KOREAEBOOKDOCUMENT1.3.0O Mistrio de PargosFred FoldeBooksBrasileBooksBrasilQ ndice ndice na Obra O Mistério de Pargos – Vol. I Fred Fold Edição eBooksBrasil Versão para eBook eBooksBrasil.com Fonte Digital Documento do Autor Copyright: © 2001 – Fred Fold fredfold@ig.com.br O MISTÉRIO DE PARGOS VOLUME 1 ÍNDICE PRÓLOGO CAPÍTULO 1 A DESCOBERTA CAPÍTULO 2 A HISTÓRIA SE COMPLICA CAPÍTULO 3 SURGE UMA LUZ CAPÍTULO 4 O COMBATE CAPÍTULO 5 OS KAMURATTI CAPÍTULO 6 A VELHA DAMA CAPÍTULO 7 UMA LUZ PARA DAMASTOR CAPÍTULO 8 CRESCE A INTRIGA CAPÍTULO 9 A FORÇA OCULTA CAPÍTULO 10 SURGE UM NOME E TUDO SE COMPLICA CAPÍTULO 11 A OUTRA FACE DA REALIDADE QUE NÃO VEMOS CAPÍTULO 12 O ATENTADO PRÓLOGO        Existe, lá para os lados da França e da Suíça, um mistério secular. Este mistério, segundo pesquisa acurada e cuidadosa levada a efeito por Michael Baigent, Richard Leight e Henry Lincoln, persiste até nossos dias e tudo indica que continuará pelo próximo milênio. Sobre a pesquisa assim se pronunciaram o Canadian Jewish News: “um dos trabalhos mais importantes e provocantes dos últimos anos” ; e a Newsweek : “ ultrapassa em muito uma história de mistério ”, para citar somente duas dentre as fontes credenciadas que endossaram a pesquisa realmente digna de nota pelo conteúdo, pela profundidade e pelo zelo em apurar ao máximo a verdade.      O mistério tem uma designação: O Monastério do Sinai      O Monastério do Sinai foi fundado como uma Ordem Secreta pelos Templários e seu ano de nascimento, segundo os pesquisadores, data de 1090 e seu fundador foi Godfroi de Bouillon, Duque de Lorraine e conquistador de Jerusalém, a Terra Santa. Seu irmão mais jovem, Baudouin I, foi o primeiro Rei de Jerusalém após a conquista.      Baudouin I foi um rei eleito, isto é, ele não era rei por linhagem sanguínea. No entanto, René Grousset afirma que com ele passara a existir uma “tradição real” porque sua dinastia era fundada sobre A ROCHA DO SINAI . Por isto, este renomadíssimo historiador iguala a dinastia de Baudouin I àquelas de destaque na História e reinantes na Europa, tais como a dinastia francesa dos Capetos, a dinastia anglo-normanda dos Plantagenetas, as dinastias Hohenstauffen e Habsburgo, dominantes na Alemanha e no Sacro Império Romano mais antigo.      Quem ou o que é a Rocha do Sinai e por que tem o poder de conferir tradição real a uma dinastia que não a possúa por sangue?      A pesquisa de Michael Baigent e seus colegas concluem que ela é nada menos que o homem mais desconhecido, mais controvertido, mais polêmico e sempre em moda no mundo todo – Yoshua Bar Yosef, ou seja, Jesus, filho de José.      Derrubando uma montanha de mitos sobre este homem curioso e desconhecido, ainda que tão cantado e responsável por tantas seitas religiosas, muitas ferozmente sanguinárias – em que pese sua lenda sempre afirmar ter sido Ele o Senhor da Paz – o livro The Hole Blood and The Hole Grail leva-nos a uma conclusão fantástica: Jesus não morreu crucificado, foi casado com Maria Mdalena que, após a morte d’Ele, teria fugido para a França levando seus filhos.      A Rocha do Sinai , portanto, teria deixado descendência como qualquer mortal.      O Monastério do Sinai seria uma Organização Místico-Ocultista que teria por objetivo levar ao trono de Israel um descendente direto de Jesus . Mas o Monastério não foi criação de judeus e, sim, de arianos templários. Até porque para os judeus, Jesus não teve nada de sagrado e é considerado, até o presente, somente um homem. Quando muito lhe atribuem a condição de Profeta, embora a maioria o tenha como um agitador e um conturbador da paz.      Na luta milenar pelo poder, o Monastério tem enfrentado Papas e Reis, Imperadores e Tiranos, sempre mantendo seu objetivo em mira. Um dos seus membros mais famosos foi Richelieu, cuja importância para a França é notória. Richelieu era esoterista como todos os outros membros famosos que ocuparam o mais destacado cargo na Ordem, o de Nautonier , que, em francês antigo, quer dizer Navegador. Entre as personagens famosas da História Universal que se diz terem sido Grãos Mestres no Monastério podemos citar Nicolas Flamel, Leonardo da Vinci, Robert Fludd, Robert Boyle, Isaac Newton, Charles Radclyffe, Victor Hugo e Claude Debussy entre outros.      A França tem sido o palco onde se desenrola a novela do Monastério e chamamos a atenção para o fato de que antigamente a Suíça era um condado francês. No final do Séc. XIX o renascimento do ocultismo francês influiu profundamente em São Petersburgo, na Rússia, e o grupo de Papus tinha privilégios junto ao Czar e à Czarina russos. Esta situação privilegiada despertou muitas oposições e entre elas destaca-se a da Grã-duquesa Elizabeth que buscava colocar seus próprios protegidos nas graças do Czar russo. Entre estes protegidos sobressaiu Sergei Nilus. Este homem, em torno de 1903, entregou ao Czar um documento estranho que, segundo ele, continha supostos testemunhos de uma perigosa conspiração para a dominação do mundo . Parece que ele queria com isto angariar as graças do Czar, mas deu-se mal. O documento foi considerado ultrajante, sua destruição foi ordenada pelo Czar e Sergei foi banido da Rússia.      Embora ordenada a sua destruição, uma cópia de tais documentos escapou e foi publicada, ainda em 1903, por um jornal. Em 1905 voltou a ser veiculado, desta feita na forma de um livro escrito por um filósofo místico, Vladimir Soloviov.      Inicialmente ninguém deu atenção aos tais documentos, mas com o passar do tempo eles se transformaram em motivo de libelo feroz entre distintos povos e entre pessoas de destaque no mundo. Passaram a ser conhecidos pela denominação mais comum – Os protocolos dos Sábios de Sion . Desgraçadamente – não se sabe bem porque – atribuiram estes Protocolos a fontes judaicas e isto serviu para açular o anti-semitismo na época. Instigados pela leitura de documentos tão horríveis, o Exército Branco Russo responsabilizou a comunidade judia na Rússia pela revolução de 1917, e de 1919 a 1921 aquele exército massacrou em torno de sessenta mil judeus por isto.      Alfred Rosenberg, que foi o principal teórico racial e propagandista do Partido Nacional Socialista Alemão, divulgou os Protocolos na Alemanha e diz-se que Adolf Hitler acreditou piamente na suposta autenticidade judaica daqueles documentos.      Os protocolos têm sido discutidos no mundo todo, ora dados como válidos, ora provados como uma farsa odiosa. Eles pregam o domínio do mundo por uma facção judaica conhecida como os Sionistas.      Segundo os pesquisadores que vimos citando, ficou de fato estabelecido que os Protocolos foram escritos com base em um trabalho satírico escrito e publicado em Genebra em 1864.      A sátira visava atacar Napoleão III e quem a escreveu teria sido um homem chamado Maurice Joly, membro de uma Ordem Rosacruz. Tudo indica que ele era amigo de Victor Hugo e este era antipatizante de Napoleão III e foi Grão Mestre da Ordem do Sinai.      Notam os pesquisadores que o texto dos Protocolos terminam com uma única afirmação “ Assinada por representantes de Sion do 33 Grau ”. Isto é incongruente com a tese de que tais documentos teriam sido editados no Congresso Judaico Internacional de Basle. É na Maçonaria que existe o 33, além do que os Protocolos falam de um reino maçom com um rei de sangue de Sion.      Judeu ou não judeu, os Protocolos foram a causa de muitas lutas e muito derramamento de sangue humano – independente de raça ou credo. Negá-los pura e simplesmente pode ser perigoso. Ele teve o poder de influenciar um louco – Hitler – e talvez tenha sida um dos principais fatores causativos para a maior mancha na História da Humanidade sobre a Terra.      Megalomaníaco, os Protocolos, contudo, impressionam. Lamentavelmente as pesquisas indicam que eles mais parecem criação de Cristãos do que de judeus.      Por diversas vezes o Monastério se viu dividido. Dele nasceu a Maçonaria, a Rosacruz e muitas outras seitas e irmandades ocultistas secretas.      A mais secreta de todas, a menos averiguada, a mais fanática e a que ainda não foi descoberta por ninguém é aquela que tenta se guiar pelos ditames dos Protocolos.      Seu nome? A GRANDE NAHASH.      A história que se segue é uma ponta do véu que encobre a atuação desta Fraternidade cujo sonho de seus filiados é a obtenção da Vida Eterna sobre a Terra doada para eles, os escolhidos do Deus Único.      A história se passa no silêncio e à sombra da História, como é o normal para os acontecimentos realmente fundamentais para o Ser Humano. E tudo se inicia muito distante de Israel, no terrível drama de vida ou morte de um grupo de repórteres brasileiras... CAPÍTULO I A DESCOBERTA         As águas estavam serenas e azuis. Um pescador solitário lança a rede e a recolhe várias vezes, sem peixe. Pacientemente, ele continua sua faina. É de meia idade, forte, pele curtida pelo sol. Ao longe, vê-se uma ilha. É muito escarpada e os paredões rochosos mergulham direto nas águas azuis e escuras. Aqui e acolá branqueia uma pequena nesga de areia fofa formando estreitas prainhas. Arrecifes pontiagudos e perigosos cercam a ilha. São entremeados por escuras e lodosas pedras negras. Onde o homem se encontra, contudo, o mar é profundo e sereno. As águas sobem e descem num ritmo contínuo e macio, parecendo o pulsar de um coração. A uma pessoa desacostumada, aquele subir e descer ao ritmo de uma respiração, como se o barquinho estivesse sobre o tórax de um imenso gigante adormecido, meteria medo. Mas aquele pescador nem parece notar o portento sob seus pés. Concentra-se todo no ato de jogar a rede e recolhê-la metodicamente. Ela lhe vem sempre vazia, mas ele não desanima. Com a paciência característica de todos os que vivem do mar, volta a arremetê-la com a mesma precisão da jogada anterior talvez, agora, pela centésima vez. O barquinho sobe e desce e, a cada vez, o homem se sente mergulhado dentro de uma imensidão de água que lhe retira a visão momentaneamente de tudo a sua volta, encurtando-lhe o horizonte por alguns instantes. Numa das subidas do barco o pescador vislumbra algo. Um monte de sargaços preso às pontas agudas das pedras negras que sobressaem das águas, a uns cento e cinqüenta metros de onde se encontra. Teve a impressão muito rápida, quase subliminar, de que algo se mexeu dentro dos sargaços. O pescador firmou a vista e tapou o sol com a mão espalmada sobre os olhos, esperando o barquinho voltar a subir numa nova inspiração do mar. Sim, há algo estranho entre os sargaços. Recolhe a rede apressadamente e rema até bem próximo dos perigosos escolhos. No alto, as gaivotas fazem um grande alarido, mas o homem nem as nota. Com dificuldade amarra a embarcação em uma das pontiagudas e negras pedras e salta n’água. Braçadas vigorosas o levam até o balseiro que desvencilha das pedras com o auxílio de uma faca afiada e o reboca, a nado, até o barco. Já na embarcação, o homem olha para o meio dos liames escorregadios. Sim, ali está. Numa pequena cesta de junco seco ele enxerga um corpinho de criança. Cuidadosamente o pescador recolhe o pequenino ser. É uma menininha e está muito ferida. O homem a deposita no fundo da embarcação e começa a remar com força. A criança arde em febre e aparenta ter sede. A garganta lhe dói muito. Gostaria de chorar, mas não pode. O sol lhe queima os olhinhos e ela “sabe” que há um enorme perigo para o homem e a ilha. O perigo vem com ela. Sabe de tudo, mas não pode falar. Nem mesmo chorar o choro preso em seu ser. Ela “vê” uma enorme jamanta arrastando-se silenciosamente sob o barco. Nas costas do gigantesco mamífero aquático há um desenho. É um rosto. Um pavoroso rosto de mulher. Desgrenhada, horripilante, a mulher olha o barquinho com maldade. A menininha “sente” que está no meio de um furacão... Enormes labaredas saem das águas e sobem... sobem... estão atingindo o barquinho! Ela está em pânico. Precisa desesperadamente gritar...      Mara senta-se na cama, olhos esbugalhados, molhada de suor. A boca desmesuradamente aberta não solta nenhum som. A expressão é de pavor. Demora alguns segundos antes de compreender que está em seu quarto, na sua cama, não em um barquinho à deriva, num mar de fogo. A moça curva a cabeça e respira profundamente, tentando acalmar o coração. Ele bate descompassadamente no peito, a ponto de lhe atrapalhar a respiração. “Calma, rapaz, calma” – diz de si para consigo – “foi só um sonho mau.... Já passou!” Levanta-se com dificuldade porque o corpo treme muito. Vai à cozinha e toma um copo d’água do filtro de parede.      — Droga! – pragueja em voz baixa e rouca – mais uma vez este maldito pesadelo. Eu já devia estar acostumada, afinal ele me persegue desde que nasci. E pára sempre no mesmo ponto. Oh, meu Deus, isto é enervante!      Ela volta à sala ainda com a mão sobre o peito. Sai para a varanda. Quer o ar fresco da madrugada. Talvez lhe acalme o ser. Veste um “ baby-doll ” preto e muito transparente e não tem roupa de baixo. O púbis de pelos escuros se delineia entre as coxas, mas ela não se incomoda. Mora no vigésimo andar e são quase duas da madrugada. Todos dormem e não há nenhum edifício à frente para que um “ voyeuriste ” com uma luneta indiscreta lhe esteja bisbilhotando a intimidade.      A vista que descortina é muito bonita.      Seus olhos vagueiam pela cidade adormecida. Em baixo, no viaduto Paulo de Frontin, os carros passam silenciosos. Vê as luzes traseiras vermelhas e amarelas. “ De onde estarão vindo ou para onde estarão indo ?” – interroga-se sem poder encontrar resposta. Lá ao longe há um morro iluminado. Visto assim, parece estar coberto de inocentes estrelas caídas ao chão, umas mais brilhantes, outras, nem tanto. “ Quem sabe, venham a noite fazer traquinagem na terra, enquanto as pessoas dormem ?” – pensou Mara e sorriu. Não, ela sabia que não. Em cada um daqueles pontos luminosos um drama se desenrolava silenciosamente. Talvez alguém estivesse sendo assassinado como queima de arquivo. Talvez uma criança estivesse sendo estuprada por um marginal tarado. Talvez alguém estivesse apanhando uma surra injusta, imposta pelo álcool que tirara a razão de outro alguém... Desviou os olhos do morro para um amontoado de pequenas luzinhas distantes. Outras luzinhas coloridas subiam e desciam como se fossem anjos indo e vindo da terra ao céu e deste à terra. Mara sabia que eram aviões chegando e saindo do Aeroporto Internacional do Galeão. A aragem da madrugada lhe refrescara o corpo e acalmara a agitação, mas o sono se fora e isto a irritava. Lembrou-se de sua terapeuta e um pensamento maldoso passou-lhe pela cabeça. “ Eu devia acordá-la e azucrinar-lhe a cabeça com o meu pesadelo. Ela tem de sair desta história de autopunição por problema edípico mal solucionado. Não creio nisto. O sonho é muito real, quase sinto o sol a me queimar... E o homem... o pescador. Ele é tão real, tão palpável... Acordo sentindo ainda suas mãos em meu corpo... Sim, sou aquela menina. Sou ela, tenho certeza. Mas meu pai jamais foi pescador. Que eu me lembre, nunca pegou num anzol, sequer. Era professor e químico. Passou a vida entre a sala de aula e as retortas do laboratório. E a ilha?... Jamais estive em uma ilha igual àquela. Nem sei de nenhuma que se pareça com ela. Acho que nunca vou encontrar em algum lugar na Terra algo daquele jeito. E no entanto, coisa absurda, sinto que ela existe. Só não sei onde. Santo Deus, isto vai deixar-me louca !”      Voltou à sala e ligou a TV, um enlatado de terror. Mudou o canal, um melodrama de 1950, desligou o aparelho, chateada. Queria ver alguma coisa diferente... mas o quê? No íntimo, sabia que nada que a Televisão apresentasse lhe agradaria. O que desejava era ver a ilha. E certamente isto nunca iria aparecer na telinha mágica. Foi ao banheiro e tomou uma ducha bem demorada. Enxugou-se e, nua, dedicou-se à prática dos belíssimos e harmoniosos movimentos do TAI-CHI-CHUAN. Engolfada pela magia dos suaves movimentos, Mara nem percebeu que o dia clareava de mansinho, como se não quisesse perturbar o poético quadro de seu corpo esguio e leve na dança da arte marcial. Ouviu o barulho da fechadura da porta a ser aberta e compreendeu que sua empregada acabava de chegar. Vinha pontualmente às 5:30 da manhã. Ouviu-a ligar o radio, baixinho, para escutar seu programa matinal predileto. Ouviu-a mexendo nos utensílios e ligar o gás do fogão. Ela preparava o desjejum. Mara ouvia tudo, mas sem perder sua harmonia. Foi até o fim do exercício que terminou suada e totalmente desperta. Voltou ao banheiro para uma nova ducha. Enxugou-se, foi ao quarto e vestiu-se com simplicidade. Fez uma maquiagem leve, que punha em realce seus olhos escuros levemente oblíquos. O conjunto branco de saia e blusa fazia sobressair suas curvas suaves. Ela detestava a coqueluche da moda – o tênis. Não possuía nenhum par. Calçou uma sandália vermelha, de estilo romano, colocou um batom quase de tom natural dentro da sua bolsinha de maquiagem. Fez a mesma coisa com o blush, o lápis de sobrancelha e a bolceta de moedas; a caneta esferográfica, o talão de cheques e os três cartões de crédito foram parar dentro da bolsa a tiracolo que pretendia levar e se deu por satisfeita. Mirou-se no espelho e alisando os quadris com um gesto voluptuoso inconsciente, sentiu-se maravilhosa e muito bem consigo mesma, foi para a sala de café, embora sem conseguir afastar de todo a lembrança vívida das imagens do mau sonho.      Comeu com apetite. Joana, a doméstica, uma senhora idosa e de pouco falar, não apareceu. Finalmente, tomou o suco de laranja, levantou-se e saiu sem se preocupar com a velha companheira de quase vinte anos de trabalho a seu lado. Joana praticamente a criara. Sabia de seus gostos, de suas manias, de tudo. Sabia o quê, o como e o quando fazer as coisas no apartamento. Mara não lhe tinha de dar ordens e isto a alegrava muito. Joana era caladona por natureza. Raramente conversavam e seu prazer maior era ouvir o rádio. Às vezes acontecia de passar semanas sem se falarem. Algumas, até mesmo sem se encontrarem. Isto não incomodava em nada a nenhuma das duas. Mesmo assim, cada qual sentia o profundo afeto que nutriam mutuamente.      Enquanto Mara descia no elevador em direção à garagem, do outro lado da cidade, no Leblon, uma ruiva cheia de curvas acentuadas, alta, olhos caramelados como os de uma gata e olhar sensual como o de um animal no cio acabava de sair em seu carro esporte. Ludmila tinha voz macia e insinuante, parecendo estar sempre a prometer algo que ela não estava disposta a dar – prazer. Vinha preocupada com sua companheira de reportagens, Karina, que sofrera um atentado e estava de cama, curtindo um forte resfriado. Ambas trabalhavam na “policial” e a ruiva não desejava, justo agora, ficar sem a parceira. Precisava colocar alguém no lugar dela, mas na seção não tinha nenhuma outra que lhe merecesse a confiança. Havia uma colega, mas da “social” e, para seu azar, a moça não ia com sua cara. Chamava-se Mara e Ludmila simpatizava muito com o modo caladão, discreto e arredio da sua colega de trabalho. Embora fosse muito discreta, a moça já demonstrara que tinha um faro infalível para sacar notícias sensacionalistas onde todos não conseguiam ver nada.      Mara ainda estava com o pensamento no pesadelo quando, saindo do elevador, no vigésimo primeiro andar da redação de “EL MONDO”, deu um encontrão em Ludmila.      Elas não eram muito amigas. Mara achava a outra fútil e não gostava da seção em que Ludmila trabalhava – a “policial”. A convivência acentuada com a violência, o crime, a corrupção e a miséria humana do submundo da pobreza fabricada pela desídia dos políticos e dos cartéis da indústria, do comércio e dos bancos, tudo fazia com que os repórteres da seção policial adquirissem modos de agir, comportamentos e linguajar absolutamente desagradáveis a pessoas do tipo de Mara, pacata, refinada e sonhadora.      O encontrão pegou Ludmila de surpresa. Ela se desequilibrou e quebrou o salto do sapato. Pior que isto, esparramou pelo chão o conteúdo da pasta que sobraçava.      — Lud... Meu Deus, desculpe-me!      — Tinha de ser você, né desajeitada? – falou ácida a repórter policial.      — Eu sinto muito, mesmo. Não foi por querer. Eu vinha pensando... Oh, deixe-me ajudar, por favor.      As mãos puseram-se a juntar a papelada.      — Você sabe da última? – indagou Ludmila e Mara pôs-se imediatamente em alerta. Qualquer coisa no timbre de voz da outra estava errado, mas não captou o que fosse.      — Que última? – perguntou, desconfiada.      — A Karina arriou com um baita resfriado – disse a ruiva a olhar deliberadamente para o chão.      — Isto não é furo jornalístico – rebateu Mara, entregando-lhe os papéis que juntara – todo mundo pega um resfriado vez por outra, ora essa.      — É, mas poucos têm a felicidade de trabalhar a meu lado – falou quase num sussurro, a ruiva.      Os pelos da nuca de Mara se arrepiaram como os de um gato à aproximação de um cão. Ela não compreendeu porque este sinal de alarma.      — Pode ser que você veja este... acidente de trabalho como uma felicidade. Mas para a mosca, felicidade é viver no lixo... – disse Mara maldosa e provocadoramente.      — Por acaso está-me chamando de... lixo? – Os olhos de Ludmila fuzilavam. Havia perigo no ar. Mara se deleitou por perceber que conseguira atingir a outra.      — Que absurdo, querida. Quis apenas dizer que o conceito de felicidade não é a mesma coisa para todos.      — Ah, bom... Pois eu espero que você não identifique nem a mim, nem ao meu trabalho com... com lixo, sabe, meu amor?      Antes que Mara pudesse dizer algo, Ludmila saiu coxeando e rindo de modo incompreensível para a moça. Mara ficou a olhá-la com ar preocupado. Ludmila devia ter ficado doida de raiva, como era o seu natural, quando provocada. Era o que se poderia normalmente esperar da ruiva, não aquele riso. Na opinião de Mara, quando Ludmila ria era porque o Diabo estava em festa. Ficou olhando por algum tempo a porta do banheiro por onde a ruiva desaparecera ainda sentindo a nuca arrepiada. Seu bom humor tinha sido nublado.      Resolvida a não se deixar deprimir com o estranho comportamento de sua colega, Mara entrou decidida em na seção em que trabalhava.      — Bom-dia, gente! – cumprimentou esfuziantemente a todos e foi direto para a mesa que lhe era destinada. A primeira coisa que fez foi rebuscar atentamente entre a correspondência recebida, mas não encontrou o que esperava. Ela solicitara, há duas semanas, transferência à revelia de Jasão, seu chefe atual. Desejava ir trabalhar na seção de pesquisas históricas e arqueologia. O arquivo daquela seção era riquíssimo e em seu íntimo Mara esperava encontrar lá qualquer pista que lhe possibilitasse descobrir alguma coisa relativa àquele pesadelo que lhe atormentava as noites. Mas a comunicação da transferência aguardada com ansiedade não chegara. Aquilo a irritou bem mais do que gostaria de admitir. Agora, francamente mal-humorada, mergulhou na leitura da papelada que não conseguia despertar seu interesse. Ligou o terminal de vídeo e puxou as últimas notícias e as ordens do dia. As telas se sucediam diante dos olhos, mas sua mente nada registrava. Uma longa série de reminiscências sucediam-se no “ écran ” de sua memória. Naquele momento recordava de seu aniversário de sete anos. Fora uma festa muito bonita. Ganhara de seus avós paternos uma boneca que falava e ria – a boneca de seus sonhos. Das dezenas de presentes, aquele fora de imediato o seu preferido. Passara o dia todo com a boneca debaixo do braço. Trocara a roupinha da Gisele – este o nome que lhe dera – uma centena de vezes. À noite, dormira com ela a seu lado. E foi justamente naquela noite que tivera o seu primeiro pesadelo. Estava no jardim da casa e procurava aflita pela querida boneca. Ela sumira. Sabia que Gisele estava dentro da casa, mas temia ir lá. Procurava por ela buscando convencer-se de que iria encontrá-la ali fora, no jardim. O tempo foi mudando, escurecendo, esfriando. O jardim fora-se modificando. Agora era todo de pedras escuras e de algum lugar vinha o barulho do mar. Um barulho feio, cavo, como se as ondas batessem em rochedos muito profundos. Um barulho ameaçador. Começou a correr à procura de seus pais, já não mais querendo encontrar Gisele. Sabia – e não podia compreender como – que ela era um perigo mortal. De repente, estava numa praia estreita de areia muito branca e ladeada por incríveis paredões de rocha negra. O mar à frente era escuro e subia e descia como se fosse o peito de um gigante. Ela sabia que teria de se afastar dali, e depressa. O perigo vinha do mar. Quis voltar, porém, ao virar-se, deu de cara com Gisele. Estava horrível: desgrenhada, roupas acinzentadas e muito, muito sujas, unhas enormes e nariz adunco, demasiadamente grande para o rosto horrivelmente aquilino. A boca era de lábios pálidos, finos, cobrindo dentes separados, enegrecidos mas fortes. Gisele soltava uma terrificante gargalhada e estendia os braços, aqueles braços magros, ossudos e peludos, em sua direção enquanto dizia: “ venha para mim ou morra !” Acordou aos gritos e foi a muito custo que seus pais conseguiram fazê-la calar. Não mais dormira aquela noite e no dia seguinte dera a boneca para a primeira criança que passara na sua porta.      Uma folha de papel caiu à sua frente e a moça sobressaltou-se como se um bicho muito feio tivesse pousado sobre o tampo de sua mesa. Deu um gritinho abafado e quase pulou fora da cadeira.      — Droga, Júlio, não podia colocar isto de modo mais...      Seus olhos leram as primeiras frases do memorando e ela se calou, arregalando os olhos. Ali dizia:      “DO: Chefe da Seção      PARA: A Repórter Social Mara S. Kastan Este chefe designa a repórter supracitada para substituir a repórter policial KARINA P. LAURIEL, por uma semana, junto à repórter policial LUDMILA MAKLESTER TRUNNIAN. A dupla deverá fazer a cobertura do seqüestro do filho do banqueiro KAMURATTI, ocorrido hoje, às seis horas da manhã, quando ele chegava de uma noitada pelas casas noturnas da cidade. A reportagem deverá ser conduzida pela repórter policial LUDMILA, devendo a repórter social somente prestar-lhe apoio no que ela necessitar .”      O memorando (uma Ordem de Serviço Interna, para ser mais preciso) vinha assinado por Jasão. A raiva que rugia surda no peito de Mara explodiu. Levantou-se num ímpeto e foi direto para a sala de seu chefe, um jovem bem apessoado, meio chegado a um rabo de saia e que tinha uma queda toda especial por ela. Entrou sem pedir licença e foi postar-se junto à mesa de Jasão.      — Pode-me explicar que diabo é isto? – perguntou raivosa.      — Uma O-S-I assinada por mim. Qual é o seu problema? – respondeu o rapaz olhando significativamente para a porta da sala.      — Qual é o problema? Qual é problema?? Você sabe muito bem que eu detesto a Seção Policial... – começou dizendo a repórter, mas foi cortada a seco por Jasão.      — Correção: você detesta a Ludmila. Mas aqui não há como recusar missões. Vocês são empregadas para cumprir o que o Jornal quer e não para dar vazão a chiliques pessoais. Karina está doente e você foi requisitada pelo chefe da Seção Policial a pedido da própria Ludmila que lhe fez um elogio, diga-se de passagem.      — Tô me lixando para o que ela disse de mim, aquela... mulherzinha sem compostura! Não quero trabalhar com ela – quase gritou Mara com olhar ferino.      — Lamento, mas já está designada – rebateu Jasão sem se incomodar com a zanga da moça. – Se eu estivesse em seu lugar, pegava a bolsa e ia atrás de Ludmila. Ela está a postos para sair tão logo você chegue lá. A notícia não pode esperar, lembre-se desta regra – a primeira que um repórter aprende.      Mara ficou sem palavras. Engasgou, tentou falar, entupiu e terminou por rodar nos calcanhares e sair frustrada e furiosa. Mal chegou à mesa e o seu ramal começou a tocar insistentemente. Atendeu de mau humor e ouviu a voz de Perseu, o chefe da Seção Policial.      — Mara? Está atrasada. Ludmila só está esperando que chegue, para saírem. O que há?      — JÁ ESTOU INDO! JÁ ESTOU INDO! DROGA! – gritou Mara ao bocal do aparelho, desligando-o com violência.      Perseu afastou o fone do ouvido e sorriu. Também sabia da rivalidade entre as duas, mas ambas eram excelentes repórteres. Juntas, a luta de uma para suplantar a outra era intestina. O jornal iria lucrar, pensava. Odiavam-se, mas nenhuma sabotaria o trabalho da outra. Eram profissionais competentes e responsáveis.      Ludmila, sentada à mesa, polia as unhas com um ar de satisfação. Não moveu nem um músculo quando Mara irrompeu como um furacão.      — Pronto, cheguei. O que falta, agora? – falou a jovem provocadoramente.      — Um pouco de bom humor seria bem-vindo – respondeu Ludmila, apanhando a bolsa e pondo-se de pé.      — Não dá. Você estragou tudo quando me requisitou para ser sua companheira em lugar da Karina. Pode me ter a seu lado, mas não terá meu bom humor, isto eu garanto. Vamos!      — A mim me basta sua cooperação, queridinha. E para começar, entenda quem é que manda: eu. E quem pode dizer “vamos” sou eu, compreende?      — Ora, vá a...      — Não diga! Não diga que eu posso me aborrecer. Vamos!      E Ludmila saiu lépida, deixando Mara ainda mais irritada.      “ Você me paga, ruivinha safada. Não perde por esperar ”, dizia de si para si a furibunda Mara indo no encalço de sua “chefa” momentânea... Já no automóvel de Ludmila que corria habilmente por entre aquele trânsito caótico da Avenida Presidente Vargas em busca da Rio Branco, Mara fechava-se em copas e olhava carrancuda para fora, para a confusão de pedestres e metal sob o sol quente já às sete e trinta da manhã.      — Vai ser um dia danado de quente, não acha? – puxou conversa Ludmila.      — Hum-hum – fez Mara, desinteressada.      — Ora, vamos, Mara. Sei que você não gosta de nós, da Policial. Mas é o nosso ganha-pão – disse a ruiva, tentando um apaziguamento que parecia estar longe de conseguir.      — Se sabe que não gosto de vocês, por que diabos me pediu?      — Porque eu gosto de você – respondeu Ludmila.      — Lésbica, não. Nem vem que não tem – ripostou a morena furiosa.      — Mas que cabecinha podre, hein, colega? – riu Ludmila.      — Não costumo receber declarações de amor de pessoas de meu sexo, minha cara. E sempre desconfiei das que fazem isto a alguém – provocou a morena beligerante.      — Deixe disto. Sabe que não sou chegada. Quer somente me provocar, não é? Eu não estou a fim de briga. Se estivesse, você teria de me pagar o salto do sapato quebrado por sua causa, hoje de manhã, esqueceu? – tentou apaziguar a ruiva.      — Eu gostaria que tivesse sido sua cara. Pagaria com satisfação uma plástica – rebateu Mara, azeda.      — Mas não foi. E já que está a fim de pagar, então, pagará pelo salto. Mas fará isto depois. Hoje eu estou boazinha, viu só?      Mara fuzilou a colega com um olhar felino.      — Calma, menina, calma. Não sou nenhum bicho-papão, ora bolas – disse Ludmila, jogando habilmente o automóvel para a direita e se esquivando de um taxi intrujão. Mara, em que pesasse o mau humor, começava a admirar a habilidade da outra no trânsito. Ela mesma não faria melhor.      — Você sabe quem é Kamuratti? – indagou Ludmila apaziguadoramente e querendo mudar de conversa.      — Claro que sei. Esqueceu que trabalho na Social? Os socialities são meu pão-nosso-de-cada-dia.      — Você não parece gostar de seu trabalho... ou será que estou enganada?      — E o que tem isto? Se gosto ou não, você não pode fazer nada, mesmo.      — É ... – a ruiva fez uma pausa pensando em como entrar no assunto que lhe interessava. – O que acha? – perguntou de supetão.      — Acho sobre o quê? – estranhou a outra.      — Acha deste seqüestro. Este que estamos indo cobrir.      — Nada. Mais um rico que se estrepa, só isto.      — Não, não é bem isto. Mara, tem havido muitos seqüestros ultimamente. Mas no grupo em que se mexeu agora... Os Kamuratti pertencem a uma... uma...      Ludmila hesitou procurando a palavra certa.      — Uma o quê? – inquiriu Mara, curiosa.      — Uma... uma confraria. É, é isto mesmo: uma confraria.      — Você quer dizer que são algo assim como... maçons?      — Não e sim.      — Não entendi.      — A maçonaria é uma confraria, sim. Mas até onde se sabe é voltada para os bons princípios e a Moral. Já a confraria a que os Kamuratti pertencem...      — Você está fazendo jogo para me despertar a curiosidade, não é? – perguntou Mara, desconfiada.      — Não. Eu, particularmente, tenho andado me metendo em saco de gatos, sabe? Nem mesmo a Karina tem conhecimento de minhas... atividades sherloqueanas , compreende? E descobri algo que me deixou intrigada e...      — E...?      — E com medo. É, eu estou com medo.      — Com medo de quê? – Mara fora pescada. Seu mal humor desaparecera completamente. Agora, seu faro de repórter estava aceso.      — Do que ainda não conheço, mas sinto que é muito grande – e Ludmila lançou um olhar de esguelha para sua parceira antes de continuar. – Mara, antes de prosseguir falando, eu quero pedir a você que não comente nada com ninguém sobre nossa conversa. E... pode parecer estranho, mas quero que você me ajude nisto... Pode ser?      — Eu não falar nada... Eu lhe ajudar nisto? Que isto? Está de miolo mole, é? Não gosto de encrencas, Ludmila. E esse negócio de que você fala está-me parecendo encrenca da grossa.      — E talvez seja. Talvez seja, eu ainda não sei – falou preocupada a ruiva sem tirar os olhos da rua.      — Por que não conta seja lá o que for que quer-me falar, à Karina? Afinal, vocês trabalham juntas há dois anos. Deviam ser unidas, não é? – tentou esquivar-se Mara.      — E somos. Mas Karina não sabe guardar segredo. É repórter fanática, Se descobrisse que a mãe corneava o pai, mesmo sabendo a desgraça que iria causar, colocaria a notícia na primeira página, desde que fosse um furo.      — Isto eu compreendo, mas ainda não está claro o motivo...      — De eu lhe ter escolhido? Simples. Você é pacata, discreta e... não tão fanática pelo jornalismo.      — Como pode saber disto?      — Eu trabalho na Policial, não esqueça. Cinco anos ali é tempo suficiente para se pegar algumas... manhas, entende?      — Quer dizer que tem andado me... me investigando, é?      — Desculpe a franqueza, mas sim.      — Desculpo uma ova! Eu detesto que me bisbilhotem – explodiu a morena.      — Oh, Mara, que tal uma trégua, hein? Eu estou pedindo sua ajuda. Isto não é um ponto a ser considerado?      — Mas você acaba de confessar que andou bisbilhotando minha privacidade – protestou Mara.      — Não, não. Eu só andei pesquisando certos aspectos seus. O que quer que tenha a esconder, pode ficar sossegada. Eu não fui tão longe. Afinal, também tenho escrúpulos, sabia?      — Espero que sim – disse Mara, pensando em seus pesadelos. Se a ruiva tivesse tomado conhecimento de suas sessões de análise certamente teria ido fundo para descobrir o motivo. O pessoal da Policial faz de tudo para descobrir a razão das coisas. Às vezes, por um pequeno senão, acertam em cheio e conseguem um furo. Ela fazer análise não era furo jornalístico, claro. Mas ela ser neurótica de pedra... Isto era um trunfo muito bom para chantagear num momento como aquele.      — Chegamos – avisou Ludmila. Mara deu-se conta do casarão a frente, onde um enxame de repórteres já se acotovelava na entrada. Junto com eles, a indefectível polícia com a rudeza de sempre. “ Numa hora como esta, quem será mais chato para a família: os repórteres ou os policiais? ” – pensou Mara com olhar crítico para seus colegas de outros jornais que enxameavam ali fora.      — Hei, acorda! Vamos! O trabalho nos espera.       Ludmila saltou lépida, embarafustando-se por entre a multidão que se acotovelava à entrada do portão. Mas mesmo a credencial do “EL MONDO” não foi suficiente para fazer o capitão comandante, carrancudo e truculento, deixar que elas passassem além do cordão de isolamento. Ludmila tomou Mara pelas mãos e voltou célere ao automóvel.      — O que houve? – Mara estava um tanto aturdida. Era a primeira vez que se via num trabalho daqueles e tudo lhe parecia confuso e caótico. Ludmila não disse nada. Abriu o porta-malas do auto e dele retirou uma pequena valise. Meteram-se no carro e ela fechou os vidros escuros, que dificultavam a visão de quem estivesse observando de fora.      — O que vai fazer? – perguntou Mara, atônita.      — Entrar lá e ter uma entrevista com os velhos Kamuratti – respondeu Ludmila com naturalidade.      — Mas como? – espantou-se Mara arregalando os olhos. A outra devia estar doida. Não tinham como passar pela guarda.      — Você vai ver. Sabe maquiar? – e Ludmila sorriu do espanto de sua colega.      — Sei.      — Tome esta foto. É da moça com quem o raptado namorava e com quem esteve na noite do sumiço. Veja, parece-se comigo no corpo. Só que é morena e eu, branca como uma banana descascada.      — E...?      — Você vai ajudar na minha transformação. Nesta valise tem tudo de que precisamos. Mãos à obra!      E Mara se viu envolvida numa ação cinematográfica que simplesmente a impressionou. Logo estava toda mergulhada na ação, com o coração a mil. Diante de si, Ludmila se transformava na mulher da foto. Uma cópia razoável. Peruca, pinturas e... pronto. Mesmo ela, Mara, se encontrasse Ludmila na rua, não a reconheceria. Óculos escuros ajudavam a esconder os olhos claros da colega. Um xale foi jogado sobre os cabelos de Mara e um par de óculos com alguma pintura dourada nos cabelos para parecer mais velha foi o disfarce providencial.      — Isto confunde. Agora, ação! Vamos lá!! – e a ruiva deu um tapinha na espantada colega que continuava aparvalhada a se olhar e a olhar para a outra ainda assustada.      Ludmila arrancou com o carro. Deu uma volta no quarteirão e voltou direto para o portão. O coração de Mara batia a mil por hora. Aquilo era uma loucura. Iam ser detidas. Iam ter complicações com a polícia e o jornal teria de arcar com as conseqüências...      — Pare! Quem é a senhora? – Era a voz do capitão carrancudo.      “ Estamos fritas ” – pensou Mara arrepiando-se de medo.      Ludmila pôs o rosto para fora somente o suficiente para o capitão lhe ver a face oculta atrás dos óculos escuros. Mara ouviu-a dizer em voz clara:      — Sou a noiva do Dr. Anteu Kamuratti. Preciso entrar.      — Não pode. Temos ordens expressas para não deixar passar a ninguém.      — Quer perder seu posto, capitão? – disse Ludmila com voz firme. Um monte de flashes espoucavam em torno do carro. Mara estava zonza e temerosa. Encolheu-se toda, procurando não ficar muito exposta aos seus colegas de outros jornais. Ainda bem que os vidros escuros do automóvel dificultavam qualquer foto.      — Senhora...      — Senhorita – corrigiu impositivamente Ludmila.      — Senhorita, a família está muito perturbada. Mesmo sendo a noiva do raptado, não creio que...      — Você não tem que crer ou descrer de nada, capitão. Mande que se faça uma consulta pelo interfone. Verá que os pais de meu noivo não vão-se recusar a me receber. Minha família não perdoaria este insulto.      Mara notava que, em torno do auto, microfones, gravadores e blocos fervilhavam. Tudo o que Ludmila e o Capitão conversavam era gravado e anotado.      “ Isto vai ser o diabo ” – pensou angustiada – “ Quando publicarem este diálogo falso, a noiva do tal Anteu vai pular miudinho e a polícia vai ficar com mais uma incógnita para resolver. Onde é que eu fui me meter, meu Deus ?”      O capitão pareceu um tanto embaraçado. Fez um gesto de “espere um instante” e foi ao portão. Mara o viu pegar o interfone e fazer a chamada. “ E se a moça estiver aí ?” indagou-se ansiosa. O capitão escutou por alguns instantes, fazendo sinais de assentimento com a cabeça. Depois voltou ao carro.      — Podem passar – disse. E acenou para o portão. O porteiro acionou o mecanismo automático e o grande portão de aço abriu-se.      Já percorrendo a vistosa alameda interna, onde um silêncio estranho contrastava com o ruído e o burburinho da agitação lá fora, na rua, Mara se indagava como é que Ludmila iria explicar aos Kamuratti a farsa. Principalmente como é que explicaria a presença de mais uma importuna repórter junto com ela.      — Viu como foi fácil? – disse Ludmila, quebrando o silêncio pesado dentro do auto. – Prepare-se, estamos chegando. É no casarão, ali, tá vendo?      — Vendo eu estou. O que não consigo é entender como você, depois de ter enganado o capitão, vai também enganar os Kamuratti. Eu penso que você não nos colocou somente na confusão com esta família. Meteu o capitão numa enrascada dos diabos e ele vai querer ir à forra.      — Quem, o Carlos? Ora, todo mundo na polícia sabe que este capitão é um néscio. E este é mais um motivo para a gente ficar curiosa. Como é que põem logo ele, para vigiar a casa? Não enxerga nem um palmo adiante do nariz.      O automóvel parou defronte da escadaria que levava ao alpendre da mansão. Era uma construção imponente, com a entrada toda em mármore rosa. “ Parece coisa de filme americano ” pensou Mara. Um homem de libré estava de pé, imóvel como uma estátua, observando o automóvel parar. Não se moveu nem mesmo quando elas desceram. Mara sentiu-se desfalecer ao dar de cara com dois imponentes Rotweiller, os cães assassinos, que as fitavam com cara de poucos amigos. “ Oh, Diabos” – pensou – “vamos virar comida de cão. Um péssimo meio de terminar meus dias na terra ”. Mas os cachorros permaneceram quietos. Limitaram-se apenas a olhar para elas. O homem continuava parado, fitando-as sem reação.      Ludmila subiu as escadas desembaraçadamente e foi direto ao mordomo empertigado.      — E então, senhorita, quem são as senhoras? Por que mentiu? O que deseja? – perguntou o homem com a voz carregada de indignação.      — Calma, meu velho. Uma coisa de cada vez – disse Ludmila sem se impressionar.      — Os patrões sabem que o filho deles não tinha noiva. Vocês são... algum contato? – insistiu o mordomo ainda sem se mover de onde estava.      — Você é o quê, posso saber? – perguntou Ludmila arrogante. Mara achava curioso que o homem se mantivesse firme entre ela e a entrada da mansão. Um comportamento pouco usual para um mordomo, pelo menos ao ver da moça.      — Sou o mordomo, não percebe? – respondeu arrogante o empertigado homem.      — Mais parece um segurança – disse Ludmila – e nós não somos contato de ninguém. Eu realmente estive em companhia do filho de seus patrões, ontem antes de ele desaparecer.      — Ah... E a outra, quem é? – e o mordomo antipático indicou Mara com o queixo.      — Uma amiga que me acompanha. Ela não esteve diretamente com o Anteu, mas estava comigo e eu a trouxe. Não há mal nisto, não é? – a ruiva enfrentava com galhardia o impertinente mordomo.      Há quanto tempo vocês conheciam o Dr. Anteu Kamuratti? – os olhos do mordomo fixaram-se nos de Ludmila. A repórter susteve o duro olhar do homem por alguns momentos, em silêncio. Depois, deu meia-volta e desceu as escadas.      — Vamos embora, Mara – disse ela – este cara parece que está a fim de me encher a paciência.      — Espere! – E pela primeira vez o mordomo se moveu. Desceu as escadas atrás de Ludmila – Espere um momento!      — O que deseja? – A ruiva parou já ao pé da escadaria e em atitude de desafio.      — Os patrões desejam vê-las – respondeu o mordomo, após medir em silêncio a mulher.      — Não parece. Você ficou aí, nos torrando a paciência... – debochou a repórter.      — Queira desculpar. É o meu trabalho. Tenho de proteger de importunos a família. Muita gente... como direi... inconveniente vem aqui com os pedidos mais estranhos. A senhorita não faz idéia. Por favor, queiram seguir-me.      Ludmila piscou por cima dos óculos para Mara, que sentia um frio na boca do estômago e não achava graça em nada. Desejava ardentemente cair fora dali. Era como estar pisando terreno minado. Os pelos de sua nuca se arrepiaram e isto era sinal de perigo, mas como dizer isto, agora, para a estouvada companheira?      Entraram na ante-sala do casarão. O mordomo fez sinal para que o seguissem. Mara admirou-se da grandeza e do luxo. No teto um candelabro de prata com quase mil pingentes de cristais faiscava à luz do sol que, àquela hora, atingia-o através de uma clarabóia muito bem colocada. Dois vitrais deslumbrantes reproduziam cenas bíblicas. Os móveis eram em pau-brasil. Uma raridade. Uma preciosidade. Somente banqueiros poderiam, realmente, possuir tamanha riqueza em suas casas.      Atravessaram uma imponente sala onde se destacava a monumental biblioteca em madeira escura, tomando uma parede inteira; a mobília toda em couro e os quadros de pintores famosos compunham um ambiente distinto, onde um tapete persa dava o toque de finesse . Mas apesar do luxo e da riqueza feudal, o silêncio e a sensação quase palpável de vazio que pesava sobre o lugar causava um mal estar indefinido. Por uma saída lateral passaram a um belo jardim além do qual se descortinava uma grande piscina de águas plenamente azuis. Estava cercada de cadeiras preguiçosas brancas, mas todas vazias. Uma dúzia de mesas cobertas por grandes guarda-sóis circundava a área. Do lado oposto àquele em que estavam, entre grandes e bem cuidados flamboyans , uma bela churrasqueira. Junto a ela, meio disfarçado entre as flores, um belo caramanchão sob o qual havia um casal tomando uma bebida – que Mara logo percebeu tratar-se de uma limonada rosa – “ coisa de americanos ” – pensou. O mordomo dirigiu-se para o casal e as conduziu atrás deles de modo firme.      — As senhoritas, senhor – anunciou, ao chegarem junto ao casal. Mara viu que o Sr. Kamuratti, apesar dos cabelos brancos, era um homem robusto e de corpo bem conservado, que não aparentava os sessenta e poucos anos que se dizia ter. A senhora Kamuratti era uma cinqüentona muito bem apessoada e bonita. Ambos as olharam sem muita curiosidade, mas com uma frieza de meter medo.      — Está bem, Hanzel – disse o Sr. Kamuratti – Pode ir. Quando tivermos terminado, nós o chamaremos para conduzir as... as moças.      O mordomo se retirou e o Sr. Kamuratti ficou por um momento a olhar as duas, sem lhes oferecer assento. A Sra. Kamuratti bebericou de seu copo, olhando para longe, alheia às duas jornalistas.      — Muito bem, senhoritas. Do que se trata? Sabem muito bem que o Anteu não tinha noiva. Aventuras, sim. Mas noiva, não. Definitivamente, não. Quem são vocês? – os olhos do homem queimavam, tal era a intensidade com que olhava para as duas repórteres.      — Primeiro, queremos sentar – disse Ludmila, irreverente. E ato contínuo sentou-se numa das duas cadeiras vazias diante do involuntário anfitrião, fazendo um gesto impositivo para que Mara fizesse a mesma coisa. Meio sem jeito, a moça obedeceu.      — Estão sentadas. E agora? – disse Kamuratti impassível.      — E agora, aos fatos – respondeu resoluta, Ludmila, deixando sua companheira boquiaberta e curiosa.      — Há algum tempo nós estamos... – começou a ruiva, mas foi interrompida pelo banqueiro.      — Quem é nós? – perguntou o Sr. Kamuratti.      — Não vem ao caso, no momento – rebateu Ludmila – o que é importante é que nós estivemos acompanhando os movimentos do Dr. Anteu e comprovamos que ele desenvolvia atividades... como direi? ... pouco ortodoxas, se me entende.      — Não, não entendo, senhorita. E como não me interessa o que tenha a dizer sobre meu filho... – Kamuratti estendeu a mão para a sineta de prata, mas Ludmila foi mais rápida e apanhou-a primeiro.      — Calma, Sr. Kamuratti. Não sou nenhuma chantagista, se é o que está pensando.      — Então, quem é a senhorita?      — Não estou autorizada a dizer nada a respeito disto. Só o que importa é que obtenha certas informações do senhor. Informações que manteremos absolutamente em sigilo.      — Nós, quem, senhorita? – insistiu o Sr. Kamuratti com voz metálica.      — Como eu já disse, não posso revelar nada a respeito disto, Sr. Kamuratti.      — E o que vocês querem de nós? – falou, pela primeira vez a silenciosa e observadora Senhora Kamuratti.      — Queremos saber, em primeiro lugar, se os senhores estavam, ou não, a par das atividades do Dr. Anteu. Houve um silêncio pesado durante o qual o casal se olhou interrogadoramente.      — De que atividades precisamente você fala, minha jovem? – voltou a perguntar a velha senhora.      Mara notou um tom esquisito na voz da mulher e sua intuição lhe disse logo que ela, pelo menos no momento, era mais perigosa do que o marido.      — Aquelas que não se coadunavam bem com a Lei, senhora.      A resposta de Ludmila não causou qualquer reação no Sr. Kamuratti, mas a senhora Kamuratti hesitou um momento no gesto de levar à boca o copo de limonada e isto Mara percebeu.      — Poderia ser mais explícita, minha jovem? – A Sra. Kamuratti não parecia dar importância ao que indagava, mas a tensão que repentinamente tomou conta de seu corpo dizia exatamente o contrário. Mara retraiu-se instintivamente para manter-se sob uma sombra e aproveitar os ramos da trepadeira a fim de ocultar a face ao olhar arguto da mulher. Ela passara a estudá-las com meticulosidade. Os olhos estreitavam-se por detrás das pálpebras e um brilho satânico parecia sair daquela fenda. Mara começou a olhar em volta procurando um lugar para fugir. O muro que divisava a uns duzentos metros era muito alto e não havia portão ou outra qualquer saída, exceto aquela por onde haviam entrado. “ Ludmila está doida varrida. Mesmo que saiba de algo, está-nos pondo em uma enrascada dos diabos. O que será que ela sabe ?” Mara estava em alerta. Sentia, como sempre em momentos como este, os pelos da nuca de pé. Perigo, era o que eles avisavam. Perigo grande, sabia a moça. Mas qual? No momento tudo parecia tranqüilo. Tranqüilo até demais, observou Mara.      — Há indícios de que o Dr. Anteu andava metido em assuntos escusos... como drogas, por exemplo – falou Ludmila com segurança.      — Há indícios? Onde? – a voz da mulher se tornara macia.      — Ele foi visto conversando com o marginal Kantor Antratos, o dono da maior área de jogo de bicho na cidade.      — E há alguma Lei que proíba alguém de falar com uma pessoa que não saiba de quem se trata? – indagou novamente a felina mulher.      — O Dr. Anteu não era um inocente, senhora. Ele sabia exatamente com quem tratava. Não é admissível que um homem conceituado e filho de tão tradicional e importante família de banqueiros fosse um... um bobo alegre, não é? Se assim fosse, não seria o advogado bem conceituado e de sucesso que é. Agora...      — Você anunciou-se dizendo que estivera com ele, ontem. Isto é verdade? – interrompeu o Sr. Kamuratti.      — Sim é – disse Ludmila.      — E onde estiveram, posso saber?      — Num motel – foi a resposta pronta de Ludmila, surpreendendo Mara.      — Ah... Então, você é um dos... casos de nosso filho, não é, minha cara? – havia um sorriso maligno na face da Sra. Kamuratti.      — Não, não sou nem fui. Estávamos no motel mas não fazendo o que normalmente um casal faz ali.      — E faziam o quê, posso saber?      — Conversávamos. Anteu me pedia ajuda, para ser mais precisa – respondeu Ludmila, novamente surpreendendo Mara.      — Deixa ver se entendo – disse o Sr. Kamuratti – você está afirmando que nosso filho a procurou para lhe pedir ajuda. Para isto ele a conduziu para um motel... É isto?      — Exatamente. – confirmou Ludmila.      — E por que num motel? – indagou a Sra. Kamuratti.      — Por ser um lugar onde o perigo de sermos interrompidos era bem menor. Principalmente num motel de alta rotatividade e suburbano como o em que estávamos – informou Ludmila resolutamente. A Sra. Kamuratti olhou para o marido, mas este continuou de olhos fixos em Ludmila, parecendo querer fotografá-la para uma posterior descrição.      — E... que tipo de ajuda ele queria da senhorita? – indagou novamente a Sra. Kamuratti.      — Ele sabia que estava correndo perigo. Não sei bem qual perigo, mas me disse que, se algo lhe acontecesse eu devia vir até aqui e contar aos senhores o que acontecera entre nós dois.      — Pelo que nos disse até agora, não aconteceu nada entre vocês – E o Sr. Kamuratti reclinou-se na cadeira, pondo os pés sobre o tampo da mesa. Mara notou-lhe as unhas dos pés bem tratadas e pintadas.      — Sua história não está convincente, senhorita. Creio que vou mandar chamar o delegado de polícia para recolher as duas. Quem sabe? talvez sob uma argumentação não tão... delicada, as senhoritas resolvam contar algo mais interessante, não é? – ameaçou sinistramente o banqueiro.      — Claro, claro. Com a imprensa lá fora, creio que os senhores não iriam gostar nada do que nós pudéssemos contar a respeito do Dr. Anteu. Este seqüestro, Sr. Kamuratti, é, no mínimo, suspeito – rebateu firme Ludmila.      — Por que diz isto? – E a senhora Kamuratti, pela primeira vez, voltou-se toda para a sua interlocutora. Seu tom de voz também mudou. Agora era mais incisivo e seco.      — Como eu disse no início, nós temos indícios de que o Dr. Anteu, o filho dos senhores, o conceituado advogado acima de qualquer suspeita, andava metido em muitos negócios escusos. Entre eles, a droga, talvez seja o de menor importância.      — Em que negócio mais escuso do que drogas o nosso filho poderia estar envolvido? – Indagou secamente a Sra. Kamuratti.      — Contrabando de armas para os sérvios. A mesma prática para os bósnios. Em outras palavras, ele atiçava o genocídio entre aquele povo.      — Você tem imaginação fértil, menina, muito fértil mesmo. E o Sr. Kamuratti soltou uma gargalhada sonora. Ludmila fitou-o durante um longo momento e depois, retirando de dentro de sua bolsa uma pequena carteira de identidade – que Mara não conseguiu ver de quem – jogou-a diante do banqueiro. O homem olhou a carteira e parou de rir em seco.      — Você é da... Polícia Federal?      — Sim – respondeu Ludmila e Mara sobressaltou-se. Jamais desconfiara que a ruiva fosse da polícia de verdade. Mas fazia sentido. Sua perícia no tráfego... sua segurança na ação...      — E o seu nome é mesmo este que está aqui... Irina Hess? – indagou Kamuratti olhando a ruiva com o cenho franzido.      — Sim, é.      — Muito bem, Srta. Irina – disse o Sr. Kamuratti devolvendo a estranha carteira a Ludmila – o que deseja mesmo de nós?      — Ajudar o Dr. Anteu, se puder – respondeu Ludmila.      — Como assim? – perguntou Kamuratti.      — Seu filho não sabia quem eu era. Creio que também estava inocente sobre algumas pessoas para quem trabalhava. Acho que foi seqüestrado a mando de Kantor, que a ele se apresentou sob o nome falso de Celso Cerqueira Lima, colega de profissão.      — E os contrabandos de armas de que falou há pouco? Onde se encaixam nesta história toda?      — Há uma organização estrangeira... não sabemos bem de qual nacionalidade, ainda, que conseguiu, através de testas de ferro aqui no Brasil, contratar os serviços do Dr. Anteu para desembaraços alfandegários e... dribles nas autoridades venais. Conseguir as Guias de Exportação e fazer o embarque das mercadorias sem a devida fiscalização. Como o senhor sabe, Sr. Kamuratti, não raro, uma boa propina aliada a um nome de importância minora a pobreza dos que exercem atividades de suma importância, como a alfandegária. Acreditamos que o Dr. Anteu foi envolvido no processo sem saber em que se metia. Visava tão-só aos dólares que lhe depositavam na conta da Suíça.      — Ah... Vocês sabem disto, é? – admirou-se Kamuratti.      — Sim, sabemos.      — Mas também sabem que nosso filho não precisava de dinheiro nenhum. Somos banqueiros...      — Sim, são. Mas o Dr. Anteu queria um patrimônio só seu, é o que parece. Por que aceitaria isto, se não fosse ganancioso? E aí é que está seu erro e sua inocência. Mas parece que andou descobrindo certas coisas a respeito de algumas pessoas aqui. Entre elas, o famigerado Kantor Antratos, o banqueiro de jogo de bicho que também domina o tráfico de drogas para a Europa e os EE.UU. através do Brasil. Ele não sabia que Kantor Antratos e Celso Cerqueira Lima, seu colega de Advocacia, na verdade são a mesma pessoa. Anteu descobriu que a mercadoria era armamento roubado das forças armadas brasileiras. Ficou, é lógico, preocupado com isto.      — E se ele não sabia quem você era, por que a procurou para pedir ajuda? – indagou desconfiada a senhora Kamuratti.      — Ele pensava que eu era amante de um poderoso político e veio me pedir um favor. Queria que eu, através deste político, fizesse chegar ao conhecimento do Ministro do Exército o que estava acontecendo. Mas queria ficar de fora do assunto. Eu devia dar um jeito de fazer crer que havia descoberto isto... na cama, com alguém, compreende?      — Não... não compreendo. E para ser sincero, isto me parece muito... muito romanesco, não é, senhorita? – rebateu a Velha Dama com voz que pareceu à assustada Mara conter uma nota de ameaça.      — É verdade. Mas também é muito romanesco o Banco Kamuratti fazer remessa de dólares para Israel sem o conhecimento das autoridades fiscais brasileiras, não é? – rebateu Ludmila no mesmo tom.      Caiu um pesado silêncio sobre todos. Os Kamuratti se entreolharam com ar de preocupação.      — Senhorita Irina, nossas transações comerciais com Israel são absolutamente legais. Inclusive nossa remessa de dólares está absolutamente dentro da Lei... – falou, sério, Kamuratti.      — Oh, claro, claro. Só que o Banco declara a remessa de um mil dólares e transfere um milhão... Estranho, não? – ironizou a ruiva.      — Como sabe disto? – Os olhos de Kamuratti brilharam malignamente.      — Sabendo. E sei mais. Por exemplo, sei que os nomes reais dos senhores não são Kamuratti. Este, é somente uma cobertura.      — E... qual seria, a seu ver exclusivo, senhorita, o nosso nome real, podemos saber? – Os olhos de Kamuratti eram uma fenda escura e ameaçadora.      — Mondelstan Fulsenthal Khahn. Os senhores são o casamento de duas famílias tradicionalistas. Estou certa?      Kamuratti olhou firme para Ludmila. Depois levantou-se e deu alguns passos. Parou de costas para elas, meteu as mãos nos bolsos do short ficou olhando para o céu azul, balançando-se sobre as pernas. Mara vislumbrou um leve sorriso no rosto da senhora Kamuratti.      — Quem mais sabe sobre este nosso pequeno segredo, senhorita Irina? Suponho que todo o seu Departamento, não é?      — Isto eu não posso dizer, Sr. Mondelstan... quero dizer, senhor Kamuratti.      — Já o disse, senhorita Irina. Já o disse.      Kamuratti veio até as moças e debruçou-se sobre a mesa para olhar bem nos olhos velados pelos óculos escuros de Ludmila.      — Senhorita, não sei bem o que fazem aqui, mas não vieram, certamente, com o objetivo de ajudar Anteu. O que querem exatamente?      — Primeiro, esclarecer até onde os senhores sabiam que Anteu estava envolvido com certa organização estranha no exterior. Segundo, saber qual o envolvimento dos senhores nas atividades de Anteu. Terceiro e mais importante, saber se Anteu era mesmo filho dos senhores, como todo mundo pensa.      — E a senhorita julga mesmo que nós iríamos dizer simplesmente sim ou não, a estas suas perguntas? Por que faríamos isto?      — Porque, se Anteu é mesmo filho dos senhores, terão interesse em que eu o ajude através de minha organização, a P.F.      — E por que a sua organização... a Polícia Federal ajudaria a um criminoso? Sim, porque se Anteu está mesmo envolvido com a tal organização estrangeira dedicada a fomentar guerras, é um criminoso internacional. E se nós admitíssemos pura e simplesmente a uma agente da Polícia, o que a senhorita é, não é? – Se nós admitíssemos que estávamos e estamos a par e envolvidos com as atividades supostamente criminosas de nosso filho então, automaticamente, nos confessaríamos criminosos também. E não vejo, sinceramente, como pode esperar que cometamos tamanha tolice, senhorita.      — Não temos interesse em envolvê-los nesta história, senhor Kamuratti. Se estão a par e envolvidos diretamente, então, a Polícia Federal quer propor-lhes um acordo.      — E qual é?      — Anteu é mesmo filho legítimo dos senhores?      — Por que a dúvida?      — Questão de segurança, somente. Ele é ou não é?      — Por que faz esta pergunta tão estranha, Irina? – A senhora Kamuratti fizera a pergunta, mas olhava diretamente para Mara, tentando vislumbrar-lhe o rosto. Sorte da moça que o sol estava contra os olhos da mulher.      — Porque temos informações de que a senhora é estéril – disse a queima-roupa Ludmila. A senhora Kamuratti sentiu o golpe. Empalideceu e o copo quase lhe escapa das mãos. Mas isto foi momentâneo. Quase imperceptível para quem não estivesse atentamente observando o grupo, como o fazia Mara .      — Não, ela está estéril. Isto é diferente. Minha mulher não foi sempre estéril, não. Ficou assim devido a uma infecção bacteriana. Uma infecção que adquiriu no hospital, após o parto de Anteu.      Ludmila olhava fixamente para Kamuratti e este lhe sustentou o olhar sem pestanejar.      — Muito bem, então. A Polícia Federal vai libertar o Dr. Anteu para os senhores. Mas informo que ele não está mais no país.      — Mas como... – espantou-se Kamuratti, olhando o relógio.      — Ele foi levado diretamente para o aeroporto internacional e despachado como bagagem para um certo país do oriente – informou Ludmila com segurança. Nós o libertaremos, mas em troca os senhores nos dão os nomes de todos os testas-de-ferro que agem em nosso país, tanto no campo das drogas, como no de escravas brancas e roubos de crianças.      — Impossível! Absolutamente impossível, senhorita Irina. Nós não podemos informar o que não sabemos – explodiu Kamuratti.      — É possível, é possível. Mas através de Anteu, quando nós o entregarmos são e salvo, os senhores poderão descobrir quem são estas pessoas. Farão isto mais facilmente do que nós e sem o perigo de a Imprensa pôr a boca no mundo, certo?      — E quanto à... remessa de dólares, como fica? – indagou melíflua, a senhora Kamuratti.      — Não alertaremos o fisco, desta vez. Mas o banco terá de regularizar sua transação, daqui por diante, certo?      — Onde poderemos encontrá-la, senhorita Irina? – perguntou Kamuratti.      — Não se preocupem com isto. Eu os encontro. É melhor assim, para todos nós.      Kamuratti sentou-se pensativo. Seu olhar estava perdido em algum ponto do espaço à sua frente.      — Senhoritas, creio que sabem que tenho poder suficiente para averiguar se tudo o que nos disseram é a verdade. Creio que sabem, também, que posso localizar exatamente onde estão, se realmente pertencem à Polícia Federal. E estou certo de que sabem que eu lhes posso ser um terrível pesadelo, se me mentiram em qualquer detalhe do que conversamos, não é?      — Sim, é claro que sabemos. Mas devemos avisar-lhe que esta atitude sua não seria bem vista por nossos chefes e...      — Libertem Anteu, se puderem. Então, depois que ele estiver conosco, voltem aqui e conversaremos – cortou, seco, Kamuratti.      — Tudo certo, senhor Kamuratti. Podemos ir, então.      Kamuratti tilintou a sineta de prata e o mordomo surgiu como por encanto bem perto de Mara, que levou um tremendo susto.      — Hanzel, conduza as senhoritas para a saída. E Hanzel...      — Sim, senhor Kamuratti.      — Anote a placa do carro delas.      — Já o fiz, senhor Kamuratti. E já verifiquei, também. Pertence a uma agência de aluguel de automóveis.      — De quem é a agência?      — Do Sr. Samuel Schroeder – respondeu Ludmila, sorrindo. Aquela locadora de automóveis pertencia aos Kamuratti.      — Leve-as – disse, seco, o banqueiro.      As moças acompanharam o mordomo pelo mesmo caminho por onde haviam entrado. Desceram as escadas e se dirigiram para o automóvel quando, de repente, um dos cães começou a rosnar. Mara olhou para a escada e não mais viu o mordomo. Estavam, portanto, à mercê das feras. O que poderiam fazer contra aqueles animais perigosíssimos?      Os cães, com os pelos das costas arrepiados, avançaram devagar, fauces arreganhadas, baba escorrendo pela bocarra e olhos amarelos fuzilantes. Era a morte certa que vinha ao encontro das duas. Ludmila parou atônita. Olhou em volta, mas não viu vivalma. Meteu a mão devagarinho na bolsa, mas os olhos do maior dos dois cães pareceu compreender que dali podia sair algo perigoso. O rosnado tornou-se mais feroz e o animal avançou mais depressa, açulando, com isto, o seu companheiro menor, mas nem por isto, menos perigoso.      — Ludmila – gritou Mara – Pare!      Mas a ruiva sacou a pistola Beretta e disparou rapidamente contra os animais. Errou por pouco a testa do que vinha na frente, mas o atingiu de raspão na ilharga. Isto foi o suficiente para que o animal enlouquecesse. Dois potentes latidos, um salto feroz e o cão estava literalmente sobre Ludmila. Esta, pulou de lado, tropeçou e veio cair quase aos pés de Mara. O cão não fez falta. Mal tocou o chão e voltou-se disposto a estraçalhar as mulheres. Mas algo inusitado aconteceu. Mara estava de pé, olhando fixamente para a besta-fera. Não sentia medo. Ao contrário, estava esquisitamente serena. Um pensamento estranho lhe passou pela cabeça: “ ataque seu companheiro ”. O cão parou em seco o avanço e permaneceu olhando nos olhos de Mara. Neste momento o outro cão passava pelo grandalhão como uma flecha em direção a Ludmila. Num átimo foi atacado e posto ao solo pelo companheiro. Engalfinharam-se numa briga feroz. Mara estendeu nervosamente a mão para a companheira e gritou:      — Vamos aproveitar! Levante-se!!      Ludmila pôs-se de pé num salto e ambas correram para o automóvel onde entraram e fecharam os vidros. Os cães engoliam-se numa luta demoníaca e apavorante. Os rugidos eram ouvidos ao longe, mas estranhamente o mordomo não voltou para ver do que se tratava.      Ludmila arrancou com o carro. Estava trêmula e quase não conseguia controlar o volante. Foi em ziguezagues que chegaram aos portões. Eles foram abertos pelo porteiro sem questionamento e Ludmila passou quase atropelando os colegas que tentaram aproximar-se do auto. Mesmo os policiais tiveram que se afastar correndo.      Voaram pelas ruas como bêbedas. Nem mesmo prestaram atenção para onde estavam indo. Finalmente, já no Recreio dos Bandeirantes, a motorista pareceu voltar a si e diminuiu a velocidade suicida.      — Vamos procurar um bar e tomar um drink – falou a ruiva. A voz ainda estava trêmula e esganiçada de nervoso.      — Hum-hum – fez Mara, estranhando a própria serenidade.      Ludmila encostou o automóvel num barzinho aprazível à beira-mar e ambas desceram. Pediram uma cuba-libre, e ficaram em silêncio. Somente quano haviam engolido os primeiros goles é que a ruiva falou.      — Aquilo foi tentativa de assassinato, tenho certeza.      — Eu também acho que sim – disse Mara.      — Ainda bem que aqueles animais não se respeitavam muito.      — É, ainda bem.      — Você está bem, não está?      — Sim, estou sim.      Calaram-se e beberam. O álcool aos poucos foi acalmando e pondo em ordem os pensamentos das duas.      — Ludmila – chamou Mara – aquela história de Polícia Federal... É verdade? Você é mesmo “tira”?      Ludmila riu à vontade.      — Eu convenci mesmo, não foi?      — O que quer dizer com isto?      — Eu não sou Polícia Federal coisa nenhuma. Foi um blefe e dos bons.      — E a identidade?      — Consegui com uns amigos a quem ajudo vez por outra nos seus problemas.      — E o nome, a tal de Irina Hess. De onde tirou?      — Ah, isto é outra história.      — Que história?      — Um dia eu lhe conto, tá bem?      — Por que não agora?      — Porque temos de retirar este disfarce. Os Kamuratti têm mil olhos e eu não duvido que a esta altura estejam procurando por uma morena metida num carro de placa LKV-8876, marca Ford, modelo Scort, cor vermelha, ano 94. Preciso voltar a ser ruiva e já.      — E o carro?      — Vou telefonar e mandar que venham apanhá-lo. Veremos isto daqui mesmo.      — E como é que vamos embora?      — De taxi, minha cara, de taxi. É para isto que um rádio-taxi serve, não é?      — Bem... – Mara deu de ombros. Ela só precisava devolver o chale e os óculos escuros. Ficou sentada enquanto Ludmila ia ao banheiro com a maletinha. Em meia-hora estava novamente a Ludmila que Mara conhecia.      — E então, como estou?      — Está Ludmila, novamente.      — E a seus olhos?      — Como assim?      — Mudou alguma coisa nos seus sentimentos de antipatia para comigo?      — Bem... Pra falar a verdade, eu ainda não sei. Estou com a carantonha daqueles cachorros danados em minha frente.      — Eu entendo... Eu também ainda os tenho na retina. Foi algo que a gente vai demorar muito a esquecer.      Ludmila sentou-se e terminou sua bebida. Eram quase onze horas e elas sentiram fome.      — Vamos almoçar? – convidou a ruiva – Eu pago.      — Tudo bem. Estou mesmo com muito apetite. Acho que foi o álcool... – disse Mara.      Chamaram o garçon e fizeram o pedido. Mara preferiu peixe. Ludmila pediu polvo. Comeram em silêncio. Estavam acabando quando viram chegar o chofer que vinha apanhar o carro. Ficaram observando em silêncio. O homem deu uma volta em torno do veículo, verificando suas condições externas. Depois, com outra chave, abriu o carro. Abriu o porta-luvas e apanhou as chaves que Ludmila deixara lá dentro. Verificou minuciosamente o carro por dentro. Só quando se deu por satisfeito, anotou a quilometragem rodada e deu partida. Em pouco tempo sumia na pista.      — Bem – disse Mara –, estamos a pé.      — Por pouco tempo. O taxi deve chegar dentro de alguns minutos.      — Enquanto isto, você bem podia me esclarecer alguns pormenores obscuros desta história, não é? – insistiu a morena.      — Com prazer. O que você quer saber?      — Em primeiro lugar, aquela história toda sobre o tal Anteu é verdade? Você esteve mesmo com ele num motel? Ele lhe pediu realmente a ajuda que você disse que ele tinha pedido? O homem está mesmo envolvido até o pescoço com drogas, escravas brancas etc, etc? O Banco faz mesmo as remessas criminosas para Israel? Os nomes que você deu aos Kamuratti são verdadeiros, isto é, eles usam nomes falsos? E mais...      — Puxa vida, vai devagar. Uma coisa de cada vez, sim?      — Você não foi devagar comigo. Fiquei tão perplexa quanto o senhor Kamuratti e sua consorte.      — Tudo bem. Vamos começar pela sua primeira pergunta. A resposta é não. Eu não estive com o tal Dr. Anteu num motel. Aliás, eu pessoalmente nem conheço o fulano.      — E como é que podia dar tantas informações a respeito dele?      — Karina. Ela, sim, esteve com ele. Foi por isto que se resfriou.      — Então a Karina é que é a polícia?      — Não há polícia coisa nenhuma. Aquilo foi história de última hora que eu usei para conseguir abrir um pouco aqueles espertalhões. Me deixe continuar, sim?      — O.K., vá em frente.      — Karina andava de namorico com o tal Dr. Anteu. Ele, parece, apaixonou-se mesmo por ela e andou fazendo algumas confissões em momentos de enlevo, compreende? Por exemplo: ele lhe contou que só veio a saber que o tal de Dr. Celso Cerqueira Lima era o marginal Kantor Antratos há coisa de duas semanas atrás. Confessou que usou de meios ilegais, como dar propinas e usar o peso de seu nome para despachar alguns caixotes, para a Bósnia e a Sérvia, a fim de prestar um favor... regado a dólares, é claro, para o tal Celso. Ao tomar conhecimento de quem era aquele seu amigo, tratou de conseguir uma vistoria em uma das caixas e ficou sabendo a respeito das armas. Compreendeu que corria perigo de vida e pediu ajuda a Karina. No dia do seqüestro ambos foram raptados juntos. Karina foi joga da fora do carro em movimento. Os marginais queriam que parecesse um acidente. Para sorte dela, caiu dentro de um charco de lama e não se machucou como os danados queriam. Mas ficou com um tremendo resfriado. Karina me contou a parte da história que conhecia. Eu fui investigar o resto. Com a ajuda de amigos da Polinter vim a saber da tal organização internacional. Tudo indica que as armas são enviadas para êmulos dela naqueles países. Parece que são mercenários a mando de uma terceira potência estrangeira... Eu, na verdade, não sei bem como é que é a história. O que sei é que o tal Kantor foi informado por alguém sobre a descoberta que Anteu havia feito. O meliante foi conversar com ele, na pele do colega Celso, e ficou sabendo da intenção de Anteu de comunicar tudo a Polícia Federal, saindo fora da situação. É por isto que acho que foi o Kantor o autor material do seqüestro de Anteu.      — Autor material... Você quer dizer que houve um mentor para o seqüestro? Ele foi planejado por outra pessoa? – perguntou Mara, curiosa e interessada.      — Creio que sim. Anteu andou descobrindo algo bem mais aterrador para ele. Segundo Karina, de uma semana para cá ele vinha andando muito nervoso e agitado. Num dia em que havia bebido um pouco mais da conta, deixou escapar que seus pais não se chamavam Kamuratti e sim outros nomes. Karina não entendeu a história. Anteu disse que seus genitores eram outros. Os Kamuratti apenas o haviam criado. Depois, desconversou. Karina ficou alerta e tratou de investigar, mas não teve tempo de descobrir muita coisa. Somente fez com que Anteu se pusesse alerta e desconfiado. Eu, então, entrei na jogada. Através de amigos na Interpol consegui saber que os Kamuratti não eram de descendência italiana, como faziam a todo mundo crer. Na verdade, Kamuratti era o nome fantasia de uma antiga loja brechó que existiu na Cracóvia e que foi destruída, suspeita-se, pela ação de um grupo nebuloso. A loja pertencia a uma família de judeus, tinha o nome formado pela fusão de dois outros. O de um japonês, YOSHIO KAMURA, e o nome NICHOKALATTI, parece que uma congregação judaica de cunho religioso a quem o japonês ajudava financeiramente em agradecimento por ter sido salvo de um grave acidente e tratado pelos integrantes da NICHOKALATTI. Esta comunidade também foi varrida do mapa pelo tal grupo de conhecimento obscuro.      — Por que você diz “de conhecimento obscuro”?      — Porque não consegui descobrir quem era, o que fazia, nem o que tinha como objetivo o tal grupo. Era chamado por um apelido muito esquisito: NAHASH. Parece que todos, judeus e poloneses, tremiam só de ouvir este apelido.      — Uma seita “tong” polonesa? – indagou Mara.      — Não sei, mas não era nem polonesa nem judaica. Pelo menos, nenhum membro destas raças que eu entrevistei soube dizer qualquer coisa a respeito. Apenas falaram dela ainda com certo receio. Disseram a mim que, antigamente, todos tremiam só de ouvir este apelido.      — E o que significa NAHASH?      — Parece que significa algo assim como SERPENTE... ou coisa parecida. Na verdade, não me interessei muito por isto. O que eu procurava era descobrir a história dos tais Kamuratti. Ano passado, em minhas férias, fui à Polônia. Perambulei por entre sebos, entrevistei dezenas e dezenas de pessoas e, quando já desanimava, encontrei numa velhinha de quase noventa anos, uma informação importante. Ela havia conhecido o senhor Salomon Hammerstein, dono do brechó Kamuratti. Ela me contou que depois de ter sido misteriosamente incendiada e de ter seus donos perdido tudo o que possuíam, um tal senhor JOHANZ MODELSTAN KHAHN comprara o terreno onde o brechó existira e no local construíra um banco. Era uma construção pequena e a mulher já não lembrava mais o nome do banco. A família MONDELSTAN é de origem judaico-polonesa. Não foi difícil descobrir a história dos Mondelstan, pois, entre os judeus, a árvore genealógica é de suma importância e é conservada cuidadosamente. Os Mondelstan eram da classe media alta e o banco, na verdade, era deles. Mas era muito pequeno e não ia lá muito bem das pernas nos idos de 1948, quando o filho mais velho do clã Mondelstan, um tal de Erich Mondelstan, passeando pela Hungria, conheceu a filha ricaça da família FÜLSENTHAL. Não sei como se deu a história, mas casaram e fundaram o BANCO KAMURATTI.      — Parece uma história muito humilde para um potência como é o Banco hoje – comentou Mara.      — Pudera. O KAMURATTI contou com o apoio inconteste dos ROTSCHILD, minha cara.      — É mesmo? Eu não fazia a menor idéia a respeito – espantou-se Mara.      — Nem você, nem a maior parte dos não-judeus. O apoio sempre foi muito secreto.      — E... e por que isto?      — Não sei. Mas o Banco Kamuratti enveredou por outros caminhos, Mara – disse Ludmila, pensativa e com o olhar perdido no vazio.      — O que quer dizer com isto? – indagou, curiosa, Mara.      — Ainda não tenho provas, são somente suspeitas, por isto, amiga, prefiro não falar nada por agora. Minha... nossa incursão na casa dos Kamuratti, hoje, foi uma provocação minha. Resolvi cutucar a cobra na toca. A esta altura o Sr. Kamuratti já deve saber que eu não existo na Polícia Federal..      — Você, não. A tal de Irina Hess, não é?      — Sim, sim, a Irina.      — E o que acha que ele vai fazer quando descobrir isto?      — Vai-se mexer, minha amiga. Vai-se mexer e sair da toca.      — Ludmila, seja sincera: nós corremos perigo? – Mara estava ficando muito perturbada com o rumo da conversa. A imagem dos cães lhe veio à recordação e lhe tirou de imediato o sossego que o ambiente trouxera para ela.      — Por enquanto, não – respondeu Ludmila observando um Camaro que acabava de estacionar. Dele saltaram quatro homens muito bem trajados que permaneceram ao lado do auto, observando a praia e tecendo comentários sobre qualquer coisa no mar.      — Estou-me lembrando de que não tinha qualquer maquiagem nem peruca, nem nada que me disfarçasse – disse Mara, cada vez preocupada com a encrenca em que se vira metida.      — Você foi fundo o tempo todo, Mara. E o chale escuro encobria muito bem o seu rosto. Eu não creio que tenham prestado muita atenção em sua presença. Eu fui quem mais incomodou. Comentei coisas perigosas e fiz lances altos como aquele da remessa de dólares para Israel.      — É, como foi que você tomou conhecimento disto?      — O Banco Kamuratti paga um alto suborno ao fiscal do I.R. para que ele feche os olhos. Acontece que eu fiz alguns favores ao homem e...      — Que tipo de favores, Ludmila? – Mara olhou a amiga censurosamente.      — Nada do que você possa estar pensando, Mara. É verdade que os favores foram sexuais, mas eu só intermediei a coisa.      — Como assim?      — Coloquei a mulher que ele queria na cama dele. Só isto.      — O porcaria não tinha competência para conquistar a mulher que desejava? Tinha de você fazer isto para ele?      — Bem... ela era casada, compreende?      — Casada??? E você... Oh, Ludmila, que baixeza!      — Depende do ponto de vista. A moral humana, Mara, é muito elástica, sabe? O que a horroriza pode perfeitamente ser encarado como o trivial por muitas outras pessoas. Veja, o fiscal está feliz com a amante. Ela, por sua vez, está felicíssima com ele. Até passou a agüentar melhor o marido! E tem mais: o marido é estéril. Ela sabia disto, ele é que não. Mas ela tinha temor de lhe falar a respeito, pois temia a reação do homem. Coisas de machões brasileiros. Com o amante ela pôde engravidar. O marido se sentiu realizado e tudo terminou bem. A criança é amada pelos três. No meu ponto de vista fiz muito bem em juntar os dois...      — No meu, não – disse Mara, aborrecida.      — Bom, o certo é que ele me deu a informação... Não diretamente. Eu concluí de algumas frases dele... pistas que deixou soltas no ar de propósito. A gente terminou acostumando-se a trabalhar assim. Eu lhe dou informações “sem querer dar” e ele faz a mesma coisa por...      Ludmila teve a atenção voltada para os quatro homens. Caminhavam disfarçadamente pelo sol escaldante observando os autos. Eram somente uma dúzia, se tanto.      — O que foi? – sobressaltou-se Mara, voltando a cabeça para procurar o que prendia a atenção da companheira. Viu os quatro homens e um pressentimento ruim lhe passou pela cabeça.      — Você acha...      — Psssit! – fez Ludmila – Eu não tenho certeza, mas o mais lógico é que o Senhor Kamuratti tenha entrado em contato com a agência do Salomão para saber sobre o carro. Daí, mandar quatro marmanjos para aqui é o mais elementar. Eu devia ter previsto isto.      — Mas você acha que são homens dele? – angustiou-se Mara.      — Eu não sei... Podem ser. É esquisito quatro homens andando pela areia escaldante do sol de meio-dia vestidos de paletó e gravata. Principalmente quando estão sondando os carros estacionados.      — Acham que procuram por nós? – perguntou aflita, Mara.      — Não, por nós, não. Mas... Pense comigo: você sabe que duas mulheres vieram para cá e aqui entregaram o carro alugado. Das duas uma: ou elas tinham outro carro esperando, aqui, ou estão aguardando táxi, não é? Se tinham outro carro, foram embora. Mas tendo saído afobadas pelo ataque dos cães... Teriam sangue frio suficiente para completar o plano ou...?      — Ou...?      — Ou teriam vindo aleatoriamente até este local e só então é que resolveram abandonar o carro? Se os marmanjos são os que estamos supondo, eles permanecerão por ali... talvez venham até este bar, ou a um dos outros atrás, averiguar quem são os possíveis donos dos carros; talvez fiquem por aqui esperando a chegada de um taxi...      — Meu Deus! E você pediu um táxi, não pediu?      — Sim, e esta é minha preocupação. Se o taxi chegar e nós entrarmos nele é certo que despertaremos as suspeitas dos quatro ali. E eles nos seguirão para onde formos.      — O que faremos? Eu estou-me sentindo muito mal. Nunca antes me meti numa camisa de onze varas, Ludmila. Mas em meio dia você me fez passar o diabo! – exclamou Mara sentindo o estômago se contrair. Aquilo estava-lhe parecendo cenas de um filme de suspense.      — Ainda não, meu bem, ainda não – disse Ludmila dando-lhe tapinhas no braço. – Espere mais um pouco e você vai ver o que é camisa de onze varas. Agora, ajude-me a pensar. E seja rápida. O taxi está quase chegando. Temos de encontrar uma saída e depressa!      — E se não tomarmos o táxi e deixarmos que volte vazio?      — Teremos despertado suspeita do mesmo jeito. Os brutamontes vão ter somente que esperar até que todos tenham saído. As duas bobocas que ficarem... Fácil, não?      — Droga! Que entaladela!      Ludmila olhou o salão. Havia somente um casal além delas, naquele bar. Talvez nos outros houvessem outras tantas pessoas. Ia ser como tirar doce de uma criança para aqueles quatro descobrirem as duas.      — Ludmila, o táxi! Ele vem lá! – E Mara apontou angustiada para um ponto amarelo que surgia na curva a uns quatro quilômetros de onde estavam.      — Tem certeza que é ele?      — Sim, pela cor. E tem qualquer coisa em cima da capota. Só pode ser a plaquinha... O que faremos?      — Para grandes males, grandes remédios. Faça a cara mais séria e fechada que puder. Pare de tremer. Me siga e somente acene com a cabeça, entendeu?      — Não.      — Ótimo! Limite-se a fazer como estou dizendo.      E Ludmila levantou-se indo direto para a mesa de um casal que aguardava a conta.      — Boa-tarde. Pode-me dizer seus nomes?      — O quê? – perguntou, surpreso, o rapaz.      — Seus nomes, por favor – insistiu Ludmila, séria.      — Mas.. Por que...?      — Não questione. Faça o que estou pedindo. E rápido!      Enquanto falava. Ludmila estendia para o homem a carteira de Polícia Federal.      — Polícia...? – espantou-se o jovem rapaz      — Shhhhiit! Vocês estão vendo aqueles quatro homens lá?      O casal olhou, aturdido, para os homens que vinham aparentemente descontraídos em direção ao bar.      — Sim, senhora – falou o rapaz. – O que têm eles?      — São terroristas. Nós estamos no encalço deles há algum tempo. Mas agora estamos em desvantagem. Eles querem nos cercar. Se conseguirem, vai haver tiroteio e, possivelmente, feridos ou mortos.      — Meu Deus! – exclamou assustada a moça. Mara reconheceu nela a ricaça Milena Forcis e tremeu. Ludmila complicava mais ainda a situação delas. O rapaz só podia ser o Dr. Luís Filipe, o empresário da companhia de Táxis Aéreos Céu Azul e filho do Deputado Luís Filipe Nettus, o homem público mais em destaque no momento político do país. Será que a ruiva não sabia disto?      — Vocês tem automóvel? – perguntou a falsa policial com voz firme.      — Sim, senhora. É aquele Del Rey ouro estacionado lá! – disse o jovem, apontando para o único automóvel parado sob uma sombra rala.      — Vocês vão nos ajudar, certo? – impôs a repórter.      — O que... o que devemos fazer? – tartamudeou a moça visivelmente assustada.      — Vamos todos sair como se fôssemos velhos amigos. Descontraiam. Vocês nos dão carona. Eles não vão desconfiar de nada, pois não sabem ainda quem somos nós. Sabem somente que as pessoas que devem capturar são duas mulheres que estão aqui, aguardando um contato para dentro de... – Ludmila olhou o relógio – uns dez minutos. Conhecem o contato e é através dele que poderão chegar a nós.      As duas mulheres sentaram-se à mesa junto com o casal e chamaram o garçon. Pediram a conta e o rapaz fez o pagamento às pressas. Levantaram e saíram em grupo contando piadas. Passaram pelos quatro homens que as olharam de soslaio, mas sem lhes dar muita importância, exceto um deles, um homem forte, alto, cabelos pretos e bem cuidados e beirando os quarenta anos. Tinha nariz aquilino, bem feito, pele branca e usava anel de grau de advogado. Era peludo, de pelos claros, o que contrastava com a cabeleira escura. Seu olhar penetrante e intenso cravou-se em Mara e rapidamente percorreu sua silhueta. A moça estremeceu quando seus olhares se cruzaram por momentos. “Meu Deus, que maldade ele tem no coração”, pensou de si para consigo sem saber explicar-se porque sentia aquela vibração esquisita vindo do homem diante dela. “Ele nos fará grande mal” predisse mentalmente.      A companheira do rapaz agarrou com mais força o braço dele murmurando baixinho:      — Estão armados. Eles estão armados, meu bem.      — Eu vi – disse o rapaz no mesmo tom de voz.      Mara tropeçou num degrau e perdeu o equilíbrio, dando alguns passos desordenados para o lado. Uma forte mão lhe amparou o corpo como se ela não tivesse peso. Era o homem de olhar terrível.      — Está segura – disse ele, com um sorriso que, ao invés de lhe suavizar o rosto, ao contrário, endurecia-lhe mais ainda os traços.      — Não é sempre que uma mulher bonita me cai nas mãos.      — Eu... eu... obri... obrigada – tartamudeou Mara lutando contra o asco que o ser tocada pelas mãos fortes do homem lhe causava. Com um aceno impositivo de cabeça Ludmila fez o casal acompanhá-la até junto do homem.      — Tudo bem, Magda? – indagou, abraçando a companheira pela cintura.      — Co... como? – perguntou Mara, aturdida.      — Você está be...?      — Sim – cortou o homem, firme –, ela está bem. Muito bem. E vocês, estão bem? – Os olhos dele escrutinavam os quatro. Demorou um pouco mais em Milena Forcis e uma ruga lhe surgiu na testa. Conheceria a mulher? Se conhecia, fez que não.      — Estamos, obrigada – foi a resposta tranqüila de Ludmila que sustentou o olhar de águia do homem, fixo nos olhos dela.      — Não querem acompanhar-nos numa bebida? – convidou ele ignorando totalmente o rapaz.      — Estávamos acabando de sair justamente após beber nosso drink – disse Ludmila, tranqüila e com um sorriso brejeiro.      — Bem, podiam voltar... se quisessem – insistiu o homem.      — Tenho audiência em uma hora com o juiz de paz da primeira vara de família. Sinto muito, fica para outra vez, O.K.? – disse Mara surpreendendo totalmente Ludmila.      — Advogada...? – surpreendeu-se o homem.      — Sim. E vejo que o senhor é meu colega de profissão – mentiu Mara tão convincente que Ludmila a olhou interrogadoramente.      — Mas não lido com problemas afetivos – falou ele.      — Qual sua especialidade? – interrogou Mara.      — Direito Empresarial – disse ele de modo natural.      — Em férias? – perguntou Ludmila.      — Não. A negócios. E vocês, o que fazem por aqui?      — O casal aqui é nosso cliente – mentiu Mara – e estamos a trocar informações sobre o assunto que vamos tratar daqui a pouco.      — Ah... – e o homem olhou escrutinadoramente para o casal. Pareciam ter visto um lobisomem de tão amarelos que estavam.      — O assunto parece grave, pela aparência de seus clientes – Mara julgou distinguir um tom zombeteiro na voz do homem.      — E é. Coisa de pensão alimentícia... Sabe como é, né?      — Sim, sei. É sério... Desculpem-me. São casados?      — Não... – respondeu titubeante a jovem milionária.      — Então...      — Não é deles que falamos. É de um parente do rapaz – apressou-se a explicar Ludmila, antes que o casal inexperiente pusesse tudo a perder. O homem pareceu hesitar um momento.      — Tudo bem, então. Quando podemos-nos encontrar de novo?      — Quem sabe amanhã, no fórum... – e Ludmila deu um sorriso brejeiro para o desconhecido que lhe retribuiu com um brilho nos olhos negros.      — Excelente. Meu nome é Fratelli. Enrico Fratelli.      — Laura Minori Santos e Magda Silva, minha colega de profissão e sócia no escritório. Até à vista, senhor Fratelli. Foi um prazer conhecê-lo – e Mara acenou para o homem, fugindo ao aperto de mão dele e afastando-se apressada, seguida por todos. Os quatro homens ficaram a olhá-los até que tomaram o carro, justamente quando o taxi estacionava ao lado do automóvel.      — O táxi! – exclamou Fratelli, esquecendo-se do grupo.      — Como supúnhamos – falou um dos seus companheiros.      — Cada um de vocês vai para a saída dos outros restaurantes e eu fico neste. Quando elas saírem aquele que estiver perto assovia. Vamos todos seguir o taxi. Dependendo do trajeto dele, nós forjaremos o acidente.      Assim fizeram. Cada um postou-se na saída de um dos restaurantes observando o motorista do taxi. Este consultou um papel e olhou para as fachadas. Decidiu-se por aquele onde estava Fratelli. Entrou e ficou olhando para as mesas vazias. Sem jeito, dirigiu-se ao homem encostado no portal.      — Hei, senhor, por acaso viu duas moças sairem daqui em outro taxi..? Quero dizer... Eu fui chamado para apanhar duas moças...      — Como eram elas? – indagou Fratelli, aparentemente despreocupado e interessado em ajudar.      — Eu não sei. Elas disseram que estariam aqui, na mesa – e voltou a consultar o papel – mesa... 33. É, uma delas disse à central de recados que estariam aguardando aqui, na mesa 33.      Fratelli sorriu. Estalou os dedos chamando o garçon. Quando o homem chegou, perguntou:      — Pode-nos informar, por gentileza, para onde foram as duas moças que estavam aguardando um táxi sentadas à mesa 33?      — Não, senhor, não posso. Quem serviu a 33 foi outro colega. Vou chamá-lo para os senhores. Queiram aguardar um momentinho, sim?      — Certo – disse Fratelli e olhou para o taxista com um dar de ombros. Mas ficou esperando a resposta.      Um outro garçon veio até eles.      — Pois não?      — Havia duas moças sentadas na mesa 33. Uma delas pediu que lhes mandassem um taxi. O motorista está aqui, mas elas sumiram. Você poderia informar para onde foram... quando saíram e se saíram em outro táxi? – falou Fratelli prestativamente.      — Sim, senhor. Elas pagaram a conta juntamente com um casal que estava na mesa 54 e saíram com ele.      — As moças eram uma alourada e outra, morena? – indagou Fratelli com cara de poucos amigos.      — Sim – respondeu o garçon, assustado.      — Quer dizer que elas já foram? – quis saber o motorista.      — Foram. Acho que encontraram uns amigos.      — Advogadas, hein? – disse Fratelli, afastando-se apressadamente e deixando os outros homens sem entender nada. CAPÍTULO II A HISTÓRIA SE COMPLICA        Qüinquagésimo primeiro andar da torre no Rio Sul Center. É o entardecer de um quente dia de novembro de 1994. O imponente edifício e um dos maiores prédios comerciais no Rio de Janeiro. Com 168 metros de altura e 270 mil metros quadrados de área construída, o prédio impressiona pela beleza e harmonia de sua construção. Os dez primeiros andares são destinados ao Shopping Center, onde o carioca tem de tudo o que deseja e pode até se dar ao luxo de passear pelas belas galerias.      Naquele entardecer o Sr. Kamuratti aproximou-se do janelão no lado sul da enorme e luxuosa sala de seu escritório e ficou olhando para Copacabana, além do morro sob o qual passa o túnel Eng. Marques Porto, que liga Botafogo a Copacabana através das Avenidas Lauro Sodré, em Botafogo, na entrada do túnel, e Princesa Isabel, na saída do túnel para Copacabana. Gostava da belíssima vista que dali descortinava. Principalmente ao entardecer, quando a magia da noite começava a envolver a cidade e o povo voltava para suas casas ou delas saiam para as diversões noturnas, ou simplesmente para um passeio descompromissado por aquela bela, mas tão desrespeitada metrópole. A Light distribuia a energia elétrica parta toda a cidade e nos apartamentos brilhavam as cambiantes luzes das televisões – “ O ópio do povo brasileiro, principalmente em se tratando das novelas da EL MONDO ” – pensou Kamuratti sorrindo sarcasticamente. “ A televisão é nossa melhor aliada, mesmo que involuntariamente ”, murmurou o banqueiro. Olhou o relógio e franziu o cenho. Não gostava de atrasos em seus compromissos e o pessoal deveria ter chegado há quinze minutos. Kamuratti, embora já impaciente, permaneceu olhando para o mar que se apresentava, agora, com um azul-marinho muito bonito. Em alguns minutos dele só restaria uma cor negra profunda. Para além da orla de areia profusamente iluminada pelos grandes postes e suas potentes lâmpadas a mercúrio – que dali pareciam pequenos palitos – nada poderia ser vislumbrado a não ser as amareladas luzes de algum veleiro, de algum barco pesqueiro ou de algum navio entrando ou saindo da Baia de Guanabara.      Um som suave e melodioso interrompeu a observação repousante de Kamuratti. Era o som da campainha. Kamuratti foi até a mesa e olhou na pequena tela do circuito fechado. Na porta estavam os quatro homens que ele esperava. Premiu um botão e a porta se abriu. 0s homens entraram.      — Boa-noite, senhores – cumprimentou o banqueiro de onde estava, a uns doze metros da porta. O ambiente estava iluminado com luzes indiretas, mas que davam um tom muito repousante para a vista sem, contudo, perturbar a visão de nada. A sala decorada e pintada em tons preto, dourado e vermelho, formava desenhos de contrastes muito estimulantes.      — Boa-noite, senhor Kamuratti. Desculpe-nos o pequeno atraso, mas o trânsito... – disse Enrico Fratelli e se encaminhou para perto de Kamuratti, seguido pelos outros três parceiros.      — Eu sei, eu sei – disse Kamuratti – vamos sentar-nos. Quero ouvir o que têm a me contar.      Os homens tomaram assento nas confortáveis poltronas diante daquela onde Kamuratti se assentara.      — E então? – perguntou Kamuratti.      — O Dr. Anteu parece que descobriu alguma coisa – começou o homem chamado Fratelli. – Segundo averiguamos, ele pediu sigilosamente a um dos guardas alfandegários que abrisse um dos caixotes contidos no container vinte e três, de nossa... de propriedade da empresa. Só após gorda propina é que o homem consentiu em fazer o que lhe era pedido.      — Mas naquele container não estão nossas encomendas? – indagou preocupado Kamuratti.      — Sim. Mas nela também estão encomendas de outras empresas.      — E o caixote aberto, era nosso?      — Não. Era de outro remetente.      — O que continha, então?      — Armas. Fuzis-metralhadora leves – disse um dos outros três homens.      — Como você sabe disto, Píndaro? – perguntou Kamuratti.      — Eu permaneço no cais a cada plantão de 24 horas, senhor, e naquele dia eu era o supervisor de plantão para a vigilância. Quando percebi o Dr. Anteu se encaminhando para o container na companhia do guarda alfandegário, eu os segui sem ser visto. Assisti a tudo de onde estava. O Dr. Anteu segurou uma das armas e falou durante algum tempo com aquele guarda. Ambos pareciam espantados. Abriram mais dois outros container, todos da mesma empresa. Nos outros também havia muita arma. Vi granadas e lança-rojões, entre outras.      — E... o que fez o Dr. Anteu, depois de descoberta tão interessante? – quis saber Kamuratti.      — Seu filho, Dr. Kamuratti – respondeu Fratelli – deu a gorjeta prometida ao guarda e saiu apressado. Píndaro me ligou e comunicou-me o fato. Eu coloquei Fílio para seguir o Dr. Anteu. Ao mesmo tempo, mandei que Cícno procurasse descobrir de quem era aquela remessa ilegal de armas para o exterior.      — Quero ouvir o que tem Cícno a dizer – pediu Kamuratti.      — Bem, – começou o homem chamado Cícno – eu contei com a ajuda de Píndaro. Ele me conseguiu as guias de exportação – cópias xerox, é claro – e vi que nelas havia uma remessa de 13 caixas contendo laranjas e mangas para a Bósnia. As guias estavam em nome de uma empresa dedicada à fruticultura no interior de São Paulo, a “FRUTIBRAS LTDA”.      — Evidentemente você foi averiguar esta empresa, não é? – indagou Kamuratti fitando fixamente o seu empregado.      — Sim, senhor. É de propriedade de um casal de bem conceituados comerciantes de São Paulo, os Silva Limma. Por três dias eu andei investigando a vida deste casal. Tudo em ordem. Não parecem ser contrabandistas de armas...      — Ora – cortou Kamuratti impaciente – nenhum contrabandista que se preze vai parecer aquilo que é. Como é que pode garantir que o tal casal não é contrabandista?      — São pessoas tradicionais e conservadoras. Seus contadores são rigorosamente honestos e são fiscalizados diretamente pelos Silva Limma. As declarações de I.R. deles são absolutamente corretas e pagam todos os impostos em dia.      — Isto é o melhor disfarce para quem age fora da Lei – falou, cético, Kamuratti.      — Sim senhor, mas o casal Silva Limma recebe em casa o secretário de justiça e muitos delegados federais. Não creio que...      — E por que fazem isto? – perguntou Kamuratti demonstrando interesse.      — Eles têm dois filhos. Um é delegado de polícia e outro é chefe de gabinete na Secretaria de Justiça.      — Bom, esta é uma vizinhança bastante incômoda para um contrabandista. A menos que seja muito, mas muito hábil... – comentou Kamuratti ainda indeciso.      — E tem mais. Sempre que vai fazer uma remessa, o casal faz questão fechada de que pelo menos dois agentes federais fiscalizem as embalagens das encomendas, verifiquem a carga nos caminhões e acompanhem até o porto o material. Eu verifiquei e eles nunca fecharam qualquer negócio com a Bósnia, nem com a Sérvia. Aliás, jamais comercializaram com qualquer país comunista. Seus clientes mais assíduos são os Estados Unidos, a França, a Suíça e os países baixos. Ultimamente conseguiram fechar alguns contratos com o Japão e a China.      — É... Parece que são mesmo honestos. Coisa rara, neste país – falou Kamuratti quase reflexivamente. – E como ficou a sua investigação? Se não eram evidentemente encomendas dos Silva Limma, de quem eram e como e quem usa a empresa daquele casal para acobertar a trapaça?      — Ainda não tenho certeza, chefe – disse Cícno – mas estou, desde ontem, na pista de um tal de Celso... Acho que é Cerqueira ou Limeira. Em uma das guias de exportação havia um carimbo meio borrado, nas nele eu li este nome. Ele não existe na empresa dos Silva Limma. No entanto, assina como exportador.      — Pode ser um empregado dele, ora essa – disse Kamuratti.      — Não, não é. Eu verifiquei o livro de empregados da FRUTIBRAS. Fingi que era fiscal do INPS e foi fácil. O contador me mostrou os registros. Ninguém que se chame de Celso trabalha para os Silva Limma.      — Suas investigações, então, estão neste ponto?      — Sim, senhor.      — E posso perguntar em quê o que descobrir vai-nos interessar, Cícno? – indagou, sarcástico, Kamuratti.      — Eu... quer dizer... eu não sei bem, senhor. Mas creio que devemos deslindar tudo o que diga respeito à segurança do Dr. Anteu.      — Sim, concordo. Mas não acho que intrometer-se na casa dos outros seja o caminho mais indicado, não é? – falou macio Kamuratti.      — Não creio que tenhamos de mexer na casa dos outros, senhor Kamuratti. Mas se soubermos claramente do que se trata...      — Poderemos estar aumentando o problema que meu descuidado filho criou. Não, não quero que prossiga, Cícno. Sou banqueiro, não polícia federal.      — Mas o Dr. Anteu...      — Pode estar fazendo exatamente o que eu não desejo que se faça, meu caro. Anteu é um bom causídico, mas um péssimo herdeiro de banco e isto me preocupa. Talvez esteja trabalhando para alguém e investigando seja lá o que for, terminou por arranhar esta casa de maribondos. Vou dizer o que você e Píndaro vão fazer. Vocês vão contatar o segurança portuário e dizer-lhe que eu desejo meu filho longe dos negócios da tal FRUTIBRAS. Assim, quando ele voltar lá, não deve, de modo algum, aceitar abrir as caixas. Quero que ele esqueça este assunto e, se por acaso, resolver dar parte à Federal, deixe Dr. Anteu fora disto. Se não o fizer, vai-se haver comigo. Entenderam os dois?      — Se é assim que quer... – disse Cícno, agastado.      — É. É exatamente assim que quero. Agora, quero ouvir o Fílio. O que tem a me dizer, Fílio?      — Bem, senhor Kamuratti, eu segui Dr. Anteu durante estes três dias. Desde que saiu do cais ele praticamente nada fez que fugisse ao seu dia-a-dia. Também não notei ninguém estranho rondando as vizinhanças nem do escritório dele, nem da residência nem do automóvel. Durante suas saídas para os restaurantes e mesmo para suas aventuras eu o segui fielmente. Nada observei que pudesse ser causa de alarme.      — Isto é muito estranho, você não acha? – indagou Kamuratti, cenho franzido.      — Eu... desculpe, senhor, mas eu não vejo em quê.      — Píndaro – chamou Kamuratti – o que fez o segurança portuário depois de Anteu ter ido embora?      — Nada, senhor. Eu colei com ele, mas não fez nada fora de sua rotina.      — Mais estranho ainda – preocupou-se Kamuratti. – Escutem, pensem um só momento e verão que isto está esquisito. O segurança, pela reação que Píndaro descreveu, também ficou surpreso com o conteúdo das caixas. Comprovou que eram armas clandestinas e que estavam sendo despachadas para a Bósnia. Qualquer néscio pode perfeitamente concluir que o Pacote só podia vir das forças armadas brasileiras. E como estas não fazem comércio com suas armas, aquelas forçosamente tinham sido roubadas ou desviadas de algum modo de seu destino – o Exército, a Marinha ou a Aeronáutica. Por que, então, o segurança não deu parte? Por que preferiu o silêncio? Se tivesse dado parte, teria levantado a lebre. E se isto tivesse acontecido, alguém estaria atrás de Anteu e o fiscal... guarda alfandegário, sei lá, teria sofrido um acidente, não acham?      — É... – murmurou Cícno e os quatro homens se entreolharam.      — O que eu acho – concluiu Kamuratti – é que o segurança alfandegário deve ter alguma relação com aquele que envia as armas. Deve é ter fingido surpresa para convencer Anteu, mas deve ter dado a informação ao interessado sobre a bisbilhotice de meu filho.      — Então – falou Fratelli – por que o Dr. Anteu não foi molestado? Fílio disse que não notou nada de suspeito e eu confio no trabalho dele.      — Talvez porque Anteu tenha pedido ao guarda que silenciasse sobre o conteúdo das caixas. De algum modo, isto deve ter feito o responsável pelo contrabando achar que ele não fosse perigoso... pelo menos por enquanto. Talvez esteja preparando uma armadilha para o Anteu. O que não compreendo é por que não o tem sob vigilância.      — Pode ser que o tenha de um modo não ostensivo, Sr. Kamuratti – disse Fílio. – Ele pode estar sendo vigiado através de um amigo íntimo, em quem muito confia. Uma pessoa assim, pode perfeitamente não despertar suspeita.      — Você tem razão, Fílio, isto é muito plausível. Mas também significa que este suposto amigo já está plantado ao lado de Anteu há muito tempo, bem antes mesmo de ele ter descoberto o contrabando. Esta hipótese me inquieta. Anteu tem um bom punhado de amigos antigos, com os quais anda sempre junto e reparte bom tempo de sua vida. Mulheres, principalmente.      — Bom, de qualquer modo nós podemos levantar a vida de cada um deles – sentenciou Fratelli – somos quatro e se dividirmos os amigos do Dr. Anteu por nós, não creio que dê mais de três, se muito, para cada um. E podemos levantar rapidamente a vida de três indivíduos não prevenidos não é?      Todos os outros três assentiram com um aceno de cabeça.      — Creio que você está certo, Fratelli. Então, ponhamos mãos à obra. Não quero Anteu envolvido em confusão.      — Começaremos logo amanhã – disse Fratelli.      — De acordo – acedeu Kamuratti. – Mas não deixem que meu filho perceba nada. Ele pode sentir-se magoado comigo se souber que mandei vocês verificarem a vida de seus amigos.      — E... E se descobrirmos quem é o indivíduo, o que faremos?      — Nada. Venham comunicar-me tudo sobre ele. Decidirei quanto ao nosso passo seguinte. Se tivermos de afastá-lo de Anteu, isto deverá ser feito com toda a discrição e de tal modo a não levantar suspeita. O que faremos, durante este tempo, é manter a pessoa sob vigilância controlada e absolutamente discreta, entenderam?      — Perfeitamente – disseram os quatro homens.      — Muito bem. Estou satisfeito. Podem ir.      O grupo saiu em silêncio. Kamuratti permaneceu um longo tempo sentado, perdido em seus pensamentos. Depois, parecendo despertar, e com um longo suspiro levantou-se, foi até o barzinho discreta e estrategicamente colocado num ângulo da grande e luxuosa sala, e serviu-se de um drink. Voltou à janela e permaneceu observando a cidade, agora com a noite já totalmente sobre ela. Os carros deslizavam lá em baixo e o som de seus motores chegava amortecido, na forma de um zumbido surdo e trepidante. Vez que outra uma buzina indicava alguém mais apressado ou mais impaciente – comum nos motoristas das cidades grandes. Kamuratti ficou muito tempo apreciando o espetáculo de cima da torre do Shopping Center. Empoleirado ali tinha a sensação gostosa de que a cidade estava a seus pés. E sonhava intimamente que ela era sua; seus moradores todos eram seus serviçais. Ele era o imperador do Rio de Janeiro. “ Ainda hei de adquirir o direito de explorar esta cidade, das entranhas da terra até o mais alto das nuvens ” pensou, antegozando o fato. Voltou à sala apanhou um charuto Havana, acendeu-o e retornou à janela, aos sonhos megalomaniacos com que gostava de se embalar. “ Eu mandarei varrer dos morros toda a bandidagem. Ninguém fará senão o que eu determinar. Todos pagarão para viver... É, é isto mesmo. Cobrarei tudo. Ninguém usará um túnel como aquele ali sem pagar o devido pedágio; ninguém tomará banho numa praia como Copacabana, Leme, Ipanema, Leblon, São Conrado, Barra, sem pagar para entrar nela. E pagará por hora. Todos os estacionamentos serão meus e seus usuários serão meus clientes. Vou mandar acabar com estes malditos flanelinhas, um bando de vagabundos ganhando um dinheiro que não merecem. Penduram um pano velho no braço – freqüentemente nem flanela é – e ficam descaradamente tomando dinheiro dos donos de veículos. Mando sumir com eles... Vagabundos! E as praças? Todas minhas! Ninguém poderá ir passear em nenhuma praça se não pagar para entrar nela ou para sentar em um banco de jardim. Tudo na cidade será pago. Este povo vagabundo, preguiçoso e descuidado vai aprender a dar valor às coisas que lhes são dadas para desfrutar. Quem sujar a rua com papel de cigarro ou outros, pagará uma pesada multa, porque serão meus carros de limpeza que manterão, é claro, a cidade limpa. A minha cidade !” E sem se dar conta disto, Kamuratti riu satisfeito. “ Os aeroportos serão meus e nenhum avião poderá pousar ou decolar sem pagar uma taxa de aluguel do meu chão. Nenhum passageiro permanecerá nos salões sem pagar por minuto uma taxa de utilização do meu espaço. A mesma coisa será feita nos terminais rodoviários. Todos pagarão, do ônibus ao passageiro. Eu ganharei sempre. Mesmo quando esteja dormindo, estarei ganhando. Os políticos serão meus serviçais mais graduados. Prefeitos e governadores serão meus capatazes. Eu dominarei tanto a política deste Estado que serei aquele que nomeará as pessoas indicadas para estas funções. Votarão as leis que eu quiser; aprovarão projetos de meu exclusivo interesse. Tudo será meu, somente meu !” – E Kamuratti soltou uma estrondosa gargalhada de satisfação diante de tão belo quadro. Mirou o charuto ainda pela metade em sua mão e o jogou janela abaixo, deliciando-se em ver a brasa rodopiar pelo espaço e ir diminuindo até explodir em mil fagulhas ao se chocar com o pavimento dez andares abaixo, no Shopping Center. “ Tomara que tenha acertado a cabeça de um destes porcos ”, pensou maldoso.      Satisfeito e bem-humorado, o poderoso banqueiro resolveu ir para casa. Tudo corria às mil maravilhas. Tudo dentro do que planejara. Trancou a mesa, ligou os alarmas e saiu assoviando “ Hava Naguila ”.      Enquanto Kamuratti dirigia seu Ômega CD ouvindo no toca-fitas o “ Heveinu Shalom Aleichem ”, em um sofisticado clube de praticantes de artes marciais Fratelli acabava de entrar no dojô trajando um quimano de karateca. Concentrado, dedicou-se a fazer os exercícios de aquecimento sem prestar a mínima atenção aos companheiros. Gostava, amava a arte de matar com as mãos desarmadas. E era por isto que se tornara o mais aplicado e o melhor aluno de sensei Kimura, para desgosto deste. O mestre japonês não ensinava karatê com o objetivo de matar, mas sim como uma arte de manter o corpo saudável, a mente ágil e a emoção controlada. Os temíveis golpes deveriam ser treinados tão-só como um meio de o praticante desenvolver uma percepção atilada, um reflexo ultra-rápido e total isenção do sentimento de medo ou de ódio. O aluno que assim fizesse o karatê experimentaria o indizível prazer de se sentir senhor de si mesmo. Olharia o fraco com complacência e o forte com altivez. A nenhum entretanto, humilharia jamais. Não tremeria diante de nenhum perigo nem se curvaria frente a qualquer desafio. Kimura tinha 65 anos, era nono dan de aiki-dô, décimo dan de judô, décimo terceiro dan de jiu-jitsu e sétimo dan de karatê. Era campeão oriental nestas artes, mas nunca machucara seriamente a nenhum de seus oponentes. Sempre que participara de um campeonato, seus adversários sentiam-se não somente honrados em combater contra ele, como também seguros de que não seriam lesionados. E era o seu sonho passar esta filosofia a todos os seus alunos. A maioria seguia-a quase naturalmente, pois os brasileiros não tinham índole combativa. Possuiam a alegria contagiante que lhes legara o sangue africano, o que fazia deste povo o mais comunicativo e o mais feliz da Terra. Mas Fratelli, justamente ele, o melhor dentre todos, não dava a mínima importância aos ensinamentos filosóficos e humanitários do mestre. Dizia abertamente que arte marcial era a arte da guerra e na guerra mata-se pura e simplesmente. Quem não pudesse praticá-la, então, que ficasse em casa. Os que iam para o dojô deveriam ir preparados para matar ou morrer. O sensei olhava preocupado para seu aluno mais aplicado. Ele praticava, agora, as técnicas de atemi. Seus socos eram rápidos, precisos e violentos, mesmo no saco de pancadas. A cada seiken o pesado saco era jogado para trás como se fosse cheio de plumas. O sensei captava o prazer sádico de Fratelli com os violentos golpes que aplicava no saco. Em um ser humano um só daqueles golpes arrebentaria todos os órgãos internos do tórax como se fossem bananas maduras. Pulverizaria as costelas como se fossem de papelão e arrebentaria a medula espinhal como se fosse de gesso. Fratelli deu-se por satisfeito. Passou do saco-de-pancadas para o makiwara. Tomou a base kiba-dachi (cavalo) concentrou-se e disparou a mão direita lateralmente. O estalo foi como o de um chicote, mesmo o punho tendo-se chocado com o enrolado de cordas. O sensei já o vira quebrar três aparelhos daqueles. Ele batia tanto com a faca da mão quanto com o punho fechado e as costas da mão voltadas para o makiwara. Os golpes se sucediam rápidos e numa seqüência cadenciada perfeita. Foram cinqüenta “shutos” com cada mão. Quase sem interrupção Fratelli mudou da base Kiba-dachi para a base Zenkutsu-dachi e passou a treinar seiken (soco) com a mesma violência. Mais cinqüenta seikens com cada punho e passou ao empi. A pancada com o cotovelo é uma das mais fortes do karatê. Seu treinamento requer habilidade e precisão caso contrário o discípulo pode machucar a própria coluna vertebral. No caso de Fratelli, ele era perfeito. “ Seria bonito se não fosse tão cheio de maldade ” pensou o Sensei. Ele esperou pacientemente que todos os alunos terminassem seus aquecimentos. Eram todos faixas-pretas e Kimura gostava de lhes ministrar os treinos. Se não fosse a ovelha negra chamada Fratelli tudo seria como o sensei sonhara.      Finalmente todos se reuniram em formação no centro do dojô e cumprimentaram o mestre. Kimura, antes de iniciar os ensinamentos, mais para Fratelli do que para os outros, falou.      — A arte do karatê nasceu de modo sangrento e veio do sacrifício de mais de uma centena de escravos por parte de um príncipe, há cinco mil anos cristãos. O príncipe, para descobrir os pontos vulneráveis do corpo humano, após ter observado cuidadosamente os combates dos animais e dos pássaros, enfiava longas agulhas nos seus escravos e observava quando elas lhes causavam a morte. Foi assim que se descobriu os pontos vitais do nosso corpo. O príncipe ensinou aos monges budistas a sua técnica de combate a mãos limpas e eles se tornaram os maiores combatentes da antigüidade, na China. Os monges aperfeiçoaram as técnicas descobertas pelo príncipe e as sistematizaram num código a que denominaram de I-Chin-Sutra. Os chineses aprenderam o I-Chin-Sutra e criaram, a partir dele, o Kempô. Três séculos mais tarde, um militar chinês, perito em Kempô, chegou a serviço na ilha de Okinawa. Ali divulgou o Kempô e os habitantes da ilha passaram a estudar e aperfeiçoar as técnicas ensinadas pelo chinês, criando o sistema que denominaram de Okinawa-tê, isto é, “as mãos de Okinawa”. A ilha foi invadida pelos japoneses que proibiram os nativos de portarem armas. No entanto, “as mãos de Okinawa” se impuseram e passaram a ser respeitadas pelos nipônicos. Em 1869 nasceu, em Okinawa o mestre Funakoshi-Gichin. Ele dedicou-se ao estudo e à sistematização do “Okinawa-tê” e de seus estudos nasceu a nobre arte que hoje os senhores praticam – o karate-dô. Em 1925 o mestre passou a ensinar o Karate-dô nas Universidades de Tóquio, não somente como uma arte de matar, também como uma arte marcial aprimorada na filosofia Zen. E é assim que nós, aqui, praticamos o Karatê. Nossa arte nasceu na Índia e causou muito derramamento de sangue, até chegar a sua atual forma. Hoje nós, os mestres que a ensinamos, não fazemos isto com uma filosofia de morte. Nós a ensinamos para que o aluno aprenda a vencer o pior inimigo do homem: o animal assassino que traz dentro de si mesmo. Devemos respeitar o corpo de nosso oponente, pois sem o empréstimo que ele faz de seu corpo para que possamos treinar, jamais poderíamos aperfeiçoar-nos. Somos fisicamente iguais. Os pontos fracos que nosso opositor tem nós também temos. Ferir de morte o nosso companheiro é cometer suicídio, pois ferimos a nós mesmos. A vitória em combate é pura ilusão. Aquele que hoje deixamos caído no dojô, vencido por nossa habilidade, pode muito bem vir a ser o vencedor do próximo encontro. E neste próximo encontro, nós é que podemos estar caídos como ele já esteve antes. Por isto, queridos filhos, jamais deveis orgulhar-vos de haverdes saído vencedores em um combate. Humildemente estendei vossa mão ao adversário momentaneamente derrotado e o ergais com bondade e solicitude. A vossa dignidade de hoje permitirá a ele que também seja digno quando vos vencer. A vitória só se dá no íntimo de cada um. Ela é silenciosa e nunca é vista por ninguém, nem mesmo por aquele que a sente. Ela prescinde de luzes e aplausos. Ela se dá na solidão e no silêncio. Para encerrar, quero lembrar a todos vocês que a única Vitória a permanecer para sempre é a que se consegue sobre a Ignorância. A Ignorância é a raiz do Medo e o Medo, por sua vez, é o combustível que alimenta a violência. Passemos, agora, à nossa lição de hoje.            E o Sensei entregou-se com prazer a explicar os golpes e contragolpes mortais da fascinante arte do karate-dô. Todos se aplicavam e se esmeravam no aprendizado. A aula foi bem, até quando chegou o momento do jiu-kumitê (combate). O sensei observou de soslaio o seu aluno-preocupação , Enrico Fratelli. Ele estava vermelho e muito suado, graças aos exaustivos treinos daquela noite. Mas estava perfeitamente pronto para bater. Isto preocupava Kimura. Havia, entre os alunos, um médico nordestino, natural do Ceará. Era jovem, entusiasmado, muito técnico e aplicado. Mas seu treinamento profissional levava-o ao exagero de jamais aplicar golpes em partes capazes de causar dor, muito menos de lesar, mesmo que de leve, o seu oponente. Pois este mesmo médico, no penúltimo jiu-kumitê acertara um Yoko-gueri-kikomi em Fratelli. E o aplicara tão bem e com tanta precisão que o fanfarrão desmaiara. O próprio médico socorreu o companheiro. Mas este, ao despertar, repelira-o com a violência de sempre, redobrada pelo ódio de ter sido atingido. O sensei sabia que Fratelli ansiava por se defrontar com o companheiro a fim de ir à forra. Todos temiam isto. No jiu-kumitê os combates eram sempre a duplas. O vencedor de uma dupla combatia contra o vencedor de outra, até que um só ficasse invicto. Isto levava sempre à confirmação do que o sensei frisara, naquela noite, antes de iniciar a aula. O vencido de um dia era o vencedor do outro dia, às vezes contra aquele mesmo que o derrotara. Isto visava manter nos alunos o espírito de humildade, evitando a tendência ao orgulho e à violência que o sentimento de poder dava aos neófitos na nobre arte do karate-dô. O sensei temia que o médico viesse a ter de defrontar-se com Fratelli. Havia a possibilidade, pois ambos eram muito aplicados e muito bons.      A primeira dupla foi rápida, Mauro, um mulato baixo e atarracado, bloqueou todos os seiken aplicados por Jonas. Este, um jovem claro, era muito hábil no uso das técnicas de kawashi-wasa (defesa) e forte, quando se tratava de utilizar as mãos. Mas não era hábil naquilo que mais destaca o karateca, a arte de empregar as técnicas Ashi-wasa (pernas) e perdeu o embate com um belo mae-geri aplicado por Mauro.      No segundo combate, Mauro liquidou o Lima com um golpe direto no plexo solar, mas no terceiro encontro perdeu com um ushiro-geri que lhe aplicou o Joca. Este, combateu com segurança contra o novato José – assim chamado por ter pouca experiência de combate e competições. Travou uma luta equilibrada com o Luís, derrotando-o após o terceiro encontro e também venceu o Lauro no segundo encontro. Campeão de sua chave, foi para o combate com o médico Aquiles.      O sensei sabia que Lauro era bom e rápido com as pernas. No entanto, não era páreo para Aquiles. Após uma bela troca de golpes no primeiro encontro, Aquiles derrubou seu oponente no segundo encontro com um chute circular que lhe atingiu a cabeça.      Durante o jiu-kumitê o sensei observou que Fratelli mantinha extremo cuidado na aplicação dos golpes. Seu primeiro combate ele venceu com um belíssimo seiken dado em contra-ataque na face de seu oponente. Fratelli poderia facilmente ter-lhe quebrado o nariz, mas preferiu desferir o soco no lado esquerdo da face, atirando o oponente atordoado sobre o dojô. O segundo combate, Fratelli venceu com um preciosíssimo yoko-tobi-gueri, um salto em pleno ar com uma perna esticada e outra dobrada. Não que fosse necessário, mas o homem gostava de exibir sua performance. O sensei constatou que, mais uma vez, o seu pupilo-problema podia ter ferido o companheiro gravemente, mas evitou a pancada violenta do pé na cabeça do outro. Preferiu atingi-lo de raspão, jogando-o de costas no dojô e caindo de pé ao lado dele, dando fortíssimo pisão no tatami próximo à cabeça do rapaz caído, indicando que se fosse para valer, ali ele teria morrido. O kiai que soltou, naquele momento, foi vibrante como o rugido de um leopardo. O terceiro combate Fratelli venceu com um golpe de pura exibição. Partindo de uma base Zenkutsu-dachi fez um giro rápido como uma cascavel e ficou de costas para o seu oponente. Antes que aquele percebesse o que estava acontecendo, Fratelli aplicou-lhe o ushiro-geri. O pontapé dado para trás tem um efeito demolidor e pode ser absolutamente fatal. Mas para espanto de todos, Fratelli sustou o calcanhar no justo momento em que seu pé tocava o ponto situado sobre o lado lateral do peito esquerdo do companheiro, a quatro dedos abaixo do mamilo. Ele ficou ali, parado, fazendo o kiai poderosíssimo soar na sala da academia. O quarto combate Fratelli o ganhou com um empi de velocidade controlada, mas forte o suficiente para lançar o companheiro desacordado no dojô. O sensei socorreu o rapaz que, felizmente, nada de mais grave sofrera.      Agora estavam ambos, Aquiles e Fratelli, frente a frente, à espera do momento de lutarem.      Um pesado silêncio foi tomando conta da atmosfera ambiental da academia. Sentia-se a eletricidade da tensão no ar. O caçador se controlara para poder ficar frente à caça e ali estavam. Fratelli olhava para o médico com um sorriso malicioso nos olhos, embora seus lábios permanecessem firmes e cerrados fortemente. Aquiles estava aparentemente calmo e seguro de si. Sabia que o companheiro tinha más intenções, mas julgava-se protegido porque estavam diante do sensei. Ele não seria estúpido o suficiente para se arriscar a ser mandado embora da academia. Por isto, Aquiles olhava para Fratelli tranqüilamente. Kimura levantou-se de seu banquinho e encaminhou-se para os vencedores da noite. Eles, em sinal de respeito, ajoelharam-se e colocaram as testas no tatami. Era uma tradição nipônica que Kimura fizera questão de manter entre seus alunos. O sensei ajoelhou-se ao lado dos vencedores e bateu palmas duas vezes. Os alunos ergueram-se e se mantiveram sentados sobre os calcanhares, de cabeças curvadas e mãos espalmadas sobre os joelhos. Kimura, então, falou.      — Hoje tivemos uma exibição de técnica apurada e de controle emocional soberbos. Agora deveria haver o combate final para termos o vencedor da noite. Ele não se dará.      Fez-se um longo e pesado silêncio. Kimura mandou que os lutadores se cumprimentassem e se retirassem do dojô. Aquiles obedeceu, mas Fratelli permaneceu sentado ereto, não respondendo ao cumprimento do outro. Isto era um insulto a Kimura, um insulto absolutamente intolerável. O sensei estreitou os olhos de tal modo que pareciam fechados, a não ser pelo brilho que saia deles pela estreitíssima fenda entre as pálpebras.      — Por que não cumprimenta seu colega? – indagou o sensei.      — Porque eu quero o combate – respondeu Fratelli determinado. – Se não combatermos aqui, no dojô, brigaremos lá fora. E lá, não haverá regras.      Kimura soltou um poderoso rugido. Fora ofendido em sua honra de mestre. Fora desobedecido. Aquele aluno precisava de uma punição. O sensei ficou de pé num salto. Quase que como se ligado a ele, Fratelli ficou também de pé. Os movimentos foram quase síncronos.      — Você quer combate? – e a voz do sensei soou surda.      — Sim.      — Combaterá contra mim – sentenciou o japonês.      — Como desejar, mestre – respondeu Fratelli – mas, depois, o médico lutará comigo.      — Não! – disse o sensei, irritado.      — Sim – teimou Fratelli –, a menos que o senhor me liquide.      Erguendo-se e curvando-se respeitosamente diante do sensei, Aquiles falou.      — Mestre, meu companheiro deseja combater comigo. Sei que o ímpeto dele o levou a cometer uma ofensa inqualificável contra a sua autoridade, mas eu peço, humildemente, que me conceda a honra de lutar em seu lugar.      — Não – respondeu, determinado, o sensei. – Fratelli me desrespeitou. Se eu não lhe der uma lição, ficarei mal comigo mesmo. Não serei mais digno de minha posição de mestre nas artes marciais. A disciplina é inviolável entre nós. Minha honra não tem preço.      — Não quis ofendê-lo em sua honra, mestre – falou Fratelli, sem humildade nenhuma –, porém o senhor me negou um combate sem razão aparente. A regra da academia é a luta final para que haja um vencedor. Como poderei saber se sou o melhor da noite, se o senhor me tira a oportunidade? Eu quero o combate não para insultá-lo, mas para cumprir a regra.      — Combaterá contra mim – sentenciou o sensei e fez um sinal com a mão mandando que Aquiles se afastasse e os deixasse a sós no centro do dojô. Aquiles obedeceu. O sensei cumprimentou o aluno e se posicionou em guarda. Fratelli começou a rodar cuidadosamente em torno do mestre. Estava atento. Seu coração batia forte de alegria. Há muito desejava bater-se contra Kimura. Desejava saber o quão bom era e, sendo ele o mestre, Fratelli sentia-se livre para atacar com toda a potência. Kimura sabia que o discípulo tentaria matá-lo. Atacaria com fúria e toda a potência de que se sentisse capaz. Era um homem perigoso e já conhecia o suficiente do karatê para matar mesmo alunos avançados. Por isto, observava-o globalmente captando cada mínimo movimento de seu corpo. E foi esta sua capacidade sutil de perceber, quase antever o ataque que o salvou. Como um relâmpago o aluno atacou. Rodopiando sobre si mesmo, Fratelli lançou o calcanhar contra a cabeça do sensei. Tinha a certeza absoluta que o acertaria. Podia até sentir o impacto e o crânio do mestre estalando sob o seu calcanhar. E estava antegozando a vitória quando seu pé zuniu no vazio, pois Kimura já não mais estava lá. Fratelli mal pôde ver o sensei quase colado entre as suas coxas, mas sentiu perfeitamente as mãos dele, uma segurando-lhe a coxa que girava no ar dirigindo a perna para o pontapé mortal e a outra segurando-lhe a cintura. Os toques foram suaves, como se o sensei estivesse tocando o corpo delicado de uma mulher. No entanto, Fratelli se sentiu impotentemente levantado sobre a cabeça do mestre que o jogou rodopiando de encontro à parede. O choque foi violento e doloroso. O aluno tombou sobre o dojô desajeitadamente e, nem mesmo tinha acabado de cair, percebeu o sensei vindo sobre ele do alto, punhos prontos para martelar. Mas Fratelli o surpreendeu. Não era o melhor aluno à-toa. Seu corpo – mais por reflexo do que por ato consciente – rodou rapidíssimo e o livrou do ataque. O sensei tocou o dojô fração de segundo após o aluno ter-se posto de pé e contra atacar. O golpe foi certeiro e violento. Foram dois rapidíssimos e violentíssimos seiken dirigidos ao tórax do mestre. Acertaram em cheio e Fratelli esperou vê-lo tombar sem fôlego. Mas nada disto aconteceu, para espanto do aluno. O mestre cambaleou e se deixou cair de costas para num movimento contínuo ficar de pé e barrar o avanço de seu aluno com um certeiro mae-gueri-kikomi.      O pontapé frontal, dado no plexo do adversário com o calcanhar, pode matar. Mas o mestre não tinha a intenção disto. Dosou a pancada de modo a somente retirar o fôlego de Fratelli. Em seguida aplicou-lhe o “shutô” (quina da mão) em bem dosada força, no lado externo esquerdo do pescoço, atingindo-lhe a parte média do músculo esternocleidomastóideo. Fratelli sentiu violenta dor e a consciência lhe fugiu. Tombou como um saco vazio e ficou ali, estendido no dojô, sem que o mestre o socorresse. Aquiles fez menção de se levantar de onde estava para ir socorrer o companheiro, mas foi detido por um imperioso gesto do sensei.      — Ele voltará a si por seus próprios meios – disse Kimura. – Sentirá muita dor e não moverá o pescoço por algum tempo. O suficiente para pensar duas vezes antes de me desacatar. Vocês estão dispensados.      Os alunos começaram a se retirar, impressionados com o combate que haviam assistido. Se o respeito pelo mestre havia duplicado, o medo a Fratelli decuplicara. Compreenderam que ele era um assassino instintivo. Tentara matar o sensei. Atacara com toda a violência de que era capaz. Nenhum deles teria condições de escapar com vida num combate para valer, contra Fratelli.      Todos já haviam saído para o chuveiro quando Fratelli deu os primeiros sinais de que estava recobrando os sentidos. Uma profunda, lancinante dor no pescoço o fez soltar um gemido. Com muito cuidado ele mexeu a cabeça para a direita e para a esquerda. A dor aumentou de intensidade. Pestanejou e olhou em volta. Não viu ninguém. Estava sozinho. “ Perdi o combate ”, pensou de si para consigo. “ Perdi e nem mesmo vi como foi. O sensei é poderoso. Ainda terei muito o que treinar para poder medir-me com ele ”. Fratelli sentou-se com dificuldade. Trincando os dentes fez uma vigorosa massagem no pescoço. A dor diminuiu. Continuou a massagear o local da pancada até quando sentiu melhora. Foi para o chuveiro quando todos já estavam saindo de lá. Tomou uma chuveirada demorada e depois fez trinta minutos de sauna seca, a quase 100 de temperatura. A dor no pescoço melhorou muito. Da sauna foi direto para a massagista e se entregou às mãos de fada da moça. Quando foi embora já estava bem melhor. Podia mexer com a cabeça e a dor, quase não mais a sentia.      “ Estarei bom quando matar Kimura ” – pensava Fratelli à direção de seu carro – “ então, serei superior a ele. E quando isto acontecer, aqueles bobocas se verão comigo .”      Naquela noite ele não foi para casa. Estava deprimido. Não digerira a punição que o sensei lhe aplicara. A humilhação diante dos imbecis da academia era demais. Para Fratelli, todos eram uns asnos, inclusive o sensei. “ Arte Marcial é para matar. Quem gosta de balé que vá para o Teatro Municipal aprender coreografia. No dojô deve-se lutar para valer .” Um guarda trilou insistentemente o apito. Era com ele. Parou o automóvel de mau humor. O policial aproximou-se, cumprimentou-o e lhe pediu os documentos. Depois amolou-o revistando o carro para, então, aplicar-lhe uma multa por avanço de sinal. Fratelli saiu dali mais irritado e beligerante. Rodou sem destino. Terminou no “Tarantela”, na Barra da Tijuca. Não poderia dizer quanto tempo ficou ali olhando, sem ver, o mar no escuro. Bebericou uma sangria e comeu um Fetuchine aos quatro queijos. A irritação estava quase no fim, quando viu o automóvel de Aquiles parando no estacionamento. Pôs-se imediatamente em alerta. Lembrou-se de que era costume de seu “inimigo” freqüentar o “Tarantela” nos dias pares da semana. E ali estava ele para jantar, como de costume. O que levara Fratelli até ali? O inconsciente ou o destino? Para ele tanto fazia. Chamava de “sorte” aquele encontro inesperado. Como um animal de tocaia permaneceu quieto e observando o casal. A moça era muito bonita. Cabelos claros, olhos escuros e corpo muito bem cintado, tinha pernas longas, curvas sensuais e que terminavam em nádegas arrebitadas, mas não exageradas. Os seios sobressaiam na blusa colada, de malha. Os mamilos apareciam, sinal de que ela sentia frio. “ O ar refrigerado ” – pensou Fratelli com um sorriso. – “ O automóvel tem ar refrigerado ”. Ele se dedicou a observar minuciosamente a acompanhante do detestado companheiro de dojô. Era jovem, esbelta, corpo bonito, lábios carnudos e muito bem pintados. Nariz afilado e sorriso encantador. “ Bela potranca ” – pensou o homem excitando-se ainda sem o perceber – “ uma cavalgada de primeira linha... ” – Este pensamento lhe trouxe a fantasia erótica. E a fantasia lhe trouxe um plano.      Eram vinte e três horas quando Aquiles deixou a namorada na portaria do edifício “MIOSÓTIS”, no Leblon. Beijaram-se e ele permaneceu olhando a moça entrar em casa. Depois, foi embora, feliz com aquele jantar. Glauce, irmã de uma repórter, em nada parecia com a mana. Era discreta, suave e amorosa. Cursava o último ano de mestrado em medicina e estava no último período da residência. Falava pouco da família e Aquiles achava engraçado que ela nem ao menos lhe houvesse dito o nome de sua futura cunhada, nos seis meses em que se conheciam. Pretendiam casar assim que ela terminasse sua residência, o que ocorreria dentro de seis meses. O jovem Aquiles estava muito feliz com a noiva. O modo pacato, discreto e compreensivo de ser de Glauce casava muito bem com as maneiras refinadas, educadas e um pouquinho misantropas de Aquiles. Os pais de sua noiva moravam no Rio Grande do Sul e eram donos de uma vinícola. Aquiles estivera com eles duas vezes. Eram descendentes de italianos – o que tornava os modos de ser de Glauce muito sui gêneris . Eles falaram muito de Karina, a irmã jornalista de Glauce. Pelo que haviam dito, era totalmente contrária a Glauce. Nela, o sangue italiano havia dominado plenamente. Irrequieta, impaciente e estouvada. “ Vou gostar de conhecer a moça ” – pensou Aquiles, sorrindo, “ um contraste que vem bem estimular nossas vidas. Repórter policial... O que fará uma pessoa destas? Será que sobe morros e... e faz reportagens beócias como aquelas do “Na Onda do Crime”, do Canal 13? Se faz, bem... pelo menos terá coisas interessantes a contar. ” E foi mergulhado nestas divagações que o jovem chegou a sua casa. Guardou o carro na garagem, entrou e foi direto para o chuveiro. Banhado e perfumado, consultou a secretária-eletrônica para ver se havia algum recado. E foi aí que sua felicidade e alegria daquela noite ficaram perturbadas. No aparelho não havia qualquer chamada ou qualquer recado de paciente – o que era raro – mas Aquiles, quando ia desligá-lo, ouviu, súbito, uma gravação. Após o sinal da secretária, uma voz sussurrada e, por isto mesmo difícil de identificar, dizia: “ Quando passeava por uma gruta da Acrópole, em Atenas, a Jovem Creúsa, bela donzela, foi violentada por Apolo, o belo deus do calor e da vida... Cuidado com Apolo...      Aquilo deixou o médico perplexo. Não tinha nenhum nexo e, no entanto, deixara-o tenso. Ouviu por mais de uma dezena de vezes a estranha mensagem sem compreender onde ela queria chegar. Não conhecia nenhuma Creúsa. Não conhecia nenhum Apolo. Não era médico psiquiatra para receber mensagens de algum neurótico em crise. Tomado de um pressentimento mau, ligou para Glauce. A moça atendeu com voz sonolenta.      — Alô?      — É você, meu bem?      — Aquiles?! O que houve? Eu já estava dormindo...      — Bem... Nada. Tudo em ordem?      — Por que me telefona para perguntar isto? É claro que está tudo em ordem... O que houve?      — Bem... Eu... – Aquiles não sabia o que dizer. Era impossível que qualquer coisa tivesse acontecido com sua amada. O prédio dela era muito bem guardado. Possuía alarmas e ela morava no décimo quarto andar. Não era lógico temer que algo lhe houvesse acontecido... E no entanto, uma angústia confrangia-lhe o peito.      — Meu amor... O que há? – insistiu Glauce.      — Senti saudades – mentiu o rapaz, rindo mais de vergonha de si mesmo do que pela mentira que dizia.      — Que bom. Mas... que tal irmos dormir? Já é tarde e teremos um dia cheio, amanhã.      — Você está certa... Durma bem.      Aquiles desligou o aparelho. Tudo estava bem com sua amada e, no entanto, seu peito continuava pesado, fechado, angustiado. Revirou-se na cama quase a noite toda, sem conciliar o sono.      Cícno e Fílio seguiram as pessoas que lhes foram destinadas por Kamuratti. Por três dias estiveram colados nelas. Mas nada, absolutamente nada de suspeito conseguiram levantar.      Fratelli também nada descobrira sobre duas das pessoas suspeitas. Mas um tal de Celso lhe despertara o instinto. Era um homem polido, educado, bem falante e um advogado bem sucedido. Amigo de Anteu, parece que trabalhavam juntos em alguns casos de destaque. Fratelli conseguiu com habilidade e discrição, e, lógico, através de gordas propinas, saber de quase todos os processos em que ambos os advogados trabalhavam. E nenhum deles tinha nada de suspeito. Acidentalmente, contudo, quando estava na cantina do Fórum, onde muitos advogados se reuniam comentando os processos de que cuidavam, ouviu a palavra FRUTIBRAS. Procurou descobrir de qual boca havia ela saído. Na mesa estavam quatro homens conversando. O assunto era exportações e pelo menos dois deles mencionaram novamente aquela firma. Davam-na como um exemplo de correção.      — Com licença – intrometeu-se Fratelli – ouvi vocês mencionarem a FRUTIBRAS. Não é uma firma em que o Dr. Anteu tem negócios?      — Eu não sei – disse um dos interpelados.      — Eu, também, não – confirmou outro.      — Nem eu – ecoou um terceiro.      — Quem lhe disse que o Dr. Anteu tem negócios com a FRUTIBRAS? – indagou o quarto advogado.      — Não, ninguém particular. Certo dia eu estava no elevador e ele entrou. Conversava com um outro advogado e falavam sobre a tal firma que vocês citaram. Parece que estavam muito bem impressionados com ela – mentiu Fratelli.      — O colega é especializado em quê? – indagou um dos outros.      — Direito Empresarial – respondeu Fratelli.      — Oh, entendo o seu interesse na FRUTIBRAS. Mas, meu amigo, se o Dr. Anteu está na jogada, desista. Os donos da empresa não vão trocá-lo por outro advogado, disto temos a certeza. O Dr. Anteu é muito respeitado pelos seus clientes e eles confiam muito no trabalho dele e de sua equipe – disse o mais velho dos quatro outros advogados.      — Bem... a gente sempre pode tentar. Quem sabe, há algo que se possa fazer...? – disse Fratelli, simpático.      Todos riram. Fratelli pediu licença e se levantou. Havia notado, observando de soslaio, que o tal Celso estava sentado próximo a eles e estivera o tempo todo atento à conversa. Olhava de modo direto para ele como se quisesse gravar suas feições. Levantara-se tão logo Fratelli dera por encerrada a conversa e saíra muito rápido. Bem, podia não ser nada e ele talvez perdesse tempo em seguir o homem, mas por via das dúvidas...      Celso foi direto para o rico escritório de Anteu. Fratelli, é claro, não tinha como entrar lá, mas aquele comportamento lhe pôs um elefante atrás da orelha. E foi por isto que tratou de levantar a vida do homem. Mas justamente aí foi que a coisa ficou complicada. O tal Celso não era fácil de ser rastreado. Embora advogado e estando quase todo o tempo no Fórum, não cuidava de nenhum processo em particular. Era escorregadio, excelente na arte de “desaparecer” e por várias vezes deixara Fratelli perdido no reboliço daquele labirinto. Uma vez, Fratelli o seguira pela cidade. Mas tivera o azar de ser parado por uma patrulha policial e, quando finalmente se desembaraçou dela, o homem havia sumido. Fratelli começou a desconfiar de que havia uma coincidência muito estranha entre as batidas policiais e aquele homem. Sempre que ele o seguia, invariavelmente a polícia, de um ou outro modo, interferia em seu caminho e o tal Celso escapava.      Fratelli tinha influência no DETRAN, o Departamento de Trânsito. E foi lá, através de um informante, que veio a descobrir a verdadeira identidade do homem que já o intrigava há quase três dias. Ele era um banqueiro de bicho, o mais rico e o mais influente entre os grandes testas-de-ferro do crime organizado. Aquilo o preocupou. Será que o filho do patrão sabia quem era o seu amigo? Se sabia, andaria metido com os crimes na cidade? Fratelli resolveu que era hora de informar ao Sr. Kamuratti. De um telefone público fez a chamada para o banqueiro. Este atendeu.      — Sou eu, Fratelli – identificou-se o advogado – acho que tenho notícias interessantes.      — Pois informe – ordenou, seco, Kamuratti. Fratelli contou o que sabia a respeito do tal Celso. Kamuratti não o interrompera nem uma vez. Ao final, foi impositivo:      — Venha, hoje, às vinte e duas horas, ao meu escritório. Venha só.      Fratelli olhou o relógio. Eram dez horas e vinte minutos e ele não tinha muito o que fazer. O Celso estaria, como sempre, zanzando pelo Fórum, aparentemente muito ocupado, mas na verdade fazendo apenas a cena habitual. Talvez tomasse informações sobre o andamento dos processos que lhe interessavam sobre jogos ou sobre alguns de seus asseclas. Até que tivesse recebido orientação específica do Sr. Kamuratti nada tinha a fazer. Estava contente. Desde que viera ficar a serviço da família, nunca fora colocado em trabalho sério. Ficou de pé olhando para a rua onde uma mole humana suava e se agitava no calor do verão carioca. Uma jovem de mini-saia e cabelos a la Elba Ramalho, sapatos pretos de modelo infantil chamou-lhe a atenção. A moça logo sumiu de vista, mas sua imagem ficou na mente de Fratelli. E foi graças a ela que terminou por se recordar da noiva de seu desafeto. O homem consultou novamente o relógio. Agora, eram dez horas e vinte e oito minutos. Ela se chamava Glauce Pinheiro Lauriel e trabalhava no hospital escola na Urca. Quando saía de lá, à noite, atendia num consultório. Fazia especialização em neurocirurgia, mas era também uma excelente clínica geral. Tanto que estava quase conseguindo ser chamada para uma das mais conceituadas clínicas da cidade para assumir a direção da área de cirurgias. Fratelli riu de si para consigo. Colocou mais um cartão no telefone e ligou o número do hospital. Logo ficou sabendo que a Dra. Glauce não estava de plantão naquele dia. Talvez estivesse na residência. Lá lhe informaram, contudo, que Glauce havia tirado o dia para sair. Talvez houvesse ido visitar o noivo, o Dr. Aquiles. Fratelli ligou para a clínica onde Aquiles trabalhava e era Diretor da Área Médica. Não, Glauce não havia chegado lá. Ele somente se identificou como um paciente dela, mas não deu nome. Disse que telefonaria depois. À falta do que fazer, Fratelli decidiu vigiar Anteu e o tal Celso.      Glauce encontrava-se, naquele momento, diante da portaria da redação de “EL MONDO” e aguardava a irmã. Tivera a sorte de encontrar Karina na redação. Geralmente ela estava pela rua, atrás de alguma notícia ou pesquisando uma informação. Teve de esperar trinta minutos antes de ver a irmã sair do elevador.      — Puxa vida! – exclamou Glauce, sorrindo – como você é difícil, mana.      — Não mais do que você – respondeu a bela moça de estatura mediana, olhar arguto, sobrancelhas espessas, mas muito bem tratadas, corpo de linhas acentuadas, esbelto e firme de musculatura. Boca e nariz eram quase cópias perfeitas daquelas partes na irmã médica. A repórter era levemente mais baixa em estatura e seus cabelos eram de um castanho mais escuro. Enquanto a médica estava, como de hábito, toda de branco, a repórter trajava um leve vestido azul-claro sem mangas e com um decote muito forte. O tronco dos seios sobressaia de modo provocante e era perfeitamente visível que não estavam presos por sutiãs. Calçava sapatos com saltos tipo Luís XV, um tanto fora de moda, mas que punham em destaque um par de pernas de meter inveja a Vênus.      — Então, o que a traz aqui? – indagou Karina, após beijar a irmã nas faces.      — Estou de folga e só vou encontrar o meu noivo à noite. Daí pensei em almoçarmos juntas. Que tal? – convidou Glauce.      — É uma excelente idéia, mana – respondeu, satisfeita, a repórter – Temos um bocado de coisas a falar.      Pouco depois elas saíam conversando animadamente. Tomaram um taxi e foram zanzar pelo Rio Sul. Ali tomaram lugar numa agradável e refrigerada lanchonete e pediram uma refeição rápida. Enquanto esperavam, conversavam.      — E então –, indagou Karina – o noivado está mesmo de pé?      — Claro – disse Glauce. – E nos casaremos assim que eu terminar minha residência. Daqui a seis meses, para ser mais exata.      — E onde vai ser a festa?      — Não vai haver. Queremos algo discreto. Aquiles é um homem retraído e não gosta de festas. Eu quero que façamos a coisa lá na vinícola. Nossos pais, acho eu, vão gostar.      — Eu aprovo a idéia – disse Karina, tomando um gole do copo de chope gelado.      — Você vai estar lá, não vai? – quis saber Glauce.      — Claro que vou. Afinal, preciso conhecer este cunhado e não terá melhor oportunidade que esta. Afinal de contas eu não sei se depois disso a gente vai encontrar-se mais vezes. Temos trabalhos semelhantes quanto ao tempo em que nos toma, mas dessemelhantes quanto aos interesses e objetivos. Acredito que nunca iremos estar ao mesmo tempo, no mesmo local, não é?      — Não sei, não. Meu futuro marido é ortopedista. Quem sabe, um dia...      — Ele venha a tratar de minha perna quebrada por uma bala? – riu a repórter.      — Não, mana, não desejo que isto aconteça – rebateu Glauce, constrangida.      — Era brincadeira. Mesmo porque, se acontecer, o jornal tem sua equipe médica, sabia?      — Quem falou em perna quebrada foi você, não eu – disse rindo a médica.      — É, tem razão... E onde pretendem passar a lua de mel?      — Em uma ilha, mas não vou revelar qual seja – brincou a médica, brejeira..      — E por que não?      — Para que não tenhamos uma equipe de seu jornal atrás de nós – zombou Glauce. Ambas riram. O garçon substituiu os copos de chope gelado. As moças continuaram a bebericar até quando o almoço foi servido.      — Parece bom – disse Karina.      — Veremos logo – falou a médica.      — Sabe com quem estou saindo? – perguntou a repórter.      — Não. Não tenho tempo para bisbilhotar sua vida – foi a resposta divertida.      — Conhece... ou já ouviu falar dos Kamuratti?      — Não.      — Você é mesmo desligada, mana. Os Kamuratti são os donos do Banco Kamuratti.      — Você está saindo com um banco inteiro? – brincou Glauce.      — Não, claro que não. Eu saio com Anteu Kamuratti – e Karina estava séria.      — O herdeiro? – admirou-se Glauce.      — Sim.      — Um golpe do baú? Tome vergonha...      — Nada disto, sua boboca. Ele é um homem interessante. Um judeu... Descendente, para ser mais exata. Mas alguém que não é muito apegado às tradições da raça.      — Ainda bem – disse Glauce, dando início ao almoço com bom apetite.      — Por que? – indagou Karina, seguindo-a.      — Eu não conheço bem os judeus, mas o que dizem deles...      — Bem, concordo que parecem esquisitos para os nossos costumes. Mas nossos ancestrais, os tupis, também pareceram esquisitos aos nossos descobridores.      — E quem foi os nossos descobridores, posso saber?      — Dizem que os portugueses – falou Karina de boca cheia.      — Mentira. Muito antes deles os vikings já andavam por estas terras. E bem antes deles, os egípcios e, há quem afirme, os atlantes. Ultimamente, afirmam que também os esquimós, de quem nossos indígenas herdaram suas características genéticas – rebateu Glauce demonstrando um bom conhecimento da História que a História não conta.      — É, em matéria de História, nosso País é uma mentira só – filosofou a repórter.      — Por isto sugiro que deixemos de lado esta parte e voltemos ao seu judeu – falou rindo Glauce.      — Tudo bem. Anteu é um advogado brilhante. E uma companhia muito interessante, se quer saber. É fino no trato, suave no falar e muito cordato. Uma excelente companhia.      — Você está mesmo apaixonada por ele, está? – e Glauce parecia muito surpresa.      — Eu não disse isto – apressou-se a desfazer o mal-entendido a repórter.      — Bem, mas o seu entusiasmo...      — É profissional. Só profissional.      — E como se explica um entusiasmo profissional neste caso?      — Simples. Ao que parece, Anteu não concorda muito com os métodos dos Kamuratti no que tange a negócios.      — E daí?      — E daí, acredito que vou descobrir uma grande reportagem, ora essa – disse Karina, tornando a encher a boca avidamente.      — Você está-me dizendo que está usando o tal de Anteu para conseguir um “furo” jornalístico, é isto? – censurou a médica.      — Sim... Quem sabe? Parece que Anteu quer contar-me algo. O que, eu nem desconfio. Mas quando ele está menos tenso deixa escapar que discorda frontalmente com certas... certos negócios do Banco. Desconfio, não estou certa, de que são negócios não muito éticos, se me entende.      — Karina – e Glauce parou de comer para falar olhando muito séria para a irmã – você não sente que pode jogar o pobre do Sr. Anteu em uma situação muito delicada, se vier a publicar o que quer que ele lhe confidencie?      — Não. Talvez ele deseje mesmo que eu publique a coisa. Só que de modo a não comprometê-lo, é claro.      — E há como fazer isto?      — Pode ser. Tudo vai depender da importância do que tenha a me revelar.      — Ele não está apaixonado por você, está?      — Não sei, e não me preocupo, se quer saber.      — Acho horrível você não levar em consideração os sentimentos.      — E quem disse que eu não os levo?      — Ora, você parece estar jogando charme em cima do pobre homem – disse Glauce, contrariada.      — Não, engano seu. Eu não me comporto coquetemente com ele – rebateu Karina. – Se se apaixonar... é problema dele, não meu.      — É... Nossos conceitos de ética são mesmo muito diferentes – disse a médica.      — Não vamos entrar por este caminho. É espinhoso. Que tal...      — Que tal o quê? – quis saber Glauce.      — Que tal a gente pegar um filme? Dizem que o JURASSIC PARK é muito interessante. Vamos?      — Bem... Tá bom. Eu preciso mesmo me distrair. Não vou a um bom filme há muito tempo – concordou a médica.      As moças terminaram o almoço e continuaram conversando ainda por algum tempo. Depois, saíram para dar uma volta pelas lojas enquanto esperavam a hora do cinema começar.      Dezoito e trinta. Sentado em seu automóvel Enrico Fratelli aguardava pacientemente que algo acontecesse. Anteu havia entrado num hotel. Estava acompanhado do tal Celso e de um homem de aparência eslava. Embora não tivessem desaparecido de vista senão há vinte minutos, Fratelli já sentia como se o tempo decorrido fosse mais de uma hora. Ele era homem de ação, não de espionagem e vigilância. Queimava de impaciência e de curiosidade para ir lá dentro descobrir mais alguma coisa, mas temia pôr tudo a perder. Se isto acontecesse, Kamuratti iria ficar uma fera e Fratelli não queria a ira do seu patrão voltada contra si. Kamuratti era um polvo de muitos tentáculos. Poderia alcançá-lo no fim do mundo, se assim o desejasse. Consultou o relógio talvez pela centésima vez. Bocejou. Espreguiçou-se e estava quase resolvendo agir, quando viu o carro de Glauce passar. Seu enfado cessou instantaneamente. Também sumiu seu interesse pelo trio que até aquele momento lhe tinha prendido a atenção. Ligou o carro e seguiu, devagar e de faróis apagados, atrás do automóvel da médica. Ela não notou que era seguida. Entrou calmamente na garagem e não deu importância quando viu pelo retrovisor que outro carro quase colado ao seu também ali entrava. Às vezes, algum jovem fazia esta gracinha. Aproveitava a abertura automática da porta da garagem para penetrar junto com o outro carro. Uma demonstração de habilidade.      Glauce estacionou na vaga que lhe era destinada e vislumbrou o automóvel estranho parando cinco vagas além da sua. Estranhou. Aquela vaga era de um senhor sisudo, morador do quinto andar. E o carro dele não era aquele. Ficou um momento aguardando para ver quem desceria do automóvel, mas como a pessoa demorasse, deu de ombros e dirigiu-se para o elevador. Sua curiosidade poderia ser-lhe embaraçosa, se a pessoa notasse que ela estava aguardando para vê-la. Afinal de contas, o senhor sisudo bem que poderia ter trocado de automóvel, por que não?      O elevador chegou e ela entrou. Abriu a bolsa e estava procurando a chave quando um estranho também conseguiu entrar no elevador a tempo de impedir que as portas se fechassem. Glauce assustou-se, mas o sorriso simpático daquele homem forte e muito bem vestido tranqüilizou-a e ela voltou a rebuscar na bolsa à procura das chaves.      — A senhorita não é a Dra. Glauce, é? – perguntou com voz sonora o homem.      — Co...? Oh, sim, sou sim – disse Glauce, olhando-o curiosa.      — Permita que me apresente. Sou Eurico Fragoso. A senhora tratou de um amigo meu, há alguns dias. Fez um grande trabalho no braço dele – disse Fratelli.      — O que tinha o seu amigo? – indagou, curiosa, Glauce.      — Sofreu uma ruptura dos tendões da mão esquerda. Acidente de automóvel. A senhora e sua equipe fizeram a intervenção cirúrgica – informou Fratelli todo sorriso.      — Bem.., Na verdade eu faço uma dezena de intervenções durante a semana. Acho que não me lembraria de seu amigo, desculpe-me – disse Glauce. O elevador parou no seu andar e ela saiu. Fratelli fez a mesma coisa, de modo natural.      — Parece que vamos para o mesmo andar – disse ele, ainda com aquele sorriso cativante.      — É... – Glauce, sem compreender o motivo, sentiu-se apreensiva. Eram quatro apartamentos por andar. O hall era pequeno, logo, o simpático estranho não podia demorar muito para localizar aquele a que se dirigia. Glauce parou um instante rebuscando a bolsa, vigiando de esguelha o homem. Este, olhava os números nas portas como se procurando um especial. Retirou um cartão do bolso e consultou cada porta a olhar o cartãozinho na mão. Estava de costas para Glauce. Ela aproveitou para encaminhar-se para o seu apartamento e introduzir a chave na porta, mas antes que o fizesse o seu celular soou dentro da bolsa. Atendeu-o ali mesmo. Era Aquiles, mas Glauce fingiu estar recebendo uma chamada urgente do hospital.      — Sim?... Ah, é você? ... Oh, está bem. Estou indo agorinha mesmo... Não, não. Eu estava chegando... Não precisa. Eu estou descendo. Até logo.      O elevador ainda estava no andar. Glauce apertou o botão e as portas se abriram. Ela entrou e o homem simpático fez a mesma coisa.      — Acho que errei de edifício – disse ele, com um ar embaraçado – Este não é o Edifício Gerânios, pois não?      — Não – respondeu ela, aliviada – este é o “Miosótis”. O “Gerânios” é ao lado, à direita.      — Oh, que maneira desastrada de chegar a casa – comentou o rapaz. – Eu aluguei o apartamento 1402 no “Gerânios”...      — Ora, que coincidência – comentou Glauce impulsivamente – Seu apartamento tem o mesmo número do meu – mal o disse e já se arrependia.      — É mesmo? Isto pode significar sorte para mim. A propósito, vou precisar de sua ajuda para sair da garagem. Eu aproveitei a sua carona para entrar nela e... Bem, não tenho o comando para o portão e, sem ele, fico preso aqui. Vai ser difícil explicar como vim parar na garagem errada, não é?      Glauce riu, descontraindo-se. – Sim, tem razão, Mas saia como entrou: atrás de mim.      — Obrigado – disse Fratelli. O elevador chegou ao andar da garagem e ambos saíram dele. Cada qual se dirigiu para o seu automóvel.      Já na rua, Fratelli manteve-se acompanhando o carro da médica por algum tempo, sabendo perfeitamente que era observado por ela através do retrovisor. Sabia que a moça estava tensa, desconfiada, porém confusa. E era sua intenção manter aquela situação por mais tempo. O automóvel dela acelerou e aumentou a distância entre eles. Fratelli soltou um riso mau e também acelerou, quase indo bater no pára-choques traseiro do automóvel de Glauce. Ela estava assustada. Tinha os olhos presos no retrovisor e a manobra do homem quase a fizera perder o controle de sua direção. O carro por pouco não desgovernou e bateu na lateral de um ônibus. O coração de Glauce disparou e sua boca ficou seca. Relanceou os olhos procurando um guarda de trânsito, mas não havia nenhum à vista. O automóvel de seu perseguidor emparelhou com o seu. Assustada, Glauce olhou para dentro dele. Sorridente, lá estava o homem.      — Hei, doutora – gritou-lhe ele – boa sorte! Vou entrar na próxima rua. Nós nos veremos qualquer dia destes. Não esqueça: meu nome é Eurico!      E o automóvel dele fez uma curva rápida, embarafustando-se pela rua lateral e desaparecendo de vista. Glauce suspirou aliviada. Seu nervosismo decresceu. “ Puxa vida, estou começando a ver coisas ” disse de si para consigo. “ Também, com o banditismo que assola esta cidade é impossível a gente não desconfiar de certas situações... ”. Ela consultou o relógio, Tinha tempo. Estacionou o auto e fez uma ligação para seu noivo.      — Aquiles?      — Sim, sou eu. O que aconteceu?! Eu não entendi nada! Você parece que me confundiu com alguém do hospital... Onde está?      — Desculpe, querido. Eu estou voltando para casa. A ligação estava ruim. Pensei que fosse o enfermeiro chefe me chamando de volta. Estava preocupada com um paciente meu e...      — Tudo bem, acho que entendo. Eu passo por aí para pegá-la.      — Ótimo! Vou tomar um banho. Estou muito cansada. Tchau!      Glauce retornou ao apartamento, mas desta vez olhou cuidadosamente para ver se havia algum auto estranho atrás de si. Nada. A rua estava tranqüila.      Eram as vinte e duas horas em ponto. Fratelli entrou no rico escritório de seu patrão. Ele estava lá, sentado atrás da escrivaninha, parecendo muito atarefado com uns papéis.      — Entre e sente-se, Fratelli – disse Kamuratti sem se dignar a olhar para o subordinado, que lhe obedeceu em silêncio. Após quase meia-hora, pacientemente aguardada em quietude completa por Fratelli, Kamuratti deu-se por satisfeito e passou a lhe prestar atenção.      — Muito bem. Então, o Celso está-se metendo com o Anteu – disse o banqueiro, olhando incisivamente para o assecla.      — Sim, Senhor Kamuratti – respondeu Fratelli sem se mover.      — E.,. Sabe dizer se Anteu conhece a verdadeira indentidade do bicheiro?      — Ele é um banqueiro de bicho, senhor. Eu não posso afirmar que o Dr. Anteu saiba disto. Mas...      — Mas...?      — Mas não acredito que desconheça o fato totalmente.      — Você tem razão. Anteu não desconhece esta particularidade de seu amigo. No entanto, há outras... variáveis que eu não quero que meu filho descubra, pelo menos por agora. Você vai encarregar-se de uma missão estranha, mas necessária. E advirto que o sigilo deve ser absoluto.      — O senhor sabe que eu não costumo quebrar segredos – disse Fratelli, com voz monocórdia.      — Sim, mas é bom sempre lembrar que a indiscrição pode resultar em conseqüências dolorosamente funestas – disse com voz soturna o banqueiro. E passou a informar sobre o que devia ser feito. Falou durante quase uma hora, sem ser interrompido pelo assecla.      — Compreendeu tudo? – finalizou Kamuratti.      — Sim, senhor.      — Alguma pergunta?      — Não, senhor.      — Então, mãos à obra.      Fratelli levantou-se, cumprimentou Kamuratti com um leve e quase imperceptível curvar de cabeça e saiu a passos firmes e longos. Já passava da meia-noite, mas o assecla não se dirigiu para casa.      O local é pesado. O bairro é Madureira, no Rio de Janeiro. A barulheira, enorme. A freqüência muito ruim, constituída por indivíduos jovens, arruaceiros, adeptos do “funk” e da pancadaria. O baile está no auge. A turbamulta roda o salão ao som alucinante de uma música cheia de insultos e palavrões. A droga rola à solta. Sente-se o perigo no ar, como se a atmosfera fosse feita de pura nitroglicerina a qualquer momento pronta para explodir. Temperando o ambiente de tensão, o calor faz o suor escorrer pelos corpos luzidios e musculosos. Um homem branco, jovem e de musculatura trabalhada pela “malhação” atacou uma negra de belo corpo. Meteu-lhe a mão pela calcinha, enquanto suas línguas se embolavam dentro das bocas como cobras em luta. Na mesa ao lado, um mestiço caía quase em coma sobre o pó que estava aspirando do tampo sujo da mesa. Um jovem rodopiava feito doido no meio do salão, pernas e braços para o alto e as costas no chão. Em torno dele outros quatro se esmeravam em saltos acrobáticos e pulos mortais, soltando gritos selvagens. Àquilo chamavam de baile “funk”. Na verdade, era a pura sucursal do inferno na Terra.      Ninguém deu a mínima atenção ao homem barbudo, cabelo encarapinhado, um feio corte de navalha na face direita e um bigode maltratado debaixo do nariz de abas largas. Era alto, muito forte e coberto de colares no pescoço. Foi direto para o balcão apinhado de maus elementos. Meteu-se entre eles, empurrando-os com maus modos e despertando logo a irritação daquela gente perigosa.      — Hei – protestou um negro jovem, mas muito mais troncudo, muito mais volumoso que o recém-chegado – tá a fim de quê, cumpade ?      — Sai fora – rugiu o homem.      — Tu vai se dar mal – gritou o negro, mais para ser ouvido do que por raiva.      — Não vou não. E se você for esperto e me ajudar num negócio, nós vamos é nos dar bem – respondeu o homem, também aos gritos.      — Que qui tu tá querendo falá, cumpade? – e em volta do negro musculoso já se formara um pequeno grupo, pronto para cair de pau no intrometido.      — Preciso de cinco machos decididos. Alguém aí tem bagos? – disse, rude, o homem.      — Tá querendo verificar, é? – ripostou debochado um dos outros mulatos que haviam fechado uma roda em torno dos dois.      — Tô. Mas não tô a fim de botar a mão no saco de ninguém – disse o homem mal-encarado, olhando de frente para o jovem arrogante.      — E se eu quiser qui tu pega aqui no Esperidião Amim, hein cumpade, o quê qui tu vai fazê? Vai me encarar, vai? – desafiou o jovem.      — Não. Eu te mando pro inferno – foi a resposta seca e dura. Os jovens arruaceiros se entreolharam e soltaram uma gargalhada em uníssono.      — Pois o carecão aqui do negão tá esperando, chapa. Cumé qui é, tu vai ou num vai pegá no “ferro” do cara?      O homem voltou-se para o mulato debochado, que mordiscava um palito olhando-o com desdém. O rapaz tinha várias tatuagens pelo corpo e, com elas, várias cicatrizes, recordações de lutas em que andara se metendo.      — Que foi que disse, moleque? – perguntou, fechando o sobrolho. A roda abriu-se instantaneamente e os dois homens foram deixados cara a cara. Como num passe de mágica um canivete automático surgiu nas mãos do mulato.      — Aí, cumpade, eu tô a fim de cortar fora os teus penduricalhos. Vai ver que tu nem tem as coisas, né?      O jovem começou a rodar devagar em torno do estranho, rodando a arma branca à frente do corpo com um sorriso maligno na boca.      — Vou começar avivando essa cicatriz qui tu tem aí neste focinho de porco, chapa! – e o jovem deu o bote. O canivete passou a milímetros da face do estranho, mas ele se moveu muito mais veloz. Com a mão esquerda desviou o braço atacante e com a direita acertou o queixo do agressor com um “ upper-cut ” de meter inveja a Mike Tayson. O rapaz tatuado subiu quase meio metro do chão e seus dentes saltaram da boca fazendo-se acompanhar de um jato de sangue rubro. O rapaz estatelou-se no chão desacordado antes mesmo de lá chegar. Seu canivete rodopiou no ar, mas a mão do homem o apanhou quando ainda estava subindo. O estranho rodopiou, espantosamente rápido, descrevendo uma helicoidal sobre si mesmo e indo parar a ponta da arma entre as pernas do negro forte, espetando-lhe os testículos abaixo do pênis que levava o nome do homem público mais careca do país. O negro empalideceu e soltou um berro, mais de susto que de dor, pois a ponta da arma não lhe rasgara o saco escrotal.      — Quem é que tá a fim de ver a cor dos escrotos do crioulo aqui? – gritou o homem para os espantados rapazes.      — N I N G U É M! – bradou em desespero o negro.      — É, cumpade, ninguém quer ver o negão capado, não – disseram em coro os companheiros do assustado negro.      — Tudo bem, então. Não costumo capar um porco chorão, mesmo – debochou o homem, pondo-se de pé e lançando a arma em direção a um dos rapazes que, assustado, desviou-se e a deixou ir cair longe.      — Agora, quem é macho pra me seguir num negócio que vai dar um bocado de grana pra todos? – o homem olhava penetrantemente nos olhos de cada um dos espantados e emudecidos dançarinos.      — O... o que é que você... o senhor quer de nós? – gaguejou um dos rapazes.      — Como eu disse, preciso de cinco machos. Mas quero machos mesmo, homens capazes de encarar a morte sorrindo. O negócio vale cinco mil reais, um mil para cada um. O que me dizem?      — E o que é que a gente tem de fazer pra ganhar esta bolada? – indagou o jovem que falara antes, desconfiado.      — Um seqüestro – foi a resposta seca.      Houve um breve silêncio, com os rapazes entreolhando-se assustados e desconfiados.      — O senhor é do Comando Vermelho? – quis saber um dos jovens.      — Não. Eu ajo sozinho... Quer dizer, eu trabalho para alguém que paga bem – foi a resposta do homem.      — E quem é ele? – quis saber outro jovem.      — A curiosidade mata – falou o homem, olhando de modo ameaçador para o curioso.      — Des... desculpe – tartamudeou o rapaz, baixando os olhos desconcertado.      — Eu vou sair. Estarei num Gol preto, estacionado na segunda quadra, à direita desta pocilga. Os que topam a parada devem sair um a um, a intervalos de três minutos, não menos, e ir direto para o meu automóvel. Estão entendidos? – E o homem deu meia-volta e se retirou, deixando a audiência desconcertada a se entreolhar indecisa.      Eram vinte e uma horas quando Anteu apanhou Karina para sair. A noite estava surpreendentemente fresca, para um dia que havia beirado os quarenta graus. A moça vestia um conjunto rosa, de saia pregueada e curta, blusa simples e de costas de fora. Sua maquiagem era adequada para a ocasião e, como sempre, ela dava aquela saudável e sempre bem-vinda impressão de frescor e pujança que refrigeram a alma de quem a vê. A vida, nela, parecia explodir em cada poro, a cada segundo, em cascata de luz e esperança.      — Você está simplesmente deslumbrante – saudou-a Anteu assim que a moça surgiu na portaria do edifício.      — Obrigada – e com um gesto simples e encantador, ela pegou o braço do rapaz e desceram de braços dados. Anteu sentia-se como se fosse levando uma rainha. Aliás, Karina sempre o fazia sentir-se assim, o rei da situação. Aquilo lhe era profundamente agradável.      — Adoro tê-la a meu lado e ver o olhar de inveja dos outros homens – comentou Anteu olhando de esguelha para dois outros homens que passaram por eles e não se incomodaram de se virar para olhar Karina.      — Obrigada – riu ela, coquete – é sempre bom ouvir isto.      — Quando você vai aceitar ser minha garota? – disse ele enquanto abria-lhe a porta do carro.      — Quem sabe? – respondeu a moça, evasiva.      — Só você é quem pode responder a esta pergunta – disse o banqueiro após tomar seu lugar atrás da direção do Taurus – E então...?      Karina olhou-o com um sorriso brejeiro e desconversou.      — Vamos? A noite está convidativa. Que tal relaxar e gozar este frescor, hum?      Anteu permaneceu escrutando-lhe o semblante por alguns segundos, mas a moça olhava natural e determinadamente para a frente. Finalmente o banqueiro deu a partida no automóvel.      O carro rolou pelo Leblon e Karina admirava as fachadas coloridas de neon dos bares e das casas comerciais. Havia ainda muita gente andando pelas ruas e avenidas, mas dentro em pouco o Rio estaria recolhido e só os notívagos perambulariam pelas suas ruas semi-desertas. Nisto ela gostava do Rio de Janeiro. Era uma cidade grande com jeito e ares de cidade interiorana. Em São Paulo, como em New York isto jamais aconteceria. A noite e o dia já não eram mais respeitados pelos seres humanos. Como formigas incansáveis eles trabalhavam todo o tempo, revezando-se na estúpida faina de sobreviver à dura luta por um lugar ao sol, às vezes apenas pelo direito de poder respirar. Lembrou-se de Marina Colassanti em sua crônica “ Eu sei, mas não devia ”. Nela, a jornalista retratava a dura realidade do citadino que se vai acostumando às situações duras que o viver social submete a todos e os obriga a abdicar, aos pouquinhos, de si mesmos e da vida. O Taurus subiu a Niemayer, passou diante do imponente e bem localizado Hotel Nacional e rolou pela orla marítima indo parar em São Conrado, diante de um agradável restaurante repleto de pessoas tagarelantes, como são os cariocas. Eles desceram do automóvel, entraram no restaurante e buscaram uma mesa junto à parede dos fundos, embora Karina gostasse mais de sentar perto da mureta que dava para fora. A moça nada disse, pois estivera observando furtivamente o seu acompanhante e lhe notara a tensão no rosto. Boca crispada, pigarro nervoso a curtos intervalos e os nós dos dedos esbranquiçados pela força desnecessária com que segurava o volante da direção hidráulica do automóvel, Anteu não mais trocara uma palavra com ela desde que dera partida no carro. Karina procurara dar a impressão de estar despreocupada e descontraída, mas estava, em verdade, muito alerta e atenta. Percebera que Anteu também a olhava de esguelha, principalmente para as suas pernas, com as coxas tentadoramente à mostra. “ Hummm ”. – pensou a repórter – “ vai ser duro manter o lobo afastado, hoje. Acho que exagerei na dose...      O garçon trouxe as bebidas. Anteu tomou seu suco de melão em silêncio, olhar perdido em algum lugar entre seu rosto e o tampo da mesa. Karina bebericou o martini seco, atenta ao estado de espírito de seu companheiro. Anteu soltou um suspiro e olhou para fora, em direção à escuridão que ocultava o mar.      “ Parece que eu não sou o menu principal de seus pensamentos na noite de hoje ” – pensou a repórter sentindo-se aliviada – “ Menos mal, pois não estou disposta a brincar de gato e rato, agora.      — Desculpe-me – falou com voz rouca, Anteu – eu não estou uma boa companhia, hoje. Dá pra notar, não é?      — Não se agaste por isto – respondeu ela sinceramente.      — Quer que eu a leve de volta? – e no rosto dele Karina pôde advinhar um pedido de súplica para que dissesse não.      — Oh, não! De modo algum. A noite está começando, meu caro amigo. Nós mal chegamos. As coisas vão melhorar, calma. – E a repórter o olhou com aquele olhar cálido de que ele sempre gostava.      — Bem... é que eu estou mal, hoje. Estou mal, mesmo. Quer saber do que mais? Acho que não devia ter ido apanhá-la para sair... Estou-me sentindo como um peixe fora d’água...      — Anteu, os amigos não devem ser procurados somente nas horas boas da gente. Se não, para que valeria tê-los, não é? – E a moça sorriu com simpatia.      — Amigos... – e Anteu ficou um momento a olhá-la perscrutadoramente. – Karina, você acredita mesmo que neste mundo enlouquecido, onde, mais do que nunca, o homem é o lobo do homem, há alguém que se possa considerar e ser considerado amigo de outro?      A moça olhou bem dentro dos olhos do homem e percebeu neles uma angústia espantosa. Involuntariamente pousou a sua linda mão rosada sobre a mão de dedos gordos, branca e peluda do companheiro,.      — Eu sou sua amiga – disse com sinceridade, ainda que estranhando este arroubo de amorosidade, pois não era muito chegada ao companheiro, não.            — Sim, sei disso. Mas você também é uma repórter... – respondeu Anteu com um sorriso amargo na face – Uma boa repórter – frisou com um ar distante, como se ela não estivesse ali.      — E uma repórter não pode ser amiga? – perguntou Karina sustentando o olhar nublado dele e lhe devolvendo outro, cálido e acolhedor.      — Não, não pode – respondeu ele, com pessimismo.      — E um banqueiro... Pode um banqueiro ser amigo?      — Esta classe de pessoas é que não pode mesmo ser amiga de ninguém – disse o homem, com um leve estremecimento que não passou despercebido para a repórter. – Banqueiros tem uma barra de ouro no lugar do coração. Amam o ouro; vivem pelo e para o ouro e morrem por ele. O resto é apenas o resto.      Anteu curvou o corpo para a frente apoiando-se todo nos cotovelos fincados no tampo de plástico da mesa. Seus olhos fitavam o martini no copo diante de Karina.      — Seu pai é um banqueiro; você é banqueiro; sua família é tradicionalmente constituída de banqueiros... Já pensou nisto?      Anteu permaneceu silente. Com a ponta do dedo indicador apoiada no queixo do de seu companheiro, Karina obrigou-o a olhá-la de frente.      — E então? – insistiu ela.      — É por isto que eu disse o que disse – respondeu o homem, soturno.      — Posso concluir que você... não é meu amigo? – falou suave e pausadamente a repórter.      — Talvez... Quem sabe? – e ele a olhou firme.      — O que quer dizer com “talvez”?      — Eu também, acho, devo ter uma barra de ouro implantada no lugar do coração. Ainda não tenho a certeza, mas creio que mais dia menos dia vou descobrir que não gosto de nada, exceto do maldito metal amarelo e de seu reflexo, o papel moeda. Aí, então, minha cara, ai de quem confiar em mim. Brutus, Judas, Calabar serão pinto diante do monstro em que me vou transformar.      Anteu transpirava abundantemente e seu olhar se tornara duro e presente. A repórter começou a suplantar a mulher. Ali havia algo e o faro não lhe enganara nunca. O homem certamente estava entupido com alguma coisa séria. Quem quer que tivesse a estatura financeira de um Kamuratti não se angustiaria com ninharias.      — Eu não creio que você... – a presença do garçon fê-la interromper o que ia dizendo. Fizeram os pedidos. Ela, strogonoff de galinha; ele, camarão frito. Quando o homem se afastou a moça voltou a falar.      — Eu dizia que não creio que você tenha um pedaço de metal no lugar do coração. Você é um ser humano, como eu... como qualquer pessoa no mundo. você sente...      — Não, não, minha cara repórter – interrompeu ele veemente – eu não sei bem o que seja sentimentos. Aliás só conheço aqueles que me surgem quando meus interesses são contrariados. Aí, sim, sei o que é sentir raiva e... e... e avareza. Eu...      — Ouça – disse Karina, erguendo a mão para impor silêncio. – Você tem sentimentos, sim. Está confuso com alguma coisa que o perturba e isto é natural... quero dizer, ficar confuso em tais momentos é o comum entre as pessoas. E emoção, confusão afetiva... tudo isto são coisas do coração. Um pedaço de metal não sente, meu amigo. Agora mesmo eu vejo que você está angustiado. Só um ser humano se angustia. Só um ser humano experimenta isto.      Anteu suspirou e recostou-se. – Você é uma boa moça, Karina. É por isto que gosto de sua companhia.      A voz dele estava sumida.      — Então, que tal gozarmos a companhia um do outro... aproveitarmos o frescor da noite para relaxar, hum? Os problemas sempre têm soluções.      — Será? – perguntou o homem e a moça pensou ter percebido certo tom de sarcasmo amargo na voz dele.      — É, sim. Seja lá o que lhe esteja esquentando os miolos, o melhor mesmo é colocar o assunto em “ stand by ”, não acha?      O sorriso dela era muito sedutor e sua sensualidade, provocadora. Isto agiu como um choque capaz de fazer com que Anteu saísse de seu estado depressivo e sorumbático.      — Não vai perguntar o que me preocupa?      — Não.      — E por que não?      — Não é da minha conta – disse Karina bebericando aparentemente despreocupada o seu martini seco.      — Estou estranhando. Onde foi parar a repórter curiosa?      — Você convidou a mim, Karina, não a repórter, não foi?      — Bem... acho que sim.      — Pois sou eu quem está aqui. Ouça, não queira a repórter. Ela é muito chata. Ela, sim, não tem coração.      — Tudo bem. É que eu pensei que repórter fosse como médico e sempre estivesse a postos...      — E somos – disse Karina – quando estamos de serviço. No momento estou em lazer... ou não?      — É, creio que você está certa.      Houve um silêncio. Karina continuou a fazer um afago na mão de Anteu e a olhar firme nos olhos dele. Seu acompanhante estava-se debatendo entre falar e não falar sobre o que lhe angustiava. A repórter sentia que o momento era crucial para ele e seu faro lhe dizia que era necessário ser muito cautelosa para não inibi-lo. Um conflito se formava em seu ser. A sua parte profissional exigia dela que lançasse mão de tudo a seu alcance para abrir os segredos do homem. A sua parte humana, ao contrário, lhe azucrinava a consciência, cobrando-lhe respeito pelos sentimentos alheios. Ambas, contudo, impunham-lhe que quebrasse aquele silêncio antes que se tornasse por demais opressor. As gotículas de suor que bailavam na testa de Anteu eram sinal do angustioso conflito em que ele se debatia. Por que – indagava-se a repórter – por que ele se abalara a escolher a ela para companhia, naquela noite? Anteu podia escolher entre duas dúzias de mulheres ricas e, algumas, até mais bonitas que ela. Sabia que ele não era de se apegar a nenhuma mulher, pois que as tinha às dúzias com um estalar de dedos. O fato de lhe ter dado preferência tinha uma razão. Qual? Karina só encontrava uma resposta – a sua profissão. Ele não buscava a mulher. Queria a profissional que ela era, mas devia estar querendo esta profissional com os mesmos desejo e cuidado de quem quer sentir a maciez da pele do tigre, mas teme perder a mão pelo gesto imprudente.      — Como é ser um Kamuratti? – disse ela, suavemente e com um sorriso encantador no rosto juvenil.      — O... o quê? Desculpe, eu... eu não ouvi direito – tartamudeou Anteu, atrapalhado.      — Eu perguntei como é ser um Kamuratti – respondeu, cândida, a repórter.      — Bem... quer dizer... Sabe que eu nunca havia pensado a respeito? – confessou ele realmente surpreso.      — Que tal pensar nisso... agora? – convidou, melíflua, a repórter.      Anteu suspirou e endireitou-se na cadeira.      — Ser um Kamuratti – repetiu ele reflexivamente – Como é ser um Kamuratti... – parecia degustar cada palavra, cada sílaba, e parecia descobrir atrás delas uma infinidade de dados impossíveis de serem verbalizados em toda a sua profundidade.      — Sim – insistiu Karina – como é ser um membro de tão formidanda clã? Como é que um Kamuratti vê o mortal comum? Como é que percebe os problemas do mundo... a fome, a guerra, a criminalidade? Como é que se sente enquanto mortal? Como encara o fim... a morte?      Anteu sorriu um sorriso sem calor.      — Um Kamuratti – disse ele – jamais encara o fim... a morte. Ele não a vê, não a sente, não lhe toma conhecimento se quer saber. Um Kamuratti se perpetua na descendência. Cuida para que seus descendentes lhe herdem toda a carga intelectual, financeira, moral e social. É por isto que é insensível à morte. Ela não lhe causa qualquer impressão. Ele é todo poderoso. É um Deus entre os deuses. O mortal comum é... é... é nada para um Kamuratti. Um mortal comum só é notado por ele se tem algo que possa ser tomado ou se pode ser usado nalgum jogo de interesse e no qual, é lógico, o Kamuratti sempre ganha. O mundo? Ora, o mundo é a vaca leiteira em que os Kamuratti ordenham o leite que bebem a grandes goles – o ouro. Guerras, fome, miséria, crimes, tudo só tem interesse e desperta a atenção dos Kamuratti se dali ele aufere lucro. A vida dos outros, do que quer que seja, só tem importância para um Kamuratti se ele a pode usar em benefício próprio. Enfim, ser um Kamuratti é ser um imortal sem coração, sem entranhas, sem...      O garçon trouxe a comida e Anteu calou-se. Karina percebeu, então, duas coisas simultaneamente. A primeira, que seu coração estava disparado e que, também ela, suava. A segunda, que seu parceiro estava afogueado. Ela olhou para a bolsinha mimosa sobre a mesa, displicentemente esquecida, largada entre ela e Anteu e onde o gravador de profissional captava cada palavra de seu acompanhante. A opinião do herdeiro dos Kamuratti sobre o clã era notícia retumbante, principalmente quando emitida naquele teor. Mas como publicá-la sem perder o amigo e, quem sabe, ganhar um poderoso inimigo? De qualquer modo, aquilo era uma boa notícia que qualquer jornal gostaria de publicar. Comeram em silêncio, cada qual com um turbilhão de pensamentos desencontrados e sentimentos conflituosos a se chocarem nos corações. A repórter, a contra gosto, tinha de admitir que, no fundo, não estava inclinada a entregar, assim, de mão beijada, a notícia ao jornal. Ao que parecia, as opiniões de sua irmã sobre ética, sentimentos e estas coisas, afinal tinham corroído suas convicções profissionais e a percepção deste fato a aborrecia, pois verificava, agora, que estas convicções nunca haviam, a bem da verdade, sido muito fortes. Por um momento, perdida em suas reflexões, chegou a quase ignorar seu companheiro que a observava de rabo de olho. Finalmente, quando Anteu, após pedir licença, acendeu o havana – o que surpreendeu Karina pela impropriedade do local – a moça retornou à tática da provocação.      — Você fez uma descrição... “sui gêneris” do que é ser um Kamuratti. Acredita, mesmo, nisto, ou será que só o disse para me impressionar?      Anteu olhou-a sério a princípio, sorrindo em seguida e finalmente explodindo em franca gargalhada. Karina desconcertou-se diante daquela reação.      — “Sui... sui gêneris” – disse Anteu Kamuratti entre risos – Qual nada, minha cara, os Kamuratti não têm nada de “sui gêneris” se quer saber. Na verdade, creio que eles não são humanos.      — E... e o que são eles?      — Máquinas de pensar, Monstros! Tudo o que há de...      Anteu parou em seco. Seus olhos fixaram-se por instantes na porta, atrás e à direita de Karina. A moça percebeu sua alteração e olhou para o espelho à sua frente e atrás do companheiro. Muitas pessoas estavam passando pela porta de entrada e nenhuma delas lhe pareceu suspeita.      — O que foi? – indagou curiosa.      — Não... nada. Você... você se incomoda se sairmos?      — Não, mas...      — Então vamos. – e Anteu fez um discreto sinal de cabeça para o garçom, deixando sobre a mesa uma nota que dava para pagar três vezes a despesa feita. Levantou-se tomando cuidado para ocultar ao máximo o rosto, curvando a cabeça e elevando um pouco os ombros. Puxou a cadeira para que Karina se levantasse e quase a arrastou pela mão em direção a outra porta de saída no lado oposto àquele por onde certamente algo – ou alguém – o impressionara. Karina ainda relanceou o olhar para aquela parte do salão da qual Anteu Kamuratti obviamente fugia, mas não conseguiu perceber nada de anormal. Não lhe pareceu que alguém em especial os olhasse. Não notou ninguém que se trajasse nos mesmos padrões de Anteu. Ao contrário, eram pessoas aparentemente comuns, trajando jeans e blusas esportivas. A maioria jovens despreocupados e barulhentos. Um ou dois casais classe média e só.      — Espere, Anteu, espere! – e Karina parou, obrigando seu acompanhante a fazer a mesma coisa.      — Vamos! – insistiu ele com urgência no tom de voz.      — Não! – exclamou ela decidida – Eu só vou se me disser, bem claro, do que é que estamos fugindo. – A moça resistia teimosamente aos puxões que Anteu lhe dava no braço.      — Eu digo, mas depois. Agora, vamos! – disse ele, agoniado e francamente ansioso.      Karina obedeceu, apreensiva. Andar na companhia de Anteu já era perigoso. Rico, famoso, era alvo fácil para um atentado e o Rio de Janeiro não estava para brincadeira. As Falanges e os Comandos atacavam sem aviso prévio. Quase arrastando a moça pelo braço, Anteu se desculpou.      — Perdoe o mau jeito, mas é que entrou alguém que eu não quero que me veja aqui.      — Quem é? Eu conheço? Não vi...      — Não, não conhece e não importa. Vamos sair daqui, por favor.      O homem caminhava a passos largos e Karina seguiu-o em silêncio, mas sua cabecinha queimava toneladas de fosfato rememorando, relembrando cada fisionomia das que pudera captar. De todos, só os dois casais mereceriam alguma atenção, mas pareciam tão comuns... A não ser que... O homem vestia paletó. A mulher trajava-se discretamente. Seria este casal? Paletó à noite no Rio de Janeiro e não sendo praticante de alguma das seitas evangélicas fanáticas que por toda parte enxameava, era de desconfiar. Em pleno verão dificilmente um habitante da cidade, a mais bela do mundo, iria para um bar de destaque e à beira-mar vestido formalmente. E era duvidoso encontrar um fanático evangélico com esposa e tudo, na sexta-feira entrando num bar alegre e barulhento para beber e comer. Principalmente um bar descontraído, onde a mocidade costumava freqüentar.      Entraram no automóvel e começaram a rodar em direção à Barra da Tijuca. A iluminação feérica do elevado que costeava a lapa e punha em retirada as trevas, lançando-as para o oceano, emprestava um ar de mistério à noite amena. Lá em baixo, a uns quinze metros, o mar arrebentava-se em ondas soturnas contra a pedra. Karina observava sem ver o deslizar do viaduto sobre suas cabeças, remoendo as imagens dos rostos entrando no bar. Em sua memória cada vez mais o homem de paletó, com a mulher vestida à classe média, tornava-se mais figura enquanto os outros freqüentadores se apagavam no fundo da recordação, constituindo, todos juntos, um fundo difuso.      — Karina – chamou Kamuratti.      — Sim? – alertou-se a repórter.      — Você deve estar intrigada com o meu comportamento, não está? – A voz dele era pesada, contida.      — Estou, sim. Não vou negar que estou mesmo.      — Bem, acho que você merece uma explicação...      Anteu olhou apreensivo para o retrovisor. Acelerou até os cento e quarenta e continuou lançando olhares furtivos ao espelho retrovisor.      — Estamos sendo seguidos? – indagou a repórter, apreensiva e sem se voltar no assento, evitando confirmar com os próprios olhos aquilo que temia.      — Eu não tenho certeza... – disse ele, hesitante.      — O que pretende fazer? – o medo começou a invadir a moça que, não obstante, procurava manter controle de si e não deixar transparecer seu estado emocional.      — Você se incomoda de irmos para um motel?      — Por que? – estranhou a repórter. “ Se ele armou isto para me comer, vai-se dar mal ” – pensou Karina, raivosa.      — Desculpe o mau jeito, mas é que lá vamos encontrar mais privacidade para conversarmos. E, acredite, é o de que mais preciso neste momento.      — Só isso?      — Juro! Eu... eu quero fazer um trato com você.      — Que trato?      Kamuratti observou atentamente o retrovisor, antes de responder.      — No motel eu conto. Agora, preciso me livrar do automóvel preto que nos segue. Segure-se e não tenha medo. Sei dirigir.      Anteu acelerou o automóvel que respondeu incontinenti. Pelo espelhinho no quebra-sol Karina observou outro carro também aumentar imediatamente a velocidade. “ Então, não foi armação. Há um doido nos seguindo. Mas por que ?”      — O automóvel ziguezagueava fantasticamente, passando pelos outros carros como se eles não estivessem ali ou estivessem parados. Karina se viu numa cena hollywoodiana e sentiu o coração bater na garganta.      — De quem estamos fugindo? – ela estranhou sua voz esganiçada.      — De um inoportuno olheiro. Acho que de meu pai – foi a intrigante resposta de Anteu.      — Olheiro? De seu pai? Quer explicar melhor...      — Depois! – E o carro fez uma manobra rápida, rabeou perigosamente, derrapou, mas obteve novamente o rumo certo. Anteu demonstrava uma impressionante habilidade ao volante. O outro carro tinha cada vez mais dificuldade de o acompanhar e ia perdendo terreno. A velocidade do automóvel de Anteu era suicida. Passava dos duzentos quilômetros por hora.      — Santo Deus! – exclamou Karina – onde você aprendeu a dirigir deste jeito?      — Fui piloto de provas e “playboy” aficcionado de pegas, no Alto da Boa Vista, quando passava pela adolescência. Você está segura, não tema.      A corrida continuou alucinada por mais meia-hora. O perseguidor desapareceu de vista. Anteu diminuiu a velocidade e enveredou pela Avenida Brasil.      — Para onde... – começou a perguntar Karina, mas foi cortada pelo companheiro.      — Para um motel. Um motel simples, barato, onde ninguém, creio eu, pensaria em me encontrar com você.      Karina calou-se. Anteu embarafustou pela entrada de um motel de segunda categoria e logo estavam no apartamento simples. A saleta, a cama redonda ladeada de espelhos até no teto e o banheiro com hidromassagem. Anteu ficou na saleta e sua atitude desarmou a companheira que estava pronta para armar um escândalo. Ele convidou-a a sentar, foi ao frigobar e apanhou uma cerveja e dois copos.      — Aceita?      — Sim, obrigada.      Serviu as bebidas em silêncio. Sentou-se e bebeu placidamente a sua. Só na segunda garrafa é que finalmente o homem pareceu haver conseguido colocar os pensamentos em ordem.      — Karina – começou ele com voz pausada e frases medidas – você é uma repórter. Uma boa profissional. E eu sei que coloca o exercício de sua profissão acima de tudo. Não a censuro. Só se chega a ser bom em qualquer coisa se se pode passar por cima dos limites, mesmo que isto implique dor para amigos, parentes ou outras pessoas íntimas. O próprio Jesus, de cima da cruz, dizia a sua mãe: “mulher, eis aí teu filho e indicava João... ou Pedro... sei lá”. E dizia ao seu apóstolo: “homem, eis aí tua mãe”. Acho que com isto queria deixar bem claro que os laços parentais, mesmo os mais fortes, rompem-se quando o indivíduo tem de cumprir com aquilo que se determinou fazer. Eu não sou religioso e não vejo a Jesus como o Filho de Deus ou coisa que tal. Para mim ele é somente um homem que lutou denodadamente pelo seu ideal. Um homem especial, é verdade, mas um homem como outro qualquer... de carne e osso.      — Curioso que um judeu como você cite Jesus. O seu povo, pelo que se sabe, não é muito dado a dar crédito a Ele.      — É verdade. Para o meu povo, como você diz, Jesus não passou de um baderneiro e contraventor. Nem mesmo profeta ele é considerado. Mas eu o cito não como um Deus ou filho de Deus e, sim, como um homem. O que foi no seu tempo é quase impossível saber-se com certeza. Muita coisa foi criada e inventada sobre ele. Muita coisa foi colocada em sua boca pelos pagãos que o adoram como a um Deus. Eu não posso saber a verdade. Nem eu e acredito que ninguém. Sei que o homem a quem vocês denominam de O Salvador, para alguns dos sábios de minha raça não passou de um bandido. Nem mesmo era judeu de sangue, pois há quem afirme que nasceu ariano.      — Jesus era ariano? – admirou-se sinceramente a repórter. – E aquela genealogia que a Bíblia cita? Não é verdadeira?      — Não... ou melhor, parece que não. Até onde estudei, não é. Ensinaram-me que Ele nada tinha com a linhagem de David, mas esta história não me parece bem contada. Se tinha linhagem nobre, sinceramente, eu não posso dizer que fosse de descendência não judaica.      — Um pesquisador de peso, o Dr. Holger Kersten, teólogo alemão, cita a hipótese de Jesus ter sido a encarnação de um Bodhisattva porque Ele foi a perfeita encarnação do ideal do Budismo Mahayana, naquela época. O que seu povo acha disto?      — Eu não sei, sinceramente. Não entendo nada de budismo... ou de qualquer outro “ismo”, se quer saber. O que sei é que Jesus discordava e muito, de todos os dogmas judaicos. Diz-se que ele dizia ter vindo contrapor o homem a seu pai, a filha à sua mãe e a nora à sua sogra. Dizia, também, que se alguém não se afastasse de seu pai e sua mãe, seus irmãos e irmãs, não era digno d’Ele. Isto fere frontalmente os conceitos judaicos de família. No judaísmo, pai e mãe estão acima de qualquer coisa na família, devendo ser respeitados e venerados até a morte. Os laços de sangue são absolutamente indissolúveis. Mas para o homem Jesus isto era exatamente contrário a seus ensinamentos. Não foi à-toa que despertou a ira dos sábios e dignitários do Templo, àquela época.      — Bem, Ele tinha de ser coerente com sua própria doutrina – disse a repórter, totalmente envolvida pela discussão – Ele pregava o desapego e o desinteresse por toda e qualquer coisa mundana. Pais e família são coisas mundanas, não são? Além do que os laços de família tornam as pessoas egoístas, pois em nome do sangue... pelo laço de sangue de que você acabou de falar, muitos atos puramente egoístas são cometidos no mundo. E Jesus combatia sem trégua o egoísmo, para Ele, o pior mal da humanidade.      — É... – E Anteu permaneceu calado, perdido em pensamentos. Karina, ainda que ansiosa, permaneceu aguardando que ele voltasse do devaneio. Aquela discussão, totalmente fora do que ela esperava, havia-a envolvido muito pois era interessante saber como pensava um judeu sobre o Homem mais falado, venerado e desconhecido de todos os tempos. O homem que sua raça odiara tanto a ponto de condenar a uma morte horrível e em condições humanamente humilhantes.      — Karina – falou Anteu, após algum tempo – vamos deixar o seu Jesus de lado, por enquanto, certo? O que desejo falar tem pouco a ver com Ele... eu acho.      Ele a olhou incisivamente, alerta, totalmente aqui e agora. Karina desconcertou-se diante da mudança.      — Bem... como você quiser – disse ela, hesitante.      — Eu quero que você me prometa que o que viermos a conversar aqui, ao ser publicado – e eu sei que será – não tenha a fonte revelada. Promete isto?      Ainda sob o impacto da mudança brusca, Karina respondeu.      — E se eu não prometer?      — Então, vamos embora e você me esquece – foi a resposta decidida, que se fez acompanhar de um olhar gélido em um par de olhos carregados. A repórter espantou-se diante daquela mudança súbita do homem. Cautelosa, resolveu dizer que concordava com ele, sabendo no íntimo que seria muito difícil cumprir com a promessa.      — Tudo bem, eu prometo – disse ela, cruzando os dedos nas costas.      — Ouça bem – disse Anteu, grave – se quebrar sua palavra eu não dou um centavo por sua vida.      — Está-me ameaçando? – perguntou incrédula e espantada, a repórter.      — Não – disse Anteu, calmo – estou-lhe prevenindo. O perigo não virá de mim. Eu não seria capaz de tocar em um fio de seu cabelo, mesmo que você me traísse.      Karina ficou a olhar para o companheiro, em silêncio, mas perscrutadoramente. Por fim, perguntou:      — Diga-me, se é você quem faz as revelações, por que serei eu aquela que vai correr perigo? Se eu publicasse a fonte de minhas informações o perigo deveria vir para ela, não?      — A lógica deveria ser esta. Mas você é quem terá quebrado o segredo, compreende? Além do mais, sou um Kamuratti. Sou o herdeiro não somente do banco, mas de outra coisa que você nem pode desconfiar. Uma tradição e uma... uma maldição.      Karina ficou a olhar para o companheiro em silêncio e tentando captar toda a profundidade do que ele lhe dizia.      — É assim tão terrível o que você quer dizer-me? – indagou ela.      — Eu... bem, acredite: é sim.      — Tudo bem, eu agüento o tranco. Do que se trata?      O homem reclinou-se na cadeira a olhar o rosto de Karina, como se a estudando. A moça ficou a olhar também para ele. Aparentemente estava serena, embora por dentro estivesse extremamente agitada e curiosa.      — Primeiro, diga-me: você acredita que haja uma outra vida depois da morte? Acredita em... bruxarias... em feitiçarias... essas coisas?      Karina espantou-se de verdade. Ficou perplexa. Olhou para Anteu e o viu com novos olhos. Aquele homem todo poderoso acreditaria mesmo naquilo? Tê-la-ia trazido para o motel para falar disto? Se fosse verdade, então, certamente estava precisando com urgência de um psiquiatra. O automóvel que os perseguira e do qual tão habilmente havia fugido era verdadeiro e deste mundo. Não tinha nada de sobrenatural. Iria Anteu falar realmente de um assunto tão fora de propósito?      — E então? – instou ele – estou esperando.      — Errr... Bem, há os afoxés, os candomblés, as umbandas... – ela falava quase por falar, pois sua cabeça estava confusa.      — Eu sei, eu sei – disse ele com um tom de impaciência na voz – Mas eu quero saber é sobre coisas bem mais profundas... mais sinistras... Bem além disto... destas crendices infantis...      — Co... como assim? – o espanto crescia na repórter.      — Eu falo de algo bem mais terrível, compreende? Falo de bruxas de verdade... Seres que são indestrutíveis... Que não morrem nunca.      Ele falava a sério e não estava doido, Karina podia ver isto. E o seu espanto ia no auge.      — Algo assim como... vampiros? – tentou a moça, incrédula.      — Não... quer dizer... mais ou menos... – Anteu parecia atrapalhado para explicar o que desejava que a repórter compreendesse.      — Anteu – disse a repórter, decidida – eu não estou entendendo onde você quer chegar. Mas se vem-me dizer que estamos aqui para falar de sobrenatural...      — Não se trata de sobrenatural. Trata-se de algo que no momento a Ciência não explica... Bem, deixa pra lá. Vejo que você não acredita mesmo nisto.      — Não, não acredito. Não sou de me preocupar com o amanhã, entende isto? Não sei e talvez ninguém saiba se há vida após a morte. Mas sou de opinião que, como todos vamos morrer, todos saberemos disto quando chegar a hora. E como isto é inevitável é perda de tempo ficar lucubrando sobre o tema. Estamos vivos, agora. Vivamos, portanto. Se houver algo após a morte... bem, então há. Se não houver, pelo menos a gente não perdeu tempo à-toa. Viveu bem o tempo que teve para viver, compreende? Agora, quanto a bruxas... feiticeiras... vampiros... seres que morrem mas não estão mortos e coisas semelhantes, francamente, não creio em nada disto. São criaturas, ou coisas, oriundas das nossas fantasias infantis e eu creio que a Psicanálise tem uma explicação muito convincente para isso. Esta história toda me parece uma manobra sua para fugir ao assunto real. É ou não é?      — Como assim? – Anteu escutara calmamente Karina falar.      — Ora, o carro que nos perseguiu ainda há pouco é deste mundo e não tinha nada de sobrenatural. Você está escapando pela tangente para não falar dele, não é?      — É assim que você julga?      — Não julgo nada. Eu percebo claramente que você quer escapar de falar do incidente. Por que, hein Anteu? Eu tenho o direito de saber, afinal também estava no carro e passei um susto danado, ora.      Anteu guardou silêncio por algum tempo, olhando com um sorriso enigmático para a repórter. Depois, disse:      — Você tem razão. Eu tentei... Não pode me condenar por isto, não é?      — Creio que não. Agora, que tal não perdermos mais tempo, hum?      — Bem...      — Que tal deixar de rodeios e ir direto ao assunto! – insistiu encorajadoramente a repórter. Um sorriso cativante lhe iluminava a face.      — Você está certa. Vamos mesmo ao que interessa. Eu só estava divagando para ganhar um pouco de tempo, nada mais. Mas quero reforçar meu pedido: não revele a sua fonte de informação. Invente o que puder e quiser, mas não cite meu nome.      — Fique tranqüilo quanto a isto.      — Ótimo. Agora me diga: você conhece o Celso Cerqueira?      — O banqueiro de bicho? Claro! É a estrela número um do meu trabalho – e Karina não conseguiu disfarçar a satisfação que o rumo da conversa tomava agora.      — Eu o conheço há uns quatro meses... talvez seis, não mais. Durante todo este tempo eu o considerei apenas um colega de profissão, advogado como eu. Nos últimos cinco meses eu o ajudei no despacho de alguns caixotes e outras pequenas encomendas para a Europa. Usava meu prestígio... o nome dos Kamuratti para conseguir livrar a mercadoria da amolação e da demora aduaneira, compreende? alguns dólares – dele, é claro – ajudavam muito... Você me entende?      — Sim, você subornava.      — Hum-hum, isto mesmo, isto mesmo. Aqui no Brasil isto é mais fácil do que em qualquer outra parte do mundo.      — Pode ser. Temos-nos tornado muito venais de uns tempos para cá. A vergonha cívica, o sentido de nacionalismo, a honra patriótica passaram a ser apenas substantivos abstratos entre nós. Culpa da política de desestruturação por que vem passando a Nação há mais de sessenta anos. Eu suspeito, até, de que há um plano sinistro para acabar com este país ainda imberbe. O ensino, a língua, os valores sociais, morais e religiosos estão sendo sistematicamente esfacelados... Mas continue, por favor. Minhas opiniões pessoais não importam agora.      — Importam, sim. Você não faz idéia do quanto está certa no que suspeita. Só que não é só o seu país que está passando por este processo horrível, não. Toda a América Latina sofre isto.      — Há um plano para... Ora, Anteu, você está querendo brincar comigo. Vai querer dizer que há uma organização oculta que deseja arrebentar com os países da América Latina, é?      — Não. Eu não estou afirmando tal coisa. Mas vamos voltar ao Celso?      — Vamos. É mais objetivo.      — Há alguns dias o Celso me procurou. Parecia um tanto aflito. Precisava despachar umas caixas de frutas para a Bósnia e outras para a Sérvia e a delicada situação daqueles países, disse-me ele, punha todas as encomendas sob suspeita. Além do que, a demora na papelada era inevitável. Ele me disse temer que a encomenda estragasse. Pediu-me que, pela oitava ou décima vez, atuasse interferindo junto à Alfândega. Eu o atendi. Até aquele momento não me interessava pelas Guias de Exportação. Ele me dava os números dos documentos e eu agia. Mas no caso específico daquela remessa para a Sérvia necessitei de ter as guias em mãos. A aduana havia acusado problema no peso declarado. Levei as cópias dos documentos para o banco, a fim de pedir um aditivo com a correção necessária. Mas houve uma complicação com os números da Guia. O final da cópia xerox que eu tinha em mãos diferia do original. É bem verdade que a xerox estava ruim e o número 5 podia ser facilmente confundido com o 6. Quando comuniquei o fato ao Celso ele ficou estranhamente agitado. Pediu que eu pagasse qualquer quantia para liberar o documento sem mais delongas. Embora estranhando aquela urgência atendi ao seu pedido. É claro que houve reembolso por parte dele.      — Espere, meu amigo, desde quando os Kamuratti fazem favores a uma pessoa fora do clã? – estranhou a repórter.      — Desde nunca – foi a resposta incisiva – mas é que eu não sou um Kamuratti de sangue e...      — Você o quê...? – espantou-se Karina.      — Depois eu falo disto – impacientou-se Anteu – Eu fiquei curioso e resolvi, nem mesmo sei por que, averiguar a tal remessa. E sabe o que é que eu descobri?      — Nem imagino...      — Não era fruta coisa nenhuma. Eram armas.      — Armas?! Fuzis, metralhadoras... essas coisas?      — Sim. Armas das forças armadas.      — Então, o Celso, além de contraventor do jogo do bicho, também é contrabandista de armas, hein?      — Sim, é. Mas o que estranhei é que ele trabalhe para uma firma insignificante. A FRUTIBRAS LTDA é uma empresa sem projeção nenhuma.      — Ora, uma cobertura ideal, a meu ver – disse Karina.      — Eu acho que há alguém mais nesta história...      Uma chave girou na fechadura da porta. Anteu sobressaltou-se e se pôs de pé justamente quando dois homens irromperam na saleta. Algo como uma lâmpada de fósforo explodiu no ar cegando o casal. Karina não viu o que se passou a partir daquela luz forte. Alguma coisa foi enfiada em sua cabeça e uma mão rude a pôs de pé. Quase no mesmo instante um soco à altura do plexo lhe tirou o fôlego e lhe sufocou o grito na garganta. Ouviu duas pancadas abafadas, um gemido e uma queda. Depois foi brutalmente empurrada para fora e teve de mexer-se com rapidez para não cair, pois mãos rudes a fizeram parar, girar, chocar-se contra a parede e ser empurrada e puxada com brusquidão, terminando por ser jogada dentro de um carro que arrancou cantando pneu. Karina recuperou a voz quando o carro já voava pela rua. Seu pensamento estava em seu amigo. O que teriam feito com ele?      — Anteu? – gritou, mas a resposta foi um soco no rosto que lhe atingiu o lado direito e quase lhe fratura o malar. Uma voz grosseira lhe gritou:      — Calada aí sua cadela!      A dor e a desorientação intensificaram o medo em Karina. Quem lhe batera bem podia ter-lhe arrebentado o nariz. O indivíduo, quem quer que fosse, não estava ligando a mínima para ela, e isto significava que sua vida estava por um fio.      — E o cara? – a voz era dura, mas era de um homem jovem.      — Vai dormir até o embarque – alguém respondeu e a voz era de um adulto feito.      — E a zinha, o que vamos fazer com ela? – uma terceira voz, também de um jovem. O nariz de Karina farejou o cheiro de homens suados.      — Vai voar! Agora! JOGA!      Karina sentiu-se empurrada violentamente para fora do carro. No exato momento em que seu corpo voava para o choque mortal com o asfalto uma mão rude lhe arrancava o capuz. A moça nem pode gritar. O choque foi violento, mas não com o asfalto ou o meio-fio. Ela caiu dentro de um charco de lama e capim. Karina era praticante de judô e sabia amortecer o impacto da queda. Isto livrou-a de sofrer sérios ferimentos e fraturas, mas não impediu que bebesse daquela água poluída. Chuviscava ainda e a repórter engasgada, tossindo e cuspindo lama, arrastou-se para a margem da estrada. Apenas a escuridão da noite a recebeu, envolvendo-a num abraço nada reconfortante... CAPÍTULO III SURGE UMA LUZ        O casal estava nervosíssimo. A moça olhava o tempo todo para trás, como se quisesse advinhar em qual carro estariam os seus perseguidores. Ludmila e Mara sabiam que o carro era um Camaro, mas não o viam seguindo o Del Rey.      — Escute – falou a ruiva – não siga por estradas desertas. Procure andar seguindo o máximo de tráfego.      — Por que? – indagou, nervoso, o rapaz.      — Se aqueles homens nos seguirem, e eu acho que vão seguir, não virão com boas intenções. Lugares desertos são ótimos para acidentes e atentados. Eu não quero servir de alvo para pistolas assassinas.      — Ai, meu Deus! Moça, a senhora tem certeza de que eles virão com a idéia de nos matar? – a companheira do rapaz estava francamente apavorada e Mara gostava cada vez menos da situação. A ricaça tinha influência até junto ao Presidente dos Estados Unidos. Quando descobrisse o que estava acontecendo...      — Tenho. Este carro não corre mais do que isto, não? – instou Ludmila, ansiosa.      — Estou a quase 160. É o limite dele – respondeu o jovem Luís Filipe.      — Por que você não se acalma? – perguntou Mara – deste jeito vai terminar por nos levar à indigestão. Eu já estou...      — Shhhiiittt! – fez Ludmila, imperiosa. Mara calou-se e a companhou o olhar da colega. Lá atrás, bem distante ainda, viu o Camaro. Reconheceu-o pela cor laranja de sua pintura. Vinha ziguezagueando e ultrapassando todos os demais automóveis como se eles não existissem.      — Estão vindo! – exclamou a bela morena, aflita.      — Meu Deus, o que vamos fazer? – choramingou a milionária companheira do rapaz.      — Calma, gente, calma! – disse o jovem, escrutando o caminho à frente – o pedaço mais deserto é este que estamos passando. Depois vem a Barra. Há muitos carros à beira-mar. Eu tenho um plano. Vocês duas, abaixem-se no fundo do carro.      — Como? – perguntou Mara, atônita.      — Não pergunte – disse Ludmila – obedeça!      Ato contínuo as duas estavam espremidas entre os bancos. O rapaz diminuiu a velocidade do Del Rey e misturou-se à fila de autos que começava a engrossar à medida que se aproximavam dos primeiros edifícios e condomínios imponentes. Havia dois outros automóveis da mesma cor e modelo que o deles. O rapaz intrometeu-se entre os dois. Avançavam, agora, à velocidade média de cinqüenta quilômetros por hora. No automóvel da frente ia um casal.      — Meus óculos de sol – pediu ele. Sua companheira entregou-lhe o que pedia sem entender muito bem a razão do pedido.      — Ótimo! Agora, aquele boné que você me deu.      — Onde está?      — Veja no porta-luvas.      Sim, estava lá, todo amarrotado. Ele jamais imaginara que um dia viesse a usá-lo. Tinha a cor vermelho berrante e, em amarelo, o dístico: “SOU SENNA”. Ele era fã do corredor recém-falecido, mas não a ponto de usar uma coisa idiota daquelas. Agora, aquilo era bem-vindo. Podia ajudá-lo a safar-se e a todos daquela situação esdrúxula. Não era crível que em plena Rio de Janeiro, final do século XX e princípio do XXI, ele se visse metido numa aventura típica do James Bond. Ainda achava que as moças a quem dava carona eram paranóicas. Não podia crer que estivessem sendo seguidas por espiões. Talvez alguns marginais do Comando... E se isto fosse a verdade, então, todos estavam correndo risco de morte. Quando aquela gente indicava alguém para ser a “bola da vez” era muito difícil escapar. O que aquelas duas intrometidas teriam feito à gangue? E por que o destino o escolhera para estar naquele restaurante na mesma hora que elas? Se escapasse ileso, iria ao Terreiro de Pai Joaquim para lhe agradecer e prometia nunca mais zombar de espiritismo. Sempre vigiando o retrovisor, colocou o boné e ordenou à namorada:      — Você também, abaixe-se.      A moça o olhou surpresa.      — Não pergunte nada – disse ele – apenas obedeça, rápido!      Ele viu o Camaro. Estava a uns dez carros atrás deles e avançava rápido. Fazia ultrapassagens perigosas, mas quem quer que o dirigisse era muito hábil.      — Meu bem – falou o rapaz – mantenha a mão no acelerador enquanto eu tiro as calças. Quando ou disser “aperta”, você calca o pedal devagar; quando eu disser “folga”, você desacelera. Entendeu?      — Você vai fazer o quê? – espantou-se a jovem milionária.      — Estou de calção de banho, não se preocupe. Agora, obedeça. Os caras estão a seis carros atrás de nós. Não custa muito e vão estar em cima da gente.      A moça, tremendo de medo, fez como ele mandava. O rapaz conseguiu desnudar-se rapidamente entre três “apertas” e dois “folgas”. Depois, abriu a camisa no peito, ligou o rádio bem alto e sentou-se o mais relaxado que pôde, mastigando um chiclete que não existia.      O Camaro encostou atrás do primeiro Del Rey. O rapaz fez uma ultrapassagem arriscada e avançou três carros antes de ser obrigado a voltar a sua fileira. O Camaro precipitou-se atrás dele, mas ao ultrapassar o auto do casal, hesitou.      — Diabo! – exclamou Fratelli – É um imbecil sozinho. No carro de trás há um casal. Vamos pará-los e verificar o carro.      — Não vejo ninguém no banco de trás – disse um dos asseclas.      — Podem estar abaixadas para nos despistar – disse Fratelli. – Luiz, mantenha aquele “ play-boy ” sob vigilância. Vamos olhar tudo que for Del Rey prata ou ouro. Elas não nos escapam. Franco, pise no freio e force uma batida.      O motorista observou o carro atrás. Deu um espaço ao automóvel da frente para que se adiantasse uns trinta metros e, então, acelerou. O Del Rey atrás acompanhou-o. Então, Franco freiou súbito. O Del Rey não pode fazer a mesma coisa e cantando pneu chocou-se na traseira do Camaro. O trânsito parou e muitas buzinas impacientes se fizeram ouvir. Os facínoras saltaram e cercaram o Del Rey rapidamente. O casal, assustado, não saiu de dentro do carro. Fratelli verificou a traseira do automóvel. Ninguém. Ali só havia o casal de meia-idade.      — Desculpe-nos, senhor – disse, educadamente – aqui está o meu cartão. Atrás está o endereço de meu mecânico e o telefone de minha seguradora. Eu cubro todos os danos e não se preocupe. Foi tudo culpa de meu motorista. Vamos!      Tão rápido como haviam surgido os homens se foram deixando o casal a olhar aparvalhadamente para o retângulo amarelo em suas mãos.      O Del Rey do “ play-boy ” estacionou numa vaga à beira-mar. Lugar estratégico. Muito movimento. Não havia outra vaga por perto. Um jovem despreocupado e trajando apenas calção de banho saltou do auto e foi abrir o porta-malas. De lá retirou um guarda-sol de praia. Devagarzinho o Camaro aproximava-se. Seus ocupantes observavam atentamente o rapaz.      — E então? – perguntou o motorista – o que fazemos? Parece que é somente um carinha qualquer vindo caçar...      — Parece, mas vamos verificar. Será rápido. Uma olhada dentro do carro e pronto. Não há muito onde uma pessoa se esconder dentro de um automóvel. Se elas estão lá, só podem estar abaixadas e espremidas entre os bancos.      O Camaro foi estacionado bem atrás do Del Rey do rapaz, de modo a lhe impedir qualquer manobra de escape. Fratelli ordenou que os outros ficassem dentro do carro e saltou sozinho. Do Del Rey o jovem também saltou e se encaminhou para a traseira do automóvel, aparentemente sem tomar conhecimento do facínora. Era um homem forte, corpo bem-feito. Devia ser um desportista.      — Está vindo de onde, cara? – indagou à queima-roupa o bandido parando perto do rapaz. Este o olhou surpreso.      — O que disse? – perguntou, observando os homens dentro do carro estacionado atrás do seu.      — Eu perguntei de onde você esta vindo – disse Fratelli avançando para o Del Rey. O rapaz intrometeu-se entre ele e o carro, impedindo-o de se aproximar de modo a poder olhar para dentro do automóvel.      — Que pergunta besta é essa, me’rmão? Quem é você?      — Trate de responder, camaradinha, se quer ficar inteiro. – O jovem compreendeu que estava correndo sério perigo. O que fazer?      — Estou vindo de casa, droga. Qual é? Você é o dono daqui?      — Cala a boca, panaca. Quem está no seu carro?      — Mas que diabo você tá querendo, cara? – o rapaz elevou a voz, tentando despertar a atenção de quem pudesse ouvi-lo. Naquele momento passava uma família – um homem, dois rapazes, duas meninas e uma mulher jovem. Luiz Filipe esperou chamar a atenção deles, mas não foi muito feliz em seu intento. O homem só lhes deu uma rápida olhada e seguiram todos em frente.      — Saia da Frente! – rugiu Fratelli, impacientando-se.      — Quem diabo você pensa que... – não completou a frase. Um tremendo empurrão que quase o faz voar, jogou-o ao chão. A pancada no peito lhe tirou a voz e lhe encheu os olhos d’água. Fratelli deu dois passos para a frente quando ouviu a voz imperiosa:      — Parado aí, ou leva bala! É a policia!      Surpreso, o facínora olhou por cima da capota do automóvel ao lado do Del Rey. Um homem forte, atarracado, pelos grisalhos no peito e na cabeça, olhar de águia, decidido, apontava-lhe uma respeitável quarenta e cinco direto para a cabeça. A arma estava engatilhada. Cuidadosamente, Fratelli ergueu as mãos até à altura dos ombros.      — O que é que há? – perguntou, raivoso, mas controlando-se. O rapaz percebeu a ajuda. Agradeceu ao seu anjo de guarda e exagerou na tosse e no fingimento da dor.      — Vire-se de costas, ponha as mãos na capota do automóvel e abra as pernas. Ande, OBEDEÇA! – gritou o polícia e Fratelli compreendeu que ele não estava para brincadeiras. Olhou nos olhos do homem e viu que corria sério perigo. Ele atiraria mesmo, ao menor sinal de vacilação de sua parte.      — Calma, parceiro. Sou advogado... – começou a falar.      — Cala a boca e põe as mãos na capota, já! – os dedos do homem apertaram a arma e Fratelli temeu que ele disparasse. Tratou de obedecer.      — Os seus comparsas – ordenou o policial – mande que fiquem no carro. Ao menor sinal de movimento eu atiro primeiro em você, depois, neles.      Furioso, mas impotente, Fratelli ordenou, com um sinal de cabeça a seus homens, que não se movessem. Tomou a posição que o policial lhe ordenara. O rapaz levantou-se ainda tossindo. O polícia deu a volta cautelosamente ao carro e se colocou fora do alcance de um pontapé de Fratelli, frustrando-lhe a intenção. Sem mesmo pestanejar e olhar fixo em Fratelli, falou para o rapaz.      — Você está bem, meu jovem?      — Si... sim, senhor. Só um pouco dolorido no peito.      — Isto passa. Faça-me um favor. Pegue o microfone no meu automóvel. Vire a chave para o alto e fale o seguinte; “aqui é o três-meia-cinco pedindo reforço. Av. Sernambetiba, Barra, em frente ao Caça e Pesca. Suspeitos retidos num Camaro cor laranja. Cinco. Estou só. Repito: necessito de reforço urgente.” Você entendeu?      — Sim senhor.      — Ótimo, faça isto, agora.      Fratelli olhou com ódio para o policial.      — Escuta aqui, ô cara, eu já disse: sou advogado...      — Cala a boca!      — ... e trabalho para o Sr. Kamuratti – concluiu quase gritando, Fratelli.      — Eu vou verificar sua história, mas enquanto a patrulha está a caminho, quero todos quietos, entendeu? A Falange e o Comando têm andado muito ativos por aqui, nestes últimos meses e vocês me parecem bastante suspeitos.      — Mas não estávamos fazendo nada... – protestou o advogado.      — Não mesmo? E o soco no peito do rapaz, como se explica?      — Foi um equívoco. Um outro Del Rey de mesma cor nos deu uma fechada e quase nos joga fora da estrada. Nós o confundimos com o carro do moço aí. Foi só isso!      — Isto só faz com que eu suspeite mais de vocês. Um cidadão decente não iria perseguir e agredir um outro só porque ele lhe deu uma fechada. Num trânsito desses, isto é comum – ripostou o policial.      Fratelli afastou as mãos de cima da capota do carro num gesto involuntário para se explicar. O polícia não teve dúvidas: disparou um tiro por cima da cabeça do facínora raspando-lhe os cabelos. Fratelli encolheu-se de susto e empalideceu. O homem podia ter-lhe varado a testa a bala.      — QUIETO! – gritou o polícia – Se afastar as mãos de cima da capota do carro vai levar bala. E falo sério, entendeu? E vocês, aí no Camaro. Um a um, cuidadosamente, saiam e venham colocar-se aqui. Todos na mesma posição deste sujeito. VAMOS! SAIAM!      Os capangas obedeceram. O tiro inesperado os desconcertara. Fratelli trincava os dentes com tanta força que os maxilares pareciam querer saltar de seu rosto. Se tivesse a mínima chance de pôr as mãos naquele policial idiota o mataria tão rapidamente que ele nem perceberia. Os seus homens se enfileiraram ao seu lado e o olhavam como que perguntando “o que fazemos, agora?”. Ele meneou a cabeça em negação, numa resposta muda: “nada”.      Uma sirene irritante se aproximou.      O “camburão” parou ao lado do Camaro. Quatro policiais armados saltaram e os cercaram.      — Eu... eu posso ir...? – indagou o rapaz, preocupado. Como explicaria as mulheres encolhidas no carro?      — Não. Você, também, fica. Se esses homens forem bandidos – e eu penso que são – vou precisar de sua queixa para metê-los atrás das grades. E agora, todos para o camburão, vamos!      “Que entaladela” – pensou o rapaz.      — Espere um pouco – disse Fratelli. Eu sou um advogado e não vou entrar num camburão à-toa. Pode atirar, se quiser, mas não vou me rebaixar a isto.      — Você – disse o policial – me dê a sua identidade. Mova-se devagar, senão...      Fratelli obedeceu. O policial recebeu-lhe a cédula de identidade. Os outros policiais revistavam os homens impotentes. De Fratelli tomaram um trinta e oito e a Beretta que sempre trazia atrás, no cós das calças. Dos outros, recolheram a “infantaria”.      — Ei, detetive, eles têm um arsenal. Cada um leva um trinta e oito e alguns têm até armas nas pernas – disse um dos policiais recém-chegados.      — Algemem todos – foi a resposta seca.      — Espera aí! Eu sou um advogado! – protestou Fratelli.      — O Celso Cerqueira também é – disse o detetive – mostrem o porte de armas. Todos!      — Não temos – disse Fratelli, soturno.      — No camburão. Estão detidos por porte ilegal de armas.      — Mas... – quis protestar Fratelli. Um tapa de mão aberta estalou-lhe na face.      — Calado, “seo” calhorda! – gritou-lhe o polícia que lhe batera – para o camburão, já!      Fratelli fuzilou o seu agressor. Daria a alma ao diabo por uma única chance de poder pôr as mãos nele, agora. “ Você está morto, desgraçado ”, murmurou em italiano.      — Tá dizendo o quê, idiota? Tá dizendo o quê? – E o policial enfiou a ponta do cassetete no abdome de Fratelli. Um homem normal ter-se-ia dobrado de dor, mas aquele era o melhor aluno de Kimura. A arma do policial encontrou uma parede de aço e, apesar da força com que fora lançada contra Fratelli, não conseguiu fazer nem mesmo com que o furioso homem balançasse. O polícia fitou-o nos olhos, espantado. O ódio e um riso misterioso naqueles olhos lhe fizeram sentir um calafrio na boca do estômago. Havia morte, ali. Morte que lhe olhava direto como o olhar do gato para o rato acuado. O policial sentiu-se mal e recuou involuntariamente, engolindo em seco.      — Entrem no camburão – ordenou Fratelli, sempre olhando fixamente para o polícia, que “ desmontara ” à sua frente. O homem parecia ter tido sua força vital sugada por aquele olhar infernal. – Estes senhores da Lei vão ver com quem estão-se metendo – completou o facínora. Seus homens obedeceram e ele foi o último a fazer a mesma coisa. Ficou próximo à porta do carro e quando o policial que o agredira veio fechar o carro, como uma cobra as mãos de Fratelli o aberturaram e o ergueram do solo como se ele fosse de pluma. Rosto no rosto e olhos nos olhos, o furibundo assassino rosnou:      — Meu carro, ‘seo’ merda! Se sofrer um arranhão, não somente você morre. Morrem todos. Eu me encarrego pessoalmente disto, entende o que digo?      Tomado de surpresa e se sentindo absolutamente à mercê do seu agressor, o assustado policial só pôde balbuciar:      — Sssi...ssim, senhor... So...solte-me! Es...está me... me machucando...      — Você é meu, idiota. Nós vamos encontrar-nos em breve! E antes que os companheiros acudissem o pobre policial dependurado nas suas manoplas, Fratelli o soltou com um safanão, jogando-o ao solo. O detetive olhou-o nos olhos e se aproximou.      — Agressão à autoridade. Muito bem, advogado, você está-se complicando cada vez mais. Continue assim. Você vai ótimo.      — Vá à merda! – rosnou Fratelli.      — Não, não vou. Mas gostaria de fazê-lo comer um pouco do excremento de que sua boca vive cheia... advogado.      Os dois homens se olharam firmemente. Fratelli tinha dificuldade de se controlar para não saltar em cima de seu desafeto.      — Você se intrometeu num assunto que não lhe diz respeito. Vai arrepender-se por isto – falou entredentes.      — Ameaça-me? Você está-me fazendo uma ameaça?      — Sim. Vou matá-lo – rosnou Fratelli.      — Isto, eu quero ver – disse com um sorriso o polícia.      — Não vai ver. Não terá tempo.      — Vamos-nos encontrar, rapaz. Prometo-lhe que vamos-nos encontrar novamente.      — Reze, antes. Não lhe darei tempo para isto, quando estivermos frente a frente.      — A mãos limpas?      — Claro. Mas se você estiver armado não fará diferença. Eu o acertarei de qualquer modo.      — Isto é o que veremos.      E o policial afastou-se entrando em seu carro. De lá, gritou para o rapaz:      — Pode ir tomar o seu banho, moço. A gente já tem motivos de sobra para deter esta corja. Tenha um bom dia!      — O senhor também, policial.      O carro do polícia arrancou atrás do camburão. O rapaz, tão logo se viu livre, abriu a porta do carro e manobrou para sair dali. As mulheres voltaram a ocupar os seus lugares aliviadas. A posição entre os bancos era extremamente desconfortável e Mara já sentia falta de ar devido à forma como estivera acocorada.      O rapaz enveredou por entre o fluxo e logo atravessavam a ponte sobre o canal próximo à Ilha da Gigóia, tomando a direção do Alto da Boa Vista.      — Escutem, moças, quando se aproximaram de nós vocês perguntaram nossos nomes. Contaram uma história tão espantosa que não nos apresentamos. Agora, é hora das apresentações. Meu nome é Filipe. Luís Filipe Nettus Filho. E esta é Milena Forcis, minha noiva. Até há duas horas atrás tínhamos uma vida calma como a de qualquer cidadão desta cidade... dentro do que é possível, é claro. Vocês duas, porém, viraram nosso dia da semana de pernas pro ar. Quem são vocês?      — Eu já disse... – começou a falar Ludmila.      — Disse e mentiu – cortou o rapaz. – Se vocês fossem mesmo polícia, teriam saído do carro quando aquele policial interveio na confusão em que nos meteu. Mas vocês ficaram quietinhas aí. Posso saber o que está acontecendo?      Mara olhou para Ludmila. Por ela, abria logo o jogo. Detestava mentir e, afinal, o rapaz as ajudara bravamente, mesmo correndo perigo de vida. Ludmila meneou negativamente a cabeça, ao advinhar a intenção da colega.      — Vamos, meninas, aquele homem disse que trabalhava para o Kamuratti. Você e sua amiga nos disseram que eles eram terroristas. Quem está mentindo nesta história toda?      — Eles – falaram as duas ao mesmo tempo.      — Desçam – e o rapaz freiou o carro.      — O quê? – surpreendeu-se Ludmila.      — Eu disse desçam.      — Mas... mas aqui? Na subida da serra? – protestou Mara.      — Sim senhora. Espiões não fazem o meu gênero. Mentirosas, menos ainda. Desçam. Aqui é fácil pegar um táxi. Aqueles homens podem ser realmente o que diziam, mas podem perfeitamente ser do Comando Vermelho ou da Falange. E Milena é rica. Eu, também. Não gostaríamos de passar pela experiência de um seqüestro, Meu futuro sogro é cardíaco. Não quero a morte dele, compreendem? Se Milena viesse a ser raptada, certamente que nós não o teríamos em nosso casamento.      — Mas nós... – ia começar a falar Ludmila, mas o rapaz a cortou impaciente.      — Desçam, são surdas?      — Se vocês não fizerem o que meu noivo está mandando, começo a gritar até que o carro esteja cercado – ameaçou Milena.      — Tá certo... tudo bem... fique calma. Já vamos descer. De qualquer modo, queremos agradecer o que fizeram por nós. Vocês foram muito corajosos. Acreditem: se precisarem de qualquer coisa na polícia...      — Não – cortou o rapaz – depois de hoje, eu quero mais é distância de polícia. Adeus, donas!      E arrancou com o carro, sumindo logo na curva adiante.      — Bem – disse Mara – estamos novamente a pé. E agora?      — Táxi! – exclamou Ludmila – vamos parar um táxi e logo estaremos no jornal. A propósito, ali vem um. TÁXI! TAAAAXIIII!      Mas o motorista não parou. Olhou-as, mas não parou.      — Filho de uma cadela sarnenta! – gritou a frustrada repórter. – O desgraçado nos olhou e não parou, pode uma coisa dessas?      — Eu queria que o pneu dele estourasse... – disse Mara com raiva, punhos cerrados e olhar fuzilante preso no carro que dobrava na curva logo adiante. Mal acabara de falar e ouviu-se um estrondo. O taxi rabeou perigosamente, perdeu a direção, subiu a calçada e foi chocar-se violentamente contra um Monza Classic que estava entrando na garagem de uma mansão. Mara empalideceu. Ainda estava atônita, fitando o acidente, incrédula, quando foi arrastada pelo braço, por Ludmila, que lhe gritava:      — Vamos, logo Mara, antes que aquele ali também vá embora...      Como uma autômata Mara se deixou arrastar. Como é que podia ver o táxi sofrendo o desastre, se ele estava além da curva que encobria a visão delas?      O táxi que as conduzia passou ao lado do acidente. Totalmente espantada, Mara viu que o táxi estava justamente como havia visto quando ele sofrera o acidente aparentemente longe de seus olhos. Como é que aquilo era possível?      “ O cão. Eu ordenei que ele atacasse o seu companheiro e ele o fez. Agora, o táxi. Eu desejei que o seu pneu furasse... E ele furou ”. Não podia ser coincidência? Não. Não podia. Era coincidência demais num só dia.      — Você viu aquilo? – perguntou Ludmila – Ainda bem que ele não parou para nós. Olha só onde estaríamos metidas, agora. Que sorte a nossa, não foi?      — Hein...? Oh, sim, sim. Uma grande sorte... eu acho.      Como dizer a sua companheira de que desconfiava que havia sido ela, Mara, a causadora do acidente?      — O que há com você? Está pálida... – observou Ludmila,      — Eu... acho que foi... foi tudo, sabe? Tudo, mesmo.      — Eu sei, eu sei. Acho que devo um pedido de desculpas a você. Mas, como pôde ver, o assunto é por demais escabroso e perigoso. É necessário muito cuidado e, também, saber guardar sigilo. A Karina não saberia fazer isto. Se fosse ela em seu lugar, tão logo chegasse à redação já corria para a máquina para contar tudo, tim-tim-por-tim-tim. E colocaria tudo a perder, além de por nossas cabeças na forca, compreende? Nada do que vimos e passamos é prova. Tudo parecerá circunstancial, num tribunal. O que eu quero é dizer que isto só pode ir para as páginas do jornal quando tivermos algo realmente forte, sólido.      — Por que você cismou comigo? – Perguntou Mara.      — Não sei dizer ao certo. Alguma coisa... talvez a famosa intuição feminina, me dizia que você era a pessoa melhor indicada para ser minha companheira neste trabalho.      — Mas não sou. Não sou forte. Não estou acostumada a violências. Não estou acostumada a lidar com homens como aqueles. Minha vida sempre foi quieta, pacífica.      — Desculpe, Mara, mas não é o que a sua analista me disse.      — Como?! Você sabe dela...? – Mara ficou boquiaberta.      — Sim, eu sei. Mas não se zangue comigo, por favor. Eu descobri isto sem querer. Acontece que fui procurar ajuda com uma analista. E por coincidência fui exatamente à sua.      — E... E por que foi procurar uma analista?      — Bem... tenho mais uma indiscrição de minha parte para lhe confessar. Mas só farei se você prometer não se zangar comigo. Também prometo contar-lhe o meu segredo. Assim, ficamos quites. Tudo bem?      Mara olhou desconfiada para Ludmila. Se a ruiva estivesse mentindo...      — Está bem. Fale.      — Eu fiquei sabendo que você também freqüentava a analista um dia em que cheguei mais cedo. Você saia de lá. Fiquei curiosa e perguntei diretamente a ela se você era sua cliente, mas ela não me respondeu. Disse apenas que sua clientela era confidencial. Aí, eu passei a vigiar você. Até que tive a certeza de que realmente você freqüentava a analista que eu escolhera. Aí... bem, fiquei curiosa para saber do que você se tratava.      — Ela lhe contou?? – Mara se espantou.      — Não, claro que não. Eu... eu dei um jeito de bisbilhotar o arquivo dela.      — Mas é computadorizado.      — Sou expert em programas, esqueceu? Afastei-a de lá com a ajuda de um colega policial e acessei os arquivos. Aí, descobri sobre os seus pesadelos...      — Então... você sabe? Contou a alguém? Se o fez...      — Não sou tão venal, Mara. Também estou freqüentando a analista, esqueceu? E também tenho problemas semelhantes aos seus.      — Você... você também tem aquele pesadelo...?      — Não, não é pesadelo. É algo esquisito...      — Como assim?      — É difícil de explicar...      — Como assim? Não sabe dizer do que sofre?      — Não é bem um sofrimento.      — Então, o que é?      — Eu... Quando estou muito cansada, muito estressada, sofro algo que não sei o que é. De repente tenho a visão... uma impressão... algo como estar em dois lugares ao mesmo tempo, compreende? Estou em casa e simultaneamente estou num local que me parece uma ilha... Há coqueiros. E há brisa... praia... sol brilhante... Mas há medo no ar. Um medo muito... muito grande... Aí eu vou entrando em pânico. Começo a suar. Tento livrar-me daquela impressão, mas não consigo. As imagens de onde estou e de onde parece que estou se superpõem. Chego a perder o sentido de realidade e penso que enlouqueci. Já aconteceu isto dentro do jornal. Foi horrível.      — Santo Deus... Deve ser enlouquecedor...      — No princípio, foi sim. Agora, já controlo mais a situação e quando a coisa começa a acontecer sigo a orientação da analista.      — E qual é ela?      — Devo relaxar a mente e concentrar-me toda na visão.      — Você faz isto?      — Faço.      — E o que acontece?      — As imagens vão sumindo... sumindo... e a coisa cessa.      — A analista tem alguma explicação para isto?      — Ainda não... pelo menos, não que eu saiba.      — Você falou que o local de sua... sua visão parece uma...      — Uma ilha. Uma ilha estranha...      — Você vê alguma... alguma praia...?      — Não. Sinto que existe, compreende isto? Mas não “vejo” a praia. Só sei que se trata de uma nesga de areia entre pedras negras...      — Pedras vulcânicas?      — Sim, agora que você falou isto, sim, é assim que sinto.      — Ludmila, você leu alguma coisa sobre meu pesadelo?      — Li. Não o pesadelo completo, mas algumas suposições que a analista fez sobre ele. Suas interpretações são muito técnicas, mas eu não fiquei muito convencida, não.      — Minha ilha... Você acha que é a mesma sua?      — Não sei. Sinceramente, não sei.      — A praia. A praia que você “sente” que existe. Você a descreveu igualzinha à que eu vejo.      — Mara, você já tentou a hipnose?      — Não.      — Pois acho que deviamos fazer isto.      — Juntas?      — Sim. Por que não? Se a ilha é a mesma...      — E se não for?      — Tudo bem. Cada qual faz a sua hipnose. Eu não quero fazer isto sozinha. Sinto que com você perto vou achar-me mais segura. E não pergunte o motivo. Eu não sei.      — Pensando bem... Acho que tem razão. Se você estiver por perto eu também não vou sentir-me tão desamparada...      — Você quis ir para o “Mausoléu” para pesquisar, não foi?      — Você sabe disto, também?      — Sim. Sou repórter policial, não se esqueça.      — Você é mais perigosa do que imaginei.      — Não para você, colega, não para você.      — Está certa. Quero ir para a Seção de Pesquisas Históricas e Arqueologia justamente para isto.      — É... Pode ser que dê certo. O que procura, exatamente?      — Aí é que está. Eu não sei quase nada sobre o tal lugar... A ilha, compreende? Nem mesmo em que lugar ela poderia se encontrar no oceano. Pesquiso algo que não sei o que seja. Uma ilha cuja imagem está aqui, no meu cérebro, na minha recordação. Mas não tenho a mínima idéia de sua localização no oceano.      — Você acha que esta ilha existe?      — Eu... Sabe que nunca havia pensado a respeito? Na verdade, jamais me preocupei com isto. Para mim é como se ela estivesse ali, na próxima esquina.      — Na próxima esquina é a redação. Vamos saltar logo. Nossa conversa vai ficar para depois.      — Já chegamos? Eu nem tinha notado.      — Já. Você paga a corrida? Estou sem trocado.      — Tudo bem. Ah... e pago o salto de seu sapato, também.      Ludmila sorriu e Mara, pela primeira vez, não achou que o sorriso da outra fosse porque o Diabo estivesse em festa. Saltaram e se dirigiram para o elevador.      — Ludmila – perguntou Mara – como vamos fazer a reportagem do seqüestro? Na verdade, não cobrimos nada daquilo...      — Logo você vai aprender, não se preocupe. Essas histórias, os seqüestros, são todos padrões. A gente dá um telefonema para “O DIÁRIO DA MANHÔ e nossos colegas de lá nos passam tudo. Seqüestro, Mara, já não constitui novidade, assim, não nos importamos de passar informações, compreende? Nós modificamos alguns detalhes sem importância, e pronto.      Mara olhou para a colega com mais respeito. Apesar de sua aparente displicência, Ludmila era muito esperta. E tinha várias faces.      À noite, em seu apartamento, Mara rememorava os acontecimentos daquele dia. Seu sexto sentido lhe dizia que tinha entrado facilmente num túnel perigoso, mas não sairia dele da mesma forma. Os rostos daqueles homens truculentos não lhe saíam da memória. E o Sr. Kamuratti e sua esposa? Figuras saídas das páginas de um romance de ficção detetivesca. Soturnos, frios, olhares gélidos e penetrantes como punhais. Mara jamais havia visto nada semelhante. Aquelas pessoas matariam com a mesma frieza com que os atores representavam os criminosos nos filmes. Então, havia realmente gente assim. Não era somente invenção cinematográfica...      Seu olhar vagueou pela cidade. Eram nove horas e o Rio de Janeiro se acalmava. Muitos carros ainda estavam passando sobre o elevado Paulo de Frontin, mas o engarrafamento já não existia. Eles corriam livremente. “ Onde andarão aquelas bestas humanas? O que estarão fazendo de mal a esta altura da noite? Será que dormem? Será que ainda estão à nossa procura ?” Esta última parte de seu pensamento lhe causou um calafrio. Inquieta, andou de um lado para outro no pequeno espaço da sacada de seu apartamento. E começou a rememorar tudo o que vira, ouvira e vivera.      Primeiro, o seqüestro do tal de Anteu. Ludmila achava que era falso... Pelo menos fora o que dera a entender. Por que? Segundo, a história da remessa de dólares para o exterior. Assunto explosivo. Ludmila lançara às claras, diante de um casal sumamente perigoso, que sabia das falcatruas deles. Depois, o fato de Anteu estar apaixonado por Karina e ter tentado revelar algo a ela. Algo que não queriam que falasse. Vinha, a seguir, a história esconsa do surgimento do Banco Kamuratti e seu envolvimento com o mais poderoso conglomerado financeiro bancário, os Rotschild. Então, o envolvimento de Anteu com Kantor. Inadmissível que o advogado não soubesse quem era o seu colega. Por que, então, aceitava trabalhar para ele? Fazer pequenos favores... mesmo regado a dólares, não era o feitio de um Kamuratti. Mesmo que Anteu não fosse Kamuratti de nascença, fora criado dentro dos rígidos padrões dos banqueiros e não poderia simplesmente quebrar com eles assim, sem mais aquela. Anteu tinha de conhecer bem mais sobre o banqueiro de bicho do que admitira a Karina. Mara permaneceu dando tratos à bola e não viu a hora passar até quando ouviu o sino da igreja badalar a meia-noite. Não deu importância. Absorvia-se em suas conjecturas e cada vez mais achava incoerente a história de Anteu com o Celso Cerqueira Lima, ou Kantor. Ludmila positivamente não estava acreditando naquela história pueril. Então, por que é que não mencionara nada a ela, Mara? Por que preferira deixar a história como se fosse realmente a em que estava acreditando? Qual o motivo que obrigava Anteu a aceitar Kantor? Qual o pacto que havia entre os dois? Dólares, certamente, não era. E o Sr. Kamuratti deixara isto bem claro ao falar com Ludmila... isto é, Irina Hess... De onde Ludmila tirara este nome? Hess... Hess... Não lhe era estranho este sobrenome... De onde ouvira a respeito dele? Numa reportagem? Num livro? Tentaram matá-las. Assassinos determinados foram mandados para executá-las. Seria só por causa da remessa de dólares? Não era possível. Um suborno era bem mais fácil de ser tentado, mas não fora. Preferiram logo a solução extrema: a morte. E, óbvio, ela fora incluída na lista porque estava com a pessoa verdadeiramente perigosa para eles – Ludmila. Por que sua colega a escolhera? Aquela história de Karina não saber guardar sigilo, agora, pensando bem, não a convencia. Teria sido devido ao que descobrira sobre seus pesadelos? Quereria Ludmila aproximar-se e não sabia como? Mara, após a consideração mais profundo desta hipótese, achou que sim. Ludmila desejava aproximar-se, porém ela, Mara, sempre lhe fechara a porta. A ruiva, é claro, terminou por encontrar um meio de envolvê-la no “ affair ” Kamuratti e, com isto, encontrou um meio de manter-se junto a ela. E era mesmo estranho que duas pessoas totalmente diferentes, nascidas em localidades distantes entre si, de pais com costumes diferentes, tivessem problemas semelhantes... quase idênticos. Como se explicaria isto? A idéia de ir a um hipnotizador parecia genial. Por que não pensara nisto, antes de Ludmila? Havia a tal Terapia de Vidas Passadas. Daria resultado? Certamente era uma alternativa bem mais interessante do que o eterno “Complexo de Édipo Mal solucionado” e a fixação sexual de sua analista. Mara concluiu que valia a pena tentar. Sentiu-se subitamente exausta e foi deitar.      Glauce e Aquiles se encontraram em frente ao Souza Aguiar. A médica entrou no automóvel do rapaz e se deixou ficar a ouvir a Nona de Beethoven, olhos fechados. Estava muito exaurida, Aquiles beijou-a de leve nos lábios.      — Cansada? – perguntou o rapaz.      — Exausta – respondeu ela.      — Quer uma hidro? – indagou ele.      — Hum-hum – respondeu a médica.      Aquiles levou o carro para Jacarepaguá, direto ao luxuoso motel “PAINEIRAS” recém-inaugurado sobre uma lapa, a uns cento e cinqüenta metros de altura. Além do luxo da suíte, a paisagem vista lá de cima era deslumbrante. Após demorada hidromassagem, fizeram sexo. Às 22:30h tomaram um lanche e se aninharam nos braços um do outro. Glauce estava relaxada e sonolenta. Seus pensamentos voaram livremente. Cenas confusas que misturavam a mesa de neurocirurgia, pessoas de branco, o rosto de Karina sorridente... o telefonema estranho de Aquiles... o estranho no elevador... o carro perseguindo o seu... o carro... o estranho... os olhos dele... aquele sorriso inquietador... o ríctus da boca... um lobo... qual o nome? Eurico ou... ou Henrique...? Como era mesmo...? Alarico...? Alberico...? O sono se fora. Glauce abriu os olhos e fitou o rosto sereno de seu noivo. Ele dormitava.      — Meu bem? – chamou baixinho.      — Hum? – fez ele.      — Eu o acordei? – perguntou a médica.      — Hum-hum – respondeu ele, ainda de olhos fechados.      — Desculpe... – e Glauce voltou a repousar a cabeça no peito de seu noivo.      — O que é? – perguntou Aquiles abrindo os olhos.      — Nada, deixa pra lá! – esquivou-se a moça.      — Não senhora. Algo importante lhe roubou a paz. O que foi? Fale. Eu quero saber.      — Bobagem...      — Mesmo assim, o que é?      — Você conhece alguém chamado... Alarico... Alberico... Frederico... ou algo parecido?      — Não, por que? Quem é o distinto?      — Um verdadeiro chato – mentiu Glauce. – Disse que viera recomendado por você. Queria-me convencer a entrar para uma Associação de Clubes Campestres...      — E você entrou?      — Não.      — Bem, precisamos rever o conceito em que você anda colocando o meu nome – brincou o rapaz.      — Por que? – surpreendeu-se a moça      — Parece que ele perdeu importância. Alguém se apresenta a você servindo-se dele e não consegue nem pro café da manhã... as coisas andam pretas pro meu lado...      — “Seo” bobo! – disse Glauce, rindo e esmurrando-lhe o peito. O rapaz segurou-lhe os braços e lhe deu um beijo. Qualquer coisa no abraço dela pôs Aquiles em guarda. Havia uma como que urgência... talvez até temor... O rapaz apertou a noiva ao forte tórax como se querendo protegê-la. Ficaram assim, apertados e calados por um longo tempo. Á lembrança dele veio, súbito, a estranha mensagem em sua secretária eletrônica. “ Quando passeava por uma gruta da Acrópole, em Atenas, a Jovem Creúsa, bela donzela, foi violentada por Apolo, o belo Deus do calor e da vida... Cuidado com Apolo... ” A recordação lhe tirou o sossego. Aos poucos afrouxou o abraço e desvencilhando-se da noiva e dos lençóis foi mergulhar na piscina de água quente. Glauce ficou a olhar para o noivo sem compreender nada, mas entendendo que o encanto daqueles momentos se desfizera. O que havia de errado com o seu homem? Aquiles era um verdadeiro deus grego. Corpo bem modelado devido ao Karatê, músculos rijos, pele morena bronzeada, alto e de maneiras distintas, ele lhe dava a sensação quase palpável de estar diante de alguém que era como um paredão. Abrigada a seu lado, nada poderia ser ameaça. Contudo, vê-lo inquieto – coisa rara – incomodava-a profundamente. O mergulho na piscina era um fuga... O que havia com o seu homem? Do que fugia ele?      Também se levantou. Ambos estavam nus e ela foi direto para dentro d’água. Beijou demoradamente o seu namorado. Depois, olhando-o nos olhos, perguntou incisiva:      — O que foi?      — Nada. Eu quis tomar banho – esquivou-se ele.      — Não fuja. Não fica bem em você. Não é o seu estilo. Vamos, o que é? Me diga.      Aquiles percebeu que não conseguiria fugir a ela. Sempre foram sinceros entre si. Mas se tinha de falar, que ela o fizesse primeiro.      — Você está ocultando algo de mim – disse ele. – O que é?      — Eu...? – surpreendeu-se Glauce,      — Você, sim. Seu abraço... Ele me disse que você está com medo. De que? Do que você tem medo?      Glauce ficou a olhar para Aquiles como que hipnotizada.      — Você percebeu...? – perguntou num fio de voz.      — Sim.      — Desculpe – disse a moça, fragilizada e abraçando-se a ele. – Eu não lhe queria perturbar...      Aquiles sentiu-se culpado. Mas era melhor assim. Não desejava deixar sua amada preocupada com algo que nem ele mesmo sabia o que era.      — O homem não era vendedor – iniciou Glauce. – Ele...      E narrou tudo o que lhe acontecera na noite em que se encontrara com Fratelli.      — E como era o nome de seu suposto vizinho? – indagou Aquiles.      — Eu não recordo bem. Qualquer coisa assim como Alarico... Eurico ou... ou Alberico... Eu não sei bem.      — Você verificou se realmente um novo morador se mudou para o prédio vizinho?      — Não. Na verdade, nem me passou pela cabeça. Dei graças a Deus por ele ter sumido...      — Quer saber o que penso?      — Quero sim e sua voz traia tensão.      — Eu acho que ele só quis marcar presença junto a você – disse o rapaz, com um sorriso luminoso no rosto.      — Como assim? – desconcertou-se Glauce.      — Quis impressioná-la. Moça, bonita, médica... Hum?      Glauce perscrutou o rosto de seu noivo, mas ele lhe pareceu absolutamente sincero.      — Pois se foi isto, conseguiu mesmo. Mas de modo contrário ao de sua pretensão.      — Ótimo! Deste, eu estou livre – disse Aquiles rindo descontraído.      Glauce o olhou por um momento e, então, riu também. Se Aquiles não dava importância, então tudo não passara de conseqüência de seu estresse. Um grande alívio tomou conta dela. O homem, certamente, tentara uma coqueteria. Vira-a na rua, se interessara e a seguira buscando um meio de se fazer notar. É... a idéia fazia sentido.      O mal da espécie humana é o medo. As pessoas se agarram à menor e mais frágil esperança por medo de encarar a realidade que lhe parece muitas vezes ameaçadora. E fecham os olhos para aquilo que deviam enfrentar de frente. Glauce agia, agora, justamente assim. Depressa descartou-se do temor que a mantivera alerta por todo aquele tempo e não deu mais nenhuma atenção a seu instinto de conservação, que lhe alertava insistentemente sobre o perigo. Talvez que ao passar à condição humana, a alma peregrina se tenha esquecido do valor que teve para ela o alerta instintivo animal. O gato, ao tomar um susto quanto a alguma coisa que não está bem claro para ele, fareja, olha cuidadosamente para o local de onde lhe pareceu vir a ameaça e se mantém, durante dias e dias, sempre cauteloso, sempre desconfiado quanto àquele lugar. O cão, também. O homem, não. Anula a sensação iminente de perigo racionalizando suas suspeitas. Encontra uma explicação fantasiosa e a ela se apega, pois que, como um opiáceo, ela lhe retira a sensação desagradável do alerta para a luta. Os políticos são o exemplo mais marcante deste procedimento irracional e inadequado para o ser humano. Perdem-se em rodeios buscando encontrar a melhor maneira de não se sentir ameaçado e, com isto, tornam-se vulneráveis e venais. Raros são aqueles seres humanos que, em dúvida, buscam a fonte diretamente para esclarecer seus temores. A grande maioria procura refúgio na fantasia oniróide. E isto lhes reforça a sensação de impotência, que expressam muito bem na terrível frase: “eu não consigo”. E dizendo isto, reforçam em si mesmos a capacidade de não conseguir.      Glauce dissera para si, inconscientemente, “eu não consigo lidar com esta sensação inquietante. Eu gosto de sossego. Não quero ver nada que não seja absolutamente conforme a uma vida calma, quieta e previsível”. O homem lhe quebrara a monotonia e a “certeza” de seu viver. Cumprir sua carga de trabalho, vir para casa, dormir e voltar ao trabalho no mesmo e monótono ritmo de todo dia era a sua mais alta aspiração. Passar a vida longe de desafios e incertezas capazes de causar preocupações e gerar lutas e ansiedades era a sua meta de vida. Glauce, como qualquer ser humano atualmente, dá a maior força à entropia e esquece que o fenômeno leva á desagregação e a morte. Fecha os olhos e os ouvidos às vibrações de alerta que a Natureza nos coloca para que aprendamos a acertar o rumo de nossas vidas a cada dia, freqüentemente a cada hora. Retira a beleza do viver, pois viver é lutar e vice-versa. O movimento é a Vida. A quietude, a Morte. A entropia leva à quietude, logo, à morte. Mas buscamos sistemática e ignorantemente justo o viver quieto, destituído de ação. Domar o sentimento básico de Medo é o maior desafio do Ser Humano em nossa época. E é por isto que as situações de vida são as piores possíveis na atualidade. O Ser Humano tem de vencer o Medo e só pode fazer isto aprendendo a não fugir aos desafios. A vida civilizada avança cada vez mais no sentido de nos roubar a quietude e nos tirar da monotonia. Quando soubermos viver aceitando prazerosamente os desafios e os encarando como um jogo, ainda que de vida ou morte, e fugindo às carreiras à quietude e à monotonia, então, sim, seremos realmente os senhores da Terra... E foi por ter conseguido iludir-se quanto à sensação de inquietude, calando-a dentro de si, que Glauce voltou para a cama e fez amor com seu noivo, dormindo, depois, serenamente, como serenamente dorme uma criança que fantasia a mamadeira na chupeta que tem na boca.      Aquiles, porém, não conseguiu dormir. Algo se revolvia fortemente dentro de seus sentimentos e de seus pensamentos. Algo não se ajustava. Sua preocupação crescia mais fortemente, agora que o prazer deixara sua mente e suas emoções aquietarem-se. Embora sua noiva não tivesse sabido descrever o automóvel nem tivesse tido a capacidade de lhe memorizar o modelo e a marca, a descrição que fez do homem que aparentemente de modo acidental lhe acompanhara até o seu andar, levava-o a suspeitar de Fratelli. Era uma descrição muito fiel daquele homem violento. E o nome... Alarico... Alberico... Eurico... Enrico... Muita coincidência? Difícil de acreditar. Mas Enrico Fratelli não sabia nada a respeito de sua vida... de seu noivado. Sempre fora muito reticente com isto entre seus companheiros... Era forçar muito querer admitir que aquela história toda fora maquinada em apenas 48 horas, tempo decorrido desde que eles se haviam desentendido. Como descobrir Glauce, se não tinha conhecimento de sua existência? E que vantagem ele poderia tirar atacando alguém fora do dojô? Fratelli fora humilhado lá, na presença de todos os seus companheiros. Certamente quereria a desforra lá, diante de todos eles. Teria de ser muito doente, muito psicótico, para se pôr a seguir o adversário, descobrir sua vida, planejar o ataque e o perpetrar... Não, o tempo, 48h, não era suficiente para tanto. Fratelli nem mesmo sabia onde ele, Aquiles, morava... Além disto, era um advogado ocupado. Não poderia perder tempo dando uma de detetive... E se tivesse contratado um? Aí, o tempo seria menos ainda. A lógica lhe dizia que não podia ser o seu adversário de dojô. Os dois incidentes não podiam ter relação... Ou será que podiam?      Glauce fechara o problema. A mente de Aquiles, não, ainda que ele procurasse justificativas que lhe dessem a ilusão de que tudo era fantasia e pronto. A impressão sensorial do combate assistido e a compreensão, chocante, de que se tivesse enfrentado Fratelli naquele dia certamente o homem o teria machucado seriamente talvez fossem a motivação que lhe fazia relutar em aceitar a entropia tão facilmente.      O dia clareou e encontrou Aquiles de olhos fitos no espelho do teto onde se via e à sua Glauce, quietos sobre o leito de cetim.      Vinte horas. Enrico Fratelli acabara de relatoriar sua atividade para o Sr. Kamuratti. O patrão o ouviu em silêncio por uma hora. Tudo fora feito de conformidade com o planejado. Era isto o que mais gostava em Fratelli: era preciso, objetivo e rápido. Não era homem de hesitações.      — Seu trabalho foi perfeito. Aqui estão os vinte e cinco restantes. Embora não seja necessário, lembro-lhe de não esquecer de acertar aqueles detalhes finais. A segurança deve ser absoluta, compreende?      — Hoje mesmo, Sr. Kamuratti, hoje mesmo.      — Está bem. Você pode retirar-se.      Enrico Fratelli retirou-se. O senhor Kamuratti tomou do telefone e fez uma chamada internacional...      Fratelli trocou de roupa e vestiu o quimano. Veio para o dojô. Era a hora do jiu-kumitê. Ele passeou os olhos pelo grupo. Aquiles não estava entre os outros e isto o contrariou. Foi direto para os aparelhos e treinou sem cessar. Os combates terminavam quando ele foi chamado por Kimura. Foi ao dojô e cumprimentou o mestre, ajoelhando-se diante dele, que já estava sentado.      — Por que chegou atrasado ao treino? – indagou Kimura.      — Problemas no meu trabalho – respondeu Fratelli, omitindo o título “mestre” como era a praxe, ao final de cada frase.      — Onde está o seu companheiro, Aquiles? – perguntou Kimura.      Embora a regra fosse o aluno não fitar nos olhos o seu mestre, a não ser quando estivesse em instrução ou treinamento de combate, Enrico Fratelli fitou surpreso o rosto de Kimura.      — Eu não sei! ... Eu esperava encontrá-lo aqui.      Kimura estudou cuidadosamente o semblante de seu aluno e concluiu que ele não mentia.      — Ainda quer combater contra ele, não quer? Fratelli abaixou o olhar e disse, firme:      — Sim.      — Sim, m e s t r e – corrigiu ríspido, Kimura.      — Sim... mestre – repetiu, rancoroso, Fratelli.      — Fratelli-san – disse Kimura – o rancor e o ódio não se coadunam com a arte do karate-dô. Você é muito bom, o melhor dentre todos os alunos que tenho. Até mesmo supera Aquiles, mas perde na parte mais fraca de todos nós – no sentimento. Se teimar em continuar a cultivar essa egolatria descabida, esse sentimento de ira permanente, vai parar em sua evolução espiritual. E este é o único caminho para se crescer no karate-dô. Compreenda que Karatê não é somente a arte de matar com as mãos desarmadas. É muito, muito mais. Karatê irmana-se ao Wu-Shu chinês, de onde, aliás, deriva. É um dos muitos caminhos para se encontrar a iluminação. Matar, hoje, é terciário para o Karatê. Descobrir o Tao. Encontrar o equilíbrio. Ser um com a Natureza. Mover-se em harmonia. Ser superior ao Medo, ao Ódio e à Culpa. Ser um consigo mesmo. Este é o objetivo de quem pratica o Karatê-dô. Você, hoje, é o pior de todos os meus alunos. Pense nisto.      Fratelli nada disse. Nem um só músculo em seu corpo acusava todo o desprezo que dedicava à filosofia de Kimura. “Karatê é a arte de combate a mãos desarmadas. Isto é a verdade. E matar só é possível se se odeia.” Estes eram os seus pensamentos, enquanto Kimura lhe falava. Levantou-se controlando a custo a vontade de sair desrespeitosamente, cumprimentou Kimura segundo as regras da academia, e se foi.      Kimura deixou que todos saíssem e foi ao telefone. Ligou para a residência de Aquiles e aguardou durante um longo tempo, ouvindo o telefone chamar até a secretária eletrônica entrar em ação. Então, desligou e ficou pensativo, fitando o aparelho em silêncio. Suspirou e desistiu.      A festa ia no auge. A maconha rolava solta e a música desandava em ruídos monótonos, repetitivos, agudos e enlouquecedores. Aqui, um magote de jovens, de braços dados, ia aos pulos para a direita e para a esquerda; para a frente e para trás. Ali um grupo dava saltos mortais; no meio do salão uma turbamulta girava gritando palavrões e insultos contra tudo, mães, polícia e governo.      O homem da cicatriz entrou e foi direto para o balcão. Meteu-se, como de costume, entre a rapaziada sem qualquer consideração e, como sempre, provocou irritação.      — Cuidado aí, chapa. Pega leve ou vai-se dar mal.      — Vai tomar no...      Um canivete automático estalou junto de sua garganta e outro lhe espetou as costas antes que completasse a frase insultuosa.      — Ô presunto ambulante, vamos dar uma volta lá fora – rosnou alguém às suas costas. O homem da cicatriz sorriu.      — Se eu fosse vocês não faria isso – disse um jovem negro.      O homem da cicatriz cumprimentou o recém-chegado sem se voltar.      — Oi, Negão. Cadê o Barata, o Lagartixa, o Navalha e o Catucão?      — Ele é teu, Negão? – perguntou o homem que tinha a navalha espetada nas costas do homem da cicatriz.      — É, sim – respondeu o rapaz conhecido por Negão.      — Tá limpo, moçada.      Os canivetes sumiram. O rapaz negro tomou assento junto ao homem da cicatriz na face.      — E aí, “Cicatriz”. Algum trabalho?      — Sim. Onde estão os outros?      — No salão.      — Vá buscá-los.      O rapaz não discutiu e saiu. O Cicatriz observou pelo espelho que o “Lagartixa”, um jovem de pele clara, magro e musculoso, entrava no banheiro. Largou o copo sobre o balcão e moveu-se rápido, em ziguezague por entre os jovens que se embalavam na dança do bum-bum, e logo sumia também no mictório. Quatro homens urinavam e ninguém prestou atenção a ele. “Lagartixa” estava no último coletor, bem próximo de uma privada cuja porta estava entreaberta. Cicatriz veio rápido como um raio, mas sem correr. Um estilete fino como uma agulha de costura grossa de aço, com aproximadamente dez centímetros de comprimento brilhou como um pequeno relâmpago em sua mão, antes de afundar na nuca de Lagartixa. Ele não desabou como um saco vazio porque “Cicatriz” o amparou pela cintura e pelo pescoço, Com dois passos rápidos recuou com o cadáver para dentro do pequeno compartimento do vaso sanitário, fechando a porta com o pé. Colocou o corpo morto de Lagartixa sentado no vaso, retirou a agulha da nuca dele e saiu rápido, fechando a braguilha, dando a impressão de que acabava de urinar também. Molhou rapidamente a mão na pia e sumiu dali como uma sombra. Em menos de trinta e seis segundos ele consumara tudo e voltava a ocupar o seu lugar ao balcão. O barman olhou para o copo sobre o balcão justamente quando o braço de “Cicatriz” surgiu e se apoiou na borda. Logo a seguir, o homem se erguia, dando a impressão de que havia abaixado para apanhar alguma coisa caída ao chão.      Cicatriz chamou o barman.      — Ponha quatro... não, cinco. Cinco copos de cerveja aqui em cima. Meus amigos estão chegando.      O barman fez o que lhe era pedido.      Negão, Barata, Navalha e Catucão chegaram e já foram-se apossando sem cerimônia das bebidas. Os cumprimentos foram efusivos, embora “Cicatriz” fosse parcimonioso com palavras e gestos.      — Onde está o “Lagartixa”? – perguntou “Cicatriz, relanceando o olhar pelo salão apinhado.      — Não encontramos o “branquelo” – disse Negão. – Deve estar azarando uma gata por aí.      — Negão disse que você tem outro trabalho. É fácil, como aquele último?      — É, “Catucão”.      — E a bufunfa... é boa?      — Muito. À saúde! – e “Cicatriz” virou o seu copo. Os outros fizeram a mesma coisa. Barata, assim chamado por sua cor azeitonada, perguntou:      — Vamos arrastar outra mercadoria?      — Sim – foi a resposta seca.      — É produto de exportação, também? – indagou Navalha.      — Não. Mas vamos conversar os detalhes lá fora, quando o Lagartixa aparecer – falou “Cicatriz”, pedindo nova rodada de chope.      — Se a gente ficar esperando por ele vai demorar um bocado. O “branquelo” não é de beber – disse “Catucão”, cujo apelido era devido a que gostava de espetar os outros no traseiro, com o seu canivete automático.      — Eu vou procurar no salão. Navalha, vê se ele está no “mostra-pau”.      — Tá legal – e “Navalha” bebeu de uma só vez todo o conteúdo de seu copo. A seguir, saiu em disparada para o banheiro.      — Vou nessa – disse Negão, e se mandou para o salão.      Barata, Catucão e Cicatriz ficaram bebendo. Os dois jovens arruaceiros esganiçavam-se acompanhando a música infernal que lhes chegava com uns sessenta decibéis acima do limite da razão. De repente, Barata empalideceu, pestanejou e silenciou, arregalando os olhos e mirando Catucão.      — O que foi? – perguntou o companheiro.      — Tô meio tonto... – balbuciou Barata, com dificuldade.      — É o baseado, me’rmão. Eu te disse que ele tava esquisito. É só ir ao bocão e botar tudo pra fora. Anda, vai. Isto melhora ...      Barata ficou de pé com muita dificuldade.      — É... a c h o... q u e ... q u e . . .      Estava inundado de suor. Ficou balançando como se estivesse a bordo de um navio em mar tempestuoso.      — Ei, m’ermão, tu tás mal, hein? Quer aju...      Mas Catucão não teve tempo de terminar a frase. “Barata” despencou sobre ele, revirando os olhos. Navalha voltava do mictório quando ouviu o grito de alerta:      — Êpa! Segura o home, “Navalha”! – gritou Catucão, que, por não esperar aquilo, foi pegado de surpresa e quase cai do banquinho. Navalha e Cicatriz acudiram. Ao mesmo tempo um burburinho começou a se formar lá pros lados do banheiro.      Deitaram o “Barata” sobre o balcão. Ele espumava e sua respiração era difícil. Juntou gente e o murmúrio ia num crescendo.      — Droga! – exclamou “Cicatriz” – isto vai dar meganha. Eu vou cair fora, turma. A “justa” não é minha simpatizante. Chamo uma ambulância lá do orelhão. O “Barata” parece mal, mesmo.      — Vai nessa, cumpade. A gente se cuida! – disse “Navalha”.      “Barata” entrou a vomitar. Alguém gritou: “O cagão morreu sentado no bocão, gente”! A música parou. Diante do banheiro já se formava uma aglomeração. “Barata” entrou a estrebuchar e a dizer coisas sem nexo. Navalha, Catucão, o barman e alguns fregueses tentavam ajudar. A confusão aumentava. Do outro lado, o banheiro estava lotando rapidamente. Com dificuldade “Negão” conseguiu romper a mole humana e vir esbaforido até o balcão. Chegou aos gritos:      — “Barata”, “Catucão”, “Cicatriz”, o branquelo apagou! O coitado est... – viu “Barata” no balcão e os esforços dos outros para o reanimar e estacou surpreso.      Mas... mas o... o que aconteceu? – tartamudeou atônito.      — O “Barata” tá muito mal, cara! – exclamou Catucão aflito.      — Mas o que deu nele? – indagou “Negão” juntando-se aos outros no esforço de fazer o colega reanimar.      — Não sei. De repente parou de cantar, arregalou os olhos e me olhou estranho... e... e desabou em cima de mim!      — Tirem ele daqui! Tirem ele logo daqui! – berrava o barman, apressado. – Ele é de menor. Se a “cana” chegar, vai pegar pra nosso lado!      — Vai pegar de qualquer jeito, maninho. O “Lagartixa” bateu as botas lá no banheiro – gritou Negão, ajudando os companheiros a carregarem o semimorto “Barata” para fora do salão e causando maior confusão ainda entre os presentes.      — Onde está o “Cicatriz”? – perguntou Negão.      — Se mandou. Ele e a “justa” andam de “penga”. Ele não quer encontrar-se com os home.      Enquanto falava aos gritos, Navalha ajudava Catucão e Negão a levarem o “Barata” para fora da danceteria e o colocavam na calçada em frente, bem próximo à parada de ônibus.      — Ele disse que ia chamar uma ambulância – falou Navalha.      — Tomara que tenha feito isto mesmo. O “Barata” precisa dos “de branco” com urgência – disse Catucão, preocupado.      — O “Lagartixa” está esticado, mesmo? – perguntou Navalha.      — Esticadinho, cara. Encontrei ele sentado no vaso. Nem chegou a arriar as calças. O gozado e que tava com o pau pra fora – informou Negão desanimadamente.      — Isto vai dar um bode dos diabos, me’rmão. Se não fosse pelo Barata aqui, eu ia era cair fora, já, já! – falou Navalha, preocupado.      — Porra! Morrer no meio de uma “bronha” é sacanagem! – exclamou, frustrado, Catucão.      Uma sirene de ambulância se fez ouvir.      — O “Cicatriz” cumpriu a palavra. O cara é legal, mesmo – disse Negão, aliviado.      — A gente vai com ele? – quis saber Navalha.      — Os “de branco” não vão deixar, cara! – disse Catucão.      — É melhor pra nós – comentou Negão. – A gente entrega o Barata pra eles e se manda. A “cana” deve chegar logo atrás e eu quero mais é tá bem longe deles – exclamou Negão, aliviado.      A ambulância chegou fazendo um escarcéu e foi parar bem diante à danceteria. Negão foi até lá e trouxe os médicos com a maca para apanhar o companheiro semimorto. O “Barata” foi colocado no furgão e, para surpresa deles, Negão, Catucão e Navalha também foram empurrados lá pra dentro. Não havia mais ninguém com eles. Deram-lhes a tarefa de manterem uma máscara de oxigênio no rosto de “Barata”, fecharam a porta do socorro e arrancaram cantando pneus e com a sirena ligada. Ninguém mais assistiu ao embarque, pois todo o povo que podia haver na rua estava dentro da danceteria, onde a balbúrdia fugia completamente ao controle dos vigilantes.      Enquanto os três amigos corriam presos dentro da ambulância, ainda meio desnorteados com o que estava acontecendo, o rabecão, seguido por uma patrulha e fotógrafos do jornal mais sensacionalista da cidade acabava de chegar à danceteria, justamente quando a cúpula do local estava reunida decidindo se jogava o corpo na rua, ou não. O barman foi o primeiro a notar a presença do pessoal indesejado.      — Porra! Quem foi o filho da puta que chamou aquela gente? Agora é que a coisa vai engrossar, mesmo. Que merda!      Na ambulância, olhando pela janela apertada, Negão viu quando o I.M.L. chegava à danceteria.      — Por que esse cara corre tanto? – perguntou, preocupado com as curvas suicidas que a ambulância fazia.      — O paciente está mal – foi a resposta que se fez ouvir através de alto-falantes, pegando a todos de surpresa.      — Não devia ter uma enfermeira aqui, com ele? – quis saber Navalha, lutando para não cair sobre o “Barata”. Catucão tinha dificuldade em manter a máscara no rosto pálido do amigo, já morto há algum tempo. Ninguém notara o fato porque todos estavam preocupados com a corrida em que o socorro era dirigido.      — Está quente aqui dentro – reclamou Catucão, suando muito.      — Eu... eu não consigo respirar direito... – exclamou aflito o Negão, começando a tossir.      — Tem um cheiro... es... esqui... esquisito, aqui... aqui dentro – e Navalha caiu pesadamente sobre o corpo do falecido “Barata”.      A última coisa que “Negão” pensou foi: “Me tirem daqui! Papai! Mamãe! Eu que..quero...”      No dia seguinte eles todos eram primeira página de jornal: “GANG INTEIRA DA ZONA NORTE MORRE COM OVERDOSE”, era o título do artigo. O único citado como tendo tido parada cardíaca era “Lagartixa” – “jovem branco, de 17 anos, morador da Penha. Os médicos não concordam com a versão corrente de que o fanqueiro tenha morrido no meio de uma masturbação...” dizia o artigo escandaloso...      Eram as 6h da manhã. O dia amanhecia frio e chuvoso. Glauce e Aquiles tomavam o desjejum. A médica desejava ir cedo para casa. Aquiles tinha de atender na clínica.      — Você não está com boa cara – disse ela – o que é?      — Nada que preocupe – respondeu Aquiles, evasivo.      — É você, agora, quem oculta algo de mim, não é?      — Não... bem, é bobagem – fugiu Aquiles.      — Mas eu gostaria de saber o que é, mesmo assim – insistiu Glauce, olhando desconfiada para a aparência cansada de seu noivo.      — Uma paciente que vou ver no hospital. Tem câncer ósseo. Está mal e a família ainda não sabe. Terei de dar a notícia e isto me desagrada profundamente – desviou Aquiles.      — Bem... eu não gostaria de estar em seu lugar – comentou Glauce.      — Nem eu – brincou Aquiles.      A moça despreocupou-se. Aquiles, contudo, continuou a pensar no problema que lhe atormentava a alma desde a noite passada. A lógica dizia ser impossível que o homem fosse Fratelli, mas algo lhe mantinha permanentemente alerta. Dirigiu mudo e dando graças a Deus que Glauce estava com muito bom humor e tagarelava à solta sobre tudo, principalmente sobre a agonia de ter que dar uma notícia má à família de pacientes. Deixou-a diante da portaria de seu prédio e foi embora. Antes de se dirigir para a clínica e enfrentar o problema da mulher desenganada, resolveu passar pelo seu apartamento e verificar a secretária eletrônica. Temia encontrar uma outra mensagem ameaçadora nela. Mas o que ouviu foi o telefonema de Kimura. Aquilo o espantou. Em oito anos, era a primeira vez que seu mestre ligava. O que será que queria? Procurou o número dele em sua agenda e chamou de volta. Mas não houve resposta. Nem mesmo a secretária eletrônica respondeu. Foi trabalhar com mais aquela interrogação.      Do outro lado da cidade, Mara tomava seu desjejum após ter feito os exercícios de TAI-CHI-CHUEN. Fora uma das noites sem pesadelo e ela estava sentindo-se ótima. Os acontecimentos do dia anterior parecia que tinham ocorrido num sonho. Estavam desfocados em sua lembrança. Alguém, que não ela, os vivera. Só uma coisa daquele dia estava presente: Ludmila e a sessão de hipnose. Isto lhe interessava profundamente. Tinha ligação direta com ela, com o seu dia-a-dia, com o seu problema.      Foi para a redação bem disposta e otimista. De passagem por uma banca de jornal, parada no semáforo, de dentro do carro leu a notícia de destaque na primeira folha de “EL MONDO”: “FILHO DE BANQUEIRO É SEQUESTRADO. TRATA-SE DO TERCEIRO SEQUESTRO DESTA SEMANA”. Sorriu consigo mesma. Ludmila o fizera. A ruiva era mesmo uma danada.      Chegou à redação do jornal e foi direto à mesa da recém-conquistada amiga. Cumprimentou-a efusivamente, e Perseu, que as observava de soslaio, franziu a testa sem compreender nada. As duas deveriam estar-se mordendo e, não, amando-se daquele jeito desavergonhado. O que será que havia acontecido?      — E então? – perguntou Ludmila – Resolveu sobre onde vamos?      Mara entendeu de pronto o que ela queria dizer.      — Sim. Há um muito bom na Montenegro.      — Marcou?      — Não. Mas faremos isto, já, já, não é?      — Claro!      Mara fez a ligação e a sessão de hipnose foi marcada para aquela noite, às 19 horas.      — Muito bem. O que vamos fazer, agora? – perguntou Mara.      — Vamos ao “Mausoléu”. Temos duas horas antes de irmos encontrar Tamara.      — Quem é ela?      — Uma colega nossa de “A CIDADE”. Trocamos, sempre que possível, informações. Foi ela que nos deu os dados com que fechei nossa reportagem sobre o incidente de Anteu Kamuratti. Ah, a propósito: ela estava, ontem, à porta dos Kamuratti e me reconheceu.      — Com todo aquele disfarce? – estranhou Mara,      — É que ela e eu já trabalhamos juntas algumas vezes. Ela notou o que a polícia nem desconfiou: a placa do carro de aluguel. A namorada de um Kamuratti não se serviria de um carro de aluguel. Daí, foi só observar atentamente nosso comportamento para somar 2 + 2 e concluir que era eu quem estava armando.      — Ela quer informações, não é?      — Sim.      — Que ótimo! Não temos nada para dar a ela. O que... ?      — Aí é que você se engana. Vamos!      — Para onde?      — Ao “Mausoléu”. Vamos pesquisar.      E Ludmila saiu arrastando Mara pela mão. A moça ainda não estava acostumada àquele modo “vendaval” de agir da colega. Estar perto de Ludmila era meter-se numa ventania e isto desnorteava Mara.      Chegaram ao silencioso arquivo geral do jornal em que trabalhavam. Tudo muito limpo e muito asseado. Mergulharam logo nos velhos volumes encadernados de muitos anos atrás. O computador ajudava muito. Os pesados volumes desciam das prateleiras um após outro, sempre que o computador indicava a existência de alguma ilha estranha para elas. O tempo passava e nada, porém, que sequer parecesse com a ilha de seus pesadelos.      Foi então que, quase por acaso, Mara deparou-se com uma antiquíssima reportagem feita por um colega de profissão que, certamente, há muito já devia estar contando histórias aos anjinhos. Chamou Ludmila, olhos arregalados e coração aos pulos. Juntas, leram a reportagem:      “ MISTERIOSOS ACONTECIMENTOS NA ILHA DE PARGOS”      No Oceano Pacífico, a quase 180 milhas do vilarejo de Pisagua, no paralelo 22 e 16', situa-se a ilha de Pargos. Habitada, diz-se, pelos últimos remanescentes dos atacamenhos, artesãos chilenos que para lá migraram há aproximadamente trezentos, talvez quatrocentos anos, e lá se transformaram em exímios pescadores. Pargos é uma ilha de formação vulcânica. É local selvagem e de geografia muito estranha. No lado Norte, o mais escarpado, com picos de até 600m de altura, há uma luxuriante mata. Muitos macacos, muitas cobras, jaguatiricas, araras e papagaios, entre uma infinidade de animais, vivem na mata cerrada, onde corre um rio de águas cristalinas. No lado norte da ilha não há praias. As lapas mergulham verticalmente nas águas profundas do Pacífico. O oceano arrebenta ondas de até vinte e cinco metros de altura contra os paredões rochosos, com uma força que é sentida no estrondo como um leve tremor do solo até a seis quilômetros de distância mata a dentro. Os pescadores evitam levar as embarcações para aqueles lados. O vento quase sempre sopra de encontro aos paredões, impelindo o que quer que flutue para arrebentar-se neles. Já no lado sul, onde desemboca o rio de Pargos, a paisagem é mais desértica. A geografia da ilha é descendente para este lado. A floresta é rala e os coqueiros substituem as grandes árvores. Neste lado da ilha, que tem a forma de uma pêra, há nesgas de areia formando pequenas praias branco-amareladas entre pedras negras e arrecifes pontiagudos e muito perigosos, principalmente para barcos de grande calado. É devido a isto que Pargos não é muito visitada. Segundo seus habitantes, antes deste repórter, só dois barcos chegaram até a ilha vindos do continente. Um, há quase cinqüenta anos – a considerar a contagem do tempo segundo os padrões lunares que adotam – e o último, há seis anos.      Pois foi a esta ilha que, há mais ou menos sete anos, chegou uma menininha ainda bebê, boiando num cesto cercado de sargaços. Foi pescada de entre os escolhos, onde boiava em risco de se despedaçar nas negras pedras, por Gaditano, o pescador que exerce o cargo de líder administrativo de Pargos. A menina foi retirada do oceano toda queimada pelo sol escaldante e ardendo em febre. Ninguém pensava que pudesse escapar com vida. Tinha bolhas de queimaduras por todo o corpinho claro. Gaditano manteve-a em sua casa, deitada em folhas de bananeira e banhando-lhe as queimaduras com água de coco – muito abundante aqui na Ilha. Três vezes ao dia, Gaditano mergulhava a garotinha numa bacia cheia de água. As bolhas desapareceram e as chagas sararam. Letícia, como a menina foi batizada, cresceu à força de leite de cabra, frutas e legumes silvestres e polpa de coco. Desde muito cedo repudiou qualquer alimentação à base de carne. Nem mesmo frutos do mar ela ingeria. Ainda assim, cresce robusta e sadia como nenhuma outra criança natural da ilha. Pensava-se que fosse muda, pois até a idade de cinco anos e sete meses jamais havia dito uma única palavra. Naquele dia, data em que os pargoítas festejam a chegada dos cardumes de sardinhas e de tainhas, Letícia falou. E o fez com voz alta e clara. Ela apontou para Lutachtlan, um jovem de vinte e três amos, noivo da filha do Tuchah, o pai espiritual dos pargoítas, e disse:      — “Não vá. A morte não vai deixar que volte.”      O festejo parou. Foi grande a consternação entre os pescadores. Os ilhéus rodearam a estranha garota querendo saber mais, mas ela fechou-se em copas e não mais falou. O Tuchah foi instado a ler os ossos de tubarão. Fez isto. Jogou os ossos e não viu nenhum sinal de perigo para Lutachtlan. Bebeu aloá, uma bebida fermentada feita do bagaço do coco. Fez os defumadores sagrados e leu as vísceras de uma cacatua branca. Nada. Nenhum sinal de morte para o jovem pescador. O conselho tribal se reuniu e, após muito debate e consideração, resolveu que Lutachtlan podia ir à pesca e competir com os demais. A previsão de Letícia não tinha fundamento. A garota foi consultada sobre a decisão do conselho pela noiva do jovem pescador. A menina nada falou. Em vez disto, apanhou a “flor da morte” – uma convulvácea capaz de sobreviver até sete dias com o mesmo viço de quando tenha sido colhida – e a colocou nos cabelos de Mahathatha, a jovem noiva, no lado esquerdo da cabeça, à moda das viúvas. Impressionada, a jovem tentou de todos os meios dissuadir o seu impetuoso noivo de ir pescar com os outros. Ele, contudo, não lhe deu ouvidos. Seguiu os demais. O sol estava claro e a brisa não fazia prenunciar nada de mal, em que pese as mudanças bruscas que o tempo, no Pacífico, costuma sofrer. Em Pargos, principalmente. O tempo pode mudar em menos de duas horas, de um calor abafado para uma tempestade incontrolável com chuvas e trovoadas.      O grupo estava nas águas há pouco tempo. Repentinamente o tempo virou. Um vento muito forte começou a soprar e dispersou os pescadores. O Oceano enfureceu-se e as ondas agigantaram-se. Ao final do dia, todos conseguiram chegar à prainha, na embocadura do rio e onde se situa a pequena aldeia. Do jovem Lutachtlan só os fragmentos da canoa em que estava deram aos escolhos próximos. O rapaz jamais retornou.      O incidente abalou profundamente o prestígio do Tuchah, abandonado pela própria filha, que passou a ser conhecida como “A Virgem Viúva”. Até hoje ela usa a Flor da Morte, que, inexplicavelmente, mantém o seu viço como no dia em que Letícia a colhera. Recentemente Letícia voltou a falar. Os pargoítas festejam a lua cheia e foi no festejo da lua de...      O artigo terminava ali. Traças e bolor estragaram o restante da folha e as duas repórteres, por mais que rebuscassem naquele e noutros volumes, nada mais conseguiram descobrir sobre Pargos. Mara não cansava de repetir:      — Meu Deus, Ludmila, é a minha... a nossa ilha. É ela, sim! Eu sinto que é. Eu sinto aqui, ó! – e tocava o peito em cima do coração. – O que você acha, hein?      Ludmila, ainda que também muito excitada, respondia:      — Sinto a mesma coisa que você, Mara. Sinto mesmo, mas isto é algo inacreditável. Isto muda toda minha conceituação de vida, criatura. Presta atenção: este artigo tem nada menos que 189 anos. É datado de 17 de fevereiro de 1806. Nosso jornal nem existia. Nem mesmo faço idéia de como veio parar aqui. Sabe o que isto significa, Mara? Sabe o que quer dizer isto?      — O que? O que? – indagava Mara, folheando mais um volume.      — Quer dizer que se você é realmente aquela menininha, como você mesma acredita que é, então, a transmigração é um fato. Mas isto choca-se com tudo aquilo que me fizeram acreditar.      Mara parou olhando nos olhos de Ludmila. Transmigração? Ela jamais havia sequer cogitado desta hipótese. Nem mesmo tinha consciência clara de sua identificação com a menininha descrita no artigo. Ludmila concluíra isto sozinha. Mas... E se fosse verdade? Então... então havia uma explicação fora dos padrões normais para aqueles pesadelos.      — Quero uma cópia deste artigo – disse Mara resoluta.      — Para quê? Ele vai sempre estar aqui, à nossa disposição!      — Eu quero ver a cara de minha analista quando eu lhe mostrar o artigo escrito há quase duzentos anos atrás. Quero ver o que ela vai dizer, dentro de sua teoria, para explicar este fenômeno.      E Mara foi à xerox e fez uma cópia razoável do papel amarelado.      — Você vai lá? – estranhou Ludmila.      — Eu vou. Tenho hora marcada às 16, esqueceu? Você, se não me engano, é às 17, logo após mim.      — É, mas não vou... Aliás, só vou para me desligar. Não sou neurótica e não tenho nenhum motivo para me deixar convencer a ser enquadrada num conflito edípico com meus pais. Aliás, eles e eu sempre fomos bons amigos e eu detestaria que alguém envenenasse isto dentro de mim.      — Este esforço os analistas de um modo geral fazem – disse Mara. – Eu não sei porque continuo freqüentando a minha analista. Também não concordo com a mania de explicar tudo pelo tal Complexo de Édipo mal solucionado, que ela tem. Veja, ela se comporta de modo a nos irritar e assim que a gente se mostra realmente irritada com aquele modo escorregadio, distante, frio e impessoal que ela adota, aí, então, vem pra cima de nós tentando nos convencer de que nossa irritação é o reflexo transferencial de ódios infantis recalcados. Mas isto me mata de tanta raiva! Eu gostaria de saber se há alguém, na face da Terra, que, freqüentando consultório de analista ortodoxo, não fique irritado. Só se for extraterrestre, porque humano, não agüenta não.      — Você lava minh’alma – disse Ludmila – eu já estava ficando preocupada com a irritação que sentia quando ia lá. E olhe que só faz um mês.      — E tem mais – cortou Mara – Eu fico fula com a fixação sexual dela. Tudo, mas tudo mesmo, é problema sexual. E ela usa um jargão contra o qual, nós não iniciados, ficamos impotentes para contra-argumentar.      — Tudo bem. Vamos, então. Está na hora de nos encontrarmos com Tamara. Você vai gostar dela.      As duas moças saíram apressadas. Foram no carro de Mara. A redação do jornal “A CIDADE” em que Tamara trabalhava ficava num lugar muito feio, próximo e atrás do gasômetro. Era um prédio velho reformado, de cinco andares, que mesmo pintado dava aparência de ser pré-histórico.      Tamara esperava por Ludmila à porta do prédio. Nem as deixou descer do carro. Ao contrário, meteu-se ela lá dentro.      — Toca pra um lugar mais agradável do que isto aqui, Ludi – foi dizendo enquanto se ajeitava no banco de trás. Era uma morena quase mulata, mas tinha cabelos castanhos claros e lisos e rosto de formato grego. Corpo esguio, musculatura rija e mãos bem tratadas. Olhos caramelados e olhar arguto. Boca bem feita e bem pintada com um batom de cor discreta. Vestia jeans e uma blusa simples, que realçava seus seios pontudos. Tinha estatura mais alta que a média, mas não se podia considerar uma mulher alta. Olhava firme para o seu interlocutor e mantinha na expressão um ar sereno, mas que dava a impressão de uma forte determinação. Mara gostou dela logo de cara.      — Ludi, quem é a nossa amiga? – perguntou a recém-chegada.      — Desculpe, Tamara, esta é Mara. É uma colega muito boa.      — Era quem estava com você, lá casa dos Kamuratti?      — Era.      — Você é muito arguta – disse Mara – Como é que pôde reconhecer a Ludmila naquele disfarce? Eu achava que nem a mãe dela a reconheceria daquele jeito.      — Já trabalhamos juntas e eu sei do que a Ludi é capaz – falou, sorrindo, Tamara. – Aliás, gostaria de formar um par com ela. Pena que a gente trabalha em jornais diferentes.      — Ludmila tem uma parceira muito boa, a Karina – disse Mara.      — Concordo, concordo. Mas Karina é muito apressadinha. Ela ainda não sabe cozinhar a notícia a fim de fazê-la fermentar... Você me entende?      — Sinceramente, não.      — Qual é a sua especialização?      — Como assim? – estranhou Mara.      — Qual a seção em que você trabalha? – esclareceu Ludmila.      — Ah... As sociais... futilidades – disse Mara.      — Nem sempre, se se sabe dali tirar proveito – comentou Tamara.      — Concordo com você – reforçou Ludmila.      — A propósito, o que vocês colheram junto àquela víbora do Kamuratti? Eu, sinceramente, não acredito em seqüestro – disse Tamara.      — Nós também não – falou Ludmila pelas duas.      — Por que você levou uma novata, em lugar de sua parceira, a Karina? Esta, eu não entendi – perguntou curiosa Tamara.      — Mara é nova, sim, no nosso ramo. Mas é esperta e discreta assim como nós duas. Sabe como agir, entende? – explicou Ludmila.      — Ah... Bem, o que vocês têm a me contar?      — Sem informação ao jornal, certo? – disse Ludmila.      — Certo. Ao menos, por enquanto – concordou Tamara.      — Muito bem. Nós não acreditamos que o tal de Anteu tenha sido pura e simplesmente raptado – continuou Ludmila – Ele andava metido...      — ... com o Kantor Antratos – completou Tamara – isto não é novidade para nós. Todos sabemos, até mesmo os jornais menos avisados.      — Pois é – continuou Ludmila. – Por que um banqueiro de tanto prestígio se meteria com um marginal daqueles e poria seu prestígio em risco?      — Você ainda não sabe? – estranhou Tamara.      — Não. Você sabe?      — Sei, sim.      — E então?      — Chantagem.      — Chantagem?! Como assim? – disse Mara.      — O Dr. Anteu é metido a gavião conquistador. Vai daí, envolveu-se com uma tal de Andréa, uma joão-ninguém qualquer. A única coisa que a piruazinha tinha era um palminho de cara bonito. Emprenhou e pariu um filho do tal de Anteu. Foi assassinada.      — Credo! Quem fez esta barbaridade? – espantou-se Mara.      Não se sabe. Desconfia-se que tenha sido o Dr. Anteu, o mandante. Mas eu particularmente acredito que não.      — Por que? – quis saber Ludmila.      — Porque ele ficou muito abalado com o fato e corre a boca pequena, no Banco Kamuratti, que ele brigou feio com os pais. Parece que suspeita... ou suspeitou, se já se foi desta pra melhor, que a morte se deu a mando deles.      — Pais adotivos, sabia? – disse Ludmila.      — O que??? Então, o Dr. Anteu não é um Kamuratti de sangue? – foi a vez de Tamara se assustar.      — Não.      — Ah! Então, isto torna mais sólida minha suspeita. Ludmila, a gente tem de trabalhar juntas. Você tem informações importantes que completam as minhas. E eu tenho outras que completam as suas.      — É... Mas qualquer uma de nós terminaria por descobrir toda a história...      — Talvez... talvez... Se estivéssemos vivas no final...      — Caramba! Você acredita que há perigo de morte...? – Mara recordou-se de pronto do sufoco que haviam passado na praia.      — Não acredito, menina, há. E você, se tem medo, entrou pela estrada errada. E advirto que não tem volta. Os Kamuratti vão estar nos calcanhares de vocês duas até descobrir quem são. Não sejam tolas. Ele já sabe a verdade quanto à alegada noiva do Dr. Anteu. E sabe que o disfarce, qualquer que tenha sido, que vocês duas adotaram apenas encobre a verdadeira identidade de ambas. Vocês correm perigo, sim. Não relaxem.      — Eu sei disso – disse Ludmila – mas não queria colocar Mara em ansiedade antes do tempo.      — Lamento – disse Tamara à guisa de desculpa. – Mara, você sabe alguma defesa pessoal?      — Por que?      — Porque, se não sabe, comece já, agora mesmo, a treinar. Vai necessitar disto, acredite. Quem é de nossa profissão e lida com este tipo de gente tem de ser muito boa em alguma arte marcial. Principalmente se mexe com um vespeiro venenoso como o que vocês assanharam. Por que fizeram aquela jogada tão arriscada? Praticamente chamaram a matilha de lobos enfurecidos para cima de vocês duas. Qual foi a finalidade?      — Eu queria fazer com que eles se mexessem. São extremamente cautelosos e a gente, por vias menos arriscadas, não conseguiria penetrar a muralha de silêncio que eles colocam em torno de si – explicou Ludmila.      — E eu simplesmente fui arrastada por esta doida – disse Mara aborrecida.      — A vida só vale quando a gente está enfrentando desafios – falou Tamara com um sorriso e um brilho nos olhos que desarmaram Mara. – O que há de gostoso em ficar pacificamente executando uma rotina de segurança, Mara? Ter os dias seqüencialmente iguais, previsíveis? 0 que se pode aprender, vivendo assim? Nada! A não ser velhos e caducos estereótipos, não é?      — Eu não sei... – disse Mara, dubitativa.      — Pois aprenda – falou Tamara, incisiva – a mesmice só envenena a mente e envelhece... entorpece a alma.      0 carro enveredou pela estradinha da Floresta da Tijuca e terminou no Restaurante dos Esquilos. Um lugar tranqüilo, sem ninguém durante a semana e ideal para que pudessem conversar livremente.      Tomaram uma mesa e pediram cerveja com lingüiça como tira-gosto.      Após terem sido atendidas, deram início à conversa que lhes interessava. Ludmila, secundada por Mara, contou detalhadamente o encontro com os Kamuratti e a perseguição que sofreram. Tamara as ouvia atentamente, cenho franzido e ar de preocupação. Quando as duas terminaram, disse decidida:      — Vocês conseguiram meter-se numa camisa de 22 varas, minhas caras colegas. E eu não quero ficar de fora, de modo algum. Isto vai engrossar e eu quero estar no meio, entendido?      — Pois eu bem que gostaria de sair disto, agora mesmo – falou Mara, desolada.      — Não dá mais – disse Ludmila – sinto muito, Mara.      — Não vamos chorar o que passou. A gente não pode mudar o passado, não é? Então, vamos cuidar de organizar o presente para não termos um futuro escuro e fatal. Que tal?      — Rimou – disse Mara, sem entusiasmo.      — Eu concordo com Tamara. E creio que nosso primeiro passo, agora, é descobrir o que o Kantor Antratos, ou Celso Cerqueira Lima, tem de trunfo para obrigar o Anteu a lhes obedecer e se arriscar junto à própria família.      — Mas isto é mole – disse Tamara – ele tem o filho do Dr. Anteu. Ele o escondeu em algum lugar bem escondido. E tem com a criança um exame médico de gene que comprova, cabalmente, que a criança é herdeira direta dos Kamuratti. E isto é um transtorno para aqueles usurários.      — Se é – disse Ludmila, – sangue espúrio na família! Que furo, hein gente? Que furo!      — Pequeno, minha cara, pequeno. Pode ser muito maior, se soubermos investigar e aguardar. Jogar sujeira no ventilador, agora, só vai feder pro nosso lado – contra-argumentou Tamara. – Este negócio de remessa de dólares pra Israel, os assassinatos e... – Tamara parou.      — E...? – instou Ludmila.      — Bem, só digo se houver o compromisso de que vocês não irão colocar no jornal antes do tempo.      — Tudo bem, tem nossa palavra – disse Ludmila.      — Você está de acordo, Mara? – insistiu Tamara.      — Sim – respondeu a moça.      — Muito bem. Acho que Anteu andou investigando por conta própria as atividades de seus pais adotivos e descobriu algo muito fedorento. No dia em que foi com Karina para o motel...      — Você sabe disto? – espantou-se Ludmila.      — Claro! Eu estava nos calos deles. Segui-os desde que ele foi apanhar sua companheira no apartamento dela. Eu usava um disfarce de rapaz, mas esqueci que Anteu já conhecia o fulano. Eu os perdi por um momento, quando ele me despistou na estrada. Mas consegui, depois, saber, pela Karina mesma, que tinham ido ao motel.      — Ela lhe contou isto? – estranhou Ludmila.      — Não. Eu... Eu grampeei o telefone dela...      — Como é que é? Você... Mas isto é crime! – enfureceu-se Mara.      — Na guerra, nada é crime, minha filha. E estamos em guerra contra aqueles abutres – defendeu-se Tamara. – Mas não se preocupe, já mandei tirar o grampo. Não me interessa a vida sexual da amiga de vocês. O que eu desejava era descobrir até onde ela e o tal de Anteu estavam envolvidos. E foi assim que fiquei sabendo do seqüestro.      — Ele a despistou. Então, sabia quem você era? – perguntou a ruiva.      — Sim. O Dr. Anteu me conhece muito bem... na pele do tal rapaz. Ele sabe que o talzinho anda atrás do Celso Cerqueira como cão de fila. Uma vez tentou conseguir minha ajuda, como repórter, mas naquela época eu sabia pouco da história e me mostrei agressiva contra ele. Não me atacou, como tem feito o Kantor, que já tentou me matar umas cinco vezes...      — Você já sofreu cinco tentativas de assassinato? – espantou-se Mara, olhando temerosa em volta.      Tamara fitou-a e percebeu o olhar preocupado. Sorriu.      — Não se preocupe. Não estão aqui por perto. São primitivos nos seus modos e...já aprenderam que comigo o buraco é mais em baixo. Mas como eu dizia, Anteu não atentou contra mim. Só passou a me evitar, temendo que eu o ligasse ao Kantor e, com isto, o colocasse em maus lençóis. Os Kamuratti não lhe perdoariam um escândalo deste tipo.      — É verdade – confirmou Ludmila. – Mas não sendo Anteu filho legítimo deles, não sei porque não o deserdaram ainda.      — Não podem. O escândalo não agradaria à cúpula a que servem.      — Que cúpula? – quis saber Mara.      — Eu ainda não sei, mas eles não agem por conta própria, não. Recebem instrução de fora do País. Sei disso porque interceptei uma correspondência deles..      — Como? – quis saber Ludmila.      — Não quero que fiquem coradas – disse Tamara, rindo – Só lhes digo que o carteiro ficou muito feliz...      — Ah... – fez Ludmila, rindo.      — Você...? – Ia perguntar Mara, mas Ludmila cortou-a.      — O que ela faz com o corpo dela é assunto só dela, tá?      Mara deu de ombros.      — Ei, não foi como vocês estão pensando, não. Eu paguei a uma famosa modelo atriz para que fosse atender o meu amigo, no motel. Só isto. Foi caro, mas valeu a pena.      — Muito melhor – disse Mara, aliviada.      — E o que continha a correspondência? – perguntou a ruiva, ansiosa.      — Um amontoado de palavras gregas, russas e alemãs que não faziam sentido. Falo bem o alemão e só entendi a ordem final: “CUMPRA COM O QUE MANDAMOS”. Havia um timbre esquisito no lado esquerdo do papel.      — Como era ele? – perguntou Mara.      — Uma espécie de cobra emplumada e com asas – disse Tamara. – E eu nunca vi aquilo em lugar nenhum, antes. Nem depois, pois tentei descobrir o que é e o que significa, mas inútil. Em lugar nenhum há informação a respeito.      — Quem gosta muito destas geringonças são os chineses, não é?      E Mara, ao dizer isto, lembrava-se do dragão que seu mestre chinês usava nas costas. Lembrava uma cobra emplumada e com asas.      — Sim, mas não é símbolo chinês. O desenho é... Bem, é diferente. Não tem o prata, o vermelho e o dourado, cores que os “chins” gostam muito de colocar em seus dragões. Tem o preto e algo assim como o magenta...um furta-cor nas escamas...      — Que escamas? – perguntou Mara.      — Bem, a cobra emplumada tem escamas. É de entre elas que saem as plumas – informou Tamara. – E no rabo tem um ferrão que lembra o do escorpião.      — Esquisito... – disse Ludmila, reflexiva.      — Também achei.      — O que fez com a correspondência? – perguntou Mara.      — Coloquei no envelope e ela foi entregue normalmente – respondeu Tamara. Eu não queria levantar suspeitas.      — Fez bem. Mas por que será que mandaram isto pelo correio? Fax é muito mais...      — ... eficiente? Concordo. Mas não transmite aquele símbolo, entende? As ordens deviam ser importantes e o símbolo e suas cores talvez fossem algo assim como o certificado de garantia de que elas partiam da cúpula.      — E a televisão a cabo? – sugeriu Mara. Eles podem ter este serviço totalmente privado.      — Podem e têm. Mas não é muito seguro. Pode ser violado. O velho correio é o mais seguro, mesmo. Ninguém vai desconfiar de que alguma coisa tão valiosa venha pelo correio pura e simplesmente. E se se extraviar... quem vai dar importancia a um amontoado de palavras sem nexo? Devem, além do mais, obedecer a um código secreto. Muito trabalho, não é?      — É verdade. Eles parecem espertos – disse Mara.      — Não parecem. São espertos – sentenciou Ludmila.      — O que faremos, agora? – perguntou Tamara.      — Cada qual segue seu caminho – disse Ludmila. – Nós vamos continuar a agir à nossa moda e você, à sua. Mas nos encontraremos regularmente para trocar informações. Divididas estaremos mais seguras... eu acho assim. E você, Tamara?      — Hummm... Sei não. Se uma for apanhada, a outra fica sem saber o que ela descobriu, não é? – ponderou Tamara.      — É... Mas vamos seguir assim, pelo menos por enquanto, certo? – insistiu Ludmila.      — Tudo bem. Quando nos encontramos de novo?      — Em uma semana. Se houver novidade, a gente se fala por telefone e marca um encontro de emergência. Que tal?      — Não me parece um bom plano, mas à falta de outro... – hesitou a quase mulata.      — Então, estamos combinadas quanto a isto. Agora, quero saber é sobre a criança. Você está investigando isto, não é? – disse Ludmila.      — Estou, Mas não tenho conseguido nada a respeito – disse Tamara desconsolada.      — Quer que a ajudemos? – perguntou Mara.      — Não. Eu acho que muita gente mexendo no caldo ele azeda.      — Tudo bem. Você fica só neste trabalho. Quanto a nós duas, vamos correr atrás do destino do tal Anteu.      — Você acredita que ainda esteja vivo? – indagou Tamara.      — Acredito. Eles não podem matá-lo assim, sem mais nem menos. É mais provável que o tenham deportado para algum lugar longe do Brasil.      — E quanto ao jornal...? – perguntou Mara.      — O meu vai muito bem, obrigada. E o seu, Ludmila?      — Vai ótimo – respondeu, rindo, a ruiva.      — Então, vamos deixá-los quietos. Em time que está indo bem não se mexe, não é o que se costuma dizer? – falou irônica, Tamara.      — É – concordou Ludmila, rindo da cara de espanto de Mara.      — Vamos, Mara – disse conciliadora – você ainda tem muito a aprender. Vamos que está na hora.      — Hora de que? – quis saber Tamara, chamando o garçon.      — De nossa consulta.      — Estão doentes?      — Oh, não. Nós, não.      — Quem, então?      — Uma certa analista fixada sexualmente num tal de Édipo.      — Como é que é?      Mara e Ludmila se entreolharam e caíram na gargalhada.      — Vamos nessa. Você não vai mesmo entender nada – disse Ludmila apanhando a bolsa.      — Hei, que história é esta de analista? Quem está precisando de uma? Vocês?      — Não seja curiosa. Nossa vida não está em pauta, queridinha.      E Ludmila saiu puxando Mara pela mão, seguidas de Tamara que as olhava com cara de quem não está gostando da história. CAPÍTULO IV O COMBATE        A psicanalista recebeu-a, como sempre, com a mesma frieza de costume. Cumprimentou-a com um leve aceno de cabeça, sem lhe estender a mão e a convidou, ainda com a cabeça, a entrar no consultório. Um luxo. Tudo do bom e do melhor. Luz indireta, tapetes que abafavam os passos e o fatídico divã à romana. Colocado estrategicamente, um abat-jour que podia lançar muita luz sobre a face de quem se deitasse no divã, mas aumentava a penumbra na qual a analista se ocultava, sentada atrás do coitado que estivesse ali estendido. “Indecente”, pensou Mara com raiva. “É como desnudar uma pessoa para ficar “ vuaieristamente ” admirando-lhe as feridas. E a vítima só pode obedecer...”      Sentou-se, ao invés de se deitar, e procurou encarar a analista de frente. A luz do abat-jour a incomodava e sem a menor cerimônia apagou-a.      — Por que faz isto? – indagou a analista com aquela voz monocórdia de sempre.      — Porque estou de saco cheio de tê-la às minhas costas e esta luminária me incomoda a visão. Gosto de olhar as pessoas de frente. Gosto de lhes ver a face e de saber como reagem a mim – disse Mara, controlando sua raiva.      — Está raivosa, Mara? – falou a analista com a mesma voz mortiça de sempre.      — Sim, estou.      — Ah! ... Pelo menos, agora, já confessa seu ódio recalcado...      — Não confesso nada! E não se trata de recalque coisa nenhuma. E muito menos de ódio infantil.      Esperou que a mulher dissesse alguma coisa, mas ela permaneceu impassível, olhando-a fixamente.      — Bem, já que não quer falar, falo eu – disse Mara. – Tome, leia isto e me diga o que pensa a respeito.      — O que é isto?      — Leia!      — É importante para você, que eu aceite este papel?      — Merda! É importante, sim, droga! Leia! – a repórter estava quase perdendo o controle. A frieza e a indiferença aparentes da psicanalista irritavam-na profundamente e, pior que isto, o modo como parecia encarar o problema dela, Mara, como se ele não tivesse importância, mas somente suas teorias... Isto quase tirava a repórter do sério.      — Está bem – concordou a mulher após uma demora estudada, durante a qual fixou inquisidoramente o rosto da sua cliente. Aceitou a cópia xerox do artigo e o leu em silêncio não fazendo qualquer comentário quando terminou a leitura. Apenas olhou, silenciosa, para Mara. Aquilo decepcionou a repórter.      — Voltei a ter aquele pesadelo de novo – disse, desconcertada diante do olhar frio da analista. – Não mudou nada. As mesmas cenas, as mesmas pessoas. O que me diz?      Esperava que a analista ligasse as cenas de seu pesadelo com o que continha a reportagem, mas ela não o fez.      — Você sabe o que penso a respeito. Quer fazer alguma associação com as cenas do pesadelo? Que tal começarmos pelo pescador...      — Ora, vamos, doutora. Você já tentou isto e não funcionou.      — Por sua resistência, Mara. Vamos, feche os olhos e relaxe. Procure trazer à lembrança o homem do pesadelo...      — Mas...      Mara hesitou. Compreendeu que a analista não se dignara a ler o artigo. Apenas fingira fazê-lo. Sentiu-se confusa e um misto de raiva e decepção a acometeu.      — É melhor deitar, Mara. Fica melhor para relaxar e fazer as associações. Vamos, deite-se.      — Não era um convite. Era uma ordem. Mara perturbou-se. Viera disposta a brigar com sua analista, mas agora estava confusa. A mulher tinha uma autoridade estranha... perturbadora.      — E então?      Mara hesitou, mas obedeceu.      — Ótimo. Agora, feche os olhos e relaxe... Relaxe... Não pense em nada volitivamente... só relaxe...      A voz era monótona e dava sono. Mara bocejou. Aos poucos seu corpo foi afundando no divã. Com esforço tentou obedecer, mas cenas e mais cenas do dia lhe vinham à mente... Talvez estivesse mesmo em resistência, afinal de contas. Não conseguia parar de pensar... O artigo. Pensou no artigo.      — O homem do sonho... o pescador – ouviu a analista dizer – por favor, Mara, diga tudo o que lhe vier à mente quanto a ele...      A princípio não vinha nada à lembrança de Mara. Apenas uma sensação muito estranha, de escuridão. Escuridão que ela percebeu, espantada, traduzir-se em uma íntima recusa a pensar. Gozado! Inda agorinha mesmo ela não conseguia parar de pensar. Agora, não pensava! Pelo menos, não vinha qualquer cena à sua memória... “ Que coisa curiosa ” disse para si mesma, “ estou vazia...      — O que há, Mara? – veio a voz sem calor e sem cor da analista.      — Eu... eu não consigo... eu não consigo ver o homem e... não me vem nada à lembrança... – Mara não sabia porque, mas estava meio agastada por ter de falar aquilo.      — Relaxe. Deixe que sua mente se reflita em sua consciência.      “ Fácil dizer, chapa; o difícil é fazer ” – pensou Mara de si para consigo mesma. Mas permaneceu tentando não pensar senão no tal homem... O nome dele... como era mesmo o seu nome?      E então, Mara? – voltou a perguntar suavemente a analista.      — Gaditano! – a repórter ouviu-se dizendo.      — Gaditano... O que é isto para você?      — O pescador.      — Você sabe o significado desta palavra, Mara?      — Não... Só sei que é o nome do pescador.      — Por que você associa esta palavra ao pescador de seu sonho?      — Pelo artigo, ora! É o nome dele! – Mara teve vontade de abrir os olhos, mas alguma coisa dentro de si se recusou a fazer isto.      — Que artigo?      — O que lhe dei! Não o leu?      — Li. Ele descreve uma ilha e algum acontecimento exótico ocorrido nela – disse a analista, demonstrando que Mara se enganara quanto a ela não ter lido o artigo.      — Sim, isto mesmo. O artigo descreve a ilha de meus sonhos.      — Não. O artigo descreve uma ilha. Mas lá não é dito que seja a de seus sonhos...      Ela estava de gozação. Só podia estar.      — É a ilha de meus pesadelos, sim senhora! – quase gritou Mara.      — Você está fugindo do tema, Mara.      — Não estou não! Leia novamente o artigo! – Mara sentou-se agitada. – Verá que ele contém a descrição da minha ilha!      — Sua ilha? Você tem uma ilha, Mara?      — Droga, doutora! Eu me refiro a ilha de meus pesadelos!      — A ilha do artigo não me parece ter importância, Mara. É algo distante de nossa realidade...      Mara levantou-se num ímpeto. – Aí é que está! – exclamou ela – O artigo tem importância, sim. Se não tem para a sua teoria, tem para minha realidade! – e ela foi até a porta, disposta a sair, mas abortou a ação e voltou a sentar-se. Apontou para o papel na mão da analista e ficou a olhá-la nos olhos. Ela, porém, não se moveu e continuou a fitá-la, como sempre, com aquele olhar inexpressivo.      — Mas que diabo! – exclamou a repórter francamente irritada – Você vai ficar aí, me olhando com este olhar de peixe morto, vai? Que tal voltar a ler o artigo em sua mão, hein?      — Já o li, Mara. Ele não é importante para nós...      — É! É, É e É ! – gritou Mara, exasperando-se.      — O que vê aqui, Mara?      — O que vejo? Santa Maria Madalena, mulher, aí está a essência de meus pesadelos. Uma ilha, uma criança encontrada entre sargaços por um pescador – Gaditano, segundo o jornalista que escreveu a reportagem – e que é muda, tal como a criança de meu pesadelo! Que mais quer?      — Eu? Nada, Mara. Você é que deseja saber o que seu inconsciente lhe está tentando dizer. Só estou procurando ajudá-la a chegar até ele.      — Que inconsciente? O coletivo?      — Não sou jungueana...      — Ah, esqueci-me! As famosas linhas de atuação! Ora esta, doutora, e o meu inconsciente pessoal ou coletivo sabe lá alguma coisa sobre as compartamentalizações da Psicanálise, hein? Será que você pensa que só pelo fato de você se dizer analista ortodoxa, o meu inconsciente vai somente sonhar sonhos capazes de satisfazê-la, é?      Esperou em vão por uma resposta. A analista continuava impassiva. Aquilo era exasperante.      — Pois se pensa assim, é muito petulante, cara doutora. E quer saber do que mais? Pra mim, C H E G A! Há muito mais do que Édipo nesta história e eu vou descobrir entendeu?      — À vontade, Mara. Mas quando passar este arroubo de rebeldia projetiva, que tal voltarmos ao nosso tema?      — NÃO VAMOS VOLTAR A COISA ALGUMA, ENTENDEU BEM? – Mara gritou a todo pulmão – Aliás, não vou tornar aqui para que você fique batendo na mesma tecla, tentando-me convencer que o seu todo poderoso Édipo é que está no comando de minha vida, porque não é, queira você ou não; queira seu amado Freud ou não! Adeus, doutora!      E Mara saiu porta-a-fora sem que a analista fizesse qualquer movimento no sentido de impedi-la. Apenas anotou em sua agenda: “Cobrar de Mara a sessão de hoje.”      A repórter estava furiosa. Perambulou pela rua a esmo. Não estava com nenhuma vontade de ir pra casa nem queria encontrar ninguém. Aquele encontro com a analista fora um desastre. Estava com raiva, com frio, com a sensação de desamparo, de solidão e de frustração.      A cidade acendera-se toda, mas a noite estava fria e com uma chuvinha quase sereno caindo como garoa. Isto aumentava o frio e a sensação de solidão.      Mara perambulou a esmo e terminou decidindo-se a ir para a redação e voltar ao “Mausoléu” a fim de continuar a pesquisa. Quem sabe encontraria mais alguma coisa escrita pelo seu falecido colega?      Um telefonema para o Banco Kamuratti. Alguns segundos escutando e pronto. Fratelli e sua turma estavam livres. Apanharam suas coisas e saíram. Na porta, deram com os policiais no camburão.      — Você está morto, cara! – tornou a falar em italiano.      — O que? – indagou o polícia a quem ele se dirigira.      — Vamos – comandou. Entraram no Camaro – que um dos policiais tinha trazido lá da praia – e se foram.      Fratelli livrou-se de seus comparsas e foi a um telefone público de onde chamou. Na elegante presidência do Banco Kamuratti um telefone disfarçado num pé de mulher tilintou melodiosamente. O próprio Presidente, o Sr. Kamuratti, atendeu.      — Sim?      — É Fratelli. Perdemos a pista devido à intervenção da polícia.      — Desconfiei. Estão livres?      — Sim, senhor.      — Prossigam. Não descansem enquanto não descobrirem quem são as intrometidas. Quero-as vivas. Preciso saber até onde sabem o que não devem, compreende?      — Sim, senhor.      — Então, mãos à obra.      E Kamuratti desligou, Fratelli saiu dali e se dirigiu para sua residência. Poria o “Cicatriz” em ação e, depois, iria tratar dos policias. Tinha de acertar aquela pendência. Aquele insulto não podia ficar assim, sem revide.      Duas horas da manhã. 0 cão rosnou. Era um magnífico Dobermann e fora treinado para cão de guarda. 0 policial Arthur acordou com o rosnado da fera. Levantou e foi olhar pela janela, mas não viu nada de anormal. “ Um gato ”, pensou ele. Foi à cozinha e bebeu um copo d’água. Olhou o relógio: duas horas da manhã. Perdera o sono. Enrolou-se num roupão e pegou o jornal do dia anterior. Começou a ler as notícias aleatoriamente enquanto subliminarmente lhe vinha à recordação o rosto daquele homem a lhe falar em italiano algo que lhe soara como ameaça. A mulher dormia a sono solto e seus dois filhos, também. O telefone tocou. Atendeu rápido. Não queria que sua esposa fosse acordada.      — Sim?      — Está acordado? – alguém perguntou do outro lado.      — Estou. Quem é?      — Da delegacia. Venha pra cá depressa – foi a resposta.      — Quem está falando?      — O cabo de plantão.      E o telefone foi desligado antes que pudesse perguntar mais alguma coisa. “ Cabo de plantão ? 0 que diabo era isto? Desde quando na Delegacia havia cabos de plantão ?” Resolveu ligar para lá. O detetive que atendeu confirmou sua suspeita: não havia nenhum cabo de plantão lá. Desligou e ficou a olhar o aparelho, intrigado. O cão tornou a rosnar. Do rosnado passou a latidos furiosos. O polícia apanhou seu revólver e olhou, cauteloso, através da janela. A luz do quarto iluminava parte do quintal e ele nada conseguiu ver ali. De qualquer modo, o cão também não podia ser visto, pois acuava alguma coisa no lado não iluminado, sob a mangueira copada. Os latidos se tornaram mais rápidos e o cão partiu para cima de algo. Mas logo o policial ouviu um ganido baixo e um baque de corpo caindo.      — Titã? – chamou. Nenhuma resposta. – Titã! – insistiu. Nada. Um temor tomou conta dele. Verificou as trancas das portas e das janelas e fechou cuidadosamente a que abrira. Foi direto ao telefone. Fio cortado. Agora, sabia, estava em perigo. Ele e a família. 0 que fazer? Começou a suar de medo. Vinham caçá-lo. Alguém da Falange ou do Comando... Não, talvez aquele doido que prenderam de manhã... meio-dia, pra ser mais preciso. A luz apagou. Tentou ligar, mas nada funcionava. “ O maldito cortou a energia. Melhor assim. Posso vê-lo na penumbra lá de fora, mas ele não vai poder me enxergar de lá ”, pensou o polícia, ocultando-se atrás do sofá, na sala. Esperava o ataque pela porta da frente. As janelas eram gradeadas e não podiam ser arrombadas com facilidade. Estava preocupado porque só tinha em casa o seu revólver. Deixara a metralhadora lá na delegacia. Um tiro soou no quarto das crianças. O seu filho gritou. Arthur precipitou-se, sem pensar, para o quarto. Encontrou as crianças de pé, nas camas e, no chão, uma cabeça de nego , uma inofensiva bomba de São João, estourada. No mesmo instante ouviu a porta ser arrebentada com estrondo.      — Protejam-se! – gritou para os filhos – Vão para o quarto da mãe de vocês e tranquem a porta!      Sem esperar para ver se era obedecido, precipitou-se para a sala no escuro. Atirou para evitar ser atingido, mas ninguém respondeu aos disparos. Mal chegou ao final do corredor e alguma coisa fria, dura e violenta chocou-se com suas pernas, nelas se enrolando. Ele foi puxado e jogado ao chão e antes que gritasse uma manopla forte como torquez fechou-se em sua garganta.      — Eu disse que você estava morto, “seo” porco, lembra-se?      Arthur debateu-se, olhos esbugalhados, mas em vão. Nenhum som escapou de sua garganta. Deu socos e cotoveladas a torto e a direito, mas não conseguiu atingir a nada. Sufocava e estertorava em agonia. Sua cabeça estourava. Seus pulmões queimavam pela falta de oxigênio. Desesperou-se. Queria respirar. Queria gritar! Mas aquelas mãos lhe apertavam a garganta com uma força descomunal. Sentia o pomo de Adão afundar pela traquéia a dentro e uma dor infernal lhe queimou a garganta. Lágrimas lhe vieram aos olhos.      A visão escureceu e ele perdeu momentaneamente os sentidos. Quando voltou a si, estava amarrado numa cadeira, junto à cama onde sua mulher e sua filha se encontravam. No chão, o menino estava enrolado em um lençol. Era o homem. Aquele maldito que o ameaçara em italiano. Queria falar, mas não tinha voz nenhuma. O homem bebia calmamente o seu whisky. Parecia estar esperando que ele acordasse. Sua mulher e sua filha estavam nuas e amordaçadas.      — Ótimo! – disse o invasor ao vê-lo despertar – o dorminhoco voltou a si. Vamos prosseguir. Como vê, as duas fêmeas estão ali, nuas. Serão minhas. Depois, mato-as. Então, o garoto. Morrerá depois. Finalmente, você. Não morrerá, mas seria melhor que morresse.      A noite toda foi de sofrimento indescritível para toda a família. Quando o dia amanheceu, na cama dois cadáveres ensangüentados e com as vísceras arrancadas por baixo, por um corte feito no períneo. No chão, um garoto com a cabeça torcida para as costas, mãos retorcidas ao contrário e pés, também. Na cadeira, olhos vidrados e mente apagada, Arthur fitava o vazio. Perdera a razão. Era somente um vegetal. Também tinha sido estuprado e de seu anus corria um filete de sangue. Nenhuma pista. A polícia encontrou o cão, morto com a cabeça torcida como se tivesse sido colhido por um estranho rodamoinho...      O detetive Damastor olhou consternado para o parceiro. Um forte e incomodativo sentimento de ódio contra algo que não sabia o que fosse lhe corroia o peito. “ Quem terá sido o animal que fez isto ?” indagava-se sem cessar. Viu o cão, Impossível. Nenhuma pessoa poderia torcer a cabeça de um animal daqueles de modo tão terrível e, no entanto, alguém torcera. Ele daria a vida para saber quem fora o criminoso. Tinha de ter sido mais de um, embora as evidências apontassem o contrário.      A mulher e a garota tinham sido cruelmente torturadas. Não havia um só osso nos seus corpos que não tivesse sido quebrado. Até as falanges dos dedos. E ninguém ouvira nada, porque tinham sido amordaçadas. Damastor vasculhou cuidadosamente toda a casa a procura de algum indício do assassino ou dos assassinos, mas não encontrou nada.      — Coisa de profissional – comentou para o médico legista.      — Psicopata no mais avançado grau – disse o médico, revoltado.      — Se ponho as mãos nele, não será preso. Eu o mato com prazer. Um animal destes não merece viver entre os humanos – falou entredentes o policial.      — Encontrou impressão digital? – perguntou o legista.      — Não. Nada. Ele se acautelou de todos os modos possíveis. É mesmo profissional da morte – disse Damastor.      — E o que vai fazer, agora? – quis saber o médico.      — Pensar, meu amigo, pensar. Em primeiro lugar, quem eram os inimigos de Arthur, além dos pés-de-chulé da Falange Vermelha e do Comando?      — Pés-de-chulé? – estranhou o médico.      — Sim. Nenhum deles tem gabarito para fazer isto. Eles chegam com estardalhaço, tiros de metralha ou de AR-15. Não vem um. Vêm em bando. O que fez isto foi um só.      — Como sabe? – perguntou o médico.      — A porta foi arrombada com um ponta-pé e não com pé-de-cabra. Isto é impressionante. Era uma porta sólida e tinha dois ferrolhos além da fechadura de quatro voltas. A marca da pata do animal está lá. Calçava tênis e pelo desenho na sola, importado. Entrou pelo quintal. As mesmas impressões da sola estão lá no terreno. O cão foi morto debaixo da mangueira e isto indica que veio pela rua lateral, onde há um terreno baldio. Lá há as mesmas marcas do tênis. Nenhuma outra. Nem de pés descalços ou de crianças. Foi um só. Um animal. E tenho uma pista que restringe um bocado a gama de suspeitos.      — Qual? – perguntou o legista, interessado.      — Só um homem muito, mas muito bem treinado em artes marciais poderia fazer o que foi feito aqui. E só uma arte marcial tem condições desta proeza: o Karatê-dô. Talvez, também, o TAE-KWEN-DO, mas no Brasil ainda não vi nenhum praticante que tenha este conhecimento. Teria de ser mestre em TAE-KWEN-DO para chegar a tanto. Mas um aluno avançado na prática, no adestramento físico do Karatê-dô pode realizar esta façanha. E foi um aluno destes, doutor, tenho a certeza, que foi.      — No Rio há muitas academias de Karatê. Pretende visitar a todas? – indagou o médico, cético.      — Talvez... – disse Damastor, evasivo. O companheiro estava sendo levado para o internato de um hospital de Psiquiatria. Damastor acompanhou a ambulância. Seus miolos queimavam tentando lembrar-se de todos os desafetos que Arthur pudesse ter e que praticasse o Karatê-dô. Eram amigos de muitos anos e Damastor conhecia a maioria de amigos e inimigos de Arthur, mas de nenhum se lembrava que praticasse aquela arte marcial japonesa. Tinha de ser alguém mandado. Por quem? Arthur não estava cuidando de nenhum caso especial... A não ser, é claro, o último seqüestro havido na cidade, o do banqueiro Anteu Kamuratti. Se fora alguém mandado pelo grupo que tinha seqüestrado o herdeiro do banco, a pergunta era POR QUE? Arthur não era a peça principal. O delegado Otávio, sim, pela lógica, deveria ter sido o alvo principal. Por que, então, atacar o policial de menor importância no caso? Ou será que ele tinha descoberto uma pista quente? Talvez o caminho fosse este. Damastor ia pedir que o colocassem no caso.      Arthur foi retirado da ambulância e levado, com cuidado, para o internato. Damastor acompanhou-o. Uma vez acomodado em sua cela, na companhia do médico, Damastor tentou por todos os meios conseguir que seu colega lhe falasse, mas em vão. O olhar perdido no espaço, a feição morta, a ausência de movimentos e uma total, absoluta apatia. Nada faria o seu ex-companheiro responder a qualquer estímulo externo. Estava mergulhado na mais negra escuridão. Sua mente estava morta. Era um vegetal. E Damastor sentiu os olhos se umedecerem, ao ouvir a sentença do médico. A filha de Arthur era sua afilhada e ele gostava muito da menina.      — Meu amigo, você não me pode ouvir, mas eu lhe juro que quem o atacou deste modo vai pagar caro, muito caro. Nem que leve o resto de minha vida, vou procurar o animal. Vou matá-lo tal como fez com a sua família, eu juro!      O médico olhou o polícia com temor. Havia ódio na voz do homem. Ódio e uma determinação férrea. Olhou a musculatura dele e pensou: “ Coitado de quem cair nestas mãos...      Delicadamente convidou Damastor para se retirar. Ia mandar que aplicassem uma injeção calmante no paciente para que dormisse e, assim, desse descanso ao corpo. O policial obedeceu. Despediu-se do médico e se retirou, porém não foi para a delegacia, mas para o seu apartamento em Botafogo, onde se recolhia a sós quando necessitava de descanso. Agia assim desde que se separara de sua primeira mulher. Tomou um banho e se sentiu melhor. Então, saiu novamente. Rodou pela cidade até o combustível do automóvel acabar, Encheu o tanque e continuou a rodar, o olhar vasculhando as pessoas, querendo ver no rosto de alguma delas um mínimo sinal de culpa...      Tamara voltou à redação de “A CIDADE” e apanhou a pasta que continha a correspondência interna. Queria ver se alguma coisa relativa ao caso Kamuratti estava ali, à sua disposição. Nada que interessasse. Mas havia uma foto de Kantor Antratos saindo do Fórum. Atrás dele, um homem forte, alto, muito bem apessoado. Tamara olhou o verso da foto e nada havia anotado. Num outro envelope encontrou mais duas fotos. Uma, dentro do refeitório do Fórum. O mesmo homem que estava atrás de Kantor Antratos, estava, agora, conversando com outros. Estava de pé e os outros, sentados. Quem era aquele sujeito? Tamara nunca o havia visto, antes. Na terceira foto havia o mesmo homem. Estava sentado dentro de um automóvel estacionado em algum lugar.      — Quem diabo é este figuraça? – indagou-se a jovem repórter. Aquilo era coisa de Franco, colega fotográfico com quem mais trabalhava no jornal. Na verdade, Franco era mais do “EL MONDO”. Ele era um free lancer e se ajustara muito bem a ela e a Karina, sua colega do jornal concorrente. Por que fotografara aquele homem? Qual a importância dele? Seria um segurança de Kantor? Mas o banqueiro do bicho tinha vários. Nenhum era realmente importante. Por que aquele em especial tinha sido motivo da atenção de Franco?      Fez uma ligação interna para a sala dos fotógrafos. Franco não estava. Tinha saído sem dizer para onde. Tamara guardou as fotos. Conversaria com ele sobre aquilo quando o encontrasse. Um outro colega de redação veio-lhe pedir ajuda numa matéria e ela se entregou ao trabalho envolvendo-se no assunto. O dia iria ser monótono...      Fratelli estava reunido com dois de seus homens numa churrascaria. Almoçavam. Os homens bebiam cerveja, ele, somente água gasosa.      — E então, chefe, alguma pista das duas piranhas? – perguntou o mais moreno deles.      — Não. Nada, ainda. Pra falar a verdade, estou no escuro total. Isto é muito chato, Cicno. O Dr. Kamuratti não gosta de coisas demoradas e confia em que possamos descobrir logo quem são aquelas duas intrometidas. Ele as quer vivas para interrogatório. Mas quem são elas? Onde se escondem?      — Eu anotei a chapa do automóvel do playboy. Quem sabe...?      — O que...? – surpreendeu-se Fratelli.      — Eu disse que anotei a chapa do automóvel daquele rapaz – repetiu Fílio.      — Mas que ótimo! Afinal, alguma coisa por onde começar. É remota a possibilidade, mas não custa nada tentar.      — Chefe... – chamou Cicno.      — O que é?      — O senhor não pretende bater no rapaz, não é?      — Por que pergunta isto?      — Bem... eu acho que... O “Cicatriz” já fez vítimas demais e...      — Não se preocupe. Eu não vou matar o cretino. Nem pretendo arranhar o seu rostinho de bebê chorão, fique sossegado.      — Que bom! – disse, aliviado, Fílio. – O Dr. Kamuratti não gosta de mortes desnecessárias. E nós não gostamos da idéia de ele se enfurecer contra a gente.      — Somos descartáveis, não nos esqueçamos disto – completou Cicno.      Fratelli nada comentou, mas em sua mente passou a lembrança da família do policial que trucidara naquela noite. Ele tentou afastar da memória aquela lembrança. Cícno tinha razão. O Dr. Kamuratti sempre fora taxativo quanto a isto: matar só com autorização expressa dele e com o máximo de precaução. E aquele “serviço” tinha sido particular. E o maldito policial era um inepto. Nem soubera defender-se. A luta que esperara, não tinha havido e em seus ouvidos ainda soavam, desagradáveis, os gemidos abafados de suas vítimas. Perdeu o apetite. “ Porra! Por que tinha de se lembrar daquilo numa hora destas ?”      — O que foi? – estranhou Fílio.      — Nada, nada. Perdi o apetite, só isso – respondeu Fratelli de mau humor.      Os dois capangas se entreolharam, mas nada comentaram. Fratelli, quando de mau humor, era pior que uma cascavel enfurecida.      — Vamos ao DETRAN? – indagou Cícno, tentando puxar conversa.      — É claro, sua besta! – rosnou Fratelli.      — Desculpe. Não queria aborrecer – disse o capanga, agastado.      — Tudo bem, tudo bem. Desculpe você. Estou azedo...      — Vamos terminar e trabalhar. O senhor vai melhorar, temos certeza – falou Fílio, conciliador.      — É, vamos – disse Fratelli controlando-se.      Meia-hora depois os três saiam da churrascaria. Fratelli não estava melhor. O rosto da garotinha de olhos esbugalhados fitando-o aterrorizada o atormentava e o deixava quase fora de si. Fora uma estupidez, agora o reconhecia. Aquelas pessoas não tinham qualquer importância para ele. Por que fora lá, atormentá-las? E por que diabo as matara? Tinha de aprender a controlar o seu mau gênio. Talvez Kimura tivesse razão, afinal. Ele era egoísta e odioso. Precisava melhorar.      Cícno dirigia o automóvel de olho no chefe. A carranca dele, o olhar perdido no vazio não prenunciavam nada de bom. O que diabo atormentava aquele homem de ferro? Talvez o medo do Dr. Kamuratti. Era a única coisa no mundo que Fratelli respeitava e temia. Talvez estivesse-se lembrando dos policiais que os tinham detido e estivesse ruminando alguma coisa terrível contra eles. Afinal, tinham sido os responsáveis direto de eles estarem, agora, a ver navios.      Chegaram ao DETRAN.      — Fiquem aqui mesmo. Eu vou lá sozinho – ordenou Fratelli, que o que menos desejava naquele momento era companhia.      — Tudo bem. Esperamos aqui – disse Cícno aliviado.      Fratelli encontrou-se com o seu contato. Deu-lhe o número da placa e aguardou que ele consultasse o computador. Maravilha, aquela invenção do homem. Em poucos minutos tinha em mãos nome e endereço do proprietário e ficou absolutamente surpreso. Era nada mais nada menos que o milionário, “playboy” das noitadas famosas, Luís Filipe Nettus Filho.      — Ora vejam só – disse baixinho – então, o rapazote prefere andar num carrinho vagabundo em vez de em seus carrões importados. Engana de verdade, sim senhor. Ele é o noivo da famosa modelo Milena Forcis, a também milionária dondoca das fofocas do jornais. Será que os dois ainda estão juntos? Será que a zinha ao lado dele lá na Barra era ela? Bem, de qualquer modo, tinha de tratar com cuidado aquele rapaz. A família dele era amiga dos Kamuratti e freqüentavam a casa um do outro. Se realmente o rapaz tivesse dado ajuda às moças, então, tinha de ser muito astuto e cauteloso ao abordá-lo. Nunca, antes, tinham-se encontrado, pois Fratelli não freqüentava o mundo dos Kamuratti. Agora, o rapaz tinha uma péssima impressão dele e não aceitaria recebê-lo, a não ser que apresentasse uma boa desculpa. Voltou para o automóvel dando tratos a bola e teve uma idéia. Foi para o seu apartamento e de lá chamou o banco, naquele telefone especial.      — Alô? – ouviu a voz de seu patrão.      — Sr. Kamuratti, sou eu, Fratelli – disse.      — Eu sei que é você. O que deseja?      — Uma ajuda de sua parte. Acontece que...      E Fratelli contou tudo sobre o encontro com o rapaz, na praia. Apenas omitiu o modo violento como agiu.      — Agora, preciso que o senhor dê um jeito de eu ser recebido pelo jovem Luís Filipe. É uma possibilidade remota, mas o carro dele é do modelo e da cor que o garçon me descreveu. Aliás, o único que estava no bar, naquele dia.      — Você acredita que ele tenha dado guarida às mulheres? Por que?      — Não sei. Apenas tenho um palpite. Mas sendo ele um “ Playboy ” e mulherengo, e estando só... Quem sabe?      — Você me disse, da outra vez, que ele estava acompanhado... Pelo menos, foi o que lhe falou o garçom.      — Sim, sim, agora recordo disto. Mesmo assim... Quem sabe? Aquelas duas são muito espertas. Deram um jeito de conseguir ajuda. Podem até ser conhecidas dele ou... de seu ambiente... Tudo é possível, não é?      — Conhecidas de Luís Filipe? Eu não creio. Se fossem, ele saberia de algo e já me teria comunicado. É muito amigo nosso e não teria porque ocultar algo assim. De qualquer modo, venha ao banco. Vou fazer de você meu enviado para levar uns papéis importantes para ele. Endereço a Luís Filipe pessoalmente. Não há como ele não o receber. Daí em diante, é com você. Mas seja muito prudente em averiguar a história, entendeu? Não quero suspeitas.      — Farei tudo a meu alcance, pode ficar despreocupado.      E Fratelli desligou, pela primeira vez antes de seu patrão o fazer. Kamuratti ficou com o aparelho nas mãos, olhando pensativamente para o bocal. Aquela pequena falta de respeito poderia ser somente porque seu assecla estava preocupado com o que tinha a fazer... Seria? Na verdade, Kamuratti estava envolvendo o homem e seus asseclas mais profundamente em seus negócios como um meio de lhe averiguar não somente a lealdade como a capacidade de ser eficiente, discreto e rápido. Dependendo de como se saísse, trá-lo-ia mais para perto de si. Estava começando a necessitar de um substituto para Darinoshkin, morto pela C.I.A. quando cumpria uma arriscada missão nos Estados Unidos.      Colocou o aparelho no gancho e voltou a seus afazeres. O relógio, um carrilhão de século XVIII, marcava pontualmente as 15 horas.      Eram, agora, 21:30h e Mara estava totalmente mergulhada na biblioteca rebuscando velhos, mas bem conservados volumes de publicações passadas. Estava cansada e já desinteressada, quando lhe caiu nas mãos uma encadernação de capa mais escura que as demais, não pela cor, mas pelo uso. Folheou-a ao acaso. Tinha artigos do jornal antecessor a “EL MONDO” e no qual Sísifo, o repórter que escrevera sobre Pargos, trabalhara. E foi quase ao fechar o volume para abandoná-lo que seus olhos deram com outro artigo de Sísifo. Era sobre a ilha. Mara perdeu todo o cansaço e leu com o coração aos pulos.   UMA MISTERIOSA ILHA CHAMADA PARGOS 18 de abril de 1803      Há uma ilha no Pacífico, no paralelo 21 22' e no meridiano 75 22' 16" que é até hoje desconhecida quase totalmente.      Mara parou a leitura. A coordenada do paralelo estava diferente. O artigo posterior a este dava 22 e 16'. Por que a diferença? Procurou o volume anterior. Localizou-o com facilidade. Sim, ali estava. A diferença era de quase 1. Teria Sísifo se equivocado naquele primeiro artigo? Ele datava de três anos antes. O outro era de 1806. Talvez erro de instrumento... Mara voltou à leitura.      “ Pargos é o nome desta ilha misteriosa e não tem nada de paradisíaco. Sua origem é vulcânica e parece ter surgido há coisa de seiscentos anos atrás. Não fica na rota de navios e, por isto, é pouco ou quase nada freqüentada. Não tem qualquer importância econômica para o continente. Mas me chamou a atenção porque é habitada. Fui lá verificar como vivem seus habitantes e descobri coisas singulares na ilhota. Em primeiro lugar está a origem de seus habitantes. Há suspeita de que sejam descendentes dos míticos atlantes, habitantes de uma ilha misteriosa que teria tido o seu fim antes do plistocênio, aproximadamente 25 mil anos atrás. Uma explicação mais recente e menos rocambolesca diz que seus habitantes são remanescentes do extinto povo conhecido como índios atacamenhos, artesãos que para lá migraram para fugir aos ataques de outras tribos mais aguerridas que eles, simples camponeses afeitos ao artesanato mais do que às armas. Pude constatar, contudo, que há duas raças bem distintas em Pargos. Uma, possivelmente, remanescentes atacamenhos, outra, contudo, desconhecida – talvez atlanteanos reais. Estes povos, os prováveis descendentes atlanteanos, têm pele avermelhada como os quase extintos índios americanos e seus nomes diferem enormemente dos nomes indígenas comuns à região chilena. Ambos os povos convivem pacificamente e se miscigenam naturalmente, o que é uma pena, pois a continuar assim, em pouco tempo não haverá nem uma raça, nem a outra e, sim, uma terceira oriunda desta miscigenação. Entre os mais antigos corre uma lenda, não confirmada por ninguém do continente, de que os vermelhos já viviam em Pargos bem antes dos atacamenhos ali chegarem. De qualquer modo, é somente uma velha lenda. E como estes povos não possuem escrita, é impossível saber-se a verdade.      Pargos é inóspita. Só possui um rio em cuja embocadura fica a aldeia, a única da ilha. Com paciência e persistência se consegue que os ilhotas nos levem para o interior da floresta, cuja travessia exige dois dias de caminhada por entre cipoal e árvores gigantes. Há muitas cobras, mas poucas espécies venenosas. Frutas silvestres são abundantes e os pargoítas informam que elas dão o ano inteiro. A geografia da ilha é ascendente no sentido sul-norte, porém, o local onde se encontram as mais belas e mais espantosas lapas é a noroeste, mais para o norte que para o este. Aqui, as falésias mergulham a prumo num oceano de águas azuis translúcidas. A mais de cinco metros de profundidade é possível ver os cardumes de peixes, olhando-se lá de cima. No cimo dos pedregulhos, que facilmente ultrapassam os seiscentos metros, sente-se medo. O vento sopra em pancadas fortes, alternadas por brisas suaves, o que tende a nos tirar o equilíbrio e nos põe em permanente risco de despencar direto para o mar profundo. Os vendavais são tremendamente assustadores, quando acontecem – e o fazem com freqüência. Apesar de repentinos, são, contudo, previsíveis, pois os animais – uma quantidade espantosa e rica em variedade, talvez comparável com os da Amazônia – assim como as aves, procuram abrigo horas antes de a procela estourar e a mata fica pesadamente silenciosa. A gente tem de estar no meio dela para compreender como é opressivo o silêncio que se faz em tais ocasiões. Parece que a vida, repentinamente, deixou de existir. Nem uma folha se move. Nem um mosquito zune. O silêncio é muito oprimente. Então, repentinamente, começa a ventania. Sem aviso e sem gradação. O vento desaba com fúria, como se soprado pela boca de um danado do inferno. Tudo se retorce e das lapas vem um assovio lúgubre que impressiona. No céu, ainda azul, relâmpagos fantasmagóricos lançam desenhos de fogo que assustam de verdade. Não se sabe de onde, pesadas nuvens surgem e uma chuva de dilúvio, que nos cega e não permite a visão nem a um metro adiante, cai chicoteando tudo, fustigando terra, mata e bichos. Tão repentinamente como veio a tempestade se vai. E tão repentinamente como se foi a zoeira dos animais volta a ser ouvida. A vida nasce a cada vendaval. É assustadoramente belo. Uma hora antes do vendaval, o mar muda de cor. Do azul cintilante e translúcido passa a um azul-cinzento, pesado, plúmbeo. Os pargoítas costumam dizer que “o oceano ficou de cenho franzido”. Quem está pescando, nestas ocasiões, volta o mais depressa que pode para a terra firme. Ficar nas águas é quase condenar-se à morte, pois a ilha é cercada por arrecifes e corais perigosos para as embarcações, mesmo as de calado leve, como as pirogas que utilizam. A ilha de Pargos não tem praias, exceto três nesgas de areia amarelo-ocre espremidas entre arrecifes os quais, entre o subir e descer das ondas, surgem como dentes negros ameaçadores de entre as águas profundas. A maior das praias, medindo uns cinqüenta ou sessenta metros de comprimento por uns trinta a quarenta metros de profundidade, é a que fica na embocadura do rio. É povoada de coqueiros muito belos e cujo murmúrio constante das palmas é muito bonito de ouvir. Tubarões de todos os tipos passeiam por aqui, pois as águas, ainda que profundas e agitadas, são tépidas, ao contrário do que normalmente acontece nas águas desta região. Arraias perigosas e enormes também são comumente vistas entre os corais. Muitas enguias com dentes afiados como navalhas ali se escondem e até mesmo “a morte branca” tem sido vista nadando aqui por perto. Há coisa de três meses corre um boato entre os ilhéus de que, após o terceiro aniversário da menina Letícia, encontrada no oceano abandonada num cesto e cercada de sargaços, presa num arrecife e dali retirada por Gaditano, uma espécie de Governador dos ilhéus, uma chusma de “morte branca” tem cercado a ilha e há quem diga ter visto um deles medindo até 12 metros de comprimento. Este repórter, a fim de comprovar a notícia, veio a Pargos para tentar fotografar o fenomenal tubarão. Dizem os nativos que eles nadam preferentemente para o lado norte e noroeste, justamente porque lá não tem arrecifes e escolhos perigosos e o mar é profundo. Ainda não pude convencer ninguém a me levar de barco até aquelas águas. As ondas lá são avantajadas e o vento lança tudo que flutua de encontro aos paredões, dizem os ilhotas. Na verdade, pude constatar que realmente as ondas são grandes; quanto ao vento, ele sopra intermitentemente e com freqüência. Esta intermitência pode durar mais de oito ou dez horas, tempo suficiente para que possamos ir lá e retornar sem grande perigo, a não ser que o tão falado peixe resolva nos atacar. Mas ninguém quer aventurar-se. Enquanto não consigo quem ouse a aventura que proponho, planto-me dias inteiros nos altos penhascos a observar com binóculo as águas profundas à procura do grande tubarão. Ao que parece, contudo, ele não é muito chegado à Imprensa. Não aparece nem mesmo em sombra. Como os pargoítas não mentem nunca, é certo que o tal peixe deve existir. Isto me intriga. Por que só os habitantes da ilha conseguem ter dele notícias? Consta – e eu não sei se é verdade ou fantasia – que o peixe perseguiu duas canoas por longa distância dentro do mar, mas não as atacou. Parecia somente querer que elas ficassem em terra. Acredito que se tratava de uma arraia gigante. Elas costumam, aqui em Pargos, nadar debaixo das canoas e, algumas vezes, viram de dorso para baixo (acho que é o único lugar na Terra onde fazem esta proeza) e como são brancas na barriga, devem ter sido confundidas – se foi mais de uma – com o famoso tubarão branco. O medo, freqüentemente nos prega peças. Passei por uma experiência estranha. Estava plantado sobre o penhasco da tocha (parece, quando visto lá da aldeia, uma tocha acesa, e olhava para o oceano já há mais de três horas, quando Gaditano veio buscar-me. Ele me disse que Letícia, a garotita de três anos, estava de pé na praia apontando para este local e balançando negativamente a cabeça. O Tuchah, uma espécie de feiticeiro da ilha, havia jogado os osso de tubarão e neles vira a morte se encaminhando para cá. Relutei um bocado em abandonar meu posto, mas desci finalmente. E foi a melhor coisa que fiz, pois mal chegamos ao sopé da pedreira, um relâmpago riscou o céu. O corisco caiu justamente em cima da lapa, atingindo em cheio o local onde eu me encontrava. Logo a seguir desabou uma tempestade das mais violentas que já me foi dado assistir por estas paragens. O incidente me preocupou, mas ainda não creio nos poderes estranhos que todos aqui acreditam que a criança possui. Ela me parece uma menininha bem normal, apenas um tantinho misantropa para a sua idade. Amanhã...      O artigo não tinha continuação. Faltava a página seguinte. Mara se afanou em procurá-la em outro volume que parecia seguir-se àquele. Nada, porém. Foi quando ouviu seu nome pronunciado com raiva.      — Mara! Mas o que diabo está fazendo aqui? Eu a procurei pelo Rio de Janeiro todo, droga! Você esqueceu de mim, foi?      Era Ludmila e entrara furiosa, só parando de falar plantada ao lado da espantada Mara.      — Mara! Que cara é esta?      — Ludmila! Eu me esqueci completamente, criatura! Você foi lá?      — Sozinha? Nunca!      — Eu me aborreci com a analista e saí de lá tão perturbada que fiquei perambulando por aí sem ter idéia do que fazer. Esqueci completamente da sessão de hipnose. Mas não perdemos tudo, não. Veja este outro artigo...      E Mara apontou para o volume aberto sobre a mesa. Ludmila fitou o artigo hesitante. Estava com vontade de brigar, mas resolveu conter-se e ler. E foi o que fez.      — Não acrescenta nada ao outro – disse ao final.      — Acrescenta, sim. Pra começar, é discordante quanto à localização de Pargos. As coordenadas estão alteradas. Depois, fala do poder de previsão que Letícia possuía e nos informa que isto era dela desde cedo na vida.      — E daí? O erro quanto às coordenadas é muito comum em documentos antigos. Os aparelhos daquela época não eram muito precisos e não se tinha um bom conhecimento dos continentes e oceanos. Quanto aos poderes de Letícia, não vejo novidade alguma em que ela o possuísse desde o nascimento, ora.      — Ludmila, presta atenção. Os poderes não foram desenvolvidos. Eles nasceram com a garota.      — E o que tem isso?      — Ora, isto me alivia e muito. Se eu fosse a encarnação ou...ou reencarnação daquela criança, teria, pela lógica, de ter também aqueles poderes, não teria?      — Eu não sei. Não entendo nada de reencarnação, minha cara. Aliás, eu ainda não creio nesta coisa, não.      — Ótimo! Você reforça em mim a tendência para não aceitar o que parece ser o lógico.      — Bem, tá bom. Se Letícia não foi você em alguma encarnação passada, então, por que tem aquele pesadelo que retrata exatamente a história da chegada dela à ilha?      — Não sei dizer. Mas... Bom, dizem os psicanalistas que pessoas que nunca estiveram em contato com gregos são capazes de, em certas condições especiais de consciência, falar perfeitamente aquele idioma porque o ouviram quando ainda estavam no ventre materno. Pode ser que eu tenha ouvido sobre Pargos quando estava em gestação. Meus pais... algum familiar meu deve ter lido estes artigos e eles devem ter impressionado muito minha genitora... Talvez até ela tenha tido algum forte pesadelo. Quem sabe o clichê do sonho tenha-se fixado em meu aparelho psíquico em formação?      — E isto é possível? – perguntou, curiosa, Ludmila.      — Eu não sei. Dizem os estudiosos da Psicanálise que sim.      — Bem, se isto é possível, então, a hipótese da reencarnação pode dar adeus à pretensão de ser adotada como científica – disse Ludmila.      — Minha... nossa analista deu-me um artigo impressionante para ler. Era a descrição de um caso tratado pelo Dr. Laercy Parrot, famoso estudioso da Psicanálise. Ele conta que fazia a psicoterapia de uma mulher inglesa da classe média baixa, que jamais tinha deixado a Inglaterra. Esta mulher lhe fora encaminhada pelo Hospital Central de Psiquiatria, de Londonderry, como um fenômeno a ser averiguado. Ela, num transe histérico por ocasião da morte de seu filho menor, afogado numa enchente do Tâmisa, em dado momento começou a falar numa língua estranha. Seu marido, que tinha um gravador à mão, gravou a algaravia. A gravação foi levada para a Universidade de Cambridge e um Professor de línguas traduziu o que ali estava. A mulher falara em aramaico antigo, a lingua de Jesus, raiz do atual grego. Contava como ela também havia morrido afogada quando o barco em que viajara no mar da Galiléia foi virado por uma tempestade. Dizia-se um comerciante abastado da época. O Dr. Laercy começou a averiguar todas as hipóteses plausíveis e quando já quase estava se deixando convencer de que se tratava de uma autêntica prova de reencarnação, conseguiu uma entrevista com o genitor da mulher. Este lhe disse que certa ocasião os franciscanos da aldeia fizeram uma missa e a rezaram, segundo eles, na língua de Jesus. O Dr. Laercy foi procurar o mosteiro dos franciscanos. Eles confirmaram a história e informaram que, naquela missa, um deles havia narrado a história de um homem que se afogara por não ter tido fé. O homem era um abastado comerciante contemporâneo de Jesus. Servindo-se das técnicas associativas, o Dr. Laercy conseguiu trazer à consciência de sua paciente a missa que ela assistira dentro do ventre de sua mãe, pois o evento havia-se dado quando sua genitora estava grávida de três meses. Com isto, aquele respeitável estudioso conseguiu provar, ao ver da igreja psicanalítica, que esta história de reencarnação é pura ilusão. Tudo tem uma explicação racional e explicitamente aqui e agora.      Ludmila deixou-se cair sentada com fisionomia abatida.      — O que houve? – perguntou Mara, curiosa.      — Bem, se este artigo é verdadeiro, então...      — Então...?      — Então terei de voltar à analista e lhe pedir desculpa pelas tolices que lhe disse, hoje. E mais: terei de aceitar sua hipótese de que sou uma neurótica, com o tal Édipo mal solucionado e com minha parte sexual esculhambada inconscientemente. Francamente, a outra hipótese era bem mais agradável a meus olhos.      — A da reencarnação?      — É. Eu já começava a crer que era sua contemporânea naquela famigerada ilha.      — Ludmila, a Psicanálise não explica tudo, ora bolas! Pode ser que a tal mulher tenha tido o processo do modo como o Dr. Laercy descreveu, mas e daí? Isto não quer dizer que o fenômeno da reencarnação não exista. Ambos os fenômenos podem ocorrer sem que nenhum deles exclua o outro. Aliás não vejo qualquer ligação entre eles que possa levar à conclusão de que por se ter provado a hipótese psicanalítica da memória fetal, tenha-se necessariamente de chegar à conclusão de que a reencarnação não existe. Acho que é forçar demais a barra, você não? No meu modo de ver, o que a Psicanálise conseguiu comprovar foi um passo intermediário para se provar a reencarnação ou transmigração da alma, como dizem que é o mais correto.      — Que passo? – perguntou Ludmila sinceramente interessada na lógica de sua colega.      — O de que o que está no ventre da mulher gestante ultrapassa o mecanismo fisiológico. É algo transcendental. A própria ciência afirma que a massa encefálica do feto...no caso dos de três meses, é apenas um pequeno tubo gelatinoso e não tem condições de gravar nada. E se é assim, então, o que tem memória é aquilo que chamamos de espírito ou de... de alma, não é?      — Parece lógico – disse Ludmila, admirada.      — Então, o caso do Dr., Laercy vem, ao contrário, comprovar que alguma coisa que transcende o físico, o aqui e agora, está ocorrendo e tomando forma no ventre da mulher grávida. E não depende, quanto a processos psíquicos, dos mecanismos neuronais ainda em formação.      — Mara, você está-me saindo melhor que a encomenda. Não sei se sua lógica é certa, mas que isto me reanimou, reanimou sim.      — Muito bem. Então, vamos embora. Já estou mais do que satisfeita. E estou exausta, diga-se de passagem.      — Bem... E a sessão de hipnose?      — O que tem ela?      — A gente faz ou não?      — Faz, ora essa. Por que não?      — Pensei que sua analista...      — Nossa analista – corrigiu Mara.      — Sua. Eu não pretendo voltar lá, não. Você me convenceu de que há uma esperança de a reencarnação ser um fato e eu me apego a ela. Continuo não desejando me deixar abater pela psicanálise.      — Como quiser. Eu ainda vou continuar a freqüentar a doutora.      — E por que? – admirou-se Ludmila.      — Bem... Pra falar a verdade, ainda não sei ao certo. De alguma maneira não sei dizer, mas acredito que ela ainda me será de utilidade.      — Você é quem sabe...      As moças se retiraram e foram para casa. Soavam as 23 horas.      Dezesseis e trinta. Fratelli acaba de receber o passe livre para se encontrar com Luís Filipe. Respirou fundo. Como seria a recepção?      Entrou no elegantíssimo escritório. Atrás de uma imponente mesa de mogno, cabeça curvada sobre uns papéis que assinava, estava o rapaz a quem agredira na praia.      — Por favor, queira sentar-se. Deixe-me terminar de assinar estes contratos e já lhe dou toda a atenção, sim? – Luís Filipe falou sem erguer a cabeça.      — Pois não, senhor – disse respeitosamente Fratelli.      Quando o jovem finalizou as assinaturas e fechou a pasta, Fratelli fingiu que estava muito interessado num quadro à sua esquerda.      — Muito, bem, Sr... – disse o rapaz, sério.      Fratelli o olhou nos olhos. Ele não pareceu reconhecê-lo.      — Enrico Fratelli, Sr. Luís, advogado do Banco Kamuratti. O senhor Kamuratti me encarregou de vir pessoalmente trazer-lhe estes documentos. Ele disse que são importantes para o senhor.      Luís Filipe aceitou o envelope e o abriu, lendo o conteúdo. Ainda não demonstrava ter reconhecido Fratelli. O facínora resolveu não esperar mais. Levantou-se e foi até a janela do prédio. Situado na praça Serzedelo Corrêa, trigésimo andar, a vista que dali se descortinava era muito bela.      — Preciso pedir-lhe desculpas, senhor – disse, de costas para o seu anfitrião.      — Por que? – perguntou o rapaz.      — Pelo incidente na praia – disse Fratelli.      — Ah... aquilo? Já está esquecido – disse Luís Filipe descuidadamente.      — Bem, eu lhe agradeço sinceramente. As mulheres que perseguíamos tinham tido a ousadia de violar a residência do Dr. Kamuratti apresentando-se como policiais, justamente no dia em que o filho dele, o Dr. Anteu Kamuratti, fora seqüestrado.      — E não eram? – perguntou Luís Filipe, interessando-se.      — Não, senhor. Investigamos na Polícia Federal, mas lá não consta nenhuma Irina Hess como agente especial.      — Ora vejam só – disse Luís Filipe – elas nos enganaram direitinho, as danadas.      — Estavam em sua companhia? – perguntou Fratelli, olhando o rapaz de frente.      — Sim. No banco de trás do carro. Foi por isto que não deixei aquele homem aproximar-se de meu automóvel – disse ele.      Enrico Fratelli soltou uma sonora gargalhada. Luís Filipe não o associava com “aquele homem”. Talvez a tensão do momento não lhe tenha deixado fixar fisionomias. Estava salvo. O rapaz bem podia estar pensando que “aquele homem” tinha sido alguém mandado a serviço dos Kamuratti. Falou entre risos de alívio.      — En...então o senhor... o senhor escon...escondia as duas embusteiras... Mas... mas isto é... é hilariante! Os homens suaram as camisas para descobrir onde elas estavam... E elas estavam bem ali, debaixo do nariz deles!      E Enrico Fratelli ria como se aquilo fosse uma gostosa piada. O rapaz, a princípio desconfiado, terminou por também cair na gargalhada.      — Foi muito bom, não foi? – disse entre risos. – Eu enganei também o policial. Inacreditável é que ele estava bem ao lado de meu carro, bastava só dar uma olhada lá pra dentro e veria tanto minha noiva quanto as duas sem-vergonhas, e ele não o fez. Sabe por que?      — Por que estava apaixonado pelos seus belos olhos! – zombou Fratelli estrondeando de rir.      Após o momento de hilaridade, Luís Filipe, enxugando os olhos, indagou:      — E quem eram elas? Você sabe?      — Não, senhor. A gente tem andado às escuras. Desconfiamos que eram contato dos seqüestradores. Infelizmente o senhor as ajudou a escaparem – o estratagema deu certo. Luís Filipe ficou sério e olhou para o assecla de Kamuratti.      — Oh... Bem, não foi minha intenção prejudicá-los...      — Ora, não se culpe. Acho que qualquer um cairia na conversa delas. Eram muito astutas.      — É... Para entrar na residência do Dr. Kamuratti e o enganar é porque são muito espertas.      — Bem... O que se vai fazer, não é?      — Eu gostaria de ajudar, sinceramente. Mas fi-las descerem no Alto da Boa Vista. Devem ter tomado um táxi...      — É... Perdemos a oportunidade, talvez a única, de conseguir alguma pista do Dr. Anteu.      Luís Filipe ficou pensativo. Fratelli esperou ansioso, mas o rapaz meneou a cabeça.      — É, não recordo de nada que lhe possa ajudar. Elas estavam muito apavoradas com o Camaro que os homens usavam e nada do que disseram, pelo menos que eu me lembre, dá qualquer pista...      — De qualquer modo, muito grato, Dr. Luís Filipe. Ah, queira dar os meus pedidos de desculpa à sua noiva. Que ela compreenda que os homens estavam muito tensos...      — Não se preocupe, Sr. Fratelli. Milena compreenderá, pode crer.      — Bem, se não tem mais nada para mim, queira perdoar-me. Eu não desejo tomar mais de seu precioso tempo.      — Não, não. Esteja à vontade. E muito grato por ter vindo. Foi muito bom haver desfeito a má impressão – disse Luís Filipe. – Até à vista, Dr. Enrico.      — Até, Dr. Luís Filipe.      E Fratelli se encaminhou para a porta com um forte sentimento de frustração. Quando já estava no hall de elevadores, Luís Filipe veio até ele.      — Doutor Fratelli – chamou – queira vir até meu escritório, por favor. Creio que temos uma pequenina chance de descobrir quem são as duas sirigaitas.      Fratelli sentiu o coração saltar. Voltou pressuroso.      — E então? Do que se trata? – perguntou tão logo Luís Filipe fechou a porta atrás de si.      — Quando desceram do carro, a tal de Irina disse-me que se eu desejasse alguma coisa na polícia era só procurar por ela. Pode ter sido apenas bazófia, mas vou dar um telefonema para lá, me identificar e pedir que ela me ligue. Quem sabe?      Fratelli achou a idéia muito fraca. As mulheres não eram policiais e certamente ninguém as conheceria lá. De qualquer forma...      Luís Filipe fez a ligação. Uma voz de mulher se fez ouvir.      — Polícia Federal, boa-tarde. Em que podemos ser úteis?      — Aqui é o Dr. Luís Filipe Nettus Filho, dono da companhia de taxis aéreos “CÉU AZUL”.      — Pois não, senhor Luís Filipe. Em que a Polícia Federal o pode ajudar?      — Bem, há coisa de dois dias atrás...      E Luís Filipe contou com detalhes o acontecido. Do outro lado a sua narrativa era gravada e o seu telefone era detectado pelo Bina, confirmando que o telefonema estava sendo dado realmente do edifício sede da famosa Cia de Táxis Aéreos. Quando ele acabou de contar o ocorrido a moça lhe perguntou.      — E o senhor deseja, agora, encontrar essa agente... É isso?      — Sim, senhora. Isto é possível?      — Sem querer ser indiscreta, mas podemos saber o motivo de seu pedido, senhor Luís Filipe?      — A moça disse que em troca de meu favor, ela se dispunha a me prestar ajuda no que lhe fosse possível. Creio que eu necessito de sua ajuda, agora.      — Podemos saber do que se trata, Sr, Luís Filipe?      — É um problema familiar, compreende? Eu não gostaria de expor o assunto assim. É um favor pessoal... a senhora me entende?      — Perfeitamente. Peço-lhe que aguarde. Nós voltaremos a lhe contatar tão logo localizemos a agente. No momento não temos informações. Talvez seja alguém de outro estado.      — Está certo. Quando terei o retorno?      — O senhor ficará aí até o final do dia, não?      — Sim.      — Bem, creio que lá pelas 18h teremos alguma informação a lhe dar. Boa-tarde, Senhor.      E o telefone foi desligado.      — Você quer esperar? – perguntou Luís Filipe a Fratelli. Este, embora não o dissesse, não acreditava que alguma coisa saísse dali. Para não ser descortês, disse:      — Não, senhor. Não posso ficar. Tenho algumas providências a tomar ainda hoje. Negócios do Banco. Mas deixo-lhe o meu cartão. Se houver alguma novidade, queira ligar. Se eu não estiver, deixe o recado em minha secretária eletrônica. Eu lhe ficarei muito agradecido. E creio que o Dr. Kamuratti também.      — Não seja por isto. Eu vou gostar de ver aquelas duas metidas a sabidas, enroladas com a Lei.      “ Não será bem com a Lei que elas vão-se enrolar, nem o senhor saberá de nada a respeito ” – pensava Fratelli sorrindo e apertando a mão de Luís Filipe em despedida.      Voltou ao banco e relatou a Kamuratti o que se passara.      — Foi muito hábil de sua parte – disse Kamuratti, satisfeito. – O Luís Filipe nos dará a informação se a P.F. lhe disser alguma coisa. Quero que fique em seu escritório e aguarde o telefonema dele.      — Mas senhor... O senhor acredita que...?      — É nossa única oportunidade, não é?      — Está certo.      Fratelli foi para o escritório, contrariado. Tinha outros planos em mente e nestes planos Glauce tinha papel de destaque.      Passava da meia-noite quando Ludmila chegou a seu apartamento e se jogou no divã. Estava muito cansada. Ligou a secretária eletrônica enquanto se servia de um drink. Nada que interessasse. Estava a caminho do banheiro quando ouviu a voz de sua velha amiga da P. F.      — Ludmila, aqui é Ivana. O Sr. Luís Filipe está à procura da agente Irina Hess. Nós sabemos que você tem usado este disfarce, com o consentimento do chefe desta seção. É aconselhável que entre em contato com ele. Luís Filipe é o rapaz que você e uma sua colega envolveram numa aventura, na Barra, está lembrada? Espantada de que saibamos da história? (riso) Somos a Polícia Federal, não esqueça. Tchau!      Ludmila parou em seco. Voltou à sala e tornou a ouvir o recado. “ Ora essa, não é que o talzinho parece que precisa de mim? Menos mal. Só não sei se ele terá a agente para o que quer que seja... ” e Ludmila foi para o banho sorrindo.      O dia terminara quando Franco, o repórter fotográfico, chegou ao jornal EL MONDO”. Foi comunicado que sua amiga Tamara já o procurara uma dezena de vezes.      — O que ela quer? – perguntou ao colega que lhe deu a informação.      — Ligue pra ela. É a melhor pessoa para lhe dar esta resposta – disse o outro, sério.      — É. Tá certo. Obrigado pela dica! – ironizou Franco.      — Disponha – foi a resposta lacônica.      Franco ligou para Tamara.      — E aí, gata parda, o que você quer comigo?      — Oi, assanhado. Onde diabo você se meteu o dia inteiro?      — Fotografando os sacanas desta maravilhosa cidade. Tava ardendo de saudade de mim, não é? Eu lhe disse que um dia você não ia resistir a este gostoso aqui. E então, a cama é pra agora? Aproveita que...      — Mas você tem lingua comprida, hein? Ainda bem que só é fotógrafo. Se fosse repórter de notícias, não tinha pra mais ninguém.      — Conversa mole, gata parda. Eu só canto você. Um dia, você se descuida e aí, zás!      — Zás o que?      — Cama!      — Ô, Franco, como é que você agüenta andar com um troço destes o dia inteiro na cabeça, hein? – brincou Tamara, divertida.      — A culpa é sua. Você colocou ela no meu crânio. Não acha que já é tempo de a gente colocar ela no lugar que é dela por direito?      — E que lugar é este, posso saber?      — Debaixo de nós dois, ora!      — Vai esperando, vai esperando. Enquanto isto, que tal você vir até aqui? Precisamos ter uma conversa.      — HEI, turma! É hoje! – gritou Franco para a sala inteira com a boca próxima ao telefone – a gata parda tá me convidando! Morram de inveja, seus panacas! Morram torrados aí nessas maquininhas frias e coloridas. Eu vou pro céu, AGORA!      Tamara se dobrava de rir, do outro lado. Podia imaginar a algazarra na sala de seus colegas. Franco não tomava jeito mesmo. Era irreverente, mas ela não o trocaria por nenhum outro companheiro para acompanhá-la como repórter fotográfico. Sabia fotografar como ninguém. Além do que era fiel, amigo e leal até a morte. Ela confiava nele plenamente.      Quarenta minutos depois Franco irrompia como um furacão e foi direto dar um beijo nos lábios de Tamara. A moça não se recusou. Foi um beijo cândido, como sempre o fazia Franco.      — E aí, onde é que dói? – brincou ele.      — Dói aqui, ó – disse ela, apontando para as fotografias. – Quem é o cara?      — Ah, te peguei! Agora, vai dar. Ou dá, ou não tem a informação.      — Tá, tá, eu dou, prometo. Agora, diz, quem é o figuraça? Você é um profissional que não fotografa à-toa. Quem é este homem?      — Você prometeu, não esqueça – a cara de lobo faminto que o rapaz fez pôs a moça a rir descontraída. Ela adorava estar ao lado de Franco. Com ele, não havia mau humor nem pessimismo.      — Não vou esquecer. Quem é o homem? – falou por entre risos.      — Não sei – respondeu Franco, após olhar rapidamente para as fotos. – Sinceramente, ainda não sei o nome dele. Mas sei que tem andado na cola do Kantor. Tem feito muita pergunta, também, sobre o nosso peixe. E o tem seguido por várias vezes. Até no DETRAN já andou averiguando o homem. É italiano e chegou ao Brasil há coisa de uns seis meses.      — Como sabe disto?      — Eu me aproximei dele numa churrascaria e batemos um papo descontraído. É doido pelo Milan. Eu, pelo Flamengo. Vai daí, sabe como é, né? Ninguém resiste a um papo sobre mulher e futebol. Principalmente um italiano.      — Não se apresentaram?      — Não. Eu não queria me dar a conhecer. Menti. Disse que era vendedor da De Millus...      — Cruzes, logo da De Millus?      — E por que não? É uma firma como outra qualquer. E vender soutiens é muito bom, você não acha?      Tamara sorriu. Lá vinha gozação, mas ela preferiu cortar a brincadeira.      — Tá, tá bom. O que mais descobriu sobre o sujeitinho?      — Nada. Ele é muito escorregadio e... tem um olhar que gela a gente.      — Você... você, com medo?! Não acredito!      — Não, falo sério. Não é medo. É... É... É um estado de alerta o que o olhar dele nos desperta. É como se houvesse um perigo iminente a nos espreitar por trás daqueles olhos – e Franco gesticulava e se esforçava para conseguir imitar o olhar de mau do tal sujeito. Conseguiu impressionar sua amiga, embora nem de leve tivesse conseguido arremedar o sujeito das fotos.      — Fala sério? – perguntou a repórter, admirada pela impressão que o desconhecido tinha causado em Franco. Ele não era muito de se ligar nos outros.      — Falo sério, sim. Muito sério, mesmo. O sujeito é impressionante! – enfatizou o fotógrafo.      — Quero ver este sujeito de perto – decidiu-se a repórter.      — Não aconselho. E falo sério!      Tamara ficou um momento estudando o rosto do parceiro. Sim, ele estava sério, o que era raro em sua vida. Aquilo impressionou a moça.      — Por que?      — Olha, acho que você nunca mais ficaria segura. Aquele homem é um animal em pele de cordeiro. Se põe os olhos em você e a deseja – e vai desejar, sendo você o petisco que é – então, vai persegui-la por todo o país. E eu não vou gostar.      — Tudo bem. Sei me defender, não se preocupe.      — Sei não... Acredite em mim, por favor. É melhor que mantenha distância dele.      — Onde a gente pode dar de cara com ele? – perguntou Tamara, ignorando a recomendação do amigo.      — No Fórum. É advogado – respondeu Franco com ar desanimado.      — Ótimo. Vou lá amanhã – decidiu a repórter.      — Não dê mostras de que me conhece, falou?      — Tá bem. Se isto vai-lhe deixar calmo... Agora, vamos embora. São quase l9h e eu estou cansada. Quero tomar um banho e deitar.      — Tem certeza de que não está precisando de companhia? Eu posso esfregar-lhe as costas. Sei fazer uma massagem que...      — Nem pensar. Sou virgem e vou continuar assim.      — Mas quem esta falando em virgindade aqui, é você.      — É, mas quem está com a intenção de acabar com mais uma, é você.      — EEEUUU? Que maldade, gata parda. Sou tão inocente.      E os dois saíram brincado. Tamara deu carona ao colega até o prédio onde ele morava com a família.      — Até amanhã, gata parda – disse Franco descendo e lhe dando um beijo de despedida, como sempre, nos lábios.      — Até amanhã, “seo” Don Juan de subúrbio – respondeu Tamara com um sorriso carinhoso para o companheiro a quem amava como a um irmão. Conhecia a família dele e se davam muito bem. Tinham aquele mesmo comportamento diante de todos e isto era muito reconfortante para ela. Era aceita pelas crianças e por Aracne sem qualquer constrangimento. Retribuía isto com um profundo afeto amoroso por eles.      Dezenove horas. Fratelli cansou de esperar. Estava na hora de ir para a Academia. Saiu do escritório e dez minutos depois a secretária eletrônica registrava esta chamada:      “ Dr. Fratelli, aqui é Luís Filipe. A Policia Federal localizou a agente Irina Hess. Parece que ela é mesmo policial e nós nos enganamos... ou fomos enganados. Ela deverá entrar em contato comigo amanhã. Vou pedir à moça que venha ao meu escritório às l0h, se ela me contatar pela manhã. Às 16h, se ela me contatar à tarde. Se o senhor quiser estar com ela, venha aqui nestes horários. Minha secretária já tem ordens de o deixar passar livremente. Boa-noite.      Às 14h daquele mesmo dia, Aquiles chegou à academia. Fora solicitado por Kimura a comparecer lá naquela hora e, se possível, a limpar a agenda por toda a tarde.      — O que há? – perguntou, cumprimentando Kimura à moda oriental. O japonês gostava daquilo.      — Aquiles-san, o senhor corre perigo de vida. Precisa aprender a se defender, já. Ponha o quimono e venha para o dojô.      Aquiles foi ao vestiário intrigado. Vestiu o quimono e se encaminhou para o dojô, como solicitado. Kimura já o aguardava.      — Aquiles-san – disse o sensei – Fratelli-san quer feri-lo de morte. Tentará isto hoje a noite. Temos cinco horas para treino de auto-defesa em jiu-jitsu e aiki-dô.      Aquiles não era praticante daqueles estilos de luta, porém tinha resistência suficiente para ficar cinco horas no dojô praticando as técnicas avançadas de ambas. Ao final das primeiras duas horas, contudo, já começava a duvidar se chegaria ao final ao menos em condições de ir para casa. Kimura não dava sinal de cansaço. Os tombos e os golpes eram treinados à exaustão. Principalmente as defesas contra os ataques em ashi-wasa, ou seja, ataques com as pernas. Praticou, apenas, seis defesas em jiu-jitsu e seis em aiki-dô. Mas elas foram gravadas a fogo em seus músculos. Respondia com reflexos rápidos aos ataques violentos de Kimura. Estava todo dolorido, mas estava fascinado.      Em ambos os estilos, os contragolpes eram terríveis e mortais. E eram fáceis de decorar porque tinham uma seqüência de movimentos muito similares. Às 16:30h Kimura deu-se por satisfeito.      — Aquiles-san – disse o sensei – você aprendeu muito bem estas defesas. Elas poderão salvar sua vida. Vá descansar, agora. Vai precisar de estar bem repousado, pois a rapidez é o fator mais importante no contra-ataque. Lembre-se: Fratelli-san vem descansado e disposto a acabar com você. Descanse.      Aquiles não foi para casa. Tomou um banho frio demorado e se entregou a uma repousante massagem oriental com Sumiko. Só percebeu que havia dormido profundamente quando ela, suavemente, lhe tocou as costas, chamando-o pelo nome.      — Aquile-san – disse a massagista – deve despeltar agola. Homem mau plóximo chegar.      Fantástico o que Sumiko podia fazer com as mãos. Nenhuma dor muscular. Nenhum cansaço. Estava como se tivesse acordado de um longo sono repousante. E só dormira uma hora.      — Mestle Kimura – disse a oriental naquele modo atrapalhado de falar – mandou vestir kimono dele. Enxuto. Seu, suado. Não é bom saúde, complende?      Aquiles entendia. E entendia, também, que Kimura não queria que Fratelli desconfiasse de que ele estivera treinando. Isto o colocaria em alerta e prevenido.      Foi para o dojô. Aos poucos os outros foram chegando e deram início aos treinos. Fratelli chegou dez minutos atrasado. Cumprimentou o mestre, fez o mesmo com os companheiros e integrou-se ao grupo disciplinadamente – para surpresa de todos.      Kimura não ministrou aula de combate. Empregou o tempo a exercícios respiratórios e à concentração do ki. Aquiles gostava daquelas aulas, tidas por muitos – principalmente por Fratelli – como um desperdício de tempo. Não viam vantagem em ficar sentados sobre as pernas, olhos fechados, respirando profundamente e, a cada dez inspirações profundas, emitir um “ki-iai” abdominal. Era cansativo para os que não dominavam a técnica e o som emitido dava uma sensação de ridículo bastante desagradável. Sem contar que, após trinta minutos, além de cansado, o aluno corria o risco de sentir fortes cãibras abdominais. Aquiles era um dos quatro que estavam mais próximos do ponto ideal e, por isto, não sentiam tão ruim assim, o exercício. O “ki-iai” de Fratelli, dentre todos era o mais sonoro, o mais vibrante, o mais forte. Mas era o mais errado. Após uma hora daquele exercício salutar, Kimura deu a aula por encerrada.      — Mestre – disse Fratelli, mirando o tatami, como era o correto – e o combate?      — Hoje, não.      — Por que esconde o Aquiles sob o seu “gui” (uniforme)? Ele não é uma menininha que precise eternamente da proteção de seu pai – disse Fratelli firmemente.      — Está-me insultando de novo? – falou Kimura com voz ameaçadora.      — Não, mestre, mas o senhor coloca Aquiles na incomoda e desconfortável posição de “filhinho de papai”, se me entende. Não acredito que algum de nós, aqui presente, goste desta situação. Se, porém, ele aceitar permanecer assim, sempre sob a sua guarda, então, estou satisfeito.      — Por que? – rosnou o japonês.      — Porque ele mostra a todos que é um covarde e eu não me rebaixaria a me bater contra um covarde que se esconde atrás das calças do papai.      Fratelli manteve-se sempre de olhos fitos no dojô, mas sabia que Kimura o fuzilava. Arriscava muito provocando-o daquele jeito, mas só assim conseguiria que ele lhe desse a oportunidade de enfrentar o seu detestado companheiro.      Aquiles observava os dois. Em sua mente estava a recordação da mensagem em sua secretária. Teria sido Fratelli o autor da brincadeira de mau gosto?      — Aquiles – chamou Kimura – você tem a palavra. Fratelli-san o insulta. Não me compete mais intervir.      — Kimura-san – disse o médico – não posso aceitar o que meu companheiro diz a meu respeito. Ele está equivocado. Eu não estou me ocultando atrás do senhor. O senhor o está protegendo de mim, mas ele é cego. Eu lhe peço que me deixe abrir-lhe os olhos.      — Que assim seja – disse Kimura, sério. Depois, fitando Fratelli nos olhos avisou – se houver danos físicos irreparáveis em qualquer dos senhores, aquele que causou o dano sofrera a mesma coisa de mim.      Fratelli curvou a cabeça.      — Mestre – disse – apenas vou mostrar que seu protegido, meu companheiro Aquiles, é um fracote incompetente. Haverá danos, sim, mas por incompetência dele para defender-se. Contudo, prometo que não lesarei seu franguinho além da conta.      O japonês nada disse, mas seu olhar para Fratelli foi de gelar o sangue nas veias.      — Combatam – ordenou, e saiu do dojô – não haverá mediação. A luta só parará quando um dos contendores não mais puder lutar. Eu não quero ser obrigado a interferir. Cada qual sabe perfeitamente quando o seu oponente está derrotado. Quando isto acontecer, deve parar a agressão. Se eu for obrigado a intervir, castigarei sem piedade o agressor.      Fratelli sorriu. Aquiles postou-se diante dele e o cumprimentou, mas Fratelli olhou-o com escárnio antes de fazer o cumprimento clássico do karatê. Mal terminou e atacou fulminante. Um poderoso seiken foi lançado contra o tórax de Aquiles, atirando-o de costas no dojô. A pancada tirou-lhe o fôlego, mas ele não se deixou ficar no local da queda. Rolou agilmente sobre si mesmo, mantendo uma perna sempre levantada, em defesa. Fratelli girou em torno de Aquiles, procurando uma brecha para atacar, sem sucesso. Aquiles estava sempre bem posicionado. Repentinamente, quando Fratelli mudava as pernas para novo giro, como um gato seu oponente girou sobre o próprio corpo e lhe atacou as perna de apoio. Fratelli pegado de surpresa, saltou rápido para trás, mas ainda foi alcançado na curva da perna direita, pelo pé de Aquiles, o que lhe fez perder o equilíbrio e quase cair. Isto deu tempo para que Aquiles se levantasse. Novamente eles se defrontavam, estudando-se cautelosamente. Dois vigorosos e certeiros mae-geri foram disparados por Fratelli, mas o detestado parceiro escapou facilmente dos ataques. Em seqüência, Fratelli girou sobre si mesmo e atacou com um poderoso ushiro-geri. O pé lançado para trás passou no vazio. Aquiles não estava lá e isto surpreendeu Fratelli. Mas sua surpresa foi maior quando uma rasteira tirou seu pé de base e o lançou de cara no dojô. Não teve tempo de se posicionar. Aquiles já se grudava nele imobilizando-lhe um dos braços numa chave de jiu-jitsu. Servindo-se de toda a força física que possuía e agindo antes de Aquiles ter encaixado a chave, Fratelli conseguiu safar-se do golpe, mas não logrou desgrudar-se de seu oponente. Golpeou-o violentamente com a mão e o cotovelo, atingindo-o no rosto e nos flancos, Contudo, como não havia distância entre seus corpos, as pancadas não tinham a potência desejada.      Os homens se engalfinhavam furiosamente. Fratelli espumava de raiva. Aquilo não era karatê. Por que Kimura não intervinha? O que diabo de agarra-agarra era aquele? Judô? Não ia adiantar. Ele se safaria e Aquiles iria ver do que era capaz. Mas não conseguia despregar seu detestado parceiro de seu corpo. Percebeu que ele tentava um estrangulamento. Mas para fazer isto, tinha de dar um pequeno espaço. Fratelli estava fechado em si, dificultando ao máximo o encaixe. Quando Aquiles manobrou para o encaixe do estrangulamento, Fratelli atacou. Seu cotovelo subiu num movimento curto e brusco, atingindo o companheiro um pouco abaixo do pomo de Adão. O ponto não era mortal, mas impediu a respiração normal, o que retirou a força de Aquiles. Foi o suficiente para que Fratelli se libertasse. Ele conseguiu alijar seu contendor para longe o suficiente para lhe aplicar um seiken curto, mas preciso. Aquiles teve de rolar e se afastar para minorar a pancada. Ficaram de pé rapidamente. Sem dar tempo para recuperações, Fratelli atacou com um tettsui-uchi, o “martelo de ferro”, golpe dado com a mão fechada, batendo num arco descendente. O golpe acertou em cheio a testa de Aquiles e o fez cambalear, zonzo. O médico esperava um ataque de pernas. Fratelli o surpreendeu totalmente. O médico mal pôde ver seu agressor girar sobre si mesmo e disparar um potentíssimo ushiro-geri. O alvo visado eram as costelas direitas de Aquiles e se o acertasse fraturaria pelo menos três delas, podendo mesmo parti-las ao meio. Aquiles girou sobre si mesmo, num movimento recém-aprendido do aiki-dô, desviando o calcanhar assassino. Segurando a perna agressora com ambas as mãos, Aquiles acertou um chute por dentro, à altura do joelho da perna de base de Fratelli. Este sentiu o golpe e caiu rolando sobre si e apertando o joelho entre as mãos. Não conseguia ficar de pé. Sofrera forte entorse na articulação e a dor era grande. O médico sabia que aquilo liquidara com Fratelli. Cumprimentou-o desportivamente e se ajoelhou, aguardando a decisão do Mestre. Kimura levantou-se e fez o sinal de vitória para Aquiles. Quando este se erguia, Fratelli gritou-lhe o nome. Aquiles virou-se para o seu oponente.      — Isto não vai ficar assim – rosnou Fratelli – alguém vai pagar caro, pode apostar.      A ameaça suscitou uma suspeita no médico. Sem se conter ele caminhou até o oponente caído e, quebrando as regras, disse-lhe entredentes.      — Nunca tente prejudicar a quem amo. Eu lhe prometo: você terá a pele arrancada a cru por mim, entendeu?      — É o que veremos – rosnou Fratelli, massageando o joelho – Você só venceu por acidente e porque foi desleal. Não lutou Karatê. Mas isto foi pura sorte. Eu vou pegá-lo, fique certo.      — Estarei esperando com o maior prazer – foi a resposta. E Aquiles se retirou. Fratelli ergueu-se ajudado por Kimura e foi levado à sala de massagens. Foi doloroso o trabalho da filha do Sol Nascente. Mais tarde, em casa, a dor na articulação obrigou-o a chamar um médico. Tinha sofrido forte entorse. Teria de usar um imobilizador e fazer aplicações de ultra-som, além de ter de tomar algumas injeções a fim de evitar complicações maiores. Tudo isto o punha inconformado com a derrota. Melhor fora que tivesse morrido. Seu orgulho não lhe permitia aquilo.      Tamara e Franco passam o dia zanzando pelo Fórum porém não viram nem sinal do homem que procuravam.      — O que terá acontecido? – perguntou ela ao seu colega.      — Não faço a mínima idéia – disse Franco. – Você reparou que também Kantor está sumido? Acho que isto confirma nossas suspeitas: eles são ou amigos, ou o bonitão está na cola do marginal. Se é isto, a pergunta é: será ele um Federal?      — Um federal tê-lo-ía notado – disse Tamara, cética. – Não acho que seja da polícia.      — A propósito – disse Franco – seu celular está chamando. Não vai atender?      Tamara sorriu e tirou o telefone da bolsa.      — Alô? ... Ludi! O que há?      Ficou ouvindo, fazendo “hum-huns” a intervalos curtos. Depois falou demonstrando certa desconfiança.      — Não, minha amiga, eu não creio que deva ir lá. Nem de polícia, nem de repórter... Não sei não, mas isto não me cheira bem. Kamuratti é amigo dos ricos e esse sujeitinho é milionário. Pode estar armando uma pra cima de você e de sua parceira... Como? Ela não mais é sua parceira?... Que pena! Eu tinha gostado dela, apesar de ser muito, mas muito crua nisso... O quê? Eeeuuu? Mas... Está bem, vamos-nos encontrar dentro de... – olhou o relógio – uma hora e trinta minutos. Pode ser no Amarelinho, que tal?... Então, tudo bem.      — O que ela quer? – indagou Franco, curioso.      — Sarna para se coçar – respondeu Tamara.      — E de onde vem essa sarna?      — Dos Kamuratti.      — Fiuuu! – assoviou Franco – Ludmila anda mexendo neste vespeiro?      — Se anda. E o melhor: me chamou para mexer junto.      — Você não vai... Ou vai?      — O Sol vai brilhar amanhã? – respondeu Tamara – É claro, “seo” boboca. Vou e você vai comigo.      — Logo eu? – chacoteou o rapaz.      — Logo você. Se eu morrer, não quero deixá-lo infeliz e sofrendo as dores da saudade. Você vai comigo.      — Pro céu ou...?      — Talvez pro ou, quem sabe?      — Bem, dizem que no “ou” a gente pode... Sabe como é, a gente faz fuc-fuc...      — É, lá deve ter uma porção esperando por você, “seo” tarado sem-vergonha. Agora, vamos andando.      — Mas é cedo.      — Nem tanto. O trânsito está uma droga e nós vamos a pé.      — Vai desistir de encontrar o “bonitão”?      — Não. Vou somente adiar. Eles deverão voltar a aparecer e, então, nós colamos nos danados.      — Nós?      — Sim. De agora em diante, você não vai andar por aí fotografando machões bonitões sozinho, não. Até porque pode-se acostumar e eu não vou gostar de vê-lo... segurando a bandeja.      — Nem daqui a mil anos você terá tal oportunidade – rebateu Franco apanhando seus apetrechos e acompanhando a amiga – Não quero ver você se desmilinguindo de chorar por ficar virgem. E se um outro tentasse... bem, eu mataria o safado, pode acreditar.      — Deixa estar que eu acredito – zombou Tamara.      E brincando e rindo, lá se foram os dois rumo à Cinelândia, sem pressa nenhuma. Tinham tempo.      Mara estava de mau humor. Diante de seu chefe, reclamava de ter recebido ordens de regressar ao seu posto natural.      — Mas o que há? – estranhou o chefe da seção. – Você detestava a Ludmila e, agora, briga para continuar na companhia dela? Eu não estou entendendo. O que há com você, Mara? Você não gosta da “Policial”. Todo mundo tá cansado de saber disto aqui, na redação. Que paixonite é essa, agora, quer-me explicar ?      — A gente pode mudar de opinião, não pode? Eu gostei de começar a trabalhar no caso do tal Anteu Kamuratti. E quero ir até o fim. É somente isso.      Jasão considerou, silencioso, a sua repórter. O que ela dizia era plausível, mas não podia admitir que fosse a verdade, naquele caso específico.      — Mara – falou, coçando o queixo –, você saiu das sociais e foi para o “Mausoléu”. Agora...      — Eu não fui para o “Mausoléu”. Não ainda.      — Errado. Você pediu sua transferência para lá. E fez isto em sigilo, o que muito me chateou.      — A transferência chegou?      — Ainda não. Eu coloquei uma pedrinha nela, sabia?      — E por que fez isto?      — Você acha que eu ia perder minha melhor repórter social assim, sem mais aquela?      — Você não tem somente eu na social, droga! E quero ir para o “Mausoléu” porque tenho meus motivos.      — Pode ser. Mas em primeiro lugar estão os motivos e os interesses do jornal e do público. Está esquecendo-se disto?      — Não. Mas quem lhe disse que o que eu procuro não é do interesse do público, hein?      — Ninguém, porque ninguém sabe do que se trata. Talvez a gente possa, quem sabe? entrar num acordo. Você me conta do que se trata. Se realmente puder interessar ao público...      — Nunca! É segredo pessoal – disse Mara impulsivamente. Jasão ficou a olhá-la com uma interrogação na face. “ Droga ”! – pensou a repórter arrependida de ter falado – “ eu levantei a lebre.      — Segredo pessoal... Segredo pessoal... Isto é muito intrigante, não acha colega? Que segredo é esse que faz com que se esqueça de que para o jornal o público vem em primeiro lugar?      — Nada. Mas eu não estou interessada em discutir o “Mausoléu”. O que me interessa é saber se você vai ou não, me deixar junto com Ludmila e Karina – desconversou a repórter.      — Não. As duas estão muito bem, juntas.      E Jasão voltou a sentar-se mergulhando na papelada e dando clara demonstração de que o assunto estava encerrado.      “ Isto não vai ficar assim, não. ” E Mara se retirou em brasas. Estava realmente contrariada. Não podia ser transferida para onde queria e não podia estar junto com Ludmila. Isto era horrível. O seu chefe não sabia onde as duas tinham-se metido e não podia compreender que longe de Ludmila, Mara seria uma presa fácil para os comparsas de Kamuratti. Estava desolada. Voltou para a mesa de trabalho e ficou a dar tratos à bola para encontrar uma saída. Como participar da investigação? Como estar junto com as outras e saber das novidades e de como fazer para se proteger? Seus olhos caíram sobre a mesa. Algumas notas estavam espalhadas sobre ela. Olhou-as desinteressadamente, com fastio. Um baile de debutantes... Um “ conaisseur ” em visita à cidade, uma vernissage ... Um cruzeiro pelas Antilhas que Milena Forcis pretendia fazer antes de seu noivado ser oficializado... Milena Forcis? Aquele nome não lhe era estranho. Milena... Milena... Ah! Era a garota do bar. A que estava acompanhando o “ playboy ” da moda quando foram perseguidas pelos capangas dos Kamuratti.      Mara levantou-se e se dirigiu para a mesa de Jasão. Ele a olhou desconfiado.      — Vou fazer uma cobertura – anunciou ela.      — É sobre o quê? – indagou ele, arredio.      — A ricaça Milena Forcis. Ela vai fazer um cruzeiro. Parece que é pelas Antilhas. Vou entrevistá-la.      — Ótima idéia – disse Jasão animado – Ela é a “socialite” mais em moda no momento.      Mara olhou-o com um ar de deboche e saiu.      “ Ela está aprontando. Tenho certeza de que está. Mas o que terá em mente ?” – pensou Jasão enquanto acompanhava com o olhar a saída decidida de Mara. CAPÍTULO V OS KAMURATTI        Míriam Fülsenthall mais conhecida como Lucilla Kamuratti, saiu do salão de beleza acompanhada de Milena Forcis. A senhora Kamuratti era realmente de uma distinção impressionante. Uma verdadeira Lady inglesa. A distinção estava desde o vestir até o andar. Milena, mais jovem e mais identificada com os padrões brasileiros de ser, era mais descontraída. Nem por isto, contudo, perdia em elegância. Apenas a sobriedade da velha dama não lhe engessava as ações e o movimento.      — Eu não sei se poderei acompanhá-la em sua viagem – dizia a senhora Kamuratti. – Tenho alguns compromissos inadiáveis a cumprir.      — Ora, não há compromisso que não se possa adiar, minha querida amiga – rebateu sorridente Milena. – Eu pretendo chegar até as ilhas gregas. Será muito divertido. Eu sei que a senhora gosta muito de visitar aquelas ilhas.      — É verdade – disse a velha dama, aguardando enquanto seu motorista abria a porta da limusine para que entrassem – gosto mesmo daquelas paragens. Mas tenho de ir a Israel justamente no período que você escolheu para seu passeio. Sinto muito.      — Ora, isto não é problema. A gente pode dar um pulo até lá, se você quiser companhia, é claro – a jovem falava alegremente, sorrindo como se estivesse muito feliz ao lado da distinta matrona.      — Minha jovem – disse Lucilla Kamuratti olhando Milena nos olhos – o que vou fazer em Israel são negócios. Não será absolutamente agradável para você. Não poderei tê-la a meu lado o tempo todo, como seria desejável. E Israel não é muito agradável nesta época do ano. Além do calor, existe o problema político...      — Que é crônico, diga-se de passagem – cortou Milena jocosa.      — Sim, sim, concordo. Mas a culpa não é dos israelitas, não – rebateu séria a velha dama. – Arafat deveria morrer. Ele é o problema.      Milena viu o rosto da companheira fechar-se e percebeu a irritação em sua voz. Compreendeu que havia mexido em velha ferida e mudou de assunto.      — Alguma notícia de seu filho? – indagou aparentando descompromisso e olhando alheiamente pela janela do carro.      — Ainda não – disse a velha dama sem inflexão emocional na voz.      — A senhora não parece preocupada com o ocorrido... – observou a jovem escrutando-lhe a fisionomia. Lucilla olhou para a moça com aquele olhar cortante como navalha e respondeu polida.      — Não há qualquer razão para demonstrar meus sentimentos, minha jovem. Isto não melhoraria em nada a situação de meu filho. Por isto, guardo para mim os meus pesares.      — Desculpe, desculpe. Não quis ofender...      — Não se desculpe. Você tem sangue brasileiro e os brasileiros são muito... muito... como direi? muito infantis. Só acreditam que alguém está sentido se mostrar-se aflito e torcendo as mãos em desespero. Acho isto muito pueril. A demonstração de nossa dor só faz com que os outros sintam-se reconfortados porque não estão passando por ela. Na verdade, afasta-os de perto de nós. A demonstração do sofrimento por parte de quem sofre só apressa no outro o esquecimento. Eu sofro em família. É assim que somos. É assim que acho correto.      Fez-se um silêncio pesado entre as duas. Milena começava a pensar que não tinha sido uma boa idéia acompanhar a velha dama. Ela era muito azeda, muito seca. Parecia o tempo todo estar sobre uma nuvem, distante, intocável. Sempre superior; sempre acima da plebe ignara; sempre Milady . Isto era demais para ela, jovem e muito carioca. Milena gostava de uma conversa animada com alguém que pudesse ser alcançado. A senhora Kamuratti positivamente não era este alguém.      Notando o silêncio, Lucilla Kamuratti tomou a iniciativa de rompê-lo.      — Às vezes, eu magôo sem querer. Desculpe-me. É que tenho algumas preocupações... muito grandes, se me entende. Bem maiores do que o rapto de meu filho. Não posso fazer nada sobre isto. Não pessoalmente. Já há muita gente cuidando do caso, acredite. Mas há problemas que só eu posso tentar encontrar a solução para eles. Eu e o meu marido. E estes me cansam e me irritam.      — Eu compreendo – disse sem ênfase a jovem Milena.      — Escute – falou Lucilla aparentemente sem notar o enfado na voz da companheira – não é hoje que a tal polícia federal que esteve em minha casa deve ir encontrar-se com o seu noivo?      — É... Acho que é. Eu não sei bem...      — Pois é. O meu marido me disse que nosso empregado e advogado de nossa empresa lhe confirmou isto. Eu pensei que você soubesse a hora do encontro.      — Não, não sei. Na verdade, o Luís só falou deste assunto desagradável por alto. Eu não me interessei. O encontro com aquelas mulheres foi muito incômodo.      — Sim, a palavra é esta mesma: muito incômodo. Mas eu gostaria de estar presente. Queria olhar melhor o rosto da intrometida.      — Por que?      — Porque no dia em que nos incomodou em minha casa eu não pude vê-la bem. Ela estava contra o sol. Queria vê-la em uma luz neutra. Queria gravar-lhe o rosto. E além disto, queria perguntar-lhe sobre a outra.      — Outra?      — Eram duas, está esquecida?      — Não. Lembro que eram duas. Uma loura e a outra, morena.      — Você lhes viu bem as feições?      — Na verdade, não. Eu estava tão apavorada com a história de espiões nos perseguindo que nem mesmo sei o que elas vestiam, se quer saber.      — A emocionalidade de que lhe falei – disse a velha dama. – Se você não fosse tão brasileira, teria centrado mais a sua atenção naquelas mulheres.      Milena se irritou, mas procurou controlar-se. Se soltasse a língua... Mas nada disse. Permaneceu olhando fixamente para a sua interlocutora. Lucilla ignorou seu olhar e consultou o relógio.      — Quase duas horas e trinta. Você acha que seria muita indiscrição nossa, irmos para o escritório de seu noivo?      Uma onda de raiva assomou em Milena. Aquilo era uma invasão de privacidade. Luís Filipe não iria gostar, tinha certeza. Além disto, por que a velha rabugenta queria tanto meter-se num assunto que devia ser tratado pelos homens?      — Não creio que devamos. Seu advogado já deve estar lá. Luís Filipe, também. Nossa presença poderia atrapalhar o trabalho deles. Eu confio em meu noivo. Acho que saberá como agir.      A velha senhora olhou firme para o rosto da jovem Milena. Depois, suspirando, concordou com um aceno de cabeça.      — Eu preciso passar no atelier de Mme. Juliette . Poderia me deixar no próximo quarteirão? – pediu Milena.      — Pois não. Júlio! – chamou a velha senhora pelo interfone do automóvel – Pare na próxima esquina. A senhorita Milena vai saltar.      O luxuoso carro parou. O motorista veio abrir a porta, cerimonioso, e Milena se despediu de Lucilla com um formal aperto de mão. Permaneceu de pé olhando a limusine sumir no trânsito, sentindo-se raivosa e impotente. Aliás, a velha dama sempre a deixava daquele jeito. Só a aturava porque Luís Filipe dizia ser muito importante para ele a amizade com os Kamuratti. Ela, pessoalmente, não se sentia nem um pouco necessitada daquela amizade. Por ela, os Kamuratti podiam morrer que não lhe fariam falta nenhuma. Acenou para um táxi e quando tomou assento pediu a Marina da Glória. Daria uma volta pela Baía de Guanabara para relaxar. Talvez fosse até Angra dos Reis. Era um lugar paradisíaco e sua ilha lá era muito agradável.      Quando passou pela portaria da Marina um bonita jovem se aproximou dela, sorridente.      — Senhorita Milena Forcis?      Olhou o rosto jovem e o sorriso franco da moça. Simpatizou com ela, talvez porque sentia necessidade de se desintoxicar do veneno da velha dama.      — Sim, sou eu. Quem é você?      — Uma repórter – foi a resposta franca.      — Sinto muito, minha cara – disse Milena contrariada – o de que menos preciso, agora, é uma repórter me importunando.      — Então, esqueça a repórter. Receba somente a mim – rebateu a jovem com aquele sorriso cativante e estendendo a mão. Milena olhou aturdida para a sua interlocutora, mas o sorriso dela era tão contagiante que não se conteve e também sorriu. Aceitou a mão estendida da outra, mas ela não disse o nome. Apenas se postou diante de Milena, olhando-a com aqueles olhos brilhantes e claros, que irradiavam sinceridade.      — Tudo bem, tudo bem, você venceu. Mas só se não se comportar como repórter, está bem? – disse a milionária agradavelmente surpresa. A jovem tinha um quê muito especial no rir e no falar que era cativante.      — Pra mim, está ótimo. Mesmo porque não estou nem um pouco disposta a ser repórter, agora – respondeu a jovem.      — Ah, é? E por que?      — Estou chateada, para ser franca.      Ambas riram.      — Eu, também. Como se chama?      — Mara.      — Você me acompanha num drink, Mara?      — Com muito gosto – respondeu a repórter.      — Vamos ao meu iate – convidou Milena.      — Iate? Bem, eu não estou vestida para um passeio de iate.      — E quem lhe disse que vamos passear?      — A senhorita não veio aqui somente para tomar um drink no seu iate, pois não?      Milena sorriu. A moça era esperta. Gostava cada vez mais dela.      — Bem, sua roupa não é problema. Temos quase o mesmo corpo... as mesmas medidas. Eu lhe empresto uma de minhas roupas, está bem?      — Está ótimo.      — Então, vamos.      E as duas desceram para o píer. Andaram lado a lado conversando animadamente sobre a temperatura amena do entardecer daquele dia que fora muito quente. Mara estava agradavelmente satisfeita pelo encontro. Milena não era tão antipática quanto lhe parecera naquele dia fatídico em que fugiam dos asseclas de Kamuratti.      Chegaram ao imponente iate de Milena Forcis. Era um barco impressionante pelo luxo. Logo de saída Mara notou que o corrimão era todo em pau brasil. Os metais eram tão polidos que brilhavam como se fossem ouro. O convés estava muito limpo e encerado, mas não escorregadio. Era um iate muito grande. Poderia facilmente fazer uma viagem transoceânica. Só de subir na embarcação a pessoa se sentia entrando em outro mundo. Um mundo fascinante, à parte da miséria que assola o país da transição. Conforto. Luxo. Sensação de poder... de liberdade. Uma atmosfera de sossego, de paz.      Um marujo de roupas muito limpas se aproximou solícito das recém-chegadas.      — Senhorita Milena, que surpresa. Não fomos avisados de sua vinda.      — Não, Raul, desculpe. O comandante está?      — Não, senhora. Mas podemos chamá-lo pelo rádio. Ele se encontra na Marinha acertando uns papéis para a viagem.      — Deixe. Eu contato com ele pelo celular. Obrigada.      — Vão querer alguma coisa, agora?      — Sim. Vamos querer uma bebida bem gelada e uns tira-gostos. Esta é minha amiga Mara. Vou descer com ela ao meu camarote e lhe dar umas roupas mais adequadas. Peça ao César que nos prepare uns drinks , sim?      O marujo acenou com a cabeça e desapareceu. Milena olhou para Mara e convidou-a a descer.      O camarote de Milena era espaçoso e tinha tudo muito bem arrumado. Mara recebeu um short branco e uma blusa colorida. Trocou-se no apertado, mas confortável toalete. Calçou umas sandálias, também de Milena, e subiram para o convés. A mesinha estava posta e os copos suavam com o gelo.      — Eu gosto muito de uma cuba-libre – disse Milena. – O César deve ter preparado para você, também, mas se quiser trocar a bebida...      — Não, não. Também gosto de cuba libre – disse Mara, satisfeita consigo mesma pela idéia de ter vindo fazer a entrevista.      Sentaram-se nas cadeiras espreguiçadeiras muito confortáveis e ficaram bebericando em silêncio por algum tempo. Um mulato forte, impecavelmente trajado na roupa de mordomo, aproximou-se e apresentou a Milena o celular em uma bandeja de prata.      — Obrigada, César – disse a jovem milionária. Apanhou o telefone e discou um número. Não demorou a ser atendida.      — Comandante Argos?      — Pois não...?      — É Milena. O senhor vai demorar muito a retornar ao iate?      — Não, senhora. Não sabia que ia para aí. Chegarei... em uns 30 minutos, certo?      — Ótimo. Vamos até Angra dos Reis.      Milena desligou o aparelho.      — É muito bom ser rica, não? – Disse Mara. Milena a olhou sorridente e respondeu.      — Não sou rica. Sou milionária. E é bom, sim. Às vezes me dá uma sensação de impotência, sabe?      — Por que?      — Por ver tanta miséria e não poder fazer muita coisa para minimizar o sofrimento dos miseráveis.      — É estranho isto, não? A gente, pobres mortais, pensa que os ricos... milionários, podem tudo.      — Mas enganam-se. A gente, os milionários, somos prisioneiros da bolsa de valores, das minas, dos negócios... Somos, enfim, escravos do jogo financeiro. Temos de estar muito atentos ou Pluto nos foge.      — Pluto?      — Sim, Pluto, o Deus da fortuna. Dizem que ele chega devagar, mas se retira rapidamente. É a lenda, o mito, mas na realidade a coisa é exatamente assim. Mas me deixe ser a jornalista, sim? Me diga: por que você escolheu ser repórter?      As duas mulheres entabularam uma conversa amena e cheia de risos. Ambas sentiam que entre elas crescia uma simpatia diferente e forte. Ambas pareciam conhecer uma à outra há muito tempo. CAPÍTULO VI A VELHA DAMA        Fazia dez minutos que tinham chegado ao Amarelinho e estavam na metade do chope quando Ludmila apareceu.      — Chegou cedo – disse Tamara.      — Oi! – cumprimentou Ludmila.      — Oi! – respondeu Franco, erguendo-se e puxando a cadeira para a repórter de “EL MONDO” sentar.      — Obrigada, Franco. Um chope pra mim também – disse ao garçon que se aproximara.      — E então? – indagou Tamara. – O que resolveu?      — Resolvi que vou ao encontro – respondeu Ludmila.      — Está doida? Vai entrar na cova do leão. E se o tal sujeito que perseguiu vocês estiver lá?      — O que a faz pensar que esteja?      — Luís Filipe é amigo dos Kamuratti. O homem disse que trabalhava para o banqueiro. Some dois mais dois e terá o mesmo resultado que eu.      — Pode ser... Vai ser interessante. Eu quero mesmo ver novamente aquela fera humana.      — Por que o chama de fera humana? – perguntou Franco.      — Porque ele é isto. Uma fera. Uma fera que fascina, mas uma fera.      — E qual é o interesse em ver a fera de novo? – indagou Tamara. – Não acho que deva expor-se assim.      — Eu preciso. Já cutuquei a cobra na toca. Agora, tenho de acompanhá-la de perto. E para isto é necessário que a faça vir no meu rastro. Você vai comigo, Tamara. Eu não tenho mais a companhia de Mara. Você vai substituí-la.      — Não dá. Nós duas somos muito diferentes. Pra começar, sou jambo e ela é branca. Depois, ela é bem mais alta que eu.      — Tudo bem, tudo bem. O desgraçado não viu nenhuma de nós. A única vez que cruzamos foi no bar, lá na Barra. Eu não creio que tenha fixado nossa imagem. Não era para nós que estava polarizado. De qualquer modo, a gente tem de se arriscar.      — E eu? Onde entro nessa história? Sim, porque vocês não estão pensado em me deixar de fora, não é? Se estão, podem tirar o cavalinho da chuva – disse franco interessado.      — Um fotógrafo? Como explicaríamos a sua presença, meu caro? – indagou Ludmila.      — Não sei. Pensem em algo, ora. Vocês são as patroas. Eu só obedeço.      — Muito cômodo. Mas se lhe acontecer algo, a gente é que vai sentir a culpa – disse Tamara.      — Sei que você me ama perdidamente, gata parda. Mas não venha com esta história de que deseja me proteger, não. Eu não quero você dando sopa perto de uma fera qualquer. Esse material tem de ser meu, tá sacando? – brincou Franco.      — Não brinque, Franco – disse Ludmila muito séria. – O perigo é real.      — Eu não fujo ao perigo, ruivinha tesão.      — Sei que não. Mas não vejo com bons olhos você nos acompanhando até o escritório de Luís Filipe. O que diabo Irina Hess estaria fazendo com um fotógrafo a tiracolo, hein?      — Mas eu não preciso ir lá. Fico na rua, vigiando. Se tiver alguma sujeira sendo preparada... Chamo o delega e pronto. Quando minha gata parda descer, tudo estará limpinho, limpinho.      — Essa paixão é crônica, não é? – ironizou Ludmila olhando para Tamara.      — Pior que bronquite, minha cara. Pior que bronquite asmática – E Tamara riu divertida.      — Bom, vamos falar sério, agora. Vamos os três. Acho uma excelente idéia o Franco estar lá embaixo escrutando o ambiente. Mas ele tem de chegar separado de nós, tá claro?      — Hum-hum – fizeram os dois, atentos.      — Tamara e eu, devidamente caracterizadas, subimos e nos apresentamos ao Dr. Luís Filipe. Mesmo que o tal sujeito esteja lá, não creio que se atreva a tentar alguma coisa contra nós dentro do edifício. Ele certamente vai optar por nos seguir de perto e atacar quando julgar que é o melhor momento. Contudo, se alguma coisa esquisita estiver preparada lá embaixo, o Franco nos avisa.      — Como?      — Simples. Você nos chama pelo celular de Tamara. Depois, chama o detetive Damastor. Vocês se conhecem, não conhecem?      — Claro. Aliás, o homem anda que é uma pilha. Também, depois do que fizeram à família de seu compadre...      — Muito bem. Até aqui, tá entendido. Mas e se não houver nada de anormal cá embaixo e o fera estiver lá em cima? Como agiremos? – indagou Tamara.      — Bem, aí o Franco vai ser muito importante. Ele tem de preparar alguma coisa para nos afastar do homem. E advirto que não vai ser fácil. O sujeito é uma águia. Para facilitar as coisas, Tamara e eu vamos separar-nos quando chegarmos ao térreo como precaução para o caso de estarmos sendo seguidas. O homem terá de optar por uma de nós – respondeu Ludmila      — Isto não será problema para ele. Não deverá ir só. Um segue você e o outro a Tamara. E eu, como vou fazer? – questionou Franco com o cenho franzido.      — Você segue aquela que o homem seguir – sugeriu Ludmila.      — E a outra ? – perguntou Tamara.      — Se safa sozinha do assecla. O mais perigoso é o fera. Ele é capaz de matar sem pestanejar – respondeu Ludmila.      — Quem lhe garante que o assecla não seja do mesmo modo? – questionou Franco, duvidoso.      — Ninguém garante. Eu apenas suponho.      — Acho isto muito perigoso – disse Franco, preocupado. – Posso dar uma sugestão?      — Pode. Qual é?      — Se vocês forem seguidas pelo homem, uma sai do edifício, mas a outra permanece lá, de preferência em lugar bem movimentado. Loja Americana, por exemplo. O meliante não ousaria atacar diante de uma multidão.      — Boa idéia. Faremos assim. Agora, vamos?      — Vamos.      — E não poderá comparecer? – Luís Filipe estava contrariado. A notícia que ouvia ao telefone era a causa disto. Fratelli lhe informava que estava impossibilitado de comparecer ao encontro.      — E o que faremos se as moças vierem? – perguntou o milionário dono da frota aérea mais famosa do país – Afinal, eu as chamei por sua causa. Eu mesmo não tenho nada a pedir a elas. Não me agrada ficar com cara de bobo, sabia?      — Ora, Dr. Luís Filipe, o senhor pode perguntar, por exemplo, se as moças conseguiram descobrir quem eram os seus perseguidores. Afinal o senhor me disse que elas lhe tinham deixado a impressão de que tinham mentido...      — Isto não é possível. Eu disse na polícia que necessitava de um favor pessoal delas, esqueceu?      — Bem... – Fratelli pensou rápido. Não podia deixar escapar a oportunidade. – Escute, Dr. Filipe. Sua noiva pretende fazer um passeio pelas Antilhas, não é?      — Sim, pretende. Por que?      — Bem, que tal o senhor pedir às moças que dêem cobertura à sua noiva?      — Como assim cobertura?      — Bem, o senhor pode dizer que suspeita de que ela corre perigo de seqüestro, por exemplo. Afinal, ela é uma mulher milionária e no Rio de Janeiro os milionários estão correndo constantemente este perigo – arrazoou o meliante..      — Isto não é um favor pessoal, Dr. Fratelli. A polícia...      — Discordo, Dr. Filipe. Os milionários não gostam de publicidade, principalmente quando se trata de assunto tão... tão delicado. Se o senhor estivesse realmente sob uma tal ameaça, apelaria diretamente para a polícia?      — Hum... Acho que não.      — Então? Eu estou certo.      — Tudo bem. Eu peço isto. Mas você não vai ver nenhuma delas. De que serve isto?      — Não se preocupe. Se conseguir pôr as duas com a atenção voltada para a sua noiva, elas certamente estarão rondando a Marina da Glória. Meus... Uns amigos cuidarão de fotografá-las para mim. Daí em diante, a coisa fica por nossa conta.      — Se é assim...      — Acho que é um meio de a gente não perder as duas trapalhonas de vista.      — E se são realmente polícias federais? Afinal, elas vêm pelo departamento...      — A gente vai descobrir, pode ficar descansado. Mas não se preocupe que, a partir do momento em que elas estejam sob nossos cuidados, o senhor e sua noiva estarão fora do assunto. Fique sossegado. Esta é uma ordem bem clara de Dr. Kamuratti.      — Menos mal. Então, tudo bem. Vou aguardar que cheguem.      Filipe desligou o aparelho justamente quando o interfone chamava. Atendeu.      — Dr. Filipe? A Senhora Lucilla Kamuratti pede licença para entrar.      — Ela é sempre bem-vinda, Laura. Deixe que entre.      Pouco depois a velha dama entrou no elegantíssimo escritório, precedida pela bela secretária.      — Que boa surpresa – disse Filipe escondendo a contrariedade. – O que a traz aqui, cara senhora Kamuratti?      — Eu não quero aborrecê-lo, meu jovem. Mas gostaria de estar aqui, quando as falsas policiais chegarem.      — Ah! Bom, pelo menos é alguém mais. Eu estou feliz, sabe? Não estava à vontade depois de saber que o advogado dos senhores não poderá comparecer. Por favor, queira sentar-se. Aceita alguma coisa?      — Não, obrigada – disse que o Dr. Enrico Fratelli não vem?      — Sim, senhora. Acabei de receber uma ligação dele comunicando que estava machucado e sem poder sair de casa.      — Então foi bom eu ter vindo, não é?      — Foi ótimo, senhora Kamuratti. Como vai o Dr. Kamuratti?      — Muito atarefado, muito atarefado.      — Alguma notícia de seu filho?      — Não, nenhuma ainda. Mas isto não é caso para grandes preocupações. Temos toda a polícia e mais de oito detetives particulares na pista. Ele será encontrado, tenho certeza. Agora, diga-me, meu jovem, como vão os preparativos para o seu noivado?      — Vão bem, obrigado. Milena...      — Parece que vai fazer um cruzeiro pelas Antilhas, não é?      — Sim, vai.      — Estivemos juntas, hoje, no cabeleireiro. Ela me contou a respeito do cruzeiro. Até me convidou para acompanhá-la.      — Eu teria grande satisfação em que a senhora aceitasse o convite – mentiu Filipe.      — Infelizmente não será possível. Tenho algumas coisas a tratar em Israel. Como você sabe, não sou adepta de Itzhak Rabin nem de seu cúmplice, Shimon Peres. Não concordo com nenhum acordo de paz com os palestinos. Os verdadeiros israelenses não aceitam tamanha demonstração de fraqueza. A política deles está pondo em risco alguns de nossos empreendimentos lá. E isto traz reflexos em nossos negócios na Europa e nos Estados Unidos.      Filipe manteve-se cautelosamente silencioso. Sabia do radicalismo dos Kamuratti e sabia, também, que quem discordasse deles imediatamente era considerado inimigo. E isto não era bom para a saúde dos negócios de ninguém.      — Você, ao que parece, não nos apoia, não é? – a velha dama olhava para o rapaz com exagerada altivez na postura e com uma exigência no tom de voz altamente irritante. Aquilo incomodou o rapaz, mas ele tentou manter a calma.      — Por que diz isto, senhora Kamuratti?      — Seu silêncio é significativo, meu jovem.      Positivamente a velha dama estava provocando, mas Luís Filipe manteve-se firme em seu propósito de não aceitar a provocação.      — Não se trata de não apoiá-los. Simplesmente não tenho negócios no Oriente Médio e não possuo informações abalizadas sobre o conflito entre judeus e palestinos. Não gosto de opinar quando não estou seguro.      — Uma desculpa plausível, contudo não me convence, meu caro. O seu tipo de negócio – táxis aéreos em quase todo o mundo – exige necessariamente que esteja muito bem informado sobre a política nos diversos países.      O olhar da mulher era penetrante e seu timbre de voz impositivo e antipático. Parecia estar falando com um réu em julgamento. Luís Filipe sentiu o sangue ferver nas veias, mas ainda assim tentou manter o controle dos nervos.      — Sim, sei dos conflitos e sei quando e onde não devo atuar. A Palestina e Israel não se incluem neste caso. A guerra por lá não impede que minha frota de aeronaves chegue e saia do seu país normalmente. Então, não tenho porque saber mais. Além disto, senhora Kamuratti, o conflito entre aqueles povos é de milênios. Para opinar é necessário conhecer muito bem as raízes históricas que o geraram. Eu confesso minha total ignorância a respeito.      — O que não é bom, meu jovem, o que não é bom. Somos o povo escolhido pelo Senhor. Nossa história devia ser obrigatória em todas as escolas dos gentios.      “ Quanta petulância, santo Deus !” – pensou Luís Filipe, perplexo. Mas limitou-se a dizer, sem olhar de frente a mulher diante de si, que não desgrudava dele aquele olhar de águia faminta:      — Não sei, senhora. Isto é uma questão religiosa e eu não sou religioso.      — Não, meu jovem. Isto é uma questão política. Os governantes, os poderosos do mundo todo terão de aprender esta verdade: nós somos a salvação dos povos. Quando aprenderem a nos respeitar como tal, este planeta terá mais sossego eu lhe garanto.      Filipe não se agüentou. A velha senhora o estava provocando demais. Sua atitude arrogante, com ar de superioridade e se comportando como se estivesse na casa de um criado seu o irritaram profundamente.      — Não concordo com seu modo de pensar, senhora Kamuratti – falou, parando de mexer nos papéis e encarando a mulher. – Nenhum povo na face da Terra pode se arrogar o título de salvador do mundo. Estamos todos nesta casca de noz vagando pelo espaço infindo. Não há um que seja privilegiado em relação ao outro. Fazemos, todos, parte de um ecossistema delicadíssimo e as guerras que nações, como a da senhora, mantêm acesa por séculos e séculos, só nos levam – a todos nós – em direção a um destino obscuro. O ódio não é predicado do Senhor, como a Senhora chama a Deus. E não conheço uma guerra que seja santa e feita por Amor, senhora Kamuratti.      — Ora, ora, ora – ironizou a velha dama olhando com exagerada atenção para as unhas de sua mão direita – então o jovem finalmente se revela um anti-semita, não?      — Não, nada disto. Sou, sim, anti-qualquer arrogância, seja ela de que nação for. E no que diz respeito a Israel, não acredito, se quer saber, que este modo de pensar jurássico seja de todo aquele povo sofrido, senhora Kamuratti. Itzhak Rabin e Shimon Perez estão aí para provar o que digo.      — Eles é que são jurássicos, senhor – rugiu surdamente a velha dama. Filipe notou o ódio na voz da mulher, mas estava por demais irritado para se acautelar contra ela. – E se não quer perder de vez a nossa amizade e consideração exijo que se desculpe do que acaba de me dizer. Foi muito ofensivo.      — Lamento, senhora Kamuratti, não tenho a intenção de me retratar do que quer que tenha dito aqui. Não ofendi a ninguém. Somente expressei minha opinião, do mesmo modo como a senhora o fez, livremente, em minhas dependências e deixe-me lembrar-lhe isto. Embora incipiente, no meu país já há um pouco de Democracia e às pessoas é reconhecido o direito de exprimir o que pensam livremente. E tanto isto é verdade que a senhora usou esta liberdade aqui e agora, ainda que me provocando. E não acho que entre pessoas civilizadas a franqueza quanto a posições ideológicas seja motivo de rancores e dissenções.      — Não se trata de posição ideológica, meu caro Jovem. O senhor me chamou de jurássica. Isto é um insulto.      — Não, senhora. Eu disse que o modo de pensar é jurássico. O modo de pensar, não quem pensa.      O interfone soou e Filipe deu graças a Deus por isto. Estava disposto a não arredar o pé, desse no que desse, diante da arrogância da velha dama. O Sr. Kamuratti, ainda que arrogante, era muito mais tratável, mais polido. Ele não entraria numa discussão daquelas à-toa. Nem a provocaria assim, do modo como a velha dama o fizera. O que tinha aquela megera em mente?      — Sim, Laura?      — As duas policiais que o senhor pediu que viessem aqui, chegaram.      — Excelente! Mande-as entrar, Laura, por favor.      Lucilla Kamuratti nada disse. Limitou-se a olhar as unhas da mão com imponência e ainda com clara expressão de ofendida rancorosa. A porta foi aberta e as duas mulheres entraram.      — Boa-tarde, Dr. Filipe. Recebemos o seu chamado e viemos assim que nos foi possível – disse Irina Hess estendendo a mão para Filipe em cumprimento.      — Boa-tarde, senhorita Irina... É esse o seu nome, não é?      — Vejo que não esqueceu meu nome – e Ludmila deu-lhe o melhor e mais cativante sorriso. Malgrado seu, Filipe simpatizou com aquela estranha.      — Não, não esqueci. Contudo, não me lembro do nome de sua companheira...      — É melhor que seja assim, desculpe – disse Irina, sempre a sorrir com simpatia.      — Tudo bem, então – falou o rapaz, encantado com a simpatia da repórter. – Eu gostaria de lhe apresentar...      — Não é preciso, meu jovem cortou a velha dama – nós já nos conhecemos. E Lucilla olhou fixamente para as duas falsas policiais.      — Ela tem razão, Dr. Filipe – confirmou Irina, olhando também desafiadoramente para a velha senhora, – nós já nos conhecemos. Como vai a senhora, Madame Lucilla e... como vão os seus simpáticos cães?      Tamara não gostou nem um pouco do brilho assassino que viu faiscar nos olhos daquela estranha mulher. Instintivamente pôs-se em guarda, ainda que não soubesse contra o quê.      — Eu vou sempre muito bem, moça. E meus cães... continuam à espera de intrometidas. Agora, um pouco mais bem treinados, esteja certa. Agora, com licença de Filipe, vamos ao que interessa: por que se disfarçaram de policiais para entrarem em minha casa? O que desejavam?      Sorrindo brejeiramente, Ludmila sentou-se, após pedir licença ao anfitrião. Karina preferiu ficar de pé, estrategicamente. Mantinha-se de lado para Luís Filipe, pronta para se defender contra um ataque, embora seu instinto lhe dissesse que não era dele que vinha o perigo.      — E então? – insistiu incisiva e carrancuda a Velha Dama.      — Não viemos aqui para lhe falar, Sra. Kamuratti – disse Ludmila provocadoramente. Enquanto as duas se mediam, Karina terminou aceitando o convite insistente de Luís Filipe para que se sentasse. Ele fez a mesma coisa.      — Engana-se minha jovem – falou pausada e controladamente a Velha Dama. – Estão aqui porque o Dr. Filipe, que nos deve dinheiro e favores , atendeu a uma nossa... solicitação e armou este nosso encontro. Agora, queira explicar: quem é a jovem que a esta acompanhando, hoje?      — Não a reconhece? – brincou Ludmila, pondo-se em alerta.      — Nunca nos vimos antes, minha jovem. Ela não é a que lhe fazia companhia quando você, desavergonhadamente, invadiu a privacidade de minha casa. E... não se engane comigo, moça. Sou como uma gata. Eu piso macio, mas quando arranho, arranho fundo. Minhas unhas nunca estão à mostra, mas elas estão sempre prontas a ferir, quando necessário.      Ludmila sustou o riso. A ameaça era clara, direta e rude. Com que, então, a velha víbora era mesmo mais perigosa do que pudera supor no primeiro encontro. E era muito arguta e perspicaz. Fora a altura – que um salto Luís XV quase remediava, Tamara estava suficientemente parecida com a Mara daquele dia. Mesmo Luís Filipe não havia notado a diferença, embora, agora, olhasse mais atentamente para Tamara, estudando-lhe cuidadosamente a silhueta e o rosto, sem nada dizer. Ludmila, num rápido olhar que lhe dera, tivera a impressão de ter visto um ar de constrangimento acentuado. Ele dava a impressão de haver “encolhido” de algum modo.      — Muito arguta, Sra. Lucilla Kamuratti, parabéns. A senhora esta certa. Minha companheira de agora não é a mesma pessoa que me acompanhou naquela... visita – falou Ludmila com um meio sorriso sarcástico nos lábios mas com a fisionomia muito séria. Dava-se perfeitamente conta de que estavam totalmente à mercê daqueles dois e não havia nenhum meio de escapar dali que não fosse pela porta de entrada. De repente, os doze passos que a separavam daquela porta pareceram transformar-se em longos quilômetros.      — Quem são vocês? Trabalham para quem? O que querem? – Os olhos da Velha Dama faiscavam de ódio e a voz era incisiva. Tamara sentiu os pelos de pé. Aquela mulher era demoníaca. Que poder se ocultava por detrás dela? O que lhe emprestava aquele porte de imperatriz, capaz de se fazer indiferente até mesmo ao seu anfitrião? Ela estava totalmente senhora do ambiente e Luís Filipe, apagado. Ela mandava e se impunha como se o escritório fosse dela. Por que? O que Ludmila andara fazendo que despertara aquela cascavel ensandecida contra si? Seu sexto sentido alertava para um perigo de morte. Agora, não somente Mara, mas ela também corria perigo de vida. Aquela víbora não descansaria até quando soubesse quem eram elas e as pegasse. A caçada começara e Tamara se perguntava se fizera bem em aceitar ser uma das caças. Afinal, o trabalho era de outro jornal... O diabo é que ela também era jornalista e não ia desprezar a sua fatia, ah, isto não. E uma aventura até que vinha mesmo a calhar. Era algo diferente, além das estrepolias já velhas demais para atrair público. O Comando e os traficantes de armas não eram criativos. Pó, então, nem mais era notícia. Mas ali estava algo muito, muito quente, mesmo. Tamara notou que Ludmila exibia um sorriso divertido no rosto, “ É doida varrida. Está brincando com a morte, cara-a-cara ” – pensou, preocupada.      — Os Kamuratti não são todo-poderosos, minha cara senhora? Como é que ainda não sabem quem somos nós? – Irina sorria zombeteira.      Após um silêncio incômodo, durante o qual os olhos de Lucilla Kamuratti pareciam querer furar o rosto da falsa Irina Hess, ela disse:      — Saberemos, mais cedo ou mais tarde, fique certa. No entanto, já que estamos aqui, por que não abrevia a sua... agonia, hum? Providenciaremos para que tudo se esclareça e volte aos conformes sem muitas dores nem muitos estardalhaços, prometo. Ah, sim, Irina Hess foi um nome escolhido para nos provocar, não foi?      — Senhora Kamuratti – disse Ludmila séria – a pressa é inimiga da perfeição. É por não ter pressa que estamos chegando ao âmago de sua intrigante e... terrificante história. É a Terceira Guerra Mundial que já está em plena batalha e da qual ninguém ainda tomou conhecimento, não é? Eu não gosto de holocaustos, minha senhora. O primeiro, ainda não está bem esclarecido, não. Há muito coisa podre escondida por detrás dos campos de concentração, não é? Uma nação como a alemã não se vira contra um... como devo chamar? Um estado como o estado judeu sem um motivo muito sério... Temos todos a versão de seu povo. E qual é a versão do povo alemão? Como os egípcios no tempo de Moisés, eles simplesmente se conformarão em serem transformados em terríveis lobos sanguinários contra o escolhido povo de Deus? De que Deus, senhora Lucilla Kamuratti? Novamente as águas do Mar Vermelho da Ignorante Inocência dos povos arianos e outros, serão abertos para o seu povo passar e se fecharão tragicamente sobre as cabeças dos incautos? Não creio que devamos permitir esta repetição trágica da história do homem na terra, Lucilla Kamuratti. Ou deveria chamá-la pelo seu verdadeiro nome? Agora, com a licença do Dr. Filipe, já que ele foi um mero objeto de uso de sua... esperteza, vamos-nos retirar. Ah, Irina Hess é meu nome, sim, senhora.      E Ludmila ficou de pé, seguida de Tamara. Intimamente Luís Filipe gostou do modo como aquelas estranhas mulheres se comportavam. Lucilla Kamuratti fora muito sem ética ao revelar que ele lhe devia dinheiro e favores, e não fora, de modo nenhum, devido a isto que resolvera armar aquela arapuca para as duas mulheres. Começava a achar que fossem elas quem fossem, tinha muito boas razões para agir como agiam. A história da Terceira Guerra lhe pegara de surpresa e lhe deixara uma interrogação: o que a tal Irina Hess queria dizer com isto? Por que a senhora Kamuratti sustivera a respiração e arregalara tanto os olhos quando a moça falara daquele modo enigmático? O que havia por detrás da tão exaustivamente explorada história do Holocausto? Qual a relação entre o profeta Moisés e os alemães da Segunda Guerra Mundial?      — Sentem-se! – A ordem estalou como um chicote no silêncio do ambiente. A voz era seca, cortante e imperiosa. – Eu não lhes dei ordens para que se retirassem! – a velha dama estava de pé, punhos fechados e toda trêmula de indignação.      — É mesmo? – ironizou Ludmila. – Eu pensava que este era o escritório do Dr. Luís Filipe e que ela era quem mandava aqui.      Enquanto Ludmila falava, Lucilla retirava o seu celular de dentro da bolsa e discava um número. Ludmila viu-lhe a manobra, mas jamais podia esperar que a velha dama pudesse ser tão ousada e desrespeitosa para com o seu anfitrião. Assim, foi com ar divertido que a ouviu, com voz rouca, mas firme, ordenar:      — Agora!      Ludmila meneou a cabeça negativamente e estendeu a mão a Luís Filipe, que se pusera de pé. Antes, porém, que terminassem o cumprimento de despedida, um grito abafado soou na recepção. Houve o barulho de algo pesado caindo ao solo e a porta foi aberta bruscamente. Cícno entrou por ela e investiu sobre Tamara. Fílio veio quase em seus calcanhares e atirou-se contra Ludmila. A ação foi instantânea e pegou a todos de surpresa. Luís Filipe ainda estava com a mão da falsa policial entre as suas quando o impetuoso Cícno girou no ar e estatelou-se sobre a mesinha de centro espatifando-a e reduzindo a cacos os enfeites de cristal que havia sobre ela. O arranjo de flores desidratadas ficou em frangalhos. Quase simultaneamente Fílio arregalava os olhos que se enchiam de lágrimas e se curvava com as mãos nas virilhas, onde o salto da “Anabela” de “Irina” afundara amassando desapiedadamente os escrotos do meliante. Sem mesmo tocar o pé agressor no chão e fazendo um rodopio elegante no ar, a falsa policial aplicou, com o outro pé, um estralejante chute na face do homem, atirando-o desacordado no carpete. Cícno ainda tentou levantar-se, mas foi agarrado pelos cabelos pela “frágil” Tamara e erguido bruscamente para receber outro lançamento de judô que o jogou com todo o peso sobre as costas, no chão, tirando-lhe o fôlego e tonteando-o. Antes que pudesse gritar pela dor nas costas, o “Luís XV” acertou-lhe a testa e o lançou em abençoada inconsciência.      Luís Filipe estava boquiaberto. Aquelas duas eram um furacão ambulante. Lucilla Kamuratti pusera a mão sobre a boca, olhos arregalados, quase não acreditando no que assistia. Foi tudo muito rápido. E ainda sob o impacto da surpresa, a velha dama ouviu a falsa policial dizer-lhe, rosto quase colado ao seu:      — Na Federal temos aulas de defesa pessoal madame. Seus homens deviam saber disto.      E com uma aceno de cabeça, Irina Hess cumprimentou o estupefato anfitrião e se dirigiu para a porta, seguida da companheira. De lá, apontando para o estrago, disse:      — É tudo cortesia de madame Lucilla. Apresente-lhe a conta, sim?      A porta foi batida com força e os dois ficaram mudos, olhando os homens desacordados estendidos no grosso carpete da rica sala.      — Não é possível! – Lucilla foi a primeira a falar. – Eu não acredito no que estou vendo...      — Nem eu – disse Luís Filipe, soturno – A senhora ultrapassou todos os limites. Como pôde ter tido tamanho atrevimento?      — Ora, o que são alguns bibelôs para gente como nós? – disse a velha dama com desprezo.      — Eu não me refiro aos móveis e aos enfeites – respondeu Luís Filipe. – Isto pode ser substituído. Eu me refiro à falta de respeito que a senhora demonstrou ter para comigo e para com o meu espaço. A senhora, madame Kamuratti, não tem o direito de mandar agredir duas visitas minhas, em minha casa, sem o meu consentimento e a minha anuência! Este foi um comportamento inclassificável, madame!      — Ora, rapaz – disse Lucilla Kamuratti olhando para Luís Filipe com desprezo expresso no olhar e na postura corporal – isto não é importante. Somos amigos o suficiente para eu me dar tal liberdade. Era uma emergência, você tem de convir. De mais a mais, você nos deve favores, está esquecendo? Favores e dinheiro.      Luís Filipe sentou-se estupefato e boquiaberto enquanto a velha e arrogante dama apanhava sua bolsa. Era espantosa a falta de consideração de Mme. Kamuratti para com os outros. E era inacreditável sua grosseria. Aquela dama que ele sempre julgara distinta e nobre revelava-se-lhe grosseira, arrogante e mal-educada ao extremo.      — Mandarei indenizá-lo até o último centavo, não se preocupe. Agora estou-me indo. Quando estes dois inúteis acordarem mande que se apresentem a mim. Até mais ver, jovem.      E empertigada como sempre, a velha dama se retirou sem se dignar a olhar sequer para o seu anfitrião, que ficou a olhá-la ainda mudo de espanto pelo que presenciara e ouvira. Quando a porta fechou-se ele permaneceu a olhar para lá com um estranho sentimento de mal-estar que crescia e se ia, a pouco e pouco, revelando como uma profunda revolta, uma incontida indignação.      — Eu não lhes deverei mais nenhum tostão, ‘seos’ malditos – disse entredentes Luís Filipe e, ato contínuo, pôs-se de pé e foi ao telefone. CAPÍTULO VII UMA LUZ PARA DAMASTOR        — Aquiles-san, não precisa vir à noite para o treino.      Kimura fez o cumprimento tradicional de seu dojô e se retirou sem demonstrar cansaço. Seu aluno, contudo, estava à beira da exaustão. O sensei exigira o máximo dele. Chegara ao dojô às 06h da manhã. Era já meio-dia e meia. Foram seis horas e meia de treino ininterrupto. Seus golpes mais fracos, suas defesas mais vazadas, suas esquivas mais deficientes foram treinadas e retreinadas, corrigidas e recorrigidas ao infinito. Seu corpo todo doia. Os socos, os pontapés e as cotoveladas e joelhadas lhe foram aplicadas sem piedade. Uma surra memorável. Aquiles respondeu, quase sem consciência de que o fazia, ao cumprimento de seu mestre vendo tudo estranhamente azulado. Deu dois passos para se retirar do dojô e desabou como um saco vazio.      0 sensei, que o observava já de dentro do vestiário, bateu palmas três vezes e a massagista veio rápida e silenciosa.      — Cuide dele, Sumiko. Eu fui muito duro no treino de hoje. Preciso fazer isto mais vezes. Talvez consiga salvá-lo da morte certa. Não quero que morra, porque se morrer, eu me sentirei culpado. Afinal, sou quem preparou a mão assassina.      Massao Sumiko curvou-se no cumprimento respeitoso dos orientais e encaminhou-se para o dojô onde Aquiles jazia inconsciente. Ela abriu-lhe o quimano e lhe viu os hematomas. Habilidosamente despiu o médico e ali mesmo deu início ao trabalho de shiatsu. Depois de mais de duas horas de trabalho cuidadoso e criterioso, Sumiko pôs os 96 Kg de músculos sobre os ombros e os transportou para cima como se ele fosse o corpo de um menino. Quando Aquiles abriu os olhos sentia frio. Soergueu-se e percebeu que estava nu, no consultório de Sumiko. Sentou-se na maca. O corpo ainda estava dolorido, mas diante do que já estivera, no dojô, aquilo era nada. Sumiko surgiu como por mágica a seu lado.      — Aquiles-san melhor, agola? – perguntou a moça, olhos no chão. Ela era jovem, talvez vinte e quatro anos, se muito. Tinha estatura mediana, cintura bem feita, busto pequeno, mas rijo e face arredondada e agradável de se ver. Suas pernas eram muito bem torneadas e retas. Massao Sumiko era uma oriental muito bonita.      — Sim, Massao – disse Aquiles embevecido com a delicadeza da oriental. – Estou bem melhor, obrigado. Agora, onde estão...      — Na cadeila, Aquiles-san. Sumiko já tem comico pala senhol.      — Comida? Que bom. Estou mesmo com fome. Você pensou em tudo, minha querida Sumiko. Mais uma vez muito grato.      — Kimula-san golta mutu senhol Aquiles. Mandou Sumiko cuidar de aluno. Aquiles-san mutu machucado.      Aquiles gostava de ver o esforço da moça para falar português. Seu sotaque e sua postura sempre humilde e prestativa lhe enterneciam o coração.      — É... O mestre Kimura me castigou para valer... – e Aquiles esticou-se fazendo careta.      — Necessálio, Aquiles-san. Homem mau, Flatelli-san, queler matar homem-bom. Kimula-san não goltar idéia. Sensei polcula fazer homem-bom, melhol que homem-mau.      — Ele tenta, Massao, ele tenta. Mas eu acho que nunca serei bom à altura do que ele espera de mim. Fratelli tem seis anos mais que eu de treinamento.      — Tempo não significar mutu, Aquiles-san. Concentlação e respilação, hay. Saber lespilar mutu impoltante. Não concentlar no ponto a atingir. Concentlar ponto seu colpo que vai bater. Expilar no monto...momento batida. Em defesa, não concentlar no colpo oponente que ataca. Concentlar no ki. Ki aceita enelgia diligida seu colpo. Ki move seu colpo e deixa a enelgia passar. Não bloqueio. Não folça contla folça.      Sumiko percebeu que não estava sendo compreendida,      — Aquiles-san ataca Sumiko... – pediu ela, curvando a cabeça.      — O quê? – surpreendeu-se Aquiles. – Você quer que eu...?      — Hum-hum. Aquiles-san ataca.      Aquiles olhou para a oriental com espanto. Ela era miudinha, talvez um metro e setenta, não mais. Tinha aparência frágil. Ele meneou a cabeça negativamente.      — Não, minha amiguinha. Posso ferir você e eu jamais me perdoaria se fizesse isto.      — Sumiko sabe que faz, Aquiles-san. Agola, ataque! – insistiu a oriental, posicionando-se em base. – Vamos, Aquiles-san. Ataque sei-ken. Folte! Aquilo pareceu ridículo ao médico. Um seiken forte simplesmente fulminaria sua querida amiguinha. Ele podia arrebentar um makwara com um seiken. Já fizera aquilo.      — Não posso fazer isso, Sumiko. É perigoso.      — Sumiko não polcelana, Aquiles-san. Não temer. Ataque!      Os olhos dela estavam fixos nos seus e Aquiles não reconheceu o olhar sempre doce e submisso de Sumiko. Era um olhar duro e incisivo como punhal. Um olhar alerta. E as feições da moça estavam endurecidas. Pareciam de pedra. A mulher miudinha havia desaparecido para dar lugar a algo muito determinado e... forte. Fantasticamente forte.      Hesitante, Aquiles tomou a base e preparou-se para bater. Não o fazia por querer, fazia-o hipnotizado por aquele olhar de aço. Concentrado, Aquiles disparou dois rapidíssimos seikens, um dirigido ao plexo de Sumiko e outro ao rosto. A moça não se moveu, nem mesmo piscou e seus olhos não se afastaram dos de Aquiles. Os punhos dele pararam a milímetros da pele de Sumiko. Com voz dura, ela o repreendeu.      — Sumiko dizer não ser polcelana. Agola, não blincar, Aquiles-san. Atacar folte. Sumiko sabe que faz. Ande, Aquiles-san, ataque!      Embora não acreditasse em Sumiko, aquela força súbita que a pequena oriental exibia e que lhe era desconhecida fê-lo decidir-se por obedecer. Voltou a posicionar-se e a inspirar fundo, preparando-se para o ataque.      — Lemblar, Aquiles-san, atacar folte! – disse Massao Sumiko.      O médico atacou rápido e com toda a potência que tinha. A oriental parecia indefesa à sua frente e Aquiles teve a certeza de que ia matá-la. Mas a moça sumiu de sua frente assim que ele disparou o primeiro seiken. Ela surgiu como do nada a seu lado direito. Aquiles sentiu a forte pancada no cotovelo de seu braço atacante, lançando-o para a esquerda e lhe abrindo a guarda. Simultaneamente algo muito duro bateu à altura de suas costelas flutuantes tirando-lhe o fôlego enquanto uma inesperada rasteira lhe roubava o equilíbrio. A mão delicada de Sumiko ferrou-se em seu ombro direito puxando-o para baixo e ajudando-o a cair mais depressa. Mesmo antes de tocar o chão já o cotovelo da moça atingia de leve a ponta de seu externo.      — Aquiles-san molto – disse Sumiko cumprimentando o espantado lutador.      — Como você fez isto? – perguntou o médico levantando-se.      — Não Sumiko, mas ki. Meu ki moveu-se pala deixar sua enelgia passar. Ki flui. Ki não se choca com outlo ki. Entendeu, Aquiles-san?      — Teoricamente sim. Mas não saberia como fazer – disse o médico olhando respeitoso para a moça que, agora, não lhe parecia tão pequena e indefesa como antes..      — Relaxar, Aquiles-san. Relaxar mente e corpo. Pensar, sim?      E Sumiko, curvando-se diante de Aquiles, convidou-o a segui-la para fazer a refeição. 0 médico, agora, já não conseguia vê-la como a uma mocinha frágil. Aquele corpinho escondia uma agilidade espantosa e... perigosa. Mortalmente perigosa.      Quando, mais tarde, a caminho de seu apartamento, Aquiles ia meditando no que a massagista lhe dissera e lhe demonstrara.      — Sinto muito, detetive, ainda nenhuma reação.      Damastor passou a mão pelos cabelos, levantando-se e foi até a janela. Ficou ali, olhando o trânsito fluir lá embaixo, a três andares de onde estava. O tráfego corria sem atropelo àquela hora do dia. O detetive permaneceu alheio a tudo, mergulhado apenas em suas recordações. O seu companheiro, o detetive Arthur, que há 12 anos era seu parceiro, estava reduzido a um vegetal. A família dele, trucidada. E ele, Damastor, sentindo-se totalmente impotente. Cidade violenta. Gente violenta e gente apavorada. O Rio de Janeiro estava um caos e a polícia desarmada, mal-remunerada e deixada ao Deus-dará. Não era justo. Os políticos falavam, falavam, mas nada resolviam. Os Secretários cobravam resultados. Mas policiais eram mortos ou tinham suas famílias trucidadas e ninguém parecia importar-se. Onde estavam os defensores dos Direitos Humanos? Para bandidos e aprendizes de bandidos eles existiam. A famosa e tão falada chacina da Candelária estava aí para confirmar. Agora, quando era a família de um policial honesto, onde é que eles se escondiam? Por que não faziam estardalhaço? Seu companheiro não merecera nem a primeira página dos jornais, mas a quadrilha de adolescentes de Madureira sim. A polícia não tinha mais crédito. Estava pior que os marginais. Estes, quando aprontavam, apareciam em todos os jornais e em todos os noticiários de televisão e rádio. Um policial, não. Uma pequena nota numa estação de TV de segundo escalão e pronto. Damastor sabia que a corrupção atingia quase oitenta por cento da Polícia carioca, tanto a civil quanto a militar. Delegados e coronéis integravam a folha de pagamento de algum marginal. Isto era certo. Mas era certo, também, que vinte por cento ainda resistia desesperadamente, apesar do salário de fome e do abandono e perigo de morte que corriam até por parte dos companheiros. Corrompidos, estes não hesitavam em matar os colegas de farda. Como um detetive podia resistir a um suborno mensal de três a cinco mil reais, quando seu salário líquido não chegava aos quatrocentos reais? Não era o “dinheiro fácil”. Era o desespero de morar dentro do morro ou ao pé da favela e ter a família sob constante ameaça, enquanto ele, o policial, arriscava a vida nas viaturas mambembes da corporação, com armas velhas e enferrujadas, com munição vencida, tentando defender os milhões dos poderosos contra os constantes assaltos a bancos, carros-forte e contra os seqüestros. O que se podia esperar de homens em tais condições? Ele mesmo, Damastor, recebia líquido em seu contracheque somente novecentos e trinta e dois reais. Não fosse a sua mulher ser Administradora, trabalhar numa multinacional e ganhar um salário quatro vezes superior àquele seu, e ele, certamente, teria entregado os pontos.      — Deseja mais alguma coisa, detetive?      A voz do médico trouxe-o de volta à realidade.      — Não, não, doutor. Eu estava... Bom, volto amanhã. E... Doutor!      — Pois não?      — Se o Arthur precisar de algum remédio especial e o hospital não tiver, ligue para minha casa. Nós providenciaremos.      — O senhor já nos deu o seu telefone e já fez esta recomendação, senhor detetive.      — Ah, já? Desculpe... Até amanhã, então, doutor.      — Até, detetive.      Damastor pôs-se a caminho da delegacia. Estava sentindo-se impotente. A procura de pistas fora inútil. Os inimigos de Arthur tinham álibis sólidos. Será que o serviço tinha sido feito por alguém da civil? Então, quem? Por que? Se ao menos o amigo pudesse falar...      Entrou na sala da Delegacia, velha, mofada e fedorenta a sarro de cigarro, com profunda sensação de derrota. O mal-humor estava em todos os lados. Do escrivão ao delegado, todos andavam nervosos, mal-humorados e com medo. Estava preso na delegacia o meliante apelidado “Zeca-Exu”, o novo dono do Morro do Dendê. Perigosíssimo traficante de drogas e armas. A delegacia corria o risco de ser atacada pelos elementos do seu bando e isto punha todo mundo com os nervos à flor da pele. Damastor só encontrou, na sala dos detetives, o novato chamado Ivaldo. Cumprimentou-o com um grunhido ininteligível e deixou-se cair sentado atrás da escrivaninha atulhada de papéis, toda riscada e arranhada. A cadeira gemeu em protesto contra o seu peso. Damastor espreguiçou-se e ficou quedo.      — Alguma novidade?      Ele olhou o jovem companheiro. Era forte e tinha sob a axila uma inseparável quarenta e cinco muito reluzente. Não eram amigos. Apenas se conheciam superficialmente. Damastor olhou para o homem. Tinha feições e olhar simpáticos e naquele momento sorria de modo conciliador. Contra a sua vontade, respondeu-lhe com uma outra pergunta.      — O que disse?      — Perguntei se tem alguma novidade sobre o Arthur...      Damastor suspirou desanimado.      — Não – respondeu apático e lacônico.      — Faz quantos dias? – insistiu o outro.      — Vai para o quinto... – o olhar de Damastor perdeu-se no vazio.      — Nenhuma pista? – tornou a voltar à carga o colega.      — Não. Nenhuma.      Ivaldo levantou-se com alguns papéis nas mãos e os jogou diante de Damastor. Este olhou para a papelada sem qualquer interesse. Depois fitou Ivaldo com uma interrogação na expressão.      — O que é isto? – perguntou.      — É o caso da “gang” de Madureira.      — Ah... – fez Damastor desinteressado e sem tocar na papelada.      — Um caso muito estranho, não acha? – insistiu Ivaldo.      — Não. Pra mim, um caso banal – e Damastor deu de ombros querendo encerrar aquela conversa aborrecida.      — Talvez. Mas eu estive pensando... – e Ivaldo ficou olhando para o companheiro, estudando-lhe a expressão do rosto. Damastor se viu constrangido a continuar o diálogo.      — É? Em quê? – Na verdade desejava que o outro sumisse de sua frente. Estava a ponto de engrossar com ele.      — O assassinato dos meninos da “gang” de Madureira se deu na mesma noite em que o seu parceiro foi violentado e a família dele, trucidada.      Aquilo mexeu com Damastor. Teve o poder de sacá-lo da indiferença em que se encontrava. Alguma coisa ficou remexendo em seu subconsciente, mas, mesmo assim, queria ficar só.      — E daí? – perguntou indiferente. Sua mente, contudo, estava parcialmente acompanhando o raciocínio de Ivaldo. O pensamento, parecia-lhe torporoso.      — Será que os dois fatos não têm relação? – disse Ivaldo, olhos brilhando de excitação por poder expor a alguém a sua teoria.      Damastor remexeu-se na cadeira, incomodado.      — Eu não sei. Acho que não... – disse, mas não estava mais tão convicto. Pegou num lápis e se pôs a rolá-lo sobre o tampo estragado da velha mesa. Ivaldo fez silêncio, observando-o. Percebia que o colega não estava muito interessado no que ele tentava-lhe colocar, mas não estava disposto a entregar os pontos assim, sem mais aquela.      — Você não está muito interessado em me ouvir, não é? – provocou Ivaldo.      — Pra falar a verdade – disse Damastor sem o olhar, – não estou mesmo não. Eu quero ficar só.      — Ficar só não vai resolver nada – provocou novamente Ivaldo.      — É? E o que sugere? – Damastor olhou-o rancorosamente.      — Eu sugiro que a gente vá, hoje à noite, lá no inferninho que a “gang” freqüentava – disse Ivaldo.      Damastor olhou para o companheiro, silenciosa e demoradamente.      — Por que me olha assim? – perguntou o outro, em guarda.      — O que eu iria fazer naquele antro? – rosnou Damastor de mal-humor e já no limite de sua paciência.      — Iríamos investigar, ora essa. É para isto que somos investigadores, não é? – respondeu incisivo, Ivaldo.      — Investigar o quê? – Damastor estava a fim de brigar, agora.      — Tudo. O que houver. Que tal? – Ivaldo percebeu a irritação explosiva do outro e começava a achar que não fora uma boa idéia provocá-lo daquele modo.      — Ora essa – exclamou Damastor raivoso – o caso não é meu.      — Mas é meu – disse, firme, Ivaldo.      — Não. Nem é da jurisdição de nossa delegacia, meu caro.      — Errado. Eu consegui que ele nos fosse transferido. Não foi difícil. O Delegado daquela área estava mais era querendo se livrar do abacaxi de caroço.      — Azar o seu, então.      — Por que diz isto?      — Porque uma delegacia só passa adiante um caso se ele é sem esperança – respondeu Damastor mal-humorado.      — Eu sei.      — E mesmo assim, quis este aqui? – e Damastor bateu com o indicador na papelada à sua frente. Tinha um ar de sarcasmo no rosto cansado.      — Sim, quis.      — Por que?      — Porque minha intuição me diz que os massacres têm relação – e Ivaldo fixava firmemente o rosto de Damastor. Este virou-se para ele e também o olhou, beligerante, mas interessado.      — E a sua intuição se baseia em quê para lhe dizer isto?      — Ambos os trabalhos foram feitos por um... ou talvez mais de um profissional altamente treinado. Não temos muito esta espécie de gente, aqui no Rio. A bandidagem daqui é escrachada. E é burra. A polícia sempre sabe quem é o autor da trampolinagem só de olhar os resultados. No caso da “gang”, os assassinatos foram primorosos.      — Como assim? – Damastor nem percebeu que Ivaldo o envolvera totalmente.      — Veja, o garoto apelidado de “Lagartixa” foi eliminado no mictório daquele antro. Ninguém viu nada, não é de espantar? Um banheiro com vinte e um coletores de urina e dezoito vasos sanitários só é construído porque tem clientela garantida. Às 22 ou 23h, aquilo lá não podia estar vazio. Mesmo assim, ninguém notou nada de anormal. Não é curioso?      Damastor não estava mais nem irritado nem cansado. Seu faro fora despertado.      — Como morreu o garoto? – indagou interessado. Isto incentivou o outro a continuar expondo suas idéias.      — O I.M.L deu a morte como tendo sido parada cardíaca. Mas acontece que a família duvida disto. O garoto é de uma família onde o “tic-tac” de todos tem sido muito bom há séculos.      — Ora, uma boa overdose...      — Teria sido detectada. Não havia droga no sangue do rapaz. Nem álcool. O “Largatixa” era abstêmio.      — Então, garoto, onde quer chegar? Se não foi droga, o que foi? – Damastor estava fisgado. Mistério sempre o fascinava, mormente quando tinha uma remota possibilidade de conduzi-lo ao bandido que fizera aquilo com seu irmão de profissão.      — Aí é que está: não se sabe. Todo mundo, exceto a família, aceitou a história do ataque cardíaco. O garoto era um joão-ninguém...      — É .. Muito esquisito. – Comentou Damastor, intrigado.      — Mas tem mais. Quase ao mesmo tempo em que “Lagartixa” era despachado pelo “sombra” no banheiro, o outro membro do grupo conhecido pelo apelido de “Barata” também morria junto ao balcão do bar.      — Ah, é? E morreu de quê? Tiro? Navalhada...?      — Não, nada de barulho. Foi envenenado.      — O quê? – A surpresa quase fez Damastor saltar da cadeira, – Envenenado? Você tem certeza?      — Sim. E foi cianureto, se quer saber – disse Ivaldo contente por ter pegado o colega pelo beiço.      — Essa não! – exclamou Damastor, surpreso – Mas eu não lembro de ter lido nada sobre veneno nos jornais – disse ele.      — E não leu. O laudo foi de intoxicação por overdose. Na verdade, o “Barata” tinha muita droga no sangue, mas o legista me confidenciou que o que matou mesmo foi o cianureto.      — E por que o laudo não acusou a verdade?      — Porque, sabe como é, né? Preto, pobre, morrendo em um inferninho... Não dá outra: overdose. Os médicos que recolheram o corpo já chegaram ao Instituto com o veredicto pronto. Foi só datilografar e pronto. Tudo terminado sem mais problemas.      — Então, por que o legista resolveu investigar?      — Um incidente. Ele estava de plantão naquela noite. Quando levaram o cadáver para a gaveta, o lençol que cobria o corpo escorregou justamente quando ele passava perto. Ele perguntou se era para necropsiar o cadáver. Alguém lhe respondeu que não era necessário. Era caso de overdose. O legista lançou um olhar ao corpo e algo lhe prendeu a atenção: a cor. Mais tarde, como não tinha o que fazer, resolveu abrir o “Barata”. Relatou o que descobriu, mas só despertou aborrecimento. Mandaram que se calasse e liberaram o corpo com o atestado de óbito errado. Como eu disse, preto, pobre... pra que se incomodar? Ivaldo ficou observando Damastor coçar o nariz à moda de Bruce Lee.      — E os outros? – os olhos de Damastor brilhavam.      — Foram encontrados boiando no Guandu. A necropsia revelou que haviam morrido por asfixia. Fui confidenciar com o legista – que é meu primo, diga-se de passagem. O laudo acusava morte por afogamento, mas o legista me disse que foi asfixia por ingestão de gás carbônico em alta dosagem.      — Gás carbônico? – admirou-se Damastor.      — É.      — E onde os infelizes foram encontrar isto para morrer?      — Sei lá! Talvez que presos numa garagem com algum carro ligado. Quem sabe? As vezes a vida imita a fantasia, não é o que dizem?      — Como se chamavam os asfixiados?      — Negão, Catucão e Navalha.      — Bonitos nomes... – ironizou Damastor. Ambos riram, Damastor levantou-se e andou pela pequena e fétida sala mordendo os lábios e fitando o chão sujo. Ivaldo o observava atento. O velho detetive estava profundamente concentrado. Era algo para começar. No mínimo dois assassinos profissionais. E dos bons mesmo. Sua memória não se recordava de nenhuma ficha que citasse homens tão treinados, tão profissionais. Seriam estrangeiros? Se fossem, por que se incomodar com moleques pés-rapados como aqueles? Só havia uma resposta: os garotos tinham conhecimento de algo que incomodava alguém. Alguém com cacife para importar gente fina na arte de matar. Ivaldo parece que tinha um grande caso nas mãos, mas onde Arthur se enquadrava nele? Damastor não via nenhuma ligação. Arthur não andava investigando nada que ele não soubesse. Eram parceiros. No entanto, do modo como Ivaldo apresentara o caso alguma coisa soava estranho. Um alarma dentro dele. Por que?      — O processo da “gang” está com você? – perguntou.      — São apenas 72 páginas e estão sobre a sua mesa, agora. Mas não contém nada, pode poupar seu tempo.      — É, pode ser. Mas já que iremos lá, hoje à noite, quero ler tudo o que houver sobre o assunto – disse Damastor. Ivaldo olhou-o com alívio e sorriu. Ele queria o companheiro a seu lado. Damastor era famoso entre os policiais pela sua inteligência, tenacidade e capacidade de luta. E era instrutor de jiu-jitsu na Academia de Polícia. Aquele lugar onde pretendiam ir era famoso pelas porradas que sempre irrompiam entre as gangues. Era confortante ter alguém bom de luta ao lado, se tivesse que enfrentar uma briga.      Damastor apanhou os papéis, sentou-se e mergulhou na leitura.      A água esverdeada e transparente de Angra dos Reis estava deliciosa. Mara e Milena nadavam sem preocupação. Naquele momento voltavam para a branca areia da praia na ilha particular da milionária. Saíram d’água e foram sentar nas cadeiras preguiçosas. Mara sentia-se ótima. A recém-conquistada amiga era pessoa simples, acessível e feliz.      — Que tal, está gostando? – Milena falava com os olhos tapados com um protetor contra a luz do sol das 16h.      — Muito. Este local é fantástico – a repórter cobria o rosto com o braço. – Sabe, vou-lhe confessar uma coisa: é a primeira vez que aceito o mar sem receio.      — Receio?! Por que você tem receio do mar? – e Milena tirou os protetores a fim de olhar para Mara.      — Um pesadelo... – Mara arrependeu-se de ter falado, mas, agora, era tarde. Despertara a curiosidade da outra.      — Teme o mar por causa de um pesadelo? Esse é boa. Que pesadelo é esse?      — Eu preferiria não falar dele – disse Mara, agastada.      — Ora, por que? Vamos, fale. Sou psicóloga. Quem sabe, posso ajudar? – e Milena soergueu-se para melhor ver a amiga.      — Você é psicóloga? De verdade? – espantou-se a repórter.      — Quer que lhe mostre o diploma e as declarações das clínicas onde trabalhei? Se quiser... – e Milena sorriu divertida com o espanto da moça que trouxera à sua ilha.      — Não, não. É que... eu não pensei...      — Não pensou que sendo eu milionária tivesse estudado e trabalhado, não é? Ora, não sou parasita, Mara. Não só fiz o doutorado como cliniquei, como empregada comum, em quatro clínicas famosas. Uma delas foi aqui no Rio. E agora, vamos ao seu pesadelo?      — Espere! Você não é modelo profissional?      — Atualmente, sim. Mas estou largando disto. Já vi tudo o que queria ver neste meio.      — Vai largar a passarela?      — Sim.      — Não gostou?      — Não, não é isso. Eu já vi o que queria.      — E o que você queria ver lá?      — Os bastidores. A cama de Procusto.      — Cama de Procusto?!      — É. Eu me refiro aos sacrifícios que uma candidata a modelo, tem de fazer para ingressar no mundo glamuroso de sonhos e fantasia da alta costura. Mas eu não tive de provar esta cama. Vantagens de ser milionária, sabe? Agora, vamos ao que interessa?      Mara estava encurralada. A outra era franca, objetiva e aberta. Ela não podia ser menos que isso. E mentir lhe parecia indigno para tanta hospitalidade e tanto calor humano. Por isto, Mara respirou fundo, tomou coragem e falou. Eram 17h:45m quando terminou de falar sobre o seu pesadelo e a sua psicanalista. Milena ouviu-a com toda atenção e em completo silêncio. Quando Mara acabou sentia-se estranhamente leve. Milena, sentada, olhava-a fixamente. Então, levantou-se dizendo:      — A noite chegou. Vamos tomar um banho e comer alguma coisa. Depois, voltamos ao seu pesadelo.      Um pouco decepcionada, Mara concordou. As moças subiram a trilha, já escura, que conduzia, por entre flores e uma densa mata nativa, ao chalé encarrapitado sobre uma grande pedra. A varanda ampla, a uns seis metros da trilha que, antes de atingir a parte lateral esquerda, único acesso fácil ao chalé, passava quase sob a grande pedra, possibilitava linda vista da baia com as dezenas de ilhas e centenas de barcos espalhados pelo verde mar. A ilha não tinha mosquitos pernilongos, mas rãs e pererecas faziam enorme algazarra com as cigarras, àquela hora do anoitecer. As duas mulheres caminhavam lado a lado e ambas se sentiam unidas fortemente entre si. Mara sentia a sua anfitriã como se ela fosse sua irmã de sangue. Milena também percebia a repórter como alguém muito íntima. A presença dela lhe era muito agradável. E agora que compartilhara de seu segredo, sentia-se como se fosse mais que uma confidente. Sem se dar conta do que fazia, Milena passou o braço em torno da cintura de Mara e esta naturalmente fez a mesma coisa com ela. Nenhuma sabia disto, mas era a primeira vez que se permitiam tal intimidade com outra mulher.      — Interessante – disse Milena – conheço centenas de pessoas no mundo da Alta Costura. Conheço outras tantas entre os de minha profissão, e no entanto só você me traz esta sensação de tranqüilidade... É como se a gente já se conhecesse há anos. Você me deixa assim.      — Assim como? – perguntou Mara satisfeita, mas curiosa.      — Confiante. Sinto que confio em você. Sinto que lhe tenho afeto.      — Também eu lhe quero bem. É estranho que lhe diga isto, mas não pensava que você fosse assim, acessível... companheira e... simples. Afinal, você é milionária e... e de modo natural, os milionários se defendem da intimidade com a plebe.      — Eu não sou acessível, Mara. Eu até que sou muito fechada, principalmente com jornalistas. Mas você... Eu não sei. Eu a olhei e senti uma satisfação grande, como se nós tivéssemos de nos conhecer. Mesmo quando você se revelou repórter, eu não tive o impulso natural de mandá-la sumir. Geralmente é o que faço. Não gosto de futilidades. E na profissão que exerço no momento...      — Pare! – a própria Mara assustou-se com a rispidez de sua voz.      — O que foi? – Milena olhou-a espantada.      — Saia daí! Saia já, daí! – gritou Mara olhando fixamente à frente, para o mato, e se desvencilhando do abraço fraterno da espantada anfitriã.      — Mas o que é? O que está...       Milena não concluiu a frase e de dentro do mato cerrado, a dois metros de onde estavam, um corpo escamoso de jacaré apareceu. O sáurio era grande demais para a sua própria espécie. Ele cruzou vagarosamente a senda, sob o olhar de fogo de Mara e, logo, com o estranho bocejo que é o som de sua espécie, atirou-se por entre os arbustos em direção à praia. Milena, estupefata, ficou ouvindo o barulho do mato sendo rompido pelo animal que afundava para o mar. De repente sua recém-conquistada amiga cambaleou e não caiu ao chão porque a milionária amparou-a pela cintura.      — Mara! Mara, o que há? Sente-se mal?      — Não... eu... eu... Senti uma tontura... Mas está passando.      — Como você sabia que ele estava ali? – perguntou Milena ainda a tremer do susto.      — Ele? Ele quem? – Mara, sentindo-se atordoada, não compreendia do que a outra falava.      — O Jacaré. Você falou com ele. Mandou que fosse embora. Como soube?      Mara olhou para a amiga sem entender o que ela estava dizendo.      — Do que... do que você está falando?      A noite descia rápida. Milena quase não podia ver a amiga.      — Deixa pra lá – disse ela. – Vamos! Temos de chegar lá em cima antes que a noite se feche de vez. No escuro é muito ruim andar aqui. A gente fica sem enxergar nada e nós não trouxemos lanterna.      Abraçadas, estugaram o passo. Quinze minutos depois estavam na varanda do confortável chalé.      — Aceita um martini, Mara?      — Sim, obrigada.      — Eu trago. Eu mesma quero preparar a bebida. Espere aí, sim?      — Certo. – E Mara foi sentar-se em uma das cadeiras que pendiam do teto, presas por fortes correntes.      Uma governanta atendeu pressurosa à entrada de Milena na sala.      — Deseja alguma coisa, senhorita?      — Não, Téia. Eu mesma preparo os drinks. Mas você podia preparar-nos, para mim e para minha amiga, um banho de imersão.      — Algas ou sais?      — Algas, Téia.      — Sim senhora.      E a governanta afastou-se silenciosa como viera. Milena preparou dois martinis e os trouxe à varanda. Entregou o de Mara a ela e sentou-se noutra cadeira suspensa com o seu copo nas mãos.      — Obrigada – disse Mara e provou o drink. Milena fez a mesma coisa. Então, olhando a outra, falou.      — Mara, você mandou que aquela fera saísse de onde estava escondida. Ela, certamente, nos atacaria quando cruzássemos a sua frente. Como soube que ela estava lá, entre as folhagens e no escuro?      Mara olhou espantada para a amiga.      — De que fera você está falando?      — Do jacaré. Você não lembra? – parecia impossível que a moça não se recordasse do que fizera.      — Não. Eu senti uma tonteira e quando dei por mim você me segurava com força. Por que fala em jacaré?      — Porque havia um lá embaixo, de tocaia à margem da estrada por onde subíamos. Você não está de gozação comigo, está?      — Eu não estou entendendo o que você está falando. Eu juro! Você está-me assustando.      Milena tomou outro gole de Martini em silêncio, o olhar perdido à frente, no espaço.      — Eu não concordo com a sua analista. Não no que diz respeito ao seu pesadelo recorrente.      — Como? – Mara fora pegada de surpresa.      — Seu pesadelo. Ele não se enquadra nos rijos padrões da Psicanálise. Você já tentou a T.V.P.?      — Não. Marquei uma sessão de hipnose, mas não compareci. Devo marcar outra para a próxima semana.      — Você não gostaria que fosse amanhã? – perguntou Milena.      — Eu não sei se o doutor vai poder atender assim, de repente.      — Quem é ele?      — É o Dr. Tanatratos.      — O grego?! Você marcou hipnose com o grego? Ótimo! Somos amigos há muito tempo.      — Eu não sei se ele é grego. Seu nome é uma mistura esquisita. Na verdade. chama-se Khamal Adib Tanatratos – informou Mara.      — É o próprio. Khamal era o nome de seu bisavô, um turco. Adib é de seu avô e Tanatratos é de seu pai, um grego. A linhagem toda é masculina. Entre aqueles povos a linhagem feminina não tem qualquer importância, você sabia?      — Sim. Porcos chauvinistas – disse Mara e ambas riram.      — E então, você não gostaria de fazer a hipnose amanhã?      Mara pensou em Ludmila. A colega aceitaria a presença de Milena à sessão? E Milena aceitaria a presença de mais uma repórter em sua casa?      — Por que hesita? – insistiu Milena.      — É que há outra pessoa que também deseja fazer a hipnose, mas ela teme ir sozinha. Eu combinei que iríamos juntas – explicou Mara.      — Traga-a para cá – simplificou Milena.      — Você não se incomodaria?      — Não.      — Bem... A sessão será aqui?      — Hum-hum.      Mara pensou um instante e decidiu-se.      — Vou ligar para ela. Posso?      — Esteja à vontade. O telefone é logo à direita.      Mara dirigiu-se à sala e discou o número da casa de Ludmila.      As duas mulheres, mal saltaram do elevador, correram para a saída. Do outro lado da rua Franco as esperava. Elas começaram a andar atentas a algum movimento estranho, mas aparentemente tudo estava normal. O automóvel de Franco encostou no meio-fio e as duas amigas entraram rapidamente nele.      — Vamos para onde?      — Em direção à P.F. mas dê voltas. Quero ver se estamos sendo seguidas – disse Ludmila, olhos fixos no retrovisor do seu lado. Franco obedeceu-lhe sem questionar. Rodou à-toa e passou várias vezes pelo mesmo local. Ninguém os seguia.      — E aí, Ludi? Eu não vi ninguém atrás de nós – disse Franco.      — É, parece que estamos limpos... O que você acha, Tamara?      — Não vi ninguém suspeito – disse a outra.      — Para a P.F. ou para o jornal? – perguntou Franco.      — Para a esquina próxima de meu apartamento – foi a resposta de Ludmila.      — Falou!      Em meia-hora Ludmila e Tamara desciam do carro de Franco. Não estavam mais maquiadas nem de perucas.      — A gente se encontra amanhã, Franco. Agora nós vamos para o meu apartamento – informou Ludmila.      — Essa não! Eu vou ficar sem saber o que se passou lá, é?      — Por enquanto, vai. Precisamos do clube da Luluzinha, sacou?      — O susto foi grande, hein? – ironizou Franco.      — Você nem faz idéia. Tchau! – e Ludmila afastou-se arrastando a colega pelo braço. Franco ficou olhando as duas entrarem na portaria do edifício e permaneceu observando por algum tempo os arredores. Quando se certificou de que não havia nenhum movimento suspeito, arrancou.      Banhadas e alimentadas, Ludmila e Tamara sentaram para conversar sobre o que lhes acontecera.      — Eu desconfiava que o talzinho era pau mandado dos Kamuratti e tinha razão – disse Tamara. – Você mexeu com o diabo, minha amiga.      — É, eu sei. Minha surpresa foi encontrar a própria senhora Kamuratti lá. Por que ela e não o marido? Os semitas são muito machistas. Como se explica que ela tomasse a frente?      — Talvez este seja um assunto secundário para o Sr. Kamuratti.      — Não, não, eu não acho assim. A remessa de dólares ilegal para o banco em Israel, quando eu mencionei, mexeu mais com ela do que com o marido. Ele, na verdade, não me pareceu tocado nem por isto, nem pelo rapto de Anteu, o filho do casal. Nem quando mencionei o envolvimento do rapaz com o Kantor Antratos. Isto é que me intriga. Por que a frieza dele com estes assuntos?      — O homem joga alto, Ludi – disse Tamara, reflexiva. – E tem nervos de aço. Eu creio que é o natural dele ser assim.      A campainha do apartamento soou. Tamara olhou interrogativamente para Ludmila. Quem poderia ser sem se fazer anunciar?      — É Karina – sossegou Ludmila. – Só ela pode entrar em meu prédio e vir para cá sem ser anunciada.      — Ah, ela voltou à ativa, não é?      — Sim.      — Ela está a par do assunto?      — Não. Pelo menos, não até agora.      — Pretende informá-la?      — Sim.      A campainha se fez ouvir insistentemente.      — Espere um pouco que eu vou atendê-la. – E Ludmila foi abrir a porta. Karina entrou sem cerimônia.      — Ora, ora, ora – foi dizendo enquanto se encaminhava para o sofá onde depositou a bolsa e se sentou – as traidoras estão reunidas. Qual é a jogada?      — Hei, que história é esta? – protestou Ludmila. – Vai entrando, assim, sem cerimônia, e já vai insultando, é?      — Insultando?! Quem foi insultada fui eu – disse a bela morena.      Karina beijou a face de Tamara e se voltou para a amiga, que veio sentar-se também a seu lado.      — E então? – provocou a recém-chegada.      — Então o quê? – disse Ludmila brejeiramente.      — Quando é que vão contar o que estão fazendo e aprontando?      — Isto depende – disse Tamara.      — Depende de quê? – inquiriu Karina, séria.      — Do que você quer saber... – provocou Tamara.      — E de seu compromisso em guardar segredo em relação ao jornal – completou a ruiva.      — Hei – protestou Karina – o jornal é o nosso empregador. Que negócio é este de sabotá-lo?      — Quem falou em sabotagem? – disse Tamara.      — Não é questão de sabotagem. É questão de vida ou morte e é sério, muito sério. Se alguém falar demais nós morremos – disse Ludmila. A morena olhou espantada de uma para outra colega e lhes viu os semblantes fechados. Compreendeu que o assunto era grave.      — Os... Os Kamuratti...? – arriscou ela.      — Hum-hum – fizeram as duas.      — Ainda é o assunto do Anteu...?      — Hum-hum – repetiram elas.      — Se importariam de falar? Esses “hum-huns” estão-me dando no saco, se querem saber. Agora, escutem, eu fui quem começou tudo. Era eu quem estava no motel quando os seqüestradores chegaram. E pra finalizar a história, eu é que fui atirada para morrer naquela pista molhada. Os seqüestradores viram o meu rosto, mas eu não vi os deles. Estou em desvantagem. Sei apenas que eram negros e jovens. Exceto um, o que dava as ordens. Este era homem feito, tenho certeza. E era um animal sanguinário. Foi dele a ordem de me jogar do carro em velocidade.      — Como sabe que eram negros e jovens? – indagou Tamara.      — Olfato e audição. Pelo olfato identifiquei o cheiro dos negros. Pela audição distingui a voz do homem. Agora, digam-me, tenho ou não tenho direito de ser informada do que vem acontecido em minha ausência?      As duas amigas se entreolharam. Karina tinha realmente uma boa razão para pleitear que lhe dissessem tudo.      — Bom – disse Ludmila – eu creio que você tem todo o direito de saber a quantas andam as coisas. Mas deve-nos prometer não passar nada à redação antes que tudo esteja desvendado, caso contrário vai condenar todas nós à morte certa.      — Está jurado por minha honra de mulher e de profissional – disse a bela morena, muito séria.      — Muito bem, então... – o telefone tocou. Ludmila interrompeu o que ia falar e foi atender.      — Alô? ... Mara! Que surpresa! Onde...? Não acredito!... O que?... Aí?... – Ludmila ficou muito tempo ouvindo ao telefone, sem interromper. Então, falou – Bem, se você confiou, então eu também confio. Ah, sim, está bem. Estarei na Marina às nove em ponto... Sim, sim, tenho, tenho muitas, mas contarei quando estivermos juntas. Até amanhã!      Ludmila voltou para junto de suas amigas.      — Vocês não sabem da maior. Mara está hospedada na ilha de Milena Forcis.      — O que? Na casa da noiva do pau-mandado? Ela endoidou?      — Não, Tamara, não. Eu vou explicar tudo. Temos a noite toda pela frente e nada melhor a fazer. Além do mais, são apenas vinte horas... CAPÍTULO VIII CRESCE A INTRIGA        — Você foi imprudente e altamente impulsiva, Lucilla – repreendeu o Sr. Kamuratti contrariado, tão logo a mulher acabou de fazer o relato de sua tarde movimentada. – Em primeiro lugar, aqueles pagãos nos são de utilidade. Não quero que se aborreçam conosco. Não agora. Ainda não estamos prontos para colocá-los nos seus devidos lugares. É só por isto que eu os tolero. Em segundo lugar, se as duas intrometidas são mesmo da Polícia Federal, coisa de que ainda tenho dúvidas, eu disponho de meios menos espalhafatosos de por as mãos nelas, e você sabe disto. Por que se aventurou a fazer tamanha besteira sem me consultar? Eu tinha tudo planejado.      — Não me agradou que desconhecidos soubessem de nossas manobras financeiras – disse Lucilla com firmeza – O que mais elas podem saber? E de onde realmente são? Eu tinha de agir. Você, afinal de contas, não me disse nada do que pretendia. Eu só sabia que nosso homem ia ao encontro, mas vim ficar sabendo que ele estava impossibilitado para isto. Como não tinha certeza do que você pretendia fazer e como não tinha disponibilidade de lhe falar, fui lá. Eu quero saber de onde elas são realmente.      — O que importa isto? – disse Kamuratti olhando fixamente para a esposa.      — Importa muito – rebateu ela. – Eu não quero o MOSSAD em nossos calcanhares. E você sabe que aquele maldito serviço secreto é um perigo constante. São mais espertos que a C.I.A.. É difícil monitorar seu pessoal. As duas sirigaitas bem que podem ser plantações daqueles infelizes. A gente precisa descobrir tudo a respeito delas urgentemente, esta é a minha opinião.      — Se for o que você suspeita, o maior erro de nossa parte é eliminá-las. Temos de agir discretamente. Se o MOSSAD estiver metido nisto, é claro que teremos de tomar cuidado redobrado. Eles estão em nossa pista. Sabemos todos disto. São espertos, mas nós temos meios dos quais não dispõem. Não esqueça que já conseguimos corromper três importantes figurões lá dentro. Nós os temos em nossas mãos.      — Você é muito confiante. O MOSSAD é de judeus, não de norte-americanos. E sabemos que eles, os judeus, dão muito mais valor à dignidade que aquele povo corrompido. O MOSSAD defende os interesses hebraicos. Entre o valor pessoal e a honra da nação hebréia, eles optarão sem pestanejar por esta última. E não esqueça que o MOSSAD está dentro da Judéia. Nós ainda não dominamos aquilo lá. Somos uma facção que não é plenamente aceita por aquela comunidade. E isto é de milênios.      — A Grande NAHASH está ciente disto, Lucilla. Itzhak Rabin e seu cúmplice, Shimon Perez, são dois traidores. Mas nós vamos eliminá-los e traremos todas as tribos para nosso lado. Os desobedientes sentirão o peso de nossa mão de ferro, fique certa. É assim desde Absalão.      — O MOSSAD não é fácil de ser dobrado, meu caro. Precisamos estar mais atentos a ele do que aos tolos da C.I.A. – insistiu Lucilla.      — E estamos, e estamos, Lucilla. Mas se você continuar a agir de modo tão intempestivo, tudo pode ser posto em risco e isto é algo que não devemos querer que aconteça. Nossas cabeças rolariam na certa. A Grande NAHASH não nos perdoaria. Eu não acho que as duas mulheres sejam da Polícia Federal brasileira, não. Nem de qualquer serviço secreto estrangeiro, se quer saber. Não sei ainda de onde são, mas não são de nenhum serviço secreto, disto tenho quase certeza.      — Samael, eu vi. Elas são peritas em defesa pessoal. Os dois homens que levei são peritos em arte marcial. São faixa-preta de Karatê e conhecem a luta dos soldados hebreus como ninguém. No entanto, elas os venceram facilmente.      — Ora, Lucilla, a surpresa é a melhor arma. Eles foram pegados de surpresa pelas tais mulheres. Espero que isto lhes tenha servido de lição. Nunca se deve menosprezar o adversário, mesmo que ele nos pareça um inepto.      — Tudo bem, concordo. Mas tem um detalhe que me preocupa. Eu notei que a mulher que seguia a loura que se disse chamar Irina Hess, não era a mesma que esteve aqui em nossa casa. Isto quer dizer que mais gente está em nossa pista. Mais gente está informada sobre nós. Precisamos, urgentemente, saber quem são. Não me agrada um detalhe destes. Nós é que sabemos de tudo sobre todos, não o vice-versa. O nosso trabalho aqui é muito grande e muito importante. Importante demais para ser posto em risco por alguns intrometidos.      — Eu sei, eu sei. Nada vai interferir com ele. Agora, quanto às mulheres, deixe que eu mesmo ajo. Se apareceu outra, ótimo. Já sabemos com certeza que há um grupo. Mas vamos agir com calma para podermos chegar até ele. É possível que alguém da Federal possa estar entre os do misterioso grupo. Mas ainda não creio que as duas... três mulheres trabalhem na Polícia, não. Agora, faça-me um favor, cuide dos preparativos para a viagem. Há detalhes muito delicados que só a um de nós cabe providenciar. Eu vou tocar em frente aquela outra parte de nosso trabalho. A propósito, por que Fratelli não compareceu ao encontro?      — Já lhe disse. Segundo Luís Filipe, ele telefonou informando estar acidentado... ou coisa que o valha.      — Está bem. Deixe-me só, por favor.      Lucilla retirou-se. Kamuratti tomou do telefone e chamou o celular de Enrico Fratelli. No terceiro toque ouviu a voz forte de seu assecla.      — O que aconteceu? – perguntou sem se identificar.      — Machuquei a perna no dojô. Algo inesperado.      — Muito mau.      — Se se refere às duas mulheres, não se preocupe. Combinei com o Dr. Luís Filipe. Elas não...      — Houve um imprevisto. Elas escaparam e ainda nocautearam Fílio e Cícno.      — Como??? – o espanto de Fratelli era genuíno. Conhecia a eficácia de seus homens, principalmente Fílio. Kamuratti narrou-lhe sucintamente o que acontecera e Fratelli intimamente amaldiçoou a patroa, mas não expressou seu aborrecimento.      — Venha, hoje, às 22h, ao escritório na torre. Conversaremos melhor. Tenho um trabalho importante para ser feito, mas você não vai poder executá-lo porque está ferido.      — Estarei lá.      Kamuratti desligou o telefone e fez mais cinco ligações. Duas delas internacionais.      Eram as 22h. O carro particular de Damastor foi deixado na garagem da delegacia. Ele e Ivaldo, vestindo jeans, camisa surrada e tênis velho, tomaram um táxi. Cinqüenta minutos depois estavam saltando diante da “DANCETERIA VERMELHO E PRETO”, em Madureira. O taxista mal recebeu o dinheiro e teve os passageiros fora de seu carro, arrancou cantando pneu. A noite estava pesada. O ar, parado. A temperatura beirava os 3O. Do inferninho vinha a zoeira infernal do “funk” e do rock pauleira. Diante da casa mal iluminada alguns automóveis e motos. Muita gente chegando a pé. Vinham em bandos. O andar bamboleante e cheio de movimentos estereotipados caracterizava a fauna.      Ivaldo olhou para Damastor e sorriu. Sem falar nada do que estava pensando, pôs-se a atravessar a rua com a mesma ginga dos “fanqueiros” e Damastor seguiu-o com naturalidade. Aquilo muito lhe agradou. Seu companheiro não era cheio de preconceitos bobos e estava por dentro da malandragem necessária para certas ocasiões especiais, como aquela.      — Temos de descolar uma “mina” para cada um de nós – disse Ivaldo sem parar. – Você sabe azarar como se faz atualmente?      — Sei, claro. Mas creio que vai ser problema. Veja, elas vêm acompanhadas – comentou Damastor colocando um chiclete na boca.      — Nem todas estão acompanhadas – disse Ivaldo. – Há algumas pistoleiras que vêm para caçar. De preferência vamos-nos deixar pegar por negras ou mulatas. Nada de brancas Nós seremos a caça. A propósito, tem um chicle para mim também?      — Tome – e Damastor estendeu um chiclete para o amigo. – Por que devemos dar preferência a escurinhas?      — Os rapazes que foram assassinados eram de cor, exceto um. Há um forte racismo entre os jovens das classes mais baixas em nossa sociedade e entre os componentes de gangues isto é muito sério. Eu sou mulato...      — Você? Onde? – brincou Damastor.      — Meu pai é um preto, seo’ safado. Você ainda não notou meu cabelo?      — Brincadeirinha – riu Damastor, parando antes de entrarem no inferninho e murmurando ao ouvido do companheiro:      — Ivaldo, vamos evitar ao máximo a pancadaria, tá bom?      — É o que pretendo. Pelo menos vamos tentar de tudo para não ter de distribuir alguns cascudos em algumas cabeças duras – disse Ivaldo piscando um olho para uma negra toda produzida que o esnobou solenemente. – Está vendo o que eu disse? Para ela, sou branco.      — Copiam na íntegra o comportamento dos crioulos norte-americanos, mas esquecem que lá não é somente a cor da pele que indica a raça do indivíduo – murmurou Damastor contrariado.      — Os irmãos do norte, queiramos ou não, são os senhores do mundo, meu caro. E seus filmes disseminam o racismo pelos quatro cantos da Terra. Mas lá, quando falam de branco, referem-se aos famosos arianos puros . O mais ridículo disto tudo é que, aqui no Brasil, é impossível branco ariano. Todos somos mestiços de um ou de outro modo. Mamelucos ou cafuzos, mas mestiços. Não é uma gracinha? Agora, vamos entrar.      Os dois amigos embarafustaram-se pelo meio dos já alucinados jovens e entraram “no inferno”. O odor da “canabis sattiva” ardeu-lhes nas narinas. Não havia mesa desocupada e o ambiente estava claramente dividido em territórios bem demarcados. A agitação era frenética e a cerveja, a caipiríssima e a maconha imperavam. “ Meu Deus ” – pensou Damastor – “ é a isto que chamam liberdade? No meu tempo de jovem havia repressão demais e as neuroses eram a maconha da época. Agora, a liberdade é ampla e os direitos da criança abrigam o crime e o defendem para estas mesmas crianças. Não é possível encontrar um meio termo antes que tudo vá pro inferno de vez ?” Eles foram direto ao bar e conseguiram encostar no balcão sem nenhum atrito. Uma mulata de curvas acentuadas, perfume barato e roupa de boneca, toda em couro, sentou-se ao lado de Ivaldo. Sua companheira com, no máximo, 17 anos, porém mais cadeiruda que ela, apoderou-se do banquinho ao lado de Damastor. Ambas olharam lascivamente para os homens que fingiram ignorá-las.      — Estão sós? – perguntou a mulata de curvas acentuadas e mais velha, piscando um olho para a mais nova e com um sorriso debochado na face. Ivaldo olhou para ela também com um sorriso de deboche e arrogância, tipo do que observara entre os jovens em torno.      — Agora, não mais. O que vai ser? – e deu um tapinha íntimo no bumbum da mulata que riu coquete.      — O que vocês vão tomar? – disse ela oferecida.      — Cerveja.      — Hum... Não pode ser algo mais quente, não?      — Pra nós, não. Mas se vocês quiserem, não se acanhem.      — Duas caipiríssima – disse a mulata imediatamente para o barman, que esperava olhando-os de cenho franzido. Ele preparou as bebidas. As cervejas pedidas foram servidas e os amigos beberam com estardalhaço.      — Como é o nome da gata? perguntou Ivaldo erguendo o copo num arremedo de cumprimento.      — Ivete. A colega aí do lado é Lucélia. Só não é Santos – respondeu jocosa a moça. – E vocês, como se chamam?      — Lula e Chico. O Chico é ele, lógico. – Ivaldo estrondou uma gargalhada de deboche no que foi acompanhado pela mulata.      — Eu ainda te mostro onde é que tenho o “chico” – disse Damastor fingindo aborrecimento.      — Não esquenta não. – Falou Ivaldo – Ele é legal. Escuta, é verdade que a “branca” daqui é soçaite?      — É – respondeu a mulher. – De onde vocês são? São novos no pedaço. Eu venho azarar todo fim de semana e nunca vi nenhum de vocês aqui, antes. – A mulata olhava curiosa para os dois homens. Antes que o seu acompanhante pudesse responder, as caipiríssimas chegaram.      — É com Vodka? – perguntou Lucélia.      — É. – Disse o barman sempre de olho nos dois homens.      A garota tomou um gole e aprovou com um aceno de cabeça.      — E então, de onde vocês são? – insistiu a mulata.      — Da Mangueira, gata – mentiu Ivaldo de modo displicente. A moça olhou para Damastor que confirmou com um aceno de cabeça.      — Por que vieram aqui, hoje? – tornou a indagar Ivete.      — Ué, é proibido a gente vir aqui? – perguntou Damastor fingindo espanto.      — Não. Só estou curiosa... – respondeu Ivete olhando-o com um meio-riso de desconcerto na face, mas fixando-o nos olhos.      — Muito bem, já que quer saber de nós, vamos também saber de vocês. De onde são? – e Damastor passou a mão sobre os ombros de Lucélia de modo natural, o que muito agradou à garota.      — Nós somos de Realengo – disse Ivete. – Aliás, eu sou de lá. Ela é de Bento Ribeiro. Somos primas.      — Hei! – exclamou Ivaldo com olhos brilhando de espanto – Vai ver que são elas!      — O que? – exclamou por sua vez Damastor, tomado de surpresa.      — O “Barata” não disse que tava amarrado nas primas? É muita coincidência, não acha? E a expressão do rosto de Ivaldo fez Damastor compreender a jogada.            — Ah! Foi mesmo! Eu tinha esquecido... Por falar nele, onde anda aquele negro duma figa? – e dizendo isto espichou-se todo relanceando os olhos pelo salão.      — Vocês conheciam o “Barata”? – perguntou Ivete.      — Conhecia, não. Conhecemos. Aliás, a gente veio aqui, hoje, justamente para fazer uma surpresa a ele. Faz dois meses que estamos a trabalho em São Paulo, sabe? Chegamos hoje de manhã e resolvemos... – dizia Ivaldo quando Damastor pousou a mão sobre o seu braço e meneou negativamente a cabeça.      — Não, não – disse ele. – A gente só vai falar com o “Barata”. As meninas que nos desculpem, mas o assunto é particular, tá legal?      — Ih, meu, vocês não vão falar com o “Barata”, não – disse Ivete.      — Cês não tão sabendo, é? – perguntou Lucélia.      — O “Barata” morreu aqui mesmo, deitado neste balcão – completou Ivete.      — O quêêê? – exagerou Ivaldo.      — Não é possível! – encenou Damastor.      — Pois foi, gente, foi mesmo! – enfatizou Lucélia.      — Mas como foi isto? – perguntou Ivaldo fingindo espanto total.      — Quando foi? – perguntou falsamente aflito, Damastor.      — Peraí que eu conto – disse afobada Ivete. E passou a narrar com detalhes o que assistira na noite da morte do “Barata”. A excitação lhe alteava a voz e despertava a atenção de quem estava por perto e logo um pequeno grupo começou a se formar em torno deles.      — Mas isto é inacreditável... – disse constrangido Damastor, quando a moça terminou sua narrativa orgulhosa de ter prendido a atenção de tanta gente. Tomados pelo calor da fala da narradora, cada um contava um detalhe do que presenciara naquela noite.      — E o branquelo morreu sentado lá, no bocão? – e Ivaldo apontou o mictório, do outro lado do salão.      — É, meu, o “Lagartixa” apagou lá mesmo – confirmou um rapaz atarracado e rude.      — E o Negão, o Catucão e o Navalha, onde estão? – perguntou Ivaldo que já não mais despertava suspeita, vez que sabia o nome de todos os integrantes do bando com tanta intimidade.      — Estão do outro lado, chapa – informou o rapaz taludo. – Foram para a cidade do silêncio. Hei, paga uma talagada aí, pra mim?      — Tá limpo. Ei, do copo! Põe uma branquinha...      — Dupla, dupla, tá legal?      — Tudo bem. Do copo, é dupla, ouviu? – disse Ivaldo. – Agora, digam, o que aconteceu com os garotos?      — A gente não sabe. Eles saíram levando o “Barata” lá pra fora. Depois, a gente só soube da notícia no jornal. Afogados no Guandu, pode?      — Mas daqui pro Guandu é muito chão. Mais do que cinqüenta quilômetros. Vocês não acham estranho que eles tenham andado tanto pra morrer?       Ivaldo despertava a curiosidade dos rapazes broncos e lhes prendia a atenção cada vez mais. Damastor notou que eles se entreolhavam. Ao que parecia, ninguém tinha pensado naquilo, antes.      — Ei, cara, você foi rápido – gritou um rapaz de dentro da multidão. – A gente num tinha pensado neste detalhe, não.      — E os garotos não tinham carro – incitou Damastor. – Quem foi que deu carona a eles?      — Eles podiam ter ido de ônibus – argumentou outro curioso.      — Não, falou o barman, agora já interessado no papo. – Eu acho que quem deu carona, se deu, foi um cara mau encarado e brigão que estava com eles aqui, naquela noite.      Todos se voltaram para ele. O homem se sentiu importante. Os dois detetives se olharam. Fazia duas horas que estavam ali e já surgia algo de novo. Melhor não podiam desejar.      — Quem era o sujeito? – perguntou Ivaldo.      — Eu não sei – disse o barman. – Só posso dizer que era bom de briga. Rápido como uma cascavel. A primeira vez que veio aqui desmoralizou o grupo do “Barata”. Quase capou o “Negão”, depois de ter tomado a navalha dele. Depois, disse que tinha vindo procurar machos...      — Era bicha? – estranhou Ivete.      — Não, acho que não – respondeu o barman. – Ele disse que queria homens dispostos a encarar a morte sorrindo. Depois, saiu. Pouco depois os rapazes saíram um a um. Suponho que tenham ido ao encontro do cara.      — Como é que você sabe de tudo isto? – indagou Damastor.      — Ele não se incomodou comigo. Eu devia parecer uma barata morta, a seus olhos. Mesmo estando perto o bastante para ouvir tudo, ele não ligou. Como eu disse, é um homem rude, de meter medo.      — Como era ele, “Pancho”? – interessou-se o rapaz atarracado.      — Pra dizer a verdade, não lembro bem. Só sei que tinha uma cicatriz feia no lado esq... não, acho que era direito... é, no lado direito da face. Os rapazes o chamavam de “Cicatriz” por causa da marca.      — Na noite das mortes ele estava aqui? – quis saber Ivaldo.      — Sim – respondeu o barman. Ele veio procurar o grupo do “Barata” e eu me lembro de que um dos garotos perguntou se era para outro serviço. Qualquer coisa com exportação. O “Cicatriz” disse que sim, mas tratou de mudar de assunto porque eu estava perto demais.      — Ah, então, da primeira vez, era um serviço o que ele tinha para a turma, hein? E quanto pagou aos rapazes? – Damastor falou em voz alta a fim de aguçar a atenção dos presentes e o conseguiu. O grupo crescera um bocado, desde que haviam começado a falar sobre o caso.      — Não faço a mínima idéia – disse o barman. – Mas o “branquelo” é que deixou escapar que o negócio tinha rendido muita grana. Mais dois serviços destes – ele disse – e eu caso e vou endireitar minha vida. Coitado do rapaz. Foi, sim, mas pra cidade dos pés juntos.      — Será que o tal “Cicatriz” tem alguma coisa com a morte deles? – falou suspeitosa Ivete, que já sentara sem cerimônia na perna de Ivaldo.      — Acho que não – disse o barman apelidado de Pancho. – Ele estava aqui, no balcão, quando o “Lagartixa” bateu as botas lá no mostra-pau. E até ajudou a socorrer o “Barata”, quando ele passou mal.      — Eles beberam juntos? – indagou Damastor.      — Sim – respondeu Pancho. – O “Cicatriz” pagou duas rodadas de chope para todos.      — O “Cicatriz” ficou só, com as bebidas, antes de os garotos começarem a beber? – tornou a perguntar Damastor,      — Eu não me lembro... Por que a pergunta?      — Bem, o “Barata” passou mal... Quem sabe ele não colocou alguma coisa no copo de nosso amigo, hein? – sugeriu Damastor. Os rapazes se entreolharam com murmúrios de interesse e dúvida.      — Taí – exclamou um jovem magro, olhos azuis, louro e alto – o cara aí tem razão, meu. O “Barata” era um elefante, sim. Era preciso muita “branquinha” pra derrubar o bicho. Deve ter sido uma dose pra cavalo.      — Sei não, cara, sei não – contestou o jovem atarracado. – A branquinha na bebida altera o gosto paca. O “Barata” era íntimo da Joana e teria notado o gosto no primeiro gole. Inda mais se tivesse sido uma dose pra cavalo, como você está sugerindo.      — É... Acho que tu tá certo, me’rmão – concordou o magro de cabelo em rabo-de-cavalo.      — Vocês já pensaram que o “Cicatriz” deve ter voltado aqui a mando do chefe dele, só com o fim de matar a turma? – insinuou Ivaldo. Houve um movimento de espanto e agitação entre os circunstantes.      — Como é que você sabe que ele tem um chefe? – indagou Lucélia, curiosa.      — É isso aí, me’rmão. Como é que tu sabe? – reforçou o rapaz atarracado seguido de um murmúrio entre os do grupo.      — Mas é elementar, gente – disse Ivaldo. – Um cara como o que nosso amigo Pancho descreveu é pau-mandado de alguém. Ele mesmo não tem capim pra pagar bem por um serviço que, pelo visto, é da pesada. Eu acho é que o tal “Cicatriz” voltou pra queimar arquivo.      Fez-se pesado silêncio no auditório. Eles começavam a pensar que assim como tinha sido o “Barata” e seu grupo, podia ser um deles. Quem sabe o tal “Cicatriz” não voltaria e pegaria outros deles para... matar? Ninguém falava, mas os olhares dispensavam a palavra.      — Se o filho-da-puta aparecer por aqui de novo, a gente acaba com a raça dele – sentenciou o rapaz baixo e atarracado. Todos acenaram concordando com aquilo.      — Aí, – disse Damastor – a gente fica sem meios de saber quem é o verdadeiro assassino. E ele, se é rico – e deve ser – vai mandar outro. A gente fica sempre nas mãos dele...      — Aí, me’rmão – disse o rapaz atarracado, – tu tá certo. A gente tem de botar a mão é no desgraçado do mandante.      Murmúrios de aprovação. O grupo estava excitado. Damastor percebeu que a adrenalina ia num crescendo.      — Mas e se for gente do Comando? – disse o jovem magro e alto.      — Aí não vai dar pra nós – disse Ivete.      — Mas não é coisa do Comando, não. Tem gente deles aqui e são nossos, cara. Também eles estão sem entender nada, como a gente. Aliás, eles acreditam na história em que nós acreditávamos até os caras aí começarem a falar.      — Então, a gente tem de pegar o tal de “Cicatriz” – falou um jovem negro azeitonado, mais gordo que forte, aparentando uns 16 anos e que até ali estivera calado observando e escutando. Era alto, apesar da idade que aparentava e forçou a passagem para se aproximar dos dois policiais.      — Aí, “Baratinha”, se animou, é? – falou Lucélia.      — “Baratinha”? – estranhou Damastor.      — É. Ele é o irmão mais novo do “Barata” – disse a jovem. – Ué, você não conhece ele? – estranhou ela.      Ivaldo percebeu o perigo iminente. A turma estava agitada, sentindo-se ameaçada por algo desconhecido. Eram instintivos e, por isto mesmo, explosivos. Uma vacilada daquelas podia por tudo a perder. Por isto, quase gritando, ordenou:      — Uma rodada de chope pra todos aqui, Pancho. É por nossa conta!      A algazarra foi grande e todos foram ao balcão apanhar os copos. Ivaldo aproveitou para falar com Damastor, livre de sua pivete.      — Acho que é hora de a gente cair fora. Esse irmão do tal “Barata” pode azedar nosso leite.      Damastor concordou. Puxou o “Baratinha” pelo braço e lhe disse:      — Escute, aqui estão cem reais. Pague as bebidas de nossos irmãos e fique com o troco. A gente tem de sair, agora.      — Onde vocês vão? – indagou o rapaz afobadamente.      — Pra casa. Estamos cansados e chateados. O “Barata” era um bom camarada nosso. A gente tem de conseguir um substituto pra nos ajudar.      — Que tal eu? – ofereceu-se o jovem. – Gostei de você. Em pouco tempo mostraram o gato onde a gente não tinha visto nem o rabo. Meu irmão nunca falou de vocês, mas ele era caladão mesmo. Se ele me tivesse falado de vocês a gente já estava junto há muito tempo, podes crer.      — Tudo bem, vamos pensar no assunto. Você pode até substituir o “Barata”, mas tem, primeiro, que mostrar que é capaz – disse Ivaldo.      — E o que tenho de fazer?      — Acho que vigiar o tal “Cicatriz”, quando ele aparecer, é uma prova de fogo. Ele deve ser não somente esperto, mas perigoso, Se você conseguir...      — Só vigiar? – estranhou o jovem.      — Só. Não se meta com ele. Observe tudo o que ele faz. Veja com quem fala, descubra o que está querendo... Anote a placa do carro, se ele tiver um...      — E creio que tem – disse Damastor.      — Tá, saquei. E depois?      — Barman! – chamou Ivaldo.      — Sim? – atendeu o homem.      — Nós combinamos com o “Baratinha” uma jogada. Ele passa tudo para você. A gente liga, toda sexta, todo sábado e todo domingo em que não possamos vir aqui, e você nos passa a informação.      — É sobre o quê?      — O tal “Cicatriz” – disse o jovem. – A gente tá a fim de descobrir quem é o desgraçado filho-de-uma-puta.      — Tá certo – concordou Pancho. – O safado me deve uma.      Cumprimentaram-se à moda dos negros americanos e saíram do “inferninho”. Já no carro, Ivaldo falou esperançoso.      — Temos algo de sólido, agora.      — Não. Apenas um apelido: “Cicatriz”. Quem é, como é, onde está e o que faz, a gente não sabe. A gente não sabe nada, Ivaldo – disse Damastor pisando no acelerador. – E quer saber do que mais? Eu não vejo onde o tal sujeito pode ligar-se ao Arthur.      — É, ainda temos pouco, concordo, mas já temos mais do que tínhamos quando chegamos aqui. Ainda não podemos descartar a hipótese, não é?      Damastor olhou para Ivaldo com ar cansado. Mas reconheceu que ele tinha razão e assentiu com um gesto de cabeça.      Vinte horas. Quatro homens entraram no escritório de Kamuratti. O banqueiro convidou-os a sentar. Pelos trajes e pelos modos podia-se inferir que eram ricos e poderosos.      — Senhores – disse Kamuratti quando todos estavam sentados. – Meu tempo é exíguo. Sugiro começarmos pelo nosso interesse mais imediato. Senhor Deputado Laércio, como vão os esforços para as privatizações? O senhor é o líder do Governo na Câmara. Então, deve ter muito a nos contar.      — E tenho, Senhor Kamuratti. Tudo corre dentro dos conformes. Apesar das oposições, temos conseguido comprar muita colaboração, se me entende. Nas últimas privatizações, ganhamos trinta bilhões de dólares, pagamos em moedas podres quatro bilhões e duzentos milhões e em dinheiro bom somente um bilhão e oitocentos milhões.      — Isto eu sei. Aliás, todos sabem. A televisão anda noticiando insistentemente o assunto. Como estamos quanto ao petróleo, as telecomunicações, o subsolo e a Amazônia? Isto é vital, compreende, senhor Deputado? Nossa... Organização não quer saber de falhas nestes negócios. Os monopólios têm de ser quebrados. A navegação de cabotagem tem de ser aprovada, de preferência com um mínimo de restrições, por motivos óbvios. E a Amazônia tem de ser aberta para nossas empresas de exploração de madeira e minérios.      — O senhor deve compreender que a luta é dura, muito dura. E é muito perigosa, também. De qualquer modo, a balança está a nosso favor. A chantagem está-nos favorecendo e Kantor Antratos é um ótimo colaborador. Ele tem demonstrado que pode seqüestrar quem resolver que deve e a polícia é inútil, até porque seus comandantes estão na folha de pagamento do facínora. Uma insinuação quanto ao seqüestro de um familiar... um filho ou uma filha... enfim, a gente sempre consegue quebrar algumas resistências mais fracas, porém nem por isto menos importantes. Alguns líderes do povo é que realmente nos dão trabalho. Uns mais perigosos já foram neutralizados e há dois, na Amazônia, que logo anularemos. Eu me refiro aos padres...      — Não gosto do método que usam – cortou Kamuratti. – Dos quatro, o tal de Francisco Mendes virou mártir. É o de que menos precisamos: mártires. Desmoralizem! Façam com que percam a credibilidade. Enxovalhem suas memórias e distorçam suas ações e palavras. Enfim, lancem-nos no descrédito total, mas não os matem. A eliminação pura e simples só nos traz problema maior.      — Sabemos disto, Sr. Kamuratti, mas nosso problema maior é o tempo. Não dispomos de muito.      — Só apelem para a eliminação física em último caso, eu insisto. E quanto ao tempo, dá-se um jeito. Agora, outro problema prioritário: a Itavale do Rio Doce. O que tem a me dizer dela? Quando será privatizada?      — Esta é uma privatização muito polêmica. É uma companhia de fama internacional e sabidamente não dá prejuízos, ao contrário, não só dá lucro, como ajuda substancialmente a Região Norte e Nordeste em seu desenvolvimento social. Temos de ir com muito cuidado. Os progressos não são o que desejávamos, mas de grão em grão...      — Senhores – disse Kamuratti olhando o relógio de ouro no pulso – é preciso incendiar a polêmica sobre a educação, a moradia e a alimentação. Concomitantemente, é preciso anular os esforços no sentido de concretizar-se qualquer benefício. Apertem o Governo. O atual presidente é um empecilho com o qual nós não contávamos. A bancada dos senhores deve lutar para que os juros continuem sufocando o comércio e a indústria. Amenizarei a tensão fazendo a televisão fabricar heróis. Fórmula Um à vontade. Futebol à granel. Vôlei, basquete, futivôlei e quantas mais besteiras desta espécie exista. Carnaval e trio elétrico até fora de hora, tudo é válido para entorpecer as massas. Minhas empresas cuidarão disto. “Pouco pão e muito circo”, esse tem de ser o lema. Manteremos a massa estúpida no ópio da ilusão. Não nos interessa a rebelião, agora. Primeiro temos de colocar as mãos nas riquezas deste país fabuloso. A Argentina já está quase esfacelada. Todos os seus esforços nós fizemos fracassar. Agora, Cavallo caiu. Ela será totalmente nossa em breve. O México, também. A África está toda em nossas mãos. Quando derrubarmos o Brasil, a América do Sul cai. Ele é o mais forte e é o mais rico. Nós já adquirimos o direito sobre ele em quase toda a sua totalidade. O que ainda não nos pertence, pertencerá. Questão de ajustes financeiros na Grande NAHASH. Agora, senhores, quero saber quanto à estratégia a médio prazo. Quem me informa?      O mais careca, mais baixo, mais gordo e mais míope entre os quatro figurões da política nacional falou.      — Bom, como foi planejado, incrementamos a formação dos grupos dos “Sem Terra”. Demorou um pouco devido aos brasileiros interioranos, ainda Jecas Tatus. Mas aos poucos conseguimos arregimentá-los e formamos grupos que se tornam significativos.      — Cuidado – disse Kamuratti. – A reforma agrária de modo nenhum, mas de modo nenhum mesmo, eu enfatizo, pode-se deixar concretizar. Tem de ser mantida como uma bandeira, mas apenas como isto: uma bandeira para iludir e alimentar a ilusão dos trouxas. A bancada dos Campistas, na Câmara, está trabalhando firme neste assunto, mas eu exijo a cooperação dos senhores para eles.      — Não se concretizará, fique descansado. O Governo desapropria as fazendas produtivas, forçado pela massa bem liderada; assenta as famílias dos miseráveis, mas nossa bancada não vai permitir que dê a eles os implementos agrícolas para trabalharem a terra. Não terão os grãos para o plantio e se quiserem comprá-los, fa-lo-ão nas mesmas condições impostas para os grandes fazendeiros: empréstimos com juros altos. Logo, logo eles estarão desanimados e descrentes e serão forçados a vender os lotes que ganharam. Nosso pessoal compra tudo, legalmente e a preços irrisórios. As terras boas serão nossas, fique descansado. Com algum dinheiro nos bolsos os “Sem Terra” irão para as cidades grandes, como Rio de Janeiro e São Paulo. Vão engrossar as favelas. Não custará muito e estarão trabalhando para algum assecla de nossos homens no crime organizado.      — Chamo a atenção para o fato de que, também no campo, não queremos nenhum movimento revolucionário. Tenho visto pela televisão que nossos homens infiltrados entre os Jecas Tatus os estão ensinando técnicas rudimentares de guerra de guerrilha. Não quero que isto vá em frente. Ainda não é hora para tal movimento. As Forças Armadas ainda não estão de joelhos. Não nos enganemos. Há oficiais ali que podem fazer-nos uma surpresa, como foi o caso de Castello. Naquela época, tudo parecia em nossas mãos. Afobamos-nos e perdemos vinte anos. A Irmandade não quer mais isto. No momento propício a Grande NAHASH nos dará o sinal. Estou relativamente satisfeito com a manobra, mas não quero que a guerrilha seja desenvolvida. Poderia redundar num novo Vietnã. Não temos interesse em que as florestas Amazônica e Atlântica seja atacada com agentes químicos e destruídas. Reconheço que o trabalho, de um modo geral, tem sido inteligente e cuidadosamente levado a efeito. Até agora, parabéns. Eu falei nas Forças Armadas. Quem pode-me dar notícia de como anda nosso trabalho lá?      Foi a vez do homem alto, magérrimo, meio calvo e com sotaque de lusitano, falar.      — Estão sob perfeito controle. Exército, Marinha e Aeronáutica já perderam o moral dentro de suas tropas. O treinamento dos soldados está o mais fraco e relaxado que é possível. A corrupção já atinge as tropas. Os nossos homens lá dentro fazem excelente trabalho. Valeu a pena esperar todo o tempo necessário para que se tornassem oficiais, após os concursos e o estudo nas escolas militares. Agora, fazem excelente trabalho. A Aeronáutica, por exemplo. É a mais corrompida, a mais amoral e a mais enfraquecida dentre as três forças armadas. Indisciplina, desestímulo à nacionalidade e nenhum incentivo ao patriotismo. Ladrões vivem tranqüilamente em suas vilas, à proteção da Polícia. Beberrões, estupradores, enfim, uma excelente laia de malfeitores convive normalmente com a soldadesca. O Exército está dividido e ainda assustado com a guerra psicológica que lhe movemos transformando o tempo em que sustentou as rédeas do poder em uma terrível ditadura. A moral está baixa entre os oficiais generais, os oficiais superiores e os oficiais subalternos e nós aproveitamos muito bem esta situação. A Marinha é a mais perigosa. Reservada, quieta, ela se mantém em defensiva total. Seria a Arma que melhor poderia enfrentar-nos, mas não tem condições em armamentos. Seus navios são velhos, ultrapassados, e nós não permitimos que nenhuma verba seja destinada a seu reaparelhamento.      — Ótimo, senhor Senador, muito bom mesmo. Assim como David derrotou os filisteus ajudado pelo Deus Eterno, também nós venceremos os gentios de agora. Contudo, precisamos não de armas e sim de astúcia. Procurem atentar para o soldo. Manipulem o soldo, entende? Isto fará com que percam tempo. Saberemos como aproveitar o que eles perderem. Agora, gostaria de ouvir sobre o que estamos fazendo para trazer nosso homem, Urias Köller, ao poder novamente.      — Por enquanto, nada, Senhor Kamuratti – informou o mais elegante dos quatro. – Achamos que o momento psicológico não é propício. O atual Presidente, sem querer, vai preparando o caminho de tal modo que nosso homem retornará como herói, nos braços do povo. O mesmo povo que lhe impôs o “ impeachment ” vergonhoso e o desmoralizou diante do mundo. Pretendemos que o atual Presidente seja reeleito. Terá mais tempo para consolidar, com a nossa ajuda, é claro, a desestruturação da nação e levar o povo a um desespero ótimo para nossos planos. Os esforços dele só nos trará benefícios, pois entortaremos tudo o que desejar fazer de bom para a Nação. Trabalhamos para que nosso homem retorne liderando uma revolução. Os nossos aliados nas forças armadas ajudarão nisto. Na condição de herói nacional será mais fácil tomar o poder e ter o apoio dos imbecis. Imporá a ditadura sem ter quem a ele se oponha e sempre acobertado pela bandeira da democracia. Ele, antes de sair, abriu-nos as portas que os militares nos tinham fechado. Quando voltar, colocará os tronos para que nos sentemos permanentemente sobre esta terra prometida.      — É, estou de pleno acordo com vocês e é o que defenderemos diante da Grande NAHASH. Senhores, ao que parece tudo está dentro do planejado. Eu quero relatório detalhado das atividades, os prognósticos, os pontos fracos e as estratégias alternativas para neutralizá-los. Lucilla vai a Israel para o grande sínodo da Grande NAHASH e levará os papéis. A Sociedade precisa ter todos os detalhes. Boa-noite, senhores. Amanhã exatamente às 16h de Brasília estaremos creditando os dólares referente aos seus trabalhos nas contas que têm nos paraísos fiscais.      Todos puseram-se de pé respeitosamente, mas não conseguindo ocultar a satisfação que a cobiça lhes dava. Apertaram as mãos do Sr. Kamuratti e saíram imponentes. O banqueiro os acompanhou até os elevadores. Depois que eles iniciaram a descida, Kamuratti murmurou com asco: “ porcos traidores, um dia terão o que realmente merecem. São tão inferiores quanto aqueles a quem traem. ” Voltou ao escritório e fez uma chamada para Israel. Quando Fratelli chegou, ele estava falando em surmiram, lingua que seu assecla não entendia.      Apoiando-se na bengala, Enrico Fratelli sentou-se e aguardou pacientemente que o seu patrão terminasse a conversa. Finalmente ele acabou.      — Qual a gravidade da contusão? – perguntou sem preâmbulo.      — Pouca. Em uma semana estarei recuperado. Em quinze dias estarei bom para outra; cem por cento curado.      — Concordo em que se exercite, mas exijo que tenha mais cuidado. Agora, quero falar de Fílio e Cícno. Foram inábeis com as duas mulheres; no entanto, você me garantira que eles eram muito bons. Como se explica?      — Eles são bons, Sr. Kamuratti. Devem ter sido pegados de surpresa. Se as mulheres sabem defesa pessoal não há nada de espantar em que tenham sido surpreendidos por elas. Mesmo sendo eles peritos em Crav-magah a surpresa pode pregar peças.      — Bom, você é quem entende bem destes assuntos. Se diz isto, então vou dar-lhe crédito. No entanto, preciso eliminar um empecilho na Câmara de Deputados do Estado. Sabe que este tipo de serviço eu só o confio a você. Machucado, como está...      — Posso fazê-lo, não se preocupe.      — Não, não pode. Desta vez quero ação e muito estardalhaço. Você não está em condições.      — Não pode aguardar um pouco mais?      — Não. O momento ideal é depois de amanhã. O alvo vai inaugurar uma estátua em homenagem aos meninos de rua vítimas da violência policial.      — O senhor está-se referindo ao Deputado Luís Filipe Nettus... É ele?      — Sim.      — Mas é o pai do Dr. Luís Filipe – espantou-se Fratelli.      — Sei disso. Quem pode realizar o trabalho? Tem de parecer vingança de traficantes. Plantaremos documentos comprometedores no escritório e na pasta particular dele, duas horas antes do atentado, por isto ele não pode escapar.      — Isto vai atingir a família da noiva do Dr. Luís Filipe. Ela é uma milionária e sua família é de políticos de destaque...      — Também sei disso. Mas a Grande NAHASH já decidiu que esta eliminação é necessária ao apressamento de uns planos que tem a realizar aqui.      Fratelli estremeceu. Ele já executara muitas pessoas por ordem daquela organização. No entanto, não tinha a menor idéia de como era ela, onde tinha sua sede e quem eram seus membros. Sabia apenas que o todo poderoso Senhor Kamuratti tremia quando o telefone verde tocava. Só a Grande NAHASH chamava por ele. Embora não tivesse provas, sabia que a organização tinha assassinos em várias partes do mundo. Homens tão decididos e tão bons ou melhores que ele na arte de matar.      — Bem, eu entregaria a ação ao Fílio. Ele é muito bom nestas manobras – disse Fratelli.      — Então faça isto. Agora, pode ir.      Fratelli saiu. Kamuratti tomou um drink antes de ir para casa.      O iate chegou na hora. O Dr. Khamal Adib Tanatratos foi chamado pelo serviço de som. Ergueu-se e se dirigiu ao píer. Logo depois foi o nome de Ludmila que se ouviu nos alto-falantes. A repórter levantou-se.      — Somos nós – disse ela. – Vamos!      Tamara e Karina seguiram-na.      — O convidado convida onze e o dono da festa bota doze para fora – disse Karina, cética.      — Milena Forcis é fina demais para isto – respondeu Ludmila otimista.      — É, mas colocou você e Mara para fora do carro do noivo sem maiores considerações – disse Karina.      — Aquela foi uma situação excêntrica. Acho que qualquer uma de nós teria feito a mesma coisa, no lugar dela – rebateu Ludmila.      Subiram ao luxuoso iate. Foram recebidos pelo impecável comandante, que fez as apresentações delas com o psiquiatra e as acomodou no convés. Depois mandou servir-lhes suco de frutas gelado e pôs-se em viagem.      O Dr. Khamal era homem bonito, pele clara, rosada, corpo forte e peludo. Tinha olhos caramelados, rosto quadrado, queixo forte e cavanhaque muito bem cuidado. Aparentava uns quarenta e cinco anos.      — As senhoritas são amigas de Milena? – iniciou ele.      — Não. Na verdade, nós não nos conhecemos pessoalmente – respondeu Karina pelas demais.      — Não?! – surpreendeu-se o médico. – Então, como se explica e que estejam no iate dela? Desculpem a curiosidade, mas Milena é muito seletiva com as pessoas.      — Tudo bem, eu explico – disse Ludmila. E contou porque estavam ali.      — Ah, então a senhorita também deseja fazer uma sessão hipnótica. Posso saber qual o motivo? – perguntou Khamal.      — Prefiro apreciar a paisagem, doutor – fugiu Ludmila – Tudo a seu tempo, sim?      O psiquiatra sorriu.      — Tem razão. Mas deixe-me preveni-la de duas coisas importantes. A primeira é que nem todas as pessoas são hipnotizáveis. A segunda, só faço hipnose em casos especiais.      — Quando conversarmos sobre o meu problema, o senhor decidirá – disse Ludmila sorrindo. O médico assentiu, olhando-a nos olhos.      — O senhor é psiquiatra de Milena Forcis? – quis saber Karina.      — Não, senhorita. Fizemos alguns simpósios juntos. Ela é Psicóloga. E é muito competente – respondeu o médico.      Tamara pediu licença, distanciou-se do grupo e iniciou uma bonita seqüência de Kung-fu. O médico observou-a interessado por alguns instantes.      — Ela tem excelente equilíbrio. Com o balanço do iate não é fácil fazer o que faz – comentou ele para Karina.      — É – disse Ludmila. – Tamara escolhe sempre condições desfavoráveis para treinar sua arte marcial. O senhor não acreditaria se eu lhe dissesse que ela faz aquela seqüência saltando sobre as pontas de estacas fincadas no solo, a três metros de altura. E gosta de praticar à noite, quando chove e venta forte.      — Sem iluminação? – admirou-se Khamal.      — Sim. A sensibilidade perceptiva e sensorial dela é muito desenvolvida.      — Por que necessita de tão intenso treinamento? É excelente para o equilíbrio psicomotor, é claro. Mas por que deseja ir além dos limites naturais? Por acaso pretende ser uma monja Shao-lin?      — Ginástica é como uma droga, sabe? As doses vão sempre num crescendo... sempre o ginasta quer um pouco mais disse Karina. – Nossa amiga é uma dependente... eu acho.      Todos riram.      — Vocês também praticam arte marcial? – quis saber Khamal.      — Sim – disse Ludmila. – Também somos... dependentes.      — Sei... Fiz judô há muito tempo, quando era mais jovem – disse o médico de olhos fitos em Tamara. – Hoje, gosto mais da natação e da pesca submarina.      E o médico falou da fauna marinha, suas excentricidades, os perigos ocultos nos corais de arrecifes e o fascínio que exercem sobre os afeitos ao esporte. A viagem tornou-se amena. A conversa, cativante e interessante. Botafogo e Icaraí passaram sem serem notadas pelos convidados no iate. Tamara terminou seus exercícios e veio juntar-se ao grupo.      Mara e Milena, após o desjejum, desceram para a prainha sossegada e paradisíaca. A água estava deliciosa. Mara, contudo, olhava ressabiada para as pedras e as moitas à beira-mar. Milena observou sua cautela.      — Procurando o jacaré? – perguntou a milionária.      — Sim. Não é companhia para dentro d’água – respondeu Mara.      — Não se preocupe. Eles não costumam ficar na ilha. Às vezes aparecem, mas logo voltam aos manguezais no continente. A chuva os arrasta para o mar e eles vêm dar com os costados nas ilhas da baía. Mas aqui eles são muito raros. Em três anos, desde que comprei a ilha, só vi dois. E um deles foi o que você pôs a correr. Por sinal, o mais avantajado que já surgiu por estas bandas. Assisti à captura de alguns deles em outras ilhas, mas nenhum chegava à metade do de ontem.      Mara decidiu-se e mergulhou junto com Milena. Nadaram por um bom tempo. A água era translúcida e temperada. O vento estava quase parado e o sol iluminava preguiçosamente toda a Angra dos Reis, não ardendo na pele. As duas fizeram nado síncrono e deram muitos passos de balé aquático. Não foi preciso que falassem uma com a outra. Simplesmente começaram a nadar em sintonia. O sol começou finalmente a aquecer a areia da praia e elas voltaram para a terra e se estenderam sobre as toalhas.      — Você nada muito bem – disse Milena. – Onde aprendeu a nadar assim?      — Fui campeã de balé aquático pelo Flamengo – respondeu a repórter satisfeita.      — Interessante – comentou a milionária. – Também eu fiz balé aquático nos Estados Unidos. Competi várias vezes e cheguei a ter algumas medalhas pela Universidade de Harvard.      — Gente fina é outra coisa – brincou Mara sorrindo. Depois acrescentou: – Isto aqui é muito gostoso.      — É. Eu gosto muito. Apaixonei-me no primeiro dia e não sosseguei enquanto não comprei a ilha.      — De quem era ela, antes de você a comprar?      — De Anteu Kamuratti. Mas ele não costumava usá-la. Vivia abandonada. O chalé estava muito maltratado. Mesmo assim, aquele pão-duro não queria desfazer-se dela. Paguei o suficiente para adquirir três ilhas semelhantes a esta.      — E por que fez isto?      — Porque quando quero algo, não arredo pé até conseguir – disse Milena sorrindo. Depois, mudando de assunto perguntou:      — Diga-me, Mara, você sempre teve esse... esse poder?      — Que poder? – surpreendeu-se a repórter.      — O de... nem sei como chamar a isso. O poder de pressentir o perigo e... e de dominar os animais.      — Sinceramente, não sei. Só vim descobri-lo há pouco tempo. Agora, aqui, em sua ilha, foi a primeira vez que ele se manifestou sem que eu tivesse plena consciência. Isto me deixa apreensiva.      — Não, não, isto é ótimo. Você mostra que temos poderes mentais ainda insuspeitados pela humanidade normal. Você é o exemplo vivo de que nossas faculdades psíquicas têm muito ainda a evoluir. Veja, Mara, ainda não atingimos nossa perfeição nem na forma física, nem no aproveitamento total de nossas potencialidades psicológicas. Temos dois cérebros, mas ainda que vivendo 12O anos em plena produtividade intelectual e social, a gente não logra usar a metade da potência de um destes cérebros. Por que isto acontece? A Ciência não sabe. Todos temos um aparelho neurológico superequipado, mas ele morre sem que nós o utilizemos. A Natureza é pródiga até o esbanjamento de tanta perfeição. Por que? Esta pergunta atormenta a mente privilegiada de centenas de cientistas em todo o mundo. Você ter ficado inconsciente pode ser porque sua estrutura psicofísica não está pronta para a explosão desse poder paranormal. Mas se ele já se manifesta, então, talvez o próprio processo da manifestação acelere sua maturação, de modo que, em algum tempo, você poderá exercer esse poder maravilhoso naturalmente. Veja, os Kirlian descobriram uma aura de saúde em volta de todo ser vivo na Terra. Provaram sem sombra de dúvida que irradiamos luzes numa freqüência acima da perceptível. Com isto, provaram que realmente existe uma dimensão além daquela que podemos perceber e acima do que os aparelhos científicos têm podido desvendar até nossos dias. E se existe esta dimensão, deve existir uma espécie de matéria mais sutil do que a que estamos acostumados a estudar. Mais sutil que a matéria em ponto crítico, a que mais longe no estudo da matéria a Ciência já alcançou. E como é a realidade nesta dimensão, Mara? Você já especulou sobre isto? Esta matéria, sutil como é ou deve ser, interpenetra até nossos átomos. Veja, se um gás pode ser modificado pela mínima descarga elétrica, o que pode acontecer com a matéria mais sutil do que o gás quando atingida pelas descargas elétricas de nossos cérebros, quando pensamos? Isto quer dizer ser possível que a expansão desta matéria... sua vibração ou como seja que se deseje nomear sua reação às ondas eletromagnéticas do pensamento, pode distender-se a uma distância muito grande e pode ser captada por cérebros de pessoas privilegiadas como você. Mesmo um sáurio deve emitir ondas cerebrais, pois ele possui um. Talvez você tenha captado Subliminarmente as vibrações cerebrais do jacaré e tenha compreendido suas intenções a nosso respeito, naquela hora. Para ele, éramos alimento.      — Uma hipótese cientificamente aceitável, mas muito desagradável para mim – disse Mara pessimista. – A perspectiva futura que vejo é muito incômoda.      — Ora, por que? – Milena sentou-se e passou protetor solar no copo.      — Porque me antevejo uma cobaia cercada de cientistas avidamente curiosos em me estudar e experimentar. Não sou rato de laboratório nem a idéia de ser tratada como um me agrada.      — Tome, passe em você também – e Milena deu a Mara o líquido perfumado. A moça sentou-se e se entregou ao trabalho com prazer.      — A sua hipótese tem uma falha – disse Mara, devolvendo a garrafinha do protetor solar à sua dona.      — Qual? – perguntou Milena curiosa.      — Qual? Ora, onde se enquadra Pargos nela? A tal ilha existiu. Um repórter, chamado Sísifo, viveu nela e deixou algumas reportagens interessantes. Entre elas, falou de como a menina Letícia chegou à ilha. E foi exatamente do modo como eu vejo no meu pesadelo recorrente, como você o chama. Eu sinto que de algum modo aquele bebê sou eu. Isto não se enquadra em sua hipótese.      — Não, ainda não. Mas este detalhe pode ser apenas um ângulo que percebemos aparentemente desconectado porque não temos uma teoria abrangente. Se a gente se dedicar a estudar o fenômeno cientificamente, quem sabe possamos encontrar os elos de ligação?      — Que tal a hipótese da transmigração da alma? – disse Mara, estudando atentamente a reação de Milena.      — Você não crê nisto, não é? – reagiu a milionária, cética.      — Bem, há algum tempo atrás eu riria da idéia. Agora, já me inclino favoravelmente a ela.      — Eu prefiro ficar no terreno científico – disse Milena. – É muito mais seguro.      — Mas você é contra esta crença? – insistiu Mara.      — Não. Na verdade, como psicóloga, estou aberta a todas as possibilidades. A crença na transmigração da alma é tão velha quanto o ser humano na Terra. Talvez tenha sólidas razões para existir, apesar de o catolicismo e o evangelismo moverem acirrada luta contra ela. Sei que nos Estados Unidos da América do Norte muitos médicos de renome se dedicam à pesquisa séria deste assunto. Mas a Ciência ainda se mantém tímida, reticente quanto a ele. Eu também. Gosto de ter bases sólidas, pés no chão.      — Eu compreendo, eu compreendo – disse Mara lembrando-se dos cães e do motorista do táxi.      — Enquanto o psiquiatra não chega, quer fazer uma experiência? – indagou Milena muito séria.      — Que experiência? – inquietou-se Mara.      — Vamos para cima daquela pedra, lá – e a milionária apontou para um pedregulho que sobressaia das águas esverdeadas da baia, a uns vinte metros de onde estavam. – De lá de cima podemos ver os peixes na água que é muito clara. Que tal você se concentrar neles e dar ordens mentais para verificarmos se estou certa no que suponho? Por exemplo: mande mentalmente que formem um triângulo... ou que se posicionem uns sobre os outros e nadem em círculos. Ou, até mesmo, que nadem de barriga para cima. Que tal?      — Eu não sei... – hesitou Mara olhando alternativamente de sua amiga para a pedra. – Acho que podemos estar mexendo com algo que não conhecemos. Temo por mim, pra falar a verdade.      — Ora, Mara, o máximo que pode acontecer é uma dor de cabeça passageira. E isto se você se concentrar de verdade. Vamos! Não custa experimentar. Veja, o ambiente é calmo. Estamos só nós duas. Você não vai ter momento mais propício que este... E então? – Milena estava realmente disposta a tentar e Mara se via acuada. Ela olhou para a pedra. Ficava próximo e a fundura ali não ia a três metros.      — Vamos, eu gostaria de ver você tentar – insistiu a milionária. Hesitante, Mara concordou. As duas atiraram-se na água e nadaram até a pedra. Foi relativamente fácil subir nela. Mara olhou para a água e viu os peixes lá em baixo. Olhou para a sua amiga com vontade de dizer que não se sentia animada, mas Milena já marcava um lugar na pedra de onde era fácil concentrar-se olhando a água.      — Aqui, sente aqui – disse a milionária. – Fique com a coluna reta, corpo relaxado, deixe a paz do ambiente penetrar em você.      Mara suspirou e se deixou conduzir. No entanto, em seu íntimo e lá no mais profundo de sua Mente algo soava como um alarma. Ela não saberia dizer o que fosse, mas sentia que não deviam fazer a tal experiência. No entanto, como dizer isto à amiga? Como explicar que peixinhos e mar calmo poderiam ser perigosos? Impossível. De mais a mais, com base em quê ela poderia alegar perigo, se é que algum pudesse existir? Havia o tal jacaré, mas não era crível que ele aparecesse ali, em torno daquela pedra de águas calmas, claras, salgadas e ondulantes. Mara suspirou e se deixou conduzir pela amiga. Sentou-se na posição do lotus, fechou os olhos e fez três inspirações profundas. Fixou um ponto mentalmente entre os sobrolhos e se deixou absorver por ele. Não sabia dizer quanto tempo ficou assim. De repente seus olhos abriram e ela fixou o mar lá adiante – embora lutasse intimamente para não o fazer. Algo, porém, muito mais forte que ela impunha-lhe que o fizesse. Era como se outro ser dentro de seu Ser fosse capaz de a dominar. Uma sensação forte de impotência e uma horrível resignação invadiu-lhe a própria alma. Ela era ela e, contudo, não era ela. Aquilo era estranho e aterrorizante, embora Mara não pudesse definir bem como aquele sentimento se revelava dentro dela. Sua consciência foi apagando como num sonho...      A uns trezentos metros de onde estavam a água se agitou. Era pra lá que Mara olhava fixamente, rosto duro, feições contraídas e estranhamente envelhecidas. Na água surgiu uma elevação, uma corcova como se um casco gigante se movesse a grande velocidade sob a água clara do mar sereno. A corcova d’água vinha direto para a pedra. Milena olhou para a amiga, intrigada. Notou-lhe o olhar fixado algures e o acompanhou. Viu a corcova que avançava.      — O que está fazendo? – perguntou a milionária, voz tensa. Aquilo podia não ser nada, apenas uma marola, mas como explicar uma coisa assim, se só acontecia num ponto bem definido do mar? E como explicar a velocidade com que avançava diretamente para a pedra onde estavam? Milena sentiu-se tensa e uma estranha sensação de perigo alertou-lhe o subconsciente.      — Mara – chamou ela algo gritado – concentre-se nos peixinhos... – E seus olhos fixaram a corcova d’água. Aquilo se aproximava rápido.      — Mara! – quase gritou Milena, apreensiva e com o coração acelerado. – Mara, pare! Não traga nada perigoso para cá. Mara! MARA! PAREE!      Milena gritou em pânico. A corcova d’água estava a menos de cem metros e o volume já se igualava á altura da pedra onde se encontravam. Desesperada, Milena considerou a possibilidade de nadar até a prainha, mas achou que jamais conseguiria chegar lá antes de que a coisa atingisse a pedra. Avançou para a amiga cuja face estava encovada, pele como de palha velha e olhos injetados e tentou sacudi-la pelos ombros. Mal tocou o seu corpo, contudo, e deu um grito. A pele de Mara queimava como brasa. Seus dedos saíram como chamuscados e ardendo muito. Milena recuou assustada e o seu pé escorregou. Ela desequilibrou-se e agitou os braços no ar desesperadamente antes de mergulhar dentro da água fria. “ Meu Deus ”! pensou ela debatendo-se para ficar de pé. – “ Vou morrer! Aquilo vai-me pegar ”! – E este pensamento deu-lhe a força necessária de que precisava para vencer a resistência da água. Ela ficou de pé. Jogou-se para a pedra, mas fracassou por duas vezes. “ Preciso ter calma ” – dizia de si para consigo a pobre milionária desamparada – “ Meu Deus, eu preciso ter calma ”! – Ela tornou a se jogar sobre a pedra escorregando as mãos no limo e não conseguindo firmar-se. A corcova d’água estava a uns dez metros e avançava direto para ela. “Não quero morrer”! quase gritou Milena lutando ferozmente para subir na pedra. Seus braços estavam arranhados e sangravam, mas finalmente conseguiu aferrar-se numa reentrância da pedra e içar-se para cima dela. Gritando sem controle, Milena pedia em desespero:      — MARA, PÁRA, PELO AMOR DE DEUS, PÁRA! A COISA ESTÁ SOBRE NÓS... MEU DEUS, O QUE É AQUILO?      A corcova finalmente chegou. Era tão alta que banhou a pedra envolvendo as mulheres. Mara, curiosamente, não se abalou, mas Milena teve de lutar muito para não ser puxada de sobre a pedra. Um grito quase inumano escapou da garganta da milionária. A coisa passou entre a pedra e o canal num semicírculo e voltou para o lugar de onde tinha surgido. Milena, olhos arregalados, entreviu sob as águas algo cinzento e enorme, de uma potência tão grande que por segundos ela teve a impressão de que aquilo ia arrastar a pedra atrás de si. Mas não arrastou. Sem voz, Milena, coração ainda em disparada, ficou observando a corcova d’água se afastar velozmente tal como havia chegado. Lá, no mesmo ponto onde surgira, a corcova se desfez. O mar voltou a serenar. Milena soltou um longo suspiro. Nem acreditava que ainda estivesse ali, viva. Foi quando um gemido a trouxe de volta à dura realidade. Voltou-se e viu o corpo da amiga cambalear e pender em direção à água. Correu para ela e a sustentou a tempo de impedir que despencasse para o mar. Procurando controlar seu nervosismo, Milena chamou:      — Mara! Mara, acorde! Pode-me ouvir?      O corpo da moça estava tão frio que parecia ter saído de dentro de uma geladeira e Milena lembrou-se de que há pouco ele literalmente havia queimado sua mão.      “Fantástico!” – murmurou a milionária. – “Que poderes desconhecidos tem esta moça?”      Mara abriu os olhos, bocejou e se espreguiçou.      — Você está bem? – perguntou Milena apreensiva e ainda cheia de medo, lançando olhares de desconfiança para o mar tranqüilo.      — Eu... Eu acho que adormeci – balbuciou Mara, sonolenta. – Desculpe-me. Eu vou tentar de novo.      — Não! – quase gritou Milena. – Não é preciso. Acho melhor a gente voltar. O iate deve aportar em poucos minutos. Vamos-nos preparar para receber sua amiga e o psiquiatra, sim?      Enquanto falava, Milena olhava desconfiada e apreensiva para as tranqüilas e esverdeadas águas da baia. Nenhum sinal da corcova. A água estava calma e as marolas de sempre lançaram reflexos prateados para o ar. De qualquer modo, Milena ainda tinha bem viva em sua memória aquela coisa cinzenta capaz de nadar com uma velocidade impressionante sob a água. Temia secretamente que aquilo voltasse.      — Desculpe eu ter dormido – pediu Mara, constrangida.      — Ora, acontece – respondeu Milena sempre olhando desconfiada para o mar, lá onde a coisa descomunal e cinzenta sumira. – “ Será que aquilo vai voltar quando estivermos n’água ?” perguntava-se inquieta, mas tentando aparentar calma. Pelo que podia observar, Mara nem desconfiava do perigo que ambas tinham passado há pouco. A dúvida a inquietava, embora, é claro, tivesse a certeza de que tinham de nadar. Não havia como sair dali sem nadar e não havia como nadar sem ter de mergulhar no mar. Não tinha sido uma boa idéia a sua. Mara estava com razão, quando dissera que talvez elas estivessem mexendo com algo que não podiam controlar. Mas até onde a repórter tinha consciência do que lhe acontecia? Naquele momento parecia-lhe que a moça era totalmente ignorante a respeito.      — Saltamos?      Milena encarou o mar. Estava com medo, mas tinha plena consciência de que a responsabilidade fora toda sua. Tinha de assumi-la.      — Saltamos? – insistiu Mara.      — Sim! – E Milena atirou-se com ímpeto na água, saindo com vigorosas braçadas. Parecia-lhe que a coisa estava em seus calcanhares e nadou tão fortemente que estava já na prainha quando Mara ainda se encontrava a meio caminho. Quando a repórter saiu da água perguntou sorrindo para a sua anfitriã:      — Era competição? Você devia ter-me prevenido.      — Não, não, nada disto. Eu... eu só queria estirar o corpo. Não foi nada agradável ficar sentada lá, sem fazer nada a não ser olhar as águas... – e Milena mais uma vez mirou o mar. Estava calmo e ela se sentiu aliviada.      — Não funcionou, não foi? Eu temia isto. A coisa me vem de supetão. Eu não tenho controle sobre ela.      Milena permaneceu de pé, enxugando os cabelos com a toalha e fitando disfarçadamente o ponto onde aquilo havia sumido. “ Que diabo de negócio era aquele? Onde se esconde, agora? Será que é um habitante natural do mar despertado pela força mental de Mara, ou será que foi algo que a moça criou inconscientemente ?” A última hipótese não era plausível a seu julgamento, e Milena sacudiu a cabeça com descrença. Criar de onde? Com o quê? Partenogênese já era difícil de engolir; aquela criação do nada, então, nem se fala. Mara percebeu o insistente olhar de Milena para as serenas águas do mar e franziu o sobrolho. Teria acontecido algo de que não tomara consciência?      — O que é? Por que olha tão insistentemente para as águas do mar?      — O que? Oh, nada, nada mesmo... quer dizer, eu pensava em que espécie de vida há sob estas águas... . O mar é sempre uma incógnita, não é?      E Milena apanhou a toalha da areia e seu bronzeador e convidou a desconfiada repórter que, agora, também mirava escrutadoramente as tranqüilas águas verde-azuladas da baía mais bela das Américas.      — Vamos? – convidou.      — O que você quer dizer com isto? – indagou Mara, desconfiada.      — Apenas um comentário que geralmente me faço quando olho as águas serenas do mar, onde quer que eu me encontre. Vamos embora?      A milionária pôs-se a caminho seguida de Mara que a olhava ainda intrigada. Subiram a estrada rústica, calçada de pedras brutas que facilitavam a íngreme ascensão por entre o verde brilhante das folhas das grandes árvores e dos arbustos sempre úmidos. Muitos pássaros cantavam entre as folhagens e os insetos zumbiam numa sinfonia entorpecente. As cigarras prenunciavam o calor carioca com o seu trilar contínuo e monótono. Em silêncio, as duas mulheres passaram ao lado noroeste da ilhota. Mara, não sabia definir a razão, sentia-se tensa e apreensiva. Qualquer coisa dentro dela incitava-a a ir embora dali o mais depressa possível. A mata que devia ser agradável, dava-lhe a impressão de algo oprimente. Estava irritada e esta sensação desagradável crescia dentro dela sem razão nenhuma. Tinha de lutar muito para não solicitar que o iate a levasse de volta para a marina. Chegaram ao píer a tempo de assistir a embarcação manobrando para atracar. Quando, finalmente, atracou, três passageiros desceram e se encaminharam para elas.      — Sua amiga trouxe companhia – disse Milena sem olhar para Mara.      — São Karina e Tamara. Só não faço idéia do porque as convidou...      — Por mim, não tem problema. E por você? – Milena olhou para a repórter. O tom de voz da moça parecia aborrecido e pôde observar que a fisionomia dela também estava carregada.      — Não se preocupe. O Chalé é grande e, se são suas amigas, são bem-vindas – disse Milena tentando aliviar a preocupação de Mara pela falha da companheira que convidara.      — É que eu não gostaria que as outras participassem da sessão – falou Mara à guisa de explicação.      — É só dizer isto ao Dr. Khamal – explicou Milena sorrindo. – Ele tomará as precauções necessárias. Afinal, é um profissional competente.      — É... você tem razão – concordou Mara notando que a outra a observava atentamente. Respirou fundo e tratou de descontrair-se mostrando um sorriso simpático.      — Milena... – disse Mara.      — Hum?      — Muito obrigada.      — Não há do que agradecer, minha cara. Você é que me revelou um aspecto da vida que ainda não conheço. Eu sou quem lhe agradece o favor de tê-lo trazido a mim. Venha, vamos receber nossos amigos.      As moças se encaminharam ao encontro do grupo que já se punha a andar em sua direção. Mara fez a apresentação de suas colegas e Milena cumprimentou carinhosamente seu velho amigo Khamal, apresentando-o, por sua vez, a Mara. A moça gostou do médico logo de saída. Este, por sua vez, também sentiu-se agradavelmente atraído pela sua futura paciente. O grupo encaminhou-se para o chalé. Mara, agora, dava-se conta que todo o estranho aborrecimento que a havia acometido momentos antes desaparecera. O magnetismo de Khamal lhe fazia bem. Enquanto Karina e Tamara papagueavam com Milena sobre as belezas do lugar, Mara entabulou conversa com o médico, que lhe ofereceu naturalmente o braço, aceito sem restrições pela bela repórter.      — O senhor tem um sobrenome sui gêneris – disse Mara ao simpático doutor.      — Como assim? – perguntou ele surpreso.      — Tanatratos. É... é um tanto mórbido, não acha?      — Não. Era o sobrenome de meu pai, que Deus o tenha – disse o médico.      — Bem, Tanatratos lembra Tanatus... Morte. – Comentou Mara.      — Oh, isso? – E Khamal sorriu. – Pois fique sabendo que é um sobrenome tradicional na Grécia, minha cara. Meu pai foi um nobre grego.      — Oh, que surpresa! Isto pode dar uma bela reportagem – disse a moça.      — Não, não. Os Tanatratos já estão praticamente extintos. Que eu saiba restamos eu e uma parenta longínqua que nunca conheci e que vive lá pelas ilhas da Grécia. Sou apenas um psiquiatra entre os milhares que vivem no nosso Brasil. Não tenho qualquer projeção social para atrair a atenção de repórteres como você e suas amigas. De meu ponto de vista, um trabalho sobre mim só lançaria você em situação desconfortável ante seu redator chefe...      Mara sorriu. Tanatratos demonstrava claramente que não entendia nada de jornais.      — Depois de nossa sessão de hipnose vamos cuidar disto. Eu lhe mostro se não é assunto para uma reportagem, a sua descendência. E, acredite, isto vai-lhe tirar do ostracismo, doutor.      Ambos deram uma gargalhada. Entre chistes e risos, o grupo chegou ao chalé, muito admirado pelas recém-chegadas. Milena deixou-os aos cuidados de Téia e foi, com Mara, tomar um chuveiro e se livrar do sal. Luís e Andréia trataram de colocar as visitas à vontade. Serviram-lhes sucos de maracujá bem gelado e biscoitos com patê e ovos de codorna a fim de que pudessem aguardar pelo almoço, um dourado a escabeche, geralmente servido lá pelas três da tarde.      A conversa estava muito animada quando as duas retornaram. Khamal gostou do que viu. Mara vestia um short de Milena e mostrava um corpo delicioso sob a blusa leve e sem soutiens. A moça tinha um modo suave de pisar o chão que dava a impressão de que não andava, mas deslizava sobre o piso.      — Vejo que já se entrosou com as moças – disse Milena pondo uma azeitona na boca.      — O Dr. Khamal é excelente companhia. Aprendemos muito sobre a vida submarina durante a viagem até aqui – informou Ludmila.      — E eu aprendi muito sobre Shao-lin do Norte com a jovem Karina – disse o médico.      — Bom, então, que tal você conversar com a sua paciente? Eu não sei se esta é a melhor hora, pois são quase 11, mas ela está ansiosa – informou Milena.      — Para o que ela quer não há horário. Por mim, tudo bem. Onde é que podemos...      — Na biblioteca que tenho lá em cima. Há dois excelentes divãs, caso necessitem disto – disse Milena sentando-se entre as repórteres.      Khamal levantou-se.      — Está bem – disse ele. – Vamos, senhorita Mara?      — Por favor, chame-me simplesmente Mara, sim? – pediu a repórter.      — Como quiser. Vamos, então, Mara? – e Khamal sorria um sorriso cativante. Mara sentiu o coração bater mais forte e compreendeu que não era devido à experiência que estava prestes a viver. Era o médico. Ela se sentia fortemente atraída por ele. Era a primeira vez que tal coisa acontecia e ela estava num gostoso misto de excitação e vergonha. Sentia-se uma adolescente diante do seu primeiro namorado. E, para falar a verdade, era a primeira vez que vivia aquela emoção. “ Gostaria que não fosse casado ” pensou a moça levantando-se. “ É a primeira coisa que vou procurar descobrir depois da sessão. Gostaria de namorá-lo. Será minha primeira vez e vou gostar disto.      — Eu também vou – disse Ludmila pondo-se de pé. – Pode ser, não é doutor?      — Se Mara não se opuser...      Mara bem gostaria de dizer que se opunha, mas não o fez.      — Não, eu não me oponho. Combinamos isto, antes.      — Então, venha também. Com licença das outras moças – e Khamal se dirigiu para a escada.      — A gente não pode assistir? – pediu Karina expectante.      — Não, senhorita – respondeu Khamal, voltando-se para Karina. – A senhorita Ludmila só estará presente porque as duas já haviam combinado isto, antes. Sinto muito. Podemos ir?      Os três subiram as escadas e se dirigiram para a bem arejada e iluminada biblioteca. Os janelões em vidro fumê permitiam uma belíssima vista da ilha e do mar.      O trio tomou assento. O médico numa cadeira giroflex e as moças numa poltrona, cada uma.      — Bem, antes de iniciar eu gostaria de ouvir as razões das senhoritas para tentar a hipnose e a regressão. Quem quer começar?      — Eu começo – disse Mara. Ato contínuo, passou a narrar seu pesadelo, suas pesquisas, suas descobertas sobre Pargos, a opinião de sua analista, a suspeição de um fenômeno espírita e a hipótese aventada por Milena. Quando acabou, foi a vez de Ludmila. O Dr. Khamal ouviu-as sem interromper nem uma vez sequer. Quando as moças acabaram suas histórias, Khamal levantou-se e foi até uma das janelas, abrindo-a e ficando em silêncio, olhando a bela vista que de lá descortinava.      — Moças – disse ele, após um grande silêncio em que parecia estar querendo organizar seus pensamentos. – não sei se o problema de ambas seja da esfera da Terapia de Vidas Passadas. No pesadelo recorrente de Mara há grandes e importantes símbolos pertencentes àquela área do Ser Humano a que Jung chamou de Inconsciente Coletivo. É sabido por todo terapeuta que o símbolo por excelência da área emocional humana e a água. O mar, então, é o símbolo arquetípico primeiro deste manancial que é o Inconsciente Coletivo. A jamanta... a arraia que ela percebe sob o barco é mandálico. A criança dentro de um cesto abandonada sobre as águas é universal. Três mil anos antes de Moisés, na desconhecida cidade de Uruk, festejava-se o lendário herói Gilgamesh. Entre as muitas e muitas versões sobre este herói, que se acredita ter existido e ser anterior a Uruk, há uma que o cita como tendo sido recolhido de sobre as águas do mar. Suspeita-se que o mito de Moisés tem fundamentação numa cópia daquele tão antigo que se perde nas brumas do tempo. O fogo como elemento purificador da alma, saindo de dentro d’água tem um significado mítico universal. É a transmutação dos baixos sentimentos em sentimentos e emoções altruísticas e humanitárias. A ilha também é mandálica, pois que geralmente toda ilha é redonda ou arredondada. Mas tem a significação da solidão do ser que evolui para a sua Individualização ou a sua Personalização, como quer Jung. Enfim, o sonho ou pesadelo de Mara é muito rico e muito cheio de símbolos arquetípicos difíceis de interpretar, a menos que se faça o seu acompanhamento psicoterapêutico há anos. A simbologia arquetípica não surge aleatoriamente. Tem muito a ver com a situação psicoafetiva evolutiva do indivíduo.      — Mas Dr. Khamal – protestou Ludmila. – A ilha de Pargos corresponde exatamente ao sonho de Mara e às minhas visões. Como se explica isto?      — Senhorita – disse Khamal, – tenho navegado muito pelos oceanos e tenho visitado quase todas as ilhas da terra. Jamais ouvi qualquer menção à Ilha de Pargos. Pelo menos, não na latitude e longitude citadas. O local ali é somente de águas. Conheço bem o Pacífico.      — No entanto o repórter Sísifo esteve lá e escreveu sobre a ilha – disse Mara.      — Sim, e isto me deixa com uma interrogação. Os atacamenhos existiram no Chile. Eram um povo de pastores, mas estão extintos há muitos e muitos séculos. Quanto aos míticos atlantes... Bem, particularmente eu não acredito em Atlantida. Talvez sejam gregos antigos que aportaram por aquelas bandas... Talvez numa ilha que já afundou... eu não sei. De qualquer modo, a existência das tais reportagens é um mistério. Eu não posso ligar os pesadelos de Mara e as suas visões, Ludmila, à misteriosa ilha descrita pelo colega de profissão de vocês duas. Mas uma civilização desaparecida criou, também, moldes arquetípicos em costumes, em lendas e particularmente em religião. É possível – notem que não estou afirmando –, é possível que Mara, assim como você, tenha lido algo a respeito ou...ou de algum modo, tenha tido contato com a história daquele povo. A impressão que isto lhes causou pode ter suscitado a força psíquica capaz de possibilitar a realidade arquetípica daquela civilização desaparecida através dos pesadelos. Estes, de certo modo, têm a ver com os fenômenos internos do processo de Personalização de Mara. A recorrência pode-se dever a que o Ser transpessoal de sua colega ainda está-se debatendo no árduo processo de crescimento... de individualização. Daí porque ela é representada como uma criança abandonada sobre o mar e dentro de um cesto... Uma semideusa, como todo indivíduo mítico com lenda semelhante, inclusive o tão famoso Moisés. Este símbolo corresponde, aliás, ao arcano nove, o Ermitão, no baralho Tarô. A criança sofre pela Luz do Sol. O Sol, como se sabe, é o símbolo de Deus e sua Luz quer dizer redenção, crescimento, que nunca acontece sem sofrimento. Todo crescimento implica a dor de um renascimento. Daí porque Mara é uma criança que, embora bebê, é sábia. O velho Ermitão no Ser que cresce... Estão-me entendendo?      — Acho que sim... – responderam as moças titubeantes e se entreolhando.      — Bem, o pescador... Gaditano, segundo o tal repórter, não é? O pescador Gaditano também representa a prudência do Ermitão. É solitário, é forte e é cauteloso. Talvez que simbolize pura e simplesmente a parte da personalidade de Mara que deve reagir para que a criança que está morrendo queimada pelo Sol possa nascer novamente... sobreviver... Em outras palavras, esta parte do sonho bem pode significar que Mara precisará ter muita prudência e muita cautela diante das situações de vida ainda desconhecidas para ela e que lhe trarão experiência e maturidade diante da aspereza e da rudeza do interagir humano. É neste vulcão que se cresce, que se deixa a inocência e o apego primitivo à dependência para se ser sozinho e sábio o suficiente para manter a própria vida e a daqueles que por sua vez dependem de nós porque os geramos. Estão-me entendendo?      Enquanto o Dr. Khamal explanava suas idéias sobre o pesadelo recorrente de Mara e as visões quadridimensionais de Ludmila, Milena convidava suas hóspedas a visitarem a pequena, mas agradável ilha. Principiou pelos arredores do chalé, mostrando-lhes a boa localização dele sobre a pedra. Depois de discutirem a arquitetura arrojada da construção, desceram para o mirante, um local descampado, doze metros abaixo do chalé e uns vinte e cinco acima do mar. A descida até lá era íngreme e muito arborizada, principalmente por arbustos e espinheiros. Entre a mata rala e natural do local, Milena mandara plantar mogno e outras plantas raras como o pau rosa e alguns cedros. As ibiunas foram plantadas pelo antigo dono e estavam grandes o suficiente para dar uma sombra muito densa e gostosa. O grupo desceu alegremente. No platô artificial elas pararam para admirar a vista tanto do mar lá embaixo, quanto de outras duas ilhotas a menos de uma milha de onde estavam.      — Você é uma pessoa totalmente diferente da imagem que eu fazia a seu respeito – disse Karina a Milena, sentada no rústico banco feito de um tronco caído e ao abrigo do sol sob a sombra de enorme e copado ingazeiro.      — E qual era a imagem que você fazia de mim? – perguntou divertida a milionária, sentando-se a seu lado. Tamara se encaminhara até a borda do mirante e se deliciava com a vista e a brisa.      — Bem... eu a imaginava uma pessoa superficial. Uma... irresponsável filhinha do papai, sabe? Aquela cabecinha de vento fanática pelo aplauso nas passarelas e fissurada nas noitadas regadas a vinho e a...sexo sem compromisso.      Milena soltou uma gostosa gargalhada.      — Eu gosto do modo franco que você usa para dizer as coisas – falou entre risos. Algumas amigas “não-me-toques” que eu conheço diriam que você é demasiado rude, mas eu não acho isto. Sua franqueza me diz que se trata de pessoa firme e até confiável.      — Por que o até ? – estranhou a repórter.      — Porque aprendi a duras penas que repórter e polícia são profissionais em quem não se deve confiar.      — Eu acrescentaria também os advogados – disse Tamara aproximando-se das duas.      — Nisso vocês têm razão – concordou Karina.      — Eu sei que tenho. Quando meu noivo e eu...      Milena parou o que ia dizer e olhou em volta. Alguma coisa mudara no ar. Uma mudança sutil, quase imperceptível. A atmosfera ficara densa, pesada. A milionária sentiu os pelos na pele arrepiarem-se e um tremor involuntário lhe sacudiu o corpo. Sem se controlar ela cruzou os braços alisando os músculos como se querendo aquecer-se.      — O que foi? – surpreendeu-se Tamara.      — Não perceberam? Algo mudou... Eu não sei bem o quê, mas o ambiente... o ar... eu sinto como se tivesse havido uma... uma densificação. Não sentem a mesma coisa?      As repórteres pararam para prestar atenção ao lugar. Sim, qualquer coisa havia mudado no ambiente. Não era algo visível ou palpável. Era somente sensível. Karina, olhar perdido no vazio, foi a primeira a detectar um sinal da estranha alteração na atmosfera do local.      — Os pássaros e os insetos pararam de fazer ruído... – murmurou.      — É. É isso! – concordou Milena. – A mata está silenciosa demais e foi de repente.      — A luz do sol ficou mais mortiça ou é impressão minha? – perguntou Tamara, olhando em volta.      — Não... Bem, ficou sim. Mas vejam, sobe uma tênue névoa do mar e envolve a ilha exclamou Milena, surpresa.      Sim. Uma estranha névoa subia do mar e da terra, como o rocio da manhã, só que em hora muito imprópria – vinte para o meio-dia. Um frio úmido fez as moças tremerem.      — Isto é inusitado – disse Karina. – É comum, aqui?      — Nunca vi tal coisa acontecer, antes. E nesta época do ano, menos ainda – informou Milena.      — O que será que está acontecendo? – a voz de Milena demonstrava certa apreensão. Ela se recordara do acontecido no mar e o medo voltou a lhe esfriar o coração. Pensou em Mara. Estaria ela já hipnotizada? Karina observava a milionária e notou-lhe a tensão. Pôs-se em alerta. Não sabia porque, mas sentia perigo iminente no ar.      — Antes... alguma vez... você presenciou algum fenômeno inusitado aqui, na sua ilha? – indagou suspeitosa a repórter.      — Não... Quer dizer... – Milena hesitou.      — O que é? O que aconteceu? – inquiriu Karina curiosa.      — Eu presenciei dois fenômenos esqui...      Milena parou de chofre. Um horrível bocejo chegou até elas. Algo como um exalar de ar por uma garganta enorme. A milionária empalideceu e levou a mão ao coração.      — Meu Deus, não é possível! – exclamou ela, assustada e pálida.      — O que... O que é? – perguntou Karina perplexa e olhando para o lugar onde se fixava os olhos da sua anfitriã. Não viu nada. Tamara também escrutava a mata sem notar nada de anormal. Aquele estranho ruído parecia-lhe muito conhecido, mas não conseguia identificá-lo de pronto.      — Que barulho horrível foi esse...? – perguntou num murmúrio a mulata.      — O jacaré... – disse Milena num fio de voz.      — O quê? jacaré...? – Karina olhou em volta. Agora estava com medo de verdade. A neblina adensara-se e ela quase não conseguia ver o caminho pelo qual haviam descido até ali.      — Ele está por aqui. Pode-nos atacar... disse Milena, tensa e chorosa. – Ah, meu Deus, como eu queria que a Mara estivesse aqui.      — Mara?! – estranhou Tamara. – O que a Mara tem com isto? Confesso que não estou entendendo nada.      Alguma coisa muito pesada arrastou-se pelo chão, a uns oito metros de onde elas estavam. Karina olhou apreensiva para lá e a mesma coisa fizeram as outras duas.      — Sua ilha tem jacarés? – perguntou Tamara espantada e assustada.      — Não. Esse aí é um inquilino indesejável que apareceu ontem, aqui na minha ilha. Pensei que tivesse ido embora...      — Eu espero que não esteja com fome. A gente não tem muita opção, aqui – disse Karina preocupada.      — Jacarés não sobem em árvores, mas nós, sim – falou Tamara pondo-se de pé e acenando com a mão para que as outras a seguissem. A coisa lá no mato voltou a bocejar e arrastou-se em direção às mulheres.      — É hora de bancarmos a chita de Tarzã – e Karina empurrou Milena para os primeiros galhos de uma árvore.      — Vá para o mais alto que puder – comandou. Ato contínuo ela também subiu, seguida de Tamara que se movia agilmente. Encarrapitadas a quase cinco metros de altura, elas esperaram, corações disparados. Não podiam ver o chão, tal era a densidade da neblina. Lá do mato vinha o barulho de algo pesado arrastando-se sobre galhos e folhas secas... CAPÍTULO IX A FORÇA OCULTA        Damastor entrou no Instituto Médico Legal. Eram as nove e o sol estava esquentando o dia. A rua estava, como sempre, esfumaçada e barulhenta. O tráfego era um dos piores e os oitizeiros enfumaçados e sujos de fuligem enfeavam mais ainda o aspecto sujo e abandonado da Mem de Sá.      — Pois não, senhor? – atendeu o recepcionista.      — Sou o detetive Damastor. O doutor Hélios está?      — Sim, senhor.      — Poderia falar com ele, agora?      — Sim, senhor. Siga o corredor e desça as escadas. Ele está lá, na morgue. Siga o seu nariz.      Damastor fez o que o homem lhe indicara. Sim, era seguir o nariz. Ele lhe trazia o odor do formol e da carne putrefata. Sob aquele odor acre havia outro indistinto. Damastor reprimiu a repulsa e penetrou no ambiente artificialmente iluminado da morgue. Três homens estavam lá. Um debruçava-se sobre um corpo aberto e com as vísceras dentro de uma bandeja ao lado. O detetive foi até ele exibindo seu distintivo aos outros dois para que não lhe barrassem o caminho.      — Dr. Hélios?      — Sem levantar a cabeça de cima do corpo o legista respondeu:      — Sou eu. O que deseja?      — Falar-lhe.      — Espere um pouco. Já termino aqui.      Damastor afastou-se sentindo o estômago embrulhado. O odor era desagradabilíssimo para ele que não estava acostumado.      — Aceita um cafezinho? – ofereceu outro médico que examinava o cadáver de uma loura, introduzindo-lhe um tubo na vagina. Aquilo pareceu demasiado imoral aos olhos do detetive.      — Não, obrigado. Sou capaz de pôr as tripas pela boca, se tentar engolir qualquer coisa agora.      — A gente se acostuma. Em uma semana a gente almoça bife sangrento ao lado do cadáver que se abre – disse o homem, sorrindo.      Damastor olhou-o com repugnância e preferiu subir para esperar pelo médico em local menos mórbido. Quarenta e cinco minutos depois o Dr. Hélios chegava.      — Bem, aqui estou. O que quer de mim?      — Meu nome é Damastor. Conheço seu primo, o detetive Ivaldo e foi por ele que soube do senhor.      — Ah, sei. Como vai aquele cabeça dura? – e o médico indicou uma cadeira para Damastor, sentando-se também.      — Com ela cada vez mais dura, doutor. Mas ele pensa um bocado. E parece que o senhor lhe fornece a munição para isto.      — Eu? Como assim? – espantou-se o médico legista. Ele era um mulato simpático, rosto ovalado, um pouco mais gordo do que gostaria. Uma calva acentuada já se fazia presente e seus cabelos crespos estavam pintados com alguns mais apressados que os demais. Usava grosso óculos de grau e respirava pela boca aberta.      — O senhor lhe dá informações muito boas... como aquela do gás carbônico nos garotos encontrados no Guandu.      — Como...? Ah! Lembrei. Ele lhe contou isto, é?      — Sim. E me fez ficar interessado no caso.      — Por que, detetive? Os garotos eram seus conhecidos?      — Não. Mas Arthur era. A família dele, também. Hoje, Arthur é um vegetal no hospital e sua família está morta. Mulher, filho e filha morreram de modo terrível. Torturados e estuprados. E começo a aceitar a hipótese de seu primo: quem despachou os garotos e a mulher e transformou meu parceiro num vegetal também acabou com os rapazes que o senhor necropsiou. Eu quero pegar o desgraçado.      Damastor transfigurou-se. Ao concluir o que dizia tinha a face congestionada, os olhos arregalados, as veias do pescoço saltadas e o corpo trêmulo, O soco que deu no tampo da mesa jogou o cinzeiro no solo. O legista ficou a mirá-lo friamente.      — É... O senhor está cheio de ódio contra o suposto assassino e isto não lhe faz bem, sabia? Seu coração pode traí-lo e se tornar um aliado de seu desconhecido inimigo. Ou poderá transformá-lo em meu freguês...      Damastor curvou a cabeça, fechou os olhos e inspirou fundo.      — Desculpe – disse, deixando o ar sair num sopro. – Mas eu só vou descansar quando pegar o assassino. E para isto preciso de sua ajuda... Da ajuda de quem puder ajudar-me. Estou no escuro, compreende?      Hélios mordeu os lábios. Já vira muito aquele estado de ânimo. Já vira muitos colegas daquele detetive deprimidos e cheios de raiva e sabia o que corroia a alma daquele ali. Tinha-lhes dó. O que será que os fazia não jogarem a toalha? Eles eram assim: morriam se preciso fosse, mas não desistiam da perseguição. Por que?      — Bem, não sei o que o senhor espera de mim, mas se eu puder ajudar...      — Pode sim, doutor – cortou o detetive. – Diga-me, qual a sua hipótese para a morte por asfixia por gás carbônico daqueles garotos?      — Eu não tenho nenhuma. Lamento, detetive.      — Pois pense um pouco, agora. Crie uma. Como pode alguém afogar-se num rio e morrer com asfixia por gás carbônico?      — Não ganho para supor ou especular. Ganho para mostrar os fatos à luz da Ciência Médica, meu amigo.      — Porra, doutor – explodiu o detetive. – Por que se esquiva? À luz da Ciência o senhor tem de ter notado outros indícios... Por exemplo, a asfixia por gás causa dor, não causa?      O médico recostou-se na cadeira e tamborilou os dedos curtos e grossos sobre o tampo da mesa, olhando fixamente para o detetive antes de responder.      — Sim, tem razão. A morte sempre dói, exceto quando é súbita.      — Um indivíduo que esteja morrendo asfixiado debate-se, não?      — Sim.      — Então, eu lhe pergunto: naqueles corpos havia hematomas...cortes... enfim, algum sinal de que os rapazes tenham-se debatido...?      Hélios fitou o vazio, cenho franzido no esforço de recordar. Sim, o detetive tinha razão. Um afogado debate-se, mas a água não oferece resistência... Fez um esforço de memória e reviu cada um dos cadáveres dos rapazes sobre as mesas de necropsia.      — Sim...sim... – murmurou baixinho.      — O quê? O que está dizendo? Fale alto, homem! – desesperou-se o detetive.      — As mãos de um deles... Elas tinham cortes à altura das falangetas. Como se ele, ao desfalecer, estivesse agarrado com força numa... numa tela de arame ou algo semelhante.      — Ótimo, ótimo, continue! – encorajou Damastor pondo-se na beira da cadeira em que sentava.      — Eles todos tinham contusões nos corpos e nas cabeças, como se tivessem batido contra alguma coisa dura – falou o médico.      — Uma surra? Alguém lhes deu uma surra? É isto, doutor?      — Não, não correspondiam a contusões traumáticas devidas a uma surra. Eram machucados como quando se bate com a cabeça ou os membros em algo sólido. E mais, as unhas de um deles tinha tinta esmalte sob elas. Era como se ele tivesse arranhado uma pintura metálica. Venha, eu lhe mostro minhas anotações na ficha microfilmada.      — Por que suas anotações não foram consideradas no laudo? O senhor deixou claro que aqueles rapazes também foram assassinados e não foi por afogamento. Eles foram sufocados em algum lugar e lançados n’água, depois. Isto não consta dos laudos. Por que?      — Estas respostas eu não posso lhe dar. Mandaram que eu me calasse e... e não complicasse as coisas.      — Quem?      — Também não sei dizer. Apenas recebi o recado.      — Entendo... Isto só confirma as suspeitas do Ivaldo. O que o senhor pensa da tinta esmalte sob as unhas do rapaz?      — Ele era quem não estava drogado, assim, teve mais resistência, lamentavelmente para ele, ao desfalecimento. Nas vascas da morte deve ter unhado com muita força uma parede de ferro... talvez uma porta. As lascas de tinta cravaram-se fundo entre as unhas e a carne. Normalmente ele não teria agüentado, mas já não tinha sensibilidade, compreende?      — Qual era a cor da tinta? – perguntou Damastor enquanto lia as telas dos microfilmes.      — Branca.      — Branca... E os cortes nas falangetas do outro, não poderiam ser o efeito de uma sessão de tortura?      — Não. O deslocamento dos ossos e o rompimento das articulações não eram efeitos de instrumentos de tortura. Além do mais, havia fragmentos microscópicos de limalhas de ferro galvanizado, do tipo usado na feitura de telas de arame. Como você leu no microfilme que lhe mostrei, eu acho que o rapaz desfaleceu quando estava segurando uma tela de malha fina. O corpo caiu e ficou dependurado pelos dedos. O que intriga é que, para ter as articulações dilaceradas daquele modo, o indivíduo ficou dependurado pelos dedos e balançando e... e se torcendo. Isto, após o desfalecimento.      — E o terceiro rapaz...?      — Morto pela ingestão de cianeto que foi adicionado à cerveja.      — Obrigado, doutor. O senhor ajudou muito. Ah, faça-me um favor sim? Se chegarem corpos cujos laudos sejam mandado silenciar, passe-os, por favor, a nós, Ivaldo e eu. Creio que o senhor receberá, ainda, outros presuntos iguais àqueles.      — Farei o possível – disse o legista. – Não gosto disto. Escamotear a verdade é sempre indício de que uns poucos estão-se dando bem em detrimento de muitos. E infalivelmente, os poucos privilegiados são tiranos e criminosos.      Damastor levantou-se e apertou a mão do legista. Estava satisfeito. Conquistara um colaborador de peso. Retirou-se com a cabeça fervilhando de perguntas sem respostas.      Em um calmo e discreto casarão do Alto da Boa Vista, cercado por altos muros e oculto entre árvores seculares e trepadeiras floridas estrategicamente distribuídas de modo a dificultar ao máximo a visão da imponente construção senhorial, vinte e um luxuosíssimos automóveis, todos pretos e com vidros escuros, chegavam a intervalos regulares. Estacionavam ao longo das aléias arborizadas e de dentro deles invariavelmente saiam três pessoas fora o motorista. Homens e mulheres trajavam preto. Sem algazarra e sem euforia dirigiam-se para a mansão. No amplo salão de recepção, ricamente ornada com tapetes orientais e quadros raros, tomavam assento aos pares e conversavam em romance , em voz baixa. Às dez horas chegou o carro do líder daquele grupo tão seleto e tão discreto. Ele e sua senhorial companheira entraram na recepção. Os murmúrios das conversas silenciaram e os que estavam sentados se levantaram.      — Shalom! – cumprimentou o senhor Kamuratti.      — Shalom! – responderam em coro os presentes. Ordenadamente, todos se dispuseram em fileira, formando um corredor que terminava em duas enormes portas brancas com o signo de Salomão em azul marinho escuro e inserido em um círculo dourado pintado nelas. Os Kamuratti percorreram o corredor humano em passos lentos, cerimoniosos.      — O nosso trabalho é lento e secular – recitava o casal e era repetido por todos os presentes em voz alta, – como lento e secular é o passar do tempo. – E todos repetiram a frase.      — Avançaremos passo a passo – e o coro voltou a entoar a sentença – mas jamais retrocederemos – e novamente o coro se fez ouvir. – Pois somos o Messias prometido. Os povos da Terra terão de se curvar a nós, porque nosso é o Deus Único, que nos protege e nos dá, desde o princípio, toda a Terra como legado. A vingança de nosso Pai cairá como mão de ferro sobre nossos inimigos assim no presente como no passado, até que reconheçam a nossa Israel como o Rei dos Reis. Para isto temos trabalhado. Para isto trabalhamos. E para isto trabalharemos até o final dos tempos.      As falas do casal Kamuratti eram repetidas solenemente e a uma só voz, formando um coro impressionante.      Ao chegarem diante das grandes portas fizeram soar a pesada aldraba de prata por três vezes. Elas foram abertas por um homem idoso e de longas barbas brancas, separadas ao meio como convém a um venerável do templo. Ele vestia longa túnica preta com tarjas douradas nas mangas e descendo da gola ao longo do corpo. A barra da túnica também era tarjada em dourado e no peito havia desenhos cabalísticos imponentes. Nas costas, o homem trazia uma serpente emplumada que se curvava em círculo e mordia o próprio rabo. Quando o velho guardião apareceu, todas as cabeças se curvaram e nenhum olhar se fixou nele, exceto os dos Kamuratti que não se curvaram. O velho retirou-se e até que ficasse fora totalmente de vista, ninguém ousou erguer a cabeça e fitar o local.      O vasto salão de reuniões era todo decorado em ouro, azul e branco. Ocupando quase toda a extensão do enorme recinto, uma linda mesa de reunião ovalada com sessenta e oito cadeiras de altos espaldares, todas elas com assentos em veludo amarelo-ouro. Lucilla Kamuratti ocupou a cadeira próxima à porta de entrada, na cabeceira inferior da grande mesa, toda em carvalho. Cada casal que entrava separava-se. As mulheres se encaminhavam para a esquerda do móvel, considerando-se como centro divisor a cadeira mais alta no extremo oposto e para a qual se encaminhou o Sr. Kamuratti. Os homens encaminharam-se para o lado direito da longa e bem trabalhada mesa, permanecendo todos de pé, ao lado das cadeiras, até que o Presidente falasse.      — Senhores membros desta NAHASHILLAH a sessão está aberta. Queiram tomar seus lugares.      Como um só corpo todos obedeceram e assentaram-se. Então, após lançar um olhar de contentamento sobre todos, o Sr. Kamuratti finalmente sentou-se.      — Meus irmãos – iniciou Kamuratti – nossos negócios bancários e latifundiários nesta parte da América vão de vento em popa. As melhores terras da Argentina, do Rio Grande do Sul, Uruguai e Paraguai estão sob nosso controle e já foram adquiridas por irmãos nossos. As terras compreendidas no triângulo delimitado pelas cidades de San Pedro, no Paraguai; Mburucuyá, na Argentina, e Rosário, no Brasil, já pertencem à Grande NAHASH. Quando seja chegado o momento certo expulsaremos os pagãos de lá e tomaremos conta do que já é nosso. Temos, através da família Kamuratti, o direito de explorar aquelas terras do centro da Terra até as mais altas nuvens no céu. O endividamento dos países citados com o nosso banco vai num crescendo. Nossas manobras de décadas vem, finalmente, dar seus frutos. O maior e mais forte banco estadual deste país de miseráveis e tolos foi arrebentado e, como ele, todos os demais bancos estaduais. Para mantê-los agora, os políticos terão de entregar o comando deles a gente nossa. Ou, então, terão de privatizá-los, o que vem dar na mesma coisa. Os políticos gananciosos chegaram enfim a um impasse do qual não têm saída, senão capitular. Farão isto de modo velado, com muita pompa e muitos discursos, o que pouco se nos dá, mas cairão exatamente onde nós queremos e determinamos que caiam: em nossas mãos. Arruinaram com tudo o que o povo honestamente construiu e, agora, a saída vergonhosa, mas adoçada sob o manto da única salvação, é a lengalenga da privatização. Privatizarão tudo, até praças e jardins. As rodovias serão somente o começo. Venderão até as cuecas, logicamente do povo e jamais deles – por enquanto – na vã esperança de que as riquezas que amealharam com roubos, fraudes, traições ignóbeis e falcatruas vergonhosas continuarão a lhes pertencer. Estúpidos! São nossos e ainda não tomaram a plena consciência disto. Quando o fizerem será tarde demais. Queridos irmãos de luta, o mundo capitula. A América esfacela-se pela droga, pela pobreza e pelas guerras que habilmente mantemos acesas pelos países a fora. Suas leis são ridículas e já não servem para mais nada. A marginalidade e o banditismo têm mais direito que o cidadão honesto comum. As mulheres se tornam os algozes dos homens e estes, com medo delas, enveredam pelo caminho da depravação sexual. Cidades inteiras americanas é de homossexuais e de prostitutos e prostitutas de todas as espécies. Este país segue-lhe os passos, pois sempre foi um macaco de imitação dos americanos do norte. As Leis daqui são caricaturas das deles, para a desgraça deste povinho de nada. As fêmeas daqui estão aprendendo rapidamente a usá-las em proveito próprio e logo, logo, os machos daqui também estarão perdidos e aterrados diante de suas fêmeas. Fugirão delas como os seus irmãos do norte o fazem já. E se entregarão ao homossexualismo como único meio de satisfazerem o aguilhão da carne: o sexo. As riquezas do mundo se concentram em mãos de irmãos de nossa Sociedade. A fome, que faz escravos, espalha-se pelo mundo todo. Vejam o exemplo deste país. Tem fartura tão grande que o grão mais caro não devia custar mais de um centavo o quilo. No entanto, milhares morrem de fome porque nós movemos os cordéis que trazem a carestia e espalham a miséria. O quilo de um centavo passa a custar, freqüentemente, dez mil por cento mais caro. O ouro deles, gota a gota, pinga em nossas algibeiras. E assim será em todo o planeta. Nós somos o povo escolhido pelo nosso Deus Único para governar sobre a Terra. Aprenderão isto e somente terão um pouco de paz quando beijarem os cordéis de nossas sandálias e nos reconhecerem como os seus senhores absolutos.      Agora, quero-lhes falar do relatório de nosso irmão 31, aqui presente. Ele muito agradou a esta presidência. A Migdal, atuando aqui neste país e na Argentina, tem aumentado o aliciamento de escravas brancas para os bordéis da Inglaterra e da Europa, principalmente os de Espanha. O centro deste país, mais precisamente a capital de Goiás, é um manancial de mulheres para os prostíbulos da Espanha e de Oriente. O movimento Gay tem sido incrementado ao máximo de modo muito inteligente em todo o mundo, cumprindo, assim, com um de nossos lemas padrões: dominar as pessoas pelos seus vícios. Aqui, as minorias doentes imporão suas vontades à maioria complacente. Irmãos, na estúpida Europa os Cristãos já se desnortearam por completo. Sem ética e sem moral, aceitam e festejam a aberrante cerimônia entre desviados de mesmo sexo. Os doentes morais casam e formam... casais (estrondosa risada acompanhada por todos), como se tal coisa pudesse existir. Homossexuais, drogadictos e lésbicas tornam-se os heróis da juventude cristã e músicas indecentes e amoralizantes trazem milhões para as nossas gravadoras. Tocam como sucesso nos rádios e nas televisões e são cantadas por crianças e jovens adolescentes cristãos diante de seus pais anestesiados pela ação desestruturadora da bem difundida e tecnicamente bem conduzida “liberdade de expressão” e “liberdade de Imprensa”, irmãs gêmeas na morte da moral cristã. Aliás, o trabalho na imprensa falada, escrita e ouvida é uma obra magistral de nossos irmãos 27, 29 e 32, também aqui presentes entre nós. Eles são os responsáveis por este trabalho para toda a América Latina e são um exemplo a ser seguido por todos nós que desejamos a vitória. Ainda assim, meus irmãos, é preciso incrementar mais nossos esforços. Temos focos significativos de resistências e não podemos admitir isto.      Um dos presentes ergueu a mão direita.      — 0 irmão 18 tem algo a nos comunicar. Ouçamo-lo, pois.      — Venerando Navigateur , quero informar que nosso pessoal tem incrementado o aumento das seitas evangélicas entre os cristãos. Atualmente há, neste país, dois mil e trezentos êmulos nossos formando pastores que, por sua vez, são adestrados e adestradores na gula e na usura. Aprenderam rápido a apegar-se a bens e fortunas materiais e o dinheiro é sua meta primeira. Estraçalham com a idéia do criminoso Jesus, confundindo suas palavras e seus mandamentos. Dizem-se seus adoradores e o confundem com o próprio Deus Inominado . Esta estratégia se tem revelado excelente, pois o poder papal vem-se enfraquecendo a olhos vistos. Concomitantemente com isto, os evangélicos são treinados para induzir a plebe a desenvolver veneração pelo povo que pensam ser o escolhido de Jeová para governar o mundo. A semente desta visão já está bem plantada na mente de cada evangélico. Tacanhos, seguem o nosso evangelismo e a nossa filosofia sem pensar. Já somos os seus senhores e a prova disto é que façamos o que fizermos, nem uma vez entre os gentios uma voz se levanta em protesto ou ao menos para criticar. Continuamos a manter sobre a cabeça deles o holocausto judeu como uma pesada culpa de todos e cobramos sem cessar que permaneçam com ela em suas consciências. Fazemos com que tenham sempre o sentimento de dívida eterna para com os filhos de nossas vítimas. Dívida que passamos de pais para filhos de gentios; de netos para bisnetos deles, de tal modo que todos se sentem devedores, ainda que nascidos quase um século após o grande golpe. E as nossas indústrias cinematográficas sempre tiveram papel importante neste trabalho. Épicos como “OS DEZ MANDAMENTOS”, “MOISÉS”, “SANSÃO E DALILA”, “BEN-HUR” e outros mais modernos como é o caso de “O DIÁRIO DE ANIE FRANK” foram importantes para manter sempre a consciência subliminar de que os gentios devem sempre, desde o começo dos tempos. Filmes que mostram sistematicamente os judeus como vítimas do mundo reforçam de modo soberbo a culpa nas tolas e fracas consciências dos gentios. E a culpa é o sentimento que melhor nos ajuda, porque ela quebranta a dignidade e faz covarde os fortes. No entanto, a estratégia tem mudado. Nossas indústrias cinematográficas têm trabalhado incansavelmente no sentido de tornar a força e a violência os novos mitos endeusados dos cristãos de todo o mundo. Com o devido respeito, ainda somos do parecer que nossa comunidade cinematográfica devia empenhar-se em manter histórias épicas onde aquele povo seja mostrado sempre como a vítima das nações e, o que é mais importante, como o protegido número um de nosso Deus Único. É por acreditar nisto que julgamos que esta nossa NAHASHILLAH devia empenhar-se junto à Grande NAHASH no sentido de orientar a comunidade cinematográfica a voltar à produção em massa de filmes onde o sofrimento milenar de uma nação às mãos dos gentios fosse explorado intensamente. Mantendo uns acreditando-se eternos algozes e outros com o sentimento de eternas vítimas, nós os ocupamos entre si e ficamos livres para agir. Em nome de nossos colaboradores gostaria de pedir que esta petição fosse incluída na ata da presente reunião.      O orador sentou-se. Muitas cabeças assentiram com meneios de aprovação. Kamuratti olhou-os a todos e falou.      — A petição foi aprovada pela maioria. Que seja registrada em ata. Agora, meus irmãos, quero pôr-lhes a par de um projeto muito secreto que estamos desenvolvendo em nosso núcleo, em Israel. Pesquisas arqueológicas descobriram nas grutas do Mar Morto alguns pergaminhos absolutamente espantosos. Estudos com o carbono 14 indicam a idade acima de sessenta mil anos para eles. Como foram parar naquelas grutas, ainda é mistério. Eles foram retirados em sigilo pelos nossos irmãos da Grande NAHASH e levados para estudo. Após anos de acurados esforços, alguns trechos já foram desvendados. É uma escrita totalmente desconhecida da Arqueologia. Dos trechos já traduzidos, se infere que há uma força natural que, uma vez domada, pode tornar-se um gênio poderosíssimo a serviço da nação que a tenha dominado. Os míticos atlantes – parece que foram os autores e escritores dos pergaminhos – ao que tudo indica, conseguiram a tremenda proeza de aprisionar esta força natural, mas não devem ter sabido servirem-se dela. Parece que ela ganhou consciência própria, absorveu qualidades más do povo e contribuiu fortemente para o fim daquela humanidade. Suspeita-se, contudo, que aquela entidade não retornou ao seu estado natural. De algum modo sobreviveu no meio humano. A sacerdotisa Lucilla estará embarcando dentro de dois dias para Israel. Soubemos que mais alguns dados importantes foram obtidos e têm interesse significativo para as nossas pesquisas sobre a vida eterna em corpo físico. Somos os mais preparados para usufruir desta ventura. Acreditamos que nossa comunidade será uma das 12 escolhidas para a vida eterna e o gozo das riquezas terrestres. O Paraíso voltará às nossas mãos.      Kamuratti fez um silêncio estratégico para que as suas palavras pudessem calar fundo nas consciências dos ali presentes. Observou os rostos e viu os olhos brilhantes de expectativa e satisfação. Orgulhou-se e rejubilou-se intimamente. Sentia-se um verdadeiro Deus e gostava de exercer o fascínio que sempre exercia naquela assistência. Principalmente sabendo que eram todos indivíduos destacados dentro da Grande NAHASH. Pessoas poderosas no mundo dos negócios; águias de garras afiadas na divina arte de ganhar dinheiro. E, no entanto, ele as dominava. Curvavam-se a ele, o Navigateur da NAHASHILLA para a América Latina. Pensou em Anteu, o seu filho. Ele precisava ainda de muito treinamento e de muita persuasão para poder ser apresentado à comunidade. Kamuratti sonhava conseguir colocá-lo como o futuro Navigateur da NAHASHILLA para a América do Norte e o Canadá. Era outra das mais poderosas. Mas o rapaz era rebelde. O Sr. Kamuratti nunca tivera oportunidade de lhe apresentar a NAHASHILLA nem de lhe falar dos grandes planos milenares que a Grande NAHASH vinha defendendo e pondo em prática através do tempo. Agora, tudo estava caminhando para a consumação. Talvez até o final do terceiro milênio toda a grande estratégia estivesse finalmente concluída. Então, eles, vivos ainda graças às pesquisas que eram desenvolvidas sob o maior sigilo na sede, em Israel, veriam finalmente o dia do Juízo Final dos gentios. Quem não se curvasse definitivamente seria varrido da face da terra. Mesmo muitos nas tribos de Judá sofreriam a morte, pois era sabido que eles se rebelariam e fariam coro com os Goyns . Azar deles. O silêncio já se fazia sentir e Kamuratti resolveu sair de seu devaneio e falar.      — As atas de nossas reuniões serão levadas por Lucilla para a sede da Grande NAHASH. As petições serão analisadas e...      — Grande Navigateur , gostaria de fazer uma comunicação à comunidade.      — Fale, irmão 33 – autorizou Kamuratti, particularmente generoso naquela noite.      — Irmãos – falou o 33, que tinha cabelos grisalhos, era baixo e um tanto gordinho, usava óculos de fundo de garrafa e tinha o sestro puxar a gravata borboleta para o lado direito e sendo, por isto mesmo, obrigado a consertá-la a todo momento. – Compete a mim e ao grupo que comando a seleção e captação das crias cristãs que devem doar seus órgãos para as nossas experiências de transplante e de pesquisa na longevidade. Nosso trabalho ia bem, até que alguns pagãos rebeldes e ainda não catequizados pelo grupo de nosso irmão vinte e um, se interpuseram em nosso caminho. Então, para evitarmos complicações desnecessárias e impróprias, optamos por desmontar as crias cristãs aqui mesmo, em lugar muito bem seguro, e fazer a remessa das peças acondicionadas em um excelente receptor – o tubarão. Algumas remessas piloto já foram feitas e o sucesso foi total. Necessitamos, agora, que nossa NAHASHILLA nos dê cobertura. Precisamos que uma campanha seja deflagrada de modo a se fazer acreditar que o povo judeu está-se interessando no consumo da carne de tubarão. A Grande NAHASH deverá colocar nossos irmãos na Terra Santa para aparecerem de tal modo que dê a impressão de que toda a nação judaica realmente está unânime nesta preferência. O nordeste brasileiro tem tido sérios problemas com este predador, o tubarão. Nossa frota de pescadores será recebida naquelas paragens como heróica e não haverá resistência à captura dos espécimes de que precisamos nos tamanhos necessários aos acondicionamentos.      Novamente houve uma onda de movimentos aprovadores de cabeça.      — Lucilla se empenhará pessoalmente neste esforço, irmão – afiançou Kamuratti. – Mas sabemos todos que é muito delicada a exploração do povo judeu em nossas manobras. Como o resto do mundo, a maioria esmagadora daquela nação de teimosos não nos aprova há milênios. Um dos rebeldes, o mais terrível inimigo que tivemos, ainda que tendo sido crucificado e sua história sido atacada durante estes dois milênios, passou à posteridade como o Filho de Deus. Causa-nos aborrecimentos até hoje. Também não foi boa para a nossa causa a dispersão daquela gente pelos outros países por tanto tempo. As diversas culturas pagãs com as quais se misturaram tiveram efeitos demasiado dispersivos sobre o modo de pensar, educar as crianças e lidar com a mulher, naquele meio. Claro está, que reverteremos isto, mas vai requerer mais tempo do que era a pretensão inicial. Hoje, é mais difícil e delicado controlar o povo judeu. Creio, irmãos, que está próximo o dia em que se quebrará a regra milenar que afirma que judeu não mata judeu. Nós estamos na iminência de agir para que este comportamento não se mantenha. Estamos estudando a manobra, que é delicada. Contudo, eu lhe afianço que Lucilla fará empenho pessoal na sua proposição. E quando impusermos ao mundo a nossa Israel como o verdadeiro Messias de todas as nações, então os povos compreenderão que sempre estivemos com a razão. Aí, finalmente, desagravamos, de uma vez por todas, o insulto cristão para com a nossa Israel, a única e verdadeira. Varreremos da face da Terra o nome daquele miserável baderneiro e criminoso vulgar que os ignorantes adoram como O Filho de Deus.      A uma só voz todos gritaram erguendo o punho fechado ao alto:      — Abaixo o homem Jesus, o criminoso crucificado, mas ainda não morto. Que o poder de Israel finalmente prevaleça sobre sua memória vergonhosa para os verdadeiros filhos de Ra.      As taças de cristal, todas com vinho tinto, foram emborcadas sobre a mesa e todos se retiraram solenemente enquanto o líquido vermelho pingava da alvíssima toalha sobre o piso de mármore do faustoso salão.      — Expus para as senhoritas todas as possibilidades psicológicas e analíticas a respeito dos pesadelos e das visões de ambas – disse Khamal levantando-se e indo novamente à grande janela. – Não sou adepto da idéia da transmigração das almas, embora isto lhes possa parecer incongruente, uma vez que me esmero em estudar este assunto através da T.V.P. Se eu conseguir hipnotizá-la, Mara, e você me narrar coisas capazes de impressionar, quero que fiquem prevenidas de que o que disser não terá qualquer validade científica. Suas memórias estão contaminadas por suas leituras e as respectivas fantasias que elas lhes suscitaram. A regressão pode ser apenas fruto desta conjunção subjetiva. Em outras palavras, uma fraude. Agora – e o médico olhou as duas amigas de frente – se me compreenderam bem, eu lhes pergunto: ainda querem tentar?      — Queremos – responderam uníssonas as duas moças.      — Muito bem. Suponho que Mara queira ser a primeira, não é? – indagou o médico jovialmente.      — Sim – respondeu a repórter de “EL MONDO”.      — Por favor, tome a posição mais relaxada possível nesse divã, porém não se deite. Use as almofadas para se reclinar... – instruiu delicadamente o médico.      Mara fez conforme lhe era solicitado. O Dr. Khamal sentou-se a seu lado e lhe tocou de leve a testa, olhando-a fixo nos olhos.      — Quero que relaxe – começou ele, com voz monocórdia e constante.      — Quero que não pense em nada... não veja nada... só meus olhos... Agora, à medida em que vou contando, quero que você abra e feche os olhos naturalmente. Ao chegar a trinta e três seus olhos estarão cansados e você os fechará...      O Dr. Khamal começou a contagem sem perceber que Ludmila também lhe seguia as instruções, fixando uma garrafa de licor verde, onde o sol se refratava. Também ela cerrou os olhos ao número trinta e três e entrou em sonolência.      — Quero que você só ouça a minha voz... apenas a minha voz... está entendendo, senhorita? Ótimo! Agora, quero que você volte ao passado... você está voltando... voltando... ao passado... voltando... tem 15 anos... você tem 15 anos...      Mara balbuciou: “eu tenho 15 anos...” no que foi seguida por Ludmila às costas do médico.      — O que você está vendo, agora, Mara? – perguntou o Dr. Khamal.      — Meus pais... eles estão na sala de jantar de nosso apartamento, em São Paulo... Eu brinco com um quebra-cabeças... A TV está ligada...      — Ótimo, Mara, ótimo. Regrida mais... vamos para os sete anos.. você está com sete anos... é noite... você está em seu quarto... Como se sente, Mara?      — Eu...eu estou... estou na... na minha cama...      — Sim, sim, você esta em sua cama. O que sente, Mara? Diga, o que está sentindo?      — Me...medo... tenho medo... Não quero dormir... A boneca... Ela é uma...uma...      O corpo de Mara sofreu violento estremecimento e ela começou a suar. Sua pele avermelhou-se.      — Calma, Mara, fique calma... não há motivo para ter medo... você está em sua cama... seus pais estão em casa... você está protegida... tenha calma... fique calma.      — Não! Meus pais não acreditam em mim! Não quero dormir...      — Por que, Mara?      — A boneca...      — O que tem a boneca?      — Ela... ela...      O corpo de Mara tremeu convulsivamente e uma algaravia incompreensível se fez ouvir de sua boca. 0 Dr. Khamal tentou segurá-la para impedir que caísse, mas a moça livrou-se de suas mãos com um safanão. Seus olhos abriram e o Dr. Khamal tomou um susto. Estavam avermelhados e injetados. Além disto, estavam amarelos e tinham o formato dos olhos de um felino. Khamal recuou o corpo inconscientemente, fugindo àquele olhar diabólico. A boca de Mara torceu-se num rito macabro e seus lábios tão bonitos se tornaram secos e enrugados como os de uma velha asquerosa. As mãos estavam ressecadas e os dedos curvos como as garras de uma harpia. O médico fez menção de se levantar, mas aquela garra segurou-o com força, obrigando-o a sentar-se novamente. O coração de Khamal disparou. Estava totalmente confuso e muito assustado com o que via. Não acreditava em demônios, mas não podia negar que tinha um ali, bem diante de seus assustados olhos.      — Mara...?      Olhando-o fixamente, aquilo em que Mara se transformara falou. E sua voz era roufenha, rascante e tinha o tom da voz de uma mulher velha, muito velha.      — Não, Khamal, não é ela. O seu trabalho terminou aqui, Khamal. Eu não vou permitir que você bisbilhote o que não deve ser mexido. Agora, é você que está sob o meu poder e fará o que vou ordenar.      O médico, assombrado, tentou reagir, mas aqueles olhos chamejantes e felinos penetravam através dos seus com um olhar perfurante e demoniacamente irresistível. Chegava a seu cérebro e o paralisava. Aterrorizado, o médico percebeu que uma força poderosíssima impunha-se à sua vontade. Sentiu que aquela coisa desejava sua morte e compreendeu que, ao morrer, algo muito precioso e somente seu seria absorvido por aquilo. Algo em que jamais crera com convicção e que, naquele instante crucial e inevitável percebia com toda a clareza, para seu desespero absoluto, era a sua imortalidade, a sua alma. Ia perder a energia de sua alma e a própria alma para aquela coisa. Mais que medo, uma indescritível onda de pavor inundou-lhe o Ser. Seus cabelos ficaram totalmente brancos e seu rosto enrugou-se como o de uma múmia.      — Lá fora, no lado oposto ao poente, três mulheres estão em perigo – disse a estranha aparição, de cuja boca corria um filete de baba. – Você vai salvá-las. A morte o espera lá, Khamal. Vá e morra, Eu também tenho fome. Sua alma será meu primeiro alimento nestes últimos dois séculos de solidão, Khamal. Agora, vá! Estou faminta, Khamal. Estou faminta e tenho pressa. Vá! Vá!      Khamal levantou-se e se dirigiu para a saída com passos rígidos e Ludmila levantou-se para segui-lo, mas a coisa em Mara gritou-lhe irada:      — Sente-se, Menta . Sua hora ainda não chegou. Há milênios eu quero sua alma, mas você sempre me escapou. Desta vez estou mais forte e muito mais sábia. Vou preparar o seu momento, mulher. Mesmo a proteção de Plutão não vai conseguir salvá-la de mim. Mas não é a hora, agora. Sente-se e durma e esqueça tudo. Eu lhe ordeno!      Ludmila desabou sobre os almofadões bordados em sono profundo. O corpo de Mara caiu ao chão e a moça permaneceu desmaiada.      — Onde está o bicho? Alguém o vê?      Tamara buscava entrever a fera por entre as ramagens, mas não lograva divisar nada. No entanto, o jacaré estava lá. Podiam sentir a maligna presença no ar cheio de neblina.      — O que vamos fazer? – indagou Karina. – Eu não quero passar a noite trepada aqui, não.      — Essa coisa corre muito? – quis saber Milena.      — Corre sim – respondeu Tamara. – Eu só não sei é a persistência dele na perseguição da presa.      — De qualquer modo, não temos muito pra onde correr – disse Milena desanimada. – Atrás de nós só tem o mar. Para os lados, muita mata fechada e pedras altas. O único caminho é subindo a ilha. Nós estamos encurraladinhas da silva, minhas caras.      — Está tudo muito quieto – observou Tamara. – Será que a fera se foi?      — Não, ela está lá. Esses bicharocos não são de andar – disse Karina apreensiva.      — Se nós puséssemos a boca no mundo... quero dizer, se a gente se pusesse a gritar juntas... Será que alguém nos ouviria lá no chalé? – perguntou Milena.      — Acho que nos ouviriam até nos iates ancorados por perto – respondeu Tamara. – Mas podemos colocar quem nos ouvir em perigo mortal.      — Tem razão... – concordou Milena sentindo-se horrivelmente impotente. “ Que hora para essa coisa voltar, droga ”, pensou a milionária. “ As repórteres vão ter muito que falar de minha ilha... E não vai ser nada agradável.      — Nós temos de descer e sair daqui. Se ficarmos paradas alguém poderá vir atrás de nós e cair nas garras do jacaré – falou Karina preocupada. – Acho que vou fazer uma manobra arriscada.      — O que você pretende? – perguntou Tamara apreensiva. Sabia muito bem que sua amiga era afoita e não era dada a esperar por nada.      — Eu vou... – ia responder Karina, mas foi interrompida por um gesto imperioso de Milena.      — Escutem! – exclamou a anfitriã. – Estão ouvindo? São passos!      As três mulheres aguçaram os ouvidos. Sim, alguém vinha descendo a trilha diretamente para o lugar onde estava o jacaré, oculto entre as folhas. Elas se entreolharam angustiadas. Quem quer que fosse vinha direto para a morte. Milena Já vira o réptil e sabia que era grande. Uma pessoa desarmada não teria nenhuma oportunidade de salvação. Em uníssono começaram a gritar a plenos pulmões:      — VOLTE! QUEM VEM LÁ, V O LT E ! RETORNE PARA O CHALÉ! HÁ UM JACARÉ NO CAMINHO! HÁ UM JA-CA-RÉ! JA-CA-RÉ! VOLTE! NÃO VENHA PRA CÁ! HÁ PERIGO DE MORTE! V O L T E ! ! !      Pararam para escutar. Os passos não se detiveram. Cada vez a pessoa se aproximava delas. Parecia não ter ouvido a gritaria.      — Meu Deus! – exclamou Milena angustiada. – Não é possível que ela ou ele não tenha ouvido a gente. Vamos gritar mais alto...      E as três mulheres quase arrebentaram as cordas vocais de tanto gritar. Quem vinha pela senda, contudo, ignorou os avisos desesperados e continuou a descer pisando estranhamente duro no chão. Os passos se aproximavam inexoravelmente.      — É estranho que não tenha ouvido nossos gritos – repetiu Milena.      — Ouviu, sim, mas os ignora propositadamente – disse Tamara preocupada. Pensava intimamente que talvez fosse Ludmila. Ela era outra afoita. Mas, quem sabe, viesse armada?      — Você tem arma no chalé, Milena? – perguntou com um fio de esperança.      — Não. Nem um facão – disse a milionária. – Por que?      Ouviu-se uma arrancada brusca. O jacaré dava o bote. Um grito estridente ecoou, pondo os cabelos das mulheres de pé. Era voz de homem. Um enorme barulho de arbustos arrancados. Alguém fora apanhado pela fera. Os gritos de agonia arrepiavam até a alma das três impotentes moças. Uma brisa espantou a neblina e elas puderam entrever o corpo escamoso do animal. A enorme bocarra sacudia furiosamente algo branco com manchas vermelhas. A gritaria de quem fora apanhado decrescia rapidamente. Terminaram num gorgolejo terrível, como de quem se engasga com o próprio sangue. Então, o enorme jacaré precipitou-se por entre a mata. Levava na boca algo muito ensangüentado e Milena divisou um pé humano sendo arrastado pelo chão. A moça sentiu-se tonta e quase caiu ao chão. O grito de Tamara é que a trouxe de volta.      — Vo... vocês viram? – perguntou numa voz trêmula.      — Sim. Era uma perna humana – disse Karina estupefata e num fio de voz.      Ouviram o baque do corpo da fera nas águas da baía, lá na praia. Um silêncio oprimente e um vazio esquisito apossou-se de cada uma delas.      — Meu Deus ! – exclamou Milena. – Isto nunca aconteceu antes...      — Quem terá sido o infeliz? – murmurou Tamara persignando-se.      — Vamos descer! – gritou Karina subitamente agitada. – Vamos para o chalé. Saberemos lá quem teve destino tão cruel.      Freneticamente as três moças escorregaram para o chão e correram pela senda. No local onde o jacaré atacara o mato estava todo esmagado e arrancado do chão. Havia muito sangue por toda a parte. Um pé de sapato tipo mocassim, branco, estava largado no chão. Karina o apanhou e correu atrás das outras duas que sumiram lá no alto. Ela ouviu aquele bocejo medonho e compreendeu que o bicho estava de volta. “ Isto aqui é um pedaço do paraíso com o diabo solto dentro dele ”. Pensou a repórter literalmente voando senda acima. Ouvia nítido o jacaré voltando e não queria ser a próxima.      Milena entrou em casa aos gritos.      — Clóvis! Luís! Andréa! Aqui, já! Venham todos para cá!      Os três chegaram acompanhados do comandante do iate, Argos. Estavam atônitos com os gritos desesperados de Milena.      — Comandante Argos inquiriu a milionária, enquanto Tamara subia as escadas correndo, – onde estão Raul e Silas?      — No iate, senhorita, juntamente com Pedro, João e Lázaro. O que houve? Por que o nervosismo?      — Uma desgraça, comandante – respondeu Milena. Neste instante Karina entrava com o sapato ensangüentado nas mãos.      — Ele voltou! – gritou a repórter ainda ofegante. – O desgraçado voltou.      — Quem voltou? – indagou desconcertado o espantado comandante.      — O jacaré... – disse Karina, apoiando-se num móvel para recobrar o fôlego.      — Jacaré?! – ecoaram Clóvis, Luís e Andréa entreolhando-se com assombro.      — Sim, jacaré. Uma bruta fera! – exclamou a milionária afogueada pela corrida. – Comandante, ligue para o iate e diga à tripulação que fique lá. Não venha à ilha de modo algum. Andréa, ligue para a polícia. Quero falar com o delegado. Clóvis, solte a matilha. Quero os cães caçando o monstro antes que faça mais alguma...      Tamara surgiu no alto da escada seguida por Mara e Ludmila, ainda sonolentas.      — Onde está o Dr. Khamal? Alguém sabe dele? – perguntou a repórter do alto da escada.      — Não está aí em cima? – surpreendeu-se Argos. – Ele mandou que todos fôssemos para a cozinha – completou.      — Khamal! Dr. Khamal, onde está o senhor? Procurem o Dr. Khamal dentro do chalé! – gritou Milena afobadamente. – E não saiam da casa. Os cães são ferozes. Só o Clóvis pode lidar com eles. Agora, vão!      — Esperem! – gritou Karina já refeita da corrida. – É inútil. Ele foi devorado pelo jacaré.      Houve pesado silêncio e os rostos voltaram-se para ela, pálidos e surpresos uns, incrédulos outros.      — Este é o sapato dele – informou Karina mostrando a peça ensangüentada em sua mão. – Eu o apanhei quando voltava para cá. Estava lá no lugar onde o jacaré atacou a pessoa que descia a senda. Era o Dr. Khamal.      Diante dos fatos todos se entreolharam horrorizados. Os olhos se prenderam naquele pé de sapato vermelho de sangue.      — Mara, Ludmila – chamou Milena ainda de olhos fixos no fatídico pé de sapato suspenso no ar pela mão de Karina, – o que aconteceu? Por que o Dr. Khamal deixou vocês e desceu atrás de nós?      — Elas não sabem de nada – informou Tamara descendo as escadas seguida pelas colegas ainda sonolentas. Eu as encontrei inconscientes. A Ludi estava no divã e Mara, no chão. Ambas me deram trabalho para acordar.      — O delegado está na linha, senhora – informou Andréa com o telefone em mãos.      — Ótimo. Traga-me o aparelho – pediu Milena.      Ouviram-se os latidos furiosos dos cães. Eram oito Rotweiller e quatro Dobermann que seguiam os enormes dinamarqueses, cinco ao todo, todos treinados para atacar e matar.      — Quem é o delegado? – quis saber Karina.      — É o Dr. Azevedo – informou Milena tomando o fone e atendendo.      — Péssimo – comentou Karina fazendo careta de descontentamento. – O Dr. Gerião Azevedo é homem de Kantor Antratos. Está enterrado até as orelhas com o crime organizado. Suspeita-se que seja quem dá cobertura aos êmulos do marginal na distribuição de drogas aqui em Angra.      Milena não a ouvia. Contava, atabalhoada, o sinistro ocorrido e pedia ajuda. Permanecia ao telefone quando se ouviu o alarido dos cães. O barulho era enorme e um deles ganiu desesperado.      — Meu Deus – exclamou Tamara. – A fera pegou um dos cães.      Ludmila pegou-lhe o braço pedindo que contasse o que estava havendo. Em meio ao alarido dos cães, ganidos, rosnados furiosos, latidos e “bocejos” que chegavam como uma orquestra macabra, Tamara narrou o que acontecera. Mara e Ludmila horrorizaram-se com a tragédia. Milena desligou o telefone. Lá fora o combate dos cães contra o jacaré recrudesceu. A luta chegava ao chalé e desesperava os impotentes espectadores. Pelo menos três cães ganiram em agonia e os outros pareciam atacar com fúria demoníaca.      — É estranho – comentou Argos. – Eu nunca ouvi dizer que jacarés enfrentassem cães. Geralmente eles fogem para a água.      Ninguém pareceu ouvi-lo. Estavam como que hipnotizados pelo ruído dantesco: todos calavam, tensos. Então, o alarido começou a se deslocar em direção ao mar. Minutos depois só se ouviam alguns latidos esparsos.      Clóvis, que estava no canil, fez soar o apito ultra-sônico, audível apenas pelos cães. Dos quinze, só nove voltaram. Dos nove, dois eram dinamarqueses, três Rotweiller e quatro Dobermann. Estavam ensangüentados, mas após um jato d’água, Clóvis pôde verificar que o sangue não era deles. Não estavam feridos. Clóvis voltou para o chalé.      — E então? – perguntou Milena, ansiosa.      — Perdemos seis cães, mas parece que o jacaré foi expulso. Devia ser um bicho danado de grande. Deu cabo de dois dinamarqueses.      — É uma pena, – lamentou a milionária – mas a gente compra outros para substituí-los. Agora, enquanto aguardamos o delegado, eu gostaria de tomar um trago. Alguém me acompanha?      — Eu – disse Argos e foi preparar as bebidas.      — Eu gostaria de ligar para um detetive amigo meu – informou Karina. – Posso?      — À vontade – disse Milena encaminhando-se para o bar. CAPÍTULO X SURGE UM NOME E TUDO SE COMPLICA        Damastor já ligava o automóvel para ir para seu apartamento, depois de um dia causticante, abafado e enfumaçado no verão de 45 ao sol, quando ouviu o escrivão gritar o seu nome. Uma irritação surda lhe subiu ao peito. “ Não vou atender a mais nada, hoje. Estou cansado, droga !” Fora um dia agitado. Três seqüestras e dois assaltos a banco em plena Av. Rio Branco, coração comercial do Rio de Janeiro, um às l0h e outro às 15h. A audácia dos criminosos estava ficando incontrolável e descarada. A polícia não tinha tido nenhum sucesso contra aqueles atentados. E isto não incluía as dezenas de reclamações pequenas, como o caso do marido que surrara a esposa e quase matara o filho mais velho a porrada; a empregada doméstica que aproveitou-se da saída dos patrões para trabalhar e com ajuda de seu cúmplice havia limpado a residência; o roubo de uma criança por uma babá que desapareceu como se engolida pela terra e dois mortos e quatro feridos num acidente por avanço de sinal.      O escrivão tornou a chamar pelo Detetive. Damastor respirou fundo, desligou o carro e foi atender.      — O que é? Meu expediente acabou... – disse de mau humor.      — É um telefonema de Angra dos Reis – informou o escrivão.      O detetive apanhou o aparelho com má vontade, mas ao ouvir a voz de Karina sua disposição modificou-se radicalmente. Ele gostava daquela repórter. Além de muito bonita, ela tinha um comportamento de lealdade e companheirismo para com ele que o cativava. Ajudara-o a desvendar quatro casos complicados e em dois deles, quando o detetive estivera com todos desconfiando de sua honestidade, ela se mantivera firme a seu lado. Arriscara-se muito várias vezes para lhe dar informações preciosas. Damastor sentia que tinha uma grande dívida de gratidão para com ela.      — Damastor falando. O que é, Karina? Novidade?      Ele permaneceu ouvindo o longo relato de sua amiga sobre o acidente na ilha da milionária Milena Forcis. Aquilo era horrivelmente interessante. Um jacaré não atacava assim, de graça. Seria necessário que tivesse ninho por perto ou fosse fêmea. E encarar cães adestrados e furiosos era menos provável ainda. No entanto, a moça era taxativa quanto à espécie de bicho: jacaré.      — Eu queria pedir-lhe que viesse para cá – concluiu Karina. – Milena deu parte do acontecido ao Delegado Gerião Azevedo e você sabe que aquele crápula não é flor que se cheire. Temo que tente enrolar o assunto a fim de levar vantagem de algum modo...      — Não vejo como, minha amiga, mas com ele tudo é possível – disse o detetive pensativo. – De qualquer modo a ilha fica totalmente fora da área de atuação desta delegacia. Não posso estar aí oficialmente, compreende?      — Eu sei – disse Karina. – Mas você vem como convidado de Milena. O pau-mandado não poderá reclamar.      — E a Dra. Milena sabe que está-me convidando?      — Sim, sabe. Eu falo com ela sobre o motivo por que o quero aqui.      — Tudo bem. Só que não vou chegar aí hoje.      — Por que não?      — São quase as 17h. Daqui até aí vou levar umas três horas. Você sabe que o trânsito na Presidente Dutra é de lascar. Não acho que encontre transporte para a ilha, quando chegar a Angra.      — Não, você não virá de automóvel. Aguarde um momento.      E Karina deixou o telefone e conversou com Milena. Explicou-lhe o que queria. A milionária chamou o piloto do helicóptero pelo telefone e lhe ordenou que fosse buscar Damastor. Karina informou que havia um campo de futebol próximo à Delegacia. O piloto poderia descer lá, onde o Detetive estaria esperando. Voltou, então, ao aparelho e combinou o encontro com Damastor.      — Tudo bem, vou para lá. Ah, vou levar um companheiro, tudo bem?      — Sem problema. O chalé cabe todos e muito mais – brincou Karina.      Damastor desligou e foi ao rádio. Enviou uma mensagem a Ivaldo em caráter de urgência. Não demorou mais que vinte minutos e o companheiro chegou. Vinha com ar preocupado e muito suado. A cabine da velha camioneta “camburão” era um forno.      — O que houve? – perguntou.      — Quer dar um passeio de helicóptero? – perguntou Damastor olhando com expressão crítica para o companheiro.      — Vamos aonde? – indagou Ivaldo preocupado. Temia ter de ser engajado numa patrulha sobre o morro da Mangueira. A coisa lá estava feia. Havia tiroteio desde as 15h e os helicópteros da polícia já tinham tido quatro baixas graves. Os meliantes usavam AR-15 com mira telescópica.      — Vamos esticar até a ilha particular da milionária Milena Forcis, lá em Angra. Que tal, gostou?      — Hummm... Depende. O que houve 1á? – desconfiou Ivaldo.      — Parece que um jacaré aprontou uma – disse Damastor encaminhando-se para a porta da Delegacia.      — Jacaré? Que negócio é esse? Algum marginal novo no pedaço?      — Não. Jacaré de verdade. Ele devorou o famoso psiquiatra Dr. Khamal. Pelo menos foi o que a Karina me disse – informou Damastor.      — Caramba! A milionária tinha um bicho desses na ilha, é? Se tinha, arranjou encrenca da grossa – comentou Ivaldo.      — Bem, sem querer você me deu o modo pelo qual o patife do Delegado Gerião Azevedo pode tentar enrolar a milionária – falou Damastor. – A minha amiga tem toda razão de estar temerosa.      — Do que você está falando? E para onde estamos indo?      — Estamos indo para o campo de pelada aqui atrás. Lá o helicóptero da milionária virá apanhar-nos. No caminho eu lhe explico tudo.      — Hei, eu não estou preparado para...      — Está bom. Ninguém vai notar sua catinga. Afinal de contas, o personagem do momento é o jacaré. Vamos!      E Damastor pôs-se a caminho seguido pelo resmunguento companheiro.      — Espero que sua amiga não esteja querendo que nós prendamos o tal jacaré. Não somos do IBAMA, ela sabe disto? – ironizou Ivaldo.      — Não é isso. Karina quer que nós assistamos o trabalho do Delegado Azevedo. Ele nos conhece de velhas guerras e não tentará armar nenhuma para cima da milionária se estivermos presentes lá. Pelo menos é o que ela espera.      — Hummmm... – fez Ivaldo, cético.      Damastor não comentou nada diante do pessimismo do parceiro. Ele também achava que a presença de ambos não inibiria o Delegado se ele resolvesse criar problemas para a milionária. Chegaram ao campo em silêncio e só esperaram por mais vinte minutos. O aparelho desceu levantando uma nuvem de poeira, o que muito contrariou Ivaldo, cuja roupa suada ficou ensopada de pó.      — Estou um boneco de lama – disse, quando se acomodaram no aparelho.      — Não vão notar – comentou com pouco caso o colega.      O helicóptero alçou vôo. Damastor perdeu-se na contemplação das luzes coloridas lá embaixo que indicava um oceano de automóveis coleando ora lentamente ora apressados, como uma gigantesca e interminável cobra vermelho-amarelada. Aquele momento era algo meio mágico. Ele se via desligado da terra, afastado do corre-corre, da tensão, do perigo iminente de um acidente, da barulheira, da fumaceira... enfim, ele se via longe do inferno em que o homem transformara o viver no solo. “ Um dia ainda vou ter dinheiro e tempo para desfrutar dos vôos de asa delta ” pensou melancólico. O helicóptero desligava da terra, mas só parcialmente. O barulho das hélices e do rotor mantinha, de certo modo, um cordão umbilical com aquilo lá embaixo. Numa asa delta, não. Depois de lançar-se no ar, o voador somente ouvia o vento na lona e nada mais. O desligamento era total. A pessoa devia sentir-se una com a natureza, como um dia, no passado longínquo, o homem deve ter sentido. “ Viver é mágico ”, refletiu Damastor. “ A gente fica atrás da magia dos contos de fada, passa grande parte do tempo correndo atrás de fórmulas mirabolantes para transformar chumbo em ouro e, no entanto, a verdadeira magia está ali, ao alcance da mão humana. ” Voar em asa delta era uma magia. A mesma coisa era navegar num iate. Ou cavalgar num corcel pelo campo, sem nenhuma preocupação que não a de ser um com a alimária e desfrutar a sua força num galope veloz pelo campo. Damastor era bom cavaleiro tanto quanto motoqueiro. Cavalo e moto se pareciam nisto.      O helicóptero guinou para a esquerda e sobrevoou um local escuro. “ Ali não tem humanos. Deve ser mato. Não há nem luzes de residências... E o escuro é calmante. Tanto como uma corrida de moto.      Assim, perdido em pensamentos, o detetive não viu quando estava chegando à ilha. A seu lado, Ivaldo dormia. Pousaram nos fundos do chalé, numa área muito bem iluminada e com um círculo amarelo bem vivo desenhado no cimento. Karina e Milena estavam à espera deles. A repórter foi logo informando:      — O Azevedo já desceu para o local do ataque. Levou lanternas e dois asseclas... Ah, desculpem. Milena Forcis, este é Damastor, detetive de primeira grandeza. Milena é uma ricaça sensacional.      Os apresentados sorriram diante do comentário pouco natural e se apertaram as mãos. Milena gostou de imediato daquele forte homem grisalho e de sorriso másculo. Seu aperto de mão era como o de uma torquez, mas ele soube dosar a força para não machucar. Exalava cheiro de suor, porém não era desagradável. Milena sentiu uma aura de segurança, determinação e força moral como não havia sentido diante do Delegado Azevedo. Este era o contrário. Tinha mão mole, flácida, úmida de um suor que causava arrepio de nojo. Era gordo e de banhas soltas. Suava muito e exalava um odor desagradável, embora usasse bons perfumes franceses. Por baixo da banha, contudo, adivinhava-se muita força física e o homem era surpreendentemente ágil para aquele corpanzil. O que mais incomodava, contudo, era ele não olhar de frente para o seu interlocutor. A vista estava sempre inquieta, fixando vários locais enquanto ele falava com alguém. Já os olhos daquele detetive eram como aço. Fixavam-se nos da pessoa e pareciam penetrar-lhe até a alma. Aquele homem olhava a vida de frente, fosse ela feia ou bonita.      — Prazer, Dra. Milena – disse Damastor com um sorriso cativante. – Eu tive a ousadia de convidar meu companheiro para vir comigo. Espero não ter cometido nenhuma inconveniência.      Ele acabava de conquistar a milionária. Ela sempre tratara com policiais rudes, grosseiros e interesseiros. Aquele era o primeiro que lhe falava cortesmente.      — Não, não. Karina me contou sobre ambos. É um prazer tê-los conosco, embora as circunstâncias não sejam as melhores para um primeiro encontro.      Damastor apresentou Ivaldo e Milena simpatizou também com ele, embora notasse que estava com extremado cansaço. Era bem mais jovem, mas era também muito forte. O rapaz não sorriu. Limitou-se a apertar-lhe a mão com um leve meneio de cabeça e murmurou o nome de modo quase inaudível.      — Ele está muito cansado – disse Damastor. – Normalmente é falador e brincalhão. Queira desculpar a sua antipatia, sim?      — Oh, não, por favor – pediu Milena sorrindo. – Eu noto que seu parceiro está exausto e sinto muito mesmo que ele tenha sido forçado a se envolver neste caso desagradável. Por favor, venham. Tentarei tornar a estada de vocês dois o mais confortável possível.      E a anfitriã pôs-se a subir em direção ao chalé, seguida por todos.      — Você me paga – murmurou Ivaldo próximo ao ouvido de Damastor. O detetive limitou-se a rir.      Na ilha o sol ainda fazia chegar sua luz. Enquanto a comitiva se dirigia para o chalé o Delegado Azevedo examinava o local da batalha. Viu os pedaços dos cães espalhados pelo terreno revolvido. Mais abaixo, encontrou uma cabeça de Dobermann, dentes arreganhados, olhos vidrados e segurando ainda um pedaço de garra de pata de jacaré. O Delegado abaixou-se e examinou aquilo. Era um dedo enorme e com uma unha de meter medo.      — Esse aqui morreu lutando – comentou para o detetive a seu lado. – Veja, ainda tem uma das garras do lagartão presa entre os dentes.      O comandante Argos também aproximou-se para ver o espetáculo macabro. Sim, a garra do animal era muito grande. Aquela unha, por si só, era uma arma mortal. “ Caramba ”, pensou com seus botões, “ o bicho deve pesar acima de cem quilos.      — É, foi um bravo – disse quando o Delegado o fitou. O Comandante Argos estava impressionado com o estrago no local. Com a pouca luz do entardecer podia ver sangue por todos os lados, pedaços de pele e muito mato arrancado até pela raiz.      — Eu não fazia idéia de que um jacaré pudesse lutar deste modo – disse o delegado.      — Nem eu. Aliás, jamais soube de um que se comportasse assim – informou Argos.      — Deve ser um bicharoco de tamanho respeitável... Talvez uma fêmea. Sei que elas atacam furiosamente quando sentem o ninho ameaçado. É verdade, não é, comandante?      — Sim... isto é, é o que também tenho ouvido dizer.      — O senhor acredita que esta seja uma fêmea?      — Não posso dizer que sim ou que não.      — Se for, então, temos de encontrar o tal ninho.      — Só que à noite não é recomendável. Pelo ruído que todos ouvimos lá do chalé, o bicho fugiu para o mar. Não foi morto pelos cães e parece que voltou. Aqui entre nós, eu não gostaria de enfrentá-lo... ou enfrentá-la.      — Temos armas.      — Eu sei, eu sei. Mas...      — Delegado, aqui! – gritou um dos dois detetives que havia descido em direção ao mar.      — O que foi? – e Azevedo desceu até onde estava o seu homem acocorado. Um braço humano, decepado à altura do bíceps, estava no chão coberto de maribondos e moscas varejeiras.      — Santo Deus! – exclamou Argos. – Deve ser o braço do Dr. Khamal.      — Espante os insetos e recolha a peça – ordenou o delegado friamente. – Jorge! – chamou – Você descobriu alguma coisa mais, aí em baixo?      Lá da praia veio a resposta do homem.      — Não, delegado. Eu acho... Espere! Tem alguma coisa aqui.      — O que é? – e o delegado, seguido de Argos e de seu outro detetive, lançou-se terreno abaixo. Encontraram Jorge tentando pescar um pedaço de pano branco de dentro das águas, cada qual pegou uma vara e o ajudou no esforço. Quando finalmente retiraram o pano de dentro das águas salgadas viram tratar-se da perna de uma calça. Presa ainda aos farrapos estava parte da perna e o pé de um homem. O sapato mocassim estava encalhado sobre umas pedras debaixo dos galhos dos arbustos que se debruçavam sobre o mar. Também o recolheram. Não havia mais nada e a luz estava sumindo rapidamente, dando lugar a uma escuridão inquietante. O quarteto regressou ao chalé. Ao entrarem na ampla e bem mobiliada sala deram com os dois detetives conversando animadamente com as moças. Ambos bebiam um “ blood Mary ” e estavam bem descontraídos. Azevedo não gostou nem um pouco do que viu. Milena dirigiu-se a eles.      — Encontrou alguma coisa, delegado?      — Sim – respondeu Azevedo apontando os sacos em poder de seus homens. – Alguns pedaços de um homem. Talvez de seu amigo médico. Vou levar para as análises. As impressões digitais, contudo, poderão confirmar as suspeitas. Sabe, Dra. Milena, não é bom ter um bicho como este que estraçalhou o homem, como animal de estimação.      — O... o quê? – surpreendeu-se Milena.      — Digo que o tal jacaré deve ser cria da ilha, não é? Eu tenho visto alguns perdidos por aqui, mas nenhum deles seria capaz de um tamanho estrago. Teria de ser um animal criado.      — O senhor está insinuando que eu... – Milena sentiu a raiva tomar conta de si.      — Não, não. Estou apenas fazendo uma suposição plausível. Desculpe se a irrito, mas é minha obrigação, compreende?      — Com base em quê o senhor supõe tal coisa, Delegado? – E Damastor aproximou-se do grupo acompanhado por Ivaldo.      — Não se intrometa, rapaz. Você está fora de sua jurisdição. Posso saber o que está fazendo aqui?      — Vim ver uma amiga – respondeu Damastor, olhando fixamente para o Delegado. Este tentou sustentar o olhar, mas não conseguiu.      — Eu o convidei – disse incisiva a milionária. – Não é proibido, eu acho.      — Não, não é – concordou o delegado disfarçando a raiva. – Só é curioso que tenha vindo fazer uma visita a uma hora destas e num momento como este.      — Eu diria mesmo que é suspeito – insinuou um dos outros detetives de Azevedo.      Ivaldo postou-se diante do colega e lhe pousou a mão sobre o ombro.      — Quer repetir o que disse? – e fez pressão sobre o músculo trapézio. O homem curvou-se e fez uma careta de dor. Olhou para Ivaldo e este meneou negativamente a cabeça, negando-lhe o direito de reclamar da dor a que o submetia.      — Desculpe – pediu o homem entredentes. – Eu não quis dizer isto.      — Mas disse. E eu não gosto que insinuem nada a meu respeito sem provas concretas, colega. Tem alguma?      — Não, não – e o homem tentou safar-se da garra que lhe apertava desapiedadamente, o músculo.      — Então, fique de boca fechada – recomendou Ivaldo fuzilando o colega com os olhos.      — Que está fazendo, detetive? – inquiriu Azevedo irritado.      — Nada. Apenas converso com o nosso... amigo. Não é proibido, é? – E Ivaldo deu tapinhas amigáveis no peito do homem, afastando-se. Azevedo olhou fixamente para o seu subordinado, mas ele desviou os olhos e disfarçou a dor que ainda sentia.      — O senhor não nos respondeu, Delegado – provocou Damastor.      — Respondi a quê? – perguntou o homem suando em bicas.      — À pergunta que fiz quanto à sua suposição sobre o jacaré ser uma cria da ilha. Em que se baseia para tecer tal suspeita?      — Já disse que não é suspeita. É... uma observação. Apenas isto.      — Oh, uma observação. Interessante. Mas o que o levou a tal coisa, podemos saber?      — Ora, o tamanho da fera – respondeu o Delegado de mau humor.      — Ah, supomos que o senhor viu o bicho, pois não?      — Você está-me questionando, detetive?      — Não é só ele, delegado – disse Milena. – Somos todos nós. Afinal, sua suspeita põe a mim numa situação desagradável.      — E nós não gostamos disto – disse Argos com um olhar ameaçador.      — Um jacaré natural não atinge a um tamanho destes... – começou o Delegado, mas foi interrompido por Damastor.      — Oh, a que tamanho o senhor se refere, Delegado?      — Diabos, não estou gostando de sua atitude, homem – disse Azevedo aborrecido.      — Nem nós da sua, Delegado – respondeu Karina, – Sabemos que o senhor não é um homem limpo. Cuidado com o que intenta fazer.      — Isto é uma ameaça? – quase gritou Azevedo. – Se é, você se coloca em situação delicada, moça. Estou numa diligência e posso dar-lhe voz de prisão.      — Com base em quê? – perguntou Ivaldo.      — Não é de sua conta, rapaz. Não se intrometa – rugiu Azevedo.      — Podemos testemunhar contra o senhor, Delegado. O senhor está levantando suspeita e ameaçando de modo anti-ético a uma pessoa sem ter nenhuma prova que sustente sua acusação – disse Ivaldo avançando um passo e fazendo com que o Delegado, involuntariamente, recuasse outro.      — Quem disse que não tenho?      — Não apresentou nada até agora – rebateu Ivaldo, firme.      — Eu disse que suponho que o jacaré foi criado na ilha. Eu não afirmei nada. E supor não é crime. É nosso dever. Todos os ângulos da questão têm de ser averiguados – falou o delegado nervosamente.      — Concordo plenamente, delegado – falou Damastor. – Mas no presente caso o senhor está supondo muito. Por exemplo: o senhor está supondo o peso do animal. Pelo peso, supõe o tamanho. Por estas suposições chega a uma terceira: o bicho pode ter este tamanho suposto se for criado em cativeiro na ilha . Para isto, com o consentimento da dona desta. A partir daí, supõe que a dona da ilha é irresponsável o suficiente para deixar o animal solto na ilha, embora sabendo que recebe pessoas aqui, como visitantes. Dra. Milena é conhecidíssima pelas suas festas nesta ilha. Nesta cadeia de suposições, convenhamos, o Dr. Delegado vai chegar ao absurdo de supor que a Dra. Milena Forcis, uma das mais respeitadas e conhecidas socialities desta cidade maravilhosa, é uma doente psicopata e se compraz em colocar seus amigos como comida de seu bichinho de estimação.      — Você está doido – protestou o Delegado agastado. – Eu jamais estive nesta linha de raciocínio.      — Oh, claro que não, claro que não. Todos aqui sabemos que o senhor é um Delegado zeloso e só escorregaria para tantas suposições capazes de trazer aborrecimentos desnecessários para uma pessoa respeitadíssima por mero descuido. No entanto, o Dr. Delegado esquece que a Dra. Milena tem amigos poderosíssimos e, depois de se safar facilmente dos aborrecimentos que o senhor lhe teria arranjado – por descuido, frisemos – poderia conseguir-lhe uma transferência para... digamos, São João de Meriti. A Delegacia de lá, o senhor é conhecedor, é muito incômoda para policiais e certamente seria um constrangimento ter de mudar-se para um lugar tão...tão violento e mortal, não é? – Damastor sorria, mas só nos lábios. O seu olhar era gélido como um iciberg. O Delegado engoliu em seco.      — Acho que está havendo um exagero proposital de sua parte, Damastor. Sei que você não gosta de mim, por isto está pintando as coisas deste modo tão... tão trágico. Eu só procuro cumprir meu trabalho com zelo e cuidado. Acho que até a Doutora concorda em que estou no meu direito...      — Não, não, errado, meu caro Delegado – cortou Damastor. – A Dra. espera que o senhor lhe mostre onde o animal poderia estar sendo criado. Certamente que o senhor não seria tão estúpido a ponto de achar que ela o criava à solta, correndo inclusive o risco de ser a próxima vítima da fera. Isto sem contar, é claro, que seus tripulantes e o próprio comandante do Iate da Doutora já deveriam ter sofrido pelo menos um ataque do bichinho de estimação assassino. Assim, tem de ter um local específico para a criação do animal. E tem de ter alguém que cuidava dele, é lógico. A Dra. Milena é que não se daria a tal trabalho, pois não?      — É claro que não – enfatizou a milionária que estava adorando o modo como Damastor colocava o gorducho safado em maus lençóis.      — Eu não conheço a ilha e não posso... – começou o Delegado.      — Errado – cortou Karina. – Nós todas andamos com o senhor pela ilha toda e a mostramos em todos os recantos. O Comandante Argos nos acompanhou e pode confirmar isto. O senhor não pode negar que viu tudo nesta ilha, Dr. Delegado.      — Bem... quer dizer... eu não estava predisposto a notar um local assim. Buscava ver a fera...      — Ora, Dr. Delegado, um cercado com água dentro de um tanque muito grande para caber o jacaré de suas suposições teria de ser notado mesmo que a pessoa não estivesse prevenida para isto. E como o senhor acaba de dizer que procura cumprir com o seu trabalho de modo zeloso e cuidadoso, indagaria naturalmente para que serviria o criadouro... É, ou não é?      Azevedo ficou mudo e se sentindo incômodo dentro das calças.      — Bem, sabemos que seria assim – disse Damastor pelo Delegado. Agora, diga-nos, Dr. Delegado: o senhor viu algo ao menos parecido com um criadouro... fosse de que espécie fosse, aqui na ilha?      O Delegado Azevedo levou algum tempo para menear negativamente a cabeça.      — Ótimo. Não viu, Eu pergunto aos seus dois detetives: senhores, talvez tenha passado despercebido ao nosso Delegado um criadouro ou algo parecido. Assim, eu lhes pergunto: algum dos senhores chegou a ver qualquer coisa parecida com um criadouro?      — Só o canil onde estão os cães – disse um deles.      — Certo. E como está comprovado que o jacaré e os cães não se dão muito bem, então, ali não era possível guardar e criar um jacaré, estou certo?      Os dois detetives assentiram com um aceno de cabeça.      — Então, está definitivamente descartada esta hipótese para nosso diligente Delegado. Todos aceitamos isto ou... alguma objeção?      Ninguém se pronunciou.      — E o Dr. Delegado, o que nos diz?      — Estou de acordo – falou Azevedo, após pigarrear.      — Ótimo. Alguma coisa mais que o Dr. Delegado queira colocar para que discutamos em conjunto?      — Não – disse Azevedo agastado.      — Muito bem. O Dr. Azevedo comprovou para nós que é um homem democrático. Só um espírito elevado suportaria com este estoicismo o ter a sua suposição dissecada como foi. Este é o trabalho de um bom policial. Ele tem a obrigação de suportar antipatias. Ele tem a obrigação de ser o advogado do Diabo e, assim, mostrar os ângulos mais obscuros do assunto que deve pesquisar. Tivemos, do Dr. Azevedo, uma demonstração brilhante de como um bom Delegado age, não se incomodando com as irritações que sua tarefa desperta nos não iniciados na difícil arte da polícia. Ele visa a verdade, somente a verdade e nada mais que a verdade. E se assim não fosse, qual seria a serventia da polícia para o Juiz, que deve julgar com base nas provas irrefutáveis que o policial lhe traz?      Damastor ficou em silêncio. Todos o olharam admirados e confusos. O que estaria ele querendo fazer? Quem respirou aliviado foi o Dr. Azevedo. Damastor o tirava de uma situação constrangedora e o transformava de vilão em herói. Ainda não entendia bem por que o fazia, mas sentia-se agradecido por isto. Ergueu a cabeça, seu olhar voltou a brilhar e seu corpo endireitou-se. Abriu um largo sorriso de satisfação e apertou a mão do Detetive, num súbito arroubo de euforia.      — Obrigado, Damastor, obrigado. Você foi brilhante. Realmente, a nossa profissão nos obriga a ser o Advogado do Diabo, mas a gente sempre espera a compreensão do público. Pena que isto não aconteça. É necessário que alguém de visão o explique com a clareza como aqui tudo foi mostrado. Doutora, queira aceitar nossas excusas pela... pelo... o que quero dizer, é que só agimos dentro da mais lídima boa fé.      — Está bem. Dr. Gerião Azevedo, eu acho que compreendo. Eu estou meio envergonhada de ter pensado mal do senhor, queira desculpar, sim?      — Oh, tudo bem, tudo muito bem. Eu e meus rapazes compreendemos tudo, pode deixar. Agora, se nos dão licença, vamos embora e amanhã, acho que pela manhã mesmo, já lhe informo sobre os resultados da perícia. Quero que fique convicta da diligência da polícia nestes assuntos.      O Delegado apertou efusivamente a mão de cada um dos presentes, retirando-se como se fosse um rei. Estava muito satisfeito. Afinal de contas o bobão do detetive tinha-lhe feito um grande favor. Pintando-o, como pintara, com as cores de um herói diante de uma das mais sofisticadas damas da sociedade, dava-lhe um trunfo para usar quando tivesse de se defender de acusações incômodas que amiúde a imprensa lhe fazia. Isto vinha a calhar. O testemunho daquela mulher quanto a sua honestidade e probidade no zelo pelo trabalho o ajudaria e muito. Que tolo tinha sido ao pensar em se aproveitar da situação para tentar uma chantagem. Aquilo é que fora um ganho de verdade. E o melhor é que quem lhe proporcionara aquele trunfo fora justamente o detetive que mais lhe dava dor de cabeça. Ele desancara até mesmo aquela chata da Karina, uma reporterzinha em quem gostaria de meter umas azeitonas no tique-taque para que fosse desta pros quintos dos infernos. A abelhuda já o colocara em maus lençóis com suas reportagens fajutas.      A porta se fechou às costas do Delegado e de seus detetives e a repórter Karina se voltou disposta a brigar, para o detetive Damastor.      — O que diacho pensa que fez? – inquiriu ela, beligerante. – Colocou aquele crápula como um exemplo de profissional. Mudou de lado, é? Virou a casaca, foi? Vamos, explique-se!      — Hei, calma, garota, calma. Eu tinha de fazer o que fiz. Você esqueceu que eu sou um detetive e ele é um Delegado? Esqueceu de que eu estou na cena de um crime em atitude suspeita, é? Eu estraçalhei o plano dele – e graças ao meu companheiro, Ivaldo, que foi quem me alertou para o que ele podia fazer – e o humilhei diante de todos.      — Desta parte eu gostei – disse Argos com um sorriso.      — E eu também – confirmou Milena.      — Pois então? Eu o humilhei e diante de seus dois subalternos. O homem é vingativo e não iria ficar quieto. Certamente procuraria me atingir e eu estou vulnerável, você sabe disto. Eu precisava erguer uma cortina de fumaça diante dos olhos deles. Nada melhor que reerguer sua auto-imagem destruída por mim mesmo.      — Hum... – fez Karina ainda não de todo convencida.      — Eu acho que o detetive tem toda a razão – apoiou Milena. – E aproveito para pedir desculpa pela minha mentirinha... a de que eu o havia convidado, lembra-se? Eu notei que os senhores e ele não eram bons amigos.      — E não somos. Ele não gosta nem de mim, nem de nossas amigas aqui presentes: Karina e Ludmila. Elas e eu damos muita dor de cabeça ao patrão dele.      — E quem é o patrão dele? – indagou Milena.      — O contraventor Kantor Antratos – disse Ludmila.      — Oh! – surpreendeu-se Milena. – E o senhor, detetive, acha também que é esse homem quem manda no Delegado de Angra?      — Não acho. É. E o Delegado, apesar da tacanhice em outras áreas, é muito esperto e ainda não foi caçado como devia. Aqui, ele está a salvo, para azar de Angra. Aquele delegado dá asas ao crime, Dra. Milena, e mais cedo ou mais tarde os senhores ricaços e donos de mansões neste recanto paradisíaco do Rio de Janeiro vão ter muitas contrariedades. Acredite, espero que consiga ficar fora disto, mas eu duvido.      — Ahn... E o que o senhor pode fazer em nosso caso, detetive?      — Nada. O Delegado tomou as medidas corretas. No entanto, eu não entendi duas coisas. A primeira, por que o Dr. Khamal deixou as moças em transe e saiu? A segunda: por que ele foi diretamente para aquele lado? A ilha tem quatro sendas. A menor, mais íngreme e menos atrativa, pelo que a senhora nos contou, é justamente, aquela que ele escolheu. Por que?      — E há mais uma pergunta sem resposta – completou Ivaldo. – Como é que ele não ouviu a algazarra de vocês? Notei que daqui de dentro foi possível escutar os gritos não tão altos dos homens do delegado lá onde o jacaré estava. Como não ouvir três mulheres gritando a plenos pulmões?      — Esta é a pergunta que mais nos intriga – disse Karina. – Era impossível que não houvesse ouvido.      — Existe luz, lá fora, agora? São oito horas da noite...      — Estamos no horário em que o sol deita-se mais tarde, detetive. Ainda há luz solar, mas muito, muito fraca. Por que pergunta? – quis saber Milena.      — É que eu gostaria de solicitar às três amigas que estiveram lá fora com o jacaré que voltassem para lá, agora, e gritassem como o fizeram antes. É possível?      — Bem... Tenho luz elétrica por toda a ilha. Posso mandar acender os postos que iluminam aquele setor – informou Milena.      As três moças entreolharam-se com muito pouca disposição para fazer o que era pedido.      — Ora, por que... – ia indagar Karina, mas Ivaldo a cortou.      — Eu vou com as senhoritas para prevenir qualquer surpresa – e segurou o cabo da sua 45. A arma serenou um pouco as mulheres.      — Mas por que não podemos deixar tudo para amanhã? – quis saber Tamara. Ela ainda não estava de todo convencida em ir lá naquele lugar de novo.      — Por que amanhã vocês já estarão mais descansadas e com menos adrenalina. A gritaria não seria convincente. Além do mais, o desânimo deverá ser bem maior, eu creio – disse Ivaldo com um sorriso convidativo.      As três amigas se entreolharam e terminaram por assentir com movimentos afirmativos de cabeça.      — Ótimo! – disse Ivaldo. – Então, vamos!      E os quatro puseram-se a caminho. Todos os demais entraram no chalé.      — Argos nos disse que o Dr. Khamal pediu que todos fossem para a cozinha, não é? – perguntou Damastor.      — Sim – confirmou o comandante.      — Então, podemos ir até lá?      — Pois não. É por aqui – disse Luís pondo-se à frente. Desceram dois lances de escadas que levavam à espaçosa e muito envidraçada cozinha. Nada era rústico. Tudo do bom e do melhor e no estilo americano.      — Fechem as janelas – pediu Damastor a Luís e Andréa. Os dois obedeceram ao detetive.      — Aqui estavam o comandante Argos, vocês dois, e Clóvis, não era? – Indagou Damastor. Todos assentiram com um aceno de cabeça, curiosos pelo modo como o detetive se comportava.      — O que faziam?      — O comandante e eu verificávamos o forno de microondas, que parece queimado – informou Luís. Andréa preparava a massa para fazer lasanha e Clóvis lia o Jornal sentado aí perto de onde o senhor está.      — Ah, sei... – e Damastor ficou uns momentos a olhar em volta. Depois pediu: – Podem ficar onde estavam anteriormente?      Foi atendido de pronto. Todos estavam curiosos.      As janelas, como estavam?      — Abertas, com exceção daquela que dá para o embarcadouro – respondeu Luís. Os outros confirmaram com as cabeças.      — Bom, não havia muito barulho aqui, suponho.      — Não, não havia – confirmou Argos. – Estava como está agora...      — Hum-hum... – fez Damastor andando lentamente pela espaçosa cozinha. Ele observava atentamente a disposição dos móveis e os janelões. A distribuição era muito bem feita e mesmo que se falasse em tom de voz médio-baixo e houvesse panelas fervendo era possível ser-se ouvido perfeitamente.      — Tinha algum fogo aceso? Alguma coisa no fogão? – perguntou.      — Não – disse Andréa. – Ainda não.      — Então podiam conversar baixo que todos ouviam, não era?      — Era.      — Ludmila, Mara – chamou o detetive. – Por favor, subam para o escritório onde estavam na companhia do Dr. Khamal, sim?      — Por que?      — Fiquem lá. Depois me relatem o que ouviram e viram, sim?      As duas amigas se entreolharam e relutantemente acederam em subir à biblioteca.      Damastor deu tempo para que as duas chegassem ao local e voltou-se para os demais.      — Muito bem, vocês devem estar curiosos em saber o que pretendo. A verdade é que desejo reorganizar a situação o mais próximo possível daquela que vocês viveram quando do trágico acidente. É necessário que não tenhamos qualquer dúvida de que...      Não completou a frase. Uma tremenda gritaria chegou até eles e a voz de Milena era bem audível. Ela dizia: JA-CA-RÉ!      Todos se ergueram num pulo. Luís correu para as escadas e Andréa, pálida, levou as mãos à boca para sufocar um grito de medo.      — Parem! – ordenou Damastor. – Não há jacarés. Elas estão apenas fazendo o que lhes pedi.      — Mas parece tão real... – disse Andréa, em dúvida. Os gritos eram de puro terror.      Mara e Ludmila também ouviram a gritaria e se precipitaram para a janela. Não dava para ver o lugar donde as três moças estavam gritando, porém ouviam-nas como se estivessem a menos de dois metros da janela.      — Santo Deus! – exclamou Ludmila. – O Jacaré voltou! Vamos, Mara. Precisamos ajudar...      Ludmila precipitou-se para a porta, mas Mara permaneceu à janela. De onde estava Ludmila não podia ver-lhe o sorriso de escárnio no rosto e o brilho malévolo no olhar.      — Não! Pare aí mesmo. Não há nenhum jacaré. Elas estão no chão e somente gritam.      Ludmila parou de chofre, cenho franzido. Vagarosamente retornou à janela.      — Como pode saber disto? Como pode ver onde elas estão?      — Eu não vejo, mas sei que é assim – disse Mara, voltando-se par evitar que Ludmila lhe visse o rosto. – Venha, vamos descer. O detetive quer falar conosco sobre sua... experiência.      E Mara encaminhou-se para a porta acompanhada de perto pela intrigada amiga. Encontraram os outros já na sala. `      — Senhores – disse Damastor, – todos ouvimos perfeitamente a gritaria das moças lá fora. Elas reeditaram os gritos o mais próximo possível da altura em que gritaram quando anteviam o desastre. A pergunta agora é: por que, desta vez, todos ouvimos e no momento da morte do Doutor Khamal Adib Tanatratos ninguém ouviu nada?      Dois tripulantes do iate entraram esbaforidos na sala. Damastor os acalmou e foi ao aparelho de som e, após voltar a fita que deixara ali, gravando, pô-la a tocar. Os gritos e as advertências gritadas pelas moças ali estavam, palavra a palavra. Um silêncio constrangedor envolveu a todos.      — Como acabamos de ouvir – falou Damastor, – é impossível não se escutar uma pessoa gritando lá embaixo. O Dr. Khamal tem de ter ouvido o alarido de Milena, Karina e Tamara. No entanto, foi assim mesmo ao encontro da morte. Por que? Apenas duas pessoas podem-nos dar a resposta: Mara e Ludmila.      — Quê?! – espantou-se Ludmila.      — Nós estávamos sob hipnose – protestou Mara.      — Sim, esta é a verdade. Pelo menos a que temos até agora. Entretanto, Luís, Andréa e Argos estavam na cozinha. Tinham as janelas abertas e não se encontravam em transe hipnótico. Então, como é possível que nada tenham ouvido?      Os empregados ficaram incomodados diante do olhar penetrante do detetive que os fixava.      — E o pessoal do iate? – falou tibiamente Andréa. – Eles, também, não parece terem ouvido nada. E a distância não é tanta assim...      — É verdade. Mais um enigma, não e? – concordou Damastor. E voltando-se para Mara:      — Você, suponho, foi a primeira a ser hipnotizada, não foi?      — Sim, fui eu sim – confirmou a repórter. – Eu era a principal interessada e fui quem se ofereceu primeiro.      — Então, a pergunta que tenho a fazer é para Ludmila. O que aconteceu lá em cima, Ludi? Enquanto o Dr. Khamal hipnotizava Mara, o que você observou?      Todas as atenções voltaram-se para Ludmila. A ruiva procurou concentrar-se. O raciocínio de Damastor estava correto. Se alguém podia ter alguma explicação era ela. Mas por mais que se esforçasse não conseguia a recordação de nada. Sua mente estava estranhamente vazia. Uma escuridão e uma sensação de vácuo muito incômoda era só o que conseguia com todo o esforço que fazia. Uma escuridão tenebrosa e uma horrível sensação de perigo iminente. Um perigo terrível, que ameaçava não somente a ela ou ao professor médico, mas a toda a humanidade. Esquisito, aquilo. De algum lugar lhe veio um nome estranho: Jean de Gisors.      — E então, Ludmila? – insistiu Damastor.      — Eu não me lembro de nada. Apenas me vem um nome de alguém que não conheço e de quem nunca ouvi falar – disse a ruiva, levando as mãos à cabeça.      — E que nome é esse? – perguntou Damastor curioso.      — É um nome francês... Jean de Gisors.      — Onde o ouviu? Por acaso o Dr. Khamal lhes falou sobre esta pessoa?      — Não sei. Eu não lembro de nada do que tenha acontecido lá em cima.      — Por acaso, Dra. Milena ou alguém, antes do encontro de vocês e o Dr. Khamal, falou sobre este senhor... Jean... Como é mesmo o nome?      — Jean de Gisors. Mas eu já disse: nunca antes ouvi este nome.      — Ele lhe surgiu agora...? – estranhou o detetive.      — Sim – disse Ludmila convicta.      A porta foi aberta e todos, Ivaldo, Milena, Karina e Tamara entraram.      — E então – foi logo perguntando Milena, – vocês nos ouviram?      — Todos ouvimos tudo muito bem – respondeu Damastor secundado por acenos constrangidos de cabeça. Até a tripulação do iate as ouviu. Dois deles vieram correndo até aqui – e o detetive apontou para os que haviam acudido aos gritos das moças. Os recém-chegados se entreolharam.      — Então, – resumiu Argos o pensamento dos recém-chegados – como é que nenhum de nós ouviu nada, antes? Essa pergunta que vocês estão-se fazendo, nós a estamos escrutinando agora mesmo. Suas vozes foram até gravadas pelo detetive. A fita está aí para quem quiser ouvir. Mas os sons só nos chegaram desta vez. Por que?      A pergunta foi feita ao detetive.      — Eu não sei – respondeu Damastor. – Ao todo, vocês eram quinze, contando com a tripulação do iate. É pouco provável que houvesse um complô de silêncio entre todos. É impossível que todos desejassem a morte de um indivíduo conhecido apenas de uns poucos. Assim, somos forçados a admitir que algo inusitado e totalmente anormal ocorreu aqui, hoje. Mas o que?      A pergunta ficou ecoando no espaço e nos ouvidos de todos. Cada qual foi sentando, olhos e ouvidos pregados no detetive.      — Ludmila – continuou Damastor – não pode responder sobre o que aconteceu lá na biblioteca enquanto estava em companhia do doutor e de Mara.      — É verdade – confirmou a ruiva. Eu sinto apenas um terrível vazio e uma esquisita sensação de perigo iminente... Um perigo que não é só para mim, mas que parece ameaçar a todos que estão aqui nesta sala.      — Bem, – disse Ivaldo – o perigo existe e é bem concreto. Tem uma boca com muitos dentes afiados e nós o chamamos de jacaré.      — Não, não – negou Ludmila, meneando vigorosamente a cabeça em negativa. – Eu não me refiro ao jacaré. É algo... algo... diferente.      — Pode explicar melhor, Ludi? – pediu Mara com o coração aos pulos. – Veio-lhe súbito a recordação do pesadelo.      — Eu não sei... Não sei como dizer isto, entende?      — Diga-nos, Ludmila. O perigo que sente iminente sobre nós tem relação com o nome que você recordou? – perguntou Damastor.      — Não... quer dizer... Acho que sim... Sim, parece que sim... Sinto que de algum modo... Meu Deus, estou tão confusa... – e a ruiva sentou-se visivelmente pálida.      — De que nome vocês estão falando? – indagou Milena.      — Jean de Gisors . A Dra. já o ouviu alguma vez? – perguntou Damastor.      — Não. Nunca. Quem é ele?      — Não sabemos. Ludmila recordou-se dele subitamente, quando se esforçava para se lembrar do que aconteceu lá em cima, entre ela, Khamal e Mara.      — E não lembra de onde conheceu ou... ouviu este nome? – estranhou a milionária.      — Eu não lembro porque jamais o ouvi antes de hoje – disse Ludmila com convicção.      — Então... como é que ele lhe veio a mente? – indagou Milena.      — Não sei. Só sei que ele surgiu dentro de minha cabeça a partir do nada. Simplesmente surgiu, compreendem?      — Não. Eu, não – disse Milena sinceramente cética.      — Talvez Mara, que é repórter social, possa-nos ajudar – sugeriu Karina. – Você conhece ou já ouviu falar de algum Jean de Gisors, Mara?      — Eu... Não sei, gente, não sei mesmo – tartamudeou a repórter. Pode ser que seja algum colunável francês, quem sabe?      — Se é, por que a associação? – perguntou Tamara.      — Que associação? – quis saber Argos.      — A associação com a sensação de perigo iminente – respondeu Tamara. – Eu não gostei de saber que há mais algum perigo além do jacaré. Ele foi dose de elefante, convenhamos.      — Mara – chamou Damastor, – O que você recorda de antes da hipnose? Quero dizer, o que conversaram... se conversaram?      — Bem, disto eu acho que lembro bem. O Dr. Khamal tentou mostrar-nos que nosso problema tinha uma explicação bem aqui-e-agora...      — E podemos saber que problema é esse? – perguntou Damastor.      — Não. Sinto muito, mas é pessoal – disse a repórter taxativa.      — Bem, não fiz a pergunta por curiosidade – explicou Damastor. – É que talvez o problema de vocês tenha alguma relação com os acontecimentos insólitos de hoje.      Milena empalidecem. De repente recordou-se dos incidentes havidos com ela e Mara.      — Talvez Damastor tenha razão, Mara – disse a milionária.      — Eu acho que não. De qualquer modo, não estou disposta a falar de meu problema em público – disse a repórter na defensiva.      — Tudo bem – apaziguou o detetive. – O que vocês conversaram? A senhorita pode dizer-nos?      — Como eu disse, ele tentou convencer-nos de que nosso problema podia perfeitamente ser visto pela Psicologia jungueana.      — E o que ele desejava com isto?      — Evitar que nós nos submetêssemos à hipnose. Ele nos disse que mesmo que qualquer uma recordasse fato que pudesse ser suposto tratar-se de algo acontecido numa vida passada, isto não teria valor científico porque nossas mentes estavam contaminadas por notícias que tínhamos lido a respeito de algum assunto específico.      — E nesta conversa ele, por acaso, mencionou o nome Jean de Gisors? Recorda-se, Mara?      — Não. Não mencionou não. Tenho absoluta certeza.      — Quando você se preparou para ser submetida à hipnose... notou algo diferente no Dr. Khamal... ou no ambiente? Pode-se esforçar para ver se se lembra?      Mara ficou em silêncio tentando trazer à mente o máximo de recordação que lhe fosse possível. Mas nada lhe veio à mente. Apenas os olhos firmes do Dr. Khamal e sua voz monótona murmurando qualquer coisa de que não podia lembrar.      — Não, sinto muito – disse Mara após um longo tempo.      — Que pena – lamentou o detetive.      — Eu... eu estou lembrando de um número – falou Ludmila.      — E qual é esse numero, Ludmila? – interessou-se Damastor.      — É 1188 – foi a resposta.      — E o que ele significa? – insistiu o detetive animado.      — Não sei. Só me veio como um flash na mente. Mas não o associo a coisa alguma.      — Você costuma jogar? – perguntou Ivaldo.      — Não. Nem na super sena – disse a repórter.      — É tudo muito estranho... – começou a falar Damastor quando Ludmila, para espanto de todos, desatou num choro convulsivo.      — O que foi? – indagou Mara, perplexa e levantando-se para ir socorrer a amiga.      — Não – disse Damastor. – Pode ficar onde está, senhorita.      E o detetive aproximou-se da repórter em crise e lhe puxou a cabeça para bem junto do ventre musculoso. Todos estavam desconcertados e constrangidos. Ludmila sentiu-se reconfortada como uma criança que desperta de um pesadelo abraçada ao pai. Seu choro foi diminuindo e terminou em alguns soluços. No silêncio que se fizera Damastor falou.      — Sou um detetive de polícia e meu trabalho me obriga a buscar explicações racionais para as coisas e os acontecimentos aparentemente inexplicáveis pela lógica. Mas antes de detetive, sou humano. E como humano eu acredito que entre o céu e a terra há muito mais do que nossos sentidos e nossa razão podem apreender e explicar e nossa inteligência compreender. O meu parceiro e eu lidamos com dois crimes aparentemente desconexos entre si, mas sentimos, ambos, que estão interligados e foram cometidos por indivíduos iguais... as mesmas pessoas. No horrível acidente acontecido aqui, no entanto, eu sinto que algo... algo fora do controle racional humano interferiu. Lá em cima, meus amigos, havia três mentes voltadas para um só objetivo. Independente deste objetivo, três cérebros geravam forte concentração energética. Não conhecemos o poder de nossas mentes. Sabemos apenas que é espantoso. Quando a NASA lançou o homem à Lua, ia na tripulação, foi noticiado, um sensitivo capaz de se comunicar pela transmissão do pensamento. Constatou-se que ele e o outro que ficara em Cabo Caaveral conseguiam se comunicar mais veloz que as ondas de rádio, que levavam entre 8 a 15 segundos para chegarem de lá aqui, na Terra. Isto demonstrou cabalmente que nossos cérebros trabalham com velocidades acima daquela que a luz tem no vácuo. A comunicação entre eles era instantânea. O que o viajante descrevia só era visto entre 12 a 15 segundos depois de ter sido comunicado oralmente pelos sensitivos. Agora, se nossos cérebros são capazes de gerar tais freqüências energéticas, também podem captá-las. Talvez não tenhamos ainda condições de apreender conscientemente toda a gama de informações que geramos e que recebemos de outras mentes. Mas isto não impede que tais fenômenos ainda paranormais para nós, aconteçam. Com todo este discurso o que desejo é dizer que algo muito especial e acima do corriqueiro aconteceu lá em cima. Algo que alterou as condições sensoriais dos que estavam aqui naquele momento. Isto não explica o suicídio voluntário do Dr. Khamal... se é que ele agia de vontade própria, mas nos deixa uma outra visão sobre o acidente de hoje.      — Se entendi bem – disse Ivaldo – podemos supor que a morte do Dr. Khamal se deu em condições de paranormalidade... É isso?      — Creio que sim – falou Argos. E eu concordo com o detetive.      — Mas o jacaré não era paranormal – retrucou cético Ivaldo.      — Não, talvez não – concordou o detetive Damastor. – Mas ele, podemos supor, foi circunstancial. De algum modo... não sei bem como, o bicho foi envolvido na cadeia paranormal de eventos... Quem pode saber?      No silêncio que se seguiu ouviu-se a voz de Mara, muito grave e roufenha. Ela disse, olhos vidrados no espaço:      — Amanhã, em solenidade pública, um homem público, justo e inocente será assassinado. Mas nada será como as aparências indicarão.      Todos a olharam sem compreender o que tinha aquilo que ela acabava de falar com o que o detetive Damastor tão brilhantemente expunha.      — O que foi que você disse, Mara? – perguntou Ivaldo aproximando-se da repórter de cenho franzido. – Repita, por favor. Eu não ouvi bem.      Mara suavizou a fisionomia. Seus olhos voltaram a fixar-se novamente nas pessoas. Ela olhou para o detetive com ar sonolento.      — Eu não disse nada, mas vou dizer – respondeu. – Estou muito cansada... na verdade, sinto-me exausta. Se me dão licença, vou deitar.      A repórter deu boa-noite a todos e se retirou para seus aposentos.      — Vocês ouviram bem o que ela disse? – indagou Ivaldo.      — Parece que a ouvi dizer alguma coisa sobre um assassinato... – falou Karina, sem muita certeza.      — Eu ouvi algo assim também – disse Milena, preocupada.      — Tamara, – chamou Ludmila – você estava perto dela. O que foi...      — Eu não estava prestando atenção a ela – respondeu Tamara. – Porém quando me virei para olhá-la, ela estava com uma expressão esquisita. Parecia estar ausente... olhos perdidos no vazio.      — Isto aqui está paranormal demais para o meu gosto – disse Ivaldo com um suspiro. Acho que já extrapolamos nossa competência de trabalho, parceiro. Vamos embora? Está tarde e vamos chegar em casa...      — Eu gostaria que vocês dormissem aqui – cortou Milena, – Não temos armas na ilha e eu temo a volta da fera. Com vocês aqui eu acredito que todos nos sentiremos mais seguros, não é, pessoal?      — Eu concordo com a Dra. Milena – disse Argos. – No iate também a gente não possui armas e se o jacaré voltasse seriamos praticamente inúteis para lidar com ele.      — Eu não posso ficar – disse Ivaldo. Amanhã cedo tenho de estar na delegacia. Tenho duas diligências...      — Isto não é problema – rebateu Milena. – O meu helicóptero o levará lá em menos de trinta minutos. Fiquem, por favor.      Os detetives se entreolharam. Ivaldo mais que Damastor estava muito cansado e doido para se jogar na cama, mas a moça estava certa. Sem armas e sem nunca terem enfrentado uma situação nem mesmo parecida, eles estariam em apuros se o jacaré retornasse. Os cães eram uma proteção duvidosa. As quarenta e cinco com balas dum-dum eram bem mais eficientes, principalmente nas mãos de atiradores peritos, como era o caso deles.      — Tudo bem – concordou Damastor. – Só preciso ligar para o plantão da delegacia para avisar sobre o nosso paradeiro. Mas há um detalhe que é preciso que saibam. Nós podemos ser chamados de repente e, aí, vamos precisar que o piloto esteja pronto para nos levar.      — Sem problema – respondeu o piloto, até então apenas espectador.      — Está tudo resolvido – disse Milena, contente. – Seus quartos são suites. Encontrarão pijamas à disposição. Usem-nos. Se quiserem comer alguma coisa, Téia poderá providenciar o que desejarem. Não se acanhem em pedir o que quiserem, por favor.      — Téia? – estranhou Damastor.      — Sim – disse Milena. – É como eu chamo Andréa. Aliás, ela é mais conhecida pela alcunha... Por que pergunta?      — Desculpe-me fazer-lhe esta pergunta, mas a senhora a tem consigo desde quando? – inquiriu Damastor.      — Faz tempo – disse, evasiva, a milionária.      — Mais precisamente desde quando? – insistiu o detetive olhando a milionária com aquele olhar penetrante. Milena não conseguiu fugir-lhe e a contragosto informou.      — Desde há uns dois anos.      — Isto é muito curioso... – comentou Damastor.      — Por que? – quis saber Ivaldo.      — Há exatamente dois anos e uns três meses atrás uma mulher, cujo apelido era Téia, foi dada como assassinada. Morava no morro de São Carlos. Não ficamos sabendo nada mais a respeito dela, só que parece que teve um filho que desapareceu ainda muito novo... estava, se não me engano, com quatro... talvez cinco meses. Na época houve um cochicho de que o filho era de um figurão de nossa sociedade. Eu trabalhava na Delegacia daquele Distrito e fui encarregado da investigação. Quando estava começando a descobrir pistas que indicavam que o caso era bem mais complexo do que um simples assassinato passional, conforme o caso fora apresentado à Justiça, fui transferido. O caso foi abafado e Téia e seu filho ficaram, que eu saiba, nos anais dos esquecidos.      — Você acha que minha Téia seja aquela do morro? – perguntou Milena com um sorriso no rosto.      — Não, não. Apenas acho que é muita coincidência...      — Pois é isto mesmo. Téia não tem filhos e me veio com uma boa indicação – informou a milionária com uma expressão de alívio, Damastor, embora não deixasse transparecer nada, não acreditou na história. Intimamente resolveu averiguar as origens da tal Téia. Se lhe perguntassem o que o levava à desconfiança, não saberia responder senão dizendo que era o seu sexto sentido que ficara em alerta. Ele nunca se dera por satisfeito com o caso, principalmente porque sua transferência acontecera de modo sujo. Por pouco não foi exonerado e perdeu sua classificação para Inspetor. Estava próximo demais de descobrir a verdade. Já descobrira pistas que implicavam Kantor Antratos no crime. E tivera o depoimento de pessoas confiáveis que confirmaram a existência de um filho de Téia. Só que a criança sumira quatro meses após o nascimento. Téia andara ameaçando denunciar alguém muito poderoso e após uma bebedeira em que falara demais, amanhecera degolada. A morte, contudo, pelo IML, acontecera por overdose. Aquela discrepância pusera Damastor atrás da verdade com muita sede e isto lhe custara muito caro. Agora, novamente estava às voltas com gente cuja causa mortis havia sido alterada no IML.            — Bom – disse Ivaldo – eu quero um bife bem passado e muito suculento, com dois ovos, bacon e cerveja gelada.      Milena riu. – Está mesmo com todo este apetite? – perguntou admirada.      — A tensão sempre me abre o apetite – disse Ivaldo jovialmente. – E esperar o retorno do tal jacaré assassino é muito tensionante, mormente quando não se é do IBAMA – brincou ele.      A menção do bicho fez Milena ficar séria.      — Tem razão – disse ela. – Falarei com Téia para que providencie o que pediu. Se desejar mais alguma coisa, peça-lhe. O senhor também, detetive Damastor. Estejam à vontade. Agora, se me dão licença, também vou-me recolher. Eu... eu tive um dia cheio.      — Todos tivemos – murmurou Damastor olhando a moça afastar-se.      — Vem comigo? – perguntou Ivaldo.      — Para...?      — À cozinha. Estou morrendo de fome – respondeu o seu parceiro.      — Não. Prefiro ir para a suite e tomar uma ducha. Preciso urgentemente de uma.      Luís o conduziu à suite enquanto Ivaldo descia à cozinha para fazer o seu repasto. Ia aproveitar para bater um papo com a tal de Téia. Podia ser que colhesse algo interessante, quem sabe?      — Tem de parecer vingança de traficantes, entende, Fílio? Consiga um grupo bem armado. Lá no “VERMELHO E PRETO” é fácil. Lá, o “Cicatriz” arregimentou o pessoal que queria. Mas é bom ir em alerta. O ambiente é da pesada. Ofereça mil reais para cada um dos que quiserem topar a parada. Eles fazem tudo por dinheiro, mas tome cuidado. São garotos perigosos.      — Eu me garanto – disse Fílio com pouco caso.      — Sei que sim, mas é bom prevenir – disse Fratelli.      — É ação cinematográfica? – perguntou o assecla.      — Sim. O maior estardalhaço possível – respondeu Fratelli.      — Levo o Cícno?      — Não. E se disfarce ao máximo. Não pode deixar qualquer pista a não ser aquelas que indiquem traficantes, entendido?      — Sim.      — Fique escuro. Sua pele branca, no VERMELHO E PRETO, não é bem-vinda.      — Sem problemas. Trinta minutos sob a luz solar artificial e tudo resolvido. Lentes de contato, peruca e fico a rigor.      — Quantos pretende recrutar?      — Dois motoristas... quatro atiradores... Seis. Vamos precisar de uma camioneta envenenada, automóvel que corra muito, cinco AR-15 e uma submetralhadora, O fuzil com mira telescópica e silencioso é meu. Eu não vou com o grupo. Quero um quarto no edifício “LA PLACE”... Aqui – e Fílio apontou um prédio no mapa da cidade aberto sobre a mesa entre ambos. – O quarto ideal fica neste apartamento aqui...      — Esqueça – cortou Fratelli. – Não podemos ter esse quarto. Trata-se de um prédio familiar e o apartamento onde está o quarto que você escolheu é de uma família de classe média bem conceituada. Não temos nenhum tempo para comprá-lo ou agir de modo a afastar de lá a família em questão. O seu pessoal deverá agir conforme já programamos, mas você terá de mudar sua posição. Estive estudando a área e acho que descobri um modo muito bom. Veja...      E Enrico Fratelli passou a expor toda a estratégia de ação para o seu assecla. Ao final de umas duas horas Fílio deixava o apartamento e seguia para casa. Morava na Lagoa Rodrigo de Freitas em local muito privilegiado quanto à vista. Sua casa não era grande, mas era muito bem cuidada e localizada. Fílio não tinha parceira. Quando queria alguém, pagava. Mas, ultimamente, com medo da AIDS, fixara encontro com uma garota só. Ela lhe era fiel e ele sempre que podia esforçava-se para satisfazê-la a fim de que não desse vôo fora de seu ninho. Com a AIDS solta e matando à granel, o melhor era ter uma parceira fixa. Quando entrou em casa a moça estava lá, esperando. Já aprontara bebidas e fritara ovos – o homem gostava de ovos fritos com batata palha. A moça tinha tudo preparado. Fílio contrariou-se. Naquela noite ele não podia entregar-se aos prazeres do corpo. Tinha de estar muito firme no dia seguinte e quando começavam não paravam antes de o sol clarear.      Nanete saltou-lhe ao pescoço e lhe pregou um demorado beijo de pura concupiscência. Ele não foi caloroso como costumava ser e a moça notou-lhe a frieza.      — O que há? – estranhou ela.      — Não é um dia muito bom para o que você está querendo – respondeu ele.      — E por que não? – A moça olhou-o com um misto de decepção e raiva.      — Primeiro, deixe-me entrar.      Ele foi direto sentar-se. Colocou a moça sobre as pernas e lhe acariciou as costas enquanto falava.      — Escute, Nanete, amanhã tenho um trabalho muito delicado para fazer. Vou precisar estar bem descansado e despreocupado. E aqui é que você entra. Não faça cenas. Não crie caso. Preciso estar com meus nervos acalmados, absolutamente tranqüilos. Você vai dormir no outro quarto e eu no meu. Está certo?      — Não. Estou pegando fogo. Passei o dia pensando em nós na cama. Não vou conseguir dormir, sinto muito.      — Use um consolo...      — Nunca. Eu quero carne viva. Aquilo só quando a gente está satisfeita e quer brincar. Como brincadeira, só serve se é você quem coloca e manipula. Eu, não tem graça.      Nanete era filha de um almirante da Marinha, um dos que tinha acesso a segredos muito importantes para o País. Era alguém que devia ser mantida sob guarda. Não era conveniente contrariá-la. Mas era brincar com fogo mantê-la como amante. Ela não podia desconfiar de nada sobre as atividades de Fílio, principalmente as daquelas de amanhã.      — Está bem, mas não vamos exagerar como costumamos fazer. São oito e vinte e cinco. Às 11 horas, o mais tardar, a gente pára. Combinado?      — Se eu estiver satisfeita... – brincou ela.      — Vai estar, vai estar, eu prometo.      Uma hora depois os dois, suados, enrolavam-se furiosamente entre os lençóis e Fílio já achava que não seria ele quem iria querer parar o encontro. Nanete gritava pela sexta vez num gozo demorado. Fílio mergulhou a cabeça entre as roliças coxas da moça e começou o cunnilingus . Ela não teve quase nenhum tempo entre o orgasmo e a estimulação a boca, mas aquilo não era problema. Nanete adorava permanecer no máximo de sua excitação. Desta vez, o gozo demorou muito e quando veio não foi explosivo, mas num crescendo delicioso. A moça sentiu-se afundar entre relâmpagos de luzes coloridas e quase desfaleceu. Fílio virou-a de bruços e com cuidado lhe penetrou por trás. Nanete não resistiu e se deixou possuir com languidez. O homem meteu-lhe a mão por entre as coxas e lhe masturbou com esmero o clitóris. A moça sentiu-se afundar num mar de prazer e voltou ao gozo com toda a intensidade. Ele também gozou e os dois desabaram sobre a cama, satisfeitos. Nanete permaneceu sonolenta e sem qualquer vontade de se erguer. Fílio, porém, levantou-se após um tempo e foi direto para o banheiro. Tomou uma ducha e se meteu sob a lâmpada de bronzear. Uma hora depois estava com a pele amorenada, muito escurecida. Como usava o cabelo louro cortado à prussiana, foi muito fácil raspar a cabeça e colar nela uma peruca de cabelos crespos e longos, trançados em pequenas tranças com laços coloridos nas pontas. Lentes de contato pretas e tintura nos cílios e supercílios, jaqueta de couro com muito fecho-eclair brilhante, botas de saltos de sola, o indefectível jeans preto, correntes e medalhões no pescoço, o canivete automático no bolso, uma carteira de cigarros com alguns baseados e cinco papelotes da branquinha e Fílio julgou-se pronto para ir ao inferninho indicado pelo seu chefe. Aprovou-se, antes de sair, diante do espelho e desceu cuidadosamente para evitar despertar a sonolenta amante. Meteu-se no velho opala preto e pôs-se a caminho.      Naquela noite o VERMELHO E PRETO estava lotado como ficava bem poucos dias. A agitação era acima do normal. Havia uma batalha marcada para a meia-noite entre a turma do inferninho e a do “CAVEIRA DANADA”, do Méier. Correntes, navalhas, nun-chacos, soco inglês, tudo que era arma perigosa abundava no salão. A expectativa da guerra aumentava a adrenalina e punha todo mundo muito sensível. As duas mulatas entraram ressabiadas. Ambas sentiram quase de imediato o perigo no ar. As vozes estavam mais agudas e todos falavam apressadamente e com mais palavrões do que era o normal ali.      — Eles não vieram – falou Ivete, junto ao ouvido da colega e olhando para todos os lados. – Vamos ficar?      — Vamos – disse a outra decidida. – Talvez eles cheguem mais tarde.      — Mas, Lucélia, vai sobrar porrada pra todo lado – protestou Ivete. – Eu não acho que a gente deva ficar aqui. Não sem proteção.      — Se eles não chegarem antes do encontro das gangues a gente rapa fora. Agora, fica fria. Vamos! – e Lucélia embarafustou-se pelo meio da massa humana arrastando a contrariada e atemorizada Ivete pela mão.      — Vamos ficar naquele lado do balcão. Foi onde eles nos encontraram naquele dia. Se vierem, eu creio que virão direto para lá.      As duas conseguiram dois lugares junto ao balcão, após alguns empurrões e xingamentos dos mal-encarados fregueses da espelunca, e pediram duas canecas de chope.      — E aí, Pancho – exclamou Lucélia, – deram notícias?      O barman olhou para elas enquanto enchia quatro canecas de chope ao mesmo tempo. Reconheceu-as logo, pois eram freguesas assíduas.      — Sim – gritou-lhes, – eles ligaram ontem. Estão lá pras bandas de Sertãozinho, em São Paulo. Não me perguntem fazendo o quê. Não disseram nada.      — Então eles não vão vir aqui, hoje. Vamos embora? – E Ivete já se punha de pé para sair, mas Lucélia fê-la sentar-se de novo.      — A gente não vai a lugar nenhum, porra! Vamos ficar. A pancadaria vai ser lá fora. Quando começar, pulamos pro lado do Pancho. A turma respeita ele e não vai fazer nada com quem estiver a seu lado.      — Eu prefiro me mandar. Isto aqui está cheirando a meganha. Não quero que meu pai vá-me buscar lá na delegacia. Ia ser uma sova dos diabos, você conhece o meu coroa – protestou a relutante Ivete.      — Fica fria, já disse! – exclamou Lucélia, aborrecida. – Não vou para casa, não. Minha mãe está com o nego dela e meu pai tá de porre em algum boteco sem-vergonha por aí. O que é que eu ia fazer lá na maloca? Vamos tomar nosso chope sossegadas. Quando for mais tarde, dependendo de como vai ficar a coisa, a gente resolve. Eu até trepo com o Pancho só para ele nos deixar ficar lá nos fundos. Agora, vê se te acalma, tá legal?      — Mas eu ainda acho que é rabuda... – hesitou Ivete. – Ainda estou mais pra rapar fora.      — Tá cum cagaço, neguinha? Eu seguro a barra pra vocês. Deixa comigo.      O homem era uma montanha de músculos e parecia tão alto quanto o Corcovado. O cabelo encarapinhado, cortado à moda dos moicanos, estava colorido de verde. Trajava uma jaqueta de couro surrada, uma calça jeans e tênis de marca. Nos pulsos, duas pulseiras de couro com muitos botões de metal rigorosamente polidos. Nas pulseiras, em cada uma, dois pequenos e afiados punhais triangulares. O homem todo impressionava pela aparência selvagem, mas os olhos negros como uma noite sem lua e de olhar duro como rocha era o que mais impressionava. Naquele momento ele ria e o riso mostrava dentes alvos e muito bem feitos numa boca de lábios grossos e expressão luxuriosa.      — Sai fora, Coice-de-Mula – disse Ivete, tirando o braço do negro de cima de seus ombros.      — Pega leve, neguinha – disse, meloso, o homenzarrão. – Não tem ninguém aqui melhor pras gatas do que eu, pode olhar em volta.      — Nós não queremos ninguém – rebateu Ivete, firme, tornando a se furtar ao braço do homem.      Um cara esquisito encostou no balcão perto deles. O cabelo trançado, as sobrancelhas espessas e muito negras e a roupa espalhafatosa o punham em destaque. Coice-de-Mula olhou de cenho franzido para o tipo esquisito. Não era do pedaço. Ele conhecia quase toda a freguesia do lugar e podia afirmar com certeza que aquele sujeito era um “alemão”. Observou que as duas amigas também olhavam interessadas para o estranho e não gostou.      — Vocês duas conhecem o preá, ali? – perguntou curioso.      — Não. Nunca vimos o cara por aqui, antes – respondeu Lucélia.      Coice-de-Mula afastou dois outros tipos menos avantajados e se postou ao lado do recém-chegado.      — Tá fazendo o que, aqui, “alemão”? – rosnou o negro.      O homem o olhou sem beligerância. Parecia não estar a fim de briga. Também não deu mostra de estar impressionado com o maciste de ébano.      — Vim tomar um trago. Bebe comigo? – convidou desembaraçadamente.      Ao invés de responder, Coice-de-Mula cravou um canivete ao lado da mão do homem moreno, quase trespassando o balcão com a lâmina. A mão do estranho nem tremeu. Permaneceu parada onde estava, mas Coice-de-Mula não pareceu atentar para o detalhe.      — Não bebo com “alemães”. Não gosto de alemães. E você é um alemão, cara. Por isto, eu não gosto de você. – E Coice-de-Mula quase colou o rosto no do estranho.      — Isto é muito mau – disse Fílio, calmamente. – Eu gostei de você e ia-lhe propor um negócio de mil reais por duas... talvez uma hora de ação.      — Eu não gosto de dinheiro de “alemães”, cara – tornou a provocar o negro. Sua enorme boca estava quase colada à face de Fílio. A raiva já começava a inundar o facínora, mas ele se controlou.      — Eu não sou “alemão” – rebateu o Fílio, frisando bem as palavras.      — Então, qual é o teu grupo, cara? – rosnou Coice-de-Mula.      — Eu não tenho grupo. Estou só – respondeu Fílio, afastando-se pra encarar os olhos ameaçadores do homem.      — Pior. Tu é “alemão” de fora, cara. Tu tá morto! – E Coice-de-Mula saltou para trás empunhando um canivete. Abriu-se uma clareira como num passe de mágica. Fílio pôs-se de pé, contrariado. O que menos desejava naquele momento era uma briga. Mas antes que pudesse dizer ou fazer o que quer que fosse, Coice-de-Mula já gritava a plenos pulmões:      — Aí, moçada! Temos um olheiro dos CAVEIRAS entre nós. O que a gente faz com ele?      — MATA O SACANA! – foi o grito uníssono.      Em torno dos dois homens formou-se um grupo compacto. Aquilo preocupou Fílio. Ele lutava muito bem. Era mestre em Crav-magah e faixa preta de Tae-kwon-dô, mas não tinha a pretensão de enfrentar aquela turba enfurecida. Era o mesmo que cometer suicídio. Por isto tratou de pular para cima do balcão e de braços abertos e mãos espalmadas gritou bem alto para poder ser ouvido.      — Não é nada disto, irmãos. Eu não sou dos Caveiras. Vim aqui para contratar seis homens bons de briga e dispostos. Me disseram que este, era o melhor lugar para o que eu quero.      Quando acabou de falar notou que um pesado silêncio se fizera entre os circunstantes. Tão pesado e tão silencioso que era possível a ele ouvir o vôo de um mosquito. Alguma coisa o pôs em alerta. Os olhos em volta não eram nada amistosos. De repente alguém estourou um flash. E de novo. E outra vez. Ele estava sendo fotografado, mas por que? De onde estava não era possível localizar o fotógrafo. Sabia que estava no meio do populacho, mas não podia discernir bem sua face, mesmo porque estava com a vista ofuscada pelo espoucar da luz. Então, alguém gritou.      — Quem te falou de nós? – era “Baratinha” que vinha abrindo caminho por entre os circunstantes hostis. Fílio fixou os olhos nele. Era jovem, embora fosse grande. Imberbe, denotava que ainda era um garoto. E o garoto parou próximo ao balcão e pôs as mãos na cintura.      — E então, perdeu a lingua? – provocou.      — Foi um amigo meu – respondeu Fílio procurando gravar de memória a fisionomia do rapazinho.      — E esse amigo tem nome, xará? – perguntou Coice-de-Mula.      Fílio notou que uma agitação começava a fazer balançar a mole que o cercava. “ Que diabo ”, pensou ele, “ não estou gostando disto ”.      — Como é que é, xará, o teu amigo tem ou não tem nome? – insistiu o homenzarrão.       “ É o que vai morrer primeiro se houver ataque ”, pensou o facínora. “ Parece ser uma espécie de chefe. Se morre primeiro vai causar hesitação suficiente para me dar uma oportunidade de tentar chegar até à porta .”      — Sim, tem – respondeu Fílio medindo a distância até à saída.      — E qual é? – perguntou “Baratinha”.      — Cicatriz.      Aquele nome causou forte reação. Um murmúrio se elevou de entre o populacho. Fílio ficou mais apreensivo. Pensou que não tinha sido uma boa idéia citar o nome do outro. “ O que diabo o Cicatriz aprontou aqui ?”      — E onde está o “Cicatriz”? – A pergunta veio de dentro da multidão. Fílio olhou na direção de onde viera aquela voz e viu um jovem alto, musculoso e de andar bamboleante que veio juntar-se ao “Baratinha”. Era de cor bem clara, cabelos lisos acobreados e olhos azuis aguados. O sorriso era displicente, como que caia da boca de lábios finos e cruéis. “Um matador”, rotulou Fílio.      — Eu não sei. Não trabalhamos juntos. A última vez que me encontrei com ele foi há coisa de quinze dias... eu acho. Penso que viajou para fora do país – respondeu o facínora com segurança. Ele estudou os rostos carrancudos que o miravam ameaçadores e avaliou o efeito de sua mentira. Havia dúvida nos olhos daqueles que estavam mais próximos dele. E nos olhos das duas jovens, havia ódio. O que pretendia Fratelli ao mandá-lo justo àquele lugar? Que fosse morto? Por que? Será que o tal trabalho era somente um pretexto para empurrá-lo para aquele antro? Se fosse e ele escapasse...      — Você quer seis de nós, não é, Alemão?      Era o homenzarrão e sorria de modo enigmático.      — Sim. E pagarei bem.      O negrão abriu mais o sorriso.      — E então? Vamos conversar? – pediu Fílio.      — E... O que devemos fazer? – perguntou o homem sempre sorrindo.      — Bem...“ eu apago este sorriso se você se meter a besta, ‘seo’ sacana ” preciso que dois sejam excelentes motoristas. Pode conseguir isto para mim?      Fílio estava consciente de que não conseguiria escapulir dali assim facilmente. Mas se o negro decidira conversar, havia alguma esperança de tudo se resolver a contento.      — Tudo bem, cara – disse Coice-de-Mula. – Minhoca, Lombriga, Espeto, Sapão, Pé-de-Cabra e eu, Coice-de-Mula, vamos com você.      — Quem dirige? – perguntou Fílio.      — Todos dirigimos, cara.      — Então, está tudo muito bem – disse Fílio aliviado. – Vamos tomar um trago e conversar.      O facínora desceu do balcão e se aproximou de Coice-de-Mula com a mão estendida. O negro, contudo, explodiu numa gargalhada de deboche.      — Fica frio, cara – trovejou ele. – Você ainda não me convenceu, não. Primeiro tem de provar que pode nos comandar. A gente não obedece a otários, xará, tá sacando?      Fílio parou e colocou as mãos na cintura. Previa arruaça grossa.      — E... E o que devo fazer para provar que posso comandar vocês todos?      — Tem de vencer um de nós num combate a mãos limpas – disse Coice-de-Mula sarcástico.      — Não vim aqui para lutar – furtou-se Fílio. – Não é preciso.      — Tá amarelando, é? – zombou Coice-de-Mula. – Tudo bem, eu meto medo, sei disso. Mas vou-lhe dar uma chance. Espeto!      Um rapaz esguio e de musculatura rija, pele clara e cabelos crespos, ombros fortes e largos e deltóides muito desenvolvidos se aproximou do negrão.      — Espeto – disse Coice-de-Mula, – o Trancinha ali tá convidando você pra dançar. Mostra a ele porque é que você tem este apelido.      O jovem mulato abriu um riso largo. Sem pressa, a sua mão dirigiu-se ao cós das calças, às costas, de onde sacou um fino e longo punhal que atravessou entre os dentes. Com andar bamboleante encaminhou-se para Fílio, apelidado de Trancinha pelo descomunal Coice-de-Mula. O auxiliar de Enrico Fratelli posicionou-se para barrar o ataque. Não sabia o que esperar e olhava fixamente o rosto do jovem, não ligando a mínima para o molho de chaves que o rapaz jogava para o alto e aparava com a mesma mão. Entrevia sorrisos nos rostos próximos, mas tentava sacar o estilo de luta do homem que andava tão displicentemente em sua direção. De repente o molho de chaves escapou da mão do jovem e caiu ao chão fazendo um barulho característico. Fílio olhou para as chaves. Foi tudo muito rápido. Os olhos fixaram-se no metal no chão apenas por segundos, mas o suficiente para que ele recebesse o calcanhar do pé direito do jovem relaxado bem no meio da testa. O movimento de Fílio foi mais automático que consciente, graças ao intenso treinamento na modalidade de luta dos soldados hebreus – o Crav-magah. Ele recuou a cabeça a tempo de evitar que o pé atingisse em cheio o seu frontal. Mas teve o nariz quebrado. A dor lhe fez encher os olhos de água, porém, mesmo sem poder enxergar direito, saltou para o lado erguendo os braços em defesa. Ainda via tudo nublado quando um relâmpago de aço riscou o ar em direção ao seu peito. As mãos moveram-se com rapidez e tocaram algo duro, mas seus dedos não conseguiram fecharem-se no pulso do atacante. Contudo, a defesa funcionou e o relâmpago desapareceu como por encanto. No segundo seguinte algo atingiu-lhe os tornozelos com inaudita violência e ele se viu jogado para o alto, caindo de costas no chão úmido. Mal seu corpo aterrissou e ele rodopiou sobre si mesmo. Evitou com isto outra vez o calcanhar maldoso que descia fulminante sobre seu peito. Fílio pôs-se de pé rapidamente, mas não o suficiente para evitar que dois pés acertassem em cheio o seu peito. Foi atirado de costas de encontro ao balcão e a pancada fez com que soltasse o ar dos pulmões com violência. Não teve tempo de se refazer, pois o punhal faiscou ao lado de seu pescoço, buscando a veia jugular. Seu braço ergueu-se como o bote de uma cobra e as costas de sua mão chocaram-se com o frio metal, afastando-o de seu alvo mortal. Num átimo ele viu uma cabeça vindo direto para o seu rosto. Se houvesse o choque certamente ele teria várias fraturas a lamentar, mas Fílio era um lutador admirável. Rodopiou sobre si mesmo evitando o choque, ao mesmo tempo em que seu punho vinha num arco com toda a violência buscando a nuca do agressor. Não obteve êxito. Seu braço socou no vazio. O jovem saltou de costas com o corpo num arco perfeito. Fílio compreendeu, finalmente, que lutava contra um exímio capoeirista e um homem que manejava o punhal como poucos. O rapaz rodopiou à sua frente, ora subindo, ora descendo, mas sempre aproximando-se com incrível e mortal precisão. Não era fácil prever de onde viria o ataque, pois o jovem subia e descia com rapidez impressionante. Seu corpo rodopiava velozmente e isto desorientava o oponente. Foi assim que mais uma vez o corta-capim pegou Fílio desprevenido e o lançou para o ar como um boneco desconjuntado. Entre rodopios e defesas automáticas, ele foi obrigado a se defender sempre por um fio da morte brilhante que relampagueava, faiscava e zunia com uma incrível velocidade ora buscando o pescoço, ora visando o coração, ora tentando acertar o baixo-ventre. Fílio tentava inutilmente pegar o braço, ou a perna de seu agressor, mas ele era de uma rapidez impressionante. Uma bênção pegou-o em cheio no peito e lhe roubou o fôlego, lançando-o sobre a multidão. Esta abriu um vácuo e Fílio caiu, rodando sobre a própria cabeça, sem poder respirar. Ainda estava deitado ao solo, os braços abertos em cruz, quando viu o relâmpago de aço vir direto para sua garganta. O corpo do jovem descia do alto sobre ele, pés apontando para o teto. Um mergulho fulminante. Fílio mal teve tempo para virar-se de lado quando a ponta da arma letal tocou o solo de pedra. Sem dar tempo a que o jovem terminasse de aterrar o pé esquerdo de Fílio subiu vindo acertar as costelas do rapaz, desequilibrando-o. Ele caiu de mal jeito e pela primeira vez perdeu o ritmo do jogo da capoeira. Procurando tempo para respirar, já que a pancada do pé de Fílio lhe tirara todo o ar do pulmão, o jovem atacou. E cometeu seu primeiro e único erro. O ataque foi direto, sem voltas nem rodopios desorientadores. O punhal foi lançado em linha reta diretamente ao coração de Fílio. Mas este movimento o facínora sabia como sustar. Sua mão saltou como a cabeça da cascavel no bote mortal e seus dedos ferraram-se no punho do agressor. Simultaneamente o homem jogou-se de costas puxando o rapaz para cima de si ao mesmo tempo em que seus pés se lançavam para cima, acertando em cheio o queixo do jovem. A pancada tonteou o capoeirista que, quando pôde perceber a situação já estava com o adversário às suas costas e o punhal afundando em sua garganta. Imobilizado numa chave de pernas, o rapaz não podia mover-se e ouviu a voz irada do homem ao ouvido.      — Se eu não precisasse de você, eu o mataria agora, patife.      Ato contínuo o homem pôs-se de pé, obrigando Espeto a erguer-se puxando-o pelos cabelos e sempre mantendo o punhal com a lâmina funda em sua garganta. Então, com um safanão no ombro do rapaz, Fílio obrigou-o a se voltar de frente para ele e lhe aplicou um violento “upper-cut” que o lançou desacordado aos pés de Coice-de-Mula. Havia um silêncio pesado e todos o olhavam, agora, com certo respeito. Só o negrão o olhou com desdém.      — Foi a primeira vez que Espeto perdeu uma luta justa – falou o homenzarrão, meneando negativamente a cabeça.      — Justa uma ova! – gritou furibundo, Fílio. – Ele estava armado e eu, de mãos limpas.      — Assim é que é justo, cara – debochou Coice-de-Mula e acrescentou: – Tudo bem, você ganhou os homens que veio buscar. Mas tem uma condição.      — Outra? Você não acha que está exagerando, não? – o mau humor já o dominava, irritado pela luta desigual que tivera de enfrentar.      — Fica frio, xará. A condição é: pagamento adiantado.      — Não.      — Sem homens.      — Foda-se!      E Fílio virou-se para sair. Três mulatos se puseram como barreira diante dele, mas seu o pé acertou o saco escrotal de um deles e a navalha da mão esquerda afundou o pomo de adão de outro. Quase simultaneamente um empi-uchi deslocou o maxilar do terceiro. Os três homens desabaram com gemidos abafados. Tudo resolvido em segundos. Furioso e descontrolado, Fílio estava disposto a abrir caminho matando se preciso fosse. A sua paciência, normalmente pouca, esgotara-se de todo. Estava resolvido a ir procurar ajuda em outro local. Aquele não lhe agradava nem um pouco.      — Trancinha! – trovejou Coice-de-Mula.      — Sem papo! – gritou-lhe Fílio sem se voltar e distribuindo generosamente seikens, shutôs e empis a torto e a direito, abrindo caminho rapidamente por entre os aturdidos espectadores. Ele sabia que a surpresa era passageira e só duraria poucos segundos. Tinha de aproveitar para chegar até à porta de saída. Se a turbamulta se enfurecesse e se atirasse sobre ele antes de chegar ao seu destino...      — TRANCINHA! – gritou o irado homenzarrão.      — Não torra! – respondeu Fílio nocauteando mais um.      — Eu mandei parar, ‘seo’ desgraçado! – trovejou Coice-de-Mula.      — Não temos mais nada a conversar! – bradou Fílio acertando o queixo de um coitado que estava totalmente desprevenido. Ele caiu feito saco vazio.      — Pára aí, PORRRAAAA! – E Coice-de-Mula bateu palmas. Várias pistolas surgiram em mãos nervosas, mas todos sabiam que atirar era acertar em companheiros deles mesmos. Fílio, finalmente, atingiu a porta. Virou-se e viu mais de trinta armas apontadas para em sua direção. Avaliou suas chances. Eram boas. Um tiroteio só mataria gente dali. Ele escaparia, com certeza.      — O que você quer? – gritou para Coice-de-Mula.      — Por que não quer pagar adiantado? – perguntou o deus de ébano.      — Uma questão de princípios – respondeu Fílio. – Ninguém paga por mercadoria que ainda não recebeu.      — Venha, vamos conversar – convidou Coice-de-Mula.      — Não – negou-se Fílio, receando voltar à posição indefensável de onde acabara de sair a troco de alguns maxilares fraturados. – Você e eu conversaremos no meu carro, se quiser e não amarelar por ter de estar só comigo – provocou.      — Eu? Amarelar?! Só quando o Diabo tomar a Santa Hóstia, maninho. Vamos lá!      Os dois homens saíram. Meia-hora depois, Coice-de-Mula voltou sozinho. Trazia a metade do pagamento que logo distribuiu entre os seus sequazes.      — Agora, cada qual vai-se malocar. Não quero ninguém ferido, tão sacando?      Todos saíram. Só Coice-de-Mula sabia o que iriam fazer no dia seguinte.      Aos poucos cada qual voltou a se interessar no que faziam antes do homem ter aparecido e o inferninho voltou ao normal.      — O cara luta um bocado. É mesmo do grupo do tal de Cicatriz – comentou o barman para as duas moças.      — É... Um sujeito duro de roer – concordou Lucélia.      — Acho que nossos amigos vão ter muito trabalho para lidar com este pessoal – disse Ivete.      — A tensão aumentou o consumo da maconha e da coca, Lucélia – observou Ivete, preocupada. – Acho bom a gente se mandar. Vai correr sangue daqui a pouco. É só um esquentado se queimar e o pau quebra. Já conheço este clima...      — Não, nada de sair correndo. Temos uma coisa a fazer. Vem comigo      — Pra onde?      — Vem.      E Lucélia mais uma vez arrastou a relutante amiga pela mão. Desta vez ela foi direto para o meio do inferno: o salão. Ali, todos pulavam como endemoninhados. Parecia que cada um queria superar o outro em gritos e acrobacias estrambólicas. Olhos injetados, corpos suados, expressões animalescas, eis a fauna subumana que se espremia, saltava, ia de um lado para outro do salão de braços dados e aos xingamentos contra polícia, políticos, pais e mães. Ivete teve o traseiro apalpado mais de uma dezena de vezes, mas não reagiu. Sabia que não adiantava nada, pois quem o fizera era certo estar fora de si e totalmente inconsciente de sua ação. Finalmente a moça descobriu o “Vaga-lume”. Era um rapaz alto, branco e muito magro. Usava óculos de grau muito forte, cabelos longos e desgrenhados, roupas surradas e sujas, bigode e barbas em desalinho. O apelido era devido a que gostava de fotografar tudo. Há algum tempo atrás estivera de cama com pneumonia e quase morrera. O medo à morte fê-lo parar temporariamente o consumo da coca e da maconha, mas se tornara dependente de anfetaminas. Era conhecido de todos e já fotografara mais da metade deles em situações esdrúxulas, como foi o caso do “Barata”, flagrado sentado no vaso sanitário copulando com a garota Janice, noiva do “Saúva”; ou o caso do “Vaqueiro” que comia na raça o bicha “Luluzinha” em pleno salão, sobre uma mesa que terminou quebrando e jogando os dois no chão onde, entre os gritos de protesto do anormal, “Vaqueiro” terminou o serviço cercado pela total indiferença dos foliões. O infeliz morreu de AIDS cinco meses depois de o invertido ter-se ido desta para os quintos. “Vaga-lume” o fotografou em seu último suspiro e fez um impressionante pôster da foto macabra que expôs no salão e sob a qual colocou uma observação chocante: “ gostava de cu, mas não da camisinha. ” A partir daquele dia noventa por cento da freguesia passou a usar preventivo.      — E aí, “Vaga-lume”, fotografou o Preá? – perguntou Lucélia.      — Oi, gatas, tudo em cima? É claro que fotografei. Tenho seis fotos muito boas do sujeitinho – informou o rapaz.      — Quando terá as cópias? – perguntou Lucélia novamente.      — Vai tomar no cu! – bradou Ivete para um garoto que lhe meteu a mão por baixo da saia e lhe apalpou a vulva.      — Eu não tomo, eu como! – gritou-lhe o sujeito desaparecendo no salão.      — Vamos embora! – exasperou-se a moça. – Isto aqui não está prestando, droga!      — Tá bom, já vamos. Hei, “Vaga-lume”, posso pedir um favor?      — Fale, gata. O que é?      — Faz cópias delas pra nós também – pediu Lucélia.      — Por que? – estranhou o rapaz.      — Tem dois caras que eram amigos do “Barata” que vão pagar bem por elas. A gente divide a grana, que tal?      — Tudo bem. Faço as cópias – disse “Vaga-lume”.      As moças se retiraram gritando para o fotógrafo:      — Quando Coice-de-Mula voltar vai ter muito que contar pros nossos amigos.      — Coice-de-Mula só fala o que quer e quando quer – ripostou “Vaga-lume” sumindo em direção oposta à delas.      Lucélia finalmente concordou em se retirar. Faltava meia-hora para o encontro e Ivete tinha razão. O ambiente estava muito explosivo. Naquele mesmo momento Fílio estava estacionando o Opala na vaga da garagem do prédio onde morava. Nem de leve se lembrava mais de Nanete. No entanto, a moça pegara no sono e dormia placidamente sobre a cama do facínora. Em sua mão estavam tufos do cabelo louro do homem. Ela encontrara aquilo no banheiro e ficara intrigada com o fato. Por que ele cortara o cabelo depois do sexo? Algum ritual que ela desconhecia? Adormecera ainda olhando para eles e pensando na razão da tosa. CAPÍTULO XI A OUTRA FACE DA REALIDADE QUE NÃO VEMOS        Ivaldo estava na cozinha observando atentamente Andréa enquanto ela preparava o seu lanche. Tudo se acalmava no chalé e ele começava a ouvir o pio de aves noturnas e os insetos em sua eterna cantilena. A mulher parecia bem mais nova do que dizia ser. Os cabelos brancos que surgiam em sua cabeleira negra demonstravam que já passara apuros e tensões acima da média. Era parcimoniosa no falar e parecia ansiosa por se livrar dele. Do canil veio, súbito, estranhos uivos dos cães. Ivaldo não gostou daquilo. Era muito lúgubre e sempre lhe trazia à recordação os filmes de lobisomem que assistia quando era criança.      — O que há com eles? – perguntou para puxar conversa.      — Não sei. Não costumam fazer isto, não – respondeu Andréa indo até o janelão olhar lá para o canil. Era visível dali.      — Não gosto de ouvi-los. Talvez chorem os amigos mortos. Em minha terra, é sinal de azar... mau agouro – disse a mulher ainda olhando pela janela.      — Não creio nisto. Sou mais pela saudade dos que se foram. Quando eu era criança via muitos filmes de lobisomem e neles havia muitos uivos. Não gosto de ouvi-los porque me lembram as noites que perdi tremendo de medo sob as cobertas – disse Ivaldo. Andréa o olhou séria.      — Não brinque com isto, detetive. Em Minas há lobisomens – falou a mulher, voltando-se para o detetive, séria.      — Ah, você é mineira?      — Sou.      — De que cidade?      — Sou de Porteirinha.      — Nunca ouvi falar.      — É uma cidade pequena.      — Quando veio para cá? Quero dizer, para o Rio de Janeiro?      — Tinha cinco anos. Mas durante algum tempo eu voltei a Porteirinha para visitar meus pais.      — Por que veio para o Rio?      — Porque fui trazida por uma tia que já vivia aqui há tempo.      — Morava aonde a sua tia?      — Na favela da Rocinha.      — Ela ainda vive lá?      — Não sei. Nós nos separamos há muito tempo. Casei e fui viver em outro lugar.      — E não mais viu a sua tia?      — Bem, a gente se visitava uma vez ou outra. Sabe como é, né. Vida de casada não é moleza, não. A gente tem de toma conta do marido. Depois, vêm os filhos... O tempo vai encurtando como roupa de criança.      Os uivos recrudesceram. Eram longos e doridos.      — Diabo, – exclamou Andréa contrariada – desse jeito eles vão perturbar o sono de todo mundo. Onde estará o Clóvis que não vai lá, dar um jeito nisto?      Ela voltou a olhar pelo janelão. Ivaldo observou que a mulher teve um recuo de espanto e levou a mão à boca. Ficou atento olhando-a mexer-se inquieta por algum tempo.      — O que é? – perguntou, finalmente, curioso.      — Eu... eu não sei. Tive a impressão de que havia alguma coisa lá perto do canil... – Andréa falava sem se voltar para ele. Algo realmente lhe prendia a atenção. Ivaldo levantou-se e foi também olhar pelo janelão. À luz da lâmpada do poste pôde ver o canil e alguns cães passeando agitados lá dentro. Em volta, contudo, não distinguiu nada.      — Onde você viu...      — Lá! Entre aquele mato. Tem alguém lá, está vendo?      A mulher falava nervosamente. Ivaldo fixou a vista e realmente pode distinguir um vulto de branco onde ela apontava.      — É... parece que há uma pessoa ali. Mas por que os cães uivam e não ladram? O mais certo era que ladrassem. A menos que seja o Clóvis.      — Não, não é. Clóvis não tem cabelos brancos na cabeça e aquela pessoa... se é que é uma pessoa, tem a cabeça toda branca.      Ela estava certa. Quem quer que fosse lá fora moveu-se e Ivaldo pôde ver que sua cabeça era branca como neve.      — De onde veio ele? – perguntou admirado. Os cães não pareciam notar a presença do homem tão perto do canil. Uivavam e passavam diante dele sem o notar. Apenas uivavam.      — Eu... eu não sei... Talvez seja um lobisomem... Ai, meu Deus, eu estou toda arrepiada – falou Andréa quase em lágrimas.      — Calma. Isso aí só existe lá pras bandas de Minas Gerais. Pelo que sei, os tais lobos não gostam de água, muito menos salgada. Vou lá fora esclarecer isto. Vem comigo?      — EEEUUU? Nem pensar!      — Bom... Está bem. Fique aqui e olhe pra nós, lá fora. Se acontecer algo anormal, grite pelo meu parceiro. Sabe o nome dele, não sabe?      — Sei. É Damastor.      — Ótimo. Ah, e quando eu voltar, ponha mais bacon no meu prato. A fome vai aumentar, com certeza, depois disto.      Ivaldo saiu brigando com o seu coração que teimava em ir bater na goela. Não podia saber qual o motivo daquele medo. Talvez fosse devido ao irritante uivar dos cães. Ou talvez fosse o medo de que Andréa estivesse certa quanto ao tal lobisomem. Fosse como fosse, não conseguia manter seu tique-taque dentro do peito. “ E não tenho nem uma bala de prata ” pensou.      Deu a volta ao chalé e desceu o caminho de pedra que levava até o canil. Os uivos continuavam. Ele olhou o relógio: dez para a meia-noite.      — Isto é pura coincidência. Meia-noite é somente uma hora. Não há absolutamente nada de anormal em um homem de cabelos brancos surgir numa ilha à meia-noite – murmurou, tenso.      Mas por mais que falasse de si para consigo, Ivaldo não conseguia deixar de sentir os pelos de pé e aquele frio horrível na boca do estômago. A noite estava amena e até que fazia um friozinho agradável. Uma neblina suave vinha do mar e espalhava-se sobre a mata como tênue chumaço de algodão. Até que seria romântico, se não fosse a estranha sensação de medo que o invadia.      Chegou ao canil. Mais além da luz do poste a escuridão era espessa e o policial disse de si para si mesmo que não passaria dali nem que lhe dessem a super sena acumulada de presente. Olhou em volta e nada viu. Os cães pararam de uivar e começaram a rosnar ameaçadores.      “ Onde diabo se meteu o tal velho ?” – perguntou-se o policial intrigado e ainda com a sensação de medo, agora acrescentada de outra: a de que estava sendo observado. Respirou fundo, abaixou-se e levantou-se várias e várias vezes para combater a imobilização que o medo já passando a pânico tentava imprimir às suas pernas. “ Tenho de ficar móvel. Se o tal jacaré aparecer... ou o tal velho, sei lá, não posso pagar mico’. A Andréa me observa lá do janelão.      — Boa-noite, jovem. Tem algum problema com as pernas?      A voz era firme, mas nitidamente de um velho. Ivaldo voltou-se rápido como um raio e deu de cara com um senhor de sorriso simpático, cabelos muito brancos e corpo saudável. Ele estava com a mão estendida amigavelmente e trajava uma calça rústica, de linho, sem bolsos e cujas pernas paravam a meio canela. O blusão era de linho alvo e de gola inteira e curto. O susto tirou a voz ao policial, mas não lhe roubou a rapidez. A arma saltou-lhe para a mão como num passe de mágica e estava engatilhada apontando direto para a testa do homem que sorria amigavelmente.      — Oh!... Quem é o senhor? – Ivaldo estranhou a própria voz. Ela saia rouca e quase surda.      — Calma, jovem. Sou um pescador. Vi a luz acesa e vim pedir um pouco de comida. Sabe, o mar, hoje, não está pra peixe. Pode guardar a arma. Sou de paz.      Ivaldo pestanejou e, desconcertado, guardou a arma apressadamente.      — Desculpe, senhor. É que tivemos um problema sério aqui, hoje.      — Tudo bem. Desculpe o susto. A gente pode entrar? – e o simpático velhinho apontou o caminho como se convidando Ivaldo a segui-lo para o chalé. O polícia, ainda sem jeito e trêmulo pelo susto, assentiu com a cabeça. Os dois encaminharam-se para o chalé. O medo sumiu rapidamente e Ivaldo sentiu-se como se estivesse andando pela avenida Presidente Vargas na hora do rush . A companhia do velhinho acalmara-o e ele quase chegava a rir de seu medo. Não notou que os cães tinham-se aquietado e deitado no canil.      De seu posto na janela Andréa viu quando o velho aproximou-se por trás do detetive. Não estava entendendo porque o polícia abaixava-se e ficava de pé seguidamente no mesmo local. Mas quando os viu subirem a rampa amigavelmente, como dois velhos conhecidos, acalmou-se. Deviam ser conhecidos. Talvez o recém-chegado também fosse um policial, quem sabe?      Foi recebê-los à porta da cozinha.      — Oi, Andréa, como vai? – e o bom velhinho estendeu a mão afavelmente para a espantada serviçal.      — Oi... De onde nos conhecemos? – perguntou a mulher.      — Ora, nós não nos conhecemos pessoalmente. Mas você é famosa entre os pescadores da região – disse o velhinho com um sorriso cativante.      — Co...com é que é? – espantou-se Andréa.      — A gente pode entrar? – perguntou Ivaldo impaciente. O seu cansaço sumira por inteiro, mas a fome, não.      — Sim, sim, por favor... – e a mulher deu passagem aos dois. Eles foram direto para a mesa e se sentaram.      — Andréa, pode colocar mais um prato aqui pro nosso vovô? – pediu Ivaldo jovialmente, intimamente estranhando a si mesmo. Passara do medo à euforia muito rápido. – Ele me disse que veio à ilha pedir um pouco de comida. É um pescador, sabia?      — Não. Eu... – a mulher olhava espantada para o recém-chegado. Havia uma paz enorme nele, capaz de contagiar quem estivesse por perto e ela, mesmo sentindo o efeito daquilo, não podia furtar-se ao espanto pela sua presença na ilha. Era a primeira vez que um pescador vinha dar ali. E ela não entendia como podia ser famosa, pois nunca tivera contato com eles, antes. Seus olhos encontraram os do velhinho e uma inquietante sensação de culpa a acometeu. Queria deixar de olhar naqueles intrigantes olhos azuis, mas não conseguia. O pranto subiu-lhe pelos olhos e pela garganta e quase sufocou no esforço para contê-lo. A custo deu as costas aos dois e se dirigiu ao forno do fogão onde preparava o repasto.      — E então, – disse Ivaldo animadamente – como é que conhece a nossa ilha?      — Oh, eu vago por aí, entre elas. Esta é destacada pela moradora. É muito famosa, pela sua bondade para com os pobres da região. – O velho tinha um olhar muito estranho, calmante e alegre.      — É mesmo? Ora essa, eu não sabia.      — A Dra. Milena mantém um asilo para velhos pescadores e uma creche para os filhos daqueles que ainda batalham no mar. Ela é muito boa conosco. Foi por isto que me atrevi a vir pedir comida. E o senhor, o que faz armado por aqui?      — Bem, sou policial. E aconteceu algo muito estranho aqui, hoje.      E Ivaldo narrou com cores vivas o incidente na ilha. Andréa colocou os pratos na mesa e serviu a água pedida. Depois, pediu licença para se retirar, mas foi detida pelo velhinho que lhe disse:      — Fique. Estará mais segura aqui, conosco. Acredite em mim.      Em sua suite, Damastor acabara de tomar um banho e estava com o roupão ainda úmido, deitado na deliciosa cama de colchão de água. O carrilhão na parede soou as 23:45h. De olhos abertos e fixos no teto, o detetive pensava em tudo o que acontecera ali. Os lençóis aconchegantes e a cama deliciosa o relaxavam. A suite era maravilhosamente bem ornamentada, puro bom gosto em tudo, desde as estatuetas de marfim e jade, até a pintura em cores pastéis das paredes e do teto. As cortinas escureciam a suite e a luz indireta dava a tudo um ar mágico de imponderabilidade. No entanto, nada impedia que o marulho do mar chegasse até o detetive, relaxando-o mais ainda. Aquele ronronar da água lá longe era como o ninar de uma mãe carinhosa. Um torpor gostoso foi tomando conta de Damastor, invadindo-lhe os ossos e distendendo cada músculo do corpo, mesmo os mais profundos. Mergulhado no torpor do sono que se aproximava de mansinho como o andar de um gato sobre areia, Damastor recordou o rosto de sua ex-mulher e uma sucessão de lembranças confusas lhe surgiram de algum lugar em sua mente. O rosto do Dr. Hélios misturou-se ao daquele homem que lhe oferecia café nas tripas do defunto... o corpo de Selênia e de seus filhos... o garoto com o pescoço torcido e rindo macabramente para ele... Kantor no palanque de luxo da Apoteose abraçando desavergonhadamente o Governador... o rosto bonito de Karina sorrindo sensualmente para ele... o braço de Khamal ainda pingando sangue... Ivaldo pedindo ovos com bacon a Andréa... Andréa sorrindo para Milena... Andréa...Téia... Téia...Téia... O sono se foi. Damastor abriu os olhos e olhou a janela aberta. Tinha a impressão de que as cortinas estavam fechadas quando ele estivera a ponto de mergulhar na inconsciência do sono. Uma brisa suave fazia a sobrecortina finíssima balançar levemente, como um fantasma cor de rosa. A luz de uma lua cheia brilhante prateava a copa das árvores lá fora e Damastor teve sua atenção voltada para elas. O que poderia estar causando aquela sensação de inadequação nele? O detetive levou algum tempo para compreender. O chalé era alto e, deitado como estava, não seria, de modo nenhum, possível avistar árvores pela janela. Quando muito, avistaria o céu azul-prateado pela lua cheia. Mas como podia haver lua cheia se estavam na lua nova? A sua suite, como as demais, estava no terceiro pavimento do chalé e sua janela dava para a parte inferior da ilha. De onde, então, vinham aquelas copas tão altas e tão frondosas? E como é que a lua surgia tão cheia se devia estar do outro lado do planeta? O detetive sentou-se na cama e fixou a vista através da janela. Não podia ser. Aquilo, realmente, não podia ser verdade. Ele estava vendo um maciço negro, muito alto, com lapas agudas apontando para o céu. O maciço tinha a silhueta recortada contra o céu azul escuro e parecia-se com uma tocha enorme em pedra negra. Damastor esfregou os olhos e se beliscou. Não estava sonhando. Sonhos não doem e ele sentira a dor do beliscão. Levantou-se sempre fixando o maciço e as copas das árvores. Aquilo não podia estar ali. Não podia porque não estava ali, antes. E no entanto, ele via claramente a enorme montanha recortando-se contra o céu azul prateado pela luz fantasmagórica da lua cheia. O detetive desviou os olhos e passeou a vista, cuidadosamente, por todo o cômodo. “ Posso fazer o que quero. Sou dono de minha vontade. Não estou sonhando, então. ” Voltou a fixar a vista lá fora, mas a estranha paisagem continuava a existir. Cuidadosamente Damastor pôs-se de pé e foi até o banheiro. Calmamente meteu-se sob o chuveiro de água gelada. Acabou o demorado banho, friccionou-se fortemente com a toalha, fez várias flexões até sentir os músculos doerem e deu-se por satisfeito. Estava, com certeza, desperto. Meteu-se num roupão de banho atoalhado e voltou para o quarto. Tinha absoluta certeza de que não mais veria aquilo lá fora, fosse o que fosse. Mas estava errado. A montanha negra continuava lá. As copas das árvores, também. Agora, o chalé tremia a seus pés. “ O que diabo é isso ?” perguntou-se surpreso o detetive. Permaneceu atento até perceber que era o resultado do rebentar das ondas na praia. O barulho surdo penetrava pela janela aberta e lhe invadia todos os sentidos. “ Não sei o que se passa lá fora, mas não vou ficar em dúvida por muito tempo, não. ” Decidido, ele foi até a janela e olhou para fora. Estava certo de que veria o solo lá em baixo, e nele, o caminho de pedra que levava ao canil e mais adiante, lá bem longe, as luzes do continente. Não foi o que aconteceu. Do outro lado da janela havia um chão de areia alvíssima, onde o luar se refletia como se num espelho esbranquiçado. Ao lado, duas árvores frondosas e espalhadas até onde podia divisar, muitas palmeiras. Ele olhou para as frondes e viu os cocos. Eram coqueiros. “ Não pode ser. A ilha não tem um nem pra remédio !” pensou espantado o policial. Passando a uns dois metros da janela, um caminho pedregoso e coleante que avançava por entre grandes rochas em direção a algum lugar. Ele olhou para o fim do caminho e divisou uma grande claridade. “ Parece que temos uma fogueira lá perto da praia. ” pensou o detetive tentando ficar calmo e lógico. O ambiente era árido e feio. Afora os coqueiros e as duas árvores das quais divisara as copas quando deitado, tudo o mais eram rochas grandes e escuras. O ar era muito seco e a temperatura amena. A luz da lua fazia tudo ficar com um estranho quê fantasmagórico. Damastor voltou para o leito e se sentou. Apalpou-se, olhou-se no grande espelho da parede e concluiu: “ Não é sonho. Estou plenamente desperto. Estou na suite e ela é a mesma de quando aqui entrei. No entanto, lá fora tudo mudou. A mata atlântica não existe mais. Coqueiros que não estavam ali quando cheguei, agora estão. E há uma montanha mais alta que o Pão de Açúcar onde, antes, só havia céu azul. É uma loucura, mas é real. Como pode ser isto ?” O detetive voltou à janela. Agora, viu algumas pessoas correndo em direção à fogueira da qual só via o clarão. “ Não posso ficar assim, só olhando para isto. Vou também lá pr’aquela fogueira. Eu preciso, e já, descobrir o que está acontecendo aqui. ” E Damastor não hesitou nem um segundo mais. Saltou a janela e deu alguns passos pelo caminho pedregoso quando se lembrou de que devia ao menos levar sua arma. Quando, porém, voltou-se para a janela tomou um tremendo susto. Não havia mais o chalé. Ele tinha acabado de saltar a janela de um casebre de palha e pau-a-pique. Um casebre cuja palha do telhado era assanhada pelo vento que soprava forte. “ Meu Deus, estou ficando doido! Onde foi parar o chalé ?” Desorientado, Damastor deu alguns passos a esmo, sentindo a boca seca e o coração disparado. Estava sem roupa, somente com aquele roupão de banho e nada mais. Estava sem calçado e sem arma e acabava de ser jogado para algum lugar do qual não fazia a mínima idéia.      — Ivaaallldoooo! Kariiiinaaaaa! onde estão vocês? o que está acontecendo aqui ?      Seus gritos, contudo, eram apagados pelo forte vento que assoviava funebremente nas pedras negras. Os vultos que vira correndo já não estavam mais à vista. Apenas o clarão da fogueira continuava a brilhar. E, agora, parecia mais longe do que quando o vira pela janela do chalé. Damastor deu algumas voltas totalmente desorientado. Parecia um peru tonto pelo vinho que lhe tivessem dado.      “ Não é possível. Estou ficando alucinado, só pode ser isto. Ou, então, de algum modo me deram um alucinógeno na bebida. Mas por que? E quem poderá ter feito isto? A tal de Téia ?”      Uma gritaria chegou-lhe aos ouvidos. Vinha lá do clarão. Parecia que uma multidão estava reunida lá.      “ Será que é uma festa? Mas a esta hora da noite? Bom... e por falar em hora, que horas serão, agora? Estou sem relógio...      Os gritos aumentaram. A bulha era enorme. Damastor parou de se preocupar com a sua situação e ficou prestando atenção no alarido. Não conseguiu entender nenhuma palavra, mas atribuiu isto ao vento que soprava forte. Caminhou devagar até o casebre e olhou através da porta aberta. Lá dentro, iluminados apenas por um archote rude fincado num suporte na parede, pôde ver uma mesa muito rústica, alguns bancos de três pernas e sem qualquer encosto, um pote num tripé e nada mais. O chão era de terra batida. Totalmente desorientado o detetive recostou-se no portal e ficou olhando a enorme e muito clara lua cheia no céu.      Mara tomou banho, penteou-se e foi direto para a cama de Ludmila. A suíte em que estavam era toda em rosa-claro e a luz indireta também era muito calmante. Ludmila estava acordada ainda esforçando-se para lembrar de alguma coisa dos momentos em que ficara com Khamal e sua companheira de quarto lá na biblioteca. Nada lhe vinha à recordação e isto a incomodava muito. Não podia admitir aquela súbita amnésia. A maciez da cama e o cheiro dos lençóis limpos e alvos não lhe davam qualquer relaxamento. Sentia-se inquieta, com uma incômoda sensação de perigo iminente a lhe atormentar os sentidos. Sua colega sentou-se ao lado, na cama. Vestia confortável “ pegnoir ” e um roupão de linha que lhe caia muito bem.      — Em que pensa? – perguntou Mara.      — Em tudo. Principalmente em nós duas com Khamal, lá na biblioteca.      Mara sentiu-se subitamente incomodada e com uma leve sensação de contrariedade a lhe perturbar as emoções.      — Eu não acho isto importante... – disse ela, sem mesmo saber o que dizia.      — Ao contrário – rebateu Ludmila. – Minha mente está vazia como um tape que foi apagado. Quem fez isto comigo? Só pode ter sido o Dr. Khamal, mas por que? Por que ele me queria desmemoriada?      — Eu não sei... Mas não somos nós quem me preocupa – disse Mara. – O que me incomoda é o jacaré. De onde veio ele?      — Ora, isso Milena já explicou – tornou Ludmila com uma leve e indisfarçada ponta de irritação na voz. – Acho que concordo com Damastor e sua tese de que o jacaré foi circunstancial. Nós e Khamal... Aqui é que está o...      Os olhos da ruiva fixaram-se na janela da suite, com espanto. Mara seguiu-lhe o olhar e também assustou-se. Lá fora, banhada pela preateada luz da lua cheia, ela viu a razão do susto de sua companheira. Longe, um enorme contorno escuro de uma montanha surgia recortando-se contra o céu claro e dando uma inquietante sensação de ameaça, de perigo.      — Meu Deus! – exclamou Mara. – Aquilo... o que é? De...de onde é que veio?      — Você também está vendo? – e Ludmila olhou a amiga, perplexa.      — Sim, vejo, mas não acredito! – E Mara esfregou os olhos como se quisesse apagar a visão. Ludmila foi até à janela. Divisou, bem abaixo, uma luxuriante mata cerrada. O chalé parecia estar a quase trezentos metros de altura, sobre um penhasco. E lá embaixo tudo era escuridão e ameaça.      — Não é possível! Estou ficando maluca! – E Ludmila recuou instintivamente de perto da janela. Uma tontura escureceu-lhe a vista e ela sentiu-se quase desmaiar. Recuou cambaleando e teve de se apoiar na cômoda para não cair. O coração disparara-lhe no peito e chegava quase a doer de tão forte que lhe batia. Por sua vez, como que hipnotizada e fascinada pela cena inusitada que divisava lá fora, Mara foi também à janela. Não conteve um grito de espanto. A menos de duzentos metros ela via a praia. Uma nesga de areia grossa, brilhando à luz da lua. Ondas enormes, coroadas por espuma brilhante, arrebentavam-se com estrondo entre as paredes rochosas de pedras negras. Do lado direito ela viu o estuário do pequeno rio que desembocava no mar cercado de altos coqueiros. O chalé estava a uns quinhentos metros do rio, mas dava perfeitamente para divisá-lo correndo serenamente para o mar, pois o estuário situava-se bem a baixo, num leve declive que ia desde o chalé até ele.      — Céus! – gritou a repórter assombrada. – É a praia! A praia de Pargos.      Ludmila olhou a colega com assombro. Endireitou-se, respirou fundo e olhou pela janela novamente, mas de onde estava só via o paredão escuro recortado contra o céu de luz diáfana.      — Praia? – perguntou com estranheza. – Que praia? Eu vi um enorme precipício escuro como breu bem abaixo de nós. Divisei algumas copas lá longe, mas não há praia nenhuma. Definitivamente não há praia, Mara. Lá fora tem tudo, menos praia. Acontece que aquilo não é a geografia da ilha em que estamos. Eu tenho absoluta certeza disto.      — Há praia, sim. Eu vejo e não estou sonhando, não! – E Mara apontou para o lado direito enquanto falava.      — A mata está à direita, além do rio Marataxa. Parece perto vista daqui, mas na verdade ela é bem longe... Eu sei. Até a gente chegar a ela tem de percorrer um caminho rude, ascendente e pedregoso... Meu Deus, eu sei, eu sei! Eu conheço aquele lugar..      — Mas de que rio você esta falando, criatura? Que praia? Lá fora não há praia nenhuma. Você está alucinando tudo isto. A gente está sobre um enorme precipício. Eu vi. Não posso dizer como é que viemos até aqui, mas o certo é que estamos dependuradas nele.      Ludmila passou a mão pelos cabelos, perplexa, e murmurou:      — Só pode ser um pesadelo. Só pode ser isto... Eu estou dormindo... tenho de estar...      — Venha ver! – chamou Mara imperativa. – Venha ver a praia e o rio Marataxa. Eu tomei muitos banhos ali, ora essa.      — Não há rio, Mara – teimou Ludmila. – Nós estamos num pesadelo.      — Venha ver! – insistiu Mara.      Ludmila aproximou-se novamente da janela. Com muito cuidado e com o coração aos sobressaltos, apoiou-se no peitoril e olhou lá para baixo. Sim, havia um enorme precipício escuro como a boca do inferno abaixo delas. E à frente, o vácuo até onde podia enxergar. Lá, bem distante, o enorme paredão rochoso, negro como breu. Ao lado, dependuradas no precipício, ela podia divisar as copas de algumas árvores. Mas definitivamente não havia nenhuma praia ali. Nem ali, nem até onde podia divisar.      — A praia, veja!      E Mara apontou em frente.      — O abismo, lá embaixo! – E Ludmila apontou para baixo.      As moças olharam-se perplexas e confusas, cada qual mantendo o braço estendido na direção do que viam. Depois, olharam ao mesmo tempo lá para fora. Mara fixava a praia em frente, enquanto Ludmila olhava, sem ver, o fundo do abismo bem abaixo da janela.      — Santa Virgem, Ludi – murmurou Mara com voz trêmula. – Eu vejo uma paisagem diferente da sua. E estamos olhando ao mesmo tempo e pela mesma janela. Como é possível?      Ludmila respirou fundo para controlar as batidas de seu coração e passou a mão pelo rosto.      — Eu não sei. Isto é uma loucura. Se você não estivesse aqui, olhando pela janela e vendo quase tudo o que vejo, então eu já estaria desacordada, tenho certeza. Estou-me sentindo tonta.      — Pois eu quero decifrar este mistério de uma vez por todas – falou Mara com resolução. – E vou agora mesmo até aquela praia lá!      Ato contínuo a repórter passou uma perna sobre o peitoril da janela, mas foi contida pela forte mão de sua companheira que lhe segurou o braço, aflita.      — Não! – gritou Ludmila, olhos arregalados de medo. – Pode ser uma ilusão, mas o que vejo é muito real a meus olhos. Se saltar a janela você se esbagaça lá em baixo. Estamos quase a trezentos... talvez até a mais que isto, de altura...Você me entende, não é? Estou falando confusamente, mas você me compreende, certo?      E Ludmila curvou-se sobre o peitoril, olhando com arrepio para o negror que subia das profundezas da terra até ela.      — Do que é que você está falando? – protestou Mara. – Lá fora está a praia e a areia está bem aqui, sob a nossa janela. E eu vou até lá, agora mesmo.      Mas a ruiva puxou a amiga com força, obrigando a que descesse da janela.      — Desça daí, diabo! Não vê que pode-se matar? Há um abismo!      — Mas que abismo que nada, Ludi. Olha, a areia está tão perto de nossa janela que eu até posso tocá-la com a mão.      E Mara lutava para se debruçar sobre o peitoril.      — Não há nenhuma areia, droga! É uma ilusão! Se saltar a janela você vai morrer, não está vendo? – E forcejando, Ludmila falava.      — Não! Vamos com calma, colega. Desça, ande. Não podemos ficar malucas também, além de alucinadas, certo?      Mara olhou a amiga por alguns momentos. Por mais desejosa que estivesse de ir até a praia e ver de perto o lugar misterioso de seus pesadelos, tinha de concordar com ela.      — Veja, Mara, o que eu vejo é muito real. Se saltar a janela tenho certeza de que vai cair no abismo. Agora, venha pra dentro. Vamos sair um pouco de perto desta... desta... sei lá como chamar a isto. Venha, vamos sentar e refletir com calma. Estamos perdendo nosso controle.      As duas voltaram a se sentar no leito. Mara ainda não estava certa de que Ludmila estivesse mesmo acreditando haver um abismo lá fora. A areia era tão alva e tão concreta como a cama onde estavam sentadas.      — Não é possível que não ouça o barulho das ondas, Ludi. Escute! Está ouvindo? Sente o chão tremer com a arrebentação? Sente?      Ludmila ficou quieta por alguns instantes e meneou negativamente a cabeça.      — Calma, Mara, calma. Vamos ficar calmas. Pelo menos aqui dentro estamos seguras. Lá fora a realidade mudou. Eu não sei como, mas mudou e foi para pior. Parece até a ilha da fantasia...      — Eu não estou interessada em nenhuma série de televisão, agora, Ludi – protestou Mara de olhos fixos no maciço lá longe. – Eu não sei até quando aquilo lá vai durar, mas é minha única chance de ver de perto, de sentir sob meus pés e respirar verdadeiramente o ar de Pargos. Eu tenho certeza de que lá fora está a ilha de meus pesadelos de anos. Agora quero ir lá, compreende?      — Mas fazer o quê? O que espera encontrar naquele lugar de pesadelo? Pode ser alguma coisa como uma dimensão diferente da que estamos acostumadas. Quem sabe o que nos vai acontecer se formos até lá? Escute Mara, preste atenção. Esta é a nossa realidade. Aqui dentro. O que vemos aqui, sob nossos pés, à nossa volta, isto é real. Você é real para mim e eu sou real para você. Nós temos certeza desta realidade. Nela, estamos, ambas, seguras. Mas lá, lá fora, a realidade é outra. Não podemos dizer que estamos alucinando juntas. Aquilo, ainda que não possamos compreender o que seja, também é real. A sua praia e o meu abismo de algum modo existem simultaneamente. São partes de uma realidade em dimensão de tempo-espaço diversa da nossa. São duas realidades diferentes, mas que ocorrem simultaneamente, como já disse. É fantástico, é enlouquecedor, mas é real. RE-AL, compreende?      E Ludmila começou a dar voltas e mais voltas no quarto, olhando fascinada para a janela. Mara, sentada, mais calma, achou que ela fizera bem não lhe permitindo ir lá fora. Afinal de contas, e se o tal abismo a que ela se referia tão veementemente existisse mesmo? E se fosse uma dimensão diferente e ela se metesse lá dentro, como ficaria?      — Eu não posso acreditar no que está acontecendo – murmurou Mara também de olhos presos na janela. – Mas que aquilo lá é Pargos, disso tenho absoluta certeza. Só não sei ainda é como conheço o nome do rio, mas pretendo descobrir.      — Mara, já sei o que vamos fazer – disse Ludmila olhando a amiga com olhar brilhante.      — O quê?      — Vamos buscar Karina e Tamara e lhes mostrar o que estamos vendo. Na volta, trazemos Damastor, Ivaldo e Milena. O que acha?      — Eu não sei... A gente pode chamá-los pelo celular...      — Não. Vamos até eles. Os celulares podem estar desligados, o que é mais provável. E nós não sabemos que efeito as ondas hertzianas poderiam causar àquela aparição. Venha, vamos!      Ludmila pegou na mão de Mara e a arrastou em direção à porta, porém parou quando já segurava a maçaneta.      — Espere, Mara. Não vamos nós duas, não.      — Por que? – espantou-se a moça.      — Bem, estou pensando. E se a realidade estranha lá fora desaparecer quando não houver mais alguém a observando daqui, hum? Eu acho que ela só tem existência porque nós a vemos. De algum modo, sei lá, nós mantemos aquilo lá concretizado.      — Eu não estou entendendo o que você quer falar – confessou Mara.      — Escute com atenção. Os druídas, sabe quem foram eles, não sabe minha amiga?      — Sei, sim. O que têm os druídas com nossa situação?      — Não digo que eles tenham nada com o que nos está acontecendo. O que quero dizer é que eles ensinavam que a terra possui linhas de forças que são como os canais energéticos da acupuntura em nosso corpo. A Terra é um ser vivo, sabemos disso, agora, mas os velhos druídas afirmavam isto há muitos séculos atrás. Pois bem, nos ensinamentos deles, as linhas de forças que circulam sob o solo geralmente acompanham os cursos d’água subterrâneos e são, umas, positivas e outras, negativas. Os seres vivos – e os humanos não escapam a isso – têm a tendência a acompanhar a linha de força negativa, pois ela é a que cede energia. Já as positivas, estas nos roubam energia. É por isto que as trilhas das formigas assim como as dos homens no mato, são sinuosas. Instintivamente todos seguimos as emanações energéticas negativas terrestres...      — Bem, o que tem isso com a realidade virtual lá fora? – impacientou-se Mara.      — Já chego lá, paciência, sim? Bom, as tais linhas de força cruzam-se a toda hora. A este cruzamento deram-se o nome de Malha Hartman. A sabedoria druida construía os crom-lech sobre um entroncamento destes para captar tais energias e dirigi-las para o alto. Não sei bem por que é que o faziam, mas a mesa de pedra existente no centro de um crom-lech servia de leito para muitas operações mágicas e, também, para a cura de doenças graves. Tudo através da energia terrestre. Os cristalomânticos da atualidade afirmam que se se puser um cristal facetado de uma determinada forma bem no meio de uma malha Hartman, pode-se abrir um portal para uma dimensão paralela à nossa.      — E daí? Você acredita que alguém colocou um cristal destes nalguma malha existente aqui, na ilha de Milena? Se colocou, quando foi isto?      — Não, eu não estou afirmando tal coisa. Não poderia. Mas quero dizer que de alguma forma há uma malha Hartman aqui. E ela foi ativada...      — Mas como e por quem?      — Talvez por nós... Talvez pelo Dr. Khamal... Eu não sei. Só sei que acho que não devemos sair as duas daqui de dentro. Uma tem de ficar olhando atentamente lá pra fora. Acho que assim a coisa não vai desaparecer e nos deixar com cara de bobas se, quando voltarmos com os outros, a realidade lá de fora tiver sumido. O que acha?      — Mirabolante – disse Mara, cética.      — Talvez, mas é uma suposição objetiva. Pelo menos, para mim.      — Tudo bem, não entendo nada de druidismo, mesmo. O que quer fazer?      — É o seguinte: você fica aqui. Não tira os olhos lá de fora por nada deste mundo, está entendendo? Eu vou lá fora e trago todo mundo pra cá. Aí, juntos, decidimos o que vamos fazer. O que acha?      — Bem... quer dizer... Diabos, tá tudo muito confuso, eu não consigo pensar direito. Mas... mas... bem, talvez você tenha razão... – tartamudeou Mara.      — Então, tudo bem. Você fica. Não vai fazer nenhum mal, não é? Agora, prometa pelo que há de mais sagrado para você que não vai correr a se atirar pela janela tão logo me veja fora daqui. Promete?      — Prometo. Mas não demora, sim?      — Não. Só o tempo de convencer a todos a me seguirem. Tudo bem?      — Tá.      E Mara voltou à cama onde se sentou e ficou a olhar para o estranho e lúgubre maciço lá fora, recortado contra um céu azul fantasmagórico pela luz de uma lua cheia muito clara.      Ludmila abriu a porta e saiu... para o nada. Seu pé desceu no vazio e ela caiu com lancinante grito de pavor. Seu corpo bateu na copa de um coqueiro que se dependurava sobre o abismo e suas mãos agarraram-se freneticamente na grande palma da árvore solitária. Escorregou até quase a ponta da palma antes de poder fixar-se com todas as forças nela. A palma curvou-se perigosamente e a apavorada ruiva ficou pendendo sobre o vazio negro debaixo de seus pés. Uma das pantufas que calçava sumiu abismo abaixo e a moça sentiu o vento frio no pé descalço. Ela olhou para cima à procura do chalé. Queria pedir ajuda a Mara, mas seus olhos só viram a lapa escura e acima dela um céu iluminado pela grande lua cheia. Ludmila estava só, dependurada sobre um abismo sem fundo e num lugar absolutamente desconhecido.      Milena não se deitou. Tomou demorado banho de imersão, enxugou-se, penteou-se e sentou-se em confortável sofá, lado oposto à cama e de costas para a janela. Tinha uma xícara de chá de tília que preparara para si mesma na elegante chaleira de prata sobre a cômoda de pau-brasil e cedro-do-líbano. A bebida quente lhe revigorava o corpo. Em sua cabeça turbilhonavam as memórias daquele dia atabalhoado e sinistro. Sua vida, a ilha, tudo fora virado pelo avesso desde que aquela estranha repórter viera com ela. Milena meditou em com se haviam encontrado. Nas conversas e nos acontecimentos insólitos que lhes tinham acontecido durante o dia. A corcova no mar ainda lhe trazia forte emoção. O que teria sido aquilo? A milionária começava a achar que não fora uma boa idéia ter convidado Mara a vir até a ilha. Aquele seu cantinho paradisíaco nunca mais seria a mesma coisa depois daquela tarde macabra. Pobre e querido amigo Khamal, que fim trágico. Quem poderia advinhar que ele morreria em um dos locais mais belos do Brasil, Angra dos Reis, devorado por um bicharoco pré-histórico e antepassado dos feios dinossauros? Aquilo era inglório demais para um homem da estatura científica de Khamal. E de onde diabos surgira o maldito jacaré? Será que era o mesmo bicho que Mara fizera sair do esconderijo quando as duas subiam da praia? Milena inquietou-se diante da dúvida. E se houvesse dois deles? “ Não ” – pensou ela. – “ Eles são raros. Um já é uma probabilidade em cem. Dois? Eu não creio. Prefiro acreditar que o amaldiçoado réptil é um só. Mesmo assim, por que tinha de estar na ilha justamente agora, quando Mara, Khamal e os outros vieram? Talvez destino... essa coisa misteriosa que ninguém sabe definir ”. Seria seu destino ter sido a intermediária da morte para Khamal? Fora ela, afinal de contas, quem o juntara a Mara, na ilha. Fora ela quem lhe telefonara insistindo para que viesse. Se não tivesse tido a bendita idéia de chamá-lo, tudo poderia ter sido bem diferente. Ele não estaria morto. Esta linha de pensamento fê-la sentir-se culpada e Milena não gostou. Sacudiu a cabeça. “ Não, eu não sou culpada de nada. Também sou vítima. Como todos, aliás. Mara nem sabe do poder que possui. Eu não posso jogar toda a responsabilidade sobre ela. Aliás, nem sei se ela tem alguma... Oh, meu Jesus, é tudo tão confuso... A única verdade que eu tenho é que minha adorada ilha agora tem um morto. O resto são... são... como posso dizer? O resto são imponderabilidades. Talvez até eu tenha alucinado tudo... Não e não. Assim é negar demais, ora. Aquela corcova no mar eu vi bem claramente. Havia um bicho enorme sob a água. Seria o jacaré? Não, eu não o creio. Ele não nadaria tão rapidamente sob a água...      Milena levantou-se inquieta. Depositou a chávena de chá sobre a cômoda e ficou andando a esmo dentro da luxuosíssima suite. De repente sentiu-se extremamente frágil e só. Sentiu uma necessidade premente de ligar para seu noivo. Tomava consciência, agora, de que passara o dia querendo Luís Filipe a seu lado. A força dele, seu forte magnetismo e o seu alegre bom-humor preenchiam o espaço onde quer que estivesse. Milena queria demais que ele estivesse ali, a seu lado. Decidiu ligar para ele. Foi à cabeceira da cama e pegou o celular. Discou o número do rapaz e só ouviu estática e silvos estranhos. Depois da sexta tentativa ela desistiu. Jogou o celular sobre a cama e foi à janela. Abriu as cortinas para respirar ar fresco e decidir se acordava o seu piloto para que fosse à cidade buscar Luís Filipe. Talvez de terra firme fosse possível evitar a estática que interferia com o celular... Milena recuou de olhos esbugalhados diante do que viu lá fora. Aquilo não era possível. Aquilo não existia em sua ilha. Milena correu para o banheiro amplo e se olhou no espelho de cristal. Estava com as mãos geladas. “ Este banheiro é real. É o meu banheiro. E aquela lá no espelho sou eu. Estou em minha casa, na minha ilha. Aquilo lá fora não existe. Foi só uma alucinação. Estou estressada, é isto. Foi o stress deste dia horroroso que me fez ver aquela miragem. Eu... eu vou voltar lá e tudo terá desaparecido.      A moça respirou fundo fechando os olhos com força e, depois, resoluta, voltou à janela. Estava firmemente decidida a confirmar que o que vira fora pura alucinação de seus sentidos. “ Quando contar aos outros o que me aconteceu vão morrer de rir ” pensou e abriu as cortinas de supetão. Ficou paralisada e de respiração suspensa. Lá fora estava uma mulher que lhe acenava aflita, chamando-a insistentemente com gestos desesperados. Parecia que gritava, mas a milionária não lhe ouvia a voz. O vento que soprava forte não deixava que o som chegasse até seus ouvidos. O lugar era totalmente desprovido de árvores e só alguns coqueiros podiam ser vistos à luz da lua cheia. A mata nativa da sua ilha sumira como por encanto. Em seu lugar, pedras enormes e um chão arenoso que brilhava à luz do luar. Longe, um maciço impressionante. Atrás da mulher e bem distante, Milena pôde ver uma vila de casas de sapé. Muita gente andava freneticamente em torno de uma grande fogueira.      “De onde saiu toda aquela gente? E quem é a mulher que me acena tão aflita? Isto não existe em minha ilha... E aquilo lá fora não é minha bela ilha. Onde estão as árvores? Onde, o canil?”      Milena ficou a olhar perplexa para a estranha mulher. Ela estava descalça, desgrenhada e trajava uma roupa rústica. Apenas um vestido liso, sem enfeites e curto, acima um pouco dos joelhos. Ela lhe acenava e com a outra mão apontava em direção do estranho vilarejo. O espanto a pouco e pouco foi cedendo lugar à curiosidade. Coração aos pulos, boca seca e mãos geladas, Milena resolveu pular a janela. Precisava tirar aquilo a limpo. Seu intelecto negava peremptoriamente aquela visão. Seus sentidos tinham de estar errados. Não existia a mulher, nem a vila, nem o caminho entre as pedras escuras, nem o populacho que via dali. Cuidadosamente Milena tocou o chão com os pés. Era sólido, em que pese todo o seu conhecimento de chalé lhe afiançar que era impossível haver chão sob a janela de sua suite, construída a mais de nove metros de altura.      Dependurada na janela e segurando-se com força ao peitoril, Milena socou o chão com os pés. “ É sólido. Não é possível, mas é verdade. Como diabo a Psicologia explica uma alucinação tão concreta ?” Cuidadosamente a milionária firmou os pés no solo arenoso, embora segurando-se ainda firmemente no peitoril. O chão, contudo, era firme. Milena abaixou-se mantendo sempre uma das mãos no peitoril e apanhou um seixo do chão olhando-o contra a luz do luar. Era de mica. Sua ilha não tinha aquilo. Ela jogou o seixo para dentro da suite e o viu cair sobre a cama. Ainda o estava olhando fascinada quando uma mão forte lhe segurou o braço. Milena deu um pequeno grito de susto. Era a estranha que lhe estivera acenando lá de longe há poucos instantes. A milionária não teve tempo de dizer nada. Foi arrastada pela desconhecida e, absolutamente estupefata com o que lhe acontecia, viu, à medida em que se afastava na corrida forçada, que acabara de deixar para trás não a sua linda casa, mas uma rústica construção de pedra, com teto de palha de coqueiro, diante da qual uma grande rede de pescar estava estendida num varal.      — Espere! Pare! – gritou Milena safando-se da mão que a obrigava a correr. – Para onde me leva? O que diabos está acontecendo aqui? E quem é você?      — O ritual – gritou a mulher. – É preciso cumprir com o ritual. Você não pode fugir ao ritual. Sabe que seria uma desgraça. Venha, vamos logo. Estão-lhe esperando.      E a rude e desgrenhada mulher tomou-lhe o braço à força e a arrastou atrás de si até uma choça circular, onde entraram esbaforidas e cansadas de lutarem uma com a outra. À luz das velas feitas com cera de abelha Milena viu, surpresa, que trajava apenas uma grosseira e não muito limpa túnica de fibra grossa. Sua finíssima roupa de dormir havia desaparecido como sumira o seu chalé. Na choça ela viu mais quatro moças. Tão logo a viram, elas se puseram de pé e correram a despi-la e a limpá-la com toalhas molhadas. Atônita, a milionária se viu limpa e vestida com roupa de algodão simples – apenas uma túnica de enfiar pela cabeça, mas alvíssima e perfumada com alfazema. Em sua cabeça foi colocada uma coroa de flores roxas vivíssimas e seus cabelos foram trançados com pequenas flores brancas muito olorosas entre eles. Uma cinta amarela, de seda, foi cingida à sua cintura e em seus pés colocaram sandálias feitas de cetim, cujas tiras rosadas cruzaram à frente e atrás de suas pernas até à altura dos joelhos. Trouxeram-lhe uma bebida de cor escura e a fizeram engoli-la quase à força. Milena sentiu-se sonolenta. A partir do momento em que a bebida lhe caiu no estômago ela passou a sentir tudo em volta como se distante. Seu corpo não lhe pertencia. Sentia-se manipulada à vontade, mas não tinha a mínima capacidade de reagir. Pintaram-lhe as faces com um pó carmesim, defumaram-na com incenso e mirra e finalmente saíram arrastando-a pelas mãos. Alguém lhe enfiou pela cabeça um colar de flores amarelas, mas ela já não conseguia distinguir bem as pessoas. Andava como sonâmbula. Milena já não era dona de seu corpo, embora sua mente trabalhasse plenamente. “ Não pode estar acontecendo comigo. É um sonho. Um pesadelo. Vou acordar logo, logo ” pensava. Enquanto isso, as moças a entregaram a uma outra mais jovem, vestida toda de preto e descalça. A jovem lhe tomou delicadamente as mãos e lhe sorriu de modo carinhoso. Milena enterneceu-se com ela. Simpaticamente a moça lhe mostrou o caminho. A jovem postou-se à sua frente abanando um turíbulo de prata de onde saia uma fumaça azulada e muito cheirosa. Milena seguiu-a sem resistência. Atrás vinham as outras quatro que a tinham preparado daquele jeito esquisito. No meio do aglomerado de choças de pescadores, a pouca distância da praia, uma praça muito enfeitada com flores e tiras de fitas coloridas. Num tablado de uns dois metros de altura, uma figura esquisita, vestida como um ser mitológico, com cabeça de macaco, bico de águia e garras de tigre nas mãos, dançava ao som de tambores cujo ritmo frenético e tonitruante parecia vibrar dentro do corpo da milionária.      A coisa fixou-lhe um olhar desvairado e começou a chamá-la com as mãos cheias de garras. Milena sentiu o corpo mover-se independente de sua vontade, ao som dos tambores profundos. A princípio seu quadril só se mexia suavemente, mas o movimento foi ficando mais e mais acentuado e logo era um requebrado muito sensual e provocante. “ Eu estou dançando... Estou dançando contra a minha vontade... Isto é loucura... Não sou a dona de meu corpo... O que está havendo comigo? Não sei dançar o ritmo afro, mas estou dançando... e sinto muito prazer em fazer isto... É loucura! Vou acordar daqui a pouco em minha cama e nos meus lençóis de cetim e vou ver que tudo isto não passou de um pesadelo... É só isso, um pesadelo...      Seus quadris moviam-se freneticamente para a frente e para trás e o movimento era plenamente sexual. Suas mãos desciam-lhe pelo baixo-ventre e acariciavam maliciosamente o púbis por cima da saia que levantava até quase mostrar a calcinha. Sua cabeça inclinou-se para trás e ela sentiu a língua lamber voluptuosamente os lábios. “ Estou indecente. O que é que estou fazendo no meio destes bárbaros? Eles vão ficar excitados e vão-me atacar. Mas não posso parar, meu Deus, não posso parar. E isto é delicioso. Sinto um prazer profundamente sensual e excitante. Quero mais...      Sem se dar conta, Milena subiu o tablado pela rampa lateral. Os tambores recrudesceram nas batidas e ela se viu enrolando-se no corpo do homem fantasiado de monstro. Faziam movimentos de cópula em pé e Milena, apesar de censurar-se por isto, sentia muito prazer e muita excitação com aquilo. O homem sob a roupa estranha era muito forte e másculo. Milena podia sentir-lhe os músculos de aço sob a pele e aquilo lhe punha toda molhada no sexo. Ela desceu a mão por entre as pernas dele e lhe segurou o pênis. Estava ereto e era muito grande e grosso. Uma confusão lhe nublou o raciocínio. Queria copular quase animalmente. Ali em cima, à vista de todos. Queria que eles a vissem ser possuída pelo homem-monstro. Manteve a mão segurando o membro erétil do homem e dançaram assim por alguns momentos, ela o masturbando maliciosa e deliciadamente. O homem se contorcia e rangia os dentes. Pronunciava palavras que ela não entendia, mas compreendia que era um pedido de mais. Ela continuou a remexer-se colada a ele. O homem entrou em espasmos e ela sentiu-lhe o sêmen nas mãos. Estava suada e fascinada por tudo aquilo, embora, lá em seu mais profundo íntimo se censurasse horrorizada com o que fazia. Então, o homem a esbofeteou violentamente e ela foi atirada de costas no tablado. Sentiu o gosto de sangue na boca, mas ria idiotamente. “ Que diabo está acontecendo comigo ?” A milionária lutava para conseguir controlar-se, mas sem sucesso. Ainda estava excitada e tentava sem o conseguir levantar-se de novo. Seus dedos cravaram-se no tablado como as garras de um felino e ela olhava como se fosse uma onça, para o homem-monstro. Os tambores cessaram e os gritos da turba, também. O súbito silêncio a incomodou. Ela quis protestar e mandar que continuassem com a música, mas não tinha voz, As quatro moças subiram ao tablado e a levaram para cima de uma mesa rústica e muito fina. Ela foi deitada no madeiro cru. Uma mulher trajando uma roupa esfarrapada, cabeleira em desalinho e com muitas cãs, com uma horrenda máscara na face deu início a uma litania interminável cujas palavras a milionária não conhecia nem compreendia. Mas a gesticulação era feroz e acusadora e Milena sentiu medo. Seus braços foram amarrados e as suas pernas, também. Ela quis protestar, mas só conseguiu ficar na vontade. O corpo não lhe respondia. Sua cabeça foi erguida e um pequeno travesseiro de areia foi colocado sob ela, de modo que podia ver bem o seu corpo até os pés. A megera parecia ter grande raiva de Milena e gesticulava e invectivava contra ela, apontando-lhe dedos de unhas em garras naturais. Idiotamente, Milena começou a rir. A princípio era um riso bobo, fraco, apenas um riso desconexo. Mas aquilo foi num crescendo e logo era uma gargalhada estúpida e incontrolável. Ela brotava do mais profundo do ser da milionária. Para o intelecto da mulher aquele rir era descabido e até mesmo indecente, mas ela não conseguia fazê-lo parar. A megera aproximou-se e lhe aplicou dois sonoros tapas nas faces. Milena sentiu a dor dos bofetões, mas não pôde sustar o riso nem gritar. Com os olhos marejados, continuava a rir. A estranha mulher voltou a lhe bater. “ Mas que diabo esta desgraçada pensa que está fazendo ?” pensou a milionária e continuou a gargalhar estupidamente. “ Droga, isto está indo longe demais ” pensou a milionária. – “ Eu sinto dor e sonho não dói... Ou será que dói ?”      As moças se retiraram dançando voluptuosamente. Milena continuava a rir estupidamente. Aquilo já era um sofrimento atroz. A barriga já lhe doía horrivelmente, mas o riso não parava. “ Eu preciso acordar! Eu preciso despertar desta loucura...      A milionária sentiu que sua veste estava sendo retirada. O homem rasgara-a nos ombros. Fez um esforço sobre-humano e sacudiu a cabeça para limpar a vista. Conseguiu. O riso também diminuiu, para seu alívio. Era a megera que lhe arrancava o parco vestido. Quis protestar, mas sua língua ficou presa no céu da boca. Tinha a garganta seca. Duas moças vestidas de preto subiram ao palco e ela as viu aproximarem-se da mesa e se porem a girar duas alavancas situadas a cada lado de onde estavam suas pernas. Estas começaram a se abrir, expondo seu sexo aos olhos do povo lá embaixo.      “ Isto é indecente, suas canalhas. O que estão fazendo comigo ?”      Milena só conseguiu pensar, pois as palavras pesavam como chumbo em sua boca. As suas pernas foram abertas até quando ela sentiu a virilha doer. Tentou lutar para fechá-las, mas não conseguiu nada. Seus olhos fixavam o seu baixo ventre e ela queria chorar, mas só conseguia rir. A dor era quase insuportável. Ela se contorceu um pouco e foi só o que pode fazer. Então, o homem voltou. Desta vez vestia-se com uma pele de carneiro negro... Não, não. Era um bode preto. Milena podia ver acima da cabeça do homem a cabeça dissecada do bode e seus chifres enormes. Ele se aproximava diretamente entre suas pernas e trazia uma cobra preta e vermelha acima da cabeça. Aproximou-se e passou o réptil perto do rosto da milionária, conseguindo fazê-la parar de sorrir. Milena tinha pavor a cobras e aquela era horrível. Era particularmente repulsiva. Tinha olhos lúbricos e expressão maliciosa. O réptil fixava firmemente o sexo da mulher e a língua bífida parecia lamber avidamente a boca sem lábios. O homem deixou que o réptil tocasse o ventre da moça. O frio contato com a pele escamosa do bicho fez a moça se contorcer mais fortemente. O homem, então, olhou-a nos olhos e riu ferozmente. Depois, virou-se para o populacho e ergueu a cobra acima da cabeça. Uma tremenda ovação saiu do povo que se acotovelava lá em baixo. O homem-bode voltou-se ainda com a cobra ao alto. O réptil olhou Milena nos olhos e esta sentiu um misto de angústia e prazer. Não conseguia desviar a vista daquela coisa nojenta e, simultaneamente, sentia-se excitada. Então o homem aproximou-se de Milena, lentamente, enquanto o povo silenciava em expectativa. A cobra foi descida até ficar bem entre as pernas da milionária que a olhava com pavor e excitação ao mesmo tempo. Os olhos do réptil estavam fixos no sexo da mulher...      Tamara e Karina conversavam animadamente na suite que lhes fora designada. O assunto era a morte de Khamal. Tamara estava muito impressionada com o detetive Damastor e Karina não tinha simpatizado com Ivaldo. A seu ver, ele era o tipo de policial safado, mulherengo e vulgar. Tamara ria dos conceitos sem fundamentos de sua colega. O detetive era-lhes desconhecido. Como julgá-lo e rotulá-lo? Depois, o rapaz se mostrara ativo e muito solícito. Se não fora mais simpático talvez isto se devesse a que estava muito cansado. Quando se tem a glicose baixa no sangue, diz a ciência médica, o humor fica deprimido e o comportamento tende a ser desagradável.      — Você está sendo muito radical com o jovem companheiro de Damastor, Karina. Eu também notei que ele quase sempre manteve a face fechada e falou pouco, mas o próprio Damastor afirmou que ele é diferente quando descansado. Que tal esperar até amanhã, para ver melhor as coisas?      — É... Talvez você tenha razão. Eu tenho mesmo um pé atrás com policiais, confesso. Mas...      — Esse seu amigo, o detetive Damastor – cortou Tamara. – Ele...      — O que tem ele? – indagou Karina, curiosa.      — Bem, eu o achei simpático. E é muito... muito másculo. se me entende.      — Não, não entendo, não. O que você quer dizer com másculo? – e Karina olhou com sarcasmo para a companheira de quarto.      — Bem... Eu não falo no sentido sexual, se é o que está perguntando. Sua masculinidade está na postura do corpo... nos modos... nos movimentos... ele se move firme, decidido... enérgico, você me entende? Eu quero dizer que a presença dele preenche o ar... enche o ambiente. Há como uma força emanando de seu corpo... Uma aura de força... Fala com firmeza, com segurança e... e... e sabedoria. Enfim, ele é uma presença marcante. É isso aí: uma presença marcante.      Karina observou a amiga com um sorriso no rosto. Nunca, antes, a vira assim, tão entusiasmada com alguém. Mas se se impressionara com o detetive, então estava queimando suas fichas, Damastor era um homem de difícil convivência. Tinha uma vida muito agitada, muito enrolada, muito sobressaltada. Ele era polícia por vocação, não por opção.      — Damastor é desquitado – informou Karina. – A sua ex-mulher é muito bonita. Chama-se Penélope e têm um filho, acho que o nome dele é Polidoro. Está, se não me engano, com dezoito anos feitos. Tinham um outro, mais jovem, mas faleceu.      — Desquitado? Por que ele se separou da mulher? – interessou-se Tamara.      — Eu não sei bem, mas parece que o Kantor Antratos pagou a um desses galãs imbecis para que conquistasse Penélope. Foi um golpe muito feio e muito duro para o coitado.      — Sempre o Kantor, hein? Pelo visto, Damastor vem nos calos dele há muito tempo...      — É isto mesmo – disse Karina com um suspiro.      — O que você sabe mais a respeito do assunto? – interessou-se Tamara.      — Bem, é um negócio um tanto nebuloso. O que sei é que o detetive estava atrás de provas capazes de levar o meliante para ver o sol nascer quadrado, sabe? E ele incomodou muito o poderoso chefão. Vai daí, aquele crápula mexeu com os pauzinhos e colocou o detetive em escala constante e exaustiva. Ele passou a ser obrigado a ficar, às vezes, a semana inteira, vê se pode, dobrando o serviço e, logicamente, dormindo fora de casa. Quando conseguia vir pra casa chegava estourado, freqüentemente com 72 horas sem dormir. A vida conjugal deve ter ido pras cucuias. Vieram as brigas, as queixas e a inconformidade de Penélope com a situação. Aí foi que entrou o garanhão de aluguel. Boa lábia, ocasiões forjadas... motel. Penélope achou que estava apaixonada pelo salafrário e contou tudo ao marido. Com os nervos à flor da pele, totalmente estressado, Damastor armou aquele escândalo. Desceu o morro de uma vez e aplicou uma surra memorável na esposa. Depois – isto foi à noite – ele saiu de casa e foi dormir com uma garota de programa. Mandou a Delegacia às favas e ficou dois dias e duas noites com a moça bebendo e copulando. Neste meio tempo o tal conquistador barato apareceu morto a bala. O exame de balística provou que os projéteis tinham sido disparados pelo revólver de Damastor. Ele se viu em apuros com um processo de assassinato. Não se provou nada, mas todo mundo que viveu o drama afirma que foi o Kantor quem sustentou o processo em nome da família do desgraçado. Damastor investigava muitas trapalhadas do marginal e é lógico que a coisa foi armada e muito bem, pra cima dele. Só não foi expulso da polícia porque a moça se apresentou e depôs de livre e espontânea vontade em favor do detetive, inocentando-o com um álibi muito sólido. Na hora em que o IML afirmava que o meliante tinha sido assassinado ela declarou que estava no Motel com nosso amigo. Uma busca nos livros de registros e se constatou que a placa do carro do detetive estava registrada lá, naquele dia e que só saíra no alvorecer do terceiro dia. Os garçons se lembravam de o ter servido naqueles dias. Aí, a coisa melou. Quando devia prestar o segundo depoimento para confirmar o primeiro e esclarecer detalhes, a moça sofreu um acidente fatal. Aparentemente o seu carro perdeu os freios na descida da serra e ela, ó, danou-se. Depois de muitas peripécias, Damastor conseguiu flagrar o Delegado Amauri, Chefe da Delegacia onde ele servia, envolvido com a lavagem de dinheiro de tóxicos. O dono do Motel Três Corações, que viera prestar depoimento a favor do detetive, também sofreu um dano terrível. O motel pegou fogo e, embora não se tenha conseguido nenhuma prova, ficou a forte suspeita de que ambas as catástrofes ocorreram porque a mão de Kantor estivera em ação. A briga estava acirrada. Metralharam o carro de Damastor por cinco vezes, mas o homem tem um santo muito forte e escapou dos cinco atentados. Só em um deles é que saiu ferido. Foi quando elegeram para Governador do Rio de Janeiro um corrupto de marca maior. A bandidagem se soltou e os que lutavam pela justiça deram-se mal de verdade. Kantor estava por um fio, pois Damastor tinha arregimentado muitas provas contra ele. O corrupto, contudo, uma vez eleito com o apoio do meliante, tratou de safar o bandido do apuro. Damastor foi retirado do caso e transferido para uma Delegacia de quinta categoria na baixada fluminense. As provas sumiram.      — Puxa vida, que novela, hein? – admirou-se Tamara.      — É... Eu costumo dizer que eles, Damastor e Kantor, nasceram um para o outro.     &#