KOREAEBOOKDOCUMENT1.2.0A Vitória dos IntelectuaisJaner CristaldoeBooksBrasil.comeBooksBrasil.com[I>para.xmlcapa.jpgnormal.styÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿ‡c%para.xmlê3÷ smaller.styá=÷ small.styØG÷ normal.styÏQ÷ large.styÆ[÷ larger.sty½eÚJcapa.jpg—°Üindice.jpg Índice Sobre o autor Serão os gaúchos neoluditas? Euroforia e subdesenvolvimento Morre um soldado de Franco PT colhe plantio O grande ausente Terror com site e hino O papa e a Rosa Sufiyatu, Fadime, Shahida Santa e bela Catarina: Anita, Guga e madre Paulina A profissão gay Sobre Roseana, Zé Dirceu e Paiakan Véu faz vítimas “Eu sou o que sou” Terror explode ventres Cristo em meio ao tiroteio Nós também temos pedófilos Chirac vira anjo Le Pen reelege Chirac Animais midiáticos Idade Média, volver! Lula mente PT muda As Farc e o silêncio obsequioso Jornalista bom é jornalista morto Poliglota na ilha Mudar é preciso O bolche e os astros Aconteceu em Túnis Corrupção via literatura O livro estatal Paulo entre pares Seminaristas no bordel O neo-aparatchik Os novos camelôs Sigheh, o caminho Aos vitoriosos de 64 11/9 e 9/11 Nove de Novembro Bom dia, terceiro-mundismo! A vitória dos intelectuais Imprensa engana eleitor Quem tem medo de Saddam Hussein? De minha vergonha Roupa nova para o antigo Habemus sanctum Da inutilidade das grades Jornalismo sem rabo preso Coxas abalam Islã Morte ao prazer Amizade segundo filósofos O melhor da vida Bojaxhiu, pepino para bolandistas A Vitória dos Intelectuais Janer Cristaldo Versão para eBook eBooksBrasil.com Fonte Digital Documento do Autor janercr@terra.com.br ©2003 — Janer Cristaldo A Vitória dos Intelectuais Janer Cristaldo janercr@terra.com.br Sobre o autor   Janer Cristaldo nasceu em 1947, em Santana do Livramento (RS). Formou-se em Direito e Filosofia e doutorou-se em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris III). Morou na Suécia, França e Espanha. Lecionou Literatura Comparada e Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina e trabalhou como redator de Internacional na Folha de São Paulo e no Estado de São Paulo . Atualmente, reside em São Paulo e assina crônica semanal no jornal eletrônico Baguete (www.baguete.com.br). A Vitória dos Intelectuais é uma compilação das crônicas publicadas neste jornal em 2002. E-mail: janercr@terra.com.br Outras obras publicadas pela ebooksbrasil: Ponche Verde , romance Laputa , romance Mensageiros das Fúrias , ensaio Engenheiros de Almas , ensaio Qorpo Santo de Corpo Inteiro , ensaio Ianoblefe , ensaio A Indústria Textil , ensaios Crônicas da Guerra Fria , crônicas EleCrônicas , crônicas Flechas Contra o Tempo , crônicas Ressentidos do Mundo Todo, Uni-vos , crônicas Serão os Gaúchos Neoluditas? 4/1/2002   Volto a uma história antiga. Na última Jornada de Literatura, em Passo Fundo, uma mesa reuniu jornalistas e escritores gaúchos para discutir o livro eletrônico. Quase ninguém sabia o que estava sendo discutido. Nem os debatedores, nem a quase totalidade da platéia, de 4.000 pessoas aproximadamente, havia sequer visto uma engenhoca dessas. É o que me dizem os jornais. Esta constatação foi feita neste ano da graça de 2001, no qual até crianças já começam a editar seus livros eletrônicos em computador. Que os escritores e leitores jamais tenham visto a engenhoca de perto, até se entende. Os aparelhos são relativamente caros e não estão à venda na lojinha da esquina. O que não se entende é que a desconheçam, já que não passa semana sem que jornais ou revistas os noticiem. Por outro lado, se o aparelho leitor ainda não deu totalmente as caras no Brasil, o e-book não é o mesmo que aparelho leitor de e-books. O livro eletrônico é uma realidade amplamente difundida. Alguns podem ser lidos diretamente na telinha, sem que se precise baixar qualquer programa (formatos doc, ebookpro). Outros exigem um soft leitor (eRocket, Acrobat, MS-Reader), que pode ser baixado gratuitamente das bibliotecas virtuais. E estas são muitas. Surgiram quase simultaneamente com a Internet. Aí estão o projeto [www.gutenberg.net] Gutenberg [www.gutenberg.net], montado a partir de 1971, que já reúne dez mil textos gratuitos em inglês, e pretende chegar a cem mil. A ABU — La Bibliothèque Universelle, que foi criada em 1993, hoje já reúne 283 textos em francês, de cem autores, de Epiteto a Marx e Engels, passando por Flaubert e Voltaire. Mais recentemente, você tem na França a Phoenix-Library [www.phoenix-library.org], onde pode inclusive encontrar publicações deste que vos escreve. As editoras virtuais estão pipocando na rede, e parece que a notícia ainda não chegou aos escritores gaúchos. No Brasil, desde 1999, a ebooksbrasil [www.ebooksbrasil.com] publicou cerca de mil obras, e a nenhum escritor brasileiro é permissível ignorar este trabalho de monge copista de Teotônio Simões. A menos que, é claro, os escritores prefiram submeter-se à antiga tirania do papel. Nada contra. Mas depois que você começa a utilizar os recursos de busca dos e-books, ao ler o livro-papel você fica com coceiras no dedo, tentando encontrar o botãozinho de search. Tente procurar uma palavra numa bíblia em papel e em outra eletrônica. É possível que você vicie com a segunda. No caso da engenhoca, você pode ainda carregar em seu bolso duas boas dezenas de livros. Ou mais, conforme o aparelho. Isso sem falar no preço. Dispensando papel e transporte, o e-book — mesmo que você pague direitos autorais — terá de custar significativamente menos que o livro-papel. O escasso êxito comercial do e-book, até o momento, não significa que a produção letrada ficará de fora da revolução digital. Recentemente, e com atraso, a Universidade de São Paulo [www.usp.br] passou a publicar teses defendidas na instituição em sua home page. O que talvez seja desconfortável para muito doutor, que preferiria ver sua “obra” enterrada per omnia secula secolorum em um cemitério de teses. Nos Estados Unidos, endereços que fornecem gratuitamente o texto integral de obras sobre as quais não se precisa pagar direitos autorais também são bastante acessados. De agosto de 2000 para cá, mais de três milhões de downloads do gênero foram feitos do site etext.lib.virginia.edu [etext.lib.virginia.edu]. Serviços semelhantes são mantidos por endereços brasileiros, como a Biblioteca Nacional [www.bn.br] e Senado Federal [www.senado.gov.br]. A menos que os escritores gaúchos queiram continuar posando como mártires — o mundo não me entende, eu nasci para ser inédito — hoje não mais é permissível ignorar a edição eletrônica. Seja de jornais, seja de livros. Esta forma de edição elimina uma série de insumos e atravessadores. Não é mais necessário o papel, que custa caro. Muito menos custos de gráfica, que tampouco são baratos. No caso do livro, elimina-se não só o editor e o gráfico, como também o livreiro e o distribuidor. Você pode ter resistências a ler na telinha ou numa maquineta. Mas a redução de preços desta nova forma de leitura — que aliás tende a ser gratuita — certamente irá tentá-lo a tirar umas férias do universo do papel. Diminuídos os custos de produção, elimina-se este poderoso fator censório, a busca desesperada do grande público. Em um grande jornal, ou no rádio ou televisão, você não vai encontrar idéias que se oponham com eficácia ao espírito da época. Esses órgãos dependem da aceitação do assinante, o leitor médio, e do anunciante. Dependem de faturamento. Não podem renunciar a esta condição de suas próprias existências, apenas para agradar os escassos leitores que pensam um pouco à frente. Não por acaso, o pensamento independente tende, hoje, a se refugiar em publicações eletrônicas. Se um Gutenberg — e mais tarde, Aldus Manutius — reptaram o poder da época tornando o conhecimento mais acessível a um número maior de pessoas, a revolução atual das publicações eletrônicas liberta de vez o pensamento da censura econômica das editoras de papel. Meu fascínio pela informática não decorre das facilidades de comunicações da Web ou correio eletrônico, muito menos da velocidade de processamento de dados. Minha adesão incondicional aos novos tempos ocorreu com o Word. Comecei a fazer jornalismo em Dom Pedrito, nos dias do chumbo. Mais precisamente, nos dias anteriores à linotipia. As letras eram gravadas em pedaços de chumbo, que serviam para imprimir o papel. Cada tipo e cada corpo exigia uma unidade de chumbo. A composição era manual. O redator, que geralmente era também repórter, editor e dono jornal, pegava as letras uma a uma e ia compondo o texto. As maiúsculas ficavam na caixa de cima, as minúsculas na de baixo. Daí a expressão até hoje usado, mesmo por jornalistas da era eletrônica. Jornalista que se preze jamais falará em maiúsculas ou minúsculas, mas em caixa alta e caixa baixa. Apesar de a profissão ter sido regulamentada, ainda restam na memória coletiva arcanos do velho ofício. Meu fascínio ocorreu com o Word, dizia. Quando me deparei com aquele processador, minha primeira reação foi: “Nossa! Tenho toneladas de chumbo nesta maquineta”. Acabou a censura, senhores. Só escritores masoquistas, com vocação para eternos incompreendidos, podem se permitir ignorar o e-book. Euroforia e Subdesenvolvimento 11/1/2002 Salud y pesetas, — diziam os espanhóis — fuerza en la bragueta, un par de buenas tetas, y lo demás son pu±etas!   Diziam. Do dia 1° para cá, a peseta passou à história da literatura. Ou da numismática. Salud y euros pode ser melhor, mas não rima. Sem falar que euro não tem plural. Os italianos também estão preocupados com o problema. Com o fim da lira, os vates perdem rimas fáceis como delira, inspira, sospira. Toda palavra que designa uma moeda entra forçosamente na literatura e, do início de janeiro para cá, os livros de doze países passam a ter, do dia para a noite, um ar de mais antigos. Para sorte dos poetas, a poesia contemporânea dispensa rimas. Pois não será fácil encontrar rimas para euro, em qualquer das línguas dos doze países onde a nova moeda vai cursar. Toda palavra que designa uma moeda entra forçosamente na literatura, dizia. Em termos, é bom precisar. Neste nosso sofrido continente, só entra quando tem tempo de entrar. Há moedas que não sobrevivem a um ano, não têm sequer tempo de grudar na memória coletiva. Qual brasileiro de 50 anos consegue lembrar todas as moedas que já viu na vida? Só se for especialista no ramo. Recapitulando: de 67 para cá tivemos o cruzeiro, o cruzeiro novo, o cruzeiro de novo (não confundir com o anterior cruzeiro novo), o cruzado, o cruzado novo (durou 14 meses), e de novo o cruzeiro (que substituiu o cruzado novo), o cruzeiro real (durou 10 meses) e hoje o real, que Deus o proteja. Decididamente, não há tempo para rimas. Enquanto na América Latina as moedas morrem de morte matada, em meio a convulsões políticas e sociais, na Europa as moedas morreram morte serena. Foi uma eutanásia conscientemente desejada. Os britânicos, por exemplo, que não quiseram entrar neste afável pacto, estão se arrancando os cabelos e se perguntando quando abandonarão a libra para aderir ao euro. Na Finlândia, único país nórdico a aderir à nova moeda, os finlandeses fizeram fila junto aos bancos, na meia-noite deste réveillon, sob 15 graus abaixo de zero, para trocar seus markkaa por euro. Na Alemanha, onde a transição foi imediata, sem prazo para circulação simultânea da moeda antiga e da nova, os ex-alemães orientais tiveram uma experiência de Terceiro Mundo. Em 91, haviam trocado o deutschmarx pelo deutschmark, e agora, dez anos depois, trocam este pelo euro. Os escudos portugueses vão repousar junto aos ceitis, as pesetas junto aos maravedis, sem que ninguém lamente esta passagem para o passado. Até o Vaticano vai tirar sua casquinha com a nova moeda. O euro substitui a lira como moeda oficial daquele simulacro de Estado e o papa não perderá a ocasião de eternizar-se em vida, apondo sua efígie na nova moeda. Na Via della Conciliazione, que dá acesso ao Vaticano, no 1° de janeiro já se viam sinais dos novos tempos. Quanto vale um anjo em euro? — perguntava-se uma vendedora de quinquilharias sagradas, puxando do bolso seu euroconvertitore. Segundo um chargista italiano, os magos (da economia?) trouxeram neste ano euro, incenso e mirra. No encontro de Maastricht, em 91, o euro soava como distante quimera. Hoje, apesar dos eurocéticos, há uma euroforia em todo o continente. Bancos e correios estiveram constantemente lotados nos últimos dias do ano passado, com filas de cidadãos ansiosos por pôr as mãos em um pequeno kit da nova divisa. Nem mesmo os gregos, cuja dracma tinha nada menos que 2.600 anos, choraram o enterro da velha moeda. Hoje, até mesmo os textos de Platão e Aristóteles se tornaram ligeiramente mais envelhecidos. Jornalistas mais excitados acham que o século XXI começou em 11 de setembro passado. Ora, terrorismo é rotina na história e perpassa todos os tempos. Doze países renunciarem espontaneamente à própria moeda e adotarem uma outra, comum a todos, isto não acontece em qualquer século. Aliás, jamais aconteceu. Verdade que os fatos sangrentos marcam mais que os sem sangue, pelo menos para aqueles para quem a violência é o fórceps da história. Mas o fantasma que rondava a Europa, como anunciava aquele alemão irado, hoje tenta encontrar abrigo no Terceiro Mundo. Estadistas já começam a reunir-se para a confecção de uma futura constituição européia e não está muito longe uma federação dos países do velho continente. Não por acaso, esta união começa a efetivar-se uma década após o desmoronamento da União Soviética. As esquerdas européias, com sólido poder em países como Itália, França e Alemanha, se ainda recebessem subsídios de Moscou, jamais admitiriam uma Europa unida. A economia capitalista — ou neoliberal, como agora se convencionou chamar — vai bem, obrigado. Ou alguém pretende que a Europa seja socialista? Houve época em que, para enganar a clientela tupiniquim, os jornalistas de esquerda identificavam as sociais-democracias européias com o socialismo soviético. “A Europa caminha para o socialismo, é para lá que o mundo desenvolvido vai”, era o que pretendiam dizer. Mas antes que o jogo de palavras fizesse fortuna, a URSS afundou. Não há mais espaço para enganar. Pelo menos na Europa. Não encontrando mais clima para pregar ideologias obsoletas em seus países, os dirigentes da Association pour une Taxation des Transactions financières pour l’Aide aux Citoyens (Attac) transferem para o Terceiro Mundo suas tribunas. Anuncia-se para fevereiro a realização de mais um Fórum Social Mundial de Porto Alegre, patrocinado pelos agitprops franceses ligados ao Le Monde Diplomatique . Não confundir com o Le Monde , que é de boa família. Segundo noticiou este último em dezembro passado, o mais antigo ditador do planeta estaria propenso a vir ao encontro. Para desespero até mesmo dos mentores franceses do Fórum, que nestes dias de euroforia não querem nem ouvir falar de Fidel Castro. “Se ele vem, vai ser delicado para nós”, disse um dos membros da Attac. Mas neste “continente pu±etero” — como escrevia Alejo Carpentier em O Recurso ao Método — salvadores da pátria que sonham com socialismo é o que não falta. Não é pois de duvidar que, para alegria do PT gaúcho, o velho ditador venha soltar o verbo em Porto Alegre. Se o marxismo já foi para a lata de lixo da História, ainda sobrevive uma geração de viúvas que adoraria posar ao lado do tirano. Enquanto nossas moedas morrem estupradas, tísicas, aviltadas, as moedas européias cedem, sem constrangimento algum, seu espaço à nova divisa. O euro nasce robusto e com futuro pela frente. A fossa se aprofunda. Enquanto os europeus vivem a euforia de tempos novos, a mentalidade subdesenvolvida das esquerdas brasileiras olha para trás e cultua um passado miserável. Morre um Soldado de Franco 18/1/2002   Morreu ontem Camilo José Cela, o mais importante novelista espanhol contemporâneo, prêmio Nobel de Literatura em 1989. Escritor dos mais prolíficos, com cerca de cem títulos publicados, carregou a vida toda o peso da primeira obra, A Família de Pascual Duarte , que tive a honra de traduzir ao português. Novela publicada na Espanha em 1942, só saiu no Brasil, para nossa vergonha, em 1986, nada menos que 44 anos depois. Costumo dizer que o Brasil está sempre uma década atrás do que acontece na Europa. Neste caso, estamos nada menos que quatro décadas em atraso. Em 1987, voltando de uma viagem à Espanha, com alguns dólares ainda no bolso, decido comprar as Obras Completas do mais importante autor espanhol contemporâneo. Passo na Casa del Libro, em Madri, e mando descer Don Camilo das prateleiras. Para meu pânico, eram — na época — dezessete volumes, cerca de 800 páginas cada um. E o que faltava integrar à coleção daria mais três ou quatro tomos da mesma idade. E o homem continuava “vivito y coleando”. E escrevendo. Desde este primeiro livro, Don Camilo já suspeitava ser o mais importante escritor espanhol de sua época. Em 1953, para escândalo de seus leitores, afirmava: Me considero el más importante novelista espa±ol desde el 98. Y me espanta el considerar lo fácil que me resultó. Pido perdón por no haberlo podido evitar. Nos anos 80, propus um curso sobre a novelística de Cela na Universidade Federal de Santa Catarina. Cela não é um escritor significativo, ele lutou na Falange, alegaram meus colegas de colegiado. Ou seja, meio século após a partição da Espanha em dois, vivíamos em plena Guerra Civil... em Florianópolis. De fato, em 1937, Cela engajou-se no exército rebelde, onde foi cabo de artilharia do Regimento Ligeiro n° 16. Foi ferido na perna direita e recebeu um tiro de metralhadora no peito. Em 1940, pertencia ao time dos vencedores. Por décadas, Cela permaneceu no índex das esquerdas e foi visto como leproso no universo das Letras. Jorge Luis Borges pode ser condecorado por Pinochet, pode voltar do Chile afirmando que lá não viu tortura alguma e isto lhe é perdoado, não terá passado de uma boutade do grande escritor argentino. Pablo Neruda morre stalinista convicto, mas coroado pelo Nobel e em odor de santidade. Jorge Amado desenvolveu boa parte de sua vida um zdanovismo primário (com perdão pela redundância), recebeu comovido o prêmio Stalin de literatura, escreveu hagiografias em torno ao Paizinho dos Povos, mas é preferível omitir tais fatos em sua biografia. Marinetti, arauto da guerra e porta-voz do fascismo, é louvado como o inspirador e patrono das vanguardas brasileiras de início do século passado e seus manifestos, que seriam assinados embaixo por um Goebbels ou Hitler, continuam ainda hoje sendo objeto de culto por não poucos professores de literatura. Heidegger foi conivente com o nazismo. “Mas que tem a ver o pensador com sua obra”? — objetam certas almas caridosas. O que não pode — ou não podia — era lutar ao lado dos nacionalistas na Guerra Civil Espanhola. Mas mesmo velhos stalinistas se rendem às honrarias do mundo. Em 1995, já premiado pela Real Academia Sueca, Cela recebeu o título de Dr. Honoris Causa da PUC gaúcha. Na mesa que o homenageou, foi secundado por ilustres esquerdistas gaúchos, que depois do Nobel preferiam esquecer que o homenageado ali ao lado fora soldado de Francisco Franco Bahamonde. Sua trajetória na literatura é paradoxal: começa aos 26 anos com uma obra-prima, La Familia de Pascual Duarte (1942), o romance espanhol mais traduzido no mundo depois de Dom Quixote . Até hoje considerada sua obra maior — traduzida para mais de 20 idiomas, entre estes o latim — o autor narra as peripécias de um camponês estremenho de temperamento violento, que após uma série de crimes brutais, acaba por matar a navalhadas a própria mãe. Interrogado certa vez por uma professora se o livro seria autobiográfico, Cela deu vaza a seu senso de humor: “Claro. E se a senhora visse com que ganas apunhalei minha mãe!” Na obra de Cela há uma forte presença da prostituição e não seria de todo exagerado afirmar que Mazurca para dois mortos (que também traduzi ao português) é uma crônica galega da Guerra Civil, vista através da ótica de um bordel. Outra obra importante sua, A Colmeia , é uma crônica do período pós-guerra civil em Madri. No filme de mesmo título — onde Don Camilo faz uma ponta — há uma cena antológica. Para ter acesso a um apartamento de encontros, todo freqüentador deve dizer uma senha: Napoleón fué derrotado en Waterloo . Mas a senha é de conhecimento público e quando um cliente se engana, uma vizinha responde: el piso de las putas es el de arriba . As prostitutas desempenham um papel fundamental na novelística celiana, fazendo-se presentes desde sua primeira obra: a irmã de Pascual Duarte é levada à prostituição por El Estirao. O leitor atento notará o carinho com que Cela as trata. Em meio a canalhas, delatores, padres lúbricos, vagabundos e assassinos, as profissionais são os raros personagens — patéticos personagens — a manter intacta uma reserva de humanidade. Um outro título importante — e maldito — é San Camilo , 36, (1969), onde o escritor aborda, através de colagens de jornais e monólogos interiores, a eclosão da Guerra Civil Espanhola. O problema é que Cela dedica esta obra a los mozos del reemplazo del 37, todos perdedores de algo: de la vida, de la libertad, de la ilusión, de la esperanza, de la decencia. Y no a los aventureros foráneos, fascistas y marxistas, que se hartaron de matar espa±oles como conejos y a quienes nadie habia dado vela en nuestro propio entierro . Ou seja, antes da primeira linha, o autor nos adverte não nutrir nenhuma simpatia pelos estrangeiros que levaram a Espanha a uma carnificina. Num século que cultuou como heróis Neruda, Hemingway, Malraux, Sartre e tantos outros stalinistas, estas poucas linhas soam como heresia imperdoável. Dificilmente será traduzido no Brasil. Esquecer que Cela foi soldado de Franco, até passa. Mas a Guerra Civil espanhola é a pedra de toque das esquerdas, e a intelligentsia tupiniquim jamais aceitaria tal insulto. PT colhe Plantio 25/1/2002   “Isso já passou dos limites”, disse o presidente Fernando Henrique Cardoso, comentando o assassinato do prefeito Celso Daniel. Elástica noção de limites, a do presidente. Ocorreram 307 seqüestros em São Paulo, só no ano passado. Quer dizer que quase um seqüestro por dia ainda não constitui limite? O brutal assassinato de uma senhora, liberada por seus captores e logo após fuzilada pelas costas em frente à própria casa, estaria ainda longe do limite? O narcotráfico, que administra as favelas e determina dias feriados ou de luto, fechamento de escolas ou comércio, não seria um limite? Ao que tudo indica, não. Pois, em sua magnanimidade, o príncipe dos sociólogos tem uma generosa noção de limite. Os seqüestros e assassinatos cometidos pelos terroristas que queriam transformar o Brasil em uma imensa Cuba, não só foram anistiados como seus autores foram regiamente recompensados com cargos e polpudas aposentadorias. Sem ir mais longe, podemos começar por seu ministro da Justiça, Aloysio Nunes Ferreira. Membro do Partido Comunista Brasileiro, optou pela luta armada ingressando na Aliança Libertadora Nacional (ALN), o grupo terrorista de Carlos Marighella, de quem era motorista. Marighella, se alguém não mais lembra, é o autor do Manual do Guerrilheiro Urbano, traduzido em várias línguas na Europa e livro de cabeceira das Brigadas Vermelhas italianas e do Baader-Meinhoff alemão. (Em Estocolmo, em plena social-democracia nórdica, encontrei uma tradução do manual em sueco). Foi morto em 1969, em uma emboscada pela polícia e hoje é cultuado como santo pelas esquerdas. Em agosto de 1968, Aloysio Nunes — de codinome Mateus — participou do assalto ao trem pagador da Santos-Jundiaí. Em outubro, ao carro pagador da Massey-Ferguson. Ainda no mesmo ano, viajou com passaporte falso para Paris, onde passou a coordenar as ligações de Cuba com os comunistas brasileiros. Lá, filiou-se ao Partido Comunista Francês e negociou com o presidente Boumedienne, da Argélia, para que comunistas brasileiros recebessem treinamento militar naquele país. Com a Lei da Anistia, de 1979, regressou ao Brasil, onde foi eleito pelas esquerdas deputado estadual, vice-governador e deputado federal. Amigo dileto de Fidel Castro, após uma visita a Cuba no ano passado, o ditador foi ao seu embarque e o acompanhou até o avião para as despedidas, em homenagem a seu passado revolucionário. O agitprop internacional, assaltante e guerrilheiro, assecla de Marighella e íntimo de ditadores, com o cinismo peculiar das esquerdas quando chegam ao poder, declarou recentemente à jornalista Ana Paula Padrão: “Em outros momentos — eu me lembro — no tempo do regime militar, os serviços de repressão puderam desmantelar o PCB, o PC do B, a ALN, a VPR, o MR-8. Será que não podem dar conta desses criminosos que hoje fazem seqüestros relâmpagos e esse tipo de ação?” Poder, podem, Mateus. O problema é que quando estes grupos são desbaratados, os criminosos viram ministros. Não menos interessante é ouvir Fernando Henrique condenar seqüestros. Logo Fernando Henrique, que humilhou a nação ante uma sórdida campanha na imprensa internacional financiada por uma rica família do Canadá e avalizou a libertação de seus filhinhos seqüestradores, condenados pela Justiça a quase três décadas de prisão. Lula, o tetracandidato, foi correndo solidarizar-se com o entourage da vítima e participou de uma marcha pela paz. José Genoíno fala em Rota nas ruas e prisão perpétua. A multidão de petistas que acompanhou o enterro do prefeito pede pena de morte. Um programa de segurança do PT assume um projeto novayorquino e neoliberal, a tolerância zero. Quem empunhava estas bandeiras há questão de dois anos? Paulo Maluf, qualificado como fascista por empunhá-las. Acontece que as eleições estão aí e é preciso entrar em sintonia com o que eleitor pede. Por ocasião do seqüestro de Abilio Diniz, outro era o discurso do tetracandidato. Apressou-se em intermediar as negociações entre seqüestradores e polícia, de modo a garantir a integridade física, não do empresário, mas ... dos seqüestradores. Fernando Henrique Cardoso, mais seu ministro da Justiça na época, José Gregori, mais a Igreja, o PT e entidades ligadas aos famigerados Direitos Humanos empenharam-se com afinco na libertação dos canadenses. Quando o governo de um país, o líder da oposição e mais a Igreja lutam pela libertação de seqüestradores, qual mensagem recebe o grande público? Só uma: seqüestro pode render lucros e permanecer impune. Talvez o leitor contemporâneo já nem lembre, mas foram as esquerdas que introduziram no Brasil esta modalidade. Em nome de utopias assassinas, começaram a seqüestrar aviões e diplomatas. Dialogavam não com pessoas, mas com Estados. Curvem-se as nações ante o Brasil: seqüestro de aviões tem patente tupiniquim, é achado genuinamente nosso. No curto período em que estiveram na prisão, os seqüestradores exerceram uma função didática, ensinando suas técnicas aos presidiários de direito comum. E agora se queixam do progresso dos alunos. A tolerância das esquerdas com o seqüestro sempre foi óbvia, pelo menos até a semana passada. Alguém ouviu algum dia o PT condenar as FARC colombianas, que fazem do seqüestro sua estratégia privilegiada de obtenção de fundos? Eu nunca ouvi. O que vi, isto sim, foi o governo petista gaúcho receber com tapete vermelho um bandoleiro das FARC. Que, não contente em ser recebido quase com dignidade de chefe de Estado, andou fazendo palestras em escolas Brasil afora, em comunidades administradas pelas esquerdas. Os seqüestros do passado não constituem crimes para estes senhores. Neste insólito país, onde os derrotados escrevem a história presente, são tidos como atos heróicos e patrióticos. Até mesmo crimes horrendos tinham nobres conotações. As vestais que hoje se chocam com a execução brutal de Celso Daniel, não manifestaram horror algum ante outra execução também brutal, a daquele infeliz soldado que Lamarca executou, prisioneiro e indefeso. Ninguém, nas esquerdas, pediria prisão perpétua ou pena de morte para o assassino de um companheiro de armas. Pelo contrário, Lamarca hoje está instalado na galeria dos Vultos da Pátria, gozando do mesmo status de um Tiradentes. Ninguém, nas esquerdas, foi prestar solidariedade à família do soldado morto. Mas há projetos de impor aos currículos escolares a vida e obra deste santo homem, capitão Carlos Lamarca. O pensamento de esquerda criou um caldo cultural onde criminoso não é mais criminoso, mas vítima. Onde invasor de terras é herói e o proprietário que as defende é bandoleiro. Onde Luis Carlos Prestes é beato e Che Guevara vira santo. São chegados os dias de colheita. O Grande Ausente 1/2/2002   Desde meus dias de universitário, considerei Porto Alegre uma capital provinciana. Não pelo comportamento de seus cidadãos comuns. Mas por seus produtores culturais. Na universidade, me vi cercado de professores que se dobravam servilmente às últimas modas intelectuais requentadas na França ou Alemanha. Durante meus quatro anos de Filosofia, cochilei no fundo da classe, mal ouvindo mestres e doutores aculturados empunhando o pensamento de Sartre ou Heidegger. Na época, quem visse em Sartre um stalinista, ou em Heidegger um nazista, demonstraria insanidade mental. Nada como o tempo para destruir pedestais. Hoje, sabemos quem foram estes senhores. Nossos doutos professores, todos poliglotas e com anos de Europa na bagagem, papagueavam teorias assassinas germinadas às margens do Sena ou do Main. Se falavam da dialética em Platão, esta menção tinha um alvo preciso, era para retomá-la como a culminância do pensamento científico em Marx. Gerações foram doutrinadas com marxismo e as guerrilhas desvairadas daqueles anos não tiveram origem no operariado inculto, mas na universidade. Não só a do Rio Grande do Sul, é verdade. A mais reputada universidade brasileira, a USP, foi — e ainda é — o foco irradiador das doutrinas totalitárias exportadas pela Europa, para consumo do Terceiro Mundo. A barbárie não germinou entre brutos. Mas no seio da elite intelectual gaúcha e brasileira. Seria de esperar-se que, com o desmoronamento da União Soviética e o fracasso do marxismo, Porto Alegre se arejasse. Não é o que vemos. Alcaide e autoridades locais estão recebendo com orgulho os fósseis ambulantes de uma doutrina morta. Já recebi inclusive mails de porto-alegrenses que se ufanam de ver seu torrão em destaque na imprensa internacional. É atitude semelhante a dos intelectuais que julgam ter o 11 de setembro sido salutar para a divulgação do Islã. Sim, o Islã esteve nas primeiras páginas por algumas semanas. Mas como sinônimo de ódio, ressentimento, terrorismo. O que não me parece ser boa propaganda para uma religião. Da mesma que o Fórum só serve para jogar Porto Alegre no rol dos parques jurássicos. O Fórum Social Mundial se instala sob a sombra de bin Laden. Quando afundou a União Soviética, as carpideiras do PT gaúcho foram correndo buscar afago nos braços de Castoriadis e Habermas, que vieram a Porto Alegre enxugar as lágrimas das viúvas inconsoladas. Intelectuais já em desprestígio na Europa, sentiram-se guindados ao Olimpo, falando para hipnotizadas platéias nos salões da Reitoria da UFRGS. Um verdadeiro bain de foule para quem já estava sendo jogado à famosa lata de lixo da História. Como a defesa do socialismo hoje tornou-se inviável, só sobrou a bandeira infantil do antiamericanismo. Desta vez as esquerdas gaúchas foram pedir socorro ao lingüista Noam Chomsky, professor do MIT, especialista em fazer fortuna criticando o sistema que o nutre e sustenta. Hostilizado nas ruas e na imprensa americana, em acelerada queda no mercado de modismos intelectuais dos Estados Unidos após o atentado ao World Trade Center, Chomsky certamente adorará falar para uma platéia de universitários provincianos, sempre prestimosa em prestigiar intelectuais já sem prestígio. Em uma tentativa de agradar seus últimos currais, o lingüista já começou declarando na televisão seu espanto em ver, em uma capital do sul do Brasil, o poder há doze anos nas mãos do “maior movimento internacional de trabalhadores”. O professor do MIT crê firmemente que o Partido dos Trabalhadores, já que assim se chama, é constituído por trabalhadores. O arguto lingüista parece não ter percebido as nuanças que a linguagem adquire neste país incrível. Pressuroso em agradar aqueles universitários que no ano passado festejaram o atentado do 11 de setembro, já antecipou seu discurso na Folha de São Paulo : terroristas são a Europa e os Estados Unidos. Será aplaudido com delírio. Bin Laden era um justiceiro e não sabíamos. Não poderia faltar ao jamboree das esquerdas — como definiu o encontro o Estado de São Paulo — o promotor espanhol Baltasar Garzón, aquele bravo senhor que, sem jamais ter denunciado em seu país os líderes remanescentes do franquismo, resolveu estender sua jurisdição às ex-colônias e pediu a prisão, na Inglaterra, do general chileno Pinochet. Acostumado a legislar urbi et orbi, já chegou a Porto Alegre com uma postura imperial, vetando a presença de representantes da ETA no jamboree. Para desconforto do alcaide petista, que teve de desconvidar organizações terroristas que já aprontavam as malas para o encontro. Não poderia faltar ao encontro o goliardo Leonardo Boff, um dos mentores da sedizente Teologia da Libertação, pentimento católico do marxismo. Como também está de volta Danielle Mitterrand, viúva do torturador da guerra da Argélia e fã incondicional de Castro e Che Guevara. Tudo fecha. Está entre os convidados do Fórum uma vigarista internacional, Rigoberta Menchú Tum, que conseguiu enganar os noruegueses e o resto do planeta com um embuste intitulado Me llamo Rigoberta Menchú y así me nació la Conciencia . A biografia, que deu o prêmio Nobel da Paz à guatemalteca, foi escrita por Elizabeth Burgos, mulher de Régis Débray, aquele ex-ministro do presidente torturador que até hoje não conseguiu convencer ninguém de que não delatou Che Guevara aos militares bolivianos. Tudo em família. Segundo o antropólogo americano David Stoll, Menchú descreve com freqüência “experiências pelas quais nunca passou”. Afirma nunca ter freqüentado escola, nem saber ler, escrever ou falar espanhol até a época em que ditou sua autobiografia. Mas sua incultura era postiça: recebeu o equivalente à instrução ginasial em internatos particulares mantidos por freiras católicas. A luta de Menchú e outros indígenas pela terra, contra latifundiários de origem européia, era em verdade uma antiga rixa familiar de seu pai contra parentes próximos. O irmão mais jovem que dizia ter visto morrer de fome nunca existiu. Um outro, que dizia ter visto morrer queimado, não morreu queimado nem ela viu sua morte. Não poderia faltar um aceno aos jovens, que acamparão aos milhares às margens do Guaíba. A revolução, nós a faremos com os jovens: são estúpidos e entusiastas — já escrevia Roberto Arlt, no início do século passado. Disto, os porto-alegrenses parecem orgulhar-se. Já vivi em dez cidades no planetinha e hoje, para mim, é um pouco difícil dizer qual é minha cidade. De qualquer forma, foi em Porto Alegre que fiz minhas universidades, lá deixei amigos e amores. Gaudério, nutro grande carinho pela capital gaúcha. Assim, é com tristeza que vejo uma cidade que adoro orgulhar-se de hospedar o obscurantismo. Enfim, a elegância de uma festa também se mede pelos que não foram convidados. Como pano de fundo dos debates estará, brilhando por sua ausência, o terrorista saudita. Terror com Site e Hino 8/2/2002   Como la sombra de la memoria viva vuelve al combate frontal Manuel Rodriguez; alto y duro como un rayo interminable en contra del mismo tirano inmemorial, vuelve encendiendo la guerra necesaria trae en sus manos el fuego que castiga, viene y va con sus milicias invisibles para se±alar que un hombre nuevo crecerá. La patria está tan mal, Manuel la pondrá en pie, doblegando la noche sin gloria elevando el hombre hasta su historia, ayudando al pueblo en la victoria con la urgencia de su dignidad.   E assim por diante. Esta ode ao homem novo e à dignidade nacional é o hino da Frente Patriótica Manuel Rodriguez, braço armado do Partido Comunista Chileno. Você pode ler o resto da letra e até mesmo escutá-lo clicando aqui [www.fpmr.org]. Se a tal de Frente não lhe diz nada, talvez a sigla diga: FPMR, a organização à qual pertence Maurício Hernández Norambuena, mais conhecido como comandante Ramiro, líder do seqüestro em São Paulo do publicitário Washington Olivetto. Norambuena, para quem não sabe, é um destes heróis contemporâneos, ao estilo de David Spencer e Christine Lamont, aqueles dois bravos canadenses que foram encarcerados no Brasil e condenados a quase 30 anos de prisão, quando lutavam pela libertação dos povos, seqüestrando o empresário Abílio Diniz. Graças à ação decisiva da Igreja Católica, do PT e do próprio governo federal, a dupla de heróis foi libertada, após dez anos de cárcere — com seus companheiros chilenos, argentinos e brasileiros — e devolvida à generosa pátria do norte, que os eximiu de qualquer punição três meses depois. Foram decisivas para suas libertações os empenhos do cardeal Evaristo Arns, este campeão da liberdade, e do então secretário de Direitos Humanos, José Gregori. Tudo isto com o aval do presidente da República e do Congresso Nacional. Também combatente da liberdade, Norambuena foi um dos autores do atentado de 1986 contra Augusto Pinochet, quando um comando da FPMR lançou um foguete contra o carro do ditador, que bateu no veículo, sem explodir. Foi tesoureiro da FPMR e participou das execuções de agentes de segurança, além do atentado ao chefe da Força Aérea chilena. Preso em 1993, o herói chileno foi condenado à prisão perpétua pelo assassinato do senador Jaime Guzmán e pelo seqüestro de Cristián Edwards, executivo do jornal El Mercúrio . Em 1996, fugiu de forma espetacular e agora ressurge entre nós, seqüestrando um publicitário e sempre elevando o homem até sua história e ajudando o povo na vitória com a urgência de sua dignidade. Gente fina é outra coisa. A bandidagem tupiniquim, vivendo em uma era pré-Web, ainda nem pensou em hino. O site da FPMR, munido de artilharia de grosso calibre intelectual, publica los análisis que estimemos más relevantes y esclarecedores sobre el tema que vayan siendo publicados por cualquier medio por parte de pensadores, analistas o políticos . Entre condenações ao imperialismo ianque e louvações incondicionais à ditadura cubana, não poderiam faltar as penas de Eduardo Galeano, escritor uruguaio que enganou gerações com Las Venas Abiertas de America Latina ; Noam Chomsky, aquele senhor que julga ser o PT um partido de trabalhadores e considera que os verdadeiros terroristas são os Estados Unidos e a Europa; Antonio Negri, terrorista das Brigadas Vermelhas italianas e articulista contratado da Folha de São Paulo . Nada mais lógico que os executores da violência chamem, para apoiá-los, os teóricos da violência. Estes senhores assumem, prazerosamente, a tarefa. É de supor-se que os organizadores do Fórum Social Mundial não desconheciam as sutis relações do lingüista americano com o site do terror. Chomsky arrola como terrorismo as guerras passadas dos Estados Unidos e Europa. Como alguns países europeus tiveram um dia colônias na África, a Europa como um todo é uma federação terrorista. (Pessoalmente, sempre desconfiei que a prosperidade dos países nórdicos era devida às suas antigas colônias na África). Nenhuma menção, é claro, à tirania mais recente, a soviética, exercida sobre os países integrados manu militari à ex-URSS. Ora, se formos voltar atrás na história, o Pentateuco é um manual de terrorismo movido a ódio cru. Dentro da ótica do lingüista, temos de concluir que todo vencedor de uma guerra é ipso facto genocida. Para Negri, o capitalismo globalizado está enfermo da violência e da miséria que gera. O socialismo, bem entendido, jamais gerou miséria e goza de boa saúde, vide os esplêndidos índices de bem-estar social da Rússia e Cuba, hoje. O seqüestro, como observou o Estado de São Paulo , seguiu estritamente as regras estabelecidas na apostila O Seqüestro como Arma , de Carlos Marighella, criador do grupo terrorista Aliança Libertadora Nacional (ALN). O refém deve ser mantido em um imóvel que não desperte suspeitas, isolado em uma cela já existente ou construída especialmente, por exemplo, no centro de um dos cômodos para permitir o controle absoluto. As normas do dia-a-dia devem ser em quantidade tal que o seqüestrado, empenhado em atendê-las e evitar punição, tenha pouco tempo para estudar os seqüestradores ou colher dados que permitam uma futura identificação. Tais regras evidentemente devem dar uma pista concreta a nosso muito digno ministro da Justiça, sr. Aloysio Nunes Ferreira, que afinal foi chofer de Marighella e membro da ALN nos anos 60. As determinações sobre como Washington Olivetto deveria comportar-se no cárcere chegam a coincidir, palavra a palavra, com as determinações feitas a Abílio Diniz. A relação entre um seqüestro e outro é óbvia. E os nobres propósitos de David Spencer e Norambuena serão os mesmos, a redenção dos oprimidos. Você não vai confundir, é claro, o valoroso combatente anti-Pinochet com um mero bandoleiro de morro. César Quiróz, fundador e atual comandante da Frente Patriótica Manuel Rodrigues, livre como um passarinho em Santiago do Chile, já prepara o caminho da libertação do herói, em entrevista publicada ontem no Estadão : — Creio que as motivações de Norambuena são políticas. Em nenhum caso eu acredito que seja uma ação criminosa. Acredito que sua motivação foi para ajudar a erguer o movimento revolucionário no Chile e a Frente Patriótica. É de supor-se que a CNBB, o PT, o Congresso Nacional e o ministro da Justiça — de codinome Mateus — não deixarão nas mãos da repressão os heróicos combatentes. Aqui-del-rei, cardeal Arns, senador Suplicy! Primeiro os teus, camarada Mateus! Eia! Sus! companheiros Lula, José Dirceu, Marta, Genoíno, Tarso Genro, Olívio Dutra e frei Betto. Um combatente da liberdade está prestes a apodrecer nos porões do neoliberalismo. Elevemos o homem até sua história, ajudemos o povo na vitória. Liberdade para o comandante Ramiro e seus bravos combatentes! O Papa e a Rosa 15/2/2002   La Rabia e lÆOrgoglio , o soberbo panfleto de Oriana Fallaci, escrito por ocasião do atentado ao World Trade Center, foi transformado em livro e está vendendo como pão quente na Itália. Lançado em meados de dezembro passado, chegou a vender 50 mil cópias por dia, proeza sequer igualada pelos Harry Potters da vida. A escritora florentina, hoje residente em Nova York, foi talvez a única voz européia a não render-se à armadilha do multiculturalismo, que hoje grassa nos países ocidentais. Atéia por definição, ama sua Florença natal e todos seus símbolos religiosos oriundos do cristianismo, hoje ameaçados de transformar-se em privadas pelos imigrantes ilegais acampados em suas imediações. Seu livro é protesto irado contra esta “ambígua União Européia, que masoquisticamente hospeda dez milhões de muçulmanos, que adora fornicar com os países árabes, embolsar seus petrodólares. Esta estúpida Europa que fala de identidade-cultural com o Oriente Médio”. Seu repto aos fotutti figli di Allah — como designa os muçulmanos — só por milagre será traduzido no Brasil, onde as grandes editoras há muito renderam-se ao politicamente correto. Enfim, se você lê italiano, sempre pode encomendá-lo pela Internet. (Se lê espanhol, escreva-me e receberá o texto básico que deu origem ao livro). Sempre que se fala em Islã na Europa, ilustres humanistas não faltam para defender a tolerância e a convivência com a cultura do “outro”. A recíproca não é verdadeira. Se a Arábia Saudita financia a criação de mesquitas e madrassas em todo o Ocidente, não vamos encontrar nenhum templo cristão em seu território. Em seu desabafo, a jornalista lembra algo que os estadistas ocidentais preferem esquecer: quando os palestinos cometiam massacres em aviões e aeroportos, era a Casa Real Saudita quem financiava Arafat, hoje tão mimado pelos chefes de Estado europeus. O problema não é bin Laden, como Fallaci deixa claro em seu livro. Encerrado em sua prisão mental, o paranóico saudita imaginou poder aniquilar o Ocidente jogando aviões contra prédios. Sua sangrenta molecagem só fortaleceu os Estados Unidos como também desserviu o mundo árabe e, principalmente, o universo imigrante. Mais grave que bin Laden são os quintas-colunas que minam o Ocidente desde dentro. Se Jeová civilizou-se, Alá continua intolerante. Intolerante e arrogante, mesmo fora de sua geografia. No final do ano passado, em Milão, Rosa Petrone, uma enfermeira italiana convertida ao Islã, decidiu não retomar sua função no hospital de Niguarda enquanto não forem removidos os crucifixos do local de trabalho. A União Muçulmana da Itália tomou posição a favor da enfermeira, alegando que “a presença do crucifixo católico em locais públicos é violação e desafio à neutralidade e laicidade do Estado”. Ainda no ano passado, em outra cidade italiana, uma professora pedia a retirada do crucifixo das salas de aula, para não ferir suscetibilidades de filhos de imigrantes. As crianças, no entanto, ainda preservam uma opinião independente. No Natal passado, em uma pesquisa feita entre 2500 crianças e adolescentes italianos, entre 7 e 16 anos, uma expressiva cota de 38 por cento manifestou o desejo de não conviver com estrangeiros na escola. Caro Babbo Natale, allontana gli immigranti — este era o desejo expresso pela meninada. Caro Papai Noel, afasta os imigrantes. Ainda não contaminadas pelo politicamente correto, as crianças expressaram o que muito italiano pensa mas já não ousa dizer. Teóricos complacentes podem alegar que o Islã prega a paz. Esquecem que Maomé foi um guerreiro. Se a Igreja romana já se conformou com o ecumenismo, o mesmo não ocorreu com os fanáticos de Meca. Se em suas suratas o Alcorão faz acenos à paz, o que vemos no mundo islâmico é belicismo e intolerância. A Bíblia também está permeada de gestos de amor. Mas o que vimos na trajetória da Igreja foi sangue, tortura, intolerância, ódio à vida e ódio à humanidade. Se o leitor quiser uma idéia da beligerância do atual Islã, pode começar estudando a história da Igreja na Idade Média. A cruz que o diga. Um instrumento de tortura e morte passa a ser o logotipo de uma religião que prega o amor. O duplipensar de Orwell, como vemos, é bem anterior ao comunismo. Não tenho simpatia alguma pelo crucifixo e, como a Rosa, me irrita vê-los em tribunais, escolas ou hospitais de um Estado que se pretende laico. Da mesma forma, foge a qualquer lógica ver constituições republicanas invocando deus em seus preâmbulos. O que espanta na decisão da recém-convertida é pretender limpar o Estado italiano de símbolos religiosos, logo em nome do Islã, fértil em Estados teocráticos. Pretenderá a enfermeira eliminar a cruz da Cruz Vermelha? É bom lembrar que a instituição homológa no mundo árabe se chama Crescente Vermelho, e provavelmente seria decapitado quem fizesse greve para eliminar o crescente. Respublica Christiana, assim chamou-se a Europa em seus primórdios. Impossível conceber uma Europa sem cruzes e campanários. Mesmo sendo ateu, muito perambulei por basílicas e catedrais na Europa, sem que isso significasse qualquer busca de fé, mas apenas desejo de contemplação artística. Sem nada ter a ver com Alá, sempre tirei os sapatos para entrar em mesquitas. Impossível imaginar um Oriente sem crescentes e minaretes. Jamais me ocorreria exigir o banimento da cruz da geografia que freqüento. Ou a proibição do crescente no mundo árabe. A Europa já conjurou no passado a ameaça islâmica, mandando os árabes de volta ao Oriente. Cinco séculos depois, a invasão recomeça. Sem lanças nem alfanges, mas com cartilhas de multiculturalismo e direitos humanos em punho. Debilitada pela ação de quintas-colunas, a Itália parece vacilar entre a cruz e o crescente. Mas o papa romano não perde ocasião de cometer suas aiatolices. Em janeiro passado, João Paulo pediu a juízes e advogados que não aceitassem processos de divórcio já que, segundo a Igreja, o casamento é indissolúvel e a lei divina, superior à lei dos homens. Imiscuindo-se em questões de Estado, o papa considera que a sociedade toda deve submeter-se à fé católica. Em sua senectude, conclama os funcionários da justiça à desobediência civil. O aiatolá Khomeiny não teria feito melhor. Diante desta brutalidade dogmática, oriunda da boca de um geronte em estado terminal, Rosa Petrone não deixa de ter razão. Sufiyatu, Fadime, Shahida 22/2/2002   O presidente da Nigéria, Olusegun Obasanjo, expressou nesta terça-feira passada, em Roma, esperança de que Sufiyatu Huseini, condenada a morte em outubro por apedrejamento por ter cometido adultério, “obtenha justiça após sua apelação”. Sufiyatu é uma das tantas mulheres muçulmanas submetidas ao brutal regime islâmico da chamada sharia plena. Sufiya, como é mais conhecida, tem 35 anos e dois filhos, sendo que o último é uma menina de dez meses, Adama. O adultério cometido por Sufiya é peculiar. Divorciada no ano passado, pelo fato de o marido não poder sustentá-la — o que é permitido pela lei islâmica na Nigéria — foi estuprada quatro vezes por Yakubu Abubakar, de 60 anos e engravidou. Segundo a interpretação mais comum da lei islâmica, o adultério só fica comprovado se alguém o confessa ou se o ato foi visto por quatro testemunhas masculinas. Em uma primeira audiência, Abubakar admitiu o relacionamento sexual. Na segunda, negou. Como não havia os quatro machos de praxe exigidos como testemunhas, foi absolvido. Mas Sufiya estava grávida. Mesmo sem estuprador, mesmo divorciada, cometeu adultério. Segundo uma rigorosa interpretação do Corão, adotada pelos Estados do norte da Nigéria, basta a gravidez como prova do crime. O desejo manifesto de Abubakar de casar com Sufiya não foi suficiente para absolvê-la. O juiz de um tribunal islâmico de Sokoto, onde foi julgada, determinou que a sentença seja executada tão logo Adama seja desmamada. O fato transpirou para o Ocidente e vários países europeus pediram às autoridades nigerianas clemência para a ré. Sufiya recorreu da sentença e uma audiência está marcada para meados de março. É muito fácil atribuir ao Islã a execução de adúlteras. Em verdade, a Santa Bíblia também a ordena. O fato é que o Ocidente há muito abandonou tais práticas. Se ainda hoje são encontradiças em cidades e aldeias católicas do sul da Europa e mesmo na América Latina, são capituladas como crime. No Brasil, até os anos 70, a alegação de defesa de honra absolvia muito marido assassino. Estes tempos são passados e hoje um corpo de jurados não aceitaria mais tal argumento como atenuante. Nenhuma voz ergueu-se no mundo árabe para defender uma mulher que, se praticou adultério, é porque foi estuprada. Mas lei é lei e apesar da intervenção européia, não é evidente que a moça escape à lapidação. Que bárbaros matem suas mulheres em sua geografia, pode ser injusto segundo nossos conceitos de justiça. Mas é inteligível, afinal os executores estão cumprindo seus bárbaros preceitos. Na Nigéria não é crime matar uma adúltera, mas obrigação legal. O conflito surge com mais ênfase quando muçulmanos matam mulheres em geografias onde é crime matar quem quer que seja. Se Sufiya espera a morte em março em Sokoto, Fadime Sahindal, 26 anos, não precisou esperar tanto. Foi executada em janeiro passado em Upsala, Suécia. Não pelo marido, que não tinha. Nem pelo Estado, que lá não mata. Mas pelo próprio pai, com três tiros na cabeça. Na presença da mãe e de suas três irmãs, “para proteger a honra da família”. Menina turca de origem curda, cometera o crime inominável de enamorar-se de Patrik Lindisjö, cidadão sueco. Detalhe: Patrik já havia morrido em 1998, em um estranho acidente. Em 20 de novembro passado, Fadime denunciara ao Parlamento sueco as perseguições e maus tratos por parte de seu pai e seu irmão: “Meu pai deduziu que eu tinha uma relação sexual com Patrik. Para minha família era importante conservar a virgindade e poder dar testemunho dela nos lençóis da noite de núpcias. O sentido de minha vida era casar-me com um homem curdo. Subitamente, aos olhos de minha família, me transformei de boa menina curda em mulher de má vida. Decidi pela ruptura com minha família. Me mudei de minha casa e da cidade, mas meu irmão me perseguiu e me ameaçou”. Fadime denunciou o assédio à polícia e finalmente optou por contar sua história para a televisão. Os suecos se comoveram e protestaram contra a passividade policial ante os problemas sofridos pelas mulheres da comunidade curda refugiada na Suécia. Em 98, seu pai e irmão foram julgados e condenados a penas leves. Foi quando Patrik foi encontrado morto em seu carro, que havia se chocado contra um pilar de cimento. Ontem ainda, o vespertino sueco Aftonbladet afirmava que devia existir um cúmplice do pai de Fadime. “Uma pessoa normal jamais mataria a própria filha”, diz o jornal. Isto de um ponto de vista sueco. Ou civilizado, como quisermos. De um ponto de vista muçulmano, mata e julga estar cumprindo um dever. Em Manchester, Inglaterra, foi condenado à prisão perpétua o paquistanês Faqir Mohammed, 69 anos, muçulmano que matou a facadas Shahida, sua própria filha, depois de descobrir que o namorado estava no quarto dela. Mohammed voltava de uma mesquita e sua outra filha, Majida, tentou avisar a irmã pelo celular que o pai estava chegando. Em vão. O pai desconfiou de alguma coisa e usou uma chave extra para abrir o quarto da filha. Lá dentro ele encontrou o estudante Bilal Amin, totalmente vestido, sobre a cama de Shahida. O rapaz fugiu por uma janela. O pai deu 19 facadas na filha, na cabeça e na barriga. Sufiyatu, Fadime, Shahida. E milhares de outras cujo nome não chega a jornal nenhum. Se o Estado não mata, o pai assume a tarefa. A honra precisa ser salva. Mas que honra é essa que só pode ser lavada com sangue? A idéia de respeitar, já não digo os costumes, mas pelo menos a lei, do país que o acolhe, não passa pela cabeça de um muçulmano. Oriundo de uma sociedade teocrática, ele não consegue fazer a distinção entre universo laico e crença religiosa. Tem um mandamento divino na cabeça e julga que aquilo tem força de lei. Daí o conflito. Fadime teve sorte, morreu rápido. Shahida sofreu as dores de uma lâmina penetrando seu corpo jovem. Para Sufiyatu, o Estado reserva uma morte lenta. Mais moças oriundas do universo muçulmano serão assassinadas na Europa. Com a crescente invasão de imigrantes no continente, em breve chegará a vez das européias. Santa e Bela Catarina: Anita, Guga e madre Paulina 1/3/2002   Ufanem-se os afonsos celsos da vida. Já temos santa. Aleluia, irmãos. Dia 19 de maio próximo será canonizada a primeira santa brasileira, madre Paulina do Coração Agonizante de Jesus, religiosa italiana que viveu em Nova Trento, Santa Catarina. Agora só falta o Nobel. Pior que o ufanismo nacional, só mesmo os bairrismos estaduais. Já devo ter contado que encontrei, nos currículos da UFSC, uma curiosa ementa: História da Filosofia Catarinense. Sem jamais imaginar que existisse uma filosofia catarinense, descobri que já existia uma história da filosofia catarinense. Não seria de espantar que, com o futuro decreto vaticano, tenhamos até uma hagiologia barriga-verde. Os catarinenses já criaram do nada uma heroína, que só é heroína por ter largado o marido e seguido os olhos azuis de Garibaldi. Agora têm santa. João Paulo II, na chefia de uma próspera indústria, já beatificou e canonizou mais pessoas que todos os papas anteriores desde a fundação, em 1594, da Congregação das Causas dos Santos. Seus predecessores, todos juntos, nomearam 808 beatos e 296 santos. Ele sozinho, em 24 anos de papado, produziu mais de 1.300 beatificações e 470 canonizações. Não poderia faltar pelo menos um para a grande nação católica tropical. Regozijem-se os agentes de turismo, restauradores e hoteleiros. Se uma cidade nada tem de interessante para oferecer a visitantes, urge criar um santo. É tiro e queda. A localidade de Vígolo, no município de Nova Trento, Santa Catarina, onde a religiosa viveu dos 9 aos 37 anos, tem recebido 120 mil romeiros por ano. Terça-feira passada, com o anúncio da futura canonização, quase mil peregrinos passaram pelo local. O dobro do normal, segundo a irmã Lígia, uma das nove freiras da Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição. Imagine o leitor o número de estômagos a alimentar e corpos a hospedar, quando madre Paulina tiver tomado posse, oficialmente, de seu cargo de embaixatriz junto ao Senhor. Santo is money. Lourdes, Fátima e Medgorje que o digam. Esta política de linha de montagem praticada por João Paulo tem seus riscos. Se nos tempos antigos constituía um problema reunir dados em torno de uma pessoa, hoje ocorre o inverso: o problema é o excesso de dados. Numa época em que cientistas conseguem bisbilhotar até mesmo a vida íntima de uma múmia imemorial encontrada nos Alpes, os santos que se cuidem. Ainda há pouco, João Paulo beatificou Giovanni Maria Astai, mais conhecido como Pio IX. Ocorre que o novel beato, em sua passagem terrena, além de mandar revolucionários romanos para a guilhotina, chamou os judeus de cães e os confinou em um gueto em Roma. A beatificação de Astai, primeiro passo para a canonização, denota grave amnésia do papa que, recentemente, pedia perdão aos judeus pela perseguição a eles promovida pela Igreja Católica Apostólica Romana. Religion is a queer thing , guia assinado por um time de acadêmicos comandado por Elizabeth Stuart, teóloga e editora do Journal of Theology and Sexuality , é mais um desses títulos que jamais serão editados no Brasil. O país pode ser laico, mas nenhum editor ousaria desafiar a representação tupiniquim do Vaticano. Neste livro, Santo Agostinho, Santa Tereza, Santo Anselmo e outros dezenove santos, embora não sejam diretamente chamados de homossexuais, são descritos no livro como queer. Segundo os autores, “os santos podem ser vistos como queer por causa de seus fortes sentimentos por pessoas do mesmo sexo”. Santo Agostinho (354-430), bispo de Hipona e autor de As Confissões , caiu em tentação e tornou-se pai antes de fazer dezoito anos. Seu filho, significativamente, chamou-se Adeodato. Prudente, formulou ao Altíssimo esta prece malandra: “fazei-me casto, Senhor. Mas não já”. Em Religion is a queer thing , Agostinho é citado por ter tido um intenso relacionamento com um homem que foi desonrado pela “indecência da concupiscência”. Ainda de acordo com o guia, Santo Anselmo di Aosta (1033-1109), teólogo e filósofo italiano, também disputado pela França e Inglaterra, teve profundos relacionamentos afetivos com homens e foi um dos primeiros a se referir a Jesus como mãe. A mística carmelita espanhola Tereza de Ávila (1515-82) é retratada como uma mulher forte e divertida. Na juventude, segundo o guia, teria tido uma paixão lésbica. O que, no fundo, confere um toque de humanidade a estes servos de um deus assexuado. Homossexualismo é intrínseco a comunidades onde os sexos são separados e não é por acaso que os padres católicos estão sendo processados no mundo todo por abusos sexuais de menores. Em novembro passado, em sua primeira mensagem enviada por e-mail, João Paulo pedia desculpas às vítimas de abusos sexuais por membros do clero. Não é o caso de madre Paulina do Coração Agonizante de Jesus. O problema continua sendo o excesso de dados que a época atual produz. Pio XII, o papa conivente com o Holocausto, já estava na linha de montagem do Vaticano, quando foi publicado O Papa de Hitler , de John Cornwell. João Paulo, cauteloso, preferiu beatificar o que chamou os judeus de cães. É sabido o empenho do sumo pontífice na canonização de Agnes Bojaxhiu, mais conhecida como madre Teresa de Calcutá. Ora, sabe-se que madre Teresa costumava depositar flores na tumba de seu conterrâneo, Enver Hoxha, um dos mais sanguinários ditadores comunistas do século passado. No Haiti, durante a tirania de Baby Doc, recebeu de suas mãos a “Légion d’honneur” haitiana. Junto à Suprema Corte dos Estados Unidos, pediu clemência para Charles Keating, vigarista condenado a dez anos de prisão por lesar os contribuintes americanos em 252 milhões de dólares. Deste senhor, Madre Teresa recebeu a simpática quantia de 1,25 milhão de dólares e a oferta de um jato privado para suas viagens. Não vai ser fácil. Para que um venerável se torne beato, exige-se a comprovação de um milagre. Para santo, dois. Ora, se milagre existe, a ciência é vã. Como médicos venais para atestar charlatanices é o que não falta, os santos têm brotado nas últimas décadas como cogumelos após a chuva. Para embevecimento dos pobres de espírito e suma alegria dos agentes de turismo e mercadores de pequenas comunidades que só têm santidade para exportar. Santa e bela Catarina: Anita, Guga e madre Paulina.O sagrado quadril do herói já elevou o Estado à primeira página dos jornais. A Igreja adora exibir membros de seus campeões. Para quando a santa canela da madre? A Profissão Gay 8/3/2002   Em Toda Nudez Será Castigada , Nelson Rodrigues consegue um desses milagres raros na dramaturgia, o de construir um personagem poderoso que jamais aparece em cena. É o ladrão boliviano. Não tem rosto, não tem voz, mas tem presença, e das mais importantes. Um dos personagens da peça é um adolescente, criado por três tias neuróticas, daquelas neuróticas como só o Nelson sabia criar. O ladrão boliviano paira como uma ameaça abstrata à ordem e aos bons costumes, durante todo o texto. Abstrata, mas ameaça. Lá pelas tantas, a tragédia explode. O rapaz, que fora preso por uma infração qualquer, fora posto na mesma cela do ladrão. Pior ainda: fugira com o ladrão boliviano. — Se fosse filho meu, eu matava — berra escandalizada uma das tias. Numa das apresentações da peça em Porto Alegre, um gaiato gritou na platéia: — Seria o fim do teatro nacional. Explosão de riso entre o público, ante o inspirado cavaco do espectador. Mesmo os atores, profissionais tarimbados, deixaram o profissionalismo de lado e tiveram de rir. Enfim, estamos no universo das artes, onde mesmo os comportamentos menos ortodoxos são permissíveis e saudados com gargalhadas. Comentei, na crônica passada, a ocorrência de homossexualismo na Igreja Católica e mesmo entre santos, devidamente canonizados pela Santa Sé. O problema parece ser bem mais grave do que parece. Segunda-feira última, o Vaticano declarou que homossexuais não devem ser ordenados padres. A recomendação, a primeira a ser feita pela Igreja após vários estudos apontarem o grande número de padres gays, foi transmitida pelo porta-voz do papa João Paulo II, Joaquín Navarro-Valls. Não faltou o gaiato para alertar: — Seria o fim da Igreja Católica. Foi mais ou menos o que disse, em outras palavras, Richard Sipe, ex-padre e psiquiatra. Ex-padre é o que dizem os jornais, pois ex-padre, do ponto de vista canônico, não existe. Um leigo, quando é ordenado sacerdote, ouve as palavras rituais: sacerdos in aeternum. Ou seja, sacerdote para a eternidade. Pode abjurar suas crenças, cometer apostasias ou heresias, casar ou largar a batina. Mas continua sendo sacerdote, segundo a Ordem de Melquisedec. Suas mãos não perdem o poder de transformar o pão e o vinho em carne e sangue. Enfim, deixando de lado estas firulas teológicas, padre Sipe adverte: — Se forem retirados da Igreja todos os homossexuais, o número de padres diminuirá tanto que o efeito sobre a Igreja será como o da bomba atômica. Segundo Sipe, que estuda a vida dos padres há 25 anos e já escreveu três livros sobre o assunto, isso significaria o afastamento de pelo menos um terço dos bispos do mundo. “Além disso, muitos santos e papas eram homossexuais”. Para o reverendo Donald B. Cozzens, de Ohio, “quem conhece muito bem os padres raramente discorda que o sacerdócio é ou está se tornando uma profissão gay”. Segundo o reverendo, o número de homossexuais é tão grande nos seminários que esses lugares estão se tornando desconfortáveis para heterossexuais. Nada que não fosse previsível. Os hormônios fervem e nos seminários não há mulheres. (Como também nos quartéis, mas isto são outros quinhentos). A Igreja está pagando hoje um grave erro cometido séculos atrás, ao esboçar a figura de um Cristo assexuado. Há alguns anos, na Folha de São Paulo , levantei a hipótese de Cristo ter sido homossexual. O que não seria improvável, a partir dos escassos dados que temos de sua vida. Escândalo entre os leitores católicos. Um padre, que dizia dirigir uma instituição orientada para ex-gays, telefonou-me para externar sua indignação. Dizia ter recuperado muitos homossexuais e considerava que meu artigo sabotava seu trabalho. Externei de volta minha estupefação. Ex-padres, apesar da contradição canônica que a expressão implica, eu conhecia. Ex-gays, nunca vi. Admitamos então que Cristo fosse heterossexual e se relacionasse com as mulheres de seu entourage . Escândalo também. Para os doutores da Igreja Cristo não teve mulheres. Só restam então duas hipóteses, nada dignificantes para o deus encarnado: ou era um masturbador contumaz, ou era doente. Ao extirpar a sexualidade do Cristo, os padres o mutilam como homem. O Deus católico assume a carnalidade humana, exceto no que ela tem de mais carnal, o sexo. Não se deve expulsar a natureza pela porta, já diziam os antigos. Ela volta pela janela. No caso do clero, está voltando a galope. Nietzsche percebera muito bem esta natureza perversa da Igreja. Em sua “Lei contra o Cristianismo”, decreta: Artigo Primeiro — É vício qualquer tipo de antinatureza. A mais viciosa espécie de homens é o padre: ele ensina a antinatureza. Contra o padre não temos razões, temos a casa da correção. E no Artigo Quarto: a pregação da castidade é uma pública excitação para o antinatural. Desprezar a vida sexual, enxovalhá-la com a noção de “impuro”, eis o verdadeiro pecado contra o espírito santo da vida. Pregar liberdade sexual nos dias que passam virou lugar comum, pelo menos no Ocidente. A Igreja terá de aceitar que seus ministros têm sexo ou terá de continuar fingindo que não vê o óbvio, o sacerdócio virando ofício para gays. Do ponto de vista canônico, o Vaticano tem razão. Ao ser ordenado, entre outros votos, o padre faz o de castidade perpétua. Este voto, segundo o cânon 1088 do Código de Direito Canônico, priva inclusive da possibilidade de casar, constituindo impedimento dirimente do matrimônio. Por estas razões, o voto perpétuo de qualquer religioso deve ser inscrito no livro de batismos. Que o cumpra então, enquanto tiver fé. Há alguns anos, um amigo narrou-me uma tragédia das boas, daquelas sem volta. Um sacerdote já entrado nos 60 anos, que a havia perdido, debruçou-se sobre suas mãos e começou a chorar: — Eles roubaram minha vida. Roubaram mesmo. Mas se roubaram, é porque deixou-se roubar. “Te é melhor que se perca um dos teus membros do que seja todo o teu corpo lançado no inferno”, diz Mateus. Orígenes, teólogo e autor de Contra Celso , levou as Escrituras ao pé da letra e cortou o seu. Ora, nem a Igreja crê em inferno hoje. Ou pelo menos desistiu de brandi-lo como ameaça. Em vez de cortar o membro, melhor cortar a fé. É mais saudável. E menos indolor. Se uma crença entristece a carne, é simples: basta jogá-la na lata de lixo. Uma vida roubada jamais será devolvida. Sobre Roseana, Zé Dirceu e Paiakan 15/3/2002   Ufanem-se os brasileiros. Já temos moeda forte. Pelo menos é a primeira conclusão que se pode tirar do 1,3 milhão de reais encontrados na empresa da governadora Roseana Sarney, empilhados em flamantes 26.800 notas de 50. No governo Sarney pai, o cruzado estava tão desmoralizado que as falcatruas eram todas em dólar. Dez entre dez corruptos preferiam as verdinhas. Nos dias de Collor, P.C. Farias jamais se abaixaria para catar cruzeiros da sarjeta. Hoje, já se aceita moeda nacional. Doleiro virou coisa obsoleta. Nem tudo está perdido. O milhão do Maranhão é um voto de robusta confiança no Plano Real e na política econômica de Fernando Henrique Cardoso. A Sarney virou arara. Nem o presidente da República, nem o ministro da Justiça a haviam avisado previamente do mandado de busca e apreensão. Cacoete de coronela, acostumada a comprar juízes bons e baratos. A mesma psicologia do bicheiro carioca Castor de Andrade. Quando foi estourada sua fortaleza, reclamou: “Que espécie de polícia é essa que não me avisa de uma devassa em meu escritório?” Governadores e bicheiros em muito se parecem. Não menos indignados ficaram as altas autoridades do Planalto com a indignação da governadora. O diretor-geral da Polícia Federal, Agílio Monteiro Filho, foi curto e grosso: “Cumprimos ordem judicial. Ordem judicial não se discute. Toda ordem emanada da Justiça Federal tem que ser cumprida pela Polícia Federal”. No mesmo tom se pronunciou Marco Aurélio Mello, presidente do Supremo Tribunal Federal: “A Polícia Federal cumpriu um mandado, e ordem judicial é para ser cumprida”. O milhão do Maranhão fez cair no esquecimento um bem sucedido golpe no bolso do contribuinte. Perfeitamente legal e com o jamegão de ministros. A Comissão de Anistia, criada com o intuito específico de recompensar regiamente os marxistas que um dia quiseram transformar o país em uma grande Cuba, aprovou a concessão de indenização de R$ 59,4 mil para o presidente do PT, deputado José Dirceu (SP), por ter sido obrigado a abandonar o País por onze anos, no regime militar. Esta é a versão da Comissão. Membro do grupo terrorista ALN (Aliança Libertadora Nacional), José Dirceu recebeu treinamento em Cuba. Preso por sua participação na luta armada, foi trocado pelo embaixador americano Charles Elbrick, seqüestrado por outro grupo terrorista, o MR-8. O atual presidente do PT, além de escapar da prisão a qual fora legalmente condenado — mediante outro crime, um seqüestro — recebe ainda uma gorda compensação pelos anos em que degustou o amargo caviar do exílio. Para esta decisão, não cabe mais qualquer tipo de recurso. O dinheiro será pago em uma única prestação. Após a assinatura da portaria pelo ministro da Justiça, Aloysio Nunes Ferreira — não por acaso, também ex-terrorista da ALN, codinome Matheus — o processo segue para o Ministério do Planejamento, responsável pelo pagamento. Tudo em família. Ou melhor, tudo em quadrilha. Primeiro os meus, diria Matheus. Durante a ditadura, as “expropriações” exigiam metralhadoras. Agora, basta uma caneta. Antes, implicavam risco de prisão e de vida. Hoje, são concedidas como honra devida a heróis. A expectativa do presidente da comissão é de que pelo menos 40 mil pessoas apresentem requerimentos. O valor das indenizações pode ser de até R$ 100 mil, isso sem falar numa pensão especial mensal de até R$ 10,8 mil — maior salário que pode ser pago com recursos da União. Suponhamos que os membros da Comissão de Anistia sejam uma mãe para com os outros 40 mil coitadinhos, como o foram com o terrorista foragido José Dirceu. Para efeitos de cálculo, arredondemos esta simpática indenização para 60 mil reais. Suponhamos que seja esta a indenização média a ser recebida pelos 40 mil que um dia tentaram transformar o país numa ditadura socialista. Se ainda conheço aritmética, isto dá ... 2,4 bilhões de reais. Sem falar na pensão especial mensal de até R$ 10,8 mil. E ainda há ingênuos que pensam que o crime não compensa. Para uma imprensa cúmplice, melhor enfocar os magros caraminguás achados no cofrinho da Roseana. Para não assustar o contribuinte. “Ordem judicial não se discute. Toda ordem emanada da Justiça Federal tem que ser cumprida pela Polícia Federal”, diz o diretor da Polícia Federal. Exceto, bem entendido, quando o alvo da sentença é “o homem que pode salvar a humanidade”. como foi definido pela imprensa americana o cacique Paulo Paiakan. Por ter estuprado, junto com sua mulher Irekran, a estudante Sílvia Letícia, foi condenado a seis anos de prisão. O estupro ocorreu em 1992, mas até hoje o criminoso vive livre como um passarinho em sua reserva. O juiz José Torquato Araújo de Alencar expediu carta precatória de prisão do criminoso, que chegou na sexta-feira, dia 8 de maio, Dia Internacional da Mulher, à Vara Federal de Marabá. (Entre milhares de manifestações feministas no Dia da Mulher, não houve uma sequer que pedisse punição ao índio, em desagravo à menina violentada). A Vara ordenou seu cumprimento pela Polícia Federal e já preparou uma penitenciária, em Marabá mesmo, para receber o hóspede ilustre. Paiakan avisou que não se entrega. Jader Barbalho estende gentilmente as mãos quando lhe apresentam um par de algemas. O homem que pode salvar a humanidade, não. Refugiado na aldeia Aukre, o cacique estuprador conta com a proteção de seiscentos guerreiros (sic!) caiapós. Segundo os líderes indígenas, sua prisão representaria uma desmoralização para a tribo e colocaria toda a comunidade indígena sujeita “às leis da cidade”. Temos então as “leis da cidade”. Quais seriam as outras? As da selva, onde estupro é bom, digno e justo? O cacique Akioboro, foi taxativo: “Eu já disse, vou repetir e você pode escrever aí que o Paiakan não será preso por ninguém da polícia. E quem tentar entrar armado, seja na aldeia Aukre ou em qualquer outra aldeia nossa, terá de enfrentar nosso povo numa guerra. Vai morrer muita polícia e índio.” Paiakan tem ainda quatro anos de pena a cumprir, em prisão fechada. Sobre esta decisão não cabem recursos, pois a sentença já transitou em julgado. “Ordem judicial é para ser cumprida”, rosna o presidente do Supremo Tribunal Federal. Será? Ou a mais alta autoridade da magistratura nacional será desmoralizada por um bugre? Quem viver, verá. Véu Faz Vítimas 22/3/2002   A realidade é avessa à ortodoxia. Os fatos são teimosos e, não raro, tratam de desmoralizá-la. Aconteceu na Arábia Saudita, em 79, em uma copa de futebol. O fato foi relatado no jornal Al Medina , de Riad. Abdul Rahman El Otaibi, rico comerciante, assistia o jogo entre a equipe Ittihad, de Djeddah, e a equipe Ahli, de Riad. Abdul torcia por Ittihad, sua mulher preferia encorajar os Ahli. Para desgraça da senhora El Otaibi, seu time marcou um gol. Ela vibra e Abdul pronuncia a fórmula ritual: — Em nome de Alá, eu te repudio. O jogo continua. Os Ahli fazem um segundo gol, a senhora Otaibi não se controla e aplaude seu time. Abdul repete a fórmula: — Em nome de Alá, eu te repudio. Para suprema desgraça da senhora Otaibi, em uma dessas jogadas que nem mesmo um ficcionista ousaria criar, quis o destino que os Ahli marcassem um terceiro gol. Ela vibra. Abdul pronuncia pela terceira vez a fórmula fatídica: — Em nome de Alá, eu te repudio. Ora, no Islã basta que o marido repudie a mulher três vezes para que o divórcio se consume. A partir do terceiro gol, a senhora Otaibi estava no olho da rua. O caso acabou na corte corânica de Meca. Para sua sorte, em algum lugar disse Maomé: “o divórcio não será válido se for pronunciado sob o império de cólera extrema”. Em severo editorial, o Al Medina anatematizava não o Corão, evidentemente, mas o futebol: “até quando nossa obsessão pelo futebol continuará a destruir o caráter sagrado de nossa família?” A Arábia Saudita, mais que um país, é um imenso poço de petróleo de propriedade de uma família, a dos Saud. Daí, Saudita. Algo assim como se o Brasil tivesse como nome Sarneylândia (Alá nos proteja!). Os Estados Unidos podem estar fazendo guerra no Afeganistão, mas os valentes que jogaram dois Boeings no World Trade Center procedem do país da família do poço de petróleo. Bin Laden é saudita, são sauditas os quadros da Al Qaeda, são sauditas as madrassas que em todo Ocidente pregam o ódio ao Ocidente. Faço um rápido desvio para a Nigéria, depois volto ao poço de petróleo dos Saud. Comentei, em crônica passada, a condenação ao lapidação de Safiya Husaini. Crime? Ter cometido adultério, embora já fosse divorciada. A sentença deveria ser executada dia 8 de março. Safiya teve a ventura de comover a opinião pública européia e mais de meio milhão de assinaturas (535.772 até as 13h30m de ontem) foram apostas, só na Espanha, a uma carta da Anistia Internacional, pedindo ao presidente Olusegun Obasanjo a suspensão da sentença. Ontem ainda, El País noticiava que o governo de Lagos havia declarado inconstitucional a sharia, a lei islâmica em que se fundamenta a sentença. Problemas à vista: esta declaração pode elevar a tensão no norte do país, onde a população islâmica é majoritária e prefere a barbárie. Estão previstos conflitos em 12 dos 19 Estados onde está implantada a sharia. Segundo o atual ministro da Justiça, Kanu Agabi, esta lei viola os compromissos constitucionais nigerianos a respeito dos direitos humanos e da não-discriminação em função de religião ou sexo. Ora, em junho do ano passado, mais de um milhão de muçulmanos participaram de uma manifestação, na cidade setentrional de Kano, exigindo a implementação da sharia. Um milhão de pessoas exigindo a preservação do direito de matar mulheres a pedradas. O que deve proporcionar-lhes, certamente, um imenso prazer. Árdua é a luta contra a estupidez. Falar nisso, volto à Arábia dos Saud, aquele país de valentes que jogam fanáticos pilotando aviões contra prédios que abrigam civis. Mais uma vez, a realidade manifestou seu asco à ortodoxia. Lá existe, é bom lembrar, uma exótica polícia, a da Comissão para a Promoção da Virtude e Prevenção do Vício. No Ocidente, o Estado é mais cauto. A polícia busca a prevenção de crimes, que são definidos com precisão pela lei. Já uma polícia promovendo a virtude, isto é excrescência de Estados teocráticos, onde preceitos religiosos têm força de lei. Um incêndio irrompeu em uma escola em Meca. Meca é aquela cidade onde milhões de muçulmanos dão sete voltas, a cada ano, em torno a um fragmento de meteorito com 25 cm de comprimento. Na hora da fuga ao incêndio, quinze meninas foram forçadas a voltar para a escola pelos virtuosos policiais promotores da Virtude e Prevenção do Vício. É o que nos conta o jornal Al Iqtisadiya . Motivo: era pecado vê-las sem o véu e a abaya (uma espécie de túnica). Morreram calcinadas. A exigência do véu no mundo muçulmano decorre de um diálogo, no Corão, entre Maomé e seu cunhado Omar. Diz Omar: “Ó, profeta. Diz a tuas mulheres, diz a tuas filhas e às esposas dos crentes que coloquem um véu sobre seu vestido e assim cubram o rosto da forma mais conveniente, de modo que não possam ser reconhecidas e confundidas com as escravas ou mulheres de maus costumes”. A fala do cunhado virou dogma. Ocorre que o véu é apenas a ponta do iceberg. Sob o véu, jazem a poligamia, a ablação do clitóris, a escravidão, a venda matrimonial, o abandono ou repúdio (vide o caso El Otaibi), a falta de instrução feminina e a interdição de acesso a empregos qualificados. Para Rafah, jornalista de Abu Dabhi, capital dos Emirados Árabes Unidos, “a emancipação da mulher árabe racharia a hierarquia islâmica”. A exigência do véu está provocando graves conflitos nos países meridionais da Europa. Na Itália, grupos muçulmanos exigem o direito de uma mulher árabe usar o véu inclusive na carteira de identidade. Na Espanha, recentemente, tomou a primeira página dos jornais o caso de uma menina, cujo pai a proibiu de ir à escola porque não pode usar véu durante a aula. Não bastasse isso, descobriu-se que na Andaluzia e Catalunha centenas de meninas, em sua maioria marroquinas, são vendidas em matrimônios forçados, durante suas “viagens de férias”. Os árabes migram ao Ocidente para matar a fome e querem impor à civilização que os acolhe seus bárbaros costumes. O episódio em Meca superou todos os confrontos entre a realidade e a ortodoxia. Baitas machos, estes senhores do país dos Saud! Não lhes falta coragem para enfrentar o Grande Satã. Ante o horror a ver um rosto nu, os valentes policiais encolhem o rabo entre as pernas e fazem recuar quinze crianças para uma morte pavorosa nas chamas. “Eu Sou o Que Sou” 29/3/2002   “Eu sou o que sou”, dizia Lula, ainda há pouco, em entrevista ao Pasquim :. Provavelmente ele não saiba quem foi o último personagem a fazer afirmação tão enfática. Em Êxodo , Moisés quer saber de Jeová o que dirá aos filhos de Israel quando lhe perguntarem qual é o seu nome. Responde Deus a Moisés: “EU SOU O QUE SOU”. Disse mais: “Assim dirás aos olhos de Israel: EU SOU me enviou a vós”. Tendo convivido com comunistas boa parte de minha vida, passei a conhecê-los e a seus reflexos. Não são muito complexos. Diria aliás que são de uma singeleza extrema. O militante, a cada manhã, se olha no espelho, vê sua deficiência maior e sai a jogá-la no rosto de quem não gosta. Os petistas, herdeiros históricos do marxismo, conservam os mesmos reflexos condicionados. Ditatoriais, acusam de ditatoriais quem quer que lhes faça oposição. Condenam a falta de liberdade de imprensa e propõem um conselho de controle da imprensa. Sedentos pela posse do poder, acusam de donos do poder os que lá chegaram antes. Exceto os déspotas que participam da mesma ideologia, é claro. Outro dia, um destes exemplares xingava o clã dos Sarney. “Eles detém o poder há trinta anos”. Não resisti ao azo e me introduzi na conversa: “Bom, eu conheço um outro que detém o poder há 43 anos”. O petista reagiu como um tigre ferido: “Não podes comparar o Maranhão dos Sarney com a revolução cubana”. Não é fácil, hoje, para os militantes de um partido cujo líder é unha e carne com el Supremo Comandante, xingar a dinastia dos Sarney. Um simples mandado de busca e apreensão foi o suficiente para demolir a candidatura vazia de Roseana Sarney. Quando a candidata começou a aproximar-se de Lula nas pesquisas, choveram as acusações por parte dos petistas: candidata saída do nada, mito criado pela mídia, Collor de saias, etc. O PT olhou atentamente para seu candidato e atribuiu todas suas deficiências à adversária. Pois Lula surge do nada. De torneiro mecânico vira líder de greves no ABC. As esquerdas universitárias, imbuídas do velho sonho marxista do operariado no poder, guindam-no do dia para noite a candidato à presidência. Do carro de som para o Planalto. Sem passar nem mesmo pela experiência de administrar uma prefeitura. Lula é um líder chocho, feito a martelo, pela USP e pela Igreja Católica. Tão ou mais vazio que Roseana. Da primeira candidatura para cá, fora uma passagem pelo Legislativo como deputado — passagem da qual não se conhece nenhum momento de brilho — Lula nada acrescentou a seu currículo. Vive de uma aposentadoria obscena, que jamais se preocupou em estender a seus colegas de greve. Durante largos anos, viveu graças aos favores de um empresário. Não temos notícia alguma de que tenha aproveitado seu ócio para estudar. Do alto de seu ego colossal, diariamente alimentado por uma mídia cúmplice, o EU SOU petista, com a modéstia típica da divindade, afirma: “Nenhum candidato é melhor do que EU”, “ME considero o candidato mais preparado de todos”. Sequer domina o vernáculo e pretende assumir a suprema curul do país. Faltou ao candidato entender uma etiqueta básica da democracia. Não cabe a ele, mas ao eleitor, fazer tal afirmação. Não se pede a Lula um curso universitário. Diploma universitário há muito não rima com inteligência ou lucidez. A universidade brasileira foi o agente difusor da peste marxista no país. É na universidade e na Igreja Católica — e não no operariado — que estão os intelectuais que inflam a vaidade incomensurável deste senhor, que repete chavões marxistas sem mesmo saber o que seja marxismo. O que se pediria, de quem postula a presidência da República, é uma cultura mínima em matéria de história, passada e contemporânea, de economia e teoria política. E experiência administrativa. Isto o candidato não tem. Até hoje as esquerdas são pródigas em contar piadas sobre a falta de cultura de Costa e Silva. Mas Costa e Silva fez Escola Militar, cujo acesso não é para qualquer apedeuta. As esquerdas ignoram solenemente a incultura de seu campeão, cuja incapacidade de ir além da primeira página de um livro foi atestada por fonte insuspeita: Luís Carlos Prestes, o assassino de Elza Fernandes e herói de Lula e Tarso Genro. Nada como a realidade para desmascarar mitos. Comentando a invasão da fazenda de Fernando Henrique, disse José Serra: “São bolchevistas de segunda classe”. Por bolchevistas de primeira classe, o velho bolche José Serra entende os bolcheviques russos que invadiram o Palácio de Inverno, fazendo a Rússia e o mundo soviético regredir mais de um século em 70 anos. “Agredir a instituição presidencial é agredir o maior símbolo das instituições democráticas”, disse Raul Jungmann, outro bolche de primeira classe. “É uma ação política, violenta, que não pode ser permitida”, disse o ex-assaltante de trens e ex-terrorista e hoje ministro da Justiça Aloysio Nunes Ferreira, codinome Mateus. “Estão contribuindo para o aumento da violência no país”, disse outro velho bolche, hoje líder do governo no Senado, o senador Arthur da Távola. “Não contem com o partido para nenhuma aventura política ou medida fora da lei”, avisou o bolche José Dirceu, companheiro de armas do terrorista Aloysio Nunes. Mas a pérola coube ao EU SOU do PT. O partido esperou um cadáver providencial, que cairia como uma benção neste período eleitoral. Não ocorrendo mortes, EU SOU se manifestou: “Sou contra a invasão casa do presidente, como sou contra a invasão da casa de qualquer cidadão brasileiro”. Que tal comunicar esta posição ao camarada Olívio Dutra, que acaba de afastar o comandante de uma ação que visava coibir a invasão da barragem de Barra Grande, no Rio Grande do Sul? Lula e seu partido sempre foram coniventes com invasões de terras, terrenos e prédios públicos. A invasão de propriedades alheias elegeu deputados e vereadores petistas. Pretenderá Lula que, do dia para a noite, alguém possa dissociar o PT do MST? Se pretende, está subestimando a memória do eleitor. Este personagem inculto jamais administrou a folha de pagamento de uma prefeitura do interior. Vive há mais de vinte anos de futricas e mordomias. E considera-se nada menos que o mais preparado dos candidatos a gerir a complexa economia de um país problemático de quase 200 milhões de habitantes. Para vergonha de nossa universidade, conta com o apoio da elite acadêmica da nação. Para quem cultiva ainda o bom senso, a hipótese de que seja eleito é uma vergonha. Mas vergonha mesmo é que por três vezes tenha sido segundo colocado em eleições presidenciais. Desta mancha indelével, o Brasil jamais se redimirá. Terror Explode Ventres 5/4/2002   O leitor deve estar lembrado da chamada guerra no Afeganistão, suponho. Foi ontem, em verdade ainda não terminou. Mas curta é a memória das gentes e rápida a circulação dos jornais. A guerra, agora, é no Oriente Médio. Se o leitor ainda lembra da penúltima, deve também lembrar daqueles rostos sorridentes, dentes lindos, que inundaram as páginas dos jornais, após o desembarque dos soldados americanos no Afeganistão. Pelo que se podia deduzir das fotos, dentista morreria de fome naquelas plagas. As melhores dentaduras do país, escolhidas a dedo pelos fotógrafos, assumiram as primeiras páginas dos jornais. A mensagem era clara: o Ocidente, amparado em seu poder bélico, devolvia o sorriso às pobres mulheres muçulmanas. Os malvados taleban, que furtavam às mulheres o sorriso, tiveram suas organizações desmanteladas. As lágrimas derramadas pela destruição do World Trade Center já secaram, o Afeganistão saiu das primeiras páginas e as dentaduras esplêndidas também. Os taleban saíram de cena e seus líderes buscam refúgio em países cúmplices muçulmanos. O leitor viu as últimas fotos do Afeganistão? Mulheres de burka nas ruas, ou caminhando por entre tumbas no deserto. Os opressores sumiram. Mas a burka voltou. Para ficar. Shadi Tubasi, 22 anos, 14 mortos. Abdel Baset Odeh, 25 anos, 22 mortos. Rafat Abu Dyak, 20 anos, seis mortos. Mohammed Daraghmeh, 18 anos, nove mortos. Esta é a lista dos nomes, idades e feitos dos últimos palestinos suicidas, que se envolvem em bombas e se explodem em meio a judeus em Israel. A idade é significativa. O mais velho tem 25 anos. Para a revolução, usaremos os jovens: são estúpidos e entusiastas, dizia o escritor argentino Roberto Arlt. Uma estupidez incomensurável, por si só, não explica estes gestos. É preciso um entusiasmo também incomensurável. Estes pobres diabos palestinos que se convertem em bombas humanas são programados desde o berço para o martírio. Crêem que, se morrerem matando, merecerão o paraíso e serão recebidos por setenta virgens. Um deles, ao saber que tinha sido escolhido para morrer, chorou de felicidade. Suas famílias recebem gordas recompensas de dirigentes e organizações árabes, pelas mortes dos filhos mártires. Há Estados financiando o terror. Ontem ainda, Saddam Hussein aumentou de U$ 10 mil para U$ 25 mil a doação enviada em dinheiro aos parentes dos homens-bomba. Isto sem falar no prestígio decorrente do massacre. Terroristas, dirá o leitor. Terroristas? Não é bem assim. Há quem discorde. A Organização da Conferência Islâmica (OCI), que encerrou nesta quarta-feira sua reunião ministerial em Kuala Lumpur, Malásia, emitiu uma dura condenação a Israel e ao terrorismo em geral. Mas na hora de definir o que é um ato terrorista, rejeitou uma proposta de condenação ao Hamas e à Jihad Islâmica, cujos membros se explodem em atentados contra civis israelenses. Não bastasse esta rejeição, na segunda-feira os ministros assinaram um texto que elogia a “abençoada intifada” dos palestinos. A matança mútua tem-se intensificado nas últimas semanas em Israel. (Qualquer dia, ainda bate em números as carnificinas de fim-de-semana em São Paulo). Como sempre acontece nas crises no Oriente Médio, a guerra está se transferindo para a Europa. Sinagogas já foram incendiadas na França e Alemanha. Se o Ocidente dá de ombros quando negros massacram negros na África negra, massacre em Israel é diferente. É coisa de brancos e provoca neste mesmo Ocidente profundas apreensões. Ocidentais se perguntam quando esta agonia terá fim. Não há respostas à vista. Mas algo se pode afirmar. O mapa da Palestina é um absurdo monstrengo geopolítico. Enquanto Israel não recuar de seus encraves em território palestino, não se pode pensar em paz. Se homens-bomba são louvados como heróis, se suas famílias são regiamente recompensadas pela dor provocada a outras famílias, se candidatos ao suicídio choram de felicidade, se a intifada é abençoada, se estadistas se recusam a chamar terrorista de terrorista, o massacre jamais terá fim. Wafra Idrees, 28 anos, um morto. Dareen Abu Aisheh, 21 anos, três soldados feridos. Ayat Akhras, 18 anos, dois mortos. De novo, os jovens entusiastas e estúpidos. Desta vez são mulheres. A mais velha nem chegou à metade da vida. O terror palestino conseguiu inovar: surge, neste ano da graça de 2002, uma nova palavra na mídia, mulher-bomba. Não poderia faltar nesta mesma mídia uma feminista tardia e de poucas luzes, suficientemente irresponsável para louvar a nova conquista de seu sexo. A sale besogne coube a Marilene Felinto, da Folha de São Paulo. Eterna defensora das piores bandeiras que o engenho humano concebe, a colunista considera que é pelo suicídio que as muçulmanas se igualam aos homens. “As mulheres-bombas muçulmanas são a glorificação do suicídio pelo estoicismo, pelo auto-sacrifício — elas agem no intuito de que a justa defesa do bem público prevaleça sobre o direito do agressor ao corpo e à vida”. Ora, no mundo muçulmano, nem pelo suicídio a mulher se iguala ao homem. A jornalista demonstra desconhecer a história de ontem. Para o sacrifício, até mulher serve. Aconteceu na guerra da Argélia: na hora de carregar bombas para matar franceses, a mulher teve um papel a desempenhar. Finda a guerra, voltou para a cozinha fazer cuscuz. Hoje, se não usar véu, corre o risco de ter o rosto desfigurado para sempre com ácido. Como as afegãs. Enquanto serviam como execração dos taleban, exibiam seus belos dentes. Derrotados os taleban, voltam a esconder o rosto na burka. Fanatismo e ignorância andam sempre de mãos dadas. A insipiência da jornalista é tamanha, a ponto de falar em “quilos de dinamite que carregam por baixo das sete saias do xador (sic!)”. Ora, o chador é usado pelas iranianas. Consiste em uma capa preta que esconde todo o corpo e deixa o rosto descoberto. Foi proibido temporariamente pelo xá Reza Palhevi e nada tem a ver com palestinas. Gerar mortes, ao longo da história, sempre foi ofício masculino. Gerar vida, por natureza e definição, é atributo feminino. Os terroristas palestinos, em sua insânia, passaram a usar ventres como bombas. Até aí, nada de espantar. Terror não tem ética nem limites. O que causa espécie, em um jornal que se pretende defensor dos direitos humanos, é ouvir uma jornalista glorificando o terror. Logo agora que o terror passou a explodir mulheres. Cristo em Meio ao Tiroteio 12/4/2002   Nestes dias em que jornalistas de verbo fácil vestem as palestinas com o chador das iranianas, pouco espanta que os jornais tenham feito Cristo nascer em Belém. Em toda grande imprensa brasileira, lemos que 200 ou mais atiradores palestinos estão refugiados na Basílica da Natividade, em Belém, “onde segundo a tradição cristã, Cristo teria nascido”. E não só na imprensa tupiniquim. Se você pegar o Aftonbladet sueco, o Corriere della Sera italiano, o Monde ou o Libération franceses, o El País espanhol, enfim, qualquer jornal do norte ao sul da Europa, lerá que a igreja da Natividade assim se chama porque l