KOREAEBOOKDOCUMENT1.2.0Rastilho de ProsasAntônio Virgílio de AndradevirtualbookseBooksBrasil.com§²Â=para.xmlcapa.jpgnormal.styÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿ“Üýpara.xmlo C smaller.sty²C small.styõ#C normal.sty8/C large.sty{:C larger.sty¾EGcapa.jpgÑŒcindice.jpg4¤ºautor.jpg Rastilho de Prosas – Antônio Virgílio de Andrade Edição virtualbooks www.terra.com.br/virtualbooks Versão para eBook eBooksBrasil.com Fonte Digital Digitalização da edição em pdf autorizada pelo Autor ©2002 — Antônio Virgílio de Andrade antoniovirgilio@terra.com.br RASTILHO DE PROSAS Antonio Virgílio Ficha Catalográfica Andrade, Antonio Virgílio de, 1955.       Rastilho de Prosas / Antonio Virgílio de Andrade—Brasília: 2000       1. Poesia brasileira. 2. Literatura brasileira, antologia. I. título       2. produção de OR Produtor Editorial Independente 94 p.; il. col.; 14X21 cm ISBN: 85-901355-1-9 CDD CDU Dados do Autor:       Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, Bloco “K” Esplanada dos Ministérios, Sala 134—Brasília—DF.       Telefone: (061) 429.4328 — (061) 399.1544 — 9965.3217 WWW.AVANDRADE@BOL.COM.BR WWW.ANTONIO,ANDRADE@PLANEJAMENTO.GOV.BR   Sobre um poema quase nunca há Nada a se dizer. Deseja-se que seja Amado, se for possível. Cecília Meireles   AGRADECIMENTOS:           Agradeço, especialmente, pela amizade, pelo incentivo, pelo apoio, pelo empurrão, a Clécio, Fia, Erasmo e toda prole dos Andrade; a Jean Pierre, Jorge Gama, Ingrid Cunha, Victor Alegria, Hamilton Santos, Comandante Durval, José Rodrigues, Paulo Guimarães, e todos aqueles que acreditam que sonhar é semear realidade.   A poesia é incomunicável. Fique torto no seu canto. Não ame. Carlos Drummond de Andrade   DEDICATÓRIA:             Dedico a meus pais, Virgilio Francisco e Antônia M. de Andrade, que me ensinaram o valor da família e do aconchego do lar, meus filhos Rogério, Janaína e Jamilly, que me ensinam viver o presente, a minha esposa, Sebastiana Nicolau, que capitania minha nau para um porto seguro.   APRESENTAÇÃO         Rastilho de Prosas não se propõe a provocar uma explosão poética na já tão explosiva ou implodida Brasília. Talvez, como Manuel Bandeira, Antônio Virgílio também esteja farto do lirismo comedido ao abrir com Poetar, que traduz o momento mágico da captura, não só da imagem, mas também do momento inesquecível da criação poética.      A ousadia do Autor lhe permite, na casa sete, relembrar Bandeira e na oitava, homenagear Pessoa.       Simples é quando se ama simplesmente A Moça do Décimo Primeiro, dona de uma tez de pequi maduro. No Vácuo da Paixão, Antônio Virgílio avança o sinal sem a preocupação de dar seta, sem perceber que o calor obsceno domina minha alma por demais Promíscua.      Antônio Virgílio nos permite com sua obra, uma grande divagação poética, engendrada por muita química, suor, cores, e, entremeadas pela sutil emoção de uma Beleza Morta, ao mais duro pranto de um Náufrago, que em sua trajetória se permite deitar com a amante, levantar-se com uma esposa enciumada e sem ao menos conseguir entender a Crônica da Infidelidade que o levou a acordar com a mão no saco de um tal Agenor.      São tantas as prosas que decidi decretar uma Gastronomia Ditatorial, que muito me agradou pelo requinte da sobremesa: Uma passeata de Sem Terra e desempregados com cobertura da turba do barbudo farfante. Antônio Virgílio desnuda em seus versos, uma busca inquietante pelo amor essência, amor paixão; quer seja por Capitu, ou até mesmo a moça capaz de verticalizar sua caneta tinteiro. Antônio Vigílio tem sua veia poética um sólido tempero ideológico a nortear sua obra. De Antônio Virgílio só tenho até então o conhecimento de sua obra e a firme reconhecimento de um candango: “Não escreva nada que se arrependa depois”.      O potencial de Virgílio é inegável. A densidade de sua obra me dá a certeza de estar diante de um Poeta que se ocupa em tornar sua obra um Pequeno Grande Outdoor, onde denuncia o desrespeito público ao trabalhador, sem tornar-se mais um panfleteiro perdido de Brasília.   Osmar Rodrigues   POÉTICA   Estou farto do lirismo comedido do lirismo bem comportado Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo Abaixo os puristas Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção Todos os ritmos sobretudo os enumeráveis Estou farto do lirismo namorador Político Raquítico Sifilítico Do lirismo que capitula ao que quer que seja for a de si mesmo. De resto não é lirismo Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc. Quero antes o lirismo dos loucos O lirismo dos bêbedos O lirismo difícil e pungente dos bêbados O lirismo dos clowns de Shakespeare Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.   Manuel Bandeira   SUMÁRIO POETAR LEMBRANÇAS SIMPLES A MOÇA DO DÉCIMO PRIMEIRO NO VÁCUO DA PAIXÃO PROMÍSCUA BELEZA MORTA NÁUFRAGO CRÔNICA DA INFIDELIDADE GASTRONOMIA DITADORIAL DE CADENTE EM QUATRO ESTAÇÕES DESEJOS VINTE E CINCO FLOR DO CERRADO QUARESMEIRAS HISTÓRIA ANTIGA AGUERRIDA ESPINHOS DA ROSA PROJÉTIL LEGADO CÁRMICO LÁTEX PRÓCLISE ANGRA ECÓLOGA OFUSCA QUIMERAS VERSO E REVERSO SEM BANDEIRAS DEMOCRACIA VIVA O REI CANTORIA VERSO DA NEGAÇÃO MEUS QUINZE ANOS CAPITU INFANTIL UM CERTO ALGUÉM CIRÚRGICA COLETIVO RESSACA POÉTICA ORGIA ELETRÔNICA TEUS BRAÇOS NOCTÍVAGOS MULATA COM GARAPA E PASTEL ARROZ, FEIJÃO E PROSA PALACIANA OLHOS D’ÁGUA O TEMPO PASSOU CORAÇÃO REFAZENDO CORDÉLIA ÁLBUM DE RECORDAÇÕES PRIMOGÊNITA MINHA HERANÇA RIACHO FUNDO PERDÃO AMIGOS SAMBA DO ADEUS SAMBA DA VOLTA A OUTRA DO TREM LANA IMORRÍVEL RETRATO EM BRANCO E PRETO TROMBETA LÍRICA   POETAR   A fotografia É um momento ímpar Capturado pelo olho mágico Do fotógrafo. A poesia, Um momento inesquecível Imortalizado nos versos Do poeta.   LEMBRANÇAS A Fernando Pessoa   Eu lembro, Partiste num ontem; Mas há quanto tempo sofro. No refúgio da minha “Ribatejo”, Tua lembrança quebra a frieza da minh’alma E ascende o fogo do desejo. Como dizer que nosso amor é findo, No lenço guardo teu cheiro, E nele vou me consumindo. Beijos nunca dados sinto. São doces lembranças, Fantasias e instinto.   SIMPLES   Amar é simples Quando se ama simplesmente São aromas, sons, cores e gestos simples Que ficam com a gente, Como aquele olhar cúmplice Ou um desolhar simplesmente. Ela cruzou o meu caminho E foi me possuindo, possuindo-me simplesmente Ofertou-me sua candura E com jeitos indecentes, Levou-me a fazer toda sorte de loucuras Ser feliz simplesmente. Mas o tempo passou naquele lugar simples Foi passando, passando simplesmente Um dia ... meu mundo ruiu, Foi tudo tão de repente! Como veio, partiu... Abandonou-me simplesmente.   A MOÇA DO DÉCIMO PRIMEIRO À musa do Palácio do Desenvolvimento, Brasília   Por onde andará a moça A moça do décimo primeiro; Que me flechou com sorrisos e beijos E se escondeu por trás do espelho. Por onde andará a moça A moça do décimo primeiro; Que dançando na retina do meu olho Verticalizou minha caneta tinteiro. Será que ela não vem Será que é pra nunca mais? O mundo encobertou-se em sombras Negrou o sonho de um bom rapaz. Seu corpo exala cheiro dos campos Dos campos das Minas Gerais; A tez cor da cor de pequi maduro Colhido nas terras do Goiás. Não, mais sei se ela é mineira Ou baiana como seus pais; Ouvi dizer que é “Candanga” Foi manchete nos jornais. Será que ela não vem Será que é pra nunca mais? Será que partiu naquele novo trem (da alegria) Pro paraíso dos deuses congressionais?   NO VÁCUO DA PAIXÃO   Você avançou o sinal Não deu seta; Te procurei pelas ruas da capital A cidade ficou deserta. Você foi audaz e veloz Foi fugaz com seu bólido cor de vinho; Deixou no vácuo um cálido perfume atroz Tristeza e solidão no meu caminho. Você avançou o sinal Não deu seta; Te procurei pelas ruas da capital A cidade ficou deserta. Espero na “lombada eletrônica” te encontrar —Aquela que teima em engarrafar o “Eixinho”—; Que me revele o número do celular E escreva seu nome no meu colarinho. Você avançou o sinal Não deu seta; Te procurei pelas ruas da capital A cidade ficou deserta.   PROMÍSCUA   Quando me comes com teus olhos de menino pidão Prazerosamente, deixo-me comprazer; Se o calor obsceno domina minh’alma Sinto o corpo entorpecer. Tu me enlouqueces quando sopras um beijo inocente Quando se faz de ausente, respiro a acidez do teu cheiro; Meu olhar indiscreto desnuda um desejo cúmplice Te possuo de corpo inteiro. Quando a noite cai, invades meus sonhos Desatinada e trôpega me deixo possuir; Se teus úmidos lábios besuntam meu corpo Do teu, sorvo licor e perfume.   BELEZA MORTA A Jorge Viera Eschriqui   Química Suor, Formas em criação. Cores Fragrâncias, Folhas e pétalas em harmonia. Emoção Fascínio, Sentidos em confusão. PLÁSTICO?!   NÁUFRAGO   Ainda corro contra o tempo, Ele me é implacável... Ainda navego sentimentos, Ele me é indomável... Ainda choro enquanto você sorri. Ontem me fiz pranto, Acordou-se em mim uma dor antiga... Hoje me pego cantando, Escondendo tristezas da vida... Ainda me confortam pedaços de nostalgia. Na parede um retrato adolescente envelhece No cabideiro as traças devoram a casimira No espelho entrevejo um rosto pálido No travesseiro sinto o hálito forte de bebida. Ainda descaminho no meu caminho.   CRÔNICA DA INFIDELIDADE   Na rua da Pátria, 1999, Cabrália, um raio de luz lança um retângulo de poeira sobre o criado desnudo. A cama em desalinho revela que corpos suados fundiram a noite toda. Um cheiro ocre exala pelos quatro cantos do cômodo desconfortável. A toalha encardida descansa no toucador. Ontem, Paulo se deitou com a amante. Levantou-se com uma esposa enciumada com suas rotineiras visitas ao dentista. Ontem, ébrio, Caio dormiu com Lígia. Acordou com a mão no saco de um tal Agenor. Ontem, Marlene ficou com Fábio. Ficou, mas jura que não fica mais. Se em Cabrália o dia amanhece com gosto de ressaca, o mesmo não se pode dizer de YANOMAMI, sua clone do norte. Lá, patriarcas de pele clara e vassalos, bronzeados, vivem outros delírios. Bebericam o caldo da “Ayuasca”(o cipó dos espíritos) e cantam: NEW WORK, NEEW WOORK...   GASTRONOMIA DITADORIAL        AH!, como foi majestoso aquele almoço oferecido pela nobre “RAINHA”; serviram um delicado caviar regado ao mais fino e envelhecido Scoth.      Não me agradei da sobremesa: uma passeata de ex-súditos e desempregados — plebe conservadora—. Criticaram a política neoliberal da nossa centenária “Progenitora”.      AH!, como foi soberbo aquele almoço oferecido pelo dileto “CLINTON”; serviram um delicado caviar regado ao mais fino e envelhecido Scoth.      Não me agradei da sobremesa: uma passeata de exilados e desempregados — mendigos de todos os quadrantes—. Criticaram a política neoliberal do nosso prestigioso “Don Infante”.      AH!, como foi magnífico aquele almoço oferecido pelo camarada “BORIS”; serviram um delicado caviar regado ao mais fino e envelhecido Scoth.      Não me agradei da sobremesa: uma passeata de ex-comunistas e desempregados — Bolchevistas filhos do norte—. Criticaram a política neoliberal do nosso destemido “Dom Quixote”.      AH!, como foi fantástico aquele almoço oferecido pelo sociólogo “FERNANDO”; serviram um delicado caviar regado ao mais fino e envelhecido Scoth.      Não me agradei da sobremesa: uma passeata de sem terras e desempregados —a turba do barbudo farfante—. Criticaram a política neoliberal do nosso eterno “Cavaleiro Andante”.      HOJE? Não, estou farto. Já estou cansado de comer as mesmas iguarias. Só serviram sobras do banquete ou comida requentada d’outro dia.      Gastronomia à parte, repartir o bolo não é especialidade culinária do Governo Federal. Quem é penetra ou de esquerda não come do seu manjar. Tem que ser de cúpula ou neoliberal.      Dizem que sou parte daquela sobremesa; minha fome é igual, em ideologia. E pelo que sei: excluído é excluído. Sem quebrar ovos não se faz democracia.   DE CADENTE   Zuni um verso na escuridão; Desenhou uma parábola E despencou na noite fria. O noctívago que contava estrelas Descortina o facho de fogo. Era um meteoro que caía. Ébrio nas curvas do paralelepípedo Acorda um resto de esperança; Vislumbra sua estrela guia.   EM QUATRO ESTAÇÕES   Já se faz verão Minhas folhas caem; Já se foram tantos anos Que nem me lembro mais. Você foi a flor que alegrou a minha vida, Postes minha eterna primavera E minha melhor amiga. Não nos frutificamos em nosso outono Não germinaram as sementes no teu ovário; Foram contidas em eterno sono Sob a foice do lavrador cesáreo. Nunca foi tão frio nosso inverno Sempre nos sobrou um pouco de calor; Hoje aquecemos ilusões e um outro cobertor.   DESEJOS   Quantos suspiros a suspirar; Nossas mãos a se tocar. Quantos arquejos a arquejar; Nossos corpos a bailar. Quantos orgasmos a sentir; Nossos corpos a se fundir. Quantas energias consumidas Neste gozo da vida. Quantos pecados a se pecar; Se ela se casar. Quanta dor irei guardar; Se ela me abandonar. Quantos sonhos a se sonhar; Se cruzarmos um distante olhar. Quantos versos irão compor Ao viver seu desamor.   VINTE E CINCO   O shopping transpirando novidades É uma beleza translúcida e invulgar, Vesti-se de esquina da cidade Aplaca o desejo de quem pode comprar. A vitrine da televisão Oferta sonho de uma nova BELÉM; O consumidor recebe crucificação Se não gastar seu último vintém. No dia vinte e quatro Entre nozes e vinho já o festeja, A meia noite estouram champanhe E tomam um porre de cerveja. De quem será a culpa: Do mundo Da ciência que evoluiu Da sociedade de consumo Ou do Cristo que partiu?   FLOR DO CERRADO   O KATTEPILLAR na não do pião Fere a carne do Planalto Central Tinge o céu de poeira do chão. Respira-se cimento, tijolo e metal O cerrado com suas árvores tortas Cenário de ilusão, ilusão realidade. A semeadura de avião germinou e floriu cidade. Nos espelhos do lago a donzela se penteia Para a noite dos boêmios enfeitar, O céu um broche de estrelas lhe presenteia No “SALÃO AZUL” brilha como luar. Se a noite fenece; suplica um cálice de chuva fresca; O jardineiro colhe um buquê de flores de folhas secas. A primavera é fecunda e frágil.   QUARESMEIRAS   Às vezes me faço abelha Para colher o néctar da tua flor. Às vezes me faço borboleta Outras, beija flor.   HISTÓRIA ANTIGA   Olha seu moço, Essa história é antiga... De novo só nossas amigas Guardetes de bordel. Guardando um pedacinho do céu. Olha seu moço, Não me venhas com intrigas... O senado nem liga Tem uma cafetina pro seu plantel. Guardando um pedacinho do céu. Olha se moço, Não me venhas com seu asco... Pra demagogia um abraço Da cafetina do quartel. Guardando um pedacinho do céu. Olha se moço, O padre já rogou uma praga... Mas sua beata mais devotada É cafetina no “Borel”. Guardando um pedacinho do céu. Olha seu moço, Já contei ao delegado... Mas seu melhor comandado É uma cafetina de chapéu. Guardando um pedacinho do céu. Olha seu moço, Esta conversa ficou longa... Só você seu deu conta De que a despudorada está nua no papel. Que maravilha de pedacinho do céu!   AGUERRIDA   Já faz tempo que o sol não acorda, É tudo um negro anoitecer. Há quanto tempo nesta trincheira Não se faz um amanhecer. Já faz tempo, já faz tempo... Já faz tempo que não te olho, Com meus olhos de bom rapaz. Há quanto tempo não te vejo Nas páginas dos jornais. Já faz tempo, já faz tempo... Já faz tempo que não te toco, não te ouço, Carícias tuas, não me trás. Há quanto tempo sem teu corpo Que a sua lembrança não me satisfaz. Já faz tempo, já faz tempo... Já faz tempo que semeiam bombas, Cultivando o ódio do passado. Há quanto tempo neste jardim de sombras Colho corpos mutilados. Já faz tempo, já faz tempo...   ESPINHOS DA ROSA   Na calçada um corpo sem rosto procura lazer: As pernas torneadas Não tem rumo, A cintura alongada Não têm prumo, Os seios fartos Não têm sumo; Só deseja um pouco de prazer. Na calçada um corpo sem rosto procura lazer: As pernas instáveis Não têm prumo, A cintura arqueada Não têm prumo, Os seios inflados Não têm sumo; Só deseja uma picada de prazer.   PROJÉTIL        No meu olho as crianças correm, brincam no parque da vida; pedaços de alegrias póstumas habitantes de minhas lembranças esmaecidas      Na selva de pedra, cultivar das viçosas sementes germinecidas; o projétil ceguêta inertece a gangorra, o balanço, e a bola que jaz esquecida.   LEGADO CÁRMICO   Esbodegada ante rimas simplórias e versos inconsistentes; a CRÍTICA gritou: verdugo insolente! Mas que fazer se sua poética é inconsciente? De certo, o fardo lhe foi legado pelo Criador onisciente. Tenho certeza de que, dos poetas, não merece a cruz; tão menos a de um certo Jesus.   LÁTEX.   Com o cutelo fende o tórax do oponente uma, duas, três vezes; Deixando-o em carne viva. Não observou nenhuma animosidade, só a dor latente. O sangue leitoso correu na bica. Afastou-se do ato cirúrgico, juntou a matula e embrenhou-se mata adentro. Lá adiante, zombeteiro, montou a mula em pêlo. Em céu de setembro, ante o rebrilhar dos cristais noturnos; preparou a maçaroca, defumou o suco espesso e enrolou a emulsão no fuso.   PRÓCLISE   Nada me interessa neste momento Não, nada me espanta. Já não me maltrata o tormento E nem o descaso do sacripanta. Enquanto todos não me acreditavam, sentenciei: Vestirá a CINTA PRESIDENCIAL e não se fará de santo! Ninguém me deu ouvidos, hoje sei Em próclise derramei meu pranto.   ANGRA I   Ontem sonhei contigo amor... Rompi marolas do “Rio” Encontrei você no cio Transpirando de calor... Foi tão bom amor. Ontem te possuí amor... Deslacrei teu útero adormecido Penetrei o plutônio enriquecido Fecundando o gerador... Nos fartamos amor. E depois de tanto pavor... Banhei o sexo Em águas pesadas Curando o tumor... Morri amor.   ECÓLOGA   Ecologia: Grito que ecoa nas matas devastadas, Lamento de animais dizimados, Pranto do povo da floresta. Ecologia: Sopro de vida que clama o amanhã A luta não terá sido vã Se a natureza florescer harmonia.   OFUSCA A Gilberto, Oswaldo, Mafra, e a São Paulo.   Chegou fim de semana Chegou fim do dia; Corcéis cavalgam em galope nervoso Serpenteiam na alucinante romaria. A noite faz a chuva cair suave Banhando o espelho negro com instável lama fina; Os demônios indomáveis Cospem fogo pelo rabo e luz pela narina Vi um encarnado travar quatro patas O enferrujado fungar na anca; A cópula foi inevitável O garanhão fica com a roda manca. O cavaleiro afrouxa o arreio, A montaria relincha de dor. Silêncio. Silencia o motor.   QUIMERAS   Sons, falas, gritos, trombetear. Na tristeza sou trovoada; No teu ombro, canto de ninar. Luzes, olhos, formas, cores. Na solidão sou trevas; Nos teus seios, flores. Clima, temperatura, frio, calor. Na despedida sou ira vulcânica; Nos teus braços, amor. Ar, sopro, brisa, ventania. Na distância sou tempestade; No teu colo, calmaria. Massa, terra, denso, concretar. No deserto sou a mão que ceifa; No teu ventre, semente a germinar.   VERSO E REVERSO   O pau está a meia bandeira; o país está em festa O poeta desabrocha e remoça a poesia indigesta. Se falta gás o “lampião” morre na praça. Morreu porque não presta. Nossos filhos “assaltitam” as verdes matas; é “tupiniquim” esta gesta. Elegemos um novo presidente; houve comício em cada esquina A feijoada voltou à mesa, regada com o imposto da gasolina. Denegriram o serviço de inteligência; coloriram o de informação O caçador de “MARAJÁS” deu um tiro no dragão da inflação. Aqui termino meu recado; saibas que o sonho do primeiro mundo está morrendo Após perder minha “Poupança de Cruzados” de cara pintada vou vivendo.   SEM BANDEIRAS   Não ... não se vive só de sonhos, Mesmo que nos anunciem os mais felizes. Não ... não se vive só de desejos, Mesmo que nos assegurem os inatingíveis. Não ... não se vive só de promessas, Mesmo quando ofertadas por amigos. Não ... não se vive só de juventude, Mesmo quando bebemos vinho antigo. Não ... não levanto bandeiras, Minha mão prefere a labuta.   DEMOCRACIA   São três reinos, Três monarcas purulentos; Três coroas de louros Cravejadas de fome e lamentos. São três tronos, Três verdugos agourentos; Três canetas de ouro Perpetuando sofrimentos. São três fidalgos De três castas erigidos, Ladrões, corruptos e mentirosos Tramando às escondidas. São três pastores, Uma ovelha desgarrada; Deitada em berço esplêndido Imolaram pátria amada.   VIVA O REI   Não há leis, liberdade ou rumo novo; Não há orações que possa exorcizar a nação. A democracia não plantou o governo do povo; Não há água limpa pra lavar as nossas mãos. Leis, pra que tantas; se não são cumpridas? Orações, pra que tantas; se não são proferidas? Governos, pra que tantos; se só fazem promessas antigas? Enquanto o poder não emanar do povo não haverá nova vida. Se a Constituição é um natimorto, a nova Carta sepultei. Se as orações não obtêm respostas, a santos surdos eu orei. Se o Governo está morto, rei posto... VIVA O REI!   CANTORIAS A AMILTON SILVA, COMPANHEIRO DE LUTAS E BRAVATAS   Ouça meu compadre Ouça meu irmão Já não sei onde vai parar esta cidade De tanto plantarem invasão. O Governo era vermelho Desbotou, ficou azul Mas fique sabendo meu companheiro Que quando vermelho ele era mais azul. Se não findarem com essa bagunça Compro um balde de tinta para a cidade pintar Misturo vermelho, azul, mel e incenso de ARRUDA E pinto uma flor de maracujá. O povo não se deu conta O Governador também não Inimigo que se diz irmão logo uma lhe apronta E o coitado vai ser cozinhado na panela da eleição. Já me cansei das rimas desta ode Vou embora para Salvador Ouvi dizer que Presidente do nobre É no mínimo o inatacável Senador.   VERSO DA NEGAÇÃO   Não, Não sei porque Não sei desdizer Sem dizer que não. Não, Não é prazer Não é viver É indignação. Não, Não vou negar Ao recusar Digo não. Não, Nunca, jamais será superlativo Jamais, nunca será infinitivo Do dizer não.   MEUS QUINZE ANOS A JANAINA, desejando uma gloriosa carreira de modelo.   Tenho quinze anos Mas há quem não acredite, Mamãe diz que tenho treze Papai que tenho vinte. Tenho quinze anos Mas há que não acredite, Só chego em casa às 13hs Só saio às 20hs. Tenho quinze anos Mas há quem não acredite, Namorado já tive treze Mas dizem que foram uns vinte. Tenho quinze anos Mas há quem não acredite, Cabecinha de treze Corpinho de Vinte.   CAPITU   Gosto de você, Capitu Fico todo suado Quando como teu angu. Sei que não me amas, Capitu Mas fico agoniado Quando vejo teu corpo nu. Não me olhes desse jeito, Capitu Minha carne é fraca E vibra como talo de bambu. Não me faças assim, Capitu Não me toques assim, Capitu Faças assim... Capitu.   INFANTIL   Meu amor Foi Joana, Namoro de mãos dadas Nos fins de semana. Minha paixão Foi Joana Maria, Seus beijos me matavam E sempre mais queria. Meu capricho Foi Joana Fássio, O corpo exalava A fragrância topázio.   UM CERTO ALGUÉM   O sol de cabeleira destoucada Acorda a flor, o amor de alguém. Quem tão cedo desce a rua é segredo, Para onde vai não importa também. Meus olhos abro, claros e miúdos; Minha boca calo, lábios mudos; O pecado passa e convida a tudo. Com seu moreno jambo Ela passa seminua, Reclamando o olhar Do sol que beija a lua. À tardinha, antes que o sol durma, Ladeira vem subindo, subindo vem; O sobe e desce de suas cadeiras machuca, mas não mata mingúem. Ela vem chegando com graça, E mesmo de longe já se insinua; Eu fico teso Como o poste da rua. Quando passa, olha, sorri, cumprimenta Meu coração dispara, não se sustenta; No desabrochar da minha juventude.   CIRÚRGICA   Se mortal Ninguém ousaria. Ela Bela Fera. Devagar... Adentrou a janela Uma brisa fria. Trêmula Abre Fecha. Devagar... Era noite Madrugada caía. Ouvia Sorria Sofria. Devagar... Bate o coração De alegria. Canta Dança Implora. Devagar... Um desejo O lençol descobria. Fino Lindo Atraindo. Devagar... Consumido no êxtase O corpo jazia. Dia Lia Dormia. Devagar...   O COLETIVO   Ascendem-se os refletores; O palco ganha vida. Olho, logo desolho; É cena repetida. Eu — em sombras de ator — Vivo o monólogo antigo: Denegrir a mãe do governador E lamuriar o esperar do coletivo.   RESSACA POÉTICA   Alguém levanta um copo e grita: — Poeta! Que poeta queres ser? Dei de ombro. — Que tal BANDEIRA? Um outro alguém, abruptamente, refutou-me: — Não gostei desta bandeira, muito menos do tal BANDEIRA. Bandeira por bandeira sou mais DRUMMOND! O primeiro interveio: — Eu gosto do OSWALD; tem berço, é o mais lírico dos ANDRADE! O dono do boteco esfriou a tertúlia servindo uma nova rodada de cerveja. E sussurrou-me: — É melhor ser político. Agindo assim, você terá público cativo. A crítica vai falar mal, mas, não é ela que compra. No BOTECO DO TONINHO era assim: Se alguns viviam de prosa; outros, de bebericar poesia.   ORGIA ELETRÔNICA Ao Servidor Público que, para defender a cerveja, tem que vender muamba.        Ontem estive na feira. Do Paraguai, é claro!      Não poderia perder aquela oportunidade derradeira.      O governador, em oposição ao antecessor, prometeu inaugurar uma placa alusiva à sua fundação. Nela deverá está escrito: AQUI JAZ.      Comprei algumas bugigangas e uma novidade do além mar. No fundo do apetrecho domésticos li em pequenas letras: MADE IN BRAZIL.      Que avanço tecnológico! Possuía compartimentos com letreiro e destinação específica. Coisa de cinema. Uma cava para o sabão e outra para a esponja. Duplex.      Dei a jóia de presente para a dona da casa (Maria, minha auxiliar).      Sorridente e agradecida, ela acomodou o relicário sobre a pia desnuda.      Ficou soberbo! Os letreiros de cor azul néon piscavam ritmicamente: SABÃO, ESPONJA... SABÃO, ESPONJA... SABÃO ESPONJA.      Apressei-me a assistir os compartimentos serem preenchidos com seus respectivos produtos: o sabão e a esponja.      Que obra de arte! Era uma verdadeira obra prima, coisa de Miguelangelo! Só faltava falar.      A luz tingia a retina do meu olho de alegria e movimento: Sabão... Esponja, Sabão... Esponja, Sabão... Esponja.      Deixei-me hipnotizar com o frescor daquela cena luxuriante. Mirava a esponja e depois o sabão; a esponja e depois o sabão.      Os letreiros piscavam, piscavam insistentes; alucinados e me alucinando: Sabão...Esponja, Sabão... Esponja, Sabão...Esponja.      Estático, eu mirava os dois quadriláteros incrustados no recipiente. Pareciam duas pérolas num para de brincos: a esponja e o sabão; a esponja e depois o sabão.      A cena enfadonha afastou os menos curiosos e, os letreiros começaram a piscar mais intensamente. Protegidos por minha cumplicidade, deixaram se levar pelo vai e vem da emoção e começaram a fazer bolinhas de sabão.      Sabão, Esponja; Sabão, Esponja; Sabão, Esponja.      Cansei-me daquela orgia eletrônica. Desliguei o fio da tomada e fui dormir.   TEUS BRAÇOS A D’GUIA, eterna companheira   Teus braços, Jóia rara em marfim; Delírio de Zeus Pedaço mim. Teus braços, Porto seguro; Quando navego tuas ondas revoltas Enlaçam minha cintura. Teus braços, Sentinelas a guardar; A fortaleza do teu tesouro E do teu jeito de amar. Teus braços, Que seduz e tortura; Razão da minha insônia E de minhas loucuras.   NOCTÍVAGOS   Cai a noite e eu vago Eu vago e a noite cai Cai... e eu vago a noite. Vago e a noite, eu cai Eu e a noite, Vago cai Vago e eu, a noite cai. Cai... e eu a noite vago. A Cai e eu noite vago Vago noite eu e a Cai. Noite, Vago a Cai e eu.   MULATA   Quando Quando segues o caminho do mar Teu corpo transpira cravo e canela Teu requebrado faz coração sambar. Quando Quando desnuda cruzas a grande avenida És a porta bandeira mais querida Rainha da minha “BEIJA FLOR”. Quando Quando bailarinas os pés descalços Muvucas no teu preto (asfalto) Dás asas a ilusão. E na grande passarela, Arquibaldo e corte aplaudindo A “Marquês” repetindo O coro: JÁ GANHOU!   COM GARAPA E PASTEL A Joilsion Portocalvo   Aqui, morre-se de tédio; Mas não por falta de amor. Aqui, morre-se de frio; Mas não por falta de calor. Se me aperta a fome, corro pra rodoviária; Encho a pança com garapa de cana e pastel. Se quero curtir uma praia; Sigo o caminho do céu.   ARROZ, FEIJÃO E PROSA   Quiabo no feijão, baba. No cuscuz, vai muito bem. Mas se tiver uma cervejinha; Aí então, melhor não tem. Pepino com galinha é indigesto. Fica mole, não me convém. Mas se for com mandioquinha; Aí então, quero também. Se o arroz está cru, Prefiro salada e jiló. Mas se tiver carne vermelha; Aí então, como sem dó.   PALACIANA Homenagem aos verdadeiros habitantes de Brasília: suas hermas, marcos e arquitetura   I Um moço novo; de novo um moço, moço novo de novo. Embrulhando um pacote; de novo um pacote, pacote novo de novo. II Já galguei a relva da passarela palaciana. Foi um sonho verdadeiro, miragens do sol de janeiro, que de tão passageiro não guardo boas recordações (ainda habitava em mim uma criança, revivendo estou aquelas lembranças). III Naquela breve jornada, detive-me no topo da inclinada, vislumbrando na imensidão da ESPLANADA DOS MINISTÉRIOS, entre pedras de dominós perfiladas, um homem que estava só. Os DRAGÕES DA INDEPENDÊNCIA não estavam de sentinela; não observei nenhuma nódoa ofuscar o cristal das incontáveis janelas. Inspirei profundo e tangi os fantasmas que por lá viviam. IV Alhures, O RELÓGIO DO SOL toma FORMA ESPACIAL NO PLANO. Um raio transforma O METEORO em estrela cadente que mergulha no ESPAÇO CÓSMICO e trafega pela VITÓRIA-BAHIA. Colide com MERCÚRIO que sangrou mercúrio e foi socorrido pelo GRAN MARISCAL DEL PERU. V Uma nova ERA ESPACIAL acorda a ÍNDIA BARTIRA, que acordou AS IARAS, que acordou AS SEREIAS, que acordou as hermas: RONDON, HEITOR, BILAC e J. K; que acordaram OS EVANGELISTAS para reescreverem o futuro e as profecias do passado. Pétrea, a prostituta dA JUSTIÇA bocejou, despiu-me com seus olhos vendados, empunhou a lâmina, e se desfez da balança de medir pecados. VI Entrementes, A LOBA desenferruja o uivo metaleiro da geração Coca-Cola, besunta O EIXO MONUMENTAL, desfralda O PAVILHÃO, acende A PIRA DA LIBERDADE; e canta o velho HINO NACIONAL. O brado ecoou nas cordas do horizonte. A constelação de lata se abriga na caserna, e a corte, no TEATRO NACIONAL para elege o rei momo do nosso carnaval. VII Ao repicar dOS SINOS e berimbau OS GUERREIROS ficaram a postos. A TORRE DE TELEVIÃO emudeceu. Blasfêmias ecoaram na CATEDRAL. Sonolentos OS ANJOS desgrudaram do firmamento; e se multiplicaram, multiplicados em mil cacos. Com DINAMISMO OLÍMPICO o atleta do universo arremessa o SOLARIUN e fere um pássaro de algodão; e um filete de sangue turva sua alva tez, e logo outros cúmplices também se esvaíam, e o céu ficou encarnado, e a tarde se fez presente. A noite anunciou que chegara sua vez. VIII O PROFETA sulplatino sacode a poeira, ressuscita O CANDANGO, exorciza o pé de CONGRESSO, joga sal na sua côncava e convexa - raízes. Ameaçador ergue os olhos aos céus. Humilde implora por dias felizes. Ruma para o LAGO DO PARANOÁ, flutua no espelho líquido como se fosse um santo. Na margem direita adentra a ERMIDA DE DOM BOSCO. Decola no bólido piramidal.   OLHOS D’ÁGUA   Quando o dia anoitece E flechas de prata ferem meu peito, Entrevejo arco-íris noturnos Do orvalho a gotejar. Um olho d’água começa a chorar... Quando haloados navegantes Harmonizam o plexo solar, A dor entorpece minh’alma Adormeço com o canto lunar. Um olho d’água começa a chorar... Retirada a venda do terceiro olho viajo no rabo do cometa, E traspasso o universo Na velocidade de um pulsar. Um olho d’água começa a chorar... Na descida ao corpo denso, Escorrem por entre dedos Inimagináveis tesouros, Como um rio que corre pro mar. Um olho d’água começa a chorar... E quando um novo dia amanhece Em sabedoria, luz e calor, O universo se faz música Nas mãos do meu Criador. Meu olho esquerdo começa a chorar.   O TEMPO QUE PASSOU   Sinto que estou perdendo nosso tempo Florido por momentos de cada dia; Sei que o passado não volta atrás Meu consolo é a poesia. A você procurei dar o melhor de mim Dar um pouco de minha alegria;. Quando faltou-me como mulher Contentei-me com sua companhia. Busquei aquecer tu’alma com meu calor Você se desvencilhou com palavras frias; Ofertei-te rosas colhidas com amor Voltei com as mãos vazias. As horas ao seu lado não passavam Eram infinitos momentos de sonhos furtivos; Eternas aos olhos dos que invejam Hoje, motivo de chacota e risos. Mas aqueles momentos passaram, passou Para mim você já não tem mais tempo; Sei que a outrem sempre sobra algum Meu poetar, é meu passa tempo.   CORAÇÃO   És coração... Músculos, vasos, cavernas, Não tens pernas Mas andas na contra mão. És coração... Musculoso, vasculoso, cavernoso, Não fala a língua do povo Teu vocal de contração. És coração... Muscular, vascular, encavernar, Não escutas o cantar Mas vives minha canção. És coração... Musculando, vasculando, encavernando, Quando estou amando És pura emoção. És coração... Musculou, vasculou, encavernou, O vento a vela levou Navegas em desilusão.   REFAZENDO   Vou revisar gavetas Ressuscitar minha prosa, Remoçar rimas e versos Em busca da utópica poesia nova. Vou revisar o armário vestir uma outra fantasia, Jogar fora o diário E esquecer a nostalgia. Vou revisar meus escritos Reescrevê-los com palavras novas, E só dizer o que sempre tenho dito Em hora mais oportuna e proveitosa. Vou revisar minha vida Guardar antigos pensamentos, Esquecer cada angústia sofrida E cada lágrima chorada em lamentos. Vou revisar o coração Das aranhas retirar as teias, Viver uma nova ilusão E purificar o sangue da “veia”.   CORDÉLIA   Vou te contar uma história Que se passou no Distrito Federal, Com uma dessas donzelas Que vem trabalhar na capital. A coitadinha me disse Que era de família numerosa, Que a vida estava difícil Que se cansou dos políticos e suas prosas. Morava no sertão de Nova York Nem o desjejum tinha pra comer, Como era de pouca sorte Nada poderia nesta vida fazer. Pensei cá comigo, está quenguinha está com fome Vou lhe servir uma comidinha, Servi brócolis, quiabo, cenoura e inhame Mas ela ficou só no arroz com galinha. Como a fome me pareceu santa Reforcei com cuscuz e suco de limão, Mas ela me disse que aquilo nem ver Azedou a barriga do irmão. Quando a conversa ficou mais solta Sorriu que seu fraco era “iorgute e coca de latinha”, Eu fiquei pensando com as mãos no bolso: Essa modernidade é dele não é minha. Mas depois de tanta conversa Atrevi-me a falar do principal, Quanto pagar pelos préstimos da auxiliar Nunca empregada doméstica ou serviçal. Ela disse de pronto: o salário sim sinhô! Ticket alimentação, férias e descanso remunerado, Que não to aqui pra da vida boa pra dotô. Mudei de assunto, quis saber se cozinhava o trivial. Respondeu que em serviços de cozinha não mexia, Não arrumava, não lavava e passava muito mal. Fiquei espantado com sua tamanha disposição; Pra ficar sem fazer nada, Cuidando do telefone, geladeira e televisão. Pedi desculpas pra donzela Mandei procurar outro patrão, A casa sempre foi bem cuidada sem ela Pra dona patroa eu dou uma mão.   ÁLBUM DE RECORDAÇÕES   Nos meus dias de juventude Vivi tórridas paixões. Se és moço que se cuide, O tempo apaga fogo dos varões. A proposta do futuro anunciado, São de desejos que vão e não vem; Um inevitável adeus ao passado E um novo amanhã que não convém. Quando se jaz as emoções, O pretérito nos trás como legado Um álbum de recordações. Por onde andará a Rita (a magrinha ou a gorda), Flor campestre que plantei no meu quintal. Não fui o primeiro; fui jardineiro de todas.   PRIMOGÊNITA   Meu bem ... amor ... meus sonhos! Completamos sete meses de casados E nos sentimos como dois estranhos Neste viver lado a lado. Vivemos uma rotina enfadonha Só me dizes lamúrias, sabias? Com desculpas de curar a insônia Refugio-me nas ruas vazias. Não, não estávamos preparados Não, não mais nos enganemos, Éramos imaturos e mimados Sempre soubemos. Culpamo-nos e ao matrimônio Esquecemos as juras que fizemos Dar vida ao nossos sonho E viver o amor que nos prometemos Somos náufragos em desejos insanos Aportados na tangente do divórcio E nem ao menos sequer imaginamos Qual destino terá o filho nosso. Terá a sorte dos adotados Ou será mais um abandonado no orfanato? Se colhido pela legião dos abortados Pagará por nosso impensado ato. Não ... pelo amor de Deus, não... Pelo que tens de mais sagrado... Não atiremos pela janela da devassidao O que pelas graças do céu nos foi dado. Unamos nossas mãos; hoje, tão estranhas Façamos da nossa dor uma oração O rebento de tuas entranhas Será o elo da nossa união.   MIMHA HERANÇA   Ele não me deu muito Talvez, porque não tivesse muito a dar. Só colho na vida o que semeei Só trago comigo o que posso levar. O que sei, aprendi à sombra da jaqueira, Ou quem sabe do jequitibá! Que plantou e cultivou à sua maneira, E numa rede a balançar. Quando me revelava o passado ou o futuro incerto, Eu não possuía ouvidos pra escutar. Por fim, daquele livro aberto, As mais lindas páginas não soube folhear. O derradeiro hálito de juventude O corpo cansado não conseguiu domar; A mocidade da sua alma A idade avançada não ousou grisar. Um dia também ficarei sozinho Meu filho longe no seu labutar; Na minha companhia só lembranças Da mão do meu pai a me guiar. Então retornarei à sombra da jaqueira Ou quem sabe, do jequitibá! A juventude é passageira, Na rede velha posso sonhar.   RIACHO FUNDO        Trilhei margens do riacho, riacho seco, riacho fundo. Abri picadas, fui picado. Transpus a fronteira d’outro mundo.      Varei paredes vivas (ipês, quaresmeiras, angicos e buritis). Traspassei muralhas encapuzadas por neves verdejantes, e cordilheiras de picos cênicos, sobrepostos, com várias matizes.      Aqui, acolá, descortinei outros tons, outras cores; frutos, frutificações, folhas e flores.      Acobertado e enfolhado, vi-me em destroços sobre um tapete de raízes. Na fonte um nó que cocorocou; astrólogo, tracei um mapa astral com estrelas osculatrizes.      Réptil em solo fecundo, com a destra encontrei apoio no pé do vegetante de olhar feio e carrancudo; cara de pau, corpo espinhento e barrigudo.      Chutou-me o pezão. Era perneta o pernalta. Atirou-me na curva do vento com a mão toda espinhada.      A outra mão, mais atrevida, roçou as ancas d’uma moça que não me recriminou, mas ficou com a tez corada.      Mudo não lhe disse nada, busquei o frescor dos seus olhos com os meus. Sob a cabeleira ruiva escondeu os cílios postiços de cor lilás.      Quando meu silêncio pediu perdão, ela sorriu e me concedeu. Acomodou um broche de azaléias que enfeitava o colo desnudo, o colar de cipós que prazerosamente enlaçava os seios fartos, e curvou-se. Com a cumplicidade da brisa, suavemente, estendeu-me a mão.      Alguém com voz de ventania interrompe o flerte: — Sai da minha sombra, tire as patas de minha amada. Achou pouco pisar no meu pé e me ensopar com sua água salgada?!      Fiquei pasmado. O mutante era alto, corpo roliço e dezenas de braços. No mais forte portava um anel de abelhas e na cintura uma casa de cupim.      Minha hora derradeira foi anunciada, o dia adormeceu em sombras; precipitou-se o começo do fim.      Recolhi os ossos; ziguezagueei por entre labirintos de galhos, folhas e espinhos. Escalei baixo e alto relevos, removi pedras, naufraguei em mil rios.      Sedento, encontro guarida no colo de uma acolhedora cachoeira. E a donzela de pedras me beija um gole d’água morna, e a dama da noite me envolve em transparente lençol noturno, e o corpo alquebrado adormece.      Sonhei um sonho, um sonho de anjo: sonhei que era TUPINAMBÁ, e que você era só minha, minha princesa JUPIRÁ.   PERDÃO AMIGOS Aos amigos da CONUBA   De quando em quando Os braços da solidão vem e me assola, Recordo-me dos tempos de outrora Dos amigos, amigos meus. Envolto no manto das recordações Entre turbilhões de alegria, entristeço; É que meus pecados não esqueço Perdão rogo a vós e a Deus. Perdão amigos, amigos meus; Se meus desatinos esculpiram feridas Que hoje sangram, mesmo antigas, Perdoados estão os teus. Perdão amigos, amigos meus; Desejo-lhes um suave caminho e longa estrada, Se o destino não nos permitir uma nova parceirada, Desejo-lhes um feliz adeus.   SAMBA DO ADEUS   Eu queria te exaltar Num samba na “Marquês”, Teu nome gritar Como ninguém nunca fez. Te dizer tantas coisas Aquelas que você tanto deseja, No tempo imortalizar Nosso primeiro beijo. Eu queria não te deixar partir Mudar tua decisão, E que voltasse a sorrir Ser rainha do meu barracão. Mas desprezando meu amor, você se foi Deixando um rastilho de lembranças; Uma marca de batom no travesseiro, A sandália de tiras, a fantasia rasgada e uma aliança. No teu negro corpo Quero me perder, quero me esconder, No teu negro corpo Sonhar e viver.   SAMBA DA VOLTA Ao poeta Vinícius de Morais   Do meu canto, esquecido Vejo melhor seus insinuantes movimentos Seu falar lento Quero te abraçar. Olha mulher, escuta mulher, quem sabe mulher, um dia... Não chores, mas se chorar, chores sorrindo Veja como é lindo Tantas flores se abrindo Nenhuma tão linda quanto você. Olha mulher, escuta mulher, perdão mulher, pela vida... Ontem acordei com o gosto do passado Desfiei o novelo do tempo E remocei nossos agrados Ninguém me amou como você. Olha mulher, escuta mulher, espere-me mulher, estou indo.   A OUTRA DO TREM   Você vem Vem no trem No trem que vem Você vem. O trem vem Vem que vem Que vem, vem Vem o trem. Chegou o trem Que você vem Meu bem também Chegou no trem.   LANA   Num quarto qualquer, lugar qualquer; LANA respirava a rua escura. O vagabundo descortinou a silhueta de mulher Dançando entre os lábios frios da moldura. A mesa pálida frutifica vinho e aspargos E floresce uma reluzente garrafa de café. De quando em quando do copo um gole, do cigarro um trago Pra tirar o amargo da amarga espera do Zé. A dama da noite acordou e lhe fez companhia, Uma brisa úmida indagou: Quando virá o Zé? Encobertou-se, sorveu a última gota da garrafa vazia E uma lágrima a tez aqueceu. (Onde andará o Zé?) Zé... do rolo e do mundo... (Na cama de campanha se aninhava) Zé... que homem sem prumo... (Não se entregava: piscava, piscava... piscava o Zé) Os mensageiros das horas anunciaram o novo dia Duvidou, aceitou... Seja o que Deus quiser. Na calçada um vulto se movia, (o toc-toc se ouvia) Mesmo longe parecia com o toc-toc do Zé. O olhar sonolento descortina um rosto amigo Trôpego, mortalmente ferido (ela lhe tem dó). Colhe um beijo do amor bandido Respira seu último hálito, escuta um adeus (um só). O corpo estendido no chão é envolto por Lana Que se desmanchando em prantos faz do vestido manto, Debruça-se sobre o defunto (O Zé é um santo) Morre a noite... Morre o final de semana.   IMORRÍVEL A Gustavo Dourado e sua ACADEMIA DE LETRAS   A Academia não me permitiu envergar o Fardao A desfeita me deixou aborrecido; Mas se o feito só se consuma com votos No sufrágio serei candidato vencido. Noticiaram que fui preterido por outrem Das letras, um ilustre desconhecido; Tempos depois fiquei sabendo Que o moço é financeiramente bem servido. Estou a reformar meu sepulcro Por longos anos carcomido; Mandei preparar a mortalha Pra ser Imortal não precisava ter nascido.   RETRATO EM BRANCO E PRETO Aos amigos da SUNAB   Quando os amigos dizem: é surdez! Eu não dou ouvidos. Quando dizem: é gaguez! Escuto o eco do grito. Quando dizem: é raquitismo! Tenho certeza, sou subnutrido. Se os amigos disserem que sou feio Admitirei, não estou bem produzido. Se disserem que sou triste Admitirei, ando meio aborrecido. Se disserem que sou de pouca sorte Admitirei, esqueço de manter o pé aquecido. Os amigos me disseram: sois pobre. Adverti-os, não fui bem nascido. Disseram-me: não tens fama. Adverti-os, não fui enaltecido. Disseram-me: não sois culto. Adverti-os, sou subdesenvolvido. Mas quando alguém me interpela: não tens inimigos?! Resoluto lhes digo: Inimigos pra quê; tenho bons amigos.   TROMBETA LÍRICA   A quem interessou veicular tão descabida potoca: — OS POETAS ESTÃO MORTOS— Se vampirizaram nossas veias e zumbizaram nossos corpos. A quem competiu proferir tamanha infâmia: —A POESIA NÃO TEM VIDA— Se a mocinha vive saudavelmente fantasmecida. Quem praguejou com veneno de língua de sogra: —AS ESTROFES NÃO GOZAM DE BOA SAÚDE— Se ontem ajudei carregar seus ataúdes. Quem alardeou nos corredores da U.T.I: —OS VERSOS ESTÃO DESFALECIDOS— Se esses moços são imunes a esse mal antigo. Quem colunou calúnias sociais: —AS RIMAS SÃO POBRES— Se todas desposaram moços nobres. Quem panfletou nos muros da Capital: —O POETAR NÃO TEM GUARIDA— Se fez morada no meu peito, tatuado em carne viva.   Sobre o Autor