KOREAEBOOKDOCUMENT1.3.0O Mistrio de PargosFred FoldeBooksBrasileBooksBrasilQ ndice ndice na Obra O Mistério de Pargos – Vol. I Fred Fold Edição eBooksBrasil Versão para eBook eBooksBrasil.com Fonte Digital Documento do Autor Copyright: © 2001 – Fred Fold fredfold@ig.com.br O MISTÉRIO DE PARGOS VOLUME 1 ÍNDICE PRÓLOGO CAPÍTULO 1 A DESCOBERTA CAPÍTULO 2 A HISTÓRIA SE COMPLICA CAPÍTULO 3 SURGE UMA LUZ CAPÍTULO 4 O COMBATE CAPÍTULO 5 OS KAMURATTI CAPÍTULO 6 A VELHA DAMA CAPÍTULO 7 UMA LUZ PARA DAMASTOR CAPÍTULO 8 CRESCE A INTRIGA CAPÍTULO 9 A FORÇA OCULTA CAPÍTULO 10 SURGE UM NOME E TUDO SE COMPLICA CAPÍTULO 11 A OUTRA FACE DA REALIDADE QUE NÃO VEMOS CAPÍTULO 12 O ATENTADO PRÓLOGO        Existe, lá para os lados da França e da Suíça, um mistério secular. Este mistério, segundo pesquisa acurada e cuidadosa levada a efeito por Michael Baigent, Richard Leight e Henry Lincoln, persiste até nossos dias e tudo indica que continuará pelo próximo milênio. Sobre a pesquisa assim se pronunciaram o Canadian Jewish News: “um dos trabalhos mais importantes e provocantes dos últimos anos” ; e a Newsweek : “ ultrapassa em muito uma história de mistério ”, para citar somente duas dentre as fontes credenciadas que endossaram a pesquisa realmente digna de nota pelo conteúdo, pela profundidade e pelo zelo em apurar ao máximo a verdade.      O mistério tem uma designação: O Monastério do Sinai      O Monastério do Sinai foi fundado como uma Ordem Secreta pelos Templários e seu ano de nascimento, segundo os pesquisadores, data de 1090 e seu fundador foi Godfroi de Bouillon, Duque de Lorraine e conquistador de Jerusalém, a Terra Santa. Seu irmão mais jovem, Baudouin I, foi o primeiro Rei de Jerusalém após a conquista.      Baudouin I foi um rei eleito, isto é, ele não era rei por linhagem sanguínea. No entanto, René Grousset afirma que com ele passara a existir uma “tradição real” porque sua dinastia era fundada sobre A ROCHA DO SINAI . Por isto, este renomadíssimo historiador iguala a dinastia de Baudouin I àquelas de destaque na História e reinantes na Europa, tais como a dinastia francesa dos Capetos, a dinastia anglo-normanda dos Plantagenetas, as dinastias Hohenstauffen e Habsburgo, dominantes na Alemanha e no Sacro Império Romano mais antigo.      Quem ou o que é a Rocha do Sinai e por que tem o poder de conferir tradição real a uma dinastia que não a possúa por sangue?      A pesquisa de Michael Baigent e seus colegas concluem que ela é nada menos que o homem mais desconhecido, mais controvertido, mais polêmico e sempre em moda no mundo todo – Yoshua Bar Yosef, ou seja, Jesus, filho de José.      Derrubando uma montanha de mitos sobre este homem curioso e desconhecido, ainda que tão cantado e responsável por tantas seitas religiosas, muitas ferozmente sanguinárias – em que pese sua lenda sempre afirmar ter sido Ele o Senhor da Paz – o livro The Hole Blood and The Hole Grail leva-nos a uma conclusão fantástica: Jesus não morreu crucificado, foi casado com Maria Mdalena que, após a morte d’Ele, teria fugido para a França levando seus filhos.      A Rocha do Sinai , portanto, teria deixado descendência como qualquer mortal.      O Monastério do Sinai seria uma Organização Místico-Ocultista que teria por objetivo levar ao trono de Israel um descendente direto de Jesus . Mas o Monastério não foi criação de judeus e, sim, de arianos templários. Até porque para os judeus, Jesus não teve nada de sagrado e é considerado, até o presente, somente um homem. Quando muito lhe atribuem a condição de Profeta, embora a maioria o tenha como um agitador e um conturbador da paz.      Na luta milenar pelo poder, o Monastério tem enfrentado Papas e Reis, Imperadores e Tiranos, sempre mantendo seu objetivo em mira. Um dos seus membros mais famosos foi Richelieu, cuja importância para a França é notória. Richelieu era esoterista como todos os outros membros famosos que ocuparam o mais destacado cargo na Ordem, o de Nautonier , que, em francês antigo, quer dizer Navegador. Entre as personagens famosas da História Universal que se diz terem sido Grãos Mestres no Monastério podemos citar Nicolas Flamel, Leonardo da Vinci, Robert Fludd, Robert Boyle, Isaac Newton, Charles Radclyffe, Victor Hugo e Claude Debussy entre outros.      A França tem sido o palco onde se desenrola a novela do Monastério e chamamos a atenção para o fato de que antigamente a Suíça era um condado francês. No final do Séc. XIX o renascimento do ocultismo francês influiu profundamente em São Petersburgo, na Rússia, e o grupo de Papus tinha privilégios junto ao Czar e à Czarina russos. Esta situação privilegiada despertou muitas oposições e entre elas destaca-se a da Grã-duquesa Elizabeth que buscava colocar seus próprios protegidos nas graças do Czar russo. Entre estes protegidos sobressaiu Sergei Nilus. Este homem, em torno de 1903, entregou ao Czar um documento estranho que, segundo ele, continha supostos testemunhos de uma perigosa conspiração para a dominação do mundo . Parece que ele queria com isto angariar as graças do Czar, mas deu-se mal. O documento foi considerado ultrajante, sua destruição foi ordenada pelo Czar e Sergei foi banido da Rússia.      Embora ordenada a sua destruição, uma cópia de tais documentos escapou e foi publicada, ainda em 1903, por um jornal. Em 1905 voltou a ser veiculado, desta feita na forma de um livro escrito por um filósofo místico, Vladimir Soloviov.      Inicialmente ninguém deu atenção aos tais documentos, mas com o passar do tempo eles se transformaram em motivo de libelo feroz entre distintos povos e entre pessoas de destaque no mundo. Passaram a ser conhecidos pela denominação mais comum – Os protocolos dos Sábios de Sion . Desgraçadamente – não se sabe bem porque – atribuiram estes Protocolos a fontes judaicas e isto serviu para açular o anti-semitismo na época. Instigados pela leitura de documentos tão horríveis, o Exército Branco Russo responsabilizou a comunidade judia na Rússia pela revolução de 1917, e de 1919 a 1921 aquele exército massacrou em torno de sessenta mil judeus por isto.      Alfred Rosenberg, que foi o principal teórico racial e propagandista do Partido Nacional Socialista Alemão, divulgou os Protocolos na Alemanha e diz-se que Adolf Hitler acreditou piamente na suposta autenticidade judaica daqueles documentos.      Os protocolos têm sido discutidos no mundo todo, ora dados como válidos, ora provados como uma farsa odiosa. Eles pregam o domínio do mundo por uma facção judaica conhecida como os Sionistas.      Segundo os pesquisadores que vimos citando, ficou de fato estabelecido que os Protocolos foram escritos com base em um trabalho satírico escrito e publicado em Genebra em 1864.      A sátira visava atacar Napoleão III e quem a escreveu teria sido um homem chamado Maurice Joly, membro de uma Ordem Rosacruz. Tudo indica que ele era amigo de Victor Hugo e este era antipatizante de Napoleão III e foi Grão Mestre da Ordem do Sinai.      Notam os pesquisadores que o texto dos Protocolos terminam com uma única afirmação “ Assinada por representantes de Sion do 33 Grau ”. Isto é incongruente com a tese de que tais documentos teriam sido editados no Congresso Judaico Internacional de Basle. É na Maçonaria que existe o 33, além do que os Protocolos falam de um reino maçom com um rei de sangue de Sion.      Judeu ou não judeu, os Protocolos foram a causa de muitas lutas e muito derramamento de sangue humano – independente de raça ou credo. Negá-los pura e simplesmente pode ser perigoso. Ele teve o poder de influenciar um louco – Hitler – e talvez tenha sida um dos principais fatores causativos para a maior mancha na História da Humanidade sobre a Terra.      Megalomaníaco, os Protocolos, contudo, impressionam. Lamentavelmente as pesquisas indicam que eles mais parecem criação de Cristãos do que de judeus.      Por diversas vezes o Monastério se viu dividido. Dele nasceu a Maçonaria, a Rosacruz e muitas outras seitas e irmandades ocultistas secretas.      A mais secreta de todas, a menos averiguada, a mais fanática e a que ainda não foi descoberta por ninguém é aquela que tenta se guiar pelos ditames dos Protocolos.      Seu nome? A GRANDE NAHASH.      A história que se segue é uma ponta do véu que encobre a atuação desta Fraternidade cujo sonho de seus filiados é a obtenção da Vida Eterna sobre a Terra doada para eles, os escolhidos do Deus Único.      A história se passa no silêncio e à sombra da História, como é o normal para os acontecimentos realmente fundamentais para o Ser Humano. E tudo se inicia muito distante de Israel, no terrível drama de vida ou morte de um grupo de repórteres brasileiras... CAPÍTULO I A DESCOBERTA         As águas estavam serenas e azuis. Um pescador solitário lança a rede e a recolhe várias vezes, sem peixe. Pacientemente, ele continua sua faina. É de meia idade, forte, pele curtida pelo sol. Ao longe, vê-se uma ilha. É muito escarpada e os paredões rochosos mergulham direto nas águas azuis e escuras. Aqui e acolá branqueia uma pequena nesga de areia fofa formando estreitas prainhas. Arrecifes pontiagudos e perigosos cercam a ilha. São entremeados por escuras e lodosas pedras negras. Onde o homem se encontra, contudo, o mar é profundo e sereno. As águas sobem e descem num ritmo contínuo e macio, parecendo o pulsar de um coração. A uma pessoa desacostumada, aquele subir e descer ao ritmo de uma respiração, como se o barquinho estivesse sobre o tórax de um imenso gigante adormecido, meteria medo. Mas aquele pescador nem parece notar o portento sob seus pés. Concentra-se todo no ato de jogar a rede e recolhê-la metodicamente. Ela lhe vem sempre vazia, mas ele não desanima. Com a paciência característica de todos os que vivem do mar, volta a arremetê-la com a mesma precisão da jogada anterior talvez, agora, pela centésima vez. O barquinho sobe e desce e, a cada vez, o homem se sente mergulhado dentro de uma imensidão de água que lhe retira a visão momentaneamente de tudo a sua volta, encurtando-lhe o horizonte por alguns instantes. Numa das subidas do barco o pescador vislumbra algo. Um monte de sargaços preso às pontas agudas das pedras negras que sobressaem das águas, a uns cento e cinqüenta metros de onde se encontra. Teve a impressão muito rápida, quase subliminar, de que algo se mexeu dentro dos sargaços. O pescador firmou a vista e tapou o sol com a mão espalmada sobre os olhos, esperando o barquinho voltar a subir numa nova inspiração do mar. Sim, há algo estranho entre os sargaços. Recolhe a rede apressadamente e rema até bem próximo dos perigosos escolhos. No alto, as gaivotas fazem um grande alarido, mas o homem nem as nota. Com dificuldade amarra a embarcação em uma das pontiagudas e negras pedras e salta n’água. Braçadas vigorosas o levam até o balseiro que desvencilha das pedras com o auxílio de uma faca afiada e o reboca, a nado, até o barco. Já na embarcação, o homem olha para o meio dos liames escorregadios. Sim, ali está. Numa pequena cesta de junco seco ele enxerga um corpinho de criança. Cuidadosamente o pescador recolhe o pequenino ser. É uma menininha e está muito ferida. O homem a deposita no fundo da embarcação e começa a remar com força. A criança arde em febre e aparenta ter sede. A garganta lhe dói muito. Gostaria de chorar, mas não pode. O sol lhe queima os olhinhos e ela “sabe” que há um enorme perigo para o homem e a ilha. O perigo vem com ela. Sabe de tudo, mas não pode falar. Nem mesmo chorar o choro preso em seu ser. Ela “vê” uma enorme jamanta arrastando-se silenciosamente sob o barco. Nas costas do gigantesco mamífero aquático há um desenho. É um rosto. Um pavoroso rosto de mulher. Desgrenhada, horripilante, a mulher olha o barquinho com maldade. A menininha “sente” que está no meio de um furacão... Enormes labaredas saem das águas e sobem... sobem... estão atingindo o barquinho! Ela está em pânico. Precisa desesperadamente gritar...      Mara senta-se na cama, olhos esbugalhados, molhada de suor. A boca desmesuradamente aberta não solta nenhum som. A expressão é de pavor. Demora alguns segundos antes de compreender que está em seu quarto, na sua cama, não em um barquinho à deriva, num mar de fogo. A moça curva a cabeça e respira profundamente, tentando acalmar o coração. Ele bate descompassadamente no peito, a ponto de lhe atrapalhar a respiração. “Calma, rapaz, calma” – diz de si para consigo – “foi só um sonho mau.... Já passou!” Levanta-se com dificuldade porque o corpo treme muito. Vai à cozinha e toma um copo d’água do filtro de parede.      — Droga! – pragueja em voz baixa e rouca – mais uma vez este maldito pesadelo. Eu já devia estar acostumada, afinal ele me persegue desde que nasci. E pára sempre no mesmo ponto. Oh, meu Deus, isto é enervante!      Ela volta à sala ainda com a mão sobre o peito. Sai para a varanda. Quer o ar fresco da madrugada. Talvez lhe acalme o ser. Veste um “ baby-doll ” preto e muito transparente e não tem roupa de baixo. O púbis de pelos escuros se delineia entre as coxas, mas ela não se incomoda. Mora no vigésimo andar e são quase duas da madrugada. Todos dormem e não há nenhum edifício à frente para que um “ voyeuriste ” com uma luneta indiscreta lhe esteja bisbilhotando a intimidade.      A vista que descortina é muito bonita.      Seus olhos vagueiam pela cidade adormecida. Em baixo, no viaduto Paulo de Frontin, os carros passam silenciosos. Vê as luzes traseiras vermelhas e amarelas. “ De onde estarão vindo ou para onde estarão indo ?” – interroga-se sem poder encontrar resposta. Lá ao longe há um morro iluminado. Visto assim, parece estar coberto de inocentes estrelas caídas ao chão, umas mais brilhantes, outras, nem tanto. “ Quem sabe, venham a noite fazer traquinagem na terra, enquanto as pessoas dormem ?” – pensou Mara e sorriu. Não, ela sabia que não. Em cada um daqueles pontos luminosos um drama se desenrolava silenciosamente. Talvez alguém estivesse sendo assassinado como queima de arquivo. Talvez uma criança estivesse sendo estuprada por um marginal tarado. Talvez alguém estivesse apanhando uma surra injusta, imposta pelo álcool que tirara a razão de outro alguém... Desviou os olhos do morro para um amontoado de pequenas luzinhas distantes. Outras luzinhas coloridas subiam e desciam como se fossem anjos indo e vindo da terra ao céu e deste à terra. Mara sabia que eram aviões chegando e saindo do Aeroporto Internacional do Galeão. A aragem da madrugada lhe refrescara o corpo e acalmara a agitação, mas o sono se fora e isto a irritava. Lembrou-se de sua terapeuta e um pensamento maldoso passou-lhe pela cabeça. “ Eu devia acordá-la e azucrinar-lhe a cabeça com o meu pesadelo. Ela tem de sair desta história de autopunição por problema edípico mal solucionado. Não creio nisto. O sonho é muito real, quase sinto o sol a me queimar... E o homem... o pescador. Ele é tão real, tão palpável... Acordo sentindo ainda suas mãos em meu corpo... Sim, sou aquela menina. Sou ela, tenho certeza. Mas meu pai jamais foi pescador. Que eu me lembre, nunca pegou num anzol, sequer. Era professor e químico. Passou a vida entre a sala de aula e as retortas do laboratório. E a ilha?... Jamais estive em uma ilha igual àquela. Nem sei de nenhuma que se pareça com ela. Acho que nunca vou encontrar em algum lugar na Terra algo daquele jeito. E no entanto, coisa absurda, sinto que ela existe. Só não sei onde. Santo Deus, isto vai deixar-me louca !”      Voltou à sala e ligou a TV, um enlatado de terror. Mudou o canal, um melodrama de 1950, desligou o aparelho, chateada. Queria ver alguma coisa diferente... mas o quê? No íntimo, sabia que nada que a Televisão apresentasse lhe agradaria. O que desejava era ver a ilha. E certamente isto nunca iria aparecer na telinha mágica. Foi ao banheiro e tomou uma ducha bem demorada. Enxugou-se e, nua, dedicou-se à prática dos belíssimos e harmoniosos movimentos do TAI-CHI-CHUAN. Engolfada pela magia dos suaves movimentos, Mara nem percebeu que o dia clareava de mansinho, como se não quisesse perturbar o poético quadro de seu corpo esguio e leve na dança da arte marcial. Ouviu o barulho da fechadura da porta a ser aberta e compreendeu que sua empregada acabava de chegar. Vinha pontualmente às 5:30 da manhã. Ouviu-a ligar o radio, baixinho, para escutar seu programa matinal predileto. Ouviu-a mexendo nos utensílios e ligar o gás do fogão. Ela preparava o desjejum. Mara ouvia tudo, mas sem perder sua harmonia. Foi até o fim do exercício que terminou suada e totalmente desperta. Voltou ao banheiro para uma nova ducha. Enxugou-se, foi ao quarto e vestiu-se com simplicidade. Fez uma maquiagem leve, que punha em realce seus olhos escuros levemente oblíquos. O conjunto branco de saia e blusa fazia sobressair suas curvas suaves. Ela detestava a coqueluche da moda – o tênis. Não possuía nenhum par. Calçou uma sandália vermelha, de estilo romano, colocou um batom quase de tom natural dentro da sua bolsinha de maquiagem. Fez a mesma coisa com o blush, o lápis de sobrancelha e a bolceta de moedas; a caneta esferográfica, o talão de cheques e os três cartões de crédito foram parar dentro da bolsa a tiracolo que pretendia levar e se deu por satisfeita. Mirou-se no espelho e alisando os quadris com um gesto voluptuoso inconsciente, sentiu-se maravilhosa e muito bem consigo mesma, foi para a sala de café, embora sem conseguir afastar de todo a lembrança vívida das imagens do mau sonho.      Comeu com apetite. Joana, a doméstica, uma senhora idosa e de pouco falar, não apareceu. Finalmente, tomou o suco de laranja, levantou-se e saiu sem se preocupar com a velha companheira de quase vinte anos de trabalho a seu lado. Joana praticamente a criara. Sabia de seus gostos, de suas manias, de tudo. Sabia o quê, o como e o quando fazer as coisas no apartamento. Mara não lhe tinha de dar ordens e isto a alegrava muito. Joana era caladona por natureza. Raramente conversavam e seu prazer maior era ouvir o rádio. Às vezes acontecia de passar semanas sem se falarem. Algumas, até mesmo sem se encontrarem. Isto não incomodava em nada a nenhuma das duas. Mesmo assim, cada qual sentia o profundo afeto que nutriam mutuamente.      Enquanto Mara descia no elevador em direção à garagem, do outro lado da cidade, no Leblon, uma ruiva cheia de curvas acentuadas, alta, olhos caramelados como os de uma gata e olhar sensual como o de um animal no cio acabava de sair em seu carro esporte. Ludmila tinha voz macia e insinuante, parecendo estar sempre a prometer algo que ela não estava disposta a dar – prazer. Vinha preocupada com sua companheira de reportagens, Karina, que sofrera um atentado e estava de cama, curtindo um forte resfriado. Ambas trabalhavam na “policial” e a ruiva não desejava, justo agora, ficar sem a parceira. Precisava colocar alguém no lugar dela, mas na seção não tinha nenhuma outra que lhe merecesse a confiança. Havia uma colega, mas da “social” e, para seu azar, a moça não ia com sua cara. Chamava-se Mara e Ludmila simpatizava muito com o modo caladão, discreto e arredio da sua colega de trabalho. Embora fosse muito discreta, a moça já demonstrara que tinha um faro infalível para sacar notícias sensacionalistas onde todos não conseguiam ver nada.      Mara ainda estava com o pensamento no pesadelo quando, saindo do elevador, no vigésimo primeiro andar da redação de “EL MONDO”, deu um encontrão em Ludmila.      Elas não eram muito amigas. Mara achava a outra fútil e não gostava da seção em que Ludmila trabalhava – a “policial”. A convivência acentuada com a violência, o crime, a corrupção e a miséria humana do submundo da pobreza fabricada pela desídia dos políticos e dos cartéis da indústria, do comércio e dos bancos, tudo fazia com que os repórteres da seção policial adquirissem modos de agir, comportamentos e linguajar absolutamente desagradáveis a pessoas do tipo de Mara, pacata, refinada e sonhadora.      O encontrão pegou Ludmila de surpresa. Ela se desequilibrou e quebrou o salto do sapato. Pior que isto, esparramou pelo chão o conteúdo da pasta que sobraçava.      — Lud... Meu Deus, desculpe-me!      — Tinha de ser você, né desajeitada? – falou ácida a repórter policial.      — Eu sinto muito, mesmo. Não foi por querer. Eu vinha pensando... Oh, deixe-me ajudar, por favor.      As mãos puseram-se a juntar a papelada.      — Você sabe da última? – indagou Ludmila e Mara pôs-se imediatamente em alerta. Qualquer coisa no timbre de voz da outra estava errado, mas não captou o que fosse.      — Que última? – perguntou, desconfiada.      — A Karina arriou com um baita resfriado – disse a ruiva a olhar deliberadamente para o chão.      — Isto não é furo jornalístico – rebateu Mara, entregando-lhe os papéis que juntara – todo mundo pega um resfriado vez por outra, ora essa.      — É, mas poucos têm a felicidade de trabalhar a meu lado – falou quase num sussurro, a ruiva.      Os pelos da nuca de Mara se arrepiaram como os de um gato à aproximação de um cão. Ela não compreendeu porque este sinal de alarma.      — Pode ser que você veja este... acidente de trabalho como uma felicidade. Mas para a mosca, felicidade é viver no lixo... – disse Mara maldosa e provocadoramente.      — Por acaso está-me chamando de... lixo? – Os olhos de Ludmila fuzilavam. Havia perigo no ar. Mara se deleitou por perceber que conseguira atingir a outra.      — Que absurdo, querida. Quis apenas dizer que o conceito de felicidade não é a mesma coisa para todos.      — Ah, bom... Pois eu espero que você não identifique nem a mim, nem ao meu trabalho com... com lixo, sabe, meu amor?      Antes que Mara pudesse dizer algo, Ludmila saiu coxeando e rindo de modo incompreensível para a moça. Mara ficou a olhá-la com ar preocupado. Ludmila devia ter ficado doida de raiva, como era o seu natural, quando provocada. Era o que se poderia normalmente esperar da ruiva, não aquele riso. Na opinião de Mara, quando Ludmila ria era porque o Diabo estava em festa. Ficou olhando por algum tempo a porta do banheiro por onde a ruiva desaparecera ainda sentindo a nuca arrepiada. Seu bom humor tinha sido nublado.      Resolvida a não se deixar deprimir com o estranho comportamento de sua colega, Mara entrou decidida em na seção em que trabalhava.      — Bom-dia, gente! – cumprimentou esfuziantemente a todos e foi direto para a mesa que lhe era destinada. A primeira coisa que fez foi rebuscar atentamente entre a correspondência recebida, mas não encontrou o que esperava. Ela solicitara, há duas semanas, transferência à revelia de Jasão, seu chefe atual. Desejava ir trabalhar na seção de pesquisas históricas e arqueologia. O arquivo daquela seção era riquíssimo e em seu íntimo Mara esperava encontrar lá qualquer pista que lhe possibilitasse descobrir alguma coisa relativa àquele pesadelo que lhe atormentava as noites. Mas a comunicação da transferência aguardada com ansiedade não chegara. Aquilo a irritou bem mais do que gostaria de admitir. Agora, francamente mal-humorada, mergulhou na leitura da papelada que não conseguia despertar seu interesse. Ligou o terminal de vídeo e puxou as últimas notícias e as ordens do dia. As telas se sucediam diante dos olhos, mas sua mente nada registrava. Uma longa série de reminiscências sucediam-se no “ écran ” de sua memória. Naquele momento recordava de seu aniversário de sete anos. Fora uma festa muito bonita. Ganhara de seus avós paternos uma boneca que falava e ria – a boneca de seus sonhos. Das dezenas de presentes, aquele fora de imediato o seu preferido. Passara o dia todo com a boneca debaixo do braço. Trocara a roupinha da Gisele – este o nome que lhe dera – uma centena de vezes. À noite, dormira com ela a seu lado. E foi justamente naquela noite que tivera o seu primeiro pesadelo. Estava no jardim da casa e procurava aflita pela querida boneca. Ela sumira. Sabia que Gisele estava dentro da casa, mas temia ir lá. Procurava por ela buscando convencer-se de que iria encontrá-la ali fora, no jardim. O tempo foi mudando, escurecendo, esfriando. O jardim fora-se modificando. Agora era todo de pedras escuras e de algum lugar vinha o barulho do mar. Um barulho feio, cavo, como se as ondas batessem em rochedos muito profundos. Um barulho ameaçador. Começou a correr à procura de seus pais, já não mais querendo encontrar Gisele. Sabia – e não podia compreender como – que ela era um perigo mortal. De repente, estava numa praia estreita de areia muito branca e ladeada por incríveis paredões de rocha negra. O mar à frente era escuro e subia e descia como se fosse o peito de um gigante. Ela sabia que teria de se afastar dali, e depressa. O perigo vinha do mar. Quis voltar, porém, ao virar-se, deu de cara com Gisele. Estava horrível: desgrenhada, roupas acinzentadas e muito, muito sujas, unhas enormes e nariz adunco, demasiadamente grande para o rosto horrivelmente aquilino. A boca era de lábios pálidos, finos, cobrindo dentes separados, enegrecidos mas fortes. Gisele soltava uma terrificante gargalhada e estendia os braços, aqueles braços magros, ossudos e peludos, em sua direção enquanto dizia: “ venha para mim ou morra !” Acordou aos gritos e foi a muito custo que seus pais conseguiram fazê-la calar. Não mais dormira aquela noite e no dia seguinte dera a boneca para a primeira criança que passara na sua porta.      Uma folha de papel caiu à sua frente e a moça sobressaltou-se como se um bicho muito feio tivesse pousado sobre o tampo de sua mesa. Deu um gritinho abafado e quase pulou fora da cadeira.      — Droga, Júlio, não podia colocar isto de modo mais...      Seus olhos leram as primeiras frases do memorando e ela se calou, arregalando os olhos. Ali dizia:      “DO: Chefe da Seção      PARA: A Repórter Social Mara S. Kastan Este chefe designa a repórter supracitada para substituir a repórter policial KARINA P. LAURIEL, por uma semana, junto à repórter policial LUDMILA MAKLESTER TRUNNIAN. A dupla deverá fazer a cobertura do seqüestro do filho do banqueiro KAMURATTI, ocorrido hoje, às seis horas da manhã, quando ele chegava de uma noitada pelas casas noturnas da cidade. A reportagem deverá ser conduzida pela repórter policial LUDMILA, devendo a repórter social somente prestar-lhe apoio no que ela necessitar .”      O memorando (uma Ordem de Serviço Interna, para ser mais preciso) vinha assinado por Jasão. A raiva que rugia surda no peito de Mara explodiu. Levantou-se num ímpeto e foi direto para a sala de seu chefe, um jovem bem apessoado, meio chegado a um rabo de saia e que tinha uma queda toda especial por ela. Entrou sem pedir licença e foi postar-se junto à mesa de Jasão.      — Pode-me explicar que diabo é isto? – perguntou raivosa.      — Uma O-S-I assinada por mim. Qual é o seu problema? – respondeu o rapaz olhando significativamente para a porta da sala.      — Qual é o problema? Qual é problema?? Você sabe muito bem que eu detesto a Seção Policial... – começou dizendo a repórter, mas foi cortada a seco por Jasão.      — Correção: você detesta a Ludmila. Mas aqui não há como recusar missões. Vocês são empregadas para cumprir o que o Jornal quer e não para dar vazão a chiliques pessoais. Karina está doente e você foi requisitada pelo chefe da Seção Policial a pedido da própria Ludmila que lhe fez um elogio, diga-se de passagem.      — Tô me lixando para o que ela disse de mim, aquela... mulherzinha sem compostura! Não quero trabalhar com ela – quase gritou Mara com olhar ferino.      — Lamento, mas já está designada – rebateu Jasão sem se incomodar com a zanga da moça. – Se eu estivesse em seu lugar, pegava a bolsa e ia atrás de Ludmila. Ela está a postos para sair tão logo você chegue lá. A notícia não pode esperar, lembre-se desta regra – a primeira que um repórter aprende.      Mara ficou sem palavras. Engasgou, tentou falar, entupiu e terminou por rodar nos calcanhares e sair frustrada e furiosa. Mal chegou à mesa e o seu ramal começou a tocar insistentemente. Atendeu de mau humor e ouviu a voz de Perseu, o chefe da Seção Policial.      — Mara? Está atrasada. Ludmila só está esperando que chegue, para saírem. O que há?      — JÁ ESTOU INDO! JÁ ESTOU INDO! DROGA! – gritou Mara ao bocal do aparelho, desligando-o com violência.      Perseu afastou o fone do ouvido e sorriu. Também sabia da rivalidade entre as duas, mas ambas eram excelentes repórteres. Juntas, a luta de uma para suplantar a outra era intestina. O jornal iria lucrar, pensava. Odiavam-se, mas nenhuma sabotaria o trabalho da outra. Eram profissionais competentes e responsáveis.      Ludmila, sentada à mesa, polia as unhas com um ar de satisfação. Não moveu nem um músculo quando Mara irrompeu como um furacão.      — Pronto, cheguei. O que falta, agora? – falou a jovem provocadoramente.      — Um pouco de bom humor seria bem-vindo – respondeu Ludmila, apanhando a bolsa e pondo-se de pé.      — Não dá. Você estragou tudo quando me requisitou para ser sua companheira em lugar da Karina. Pode me ter a seu lado, mas não terá meu bom humor, isto eu garanto. Vamos!      — A mim me basta sua cooperação, queridinha. E para começar, entenda quem é que manda: eu. E quem pode dizer “vamos” sou eu, compreende?      — Ora, vá a...      — Não diga! Não diga que eu posso me aborrecer. Vamos!      E Ludmila saiu lépida, deixando Mara ainda mais irritada.      “ Você me paga, ruivinha safada. Não perde por esperar ”, dizia de si para si a furibunda Mara indo no encalço de sua “chefa” momentânea... Já no automóvel de Ludmila que corria habilmente por entre aquele trânsito caótico da Avenida Presidente Vargas em busca da Rio Branco, Mara fechava-se em copas e olhava carrancuda para fora, para a confusão de pedestres e metal sob o sol quente já às sete e trinta da manhã.      — Vai ser um dia danado de quente, não acha? – puxou conversa Ludmila.      — Hum-hum – fez Mara, desinteressada.      — Ora, vamos, Mara. Sei que você não gosta de nós, da Policial. Mas é o nosso ganha-pão – disse a ruiva, tentando um apaziguamento que parecia estar longe de conseguir.      — Se sabe que não gosto de vocês, por que diabos me pediu?      — Porque eu gosto de você – respondeu Ludmila.      — Lésbica, não. Nem vem que não tem – ripostou a morena furiosa.      — Mas que cabecinha podre, hein, colega? – riu Ludmila.      — Não costumo receber declarações de amor de pessoas de meu sexo, minha cara. E sempre desconfiei das que fazem isto a alguém – provocou a morena beligerante.      — Deixe disto. Sabe que não sou chegada. Quer somente me provocar, não é? Eu não estou a fim de briga. Se estivesse, você teria de me pagar o salto do sapato quebrado por sua causa, hoje de manhã, esqueceu? – tentou apaziguar a ruiva.      — Eu gostaria que tivesse sido sua cara. Pagaria com satisfação uma plástica – rebateu Mara, azeda.      — Mas não foi. E já que está a fim de pagar, então, pagará pelo salto. Mas fará isto depois. Hoje eu estou boazinha, viu só?      Mara fuzilou a colega com um olhar felino.      — Calma, menina, calma. Não sou nenhum bicho-papão, ora bolas – disse Ludmila, jogando habilmente o automóvel para a direita e se esquivando de um taxi intrujão. Mara, em que pesasse o mau humor, começava a admirar a habilidade da outra no trânsito. Ela mesma não faria melhor.      — Você sabe quem é Kamuratti? – indagou Ludmila apaziguadoramente e querendo mudar de conversa.      — Claro que sei. Esqueceu que trabalho na Social? Os socialities são meu pão-nosso-de-cada-dia.      — Você não parece gostar de seu trabalho... ou será que estou enganada?      — E o que tem isto? Se gosto ou não, você não pode fazer nada, mesmo.      — É ... – a ruiva fez uma pausa pensando em como entrar no assunto que lhe interessava. – O que acha? – perguntou de supetão.      — Acho sobre o quê? – estranhou a outra.      — Acha deste seqüestro. Este que estamos indo cobrir.      — Nada. Mais um rico que se estrepa, só isto.      — Não, não é bem isto. Mara, tem havido muitos seqüestros ultimamente. Mas no grupo em que se mexeu agora... Os Kamuratti pertencem a uma... uma...      Ludmila hesitou procurando a palavra certa.      — Uma o quê? – inquiriu Mara, curiosa.      — Uma... uma confraria. É, é isto mesmo: uma confraria.      — Você quer dizer que são algo assim como... maçons?      — Não e sim.      — Não entendi.      — A maçonaria é uma confraria, sim. Mas até onde se sabe é voltada para os bons princípios e a Moral. Já a confraria a que os Kamuratti pertencem...      — Você está fazendo jogo para me despertar a curiosidade, não é? – perguntou Mara, desconfiada.      — Não. Eu, particularmente, tenho andado me metendo em saco de gatos, sabe? Nem mesmo a Karina tem conhecimento de minhas... atividades sherloqueanas , compreende? E descobri algo que me deixou intrigada e...      — E...?      — E com medo. É, eu estou com medo.      — Com medo de quê? – Mara fora pescada. Seu mal humor desaparecera completamente. Agora, seu faro de repórter estava aceso.      — Do que ainda não conheço, mas sinto que é muito grande – e Ludmila lançou um olhar de esguelha para sua parceira antes de continuar. – Mara, antes de prosseguir falando, eu quero pedir a você que não comente nada com ninguém sobre nossa conversa. E... pode parecer estranho, mas quero que você me ajude nisto... Pode ser?      — Eu não falar nada... Eu lhe ajudar nisto? Que isto? Está de miolo mole, é? Não gosto de encrencas, Ludmila. E esse negócio de que você fala está-me parecendo encrenca da grossa.      — E talvez seja. Talvez seja, eu ainda não sei – falou preocupada a ruiva sem tirar os olhos da rua.      — Por que não conta seja lá o que for que quer-me falar, à Karina? Afinal, vocês trabalham juntas há dois anos. Deviam ser unidas, não é? – tentou esquivar-se Mara.      — E somos. Mas Karina não sabe guardar segredo. É repórter fanática, Se descobrisse que a mãe corneava o pai, mesmo sabendo a desgraça que iria causar, colocaria a notícia na primeira página, desde que fosse um furo.      — Isto eu compreendo, mas ainda não está claro o motivo...      — De eu lhe ter escolhido? Simples. Você é pacata, discreta e... não tão fanática pelo jornalismo.      — Como pode saber disto?      — Eu trabalho na Policial, não esqueça. Cinco anos ali é tempo suficiente para se pegar algumas... manhas, entende?      — Quer dizer que tem andado me... me investigando, é?      — Desculpe a franqueza, mas sim.      — Desculpo uma ova! Eu detesto que me bisbilhotem – explodiu a morena.      — Oh, Mara, que tal uma trégua, hein? Eu estou pedindo sua ajuda. Isto não é um ponto a ser considerado?      — Mas você acaba de confessar que andou bisbilhotando minha privacidade – protestou Mara.      — Não, não. Eu só andei pesquisando certos aspectos seus. O que quer que tenha a esconder, pode ficar sossegada. Eu não fui tão longe. Afinal, também tenho escrúpulos, sabia?      — Espero que sim – disse Mara, pensando em seus pesadelos. Se a ruiva tivesse tomado conhecimento de suas sessões de análise certamente teria ido fundo para descobrir o motivo. O pessoal da Policial faz de tudo para descobrir a razão das coisas. Às vezes, por um pequeno senão, acertam em cheio e conseguem um furo. Ela fazer análise não era furo jornalístico, claro. Mas ela ser neurótica de pedra... Isto era um trunfo muito bom para chantagear num momento como aquele.      — Chegamos – avisou Ludmila. Mara deu-se conta do casarão a frente, onde um enxame de repórteres já se acotovelava na entrada. Junto com eles, a indefectível polícia com a rudeza de sempre. “ Numa hora como esta, quem será mais chato para a família: os repórteres ou os policiais? ” – pensou Mara com olhar crítico para seus colegas de outros jornais que enxameavam ali fora.      — Hei, acorda! Vamos! O trabalho nos espera.       Ludmila saltou lépida, embarafustando-se por entre a multidão que se acotovelava à entrada do portão. Mas mesmo a credencial do “EL MONDO” não foi suficiente para fazer o capitão comandante, carrancudo e truculento, deixar que elas passassem além do cordão de isolamento. Ludmila tomou Mara pelas mãos e voltou célere ao automóvel.      — O que houve? – Mara estava um tanto aturdida. Era a primeira vez que se via num trabalho daqueles e tudo lhe parecia confuso e caótico. Ludmila não disse nada. Abriu o porta-malas do auto e dele retirou uma pequena valise. Meteram-se no carro e ela fechou os vidros escuros, que dificultavam a visão de quem estivesse observando de fora.      — O que vai fazer? – perguntou Mara, atônita.      — Entrar lá e ter uma entrevista com os velhos Kamuratti – respondeu Ludmila com naturalidade.      — Mas como? – espantou-se Mara arregalando os olhos. A outra devia estar doida. Não tinham como passar pela guarda.      — Você vai ver. Sabe maquiar? – e Ludmila sorriu do espanto de sua colega.      — Sei.      — Tome esta foto. É da moça com quem o raptado namorava e com quem esteve na noite do sumiço. Veja, parece-se comigo no corpo. Só que é morena e eu, branca como uma banana descascada.      — E...?      — Você vai ajudar na minha transformação. Nesta valise tem tudo de que precisamos. Mãos à obra!      E Mara se viu envolvida numa ação cinematográfica que simplesmente a impressionou. Logo estava toda mergulhada na ação, com o coração a mil. Diante de si, Ludmila se transformava na mulher da foto. Uma cópia razoável. Peruca, pinturas e... pronto. Mesmo ela, Mara, se encontrasse Ludmila na rua, não a reconheceria. Óculos escuros ajudavam a esconder os olhos claros da colega. Um xale foi jogado sobre os cabelos de Mara e um par de óculos com alguma pintura dourada nos cabelos para parecer mais velha foi o disfarce providencial.      — Isto confunde. Agora, ação! Vamos lá!! – e a ruiva deu um tapinha na espantada colega que continuava aparvalhada a se olhar e a olhar para a outra ainda assustada.      Ludmila arrancou com o carro. Deu uma volta no quarteirão e voltou direto para o portão. O coração de Mara batia a mil por hora. Aquilo era uma loucura. Iam ser detidas. Iam ter complicações com a polícia e o jornal teria de arcar com as conseqüências...      — Pare! Quem é a senhora? – Era a voz do capitão carrancudo.      “ Estamos fritas ” – pensou Mara arrepiando-se de medo.      Ludmila pôs o rosto para fora somente o suficiente para o capitão lhe ver a face oculta atrás dos óculos escuros. Mara ouviu-a dizer em voz clara:      — Sou a noiva do Dr. Anteu Kamuratti. Preciso entrar.      — Não pode. Temos ordens expressas para não deixar passar a ninguém.      — Quer perder seu posto, capitão? – disse Ludmila com voz firme. Um monte de flashes espoucavam em torno do carro. Mara estava zonza e temerosa. Encolheu-se toda, procurando não ficar muito exposta aos seus colegas de outros jornais. Ainda bem que os vidros escuros do automóvel dificultavam qualquer foto.      — Senhora...      — Senhorita – corrigiu impositivamente Ludmila.      — Senhorita, a família está muito perturbada. Mesmo sendo a noiva do raptado, não creio que...      — Você não tem que crer ou descrer de nada, capitão. Mande que se faça uma consulta pelo interfone. Verá que os pais de meu noivo não vão-se recusar a me receber. Minha família não perdoaria este insulto.      Mara notava que, em torno do auto, microfones, gravadores e blocos fervilhavam. Tudo o que Ludmila e o Capitão conversavam era gravado e anotado.      “ Isto vai ser o diabo ” – pensou angustiada – “ Quando publicarem este diálogo falso, a noiva do tal Anteu vai pular miudinho e a polícia vai ficar com mais uma incógnita para resolver. Onde é que eu fui me meter, meu Deus ?”      O capitão pareceu um tanto embaraçado. Fez um gesto de “espere um instante” e foi ao portão. Mara o viu pegar o interfone e fazer a chamada. “ E se a moça estiver aí ?” indagou-se ansiosa. O capitão escutou por alguns instantes, fazendo sinais de assentimento com a cabeça. Depois voltou ao carro.      — Podem passar – disse. E acenou para o portão. O porteiro acionou o mecanismo automático e o grande portão de aço abriu-se.      Já percorrendo a vistosa alameda interna, onde um silêncio estranho contrastava com o ruído e o burburinho da agitação lá fora, na rua, Mara se indagava como é que Ludmila iria explicar aos Kamuratti a farsa. Principalmente como é que explicaria a presença de mais uma importuna repórter junto com ela.      — Viu como foi fácil? – disse Ludmila, quebrando o silêncio pesado dentro do auto. – Prepare-se, estamos chegando. É no casarão, ali, tá vendo?      — Vendo eu estou. O que não consigo é entender como você, depois de ter enganado o capitão, vai também enganar os Kamuratti. Eu penso que você não nos colocou somente na confusão com esta família. Meteu o capitão numa enrascada dos diabos e ele vai querer ir à forra.      — Quem, o Carlos? Ora, todo mundo na polícia sabe que este capitão é um néscio. E este é mais um motivo para a gente ficar curiosa. Como é que põem logo ele, para vigiar a casa? Não enxerga nem um palmo adiante do nariz.      O automóvel parou defronte da escadaria que levava ao alpendre da mansão. Era uma construção imponente, com a entrada toda em mármore rosa. “ Parece coisa de filme americano ” pensou Mara. Um homem de libré estava de pé, imóvel como uma estátua, observando o automóvel parar. Não se moveu nem mesmo quando elas desceram. Mara sentiu-se desfalecer ao dar de cara com dois imponentes Rotweiller, os cães assassinos, que as fitavam com cara de poucos amigos. “ Oh, Diabos” – pensou – “vamos virar comida de cão. Um péssimo meio de terminar meus dias na terra ”. Mas os cachorros permaneceram quietos. Limitaram-se apenas a olhar para elas. O homem continuava parado, fitando-as sem reação.      Ludmila subiu as escadas desembaraçadamente e foi direto ao mordomo empertigado.      — E então, senhorita, quem são as senhoras? Por que mentiu? O que deseja? – perguntou o homem com a voz carregada de indignação.      — Calma, meu velho. Uma coisa de cada vez – disse Ludmila sem se impressionar.      — Os patrões sabem que o filho deles não tinha noiva. Vocês são... algum contato? – insistiu o mordomo ainda sem se mover de onde estava.      — Você é o quê, posso saber? – perguntou Ludmila arrogante. Mara achava curioso que o homem se mantivesse firme entre ela e a entrada da mansão. Um comportamento pouco usual para um mordomo, pelo menos ao ver da moça.      — Sou o mordomo, não percebe? – respondeu arrogante o empertigado homem.      — Mais parece um segurança – disse Ludmila – e nós não somos contato de ninguém. Eu realmente estive em companhia do filho de seus patrões, ontem antes de ele desaparecer.      — Ah... E a outra, quem é? – e o mordomo antipático indicou Mara com o queixo.      — Uma amiga que me acompanha. Ela não esteve diretamente com o Anteu, mas estava comigo e eu a trouxe. Não há mal nisto, não é? – a ruiva enfrentava com galhardia o impertinente mordomo.      Há quanto tempo vocês conheciam o Dr. Anteu Kamuratti? – os olhos do mordomo fixaram-se nos de Ludmila. A repórter susteve o duro olhar do homem por alguns momentos, em silêncio. Depois, deu meia-volta e desceu as escadas.      — Vamos embora, Mara – disse ela – este cara parece que está a fim de me encher a paciência.      — Espere! – E pela primeira vez o mordomo se moveu. Desceu as escadas atrás de Ludmila – Espere um momento!      — O que deseja? – A ruiva parou já ao pé da escadaria e em atitude de desafio.      — Os patrões desejam vê-las – respondeu o mordomo, após medir em silêncio a mulher.      — Não parece. Você ficou aí, nos torrando a paciência... – debochou a repórter.      — Queira desculpar. É o meu trabalho. Tenho de proteger de importunos a família. Muita gente... como direi... inconveniente vem aqui com os pedidos mais estranhos. A senhorita não faz idéia. Por favor, queiram seguir-me.      Ludmila piscou por cima dos óculos para Mara, que sentia um frio na boca do estômago e não achava graça em nada. Desejava ardentemente cair fora dali. Era como estar pisando terreno minado. Os pelos de sua nuca se arrepiaram e isto era sinal de perigo, mas como dizer isto, agora, para a estouvada companheira?      Entraram na ante-sala do casarão. O mordomo fez sinal para que o seguissem. Mara admirou-se da grandeza e do luxo. No teto um candelabro de prata com quase mil pingentes de cristais faiscava à luz do sol que, àquela hora, atingia-o através de uma clarabóia muito bem colocada. Dois vitrais deslumbrantes reproduziam cenas bíblicas. Os móveis eram em pau-brasil. Uma raridade. Uma preciosidade. Somente banqueiros poderiam, realmente, possuir tamanha riqueza em suas casas.      Atravessaram uma imponente sala onde se destacava a monumental biblioteca em madeira escura, tomando uma parede inteira; a mobília toda em couro e os quadros de pintores famosos compunham um ambiente distinto, onde um tapete persa dava o toque de finesse . Mas apesar do luxo e da riqueza feudal, o silêncio e a sensação quase palpável de vazio que pesava sobre o lugar causava um mal estar indefinido. Por uma saída lateral passaram a um belo jardim além do qual se descortinava uma grande piscina de águas plenamente azuis. Estava cercada de cadeiras preguiçosas brancas, mas todas vazias. Uma dúzia de mesas cobertas por grandes guarda-sóis circundava a área. Do lado oposto àquele em que estavam, entre grandes e bem cuidados flamboyans , uma bela churrasqueira. Junto a ela, meio disfarçado entre as flores, um belo caramanchão sob o qual havia um casal tomando uma bebida – que Mara logo percebeu tratar-se de uma limonada rosa – “ coisa de americanos ” – pensou. O mordomo dirigiu-se para o casal e as conduziu atrás deles de modo firme.      — As senhoritas, senhor – anunciou, ao chegarem junto ao casal. Mara viu que o Sr. Kamuratti, apesar dos cabelos brancos, era um homem robusto e de corpo bem conservado, que não aparentava os sessenta e poucos anos que se dizia ter. A senhora Kamuratti era uma cinqüentona muito bem apessoada e bonita. Ambos as olharam sem muita curiosidade, mas com uma frieza de meter medo.      — Está bem, Hanzel – disse o Sr. Kamuratti – Pode ir. Quando tivermos terminado, nós o chamaremos para conduzir as... as moças.      O mordomo se retirou e o Sr. Kamuratti ficou por um momento a olhar as duas, sem lhes oferecer assento. A Sra. Kamuratti bebericou de seu copo, olhando para longe, alheia às duas jornalistas.      — Muito bem, senhoritas. Do que se trata? Sabem muito bem que o Anteu não tinha noiva. Aventuras, sim. Mas noiva, não. Definitivamente, não. Quem são vocês? – os olhos do homem queimavam, tal era a intensidade com que olhava para as duas repórteres.      — Primeiro, queremos sentar – disse Ludmila, irreverente. E ato contínuo sentou-se numa das duas cadeiras vazias diante do involuntário anfitrião, fazendo um gesto impositivo para que Mara fizesse a mesma coisa. Meio sem jeito, a moça obedeceu.      — Estão sentadas. E agora? – disse Kamuratti impassível.      — E agora, aos fatos – respondeu resoluta, Ludmila, deixando sua companheira boquiaberta e curiosa.      — Há algum tempo nós estamos... – começou a ruiva, mas foi interrompida pelo banqueiro.      — Quem é nós? – perguntou o Sr. Kamuratti.      — Não vem ao caso, no momento – rebateu Ludmila – o que é importante é que nós estivemos acompanhando os movimentos do Dr. Anteu e comprovamos que ele desenvolvia atividades... como direi? ... pouco ortodoxas, se me entende.      — Não, não entendo, senhorita. E como não me interessa o que tenha a dizer sobre meu filho... – Kamuratti estendeu a mão para a sineta de prata, mas Ludmila foi mais rápida e apanhou-a primeiro.      — Calma, Sr. Kamuratti. Não sou nenhuma chantagista, se é o que está pensando.      — Então, quem é a senhorita?      — Não estou autorizada a dizer nada a respeito disto. Só o que importa é que obtenha certas informações do senhor. Informações que manteremos absolutamente em sigilo.      — Nós, quem, senhorita? – insistiu o Sr. Kamuratti com voz metálica.      — Como eu já disse, não posso revelar nada a respeito disto, Sr. Kamuratti.      — E o que vocês querem de nós? – falou, pela primeira vez a silenciosa e observadora Senhora Kamuratti.      — Queremos saber, em primeiro lugar, se os senhores estavam, ou não, a par das atividades do Dr. Anteu. Houve um silêncio pesado durante o qual o casal se olhou interrogadoramente.      — De que atividades precisamente você fala, minha jovem? – voltou a perguntar a velha senhora.      Mara notou um tom esquisito na voz da mulher e sua intuição lhe disse logo que ela, pelo menos no momento, era mais perigosa do que o marido.      — Aquelas que não se coadunavam bem com a Lei, senhora.      A resposta de Ludmila não causou qualquer reação no Sr. Kamuratti, mas a senhora Kamuratti hesitou um momento no gesto de levar à boca o copo de limonada e isto Mara percebeu.      — Poderia ser mais explícita, minha jovem? – A Sra. Kamuratti não parecia dar importância ao que indagava, mas a tensão que repentinamente tomou conta de seu corpo dizia exatamente o contrário. Mara retraiu-se instintivamente para manter-se sob uma sombra e aproveitar os ramos da trepadeira a fim de ocultar a face ao olhar arguto da mulher. Ela passara a estudá-las com meticulosidade. Os olhos estreitavam-se por detrás das pálpebras e um brilho satânico parecia sair daquela fenda. Mara começou a olhar em volta procurando um lugar para fugir. O muro que divisava a uns duzentos metros era muito alto e não havia portão ou outra qualquer saída, exceto aquela por onde haviam entrado. “ Ludmila está doida varrida. Mesmo que saiba de algo, está-nos pondo em uma enrascada dos diabos. O que será que ela sabe ?” Mara estava em alerta. Sentia, como sempre em momentos como este, os pelos da nuca de pé. Perigo, era o que eles avisavam. Perigo grande, sabia a moça. Mas qual? No momento tudo parecia tranqüilo. Tranqüilo até demais, observou Mara.      — Há indícios de que o Dr. Anteu andava metido em assuntos escusos... como drogas, por exemplo – falou Ludmila com segurança.      — Há indícios? Onde? – a voz da mulher se tornara macia.      — Ele foi visto conversando com o marginal Kantor Antratos, o dono da maior área de jogo de bicho na cidade.      — E há alguma Lei que proíba alguém de falar com uma pessoa que não saiba de quem se trata? – indagou novamente a felina mulher.      — O Dr. Anteu não era um inocente, senhora. Ele sabia exatamente com quem tratava. Não é admissível que um homem conceituado e filho de tão tradicional e importante família de banqueiros fosse um... um bobo alegre, não é? Se assim fosse, não seria o advogado bem conceituado e de sucesso que é. Agora...      — Você anunciou-se dizendo que estivera com ele, ontem. Isto é verdade? – interrompeu o Sr. Kamuratti.      — Sim é – disse Ludmila.      — E onde estiveram, posso saber?      — Num motel – foi a resposta pronta de Ludmila, surpreendendo Mara.      — Ah... Então, você é um dos... casos de nosso filho, não é, minha cara? – havia um sorriso maligno na face da Sra. Kamuratti.      — Não, não sou nem fui. Estávamos no motel mas não fazendo o que normalmente um casal faz ali.      — E faziam o quê, posso saber?      — Conversávamos. Anteu me pedia ajuda, para ser mais precisa – respondeu Ludmila, novamente surpreendendo Mara.      — Deixa ver se entendo – disse o Sr. Kamuratti – você está afirmando que nosso filho a procurou para lhe pedir ajuda. Para isto ele a conduziu para um motel... É isto?      — Exatamente. – confirmou Ludmila.      — E por que num motel? – indagou a Sra. Kamuratti.      — Por ser um lugar onde o perigo de sermos interrompidos era bem menor. Principalmente num motel de alta rotatividade e suburbano como o em que estávamos – informou Ludmila resolutamente. A Sra. Kamuratti olhou para o marido, mas este continuou de olhos fixos em Ludmila, parecendo querer fotografá-la para uma posterior descrição.      — E... que tipo de ajuda ele queria da senhorita? – indagou novamente a Sra. Kamuratti.      — Ele sabia que estava correndo perigo. Não sei bem qual perigo, mas me disse que, se algo lhe acontecesse eu devia vir até aqui e contar aos senhores o que acontecera entre nós dois.      — Pelo que nos disse até agora, não aconteceu nada entre vocês – E o Sr. Kamuratti reclinou-se na cadeira, pondo os pés sobre o tampo da mesa. Mara notou-lhe as unhas dos pés bem tratadas e pintadas.      — Sua história não está convincente, senhorita. Creio que vou mandar chamar o delegado de polícia para recolher as duas. Quem sabe? talvez sob uma argumentação não tão... delicada, as senhoritas resolvam contar algo mais interessante, não é? – ameaçou sinistramente o banqueiro.      — Claro, claro. Com a imprensa lá fora, creio que os senhores não iriam gostar nada do que nós pudéssemos contar a respeito do Dr. Anteu. Este seqüestro, Sr. Kamuratti, é, no mínimo, suspeito – rebateu firme Ludmila.      — Por que diz isto? – E a senhora Kamuratti, pela primeira vez, voltou-se toda para a sua interlocutora. Seu tom de voz também mudou. Agora era mais incisivo e seco.      — Como eu disse no início, nós temos indícios de que o Dr. Anteu, o filho dos senhores, o conceituado advogado acima de qualquer suspeita, andava metido em muitos negócios escusos. Entre eles, a droga, talvez seja o de menor importância.      — Em que negócio mais escuso do que drogas o nosso filho poderia estar envolvido? – Indagou secamente a Sra. Kamuratti.      — Contrabando de armas para os sérvios. A mesma prática para os bósnios. Em outras palavras, ele atiçava o genocídio entre aquele povo.      — Você tem imaginação fértil, menina, muito fértil mesmo. E o Sr. Kamuratti soltou uma gargalhada sonora. Ludmila fitou-o durante um longo momento e depois, retirando de dentro de sua bolsa uma pequena carteira de identidade – que Mara não conseguiu ver de quem – jogou-a diante do banqueiro. O homem olhou a carteira e parou de rir em seco.      — Você é da... Polícia Federal?      — Sim – respondeu Ludmila e Mara sobressaltou-se. Jamais desconfiara que a ruiva fosse da polícia de verdade. Mas fazia sentido. Sua perícia no tráfego... sua segurança na ação...      — E o seu nome é mesmo este que está aqui... Irina Hess? – indagou Kamuratti olhando a ruiva com o cenho franzido.      — Sim, é.      — Muito bem, Srta. Irina – disse o Sr. Kamuratti devolvendo a estranha carteira a Ludmila – o que deseja mesmo de nós?      — Ajudar o Dr. Anteu, se puder – respondeu Ludmila.      — Como assim? – perguntou Kamuratti.      — Seu filho não sabia quem eu era. Creio que também estava inocente sobre algumas pessoas para quem trabalhava. Acho que foi seqüestrado a mando de Kantor, que a ele se apresentou sob o nome falso de Celso Cerqueira Lima, colega de profissão.      — E os contrabandos de armas de que falou há pouco? Onde se encaixam nesta história toda?      — Há uma organização estrangeira... não sabemos bem de qual nacionalidade, ainda, que conseguiu, através de testas de ferro aqui no Brasil, contratar os serviços do Dr. Anteu para desembaraços alfandegários e... dribles nas autoridades venais. Conseguir as Guias de Exportação e fazer o embarque das mercadorias sem a devida fiscalização. Como o senhor sabe, Sr. Kamuratti, não raro, uma boa propina aliada a um nome de importância minora a pobreza dos que exercem atividades de suma importância, como a alfandegária. Acreditamos que o Dr. Anteu foi envolvido no processo sem saber em que se metia. Visava tão-só aos dólares que lhe depositavam na conta da Suíça.      — Ah... Vocês sabem disto, é? – admirou-se Kamuratti.      — Sim, sabemos.      — Mas também sabem que nosso filho não precisava de dinheiro nenhum. Somos banqueiros...      — Sim, são. Mas o Dr. Anteu queria um patrimônio só seu, é o que parece. Por que aceitaria isto, se não fosse ganancioso? E aí é que está seu erro e sua inocência. Mas parece que andou descobrindo certas coisas a respeito de algumas pessoas aqui. Entre elas, o famigerado Kantor Antratos, o banqueiro de jogo de bicho que também domina o tráfico de drogas para a Europa e os EE.UU. através do Brasil. Ele não sabia que Kantor Antratos e Celso Cerqueira Lima, seu colega de Advocacia, na verdade são a mesma pessoa. Anteu descobriu que a mercadoria era armamento roubado das forças armadas brasileiras. Ficou, é lógico, preocupado com isto.      — E se ele não sabia quem você era, por que a procurou para pedir ajuda? – indagou desconfiada a senhora Kamuratti.      — Ele pensava que eu era amante de um poderoso político e veio me pedir um favor. Queria que eu, através deste político, fizesse chegar ao conhecimento do Ministro do Exército o que estava acontecendo. Mas queria ficar de fora do assunto. Eu devia dar um jeito de fazer crer que havia descoberto isto... na cama, com alguém, compreende?      — Não... não compreendo. E para ser sincero, isto me parece muito... muito romanesco, não é, senhorita? – rebateu a Velha Dama com voz que pareceu à assustada Mara conter uma nota de ameaça.      — É verdade. Mas também é muito romanesco o Banco Kamuratti fazer remessa de dólares para Israel sem o conhecimento das autoridades fiscais brasileiras, não é? – rebateu Ludmila no mesmo tom.      Caiu um pesado silêncio sobre todos. Os Kamuratti se entreolharam com ar de preocupação.      — Senhorita Irina, nossas transações comerciais com Israel são absolutamente legais. Inclusive nossa remessa de dólares está absolutamente dentro da Lei... – falou, sério, Kamuratti.      — Oh, claro, claro. Só que o Banco declara a remessa de um mil dólares e transfere um milhão... Estranho, não? – ironizou a ruiva.      — Como sabe disto? – Os olhos de Kamuratti brilharam malignamente.      — Sabendo. E sei mais. Por exemplo, sei que os nomes reais dos senhores não são Kamuratti. Este, é somente uma cobertura.      — E... qual seria, a seu ver exclusivo, senhorita, o nosso nome real, podemos saber? – Os olhos de Kamuratti eram uma fenda escura e ameaçadora.      — Mondelstan Fulsenthal Khahn. Os senhores são o casamento de duas famílias tradicionalistas. Estou certa?      Kamuratti olhou firme para Ludmila. Depois levantou-se e deu alguns passos. Parou de costas para elas, meteu as mãos nos bolsos do short ficou olhando para o céu azul, balançando-se sobre as pernas. Mara vislumbrou um leve sorriso no rosto da senhora Kamuratti.      — Quem mais sabe sobre este nosso pequeno segredo, senhorita Irina? Suponho que todo o seu Departamento, não é?      — Isto eu não posso dizer, Sr. Mondelstan... quero dizer, senhor Kamuratti.      — Já o disse, senhorita Irina. Já o disse.      Kamuratti veio até as moças e debruçou-se sobre a mesa para olhar bem nos olhos velados pelos óculos escuros de Ludmila.      — Senhorita, não sei bem o que fazem aqui, mas não vieram, certamente, com o objetivo de ajudar Anteu. O que querem exatamente?      — Primeiro, esclarecer até onde os senhores sabiam que Anteu estava envolvido com certa organização estranha no exterior. Segundo, saber qual o envolvimento dos senhores nas atividades de Anteu. Terceiro e mais importante, saber se Anteu era mesmo filho dos senhores, como todo mundo pensa.      — E a senhorita julga mesmo que nós iríamos dizer simplesmente sim ou não, a estas suas perguntas? Por que faríamos isto?      — Porque, se Anteu é mesmo filho dos senhores, terão interesse em que eu o ajude através de minha organização, a P.F.      — E por que a sua organização... a Polícia Federal ajudaria a um criminoso? Sim, porque se Anteu está mesmo envolvido com a tal organização estrangeira dedicada a fomentar guerras, é um criminoso internacional. E se nós admitíssemos pura e simplesmente a uma agente da Polícia, o que a senhorita é, não é? – Se nós admitíssemos que estávamos e estamos a par e envolvidos com as atividades supostamente criminosas de nosso filho então, automaticamente, nos confessaríamos criminosos também. E não vejo, sinceramente, como pode esperar que cometamos tamanha tolice, senhorita.      — Não temos interesse em envolvê-los nesta história, senhor Kamuratti. Se estão a par e envolvidos diretamente, então, a Polícia Federal quer propor-lhes um acordo.      — E qual é?      — Anteu é mesmo filho legítimo dos senhores?      — Por que a dúvida?      — Questão de segurança, somente. Ele é ou não é?      — Por que faz esta pergunta tão estranha, Irina? – A senhora Kamuratti fizera a pergunta, mas olhava diretamente para Mara, tentando vislumbrar-lhe o rosto. Sorte da moça que o sol estava contra os olhos da mulher.      — Porque temos informações de que a senhora é estéril – disse a queima-roupa Ludmila. A senhora Kamuratti sentiu o golpe. Empalideceu e o copo quase lhe escapa das mãos. Mas isto foi momentâneo. Quase imperceptível para quem não estivesse atentamente observando o grupo, como o fazia Mara .      — Não, ela está estéril. Isto é diferente. Minha mulher não foi sempre estéril, não. Ficou assim devido a uma infecção bacteriana. Uma infecção que adquiriu no hospital, após o parto de Anteu.      Ludmila olhava fixamente para Kamuratti e este lhe sustentou o olhar sem pestanejar.      — Muito bem, então. A Polícia Federal vai libertar o Dr. Anteu para os senhores. Mas informo que ele não está mais no país.      — Mas como... – espantou-se Kamuratti, olhando o relógio.      — Ele foi levado diretamente para o aeroporto internacional e despachado como bagagem para um certo país do oriente – informou Ludmila com segurança. Nós o libertaremos, mas em troca os senhores nos dão os nomes de todos os testas-de-ferro que agem em nosso país, tanto no campo das drogas, como no de escravas brancas e roubos de crianças.      — Impossível! Absolutamente impossível, senhorita Irina. Nós não podemos informar o que não sabemos – explodiu Kamuratti.      — É possível, é possível. Mas através de Anteu, quando nós o entregarmos são e salvo, os senhores poderão descobrir quem são estas pessoas. Farão isto mais facilmente do que nós e sem o perigo de a Imprensa pôr a boca no mundo, certo?      — E quanto à... remessa de dólares, como fica? – indagou melíflua, a senhora Kamuratti.      — Não alertaremos o fisco, desta vez. Mas o banco terá de regularizar sua transação, daqui por diante, certo?      — Onde poderemos encontrá-la, senhorita Irina? – perguntou Kamuratti.      — Não se preocupem com isto. Eu os encontro. É melhor assim, para todos nós.      Kamuratti sentou-se pensativo. Seu olhar estava perdido em algum ponto do espaço à sua frente.      — Senhoritas, creio que sabem que tenho poder suficiente para averiguar se tudo o que nos disseram é a verdade. Creio que sabem, também, que posso localizar exatamente onde estão, se realmente pertencem à Polícia Federal. E estou certo de que sabem que eu lhes posso ser um terrível pesadelo, se me mentiram em qualquer detalhe do que conversamos, não é?      — Sim, é claro que sabemos. Mas devemos avisar-lhe que esta atitude sua não seria bem vista por nossos chefes e...      — Libertem Anteu, se puderem. Então, depois que ele estiver conosco, voltem aqui e conversaremos – cortou, seco, Kamuratti.      — Tudo certo, senhor Kamuratti. Podemos ir, então.      Kamuratti tilintou a sineta de prata e o mordomo surgiu como por encanto bem perto de Mara, que levou um tremendo susto.      — Hanzel, conduza as senhoritas para a saída. E Hanzel...      — Sim, senhor Kamuratti.      — Anote a placa do carro delas.      — Já o fiz, senhor Kamuratti. E já verifiquei, também. Pertence a uma agência de aluguel de automóveis.      — De quem é a agência?      — Do Sr. Samuel Schroeder – respondeu Ludmila, sorrindo. Aquela locadora de automóveis pertencia aos Kamuratti.      — Leve-as – disse, seco, o banqueiro.      As moças acompanharam o mordomo pelo mesmo caminho por onde haviam entrado. Desceram as escadas e se dirigiram para o automóvel quando, de repente, um dos cães começou a rosnar. Mara olhou para a escada e não mais viu o mordomo. Estavam, portanto, à mercê das feras. O que poderiam fazer contra aqueles animais perigosíssimos?      Os cães, com os pelos das costas arrepiados, avançaram devagar, fauces arreganhadas, baba escorrendo pela bocarra e olhos amarelos fuzilantes. Era a morte certa que vinha ao encontro das duas. Ludmila parou atônita. Olhou em volta, mas não viu vivalma. Meteu a mão devagarinho na bolsa, mas os olhos do maior dos dois cães pareceu compreender que dali podia sair algo perigoso. O rosnado tornou-se mais feroz e o animal avançou mais depressa, açulando, com isto, o seu companheiro menor, mas nem por isto, menos perigoso.      — Ludmila – gritou Mara – Pare!      Mas a ruiva sacou a pistola Beretta e disparou rapidamente contra os animais. Errou por pouco a testa do que vinha na frente, mas o atingiu de raspão na ilharga. Isto foi o suficiente para que o animal enlouquecesse. Dois potentes latidos, um salto feroz e o cão estava literalmente sobre Ludmila. Esta, pulou de lado, tropeçou e veio cair quase aos pés de Mara. O cão não fez falta. Mal tocou o chão e voltou-se disposto a estraçalhar as mulheres. Mas algo inusitado aconteceu. Mara estava de pé, olhando fixamente para a besta-fera. Não sentia medo. Ao contrário, estava esquisitamente serena. Um pensamento estranho lhe passou pela cabeça: “ ataque seu companheiro ”. O cão parou em seco o avanço e permaneceu olhando nos olhos de Mara. Neste momento o outro cão passava pelo grandalhão como uma flecha em direção a Ludmila. Num átimo foi atacado e posto ao solo pelo companheiro. Engalfinharam-se numa briga feroz. Mara estendeu nervosamente a mão para a companheira e gritou:      — Vamos aproveitar! Levante-se!!      Ludmila pôs-se de pé num salto e ambas correram para o automóvel onde entraram e fecharam os vidros. Os cães engoliam-se numa luta demoníaca e apavorante. Os rugidos eram ouvidos ao longe, mas estranhamente o mordomo não voltou para ver do que se tratava.      Ludmila arrancou com o carro. Estava trêmula e quase não conseguia controlar o volante. Foi em ziguezagues que chegaram aos portões. Eles foram abertos pelo porteiro sem questionamento e Ludmila passou quase atropelando os colegas que tentaram aproximar-se do auto. Mesmo os policiais tiveram que se afastar correndo.      Voaram pelas ruas como bêbedas. Nem mesmo prestaram atenção para onde estavam indo. Finalmente, já no Recreio dos Bandeirantes, a motorista pareceu voltar a si e diminuiu a velocidade suicida.      — Vamos procurar um bar e tomar um drink – falou a ruiva. A voz ainda estava trêmula e esganiçada de nervoso.      — Hum-hum – fez Mara, estranhando a própria serenidade.      Ludmila encostou o automóvel num barzinho aprazível à beira-mar e ambas desceram. Pediram uma cuba-libre, e ficaram em silêncio. Somente quano haviam engolido os primeiros goles é que a ruiva falou.      — Aquilo foi tentativa de assassinato, tenho certeza.      — Eu também acho que sim – disse Mara.      — Ainda bem que aqueles animais não se respeitavam muito.      — É, ainda bem.      — Você está bem, não está?      — Sim, estou sim.      Calaram-se e beberam. O álcool aos poucos foi acalmando e pondo em ordem os pensamentos das duas.      — Ludmila – chamou Mara – aquela história de Polícia Federal... É verdade? Você é mesmo “tira”?      Ludmila riu à vontade.      — Eu convenci mesmo, não foi?      — O que quer dizer com isto?      — Eu não sou Polícia Federal coisa nenhuma. Foi um blefe e dos bons.      — E a identidade?      — Consegui com uns amigos a quem ajudo vez por outra nos seus problemas.      — E o nome, a tal de Irina Hess. De onde tirou?      — Ah, isto é outra história.      — Que história?      — Um dia eu lhe conto, tá bem?      — Por que não agora?      — Porque temos de retirar este disfarce. Os Kamuratti têm mil olhos e eu não duvido que a esta altura estejam procurando por uma morena metida num carro de placa LKV-8876, marca Ford, modelo Scort, cor vermelha, ano 94. Preciso voltar a ser ruiva e já.      — E o carro?      — Vou telefonar e mandar que venham apanhá-lo. Veremos isto daqui mesmo.      — E como é que vamos embora?      — De taxi, minha cara, de taxi. É para isto que um rádio-taxi serve, não é?      — Bem... – Mara deu de ombros. Ela só precisava devolver o chale e os óculos escuros. Ficou sentada enquanto Ludmila ia ao banheiro com a maletinha. Em meia-hora estava novamente a Ludmila que Mara conhecia.      — E então, como estou?      — Está Ludmila, novamente.      — E a seus olhos?      — Como assim?      — Mudou alguma coisa nos seus sentimentos de antipatia para comigo?      — Bem... Pra falar a verdade, eu ainda não sei. Estou com a carantonha daqueles cachorros danados em minha frente.      — Eu entendo... Eu também ainda os tenho na retina. Foi algo que a gente vai demorar muito a esquecer.      Ludmila sentou-se e terminou sua bebida. Eram quase onze horas e elas sentiram fome.      — Vamos almoçar? – convidou a ruiva – Eu pago.      — Tudo bem. Estou mesmo com muito apetite. Acho que foi o álcool... – disse Mara.      Chamaram o garçon e fizeram o pedido. Mara preferiu peixe. Ludmila pediu polvo. Comeram em silêncio. Estavam acabando quando viram chegar o chofer que vinha apanhar o carro. Ficaram observando em silêncio. O homem deu uma volta em torno do veículo, verificando suas condições externas. Depois, com outra chave, abriu o carro. Abriu o porta-luvas e apanhou as chaves que Ludmila deixara lá dentro. Verificou minuciosamente o carro por dentro. Só quando se deu por satisfeito, anotou a quilometragem rodada e deu partida. Em pouco tempo sumia na pista.      — Bem – disse Mara –, estamos a pé.      — Por pouco tempo. O taxi deve chegar dentro de alguns minutos.      — Enquanto isto, você bem podia me esclarecer alguns pormenores obscuros desta história, não é? – insistiu a morena.      — Com prazer. O que você quer saber?      — Em primeiro lugar, aquela história toda sobre o tal Anteu é verdade? Você esteve mesmo com ele num motel? Ele lhe pediu realmente a ajuda que você disse que ele tinha pedido? O homem está mesmo envolvido até o pescoço com drogas, escravas brancas etc, etc? O Banco faz mesmo as remessas criminosas para Israel? Os nomes que você deu aos Kamuratti são verdadeiros, isto é, eles usam nomes falsos? E mais...      — Puxa vida, vai devagar. Uma coisa de cada vez, sim?      — Você não foi devagar comigo. Fiquei tão perplexa quanto o senhor Kamuratti e sua consorte.      — Tudo bem. Vamos começar pela sua primeira pergunta. A resposta é não. Eu não estive com o tal Dr. Anteu num motel. Aliás, eu pessoalmente nem conheço o fulano.      — E como é que podia dar tantas informações a respeito dele?      — Karina. Ela, sim, esteve com ele. Foi por isto que se resfriou.      — Então a Karina é que é a polícia?      — Não há polícia coisa nenhuma. Aquilo foi história de última hora que eu usei para conseguir abrir um pouco aqueles espertalhões. Me deixe continuar, sim?      — O.K., vá em frente.      — Karina andava de namorico com o tal Dr. Anteu. Ele, parece, apaixonou-se mesmo por ela e andou fazendo algumas confissões em momentos de enlevo, compreende? Por exemplo: ele lhe contou que só veio a saber que o tal de Dr. Celso Cerqueira Lima era o marginal Kantor Antratos há coisa de duas semanas atrás. Confessou que usou de meios ilegais, como dar propinas e usar o peso de seu nome para despachar alguns caixotes, para a Bósnia e a Sérvia, a fim de prestar um favor... regado a dólares, é claro, para o tal Celso. Ao tomar conhecimento de quem era aquele seu amigo, tratou de conseguir uma vistoria em uma das caixas e ficou sabendo a respeito das armas. Compreendeu que corria perigo de vida e pediu ajuda a Karina. No dia do seqüestro ambos foram raptados juntos. Karina foi joga da fora do carro em movimento. Os marginais queriam que parecesse um acidente. Para sorte dela, caiu dentro de um charco de lama e não se machucou como os danados queriam. Mas ficou com um tremendo resfriado. Karina me contou a parte da história que conhecia. Eu fui investigar o resto. Com a ajuda de amigos da Polinter vim a saber da tal organização internacional. Tudo indica que as armas são enviadas para êmulos dela naqueles países. Parece que são mercenários a mando de uma terceira potência estrangeira... Eu, na verdade, não sei bem como é que é a história. O que sei é que o tal Kantor foi informado por alguém sobre a descoberta que Anteu havia feito. O meliante foi conversar com ele, na pele do colega Celso, e ficou sabendo da intenção de Anteu de comunicar tudo a Polícia Federal, saindo fora da situação. É por isto que acho que foi o Kantor o autor material do seqüestro de Anteu.      — Autor material... Você quer dizer que houve um mentor para o seqüestro? Ele foi planejado por outra pessoa? – perguntou Mara, curiosa e interessada.      — Creio que sim. Anteu andou descobrindo algo bem mais aterrador para ele. Segundo Karina, de uma semana para cá ele vinha andando muito nervoso e agitado. Num dia em que havia bebido um pouco mais da conta, deixou escapar que seus pais não se chamavam Kamuratti e sim outros nomes. Karina não entendeu a história. Anteu disse que seus genitores eram outros. Os Kamuratti apenas o haviam criado. Depois, desconversou. Karina ficou alerta e tratou de investigar, mas não teve tempo de descobrir muita coisa. Somente fez com que Anteu se pusesse alerta e desconfiado. Eu, então, entrei na jogada. Através de amigos na Interpol consegui saber que os Kamuratti não eram de descendência italiana, como faziam a todo mundo crer. Na verdade, Kamuratti era o nome fantasia de uma antiga loja brechó que existiu na Cracóvia e que foi destruída, suspeita-se, pela ação de um grupo nebuloso. A loja pertencia a uma família de judeus, tinha o nome formado pela fusão de dois outros. O de um japonês, YOSHIO KAMURA, e o nome NICHOKALATTI, parece que uma congregação judaica de cunho religioso a quem o japonês ajudava financeiramente em agradecimento por ter sido salvo de um grave acidente e tratado pelos integrantes da NICHOKALATTI. Esta comunidade também foi varrida do mapa pelo tal grupo de conhecimento obscuro.      — Por que você diz “de conhecimento obscuro”?      — Porque não consegui descobrir quem era, o que fazia, nem o que tinha como objetivo o tal grupo. Era chamado por um apelido muito esquisito: NAHASH. Parece que todos, judeus e poloneses, tremiam só de ouvir este apelido.      — Uma seita “tong” polonesa? – indagou Mara.      — Não sei, mas não era nem polonesa nem judaica. Pelo menos, nenhum membro destas raças que eu entrevistei soube dizer qualquer coisa a respeito. Apenas falaram dela ainda com certo receio. Disseram a mim que, antigamente, todos tremiam só de ouvir este apelido.      — E o que significa NAHASH?      — Parece que significa algo assim como SERPENTE... ou coisa parecida. Na verdade, não me interessei muito por isto. O que eu procurava era descobrir a história dos tais Kamuratti. Ano passado, em minhas férias, fui à Polônia. Perambulei por entre sebos, entrevistei dezenas e dezenas de pessoas e, quando já desanimava, encontrei numa velhinha de quase noventa anos, uma informação importante. Ela havia conhecido o senhor Salomon Hammerstein, dono do brechó Kamuratti. Ela me contou que depois de ter sido misteriosamente incendiada e de ter seus donos perdido tudo o que possuíam, um tal senhor JOHANZ MODELSTAN KHAHN comprara o terreno onde o brechó existira e no local construíra um banco. Era uma construção pequena e a mulher já não lembrava mais o nome do banco. A família MONDELSTAN é de origem judaico-polonesa. Não foi difícil descobrir a história dos Mondelstan, pois, entre os judeus, a árvore genealógica é de suma importância e é conservada cuidadosamente. Os Mondelstan eram da classe media alta e o banco, na verdade, era deles. Mas era muito pequeno e não ia lá muito bem das pernas nos idos de 1948, quando o filho mais velho do clã Mondelstan, um tal de Erich Mondelstan, passeando pela Hungria, conheceu a filha ricaça da família FÜLSENTHAL. Não sei como se deu a história, mas casaram e fundaram o BANCO KAMURATTI.      — Parece uma história muito humilde para um potência como é o Banco hoje – comentou Mara.      — Pudera. O KAMURATTI contou com o apoio inconteste dos ROTSCHILD, minha cara.      — É mesmo? Eu não fazia a menor idéia a respeito – espantou-se Mara.      — Nem você, nem a maior parte dos não-judeus. O apoio sempre foi muito secreto.      — E... e por que isto?      — Não sei. Mas o Banco Kamuratti enveredou por outros caminhos, Mara – disse Ludmila, pensativa e com o olhar perdido no vazio.      — O que quer dizer com isto? – indagou, curiosa, Mara.      — Ainda não tenho provas, são somente suspeitas, por isto, amiga, prefiro não falar nada por agora. Minha... nossa incursão na casa dos Kamuratti, hoje, foi uma provocação minha. Resolvi cutucar a cobra na toca. A esta altura o Sr. Kamuratti já deve saber que eu não existo na Polícia Federal..      — Você, não. A tal de Irina Hess, não é?      — Sim, sim, a Irina.      — E o que acha que ele vai fazer quando descobrir isto?      — Vai-se mexer, minha amiga. Vai-se mexer e sair da toca.      — Ludmila, seja sincera: nós corremos perigo? – Mara estava ficando muito perturbada com o rumo da conversa. A imagem dos cães lhe veio à recordação e lhe tirou de imediato o sossego que o ambiente trouxera para ela.      — Por enquanto, não – respondeu Ludmila observando um Camaro que acabava de estacionar. Dele saltaram quatro homens muito bem trajados que permaneceram ao lado do auto, observando a praia e tecendo comentários sobre qualquer coisa no mar.      — Estou-me lembrando de que não tinha qualquer maquiagem nem peruca, nem nada que me disfarçasse – disse Mara, cada vez preocupada com a encrenca em que se vira metida.      — Você foi fundo o tempo todo, Mara. E o chale escuro encobria muito bem o seu rosto. Eu não creio que tenham prestado muita atenção em sua presença. Eu fui quem mais incomodou. Comentei coisas perigosas e fiz lances altos como aquele da remessa de dólares para Israel.      — É, como foi que você tomou conhecimento disto?      — O Banco Kamuratti paga um alto suborno ao fiscal do I.R. para que ele feche os olhos. Acontece que eu fiz alguns favores ao homem e...      — Que tipo de favores, Ludmila? – Mara olhou a amiga censurosamente.      — Nada do que você possa estar pensando, Mara. É verdade que os favores foram sexuais, mas eu só intermediei a coisa.      — Como assim?      — Coloquei a mulher que ele queria na cama dele. Só isto.      — O porcaria não tinha competência para conquistar a mulher que desejava? Tinha de você fazer isto para ele?      — Bem... ela era casada, compreende?      — Casada??? E você... Oh, Ludmila, que baixeza!      — Depende do ponto de vista. A moral humana, Mara, é muito elástica, sabe? O que a horroriza pode perfeitamente ser encarado como o trivial por muitas outras pessoas. Veja, o fiscal está feliz com a amante. Ela, por sua vez, está felicíssima com ele. Até passou a agüentar melhor o marido! E tem mais: o marido é estéril. Ela sabia disto, ele é que não. Mas ela tinha temor de lhe falar a respeito, pois temia a reação do homem. Coisas de machões brasileiros. Com o amante ela pôde engravidar. O marido se sentiu realizado e tudo terminou bem. A criança é amada pelos três. No meu ponto de vista fiz muito bem em juntar os dois...      — No meu, não – disse Mara, aborrecida.      — Bom, o certo é que ele me deu a informação... Não diretamente. Eu concluí de algumas frases dele... pistas que deixou soltas no ar de propósito. A gente terminou acostumando-se a trabalhar assim. Eu lhe dou informações “sem querer dar” e ele faz a mesma coisa por...      Ludmila teve a atenção voltada para os quatro homens. Caminhavam disfarçadamente pelo sol escaldante observando os autos. Eram somente uma dúzia, se tanto.      — O que foi? – sobressaltou-se Mara, voltando a cabeça para procurar o que prendia a atenção da companheira. Viu os quatro homens e um pressentimento ruim lhe passou pela cabeça.      — Você acha...      — Psssit! – fez Ludmila – Eu não tenho certeza, mas o mais lógico é que o Senhor Kamuratti tenha entrado em contato com a agência do Salomão para saber sobre o carro. Daí, mandar quatro marmanjos para aqui é o mais elementar. Eu devia ter previsto isto.      — Mas você acha que são homens dele? – angustiou-se Mara.      — Eu não sei... Podem ser. É esquisito quatro homens andando pela areia escaldante do sol de meio-dia vestidos de paletó e gravata. Principalmente quando estão sondando os carros estacionados.      — Acham que procuram por nós? – perguntou aflita, Mara.      — Não, por nós, não. Mas... Pense comigo: você sabe que duas mulheres vieram para cá e aqui entregaram o carro alugado. Das duas uma: ou elas tinham outro carro esperando, aqui, ou estão aguardando táxi, não é? Se tinham outro carro, foram embora. Mas tendo saído afobadas pelo ataque dos cães... Teriam sangue frio suficiente para completar o plano ou...?      — Ou...?      — Ou teriam vindo aleatoriamente até este local e só então é que resolveram abandonar o carro? Se os marmanjos são os que estamos supondo, eles permanecerão por ali... talvez venham até este bar, ou a um dos outros atrás, averiguar quem são os possíveis donos dos carros; talvez fiquem por aqui esperando a chegada de um taxi...      — Meu Deus! E você pediu um táxi, não pediu?      — Sim, e esta é minha preocupação. Se o taxi chegar e nós entrarmos nele é certo que despertaremos as suspeitas dos quatro ali. E eles nos seguirão para onde formos.      — O que faremos? Eu estou-me sentindo muito mal. Nunca antes me meti numa camisa de onze varas, Ludmila. Mas em meio dia você me fez passar o diabo! – exclamou Mara sentindo o estômago se contrair. Aquilo estava-lhe parecendo cenas de um filme de suspense.      — Ainda não, meu bem, ainda não – disse Ludmila dando-lhe tapinhas no braço. – Espere mais um pouco e você vai ver o que é camisa de onze varas. Agora, ajude-me a pensar. E seja rápida. O taxi está quase chegando. Temos de encontrar uma saída e depressa!      — E se não tomarmos o táxi e deixarmos que volte vazio?      — Teremos despertado suspeita do mesmo jeito. Os brutamontes vão ter somente que esperar até que todos tenham saído. As duas bobocas que ficarem... Fácil, não?      — Droga! Que entaladela!      Ludmila olhou o salão. Havia somente um casal além delas, naquele bar. Talvez nos outros houvessem outras tantas pessoas. Ia ser como tirar doce de uma criança para aqueles quatro descobrirem as duas.      — Ludmila, o táxi! Ele vem lá! – E Mara apontou angustiada para um ponto amarelo que surgia na curva a uns quatro quilômetros de onde estavam.      — Tem certeza que é ele?      — Sim, pela cor. E tem qualquer coisa em cima da capota. Só pode ser a plaquinha... O que faremos?      — Para grandes males, grandes remédios. Faça a cara mais séria e fechada que puder. Pare de tremer. Me siga e somente acene com a cabeça, entendeu?      — Não.      — Ótimo! Limite-se a fazer como estou dizendo.      E Ludmila levantou-se indo direto para a mesa de um casal que aguardava a conta.      — Boa-tarde. Pode-me dizer seus nomes?      — O quê? – perguntou, surpreso, o rapaz.      — Seus nomes, por favor – insistiu Ludmila, séria.      — Mas.. Por que...?      — Não questione. Faça o que estou pedindo. E rápido!      Enquanto falava. Ludmila estendia para o homem a carteira de Polícia Federal.      — Polícia...? – espantou-se o jovem rapaz      — Shhhhiit! Vocês estão vendo aqueles quatro homens lá?      O casal olhou, aturdido, para os homens que vinham aparentemente descontraídos em direção ao bar.      — Sim, senhora – falou o rapaz. – O que têm eles?      — São terroristas. Nós estamos no encalço deles há algum tempo. Mas agora estamos em desvantagem. Eles querem nos cercar. Se conseguirem, vai haver tiroteio e, possivelmente, feridos ou mortos.      — Meu Deus! – exclamou assustada a moça. Mara reconheceu nela a ricaça Milena Forcis e tremeu. Ludmila complicava mais ainda a situação delas. O rapaz só podia ser o Dr. Luís Filipe, o empresário da companhia de Táxis Aéreos Céu Azul e filho do Deputado Luís Filipe Nettus, o homem público mais em destaque no momento político do país. Será que a ruiva não sabia disto?      — Vocês tem automóvel? – perguntou a falsa policial com voz firme.      — Sim, senhora. É aquele Del Rey ouro estacionado lá! – disse o jovem, apontando para o único automóvel parado sob uma sombra rala.      — Vocês vão nos ajudar, certo? – impôs a repórter.      — O que... o que devemos fazer? – tartamudeou a moça visivelmente assustada.      — Vamos todos sair como se fôssemos velhos amigos. Descontraiam. Vocês nos dão carona. Eles não vão desconfiar de nada, pois não sabem ainda quem somos nós. Sabem somente que as pessoas que devem capturar são duas mulheres que estão aqui, aguardando um contato para dentro de... – Ludmila olhou o relógio – uns dez minutos. Conhecem o contato e é através dele que poderão chegar a nós.      As duas mulheres sentaram-se à mesa junto com o casal e chamaram o garçon. Pediram a conta e o rapaz fez o pagamento às pressas. Levantaram e saíram em grupo contando piadas. Passaram pelos quatro homens que as olharam de soslaio, mas sem lhes dar muita importância, exceto um deles, um homem forte, alto, cabelos pretos e bem cuidados e beirando os quarenta anos. Tinha nariz aquilino, bem feito, pele branca e usava anel de grau de advogado. Era peludo, de pelos claros, o que contrastava com a cabeleira escura. Seu olhar penetrante e intenso cravou-se em Mara e rapidamente percorreu sua silhueta. A moça estremeceu quando seus olhares se cruzaram por momentos. “Meu Deus, que maldade ele tem no coração”, pensou de si para consigo sem saber explicar-se porque sentia aquela vibração esquisita vindo do homem diante dela. “Ele nos fará grande mal” predisse mentalmente.      A companheira do rapaz agarrou com mais força o braço dele murmurando baixinho:      — Estão armados. Eles estão armados, meu bem.      — Eu vi – disse o rapaz no mesmo tom de voz.      Mara tropeçou num degrau e perdeu o equilíbrio, dando alguns passos desordenados para o lado. Uma forte mão lhe amparou o corpo como se ela não tivesse peso. Era o homem de olhar terrível.      — Está segura – disse ele, com um sorriso que, ao invés de lhe suavizar o rosto, ao contrário, endurecia-lhe mais ainda os traços.      — Não é sempre que uma mulher bonita me cai nas mãos.      — Eu... eu... obri... obrigada – tartamudeou Mara lutando contra o asco que o ser tocada pelas mãos fortes do homem lhe causava. Com um aceno impositivo de cabeça Ludmila fez o casal acompanhá-la até junto do homem.      — Tudo bem, Magda? – indagou, abraçando a companheira pela cintura.      — Co... como? – perguntou Mara, aturdida.      — Você está be...?      — Sim – cortou o homem, firme –, ela está bem. Muito bem. E vocês, estão bem? – Os olhos dele escrutinavam os quatro. Demorou um pouco mais em Milena Forcis e uma ruga lhe surgiu na testa. Conheceria a mulher? Se conhecia, fez que não.      — Estamos, obrigada – foi a resposta tranqüila de Ludmila que sustentou o olhar de águia do homem, fixo nos olhos dela.      — Não querem acompanhar-nos numa bebida? – convidou ele ignorando totalmente o rapaz.      — Estávamos acabando de sair justamente após beber nosso drink – disse Ludmila, tranqüila e com um sorriso brejeiro.      — Bem, podiam voltar... se quisessem – insistiu o homem.      — Tenho audiência em uma hora com o juiz de paz da primeira vara de família. Sinto muito, fica para outra vez, O.K.? – disse Mara surpreendendo totalmente Ludmila.      — Advogada...? – surpreendeu-se o homem.      — Sim. E vejo que o senhor é meu colega de profissão – mentiu Mara tão convincente que Ludmila a olhou interrogadoramente.      — Mas não lido com problemas afetivos – falou ele.      — Qual sua especialidade? – interrogou Mara.      — Direito Empresarial – disse ele de modo natural.      — Em férias? – perguntou Ludmila.      — Não. A negócios. E vocês, o que fazem por aqui?      — O casal aqui é nosso cliente – mentiu Mara – e estamos a trocar informações sobre o assunto que vamos tratar daqui a pouco.      — Ah... – e o homem olhou escrutinadoramente para o casal. Pareciam ter visto um lobisomem de tão amarelos que estavam.      — O assunto parece grave, pela aparência de seus clientes – Mara julgou distinguir um tom zombeteiro na voz do homem.      — E é. Coisa de pensão alimentícia... Sabe como é, né?      — Sim, sei. É sério... Desculpem-me. São casados?      — Não... – respondeu titubeante a jovem milionária.      — Então...      — Não é deles que falamos. É de um parente do rapaz – apressou-se a explicar Ludmila, antes que o casal inexperiente pusesse tudo a perder. O homem pareceu hesitar um momento.      — Tudo bem, então. Quando podemos-nos encontrar de novo?      — Quem sabe amanhã, no fórum... – e Ludmila deu um sorriso brejeiro para o desconhecido que lhe retribuiu com um brilho nos olhos negros.      — Excelente. Meu nome é Fratelli. Enrico Fratelli.      — Laura Minori Santos e Magda Silva, minha colega de profissão e sócia no escritório. Até à vista, senhor Fratelli. Foi um prazer conhecê-lo – e Mara acenou para o homem, fugindo ao aperto de mão dele e afastando-se apressada, seguida por todos. Os quatro homens ficaram a olhá-los até que tomaram o carro, justamente quando o taxi estacionava ao lado do automóvel.      — O táxi! – exclamou Fratelli, esquecendo-se do grupo.      — Como supúnhamos – falou um dos seus companheiros.      — Cada um de vocês vai para a saída dos outros restaurantes e eu fico neste. Quando elas saírem aquele que estiver perto assovia. Vamos todos seguir o taxi. Dependendo do trajeto dele, nós forjaremos o acidente.      Assim fizeram. Cada um postou-se na saída de um dos restaurantes observando o motorista do taxi. Este consultou um papel e olhou para as fachadas. Decidiu-se por aquele onde estava Fratelli. Entrou e ficou olhando para as mesas vazias. Sem jeito, dirigiu-se ao homem encostado no portal.      — Hei, senhor, por acaso viu duas moças sairem daqui em outro taxi..? Quero dizer... Eu fui chamado para apanhar duas moças...      — Como eram elas? – indagou Fratelli, aparentemente despreocupado e interessado em ajudar.      — Eu não sei. Elas disseram que estariam aqui, na mesa – e voltou a consultar o papel – mesa... 33. É, uma delas disse à central de recados que estariam aguardando aqui, na mesa 33.      Fratelli sorriu. Estalou os dedos chamando o garçon. Quando o homem chegou, perguntou:      — Pode-nos informar, por gentileza, para onde foram as duas moças que estavam aguardando um táxi sentadas à mesa 33?      — Não, senhor, não posso. Quem serviu a 33 foi outro colega. Vou chamá-lo para os senhores. Queiram aguardar um momentinho, sim?      — Certo – disse Fratelli e olhou para o taxista com um dar de ombros. Mas ficou esperando a resposta.      Um outro garçon veio até eles.      — Pois não?      — Havia duas moças sentadas na mesa 33. Uma delas pediu que lhes mandassem um taxi. O motorista está aqui, mas elas sumiram. Você poderia informar para onde foram... quando saíram e se saíram em outro táxi? – falou Fratelli prestativamente.      — Sim, senhor. Elas pagaram a conta juntamente com um casal que estava na mesa 54 e saíram com ele.      — As moças eram uma alourada e outra, morena? – indagou Fratelli com cara de poucos amigos.      — Sim – respondeu o garçon, assustado.      — Quer dizer que elas já foram? – quis saber o motorista.      — Foram. Acho que encontraram uns amigos.      — Advogadas, hein? – disse Fratelli, afastando-se apressadamente e deixando os outros homens sem entender nada. CAPÍTULO II A HISTÓRIA SE COMPLICA        Qüinquagésimo primeiro andar da torre no Rio Sul Center. É o entardecer de um quente dia de novembro de 1994. O imponente edifício e um dos maiores prédios comerciais no Rio de Janeiro. Com 168 metros de altura e 270 mil metros quadrados de área construída, o prédio impressiona pela beleza e harmonia de sua construção. Os dez primeiros andares são destinados ao Shopping Center, onde o carioca tem de tudo o que deseja e pode até se dar ao luxo de passear pelas belas galerias.      Naquele entardecer o Sr. Kamuratti aproximou-se do janelão no lado sul da enorme e luxuosa sala de seu escritório e ficou olhando para Copacabana, além do morro sob o qual passa o túnel Eng. Marques Porto, que liga Botafogo a Copacabana através das Avenidas Lauro Sodré, em Botafogo, na entrada do túnel, e Princesa Isabel, na saída do túnel para Copacabana. Gostava da belíssima vista que dali descortinava. Principalmente ao entardecer, quando a magia da noite começava a envolver a cidade e o povo voltava para suas casas ou delas saiam para as diversões noturnas, ou simplesmente para um passeio descompromissado por aquela bela, mas tão desrespeitada metrópole. A Light distribuia a energia elétrica parta toda a cidade e nos apartamentos brilhavam as cambiantes luzes das televisões – “ O ópio do povo brasileiro, principalmente em se tratando das novelas da EL MONDO ” – pensou Kamuratti sorrindo sarcasticamente. “ A televisão é nossa melhor aliada, mesmo que involuntariamente ”, murmurou o banqueiro. Olhou o relógio e franziu o cenho. Não gostava de atrasos em seus compromissos e o pessoal deveria ter chegado há quinze minutos. Kamuratti, embora já impaciente, permaneceu olhando para o mar que se apresentava, agora, com um azul-marinho muito bonito. Em alguns minutos dele só restaria uma cor negra profunda. Para além da orla de areia profusamente iluminada pelos grandes postes e suas potentes lâmpadas a mercúrio – que dali pareciam pequenos palitos – nada poderia ser vislumbrado a não ser as amareladas luzes de algum veleiro, de algum barco pesqueiro ou de algum navio entrando ou saindo da Baia de Guanabara.      Um som suave e melodioso interrompeu a observação repousante de Kamuratti. Era o som da campainha. Kamuratti foi até a mesa e olhou na pequena tela do circuito fechado. Na porta estavam os quatro homens que ele esperava. Premiu um botão e a porta se abriu. 0s homens entraram.      — Boa-noite, senhores – cumprimentou o banqueiro de onde estava, a uns doze metros da porta. O ambiente estava iluminado com luzes indiretas, mas que davam um tom muito repousante para a vista sem, contudo, perturbar a visão de nada. A sala decorada e pintada em tons preto, dourado e vermelho, formava desenhos de contrastes muito estimulantes.      — Boa-noite, senhor Kamuratti. Desculpe-nos o pequeno atraso, mas o trânsito... – disse Enrico Fratelli e se encaminhou para perto de Kamuratti, seguido pelos outros três parceiros.      — Eu sei, eu sei – disse Kamuratti – vamos sentar-nos. Quero ouvir o que têm a me contar.      Os homens tomaram assento nas confortáveis poltronas diante daquela onde Kamuratti se assentara.      — E então? – perguntou Kamuratti.      — O Dr. Anteu parece que descobriu alguma coisa – começou o homem chamado Fratelli. – Segundo averiguamos, ele pediu sigilosamente a um dos guardas alfandegários que abrisse um dos caixotes contidos no container vinte e três, de nossa... de propriedade da empresa. Só após gorda propina é que o homem consentiu em fazer o que lhe era pedido.      — Mas naquele container não estão nossas encomendas? – indagou preocupado Kamuratti.      — Sim. Mas nela também estão encomendas de outras empresas.      — E o caixote aberto, era nosso?      — Não. Era de outro remetente.      — O que continha, então?      — Armas. Fuzis-metralhadora leves – disse um dos outros três homens.      — Como você sabe disto, Píndaro? – perguntou Kamuratti.      — Eu permaneço no cais a cada plantão de 24 horas, senhor, e naquele dia eu era o supervisor de plantão para a vigilância. Quando percebi o Dr. Anteu se encaminhando para o container na companhia do guarda alfandegário, eu os segui sem ser visto. Assisti a tudo de onde estava. O Dr. Anteu segurou uma das armas e falou durante algum tempo com aquele guarda. Ambos pareciam espantados. Abriram mais dois outros container, todos da mesma empresa. Nos outros também havia muita arma. Vi granadas e lança-rojões, entre outras.      — E... o que fez o Dr. Anteu, depois de descoberta tão interessante? – quis saber Kamuratti.      — Seu filho, Dr. Kamuratti – respondeu Fratelli – deu a gorjeta prometida ao guarda e saiu apressado. Píndaro me ligou e comunicou-me o fato. Eu coloquei Fílio para seguir o Dr. Anteu. Ao mesmo tempo, mandei que Cícno procurasse descobrir de quem era aquela remessa ilegal de armas para o exterior.      — Quero ouvir o que tem Cícno a dizer – pediu Kamuratti.      — Bem, – começou o homem chamado Cícno – eu contei com a ajuda de Píndaro. Ele me conseguiu as guias de exportação – cópias xerox, é claro – e vi que nelas havia uma remessa de 13 caixas contendo laranjas e mangas para a Bósnia. As guias estavam em nome de uma empresa dedicada à fruticultura no interior de São Paulo, a “FRUTIBRAS LTDA”.      — Evidentemente você foi averiguar esta empresa, não é? – indagou Kamuratti fitando fixamente o seu empregado.      — Sim, senhor. É de propriedade de um casal de bem conceituados comerciantes de São Paulo, os Silva Limma. Por três dias eu andei investigando a vida deste casal. Tudo em ordem. Não parecem ser contrabandistas de armas...      — Ora – cortou Kamuratti impaciente – nenhum contrabandista que se preze vai parecer aquilo que é. Como é que pode garantir que o tal casal não é contrabandista?      — São pessoas tradicionais e conservadoras. Seus contadores são rigorosamente honestos e são fiscalizados diretamente pelos Silva Limma. As declarações de I.R. deles são absolutamente corretas e pagam todos os impostos em dia.      — Isto é o melhor disfarce para quem age fora da Lei – falou, cético, Kamuratti.      — Sim senhor, mas o casal Silva Limma recebe em casa o secretário de justiça e muitos delegados federais. Não creio que...      — E por que fazem isto? – perguntou Kamuratti demonstrando interesse.      — Eles têm dois filhos. Um é delegado de polícia e outro é chefe de gabinete na Secretaria de Justiça.      — Bom, esta é uma vizinhança bastante incômoda para um contrabandista. A menos que seja muito, mas muito hábil... – comentou Kamuratti ainda indeciso.      — E tem mais. Sempre que vai fazer uma remessa, o casal faz questão fechada de que pelo menos dois agentes federais fiscalizem as embalagens das encomendas, verifiquem a carga nos caminhões e acompanhem até o porto o material. Eu verifiquei e eles nunca fecharam qualquer negócio com a Bósnia, nem com a Sérvia. Aliás, jamais comercializaram com qualquer país comunista. Seus clientes mais assíduos são os Estados Unidos, a França, a Suíça e os países baixos. Ultimamente conseguiram fechar alguns contratos com o Japão e a China.      — É... Parece que são mesmo honestos. Coisa rara, neste país – falou Kamuratti quase reflexivamente. – E como ficou a sua investigação? Se não eram evidentemente encomendas dos Silva Limma, de quem eram e como e quem usa a empresa daquele casal para acobertar a trapaça?      — Ainda não tenho certeza, chefe – disse Cícno – mas estou, desde ontem, na pista de um tal de Celso... Acho que é Cerqueira ou Limeira. Em uma das guias de exportação havia um carimbo meio borrado, nas nele eu li este nome. Ele não existe na empresa dos Silva Limma. No entanto, assina como exportador.      — Pode ser um empregado dele, ora essa – disse Kamuratti.      — Não, não é. Eu verifiquei o livro de empregados da FRUTIBRAS. Fingi que era fiscal do INPS e foi fácil. O contador me mostrou os registros. Ninguém que se chame de Celso trabalha para os Silva Limma.      — Suas investigações, então, estão neste ponto?      — Sim, senhor.      — E posso perguntar em quê o que descobrir vai-nos interessar, Cícno? – indagou, sarcástico, Kamuratti.      — Eu... quer dizer... eu não sei bem, senhor. Mas creio que devemos deslindar tudo o que diga respeito à segurança do Dr. Anteu.      — Sim, concordo. Mas não acho que intrometer-se na casa dos outros seja o caminho mais indicado, não é? – falou macio Kamuratti.      — Não creio que tenhamos de mexer na casa dos outros, senhor Kamuratti. Mas se soubermos claramente do que se trata...      — Poderemos estar aumentando o problema que meu descuidado filho criou. Não, não quero que prossiga, Cícno. Sou banqueiro, não polícia federal.      — Mas o Dr. Anteu...      — Pode estar fazendo exatamente o que eu não desejo que se faça, meu caro. Anteu é um bom causídico, mas um péssimo herdeiro de banco e isto me preocupa. Talvez esteja trabalhando para alguém e investigando seja lá o que for, terminou por arranhar esta casa de maribondos. Vou dizer o que você e Píndaro vão fazer. Vocês vão contatar o segurança portuário e dizer-lhe que eu desejo meu filho longe dos negócios da tal FRUTIBRAS. Assim, quando ele voltar lá, não deve, de modo algum, aceitar abrir as caixas. Quero que ele esqueça este assunto e, se por acaso, resolver dar parte à Federal, deixe Dr. Anteu fora disto. Se não o fizer, vai-se haver comigo. Entenderam os dois?      — Se é assim que quer... – disse Cícno, agastado.      — É. É exatamente assim que quero. Agora, quero ouvir o Fílio. O que tem a me dizer, Fílio?      — Bem, senhor Kamuratti, eu segui Dr. Anteu durante estes três dias. Desde que saiu do cais ele praticamente nada fez que fugisse ao seu dia-a-dia. Também não notei ninguém estranho rondando as vizinhanças nem do escritório dele, nem da residência nem do automóvel. Durante suas saídas para os restaurantes e mesmo para suas aventuras eu o segui fielmente. Nada observei que pudesse ser causa de alarme.      — Isto é muito estranho, você não acha? – indagou Kamuratti, cenho franzido.      — Eu... desculpe, senhor, mas eu não vejo em quê.      — Píndaro – chamou Kamuratti – o que fez o segurança portuário depois de Anteu ter ido embora?      — Nada, senhor. Eu colei com ele, mas não fez nada fora de sua rotina.      — Mais estranho ainda – preocupou-se Kamuratti. – Escutem, pensem um só momento e verão que isto está esquisito. O segurança, pela reação que Píndaro descreveu, também ficou surpreso com o conteúdo das caixas. Comprovou que eram armas clandestinas e que estavam sendo despachadas para a Bósnia. Qualquer néscio pode perfeitamente concluir que o Pacote só podia vir das forças armadas brasileiras. E como estas não fazem comércio com suas armas, aquelas forçosamente tinham sido roubadas ou desviadas de algum modo de seu destino – o Exército, a Marinha ou a Aeronáutica. Por que, então, o segurança não deu parte? Por que preferiu o silêncio? Se tivesse dado parte, teria levantado a lebre. E se isto tivesse acontecido, alguém estaria atrás de Anteu e o fiscal... guarda alfandegário, sei lá, teria sofrido um acidente, não acham?      — É... – murmurou Cícno e os quatro homens se entreolharam.      — O que eu acho – concluiu Kamuratti – é que o segurança alfandegário deve ter alguma relação com aquele que envia as armas. Deve é ter fingido surpresa para convencer Anteu, mas deve ter dado a informação ao interessado sobre a bisbilhotice de meu filho.      — Então – falou Fratelli – por que o Dr. Anteu não foi molestado? Fílio disse que não notou nada de suspeito e eu confio no trabalho dele.      — Talvez porque Anteu tenha pedido ao guarda que silenciasse sobre o conteúdo das caixas. De algum modo, isto deve ter feito o responsável pelo contrabando achar que ele não fosse perigoso... pelo menos por enquanto. Talvez esteja preparando uma armadilha para o Anteu. O que não compreendo é por que não o tem sob vigilância.      — Pode ser que o tenha de um modo não ostensivo, Sr. Kamuratti – disse Fílio. – Ele pode estar sendo vigiado através de um amigo íntimo, em quem muito confia. Uma pessoa assim, pode perfeitamente não despertar suspeita.      — Você tem razão, Fílio, isto é muito plausível. Mas também significa que este suposto amigo já está plantado ao lado de Anteu há muito tempo, bem antes mesmo de ele ter descoberto o contrabando. Esta hipótese me inquieta. Anteu tem um bom punhado de amigos antigos, com os quais anda sempre junto e reparte bom tempo de sua vida. Mulheres, principalmente.      — Bom, de qualquer modo nós podemos levantar a vida de cada um deles – sentenciou Fratelli – somos quatro e se dividirmos os amigos do Dr. Anteu por nós, não creio que dê mais de três, se muito, para cada um. E podemos levantar rapidamente a vida de três indivíduos não prevenidos não é?      Todos os outros três assentiram com um aceno de cabeça.      — Creio que você está certo, Fratelli. Então, ponhamos mãos à obra. Não quero Anteu envolvido em confusão.      — Começaremos logo amanhã – disse Fratelli.      — De acordo – acedeu Kamuratti. – Mas não deixem que meu filho perceba nada. Ele pode sentir-se magoado comigo se souber que mandei vocês verificarem a vida de seus amigos.      — E... E se descobrirmos quem é o indivíduo, o que faremos?      — Nada. Venham comunicar-me tudo sobre ele. Decidirei quanto ao nosso passo seguinte. Se tivermos de afastá-lo de Anteu, isto deverá ser feito com toda a discrição e de tal modo a não levantar suspeita. O que faremos, durante este tempo, é manter a pessoa sob vigilância controlada e absolutamente discreta, entenderam?      — Perfeitamente – disseram os quatro homens.      — Muito bem. Estou satisfeito. Podem ir.      O grupo saiu em silêncio. Kamuratti permaneceu um longo tempo sentado, perdido em seus pensamentos. Depois, parecendo despertar, e com um longo suspiro levantou-se, foi até o barzinho discreta e estrategicamente colocado num ângulo da grande e luxuosa sala, e serviu-se de um drink. Voltou à janela e permaneceu observando a cidade, agora com a noite já totalmente sobre ela. Os carros deslizavam lá em baixo e o som de seus motores chegava amortecido, na forma de um zumbido surdo e trepidante. Vez que outra uma buzina indicava alguém mais apressado ou mais impaciente – comum nos motoristas das cidades grandes. Kamuratti ficou muito tempo apreciando o espetáculo de cima da torre do Shopping Center. Empoleirado ali tinha a sensação gostosa de que a cidade estava a seus pés. E sonhava intimamente que ela era sua; seus moradores todos eram seus serviçais. Ele era o imperador do Rio de Janeiro. “ Ainda hei de adquirir o direito de explorar esta cidade, das entranhas da terra até o mais alto das nuvens ” pensou, antegozando o fato. Voltou à sala apanhou um charuto Havana, acendeu-o e retornou à janela, aos sonhos megalomaniacos com que gostava de se embalar. “ Eu mandarei varrer dos morros toda a bandidagem. Ninguém fará senão o que eu determinar. Todos pagarão para viver... É, é isto mesmo. Cobrarei tudo. Ninguém usará um túnel como aquele ali sem pagar o devido pedágio; ninguém tomará banho numa praia como Copacabana, Leme, Ipanema, Leblon, São Conrado, Barra, sem pagar para entrar nela. E pagará por hora. Todos os estacionamentos serão meus e seus usuários serão meus clientes. Vou mandar acabar com estes malditos flanelinhas, um bando de vagabundos ganhando um dinheiro que não merecem. Penduram um pano velho no braço – freqüentemente nem flanela é – e ficam descaradamente tomando dinheiro dos donos de veículos. Mando sumir com eles... Vagabundos! E as praças? Todas minhas! Ninguém poderá ir passear em nenhuma praça se não pagar para entrar nela ou para sentar em um banco de jardim. Tudo na cidade será pago. Este povo vagabundo, preguiçoso e descuidado vai aprender a dar valor às coisas que lhes são dadas para desfrutar. Quem sujar a rua com papel de cigarro ou outros, pagará uma pesada multa, porque serão meus carros de limpeza que manterão, é claro, a cidade limpa. A minha cidade !” E sem se dar conta disto, Kamuratti riu satisfeito. “ Os aeroportos serão meus e nenhum avião poderá pousar ou decolar sem pagar uma taxa de aluguel do meu chão. Nenhum passageiro permanecerá nos salões sem pagar por minuto uma taxa de utilização do meu espaço. A mesma coisa será feita nos terminais rodoviários. Todos pagarão, do ônibus ao passageiro. Eu ganharei sempre. Mesmo quando esteja dormindo, estarei ganhando. Os políticos serão meus serviçais mais graduados. Prefeitos e governadores serão meus capatazes. Eu dominarei tanto a política deste Estado que serei aquele que nomeará as pessoas indicadas para estas funções. Votarão as leis que eu quiser; aprovarão projetos de meu exclusivo interesse. Tudo será meu, somente meu !” – E Kamuratti soltou uma estrondosa gargalhada de satisfação diante de tão belo quadro. Mirou o charuto ainda pela metade em sua mão e o jogou janela abaixo, deliciando-se em ver a brasa rodopiar pelo espaço e ir diminuindo até explodir em mil fagulhas ao se chocar com o pavimento dez andares abaixo, no Shopping Center. “ Tomara que tenha acertado a cabeça de um destes porcos ”, pensou maldoso.      Satisfeito e bem-humorado, o poderoso banqueiro resolveu ir para casa. Tudo corria às mil maravilhas. Tudo dentro do que planejara. Trancou a mesa, ligou os alarmas e saiu assoviando “ Hava Naguila ”.      Enquanto Kamuratti dirigia seu Ômega CD ouvindo no toca-fitas o “ Heveinu Shalom Aleichem ”, em um sofisticado clube de praticantes de artes marciais Fratelli acabava de entrar no dojô trajando um quimano de karateca. Concentrado, dedicou-se a fazer os exercícios de aquecimento sem prestar a mínima atenção aos companheiros. Gostava, amava a arte de matar com as mãos desarmadas. E era por isto que se tornara o mais aplicado e o melhor aluno de sensei Kimura, para desgosto deste. O mestre japonês não ensinava karatê com o objetivo de matar, mas sim como uma arte de manter o corpo saudável, a mente ágil e a emoção controlada. Os temíveis golpes deveriam ser treinados tão-só como um meio de o praticante desenvolver uma percepção atilada, um reflexo ultra-rápido e total isenção do sentimento de medo ou de ódio. O aluno que assim fizesse o karatê experimentaria o indizível prazer de se sentir senhor de si mesmo. Olharia o fraco com complacência e o forte com altivez. A nenhum entretanto, humilharia jamais. Não tremeria diante de nenhum perigo nem se curvaria frente a qualquer desafio. Kimura tinha 65 anos, era nono dan de aiki-dô, décimo dan de judô, décimo terceiro dan de jiu-jitsu e sétimo dan de karatê. Era campeão oriental nestas artes, mas nunca machucara seriamente a nenhum de seus oponentes. Sempre que participara de um campeonato, seus adversários sentiam-se não somente honrados em combater contra ele, como também seguros de que não seriam lesionados. E era o seu sonho passar esta filosofia a todos os seus alunos. A maioria seguia-a quase naturalmente, pois os brasileiros não tinham índole combativa. Possuiam a alegria contagiante que lhes legara o sangue africano, o que fazia deste povo o mais comunicativo e o mais feliz da Terra. Mas Fratelli, justamente ele, o melhor dentre todos, não dava a mínima importância aos ensinamentos filosóficos e humanitários do mestre. Dizia abertamente que arte marcial era a arte da guerra e na guerra mata-se pura e simplesmente. Quem não pudesse praticá-la, então, que ficasse em casa. Os que iam para o dojô deveriam ir preparados para matar ou morrer. O sensei olhava preocupado para seu aluno mais aplicado. Ele praticava, agora, as técnicas de atemi. Seus socos eram rápidos, precisos e violentos, mesmo no saco de pancadas. A cada seiken o pesado saco era jogado para trás como se fosse cheio de plumas. O sensei captava o prazer sádico de Fratelli com os violentos golpes que aplicava no saco. Em um ser humano um só daqueles golpes arrebentaria todos os órgãos internos do tórax como se fossem bananas maduras. Pulverizaria as costelas como se fossem de papelão e arrebentaria a medula espinhal como se fosse de gesso. Fratelli deu-se por satisfeito. Passou do saco-de-pancadas para o makiwara. Tomou a base kiba-dachi (cavalo) concentrou-se e disparou a mão direita lateralmente. O estalo foi como o de um chicote, mesmo o punho tendo-se chocado com o enrolado de cordas. O sensei já o vira quebrar três aparelhos daqueles. Ele batia tanto com a faca da mão quanto com o punho fechado e as costas da mão voltadas para o makiwara. Os golpes se sucediam rápidos e numa seqüência cadenciada perfeita. Foram cinqüenta “shutos” com cada mão. Quase sem interrupção Fratelli mudou da base Kiba-dachi para a base Zenkutsu-dachi e passou a treinar seiken (soco) com a mesma violência. Mais cinqüenta seikens com cada punho e passou ao empi. A pancada com o cotovelo é uma das mais fortes do karatê. Seu treinamento requer habilidade e precisão caso contrário o discípulo pode machucar a própria coluna vertebral. No caso de Fratelli, ele era perfeito. “ Seria bonito se não fosse tão cheio de maldade ” pensou o Sensei. Ele esperou pacientemente que todos os alunos terminassem seus aquecimentos. Eram todos faixas-pretas e Kimura gostava de lhes ministrar os treinos. Se não fosse a ovelha negra chamada Fratelli tudo seria como o sensei sonhara.      Finalmente todos se reuniram em formação no centro do dojô e cumprimentaram o mestre. Kimura, antes de iniciar os ensinamentos, mais para Fratelli do que para os outros, falou.      — A arte do karatê nasceu de modo sangrento e veio do sacrifício de mais de uma centena de escravos por parte de um príncipe, há cinco mil anos cristãos. O príncipe, para descobrir os pontos vulneráveis do corpo humano, após ter observado cuidadosamente os combates dos animais e dos pássaros, enfiava longas agulhas nos seus escravos e observava quando elas lhes causavam a morte. Foi assim que se descobriu os pontos vitais do nosso corpo. O príncipe ensinou aos monges budistas a sua técnica de combate a mãos limpas e eles se tornaram os maiores combatentes da antigüidade, na China. Os monges aperfeiçoaram as técnicas descobertas pelo príncipe e as sistematizaram num código a que denominaram de I-Chin-Sutra. Os chineses aprenderam o I-Chin-Sutra e criaram, a partir dele, o Kempô. Três séculos mais tarde, um militar chinês, perito em Kempô, chegou a serviço na ilha de Okinawa. Ali divulgou o Kempô e os habitantes da ilha passaram a estudar e aperfeiçoar as técnicas ensinadas pelo chinês, criando o sistema que denominaram de Okinawa-tê, isto é, “as mãos de Okinawa”. A ilha foi invadida pelos japoneses que proibiram os nativos de portarem armas. No entanto, “as mãos de Okinawa” se impuseram e passaram a ser respeitadas pelos nipônicos. Em 1869 nasceu, em Okinawa o mestre Funakoshi-Gichin. Ele dedicou-se ao estudo e à sistematização do “Okinawa-tê” e de seus estudos nasceu a nobre arte que hoje os senhores praticam – o karate-dô. Em 1925 o mestre passou a ensinar o Karate-dô nas Universidades de Tóquio, não somente como uma arte de matar, também como uma arte marcial aprimorada na filosofia Zen. E é assim que nós, aqui, praticamos o Karatê. Nossa arte nasceu na Índia e causou muito derramamento de sangue, até chegar a sua atual forma. Hoje nós, os mestres que a ensinamos, não fazemos isto com uma filosofia de morte. Nós a ensinamos para que o aluno aprenda a vencer o pior inimigo do homem: o animal assassino que traz dentro de si mesmo. Devemos respeitar o corpo de nosso oponente, pois sem o empréstimo que ele faz de seu corpo para que possamos treinar, jamais poderíamos aperfeiçoar-nos. Somos fisicamente iguais. Os pontos fracos que nosso opositor tem nós também temos. Ferir de morte o nosso companheiro é cometer suicídio, pois ferimos a nós mesmos. A vitória em combate é pura ilusão. Aquele que hoje deixamos caído no dojô, vencido por nossa habilidade, pode muito bem vir a ser o vencedor do próximo encontro. E neste próximo encontro, nós é que podemos estar caídos como ele já esteve antes. Por isto, queridos filhos, jamais deveis orgulhar-vos de haverdes saído vencedores em um combate. Humildemente estendei vossa mão ao adversário momentaneamente derrotado e o ergais com bondade e solicitude. A vossa dignidade de hoje permitirá a ele que também seja digno quando vos vencer. A vitória só se dá no íntimo de cada um. Ela é silenciosa e nunca é vista por ninguém, nem mesmo por aquele que a sente. Ela prescinde de luzes e aplausos. Ela se dá na solidão e no silêncio. Para encerrar, quero lembrar a todos vocês que a única Vitória a permanecer para sempre é a que se consegue sobre a Ignorância. A Ignorância é a raiz do Medo e o Medo, por sua vez, é o combustível que alimenta a violência. Passemos, agora, à nossa lição de hoje.            E o Sensei entregou-se com prazer a explicar os golpes e contragolpes mortais da fascinante arte do karate-dô. Todos se aplicavam e se esmeravam no aprendizado. A aula foi bem, até quando chegou o momento do jiu-kumitê (combate). O sensei observou de soslaio o seu aluno-preocupação , Enrico Fratelli. Ele estava vermelho e muito suado, graças aos exaustivos treinos daquela noite. Mas estava perfeitamente pronto para bater. Isto preocupava Kimura. Havia, entre os alunos, um médico nordestino, natural do Ceará. Era jovem, entusiasmado, muito técnico e aplicado. Mas seu treinamento profissional levava-o ao exagero de jamais aplicar golpes em partes capazes de causar dor, muito menos de lesar, mesmo que de leve, o seu oponente. Pois este mesmo médico, no penúltimo jiu-kumitê acertara um Yoko-gueri-kikomi em Fratelli. E o aplicara tão bem e com tanta precisão que o fanfarrão desmaiara. O próprio médico socorreu o companheiro. Mas este, ao despertar, repelira-o com a violência de sempre, redobrada pelo ódio de ter sido atingido. O sensei sabia que Fratelli ansiava por se defrontar com o companheiro a fim de ir à forra. Todos temiam isto. No jiu-kumitê os combates eram sempre a duplas. O vencedor de uma dupla combatia contra o vencedor de outra, até que um só ficasse invicto. Isto levava sempre à confirmação do que o sensei frisara, naquela noite, antes de iniciar a aula. O vencido de um dia era o vencedor do outro dia, às vezes contra aquele mesmo que o derrotara. Isto visava manter nos alunos o espírito de humildade, evitando a tendência ao orgulho e à violência que o sentimento de poder dava aos neófitos na nobre arte do karate-dô. O sensei temia que o médico viesse a ter de defrontar-se com Fratelli. Havia a possibilidade, pois ambos eram muito aplicados e muito bons.      A primeira dupla foi rápida, Mauro, um mulato baixo e atarracado, bloqueou todos os seiken aplicados por Jonas. Este, um jovem claro, era muito hábil no uso das técnicas de kawashi-wasa (defesa) e forte, quando se tratava de utilizar as mãos. Mas não era hábil naquilo que mais destaca o karateca, a arte de empregar as técnicas Ashi-wasa (pernas) e perdeu o embate com um belo mae-geri aplicado por Mauro.      No segundo combate, Mauro liquidou o Lima com um golpe direto no plexo solar, mas no terceiro encontro perdeu com um ushiro-geri que lhe aplicou o Joca. Este, combateu com segurança contra o novato José – assim chamado por ter pouca experiência de combate e competições. Travou uma luta equilibrada com o Luís, derrotando-o após o terceiro encontro e também venceu o Lauro no segundo encontro. Campeão de sua chave, foi para o combate com o médico Aquiles.      O sensei sabia que Lauro era bom e rápido com as pernas. No entanto, não era páreo para Aquiles. Após uma bela troca de golpes no primeiro encontro, Aquiles derrubou seu oponente no segundo encontro com um chute circular que lhe atingiu a cabeça.      Durante o jiu-kumitê o sensei observou que Fratelli mantinha extremo cuidado na aplicação dos golpes. Seu primeiro combate ele venceu com um belíssimo seiken dado em contra-ataque na face de seu oponente. Fratelli poderia facilmente ter-lhe quebrado o nariz, mas preferiu desferir o soco no lado esquerdo da face, atirando o oponente atordoado sobre o dojô. O segundo combate, Fratelli venceu com um preciosíssimo yoko-tobi-gueri, um salto em pleno ar com uma perna esticada e outra dobrada. Não que fosse necessário, mas o homem gostava de exibir sua performance. O sensei constatou que, mais uma vez, o seu pupilo-problema podia ter ferido o companheiro gravemente, mas evitou a pancada violenta do pé na cabeça do outro. Preferiu atingi-lo de raspão, jogando-o de costas no dojô e caindo de pé ao lado dele, dando fortíssimo pisão no tatami próximo à cabeça do rapaz caído, indicando que se fosse para valer, ali ele teria morrido. O kiai que soltou, naquele momento, foi vibrante como o rugido de um leopardo. O terceiro combate Fratelli venceu com um golpe de pura exibição. Partindo de uma base Zenkutsu-dachi fez um giro rápido como uma cascavel e ficou de costas para o seu oponente. Antes que aquele percebesse o que estava acontecendo, Fratelli aplicou-lhe o ushiro-geri. O pontapé dado para trás tem um efeito demolidor e pode ser absolutamente fatal. Mas para espanto de todos, Fratelli sustou o calcanhar no justo momento em que seu pé tocava o ponto situado sobre o lado lateral do peito esquerdo do companheiro, a quatro dedos abaixo do mamilo. Ele ficou ali, parado, fazendo o kiai poderosíssimo soar na sala da academia. O quarto combate Fratelli o ganhou com um empi de velocidade controlada, mas forte o suficiente para lançar o companheiro desacordado no dojô. O sensei socorreu o rapaz que, felizmente, nada de mais grave sofrera.      Agora estavam ambos, Aquiles e Fratelli, frente a frente, à espera do momento de lutarem.      Um pesado silêncio foi tomando conta da atmosfera ambiental da academia. Sentia-se a eletricidade da tensão no ar. O caçador se controlara para poder ficar frente à caça e ali estavam. Fratelli olhava para o médico com um sorriso malicioso nos olhos, embora seus lábios permanecessem firmes e cerrados fortemente. Aquiles estava aparentemente calmo e seguro de si. Sabia que o companheiro tinha más intenções, mas julgava-se protegido porque estavam diante do sensei. Ele não seria estúpido o suficiente para se arriscar a ser mandado embora da academia. Por isto, Aquiles olhava para Fratelli tranqüilamente. Kimura levantou-se de seu banquinho e encaminhou-se para os vencedores da noite. Eles, em sinal de respeito, ajoelharam-se e colocaram as testas no tatami. Era uma tradição nipônica que Kimura fizera questão de manter entre seus alunos. O sensei ajoelhou-se ao lado dos vencedores e bateu palmas duas vezes. Os alunos ergueram-se e se mantiveram sentados sobre os calcanhares, de cabeças curvadas e mãos espalmadas sobre os joelhos. Kimura, então, falou.      — Hoje tivemos uma exibição de técnica apurada e de controle emocional soberbos. Agora deveria haver o combate final para termos o vencedor da noite. Ele não se dará.      Fez-se um longo e pesado silêncio. Kimura mandou que os lutadores se cumprimentassem e se retirassem do dojô. Aquiles obedeceu, mas Fratelli permaneceu sentado ereto, não respondendo ao cumprimento do outro. Isto era um insulto a Kimura, um insulto absolutamente intolerável. O sensei estreitou os olhos de tal modo que pareciam fechados, a não ser pelo brilho que saia deles pela estreitíssima fenda entre as pálpebras.      — Por que não cumprimenta seu colega? – indagou o sensei.      — Porque eu quero o combate – respondeu Fratelli determinado. – Se não combatermos aqui, no dojô, brigaremos lá fora. E lá, não haverá regras.      Kimura soltou um poderoso rugido. Fora ofendido em sua honra de mestre. Fora desobedecido. Aquele aluno precisava de uma punição. O sensei ficou de pé num salto. Quase que como se ligado a ele, Fratelli ficou também de pé. Os movimentos foram quase síncronos.      — Você quer combate? – e a voz do sensei soou surda.      — Sim.      — Combaterá contra mim – sentenciou o japonês.      — Como desejar, mestre – respondeu Fratelli – mas, depois, o médico lutará comigo.      — Não! – disse o sensei, irritado.      — Sim – teimou Fratelli –, a menos que o senhor me liquide.      Erguendo-se e curvando-se respeitosamente diante do sensei, Aquiles falou.      — Mestre, meu companheiro deseja combater comigo. Sei que o ímpeto dele o levou a cometer uma ofensa inqualificável contra a sua autoridade, mas eu peço, humildemente, que me conceda a honra de lutar em seu lugar.      — Não – respondeu, determinado, o sensei. – Fratelli me desrespeitou. Se eu não lhe der uma lição, ficarei mal comigo mesmo. Não serei mais digno de minha posição de mestre nas artes marciais. A disciplina é inviolável entre nós. Minha honra não tem preço.      — Não quis ofendê-lo em sua honra, mestre – falou Fratelli, sem humildade nenhuma –, porém o senhor me negou um combate sem razão aparente. A regra da academia é a luta final para que haja um vencedor. Como poderei saber se sou o melhor da noite, se o senhor me tira a oportunidade? Eu quero o combate não para insultá-lo, mas para cumprir a regra.      — Combaterá contra mim – sentenciou o sensei e fez um sinal com a mão mandando que Aquiles se afastasse e os deixasse a sós no centro do dojô. Aquiles obedeceu. O sensei cumprimentou o aluno e se posicionou em guarda. Fratelli começou a rodar cuidadosamente em torno do mestre. Estava atento. Seu coração batia forte de alegria. Há muito desejava bater-se contra Kimura. Desejava saber o quão bom era e, sendo ele o mestre, Fratelli sentia-se livre para atacar com toda a potência. Kimura sabia que o discípulo tentaria matá-lo. Atacaria com fúria e toda a potência de que se sentisse capaz. Era um homem perigoso e já conhecia o suficiente do karatê para matar mesmo alunos avançados. Por isto, observava-o globalmente captando cada mínimo movimento de seu corpo. E foi esta sua capacidade sutil de perceber, quase antever o ataque que o salvou. Como um relâmpago o aluno atacou. Rodopiando sobre si mesmo, Fratelli lançou o calcanhar contra a cabeça do sensei. Tinha a certeza absoluta que o acertaria. Podia até sentir o impacto e o crânio do mestre estalando sob o seu calcanhar. E estava antegozando a vitória quando seu pé zuniu no vazio, pois Kimura já não mais estava lá. Fratelli mal pôde ver o sensei quase colado entre as suas coxas, mas sentiu perfeitamente as mãos dele, uma segurando-lhe a coxa que girava no ar dirigindo a perna para o pontapé mortal e a outra segurando-lhe a cintura. Os toques foram suaves, como se o sensei estivesse tocando o corpo delicado de uma mulher. No entanto, Fratelli se sentiu impotentemente levantado sobre a cabeça do mestre que o jogou rodopiando de encontro à parede. O choque foi violento e doloroso. O aluno tombou sobre o dojô desajeitadamente e, nem mesmo tinha acabado de cair, percebeu o sensei vindo sobre ele do alto, punhos prontos para martelar. Mas Fratelli o surpreendeu. Não era o melhor aluno à-toa. Seu corpo – mais por reflexo do que por ato consciente – rodou rapidíssimo e o livrou do ataque. O sensei tocou o dojô fração de segundo após o aluno ter-se posto de pé e contra atacar. O golpe foi certeiro e violento. Foram dois rapidíssimos e violentíssimos seiken dirigidos ao tórax do mestre. Acertaram em cheio e Fratelli esperou vê-lo tombar sem fôlego. Mas nada disto aconteceu, para espanto do aluno. O mestre cambaleou e se deixou cair de costas para num movimento contínuo ficar de pé e barrar o avanço de seu aluno com um certeiro mae-gueri-kikomi.      O pontapé frontal, dado no plexo do adversário com o calcanhar, pode matar. Mas o mestre não tinha a intenção disto. Dosou a pancada de modo a somente retirar o fôlego de Fratelli. Em seguida aplicou-lhe o “shutô” (quina da mão) em bem dosada força, no lado externo esquerdo do pescoço, atingindo-lhe a parte média do músculo esternocleidomastóideo. Fratelli sentiu violenta dor e a consciência lhe fugiu. Tombou como um saco vazio e ficou ali, estendido no dojô, sem que o mestre o socorresse. Aquiles fez menção de se levantar de onde estava para ir socorrer o companheiro, mas foi detido por um imperioso gesto do sensei.      — Ele voltará a si por seus próprios meios – disse Kimura. – Sentirá muita dor e não moverá o pescoço por algum tempo. O suficiente para pensar duas vezes antes de me desacatar. Vocês estão dispensados.      Os alunos começaram a se retirar, impressionados com o combate que haviam assistido. Se o respeito pelo mestre havia duplicado, o medo a Fratelli decuplicara. Compreenderam que ele era um assassino instintivo. Tentara matar o sensei. Atacara com toda a violência de que era capaz. Nenhum deles teria condições de escapar com vida num combate para valer, contra Fratelli.      Todos já haviam saído para o chuveiro quando Fratelli deu os primeiros sinais de que estava recobrando os sentidos. Uma profunda, lancinante dor no pescoço o fez soltar um gemido. Com muito cuidado ele mexeu a cabeça para a direita e para a esquerda. A dor aumentou de intensidade. Pestanejou e olhou em volta. Não viu ninguém. Estava sozinho. “ Perdi o combate ”, pensou de si para consigo. “ Perdi e nem mesmo vi como foi. O sensei é poderoso. Ainda terei muito o que treinar para poder medir-me com ele ”. Fratelli sentou-se com dificuldade. Trincando os dentes fez uma vigorosa massagem no pescoço. A dor diminuiu. Continuou a massagear o local da pancada até quando sentiu melhora. Foi para o chuveiro quando todos já estavam saindo de lá. Tomou uma chuveirada demorada e depois fez trinta minutos de sauna seca, a quase 100 de temperatura. A dor no pescoço melhorou muito. Da sauna foi direto para a massagista e se entregou às mãos de fada da moça. Quando foi embora já estava bem melhor. Podia mexer com a cabeça e a dor, quase não mais a sentia.      “ Estarei bom quando matar Kimura ” – pensava Fratelli à direção de seu carro – “ então, serei superior a ele. E quando isto acontecer, aqueles bobocas se verão comigo .”      Naquela noite ele não foi para casa. Estava deprimido. Não digerira a punição que o sensei lhe aplicara. A humilhação diante dos imbecis da academia era demais. Para Fratelli, todos eram uns asnos, inclusive o sensei. “ Arte Marcial é para matar. Quem gosta de balé que vá para o Teatro Municipal aprender coreografia. No dojô deve-se lutar para valer .” Um guarda trilou insistentemente o apito. Era com ele. Parou o automóvel de mau humor. O policial aproximou-se, cumprimentou-o e lhe pediu os documentos. Depois amolou-o revistando o carro para, então, aplicar-lhe uma multa por avanço de sinal. Fratelli saiu dali mais irritado e beligerante. Rodou sem destino. Terminou no “Tarantela”, na Barra da Tijuca. Não poderia dizer quanto tempo ficou ali olhando, sem ver, o mar no escuro. Bebericou uma sangria e comeu um Fetuchine aos quatro queijos. A irritação estava quase no fim, quando viu o automóvel de Aquiles parando no estacionamento. Pôs-se imediatamente em alerta. Lembrou-se de que era costume de seu “inimigo” freqüentar o “Tarantela” nos dias pares da semana. E ali estava ele para jantar, como de costume. O que levara Fratelli até ali? O inconsciente ou o destino? Para ele tanto fazia. Chamava de “sorte” aquele encontro inesperado. Como um animal de tocaia permaneceu quieto e observando o casal. A moça era muito bonita. Cabelos claros, olhos escuros e corpo muito bem cintado, tinha pernas longas, curvas sensuais e que terminavam em nádegas arrebitadas, mas não exageradas. Os seios sobressaiam na blusa colada, de malha. Os mamilos apareciam, sinal de que ela sentia frio. “ O ar refrigerado ” – pensou Fratelli com um sorriso. – “ O automóvel tem ar refrigerado ”. Ele se dedicou a observar minuciosamente a acompanhante do detestado companheiro de dojô. Era jovem, esbelta, corpo bonito, lábios carnudos e muito bem pintados. Nariz afilado e sorriso encantador. “ Bela potranca ” – pensou o homem excitando-se ainda sem o perceber – “ uma cavalgada de primeira linha... ” – Este pensamento lhe trouxe a fantasia erótica. E a fantasia lhe trouxe um plano.      Eram vinte e três horas quando Aquiles deixou a namorada na portaria do edifício “MIOSÓTIS”, no Leblon. Beijaram-se e ele permaneceu olhando a moça entrar em casa. Depois, foi embora, feliz com aquele jantar. Glauce, irmã de uma repórter, em nada parecia com a mana. Era discreta, suave e amorosa. Cursava o último ano de mestrado em medicina e estava no último período da residência. Falava pouco da família e Aquiles achava engraçado que ela nem ao menos lhe houvesse dito o nome de sua futura cunhada, nos seis meses em que se conheciam. Pretendiam casar assim que ela terminasse sua residência, o que ocorreria dentro de seis meses. O jovem Aquiles estava muito feliz com a noiva. O modo pacato, discreto e compreensivo de ser de Glauce casava muito bem com as maneiras refinadas, educadas e um pouquinho misantropas de Aquiles. Os pais de sua noiva moravam no Rio Grande do Sul e eram donos de uma vinícola. Aquiles estivera com eles duas vezes. Eram descendentes de italianos – o que tornava os modos de ser de Glauce muito sui gêneris . Eles falaram muito de Karina, a irmã jornalista de Glauce. Pelo que haviam dito, era totalmente contrária a Glauce. Nela, o sangue italiano havia dominado plenamente. Irrequieta, impaciente e estouvada. “ Vou gostar de conhecer a moça ” – pensou Aquiles, sorrindo, “ um contraste que vem bem estimular nossas vidas. Repórter policial... O que fará uma pessoa destas? Será que sobe morros e... e faz reportagens beócias como aquelas do “Na Onda do Crime”, do Canal 13? Se faz, bem... pelo menos terá coisas interessantes a contar. ” E foi mergulhado nestas divagações que o jovem chegou a sua casa. Guardou o carro na garagem, entrou e foi direto para o chuveiro. Banhado e perfumado, consultou a secretária-eletrônica para ver se havia algum recado. E foi aí que sua felicidade e alegria daquela noite ficaram perturbadas. No aparelho não havia qualquer chamada ou qualquer recado de paciente – o que era raro – mas Aquiles, quando ia desligá-lo, ouviu, súbito, uma gravação. Após o sinal da secretária, uma voz sussurrada e, por isto mesmo difícil de identificar, dizia: “ Quando passeava por uma gruta da Acrópole, em Atenas, a Jovem Creúsa, bela donzela, foi violentada por Apolo, o belo deus do calor e da vida... Cuidado com Apolo...      Aquilo deixou o médico perplexo. Não tinha nenhum nexo e, no entanto, deixara-o tenso. Ouviu por mais de uma dezena de vezes a estranha mensagem sem compreender onde ela queria chegar. Não conhecia nenhuma Creúsa. Não conhecia nenhum Apolo. Não era médico psiquiatra para receber mensagens de algum neurótico em crise. Tomado de um pressentimento mau, ligou para Glauce. A moça atendeu com voz sonolenta.      — Alô?      — É você, meu bem?      — Aquiles?! O que houve? Eu já estava dormindo...      — Bem... Nada. Tudo em ordem?      — Por que me telefona para perguntar isto? É claro que está tudo em ordem... O que houve?      — Bem... Eu... – Aquiles não sabia o que dizer. Era impossível que qualquer coisa tivesse acontecido com sua amada. O prédio dela era muito bem guardado. Possuía alarmas e ela morava no décimo quarto andar. Não era lógico temer que algo lhe houvesse acontecido... E no entanto, uma angústia confrangia-lhe o peito.      — Meu amor... O que há? – insistiu Glauce.      — Senti saudades – mentiu o rapaz, rindo mais de vergonha de si mesmo do que pela mentira que dizia.      — Que bom. Mas... que tal irmos dormir? Já é tarde e teremos um dia cheio, amanhã.      — Você está certa... Durma bem.      Aquiles desligou o aparelho. Tudo estava bem com sua amada e, no entanto, seu peito continuava pesado, fechado, angustiado. Revirou-se na cama quase a noite toda, sem conciliar o sono.      Cícno e Fílio seguiram as pessoas que lhes foram destinadas por Kamuratti. Por três dias estiveram colados nelas. Mas nada, absolutamente nada de suspeito conseguiram levantar.      Fratelli também nada descobrira sobre duas das pessoas suspeitas. Mas um tal de Celso lhe despertara o instinto. Era um homem polido, educado, bem falante e um advogado bem sucedido. Amigo de Anteu, parece que trabalhavam juntos em alguns casos de destaque. Fratelli conseguiu com habilidade e discrição, e, lógico, através de gordas propinas, saber de quase todos os processos em que ambos os advogados trabalhavam. E nenhum deles tinha nada de suspeito. Acidentalmente, contudo, quando estava na cantina do Fórum, onde muitos advogados se reuniam comentando os processos de que cuidavam, ouviu a palavra FRUTIBRAS. Procurou descobrir de qual boca havia ela saído. Na mesa estavam quatro homens conversando. O assunto era exportações e pelo menos dois deles mencionaram novamente aquela firma. Davam-na como um exemplo de correção.      — Com licença – intrometeu-se Fratelli – ouvi vocês mencionarem a FRUTIBRAS. Não é uma firma em que o Dr. Anteu tem negócios?      — Eu não sei – disse um dos interpelados.      — Eu, também, não – confirmou outro.      — Nem eu – ecoou um terceiro.      — Quem lhe disse que o Dr. Anteu tem negócios com a FRUTIBRAS? – indagou o quarto advogado.      — Não, ninguém particular. Certo dia eu estava no elevador e ele entrou. Conversava com um outro advogado e falavam sobre a tal firma que vocês citaram. Parece que estavam muito bem impressionados com ela – mentiu Fratelli.      — O colega é especializado em quê? – indagou um dos outros.      — Direito Empresarial – respondeu Fratelli.      — Oh, entendo o seu interesse na FRUTIBRAS. Mas, meu amigo, se o Dr. Anteu está na jogada, desista. Os donos da empresa não vão trocá-lo por outro advogado, disto temos a certeza. O Dr. Anteu é muito respeitado pelos seus clientes e eles confiam muito no trabalho dele e de sua equipe – disse o mais velho dos quatro outros advogados.      — Bem... a gente sempre pode tentar. Quem sabe, há algo que se possa fazer...? – disse Fratelli, simpático.      Todos riram. Fratelli pediu licença e se levantou. Havia notado, observando de soslaio, que o tal Celso estava sentado próximo a eles e estivera o tempo todo atento à conversa. Olhava de modo direto para ele como se quisesse gravar suas feições. Levantara-se tão logo Fratelli dera por encerrada a conversa e saíra muito rápido. Bem, podia não ser nada e ele talvez perdesse tempo em seguir o homem, mas por via das dúvidas...      Celso foi direto para o rico escritório de Anteu. Fratelli, é claro, não tinha como entrar lá, mas aquele comportamento lhe pôs um elefante atrás da orelha. E foi por isto que tratou de levantar a vida do homem. Mas justamente aí foi que a coisa ficou complicada. O tal Celso não era fácil de ser rastreado. Embora advogado e estando quase todo o tempo no Fórum, não cuidava de nenhum processo em particular. Era escorregadio, excelente na arte de “desaparecer” e por várias vezes deixara Fratelli perdido no reboliço daquele labirinto. Uma vez, Fratelli o seguira pela cidade. Mas tivera o azar de ser parado por uma patrulha policial e, quando finalmente se desembaraçou dela, o homem havia sumido. Fratelli começou a desconfiar de que havia uma coincidência muito estranha entre as batidas policiais e aquele homem. Sempre que ele o seguia, invariavelmente a polícia, de um ou outro modo, interferia em seu caminho e o tal Celso escapava.      Fratelli tinha influência no DETRAN, o Departamento de Trânsito. E foi lá, através de um informante, que veio a descobrir a verdadeira identidade do homem que já o intrigava há quase três dias. Ele era um banqueiro de bicho, o mais rico e o mais influente entre os grandes testas-de-ferro do crime organizado. Aquilo o preocupou. Será que o filho do patrão sabia quem era o seu amigo? Se sabia, andaria metido com os crimes na cidade? Fratelli resolveu que era hora de informar ao Sr. Kamuratti. De um telefone público fez a chamada para o banqueiro. Este atendeu.      — Sou eu, Fratelli – identificou-se o advogado – acho que tenho notícias interessantes.      — Pois informe – ordenou, seco, Kamuratti. Fratelli contou o que sabia a respeito do tal Celso. Kamuratti não o interrompera nem uma vez. Ao final, foi impositivo:      — Venha, hoje, às vinte e duas horas, ao meu escritório. Venha só.      Fratelli olhou o relógio. Eram dez horas e vinte minutos e ele não tinha muito o que fazer. O Celso estaria, como sempre, zanzando pelo Fórum, aparentemente muito ocupado, mas na verdade fazendo apenas a cena habitual. Talvez tomasse informações sobre o andamento dos processos que lhe interessavam sobre jogos ou sobre alguns de seus asseclas. Até que tivesse recebido orientação específica do Sr. Kamuratti nada tinha a fazer. Estava contente. Desde que viera ficar a serviço da família, nunca fora colocado em trabalho sério. Ficou de pé olhando para a rua onde uma mole humana suava e se agitava no calor do verão carioca. Uma jovem de mini-saia e cabelos a la Elba Ramalho, sapatos pretos de modelo infantil chamou-lhe a atenção. A moça logo sumiu de vista, mas sua imagem ficou na mente de Fratelli. E foi graças a ela que terminou por se recordar da noiva de seu desafeto. O homem consultou novamente o relógio. Agora, eram dez horas e vinte e oito minutos. Ela se chamava Glauce Pinheiro Lauriel e trabalhava no hospital escola na Urca. Quando saía de lá, à noite, atendia num consultório. Fazia especialização em neurocirurgia, mas era também uma excelente clínica geral. Tanto que estava quase conseguindo ser chamada para uma das mais conceituadas clínicas da cidade para assumir a direção da área de cirurgias. Fratelli riu de si para consigo. Colocou mais um cartão no telefone e ligou o número do hospital. Logo ficou sabendo que a Dra. Glauce não estava de plantão naquele dia. Talvez estivesse na residência. Lá lhe informaram, contudo, que Glauce havia tirado o dia para sair. Talvez houvesse ido visitar o noivo, o Dr. Aquiles. Fratelli ligou para a clínica onde Aquiles trabalhava e era Diretor da Área Médica. Não, Glauce não havia chegado lá. Ele somente se identificou como um paciente dela, mas não deu nome. Disse que telefonaria depois. À falta do que fazer, Fratelli decidiu vigiar Anteu e o tal Celso.      Glauce encontrava-se, naquele momento, diante da portaria da redação de “EL MONDO” e aguardava a irmã. Tivera a sorte de encontrar Karina na redação. Geralmente ela estava pela rua, atrás de alguma notícia ou pesquisando uma informação. Teve de esperar trinta minutos antes de ver a irmã sair do elevador.      — Puxa vida! – exclamou Glauce, sorrindo – como você é difícil, mana.      — Não mais do que você – respondeu a bela moça de estatura mediana, olhar arguto, sobrancelhas espessas, mas muito bem tratadas, corpo de linhas acentuadas, esbelto e firme de musculatura. Boca e nariz eram quase cópias perfeitas daquelas partes na irmã médica. A repórter era levemente mais baixa em estatura e seus cabelos eram de um castanho mais escuro. Enquanto a médica estava, como de hábito, toda de branco, a repórter trajava um leve vestido azul-claro sem mangas e com um decote muito forte. O tronco dos seios sobressaia de modo provocante e era perfeitamente visível que não estavam presos por sutiãs. Calçava sapatos com saltos tipo Luís XV, um tanto fora de moda, mas que punham em destaque um par de pernas de meter inveja a Vênus.      — Então, o que a traz aqui? – indagou Karina, após beijar a irmã nas faces.      — Estou de folga e só vou encontrar o meu noivo à noite. Daí pensei em almoçarmos juntas. Que tal? – convidou Glauce.      — É uma excelente idéia, mana – respondeu, satisfeita, a repórter – Temos um bocado de coisas a falar.      Pouco depois elas saíam conversando animadamente. Tomaram um taxi e foram zanzar pelo Rio Sul. Ali tomaram lugar numa agradável e refrigerada lanchonete e pediram uma refeição rápida. Enquanto esperavam, conversavam.      — E então –, indagou Karina – o noivado está mesmo de pé?      — Claro – disse Glauce. – E nos casaremos assim que eu terminar minha residência. Daqui a seis meses, para ser mais exata.      — E onde vai ser a festa?      — Não vai haver. Queremos algo discreto. Aquiles é um homem retraído e não gosta de festas. Eu quero que façamos a coisa lá na vinícola. Nossos pais, acho eu, vão gostar.      — Eu aprovo a idéia – disse Karina, tomando um gole do copo de chope gelado.      — Você vai estar lá, não vai? – quis saber Glauce.      — Claro que vou. Afinal, preciso conhecer este cunhado e não terá melhor oportunidade que esta. Afinal de contas eu não sei se depois disso a gente vai encontrar-se mais vezes. Temos trabalhos semelhantes quanto ao tempo em que nos toma, mas dessemelhantes quanto aos interesses e objetivos. Acredito que nunca iremos estar ao mesmo tempo, no mesmo local, não é?      — Não sei, não. Meu futuro marido é ortopedista. Quem sabe, um dia...      — Ele venha a tratar de minha perna quebrada por uma bala? – riu a repórter.      — Não, mana, não desejo que isto aconteça – rebateu Glauce, constrangida.      — Era brincadeira. Mesmo porque, se acontecer, o jornal tem sua equipe médica, sabia?      — Quem falou em perna quebrada foi você, não eu – disse rindo a médica.      — É, tem razão... E onde pretendem passar a lua de mel?      — Em uma ilha, mas não vou revelar qual seja – brincou a médica, brejeira..      — E por que não?      — Para que não tenhamos uma equipe de seu jornal atrás de nós – zombou Glauce. Ambas riram. O garçon substituiu os copos de chope gelado. As moças continuaram a bebericar até quando o almoço foi servido.      — Parece bom – disse Karina.      — Veremos logo – falou a médica.      — Sabe com quem estou saindo? – perguntou a repórter.      — Não. Não tenho tempo para bisbilhotar sua vida – foi a resposta divertida.      — Conhece... ou já ouviu falar dos Kamuratti?      — Não.      — Você é mesmo desligada, mana. Os Kamuratti são os donos do Banco Kamuratti.      — Você está saindo com um banco inteiro? – brincou Glauce.      — Não, claro que não. Eu saio com Anteu Kamuratti – e Karina estava séria.      — O herdeiro? – admirou-se Glauce.      — Sim.      — Um golpe do baú? Tome vergonha...      — Nada disto, sua boboca. Ele é um homem interessante. Um judeu... Descendente, para ser mais exata. Mas alguém que não é muito apegado às tradições da raça.      — Ainda bem – disse Glauce, dando início ao almoço com bom apetite.      — Por que? – indagou Karina, seguindo-a.      — Eu não conheço bem os judeus, mas o que dizem deles...      — Bem, concordo que parecem esquisitos para os nossos costumes. Mas nossos ancestrais, os tupis, também pareceram esquisitos aos nossos descobridores.      — E quem foi os nossos descobridores, posso saber?      — Dizem que os portugueses – falou Karina de boca cheia.      — Mentira. Muito antes deles os vikings já andavam por estas terras. E bem antes deles, os egípcios e, há quem afirme, os atlantes. Ultimamente, afirmam que também os esquimós, de quem nossos indígenas herdaram suas características genéticas – rebateu Glauce demonstrando um bom conhecimento da História que a História não conta.      — É, em matéria de História, nosso País é uma mentira só – filosofou a repórter.      — Por isto sugiro que deixemos de lado esta parte e voltemos ao seu judeu – falou rindo Glauce.      — Tudo bem. Anteu é um advogado brilhante. E uma companhia muito interessante, se quer saber. É fino no trato, suave no falar e muito cordato. Uma excelente companhia.      — Você está mesmo apaixonada por ele, está? – e Glauce parecia muito surpresa.      — Eu não disse isto – apressou-se a desfazer o mal-entendido a repórter.      — Bem, mas o seu entusiasmo...      — É profissional. Só profissional.      — E como se explica um entusiasmo profissional neste caso?      — Simples. Ao que parece, Anteu não concorda muito com os métodos dos Kamuratti no que tange a negócios.      — E daí?      — E daí, acredito que vou descobrir uma grande reportagem, ora essa – disse Karina, tornando a encher a boca avidamente.      — Você está-me dizendo que está usando o tal de Anteu para conseguir um “furo” jornalístico, é isto? – censurou a médica.      — Sim... Quem sabe? Parece que Anteu quer contar-me algo. O que, eu nem desconfio. Mas quando ele está menos tenso deixa escapar que discorda frontalmente com certas... certos negócios do Banco. Desconfio, não estou certa, de que são negócios não muito éticos, se me entende.      — Karina – e Glauce parou de comer para falar olhando muito séria para a irmã – você não sente que pode jogar o pobre do Sr. Anteu em uma situação muito delicada, se vier a publicar o que quer que ele lhe confidencie?      — Não. Talvez ele deseje mesmo que eu publique a coisa. Só que de modo a não comprometê-lo, é claro.      — E há como fazer isto?      — Pode ser. Tudo vai depender da importância do que tenha a me revelar.      — Ele não está apaixonado por você, está?      — Não sei, e não me preocupo, se quer saber.      — Acho horrível você não levar em consideração os sentimentos.      — E quem disse que eu não os levo?      — Ora, você parece estar jogando charme em cima do pobre homem – disse Glauce, contrariada.      — Não, engano seu. Eu não me comporto coquetemente com ele – rebateu Karina. – Se se apaixonar... é problema dele, não meu.      — É... Nossos conceitos de ética são mesmo muito diferentes – disse a médica.      — Não vamos entrar por este caminho. É espinhoso. Que tal...      — Que tal o quê? – quis saber Glauce.      — Que tal a gente pegar um filme? Dizem que o JURASSIC PARK é muito interessante. Vamos?      — Bem... Tá bom. Eu preciso mesmo me distrair. Não vou a um bom filme há muito tempo – concordou a médica.      As moças terminaram o almoço e continuaram conversando ainda por algum tempo. Depois, saíram para dar uma volta pelas lojas enquanto esperavam a hora do cinema começar.      Dezoito e trinta. Sentado em seu automóvel Enrico Fratelli aguardava pacientemente que algo acontecesse. Anteu havia entrado num hotel. Estava acompanhado do tal Celso e de um homem de aparência eslava. Embora não tivessem desaparecido de vista senão há vinte minutos, Fratelli já sentia como se o tempo decorrido fosse mais de uma hora. Ele era homem de ação, não de espionagem e vigilância. Queimava de impaciência e de curiosidade para ir lá dentro descobrir mais alguma coisa, mas temia pôr tudo a perder. Se isto acontecesse, Kamuratti iria ficar uma fera e Fratelli não queria a ira do seu patrão voltada contra si. Kamuratti era um polvo de muitos tentáculos. Poderia alcançá-lo no fim do mundo, se assim o desejasse. Consultou o relógio talvez pela centésima vez. Bocejou. Espreguiçou-se e estava quase resolvendo agir, quando viu o carro de Glauce passar. Seu enfado cessou instantaneamente. Também sumiu seu interesse pelo trio que até aquele momento lhe tinha prendido a atenção. Ligou o carro e seguiu, devagar e de faróis apagados, atrás do automóvel da médica. Ela não notou que era seguida. Entrou calmamente na garagem e não deu importância quando viu pelo retrovisor que outro carro quase colado ao seu também ali entrava. Às vezes, algum jovem fazia esta gracinha. Aproveitava a abertura automática da porta da garagem para penetrar junto com o outro carro. Uma demonstração de habilidade.      Glauce estacionou na vaga que lhe era destinada e vislumbrou o automóvel estranho parando cinco vagas além da sua. Estranhou. Aquela vaga era de um senhor sisudo, morador do quinto andar. E o carro dele não era aquele. Ficou um momento aguardando para ver quem desceria do automóvel, mas como a pessoa demorasse, deu de ombros e dirigiu-se para o elevador. Sua curiosidade poderia ser-lhe embaraçosa, se a pessoa notasse que ela estava aguardando para vê-la. Afinal de contas, o senhor sisudo bem que poderia ter trocado de automóvel, por que não?      O elevador chegou e ela entrou. Abriu a bolsa e estava procurando a chave quando um estranho também conseguiu entrar no elevador a tempo de impedir que as portas se fechassem. Glauce assustou-se, mas o sorriso simpático daquele homem forte e muito bem vestido tranqüilizou-a e ela voltou a rebuscar na bolsa à procura das chaves.      — A senhorita não é a Dra. Glauce, é? – perguntou com voz sonora o homem.      — Co...? Oh, sim, sou sim – disse Glauce, olhando-o curiosa.      — Permita que me apresente. Sou Eurico Fragoso. A senhora tratou de um amigo meu, há alguns dias. Fez um grande trabalho no braço dele – disse Fratelli.      — O que tinha o seu amigo? – indagou, curiosa, Glauce.      — Sofreu uma ruptura dos tendões da mão esquerda. Acidente de automóvel. A senhora e sua equipe fizeram a intervenção cirúrgica – informou Fratelli todo sorriso.      — Bem.., Na verdade eu faço uma dezena de intervenções durante a semana. Acho que não me lembraria de seu amigo, desculpe-me – disse Glauce. O elevador parou no seu andar e ela saiu. Fratelli fez a mesma coisa, de modo natural.      — Parece que vamos para o mesmo andar – disse ele, ainda com aquele sorriso cativante.      — É... – Glauce, sem compreender o motivo, sentiu-se apreensiva. Eram quatro apartamentos por andar. O hall era pequeno, logo, o simpático estranho não podia demorar muito para localizar aquele a que se dirigia. Glauce parou um instante rebuscando a bolsa, vigiando de esguelha o homem. Este, olhava os números nas portas como se procurando um especial. Retirou um cartão do bolso e consultou cada porta a olhar o cartãozinho na mão. Estava de costas para Glauce. Ela aproveitou para encaminhar-se para o seu apartamento e introduzir a chave na porta, mas antes que o fizesse o seu celular soou dentro da bolsa. Atendeu-o ali mesmo. Era Aquiles, mas Glauce fingiu estar recebendo uma chamada urgente do hospital.      — Sim?... Ah, é você? ... Oh, está bem. Estou indo agorinha mesmo... Não, não. Eu estava chegando... Não precisa. Eu estou descendo. Até logo.      O elevador ainda estava no andar. Glauce apertou o botão e as portas se abriram. Ela entrou e o homem simpático fez a mesma coisa.      — Acho que errei de edifício – disse ele, com um ar embaraçado – Este não é o Edifício Gerânios, pois não?      — Não – respondeu ela, aliviada – este é o “Miosótis”. O “Gerânios” é ao lado, à direita.      — Oh, que maneira desastrada de chegar a casa – comentou o rapaz. – Eu aluguei o apartamento 1402 no “Gerânios”...      — Ora, que coincidência – comentou Glauce impulsivamente – Seu apartamento tem o mesmo número do meu – mal o disse e já se arrependia.      — É mesmo? Isto pode significar sorte para mim. A propósito, vou precisar de sua ajuda para sair da garagem. Eu aproveitei a sua carona para entrar nela e... Bem, não tenho o comando para o portão e, sem ele, fico preso aqui. Vai ser difícil explicar como vim parar na garagem errada, não é?      Glauce riu, descontraindo-se. – Sim, tem razão, Mas saia como entrou: atrás de mim.      — Obrigado – disse Fratelli. O elevador chegou ao andar da garagem e ambos saíram dele. Cada qual se dirigiu para o seu automóvel.      Já na rua, Fratelli manteve-se acompanhando o carro da médica por algum tempo, sabendo perfeitamente que era observado por ela através do retrovisor. Sabia que a moça estava tensa, desconfiada, porém confusa. E era sua intenção manter aquela situação por mais tempo. O automóvel dela acelerou e aumentou a distância entre eles. Fratelli soltou um riso mau e também acelerou, quase indo bater no pára-choques traseiro do automóvel de Glauce. Ela estava assustada. Tinha os olhos presos no retrovisor e a manobra do homem quase a fizera perder o controle de sua direção. O carro por pouco não desgovernou e bateu na lateral de um ônibus. O coração de Glauce disparou e sua boca ficou seca. Relanceou os olhos procurando um guarda de trânsito, mas não havia nenhum à vista. O automóvel de seu perseguidor emparelhou com o seu. Assustada, Glauce olhou para dentro dele. Sorridente, lá estava o homem.      — Hei, doutora – gritou-lhe ele – boa sorte! Vou entrar na próxima rua. Nós nos veremos qualquer dia destes. Não esqueça: meu nome é Eurico!      E o automóvel dele fez uma curva rápida, embarafustando-se pela rua lateral e desaparecendo de vista. Glauce suspirou aliviada. Seu nervosismo decresceu. “ Puxa vida, estou começando a ver coisas ” disse de si para consigo. “ Também, com o banditismo que assola esta cidade é impossível a gente não desconfiar de certas situações... ”. Ela consultou o relógio, Tinha tempo. Estacionou o auto e fez uma ligação para seu noivo.      — Aquiles?      — Sim, sou eu. O que aconteceu?! Eu não entendi nada! Você parece que me confundiu com alguém do hospital... Onde está?      — Desculpe, querido. Eu estou voltando para casa. A ligação estava ruim. Pensei que fosse o enfermeiro chefe me chamando de volta. Estava preocupada com um paciente meu e...      — Tudo bem, acho que entendo. Eu passo por aí para pegá-la.      — Ótimo! Vou tomar um banho. Estou muito cansada. Tchau!      Glauce retornou ao apartamento, mas desta vez olhou cuidadosamente para ver se havia algum auto estranho atrás de si. Nada. A rua estava tranqüila.      Eram as vinte e duas horas em ponto. Fratelli entrou no rico escritório de seu patrão. Ele estava lá, sentado atrás da escrivaninha, parecendo muito atarefado com uns papéis.      — Entre e sente-se, Fratelli – disse Kamuratti sem se dignar a olhar para o subordinado, que lhe obedeceu em silêncio. Após quase meia-hora, pacientemente aguardada em quietude completa por Fratelli, Kamuratti deu-se por satisfeito e passou a lhe prestar atenção.      — Muito bem. Então, o Celso está-se metendo com o Anteu – disse o banqueiro, olhando incisivamente para o assecla.      — Sim, Senhor Kamuratti – respondeu Fratelli sem se mover.      — E.,. Sabe dizer se Anteu conhece a verdadeira indentidade do bicheiro?      — Ele é um banqueiro de bicho, senhor. Eu não posso afirmar que o Dr. Anteu saiba disto. Mas...      — Mas...?      — Mas não acredito que desconheça o fato totalmente.      — Você tem razão. Anteu não desconhece esta particularidade de seu amigo. No entanto, há outras... variáveis que eu não quero que meu filho descubra, pelo menos por agora. Você vai encarregar-se de uma missão estranha, mas necessária. E advirto que o sigilo deve ser absoluto.      — O senhor sabe que eu não costumo quebrar segredos – disse Fratelli, com voz monocórdia.      — Sim, mas é bom sempre lembrar que a indiscrição pode resultar em conseqüências dolorosamente funestas – disse com voz soturna o banqueiro. E passou a informar sobre o que devia ser feito. Falou durante quase uma hora, sem ser interrompido pelo assecla.      — Compreendeu tudo? – finalizou Kamuratti.      — Sim, senhor.      — Alguma pergunta?      — Não, senhor.      — Então, mãos à obra.      Fratelli levantou-se, cumprimentou Kamuratti com um leve e quase imperceptível curvar de cabeça e saiu a passos firmes e longos. Já passava da meia-noite, mas o assecla não se dirigiu para casa.      O local é pesado. O bairro é Madureira, no Rio de Janeiro. A barulheira, enorme. A freqüência muito ruim, constituída por indivíduos jovens, arruaceiros, adeptos do “funk” e da pancadaria. O baile está no auge. A turbamulta roda o salão ao som alucinante de uma música cheia de insultos e palavrões. A droga rola à solta. Sente-se o perigo no ar, como se a atmosfera fosse feita de pura nitroglicerina a qualquer momento pronta para explodir. Temperando o ambiente de tensão, o calor faz o suor escorrer pelos corpos luzidios e musculosos. Um homem branco, jovem e de musculatura trabalhada pela “malhação” atacou uma negra de belo corpo. Meteu-lhe a mão pela calcinha, enquanto suas línguas se embolavam dentro das bocas como cobras em luta. Na mesa ao lado, um mestiço caía quase em coma sobre o pó que estava aspirando do tampo sujo da mesa. Um jovem rodopiava feito doido no meio do salão, pernas e braços para o alto e as costas no chão. Em torno dele outros quatro se esmeravam em saltos acrobáticos e pulos mortais, soltando gritos selvagens. Àquilo chamavam de baile “funk”. Na verdade, era a pura sucursal do inferno na Terra.      Ninguém deu a mínima atenção ao homem barbudo, cabelo encarapinhado, um feio corte de navalha na face direita e um bigode maltratado debaixo do nariz de abas largas. Era alto, muito forte e coberto de colares no pescoço. Foi direto para o balcão apinhado de maus elementos. Meteu-se entre eles, empurrando-os com maus modos e despertando logo a irritação daquela gente perigosa.      — Hei – protestou um negro jovem, mas muito mais troncudo, muito mais volumoso que o recém-chegado – tá a fim de quê, cumpade ?      — Sai fora – rugiu o homem.      — Tu vai se dar mal – gritou o negro, mais para ser ouvido do que por raiva.      — Não vou não. E se você for esperto e me ajudar num negócio, nós vamos é nos dar bem – respondeu o homem, também aos gritos.      — Que qui tu tá querendo falá, cumpade? – e em volta do negro musculoso já se formara um pequeno grupo, pronto para cair de pau no intrometido.      — Preciso de cinco machos decididos. Alguém aí tem bagos? – disse, rude, o homem.      — Tá querendo verificar, é? – ripostou debochado um dos outros mulatos que haviam fechado uma roda em torno dos dois.      — Tô. Mas não tô a fim de botar a mão no saco de ninguém – disse o homem mal-encarado, olhando de frente para o jovem arrogante.      — E se eu quiser qui tu pega aqui no Esperidião Amim, hein cumpade, o quê qui tu vai fazê? Vai me encarar, vai? – desafiou o jovem.      — Não. Eu te mando pro inferno – foi a resposta seca e dura. Os jovens arruaceiros se entreolharam e soltaram uma gargalhada em uníssono.      — Pois o carecão aqui do negão tá esperando, chapa. Cumé qui é, tu vai ou num vai pegá no “ferro” do cara?      O homem voltou-se para o mulato debochado, que mordiscava um palito olhando-o com desdém. O rapaz tinha várias tatuagens pelo corpo e, com elas, várias cicatrizes, recordações de lutas em que andara se metendo.      — Que foi que disse, moleque? – perguntou, fechando o sobrolho. A roda abriu-se instantaneamente e os dois homens foram deixados cara a cara. Como num passe de mágica um canivete automático surgiu nas mãos do mulato.      — Aí, cumpade, eu tô a fim de cortar fora os teus penduricalhos. Vai ver que tu nem tem as coisas, né?      O jovem começou a rodar devagar em torno do estranho, rodando a arma branca à frente do corpo com um sorriso maligno na boca.      — Vou começar avivando essa cicatriz qui tu tem aí neste focinho de porco, chapa! – e o jovem deu o bote. O canivete passou a milímetros da face do estranho, mas ele se moveu muito mais veloz. Com a mão esquerda desviou o braço atacante e com a direita acertou o queixo do agressor com um “ upper-cut ” de meter inveja a Mike Tayson. O rapaz tatuado subiu quase meio metro do chão e seus dentes saltaram da boca fazendo-se acompanhar de um jato de sangue rubro. O rapaz estatelou-se no chão desacordado antes mesmo de lá chegar. Seu canivete rodopiou no ar, mas a mão do homem o apanhou quando ainda estava subindo. O estranho rodopiou, espantosamente rápido, descrevendo uma helicoidal sobre si mesmo e indo parar a ponta da arma entre as pernas do negro forte, espetando-lhe os testículos abaixo do pênis que levava o nome do homem público mais careca do país. O negro empalideceu e soltou um berro, mais de susto que de dor, pois a ponta da arma não lhe rasgara o saco escrotal.      — Quem é que tá a fim de ver a cor dos escrotos do crioulo aqui? – gritou o homem para os espantados rapazes.      — N I N G U É M! – bradou em desespero o negro.      — É, cumpade, ninguém quer ver o negão capado, não – disseram em coro os companheiros do assustado negro.      — Tudo bem, então. Não costumo capar um porco chorão, mesmo – debochou o homem, pondo-se de pé e lançando a arma em direção a um dos rapazes que, assustado, desviou-se e a deixou ir cair longe.      — Agora, quem é macho pra me seguir num negócio que vai dar um bocado de grana pra todos? – o homem olhava penetrantemente nos olhos de cada um dos espantados e emudecidos dançarinos.      — O... o que é que você... o senhor quer de nós? – gaguejou um dos rapazes.      — Como eu disse, preciso de cinco machos. Mas quero machos mesmo, homens capazes de encarar a morte sorrindo. O negócio vale cinco mil reais, um mil para cada um. O que me dizem?      — E o que é que a gente tem de fazer pra ganhar esta bolada? – indagou o jovem que falara antes, desconfiado.      — Um seqüestro – foi a resposta seca.      Houve um breve silêncio, com os rapazes entreolhando-se assustados e desconfiados.      — O senhor é do Comando Vermelho? – quis saber um dos jovens.      — Não. Eu ajo sozinho... Quer dizer, eu trabalho para alguém que paga bem – foi a resposta do homem.      — E quem é ele? – quis saber outro jovem.      — A curiosidade mata – falou o homem, olhando de modo ameaçador para o curioso.      — Des... desculpe – tartamudeou o rapaz, baixando os olhos desconcertado.      — Eu vou sair. Estarei num Gol preto, estacionado na segunda quadra, à direita desta pocilga. Os que topam a parada devem sair um a um, a intervalos de três minutos, não menos, e ir direto para o meu automóvel. Estão entendidos? – E o homem deu meia-volta e se retirou, deixando a audiência desconcertada a se entreolhar indecisa.      Eram vinte e uma horas quando Anteu apanhou Karina para sair. A noite estava surpreendentemente fresca, para um dia que havia beirado os quarenta graus. A moça vestia um conjunto rosa, de saia pregueada e curta, blusa simples e de costas de fora. Sua maquiagem era adequada para a ocasião e, como sempre, ela dava aquela saudável e sempre bem-vinda impressão de frescor e pujança que refrigeram a alma de quem a vê. A vida, nela, parecia explodir em cada poro, a cada segundo, em cascata de luz e esperança.      — Você está simplesmente deslumbrante – saudou-a Anteu assim que a moça surgiu na portaria do edifício.      — Obrigada – e com um gesto simples e encantador, ela pegou o braço do rapaz e desceram de braços dados. Anteu sentia-se como se fosse levando uma rainha. Aliás, Karina sempre o fazia sentir-se assim, o rei da situação. Aquilo lhe era profundamente agradável.      — Adoro tê-la a meu lado e ver o olhar de inveja dos outros homens – comentou Anteu olhando de esguelha para dois outros homens que passaram por eles e não se incomodaram de se virar para olhar Karina.      — Obrigada – riu ela, coquete – é sempre bom ouvir isto.      — Quando você vai aceitar ser minha garota? – disse ele enquanto abria-lhe a porta do carro.      — Quem sabe? – respondeu a moça, evasiva.      — Só você é quem pode responder a esta pergunta – disse o banqueiro após tomar seu lugar atrás da direção do Taurus – E então...?      Karina olhou-o com um sorriso brejeiro e desconversou.      — Vamos? A noite está convidativa. Que tal relaxar e gozar este frescor, hum?      Anteu permaneceu escrutando-lhe o semblante por alguns segundos, mas a moça olhava natural e determinadamente para a frente. Finalmente o banqueiro deu a partida no automóvel.      O carro rolou pelo Leblon e Karina admirava as fachadas coloridas de neon dos bares e das casas comerciais. Havia ainda muita gente andando pelas ruas e avenidas, mas dentro em pouco o Rio estaria recolhido e só os notívagos perambulariam pelas suas ruas semi-desertas. Nisto ela gostava do Rio de Janeiro. Era uma cidade grande com jeito e ares de cidade interiorana. Em São Paulo, como em New York isto jamais aconteceria. A noite e o dia já não eram mais respeitados pelos seres humanos. Como formigas incansáveis eles trabalhavam todo o tempo, revezando-se na estúpida faina de sobreviver à dura luta por um lugar ao sol, às vezes apenas pelo direito de poder respirar. Lembrou-se de Marina Colassanti em sua crônica “ Eu sei, mas não devia ”. Nela, a jornalista retratava a dura realidade do citadino que se vai acostumando às situações duras que o viver social submete a todos e os obriga a abdicar, aos pouquinhos, de si mesmos e da vida. O Taurus subiu a Niemayer, passou diante do imponente e bem localizado Hotel Nacional e rolou pela orla marítima indo parar em São Conrado, diante de um agradável restaurante repleto de pessoas tagarelantes, como são os cariocas. Eles desceram do automóvel, entraram no restaurante e buscaram uma mesa junto à parede dos fundos, embora Karina gostasse mais de sentar perto da mureta que dava para fora. A moça nada disse, pois estivera observando furtivamente o seu acompanhante e lhe notara a tensão no rosto. Boca crispada, pigarro nervoso a curtos intervalos e os nós dos dedos esbranquiçados pela força desnecessária com que segurava o volante da direção hidráulica do automóvel, Anteu não mais trocara uma palavra com ela desde que dera partida no carro. Karina procurara dar a impressão de estar despreocupada e descontraída, mas estava, em verdade, muito alerta e atenta. Percebera que Anteu também a olhava de esguelha, principalmente para as suas pernas, com as coxas tentadoramente à mostra. “ Hummm ”. – pensou a repórter – “ vai ser duro manter o lobo afastado, hoje. Acho que exagerei na dose...      O garçon trouxe as bebidas. Anteu tomou seu suco de melão em silêncio, olhar perdido em algum lugar entre seu rosto e o tampo da mesa. Karina bebericou o martini seco, atenta ao estado de espírito de seu companheiro. Anteu soltou um suspiro e olhou para fora, em direção à escuridão que ocultava o mar.      “ Parece que eu não sou o menu principal de seus pensamentos na noite de hoje ” – pensou a repórter sentindo-se aliviada – “ Menos mal, pois não estou disposta a brincar de gato e rato, agora.      — Desculpe-me – falou com voz rouca, Anteu – eu não estou uma boa companhia, hoje. Dá pra notar, não é?      — Não se agaste por isto – respondeu ela sinceramente.      — Quer que eu a leve de volta? – e no rosto dele Karina pôde advinhar um pedido de súplica para que dissesse não.      — Oh, não! De modo algum. A noite está começando, meu caro amigo. Nós mal chegamos. As coisas vão melhorar, calma. – E a repórter o olhou com aquele olhar cálido de que ele sempre gostava.      — Bem... é que eu estou mal, hoje. Estou mal, mesmo. Quer saber do que mais? Acho que não devia ter ido apanhá-la para sair... Estou-me sentindo como um peixe fora d’água...      — Anteu, os amigos não devem ser procurados somente nas horas boas da gente. Se não, para que valeria tê-los, não é? – E a moça sorriu com simpatia.      — Amigos... – e Anteu ficou um momento a olhá-la perscrutadoramente. – Karina, você acredita mesmo que neste mundo enlouquecido, onde, mais do que nunca, o homem é o lobo do homem, há alguém que se possa considerar e ser considerado amigo de outro?      A moça olhou bem dentro dos olhos do homem e percebeu neles uma angústia espantosa. Involuntariamente pousou a sua linda mão rosada sobre a mão de dedos gordos, branca e peluda do companheiro,.      — Eu sou sua amiga – disse com sinceridade, ainda que estranhando este arroubo de amorosidade, pois não era muito chegada ao companheiro, não.            — Sim, sei disso. Mas você também é uma repórter... – respondeu Anteu com um sorriso amargo na face – Uma boa repórter – frisou com um ar distante, como se ela não estivesse ali.      — E uma repórter não pode ser amiga? – perguntou Karina sustentando o olhar nublado dele e lhe devolvendo outro, cálido e acolhedor.      — Não, não pode – respondeu ele, com pessimismo.      — E um banqueiro... Pode um banqueiro ser amigo?      — Esta classe de pessoas é que não pode mesmo ser amiga de ninguém – disse o homem, com um leve estremecimento que não passou despercebido para a repórter. – Banqueiros tem uma barra de ouro no lugar do coração. Amam o ouro; vivem pelo e para o ouro e morrem por ele. O resto é apenas o resto.      Anteu curvou o corpo para a frente apoiando-se todo nos cotovelos fincados no tampo de plástico da mesa. Seus olhos fitavam o martini no copo diante de Karina.      — Seu pai é um banqueiro; você é banqueiro; sua família é tradicionalmente constituída de banqueiros... Já pensou nisto?      Anteu permaneceu silente. Com a ponta do dedo indicador apoiada no queixo do de seu companheiro, Karina obrigou-o a olhá-la de frente.      — E então? – insistiu ela.      — É por isto que eu disse o que disse – respondeu o homem, soturno.      — Posso concluir que você... não é meu amigo? – falou suave e pausadamente a repórter.      — Talvez... Quem sabe? – e ele a olhou firme.      — O que quer dizer com “talvez”?      — Eu também, acho, devo ter uma barra de ouro implantada no lugar do coração. Ainda não tenho a certeza, mas creio que mais dia menos dia vou descobrir que não gosto de nada, exceto do maldito metal amarelo e de seu reflexo, o papel moeda. Aí, então, minha cara, ai de quem confiar em mim. Brutus, Judas, Calabar serão pinto diante do monstro em que me vou transformar.      Anteu transpirava abundantemente e seu olhar se tornara duro e presente. A repórter começou a suplantar a mulher. Ali havia algo e o faro não lhe enganara nunca. O homem certamente estava entupido com alguma coisa séria. Quem quer que tivesse a estatura financeira de um Kamuratti não se angustiaria com ninharias.      — Eu não creio que você... – a presença do garçon fê-la interromper o que ia dizendo. Fizeram os pedidos. Ela, strogonoff de galinha; ele, camarão frito. Quando o homem se afastou a moça voltou a falar.      — Eu dizia que não creio que você tenha um pedaço de metal no lugar do coração. Você é um ser humano, como eu... como qualquer pessoa no mundo. você sente...      — Não, não, minha cara repórter – interrompeu ele veemente – eu não sei bem o que seja sentimentos. Aliás só conheço aqueles que me surgem quando meus interesses são contrariados. Aí, sim, sei o que é sentir raiva e... e... e avareza. Eu...      — Ouça – disse Karina, erguendo a mão para impor silêncio. – Você tem sentimentos, sim. Está confuso com alguma coisa que o perturba e isto é natural... quero dizer, ficar confuso em tais momentos é o comum entre as pessoas. E emoção, confusão afetiva... tudo isto são coisas do coração. Um pedaço de metal não sente, meu amigo. Agora mesmo eu vejo que você está angustiado. Só um ser humano se angustia. Só um ser humano experimenta isto.      Anteu suspirou e recostou-se. – Você é uma boa moça, Karina. É por isto que gosto de sua companhia.      A voz dele estava sumida.      — Então, que tal gozarmos a companhia um do outro... aproveitarmos o frescor da noite para relaxar, hum? Os problemas sempre têm soluções.      — Será? – perguntou o homem e a moça pensou ter percebido certo tom de sarcasmo amargo na voz dele.      — É, sim. Seja lá o que lhe esteja esquentando os miolos, o melhor mesmo é colocar o assunto em “ stand by ”, não acha?      O sorriso dela era muito sedutor e sua sensualidade, provocadora. Isto agiu como um choque capaz de fazer com que Anteu saísse de seu estado depressivo e sorumbático.      — Não vai perguntar o que me preocupa?      — Não.      — E por que não?      — Não é da minha conta – disse Karina bebericando aparentemente despreocupada o seu martini seco.      — Estou estranhando. Onde foi parar a repórter curiosa?      — Você convidou a mim, Karina, não a repórter, não foi?      — Bem... acho que sim.      — Pois sou eu quem está aqui. Ouça, não queira a repórter. Ela é muito chata. Ela, sim, não tem coração.      — Tudo bem. É que eu pensei que repórter fosse como médico e sempre estivesse a postos...      — E somos – disse Karina – quando estamos de serviço. No momento estou em lazer... ou não?      — É, creio que você está certa.      Houve um silêncio. Karina continuou a fazer um afago na mão de Anteu e a olhar firme nos olhos dele. Seu acompanhante estava-se debatendo entre falar e não falar sobre o que lhe angustiava. A repórter sentia que o momento era crucial para ele e seu faro lhe dizia que era necessário ser muito cautelosa para não inibi-lo. Um conflito se formava em seu ser. A sua parte profissional exigia dela que lançasse mão de tudo a seu alcance para abrir os segredos do homem. A sua parte humana, ao contrário, lhe azucrinava a consciência, cobrando-lhe respeito pelos sentimentos alheios. Ambas, contudo, impunham-lhe que quebrasse aquele silêncio antes que se tornasse por demais opressor. As gotículas de suor que bailavam na testa de Anteu eram sinal do angustioso conflito em que ele se debatia. Por que – indagava-se a repórter – por que ele se abalara a escolher a ela para companhia, naquela noite? Anteu podia escolher entre duas dúzias de mulheres ricas e, algumas, até mais bonitas que ela. Sabia que ele não era de se apegar a nenhuma mulher, pois que as tinha às dúzias com um estalar de dedos. O fato de lhe ter dado preferência tinha uma razão. Qual? Karina só encontrava uma resposta – a sua profissão. Ele não buscava a mulher. Queria a profissional que ela era, mas devia estar querendo esta profissional com os mesmos desejo e cuidado de quem quer sentir a maciez da pele do tigre, mas teme perder a mão pelo gesto imprudente.      — Como é ser um Kamuratti? – disse ela, suavemente e com um sorriso encantador no rosto juvenil.      — O... o quê? Desculpe, eu... eu não ouvi direito – tartamudeou Anteu, atrapalhado.      — Eu perguntei como é ser um Kamuratti – respondeu, cândida, a repórter.      — Bem... quer dizer... Sabe que eu nunca havia pensado a respeito? – confessou ele realmente surpreso.      — Que tal pensar nisso... agora? – convidou, melíflua, a repórter.      Anteu suspirou e endireitou-se na cadeira.      — Ser um Kamuratti – repetiu ele reflexivamente – Como é ser um Kamuratti... – parecia degustar cada palavra, cada sílaba, e parecia descobrir atrás delas uma infinidade de dados impossíveis de serem verbalizados em toda a sua profundidade.      — Sim – insistiu Karina – como é ser um membro de tão formidanda clã? Como é que um Kamuratti vê o mortal comum? Como é que percebe os problemas do mundo... a fome, a guerra, a criminalidade? Como é que se sente enquanto mortal? Como encara o fim... a morte?      Anteu sorriu um sorriso sem calor.      — Um Kamuratti – disse ele – jamais encara o fim... a morte. Ele não a vê, não a sente, não lhe toma conhecimento se quer saber. Um Kamuratti se perpetua na descendência. Cuida para que seus descendentes lhe herdem toda a carga intelectual, financeira, moral e social. É por isto que é insensível à morte. Ela não lhe causa qualquer impressão. Ele é todo poderoso. É um Deus entre os deuses. O mortal comum é... é... é nada para um Kamuratti. Um mortal comum só é notado por ele se tem algo que possa ser tomado ou se pode ser usado nalgum jogo de interesse e no qual, é lógico, o Kamuratti sempre ganha. O mundo? Ora, o mundo é a vaca leiteira em que os Kamuratti ordenham o leite que bebem a grandes goles – o ouro. Guerras, fome, miséria, crimes, tudo só tem interesse e desperta a atenção dos Kamuratti se dali ele aufere lucro. A vida dos outros, do que quer que seja, só tem importância para um Kamuratti se ele a pode usar em benefício próprio. Enfim, ser um Kamuratti é ser um imortal sem coração, sem entranhas, sem...      O garçon trouxe a comida e Anteu calou-se. Karina percebeu, então, duas coisas simultaneamente. A primeira, que seu coração estava disparado e que, também ela, suava. A segunda, que seu parceiro estava afogueado. Ela olhou para a bolsinha mimosa sobre a mesa, displicentemente esquecida, largada entre ela e Anteu e onde o gravador de profissional captava cada palavra de seu acompanhante. A opinião do herdeiro dos Kamuratti sobre o clã era notícia retumbante, principalmente quando emitida naquele teor. Mas como publicá-la sem perder o amigo e, quem sabe, ganhar um poderoso inimigo? De qualquer modo, aquilo era uma boa notícia que qualquer jornal gostaria de publicar. Comeram em silêncio, cada qual com um turbilhão de pensamentos desencontrados e sentimentos conflituosos a se chocarem nos corações. A repórter, a contra gosto, tinha de admitir que, no fundo, não estava inclinada a entregar, assim, de mão beijada, a notícia ao jornal. Ao que parecia, as opiniões de sua irmã sobre ética, sentimentos e estas coisas, afinal tinham corroído suas convicções profissionais e a percepção deste fato a aborrecia, pois verificava, agora, que estas convicções nunca haviam, a bem da verdade, sido muito fortes. Por um momento, perdida em suas reflexões, chegou a quase ignorar seu companheiro que a observava de rabo de olho. Finalmente, quando Anteu, após pedir licença, acendeu o havana – o que surpreendeu Karina pela impropriedade do local – a moça retornou à tática da provocação.      — Você fez uma descrição... “sui gêneris” do que é ser um Kamuratti. Acredita, mesmo, nisto, ou será que só o disse para me impressionar?      Anteu olhou-a sério a princípio, sorrindo em seguida e finalmente explodindo em franca gargalhada. Karina desconcertou-se diante daquela reação.      — “Sui... sui gêneris” – disse Anteu Kamuratti entre risos – Qual nada, minha cara, os Kamuratti não têm nada de “sui gêneris” se quer saber. Na verdade, creio que eles não são humanos.      — E... e o que são eles?      — Máquinas de pensar, Monstros! Tudo o que há de...      Anteu parou em seco. Seus olhos fixaram-se por instantes na porta, atrás e à direita de Karina. A moça percebeu sua alteração e olhou para o espelho à sua frente e atrás do companheiro. Muitas pessoas estavam passando pela porta de entrada e nenhuma delas lhe pareceu suspeita.      — O que foi? – indagou curiosa.      — Não... nada. Você... você se incomoda se sairmos?      — Não, mas...      — Então vamos. – e Anteu fez um discreto sinal de cabeça para o garçom, deixando sobre a mesa uma nota que dava para pagar três vezes a despesa feita. Levantou-se tomando cuidado para ocultar ao máximo o rosto, curvando a cabeça e elevando um pouco os ombros. Puxou a cadeira para que Karina se levantasse e quase a arrastou pela mão em direção a outra porta de saída no lado oposto àquele por onde certamente algo – ou alguém – o impressionara. Karina ainda relanceou o olhar para aquela parte do salão da qual Anteu Kamuratti obviamente fugia, mas não conseguiu perceber nada de anormal. Não lhe pareceu que alguém em especial os olhasse. Não notou ninguém que se trajasse nos mesmos padrões de Anteu. Ao contrário, eram pessoas aparentemente comuns, trajando jeans e blusas esportivas. A maioria jovens despreocupados e barulhentos. Um ou dois casais classe média e só.      — Espere, Anteu, espere! – e Karina parou, obrigando seu acompanhante a fazer a mesma coisa.      — Vamos! – insistiu ele com urgência no tom de voz.      — Não! – exclamou ela decidida – Eu só vou se me disser, bem claro, do que é que estamos fugindo. – A moça resistia teimosamente aos puxões que Anteu lhe dava no braço.      — Eu digo, mas depois. Agora, vamos! – disse ele, agoniado e francamente ansioso.      Karina obedeceu, apreensiva. Andar na companhia de Anteu já era perigoso. Rico, famoso, era alvo fácil para um atentado e o Rio de Janeiro não estava para brincadeira. As Falanges e os Comandos atacavam sem aviso prévio. Quase arrastando a moça pelo braço, Anteu se desculpou.      — Perdoe o mau jeito, mas é que entrou alguém que eu não quero que me veja aqui.      — Quem é? Eu conheço? Não vi...      — Não, não conhece e não importa. Vamos sair daqui, por favor.      O homem caminhava a passos largos e Karina seguiu-o em silêncio, mas sua cabecinha queimava toneladas de fosfato rememorando, relembrando cada fisionomia das que pudera captar. De todos, só os dois casais mereceriam alguma atenção, mas pareciam tão comuns... A não ser que... O homem vestia paletó. A mulher trajava-se discretamente. Seria este casal? Paletó à noite no Rio de Janeiro e não sendo praticante de alguma das seitas evangélicas fanáticas que por toda parte enxameava, era de desconfiar. Em pleno verão dificilmente um habitante da cidade, a mais bela do mundo, iria para um bar de destaque e à beira-mar vestido formalmente. E era duvidoso encontrar um fanático evangélico com esposa e tudo, na sexta-feira entrando num bar alegre e barulhento para beber e comer. Principalmente um bar descontraído, onde a mocidade costumava freqüentar.      Entraram no automóvel e começaram a rodar em direção à Barra da Tijuca. A iluminação feérica do elevado que costeava a lapa e punha em retirada as trevas, lançando-as para o oceano, emprestava um ar de mistério à noite amena. Lá em baixo, a uns quinze metros, o mar arrebentava-se em ondas soturnas contra a pedra. Karina observava sem ver o deslizar do viaduto sobre suas cabeças, remoendo as imagens dos rostos entrando no bar. Em sua memória cada vez mais o homem de paletó, com a mulher vestida à classe média, tornava-se mais figura enquanto os outros freqüentadores se apagavam no fundo da recordação, constituindo, todos juntos, um fundo difuso.      — Karina – chamou Kamuratti.      — Sim? – alertou-se a repórter.      — Você deve estar intrigada com o meu comportamento, não está? – A voz dele era pesada, contida.      — Estou, sim. Não vou negar que estou mesmo.      — Bem, acho que você merece uma explicação...      Anteu olhou apreensivo para o retrovisor. Acelerou até os cento e quarenta e continuou lançando olhares furtivos ao espelho retrovisor.      — Estamos sendo seguidos? – indagou a repórter, apreensiva e sem se voltar no assento, evitando confirmar com os próprios olhos aquilo que temia.      — Eu não tenho certeza... – disse ele, hesitante.      — O que pretende fazer? – o medo começou a invadir a moça que, não obstante, procurava manter controle de si e não deixar transparecer seu estado emocional.      — Você se incomoda de irmos para um motel?      — Por que? – estranhou a repórter. “ Se ele armou isto para me comer, vai-se dar mal ” – pensou Karina, raivosa.      — Desculpe o mau jeito, mas é que lá vamos encontrar mais privacidade para conversarmos. E, acredite, é o de que mais preciso neste momento.      — Só isso?      — Juro! Eu... eu quero fazer um trato com você.      — Que trato?      Kamuratti observou atentamente o retrovisor, antes de responder.      — No motel eu conto. Agora, preciso me livrar do automóvel preto que nos segue. Segure-se e não tenha medo. Sei dirigir.      Anteu acelerou o automóvel que respondeu incontinenti. Pelo espelhinho no quebra-sol Karina observou outro carro também aumentar imediatamente a velocidade. “ Então, não foi armação. Há um doido nos seguindo. Mas por que ?”      — O automóvel ziguezagueava fantasticamente, passando pelos outros carros como se eles não estivessem ali ou estivessem parados. Karina se viu numa cena hollywoodiana e sentiu o coração bater na garganta.      — De quem estamos fugindo? – ela estranhou sua voz esganiçada.      — De um inoportuno olheiro. Acho que de meu pai – foi a intrigante resposta de Anteu.      — Olheiro? De seu pai? Quer explicar melhor...      — Depois! – E o carro fez uma manobra rápida, rabeou perigosamente, derrapou, mas obteve novamente o rumo certo. Anteu demonstrava uma impressionante habilidade ao volante. O outro carro tinha cada vez mais dificuldade de o acompanhar e ia perdendo terreno. A velocidade do automóvel de Anteu era suicida. Passava dos duzentos quilômetros por hora.      — Santo Deus! – exclamou Karina – onde você aprendeu a dirigir deste jeito?      — Fui piloto de provas e “playboy” aficcionado de pegas, no Alto da Boa Vista, quando passava pela adolescência. Você está segura, não tema.      A corrida continuou alucinada por mais meia-hora. O perseguidor desapareceu de vista. Anteu diminuiu a velocidade e enveredou pela Avenida Brasil.      — Para onde... – começou a perguntar Karina, mas foi cortada pelo companheiro.      — Para um motel. Um motel simples, barato, onde ninguém, creio eu, pensaria em me encontrar com você.      Karina calou-se. Anteu embarafustou pela entrada de um motel de segunda categoria e logo estavam no apartamento simples. A saleta, a cama redonda ladeada de espelhos até no teto e o banheiro com hidromassagem. Anteu ficou na saleta e sua atitude desarmou a companheira que estava pronta para armar um escândalo. Ele convidou-a a sentar, foi ao frigobar e apanhou uma cerveja e dois copos.      — Aceita?      — Sim, obrigada.      Serviu as bebidas em silêncio. Sentou-se e bebeu placidamente a sua. Só na segunda garrafa é que finalmente o homem pareceu haver conseguido colocar os pensamentos em ordem.      — Karina – começou ele com voz pausada e frases medidas – você é uma repórter. Uma boa profissional. E eu sei que coloca o exercício de sua profissão acima de tudo. Não a censuro. Só se chega a ser bom em qualquer coisa se se pode passar por cima dos limites, mesmo que isto implique dor para amigos, parentes ou outras pessoas íntimas. O próprio Jesus, de cima da cruz, dizia a sua mãe: “mulher, eis aí teu filho e indicava João... ou Pedro... sei lá”. E dizia ao seu apóstolo: “homem, eis aí tua mãe”. Acho que com isto queria deixar bem claro que os laços parentais, mesmo os mais fortes, rompem-se quando o indivíduo tem de cumprir com aquilo que se determinou fazer. Eu não sou religioso e não vejo a Jesus como o Filho de Deus ou coisa que tal. Para mim ele é somente um homem que lutou denodadamente pelo seu ideal. Um homem especial, é verdade, mas um homem como outro qualquer... de carne e osso.      — Curioso que um judeu como você cite Jesus. O seu povo, pelo que se sabe, não é muito dado a dar crédito a Ele.      — É verdade. Para o meu povo, como você diz, Jesus não passou de um baderneiro e contraventor. Nem mesmo profeta ele é considerado. Mas eu o cito não como um Deus ou filho de Deus e, sim, como um homem. O que foi no seu tempo é quase impossível saber-se com certeza. Muita coisa foi criada e inventada sobre ele. Muita coisa foi colocada em sua boca pelos pagãos que o adoram como a um Deus. Eu não posso saber a verdade. Nem eu e acredito que ninguém. Sei que o homem a quem vocês denominam de O Salvador, para alguns dos sábios de minha raça não passou de um bandido. Nem mesmo era judeu de sangue, pois há quem afirme que nasceu ariano.      — Jesus era ariano? – admirou-se sinceramente a repórter. – E aquela genealogia que a Bíblia cita? Não é verdadeira?      — Não... ou melhor, parece que não. Até onde estudei, não é. Ensinaram-me que Ele nada tinha com a linhagem de David, mas esta história não me parece bem contada. Se tinha linhagem nobre, sinceramente, eu não posso dizer que fosse de descendência não judaica.      — Um pesquisador de peso, o Dr. Holger Kersten, teólogo alemão, cita a hipótese de Jesus ter sido a encarnação de um Bodhisattva porque Ele foi a perfeita encarnação do ideal do Budismo Mahayana, naquela época. O que seu povo acha disto?      — Eu não sei, sinceramente. Não entendo nada de budismo... ou de qualquer outro “ismo”, se quer saber. O que sei é que Jesus discordava e muito, de todos os dogmas judaicos. Diz-se que ele dizia ter vindo contrapor o homem a seu pai, a filha à sua mãe e a nora à sua sogra. Dizia, também, que se alguém não se afastasse de seu pai e sua mãe, seus irmãos e irmãs, não era digno d’Ele. Isto fere frontalmente os conceitos judaicos de família. No judaísmo, pai e mãe estão acima de qualquer coisa na família, devendo ser respeitados e venerados até a morte. Os laços de sangue são absolutamente indissolúveis. Mas para o homem Jesus isto era exatamente contrário a seus ensinamentos. Não foi à-toa que despertou a ira dos sábios e dignitários do Templo, àquela época.      — Bem, Ele tinha de ser coerente com sua própria doutrina – disse a repórter, totalmente envolvida pela discussão – Ele pregava o desapego e o desinteresse por toda e qualquer coisa mundana. Pais e família são coisas mundanas, não são? Além do que os laços de família tornam as pessoas egoístas, pois em nome do sangue... pelo laço de sangue de que você acabou de falar, muitos atos puramente egoístas são cometidos no mundo. E Jesus combatia sem trégua o egoísmo, para Ele, o pior mal da humanidade.      — É... – E Anteu permaneceu calado, perdido em pensamentos. Karina, ainda que ansiosa, permaneceu aguardando que ele voltasse do devaneio. Aquela discussão, totalmente fora do que ela esperava, havia-a envolvido muito pois era interessante saber como pensava um judeu sobre o Homem mais falado, venerado e desconhecido de todos os tempos. O homem que sua raça odiara tanto a ponto de condenar a uma morte horrível e em condições humanamente humilhantes.      — Karina – falou Anteu, após algum tempo – vamos deixar o seu Jesus de lado, por enquanto, certo? O que desejo falar tem pouco a ver com Ele... eu acho.      Ele a olhou incisivamente, alerta, totalmente aqui e agora. Karina desconcertou-se diante da mudança.      — Bem... como você quiser – disse ela, hesitante.      — Eu quero que você me prometa que o que viermos a conversar aqui, ao ser publicado – e eu sei que será – não tenha a fonte revelada. Promete isto?      Ainda sob o impacto da mudança brusca, Karina respondeu.      — E se eu não prometer?      — Então, vamos embora e você me esquece – foi a resposta decidida, que se fez acompanhar de um olhar gélido em um par de olhos carregados. A repórter espantou-se diante daquela mudança súbita do homem. Cautelosa, resolveu dizer que concordava com ele, sabendo no íntimo que seria muito difícil cumprir com a promessa.      — Tudo bem, eu prometo – disse ela, cruzando os dedos nas costas.      — Ouça bem – disse Anteu, grave – se quebrar sua palavra eu não dou um centavo por sua vida.      — Está-me ameaçando? – perguntou incrédula e espantada, a repórter.      — Não – disse Anteu, calmo – estou-lhe prevenindo. O perigo não virá de mim. Eu não seria capaz de tocar em um fio de seu cabelo, mesmo que você me traísse.      Karina ficou a olhar para o companheiro, em silêncio, mas perscrutadoramente. Por fim, perguntou:      — Diga-me, se é você quem faz as revelações, por que serei eu aquela que vai correr perigo? Se eu publicasse a fonte de minhas informações o perigo deveria vir para ela, não?      — A lógica deveria ser esta. Mas você é quem terá quebrado o segredo, compreende? Além do mais, sou um Kamuratti. Sou o herdeiro não somente do banco, mas de outra coisa que você nem pode desconfiar. Uma tradição e uma... uma maldição.      Karina ficou a olhar para o companheiro em silêncio e tentando captar toda a profundidade do que ele lhe dizia.      — É assim tão terrível o que você quer dizer-me? – indagou ela.      — Eu... bem, acredite: é sim.      — Tudo bem, eu agüento o tranco. Do que se trata?      O homem reclinou-se na cadeira a olhar o rosto de Karina, como se a estudando. A moça ficou a olhar também para ele. Aparentemente estava serena, embora por dentro estivesse extremamente agitada e curiosa.      — Primeiro, diga-me: você acredita que haja uma outra vida depois da morte? Acredita em... bruxarias... em feitiçarias... essas coisas?      Karina espantou-se de verdade. Ficou perplexa. Olhou para Anteu e o viu com novos olhos. Aquele homem todo poderoso acreditaria mesmo naquilo? Tê-la-ia trazido para o motel para falar disto? Se fosse verdade, então, certamente estava precisando com urgência de um psiquiatra. O automóvel que os perseguira e do qual tão habilmente havia fugido era verdadeiro e deste mundo. Não tinha nada de sobrenatural. Iria Anteu falar realmente de um assunto tão fora de propósito?      — E então? – instou ele – estou esperando.      — Errr... Bem, há os afoxés, os candomblés, as umbandas... – ela falava quase por falar, pois sua cabeça estava confusa.      — Eu sei, eu sei – disse ele com um tom de impaciência na voz – Mas eu quero saber é sobre coisas bem mais profundas... mais sinistras... Bem além disto... destas crendices infantis...      — Co... como assim? – o espanto crescia na repórter.      — Eu falo de algo bem mais terrível, compreende? Falo de bruxas de verdade... Seres que são indestrutíveis... Que não morrem nunca.      Ele falava a sério e não estava doido, Karina podia ver isto. E o seu espanto ia no auge.      — Algo assim como... vampiros? – tentou a moça, incrédula.      — Não... quer dizer... mais ou menos... – Anteu parecia atrapalhado para explicar o que desejava que a repórter compreendesse.      — Anteu – disse a repórter, decidida – eu não estou entendendo onde você quer chegar. Mas se vem-me dizer que estamos aqui para falar de sobrenatural...      — Não se trata de sobrenatural. Trata-se de algo que no momento a Ciência não explica... Bem, deixa pra lá. Vejo que você não acredita mesmo nisto.      — Não, não acredito. Não sou de me preocupar com o amanhã, entende isto? Não sei e talvez ninguém saiba se há vida após a morte. Mas sou de opinião que, como todos vamos morrer, todos saberemos disto quando chegar a hora. E como isto é inevitável é perda de tempo ficar lucubrando sobre o tema. Estamos vivos, agora. Vivamos, portanto. Se houver algo após a morte... bem, então há. Se não houver, pelo menos a gente não perdeu tempo à-toa. Viveu bem o tempo que teve para viver, compreende? Agora, quanto a bruxas... feiticeiras... vampiros... seres que morrem mas não estão mortos e coisas semelhantes, francamente, não creio em nada disto. São criaturas, ou coisas, oriundas das nossas fantasias infantis e eu creio que a Psicanálise tem uma explicação muito convincente para isso. Esta história toda me parece uma manobra sua para fugir ao assunto real. É ou não é?      — Como assim? – Anteu escutara calmamente Karina falar.      — Ora, o carro que nos perseguiu ainda há pouco é deste mundo e não tinha nada de sobrenatural. Você está escapando pela tangente para não falar dele, não é?      — É assim que você julga?      — Não julgo nada. Eu percebo claramente que você quer escapar de falar do incidente. Por que, hein Anteu? Eu tenho o direito de saber, afinal também estava no carro e passei um susto danado, ora.      Anteu guardou silêncio por algum tempo, olhando com um sorriso enigmático para a repórter. Depois, disse:      — Você tem razão. Eu tentei... Não pode me condenar por isto, não é?      — Creio que não. Agora, que tal não perdermos mais tempo, hum?      — Bem...      — Que tal deixar de rodeios e ir direto ao assunto! – insistiu encorajadoramente a repórter. Um sorriso cativante lhe iluminava a face.      — Você está certa. Vamos mesmo ao que interessa. Eu só estava divagando para ganhar um pouco de tempo, nada mais. Mas quero reforçar meu pedido: não revele a sua fonte de informação. Invente o que puder e quiser, mas não cite meu nome.      — Fique tranqüilo quanto a isto.      — Ótimo. Agora me diga: você conhece o Celso Cerqueira?      — O banqueiro de bicho? Claro! É a estrela número um do meu trabalho – e Karina não conseguiu disfarçar a satisfação que o rumo da conversa tomava agora.      — Eu o conheço há uns quatro meses... talvez seis, não mais. Durante todo este tempo eu o considerei apenas um colega de profissão, advogado como eu. Nos últimos cinco meses eu o ajudei no despacho de alguns caixotes e outras pequenas encomendas para a Europa. Usava meu prestígio... o nome dos Kamuratti para conseguir livrar a mercadoria da amolação e da demora aduaneira, compreende? alguns dólares – dele, é claro – ajudavam muito... Você me entende?      — Sim, você subornava.      — Hum-hum, isto mesmo, isto mesmo. Aqui no Brasil isto é mais fácil do que em qualquer outra parte do mundo.      — Pode ser. Temos-nos tornado muito venais de uns tempos para cá. A vergonha cívica, o sentido de nacionalismo, a honra patriótica passaram a ser apenas substantivos abstratos entre nós. Culpa da política de desestruturação por que vem passando a Nação há mais de sessenta anos. Eu suspeito, até, de que há um plano sinistro para acabar com este país ainda imberbe. O ensino, a língua, os valores sociais, morais e religiosos estão sendo sistematicamente esfacelados... Mas continue, por favor. Minhas opiniões pessoais não importam agora.      — Importam, sim. Você não faz idéia do quanto está certa no que suspeita. Só que não é só o seu país que está passando por este processo horrível, não. Toda a América Latina sofre isto.      — Há um plano para... Ora, Anteu, você está querendo brincar comigo. Vai querer dizer que há uma organização oculta que deseja arrebentar com os países da América Latina, é?      — Não. Eu não estou afirmando tal coisa. Mas vamos voltar ao Celso?      — Vamos. É mais objetivo.      — Há alguns dias o Celso me procurou. Parecia um tanto aflito. Precisava despachar umas caixas de frutas para a Bósnia e outras para a Sérvia e a delicada situação daqueles países, disse-me ele, punha todas as encomendas sob suspeita. Além do que, a demora na papelada era inevitável. Ele me disse temer que a encomenda estragasse. Pediu-me que, pela oitava ou décima vez, atuasse interferindo junto à Alfândega. Eu o atendi. Até aquele momento não me interessava pelas Guias de Exportação. Ele me dava os números dos documentos e eu agia. Mas no caso específico daquela remessa para a Sérvia necessitei de ter as guias em mãos. A aduana havia acusado problema no peso declarado. Levei as cópias dos documentos para o banco, a fim de pedir um aditivo com a correção necessária. Mas houve uma complicação com os números da Guia. O final da cópia xerox que eu tinha em mãos diferia do original. É bem verdade que a xerox estava ruim e o número 5 podia ser facilmente confundido com o 6. Quando comuniquei o fato ao Celso ele ficou estranhamente agitado. Pediu que eu pagasse qualquer quantia para liberar o documento sem mais delongas. Embora estranhando aquela urgência atendi ao seu pedido. É claro que houve reembolso por parte dele.      — Espere, meu amigo, desde quando os Kamuratti fazem favores a uma pessoa fora do clã? – estranhou a repórter.      — Desde nunca – foi a resposta incisiva – mas é que eu não sou um Kamuratti de sangue e...      — Você o quê...? – espantou-se Karina.      — Depois eu falo disto – impacientou-se Anteu – Eu fiquei curioso e resolvi, nem mesmo sei por que, averiguar a tal remessa. E sabe o que é que eu descobri?      — Nem imagino...      — Não era fruta coisa nenhuma. Eram armas.      — Armas?! Fuzis, metralhadoras... essas coisas?      — Sim. Armas das forças armadas.      — Então, o Celso, além de contraventor do jogo do bicho, também é contrabandista de armas, hein?      — Sim, é. Mas o que estranhei é que ele trabalhe para uma firma insignificante. A FRUTIBRAS LTDA é uma empresa sem projeção nenhuma.      — Ora, uma cobertura ideal, a meu ver – disse Karina.      — Eu acho que há alguém mais nesta história...      Uma chave girou na fechadura da porta. Anteu sobressaltou-se e se pôs de pé justamente quando dois homens irromperam na saleta. Algo como uma lâmpada de fósforo explodiu no ar cegando o casal. Karina não viu o que se passou a partir daquela luz forte. Alguma coisa foi enfiada em sua cabeça e uma mão rude a pôs de pé. Quase no mesmo instante um soco à altura do plexo lhe tirou o fôlego e lhe sufocou o grito na garganta. Ouviu duas pancadas abafadas, um gemido e uma queda. Depois foi brutalmente empurrada para fora e teve de mexer-se com rapidez para não cair, pois mãos rudes a fizeram parar, girar, chocar-se contra a parede e ser empurrada e puxada com brusquidão, terminando por ser jogada dentro de um carro que arrancou cantando pneu. Karina recuperou a voz quando o carro já voava pela rua. Seu pensamento estava em seu amigo. O que teriam feito com ele?      — Anteu? – gritou, mas a resposta foi um soco no rosto que lhe atingiu o lado direito e quase lhe fratura o malar. Uma voz grosseira lhe gritou:      — Calada aí sua cadela!      A dor e a desorientação intensificaram o medo em Karina. Quem lhe batera bem podia ter-lhe arrebentado o nariz. O indivíduo, quem quer que fosse, não estava ligando a mínima para ela, e isto significava que sua vida estava por um fio.      — E o cara? – a voz era dura, mas era de um homem jovem.      — Vai dormir até o embarque – alguém respondeu e a voz era de um adulto feito.      — E a zinha, o que vamos fazer com ela? – uma terceira voz, também de um jovem. O nariz de Karina farejou o cheiro de homens suados.      — Vai voar! Agora! JOGA!      Karina sentiu-se empurrada violentamente para fora do carro. No exato momento em que seu corpo voava para o choque mortal com o asfalto uma mão rude lhe arrancava o capuz. A moça nem pode gritar. O choque foi violento, mas não com o asfalto ou o meio-fio. Ela caiu dentro de um charco de lama e capim. Karina era praticante de judô e sabia amortecer o impacto da queda. Isto livrou-a de sofrer sérios ferimentos e fraturas, mas não impediu que bebesse daquela água poluída. Chuviscava ainda e a repórter engasgada, tossindo e cuspindo lama, arrastou-se para a margem da estrada. Apenas a escuridão da noite a recebeu, envolvendo-a num abraço nada reconfortante... CAPÍTULO III SURGE UMA LUZ        O casal estava nervosíssimo. A moça olhava o tempo todo para trás, como se quisesse advinhar em qual carro estariam os seus perseguidores. Ludmila e Mara sabiam que o carro era um Camaro, mas não o viam seguindo o Del Rey.      — Escute – falou a ruiva – não siga por estradas desertas. Procure andar seguindo o máximo de tráfego.      — Por que? – indagou, nervoso, o rapaz.      — Se aqueles homens nos seguirem, e eu acho que vão seguir, não virão com boas intenções. Lugares desertos são ótimos para acidentes e atentados. Eu não quero servir de alvo para pistolas assassinas.      — Ai, meu Deus! Moça, a senhora tem certeza de que eles virão com a idéia de nos matar? – a companheira do rapaz estava francamente apavorada e Mara gostava cada vez menos da situação. A ricaça tinha influência até junto ao Presidente dos Estados Unidos. Quando descobrisse o que estava acontecendo...      — Tenho. Este carro não corre mais do que isto, não? – instou Ludmila, ansiosa.      — Estou a quase 160. É o limite dele – respondeu o jovem Luís Filipe.      — Por que você não se acalma? – perguntou Mara – deste jeito vai terminar por nos levar à indigestão. Eu já estou...      — Shhhiiittt! – fez Ludmila, imperiosa. Mara calou-se e a companhou o olhar da colega. Lá atrás, bem distante ainda, viu o Camaro. Reconheceu-o pela cor laranja de sua pintura. Vinha ziguezagueando e ultrapassando todos os demais automóveis como se eles não existissem.      — Estão vindo! – exclamou a bela morena, aflita.      — Meu Deus, o que vamos fazer? – choramingou a milionária companheira do rapaz.      — Calma, gente, calma! – disse o jovem, escrutando o caminho à frente – o pedaço mais deserto é este que estamos passando. Depois vem a Barra. Há muitos carros à beira-mar. Eu tenho um plano. Vocês duas, abaixem-se no fundo do carro.      — Como? – perguntou Mara, atônita.      — Não pergunte – disse Ludmila – obedeça!      Ato contínuo as duas estavam espremidas entre os bancos. O rapaz diminuiu a velocidade do Del Rey e misturou-se à fila de autos que começava a engrossar à medida que se aproximavam dos primeiros edifícios e condomínios imponentes. Havia dois outros automóveis da mesma cor e modelo que o deles. O rapaz intrometeu-se entre os dois. Avançavam, agora, à velocidade média de cinqüenta quilômetros por hora. No automóvel da frente ia um casal.      — Meus óculos de sol – pediu ele. Sua companheira entregou-lhe o que pedia sem entender muito bem a razão do pedido.      — Ótimo! Agora, aquele boné que você me deu.      — Onde está?      — Veja no porta-luvas.      Sim, estava lá, todo amarrotado. Ele jamais imaginara que um dia viesse a usá-lo. Tinha a cor vermelho berrante e, em amarelo, o dístico: “SOU SENNA”. Ele era fã do corredor recém-falecido, mas não a ponto de usar uma coisa idiota daquelas. Agora, aquilo era bem-vindo. Podia ajudá-lo a safar-se e a todos daquela situação esdrúxula. Não era crível que em plena Rio de Janeiro, final do século XX e princípio do XXI, ele se visse metido numa aventura típica do James Bond. Ainda achava que as moças a quem dava carona eram paranóicas. Não podia crer que estivessem sendo seguidas por espiões. Talvez alguns marginais do Comando... E se isto fosse a verdade, então, todos estavam correndo risco de morte. Quando aquela gente indicava alguém para ser a “bola da vez” era muito difícil escapar. O que aquelas duas intrometidas teriam feito à gangue? E por que o destino o escolhera para estar naquele restaurante na mesma hora que elas? Se escapasse ileso, iria ao Terreiro de Pai Joaquim para lhe agradecer e prometia nunca mais zombar de espiritismo. Sempre vigiando o retrovisor, colocou o boné e ordenou à namorada:      — Você também, abaixe-se.      A moça o olhou surpresa.      — Não pergunte nada – disse ele – apenas obedeça, rápido!      Ele viu o Camaro. Estava a uns dez carros atrás deles e avançava rápido. Fazia ultrapassagens perigosas, mas quem quer que o dirigisse era muito hábil.      — Meu bem – falou o rapaz – mantenha a mão no acelerador enquanto eu tiro as calças. Quando ou disser “aperta”, você calca o pedal devagar; quando eu disser “folga”, você desacelera. Entendeu?      — Você vai fazer o quê? – espantou-se a jovem milionária.      — Estou de calção de banho, não se preocupe. Agora, obedeça. Os caras estão a seis carros atrás de nós. Não custa muito e vão estar em cima da gente.      A moça, tremendo de medo, fez como ele mandava. O rapaz conseguiu desnudar-se rapidamente entre três “apertas” e dois “folgas”. Depois, abriu a camisa no peito, ligou o rádio bem alto e sentou-se o mais relaxado que pôde, mastigando um chiclete que não existia.      O Camaro encostou atrás do primeiro Del Rey. O rapaz fez uma ultrapassagem arriscada e avançou três carros antes de ser obrigado a voltar a sua fileira. O Camaro precipitou-se atrás dele, mas ao ultrapassar o auto do casal, hesitou.      — Diabo! – exclamou Fratelli – É um imbecil sozinho. No carro de trás há um casal. Vamos pará-los e verificar o carro.      — Não vejo ninguém no banco de trás – disse um dos asseclas.      — Podem estar abaixadas para nos despistar – disse Fratelli. – Luiz, mantenha aquele “ play-boy ” sob vigilância. Vamos olhar tudo que for Del Rey prata ou ouro. Elas não nos escapam. Franco, pise no freio e force uma batida.      O motorista observou o carro atrás. Deu um espaço ao automóvel da frente para que se adiantasse uns trinta metros e, então, acelerou. O Del Rey atrás acompanhou-o. Então, Franco freiou súbito. O Del Rey não pode fazer a mesma coisa e cantando pneu chocou-se na traseira do Camaro. O trânsito parou e muitas buzinas impacientes se fizeram ouvir. Os facínoras saltaram e cercaram o Del Rey rapidamente. O casal, assustado, não saiu de dentro do carro. Fratelli verificou a traseira do automóvel. Ninguém. Ali só havia o casal de meia-idade.      — Desculpe-nos, senhor – disse, educadamente – aqui está o meu cartão. Atrás está o endereço de meu mecânico e o telefone de minha seguradora. Eu cubro todos os danos e não se preocupe. Foi tudo culpa de meu motorista. Vamos!      Tão rápido como haviam surgido os homens se foram deixando o casal a olhar aparvalhadamente para o retângulo amarelo em suas mãos.      O Del Rey do “ play-boy ” estacionou numa vaga à beira-mar. Lugar estratégico. Muito movimento. Não havia outra vaga por perto. Um jovem despreocupado e trajando apenas calção de banho saltou do auto e foi abrir o porta-malas. De lá retirou um guarda-sol de praia. Devagarzinho o Camaro aproximava-se. Seus ocupantes observavam atentamente o rapaz.      — E então? – perguntou o motorista – o que fazemos? Parece que é somente um carinha qualquer vindo caçar...      — Parece, mas vamos verificar. Será rápido. Uma olhada dentro do carro e pronto. Não há muito onde uma pessoa se esconder dentro de um automóvel. Se elas estão lá, só podem estar abaixadas e espremidas entre os bancos.      O Camaro foi estacionado bem atrás do Del Rey do rapaz, de modo a lhe impedir qualquer manobra de escape. Fratelli ordenou que os outros ficassem dentro do carro e saltou sozinho. Do Del Rey o jovem também saltou e se encaminhou para a traseira do automóvel, aparentemente sem tomar conhecimento do facínora. Era um homem forte, corpo bem-feito. Devia ser um desportista.      — Está vindo de onde, cara? – indagou à queima-roupa o bandido parando perto do rapaz. Este o olhou surpreso.      — O que disse? – perguntou, observando os homens dentro do carro estacionado atrás do seu.      — Eu perguntei de onde você esta vindo – disse Fratelli avançando para o Del Rey. O rapaz intrometeu-se entre ele e o carro, impedindo-o de se aproximar de modo a poder olhar para dentro do automóvel.      — Que pergunta besta é essa, me’rmão? Quem é você?      — Trate de responder, camaradinha, se quer ficar inteiro. – O jovem compreendeu que estava correndo sério perigo. O que fazer?      — Estou vindo de casa, droga. Qual é? Você é o dono daqui?      — Cala a boca, panaca. Quem está no seu carro?      — Mas que diabo você tá querendo, cara? – o rapaz elevou a voz, tentando despertar a atenção de quem pudesse ouvi-lo. Naquele momento passava uma família – um homem, dois rapazes, duas meninas e uma mulher jovem. Luiz Filipe esperou chamar a atenção deles, mas não foi muito feliz em seu intento. O homem só lhes deu uma rápida olhada e seguiram todos em frente.      — Saia da Frente! – rugiu Fratelli, impacientando-se.      — Quem diabo você pensa que... – não completou a frase. Um tremendo empurrão que quase o faz voar, jogou-o ao chão. A pancada no peito lhe tirou a voz e lhe encheu os olhos d’água. Fratelli deu dois passos para a frente quando ouviu a voz imperiosa:      — Parado aí, ou leva bala! É a policia!      Surpreso, o facínora olhou por cima da capota do automóvel ao lado do Del Rey. Um homem forte, atarracado, pelos grisalhos no peito e na cabeça, olhar de águia, decidido, apontava-lhe uma respeitável quarenta e cinco direto para a cabeça. A arma estava engatilhada. Cuidadosamente, Fratelli ergueu as mãos até à altura dos ombros.      — O que é que há? – perguntou, raivoso, mas controlando-se. O rapaz percebeu a ajuda. Agradeceu ao seu anjo de guarda e exagerou na tosse e no fingimento da dor.      — Vire-se de costas, ponha as mãos na capota do automóvel e abra as pernas. Ande, OBEDEÇA! – gritou o polícia e Fratelli compreendeu que ele não estava para brincadeiras. Olhou nos olhos do homem e viu que corria sério perigo. Ele atiraria mesmo, ao menor sinal de vacilação de sua parte.      — Calma, parceiro. Sou advogado... – começou a falar.      — Cala a boca e põe as mãos na capota, já! – os dedos do homem apertaram a arma e Fratelli temeu que ele disparasse. Tratou de obedecer.      — Os seus comparsas – ordenou o policial – mande que fiquem no carro. Ao menor sinal de movimento eu atiro primeiro em você, depois, neles.      Furioso, mas impotente, Fratelli ordenou, com um sinal de cabeça a seus homens, que não se movessem. Tomou a posição que o policial lhe ordenara. O rapaz levantou-se ainda tossindo. O polícia deu a volta cautelosamente ao carro e se colocou fora do alcance de um pontapé de Fratelli, frustrando-lhe a intenção. Sem mesmo pestanejar e olhar fixo em Fratelli, falou para o rapaz.      — Você está bem, meu jovem?      — Si... sim, senhor. Só um pouco dolorido no peito.      — Isto passa. Faça-me um favor. Pegue o microfone no meu automóvel. Vire a chave para o alto e fale o seguinte; “aqui é o três-meia-cinco pedindo reforço. Av. Sernambetiba, Barra, em frente ao Caça e Pesca. Suspeitos retidos num Camaro cor laranja. Cinco. Estou só. Repito: necessito de reforço urgente.” Você entendeu?      — Sim senhor.      — Ótimo, faça isto, agora.      Fratelli olhou com ódio para o policial.      — Escuta aqui, ô cara, eu já disse: sou advogado...      — Cala a boca!      — ... e trabalho para o Sr. Kamuratti – concluiu quase gritando, Fratelli.      — Eu vou verificar sua história, mas enquanto a patrulha está a caminho, quero todos quietos, entendeu? A Falange e o Comando têm andado muito ativos por aqui, nestes últimos meses e vocês me parecem bastante suspeitos.      — Mas não estávamos fazendo nada... – protestou o advogado.      — Não mesmo? E o soco no peito do rapaz, como se explica?      — Foi um equívoco. Um outro Del Rey de mesma cor nos deu uma fechada e quase nos joga fora da estrada. Nós o confundimos com o carro do moço aí. Foi só isso!      — Isto só faz com que eu suspeite mais de vocês. Um cidadão decente não iria perseguir e agredir um outro só porque ele lhe deu uma fechada. Num trânsito desses, isto é comum – ripostou o policial.      Fratelli afastou as mãos de cima da capota do carro num gesto involuntário para se explicar. O polícia não teve dúvidas: disparou um tiro por cima da cabeça do facínora raspando-lhe os cabelos. Fratelli encolheu-se de susto e empalideceu. O homem podia ter-lhe varado a testa a bala.      — QUIETO! – gritou o polícia – Se afastar as mãos de cima da capota do carro vai levar bala. E falo sério, entendeu? E vocês, aí no Camaro. Um a um, cuidadosamente, saiam e venham colocar-se aqui. Todos na mesma posição deste sujeito. VAMOS! SAIAM!      Os capangas obedeceram. O tiro inesperado os desconcertara. Fratelli trincava os dentes com tanta força que os maxilares pareciam querer saltar de seu rosto. Se tivesse a mínima chance de pôr as mãos naquele policial idiota o mataria tão rapidamente que ele nem perceberia. Os seus homens se enfileiraram ao seu lado e o olhavam como que perguntando “o que fazemos, agora?”. Ele meneou a cabeça em negação, numa resposta muda: “nada”.      Uma sirene irritante se aproximou.      O “camburão” parou ao lado do Camaro. Quatro policiais armados saltaram e os cercaram.      — Eu... eu posso ir...? – indagou o rapaz, preocupado. Como explicaria as mulheres encolhidas no carro?      — Não. Você, também, fica. Se esses homens forem bandidos – e eu penso que são – vou precisar de sua queixa para metê-los atrás das grades. E agora, todos para o camburão, vamos!      “Que entaladela” – pensou o rapaz.      — Espere um pouco – disse Fratelli. Eu sou um advogado e não vou entrar num camburão à-toa. Pode atirar, se quiser, mas não vou me rebaixar a isto.      — Você – disse o policial – me dê a sua identidade. Mova-se devagar, senão...      Fratelli obedeceu. O policial recebeu-lhe a cédula de identidade. Os outros policiais revistavam os homens impotentes. De Fratelli tomaram um trinta e oito e a Beretta que sempre trazia atrás, no cós das calças. Dos outros, recolheram a “infantaria”.      — Ei, detetive, eles têm um arsenal. Cada um leva um trinta e oito e alguns têm até armas nas pernas – disse um dos policiais recém-chegados.      — Algemem todos – foi a resposta seca.      — Espera aí! Eu sou um advogado! – protestou Fratelli.      — O Celso Cerqueira também é – disse o detetive – mostrem o porte de armas. Todos!      — Não temos – disse Fratelli, soturno.      — No camburão. Estão detidos por porte ilegal de armas.      — Mas... – quis protestar Fratelli. Um tapa de mão aberta estalou-lhe na face.      — Calado, “seo” calhorda! – gritou-lhe o polícia que lhe batera – para o camburão, já!      Fratelli fuzilou o seu agressor. Daria a alma ao diabo por uma única chance de poder pôr as mãos nele, agora. “ Você está morto, desgraçado ”, murmurou em italiano.      — Tá dizendo o quê, idiota? Tá dizendo o quê? – E o policial enfiou a ponta do cassetete no abdome de Fratelli. Um homem normal ter-se-ia dobrado de dor, mas aquele era o melhor aluno de Kimura. A arma do policial encontrou uma parede de aço e, apesar da força com que fora lançada contra Fratelli, não conseguiu fazer nem mesmo com que o furioso homem balançasse. O polícia fitou-o nos olhos, espantado. O ódio e um riso misterioso naqueles olhos lhe fizeram sentir um calafrio na boca do estômago. Havia morte, ali. Morte que lhe olhava direto como o olhar do gato para o rato acuado. O policial sentiu-se mal e recuou involuntariamente, engolindo em seco.      — Entrem no camburão – ordenou Fratelli, sempre olhando fixamente para o polícia, que “ desmontara ” à sua frente. O homem parecia ter tido sua força vital sugada por aquele olhar infernal. – Estes senhores da Lei vão ver com quem estão-se metendo – completou o facínora. Seus homens obedeceram e ele foi o último a fazer a mesma coisa. Ficou próximo à porta do carro e quando o policial que o agredira veio fechar o carro, como uma cobra as mãos de Fratelli o aberturaram e o ergueram do solo como se ele fosse de pluma. Rosto no rosto e olhos nos olhos, o furibundo assassino rosnou:      — Meu carro, ‘seo’ merda! Se sofrer um arranhão, não somente você morre. Morrem todos. Eu me encarrego pessoalmente disto, entende o que digo?      Tomado de surpresa e se sentindo absolutamente à mercê do seu agressor, o assustado policial só pôde balbuciar:      — Sssi...ssim, senhor... So...solte-me! Es...está me... me machucando...      — Você é meu, idiota. Nós vamos encontrar-nos em breve! E antes que os companheiros acudissem o pobre policial dependurado nas suas manoplas, Fratelli o soltou com um safanão, jogando-o ao solo. O detetive olhou-o nos olhos e se aproximou.      — Agressão à autoridade. Muito bem, advogado, você está-se complicando cada vez mais. Continue assim. Você vai ótimo.      — Vá à merda! – rosnou Fratelli.      — Não, não vou. Mas gostaria de fazê-lo comer um pouco do excremento de que sua boca vive cheia... advogado.      Os dois homens se olharam firmemente. Fratelli tinha dificuldade de se controlar para não saltar em cima de seu desafeto.      — Você se intrometeu num assunto que não lhe diz respeito. Vai arrepender-se por isto – falou entredentes.      — Ameaça-me? Você está-me fazendo uma ameaça?      — Sim. Vou matá-lo – rosnou Fratelli.      — Isto, eu quero ver – disse com um sorriso o polícia.      — Não vai ver. Não terá tempo.      — Vamos-nos encontrar, rapaz. Prometo-lhe que vamos-nos encontrar novamente.      — Reze, antes. Não lhe darei tempo para isto, quando estivermos frente a frente.      — A mãos limpas?      — Claro. Mas se você estiver armado não fará diferença. Eu o acertarei de qualquer modo.      — Isto é o que veremos.      E o policial afastou-se entrando em seu carro. De lá, gritou para o rapaz:      — Pode ir tomar o seu banho, moço. A gente já tem motivos de sobra para deter esta corja. Tenha um bom dia!      — O senhor também, policial.      O carro do polícia arrancou atrás do camburão. O rapaz, tão logo se viu livre, abriu a porta do carro e manobrou para sair dali. As mulheres voltaram a ocupar os seus lugares aliviadas. A posição entre os bancos era extremamente desconfortável e Mara já sentia falta de ar devido à forma como estivera acocorada.      O rapaz enveredou por entre o fluxo e logo atravessavam a ponte sobre o canal próximo à Ilha da Gigóia, tomando a direção do Alto da Boa Vista.      — Escutem, moças, quando se aproximaram de nós vocês perguntaram nossos nomes. Contaram uma história tão espantosa que não nos apresentamos. Agora, é hora das apresentações. Meu nome é Filipe. Luís Filipe Nettus Filho. E esta é Milena Forcis, minha noiva. Até há duas horas atrás tínhamos uma vida calma como a de qualquer cidadão desta cidade... dentro do que é possível, é claro. Vocês duas, porém, viraram nosso dia da semana de pernas pro ar. Quem são vocês?      — Eu já disse... – começou a falar Ludmila.      — Disse e mentiu – cortou o rapaz. – Se vocês fossem mesmo polícia, teriam saído do carro quando aquele policial interveio na confusão em que nos meteu. Mas vocês ficaram quietinhas aí. Posso saber o que está acontecendo?      Mara olhou para Ludmila. Por ela, abria logo o jogo. Detestava mentir e, afinal, o rapaz as ajudara bravamente, mesmo correndo perigo de vida. Ludmila meneou negativamente a cabeça, ao advinhar a intenção da colega.      — Vamos, meninas, aquele homem disse que trabalhava para o Kamuratti. Você e sua amiga nos disseram que eles eram terroristas. Quem está mentindo nesta história toda?      — Eles – falaram as duas ao mesmo tempo.      — Desçam – e o rapaz freiou o carro.      — O quê? – surpreendeu-se Ludmila.      — Eu disse desçam.      — Mas... mas aqui? Na subida da serra? – protestou Mara.      — Sim senhora. Espiões não fazem o meu gênero. Mentirosas, menos ainda. Desçam. Aqui é fácil pegar um táxi. Aqueles homens podem ser realmente o que diziam, mas podem perfeitamente ser do Comando Vermelho ou da Falange. E Milena é rica. Eu, também. Não gostaríamos de passar pela experiência de um seqüestro, Meu futuro sogro é cardíaco. Não quero a morte dele, compreendem? Se Milena viesse a ser raptada, certamente que nós não o teríamos em nosso casamento.      — Mas nós... – ia começar a falar Ludmila, mas o rapaz a cortou impaciente.      — Desçam, são surdas?      — Se vocês não fizerem o que meu noivo está mandando, começo a gritar até que o carro esteja cercado – ameaçou Milena.      — Tá certo... tudo bem... fique calma. Já vamos descer. De qualquer modo, queremos agradecer o que fizeram por nós. Vocês foram muito corajosos. Acreditem: se precisarem de qualquer coisa na polícia...      — Não – cortou o rapaz – depois de hoje, eu quero mais é distância de polícia. Adeus, donas!      E arrancou com o carro, sumindo logo na curva adiante.      — Bem – disse Mara – estamos novamente a pé. E agora?      — Táxi! – exclamou Ludmila – vamos parar um táxi e logo estaremos no jornal. A propósito, ali vem um. TÁXI! TAAAAXIIII!      Mas o motorista não parou. Olhou-as, mas não parou.      — Filho de uma cadela sarnenta! – gritou a frustrada repórter. – O desgraçado nos olhou e não parou, pode uma coisa dessas?      — Eu queria que o pneu dele estourasse... – disse Mara com raiva, punhos cerrados e olhar fuzilante preso no carro que dobrava na curva logo adiante. Mal acabara de falar e ouviu-se um estrondo. O taxi rabeou perigosamente, perdeu a direção, subiu a calçada e foi chocar-se violentamente contra um Monza Classic que estava entrando na garagem de uma mansão. Mara empalideceu. Ainda estava atônita, fitando o acidente, incrédula, quando foi arrastada pelo braço, por Ludmila, que lhe gritava:      — Vamos, logo Mara, antes que aquele ali também vá embora...      Como uma autômata Mara se deixou arrastar. Como é que podia ver o táxi sofrendo o desastre, se ele estava além da curva que encobria a visão delas?      O táxi que as conduzia passou ao lado do acidente. Totalmente espantada, Mara viu que o táxi estava justamente como havia visto quando ele sofrera o acidente aparentemente longe de seus olhos. Como é que aquilo era possível?      “ O cão. Eu ordenei que ele atacasse o seu companheiro e ele o fez. Agora, o táxi. Eu desejei que o seu pneu furasse... E ele furou ”. Não podia ser coincidência? Não. Não podia. Era coincidência demais num só dia.      — Você viu aquilo? – perguntou Ludmila – Ainda bem que ele não parou para nós. Olha só onde estaríamos metidas, agora. Que sorte a nossa, não foi?      — Hein...? Oh, sim, sim. Uma grande sorte... eu acho.      Como dizer a sua companheira de que desconfiava que havia sido ela, Mara, a causadora do acidente?      — O que há com você? Está pálida... – observou Ludmila,      — Eu... acho que foi... foi tudo, sabe? Tudo, mesmo.      — Eu sei, eu sei. Acho que devo um pedido de desculpas a você. Mas, como pôde ver, o assunto é por demais escabroso e perigoso. É necessário muito cuidado e, também, saber guardar sigilo. A Karina não saberia fazer isto. Se fosse ela em seu lugar, tão logo chegasse à redação já corria para a máquina para contar tudo, tim-tim-por-tim-tim. E colocaria tudo a perder, além de por nossas cabeças na forca, compreende? Nada do que vimos e passamos é prova. Tudo parecerá circunstancial, num tribunal. O que eu quero é dizer que isto só pode ir para as páginas do jornal quando tivermos algo realmente forte, sólido.      — Por que você cismou comigo? – Perguntou Mara.      — Não sei dizer ao certo. Alguma coisa... talvez a famosa intuição feminina, me dizia que você era a pessoa melhor indicada para ser minha companheira neste trabalho.      — Mas não sou. Não sou forte. Não estou acostumada a violências. Não estou acostumada a lidar com homens como aqueles. Minha vida sempre foi quieta, pacífica.      — Desculpe, Mara, mas não é o que a sua analista me disse.      — Como?! Você sabe dela...? – Mara ficou boquiaberta.      — Sim, eu sei. Mas não se zangue comigo, por favor. Eu descobri isto sem querer. Acontece que fui procurar ajuda com uma analista. E por coincidência fui exatamente à sua.      — E... E por que foi procurar uma analista?      — Bem... tenho mais uma indiscrição de minha parte para lhe confessar. Mas só farei se você prometer não se zangar comigo. Também prometo contar-lhe o meu segredo. Assim, ficamos quites. Tudo bem?      Mara olhou desconfiada para Ludmila. Se a ruiva estivesse mentindo...      — Está bem. Fale.      — Eu fiquei sabendo que você também freqüentava a analista um dia em que cheguei mais cedo. Você saia de lá. Fiquei curiosa e perguntei diretamente a ela se você era sua cliente, mas ela não me respondeu. Disse apenas que sua clientela era confidencial. Aí, eu passei a vigiar você. Até que tive a certeza de que realmente você freqüentava a analista que eu escolhera. Aí... bem, fiquei curiosa para saber do que você se tratava.      — Ela lhe contou?? – Mara se espantou.      — Não, claro que não. Eu... eu dei um jeito de bisbilhotar o arquivo dela.      — Mas é computadorizado.      — Sou expert em programas, esqueceu? Afastei-a de lá com a ajuda de um colega policial e acessei os arquivos. Aí, descobri sobre os seus pesadelos...      — Então... você sabe? Contou a alguém? Se o fez...      — Não sou tão venal, Mara. Também estou freqüentando a analista, esqueceu? E também tenho problemas semelhantes aos seus.      — Você... você também tem aquele pesadelo...?      — Não, não é pesadelo. É algo esquisito...      — Como assim?      — É difícil de explicar...      — Como assim? Não sabe dizer do que sofre?      — Não é bem um sofrimento.      — Então, o que é?      — Eu... Quando estou muito cansada, muito estressada, sofro algo que não sei o que é. De repente tenho a visão... uma impressão... algo como estar em dois lugares ao mesmo tempo, compreende? Estou em casa e simultaneamente estou num local que me parece uma ilha... Há coqueiros. E há brisa... praia... sol brilhante... Mas há medo no ar. Um medo muito... muito grande... Aí eu vou entrando em pânico. Começo a suar. Tento livrar-me daquela impressão, mas não consigo. As imagens de onde estou e de onde parece que estou se superpõem. Chego a perder o sentido de realidade e penso que enlouqueci. Já aconteceu isto dentro do jornal. Foi horrível.      — Santo Deus... Deve ser enlouquecedor...      — No princípio, foi sim. Agora, já controlo mais a situação e quando a coisa começa a acontecer sigo a orientação da analista.      — E qual é ela?      — Devo relaxar a mente e concentrar-me toda na visão.      — Você faz isto?      — Faço.      — E o que acontece?      — As imagens vão sumindo... sumindo... e a coisa cessa.      — A analista tem alguma explicação para isto?      — Ainda não... pelo menos, não que eu saiba.      — Você falou que o local de sua... sua visão parece uma...      — Uma ilha. Uma ilha estranha...      — Você vê alguma... alguma praia...?      — Não. Sinto que existe, compreende isto? Mas não “vejo” a praia. Só sei que se trata de uma nesga de areia entre pedras negras...      — Pedras vulcânicas?      — Sim, agora que você falou isto, sim, é assim que sinto.      — Ludmila, você leu alguma coisa sobre meu pesadelo?      — Li. Não o pesadelo completo, mas algumas suposições que a analista fez sobre ele. Suas interpretações são muito técnicas, mas eu não fiquei muito convencida, não.      — Minha ilha... Você acha que é a mesma sua?      — Não sei. Sinceramente, não sei.      — A praia. A praia que você “sente” que existe. Você a descreveu igualzinha à que eu vejo.      — Mara, você já tentou a hipnose?      — Não.      — Pois acho que deviamos fazer isto.      — Juntas?      — Sim. Por que não? Se a ilha é a mesma...      — E se não for?      — Tudo bem. Cada qual faz a sua hipnose. Eu não quero fazer isto sozinha. Sinto que com você perto vou achar-me mais segura. E não pergunte o motivo. Eu não sei.      — Pensando bem... Acho que tem razão. Se você estiver por perto eu também não vou sentir-me tão desamparada...      — Você quis ir para o “Mausoléu” para pesquisar, não foi?      — Você sabe disto, também?      — Sim. Sou repórter policial, não se esqueça.      — Você é mais perigosa do que imaginei.      — Não para você, colega, não para você.      — Está certa. Quero ir para a Seção de Pesquisas Históricas e Arqueologia justamente para isto.      — É... Pode ser que dê certo. O que procura, exatamente?      — Aí é que está. Eu não sei quase nada sobre o tal lugar... A ilha, compreende? Nem mesmo em que lugar ela poderia se encontrar no oceano. Pesquiso algo que não sei o que seja. Uma ilha cuja imagem está aqui, no meu cérebro, na minha recordação. Mas não tenho a mínima idéia de sua localização no oceano.      — Você acha que esta ilha existe?      — Eu... Sabe que nunca havia pensado a respeito? Na verdade, jamais me preocupei com isto. Para mim é como se ela estivesse ali, na próxima esquina.      — Na próxima esquina é a redação. Vamos saltar logo. Nossa conversa vai ficar para depois.      — Já chegamos? Eu nem tinha notado.      — Já. Você paga a corrida? Estou sem trocado.      — Tudo bem. Ah... e pago o salto de seu sapato, também.      Ludmila sorriu e Mara, pela primeira vez, não achou que o sorriso da outra fosse porque o Diabo estivesse em festa. Saltaram e se dirigiram para o elevador.      — Ludmila – perguntou Mara – como vamos fazer a reportagem do seqüestro? Na verdade, não cobrimos nada daquilo...      — Logo você vai aprender, não se preocupe. Essas histórias, os seqüestros, são todos padrões. A gente dá um telefonema para “O DIÁRIO DA MANHÔ e nossos colegas de lá nos passam tudo. Seqüestro, Mara, já não constitui novidade, assim, não nos importamos de passar informações, compreende? Nós modificamos alguns detalhes sem importância, e pronto.      Mara olhou para a colega com mais respeito. Apesar de sua aparente displicência, Ludmila era muito esperta. E tinha várias faces.      À noite, em seu apartamento, Mara rememorava os acontecimentos daquele dia. Seu sexto sentido lhe dizia que tinha entrado facilmente num túnel perigoso, mas não sairia dele da mesma forma. Os rostos daqueles homens truculentos não lhe saíam da memória. E o Sr. Kamuratti e sua esposa? Figuras saídas das páginas de um romance de ficção detetivesca. Soturnos, frios, olhares gélidos e penetrantes como punhais. Mara jamais havia visto nada semelhante. Aquelas pessoas matariam com a mesma frieza com que os atores representavam os criminosos nos filmes. Então, havia realmente gente assim. Não era somente invenção cinematográfica...      Seu olhar vagueou pela cidade. Eram nove horas e o Rio de Janeiro se acalmava. Muitos carros ainda estavam passando sobre o elevado Paulo de Frontin, mas o engarrafamento já não existia. Eles corriam livremente. “ Onde andarão aquelas bestas humanas? O que estarão fazendo de mal a esta altura da noite? Será que dormem? Será que ainda estão à nossa procura ?” Esta última parte de seu pensamento lhe causou um calafrio. Inquieta, andou de um lado para outro no pequeno espaço da sacada de seu apartamento. E começou a rememorar tudo o que vira, ouvira e vivera.      Primeiro, o seqüestro do tal de Anteu. Ludmila achava que era falso... Pelo menos fora o que dera a entender. Por que? Segundo, a história da remessa de dólares para o exterior. Assunto explosivo. Ludmila lançara às claras, diante de um casal sumamente perigoso, que sabia das falcatruas deles. Depois, o fato de Anteu estar apaixonado por Karina e ter tentado revelar algo a ela. Algo que não queriam que falasse. Vinha, a seguir, a história esconsa do surgimento do Banco Kamuratti e seu envolvimento com o mais poderoso conglomerado financeiro bancário, os Rotschild. Então, o envolvimento de Anteu com Kantor. Inadmissível que o advogado não soubesse quem era o seu colega. Por que, então, aceitava trabalhar para ele? Fazer pequenos favores... mesmo regado a dólares, não era o feitio de um Kamuratti. Mesmo que Anteu não fosse Kamuratti de nascença, fora criado dentro dos rígidos padrões dos banqueiros e não poderia simplesmente quebrar com eles assim, sem mais aquela. Anteu tinha de conhecer bem mais sobre o banqueiro de bicho do que admitira a Karina. Mara permaneceu dando tratos à bola e não viu a hora passar até quando ouviu o sino da igreja badalar a meia-noite. Não deu importância. Absorvia-se em suas conjecturas e cada vez mais achava incoerente a história de Anteu com o Celso Cerqueira Lima, ou Kantor. Ludmila positivamente não estava acreditando naquela história pueril. Então, por que é que não mencionara nada a ela, Mara? Por que preferira deixar a história como se fosse realmente a em que estava acreditando? Qual o motivo que obrigava Anteu a aceitar Kantor? Qual o pacto que havia entre os dois? Dólares, certamente, não era. E o Sr. Kamuratti deixara isto bem claro ao falar com Ludmila... isto é, Irina Hess... De onde Ludmila tirara este nome? Hess... Hess... Não lhe era estranho este sobrenome... De onde ouvira a respeito dele? Numa reportagem? Num livro? Tentaram matá-las. Assassinos determinados foram mandados para executá-las. Seria só por causa da remessa de dólares? Não era possível. Um suborno era bem mais fácil de ser tentado, mas não fora. Preferiram logo a solução extrema: a morte. E, óbvio, ela fora incluída na lista porque estava com a pessoa verdadeiramente perigosa para eles – Ludmila. Por que sua colega a escolhera? Aquela história de Karina não saber guardar sigilo, agora, pensando bem, não a convencia. Teria sido devido ao que descobrira sobre seus pesadelos? Quereria Ludmila aproximar-se e não sabia como? Mara, após a consideração mais profundo desta hipótese, achou que sim. Ludmila desejava aproximar-se, porém ela, Mara, sempre lhe fechara a porta. A ruiva, é claro, terminou por encontrar um meio de envolvê-la no “ affair ” Kamuratti e, com isto, encontrou um meio de manter-se junto a ela. E era mesmo estranho que duas pessoas totalmente diferentes, nascidas em localidades distantes entre si, de pais com costumes diferentes, tivessem problemas semelhantes... quase idênticos. Como se explicaria isto? A idéia de ir a um hipnotizador parecia genial. Por que não pensara nisto, antes de Ludmila? Havia a tal Terapia de Vidas Passadas. Daria resultado? Certamente era uma alternativa bem mais interessante do que o eterno “Complexo de Édipo Mal solucionado” e a fixação sexual de sua analista. Mara concluiu que valia a pena tentar. Sentiu-se subitamente exausta e foi deitar.      Glauce e Aquiles se encontraram em frente ao Souza Aguiar. A médica entrou no automóvel do rapaz e se deixou ficar a ouvir a Nona de Beethoven, olhos fechados. Estava muito exaurida, Aquiles beijou-a de leve nos lábios.      — Cansada? – perguntou o rapaz.      — Exausta – respondeu ela.      — Quer uma hidro? – indagou ele.      — Hum-hum – respondeu a médica.      Aquiles levou o carro para Jacarepaguá, direto ao luxuoso motel “PAINEIRAS” recém-inaugurado sobre uma lapa, a uns cento e cinqüenta metros de altura. Além do luxo da suíte, a paisagem vista lá de cima era deslumbrante. Após demorada hidromassagem, fizeram sexo. Às 22:30h tomaram um lanche e se aninharam nos braços um do outro. Glauce estava relaxada e sonolenta. Seus pensamentos voaram livremente. Cenas confusas que misturavam a mesa de neurocirurgia, pessoas de branco, o rosto de Karina sorridente... o telefonema estranho de Aquiles... o estranho no elevador... o carro perseguindo o seu... o carro... o estranho... os olhos dele... aquele sorriso inquietador... o ríctus da boca... um lobo... qual o nome? Eurico ou... ou Henrique...? Como era mesmo...? Alarico...? Alberico...? O sono se fora. Glauce abriu os olhos e fitou o rosto sereno de seu noivo. Ele dormitava.      — Meu bem? – chamou baixinho.      — Hum? – fez ele.      — Eu o acordei? – perguntou a médica.      — Hum-hum – respondeu ele, ainda de olhos fechados.      — Desculpe... – e Glauce voltou a repousar a cabeça no peito de seu noivo.      — O que é? – perguntou Aquiles abrindo os olhos.      — Nada, deixa pra lá! – esquivou-se a moça.      — Não senhora. Algo importante lhe roubou a paz. O que foi? Fale. Eu quero saber.      — Bobagem...      — Mesmo assim, o que é?      — Você conhece alguém chamado... Alarico... Alberico... Frederico... ou algo parecido?      — Não, por que? Quem é o distinto?      — Um verdadeiro chato – mentiu Glauce. – Disse que viera recomendado por você. Queria-me convencer a entrar para uma Associação de Clubes Campestres...      — E você entrou?      — Não.      — Bem, precisamos rever o conceito em que você anda colocando o meu nome – brincou o rapaz.      — Por que? – surpreendeu-se a moça      — Parece que ele perdeu importância. Alguém se apresenta a você servindo-se dele e não consegue nem pro café da manhã... as coisas andam pretas pro meu lado...      — “Seo” bobo! – disse Glauce, rindo e esmurrando-lhe o peito. O rapaz segurou-lhe os braços e lhe deu um beijo. Qualquer coisa no abraço dela pôs Aquiles em guarda. Havia uma como que urgência... talvez até temor... O rapaz apertou a noiva ao forte tórax como se querendo protegê-la. Ficaram assim, apertados e calados por um longo tempo. Á lembrança dele veio, súbito, a estranha mensagem em sua secretária eletrônica. “ Quando passeava por uma gruta da Acrópole, em Atenas, a Jovem Creúsa, bela donzela, foi violentada por Apolo, o belo Deus do calor e da vida... Cuidado com Apolo... ” A recordação lhe tirou o sossego. Aos poucos afrouxou o abraço e desvencilhando-se da noiva e dos lençóis foi mergulhar na piscina de água quente. Glauce ficou a olhar para o noivo sem compreender nada, mas entendendo que o encanto daqueles momentos se desfizera. O que havia de errado com o seu homem? Aquiles era um verdadeiro deus grego. Corpo bem modelado devido ao Karatê, músculos rijos, pele morena bronzeada, alto e de maneiras distintas, ele lhe dava a sensação quase palpável de estar diante de alguém que era como um paredão. Abrigada a seu lado, nada poderia ser ameaça. Contudo, vê-lo inquieto – coisa rara – incomodava-a profundamente. O mergulho na piscina era um fuga... O que havia com o seu homem? Do que fugia ele?      Também se levantou. Ambos estavam nus e ela foi direto para dentro d’água. Beijou demoradamente o seu namorado. Depois, olhando-o nos olhos, perguntou incisiva:      — O que foi?      — Nada. Eu quis tomar banho – esquivou-se ele.      — Não fuja. Não fica bem em você. Não é o seu estilo. Vamos, o que é? Me diga.      Aquiles percebeu que não conseguiria fugir a ela. Sempre foram sinceros entre si. Mas se tinha de falar, que ela o fizesse primeiro.      — Você está ocultando algo de mim – disse ele. – O que é?      — Eu...? – surpreendeu-se Glauce,      — Você, sim. Seu abraço... Ele me disse que você está com medo. De que? Do que você tem medo?      Glauce ficou a olhar para Aquiles como que hipnotizada.      — Você percebeu...? – perguntou num fio de voz.      — Sim.      — Desculpe – disse a moça, fragilizada e abraçando-se a ele. – Eu não lhe queria perturbar...      Aquiles sentiu-se culpado. Mas era melhor assim. Não desejava deixar sua amada preocupada com algo que nem ele mesmo sabia o que era.      — O homem não era vendedor – iniciou Glauce. – Ele...      E narrou tudo o que lhe acontecera na noite em que se encontrara com Fratelli.      — E como era o nome de seu suposto vizinho? – indagou Aquiles.      — Eu não recordo bem. Qualquer coisa assim como Alarico... Eurico ou... ou Alberico... Eu não sei bem.      — Você verificou se realmente um novo morador se mudou para o prédio vizinho?      — Não. Na verdade, nem me passou pela cabeça. Dei graças a Deus por ele ter sumido...      — Quer saber o que penso?      — Quero sim e sua voz traia tensão.      — Eu acho que ele só quis marcar presença junto a você – disse o rapaz, com um sorriso luminoso no rosto.      — Como assim? – desconcertou-se Glauce.      — Quis impressioná-la. Moça, bonita, médica... Hum?      Glauce perscrutou o rosto de seu noivo, mas ele lhe pareceu absolutamente sincero.      — Pois se foi isto, conseguiu mesmo. Mas de modo contrário ao de sua pretensão.      — Ótimo! Deste, eu estou livre – disse Aquiles rindo descontraído.      Glauce o olhou por um momento e, então, riu também. Se Aquiles não dava importância, então tudo não passara de conseqüência de seu estresse. Um grande alívio tomou conta dela. O homem, certamente, tentara uma coqueteria. Vira-a na rua, se interessara e a seguira buscando um meio de se fazer notar. É... a idéia fazia sentido.      O mal da espécie humana é o medo. As pessoas se agarram à menor e mais frágil esperança por medo de encarar a realidade que lhe parece muitas vezes ameaçadora. E fecham os olhos para aquilo que deviam enfrentar de frente. Glauce agia, agora, justamente assim. Depressa descartou-se do temor que a mantivera alerta por todo aquele tempo e não deu mais nenhuma atenção a seu instinto de conservação, que lhe alertava insistentemente sobre o perigo. Talvez que ao passar à condição humana, a alma peregrina se tenha esquecido do valor que teve para ela o alerta instintivo animal. O gato, ao tomar um susto quanto a alguma coisa que não está bem claro para ele, fareja, olha cuidadosamente para o local de onde lhe pareceu vir a ameaça e se mantém, durante dias e dias, sempre cauteloso, sempre desconfiado quanto àquele lugar. O cão, também. O homem, não. Anula a sensação iminente de perigo racionalizando suas suspeitas. Encontra uma explicação fantasiosa e a ela se apega, pois que, como um opiáceo, ela lhe retira a sensação desagradável do alerta para a luta. Os políticos são o exemplo mais marcante deste procedimento irracional e inadequado para o ser humano. Perdem-se em rodeios buscando encontrar a melhor maneira de não se sentir ameaçado e, com isto, tornam-se vulneráveis e venais. Raros são aqueles seres humanos que, em dúvida, buscam a fonte diretamente para esclarecer seus temores. A grande maioria procura refúgio na fantasia oniróide. E isto lhes reforça a sensação de impotência, que expressam muito bem na terrível frase: “eu não consigo”. E dizendo isto, reforçam em si mesmos a capacidade de não conseguir.      Glauce dissera para si, inconscientemente, “eu não consigo lidar com esta sensação inquietante. Eu gosto de sossego. Não quero ver nada que não seja absolutamente conforme a uma vida calma, quieta e previsível”. O homem lhe quebrara a monotonia e a “certeza” de seu viver. Cumprir sua carga de trabalho, vir para casa, dormir e voltar ao trabalho no mesmo e monótono ritmo de todo dia era a sua mais alta aspiração. Passar a vida longe de desafios e incertezas capazes de causar preocupações e gerar lutas e ansiedades era a sua meta de vida. Glauce, como qualquer ser humano atualmente, dá a maior força à entropia e esquece que o fenômeno leva á desagregação e a morte. Fecha os olhos e os ouvidos às vibrações de alerta que a Natureza nos coloca para que aprendamos a acertar o rumo de nossas vidas a cada dia, freqüentemente a cada hora. Retira a beleza do viver, pois viver é lutar e vice-versa. O movimento é a Vida. A quietude, a Morte. A entropia leva à quietude, logo, à morte. Mas buscamos sistemática e ignorantemente justo o viver quieto, destituído de ação. Domar o sentimento básico de Medo é o maior desafio do Ser Humano em nossa época. E é por isto que as situações de vida são as piores possíveis na atualidade. O Ser Humano tem de vencer o Medo e só pode fazer isto aprendendo a não fugir aos desafios. A vida civilizada avança cada vez mais no sentido de nos roubar a quietude e nos tirar da monotonia. Quando soubermos viver aceitando prazerosamente os desafios e os encarando como um jogo, ainda que de vida ou morte, e fugindo às carreiras à quietude e à monotonia, então, sim, seremos realmente os senhores da Terra... E foi por ter conseguido iludir-se quanto à sensação de inquietude, calando-a dentro de si, que Glauce voltou para a cama e fez amor com seu noivo, dormindo, depois, serenamente, como serenamente dorme uma criança que fantasia a mamadeira na chupeta que tem na boca.      Aquiles, porém, não conseguiu dormir. Algo se revolvia fortemente dentro de seus sentimentos e de seus pensamentos. Algo não se ajustava. Sua preocupação crescia mais fortemente, agora que o prazer deixara sua mente e suas emoções aquietarem-se. Embora sua noiva não tivesse sabido descrever o automóvel nem tivesse tido a capacidade de lhe memorizar o modelo e a marca, a descrição que fez do homem que aparentemente de modo acidental lhe acompanhara até o seu andar, levava-o a suspeitar de Fratelli. Era uma descrição muito fiel daquele homem violento. E o nome... Alarico... Alberico... Eurico... Enrico... Muita coincidência? Difícil de acreditar. Mas Enrico Fratelli não sabia nada a respeito de sua vida... de seu noivado. Sempre fora muito reticente com isto entre seus companheiros... Era forçar muito querer admitir que aquela história toda fora maquinada em apenas 48 horas, tempo decorrido desde que eles se haviam desentendido. Como descobrir Glauce, se não tinha conhecimento de sua existência? E que vantagem ele poderia tirar atacando alguém fora do dojô? Fratelli fora humilhado lá, na presença de todos os seus companheiros. Certamente quereria a desforra lá, diante de todos eles. Teria de ser muito doente, muito psicótico, para se pôr a seguir o adversário, descobrir sua vida, planejar o ataque e o perpetrar... Não, o tempo, 48h, não era suficiente para tanto. Fratelli nem mesmo sabia onde ele, Aquiles, morava... Além disto, era um advogado ocupado. Não poderia perder tempo dando uma de detetive... E se tivesse contratado um? Aí, o tempo seria menos ainda. A lógica lhe dizia que não podia ser o seu adversário de dojô. Os dois incidentes não podiam ter relação... Ou será que podiam?      Glauce fechara o problema. A mente de Aquiles, não, ainda que ele procurasse justificativas que lhe dessem a ilusão de que tudo era fantasia e pronto. A impressão sensorial do combate assistido e a compreensão, chocante, de que se tivesse enfrentado Fratelli naquele dia certamente o homem o teria machucado seriamente talvez fossem a motivação que lhe fazia relutar em aceitar a entropia tão facilmente.      O dia clareou e encontrou Aquiles de olhos fitos no espelho do teto onde se via e à sua Glauce, quietos sobre o leito de cetim.      Vinte horas. Enrico Fratelli acabara de relatoriar sua atividade para o Sr. Kamuratti. O patrão o ouviu em silêncio por uma hora. Tudo fora feito de conformidade com o planejado. Era isto o que mais gostava em Fratelli: era preciso, objetivo e rápido. Não era homem de hesitações.      — Seu trabalho foi perfeito. Aqui estão os vinte e cinco restantes. Embora não seja necessário, lembro-lhe de não esquecer de acertar aqueles detalhes finais. A segurança deve ser absoluta, compreende?      — Hoje mesmo, Sr. Kamuratti, hoje mesmo.      — Está bem. Você pode retirar-se.      Enrico Fratelli retirou-se. O senhor Kamuratti tomou do telefone e fez uma chamada internacional...      Fratelli trocou de roupa e vestiu o quimano. Veio para o dojô. Era a hora do jiu-kumitê. Ele passeou os olhos pelo grupo. Aquiles não estava entre os outros e isto o contrariou. Foi direto para os aparelhos e treinou sem cessar. Os combates terminavam quando ele foi chamado por Kimura. Foi ao dojô e cumprimentou o mestre, ajoelhando-se diante dele, que já estava sentado.      — Por que chegou atrasado ao treino? – indagou Kimura.      — Problemas no meu trabalho – respondeu Fratelli, omitindo o título “mestre” como era a praxe, ao final de cada frase.      — Onde está o seu companheiro, Aquiles? – perguntou Kimura.      Embora a regra fosse o aluno não fitar nos olhos o seu mestre, a não ser quando estivesse em instrução ou treinamento de combate, Enrico Fratelli fitou surpreso o rosto de Kimura.      — Eu não sei! ... Eu esperava encontrá-lo aqui.      Kimura estudou cuidadosamente o semblante de seu aluno e concluiu que ele não mentia.      — Ainda quer combater contra ele, não quer? Fratelli abaixou o olhar e disse, firme:      — Sim.      — Sim, m e s t r e – corrigiu ríspido, Kimura.      — Sim... mestre – repetiu, rancoroso, Fratelli.      — Fratelli-san – disse Kimura – o rancor e o ódio não se coadunam com a arte do karate-dô. Você é muito bom, o melhor dentre todos os alunos que tenho. Até mesmo supera Aquiles, mas perde na parte mais fraca de todos nós – no sentimento. Se teimar em continuar a cultivar essa egolatria descabida, esse sentimento de ira permanente, vai parar em sua evolução espiritual. E este é o único caminho para se crescer no karate-dô. Compreenda que Karatê não é somente a arte de matar com as mãos desarmadas. É muito, muito mais. Karatê irmana-se ao Wu-Shu chinês, de onde, aliás, deriva. É um dos muitos caminhos para se encontrar a iluminação. Matar, hoje, é terciário para o Karatê. Descobrir o Tao. Encontrar o equilíbrio. Ser um com a Natureza. Mover-se em harmonia. Ser superior ao Medo, ao Ódio e à Culpa. Ser um consigo mesmo. Este é o objetivo de quem pratica o Karatê-dô. Você, hoje, é o pior de todos os meus alunos. Pense nisto.      Fratelli nada disse. Nem um só músculo em seu corpo acusava todo o desprezo que dedicava à filosofia de Kimura. “Karatê é a arte de combate a mãos desarmadas. Isto é a verdade. E matar só é possível se se odeia.” Estes eram os seus pensamentos, enquanto Kimura lhe falava. Levantou-se controlando a custo a vontade de sair desrespeitosamente, cumprimentou Kimura segundo as regras da academia, e se foi.      Kimura deixou que todos saíssem e foi ao telefone. Ligou para a residência de Aquiles e aguardou durante um longo tempo, ouvindo o telefone chamar até a secretária eletrônica entrar em ação. Então, desligou e ficou pensativo, fitando o aparelho em silêncio. Suspirou e desistiu.      A festa ia no auge. A maconha rolava solta e a música desandava em ruídos monótonos, repetitivos, agudos e enlouquecedores. Aqui, um magote de jovens, de braços dados, ia aos pulos para a direita e para a esquerda; para a frente e para trás. Ali um grupo dava saltos mortais; no meio do salão uma turbamulta girava gritando palavrões e insultos contra tudo, mães, polícia e governo.      O homem da cicatriz entrou e foi direto para o balcão. Meteu-se, como de costume, entre a rapaziada sem qualquer consideração e, como sempre, provocou irritação.      — Cuidado aí, chapa. Pega leve ou vai-se dar mal.      — Vai tomar no...      Um canivete automático estalou junto de sua garganta e outro lhe espetou as costas antes que completasse a frase insultuosa.      — Ô presunto ambulante, vamos dar uma volta lá fora – rosnou alguém às suas costas. O homem da cicatriz sorriu.      — Se eu fosse vocês não faria isso – disse um jovem negro.      O homem da cicatriz cumprimentou o recém-chegado sem se voltar.      — Oi, Negão. Cadê o Barata, o Lagartixa, o Navalha e o Catucão?      — Ele é teu, Negão? – perguntou o homem que tinha a navalha espetada nas costas do homem da cicatriz.      — É, sim – respondeu o rapaz conhecido por Negão.      — Tá limpo, moçada.      Os canivetes sumiram. O rapaz negro tomou assento junto ao homem da cicatriz na face.      — E aí, “Cicatriz”. Algum trabalho?      — Sim. Onde estão os outros?      — No salão.      — Vá buscá-los.      O rapaz não discutiu e saiu. O Cicatriz observou pelo espelho que o “Lagartixa”, um jovem de pele clara, magro e musculoso, entrava no banheiro. Largou o copo sobre o balcão e moveu-se rápido, em ziguezague por entre os jovens que se embalavam na dança do bum-bum, e logo sumia também no mictório. Quatro homens urinavam e ninguém prestou atenção a ele. “Lagartixa” estava no último coletor, bem próximo de uma privada cuja porta estava entreaberta. Cicatriz veio rápido como um raio, mas sem correr. Um estilete fino como uma agulha de costura grossa de aço, com aproximadamente dez centímetros de comprimento brilhou como um pequeno relâmpago em sua mão, antes de afundar na nuca de Lagartixa. Ele não desabou como um saco vazio porque “Cicatriz” o amparou pela cintura e pelo pescoço, Com dois passos rápidos recuou com o cadáver para dentro do pequeno compartimento do vaso sanitário, fechando a porta com o pé. Colocou o corpo morto de Lagartixa sentado no vaso, retirou a agulha da nuca dele e saiu rápido, fechando a braguilha, dando a impressão de que acabava de urinar também. Molhou rapidamente a mão na pia e sumiu dali como uma sombra. Em menos de trinta e seis segundos ele consumara tudo e voltava a ocupar o seu lugar ao balcão. O barman olhou para o copo sobre o balcão justamente quando o braço de “Cicatriz” surgiu e se apoiou na borda. Logo a seguir, o homem se erguia, dando a impressão de que havia abaixado para apanhar alguma coisa caída ao chão.      Cicatriz chamou o barman.      — Ponha quatro... não, cinco. Cinco copos de cerveja aqui em cima. Meus amigos estão chegando.      O barman fez o que lhe era pedido.      Negão, Barata, Navalha e Catucão chegaram e já foram-se apossando sem cerimônia das bebidas. Os cumprimentos foram efusivos, embora “Cicatriz” fosse parcimonioso com palavras e gestos.      — Onde está o “Lagartixa”? – perguntou “Cicatriz, relanceando o olhar pelo salão apinhado.      — Não encontramos o “branquelo” – disse Negão. – Deve estar azarando uma gata por aí.      — Negão disse que você tem outro trabalho. É fácil, como aquele último?      — É, “Catucão”.      — E a bufunfa... é boa?      — Muito. À saúde! – e “Cicatriz” virou o seu copo. Os outros fizeram a mesma coisa. Barata, assim chamado por sua cor azeitonada, perguntou:      — Vamos arrastar outra mercadoria?      — Sim – foi a resposta seca.      — É produto de exportação, também? – indagou Navalha.      — Não. Mas vamos conversar os detalhes lá fora, quando o Lagartixa aparecer – falou “Cicatriz”, pedindo nova rodada de chope.      — Se a gente ficar esperando por ele vai demorar um bocado. O “branquelo” não é de beber – disse “Catucão”, cujo apelido era devido a que gostava de espetar os outros no traseiro, com o seu canivete automático.      — Eu vou procurar no salão. Navalha, vê se ele está no “mostra-pau”.      — Tá legal – e “Navalha” bebeu de uma só vez todo o conteúdo de seu copo. A seguir, saiu em disparada para o banheiro.      — Vou nessa – disse Negão, e se mandou para o salão.      Barata, Catucão e Cicatriz ficaram bebendo. Os dois jovens arruaceiros esganiçavam-se acompanhando a música infernal que lhes chegava com uns sessenta decibéis acima do limite da razão. De repente, Barata empalideceu, pestanejou e silenciou, arregalando os olhos e mirando Catucão.      — O que foi? – perguntou o companheiro.      — Tô meio tonto... – balbuciou Barata, com dificuldade.      — É o baseado, me’rmão. Eu te disse que ele tava esquisito. É só ir ao bocão e botar tudo pra fora. Anda, vai. Isto melhora ...      Barata ficou de pé com muita dificuldade.      — É... a c h o... q u e ... q u e . . .      Estava inundado de suor. Ficou balançando como se estivesse a bordo de um navio em mar tempestuoso.      — Ei, m’ermão, tu tás mal, hein? Quer aju...      Mas Catucão não teve tempo de terminar a frase. “Barata” despencou sobre ele, revirando os olhos. Navalha voltava do mictório quando ouviu o grito de alerta:      — Êpa! Segura o home, “Navalha”! – gritou Catucão, que, por não esperar aquilo, foi pegado de surpresa e quase cai do banquinho. Navalha e Cicatriz acudiram. Ao mesmo tempo um burburinho começou a se formar lá pros lados do banheiro.      Deitaram o “Barata” sobre o balcão. Ele espumava e sua respiração era difícil. Juntou gente e o murmúrio ia num crescendo.      — Droga! – exclamou “Cicatriz” – isto vai dar meganha. Eu vou cair fora, turma. A “justa” não é minha simpatizante. Chamo uma ambulância lá do orelhão. O “Barata” parece mal, mesmo.      — Vai nessa, cumpade. A gente se cuida! – disse “Navalha”.      “Barata” entrou a vomitar. Alguém gritou: “O cagão morreu sentado no bocão, gente”! A música parou. Diante do banheiro já se formava uma aglomeração. “Barata” entrou a estrebuchar e a dizer coisas sem nexo. Navalha, Catucão, o barman e alguns fregueses tentavam ajudar. A confusão aumentava. Do outro lado, o banheiro estava lotando rapidamente. Com dificuldade “Negão” conseguiu romper a mole humana e vir esbaforido até o balcão. Chegou aos gritos:      — “Barata”, “Catucão”, “Cicatriz”, o branquelo apagou! O coitado est... – viu “Barata” no balcão e os esforços dos outros para o reanimar e estacou surpreso.      Mas... mas o... o que aconteceu? – tartamudeou atônito.      — O “Barata” tá muito mal, cara! – exclamou Catucão aflito.      — Mas o que deu nele? – indagou “Negão” juntando-se aos outros no esforço de fazer o colega reanimar.      — Não sei. De repente parou de cantar, arregalou os olhos e me olhou estranho... e... e desabou em cima de mim!      — Tirem ele daqui! Tirem ele logo daqui! – berrava o barman, apressado. – Ele é de menor. Se a “cana” chegar, vai pegar pra nosso lado!      — Vai pegar de qualquer jeito, maninho. O “Lagartixa” bateu as botas lá no banheiro – gritou Negão, ajudando os companheiros a carregarem o semimorto “Barata” para fora do salão e causando maior confusão ainda entre os presentes.      — Onde está o “Cicatriz”? – perguntou Negão.      — Se mandou. Ele e a “justa” andam de “penga”. Ele não quer encontrar-se com os home.      Enquanto falava aos gritos, Navalha ajudava Catucão e Negão a levarem o “Barata” para fora da danceteria e o colocavam na calçada em frente, bem próximo à parada de ônibus.      — Ele disse que ia chamar uma ambulância – falou Navalha.      — Tomara que tenha feito isto mesmo. O “Barata” precisa dos “de branco” com urgência – disse Catucão, preocupado.      — O “Lagartixa” está esticado, mesmo? – perguntou Navalha.      — Esticadinho, cara. Encontrei ele sentado no vaso. Nem chegou a arriar as calças. O gozado e que tava com o pau pra fora – informou Negão desanimadamente.      — Isto vai dar um bode dos diabos, me’rmão. Se não fosse pelo Barata aqui, eu ia era cair fora, já, já! – falou Navalha, preocupado.      — Porra! Morrer no meio de uma “bronha” é sacanagem! – exclamou, frustrado, Catucão.      Uma sirene de ambulância se fez ouvir.      — O “Cicatriz” cumpriu a palavra. O cara é legal, mesmo – disse Negão, aliviado.      — A gente vai com ele? – quis saber Navalha.      — Os “de branco” não vão deixar, cara! – disse Catucão.      — É melhor pra nós – comentou Negão. – A gente entrega o Barata pra eles e se manda. A “cana” deve chegar logo atrás e eu quero mais é tá bem longe deles – exclamou Negão, aliviado.      A ambulância chegou fazendo um escarcéu e foi parar bem diante à danceteria. Negão foi até lá e trouxe os médicos com a maca para apanhar o companheiro semimorto. O “Barata” foi colocado no furgão e, para surpresa deles, Negão, Catucão e Navalha também foram empurrados lá pra dentro. Não havia mais ninguém com eles. Deram-lhes a tarefa de manterem uma máscara de oxigênio no rosto de “Barata”, fecharam a porta do socorro e arrancaram cantando pneus e com a sirena ligada. Ninguém mais assistiu ao embarque, pois todo o povo que podia haver na rua estava dentro da danceteria, onde a balbúrdia fugia completamente ao controle dos vigilantes.      Enquanto os três amigos corriam presos dentro da ambulância, ainda meio desnorteados com o que estava acontecendo, o rabecão, seguido por uma patrulha e fotógrafos do jornal mais sensacionalista da cidade acabava de chegar à danceteria, justamente quando a cúpula do local estava reunida decidindo se jogava o corpo na rua, ou não. O barman foi o primeiro a notar a presença do pessoal indesejado.      — Porra! Quem foi o filho da puta que chamou aquela gente? Agora é que a coisa vai engrossar, mesmo. Que merda!      Na ambulância, olhando pela janela apertada, Negão viu quando o I.M.L. chegava à danceteria.      — Por que esse cara corre tanto? – perguntou, preocupado com as curvas suicidas que a ambulância fazia.      — O paciente está mal – foi a resposta que se fez ouvir através de alto-falantes, pegando a todos de surpresa.      — Não devia ter uma enfermeira aqui, com ele? – quis saber Navalha, lutando para não cair sobre o “Barata”. Catucão tinha dificuldade em manter a máscara no rosto pálido do amigo, já morto há algum tempo. Ninguém notara o fato porque todos estavam preocupados com a corrida em que o socorro era dirigido.      — Está quente aqui dentro – reclamou Catucão, suando muito.      — Eu... eu não consigo respirar direito... – exclamou aflito o Negão, começando a tossir.      — Tem um cheiro... es... esqui... esquisito, aqui... aqui dentro – e Navalha caiu pesadamente sobre o corpo do falecido “Barata”.      A última coisa que “Negão” pensou foi: “Me tirem daqui! Papai! Mamãe! Eu que..quero...”      No dia seguinte eles todos eram primeira página de jornal: “GANG INTEIRA DA ZONA NORTE MORRE COM OVERDOSE”, era o título do artigo. O único citado como tendo tido parada cardíaca era “Lagartixa” – “jovem branco, de 17 anos, morador da Penha. Os médicos não concordam com a versão corrente de que o fanqueiro tenha morrido no meio de uma masturbação...” dizia o artigo escandaloso...      Eram as 6h da manhã. O dia amanhecia frio e chuvoso. Glauce e Aquiles tomavam o desjejum. A médica desejava ir cedo para casa. Aquiles tinha de atender na clínica.      — Você não está com boa cara – disse ela – o que é?      — Nada que preocupe – respondeu Aquiles, evasivo.      — É você, agora, quem oculta algo de mim, não é?      — Não... bem, é bobagem – fugiu Aquiles.      — Mas eu gostaria de saber o que é, mesmo assim – insistiu Glauce, olhando desconfiada para a aparência cansada de seu noivo.      — Uma paciente que vou ver no hospital. Tem câncer ósseo. Está mal e a família ainda não sabe. Terei de dar a notícia e isto me desagrada profundamente – desviou Aquiles.      — Bem... eu não gostaria de estar em seu lugar – comentou Glauce.      — Nem eu – brincou Aquiles.      A moça despreocupou-se. Aquiles, contudo, continuou a pensar no problema que lhe atormentava a alma desde a noite passada. A lógica dizia ser impossível que o homem fosse Fratelli, mas algo lhe mantinha permanentemente alerta. Dirigiu mudo e dando graças a Deus que Glauce estava com muito bom humor e tagarelava à solta sobre tudo, principalmente sobre a agonia de ter que dar uma notícia má à família de pacientes. Deixou-a diante da portaria de seu prédio e foi embora. Antes de se dirigir para a clínica e enfrentar o problema da mulher desenganada, resolveu passar pelo seu apartamento e verificar a secretária eletrônica. Temia encontrar uma outra mensagem ameaçadora nela. Mas o que ouviu foi o telefonema de Kimura. Aquilo o espantou. Em oito anos, era a primeira vez que seu mestre ligava. O que será que queria? Procurou o número dele em sua agenda e chamou de volta. Mas não houve resposta. Nem mesmo a secretária eletrônica respondeu. Foi trabalhar com mais aquela interrogação.      Do outro lado da cidade, Mara tomava seu desjejum após ter feito os exercícios de TAI-CHI-CHUEN. Fora uma das noites sem pesadelo e ela estava sentindo-se ótima. Os acontecimentos do dia anterior parecia que tinham ocorrido num sonho. Estavam desfocados em sua lembrança. Alguém, que não ela, os vivera. Só uma coisa daquele dia estava presente: Ludmila e a sessão de hipnose. Isto lhe interessava profundamente. Tinha ligação direta com ela, com o seu dia-a-dia, com o seu problema.      Foi para a redação bem disposta e otimista. De passagem por uma banca de jornal, parada no semáforo, de dentro do carro leu a notícia de destaque na primeira folha de “EL MONDO”: “FILHO DE BANQUEIRO É SEQUESTRADO. TRATA-SE DO TERCEIRO SEQUESTRO DESTA SEMANA”. Sorriu consigo mesma. Ludmila o fizera. A ruiva era mesmo uma danada.      Chegou à redação do jornal e foi direto à mesa da recém-conquistada amiga. Cumprimentou-a efusivamente, e Perseu, que as observava de soslaio, franziu a testa sem compreender nada. As duas deveriam estar-se mordendo e, não, amando-se daquele jeito desavergonhado. O que será que havia acontecido?      — E então? – perguntou Ludmila – Resolveu sobre onde vamos?      Mara entendeu de pronto o que ela queria dizer.      — Sim. Há um muito bom na Montenegro.      — Marcou?      — Não. Mas faremos isto, já, já, não é?      — Claro!      Mara fez a ligação e a sessão de hipnose foi marcada para aquela noite, às 19 horas.      — Muito bem. O que vamos fazer, agora? – perguntou Mara.      — Vamos ao “Mausoléu”. Temos duas horas antes de irmos encontrar Tamara.      — Quem é ela?      — Uma colega nossa de “A CIDADE”. Trocamos, sempre que possível, informações. Foi ela que nos deu os dados com que fechei nossa reportagem sobre o incidente de Anteu Kamuratti. Ah, a propósito: ela estava, ontem, à porta dos Kamuratti e me reconheceu.      — Com todo aquele disfarce? – estranhou Mara,      — É que ela e eu já trabalhamos juntas algumas vezes. Ela notou o que a polícia nem desconfiou: a placa do carro de aluguel. A namorada de um Kamuratti não se serviria de um carro de aluguel. Daí, foi só observar atentamente nosso comportamento para somar 2 + 2 e concluir que era eu quem estava armando.      — Ela quer informações, não é?      — Sim.      — Que ótimo! Não temos nada para dar a ela. O que... ?      — Aí é que você se engana. Vamos!      — Para onde?      — Ao “Mausoléu”. Vamos pesquisar.      E Ludmila saiu arrastando Mara pela mão. A moça ainda não estava acostumada àquele modo “vendaval” de agir da colega. Estar perto de Ludmila era meter-se numa ventania e isto desnorteava Mara.      Chegaram ao silencioso arquivo geral do jornal em que trabalhavam. Tudo muito limpo e muito asseado. Mergulharam logo nos velhos volumes encadernados de muitos anos atrás. O computador ajudava muito. Os pesados volumes desciam das prateleiras um após outro, sempre que o computador indicava a existência de alguma ilha estranha para elas. O tempo passava e nada, porém, que sequer parecesse com a ilha de seus pesadelos.      Foi então que, quase por acaso, Mara deparou-se com uma antiquíssima reportagem feita por um colega de profissão que, certamente, há muito já devia estar contando histórias aos anjinhos. Chamou Ludmila, olhos arregalados e coração aos pulos. Juntas, leram a reportagem:      “ MISTERIOSOS ACONTECIMENTOS NA ILHA DE PARGOS”      No Oceano Pacífico, a quase 180 milhas do vilarejo de Pisagua, no paralelo 22 e 16', situa-se a ilha de Pargos. Habitada, diz-se, pelos últimos remanescentes dos atacamenhos, artesãos chilenos que para lá migraram há aproximadamente trezentos, talvez quatrocentos anos, e lá se transformaram em exímios pescadores. Pargos é uma ilha de formação vulcânica. É local selvagem e de geografia muito estranha. No lado Norte, o mais escarpado, com picos de até 600m de altura, há uma luxuriante mata. Muitos macacos, muitas cobras, jaguatiricas, araras e papagaios, entre uma infinidade de animais, vivem na mata cerrada, onde corre um rio de águas cristalinas. No lado norte da ilha não há praias. As lapas mergulham verticalmente nas águas profundas do Pacífico. O oceano arrebenta ondas de até vinte e cinco metros de altura contra os paredões rochosos, com uma força que é sentida no estrondo como um leve tremor do solo até a seis quilômetros de distância mata a dentro. Os pescadores evitam levar as embarcações para aqueles lados. O vento quase sempre sopra de encontro aos paredões, impelindo o que quer que flutue para arrebentar-se neles. Já no lado sul, onde desemboca o rio de Pargos, a paisagem é mais desértica. A geografia da ilha é descendente para este lado. A floresta é rala e os coqueiros substituem as grandes árvores. Neste lado da ilha, que tem a forma de uma pêra, há nesgas de areia formando pequenas praias branco-amareladas entre pedras negras e arrecifes pontiagudos e muito perigosos, principalmente para barcos de grande calado. É devido a isto que Pargos não é muito visitada. Segundo seus habitantes, antes deste repórter, só dois barcos chegaram até a ilha vindos do continente. Um, há quase cinqüenta anos – a considerar a contagem do tempo segundo os padrões lunares que adotam – e o último, há seis anos.      Pois foi a esta ilha que, há mais ou menos sete anos, chegou uma menininha ainda bebê, boiando num cesto cercado de sargaços. Foi pescada de entre os escolhos, onde boiava em risco de se despedaçar nas negras pedras, por Gaditano, o pescador que exerce o cargo de líder administrativo de Pargos. A menina foi retirada do oceano toda queimada pelo sol escaldante e ardendo em febre. Ninguém pensava que pudesse escapar com vida. Tinha bolhas de queimaduras por todo o corpinho claro. Gaditano manteve-a em sua casa, deitada em folhas de bananeira e banhando-lhe as queimaduras com água de coco – muito abundante aqui na Ilha. Três vezes ao dia, Gaditano mergulhava a garotinha numa bacia cheia de água. As bolhas desapareceram e as chagas sararam. Letícia, como a menina foi batizada, cresceu à força de leite de cabra, frutas e legumes silvestres e polpa de coco. Desde muito cedo repudiou qualquer alimentação à base de carne. Nem mesmo frutos do mar ela ingeria. Ainda assim, cresce robusta e sadia como nenhuma outra criança natural da ilha. Pensava-se que fosse muda, pois até a idade de cinco anos e sete meses jamais havia dito uma única palavra. Naquele dia, data em que os pargoítas festejam a chegada dos cardumes de sardinhas e de tainhas, Letícia falou. E o fez com voz alta e clara. Ela apontou para Lutachtlan, um jovem de vinte e três amos, noivo da filha do Tuchah, o pai espiritual dos pargoítas, e disse:      — “Não vá. A morte não vai deixar que volte.”      O festejo parou. Foi grande a consternação entre os pescadores. Os ilhéus rodearam a estranha garota querendo saber mais, mas ela fechou-se em copas e não mais falou. O Tuchah foi instado a ler os ossos de tubarão. Fez isto. Jogou os ossos e não viu nenhum sinal de perigo para Lutachtlan. Bebeu aloá, uma bebida fermentada feita do bagaço do coco. Fez os defumadores sagrados e leu as vísceras de uma cacatua branca. Nada. Nenhum sinal de morte para o jovem pescador. O conselho tribal se reuniu e, após muito debate e consideração, resolveu que Lutachtlan podia ir à pesca e competir com os demais. A previsão de Letícia não tinha fundamento. A garota foi consultada sobre a decisão do conselho pela noiva do jovem pescador. A menina nada falou. Em vez disto, apanhou a “flor da morte” – uma convulvácea capaz de sobreviver até sete dias com o mesmo viço de quando tenha sido colhida – e a colocou nos cabelos de Mahathatha, a jovem noiva, no lado esquerdo da cabeça, à moda das viúvas. Impressionada, a jovem tentou de todos os meios dissuadir o seu impetuoso noivo de ir pescar com os outros. Ele, contudo, não lhe deu ouvidos. Seguiu os demais. O sol estava claro e a brisa não fazia prenunciar nada de mal, em que pese as mudanças bruscas que o tempo, no Pacífico, costuma sofrer. Em Pargos, principalmente. O tempo pode mudar em menos de duas horas, de um calor abafado para uma tempestade incontrolável com chuvas e trovoadas.      O grupo estava nas águas há pouco tempo. Repentinamente o tempo virou. Um vento muito forte começou a soprar e dispersou os pescadores. O Oceano enfureceu-se e as ondas agigantaram-se. Ao final do dia, todos conseguiram chegar à prainha, na embocadura do rio e onde se situa a pequena aldeia. Do jovem Lutachtlan só os fragmentos da canoa em que estava deram aos escolhos próximos. O rapaz jamais retornou.      O incidente abalou profundamente o prestígio do Tuchah, abandonado pela própria filha, que passou a ser conhecida como “A Virgem Viúva”. Até hoje ela usa a Flor da Morte, que, inexplicavelmente, mantém o seu viço como no dia em que Letícia a colhera. Recentemente Letícia voltou a falar. Os pargoítas festejam a lua cheia e foi no festejo da lua de...      O artigo terminava ali. Traças e bolor estragaram o restante da folha e as duas repórteres, por mais que rebuscassem naquele e noutros volumes, nada mais conseguiram descobrir sobre Pargos. Mara não cansava de repetir:      — Meu Deus, Ludmila, é a minha... a nossa ilha. É ela, sim! Eu sinto que é. Eu sinto aqui, ó! – e tocava o peito em cima do coração. – O que você acha, hein?      Ludmila, ainda que também muito excitada, respondia:      — Sinto a mesma coisa que você, Mara. Sinto mesmo, mas isto é algo inacreditável. Isto muda toda minha conceituação de vida, criatura. Presta atenção: este artigo tem nada menos que 189 anos. É datado de 17 de fevereiro de 1806. Nosso jornal nem existia. Nem mesmo faço idéia de como veio parar aqui. Sabe o que isto significa, Mara? Sabe o que quer dizer isto?      — O que? O que? – indagava Mara, folheando mais um volume.      — Quer dizer que se você é realmente aquela menininha, como você mesma acredita que é, então, a transmigração é um fato. Mas isto choca-se com tudo aquilo que me fizeram acreditar.      Mara parou olhando nos olhos de Ludmila. Transmigração? Ela jamais havia sequer cogitado desta hipótese. Nem mesmo tinha consciência clara de sua identificação com a menininha descrita no artigo. Ludmila concluíra isto sozinha. Mas... E se fosse verdade? Então... então havia uma explicação fora dos padrões normais para aqueles pesadelos.      — Quero uma cópia deste artigo – disse Mara resoluta.      — Para quê? Ele vai sempre estar aqui, à nossa disposição!      — Eu quero ver a cara de minha analista quando eu lhe mostrar o artigo escrito há quase duzentos anos atrás. Quero ver o que ela vai dizer, dentro de sua teoria, para explicar este fenômeno.      E Mara foi à xerox e fez uma cópia razoável do papel amarelado.      — Você vai lá? – estranhou Ludmila.      — Eu vou. Tenho hora marcada às 16, esqueceu? Você, se não me engano, é às 17, logo após mim.      — É, mas não vou... Aliás, só vou para me desligar. Não sou neurótica e não tenho nenhum motivo para me deixar convencer a ser enquadrada num conflito edípico com meus pais. Aliás, eles e eu sempre fomos bons amigos e eu detestaria que alguém envenenasse isto dentro de mim.      — Este esforço os analistas de um modo geral fazem – disse Mara. – Eu não sei porque continuo freqüentando a minha analista. Também não concordo com a mania de explicar tudo pelo tal Complexo de Édipo mal solucionado, que ela tem. Veja, ela se comporta de modo a nos irritar e assim que a gente se mostra realmente irritada com aquele modo escorregadio, distante, frio e impessoal que ela adota, aí, então, vem pra cima de nós tentando nos convencer de que nossa irritação é o reflexo transferencial de ódios infantis recalcados. Mas isto me mata de tanta raiva! Eu gostaria de saber se há alguém, na face da Terra, que, freqüentando consultório de analista ortodoxo, não fique irritado. Só se for extraterrestre, porque humano, não agüenta não.      — Você lava minh’alma – disse Ludmila – eu já estava ficando preocupada com a irritação que sentia quando ia lá. E olhe que só faz um mês.      — E tem mais – cortou Mara – Eu fico fula com a fixação sexual dela. Tudo, mas tudo mesmo, é problema sexual. E ela usa um jargão contra o qual, nós não iniciados, ficamos impotentes para contra-argumentar.      — Tudo bem. Vamos, então. Está na hora de nos encontrarmos com Tamara. Você vai gostar dela.      As duas moças saíram apressadas. Foram no carro de Mara. A redação do jornal “A CIDADE” em que Tamara trabalhava ficava num lugar muito feio, próximo e atrás do gasômetro. Era um prédio velho reformado, de cinco andares, que mesmo pintado dava aparência de ser pré-histórico.      Tamara esperava por Ludmila à porta do prédio. Nem as deixou descer do carro. Ao contrário, meteu-se ela lá dentro.      — Toca pra um lugar mais agradável do que isto aqui, Ludi – foi dizendo enquanto se ajeitava no banco de trás. Era uma morena quase mulata, mas tinha cabelos castanhos claros e lisos e rosto de formato grego. Corpo esguio, musculatura rija e mãos bem tratadas. Olhos caramelados e olhar arguto. Boca bem feita e bem pintada com um batom de cor discreta. Vestia jeans e uma blusa simples, que realçava seus seios pontudos. Tinha estatura mais alta que a média, mas não se podia considerar uma mulher alta. Olhava firme para o seu interlocutor e mantinha na expressão um ar sereno, mas que dava a impressão de uma forte determinação. Mara gostou dela logo de cara.      — Ludi, quem é a nossa amiga? – perguntou a recém-chegada.      — Desculpe, Tamara, esta é Mara. É uma colega muito boa.      — Era quem estava com você, lá casa dos Kamuratti?      — Era.      — Você é muito arguta – disse Mara – Como é que pôde reconhecer a Ludmila naquele disfarce? Eu achava que nem a mãe dela a reconheceria daquele jeito.      — Já trabalhamos juntas e eu sei do que a Ludi é capaz – falou, sorrindo, Tamara. – Aliás, gostaria de formar um par com ela. Pena que a gente trabalha em jornais diferentes.      — Ludmila tem uma parceira muito boa, a Karina – disse Mara.      — Concordo, concordo. Mas Karina é muito apressadinha. Ela ainda não sabe cozinhar a notícia a fim de fazê-la fermentar... Você me entende?      — Sinceramente, não.      — Qual é a sua especialização?      — Como assim? – estranhou Mara.      — Qual a seção em que você trabalha? – esclareceu Ludmila.      — Ah... As sociais... futilidades – disse Mara.      — Nem sempre, se se sabe dali tirar proveito – comentou Tamara.      — Concordo com você – reforçou Ludmila.      — A propósito, o que vocês colheram junto àquela víbora do Kamuratti? Eu, sinceramente, não acredito em seqüestro – disse Tamara.      — Nós também não – falou Ludmila pelas duas.      — Por que você levou uma novata, em lugar de sua parceira, a Karina? Esta, eu não entendi – perguntou curiosa Tamara.      — Mara é nova, sim, no nosso ramo. Mas é esperta e discreta assim como nós duas. Sabe como agir, entende? – explicou Ludmila.      — Ah... Bem, o que vocês têm a me contar?      — Sem informação ao jornal, certo? – disse Ludmila.      — Certo. Ao menos, por enquanto – concordou Tamara.      — Muito bem. Nós não acreditamos que o tal de Anteu tenha sido pura e simplesmente raptado – continuou Ludmila – Ele andava metido...      — ... com o Kantor Antratos – completou Tamara – isto não é novidade para nós. Todos sabemos, até mesmo os jornais menos avisados.      — Pois é – continuou Ludmila. – Por que um banqueiro de tanto prestígio se meteria com um marginal daqueles e poria seu prestígio em risco?      — Você ainda não sabe? – estranhou Tamara.      — Não. Você sabe?      — Sei, sim.      — E então?      — Chantagem.      — Chantagem?! Como assim? – disse Mara.      — O Dr. Anteu é metido a gavião conquistador. Vai daí, envolveu-se com uma tal de Andréa, uma joão-ninguém qualquer. A única coisa que a piruazinha tinha era um palminho de cara bonito. Emprenhou e pariu um filho do tal de Anteu. Foi assassinada.      — Credo! Quem fez esta barbaridade? – espantou-se Mara.      Não se sabe. Desconfia-se que tenha sido o Dr. Anteu, o mandante. Mas eu particularmente acredito que não.      — Por que? – quis saber Ludmila.      — Porque ele ficou muito abalado com o fato e corre a boca pequena, no Banco Kamuratti, que ele brigou feio com os pais. Parece que suspeita... ou suspeitou, se já se foi desta pra melhor, que a morte se deu a mando deles.      — Pais adotivos, sabia? – disse Ludmila.      — O que??? Então, o Dr. Anteu não é um Kamuratti de sangue? – foi a vez de Tamara se assustar.      — Não.      — Ah! Então, isto torna mais sólida minha suspeita. Ludmila, a gente tem de trabalhar juntas. Você tem informações importantes que completam as minhas. E eu tenho outras que completam as suas.      — É... Mas qualquer uma de nós terminaria por descobrir toda a história...      — Talvez... talvez... Se estivéssemos vivas no final...      — Caramba! Você acredita que há perigo de morte...? – Mara recordou-se de pronto do sufoco que haviam passado na praia.      — Não acredito, menina, há. E você, se tem medo, entrou pela estrada errada. E advirto que não tem volta. Os Kamuratti vão estar nos calcanhares de vocês duas até descobrir quem são. Não sejam tolas. Ele já sabe a verdade quanto à alegada noiva do Dr. Anteu. E sabe que o disfarce, qualquer que tenha sido, que vocês duas adotaram apenas encobre a verdadeira identidade de ambas. Vocês correm perigo, sim. Não relaxem.      — Eu sei disso – disse Ludmila – mas não queria colocar Mara em ansiedade antes do tempo.      — Lamento – disse Tamara à guisa de desculpa. – Mara, você sabe alguma defesa pessoal?      — Por que?      — Porque, se não sabe, comece já, agora mesmo, a treinar. Vai necessitar disto, acredite. Quem é de nossa profissão e lida com este tipo de gente tem de ser muito boa em alguma arte marcial. Principalmente se mexe com um vespeiro venenoso como o que vocês assanharam. Por que fizeram aquela jogada tão arriscada? Praticamente chamaram a matilha de lobos enfurecidos para cima de vocês duas. Qual foi a finalidade?      — Eu queria fazer com que eles se mexessem. São extremamente cautelosos e a gente, por vias menos arriscadas, não conseguiria penetrar a muralha de silêncio que eles colocam em torno de si – explicou Ludmila.      — E eu simplesmente fui arrastada por esta doida – disse Mara aborrecida.      — A vida só vale quando a gente está enfrentando desafios – falou Tamara com um sorriso e um brilho nos olhos que desarmaram Mara. – O que há de gostoso em ficar pacificamente executando uma rotina de segurança, Mara? Ter os dias seqüencialmente iguais, previsíveis? 0 que se pode aprender, vivendo assim? Nada! A não ser velhos e caducos estereótipos, não é?      — Eu não sei... – disse Mara, dubitativa.      — Pois aprenda – falou Tamara, incisiva – a mesmice só envenena a mente e envelhece... entorpece a alma.      0 carro enveredou pela estradinha da Floresta da Tijuca e terminou no Restaurante dos Esquilos. Um lugar tranqüilo, sem ninguém durante a semana e ideal para que pudessem conversar livremente.      Tomaram uma mesa e pediram cerveja com lingüiça como tira-gosto.      Após terem sido atendidas, deram início à conversa que lhes interessava. Ludmila, secundada por Mara, contou detalhadamente o encontro com os Kamuratti e a perseguição que sofreram. Tamara as ouvia atentamente, cenho franzido e ar de preocupação. Quando as duas terminaram, disse decidida:      — Vocês conseguiram meter-se numa camisa de 22 varas, minhas caras colegas. E eu não quero ficar de fora, de modo algum. Isto vai engrossar e eu quero estar no meio, entendido?      — Pois eu bem que gostaria de sair disto, agora mesmo – falou Mara, desolada.      — Não dá mais – disse Ludmila – sinto muito, Mara.      — Não vamos chorar o que passou. A gente não pode mudar o passado, não é? Então, vamos cuidar de organizar o presente para não termos um futuro escuro e fatal. Que tal?      — Rimou – disse Mara, sem entusiasmo.      — Eu concordo com Tamara. E creio que nosso primeiro passo, agora, é descobrir o que o Kantor Antratos, ou Celso Cerqueira Lima, tem de trunfo para obrigar o Anteu a lhes obedecer e se arriscar junto à própria família.      — Mas isto é mole – disse Tamara – ele tem o filho do Dr. Anteu. Ele o escondeu em algum lugar bem escondido. E tem com a criança um exame médico de gene que comprova, cabalmente, que a criança é herdeira direta dos Kamuratti. E isto é um transtorno para aqueles usurários.      — Se é – disse Ludmila, – sangue espúrio na família! Que furo, hein gente? Que furo!      — Pequeno, minha cara, pequeno. Pode ser muito maior, se soubermos investigar e aguardar. Jogar sujeira no ventilador, agora, só vai feder pro nosso lado – contra-argumentou Tamara. – Este negócio de remessa de dólares pra Israel, os assassinatos e... – Tamara parou.      — E...? – instou Ludmila.      — Bem, só digo se houver o compromisso de que vocês não irão colocar no jornal antes do tempo.      — Tudo bem, tem nossa palavra – disse Ludmila.      — Você está de acordo, Mara? – insistiu Tamara.      — Sim – respondeu a moça.      — Muito bem. Acho que Anteu andou investigando por conta própria as atividades de seus pais adotivos e descobriu algo muito fedorento. No dia em que foi com Karina para o motel...      — Você sabe disto? – espantou-se Ludmila.      — Claro! Eu estava nos calos deles. Segui-os desde que ele foi apanhar sua companheira no apartamento dela. Eu usava um disfarce de rapaz, mas esqueci que Anteu já conhecia o fulano. Eu os perdi por um momento, quando ele me despistou na estrada. Mas consegui, depois, saber, pela Karina mesma, que tinham ido ao motel.      — Ela lhe contou isto? – estranhou Ludmila.      — Não. Eu... Eu grampeei o telefone dela...      — Como é que é? Você... Mas isto é crime! – enfureceu-se Mara.      — Na guerra, nada é crime, minha filha. E estamos em guerra contra aqueles abutres – defendeu-se Tamara. – Mas não se preocupe, já mandei tirar o grampo. Não me interessa a vida sexual da amiga de vocês. O que eu desejava era descobrir até onde ela e o tal de Anteu estavam envolvidos. E foi assim que fiquei sabendo do seqüestro.      — Ele a despistou. Então, sabia quem você era? – perguntou a ruiva.      — Sim. O Dr. Anteu me conhece muito bem... na pele do tal rapaz. Ele sabe que o talzinho anda atrás do Celso Cerqueira como cão de fila. Uma vez tentou conseguir minha ajuda, como repórter, mas naquela época eu sabia pouco da história e me mostrei agressiva contra ele. Não me atacou, como tem feito o Kantor, que já tentou me matar umas cinco vezes...      — Você já sofreu cinco tentativas de assassinato? – espantou-se Mara, olhando temerosa em volta.      Tamara fitou-a e percebeu o olhar preocupado. Sorriu.      — Não se preocupe. Não estão aqui por perto. São primitivos nos seus modos e...já aprenderam que comigo o buraco é mais em baixo. Mas como eu dizia, Anteu não atentou contra mim. Só passou a me evitar, temendo que eu o ligasse ao Kantor e, com isto, o colocasse em maus lençóis. Os Kamuratti não lhe perdoariam um escândalo deste tipo.      — É verdade – confirmou Ludmila. – Mas não sendo Anteu filho legítimo deles, não sei porque não o deserdaram ainda.      — Não podem. O escândalo não agradaria à cúpula a que servem.      — Que cúpula? – quis saber Mara.      — Eu ainda não sei, mas eles não agem por conta própria, não. Recebem instrução de fora do País. Sei disso porque interceptei uma correspondência deles..      — Como? – quis saber Ludmila.      — Não quero que fiquem coradas – disse Tamara, rindo – Só lhes digo que o carteiro ficou muito feliz...      — Ah... – fez Ludmila, rindo.      — Você...? – Ia perguntar Mara, mas Ludmila cortou-a.      — O que ela faz com o corpo dela é assunto só dela, tá?      Mara deu de ombros.      — Ei, não foi como vocês estão pensando, não. Eu paguei a uma famosa modelo atriz para que fosse atender o meu amigo, no motel. Só isto. Foi caro, mas valeu a pena.      — Muito melhor – disse Mara, aliviada.      — E o que continha a correspondência? – perguntou a ruiva, ansiosa.      — Um amontoado de palavras gregas, russas e alemãs que não faziam sentido. Falo bem o alemão e só entendi a ordem final: “CUMPRA COM O QUE MANDAMOS”. Havia um timbre esquisito no lado esquerdo do papel.      — Como era ele? – perguntou Mara.      — Uma espécie de cobra emplumada e com asas – disse Tamara. – E eu nunca vi aquilo em lugar nenhum, antes. Nem depois, pois tentei descobrir o que é e o que significa, mas inútil. Em lugar nenhum há informação a respeito.      — Quem gosta muito destas geringonças são os chineses, não é?      E Mara, ao dizer isto, lembrava-se do dragão que seu mestre chinês usava nas costas. Lembrava uma cobra emplumada e com asas.      — Sim, mas não é símbolo chinês. O desenho é... Bem, é diferente. Não tem o prata, o vermelho e o dourado, cores que os “chins” gostam muito de colocar em seus dragões. Tem o preto e algo assim como o magenta...um furta-cor nas escamas...      — Que escamas? – perguntou Mara.      — Bem, a cobra emplumada tem escamas. É de entre elas que saem as plumas – informou Tamara. – E no rabo tem um ferrão que lembra o do escorpião.      — Esquisito... – disse Ludmila, reflexiva.      — Também achei.      — O que fez com a correspondência? – perguntou Mara.      — Coloquei no envelope e ela foi entregue normalmente – respondeu Tamara. Eu não queria levantar suspeitas.      — Fez bem. Mas por que será que mandaram isto pelo correio? Fax é muito mais...      — ... eficiente? Concordo. Mas não transmite aquele símbolo, entende? As ordens deviam ser importantes e o símbolo e suas cores talvez fossem algo assim como o certificado de garantia de que elas partiam da cúpula.      — E a televisão a cabo? – sugeriu Mara. Eles podem ter este serviço totalmente privado.      — Podem e têm. Mas não é muito seguro. Pode ser violado. O velho correio é o mais seguro, mesmo. Ninguém vai desconfiar de que alguma coisa tão valiosa venha pelo correio pura e simplesmente. E se se extraviar... quem vai dar importancia a um amontoado de palavras sem nexo? Devem, além do mais, obedecer a um código secreto. Muito trabalho, não é?      — É verdade. Eles parecem espertos – disse Mara.      — Não parecem. São espertos – sentenciou Ludmila.      — O que faremos, agora? – perguntou Tamara.      — Cada qual segue seu caminho – disse Ludmila. – Nós vamos continuar a agir à nossa moda e você, à sua. Mas nos encontraremos regularmente para trocar informações. Divididas estaremos mais seguras... eu acho assim. E você, Tamara?      — Hummm... Sei não. Se uma for apanhada, a outra fica sem saber o que ela descobriu, não é? – ponderou Tamara.      — É... Mas vamos seguir assim, pelo menos por enquanto, certo? – insistiu Ludmila.      — Tudo bem. Quando nos encontramos de novo?      — Em uma semana. Se houver novidade, a gente se fala por telefone e marca um encontro de emergência. Que tal?      — Não me parece um bom plano, mas à falta de outro... – hesitou a quase mulata.      — Então, estamos combinadas quanto a isto. Agora, quero saber é sobre a criança. Você está investigando isto, não é? – disse Ludmila.      — Estou, Mas não tenho conseguido nada a respeito – disse Tamara desconsolada.      — Quer que a ajudemos? – perguntou Mara.      — Não. Eu acho que muita gente mexendo no caldo ele azeda.      — Tudo bem. Você fica só neste trabalho. Quanto a nós duas, vamos correr atrás do destino do tal Anteu.      — Você acredita que ainda esteja vivo? – indagou Tamara.      — Acredito. Eles não podem matá-lo assim, sem mais nem menos. É mais provável que o tenham deportado para algum lugar longe do Brasil.      — E quanto ao jornal...? – perguntou Mara.      — O meu vai muito bem, obrigada. E o seu, Ludmila?      — Vai ótimo – respondeu, rindo, a ruiva.      — Então, vamos deixá-los quietos. Em time que está indo bem não se mexe, não é o que se costuma dizer? – falou irônica, Tamara.      — É – concordou Ludmila, rindo da cara de espanto de Mara.      — Vamos, Mara – disse conciliadora – você ainda tem muito a aprender. Vamos que está na hora.      — Hora de que? – quis saber Tamara, chamando o garçon.      — De nossa consulta.      — Estão doentes?      — Oh, não. Nós, não.      — Quem, então?      — Uma certa analista fixada sexualmente num tal de Édipo.      — Como é que é?      Mara e Ludmila se entreolharam e caíram na gargalhada.      — Vamos nessa. Você não vai mesmo entender nada – disse Ludmila apanhando a bolsa.      — Hei, que história é esta de analista? Quem está precisando de uma? Vocês?      — Não seja curiosa. Nossa vida não está em pauta, queridinha.      E Ludmila saiu puxando Mara pela mão, seguidas de Tamara que as olhava com cara de quem não está gostando da história. CAPÍTULO IV O COMBATE        A psicanalista recebeu-a, como sempre, com a mesma frieza de costume. Cumprimentou-a com um leve aceno de cabeça, sem lhe estender a mão e a convidou, ainda com a cabeça, a entrar no consultório. Um luxo. Tudo do bom e do melhor. Luz indireta, tapetes que abafavam os passos e o fatídico divã à romana. Colocado estrategicamente, um abat-jour que podia lançar muita luz sobre a face de quem se deitasse no divã, mas aumentava a penumbra na qual a analista se ocultava, sentada atrás do coitado que estivesse ali estendido. “Indecente”, pensou Mara com raiva. “É como desnudar uma pessoa para ficar “ vuaieristamente ” admirando-lhe as feridas. E a vítima só pode obedecer...”      Sentou-se, ao invés de se deitar, e procurou encarar a analista de frente. A luz do abat-jour a incomodava e sem a menor cerimônia apagou-a.      — Por que faz isto? – indagou a analista com aquela voz monocórdia de sempre.      — Porque estou de saco cheio de tê-la às minhas costas e esta luminária me incomoda a visão. Gosto de olhar as pessoas de frente. Gosto de lhes ver a face e de saber como reagem a mim – disse Mara, controlando sua raiva.      — Está raivosa, Mara? – falou a analista com a mesma voz mortiça de sempre.      — Sim, estou.      — Ah! ... Pelo menos, agora, já confessa seu ódio recalcado...      — Não confesso nada! E não se trata de recalque coisa nenhuma. E muito menos de ódio infantil.      Esperou que a mulher dissesse alguma coisa, mas ela permaneceu impassível, olhando-a fixamente.      — Bem, já que não quer falar, falo eu – disse Mara. – Tome, leia isto e me diga o que pensa a respeito.      — O que é isto?      — Leia!      — É importante para você, que eu aceite este papel?      — Merda! É importante, sim, droga! Leia! – a repórter estava quase perdendo o controle. A frieza e a indiferença aparentes da psicanalista irritavam-na profundamente e, pior que isto, o modo como parecia encarar o problema dela, Mara, como se ele não tivesse importância, mas somente suas teorias... Isto quase tirava a repórter do sério.      — Está bem – concordou a mulher após uma demora estudada, durante a qual fixou inquisidoramente o rosto da sua cliente. Aceitou a cópia xerox do artigo e o leu em silêncio não fazendo qualquer comentário quando terminou a leitura. Apenas olhou, silenciosa, para Mara. Aquilo decepcionou a repórter.      — Voltei a ter aquele pesadelo de novo – disse, desconcertada diante do olhar frio da analista. – Não mudou nada. As mesmas cenas, as mesmas pessoas. O que me diz?      Esperava que a analista ligasse as cenas de seu pesadelo com o que continha a reportagem, mas ela não o fez.      — Você sabe o que penso a respeito. Quer fazer alguma associação com as cenas do pesadelo? Que tal começarmos pelo pescador...      — Ora, vamos, doutora. Você já tentou isto e não funcionou.      — Por sua resistência, Mara. Vamos, feche os olhos e relaxe. Procure trazer à lembrança o homem do pesadelo...      — Mas...      Mara hesitou. Compreendeu que a analista não se dignara a ler o artigo. Apenas fingira fazê-lo. Sentiu-se confusa e um misto de raiva e decepção a acometeu.      — É melhor deitar, Mara. Fica melhor para relaxar e fazer as associações. Vamos, deite-se.      — Não era um convite. Era uma ordem. Mara perturbou-se. Viera disposta a brigar com sua analista, mas agora estava confusa. A mulher tinha uma autoridade estranha... perturbadora.      — E então?      Mara hesitou, mas obedeceu.      — Ótimo. Agora, feche os olhos e relaxe... Relaxe... Não pense em nada volitivamente... só relaxe...      A voz era monótona e dava sono. Mara bocejou. Aos poucos seu corpo foi afundando no divã. Com esforço tentou obedecer, mas cenas e mais cenas do dia lhe vinham à mente... Talvez estivesse mesmo em resistência, afinal de contas. Não conseguia parar de pensar... O artigo. Pensou no artigo.      — O homem do sonho... o pescador – ouviu a analista dizer – por favor, Mara, diga tudo o que lhe vier à mente quanto a ele...      A princípio não vinha nada à lembrança de Mara. Apenas uma sensação muito estranha, de escuridão. Escuridão que ela percebeu, espantada, traduzir-se em uma íntima recusa a pensar. Gozado! Inda agorinha mesmo ela não conseguia parar de pensar. Agora, não pensava! Pelo menos, não vinha qualquer cena à sua memória... “ Que coisa curiosa ” disse para si mesma, “ estou vazia...      — O que há, Mara? – veio a voz sem calor e sem cor da analista.      — Eu... eu não consigo... eu não consigo ver o homem e... não me vem nada à lembrança... – Mara não sabia porque, mas estava meio agastada por ter de falar aquilo.      — Relaxe. Deixe que sua mente se reflita em sua consciência.      “ Fácil dizer, chapa; o difícil é fazer ” – pensou Mara de si para consigo mesma. Mas permaneceu tentando não pensar senão no tal homem... O nome dele... como era mesmo o seu nome?      E então, Mara? – voltou a perguntar suavemente a analista.      — Gaditano! – a repórter ouviu-se dizendo.      — Gaditano... O que é isto para você?      — O pescador.      — Você sabe o significado desta palavra, Mara?      — Não... Só sei que é o nome do pescador.      — Por que você associa esta palavra ao pescador de seu sonho?      — Pelo artigo, ora! É o nome dele! – Mara teve vontade de abrir os olhos, mas alguma coisa dentro de si se recusou a fazer isto.      — Que artigo?      — O que lhe dei! Não o leu?      — Li. Ele descreve uma ilha e algum acontecimento exótico ocorrido nela – disse a analista, demonstrando que Mara se enganara quanto a ela não ter lido o artigo.      — Sim, isto mesmo. O artigo descreve a ilha de meus sonhos.      — Não. O artigo descreve uma ilha. Mas lá não é dito que seja a de seus sonhos...      Ela estava de gozação. Só podia estar.      — É a ilha de meus pesadelos, sim senhora! – quase gritou Mara.      — Você está fugindo do tema, Mara.      — Não estou não! Leia novamente o artigo! – Mara sentou-se agitada. – Verá que ele contém a descrição da minha ilha!      — Sua ilha? Você tem uma ilha, Mara?      — Droga, doutora! Eu me refiro a ilha de meus pesadelos!      — A ilha do artigo não me parece ter importância, Mara. É algo distante de nossa realidade...      Mara levantou-se num ímpeto. – Aí é que está! – exclamou ela – O artigo tem importância, sim. Se não tem para a sua teoria, tem para minha realidade! – e ela foi até a porta, disposta a sair, mas abortou a ação e voltou a sentar-se. Apontou para o papel na mão da analista e ficou a olhá-la nos olhos. Ela, porém, não se moveu e continuou a fitá-la, como sempre, com aquele olhar inexpressivo.      — Mas que diabo! – exclamou a repórter francamente irritada – Você vai ficar aí, me olhando com este olhar de peixe morto, vai? Que tal voltar a ler o artigo em sua mão, hein?      — Já o li, Mara. Ele não é importante para nós...      — É! É, É e É ! – gritou Mara, exasperando-se.      — O que vê aqui, Mara?      — O que vejo? Santa Maria Madalena, mulher, aí está a essência de meus pesadelos. Uma ilha, uma criança encontrada entre sargaços por um pescador – Gaditano, segundo o jornalista que escreveu a reportagem – e que é muda, tal como a criança de meu pesadelo! Que mais quer?      — Eu? Nada, Mara. Você é que deseja saber o que seu inconsciente lhe está tentando dizer. Só estou procurando ajudá-la a chegar até ele.      — Que inconsciente? O coletivo?      — Não sou jungueana...      — Ah, esqueci-me! As famosas linhas de atuação! Ora esta, doutora, e o meu inconsciente pessoal ou coletivo sabe lá alguma coisa sobre as compartamentalizações da Psicanálise, hein? Será que você pensa que só pelo fato de você se dizer analista ortodoxa, o meu inconsciente vai somente sonhar sonhos capazes de satisfazê-la, é?      Esperou em vão por uma resposta. A analista continuava impassiva. Aquilo era exasperante.      — Pois se pensa assim, é muito petulante, cara doutora. E quer saber do que mais? Pra mim, C H E G A! Há muito mais do que Édipo nesta história e eu vou descobrir entendeu?      — À vontade, Mara. Mas quando passar este arroubo de rebeldia projetiva, que tal voltarmos ao nosso tema?      — NÃO VAMOS VOLTAR A COISA ALGUMA, ENTENDEU BEM? – Mara gritou a todo pulmão – Aliás, não vou tornar aqui para que você fique batendo na mesma tecla, tentando-me convencer que o seu todo poderoso Édipo é que está no comando de minha vida, porque não é, queira você ou não; queira seu amado Freud ou não! Adeus, doutora!      E Mara saiu porta-a-fora sem que a analista fizesse qualquer movimento no sentido de impedi-la. Apenas anotou em sua agenda: “Cobrar de Mara a sessão de hoje.”      A repórter estava furiosa. Perambulou pela rua a esmo. Não estava com nenhuma vontade de ir pra casa nem queria encontrar ninguém. Aquele encontro com a analista fora um desastre. Estava com raiva, com frio, com a sensação de desamparo, de solidão e de frustração.      A cidade acendera-se toda, mas a noite estava fria e com uma chuvinha quase sereno caindo como garoa. Isto aumentava o frio e a sensação de solidão.      Mara perambulou a esmo e terminou decidindo-se a ir para a redação e voltar ao “Mausoléu” a fim de continuar a pesquisa. Quem sabe encontraria mais alguma coisa escrita pelo seu falecido colega?      Um telefonema para o Banco Kamuratti. Alguns segundos escutando e pronto. Fratelli e sua turma estavam livres. Apanharam suas coisas e saíram. Na porta, deram com os policiais no camburão.      — Você está morto, cara! – tornou a falar em italiano.      — O que? – indagou o polícia a quem ele se dirigira.      — Vamos – comandou. Entraram no Camaro – que um dos policiais tinha trazido lá da praia – e se foram.      Fratelli livrou-se de seus comparsas e foi a um telefone público de onde chamou. Na elegante presidência do Banco Kamuratti um telefone disfarçado num pé de mulher tilintou melodiosamente. O próprio Presidente, o Sr. Kamuratti, atendeu.      — Sim?      — É Fratelli. Perdemos a pista devido à intervenção da polícia.      — Desconfiei. Estão livres?      — Sim, senhor.      — Prossigam. Não descansem enquanto não descobrirem quem são as intrometidas. Quero-as vivas. Preciso saber até onde sabem o que não devem, compreende?      — Sim, senhor.      — Então, mãos à obra.      E Kamuratti desligou, Fratelli saiu dali e se dirigiu para sua residência. Poria o “Cicatriz” em ação e, depois, iria tratar dos policias. Tinha de acertar aquela pendência. Aquele insulto não podia ficar assim, sem revide.      Duas horas da manhã. 0 cão rosnou. Era um magnífico Dobermann e fora treinado para cão de guarda. 0 policial Arthur acordou com o rosnado da fera. Levantou e foi olhar pela janela, mas não viu nada de anormal. “ Um gato ”, pensou ele. Foi à cozinha e bebeu um copo d’água. Olhou o relógio: duas horas da manhã. Perdera o sono. Enrolou-se num roupão e pegou o jornal do dia anterior. Começou a ler as notícias aleatoriamente enquanto subliminarmente lhe vinha à recordação o rosto daquele homem a lhe falar em italiano algo que lhe soara como ameaça. A mulher dormia a sono solto e seus dois filhos, também. O telefone tocou. Atendeu rápido. Não queria que sua esposa fosse acordada.      — Sim?      — Está acordado? – alguém perguntou do outro lado.      — Estou. Quem é?      — Da delegacia. Venha pra cá depressa – foi a resposta.      — Quem está falando?      — O cabo de plantão.      E o telefone foi desligado antes que pudesse perguntar mais alguma coisa. “ Cabo de plantão ? 0 que diabo era isto? Desde quando na Delegacia havia cabos de plantão ?” Resolveu ligar para lá. O detetive que atendeu confirmou sua suspeita: não havia nenhum cabo de plantão lá. Desligou e ficou a olhar o aparelho, intrigado. O cão tornou a rosnar. Do rosnado passou a latidos furiosos. O polícia apanhou seu revólver e olhou, cauteloso, através da janela. A luz do quarto iluminava parte do quintal e ele nada conseguiu ver ali. De qualquer modo, o cão também não podia ser visto, pois acuava alguma coisa no lado não iluminado, sob a mangueira copada. Os latidos se tornaram mais rápidos e o cão partiu para cima de algo. Mas logo o policial ouviu um ganido baixo e um baque de corpo caindo.      — Titã? – chamou. Nenhuma resposta. – Titã! – insistiu. Nada. Um temor tomou conta dele. Verificou as trancas das portas e das janelas e fechou cuidadosamente a que abrira. Foi direto ao telefone. Fio cortado. Agora, sabia, estava em perigo. Ele e a família. 0 que fazer? Começou a suar de medo. Vinham caçá-lo. Alguém da Falange ou do Comando... Não, talvez aquele doido que prenderam de manhã... meio-dia, pra ser mais preciso. A luz apagou. Tentou ligar, mas nada funcionava. “ O maldito cortou a energia. Melhor assim. Posso vê-lo na penumbra lá de fora, mas ele não vai poder me enxergar de lá ”, pensou o polícia, ocultando-se atrás do sofá, na sala. Esperava o ataque pela porta da frente. As janelas eram gradeadas e não podiam ser arrombadas com facilidade. Estava preocupado porque só tinha em casa o seu revólver. Deixara a metralhadora lá na delegacia. Um tiro soou no quarto das crianças. O seu filho gritou. Arthur precipitou-se, sem pensar, para o quarto. Encontrou as crianças de pé, nas camas e, no chão, uma cabeça de nego , uma inofensiva bomba de São João, estourada. No mesmo instante ouviu a porta ser arrebentada com estrondo.      — Protejam-se! – gritou para os filhos – Vão para o quarto da mãe de vocês e tranquem a porta!      Sem esperar para ver se era obedecido, precipitou-se para a sala no escuro. Atirou para evitar ser atingido, mas ninguém respondeu aos disparos. Mal chegou ao final do corredor e alguma coisa fria, dura e violenta chocou-se com suas pernas, nelas se enrolando. Ele foi puxado e jogado ao chão e antes que gritasse uma manopla forte como torquez fechou-se em sua garganta.      — Eu disse que você estava morto, “seo” porco, lembra-se?      Arthur debateu-se, olhos esbugalhados, mas em vão. Nenhum som escapou de sua garganta. Deu socos e cotoveladas a torto e a direito, mas não conseguiu atingir a nada. Sufocava e estertorava em agonia. Sua cabeça estourava. Seus pulmões queimavam pela falta de oxigênio. Desesperou-se. Queria respirar. Queria gritar! Mas aquelas mãos lhe apertavam a garganta com uma força descomunal. Sentia o pomo de Adão afundar pela traquéia a dentro e uma dor infernal lhe queimou a garganta. Lágrimas lhe vieram aos olhos.      A visão escureceu e ele perdeu momentaneamente os sentidos. Quando voltou a si, estava amarrado numa cadeira, junto à cama onde sua mulher e sua filha se encontravam. No chão, o menino estava enrolado em um lençol. Era o homem. Aquele maldito que o ameaçara em italiano. Queria falar, mas não tinha voz nenhuma. O homem bebia calmamente o seu whisky. Parecia estar esperando que ele acordasse. Sua mulher e sua filha estavam nuas e amordaçadas.      — Ótimo! – disse o invasor ao vê-lo despertar – o dorminhoco voltou a si. Vamos prosseguir. Como vê, as duas fêmeas estão ali, nuas. Serão minhas. Depois, mato-as. Então, o garoto. Morrerá depois. Finalmente, você. Não morrerá, mas seria melhor que morresse.      A noite toda foi de sofrimento indescritível para toda a família. Quando o dia amanheceu, na cama dois cadáveres ensangüentados e com as vísceras arrancadas por baixo, por um corte feito no períneo. No chão, um garoto com a cabeça torcida para as costas, mãos retorcidas ao contrário e pés, também. Na cadeira, olhos vidrados e mente apagada, Arthur fitava o vazio. Perdera a razão. Era somente um vegetal. Também tinha sido estuprado e de seu anus corria um filete de sangue. Nenhuma pista. A polícia encontrou o cão, morto com a cabeça torcida como se tivesse sido colhido por um estranho rodamoinho...      O detetive Damastor olhou consternado para o parceiro. Um forte e incomodativo sentimento de ódio contra algo que não sabia o que fosse lhe corroia o peito. “ Quem terá sido o animal que fez isto ?” indagava-se sem cessar. Viu o cão, Impossível. Nenhuma pessoa poderia torcer a cabeça de um animal daqueles de modo tão terrível e, no entanto, alguém torcera. Ele daria a vida para saber quem fora o criminoso. Tinha de ter sido mais de um, embora as evidências apontassem o contrário.      A mulher e a garota tinham sido cruelmente torturadas. Não havia um só osso nos seus corpos que não tivesse sido quebrado. Até as falanges dos dedos. E ninguém ouvira nada, porque tinham sido amordaçadas. Damastor vasculhou cuidadosamente toda a casa a procura de algum indício do assassino ou dos assassinos, mas não encontrou nada.      — Coisa de profissional – comentou para o médico legista.      — Psicopata no mais avançado grau – disse o médico, revoltado.      — Se ponho as mãos nele, não será preso. Eu o mato com prazer. Um animal destes não merece viver entre os humanos – falou entredentes o policial.      — Encontrou impressão digital? – perguntou o legista.      — Não. Nada. Ele se acautelou de todos os modos possíveis. É mesmo profissional da morte – disse Damastor.      — E o que vai fazer, agora? – quis saber o médico.      — Pensar, meu amigo, pensar. Em primeiro lugar, quem eram os inimigos de Arthur, além dos pés-de-chulé da Falange Vermelha e do Comando?      — Pés-de-chulé? – estranhou o médico.      — Sim. Nenhum deles tem gabarito para fazer isto. Eles chegam com estardalhaço, tiros de metralha ou de AR-15. Não vem um. Vêm em bando. O que fez isto foi um só.      — Como sabe? – perguntou o médico.      — A porta foi arrombada com um ponta-pé e não com pé-de-cabra. Isto é impressionante. Era uma porta sólida e tinha dois ferrolhos além da fechadura de quatro voltas. A marca da pata do animal está lá. Calçava tênis e pelo desenho na sola, importado. Entrou pelo quintal. As mesmas impressões da sola estão lá no terreno. O cão foi morto debaixo da mangueira e isto indica que veio pela rua lateral, onde há um terreno baldio. Lá há as mesmas marcas do tênis. Nenhuma outra. Nem de pés descalços ou de crianças. Foi um só. Um animal. E tenho uma pista que restringe um bocado a gama de suspeitos.      — Qual? – perguntou o legista, interessado.      — Só um homem muito, mas muito bem treinado em artes marciais poderia fazer o que foi feito aqui. E só uma arte marcial tem condições desta proeza: o Karatê-dô. Talvez, também, o TAE-KWEN-DO, mas no Brasil ainda não vi nenhum praticante que tenha este conhecimento. Teria de ser mestre em TAE-KWEN-DO para chegar a tanto. Mas um aluno avançado na prática, no adestramento físico do Karatê-dô pode realizar esta façanha. E foi um aluno destes, doutor, tenho a certeza, que foi.      — No Rio há muitas academias de Karatê. Pretende visitar a todas? – indagou o médico, cético.      — Talvez... – disse Damastor, evasivo. O companheiro estava sendo levado para o internato de um hospital de Psiquiatria. Damastor acompanhou a ambulância. Seus miolos queimavam tentando lembrar-se de todos os desafetos que Arthur pudesse ter e que praticasse o Karatê-dô. Eram amigos de muitos anos e Damastor conhecia a maioria de amigos e inimigos de Arthur, mas de nenhum se lembrava que praticasse aquela arte marcial japonesa. Tinha de ser alguém mandado. Por quem? Arthur não estava cuidando de nenhum caso especial... A não ser, é claro, o último seqüestro havido na cidade, o do banqueiro Anteu Kamuratti. Se fora alguém mandado pelo grupo que tinha seqüestrado o herdeiro do banco, a pergunta era POR QUE? Arthur não era a peça principal. O delegado Otávio, sim, pela lógica, deveria ter sido o alvo principal. Por que, então, atacar o policial de menor importância no caso? Ou será que ele tinha descoberto uma pista quente? Talvez o caminho fosse este. Damastor ia pedir que o colocassem no caso.      Arthur foi retirado da ambulância e levado, com cuidado, para o internato. Damastor acompanhou-o. Uma vez acomodado em sua cela, na companhia do médico, Damastor tentou por todos os meios conseguir que seu colega lhe falasse, mas em vão. O olhar perdido no espaço, a feição morta, a ausência de movimentos e uma total, absoluta apatia. Nada faria o seu ex-companheiro responder a qualquer estímulo externo. Estava mergulhado na mais negra escuridão. Sua mente estava morta. Era um vegetal. E Damastor sentiu os olhos se umedecerem, ao ouvir a sentença do médico. A filha de Arthur era sua afilhada e ele gostava muito da menina.      — Meu amigo, você não me pode ouvir, mas eu lhe juro que quem o atacou deste modo vai pagar caro, muito caro. Nem que leve o resto de minha vida, vou procurar o animal. Vou matá-lo tal como fez com a sua família, eu juro!      O médico olhou o polícia com temor. Havia ódio na voz do homem. Ódio e uma determinação férrea. Olhou a musculatura dele e pensou: “ Coitado de quem cair nestas mãos...      Delicadamente convidou Damastor para se retirar. Ia mandar que aplicassem uma injeção calmante no paciente para que dormisse e, assim, desse descanso ao corpo. O policial obedeceu. Despediu-se do médico e se retirou, porém não foi para a delegacia, mas para o seu apartamento em Botafogo, onde se recolhia a sós quando necessitava de descanso. Agia assim desde que se separara de sua primeira mulher. Tomou um banho e se sentiu melhor. Então, saiu novamente. Rodou pela cidade até o combustível do automóvel acabar, Encheu o tanque e continuou a rodar, o olhar vasculhando as pessoas, querendo ver no rosto de alguma delas um mínimo sinal de culpa...      Tamara voltou à redação de “A CIDADE” e apanhou a pasta que continha a correspondência interna. Queria ver se alguma coisa relativa ao caso Kamuratti estava ali, à sua disposição. Nada que interessasse. Mas havia uma foto de Kantor Antratos saindo do Fórum. Atrás dele, um homem forte, alto, muito bem apessoado. Tamara olhou o verso da foto e nada havia anotado. Num outro envelope encontrou mais duas fotos. Uma, dentro do refeitório do Fórum. O mesmo homem que estava atrás de Kantor Antratos, estava, agora, conversando com outros. Estava de pé e os outros, sentados. Quem era aquele sujeito? Tamara nunca o havia visto, antes. Na terceira foto havia o mesmo homem. Estava sentado dentro de um automóvel estacionado em algum lugar.      — Quem diabo é este figuraça? – indagou-se a jovem repórter. Aquilo era coisa de Franco, colega fotográfico com quem mais trabalhava no jornal. Na verdade, Franco era mais do “EL MONDO”. Ele era um free lancer e se ajustara muito bem a ela e a Karina, sua colega do jornal concorrente. Por que fotografara aquele homem? Qual a importância dele? Seria um segurança de Kantor? Mas o banqueiro do bicho tinha vários. Nenhum era realmente importante. Por que aquele em especial tinha sido motivo da atenção de Franco?      Fez uma ligação interna para a sala dos fotógrafos. Franco não estava. Tinha saído sem dizer para onde. Tamara guardou as fotos. Conversaria com ele sobre aquilo quando o encontrasse. Um outro colega de redação veio-lhe pedir ajuda numa matéria e ela se entregou ao trabalho envolvendo-se no assunto. O dia iria ser monótono...      Fratelli estava reunido com dois de seus homens numa churrascaria. Almoçavam. Os homens bebiam cerveja, ele, somente água gasosa.      — E então, chefe, alguma pista das duas piranhas? – perguntou o mais moreno deles.      — Não. Nada, ainda. Pra falar a verdade, estou no escuro total. Isto é muito chato, Cicno. O Dr. Kamuratti não gosta de coisas demoradas e confia em que possamos descobrir logo quem são aquelas duas intrometidas. Ele as quer vivas para interrogatório. Mas quem são elas? Onde se escondem?      — Eu anotei a chapa do automóvel do playboy. Quem sabe...?      — O que...? – surpreendeu-se Fratelli.      — Eu disse que anotei a chapa do automóvel daquele rapaz – repetiu Fílio.      — Mas que ótimo! Afinal, alguma coisa por onde começar. É remota a possibilidade, mas não custa nada tentar.      — Chefe... – chamou Cicno.      — O que é?      — O senhor não pretende bater no rapaz, não é?      — Por que pergunta isto?      — Bem... eu acho que... O “Cicatriz” já fez vítimas demais e...      — Não se preocupe. Eu não vou matar o cretino. Nem pretendo arranhar o seu rostinho de bebê chorão, fique sossegado.      — Que bom! – disse, aliviado, Fílio. – O Dr. Kamuratti não gosta de mortes desnecessárias. E nós não gostamos da idéia de ele se enfurecer contra a gente.      — Somos descartáveis, não nos esqueçamos disto – completou Cicno.      Fratelli nada comentou, mas em sua mente passou a lembrança da família do policial que trucidara naquela noite. Ele tentou afastar da memória aquela lembrança. Cícno tinha razão. O Dr. Kamuratti sempre fora taxativo quanto a isto: matar só com autorização expressa dele e com o máximo de precaução. E aquele “serviço” tinha sido particular. E o maldito policial era um inepto. Nem soubera defender-se. A luta que esperara, não tinha havido e em seus ouvidos ainda soavam, desagradáveis, os gemidos abafados de suas vítimas. Perdeu o apetite. “ Porra! Por que tinha de se lembrar daquilo numa hora destas ?”      — O que foi? – estranhou Fílio.      — Nada, nada. Perdi o apetite, só isso – respondeu Fratelli de mau humor.      Os dois capangas se entreolharam, mas nada comentaram. Fratelli, quando de mau humor, era pior que uma cascavel enfurecida.      — Vamos ao DETRAN? – indagou Cícno, tentando puxar conversa.      — É claro, sua besta! – rosnou Fratelli.      — Desculpe. Não queria aborrecer – disse o capanga, agastado.      — Tudo bem, tudo bem. Desculpe você. Estou azedo...      — Vamos terminar e trabalhar. O senhor vai melhorar, temos certeza – falou Fílio, conciliador.      — É, vamos – disse Fratelli controlando-se.      Meia-hora depois os três saiam da churrascaria. Fratelli não estava melhor. O rosto da garotinha de olhos esbugalhados fitando-o aterrorizada o atormentava e o deixava quase fora de si. Fora uma estupidez, agora o reconhecia. Aquelas pessoas não tinham qualquer importância para ele. Por que fora lá, atormentá-las? E por que diabo as matara? Tinha de aprender a controlar o seu mau gênio. Talvez Kimura tivesse razão, afinal. Ele era egoísta e odioso. Precisava melhorar.      Cícno dirigia o automóvel de olho no chefe. A carranca dele, o olhar perdido no vazio não prenunciavam nada de bom. O que diabo atormentava aquele homem de ferro? Talvez o medo do Dr. Kamuratti. Era a única coisa no mundo que Fratelli respeitava e temia. Talvez estivesse-se lembrando dos policiais que os tinham detido e estivesse ruminando alguma coisa terrível contra eles. Afinal, tinham sido os responsáveis direto de eles estarem, agora, a ver navios.      Chegaram ao DETRAN.      — Fiquem aqui mesmo. Eu vou lá sozinho – ordenou Fratelli, que o que menos desejava naquele momento era companhia.      — Tudo bem. Esperamos aqui – disse Cícno aliviado.      Fratelli encontrou-se com o seu contato. Deu-lhe o número da placa e aguardou que ele consultasse o computador. Maravilha, aquela invenção do homem. Em poucos minutos tinha em mãos nome e endereço do proprietário e ficou absolutamente surpreso. Era nada mais nada menos que o milionário, “playboy” das noitadas famosas, Luís Filipe Nettus Filho.      — Ora vejam só – disse baixinho – então, o rapazote prefere andar num carrinho vagabundo em vez de em seus carrões importados. Engana de verdade, sim senhor. Ele é o noivo da famosa modelo Milena Forcis, a também milionária dondoca das fofocas do jornais. Será que os dois ainda estão juntos? Será que a zinha ao lado dele lá na Barra era ela? Bem, de qualquer modo, tinha de tratar com cuidado aquele rapaz. A família dele era amiga dos Kamuratti e freqüentavam a casa um do outro. Se realmente o rapaz tivesse dado ajuda às moças, então, tinha de ser muito astuto e cauteloso ao abordá-lo. Nunca, antes, tinham-se encontrado, pois Fratelli não freqüentava o mundo dos Kamuratti. Agora, o rapaz tinha uma péssima impressão dele e não aceitaria recebê-lo, a não ser que apresentasse uma boa desculpa. Voltou para o automóvel dando tratos a bola e teve uma idéia. Foi para o seu apartamento e de lá chamou o banco, naquele telefone especial.      — Alô? – ouviu a voz de seu patrão.      — Sr. Kamuratti, sou eu, Fratelli – disse.      — Eu sei que é você. O que deseja?      — Uma ajuda de sua parte. Acontece que...      E Fratelli contou tudo sobre o encontro com o rapaz, na praia. Apenas omitiu o modo violento como agiu.      — Agora, preciso que o senhor dê um jeito de eu ser recebido pelo jovem Luís Filipe. É uma possibilidade remota, mas o carro dele é do modelo e da cor que o garçon me descreveu. Aliás, o único que estava no bar, naquele dia.      — Você acredita que ele tenha dado guarida às mulheres? Por que?      — Não sei. Apenas tenho um palpite. Mas sendo ele um “ Playboy ” e mulherengo, e estando só... Quem sabe?      — Você me disse, da outra vez, que ele estava acompanhado... Pelo menos, foi o que lhe falou o garçom.      — Sim, sim, agora recordo disto. Mesmo assim... Quem sabe? Aquelas duas são muito espertas. Deram um jeito de conseguir ajuda. Podem até ser conhecidas dele ou... de seu ambiente... Tudo é possível, não é?      — Conhecidas de Luís Filipe? Eu não creio. Se fossem, ele saberia de algo e já me teria comunicado. É muito amigo nosso e não teria porque ocultar algo assim. De qualquer modo, venha ao banco. Vou fazer de você meu enviado para levar uns papéis importantes para ele. Endereço a Luís Filipe pessoalmente. Não há como ele não o receber. Daí em diante, é com você. Mas seja muito prudente em averiguar a história, entendeu? Não quero suspeitas.      — Farei tudo a meu alcance, pode ficar despreocupado.      E Fratelli desligou, pela primeira vez antes de seu patrão o fazer. Kamuratti ficou com o aparelho nas mãos, olhando pensativamente para o bocal. Aquela pequena falta de respeito poderia ser somente porque seu assecla estava preocupado com o que tinha a fazer... Seria? Na verdade, Kamuratti estava envolvendo o homem e seus asseclas mais profundamente em seus negócios como um meio de lhe averiguar não somente a lealdade como a capacidade de ser eficiente, discreto e rápido. Dependendo de como se saísse, trá-lo-ia mais para perto de si. Estava começando a necessitar de um substituto para Darinoshkin, morto pela C.I.A. quando cumpria uma arriscada missão nos Estados Unidos.      Colocou o aparelho no gancho e voltou a seus afazeres. O relógio, um carrilhão de século XVIII, marcava pontualmente as 15 horas.      Eram, agora, 21:30h e Mara estava totalmente mergulhada na biblioteca rebuscando velhos, mas bem conservados volumes de publicações passadas. Estava cansada e já desinteressada, quando lhe caiu nas mãos uma encadernação de capa mais escura que as demais, não pela cor, mas pelo uso. Folheou-a ao acaso. Tinha artigos do jornal antecessor a “EL MONDO” e no qual Sísifo, o repórter que escrevera sobre Pargos, trabalhara. E foi quase ao fechar o volume para abandoná-lo que seus olhos deram com outro artigo de Sísifo. Era sobre a ilha. Mara perdeu todo o cansaço e leu com o coração aos pulos.   UMA MISTERIOSA ILHA CHAMADA PARGOS 18 de abril de 1803      Há uma ilha no Pacífico, no paralelo 21 22' e no meridiano 75 22' 16" que é até hoje desconhecida quase totalmente.      Mara parou a leitura. A coordenada do paralelo estava diferente. O artigo posterior a este dava 22 e 16'. Por que a diferença? Procurou o volume anterior. Localizou-o com facilidade. Sim, ali estava. A diferença era de quase 1. Teria Sísifo se equivocado naquele primeiro artigo? Ele datava de três anos antes. O outro era de 1806. Talvez erro de instrumento... Mara voltou à leitura.      “ Pargos é o nome desta ilha misteriosa e não tem nada de paradisíaco. Sua origem é vulcânica e parece ter surgido há coisa de seiscentos anos atrás. Não fica na rota de navios e, por isto, é pouco ou quase nada freqüentada. Não tem qualquer importância econômica para o continente. Mas me chamou a atenção porque é habitada. Fui lá verificar como vivem seus habitantes e descobri coisas singulares na ilhota. Em primeiro lugar está a origem de seus habitantes. Há suspeita de que sejam descendentes dos míticos atlantes, habitantes de uma ilha misteriosa que teria tido o seu fim antes do plistocênio, aproximadamente 25 mil anos atrás. Uma explicação mais recente e menos rocambolesca diz que seus habitantes são remanescentes do extinto povo conhecido como índios atacamenhos, artesãos que para lá migraram para fugir aos ataques de outras tribos mais aguerridas que eles, simples camponeses afeitos ao artesanato mais do que às armas. Pude constatar, contudo, que há duas raças bem distintas em Pargos. Uma, possivelmente, remanescentes atacamenhos, outra, contudo, desconhecida – talvez atlanteanos reais. Estes povos, os prováveis descendentes atlanteanos, têm pele avermelhada como os quase extintos índios americanos e seus nomes diferem enormemente dos nomes indígenas comuns à região chilena. Ambos os povos convivem pacificamente e se miscigenam naturalmente, o que é uma pena, pois a continuar assim, em pouco tempo não haverá nem uma raça, nem a outra e, sim, uma terceira oriunda desta miscigenação. Entre os mais antigos corre uma lenda, não confirmada por ninguém do continente, de que os vermelhos já viviam em Pargos bem antes dos atacamenhos ali chegarem. De qualquer modo, é somente uma velha lenda. E como estes povos não possuem escrita, é impossível saber-se a verdade.      Pargos é inóspita. Só possui um rio em cuja embocadura fica a aldeia, a única da ilha. Com paciência e persistência se consegue que os ilhotas nos levem para o interior da floresta, cuja travessia exige dois dias de caminhada por entre cipoal e árvores gigantes. Há muitas cobras, mas poucas espécies venenosas. Frutas silvestres são abundantes e os pargoítas informam que elas dão o ano inteiro. A geografia da ilha é ascendente no sentido sul-norte, porém, o local onde se encontram as mais belas e mais espantosas lapas é a noroeste, mais para o norte que para o este. Aqui, as falésias mergulham a prumo num oceano de águas azuis translúcidas. A mais de cinco metros de profundidade é possível ver os cardumes de peixes, olhando-se lá de cima. No cimo dos pedregulhos, que facilmente ultrapassam os seiscentos metros, sente-se medo. O vento sopra em pancadas fortes, alternadas por brisas suaves, o que tende a nos tirar o equilíbrio e nos põe em permanente risco de despencar direto para o mar profundo. Os vendavais são tremendamente assustadores, quando acontecem – e o fazem com freqüência. Apesar de repentinos, são, contudo, previsíveis, pois os animais – uma quantidade espantosa e rica em variedade, talvez comparável com os da Amazônia – assim como as aves, procuram abrigo horas antes de a procela estourar e a mata fica pesadamente silenciosa. A gente tem de estar no meio dela para compreender como é opressivo o silêncio que se faz em tais ocasiões. Parece que a vida, repentinamente, deixou de existir. Nem uma folha se move. Nem um mosquito zune. O silêncio é muito oprimente. Então, repentinamente, começa a ventania. Sem aviso e sem gradação. O vento desaba com fúria, como se soprado pela boca de um danado do inferno. Tudo se retorce e das lapas vem um assovio lúgubre que impressiona. No céu, ainda azul, relâmpagos fantasmagóricos lançam desenhos de fogo que assustam de verdade. Não se sabe de onde, pesadas nuvens surgem e uma chuva de dilúvio, que nos cega e não permite a visão nem a um metro adiante, cai chicoteando tudo, fustigando terra, mata e bichos. Tão repentinamente como veio a tempestade se vai. E tão repentinamente como se foi a zoeira dos animais volta a ser ouvida. A vida nasce a cada vendaval. É assustadoramente belo. Uma hora antes do vendaval, o mar muda de cor. Do azul cintilante e translúcido passa a um azul-cinzento, pesado, plúmbeo. Os pargoítas costumam dizer que “o oceano ficou de cenho franzido”. Quem está pescando, nestas ocasiões, volta o mais depressa que pode para a terra firme. Ficar nas águas é quase condenar-se à morte, pois a ilha é cercada por arrecifes e corais perigosos para as embarcações, mesmo as de calado leve, como as pirogas que utilizam. A ilha de Pargos não tem praias, exceto três nesgas de areia amarelo-ocre espremidas entre arrecifes os quais, entre o subir e descer das ondas, surgem como dentes negros ameaçadores de entre as águas profundas. A maior das praias, medindo uns cinqüenta ou sessenta metros de comprimento por uns trinta a quarenta metros de profundidade, é a que fica na embocadura do rio. É povoada de coqueiros muito belos e cujo murmúrio constante das palmas é muito bonito de ouvir. Tubarões de todos os tipos passeiam por aqui, pois as águas, ainda que profundas e agitadas, são tépidas, ao contrário do que normalmente acontece nas águas desta região. Arraias perigosas e enormes também são comumente vistas entre os corais. Muitas enguias com dentes afiados como navalhas ali se escondem e até mesmo “a morte branca” tem sido vista nadando aqui por perto. Há coisa de três meses corre um boato entre os ilhéus de que, após o terceiro aniversário da menina Letícia, encontrada no oceano abandonada num cesto e cercada de sargaços, presa num arrecife e dali retirada por Gaditano, uma espécie de Governador dos ilhéus, uma chusma de “morte branca” tem cercado a ilha e há quem diga ter visto um deles medindo até 12 metros de comprimento. Este repórter, a fim de comprovar a notícia, veio a Pargos para tentar fotografar o fenomenal tubarão. Dizem os nativos que eles nadam preferentemente para o lado norte e noroeste, justamente porque lá não tem arrecifes e escolhos perigosos e o mar é profundo. Ainda não pude convencer ninguém a me levar de barco até aquelas águas. As ondas lá são avantajadas e o vento lança tudo que flutua de encontro aos paredões, dizem os ilhotas. Na verdade, pude constatar que realmente as ondas são grandes; quanto ao vento, ele sopra intermitentemente e com freqüência. Esta intermitência pode durar mais de oito ou dez horas, tempo suficiente para que possamos ir lá e retornar sem grande perigo, a não ser que o tão falado peixe resolva nos atacar. Mas ninguém quer aventurar-se. Enquanto não consigo quem ouse a aventura que proponho, planto-me dias inteiros nos altos penhascos a observar com binóculo as águas profundas à procura do grande tubarão. Ao que parece, contudo, ele não é muito chegado à Imprensa. Não aparece nem mesmo em sombra. Como os pargoítas não mentem nunca, é certo que o tal peixe deve existir. Isto me intriga. Por que só os habitantes da ilha conseguem ter dele notícias? Consta – e eu não sei se é verdade ou fantasia – que o peixe perseguiu duas canoas por longa distância dentro do mar, mas não as atacou. Parecia somente querer que elas ficassem em terra. Acredito que se tratava de uma arraia gigante. Elas costumam, aqui em Pargos, nadar debaixo das canoas e, algumas vezes, viram de dorso para baixo (acho que é o único lugar na Terra onde fazem esta proeza) e como são brancas na barriga, devem ter sido confundidas – se foi mais de uma – com o famoso tubarão branco. O medo, freqüentemente nos prega peças. Passei por uma experiência estranha. Estava plantado sobre o penhasco da tocha (parece, quando visto lá da aldeia, uma tocha acesa, e olhava para o oceano já há mais de três horas, quando Gaditano veio buscar-me. Ele me disse que Letícia, a garotita de três anos, estava de pé na praia apontando para este local e balançando negativamente a cabeça. O Tuchah, uma espécie de feiticeiro da ilha, havia jogado os osso de tubarão e neles vira a morte se encaminhando para cá. Relutei um bocado em abandonar meu posto, mas desci finalmente. E foi a melhor coisa que fiz, pois mal chegamos ao sopé da pedreira, um relâmpago riscou o céu. O corisco caiu justamente em cima da lapa, atingindo em cheio o local onde eu me encontrava. Logo a seguir desabou uma tempestade das mais violentas que já me foi dado assistir por estas paragens. O incidente me preocupou, mas ainda não creio nos poderes estranhos que todos aqui acreditam que a criança possui. Ela me parece uma menininha bem normal, apenas um tantinho misantropa para a sua idade. Amanhã...      O artigo não tinha continuação. Faltava a página seguinte. Mara se afanou em procurá-la em outro volume que parecia seguir-se àquele. Nada, porém. Foi quando ouviu seu nome pronunciado com raiva.      — Mara! Mas o que diabo está fazendo aqui? Eu a procurei pelo Rio de Janeiro todo, droga! Você esqueceu de mim, foi?      Era Ludmila e entrara furiosa, só parando de falar plantada ao lado da espantada Mara.      — Mara! Que cara é esta?      — Ludmila! Eu me esqueci completamente, criatura! Você foi lá?      — Sozinha? Nunca!      — Eu me aborreci com a analista e saí de lá tão perturbada que fiquei perambulando por aí sem ter idéia do que fazer. Esqueci completamente da sessão de hipnose. Mas não perdemos tudo, não. Veja este outro artigo...      E Mara apontou para o volume aberto sobre a mesa. Ludmila fitou o artigo hesitante. Estava com vontade de brigar, mas resolveu conter-se e ler. E foi o que fez.      — Não acrescenta nada ao outro – disse ao final.      — Acrescenta, sim. Pra começar, é discordante quanto à localização de Pargos. As coordenadas estão alteradas. Depois, fala do poder de previsão que Letícia possuía e nos informa que isto era dela desde cedo na vida.      — E daí? O erro quanto às coordenadas é muito comum em documentos antigos. Os aparelhos daquela época não eram muito precisos e não se tinha um bom conhecimento dos continentes e oceanos. Quanto aos poderes de Letícia, não vejo novidade alguma em que ela o possuísse desde o nascimento, ora.      — Ludmila, presta atenção. Os poderes não foram desenvolvidos. Eles nasceram com a garota.      — E o que tem isso?      — Ora, isto me alivia e muito. Se eu fosse a encarnação ou...ou reencarnação daquela criança, teria, pela lógica, de ter também aqueles poderes, não teria?      — Eu não sei. Não entendo nada de reencarnação, minha cara. Aliás, eu ainda não creio nesta coisa, não.      — Ótimo! Você reforça em mim a tendência para não aceitar o que parece ser o lógico.      — Bem, tá bom. Se Letícia não foi você em alguma encarnação passada, então, por que tem aquele pesadelo que retrata exatamente a história da chegada dela à ilha?      — Não sei dizer. Mas... Bom, dizem os psicanalistas que pessoas que nunca estiveram em contato com gregos são capazes de, em certas condições especiais de consciência, falar perfeitamente aquele idioma porque o ouviram quando ainda estavam no ventre materno. Pode ser que eu tenha ouvido sobre Pargos quando estava em gestação. Meus pais... algum familiar meu deve ter lido estes artigos e eles devem ter impressionado muito minha genitora... Talvez até ela tenha tido algum forte pesadelo. Quem sabe o clichê do sonho tenha-se fixado em meu aparelho psíquico em formação?      — E isto é possível? – perguntou, curiosa, Ludmila.      — Eu não sei. Dizem os estudiosos da Psicanálise que sim.      — Bem, se isto é possível, então, a hipótese da reencarnação pode dar adeus à pretensão de ser adotada como científica – disse Ludmila.      — Minha... nossa analista deu-me um artigo impressionante para ler. Era a descrição de um caso tratado pelo Dr. Laercy Parrot, famoso estudioso da Psicanálise. Ele conta que fazia a psicoterapia de uma mulher inglesa da classe média baixa, que jamais tinha deixado a Inglaterra. Esta mulher lhe fora encaminhada pelo Hospital Central de Psiquiatria, de Londonderry, como um fenômeno a ser averiguado. Ela, num transe histérico por ocasião da morte de seu filho menor, afogado numa enchente do Tâmisa, em dado momento começou a falar numa língua estranha. Seu marido, que tinha um gravador à mão, gravou a algaravia. A gravação foi levada para a Universidade de Cambridge e um Professor de línguas traduziu o que ali estava. A mulher falara em aramaico antigo, a lingua de Jesus, raiz do atual grego. Contava como ela também havia morrido afogada quando o barco em que viajara no mar da Galiléia foi virado por uma tempestade. Dizia-se um comerciante abastado da época. O Dr. Laercy começou a averiguar todas as hipóteses plausíveis e quando já quase estava se deixando convencer de que se tratava de uma autêntica prova de reencarnação, conseguiu uma entrevista com o genitor da mulher. Este lhe disse que certa ocasião os franciscanos da aldeia fizeram uma missa e a rezaram, segundo eles, na língua de Jesus. O Dr. Laercy foi procurar o mosteiro dos franciscanos. Eles confirmaram a história e informaram que, naquela missa, um deles havia narrado a história de um homem que se afogara por não ter tido fé. O homem era um abastado comerciante contemporâneo de Jesus. Servindo-se das técnicas associativas, o Dr. Laercy conseguiu trazer à consciência de sua paciente a missa que ela assistira dentro do ventre de sua mãe, pois o evento havia-se dado quando sua genitora estava grávida de três meses. Com isto, aquele respeitável estudioso conseguiu provar, ao ver da igreja psicanalítica, que esta história de reencarnação é pura ilusão. Tudo tem uma explicação racional e explicitamente aqui e agora.      Ludmila deixou-se cair sentada com fisionomia abatida.      — O que houve? – perguntou Mara, curiosa.      — Bem, se este artigo é verdadeiro, então...      — Então...?      — Então terei de voltar à analista e lhe pedir desculpa pelas tolices que lhe disse, hoje. E mais: terei de aceitar sua hipótese de que sou uma neurótica, com o tal Édipo mal solucionado e com minha parte sexual esculhambada inconscientemente. Francamente, a outra hipótese era bem mais agradável a meus olhos.      — A da reencarnação?      — É. Eu já começava a crer que era sua contemporânea naquela famigerada ilha.      — Ludmila, a Psicanálise não explica tudo, ora bolas! Pode ser que a tal mulher tenha tido o processo do modo como o Dr. Laercy descreveu, mas e daí? Isto não quer dizer que o fenômeno da reencarnação não exista. Ambos os fenômenos podem ocorrer sem que nenhum deles exclua o outro. Aliás não vejo qualquer ligação entre eles que possa levar à conclusão de que por se ter provado a hipótese psicanalítica da memória fetal, tenha-se necessariamente de chegar à conclusão de que a reencarnação não existe. Acho que é forçar demais a barra, você não? No meu modo de ver, o que a Psicanálise conseguiu comprovar foi um passo intermediário para se provar a reencarnação ou transmigração da alma, como dizem que é o mais correto.      — Que passo? – perguntou Ludmila sinceramente interessada na lógica de sua colega.      — O de que o que está no ventre da mulher gestante ultrapassa o mecanismo fisiológico. É algo transcendental. A própria ciência afirma que a massa encefálica do feto...no caso dos de três meses, é apenas um pequeno tubo gelatinoso e não tem condições de gravar nada. E se é assim, então, o que tem memória é aquilo que chamamos de espírito ou de... de alma, não é?      — Parece lógico – disse Ludmila, admirada.      — Então, o caso do Dr., Laercy vem, ao contrário, comprovar que alguma coisa que transcende o físico, o aqui e agora, está ocorrendo e tomando forma no ventre da mulher grávida. E não depende, quanto a processos psíquicos, dos mecanismos neuronais ainda em formação.      — Mara, você está-me saindo melhor que a encomenda. Não sei se sua lógica é certa, mas que isto me reanimou, reanimou sim.      — Muito bem. Então, vamos embora. Já estou mais do que satisfeita. E estou exausta, diga-se de passagem.      — Bem... E a sessão de hipnose?      — O que tem ela?      — A gente faz ou não?      — Faz, ora essa. Por que não?      — Pensei que sua analista...      — Nossa analista – corrigiu Mara.      — Sua. Eu não pretendo voltar lá, não. Você me convenceu de que há uma esperança de a reencarnação ser um fato e eu me apego a ela. Continuo não desejando me deixar abater pela psicanálise.      — Como quiser. Eu ainda vou continuar a freqüentar a doutora.      — E por que? – admirou-se Ludmila.      — Bem... Pra falar a verdade, ainda não sei ao certo. De alguma maneira não sei dizer, mas acredito que ela ainda me será de utilidade.      — Você é quem sabe...      As moças se retiraram e foram para casa. Soavam as 23 horas.      Dezesseis e trinta. Fratelli acaba de receber o passe livre para se encontrar com Luís Filipe. Respirou fundo. Como seria a recepção?      Entrou no elegantíssimo escritório. Atrás de uma imponente mesa de mogno, cabeça curvada sobre uns papéis que assinava, estava o rapaz a quem agredira na praia.      — Por favor, queira sentar-se. Deixe-me terminar de assinar estes contratos e já lhe dou toda a atenção, sim? – Luís Filipe falou sem erguer a cabeça.      — Pois não, senhor – disse respeitosamente Fratelli.      Quando o jovem finalizou as assinaturas e fechou a pasta, Fratelli fingiu que estava muito interessado num quadro à sua esquerda.      — Muito, bem, Sr... – disse o rapaz, sério.      Fratelli o olhou nos olhos. Ele não pareceu reconhecê-lo.      — Enrico Fratelli, Sr. Luís, advogado do Banco Kamuratti. O senhor Kamuratti me encarregou de vir pessoalmente trazer-lhe estes documentos. Ele disse que são importantes para o senhor.      Luís Filipe aceitou o envelope e o abriu, lendo o conteúdo. Ainda não demonstrava ter reconhecido Fratelli. O facínora resolveu não esperar mais. Levantou-se e foi até a janela do prédio. Situado na praça Serzedelo Corrêa, trigésimo andar, a vista que dali se descortinava era muito bela.      — Preciso pedir-lhe desculpas, senhor – disse, de costas para o seu anfitrião.      — Por que? – perguntou o rapaz.      — Pelo incidente na praia – disse Fratelli.      — Ah... aquilo? Já está esquecido – disse Luís Filipe descuidadamente.      — Bem, eu lhe agradeço sinceramente. As mulheres que perseguíamos tinham tido a ousadia de violar a residência do Dr. Kamuratti apresentando-se como policiais, justamente no dia em que o filho dele, o Dr. Anteu Kamuratti, fora seqüestrado.      — E não eram? – perguntou Luís Filipe, interessando-se.      — Não, senhor. Investigamos na Polícia Federal, mas lá não consta nenhuma Irina Hess como agente especial.      — Ora vejam só – disse Luís Filipe – elas nos enganaram direitinho, as danadas.      — Estavam em sua companhia? – perguntou Fratelli, olhando o rapaz de frente.      — Sim. No banco de trás do carro. Foi por isto que não deixei aquele homem aproximar-se de meu automóvel – disse ele.      Enrico Fratelli soltou uma sonora gargalhada. Luís Filipe não o associava com “aquele homem”. Talvez a tensão do momento não lhe tenha deixado fixar fisionomias. Estava salvo. O rapaz bem podia estar pensando que “aquele homem” tinha sido alguém mandado a serviço dos Kamuratti. Falou entre risos de alívio.      — En...então o senhor... o senhor escon...escondia as duas embusteiras... Mas... mas isto é... é hilariante! Os homens suaram as camisas para descobrir onde elas estavam... E elas estavam bem ali, debaixo do nariz deles!      E Enrico Fratelli ria como se aquilo fosse uma gostosa piada. O rapaz, a princípio desconfiado, terminou por também cair na gargalhada.      — Foi muito bom, não foi? – disse entre risos. – Eu enganei também o policial. Inacreditável é que ele estava bem ao lado de meu carro, bastava só dar uma olhada lá pra dentro e veria tanto minha noiva quanto as duas sem-vergonhas, e ele não o fez. Sabe por que?      — Por que estava apaixonado pelos seus belos olhos! – zombou Fratelli estrondeando de rir.      Após o momento de hilaridade, Luís Filipe, enxugando os olhos, indagou:      — E quem eram elas? Você sabe?      — Não, senhor. A gente tem andado às escuras. Desconfiamos que eram contato dos seqüestradores. Infelizmente o senhor as ajudou a escaparem – o estratagema deu certo. Luís Filipe ficou sério e olhou para o assecla de Kamuratti.      — Oh... Bem, não foi minha intenção prejudicá-los...      — Ora, não se culpe. Acho que qualquer um cairia na conversa delas. Eram muito astutas.      — É... Para entrar na residência do Dr. Kamuratti e o enganar é porque são muito espertas.      — Bem... O que se vai fazer, não é?      — Eu gostaria de ajudar, sinceramente. Mas fi-las descerem no Alto da Boa Vista. Devem ter tomado um táxi...      — É... Perdemos a oportunidade, talvez a única, de conseguir alguma pista do Dr. Anteu.      Luís Filipe ficou pensativo. Fratelli esperou ansioso, mas o rapaz meneou a cabeça.      — É, não recordo de nada que lhe possa ajudar. Elas estavam muito apavoradas com o Camaro que os homens usavam e nada do que disseram, pelo menos que eu me lembre, dá qualquer pista...      — De qualquer modo, muito grato, Dr. Luís Filipe. Ah, queira dar os meus pedidos de desculpa à sua noiva. Que ela compreenda que os homens estavam muito tensos...      — Não se preocupe, Sr. Fratelli. Milena compreenderá, pode crer.      — Bem, se não tem mais nada para mim, queira perdoar-me. Eu não desejo tomar mais de seu precioso tempo.      — Não, não. Esteja à vontade. E muito grato por ter vindo. Foi muito bom haver desfeito a má impressão – disse Luís Filipe. – Até à vista, Dr. Enrico.      — Até, Dr. Luís Filipe.      E Fratelli se encaminhou para a porta com um forte sentimento de frustração. Quando já estava no hall de elevadores, Luís Filipe veio até ele.      — Doutor Fratelli – chamou – queira vir até meu escritório, por favor. Creio que temos uma pequenina chance de descobrir quem são as duas sirigaitas.      Fratelli sentiu o coração saltar. Voltou pressuroso.      — E então? Do que se trata? – perguntou tão logo Luís Filipe fechou a porta atrás de si.      — Quando desceram do carro, a tal de Irina disse-me que se eu desejasse alguma coisa na polícia era só procurar por ela. Pode ter sido apenas bazófia, mas vou dar um telefonema para lá, me identificar e pedir que ela me ligue. Quem sabe?      Fratelli achou a idéia muito fraca. As mulheres não eram policiais e certamente ninguém as conheceria lá. De qualquer forma...      Luís Filipe fez a ligação. Uma voz de mulher se fez ouvir.      — Polícia Federal, boa-tarde. Em que podemos ser úteis?      — Aqui é o Dr. Luís Filipe Nettus Filho, dono da companhia de taxis aéreos “CÉU AZUL”.      — Pois não, senhor Luís Filipe. Em que a Polícia Federal o pode ajudar?      — Bem, há coisa de dois dias atrás...      E Luís Filipe contou com detalhes o acontecido. Do outro lado a sua narrativa era gravada e o seu telefone era detectado pelo Bina, confirmando que o telefonema estava sendo dado realmente do edifício sede da famosa Cia de Táxis Aéreos. Quando ele acabou de contar o ocorrido a moça lhe perguntou.      — E o senhor deseja, agora, encontrar essa agente... É isso?      — Sim, senhora. Isto é possível?      — Sem querer ser indiscreta, mas podemos saber o motivo de seu pedido, senhor Luís Filipe?      — A moça disse que em troca de meu favor, ela se dispunha a me prestar ajuda no que lhe fosse possível. Creio que eu necessito de sua ajuda, agora.      — Podemos saber do que se trata, Sr, Luís Filipe?      — É um problema familiar, compreende? Eu não gostaria de expor o assunto assim. É um favor pessoal... a senhora me entende?      — Perfeitamente. Peço-lhe que aguarde. Nós voltaremos a lhe contatar tão logo localizemos a agente. No momento não temos informações. Talvez seja alguém de outro estado.      — Está certo. Quando terei o retorno?      — O senhor ficará aí até o final do dia, não?      — Sim.      — Bem, creio que lá pelas 18h teremos alguma informação a lhe dar. Boa-tarde, Senhor.      E o telefone foi desligado.      — Você quer esperar? – perguntou Luís Filipe a Fratelli. Este, embora não o dissesse, não acreditava que alguma coisa saísse dali. Para não ser descortês, disse:      — Não, senhor. Não posso ficar. Tenho algumas providências a tomar ainda hoje. Negócios do Banco. Mas deixo-lhe o meu cartão. Se houver alguma novidade, queira ligar. Se eu não estiver, deixe o recado em minha secretária eletrônica. Eu lhe ficarei muito agradecido. E creio que o Dr. Kamuratti também.      — Não seja por isto. Eu vou gostar de ver aquelas duas metidas a sabidas, enroladas com a Lei.      “ Não será bem com a Lei que elas vão-se enrolar, nem o senhor saberá de nada a respeito ” – pensava Fratelli sorrindo e apertando a mão de Luís Filipe em despedida.      Voltou ao banco e relatou a Kamuratti o que se passara.      — Foi muito hábil de sua parte – disse Kamuratti, satisfeito. – O Luís Filipe nos dará a informação se a P.F. lhe disser alguma coisa. Quero que fique em seu escritório e aguarde o telefonema dele.      — Mas senhor... O senhor acredita que...?      — É nossa única oportunidade, não é?      — Está certo.      Fratelli foi para o escritório, contrariado. Tinha outros planos em mente e nestes planos Glauce tinha papel de destaque.      Passava da meia-noite quando Ludmila chegou a seu apartamento e se jogou no divã. Estava muito cansada. Ligou a secretária eletrônica enquanto se servia de um drink. Nada que interessasse. Estava a caminho do banheiro quando ouviu a voz de sua velha amiga da P. F.      — Ludmila, aqui é Ivana. O Sr. Luís Filipe está à procura da agente Irina Hess. Nós sabemos que você tem usado este disfarce, com o consentimento do chefe desta seção. É aconselhável que entre em contato com ele. Luís Filipe é o rapaz que você e uma sua colega envolveram numa aventura, na Barra, está lembrada? Espantada de que saibamos da história? (riso) Somos a Polícia Federal, não esqueça. Tchau!      Ludmila parou em seco. Voltou à sala e tornou a ouvir o recado. “ Ora essa, não é que o talzinho parece que precisa de mim? Menos mal. Só não sei se ele terá a agente para o que quer que seja... ” e Ludmila foi para o banho sorrindo.      O dia terminara quando Franco, o repórter fotográfico, chegou ao jornal EL MONDO”. Foi comunicado que sua amiga Tamara já o procurara uma dezena de vezes.      — O que ela quer? – perguntou ao colega que lhe deu a informação.      — Ligue pra ela. É a melhor pessoa para lhe dar esta resposta – disse o outro, sério.      — É. Tá certo. Obrigado pela dica! – ironizou Franco.      — Disponha – foi a resposta lacônica.      Franco ligou para Tamara.      — E aí, gata parda, o que você quer comigo?      — Oi, assanhado. Onde diabo você se meteu o dia inteiro?      — Fotografando os sacanas desta maravilhosa cidade. Tava ardendo de saudade de mim, não é? Eu lhe disse que um dia você não ia resistir a este gostoso aqui. E então, a cama é pra agora? Aproveita que...      — Mas você tem lingua comprida, hein? Ainda bem que só é fotógrafo. Se fosse repórter de notícias, não tinha pra mais ninguém.      — Conversa mole, gata parda. Eu só canto você. Um dia, você se descuida e aí, zás!      — Zás o que?      — Cama!      — Ô, Franco, como é que você agüenta andar com um troço destes o dia inteiro na cabeça, hein? – brincou Tamara, divertida.      — A culpa é sua. Você colocou ela no meu crânio. Não acha que já é tempo de a gente colocar ela no lugar que é dela por direito?      — E que lugar é este, posso saber?      — Debaixo de nós dois, ora!      — Vai esperando, vai esperando. Enquanto isto, que tal você vir até aqui? Precisamos ter uma conversa.      — HEI, turma! É hoje! – gritou Franco para a sala inteira com a boca próxima ao telefone – a gata parda tá me convidando! Morram de inveja, seus panacas! Morram torrados aí nessas maquininhas frias e coloridas. Eu vou pro céu, AGORA!      Tamara se dobrava de rir, do outro lado. Podia imaginar a algazarra na sala de seus colegas. Franco não tomava jeito mesmo. Era irreverente, mas ela não o trocaria por nenhum outro companheiro para acompanhá-la como repórter fotográfico. Sabia fotografar como ninguém. Além do que era fiel, amigo e leal até a morte. Ela confiava nele plenamente.      Quarenta minutos depois Franco irrompia como um furacão e foi direto dar um beijo nos lábios de Tamara. A moça não se recusou. Foi um beijo cândido, como sempre o fazia Franco.      — E aí, onde é que dói? – brincou ele.      — Dói aqui, ó – disse ela, apontando para as fotografias. – Quem é o cara?      — Ah, te peguei! Agora, vai dar. Ou dá, ou não tem a informação.      — Tá, tá, eu dou, prometo. Agora, diz, quem é o figuraça? Você é um profissional que não fotografa à-toa. Quem é este homem?      — Você prometeu, não esqueça – a cara de lobo faminto que o rapaz fez pôs a moça a rir descontraída. Ela adorava estar ao lado de Franco. Com ele, não havia mau humor nem pessimismo.      — Não vou esquecer. Quem é o homem? – falou por entre risos.      — Não sei – respondeu Franco, após olhar rapidamente para as fotos. – Sinceramente, ainda não sei o nome dele. Mas sei que tem andado na cola do Kantor. Tem feito muita pergunta, também, sobre o nosso peixe. E o tem seguido por várias vezes. Até no DETRAN já andou averiguando o homem. É italiano e chegou ao Brasil há coisa de uns seis meses.      — Como sabe disto?      — Eu me aproximei dele numa churrascaria e batemos um papo descontraído. É doido pelo Milan. Eu, pelo Flamengo. Vai daí, sabe como é, né? Ninguém resiste a um papo sobre mulher e futebol. Principalmente um italiano.      — Não se apresentaram?      — Não. Eu não queria me dar a conhecer. Menti. Disse que era vendedor da De Millus...      — Cruzes, logo da De Millus?      — E por que não? É uma firma como outra qualquer. E vender soutiens é muito bom, você não acha?      Tamara sorriu. Lá vinha gozação, mas ela preferiu cortar a brincadeira.      — Tá, tá bom. O que mais descobriu sobre o sujeitinho?      — Nada. Ele é muito escorregadio e... tem um olhar que gela a gente.      — Você... você, com medo?! Não acredito!      — Não, falo sério. Não é medo. É... É... É um estado de alerta o que o olhar dele nos desperta. É como se houvesse um perigo iminente a nos espreitar por trás daqueles olhos – e Franco gesticulava e se esforçava para conseguir imitar o olhar de mau do tal sujeito. Conseguiu impressionar sua amiga, embora nem de leve tivesse conseguido arremedar o sujeito das fotos.      — Fala sério? – perguntou a repórter, admirada pela impressão que o desconhecido tinha causado em Franco. Ele não era muito de se ligar nos outros.      — Falo sério, sim. Muito sério, mesmo. O sujeito é impressionante! – enfatizou o fotógrafo.      — Quero ver este sujeito de perto – decidiu-se a repórter.      — Não aconselho. E falo sério!      Tamara ficou um momento estudando o rosto do parceiro. Sim, ele estava sério, o que era raro em sua vida. Aquilo impressionou a moça.      — Por que?      — Olha, acho que você nunca mais ficaria segura. Aquele homem é um animal em pele de cordeiro. Se põe os olhos em você e a deseja – e vai desejar, sendo você o petisco que é – então, vai persegui-la por todo o país. E eu não vou gostar.      — Tudo bem. Sei me defender, não se preocupe.      — Sei não... Acredite em mim, por favor. É melhor que mantenha distância dele.      — Onde a gente pode dar de cara com ele? – perguntou Tamara, ignorando a recomendação do amigo.      — No Fórum. É advogado – respondeu Franco com ar desanimado.      — Ótimo. Vou lá amanhã – decidiu a repórter.      — Não dê mostras de que me conhece, falou?      — Tá bem. Se isto vai-lhe deixar calmo... Agora, vamos embora. São quase l9h e eu estou cansada. Quero tomar um banho e deitar.      — Tem certeza de que não está precisando de companhia? Eu posso esfregar-lhe as costas. Sei fazer uma massagem que...      — Nem pensar. Sou virgem e vou continuar assim.      — Mas quem esta falando em virgindade aqui, é você.      — É, mas quem está com a intenção de acabar com mais uma, é você.      — EEEUUU? Que maldade, gata parda. Sou tão inocente.      E os dois saíram brincado. Tamara deu carona ao colega até o prédio onde ele morava com a família.      — Até amanhã, gata parda – disse Franco descendo e lhe dando um beijo de despedida, como sempre, nos lábios.      — Até amanhã, “seo” Don Juan de subúrbio – respondeu Tamara com um sorriso carinhoso para o companheiro a quem amava como a um irmão. Conhecia a família dele e se davam muito bem. Tinham aquele mesmo comportamento diante de todos e isto era muito reconfortante para ela. Era aceita pelas crianças e por Aracne sem qualquer constrangimento. Retribuía isto com um profundo afeto amoroso por eles.      Dezenove horas. Fratelli cansou de esperar. Estava na hora de ir para a Academia. Saiu do escritório e dez minutos depois a secretária eletrônica registrava esta chamada:      “ Dr. Fratelli, aqui é Luís Filipe. A Policia Federal localizou a agente Irina Hess. Parece que ela é mesmo policial e nós nos enganamos... ou fomos enganados. Ela deverá entrar em contato comigo amanhã. Vou pedir à moça que venha ao meu escritório às l0h, se ela me contatar pela manhã. Às 16h, se ela me contatar à tarde. Se o senhor quiser estar com ela, venha aqui nestes horários. Minha secretária já tem ordens de o deixar passar livremente. Boa-noite.      Às 14h daquele mesmo dia, Aquiles chegou à academia. Fora solicitado por Kimura a comparecer lá naquela hora e, se possível, a limpar a agenda por toda a tarde.      — O que há? – perguntou, cumprimentando Kimura à moda oriental. O japonês gostava daquilo.      — Aquiles-san, o senhor corre perigo de vida. Precisa aprender a se defender, já. Ponha o quimono e venha para o dojô.      Aquiles foi ao vestiário intrigado. Vestiu o quimono e se encaminhou para o dojô, como solicitado. Kimura já o aguardava.      — Aquiles-san – disse o sensei – Fratelli-san quer feri-lo de morte. Tentará isto hoje a noite. Temos cinco horas para treino de auto-defesa em jiu-jitsu e aiki-dô.      Aquiles não era praticante daqueles estilos de luta, porém tinha resistência suficiente para ficar cinco horas no dojô praticando as técnicas avançadas de ambas. Ao final das primeiras duas horas, contudo, já começava a duvidar se chegaria ao final ao menos em condições de ir para casa. Kimura não dava sinal de cansaço. Os tombos e os golpes eram treinados à exaustão. Principalmente as defesas contra os ataques em ashi-wasa, ou seja, ataques com as pernas. Praticou, apenas, seis defesas em jiu-jitsu e seis em aiki-dô. Mas elas foram gravadas a fogo em seus músculos. Respondia com reflexos rápidos aos ataques violentos de Kimura. Estava todo dolorido, mas estava fascinado.      Em ambos os estilos, os contragolpes eram terríveis e mortais. E eram fáceis de decorar porque tinham uma seqüência de movimentos muito similares. Às 16:30h Kimura deu-se por satisfeito.      — Aquiles-san – disse o sensei – você aprendeu muito bem estas defesas. Elas poderão salvar sua vida. Vá descansar, agora. Vai precisar de estar bem repousado, pois a rapidez é o fator mais importante no contra-ataque. Lembre-se: Fratelli-san vem descansado e disposto a acabar com você. Descanse.      Aquiles não foi para casa. Tomou um banho frio demorado e se entregou a uma repousante massagem oriental com Sumiko. Só percebeu que havia dormido profundamente quando ela, suavemente, lhe tocou as costas, chamando-o pelo nome.      — Aquile-san – disse a massagista – deve despeltar agola. Homem mau plóximo chegar.      Fantástico o que Sumiko podia fazer com as mã