KOREAEBOOKDOCUMENT1.3.0Ressentidos do Mundo Todo, Uni-vosJaner CristaldoeBooksBrasileBooksBrasil‰ýµ Ressentidos do Mundo Todo, Uni-vos – Janer Cristaldo Edixão eBooksBrasil Versão para eBook eBooksBrasil.com Fonte Digital Documento do Autor Copyright: © 2002 Janer Cristaldo ÍNDICE   Sobre o autor Assim se perdem as perdizes Terror e Tortura A Seita que Deu Certo Iurd, Icar e Handyside Civilização e Mcdonald's Anistia fabrica Neonazistas Rãs em Fogo Lento Antropólogo pode Apocalipse up to date O Francês e o Futuro Europeus no Exílio O Zorro Chiapaneco Intolerância Talebã PC domina PT Condenados à Pré-história Coisa de Pobre Sobre Massacres Lá na Linha O Titio Torturador O Novo Passaporte Ótica Talebã Em Defesa do Baiano Quando TV Liberta A Velhinha de Havana A Ditadura do Milhão Meus Dois Turcos O Crime da 5ª Turma Suomi: sem Sexo nem Futuro O PC e o Imperativo Categórico Lunes sin Postre Ex-cholo Ressuscita Apus Morre Madalena Tardia Marta, Marta O Índex das Esquerdas A Confraternização no Naufrágio Dias Piores Virão O Terror Segundo as Viúvas Ocidente e Amnésia Islã e Aiatolices Ressentidos de Todo Mundo, uni-vos! Leituras Edificantes As Criancinhas Sobre Sovietes e Kulaks A Guilda e os Três Patetas Puc vira Madrassa Nigra Sum sed Formosa Canabis Kantate O Projeto de Maury Calvos reagem PT, CLT e Acarajés de Jesus Europa reage RESSENTIDOS DO MUNDO TODO, UNI-VOS Janer Cristaldo Sobre o autor        Janer Cristaldo nasceu em 1947, em Santana do Livramento (RS). Formou-se em Direito e Filosofia e doutorou-se em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris III). Morou na Suécia, França e Espanha. Lecionou Literatura Comparada e Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina e trabalhou como redator de Internacional na Folha de São Paulo e no Estado de São Paulo . Atualmente, reside em São Paulo e assina crônica semanal no jornal eletrônico Baguete (www.baguete.com.br). Ressentidos do Mundo Todo, Uni-vos é uma compilação das crônicas publicadas neste jornal em 2001.      E-mail: cristaldojaner@hotmail.com.      Outras obras publicadas pela ebooksbrasil: Ponche Verde , romance Laputa , romance Mensageiros das Fúrias , ensaio Engenheiros de Almas , ensaio Qorpo Santo de Corpo Inteiro , ensaio Ianoblefe , ensaio A Indústria Textil , ensaios Crônicas da Guerra Fria , crônicas EleCrônicas , crônicas Flechas Contra o Tempo , crônicas Assim se perdem as perdizes 5/1/2001        Um leitor pergunta porque gosto de escrever sobre mim mesmo. Não é verdade. Prefiro escrever sobre uma escrivaninha, que é bem mais cômodo. Pergunta-me também como desenvolvo esta crônica.      Honestamente, não sei. Me dou por feliz, quando, ao sentar na mesa, já tenho o tema escolhido. Isto é, metade da crônica está feita. Uma vez sentado, não tenho idéia muito precisa do ponto de chegada. Muitas vezes penso ir a Paris e acabo chegando a Ponche Verde. Às vezes me preocupa uma reflexão sobre a História e acabo entrando num bar. E ao sair do bar o rumo é sempre incerto, como o é o desfecho da crônica. Como a desenvolvo?      Prefiro falar de perdizes.      O leitor já ouviu falar de mundéus? Se não nasceu no campo, mais precisamente na Campanha, certamente desconhece o que seja mundéu. É uma armadilha para perdizes. Sobre uma trilha de ovelhas faz-se uma pequena muralha de pedras, esterco, mio-mio ou chirca, de um palmo de altura e uns dois braços de homem de comprimento. Nas pontas da cerca, dois braços laterais saem um para cada lado, formando assim uma espécie de T , cortado por cima e por baixo. No centro do mundéu, por onde passa a trilha, há uma porteirinha. Da porteira pende uma trança de rabo de cavalo, trançada de três ou torcida, mas sempre em forma de forca. A torcida é melhor, se fecha mais fácil. O mesmo não diria a perdiz, mas quem ocupa este espaço é o cronista e não ela. Só posso falar de meus pontos de vista.      Primeiro é necessário levantar a perdiz. A melhor hora é o nascer do sol, quando seus raios tornam brilhantes as babas-de-boi que se estendem de cardo a cardo. Não pode ser dia de vento. Nesses dias, a perdiz se amoita no primeiro alho-bravo que encontra e não quer saber de passeios, já se levanta voando. Outra hora boa é depois de um temporal, quando um cheiro de terra se ergue da terra e fica para sempre nas narinas de quem na infância com esse cheiro se embriagou. Outro cheiro que também marca para sempre é o cheiro de sanga ao entardecer. Mas falava de perdizes.      Para levantar a perdiz, basta passear pelo campo, de preferência a pé, assobiando em seu ritmo assustadiço. Ela ouve. Se está aninhada, levanta. Espicha o pescoço e responde. Está perdida.      Cabe agora ao caçador mangueá-la para o mundéu, o que exige grande conhecimento da psicologia das perdizes. As perdizes são desconfiadas por natureza. Para ganhar-lhes a confiança, o assobiador tem de ser melífluo, insinuante. Quando a perdiz assobia, o assobiador cala. Quando ela cala, eu respondo. Se ela está à direita do mundéu, vou caminhando de longe, para a esquerda. Como quem não quer nada, sempre assobiando, como se o mundéu nem existisse. Um bom expediente é dar as costas para a perdiz, de mãos no bolso. A perdiz vê o assobiador de costas para ela e fica até despeitada. Ele não quer nada comigo, me deu as costas, pensa a perdiz. São ingênuas, as perdizes .      Se ela vai para a esquerda, sigo assobiando pela direita. A perdiz se desespera. Ele nem me quer. Eu assobio para um lado, ele assobia para o outro . E aí se perde a perdiz, pois o assobiador a ama e o amor é guerra. A perdiz entra na trilha. Logo adiante, está o mundéu. E a trança. Torcida.      Uma vez na trilha, mais amorosamente assobia o assobiador. Com tanto amor que a perdiz chega a assustar-se. Assobia agora nervosa, qual virgem se abrindo ao amado. Mulheres e perdizes em muito se parecem.      Entrou nos braços do mundéu. Só há uma saída, a trança, branca e redonda. Próximo à forca, o assobiador sempre deixa alguns grãos de trigo ou milho, tanto que ama a perdiz. Gorda é a laçada da trança. Magro é o pescoço da perdiz.      O assobiador abre os braços e grita, a perdiz voa e se enforca. Salvo engano, escrevi uma crônica. Ou algo parecido. Terror e Tortura 12/1/2001        Um escritor até pode parecer original. Vinte escritores reunidos, e temos a uniformidade de um exército. Imagine então que imenso bocejo pode provocar o depoimento de 53 intelectuais franceses num mesmo dia. Foi o que reuniu o jornal Libération , em suplemento deste fim de ano. Boa parte dos depoentes se sentiram na obrigação de baixar a lenha em Pinochet e Milosevic e sobrou até mesmo para Putin.      Ora, justo em novembro passado, os jornais denunciavam as torturas cometidas pelos franceses na Argélia, quando era ministro da Justiça François Mitterrand, o mais prestigioso líder socialista da Europa. Em uma só batalha, a de Argel, os franceses fuzilaram 3.024 argelinos, a mesma cifra de vítimas, em números redondos, que é atribuída aos 17 anos da ditadura de Pinochet. Dois velhos generais, Jacques Massu, 92 anos, e Paul Aussaresses, 82, resolveram confessar seus assassinatos e torturas durante a guerra. Este último contou, inclusive, ter matado 24 prisioneiros com as próprias mãos. De fato, nos executávamos os prisioneiros – disse Aussaresses ao jornal Figaro –. A tortura nunca me proporcionou prazer mas eu tomei esta decisão quando cheguei a Argel. Na época, ela era generalizada. Se fosse para refazer tudo, isso me aborreceria, mas eu faria de novo a mesma coisa pois não acho que se pudesse agir de outra maneira .      As denúncias sobre matanças e torturas surgiram na imprensa francesa durante a própria guerra da Argélia. Nos anos 70, lembro ter lido uma entrevista de Massu na revista Lui , onde o general francês relatava suas habilidades com a gégène , espécie de gerador de campanha. Este tipo de tortura, dizia, nada tinha demais, ele próprio a havia experimentado em si mesmo e a dor era perfeitamente suportável. Talvez pensasse diferente se encarregasse um árabe de torturá-lo. Esta experiência, Massu preferiu não tentar.      Os dois generais, que agora confessam com a serenidade dos justos seus assassinatos e torturas, continuam livres como passarinhos nesta França tão desejosa de punir Pinochet e Milosevic. Nenhum dos 53 intelectuais ousou escrever uma linha sequer sobre os massacres e torturas cometidos sob a responsabilidade de Mitterrand. Nenhum grupo de direitos humanos, nenhum tribunal internacional, nenhum juiz Garzón, pede qualquer punição para os torturadores confessos. Que mais não seja, o buraco é mais encima. Empanaria a imagem de um dos mais sagrados ícones da hagiologia gálica contemporânea, o general De Gaulle. General latino-americano, quando mata e tortura, é ditador abominável. General francês, quando faz o mesmo e com mais eficácia, é grande estadista.      Em recente editorial, Jean Daniel, diretor do Nouvel Observateur , não diz um pio sobre Mitterrand. Afirma que o horror estava presente nos dois campos . Esta parece ser a opinião do francês médio. Se os argelinos torturavam, não é lá assim tão horrível torturar de volta. Era a fórmula mais eficaz, senão a única, de combater o terror argelino, que estava matando franceses como moscas. François Mitterrand, fato que ninguém gosta de lembrar, antes de administrar a tortura na Argélia, fora condecorado com a francisque , medalha concedida pelo governo de Vichy, do marechal Pétain, aos colaboradores do nazismo. Mas Mitterrand molhou o dedo na boca, auscultou os ventos da história e tornou-se socialista. Foi absolvido.      Nestes dias, a tortura volta à baila também no Brasil. Com a coragem e lucidez que lhe são próprias, Olavo de Carvalho escreveu, sábado passado, em O Globo , que toda a Humanidade compreende intuitivamente que o torturador, por cruel e asqueroso que seja, é apenas um agressor, ao passo que o terrorista, por belo e idealista que se anuncie, é um homicida por atacado, virtualmente um genocida. As diferenças não param aí. Maus tratos a um prisioneiro podem resultar do súbito impulso de fazer justiça com as próprias mãos, enquanto o ato terrorista supõe premeditação fria, planejamento racional, execução precisa. A tortura admite graus, que vão de um tapa na cara até os requintes de perversidade dos carrascos chineses e norte-coreanos, ao passo que um homicídio não pode ser meio homicídio, um quinto de homicídio, um-dezesseis-avos de homicídio .      Saltaram de todos os lados os eternos defensores do terror, que passaram a acusar Olavo de defender a tortura. Apesar de sua veemente condenação da mesma, expressa com todas as letras. Velha técnica das esquerdas. Quando não se pode negar uma evidência, atribui-se ao interlocutor frases que ele não disse, mas de fácil contestação.      Os senhores que, com tanta ênfase, condenam à tortura no Brasil jamais disseram uma palavra que fosse contra atos de terrorismo. Pelo contrário, defenderam os militantes do terror. Sem ir mais longe, o cardeal Evaristo Arns, que assina o relatório Tortura Nunca Mais , foi um dos primeiros a defender e pedir a libertação dos terroristas que seqüestraram Abílio Diniz. O governo petista gaúcho, tão preocupado em indenizar as vítimas da tortura no Rio Grande do Sul, recebeu com honras de chanceler um representante das FARC, que estão seqüestrando e assassinando à granel na Colômbia.      Nunca ouvi, de líderes sempre tão pressurosos em condenar a tortura, como José Dirceu, José Genoíno, Lula ou Tarso Genro, a mais leve condenação a grupos como as Brigadas Vermelhas, Sendero Luminoso, FARC, IRA ou ETA. Muito menos a Che Guevara, assassino do gatilho fácil, que tentou levar países de três continentes à miséria socialista e só conseguiu contribuir para que Cuba chegasse lá.      Olavo de Carvalho mexeu com os brios dos defensores incondicionais do terror, que hoje ocupam altos cargos no governo e gozam de pensões milionárias. Jamais será perdoado pela Nomenklatura tupiniquim. A Seita que Deu Certo 19/1/2001        A primeira peste que a França legou à América Latina foi a sífilis. Depois passou a exportar marxismo, estruturalismo, sartrismo, lacanismo e outras moléstias gálicas. Na fronteira gaúcha, até hoje se chama a sífilis de galiqueira, por influência das prostitutas francesas que a aristocracia rural gaúcha importava para os bordéis de Porto Alegre. Verdade que muitas eram polacas com passagem por Paris, mas para o imaginário porto-alegrense passavam por parisienses. De uma pessoa com sífilis, dizia-se que estava engalicada. Como engalicada está toda a área humanística da universidade brasileira, cujos mestres e doutores adoram papaguear teorias elaboradas au bord'elle, la Seine .      Mas o Brasil reage e manda o elevador de volta. Como não temos maiores produções teóricas, vai religião mesmo. A Igreja Universal do Reino de Deus, criada em 1977 por um apóstolo tupiniquim, o bispo Edir Macedo, já conta com oito milhões de adeptos no mundo. E três mil na França. O bem sucedido bispo, para quem templo é dinheiro, está encontrando obstáculos na terra de Descartes para instalar sua igreja. Pela terceira vez, acaba de ter recusada a permissão para construir um templo na sala de cinema Scala, no 10º arrondissement , da qual é proprietário há mais de ano. O bispo foi barrado por uma célula de vigilância anti-seitas. Aqui em Pindorama, o bispo além de ter televisão goza do prestígio de liderar uma religião. Mas para os franceses a IURD não passa de uma seita pentecostista que promete curas em troca de preces e oferendas.      A igreja do bispo Macedo já tem dois templos em Paris, para escândalo dos franceses: Não é por acaso que os dirigentes desta seita buscam se implantar nos bairros populares – diz um analista do fenômeno sectário –. Pois esses bairros constituem um excelente terreno para seus recrutadores. Mediante moeda sonante, sob a cobertura de sessões coletivas onde seus gurus entram em transe, eles prometem milagres. Como curar a Aids !      Para defender-se de vigaristas místicos, os franceses criaram em 98 uma Missão Interministerial de Luta contra as Seitas (MILS). A França defende-se bem – disse recentemente seu presidente, Alain Vivien. – O sectarismo não avança mais .      Existe na França uma proposta parlamentar da criação do delito de "manipulação mental". Que, evidentemente, não é bem vista pelas autoridades religiosas. Dentro deste espírito, Alain Vivien, que já denunciou como "seita absoluta" a cientologia, preocupa-se também com a infiltração dos movimentos sectários no universo das ONGs, que escapam, em toda legalidade, ao controle dos Estados. E agora está atacando o movimento da antroposofia, doutrina baseada na filosofia do polígrafo austríaco Rudolf Steiner. A nova denúncia de Vivien não está encontrando acolhida nos tribunais, já que as escolas Steiner são centenas no mundo todo e recebem subsídios governamentais na Holanda, Alemanha e países escandinavos. O último relatório da MILS mostra também sua preocupação com a infiltração sectária que começaria a existir na profissão dos psicoterapeutas. Que, só na França, são 15 mil.      O Brasil, que adora importar males gálicos, certamente não manifestará interesse algum em imitar os franceses na salutar criação de uma entidade de prevenção anti-seitas. Muito menos ocorrerá a nossos parlamentares criar a figura do delito de manipulação mental. Imagine então o escândalo nacional, se as autoridades tupiniquins investissem contra as ONGs e os psicoterapeutas! São centenas de milhares. Além de crescerem como cogumelos após a chuva neste país de crédulos, enchem seus bolsos por conta das angústias humanas.      Os franceses, com sua precaução contra vigarices, estão tentando conter os avanços da seita do bispo Macedo. Preocupam-se com manipulação mental. Mas jamais ocorrerá à fille aînée de l'Eglise , que é como o Vaticano chama a França, investir contra a manipulação mental destes senhores que há dois mil anos oram para um deus que não existe e prometem aos pobres de espírito um paraíso também inexistente, além da humana existência.      Pois se o cristianismo pode hoje dar-se ao luxo de administrar até mesmo um Estado, época houve em que foi seita. Tácito, 115 anos depois de Cristo, escreve:       Nero apontou como culpados e castigou com a mais refinada crueldade uma classe de pessoas destacadas por seus vícios, às quais a multidão chamava de cristãos. Este nome vem de Cristo, que havia sofrido a pena de morte sob o reino de Tibério, após ter sido condenado pelo procurador Pôncio Pilatos. Aquela perniciosa superstição havia sido detida, para voltar a eclodir de novo não só na Judéia, mas também na própria capital (ou seja, Roma), na qual haviam confluído e encontrado grande aceitação todos os feitos horríveis e vergonhosos do mundo. Assim, pois, foram presos todos os membros confessos da seita; depois, por suas declarações, provou-se que muitos membros foram culpados, não tanto do delito de incêndio (de Roma), mas por seu ódio à raça humana. E entregaram sua vida em meio ao escárnio: foram cobertos com peles de animais e despedaçados por cães, ou atados a cadáveres e incendiados, como lâmpadas noturnas, quando caía a escuridão .      O cristianismo é seita que deu certo. A Igreja romana e demais igrejas cristãs adquiriram, ao longo dos séculos, prestígio histórico e o direito de manipular mentes à vontade. O bispo Macedo, com a amplitude de visão típica de todo grande vigarista, continua na luta para chegar ao mesmo status. Iurd, Icar e Handyside 26/1/2001        Falei, semana passada, do bispo Edir Macedo, este senhor que em vinte e poucos anos criou uma religião com oito milhões de adeptos. Falei dos instrumentos de que se mune a França para combater a nova crença. Um leitor estrila contra a "utilização da palavra seita para as igrejas ou grupos de religiões". Que vá estrilar junto aos franceses. Pessoalmente, não considero seita um movimento com oito milhões de fiéis. Houve ainda quem pensasse que apóio os franceses em sua tentativa de coibir a nova religião. Nada disso. Faço minhas as palavras de Guerra Junqueiro:       Não insulto quem bebe a droga venenosa;      Acuso simplesmente o charlatão que a faz .      Não é por acaso que falo de Junqueiro. De Portugal, um leitor me remete a sites que condenam a obra do bispo brasileiro em terras lusitanas. Este moribundo século XX – diz um dos textos – foi marcado pelo aparecimento de uma série de movimentos religiosos e de seitas sem paralelo na história da Humanidade. Curiosamente, à medida em que se desenvolvem as capacidades do Homem para dar resposta aos desafios com que se vê confrontado, igualmente vão ficando a descoberto as suas fragilidades, designadamente as que o levam a passar ao lado da razão quando se vê confrontado com problemas de difícil resolução. Embora sentindo-se cada vez mais dependente de um mundo materialista, o indivíduo acaba por ser tentado a recorrer ao sobrenatural, sempre que as contrariedades do dia-a-dia o arrastam para estados de angústia e de desespero. Está, assim, aberto o caminho à irracionalidade, que o leva a acreditar em que, com a ajuda dos deuses da fortuna, poderá ser beneficiário de um milagre ...      O articulista, ao qual jamais ocorreria taxar como irracional o catolicismo português, condena a Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd), por suas práticas milagreiras e exorcismos. Parece esquecer que Cristo, além de milagreiro, foi também exorcista. E que Portugal deve boa parte de sua receita turística às três crianças que um dia teriam visto a Virgem. Fátima não é embuste. O pastor Edir Macedo, que pelo menos por enquanto ainda não falou com a Virgem, é.      Todos devem estar lembrados quando, em 1917, a Virgem apareceu em Fátima, na cova de Iria, aos três pastores. O sol, como uma roda de fogo, girou então sobre si mesmo durante dez minutos. Curiosamente, não se constatou efeito algum no clima da Terra destes movimentos anômalos do sol. Claro que, para os devotos de Fátima, isto pouco importa. Tampouco jamais considerariam que sol rodando é manipulação mental.      Abro um parêntese: um amigo, recém-vindo de Lisboa, me conta que um padre desmascarou a aparição a partir de uma análise gramatical dos fatos. Uma das pastoras perguntou à Virgem: Quem sois? Ora, é de espantar que naquela época uma criança camponesa conjugasse assim tão à vontade a segunda pessoa do plural, coisa que hoje muito jornalista sequer conhece. Mas a santa, muito apedeuta, também se trai em seu discurso. Diz a Virgem: eu sou a Nossa Senhora. Como Nossa? Se se dirigia a terceiros, teria de dizer: eu sou a Vossa Senhora.      Volto ao bispo. Condena-se também a Iurd por suas cobranças de dízimos. Mas esta sagrada propina, caríssimos, já está no Levítico: Quanto a todo dízimo do gado e do rebanho, de tudo o que passar debaixo da vara, esse dízimo será santo ao Senhor . E quem recolhe o dízimo? O sacerdote, é claro, que o Senhor não tempo nem mãos para tais mixarias seculares.      Aliás, a própria França que investe contra a Iurd, também investe firme no mercado sobrenatural. Lourdes rende anualmente milhões de francos à Icar (assim chamam os portugueses a Igreja Católica Apostólica Romana) e uma substancial parte das divisas turísticas do país. Claro que jamais passaria pela cabeça de Alain Vivien, o ativo presidente da Missão Interministerial de Luta contra as Seitas, condenar como manipulação mental o rentável comércio místico de Lourdes. Como tampouco o da última virgem que ousou mostrar as caras neste final de século, a de Medgorje, na ex-Iugoslávia.      Quando os autoproclamados bispos e pastores da intitulada Igreja Universal do Reino de Deus partiram de terras de Vera Cruz à descoberta do caminho para a Ocidental Praia Lusitana – diz o texto português – , a primeira sensação que devem ter tido, ao arribarem ao seu porto seguro, foi a de que encontraram um paraíso com portas abertas para o céu.      Não terá sido diferente a sensação dos descobridores quando partiram da Ocidental Praia Lusitana e chegaram a Vera Cruz, vendendo o deus de Roma a tribos ágrafas. Os lusos são inclusive tímidos em suas invectivas ao bispo Edir e parecem esquecer o metro furioso de Guerra Junqueiro, quando xingava o vice-deus católico:       Quem é o Papa? Um Deus inventado à socapa,      Um Deus para fazer o qual bastam apenas      Quatro coisas: cardeal, papel, tinteiro e penas .      Tampouco Jeová era poupado, para alegria de meus dias de guri:       Espalhou pelo mundo lívidos terrores,      Inventou Satanás; do amor fez um pecado...      Malditos sejais vós, ó bíblicos doutores!      Maldito sejas tu, ó velho deus castrado!      Reclamações, favor encaminhá-las ao poeta de Freixo-de-Espada-à-Cinta. Sempre que comento temas religiosos, não faltam meigos corações de pomba mansa a protestar, alegando que firo íntimas convicções dos leitores. Ora, estou apenas exercitando faculdade reconhecida pela Corte Européia de Direitos do Homem. Que, no acórdão dito Handyside, de 1976, declara:       A liberdade de expressão vale não apenas para as informações ou idéias acolhidas com favor, mas também para aquelas que ferem, chocam ou inquietam o Estado ou uma fração qualquer da população. Assim o querem o pluralismo, a tolerância e o espírito de abertura, sem o qual não existe sociedade democrática .      Amém? Civilização e Mcdonald's 1/2/2001        Quando vim pela primeira vez a São Paulo, um editor convidou-me para uma cerveja em uma lanchonete. Pela cerveja, agradeci. Mas não em lanchonete, adverti. Entendi , disse o editor, você tem hábitos europeus .      Nada disso. Meus hábitos eram gaúchos. As lanchonetes recém começavam a dominar a paisagem porto-alegrense e ainda não haviam contaminado a restauração no Brasil. Eu as via como uma espécie de baias, onde os ruminantes urbanos enfiavam a cabeça no bornal e mastigavam rápido e em silêncio sua triste ração. Por sempre ter abominado as lanchonetes, também abomino essa excrescência ianque, os Mcdonald's.      Não freqüento pessoas que freqüentam tais ambientes. Certa vez, perguntei a uma colega de magistério que voltava de Madri quais restaurantes visitara. Ah , me disse a moça, lá eu só comia em Mcdonald's . Risquei a fulana de minha agenda. Não consigo privar com alguém que vai à Espanha, de cozinha tão generosa, e envereda pelos bretes da fast food . Daí a invadir e depredar Mcdonald's, vai uma longa distância.      Em verdade, já comi em tais cocheiras. Fora surpreendido na avenida Paulista por um destes torós costumeiros do verão paulistano e me abriguei sob a marquise de um Mc. Mas as águas insistiam em subir e cercar-me. O homem é o homem e suas circunstâncias, dizia Ortega y Gasset. Entre ficar com água pela canela e ferir meus princípios, preferi entrar. Acabei pedindo um sanduíche qualquer e um suco de laranja, naqueles horrendos copos de plástico. Pequei, confesso, contra a civilização. Mas é preciso que um temporal me pegue de jeito para que eu entre em tais antros.      O encontro franco-petista em Porto Alegre, dito Fórum Social Mundial – modestamente autointitulado anti-Davos – me lembra em muito o Unabomber, o terrorista americano que enviava bombas a pessoas ligadas à tecnologia. Para parar, exigia a publicação de um manifesto antitecnologia... na primeira página de jornais editados com tecnologia de ponta. As ressentidas viúvas do socialismo reunidas em Porto Alegre manifestam-se contra a globalização... através dos instrumentos por excelência da globalização: teleconferências via satélite, imprensa informatizada, Internet. Uma das vedetes do festival de utópicos tardios é o francês José Bové, que do dia para a noite virou ícone da mídia internacional por ter saqueado um Mcdonald's no sul da França.      Não defendo depredações. Mas protestar contra tais biroscas na França não deixa de ter sentido. O fast food é a antípoda da lenta restauração francesa, de pratos regionais, ancestral e sofisticada. Os Mcdonald's, à medida que começam a ocupar esquinas prestigiosas, constituem uma ameaça àquela gastronomia que faz o renome da França. Ameaça pouco preocupante, é verdade, pois só uma besta irracional é capaz de trocar um daqueles restaurantes aconchegantes, nos quais dá vontade de sentar e não mais levantar, pelo ambiente clean e frio desses refeitórios luteranos onde não se bebe vinho nem cerveja. E quando se bebe algo, é em copos de plástico.      Em Nova York, depois de anos de bom convívio com a cerveja, quase virei abstêmio. Nos botecos em que entrava, as bebidas eram servidas em copos de plástico. E tinham ainda o desplante de chamar aquilo de glass . Beber, sim. Mas com dignidade. Saí a percorrer a cidade, marcando no mapa os bares onde os copos eram de fato glass . A beber em plástico, prefiro a abstinência. Em francês, copo é verre , que também quer dizer vidro. Mas já começam a surgir, por influência ianque, os de plástico. Verre en plastique , dizem os franceses. Pior ainda, são as flûtes à champagne de plástico. Você já imaginou degustar um Laurent-Perrier numa flûte plástica? De fato, a globalização é perversa.      Em meus dias de universidade, a representação do mal era a Coca ou Pepsi. Hoje, com os contestadores e seus rebentos entupidos de xaropes ianques, melhor esquecer o antigo símbolo. Contesta-se os Mcdonald's. Bové, cachimbador inveterado, ao posar destruindo uma lavoura experimental de transgênicos, me lembra um ecologista com automóvel. Curiosa lógica: todos os carros do mundo são poluentes, menos o meu. Se o tabaco mata, os transgênicos até hoje não mataram ninguém. Mas Bové jamais dirá qualquer coisa contra o tabaco. Seria negar seu cachimbo. Tampouco iria destruir as lavouras de fumo do Rio Grande do Sul. O tabagismo é a mais bem sucedida herança indígena que nos foi legada, e não é politicamente correto denunciar práticas ancestrais dos bugres. Mesmo que sejam mortíferas.      No antigo Império do Mal, as multidões que antes faziam fila para ver a múmia de Lênin, agora se apinham frente aos Mcdonald's. Em São Petersburgo, onde os Mc's já constam como pontos de referência nos mapas turísticos, junto a eles encontrei filas só comparáveis às do Hermitage. Na Rússia, os sobreviventes do stalinismo disputam no braço os hambúrgueres ianques com sabor de plástico. Em Porto Alegre, os neostalinistas picham os Mc's.      Na Folha de São Paulo , vejo o outdoor de um Mcdonald's sobre o qual manifestantes escrevem: isso é merda. Ora, merda por merda, os Mc's são mais higiênicos e confortáveis que milhares de lanchonetes Brasil afora. Ao ver a invasão dos Mc's em Paris, penso: os bárbaros estão chegando. Mas se chegasse em uma villaya na Argélia e visse aquele M divino, diria: enfin, civilisation .      Os franceses legaram ao mundo o conceito de sabotagem. A palavra data de 1880 e vem de sabot (tamanco). Temendo o desemprego, os luditas da época jogavam tamancos nas poleias das recém-surgidas máquinas agrícolas. Honrando a boa tradição gálica e gozando da impunidade que a mídia lhe confere, o neoludita Bové se encarniçou em sabotar uma pesquisa agrícola no país anfitrião. Mereceu os aplausos histéricos das viúvas reunidas em Porto Alegre, que adorariam voltar aos tempos de Galileu, quando ciência era pecado. Como disse alguém, estas são as esquerdas que a direita pediu a Deus. Anistia fabrica Neonazistas 9/2/2001        Comentei, há semanas, a facilidade com que a imprensa fabrica racismo. Já contei o caso de um "neonazista' que, segundo a imprensa, andava pichando centros nordestinos. Descobriu-se mais tarde que o neonazista em questão era nordestino e os jornais abandonaram o assunto: nordestino não pode ser neonazista. Confunde o leitor. Ano passado, tivemos um exemplo lapidar de como esta fábrica produz. Me restrinjo às notícias de um só jornal. No dia 06 de setembro, a Folha de São Paulo mancheteava:       ANISTIA SOFRE NOVO ATENTADO A BOMBA EM SP       Uma bomba de fabricação caseira foi entregue pelo correio na casa de um funcionário da Anistia Internacional em São Paulo. O alvo era o apartamento do professor de educação física José Eduardo Bernardes da Silva, 40, militante da entidade e que vinha recebendo ameaças pelo telefone. É o segundo atentado em menos de um ano contra a Anistia no Estado, que fechou sua sede na capital, em março passado, em razão de sucessivos incidentes com grupos neonazistas .      Neonazis atentam contra um funcionário da Anistia. Se em países desenvolvidos há neonazistas, o Brasil tem de ter os seus. Se não existe, se fabrica. Ainda segundo a Folha , Bernardes da Silva, professor de educação física com mais de 130 quilos de massa, é o mesmo funcionário que encontrara, em setembro de 99, uma bomba de fabricação caseira no escritório da Anistia em São Paulo. Na época, a entidade recebera uma carta com a foto de um travesti nu com a mensagem: Vocês defendem homossexuais e negros, nós os matamos. Vocês são nossos inimigos. Morte a vocês .      O jornal registra depoimento do rabino Henry Sobel: " A covardia demonstrada pelo remetente que se manteve anônimo, e se escondeu indicando um endereço fictício, é tão deplorável quanto o ódio e o preconceito que motivaram o ato ".      No dia seguinte, lemos que a Justiça Global Ação e Capacitação em Direitos Humanos irá levar o caso das ameaças à ONU. Em Londres, a Anistia Internacional anuncia que há quase um ano a polícia de São Paulo sabe das ameaças contra Bernardes da Silva, mas não resolveram o problema.      Uma outra carta de ameaça foi entregue no escritório da Anistia em Porto Alegre, onde Silva refugiou-se, depois de ser ameaçado em São Paulo. Poucas pessoas sabiam de sua transferência, uma tentativa de escapar da perseguição dos neonazistas. Vemos então que os neonazistas têm uma organização de âmbito nacional, muito bem informada, que persegue suas vítimas onde quer que elas se escondam.      Ainda no dia 07, os neonazis continuam agindo. Diz a Folha :       GRUPO GAY RECEBE PACOTE-BOMBA EM SP      O artefato, similar ao enviado dois dias antes à Anistia, poderia matar; diz o jornal. Bernardes da Silva, que diz ter escapado de três emboscadas nos últimos doze meses, descreve os agressores: bem arianos, pele e olhos claros, andam em carros bons e têm conhecimento de tecnologia .      Fazem as ameaças por telefone e desligam antes de o número de origem ser rastreado. O grupo que faz ameaças por telefone também fala inglês, alemão e francês, além do português. Eles afirmam que têm ligações internacionais muito fortes e que, aqui no Brasil, têm gente muito poderosa que os patrocina , afirmou Silva.      Os neonazistas são poliglotas e falam línguas européias. Sob o título "Ameaças Covardes", a Folha faz incisivo editorial contra o perigo neonazista:       Não poderia ser mais trágica a aplicação da tese das idéias fora de lugar a que tem sido levada a termo por autoproclamados grupos neonazistas na cidade de São Paulo. Anteontem, José Eduardo Bernardes da Silva, da Anistia Internacional, recebeu em sua casa uma carta-bomba, que só não lhe causou danos porque, calejado por outras ameaças inclusive de mesmo porte, Silva teve o cuidado de não destampar o pacote e de chamar a polícia .      O professor de educação física manifesta medo: Eu ando nas ruas olhando para os lados, não faço o mesmo caminho para chegar em casa, evito freqüentar os mesmos lugares e sair com minha família. O medo me faz ser mais cauteloso .      Dia 09 de setembro, o atentado assume proporções internacionais:       ANISTIA FAZ CAMPANHA MUNDIAL CONTRA ATENTADOS DE SKINHEADS EM SÃO PAULO       A Anistia Internacional deu início ontem a uma campanha mundial contra os atentados de grupos que se autodenominam skinheads em São Paulo. Um comunicado do secretariado da entidade, em Londres, foi enviado às sedes nacionais da Anistia, espalhadas pelo mundo, onde as mensagens serão traduzidas e redistribuídas .      Dia 10, a Folha faz uma sinopse sobre       A ESCALADA DO RACISMO      Ainda no mesmo dia:       PARA O MINISTÉRIO PÚBLICO DE SÃO PAULO, CRIMES DE GRUPOS NEONAZISTAS ERAM TRATADOS DE FORMA BUROCRÁTICA      O cientista político Paulo Sérgio Pinheiro, da USP, é taxativo: as duas bombas deveriam ser interpretadas como atentados à democracia. A Alemanha só conseguiu desbaratar os grupos neonazistas nos últimos dez anos quando começou a ter uma coordenação nacional. Enquanto cada Estado agia por conta, foi um fracasso .      Dia 15, a aposta aumenta:       ENTIDADES VÃO À ONU CONTRA ATENTADOS       Nove entidades de defesa dos direitos humanos e de minorias encaminharam ontem um documento a Asma Jahangir, relatora especial da ONU (Organização das Nações Unidas), pedindo que a entidade pressione o governo brasileiro a esclarecer os atentados a bomba em São Paulo .      Para fugir aos atentados neonazis, o professor Bernardes da Silva refugiou-se na Espanha. Desde então, os movimentos negros ou gays não receberam mais bombas.      Fevereiro de 2001: a caligrafia de Bernardes da Silva bate com a dos bilhetes enviados para entidades de direitos humanos na primeira semana de setembro. O professor, funcionário da Anistia, é indiciado pelos atentados ocorridos no ano passado. Rãs em Fogo Lento 16/2/2001        Morreu o Valdir. Não procurem sua morte nos jornais. A imprensa reserva suas primeiras páginas para cadáveres ilustres, tipo ditadores, serial killers ou grandes vigaristas. Valdir não oprimiu ninguém, não matou ninguém, não enganou multidões. Não mereceu nem mesmo algumas linhas em páginas internas. Sua morte, domingo passado, não tem a repercussão da morte, por exemplo, de um só soldado de Israel, que sempre faz manchete na imprensa nacional, mesmo que nada tenhamos a ver com Israel. Valdir ficará no rol anônimo e esquecido dos cinqüenta assassinados a cada fim-de-semana em São Paulo. Os jornais estão mais preocupados com a agonia de um filhinho de papai irresponsável, que matou a própria mulher em exibicionismos acrobáticos com uma avioneta importada. Os fãs que me perdoem, não é nada pessoal. Mas sempre pensei que a morte de um roqueiro fizesse com que o nível médio de inteligência humana subisse vários pontos.      Valdir era um dos homens de minha vida. Por homens de minha vida entendo os garçons, estes misteriosos personagens com quem, há décadas, converso diariamente. Que estão eternamente à minha espera, sempre prestimosos e de bandeja em punho, em todas as cidades de qualquer país do Ocidente. Dizer que Valdir morreu não corresponde bem aos fatos. Foi assassinado, enquanto jantava num balcão de lanchonete. Um vagabundo, desses que os senhores defensores dos direitos humanos chamam eufemisticamente de excluídos, perseguia a tiros outro vagabundo, que se escondeu no banheiro da lanchonete... e sobrou uma bala para a cabeça do Valdir. Caiu de cara sobre o prato em que comia, segundo testemunhas.      Nesta semana, passou a faltar alguém em minha vida, aquela figura afável e de olhar cansado, que sempre me brindava com um simpático vai um chorinho, Dr. ? As cinqüenta mortes semanais na periferia jamais me tocaram, como não tocam às pessoas que me cercam. São rostos desconhecidos, de pessoas desconhecidas, que não temos razões para lamentar. Agora, a Indesejada das Gentes passou por perto. Mas a vida continua e o bar também. Melhor conclamar outro emérito freqüentador de bares, Pessoa:       Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!      Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...      Sem ti, tudo correrá sem ti .      São Paulo está com medo, dizia há dois anos uma pesquisa do Estado de São Paulo . Na rua, no carro, num restaurante, num bar ou mesmo em casa, não há lugar estritamente seguro. Na maior cidade do país, mata-se por um relógio barato, por portar pouco dinheiro. Ou por nada, como foi o caso de meu garçom. O pai de família isola-se em casa. As crianças brincam em condomínios e desconhecem o lado exterior. Pessoas freqüentam bares protegidos por grades. Lá fora, do outro lado das grades, livres como passarinhos, circulam os assassinos.      Um diretor de teatro tenta explicar a falta de público para suas peças. Segundo ele, que fizera carreira xingando a ditadura, era o medo que afastava os paulistanos do teatro. Não propriamente o medo de ir até o teatro, saliente-se. Mas o medo de ver retratada nas peças a violência da cidade. Para supor que os paulistanos precisem ir ao teatro para tomar contato com a violência, o renomado teatrólogo deve viver em alguma torre de marfim pairando acima da Paulicéia, de onde só sai para encenar suas peças sobre a violência que vê lá do alto.      Vejamos alguns dados sobre o medo em São Paulo. 55% das pessoas têm medo de serem atropeladas e 24% de andar a pé, à noite. 65% têm medo de dar carona e 47% de pedi-la. 60% têm medo de serem assaltadas ao chegar em casa e 69% de ficarem doentes sem ter dinheiro para as despesas. 37% têm medo de falar com estranhos na rua. Seis em cada dez pessoas têm medo de serem assaltadas, e sete em dez, de serem presas pela polícia. O sentimento de medo é tão genérico que 79% têm medo de cobras, réptil que só conhecem através de cinema, TV ou Instituto Butantã.      Medos de hoje, de 2001? Nada disso. Propositadamente, misturei as pesquisas. O suplemento sobre o medo saiu nas bancas em abril de 1999. Os percentuais que transcrevo, são de uma outra pesquisa, feita pelo Instituto Gallup, em 1975. Como medo não é sentimento que se instale do dia para a noite, podemos concluir que São Paulo vive imersa no medo há mais de quarto de século. Na época, os jornais mancheteavam: "A Capital do Medo". Este título vem sendo repetido década após década, como se cada geração de jornalistas, sem ter lido a imprensa anterior, estivesse descobrindo a América.      Mas os homens de imprensa, por questão de ofício, têm de "esquentar a matéria". O paulistano sente, de fato, medo? Apesar das pesquisas, eu diria que não. O ser humano se adapta a tudo, até mesmo ao medo. Quando o medo passa a ser companheiro de mesa, não é mais medo, mas companheiro de mesa. Volto ao bar. Comentários contristados sobre a morte de Valdir. Absurdo, é a palavra em todas as bocas. Mas a vida é maior que a vida do garçom. Logo o assunto se desvia para dissabores com o condomínio, burocracia de bancos e as mancadas da Marta. O assassinato foi esconjurado. Valdir ainda será tema de discussão na semana e aos poucos sua imagem irá sumindo, restando apenas como patrimônio da memória dos habitués.       Descansa: pouco te chorarão...      O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco.      Há primeiro em todos um alívio      Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...      Depois a conversa aligeira-se cotidianamente,      E a vida de todos os dias retoma o seu dia...      Que mais não seja, a morte tornou-se banal na capital do medo. Consta que uma rã, se for jogada numa panela de água fervente, mal toca a água pula fora. Mas se estiver na panela e a água for esquentando aos poucos, acaba sendo cozida sem dar-se conta. Se o leitor acha que, freqüentadores do bar do Valdir, sentimos algum medo com a proximidade da morte, engana-se. Cidadãos da Paulicéia, há muito estamos fritos. Antropólogo pode 23/2/2001        O Politicamente Correto, versão hodierna do stalinismo, gerado nas universidades ianques, chegou – quem diria? – ao próprio carnaval. No irreverente Rio de Janeiro, a escola Unidos do Viradouro decidiu excluir do desfile a 20ª ala, com a fantasia "Índio, o bicho preguiça". José Carlos Monassa, presidente da escola, teme a reação das entidades indígenas contra o enredo "Os sete pecados capitais", que associa o índio à preguiça. A Ala do Arranco traria a fantasia de um índio com uma preguiça no colo. A Fundação Nacional do Índio (Funai) e o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) ameaçam levar a escola à Justiça.      Ora, se é crime associar índio à preguiça, vamos então proibir já Macunaíma . O "herói de nossa gente", que nasceu no fundo da mata virgem, era uma criança feia parida pela índia tapanhumas.       Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro passou mais de seis meses não falando. Si o incitavam a falar, exclamava:      — Ai que preguiça!...      e não dizia mais nada.      Para Mário de Andrade, preguiça é a virtude básica, brasileira e nativa, do filho da mata virgem, em oposição ao dinamismo branco e europeu de Venceslau Pietro Pietra. Macunaíma , por obra e graça uspianas, tornou-se um clássico nacional e hoje é enfiado goela abaixo de todo estudante que presta vestibular. Pensarão a Funai e o Cimi ameaçar na Justiça a universidade brasileira, por mostrar o índio como preguiçoso, em obras de consumo forçado? Duvido.      Das cem pessoas previstas para integrar a ala, quarenta já tinham comprado a fantasia, mas ninguém terá prejuízo. Mais cinqüenta vagas foram acrescidas às duas outras alas do setor da preguiça, nas quais virão representados dorminhocos e malandros. Quem já pagou será remanejado e a Ala do Arranco será indenizada pela escola em R$ 200 por fantasia.      Segundo Monassa, em nenhum outro pecado seria prudente incluir a ala de índios. Índio não pode ser associado a pecado algum. O único setor para onde a ala poderia ser transferida seria o último, que traz a Viradouro e o carnaval como a redenção dos pecados. À salvação da humanidade, índio pode ser associado.      Poder-se-ia, por exemplo, homenagear "o homem que pode salvar a humanidade", aposto que a imprensa americana atribuiu ao caiapó Paiakan. Verdade que estuprou barbaramente uma menina. Mas, multiculturalismo oblige , temos de respeitar as tradições imemoriais das civilizações primitivas. Este tipo de herói, forte e lúbrico, já teve quem o cantasse no Brasil. Todos conhecemos o casto romance Escrava Isaura , de Bernardo Guimarães, outro livro obrigatório nos currículos escolares. Mas o autor também escreveu O Elixir do Pajé , pouco recomendável a alminhas mais delicadas. Um velho pajé, já impotente, encontra um elixir maravilhoso e retorna a sua faina.       Se acaso ecoando / na mata sombria, / medonho se ouvia / o som do boré, / dizendo: – "Guerreiros, / ó vinde ligeiros, / que à guerra voz chama / feroz aimoré", /– assim respondia o velho pajé, brandindo o caralho, batendo co'o pé:      — "Mas neste trabalho, / dizei, minha gente, / quem é mais valente, / mais forte quem é? / Quem vibra o marzapo / com mais valentia? / Quem conas enfia / com tanta destreza? / Quem fura cabaços / com mais gentileza?"      E ao som das inúbias, / ao som do boré, / na taba ou na brenha, / deitado ou de pé, / no macho ou na fêmea, / fodia o pajé.      E por aí vai, nas pegadas de O Canto do Guerreiro , de Gonçalves Dias. Paulinho Paiakan avant la lettre . Mas suponho que os carnavalescos do Rio, sempre tão preocupados na adaptação de clássicos a seus enredos, nada vão querer com esta bela sátira à poesia indianista, ecos em Pindorama da ópera L'Elisir d'Amore , de Gaetano Donizetti. Se você quiser ler esta obra prima, passe em www.ebooksbrasil.com, procure no catálogo e faça download. É um dos bons momentos da literatura nacional, ciosamente escondido dos universitários pelos donos da cultura tupiniquim.      Por falar em índios, o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, deputado Marcos Rolim, apresentou semana passada um relatório sobre suposto aliciamento sexual de índias por militares dos pelotões do Exército instalados na reserva dos também supostos ianomâmis, em Roraima. Soldados teriam tido relações sexuais com várias índias, com o devido consentimento delas, conforme atesta o relatório do deputado. Algumas teriam recebido presentinhos em troca de seus favores. Onde o crime? Mesmo que os ditos presentes configurassem uma vaga prostituição, prostituição não é crime em nosso código penal.      Coitados dos pracinhas. Como não gozam da mesma reputação de ilustres antropólogos, arriscam a ser punidos pela satisfação de seus humanos desejos. Sinto-me obrigado a repetir declarações que já publiquei nesta coluna, feitas por Darcy Ribeiro:      — Hoje em dia é que as moças começaram a dar para os índios, as antropólogas dão para os índios, gostam de transar com eles, para fazer intimidades. Tão dando mesmo, dão para eles também. Coitado, índio também é gente. Então, dão. E como elas dão, os homens também começaram a comer as índias, antropólogos da nova geração.      Isso, para nós, sempre foi tabu e por uma razão muito séria, se você come uma índia é evidente que vocês têm uma relação de pessoas fudíveis e ela passa a ser sua mulher, o irmão dela passa a ser seu cunhado, o pai dela passa a ser seu sogro, o primo dela passa a ser seu primo e você passa a ter obrigações. Você fica obrigado a servir àquele povo e fica limitado. Eu passei meses com os índios, arranjava um jeito de ter uma. Por exemplo, eu não comia as índias Urubu-Kaapor porque eu estava trabalhando com os Kaapor, mas comia índia Tembé, que eram umas índias decadentes que havia lá .      Antropólogo pode. Pracinha, não. Que teria a dizer o deputado Rolim sobre estas confissões do falecido senador? Apocalipse up to date 2/3/2001        O leitor já deve ter visto pastores pregando nas ruas. Se prestar atenção, verá o que o livro predileto do pastor não é o Gênesis ou o Cântico dos Cânticos , mas o livro de João de Patmos. O apocalipse é a arma por excelência dos profetas. O medo é mais pedagógico que a esperança. Melhor atemorizar gentes com o fim do mundo e fogo eterno que convidá-las a participar da Parusia. O cristianismo, religião de fracos e ressentidos, só podia ser coroado por uma destruição final. Mas atenção: o apocalipse não pode ter data próxima, sob risco de desmoralizar o profeta. Se o profeta marcou data, a única maneira de não passar por fraudulento é organizar seu apocalipse particular, vide Jim Jones e seu massacre na Guiana, ou a seita de David Koresh em Waco, Texas.      Um dos mais belos estudos que já li sobre o assunto é Apocalypse , de D. H. Lawrence, aquele mesmo que o leitor deve estar pensando, o autor de O Amante de Lady Chaterley . Para Lawrence, o Apocalipse , apesar de nada ter a ver com o Cristo real, revela-se o livro mais eficaz da Bíblia e sempre exerceu, sobre pessoas de segunda classe, uma influência maior que todos os outros livros sagrados. É em si mesmo a obra de um espírito de segunda classe. Ele seduz intensamente todos os espíritos de segunda classe, de todos os países, de todos os séculos.      Lawrence vê no apocalipse um desejo frustrado de poder absoluto. O filho do Homem vem à terra para trazer um novo e terrível poder, maior que o de qualquer Pompeu, Alexandre ou César. Quando seu louvor é celebrado, o Hino ao Filho do Homem, é para imputar-lhe o poder, a riqueza, a sabedoria, a força, a honra, a glória e a graça – todos os atributos dos grandes reis e faraós da Terra, mas que não convém a um Jesus crucificado.      Apesar de seus substratos pagãos, o texto final do livro traduz todo o ódio cristão a uma Roma triunfante, a prostituta magnífica que tem na mão uma taça de ouro cheia do vinho do prazer dos sentidos. Como os autores gostariam de beber nesta taça! Não o podendo, como gostariam de quebrá-la! A Babilônia maldita é Roma, o último grande império do mundo. Pela primeira vez nos textos bíblicos, o Filho do Homem surge montado em um cavalo, arma de guerra romana. Não vem para salvar, mas para embeber-se no sangue dos inimigos. No texto de João, Lawrence vê um desejo frenético não só de fim de mundo, mas de toda humanidade junto. É o livro das massas medíocres. E ressentidas, acrescentaria eu.      Mais que filosofia, o marxismo foi religião. Deus foi substituído pela história, a nova Parusia é o advento da sociedade comunista e o Cristo crucificado é o proletariado. Camus, que falava do messianismo científico de Marx, escreveu que o movimento revolucionário, no final do século XIX e no começo do XX, viveu como os primeiros cristãos, à espera do fim do mundo e da Parusia do Cristo proletário. Em seus Carnets, será incisivo: O comunismo é uma continuidade lógica do cristianismo. É uma história de cristãos.      Mal os russos haviam decretado oficialmente o fim do teísmo, logo surgiu na Rússia o movimento Construtores de Deus . Foi fundado por Maxim Gorki e Lunatcharski, que propuseram um novo Pai Nosso: Proletariado nosso que estás na terra, bendito seja teu nome, seja feita tua vontade, venha a nós o teu poder . Em A Mãe , escrito nos Estados Unidos em 1906, Gorki mostra um militante que diz aos operários em cortejo: nossa procissão agora marcha em nome de um deus novo. Em uma novela de 1908, A Confissão , o incipiente deus já ensaia seus poderes: à passagem de uma manifestação de operários, um paralítico deitado em uma maca se levanta e anda.      Como toda religião que se preza, os joões de patmos marxistas também brandiam seus apocalipses. No plano nacional, a guerra civil. Se você tem 50 anos, já deve ter cansado de ouvir de um comunista, quando uma eleição contrariava o "sentido da História": vai ser guerra civil. No plano internacional, a catástrofe nuclear. Se os povos não seguissem os ditames do novo Salvador alemão, a humanidade seria consumida no fogo atômico. E por décadas vivemos sob a sombra da guerra nuclear.      A nova religião teve vida curta. Sobreviventes deste século que passou, somos os observadores privilegiados de um grande momento histórico, a morte de uma religião. Mas um deus não morre assim de repente, do dia para a noite. Nietzsche já nos alertava sobre o quanto fede o cadáver de um deus morto.      Morto o marxismo, os antigos crentes precisavam de um ersatz . Que foi prontamente encontrado nos movimentos ecológicos. Aos quais também não havia de faltar um bom apocalipse. Assim, seguindo o exemplo de Gorki e Lunacharski, modestamente proponho um novo Credo aos ressentidos profetas de segunda classe da nova crença. Le voilá:      Creio no Efeito Estufa todo-poderoso, destruidor do céu e da terra, e no Aquecimento Global, seu único filho nosso Provedor, que foi concebido pelo poder do Santo Espírito Ecológico; nasceu da globalização, padeceu sob o poder dos Estados Unidos, foi imposto nas universidades e na mídia entronizado; desceu às gráficas, subiu às antenas televisivas; está sentado à direita do Efeito Estufa todo-poderoso, donde há de vir a julgar os jornalistas cépticos. Creio firmemente na ONU, na influência dos CFC na redução da camada de ozônio, no derretimento de geleiras e calotas polares, na extinção de espécies animais e vegetais, na desertificação de terras aráveis, na destruição dos recifes de coral, na submersão de países do Caribe do Pacífico, nas enchentes, fomes e epidemias, na crise no abastecimento de água potável, na diminuição da irrigação das lavouras e no colapso na geração de energia elétrica. Creio também na Santa Madre Gaia, na remissão da dívida externa, na ressurreição dos dinossauros, na comunhão das verbas estatais, nas isenções fiscais, viagens internacionais e eternas mordomias.       Per omnia saecula saeculorum. Amen . O Francês e o Futuro 9/3/2001        Em Porto Alegre, conheci um cinegrafista que resolveu mudar-se de mala e cuia para os States. Queria conforto profissional, salário digno e um futuro à vista. Foi cair em Utah, se bem me lembro. Como só acontece nessas aventuras, não encontrou trabalho em sua área. Com muita sorte, conseguiu empregar-se como coletor de lixo hospitalar, ofício sem maiores relações com quem um dia se propôs a enfrentar o mundo com uma câmera na mão. Sonhava talvez ombrear com Francis Coppola ou Sam Peckinpah. Para não passar fome, teve de transportar tripas, fetos e cânceres.      Mas os deuses do Acaso por ele nutriam simpatia. Um belo dia, faltou cinegrafista para filmar uma cirurgia. Isso eu posso fazer, disse o gaúcho aos médicos. Como pode? Você não é lixeiro? Sim, era. Mas antes de ser lixeiro fora cinegrafista. Empunhou a câmera e, para espanto de seus interlocutores, deu conta do recado. Foi promovido a cinegrafista.      Ganhando melhor do que quando lixeiro, pensou em morar melhor. Quando sua mulher encantou-se com um sobradão de esquina, tratou logo de dissuadi-la, isso não é para nosso bico. Ora, perguntar pelo preço não custa nada, alegou a cara-metade. Perguntaram e... surpresa: tinham condições de comprar a casa. Compraram. Mais tarde, no inverno, souberam porque tiveram condições de comprá-la. Sendo de esquina, a neve caía pelos dois lados. E ai deles se não a limpassem. Um acidente qualquer com um transeunte poderia levá-los à falência do dia para a noite. Paraíso tem dessas coisas.      Mesmo tendo de enfiar a pá na neve todo santo dia de inverno, o gaúcho transportou o resto de sua família para os States. Trabalhando como prosaico cinegrafista de hospital, conseguira comprar uma mansão que cineasta brasileiro só consegue as custas do contribuinte e com muito pistolão em Brasília. Na semana passada, soube que este gaúcho já morreu. Deve ter morrido feliz. Em terra estranha, sem lenço nem documento, conquistou para os seus um futuro decente. Um futuro com o qual jamais poderia contar neste Brasil que o viu nascer. Muito menos em Porto Alegre, onde fazer cinema é ofício de quem tem vocação para mártir.      Uma das coisas que invejo, em minhas incursões pela Europa, é o futuro de seus cidadãos. Você pode penetrar no fundo de um fiorde na Noruega, naquelas aldeiazinhas de vinte ou trinta habitantes, isolados do mundo pelo mar e montanha hostis. Qualquer criança que ali viva, filha de um pastor de ovelhas ou dono de uma pequena estalagem, tem seu futuro garantido. Faça chuva ou faça sol – que só faz de vez em quando – de manhã cedo um ônibus à leva a uma escola no litoral. O mesmo vale para um menino samer na Lapônia, para um suíço isolado nalgum cantão dos Alpes, ou para o filho de um habitante da periferia de Paris. Na hora da competição, é claro, alguns atributos de souche vão pesar decisivamente na balança. As novas gerações européias tampouco poderão almejar, na aposentadoria, o conforto que tiveram seus avós, filhos do baby boom . Mas o futuro está assegurado.      Quem migra está abandonando um presente em busca de um futuro. Que o digam os magrebinos que morrem em pateras tentando atravessar o estreito de Gibraltar em busca de dias melhores na Espanha. Ou os hindus que morrem sufocados em furgões tentando chegar à Inglaterra. Ou os tantos brasileiros que são barrados nas fronteiras americanas ou européias. O imigrante, armado com seu pênis, tentará procriar no novo país, de preferência com uma nacional, para garantir progênie e direito a um futuro melhor.      Por estas e outras razões, muito me espanta ler no Estadão as declarações de Sebastien Pelletier, turista francês em vilegiatura no Rio, neste passado carnaval. Opinando sobre o Brasil, disse o rapaz: Aqui você tem todas as cores, raças. As pessoas gostam de viver o momento de forma prazerosa, não ficam pensando em futuro .      As viagens ilustram, disse alguém. Mas por mais voltas que dêem no planetinha, há quem não aprenda nada. Sebastien toma a parte pelo todo. Chegou no Rio e deita verbo sobre o Brasil. Aliás, nem no Rio esteve. Terá passado apenas por Ipanema ou Leblon. Chegou no carnaval, quando os foliões não pensam nem mesmo na manhã seguinte. E já ousa definir o brasileiro como alguém que não pensa no futuro. Logo o brasileiro, cuja angústia mais premente seja talvez a ausência de qualquer perspectiva de um futuro decente.      Uma de minhas primeiras descobertas na França foi este luxo europeu, a agenda. Ao entrar em contato com um professor, ele puxava do bolso sua agenda e marcava rendez-vous comigo num dia e hora precisos... do ano seguinte. Sua vida toda estava agendada, vários anos à frente. Tinha uma palestra na Iugoslávia dali a dois anos, um congresso na Tchecoslováquia três anos depois, uma viagem a Berlim ano que vem, etc. Sua agenda, em verdade, era mais duradoura que os próprios países. A Iugoslávia desmembrou-se, muitos iugoslavos agora são, quem diria, croatas, eslovenos ou macedônios. A Tchecoslováquia também, seus cidadãos hoje são ou tchecos ou eslovacos. Berlim unificou-se, os orientais já não são mais orientais, mas simplesmente berlinenses. Problema dos iugoslavos, tchecos e berlinenses. Em sua agenda de francês, cidadão para o qual nada mais certo que o futuro, os compromissos de meu professor continuavam vigendo.       Escutei o murmúrio dos povos e era como o rumor do mar , diz Isaías. Um tumulto de nações como o das águas impetuosas invade a Europa em busca de futuro e vem um europeu nos dizer que gosta deste Brasil – onde o futuro para muita gente não vai além da semana que vem – porque aqui ninguém fica pensando no futuro.      Que um francês diga bobagens, nada de surpreender. Em minhas viagens, aprendi que a estupidez é universal. Mas a imprensa nacional não precisava fazer eco desse besteirol. Europeus no Exílio 16/3/2001        Minha mania de dizer o que penso já me valeu não poucas inimizades. Nos dias de universidade, recebi epítetos como reacionário, burguês, agente do imperialismo e por aí afora. Fui chamado desde Gustavo Corção lúbrico a Robin Hood às avessas – o que tira de todos e não dá nada a ninguém. Outro que achei simpático foi o de Savonarola às avessas – aquele que nos condena por não pecarmos. No curso de Filosofia, onde ser marxista era obrigação, fui considerado agente do DOPS, pelo simples fato de não ser marxista. No DOPS, eu tinha de explicar porque participava das passeatas organizadas pelo pessoal da Filosofia.      No DOPS fui tratado com muita cortesia. Como não participava de nenhum grupo político, público ou clandestino, não passei pelos maus momentos a que foram submetidos colegas de universidade. Comecei então a viajar. As esquerdas gaúchas me promoveram imediatamente a agente da CIA. O que muito me honrava, a nova titulação me dava uma aura internacional. Pena que não me dava os salários que deve ganhar um funcionário da CIA. Eu portava o ônus do cargo, sem nenhuma de suas mordomias.      O tempo passa, os homens mudam e o jargão também. Palavras como reacionário e burguês caíram em desuso, particularmente depois da década de 90 e do desmoronamento da entidade mantenedora dos insultos. Subitamente, surgiram novas pechas infamantes, como neoliberalismo, globalização, darwinismo social. Os antigos reacionários passaram a ser chamados de racistas, supremacistas ou neonazistas. Em 93, sete entidades reunindo antropólogos, sociólogos e outros óologos pediram para mim cinco anos de prisão, por crime de racismo. Bem entendido, não levaram.      O leitor atento já terá observado que a palavra racismo, na última década, multiplicou-se por mil nos jornais. Basta alguém afirmar que uma cultura inferior é inferior e está, ipso facto , enquadrado como racista. Vivemos os dias cantados por Discépolo, em Cambalache : nada es mejor, todo es igual . Minha trajetória evoluiu de reacionário e burguês para racista e supremacista. Hoje, pelo fato de manifestar meu apreço por algumas instituições européias, tenho feito jus ao sofisticado insulto de eurocêntrico.      O insulto tem suas origens nas universidades americanas e com ele fui brindado, pela primeira vez, por universitários brasileiros que lá estudam. Se você é marxista, freudiano ou lacaniano, você não é eurocêntrico. Afinal, para estes senhores, tanto Marx como Freud ou Lacan constituem ciência. No caso, você está indo a reboque do pensamento europeu, mas pelo menos acha que está pensando cientificamente. Você é eurocêntrico, por exemplo, se afirma que a Europa deu maiores contribuições à humanidade que uma tribo de bugres perdida na Amazônia. Ou se confessa preferir uma ária de Mozart às percussões afros dos sambistas cariocas.      Somos irremediavelmente europeus. Tanto o marxista que deita verbo na universidade e na imprensa como o católico que vai comungar em uma missa estão rendendo tributo ao velho continente. Ao entrar em uma igreja, você está entrando na Europa, não na Ásia ou África. Neste sentido, o mais analfabeto cidadão da mais recôndita das grotas do Brasil, de alguma forma está participando do ethos europeu. O cristianismo é, em suas origens, uma religião de homens do deserto. Mas sua formatação definitiva ocorre graças ao império romano.      Ao defender a democracia, você está defendendo valores europeus, herdados de uma Grécia que já existia quando Europa ainda era ficção, é verdade, mas que hoje constitui Europa. Você vai à universidade, de novo está indo à Europa. Pois o conceito de universidade não surge em Samarcanda, Irkutsk ou Uagadugu, mas em Paris, Bolonha, Estocolmo. Ao falar português ou espanhol, você está sendo europeu, está falando um idioma derivado de uma língua imperial européia. Latino-americanos, dizia Borges, somos europeus no exílio. O negro brasileiro pode cultuar ritos africanos, mas ele não fala ioruba ou swahili, e sim o português trazido pelo colonizador. Brasileiros ou latino-americanos, da Europa não escapamos. Mesmo se decidíssemos morar entre malgaxes ou esquimós, para lá levaríamos nossa língua e cultura.      Se herdeiros somos da Europa, que aconteceu então com este Brasil, tão pobre e bagunçado? Em algum momento, a herança foi dilapidada. Estudiosos da idiossincrasia tupiniquim tentam situar este momento, mas até hoje não se tem resposta satisfatória. Cristovam Buarque, em recente artigo, tentava uma: Se os latifúndios tivessem sido colocados à disposição dos braços dos ex-escravos, a riqueza criada teria chegado aos ricos de hoje, que viveriam em cidades sem o peso da imigração descontrolada e com uma população sem miséria . Este raciocínio não serve. Assim fosse, os Estados Unidos estariam imersos em nossa mesma miséria.      Falava do novo insulto. Geralmente é empunhado por sociólogos, etnólogos e antropólogos, como se sociologia, etnologia e antropologia não tivessem suas origens exatamente na Europa. Ora, desde que me conheço por gente, venho lutando contra essas três pragas européias: cristianismo, marxismo e freudismo. Meu primeiro livro, O Paraíso Sexual Democrata , foi uma das raras diatribes publicadas no Brasil contra a social-democracia européia. Durante os quatro anos que vivi em Paris, xinguei quase que diariamente, na imprensa gaúcha, as instituições francesas. Em minha vida universitária, sempre denunciei as metodologias desvairadas surgidas às margens do Sena. E ainda há quem me julgue eurocêntrico.      Que dizer então dos que papam hóstias, papagueiam Marx ou exploram almas simplórias deitadas em divãs? Dito isto, o Brasil me pesa nos ombros cada vez que viajo. Até hoje não encontrei razão alguma para orgulhar-me deste país. Mas disto a Europa não tem culpa. O Zorro Chiapaneco 23/3/2001        Essa excursão dos zapatistas à Cidade do México – escreve um leitor de Uruguaiana – somada à revelação da simbiose da guerrilha colombiana (festejada nos clubinhos esquerdistas, universidades, pastorais católicas e mídia em geral) com o narcotráfico sul-americano te obriga a responder a pergunta: até quando nosso continente vai acreditar num esquizofrênico-salvador desses?      Respondo: até o dia em que jogarmos no lixo os desvarios utópicos oriundos do velho continente. A Europa sempre considerou a América Latina um excelente laboratório para experimentos sociais. A Cuba de Castro e Che Guevara, dos anos 60 aos 90, teve total apoio das sociais-democracias européias, desde Berlim a Paris. De Sartre a Régis Debray, passando por Althusser e Alain Touraine, os intelectuais parisienses aplaudiram a ditadura cubana. Comunismo numa ilha do Caribe é louvável, digno e justo. Na França, o PC francês não conseguia nem um décimo do eleitorado. Na ótica destes senhores que, como dizia Camus, assestavam suas poltronas no sentido da História, utopias socialistas são ótimas, desde que longe da Rive Gauche.      A ditadura cubana tornou-se óbvia e Castro virou mala sem alça. Mas o laboratório continuava vago para novas experiências. Foi a vez dos irmãos Ortega e sandinistas, saudados na Europa como os novos arautos da revolução na América Latina. Os irmãos Ortega levaram a Nicarágua ao caos, o que nos lembra a visão profética de Eça de Queiroz, no final do século XIX: "sempre haverá Chiles ricos e Nicaráguas grotescos". O sandinismo também tornou-se mala sem alça. O muro caiu, a URSS afundou, marxismo virou palavrão. Mas o desejo europeu de monitorar utopias em geografias distantes não morreu.      Gastas as causas operárias, surge uma nova bandeira, a defesa dos direitos indígenas. Na Guatemala, os franceses construíram um novo mito, a vigarista Rigoberta Menchú. A venezuelana Elisabeth Burgos-Debray, mulher de Régis Debray, criou uma biografia fictícia da líder guerrilheira marxista Rigoberta Menchú, embuste que mereceu o prêmio Nobel da Paz de 92. Coube ao antropólogo americano David Stoll desmascar a farsa. Em Rigoberta Menchú and the Story of All Poor Guatemalans , o autor mostra que a prestigiada militante em pouco ou nada difere de outros vigaristas já galardoados com os prêmios Nobel da Literatura ou da Paz, essas duas láureas jogadas de vez em quando pelos louros nórdicos aos nativos e mestiços do Terceiro Mundo. A recepção do prêmio foi celebrada na casa de Tomás Borge, o chefe da polícia secreta sandinista.      A Europa alimenta agora um novo mito, Rafael Sebastián Guillén, graduado em Filosofia, filho de próspera família burguesa no México. Entre Havana e Manágua, nutriu-se de castrismo e sandinismo e embrenhou-se em Chiapas, uma das regiões mais pobres do país. Mascarado com um passe-montagne , para esconder sua origem branca e bom berço, intitulou-se subcomandante de uma guerrilha, adotando o codinome de Marcos. E por que subcomandante? É simples, o rosto pode ser escondido. O mesmo não se pode fazer com sua retórica marxista eivada de chavões terceiro-mundistas, que jamais poderia ter surgido do bestunto dos chiapanecos. Os comandantes seriam ocultos líderes indígenas, dos quais jamais tivemos notícias. Marcos seria apenas uma espécie de intérprete dos anseios nativos. O agitprop branco, travestido de líder indígena, está tão contaminado pelas modas parisienses, que ao comandar seus guerrilheiros grita: Atención, insurgentes e insurgentas !      A imprensa internacional endossou a máscara e o codinome. Mas mesmo na imprensa subserviente sempre é possível encontrar alguns hereges, ao estilo do antropólogo David Stoll. Maite Rico, do jornal espanhol El País , e Bertrand de la Grange, do Le Monde , acabam de tirar a máscara do menino burguês, no livro lançado mês passado em Paris, Sous-Commandant Marcos, la Géniale Imposture . Sob o disfarce de lutas indígenas, a agonizante utopia marxista.      O novo Zorro das esquerdas tem apoio total de ilustres senhores que fazem fortuna no Ocidente condenando o Ocidente, como Noam Chomsky, Eduardo Galeano, Saramago, Rigoberta Menchú, Régis Debray, Danielle Mitterrand. A viúva Mitterrand, que foi esposa de um torturador e tem um filho envolvido em tráfico de armas na África, parece querer redimir-se de sua saga familiar apoiando o que de pior a América Latina produz.      Ano passado, Debray lançou em Paris o livro I. F. suite e fin . Por I.F., entenda-se Intelectual Francês. Neste ensaio, o delator de Che Guevara na Bolívia pretende diagnosticar a morte dos pensadores da Rive Gauche. Para o autor, o I.F. é um paciente em estado terminal. Não poucos críticos viram no livro uma alusão autobiográfica. Seja como for, mesmo moribundos, os IFs continuam determinando o que deve ser mais adequado ao continente latino-americano.      Numa demonstração definitiva da submissão das esquerdas gaúchas aos ucasses da Rive Gauche, o alcaide porto-alegrense já teria feito contato com Bernard Cassen, diretor do Le Monde Diplomatique (não confundir com Le Monde , jornal sério) para trazer o "subcomandante" à capital gaúcha. A notícia não me espanta. Depois de assumir o governo do Estado e da capital, além de receber com tapete vermelho os chanceleres da narcoguerrilha colombiana, o PT tem se esforçado em reunir a elite do obscurantismo contemporâneo. No Fórum Social Mundial, não por acaso, estavam convidados Chomsky, Menchú e Saramago. Talvez poucos gaúchos lembrem, mas Tarso Genro foi maoísta em sua juventude e até hoje manifesta sua admiração incondicional pelo mais ilustre stalinista gaúcho, Luiz Carlos Prestes.      Porto Alegre, graças ao PT, está se tornando laboratório privilegiado de experimentos sociais para os europeus. Quando o Zorro chiapaneco lá chegar, suponho que Tarso Genro não se eximirá de fazer o papel de Tonto. Intolerância Talebã 30/3/2001        Teve início ontem em São Paulo, no palco do SESC Pompéia, o evento Rota de Abraão – Sob o Signo da Tolerância . Para o espetáculo, foram selecionados artistas do Egito, Irã, Iraque, Israel, Líbano, Síria e Turquia, países hoje localizados na região atravessada por aquele que é considerado o pai do monoteísmo, pelo menos por jornalistas que nunca ouviram falar de Akhenaton. Segundo o curador do evento, a idéia foi reunir diferentes tradições culturais para discutir a tolerância na região. Nada mais oportuno nestes dias em que o Ocidente cristão se sente chocado com a intolerância dos bárbaros talebãs, que destruíram duas estátuas gigantescas de Buda esculpidas em uma montanha em Bamiyan, Afeganistão, mais todas suas representações existentes no museu de Cabul.      Imbuído do espírito ecumênico do evento, resolvi reler o livro que traça a rota de Abraão. Já no Êxodo , Jeová alerta seu povo:       Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que há em cima no céu, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás diante delas, nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam .      No Levítico , o deus de Abraão reitera sua índole ciumenta:       Não fareis para vós ídolos, nem para vós levantareis imagem esculpida, nem coluna, nem poreis na vossa terra pedra com figuras, para vos inclinardes a ela; porque eu sou o Senhor vosso Deus .      No mesmo livro, mais adiante, Jeová não se contenta em condenar ídolos. Quem os cultua será punido:       E comereis a carne de vossos filhos e a carne de vossas filhas. Destruirei os vossos altos lugares, derrubarei as vossas imagens do sol, e lançarei os vossos cadáveres sobre os destroços dos vossos ídolos; e a minha alma vos abominará. Reduzirei as vossas cidades a deserto, e assolarei os vossos santuários, e não cheirarei o vosso cheiro suave. Assolarei a terra, e sobre ela pasmarão os vossos inimigos que nela habitam. Espalhar-vos-ei por entre as nações e, desembainhando a espada, vos perseguirei; a vossa terra será assolada, e as vossas cidades se tornarão em deserto.      Para Isaías, os ídolos desaparecerão completamente.       Naquele dia o homem lançará às toupeiras e aos morcegos os seus ídolos de prata, e os seus ídolos de ouro, que fizeram para ante eles se prostrarem. (...) Pois naquele dia cada um lançará fora os seus ídolos de prata, e os seus ídolos de ouro, que vos fabricaram as vossas mãos para pecardes .      Oséias, Miquéias e Zacarias tampouco gostam de ídolos. Diz Oséias:       E agora pecam mais e mais, e da sua prata fazem imagens fundidas, ídolos segundo o seu entendimento, todos eles obra de artífices, e dizem: oferecei sacrifícios a estes. Homens beijam bezerros! Por isso serão como a nuvem de manhã, e como o orvalho que cedo passa; como a palha que se lança fora da eira, e como a fumaça que sai pela janela .      Miquéias:       Todas as suas imagens esculpidas serão despedaçadas, todos os seus salários serão queimados pelo fogo, e de todos os seus ídolos farei uma assolação; porque pelo salário de prostituta os ajuntou, e em salário de prostituta se tornarão .      Zacarias:       Naquele dia, diz o Senhor dos exércitos, cortarei da terra os nomes dos ídolos, e deles não haverá mais memória .      Ezequiel não deixa por menos:       E porei os cadáveres dos filhos de Israel diante dos seus ídolos, e espalharei os vossos ossos em redor dos vossos altares. (...) Em todos os vossos lugares habitáveis as cidades serão destruídas, e os altos assolados; para que os vossos altares sejam destruídos e assolados, e os vossos ídolos se quebrem e sejam destruídos, e os altares de incenso sejam cortados, e desfeitas as vossas obras .      Para que não haja dúvidas sobre quem manda, diz Jeová pela boca do profeta:       Então sabereis que eu sou o Senhor, quando os seus mortos estiverem estendidos no meio dos seus ídolos, em redor dos seus altares, em todo outeiro alto, em todos os cumes dos montes, e debaixo de toda árvore verde, e debaixo de todo carvalho frondoso, lugares onde ofereciam suave cheiro a todos os seus ídolos .      Jeová ordena dizer à casa de Israel:       Assim diz o Senhor Deus: convertei-vos, e deixai os vossos ídolos; e desviai os vossos rostos de todas as vossas abominações. Lançai de vós, cada um, as coisas abomináveis que encantam os seus olhos, e não vos contamineis com os ídolos do Egito; eu sou o Senhor vosso Deus .      Mas os israelitas em fuga do Egito rebelam-se contra Jeová e não o querem ouvir. Não lançaram de si as coisas abomináveis que encantavam os seus olhos, nem deixaram os antigos ídolos de Egito. Então Jeová, por amor de seu próprio nome, derrama sobre eles o seu furor:       Também destruirei os ídolos, e farei cessar de Mênfis as imagens; e não mais haverá um príncipe na terra do Egito; e porei o temor na terra do Egito. E assolarei a Patros, e porei fogo a Zoã, e executarei juízos em Tebas; e derramarei o meu furor sobre Pelúsio, a fortaleza do Egito, e exterminarei a multidão de Tebas; também atearei um fogo no Egito; Pelúsio terá angústia, Tebas será destruída, e Mênfis terá adversários em pleno dia. Os mancebos de Om e Pi-Besete cairão à espada, e estas cidades irão ao cativeiro. E em Tapanes se escurecerá o dia, quando eu quebrar ali os jugos do Egito, e nela cessar a soberba do seu poder; quanto a ela, uma nuvem a cobrirá, e suas filhas irão ao cativeiro. Assim executarei juízos no Egito, e saberão que eu sou o Senhor .      Após as nações saberem que Jeová é o Senhor, ele os conduzirá à terra prometida:       Então aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias, e de todos os vossos ídolos, vos purificarei .      Era meu intento, ao iniciar esta crônica, falar da abominável intolerância dos talebãs. Me distrai perseguindo na Bíblia a rota tolerante do Deus de Abraão e vejo que meu espaço acabou. Perdão, leitores. PC domina PT 6/4/2001        Costumo afirmar que o Brasil tem o hábito de importar as piores práticas do Primeiro Mundo. Pior, as importa com atraso. Pior ainda, com décadas de atraso.      Quase sete milhões de norte-americanos, pela primeira vez, foram autorizados a identificar-se como integrantes de mais de uma raça, conforme mostram dados do censo de 2000. As categorias inter-raciais mais comuns citadas foram branco e negro, branco e asiático, branco e indígena americano ou nativo do Alasca e branco e "alguma outra raça". Os Estados Unidos deixam de lado a onedrope rule , pela qual um cidadão é considerado negro mesmo que tenha uma única gota de sangue negro em sua ascendência, e acabam de descobrir o mulato.      Em Michigan, o juiz federal Bernard Friedman determinou o fim da política de ação afirmativa da faculdade de direito da Universidade de Michigan. A estudante branca Barbara Grutter abriu processo depois de não ter sido aceita pela faculdade de Direito, em 1997. Para Friedman, levar em consideração a raça dos estudantes como fator para decidir se os aceita ou não é inconstitucional. Segundo o juiz, a política de ação afirmativa da faculdade assemelha-se ao sistema de cotas, que determina que uma certa porcentagem de estudantes pertença a grupos minoritários. Ao ordenar que a faculdade deixe de praticar essa política, escreveu: Aproximadamente 10% das vagas em cada turma são reservadas para membros de uma raça específica, e essas vagas são retiradas da competição .      Ainda há pouco, o programa 60 Minutes entrevistou um professor que mostrava a injustiça do sistema. De 51 estudantes brancos candidatos a um programa da faculdade, apenas um foi aceito. Entre dez candidatos negros, foram aceitos os dez. A universidade adota uma espécie de leis Jim Crow às avessas, aceitando qualquer candidato negro e recusando brancos.      As chamadas leis Jim Crow, declaradas inconstitucionais pela Suprema Corte em 1954, constituíram a partir de 1880 a base legal da discriminação contra negros nos Estados do Sul, proibindo até mesmo um estudante passar um livro escolar a outro que não fosse da mesma raça. No Alabama, nenhum hospital podia contratar uma enfermeira branca se nele estivesse sendo tratado um negro. As estações de ônibus tinham de ter salas de espera e guichês de bilhetes separados para cada raça. Os ônibus tinham assentos também separados. E os restaurantes deveriam providenciar separações de pelo menos sete pés de altura para negros e brancos.      No Arizona, eram nulos casamento de qualquer pessoa de sangue caucasiano com outras de sangue negro, mongol, malaio ou hindu. Na Florida, proibia-se o casamento de brancos com negros, mesmo descendentes de quarta geração. Neste mesmo Estado, quando um negro compartilhasse por uma noite o mesmo quarto que uma mulher branca, ambos seriam punidos com prisão que não deveria exceder 12 meses e multa até 500 dólares. Na Geórgia, cerveja ou vinho tinham de ser vendidos exclusivamente a brancos ou a negros, mas jamais às duas raças no mesmo local. No Mississipi, mesmo as prisões tinham refeitórios e dormitórios separados para prisioneiros de cada raça. No Texas, cabia ao Estado providenciar escolas para crianças brancas e para negras. As leis Jim Crow explicam a mauvaise conscience ianque, que se traduziu na ação afirmativa.      O Brasil costuma importar as piores práticas do Primeiro Mundo, dizia. Quando os Estados Unidos reconhecem a multi-racialidade, alguns movimentos negros no Brasil pretendem que até os mulatos se declarem negros no censo. O propósito é óbvio. A população negra do Brasil, em 99, era de apenas 5,4%. Com o acréscimo de 39,9% do contingente de mulatos, o Brasil estaria perto de ser definido como um país majoritariamente negro, como aliás é hoje considerado por muitos americanos e europeus.      Quando os americanos descobrem que a política de afirmação positiva não constituiu uma idéia boa ou justa, autoridades brasileiras aderem a esta política infame. Em setembro próximo, o Brasil deve defender uma forma de ação afirmativa na conferência internacional sobre o racismo, que será realizada em Durban, na África do Sul. O ministro da Educação já anunciou cursos pré-vestibulares exclusivos para os negros, como se a falta de recursos para seguir um destes cursos fosse característica exclusiva dos negros. A USP, universidade pioneira no obscurantismo, há horas vem sendo tentada a reservar cotas para os negros. Mas o melhor mesmo foi o projeto do deputado gaúcho Paulo Paim, aprovado no dia 28 do mês passado, pela Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara Federal. Pelo projeto, deverão ser escalados 25% de atores negros ou mulatos em peças de teatro, filmes e programas de televisão.      Só no teatro, o leitor já pode imaginar as peripécias de um diretor. Se pensa em encenar Ibsen ou Tchekov, como inserir negros em contextos eslavos ou nórdicos? E se a peça tiver um só personagem? Pelo menos um quarto do monólogo terá de ser feito por um negro? Só mesmo no bestunto de um petista poderia ocorrer esta pérola do politicamente correto. Quando os EUA passam a abandonar o sistema de cotas, o PT quer adotá-lo até mesmo no universo do lazer.      Seguindo a tendência de eliminar o mulato do panorama nacional, o deputado petista usa o termo afrodescendente para definir a população que o IBGE classifica como negra ou parda. Mas se um negro é obviamente afrodescendente, o pardo é tanto afro como eurodescendente, ora bolas. Quando os EUA reconhecem o mulato, o PT quer eliminá-lo do mapa.      Se o PT tem suas raízes nas esquerdas ligadas ao socialismo soviético, o PC (politicamente correto) é achado das universidades ianques. O que só prova que totalitarismo não tem pátria. Seja soviético, seja ianque, serve aos propósitos das viúvas. Condenados à Pré-história 12/4/2001        Os apaches mescaleros, tribo indígena de quatro mil almas no sul do Novo México, EUA, montaram no ano passado uma companhia telefônica para promover o desenvolvimento econômico de sua reserva, que já possui pistas de esqui, cassinos, parques de caça de alces, uma companhia madeireira e um resort com campos de golfe. Godfrey Enjady, o administrador da nova companhia, a Mescalero Apache Telecom, pensa não apenas expandir o serviço de telefonia básica além dos 40% das famílias da tribo com telefone, mas também cercar a reserva com uma rede de fibras óticas e introduzir conexões à Internet de alta velocidade. É o que nos diz The New York Times .      Voltemos ao Brasil. Segundo antropólogos da Funai, cerca de trinta indígenas, os tsohon-djapa, vivem em uma aldeia de palafitas na cabeceira do rio Jutaí, um dos lugares mais inacessíveis do sudoeste do Amazonas. Na semana passada, os tsohon-djapa se encontraram pela primeira vez com um grupo branco. Eles são dominados por outros índios, os vizinhos canamaris, de quem recebem roupas velhas e poucos mantimentos em troca de trabalho e caça. Uma equipe liderada pelo sertanista Sydney Possuelo, o diretor do Departamento de Índios Isolados da Funai, visitou a aldeia por cerca de uma hora. Foi a primeira vez que os funcionários da Funai encontraram os tsohon-djapa. É o que nos diz a Folha de São Paulo .      Volto à imprensa americana. Segundo Godfrey Enjady, a tribalização das telecomunicações vai além de distribuir carteado aos turistas do Texas. "Trata-se de criar a infra-estrutura para atrair investimentos, como um mercado emergente necessita para atrair capital estrangeiro". Os apaches mescaleros, tribo à qual pertencia o legendário guerreiro Geronimo, não estão sós no projeto de formar uma companhia de telecomunicações, com posse e gerenciamento tribal. Uma meia dúzia de companhias telefônicas, de propriedade dos índios norte-americanos, já está operando nas terras indígenas. Este número tende a crescer, devido à recente decisão da Federal Communications Commission (FCC) de aumentar de U$ 35 milhões para U$ 550 milhões a verba federal disponível para expandir o acesso ao serviço de telefonia básica nas reservas indígenas.      Fora a roupa maltrapilha – diz a imprensa nossa – a vida dos tsohon-djapa é completamente isolada do mundo tecnológico. Oficialmente, o que houve ontem não foi um contato. "Embora eles nunca tenham tido contato com brancos, não podem ser considerados isolados, pois através dos canamaris recebem informações e instrumentos do mundo exterior. Sem conhecer a nossa cultura, eles sofreram o pior tipo de contato, a exploração do homem pelo homem", explica Sydney Possuelo.      Segundo o New York Times , apenas 47% de uma nação de 720 mil lares indígenas possuem um serviço de telefonia comum, comparados a uma taxa nacional de 94%. Em algumas tribos, o serviço é mesmo raro. Na reserva Navajo, o maior território indígena do país, que circunda partes do Novo México, Arizona e Utah, apenas uma em cada cinco famílias possuí telefone. Como uma linha telefônica é fundamental para o acesso à Internet, autoridades indígenas e federais vêem a eletrificação das reserva como o passo básico para trazer os índios à Nova Economia. "Os povos indígenas estão no topo da lista dos grupos de maior risco de serem deixados fora da emergente economia ponto.com", diz William Kennard, o presidente da FCC.      Em março de 99, a frente de contato Guaporé, da Funai, pretendeu ter encontrado uma tribo de um homem só em Rondônia. O que provocou a interdição, pela Justiça, de uma área de 60 km2, equivalente ao município de Osasco, onde vivem 623 mil habitantes. Segundo a entidade, o "isolado ermitão" é o último remanescente de uma etnia ainda não identificada. Os 60 km² que a Justiça interditou abrangem duas fazendas inteiras, que somam 40 km², e mais 20 km² de uma terceira, todas voltadas à criação de gado. A Justiça entende assim proteger o índio dando tempo à Funai para avaliar se convém desapropriar a área para convertê-la em reserva indígena.      No segundo semestre de 1995, a Funai achou dois grupos desconhecidos no sul de Rondônia. Um, de quatro pessoas, que se expressa em canoê e outro, de sete, que fala um idioma do tronco tupi. A descoberta repercutiu internacionalmente e provocou a interdição de 510 km2 de terra – um terço do município de São Paulo – englobando oito fazendas.      "Quando um governo tribal estabelece sua própria companhia telefônica, ele está criando um núcleo de desenvolvimento econômico", diz William Kennard. Outras tribos nos Estados Unidos estão considerando desenvolver suas próprias companhias telefônicas, entre elas os Navajos e os Hopis do Arizona.      Sidney Possuelo é radicalmente contra o contato com grupos que não conhecem a cultura branca. Sobre os djapas, disse: "Só visitamos a aldeia porque estão dominados pelos canamaris e vamos ver o que podemos fazer."      Esta tem sido a política da Funai e dos sedizentes antropólogos que a assessoram: isolar ainda mais os índios já isolados pela selva. Se o pobre coitado vive em uma solidão atroz, talvez até mesmo desejoso de entrar em contato com outros seres, a Funai expande esta solidão por centenas de quilômetros. Enquanto os americanos estimulam e financiam a entrada de seus índios no mercado de tecnologias de ponta, conduzindo-os serenamente ao século XXI, as autoridades brasileiras os proíbem de chegar ao presente. Melhor mantê-los encurralados em uma espécie de zoológico neolítico, para contemplação dos homens do futuro.      A Funai e seus indigenistas, sob a capa de proteção ao índio, estão cometendo um crime de lesa-humanidade. Navajos, mescaleros, hopis e demais tribos americanas pisam no futuro com pé firme, futuro com o qual sequer podem sonhar milhões de brancos, negros ou mulatos brasileiros. Quanto a nossos índios, estão condenados, por seus supostos defensores, a chafurdar em uma eterna pré-história. Coisa de Pobre 20/4/2001        Um novo país rico está surgindo na Europa. Não se trata de Portugal ou Espanha, que recuperam a largos passos o século desperdiçado. Mas a católica Irlanda. A mesma Irlanda que, no século XVIII, produziu Jonathan Swift. E com Swift, uma das mais contundentes sátiras da história da literatura, a Modesta Proposta para impedir que as crianças pobres da Irlanda sejam um fardo para seus pais ou para o País e se tornem úteis ao público .      " É melancólico para aqueles que passeiam por esta grande cidade ou viajam pelo campo " – escrevia o deão de Dublin em 1729 – " ver as ruas, as estradas e as portas dos casebres repletos de mendigas, seguidas de três, quatro ou seis crianças esfarrapadas importunando o viajante em busca de esmolas. Essas mães, em vez de trabalhar para ganhar a vida honestamente, se vêem obrigadas a perder seu tempo na vagabundagem, mendigando para seus filhos desamparados que, ao crescerem, se tornam ladrões por falta de trabalho ou abandonam seu querido país natal para lutar como mercenários na Espanha ou serem vendidos na Ilha Barbada ".      Nesta pérola do humor negro, endereçada aos prolíficos papistas, Swift propunha que as crianças do país fossem bem cuidadas e nutridas