refugiado, para castigá-los do desacato cometido contra sua pessoa, passando pela frente da Oiticica sem tirar o chapéu, ou pronunciando o seu nome sem a devida reverência do tratamento e título.      Eram faltas estas que ele não perdoava, nem esquecia. Embora decorressem anos, em tendo notícia do culpado, despachava uma escolta para prendê-lo, onde quer que estivesse. Satisfeito, porém, o seu orgulho, aplacava-se de todo a ira; assim a maior parte das vezes o castigo não passava de um ato de submissão e quando muito de uma prova expiatória. Obrigava o atrevido a pedir-lhe perdão de joelhos, ou mandava amarrá-lo ao moirão por um dia inteiro.      Arnaldo, que sabia destes fatos e conhecia a severidade do capitão-mor, julgava-se banido da Oiticica para sempre; pois não lhe consentia o seu gênio fazer contrição da culpa e pedir perdão da desobediência. Mas essa índole altiva que nenhuma consideração, nem mesmo o amor de D. Flor conseguia dobrar, não resistiu ao rasgo de generosidade do velho.      O caráter de Arnaldo tinha este traço especial. Zeloso de sua independência, e de extrema suscetibilidade nesse ponto, a menor aspereza, qualquer gesto imperativo, bastava para revoltar-lhe os brios e torná-lo arrogante, como acontecera na mesma noite do aparecimento da Bonina, quando ofendido pela repreensão de D. Flor, lançara ao fogo o mimo da donzela.      Por outro lado também o coração indomável era de cera para os sentimentos afetuosos. Uma demonstração de amizade, um afago, obteria dele sacrifícios a que nenhum poder humano teria forças de o compelir jamais.      Porisso, depois do que acontecera, não teve ânimo de contrariar de novo e tão proximamente o desejo do capitão-mor. Prestou-se a desempenhar por algum tempo o emprego de vaqueiro, do qual o afastavam os seus instintos de liberdade, os hábitos de sua vida nômade, e mais que tudo uma repugnância invencível de servir a qualquer homem por obrigação e salário.      O vaqueiro não entra na classe dos servidores estipendiados; é quase um sócio, interessado nos frutos da propriedade confiada à sua diligência e guarda. Esta circunstância levou Arnaldo a condescender por enquanto com a vontade do capitão-mor. Fosse outro o emprego, que apesar da posição de seu ânimo, não o aceitaria por uma hora.      É de presumir que mais tarde se revele a causa oculta desta repugnância do sertanejo. Talvez a inspire o mesmo sentimento, que, em todas as ocasiões e ainda mais durante o passeio, o conservava arredio da comitiva, como uma pessoa estranha à família.      — Onde ficou o capitão Marcos Fragoso de esperar-nos, D. Genoveva? perguntou o capitão-mor à mulher.      — Na marizeira.      — Ouviu, Agrela? disse o fazendeiro, voltando-se de leve para falar ao ajudante por cima do ombro.      — Ouvi, sr. capitão-mor. É daqui a meia légua. II A MONTERIA        Tinha nascido o sol.      Aos primeiros raios que partiam do oriente e se desdobravam pela terra como uma vaga de luz, a natureza, rorejante dos orvalhos da noite, expandiu-se em toda a sua pompa tropical.      A cavalgada atravessa agora uma zona, onde o sertão ainda inculto ostenta a riqueza de sua vária formação geológica.      De um lado, para o norte, os tabuleiros com uma vegetação pitoresca e original, que forma grupos ou ramalhetes de arbustos, semeados pelo branco areal e divididos por um interminável meandro.      Do outro lado, o campo coberto de matas, no meio das quais destacam-se as clareiras, tapetadas de verde grama e fechadas por cúpulas frondosas, como rústicos e graciosos camarins.      Além a várzea, levemente ondulada como um regaço, e coberta de grandes lagoas formadas pelas águas das chuvas recentes.      Do seio desse dilúvio surge uma criação vigorosa e esplêndida, que parece virgem ainda, tal é a seiva que exubera da terra e rompe de toda a parte nos abrolhos e renovos.      Ali são as carnaúbas que flutuam sobre as águas, como elegantes colunas, carregadas de festões de trepadeiras, donde pendem flores de todas as cores e aves de brilhante plumagem.      Mais longe as touceiras de cardos entrelaçam suas hastes crivadas de espinhos e ornadas de lindos frutos escarlates, que atraem um enxame de colibris. Aí dentro da selva espessa, fez a nambu seu ninho, onde piam os pintinhos implumes.      Era então a força do inverno.      Por toda esta vasta região, na qual um mês antes fora difícil encontrar uma gota d’água a não ser no fundo de alguma cacimba, rolam as torrentes impetuosas de rios caudais formados em uma noite.      A terra combusta, onde não se descobria nem mesmo uma raiz seca de capim, vestia-se de bastas messes de mimoso, que a viração da manhã anediava como a crina de um corcel. E eram já tão altas as relvas do pasto, que inclinando-se descobriam as reses ali ocultas.      A vegetação incubada por muito tempo desenvolvia-se com tamanho arrojo, que mais parecia uma explosão; sentiam-se os ímpetos da terra a abrolhar essa prodigiosa variedade de plantas que se disputavam o solo, e acumulavam-se umas sobre outras.      Eram como cascatas de verdura a despenharem-se pelos vargedos, confundidas num turbilhão de folhas e flores, e soçobrando não só a terra, e como as águas que a inundavam.      A superfície de cada uma dessas grandes lagoas efêmeras, produzidas pelo inverno, tornara-se um solo fecundo, onde mil plantas palustres erguiam seus pâmpanos formando uma floresta aquática.      Os cavalos em bandos e os magotes de éguas, soltos pela várzea, nitriam alegremente ao avistar a comitiva, e a seguiam por algum tempo rifando de prazer, enquanto os poldrinhos curveteavam travessos à cola das mães.      Ao tropel dos animais surdiam das touceiras de panasco os novilhos e garrotes mansos, que deitavam a correr pelo campo; mas o gado mocambeiro esgueirava-se pelas moitas, e escondia-se manhoso à vista dos vaqueiros.      Não era somente na terra, mas também no espaço, que a vida sopitada durante a maior parte do ano, jorrava agora com uma energia admirável.      Havia festa nos ares: a festa suntuosa da natureza. No meio da orquestra concertada pelos cantos dos sabiás, das graúnas e das patativas, retiniam os clamores das maracanãs, os estrídulos das arapongas, e os gritos dos tiés e das araras.      Agora era um bando de jandaias que atravessava o espaço grasnando e ralhando, em demanda de outra carnaúba onde pousar. Passava depois a trinar uma multidão de galos de campina, à cata do milhal; ou um enxame de xexéus que pousava em um jatobá seco, e cobrindo-lhe os galhos mortos e nus de folhas, formava uma copa artificial com a sua luzidia plumagem negra marchetada de ouro e púrpura.      As jaçanãs esvoaçavam por cima das lagoas e pousavam entre os juncos. Os corrupiões brincavam nos galhos da cajazeira; e a industriosa colônia dos sofrês construía os seus ninhos em forma de bolsas penduradas pelos ramos da árvore hospitaleira.      Nada, porém, mais gracioso e alegre do que os periquitos verdes, de bico branco, e tamanho de um beija-flor, que adejam em bandos de cem a mais, chilreando, como uns garotinhos, que são, dos ares.      Na cor parecem esmeraldas a voar; e no mimo e gentileza figuram os silfos desses campos, que tomassem aquela forma delicada para esconderem-se ao seio das magnólias silvestres.      A essa hora em que o capitão-mor com sua família seguia pelos tabuleiros em busca das margens do rio Quixeramobim, outra cavalgada, que partira de ponto diverso, caminhava na mesma direção, e no passo em que ia, com pouco devia cortar o rumo da primeira.      Compunha-se esta segunda cavalgata do capitão Marcos Fragoso e seus hóspedes e parentes. Também eles vinham encourados; mas a vara de ferrão, a tinham dado aos pajens para carregá-la, como outrora com as lanças usavam os cavalheiros de tratamento.      O dono da Bargado trazia consigo uma grande porção de vaqueiros sob as ordens do José Bernardo, seu vaqueiro principal. Essa récua de sertanejos com os pajens formavam-lhe uma comitiva respeitável, que sem nenhuma aparência de escolta, era mais numerosa do que a do capitão-mor.      Vinham logo após à comitiva uns comboieiros, tocando animais de carga. As canastras suspensas às alabardas, que ainda se usavam então em vez das cangalhas, continham os aprestos necessários para o lauto almoço, depois da monteria.      João Correia e Daniel Ferro seguiam adiante divertindo-se com os macaquinhos vermelhos que saltavam pelos ramos a fazer-lhes caretas, ou que suspendiam-se pela cauda soltando uma surriada de mofa.      Ourém que ia ao lado de Fragoso quebrou afinal o silêncio com estas palavras, que pareciam completar reflexões anteriores:      — E para quando fica a nossa ida à Oiticica, primo Fragoso? Aquela que nos anunciou na mesma noite de nossa chegada? Não me parece já tão firme em sua resolução, e não sei se lhe diga, que acho-lhe pouco jeito para casado.      — Também a mim parecia isso impossível, respondeu Fragoso a rir. Mas depois que vi D. Flor, o impossível é viver longe dela; e desde que não há outro meio...      — Mas então que espera?      — Tenho pensado, primo. Este Campelo é de uma desmarcada soberba. Ele andou outrora em competências com meu pai, e teria acabado seu inimigo, se a morte não o livrasse do homem que podia fazer-lhe frente neste sertão.      — Receia que lhe recuse a mão da filha?      — É muito capaz. Não reparou que até agora ainda não veio dar-me a boa-vinda, que é de rigor entre vizinhos? Contentou-se em mandar-me o seu guarda-costa ou ajudante, como o chama; e isso apesar da hospitalidade que fomos pedir-lhe ao passar por sua fazenda.      — Talvez porisso entendesse que estava dispensado de vir pessoalmente, pois já nos havia mostrado o seu agasalho.      — Não; é pura sobranceria, que usa com a gente deste sertão. Julga-se acima de todos. Eu já o sabia por informações e acabei de certificar-me. Se não fosse a formosura e prendas da filha, que me cativaram, já teria rompido. O meu vaqueiro, pensa o primo que me obedece? A cada ordem que lhe dou, sai-se com este mote: “O sr. capitão-mor proibiu”. — Depois de nossa chegada, recomendei-lhe que abrisse a represa da várzea, para que as chuvas não alagassem o caminho, como o primo tem visto, que é um brejal. Que me havia de responder o José Bernardo? — “Rasgar a represa, patrão? A que o sr. capitão-mor mandou fazer, ele mesmo, o ano passado? Do que Nossa Senhora me livre e guarde. Era preciso que eu tivesse perdido o juízo”. Ordenei-lhe então que se entendesse de minha parte com o capitão-mor; e este sabe o que lhe disse? — “Seu patrão que me fale, ele mesmo”. Veja o que podem em mim os olhos de D. Flor.      — Tudo isso, primo Fragoso, é razão para abreviar esse negócio e decidí-lo quanto antes. Em sabendo suas intenções, o homem há de mudar.      — Compreende, primo Ourém, que se tal acontecesse, era uma afronta que eu, Marcos Fragoso, não sofro de ninguém, por mais poderoso que ele se julgue. Também tenho orgulho; e na minha família a paciência não é virtude de raça. Ainda ninguém ofendeu um Fragoso, que não recebesse o castigo.      — Neste caso tornemos ao Recife.      — Está assim tão apressado?      — Confesso que não tenho nenhuma curiosidade ver posto em auto cá no sertão o rapto das Sabinas, disse Ourém motejando.      Este remoque excitou alguma surpresa em Fragoso, que fitou o semblante de seu primo com desconfiança. Não se apercebeu disto o Ourém, cujas palavras não tinham oculto sentido.      — Estou que não chegaremos a tal extremidade, replicou Fragoso no mesmo tom de gracejo. Apesar de toda a sua arrogância, o capitão-mor Campelo não há de ser tão difícil de contentar.      — Para mim é fora de dúvida. Onde irá ele achar melhor aliança?      — Em todo o caso eu estou prevenido.      — Faz bem. É o meio de enganar a esperança.      — E de impedir que se malogre, acrescentou Fragoso vivamente.      — Não digo tanto.      — Pois eu afirmo.      Desta vez foi Ourém que fitou o olhar no rosto do primo para ler aí a explicação de suas palavras. O sorriso de Fragoso ainda mais o embaraçou.      — O primo tem algum propósito?      — Não perguntou quando íamos à Oiticica? Pois já estamos em caminho.      — Ah! Então esta monteria?... Que ela era em honra de Diana caçadora, eu sabia; mas não suspeitava que teríamos um eclipse da lua, logo pela manhã. Assim Endimião prepara-se a arrebatar do céu a deusa?      — Pretendo entender-me com o capitão-mor na volta; conforme o que ele resolver, amanhã estaremos em sua fazenda, para fazer-lhe o pedido com as cerimônias do costume e que ele não dispensa; ou iremos caminho do Recife.      — Desta alternativa é que eu não tenho receio. Havemos de tornar ao Recife, mas depois das bodas.      — Quem sabe? Podem fazer-se lá, observou Fragoso com o mesmo sorriso malicioso que já uma vez excitara o reparo de Ourém.      — Também é verdade, sem que haja necessidade de me estar o primo Fragoso a falar por alusão e com palavras encobertas.      — Pois quer mais claro, primo Ourém?      — O rapto das Sabinas de que falei há pouco efetuou-se no meio de uma festa. Lembra-se?      — Muito pouco. Fui mau estudante de latim e já não sei por onde anda o meu Eutrópio.      — Os romanos convidaram os seus vizinhos para assistirem a uns jogos marciais; no meio do espetáculo os surpreenderam, e tomaram-lhe as filhas.      — A que vem agora a história romana neste sertão? Não me dirá?      — Olhe; as suas meias palavras seriam capazes de fazer-me desconfiar que esta monteria tinha o mesmo fim.      — E que lhe parecia o alvitre?      — Muito romano, primo, e bem vê que eu, na minha qualidade de togado, sou pelos meios conciliadores, “cedant arma togae”, como disse o velho Túlio.      — Não tenha susto. Tudo se há de fazer em boa e santa paz, eu o espero. Demais o capitão-mor não é homem com quem se arrisquem tais surpresas, pois anda sempre com boa escolta.      — No que acho que obra como varão prudente, tornou Ourém, aproveitando o ensejo para uma citação de Camões, que era seu poeta favorito:                “ Eu nunca louvarei O capitão que diz, eu não cuidei .”      Tinham os dois chegado à beira de uma coroa de mato, onde já os esperavam Daniel Ferro e João Correia, parados ao pé de uma marizeira colossal.      Era ali o ponto designado para o encontro com o capitão-mor.      Ao cabo de breve espera, ouviram o tropel dos animais; e os cavaleiros correram pressurosos a saudar as senhoras que já apareciam por entre o arvoredo do tabuleiro.      Depois de trocadas as mais corteses saudações, seguiram juntas as duas cavalgatas.      — Temos uma excelente manhã para a nossa monteria, sr. capitão-mor, disse Marcos Fragoso.      — Excelente, em verdade, respondeu Campelo circulando com o olhar os horizontes, como quem ainda não se apercebera do tempo que fazia.      Arnaldo, apesar de preparado para o encontro, não pôde conter o movimento de repulsão que arrancou-lhe a chegada de Marcos Fragoso. Como, porém, estava afastado, ninguém reparou no seu gesto, nem percebeu o olhar com que ele marcava o destruidor de sua felicidade.      Desde então, o sertanejo que já se mostrava esquivo, afastou-se ainda mais e, a pretexto de não estorvar o caminho aos outros, desviou-se para o lado e seguiu por dentro do mato.      Um só instante, porém, não tirava os olhos de Marcos Fragoso. Atento ao seu menor gesto, cogitava entretanto consigo no que podia ocorrer nesse passeio, cujas conseqüências ele ia conjeturando.      Como bem se presume, o sertanejo desde a noite em que ouvira a conversa do Fragoso e seus amigos na varanda da casa do Bargado, não perdeu mais de vista o homem a quem ele considerava seu maior inimigo.      Nessa observação o auxiliava muito o velho Jó, que nos longos anos vividos no deserto adquirira a sagacidade de um índio.      Depois da volta de Arnaldo à fazenda o capitão-mor nunca mais falou do velho, nem aludiu ao fogo da capoeira. Era fato que parecia não ter existido para ele. E como não fosse crível que o capitão-mor deixasse ficar sem punição um caso tão grave, a gente da fazenda teve como certa a morte do solitário. Havia quem afirmasse que ele fora devorado pelas chamas, pois ainda lhe encontrara um resto dos ossos queimados. O João Coité, porém, protestava, jurando por todos os santos, que Jó andava ao redor de casa em figura de lobisomem, e que ele já o tinha encontrado uma vez.      Livre, pois, o velho das perseguições que sofria, consentiu Arnaldo que ele deixasse furtivamente a gruta onde o abrigara, para ocultar-se nas vizinhanças do Bargado e trazê-lo ao corrente do que ali se passava.      O Marcos Fragoso não deu mais um passo que o sertanejo não soubesse; seguia-o como sua sombra, e por mais de uma vez o vira aproximar-se da Oiticica na esperança de fazer-se encontrado com D. Flor.      Foi assim que ele descobriu a Bonina, e atinou com a razão do sumiço inexplicável da novilha, cujo rasto o Inácio Góis e a sua gente não puderam descobrir.      Tinha sido uma proeza do Aleixo Vargas que laçara a novilha no pasto e a levara aos ombros até o curral da fazenda do Bargado. O Marcos Fragoso aplaudira a lembrança; e preparou-se para no dia seguinte conduzir ele mesmo a fugitiva, toda enfeitada de nastros de fitas, e restituí-la à sua gentil senhora.      A porteira do curral, porém, amanheceu aberta; e não houve mais notícia do animal. Os cães de vigia não tinham latido durante a noite para dar sinal, de modo que não se compreendia como se dera a fuga. O Moirão persignou-se; e assentou para si que aí andavam artes de Arnaldo ou bruxarias, o que vinha a dar no mesmo.      Quando, pois, três dias antes chegara à Oiticica o convite do capitão Marcos Fragoso para uma monteria, Arnaldo adivinhou que o mancebo desejava, antes de pedir a mão de D. Flor, mostrar ainda uma vez à donzela sua bizarria e captar-lhe a admiração.      Nessa mesma noite, porém, observou ele uma circunstância que o pôs de sobreaviso.      Tinha chegado à fazenda do Bargado na véspera um bando de gente armada; vinda dos Inhamuns, donde com certeza a fora chamar um próprio, que o Arnaldo vira partir oito dias antes.      Além disso notou o sertanejo nessa e nas seguintes noites uma arrumação e movimento d’armas de toda a casta, que mesmo para aqueles tempos de falta de segurança, eram desusados, e indicavam preparativos de alguma expedição.      Na véspera tornara ele já noite alta à sua rede na copa do jacarandá, bem convencido de que o Fragoso tramava alguma cousa; e essa convicção ainda o dominava naquele momento.      Também não lhe escapou a quantidade de vaqueiros e pajens que formavam a comitiva do dono do Bargado; entretanto não era isso que mais o inquietava; porém o receio de um perigo vago e indefinido, que ele sentia agitar-se em torno de si, mas que não podia apreender. III O DOURADO        A cavalgada chegara a uma ligeira eminência donde se dominava toda a planura em torno.      Era daí que melhor podia-se apreciar o aspecto dessa natureza múltipla, que se desdobrava desde a baixa até as serras de Santa Maria, Santa Catarina e do Estevão, agrupadas ao norte, e da serra do Azul, que aparecia mais longe para as bandas do Aracati.      Nos tabuleiros um bando de emas apostavam carreira com os veados campeiros; as raposas davam caça às zabelês; e o tamanduá passeava gravemente hasteando o longo penacho de sua cauda à guisa de bandeira.      Pelas margens das lagoas os jaburus caminham lentos e taciturnos ou miram-se imóveis nas águas. As garças carmeiam com o bico a alva plumagem; e o maranhão dorme ainda, em pé no meio do brejo, com a cabeça metida embaixo da asa e uma das pernas encolhida.      Além aparecia ao longe um mar doce. Era o Quixeramobim, que pejado com as chuvas do inverno, transbordara do leito submergindo toda a zona adjacente. No meio desse oceano boiava uma coroa de terra, que a torrente impetuosa arrancara da margem, e que deslizava como uma ilha flutuante.      Uma vaca surpreendida naquela nesga do solo continuava a pastar muito tranqüila o capim viçoso, e às vezes fitava admirada a margem, que ia fugindo rapidamente à sua vista.      A várzea estava coalhada de gado, que no comprido pêlo e no aspecto arisco mostrava ser barbatão. Os touros erguendo a cabeça por cima das franças do panasco, lançavam à comitiva um olhar inquieto.      — É boi como terra! exclamou o Daniel Ferro com o seu falar sertanejo.      — Nem porisso, observou Ourém. Pela notícia, esperava outra coisa. Ali haverá quando muito umas cem cabeças.      — Esse é o que está no limpo; a descoberto; e o outro? acudiu o Agrela.      — Aonde?      — Por dentro do capim. Repare quando dá o vento!      Depois de uma breve pausa, para descanso dos animais, os cavaleiros prepararam-se para começar a monteria.      Como se tratava principalmente de campear os touros bravos por divertimento, o vaqueiro do Bargado com seus rapazes deu cerco à várzea, tangendo o gado para o limpo, a fim de escolherem os cavaleiros os touros que deviam correr apostados entre si, como era costume nessa caçada original.      Estava o capitão-mor e seus companheiros de observação, quando viram à desfilada o José Bernardo.      — Lá está o Dourado, sr. capitão, gritou ele de longe, mas velando a voz como receoso de ser ouvido além.      — Pois seja bem-vindo, o Dourado; ainda que eu não tenho a fortuna de o conhecer, ao tal senhor, disse o Marcos Fragoso galanteando.      — Pois não o conhece? acudiu o capitão-mor. É verdade que desde menino saiu do Quixeramobim, onde nasceu e criou-se; senão havia de ter notícia dele.      — É então algum façanhudo? tornou o mancebo no mesmo tom.      — Tem fama por todo este sertão, respondeu gravemente o capitão-mor.      — E a fama já chegou aos Inhamuns, acrescentou Daniel Ferro.      — Pode ser, nunca ouvi falar dele.      — Porque há três anos que o primo Fragoso lá não vai; o Recife enfeitiçou-o.      — Mas em suma, senhores, atalhou o Ourém curioso; quem é esse ilustre e famoso Dourado, do qual já que o nosso Camões não teve dele notícia, farei eu, Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso ”.      O capitão-mor voltou-se para o padre Teles, que pelo jeito acumulava ao cargo de capelão o de cronista:      — Padre Teles, conte aos senhores a história do Dourado.      — O Dourado é um boi... ia começando padre Teles.      — Um boi? atalhou o Ourém desconcertado.      — Eu também pensei que era algum valentão, observou o João Correia que partilhara da surpresa.      — E eu tinha por certo que era o rei daquele célebre encantado, de que tanto se fala, e que debalde procuraram os descobridores inclusive o nosso Pero Coelho. Mas talvez que o El-Dourado virasse boi! tornou Ourém.      — Boi, sim! afirmou o capitão-mor por sua vez admirado da estranheza do licenciado. Então que pensavam os senhores? É um boi destemido e que tem zombado dos melhores vaqueiros deste sertão. Há sete anos que ele apareceu, e até hoje ainda não houve quem se gabasse de pôr a mão no Dourado.      O capitão-mor falou com ufania, como se as proezas do animal se contassem entre os brasões de sua fidalguia sertaneja. Nisso mostrava bem que era cearense da gema.      — Nem o Louredo, nosso vaqueiro, pai do Arnaldo... Onde está ele?      O fazendeiro voltara-se para procurar com a vista ao rapaz; mas não o encontrou.      — Nem o Louredo, que foi o mais afamado campeador de todo este sertão, pôde com o Dourado; e não foi por falta de vontade, que uma vez andou-lhe uma semana inteira na pista. Mas também tal medo tomou-lhe o boi, que levou um sumiço grande... Há bem quatro anos que não se tinha notícia dele. Não é isso, padre Teles?      — Há de fazer pela Páscoa, sr. capitão-mor, respondeu o reverendo.      — Já vejo que o Dourado é um herói, um touro de Maraton, que ainda não encontrou o seu Teseu.      — Todavia não é para comparar-se com o Rabicho da Geralda! observou o Daniel Ferro.      — Temos outro barão assinalado? acudiu o Ourém.      — Deste, já eu tinha noticia. Há uma cantiga de vaqueiros, acudiu João Correia.      — Ainda esta noite os rapazes a cantaram lá no Bargado, tornou Daniel Ferro, que entoou a primeira quadra da trova: Eu fui o liso Rabicho, Boi de fama conhecido, Nunca houve neste mundo Outro boi tão destemido .      Padre Teles, que fora atalhado na sua crônica do Dourado, aproveitou o ensejo para introduzir também a sua quadra: Minha fama era tão grande Que enchia todo o sertão; Vinham de longe vaqueiros P’ra me botarem no chão .      — Já vejo que este foi uma espécie de Minotauro, pois tinha de homem a fala, observou o Ourém que ria-se daqueles entusiasmos sertanejos.      O capitão-mor ordenou silêncio com um gesto para opor a seguinte contestação:      — O Rabicho da Geralda, sr. Daniel Ferro, foi sem dúvida um corredor de fama. Nós ainda conhecemos o José Lopes, vaqueiro da viúva, que nos contou as proezas de seu boi. Mas nosso parecer é que não chegava ao Dourado.      — Veja o sr. capitão-mor que o Rabicho zombou dos melhores catigueiros * de todos estes sertões, até do Inácio Gomes que ainda hoje tem nome na ribeira do São Francisco.      — Não era nada à vista do Louredo, nosso vaqueiro; pode acreditar, que é a verdade.      — O Rabicho andou onze anos fugido, sem que se tivesse notícia dele; e o Dourado, como o sr. capitão-mor mesmo disse, só há sete anos é que apareceu.      — Onze anos? interrogou o fazendeiro.      — A cantiga diz: Onze anos eu andei Pelas caatingas fugido;,br> Minha senhora Geralda, Já me tinha por perdido .      O argumento tirado da cantiga, embaraçou o capitão-mor, que voltou-se para o ajudante:      — Que lhe parece, Agrela?      O ajudante acudiu pronto.      — É certo, senhor alferes, que o Dourado, como disse muito bem o sr. capitão-mor, só há sete anos apareceu; mas ninguém sabe quantos anos andou sumido pelas serras, sem que se soubesse dele. Ora, sendo um boi ainda novo, como atestam quantos o conhecem, não é muito que viva ainda uns vinte anos e mais.      — Então que diz a isto? perguntou o capitão-mor triunfante com a argumentação de seu ajudante. Vinte anos para onze!...      — Ainda não me rendo, tornou o Daniel Ferro. Se o Dourado pode durar ainda vinte anos, o que não nego, o Rabicho com certeza chegaria aos trinta, se não viesse aquela seca tão grande. Foi preciso ela para acabar com aquele boi.      O capitão-mor outra vez embaraçado volveu o olhar ao ajudante que não demorou a réplica.      — Aí está a diferença. O Rabicho acabou com a seca, e o Dourado escapou dela, como escapará de todas as outras por maiores que sejam.      — Está vendo? concluiu o fazendeiro peremptoriamente. Pode jurar em nossa palavra, sr. Daniel Ferro. Numca houve boi como o Dourado; quem lho diz é o capitão-mor Gonçalo Pires Campelo; se alguém disser o contrário, mentiu.      Em vista desta afirmação categórica, o Daniel Ferro hesitou na réplica; pois o argumento do sofístico ajudante não o convencera. Mas era teimoso, e em risco de incorrer no desagrado do potentado, ia sustentar a sua opinião, quando felizmente ocorreu uma circunstância, que pôs termo ao incidente.      Era tempo. O Agrela previra o efeito que a insistência do Daniel Ferro ia produzir no capitão-mor, cuja vontade imperiosa não sofria a mínima contrariedade e estava acostumado a ser, não somente obedecida como lei, mas aceita como ponto de fé.      Receando, pois, que a partida de prazer tão aprazivelmente começada, fosse interrompida por um desagradável conflito, o ajudante aproveitou-se do primeiro pretexto para desviar da disputa a atenção do potentado:      — Lá está o Dourado! exclamou com grande alardo, apontando para a várzea. Senhores, o Dourado!      O capitão-mor adiantou-se para ver o famoso corredor. D. Genoveva e as moças aproximaram-se com viva curiosidade. Marcos Fragoso, Ourém e o capelão que falavam com as senhoras justamente acerca do herói, acompanharam o seu movimento.      Agrela tinha apontado a esmo para um boi, cuja cor pudesse até certo ponto desculpar o engano. Mas o acaso incumbira-se de tornar certo o seu dito; pois precisamente naquela ocasião o rei dos pastos de Quixeramobim, assomava no descampado.      Era um boi alto e esguio. Seu pêlo isabel na cor, longo, fino e sedoso, brilhava aos raios do sol com uns reflexos luzentes, que justificavam o nome dado pelos vaqueiros ao lindo touro. Em vez das largas patas e grossos artelhos dos animais de trabalho, ele tinha as pernas delgadas e o jarrete nervoso dos grandes corredores.      Os chifres não se abriam para diante em vasta curva, mas ao contrário erguiam-se quase retos na fronte como dardos agudos e à semelhança da armação do veado. Esta particularidade indicava que o barbatão não se criara nas várzeas, mas que desde garrote se acostumara a bater as brenhas mais espessas e a atravessar os bamburrais emaranhados.      Azara refere ter visto no Paraguai muitos exemplares desta espécie de chifres verticais e direitos, a que ali dão o nome de “chivos”.      O Dourado tangido, pelos fábricas de José Bernardo, havia parado no meio da várzea. Em sua atitude garbosa, reconhecia-se a altivez do touro bravio, filho indômito do sertão, nascido e criado à lei da natureza. Tinha ele a majestade selvagem das feras, que percorrem livres o deserto e não reconhecem o despotismo do homem.      Com o pescoço curvo e a fronte alçada, o touro lançava aos cavalheiros um olhar de desafio, batendo o costado com a ponta da cauda arqueada, e escarvando o chão de leve com a unha direita. Um borborinho surdo ressoava no vasto peito, que sublevava-se para soltar o mugido.      Todavia não se notava neste aspecto a sanha terrível do touro sanguinário, que arroja-se ao combate cego de furor, e dilacera a vítima com as pontas aceradas, ou vai cair aos pés do inimigo exausto pelos ímpetos violentos.      O Dourado tinha a coragem calma; ele conhecia o homem, e estava habituado a afrontá-lo. No olhar com que observava os cavalheiros, descobria-se unida à segurança do corredor, que não teme ser vencido, a sagacidade do boi manhoso e experiente que calcula o perigo, e sabe acautelar-se.      — Então é aquele o vitelo de ouro, reverendo? disse Ourém, voltando-se para o capelão. “Vitulus conflatilis!”      — Neste caso, senhor licenciado, replicou Padre Teles, é preciso seguir o exemplo de Moisés, que o queimou, reduziu a pó, dissolveu em água e o deu a beber aos filhos de Israel: “combussit et contrivit usque ad pulverem, quem sparsit in aquam et dedit in eo potum filiis Israel”. Êxodo, cap. 32, versete 20.      — Em o nosso caso não acha, reverendo padre Teles, que bastaria assá-lo para o almoço?      — É o que eu estava pensando, sr. licenciado; e creio que o consumiríamos melhor assim ou numa boa açorda do que pelo processo de Moisés.      Enquanto o licenciado e o capelão faziam estes gastos de erudição bíblica, as outras pessoas trocavam suas observações acerca do Dourado.      D. Flor também contemplara o animal com satisfação, pois tinha seu instinto de sertaneja, filha daqueles campos e neles criada. Além disso possuía o sentimento do belo, e sabia admirá-lo em todas as suas formas.      — O Dourado há de ter o meu ferro! exclamou com um arzinho de princesa que lhe assentava às maravilhas.      — Se levar algum, com certeza não será outro senão o seu, Flor, disse o capitão-mor.      A donzela soltando a exclamação a que o pai acabava de responder, insensivelmente volvera o olhar e encontrou Arnaldo que pouco antes se aproximara do grupo. Ao torvo e sombrio aspecto do mancebo, e talvez à lembrança do que acontecera com a flor, desviou a vista rapidamente.      — Então, senhores, vamos ao Dourado? disse o capitão Marcos Fragoso.      — Ao Dourado! exclamou Daniel Ferro.      — É à toa, só para correr, ponderou o capitão-mor. O Dourado, não há quem lhe deite unha; dos que estão aqui, não desfazendo em ninguém, só vejo o Arnaldo, nosso vaqueiro, filho do Louredo, mas quando tiver a experiência do pai.      — Não conheço, disse Marcos Fragoso desdenhosamente.      O capitão-mor acenou para Arnaldo.      — Vem cá, rapaz. Aqui está: basta olhar para ver o filho de quem é.      Os dois mancebos trocaram um olhar rápido. Fragoso adivinhou que tinha em Arnaldo um inimigo. Arnaldo conheceu que fora compreendido: e isso causou-lhe íntima satisfação. Na sua lealdade, estimava que o adversário estivesse prevenido de seu ódio, para que não lhe imputasse uma perfídia. Essa primeira advertência, ele pretendia dá-la, ainda mais franca, logo que chegasse o momento de executar a sua resolução.      — Que dizes, Arnaldo? És capaz de tirar o feitiço ao Dourado?      — Não sei, sr. capitão-mor; ainda não lhe dei uma corrida: porisso não posso avaliar. Mas até hoje não encontrei boi que deitasse poeira no Corisco, disse o sertanejo singelamente e alisando a clina do cardão.      — Pois afianço-lhes eu, senhores, que o Dourado vai dar a sua última carreira, exclamou Marcos Fragoso, brandindo a vara de ferrão com galhardia. Terei a honra de oferecer-lhes ao almoço uma costela do herói.      — Eu prefiro o lombo, disse o capelão.      — O principal é outro porém, continuou o mancebo exaltando-se. Entre os niünos de noivado que tenho de oferecer breve à formosa das formosas, figura um par de sandálias mouriscas de veludo, cravejadas de pérolas; e aqui neste momento, diante destas damas, do sr. capitão-mor e de quantos me ouvem, os quais todos tomo por testemunhas, faço voto de tirar as solas das sandálias do couro do Dourado com a minha própria mão!      — Não é mal lembrado, observou Ourém. Naturalmente foi de algum boi corredor como este que o gigante fez as suas botas de sete léguas, e as fadas tiraram os seus chapins. Os coturnos de Mercúrio deviam ser do mesmo couro.      Marcos Fragoso referindo-se ao mimo de noivado, que destinava à formosa das formosas, dirigiu o olhar tão claramente a D. Flor, que todos compreenderam a alusão, exceto a donzela, que ainda estava distraída a ver o barbatão, e o capitão-mor que não atendendo ao gesto expressivo, deu às palavras do dono do Bargado outro e mui diferente sentido.      Entendeu ele que Marcos Fragoso já tinha ajustado casamento com outra moça. Este fato o contrariou; mas porisso mesmo, bem longe de demovê-lo do projeto de casar o mancebo com D. Flor, mais o afirmou nessa resolução. O seu orgulho não sofria que o homem por ele escolhido para marido de sua filha, fosse capaz de recusar tão grande honra e favor, e preferir outra aliança ainda mesmo quando já estivera tratada.      Outro sentimento porém, e tão forte como este, reagiu no fazendeiro. Foi o desgosto pela jactância do Marcos Fragoso dando como certa a sua vitória sobre o barbatão. O senhor de Quixeramobim sentia-se profundamente ofendido com essa presunção, que de algum modo o amesquinhava na pessoa daquele boi, que era como que uma glória dos seus vastos domínios, e cuja fama fazia de algum modo parte de sua importância.      — Ora! ora!... exclamou o capitão-mor com um grosso riso de mofa. Eu me obrigo a assar no dedo a carne que o senhor tirar do Dourado; mas também, se não pegar o barbatão, o que é certo, há de ter paciência que lhe mande um mamote para tirar a sola das tais chinelas. Está ouvindo?      — Topo, sr. capitão-mor, retorquiu Fragoso, picado ao vivo pela zombaria do fazendeiro; e juro-lhe que hei de fazer hoje melhor monteria do que pensa vossa senhoria.      Arnaldo, cuja atenção estava alerta, notou a inflexão particular com que o mancebo proferira as últimas palavras, e surpreendeu-lhe o olhar irônico lançado ao capitão-mor.      Também Agrela tinha observado este pormenor; mas o atribuira a leve ressentimento causado pelo motejo do fazendeiro.      Não se imagina o esforço que desde o encontro das duas cavalgadas fazia Arnaldo para não precipitar-se contra Fragoso, quando este aproximava-se de D. Flor e lhe dirigia os seus rendimentos corteses ou fitava nela os olhos namorados.      Nunca ele tinha sofrido as dores, que então o trespassavam, nem pensara que homem as pudesse curtir. IV O SORUBIM        As vaquejadas do gado bravio, ou monterias como ainda as chamavam à moda portuguesa e clássica, pouca diferença tinham quanto ao modo das que se fazem ainda agora no sertão, durante o inverno e depois.      Naquele tempo é certo que o gado barbatão multiplicava-se com prodigiosa rapidez; e os vastos campos incultos, bem como as florestas ainda virgens, ofereciam às manadas selvagens refúgios impenetráveis.      Daí provinham essas famosas correrias tão celebradas nas cantigas sertanejas, e nas quais os vaqueiros gastavam semanas e meses à caça de um boi mocambeiro, que eles perseguiam com uma tenacidade incansável, menos pelo interesse, do que por satisfação de seus brios de campeadores.      Não era, porém, uma vaquejada de campeiros essa, para a qual o capitão Marcos Fragoso tinha convidado o senhor da Oiticica e sua família. Tratava-se de uma verdadeira monteria, ou caçada à moda européia, com a diferença de serem as armas e trajes venatórios substituídos pelos petrechos do vaqueiro.      O José Bernardo, portanto, havia espalhado sua gente de modo a fazer com o seio do rio o cerco da várzea, tomando as saídas por onde o gado podia evadir-se. Esse cordão vivo supria assim os muros das coutadas e fechava um vasto âmbito, no qual os cavaleiros podiam correr um ou mais touros e gozar assim das emoções da caça.      Tomadas estas disposições, correu o vaqueiro do Bargado a prevenir seu patrão de que podiam dar começo ao divertimento.      — Então, senhores?... O campo está seguro, diz o meu vaqueiro, exclamou Fragoso.      — Pronto! acudiu Daniel Ferro, que ardia por mostrar a valentia dos filhos de Inhamuns.      — O senhor capitão-mor dará o sinal, tornou Fragoso com um gesto de deferência.      O velho Campelo afirmou-se na sela, e sobraçando à direita a vara de ferrão, soltou o brado estridente do vaqueiro ao disparar, voz que traduz-se aproximadamente por esta interjeição:      — Ecou!...      Ao grito do capitão-mor, outros reboaram; e os seis cavaleiros arremessaram-se de ladeira abaixo no encalço do Dourado.      O touro barbatão respondera ao grito dos vaqueiros com um mugido manhoso e afastara-se a meia carreira, como para poupar as suas forças ou medir as do inimigo. De vez em quando voltava a cabeça para ver o avanço que levavam os cavaleiros.      As senhoras ficaram na eminência, guardadas pela escolta e acompanhadas do padre Teles, que viu com um suspiro afastarem-se os outros e lembrou-se com saudades dos tempos, em que na ribeira do Choro ele campeava os garrotes e novilhas barbatões, montando em pêlo no primeiro cavalo que apanhava dos magotes soltos pelo campo.      Padre Teles tinha um tanto da polpa desses padres sertanejos, de que houve tão grande cópia até 1840; sacerdotes por ofício, eles envergavam a batina como uma coiraça; e lá se iam pelo interior à cata de aventuras. O capitão-mor, porém, era formalista; e não admitia costumes profanos em seu capelão.      Também D. Genoveva, se não fosse o recato de seu sexo, de que o marido não a dispensava, ainda mais em presença de estranhos, tomaria parte na monteria, para que se julgava com ânimo e disposição. Era ela destemida cavaleira; e decerto desempenhar-se-ia melhor da empresa do que o Ourém e o Correia, moradores da cidade, e não afeitos a esses exercícios dos nossos campos.      — Vamos nós também divertir-nos, Flor, disse a dona, lançando o cavalo avante.      — Anda Alina! exclamou a donzela, seguindo a mãe.      Padre Teles a pretexto de acompanhar as senhoras, lá se foi também com elas a campear as novilhas que pastavam ali perto. Apesar de não ser esse gado barbatão como o outro, todavia não era de todo manso, e às vezes a rês perseguida voltava-se para atirar uma marrada, que as destras cavalheiras evitavam no meio de risadas e folgares.      Mais tímida, Alina deixara-se ficar na colina; e depois de alguma hesitação aproximou-se de Arnaldo, o qual ainda imóvel no mesmo lugar, seguia de longe a corrida com um olhar ávido e sôfrego.      — Não foi campear, Arnaldo? disse a moça a meia voz.      — Não, Alina! respondeu o sertanejo concisamente sem tirar os olhos da várzea.      — Eu sei a razão! tornou a órfã com uma reticência misteriosa.      Arnaldo olhou-a de través para surpreender-lhe no rosto o pensamento.      — Foi para ficar perto de mim. Não acertei? disse Alina com um sorriso de melancólica faceirice.      Arnaldo fechou-se e retorquiu em tom breve e esquivo:      — Não gosto destas caçadas. Campear é no largo, onde o boi acha mundo para fugir; e não fechá-lo como num curral para ter o gosto de o matar depois de cansado. Um vaqueiro não sofre isto. Aqui está a razão por que fiquei, Alina.      — Ah! eu sabia que não era por mim, disse-o brincando. A sra. D. Genoveva não me chama sua noiva, Arnaldo? É para zombar de mim!      Alina proferiu esta frase com o mesmo tom de faceira melancolia, e tão queixoso, que Arnaldo sentiu-se comovido.      — Não é de você, Alina, que zombam; mas de mim. Eu não sou vaqueiro; sou um filho dos matos, que não sabe entrar numa casa e viver nela. Minhas companheiras são as estrelas do céu que me visitam à noite na malhada; e a jurutí que fez seu ninho na mesma árvore em que durmo. Seu noivo deve ser outro. Eu lhe darei um que a mereça.      — Já tenho, disse Alina.      — Qual? perguntou Arnaldo surpreso.      — Não é da terra, não. Está lá perto das estrelas, suas companheiras: é o céu.      Arnaldo não atendeu à resposta da moça. Um acidente que ocorrera ali perto, na falda da colina, acabava de surpreendê-lo.      D. Genoveva e a filha continuavam a perseguir as reses que lhes ficavam próximas, e padre Teles, um tanto emancipado com a ausência do capitão-mor, acompanhando-as nesse folguedo, empunhava um ramo de cauaçu que ele quebrara para fazer as vezes de aguilhada.      D. Flor tinha nessa manhã um pequeno xale escarlate de garça de seda que lhe servia de gravata, e cujas pontas flutuavam-lhe sobre o peito do vestido de montar. Lembrando-se que a cor vermelha tem a propriedade de enfurecer os touros, os quais supondo ver o sangue, tornam-se ferozes, a temerária donzela desatou a faixa, e começou a agitá-la como uma bandeirola para irritar as reses e gozar do prazer de afrontar o perigo e escapar-lhe.      Entretanto um boi sorubim [6] , que estava escondido nas balsas de um alagado, surdiu fora, e lançou de longe para a moça, que não o via, um olhar traiçoeiro. Era um animal corpulento, de marca prodigiosa, como raros exemplares se encontram no sertão, hoje que as nossas raças domésticas estão decaídas daquele vigor primitivo que tomaram ao influxo e contacto do novo mundo.      De repente o barbatão, levado por seus instintos perversos, e também assanhado pelo xale escarlate que a moça imprudentemente agitava, abaixou a cabeça armada de chifres enormes, e arremeteu, bufando um surdo bramido.      D. Flor estava de costas, e não o viu. Ao vivo aceno de sua mãe assustada, voltou-se sorrindo e só então conheceu o perigo que a ameaçava. O touro vinha-lhe sobre com a violência de uma tromba. Corajosa como era, não se atemorizou a donzela; mas tomada de surpresa como fora, tinha hesitado um instante; e tanto bastou para frustrar a sua calma e destreza. Quando o baio obedecendo ao sofreio que o empinou, já rodava sobre os pés para saltar e pôr-se fora do alcance do touro, este chegava como a bala de um canhão.      Então um urro medonho encheu o espaço abafando o grito de aflição, que ao mesmo tempo escapara dos lábios de D. Genoveva e de Alina.      Arnaldo advertido pelo primeiro mugido do touro, volvera o olhar para o ponto, e vira a fera já no meio da carreira com que investia para a moça. Alina ouviu um arranco. Era o sertanejo que passava por diante dela, como um turbilhão.      D. Flor que se considerava já ferida pelas pontas do touro, admirou-se de estar ainda montada no baio, o qual se arrojara ao lado; e de achar-se incólume, sem outro dano além de um leve rasgão de sua roupa de montar. Voltando o rosto para o lugar, compreendeu então a donzela o que se passara.      Arnaldo, ao arrancar, tinha sacado o laço do arção da sela onde o trazia preso, e rolando-o acima da cabeça, o arremessara com a mão segura do vaqueiro, que nunca errou o boi à disparada. Apanhado pelos chifres, o sorubim estacara; e no repelão que dera para safar-se havia furado a fralda do roupão de D. Flor.      Esbarrado em seu ímpeto, o touro soltando o urro medonho que ribombou até o fundo da floresta, redobrara de furor. Rodando para fazer frente ao adversário, escorou-se no laço, a cavar o chão com as unhas, e a amolar as pontas na terra. Quando acabou de visar bem o alvo, partiu como um tiro de morteiro.      Arnaldo deitara-se sobre o arção, alongando a vara de ferrão pela cabeça fora do cavalo e apoiando o cabo na coxa, forrada não só pela perneira, como pelo gibão de couro. Assim em guarda correu ele sobre o touro e topou-o no meio da carreira.      O aguilhão afiado cravara-se no meio da testa do touro, que recuou trespassado pela dor. Com o ímpeto a vara tinha vergado como um arco prestes a romper-se; e o cavalo foi repelido a três passos para trás. Mas o sertanejo não se abalara da sela.      Ourém que observou de longe a cena repetia ao João Correia estes versos de Camões: Qual o touro cioso que se ensaia Para a erma peleja, os cornos tenta No tronco de um carvalho ou alta faia. E o ar ferindo, as forças experimenta .      Recolhendo a vara, Arnaldo dera liberdade ao cardão, que reatou a desfilada um instante suspensa pelo tope, e passou ao lado do sorubim, o qual também de seu lado prosseguia na investida.      Chegados ao extremo da corrida, ambos, o touro e o cavalo, voltaram-se rapidamente; pararam um instante, o touro a fazer pontaria, o cavalo a esperá-la, e partiram ambos como da primeira vez para novamente esbarrarem-se a meio da carreira.      Assim divertiu-se o sertanejo em excitar a sanha do touro furioso, e topá-lo na ponta da vara de ferrão. Depois de ter brincado com ele, como um gato com o ratinho, a quem deixa fugir por negaça e para ter o prazer de o filar outra vez, o rapaz em vez de recebê-lo na ponta do aguilhão, desviou o cavalo do ímpeto, e alongando-se com o animal, torceu-lhe a cauda entre dois dedos e com um jeito especial a que no sertão chamam “mucica”.      O possante animal tombou por terra, como se uma clava o abatesse. Sem apear-se, o sertanejo retirou o laço, e com uma rapidez de maravilhar deu um talho no rejeito das mãos, com o que peou completamente o animal, e tornou-o inofensivo.      Terminada esta operação, que não consumira com a luta precedente mais de minutos, Arnaldo veio postar-se no mesmo lugar que anteriormente ocupava na chapada da colina, e donde continuou a observar a corrida que os cavaleiros davam no Dourado.      No momento em que o capitão-mor partira com os outros campeadores, Arnaldo não se influíra. Como dissera a Alina, ele não gostava daquelas correrias em que os homens assaltavam insidiosamente os touros, tomando-lhes os passos por onde poderiam evadir-se. Parecia-lhe isso pouco generoso. Um bom campeador já tinha demais a rapidez de seu cavalo para pedir ainda auxílio de outros vaqueiros.      Todavia ficara de observação, porque se o Marcos Fragoso se mostrasse capaz de pegar o Dourado, ele propunha-se a arrebatar-lhe a satisfação desse triunfo como já fizera uma vez; e consigo mesmo tinha jurado que as solas daquelas chinelas de que falara o namorado capitão, se este chegasse a cortá-las, teria feito a última proeza de sua vida.      Tornando agora a seu ponto de observação, continuou a acompanhar a corrida, mas já então excitado pelo assalto do sorubim, dava combate a si para permanecer ali imóvel, quando lá estava um boi famoso a desafiar os seus brios de campeador.      Entretanto a corrida prosseguia com vários acidentes no meio do alarido dos cavalheiros, e do estrépito com que a gente postada pela várzea afugentava o gado acossado que buscava escapar-se do cerco.      Logo no princípio o Ourém e o João Correia mostraram que não basta envergar uma roupa de couro para tornar-se vaqueiro. Não eram maus cavaleiros de cidade; mas cousa mui diversa é correr em um campo alagado e coberto de mato, onde de repente falta o solo ao cavalo, e o espaço ao homem.      Daniel Ferro, este desempenhara galhardamente as barbas dos vaqueiros de Inhamuns; e o Campelo apesar de sua corpulência não lhe ficava atrás. Quanto ao Agrela, sabia que sua obrigação era ir ao pé do capitão-mor, e assim o acompanharia ao inferno.      O melhor cavalheiro porém, aquele que ia na frente e com muito avanço, era o Marcos Fragoso. Além de ágil e consumado na arte da equitação, como nas outras próprias dos mancebos nobres de seu tempo, ele montava um soberbo cavalo do Crateús * , e corria atrás de um troféu para o seu amor. Nem o cavalo, nem ele, careciam de um aguilhão, pois eram briosos ambos; mas o primeiro sentia o roçar da espora, e o segundo pensava no remoque do capitão-mor e no desgosto que sofreria, se não cumprisse o voto feito a D. Flor.      Quando Arnaldo voltara à colina, Fragoso acreditava que o Dourado não lhe podia escapar. O boi corria frouxamente; e mal guardava entre ele e o cavaleiro a distância de cem passos. Metia-se nas moitas que encontrava pelo caminho, como para descansar um momento, e dava todas as mostras de fatigado.      Era um boi astuto e manhoso, Dourado. Ele sabia que estava cercado, e embora não tivesse perdido a esperança de escapar-se, contudo receava encontrar por diante homens armados de varas que lhe embargassem o passo. Assim tinha por mais prudente cansar primeiro os cavalos e para isso fingia-se ele estafado, a fim de exercitar os campeadores a apertar a carreira na esperança de o pegar.      Entretanto, D. Flor aproximara-se de Arnaldo. A donzela,, como sua mãe, não tinha agradecido ao mancebo o ato de destreza com que lhe salvara a vida. Era isso um fato natural, e que não lhes granjeara nenhuma gratidão; ambas conheciam a dedicação do filho da Justa, e recebiam dele essas provas de amizade, como as receberiam de um parente, de uma criatura sua.      A donzela, porém, lembrou-se que Arnaldo conservava um ressentimento dela, desde a noite do mimo, em que talvez fora injusta; e aproximou-se para com uma palavra meiga e afetuosa aplacar seu ânimo suscetível e ríspido.      Mas no momento em que chegava a seu lado, Arnaldo arrancando o cardão em um salto, disparava pela colina abaixo, soltando esse brado pujante, que o sertanejo aprendeu do índio, seu antepassado.      Esse brado é como o rugido do rei do deserto; ele tem a fereza do bramir do tigre, e a vibração do rugir do leão; mas quando repercute na solidão sente-se que há nessa voz uma alma que domina a imensidade.      Que sentimento impelira assim o sertanejo? Fora o receio de que o Fragoso triunfasse, ou o desejo de subtrair-se ao agradecimento de D. Flor?      Talvez um e outro motivo. V A CARREIRA        Quando o Dourado ouviu o brado de Arnaldo, conheceu que tinha homem em campo; e abrindo então a carreira, em dois corcovos deixou o Fragoso a uma grande distância.      O mancebo perdera a esperança de agarrar o boi; e atribuindo a derrota ao grito que espantara o animal, irritou-se contra o autor dessa picardia, que no primeiro momento suspeitou provir do seu primo Daniel Ferro.      Logo, porém, reconheceu o engano. Um cavaleiro passou por ele à desfilada; e apesar da velocidade da carreira pôde ver o rosto de Arnaldo, que o ódio lhe gravara na memória.      Desde então o Marcos Fragoso continuou a correr: mas já não era atrás do Dourado, e sim atrás do sertanejo, contra quem se arrojou com todo o ímpeto das cóleras, que o seu afeto por D. Flor o tinha obrigado a recalcar durante os últimos dias, e que afinal faziam explosão.      Voltando o rosto, viu Arnaldo na fisionomia e no gesto do capitão a expressão de seu rancor, e respondeu-lhe com um sorriso de desprezo.      — Não fujas, cobarde! exclamou Fragoso.      — Havemos de encontrar-nos.      — É agora, neste momento, que eu vou castigar a tua insolência.      — Havemos de encontrar-nos, sr. capitão; mas quando eu quiser, e for de minha vontade. Antes disso não conheço o senhor; e os seus gritos são como os berros destes novilhos, que ainda não sabem urrar.      O sertanejo, que refreara um tanto a corrida do cardão para lançar estas palavras, de novo desfechou atrás do Dourado, o qual devorava o espaço.      O capitão-mor, Daniel Ferro, e Agrela, que já vinham atrasados, com a chegada do Arnaldo perderam a esperança, não só de agarrar o boi, no que não pensavam mais, como de seguir-lhe a pista. Resolveram portanto a parar em um alto, para acompanharem com a vista a corrida.      O mesmo faziam na colina D. Genoveva, Flor, Alina, e o Padre Teles, com João Correia e Ourém, que tiveram por mais prudente trocar o papel de atores daquela campanha sertaneja pelo de espectadores.      O último não perdeu ensejo de encaixar a sua citação dos Lusíadas . Quando chegavam à falda da colina gritou ele para o companheiro: Olá Veloso amigo, aquele outeiro É melhor de descer que de subir .      O capitão-mor estava de não caber em si, com a satisfação e contentamento de que o enchera o Arnaldo. Desassombrado do receio de que o Fragoso, um rapaz lá de Inhamuns e de mais a mais gamenho da cidade, agarrasse o corredor de maior fama do Quixeramobim e levasse as lampas aos campeiros daquele sertão, o dono da Oiticica já contava como certa a proeza de seu vaqueiro; e entusiasmava-se de antemão com esse triunfo, que lhe pertencia, pois ele o alcançava na pessoa de uma criatura sua, que era como o seu braço.      Era uma corrida vertiginosa aquela. Os olhos não podiam acompanhá-la sem turbarem-se; porque boi e cavaleiro fugiam instantaneamente à vista que os fitava.      O capitão-mor bradava com uma voz de canhão:      — Assim, Arnaldo! Agüenta, rapaz!      O Daniel Ferro entusiasmado também com a valentia do boi e o arrojo do campeador, gritava:      — Ecou! Ecou!... Arriba, vaqueiro!      Agrela assistia à luta em silêncio, mas agitado por vários sentimentos. Invejava a façanha de Arnaldo e volvia um olhar melancólico para o sítio onde estava Alina; mas se brotou em seu coração alguma vaga esperança de ver frustrado o esforço do sertanejo, logo a sufocou a sincera admiração que inspiravam-lhe a força e a destreza.      Em D. Flor e sua mãe repercutiam as emoções do capitão-mor, com quem essas duas almas se identificavam sempre, sobretudo nos impulsos generosos. Alina estremecia de susto e comunicava seus terrores ao Padre Teles, que não a ouvia. Quanto a Ourém e João Correia, assistiam atônitos àquele espetáculo estranho, e pensavam consigo se o rapaz não estaria em algum acesso de loucura furiosa.      Que fazia então o capitão Marcos Fragoso? Tinham-no visto pouco antes correndo com Arnaldo atrás do barbatão; logo depois desaparecera; e ninguém nesse momento deu por sua falta.      Havia à beira da várzea e já no tabuleiro, um alto e esgalhado barbatimão que estendia rasteiros os grossos ramos encarquilhados, formando uma sebe viva. O Dourado vivamente acossado, meteu-se naquele embastido e o atravessou agachado; contava ele que o vaqueiro esbarrando com o tapume, e não achando passagem, o rodeasse perdendo assim muito terreno.      Enganou-se porém. O Corisco, intrépido campeão, e sabedor de todas as manhas do gado mocambeiro, furou a ramada sem hesitar, guiado pela experiência, de que onde passava o corpo mais grosso do boi, devia passar ele e seu cavaleiro.      Na disparada em que ia, Arnaldo viu os galhos rasteiros da árvore, prolongados horizontalmente na altura do peito do cardão. Este coleou-se como uma serpente, e resvalou quase de rastos. O sertanejo, porém, já não tinha tempo de estender-se ao comprido e coser-se ao flanco do animal. Então de um salto galgou o ramo, e uma braça além foi cair na sela, para de novo pular segundo e terceiro ramo, que sucediam-se ao primeiro.      De longe e especialmente do lugar onde estava o capitão-mor, o que se viu foi o cavalo submergir-se na folhagem e o cavaleiro, desprendendo-se da sela, voar por cima daquele monte de ramas, para reunirem-se afinal e prosseguirem na desfilada.      A voz do Campelo retumbou pelo espaço:      — Bravo, Arnaldo!      Daniel Ferro eletrizado pela proeza, começou a cantar como um possesso a quadra do Rabicho da Geralda, que celebra um passo análogo: Tinha adiante um pau caído Na descida de um riacho; O cabra saltou por cima, O ruço passou por baixo .      Os ecos da cantiga chegaram a Arnaldo, que achou graça na lembrança do Ferro, e também por sua vez repetiu o palavreado do Inácio Gomes, quando corria atrás do Rabicho: Corra, corra, camarada, Puxe bem pela memória; Quando eu vim de minha terra, Não foi p’ra contar histórias .      Pelo caso do barbatimão acabara o Dourado de conhecer que vaqueiro tinha ele à cola; e entendendo que o negócio era sério, tratou de pôr-se no seguro.      Endireitou então para uma ponta da várzea em que a corrente das águas tinha desde tempos remotos cavado um profundo barranco, por onde no tempo das chuvas torrenciais, borbotavam para o rio. Uma vegetação exuberante nutrida pelo humo que a enxurrada ali depositava, cobria esse tremedal de sarmentos viçosos e lindos festões de flores.      Estendido sobre essa cúpula de verdura, um grosso tejuaçu * aquecia-se ainda sonolento aos raios do sol matutino, e abria os olhos preguiçosos para ver a causa do alvoroto que ia pela várzea naquela manhã.      A gente do José Bernardo não julgara necessário guardar esse ponto, que estava já de si defendido pelo desfiladeiro onde nunca pensaram que o boi se arriscasse por mais afouto que fosse. Ainda não conheciam o Dourado.      Os olhares que seguiam com atenção essa corrida cheia de peripécias, tiveram um deslumbramento. O boi primeiro, depois o cavalo com o vaqueiro, submergiam-se de repente naquele espesso balseiro. Retroou um grande baque. Todo esse turbilhão de homem e animais acabava de despenhar-se do barranco abaixo.      Houve um instante de ansiedade. Aqueles ânimos acostumados a essas correrias temerárias e curtidos para todos os perigos, sentiram uma vaga inquietação. Estaria Arnaldo naquele instante dilacerado pelos estrepes sobre que talvez o arremessara a queda desastrada?      Ouviu-se o grito de terror, que soltara Alina, e a exclamação das senhoras. D. Genoveva dissera:      — Meu Deus!      Flor invocara a intercessão daquele que para ela tudo podia na terra.      — Meu pai!      O capitão-mor, escutando de longe a voz da filha, voltou-se para dirigir-lhe um gesto tranquilizador.      Do lugar onde estava com os outros companheiros, viram-se além, na estreita nesga de campo que ficava depois do despenhadeiro, passar umas sombras que sumiram-se na mata. E agora ouvia-se um estrépito bem conhecido dos sertanejos; era como uma descarga de fuzilaria que reboava na floresta. O estalar dos ramos despedaçados pela corrida veloz de um animal possante, como o boi, o cavalo, a anta e o veado, produz essa ilusão, que aumenta com a repercussão profunda e sonora da espessura.      O capitão-mor reconheceu que o Dourado corria na mata; e a velocidade de sua fuga indicava muito claramente que ia perseguido. Portanto nada acontecera ao intrépido vaqueiro; pois ele acossava o boi com o mesmo ardor, e já lhe estava no encalço, como se calculava pelo breve espaço que mediava entre uma e outra crepitação.      Efetivamente Arnaldo rompia a mata naquele instante como um raio, de que dera o nome ao seu cavalo; e para usar da frase sertaneja levava o Dourado de tropelão. Ganhando sempre avanço, à medida que estendia-se a carreira e apesar de todas as manhas do boi, já achava-se apenas na distância de uns dez passos, o que todavia, se nada vale no campo onde o vaqueiro pode manejar o laço, é muito no mato fechado.      Essa corrida cega pelo mato fechado é das façanhas do sertanejo a mais admirável. Nem a destreza dos árabes e dos citas, os mais famosos cavaleiros do velho mundo; nem a ligeireza dos guaicurus e dos gaúchos, seus discípulos, são para comparar-se com a prodigiosa agilidade do vaqueiro cearense.      Aqueles manejam os seus corcéis no descampado das estepes, dos pampas e das savanas; nenhum estorvo surge-lhes avante para tolher-lhes o passo; eles desfraldam a corrida pelo espaço livre, como o alcíon que transpõe os mares.      O vaqueiro cearense, porém, corre pelas brenhas sombrias, que formam um inextricável labirinto de troncos e ramos tecidos por mil atilhos de cipós, mais fortes de que uma corda de cânhamo, e crivados de espinhos. Ele não vê o solo que tem debaixo dos pés, e que a todo o momento pode afundar-se em um tremedal ou erriçar-se em um abrolho.      Falta-lhe o espaço para mover-se. Às vezes o intervalo entre dois troncos, ou a aberta dos galhos, é tão estreita que não podem passar, nem o seu cavalo, nem ele, separados, quanto mais juntos. Mas é preciso que passem, e sem demora. Passam; mas para encontrar adiante outro obstáculo e vencê-lo.      Não se compreende esse milagre de destreza senão pela perfeita identificação que se opera entre o cavalo e o cavaleiro. Unidos pelo mesmo ardente estímulo eles permutam entre si suas melhores faculdades. O homem apropria-se pelo hábito dos instintos do animal; e o animal recebe um influxo da inteligência do homem, a quem associou-se como seu companheiro e amigo.      O pundonor do vaqueiro, que julga desdouro para si voltar sem o boi que afrontou-lhe as barbas, o campeão o compreende e o sente; essa corrida é também para ele um ponto de honra; e porisso não carece o seu ardor de ser estimulado.      Esses dois entes assim intimamente ligados no mesmo intuito, formando como o centauro antigo um só monstro de duas cabeças, separam-se quando é mister para tornarem-se pequenos e passarem onde não caberiam juntos. Cada um cuida de si unicamente, certo de que o outro basta-se; mas ambos aproveitam da observação do companheiro, e reúnem seus esforços no momento oportuno.      É assim que explica-se a rápida percepção, que chega a ponto de parecer impossível, e a prontidão ainda mais prodigiosa do movimento com que o cavalo e o cavaleiro se esquivam aos embates, e sulcam por entre a floresta emaranhada, como o golfinho por entre as vagas revoltas do oceano.      Já iam muito pela mata a dentro, quando o Dourado tentando um esforço para escapar, meteu-se imprudentemente por um bamburral quase impenetrável. Ele bem vira que essa brenha era urdida de grossas enrediças de japecanga, capazes de arrastar o mais grosso madeiro, de tão fortes que são. Mas se pudesse romper, estaria salvo; porque o vaqueiro não conseguiria abrir caminho sem o auxílio da faca.      Ficou, porém, enleado no labirinto; e quando fazia os maiores esforços para despedaçar aquelas cadeias com as patas e os chifres, chegou Arnaldo ao pé do bamburral. Logo percebeu o sertanejo que o boi estava emaranhado; e que ele facilmente podia ali agarrá-lo.      Mas o moço sertanejo entendeu que não era generoso, nem mesmo leal, aproveitar-se daquele acidente para pegar o boi que ele queria vencer por seu esforço e valentia, e não pelo acaso. Assim parou à espera que o touro se desvencilhasse dos cipós.      — Não dou em homem deitado, camarada. Safe-se da embrulhada em que se meteu, meu Dourado, e tome campo; que daqui deste arção, ninguém o tira. Digo-lhe eu, Arnaldo Louredo, que nunca menti a homem, quanto mais a boi.      Isto dizia o sertanejo a rir, e o Corisco parecia entendê-lo, pois olhava o Dourado com um certo ar de mofa e soltava uns relinchos mui alegres, que se diriam estrídulas gargalhadas.      A estes relinchos do Corisco responderam a alguma distância outros cavalos, mas com a voz abafada. Arnaldo aplicou o ouvido para bem distinguir aqueles sons e marcar a direção e o lugar presumível donde vinham.      Entretanto o Dourado conseguira desembaraçar-se da meada de enrediças, e astutamente espreitava a ocasião de espirrar daquele refúgio, de modo a ganhar parte do avanço que perdera.      Arnaldo não teve tempo de demorar-se na escuta. O boi arrancara de novo e ele seguia-lhe o trilho, certo de que já não lhe escapava. Com efeito, ao cabo de um estirão de carreira impetuosa, o destemido vaqueiro alcançou o barbatão e pôs-lhe a mão sobre a cauda; mas não quis derrubá-lo. Ele tratava o Dourado com a gentileza que os cavalheiros usavam outrora no combate; e derruba era uma afronta que não infligiria a um corredor de fama como aquele.      Emparelhou o sertanejo seu cavalo com o boi, e passando o braço pelo pescoço deste, continuaram assim a corrida por algum tempo ainda. Afinal o boi parou; conheceu que fugia debalde; já tinha na cabeça o laço que o vaqueiro lhe passara rapidamente.      Arnaldo prendendo a ponta do laço ao arção da sela, tirou o boi para o limpo, a fim de orientar-se e ver o rumo em que ficava a colina escolhida para ponto de parada da comitiva. Surpreendeu-o a impassibilidade do Dourado que permanecia grave e taciturno.      Estava o sertanejo muito acostumado a ver a força moral do homem dominar não só o boi, como outras feras mais bravias, a ponto de abater-lhes de todo a resistência. Mas ainda não tivera exemplo daquela indiferença. O barbatão não parecia o touro que pouco antes corcoveava pelo mato, e sim um carreiro tardo e pesado.      Isso levou-o a examinar o boi para verificar, se ficara ferido ou estropiado da carreira, como acontece freqüentemente. O Dourado estava são; mas triste e abatido. Grossa lágrima, porventura arrancada por alguma vergôntea que lhe ofendera a pupila, corria da pálpebra.      O sertanejo é supersticioso. A solidão, quando não a acompanha a ciência, inspira sempre este feiticismo. Vivendo no seio da grande alma da criação, que ele sente palpitar em cada objeto, tudo quanto o cerca, animal ou cousa, parece ao homem do campo encerrar um espírito, que ali expia talvez uma falta, ou espera uma ressurreição.      Arnaldo acreditou que o Dourado chorava. O famoso corredor, que há sete anos desafiava os mais destemidos vaqueiros, carpia-se, porque afinal fora vencido, e ia ser reduzido, ele, touro livre e brioso, a um boi de curral, ou talvez a um cangueiro.      O sertanejo ficou pensativo. Aquele boi que ele tinha ao arção da sela, era o seu triunfo como vaqueiro, pois quando ele o apresentasse, todos o proclamariam o primeiro campeador, e sua fama correria o sertão.      Aquele boi era mais ainda; era o prazer que D. Flor ia ter vendo o valente barbatão marcado com seu ferro; era a humilhação de Marcos Fragoso, cujas bravatas o tinham irritado, a ele Arnaldo; era finalmente a satisfação do velho capitão-mor, que se encheria de orgulho com a proeza do seu vaqueiro.      Entretanto quando o mancebo ergueu a cabeça, o movimento de generosa simpatia e fraternidade que despertara em sua alma a tristeza do boi vencido, tinha alcançado dele um sacrifício heróico. Resolvera soltar o Dourado.      Nenhum outro homem, dominado por tão veemente paixão, seria capaz desse ato. Mas o amor de Arnaldo vivia de abnegação; e eram esses os seus júbilos. O pensamento de elevar-se até D. Flor, não o tinha; e se ela, a altiva donzela, descesse até ele, talvez que todo o encanto daquela adoração se dissipasse.      Apeou-se e tirou um ferro de marcar, da maleta de couro, que trazia à garupa, e a que no sertão dá-se o nome de maca.      Todo o bom vaqueiro tem seu tanto de ferreiro quanto basta para fazer um aguilhão, para arranjar as letras com que marca as reses de sua obrigação e as de sua sorte, para dar têmpera à faca de ponta, e até mesmo para consertar a espingarda.      Arnaldo, havia anos, fabricara na forja da Oiticica um ferro que representava uma pequena flor de quatro pétalas atravessada por um F. O feitio era mais apurado e de menores dimensões do que os ferros geralmente usados no sertão.      Essa flor, que tinha por estame uma inicial, significava o emblema da mulher a quem idolatrava. Seu timbre, sua glória, era gravá-lo no gado, como em todos os animais bravios, que seu braço robusto domava. Assim os submetia ao domínio e jugo da soberana de seu coração.      Por toda a parte, nas rochas, como nos troncos seculares, ele tinha esculpido este símbolo de sua adoração. Como os descobridores de novas terras erigiam um padrão, ou fincavam um marco para tomar posse dessas paragens em nome de seu rei, ele, Arnaldo, na sua ingênua dedicação, pensava que, daquela sorte, avassalava o deserto a D. Flor, e afirmava o seu império sobre toda a criação.      O moço sertanejo bateu o isqueiro e acendeu fogo num toro carcomido, que lhe serviu de braseiro para aquentar o ferro; e enquanto esperava, dirigiu-se ao boi nestes termos e com um modo afável.      — Fique descansado, camarada, que não o envergonharei levando-o à ponta de laço para mostrá-lo a toda aquela gente! Não; ninguém há de rir-se de sua desgraça. Você é um boi valente e destemido; vou dar-lhe a liberdade. Quero que viva muitos anos, senhor de si, zombando de todos os vaqueiros do mundo, para um dia, quando morrer de velhice, contar que só temeu a um homem, e esse foi Arnaldo Louredo.      O sertanejo parou para observar o boi, como se esperasse mostra de o ter ele entendido, e continuou:      — Mas o ferro da sua senhora, que também é a minha, tenha paciência, meu Dourado, esse há de levar; que é o sinal de o ter rendido o meu braço. Ser dela, não é ser escravo; mas servir a Deus, que a fez um anjo. Eu também trago o seu ferro aqui no meu peito. Olhe, meu Dourado.      O mancebo abriu a camisa, e mostrou ao boi o emblema que ele havia picado na pele, sobre o seio esquerdo, por meio do processo bem conhecido da inoculação de uma matéria colorante na epiderme. O debuxo de Arnaldo fora estresido com o suco do coipuna, que dá uma bela tinta escarlate, com que os índios outrora e atualmente os sertanejos tingem suas redes de algodão.      Depois de ter assim falado ao animal, como a um homem que o entendesse, o sertanejo tomou o cabo de ferro que já estava em brasa, e marcou o Dourado sobre a pá esquerda.      — Agora, camarada, pertence a D. Flor, e portanto, quem o ofender tem de haver-se comigo, Arnaldo Louredo. Tem entendido?... Pode voltar aos seus pastos; quando eu quiser sei onde achá-lo. Já lhe conheço o rasto.      O Dourado dirigiu-se com o passo moroso para o mato; chegado à beira, voltou a cabeça para olhar o sertanejo, soltou um mugido saudoso e desapareceu.      Arnaldo acreditou que o boi tinha-lhe dito um afetuoso adeus.      E o narrador deste conto sertanejo não se anima a afirmar que ele se iludisse em sua ingênua superstição. VI OS BILROS        Quando Arnaldo correndo atrás do Dourado, respondeu com palavras de desprezo ao desafio do Fragoso, este já irado teve tal acesso de cólera que produziu-lhe uma vertigem.      A impossibilidade de punir imediatamente a insolência do vaqueiro deu causa a essa congestão de ódio. Por momentos esteve sem acordo, como alucinado; mas recobrou-se breve.      Se tivesse na mão uma arma de fogo qualquer, pistola ou clavina, com certeza a houvera disparado contra Arnaldo; mas privado como estava de qualquer meio de saciar a sua vingança, e vendo o sertanejo afastar-se cada vez mais na velocidade de sua carreira, ele descarregou a sua raiva sobre o cavalo.      Ferido ao vivo pelos acicates, e ao mesmo tempo sofreado pela rédea, o árdego animal começou a corcovear, e foi aos trancos atirar-se em um atoleiro que a passagem constante do gado tinha cavado no meio de umas touceiras de carnaúbas.      Já fatigado da carreira, ali ficou a patinhar na lama, o que ainda mais exasperou o cavaleiro. Saltando na ilha que formava uma das touceiras, o Fragoso, apanhou os talos da palmeira e com eles esbordoou o animal. Este, pungido pela dor, conseguiu galgar o atoleiro e fugiu; a fúria do moço capitão voltou-se contra as plantas, e ele continuou a fustigar os cardos, os crauatás e os troncos da carnaúba.      Quando parou de extenuado, as luvas de camurça de veado estavam dilaceradas, e as mãos finas e macias vertiam sangue. Então escoado por essa exerção física o primeiro ímpeto de cólera, a razão, se ainda não reassumiu o seu império, pôde sofrear a índole violenta.      Concentrou-se e refletiu.      Marcos Fragoso era de ânimo generoso, ornado de prendas de cavalheiro; mas tinha o gênio arrebatado e irascível. Além disso, apesar do atrito da cidade e polimento da vida praceira que levava no Recife, era ainda sertanejo da gema; sertanejo por descendência, por nascimento e por criação.      Os sertanejos ricos daquele tempo eram todos de orgulho desmedido. Habitando um extenso país, de população muito escassa ainda, e composta na maior parte de moradores pobres ou de vagabundos de toda a casta, o estímulo da defesa e a importância de sua posição bastariam para gerar neles o instinto do mando, se já não o tivessem da natureza.      Para segurança da propriedade e também da vida, tinham necessidade de submeter à sua influência essa plebe altanada ou aventureira que o cercava, e de manter no seio dela o respeito e até mesmo o temor. Assim constituíam-se pelo direito da força uns senhores feudais, por ventura mais absolutos do que esses outros de Europa, suscitados na média idade por causas idênticas. Traziam séquitos numerosos de valentões; e entretinham a soldo bandos armados, que em certas ocasiões tomavam proporções de pequenos exércitos.      Estes barões sertanejos só nominalmente rendiam preito e homenagem ao rei de Portugal, seu senhor suserano, cuja autoridade não penetrava no interior senão pelo intermédio deles próprios. Quando a carta régia ou a provisão do governador levava-lhes títulos e patentes, eles a acatavam; mas se tratava-se de cousa que lhes fosse desagradável não passava de papel sujo.      Não davam conta de suas ações senão a Deus; e essa mesma era uma conta de grão-capitão, como diz o anexim, por tal modo arranjada com o auxílio do capelão devidamente peitado, que a consciência do católico ficava sempre lograda. Exerciam soberanamente o direito de vida e de morte, “jus vitae et noecis”, sobre seus vassalos, os quais eram todos quantos podia abranger o seu braço forte na imensidade daquele sertão. Eram os únicos justiceiros em seus domínios, e procediam de plano, sumarissimamente, sem apelo nem agravo, em qualquer das três ordens, a baixa, média, e a alta justiça. Não careciam para isso de tribunais, nem de ministros e juizes; sua vontade era ao mesmo tempo a lei e a sentença; bastava o executor.      Tais potentados, nados e crescidos no gozo e prática de um despotismo sem freio, acostumados a ver todas as cabeças curvarem-se ao seu aceno, e a receberem as demonstrações de um acatamento timorato, que passava de vassalagem e chegava à superstição, não podiam, como bem se compreende, viver em paz senão isolados e tão distantes, que a arrogância de um não afrontasse o outro.      Quando por acaso se encontravam na mesma zona, o choque era infalível e medonho. Ainda hoje está viva no sertão a lembrança das horríveis carnificinas, conseqüências das lutas acirradas dos Montes e Feitosas, mais tarde dos Ferros e Aços. O rancor sanguinário das dissensões políticas de 1817 e 1824, foram resquícios dessas rivalidades e ódios de família, que mais breves não cederam contudo na crueza e animosidade às dos Guelfos e Gibelinos.      O capitão Marcos Fragoso, ainda moço, arredado havia anos do interior e limado pela vida da cidade, não estava no caso de um desses potentados do sertão, e não podia julgar-se com direito e força de entrar em competência com o capitão-mor Gonçalo Pires Campelo, cujo nome era temido desde o Exu até os confins do Piauí.      Assim, quando arrastado pela paixão que nele acendera a formosura de D. Flor, deixara o Recife e viera ao Quixeramobim, sob o pretexto de visitar sua fazenda do Bargado, mas com o fim único de aproximar-se da donzela, dispôs-se o moço capitão a render a sua homenagem ao senhor daquele sertão, a quem já considerava como sogro. Acreditava, porém, que essa homenagem fosse acolhida de um modo obsequioso e retribuída por uma deferência a que se julgava com título.      Falhou a sua conjetura. O capitão-mor lhe dera em sua casa o mais cortês e suntuoso agasalho; porque nisso não tivera em mente obsequiá-lo e sim fazer ostentação de sua opulência. Desde, porém, que ele, Fragoso, transpusera o limiar e deixara de ser hóspede da Oiticica, o senhor de Quixeramobim não o considerou mais senão como um vizinho que lhe devia todas as honras e bajulações, passando a tratá-lo nessa conformidade.      Se não ocorresse ao capitão-mor a idéia de aproveitar o mancebo para dar à sua filha querida um noivo sofrível, certamente que nem o mandaria visitar por seu ajudante, nem o deixaria passar tranqüilo no Bargado, cerca de um mês; já lhe houvera suscitado algum conflito para ter ensejo de obrigá-lo a um ato formal de submissão.      Esta sobranceria picou ao vivo o Marcos Fragoso; e se não fosse tão veemente e irresistível a sedução dos encantos de D. Flor, já seu orgulho se teria revoltado contra aquele soberbo desdém. O receio de perder a dama de seus afetos e tornar impossível a aliança que sonhava, pôde tanto nele, que o conteve.      Depois de realizada a sua ambição e de alcançada a posse da noiva, então ele se despicaria desse procedimento, obrigando o sogro a tratá-lo de igual a igual; e fazendo-lhe sentir que a honra dessa aliança, não a recebia ele, capitão Marcos Fragoso, filho do coronel do mesmo nome e o mais rico fazendeiro do Ceará; porém sim, o capitão-mor Campelo, que só por morte de seu competidor lhe sucedera na importância e tornara-se o potentado de Quixeramobim.      Quando cogitava nestas cousas, e recordava as rivalidades que outrora começavam já a levantar os dois vizinhos um contra o outro, acudiu-lhe a idéia de uma recusa da parte do capitão-mor; e se a princípio sua altivez repeliu a possibilidade do fato, depois refletindo, pareceu-lhe muito próprio do capitão-mor aproveitar-se da oportu