KOREAEBOOKDOCUMENT1.2.0Oinotna, o ltimo ErmitoVirglio AndradevirtualbookseBooksBrasil.comȐ=para.xmlcapa.jpgnormal.sty\para.xml smaller.sty  small.sty normal.sty large.sty' larger.sty1<capa.jpgunnota.jpgvqautor.jpg Oinotna, o Último Ermitão – Virgílio Andrade Edição virtualbooks www.terra.com.br/virtualbooks Versão para eBook eBooksBrasil.com Fonte Digital Digitalização da edição em pdf autorizada pelo Autor ©2002 — Virgílio Andrade antoniovirgilio@terra.com.br Índice Apresentação UM DOIS TRÊS QUATRO CINCO SEIS SETE Sobre o Autor e sua Obra OINOTNA, O ÚLTIMO ERMITÃO   Virgílio Andrade           OINOTNA, O ÚLTIMO ERMITÃO, é um romance-ficção baseado em fatos reais. Nesta história fantasiosa, Jacques Marie, correspondente do jornal “Le Monde”, para localizar seu entrevistado, viverá um uma emocionante aventura que irá mudar o rumo da sua vida.      Seu interesse pelo ermitão Oinotna, deve-se ao fato desse homem vir a ser o Deputado Francisco Oinotna, que, quando assessor de um certo Senador do Estado da Bahia, tornara-se o principal artífice de dossiês envolvendo personalidades da mais alta esfera política e empresarial do país.      Toda essa sorte de acontecimentos decorre do desastre aéreo que ocorrera em 1976, quando o Deputado retornava de uma rotineira viagem à Capital política do país.      Mas isso é tudo; a entrevista também representava a possibilidade de desvendar outro mistério: o sumiço de documentos do arquivo particular do mais temido Senador da República. Fato este que somente chegou a público quando vazou a informação de que um passageiro da aeronave acidentada transportava uma pasta semelhante àquela que desaparecera no Congresso.      Pasta essa que continha documentos de caráter ultra-sigilosos, que, mas mãos da oposição, fariam tremer os pilares do Poder.      Por mais inusitado que possa parecer, nesta prosaica e hilariante aventura, o jornalista Jacques Marie, estará renovando a experiência mística que vivera seu entrevistado, e a exemplo do mesmo, expondo-se aos perigos, magia e encantamentos que a região proporciona aos visitantes incautos. OINOTNA, O ÚLTIMO ERMITÃO UM        Após três ruidosas horas de viagem, murmurei, denunciando meu cansaço e permitindo que a ansiedade estampada no meu rosto fosse ferida por uma ruga de alegria.      “— Finalmente... Finalmente estou chegando à fazenda. Espero contar com a sorte e, mesmo sem o auxílio do meu guia... localizar o refúgio do senhor ermitão...”.      Pensando assim, fixei no pára-brisa o mapa de orientação. Presente do Capitão Diogo Alvarenga. O Capitão, amigo de longa data do ermitão, fora única pessoa capaz de promover o encontro. Desde primeiro momento, deixou-me fascinado com a possibilidade de desvendar o mistério do personagem de passado nebuloso e hábito pouco sociável. Deveria existir algo de muito aterrador para levá-lo a buscar refugio na bacia hidrográfica do Riacho Fundo, região agrícola da Capital.      Se para alguns, o velho Oinotna encarnava um tosco personagem do folclore local, ungido do imaginário de uma mente doentia e pouco fértil; para outros, que se vangloriavam de terem tido a oportunidade de com ele estar e merecer seu precioso auxílio e proteção; era um santo.      Entretanto, para todos eles, o ermitão não passava de um lunático. E por esse motivo, chamavam-no de “o Lobo”; por lhe guardarem respeito e temor.      O mapa no pára-brisa não traduzia a carta geográfica da região. Contudo, disseca o relevo e vegetação com tamanha minúcia de detalhes, que me peguei superestimando minha capacidade para traduzir gravuras e referências de caráter meramente ilustrativo.      Nunca imaginei que o Capitão fosse possuidor de traço firme e imaginação fértil. Mas pelo que via, reproduziu detalhes do relevo e vegetação, com tamanha desenvoltura, que poderia julgar que era profissional no ofício.      A rota planejada traduzia-se numa tênue linha pontilhada que serpenteava por entre as principais elevações rochosas. O objetivo a ser atingido ficava encravado no ponto mais alto da cadeia rochosa que contorna a margem esquerda do riacho, e foi gravado com um “x”. Aquele singelo “x”, de cor e tamanho bisonho, representava todo o investimento levado a cabo ao longo de seis meses de negociação.      O Capitão me informara que a cadeia rochosa com a qual iria me deparar, era, por sua formação geológica, uma inusitada e deslumbrante depressão do solo. Acidente geográfico muito comum à região. No entanto, suas proporções me seriam assustadoras quando galgasse em suas mediações.      Prevendo que teria de superar traumas de infância para atingir o cume da elevação, procurei afastar a indesejada sensação de vertigem.      Quando dos preparativos para viagem, o Capitão se opusera à minha firme decisão de levar adiante a excursão até à nascente do riacho. Ele ficara impedido de ser meu guia; como era esperado e desejado. Logo ele que, durante seis longos meses dedicara-se à tarefa de negociar a realização da entrevista, viu-se impedido de levar adiante nosso projeto.      A má noticia nos chegou por meio de um telegrama. Um comunicado do Ministério da Defesa dando conta que o Capitão deveria se apresentar na Base Aérea. Meu amigo não soube me dizer qual era o motivo da convocação. Todavia, previ que fosse em decorrência da apuração de denúncias quanto à subornos na aquisição de uma partilha de aviões de um país com pouca tradição no fornecimento de armamentos bélicos.      Se não me bestasse essa má notícia, fui advertido de que, sem sua companhia, não seria capaz de lograr um bom resultado. Naquelas condições de terreno minhas chances seriam as piores possíveis. Uma, talvez duas, entre dez boas tentativas. E, tudo isso porque: não conhecia a região; era franzino; possuía pele desgastada pelo clima europeu; e não tinha experiência ou afinidade para desenvolver marcha em região com topologia acidentada. E o que era ainda mais desanimador; não mantive contato prévio com a pessoa que iria me encontrar.      Para o Capitão, esses argumentos eram, por si só, suficientes para abortar a excursão.      Contudo, bem sei, que desejou dizer que um sujeito de pele clara e trejeitos afeminados não teria força física suficiente para superar os obstáculos que iria encontrar pela frente. Em parte, ele tinha razão. O clima árido com temperatura média de 40 graus, à sombra; a falta de umidade no ar; o duplo fardo de mochilas que teria que transportar; eram, mais que suficientes para me levarem à exaustão no primeiro quilômetro de marcha.      Relutei, mas não cedi às suas admoestações. Afinal, “Sobornne” não era escola de maricas como ele pensava. E, para mim, os fins sempre justificavam os meios. Nada, nada que fosse capaz de dizer ou fazer, mudaria minha decisão. Aquela me seria uma oportunidade única e rara na minha precoce carreira jornalística. Ser-me-ia a primeira e talvez única oportunidade de entrevistar o Deputado Francisco Oinotna. E, a mais concreta possibilidade de desvendar seu inexplicável e misterioso desaparecimento, em um não menos, inexplicável e misterioso acidente aéreo na região serrana do Estado da Bahia.      Se me recordo bem, o acidente não produziu vitimas fatais. No entanto, um passageiro desaparecera sem deixar vestígio. Evapora-se no ar, como se fosse uma nuvem de fumaça. Das causas do acidente nada fora divulgado. Vestígios que poderiam ser reveladores não foram levados em conta. Depoimentos extra-oficiais não foram levados em consideração. E ninguém, nem mesmo a impressa, ante a truculência do órgão de investigação, teve acesso ao relatório final quando encontraram a caixa preta do avião. E tudo foi esquecido; surgiram outros casos de maior interesse jornalístico.      Mas isso não era tudo. Aquele encontro também representava a possibilidade de desvendar outro mistério: o sumiço de documentos do arquivo particular do mais temido Senador da República. Correu o boato nos bastidores do poder que, a pasta continha documentos de caráter ultra-sigilosos. Documentos esses que, se levados a público, fariam tremer os pilares do Congresso Nacional.      A toda essa sorte de boatos e futricas somava-se o fato que fora noticiado que um dos passageiros do vôo fatídico, portava uma pasta semelhante àquela que desaparecera no Congresso.      Numa entrevista, publicada como matéria de caráter apócrifo; um membro da tripulação afirmou:      — O passageiro da poltrona 33 denunciava nervosismo... seu semblante era frio e duro. Contrariando os costumes dos passageiros que, via de regra, embriagam-se nos vôos comerciais; ele não ingeriu uma só gota de bebida alcoólica... Para relaxar a tensão, exigiu água mineral, sem gás... Posso jurar que aquele passageiro transportava uma pasta, idêntica... no colo. Folheava um maço de documentos e transparecia estar em transe medonho... Tamanha era sua aflição.      Esta entrevista só ganhou espaço em jornal de segunda categoria, publicada no segundo caderno, com direito à chamada de capa. E nenhuma outra linha foi escrita e divulgada.      Imagino que alguém não aprovou o teor da matéria. O fato é que, o jornal não mais circulou. E, essa ficou sendo a primeira e única matéria jornalística que, veladamente, fizera menção ao passageiro não identificado e à possibilidade do mesmo possuir a pasta do Senador.      É do conhecimento público que a curta e meteórica ascensão do ex-assessor parlamentar devia-se, e muito, ao desempenho na espinhosa missão de colher e armazenar informações em torno das mais importantes autoridades do meio político e empresarial do país.      Um projeto megalomaníaco.      E não se pode negar que, ainda nos dias de hoje, seu precioso acervo documental é objeto de intrigas e contradições. Colhendo os louros do patrocínio, o Senador passou a ser temido. Para alguns, respeitável; mas, para todos, temido e respeitado.      Na véspera da minha viagem mantive uma conversa áspera com Capitão. Ciente da minha determinação, resignou-se com minha decisão. A partir de então, instruiu-me para ter muito tato com seu amigo. Era uma pessoa dócil, se bem, que de hábitos pouco convencionais. Para minha alegria fui informado de que o ermitão me seria amigável; ele mesmo se dispusera a fazer importantes proveitosas concessões na entrevista. E, para meu desprazer, também fiquei sabendo que o ermitão fizera planos para abandonar aquelas paragens, no dia seguinte. Partiria para outras terras. Uma viagem sem volta.      Fiquei ainda mais indignado ao saber que o refúgio onde, por longos anos, reencontrara o sentido do seu viver, já não mais lhe era habitável. E por esse motivo, somente por esse motivo, rendera-se ao meu desejo de penetrar na sua intimidade e falar do passado.      Entre acertos e desacertos, às quinze horas e dez minutos abandono o perímetro urbano para atingir as cercanias da Fazenda Sucupira. Minha aventura só estava começando. Ao assumir os riscos da expedição, sem recorrer ao seu auxílio de pessoa com conhecimento da região, decretei minha submissão aos caprichos do destino.      Num sobressalto, tiro o pé do acelerador para as rodas não desgarrarem do trilho. A estrada de terra batida ganhou declive acentuado. O piso ficou irregular e abrasivo. As rodas trepidam, relutando seguir em linha reta. No porta-malas a bagagem rola, de um lado a outro, produzindo um barulho abafado na lataria.      Transporto duas mochilas. Uma delas pertence ao Capitão. É a mais pesada e frágil.      A viagem fica desconfortável.      Cruzo o portão da fazenda. As péssimas condições da construção denunciam que o posto de vigia há muito foi abandonado. Já não possui a serventia de outros tempos, quando militares de fardas verde-oliva controlavam o tráfego de veículos e pessoas.      Duros dias aqueles; mas era preciso. Era preciso afastar visitantes indesejados.      No céu o astro solar brilha, intensamente. O calor é escaldante. Deixo-me hipnotizar pela paisagem azul anil bordada de nuvens brancas e fofas.      Ela alivia minha tensão.      Ao longe, no quadrante sul, descortino uma descomunal mancha negra florescendo por trás da linha do horizonte. Onde me encontro, o tempo está firme, sem ameaças de brusca alteração.      Trafego com cautela; o declive é acentuado. As margens comprimem o veículo de ambos os lados. O mato roça a lataria. A estrada de ganha uma bifurcação. A inesperada bifurcação me obriga a fazer uma escolha impensada. Viro o volante e sigo pela pista da esquerda, com as rodas do lado direito amassando o capim.      Ao longe, o sol desenha um semicírculo e toma posição lateral à minha trajetória. A poeira penetra pela janela em grossas camadas. Faço o vidro deslizar e fecho a janela; o calor fica ainda mais insuportável. Sobre o cristalino do pára-brisa, vejo a incidência solar se fraguimentar em arco-íris, ofuscando a visão. Permito que mãos rígidas e úmidas deslizem no volante. Inflo os pulmões com respirando a poeira de cor vermelha que penetra pelo friso da porta. Reduzo a marcha; e sigo em frente, perigosamente. A estrada teima em permanecer estreita e sinuosa.      Sorrateiramente, uma imensa cortina negra derrama-se por sobre a região, apagando a luz do dia. O volante trepida na mão; as rodas ameaçam desgarrar; perco o sentido de direção. Fico à mercê da sorte.      Quando me dispus a proceder esta viagem, era meu desejo contar com a companhia do Capitão. Muito mais do que guia e companheiro de aventura; seria o interlocutor que abrandaria a defesa do entrevistado. Mas, para minha infelicidade, aquele imprevisto de última hora o impedira de comigo estar. E nem mesmo ele poderia imaginar que o acaso fosse capaz de prejudicar nosso projeto inicial. Ainda recordo-me do seu semblante; ficara perturbado e visivelmente irritado.      O celular toca. (Digo) Alô!      Uma voz amiga responde, em tom apreensivo, como se previsse que algo de mal estava prestes a ocorrer comigo. Grita:      — Por onde você anda, seu maluco? Por diversas vezes tento completar essa ligação e não encontro retorno!      Não tive tempo para emitir resposta. Atirei o telefone ao banco de passageiro para desviar de uma pedra que rolou da ribanceira. Imprevisíveis colunas d’água descem da encosta levando consigo toda sorte de detritos. Percebo-me no centro de uma tromba d’água. Mantenho as mãos grudadas no volante, tesas.      A mudança de temperatura faz a translucidez do pára-brisa alternar para o opaco. Sobre a capota ouço o tamborilar revolto de grossos pingos de chuva. Aciono o limpador do pára-brisa, na rotação máxima. Eles fazem – tique-sunch, tique-sunch.      A ausência de aderência das rodas no terreno alagadiço me é motivo de preocupação. A estrada não mais me possibilita tráfego seguro. A ausência de visibilidade obriga meus extintos ficarem alerta. A respiração, inconstante.      — Alô! Alô! – insiste com a voz, no banco do carona.      — Estou aqui, Capitão! – gritei, para me fazer ouvir.      — A linha está péssima! – respondeu ele, usando o mesmo tom de voz.      — Está caindo uma tempestade, amigo!      — Tempestade? Você está delirando! – disse-me ele, aos sorrisos. —Onde você se encontra? – complementou.      — Estou estacionando.      — Estacionando, onde?      Balbuciei que estava, confortavelmente, enclausurado por meu casulo metálico, admirando a paisagem. Todavia, previ que melhor seria não dar vazão ao meu lirismo. O vento açoitava o veículo com tanta violência que me fez pressentir que minha situação confortável não representava segurança. As rajadas de ar faziam o veículo balançar; como se ele fosse um objeto frágil e instável.      Tive certeza: ninguém, nem mesmo os deuses, poderia conter a fúria do desassossego da natureza.      Desenhei uma grossa fresta no vidro embaçado. Com a visão turvada pelo volume da chuva, presenciei o capim molhado curvar-se ante a fúria do vento. E, por sobre as elevações, luzes faiscantes a riscarem o céu provocando explosões, ao longe.      Não havia muito que fazer, então.      — Estou estacionado em frente à Escola Kanegae, Capitão! – falei, por fim.      — O que faz nesse lugar?      — Ora! Estou tentando provar que não preciso de guia para localizar um reles ermitão.      — E tem certeza que seguindo esse caminho vai conseguir? – sua voz denunciou desapontamento.      — Com sua orientação espero que sim, Capitão!      — Quem não é capaz de amarrar o próprio coturno, meu rapaz... não pode dizer que consegue encontrar uma agulha no palheiro. – advertiu-me ele.      — Não seja grosseiro, Capitão. O amigo não sabe sê-lo.      — Não estou sendo grosseiro! Apenas busco reparar um grande equívoco... Jamais deveria ter permitido que um paisana assumisse os riscos desta missão.      Alertado que tomara a direção oposta ao destino desejado, relutei abandonar minha aventura solitária. Havia me envolvido de tal maneira naquele projeto que nada me levaria a fraquejar. O encontro com o velho ermitão não podia ser adiado; a promessa do Capitão de que providenciaria outro encontro era insustentável; aquela viagem consumiu tempo e dinheiro; e seis longos meses de negociação não poderiam ser desperdiçados por obra do acaso e por quem era a parte mais interessada. E se isso era tudo o que mais queria, deveria estar disposto a mover pedras e montanhas para atingir o objetivo: entrevistar o velho ermitão.      — Que vai fazer? – indagou-me ele.      — Vou prosseguir.      — Tudo bem, tudo bem, monsieur Jacquê. Advirto-o de que está proibido de escalar o penhasco. Se não era um caminho seguro, imagine depois da chuva!      — Obrigado, Capitão... Sou desmiolado, mas nem tanto.      — Tudo bem, vou ficar torcendo por você. Ligo mais tarde!      — O que disse? – gritei      — Vou ficar em contato!      — Só mais uma pergunta, Capitão... Apesar de toda chuva, é possível encontrar seu amigo?      — Quê? – gritou.      — Quero saber se com toda essa chuva posso manter a esperança de encontrar o ermitão?      — Imagino que sim... ele numa faltou a um encontro. – concluiu ele.      Para meu espanto, a chuva torrencial como veio se foi. O sol ressurgiu com tamanha intensidade que poderia julgar que não havia chovido. Somente a água barrenta que corria pelas encostas, formando pequenas corredeiras e cascatas, denunciava que sim. * * *      Vinte e um anos após a colonização da região, por desbravadores da nova cidade, a bacia do Riacho Fundo estava passando por terríveis transformações. A zona seca ou do cerrado havia reduzido dois terços do seu tamanho ideal. Somente uma faixa muito estreita de mata ciliar permanecia preservada. O desmantelamento desordenado aliado ao ciclo das erosões, era a principal causa de destruição do solo das margens ribeirinhas. Era corriqueiro observar árvores centenárias tombarem uma sobre as outras, como se fossem desprovidas de raízes.      Um acontecimento condenável que denuncia o agravamento do descontrole ambiental. As águas pluviais já não encontram barreiras naturais para serem contidas na zona do envoltório. E o que resta da área do lençol freático é insuficiente para armazenar todo o liquido coletado nas chuvas torrenciais.      Indiferente àquela intempérie, com passadas largas, um vulto solitário abandona a zona do cerrado e penetra a trilha compacta da mata ciliar. Não é feliz no seu intento. A correnteza arrancou a velha ponte de suas amarras. E, cada vez mais, o riacho vai ganhando volume e força de destruição.      Impedido de seguir em frente, o andarilho busca outro ponto de travessia. Lá adiante, aventura-se transpor as águas revoltas fazendo uso de um tronco de crapiá que tombou por forças da natureza. Estende os braços em forma de crucifixo e o corpo curvado pelo peso da idade ganha movimento ritmado. As passadas são suaves. A travessia é tranqüila e segura.      Já do outro lado da margem o equilibrista sorri, um sorriso de prazer e alegria. A brisa vespertina começa a soprar; úmida. Folhagem da vegetação recusa ganhar movimento de pêndulo; úmida. O tecido gruda na pele; úmido. A água escorrega pela folhagem unindo-se em grossos pingos de chuva. Produz uma torrente passageira.      Sem se dar conta de que a emoção que vivera no passado já se faz companheira, o andarilho cruza a clareira coberta de grama rala. E, na margem oposta, divisa a fachada de uma velha cabana tragada pela vegetação nativa padecer da corrosão das intempéries. Não, não consegue avaliar se a construção fundiu-se à paisagem ou se ela é parte da própria paisagem. A parede lateral, guarnecida por varanda de telhas enegrecidas, denuncia o estado de abandono. Na selvajaria silvestre do pomar doméstico, ervas daninhas sufocam o botão de rosa que teima florir em pétalas vermelhas.      “— Veruska, Veruska... por onde andarás Veruska?” – murmura ele.      O observador solitário permanece imóvel. Olhos turvos. A mente cavalgando selvagens lembranças inicia uma frenética corrida na contra-mão do tempo. Um frio doído eriça os pelos do corpo. Ele suporta aquela carícia áspera e degusta o sabor da agonia. Não, não se afasta da dor que as lembranças do passado lhe proporcionam. Sorve-as como se elas lhe fosse um bálsamo para as chagas não cicatrizadas. Colhe uma certeza: aquela morada padece da ausência do seu inquilino.      Trôpego, investe contra a estante de madeira escura. Uma pesada e gélida porta rústica não oferece resistência ao toque da sua trêmula mão. A fresta de luz fere as sombras e lança um retângulo de poeira sobre a escrivaninha, iluminando a haste do abajur de prata. Do cedro, colhe dois volumes da prateleira empoeirada. As pernas fraquejam. O corpo encontra apoio na coluna da lareira; ela exala cheiro rançoso de fuligem e carvão em estado de putrefação. Hesitante, folheia páginas do álbum amarelecido. Lábios carnudos que se projetam além da palidez do rosto adolescente lhe sorri um sorriso doce e meigo.      “— Veruska... por onde andarás, Veruska?!” – clama ele, com um grito preso na garganta.      Afasta-se daquela imaginação. Busca socorro no presente:      “Creio que o amigo do Capitão se contentará com essas relíquias... Se o rapaz for determinado como informara, é bem possível que neste momento já esteja zanzando no meio do cerrado...”, pensou ele. E partiu, deixando o passado trancado naquele casebre de cômodos sombrios e úmidos. * * *      O telefone toca mais uma vez:      — Jacquê!, como andam as coisas por aí, meu rapaz?      — Tudo bem... acho! – respondi, com voz cansada.      — Como, tudo bem... acho?      — Estou exausto...      — Jacquê, não me diga que teve a insensatez de escalar o paredão?      — Não tive outra escolha... Capitão. Era tudo ou nada.      — Seu desmiolado! Você...      Recordo-me que, quando tomei a decisão de prosseguir com minha aventura, o Capitão advertira-me de que, após retornar à bifurcação, deveria abandonar o veículo estacionado ao lado do portão da Mansão Boi Zebu – o proprietário cuidaria dele enquanto estivesse ausente. A partir daí, deveria iniciar à etapa mais penosa da viagem.      A trilha sugerida pelo Capitão era a rota mais indicada para turistas com pouca inexperiência em trilhas silvestres. Por esse motivo, deveria manter o curso, sem relutar em seguir a rota previamente planejada. O relevo acidentado; a vegetação rotineira e monótona; poderiam levar-me a desviar da direção tracejada.      Seguir a rota planejada era uma ordem, e não um conselho. Suas últimas palavras continham advertências e sugestões: quando adentrasse o solo do cerrado, eu deveria, a cada dez passos, dar uma passada maior com a perna esquerda. Era um procedimento astuto. Um artifício que evitaria que eu ficasse andando em círculos ou retornar ao ponto-de-partida, no sopé da serra. E por último, e mais insistente conselho, fez-me prometer que jamais me aventuraria numa escalada no paredão rochoso. Era o caminho mais curto; todavia, de perigo extremo. Qualquer descuido, de minha parte, estaria fadado a me envolver em acidente de grave proporção. Se, por felicidade, não fizesse por merecer alguns ossos quebrados, ficaria com profundas escoriações no corpo...      — Você pode descrever-me o que vê? – gritou ele, insatisfeito com meu longo silêncio.      — Creio que sim. Estou meio zonzo, mas creio que estou onde deveria estar.      — O que você vê?      — Vejo mato e pedras...      — Deixe de ser infantil, monsieur Jacques. Olhe na direção leste! Oposta ao sol... Vê os edifícios da cidade?      — Sim, vejo... Mas que loucura! – gritei atônito. — Capitão, Capitão! Na cidade já é noite e, onde estou, ainda é dia!      — Eu sei! Eu sei...      — Não posso acreditar no que estou vendo, Capitão!      — Não fique histérico, meu rapaz... Siga meu conselho: dê meia-volta, e mire na direção do sol... O que vê?      — Vejo, vejo... Não vejo nada! – gritei.      — Não se faça de tolo. – ralhou ele. Ouça-me bem: observe a elevação que fica bem abaixo da linha do sol... Procure por uma formação rochosa, do tamanho de um homem adulto...      Presumi que o Capitão estivesse a gracejar. Não arriscara minha vida naquela aventura para ficar procurando rocha no meio do cerrado. A noite não tardaria a chegar; e não observei nenhum vestígio do ermitão.      — Já a encontrou? – gritou.      A voz do Capitão denunciava ansiedade. Fiquei cúmplice daquela emoção. Quando ele descrevia a paisagem, podia afirmar que estava ali, no meu lado.      Não consegui atenuar suas expectativas.      — O sol me ofusca! – adverti-o.      — Esqueça o sol! Foque sua visão na vegetação... Procure descortinar uma silhueta rochosa do tamanho de um homem adulto!      Depois de um breve silêncio:      — Encontrei, encontrei! Vejo duas... duas rochas no meio do arbusto!      — Tem certeza?      — Sim, posso vê-las!      — Bom trabalho, Jacquê... você conseguiu!      — Não estendi a piada, Capitão... Poderia ser mais claro?      — Não só claro, como coerente! Entretanto, devo informa-lo de que não mais manterei contato consigo.      — E por quê?      — Não vejo motivo para ficar bancando a babá de um marmanjo como você.      — Tudo bem... Mas até o presente momento, não vi nenhuma sombra do seu amigo.      — Estou certo de que sim, meu rapaz. É só tomar a direção das duas rochas que ele está à sua espera.      — Como pode ter esta certeza?      — Ora, meu rapaz, é muito simples: uma das rochas só pode ser ele. Por lá, só existe uma!      O Capitão desligou o telefone. E a partir daí, não nos falamos mais. * * *      Para meu espanto, no primeiro contato que mantivemos, o ermitão dispensou qualquer tipo de apresentação. Numa atitude que me pareceu inamistosa, não correspondeu a um aperto de mão.      Adverti-me de que aquele gesto era um indício de que não aprovara minha tardia chegada. E o mais grave e constrangedor: eu não estava acompanhado do Capitão, seu amigo.      Sem dizer uma palavra, o ermitão apossou-se da mochila que deveria ser transportada pelo Capitão. Fez-me perceber que, sua única e real satisfação pela minha presença, era comprovar que suportei a difícil tarefa de transportar uma dupla carga de bagagem até aquele lugar ermo. Nenhum gesto ou atitude de minha parte teria maior reconhecimento ou aprovação.      Abriu o fecho da mochila e conferiu o conteúdo, com visível satisfação. Com um leve piscar de olho, fez-me ver que ficara agradecido por comprovar minha lealdade e dedicação. A encomenda que o Capitão despachara chegou intacta.      Disse-me ele, então:      — Ouça-me bem, meu rapaz: não estou certo se esse é o caminho pelo qual devo conduzir minha narrativa. Creio que não me será fácil descrever com exatidão uma série de fatos que me ocorreram, e que mudaram o rumo de minha vida. Admito, no entanto, que faço esta tentativa com a melhor das intenções e prazeroso por compartilhar minhas recordações...      Continuou, após uma breve pausa:      — Recordo-me de que, quando era jovem, como você, participei de uma Comissão de Cidadãos que efetuava uma romaria à Capital. Manter contatos políticos que se traduzissem em verbas federais para a nossa pacata e esquecida cidade natal, era nosso propósito. E como de outras vezes, sempre com o mesmo objetivo, nem sempre alcançado, não dispunha de tempo para conhecer a realidade que existia além das paredes dos palácios do governo. Meus dias eram consumidos na enfadonha tarefa de andar pelos vastos corredores do Congresso e visitar os gabinetes sempre vazios de nossos ilustres representantes.      Uma rotina estéril e cansativa.      Mas daquela feita, atendendo à sugestão de um amigo, resolvi descobrir se além daquelas estruturas esculpidas em aço e cimento; se além da empáfia e do cheiro de naftalina que a classe dominante recendia; se havia uma outra cidade que pulsava, que possuía vida própria e que exalava outros odores.      Devo dizer que fui muito feliz nas minhas andanças.      Entre uma conversa e outra, entre um relato e outro; tomei conhecimento de que entre os moradores mais antigos, também conhecidos como candangos, era possível escutar histórias e casos que somente os pioneiros da construção daquela cidade poderiam contar.      Histórias essas nem sempre verídicas, é claro. Mas, de tão prosaicas e improváveis, foram assumidas por todos como verdadeiras. Como este causo que se passou com um dos mais ilustres fundadores da nova Capital, um certo retirante do nordeste brasileiro... * * *      Foi por volta do ano de 1956 que, refém da má sorte e exaurido pela constância da seca de três longos anos de estiagem, nosso personagem resolveu cruzar o agreste sertão na busca de encontrar noutras terras seu quinhão de riqueza.      Fora uma jornada ingrata. Após quinze longos dias de dor e sofrimento, o aventureiro descortinou um pequeno povoado no seu caminho. Esgotado e desejoso de uma boa noite de sono, a exemplo de outros viajantes, buscou pousada na única hospedaria que por lá existia.      Não teve a acolhida que deve ser dispensada a qualquer turista.      Um rapazola, portando um terno já encardido pelo tempo correu, e bloqueou o caminho. Transpirando a autoridade que não ostentava, não permitiu que o cliente maltrapilho descansasse o fardo da viagem. Com voz rancorosa, bradou que não mais havia acomodações disponíveis no palacete.      O palacete era de uso exclusivo dos funcionários da cúpula do Governo Federal. E assim sendo, melhor seria seguir caminho e buscar guarida no próximo povoado. A nova cidade que, estava sendo erguida no meio do cerrado, era o destino predileto de todo forasteiro sem um tostão no bolso.      Sem emitir uma palavra, o andarilho, como chegou, partiu... * * *      Neste ínterim, o ermitão fez outra longa pausa. E, após meditar para reencontrar o fio da narrativa, exclamou com visível satisfação:      — Mas há males que vêm pro bem, meu rapaz! Anos depois, ainda carregando a lembrança das humilhações que sofrerá do garboso gerente, o viajante retornou ao estabelecimento para desfazer aquele mal-entendido. Quando lá chegou, ao invés de destratar o arrogante funcionário, pediu para ter um dedo de prosa com o dono do estabelecimento.      O pedido não foi aceito de imediato, como era de se esperar. E mais uma vez, nosso desvalido personagem teve que suportar outras humilhações. Amargou uma longa espera sob o calor escaldante de um sol impiedoso.      O dono da hospedaria só tomou conhecimento das intenções do recém-chegado, quando, cansado de ver a persistência com a qual um vulto se mantinha estacado na porta do hotel, indagara ao gerente quanto à motivação daquela cena.      Prevendo que o patrão não aprovaria seu procedimento, o funcionário desfiou uma longa e cansativa história para justificar o acontecido. Por fim, caiu em contradição e contou a verdade.      Enquanto isso, lá fora, ainda tingido o viajante de sombras, o sol do mês de abril pousava na linha do horizonte rasgando o céu com seu facho de luz vermelho-pardo. Não muito depois, o seu vulto foi visto ganhando as sombras dos corredores do palacete quando era conduzido à presença do dono do estabelecimento.      O viajante foi recebido com um largo gesto de boas vindas; uma caneca d’água fresca; e uma farta dose de cachaça de boa qualidade.      Esta foi há maneira mais amistosa que seu interlocutor encontrou para preparar a conversação serena.      Desejando que o ambiente já houvesse serenado, o dono da hospedaria teceu um rosário de desculpas e juras de que o funcionário receberia uma severa reprimenda. Falou com voz mansa, quase soletrando.      — Queira perdoar os maus modos do meu gerente... meu amigo.      O viajante permaneceu calado, com o olhar pregado no chão. O outro continuou:      — O comportamento do meu funcionário compromete a reputação comercial deste estabelecimento... turva nossa imagem progressista! – intuiu ele. —Asseguro-lhe que, hoje mesmo, vou tomar medidas severas! Devo informá-lo que esse tipo de atitude não espelha a índole do povo desta cidade humilde e hospitaleira.      O discurso e promessas de reprimendas não foram do agrado do viajante. Todavia, como gesto de amizade, agradeceu a acolhida e disse que o caso não precisava ser levado aos extremos. Não traria benefícios a ninguém. Só retornara para tirar um dedo de prosa.      A partir de daí, os dois distintos cavalheiros travaram um curto diálogo de pé-de-ouvido. A conversa foi encerrada com um aperto de mão; e o viajante foi alojado nas mais amplas e luxuosas instalações que o imóvel possuía.      Se toda história tem a sua moral, esta também deve ter a sua; entretanto não a revelarei, prefiro que cada qual tire a sua. O fato é que aquele aperto de mão selou um contrato de compra e venda; e a demissão do funcionário, por incompetência para o ofício. * * *      Após me contar esse causo, de conhecimento quase exclusivo dos fundadores da cidade, o ermitão passou a assoviar uma canção, para mim, desconhecida. E, como não me passou nenhuma reprimenda, julguei que aprovara minha presença, mesmo sem a companhia do Capitão.      Meu anfitrião ficou absorvido no seu assobiar. E, com passadas largas, imprimiu um ritmo mais forte na nossa caminhada. Cortava caminho transpondo a vegetação rasteira, como se aquele fosse a maneira correta de por ali transitar.      Do meu lado, encontrava-me tão esgotado fisicamente que não mais conseguia esconder o estado lastimável em que me encontrava. Movia-me com passadas claudicantes, a respiração forçada, e as escoriações latejando.      Abreviando meu sofrimento, o ermitão anunciou que poderia descansar o fardo da viagem. E, falou, sem prestar a atenção para minha precariedade física.      — O Capitão me informara de suas intenções, meu rapaz... – disse-me ele, como se fizesse uma indagação.      Permaneci calado. Não tive ânimo para emitir resposta. Sentia-me terrivelmente exausto e procurava restabelecer o ânimo e a lucidez de pensamento. O ar que penetrava nos pulmões era áspero, e me proporcionava ardor. Minha ansiedade em inspirar todo o oxigênio que necessitava exigia que a respiração fosse efetuada pela boca. E, essa indesejada prática respiratória aumentava a sensação de sede.      — Após aquela pancada de chuva, cheguei a duvidar da sua disposição para concluir a viagem... Imagino que tenha passado maus bocados.      — Sinto-me exausto... Entretanto, posso afirmar que estou realizado. – falei, por fim.      — Foi uma decisão corajosa, de sua parte...      — Nem tanto. Mas não posso negar que por diversas vezes pensei desistir.      — Eu sei... Já passei por situação semelhante.      — Aonde vamos?      — Já chegamos! Descanse que vou providenciar um revitalizante chá de ervas... – como se houvesse produzido um número de mágica, estendeu no solo dois sacos de dormir. — Haverá muito tempo para falarmos das coisas que deseja saber. – concluiu.      O ermitão, temido por todos, por ser o Lobo que habitava a Colina do Sol, abandonou-me no centro de um circulo árido. O local escolhido era com se fosse uma plataforma no topo da colina.      Com passadas largas, embrenhou-se na vegetação compacta. Fiquei solitário e sozinho, negando agasalhar maus pensamentos que rondavam minha mente.      Enquanto buscava atinar para tudo que estava se passando comigo; a escuridão da noite envolveu-me e cobriu o topo da colina de sombras. A noite chegou tão abruptamente que fiquei a imaginar que ocorrera algum eclipse solar, ou que alguém houvesse desligado a luz do dia da mesma maneira como desligamos as luzes do aposento.      A escuridão era tão intensa, que só me permitia enxergar um palmo na frente do nariz. A paisagem que era paradisíaca transformou-se na visão do interior de um túnel assustadoramente desprovido de luz. Naquele ambiente deserto, a insignificante luminosidade da combustão de um fósforo teria a intensidade de um farol marítimo.      Pouco a pouco, recuperei o senso da visão que a brusca mudança de luminosidade me roubara. Pouco a pouco, comecei a divisar o ascender e apagar de vaga-lumes que tingiam a vegetação de luz e alegria. Pouco a pouco, uma quantidade incontável de estrelas começou bordar constelações e signos. Pouco a pouco, o Cruzeiro do Sul era o brilho mais vibrante dentre todas constelações.      A partir daí, comecei a me dar conta de que me encontrava isolado do mundo. Tive certeza de que a plataforma em que me encontrava flutuava, como se fosse um disco que pairava sobre a imensidão da terra. Não descortinei nenhum abrigo para me proteger do orvalho da noite. Tudo que havia à minha disposição era o saco de dormir; a fogueira que exalava cheiro da madeira em combustão; e aquela paisagem sem horizontes que se estendia por todos os quadrantes da terra.      Meus olhos aterrorizados não eram capazes de varar a névoa espessa que nivelava o relevo como se fosse um infindo tapete betume estendido por todos os rincões do planeta.      — Teremos uma noite fria pela frente. – informou-me, o ermitão.      — Espero que sua fogueira nos mantenha aquecidos. – retruquei.      Ele não se deu conta da minha angústia.      — Espero que aprecie passar a noite contando estrelas e falar das trivialidades da vida.      — Vou adorar... Só quero que saiba que esta será minha primeira experiência... Sou um bicho da cidade; tenho pavor do escuro. – informei, confuso com a situação.      — Não tenha medo, meu amigo... Quem provoca medo é a solidão.      — Eu sei... Mas devo dizer que o burburinho que por aqui escuto é mais aterrador que o burburinho da cidade, em pleno “ruch” do meio dia!      Naquele momento, as cantorias da fauna nativas ganharam novas acordes. O coro das cigarras, com seus chiados e zumbidos, produziu uma melodia ensurdecedora. Um animal ladrou no meio da escuridão. O uivado de lobo em noite de lua cheia remoçou em minha mente cenas terror que guardo como herança dos filmes de terror.      Após longo e injustificado silêncio, o ermitão voltou a ter comigo.      — Pode ser... no entanto, procure imaginar que tudo isso é música. E música se fará. – disse me ele, sem externar emoção.      Fiquei meditando suas palavras. Na outra extremidade da clareira a fogueira começou arder em grossas labaredas. O clarão das chamas tingiu a folhagem, umedecida pelo orvalho, proporcionando-lhe um brilho viscoso.      Uma dor de vazio apertou meu peito. Tive certeza; não mais possuía a segurança da civilização e o conforto da vida moderna.      Este me foi um momento de emoção extrema. As labaredas de fogo que ardiam, em tonalidades do laranja ao vermelho-tinto, acordaram em mim traumas de infância. De súbito, percebi-me sufocar pela fumaça e o corpo aquecer com o calor das chamas. DOIS        Percebendo meu desassossego, o ermitão sentou-se ao meu lado. Sua presença dissipou o pesadelo. Começou então a falar, a prosear, como se desse prosseguimento a uma narrativa, há pouco interrompida:      Foi numa certa viagem, meu rapaz... que tomei parte do acontecimento que mudou o rumo da minha vida. Desde o primeiro momento, fiquei curioso para conhecer um certo Candango, pessoa indicada para me confirmar à descoberta de um peixe raro nesta região.      Devo informar que então, era apenas um curioso. Um curioso tal qual você. Desejoso de viver uma aventura que valha a pena de se viver.      Para minha alegria, dois dias depois, eu já havia localizado o Candango Tenório.      No primeiro contato que mantive com o Candango, ele negou, por diversas vezes, ter conhecimento da história que lhe contei. Quando afirmei que fora Veruska, sua neta, que me informara que era conhecedor da localização do habitat natural do peixe, fez-se de surdo. Ficou arredio. Deu-me a entender que tudo não passava de boatos e invencionices, tamanho era o despropósito da minha busca.      Procurei demovê-lo de sua visível repulsa ao tema. Busquei outras formas de convencimento. E, felizmente, após tomar conhecimento da pureza das minhas intenções, concordou em falar sobre o assunto. Advertiu-me, no entanto, de que só me revelaria maior detalhe sobre o local, se eu lhe jurasse, por tudo que me era mais sagrado, guardar segredo sobre sua pessoa.      Não tive como não concordar.      No segundo encontro que mantivemos, sempre amável e solícito, convidou-me para saborear uma buchada de bode na Feira da Cidade Livre – cidade pioneira da construção da nova Capital. O convite era irrecusável, e uma boa oportunidade para tomar conhecimento dos “causos” e segredos que ele se propusera a revelar.      E foi assim, naquele incerto domingo de um fevereiro de poucas chuvas e dias ensolarados, que esta história aconteceu. Informo que, então, não fui pontual. Cheguei ao local combinado quando o sol cruzava a linha do meio-dia. O Candango aguardava a minha chegada na porta do botequim. Recebeu-me com um largo sorriso e convidou-me a tomar um aperitivo.      Uma cachaça de alambique.      Ingeri o líquido de um só gole, satisfeito com a boa acolhida.      E mal havíamos trocado dois dedos de prosa e saboreado a primeira dose daquela bebida dos deuses...      — Arre, tchê! Vê se desempaca e contas logo esta pendenga pro moço... senão, vai pensar que estás com fricote! – gritou o dono do botequim.      — Oxente, gaúcho! Vosmicê não quer que faça intróito pro dotô?! Depois, eu conto o causo! – respondeu meu confidente.      — Enquanto o dotô escuta, não dá pra descer mais uma pinguinha? – interveio um outro parceiro de mesa.      — Caramba, tchê!, já ia me esquecendo. Deixa eu sapecar uma caninha, de rosário, que nesta peleja vai sair fogo!      — Autoridade!, posso participar da palestra? – cheio de ginga, entrou na conversa um recém-chegado.      Ele nem sequer esperou para receber minha permissão. Sorridente e brincalhão, estendeu-me a mão. Pouco depois, com a intimidade de um velho amigo, convidou-me para um abraço.      Agradei-me daquele seu jeito bonachão e da sua inconfundível mania de encerrar algumas palavras com um chiado. Pareceu-me que para ele, todas as palavras terminadas em “s” eram intermináveis.      — Se o dotô der licença, vosmicê pode se achegar! Afinal, vosmicê também é candango, e o confessório vai ficar mais real.      — Por mim, tudo bem, tudo bem; eu sou só ouvido!! Não vou desprezar a presença de mais um ilustre candango. – retruquei com ar de bom amigo.      Com um longo gesto zombeteiro, o carioca puxou uma cadeira e veio sentar-se à nossa mesa, ao meu lado. No minuto seguinte já éramos íntimos e amigos de longa data.      Desejando que minhas dúvidas fossem esclarecidas, com muito gosto, concluí que a participação do recém-chegado ser-me-ía benéfica.      Dentre os membros daquela confraria, o carioca era o mais brincalhão e eloqüente.      — Desce uma loura suada! – gritou para o dono do botequim. E para nós, com as mãos, desenhou uma silhueta feminina no ar.      — Ô, carioca! Para participares da tertúlia, tens que tomar primeiro uma caninha. – advertiu o gaúcho.      — Ah!, é briga de cachorro grande? Então, mandas a que matou o padre. – e falando assim, sorriu; um sorriso gostoso.      — Pois é, seu dotô... Naquele tempo, a coisa aqui era diferente; não havia este montão de carro fazendo fumaça. Aqui era um lugar tranqüilo para se viver!      — Eu entendo... isso sempre acontece, é o progresso!      O candango Tenório concordou comigo, fazendo um leve gesto com a cabeça.      — Mas os governantes adotaram medidas para a proteção e preservação do meio ambiente, não adotaram? – quis saber.      — Que nada, seu dotô! No começo até que a coisa não era tão má, mas o troço desandou; tão acabando com o tiquinho que restou!      — Mas assim; não é possível... Aqui não é a Capital Federal?! Se nem mesmo aqui respeitam o meio ambiente, o que vai ser do resto do país?      O mineirinho que, naquele exato momento, ascendia um cigarro de palha, gritou:      — Uai, seu moço! To de acordo. O exemplo tem que começar de cima, não é memo?!      — Autoridade? – interveio o carioca. – Podes crer! Logo que cheguei nestas terras, eu tomava banho no rio, junto com as capivaras.      — Vamos com calma, carioca! Esta história de tomar banho junto com capivara já é exagero de sua parte...      — Que nada! É a mais pura das verdades. Naquele tempo, o caminhão de pau-de-arara vivia atropelando tatu nas estradas. Não é verdade, mineirinho?      — Uai, sô; to de prova! O carioca não está mentindo, não! Eu campeei muito estas estradas, e cansei de cruzar até com onça.      — Senhor Tizico, o carioca fez uma colocação curiosa... Diga-me uma coisa: esse tal de pau-de-arara existia mesmo?      — Uai, sô! Num só existia, como existe! Não é memo, compadre Tenório?      — Oxente, seu dotô! O pau-de-arara é o meio de carregar os retirantes. Eu mermo vim pendurado num! Viajei do sertão do Pernambuco até aqui.      — Mas isso foi uma loucura, senhor Tenório! O amigo se colocou em situação de extremo perigo.      — Que nada, seu dotô! Avião de retirante é pau-de-arara mermo.      — Tudo bem, quem sou eu para duvidar... Mas explique-me uma coisa: se a cidade foi planejada como vocês dizem, e, diga-se de passagem, tão bem planejada; não ficou definida nenhuma área de preservação ambiental?      — Oxente, até que foi! Mas a cidade desandou tanto a crescer, que hoje em dia já tão construindo nas cabeceiras dos riachos.      — Arre, tchê! É a mais pura verdade! Abriram a porteira do curral! E do jeito que a coisa galopa, quando acordarem, a única água boa pra se beber vai ser minhas caninhas... – zombou o gaúcho. – O resto vai ficar carregado daquele tal de coliforme fecal! – concluiu, com gracejos.      — Mas isso é inaceitável! – gritei de ímpeto, deixando os candangos assustados.      O senhor Tenório compreendeu a motivação de minha revolta, mas não quis intervir no meu comentário. O gaúcho que me provocara aquele acesso de indignação, serviu mais uma rodada de bebidas.      Ainda possesso, desandei a fazer críticas à falta de controle no processo de urbanização. Se, por um lado, a criação de novos centros populacionais era extremamente prejudicial à qualidade de vida da cidade; por outro, a fixação desordenada do homem no solo além de poluir as nascentes, dizimaria a fauna e flora da região.      — Ninguém está preocupado com isso? – gritei.      — Que nada, tchê! Isso não rende votos e muito menos dinheiro, que é o que eles querem. – informou o gaúcho enquanto limpava a mesa.      — Mas se for assim... Não poderei comprovar a veracidade da descoberta!      — Fique calmo, seu dotô! Vosmicê veio de longe pra conhecer este bicho. E pode ter certeza, nem que nós tenhamos que varrer todo o leito do riacho, nós vamos encontrar o pisado dele. Pode ter certeza que vamos!      Como o tom de voz do candango, pernambucano da mais nobre linhagem nordestina, demonstrou firmeza de proposta, tranqüilizei-me. A prosa estava começando a surtir o resultado que eu tanto esperava. Pois, até aquele momento, de bom mesmo, só a cachaça que o gaúcho nos servia.      Êta pinguinha boa, sô!      Sem querer ser enfadonho ao descrever as coisas que ocorreram naquela reunião inesquecível; não posso deixar de frisar que em meio ao discurso de apresentação. Entre apartes, réplicas e tréplicas, fui informado pelo senhor Tenório de que toda aquela epopéia teve início com o sonho do visionário. Ou melhor, do profeta dos novos tempos.      Neste ínterim, o Tenório fez questão de ser loquaz em sua explanação. Passou a descrever com minúcias de detalhes o sonho profético que um certo padre Salesiano tivera com a América do Sul e com o destino da nova Capital brasileira.      Não esqueceu de informar que o feito ocorrera na Itália, no dia 30 de agosto de 1883.      Quando, finalmente, encerrou a narrativa do sonho-visão, ele emudeceu. Hesitante, procurou apoio na mesa e se sentou. Encontrava-se tão exausto que mal podia respirar. Como se todas as suas energias houvessem sido consumidas naquele minucioso relato.      Verifiquei, no entanto, que seus olhos emitiam um brilho sem igual. As pupilas de cor verde-água pareciam duas pedras de diamantes recém-lapidadas. E por sobre sua cabeça, a fumaça do cigarro de palha do candango Tizico tomou a forma de um halo fosforescente.      — Pronto, foi o suficiente... – sussurrou-me o carioca. – Apareceram loucos e sonhadores dos quatro cantos da terra... Do Oiapoque ao Chuí! Se alguém foi capaz de sonhar que faria um Governo de 50 anos em 5, não lhe faltaram seguidores para dar início à grande obra de construção da cidade.      — Êta, sonho divino, sô! – interpôs-se o mineirinho. – Vosmicê já escutou sonho igual, seu moço?      — Na verdade não, senhor Tizico! Já tomei conhecimento de que a cidade foi fundada com as bênçãos de Dom Bosco. Contudo, ninguém me havia revelado o sonho com tanta profusão.      —É que o compadre Tenório fez cartilha na Escola Salesiana... Ele aprendeu a história de cor e salteado. Mas o melhor ele não contou pra vosmicê!      —Eu sou só ouvido, senhor Tizico! Não me deixe sem saber o final da história.      — Se vosmicê quer... e o compadre autorizar; eu conto pro moço!      Confirmei que sim. E cúmplices do mesmo desejo; voltamos os nossos olhos para o senhor Tenório. Mas ele não disse nada. Permaneceu imóvel e calado, varando com seu olhar distante o telhado de zinco.      O mineirinho captou a resposta de que necessitava e começou a sua dissertação:      — O mais melhor, seu moço! É que pra se fazer cumprir o profetizado; o Santo escolheu outro santo. E este nasceu na minha Minas Gerais... Lá em Diamantina! – precisou ele, emocionado.      Enquanto o mineirinho falava dos dias de glórias do Governo Juscelino Kubistchek, eu procurava visualizar as imagens daquele tempo de esperança e fomento patriótico. Sorridente, justificou-se que “J.K.” foi o tratamento carinhoso com o qual o povo imortalizara o saudoso Presidente. O comandante da cruzada que almejava transformar o país na grande potência do novo milênio.      Percebendo que eu anotava as minúcias das suas descrições, ele fez questão de frisar que o “J.K.” era diferente dos outros políticos. Pois, no seu tempo, a porta do Palácio do Governo era franqueada a todos. Do mais insignificante peão-de-obra ao mais graduado auxiliar, com patente ou sem patente.      E concluiu a sua explanação, dizendo:      — Ele é o inesquecível Presidente Bossa-Nova, seu dotô! Governou com a batuta da esperança e numa orquestração do “Peixe Vivo”.      — Autoridade! – interveio o carioca. – Desculpe atrapalhar suas anotações... Mas tenho certeza de que o peixe já vive na cidade-de-pé-junto. – e sorriu, como sempre, zombeteiro.      Desta feita, o sorriso foi geral. E, enquanto todos sorriam gostosamente, tratei de guardar as lembranças daquele Governo e conter o meu próprio sorriso.      Não fui feliz no meu intento.      O gaúcho, que fora atender outros clientes – turistas de países distantes – retornou à nossa mesa e pôs um fim naquela algazarra:      — Não é pra menos, tchê! Com a devastação das matas nativas, nem o lobo Guará, que é esperto como ele só, deve estar vivo!      — Oxente! Vosmicê está me estorvando a prosa, gaúcho! O Pira ainda está vi vinho... Já o lobo Guará; compadre Tizico enxergou um lá pras bandas do Goiás Velho.      Atento ao debate, o mineirinho fez questão de ser enfático na sua afirmação:      — Uai, sô. Não é que é verdade! Estou de prova, posso lhe pregar minha palavra!      — Mas colegas, colegas! Se o lobo foi esperto e fugiu para as curritelas do Goiás, o que terá acontecido com o peixe? Ele não tem pernas! – gracejou o Carioca, com sua zombaria costumeira.      — Barbaridade, tchê! Outro Pira, só se for de proveta!      — Por que? – quis saber.      — Ora por quê, tchê! Porque onde o bicho-homem põe o pé nem capim nasce...      Não reprovei a afirmativa do gaúcho. Afinal, ele fora o chefe da equipe de extração de madeira para escoramento das obras. Ao seu grito de: madeira! A motocerra derrubava as árvores frondosas.      Imagino que se não fora responsável pelos seus atos, ao menos dera sua cota de contribuição para que o progresso se instalasse na região e comprometesse o ecossistema local.      O certo é que o progresso chega, traz conforto e consumo fácil, mas sempre nos suprime alguma coisa. De modo que somente as futuras gerações vão sentir os seus efeitos danosos.      Após um breve momento de descontração e comentários de pouca serventia ilustrativa, a conversa mudou de rumo. O Carioca começou a tecer comentários sobre o problema das queimadas.      Aprovei o tema. Previ que ele me seria muito esclarecedor. Sempre quisera compreender qual era a real natureza das queimadas, e por quais motivos se tornavam tão freqüentes nas frentes de desbravamento das novas fronteiras.      Prevendo que o debate seria longo e controverso, apalpei o bolso da camisa, procurando a companhia inseparável do maço de cigarros.      O Candango Carioca percebeu minha intenção. Efetuou um gesto enérgico e interrompeu o movimento que estava prestes a executar.      — Não faz bem à saúde, autoridade! E muito menos ao bolso do amigo. – advertiu-me, como se me fizesse um favor.      Não aprovei sua atitude. Para um tabaquista compulsivo como eu, aquela era uma postura repressora do meu direito de escolha; mas não me atrevi contrariá-lo. Fiquei no aguardo de que na sua explanação fosse mais democrático.      Satisfeito por constatar que seu pedido fora aceito, o Carioca me lançou um sinal de agradecimento. Com a eloqüência costumeira, deu inicio a um longo discurso para dizer que, no seu entender, havia dois culpados pelas rotineiras queimadas no cerrado. Os quais, para ele, eram: o cigarro dos fumantes e os balões dos festejos juninos. Julgava como um indício muito revelador o fato dos incêndios iniciarem-se sempre às margens das rodovias, ou logo após a queda de um balão colorido.      Utilizando-se de uma encenação caricata, simulou o início de uma queimada usando como material didático os tocos de cigarro do candango Tizico. Em tom professoral, informou que conhecia em profundidade a mente dos adeptos daquelas atitudes incendiárias. Já fora praticante de ambas.      — Já fui fumante e baloeiro, autoridade! Posso afirmar que os fumantes são uns mal-educados e sem senso do perigo que representam para a natureza. Não é preciso andar muito para constatar esta realidade. Os fumantes praticam a insana mania de jogar o cigarro fora, ainda aceso. E em qualquer lugar! Até quando estão dirigindo veículo nas estradas! Já os baloeiros! Porque os balões são bonitos quando sobem... mas são um perigo quando caem. Principalmente quando caem no meio do cerrado. Aí, já dá pra imaginar! O fogo logo aparece consumindo a vegetação...      Na outra ponta da mesa, o Candango Tizico balançava a cabeça em sinal de desaprovação. Sua irritação para com as colocações do carioca era visível. Por várias vezes, sussurrou-me que aquela era uma versão rancorosa e infundada. No seu entendimento, os incêndios eram fenômenos naturais da região, e por esse motivo, ficou ofendido por constatar que seu vício era uma das principais causas enumeradas pelo Carioca.      Acendeu seu pito e deu uma longa baforada, deixando a fumaça sair da boca, tomando forma de círculo. Mas não se conteve e esbravejou:      — Ô, Carioca! Vosmicê podia me poupar de suas bobices...      Pouco depois, com seu jeitinho de quem nada quer, o Mineirinho tomou de assalto a reunião. E, conseguiu ser mais eloqüente e convincente que o amigo. Fez um longo e caloroso discurso para defender sua tese: no cerrado, o fogo pode surgir com o simples roçar de um galho no outro, tamanha é a falta de umidade no ar.      — Escute bem, seu dotô! O Carioca não é um mateiro curtido pelo tempo para saber que por essas bandas o fogo pode brotar até na terra limpa. Aqui têm lagarta de fogo, tem marimbondo de fogo, e tem mato que queima feito fogo. Sem falar nos pedregulhos que no sol do meio-dia, alumiam e soltam faíscas de fogo... Quem o Carioca pensa que é; para dizer que meu pito é culpado?      O Carioca acusou o golpe. Mas preferiu não dar ouvidos ao que o outro estava falando. Por mais convincentes que fossem os argumentos do oponente não mudaria sua opinião, disso estava certo. Como eram amigos, era sua vez de ouvir as lorotas que o outro contava.      O senhor Tenório, que permanecera calado até aquele momento, pediu a palavra e mediou o debate. Para ele, os incêndios eram praticados por agricultores, que na ânsia de abrir novas áreas de cultivo e pastagens, ateavam fogo na vegetação ressequida. Depois, concordou em parte com as colocações do mineirinho. Mas discordou que o fenômeno natural fosse o simples roçar de um galho no outro. Um relâmpago seria o motivo mais provável. Demonstrando possuir grande conhecimento da flora do cerrado, informou que ela, quase na sua totalidade, era formada por árvores e arbustos que possuíam uma casca grossa que se assemelhava à cortiça. Uma verdadeira obra de engenharia da natureza local. Protege o caule do fogo e têm ação moradora nas altas temperaturas. * * *      Após concluir essa narrativa, o ermitão dirigiu-me a palavra.      — Meu jovem, Jacques Marie... Não é esse seu nome? Qual é seu julgamento da peleja dos Candangos?      — Parece-me, no seu todo, construtiva. Mas se for para tomar partido, fico do lado do Candango Carioca.      — Uma boa escolha, para quem não é fumante! Mas, no meu caso e, naquele exato momento, de posse de opiniões tão divergentes e possuidoras de grande poder de convencimento, não tive como não concordar com todos eles. E, para não perder amizade, não quis tomar partido...      Aproveitando a pausa do narrador, indaguei-o quanto à fábula do peixe Pirá-Brasília e de um certo lobo Guará. Ele sorriu, como se minha indagação já lhe fosse esperada.      — Senhor Oinotna, e a fábula?      — A fábula? Pelo que vejo, tudo me leva a crer que o Capitão andou falando mais do que deveria. – disse-me então.      — Se não quiser tocar nesse assunto...      — Pelo contrário, meu rapaz... Apenas pré vi que não lhe fosse de grande valia. Afinal, a história não passa de uma... Digamos...      — Uma autocrítica? – intervi, como se soubesse o fardo de desilusões que acalentava na alma.      O ermitão sorriu, como prova de amizade e estima. Puxou para si o velho cajado que descansava ao lado do saco de dormir e, levantou-se sem precisar esforçar-se para assim fazê-lo.      — Você está coberto de razão, meu rapaz... Talvez a fábula exista, muito mais em razão dos meus pesadelos do que em decorrência dos acontecimentos de então. – falando assim, afastou-se tomando a direção da fogueira.      Faço uso da ausência do anfitrião para proceder a uma breve análise de tudo que até aquele momento vivenciara. De certo que ele não era nenhum lunático como muitos me falavam. De tudo de que ouvira dizer e de todos tratamentos poucos amigáveis com os quais a ele se referiam, não posso negar que a alcunha de lobo lhe era perfeita. A exemplo de seu predecessor, era arisco e de hábitos noturnos.      Aquela era uma noite clara, como poucas que já presenciei. Uma lua redonda brilhava com tamanha intensidade que parecia estar pairando a poucos metros do chão. Minha visão me levou a crer que se me encaminhasse na sua direção, poderia tocá-la com meus dedos.      Pus-me a observar outros acontecimentos ao meu redor. O silêncio da noite era tão mórbido que podia escutar os sons do meu próprio corpo. Aquelas horas, não mais se ouvia a cantoria dos grilos; a coruja já não emitia o corrugar de tristeza; e a madeira não emitia estalidos ao ser consumida pelo fogo. Mas, do meu canto, também podia divisar dois olhos grandes e aterradores a me vigiar; o capim perder o movimento de ondas movendo-se sobre o espelho lacustre; e a lua ganhar massa e brilho. Percebi-me parte daquele mundo; e prisioneiro dele.      Após seu longo ausentar-se, meu anfitrião ressurgiu no meio da vegetação. Numa das mãos trazia um recipiente semelhante a uma cesta de piquenique, e na outra, um braseiro de onde luziam pedras de carvão incandescentes.      Veio ter comigo.      — Espero que aprecie chá à moda dos sertanejos?      — Nunca imaginei que os sertanejos apreciassem chá, senhor Oinotna...      — Eu também, não... Contudo, reproduzirei seus costumes no trato do café para preparar nosso chá.      — Seria então... um chá-fé? – indaguei, com um sorriso pálido.      Sei que o Lobo sorriu da minha tirada hilária. Mas seus olhos amendoados não me permitiram descortinar cumplicidade, e o desalinho da farta barba, donde os cabelos grisalhos eram os mais visíveis, não me permitia colher nenhum traço de riso.      Compenetrado em produzir o chá, deu início ao cozimento como se fosse um ritual secreto. Depositou a chaleira de bico chato no solo; balbuciou palavras em língua desconhecida. Encheu o recipiente com três quartos de água, duas porções de raspa de resina, sete pitadas de ervas, e quatro pedregulhos aquecidos no carvão incandescente. Ficou em silêncio, como se meditasse. Pouco depois; ergueu os braços em forma de arco, desenhou um crucifixo no ar e emitiu um som que mais parecia um grunhido.      Procurei conversa, para não me deixar seduzir pelo aroma que o chá exalará. Com toda certeza, aquela bebida haveria de me proporcionar sensações alucinantes. Era um bom motivo para apreciá-la moderadamente.      — Senhor Oinotna... É verdade que o peixe Pirá-Brasília ainda pode ser encontrado nesta região?      — Seja paciente, meu rapaz... A noite é longa, e os neurônios trabalham melhor quando o estômago não reclama por alimento. – disse-me ele, com brandura.      Concordei que sim. Ele ofereceu-me uma caneca de chá fumegante.      — Qual é sua idade, meu jovem amigo?      — Trinta e cinco.      — É uma ótima dezena... Contudo, crítica.      — Crítica? Não percebo nada de crítico na minha idade! – retruquei, sem entender o motivo da sua colocação.      — Eu sei... Mas imaginemos que esta idade representa um ciclo da vida onde a razão supera a emoção.      — Bom... analisando por este ângulo... – assumi uma posição defensiva, mas, no momento seguinte, denunciei meu descontrole. – Posso afirmar que ainda me emociono! – gritei.      — Eu sei, eu sei... – grunhiu ele, entre os dentes.      E partir de então, entre um gole e outro de chá, meu anfitrião passou a discorrer sobre a fábula. Em certos momentos me levou a sorrir, e em outros me levou a turvar os olhos de indignação.      A fábula era uma colcha de retalhos com todo tipo de texturas e cores. O tema ambiental era os remendos maiores e mais coloridos. Em certos trechos a fábula buscava transmitir um ensinamento dos princípios da harmonia da natureza e a necessidade de uma educação ecológica.      Recitava ele então:      — O que falta ao nosso povo é patriotismo e educação!      — Principalmente educação ecológica, seu Oinotna! – intervir na sua divagação.      — Corretíssimo, corretíssimo, meu rapaz! Ecologia deveria ser matéria obrigatória em qualquer currículo escolar. Somente assim, as futuras gerações estarão preparadas para preservar e conviver em harmonia com a natureza.      — Não há de ser nada, senhor Oinotna. Uma cultura preservacionista já está florescendo! – adverti-o.      — Espero que sim! Mas posso afirmar que seu florescimento é lento, muito lento. Lerdo! – gritou.      — Qual é a importância das veredas no ecossistema do cerrado?      — Ora, meu rapaz... As veredas são o manancial de recursos hídricos da região! O Planalto Central é o berço das três maiores bacias hidrográficas genuinamente brasileiras... Sem o cerrado, não dou vinte anos para haver escassez de água potável para grande parte da população.      — Isso me parece improvável, senhor Oinotna?      — Não há nada de improvável, meu rapaz. Essa é uma verdade irrefutável. – sentenciou, ele.      Ciente de que até mesmo as previsões menos alarmistas assinalavam que num futuro não muito distante, haveria escassez de água potável nas regiões mais desenvolvidas do planeta; não tive como contestar seus argumentos. E, rememorando cenas das mais puras e cristalinas irresponsabilidades humana, que são retratadas nos acidentes ecológicos que ocorrem nos quatro cantos do globo, reconheci que sua previsão era factível. Não tardaria e haveria muito choro e ranger de dentes.      Fiquei apreensivo.      A natureza não mais suporta tamanha destruição. Mas o que fazer; qual o fazer que será preciso?      — Senhor Oinotna: se tudo isso é verdade, tenho certeza que nossos governantes já adotaram medidas de proteção ambiental para preservar os recursos hídricos da região. – procurei ser otimista.      — Ora meu rapaz, não venhas querer ensinar padre rezar missa. – falando assim, levantou e foi reforçar a lenha do fogo.      Não digeri por completo o teor daquela conversa. Tão menos, a reação inamistosa do meu anfitrião. Comecei a duvidar das suas virtudes e espantosa capacidade para pressagiar o futuro.      O Capitão me fora contundente nas suas afirmativas: – ele é simplesmente magnífico! Um iluminado!      Sendo assim, imaginava entrevistar um novo “Buda” ou um iluminado que me falasse de viagens astrais, que me falasse de energias cósmica. E, no entanto, encontrei um homem muito mais antenado aos problemas atuais, do que eu.      Não, ele não era o visionário que ouvira dizer que por lá vivia. Só podia ser um impostor. Alguém querendo aproveitar-se de minha boa fé.      Vi o ermitão afastar-se da fogueira como se fosse um lobo enfurecido. Na mão direita trazia o braseiro suspenso por alças de arame. Permitiu que o recipiente metálico ganhasse movimento circular e, o luzir do carvão em brasa desenhou um círculo de fogo em torno do seu dorso. Protegido pela espessa barba em desalinho, o rosto enfurecido permitiu ver que seus olhos refletiam a cor do facho de fogo; como se fossem duas tochas incandescentes.      — Quer dizer que o amigo veio à procura de um mago? – indagou-me, com firmeza. – Um mago que lhe fale de coisas tolas, que lhe fale de coisas que não és capaz de compreender! Um mago que lhe faça acreditar que a verdade não habita a insignificância do nosso dia a dia...      Sua voz me era ameaçadora. Sua voz ecoara como a de um profeta que prega aos quatro ventos um novo mandamento.      —...a única verdade meu rapaz; está dentro de cada um de nós... – continuou ele. – Somos parte deste universo. Um universo em expansão... Um universo onde a ausência de um simples grão de areia pode emperrar a máquina da criação.      — Desculpe-me, não quis importuná-lo com minhas divagações tolas...      — Não há de ser nada, meu rapaz... – disse-me ele, após um leve pestanejar.      O ermitão repetiu o ritual, anteriormente descrito. Temperou mais uma chaleira de chá exótico. Desta feita, com ervas de aroma ácido e volátil; como se fossem possuidoras de elevado teor alcoólico. Do bornal que carregava a tiracolo, retirou um recipiente contendo nossa ceia noturna. Castanha assada de caju do mato.      — Vamos voltar ao tema dos candangos! – disse-me então, como se nada de mal houvesse ocorrido. TRÊS        Naquele dia, após uma nova rodada de bebida e petiscos, a reunião com os candangos ficou amena. Cada membro da mesa emitia seus comentários sem ser interrompido. Absorvido em coletar seus relatos mais picantes, só me dei por mim, quando escutei um zumbido de abelha querendo pousar na flor do meu ouvido. Dei um, dois, três tapas, mas pelo jeito, não fui feliz no meu intento. Teimosa e insistente, ela continuou a me azucrinar.      —Dotô! Dotô!      Quando despertei com aquele duplo zumbido, acordei com o Candango Tenório balançando o meu corpo pelos ombros.      — Senhor Tenório! – respondi, assustado. – Desculpe-me a distração, estava absorvido em pensamentos!      — Pode cochilar, seu dotô! Eu só queria saber se vosmicê vai mermo querer conhecer o Riacho Fundo! – perguntou-me ele, num sorriso meio infantil.      — Claro amigo! – apressei-me em responder. – Por enquanto eu só tenho uma tomada aérea da paisagem! – apontei para o céu, e ele compreendeu meus argumentos.      — Pelo tamanho das botas... o dotô veio preparado pra enfrentar até cascavel! – pilheriou o gaúcho.      E o fez de maneira tão espalhafatosa que todos que se encontravam no recinto voltaram os olhos na minha direção. E é claro, para as minhas botas.      — Oxente, não é que é verdade! Eu não tinha reparado, seu dotô. Mas não se apoquente não; se aparecer alguma surucucu, eu piso no cangote dela com minhas precatas.      — Espero que não seja necessário! – sorri, principalmente da valentia que o candango buscava demonstrar.      Ansioso para iniciar nossa viagem; tratei de acomodar o bloco de rascunhos na pasta que peguei emprestado no gabinete do amigo Senador. Era uma pasta resistente, que muito se semelhava às que costumava usar, no meu tempo de assessor parlamentar. Recordo-me que Rosa, a secretária de curvas generosas e seios fartos, entregou-me a pasta com um sorriso pidão. Mas não aceitei a cantada; qualquer um sabia que ela era caso exclusivo do Senador. Agradeci sua gentileza e, fiquei curioso ao notar que, apesar do tempo, ela se mantinha jovem e fresca.      O candango percebeu minha pressa, mas não demonstrou comungar meu sentimento. Tomou mais um gole de bebida e aproveitou para lustrar a sandália de couro batido. Como não poderia deixar de ser, habilmente tingida de branco.      Não houve despedidas dos demais companheiros e parceiros de mesa. Todos nos deram a desnecessária garantia de que iriam ficar aguardando o nosso regresso enquanto bebiam o estoque da adega do gaúcho.      Quando finalmente atingimos o estacionamento, o senhor Tenório me convidou para tomar o lugar do carona de um Jipe. E, quando assim o fiz, o Candango soltou o freio de mão e deu um leve empurrão no veículo. Correu e acompanhou o deslocamento do veículo. Deu um salto ágil e tomou lugar na direção, para logo em seguida pisar na embreagem, engrenar a segunda marcha e liberar o pedal.      Escutei o ruído das peças mecânicas entrando em atrito. O tranco do motor foi tão violento que quase me atira em cima do pára-brisa.      O candango fez um sinal de positivo, confirmando que estava tudo bem. O Jipe-69 saiu aos solavancos, como se estivesse desgovernado.      — O bicho é pior que burro xucro, seu dotô! Primeiro coiceia, mas depois obedece ao cavaleiro.      — Ele é uma raridade! – comentei, procurando conversa. Mas não me escutou.      Tomamos a via em velocidade reduzida. O trânsito lento não nos permitia trafegar na velocidade desejada. Notei que o motorista estava um pouco ébrio, e fiquei feliz por constatar que mesmo assim, era prudente.      Não muito distante do local de partida, deparamos-nos com um trevo rodoviário. O veículo fez o contorno, sem desgarrar as rodas. Tomou outra direção, ganhando velocidade.      O candango não me deu nenhuma explicação quanto ao destino que tomara. Mas não por muito tempo. Após cruzar uma pequena ponte, reduziu a velocidade e parou. Passou a mão na barba rala e disse-me:      — Dotô!, não sei onde vai acabar essa viagem... Mas, é aqui que ela começa.      Fiquei entusiasmado. Nunca havia imaginado que o Riacho Fundo estivesse tão próximo. Entretanto, ali estava ele, com sua água rala e suja. Um odor azedo penetrou nas minhas narinas e me casou mal estar.      Evitei fazer comentário. Não me pareceu o momento oportuno para iniciar uma bravata contra a política urbana local.      O Tenório voltou a falar:      — Seguindo o curso das águas, o riacho vai encontrar-se lá adiante com o Córrego Vicente Pires. Um pouquinho mais adiante... desemboca no Lago do Paranoá. Então, como vosmicê não quer ver lago, nós vamos tomar outro rumo... Vamos pras bandas da nascente! – anunciou, satisfeito com a própria decisão.      — O senhor é quem manda, senhor Tenório! – concordei, e não havia como não concordar.      Ciente da minha aprovação, ele efetuou uma manobra rápida e retornou ao trevo rodoviário. Contornou-o novamente e seguiu no sentido do trajeto inicial: pela Avenida Contorno. A avenida marginal corta a cidade de um lado a outro e é a principal via de acesso ao setor rural.      Como da primeira vez, o caminho que nos levaria ao riacho não ficava longe. No entanto, somente quanto se aproximou do trevo rodoviário o veículo ganhou o piso de uma via secundária e começou a transitar pela zona rural.      Atento aos detalhes da paisagem, observei que as propriedades estavam guarnecidas por cercas de arame farpado. E por trás delas, correndo em linha paralela, havia uma frondosa plantação de bananeiras que nos impedia de observar o seu interior. Somente quando o muro de folhas verdes se desfez, eu pude observar o que elas produziam.      Aquela era uma região rica na produção de hortaliças. O solo estava tomado por tabuleiros especialmente preparados para o cultivo de folhagens e legumes. Em algumas propriedades os agricultores já haviam adotado a irrigação mecanizada. Em outras, essa cansativa tarefa era executada por empregados: crianças, na sua maioria.      Aquela descoberta não me foi de bom grado. Não era o tipo de imagem da qual estava à procura e que deseja encontrar. Fiquei indignado com o que presenciava. A constatação de que em plena Capital ocorria a exploração da não de obra infantil era um fato deprimente. No entanto, contive-me. Adverti-me de que sempre fora sabedor de que as promessas dos nossos governantes não passavam de um engodo eleitoral. O problema nunca terá solução.      A irrigação manual era efetuada de duas maneiras: por grupos que carregavam grandes e pesados regadores; ou por esguichos de água das mangueiras que abasteciam os regadores. Pareceu-me que as crianças que se ocupavam deste último procedimento eram as mais velhas. Com toda certeza, elas já praticavam a hierarquia do mais forte.      O candango não concordou com minha visível repulsa à cena. Defendeu a idéia de que era muito melhor vê-los trabalhando no roçado a deixá-los à mercê das más companhias e da escola da malandragem.      — Um pouco de trabalho nunca é demais, seu dotô! – filosofou então.      Após ouvir a buzina tocar, um dos agrícolas interrompeu o trabalho e tomou a direção do Jipe. Sorridente, veio atender ao nosso chamado.      Enquanto caminhava ao nosso encontro, notei que trazia no rosto algumas listras de cor negra. Somente quando se aproximou o suficiente, percebi que aquela estranha pintura tinha a mesma tonalidade da terra que predominava naquela região. Era um solo negro como betume.      Este detalhe levou-me a julgar que estava revolvendo a terra com as mãos. E daí então, para evitar a picada de algum inseto, passou a mão no rosto; deixando-o com aquelas listras negras a lhe realçarem a pele morena, queimada pelo sol.      — Dotô! O caboclo tá teimando que não dá pra ir de carro até a beira do riacho. O terreno está muito fofo... Só dá pra ir a pé!      — Não tem problema, senhor Tenório. Eu só pretendo tirar algumas fotografias.      — Fotografias? Pra que servem as fotografias, seu dotô?      — Ora, seu Tenório... para registrar os fatos!      — Não existe melhor registro que os nossos olhos, seu dotô...      — Estou de pleno acordo! Contudo, a fotografia tem o poder de mover montanhas.      — Se o dotô acredita nisso... que assim seja! – concordou, contrafeito.      — Pelo que vejo, não fica assim tão longe. – disse-lhe, buscando reforçar minhas intenções.      — Gostei da atitude de vosmicê. Eu também sou assim, comigo não tem tempo ruim e nem barreira. – elogiou-me ele, à sua maneira.      — Se a montanha não vai a Maomé, Maomé tem que ir até a montanha, seu Tenório...      — Então, vamos lá, seu dotô... Vai ser um pé lá, e outro cá! – sentenciou ele.      Aquele foi um passeio infrutífero. Tirei algumas fotografias e voltamos logo em seguida. Estávamos decepcionados com o que presenciamos. A vegetação nativa estava completamente comprometida. As poucas árvores que ainda resistiam já não encontravam no solo a fertilidade de outrora. Grande parte da massa de terra fora arrastada pelas águas das chuvas, descaracterizando o leito original do riacho. Em alguns trechos, o riacho havia tomado outras direções, formando ilhotas de areia e cascalho, tamanha era a destruição do equilíbrio natural. Qualquer um podia prever que em poucos anos tudo estaria ameaçado pela erosão.      O caminho de volta foi realizado em silêncio. Quando chegamos no Jipe tomei o meu lugar de carona e esperei a partida do veículo.      Estava convicto de que, desta feita, não se faria necessário empurrá-lo. A bateria estava com carga.      O Tenório estava tenso. Descortinei no semblante uma ponta de amargura. Seu olhar estava duro e distante. Previ ser melhor esperar que o tempo lhe devolvesse a alegria costumeira.      Entediado com a toada que ele adotara em nossa viagem, comecei a fotografar a paisagem, as residências dos agrícolas, as crianças efetuando o trabalho de roçado e colheita de hortaliças, e o cachorro vira-lata que corria atrás do veículo. Somente quando a estrada se encontrou com outra de piso asfáltico, o candango estacionou e quebrou o silêncio que havíamos adotado até então...      — Essa estrada vai dar na Metropolitana, seu dotô. Foi o primeiro alojamento dos dotô engenheiro! – apressou-se em me informar.      — O alojamento ainda existe?      — Que nada, seu dotô... Já não tem mais nada que nos lembre o passado.      — Se é assim... não estou interessado em conhecê-lo.      — Então, seu dotô. Vamos seguir a viagem pelo lado de cá. Vou cortar a cidade e varar do lado de lá!      — Por mim, tudo bem, eu não quero ver cidade. Prefiro a natureza!      — Natureza é que não nos falta, seu dotô!      — É... mas pelo que vejo, não restou muito. Só sobraram os pés de quaresmeiras. – dei vazão à minha insatisfação.      — É verdade! Mas como vosmicê queria conhecer toda a barrigada do riacho, eu não podia deixar de passar por aqui... Estou certo? – interrogou-me, também insatisfeito.      — Desculpe-me, amigo, você está coberto de razão. Mas espero que me mostre algo que valha à pena!      — Fique calmo, seu dotô! Já estamos chegando nos finalmente da cidade. Vou fazer mais uma parada, e depois, levo vosmicê no trecho mais formoso.      A partir deste momento, o Candango passou a dirigir com prazer e em velocidade desaconselhada para o tráfego lento da rodovia urbana. Contornou uma pequena rodoviária e tomou a direção que me fora indicada. Sempre em sentido contrário ao curso das águas.      Após efetuar manobras ousadas, aproximou-se das margens do riacho. Procurou uma sombra e estacionou.      — Vamos esticar um pouco as pernas, seu dotô?      — É uma boa idéia! – respondi, com visível insatisfação em atender o convite.       nossa frente, havia um descampado que algum dia já fora um campo de futebol de várzea. Aproveitando-se do que restara da antiga cobertura de grama, uma parelha de cavalos e uma vaca magricela pastavam tranqüilamente. As pessoas também faziam uso daquele campo. Algumas crianças ocupavam aquele espaço desolado para brincar de super-herói e soltar pipas coloridas.      Adverti-me de que a devastação naquele trecho era ainda maior do que nos outros lugares pelos quais havíamos passado. Do lado do qual nos encontrávamos, o campo fazia divisa com o riacho e, na outra margem, o mesmo episódio ocorria com as casas. Elas foram construídas tão próximas ao leito do riacho que, se ocorresse uma enchente de grandes proporções, certamente iriam ficar inundadas.      Pensei em fazer algumas indagações ao candango, mas ele já havia tomado uma boa distância de mim. Estava na beira do riacho, olhando fixamente para o leito raso e de águas turvas.      Quando me aproximei dele:      — Dotô, guardo boas lembranças deste pedacinho de chão! – disse-me ele, com voz de tristeza. – Eu era dono de um roçado que ocupava todo este baixio. Naquele tempo, aqui parecia um paraíso! Com essas mãos que a terra há de comer, eu zelava, eu cuidava, eu evitava que alguém o destruísse... Tá vendo aquele areai no meio do rio? Ali mermo, naquele lugar! Com uma varinha de bambu, cansei de pegar piau, fisgar cará e arrastar mandi-chorão e bagre!      — Parece que não sobrou muito daquele tempo, seu Tenório... O riacho já não está para peixe!      — É o progresso, seu dotô... O progresso!      Notei que a voz do candango, sempre grave e firme, possuía uma sonoridade melancólica e irregular. Observei que seus olhos ficaram marejados. Mas não presenciei nenhuma lágrima. Porem, elas deveriam estar presentes.      Tratei de mudar o rumo da conversa. Cheguei a pensar em encerrar a viagem e voltar para a companhia dos outros candangos. Seria a opção mais acertada naquele momento, pensei.      — Que tal retornarmos ao botequim do gaúcho, seu Tenório? – não obtive resposta. – Estou com saudade daquela cachaça maravilhosa! – insisti, tentando afastar seus pensamentos sombrios.      — Que nada, seu dotô. Nós vamos varar o paredão e logo vamos nos embrenhar na antiga Fazenda Sucupira.      — Varar! Não seria melhor contornar?      — Pouco importa... O que importa é chegar lá, seu dotô.      Pus-me a admirar o paredão do aterro. Ele deveria ter aproximadamente vinte metros de altura. No seu topo, era possível perceber o brilho metálico da linha férrea. Após perder alguns minutos contemplando a montanha de terra e cascalho que alterara a paisagem natural, concordei com as suas ponderações. Pouco importa se vamos varar ou contornar o paredão... O que nos interessava era atingir nosso objetivo: a nascente do Riacho Fundo.      Retornamos ao Jipe. Quando o candango tocou na chave de ignição, o motor ligou, instantaneamente.      Pareceu-me que quanto mais o veículo era utilizado, ganhava força, potência e ficava macio e silencioso.      O candango acelerou