KOREAEBOOKDOCUMENT1.3.0O Segredo do DuendeFilipe Marinho de BritoeBooksBrasileBooksBrasil ;para.xmlcapa.jpgnormal.stypara.xml*smaller.stysmall.stynormal.sty+large.sty larger.sty:capa.jpg5Nindice.jpg ndice ndice na Obra
O Segredo do Duende Filipe Marinho de Brito Edição eBooksBrasil Versão para eBook eBooksBrasil.com Fonte Digital Documento do Autor Copyright: © 2001 Filipe Marinho de Brito filipeu@uol.com.br ÍNDICE O Autor Capítulo I – Minha Família e eu Capítulo II – O Início Capítulo III – A Viagem Capítulo IV – Enfim, Chegamos Capítulo V – O Verdinho Começa a Aprontar Capítulo VI – Que Noite! Capítulo VII – Na Caverna Encantada Capítulo VIII – Sobrou Pra Mim Capítulo IX – A Pedra do Desejo O AUTOR   Filipe Marinho de Brito, natural do Rio de Janeiro, reside em Goinia, á Rua Serra dos Javaés, Quadra 10, Lote 22, Cj. Sonho Verde – CEP: 74-730-550 – Telefone: (0xx62) 284-0317 – e-mail: filipeu@uol.com.br. Atualmente, freqüenta o 2o. ano secundário, no Colégio Militar de Goiás. Jardim de Infncia – Colégio Sagres, no Rio de Janeiro. Destacava-se como o melhor aluno da turma. Entusiasta em tudo o que fazia, era geralmente o líder em seu grupo. Iniciação Esportiva : começou a fazer jud no Convento dos Capuchinhos, no Rio de Janeiro, aos quatro anos de idade. Ganhou vários troféus, em competições naquela cidade. Primário : Colégio Sete de Setembro, em Caldas Novas – GO. Veio para Goiás com sua família que se mudava do Rio de Janeiro devido a injunções políticas. Não sofreu descontinuidade no ensino, porque o Colégio Sete de Setembro tem excelente direção e bons professores. Ficou muito amigo e gosta muito do Prof. John Woody Jr., o Prof. J, como é conhecido, e da Prof. Lygia, esposa deste. Estudou, ainda, no Colégio do Prof. Pedro, o Colégio Anglo Jr, do qual não esquece do Maracapó, o campo de futebol em terra batida e onde a poeira era tanta que, vez por outra, o jogo tinha de ser interrompido para que os jogadores pudessem deixar a poeira assentar a fim de poderem ao menos se enxergarem. Em Caldas Novas freqüentou todos os clubes e ficou amigo de quase todos os donos deles. No Priv de Caldas fez jiu-jitsu com o Professor Paulo, participou do Primeiro Tornei de Jiu-jitsu de Caldas Novas, onde ganhou medalhas. Também disputou natação pelo clube e ganhou medalha em primeiro lugar. Foi a partir dos treinos com o prof. Paulo, um excelente instrutor de artes marciais, que o autor ganhou gosto pela luta de solo. Primeiro Grau : veio para Goinia em 1995, janeiro. Estudou inicialmente no Colégio Máximo, depois fez concurso para a Escola Emmanuel, foi aprovado e está cursando ali o primeiro grau. Gosta muito da escola e tem bons amigos lá. É “caxias” ao extremo e os colegas confiam muito nele, quando tm de apresentar trabalhos em grupo. Amigos Marcantes : além dos já citados, marcou muito a amizade que fez com o dono do Hotel Parque das Primaveras, em Caldas Novas, o Eng. Rodolfo Rohr. Este adotou-o como sobrinho postiço e ambos fizeram uma amizade muito forte. As histórias contadas por Rodolfo, quando andou perambulando pelo Brasil a fora e descobriu as águas quentes, em Goiás, incentivaram a cabecinha fértil do menino. Rodolfo, por sua vez, dá-lhe presentes sempre úteis, como um microscópio que por uns tempos fez que o autor virasse cientista louco. Foi a época de terror para aranhas, formigas, moscas, baratas, sapos e quantos mais caissem sob seus olhos. Esportes : nunca deixou de querer fazer jiu-jitsu e tanto pediu que seus pais procuraram a academia do Prof. Hugo Nacamura. Agora, o autor é aluno de Mestre Hugo. Gosta muito dele e se esforça para ser um campeão. Andou ensaiando capoeira e karat, mas desistiu. Gosta mesmo é de “luta de cachorro” (modo como um prof. chins de TAI-CHI definia as lutas de solo). Cultura Geral : o autor é muito versátil. Pena que o tempo não chega para tudo o que quer fazer. No momento faz canto coral, na Escola Veiga Valle, como integrante do grupo CORAL PEQUENAS VOZES. Além disto, também faz iniciação musical na mesma escola. Esteve aprimorando sua natação, no ano passado, na Faculdade de Educação Física de Goinia. Não continuou este ano por absoluta falta de tempo. Pais : Psicólogos, dramaturgos e romancistas, os pais de Filipe sempre foram incentivo primordial para seu apego ao conto e às lutas marciais. Seu pai escreve romances que l para os filhos, quando não está lendo livros de outros autores. Isto sempre incendiou a imaginação tanto dele quanto de sua irmã, Suzana Marinho de Brito.O primeiro romance de grande porte que ouviu foi O FORTIM, de S. Paul Wilson. Foi um marco impressionante. Não conseguia dormir pensando no monstro do romance – Molasar/Rasalom. Depois deste, seguiu-se uma coleção de romances publicados para jovens em sua idade e até mesmo em idade mais avançada. Isto tudo contribuiu para que resolvesse seguir as pegadas de seus pais e colocasse suas fantasias em forma de livro. Goinia, 05 de junho de 1997 O SEGREDO DO DUENDE Filipe Marinho de Brito CAPÍTULO I MINHA FAMÍLIA E EU        Creio que é preciso que eu me apresente e a minha família, porque ficará mais fácil entender minha aventura estranha. Chamo-me Eduardo, tenho quase 12 anos e sou um típico morador de apartamento em São Paulo. Minha família é da chamada classe média alta, embora, com a situação do país, sei não.      Tenho uma irmã que me torra a pacincia, e é mais nova que eu 2 anos. E tenho um irmãozinho de 4 anos, o quindim de meus velhos. Meu pai é comerciante – tem um negócio de alimentação a quilo e minha mãe o ajuda no restaurante. Não vivemos mal, não. Eu estudo num colégio muito legal, com muitas menininhas que já não são tão apegadas a bonecas, mas que adoram bonecos , se me entendem. Eu sou meio tímido e não sei namorar, por isto meto a cara nos livros e me dou mal com a galera. Me chamam de c.d.f. – que eu não sabia o que era e, agora que sei, preferia não saber. Sou branquelo, magrelo e de cabelos arrepiados. Por mais que faça, o danado não assenta na cabeça. Parece que eles e o meu couro cabeludo andam de turra desde que nasci. Para piorar minha auto-estima já esfarrapada, eu tenho sardas por todo o corpo. Na parte que a roupa cobre eu não me importo, mas no rosto e nos braços... bem, as sardas são minha tortura. E pensam que a coisa pára por aí? Enganam-se. Eu sofria de rinite alérgica, aliás, quem não sofre morando numa cidade que é campeã em poluição aérea? Minha família toda tem alegria. Meu irmãozinho é alérgico a leite, a lã, a pó e a frio. Eu sou alérgico a pó, a tinta de qualquer espécie, a perfume, a cnhamo e a alguns temperos. Um dia peguei meu pai confessando a minha mãe que temia que eu viesse a me tornar alérgico a rabo-de-saia. Aquilo me chateou de verdade. Acho que é porque minha irmã já anda toda assanhada atrás de seu boneco , enquanto eu ainda não consegui me deixar ser o boneco de nenhuma. Eu não sei como dizer isto, mas fico todo sem jeito quando uma menina engraçadinha se aproxima de mim. E se ela fr bonita, aí mesmo é que o caldo entorna.      Eu fantasio muito. Sou um super-herói em minhas fantasias, mas na realidade sou um fracasso. Este ano, para piorar minha desdita, entrou pra minha sala de aula um menino muito bonito. Tem minha idade, só quatro meses mais velho que eu, é moreno, olhos negros, cabelos negros, corpo proporcional e forte, pois faz karat.      Bom, eu disse que sou tímido e fujo de meninas bonitas, mas isto não me impede de sonhar com a Mirna. Ela é a coisinha mais engraçadinha que eu já vi na vida. Tem umas bochechas rosadas, cabelos encaracolados e castanhos-claro. É branquinha, mas não uma banana descascada como eu. Tem um narizinho arrebitado que é uma graça. Mãos e pés rechonchudos e é muito bem proporcional de corpo, ao contrário da Anabela que é uma gordinha batatuda. O que eu mais gosto na Mirna são os olhos caramelados. Eles olham todo pra gente. Quando digo todo, quero dizer que os olhos de Mirna olham pra gente de frente, firme e sem malícia. Acho que ela é um pouco parecida comigo. Gosta de brincar de boneca, de pular-corda, de pique-esconde e de pular amarelinha, mas não é nem um pouquinho preocupada em encontrar aquele que vai ser o seu boneco . Ela é uma menina menina, enquanto as outras são meninas metidas a mulheres. Estas, quando olham pra gente, tm um qu esquisito, malicioso no olhar. Acho que é tudo culpa da televisão. A Mirna, não. Ela tem a inocncia teimosa da criança que as telenovelas ainda não envenenaram.      Há muito tempo que eu penso e repenso num modo de me aproximar de Mirna, mas esta minha timidez é um porre. Toda vez que eu chego perto dela e ela me olha com aquele olhar de que é que voc quer ? eu fico entupido. Eu acho que não tenho vergonha dela, não. Tenho vergonha é do que eu penso. Gostaria de contar isto a alguém e perguntar se estou certo, mas o diabo é que tenho vergonha de falar de meus sonhos. Isto não é um porre?      Pois muito bem, Mirna caiu nas graças do Bruno, o tal menino porreta do karat. O intrometido anda todo assanhado pro lado dela e eu morro de ciúmes e de... de medo. Tenho uma vontade danada de amassar o nariz do infeliz, mas quando penso no meu próprio recebendo uma karatecada no lombo, desanimo. Um dia destes dei uma narigada na quina da mesa. Diabo, como doeu! Imagine eu levando uma porrada firme do punho do Bruno. Nem consigo pensar. Mas eu me vingo é à noite, quando estou na segurança de minha cama e sob os lençóis branquinhos e cheirosos que me cobrem. Aí, sim, dou cada surra no Bruno que é de meter inveja ao Bruce Lee.      Apesar de meus complexos, tenho uma vantagem: sou melhor que o Bruno em todas as matérias. Minhas notas nunca desceram a menos de oito, enquanto as dele não conseguem passar do seis. Mas esta vantagem não é grande coisa, pois me borro de medo de dar cola. Vai daí que meus colegas me acham metido a besta e esnobe. Dizem que eu não coopero com ninguém, mas não é isto. Eu não consigo dar cola porque tenho sempre a impressão de que a professora tem mil olhos e eles estão todos grudados em mim durante uma prova. Mas como é que eu vou dizer isto pr’aquelas toupeiras? Eu não sei explicar em palavras o que sinto sem me achar ridículo e, por isto, sou o antipático da sala. Todos me evitam e as meninas, quando podem, me dão lingua e fazem careta. Fico emburrado e acho que faço cara feia, o que piora sensivelmente as coisas pro meu lado.      Semana passada aconteceu um incidente horrível. Recreio é a coisa mais esperada na sala de aula por todos, menos por mim. Não me aceitam no foot-ball porque sou um tremendo perna-de-pau. Não me aceitam no basquete porque não dou uma dentro. A turma diz que se o aro fosse do tamanho do pneu de uma jamanta eu, ainda assim, ía errar a bola com certeza. Acho que é exagero deles, mas não tenho como provar porque não há aros deste tamanho...Ou há? Eu nunca vi um assim. A turma também não me aceita no pique esconde porque me acha desajeitado e grande demais para me esconder. Não pulo amarelinha porque vão-me chamar de mariquinhas. Bem, o certo é que eu me sinto um peixe fora d’água no recreio. Pois bem, semana passada aconteceu um incidente horrível. Eu vinha correndo pelo corredor das salas do andar de cima. Quando cheguei bem na descida da escada dei um bruto esbarrão no Bruno que vinha subindo por ela. O desgraçado desceu rolando até lá embaixo. Eu devo ter ficado mais amarelo que manga madura. E se o Bruno tivesse quebrado o pescoço?      Juntou um monte de garotos e garotas em volta dele. No chão, o Bruno se torcia e gemia, segurando o braço. A inspetora e quis saber o que tinha acontecido. Aí, eu não sei por qu, os garotos me apontaram dizendo que eu tinha empurrado o coitado escada abaixo. Fiquei tão espantado que não consegui falar nada. Fui levado para a Diretoria e me deram tremenda reprimenda. Caí nos olhos de raiva e de vergonha de mim mesmo, por não saber me defender. Íam-me dar uma baita suspensão, quando, para minha surpresa, o Bruno, que teve o braço esquerdo destroncado na queda, me defendeu dizendo que eu não o tinha empurrado. Ele escorregara e rolara a escada sozinho. Como eu estava chegando junto dele no momento do escorregão, os outros meninos tinham pensado que eu havia dado um empurrão nele. Aí, vieram os pedidos de desculpas da Inspetora e da Diretora. Ligaram para o “seo” Álvaro, meu pai, e desdisseram tudo o que haviam dito, antes.      Pasmo, fiquei olhando nos olhos do Bruno sem saber o que entender daquilo. Eu pensava que ele não me tolerava tanto quanto meus outros colegas, mas se isto era verdadeiro, então, por que me defendera quando todos estavam a me acusar? Era a oportunidade dele se vingar de mim. Na última prova, de matemática, ele estava no sufoco e me pediu cola. Eu fiz que não tinha ouvido e não dei nem um espirro. O coitado tentou de tudo, mas eu não me movi nem para coçar o pé. Saí mais duro que cassetete de policial em briga no Pacaembu.      Bruno me olhava como se eu não estivesse ali em sua frente. Não sei porque eu me senti uma barata. Também não sei explicar porque me sentia envergonhado e raivoso ao mesmo tempo. Raivoso contra o Bruno, mais do que contra os amigos-da-onça que me apontaram para a Inspetora como o culpado de um acidente proposital.      A partir daquele dia, entrar em sala de aula era uma tortura. Agora, os mil olhos não estavam na professora em dia de prova, não. Estavam espalhados pela sala, os miseráveis. E só olhavam para mim.      Anteontem aconteceu uma coisa estranha e...dolorosa. Eu sento na quarta carteira da fileira da esquerda. Pois bem, anteontem, aula do professor de portugus, o mais caxias que eu já vi, cheguei atrasado e entrei em sala tropeçando nos calcanhares. Quando fui sentar senti uma dor danada no traseiro. Dei um pulo e soltei um grito inesperado. O professor me olhou de cara feia e disse: “Além de chegar atrasado voc ainda me perturba a aula? Sente-se e fique de boca fechada, senão eu o mando para a Diretoria.” Enquanto eu gaguejava um “sim, senhor” estropiado, passei a mão pelos fundilhos e encontrei uma tacha cabeçuda enterrada na minha bunda. Arranquei a peste fazendo uma careta de dor. Pois não é que o professor pensou que eu o estivesse careteando? O homem ficou vermelho como uma cereja madura e deu um berro para cima de mim que num instante eu esqueci da dor no traseiro.      Bom, isto sou eu e minha família... Acho que falei demais de mim e esqueci de falar de minha irmã e de meu irmão caçula. Bem, minha irmã, como eu já disse, enche minha pacincia e se eu pudesse botava a danada dentro de um saco de lixo e deixava o caminhão levar. Mas não posso, né? Ela me dedura toda vez que eu estou torturando as bruxas dela. Há coisa de uns trs dias eu estava assando devagarinho a Barbie só pra ver como é que ela ía ficar depois de um calor brabo. A boneca já estava começando a ter a cara encompridada e ía ficando muito gozado. Um olho veio parar perto do nariz e este, caiu sobre a boca. A boca, por sua vez, ficou troncha e a Barbie de bonitinha estava ficando uma diaba. Eu ‘tava me divertindo à bessa e já imaginava a cara de babaca que o Dr. Ken ía ficar quando desse com a namorada dele toda torta e aí minha irmã chegou. Foi o diabo, cara. A pestinha botou a boca no mundo. Berrou como se eu estivesse pregando o pé dela no chão a marteladas. Minha mãe veio pra cima de mim como uma arara e eu tive de agüentar uns puxões de orelhas daqueles. Tenho a impressão de que quem está troncho, agora, sou eu. Minha orelha direita ainda me dá a impressão de que virou uma batata no lado de minha cabeça. Eu não sei porque a Laís gritou tanto. Afinal de contas, ela tem cinco Barbies. Não custava nada deixar eu fazer algumas experincias com uma delas, não é? É bem verdade que quando ela pegou meu carrinho de plástico e sentou o Jumbo de madeira que lhe deram de presente no seu aniversário em cima dele fazendo com que ficasse amassadinho, amassadinho, eu danei. Falei, chorei, esperneei e ela terminou tomando uma reprimenda do papai e ficou sem ver a novela das seis – ela é apaixonada por aquelas baboseiras idiotas – por uma semana. Mas uma coisa não tem nada a ver com a outra. Eu só tenho dezoito carrinhos e nenhum deles é igual ao outro. Não posso perder um, mas ela pode perder uma Barbie. São todas iguais, ora bolas!      Tá, tá bom, vocs acham que eu sou egoísta, não é? É, vocs e meus pais tm a mesma opinião. Mas eu não ligo. Acho que estou certo e tenho certeza de que estou certo e pronto. Pra falar a verdade, não sei porque na família da gente nascem meninas. Seria bem melhor que só nascessem nas famílias dos outros. Principalmente na família de meninos bestas como o Bruno. Eu ía adorar saber que ele tinha uma irmã danada como a que tenho. Bem, mas chega de irmã. Não vou dar cartaz a ela falando dela deste modo.      Agora, deixem-me falar do Júnior. Tem só quatro anos, mas eu gosto muito dele. É meu companheiro para brincar com os carrinhos e leva cascudos meus sem chiar como faz a peste da minha irmã. Outro dia eu resolvi que ele era o Robin e eu, o Bat-Man. Nos fundos do condomínio onde moramos há uma jaqueira deste tamanho. Eu peguei uma corda e amarrei num dos galhos da jaqueira e a outra ponta eu amarrei na cintura do Júnior. Aí, subi na jaqueira e fui para outro galho. Então, puxei o Júnior para perto de mim e combinei que ele ía voar até o outro lado. Ele ficou muito contente. Aí, eu soltei ele, mas acho que a corda era de borracha, pois o Júnior, em vez de passar voando acima do chão, enterrou o nariz na areia e sumiu. Eu só fiquei vendo as pernas dele se agitando no ar. Puxa vida, nunca mais vou esquecer da surra que tomei de meu pai.      Mas o Júnior também apronta pra cima da Laís. Na semana passada, era perto de duas da manhã, ele ps todo mundo em polvorosa. De repente, sem mais aquela, ele pulou da cama gritando feito um condenado e correu pro quarto de nossos pais. A Laís acordou assustada e também saiu gritando atrás dele. Nossos pais acordaram assustados e vieram socorrer os dois. Pensavam que alguma coisa horrível tinha acontecido com o Júnior e a Laís e mamãe quase teve um troço no coração. Quando tudo se acalmou e papai quis saber porque o Júnior estava gritando, ele disse que tinha tido um pesadelo. Quando perguntaram à Lais se ela também tinha tido um pesadelo ela respondeu que não, que acordou com os berros do Júnior e como ele corria e gritava, ela também saiu atrás gritando de medo do medo dele.      Papai é novo. Tem só quarenta anos. Gosta de uma pelada e de empinar papagaio. Fora isto, gosta de fazer passeios pela mata. Já minha mãe é pacífica dona de casa. Nada muito bem e quando não tinha a gente com ela, conta que chegou a ser campeã de natação pelo Palmeiras.      Muito bem, acho que já dá pra conhecer a gente. Somos assim. Como bons membros da grande família paulistana trabalhadora, vivemos apavorados com a violncia que assola nossa cidade.      Eu gostaria de fazer uma luta marcial, como o Bruno, mas como sou alérgico a poeira e nas academias há muito disto, meus pais se recusam a me matricular em uma delas. Assim, passo meus dias somente sonhando que sou um irmão mais forte do Bruce Lee.      Bom, acho que chega de nós. Vamos ao que eu estou doidinho pra contar. Juro que não é invenção minha, até porque não sou muito de inventar coisas, não. E não invento porque não sou um bom mentiroso, sabem? A gente, para mentir, tem de ter uma memória de elefante e eu tenho a minha igual à de uma minhoca. Se inventasse alguma história agora, daqui a dois dias eu não ía mais saber contar a mesma história. Por exemplo: se tivesse um cachorro doberman na minha mentira na primeira vez que eu a contasse, é certo que o desgraçado apareceria como um gatinho manhoso e malhado na segunda versão. E como eu já quebrei a cara com uma mentira deste tamanho e passei uma vergonha de lascar, jurei que nunca mais ía mentir. É por isto que posso afirmar com todo o coração que o que vou contar não é mentira, não. Mesmo quando falar das coisas que me ferem e em envergonham, juro que falo a verdade. Vocs acreditem se quiserem. Eu não me importo. CAPÍTULO II O INÍCIO        Hoje é um dia muito especial. Vai haver uma gincana no meu colégio. Eu participo do campeonato de xadrez. Neste jogo sou o melhor, mas estou um tanto medroso porque vamos disputar com cinco colégios e eu soube que as equipes deles são muito boas.      Em casa mamãe fala pelos cotovelos. Está muito eufórica, acho que lembrando dos tempos em que ela disputava campeonatos de natação. Meu pai tenta me infundir calma e coragem, mas eu acho que ele não está conseguindo muito, não. Mesmo assim, estou confiante, embora meu coração teime em ficar fora do peito e batendo na goela. Eu desconfio que ele é que é o maior covardão dentro de mim.       A Laís está toda faceira. Ela vai cantar no coral e vai apresentar um número de dança. Minha irmã gosta muito de sapateado, sabiam? Pois é. Ela tem pés de mola, gente. Quando começa a fazer trac-trac com os sapatos no chão, eu fico me lembrando do Pinóquio quando ainda não era gente.      Bom, finalmente, depois de muita bronca por causa dos dentes que mamãe sempre acha que nós não escovamos direito e nos impõe uma segunda sessão de esfrega-esfrega das escovas nos coitados, lá vamos nós para o automóvel. Aí é a vez do papai danar. O carro, diz ele, está uma lixeira. Tem papel de bala por todos os lados e pelo do Teimoso até no teto. Quem é o Teimoso? Ora, nosso cãozinho de raça indefinida. É peludo, amarelo, com cara de sem-vergonha e que usa uma orelha de pé e a outra deitada. Laís está no colo de mamãe que vai dando os últimos retoques nos cabelos dela – eu acho até um exagro, pois a diabinha está muito bem penteada, sim senhor – enquanto papai reclama que lugar de criança é no banco de trás e diz que mamãe está arriscando ele levar uma multa por causa da Laís.      Sabem o que eu acho? Eu acho que minha família tem mais boca do que outra coisa. Como falam, p! Tem horas que minhas orelhas ficam cansadas só de ouvir o falatório deles.      Afinal, chegamos. Tem carro pra todo lado no estacionamento e meu pai sua para encontrar uma vaga. Vai à frente e dá uma trombada na traseira de um felizardo que já está estacionado. Depois, vem de costas e dá uma bundada no parachoques de outro infeliz. Finalmente, depois de muita reclamação e irritação – que ele desabafa dizendo palavrões que se fosse eu teria as orelhas avermelhadas na hora –, nosso automóvel consegue espremer-se no espaço que sobrou.      — Estamos com sorte, Álvaro – diz mamãe alegremente. – Veja lá! Aquele coitado não conseguiu vaga e vai ter de deixar o carro aberto para poder ser empurrado pra frente e pra trás, pelo guardador. Eu detestaria que fssemos obrigados a fazera mesma coisa.      — Eu também – ironiza o papai. – Detesto ficar empurrando o carro dos outros.      — Ora, voc me entendeu! – exclama a mamãe, de bom-humor.      E aí começa uma coisa que eu detesto. Mamãe se gruda na gente. Parece até querer-nos colocar debaixo das suas saias.      — Laís! D a mão ao seu irmão. Não se separem. É perigoso. Lembrem-se que há bandidos roubando crianças para médicos sem escrúpulos extrairem seus órgãos. Júnior! Onde voc vai, menino? Volte aqui, Júnior! Se não se comportarem eu juro que volto para casa daqui mesmo e não tem mais diversão, estão entendendo?      Não sei porque aquele falatório todo, pois estamos juntos, ora. O Júnior não é besta de se perder novamente. A última vez que ele fez isto foi lá em São Conrado, no Rio de Janeiro. A praia estava atulhada de banhistas e o pestinha de meu irmão saiu catando conchas e desapareceu. Eram as dez horas da manhã e nós só fomos encontrá-lo às 16h. Mamãe chorou tanto que eu acho que o mar subiu trinta centímetros de tanta lágrimas. Agora, depois que tudo passou, ela deu umas tremendas chineladas no bum-bum do mano. Não entendo. Se estava com raiva dele, como é que ficou chorando e gritando “eu quero o meu filhinho”? Eu, quando estou danado da vida com alguém, quero mais é que leve a breca, ora essa.” Mas mãe é mesmo um bicho esquisito. Puxa nossas orelhas até quase arrancá-las e diz que é pro nosso bem. Eu, hein! Que bem mais besta, rapaz. As minhas, cara, quando eu fr adulto, vou ter de mandar consertar, pois de tanto levarem puxões vão ficar mais ou menos do tamanho das orelhas do Dumbo. O que me irrita mesmo é que eu sou quem mais apanha, lá em casa. Minha irmã é a bonequinha mimada. Faz tudo muito direitinho, anda sempre certinha e é o tempo todo admiradinha... Que merda! Se eu tivesse mais coragem e não temesse encontrar os tais médicos ladrões de órgãos, já tinha-me mandado lá de casa só pra castigar os meus pais. Mas como o mundo anda mesmo às avessas, é melhor ficar quieto e agüentar o tranco. Afinal de contas, pesando prós e contras, meus pais tm saldo positivo comigo. Não são como os pais do Fernando, outro colega meu de sala de aula. O pai bebe feito um gambá e a mãe vive reclamando de tudo. Ele, sim, é um azarado de ter tido pais daquele tipo. Quando o velho dele chega porrado, a primeira coisa que faz é meter uns cascudos na cabeça do coitado. O Fernando, eu acho, tem tantos galos debaixo dos cabelos que o barbeiro deve se recusar a lhe cortar a juba. Creio que é por isto que ele usa aquela cabeleira piolhuda e desalinhada.      E por falar nele, olha só quem vem lá! É o próprio. Rapaz, está irreconhecível! Tem roupas e sapatos novos e os cabelos, quem diria, foram cortados. O carão vermelho do pai dele, hoje, está mais vermelho do que nunca. Acho que já entornou uns gorós que é pra poder agüentar a emoção de ver o filho se danar na corrida de sacos.      Ei, cad meus pais? MÃÃÃÃEEEEE!!! Onde está voc? Aí, meu Deus, eu perdi minha mãe... MAMÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃEEEEEEEEEEE!      — Que gritaria é essa, garoto? Nós estamos aqui atrás, comprando pipoca!      Graças a Deus é a voz dela. Eu prefiro ficar levando puxões de orelhas a vida toda a me perder desta mulher, cara. Eu juro! O que faria sem ela em minha vida? Nada, ora essa. Ela enche o saco, é verdade, mas me protege como ninguém e isto é muito gostoso.      E lá vamos nós todos de mãos dadas para o meio da balbúrdia, da gritaria, da correria da petizada e pelo meio de um milhão de bandirinhas coloridas. Encontramos com Da. Zica, a professora de Cincias. Ela cumprimenta meus pais e me olha nos olhos. “Pronto, é agora. Ela vai dizer a eles que eu não sou muito bom na matéria dela, a desgraçada!” Mas não é nada disto o que acontece. Da. Zica passa a mão pelos meus cabelos e diz:      — Edu, eu vou torcer por voc! Mas se perder, não tem importncia,entendeu? O que vai valer é a sua disputa. Lute duro. Não d mole para seus adversários.      E não é que a Da. Zica é uma coroa legal, gente? E eu que sempre achei que ela era uma bruxa velha... Acho que vou aprender a gostar da velhota.      Entramos no colégio. ‘Tá uma confusão dos diabos, cara. A gente não se entende. Meus pais estão preocupados em conseguir lugares para sentar. Alguém me pega pelo ombro e me arrasta para o meio dos que formam a equipe de xadrez. Quando fico sem meus pais a coisa fica preta. Toda a coragem se esvai como garoa quando vem o sol. Somos levados para um lugar privilegiado e dali podemos não somente ver a platéia – é enorme e eu fico pensando que nunca mais vou ver meus pais. Eles estão perdidos lá naquele mar de gente – como podemos assistir às competições. Mas eu só consegui assistir a quatro delas. A corrida com obstáculos, em que nosso colégio ficou em terceiro lugar. O cabo de guerra, onde o Bruno foi o destaque e praticamente ganhou sozinho o primeiro lugar (e eu morri de inveja por isto). E, finalmente, a corrida de bicicleta, onde ficamos com o primeiro e o quarto lugares. Aí nós fomos levados para o salão onde estavam as outras equipes e eu terminei por me ver tão envolvido na disputa que me desliguei do resto. O tempo foi passando e eu ganhei na primeira e no segunda chaves. Depois ganhei a terceira e fiquei pronto para a semi-final. Foi quando notei que estava com muita fome e vi no relógio que eram as 13h. Graças a Deus os juízes resolveram dar um intervalo. Saímos direto para a cantina e eu pedi um bauru com um refrigerante. Enquanto esperava, chegou um dos meninos que haviam jogado contra mim e perdido. Tinha sido uma disputa acirrada e com uma torcida muito forte a favor dele. Era um menino moreno, parrudão e com cara de poucos amigos, que já foi chegando e me provocando. Ele me deu um encontrão e me fez deixar cair o copo de refrigerante. Eu reclamei e o cara me deu um empurrão violento. Desta vez, caiu o meu bauru no chão. Eu olhei para ele fulo de raiva, mas ele táva mais fulo que eu e me disse:      — Vai encarar, vai?      Fiquei sem saber o que fazer. Ah, se papai estivesse ali... Mas eu estava sozinho, cara. E de repente o menino parecia dez vezes mais forte que o próprio Maciste. Para piorar a história, juntaram-se a ele mais quatro, todos do mesmo colégio – o dele – e começaram uma zorra dos diabos, me chamando de maricas e outras coisas que não vou contar nem que me capem. Gente, eu sentia as pernas tremendo tanto que pensei que ía cair. E agora, o que eu ía fazer? Estava encurralado contra o balcão, sem saída. Meus olhos buscavam alguém que pudesse me socorrer, quando viram minha adorada Mirna. Ela vinha correndo para o balcão em companhia de mais duas meninas, uma delas a Laís. Mirna me viu e foi a primeira a me apontar para a Laís. Minha irmã veio em nossa direção, mas estacou assim que viu em que camisa de onze varas eu estava metido.      — Ei – gritou a Laís – o que vocs estão fazendo com o meu irmão?      — Cai fora, boboca! – rugiu o menino Maciste. – Cai fora senão eu te dou uns cascudos!      — É isso aí! É isso aí! – gritaram em coro os outros imbecis.      — Eu vou chamar o papai! – disse a Laís e se voltou para correr em busca de socorro, mas um dos atentados foi mais rápido e arrastou ela e a Mirna para perto de mim. Agora, éramos trs em apuros e o pior era que de homem só tinha eu... Na verdade, creio que eu era somente um quinto de homem, pois eles eram cinco.      O garoto começou a dar cascudos na gente e eu não sei quem começou a chorar primeiro, se eu ou se as meninas. Foi quando ouvi a voz autoritária do Bruno dizendo:      — Larguem eles! Larguem, ou vão-se haver comigo.      Os cinco arruaceiros se viraram contra o meu detestado parceiro e tentaram dar cascudos nele também. Aí a coisa ficou preta pro lado dos atentados. O Bruno danou a distribuir ponta-pés a torto e a direito e o berreiro logo veio dos garotos, todos rolando no chão e se contorcendo. O Bruno pegou o Maciste pelos cabelos e disse:      — Voc vai pagar o bauru e a bebida dele, está entendendo?      — T, t, eu pago, eu pago. Me larga! – gritava o valentão com os olhos cheios de lágrimas.      — E vai pagar também pra mim e pr’as meninas – ordenou o Bruno.      Os carinhas da outra escola trataram de se coçar e pagaram tudo o que a gente pediu. Eu me impanturrei de verdade. Mas aquela comida eu comia era de raiva. E não era só raiva dos meus agressores, não. Era raiva também do Bruno que virara herói para a minha musa encantada.      Ganhei o campeonato de xadrez e tive torcida até do Bruno, para o meu desgosto. Já não bastava ter sido humilhado por ele, agora ele vinha torcer por mim? Era demais! Pelo menos era o que eu pensava, mas o pior estava para vir. Nossos pais se conheceram, os meus, os de Mirna e os do Bruno. Fizeram uma festa porque cada um de nós, seus filhos, foi campeão na modalidade em que tinha competido. Mirna fazia ballet e deu um show no Lago dos Cisnes. Laís foi aplaudida de pé com o seu trac-trac sem graça e o infeliz do Bruno bateu em todo mundo e ganhou a copa de karat-do.      Apesar de eu ter sido também campeão, ele é que tinha a maior torcida junto das meninas. Para o meu desespero, Mirna era toda chocolate derretido pro lado do desgraçado. Aquilo é que dava os outros colégios só terem mandado uns bananas podres para lutar contra o Bruno. Não tinha tido um que tivesse sido capaz de abaixar o topete do infeliz. Dali em diante o dia perdeu a graça, pois aonde a gente ía, lá íam também os pais do Bruno e ele junto. Por mais que eu torcesse para que ele se perdesse no meio da multidão, o peste não desgrudava da gente.      Dei graças a Deus quando tudo terminou e a gente veio pro carro. Mas aí, o carro enguiçou. Ficava somente no rom-rom-rom e não saía do lugar. Todo mundo já estava se retirando e nosso carro teimava em ronronar como uma gata no cio, mas não pegava, o desgraçado!      — Vamos empurrar – disse meu pai, colocando a mamãe na direção e descendo conosco para fazermos força. Eu estava amaldiçoando o automóvel por nos fazer de trouxa, quando, vejam que droga, a família do Bruno vinha passando no carro deles. Ao nos verem naquela entaladela, pararam e se ofereceram para ajudar. Mas eles também entendiam tanto de carro quanto eu de parto e só fizeram acrescentar mais barulho à confusão. Finalmente o pai do Bruno se ofereceu para nos dar uma carona. Meu pai deixaria o automóvel no estacionamento e, de casa, pediria o socorro de um reboque para levar o merdão para a oficina. E lá fomos nós aboletados como sardinha em lata no carro do pai do Bruno. Aquele não era mesmo o meu dia, estão vendo?      Foi a partir daquele dia que nasceu uma amizade muito forte entre nossos pais. Passamos a freqüentar os mesmos clubes, a ir às mesmas festas – quando as crianças podiam ir juntas –, ou a ficarmos todos num mesmo lugar, quando só os adultos tinham direito de se divertir.      Os pais do Bruno eram muito amigos dos pais de Mirna e estes logo, logo, vieram integrar o grupinho alegre.      Só eu é que não estava nada contente com aquilo, pois via a Mirna continuar toda chocolate derretido pro lado do desgraçado tarado do karat. Confesso que comecei a detestar a idéia de nos encontrarmos com eles. Detestava até mesmo o encontro com os pais de Mirna, pois era um tormento ver como ela ficava que ficava pro lado do monstro.      Aí, um dia em que estávamos sob a barraca de praia lá em Guarujá, os pais do Bruno tiveram a idéia que nos enroscou todo numa aventura de arrepiar.      Ele começou falando que conhecia um lugar muito bonito, chamado Chapada dos Guimarães. O tal lugar ficava lá pras bandas de Cuiabá, em Mato Grosso. Ele pintou o lugar com tantas cores bonitas que meus pais se assanharam todo para irmos até lá na companhia deles, nas próximas férias.      Era só do que se falava lá em casa, a partir daquele fim de semana. CAPÍTULO III A VIAGEM         Finalmente chegaram as provas finais. Eu já estava aprovado há muito tempo e o Bruno teve de suar a camisa para não pagar vexame e ficar em recuperação, o que teria jogado tudo por água abaixo.      Eu não dei nenhuma mãozinha a ele. Estava ainda muito despeitado e rancoroso porque ele havia sido o escolhido para servir de boneco para a Mirna. Pelo menos era assim que eu via as coisas. O que mais me enfezava era que o Bruna parecia não ligar muito para minha ranzinzice. Ele se virava como podia e ía em frente, apesar de toda a minha torcida em contrário.      O dia da viagem amanheceu chuvoso e frio. Eu estava com uma preguiça danada e não queria sair da cama de jeito nenhum. Por mim, todo mundo adiaria a viagem para quando o sol estivesse mais atentado e nos desse uma manhã mais quente, mas ninguém concordava comigo, exceto, é claro, meu irmãozinho, mas este ía dormindo mesmo.      Como sempre, era aquela correria e aquela balbúrdia. Onde está minha escova de dentes? Quem pegou a escova de cabelos? Edu, onde foi parar os chinelos de seu pai? Quem mexeu no tubo de pasta de dentes e deixou destampado? Gente, não vão esquecer dos casacos de frio. Dona Ana, a mãe do Bruno, disse que lá na chapada a temperatura muda bruscamente. Desce dos trinta graus aos dois ou trs em pouco menos de noventa minutos. Laís, coloque suas bonecas mais preferidas. Nada de levar tudo, não. A gente vai andar muito por lá e não temos tempo de... Larga de minha saía, Piunga! (Piunga é o apelido de meu irmãozinho). Álvaro, me ajuda. Faz a aveia do Piunga, bota ele pra escovar os dentes e dá o mingau pra ele comer. Edu, voc não vai levar este carro de controle remoto coisa nenhuma. E também não vai levar bola, menino. Onde já se viu jogar bola no meio do mato? Álvaro, não esquece do spray anti-mosquito. Ah, vamos levar os comprimidos antialérgicos. A Laís é muito sensível a picada de mosquito.      — Ih, a maninha vai se danar na picadura do mosquito – disse o Piunga sem malícia, mas a mana não gostou e reclamou que ele estava dizendo indecncia com ela. Resultado: o Piunga botou a boca no trombone quando a mamãe pendurou na orelha dele.      Vara de pescar, chumbadas e iscas falsas; binóculos, faca de esfolar peixe, chapéu contra o sol causticante da Chapada, roupa de lã contra o frio enregelante da Chapada, soro contra picada de cobra, aspirina, cibalena, lanterna de foco de longo alcance para explorar cavernas, botas de alpinista, frango assado, farofa, muito refrigerante, maçã, laranja, pão-de-forma, biscoito a dar com o pau – doce, salgado, salobro e aguado (aguado é aquele biscoito sem graça que as mães teimam em nos dar quando a gente está doente). Botijão de gás, lamparina a gás para acampamento, macarrão, panelas, pratos, talheres e colheres, temperos e muito sal, uma barraca de acampamento para seis pessoas e mais tralha que eu não me lembro.      Finalmente, comidos e devidamente vestidos e repreendidos a granel, lá fomos nós ao encontro dos pais do Bruno. Quando chegamos lá, já encontramos os pais da Mirna e a própria na casa do tarado do karat. O carro deles era uma D-20 incrementadona, enquanto o nosso era uma pick-up Ford F-1000, muito confortável. Tinha até ar refrigerado e televisão no teto. Meu pai comprara a bicha só para fazermos a tal viagem. Estava pagando uma nota mensal por ela, mas valeu a pena. Já pensou a vergonha se a gente chegasse à casa deles em nosso velho Del Rey? A camioneta de “seo” Pacheco, o pai de Mirna, era também uma D-20, mas era mais velha que a do “seo” Antnio, o pai do Bruno. A velha D-20 estava com um pneu arriado. Meu pai foi com “seo” Pacheco comprar pneus novos. Enfim, quando a camioneta estava de cascos novos e tudo arrumadinho, pusemos-nos na estrada. A chuva engrossara e a gente teve de viajar com tudo fechado e o aquecedor ligado, pois fazia um frio danado. Ainda bem que podíamos assistir à televisão. Secretamente eu estava muito contente. Vira a admiração nos olhos do Bruno e nos de Mirna. Nossa camioneta era a única que tinha televisão com vídeo e som leiser. Mas depois de quatro horas de viagem sempre sentado no mesmo lugar aquilo encheu o saco. A chuva havia ficado para trás e meu pai dizia que tão logo encontrássemos um bom posto de gasolina, com restaurante, nós pararíamos para esticar as pernas e tirar água do joelho. Só se fosse do joelho dele, pois eu queria mesmo era mijar à vontade. Minha bexiga estava como uma bola. Quem tinha sorte era o Piunga. Ele molhou os fraldões que mamãe lhe colocou duas vezes antes da parada.      Finalmente, quando eu já pensava que ía molhar o banco novinho em folha e ter uma de minhas orelhas arrancadas, chegamos a um big posto com um restaurante incrementadão. Estávamos cansados e com fome e tratamos de ir ao banheiro em primeiro lugar, e nos aboletarmos no restaurante, em segundo. Almoçamos e desceu uma lombeira daquelas. Ainda bem que quem dirigia era o papai. Antes de embarcarmos, contudo, nossos pais resolveram encher os tanques das viaturas e nós ficamos perambulando por ali, como quem não quer nada querendo. O Bruno me chamou para debaixo de umas árvores e me mostrou sua atiradeira. Uma arma e tanto, rapaz. Eu fiquei com inveja, mas quando o Bruno colocou uma pedra nela e fez pontaria numa rolinha a inveja se foi. Por que apedrejar a coitada? Eu não acreditei que ele fosse matar o passarinho, mas ele atirou e acertou bem na cabecinha da coitada. A avezita caiu silenciosa, sem um pio. O Bruno correu para apanhar o seu trofeu e eu fiquei olhando para o ninho onde algumas cabecinhas apareciam de biquinho aberto. Que maldade! Eu fiquei pensando que se fosse minha mãe eu ía estar desesperado.      Enquanto eu ficava ali, parado, olhando cheio de dó para os pequeninos órfãos, Bruno corria para seus pais com o passarinho morto nas mãos, seguido das duas meninas bobocas que o viam como um verdadeiro herói. “Quem vai alimentar os coitadinhos?” eu me perguntei sentindo o coração apertado. Não sei porque comecei a chorar e foi entre lágrimas que me pareceu ver um homenzito lá perto do ninho. Ele se vestia como os bufões de antigamente. Tinha um chapéu de pano verde e muito comprido, cuja ponta caía até seu ombro esquerdo e tinha um guizo que fazia um barulhinho muito esquisito. Eu esfreguei os olhos para ver melhor e o homenzinho lá estava. Ele me olhou com um olhar raivoso e eu tremi de medo. Ele era muito menor que o Piunga, tinha pernas tortas e calçava sapatos de couro macio com gozados bicos levantados para o alto. O cano dos seus sapatos eram em forma de pontas e íam até o meio das canelas. Sua calça era apertada nas pernas tortas, verdes e com um cinto de couro marrom, onde uma fivela muito amarela brilhava estranhamente. Vestia uma camisa amarelo-mostarda, também colada ao corpo e de mangas compridas em cujos punhos havia uns tufos de lã. Suas mãos eram estranhamente grandes para ele e tinha dedos com unhas muito compridas. Usava uma barba negra e muito longa, que chegava até quase seu umbigo. Tinha olhos negros e olhar carregado de raiva. O bigode era espesso e cobria a sua boca. Era um homenzinho muito feio.      Ouvi a voz do pai do Bruno repreendendo-o por ter matado a rolinha, mas não consegui despregar os olhos daquela visão.      — Edu! – ouvi papai me chamando. – Vamos, filho. Estamos prontos!      O homenzinho olhou para nossos carros e depois voltou a olhar para mim. Então, apanhou as avezitas do ninho e saltou para o chão, desaparecendo antes de tocar o solo relvado.      — Edu! Vamos, o que está esperando?      Eu saí andando para os carros sem saber o que dizer aos outros. Será que eu tinha mesmo enchergado aquele homem esquisito?      Dali em diante, a viagem para mim foi silenciosa. Não sei dizer porque a imagem do ódio nos olhos do homenzito me perseguia sem cessar. Limeira, Rio Claro, São Carlos e Araraquara ficaram para trás. Todo mundo papagueava, menos eu. Mamãe notou meu silncio e me perguntou o que eu tinha. Só pude responder “nada”, mas ela não se convenceu. Então, como continuasse a insistir, terminei por contar o que tinha acontecido. Quando acabei, minha mãe colocou a mão em minha testa e ficou sentindo meu pulso. Perguntei o que ela queria e me respondeu que achava que eu tinha febre, mas não tinha. E se não tinha, estava inventando aquela história. Danei.      — Se fosse a Laís que contasse voc acreditaria – falei, amuado.      — Eu não ía contar uma história destas. Eu não minto! – disse a petulantezinha metida a besta de minha irmã. Ah, tive vontade de arrancar o nariz dela com um alicate.      — Não é o caso de chamar seu irmão de mentiroso – repreendeu papai. – Ele pode estar cansado, como todos nós estamos. Pode só ter imaginado o que pensa ter visto.      — Não foi imaginação, papai – protestei. – Eu vi o homenzinho lá. Ele apanhou as rolinhas e desapareceu com elas nas mãos antes de tocar o chão. E estava fulo da vida comigo, mas eu não fiz nada. Quem fez, foi o Bruno.      — Eu sei, eu sei – rebateu papai com um aceno paciente de cabeça. – Mas se quer um conselho, esqueça esta história. Nossos amigos iriam ficar muito preocupados com a sua sanidade mental... está-me entendendo?      — Hum-hum – respondi, olhando nos olhos de meu pai. Ele tinha razão. Se o Bruno tomasse conhecimento do que eu tinha contado, na certa ía espalhar pelo colégio inteiro e eu não sei se suportaria a gozação.      Já era noite quando passamos por Araçatuba, mas meu pai não parou. Prosseguimos ainda por um tempo que me pareceu eterno e fomos dormir na cidade de Trs Lagoas, logo depois que atravessamos o rio Paraná. Estávamos bem na fronteira de Mato Grosso do Sul com São Paulo.      O hotel não era lá essas coisas, mas tinha um conforto aceitável, principalmente para quem estava estourado, como eu. Jantei pouco e dormi feito uma pedra, mas fui o primeiro a acordar. Eram as cinco horas da manhã, o céu apenas ficava azul-roséo e a noite retirava-se com preguiça. Nuvens pesadas podiam ser vistas lá ao longe, mas prenunciavam um dia com chuva. Fiquei na cama tentando saber porque estava tão esperto a ponto de ser o primeiro a acordar. Não era o meu normal. Meu pai sempre me gozava dizendo que o travesseiro era melhor de jud que eu, pois todo dia me imobilizava – até podia ser, eu nunca fiz jud. Foi quando ouvi alguma coisa tamborilando no vidro da janela. Olhei para lá e vi o homenzito verde. Ele apontava o seu dedo de unha de gavião pra mim e, então, virava o polegar para baixo, no típico sinal de morte que se v nos antigos filmes sobre as arenas romanas. Desta vez fiquei olhando diretamente para ele. Não era produto de minha imaginação, mas se eu falasse dele novamente era certo que ía arranjar dor-de-cabeça, pois ninguém estava disposto a me dar crédito. Meu coração acelerou e eu fiquei pensando o que fazer. Na cama ao lado o Bruno roncava feito locomotiva. Na outra, o Piunga também dormia serenamente. Fiquei um tempão olhando para a estranha aparição, que repetia aquele sinal irritante sem parar. Então, tomei uma decisão. Estirei-me na cama e toquei o pé do Brno que estava fora do lençol. Puxei o dedão dele com força. Ele resmungou, girou o corpo para o outro lado e continuou a roncar. Tentei de novo e nada. Então, pulei para a cama dele e dei-lhe uns tapas leves nas bochechas. O Bruno acordou estropiado e ficou me olhando com aquele olhar de bobão que a gente fica quando acorda sem acordar.      — Olha a janela! – murmurei para ele.      — O... o que? – perguntou ele, sonolento.      — Olha a janela! – insisti.      O Bruno ainda ficou a me olhar atarantado, mas virou-se e olhou para onde eu estava apontando. também olhei. O desinfeliz verde-amarelinho tinha desaparecido.      — O... O que tem a janela? – perguntou o Bruno voltando a me olhar.      — Bem... é o céu – gaguejei eu, atrapalhado. Nunca me passara pela cabeça que o nanico não quisesse ser visto a não ser por mim. Mas por que ele cismara comigo, se quem havia matado o passarinho fra o Bruno?      — E o que tem o céu? – perguntou o Bruno sentando-se. Estava desperto, agora.      — Bem, voc já viu o amanhecer lá fora? – perguntei para inventar alguma coisa.      — Não. Por que? – interessou-se o Bruno.      — É muito bonito – disse eu.      — Então, vamos sair para olhar melhor – e o garoto pulou da cama pondo-se a se vestir. Que péssima idéia, a minha. Não estava com nenhuma vontade de ir lá fora e dar de cara com o tal verde-amarelinho, mas não podia deixar de acompanhar meu companheiro incidental. Assim, também me vesti e saímos. Estava um friozinho gostoso e vi algumas vacas pastando lá ao longe. O cheiro do capim orvalhado chegou forte aos nossos narizes. De algum lugar vinha uma algazarra de passarinhos e eu procurei por eles.      — Caramba! – exclamou o Bruno, excitado. – Olha lá! que pássaros são aqueles?      — Eu não sei – respondi, olhando a nuvem de pássaros pretos que voavam e faziam uma algazarra enorme.      — Ah, se eu tivesse mais tempo... – murmurou o Bruno.      — Mais tempo para que? – eu quis saber.      — Para ir atrás deles, ora. Com minha atiradeira, ía fazer um festa. V só, quantos são? Eu caçaria pelo menos uma dúzia.      Olhei para o Bruno. Como é que ele podia pensar em matar as aves? Elas estavam saudando o amanhecer com uma festa de meter inveja a qualquer um. E se eu soubesse cantar igual a elas, também estaria lá no seu grupo, fazendo coro com seus pios altissonantes.      — Escuta, Bruno. Por que voc caçaria uma dúzia daquelas aves? – perguntei lembrando do verde-amarelinho.      — Ora... Para caçar, ora. Atiradeira foi feita para caçar passarinho, não foi? – Ele me respondia sem tirar os olhos assassinos de cima dos pássaros. Eu tive vontade de discordar dele, mas tive medo de o aborrecer. E se ele, depois, me metesse uma pedrada na cabeça?      — Bruno...      — O que é?      —Voc come os passarinhos que mata?      — Não. Eles não servem para comer.      — Então, o que faz com eles?      — Bom...às vzes eu dou eles pro meu gato. Outras, jogo fora. Eles só servem para eu afiar a pontaria.      — E... e para que voc quer uma pontaria afiada?      — Ora, que pergunta mais besta, Edu. Eu quero minha pontaria afiada porque eu quero e pronto. Sei lá se um dia vou precisar usar um revólver para me defender?      — Mas voc não faz karat para isto?      — Faço. Mas karat não serve de nada quando a gente tem de enfrentar bala, tá sacando? Contra bala, só outra bala, ora bolas.      Fiquei calado. O céu estava clareando rapidamente, agora. Os pássaros pretos podiam ser enchergados com nitidez e a nuvem voava em nossa direção.      — Veja, Edu! Eles estão vindo para cá! Vou buscar minha atiradeira.      — Espere! – Mas antes que eu dissesse o que quer que fosse, ele tinha sumido lá para dentro. Diabo, ele ía matar novamente.      Os pássaros pousaram na grande mangueira que havia ao lado do hotel. Piavam alegremente e eu gostaria de poder espantá-los antes que o Bruno voltasse, mas não sabia como conseguir isto. Apanhei uma pedra e joguei na mangueira. Foi como jogar um cascalho no lago. Não fez efeito. Bruno voltou. Trazia a maldita atiradeira e já com uma pedra dentro dela.      — Vem – chamou ele. – Vem ver só que tiro. Eu não vou errar mesmo, desta distncia.      “ Não mata ele! Não mata o coitadinho !” eu suplicava em pensamento, enquanto me deixava levar pelo braço, puxado com determinação pelo Bruno.      — Olha lá! Vai ser aquele que está na ponta daquele galho seco. Tá se oferecendo, o safadinho crioulo!      Meu coração acelerou e eu rezei para que o pássaro voasse dali, mas o infeliz se mantinha lá, soltando agudos trinados de alegria. Sua cabecinha voltada para o sol nascente parecia querer cumprimentar o Astro Rei antes dos demais irmãos dele. “ Ah, meu Deus, faz ele voar dali! Faz! Faz! ” eu orava angustiado. Bruno aprontou a atiradeira, esticou os elásticos, dormiu na pontaria e disparou. Foi certeiro. A pedra atingiu a cabecinha cantante e cortou um trinado pela metade. O pássaro rodopiou no ar e caiu batendo as asinhas nas vascas da morte. Uma gota de seu sangue inocente manchou minha camisa e eu senti as lágrimas turvarem minha vista.      — Viu só como eu sou bom nisto? – exultava o peste a meu lado. – Acertei na primeira. Vem!      — Não – consegui murmurar sufocado.      — Vem, sim. Vamos enterrar ele antes que papai acorde e veja isto. Ele vai-me dar uma bronca daquelas. Anda! Se der tempo, eu ainda acerto outro.      “ E voc bem que merece a bronca, desgraçado ” disse eu, em pensamento. Mas ainda que revoltado com o que meu companheiro havia feito, eu o segui calado. Temia irritá-lo contra mim. Eu não era páreo para os socos e os ponta-pés que ele sabia dar.      — Cava o buraco bem ali! – ordenou o Bruno.      — Por que eu? – perguntei, agastado.      — Porque eu vou procurar outro, ora bolas. Se perder tempo cavando uma covinha de nada, eles vão embora e pronto. Fico sem a chance de treinar.      E antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, lá se foi o Bruno, pé-ante-pé, olhos fixos na folhagem fechada da mangueira, procurando divisar mais uma vítima. Eu permaneci ali, feito um dois de paus, olhando impotente para a atiradeira assassina. Ah, se eu pudesse queimar aquela arma infeliz...      O Bruno parece que viu outro pobre passarinho, pois retesou o corpo e cuidadosamente levantou o braço armado. Devagarinho foi estirando os elásticos. A angústia dentro de mim cresceu insuportavelmente. Eu senti que ía gritar e me apavorei com a idéia. Se espantasse os pássaros, o karateca certamente ficaria danado comigo e ía bater-me, com certeza. Levei a mão à boca e forcei a palma contra meus lábios, para selá-los. Foi então que o verde-amarelinho apareceu. Surgiu por detrás do tronco da mangueira e me olhou com uma ira inaudita. Estava furioso comigo! E eu não fizera nada para aquilo. Como um esquilo ele subiu na árvore e eu o vi ir direto para perto do pássaro no qual o Bruno mirava. Chegou perto e soltou um trinado semelhante ao que o passarinho soltava. Este, virou a cabecinha assustado e olhou para baixo. Foi quando o Bruno disparou o tiro. A pedra ía certeira na cabeça do pássaro, mas o verde-amarelinho esticou a mão e desviou-a alguns milímetros em sua trajetória. O projétil só tirou penas da ave, e ela voou rápido soltando pios agudos. Foi como um alarma. Todo o bando voou atrás dela, para longe.      — Que pena, guri! – exclamou um homem que nos observava sem que nós o tivéssemos visto. – Só acertou um.      — Quem... quem é o senhor? – balbuciou Bruno, assustado. Temia que o homem pretendesse contar tudo a seu pai.      — Sou o dono destas terras – respondeu o homem apontando circularmente para o vasto terreno agreste diante de nós. – Eu esperava que voc matasse pelo menos uns dez destes pássaros danados.      — Por que o senhor quer os pássaros mortos?      Minha pergunta foi feita cheia de espanto. Eu não podia acreditar que um adulto incentivasse uma criança a matar passarinhos. Logo ele, que era do campo! Aquilo não fazia sentido para mim.      — São pássaros-preto – respondeu o homem. – Eles caem no milharal e no arrozal e arrazam com tudo, garoto. A gente se endivida para fazer a plantação e os infelizes vm e arrazam com nosso lucro. Ficamos no prejuízo, entende?      Então, matando aquele pássaro, o Bruno tinha feito uma boa ação. Afinal, se eles prejudicavam as lavouras nada mais certo que eliminá-los.      — Escute, moço – falei aliviado –, quer dizer que o senhor também mata aqueles pássaros?      — Mato quantos posso – respondeu o homem aproximando-se e colocando a mão sobre os ombros de Bruno. – Semana passada eu coloquei furadan numas sementes e espalhei pelo campo. Quatro horas depois recolhi dois carrinhos-de-mão cheios desses malditos. Mas eles parece que surgem da terra, rapazinho. Todo dia é isso que voc viu aí. Eles vm aos bandos.      Meu pai apareceu na porta e veio juntar-se a nós.      — O que estão fazendo acordados tão cedo? – perguntou ele, dando um beijo em minha cabeça.      — Eu... eu vim olhar o amanhecer – respondi.      — E voc, Bruno, veio ver o amanhecer, também? – perguntou papai abraçando a mamãe pela cintura. Ela acabava de chegar e juntar-se a nós.      — Não. Eu vim trazido pelo Edu. Mas resolvi ajudar o moço aqui – respondeu o Bruno, todo contente.      — Como assim? – perguntou meu pai.      — Eu matei um pássaro-preto – respondeu Bruno – apontando a ave caída no chão.      — Meu Deus! – horrorizou-se mamãe, indo apanhar o pássaro nas mãos. Estava com as asinhas arrepiadas e todo ensangüentado. – Bruno, que horror! Como pde fazer uma barbaridade destas?      — Ele não fez nada de mais, dona – disse o homem em defesa do acabrunhado Bruno. – Ele até nos ajudou. Eu estava contando para eles que na semana passada eu matei um montão colocando veneno nas sementes. Tirei dois carrinhos de mão cheio deles.      — O senhor fez... fez uma maldade destas?      Mamãe olhava com horror para o homem e vi que meu pai estava desconcertado.      — Não é maldade, não, dona – disse o homem de cara amuada. – Maldade é o que eles fazem com nossas plantações de grão. São uma praga pior que os gafanhotos.      — Não! – protestou mamãe, enérgica. – São aves canoras, senhor. Eles cantam e tm uma razão para existirem. Deus não os teria colocado no mundo somente para estragar as plantações dos humanos. Já pensou nisto?      — Pode ser que não – respondeu o homem sem se dar por achado. – Mas para que servem estes danados, pode-me dizer?      — Senhor – disse mamãe depois de um momento de silncio em que olhou demoradamente para o homem diante dela –, eles estavam aqui antes de nós, humanos brancos e que nos dizemos civilizados, chegarmos. Eles tinham comida à vontade nas árvores e na grama. Gente como o senhor veio para cá e desmatou tudo. Arrancou as árvores de onde eles tiravam o alimento e passou a plantar grãos. Sem comida, o que poderiam fazer? Se o senhor fosse um deles, faria o que, pode-me dizer?      — Senhora – disse o homem, pigarreando –, são nossos grãos do campo que vão alimentar os doutores como os senhores lá na cidade. Se deixarmos que os pássaros nos estraguem as lavouras, quem vai ficar em apuros são os senhores. O que me diz?      — Digo que o senhor não tem o direito de matar – respondeu mamãe indignada. – Nós, humanos, a primeira coisa que pensamos quando surge um problema com outra espécie é eliminá-la. Nós, que nos dizemos os senhores da Terra, não temos capacidade de repartir.      — Repartir?! – estranhou o homem. – Repartir o qu, moça?      — O campo, senhor – e mamãe estava com as faces afogueadas. Meu pai, observei, parecia estar muito mal dentro das calças.      — Ah, sei... o campo – disse o homem passeando os olhos pelo terreno descampado e cheio de capim. – A senhora diz que eu devo repartir o campo com as aves, é?      — É isso aí – respondeu mamãe olhando a ave morta em sua mão.      — E o que eles fariam com o seu padaço de campo, senhora, pode-me dizer? – e o homem soltou uma cusparada daquelas, amarelada pelo fumo que mascava.      — Talvez criassem mais pássaros para alegrar os campos. Talvez comessem mais gafanhotos, grilos e lagartas que também são pragas que atacam suas lavouras, não são? – respondeu mamãe sem se deixar vencer.      — Moça, já vejo que a senhora não entende nada de aves. Quem come isto são os anus, não os pássaros pretos – e o homem sorriu complascente.      — É, o senhor tem toda a razão – falou meu pai pela primeira vez. – Mas os pássaros-preto são a razão da existncia dos tucanos. Estas aves alimentam-se dos filhotes dos pássaros-preto e põem um controle natural na reprodução deles. Eu acho que não há necessidade de matar as aves como diz que fez, senhor.      — E o que sugere que nós, fazendeiros, façamos? – e o homem olhou interrogativamente para meu pai.      — Bom... vejamos, minha mulher falou em repartir o campo. Acho que o senhor não entendeu bem o que ela estava querendo dizer.      — Então, explique-me, por favor – e havia uma nota de gozação na voz do fazendeiro.      — Onde os bois come, senhor? – perguntou meu pai serenamente. O homem arqueou o sobrecenho demonstrando estar estranhando aquela pergunta despropositada de meu pai.      — Em cochos... grandes cochos... Por que pergunta?      — Bom, eu sugeriria que os fazendeiros colocassem uns trs... talvez cinco cochos perto de árvores grandes, como esta mangueira. Os pássaros-preto gostam das árvores altas, não é? Pois bem, dentro dos cochos os senhores colocariam umas duas ou trs sacas de arroz com casca. As aves se acostumariam a se alimentar ali e certamente não atacariam o campo. Aí, os senhores fazendeiros e agricultores ficariam em paz com eles e... com Deus. Eu creio que isto é repartir o pão da terra com todos os seus filhos, independentemente da forma que tm seus corpos. O que o senhor me diz?      O homem ficou calado, olhando demoradamente para meu pai. Então, rodou nos calcanhares e foi postar-se perto da cerca de arame farpado. De repente pareceu ter esquecido de nossa presença.      — Vamos entrar? – convidou papai.      — Não – recusou-se mamãe. – Eu sugiro que o Bruno enterre o pássaro primeiro.      E ela estendeu a mão com a ave morta dentro para o Bruno. Meio sem graça, o meu infeliz parceiro foi fazer o que ele me tinha ordenado fazer antes. Ficamos vendo o seu trabalho e eu vigiava com o canto dos olhos o homem parado lá na cerca. Ele, porém, nos ignorava.      Quando o Bruno acabou, voltamos todos para dentro do hotel. Eu estava aliviado porque com a chegada dos outros o verde-amarelinho desaparecera de vista. Pelo menos de minhas vistas, já que ninguém mais o enchergava.      Tomamos café em silncio. Quando falaram, nossos pais não tocaram no assunto do pássaro-preto, para alívio do Bruno e tristeza minha. Eu gostaria de ver como é que a mãe dele pendurava na orelha do safado.      Pegamos a estrada estava perto das nove horas. Eu esperava encontrar uma grande mata luxuriante, mas fiquei profundamente decepcionado. O nome daquele estado estava totalmente errado. Não havia mato nenhum, quanto mais “mato grosso.” O que eu via eram intermináveis fieiras de arame farpado que pareciam cercar o mundo de um lado e de outro da estrada. E dentro do espaço que elas delimitavam o que se via era um campo a perder de vista. Ora era um campo de terra vermelha e lamacenta devido à chuva, ora era um tapete verde de soja ou de milho. Mas não havia árvores. Quase nenhuma árvore. Eu fiquei pensando no que mamãe dissera. Realmente, de onde os pássaros-preto poderiam retirar alimento, se não fosse dos campos plantados? Aqui e acolá bem longe eu podia ver, vez que outra, um capão de mata nativa. Mas era tão pequenininho, tão insignificante... Como as aves todas poderiam encontrar alimento naquele cocoruto de mato cercado de grãos por todos os lados? Nós estávamos cruzando a terra dos antigos Tupis, Araguaias e Tocantins, nações de verdadeiros brasileiros, orgulhosos e indmitos senhores de Pindorama, como chamavam a isto aqui. Agora, o que eles diriam se pudessem ver o que nós, homens ditos brancos, fizemos com suas matas? Chorariam na certa... Ou talvez tocassem a inúbia chamando para a guerra contra os desertificadores desalmados vindos do outro lado do mar... Essas palavras bonitas eu li em meu livro de História. Ainda não sei bem o que querem dizer, mas posso ver nos campos sem árvores e sem pássaros que se trata de uma coisa horrível. Meus olhos cansaram daquela paisagem monótona e eu voltei minha atenção para um filme que passava na televisão. Era um vídeo do Conan que eu já tinha visto mais de dez vezes, mas preferi ver de novo o bárbaro fantástico a ficar olhando o desfilar eterno do arame farpado.      Ao meio-dia chegamos a Água Clara, nas margens do Rio Verde. Apesar do nome, ele é muito é barrento, isto sim. Almoçamos numa pousada simpática e seguimos direto para Ribas do Rio Pardo. Paramos só pra fazer xixi e colocar combustível nas viaturas e seguimos para Campo Grande. Chegamos na bela capital de Mato Grosso do Sul já era noitinha. Nós nos hospedamos num hotel quatro estrelas, no centro mesmo da cidade. Antes de nos recolhermos ainda ficamos vendo as notícias na TV... isto é, nossos pais ficaram lá, pois nós nos reunimos para brincar no parquinho de diversões que havia no hotel para as crianças. Mirna estava uma graça, mas parecia só ter olhos pro peste do Bruno. Em dado momento ele começou a contar como havia matado o pássaro-preto e o fazia como se tivesse cometido um ato heróico. Eu não me conformei e me meti na história dele.      — Não foi assim, não – disse imprudentemente. – O homem estava errado. Não se deve matar os passarinhos.      — O que voc está dizendo? – e Bruno parecia espantado comigo.      — Estou dizendo que não é certo matar passarinho. Mamãe disse...      — Sua mãe não sabe de nada – disse Bruno com desprezo. – O homem falou que os pássaros-preto estragam nosso alimento e que é preciso eliminar todos eles. Eu fiz um favor aos fazendeiros matando aquele lá. Pena que foi um só.      — Não fez favor nenhum! – falei irritado porque vi que minha irmã e a Mirna tinham-se colocado ao lado do karateca e lhe seguravam os braços como se se apoiassem neles.      — Eu fiz, sim senhor – gritou Bruno com raiva. – Voc é que é um maricas e não consegue acertar nem num elefante a dois metros de distncia. É por isto que está defendendo o pássaro-preto.      — Não senhor! – gritei perdendo a pacincia. – Eu defendo o pássaro-preto porque acho que não devemos matar os passarinhos. E se voc tivesse visto o homenzinho verde...      Parei de sopetão. Não devia ter dito aquilo, mas agora era tarde. Bruno franziu a testa e ps as mãos na cintura.      — O que voc está dizendo? – perguntou sem entender nada.      — Esquece! – eu disse e me voltei para me retirar.      — Ele ‘tá falando de um homenzinho verde que ele inventou – falou rápido a Laís intrometida.      — Espera aí! – gritou o Bruno correndo em minha direção e me sustando pelo braço. – Que história é essa de homenzinho verde?      Agora não adiantava negar e eu contei tudo, tim-tim-por-tim-tim, ao Bruno assassino de passarinhos. Quando terminei minha história, o karateca ficou a me olhar com um riso brincando nos lábios. Depois, dobrou-se numa gargalhada escandalosa.      — Homenzinho Verde, hein? Mas que história fantástica, Edu! Vai ver, ele ‘tava cagado com o coc de seu irmão, não ‘tava? Era por isto que era verde!      E o Bruno se dobrava de rir. Eu fiquei fulo da vida e lhe dei um empurrão. Ele perdeu o equilíbrio e quase mergulhou dentro do tanque onde havia um lindo repuxo cujas águas apareciam coloridas devido às lmpadas que tinham colocado nele. O Bruno ficou sério de repente. Endireitou-se e avançou para mim. Antes que eu pudesse correr, ele me aberturou pelo colarinho e quase me levantou do chão.      — Escuta aqui, carinha, não faz mais isto não, ‘tá sacando? Não faz não que eu te amasso todo!      — Tá... tá bem, des... desculpa! – tartamundeei tremendo de susto.      O Bruno me soltou com um empurrão e eu caí ao chão de areia me lambuzando todo. Ele pegou nas mãos das meninas e foi para o escorrega, me deixando ali, estendido de pernas abertas na areia seca como um boneco desconjuntado. CAPÍTULO IV ENFIM, CHEGAMOS        A cama era bem mais confortável do que aquela do hotel anterior, mas eu não consegui dormir. A proximidade do Bruno me fazia mal. Além disto, ele passou o resto daquela noite, enquanto estivemos acordados, fechado para meu lado. Toda vez que me olhava, olhava de cara amarrada. Além do mais, fazia um calor danado e o ar refrigerado não foi ligado porque o Piunga era alérgico a ele. A gente suava, pelo menos eu, sob os lençóis. Lá pelas tantas o Bruno soltou um ‘pum’ danado de fedorento. Eu me levantei e fui abrir a janela. Nosso quarto era no terceiro andar. Saí para a sacada pisando macio para não acordar ninguém e fiquei olhando para o bonito jardim lá em baixo. Ali fora a brisa noturna acalmava um pouco o calor do quarto, embora deixasse entrar os pernilongos que, aqui, chamam de muriçoca. E olha, rapaz, põe muriçoca nisso. É cada uma parrudona! Acho que é de tanto sugar sangue de boi. As bichinhas, quando ferroam, ferroam pra valer. Fazem cada calombo em nosso corpo que é de meter inveja ao Mike Tyson. É, eu disse Mike Tyson, sim senhor. Ele não consegue fazer um calombinho sequer, no queixo de seus adversários. Derruba a todos, é verdade, mas não cria calombos neles, não é?      Tomei um susto danado quando me voltei para entrar no quarto e dei de cara com o verde-amarelinho de pé, a meu lado, me olhando com aquele olhar de raiva na cara. Ele me disse um monte de coisas agitando furiosamente os braços, mas eu não entendi patavina do que falava. E o homenzinho tirou o chapéu de pano verde, deixando ver uma calva reluzente, e o jogou no chão pulando sobre ele raivosamente.      — Bruuuunoooooo! – berrei sem vergonha de pedir socorro ao peste. – Bruuuunooooo! Acorda! Me acode! O homem verde está querendo brigar comigo e eu não sei lutar! Socooooorrrrrrooooooo!!!      Quem primeiro entrou disparado no quarto foi o meu pai. Ele me levantou no colo me sacudindo e mandando que eu acordasse. Só que eu estava muito bem acordado, sim senhor.      — Filho, o que houve? Voc está despertando todo o hotel!      — O... o homenzinho verde... Ele... ele...      Eu olhava para todo lado, mas o desgraçadinho tinha sumido.      — Foi só um pesadelo, filho. Volte para a sua cama. Eu vou levar o Piunga lá pro nosso quarto, assim vocs podem ligar o ar refrigerado, tá bom?      — Mas estava aqui! – protestei. – Eu olhava lá pra baixo, lá pro jardim do hotel e quando me virei...      — Que jardim? Este hotel não tem jardim, Edu – disse meu pai com um sorriso no rosto.      — Tem sim – teimei. – Olhe lá pra baixo. Vai ver o jardim e é muito bonito.      O Bruno debruçou-se sobre o gradil e olhou para a rua. Lá em baixo só havia a calçada, um poste e o asfalto preto e deserto. Nada mais.      — Eu não ‘t vendo nenhum jardim – disse com voz de gozador.      — E não há – confirmou papai vindo colocar-me novamente na cama. Eu estava aturdido e assim que ele se retirou, levantei-me e fui olhar lá fora. Realmente, não havia nenhum jardim. Como é que eu tinha visto um inda agorinha mesmo? Voltei pra cama duvidando de que estivesse mesmo acordado. Mas não dormi. O Bruno, desperto, passou um bom tempo me gozando. Quando, finalmente, cansou-se de rir de minha cara e dormiu, eu fiquei acordado chorando de raiva debaixo dos lençóis.      Pela manhã, na hora do café, os risinhos do Bruno e de Mirna, a quem ele contara o ocorrido, me punham acabrunhado. Eu me sentia o ser mais infeliz da terra. Por mim, voltaríamos correndo para São Paulo e deixava que eles seguissem em frente sozinhos.      Saímos muito cedo de Campo Grande. Passamos por Jaraguari, Bonfim e Bandeirantes e todas estas vilas me pareceram iguais. Eram de casinhas antigas, teto baixo, paredes velhas e ruas de paralelepípedos. Todas com aquelas palmeirinhas magrelas – a tal de guariroba, cujo palmito amargo é muito apreciado na região – que não dão sombra nenhuma. O sol daquela região é esquisito demais. Queima literalmente a pele da gente. Queima muito mais do que o sol da praia. A gente sente a pele enrrugar devido ao calor. Acho que é por isto que as mulheres de lá tm a pele feito maracujá de gaveta. Novas, são até bonitinhas, mas quando ficam mais velhas ficam feias. A pele branca fica gretada como o solo de Marte... Eu acho que lá é assim. Não sei porque não plantam árvores copadas, como os oitizeiros do Rio de Janeiro. Eles dão mais sombra e protegem mais do que a tal guariroba. Nas praças eles usam a cibipuruna, uma árvore de folha miudinha, que tem uma copa larga e dá flores amarelas em cachos pequenos e de cor brilhante. Mamãe não gostou quando eu disse que as flores da cibipuruna parecem com a teta das mulheres. São bicudas e antes das flores abrirem ficam marronzadas. Mas ela não pendurou em minha orelha, como geralmente gosta de fazer quando discorda de mim em alguma coisa.      Até antes daquela noite em Campo Grande eu ansiava por estar perto de Mirna. Mas depois de t-la ao lado do Bruno me gozando, estava, agora, dando graças a Deus pelo carro de seu pai vir em terceiro lugar e ela estar bem longe de mim. Agora, eu torcia para que a viagem não tivesse mais fim. Passamos por Capim Verde e costeamos a cidadezinha de São Gabriel do Oeste até chegarmos a Rio Verde de Mato Grosso. Estávamos costeando o famoso Pantanal Matogrossense. Descemos para descansar um pouco e eu fui bisbilhotar a loja de badulaques que sempre existe na beira das estradas. Queria ficar bem distante da Laís, do Bruno e da Mirna. Levei o Júnior pela mão. Vimos os já comuns carros de madeira imitando as jamantas dos caminhoneiros e brinquedos que não nos interessaram. Aí, vi uma coisa assombrosa. Um inseto do tamanho de um dos caminhões de madeira. Mas um insetão deste tamanho, cara. E o bicho era horrível, pode crer. Tinha as asas quase pretas, patas peludas e uma cabeça nojenta, com olhos enormes.      — O que é isto? – perguntei à dona que estava atendendo no balcão.      — É uma barata – respondeu ela.      — Uma o que? – eu me espantei de verdade.      — Uma barata, menino. Voc não é daqui, é?      — Não, senhora. Sou de São Paulo.      — Bem vi logo. Isto aí é uma barata do pantanal. Não é das grandes. Tem umas que são bem maiores.      Uma barata! Uma barata que media quase trs palmos meus de comprimento e um e meio de altura.      — Tem certeza de que isto é uma barata, dona? – duvidei. A mulher sorriu e me disse:      — Tenho, menino. E sabe quanto esta aí pesava?      — Quanto?      — Um quilo e cem gramas – respondeu a dona toda sorriso. Eu não acreditei. Não era possível que existissem baratas tão grandes. Eu só imaginava o berrão que minha mãe daria se visse um bichão destes voando em direção a ela. “ Eu acho que ela enchia as calcinhas, de tanto medo ” pensei.      — Quer levar ela para presente? – perguntou a mulher vindo pra perto de mim.      — Quem, eu? Deus me livre! – disse me afastando do balcão e me persignando.      — Só pra dar um susto em sua mãe... ou na empregada de vocs, lá em São Paulo, que tal? – insitiu a mulher. – Escute, muitos turistas compram as baratas para levar como prova de que não estão mentindo. Dizem que se contarem que aqui existe baratas de até dois quilos, ninguém de sua terra vai acreditar.      — Eu estou vendo e ainda não acredito! – disse eu, olhos presos no inseto feioso. – Parece ser feito de madeira...      — É porque nós envernizamos suas asas e seu corpo para que não descasque – informou a mulher pegando aquele bicho asqueroso nas mãos. Assim, com as patas pro alto, ele era mais repugnante ainda. A mulher fez que ía jogar a barata em cima da gente e o Piunga saiu gritando feito um possesso. Desta vez quem correu atrás dele aos gritos fui eu. Nossos pais vieram ver o que estava acontecendo e quando tomaram conhecimento da barata só acreditaram porque foram lá dentro olhar o bicho.      — ‘Tão vendo só? – perguntei. – Vocs viram que a tal barata gigante existe. Por que não acreditam no homem verde?      — Porque ele não existe – disse mamãe. – Só voc o v.      — E só por isto ele não existe? A senhora não v a água em Marte, mas acredita nela só porque os tais cientistas dizem que existe. Por que acredita neles e não em mim?      Mamãe ficou me olhando com aquele ar de espanto de quando é pegada de surpresa, mas terminou soltando uma gargalhada.      — Ora, filho, não é a mesma coisa. Eles são cientistas e merecem toda a creidibilidade.      — Ah, sei... Então, quando eu crescer, vou ser cientista. Assim, ninguém vai duvidar de mim quando eu contar que vi um homem verde.      — Não, não. Só vão pensar que voc está vendo macianos – comentou meu pai.      — E os marcianos são verdes? – perguntei espantado.      — Pelo menos é no que o imginário popular acredita – respondeu papai, rindo.      Até agora eu acho que meu pai estava era me gozando ao dizer aquilo. Mas naquele momento fiquei meio barro meio tijolo, e à noite eu me peguei olhando para o planeta Marte, lá no céu, piscando avermelhado e fiquei me perguntando: “ como é que os marcianos são verdes, se o planeta deles é vermelho?O tal de imaginário tá mesmo é espalhando boato, isto sim.      Enquanto estivemos parados em Rio Verde do Mato Grosso eu procurei manter-me prudentemente perto dos adultos e evitei ao máximo aproximar-me de árvores, arbustos ou jardins. Enquanto isto, o Bruno se esbaldava na companhia da Laís e de Mirna. Corriam pelos matos próximos, exercitavam a atiradeira com ele como professor. Eu os olhava e me sentia uma formiga bem pequenininha. Senti vontade de ir até eles e me juntar na brincadeira, mas havia dois impedimentos muito fortes. Primeiro, o peste verde. Eu ía detestar dar com ele me olhando com aquele olhar raivoso. Segundo, a atiradeira. Eu tinha uma aversão, um nojo natural pela coisa. E tinha mais um senão: eu não ía aceitar o Bruno me ensinado a atirar com aquela geringonça.      Finalmente voltamos a encarar a estrada. E tome chão. Gente, como o tal de Mato Grosso é grande. A genta roda, roda, e roda e não chega onde se quer. A gente enjoa e desenjoa dentro do carro e não v o final da viagem. Tem de ter é saco para agüentar aquilo. Eu já pensava que este negócio de ser gente grande não presta, não. Vejam só, o papi só havia aceitado aquela viagem ao infinito porque queria pescar e subir morros. Ora essa, isto ele bem podia fazer ali mesmo, em São Paulo. A TV deixou de pegar bons programas e só pegava, agora, a televisão do Amazonas, a Amazonsat. E ela só transmite imagens de rios, cachoeiras, onças, pacas, aves, tudo secundado pelas músicas regionais que giram sempre em torno do Amazonas. É um porre. Nossa F-1000 vencia galhardamente a distncia comendo chão, mas a gente não encontrou mais nada pela frente. Era só chão seco, árvores intanguidas e arame farpado dos dois lados da estrada. E tome chão! Atravessamos uma vilazinha pobrezinha, pobrezinha, chamada Coxim, bem nas margens do rioTaquari, que vem do Pantanal e desemboca no rio Coxim, próximo à vilazinha que lhe deu o nome. Passamos batidos pela vila e seguimos a mais de cem por hora. A estrada era cheia de buracos, mas acho que meu pai também estava ficando impaciente com tanto chão. Atravessamos o rio Piquiri e fomos cercados sobre a ponte por indiozinhos que nos vendiam por cinco centavos sacos de frutos da região, como o piqui, a guariroba, o açaí, o bacuri... Papai teve de comprar de quase todos eles e os outros que vinham atrás, também, caso contrário não conseguiríamos prosseguir a viagem. Tive pena dos indiozinhos. Barrigudos, mal-trapilhos, mais parecendo mendigos de São Paulo do que índios. Pelo menos não aparentavam nada com os que a gente se acostuma a ver nos cinemas. E eles surgem de repente diante dos carros. Ficam escondidos debaixo das pontes. A gente, de longe, não v nada, mas quando o carro já está em cima da ponte – de madeira e muito mal conservada – aí, vupt! Ei-los como moscas varejeiras. Adiante encontramos outra ponte, esta, sobre o rio Correntes. E lá estavam os indiozinhos novamente. Papi não quis comprar nada, mas deu setenta reais em notas de um real para eles. Foi uma farra daquelas.      Anoiteceu e o papi continuou sem esmorecer. Chão e mais chão deserto pela frente. De repente ele teve de dar uma freiada brusca. Advinhem o que estava na estrada? Eu duvido que vocs advinhem... Pois era uma enome pintada... Isso mesmo, um jaguar ou uma onça, como a gente chama por lá. O bicho ficou atarantado com as luzes dos faróis e perdeu-se todo, não sabendo se ía para um ou para o outro lado da pista. Papai deu uma bruta buzinada e a onça resolveu-se no susto. Sumiu com um salto de meter inveja ao Bat-Man. Aquilo despertou todo mundo e o carro do pai do Bruno passou à nossa frente. Acho que eles queriam ser os próximos a encontrar outra onça no caminho, mas em vez disto deram de cara com um baita tamanduá bandeira. O bicho era um macho parrudo. Assim que o farol bateu nele, ele se ps de pé e se voltou direto para o carro. Abriu os braços como se quisesse abraçar a camioneta. O bicho era alto, mais alto que um homem. Todos tivemos de parar os carros, pois ele não arredava pé. O pai do Bruno deixou que todos chegássemos e, então, ordenou que apagássemos os faróis, deixando somente as lanternas. Todos fizemos isto e, então, o tamanduá desarmou-se e encaminhou-se lentamente em direção ao arame farpado. Não vi por onde, mas ele logo estava do outro lado e não demorou a sumir no capim alto.      — Por que ele ficou daquele jeito? – a Mirna perguntou.      — Por que é o seu modo de se defender. Se um homem ou um bicho qualquer grande, como uma onça, cai entre seus braços está morto. Ele possui garras fortíssimas e afiadas. Quando ele fecha os braços, as grandes garras se fecham em torno da cabeça ou do pescoço da vítima e esfacela o que estiver ali. O macho que acabamos de ver deve pesar mais ou menos uns cem quilos.      — Tudo isto? – admirou-se mamãe.      — Sim. Eles são animais grandes. Contudo, são absolutamente inofensivos. Não tm dentes e seu focinho longo pode ser facilmente quebrado. Sua única defesa é aquela posição. Quando dorme, para evitar ataque de onças, joga o rabo sobre o corpo de tal modo que não é possível saber onde é a cabeça. Isto faz o felino desistir do ataque, porque se erra de lado morre na certa. É dificílimo escapar do abraço do tamanduá.      — Ouvi dizer que lá para os lados de Goiás os fazendeiros e os motoristas irresponsáveis jogam as viaturas sobre os pobres bichos só pelo prazer de matar. Isto é verdade? – quis saber meu pai.      — Infelizmente, sim. Muitos rapazes sem conscincia ecológica cometem este crime irreparável. Os tamanduás acabam com os cumpinzais e matá-los é deixar que as térmites se multipliquem sem controle. Houve uma época em que se encontrava tamanduá bandeira em qualquer lugar, no cerrado. Hoje, eles são raros e isto é lamentável – informou “seo” Antnio, o pai do Bruno.      — Que lástima – lamentou Da. Ana.      — Bom, os ecologistas desenvolvem esforços digno de nota para trazer ao rude homem do cerrado a conscincia da necessidade de preservar a vida animal. Esperemos que consigam isto antes que seja tarde demais.      — Duvido – disse meu pai, pessimista.      — Eu também – ecoou “seo” Antnio, – mas eu faço parte do pequeno grupo que luta contra a maré. Sou como aquele beija-flor que tentava apagar o incndio com seu biquinho. Não conseguirá jamais, mas terá a conscincia tranqüila de que fez a sua parte.      Um buliço no mato e surgiu a fmea com trs filhotes. Passaram mansamente diante de nós e seguiram atrás do grande macho.      — São tão bonitos – disse mamãe, enternecida.      — São, sim. Vamos? Ainda temos muito chão pela frente – falou “seo” Antnio.      Voltamos às nossas camionetas e seguimos viagem. Dali em diante foi interessante e todos ficamos despertos. As camionetas eram dirigidas devagar e isto evitou que matássemos cobras, tatus, pequenas corujas conhecidas como caburés e dois belíssimos gatos-do-mato que comiam suas caças bem no meio do asfalto. Vimos uma família de lobos guarás. Também eles, para minha surpresa, ficaram apalermados com os faróis dos carros. Só quando as luminárias foram apagadas é que se orientaram. Chegamos a Rondonópolis madrugada avançada. Caímos nas camas e “dormimos como umas pedras”. Fomos acordados pelos nossos pais já eram nove horas. Ainda estramunhados fizemos a higiene matinal e tomamos café. Muita fruta e uma qualhada especial. Queijo era o que mais tinha. Pusemos-nos a caminho e passamos por cidadezinhas que pareciam ter saído do passado, tão antiquadas eram suas casinhas. Santa Elvira, Juscimeira, São Pedro do Cipa, Jaciara, São José da Serra e São Vicente, onde paramos para abastecer os carros. Estávamos eufóricos e falávamos sem parar sobre os bichos. Mamãe nos surpreendeu com o vídeo que gravou da maioria deles. Faltou só a onça. Piunga, Laís, Mirna e Bruno vieram para a nossa F-1000 e dali em diante prosseguimos todos juntos. Nosso farnel há muito tinha acabado e nós paramos para almoçar em Águas Quentes. A cidadezinha tem esse nome porque lá existe realmente um rio cujas águas são quentes. Eu me lembrei da Pousada do Rio Quente, em Goiás, perto da cidade de Caldas Novas. Mas nós não fomos tomar banho no tal rio, não. Passava um pouco do meio-dia, o calor estava sufocante e os motoristas resolveram descansar e só prosseguir após as trs horas.      — Daqui a Cuiabá não vamos levar mais que duas horas e trinta minutos – informou “seo” Antnio. – Entre cinco e trinta, e seis da tarde estaremos na capital. Lá faz mais calor que no Rio de Janeiro no verão. Vamos para o centro. A gente entra pela Travessa Comendador Henrique, pega a Av. Ten. Coronel Duarte, à direita e, depois, à esquerda, seguimos a Av. Isaac Póvoas até a praça Rachid Jaudy. Seguimos em frente nesta avenida e vamos direto para o Eldorado Cuiabá. É o melhor hotel da cidade, pelo menos para mim. A comida é excelente. Vou pedir anta assada. Eles preparam este prato de um modo todo especial.      Aqui já havia mata, não uma mata cerrada, fechada, como aquelas que se v nos velhos filmes de Tarzã, não. Mas já dava para se ver árvores grandes e tucanos à vontade. Também vimos muitas emas. Elas andam em bandos e tm olhos tão cndidos que é uma graça. Mas é bom ficar longe de seu bico, pois é duro como pedra e quando ela bica arranca pedaço mesmo. Se lança o bico contra a cabeça da gente, pode até fazer-nos desmaiar – avisou “seo” Antnio.      Agora, eu não gostei mesmo foi de uma tal de mutuca. É uma mosca que tem dentadura, gente. Ela vai pousando e vai cravando os dentes na perna da gente. E onde a peste morde vira ferida. Papi afirma de pés juntos que a mutuca não tem dentes, mas sim um ferrão por onde injeta uma tal de enzima na gente. Pra mim, ela tem mesmo é dente e pronto. Uma das fulanas pregou uma dentada na perna do Piunga que foi um Deus-nos-acuda. Ele berrou como bezerro no matadouro e sua perna ficou vemelhona como se tivesse uma lmpada lá dentro. E como esquentou, caramba! A tal mutuca deve ser a mosca do inferno, garanto. O Piunga teve febre e meu pai ficou preocupado. Disse que era uma forte reação alérgica contra a picada do bichinho safado.      Eu tinha-me esquecido do verde-amarelinho e fui andar pelas ruas de paralelepípedos da cidade de antanho. Íamos todos juntos. As pessoas deste tipo de cidade antiga é pacífica, desconfiada, agastada diante de forasteiros e simplórias, quase inocentes. Pelo menos para mim. Terminamos por desembocar na praça central, onde uma grande torre sustentava uma enorme caixa-d’água e tinha um baita relojão que soava as horas com marteladas porretas. A pracinha era uma graça e tinha muitas flores. Laís e Mirna correram para arrancar uma margarida e eu fiquei olhando para elas. Quando Laís tocou a flor e puxou o talo, vi o verde-amarelinho sentado bem debaixo dos arbustos e ele olhava com raiva para minha irmã. Dei um grito, um agudo “NÃO!” e corri para as meninas. No meu impulso, tropecei e caí sobre elas. Mirna foi a mais atingida e foi jogada bem em cima do homenzinho verde, mas para minha surpresa ele rolou para dentro da moita e sumiu antes que minha paixão tocasse nele. Ela, coitada, caiu dentro de um espinheiro e botou a boca no mundo com quanta garganta tinha.      Não adiantou eu explicar o ocorrido. Levei uma tremenda bronca, um tremendo puxão de orelhas e perdi a companhia de Bruno e Mirna. Do primeiro até que não reclamei, mas afastar a Mirna de nossa camioneta...      Chegamos a Cuiabá com todos alegres, menos Mirna, que estava ferida e ainda sentia a ardncia dos espinhos no rosto, e eu, que estava sob a ameaça de meu pai que prometia levar-me a um psiquiatra se eu não parasse imediatamente com a história do tal homenzinho verde.      Fui com eles a todos os lugares que “seo” Antnio tinha predito, mas só fiquei feliz mesmo quando me deitei com o ar refrigerado ligado e a bendita escuridão me ocultando do resto. Fiz voto de silncio. Daquela noite em diante eu não falaria com ninguém, exceto com meus pais e assim mesmo só o estritamente necessário. E se o peste verde aparecesse, eu manteria absoluto silncio e não diria a niguém o que ele quisesse aprontar.      Amanheceu. Tomamos o desjejum – gostoso, rico em coalhada, queijos e frutas, principalmente melancia e mamão. Terminado o repasto não tivemos tempo de zanzar pela cidade para conhec-la. Partimos imediatamente para Buriti, um vilarejo já dentro da Chapada dos Guimarães. A estrada era asfaltada e a viagem foi relativamente boa. Mas não paramos no vilarejo, como eu esperava. Seguimos em frente e desta vez por uma estrada de terra batida. As camionetas sacolejavam com vontade e nós tínhamos de ficar fechados o tempo todo porque lá fora uma poeira vermelha cobria tudo. Foi mais noventa minutos para conseguirmos chegar à vilazinha denominada Rio da Casca, último marco da civilização dentro da região. Sinceramente, eu não achei nada uma grande coisa. A tal Rio da Casca só tem poeira e casitas pobres. As árvores são entanguidas e a maioria é piquizeiro e capim. Luz elétrica nem de longe. Tinha acontecido um incndio criminoso e os postes, de madeira, haviam sido atingidos. Os fios derrubados e partidos não conduziam a eletricidade até a vilazinha. Mas a gente chegou de dia e só sentiu a falta d’água gelada. Ficou acertado entre nossos pais que dormiríamos na vilazinha e só partiríamos no dia seguinte, descansados da longa jornada. “Seo” Antnio contratou um velho guia seu conhecido e a quem chamava de Fuzó. Fuzó era um mestiço legítimo de índio com branco. Pele avermelhada, olhos amendoados, barba ralíssima, só com uns fios espetados na ponta do queixo e nos cantos da boca de lábios finos. Nariz grosso e olhos escondidos sob salientes ossos orbitais cobertos de uma leve penugem à guiza de sobrancelha. Fuzó tinha belos dentes alvos e um jeito muito arredio de lidar com a gente, mas naquele seu jeito de matuto, ele era simpático e observador como ninguém. Bruno logo entabolou uma conversa com o guia, mas este era muito silábico. Ele parecia me observar com muito interesse, porém eu estava firmemente decidido a manter meu voto de silncio e não puxava conversa com ninguém. Depois de nos conhecer e ouvir os desejos de grupo quanto à expedição, Fuzó sumiu como fumaça no ar. Eu me mantive afastado das outras crianças e não foi difícil, pois eles mesmos me evitavam.      Bruno pegou sua atiradeira e foi para os arredores da vilazinha seguido das meninas. Voltaram com cinco calangos, quatro rolinhas e trs carriças mortos a pedradas. Deram tudo aos dois gatos da pousada e fizeram isto às esconças.      Eu vi o homenzinho verde acompanhando os trs para onde quer que eles fossem e quando eles entregaram os bichinhos mortos para os gatos comerem, o verde-amarelinho ficou de pé ali perto, olhando para aquilo com uma cara muito séria. Depois, ele veio postar-se diante do Bruno e fez uns gestos esquisitos com as mãos. Com a direita fez trs círculos no ar e gerou pequenos círculos de luz laranja, que, pegou com a esquerda e lançou nos punhos de Bruno. Aqueles círculos se prenderam nos braços do karateca como se fossem algemas, mas ele não demonstrou ter sentido nada. A seguir o verdinho vez uma estrela de cinco pontas com a mão esquerda em cor vermelho-escuro e jogou uma no peito do Bruno, uma no peito de Laís e uma no peito de Mirna. Aquilo grudou neles e eu não sei porque ficou parecendo a cabeça de um bode. Tinha duas pontas para cima e uma para baixo. Depois ele me olhou com raiva e me jogou uma espécie de flecha de luz verde-musgo, mas errou. Eu me abaixei e a seta espatifou-se na parede atrás de mim. Corri pra dentro da pousada sufocando um grito de medo para não despertar a atenção dos adultos e a gozação de meus companheirinhos de aventura. O verdinho não me perseguiu.      No dia seguinte bem cedo, o sol mal roseava o horizonte, o Fuzó chegou. Trazia uma corda de couro trançado enrrolada e atravessada no ombro, um grande facão de mato na cintura e um chapéu de palha na cabeça. Estava descalço. Fomos de carro até bem próximo do plat. Dali em diante tinha de ser a pé.            Nós estávamos todos com calças jeans, tnis, camiseta e bonés. Os homens levavam tanta coisa que eu não sei como é que podiam andar. Nossas mães não ficavam atrás e cada uma delas levava uma mochila volumosa nas costas. Fuzó ficou encarregado do lampião de gás para o acampamento. Quanto à comida, ele só permitiu que levássemos um quilo de sal, ovos cozidos e alguns pacotes de macarrão. Nada de latas ou garrafas de bebidas alcoólicas ou refrigerantes. Beberíamos água natural, das inúmeras fontes que ele asseverou que íamos encontrar lá em cima.      Bruno colocou a atiradeira na cintura, debaixo da camisa, e procurou ficar sempre para trás do grupo.      O sol estava esfuziante e o céu azul anil. Era muito cedo, ainda, mas já sentíamos os efeitos de seus raios.      Diante de nós havia um paredão que me pareceu intransponível. A cada momento em que nos íamos aproximando dele, mais e mais aquilo parecia crescer e crescer. Avançávamos devagar porque o peso nas costas fazia com que os adultos perdessem a velocidade e o chão sempre em aclive dificultava a caminhada. O suor já fazia as camisetas colarem nos corpos e a respiração ficava arfante a cada passada na senda que ía, a pouco e pouco, tornando-se mais e mais difícil. Estreitava-se e tinha momentos em que as pedras ameaçavam nossos tornozelos com torcicolos monumentais. Após uma hora de caminhada todos estávamos sendentos. Fuzó era o único que não suava e andava tão lépido como se passeasse na Av. Paulista. Então, a senda passou a ser paralela ao paredão, distando talvez uns trezentos metros dele. Houve um momento em que descia. Que alívio. Surgiu uma mata cerrada e nós nos embrenhamos por ela. Fuzó parou e apontou para o chão.      — A trilha que estamos seguindo é feita por onças – disse. – Foi um alvoroço entre as mulheres. O mestiço sorriu um sorriso leve e seus olhos me fitaram como se querendo dizer alguma coisa, mas eu desviei o olhar. No íntimo estava grato à sombra fesca das árvores e bem gostaria de saber quando é que íamos encontrar uma fonte para saciar nossa sede, mas mantive meu voto de silncio. Principalmente porque eu desejava que fossem o Bruno e as meninas a pedirem arrego primeiro. Mas eles não faziam isto e eu tinha de me agüentar o quanto podia.      À medida em que avançávamos a mata ia ficando mais e mais fechada. As árvores tornavam-se grandes e muito copadas, fechando a passagem dos raios solares. Todos passamos a sentir frio devido às camisas suadas em nossos corpos. Andamos por mais meia-hora alí por dentro e o papaguear das mulheres foi diminuindo devido ao cansaço. No alto, uma algazarra enorme de pios de aves descia sobre nós. Vi o Bruno disparar sua atiradeira uma dúzia de vezes e tive a satisfação de v-lo errar todas as pedradas. Currupiões pretos de asas e bicos amarelos-vivo trinavam alegremente. Pica-paus de corpos pretos e cabeças vermelhas com uma coroa de penas amarelas na cabeça bicavam as árvores fazendo um ruído estranho, como o de uma porta enferrujada que estivesse sendo aberta. A sinfonia da mata era inebriante. E foi quando a gente menos esperava que surgiu o regato. CAPÍTULO V O VERDINHO COMEÇA A APRONTAR        O regato tinha águas frescas e transparentes e cantarolava por entre as pedras com um barulhinho de ninar. Tudo parecia uma sinfonia de Deus. Corremos para ele, mas Fuzó nos parou antes que nos metssemos na água.      — Esperem! É desta água que vamos beber – disse ele. – Primeiro a gente recolhe a água na folha orelha-de-elefante. Se trazem cantis, encham.      Antes que perguntássemos o que era aquilo, ele já estava arrancando uma folha larga, em forma de coração e muito forte. Dobrou em forma de cone e recolheu a água que bebeu para nos mostrar como fazer. Logo, todos estávamos bebendo. A água estava gelada e era muito gostosa e leve. Não tinha o sabor pesado da água tratada da Bilings que abastecia São Paulo.      — Mais adiante tem um poço – informou Fuzó. – Podem tomar banho lá, se quiserem.      — Eu quero – disse mamãe toda assanhada.      — Acho que todos queremos – falou “seo” Pacheco, pai de Mirna.      — Então, vamos em frente – disse Fuzó e se ps a andar. Todos o seguimos. Agora as mulheres voltavam a conversar com novas forças nas linguas tagarelas. O Bruno cercava Fuzó fazendo mil e uma perguntas sobre as árvores e os pássaros e o guia respondia com frases curtas. Mirna e Laís caminhavam de mãos dadas e juntas a papai, que levava sobre os ombros, confortavelmente instalado, o Piunga.      Vinte minutos de caminhada por entre cipós e pedras redondas, ouvindo o delicioso marulho das águas do riacho e chegamos a um lugar cinematográfico. Descendo pela mata que ascendia um paredão de barro e pedras negras, o riacho se despencava de uns cinco metros de altura, formando uma lagoa de uns quatro metros de dimetro com água cristalina espumejante.      Enquanto todos se afanavam para encontrar um lugar onde trocar de roupa, homens para a esquerda e mulheres para a direita da mata, eu permaneci ali, olhando para as águas claras. O fundo do lago era de uma cor ferrugem e emprestava à água límpida um colorido de sangue em algumas partes. Fuzó aproximou-se de mim e colocou sua mão áspera sobre meus ombros.      — Não vai mergulhar? – perguntou.      Eu o olhei e fiz uma negativa com a cabeça.      — Não fala? – tornou ele a perguntar olhando para mim.