KOREAEBOOKDOCUMENT1.2.0Oinotna, o ltimo ErmitoVirglio AndradevirtualbookseBooksBrasil.comȐ=para.xmlcapa.jpgnormal.sty\para.xml smaller.sty  small.sty normal.sty large.sty' larger.sty1<capa.jpgunnota.jpgvqautor.jpg Oinotna, o Último Ermitão – Virgílio Andrade Edição virtualbooks www.terra.com.br/virtualbooks Versão para eBook eBooksBrasil.com Fonte Digital Digitalização da edição em pdf autorizada pelo Autor ©2002 — Virgílio Andrade antoniovirgilio@terra.com.br Índice Apresentação UM DOIS TRÊS QUATRO CINCO SEIS SETE Sobre o Autor e sua Obra OINOTNA, O ÚLTIMO ERMITÃO   Virgílio Andrade           OINOTNA, O ÚLTIMO ERMITÃO, é um romance-ficção baseado em fatos reais. Nesta história fantasiosa, Jacques Marie, correspondente do jornal “Le Monde”, para localizar seu entrevistado, viverá um uma emocionante aventura que irá mudar o rumo da sua vida.      Seu interesse pelo ermitão Oinotna, deve-se ao fato desse homem vir a ser o Deputado Francisco Oinotna, que, quando assessor de um certo Senador do Estado da Bahia, tornara-se o principal artífice de dossiês envolvendo personalidades da mais alta esfera política e empresarial do país.      Toda essa sorte de acontecimentos decorre do desastre aéreo que ocorrera em 1976, quando o Deputado retornava de uma rotineira viagem à Capital política do país.      Mas isso é tudo; a entrevista também representava a possibilidade de desvendar outro mistério: o sumiço de documentos do arquivo particular do mais temido Senador da República. Fato este que somente chegou a público quando vazou a informação de que um passageiro da aeronave acidentada transportava uma pasta semelhante àquela que desaparecera no Congresso.      Pasta essa que continha documentos de caráter ultra-sigilosos, que, mas mãos da oposição, fariam tremer os pilares do Poder.      Por mais inusitado que possa parecer, nesta prosaica e hilariante aventura, o jornalista Jacques Marie, estará renovando a experiência mística que vivera seu entrevistado, e a exemplo do mesmo, expondo-se aos perigos, magia e encantamentos que a região proporciona aos visitantes incautos. OINOTNA, O ÚLTIMO ERMITÃO UM        Após três ruidosas horas de viagem, murmurei, denunciando meu cansaço e permitindo que a ansiedade estampada no meu rosto fosse ferida por uma ruga de alegria.      “— Finalmente... Finalmente estou chegando à fazenda. Espero contar com a sorte e, mesmo sem o auxílio do meu guia... localizar o refúgio do senhor ermitão...”.      Pensando assim, fixei no pára-brisa o mapa de orientação. Presente do Capitão Diogo Alvarenga. O Capitão, amigo de longa data do ermitão, fora única pessoa capaz de promover o encontro. Desde primeiro momento, deixou-me fascinado com a possibilidade de desvendar o mistério do personagem de passado nebuloso e hábito pouco sociável. Deveria existir algo de muito aterrador para levá-lo a buscar refugio na bacia hidrográfica do Riacho Fundo, região agrícola da Capital.      Se para alguns, o velho Oinotna encarnava um tosco personagem do folclore local, ungido do imaginário de uma mente doentia e pouco fértil; para outros, que se vangloriavam de terem tido a oportunidade de com ele estar e merecer seu precioso auxílio e proteção; era um santo.      Entretanto, para todos eles, o ermitão não passava de um lunático. E por esse motivo, chamavam-no de “o Lobo”; por lhe guardarem respeito e temor.      O mapa no pára-brisa não traduzia a carta geográfica da região. Contudo, disseca o relevo e vegetação com tamanha minúcia de detalhes, que me peguei superestimando minha capacidade para traduzir gravuras e referências de caráter meramente ilustrativo.      Nunca imaginei que o Capitão fosse possuidor de traço firme e imaginação fértil. Mas pelo que via, reproduziu detalhes do relevo e vegetação, com tamanha desenvoltura, que poderia julgar que era profissional no ofício.      A rota planejada traduzia-se numa tênue linha pontilhada que serpenteava por entre as principais elevações rochosas. O objetivo a ser atingido ficava encravado no ponto mais alto da cadeia rochosa que contorna a margem esquerda do riacho, e foi gravado com um “x”. Aquele singelo “x”, de cor e tamanho bisonho, representava todo o investimento levado a cabo ao longo de seis meses de negociação.      O Capitão me informara que a cadeia rochosa com a qual iria me deparar, era, por sua formação geológica, uma inusitada e deslumbrante depressão do solo. Acidente geográfico muito comum à região. No entanto, suas proporções me seriam assustadoras quando galgasse em suas mediações.      Prevendo que teria de superar traumas de infância para atingir o cume da elevação, procurei afastar a indesejada sensação de vertigem.      Quando dos preparativos para viagem, o Capitão se opusera à minha firme decisão de levar adiante a excursão até à nascente do riacho. Ele ficara impedido de ser meu guia; como era esperado e desejado. Logo ele que, durante seis longos meses dedicara-se à tarefa de negociar a realização da entrevista, viu-se impedido de levar adiante nosso projeto.      A má noticia nos chegou por meio de um telegrama. Um comunicado do Ministério da Defesa dando conta que o Capitão deveria se apresentar na Base Aérea. Meu amigo não soube me dizer qual era o motivo da convocação. Todavia, previ que fosse em decorrência da apuração de denúncias quanto à subornos na aquisição de uma partilha de aviões de um país com pouca tradição no fornecimento de armamentos bélicos.      Se não me bestasse essa má notícia, fui advertido de que, sem sua companhia, não seria capaz de lograr um bom resultado. Naquelas condições de terreno minhas chances seriam as piores possíveis. Uma, talvez duas, entre dez boas tentativas. E, tudo isso porque: não conhecia a região; era franzino; possuía pele desgastada pelo clima europeu; e não tinha experiência ou afinidade para desenvolver marcha em região com topologia acidentada. E o que era ainda mais desanimador; não mantive contato prévio com a pessoa que iria me encontrar.      Para o Capitão, esses argumentos eram, por si só, suficientes para abortar a excursão.      Contudo, bem sei, que desejou dizer que um sujeito de pele clara e trejeitos afeminados não teria força física suficiente para superar os obstáculos que iria encontrar pela frente. Em parte, ele tinha razão. O clima árido com temperatura média de 40 graus, à sombra; a falta de umidade no ar; o duplo fardo de mochilas que teria que transportar; eram, mais que suficientes para me levarem à exaustão no primeiro quilômetro de marcha.      Relutei, mas não cedi às suas admoestações. Afinal, “Sobornne” não era escola de maricas como ele pensava. E, para mim, os fins sempre justificavam os meios. Nada, nada que fosse capaz de dizer ou fazer, mudaria minha decisão. Aquela me seria uma oportunidade única e rara na minha precoce carreira jornalística. Ser-me-ia a primeira e talvez única oportunidade de entrevistar o Deputado Francisco Oinotna. E, a mais concreta possibilidade de desvendar seu inexplicável e misterioso desaparecimento, em um não menos, inexplicável e misterioso acidente aéreo na região serrana do Estado da Bahia.      Se me recordo bem, o acidente não produziu vitimas fatais. No entanto, um passageiro desaparecera sem deixar vestígio. Evapora-se no ar, como se fosse uma nuvem de fumaça. Das causas do acidente nada fora divulgado. Vestígios que poderiam ser reveladores não foram levados em conta. Depoimentos extra-oficiais não foram levados em consideração. E ninguém, nem mesmo a impressa, ante a truculência do órgão de investigação, teve acesso ao relatório final quando encontraram a caixa preta do avião. E tudo foi esquecido; surgiram outros casos de maior interesse jornalístico.      Mas isso não era tudo. Aquele encontro também representava a possibilidade de desvendar outro mistério: o sumiço de documentos do arquivo particular do mais temido Senador da República. Correu o boato nos bastidores do poder que, a pasta continha documentos de caráter ultra-sigilosos. Documentos esses que, se levados a público, fariam tremer os pilares do Congresso Nacional.      A toda essa sorte de boatos e futricas somava-se o fato que fora noticiado que um dos passageiros do vôo fatídico, portava uma pasta semelhante àquela que desaparecera no Congresso.      Numa entrevista, publicada como matéria de caráter apócrifo; um membro da tripulação afirmou:      — O passageiro da poltrona 33 denunciava nervosismo... seu semblante era frio e duro. Contrariando os costumes dos passageiros que, via de regra, embriagam-se nos vôos comerciais; ele não ingeriu uma só gota de bebida alcoólica... Para relaxar a tensão, exigiu água mineral, sem gás... Posso jurar que aquele passageiro transportava uma pasta, idêntica... no colo. Folheava um maço de documentos e transparecia estar em transe medonho... Tamanha era sua aflição.      Esta entrevista só ganhou espaço em jornal de segunda categoria, publicada no segundo caderno, com direito à chamada de capa. E nenhuma outra linha foi escrita e divulgada.      Imagino que alguém não aprovou o teor da matéria. O fato é que, o jornal não mais circulou. E, essa ficou sendo a primeira e única matéria jornalística que, veladamente, fizera menção ao passageiro não identificado e à possibilidade do mesmo possuir a pasta do Senador.      É do conhecimento público que a curta e meteórica ascensão do ex-assessor parlamentar devia-se, e muito, ao desempenho na espinhosa missão de colher e armazenar informações em torno das mais importantes autoridades do meio político e empresarial do país.      Um projeto megalomaníaco.      E não se pode negar que, ainda nos dias de hoje, seu precioso acervo documental é objeto de intrigas e contradições. Colhendo os louros do patrocínio, o Senador passou a ser temido. Para alguns, respeitável; mas, para todos, temido e respeitado.      Na véspera da minha viagem mantive uma conversa áspera com Capitão. Ciente da minha determinação, resignou-se com minha decisão. A partir de então, instruiu-me para ter muito tato com seu amigo. Era uma pessoa dócil, se bem, que de hábitos pouco convencionais. Para minha alegria fui informado de que o ermitão me seria amigável; ele mesmo se dispusera a fazer importantes proveitosas concessões na entrevista. E, para meu desprazer, também fiquei sabendo que o ermitão fizera planos para abandonar aquelas paragens, no dia seguinte. Partiria para outras terras. Uma viagem sem volta.      Fiquei ainda mais indignado ao saber que o refúgio onde, por longos anos, reencontrara o sentido do seu viver, já não mais lhe era habitável. E por esse motivo, somente por esse motivo, rendera-se ao meu desejo de penetrar na sua intimidade e falar do passado.      Entre acertos e desacertos, às quinze horas e dez minutos abandono o perímetro urbano para atingir as cercanias da Fazenda Sucupira. Minha aventura só estava começando. Ao assumir os riscos da expedição, sem recorrer ao seu auxílio de pessoa com conhecimento da região, decretei minha submissão aos caprichos do destino.      Num sobressalto, tiro o pé do acelerador para as rodas não desgarrarem do trilho. A estrada de terra batida ganhou declive acentuado. O piso ficou irregular e abrasivo. As rodas trepidam, relutando seguir em linha reta. No porta-malas a bagagem rola, de um lado a outro, produzindo um barulho abafado na lataria.      Transporto duas mochilas. Uma delas pertence ao Capitão. É a mais pesada e frágil.      A viagem fica desconfortável.      Cruzo o portão da fazenda. As péssimas condições da construção denunciam que o posto de vigia há muito foi abandonado. Já não possui a serventia de outros tempos, quando militares de fardas verde-oliva controlavam o tráfego de veículos e pessoas.      Duros dias aqueles; mas era preciso. Era preciso afastar visitantes indesejados.      No céu o astro solar brilha, intensamente. O calor é escaldante. Deixo-me hipnotizar pela paisagem azul anil bordada de nuvens brancas e fofas.      Ela alivia minha tensão.      Ao longe, no quadrante sul, descortino uma descomunal mancha negra florescendo por trás da linha do horizonte. Onde me encontro, o tempo está firme, sem ameaças de brusca alteração.      Trafego com cautela; o declive é acentuado. As margens comprimem o veículo de ambos os lados. O mato roça a lataria. A estrada de ganha uma bifurcação. A inesperada bifurcação me obriga a fazer uma escolha impensada. Viro o volante e sigo pela pista da esquerda, com as rodas do lado direito amassando o capim.      Ao longe, o sol desenha um semicírculo e toma posição lateral à minha trajetória. A poeira penetra pela janela em grossas camadas. Faço o vidro deslizar e fecho a janela; o calor fica ainda mais insuportável. Sobre o cristalino do pára-brisa, vejo a incidência solar se fraguimentar em arco-íris, ofuscando a visão. Permito que mãos rígidas e úmidas deslizem no volante. Inflo os pulmões com respirando a poeira de cor vermelha que penetra pelo friso da porta. Reduzo a marcha; e sigo em frente, perigosamente. A estrada teima em permanecer estreita e sinuosa.      Sorrateiramente, uma imensa cortina negra derrama-se por sobre a região, apagando a luz do dia. O volante trepida na mão; as rodas ameaçam desgarrar; perco o sentido de direção. Fico à mercê da sorte.      Quando me dispus a proceder esta viagem, era meu desejo contar com a companhia do Capitão. Muito mais do que guia e companheiro de aventura; seria o interlocutor que abrandaria a defesa do entrevistado. Mas, para minha infelicidade, aquele imprevisto de última hora o impedira de comigo estar. E nem mesmo ele poderia imaginar que o acaso fosse capaz de prejudicar nosso projeto inicial. Ainda recordo-me do seu semblante; ficara perturbado e visivelmente irritado.      O celular toca. (Digo) Alô!      Uma voz amiga responde, em tom apreensivo, como se previsse que algo de mal estava prestes a ocorrer comigo. Grita:      — Por onde você anda, seu maluco? Por diversas vezes tento completar essa ligação e não encontro retorno!      Não tive tempo para emitir resposta. Atirei o telefone ao banco de passageiro para desviar de uma pedra que rolou da ribanceira. Imprevisíveis colunas d’água descem da encosta levando consigo toda sorte de detritos. Percebo-me no centro de uma tromba d’água. Mantenho as mãos grudadas no volante, tesas.      A mudança de temperatura faz a translucidez do pára-brisa alternar para o opaco. Sobre a capota ouço o tamborilar revolto de grossos pingos de chuva. Aciono o limpador do pára-brisa, na rotação máxima. Eles fazem – tique-sunch, tique-sunch.      A ausência de aderência das rodas no terreno alagadiço me é motivo de preocupação. A estrada não mais me possibilita tráfego seguro. A ausência de visibilidade obriga meus extintos ficarem alerta. A respiração, inconstante.      — Alô! Alô! – insiste com a voz, no banco do carona.      — Estou aqui, Capitão! – gritei, para me fazer ouvir.      — A linha está péssima! – respondeu ele, usando o mesmo tom de voz.      — Está caindo uma tempestade, amigo!      — Tempestade? Você está delirando! – disse-me ele, aos sorrisos. —Onde você se encontra? – complementou.      — Estou estacionando.      — Estacionando, onde?      Balbuciei que estava, confortavelmente, enclausurado por meu casulo metálico, admirando a paisagem. Todavia, previ que melhor seria não dar vazão ao meu lirismo. O vento açoitava o veículo com tanta violência que me fez pressentir que minha situação confortável não representava segurança. As rajadas de ar faziam o veículo balançar; como se ele fosse um objeto frágil e instável.      Tive certeza: ninguém, nem mesmo os deuses, poderia conter a fúria do desassossego da natureza.      Desenhei uma grossa fresta no vidro embaçado. Com a visão turvada pelo volume da chuva, presenciei o capim molhado curvar-se ante a fúria do vento. E, por sobre as elevações, luzes faiscantes a riscarem o céu provocando explosões, ao longe.      Não havia muito que fazer, então.      — Estou estacionado em frente à Escola Kanegae, Capitão! – falei, por fim.      — O que faz nesse lugar?      — Ora! Estou tentando provar que não preciso de guia para localizar um reles ermitão.      — E tem certeza que seguindo esse caminho vai conseguir? – sua voz denunciou desapontamento.      — Com sua orientação espero que sim, Capitão!      — Quem não é capaz de amarrar o próprio coturno, meu rapaz... não pode dizer que consegue encontrar uma agulha no palheiro. – advertiu-me ele.      — Não seja grosseiro, Capitão. O amigo não sabe sê-lo.      — Não estou sendo grosseiro! Apenas busco reparar um grande equívoco... Jamais deveria ter permitido que um paisana assumisse os riscos desta missão.      Alertado que tomara a direção oposta ao destino desejado, relutei abandonar minha aventura solitária. Havia me envolvido de tal maneira naquele projeto que nada me levaria a fraquejar. O encontro com o velho ermitão não podia ser adiado; a promessa do Capitão de que providenciaria outro encontro era insustentável; aquela viagem consumiu tempo e dinheiro; e seis longos meses de negociação não poderiam ser desperdiçados por obra do acaso e por quem era a parte mais interessada. E se isso era tudo o que mais queria, deveria estar disposto a mover pedras e montanhas para atingir o objetivo: entrevistar o velho ermitão.      — Que vai fazer? – indagou-me ele.      — Vou prosseguir.      — Tudo bem, tudo bem, monsieur Jacquê. Advirto-o de que está proibido de escalar o penhasco. Se não era um caminho seguro, imagine depois da chuva!      — Obrigado, Capitão... Sou desmiolado, mas nem tanto.      — Tudo bem, vou ficar torcendo por você. Ligo mais tarde!      — O que disse? – gritei      — Vou ficar em contato!      — Só mais uma pergunta, Capitão... Apesar de toda chuva, é possível encontrar seu amigo?      — Quê? – gritou.      — Quero saber se com toda essa chuva posso manter a esperança de encontrar o ermitão?      — Imagino que sim... ele numa faltou a um encontro. – concluiu ele.      Para meu espanto, a chuva torrencial como veio se foi. O sol ressurgiu com tamanha intensidade que poderia julgar que não havia chovido. Somente a água barrenta que corria pelas encostas, formando pequenas corredeiras e cascatas, denunciava que sim. * * *      Vinte e um anos após a colonização da região, por desbravadores da nova cidade, a bacia do Riacho Fundo estava passando por terríveis transformações. A zona seca ou do cerrado havia reduzido dois terços do seu tamanho ideal. Somente uma faixa muito estreita de mata ciliar permanecia preservada. O desmantelamento desordenado aliado ao ciclo das erosões, era a principal causa de destruição do solo das margens ribeirinhas. Era corriqueiro observar árvores centenárias tombarem uma sobre as outras, como se fossem desprovidas de raízes.      Um acontecimento condenável que denuncia o agravamento do descontrole ambiental. As águas pluviais já não encontram barreiras naturais para serem contidas na zona do envoltório. E o que resta da área do lençol freático é insuficiente para armazenar todo o liquido coletado nas chuvas torrenciais.      Indiferente àquela intempérie, com passadas largas, um vulto solitário abandona a zona do cerrado e penetra a trilha compacta da mata ciliar. Não é feliz no seu intento. A correnteza arrancou a velha ponte de suas amarras. E, cada vez mais, o riacho vai ganhando volume e força de destruição.      Impedido de seguir em frente, o andarilho busca outro ponto de travessia. Lá adiante, aventura-se transpor as águas revoltas fazendo uso de um tronco de crapiá que tombou por forças da natureza. Estende os braços em forma de crucifixo e o corpo curvado pelo peso da idade ganha movimento ritmado. As passadas são suaves. A travessia é tranqüila e segura.      Já do outro lado da margem o equilibrista sorri, um sorriso de prazer e alegria. A brisa vespertina começa a soprar; úmida. Folhagem da vegetação recusa ganhar movimento de pêndulo; úmida. O tecido gruda na pele; úmido. A água escorrega pela folhagem unindo-se em grossos pingos de chuva. Produz uma torrente passageira.      Sem se dar conta de que a emoção que vivera no passado já se faz companheira, o andarilho cruza a clareira coberta de grama rala. E, na margem oposta, divisa a fachada de uma velha cabana tragada pela vegetação nativa padecer da corrosão das intempéries. Não, não consegue avaliar se a construção fundiu-se à paisagem ou se ela é parte da própria paisagem. A parede lateral, guarnecida por varanda de telhas enegrecidas, denuncia o estado de abandono. Na selvajaria silvestre do pomar doméstico, ervas daninhas sufocam o botão de rosa que teima florir em pétalas vermelhas.      “— Veruska, Veruska... por onde andarás Veruska?” – murmura ele.      O observador solitário permanece imóvel. Olhos turvos. A mente cavalgando selvagens lembranças inicia uma frenética corrida na contra-mão do tempo. Um frio doído eriça os pelos do corpo. Ele suporta aquela carícia áspera e degusta o sabor da agonia. Não, não se afasta da dor que as lembranças do passado lhe proporcionam. Sorve-as como se elas lhe fosse um bálsamo para as chagas não cicatrizadas. Colhe uma certeza: aquela morada padece da ausência do seu inquilino.      Trôpego, investe contra a estante de madeira escura. Uma pesada e gélida porta rústica não oferece resistência ao toque da sua trêmula mão. A fresta de luz fere as sombras e lança um retângulo de poeira sobre a escrivaninha, iluminando a haste do abajur de prata. Do cedro, colhe dois volumes da prateleira empoeirada. As pernas fraquejam. O corpo encontra apoio na coluna da lareira; ela exala cheiro rançoso de fuligem e carvão em estado de putrefação. Hesitante, folheia páginas do álbum amarelecido. Lábios carnudos que se projetam além da palidez do rosto adolescente lhe sorri um sorriso doce e meigo.      “— Veruska... por onde andarás, Veruska?!” – clama ele, com um grito preso na garganta.      Afasta-se daquela imaginação. Busca socorro no presente:      “Creio que o amigo do Capitão se contentará com essas relíquias... Se o rapaz for determinado como informara, é bem possível que neste momento já esteja zanzando no meio do cerrado...”, pensou ele. E partiu, deixando o passado trancado naquele casebre de cômodos sombrios e úmidos. * * *      O telefone toca mais uma vez:      — Jacquê!, como andam as coisas por aí, meu rapaz?      — Tudo bem... acho! – respondi, com voz cansada.      — Como, tudo bem... acho?      — Estou exausto...      — Jacquê, não me diga que teve a insensatez de escalar o paredão?      — Não tive outra escolha... Capitão. Era tudo ou nada.      — Seu desmiolado! Você...      Recordo-me que, quando tomei a decisão de prosseguir com minha aventura, o Capitão advertira-me de que, após retornar à bifurcação, deveria abandonar o veículo estacionado ao lado do portão da Mansão Boi Zebu – o proprietário cuidaria dele enquanto estivesse ausente. A partir daí, deveria iniciar à etapa mais penosa da viagem.      A trilha sugerida pelo Capitão era a rota mais indicada para turistas com pouca inexperiência em trilhas silvestres. Por esse motivo, deveria manter o curso, sem relutar em seguir a rota previamente planejada. O relevo acidentado; a vegetação rotineira e monótona; poderiam levar-me a desviar da direção tracejada.      Seguir a rota planejada era uma ordem, e não um conselho. Suas últimas palavras continham advertências e sugestões: quando adentrasse o solo do cerrado, eu deveria, a cada dez passos, dar uma passada maior com a perna esquerda. Era um procedimento astuto. Um artifício que evitaria que eu ficasse andando em círculos ou retornar ao ponto-de-partida, no sopé da serra. E por último, e mais insistente conselho, fez-me prometer que jamais me aventuraria numa escalada no paredão rochoso. Era o caminho mais curto; todavia, de perigo extremo. Qualquer descuido, de minha parte, estaria fadado a me envolver em acidente de grave proporção. Se, por felicidade, não fizesse por merecer alguns ossos quebrados, ficaria com profundas escoriações no corpo...      — Você pode descrever-me o que vê? – gritou ele, insatisfeito com meu longo silêncio.      — Creio que sim. Estou meio zonzo, mas creio que estou onde deveria estar.      — O que você vê?      — Vejo mato e pedras...      — Deixe de ser infantil, monsieur Jacques. Olhe na direção leste! Oposta ao sol... Vê os edifícios da cidade?      — Sim, vejo... Mas que loucura! – gritei atônito. — Capitão, Capitão! Na cidade já é noite e, onde estou, ainda é dia!      — Eu sei! Eu sei...      — Não posso acreditar no que estou vendo, Capitão!      — Não fique histérico, meu rapaz... Siga meu conselho: dê meia-volta, e mire na direção do sol... O que vê?      — Vejo, vejo... Não vejo nada! – gritei.      — Não se faça de tolo. – ralhou ele. Ouça-me bem: observe a elevação que fica bem abaixo da linha do sol... Procure por uma formação rochosa, do tamanho de um homem adulto...      Presumi que o Capitão estivesse a gracejar. Não arriscara minha vida naquela aventura para ficar procurando rocha no meio do cerrado. A noite não tardaria a chegar; e não observei nenhum vestígio do ermitão.      — Já a encontrou? – gritou.      A voz do Capitão denunciava ansiedade. Fiquei cúmplice daquela emoção. Quando ele descrevia a paisagem, podia afirmar que estava ali, no meu lado.      Não consegui atenuar suas expectativas.      — O sol me ofusca! – adverti-o.      — Esqueça o sol! Foque sua visão na vegetação... Procure descortinar uma silhueta rochosa do tamanho de um homem adulto!      Depois de um breve silêncio:      — Encontrei, encontrei! Vejo duas... duas rochas no meio do arbusto!      — Tem certeza?      — Sim, posso vê-las!      — Bom trabalho, Jacquê... você conseguiu!      — Não estendi a piada, Capitão... Poderia ser mais claro?      — Não só claro, como coerente! Entretanto, devo informa-lo de que não mais manterei contato consigo.      — E por quê?      — Não vejo motivo para ficar bancando a babá de um marmanjo como você.      — Tudo bem... Mas até o presente momento, não vi nenhuma sombra do seu amigo.      — Estou certo de que sim, meu rapaz. É só tomar a direção das duas rochas que ele está à sua espera.      — Como pode ter esta certeza?      — Ora, meu rapaz, é muito simples: uma das rochas só pode ser ele. Por lá, só existe uma!      O Capitão desligou o telefone. E a partir daí, não nos falamos mais. * * *      Para meu espanto, no primeiro contato que mantivemos, o ermitão dispensou qualquer tipo de apresentação. Numa atitude que me pareceu inamistosa, não correspondeu a um aperto de mão.      Adverti-me de que aquele gesto era um indício de que não aprovara minha tardia chegada. E o mais grave e constrangedor: eu não estava acompanhado do Capitão, seu amigo.      Sem dizer uma palavra, o ermitão apossou-se da mochila que deveria ser transportada pelo Capitão. Fez-me perceber que, sua única e real satisfação pela minha presença, era comprovar que suportei a difícil tarefa de transportar uma dupla carga de bagagem até aquele lugar ermo. Nenhum gesto ou atitude de minha parte teria maior reconhecimento ou aprovação.      Abriu o fecho da mochila e conferiu o conteúdo, com visível satisfação. Com um leve piscar de olho, fez-me ver que ficara agradecido por comprovar minha lealdade e dedicação. A encomenda que o Capitão despachara chegou intacta.      Disse-me ele, então:      — Ouça-me bem, meu rapaz: não estou certo se esse é o caminho pelo qual devo conduzir minha narrativa. Creio que não me será fácil descrever com exatidão uma série de fatos que me ocorreram, e que mudaram o rumo de minha vida. Admito, no entanto, que faço esta tentativa com a melhor das intenções e prazeroso por compartilhar minhas recordações...      Continuou, após uma breve pausa:      — Recordo-me de que, quando era jovem, como você, participei de uma Comissão de Cidadãos que efetuava uma romaria à Capital. Manter contatos políticos que se traduzissem em verbas federais para a nossa pacata e esquecida cidade natal, era nosso propósito. E como de outras vezes, sempre com o mesmo objetivo, nem sempre alcançado, não dispunha de tempo para conhecer a realidade que existia além das paredes dos palácios do governo. Meus dias eram consumidos na enfadonha tarefa de andar pelos vastos corredores do Congresso e visitar os gabinetes sempre vazios de nossos ilustres representantes.      Uma rotina estéril e cansativa.      Mas daquela feita, atendendo à sugestão de um amigo, resolvi descobrir se além daquelas estruturas esculpidas em aço e cimento; se além da empáfia e do cheiro de naftalina que a classe dominante recendia; se havia uma outra cidade que pulsava, que possuía vida própria e que exalava outros odores.      Devo dizer que fui muito feliz nas minhas andanças.      Entre uma conversa e outra, entre um relato e outro; tomei conhecimento de que entre os moradores mais antigos, também conhecidos como candangos, era possível escutar histórias e casos que somente os pioneiros da construção daquela cidade poderiam contar.      Histórias essas nem sempre verídicas, é claro. Mas, de tão prosaicas e improváveis, foram assumidas por todos como verdadeiras. Como este causo que se passou com um dos mais ilustres fundadores da nova Capital, um certo retirante do nordeste brasileiro... * * *      Foi por volta do ano de 1956 que, refém da má sorte e exaurido pela constância da seca de três longos anos de estiagem, nosso personagem resolveu cruzar o agreste sertão na busca de encontrar noutras terras seu quinhão de riqueza.      Fora uma jornada ingrata. Após quinze longos dias de dor e sofrimento, o aventureiro descortinou um pequeno povoado no seu caminho. Esgotado e desejoso de uma boa noite de sono, a exemplo de outros viajantes, buscou pousada na única hospedaria que por lá existia.      Não teve a acolhida que deve ser dispensada a qualquer turista.      Um rapazola, portando um terno já encardido pelo tempo correu, e bloqueou o caminho. Transpirando a autoridade que não ostentava, não permitiu que o cliente maltrapilho descansasse o fardo da viagem. Com voz rancorosa, bradou que não mais havia acomodações disponíveis no palacete.      O palacete era de uso exclusivo dos funcionários da cúpula do Governo Federal. E assim sendo, melhor seria seguir caminho e buscar guarida no próximo povoado. A nova cidade que, estava sendo erguida no meio do cerrado, era o destino predileto de todo forasteiro sem um tostão no bolso.      Sem emitir uma palavra, o andarilho, como chegou, partiu... * * *      Neste ínterim, o ermitão fez outra longa pausa. E, após meditar para reencontrar o fio da narrativa, exclamou com visível satisfação:      — Mas há males que vêm pro bem, meu rapaz! Anos depois, ainda carregando a lembrança das humilhações que sofrerá do garboso gerente, o viajante retornou ao estabelecimento para desfazer aquele mal-entendido. Quando lá chegou, ao invés de destratar o arrogante funcionário, pediu para ter um dedo de prosa com o dono do estabelecimento.      O pedido não foi aceito de imediato, como era de se esperar. E mais uma vez, nosso desvalido personagem teve que suportar outras humilhações. Amargou uma longa espera sob o calor escaldante de um sol impiedoso.      O dono da hospedaria só tomou conhecimento das intenções do recém-chegado, quando, cansado de ver a persistência com a qual um vulto se mantinha estacado na porta do hotel, indagara ao gerente quanto à motivação daquela cena.      Prevendo que o patrão não aprovaria seu procedimento, o funcionário desfiou uma longa e cansativa história para justificar o acontecido. Por fim, caiu em contradição e contou a verdade.      Enquanto isso, lá fora, ainda tingido o viajante de sombras, o sol do mês de abril pousava na linha do horizonte rasgando o céu com seu facho de luz vermelho-pardo. Não muito depois, o seu vulto foi visto ganhando as sombras dos corredores do palacete quando era conduzido à presença do dono do estabelecimento.      O viajante foi recebido com um largo gesto de boas vindas; uma caneca d’água fresca; e uma farta dose de cachaça de boa qualidade.      Esta foi há maneira mais amistosa que seu interlocutor encontrou para preparar a conversação serena.      Desejando que o ambiente já houvesse serenado, o dono da hospedaria teceu um rosário de desculpas e juras de que o funcionário receberia uma severa reprimenda. Falou com voz mansa, quase soletrando.      — Queira perdoar os maus modos do meu gerente... meu amigo.      O viajante permaneceu calado, com o olhar pregado no chão. O outro continuou:      — O comportamento do meu funcionário compromete a reputação comercial deste estabelecimento... turva nossa imagem progressista! – intuiu ele. —Asseguro-lhe que, hoje mesmo, vou tomar medidas severas! Devo informá-lo que esse tipo de atitude não espelha a índole do povo desta cidade humilde e hospitaleira.      O discurso e promessas de reprimendas não foram do agrado do viajante. Todavia, como gesto de amizade, agradeceu a acolhida e disse que o caso não precisava ser levado aos extremos. Não traria benefícios a ninguém. Só retornara para tirar um dedo de prosa.      A partir de daí, os dois distintos cavalheiros travaram um curto diálogo de pé-de-ouvido. A conversa foi encerrada com um aperto de mão; e o viajante foi alojado nas mais amplas e luxuosas instalações que o imóvel possuía.      Se toda história tem a sua moral, esta também deve ter a sua; entretanto não a revelarei, prefiro que cada qual tire a sua. O fato é que aquele aperto de mão selou um contrato de compra e venda; e a demissão do funcionário, por incompetência para o ofício. * * *      Após me contar esse causo, de conhecimento quase exclusivo dos fundadores da cidade, o ermitão passou a assoviar uma canção, para mim, desconhecida. E, como não me passou nenhuma reprimenda, julguei que aprovara minha presença, mesmo sem a companhia do Capitão.      Meu anfitrião ficou absorvido no seu assobiar. E, com passadas largas, imprimiu um ritmo mais forte na nossa caminhada. Cortava caminho transpondo a vegetação rasteira, como se aquele fosse a maneira correta de por ali transitar.      Do meu lado, encontrava-me tão esgotado fisicamente que não mais conseguia esconder o estado lastimável em que me encontrava. Movia-me com passadas claudicantes, a respiração forçada, e as escoriações latejando.      Abreviando meu sofrimento, o ermitão anunciou que poderia descansar o fardo da viagem. E, falou, sem prestar a atenção para minha precariedade física.      — O Capitão me informara de suas intenções, meu rapaz... – disse-me ele, como se fizesse uma indagação.      Permaneci calado. Não tive ânimo para emitir resposta. Sentia-me terrivelmente exausto e procurava restabelecer o ânimo e a lucidez de pensamento. O ar que penetrava nos pulmões era áspero, e me proporcionava ardor. Minha ansiedade em inspirar todo o oxigênio que necessitava exigia que a respiração fosse efetuada pela boca. E, essa indesejada prática respiratória aumentava a sensação de sede.      — Após aquela pancada de chuva, cheguei a duvidar da sua disposição para concluir a viagem... Imagino que tenha passado maus bocados.      — Sinto-me exausto... Entretanto, posso afirmar que estou realizado. – falei, por fim.      — Foi uma decisão corajosa, de sua parte...      — Nem tanto. Mas não posso negar que por diversas vezes pensei desistir.      — Eu sei... Já passei por situação semelhante.      — Aonde vamos?      — Já chegamos! Descanse que vou providenciar um revitalizante chá de ervas... – como se houvesse produzido um número de mágica, estendeu no solo dois sacos de dormir. — Haverá muito tempo para falarmos das coisas que deseja saber. – concluiu.      O ermitão, temido por todos, por ser o Lobo que habitava a Colina do Sol, abandonou-me no centro de um circulo árido. O local escolhido era com se fosse uma plataforma no topo da colina.      Com passadas largas, embrenhou-se na vegetação compacta. Fiquei solitário e sozinho, negando agasalhar maus pensamentos que rondavam minha mente.      Enquanto buscava atinar para tudo que estava se passando comigo; a escuridão da noite envolveu-me e cobriu o topo da colina de sombras. A noite chegou tão abruptamente que fiquei a imaginar que ocorrera algum eclipse solar, ou que alguém houvesse desligado a luz do dia da mesma maneira como desligamos as luzes do aposento.      A escuridão era tão intensa, que só me permitia enxergar um palmo na frente do nariz. A paisagem que era paradisíaca transformou-se na visão do interior de um túnel assustadoramente desprovido de luz. Naquele ambiente deserto, a insignificante luminosidade da combustão de um fósforo teria a intensidade de um farol marítimo.      Pouco a pouco, recuperei o senso da visão que a brusca mudança de luminosidade me roubara. Pouco a pouco, comecei a divisar o ascender e apagar de vaga-lumes que tingiam a vegetação de luz e alegria. Pouco a pouco, uma quantidade incontável de estrelas começou bordar constelações e signos. Pouco a pouco, o Cruzeiro do Sul era o brilho mais vibrante dentre todas constelações.      A partir daí, comecei a me dar conta de que me encontrava isolado do mundo. Tive certeza de que a plataforma em que me encontrava flutuava, como se fosse um disco que pairava sobre a imensidão da terra. Não descortinei nenhum abrigo para me proteger do orvalho da noite. Tudo que havia à minha disposição era o saco de dormir; a fogueira que exalava cheiro da madeira em combustão; e aquela paisagem sem horizontes que se estendia por todos os quadrantes da terra.      Meus olhos aterrorizados não eram capazes de varar a névoa espessa que nivelava o relevo como se fosse um infindo tapete betume estendido por todos os rincões do planeta.      — Teremos uma noite fria pela frente. – informou-me, o ermitão.      — Espero que sua fogueira nos mantenha aquecidos. – retruquei.      Ele não se deu conta da minha angústia.      — Espero que aprecie passar a noite contando estrelas e falar das trivialidades da vida.      — Vou adorar... Só quero que saiba que esta será minha primeira experiência... Sou um bicho da cidade; tenho pavor do escuro. – informei, confuso com a situação.      — Não tenha medo, meu amigo... Quem provoca medo é a solidão.      — Eu sei... Mas devo dizer que o burburinho que por aqui escuto é mais aterrador que o burburinho da cidade, em pleno “ruch” do meio dia!      Naquele momento, as cantorias da fauna nativas ganharam novas acordes. O coro das cigarras, com seus chiados e zumbidos, produziu uma melodia ensurdecedora. Um animal ladrou no meio da escuridão. O uivado de lobo em noite de lua cheia remoçou em minha mente cenas terror que guardo como herança dos filmes de terror.      Após longo e injustificado silêncio, o ermitão voltou a ter comigo.      — Pode ser... no entanto, procure imaginar que tudo isso é música. E música se fará. – disse me ele, sem externar emoção.      Fiquei meditando suas palavras. Na outra extremidade da clareira a fogueira começou arder em grossas labaredas. O clarão das chamas tingiu a folhagem, umedecida pelo orvalho, proporcionando-lhe um brilho viscoso.      Uma dor de vazio apertou meu peito. Tive certeza; não mais possuía a segurança da civilização e o conforto da vida moderna.      Este me foi um momento de emoção extrema. As labaredas de fogo que ardiam, em tonalidades do laranja ao vermelho-tinto, acordaram em mim traumas de infância. De súbito, percebi-me sufocar pela fumaça e o corpo aquecer com o calor das chamas. DOIS        Percebendo meu desassossego, o ermitão sentou-se ao meu lado. Sua presença dissipou o pesadelo. Começou então a falar, a prosear, como se desse prosseguimento a uma narrativa, há pouco interrompida:      Foi numa certa viagem, meu rapaz... que tomei parte do acontecimento que mudou o rumo da minha vida. Desde o primeiro momento, fiquei curioso para conhecer um certo Candango, pessoa indicada para me confirmar à descoberta de um peixe raro nesta região.      Devo informar que então, era apenas um curioso. Um curioso tal qual você. Desejoso de viver uma aventura que valha a pena de se viver.      Para minha alegria, dois dias depois, eu já havia localizado o Candango Tenório.      No primeiro contato que mantive com o Candango, ele negou, por diversas vezes, ter conhecimento da história que lhe contei. Quando afirmei que fora Veruska, sua neta, que me informara que era conhecedor da localização do habitat natural do peixe, fez-se de surdo. Ficou arredio. Deu-me a entender que tudo não passava de boatos e invencionices, tamanho era o despropósito da minha busca.      Procurei demovê-lo de sua visível repulsa ao tema. Busquei outras formas de convencimento. E, felizmente, após tomar conhecimento da pureza das minhas intenções, concordou em falar sobre o assunto. Advertiu-me, no entanto, de que só me revelaria maior detalhe sobre o local, se eu lhe jurasse, por tudo que me era mais sagrado, guardar segredo sobre sua pessoa.      Não tive como não concordar.      No segundo encontro que mantivemos, sempre amável e solícito, convidou-me para saborear uma buchada de bode na Feira da Cidade Livre – cidade pioneira da construção da nova Capital. O convite era irrecusável, e uma boa oportunidade para tomar conhecimento dos “causos” e segredos que ele se propusera a revelar.      E foi assim, naquele incerto domingo de um fevereiro de poucas chuvas e dias ensolarados, que esta história aconteceu. Informo que, então, não fui pontual. Cheguei ao local combinado quando o sol cruzava a linha do meio-dia. O Candango aguardava a minha chegada na porta do botequim. Recebeu-me com um largo sorriso e convidou-me a tomar um aperitivo.      Uma cachaça de alambique.      Ingeri o líquido de um só gole, satisfeito com a boa acolhida.      E mal havíamos trocado dois dedos de prosa e saboreado a primeira dose daquela bebida dos deuses...      — Arre, tchê! Vê se desempaca e contas logo esta pendenga pro moço... senão, vai pensar que estás com fricote! – gritou o dono do botequim.      — Oxente, gaúcho! Vosmicê não quer que faça intróito pro dotô?! Depois, eu conto o causo! – respondeu meu confidente.      — Enquanto o dotô escuta, não dá pra descer mais uma pinguinha? – interveio um outro parceiro de mesa.      — Caramba, tchê!, já ia me esquecendo. Deixa eu sapecar uma caninha, de rosário, que nesta peleja vai sair fogo!      — Autoridade!, posso participar da palestra? – cheio de ginga, entrou na conversa um recém-chegado.      Ele nem sequer esperou para receber minha permissão. Sorridente e brincalhão, estendeu-me a mão. Pouco depois, com a intimidade de um velho amigo, convidou-me para um abraço.      Agradei-me daquele seu jeito bonachão e da sua inconfundível mania de encerrar algumas palavras com um chiado. Pareceu-me que para ele, todas as palavras terminadas em “s” eram intermináveis.      — Se o dotô der licença, vosmicê pode se achegar! Afinal, vosmicê também é candango, e o confessório vai ficar mais real.      — Por mim, tudo bem, tudo bem; eu sou só ouvido!! Não vou desprezar a presença de mais um ilustre candango. – retruquei com ar de bom amigo.      Com um longo gesto zombeteiro, o carioca puxou uma cadeira e veio sentar-se à nossa mesa, ao meu lado. No minuto seguinte já éramos íntimos e amigos de longa data.      Desejando que minhas dúvidas fossem esclarecidas, com muito gosto, concluí que a participação do recém-chegado ser-me-ía benéfica.      Dentre os membros daquela confraria, o carioca era o mais brincalhão e eloqüente.      — Desce uma loura suada! – gritou para o dono do botequim. E para nós, com as mãos, desenhou uma silhueta feminina no ar.      — Ô, carioca! Para participares da tertúlia, tens que tomar primeiro uma caninha. – advertiu o gaúcho.      — Ah!, é briga de cachorro grande? Então, mandas a que matou o padre. – e falando assim, sorriu; um sorriso gostoso.      — Pois é, seu dotô... Naquele tempo, a coisa aqui era diferente; não havia este montão de carro fazendo fumaça. Aqui era um lugar tranqüilo para se viver!      — Eu entendo... isso sempre acontece, é o progresso!      O candango Tenório concordou comigo, fazendo um leve gesto com a cabeça.      — Mas os governantes adotaram medidas para a proteção e preservação do meio ambiente, não adotaram? – quis saber.      — Que nada, seu dotô! No começo até que a coisa não era tão má, mas o troço desandou; tão acabando com o tiquinho que restou!      — Mas assim; não é possível... Aqui não é a Capital Federal?! Se nem mesmo aqui respeitam o meio ambiente, o que vai ser do resto do país?      O mineirinho que, naquele exato momento, ascendia um cigarro de palha, gritou:      — Uai, seu moço! To de acordo. O exemplo tem que começar de cima, não é memo?!      — Autoridade? – interveio o carioca. – Podes crer! Logo que cheguei nestas terras, eu tomava banho no rio, junto com as capivaras.      — Vamos com calma, carioca! Esta história de tomar banho junto com capivara já é exagero de sua parte...      — Que nada! É a mais pura das verdades. Naquele tempo, o caminhão de pau-de-arara vivia atropelando tatu nas estradas. Não é verdade, mineirinho?      — Uai, sô; to de prova! O carioca não está mentindo, não! Eu campeei muito estas estradas, e cansei de cruzar até com onça.      — Senhor Tizico, o carioca fez uma colocação curiosa... Diga-me uma coisa: esse tal de pau-de-arara existia mesmo?      — Uai, sô! Num só existia, como existe! Não é memo, compadre Tenório?      — Oxente, seu dotô! O pau-de-arara é o meio de carregar os retirantes. Eu mermo vim pendurado num! Viajei do sertão do Pernambuco até aqui.      — Mas isso foi uma loucura, senhor Tenório! O amigo se colocou em situação de extremo perigo.      — Que nada, seu dotô! Avião de retirante é pau-de-arara mermo.      — Tudo bem, quem sou eu para duvidar... Mas explique-me uma coisa: se a cidade foi planejada como vocês dizem, e, diga-se de passagem, tão bem planejada; não ficou definida nenhuma área de preservação ambiental?      — Oxente, até que foi! Mas a cidade desandou tanto a crescer, que hoje em dia já tão construindo nas cabeceiras dos riachos.      — Arre, tchê! É a mais pura verdade! Abriram a porteira do curral! E do jeito que a coisa galopa, quando acordarem, a única água boa pra se beber vai ser minhas caninhas... – zombou o gaúcho. – O resto vai ficar carregado daquele tal de coliforme fecal! – concluiu, com gracejos.      — Mas isso é inaceitável! – gritei de ímpeto, deixando os candangos assustados.      O senhor Tenório compreendeu a motivação de minha revolta, mas não quis intervir no meu comentário. O gaúcho que me provocara aquele acesso de indignação, serviu mais uma rodada de bebidas.      Ainda possesso, desandei a fazer críticas à falta de controle no processo de urbanização. Se, por um lado, a criação de novos centros populacionais era extremamente prejudicial à qualidade de vida da cidade; por outro, a fixação desordenada do homem no solo além de poluir as nascentes, dizimaria a fauna e flora da região.      — Ninguém está preocupado com isso? – gritei.      — Que nada, tchê! Isso não rende votos e muito menos dinheiro, que é o que eles querem. – informou o gaúcho enquanto limpava a mesa.      — Mas se for assim... Não poderei comprovar a veracidade da descoberta!      — Fique calmo, seu dotô! Vosmicê veio de longe pra conhecer este bicho. E pode ter certeza, nem que nós tenhamos que varrer todo o leito do riacho, nós vamos encontrar o pisado dele. Pode ter certeza que vamos!      Como o tom de voz do candango, pernambucano da mais nobre linhagem nordestina, demonstrou firmeza de proposta, tranqüilizei-me. A prosa estava começando a surtir o resultado que eu tanto esperava. Pois, até aquele momento, de bom mesmo, só a cachaça que o gaúcho nos servia.      Êta pinguinha boa, sô!      Sem querer ser enfadonho ao descrever as coisas que ocorreram naquela reunião inesquecível; não posso deixar de frisar que em meio ao discurso de apresentação. Entre apartes, réplicas e tréplicas, fui informado pelo senhor Tenório de que toda aquela epopéia teve início com o sonho do visionário. Ou melhor, do profeta dos novos tempos.      Neste ínterim, o Tenório fez questão de ser loquaz em sua explanação. Passou a descrever com minúcias de detalhes o sonho profético que um certo padre Salesiano tivera com a América do Sul e com o destino da nova Capital brasileira.      Não esqueceu de informar que o feito ocorrera na Itália, no dia 30 de agosto de 1883.      Quando, finalmente, encerrou a narrativa do sonho-visão, ele emudeceu. Hesitante, procurou apoio na mesa e se sentou. Encontrava-se tão exausto que mal podia respirar. Como se todas as suas energias houvessem sido consumidas naquele minucioso relato.      Verifiquei, no entanto, que seus olhos emitiam um brilho sem igual. As pupilas de cor verde-água pareciam duas pedras de diamantes recém-lapidadas. E por sobre sua cabeça, a fumaça do cigarro de palha do candango Tizico tomou a forma de um halo fosforescente.      — Pronto, foi o suficiente... – sussurrou-me o carioca. – Apareceram loucos e sonhadores dos quatro cantos da terra... Do Oiapoque ao Chuí! Se alguém foi capaz de sonhar que faria um Governo de 50 anos em 5, não lhe faltaram seguidores para dar início à grande obra de construção da cidade.      — Êta, sonho divino, sô! – interpôs-se o mineirinho. – Vosmicê já escutou sonho igual, seu moço?      — Na verdade não, senhor Tizico! Já tomei conhecimento de que a cidade foi fundada com as bênçãos de Dom Bosco. Contudo, ninguém me havia revelado o sonho com tanta profusão.      —É que o compadre Tenório fez cartilha na Escola Salesiana... Ele aprendeu a história de cor e salteado. Mas o melhor ele não contou pra vosmicê!      —Eu sou só ouvido, senhor Tizico! Não me deixe sem saber o final da história.      — Se vosmicê quer... e o compadre autorizar; eu conto pro moço!      Confirmei que sim. E cúmplices do mesmo desejo; voltamos os nossos olhos para o senhor Tenório. Mas ele não disse nada. Permaneceu imóvel e calado, varando com seu olhar distante o telhado de zinco.      O mineirinho captou a resposta de que necessitava e começou a sua dissertação:      — O mais melhor, seu moço! É que pra se fazer cumprir o profetizado; o Santo escolheu outro santo. E este nasceu na minha Minas Gerais... Lá em Diamantina! – precisou ele, emocionado.      Enquanto o mineirinho falava dos dias de glórias do Governo Juscelino Kubistchek, eu procurava visualizar as imagens daquele tempo de esperança e fomento patriótico. Sorridente, justificou-se que “J.K.” foi o tratamento carinhoso com o qual o povo imortalizara o saudoso Presidente. O comandante da cruzada que almejava transformar o país na grande potência do novo milênio.      Percebendo que eu anotava as minúcias das suas descrições, ele fez questão de frisar que o “J.K.” era diferente dos outros políticos. Pois, no seu tempo, a porta do Palácio do Governo era franqueada a todos. Do mais insignificante peão-de-obra ao mais graduado auxiliar, com patente ou sem patente.      E concluiu a sua explanação, dizendo:      — Ele é o inesquecível Presidente Bossa-Nova, seu dotô! Governou com a batuta da esperança e numa orquestração do “Peixe Vivo”.      — Autoridade! – interveio o carioca. – Desculpe atrapalhar suas anotações... Mas tenho certeza de que o peixe já vive na cidade-de-pé-junto. – e sorriu, como sempre, zombeteiro.      Desta feita, o sorriso foi geral. E, enquanto todos sorriam gostosamente, tratei de guardar as lembranças daquele Governo e conter o meu próprio sorriso.      Não fui feliz no meu intento.      O gaúcho, que fora atender outros clientes – turistas de países distantes – retornou à nossa mesa e pôs um fim naquela algazarra:      — Não é pra menos, tchê! Com a devastação das matas nativas, nem o lobo Guará, que é esperto como ele só, deve estar vivo!      — Oxente! Vosmicê está me estorvando a prosa, gaúcho! O Pira ainda está vi vinho... Já o lobo Guará; compadre Tizico enxergou um lá pras bandas do Goiás Velho.      Atento ao debate, o mineirinho fez questão de ser enfático na sua afirmação:      — Uai, sô. Não é que é verdade! Estou de prova, posso lhe pregar minha palavra!      — Mas colegas, colegas! Se o lobo foi esperto e fugiu para as curritelas do Goiás, o que terá acontecido com o peixe? Ele não tem pernas! – gracejou o Carioca, com sua zombaria costumeira.      — Barbaridade, tchê! Outro Pira, só se for de proveta!      — Por que? – quis saber.      — Ora por quê, tchê! Porque onde o bicho-homem põe o pé nem capim nasce...      Não reprovei a afirmativa do gaúcho. Afinal, ele fora o chefe da equipe de extração de madeira para escoramento das obras. Ao seu grito de: madeira! A motocerra derrubava as árvores frondosas.      Imagino que se não fora responsável pelos seus atos, ao menos dera sua cota de contribuição para que o progresso se instalasse na região e comprometesse o ecossistema local.      O certo é que o progresso chega, traz conforto e consumo fácil, mas sempre nos suprime alguma coisa. De modo que somente as futuras gerações vão sentir os seus efeitos danosos.      Após um breve momento de descontração e comentários de pouca serventia ilustrativa, a conversa mudou de rumo. O Carioca começou a tecer comentários sobre o problema das queimadas.      Aprovei o tema. Previ que ele me seria muito esclarecedor. Sempre quisera compreender qual era a real natureza das queimadas, e por quais motivos se tornavam tão freqüentes nas frentes de desbravamento das novas fronteiras.      Prevendo que o debate seria longo e controverso, apalpei o bolso da camisa, procurando a companhia inseparável do maço de cigarros.      O Candango Carioca percebeu minha intenção. Efetuou um gesto enérgico e interrompeu o movimento que estava prestes a executar.      — Não faz bem à saúde, autoridade! E muito menos ao bolso do amigo. – advertiu-me, como se me fizesse um favor.      Não aprovei sua atitude. Para um tabaquista compulsivo como eu, aquela era uma postura repressora do meu direito de escolha; mas não me atrevi contrariá-lo. Fiquei no aguardo de que na sua explanação fosse mais democrático.      Satisfeito por constatar que seu pedido fora aceito, o Carioca me lançou um sinal de agradecimento. Com a eloqüência costumeira, deu inicio a um longo discurso para dizer que, no seu entender, havia dois culpados pelas rotineiras queimadas no cerrado. Os quais, para ele, eram: o cigarro dos fumantes e os balões dos festejos juninos. Julgava como um indício muito revelador o fato dos incêndios iniciarem-se sempre às margens das rodovias, ou logo após a queda de um balão colorido.      Utilizando-se de uma encenação caricata, simulou o início de uma queimada usando como material didático os tocos de cigarro do candango Tizico. Em tom professoral, informou que conhecia em profundidade a mente dos adeptos daquelas atitudes incendiárias. Já fora praticante de ambas.      — Já fui fumante e baloeiro, autoridade! Posso afirmar que os fumantes são uns mal-educados e sem senso do perigo que representam para a natureza. Não é preciso andar muito para constatar esta realidade. Os fumantes praticam a insana mania de jogar o cigarro fora, ainda aceso. E em qualquer lugar! Até quando estão dirigindo veículo nas estradas! Já os baloeiros! Porque os balões são bonitos quando sobem... mas são um perigo quando caem. Principalmente quando caem no meio do cerrado. Aí, já dá pra imaginar! O fogo logo aparece consumindo a vegetação...      Na outra ponta da mesa, o Candango Tizico balançava a cabeça em sinal de desaprovação. Sua irritação para com as colocações do carioca era visível. Por várias vezes, sussurrou-me que aquela era uma versão rancorosa e infundada. No seu entendimento, os incêndios eram fenômenos naturais da região, e por esse motivo, ficou ofendido por constatar que seu vício era uma das principais causas enumeradas pelo Carioca.      Acendeu seu pito e deu uma longa baforada, deixando a fumaça sair da boca, tomando forma de círculo. Mas não se conteve e esbravejou:      — Ô, Carioca! Vosmicê podia me poupar de suas bobices...      Pouco depois, com seu jeitinho de quem nada quer, o Mineirinho tomou de assalto a reunião. E, conseguiu ser mais eloqüente e convincente que o amigo. Fez um longo e caloroso discurso para defender sua tese: no cerrado, o fogo pode surgir com o simples roçar de um galho no outro, tamanha é a falta de umidade no ar.      — Escute bem, seu dotô! O Carioca não é um mateiro curtido pelo tempo para saber que por essas bandas o fogo pode brotar até na terra limpa. Aqui têm lagarta de fogo, tem marimbondo de fogo, e tem mato que queima feito fogo. Sem falar nos pedregulhos que no sol do meio-dia, alumiam e soltam faíscas de fogo... Quem o Carioca pensa que é; para dizer que meu pito é culpado?      O Carioca acusou o golpe. Mas preferiu não dar ouvidos ao que o outro estava falando. Por mais convincentes que fossem os argumentos do oponente não mudaria sua opinião, disso estava certo. Como eram amigos, era sua vez de ouvir as lorotas que o outro contava.      O senhor Tenório, que permanecera calado até aquele momento, pediu a palavra e mediou o debate. Para ele, os incêndios eram praticados por agricultores, que na ânsia de abrir novas áreas de cultivo e pastagens, ateavam fogo na vegetação ressequida. Depois, concordou em parte com as colocações do mineirinho. Mas discordou que o fenômeno natural fosse o simples roçar de um galho no outro. Um relâmpago seria o motivo mais provável. Demonstrando possuir grande conhecimento da flora do cerrado, informou que ela, quase na sua totalidade, era formada por árvores e arbustos que possuíam uma casca grossa que se assemelhava à cortiça. Uma verdadeira obra de engenharia da natureza local. Protege o caule do fogo e têm ação moradora nas altas temperaturas. * * *      Após concluir essa narrativa, o ermitão dirigiu-me a palavra.      — Meu jovem, Jacques Marie... Não é esse seu nome? Qual é seu julgamento da peleja dos Candangos?      — Parece-me, no seu todo, construtiva. Mas se for para tomar partido, fico do lado do Candango Carioca.      — Uma boa escolha, para quem não é fumante! Mas, no meu caso e, naquele exato momento, de posse de opiniões tão divergentes e possuidoras de grande poder de convencimento, não tive como não concordar com todos eles. E, para não perder amizade, não quis tomar partido...      Aproveitando a pausa do narrador, indaguei-o quanto à fábula do peixe Pirá-Brasília e de um certo lobo Guará. Ele sorriu, como se minha indagação já lhe fosse esperada.      — Senhor Oinotna, e a fábula?      — A fábula? Pelo que vejo, tudo me leva a crer que o Capitão andou falando mais do que deveria. – disse-me então.      — Se não quiser tocar nesse assunto...      — Pelo contrário, meu rapaz... Apenas pré vi que não lhe fosse de grande valia. Afinal, a história não passa de uma... Digamos...      — Uma autocrítica? – intervi, como se soubesse o fardo de desilusões que acalentava na alma.      O ermitão sorriu, como prova de amizade e estima. Puxou para si o velho cajado que descansava ao lado do saco de dormir e, levantou-se sem precisar esforçar-se para assim fazê-lo.      — Você está coberto de razão, meu rapaz... Talvez a fábula exista, muito mais em razão dos meus pesadelos do que em decorrência dos acontecimentos de então. – falando assim, afastou-se tomando a direção da fogueira.      Faço uso da ausência do anfitrião para proceder a uma breve análise de tudo que até aquele momento vivenciara. De certo que ele não era nenhum lunático como muitos me falavam. De tudo de que ouvira dizer e de todos tratamentos poucos amigáveis com os quais a ele se referiam, não posso negar que a alcunha de lobo lhe era perfeita. A exemplo de seu predecessor, era arisco e de hábitos noturnos.      Aquela era uma noite clara, como poucas que já presenciei. Uma lua redonda brilhava com tamanha intensidade que parecia estar pairando a poucos metros do chão. Minha visão me levou a crer que se me encaminhasse na sua direção, poderia tocá-la com meus dedos.      Pus-me a observar outros acontecimentos ao meu redor. O silêncio da noite era tão mórbido que podia escutar os sons do meu próprio corpo. Aquelas horas, não mais se ouvia a cantoria dos grilos; a coruja já não emitia o corrugar de tristeza; e a madeira não emitia estalidos ao ser consumida pelo fogo. Mas, do meu canto, também podia divisar dois olhos grandes e aterradores a me vigiar; o capim perder o movimento de ondas movendo-se sobre o espelho lacustre; e a lua ganhar massa e brilho. Percebi-me parte daquele mundo; e prisioneiro dele.      Após seu longo ausentar-se, meu anfitrião ressurgiu no meio da vegetação. Numa das mãos trazia um recipiente semelhante a uma cesta de piquenique, e na outra, um braseiro de onde luziam pedras de carvão incandescentes.      Veio ter comigo.      — Espero que aprecie chá à moda dos sertanejos?      — Nunca imaginei que os sertanejos apreciassem chá, senhor Oinotna...      — Eu também, não... Contudo, reproduzirei seus costumes no trato do café para preparar nosso chá.      — Seria então... um chá-fé? – indaguei, com um sorriso pálido.      Sei que o Lobo sorriu da minha tirada hilária. Mas seus olhos amendoados não me permitiram descortinar cumplicidade, e o desalinho da farta barba, donde os cabelos grisalhos eram os mais visíveis, não me permitia colher nenhum traço de riso.      Compenetrado em produzir o chá, deu início ao cozimento como se fosse um ritual secreto. Depositou a chaleira de bico chato no solo; balbuciou palavras em língua desconhecida. Encheu o recipiente com três quartos de água, duas porções de raspa de resina, sete pitadas de ervas, e quatro pedregulhos aquecidos no carvão incandescente. Ficou em silêncio, como se meditasse. Pouco depois; ergueu os braços em forma de arco, desenhou um crucifixo no ar e emitiu um som que mais parecia um grunhido.      Procurei conversa, para não me deixar seduzir pelo aroma que o chá exalará. Com toda certeza, aquela bebida haveria de me proporcionar sensações alucinantes. Era um bom motivo para apreciá-la moderadamente.      — Senhor Oinotna... É verdade que o peixe Pirá-Brasília ainda pode ser encontrado nesta região?      — Seja paciente, meu rapaz... A noite é longa, e os neurônios trabalham melhor quando o estômago não reclama por alimento. – disse-me ele, com brandura.      Concordei que sim. Ele ofereceu-me uma caneca de chá fumegante.      — Qual é sua idade, meu jovem amigo?      — Trinta e cinco.      — É uma ótima dezena... Contudo, crítica.      — Crítica? Não percebo nada de crítico na minha idade! – retruquei, sem entender o motivo da sua colocação.      — Eu sei... Mas imaginemos que esta idade representa um ciclo da vida onde a razão supera a emoção.      — Bom... analisando por este ângulo... – assumi uma posição defensiva, mas, no momento seguinte, denunciei meu descontrole. – Posso afirmar que ainda me emociono! – gritei.      — Eu sei, eu sei... – grunhiu ele, entre os dentes.      E partir de então, entre um gole e outro de chá, meu anfitrião passou a discorrer sobre a fábula. Em certos momentos me levou a sorrir, e em outros me levou a turvar os olhos de indignação.      A fábula era uma colcha de retalhos com todo tipo de texturas e cores. O tema ambiental era os remendos maiores e mais coloridos. Em certos trechos a fábula buscava transmitir um ensinamento dos princípios da harmonia da natureza e a necessidade de uma educação ecológica.      Recitava ele então:      — O que falta ao nosso povo é patriotismo e educação!      — Principalmente educação ecológica, seu Oinotna! – intervir na sua divagação.      — Corretíssimo, corretíssimo, meu rapaz! Ecologia deveria ser matéria obrigatória em qualquer currículo escolar. Somente assim, as futuras gerações estarão preparadas para preservar e conviver em harmonia com a natureza.      — Não há de ser nada, senhor Oinotna. Uma cultura preservacionista já está florescendo! – adverti-o.      — Espero que sim! Mas posso afirmar que seu florescimento é lento, muito lento. Lerdo! – gritou.      — Qual é a importância das veredas no ecossistema do cerrado?      — Ora, meu rapaz... As veredas são o manancial de recursos hídricos da região! O Planalto Central é o berço das três maiores bacias hidrográficas genuinamente brasileiras... Sem o cerrado, não dou vinte anos para haver escassez de água potável para grande parte da população.      — Isso me parece improvável, senhor Oinotna?      — Não há nada de improvável, meu rapaz. Essa é uma verdade irrefutável. – sentenciou, ele.      Ciente de que até mesmo as previsões menos alarmistas assinalavam que num futuro não muito distante, haveria escassez de água potável nas regiões mais desenvolvidas do planeta; não tive como contestar seus argumentos. E, rememorando cenas das mais puras e cristalinas irresponsabilidades humana, que são retratadas nos acidentes ecológicos que ocorrem nos quatro cantos do globo, reconheci que sua previsão era factível. Não tardaria e haveria muito choro e ranger de dentes.      Fiquei apreensivo.      A natureza não mais suporta tamanha destruição. Mas o que fazer; qual o fazer que será preciso?      — Senhor Oinotna: se tudo isso é verdade, tenho certeza que nossos governantes já adotaram medidas de proteção ambiental para preservar os recursos hídricos da região. – procurei ser otimista.      — Ora meu rapaz, não venhas querer ensinar padre rezar missa. – falando assim, levantou e foi reforçar a lenha do fogo.      Não digeri por completo o teor daquela conversa. Tão menos, a reação inamistosa do meu anfitrião. Comecei a duvidar das suas virtudes e espantosa capacidade para pressagiar o futuro.      O Capitão me fora contundente nas suas afirmativas: – ele é simplesmente magnífico! Um iluminado!      Sendo assim, imaginava entrevistar um novo “Buda” ou um iluminado que me falasse de viagens astrais, que me falasse de energias cósmica. E, no entanto, encontrei um homem muito mais antenado aos problemas atuais, do que eu.      Não, ele não era o visionário que ouvira dizer que por lá vivia. Só podia ser um impostor. Alguém querendo aproveitar-se de minha boa fé.      Vi o ermitão afastar-se da fogueira como se fosse um lobo enfurecido. Na mão direita trazia o braseiro suspenso por alças de arame. Permitiu que o recipiente metálico ganhasse movimento circular e, o luzir do carvão em brasa desenhou um círculo de fogo em torno do seu dorso. Protegido pela espessa barba em desalinho, o rosto enfurecido permitiu ver que seus olhos refletiam a cor do facho de fogo; como se fossem duas tochas incandescentes.      — Quer dizer que o amigo veio à procura de um mago? – indagou-me, com firmeza. – Um mago que lhe fale de coisas tolas, que lhe fale de coisas que não és capaz de compreender! Um mago que lhe faça acreditar que a verdade não habita a insignificância do nosso dia a dia...      Sua voz me era ameaçadora. Sua voz ecoara como a de um profeta que prega aos quatro ventos um novo mandamento.      —...a única verdade meu rapaz; está dentro de cada um de nós... – continuou ele. – Somos parte deste universo. Um universo em expansão... Um universo onde a ausência de um simples grão de areia pode emperrar a máquina da criação.      — Desculpe-me, não quis importuná-lo com minhas divagações tolas...      — Não há de ser nada, meu rapaz... – disse-me ele, após um leve pestanejar.      O ermitão repetiu o ritual, anteriormente descrito. Temperou mais uma chaleira de chá exótico. Desta feita, com ervas de aroma ácido e volátil; como se fossem possuidoras de elevado teor alcoólico. Do bornal que carregava a tiracolo, retirou um recipiente contendo nossa ceia noturna. Castanha assada de caju do mato.      — Vamos voltar ao tema dos candangos! – disse-me então, como se nada de mal houvesse ocorrido. TRÊS        Naquele dia, após uma nova rodada de bebida e petiscos, a reunião com os candangos ficou amena. Cada membro da mesa emitia seus comentários sem ser interrompido. Absorvido em coletar seus relatos mais picantes, só me dei por mim, quando escutei um zumbido de abelha querendo pousar na flor do meu ouvido. Dei um, dois, três tapas, mas pelo jeito, não fui feliz no meu intento. Teimosa e insistente, ela continuou a me azucrinar.      —Dotô! Dotô!      Quando despertei com aquele duplo zumbido, acordei com o Candango Tenório balançando o meu corpo pelos ombros.      — Senhor Tenório! – respondi, assustado. – Desculpe-me a distração, estava absorvido em pensamentos!      — Pode cochilar, seu dotô! Eu só queria saber se vosmicê vai mermo querer conhecer o Riacho Fundo! – perguntou-me ele, num sorriso meio infantil.      — Claro amigo! – apressei-me em responder. – Por enquanto eu só tenho uma tomada aérea da paisagem! – apontei para o céu, e ele compreendeu meus argumentos.      — Pelo tamanho das botas... o dotô veio preparado pra enfrentar até cascavel! – pilheriou o gaúcho.      E o fez de maneira tão espalhafatosa que todos que se encontravam no recinto voltaram os olhos na minha direção. E é claro, para as minhas botas.      — Oxente, não é que é verdade! Eu não tinha reparado, seu dotô. Mas não se apoquente não; se aparecer alguma surucucu, eu piso no cangote dela com minhas precatas.      — Espero que não seja necessário! – sorri, principalmente da valentia que o candango buscava demonstrar.      Ansioso para iniciar nossa viagem; tratei de acomodar o bloco de rascunhos na pasta que peguei emprestado no gabinete do amigo Senador. Era uma pasta resistente, que muito se semelhava às que costumava usar, no meu tempo de assessor parlamentar. Recordo-me que Rosa, a secretária de curvas generosas e seios fartos, entregou-me a pasta com um sorriso pidão. Mas não aceitei a cantada; qualquer um sabia que ela era caso exclusivo do Senador. Agradeci sua gentileza e, fiquei curioso ao notar que, apesar do tempo, ela se mantinha jovem e fresca.      O candango percebeu minha pressa, mas não demonstrou comungar meu sentimento. Tomou mais um gole de bebida e aproveitou para lustrar a sandália de couro batido. Como não poderia deixar de ser, habilmente tingida de branco.      Não houve despedidas dos demais companheiros e parceiros de mesa. Todos nos deram a desnecessária garantia de que iriam ficar aguardando o nosso regresso enquanto bebiam o estoque da adega do gaúcho.      Quando finalmente atingimos o estacionamento, o senhor Tenório me convidou para tomar o lugar do carona de um Jipe. E, quando assim o fiz, o Candango soltou o freio de mão e deu um leve empurrão no veículo. Correu e acompanhou o deslocamento do veículo. Deu um salto ágil e tomou lugar na direção, para logo em seguida pisar na embreagem, engrenar a segunda marcha e liberar o pedal.      Escutei o ruído das peças mecânicas entrando em atrito. O tranco do motor foi tão violento que quase me atira em cima do pára-brisa.      O candango fez um sinal de positivo, confirmando que estava tudo bem. O Jipe-69 saiu aos solavancos, como se estivesse desgovernado.      — O bicho é pior que burro xucro, seu dotô! Primeiro coiceia, mas depois obedece ao cavaleiro.      — Ele é uma raridade! – comentei, procurando conversa. Mas não me escutou.      Tomamos a via em velocidade reduzida. O trânsito lento não nos permitia trafegar na velocidade desejada. Notei que o motorista estava um pouco ébrio, e fiquei feliz por constatar que mesmo assim, era prudente.      Não muito distante do local de partida, deparamos-nos com um trevo rodoviário. O veículo fez o contorno, sem desgarrar as rodas. Tomou outra direção, ganhando velocidade.      O candango não me deu nenhuma explicação quanto ao destino que tomara. Mas não por muito tempo. Após cruzar uma pequena ponte, reduziu a velocidade e parou. Passou a mão na barba rala e disse-me:      — Dotô!, não sei onde vai acabar essa viagem... Mas, é aqui que ela começa.      Fiquei entusiasmado. Nunca havia imaginado que o Riacho Fundo estivesse tão próximo. Entretanto, ali estava ele, com sua água rala e suja. Um odor azedo penetrou nas minhas narinas e me casou mal estar.      Evitei fazer comentário. Não me pareceu o momento oportuno para iniciar uma bravata contra a política urbana local.      O Tenório voltou a falar:      — Seguindo o curso das águas, o riacho vai encontrar-se lá adiante com o Córrego Vicente Pires. Um pouquinho mais adiante... desemboca no Lago do Paranoá. Então, como vosmicê não quer ver lago, nós vamos tomar outro rumo... Vamos pras bandas da nascente! – anunciou, satisfeito com a própria decisão.      — O senhor é quem manda, senhor Tenório! – concordei, e não havia como não concordar.      Ciente da minha aprovação, ele efetuou uma manobra rápida e retornou ao trevo rodoviário. Contornou-o novamente e seguiu no sentido do trajeto inicial: pela Avenida Contorno. A avenida marginal corta a cidade de um lado a outro e é a principal via de acesso ao setor rural.      Como da primeira vez, o caminho que nos levaria ao riacho não ficava longe. No entanto, somente quanto se aproximou do trevo rodoviário o veículo ganhou o piso de uma via secundária e começou a transitar pela zona rural.      Atento aos detalhes da paisagem, observei que as propriedades estavam guarnecidas por cercas de arame farpado. E por trás delas, correndo em linha paralela, havia uma frondosa plantação de bananeiras que nos impedia de observar o seu interior. Somente quando o muro de folhas verdes se desfez, eu pude observar o que elas produziam.      Aquela era uma região rica na produção de hortaliças. O solo estava tomado por tabuleiros especialmente preparados para o cultivo de folhagens e legumes. Em algumas propriedades os agricultores já haviam adotado a irrigação mecanizada. Em outras, essa cansativa tarefa era executada por empregados: crianças, na sua maioria.      Aquela descoberta não me foi de bom grado. Não era o tipo de imagem da qual estava à procura e que deseja encontrar. Fiquei indignado com o que presenciava. A constatação de que em plena Capital ocorria a exploração da não de obra infantil era um fato deprimente. No entanto, contive-me. Adverti-me de que sempre fora sabedor de que as promessas dos nossos governantes não passavam de um engodo eleitoral. O problema nunca terá solução.      A irrigação manual era efetuada de duas maneiras: por grupos que carregavam grandes e pesados regadores; ou por esguichos de água das mangueiras que abasteciam os regadores. Pareceu-me que as crianças que se ocupavam deste último procedimento eram as mais velhas. Com toda certeza, elas já praticavam a hierarquia do mais forte.      O candango não concordou com minha visível repulsa à cena. Defendeu a idéia de que era muito melhor vê-los trabalhando no roçado a deixá-los à mercê das más companhias e da escola da malandragem.      — Um pouco de trabalho nunca é demais, seu dotô! – filosofou então.      Após ouvir a buzina tocar, um dos agrícolas interrompeu o trabalho e tomou a direção do Jipe. Sorridente, veio atender ao nosso chamado.      Enquanto caminhava ao nosso encontro, notei que trazia no rosto algumas listras de cor negra. Somente quando se aproximou o suficiente, percebi que aquela estranha pintura tinha a mesma tonalidade da terra que predominava naquela região. Era um solo negro como betume.      Este detalhe levou-me a julgar que estava revolvendo a terra com as mãos. E daí então, para evitar a picada de algum inseto, passou a mão no rosto; deixando-o com aquelas listras negras a lhe realçarem a pele morena, queimada pelo sol.      — Dotô! O caboclo tá teimando que não dá pra ir de carro até a beira do riacho. O terreno está muito fofo... Só dá pra ir a pé!      — Não tem problema, senhor Tenório. Eu só pretendo tirar algumas fotografias.      — Fotografias? Pra que servem as fotografias, seu dotô?      — Ora, seu Tenório... para registrar os fatos!      — Não existe melhor registro que os nossos olhos, seu dotô...      — Estou de pleno acordo! Contudo, a fotografia tem o poder de mover montanhas.      — Se o dotô acredita nisso... que assim seja! – concordou, contrafeito.      — Pelo que vejo, não fica assim tão longe. – disse-lhe, buscando reforçar minhas intenções.      — Gostei da atitude de vosmicê. Eu também sou assim, comigo não tem tempo ruim e nem barreira. – elogiou-me ele, à sua maneira.      — Se a montanha não vai a Maomé, Maomé tem que ir até a montanha, seu Tenório...      — Então, vamos lá, seu dotô... Vai ser um pé lá, e outro cá! – sentenciou ele.      Aquele foi um passeio infrutífero. Tirei algumas fotografias e voltamos logo em seguida. Estávamos decepcionados com o que presenciamos. A vegetação nativa estava completamente comprometida. As poucas árvores que ainda resistiam já não encontravam no solo a fertilidade de outrora. Grande parte da massa de terra fora arrastada pelas águas das chuvas, descaracterizando o leito original do riacho. Em alguns trechos, o riacho havia tomado outras direções, formando ilhotas de areia e cascalho, tamanha era a destruição do equilíbrio natural. Qualquer um podia prever que em poucos anos tudo estaria ameaçado pela erosão.      O caminho de volta foi realizado em silêncio. Quando chegamos no Jipe tomei o meu lugar de carona e esperei a partida do veículo.      Estava convicto de que, desta feita, não se faria necessário empurrá-lo. A bateria estava com carga.      O Tenório estava tenso. Descortinei no semblante uma ponta de amargura. Seu olhar estava duro e distante. Previ ser melhor esperar que o tempo lhe devolvesse a alegria costumeira.      Entediado com a toada que ele adotara em nossa viagem, comecei a fotografar a paisagem, as residências dos agrícolas, as crianças efetuando o trabalho de roçado e colheita de hortaliças, e o cachorro vira-lata que corria atrás do veículo. Somente quando a estrada se encontrou com outra de piso asfáltico, o candango estacionou e quebrou o silêncio que havíamos adotado até então...      — Essa estrada vai dar na Metropolitana, seu dotô. Foi o primeiro alojamento dos dotô engenheiro! – apressou-se em me informar.      — O alojamento ainda existe?      — Que nada, seu dotô... Já não tem mais nada que nos lembre o passado.      — Se é assim... não estou interessado em conhecê-lo.      — Então, seu dotô. Vamos seguir a viagem pelo lado de cá. Vou cortar a cidade e varar do lado de lá!      — Por mim, tudo bem, eu não quero ver cidade. Prefiro a natureza!      — Natureza é que não nos falta, seu dotô!      — É... mas pelo que vejo, não restou muito. Só sobraram os pés de quaresmeiras. – dei vazão à minha insatisfação.      — É verdade! Mas como vosmicê queria conhecer toda a barrigada do riacho, eu não podia deixar de passar por aqui... Estou certo? – interrogou-me, também insatisfeito.      — Desculpe-me, amigo, você está coberto de razão. Mas espero que me mostre algo que valha à pena!      — Fique calmo, seu dotô! Já estamos chegando nos finalmente da cidade. Vou fazer mais uma parada, e depois, levo vosmicê no trecho mais formoso.      A partir deste momento, o Candango passou a dirigir com prazer e em velocidade desaconselhada para o tráfego lento da rodovia urbana. Contornou uma pequena rodoviária e tomou a direção que me fora indicada. Sempre em sentido contrário ao curso das águas.      Após efetuar manobras ousadas, aproximou-se das margens do riacho. Procurou uma sombra e estacionou.      — Vamos esticar um pouco as pernas, seu dotô?      — É uma boa idéia! – respondi, com visível insatisfação em atender o convite.       nossa frente, havia um descampado que algum dia já fora um campo de futebol de várzea. Aproveitando-se do que restara da antiga cobertura de grama, uma parelha de cavalos e uma vaca magricela pastavam tranqüilamente. As pessoas também faziam uso daquele campo. Algumas crianças ocupavam aquele espaço desolado para brincar de super-herói e soltar pipas coloridas.      Adverti-me de que a devastação naquele trecho era ainda maior do que nos outros lugares pelos quais havíamos passado. Do lado do qual nos encontrávamos, o campo fazia divisa com o riacho e, na outra margem, o mesmo episódio ocorria com as casas. Elas foram construídas tão próximas ao leito do riacho que, se ocorresse uma enchente de grandes proporções, certamente iriam ficar inundadas.      Pensei em fazer algumas indagações ao candango, mas ele já havia tomado uma boa distância de mim. Estava na beira do riacho, olhando fixamente para o leito raso e de águas turvas.      Quando me aproximei dele:      — Dotô, guardo boas lembranças deste pedacinho de chão! – disse-me ele, com voz de tristeza. – Eu era dono de um roçado que ocupava todo este baixio. Naquele tempo, aqui parecia um paraíso! Com essas mãos que a terra há de comer, eu zelava, eu cuidava, eu evitava que alguém o destruísse... Tá vendo aquele areai no meio do rio? Ali mermo, naquele lugar! Com uma varinha de bambu, cansei de pegar piau, fisgar cará e arrastar mandi-chorão e bagre!      — Parece que não sobrou muito daquele tempo, seu Tenório... O riacho já não está para peixe!      — É o progresso, seu dotô... O progresso!      Notei que a voz do candango, sempre grave e firme, possuía uma sonoridade melancólica e irregular. Observei que seus olhos ficaram marejados. Mas não presenciei nenhuma lágrima. Porem, elas deveriam estar presentes.      Tratei de mudar o rumo da conversa. Cheguei a pensar em encerrar a viagem e voltar para a companhia dos outros candangos. Seria a opção mais acertada naquele momento, pensei.      — Que tal retornarmos ao botequim do gaúcho, seu Tenório? – não obtive resposta. – Estou com saudade daquela cachaça maravilhosa! – insisti, tentando afastar seus pensamentos sombrios.      — Que nada, seu dotô. Nós vamos varar o paredão e logo vamos nos embrenhar na antiga Fazenda Sucupira.      — Varar! Não seria melhor contornar?      — Pouco importa... O que importa é chegar lá, seu dotô.      Pus-me a admirar o paredão do aterro. Ele deveria ter aproximadamente vinte metros de altura. No seu topo, era possível perceber o brilho metálico da linha férrea. Após perder alguns minutos contemplando a montanha de terra e cascalho que alterara a paisagem natural, concordei com as suas ponderações. Pouco importa se vamos varar ou contornar o paredão... O que nos interessava era atingir nosso objetivo: a nascente do Riacho Fundo.      Retornamos ao Jipe. Quando o candango tocou na chave de ignição, o motor ligou, instantaneamente.      Pareceu-me que quanto mais o veículo era utilizado, ganhava força, potência e ficava macio e silencioso.      O candango acelerou como se fosse um ás do volante e guiasse um carro de corridas. Contornou a cidade. Trafegou pela rodovia interestadual BR-060, também conhecida como Brasília-Anápolis. E depois de alguns quilômetros, retornou ao transito das vias secundárias. Quando dei por mim, já estávamos do outro lado do paredão. Foi quase um passe de mágica. Como se houvéssemos saltado de um lado para o outro do paredão.      — Esta região é a menos pior, seu dotô. No trecho à direita tem muita pedra e não presta para o cultivo. Somente naquele baixio a terra é de bom cultivo.      Observei que o solo arenoso estava coberto de vegetações nativas do cerrado. A chamada zona do envoltório, com suas gramíneas e arbustos retorcidos.      — Que construção é aquela, seu Tenório?      — É o matadouro! – informou-me com certo desprazer. – Tão dizendo que foi fechado, mas pelo cheirume que tem o rio; ainda deve de está funcionando.      — O senhor tem toda razão. Pela movimentação que se pode observar, ele não foi desativado...      O candango não quis dar vazão à sua indignação. Ficou calado. Nem sequer fez menção de parar, quando passou na porta do velho frigorífico. Deu prosseguimento à viagem, como se nada houvesse de importante para ser registrado pela máquina fotográfica.      Esbanjando audácia, levantei meio corpo do banco e tirei algumas fotografias. Meu ato me custou uma severa advertência do motorista. Constrangido, vi-me obrigado a admitir que, se tivesse avisado, ele teria parado. E assim, não necessitaria ter efetuado aquele esforço arriscado e desnecessário.      Fiquei certo de que foi uma atitude irresponsável, da minha parte. Mas se o fiz, foi por não querer incomodá-lo. Ele deveria ter seus motivos para não querer parar. E eu os meus, para registrar a existência do matadouro e de casebres construídos rente ao muro lateral, como se fosse parte do mesmo. Pareceu-me o surgimento de mais uma favela.      — Agora, seu dotô, nós vamos entrar num grande cultivo. Se vosmicê reparar bem... vai ver que a mata está mais formosa.      — Estou começando a gostar, senhor Tenório. – concordei, com satisfação.      — Vosmicê não viu nada. Nós vamos contornar os plantios e vamos chegar na nascente. Lá é que é bão!      — Se o senhor é quem diz... Não sou eu quem vai discordar.      — Se o moço quiser espichar as pernas... eu paro. Se não quiser... vou seguir minha toada.      Como não emiti opinião, o jipe seguiu em frente.      Pouco a pouco, a galeria de mata ciliar foi ganhando forma e ficando compacta. As lavouras já não ficavam tão próximas às margens do riacho. Tudo me parecia. Foi nesse momento que descortinei plantações de eucaliptos e de bambus entre a vegetação da mata nativa.      Pensei em indagá-lo sobre a real necessidade da implantação daquele tipo de vegetação, mas não foi preciso. Como se houvesse lido meus pensamentos, respondeu-me:      — Foi a japonesada que plantou, seu dotô! O eucalipto faz o terreno ficar menos encharcado... Já o bambual, além de evitar o desbarrancamento, serve pra se comer!      — O senhor já experimentou?      — Ainda não, seu dotô! Ouvi dizer que é coisa fina, coisa muito gostosa... Mas não tive coragem de provar.      — O senhor não sabe o que está perdendo, seu Tenório. O broto de bambu é um prato saboroso, um verdadeiro manjar!      — Pode até ser... mas não sei comer com aqueles pauzinhos.      Ante a objetividade daquela resposta, tive uma crise de risos. O candango também sorriu, de si mesmo.      — Onde anda a japonesada de que o senhor tanto fala? – indaguei, para conter o sorriso.      — Agora tem muito pouco, seu dotô. Mas nos antigamente, aqui era uma colônia desse povo de olho puxado!      — Eram tantos assim?      — Vosmicê não é capaz de imaginar! Tinha tanto olho puxado que até escola tinha. Escola para a os tal Nisei e os Sãoseis!      — Sãoseis...? Não é Sansei? – indaguei, ressabiado.      — Bão, isso eu não sei... Mas sei que tinha esses outros. Isso sei que tinha!      — E onde fica a escola? – quis saber, contendo um sorriso com a mão.      — Fica lá adiante... Eu passo na porta dela. É só subir esse pé de morro que a gente já chega... A gente já tá chegando! É só mais um morrinho, seu dotô!      A distancia não me pareceu longa. No entanto, a irregularidade do terreno me fez ficar com dores nas costas. O jipe pulava como se fosse um burro bravo. E o candango não estava muito preocupado em tornar nossa viagem confortável.      Quando, finalmente, atingimos a parte alta do terreno, estacionou. Saltou do veículo. Saiu correndo e foi fazer suas necessidades fisiológicas. Tirar água do joelho, como me informara.      — A escola é aquele casarão... Se o dotô se adiantar, eu não me demoro. – gritou, abrindo o zíper da calça.      — Ah! a Escola KANEGAE! Vou adiantar-me para tirar algumas fotografias, seu Tenório.      — Fique à vontade, seu dotô... já estou indo!      Depois de um certo tempo, ele se aproximou sorridente. Esticou os olhos para deixá-los longos, e correu para o lugar que eu lhe indiquei.      Após consumir o rolo de filme, percebi recompensado por aquele momento. Recuperei o ânimo para seguir a viagem.      — Seu dotô, a cabeceira do riacho fica ali, naquelas bandas de lá! – apontou a direção. – Lá, com toda certeza, ainda tem vegetação antiga... É a única parte que não foi totalmente desmaiada! – tratou de informar      — E a fazenda? Onde fica a fazenda Sucupira?      Ele meditou alguns minutos... Talvez, querendo rememorar todos os detalhes das paisagens do passado. Quando se deu por satisfeito, começou a descrevê-la:      — Toda esta região... baixios e morros; era a Fazenda Sucupira. Ela começava não sei donde, mas se estendia até o outro lado do riacho... que fica lá naquela corcova! Pelo que sei, todo esse mundão de terra era da Sucupira. Com o passar do tempo, e a mudança de Governo, foram cortando um pedaço daqui, um pedaço dali... E hoje já não se sabe onde começava ou findava.      — E a granja da qual o senhor me falou?      — Que granja, seu dotô?      — Aquela que já foi residência dos Presidentes!      — Ah!, a Granja do Riacho Fundo... Vosmicê está se cocando pra saber dessa história, não é mermo?      — Claro, senhor Tenório! Achei muito intrigante o fato de nossos mandatários morarem numa granja.      — Intrigante, por que?      — Ora por quê... Porque na minha terra granja é criatório de galinhas!      — Que mal tem nisso, seu dotô?      — Nenhum... Eu apenas tirei a seguinte conclusão: o brasileiro é um bando de galinha... – e sorri, da infantilidade de minha piada.      — Vosmicê é muito danado, seu dotô... Só que faz muito tempo que o galo não canta neste galinheiro! – sorriu, da anedota.      — Não me comprometa, senhor Tenório. É o senhor que está dizendo!      — Eu sei, seu dotô... Mas, acho melhor por o pé na estrada. Se a gente ficar de proseio, não vai dar tempo de encontrar o peixe.      Concordei mais uma vez com o candango. Era só olhar ao nosso derredor para atestar que o processo de urbanização daquela região já estava em ritmo acelerado. Aqui e acolá era possível observar o surgimento de novas moradias. Neste caso, destinadas a abrigar pessoas de alto poder aquisitivo.      Recordei-me então, que o carioca me informara que todo aquele processo especulativo estava ocorrendo por culpa do Governo. Se por um lado o Governo local criou novas regiões habitacionais para atender a imensa demanda populacional, de outro, empresários desonestos lotearam as áreas consideradas exclusivamente de agricultura ou de preservação ambiental.      Dissera-me, ainda, que tudo estava sendo feito na mais perfeita e harmônica parceria. Tudo em favor da democracia. O voto, é claro!      Enquanto o jipe transitava em declive tomando o rumo da cabeceira do riacho, notei que à minha direita, a encosta do morro tomava contornos de uma de serra.      Para mim, aquela era uma paisagem inesperada. Nunca imaginei que a região produzisse relevo daquele porte. Todavia, contrariando minhas expectativas, ele existia. Não me permitindo tecer julgamento negativo, mesmo que assim o quisesse.      Assoberbado com a beleza da paisagem, previ que fosse uma ramificação da Serra dos Pirineus – cadeia rochosa que corta o Planalto Centrai-mas não tive certeza. E o candango também não soube me oferecer informação precisa. * * *      — Tive a mesma impressão, senhor Oinotna! – interpus-me na narrativa do ermitão. — Garanto que esse acidente geográfico é pouco desconhecido!      — Esse acidente geográfico, como você diz, meu rapaz... É uma abrupta depressão do solo.      — Depressão?      — Sim... Posso afirmar que este acontecimento é muito comum na região. Todavia, neste trecho, suas proporções são inacreditáveis.      — Inacreditáveis e assombrosa.      — O mais inacreditável e assombroso, meu rapaz; é saber que tudo não passa de mera ilusão visual.      — Ilusão?      — Sim... Porém, antes de explicar essas coisas, deixe-me contar como se deu meu primeiro contato com essa região... QUATRO        Naquele passeio com o Candango Tenório, os ponteiros do relógio já assinalavam a décima sexta hora. Talvez por não se deixar governar por essa invenção do homem, o sol teimava em ficar a pino. O calor era insuportável. E a poeira da estrada tornava nossa viagem ainda mais cansativa.      Desejando abreviar nossa chegada, o candango afundou o pé no acelerador e o jipe ganhou velocidade perigosa. A irregularidade do terreno fez o jipe trepidar e pular de um lado para o outro, como se relutasse em permitir o trilhar em linha reta. A lataria roçava a vegetação; o volante girava para a esquerda e para direita como se o motorista não tivesse controle da direção, mesmo que continuássemos seguindo em frente.      Hoje sei, que, se o Candango fosse menos hábil teria ocorrido um acidente grave. A cada instante, o jipe ameaçava desgarrar da estrada e mergulhar na vegetação que a margeava. E, naquele trecho, a vegetação nativa escondia uma vala de tamanho e profundidade suficiente para tragar um veículo de tamanho médio.      Estes me foram os piores momentos da viagem. Só me dei por tranqüilizado quando o candango reduziu a velocidade e anunciou que já havíamos chegado nos finalmente. Estacionou o Jipe sob a copa das árvores nativas e me disse que já poderia apear.      Inspirei profundamente o frescor da umidade local.      Quando abandonei o banco do carona, embrenhei-me na mata. Mas não fui longe. A poucos passos, eu poderia ser encontrado abraçado a um pé de jatobá. Ele era enorme! E mesmo fazendo uso dos braços, não conseguia enlaçá-lo por completo. Embriagado, por aquele prazer indescritível, corri e abracei outras árvores, como se fossem velhas conhecidas.      Por lá, havia uma enorme variedade delas. Havia guatamus, pau-d’óleos, crapiás, angicos e aroeiras. Todas de porte exuberante, superando dez metros de altura.      Maravilhado com tamanha beleza, corri por entre o labirinto vegetal. Varei barreiras de caules e folhas, como se fosse um furacão. Já me encontrava cansado, quando me lembrei da máquina fotográfica. Minutos depois, eu estava tão absorto em registrar a beleza local, que não me dei conta da presença do Candango.      — Parece que vosmicê ficou abobado, seu dotô...      Escutei a indagação, mas não emiti resposta.      — Isto aqui é soberbo, seu Tenório. Soberbo! – foram as únicas palavras que eu consegui pronunciar, após um breve silêncio.      — Pensei que estava com o Demo, seu dotô! Parecia um furacão derrubando a mata.      — Desculpe-me, eu não consegui me controlar... Fique aí, onde o senhor está! – gritei, com o olho pregado na lente.      Ele sorriu, e colhi mais uma recordação dos seus dentes brancos. Um aqui, outro acolá.      — Já tirou foto do jibóia, seu dotô?      — Jibóia? Onde? – quis saber, assustado. O Candango começou a sorrir.      — Aqui tem cobra? – insisti, temeroso.      — Fique calmo, seu dotô! Se alguma cobra se engraçar pro seu lado, eu amasso a cabeça dela com minhas precatas.      — Mas o amigo falou na jibóia!      — Falar, eu falei... Mas esta cobra é um cipó, seu dotô. – e sorriu do meu desassossego.      — Conheço a cobra. Agora, esse cipó; nunca ouvi falar!      — Ele é uma belezura, seu dotô! Vosmicê não vai acreditar no seu olho quando vê a grossura dele...      Naturalmente, sou sabedor da variedade de cobras que habitam nossas matas e florestas. Todavia, a menção do nome daquela cobra, conhecida mundialmente pelo seu porte agigantado, deixou-me apreensivo. Tratei de ficar perto do candango.      Cauteloso, olhava para um lado, para o outro, e evitava pisar em local em que havia grande concentração de folhas secas.      O Tenório percebeu a minha preocupação. E, sorridente, explicou-me o procedimento que deveria adotar para não ser surpreendido ou molestado por aquele réptil.      A explicação me foi convincente. Afugentou meus temores. Caminhamos até a margem do riacho. A água límpida e fresca corria por um leito de pedras enegrecidas. Aos nossos pés, ela caía em forma de cascatas e formava uma pequena piscina natural. Tive uma idéia brilhante. Arranquei a roupa e avisei ao Candango que jamais perderia aquela oportunidade. O remanso não possuía grande profundidade, mas me permitiria um mergulho rasante. O suficiente para matar minha saudade dos tempos de infância, quando vivia no interior da Bahia.      Observando meu jeito moleque, o candango recusou meu convite para aproveitar aquele momento, e me lançou um olhar em sinal de desaprovação. E pelo sim e pelo não, preferiu ficar olhando as copas das árvores.      Ciente de que meu mergulho poderia turvar a água do regaço, aproximei-me da bica para tomar um bom gole d’água fresca. Fiz uma concha com as mãos e colhi um pouco d’água fresca e gritei:      — A água esta gelada! Está gelada, senhor Tenório!      — Pensei que vosmicê ia tomar banho, seu dotô! Queria ver a cara que vosmicê ia fazer quando pulasse no riacho! – e sorriu, como se o fato tivesse ocorrido.      — Se não estivesse fria como gelo, eu me atreveria... Do jeito que está, posso virar picolé!      Com um gesto largo, o candango deu-me a entender que deveríamos continuar nossa excursão pela mata.      Apressei-me em vestir as roupas.      Enquanto vestia atabalhoadamente a camisa, observei que as copas das árvores eram tão entrelaçadas, que nenhum raio de sol conseguia penetrar por entre o emaranhado de folhas e galhos.      “— Será que nesta mata têm macacos?” – indaguei-me. Quando procurei externar meus pensamentos, o candango me disse que não. Que ali já fora o habitat natural de várias espécies daquele primata. Mas, pelo que via, tinha certeza de que não restara nenhum para contar história.      — Aqui ainda tem a palmeira conhecida com o nome de buriti?      — Só do outro lado, seu dotô... Pras bandas de cá já derrubaram tudo. Depois que vosmicê ver o jibóia, nós vamos dar um volteio por dentro da mata e conhecer a nascente. Lá têm buriti! – informou-me, com alegria.      Como o candango já havia se determinado a me mostrar o cipó jibóia, tomamos um caminho pouco usual aos freqüentadores das margens do riacho. Abandonamos a trilha e nos embrenhamos na mata mais compacta e de difícil acesso.      Segui seus passos para não perdê-lo de vista.      Após cruzarmos o riacho e transpormos uma clareira de árvores de copa larga, o Candango apontou para o que afirmava ser o cipó-jibóia.      Não levei a informação a sério. Pareceu-me que o candango cometia um equívoco. Confundia uma simples árvore com um cipó. O fato de ela ter crescido, volteando uma outra, não era motivo suficiente julga-la um cipó. E muito menos; uma cobra.      Contrafeito, aproximei-me e comecei a examinar o vegetal.      A casca escura, com leve tonalidade avermelhada, trazia uma leve lembrança da cobra. A maneira com a qual enlaçou o caule da árvore frondosa, então nem se fala. Contudo, somente uma mente fértil, como a do candango poderia imaginar que aquela árvore retorcida fosse um cipó.      — Senhor Tenório, o amigo tem certeza de que é um cipó? – indaguei, temeroso de causar antipatia.      — Claro que é, seu dotô! Dá só uma olhada naquele outro! – apontou para um cipó de menor calibre, entretanto, de bom diâmetro. – E aquele outro, seu dotô... Não é inacreditável?      Ante aquela visão, não tive como não ficar boquiaberto. Procurei refazer meus conceitos e preconceitos para com a região do cerrado. No entanto, meu desconhecimento do ecossistema do local não me levou a ter uma atitude mais crédula. E, no transcurso daquela caminhada, por várias vezes, imaginei estar pisando em solo amazônico. Tamanha era a exuberância da vegetação.      Em certo momento, o candango teve a petulância de dizer que aquele era um pedaço da selva amazônica, que ficara desgarrado quando a floresta retrocedeu em decorrência de um acontecimento climático de grandes proporções. Mas não soube precisar com base em quê fazia tal afirmação.      Alheio às minhas indagações, começou a recolher folhas e passou a analisá-las meticulosamente. O líquido que escorria do talo era colhido como se fosse um elixir de valor incalculável.      Desejoso de encontrar algo que me chamasse à atenção, saí andando a ermo, como se estivesse passeando no jardim da praça. Abandonei a clareira e fui bisbilhotar do outro lado. Por entre a vegetação mais compacta.      Não obtive sucesso. Fiquei às tontas. Quando dei por mim, estava andando em círculos. Dei vários volteios, sem encontrar o rumo certo. Já estava convencido de que deveria gritar por socorro, quando o candango me encontrou.      Com aquele seu jeito todo especial de falar, pediu-me para ter cuidado. Não era seguro embriagar-me com a magia da floresta.      — Vamos por ali, seu dotô... Vou mostrar uma descoberta formosa pra vosmicê. Tenho certeza que o dotô não vai ter de que reclamar!      Disposto a desfazer minha incredulidade, guiou-me até um cipó que tinha uma curvatura semelhante à de uma rede de balanço. A espessura era considerável; poderia acolher um homem adulto na sua curvatura. Mas não era tudo. O cipó estava incrustado de bromeliáceas de espécie e rara beleza.      Não precisei de esclarecimentos, conhecia aquela planta de folhas rosuladas. Após concluir o registro fotográfico, seguimos nossa excursão pela mata. Tomamos o que ele chamava de trilha úmida.      O candango me afirmara que aquela era a nossa melhor opção para atingir a nascente. Aprovei que assim fosse. A cada passo, a paisagem ganhava novas formas e cores. A cada passo, a mata ficava ainda mais compacta, e as árvores muito mais frondosas. E a trilha, mais estreita. Galgamos algumas elevações e passamos a caminhar sobre terreno rochoso. Naquele trecho, o riacho ficou exuberante, e suas corredeiras mais pronunciadas.      Tudo nos era motivo de júbilo, então.      Eu corria para tocar as árvores, as pedras e colher um pouco de água. O candango, por sua vez, preferia procurar algum indício que denunciasse a presença do peixe.      Ele estava certo que o encontraria.      Após transpormos uma longa e cansativa distância, que não pode ser calculada por sua extensão métrica, penetramos numa chácara encravada no meio da floresta. O invasor, com muita esperteza, abriu a clareira de modo a evitar sua localização.      Lembrei que o Candango Carioca me informara que houve um tempo em que a fiscalização dos órgãos responsáveis era severa. Mas no dias de hoje, nem tanto.      Rompemos o cercado e continuamos a jornada. Contornamos a plantações de hortaliças e tomamos o rumo da trilha menos acidentada. E finalmente, após rompermos um braço da mata nativa, aportamos nas terras da Granja do Riacho Fundo.      — Dotô! – gritou. — Aquela estrada vai dar na granja! A cidade que está destruindo a nascente fica ali, pras bandas de lá; à nossa direita. – apontou a direção.      Meus olhos seguiram a direção que ele indicara.      A cena que presenciei deixou-me indignado.      Encontrávamo-nos num ponto pouco propício para observação, contudo, pude verificar que a cidade já havia tomado grandes proporções. Calculei que sua proximidade exigia a imediata adoção de um projeto de preservação ambiental. O terreno em declive acentuado favorecia a ocorrência de poluição proporcionada pelo rescaldo das águas pluviais. As erosões já estavam em curso na margem oposta.      O futuro me pareceu pessimista.      — Já estamos chegando na nascente, seu dotô! É só contornar este alagadiço e vamos chegar lá! Ora se vamos!      — Mas, já!, amigo Tenório... – respirei profundamente. – Pensei que estávamos no meio da caminhada... – procurei transparecer que não estava cansado.      — Estou vendo, seu dotô. Só espero que o amigo não tropece na própria língua.      Seguimos na mesma toada. Quando finalmente chegamos à nascente tratei de sentar no primeiro lugar apropriado que encontrei. Não tive ânimo nem ao menos para saciar a sede. E estava sedento. Naquele momento, minhas forças só eram suficientes para olhar o céu e respirar. Estava exausto e a musculatura da perna aos frangalhos.      O candango, muito pelo contrário, era todo energia. Parecia que havia retornado à infância há muito perdida. Sorridente, correu e foi tomar banho no riacho. Aliviou a sede e foi secar-se sob os raios de sol que penetravam pela vegetação.      Com o passar do tempo, cansei de ser espectador. Tomei coragem e segui o exemplo do meu amigo. Mergulhei um dedo na água e constatei que sua temperatura era suportável. Subi numa pedra e deixei o corpo cair e afundar, tocando a folhas do fundo do remanso. Entreguei-me ao sabor daquele prazer.      — Que achou, seu dotô? Acha que o riozinho ainda tem salvação?      — Claro que tem, senhor Tenório... Basta que os governantes cumpram sua parte. Leis existem!      — O dotô têm razão... Quando essa área era de segurança nacional não havia essa bandalheira!      — Àrea de segurança nacional? Isso jamais me passou pela cabeça!      — Pois era, seu dotô. Quando o presidente morava aqui, era. Tinha até uma placa informando! – concluiu, satisfeito.      Enquanto recuperava minhas energias nas águas do riacho, o candango pôs-se a andar de um lado para o outro. Ficou indiferente às minhas perguntas e curiosidades. Percebi que era hora da partida. Uma nova e cansativa jornada nos aguardava. Apressei-me em fazer meu registro fotográfico do buritizal nativo. Já não eram tantos como no passado; mas ainda podia se ver algumas árvores adultas florescendo. CINCO        O candango convidou-me para reiniciar nosso passeio. Indicou a trilha.      O caminho escolhido margeava a mata ciliar. A ausência da vegetação compacta nos possibilitava um deslocamento constante e acelerado.      Foi uma sábia escolha.      Deixei-me ficar maravilhado com o novo cenário. A trilha escolhida me propiciava entrar em contato direto com a vegetação do cerrado. O solo árido, salpicado de montículos de terra que se formam com o surgimento de cupinzeiro, proporcionara-me um novo aprendizado: comparando as cores e matiz do cupinzeiro, era possível avaliar seu tempo de formação.      O candango Tenório me ensinava essas coisas, mas não media o peso de seus ensinamentos. A cada aprendizado eu ficava maravilhado. Maravilhado como um colegial que acabou de ter a primeira experiência sexual. Já não podia controlar o jorro do êxtase.      Quando, em nossa viagem de retorno, cruzamos a estrada que dá acesso à sede da fazenda; o sol já estava se pondo no horizonte. O Candango acelerou a marcha buscando afastar o inconveniente de transpormos o cinturão do setor de chácaras com a ausência da luz do dia. Propositadamente, forçou nosso trajeto a tomar outra direção. Um pouco mais distante da vegetação ribeirinha.      Calculei que a rota nos levaria à zona de grandes elevações. Recordei-me do paredão. O penhasco daquela margem era íngreme e de difícil escalada.      “Se este for o seu itinerário, ele deve ter ficado louco!, pensei. Nós não temos condição física para escalar aquele paredão. Será que ele está perdido com tanto sobe e desce, ou será que perdeu o bom senso?, quis saber, com certa dose de preocupação”.      Após alguns momentos de hesitação, tomei coragem e indaguei:      — Senhor Tenório... O senhor não está pensando em escalar o paredão... Está?      O candango interrompeu a marcha. Fitou-me da cabeça aos pés, deu um leve tapa no meu ombro, e sorriu.      Fiquei encabulado. Pensei que houvesse feito uma indagação imprópria.      — Coragem, seu dotô! O bicho não é tão grande como parece. A não ser que o amigo não aprecie uma boa aventura?!      — Mas, seu Tenório... Quando passamos pela estrada, pelo sopé do paredão... Pareceu-me que aquilo já não era um morro, era uma serra de tão alta! – busquei defender meu ponto de vista.      — Que nada, seu dotô! Aqui não tem serra coisa nenhuma. O que tem, é um morrinho aqui e outro acolá...      — Morrinho? Se eu fosse um bode montanhas, ainda vá lá!      — Pode ficar tranqüilo, o dotô não vai nem suar o cangote.      Sorridente, retomou a caminhada. Seu semblante sereno me levou a reconhecer que meu temor era descabido.      Tranqüilizado, voltei a me preocupar somente com a vegetação e o relevo da região. A vegetação, estorricada pelo sol escaldante, feria minhas pernas. Principalmente, quando havia uma moita de capim arranha-gato no nosso caminho. O terreno irregular me exigia um esforço ainda maior para manter a marcha.      Já não havia trilhas por onde andar.      O candango olhou para o céu, traçou aleatoriamente uma direção e se embrenhou por entre a vegetação, cortando por sobre o solo acidentado. Transpunha grotas e grotões, como se terreno fosse plano. Não havia nada que fizesse retroceder ou alterar a direção.      Contrariando minhas expectativas, após rompermos uma elevação mais aguda, a paisagem ganhou novos contornos. O cerrado começou a apresentar uma vegetação de porte mediano. Avistei um pequizeiro. Ele se achava no inicio da floração. Um pouco mais à frente, contornamos um pé de lobeira e cruzamos por entre a fileira de canela-de-ema. E, como presente da natureza, descobrimos um pomar nativo de caju do mato. Maduros e apetitosos.      Sob a sombra do pequizeiro dividimos o produto da colheita. Os frutos eram pequenos, mas de cheiro e sabor inigualável. As castanhas possuíam duas medidas da parte da polpa. Sem avaliar as conseqüências do meu ato, atirei um caroço na direção oposta à da nossa chegada.      Ocorreu uma revoada de pássaros.      Uma rolinha alçou vôo e depois mergulhou no capim. A Coruja pousou na árvore e ficou me olhando com seus olhos de cor amarelo-pardo. Mas não corrugou. Ao nosso derredor, pardais, papa-capim, tiziu e colerinhos começaram a cantar e pular de galho em galho.      “É espantoso como esta região é possuidora de flora e fauna tão exuberantes e diversificadas!, pensei, enquanto saboreava o último fruto do cajueiro.”      Após a pequena refeição e um breve descanso, reiniciamos a jornada. Ora subindo, ora descendo; ora contornando as grotas, valas e depressões mais profundas. Quando alcançávamos o topo de uma elevação mais alta, já não descortinávamos nenhum ponto de referência externo ao local em que nos encontrávamos. Não havia nenhum sinal que denunciasse a presença da chamada civilização. Tudo nos era silêncio. Um silêncio que se estendia muito além da nossa visão.      Cheguei a cogitar que em algum ponto do nosso caminho havíamos transposto a porta que dá acesso à outra dimensão, tamanho era o isolamento em que nos encontrávamos.      O senhor Tenório, em silêncio monástico, seguia na frente com suas passadas largas e firmes, deixando um rastro de capim amassado. A dez ou doze passos, eu mantinha o mesmo compasso da caminhada e seguia-o, sem a menor dificuldade.      A incidência solar queimava a pele das costas. O suor corria no rosto trazendo o gosto de sal à boca. O solo estava tomado por seixos cristalinos que quando reluziam ofuscavam nossa visão. Recolhi alguns, e constatei que eram pedaços de rocha semicristalizadas com cores do branco leitoso ao encarnado.      A jornada era árdua; a marcha forçada. A irregularidade do terreno já não me proporcionava cansaço. Pelo contrário, sentia-me possuidor de uma descomunal energia física e capaz de despender o esforço necessário para transpor as elevações; mesmo as mais íngremes.      Com o passar do tempo, a paisagem tornou-se monótona para meus olhos. Perdi a noção da tonalidade da cores. A cada passada, fui ficando insensível aos acontecimentos que estavam se sucedendo.      Ao transpor uma vegetação de folhas largas e grossas, a máquina fotográfica, que portava a tiracolo, ficou presa nos arbustos. O incidente me alertou para o fato de que, desde que nos enveredamos por aquele caminho, não havia tirado nenhuma fotografia. Fiquei possesso. Recriminei-me por aquela falha irreparável. Já não havia como recuperar o tempo perdido.      Alheio aos meus queixumes, o terreno árido cedeu lugar a uma imensa pradaria de gramíneas verdejantes. Permiti aos meus olhos o direito de ficarem hipnotizados por aquela beleza luxuriante. O vento sul soprou forte trazendo uma brisa úmida. Os pendões do capim barba-de-bode ganharam movimento. Ao sabor do vento, eles balançavam, rodavam e desenhavam ondas de remanso no espelho do lago de água esverdeada.      O candango penetrou naquele leito lacustre e saiu correndo, sem me dirigir uma palavra. Quando atingiu a margem oposta, gritou, exigindo que fizesse o mesmo. Fiquei estático sem saber o que fazer.      Após hesitar, atrevi-me a segui-lo. Meus pés afundaram na vegetação fresca e fofa. Os pendões floridos da vegetação envolveram minhas pernas até à altura do joelho. Experimentei um prazer delirante. Senti o corpo ficar envolto por uma energia excitante. Corri, com alegria incontrolável. Vivi a emoção de ser um potro selvagem em pleno gozo de um trote indomável.      O estado letárgico só se desfez quando já havia transposto três quartos da pradaria. Então, reduzi a cavalgada, e parei. Percebi-me feliz, o corpo emitindo pequenas descargas elétricas, como se fosse um acumulador de carga em exaustão.      “Então, foram essas as sensações que o meu amigo sentira... Por esse motivo, ele correra em completo dês vario... Embebedado pelo perfume das flores e pelo cheiro de capim molhado...”.      Refeito da minha embriaguez, olhei para todas as direções e não vi o vulto do candango. Só observei a imensidão do verde reluzente, que se fundia com o céu azul, salpicado de nuvens brancas.      Voltei a correr na direção que ele havia tomado. Imaginei que estaria sentado à sombra de uma árvore a me esperar. E quem sabe, aguardando-me com seu sorriso largo.      Fiz a escolha acertada. Quando a pradaria findou e o solo voltou a ficar árido e irregular, ocorria a formação de uma cadeia rochosa que possuía uma beleza peculiar. Blocos de pedras escarpadas formam um corredor margeando a encosta da serra.      Fiquei preocupado com o súbito desaparecimento do candango. Já não havia outra direção a seguir, a não ser, em direção à borda da serra. Foi então que presenciei uma cena assustadora que me causou calafrios. Encontrei meu guia com os braços estendidos em forma de crucifixo, caminhando sobre a plataforma pontiaguda, na borda do precipício. Como um equilibrista estava preste a cair na imensidão do abismo.      “O candango ficou louco! Só um desmiolado se atreveria a andar pela borda de uma encosta tão alta. Se ocorrer uma lufada mais forte, ele não vai ter como se equilibrar... Mas como chegamos aqui? Como fizemos esta escalada sem que eu me apercebesse?”, questionei-me, incrédulo. Sem me dar conta do que realmente havia ocorrido.      O precipício que se abrira aos nossos pés me é inenarrável. Dali, descortinar o vale que forma a bacia do Riacho Fundo: o setor de chácaras, a mata ciliar e zona do envoltório. Mirando para o leste, rente à linha do horizonte, era-me possível ver, ao longe, a silhueta da torre de televisão que se encontrava no centro da cidade. E tudo isso, sem necessitar de fazer esforço visual.      A grandiosidade daquela inesperada paisagem acentuou-me a sensação de viver a embriaguez da razão.      — E aí, seu dotô! O que é que vosmicê está achando da sua serra? Se não me esqueço, vosmicê disse que era muito alta pra se subir!      Não respondi de imediato. Inspirei e expirei, para conter a volúpia da inesperada emoção. Pus-me a desfrutar o prazer de sentir o vento soprando revolto, e de sorver a sensação de me encontrar no topo do mundo. Fechei os olhos e me deixei levar pelo desejo de pensar que estava sonhando. E por um momento, pensei que sim.      — Obrigado, seu Tenório... nunca vou me esquecer deste dia. – concluí, por fim.      — E nem eu, seu dotô! – disse-me, com alegria.      — Foi o melhor presente que eu poderia ter recebido...      — O dotô está certo... Eu também estou abobado com tudo isso. E olha que eu já campeei por todo este cerrado!      — Pelo que vejo, a natureza resiste... O cerrado ainda não foi afetado pelas mazelas da civilização.      — É verdade... Mas será que o homem precisa acabar com este pedaço de paraíso? – perguntou-me, como se fizesse um apelo para que eu dissesse que não.      — Eu acho que não, amigo... Um projeto de preservação ambiental seria muito bem vindo.      — Então... vosmicê têm de fazer alguma coisa!      — Como?      — Ora como... O dotô não é metido a político? Faça alguma coisa, ora!      — Mas o que posso fazer? Quem me dará ouvidos, seu Tenório?      — E eu é que vou saber!      Temendo o futuro, voltamos a comungar o mesmo silêncio. Cada qual, remoendo seus próprios pensamentos. Aquele era um momento místico que alimentava o espírito, e purificava a mente dos pensamentos pequenos e torpes.      — Vamos pegar o caminho de casa, seu dotô!      — Vamos, seu Tenório... – concordei, contrafeito.      — O dotô é quem sabe... por mim, espero a noite!      — Creio que já foi o suficiente, por hoje... Nossos amigos devem estar preocupados com a nossa demora.      — Que nada, seu dotô! Enquanto tiver cachaça... aquela tropa não arreda o pé!      — Assim espero; será muito bom reencontrá-los.      — Então... vamos descer pelo paredão. É o caminho mais curto.      Não concordei com a proposta do candango. O caminho sugerido era íngreme e fadado a acidentes graves. Relutante, escutou atentamente minhas justificativas e concordou com minhas ponderações. Entendeu que seria uma aventura muito arriscada.      Contornamos a borda do desfiladeiro e descemos por uma trilha que nos levou ao ponto que almejávamos. Não tardou muito, e já estávamos tomando nossos assentos no Jipe.      Sem muitas delongas, tomamos a estrada em velocidade considerável. A poeira que cobriu o vale, não nos permitia lançar um último olhar de despedida. Aquele momento não nos exigia despedidas.      Para afastar pensamentos melancólicos, refiz mentalmente nossa viagem. Não obtive o resultado almejado. Recorri ao caderno de anotações e registrei em letras trêmulas:      “a) o Riacho Fundo nasce ao pé de um terreno alagadiço e de caimento pouco pronunciado. Apesar da ação predatória do homem, sua principal nascente encontra-se preservada. A água é cristalina;      b) o paredão rochoso, que predomina na margem esquerda e toma rumo norte, é, verdadeiramente, uma precipitação abrupta do solo. Sua grandiosidade pode ser vislumbrada por quem se aventura a conhecer a região menos acessível;      c) a zona úmida, ou alagadiça, é fértil. Está coberta por uma fina camada de húmus. A vegetação da mata ciliar é densa e quase intocada;      d) a zona seca, também chamada de envoltório, pertence à outra formação geológica. Seu solo não é fértil, e possui alta porosidade. E por mais incrível que possa parecer, a vegetação do cerrado germina com um viço novo, a cada queimada. Muito mais do que o clima, é o solo que proporciona à região construir esse ecossistema inconfundível e de frágil equilíbrio”. * * *      Após ler este trecho de suas anotações, o ermitão me entregou o rascunho e me disse:      — Espero que esteja acompanhando meu raciocínio, meu jovem Jacques Marie. Pôs, naquele dia, fiquei tão insatisfeito com o teor destas anotações que comecei a imaginar o que poderia fazer para salvar o que restara daquele ecossistema. A primeira idéia que me surgiu à mente, foi pleitear uma ampla revisão da Lei de Proteção Ambiental. Ela não produz os resultados palpáveis. Por segundo, pensei em pedir ajuda internacional. Os Organismos Internacionais são extremamente sensíveis ao problema. Mesmo porque, a proteção dos parques ecológicos é responsabilidade de toda a humanidade.      — O descaso para com o tema ambiental pode ser desanimador, senhor Oinotna, mas suas conseqüências são reversíveis! Interpus-me ao ermitão, ante que pudesse tecer suas críticas.      — Reversível?! – gritou, indignado com minha simplória conclusão. — Você é desses sonhadores que acredita que o homem poderá reconstruir o que já fora destruído?      Ante aquele lampejo de indignação e raiva, fiquei emudecido. Meu interlocutor, por sua vez, descontente da eternidade do meu silêncio, afastou-se de mim. Ausentou-se como de costume. Foi colher na fogueira um pouco de harmonia e paz.      Fiquei no meu canto, observando sua silhueta ganhar textura de um halo fosforescente. A brisa úmida acentuou a evaporação corpórea. A luz da fogueira imantou as partículas de vapor e produziu uma névoa rubra ao seu redor. Uma névoa incandescente e etérea.      Observando seu frágil e sutil vulto romper a neblina e ganhar proporção agigantada e medonha, recordei-me da palestra que mantive com o Capitão Junqueira, ante de minha partida naquela aventura. Com a firmeza de quem conhecia com profundidade aquele ser, garantiu-me que o ermitão não professava nenhuma religião. Toda sua fé se resumia na comunhão de práticas espiritualistas pouco convencionais. Ele fazia parte daquele mundo de pessoas que vivenciavam com indiscutível intensidade a grandiosa plenitude da pequenez universal. Por isso mesmo, a exemplo dos antigos alquimistas, devotava profundo respeito aos elementos sutis e aos seres conhecidos como inanimados.      O estalido da madeira em combustão atraiu meus sentidos, afastando-me da minha divagação. Uma vez mais, notei que a fogueira ganhou grossas labaredas. Desta feita, um inconfundível aroma sedo só de pequi maduro ficou pairando no ar. Na boca, minha saliva denunciou o gosto da polpa oleosa. Fiquei andando em volta do saco de dormir, como se fosse um animal no cio.      — Quer mesmo que lhe conte a fábula, Miseur Jacquê? – indagou-me ele, em tom jocoso, lá da fogueira.      — Tenho... claro que tenho!      — O que sabe a respeito?      — Muito pouco, apenas que é muito politizada.      — O tema lhe suscita interesse?      — Sim... Tudo me leva a crer que sua abordagem possa ser hilariante.      — Piegas? – fez-se de irônico.      — Muito pelo contrário! Imagino que possa ser inusitada e instrutiva.      — Inusitada; estou certo que sim... Instrutiva; nem tanto.      O ermitão ficou um bom tempo, remexendo no seu bornal. Serviu-me uma nova caneca de chá de ervas de cheiro e sabor volátil. E, como de outras vezes, retomou a dissertação como se desse prosseguimento a uma narrativa a pouco interrompida. * * *      A fábula que o ermitão me contava era muito mais inusitada do que pré vira, quando dela tomei conhecimento. Imagino que o narrador dela fazia uso para tecer suas próprias convicções e remoçar velhos conceitos da sua experiência política. Admito que muito mais que a boa oratória, era sua capacidade para criar cenas e diálogos que tornava aquela imaginosa fábula saudável.      — Senhor Oinotna!, o amigo não mais possui família?      — Penso que sim... Afinal, para mim, família é tudo que me rodeia... Inclusive, você.      Sua imediata e fria, deu-me a certeza de que aquele tema não era o mais indicado naquele momento. Mudei de assunto:      — E moradia... Imagino que o amigo possua uma cabana para passar as noites chuvosas e frias?      — Ora!, há muito que me nego viver trancafiado entre quatro paredes, meu rapaz. Contudo, ainda mantenho uma velha choupana, na beira do riacho.      — Fica longe?      — Não muito... Mas, nos últimos anos, não costumo passar meus dias por lá.      — Posso saber o motivo?      Após uma longa pausa, respondeu; um tanto relutante:      — O excesso de umidade causa-me prejuízos à saúde...      Uma vez mais, dei-me conta de que o ermitão não me permitiria enveredar nos temas íntimos. Não, ele não estava disposto a ser um confidente que, revirando o baú do passado, deflora o relicário de sentimentos e emoções mais profundas. Outro dia, quem sabe se em outra oportunidade, contando com a companhia do Capitão Junqueira, ele não me fosse mais revelador.      Desejando não ser molestado por outras indagações inoportunas, meu anfitrião afastou-se de mim, sem nada dizer. Foi ter com a fogueira que perdeu o ardor das chamas, e soltava grossas colunas de fumaça.      Aquela reação já me era esperada. Era do seu costume alimentar a fogueira, toda vez que a lenha se consumia. Ele alimentava as chamas daquela alquimia como se o fogo lhe fosse a chama da própria vida.      O céu anunciou mudanças na geografia do firmamento.      Alheias às inquietudes dos insignificantes habitantes terrenos as esferas celestes ganharam movimento. As estrelas noturnas transpassavam o cálido véu das nuvens, desenhando uma trajetória fixa que as mantinha no mesmo lugar.      Logo, a brisa matutina começou a soprar, anunciando que um novo dia já estava a caminho. A massa de ar era fria e úmida. Impiedosamente fria e úmida, retorcendo as folhas da vegetação e fazendo o capim ganhar movimento de ondas revoltas.      No quadrante sul da clareira, açoitada pelo vento, a fogueira começou a expelir fagulhas incandescentes no ar. Fiquei espreitando se quando da sua queda as pequenas partículas em combustão atingiam a vegetação.      Para minha satisfação, verifiquei que elas perdiam o viço do fogo, quando entravam na trajetória descendente.      — Senhor Oinotna!, Que tochas de fogo são aquelas no meio da folhagem? – indaguei, com voz miúda.      — Tochas... Que tochas?      — Duas pequenas tochas, como se fossem pequenas lanternas?      — Pequenas... Como se fossem um par de olhos iluminados.      — Sim, parece-me um par de olhos de animal selvagem...      O velho ermitão nem ao menos se deu ao trabalho de voltear e olhar na direção que lhe indicara. Não se deu ao trabalho de identificar quem seria a estranha criatura noturna. Sorriu.      — É o Ministro...      — Ministro? – indaguei, insatisfeito com a resposta e sua visível tranqüilidade.      — Não tema meu rapaz, o Ministro é selvagem, no entanto... amigo.      — Ministro? Amigo? Ter um animal selvagem como amigo já me seria uma atitude pouco confiável. Agora, se me diz que tem esse nome...      — O Ministro é o último espécime do lobo Guará que ainda habita esta região...      — E por que Ministro?      O ermitão sorriu uma vez mais. Sim. Pela primeira vez naquela noite tive certeza de que aquele homem sorria.      — Ora!, é apenas uma singela homenagem a um velho companheiro.      — Não me diga que, além de residência oficial do Presidente, a região também já abrigou um Ministro?      — Sim e não. No entanto, não quero falar nesse assunto... Não me traz boas lembranças.      Não posso dizer que o ermitão reprovou minha indagação, mas posso afirmar, que o Ministro não se agradou da minha companhia. Pois, eriçou as orelhas, emitiu um uivo medonho, e escondeu-se no meio da vegetação.      Fiquei a escutar suas passadas volteando a clareira e tomando rumo ignorado. Imagino que o lobo entendeu que sua presença me era assustadora, e decidiu procurar a companhia de outro amigo. Não mais o vi, então.      — Aceita outra caneca de chá? – indagou-me o ermitão.      — Aceito, mas gostaria de saber da receita.      — Receita... – grunhiu ele, atônito, com meu pedido.      — Sim, gostaria de saber com quais ervas prepara o chá?      — Ora, meu amigo. Para se fazer um bom chá só é preciso tempo, fogo e amigos...      Não levei a sério sua resposta. Com toda certeza não estava disposto a receitar que ingredientes manipulavam para preparar o chá afrodisíaco. Aquele chá de ervas aromáticas que nos proporcionava alegria e vigor físico.      — Por falar em amigos, voltemos aos candangos. – anunciou, por fim. SEIS        Quando o Jipe estacionou na feira do Núcleo Bandeirante, o candango Tenório insistiu na buzina, várias vezes. Atraiu a atenção dos presentes.      O barulho fez meus pensamentos se esvaírem. A última lembrança que guardei, foi a cena do lobo procurando descobrir quem teria provocado o barulho de galho quebrado.      Lá de dentro do botequim, escutei um grito de viva.      —Viva!!!      — Caramba!, tchê. – saldou o gaúcho, com alegria.      — Foi a melhor caçada que já fiz, gaúcho! Só faltou vosmicê pra preparar as presas.      — Se não soubesse que és o melhor mateiro dessa região, eu teria ido atrás! – brincou o outro.      — Pode sapecar uma dose dupla da branquinha que estou com a goela seca! E pode pôr uma caprichada pro dotô; ele também está com barro no gogó! – falando assim, sorriu.      Lá dentro do botequim, os candangos cantavam uma canção antiga.      Pareceu-me que o vocal estava afinado somente na harmonia alcoólica. Pois, tonalidade e compasso, não eram a tônica daquele coral de boêmios. As notas graves e agudas eram entoadas em completa oposição ao ritmo melódico da canção. Eles cantavam: Como pode um peixe vivo... viver fora d’água fria Como poderei viver, como poderei viver Como pode um peixe vivo... viver fora d’água fria Como poderei viver, como poderei viver Como pode um peixe vivo viver fora d’água fria      Quando entramos no salão, fomos recebidos por uma salva de palmas e uma nova canção... Ô Tenório é um bom companheiro Ô Tenório é um bom companheiro Ô Tenório é um bom companheiroooo Mas cachaça não pode faltar.      — Desce outra rodada, gaúcho! Essa é por minha conta! – gritou o Tenório.      — Então desce duas, porque o que é bom já nasce em penca! – dobrei a oferta, como prova de agradecimento e cumplicidade.      Todos aplaudiram e recomeçaram as cantorias: Ô dotô é um bom companheiro Ô dotô é um bom companheiro Ô dotô é um bom companheiroooo, Mas cachaça não pode faltar.      Satisfeito com a alegria que tomou conta do ambiente, o gaúcho mandou preparar mais petiscos. Em seguida, distribuiu copos limpos, ainda molhados com água da pia.      Quando nos serviu a bebida, pensei em fazer um brinde àqueles alegres candangos. Entretanto, alguém foi mais rápido do que eu e propôs um brinde àquela velha amizade que os unia.      A partir de então, ocorreram vários brindes. Sempre festejados com palmas e batidas de copo na mesa. A leve lembrança de um amigo ausente era um bom pretexto para uma nova comemoração. A comemoração era ainda mais festiva se o homenageado já não estivesse presente, ou, se partiu dessa para uma melhor.      Somente quando me foi possível, agradeci a acolhida que me proporcionaram. Fiz um brinde especial ao candango Tenório, pela impagável presteza.      Encabulado, disse-me que não era necessário. Que fizera aquela ação em causa própria. Confessou que por diversas vezes pensara em proceder àquela viagem, mas não encontrava a motivação necessária. Minha presença fora-lhe um bom pretexto.      — Deus escreve certo por linhas tortas, dotô! – disse-me, então.      quelas horas, a noite já caíra por sobre a cidade. As luzes do botequim foram acesas. Um feixe de luz tingiu a fumaça que cobria a cabeça dos candangos com um brilho enigmático. Lá fora, um coro de cigarras iniciou uma cantoria que preencheu o recinto com uma música ensurdecedora.      Senti uma brisa fria correr pelo salão. Empreguinou o ambiente de perfume suave e banhou nossos corpos com uma energia sublime.      — Espero que vosmicê tenha gostado do passeio, seu moço! Saber pelos outros é uma coisa; agora, vê com o próprio olho... é outra! – disse-me o mineirinho, enquanto saboreava um prato de sarapatel.      — O senhor tem razão... Eu nunca imaginei que existisse um lugar como aquele. Estou convencido de que o cerrado é um paraíso que precisa ser preservado!      — O dotô ficou enfeitiçado foi com as árvores! – interveio o Tenório. – Nunca vi ninguém tão assanhado de contente com ele. Pulava, gritava, tirava fotos; parecia um macaco de circo!      — Macaco, eu? – retruquei.      Percebendo minha reação, o Tenório deu-me um forte abraço, como prova de sua amizade. E todos sorriam.      Não aprovei o exemplo com o qual descreveu minha sobressaltada emoção ao conhecer as árvores nativas. Mas não a reprovei. Ela era, na sua forma simples de expressar-se, a mais ilustrativa e correta. Não pude deixar de sorrir de minha própria pantomima.      Quando os sorrisos amainaram, busquei dar um novo rumo à prosa. Quis falar da poluição do riacho e da extinção da mata ciliar. Ninguém me deu ouvidos. O tema era por demais espinhento e de difícil argumentação. Preferiram falar dos velhos tempos e das proezas da juventude.      — Carioca!, Vosmicê ainda se lembra daquelas peladas no campo do barro preto?      — Podes crer, Tenório! Até hoje sinto saudade daqueles tempos... E por falar nisso, é verdade que acabaram com o campo do velho Adelino?      — É verdade verdadeira, acabaram mermo. Eu nem acreditei no que vi! Tão erguendo uma baita mansão lá!      — Onde a gurizada vai jogar bola? – perguntou o outro, de sobressalto.      — Oxente, sei lá! Mas pouco importa... Os guris de hoje já não são os mermos; já não brincam com bola de meia. Agora, eles têm a tal da televisão!      — É, você está com toda razão... os tempos estão mudados. No natal dei uma bola de presente pro meu neto; e ele nem sequer tocou nela... Queria a espada do tal He Man! – concluiu, com uma ponta de tristeza e saudade dos velhos tempos.      — Uai, sô! – gritou o mineirinho, com a língua empolada pelo excesso de bebida. – Comigo isso se deu... Também se deu comigo!      — Vê se desempaca, mineirinho! – pilheriou o gaúcho.      — A gurizada está de miolo mole com a televisão, seu moço! Quando não é filme do estrangeiro... É novela das cinco, novela das seis, novela das sete e até no vela das oito!      — Tem até novela mexicana! – interveio o carioca. – Assim, não tem cultura que agüente! – sentenciou.      — A televisão é um mal necessário, tchê. Ela nos trouxe a cultura!      — Cultura... Que cultura? – bradou o Carioca.      — Não se faça de besta, tchê! – gritou o dono do botequim.      — Escute bem, gaúcho: a única cultura que se vê na televisão é filme americano.      — Mas, tem mal que vem pro bem, tchê! O país hoje é outro... Sem contar o desenvolvimento do Planalto Central!      — Quem plantou o progresso foi o “J.K.”! – interveio o candango Mineirinho.      — Respeito e admiro o governo do nosso “JK”. Mas, infelizmente, ele não foi suficientemente esperto para dobrar o americano...      — Larga de ranço, Carioca. O americano fomentou o progresso! – gritou o gaúcho.      — Sei não... O que sei, é que o sacana está se apossando da selva amazônica. Esse negócio de “SIVAM”, não está cheirando bem! – advertiu, com dedo em riste.      — Não sejas rancoroso, tchê... Estás parecendo um bezerro desmamado!      — Desmamado! – gritou, histérico. – Eu não sou alienado como muitos por aqui... Não suporto essa cultura servil; essa democracia de faz de conta!      De um momento para o outro, o debate ficou caloroso. Os dois amigos ficaram com os ânimos exaltados. A velha amizade foi esquecida e cedeu lugar para um bate boca sem sentido.      O candango Tenório previu que algo de grave estava preste a ocorrer. Interveio e deu um fim à polêmica.      — Oxente, vamos parar com esse convercê! O dotô não veio para saber de politicagem; ele quer saber se o peixe está vivo... Estou certo, seu dotô?      — Concordo plenamente, seu Tenório. Mas, não me custa saber a opinião política dos amigos. Afinal, vocês vivem no centro das decisões nacionais!      — Esse convercê não tem serventia, seu dotô. Todo mundo sabe que todo político é farinha do mermo saco... Quando quer voto, vem aqui e nos dá umas tapinhas nas costas, aperta mão, beija os guris e prometem mundos e fundos. Depois de eleitos... viram a cara e nunca mais aparecem.      Como o candango Tenório não revelou quem de fato eu era, deixei que as coisas ficassem como estavam. Ele já havia colocado um ponto final naquela questão. De pouco ou nada adiantava dizer que fazia parte daquela farinhada, mas, não comungava dos mesmos ideais.      — O amigo está com razão... Existem outros temas a ser tratado.      — O melhor a se fazer, seu dotô... É continuar a nossa prosa sem falar em política!      — Se é assim... – interveio o carioca. – Ô gaúcho, desce mais uma loura suada! – e todos voltamos a sorrir.      A ausência de temas sociais e políticos fez a conversação ficar amena. O candango Tenório começou a falar sobre coisas do passado. A relembrar causos e acontecimentos que ocorreram na sua vida. Com indisfarçável alegria, descrevia as cenas com tanta riqueza de detalhes que me levava a crer que eram verdadeiras.      — Foi como se fosse uma visagem, seu dotô... De repente, me vi carregado de um lado para outro sem fazer esforço. Num piscar de olho, o dia amarelou e virou noite. Uma lua que parecia um queijo de tão grande pulou na minha frente e ficou clareando o caminho... Doutra vez, andando com o compadre Biu, fui conhecer uma coisa maluca que ele descobrira. Era uns desenhos que tinha nas pedras, bem no topo do morro. Ele disse que precisava copiar os desenhos e os números. Aquela descoberta poderia levá-lo a desvendar segredos de ensinamentos antigos. Vi os rabiscos, seu dotô. O paredão de pedra já estava desbarrancando. Todo aquele amontoado de pedras e número não tinha serventia nenhuma. Só podia ser brincadeira de criança...      O candango divagava de uma história a outra, de um caso a outro, com tamanha mestria da oratória e domínio da emoção, que minha cabeça parecia voltear e girar como parafuso.      Não conseguia encontrar uma lógica naqueles relatos. Por mais que me esforçasse.      A narrativa só ficava exaltada quando discorria sobre a improvável existência do peixe e do lobo, naquela região. Nessas oportunidades, o Carioca intervinha na sua explanação. E como sempre, sua participação contemplava temas e discursos políticos. Como se a história pudesse ser mensageira de suas convicções.      Em certo momento, pensei escutar outras vozes, além daquelas dos que estavam presentes. Elas me sussurravam que não mais precisava dar ouvido àquelas pessoas. Que tudo estava correndo conforme fora previsto. Aqueles sussurros ganharam minha atenção. E no seu sussurrar, revelaram-me imagens do futuro e as coisas que iriam suceder-se comigo.      Uma fatalidade fora prevista. Ela mudaria o rumo da minha vida.      Fiquei angustiado. Tentei gritar. No entanto, uma voz ainda mais suave confortou-me. Disse-me que já não havia como recuar; que não havia como mudar o destino; que naquela viagem havia pisado em solo sagrado.      “O que será que está se sucedendo comigo... Será que estou ébrio e não me dei conta?, indaguei-me. E as vozes desapareceram da mesma forma que surgiram.”      Senti a cabeça rodar e procurei algo onde firmar o corpo. Apoiei-me no braço do candango para não cair. E ele estranhou meu jeito.      — Oxente, seu dotô! Ficou grogue?      — Desculpe-me, creio que foi uma vertigem... Mas já passou, já está tudo bem... – procurei desfazer qualquer mal entendido.      — Alguém deseja mais buchada? – gritou o dono do botequim.      — Já estou cheio, gaúcho... Mas o dotô é quem manda! – respondeu o Tenório.      — Eu aceito mais uma caninha... estou pronto para outra!      — Arre, tchê! O dotô é bom de copo, Tenório!      — O dotô é um dos meus... É um paidégua! – gritou, visivelmente alterado.      Puxei conversa com o mineirinho, enquanto os demais se intertia tecendo comentários sobre minha pessoa.      — Senhor tizico: quem pode descrever-me as plantas medicinais que existem nesta região?      — Uai, sô! Quem entende disso é o compadre Biu. O compadre raizeiro!      — Barbaridade tchê, aqui tem uma variedade incontável! Tem chapéu-de-couro, tem capim-caboclo... Tem até raiz de mil-homens!      — Raiz de quê? – perguntei, interessado no nome sugestivo.      — É um depurativo do sangue que serve para dá sustância, tchê!      — Um afrodisíaco!      — E dos bão, sô! – gritou o minerinho. — O compadre Biu, conhece remédio até pro câncer!      — Isso é verdade? Ele conhece plantas que podem curar o câncer?! – perguntei, incrédulo.      — Uai, seu moço. Não sou de mentir!      — Mil desculpas, seu Tizico... Fiquei entusiasmado.      — Não há de que, seu moço.      — Como posso conhecer o raizeiro?      — Uai, sô! É só marcar o dia, que levo o moço lá.      — Pode sossegar o facho e esfriar a ânsia, tchê! – interveio, o Gaúcho. – O compadre Biu está viajando...      — Mas se for assim, só vou poder conhecer o raizeiro numa próxima oportunidade!      — Uai, sô! Desistiu?!      — Muito pelo contrário, seu Tizico. Mas infelizmente, já estou de viagem marcada... – tratei de informá-lo.      — Mas tão cedo assim, dotô! Pensei que vosmicê queria conhecer o peixe?      — Claro que quero, seu Tenório. Mas, no momento, não disponho de tempo.      — Pode até ser... Mas a oportunidade não bate na mesma porta duas vezes, seu dotô.      O candango Tenório fez advertência e levantou-se da mesa para ir ao lavatório. Sem sua presença, a mesa ficou em silêncio, aguardando seu retorno.      Percebendo que a reunião ficara monótona, o Carioca propôs falarmos de um tema mais alegre: futebol, e do seu Flamengo.      Os demais discordaram. Mas o Carioca não se deu por derrotado; sugeriu jogarmos uma porrinha. O antigo e fértil jogo de palitos.      — Quem perder, paga uma cerveja! – gritou.      — Eu não conheço muito bem o jogo! – informei.      — Esquenta não, autoridade! O jogo é simples. Cada jogador tem direito a três palitos... Podendo levar na mão quantos quiser. Quem acertar a soma total dos palitos... Sai fora da disputa e do jogo. E quem ficar por último... paga a cerveja.      — As regras do jogo eu conheço. Meu problema é somar os palitos... É na soma que está o mistério do jogo!      — Não esquenta o miolo, autoridade! É só atirar no meio que o dotô acerta.      Com a participação de todos, jogamos várias partidas naquela noite. E, para minha surpresa, não perdi nenhuma partida. Sempre na primeira ou segunda rodada de apostas conseguia acertar. Fazia minha escolha e acertava. Estava tão cheio de mim, que dei a entender que era um exímio jogador.      Os candangos começaram a duvidar da minha habilidade. Perceberam que meus acertos eram rotineiros e injustificados. Por esse motivo, começaram a recitar o refrão: vosmicê nasceu com a bunda voltada para a lua, dotô!      Naquele momento de alegria e algazarra, eu só podia sorrir. Não havia como explicar minha habilidade no jogo.      Com a permissão do dono do botequim, a jogatina foi liberada. O jogo correu noite adentro. As disputas mais acirradas sempre contaram com a participação do candango Mineirinho e do Carioca.      Não me recordo de ver o Tenório perdendo alguma partida. Ao contrário de mim, ele era um exímio jogador. Conseguia prever quantos palitos cada um de nós levava na mão, como se os números estivessem estampados nas nossas testas.      Em momento de descontração, atrevi-me a fazer algumas indagações ao gaúcho. Eram temas de foro íntimo. Alertei-o para o direito de privacidade. Mas ele me disse que para mim a porta estava aberta.      — Gaúcho, posso fazer uma pergunta um pouco indiscreta?      — Pode interrogar, tchê! Comigo não tem meia-sola!      — Senhor... Senhor...      — Antunes! Mas pode me chamar de gaúcho que fica do mesmo tamanho.      — Como quiser, amigo! Mas de antemão, quero pedir desculpas pela minha ousadia.      — Caramba, tchê... Deixa de flozô! Sapeca o dedo no fole que eu vou começar a cantoria!      — Já que é assim... Como foi que o amigo, amamentado à base de churrasco e chimarrão, veio a se tornar um mestre da culinária nordestina?      — Barbaridade, tchê. Sua querência tem propósito! Mas antes de responder-te, vou cerrar as portas do estabelecimento, se me permite.      Enquanto o gaúcho fechava as portas do comércio, o senhor Tenório anunciou o fim do jogo. O Carioca não concordou. Ficou furioso.      — Não aceito! O jogo só vai acabar quando eu ganhar pelo menos uma partida. – gritou.      — Não vai dar, Carioca. O dotô já está cansado de vê vosmicê perde...      Olhei para o relógio e constatei que já passava da meia-noite. As horas passaram tão de repente que nem me lembrei de outros compromissos que havia marcado para aquele dia: visitar um parente distante, comprar algumas lembranças para a minha tia, e preparar as malas para a viagem de regresso.      Não seria uma viagem cansativa, mas deveria estar preparado para os aborrecimentos que sempre ocorrem nos aeroportos.      O carioca bateu o copo na mesa e gritou:      — Se for assim, acabou nossa amizade... Eu nunca fugi da disputa. E sendo assim, mereço uma chance. Essa sempre foi à regra do jogo!      Com argumentos tão fortes, o Carioca convenceu a todos que merecia mais uma chance. Convenceu-nos de que era só mais uma partida. Convenceu não, intimidou-nos.      — Essa é a saideira! – gritou ele.      Ele era o grande perdedor e exigia um justo direito. O direito de uma nova chance para se redimir. Ir à forra, como mesmo disse. Considerando que seu pedido fazia parte das regras do jogo, todos concordaram em que o Carioca só teria direito a mais uma oportunidade para virar a sorte da mesa. E assim foi feito.      Quando o dono do botequim retornou dos seus afazeres, encontrou-me na beira do balcão. Como das outras vezes, eu já havia acertado meu lance no jogo e estava livre. Livre para ouvir a cantoria do Gaúcho.      — A sua querência tem propósito, tchê! Mas, sem grandes arroubos, vou responder-te num piscar de olho.      — Espero não estar sendo bisbilhoteiro...      — Arre tchê, sou-lhe sincero! Minha palavra vale tal quanto um fio de bigode! – puxou um banco e sentou-se, do meu lado.      Como prometera, sem fazer volteios, começou a revelar-me particularidades de sua vida.      — Pode anotar no seu rascunho, tchê: Quando apeei do meu alazão nessas paragens... Era apenas um rapazola. Um pirralho, como dizem! Mas vale lembrar, tchê... que já cuspia fogo pela garrucha! E, num belo dia, cavalgando por esse cerrado, engracei-me por uma prenda nascida lá pras bandas de Garanhuns, sertão pernambucano. Dizem os amigos que ela me laçou pela boca, ou melhor, pela barriga! E de tanto saborear os quitutes que a mãe dela preparava, quando me aposentei, resolvi abrir essa birosca. Para meu próprio deleite e dos amigos! – concluiu, em alto riso.      — É uma bela história, Gaúcho! Não é um conto de fadas, mas, prova o poder de integração que esta cidade proporcionou ao país.      — Eu que o diga; eu que o diga! Sou ferrenho defensor da nossa diversidade étnica.      — Sou de acordo... Nós somos um exemplo de integração racial e cultural para o mundo. Estou farto do conservadorismo arcaico e da segregação racial dos povos do primeiro mundo! – falei, em tom veemente.      — O moço tem discurso político! – disse-me, sorridente.      — Alto lá, gaúcho! Não me confunda com essa turma... Ou pelo menos, com boa parte dela.      — Não se exalte, tchê! É só proseio... Mas que tal tomarmos a saideira?      — Saideira? Depois que inventaram essa tal saideira, já transcorreram mais de dez partidas, seu Mineirinho!      — Uai, seu moço! A gente sai duma... e entra noutra! – disse-me ele, tropeçando nas palavras.      — E só mais esta, tchê. Creio que a noitada já acabou para todos...      O gaúcho não me permitiu emitir agradecimento, levantou-se e gritou:      — Olha aí, cambada!, amanhã é dia de branco... Vamos tomar mais uma que ninguém é de ferro!      Todos concordaram e voltaram a encher os copos. Como não poderia deixar de ser, também bebi aquela nova saideira. Depois, brindamos mais uma meia-dúzia ou dúzia inteira de saideira. Não lembro, perdi as contas.      Quando pensava que a farra havia acabado, alguém gritava lá do seu canto: esta... é a saideira! SETE        A noitada com os Candangos foi um capítulo à parte naquela aventura vivida pelo senhor Oinotna, mas o ermitão, não quis alongar nos temas picantes daquela noitada, havia outros assuntos a serem explorados.      Justificando que muito teria a revelar-me, não me permitiu interromper sua narrativa.      — Não fique ansioso para encontrar respostas para o que procuras, meu jovem Jaques Marie... tudo virá ao seu tempo. Viva intensamente esse momento; pois, todo momento vale a pena ser vivido...      A partir de então, começou a descrever o que se sucedera com ele no dia seguinte:      Quando cheguei no meu quarto de hotel, já era dia. Corri para o chuveiro e tomei uma ducha; a água me deu novo alento. Se bem que, no entanto, não me proporcionou a vitalidade que experimentei nas águas do riacho. Não, ela não mais possuía a energia magnética da natureza. E por isso mesmo, não senti o toque mágico do rejuvenescimento físico e espiritual.      Sonolento e ébrio, fui para a cama. Não consegui dormir. O quarto rodava, a cama rodava, a cômoda rodava. Tudo girava, girava num movimento contínuo de roda-gigante. Somente após incontáveis horas de tormento, meu cérebro alcoolizado desligou-se e meu corpo entregou-se ao sono. Não tardou muito, eu estava vivendo a realidade imaginária dos sonhos.      Vi-me cruzando um deserto escaldante. Subi e desci colinas inatingíveis. Quando imaginei que estava perdido, aportei na floresta encantada de um certo planeta vermelho. Lá, tudo era azul.      Vivendo meu sonho, descobri que a fauna e a flora daquele paraíso eram ricas e exuberantes. Havia uma mangueira que dava coco, um beija-flor que cantava um imaginativo samba-enredo, e um duende que era o mago dos sonhos e da alegria carnavalesca.      Enquanto admirava aquelas paisagens, o delírio tornou-se ainda mais forte e real. E para meu assombro, encontrei o lobo saciando a sede no riacho colorido que caía do céu, como se fosse uma cascata de estrelas. Logo no primeiro olhar, reatamos uma velha amizade há muito adormecida. Foi um reencontro inesquecível, havia muito que falar.      Concluí, então, que as novas descobertas científicas eram um sucesso: a clonagem da célula mamaria foi perfeita. O embrião recebera uma centelha da memória da sua matriz.      Estarrecido com a grandeza da minha conclusão, o lobo guará sugeriu uma viagem exploratória. E foi assim que, para nossa tristeza, descobrimos que aquele mundo estava repleto de cópias suas. Sem, no entanto, herdarem a ternura e o refinamento de sua alma angelical.      Esse foi o motivo para que o lobo, livre para viver ao sabor da própria sorte, entendeu ser melhor que cada um dos seus clones, respeitado a lei da atração das massas, deveria ficar cada qual no seu canto.      Mas este foi um sonho tênue, logo se desfez. Com assombrosa velocidade, vi-me mergulhar em outros delírios. Possuído da vertiginosa velocidade do pensamento o universo entrou em colapso e foi tragado por um buraco negro.      Quando pensei que tudo estava perdido, uma mão invisível me transportou para o Riacho Fundo. Mal toquei no solo de cor negro betume, fui alvo da perseguição insana do bicho-homem.      Era uma caçada bestial.      O bicho-homem estava ainda mais cruel e destruidor do que outrora. Possuía armas poderosas e marchava sob o comando de um novo chefe: o americano.      Procurei abrigo. Minha procura foi em vão. A poderosa águia colonialista fez uso de instrumentos cibernéticos e localizou meu esconderijo. O bicho-homem ficou radiante de felicidade e, como prova de sua compaixão, lançou bombas em sinal de boas-vindas. No instante seguinte, elas explodiam sobre minha cabeça com um clarão de fogos de artifício.      Acordei transpirando frio e com o barulho das explosões ainda zoando nos ouvidos.      Do lado de fora do quarto alguém gritava meu nome em altos brados e esmurrava a porta. Tentei afastar o barulho com o auxílio do travesseiro. Não deu certo. O alguém lá de fora não concordou com minhas intenções e começou a bater mais forte e gritar mais alto.      — Senhor Francisco Oinotna! Senhor Oinotna! – gritava ele.      Os gritos eram insistentes, não atendiam ao meu apelo para que parassem e me deixassem dormir.      Com muito custo, levantei-me trôpego e com a cabeça pesada. Procurei apoio na cômoda e quase derrubei o abajur de tela bege e suporte metálico. Ainda trôpego, alcancei a porta e girei a maçaneta.      Um rapaz com feição singular e voz de trovão pôs a cara na fresta e gritou:      — Mil perdões, senhor... Estou a acordá-lo atendendo ao seu próprio pedido. Tenho em minhas mãos um bilhete que dá conta que tenho que acordá-lo às onze horas... e... já é meio dia! Se não se apressar, vai perder o avião! – frisou, tentando justificar sua atitude.      Contrafeito, agradeci a presteza e esforço que efetuara para atender o meu pedido. Eu não poderia recriminá-lo pelo atraso. Somente derrubando a porta ter-me-ia acordado na hora certa. Senti outra vertigem. Procurei abrigo na cama. Mas meu celebro alcoolizado não conseguiu dominar as atividades motoras do corpo e quase caí.      O jovem hoteleiro notou minha embriaguez. Aconselhou-me tomar um banho frio e saiu sem esboçar uma única ruga de sorriso. Quando retornou, equilibrava uma enorme bandeja. Convenceu-me a tomar o café forte e amargo. Como um cão de guarda ficou monitorando meus passos. Só abandonou seu posto no momento em que fui encerrar minha estada no hotel.      Dei-lhe uma boa gorjeta como prova de reconhecimento pelo eficiente trabalho. Se não fosse por suas palavras de agradecimento e o convite para um breve retorno, eu julgaria que estava a me expulsar do hotel, tamanha era a sua urgência em me ver partir.      Como fora previsto, o tempo só foi o suficiente para despachar as malas e embarcar. O avião já estava com os motores ligados, prontos para a partida.      Mal me sentei na poltrona e a viagem foi iniciada. Deixou para trás a tristeza de quem fica e levou a alegria daqueles que buscam descortinar novos horizontes.      O avião correu solitário pela pista, levantou o bico e alçou um vôo rasante sobre a cidade. Após ganhar as alturas e vôo de cruzeiro, uma moça de olhos grandes e verdes serviu-me uma bandeja contendo a refeição dos viajantes.      Recusei a oferta. Preferi uma garrafa de água gasosa. Era mais recomendado para quem estava de estômago indisposto e cabeça pesada pelo efeito da ressaca.      Inoportuna, bateu uma dor de vazio no meu peito. Tentei afastá-la, procurando forçar uma sonolência. Não obtive êxito. Recorri à pasta rosa e, sofregamente, comecei a folhear os rascunhos na ânsia de não dar guarida à tristeza que já me possuía. Meus olhos pousaram sobre as anotações que fizera acerca do sonho-visão de Dom Bosco.      Àvido por afugentar aquele desassossego, iniciei a leitura de forma que a história me proporcionasse uma visão íntima do ocorrido.      Note bem... não são meus olhos que traduzem as formas gráficas do manuscrito. É a emoção que me conduz à sua compreensão. E a emoção não aceita rédeas curtas... * * *       Na noite que precedia a festa de Santa Rosa de Lima, percebi que estava dormindo e parecia-me, ao mesmo tempo, correr a toda velocidade, a ponto de me sentir cansado de correr, de falar, de escrever e de me esforçar no desempenho das ocupações rotineiras.      Enquanto hesitava se se tratava de sonho ou realidade, pareceu-me entrar em um salão, onde se achavam muitas pessoas falando de assuntos vários.      Neste ínterim, aproximou-se de mim um jovem de seus dezesseis anos, amável e de beleza sobre-humana...      — Sente-se a esta mesa e puxe a corda, disse-me ele.      Havia no meio do salão uma mesa, sobre a qual estava enrolada uma corda. Vi que a corda estava marcada com limites e números, como se fosse uma fita métrica. Percebi, mais tarde, que o salão estava situado na América do Sul. Exatamente por sobre a linha do Equador, correspondendo os números impressos na corda aos graus geográficos da latitude.      Observo que então via tudo em conjunto, como que em miniatura. Depois, vi tudo em sua grandeza e extensão.      “Meu jovem amigo continuava: – Pois bem, estas montanhas são como balizas; são um limite. Entre elas e o mar está a messe oferecida aos Salesianos. São milhares. São milhões de habitantes que esperam auxílio e aguardam a fé”.      Aquelas montanhas eram as Cordilheiras da América do Sul e aquele mar, o Oceano Atlântico.      Eu ia pensando: Mas para se conseguir isto, vai ser preciso muito tempo. Enfim, exclamei em voz alta:      — Mas quando ocorrerá isto?      — Isto ocorrerá antes da segunda geração. – respondeu-me ele.      — E qual será a segunda geração?      — A presente não conta. Será uma outra. Depois outra.      — E quantos anos compreendem cada geração?      — Sessenta anos.      — E depois?      — Quer ver o que sucederá depois? Venha cá.      Sem saber como, estava em uma estação de estrada de ferro. Havia muita gente. Embarcamos.      Perguntei onde estávamos. Respondeu o moço:      — Observe! Viajaremos ao longo da cordilheira. O senhor tem entrada franqueada também para leste, até o mar. É outro dom que estará a sua disposição.      Assim dizendo, tirou do bolso um mapa que mostrava assinalada a diocese de Cartagena (Colômbia). Era o ponto de partida.      Enquanto olhava o mapa, a máquina apitou e o trem se pôs em movimento. O meu guia falava muito, mas nem tudo eu podia entender por causa do barulho do comboio.Aprendi, no entanto, coisas belíssimas e inteiramente novas sobre a astronomia, náutica, meteorologia, sobre a fauna, a flora e a topografia daqueles lugares, que ele me explicava com extrema precisão.      Ia olhando através das janelas do vagão e descortinava variadas e estupendas regiões. Bosques, montanhas, planícies, rios tão grandes que estavam longe da foz. Por mais de mil milhas, costeamos uma floresta virgem, inexplorada ainda hoje. Meus olhos tinham uma potência visual maravilhosa, não encontravam obstáculos que os detivessem de estender-se por aquelas regiões.      Enxergava as vísceras das montanhas e no subsolo das planícies. Tinha debaixo dos olhos as riquezas incomparáveis daqueles países, riquezas que um dia serão descobertas. Via numerosos filões de metais preciosos, minas inexauríveis de carvão, depósitos de petróleo tão abundantes como nunca se encontraram até então em outros lugares.      Mas não era tudo. Entre o grau 15 e o 20, havia uma enseada bastante extensa, que partia do ponto onde se formava um lago. Disse-me então uma voz repentina: “quando vierem cavar as minas escondidas em meio a estes montes, aparecerá aqui a terra prometida que jorrará leite e mel. Será uma riqueza inconcebível”... * * *      Após concluir a leitura das anotações do sonho-visão, o ermitão dirigiu-me a palavra.      — Veja como é o destino, meu jovem Jacques Marie! ù Naquela viagem, quando concluía a leitura deste mesmo texto, os alto-falantes anunciaram que estávamos atravessando uma região de turbulência. Os passageiros deveriam apertar o cinto e obedecer ao aviso de não fumar...      Oinotna dobrou o rascunho tendo cuidado de que a dobradura não lhe produzisse nenhum estrago. Guardou-o na pasta. As chamas da fogueira emprestavam ao material, já deteriorado pelo tempo, um brilho mórbido. Não sei se por temor ou por indecisão, o ermitão ficou pensativo, como se avaliasse se deveria ou poderia, segredar-me algo de maior valor íntimo.      — ...Não, não me pergunte o que de fato aconteceu, e por que aconteceu... Se você não perdeu o fio da minha historia, recordará que, naquela noitada com os candangos; tive a impressão de ouvir vozes e sussurros.      — Sim, recordo-me muito bem. O amigo narrou que acontecimentos do futuro e, de sua vida haviam-lhe sido revelado...      O ermitão pestanejou, agradecido de minha atenção; recolheu seu alforje e retirou do seu interior um álbum de fotografias.      — Pois bem... quando o avião penetrou nas nuvens densas começou a chacoalhar como se estivesse sendo triturado. Só posso dizer, que, neste momento, encerrei a leitura e fechei os olhos...      — Mas e seu desaparecimento? – indaguei, como se essa fosse a parte mais importante e emocionante da sua história.      — Meu caro Jacgues Marie... – disse me ele, sorrindo, como se tivesse certo de que faria aquela indagação. – Nem tudo o que pode ser dito, deve ser dito; tudo tem sua hora.      Com minha indagação no ar, o Oinotna encerrou sua narrativa. A fogueira exigia sua presença. Ele correu até ela.      O ausência do ermitão permitiu que meu corpo denunciasse cansaço e exaustão que tanto procurava esconder. Desejei de outro gole do chá energético e mágico que tanto nem me fez. Por outro lado, pequei-me a avaliar se, se tudo o que fora dito e previsto, havia se concretizado. Se a localização da cidade era uma realidade... onde estariam as minas que seriam encontradas entre seus montes?, indaguei-me, cético.      Se hoje já não tenho certeza se esta foi a mais longa e bela página da sua narrativa, não posso negar que foi a que mais me causou emoção. Por um momento, vi-me viajando com ele naquelas imagens do sonho do Salesiano. Cheguei a descortinar parte das riquezas ainda inexplorada da América Latina e visualizar os contrastes do relevo, flora e fauna paradisíaca. * * *      Eram seis horas e trinta e dois minutos. O astro matutino tingiu o firmamento de luz e uma nuvem alva foi ferida por flechas invisíveis. Sangrou em pequenas dobras, imaculando o babado do avental de renda transparente.      As estrelas começaram a perder força e brilho. A fogueira já não ardia em lâminas de fogo multicolores. Uma névoa úmida começou a elevar-se cobrindo a vegetação e apagando os contornos do relevo.      O breu do tapete noturno, que nivelara o solo numa planície sem horizontes, cedeu lugar para um cálido lençol de espuma que se estendia por onde minha vista pudesse alcançar. Os elementos da natureza eram distintos, contudo me proporcionavam o mesmo efeito visual. Enquanto a noite recolhia sua renda negra; o dia lançava o lençol cálido que pairava por sobre a imensidão do vale.      Presenciando esses acontecimentos tive certeza: meu confidente a exemplo do Salesiano que sonhara com as belezas e riquezas da América; e que fora artífice do projeto de alfabetização educou as comunidades de sua congregação, também desenhara seu próprio modelo de vida e de convivência com a natureza. Se outros, melhor que ele, estavam aptos para amealhar títulos em suas vigorosas e heróicas batalhas, ele, por escolha do destino, bem vivia a arte do viver semeando e colhendo o maná da natureza.      O dia precipitou por sobre nossas cabeças anunciando que era hora da partida. Meu anfitrião apressou-se para concluir sua obra. Estava certo de que um breve encontro era pouco provável. Abril o fecho do álbum de fotografias e presenteou-me como algumas. Da pasta onde guardava seus rascunhos só retirou um broche de lapela. Fechou a pasta e entregou-me como se me ofertasse uma jóia rara. Não quis despedida. Apontou-me o caminho que deveria seguir e desapareceu no meio da vegetação.      O dia era de uma claridade ofuscante. O sol no horizonte tingia a vegetação de luz e revelava um cenário estonteante que nunca havia descortinado, até então. Fiquei um bom tempo admirando o nascer do sol como se fosse o primeiro da minha vida. E partir daquele dia, minha vida passou a ter o nascer do sol como razão dos meus dias. FIM Sobre o Autor e sua Obra   Virgílio de Andrade Antônio Virgílio de Andrade, Poeta, Escritor e Contista, nasceu em dezembro de 1955, em Sertânia-Pernambuco; residiu no Rio de Janeiro, São Paulo, e hoje está radicado em Brasília; cidade da qual fora pioneiro de sua fundação. É Candango. Virgílio de Andrade, permite-se o direito de navegar por todos os oceanos da literatura, é Autor de destaque da “USINA DE LETRAS”, revista on-line do Sindicado dos Escritores de Brasília, onde publica Contos, Crônicas, Poesias e Ensaios. É colaborador do “Jornal Comunitário da Cidade Satélite do Riacho Fundo-rasília”, e outros jornais local; publica na revista on-line “POESIA & CIA”, e outras do gênero. Sua primeira e recente obra, RASTILHO DE PROSA, foi publicada em formato papel, lançada na BIENAL/2000, em São Paulo; e posteriormente, na FEIRA DO LIVRO DE BRASÍLIA/2000, e outros eventos de menor porte. Recebeu menção honrosa do Centro Cultural de Aricanduva – São Paulo, com a Poesia SIMPLES. Participou da “6° ANTOLOGIA” do Painel Brasileiro de Novos Talentos – CBJE, Rio de Janeiro; e foi incluído na “1° Coletânea Poética de Aricanduva”, promovida pelo “Centro Cultural de Aricanduva” – São Paulo. Além de sua carreira literária, desenvolve intensa atividade na “ONG-AMIGOS DE BRASÍLIA”, Entidade voltada para ações de cunho filantrópico; e na qualidade de vice-presidente, compõe o atual Conselho-Diretor do “Movimento do Trabalhador Progressista – MTP-PPB”, desenvolve trabalho social. No presente momento, promove revisão do Conto Infantil: “CAÇADA AO PEIXE PIRÀ-BRASÍLIA”, e do Conto Adulto: “ÀGUA RASA NO RIACHO FUNDO”. Para corresponder com Virgílio Andrade, escreva: Antonio.andrade@planejamento.gov.br Avandrade@bol.com.br ©2002 — Virgílio Andrade antoniovirgilio@terra.com.br Versão para eBook eBooksBrasil.com __________________ Outubro 2002 KOREAEBOOKSTYLEFILE_1.1.07sM'3Mo Times New RomandefaultdefaultTimes New Romanhr_file_0 para0hr_file_0 para0Times New Romanhr_file_0 para1hr_file_0 para1Times New Romanhr_file_0 para2hr_file_0 para2Times New Romanhr_file_0 para3hr_file_0 para3Times New Romanhr_file_0 para4hr_file_0 para4Times New Romanhr_file_0 para5hr_file_0 para5Times New Romanhr_file_0 para6hr_file_0 para6Times New Romanhr_file_0 para7hr_file_0 para7Times New RomanbrbrTimes New RomanparaparaTimes New RomanfiggrfiggrTimes New Romanfig.contfig.contTimes New Roman tablepara tableparaTimes New RomanlistparalistparaTimes New RomanfontfontKOREAEBOOKSTYLEFILE_1.1.07sM'3Mo Times New RomandefaultdefaultTimes New Romanhr_file_0 para0hr_file_0 para0Times New Romanhr_file_0 para1hr_file_0 para1Times New Romanhr_file_0 para2hr_file_0 para2Times New Romanhr_file_0 para3hr_file_0 para3Times New Romanhr_file_0 para4hr_file_0 para4Times New Romanhr_file_0 para5hr_file_0 para5Times New Romanhr_file_0 para6hr_file_0 para6Times New Romanhr_file_0 para7hr_file_0 para7Times New RomanbrbrTimes New RomanparaparaTimes New RomanfiggrfiggrTimes New Romanfig.contfig.contTimes New Roman tablepara tableparaTimes New RomanlistparalistparaTimes New RomanfontfontKOREAEBOOKSTYLEFILE_1.1.07sM'3Mo Times New RomandefaultdefaultTimes New Romanhr_file_0 para0hr_file_0 para0Times New Romanhr_file_0 para1hr_file_0 para1Times New Romanhr_file_0 para2hr_file_0 para2Times New Romanhr_file_0 para3hr_file_0 para3Times New Romanhr_file_0 para4hr_file_0 para4Times New Romanhr_file_0 para5hr_file_0 para5Times New Romanhr_file_0 para6hr_file_0 para6Times New Romanhr_file_0 para7hr_file_0 para7Times New RomanbrbrTimes New RomanparaparaTimes New RomanfiggrfiggrTimes New Romanfig.contfig.contTimes New Roman tablepara tableparaTimes New RomanlistparalistparaTimes New RomanfontfontKOREAEBOOKSTYLEFILE_1.1.07sM'3Mo Times New RomandefaultdefaultTimes New Romanhr_file_0 para0hr_file_0 para0Times New Romanhr_file_0 para1hr_file_0 para1Times New Romanhr_file_0 para2hr_file_0 para2Times New Romanhr_file_0 para3hr_file_0 para3Times New Romanhr_file_0 para4hr_file_0 para4Times New Romanhr_file_0 para5hr_file_0 para5Times New Romanhr_file_0 para6hr_file_0 para6Times New Romanhr_file_0 para7hr_file_0 para7Times New RomanbrbrTimes New RomanparaparaTimes New RomanfiggrfiggrTimes New Romanfig.contfig.contTimes New Roman tablepara tableparaTimes New RomanlistparalistparaTimes New RomanfontfontKOREAEBOOKSTYLEFILE_1.1.07sM'3Mo Times New RomandefaultdefaultTimes New Romanhr_file_0 para0hr_file_0 para0Times New Romanhr_file_0 para1hr_file_0 para1Times New Romanhr_file_0 para2hr_file_0 para2Times New Romanhr_file_0 para3hr_file_0 para3Times New Romanhr_file_0 para4hr_file_0 para4Times New Romanhr_file_0 para5hr_file_0 para5Times New Romanhr_file_0 para6hr_file_0 para6Times New Romanhr_file_0 para7hr_file_0 para7Times New RomanbrbrTimes New RomanparaparaTimes New RomanfiggrfiggrTimes New Romanfig.contfig.contTimes New Roman tablepara tableparaTimes New RomanlistparalistparaTimes New RomanfontfontJFIFHHC    $.' 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