KOREAEBOOKDOCUMENT1.3.0O Mistrio de PargosFred FoldeBooksBrasileBooksBrasilQ ndice ndice na Obra O Mistério de Pargos – Vol. I Fred Fold Edição eBooksBrasil Versão para eBook eBooksBrasil.com Fonte Digital Documento do Autor Copyright: © 2001 – Fred Fold fredfold@ig.com.br O MISTÉRIO DE PARGOS VOLUME 1 ÍNDICE PRÓLOGO CAPÍTULO 1 A DESCOBERTA CAPÍTULO 2 A HISTÓRIA SE COMPLICA CAPÍTULO 3 SURGE UMA LUZ CAPÍTULO 4 O COMBATE CAPÍTULO 5 OS KAMURATTI CAPÍTULO 6 A VELHA DAMA CAPÍTULO 7 UMA LUZ PARA DAMASTOR CAPÍTULO 8 CRESCE A INTRIGA CAPÍTULO 9 A FORÇA OCULTA CAPÍTULO 10 SURGE UM NOME E TUDO SE COMPLICA CAPÍTULO 11 A OUTRA FACE DA REALIDADE QUE NÃO VEMOS CAPÍTULO 12 O ATENTADO PRÓLOGO        Existe, lá para os lados da França e da Suíça, um mistério secular. Este mistério, segundo pesquisa acurada e cuidadosa levada a efeito por Michael Baigent, Richard Leight e Henry Lincoln, persiste até nossos dias e tudo indica que continuará pelo próximo milênio. Sobre a pesquisa assim se pronunciaram o Canadian Jewish News: “um dos trabalhos mais importantes e provocantes dos últimos anos” ; e a Newsweek : “ ultrapassa em muito uma história de mistério ”, para citar somente duas dentre as fontes credenciadas que endossaram a pesquisa realmente digna de nota pelo conteúdo, pela profundidade e pelo zelo em apurar ao máximo a verdade.      O mistério tem uma designação: O Monastério do Sinai      O Monastério do Sinai foi fundado como uma Ordem Secreta pelos Templários e seu ano de nascimento, segundo os pesquisadores, data de 1090 e seu fundador foi Godfroi de Bouillon, Duque de Lorraine e conquistador de Jerusalém, a Terra Santa. Seu irmão mais jovem, Baudouin I, foi o primeiro Rei de Jerusalém após a conquista.      Baudouin I foi um rei eleito, isto é, ele não era rei por linhagem sanguínea. No entanto, René Grousset afirma que com ele passara a existir uma “tradição real” porque sua dinastia era fundada sobre A ROCHA DO SINAI . Por isto, este renomadíssimo historiador iguala a dinastia de Baudouin I àquelas de destaque na História e reinantes na Europa, tais como a dinastia francesa dos Capetos, a dinastia anglo-normanda dos Plantagenetas, as dinastias Hohenstauffen e Habsburgo, dominantes na Alemanha e no Sacro Império Romano mais antigo.      Quem ou o que é a Rocha do Sinai e por que tem o poder de conferir tradição real a uma dinastia que não a possúa por sangue?      A pesquisa de Michael Baigent e seus colegas concluem que ela é nada menos que o homem mais desconhecido, mais controvertido, mais polêmico e sempre em moda no mundo todo – Yoshua Bar Yosef, ou seja, Jesus, filho de José.      Derrubando uma montanha de mitos sobre este homem curioso e desconhecido, ainda que tão cantado e responsável por tantas seitas religiosas, muitas ferozmente sanguinárias – em que pese sua lenda sempre afirmar ter sido Ele o Senhor da Paz – o livro The Hole Blood and The Hole Grail leva-nos a uma conclusão fantástica: Jesus não morreu crucificado, foi casado com Maria Mdalena que, após a morte d’Ele, teria fugido para a França levando seus filhos.      A Rocha do Sinai , portanto, teria deixado descendência como qualquer mortal.      O Monastério do Sinai seria uma Organização Místico-Ocultista que teria por objetivo levar ao trono de Israel um descendente direto de Jesus . Mas o Monastério não foi criação de judeus e, sim, de arianos templários. Até porque para os judeus, Jesus não teve nada de sagrado e é considerado, até o presente, somente um homem. Quando muito lhe atribuem a condição de Profeta, embora a maioria o tenha como um agitador e um conturbador da paz.      Na luta milenar pelo poder, o Monastério tem enfrentado Papas e Reis, Imperadores e Tiranos, sempre mantendo seu objetivo em mira. Um dos seus membros mais famosos foi Richelieu, cuja importância para a França é notória. Richelieu era esoterista como todos os outros membros famosos que ocuparam o mais destacado cargo na Ordem, o de Nautonier , que, em francês antigo, quer dizer Navegador. Entre as personagens famosas da História Universal que se diz terem sido Grãos Mestres no Monastério podemos citar Nicolas Flamel, Leonardo da Vinci, Robert Fludd, Robert Boyle, Isaac Newton, Charles Radclyffe, Victor Hugo e Claude Debussy entre outros.      A França tem sido o palco onde se desenrola a novela do Monastério e chamamos a atenção para o fato de que antigamente a Suíça era um condado francês. No final do Séc. XIX o renascimento do ocultismo francês influiu profundamente em São Petersburgo, na Rússia, e o grupo de Papus tinha privilégios junto ao Czar e à Czarina russos. Esta situação privilegiada despertou muitas oposições e entre elas destaca-se a da Grã-duquesa Elizabeth que buscava colocar seus próprios protegidos nas graças do Czar russo. Entre estes protegidos sobressaiu Sergei Nilus. Este homem, em torno de 1903, entregou ao Czar um documento estranho que, segundo ele, continha supostos testemunhos de uma perigosa conspiração para a dominação do mundo . Parece que ele queria com isto angariar as graças do Czar, mas deu-se mal. O documento foi considerado ultrajante, sua destruição foi ordenada pelo Czar e Sergei foi banido da Rússia.      Embora ordenada a sua destruição, uma cópia de tais documentos escapou e foi publicada, ainda em 1903, por um jornal. Em 1905 voltou a ser veiculado, desta feita na forma de um livro escrito por um filósofo místico, Vladimir Soloviov.      Inicialmente ninguém deu atenção aos tais documentos, mas com o passar do tempo eles se transformaram em motivo de libelo feroz entre distintos povos e entre pessoas de destaque no mundo. Passaram a ser conhecidos pela denominação mais comum – Os protocolos dos Sábios de Sion . Desgraçadamente – não se sabe bem porque – atribuiram estes Protocolos a fontes judaicas e isto serviu para açular o anti-semitismo na época. Instigados pela leitura de documentos tão horríveis, o Exército Branco Russo responsabilizou a comunidade judia na Rússia pela revolução de 1917, e de 1919 a 1921 aquele exército massacrou em torno de sessenta mil judeus por isto.      Alfred Rosenberg, que foi o principal teórico racial e propagandista do Partido Nacional Socialista Alemão, divulgou os Protocolos na Alemanha e diz-se que Adolf Hitler acreditou piamente na suposta autenticidade judaica daqueles documentos.      Os protocolos têm sido discutidos no mundo todo, ora dados como válidos, ora provados como uma farsa odiosa. Eles pregam o domínio do mundo por uma facção judaica conhecida como os Sionistas.      Segundo os pesquisadores que vimos citando, ficou de fato estabelecido que os Protocolos foram escritos com base em um trabalho satírico escrito e publicado em Genebra em 1864.      A sátira visava atacar Napoleão III e quem a escreveu teria sido um homem chamado Maurice Joly, membro de uma Ordem Rosacruz. Tudo indica que ele era amigo de Victor Hugo e este era antipatizante de Napoleão III e foi Grão Mestre da Ordem do Sinai.      Notam os pesquisadores que o texto dos Protocolos terminam com uma única afirmação “ Assinada por representantes de Sion do 33 Grau ”. Isto é incongruente com a tese de que tais documentos teriam sido editados no Congresso Judaico Internacional de Basle. É na Maçonaria que existe o 33, além do que os Protocolos falam de um reino maçom com um rei de sangue de Sion.      Judeu ou não judeu, os Protocolos foram a causa de muitas lutas e muito derramamento de sangue humano – independente de raça ou credo. Negá-los pura e simplesmente pode ser perigoso. Ele teve o poder de influenciar um louco – Hitler – e talvez tenha sida um dos principais fatores causativos para a maior mancha na História da Humanidade sobre a Terra.      Megalomaníaco, os Protocolos, contudo, impressionam. Lamentavelmente as pesquisas indicam que eles mais parecem criação de Cristãos do que de judeus.      Por diversas vezes o Monastério se viu dividido. Dele nasceu a Maçonaria, a Rosacruz e muitas outras seitas e irmandades ocultistas secretas.      A mais secreta de todas, a menos averiguada, a mais fanática e a que ainda não foi descoberta por ninguém é aquela que tenta se guiar pelos ditames dos Protocolos.      Seu nome? A GRANDE NAHASH.      A história que se segue é uma ponta do véu que encobre a atuação desta Fraternidade cujo sonho de seus filiados é a obtenção da Vida Eterna sobre a Terra doada para eles, os escolhidos do Deus Único.      A história se passa no silêncio e à sombra da História, como é o normal para os acontecimentos realmente fundamentais para o Ser Humano. E tudo se inicia muito distante de Israel, no terrível drama de vida ou morte de um grupo de repórteres brasileiras... CAPÍTULO I A DESCOBERTA         As águas estavam serenas e azuis. Um pescador solitário lança a rede e a recolhe várias vezes, sem peixe. Pacientemente, ele continua sua faina. É de meia idade, forte, pele curtida pelo sol. Ao longe, vê-se uma ilha. É muito escarpada e os paredões rochosos mergulham direto nas águas azuis e escuras. Aqui e acolá branqueia uma pequena nesga de areia fofa formando estreitas prainhas. Arrecifes pontiagudos e perigosos cercam a ilha. São entremeados por escuras e lodosas pedras negras. Onde o homem se encontra, contudo, o mar é profundo e sereno. As águas sobem e descem num ritmo contínuo e macio, parecendo o pulsar de um coração. A uma pessoa desacostumada, aquele subir e descer ao ritmo de uma respiração, como se o barquinho estivesse sobre o tórax de um imenso gigante adormecido, meteria medo. Mas aquele pescador nem parece notar o portento sob seus pés. Concentra-se todo no ato de jogar a rede e recolhê-la metodicamente. Ela lhe vem sempre vazia, mas ele não desanima. Com a paciência característica de todos os que vivem do mar, volta a arremetê-la com a mesma precisão da jogada anterior talvez, agora, pela centésima vez. O barquinho sobe e desce e, a cada vez, o homem se sente mergulhado dentro de uma imensidão de água que lhe retira a visão momentaneamente de tudo a sua volta, encurtando-lhe o horizonte por alguns instantes. Numa das subidas do barco o pescador vislumbra algo. Um monte de sargaços preso às pontas agudas das pedras negras que sobressaem das águas, a uns cento e cinqüenta metros de onde se encontra. Teve a impressão muito rápida, quase subliminar, de que algo se mexeu dentro dos sargaços. O pescador firmou a vista e tapou o sol com a mão espalmada sobre os olhos, esperando o barquinho voltar a subir numa nova inspiração do mar. Sim, há algo estranho entre os sargaços. Recolhe a rede apressadamente e rema até bem próximo dos perigosos escolhos. No alto, as gaivotas fazem um grande alarido, mas o homem nem as nota. Com dificuldade amarra a embarcação em uma das pontiagudas e negras pedras e salta n’água. Braçadas vigorosas o levam até o balseiro que desvencilha das pedras com o auxílio de uma faca afiada e o reboca, a nado, até o barco. Já na embarcação, o homem olha para o meio dos liames escorregadios. Sim, ali está. Numa pequena cesta de junco seco ele enxerga um corpinho de criança. Cuidadosamente o pescador recolhe o pequenino ser. É uma menininha e está muito ferida. O homem a deposita no fundo da embarcação e começa a remar com força. A criança arde em febre e aparenta ter sede. A garganta lhe dói muito. Gostaria de chorar, mas não pode. O sol lhe queima os olhinhos e ela “sabe” que há um enorme perigo para o homem e a ilha. O perigo vem com ela. Sabe de tudo, mas não pode falar. Nem mesmo chorar o choro preso em seu ser. Ela “vê” uma enorme jamanta arrastando-se silenciosamente sob o barco. Nas costas do gigantesco mamífero aquático há um desenho. É um rosto. Um pavoroso rosto de mulher. Desgrenhada, horripilante, a mulher olha o barquinho com maldade. A menininha “sente” que está no meio de um furacão... Enormes labaredas saem das águas e sobem... sobem... estão atingindo o barquinho! Ela está em pânico. Precisa desesperadamente gritar...      Mara senta-se na cama, olhos esbugalhados, molhada de suor. A boca desmesuradamente aberta não solta nenhum som. A expressão é de pavor. Demora alguns segundos antes de compreender que está em seu quarto, na sua cama, não em um barquinho à deriva, num mar de fogo. A moça curva a cabeça e respira profundamente, tentando acalmar o coração. Ele bate descompassadamente no peito, a ponto de lhe atrapalhar a respiração. “Calma, rapaz, calma” – diz de si para consigo – “foi só um sonho mau.... Já passou!” Levanta-se com dificuldade porque o corpo treme muito. Vai à cozinha e toma um copo d’água do filtro de parede.      — Droga! – pragueja em voz baixa e rouca – mais uma vez este maldito pesadelo. Eu já devia estar acostumada, afinal ele me persegue desde que nasci. E pára sempre no mesmo ponto. Oh, meu Deus, isto é enervante!      Ela volta à sala ainda com a mão sobre o peito. Sai para a varanda. Quer o ar fresco da madrugada. Talvez lhe acalme o ser. Veste um “ baby-doll ” preto e muito transparente e não tem roupa de baixo. O púbis de pelos escuros se delineia entre as coxas, mas ela não se incomoda. Mora no vigésimo andar e são quase duas da madrugada. Todos dormem e não há nenhum edifício à frente para que um “ voyeuriste ” com uma luneta indiscreta lhe esteja bisbilhotando a intimidade.      A vista que descortina é muito bonita.      Seus olhos vagueiam pela cidade adormecida. Em baixo, no viaduto Paulo de Frontin, os carros passam silenciosos. Vê as luzes traseiras vermelhas e amarelas. “ De onde estarão vindo ou para onde estarão indo ?” – interroga-se sem poder encontrar resposta. Lá ao longe há um morro iluminado. Visto assim, parece estar coberto de inocentes estrelas caídas ao chão, umas mais brilhantes, outras, nem tanto. “ Quem sabe, venham a noite fazer traquinagem na terra, enquanto as pessoas dormem ?” – pensou Mara e sorriu. Não, ela sabia que não. Em cada um daqueles pontos luminosos um drama se desenrolava silenciosamente. Talvez alguém estivesse sendo assassinado como queima de arquivo. Talvez uma criança estivesse sendo estuprada por um marginal tarado. Talvez alguém estivesse apanhando uma surra injusta, imposta pelo álcool que tirara a razão de outro alguém... Desviou os olhos do morro para um amontoado de pequenas luzinhas distantes. Outras luzinhas coloridas subiam e desciam como se fossem anjos indo e vindo da terra ao céu e deste à terra. Mara sabia que eram aviões chegando e saindo do Aeroporto Internacional do Galeão. A aragem da madrugada lhe refrescara o corpo e acalmara a agitação, mas o sono se fora e isto a irritava. Lembrou-se de sua terapeuta e um pensamento maldoso passou-lhe pela cabeça. “ Eu devia acordá-la e azucrinar-lhe a cabeça com o meu pesadelo. Ela tem de sair desta história de autopunição por problema edípico mal solucionado. Não creio nisto. O sonho é muito real, quase sinto o sol a me queimar... E o homem... o pescador. Ele é tão real, tão palpável... Acordo sentindo ainda suas mãos em meu corpo... Sim, sou aquela menina. Sou ela, tenho certeza. Mas meu pai jamais foi pescador. Que eu me lembre, nunca pegou num anzol, sequer. Era professor e químico. Passou a vida entre a sala de aula e as retortas do laboratório. E a ilha?... Jamais estive em uma ilha igual àquela. Nem sei de nenhuma que se pareça com ela. Acho que nunca vou encontrar em algum lugar na Terra algo daquele jeito. E no entanto, coisa absurda, sinto que ela existe. Só não sei onde. Santo Deus, isto vai deixar-me louca !”      Voltou à sala e ligou a TV, um enlatado de terror. Mudou o canal, um melodrama de 1950, desligou o aparelho, chateada. Queria ver alguma coisa diferente... mas o quê? No íntimo, sabia que nada que a Televisão apresentasse lhe agradaria. O que desejava era ver a ilha. E certamente isto nunca iria aparecer na telinha mágica. Foi ao banheiro e tomou uma ducha bem demorada. Enxugou-se e, nua, dedicou-se à prática dos belíssimos e harmoniosos movimentos do TAI-CHI-CHUAN. Engolfada pela magia dos suaves movimentos, Mara nem percebeu que o dia clareava de mansinho, como se não quisesse perturbar o poético quadro de seu corpo esguio e leve na dança da arte marcial. Ouviu o barulho da fechadura da porta a ser aberta e compreendeu que sua empregada acabava de chegar. Vinha pontualmente às 5:30 da manhã. Ouviu-a ligar o radio, baixinho, para escutar seu programa matinal predileto. Ouviu-a mexendo nos utensílios e ligar o gás do fogão. Ela preparava o desjejum. Mara ouvia tudo, mas sem perder sua harmonia. Foi até o fim do exercício que terminou suada e totalmente desperta. Voltou ao banheiro para uma nova ducha. Enxugou-se, foi ao quarto e vestiu-se com simplicidade. Fez uma maquiagem leve, que punha em realce seus olhos escuros levemente oblíquos. O conjunto branco de saia e blusa fazia sobressair suas curvas suaves. Ela detestava a coqueluche da moda – o tênis. Não possuía nenhum par. Calçou uma sandália vermelha, de estilo romano, colocou um batom quase de tom natural dentro da sua bolsinha de maquiagem. Fez a mesma coisa com o blush, o lápis de sobrancelha e a bolceta de moedas; a caneta esferográfica, o talão de cheques e os três cartões de crédito foram parar dentro da bolsa a tiracolo que pretendia levar e se deu por satisfeita. Mirou-se no espelho e alisando os quadris com um gesto voluptuoso inconsciente, sentiu-se maravilhosa e muito bem consigo mesma, foi para a sala de café, embora sem conseguir afastar de todo a lembrança vívida das imagens do mau sonho.      Comeu com apetite. Joana, a doméstica, uma senhora idosa e de pouco falar, não apareceu. Finalmente, tomou o suco de laranja, levantou-se e saiu sem se preocupar com a velha companheira de quase vinte anos de trabalho a seu lado. Joana praticamente a criara. Sabia de seus gostos, de suas manias, de tudo. Sabia o quê, o como e o quando fazer as coisas no apartamento. Mara não lhe tinha de dar ordens e isto a alegrava muito. Joana era caladona por natureza. Raramente conversavam e seu prazer maior era ouvir o rádio. Às vezes acontecia de passar semanas sem se falarem. Algumas, até mesmo sem se encontrarem. Isto não incomodava em nada a nenhuma das duas. Mesmo assim, cada qual sentia o profundo afeto que nutriam mutuamente.      Enquanto Mara descia no elevador em direção à garagem, do outro lado da cidade, no Leblon, uma ruiva cheia de curvas acentuadas, alta, olhos caramelados como os de uma gata e olhar sensual como o de um animal no cio acabava de sair em seu carro esporte. Ludmila tinha voz macia e insinuante, parecendo estar sempre a prometer algo que ela não estava disposta a dar – prazer. Vinha preocupada com sua companheira de reportagens, Karina, que sofrera um atentado e estava de cama, curtindo um forte resfriado. Ambas trabalhavam na “policial” e a ruiva não desejava, justo agora, ficar sem a parceira. Precisava colocar alguém no lugar dela, mas na seção não tinha nenhuma outra que lhe merecesse a confiança. Havia uma colega, mas da “social” e, para seu azar, a moça não ia com sua cara. Chamava-se Mara e Ludmila simpatizava muito com o modo caladão, discreto e arredio da sua colega de trabalho. Embora fosse muito discreta, a moça já demonstrara que tinha um faro infalível para sacar notícias sensacionalistas onde todos não conseguiam ver nada.      Mara ainda estava com o pensamento no pesadelo quando, saindo do elevador, no vigésimo primeiro andar da redação de “EL MONDO”, deu um encontrão em Ludmila.      Elas não eram muito amigas. Mara achava a outra fútil e não gostava da seção em que Ludmila trabalhava – a “policial”. A convivência acentuada com a violência, o crime, a corrupção e a miséria humana do submundo da pobreza fabricada pela desídia dos políticos e dos cartéis da indústria, do comércio e dos bancos, tudo fazia com que os repórteres da seção policial adquirissem modos de agir, comportamentos e linguajar absolutamente desagradáveis a pessoas do tipo de Mara, pacata, refinada e sonhadora.      O encontrão pegou Ludmila de surpresa. Ela se desequilibrou e quebrou o salto do sapato. Pior que isto, esparramou pelo chão o conteúdo da pasta que sobraçava.      — Lud... Meu Deus, desculpe-me!      — Tinha de ser você, né desajeitada? – falou ácida a repórter policial.      — Eu sinto muito, mesmo. Não foi por querer. Eu vinha pensando... Oh, deixe-me ajudar, por favor.      As mãos puseram-se a juntar a papelada.      — Você sabe da última? – indagou Ludmila e Mara pôs-se imediatamente em alerta. Qualquer coisa no timbre de voz da outra estava errado, mas não captou o que fosse.      — Que última? – perguntou, desconfiada.      — A Karina arriou com um baita resfriado – disse a ruiva a olhar deliberadamente para o chão.      — Isto não é furo jornalístico – rebateu Mara, entregando-lhe os papéis que juntara – todo mundo pega um resfriado vez por outra, ora essa.      — É, mas poucos têm a felicidade de trabalhar a meu lado – falou quase num sussurro, a ruiva.      Os pelos da nuca de Mara se arrepiaram como os de um gato à aproximação de um cão. Ela não compreendeu porque este sinal de alarma.      — Pode ser que você veja este... acidente de trabalho como uma felicidade. Mas para a mosca, felicidade é viver no lixo... – disse Mara maldosa e provocadoramente.      — Por acaso está-me chamando de... lixo? – Os olhos de Ludmila fuzilavam. Havia perigo no ar. Mara se deleitou por perceber que conseguira atingir a outra.      — Que absurdo, querida. Quis apenas dizer que o conceito de felicidade não é a mesma coisa para todos.      — Ah, bom... Pois eu espero que você não identifique nem a mim, nem ao meu trabalho com... com lixo, sabe, meu amor?      Antes que Mara pudesse dizer algo, Ludmila saiu coxeando e rindo de modo incompreensível para a moça. Mara ficou a olhá-la com ar preocupado. Ludmila devia ter ficado doida de raiva, como era o seu natural, quando provocada. Era o que se poderia normalmente esperar da ruiva, não aquele riso. Na opinião de Mara, quando Ludmila ria era porque o Diabo estava em festa. Ficou olhando por algum tempo a porta do banheiro por onde a ruiva desaparecera ainda sentindo a nuca arrepiada. Seu bom humor tinha sido nublado.      Resolvida a não se deixar deprimir com o estranho comportamento de sua colega, Mara entrou decidida em na seção em que trabalhava.      — Bom-dia, gente! – cumprimentou esfuziantemente a todos e foi direto para a mesa que lhe era destinada. A primeira coisa que fez foi rebuscar atentamente entre a correspondência recebida, mas não encontrou o que esperava. Ela solicitara, há duas semanas, transferência à revelia de Jasão, seu chefe atual. Desejava ir trabalhar na seção de pesquisas históricas e arqueologia. O arquivo daquela seção era riquíssimo e em seu íntimo Mara esperava encontrar lá qualquer pista que lhe possibilitasse descobrir alguma coisa relativa àquele pesadelo que lhe atormentava as noites. Mas a comunicação da transferência aguardada com ansiedade não chegara. Aquilo a irritou bem mais do que gostaria de admitir. Agora, francamente mal-humorada, mergulhou na leitura da papelada que não conseguia despertar seu interesse. Ligou o terminal de vídeo e puxou as últimas notícias e as ordens do dia. As telas se sucediam diante dos olhos, mas sua mente nada registrava. Uma longa série de reminiscências sucediam-se no “ écran ” de sua memória. Naquele momento recordava de seu aniversário de sete anos. Fora uma festa muito bonita. Ganhara de seus avós paternos uma boneca que falava e ria – a boneca de seus sonhos. Das dezenas de presentes, aquele fora de imediato o seu preferido. Passara o dia todo com a boneca debaixo do braço. Trocara a roupinha da Gisele – este o nome que lhe dera – uma centena de vezes. À noite, dormira com ela a seu lado. E foi justamente naquela noite que tivera o seu primeiro pesadelo. Estava no jardim da casa e procurava aflita pela querida boneca. Ela sumira. Sabia que Gisele estava dentro da casa, mas temia ir lá. Procurava por ela buscando convencer-se de que iria encontrá-la ali fora, no jardim. O tempo foi mudando, escurecendo, esfriando. O jardim fora-se modificando. Agora era todo de pedras escuras e de algum lugar vinha o barulho do mar. Um barulho feio, cavo, como se as ondas batessem em rochedos muito profundos. Um barulho ameaçador. Começou a correr à procura de seus pais, já não mais querendo encontrar Gisele. Sabia – e não podia compreender como – que ela era um perigo mortal. De repente, estava numa praia estreita de areia muito branca e ladeada por incríveis paredões de rocha negra. O mar à frente era escuro e subia e descia como se fosse o peito de um gigante. Ela sabia que teria de se afastar dali, e depressa. O perigo vinha do mar. Quis voltar, porém, ao virar-se, deu de cara com Gisele. Estava horrível: desgrenhada, roupas acinzentadas e muito, muito sujas, unhas enormes e nariz adunco, demasiadamente grande para o rosto horrivelmente aquilino. A boca era de lábios pálidos, finos, cobrindo dentes separados, enegrecidos mas fortes. Gisele soltava uma terrificante gargalhada e estendia os braços, aqueles braços magros, ossudos e peludos, em sua direção enquanto dizia: “ venha para mim ou morra !” Acordou aos gritos e foi a muito custo que seus pais conseguiram fazê-la calar. Não mais dormira aquela noite e no dia seguinte dera a boneca para a primeira criança que passara na sua porta.      Uma folha de papel caiu à sua frente e a moça sobressaltou-se como se um bicho muito feio tivesse pousado sobre o tampo de sua mesa. Deu um gritinho abafado e quase pulou fora da cadeira.      — Droga, Júlio, não podia colocar isto de modo mais...      Seus olhos leram as primeiras frases do memorando e ela se calou, arregalando os olhos. Ali dizia:      “DO: Chefe da Seção      PARA: A Repórter Social Mara S. Kastan Este chefe designa a repórter supracitada para substituir a repórter policial KARINA P. LAURIEL, por uma semana, junto à repórter policial LUDMILA MAKLESTER TRUNNIAN. A dupla deverá fazer a cobertura do seqüestro do filho do banqueiro KAMURATTI, ocorrido hoje, às seis horas da manhã, quando ele chegava de uma noitada pelas casas noturnas da cidade. A reportagem deverá ser conduzida pela repórter policial LUDMILA, devendo a repórter social somente prestar-lhe apoio no que ela necessitar .”      O memorando (uma Ordem de Serviço Interna, para ser mais preciso) vinha assinado por Jasão. A raiva que rugia surda no peito de Mara explodiu. Levantou-se num ímpeto e foi direto para a sala de seu chefe, um jovem bem apessoado, meio chegado a um rabo de saia e que tinha uma queda toda especial por ela. Entrou sem pedir licença e foi postar-se junto à mesa de Jasão.      — Pode-me explicar que diabo é isto? – perguntou raivosa.      — Uma O-S-I assinada por mim. Qual é o seu problema? – respondeu o rapaz olhando significativamente para a porta da sala.      — Qual é o problema? Qual é problema?? Você sabe muito bem que eu detesto a Seção Policial... – começou dizendo a repórter, mas foi cortada a seco por Jasão.      — Correção: você detesta a Ludmila. Mas aqui não há como recusar missões. Vocês são empregadas para cumprir o que o Jornal quer e não para dar vazão a chiliques pessoais. Karina está doente e você foi requisitada pelo chefe da Seção Policial a pedido da própria Ludmila que lhe fez um elogio, diga-se de passagem.      — Tô me lixando para o que ela disse de mim, aquela... mulherzinha sem compostura! Não quero trabalhar com ela – quase gritou Mara com olhar ferino.      — Lamento, mas já está designada – rebateu Jasão sem se incomodar com a zanga da moça. – Se eu estivesse em seu lugar, pegava a bolsa e ia atrás de Ludmila. Ela está a postos para sair tão logo você chegue lá. A notícia não pode esperar, lembre-se desta regra – a primeira que um repórter aprende.      Mara ficou sem palavras. Engasgou, tentou falar, entupiu e terminou por rodar nos calcanhares e sair frustrada e furiosa. Mal chegou à mesa e o seu ramal começou a tocar insistentemente. Atendeu de mau humor e ouviu a voz de Perseu, o chefe da Seção Policial.      — Mara? Está atrasada. Ludmila só está esperando que chegue, para saírem. O que há?      — JÁ ESTOU INDO! JÁ ESTOU INDO! DROGA! – gritou Mara ao bocal do aparelho, desligando-o com violência.      Perseu afastou o fone do ouvido e sorriu. Também sabia da rivalidade entre as duas, mas ambas eram excelentes repórteres. Juntas, a luta de uma para suplantar a outra era intestina. O jornal iria lucrar, pensava. Odiavam-se, mas nenhuma sabotaria o trabalho da outra. Eram profissionais competentes e responsáveis.      Ludmila, sentada à mesa, polia as unhas com um ar de satisfação. Não moveu nem um músculo quando Mara irrompeu como um furacão.      — Pronto, cheguei. O que falta, agora? – falou a jovem provocadoramente.      — Um pouco de bom humor seria bem-vindo – respondeu Ludmila, apanhando a bolsa e pondo-se de pé.      — Não dá. Você estragou tudo quando me requisitou para ser sua companheira em lugar da Karina. Pode me ter a seu lado, mas não terá meu bom humor, isto eu garanto. Vamos!      — A mim me basta sua cooperação, queridinha. E para começar, entenda quem é que manda: eu. E quem pode dizer “vamos” sou eu, compreende?      — Ora, vá a...      — Não diga! Não diga que eu posso me aborrecer. Vamos!      E Ludmila saiu lépida, deixando Mara ainda mais irritada.      “ Você me paga, ruivinha safada. Não perde por esperar ”, dizia de si para si a furibunda Mara indo no encalço de sua “chefa” momentânea... Já no automóvel de Ludmila que corria habilmente por entre aquele trânsito caótico da Avenida Presidente Vargas em busca da Rio Branco, Mara fechava-se em copas e olhava carrancuda para fora, para a confusão de pedestres e metal sob o sol quente já às sete e trinta da manhã.      — Vai ser um dia danado de quente, não acha? – puxou conversa Ludmila.      — Hum-hum – fez Mara, desinteressada.      — Ora, vamos, Mara. Sei que você não gosta de nós, da Policial. Mas é o nosso ganha-pão – disse a ruiva, tentando um apaziguamento que parecia estar longe de conseguir.      — Se sabe que não gosto de vocês, por que diabos me pediu?      — Porque eu gosto de você – respondeu Ludmila.      — Lésbica, não. Nem vem que não tem – ripostou a morena furiosa.      — Mas que cabecinha podre, hein, colega? – riu Ludmila.      — Não costumo receber declarações de amor de pessoas de meu sexo, minha cara. E sempre desconfiei das que fazem isto a alguém – provocou a morena beligerante.      — Deixe disto. Sabe que não sou chegada. Quer somente me provocar, não é? Eu não estou a fim de briga. Se estivesse, você teria de me pagar o salto do sapato quebrado por sua causa, hoje de manhã, esqueceu? – tentou apaziguar a ruiva.      — Eu gostaria que tivesse sido sua cara. Pagaria com satisfação uma plástica – rebateu Mara, azeda.      — Mas não foi. E já que está a fim de pagar, então, pagará pelo salto. Mas fará isto depois. Hoje eu estou boazinha, viu só?      Mara fuzilou a colega com um olhar felino.      — Calma, menina, calma. Não sou nenhum bicho-papão, ora bolas – disse Ludmila, jogando habilmente o automóvel para a direita e se esquivando de um taxi intrujão. Mara, em que pesasse o mau humor, começava a admirar a habilidade da outra no trânsito. Ela mesma não faria melhor.      — Você sabe quem é Kamuratti? – indagou Ludmila apaziguadoramente e querendo mudar de conversa.      — Claro que sei. Esqueceu que trabalho na Social? Os socialities são meu pão-nosso-de-cada-dia.      — Você não parece gostar de seu trabalho... ou será que estou enganada?      — E o que tem isto? Se gosto ou não, você não pode fazer nada, mesmo.      — É ... – a ruiva fez uma pausa pensando em como entrar no assunto que lhe interessava. – O que acha? – perguntou de supetão.      — Acho sobre o quê? – estranhou a outra.      — Acha deste seqüestro. Este que estamos indo cobrir.      — Nada. Mais um rico que se estrepa, só isto.      — Não, não é bem isto. Mara, tem havido muitos seqüestros ultimamente. Mas no grupo em que se mexeu agora... Os Kamuratti pertencem a uma... uma...      Ludmila hesitou procurando a palavra certa.      — Uma o quê? – inquiriu Mara, curiosa.      — Uma... uma confraria. É, é isto mesmo: uma confraria.      — Você quer dizer que são algo assim como... maçons?      — Não e sim.      — Não entendi.      — A maçonaria é uma confraria, sim. Mas até onde se sabe é voltada para os bons princípios e a Moral. Já a confraria a que os Kamuratti pertencem...      — Você está fazendo jogo para me despertar a curiosidade, não é? – perguntou Mara, desconfiada.      — Não. Eu, particularmente, tenho andado me metendo em saco de gatos, sabe? Nem mesmo a Karina tem conhecimento de minhas... atividades sherloqueanas , compreende? E descobri algo que me deixou intrigada e...      — E...?      — E com medo. É, eu estou com medo.      — Com medo de quê? – Mara fora pescada. Seu mal humor desaparecera completamente. Agora, seu faro de repórter estava aceso.      — Do que ainda não conheço, mas sinto que é muito grande – e Ludmila lançou um olhar de esguelha para sua parceira antes de continuar. – Mara, antes de prosseguir falando, eu quero pedir a você que não comente nada com ninguém sobre nossa conversa. E... pode parecer estranho, mas quero que você me ajude nisto... Pode ser?      — Eu não falar nada... Eu lhe ajudar nisto? Que isto? Está de miolo mole, é? Não gosto de encrencas, Ludmila. E esse negócio de que você fala está-me parecendo encrenca da grossa.      — E talvez seja. Talvez seja, eu ainda não sei – falou preocupada a ruiva sem tirar os olhos da rua.      — Por que não conta seja lá o que for que quer-me falar, à Karina? Afinal, vocês trabalham juntas há dois anos. Deviam ser unidas, não é? – tentou esquivar-se Mara.      — E somos. Mas Karina não sabe guardar segredo. É repórter fanática, Se descobrisse que a mãe corneava o pai, mesmo sabendo a desgraça que iria causar, colocaria a notícia na primeira página, desde que fosse um furo.      — Isto eu compreendo, mas ainda não está claro o motivo...      — De eu lhe ter escolhido? Simples. Você é pacata, discreta e... não tão fanática pelo jornalismo.      — Como pode saber disto?      — Eu trabalho na Policial, não esqueça. Cinco anos ali é tempo suficiente para se pegar algumas... manhas, entende?      — Quer dizer que tem andado me... me investigando, é?      — Desculpe a franqueza, mas sim.      — Desculpo uma ova! Eu detesto que me bisbilhotem – explodiu a morena.      — Oh, Mara, que tal uma trégua, hein? Eu estou pedindo sua ajuda. Isto não é um ponto a ser considerado?      — Mas você acaba de confessar que andou bisbilhotando minha privacidade – protestou Mara.      — Não, não. Eu só andei pesquisando certos aspectos seus. O que quer que tenha a esconder, pode ficar sossegada. Eu não fui tão longe. Afinal, também tenho escrúpulos, sabia?      — Espero que sim – disse Mara, pensando em seus pesadelos. Se a ruiva tivesse tomado conhecimento de suas sessões de análise certamente teria ido fundo para descobrir o motivo. O pessoal da Policial faz de tudo para descobrir a razão das coisas. Às vezes, por um pequeno senão, acertam em cheio e conseguem um furo. Ela fazer análise não era furo jornalístico, claro. Mas ela ser neurótica de pedra... Isto era um trunfo muito bom para chantagear num momento como aquele.      — Chegamos – avisou Ludmila. Mara deu-se conta do casarão a frente, onde um enxame de repórteres já se acotovelava na entrada. Junto com eles, a indefectível polícia com a rudeza de sempre. “ Numa hora como esta, quem será mais chato para a família: os repórteres ou os policiais? ” – pensou Mara com olhar crítico para seus colegas de outros jornais que enxameavam ali fora.      — Hei, acorda! Vamos! O trabalho nos espera.       Ludmila saltou lépida, embarafustando-se por entre a multidão que se acotovelava à entrada do portão. Mas mesmo a credencial do “EL MONDO” não foi suficiente para fazer o capitão comandante, carrancudo e truculento, deixar que elas passassem além do cordão de isolamento. Ludmila tomou Mara pelas mãos e voltou célere ao automóvel.      — O que houve? – Mara estava um tanto aturdida. Era a primeira vez que se via num trabalho daqueles e tudo lhe parecia confuso e caótico. Ludmila não disse nada. Abriu o porta-malas do auto e dele retirou uma pequena valise. Meteram-se no carro e ela fechou os vidros escuros, que dificultavam a visão de quem estivesse observando de fora.      — O que vai fazer? – perguntou Mara, atônita.      — Entrar lá e ter uma entrevista com os velhos Kamuratti – respondeu Ludmila com naturalidade.      — Mas como? – espantou-se Mara arregalando os olhos. A outra devia estar doida. Não tinham como passar pela guarda.      — Você vai ver. Sabe maquiar? – e Ludmila sorriu do espanto de sua colega.      — Sei.      — Tome esta foto. É da moça com quem o raptado namorava e com quem esteve na noite do sumiço. Veja, parece-se comigo no corpo. Só que é morena e eu, branca como uma banana descascada.      — E...?      — Você vai ajudar na minha transformação. Nesta valise tem tudo de que precisamos. Mãos à obra!      E Mara se viu envolvida numa ação cinematográfica que simplesmente a impressionou. Logo estava toda mergulhada na ação, com o coração a mil. Diante de si, Ludmila se transformava na mulher da foto. Uma cópia razoável. Peruca, pinturas e... pronto. Mesmo ela, Mara, se encontrasse Ludmila na rua, não a reconheceria. Óculos escuros ajudavam a esconder os olhos claros da colega. Um xale foi jogado sobre os cabelos de Mara e um par de óculos com alguma pintura dourada nos cabelos para parecer mais velha foi o disfarce providencial.      — Isto confunde. Agora, ação! Vamos lá!! – e a ruiva deu um tapinha na espantada colega que continuava aparvalhada a se olhar e a olhar para a outra ainda assustada.      Ludmila arrancou com o carro. Deu uma volta no quarteirão e voltou direto para o portão. O coração de Mara batia a mil por hora. Aquilo era uma loucura. Iam ser detidas. Iam ter complicações com a polícia e o jornal teria de arcar com as conseqüências...      — Pare! Quem é a senhora? – Era a voz do capitão carrancudo.      “ Estamos fritas ” – pensou Mara arrepiando-se de medo.      Ludmila pôs o rosto para fora somente o suficiente para o capitão lhe ver a face oculta atrás dos óculos escuros. Mara ouviu-a dizer em voz clara:      — Sou a noiva do Dr. Anteu Kamuratti. Preciso entrar.      — Não pode. Temos ordens expressas para não deixar passar a ninguém.      — Quer perder seu posto, capitão? – disse Ludmila com voz firme. Um monte de flashes espoucavam em torno do carro. Mara estava zonza e temerosa. Encolheu-se toda, procurando não ficar muito exposta aos seus colegas de outros jornais. Ainda bem que os vidros escuros do automóvel dificultavam qualquer foto.      — Senhora...      — Senhorita – corrigiu impositivamente Ludmila.      — Senhorita, a família está muito perturbada. Mesmo sendo a noiva do raptado, não creio que...      — Você não tem que crer ou descrer de nada, capitão. Mande que se faça uma consulta pelo interfone. Verá que os pais de meu noivo não vão-se recusar a me receber. Minha família não perdoaria este insulto.      Mara notava que, em torno do auto, microfones, gravadores e blocos fervilhavam. Tudo o que Ludmila e o Capitão conversavam era gravado e anotado.      “ Isto vai ser o diabo ” – pensou angustiada – “ Quando publicarem este diálogo falso, a noiva do tal Anteu vai pular miudinho e a polícia vai ficar com mais uma incógnita para resolver. Onde é que eu fui me meter, meu Deus ?”      O capitão pareceu um tanto embaraçado. Fez um gesto de “espere um instante” e foi ao portão. Mara o viu pegar o interfone e fazer a chamada. “ E se a moça estiver aí ?” indagou-se ansiosa. O capitão escutou por alguns instantes, fazendo sinais de assentimento com a cabeça. Depois voltou ao carro.      — Podem passar – disse. E acenou para o portão. O porteiro acionou o mecanismo automático e o grande portão de aço abriu-se.      Já percorrendo a vistosa alameda interna, onde um silêncio estranho contrastava com o ruído e o burburinho da agitação lá fora, na rua, Mara se indagava como é que Ludmila iria explicar aos Kamuratti a farsa. Principalmente como é que explicaria a presença de mais uma importuna repórter junto com ela.      — Viu como foi fácil? – disse Ludmila, quebrando o silêncio pesado dentro do auto. – Prepare-se, estamos chegando. É no casarão, ali, tá vendo?      — Vendo eu estou. O que não consigo é entender como você, depois de ter enganado o capitão, vai também enganar os Kamuratti. Eu penso que você não nos colocou somente na confusão com esta família. Meteu o capitão numa enrascada dos diabos e ele vai querer ir à forra.      — Quem, o Carlos? Ora, todo mundo na polícia sabe que este capitão é um néscio. E este é mais um motivo para a gente ficar curiosa. Como é que põem logo ele, para vigiar a casa? Não enxerga nem um palmo adiante do nariz.      O automóvel parou defronte da escadaria que levava ao alpendre da mansão. Era uma construção imponente, com a entrada toda em mármore rosa. “ Parece coisa de filme americano ” pensou Mara. Um homem de libré estava de pé, imóvel como uma estátua, observando o automóvel parar. Não se moveu nem mesmo quando elas desceram. Mara sentiu-se desfalecer ao dar de cara com dois imponentes Rotweiller, os cães assassinos, que as fitavam com cara de poucos amigos. “ Oh, Diabos” – pensou – “vamos virar comida de cão. Um péssimo meio de terminar meus dias na terra ”. Mas os cachorros permaneceram quietos. Limitaram-se apenas a olhar para elas. O homem continuava parado, fitando-as sem reação.      Ludmila subiu as escadas desembaraçadamente e foi direto ao mordomo empertigado.      — E então, senhorita, quem são as senhoras? Por que mentiu? O que deseja? – perguntou o homem com a voz carregada de indignação.      — Calma, meu velho. Uma coisa de cada vez – disse Ludmila sem se impressionar.      — Os patrões sabem que o filho deles não tinha noiva. Vocês são... algum contato? – insistiu o mordomo ainda sem se mover de onde estava.      — Você é o quê, posso saber? – perguntou Ludmila arrogante. Mara achava curioso que o homem se mantivesse firme entre ela e a entrada da mansão. Um comportamento pouco usual para um mordomo, pelo menos ao ver da moça.      — Sou o mordomo, não percebe? – respondeu arrogante o empertigado homem.      — Mais parece um segurança – disse Ludmila – e nós não somos contato de ninguém. Eu realmente estive em companhia do filho de seus patrões, ontem antes de ele desaparecer.      — Ah... E a outra, quem é? – e o mordomo antipático indicou Mara com o queixo.      — Uma amiga que me acompanha. Ela não esteve diretamente com o Anteu, mas estava comigo e eu a trouxe. Não há mal nisto, não é? – a ruiva enfrentava com galhardia o impertinente mordomo.      Há quanto tempo vocês conheciam o Dr. Anteu Kamuratti? – os olhos do mordomo fixaram-se nos de Ludmila. A repórter susteve o duro olhar do homem por alguns momentos, em silêncio. Depois, deu meia-volta e desceu as escadas.      — Vamos embora, Mara – disse ela – este cara parece que está a fim de me encher a paciência.      — Espere! – E pela primeira vez o mordomo se moveu. Desceu as escadas atrás de Ludmila – Espere um momento!      — O que deseja? – A ruiva parou já ao pé da escadaria e em atitude de desafio.      — Os patrões desejam vê-las – respondeu o mordomo, após medir em silêncio a mulher.      — Não parece. Você ficou aí, nos torrando a paciência... – debochou a repórter.      — Queira desculpar. É o meu trabalho. Tenho de proteger de importunos a família. Muita gente... como direi... inconveniente vem aqui com os pedidos mais estranhos. A senhorita não faz idéia. Por favor, queiram seguir-me.      Ludmila piscou por cima dos óculos para Mara, que sentia um frio na boca do estômago e não achava graça em nada. Desejava ardentemente cair fora dali. Era como estar pisando terreno minado. Os pelos de sua nuca se arrepiaram e isto era sinal de perigo, mas como dizer isto, agora, para a estouvada companheira?      Entraram na ante-sala do casarão. O mordomo fez sinal para que o seguissem. Mara admirou-se da grandeza e do luxo. No teto um candelabro de prata com quase mil pingentes de cristais faiscava à luz do sol que, àquela hora, atingia-o através de uma clarabóia muito bem colocada. Dois vitrais deslumbrantes reproduziam cenas bíblicas. Os móveis eram em pau-brasil. Uma raridade. Uma preciosidade. Somente banqueiros poderiam, realmente, possuir tamanha riqueza em suas casas.      Atravessaram uma imponente sala onde se destacava a monumental biblioteca em madeira escura, tomando uma parede inteira; a mobília toda em couro e os quadros de pintores famosos compunham um ambiente distinto, onde um tapete persa dava o toque de finesse . Mas apesar do luxo e da riqueza feudal, o silêncio e a sensação quase palpável de vazio que pesava sobre o lugar causava um mal estar indefinido. Por uma saída lateral passaram a um belo jardim além do qual se descortinava uma grande piscina de águas plenamente azuis. Estava cercada de cadeiras preguiçosas brancas, mas todas vazias. Uma dúzia de mesas cobertas por grandes guarda-sóis circundava a área. Do lado oposto àquele em que estavam, entre grandes e bem cuidados flamboyans , uma bela churrasqueira. Junto a ela, meio disfarçado entre as flores, um belo caramanchão sob o qual havia um casal tomando uma bebida – que Mara logo percebeu tratar-se de uma limonada rosa – “ coisa de americanos ” – pensou. O mordomo dirigiu-se para o casal e as conduziu atrás deles de modo firme.      — As senhoritas, senhor – anunciou, ao chegarem junto ao casal. Mara viu que o Sr. Kamuratti, apesar dos cabelos brancos, era um homem robusto e de corpo bem conservado, que não aparentava os sessenta e poucos anos que se dizia ter. A senhora Kamuratti era uma cinqüentona muito bem apessoada e bonita. Ambos as olharam sem muita curiosidade, mas com uma frieza de meter medo.      — Está bem, Hanzel – disse o Sr. Kamuratti – Pode ir. Quando tivermos terminado, nós o chamaremos para conduzir as... as moças.      O mordomo se retirou e o Sr. Kamuratti ficou por um momento a olhar as duas, sem lhes oferecer assento. A Sra. Kamuratti bebericou de seu copo, olhando para longe, alheia às duas jornalistas.      — Muito bem, senhoritas. Do que se trata? Sabem muito bem que o Anteu não tinha noiva. Aventuras, sim. Mas noiva, não. Definitivamente, não. Quem são vocês? – os olhos do homem queimavam, tal era a intensidade com que olhava para as duas repórteres.      — Primeiro, queremos sentar – disse Ludmila, irreverente. E ato contínuo sentou-se numa das duas cadeiras vazias diante do involuntário anfitrião, fazendo um gesto impositivo para que Mara fizesse a mesma coisa. Meio sem jeito, a moça obedeceu.      — Estão sentadas. E agora? – disse Kamuratti impassível.      — E agora, aos fatos – respondeu resoluta, Ludmila, deixando sua companheira boquiaberta e curiosa.      — Há algum tempo nós estamos... – começou a ruiva, mas foi interrompida pelo banqueiro.      — Quem é nós? – perguntou o Sr. Kamuratti.      — Não vem ao caso, no momento – rebateu Ludmila – o que é importante é que nós estivemos acompanhando os movimentos do Dr. Anteu e comprovamos que ele desenvolvia atividades... como direi? ... pouco ortodoxas, se me entende.      — Não, não entendo, senhorita. E como não me interessa o que tenha a dizer sobre meu filho... – Kamuratti estendeu a mão para a sineta de prata, mas Ludmila foi mais rápida e apanhou-a primeiro.      — Calma, Sr. Kamuratti. Não sou nenhuma chantagista, se é o que está pensando.      — Então, quem é a senhorita?      — Não estou autorizada a dizer nada a respeito disto. Só o que importa é que obtenha certas informações do senhor. Informações que manteremos absolutamente em sigilo.      — Nós, quem, senhorita? – insistiu o Sr. Kamuratti com voz metálica.      — Como eu já disse, não posso revelar nada a respeito disto, Sr. Kamuratti.      — E o que vocês querem de nós? – falou, pela primeira vez a silenciosa e observadora Senhora Kamuratti.      — Queremos saber, em primeiro lugar, se os senhores estavam, ou não, a par das atividades do Dr. Anteu. Houve um silêncio pesado durante o qual o casal se olhou interrogadoramente.      — De que atividades precisamente você fala, minha jovem? – voltou a perguntar a velha senhora.      Mara notou um tom esquisito na voz da mulher e sua intuição lhe disse logo que ela, pelo menos no momento, era mais perigosa do que o marido.      — Aquelas que não se coadunavam bem com a Lei, senhora.      A resposta de Ludmila não causou qualquer reação no Sr. Kamuratti, mas a senhora Kamuratti hesitou um momento no gesto de levar à boca o copo de limonada e isto Mara percebeu.      — Poderia ser mais explícita, minha jovem? – A Sra. Kamuratti não parecia dar importância ao que indagava, mas a tensão que repentinamente tomou conta de seu corpo dizia exatamente o contrário. Mara retraiu-se instintivamente para manter-se sob uma sombra e aproveitar os ramos da trepadeira a fim de ocultar a face ao olhar arguto da mulher. Ela passara a estudá-las com meticulosidade. Os olhos estreitavam-se por detrás das pálpebras e um brilho satânico parecia sair daquela fenda. Mara começou a olhar em volta procurando um lugar para fugir. O muro que divisava a uns duzentos metros era muito alto e não havia portão ou outra qualquer saída, exceto aquela por onde haviam entrado. “ Ludmila está doida varrida. Mesmo que saiba de algo, está-nos pondo em uma enrascada dos diabos. O que será que ela sabe ?” Mara estava em alerta. Sentia, como sempre em momentos como este, os pelos da nuca de pé. Perigo, era o que eles avisavam. Perigo grande, sabia a moça. Mas qual? No momento tudo parecia tranqüilo. Tranqüilo até demais, observou Mara.      — Há indícios de que o Dr. Anteu andava metido em assuntos escusos... como drogas, por exemplo – falou Ludmila com segurança.      — Há indícios? Onde? – a voz da mulher se tornara macia.      — Ele foi visto conversando com o marginal Kantor Antratos, o dono da maior área de jogo de bicho na cidade.      — E há alguma Lei que proíba alguém de falar com uma pessoa que não saiba de quem se trata? – indagou novamente a felina mulher.      — O Dr. Anteu não era um inocente, senhora. Ele sabia exatamente com quem tratava. Não é admissível que um homem conceituado e filho de tão tradicional e importante família de banqueiros fosse um... um bobo alegre, não é? Se assim fosse, não seria o advogado bem conceituado e de sucesso que é. Agora...      — Você anunciou-se dizendo que estivera com ele, ontem. Isto é verdade? – interrompeu o Sr. Kamuratti.      — Sim é – disse Ludmila.      — E onde estiveram, posso saber?      — Num motel – foi a resposta pronta de Ludmila, surpreendendo Mara.      — Ah... Então, você é um dos... casos de nosso filho, não é, minha cara? – havia um sorriso maligno na face da Sra. Kamuratti.      — Não, não sou nem fui. Estávamos no motel mas não fazendo o que normalmente um casal faz ali.      — E faziam o quê, posso saber?      — Conversávamos. Anteu me pedia ajuda, para ser mais precisa – respondeu Ludmila, novamente surpreendendo Mara.      — Deixa ver se entendo – disse o Sr. Kamuratti – você está afirmando que nosso filho a procurou para lhe pedir ajuda. Para isto ele a conduziu para um motel... É isto?      — Exatamente. – confirmou Ludmila.      — E por que num motel? – indagou a Sra. Kamuratti.      — Por ser um lugar onde o perigo de sermos interrompidos era bem menor. Principalmente num motel de alta rotatividade e suburbano como o em que estávamos – informou Ludmila resolutamente. A Sra. Kamuratti olhou para o marido, mas este continuou de olhos fixos em Ludmila, parecendo querer fotografá-la para uma posterior descrição.      — E... que tipo de ajuda ele queria da senhorita? – indagou novamente a Sra. Kamuratti.      — Ele sabia que estava correndo perigo. Não sei bem qual perigo, mas me disse que, se algo lhe acontecesse eu devia vir até aqui e contar aos senhores o que acontecera entre nós dois.      — Pelo que nos disse até agora, não aconteceu nada entre vocês – E o Sr. Kamuratti reclinou-se na cadeira, pondo os pés sobre o tampo da mesa. Mara notou-lhe as unhas dos pés bem tratadas e pintadas.      — Sua história não está convincente, senhorita. Creio que vou mandar chamar o delegado de polícia para recolher as duas. Quem sabe? talvez sob uma argumentação não tão... delicada, as senhoritas resolvam contar algo mais interessante, não é? – ameaçou sinistramente o banqueiro.      — Claro, claro. Com a imprensa lá fora, creio que os senhores não iriam gostar nada do que nós pudéssemos contar a respeito do Dr. Anteu. Este seqüestro, Sr. Kamuratti, é, no mínimo, suspeito – rebateu firme Ludmila.      — Por que diz isto? – E a senhora Kamuratti, pela primeira vez, voltou-se toda para a sua interlocutora. Seu tom de voz também mudou. Agora era mais incisivo e seco.      — Como eu disse no início, nós temos indícios de que o Dr. Anteu, o filho dos senhores, o conceituado advogado acima de qualquer suspeita, andava metido em muitos negócios escusos. Entre eles, a droga, talvez seja o de menor importância.      — Em que negócio mais escuso do que drogas o nosso filho poderia estar envolvido? – Indagou secamente a Sra. Kamuratti.      — Contrabando de armas para os sérvios. A mesma prática para os bósnios. Em outras palavras, ele atiçava o genocídio entre aquele povo.      — Você tem imaginação fértil, menina, muito fértil mesmo. E o Sr. Kamuratti soltou uma gargalhada sonora. Ludmila fitou-o durante um longo momento e depois, retirando de dentro de sua bolsa uma pequena carteira de identidade – que Mara não conseguiu ver de quem – jogou-a diante do banqueiro. O homem olhou a carteira e parou de rir em seco.      — Você é da... Polícia Federal?      — Sim – respondeu Ludmila e Mara sobressaltou-se. Jamais desconfiara que a ruiva fosse da polícia de verdade. Mas fazia sentido. Sua perícia no tráfego... sua segurança na ação...      — E o seu nome é mesmo este que está aqui... Irina Hess? – indagou Kamuratti olhando a ruiva com o cenho franzido.      — Sim, é.      — Muito bem, Srta. Irina – disse o Sr. Kamuratti devolvendo a estranha carteira a Ludmila – o que deseja mesmo de nós?      — Ajudar o Dr. Anteu, se puder – respondeu Ludmila.      — Como assim? – perguntou Kamuratti.      — Seu filho não sabia quem eu era. Creio que também estava inocente sobre algumas pessoas para quem trabalhava. Acho que foi seqüestrado a mando de Kantor, que a ele se apresentou sob o nome falso de Celso Cerqueira Lima, colega de profissão.      — E os contrabandos de armas de que falou há pouco? Onde se encaixam nesta história toda?      — Há uma organização estrangeira... não sabemos bem de qual nacionalidade, ainda, que conseguiu, através de testas de ferro aqui no Brasil, contratar os serviços do Dr. Anteu para desembaraços alfandegários e... dribles nas autoridades venais. Conseguir as Guias de Exportação e fazer o embarque das mercadorias sem a devida fiscalização. Como o senhor sabe, Sr. Kamuratti, não raro, uma boa propina aliada a um nome de importância minora a pobreza dos que exercem atividades de suma importância, como a alfandegária. Acreditamos que o Dr. Anteu foi envolvido no processo sem saber em que se metia. Visava tão-só aos dólares que lhe depositavam na conta da Suíça.      — Ah... Vocês sabem disto, é? – admirou-se Kamuratti.      — Sim, sabemos.      — Mas também sabem que nosso filho não precisava de dinheiro nenhum. Somos banqueiros...      — Sim, são. Mas o Dr. Anteu queria um patrimônio só seu, é o que parece. Por que aceitaria isto, se não fosse ganancioso? E aí é que está seu erro e sua inocência. Mas parece que andou descobrindo certas coisas a respeito de algumas pessoas aqui. Entre elas, o famigerado Kantor Antratos, o banqueiro de jogo de bicho que também domina o tráfico de drogas para a Europa e os EE.UU. através do Brasil. Ele não sabia que Kantor Antratos e Celso Cerqueira Lima, seu colega de Advocacia, na verdade são a mesma pessoa. Anteu descobriu que a mercadoria era armamento roubado das forças armadas brasileiras. Ficou, é lógico, preocupado com isto.      — E se ele não sabia quem você era, por que a procurou para pedir ajuda? – indagou desconfiada a senhora Kamuratti.      — Ele pensava que eu era amante de um poderoso político e veio me pedir um favor. Queria que eu, através deste político, fizesse chegar ao conhecimento do Ministro do Exército o que estava acontecendo. Mas queria ficar de fora do assunto. Eu devia dar um jeito de fazer crer que havia descoberto isto... na cama, com alguém, compreende?      — Não... não compreendo. E para ser sincero, isto me parece muito... muito romanesco, não é, senhorita? – rebateu a Velha Dama com voz que pareceu à assustada Mara conter uma nota de ameaça.      — É verdade. Mas também é muito romanesco o Banco Kamuratti fazer remessa de dólares para Israel sem o conhecimento das autoridades fiscais brasileiras, não é? – rebateu Ludmila no mesmo tom.      Caiu um pesado silêncio sobre todos. Os Kamuratti se entreolharam com ar de preocupação.      — Senhorita Irina, nossas transações comerciais com Israel são absolutamente legais. Inclusive nossa remessa de dólares está absolutamente dentro da Lei... – falou, sério, Kamuratti.      — Oh, claro, claro. Só que o Banco declara a remessa de um mil dólares e transfere um milhão... Estranho, não? – ironizou a ruiva.      — Como sabe disto? – Os olhos de Kamuratti brilharam malignamente.      — Sabendo. E sei mais. Por exemplo, sei que os nomes reais dos senhores não são Kamuratti. Este, é somente uma cobertura.      — E... qual seria, a seu ver exclusivo, senhorita, o nosso nome real, podemos saber? – Os olhos de Kamuratti eram uma fenda escura e ameaçadora.      — Mondelstan Fulsenthal Khahn. Os senhores são o casamento de duas famílias tradicionalistas. Estou certa?      Kamuratti olhou firme para Ludmila. Depois levantou-se e deu alguns passos. Parou de costas para elas, meteu as mãos nos bolsos do short ficou olhando para o céu azul, balançando-se sobre as pernas. Mara vislumbrou um leve sorriso no rosto da senhora Kamuratti.      — Quem mais sabe sobre este nosso pequeno segredo, senhorita Irina? Suponho que todo o seu Departamento, não é?      — Isto eu não posso dizer, Sr. Mondelstan... quero dizer, senhor Kamuratti.      — Já o disse, senhorita Irina. Já o disse.      Kamuratti veio até as moças e debruçou-se sobre a mesa para olhar bem nos olhos velados pelos óculos escuros de Ludmila.      — Senhorita, não sei bem o que fazem aqui, mas não vieram, certamente, com o objetivo de ajudar Anteu. O que querem exatamente?      — Primeiro, esclarecer até onde os senhores sabiam que Anteu estava envolvido com certa organização estranha no exterior. Segundo, saber qual o envolvimento dos senhores nas atividades de Anteu. Terceiro e mais importante, saber se Anteu era mesmo filho dos senhores, como todo mundo pensa.      — E a senhorita julga mesmo que nós iríamos dizer simplesmente sim ou não, a estas suas perguntas? Por que faríamos isto?      — Porque, se Anteu é mesmo filho dos senhores, terão interesse em que eu o ajude através de minha organização, a P.F.      — E por que a sua organização... a Polícia Federal ajudaria a um criminoso? Sim, porque se Anteu está mesmo envolvido com a tal organização estrangeira dedicada a fomentar guerras, é um criminoso internacional. E se nós admitíssemos pura e simplesmente a uma agente da Polícia, o que a senhorita é, não é? – Se nós admitíssemos que estávamos e estamos a par e envolvidos com as atividades supostamente criminosas de nosso filho então, automaticamente, nos confessaríamos criminosos também. E não vejo, sinceramente, como pode esperar que cometamos tamanha tolice, senhorita.      — Não temos interesse em envolvê-los nesta história, senhor Kamuratti. Se estão a par e envolvidos diretamente, então, a Polícia Federal quer propor-lhes um acordo.      — E qual é?      — Anteu é mesmo filho legítimo dos senhores?      — Por que a dúvida?      — Questão de segurança, somente. Ele é ou não é?      — Por que faz esta pergunta tão estranha, Irina? – A senhora Kamuratti fizera a pergunta, mas olhava diretamente para Mara, tentando vislumbrar-lhe o rosto. Sorte da moça que o sol estava contra os olhos da mulher.      — Porque temos informações de que a senhora é estéril – disse a queima-roupa Ludmila. A senhora Kamuratti sentiu o golpe. Empalideceu e o copo quase lhe escapa das mãos. Mas isto foi momentâneo. Quase imperceptível para quem não estivesse atentamente observando o grupo, como o fazia Mara .      — Não, ela está estéril. Isto é diferente. Minha mulher não foi sempre estéril, não. Ficou assim devido a uma infecção bacteriana. Uma infecção que adquiriu no hospital, após o parto de Anteu.      Ludmila olhava fixamente para Kamuratti e este lhe sustentou o olhar sem pestanejar.      — Muito bem, então. A Polícia Federal vai libertar o Dr. Anteu para os senhores. Mas informo que ele não está mais no país.      — Mas como... – espantou-se Kamuratti, olhando o relógio.      — Ele foi levado diretamente para o aeroporto internacional e despachado como bagagem para um certo país do oriente – informou Ludmila com segurança. Nós o libertaremos, mas em troca os senhores nos dão os nomes de todos os testas-de-ferro que agem em nosso país, tanto no campo das drogas, como no de escravas brancas e roubos de crianças.      — Impossível! Absolutamente impossível, senhorita Irina. Nós não podemos informar o que não sabemos – explodiu Kamuratti.      — É possível, é possível. Mas através de Anteu, quando nós o entregarmos são e salvo, os senhores poderão descobrir quem são estas pessoas. Farão isto mais facilmente do que nós e sem o perigo de a Imprensa pôr a boca no mundo, certo?      — E quanto à... remessa de dólares, como fica? – indagou melíflua, a senhora Kamuratti.      — Não alertaremos o fisco, desta vez. Mas o banco terá de regularizar sua transação, daqui por diante, certo?      — Onde poderemos encontrá-la, senhorita Irina? – perguntou Kamuratti.      — Não se preocupem com isto. Eu os encontro. É melhor assim, para todos nós.      Kamuratti sentou-se pensativo. Seu olhar estava perdido em algum ponto do espaço à sua frente.      — Senhoritas, creio que sabem que tenho poder suficiente para averiguar se tudo o que nos disseram é a verdade. Creio que sabem, também, que posso localizar exatamente onde estão, se realmente pertencem à Polícia Federal. E estou certo de que sabem que eu lhes posso ser um terrível pesadelo, se me mentiram em qualquer detalhe do que conversamos, não é?      — Sim, é claro que sabemos. Mas devemos avisar-lhe que esta atitude sua não seria bem vista por nossos chefes e...      — Libertem Anteu, se puderem. Então, depois que ele estiver conosco, voltem aqui e conversaremos – cortou, seco, Kamuratti.      — Tudo certo, senhor Kamuratti. Podemos ir, então.      Kamuratti tilintou a sineta de prata e o mordomo surgiu como por encanto bem perto de Mara, que levou um tremendo susto.      — Hanzel, conduza as senhoritas para a saída. E Hanzel...      — Sim, senhor Kamuratti.      — Anote a placa do carro delas.      — Já o fiz, senhor Kamuratti. E já verifiquei, também. Pertence a uma agência de aluguel de automóveis.      — De quem é a agência?      — Do Sr. Samuel Schroeder – respondeu Ludmila, sorrindo. Aquela locadora de automóveis pertencia aos Kamuratti.      — Leve-as – disse, seco, o banqueiro.      As moças acompanharam o mordomo pelo mesmo caminho por onde haviam entrado. Desceram as escadas e se dirigiram para o automóvel quando, de repente, um dos cães começou a rosnar. Mara olhou para a escada e não mais viu o mordomo. Estavam, portanto, à mercê das feras. O que poderiam fazer contra aqueles animais perigosíssimos?      Os cães, com os pelos das costas arrepiados, avançaram devagar, fauces arreganhadas, baba escorrendo pela bocarra e olhos amarelos fuzilantes. Era a morte certa que vinha ao encontro das duas. Ludmila parou atônita. Olhou em volta, mas não viu vivalma. Meteu a mão devagarinho na bolsa, mas os olhos do maior dos dois cães pareceu compreender que dali podia sair algo perigoso. O rosnado tornou-se mais feroz e o animal avançou mais depressa, açulando, com isto, o seu companheiro menor, mas nem por isto, menos perigoso.      — Ludmila – gritou Mara – Pare!      Mas a ruiva sacou a pistola Beretta e disparou rapidamente contra os animais. Errou por pouco a testa do que vinha na frente, mas o atingiu de raspão na ilharga. Isto foi o suficiente para que o animal enlouquecesse. Dois potentes latidos, um salto feroz e o cão estava literalmente sobre Ludmila. Esta, pulou de lado, tropeçou e veio cair quase aos pés de Mara. O cão não fez falta. Mal tocou o chão e voltou-se disposto a estraçalhar as mulheres. Mas algo inusitado aconteceu. Mara estava de pé, olhando fixamente para a besta-fera. Não sentia medo. Ao contrário, estava esquisitamente serena. Um pensamento estranho lhe passou pela cabeça: “ ataque seu companheiro ”. O cão parou em seco o avanço e permaneceu olhando nos olhos de Mara. Neste momento o outro cão passava pelo grandalhão como uma flecha em direção a Ludmila. Num átimo foi atacado e posto ao solo pelo companheiro. Engalfinharam-se numa briga feroz. Mara estendeu nervosamente a mão para a companheira e gritou:      — Vamos aproveitar! Levante-se!!      Ludmila pôs-se de pé num salto e ambas correram para o automóvel onde entraram e fecharam os vidros. Os cães engoliam-se numa luta demoníaca e apavorante. Os rugidos eram ouvidos ao longe, mas estranhamente o mordomo não voltou para ver do que se tratava.      Ludmila arrancou com o carro. Estava trêmula e quase não conseguia controlar o volante. Foi em ziguezagues que chegaram aos portões. Eles foram abertos pelo porteiro sem questionamento e Ludmila passou quase atropelando os colegas que tentaram aproximar-se do auto. Mesmo os policiais tiveram que se afastar correndo.      Voaram pelas ruas como bêbedas. Nem mesmo prestaram atenção para onde estavam indo. Finalmente, já no Recreio dos Bandeirantes, a motorista pareceu voltar a si e diminuiu a velocidade suicida.      — Vamos procurar um bar e tomar um drink – falou a ruiva. A voz ainda estava trêmula e esganiçada de nervoso.      — Hum-hum – fez Mara, estranhando a própria serenidade.      Ludmila encostou o automóvel num barzinho aprazível à beira-mar e ambas desceram. Pediram uma cuba-libre, e ficaram em silêncio. Somente quano haviam engolido os primeiros goles é que a ruiva falou.      — Aquilo foi tentativa de assassinato, tenho certeza.      — Eu também acho que sim – disse Mara.      — Ainda bem que aqueles animais não se respeitavam muito.      — É, ainda bem.      — Você está bem, não está?      — Sim, estou sim.      Calaram-se e beberam. O álcool aos poucos foi acalmando e pondo em ordem os pensamentos das duas.      — Ludmila – chamou Mara – aquela história de Polícia Federal... É verdade? Você é mesmo “tira”?      Ludmila riu à vontade.      — Eu convenci mesmo, não foi?      — O que quer dizer com isto?      — Eu não sou Polícia Federal coisa nenhuma. Foi um blefe e dos bons.      — E a identidade?      — Consegui com uns amigos a quem ajudo vez por outra nos seus problemas.      — E o nome, a tal de Irina Hess. De onde tirou?      — Ah, isto é outra história.      — Que história?      — Um dia eu lhe conto, tá bem?      — Por que não agora?      — Porque temos de retirar este disfarce. Os Kamuratti têm mil olhos e eu não duvido que a esta altura estejam procurando por uma morena metida num carro de placa LKV-8876, marca Ford, modelo Scort, cor vermelha, ano 94. Preciso voltar a ser ruiva e já.      — E o carro?      — Vou telefonar e mandar que venham apanhá-lo. Veremos isto daqui mesmo.      — E como é que vamos embora?      — De taxi, minha cara, de taxi. É para isto que um rádio-taxi serve, não é?      — Bem... – Mara deu de ombros. Ela só precisava devolver o chale e os óculos escuros. Ficou sentada enquanto Ludmila ia ao banheiro com a maletinha. Em meia-hora estava novamente a Ludmila que Mara conhecia.      — E então, como estou?      — Está Ludmila, novamente.      — E a seus olhos?      — Como assim?      — Mudou alguma coisa nos seus sentimentos de antipatia para comigo?      — Bem... Pra falar a verdade, eu ainda não sei. Estou com a carantonha daqueles cachorros danados em minha frente.      — Eu entendo... Eu também ainda os tenho na retina. Foi algo que a gente vai demorar muito a esquecer.      Ludmila sentou-se e terminou sua bebida. Eram quase onze horas e elas sentiram fome.      — Vamos almoçar? – convidou a ruiva – Eu pago.      — Tudo bem. Estou mesmo com muito apetite. Acho que foi o álcool... – disse Mara.      Chamaram o garçon e fizeram o pedido. Mara preferiu peixe. Ludmila pediu polvo. Comeram em silêncio. Estavam acabando quando viram chegar o chofer que vinha apanhar o carro. Ficaram observando em silêncio. O homem deu uma volta em torno do veículo, verificando suas condições externas. Depois, com outra chave, abriu o carro. Abriu o porta-luvas e apanhou as chaves que Ludmila deixara lá dentro. Verificou minuciosamente o carro por dentro. Só quando se deu por satisfeito, anotou a quilometragem rodada e deu partida. Em pouco tempo sumia na pista.      — Bem – disse Mara –, estamos a pé.      — Por pouco tempo. O taxi deve chegar dentro de alguns minutos.      — Enquanto isto, você bem podia me esclarecer alguns pormenores obscuros desta história, não é? – insistiu a morena.      — Com prazer. O que você quer saber?      — Em primeiro lugar, aquela história toda sobre o tal Anteu é verdade? Você esteve mesmo com ele num motel? Ele lhe pediu realmente a ajuda que você disse que ele tinha pedido? O homem está mesmo envolvido até o pescoço com drogas, escravas brancas etc, etc? O Banco faz mesmo as remessas criminosas para Israel? Os nomes que você deu aos Kamuratti são verdadeiros, isto é, eles usam nomes falsos? E mais...      — Puxa vida, vai devagar. Uma coisa de cada vez, sim?      — Você não foi devagar comigo. Fiquei tão perplexa quanto o senhor Kamuratti e sua consorte.      — Tudo bem. Vamos começar pela sua primeira pergunta. A resposta é não. Eu não estive com o tal Dr. Anteu num motel. Aliás, eu pessoalmente nem conheço o fulano.      — E como é que podia dar tantas informações a respeito dele?      — Karina. Ela, sim, esteve com ele. Foi por isto que se resfriou.      — Então a Karina é que é a polícia?      — Não há polícia coisa nenhuma. Aquilo foi história de última hora que eu usei para conseguir abrir um pouco aqueles espertalhões. Me deixe continuar, sim?      — O.K., vá em frente.      — Karina andava de namorico com o tal Dr. Anteu. Ele, parece, apaixonou-se mesmo por ela e andou fazendo algumas confissões em momentos de enlevo, compreende? Por exemplo: ele lhe contou que só veio a saber que o tal de Dr. Celso Cerqueira Lima era o marginal Kantor Antratos há coisa de duas semanas atrás. Confessou que usou de meios ilegais, como dar propinas e usar o peso de seu nome para despachar alguns caixotes, para a Bósnia e a Sérvia, a fim de prestar um favor... regado a dólares, é claro, para o tal Celso. Ao tomar conhecimento de quem era aquele seu amigo, tratou de conseguir uma vistoria em uma das caixas e ficou sabendo a respeito das armas. Compreendeu que corria perigo de vida e pediu ajuda a Karina. No dia do seqüestro ambos foram raptados juntos. Karina foi joga da fora do carro em movimento. Os marginais queriam que parecesse um acidente. Para sorte dela, caiu dentro de um charco de lama e não se machucou como os danados queriam. Mas ficou com um tremendo resfriado. Karina me contou a parte da história que conhecia. Eu fui investigar o resto. Com a ajuda de amigos da Polinter vim a saber da tal organização internacional. Tudo indica que as armas são enviadas para êmulos dela naqueles países. Parece que são mercenários a mando de uma terceira potência estrangeira... Eu, na verdade, não sei bem como é que é a história. O que sei é que o tal Kantor foi informado por alguém sobre a descoberta que Anteu havia feito. O meliante foi conversar com ele, na pele do colega Celso, e ficou sabendo da intenção de Anteu de comunicar tudo a Polícia Federal, saindo fora da situação. É por isto que acho que foi o Kantor o autor material do seqüestro de Anteu.      — Autor material... Você quer dizer que houve um mentor para o seqüestro? Ele foi planejado por outra pessoa? – perguntou Mara, curiosa e interessada.      — Creio que sim. Anteu andou descobrindo algo bem mais aterrador para ele. Segundo Karina, de uma semana para cá ele vinha andando muito nervoso e agitado. Num dia em que havia bebido um pouco mais da conta, deixou escapar que seus pais não se chamavam Kamuratti e sim outros nomes. Karina não entendeu a história. Anteu disse que seus genitores eram outros. Os Kamuratti apenas o haviam criado. Depois, desconversou. Karina ficou alerta e tratou de investigar, mas não teve tempo de descobrir muita coisa. Somente fez com que Anteu se pusesse alerta e desconfiado. Eu, então, entrei na jogada. Através de amigos na Interpol consegui saber que os Kamuratti não eram de descendência italiana, como faziam a todo mundo crer. Na verdade, Kamuratti era o nome fantasia de uma antiga loja brechó que existiu na Cracóvia e que foi destruída, suspeita-se, pela ação de um grupo nebuloso. A loja pertencia a uma família de judeus, tinha o nome formado pela fusão de dois outros. O de um japonês, YOSHIO KAMURA, e o nome NICHOKALATTI, parece que uma congregação judaica de cunho religioso a quem o japonês ajudava financeiramente em agradecimento por ter sido salvo de um grave acidente e tratado pelos integrantes da NICHOKALATTI. Esta comunidade também foi varrida do mapa pelo tal grupo de conhecimento obscuro.      — Por que você diz “de conhecimento obscuro”?      — Porque não consegui descobrir quem era, o que fazia, nem o que tinha como objetivo o tal grupo. Era chamado por um apelido muito esquisito: NAHASH. Parece que todos, judeus e poloneses, tremiam só de ouvir este apelido.      — Uma seita “tong” polonesa? – indagou Mara.      — Não sei, mas não era nem polonesa nem judaica. Pelo menos, nenhum membro destas raças que eu entrevistei soube dizer qualquer coisa a respeito. Apenas falaram dela ainda com certo receio. Disseram a mim que, antigamente, todos tremiam só de ouvir este apelido.      — E o que significa NAHASH?      — Parece que significa algo assim como SERPENTE... ou coisa parecida. Na verdade, não me interessei muito por isto. O que eu procurava era descobrir a história dos tais Kamuratti. Ano passado, em minhas férias, fui à Polônia. Perambulei por entre sebos, entrevistei dezenas e dezenas de pessoas e, quando já desanimava, encontrei numa velhinha de quase noventa anos, uma informação importante. Ela havia conhecido o senhor Salomon Hammerstein, dono do brechó Kamuratti. Ela me contou que depois de ter sido misteriosamente incendiada e de ter seus donos perdido tudo o que possuíam, um tal senhor JOHANZ MODELSTAN KHAHN comprara o terreno onde o brechó existira e no local construíra um banco. Era uma construção pequena e a mulher já não lembrava mais o nome do banco. A família MONDELSTAN é de origem judaico-polonesa. Não foi difícil descobrir a história dos Mondelstan, pois, entre os judeus, a árvore genealógica é de suma importância e é conservada cuidadosamente. Os Mondelstan eram da classe media alta e o banco, na verdade, era deles. Mas era muito pequeno e não ia lá muito bem das pernas nos idos de 1948, quando o filho mais velho do clã Mondelstan, um tal de Erich Mondelstan, passeando pela Hungria, conheceu a filha ricaça da família FÜLSENTHAL. Não sei como se deu a história, mas casaram e fundaram o BANCO KAMURATTI.      — Parece uma história muito humilde para um potência como é o Banco hoje – comentou Mara.      — Pudera. O KAMURATTI contou com o apoio inconteste dos ROTSCHILD, minha cara.      — É mesmo? Eu não fazia a menor idéia a respeito – espantou-se Mara.      — Nem você, nem a maior parte dos não-judeus. O apoio sempre foi muito secreto.      — E... e por que isto?      — Não sei. Mas o Banco Kamuratti enveredou por outros caminhos, Mara – disse Ludmila, pensativa e com o olhar perdido no vazio.      — O que quer dizer com isto? – indagou, curiosa, Mara.      — Ainda não tenho provas, são somente suspeitas, por isto, amiga, prefiro não falar nada por agora. Minha... nossa incursão na casa dos Kamuratti, hoje, foi uma provocação minha. Resolvi cutucar a cobra na toca. A esta altura o Sr. Kamuratti já deve saber que eu não existo na Polícia Federal..      — Você, não. A tal de Irina Hess, não é?      — Sim, sim, a Irina.      — E o que acha que ele vai fazer quando descobrir isto?      — Vai-se mexer, minha amiga. Vai-se mexer e sair da toca.      — Ludmila, seja sincera: nós corremos perigo? – Mara estava ficando muito perturbada com o rumo da conversa. A imagem dos cães lhe veio à recordação e lhe tirou de imediato o sossego que o ambiente trouxera para ela.      — Por enquanto, não – respondeu Ludmila observando um Camaro que acabava de estacionar. Dele saltaram quatro homens muito bem trajados que permaneceram ao lado do auto, observando a praia e tecendo comentários sobre qualquer coisa no mar.      — Estou-me lembrando de que não tinha qualquer maquiagem nem peruca, nem nada que me disfarçasse – disse Mara, cada vez preocupada com a encrenca em que se vira metida.      — Você foi fundo o tempo todo, Mara. E o chale escuro encobria muito bem o seu rosto. Eu não creio que tenham prestado muita atenção em sua presença. Eu fui quem mais incomodou. Comentei coisas perigosas e fiz lances altos como aquele da remessa de dólares para Israel.      — É, como foi que você tomou conhecimento disto?      — O Banco Kamuratti paga um alto suborno ao fiscal do I.R. para que ele feche os olhos. Acontece que eu fiz alguns favores ao homem e...      — Que tipo de favores, Ludmila? – Mara olhou a amiga censurosamente.      — Nada do que você possa estar pensando, Mara. É verdade que os favores foram sexuais, mas eu só intermediei a coisa.      — Como assim?      — Coloquei a mulher que ele queria na cama dele. Só isto.      — O porcaria não tinha competência para conquistar a mulher que desejava? Tinha de você fazer isto para ele?      — Bem... ela era casada, compreende?      — Casada??? E você... Oh, Ludmila, que baixeza!      — Depende do ponto de vista. A moral humana, Mara, é muito elástica, sabe? O que a horroriza pode perfeitamente ser encarado como o trivial por muitas outras pessoas. Veja, o fiscal está feliz com a amante. Ela, por sua vez, está felicíssima com ele. Até passou a agüentar melhor o marido! E tem mais: o marido é estéril. Ela sabia disto, ele é que não. Mas ela tinha temor de lhe falar a respeito, pois temia a reação do homem. Coisas de machões brasileiros. Com o amante ela pôde engravidar. O marido se sentiu realizado e tudo terminou bem. A criança é amada pelos três. No meu ponto de vista fiz muito bem em juntar os dois...      — No meu, não – disse Mara, aborrecida.      — Bom, o certo é que ele me deu a informação... Não diretamente. Eu concluí de algumas frases dele... pistas que deixou soltas no ar de propósito. A gente terminou acostumando-se a trabalhar assim. Eu lhe dou informações “sem querer dar” e ele faz a mesma coisa por...      Ludmila teve a atenção voltada para os quatro homens. Caminhavam disfarçadamente pelo sol escaldante observando os autos. Eram somente uma dúzia, se tanto.      — O que foi? – sobressaltou-se Mara, voltando a cabeça para procurar o que prendia a atenção da companheira. Viu os quatro homens e um pressentimento ruim lhe passou pela cabeça.      — Você acha...      — Psssit! – fez Ludmila – Eu não tenho certeza, mas o mais lógico é que o Senhor Kamuratti tenha entrado em contato com a agência do Salomão para saber sobre o carro. Daí, mandar quatro marmanjos para aqui é o mais elementar. Eu devia ter previsto isto.      — Mas você acha que são homens dele? – angustiou-se Mara.      — Eu não sei... Podem ser. É esquisito quatro homens andando pela areia escaldante do sol de meio-dia vestidos de paletó e gravata. Principalmente quando estão sondando os carros estacionados.      — Acham que procuram por nós? – perguntou aflita, Mara.      — Não, por nós, não. Mas... Pense comigo: você sabe que duas mulheres vieram para cá e aqui entregaram o carro alugado. Das duas uma: ou elas tinham outro carro esperando, aqui, ou estão aguardando táxi, não é? Se tinham outro carro, foram embora. Mas tendo saído afobadas pelo ataque dos cães... Teriam sangue frio suficiente para completar o plano ou...?      — Ou...?      — Ou teriam vindo aleatoriamente até este local e só então é que resolveram abandonar o carro? Se os marmanjos são os que estamos supondo, eles permanecerão por ali... talvez venham até este bar, ou a um dos outros atrás, averiguar quem são os possíveis donos dos carros; talvez fiquem por aqui esperando a chegada de um taxi...      — Meu Deus! E você pediu um táxi, não pediu?      — Sim, e esta é minha preocupação. Se o taxi chegar e nós entrarmos nele é certo que despertaremos as suspeitas dos quatro ali. E eles nos seguirão para onde formos.      — O que faremos? Eu estou-me sentindo muito mal. Nunca antes me meti numa camisa de onze varas, Ludmila. Mas em meio dia você me fez passar o diabo! – exclamou Mara sentindo o estômago se contrair. Aquilo estava-lhe parecendo cenas de um filme de suspense.      — Ainda não, meu bem, ainda não – disse Ludmila dando-lhe tapinhas no braço. – Espere mais um pouco e você vai ver o que é camisa de onze varas. Agora, ajude-me a pensar. E seja rápida. O taxi está quase chegando. Temos de encontrar uma saída e depressa!      — E se não tomarmos o táxi e deixarmos que volte vazio?      — Teremos despertado suspeita do mesmo jeito. Os brutamontes vão ter somente que esperar até que todos tenham saído. As duas bobocas que ficarem... Fácil, não?      — Droga! Que entaladela!      Ludmila olhou o salão. Havia somente um casal além delas, naquele bar. Talvez nos outros houvessem outras tantas pessoas. Ia ser como tirar doce de uma criança para aqueles quatro descobrirem as duas.      — Ludmila, o táxi! Ele vem lá! – E Mara apontou angustiada para um ponto amarelo que surgia na curva a uns quatro quilômetros de onde estavam.      — Tem certeza que é ele?      — Sim, pela cor. E tem qualquer coisa em cima da capota. Só pode ser a plaquinha... O que faremos?      — Para grandes males, grandes remédios. Faça a cara mais séria e fechada que puder. Pare de tremer. Me siga e somente acene com a cabeça, entendeu?      — Não.      — Ótimo! Limite-se a fazer como estou dizendo.      E Ludmila levantou-se indo direto para a mesa de um casal que aguardava a conta.      — Boa-tarde. Pode-me dizer seus nomes?      — O quê? – perguntou, surpreso, o rapaz.      — Seus nomes, por favor – insistiu Ludmila, séria.      — Mas.. Por que...?      — Não questione. Faça o que estou pedindo. E rápido!      Enquanto falava. Ludmila estendia para o homem a carteira de Polícia Federal.      — Polícia...? – espantou-se o jovem rapaz      — Shhhhiit! Vocês estão vendo aqueles quatro homens lá?      O casal olhou, aturdido, para os homens que vinham aparentemente descontraídos em direção ao bar.      — Sim, senhora – falou o rapaz. – O que têm eles?      — São terroristas. Nós estamos no encalço deles há algum tempo. Mas agora estamos em desvantagem. Eles querem nos cercar. Se conseguirem, vai haver tiroteio e, possivelmente, feridos ou mortos.      — Meu Deus! – exclamou assustada a moça. Mara reconheceu nela a ricaça Milena Forcis e tremeu. Ludmila complicava mais ainda a situação delas. O rapaz só podia ser o Dr. Luís Filipe, o empresário da companhia de Táxis Aéreos Céu Azul e filho do Deputado Luís Filipe Nettus, o homem público mais em destaque no momento político do país. Será que a ruiva não sabia disto?      — Vocês tem automóvel? – perguntou a falsa policial com voz firme.      — Sim, senhora. É aquele Del Rey ouro estacionado lá! – disse o jovem, apontando para o único automóvel parado sob uma sombra rala.      — Vocês vão nos ajudar, certo? – impôs a repórter.      — O que... o que devemos fazer? – tartamudeou a moça visivelmente assustada.      — Vamos todos sair como se fôssemos velhos amigos. Descontraiam. Vocês nos dão carona. Eles não vão desconfiar de nada, pois não sabem ainda quem somos nós. Sabem somente que as pessoas que devem capturar são duas mulheres que estão aqui, aguardando um contato para dentro de... – Ludmila olhou o relógio – uns dez minutos. Conhecem o contato e é através dele que poderão chegar a nós.      As duas mulheres sentaram-se à mesa junto com o casal e chamaram o garçon. Pediram a conta e o rapaz fez o pagamento às pressas. Levantaram e saíram em grupo contando piadas. Passaram pelos quatro homens que as olharam de soslaio, mas sem lhes dar muita importância, exceto um deles, um homem forte, alto, cabelos pretos e bem cuidados e beirando os quarenta anos. Tinha nariz aquilino, bem feito, pele branca e usava anel de grau de advogado. Era peludo, de pelos claros, o que contrastava com a cabeleira escura. Seu olhar penetrante e intenso cravou-se em Mara e rapidamente percorreu sua silhueta. A moça estremeceu quando seus olhares se cruzaram por momentos. “Meu Deus, que maldade ele tem no coração”, pensou de si para consigo sem saber explicar-se porque sentia aquela vibração esquisita vindo do homem diante dela. “Ele nos fará grande mal” predisse mentalmente.      A companheira do rapaz agarrou com mais força o braço dele murmurando baixinho:      — Estão armados. Eles estão armados, meu bem.      — Eu vi – disse o rapaz no mesmo tom de voz.      Mara tropeçou num degrau e perdeu o equilíbrio, dando alguns passos desordenados para o lado. Uma forte mão lhe amparou o corpo como se ela não tivesse peso. Era o homem de olhar terrível.      — Está segura – disse ele, com um sorriso que, ao invés de lhe suavizar o rosto, ao contrário, endurecia-lhe mais ainda os traços.      — Não é sempre que uma mulher bonita me cai nas mãos.      — Eu... eu... obri... obrigada – tartamudeou Mara lutando contra o asco que o ser tocada pelas mãos fortes do homem lhe causava. Com um aceno impositivo de cabeça Ludmila fez o casal acompanhá-la até junto do homem.      — Tudo bem, Magda? – indagou, abraçando a companheira pela cintura.      — Co... como? – perguntou Mara, aturdida.      — Você está be...?      — Sim – cortou o homem, firme –, ela está bem. Muito bem. E vocês, estão bem? – Os olhos dele escrutinavam os quatro. Demorou um pouco mais em Milena Forcis e uma ruga lhe surgiu na testa. Conheceria a mulher? Se conhecia, fez que não.      — Estamos, obrigada – foi a resposta tranqüila de Ludmila que sustentou o olhar de águia do homem, fixo nos olhos dela.      — Não querem acompanhar-nos numa bebida? – convidou ele ignorando totalmente o rapaz.      — Estávamos acabando de sair justamente após beber nosso drink – disse Ludmila, tranqüila e com um sorriso brejeiro.      — Bem, podiam voltar... se quisessem – insistiu o homem.      — Tenho audiência em uma hora com o juiz de paz da primeira vara de família. Sinto muito, fica para outra vez, O.K.? – disse Mara surpreendendo totalmente Ludmila.      — Advogada...? – surpreendeu-se o homem.      — Sim. E vejo que o senhor é meu colega de profissão – mentiu Mara tão convincente que Ludmila a olhou interrogadoramente.      — Mas não lido com problemas afetivos – falou ele.      — Qual sua especialidade? – interrogou Mara.      — Direito Empresarial – disse ele de modo natural.      — Em férias? – perguntou Ludmila.      — Não. A negócios. E vocês, o que fazem por aqui?      — O casal aqui é nosso cliente – mentiu Mara – e estamos a trocar informações sobre o assunto que vamos tratar daqui a pouco.