KOREAEBOOKDOCUMENT1.2.0Novum OrganumFrancis BaconAcrpoliseBooksBrasil.com=para.xmlcapa.jpgnormal.sty* para.xml49 _smaller.sty@ _small.styG _normal.styQO _large.styV _larger.sty^ Fcapa.jpgҤ indice.jpg Novum Organum Francis Bacon Tradução e notas: José Aluysio Reis de Andrade Digitalização: Membros do Grupo de Discussão Acrópolis (Filosofia) Versão para eBook eBooksBrasil.com Fonte Digital: O Dialético www.odialetico.hpg.com.br © 2002 - Francis Bacon NOVUM ORGANUM Francis Bacon ÍNDICE Prefácio do Autor AFORISMOS SOBRE A INTERPRETAÇÃO DA NATUREZA E O REINO DO HOMEM LIVRO I LIVRO II Notas NOVUM ORGANUM   PREFÁCIO DO AUTOR        Todos aqueles que ousaram proclamar a natureza como assunto exaurido para o conhecimento, por convicção, por vezo professoral ou por ostentação, infligiram grande dano tanto à filosofia quanto às ciências. Pois, fazendo valer a sua opinião, concorreram para interromper e extinguir as investigações. Tudo mais que hajam feito não compensa o que nos outros corromperam e fizeram malograr. Mas os que se voltaram para caminhos opostos e asseveraram que nenhum saber é absolutamente seguro, venham suas opiniões dos antigos sofistas, da indecisão dos seus espíritos ou, ainda, de mente saturada de doutrinas, alegaram para isso razões dignas de respeito. Contudo, não deduziram suas afirmações de princípios verdadeiros e, levados pelo partido e pela afetação, foram longe demais. De outra parte, os antigos filósofos gregos, aqueles cujos escritos se perderam, coloca¡ram-se, muito prudentemente, entre a arrogância de sobre tudo se poder pronunciar e o desespero da acatalepsia. [1] Verberando com indignadas queixas as dificuldades da investigação e a obscuridade das coisas, como corcéis generosos que mordem o freio, perseveraram em seus propósitos e não se afastaram da procura dos segredos da natureza. Decidiram, assim parece, não debater a questão de se algo pode ser conhecido, mas experimentá-lo. Não obstante, mesmo aque¡les, estribados apenas no fluxo natural do intelecto, não empregaram qualquer espécie de regra, tudo abandonando à aspereza da medita¡ção e ao errático e perpétuo revolver da mente.      Nosso método, [2] contudo, é tão fácil de ser apresentado quanto difícil de se aplicar. Consiste no estabelecer os graus de certeza, determinar o alcance exato dos sentidos e rejeitar, na maior parte dos casos, o labor da mente, calcado muito de perto sobre aqueles, abrin¡do e promovendo, assim, a nova e certa via da mente, que, de resto, provém das próprias percepções sensíveis. Foi, sem dúvida, o que também divisaram os que tanto concederam à dialética. [3] Tornaram também manifesta a necessidade de escoras para o intelecto, pois colocaram sob suspeita o seu processo natural e o seu movimento espontâneo. Mas tal remédio vinha tarde demais, estando já as coisas perdidas e a mente ocupada pelos usos do convívio cotidiano pelas doutrinas viciosas e pela mais vã idolatria. [4] Pois a dialética, com precauções tardias, como assinalamos, e em nada modificando o andamento das coisas, mais serviu para firmar os erros que descerrar a verdade. Resta, como única salvação, reempreender-se inteiramente a cura da mente. E, nessa via, não seja ela, desde o início, entregue a si mesma, mas permanentemente regulada, como que por mecanis¡mos. Se os homens tivessem empreendido os trabalhos mecânicos uni¡camente com as mãos, sem o arrimo e a força dos instrumentos, do mesmo modo que sem vacilação atacaram as empresas do intelecto, com quase apenas as forças nativas da mente, por certo muito pouco se teria alcançado, ainda que dispusessem para o seu labor de seus extremos recursos.      Considere-se, por um momento, este exemplo que é como um espelho. Imagine-se um obelisco de respeitável tamanho a ser condu¡zido para a magnificência de um triunfo, ou algo análogo, e que devesse ser removido tão-somente pelas mãos dos homens. Não reco¡nheceria nisso o espectador prudente um ato de grande insensatez? E esta não pareceria ainda maior se pelo aumento dos operários se con¡fiasse alcançar o que se pretendia? E, resolvendo fazer uso de algum critério, se se decidisse pôr de lado os fracos e colocar em ação unica¡mente os robustos e vigorosos, esperando com tal medida lograr o propósito colimado, não proclamaria o espectador estarem eles cada vez mais caminhando para o delírio? E, se, ainda não satisfeitos, deci¡dissem, por fim, os dirigentes recorrer à arte atlética e ordenassem a todos se apresentarem logo, com as mãos, os braços e os músculos untados e aprestados, conforme os ditames de tal arte: não exclama¡ria o espectador estarem eles a enlouquecer, já agora com certo cál¡culo e prudência? E se, por outro lado, os homens se aplicassem aos domínios intelectuais, com o mesmo pendor malsão e com aliança tão vã, por mais que esperassem, seja do grande número e da conjunção de forças, seja da excelência e da acuidade de seus engenhos; e, ainda mais, se recorressem, para o revigoramento da mente, à dialética (que pode ser tida como uma espécie de adestramento atlético), parece¡riam, aos que procurassem formar um juízo correto, não terem desis¡tido ainda de usar, sem mais, o mero intelecto, apesar de tanto esforço e zelo. E manifestamente impraticável, sem o concurso de instrumentos ou máquinas, conseguir-se em qualquer grande obra a ser empreendida pela mão do homem o aumento do seu poder, simples¡mente, pelo fortalecimento de cada um dos indivíduos ou pela reunião de muitos deles.      Depois de estabelecermos essas premissas, destacamos dois pon¡tos de que queremos os homens claramente avisados, O primeiro con¡siste em que sejam conservados intactos e sem restrições o respeito e a glória que se votam aos antigos, isso para o bom transcurso de nos¡sos fados e para afastar de nosso espírito contratempos e perturbações. Desse modo, podemos cumprir os nossos propósitos e, ao mesmo tempo, recolher os frutos de nossa discrição. Com efeito, se pretendemos oferecer algo melhor que os antigos e, ainda, seguir al¡guns caminhos por eles abertos, não podemos nunca pretender esca¡par à imputação de nos termos envolvido em comparação ou em con¡tenda a respeito da capacidade de nossos engenhos. Na verdade, nada há aí de novo ou ilícito. Por que, com efeito, não podemos, no uso de nosso direito que, de resto, é o mesmo que o de todos —, reprovar e apontar tudo o que, da parte daqueles, tenha sido estabelecido de modo incorreto? Mas, mesmo sendo justo e legítimo, o cotejo não pareceria entre iguais, em razão da disparidade de nossas forças. Todavia, visto intentarmos a descoberta de vias completamente novas e desconhecidas para o intelecto, a proposição fica alterada. Cessam o cuidado e os partidos, ficando a nós reservado o papel de guia ape¡nas, mister de pouca autoridade, cujo sucesso depende muito mais da boa fortuna que da superioridade de talento. Esta primeira adver¡tência só diz respeito às pessoas. A segunda, à matéria de que nos vamos ocupar.      É preciso que se saiba não ser nosso propósito colocar por terra as filosofias ora florescentes ou qualquer outra que se apresente, com mais favor, por ser mais rica e correta que aquelas. Nem, tampouco, recusamos às filosofias hoje aceitas, ou a outras do mesmo gênero, que nutram as disputas, ornem os discursos, sirvam o mister dos professores e que provejam as demandas da vida civil. De nossa parte, declaramos e proclamamos abertamente que a filosofia que ofe¡recemos não atenderá, do mesmo modo, a essas coisas úteis. Ela não é de pronto acessível, não busca através de prenoções a anuência do intelecto, nem pretende, pela utilidade ou por seus efeitos, pôr-se ao alcance do comum dos homens.      Que haja, pois talvez seja propício para ambas as partes, duas fontes de geração e de propagação de doutrinas. Que haja igualmente duas famílias de cultores da reflexão e da filosofia, com laços de parentesco entre si, mas de modo algum inimigas ou alheia uma da outra, antes pelo contrário coligadas. Que haja, finalmente, dois mé¡todos, um destinado ao cultivo das ciências e outro destinado à desco¡berta científica. Aos que preferem o primeiro caminho, seja por impa¡ciência, por injunções da vida civil, seja pela insegurança de suas mentes em compreender e abarcar a outra via (este será, de longe, o caso da maior parte dos homens), a eles auguramos sejam bem suce¡didos no que escolheram e consigam alcançar aquilo que buscam. Mas aqueles dentre os mortais, mais animados e interessados, não no uso presente das descobertas já feitas, mas em ir mais além; que este¡jam preocupados, não com a vitória sobre os adversários por meio de argumentos, mas na vitória sobre a natureza, pela ação; não em emi¡tir opiniões elegantes e prováveis, mas em conhecer a verdade de forma clara e manifesta; esses, como verdadeiros filhos da ciência, que se juntem a nós, para, deixando para trás os vestíbulos das ciên¡cias, por tantos palmilhados sem resultado, penetrarmos em seus recônditos domínios. E, para sermos melhor atendidos e para maior familiaridade, queremos adiantar o sentido dos termos empregados. Chamaremos ao primeiro método ou caminho de Antecipação da Mente e ao segundo de Interpretação da Natureza .      Para algo mais chamamos a vossa atenção. Procuramos cercar nossas reflexões dos maiores cuidados, não apenas para que fossem verdadeiras, mas também para que não se apresentassem de forma incômoda e árida ao espírito dos homens, usualmente tão atulhado de múltiplas formas de fantasia. Em contrapartida, solicitamos dos homens, sobretudo em se tratando de uma tão grandiosa restauração do saber e da ciência, que todo aquele que se dispuser a formar ou emitir opiniões a respeito do nosso trabalho, quer partindo de seus próprios recursos, da turba de autoridades, quer por meio de demons¡trações (que adquiriram agora a força das leis civis), não se disponha a fazê-lo de passagem e de maneira leviana. Mas que, antes, se inteire bem do nosso tema; a seguir, procure acompanhar tudo o que descrevemos e tudo a que recorremos; procure habituar-se à complexidade das coisas, tal como é revelada pela experiência; procure, enfim, eli¡minar, com serenidade e paciência, os hábitos pervertidos, já profun¡damente arraigados na mente. Aí então, tendo começado o pleno domínio de si mesmo, querendo, procure fazer uso de seu próprio juízo. AFORISMOS SOBRE A INTERPRETAÇÃO DA NATUREZA E O REINO DO HOMEM LIVRO I AFORISMOS   I      O homem, ministro e intérprete da natureza, faz e entende tanto quanto constata, pela observação dos fatos ou pelo trabalho da mente, sobre a ordem da natureza; não sabe nem pode mais. II      Nem a mão nua nem o intelecto, deixados a si mesmos, logram muito. Todos os feitos se cumprem com instrumentos e recursos auxi¡liares, de que dependem, em igual medida, tanto o intelecto quanto as mãos. Assim como os instrumentos mecânicos regulam e ampliam o movimento das mãos, os da mente aguçam o intelecto e o precavêm. III      Ciência e poder do homem coincidem, uma vez que, sendo a causa ignorada, frustra-se o efeito. Pois a natureza não se vence, se não quando se lhe obedece. E o que à contemplação apresenta-se como causa é regra na prática. IV      No trabalho da natureza o homem não pode mais que unir e apartar os corpos. O restante realiza-o a própria natureza, em si mesma. V      No desempenho de sua arte, costumam imiscuir-se na natureza o tísico, o matemático, o médico, o alquimista e o mago. Todos eles, con¡tudo — no presente estado das coisas —, fazem-no com escasso empenho e parco sucesso. VI      Seria algo insensato, em si mesmo contraditório, estimar poder ser realizado o que até aqui não se conseguiu fazer, salvo se se fizer uso de procedimentos ainda não tentados. VII      As criações da mente e das mãos parecem sobremodo numero¡sas, quando vistas nos livros e nos ofícios. Porém, toda essa variedade reside na exímia sutileza e no uso de um pequeno número de fatos já conhecidos e não no número dos axiomas. [5] VIII      Mesmo os resultados até agora alcançados devem-se muito mais ao acaso e a tentativas que à ciência. Com efeito, as ciências que ora possuímos nada mais são que combinações de descobertas anteriores. Não constituem novos métodos de descoberta nem esquemas para novas operações. IX      A verdadeira causa e raiz de todos os males que afetam as ciên¡cias é uma única: enquanto admiramos e exaltamos de modo falso os poderes da mente humana, não lhe buscamos auxílios adequados. X      A natureza supera em muito, em complexidade, os sentidos e o intelecto. Todas aquelas belas meditações e especulações humanas, todas as controvérsias são coisas malsãs. E ninguém disso se apercebe. XI      Tal como as ciências, de que ora dispomos, são inúteis para a invenção de novas obras, do mesmo modo, a nossa lógica atual é inútil para o incremento das ciências. XII      A lógica tal como é hoje usada mais vale para consolidar e per¡petuar erros, fundados em noções vulgares, que para a indagação da verdade, de sorte que é mais danosa que útil. XIII      O silogismo não é empregado para o descobrimento dos princí¡pios das ciências; é baldada a sua aplicação a axiomas intermediá¡rios, pois se encontra muito distante das dificuldades da natureza. Assim é que envolve o nosso assentimento, não as coisas. XIV      O silogismo consta de proposições, as proposições de palavras, as palavras são o signo das noções. Pelo que, se as próprias noções (que constituem a base dos fatos) são confusas e temerariamente abstraídas das coisas, nada que delas depende pode pretender solidez. Aqui está por que a única esperança radica na verdadeira indução. XV      Não há nenhuma solidez nas noções lógicas ou físicas. Substân¡cia, qualidade, ação, paixão , nem mesmo ser, são noções seguras. Muito menos ainda as de pesado, leve, denso, raro, úmido, seco, gera¡ção, corrupção, atração, repulsão, elemento, matéria, forma e outras do gênero. Todas são fantásticas e mal definidas. XVI      As noções das espécies inferiores, como as de homem, cão, pomba , e as de percepção imediata pelos sentidos, como quente, frio, branco, negro , não estão sujeitas a grandes erros. Mas mesmo estas, devido ao fluxo da matéria e combinação das coisas, também por vezes se confundem. Tudo o mais que o homem até aqui tem usado são aberrações, não foram abstraídas e levantadas das coisas por procedimentos devidos. XVII      Não é menor que nas noções o capricho e a aberração na consti¡tuição dos axiomas. Vigem aqui os mesmos princípios da indução vulgar. E isso ocorre em muito maior grau nos axiomas e proposições que se alcançam pelo silogismo. XVIII      Os descobrimentos até agora feitos de tal modo são que, quase só se apoiam nas noções vulgares. Para que se penetre nos estratos mais profundos e distantes da natureza, é necessário que tanto as noções quanto os axiomas sejam abstraídos das coisas por um méto¡do mais adequado e seguro, e que o trabalho do intelecto se torne me¡lhor e mais correto. XIX      Só há e só pode haver duas vias para a investigação e para a des¡coberta da verdade. Uma, que consiste no saltar-se das sensações e das coisas particulares aos axiomas mais gerais e, a seguir, descobri¡rem-se os axiomas intermediários a partir desses princípios e de sua inamovível verdade. Esta é a que ora se segue. A outra, que recolhe os axiomas dos dados dos sentidos e particulares, ascendendo contínua e gradualmente até alcançar, em último lugar, os princípios de máxima generalidade. Este é o verdadeiro caminho, porém ainda não instaurado. XX      Na primeira das vias o intelecto deixado a si mesmo acompanha e se fia nas forças da dialética. Pois a mente anseia por ascender aos princípios mais gerais para aí então se deter. A seguir, desdenha a experiência. E tais males são incrementados pela dialética, na pompa de suas disputas. XXI      O intelecto, deixado a si mesmo, na mente sóbria, paciente e grave, sobretudo se não está impedida pelas doutrinas recebidas, tenta algo na outra via, na verdadeira, mas com escasso proveito. Porque o intelecto não regulado e sem apoio é irregular e de todo inábil para superar a obscuridade das coisas. XXII      Tanto uma como a outra via partem dos sentidos e das coisas particulares e terminam nas formulações da mais elevada generali¡dade. Mas é imenso aquilo em que discrepam. Enquanto que uma per¡passa na carreira pela experiência e pelo particular, a outra aí se detém de forma ordenada, como cumpre. Aquela, desde o início, esta¡belece certas generalizações abstratas e inúteis; esta se eleva gradual¡mente àquelas coisas que são realmente as mais comuns na natureza. XXIII      Não é pequena a diferença existente entre os ídolos da mente hu¡mana e as idéias [6] da mente divina, ou seja, entre opiniões inúteis e as verdadeiras marcas e impressões gravadas por Deus nas criaturas. tais como de fato se encontram. XXIV      De modo algum se pode admitir que os axiomas constituídos pela argumentação valham para a descoberta de novas verdades, pois a profundidade da natureza supera de muito o alcance do argumento. Mas os axiomas reta e ordenadamente abstraídos dos fatos particulares, estes sim, facilmente indicam e designam novos fatos particulares e, por essa via, tornam ativas as ciências. XXV      Os axiomas ora em uso decorrem de experiência rasa e estreita e a partir de poucos fatos particulares, que ocorrem com freqüência; e estão adstritos à sua extensão. Daí não espantar que não levem a novos fatos particulares. Assim, se caso alguma instância [7] não antes advertida ou cogitada se apresenta, graças a alguma distinção frívola procura-se salvar o axioma, quando o mais verdadeiro seria corrigi-lo. XXVI      Para efeito de explanação, chamamos à forma ordinária da ra¡zão humana voltar-se para o estudo da natureza de antecipações da natureza (por se tratar de intento temerário e prematuro). E à que procede da forma devida, a partir dos fatos, designamos por interpretação da natureza. XXVII      As antecipações são fundamento satisfatório para o consenso, [8] pois, se todos os homens se tornassem da mesma forma insanos, poderiam razoavelmente entender-se entre si. XXVIII      Ainda mais, as antecipações são de muito mais valia para lograr o nosso assentimento, que as interpretações; pois, sendo coligidas a partir de poucas instâncias e destas as que mais familiarmente ocor¡rem, desde logo empolgam o intelecto e enfunam a fantasia; enquanto que as interpretações, pelo contrário, sendo coligidas a partir de múl¡tiplos fatos, dispersos e distanciados, não podem, de súbito, tocar o intelecto, de tal modo que, à opinião comum, podem parecer quase tão duras e dissonantes quanto os mistérios da fé. XXIX      Nas ciências que se fundam nas opiniões e nas convenções é bom o uso das antecipações e da dialética, já que se trata de submeter o assentimento e não as coisas. XXX      Mesmo que se reunissem, se combinassem e se conjugassem os engenhos de todos os tempos, não se lograria grande progresso nas ciências, através das antecipações, porque os erros radicais perpe¡trados na mente, na primeira disposição, não se curariam nem pela excelência das operações nem pelos remédios subseqüentes. XXXI      Vão seria esperar-se grande aumento nas ciências pela superpo¡sição ou pelo enxerto do novo sobre o velho. É preciso que se faça uma restauração da empresa a partir do âmago de suas fundações, se não se quiser girar perpetuamente em círculos, com magro e quase desprezível progresso. XXXII      A glória dos antigos, como a dos demais, permanece intata, pois não se estabelecem comparações entre engenhos e capacidades, mas de métodos. Não nos colocamos no papel de juiz, mas de guia. XXXIII      Seja dito claramente que não pode ser formulado um juízo corre¡to nem sobre o nosso método nem sobre as suas descobertas pelo cri¡tério corrente — as antecipações; pois não nos podem pedir o acolhi¡mento do juízo cuja própria base está em julgamento. XXXIV      Não é, com efeito, empresa fácil transmitir e explicar o que pretendemos, porque as coisas novas são sempre compreendidas por analogia com as antigas. XXXV      Disse Bórgia, da expedição dos franceses à Itália, que vieram com o giz nas mãos para marcar os seus alojamentos, e não com armas para forçar passagem. Nosso propósito é semelhante: que a nossa doutrina se insinue nos espíritos idôneos e capazes. Não faze¡mos uso da refutação quando dissentimos a respeito dos princípios, dos próprios conceitos e formas da demonstração. XXXVI      Resta-nos um único e simples método, para alcançar os nossos intentos: levar os homens aos próprios fatos particulares e às suas sé¡ries e ordens, a fim de que eles, por si mesmos, se sintam obrigados a renunciar às suas noções e comecem a habituar-se ao trato direto das coisas. XXXVII      Coincidem, até certo ponto, em seu inicio, o nosso e o método daqueles que usaram da acatalepsia . Mas nos pontos de chegada, imensa distância nos separa e opõe. Aqueles, com efeito, afirmaram cabalmente que nada pode ser conhecido. De nossa parte, dizemos que não se pode conhecer muito acerca da natureza, com auxílio dos procedimentos ora em uso. E, indo mais longe, eles destroem a autori¡dade dos sentidos e do intelecto, enquanto que nós, ao contrário, lhes inventamos e subministramos auxílios. XXXVIII      Os ídolos e noções falsas que ora ocupam o intelecto humano e nele se acham implantados não somente o obstruem a ponto de ser difícil o acesso da verdade, como, mesmo depois de seu pórtico logra¡do e descerrado, poderão ressurgir como obstáculo à própria instau¡ração das ciências, a não ser que os homens, já precavidos contra eles, se cuidem o mais que possam. XXXIX      São de quatro gêneros os ídolos que bloqueiam a mente humana. Para melhor apresentá-los, lhes assinamos nomes, a saber: Ídolos da Tribo; Ídolos da Caverna; Ídolos do Foro e Ídolos do Teatro . [9] XL      A formação de noções e axiomas pela verdadeira indução é, sem dúvida, o remédio apropriado para afastar e repelir os ídolos. Será, contudo, de grande préstimo indicar no que consistem, posto que a doutrina dos ídolos tem a ver com a interpretação da natureza o mesmo que a doutrina dos elencos sofísticos com a dialética vulgar. XLI      Os ídolos da tribo estão fundados na própria natureza humana, na própria tribo ou espécie humana. E falsa a asserção de que os sen¡tidos do homem são a medida das coisas. Muito ao contrário, todas as percepções, tanto dos sentidos como da mente, guardam analogia com a natureza humana e não com o universo. O intelecto humano é semelhante a um espelho que reflete desigualmente os raios das coisas e, dessa forma, as distorce e corrompe. XLII      Os ídolos da caverna [10] são os dos homens enquanto indivíduos. Pois, cada um — além das aberrações próprias da natureza humana em geral — tem uma caverna ou uma cova que intercepta e corrompe a luz da natureza: seja devido à natureza própria e singular de cada um; seja devido à educação ou conversação com os outros; seja pela leitura dos livros ou pela autoridade daqueles que se respeitam e admiram; seja pela diferença de impressões, segundo ocorram em ânimo preocupado e predisposto ou em ânimo equânime e tranqüilo; de tal forma que o espírito humano — tal como se acha disposto em cada um — é coisa vária, sujeita a múltiplas perturbações, e até certo ponto sujeita ao acaso. Por isso, bem proclamou Heráclito [11] que os homens buscam em seus pequenos mundos e não no grande ou universal. XLIII      Há também os ídolos provenientes, de certa forma, do intercurso e da associação recíproca dos indivíduos do gênero humano entre si , a que chamamos de ídolos do foro devido ao comércio e consórcio entre os homens. Com efeito, os homens se associam graças ao discurso, [12] e as palavras são cunhadas pelo vulgo. E as palavras, impostas de maneira imprópria e inepta, bloqueiam espantosamente o intelecto. Nem as definições, nem as explicações com que os homens doutos se munem e se defendem, em certos domínios, restituem as coi¡sas ao seu lugar. Ao contrário, as palavras forçam o intelecto e o per¡turbam por completo. E os homens são, assim, arrastados a inúmeras e inúteis controvérsias e fantasias. XLIV      Há, por fim , ídolos que imigraram para o espírito dos homens por meio das diversas doutrinas filosóficas e também pelas regras viciosas da demonstração. São os ídolos do teatro : por parecer que as filosofias adotadas ou inventadas são outras tantas fábulas, produzi¡das e representadas, que figuram mundos fictícios e teatrais. Não nos referimos apenas às que ora existem ou às filosofias e seitas dos anti¡gos. Inúmeras fábulas do mesmo teor se podem reunir e compor, por que as causas dos erros mais diversos são quase sempre as mesmas. Ademais, não pensamos apenas nos sistemas filosóficos, na universalidade, mas também nos numerosos princípios e axiomas das ciências que entraram em vigor, mercê da tradição, da credulidade e da negligência. Contudo, falaremos de forma mais ampla e precisa de cada gênero de ídolo, para que o intelecto humano esteja acautelado. XLV      O intelecto humano, mercê de suas peculiares propriedades, facilmente supõe maior ordem e regularidade nas coisas que de fato nelas se encontram. Desse modo, como na natureza existem muitas coisas singulares e cheias de disparidades, aquele imagina paralelismos, correspondências e relações que não existem. Daí a suposição de que no céu todos os corpos devem mover-se em círculos perfeitos , rejeitando por completo linhas espirais e sinuosas, a não ser em nome. Daí, do mesmo modo, a introdução do elemento fogo com sua órbita, para constituir a quaderna com os outros três elementos que os senti¡dos apreendem. Também de forma arbitrária se estabelece, para os chamados elementos, que o aumento respectivo de sua rarefação se processa em proporção de um para dez, e outras fantasias da mesma ordem. E esse engano prevalece não apenas para elaboração de teo¡rias como também para as noções mais simples. XLVI      O intelecto humano, quando assente em uma convicção (ou por já bem aceita e acreditada ou porque o agrada), tudo arrasta para seu apoio e acordo. E ainda que em maior número, não observa a força das instâncias contrárias, despreza-as, ou, recorrendo a distinções, põe-nas de parte e rejeita, não sem grande e pernicioso prejuízo. Gra¡ças a isso, a autoridade daquelas primeiras afirmações permanece inviolada. E bem se houve aquele que, ante um quadro pendurado no templo, como ex-voto dos que se salvaram dos perigos de um naufrá¡gio, instado a dizer se ainda se recusava a aí reconhecer a providência dos deuses, indagou por sua vez: “E onde estão pintados aqueles que, a despeito do seu voto, pereceram?” [13] Essa é a base de praticamente toda superstição, trate-se de astrologia, interpretação de sonhos, augúrios e que tais: encantados, os homens, com tal sorte de quimeras, marcam os eventos em que a predição se cumpre; quando falha o que é bem mais freqüente —, negligenciam-nos e passam adian¡te. Esse mal se insinua de maneira muito mais sutil na filosofia e nas ciências. Nestas, o de início aceito tudo impregna e reduz o que segue. até quando parece mais firme e aceitável. Mais ainda: mesmo não estando presentes essa complacência e falta de fundamento a que nos referimos, o intelecto humano tem o erro peculiar e perpétuo de mais se mover e excitar pelos eventos afirmativos que pelos negativos, quando deveria rigorosa e sistematicamente atentar para ambos. Vamos mais longe: na constituição de todo axioma verdadeiro, têm mais força as instâncias negativas. XLVII      O intelecto humano se deixa abalar no mais alto grau pelas coi¡sas que súbita e simultaneamente se apresentam e ferem a mente e ao mesmo tempo costumam tomar e inflar a imaginação. E a partir disso passa a conceber e supor, conquanto que imperceptivelmente, tudo o mais, do mesmo modo que o pequeno número de coisas que ocupam a mente. Contudo, para cumprir o percurso até os fatos remotos e heterogêneos, pelos quais os axiomas se provam como pelo fogo — a não ser que duras leis e violenta autoridade o imponham , mostra-se tardo e inepto. XLVIII      O intelecto humano se agita sempre, não se pode deter ou repou¡sar, sempre procura ir adiante. Mas sem resultado. Daí ser impensá¡vel, inconcebível que haja um limite extremo e último do mundo. Antes, sempre ocorre como necessária a existência de mais algo além. Nem tampouco se pode cogitar de como a eternidade possa ter trans¡corrido até os dias presentes, posto que a distinção geralmente aceita do infinito, como comportando uma parte já transcorrida e uma parte ainda por vir, não pode de modo algum subsistir, em vista de que se seguiria o absurdo de haver um infinito maior que outro, como se o infinito pudesse consumir-se no finito. Semelhante é o problema da divisibilidade da reta ao infinito, coisa impossível de ser pensada. Mas de maneira mais perniciosa se manifesta essa incapacidade da mente na descoberta das causas: pois, como os princípios universais da natureza, tais como são encontrados, devem ser positivos, não podem ter uma causa. Mas, mesmo assim, o intelecto humano, que se não pode deter, busca algo. Então, acontece que buscando o que está mais além acaba por retroceder ao que está mais próximo, seja, as causas finais, que claramente derivam da natureza do homem e não do universo. Aí está mais uma fonte que por mil maneiras concorre para a corrupção da filosofia. Há tanta imperícia e leviandade dessa espécie de filósofos, na busca das causas do que é universal, quanto desinteresse pelas causas dos fatos secundários e subalternos. [14] XLIX      O intelecto humano não é luz pura, [15] pois recebe influência da vontade e dos afetos, donde se poder gerar a ciência que se quer. Pois o homem se inclina a ter por verdade o que prefere. Em vista disso, rejeita as dificuldades, levado pela impaciência da investigação; a sobriedade, porque sofreia a esperança; os princípios supremos da natureza, em favor da superstição; a luz da experiência, em favor da arrogância e do orgulho, evitando parecer se ocupar de coisas vis e efêmeras; paradoxos, por respeito à opinião do vulgo. Enfim, inúme¡ras são as fórmulas pelas quais o sentimento, quase sempre impercep¡tivelmente, se insinua e afeta o intelecto. L      Mas os maiores embaraços e extravagâncias do intelecto provêm da obtusidade, da incompetência e das falácias dos sentidos. E isso ocorre de tal forma que as coisas que afetam os sentidos preponderam sobre as que, mesmo não o afetando de imediato, são mais importan¡tes. Por isso, a observação não ultrapassa os aspectos visíveis das coi¡sas, sendo exígua ou nula a observação das invisíveis. Também esca¡pam aos homens todas as operações dos espíritos latentes nos corpos sensíveis. Permanecem igualmente desconhecidas as mudanças mais sutis de forma das partes das coisas mais grossas (o vulgo sói chamar a isso de alteração, quando na verdade se trata de translação) em espaços mínimos. [16] Até que fatos, como os dois que indicamos, não sejam investigados e esclarecidos, nenhuma grande obra poderá ser empreendida na natureza. E ainda a própria natureza do ar comum, bem como de todos os corpos de menor densidade (que são muitos), é quase por completo desconhecida. Na verdade, os sentidos, por si mesmos, são algo débil e enganador, nem mesmo os instrumentos des¡tinados a ampliá-los e aguçá-los são de grande valia. E toda verda¡deira interpretação da natureza se cumpre com instâncias e experi¡mentos oportunos e adequados, onde os sentidos julgam somente o experimento e o experimento julga a natureza e a própria coisa. LI      O intelecto humano, por sua própria natureza, tende ao abstrato, e aquilo que flui, permanente lhe parece. Mas é melhor dividir em par¡tes a natureza que traduzi-la em abstrações. Assim procedeu a escola de Demócrito, que mais que as outras penetrou os segredos da nature¡za. O que deve ser sobretudo considerado é a matéria, os seus esquematismos , os metaesquematismos , o ato puro , e a lei do ato , que é o movimento. As formas são simples ficções do espírito humano, a não ser que designemos por formas as próprias leis do ato. [17] LII      Tais são os ídolos a que chamamos de ídolos da tribo, que têm origem na uniformidade da substância espiritual do homem, ou nos seus preconceitos, ou bem nas suas limitações, ou na sua contínua instabilidade; ou ainda na interferência dos sentimentos ou na incom¡petência dos sentidos ou no modo de receber impressões. LIII      Os ídolos da caverna têm origem na peculiar constituição da alma e do corpo de cada um; e também na educação, no hábito ou em eventos fortuitos. Como as suas espécies são múltiplas e várias, indi¡caremos aquelas com que se deve ter mais cuidado, por se tratar das que têm maior alcance na turbação da limpidez do intelecto. LIV      Os homens se apegam às ciências e a determinados assuntos, ou por se acreditarem seus autores ou descobridores, ou por neles muito se terem empenhado e com eles se terem familiarizado. Mas essa espé¡cie de homens, quando se dedica à filosofia e a especulações de cará¡ter geral, distorce e corrompe-as em favor de suas anteriores fanta¡sias. Isso pode ser especialmente observado em Aristóteles que de tal modo submete a sua filosofia natural à lógica que a tornou quase inú¡til e mais afeita a contendas. A própria estirpe dos alquimistas elabo¡ra uma filosofia fantástica e de pouco proveito, porque fundada em alguns poucos experimentos levados a cabo em suas oficinas. Assim também Gilbert, [18] que, depois de laboriosamente haver observado o magneto, logo concebeu uma filosofia toda conforme ao seu principal interesse. LV      A maior e talvez a mais radical diferença que distingue os enge¡nhos, em relação à filosofia e às ciências, está em que alguns são mais capazes e aptos para notar as diferenças das coisas, outros para as suas semelhanças. Com efeito, os engenhos constantes e agudos podem fixar, deter e dedicar a sua atenção às diferenças mais sutis. De outra parte, os engenhos altaneiros e discursivos reconhecem e combinam as mais gerais e sutis semelhanças das coisas. Mas tanto uns como outros podem facilmente incorrer no exagero, captando em um caso a graduação das coisas, em outro as aparências. LVI      É desse modo que se estabelecem as preferências pela Antigui¡dade ou pelas coisas novas. Poucos são os temperamentos que conse¡guem a justa medida, ou seja, não desprezar o que é correto nos anti¡gos, sem deixar de lado as contribuições acertadas dos modernos. E é o que tem causado grandes danos tanto às ciências quanto à filosofia, pois faz-se o elogio da Antiguidade ou das coisas novas e não o seu julgamento. A verdade não deve, porém, ser buscada na boa fortuna de uma época, que é inconstante, mas à luz da natureza e da experiên¡cia, que é eterna. Em vista disso, todo entusiasmo deve ser afastado e deve-se cuidar para que o intelecto não se desvie e seja por ele arreba¡tado em seus juízos. LVII      O estudo da natureza e dos corpos em seus elementos simples fraciona e abate o intelecto, enquanto que o estudo da natureza e da composição e da configuração dos corpos o entorpece e desarticula. Isto se pode muito bem observar na escola de Leucipo e Demócrito, se se compara com as demais filosofias. Aquela, com efeito, de tal modo se preocupa com as partículas das coisas que negligencia a sua estrutura; as outras, por seu turno, ficam de tal modo empolgadas na consideração da estrutura que não penetram nos elementos simples da natureza. Assim, pois, se devem alternar ambas as formas de observa¡ção e adotar cada uma por sua vez, para que se torne a um tempo penetrante e capaz e se possam afastar os inconvenientes apontados, bem como os ídolos deles provenientes. LVIII      Essa seja a prudência a ser adotada nas especulações para que se contenham e desalojem os ídolos da caverna, os quais provêm de al¡guma disposição predominante no estudo, ou do excesso de síntese ou de análise, ou do zelo por certas épocas, ou ainda da magnitude ou pequenez dos objetos considerados. Todo estudioso da natureza deve ter por suspeito o que o intelecto capta e retém com predileção. Em vista disso, muito grande deve ser a precaução para que o intelecto se mantenha íntegro e puro. LIX      Os ídolos do foro são de todos os mais perturbadores: insi¡nuam-se no intelecto graças ao pacto de palavras e de nomes. Os homens, com efeito, crêem que a sua razão governa as palavras. Mas sucede também que as palavras volvem e refletem suas forças sobre o intelecto, o que torna a filosofia e as ciências sofisticas e inativas. As palavras, tomando quase sempre o sentido que lhes inculca o vulgo seguem a linha de divisão das coisas que são mais potentes ao intelecto vulgar. Contudo, quando o intelecto mais agudo e a observação mais diligente querem transferir essas linhas para que coincidam mais adequadamente com a natureza, as palavras se opõem. Daí suceder que as magnas e solenes disputas entre os homens doutos, com freqüência, acabem em controvérsias em torno de palavras e nomes, caso em que melhor seria (conforme o uso e a sabedoria dos matemá¡ticos) restaurar a ordem, começando pelas definições. E mesmo as definições não podem remediar totalmente esse mal, tratando-se de coisas naturais e materiais, posto que as próprias definições constam de palavras e as palavras engendram palavras. Donde ser necessário o recurso aos fatos particulares e às suas próprias ordens e séries, como depois vamos enunciar, quando se expuser o método e o modo de constituição das noções e dos axiomas. LX      Os ídolos que se impõem ao intelecto através das palavras são de duas espécies. Ou são nomes de coisas que não existem (pois do mesmo modo que há coisas sem nome, por serem despercebidas, assim também há nomes por mera suposição fantástica, a que não correspondem coisas), ou são nomes de coisas que existem, mas confu¡sos e mal determinados e abstraídos das coisas, de forma temerária e inadequada. À primeira espécie pertencem: a fortuna, o primeiro móvel, as órbitas planetárias, o elemento do fogo e ficções semelhan¡tes, que têm origem em teorias vazias e falsas. Essa espécie de ídolos é a mais fácil de se expulsar, pois se pode exterminá-los pela cons¡tante refutação e ab-rogação das teorias que os amparam. Mas a outra espécie é mais complexa e mais profundamente arraigada por se ter formado na abstração errônea e inábil. Tome-se como exemplo a palavra úmido e enumerem-se os significados que pode assumir. Descobriremos que esta palavra úmido compila notas confusas de operações diversas que nada têm em comum ou que não são irredutí¡veis. Significa, com efeito, tudo o que se expande facilmente em torno de outro corpo; tudo o que é em si mesmo indeterminável e não pode ter consistência; tudo o que facilmente cede em todos os sentidos; tudo o que facilmente se divide e dispersa; tudo o que se une e junta facilmente; tudo o que facilmente adere a outro corpo e molha; tudo o que facilmente se reduz a liquido, se antes era sólido. De sorte que se pode predicar e impor a palavra úmido em um determinado senti¡do, “a chama é úmida”; em outro, “o ar não é úmido”; em outro, “o pó fino é úmido”; e em outro, ainda, “o vidro é úmido”. Daí facil¡mente transparece que esta noção foi abstraída de forma leviana ape¡nas da água e dos líquidos correntes e vulgares, sem qualquer ade¡quada verificação posterior      Há, contudo, nas palavras certos graus de distorção e erro. O gê¡nero menos nefasto é o dos nomes de substâncias particulares, em especial as de espécies inferiores, bem deduzidas. Assim as noções de greda e lodo são boas; a de terra, má. Mais deficientes são as palavras que designam ação, tais como: gerar, corromper, alterar. As mais prejudiciais são as que indicam qualidades (com exceção dos objetos imediatos da sensação), como: pesado, leve, tênue, denso, etc. Toda¡via, em todos esses casos pode suceder que certas noções sejam um pouco melhores que as demais, como ocorre com as que designam coisas que os sentidos humanos alcançam com mais freqüência. LXI      Por sua vez, os ídolos do teatro não são inatos, nem se insinua¡ram às ocultas no intelecto, mas foram abertamente incutidos e rece¡bidos por meio das fábulas dos sistemas e das pervertidas leis de demonstração. Porém, tentar e sustentar a sua refutação não seria consentâneo com o que vimos afirmando. Pois, se não estamos de acordo nem com os princípios nem com as demonstrações, não se ad¡mite qualquer argumentação. O que, ademais, é um favor dos fados, pois dessa forma é respeitada a glória dos antigos. Nada se lhes sub¡trai, já que se trata de uma questão de método. Um coxo (segundo se diz) no caminho certo, chega antes que um corredor extraviado, e o mais hábil e veloz, correndo fora do caminho, mais se afasta de sua meta, O nosso método de descobrir a verdadeira ciência é de tal sorte que muito pouco deixa à agudeza e robustez dos engenhos; mas, ao contrário, pode-se dizer que estabelece equivalência entre engenhos e intelectos. Assim como para traçar uma linha reta ou um círculo per¡feito, perfazendo-os a mão, muito importam a firmeza e o desempe¡nho, mas pouco ou nada importam usando a régua e o compasso. O mesmo ocorre com o nosso método. Ainda que seja de utilidade nula a refutação particular de sistemas, diremos algo das seitas e teorias e, a seguir, dos signos exteriores que denotam a sua falsidade; e, por úl¡timo, das causas de tão grande infortúnio e tão constante e generali¡zado consenso no erro. E isso para que se torne menos difícil o acesso à verdade e o intelecto humano com mais disposição se purifique e os ídolos possa derrogar. LXII      Os ídolos do teatro, ou das teorias, são numerosos, e podem ser, e certamente o serão, ainda em muito maior número. Com efeito, se já por tantos séculos não tivesse a mente humana se ocupado de religião e teologia; e se os governos civis (principalmente as monarquias) não tivessem sido tão adversos para com as novidades, mesmo nas espe¡culações filosóficas a tal ponto que os homens que as tentam sujei¡tam-se a riscos, ao desvalimento de sua fortuna, e, sem nenhum prê¡mio, expõem-se ao desprezo e ao ódio; se assim não fosse, sem dúvida, muitas outras seitas filosóficas e outras teorias teriam sido introduzidas, tais como floresceram tão grandemente diversificadas entre os gregos. Pois, do mesmo modo que se podem formular muitas teorias do céu [19] a partir dos fenômenos celestes; igualmente, com mais razão, sobre os fenômenos de que se ocupa a filosofia se podem fundar e constituir muitos dogmas. E acontece com as fábulas deste teatro o mesmo que no teatro dos poetas. As narrações feitas para a cena são mais ordenadas e elegantes e aprazem mais que as verdadeiras narrações tomadas da história.      Mas em geral supõe-se para matéria da filosofia ou muito a par¡tir de pouco ou pouco a partir de muito. Assim, a filosofia se acha fundada, em ambos os casos, numa base de experiência e história natural excessivamente estreita e se decide a partir de um número de dados muito menor que o desejável. Assim, a escola racional [20] se apodera de um grande número de experimentos vulgares, não bem comprovados e nem diligentemente examinados e pensados, e o mais entrega à meditação e ao revolver do engenho.      Há também outra espécie de filósofos que se exercitaram, de forma diligente e acurada, em um reduzido número de experimentos e disso pretenderam deduzir e formular sistemas filosóficos acabados, ficando, estranhamente, os fatos restantes à imagem daqueles poucos distorcidos.      E há uma terceira espécie de filósofos, os quais mesclam sua filo¡sofia com a teologia e a tradição amparada pela fé e pela veneração das gentes. Entre esses, há os que, levados pela vaidade, pretenderam estabelecer e deduzir as ciências da invocação de espíritos e gênios. [21] Dessa forma, são de três tipos as fontes dos erros e das falsas filoso¡fias: a sofística, a empírica e a supersticiosa. LXIII      O mais conspícuo exemplo da primeira é o de Aristóteles, que corrompeu com sua dialética a filosofia natural: ao formar o mundo com base nas categorias; ao atribuir à alma humana, a mais nobre das substâncias, um gênero extraído de conceitos segundos; [22] ao tra¡tar da questão da densidade e da rarefação, com que se indica se os corpos ocupam maiores ou menores extensões, conforme suas dimen¡sões, por meio da fria distinção de potência e ato; ao conferir a cada corpo apenas um movimento próprio, afirmando que, se o corpo par¡ticipa de outro movimento, este provém de uma causa externa; ao impor à natureza das coisas inumeráveis distinções arbitrárias, mostrando-se sempre mais solícito em formular respostas e em apre¡sentar algo positivo nas palavras do que a verdade íntima das coisas. Isso se torna mais manifesto quando se compara a sua filosofia com as filosofias que eram mais celebradas entre os gregos. Sem dúvida, as homeomerias, de Anaxágoras; os átomos, de Leucipo e Demócrito; o céu e a terra, de Parmênides; a discórdia e a amizade, de Empédocles; a resolução dos corpos na adiáfora natureza do fogo e o seu retorno ao estado sólido, de Heráclito, sabem a filosofia natural, a natureza das coisas, experiência e corpos. [23] Mas na Física , de Aristóteles, na maior parte dos casos, não ressoam mais que as vozes de sua dialética. Retoma-a na sua Metafísica , sob nome mais solene, e mais como rea¡lista que nominalista. A ninguém cause espanto que no Livro dos Animais e nos Problemas , e em outros tratados, ocupe-se freqüentemente de experimentos. Pois Aristóteles estabelecia antes as conclu¡sões, não consultava devidamente a experiência para estabelecimento de suas resoluções e axiomas. E tendo, ao seu arbítrio, assim decidi¡do, submetia a experiência como a uma escrava para conformá-la às suas opiniões. Eis por que está a merecer mais censuras que os seus seguidores modernos, os filósofos escolásticos, que abandonaram totalmente a experiência. LXIV      A escola empírica de filosofia engendra opiniões mais disformes e monstruosas que a sofistica ou racional. As suas teorias não estão baseadas nas noções vulgares (pois estas, ainda que superficiais, são de qualquer maneira universais e, de alguma forma, se referem a um grande número de fatos), mas na estreiteza de uns poucos e obscuros experimentos. Por isso, uma tal filosofia parece, aos que se exerci¡taram diariamente nessa sorte de experimentos, contaminando a sua imaginação, mais provável, e mesmo quase certa; mas aos demais apresenta-se como indigna de crédito e vazia. Há na alquimia, nas suas explicações, um notável exemplo do que se acaba de dizer. Em nossos dias não se encontram muitos desses casos, exceção feita tal¡vez à filosofia de Gilbert. Contudo, em relação a tais sistemas filosófi¡cos, não se pode renunciar à cautela. Desde já, prevenimos e augura¡mos que quando os homens, conduzidos por nossos conselhos, se voltem de verdade para a experiência, afastando-se das doutrinas sofisticas, pode ocorrer que, devido à impaciência e à precipitação do intelecto, saltem ou mesmo voem às leis gerais e aos princípios das coisas. Um grande perigo, pois, pode advir dessas filosofia e contra ele nos devemos acautelar desde já. LXV      Mas a corrupção da filosofia, advinda da superstição e da mescla com a teologia, vai muito além e causa danos tanto aos sistemas inteiros da filosofia quanto às suas partes, pois o intelecto humano não está menos exposto às impressões da fantasia que às das noções vulgares. A filosofia sofistica, afeita que é às disputas, aprisiona o intelecto, mas esta outra, fantasiosa e inflada, e quase poética, perde-o muito mais com suas lisonjas. Pois há no homem uma ambição inte¡lectual que não é menor que a ambição da vontade. Isso acontece, sobretudo, nos espíritos preclaros e elevados.      Na Grécia, encontram-se exemplos típicos de tais filosofias, sendo o caso, antes dos demais, de Pitágoras, onde aparecem aliadas a uma superstição tosca e grosseira. Mais perigoso e sutil é o exemplo de Platão e sua escola. [24] Encontra-se também este mal, parcialmente, nas restantes filosofias, onde são introduzidas formas abstratas, cau¡sas finais e causas primeiras, omitindo-se quase sempre as causas intermediárias. Diante disso, toda precaução deve ser tomada, pois nada há de pior que a apoteose dos erros, e como uma praga para o intelecto a veneração votada às doutrinas vãs. Alguns modernos incorreram em tal inanidade que, com grande leviandade, tentaram construir uma filosofia natural sobre o primeiro capítulo do Gêneses. sobre o Livro de Jó e sobre outros livros das Sagradas Escrituras, buscando assim os mortos entre os vivos. [25] É da maior importância coibir-se e frear esta inanidade, tanto mais que dessa mescla danosa de coisas divinas e humanas não só surge uma filosofia absurda, como também uma religião herética. Em vista do que é sobremodo salutar outorgar-se, com sóbrio espírito, à fé o que à fé pertence. LXVI      Já falamos da falsa autoridade das filosofias fundadas nas noções vulgares, sobre poucos experimentos e na superstição. Deve-se falar, igualmente, da falsa direção que toma a especulação particularmente na filosofia natural. O intelecto humano se deixa contagiar pela visão dos fenômenos que acontecem nas artes mecânicas, onde os corpos sofrem alterações por um processo de composição e separa¡ção, daí surgindo o pensamento de que algo semelhante se passa na própria natureza. Aqui tem a sua origem aquela ficção dos elementos e de seu concurso para a constituição dos corpos naturais. De outro lado, quando o homem contempla o livre jogo da natureza, logo chega ao descobrimento das espécies naturais, dos animais, das plan¡tas e dos minerais; donde ocorre pensar que também na natureza exis¡tem formas primárias das coisas, que a própria natureza tende a tor¡nar manifestas, e que a variedade dos indivíduos tem sua origem nos obstáculos e desvios que a natureza sofre em seu trabalho ou no con¡flito de diversas espécies ou na superposição de uma sobre a outra. A primeira dessas cogitações nos valeu as qualidades elementares primárias, a segunda, as propriedades ocultas e as virtudes específi¡cas. Ambas constituem um resumo das explicações sem sentido, com as quais se entretém o espírito, distanciando-se das coisas mais importantes.      É maior o êxito do trabalho que os médicos dedicam ao estudo das qualidades secundárias das coisas e de suas operações como a atração , a repulsão, a rarefação e a condensação , a dilatação , a contração , a dissipação e a maturação e outras análogas. E tirariam muito maior proveito, se não comprometessem, com os conceitos mencionados de qualidades elementares e de virtudes específicas, os fenômenos bem observados, reduzindo-os a qualidades primárias e às suas combinações sutis e incomensuráveis, esquecendo-se de levá¡-los, com maior e mais diligente observação, até às qualidades tercei¡ras ou quartas, sem romper intempestivamente a linha da observação. Virtudes, se não idênticas, pelo menos semelhantes, devem ser buscadas não apenas nas medicinas para o corpo humano, mas também nas mudanças de todos os demais corpos naturais.      Maior prejuízo acarreta o fato de se limitar a reflexão e a indaga¡ção aos princípios quiescentes dos quais derivam as coisas, e não con¡siderar os princípios motores pelos quais se produzem as coisas, já que os primeiros servem aos discursos, os segundos à prática. Tam¡pouco, têm qualquer valor as distinções vulgares do movimento que sob o nome de geração, corrupção, aumento, diminuição, alteração e translação se admitem na filosofia natural. Pois, em última instância, não dizem mais que o seguinte: há translação quando um corpo, sem sofrer outra mudança, muda de lugar; alteração quando, sem mudar de lugar, nem espécie, muda de qualidade; se, em virtude da mudança, a massa e quantidade de corpo não permanecem as mesmas, então, há aumento ou diminuição ; e se a mudança é de tal ordem que trans¡forma a própria espécie e substância da coisa em outra diferente, então há geração e corrupção . Mas tudo isso é meramente popular e não penetra a natureza, pois indica as medidas e os períodos e não as espécies de movimento. Indica até onde e não como e de que fonte surgem. E tais conceitos nada dizem acerca da tendência natural dos corpos e nem do processo de suas partes. Eles apenas são aplicáveis quando o movimento introduz modificações evidentes na coisa, a ponto de serem imediatamente sensíveis, e é dessa forma que também estabelecem as suas distinções. Mesmo quando procuram dizer algo a respeito das causas do movimento e estabelecer uma divisão em. virtu¡de das mesmas, apresentam, revelando uma absoluta negligência, a distinção entre movimento natural e violento, que também tem sua origem em conceitos vulgares, posto que realmente, todo movimento violento é também natural, pelo fato de um agente externo reduzir uma coisa da natureza a um estado diferente do que antes tinha.      Mas, deixando de lado tais distinções, pode-se constatar que representam verdadeiras espécies de movimento físico os seguintes casos: quando se observa que há nos corpos um esforço para o mútuo contato de forma a não permitir que se rompa a continuidade da natu¡reza, ou se desloquem, ou se produza o vácuo; quando se manifesta nos corpos tendência a recobrar o seu volume natural ou extensão de modo que, se se comprimem, diminuindo-os, ou se se distendem, aumentando-os, agem de forma a recuperar e voltar ao seu primitivo volume e extensão; ou quando se diz que há nos corpos uma tendên¡cia à agregação das massas de natureza semelhante e que os corpos densos tendem à esfera terrestre e os leves ao espaço celeste, etc. Os primeiros movimentos enumerados, por sua vez, são meramente lógicos e escolásticos, como fica manifesto, ao serem comparados com estes últimos.      Não é menos ruinoso que em suas filosofias e especulações os seus esforços se consumam na preocupação e na investigação dos princípios e das causas últimas da natureza, pois toda a possibilidade e utilidade operativa se concentram nos princípios intermediários. A conseqüência disso é que os homens não cessam de fazer abstrações sobre a natureza, ate atingir a matéria potencial e informe; nem ces¡sam de dissecá-la até chegar ao átomo. Tudo isso, ainda que corres¡pondesse à verdade, pouco serviria ao bem-estar do homem. LXVII      Também se deve acautelar o intelecto contra a intemperança dos sistemas filosóficos no livrar ou coibir o assentimento, porque tal intemperança concorre para firmar os ídolos, e, de certo modo, os faz perpétuos, sem possibilidades de remoção.      Há no caso um duplo excesso: o primeiro é o dos que se pronun¡ciam apressadamente, convertendo a ciência em uma doutrina posi¡tiva e doutoral; e outro é o dos que introduziram a acatalepsia e tor¡naram a investigação vaga e sem um termo. O primeiro deprime, o segundo enerva o intelecto. Assim, a filosofia de Aristóteles, depois de destruir outras filosofias (à maneira dos otomanos, com seus irmãos) com suas pugnazes refutações, pronunciou-se acerca de cada uma das questões. Depois, inventou ele mesmo, ao seu arbítrio, questões para as quais a seguir apresentou soluções, e dessa forma tudo ficou defi¡nido e estabelecido e é o que passou a ser atendido ainda hoje por seus sucessores.      A escola de Platão, de sua parte, introduziu a acatalepsia , a prin¡cípio como ardil e ironia, por desprezo para com os velhos sofistas, Protágoras, Hípias e os demais, os quais nada temiam mais que apa¡rentar terem dúvidas a respeito de algo. Mas a Nova Academia trans¡formou a acatalepsia em dogma e dela fez profissão. E, ainda que esta seja uma atitude mais moderada que a dos que se achavam no direito de se repronunciarem sobre tudo já que os acadêmicos dizem que não pretendem confundir a investigação (como o fizeram Pirro e os céticos) e que se limitam ao provável, quando de fato nada aceitavam como verdadeiro —, contudo, quando o espírito humano se desespera da busca da verdade, o seu interesse por todas as coisas se torna débil; daí resultando que os homens passam a preferir as disputas e os discursos amenos, distantes da realidade, em vez de se comprome¡terem com rigor na investigação. Contudo, como dissemos a principio e sustentamos sempre, os sentidos e o intelecto humano, pela sua fra¡queza, não hão de ser desmerecidos em sua autoridade, mas, ao contrário, devem ser providos de auxílios. LXVIII      Já falamos de todas as espécies de ídolos e de seus aparatos. Por decisão solene e inquebrantável todos devem ser abandonados e abju¡rados. O intelecto deve ser liberado e expurgado de todos eles, de tal modo que o acesso ao reino do homem, que repousa sobre as ciências. possa parecer-se ao acesso ao reino dos céus, ao qual não se permite entrar senão sob a figura de criança . [26] LXIX      As demonstrações falhas são as fortificações e as defesas dos ídolos. E as que nos ensina a dialética não fazem muito mais que subordinar a natureza ao pensamento humano e o pensamento huma¡no às palavras. As demonstrações, na verdade, são como que filoso¡fias e ciências em potência, porque, conforme sejam estabelecidas mal ou corretamente instituídas, assim também serão as filosofias e as especulações. Errados e incompetentes são os que seguem o processo que vai dos sentidos e das coisas diretamente aos axiomas e as conclusões. Esse processo consiste de quatro partes e quatro igualmente são seus defeitos. Em primeiro lugar. as próprias impressões dos sentidos são viciosas; os sentidos não só desencaminham como levam ao erro É pois necessário que se retifiquem os descaminhos e se corrijam os erros. Em segundo lugar, as noções são mal abstraídas das impressões dos sentidos, ficando indeterminadas e confusas. quando deveriam ser bem delimitadas e definidas. Em terceiro lugar. é imprópria a indução que estabelece os princípios das ciências por simples enumeração, sem o cuidado de proceder àquelas exclusões, resoluções ou separações que são exigidas pela natureza. Por último, esse método de invenção e de prova, que consiste em primeiro se determinarem os princípios gerais e, a partir destes, aplicar e provar os princípios intermediários, é a matriz de todos os erros e de todas as calamidades que recaem sobre as ciências. Mas desse assunto, que tocamos de passagem, trataremos mais amplamente quando propu¡sermos o verdadeiro método de interpretação da natureza, depois de cumprida esta espécie de expiação e purgação da mente. LXX      A melhor demonstração é de longe, a experiência, desde que se atenha rigorosamente ao experimento. Se procuramos aplicá-la a outros fatos tidos por semelhantes, a não ser que se proceda de forma correta e metódica, é falaciosa. Mas o modo de realizar experimentos hoje em uso é cego e estúpido. Começam os homens a vagar [27] sem rumo fixo, deixando-se guiar pelas circunstâncias; vêem-se rodeados de uma multidão de fatos, mas sem qualquer proveito; ora se entu¡siasmam, ora se distraem; presumem sempre haver algo mais a ser descoberto. Dessa forma, ocorre que os homens realizam os experi¡mentos levianamente, como em um jogo, variando pouco os experi¡mentos já conhecidos e, se não alcançam resultados, aborrecem-se e põem de lado os seus desígnios. E mesmo os que se dedicam aos expe¡rimentos com mais seriedade, tenacidade e esforço acabam restrin¡gindo o seu trabalho a apenas um experimento particular. Assim fez Gilbert com o magneto, e os alquimistas com o ouro. Um tal modo de proceder é tão inexperto quanto superficial, pois ninguém investiga com resultado a natureza de uma coisa apenas naquela própria coisa: é necessário ampliar a investigação até as coisas mais gerais. [28]      E mesmo quando conseguem estabelecer formulações científicas ou teóricas, a partir dos seus experimentos, demonstram uma disposi¡ção intempestiva e prematura de se voltarem para a prática. [29] Proce¡dem dessa forma não apenas pela utilidade e pelos frutos que essa prática propicia, como também para obter uma certa garantia de que não serão infrutíferas as investigações subseqüentes e, ainda, para que as suas ocupações sejam mais reputadas pelos demais. Por isso acaba acontecendo com eles o que aconteceu a Atalanta: [30] desviam-se de seu caminho, para recolherem os frutos de ouro, interrompendo a cor¡rida e deixando escapar a vitória. Para se topar com o verdadeiro caminho da experiência e a partir daí se conseguir a produção de novas obras, é necessário tomar como exemplos a sabedoria e a ordem divinas. Deus, com efeito, no primeiro dia da criação criou somente a luz, dedicando-lhe todo um dia e não se aplicando nesse dia a nenhuma obra material. Da mesma forma, em qualquer espécie de experiência, deve-se primeiro descobrir as causas e os axiomas verdadeiros, buscando os axiomas lucíferos e não os axiomas frutí¡feros. [31] Pois os experimentos, quando corretamente descobertos e constituídos, informam não a uma determinada e estrita prática, mas a uma série contínua, e desencadeiam na sua esteira bandos e turbas de obras. Mais adiante falaremos dos verdadeiros caminhos da expe¡riência, que, por sua vez, não se encontram menos obstruídos e inter¡ceptados que os do juízo; por ora falaremos da experiência vulgar. considerando-a como uma má espécie de demonstração. Mas, para o momento, a ordem das coisas exige que falemos algo mais acerca dos signos a que antes nos referimos graças aos quais se pode concluir que as filosofias e as especulações ora em uso andam muito mal —, como também das causas desse fato, à primeira vista espan¡toso e inacreditável. O conhecimento dos signos prepara o assenti¡mento, e a explicação de suas causas dissipa qualquer sombra de mi¡lagre. Ambas as coisas concorrem para a extirpação, de maneira fácil e suave, dos ídolos do intelecto. LXXI      As ciências que possuímos provieram em sua maior parte dos gregos. O que os escritores romanos, árabes ou os mais recentes acrescentaram não é de monta nem de muita importância; de qual¡quer modo, está fundado sobre a base do que foi inventado pelos gre¡gos. Contudo, a sabedoria [32] dos gregos era professoral [33] e pródiga em disputas — que é um gênero dos mais adversos à investigação da verdade. Desse modo, o nome de sofistas, que foi aplicado depreciati¡vamente aos que se pretendiam filósofos e que acabou por designar os antigos retores, Górgias, Protágoras, Hípias e Polo, compete igual¡mente a Platão, Aristóteles, Zenão, Epicuro, Teofrasto; e aos seus sucessores Crisipo, Carnéades, e aos demais. Entre eles havia apenas esta diferença: os primeiros eram do tipo errante e mercenário, per¡corriam as cidades, ostentando a sua sabedoria e exigindo estipêndio; os outros, do tipo mais solene e comedido, tinham moradas fixas, abriram escolas e ensinaram a filosofia gratuitamente. Mas ambos os gêneros, apesar das demais disparidades, eram professorais e favore¡ciam as disputas, e dessa forma facilitavam e defendiam seitas e here¡sias filosóficas, e as suas doutrinas eram (como bem disse, não sem argúcia, Dionísio, de Platão) palavras de velhos ociosos a jovens ignorantes . [34] Mas os mais antigos dos filósofos gregos, Empédocles, Anaxágoras, Leucipo, Demócrito, Parmênides, Heráclito, Xenófanes, Filolau e outros (omitimos Pitágoras, por se ter entregue à supersti¡ção), não abriram escolas, ao que saibamos: ao contrário, e, no maior silêncio, com rigor e simplicidade, vale dizer, com menor afetação e aparato, se consagraram à investigação da verdade. E a nosso juízo, melhor se saíram, só que suas obras, com o decorrer do tempo, foram sendo ofuscadas por outras mais superficiais, mas mais afeitas à capacidade e ao gosto do vulgo; pois o tempo, como o rio, trouxe-nos as coisas mais leves e infladas, submergindo o mais pesado e consis¡tente. Contudo, nem mesmo eles foram imunes aos vícios de seu povo, pois propendiam mais que o desejável à ambição e à vaidade de fun¡darem uma seita e captarem a aura popular. Nada se há de esperar, com efeito, da busca da verdade, quando distorcida por tais inanida¡des. E, a propósito, não se deve omitir aquela sentença, ou melhor, vaticínio, do sacerdote egípcio a respeito dos gregos: “Sempre serão crianças, não possuirão nem a antiguidade da ciência, nem a ciência da Antiguidade”. [35] Os gregos, com efeito, possuem o que é próprio das crianças: estão sempre prontos para tagarelar, mas são incapazes de gerar, pois, a sua sabedoria é farta em palavras, mas estéril de obras. Aí está por que não se mostram favoráveis os signos [36] que se observam na gente e na fonte de que provém a filosofia ora em uso. LXXII      Os signos que se podem retirar das características do tempo e da idade não são muito melhores que os das características do lugar e da nação. Naquela época era limitado e superficial o conhecimento his¡tórico e geográfico, o que é muito grave sobretudo para os que tudo depositam na experiência. Não possuíam, digna desse nome, uma his¡tória que remontasse aos mil anos, e que se não reduzisse a fábulas e rumores da Antiguidade. Na verdade, conheciam apenas uma exígua parte dos países e das regiões do mundo. Chamavam indistintamente de citas a todos os povos setentrionais e de celtas a todos os ociden¡tais. Nada conheciam das regiões africanas, situadas além da Etiópia setentrional, nem da Ásia de além Ganges, e muito menos ainda das províncias do Novo Mundo, de que nada sabiam, nem de ouvido, nem de qualquer tradição certa e constante. E mais, julgavam inabitáveis muitas zonas e climas em que vivem e respiram inumeráveis povos. As viagens de Demócrito, Platão, Pitágoras, que não eram mais que excursões suburbanas, eram celebradas como grandiosas. Em nossos tempos, ao contrário, tornaram-se conhecidas não apenas muitas partes do Novo Mundo, como também todos os extremos limites do Mundo Antigo, e assim é que o número de possibilidades de experi¡mentos foi incrementado ao infinito. Enfim, se se devem interpretar os signos à maneira dos astrólogos, os que se podem retirar do tempo de nascimento e de concepção daquelas filosofias indicam que nada de grande delas se pode esperar. LXXIII      De todos os signos nenhum é mais certo ou nobre que o tomado dos frutos. Com efeito, os frutos e os inventos são como garantias e fianças da verdade das filosofias. Ora, de toda essa filosofia dos gre¡gos e todas as ciências particulares dela derivadas, durante o espaço de tantos anos, não há um único experimento de que se possa dizer que tenha contribuído para aliviar e melhorar a condição humana, que seja verdadeiramente aceitável e que se possa atribuir às especu¡lações e às doutrinas da filosofia. É o que ingênua e prudentemente reconhece Celso [37] ao falar que primeiro se fizeram experimentos em medicina, e depois sobre eles os homens construíram os sistemas filo¡sóficos, buscando e assinalando as causas, e não inversamente, ou seja, que da descoberta das causas se tenham estabelecido e deduzido os experimentos da medicina. Por isso não deve parecer estranho que entre os egípcios, que divinizavam e consagravam os inventores, hou¡vesse mais imagens de animais que de homens, pois os animais com seu instinto natural produziram muito no caminho de descobertas úteis, enquanto os homens, com os seus discursos e ilações racionais, pouco ou nada concluíram.      Os alquimistas com sua atividade fizeram algumas descobertas, mas como que por acaso e pela variação dos experimentos (como fazem com freqüência os mecânicos), não por arte e com método, e isso porque a sua atividade tende mais a confundir os experimentos que a estimulá-los. Mesmo aqueles que se dedicaram à chamada magia natural fizeram algumas descobertas, mas poucas em número e sobretudo superficiais e frutos da impostura. Devemos, em suma, aplicar à filosofia o princípio da religião, que quer que a fé se mani¡feste pelas obras, estabelecendo assim que um sistema filosófico seja julgado pelos frutos que seja capaz de dar; se é estéril deve ser refu¡tado como coisa inútil, sobretudo se em lugar de frutos bons como os da vinha e da oliva produz os cardos e espinhos das disputas e das contendas. LXXIV      Outros signos se podem retirar do desenvolvimento e do pro¡gresso da filosofia e das ciências, porque aquilo que tem o seu funda¡mento na natureza cresce e se desenvolve, mas o que não tem outro fundamento que a opinião varia, mas não progride. Por isso, se aque¡las doutrinas em vez de serem, como são, comparáveis a plantas des¡pojadas de suas raízes tivessem aprofundado suas raízes no próprio seio da natureza e dela tivessem retirado a própria substância, as ciências não teriam permanecido por dois mil anos estagnadas no seu estádio originário; e quase no mesmo estado permanecem, sem qual¡quer progresso notável. Dessa forma. foram pouco a pouco decli¡nando à medida que se afastaram dos primeiros autores que as fize¡ram florescer. Nas artes mecânicas, que são fundadas na natureza e se enriquecem das luzes da experiência, vemos acontecer o contrário, e essas (desde que cultivadas), como que animadas por um espírito, continuamente se acrescentam e se desenvolvem, de inicio grosseiras, depois cômodas e aperfeiçoadas, e em contínuo progresso. LXXV      Deve-se considerar ainda um outro signo (se se deve colocar entre os signos um fato que é mais uma prova e entre as provas, ainda, a mais certa), seja, a confissão daqueles autores que ora estão em grande voga. De fato, mesmo aqueles que com tanta confiança pronunciam o seu juízo sobre a realidade, mesmo eles, quando mais conscienciosos, põem-se a lamentar a respeito da obscuridade das coisas, da sutileza da natureza, da fraqueza do intelecto humano. Ora, se se limitassem a isso, certamente os mais tímidos seriam dissuadidos de ulteriores investigações, mas os que têm o engenho mais ála¡cre e confiante receberiam mais incitamento e sugestão para progre¡direm ulteriormente. Mas, não contentes de falarem deles próprios, põem fora dos limites do possível tudo o que tenha permanecido igno¡rado e inatingível para si e para os seus mestres, e declaram-no incog¡noscível e irrealizável, quase sob a autoridade da própria arte. Com suma presunção e malignidade fazem de sua fraqueza razão de calú¡nia para com a natureza e desespero para com todos os demais. Assim, a Nova Academia professou a acatalepsia e condenou os ho¡mens à perpétua ignorância. Daí surge a opinião de que as formas, que são as verdadeiras diferenças das coisas, isto é, as leis efetivas do ato puro, são impossíveis de serem descobertas, porque colocadas além de qualquer alcance humano. Daí surgem as opiniões, acolhidas na parte ativa e operativa da ciência, de que o calor do sol e o do fogo são diferentes por natureza; que tendem a tolher na humanidade a esperança de poder extrair ou construir, por meio do fogo, qualquer coisa de semelhante ao que acontece na natureza. [38] E ainda mais, que a composição é obra do homem, enquanto que a mistura é obra apenas da natureza: o que equivale a tolher toda esperança de poder realizar, com meios artificiais, os processos de geração e de transformação dos corpos naturais. Por este signo não deverá ser difícil per¡suadir os homens a não misturarem as suas sortes e fados com dog¡mas não apenas desesperados, mas destinados à desesperação. LXXVI      Merece ainda ser considerada como signo a grande e perpétua disparidade de idéias que tem reinado entre os filósofos, e a própria variedade das escolas de filosofia. Essa disparidade mostra que a via que conduz dos sentidos ao intelecto não foi bem traçada, já que a própria matéria da filosofia, ou seja, a natureza, foi rompida e divi¡dida em tantos e tão diversos erros. Em tempo mais recente, as dissen¡ções e as disparidades de pontos de vista em torno dos próprios prin¡cípios da filosofia e das filosofias parece terem cessado; mas restam ainda inumeráveis problemas e controvérsias nas várias partes da filosofia, donde resulta claro que não há nada de certo e de rigoroso nem nas doutrinas filosóficas nem nos métodos de demonstração. LXXVII      Crê-se comumente que a filosofia de Aristóteles obteve o con¡senso universal pelo fato de que, quando de sua divulgação, todas as outras filosofias dos antigos morriam ou desapareciam, e pelo fato de que nos tempos subseqüentes não se encontrou nada melhor; dessa forma, a filosofia aristotélica parece tão bem fundada e estabelecida, pois canalizou para si o tempo antigo e o tempo moderno. A isso se responde: primeiro, o que se pensa em relação à cessação das antigas filosofias depois da divulgação das obras de Aristóteles é falso, por¡que muito tempo depois, até a época de Cícero e mesmo nos séculos seguintes, as obras dos antigos filósofos ainda subsistiram. Mas, depois, no tempo das invasões bárbaras do Império Romano, após toda doutrina humana ter, por assim dizer, naufragado, então, se conservaram apenas as doutrinas de Aristóteles e de Platão, como tá¡buas feitas de matéria mais leve e menos sólida, flutuando no curso dos tempos. Segundo: por pouco que se aprofunde tal ponto, também o argumento do consenso universal vai-se mostrar falho, O verda¡deiro consenso é, antes de tudo, uma coincidência de juízos livres sobre uma questão precedentemente examinada. Mas, pelo contrário, a grande massa dos que convêm na aprovação de Aristóteles é escra¡va do prejuízo da autoridade de outros, a tal ponto que se deveria falar, mais que de consenso, de zelo de sequazes e de espírito de asso¡ciação. E mesmo no caso em que tenha havido verdadeiro e aberto consenso, o consenso está sempre longe de se constituir em autori¡dade verdadeira e sólida, mas faz, ao contrário, nascer uma vigorosa opinião em relação à opinião oposta. Com efeito, o pior auspício é o que deriva do consenso nas coisas intelectuais, excetuadas a política e a teologia, para as quais, ao contrário, há o direito de sufrágio. [39] A muitos apraz só o que tolhe a imaginação e aprisiona o intelecto pelos laços dos conceitos vulgares, como já foi dito antes. [40] Vem a propó¡sito aquele dito de Fócion que, dos costumes, pode ser transposto às questões intelectuais: “Os homens devem perguntar que coisa disse¡ram ou fizeram de mal quando o povo os enche de apoio e aplau¡so”. [41] Este é, pois, um signo dos mais desfavoráveis. Concluamos dizendo que os signos da verdade e da sensatez das filosofias e das ciências, ora em uso, são péssimos, quer se procurem nas suas ori¡gens, nos seus frutos, nos seus progressos, nas confissões dos autores ou no consenso. LXXVIII      Tratemos agora das causas dos erros e de sua persistência que se prolongou por séculos. Elas são muitas e muito poderosas. Em vista disso, não há motivo para se admirar de que tenham escapado e te¡nham permanecido ocultas dos homens as coisas que vão agora ser expostas. O que seria de causar espanto é como, finalmente, tenham podido cair na mente de um determinado mortal para serem objeto de suas reflexões; o que, de resto (segundo cremos), foi mais uma ques¡tão de sorte que de excelência de alguma faculdade. Deve ser tido mais como parto do tempo que parto do engenho. [42]      Bem consideradas as coisas, um número tão grande de séculos reduz-se a um lapso efetivamente exíguo. Das vinte e cinco centúrias em que mais ou menos estão compreendidos a história e o saber humano, apenas seis podem ser escolhidas e apontadas como tendo sido fecundas para as ciências ou favoráveis ao seu desenvolvimento. No tempo como no espaço há regiões ermas e solidões. De fato só podem ser levados em conta três períodos ou retornos na evolução do saber: [43] um, o dos gregos; outro, o dos romanos e, por último, o nosso, dos povos ocidentais da Europa; a cada um dos quais se pode atribuir no máximo duas centúrias de anos. A Idade Média, em rela¡ção à riqueza e fecundidade das ciências, foi uma época infeliz. Não há, com efeito, motivos para se fazer menção nem dos árabes, nem dos escolásticos. Estes, nos tempos intermédios, com seus numerosos tratados mais atravancaram as ciências que concorreram para aumentar-lhes o peso. Por isso, a primeira causa de um tão parco progresso das ciências deve ser buscada e adequadamente localizada no limitado tempo a elas favorável. LXXIX      Em segundo lugar, surge uma causa de grande importância, sob todos os aspectos, a saber, mesmo nas épocas em que, bem ou mal, floresceram o engenho humano e as letras, a filosofia natural ocupou parte insignificante da atividade humana. E leve-se em conta que a filosofia natural deve ser considerada a grande mãe das ciências. Todas as artes e ciências, uma vez dela desvinculadas, podem ser bru¡nidas e amoldadas para o uso, mas não podem crescer. [44] É manifesto que desde o momento em que a fé cristã foi aceita e deitou raízes no espírito humano, a grande maioria dos melhores engenhos se consa¡grou à teologia, e para isso concorreram poderosamente os prêmios e toda sorte de estímulos a eles reservados. E o cultivo da teologia ocu¡pou principalmente o terceiro lapso de tempo, o nosso, isto é, o dos povos ocidentais da Europa; tanto mais que no mesmo período come¡çaram a florescer as letras, e as controvérsias a respeito de religião começaram a se propagar. Na idade anterior, no segundo período, o correspondente aos romanos, as mais significativas reflexões e os melhores esforços se ocuparam e se consumiram na filosofia moral (que entre os pagãos substituía a teologia) e, ainda, os talentos daque¡le tempo se dedicaram aos assuntos civis, necessidade oriunda da pró¡pria magnitude do Império Romano, que exigia a dedicação de um grande número de homens. Mesmo naquela idade em que se viu flo¡rescer ao máximo, entre os gregos, a filosofia natural corresponde a uma pequena parte, não contínua, de tempo. Nos tempos mais anti¡gos, aqueles que foram chamados de Sete Sábios, todos eles afora Tales, se aplicaram à filosofia moral e à política. Nos tempos seguintes, depois que Sócrates fez descer a filosofia do céu à terra, [45] preva¡leceu mais ainda a filosofia moral e mais se afastaram os engenhos humanos da filosofia natural.      Contudo, aquele mesmo período em que as investigações da natureza ganharam vigor foi corrompido pelas contradições e pela ambição de se emitirem novas opiniões, ficando, assim, inutilizado. Dessa forma, durante esses três períodos, a filosofia natural, abando¡nada e dificultada, não é para se admirar que os homens, ocupados por outros assuntos, nela pouco tenham progredido. LXXX      Deve-se acrescentar, ademais, que a filosofia natural, mesmo entre os seus fautores, não encontrou um único homem inteira e exclusivamente a ela dedicado, particularmente nos últimos tempos, a não ser o exemplo isolado de elucubrações de algum monge, em sua cela, ou de algum nobre, em sua mansão. A filosofia natural servia a alguns de passagem e de ponte para outras disciplinas.      Dessa forma, a grande mãe das ciências foi relegada ao indigno oficio de serva, prestando serviços à obra de médicos ou de matemáti¡cos, ou devendo oferecer à mente imatura dos jovens o primeiro poli¡mento e a primeira tintura, para facilitação e bom êxito de suas poste¡riores ocupações. Que ninguém espere um grande progresso nas ciências, especialmente no seu lado prático, [46] até que a filosofia natu¡ral seja levada às ciências particulares e as ciências particulares sejam incorporadas à filosofia natural. Por serem disso dependentes é que a astronomia, a óptica, a música, inúmeras artes mecânicas, a própria medicina, e, o que é espantoso, a filosofia moral e política e as ciên¡cias lógicas [47] não alcançaram qualquer profundidade, mas apenas deslizam pela superfície e variedade das coisas. De fato, desde que as ciências particulares se constituíram e se dispersaram, não mais se alimentaram da filosofia natural, que lhes poderia ter transmitido as fontes e o verdadeiro conhecimento dos movimentos, dos raios, dos sons, da estrutura e do esquematismo dos corpos, das afecções e das percepções intelectuais, o que lhes teria infundido novas forças para novos progressos. Assim, pois, não é de admirar que as ciências não cresçam depois de separadas de suas raízes. LXXXI      Ainda há outra causa grande e poderosa do pequeno progresso das ciências. E ei-la aqui: não é possível cumprir-se bem uma corrida quando não foi estabelecida e prefixada a meta a ser atingida. A ver¡dadeira e legítima meta das ciências é a de dotar a vida humana de novos inventos e recursos. [48] Mas a turba, que forma a grande maio¡ria, nada percebe, busca o próprio lucro e a glória acadêmica. Pode, eventualmente, ocorrer que algum artesão de engenho agudo e ávido de glória se aplique a algum novo invento, o que realiza, na maior parte dos casos, com os seus próprios recursos. A maior parte dos ho¡mens está tão longe de dedicar-se ao aumento do acervo das ciências e das artes, que, do acervo já à sua disposição, apanham e são atraídos tão-somente o suficiente para os usos professorais, para lograr lucro, consideração ou outra vantagem análoga. Contudo, se de toda essa multidão alguém se dedica com sinceridade à ciência por si mesma, ver-se-á que se volta mais para a variedade das especulações e das doutrinas que para uma inquirição severa e rígida da verdade. Ainda mais, se se encontra um investigador mais severo da verdade, também ele proporá, como sua condição, que satisfaça sua mente e intelecto na representação das causas das coisas que já eram conheci¡das antes, e não a de conseguir provas para novos resultados e luz para novos axiomas. Em suma, se ninguém até agora fixou de forma justa o fim da ciência, não é para causar espanto que tudo o que se subordine a esse fim desemboque em uma aberração. LXXXII      Ademais, o fim e a meta da ciência foram mal postos pelos homens. Mas, ainda que bem postos, a via escolhida é errônea e impérvia. E é de causar estupefação, a quem quer que de ânimo avisa¡do considere a matéria, constatar que nenhum mortal se tenha cuida¡do ou tentado a peito traçar e estender ao intelecto humano uma via, a partir dos sentidos e da experiência bem fundada, mas que, ao invés, se tenha tudo abandonado ou às trevas da tradição, ou ao vórtice e torvelinho dos argumentos ou, ainda, às flutuações e desvios do acaso e de uma experiência vaga e desregrada.      Indague agora o espírito sóbrio e diligente qual o caminho esco¡lhido e usado pelos homens para a investigação e descoberta da ver¡dade. Logo notará um método de descoberta muito simples e sem arti¡fícios, que é o mais familiar aos homens. E esse não consiste senão, da parte de quem se disponha e apreste para a descoberta, em reunir e consultar o que os outros disseram antes. A seguir, acrescentar as próprias reflexões. E, depois de muito esforço da mente, invocar, por assim dizer, o seu gênio para que expanda os seus oráculos. Trata-se de conduta sem qualquer fundamento e que se move tão-somente ao sabor de opiniões.      Algum outro pode, talvez, invocar o socorro da dialética, que só de nome tem relação com o que se propõe. Com efeito, a invenção própria da dialética não se refere aos princípios e axiomas fundamen¡tais que sustentam as artes, mas apenas a outros princípios que com aqueles parecem estar em acordo. E quando, cercada pelos mais curiosos e importunos, é interpelada a respeito das provas e da desco¡berta dos princípios e axiomas primeiros, a dialética os repele com a já bem conhecida resposta, remetendo-os à fé e ao juramento que se devem prestar aos princípios de cada uma das artes.      Resta a experiência pura e simples que, quando ocorre por si, é chamada de acaso e, se buscada, de experiência. Mas essa espécie de experiência é como uma vassoura desfiada, como se costuma dizer, mero tateio, à maneira dos que se perdem na escuridão, tudo tateando em busca do verdadeiro caminho, quando muito melhor fariam se aguardassem o dia ou acendessem um archote para então prossegui¡rem. Mas a verdadeira ordem da experiência, ao contrário, começa por, primeiro, acender o archote e, depois, com o archote mostrar o caminho, começando por uma experiência ordenada e medida —nunca vaga e errática -, dela deduzindo os axiomas e, dos axiomas, enfim, estabelecendo novos experimentos. Pois nem mesmo o Verbo Divino agiu sem ordem sobre a massa das coisas.      Não se admirem pois os homens de que o curso das ciências não tenha tido andamento, visto que, ou a experiência foi abandonada, ou nela (os seus fautores) se perderam e vagaram como em um labirinto; ao passo que um método bem estabelecido é o guia para a senda certa que, pela selva da experiência, conduz à planura aberta dos axiomas. LXXXIII      Esse mal foi espantosamente aumentado pela opinião — tornada presunção inveterada, conquanto vã e danosa — de que a majestade da mente humana fica diminuída se muito e a fundo se ocupa de expe¡rimentos e de coisas particulares e determinadas na matéria, mormente tratando-se de coisas, segundo se diz, laboriosas de inquirir, ignóbeis para a meditação, ásperas para a transmissão, avaras para a prática, infinitas em número, tênues em sutileza. Chegou-se ao ponto em que a verdadeira via não só foi abandonada, mas foi ainda fecha¡da e obstruída. A experiência não foi apenas abandonada ou mal administrada, como também desprezada. LXXXIV      A reverência à Antiguidade, o respeito à autoridade de homens tidos como grandes mestres de filosofia e o geral conformismo para com o atual estádio do saber e das coisas descobertas também muito retardaram os homens na senda do progresso das ciências, manten¡do-os como que encantados. Desse tipo de consenso já falamos antes. [49]      No tocante à antiguidade, a opinião dos homens é totalmente imprópria e, a custo, congruente com o significado da palavra. Deve-se entender mais corretamente por antiguidade a velhice e a maturi¡dade do mundo e deve ser atribuída aos nossos tempos e não à época em que viveram os antigos, que era a do mundo mais jovem. Com efeito, aquela idade que para nós é antiga e madura é nova e jovem para o mundo. [50] E do mesmo modo que esperamos do homem idoso um conhecimento mais vasto das coisas humanas e um juízo mais maduro que o do jovem, em razão de sua maior experiência, varie¡dade e maior número de coisas que pôde ver, ouvir e pensar, assim também é de se esperar de nossa época (se conhecesse as suas forças e se dispusesse a exercitá-las e estendê-las) muito mais que de priscas eras, por se tratar de idade mais avançada do mundo, mais alen¡tada e cumulada de infinitos experimentos e observações.      Por outra parte, não é de se desprezar o fato de que, pelas nave¡gações longínquas e explorações tão numerosas, em nosso tempo, muitas coisas que se descortinaram e descobriram podem levar nova luz à filosofia. Assim, será vergonhoso para os homens que, tendo sido tão imensamente abertas e perlustradas em nossos tempos as regiões do globo material, ou seja, da terra, dos astros e dos mares, permaneça o globo intelectual [51] adstrito aos angustos confins traça¡dos pelos antigos.      No que respeita à autoridade, é de suma pusilanimidade atri¡buir-se tanto aos autores e negar-se ao tempo o que lhe é de direito, pois com razão já se disse que “a verdade é filha do tempo, não da autoridade”. [52] Não é, portanto, de se admirar que esse fascínio da Antiguidade, dos autores e do consenso tenha de tal modo assober¡bado as forças dos homens que não puderam eles se familiarizar com as próprias coisas, como que por artes de algum malefício. LXXXV      Mas não foi somente a admiração pela Antiguidade, pela autori¡dade e o respeito pelo consenso que compeliram a indústria humana a contentar-se com o já descoberto, mas, também, a admiração pelas aparentemente copiosas obras já conseguidas pelo gênero humano. Quem puser ante os olhos a variedade e o magnífico aparato de coisas introduzidas e acumuladas pelas artes mecânicas, para o cultivo do homem, estará, certamente, muito mais inclinado a admirar-se da sua opulência que da penúria. Isso sem se dar conta de que os primeiros resultados da observação e as primeiras operações da natureza, que são como que a alma e o principio motor dessa variedade, não são nem muitos, nem bem fundados. O restante pode ser atribuído unica¡mente à paciência humana e ao movimento sutil e bem ordenado da mão ou dos instrumentos. A confecção de relógios, por exemplo, é certamente mister delicado e trabalhoso, de tal modo que as suas rodas parecem imitar as órbitas celestes ou o movimento contínuo e ordenado do pulso dos animais. No entanto, depende de apenas um ou dois axiomas da natureza.      Ainda mais, quem atente para o refinamento próprio das artes liberais ou, ainda, o das artes mecânicas, na preparação de substân¡cias naturais e leve em conta coisas como a descoberta dos movimen¡tos celestes em astronomia, da harmonia em música, das letras do alfabeto (ainda não em uso no reino dos chineses) em gramática; e igualmente, na mecânica, o descobrimento das obras de Baco e Ceres, ou seja, a arte da preparação do vinho, da cerveja, da panificação, das destilações e similares, e de outras delícias da mesa; e também reflita e observe quanto tempo transcorreu para que essas coisas (todas, ex¡ceto a destilação, já conhecidas dos antigos) alcançassem o avanço que em nosso tempo desfrutam; e, ainda, o quão pouco são baseadas (o mesmo que já se disse dos relógios) em observações e em axiomas da natureza; e, indo um pouco mais longe, como essas coisas facil¡mente poderiam ter sido descobertas em circunstâncias óbvias ou por observações casuais. [53]      Quem assim proceder, facilmente se libertará de qualquer admi¡ração, antes se compadecerá da condição humana, por tantos séculos em tão grande penúria e esterilidade de artes e invenções. E aqueles mesmos inventos de que fizemos menção são mais antigos que a filosofia e as artes intelectuais [54] e, pode-se dizer que, quando tiveram ini¡cio as ciências racionais e dogmáticas, cessou a invenção de obras úteis.      E o mesmo interessado, uma vez que passe das oficinas às bibliotecas, ficará admirado da imensa variedade de livros. Mas, detendo-se e examinando com mais cuidado a sua matéria e conteúdo, certamente a sua admiração volver-se-á em sentido contrário, ao aí constatar as infinitas repetições e que os homens dizem e fazem sem¡pre o mesmo. De sorte que, da admiração pela variedade, passará ao espanto pela indigência e pobreza das coisas que têm prendido e ocu¡pado a mente dos homens.      Quem, ainda, se disponha a considerar aquelas coisas tidas mais por curiosas que sérias e passe a examinar mais a fundo as obras dos alquimistas, acabará não sabendo se estes são mais dignos de riso ou de lágrimas.      O alquimista, com efeito, alimenta eterna esperança e quando algo falha atribui a si mesmo os erros, acusando-se de não haver entendido bem os vocábulos de sua arte ou dos autores (por isso, com tanto ânimo se aplica às tradições e aos sussurros que chegam aos seus ouvidos), ou que suas manipulações careceram de escrúpulos quanto ao peso ou ao exato tempo, em vista do que repete ao infinito os experimentos. Se, nesse ínterim, em meio aos azares da experimen¡tação, topa com algo de aspecto novo ou de utilidade não desprezível, contenta-se com esses resultados, muito os celebra e ostenta. E a espe¡rança se encarrega do resto. Não se pode negar, contudo, que os alquimistas descobriram não poucas coisas e deram aos homens úteis inventos. Bem por isso não se lhes aplica mal a fábula do ancião que legou aos seus filhos um tesouro enterrado em uma vinha e cujo sítio exato simulava desconhecer. Os filhos, com afinco, revolveram toda a vinha, não encontrando nenhum tesouro, mas a vindima, graças a tal cultivo, foi muito mais abundante.      Os cultores da magia natural, [55] que tudo explicam por simpatia e antipatia, deduziram, de conjunturas ociosas e apressadas, virtudes e operações maravilhosas para as coisas. E mesmo quando alcança¡ram resultados, estes são da espécie dos que mais se prestam à admiração e novidade que a proporcionar frutos e utilidade.      Quanto à magia supersticiosa (se dela é preciso falar), antes de tudo deve ser dito que em todas as nações, em todos os tempos e, mesmo religiões, suas estranhas e supersticiosas artes só puderam afe¡tar em algo apenas um porção reduzida e bem definida de objetos. Em vista disso, deixemo-la de lado, lembrando que nada há de surpreen¡dente que a ilusão da riqueza tenha sido causa da pobreza. LXXXVI      A admiração dos homens pelas doutrinas e artes, por si mesma bastante singela e mesmo pueril, foi incrementada pela astúcia e pelos artifícios dos que se ocuparam das ciências e as difundiram. Pois, levados pela ambição e pela afetação, apresentam-nas de tal modo ordenadas e como que mascaradas que, ao olhar dos homens, pare¡ciam perfeitas em suas partes e já completamente a