KOREAEBOOKDOCUMENT1.3.0O BaileDaniel CavalcanteDaniel CavalcanteDaniel Cavalcante!     O Baile Daniel Cavalcante       O ÔNIBUS DAS onze e meia já havia passado pelo ponto quando Sofia parou entre a quadra de esportes e o portão do colégio Estadual São Pedro. Decidira estudar a noite para ajudar o pai a cuidar da irmã mais nova enquanto a mãe trabalhava na loja de calçados. Sofia foi a primeira a terminar a prova de química, mas resolveu esperar por ele (o coração apertado, acelerado). Esperou, andando pelo pátio, pelas escadas, pelo gramado, no meio da noite. Uma figura solitária perdida na iluminação fraca das lâmpadas espelhadas pelo colégio. O céu era limpo naquela noite, e a lua estava exuberante, orgulhosa de si, redonda e branca como um queijo. Ela o via todos os dias, durante o intervalo das aulas e as vezes na entrada, no início das aulas. Não sabia seu nome e não conhecia ninguém para perguntar, mas ele era tão bonito... Seus olhos castanhos e perdidos, seu cabelo caindo na testa ou balançando com o vento, seus lábios finos e seu sorriso encantador, suas roupas de couro, fazendo com que se pareça um marginal, ousado e rebelde (mas no fundo era apenas um garoto carente, perdido, que precisava chamar atenção, precisava de carinho, precisava dela isso mesmo precisava do carinho que ela guardava só prá ele, só prá ele só prá) (estava demorando, não podia mais esperar, não se cabia dentro de si de tanta ansiedade, sim, pois hoje ela diria a ele, diria tudo o que sentia por ele, diria que seu pequeno e frágil coração sofria por ele, que iria explodir o peito se não se declarasse, se não declarasse seu amor) Os alunos saiam pouco a pouco de suas salas. Havia provas em todas as turmas, e de todo lugar havia gente saindo; alguns desolados por uma provável nota baixa. Sofia não precisava se preocupar com isso, pois respondera todas es questões e sabia que sua nota mínima seria um nove. Mas não era em sua nota que pensava. Onde estaria ele? Estaria com dificuldades na prova? Certamente não era do tipo que se interessava pelos estudos (mas ela o mudaria) ou com algo que não fosse seu carro e seus discos subversivos (sua careta), mas ela o ajudaria. Ele estudava na sala do segundo ano, mas ela, que estava ainda na oitava, já sabia de muita coisa do segundo grau; como sua mãe dissera certa vez, "ela é especial", aprendia tudo facilmente, e algumas coisas parecia ter nascido sabendo. Sua família nunca soube lidar bem com isso. Seu pai ficava embaraçado vendo que sua filha de quatorze anos já sabia cálculos que ele só aprendeu na faculdade de engenharia. Era um gênio? Superdotada? Não sabia ao certo, e pouco se importava com isso. Queria apenas ser feliz, mas algo parecia atrapalhar sua felicidade. Entendia tudo dobre cálculos, fórmulas químicas, tabela periódica, matemática, história e geografia, mas não entendia sua própria mente, seus sentimentos. Seria este o preço a pagar por ser "especial"? Não, não seria justo, afinal, ela não pedira por isso. Sofia não podia sorrir. Não era capaz de sentir felicidade em nenhum momento de sua vida. Sua adiaforia causara as mais diversas maldades de suas colegas, resumindo todas as tentativas de aproximação em completa rejeição. Porque? Ela não sabia, não podia saber, era apenas urna garotinha frágil e inocente, vítima de tudo e de todos, não era tão inteligente, não sabia de nada de nada, (só sabia dele, só pensava nele, esquecera de tudo, das humilhações, dos risos, da rejeição, do sentimento de culpa, do) Lembrou-se subitamente. Era seu aniversario de 15 anos. Sua família pobre não podia organizar uma festa como sempre sonhou. Desde os oito anos, Sofia sonhava com um grande baile, onde ela seria a atração principal e todos iriam ali só para vê-la em um vestido todo branco e cintilante; seu olhar brilharia como as estrelas e um príncipe encantado a tiraria para dançar. Algumas cenas se faziam muito claras, em sonhos, para ser apenas uma fantasia. Não sabia dançar, mas no sonho dançava impecavelmente. Estendia sua mão direita delicadamente, curvava levemente os joelhos, se aproximava do príncipe e a dança se seguia, como se flutuassem nas nuvens. No baile tudo é perfeito. Alguns anos mais tarde, soube que esse dia tão especial seria em seu aniversário de 15 anos. Sabia disso como sabia que a Terra gira em torno do Sol. Mas agora, percebeu que seu aniversário chegara e não teria sua festa. Já havia esquecido de seu sonho infantil há algum tempo, mas naquele instante suas lembranças daquilo que jamais aconteceu vieram à tona. Sentiu-se boba, ingênua e idiota, por, mesmo que por um instante, voltar a acreditar em seu sonho de oito anos. Por um momento desejou morrer. Só por um momento. No segundo seguinte, todos os pensamentos se dispersaram. Ele estava vindo. Sua mente se transformou em um turbilhão de emoções e idéias lógicas, entrando em um conflito épico. Ela estava em pé, na quadra descoberta, com o caderno nas mãos, o vento em seu rosto, imóvel, o cabelo balançando, alguns fios colavam à sua face. Precisava se mexer, andar, caminhar, seguir em frente e ir até ele. As forças lhe abandonaram e, por um momento, pensou que fosse desmaiar. - Vamos - falou, sussurrando - Você consegue, garota. Ele caminhava irrevogavelmente em direção à saída. É agora ou nunca, pensou. Andou a passos apressados, quase correndo, em direção a ele. O vestido comprido atrapalhava, assim como os sapatos de salto. Esbarrou em alguns alunos que perambulavam por ali até que, finalmente, o alcançou. Ficou ao seu lado, andando com ele. (lado a lado) - Oi - a voz saiu reprimida e abafada. Ela tinha um sorriso tímido na face. - É comigo? - perguntou, surpreso, o rapaz. - É... eu... bem... As palavras sumiram misteriosamente. Tudo o que ela ensaiara dizer a ele desapareceu, como se sua mente lhe pregasse uma peça de mau gosto. - Pode falar. - Eu... - estavam agora parados, de frente um para o outro. Sofia sentiu seu rosto ferver, seu coração parecia se fazer ouvir a quilômetros de distancia. Não conseguia sequer olhar para ele. Cabeça baixa, as mãos apertando o caderno com força estavam suadas. Apertava a espiral do caderno universitário com tanta força que achou que suas mãos sangrariam em pouco tempo. Ainda assim, apertava cada vez com mais força. Uma garoa começou a cair sobre eles. Ela não sabia o que fazer, estava acuada e agora era tarde demais para voltar atrás, embora quisesse voltar para onde estava, deixá-lo ir embora, apagar tudo aquilo da mente dos dois. Aquilo era ridículo. Eles não se conheciam, ele nem sabia que ela existia, e ela queria se declarar a ele? Loucura, loucura lou... - Alê - chamou uma voz distante. Dois rapazes, que Sofia sempre via com ele, corriam até eles. - Nos dá uma carona? Parece que vai chover, e o ultimo ônibus já se foi. (o ônibus. droga.) - Isso porque vocês não estudaram e ficaram fazendo a prova até agora - ironizou ele - E quem é que estava apavorado, pedindo cola a todos? - retrucou um dos amigos, dando cotoveladas de leve no peito de Alê. - Eu só queria conferir as respostas - brincou o objeto de desejo de Sofia. Sofia se encolheu, deu alguns passos para trás. Queria que um raio caísse em sua cabeça. Sentiu-se ridícula, estúpida e idiota. - Vamos lá, eu levo vocês - deram as costas à Sofia e saíram pelo portão. Alê parou e se virou, olhando para ela. A menina ensaiou um sorriso. Ah, ele não se esqueceu de mim, pensou. Se houvesse um pingo de educação ou até mesmo interesse nela, ofereceria uma carona. - Ei garota: - Sim? - Quis ir até ele, mas permaneceu parada. Deveria aceitar a carona? Afinal, ele ainda era um estranho. - É melhor correr, vem chuva aí. Até logo. Ela ficou ali, em pé, na chuva que começava a se manifestar com certa fúria, acompanhando, com o olhar, o rapaz se voltar para o portão e ganhar a rua, alcançando seus amigos que o aguardavam. Ela continuou ali, quando o ford preto saiu de seu estacionamento, derrapando e apitando os pneus. Ela permaneceu ali, sozinha naquele pátio, sob a chuva que se intensificava cada vez mais. As gotas da chuva gelada se misturando com as lagrimas quentes, que caiam dos olhos castanhos com a mesma fúria que a água caía do céu agora, repentinamente, nublado e escuro. Não chorava apenas por causa de Alê. Ela chorou por tudo o que havia sofrido em toda sua vida. Chorou pela zombaria das colegas, chorou pelos apelidos, chorou pelo que diziam a seu respeito, chorou por ser feia, chorou todo o ódio que sentia por todos. Todas as lembranças desagradáveis a atacaram violentamente e Sofia explodiu em lagrimas. Chorou alto, jogando toda a sua repressão para fora do peito. Gemeu tudo o que ela gostaria de ter dito em toda a vida e estava sufocado na garganta, sussurrou toda a tristeza presa em seu coração. Atravessou o portão e correu, descendo a rua pouco movimentada; uma das mãos enxugando o rosto molhado, a outra segurando o caderno. Tirou os sapatos vermelhos de salto alto, deixando que seus pés miúdos mergulhassem na água acumulada pela chuva. Levantou o longo vestido branco, pesado por causa da água, à altura do joelho. Atravessou a rua e dobrou uma esquina. Já não haveria mais nenhum ônibus e estava longe de casa. Levaria no mínimo duas horas a pé na chuva. Lhe ocorreu que tanto o dia quanto a noite foram claros e limpos, a chuva era tão estranha e sobrenatural quanto ela, e sentiu um cheiro estranho de pinho, daqueles que se sente em... onde mesmo? Não se lembrava, e talvez fosse coisa da sua cabeça. As vezes sentimos cheiros que provém de nossa imaginação. Não se importava com a natureza dos fatos, estava com frio e com fome e sua cabeça começava a doer. Se sentia febril. Era hora de encarar a realidade. Como ela poderia sonhar com um amor tão improvável? Foi infantil em pensar que havia possibilidades de conquista-lo. Não era bonita e não possuía nenhum atrativo, alem de ser muito criança para um rapaz do segundo ano. Como pôde ser tão idiota? Idiota. idiota, idiota, idiota, idiota idiota idiota idiota Idiota.., ele é bom demais para você... perfeito demais... e olhe para você!, fugindo como uma criança perdida, com medo da própria sombra. A quem você queria enganar, Sofia, sua idiota? Pensou mesmo que poderia fingir ser quem não é? Esta é a verdadeira você: uma ostra. Ale... Ao menos agora sei seu nome. Ale... A chuva se acalmou, mas não cessou. O misterioso odor de pinho estava suave, mas presente. Sofia andava com dificuldade no escuro pelas ruas que vira apenas pela janela do ônibus que a levava de casa até colégio e do colégio para casa. Elas (as ruas) tinham um aspecto muito mais assombroso quando vistas sob a chuva e à pé. As gotas d'água escorriam pelo nariz delicado e cheio de sardinhas, fazendo cócegas. O passo lento, pensamentos perdidos. Ela era o espectro da solidão ululando nas trevas das ruas desertas. As pedrinhas do asfalto machucavam os pés descalços, mas não se importava. Qualquer dor física era bem vinda, desde que fossem mais forte do que a dor em sua alma. Sentiu as veias do pescoço latejarem, o sangue quente, a respiração ofegante. Colocou a mão sobre o pescoço e achou que sua temperatura estava um pouco acima do normal. Ótimo, tudo o que sua auto-piedade desejava era adoecer e ser internada em um hospital por dois meses. Tempo suficiente para que ele e seus amigos se esquecessem desta noite. Desejava nunca mais precisar voltar ao colégio. Planejara tudo tão cuidadosamente, parecia tão provável que ele aceitasse seu amor, assim como parecia óbvio que ela conseguiria se declarar a ele. Mas dera com os burros n'água e agora estava sozinha, na rua deserta, debaixo de chuva, descalça e febril. Mas ela não se importava, e logo se esquecera de sua atual situação, imersa em pensamentos bem mais realistas do que há meia hora antes. Imaginava que teria de aceitar a terrível realidade a partir de agora. A vida tentara lhe ensinar a sua dura 1ição desde cedo, com todos zombando de sua estranheza, mas ela se recusara a aprender da forma mais fácil. Pois bem, agora aprendera da maneira mais dura que a vida, a professora Vida, poderia ensinar. Sim, agora aprendera e precisava se conformar, ou não passaria nas próximas provas dessa professora imparcial e impiedosa. A vida não a amava, então ela não amaria a vida. A vida é cruel, pensava, a vida é cruel e quer me destruir mas sou mais forte vou acabar com ela antes vou acabar com a vida acabar com minha vida eu vou Parou ao lado de um poste que iluminava a rua com um feixe de luz ao seu redor, como se fosse uma estrela no palco. Sua expressão era de surpresa e temor. Pensara em suicídio? Queria acabar com sua vida, e isso sem dúvida significava suicídio, morte. A chuva continuava constante, e cada vez mais com um ar de sobrenatural. Era uma chuva estranha, gelada e pesada, apesar de não ser forte. Os sapatos caíram de sua mão e ela voltou à realidade e se deu conta de que estava debaixo de uma chuva torrencial, ensopada e a quilômetros de distancia de rasa. A solidão da rua lhe deu medo e pensou que os ruídos da chuva e a escuridão seriam perfeitos para esconder qualquer assaltante ou maníaco até que ele pudesse pega-la. Apavorada por esta possibilidade, pegou os sapatos - não que se importasse com eles - e andou com passos apertados, pisando forte sobre as poças de água. Dobrou uma esquina onde havia uma padaria-confeitaria fechada, com seus cartazes a mostra do lado de dentro das vitrines e uma luminária colorida onde se lia "Padaria Boa Vista", que era o mesmo nome do bairro onde estava. Sofia conhecia pouco daquela rua, embora a visse todos os dias úteis da semana nas viagens de ônibus. Temia que errasse alguma curva e se perdesse. Pensou que sua mie já deveria ter telefonado para todos os conhecidos da família, hospitais e delegacias de policia a sua procura. Isso já acontecera antes, quando Clarice, sua prima, passara um mês em sua casa e desaparecera na primeira semana. Regina, a mãe de Sofia, procurou na lista telefônica os números de todos os hospitais e delegacias da cidade e telefonou para cada um, desesperada, a procura da sobrinha de 12 anos. Já estava se preparando para telefonar para a irmã no Rio avisando que a filha havia desaparecido, quando Clarice surge pela porta da frente, imunda e sorrindo. Estivera o tempo todo brincando no parquinho do colégio onde Sofia estudava na época. A pequena foi recebida com abraços, lágrimas e palavras descontroladas de alivio e repreensão que pareciam significar que aquilo não devia ser feito novamente. Clarice, confusa, jamais entendeu o que fizera de errado. Agora Regina estaria passando pelo mesmo sentimento de desespero, dessa vez com dois agravantes: já passava da meia noite e agora se tratava de sua filha. Procurando não pensar nisso, Sofia observava a cidade morta. Se sentia dentro da musica Endless Rain. Era só substituir o estranho odor de pinho pela fragrância das rosas e estaria como aquele clipe musical. Ao dobrar mais uma esquina Sofia se encontrou em uma rua escura. As luzes dos postes estavam apagadas. Mas não foi isso que assustou a menina, e sim a seqüência de relâmpagos e trovões, que caiam sem pausa durante mais de um minuto, parecendo vir de toda parte e ao mesmo tempo de parte alguma; e da forte rajada de vento, que alterou a direção da chuva que agora parecia fantasmagórica. A garota imaginou que a chuva saíra do clássico filme em preto e branco de Frankenstein, que ela assistira incontáveis vezes. Cabum , caía um raio sinistro e o monstro se levanta. It's Alive , vibrava o médico louco e triunfante. Tanto o vento quanto água vinham em direção oposta à de Sofia, dificultando ainda mais seus passos. Seu rosto era agredido por fortes gotas de chuva, que pareciam ter vida e não gostava muito da presença humana naquela rua. Sofia se sentiu cansada, percebeu que arfava e o coração disparara. Mesmo aquela rua não sendo exatamente segura, resolveu encostar debaixo do toldo de alguma loja e esperar que a chuva se acalmasse ou, pelo menos, o seu coração. Subiu na calçada e o primeiro toldo que encontrou, que cobria toda a largura da calçada, foi o de um salão de baile antigo e fechado, provavelmente há muito tempo, com o surgimento de discotecas modernas na cidadezinha. Logo, logo, aquele salão reabriria como uma pista de dança luminosa com musica moderna e subversiva, como aqueles lugares que eram mostrados em filmes como "Embalos De Sábado A Noite", com aquele novo ator, de nome engraçado... John Alguma Coisa Mais. Eram os tempos modernos chegando, e a tradição deveria abrir as portas para o progresso . Ela correu até a entrada do salão semi-destruido. Os vidros estravam quebrados, a pintura rachada, e o nome do lugar escrito em luzes de néon estavam apagados. Debaixo do toldo, Sofia soltou a barra do vestido e passou a mão sobre o rosto e cabelo, tentando se enxugar. Um raio caiu, seguido de estrondo ensurdecedor, e uma voz grave, educada e sem vida murmurou atrás dela, ao pé do ouvido: - Estávamos a sua espera. Novo trovão. Sofia não conseguiu gritar, embora desejasse. Sobressaltou-se e virou-se, os olhos pulando das órbitas. Lembrou-se novamente de Frankenstein. Se sentia agora dentro da musica Rider on the Storm. - Estão todos esperando. Entre. O homem que estava agora a sua frente era espantosamente alto e pálido como a própria morte, o olhar perdido, cabelos bem alinhados e vestia roupas de gala. A menina lembrou-se novamente de Frankenstein. Ele fez um gesto com a mão indicando a entrada do salão de baile. Sofia, dando um passo para trás, imaginou uma serie de loucuras, se bem que considerava a hipótese de estupro, e isso não seria loucura, seria aterrador. Quis correr, mas ao invés disso olhou para a porta do salão e viu uma porta nova, aberta. No baile tudo é perfeito , ouviu, de dentro da cabeça, a voz desconhecida, mas não de todo estranha, mais parecida com um trovão, dizendo a frase que ela sempre soube ser verdade. De dentro do salão saíam luzes azuis e amarelas. Notou que na calçada havia um elegante tapete vermelho e o nome na luminária de néon agora estava aceso. Haviam vasos com plantas dos lados esquerdos e direito da porta. As janelas estavam como novas e eram escuras, para não se ver da rua as pessoas que estavam dançando ali. Isto é loucura, não há ninguém dançando lá dentro. Sofia sabia que o melhor a fazer seria correr dali e chegar o mais rápido possível em casa, mas, ainda assim, caminhou pelo tapete vermelho, passou pelos vasos de planta e entrou no salão 2Oth Century. A chuva continuava a cair lá fora, mas o sinistro e agora impertinente cheiro de pinho a perseguia. Um ruído semelhante a um chocalho era provocado pela água caindo no telhado do salão, e Sofia ouvia e sentia esse som vindo de toda parte. Estava escuro, naturalmente, como qualquer prédio abandonado, Sofia não sabia, nem imaginava o que poderia encontrar ali dentro, mas estava certa de que não deveria estar tão escuro. A única coisa que podia prever antes de entrar era que haveria alguma luz. Mas era natural que estivesse escuro, não? O salão estava abandonado e caindo aos pedaços, não haveria possibilidades de haver luz. Mas estaria realmente abandonado? E quanto ao porteiro? Sem falar que, por algum instante, ela vira, ou julgara ter visto, luzes saindo de dentro do salão. Estaria alguém querendo lhe pregar uma peça? Assusta-la? Bem, estavam conseguindo. Ora, deixe de ser tola, pensou, você imaginou coisas. Provavelmente aquelas luzes eram de algum raio, refletidas em algum lugar. E o porteiro deveria ser algum maluco, um babado ou drogado. Sofia tinha muito medo de ser assaltada ou violentada, mas definitivamente não temia bêbados ou drogados. Ela achava que pessoas nessas condições, por mais violentas que fossem, estariam sempre sem força e coordenação o suficiente para fazer-lhe algum mal. E se tentasse, ela saberia se defender. Ah, sim, de bêbados e drogados ela poderia se defender muito bem, com golpes no abdome ou naquele lugar onde chamam de "golpe baixo". E correria. Eles nunca conseguiriam correr bem sem cair. Sofia tateou no escuro até seus olhos se acostumarem com aquelas trevas. Aos poucos, pôde visualizar o lugar, e algumas vezes um relâmpago iluminava todo o ambiente, e ela tinha um rápido vislumbre, em preto e branco, do salão como um todo. Estava, naturalmente, deserto. Não havia o que temer. Além disso, ali era quente e seco. Poderia encostar em algum canto e esperar a chuva passar. Colocou os sapatos em um canto onde havia algo que se parecia com um balcão e andou para o centro do salão. Havia uma gigantesca bola pendurada no teto, que parecia de cristal quando refletia a luz dos relâmpagos que caíam sem cessar. Logo abaixo, estava o que um dia foi a pista de dança. Sofia se encantou, e, por um momento, ao passo que caía mais um raio em algum lugar, ali dentro pareceu se iluminar, mas com luzes azuis e amarelas. O soalho pôde ser visto pela primeira vez desde que entrara, e estava como novo, brilhando, O balcão, onde encostara os sapatos, estavam cheios... De que? Virou-se em direção ao balcão e tudo escureceu novamente. O chão estava perdido na escuridão. Sofia sentiu a boca seca. Por um instante, enquanto contemplava o soalho lustrado, imaginou ter visto vultos no balcão, e por toda parte. Não viu ninguém, mas sentiu algo. Preciso sair daqui, pensou. Os lábios se moveram, murmurando sem voz a frase amedrontada, mas Sofia preferiu não dizer em voz alta. Se estivesse falando sozinha, seria sinal de que estava realmente ficando louca. Quis pegar os sapatos e correr para bem longe, mas olhou novamente para a bola energicamente pendurada. A pista de dança estava ali. Lembrou-se de seus sonhos encantados, da festa onde ela era o centro das atenções. Foi até a pista e flexionou os joelhos, cumprimentando um parceiro imaginário. A valsa começou a tocar e Sofia parecia uma pluma na pista. Os passos eram perfeitos e sentiu-se bem nos braços de seu parceiro. Todos estavam voltados para eles. Todos? Quem? Não, não havia ninguém ali. - Está imaginando coisas, sua boba - dessa vez, Sofia pensou em voz alta e não se preocupou em parecer louca, pois achava que sua sanidade não era mais exemplar. Voltou para o balcão, pegou os sapatos, e andou até a porta. - Por favor. - A voz era calma e doce - Por favor, não vá antes de me conceder uma dança. Sabe o quanto tenho esperado por isso. Sim, ela sabia. Com um sorriso, deu o braço a ele e caminharam juntos até a pista. Sofia estava linda. Sua maquiagem delicada lhe dava aparência de uma mo;ca de 18 anos, o vestido de seda branco era ofuscante, e um decote começava na barra, junto ao tornozelo, e subia até meio palmo acima do joelho. Outro decote exibia a pele clara e macia das costas (como nos sonhos). Os sapatos também eram brancos, e apesar de nunca ter usado saltos tão altos, caminhou com facilidade. No pescoço se pendurava um colar de pérolas, que combinavam com o par de brincos. Passou a língua nos lábios e sentiu o gosto do batom, mas não sabia qual a cor. Eram vermelhos claro. Havia rímel nos olhos e sombra nas pálpebras. As sobrancelhas estavam cuidadosamente aparadas. O cabelo estava preso em um coque com um prendedor cintilante. Sofia passou de braços dados com seu parceiro por entre a multidão de pessoas, todos sorriam e admiravam a sua beleza. Sofia sorriu, o mais belo sorriso que jamais dera. Os dois estavam no centro da pista, bem abaixo da bola que Sofia percebera que era um lustre. Todas as luzes estavam voltadas para eles. O braço dele passou pela cintura dela, e a mão dela encostou no ombro dele; do outro lado, as mãos desocupadas se cruzaram e a orquestra tocou uma valsa de Brahms. Era como nos sonhos, embora houvesse aquela coisa estranha. Não sabia exatamente o quê, mas era muito estranho. Ao tocar a mão daquele homem, um relâmpago se fez ouvir mais enfurecido que todos os outros, mas não era isso que a incomodava. Era algo mais. Mas ela podia ignorar aquilo. Afinal, a noite estava perfeita agora, e ele tinha cabelos negros, muitos bem alinhados, olhos azuis, as linhas do rosto marcantes e torneadas. Usava fraque e andava com e1egancia. Seu perfume era embriagante, e enquanto dançavam, Sofia se sentia levemente sonolenta, confundindo sonho com realidade. Os olhos se fitavam, como se não houvesse mais nada no mundo para ser visto. Sofia deu um riso envergonhado. - O que foi, meu bem? - perguntou ele. Ela se sentia nas nuvens e simplesmente se esquecera dos fatos que antecederam este momento. Na verdade, se esquecera de toda a sua vida desagradável. Mas um ultimo pingo de consciência que permanecia acordada parecia querer se lembrar de algo, se lembrar que deveria estar em outro lugar, que aquilo tudo era muito estranho para ser real, tentava acordar o restante da mente entorpecida pelo doce olhar... pelo perfume... pelo toque das mãos firmes e seguras... Não, isto não esta acontecendo, não faz sentido. Sofia franziu a testa e estava tensa. - O que foi, meu bem? Esta se sentindo mal? - Não, estou bem. - Tem certeza? - Sim. Afinal, estou aqui com você. Não é? - Sim. Claro que está. Sofia sorriu novamente. Precisava aprender a relaxar e aproveitar os bons momentos. Já ouvira falar de algum distúrbio psicológico em que a pessoa simplesmente não se acha merecedora da felicidade e por isso não dá chances aos bons momentos, acreditando que logo ele será substituído por uma desgraça, e assim a própria pessoa fecha as portas para a felicidade. Sofia não seria assim. Aproveitaria a noite ate suas ultimas conseqüências, e se fosse um sonho, que não despertasse jamais. No baile tudo é perfeito. A orquestra tocava agora uma valsa de Strauss. Todos agora estavam dançando e Sofia agora era apenas felicidade. Encostou a cabeça no ombro confortável dele e fechou os olhos. - Parece um sonho - sussurrou. - Mas é real, querida. Tão real quanto você... ou quanto a mim. A frase causou certa sensação de estranheza em Sofia, mas logo afastou qualquer pensamento desagradável que estivesse ousando se formar em sua mente. - Gostaria que esta noite durasse para sempre. - Sofia, ao dizer isso, lembrou-se que jamais diria que deseja algo. Aprendera, não sabia aonde, a tomar cuidado com seus desejos, pois eles poderiam se tornar realidade. Imagine se um desejo totalmente absurdo se realiza? Agora acabara de dizer que gostaria de passar a eternidade dançando com um estranho. Mas que diabos, lá vem você de novo, pensou ela, como se falasse com seu lado pessimista. Não era nenhum desejo absurdo, além do mais ele não era nenhum estranho. Se conheciam há muito tempo... Mas de onde? De uma festa, é claro. Ela não se lembrava exatamente, mas SABIA. Apenas sabia. Como em um sonho, quando apenas sabemos que conhecemos as pessoas e os lugares em que estamos. Estas coisas não surgem nos sonhos como lembranças, mas, no sonho, sabemos do que se trata. E o fato de não lembrar de onde conhecia aquele príncipe tornava o momento ainda mais magico. - Talvez dure para sempre - disse ele, em sua voz suave. Estavam agora dançando abraçados, a cabeça nos ombros dele, que acariciava os cabelos dela. - Talvez haja algo preparado para nós. Sofia não se cabia em si de tanta felicidade. Não acreditava no que estava acontecendo com ela. Estava apaixonada, e era recíproco. Pela primeira vez sentiu o carinho e o amor de alguém. - Eu não quero mais nada nesta vida. Apenas estar em seus braços, sentir seu toque, seu carinho, seu amor... Quero ficar com você para sempre. - A voz dela sumia, até se tornar um suspiro apaixonado. - E eu apenas quero lhe fazer feliz. - Eu nunca havia me sentido feliz... até agora, Minha vida sempre foi tão vazia... Eu era incapaz de sentir feliz... - Eu sei. Você é especial, meu bem. É por isso que eu visitava seus sonhos. Você se lembra, não? - Sim, eu me lembro. Você sabe, meus sonhos eram minha única fuga. Algumas vezes eu dormia mais do que o normal. E você estava sempre lá. Por favor, diga que nunca vai me deixar. - Jamais. Ficaremos juntos, aqui, para sempre. Sofia fechou os olhos novamente. Sentiu-se segura. A orquestra tocava Chopin quando, um grupo de pessoas chamaram pelo homem que dançava com ela. Ele se virou e reconheceu os amigos. - Já volto. Dê uma volta por aí, não se preocupe. Nos encontramos logo. Sofia não gostou, mas tudo bem, eram amigos dele, e ele tinha esse direito. Andou devagar, braços cruzados, observando os casais dançando. - Pode me conceder uma dança? Ela se virou e o homem que viu era totalmente diferente do anterior. Apesar de bem vestido, possuía um ar malandro e pouco confiável. Abria um sorriso persuasivo e perigoso. Sofia o olhou sem reação, então ele a tomou nos braços e os dois dançaram. De alguma forma, seu novo par a fazia lembrar de algo... Alguém... usava costeletas e um corte de cabelo que a fazia pensar em Elvis Presley, mas ele não se parecia em nada com o Elvis. Não podia se lembrar com quem se parecia. Alguém que ela conhecia e sabia que deveria se lembrar. Mas sua mente estava muito distante do mundo lá fora. Ele a olhava como se pudesse ver a nudez sob seu vestido. Tentou beijar-lhe o pescoço, mas ela recuou, empurrando-o com os braços. Ele ainda sorria maliciosamente e tentou avançar sobre ela novamente, quando apareceu, quase do nada, uma mulher que devia ter menos idade do que parecia. - Cai fora, Jimmy. Vá procurar a Ellen. Ele se virou e passou pela mulher, olhando-a de alto a baixo, e foi embora, andando esquisito. A mulher usava um vestido azul colado, com um decote nas pernas que fez Sofia se sentir uma freira. - Eu sou Tati. Nossa, você está linda! Venha, vou lhe pagar um drinque. - Não precisa, estou acompanhada... - Meu bem, sua companhia ainda não voltou para lhe resgatar das garras do bandido. Olhe. Tati fez um sinal com a cabeça indicando onde Sofia devia olhar. Esta esticou o pescoço e avistou o pervertido rondando o salão, olhando para as duas. - Venha, enquanto você estiver comigo ele não se aproximará. - Porque? - perguntou Sofia, curiosa e espantada por um homem temer a presença de uma mulher quase garota. - Sou a irmã dele. - respondeu Tati, gabando-se da superioridade e autoridade de irmã mais velha. Sofia sabia que era assim. A irmã mais velha sempre tem um poder sobre os caçulas. O poder do mais velho. Tati, em seu andar confiante, quase prepotente, conduziu Sofia até o balcão de bebidas. - Cuba Libre. Pra nós duas. O barman, moreno, alto, a careca reluzindo, olhou desconfiado para Sofia, que parecia apavorada. Nunca estivera em um bar antes e pensou logo em identidades e em seu pai vendo-a de porre, gritando palavras feias. Está tudo bem, Ric. Esta é Sofia. Ric sorriu de sua própria ignorância. Claro que aquela era Sofia. Como podia não tê-la reconhecido? Preparou rapidamente as bebidas, jogou dois cubos de gelo e duas fatias de limão em cada copo. Serviu as duas garotas com um largo sorriso. - Obrigada, Ric. - agradeceu Tati - Obrigada - agradeceu também Sofia, como que imitando a nova colega. - Por que isso? - perguntou, voltando-se para Tati. - Isso o que? - Tati bebericou a Cuba e parecia não entender. Ou fazia parecer. - Por que o "Ric" resolveu me servir tão espontaneamente quando você lhe disse meu nome? - Benzinho, você é a atração da festa. Não sabia? Sofia se surpreendeu, mas logo se acostumou com a idéia. Afinal, não era isso mesmo? Era a atração, sem dúvida; afinal, era seu aniversário de 15 anos e ela estava simplesmente deslumbrante. Bebeu a Cuba como se fosse água e logo se arrependeu. A garganta parecia queimar, sentiu uma sensação estranha no estômago e algo lhe subiu ao cérebro. Esperou o mal estar passar e pediu mais. Ric sorriu e preparou a bebida novamente. A cabeça de Sofia girava levemente e ela sentia uma leve dor atrás da vista até a nuca. Pensou que um drink após um banho de chuva não lhe fizera bem. Mas que chuva? Fazia um tempo perfeito lá fora. Ótimo para romances. O liquido preto da Cuba Libre sacudia dentro do copo à sua frente novamente. - Vá devagar dessa vez. - alertou Tati, experiente. Seria melhor seguir seus conselhos, pensou Sofia. O salão parecia bem maior quando se estava à frente do espelho do bar. As garrafas de todos os tipos e cores pareciam convidar para uma degustação. A vontade era de provar um pouco de cada uma. - Você está tão pálida - disse Tati, ainda bebericando o primeiro copo -, não sei se é a maquiagem ou se está morta - deu um riso louco, tão alto que Sofia pensou que quebraria as garrafas e o espelho. - Sabe, você, pálida e com este vestido branco me faz lembrar São Paulo, sabe, lá em frente o teatro municipal havia aqueles caras, você sabe, aqueles que se pintam e se vestem de algo esquisito e ficam lá, o dia inteiro, debaixo do sol, imóveis, como estátuas. Na verdade, era impossível saber que se tratava de um homem a mais de 5 metros de distancia. Então lá em frente o teatro havia um anjo , todo branco como a neve. Branco tipo você - riu novamente, dessa vez mais contida. Sofia olhava para o espelho, encarando mais alguns goles daquela bebida estranha enquanto pensava que sua colega poderia ser menos tagarela. Então ela percebeu, pelo reflexo no espelho, que quando a bela Tati ingeria a Cuba Libre, algumas gotas escorriam, ou melhor, derramavam pelo pescoço cicatrizado. Assustada, virou-se para Tati, com expressão de espanto e não viu nada de anormal. Sequer havia cicatriz alguma. - Que cara é essa, menina? - estranhou Tati - Viu algum fantasma? Sofia quis dizer que sim, mas engoliu o que restava da Cuba e pediu mais. Dessa vez imaginava que já estava bêbada, e achou que bebendo mais deixaria de ver coisas ou desmaiaria de vez. Sentiu a cabeça girando cada vez mais e não sabia se era a fraqueza anterior, o álcool, as visões ou todos os acontecimentos daquela noite infernal. Fechou os olhos e por um momento sentiu que o chão não estava mais sob seus pés. Tudo parecia girar e não sabia mais onde estava. Deveria estar desmaiada, tentando recuperar a consciência, e quando acordasse estaria deitada na rua, no meio da chuva. Ou até mesmo na sua cadeira, na sala de aula. Devia ter dormido e sonhado tudo até aqui, porque tudo parecia ser nada mais que um sonho naquele momento. Recuperou as forças e a consciência voltou ao normal. Esperava que quando abrisse os olhos visse a professora e seus colegas de aula rindo por ela ter dormido na sala. Ou que estivesse naquele salão vazio onde entrou durante a chuva. Abriu os olhos. A primeira coisa que viu foi o copo de Cuba Libre, insinuante, com suas gotas de água escorrendo do lado de fora e o gelo derretido até a metade. - Ta tudo bem, Sofia? - Tati também estava ali, ao seu lado, com ares preocupados. Sofia sentiu o estômago embrulhar, provavelmente teria sido assim também com Tati, na primeira vez que ela bebeu, aos 14, talvez 11 anos. Sofia olhou para o espelho para ver se sua aparência estaria tão horrenda de enjôo como ela pensou que estivesse. Mas seu reflexo não aparecia ali. Ao invés disso, Sofia viu Tati, com cortes costurados por todas as partes do corpo que o vestido deixava aparecer; Ric, com o crânio partido ao meio; o cara que a assediara ainda rondava ali atrás, com um buraco de meio metro na barriga. Aquilo devia estar doendo, pensou Sofia, embriagada, sem se dar conta do horror que estava presenciando. Todos os rostos que apareciam no reflexo eram magros e pálidos como a morte, com olhos fundos e escurecidos. Estavam todos tão vivos quanto seu cachorro, que fora atropelado quando Sofia tinha 8 anos. Sofia cobriu a boca com a mão e correu para algum lugar, procurando o banheiro. Percebeu o cheiro de pinho, que na verdade jamais a abandonara, e agora estava forte como sua ânsia. Achou apenas uma lixeira. Teria que ser ali mesmo. Abaixou-se e se curvou diante do balde de lixo que fedia a cigarro e cerveja e vomitou tudo que havia comido - e bebido - naquele dia. Após algum tempo, o alívio chegava, lentamente. Levantou-se e viu que ninguém notara seu ato. Bem, pensou, se estão todos mortos, não devem achar mais nada estranho ou nojento. Talvez se eu vomitar minhas entranhas eles se divertiriam. Olhou ao redor, com medo de ver aqueles rostos semiputrefatos e vomitar de novo. Mas tudo estava tão normal quanto antes de começar a beber. O que aquela louca lhe dera com a bebida? LSD? Cambaleou pelo salão, procurando seu antigo par, com a sensação de tontura diminuída, após aquela regurgitação; mas ela ainda estava ali, a dor de cabeça latejante e a tontura que roubava o chão de seus pés. - Por onde você andou? Imediatamente todas as sensações foram substituídas por uma forte emoção e adrenalina. Ele voltara para seus braços, não a abandonara. E não tinha nenhuma costura ou o crânio partido ao meio. Continuava o mesmo príncipe de antes. Ele a cumprimentou e a convidou para mais uma dança. Ela o cumprimentou formalmente e deu as mãos para a valsa de Ravel. Então, ali, no centro do salão, Sofia soube o que a tinha incomodado tanto quando dançou com ele pela primeira vez. Não podia decifrar antes, com os sentidos confusos e a incapacidade de raciocinar com naturalidade, mas agora, depois de tudo o que acontecera, ela sabia muito bem. A cabeça da menina parecia explodir, as veias do pescoço eram violentamente agredidas pelo sangue que corria intensamente, impulsionado por um coração à beira da loucura. Seus pés pararam de dançar, e quase caiu nos braços do seu par. As mãos daquele príncipe, tanto quanto o seu rosto, que eventualmente ele encostava no rosto dela, eram gelados como a Cuba Libre, sua pele era seca, sem vida. Seus olhos, sem expressão. Sofia sabia o que tinha que fazer, mas relutou por alguns instantes. Derramou algumas lágrimas, mas, finalmente, acumulou toda a coragem que lhe restara e olhou para o espelho, a pouco mais de dez metros de distancia. O grito se formou no íntimo de seu ser, correu por todo o seu corpo, subiu pelo pulmão e saiu pela garganta, estridente, forte, esgotando todas as suas forças. O homem tão belo e bem arrumado era, no reflexo, um pouco mais que um esqueleto escurecido. Suas roupas estavam esfarrapadas e cheias de terra. O rosto era praticamente uma caveira, com poucos tecidos musculares que cobriam toscamente os dentes; sobre a cabeça haviam poucos fios de cabelo, desarrumados e também cheios de terra. Seus dedos compridos se esticavam, procurando as mãos de Sofia. A tontura a atingiu, forte, avassaladora, com uma horripilante sensação de impotência e a impressão de que seu corpo ardia em febre. O dia fora intenso, seu corpo estava cansado, e correra na chuva com a cabeça fervendo mais que uma caldeira. Era compreensível que o cansaço a abatesse de forma tão violenta. Mas não era apenas o cansaço. Havia algo, alguma força sinistra e maligna que exercia uma grande pressão em seu corpo e sua mente, diminuindo suas defesas. A influência estranha não precisou investir por muito tempo contra o frágil corpo de Sofia. Em poucos segundos, a tontura a fez esquecer de tudo à sua volta e se desgarrar dos braços de seu par, e o chão desapareceu. As luzes do salão 20th Century se apagaram e o som da orquestra silenciou. As pessoas que ali estavam pareciam estranhas. Por alguma razão, todos tinham algo sinistro, e Sofia estava confusa e fraca demais para tentar pensar e imaginar o porquê. Olhou também para seu par e se perguntou porque não havia notado antes como ele era sombrio e pálido. Todos estavam pálidos, como aquele porteiro que a convidara a entrar naquele maldito salão. Teve medo, e desejou sair dali, mas sabia que era tarde demais, que nunca mais veria seus pais. Sequer pensou em Alê, pensava apenas em sua família. As pessoas no salão se tornavam cada vez mais fúnebres, as roupas empoeiradas, os cabelos desarrumados e caindo, a carne putrefata. Não teve tempo de sentir repulsa. Tudo desapareceu e Sofia estava sozinha. Ouviu novamente o som da chuva, mas não estava mais no salão. Ela estava em um vazio escuro; assustada, apertou as mãos uma na outra. Sofia viu uma imagem distante, fora de foco. Era ela, ou uma copia de si. Então, uma serie de imagens passou diante de seus olhos. Imagens familiares. Seu quarto, pintado de azul, ela deitada na cama, ainda criança. Sua mãe contava historias e fazia carinho nos cabelos. Horas depois, acordava ouvindo a discussão entre os pais. A escola, e outras meninas a empurrando na lama. Seu cachorro morto, atropelado por um carro. Placas, linhas amarelas, uma estrada (...). Então não havia mais nada. Apenas a voz desconhecida; junte-se a nós. No baile tudo é perfeito. Se lembrou então do estúpido desejo que fez, aos braços do estranho. Era isso. Fez um maldito desejo em uma noite infernal, dentro de um baile que não devia existir a um homem que parecia perfeito demais para ser real. E agora iria ficar ali com ele para sempre. No Salão 2Oth Century as luzes estavam apagadas. A chuva fantasmagórica diminuíra, quase cessara. O odor de pinho que ela trouxera do inferno de onde veio também desaparecia. Alguns carros transitavam pela rua, com faróis que iluminavam por algum momento parte do interior do salão, mostrando o balcão que tinha aos pés um par de sapatos vermelhos. Um leve som de respiração se extinguia e um corpo extremamente febril molhava a madeira do soalho de suor, que derramava aos borbulhões. O ar que saía pelo nariz criava uma mancha branca no chão que desaparecia no intervalo da respiração, cada vez mais fraca, decaindo em um ritmo lento, constante. E então, o corpo já não respirava mais. * * * Na noite seguinte, Alê e seus amigos, ao terminarem a prova do dia, resolveram cabular todo o último mês de aula do ano letivo, e saíram no carro a 80 por hora, cantando pneus em frente ao colégio. Algumas garotas suspiravam e todos os rapazes reprovaram a atitude definitivamente fútil do grupo. O mau tempo se afastara da cidade, tão rápida e misteriosamente quanto chegara. O ford correu por algumas ruas pouco movimentadas até passar em frente à "Padaria Boa Vista". Um dos amigos gritou para que Alê estacionasse ali; desceu, entrou na padaria e voltou dois minutos depois com um maço de cigarros na mão. Entrou no carro, que seguiu seu caminho, até virar uma esquina e entrar numa rua escura e pouco movimentada. Estavam a 90 por hora e gritavam como loucos, em detrimento ao silencio da vizinhança, que já se recolhera. O ford passou em frente ao prédio onde no dia anterior estava o Salão 20th Century, mas ali só havia um sobrado abandonado, onde no andar de baixo funcionava um salão de beleza e no de cima um escritório de advocacia, nada confiável, mas com preço sob medida. Enquanto isso, sob uma chuva que começava a se formar misteriosamente contra a cidade de Ubatuba, a 285 km de distancia de Sofia, Cristina caminhava decepcionada com seu péssimo rendimento no ano letivo, e previa sua reprovação; o boletim com catapora, pensou. Divagava em pensamentos abstratos e em lembranças quando resolveu se proteger da funesta chuva que a castigava. Os raios caíam em algum lugar e o som ressoava dentro da mente da garota. Ela estranhou o odor suave de pinho. Em uma rua sombria e deserta, avistou um salão de dança no qual nunca havia reparado antes; abandonado, janelas quebradas e as lâmpadas de néon apagadas escreviam o nome 20th Century. Ressoou em sua mente uma voz desconhecida, porém, não de todo estranha, que mais parecia um trovão: No baile tudo é perfeito. Sobre o Autor Aficcionado pelo extinto terror genuíno, Daniel Cavalcante pretende reerguer as pedras das cavernas mais sombrias do horror já expressado na literatura, não se conformando com a banalização do tema e as novas tendências resultantes de conceitos deturpados nas últimas décadas. Daniel tenta desvincilhar o horror sombrio, tétrico e gutural da simples sede de sangue que resulta em filmes e livros que não procuram o medo e o horror, mas sim apenas uma chacina inconsequênte e deliberada. Daniel buscou em autores como Allan Poe e Lovecraft (este último sua maior influência) a fórmula e a técnica para criar não apenas uma história de terror, mas tembém um cenário macabro, personagens problematicos, fatos sobrenaturais e todo o desconhecido que sempre amedrontou e ao mesmo tempo fascinou o homem. Nascido em São Caetano do Sul, SP, mudou-se logo para Goiás, onde passou toda sua infância e adolescência, fase marcada por sua depressão que o acompanhou desde criança. Era recluso e portador do mal conhecido por fobia social, o que o afastava do contato com pessoas, inclusive de sua família. Mas foi nessa solidão que descobriu seus dons artísticos como as letras e o desenho. Filho de escritor, se interessou desde os 10 anos pela literatura, mas esse interesse foi esquecido devido à depressão. Voltou a escrever apenas aos 20 anos, dois anos depois do divórcio de seus pais e de sua volta à SP, sendo reacendida a chama da paixão pelas letras ao ler Noites Brancas, de Dostoiévsky. Em seus contos a solidão, a depressão, o desespero, a tragédia e a morte estão sempre presentes. Ao passo que seus personagens enfrentam entidades misteriosas e acontecimentos sobrenaturais, passam também pelo verdadeiro e real horror do homem moderno: a solidão e o desespero. Sofrem calados, morrem solitários. Atualmente vive em São Paulo, capital, onde trabalha em seu primeiro romance. Contato: E-mail: codinome_v@yahoo.com.br ICQ: 23716449 Site: www.contosdoumbral.cjb.net KOREAEBOOKSTYLEFILE_1.1.0/k E9"Arialdefaultdefault"Verdanahr_file_0 para0hr_file_0 para0"Verdanahr_file_0 para1hr_file_0 para1"Verdanahr_file_0 para2hr_file_0 para2"Verdanahr_file_0 para3hr_file_0 para3"Verdanahr_file_0 para4hr_file_0 para4"Verdanahr_file_0 para5hr_file_0 para5"Arialhr_file_1 para0hr_file_1 para0"Arialbrbr"Arialparapara"Arialfiggrfiggr"Arialfig.contfig.cont"Arial tablepara tablepara"Ariallistparalistpara"ArialfontfontKOREAEBOOKSTYLEFILE_1.1.0/k E9"Arialdefaultdefault"Verdanahr_file_0 para0hr_file_0 para0"Verdanahr_file_0 para1hr_file_0 para1"Verdanahr_file_0 para2hr_file_0 para2"Verdanahr_file_0 para3hr_file_0 para3"Verdanahr_file_0 para4hr_file_0 para4"Verdanahr_file_0 para5hr_file_0 para5"Arialhr_file_1 para0hr_file_1 para0"Arialbrbr"Arialparapara"Arialfiggrfiggr"Arialfig.contfig.cont"Arial tablepara tablepara"Ariallistparalistpara"ArialfontfontKOREAEBOOKSTYLEFILE_1.1.0/k E9"Arialdefaultdefault"Verdanahr_file_0 para0hr_file_0 para0"Verdanahr_file_0 para1hr_file_0 para1"Verdanahr_file_0 para2hr_file_0 para2"Verdanahr_file_0 para3hr_file_0 para3"Verdanahr_file_0 para4hr_file_0 para4"Verdanahr_file_0 para5hr_file_0 para5"Arialhr_file_1 para0hr_file_1 para0"Arialbrbr"Arialparapara"Arialfiggrfiggr"Arialfig.contfig.cont"Arial tablepara tablepara"Ariallistparalistpara"ArialfontfontKOREAEBOOKSTYLEFILE_1.1.0/k E9"Arialdefaultdefault"Verdanahr_file_0 para0hr_file_0 para0"Verdanahr_file_0 para1hr_file_0 para1"Verdanahr_file_0 para2hr_file_0 para2"Verdanahr_file_0 para3hr_file_0 para3"Verdanahr_file_0 para4hr_file_0 para4"Verdanahr_file_0 para5hr_file_0 para5"Arialhr_file_1 para0hr_file_1 para0"Arialbrbr"Arialparapara"Arialfiggrfiggr"Arialfig.contfig.cont"Arial tablepara tablepara"Ariallistparalistpara"ArialfontfontKOREAEBOOKSTYLEFILE_1.1.0/k E9"Arialdefaultdefault"Verdanahr_file_0 para0hr_file_0 para0"Verdanahr_file_0 para1hr_file_0 para1"Verdanahr_file_0 para2hr_file_0 para2"Verdanahr_file_0 para3hr_file_0 para3"Verdanahr_file_0 para4hr_file_0 para4"Verdanahr_file_0 para5hr_file_0 para5"Arialhr_file_1 para0hr_file_1 para0"Arialbrbr"Arialparapara"Arialfiggrfiggr"Arialfig.contfig.cont"Arial tablepara tablepara"Ariallistparalistpara"ArialfontfontJFIFHHPhotoshop 3.08BIMHH8BIM8BIM 8BIM' 8BIMH/fflff/ff2Z5-8BIMp8BIM@@*88BIM X JFIFHH'File written by Adobe Photoshop 4.0Adobed            X"? 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