KOREAEBOOKDOCUMENT1.3.0Memoria sobre a Viagem do Porto de Santos a Cidade de CuiabaLuiz D'AlincourteBooksBrasil.comeBooksBrasil.com;para.xmlcapa.jpgnormal.sty_para.xml2smaller.stysmall.stynormal.sty3large.stylarger.styBcapa.jpgQJ"1.jpgsYq;2.jpg13.jpgh@4.jpg25.jpg996.jpgsrA7.jpg Memória sobre a Viagem do Porto de Santos à Cidade de Cuiabá Luiz D’Alincourt Edição eBooksBrasil Versão para eBook eBooksBrasil.com Fonte Digital digitalização da edição em papel de 1953, volume VIII das PUBLICAÇÕES COMEMORATIVAS SOB O ALTO PATROCÍNIO DA COMISSÃO DO IV CENTENÁRIO DA CIDADE DE SÃO PAULO SÃO PAULO BIBLIOTECA HISTÓRICA PAULISTA DIREÇÃO DE AFONSO DE E. TAUNAY Copyright: Domínio Público ÍNDICE [*] Duas Palavras Affonso de E. Taunay Dedicatória INTRODUÇÃO MEMÓRIA SOBRE A VIAGEM DO PORTO DE SANTOS À CIDADE DE CUIABÁ Descrição Histórica Descrição Histórica NOMES DOS RIOS EM QUE SE PAGA A CONTRIBUIÇÃO DAS PASSAGENS, DESDE A CIDADE DE SÃO PAULO ATÉ À DE GOYAZ MEMÓRIA ACERCA DA FRONTEIRA DA PROVÍNCIA DE MATO GROSSO, ORGANIZADA EM CUIABÁ, NO ANO DE 1826 APÊNDICE Notas LUIZ D’ALINCOURT Memória sobre a Viagem do Porto de Santos à Cidade de Cuiabá Introdução de AFONSO DE E. TAUNAY DUAS PALAVRAS         Pouco ou, antes, quase nada se sabe do distinto oficial de engenheiros, que foi Luiz D’Alincourt.      Nascido em Oeiras, Portugal, a 17 de fevereiro de 1787, praça de artilharia em 1799, da Academia Militar, nela se graduou engenheiro, após brilhantes estudos.      Teve numerosas comissões e importantes; na Bahia (1816), Pernambuco (1818), em Mato Grosso (1822-1830), no Espírito Santo (1841), onde, segundo parece, faleceu.      Publicou diversas memórias sobre a corografia do Brasil e assuntos militares, seis das quais estão impressas na Revista do Instituto Histórico Brasileiro; era grande autoridade sobre coisas do Mato Grosso, e, na opinião de Leverger, “colhem-se de seus escritos valiosas informações.      Dele, diz Machado de Oliveira: “era um oficial muito inteligente e bom profissional.      Notas biográficas suas só conhecemos os ligeiros “Apontamentos de Xavier de Brito e uma efeméride das Datas Matogrossenses, de E. de Mendonça.      Morreu major de engenheiros, e na força da idade.      Das suas obras, é talvez a mais interessante e valiosa a Memória sobre a viagem do porto de Santos à cidade de Cuiabá, jornada que, em 1818, realizou. Imprimiu-a em 1825 num folheto hoje raríssimo.      A ele se refere Saint-Hilaire numerosas vezes e elogiosamente. Traz diversas informações curiosas sobre a vida paulista, de há mais de um século, e de que há escassez em semelhante época.      São Paulo, 16 de julho de 1953. AFFONSO DE E. TAUNAY SENHOR   “Por largo campo indômito, e fremente “Corre o Nilo espumoso, “Feroz alaga a rápida corrente “O Egito fabuloso; “Mas se grã carreira, as ondas grato, “Tributo de caudais rios aceita. “Soberbo não rejeita “Pobre feudo d’incognito regato. DIIZ Ode 1a.        Não é vontade de inculcar-me autor, nem vaidosos pensamentos me figuram esta obra digna de ser oferecida a V. M. I.: não, Senhor, o amor próprio não me fascina a ponto de ignorar a curta esfera de minhas luzes, e a escassez de meu talento. Mas o contar com o acolhimento benévolo, que V. M. I. costuma dar aos que se abrigam à sua egrégia sombra, me anima a dedicar a V. M. I. o meu imperfeito trabalho.      Da indulgente censura dos Sábios obterão desculpa os erros de um Cidadão Militar, que, à face do Mundo inteiro, protesta adesão ao Império, amor, e obediência a V. M. I.; protestação ingênua, verdadeiro timbre daquelas almas, que firmemente se dedicam à Grande Causa do Brasil.      Reverente beija as Mãos Augustas de V. M. I.   LUIZ D’ALINCORT Sargento mor Engenheiro. INTRODUÇÃO        DEDIQUEI o tempo, que me foi preciso empregar na jornada, que fiz, no ano de 1818, desde o Porto de Santos à Cidade do Cuyabá, em escrever o Diário da mesma jornada, notando nela a direção da estrada, que segui, as povoações, que encontrei, os Ribeiros, e rios que atravessei, e finalmente a qualidade do terreno, por onde é conduzida a dita estrada; fazendo ao mesmo tempo aquelas observações, que julguei convenientes à utilidade do objeto, a que dirigia o Diário. Dei, portanto, princípio, e fim a tão honrosa tarefa, suprindo os meus bons desejos a escassez de tempo, meios, e talentos próprios para o seu completo desempenho. O golpe de vista, o passo, e agulha; as pessoas mais cordatas das diferentes povoações, a quem consultei; algumas idéias adquiridas em diversos Autores, e o meu fraco critério, foram os únicos e verdadeiros guias do Diário, e, por conseqüência, do seu objeto, que é a presente Memória. Por ela far-se-á juízo, se não com rigor matemático, ao menos quanto baste para se conhecer da possível maneira a população, comércio, indústria, situação, e origem das Vilas, e Arraiais nascentes, e confluências dos rios, direções de serras, e particularidades dos terrenos, por onde dirigi a marcha: anexas se acham as plantas das mesmas Vilas, e Arraiais, e quatro Mapas, que mostram a direção da estrada: o primeiro pela Província de S. Paulo; o segundo pelo terreno, que ultimamente passou a formar parte da Província de Minas Gerais; o terceiro pela Província de Goyaz; e o quarto pela Província do Cuyabá até à sua Capital. Eis aqui expostos os pontos, em que versa a Memória: mas, para que o agradável não deixasse de acompanhar o útil, à mesma juntei diferentes perspectivas de terrenos encantadores, que de contínuo desafiam a atenção dos viajantes, e convidam a desenhá-los,mesmo aqueles, que para o fazerem tiverem as mais fracas luzes. (1)      Partindo da Cidade de S. Paulo, e, dirigindo a marcha a Oes-noroeste, segui, passados alguns dias, a Noroeste, chegando a tocar Nor-noroeste, e Norte: com pequenas alterações, continuei sempre no Quadrante de Noroeste, descaindo muito mais para o Norte, do que para Oeste, até chegar à Cidade de Goyaz; além da qual entrei no Quadrante do Sudoeste, e mareando mais para Oeste, do que para Sul, toquei enfim a meta da minha jornada. Do que tenho exposto se colige, que a estrada se desvia sempre da direção retilínea até à Capital de Goyaz; donde então começa a declinar para o outro extremo da reta, ou Cidade Cuyabá. Desta forma os três pontos S. Paulo, Goyaz, e Cuyabá, representam os vértices de um triângulo proximamente retângulo, e isósceles, mostrando Goyaz o vértice do ângulo reto: e é visível, que se pouparia muito em tempo, despesas e fadigas, se se tentasse aproximar à hipotenusa do triângulo à direção da es Irada, o que se não deve supor impraticável.      É bem sabido que a direção da atual estrada foi empreendida ao acaso: foi assim, que Bartholomeu Bueno penetrou aqueles vastos sertões; e foi assim que seu filho, guiado pelas fracas idéias adquiridas na companhia dele, na tenra idade de doze anos, e desafiado pelo espantoso rumor, que faziam as Minas do Cuyabá, tentou, muito depois da primeira entrada, volver ao lugar do Gentio Goyaz, até onde tinham penetrado. Porém a sua primeira expedição foi malograda; tal era o fraco conhecimento, que tinha daqueles incultos terrenos. Recobrando novo ânimo, tentou segunda, e como às apalpadelas foi formando o trilho, que depois se chamou estrada, e, com mais fortuna desta vez, completou suas esperanças, descobrindo Goyaz. Eis aqui o método imperfeito, por que se abriu a estrada de S. Paulo a Goyaz; que se algumas modificações tem sofrido, são devidas unicamente ao cuidado, e particular comodidade de seus habitadores.      Já a esse tempo existia descoberto o Cuyabá; e seus habitantes vindos também de S. Paulo, e conduzidos ali pela navegação dos rios, ambiciosos de colher o louro metal, onde em mais abundância, e com menos trabalho aparecesse, ouviram alegres a fama do descoberto em Goyaz, e dispondo-se em grande número a buscá-lo, marcharam por sertões desconhecidos até o encontrarem. É pois desta maneira, que, em 1736, se abriu a estrada do Cuyabá a Goyaz; e reunindo-se as duas neste ponto, formam a única de comunicação, por terra, de S. Paulo à Cidade do Cuyabá.      Os motivos acima ponderados provam sobejamente, que a estrada atual não segue a direção mais curta, nem mesmo a melhor; por causa dos muitos rios, e ribeirões, que é preciso atravessar, e que na Estação das águas, demoram repetidas vezes a marcha dos viajantes, sendo-lhes necessário construirem pontes, quando é possível; pois há nela ribeirões, que não as admitem pelo modo, por que são feitas; modo acomodado à força dos mesmos viajantes: e neste caso é mister esperar, que as águas diminuam. Portanto, seria bem para desejar que se tentassem meios para a abertura, e acomodada ao objeto da mesma, e que, fazendo abrir outros sertões, daria de mais a mais a vantagem de se formarem estabelecimentos novos.      As idéias, que tenho adquirido, consultando Mapas, e alguns Roteiros; e as notícias, que, em diversas épocas, foram dadas por algumas pessoas, que penetraram os mesmos sertões, me conduzem à probabilidade de ser possível abrir-se a estrada com direção muito próxima à retilínea, para o que se deverá procurar o terreno, donde partem muitas torrentes, umas dirigidas em rumo geral ao Norte, e outras ao Sul, que vão engrossar os majestosos rios da Prata, e Amazonas: o Mapa No. 1o. serve de guia.      Julgo que a estrada se poderá começar da Vila de Mugi-Mirim, na Província de S. Paulo, deixando à direita a atual, e seguindo à esquerda, a rumo de Noroeste meio Oeste, por um terreno elevado, que faz parte da dita Província, e em que há já povoadores, e algumas fazendas de gado. Este terreno forma uma espécie de Zona, fechada, ao Setentrião, pelo rio Mugiguassú, e ao Meio dia, pelo Tietê; principiando na direção das cabeceiras dos mesmos rios, e determinando no grande Paraná, onde eles confluem; havendo só a atravessar, em toda a extensão do mesmo, o pouco considerável rio Pirapitinga, tributário do Piracicaba, e este do Tietê, e o Jacaré Pipira, que também é confluente deste último. Passar-se-á depois o Paraná, à saída daquela Província; e, seguindo o rumo do Noroeste se atravessará a Província de Goyaz na ponta, que a limita ao Sul, o país dos Cayapós, que não tem mais de dois graus de trajetos; correndo, desta forma pela parte Setentrional do rio Sucuriú, tributário do Paraná, e Meridional da serra Selada, grande ramo do Sul da de S. Marta. Findo este trajeto, entra-se na Província do Cuyabá, perto das cabeceiras opostas do dito rio Sucuriú, e do Piquira confluente do S. Lourenço, e seguindo-se o mesmo rumo passar-se-á, nas suas fontes, o rio Piquiri, que também entra no S. Lourenço, e se tocaram as mais altas origens dos ribeirões, e ribeiros, que descem a engrossar o rio das Mortes, e fazem as suas vertentes. Assim atravessará o projetado caminho de S. Lourenço, e seguirá para a Cidade do Cuyabá, sem entrar no de Goyaz: e em conseqüência dos rumos gerais que tenho apontado vê-se que a direção da estrada será quase retilínea, e as idéias, que tenho do terreno, e dos poucos rios a passar, me fazem supor que as tortuosidades da mesma deverão ser muito raras, e de pequena curvatura.      Além das indicadas vantagens, oferecem-se outras para o Cuyabá; e são, ficarem os Comerciantes isentos de pagar o imposto das passagens em muitos rios da atual estrada; e os Direitos Públicos em Goyaz.      Os povoadores a um, e outro lado do imaginado caminho poderão ser de grande utilidade à navegação dos rios Sucuriú, e Piquira: navegação que, infrutuosamente, se tentou a partir do Cuyabá, sem que os exploradores pudessem descobrir a verdadeira origem do Piquira, por se enganarem com alguns ramos do mesmo rio: todavia há tradição de que ela foi felizmente executada por um homem que fugira de S. Paulo com sua família, o qual sabendo que o perseguiam, desceu o Tietê, e se meteu no Sucuriú. Portanto, julgo que deste lado se deve começar a exploração dos ditos rios; e conhecendo-se boa a navegação, em todo o caso, se deve preferir a de Camapuã, por ser muito mais curta, evitando-se a trabalhosa viagem do rio Pardo, a grande curva do Taquari, e o descer-se ao Paraguay, para se entrar no S. Lourenço: o que forma outra volta assaz considerável. A confluência do Sucuriú fica próxima à do Tietê, que faz curta a navegação pelo Paraná; o que não acontece seguindo a do rio Pardo. O Sucuriú corre do Nor-noroeste ao Su-sueste, no País dos Cayapós; chegando-se às suas cabeceiras, entra-se na Província do Cuyabá, e na mesma paragem se presume ter princípio o rio Piquira, que vai correndo a Noroeste, e depois volta a Oeste, a entrar no S. Lourenço; e navegando-se por este, águas abaixo, entra-se no rio Cuyabá.      Devo observar que as léguas, de que faço menção nesta Memória, são contadas pelos povos, e práticos do caminho; e que portanto não é possível que tenham a precisa exatidão. Para que se faça idéia clara das recíprocas distâncias de S. Paulo à de Goyaz, em linha reta, há a distância de 142 léguas de 20 ao grau; da de Goyaz à de Cuyabá 129; e desta à de S. Paulo 192, vindo por este modo a poupar-se, em direção reta, 79 léguas e muitas mais se pouparam atendendo às grandes voltas, que faz a atual estrada, como se vê nos Mapas Ns. 2.o, 3.o,4.o e 5o.      Este meu trabalho, ultimado com o possível zelo, é para aproveitar-se dele o que exprimem os versos seguintes: “Acrescenta o saber sizo ao sizudo. “Tudo ouve, o bom aceita, o mau despreza; “Porque nem tudo é bom, nem é mau tudo.           Andrad. Cam. Epist. 2a. MEMÓRIA SOBRE A VIAGEM DO PORTO DE SANTOS À CIDADE DE CUIABÁ   MEMÓRIA        EXISTE a entrada da Barra de Santos nos 24o 2’49 de Latitude Austral, e nos 331o 39’30 de Longitude do Ferro. Está colocada no centro de uma notável enseada, que faz parte da grande sinuosidade, que apresenta a Cesta do Brasil, desde Cabo-Frio até à ponta do Pinheiro, próxima à barra do Sul da Ilha de Santa Catharina: tem de largura pouco menos de uma milha; seu fundo é sobejo para navegarem as maiores Naus; pois não desce de sete, e oito braças, no baixa-mar; à direita serve-lhe de muralha a Ilha de Santo Amaro, à esquerda a terra firme, e defronte a Ilha de S. Vicente, que a faz mudar a rumo de Les-nordeste: no lado esquerdo, e direito da barra, isto é, a Leste, e Oeste, o terreno é alto, e ao Norte, na Ilha de S.Vicente, é baixo, e só algumas colinas se oferecem à vista. Marcam a entrada da barra duas pontas; a de Oeste denominada Taipú, e a de Leste a Grossa, contigua à qual, e seguindo a Costa, está a enseada do Manduba, que tem três Ilhotas na parte mais reintrante, sai detrês a mais saliente, que tem junto à pequena Ilha da Moela, nome derivado da sua configuração; passada a ponta, existe a pequena baia de Santo Amaro, que em frente tem a Ilhota das Cobras, depois a ponta da Enseada, e assim vai seguindo princípio a barra deste nome. À esquerda da barra de Santos, ou a Oeste, segue a Costa da terra firme inclinando-se ao Sudoeste sem grandes tortuosidades; a uma distância da barra pouco mais, ou menos igual à em que dista da mesma a ponta da Bertióga, demora a barra da Conceição, por onde só entram Canoas, em bom tempo. Tem a barra de Santos, na sua enseada, duas balizas naturais para os navegantes; para os que vêm do Setentrião as Ilhotas Alcatrazes, rochedos carcomidos, que acabam em pontiagudos; e assim chamadas, porque nelas criam muitas daquelas aves; distam da barra vinte e quatro, a vinte e cinco milhas com pouca diferença: da parte do meio dia existe a Ilhota chamada Redonda, ou Lage; rochedo que tira o nome da sua figura, e dista da barra vinte e sete, a vinte e oito milhas.      Os furacões de Sudoeste são perigosos nesta paragem, não se estando bem à embocadura da barra, pois obrigam as embarcações, ou a correrem para o mar, o que ainda é boa fortuna, ou a fundcarem, se elas vêm do Norte, e se acham aterradas; e neste caso fica só dependendo a sua salvação dos ferros, e amarras: porém, chegando-se a estar Leste-Oeste com a Moela, então o vento é a favor, e corre-se velozmente para dentro.      A extensão da barra, desde a sua entrada até que muda de rumo a Les-nordeste é inteiramente fustigada pelo Sudoeste, Sul, e Sueste; mas, dobrando-se a ponta da Fortaleza, na Ilha de Santo Amaro, entra-se em um ancoradouro, ao ahrigo de todos os ventos, mais estreito que a barra, e com bom fundo, entre dezenove, e treze braças, por um não pequeno espaço.      Dobrada a ponta, ainda o terreno desta ilha é alto, porém da parte oposta, ou Ilha de S. Vicente, é baixo, e só para o lado do rio deste nome estão algumas colinas de pouca monta. A curta distância da dita ponta, e do mesmo lado, fica a Fortaleza de Santo Amaro. Acima desta Fortaleza vira o rio ao Norte, e Noroeste, conservando-se assim em suas diferentes voltas, até à ponta de Santos, que o faz seguir a Oeste: seu fundo é sempre bom, nunca desce de cinco braças, e geralmente é de sete, e oito; as embarcações chegam a tocar com os gurupés nas árvores das margens, que são cobertas de mangues; o leito do rio é lodoso, e o terreno junto a ele, principalmente na Ilha de Santo Amaro, é pantanoso. O ancoradouro de Santos é muito bom; os Navios estão próximos à terra, e chegam mesmo aos trapiches, para carregar. Este rio de Santos é chamado a barra do meio, para distinção das de S. Vicente, e da Bertióga. Os rios denominados de S. Vicente, e da Bertióga, não são mais que sangradouros do laga-mar acima de Santos, e servem de limites; o primeiro à Ilha do seu nome, pelo Ocidente; e o segundo à de Santo Amaro pelo Setentrião.      O Porto de Santos é um dos melhores, e mais abrigados deste Império, o primeiro da interessantíssima Província de S. Paulo, e de um Comércio considerável. Não obstante a sua grande importância nunca se atendeu como se devia à sua defesa, e ainda que ultimamente se deram algumas providências para evadir-se a Vila de Santos dos insultos, que poderiam tentar nossos inimigos, tudo quanto se fez é obra de pouca duração, e por isso em breve tempo voltará a defesa deste Porto ao péssimo estado, em que a notei no ano de 1818, que foi o seguinte.      A curta distância da ponta de Santo Amaro, para cima, está a Fortaleza do mesmo nome, como disse, que apenas é uma bateria alta, somente com fogos diretos, e um pequeno ângulo, para o lado da ponta, com poucas canhoneiras; lado para onde o fogo se faz mais preciso, pois é a embocadura do canal. Na margem oposta há uma comprida praia, e em frente à Fortaleza um lugar aterrado, a que chamam bateria; onde construiram modernamente um reduto, que tem seis, ou sete peças, mas o parapeito acha-se bastantemente arruinado. Penso, que se não podia escolher um lugar mais impróprio para se fundar a Fortaleza: é dominada por um padrasto, que tem junto a si, por onde o inimigo se pode facilmente fazer senhor dela, pois que, desembarcando a seu salvo na praia do Manduba, marcha direito ao padrasto, que lhe não fica longe, e dá a lei ao Forte, que nenhuma defesa tem deste lado, e uma vez senhor dele, domina o lugar fronteiro, ou bateria: além disto, o Forte é mal construido, suas canhoneiras não têm as dimensões precisas, e o terra-pleno é de lajedo curto, muito mal unido, e cheio de cavidades, o que faz arruinar os reparos, e perder as pontarias, juntando-se a isto ficar o espaço de quase meio canal para o lado da Fortaleza privado do fogo de Artilharia da mesma, e o mau estado dos reparos, e das peças; e querendo-se proteger o dito espaço com a mosquetaria, ficam necessariamente muito expostos os defensores. Com a fortificação deste ponto se deixou toda a extensão da barra desde a sua entrada, que segue Norte-Sul, indefesa; e o mesmo acontece à parte da Ilha, que lhe fica fronteira, lugar de fácil desembarque, e que, a meu ver, será aproveitado pelo inimigo, que quiser surpreender Santos (como em outra época fizeram os Ingleses, e Holandeses), e ainda que lhe não seja possível permanecer no País, não deixará por isso de causar-nos graves transtornos, e despesas. Para fim tão prejudicial não há mister o inimigo gastar tempo em tomar o Forte, nem tentar a passagem junto a ele, para se expor às delongas da navegação do rio; que pelas voltas, que faz, e muitas vezes por falta de ventos próprios, retarda a viagem dois, e três dias, e ficar dependendo unicamente das marés, e mesmo as embarcações de remos não podem avançar com presteza na vasante, porque além do refluxo ordinário do mar, há a corrente d’água do rio, que por ali é mais rápida por ele ser mais estreito. Portanto, fazendo-se o desembarque junto a um pequeno ribeiro, na praia de S. Vicente, marcha-se sem obstáculo em direitura a Santos; e atrevo-me a dizer, que no estado de defesa, em que achei este Porto em 1818, dois Corsários atrevidos, tais como aqueles, que no dito ano, infestaram a Costa do Brasil, e que por mais de uma vez mostraram até que ponto chegava a sua audácia, como é notório, eram suficientes para um golpe de mão, porque alcançando conhecimento do estado da defesa de Santos, tirando língua de algum barco, que encontrassem, poderiam aproveitar-se de uma noite propícia, correr a terra, surpreender os ânimos, saquear, e embarcar-se impunemente. A natureza porém favoreceu este Porto, dando-lhe bons pontos, que se podem fortificar, dispostos em toda a extensão da barra, e defronte dela; e que, oferecendo fogos cruzados, aumentariam consideravelmente o sistema de defesa.   COSTUMES DE SÃO PAULO — (Rugendas)        À entrada do rio de S. Vicente, existe um pequeno Forte, chamado a Trincheira, que de nada serve à defesa do lugar apontado para desembarque, e não se demorando o inimigo em subir o rio para atacar Santos, também fica inútil a bateria de Itapema na Ilha de Santo Amaro, fronteira à ponta, onde o rio volta a Oeste para a Vila. Semelhante juízo formo da defesa, que oferece outro pequeno Forte, que está na Vila, colocado junto à praça do Quartel, e penso que tem unicamente a serventia de manter em respeito as embarcações do ancoradouro: sua Artilharia está em péssimo estado, as peças são de ferro, e se acham cheias de cavidades, e pelo ouvido de algumas cabe o dedo polegar, os reparos estão quase fora de serviço.      É esta a descrição verdadeira das quatro pequenas, e imperfeitas Fortificações permanentes do Porto de Santos; colocadas em pontos isolados, e por uma ignorância tão crassa escolhidos, que de modo algum podem conspirar para a defesa séria daquela Vila.      A Vila de Santos, nem é a mais antiga, nem foi a principal da Província; a de S. Vicente é a primeira, e noutro tempo mui populosa: ela deu o nome à Capitania, cujos limites foram bem diversos, dos que tem hoje a Província de S. Paulo.      O célebre Martim Affonso de Sousa, honrado Governador da Índia, foi o Fundador da Vila de S. Vicente, e Donatário da Capitania do mesmo nome. El-Rei D. João 3o. lhe deu o Comando de uma Armada, e o enviou ao Brasil a novas descobertas, com ordem de fazer estabelecimento no lugar, que achasse mais conveniente. Chegou ao Rio de Janeiro no primeiro de Janeiro de 1531, e por esta causa lhe deu o nome que ainda conserva: seguiu avante, e foi dando aos diversos lugares da Costa o nome do Santo do dia, em que os marcou, e o mesmo fez ao estabelecimento de S. Vicente, cuja Capitania foi a maior das dez, em que El-Rei D. João 3o. dividiu o Estado Brasiliense; e também a primeira, que se povoou, e com que confinava a de Santo Amaro, 4 que compreendia a Ilha deste nome, e pertenceu a Lopo de Sousa, irmão do mesmo Martim Affonso.      A Vila de Santos existe nos 23o 56’ 15 de Latitude Meridional, e nos 331o 39’ 30 de Longitude do Ferro, e na Longitude de 45o 24’ 30 de Greenwich, colocada na parte Setentrional da Ilha de S. Vicente, em um terreno chamado noutro tempo pelos indígenas Guaijanazes Enguaguaçú = (nome composto do substantivo Engua, e do adjetivo guaçú) que vem a dizer = Pilão grande = que os Índios derivaram da configuração do lugar, que lhes pareceu semelhante aos instrumentos, em que faziam as suas triturações; o qual ocupa a parte da Ilha desde os Outeirinhos até ao golfo de Caneú, com pouca diferença. Os primeiros, que assentaram casa em Enguaguaçú, foram Pascoal Fernandez Genovez, e Domingos Pires, que, formando sociedade, se estabeleceram fronteiros ao largo, que faz o rio, e onde se divide em dois: um que vai formar a barra de Bertióga, e outro a do meio: deste lugar abriram estrada por terra para S. Vicente, e assim se conservaram até 1539, em que se lhes passou Carta de Sesmaria das terras, que ficam a Leste do ribeiro de S. Jeronimo. Braz Cubas, Cavaleiro Fidalgo, possuia as terras de Gerybatiba, que estão além do rio em frente a Enguaguaçú; e por ficarem muito distantes de S. Vicente, lembrou-se de fazer estabelecimento em sítio mais azado para o embarque, e desembarque dos gêneros, que, sendo de fácil comunicação com a Vila, estivesse ao mesmo tempo próximo à sua fazenda: e para este fim comprou a um dos sócios parte dss suas terras, a qual se achava ainda coberta de mato virgem, e compreendia o Outeirinho de Santa Calharina, junto ao qual deu princípio à nova povoação em 1543; e com êle o teve igualmente a Vila de Santos, que reconhece ao mesmo Braz Cubas por seu Fundador. Foi ele que estabeleceu a casa da Misericórdia, que é a mais antiga do Brasil: ao princípio teve simplesmente o nome de Porto, querendo dizer, que, era o Porto da Vila de S. Vicente; porque bem depressa os navegantes largaram o antigo ancoradouro; e vieram desembarcar os seus efeitos à nova povoação, donde eram conduzidos por terra à Vila, o que se lhes fazia mais cômodo: o mesmo praticavam todos os fazendeiros da Bertióga, Santo Amaro, e mais terras deste lado. Assim se conservou a povoação por alguns anos, até que o sobredito Braz Cubas fundou um Hospital junto à Casa da Misericórdia, para socorro dos marinheiros, que adoeciam, e lhe deu o apelido de Santos, à imitação de um semelhante em Lisboa. Este nome bem depressa se estendeu a toda a povoação, que até hoje se ficou chamando Porto de Santos, que, pelos cuidados do seu Fundador, foi erecta em Vila, nos fins do ano de 1546. Teve o seu princípio junto ao Outeirinho de Santa Catharina, como disse, mas, pelo tempo adiante foi ficando deserto este lugar, e a Vila estendeu-se para o Ocidente, mesmo além do ribeiro de S. Jeronimo, ocupando assim um local muito inferior ao primeiro, que por ser mais baixo, e cercado de colinas, é assaz abafado, no tempo dos canículares. A esta mudança deu motivo a proximidade das fontes, e assistência dos moradores de serra acima, que procuravam sempre chegar da Vila mais perto do Cubatão, posto na fralda da serra, onde embarcavam para Santos, e desta maneira se conservou até que se edificaram os Quartéis da Tropa, atrás da Igreja Matriz. Foi Santos a poderosa rival de S. Vicente, que pela concorrência no seu Porto, comércio, e aumento de população, eclipsou todo o esplendor, de que esta se via revestida, O terreno, que a Vila ocupa, é plano, e inclinado para o lado do ribeiro de S. Jeronimo, onde as ruas são mais povoadas, e onde labora o maior comércio; elas são dispostas pelo gosto antigo com mais alguma regularidade; as menos povoadas são diretas, e espaçosas, colocadas por detrás das primeiras, estendendo-se para Leste, em direção, pouco mais ou menos, paralela à margem do rio: os edifícios são de pedra, e cal (2) , e alguns bem construídos, tem casa da Misericórdia, como já disse, um Convento de Franciscanos, um Hospício de Bentos, e outros de Carmelitas calçados; o Colégio Jesuítico é atualmente o Hospital da Tropa, tem um cáis regular, e de canteria, no qual finda uma praça mediana, ornada pela parte de Leste com o Palacete dos Excelentíssimos Capitães Generais, que também faz frente para o rio, e para a praça dos Quartéis, junto à qual há um pequeno Forte; cuja Artilharia está em péssimo estado: as peças são de ferro, e se acham cheias de cavidades, e pelo ouvido de algumas cabe o dedo polegar (3) . O Quartel da Tropa é um pouco melhor que o atual da Artilharia do Rio de Janeiro, e do mesmo modo aberto. Tem Santos um Regimento de Infantaria de Linha, uma boa parte do qual existe destacada em S. Paulo. É esta Vila o interposto de todos os objetos de exportação, e importação da Província; de Goyaz, e Mato-Grosso; ou conduzidos por terra, ou pelos rios. As produções, que descem dos estabelecimentos centrais, para sairem à barra, são açúcar, algodão, tecidos do mesmo, toucinhos, aguardentes, café, courama, fumo, e carnes chamadas ensacadas; estes gêneros são transportados, em Sumacas, a outras Províncias, com especialidade às do Rio de Janeiro, e Bahia. Os Estrangeiros levam daqui açúcar, algodão, café, e courama. Os principais efeitos de importação vêm a ser o ferro, o aço, o sal, as fazendas secas, e vinhos, e, além destes, em mais ou menos quantidade, toelos os que a Europa produz, e costumam ser exportados para o Brasil: daqui sobem a abastecer S. Paulo, e as mais povoações da Província, que, não obstante sua fertilidade, e relativamente à abundância dos gêneros, que entram em Santos, não são baratos nesta Vila, e a razão é porque a maior parte deles sendo de antemão destinados a outros lugares, não se vende, e nem se demora na terra. O clima é muito cálido, principalmente quando, no Estio, venta o Noroeste, que se torna insuportável. É a Vila de Santos a pátria do célebre Alexandre de Gusmão, e de outros Varões, que por seus talentos raros em diferentes Ciências, ilustraram os Anais da Universidade de Coimbra. É de lastimar-se que, sendo esta Vila uma das mais antigas do Brasil, colocada tão vantajosamente para o comércio, com um excelente porto, em uma das mais povoadas, e melhores Províncias do Brasil, esteja ainda tão pouco adiantada! A natureza, madrasta em outros pontos do Globo, que a arte tornou vantajosos, se prodigalizou aqui, porém tais vantagens têm sido pouco aproveitadas.      Para montar a grande serra de Paranapiacaba (4) ou do Cubatão, navega-se pelo rio acima, e a pouca distância da Vila entra-se no espaçoso golfo de Caneú, cuja passagem, sendo livre nos primeiros anos, teve depois um imposto, estabelecido pelo Excelentíssimo Capitão General Martim Lopes Lobo de Saldanha administrado por Contrato Real. Este golfo recolhe pela direita as águas dos rios Juribatiba, Quilombo, Cubatão-Mirim (5) que todos descem da serra: a parte superior do mesmo golfo, a rumo de Noroeste, é fechada por muitas, e diversas Ilhas cobertas de mangues, e nela deságua o rio Cubatão-Guaçú, que vem de serra acima: pela esquerda, tem entrada no mesmo golfo o rio Santa Anna. Este grande peso d’água descarrega no mar por três bocas: que vêm a ser, o canal da Bertióga, o de S. Vicente, e a barra do meio. Passado o golfo, navega-se por um dos muitos canais, que formam as Ilhas, e entra-se no Cubatão-Guacú, que é estreito, e suas margens cobertas de mangues, e no fim de quase quatro léguas de viagem, a contar da Vila, chega-se ao porto, e Registo do Cubatão, antigamente Cubatra, onde há um Piquete do Regimento de Santos, e um Oficial Comandante. Aqui se pagam direitos da passagem de todos os gêneros, que sobem, e descem a serra: há armazéns, onde os depositam, até que sejam despachados, para serem depois conduzidos aos lugares de seu destino. Os donos sofrem não pequeno detrimento, por causa da morosa navegação do rio, que muitas vezes é arriscada no trânsito do golfo, e sendo os efeitos, pela maior parte, carregados em saveiros, conduzidos, e governados por negros naturalmente preguiçosos, gastam em subir quarenta e oito, e mais horas fundeando logo que vasa a maré, e só aproveitando as enchentes, que são fracas neste rio, exceto no máximo fluxo do mar. Além deste motivo, também é ponderosa a frouxidão, com que se administra a descarga dos efeitos, e a demora em ficarem desimpedidos para seguirem viagem: o que bem mostra a utilidade da projetada estrada, cuja abertura principia algum tanto acima do porto do Cubatão, perto da serra, e que fará necessariamente poupar muito aos comerciantes, em tempo, trabalho, risco, e despesa, pois que, em poucas horas se acham em Santos, e com a mesma facilidade partem da Vila para montar a serra: e, em conseqüência de tais vantagens, com sumo prazer continuaram a pagar os direitos estipulados o que se pode fazer em Santos, por não demorar a marcha das Tropas, estabelecendo-se um Registo em cima, ou em baixo da serra, no qual se apresentem os despachos da Vila, e se receba a Guia das cargas, que descem para a mesma.      Seguindo-se por terra firme um espaço de quase meia légua do porto, principia-se a subir a formosa, e alcantilada serra de Paranapiacaba, ou Cubatão (nome que tem só nestes lugares), a qual faz parte dessa extensa muralha, que sustém o terreno Brasiliense pelo Oriente, e que tendo começo no rio da Prata, segue ao Norte a terminar na parte Setentrional da Província de Piauí, oferecendo espaços mais, ou menos reentrantes, e salientes para o mar, segundo a sua direção, e a da Costa. Partem dela grandes, e diversos ramos, que abraçam longos, e ricos taboleiros, em todas as Províncias marítimas, compreendidas nos mencionados pontos da Prata, e Piahui. Esta grande cordilheira é aberta em várias partes, cujas falhas preparou a natureza para darem passagem livre a muitas torrentes, que vão confundir-se no Oceano.      A subida da serra é assaz íngreme, e em ziguezague; o terreno é todo coberto de alto, e espesso arvoredo: em alguns pontos passa a estrada junto a medonhos precipícios que se abrem entre monte e monte, e horrorizam a vista: tem este caminho a grande vantagem de ser todo calçado, obra utilíssima, e que saneou a dificuldade do trânsito principalmente em tempo chuvoso.      Chegando-se ao ponto mais alto do caminho, chamado o Pico, e volvendo os olhos ao Oriente, se lhes apresenta um dos mais encantadores, e variados quadros, em que parece se esmerou a Mão Onipotente, dali se descobrem muitas lêguias de mar, até representar confundir-se com a Celeste abóbada: a Costa Atlântica, as diferentes Ilhas, que a ornam, os montes, e colinas próximas à barra de Santos, e as praias são os mais remotos pontos, que enriquecem tão interessante quadro: nota-se depois a Vila de Santos, os rios, e ribeiros, que, serpenteando, cortam o terreno por diversas, e agradáveis maneiras; um lindo verde de copadas árvores, já frutíferas, já silvestres, matiza a superfície de tão delicioso painel; mais próximos se avistam os multiplicados canais do grande laga-mar, que parecem espaçosas ruas, dividindo formosos canteiros de um elegante jardim, desta forma se finaliza o país, na concavidade que faz a serra para o Nascente. O pico é o lugar onde se despedem de ver o mar os que se destinam a entrar nas Províncias centrais: é neste ponto, que sensivelmente se conhece a extraordinária diferença do nível, entre o alto da serra, e a superfície do Oceano. A pouca distância do mesmo ponto de vista, caminhando para S. Paulo, tudo desaparece, e outros objetos começam a entreter os olhos. O primeiro Português que subiu a estes elevados terrenos, anos antes da chegada de Martim Affonso, foi o célebre João Ramalho, que prestou ao Donatário serviços relevantes, reduzindo o mais poderoso dos Caciques, chamado Tebireçá, seu sogro, a contratar paz, e amizade com os Portugueses na ocasião, em que estavam para serem atacados por muitas tribus indígenas. Deste lugar segue a espaçosa estrada em rumo geral ao Noroeste, e se dirige por um plano suavemente inclinado; o qual só é interrompido em algumas partes por pequenas subidas: novas florestas se encontram e depois de ter-se passado pelas fraldas de alguns morros, chega-se a largas, e vistosas campinas, que se estendem a perder de vista; alguns montes se descortinam, e poucos são os moradores da estrada até à vizinhança da Cidade, em que se entra pela parte do Oriente. (6)      S. Paulo, Cidade episcopal, assento do Governo da Província do mesmo nome, está situada em um terreno um pouco elevado, e cercada de belos, e dilatados campos, na Latitude Meridional de 23o 33’, e na Longitude Ferro de 331o 25’, (observações do Astrônomo Francisco de Oliveira Barboza) e nos 23o 15’ de Latitude, e 33o 50’ de Longitude, conforme Mr. Eschard, e pelo grande Mapa publicado em Londres, em 1811, segundo as últimas observações Astronômicas de 1810: fica a Oeste do Meridiano de Greenwich 46o 36’: a Oes-sudoeste da Corte do Rio de Janeiro 70 léguas geográficas: ao Noroeste de Santos 11 para 12: ao Sudoeste quarta de Sul da Bahia de Todos os Santos 277: e ao mesmo rumo de Pernambuco 400: ao Sul quarta de Sueste do Pará 444 léguas: e ao Sul quarta de Sudoeste de S. Luiz do Maranhão 436: ao Sudoeste de Villa Rica (7) 86: ao Nordeste de Porto Alegre 167: ao Nordeste quarta de Norte de Montevidéo 297: ao Sul meio Sueste de Goiaz 142: ao Sueste quarta de Leste, da Cidade de Mato-Grosso 300: e finalmente ao Sueste da Cidade do Cuiabá 230 léguas.      Está a Cidade de S. Paulo debaixo de um sol sereno, 350 braças acima da superfície do Oceano; o clima é excelente, o terreno fertilíssimo; produz em grande cópia as canas de açúcar; é muito próprio, em diversos lugares, para a plantação do trigo; abunda em milho, e toda a qualidade de legumes; muitas frutas da Europa, e outras diversas, e preciosas produções. O açúcar forma o principal ramo de exportação; e, além de todos os mais gneros que mencionei tratando do Comércio de Santos, não se deve omitir a extração das bestas muares para muitas Províncias, o que faz um ramo assaz lucroso; assim como o gado que sai para a Corte. É a Cidade cercada de quintas, ou chácaras, que embelecem os seus subúrbios; é muito farta d’águas, e as do Rio Tamandoatei são excelentes; este corre ao Oriente, e o ribeiro Hynhangabahú ao Ocidente; os quais unindo-se vão confluir no Tietê, que passa a meia légua de distância, pela parte do Norte.      Tem esta Cidade todas as proporções para o estabelecimento de uma Universidade; o baixo preço dos gêneros, a abundância deles, a salubridade do ar, a temperatura do clima, as poucas distrações, que se oferecem, finalmente tudo parece conspirar a preferir este a outro qualquer sítio para a cultura das letras.      Não obstante estar a Cidade de S. Paulo tão próxima à zona tórrida, o inverno faz-se ali demasiadamente sensível; pode ser que o que para isto influi mais seja a grande altura do local, o ser plano o terreno, e a fresquidão da atmosfera, assaz lavada dos ventos. É esta Cidade inteiramente aberta; todavia a serra do Cubatão lhe serve de um formidável baluarte, e a põe a coberto dos insultos, que o inimigo possa tentar, pela parte do mar; pois que pequenas forças, bem dirigidas, destruirão grandes corpos, que tentem subir a serra: pelo lado do interior, não temos que recear. As ruas de S. Paulo são calçadas, espaçosas, e boas; os edifícios são de taipa, e como a terra tem grande tenacidade, e é bem pilada, duram muitos anos, e adquirem uma tal consistência, que é preciso usar-se de alavancas para se derribarem as paredes: tem várias pontes de pedra, e outras de madeira; algumas praças regulares: três conventos, um de Beneditinos, outro de Carmelitas, e o terceiro de Franciscanos: dois Recolhimentos de mulheres, várias Igrejas, e Ermidas, casa de Misericórdia, e três Hospitais; é residência do Exm.o Capitão General, de um Ouvidor, e de um Juiz de Fora: tem Professores Régios de Primeiras Letras, Gramática Latina, e Filosofia. O povo está dividido em duas freguesias, a da Catedral, e a de Santa Ifigênia: o Convento, que pertenceu aos Jesuítas, é hoje o Palácio do Governo. As rendas da Província são de sobra para a sua despesa, o que faz andarem os pagamentos prontos em dia.      Os Paulistas são trabalhadores, espirituosos, robustos, afáveis, generosos, e bastantemente polidos; são dotados de talentos próprios para grandes coisas, assim os pudessem cultivar. DESCRIÇÃO HISTÓRICA        Deve a Cidade de S. Paulo a sua origem aos desvelos, e cuidados dos Jesuítas. Os primeiros, que viu o Brasil, vieram em 1549, na companhia do Fundador da Cidade da Bahia, e primeiro Governador Geral, Thomé de Souza; e à testa deles, em qualidade de Superior, veio o virtuoso Padre Manoel da Nobrega, que, em Novembro do mesmo ano, mandou para S. Vicente, a fundar o segundo Colégio da sua Ordem, que teve este Império, ao Padre Leonardo Nunes: que passando depois aos campos de Piratininga, conseguiu dos pais de famílias Indígenas muitos mancebos, com os quais desceu a S. Vicente, e junto ao Colégio fundou um Seminário, para instrução, e católico (*) proveito destas almas. Veio depois o Padre Nobrega visitar S. Vicente, onde se achava quando lhe chegou a Patente de Provincial do Brasil, a cuja dignidade o elevou Santo Ignacio de Loiola, Fundador da Ordem Jesuítica, e a sua primeira, e mais notável ação, foi ordenar que o Colégio se mudasse da Vila para o Campo (8) ; assim chamavam ao terreno de serra acima, ficando nela tão somente os Religiosos precisos para administrarem os Sacramentos aos Cristãos Navegantes. Já neste tempo existia no campo a povoação de Santo André; mas nem este lugar, nem a Aideia de Tebireçá, ou de Piratinitiga, agradou aos Padres para o seu estabelecimento, e escolheram um lugar eminente, entre o Rio Tamandoatei, e o ribeiro Hynhangabahú, onde formaram a sua morada. Para aqui concorreu o Cacique Martim Affonso Tebireçá, com os Índios seus subordinados, largando a pátria de seus ascendentes: e igualmente o velho Índio João Cay Uby, senhor de Geribatiba: e por uma forma tão diametralmente oposta à da antiga Roma, e de outras Cidades, que mui célebres se tornaram, teve princípio a de S. Paulo: porque aqui só se cuidava na instrução, e conversão das almas, infundindo-lhes os sagrados princípios da Santa Religião, e os da sã Moral. Tão lisonjeiros começos pareciam formar em S. Paulo um povo virtuoso, porém a maldade dos homens sempre inclinada a opor barreiras às mais bem intencionadas obras, obstou a esta, como adiante se verá. O principal Fundador de S. Paulo foi o venerável Padre, José de Anchieta (9) , da Companhia de Jesus, por antonomásia o Apóstolo do Novo Mundo: estabeleceu-se, com os seus novos convertidos, em um lugar toscamente aberto na terra, e coberto de palha; o qual só tinha quatorze pés de comprido, e dez de largo, pobre choupana, que servia de dormitório, escola, e cozinha; assim o escreveu ele mesmo a Santo Ignacio (10) . Pouco depois chegaram a este asilo da paz mais doze jesuítas, à testa dos quais vinha o Padre Manoel de Paiva, e unidos a Martim Affonso Tebireçá, que morava onde está hoje o Mosteiro de S. Bento, construíram uma limitada casa, e a ela contígua uma Igreja, na qual celebravam a primeira Missa a 25 de Janeiro de 1554, e por ser o dia dedicado à memória da conversão do grande S. Paulo, ficou tendo este nome a nascente povoação, cujos habitantes cresciam todos os dias; e os Missionários congratulando-se de verem muitos filhos dos gentios aprenderem gostosos as lições de Doutrina Cristã, da língua Portuguesa, e Latina; aprendiam também deles a língua Tupinambá, universal na Costa do Brasil; devendo-se ao Reverendo Anchieta a primeira Gramática da mesma língua e um vocabulário. Bem depressa se declarou rival de S. Paulo a Vila de Santo André, que existiu três léguas distante dela, onde está hoje a fazenda dos Padres do Carmo, tendo por fundador João Ramalho, da qual era Alcaide Mor, e o mais poderoso, e respeitado do lugar. O povo desta Vila compunha-se, na maior parte, de Mestiços, e Mamelucos, (assim chamavam aos filhos de Europeus com Índias) e de muitos homens facinorosos, que assombrados com o facho da verdade, que os Jesuitas pregavam, e virtudes, que exerciam, o que era oposto à sua danosa ambição em escravizar os Indígenas, declararam-se inimigos dos Padres, e por todas as maneiras procuraram desacreditá-los com os Índios, e se esforçaram em tolher os progressos da nova povoação. Com o fim de dissipar o mal, recorreram os Missionários ao Bispo da Bahia, D. Pedro Fernandes Sardinha (o primeiro do Brasil); o qual querendo dar pronto remédio a tais calamidades, procurou o auxílio do Governador Geral do Estado, D. Duarte da Costa, e não o achando propício às suas justas intenções, nasceram daqui as controvérsias, desgostos e transtornos (sempre prejudiciais ao Serviço do Soberano, e do Estado, mormente quando acontecem entre as primeiras Autoridades), que deram causa a partir o Bispo para Lisboa, e sofrer o naufrágio na enseada de Vaza-barris, e o martírio nas mãos dos bárbaros Caetés, aos 25 de Fevereiro de 1556.      Durante estes acontecimentos, continuava em S. Paulo a ser combatida a virtude Evangélica, e o partido oposto ia crescendo, esforçando-se para dominar; e assim duraram as contendas, até que os Jesuítas alcançaram a vitória, que deveram aos cuidados do Provincial Nobrega; o qual fez valer também as suas razões para o Governador Geral, Mém de Sá, que o reduziu finalmente, em 1560, a extinguir a Vila de S. André, e a passar-se o Pelourinho para S. Paulo, colocando-se em frente do Colégio; e neste mesmo ano entrou a povoação na classe das Vilas, com o nome de S. Paulo de Piratininga, título que conservou até ao ano de 1712, em que foi condecorada com o foro de Cidade, ficando-lhe só o nome do seu Padroeiro; e finalmente em 1746 teve a preeminência de Episcopal (11) .      Consideravelmente crescia a população de S. Paulo: muitas famílias nobres de Portugal ali vieram estabelecer-se, e em poucos anos começaram a aparecer grossas casas, que possuíam muitas terras, e numerosa escravatura. Foram os Paulistas os exploradores de centenários de léguas do Sertão, e os descobridores de muitas, e ricas minas; tais como as Gerais, de Cuiabá, Goiaz e Mato-Grosso. Os antigos Paulistas eram generosos, porém demasiadamente altivos, e cheios de orgulho; picavam-se muito de nobreza, e por isso estavam prontos sempre a dar suas filhas em casamento a qualquer Português pobre, que chegasse a S. Paulo, contanto que mostrasse primeiro que era nobre; e esta mania de tal sorte os ocupava, que, por mais de uma vez, requereram a Sua Majestade Governadores da primeira grandeza do Reino. A vingança entre eles foi levada a extremo, fazendo-os muitas vezes atropelar as Leis, e o respeito devido aos Governantes; pegando em armas, e formando partidos, que chegaram mesmo a derramar muito sangue; como se viu nas suas guerras civis. A obstinação de dois Chefes de famílias, Pires e Camnargo, querendo cada um ocupar exclusivamente os Cargos da República: a concordata, que entre eles se fez, e se confirmou para que os ditos Cargos fossem exercidos por igual número de pessoas de ambas as famílias, mostram bem quanto o seu poder era temido naqueles tempos. Não ficará em silêncio a notável antipatia entre os Taubateanos, e os Piratininganos, que tantas desordens causou; assim como a guerra entre os mesmos Paulistas, e Europeus, no princípio da mineração de Minas Gerais: a célebre campanha de 1631, cujo resultado trouxe tão grandes vantagens ao Brasil, faz época memorável nos Anais da Monarquia. Nesta campanha, os Paulistas, apesar de estar ainda Portugal infelizmente sujeito ao Governo de Espanha, fizeram uma cruenta guerra aos espanhóis estabelecidos nas dilatadas Províncias de Guairá, Itay, e Tapé; destruindo-lhes a Cidade de Xerés, Villa Rica, e outras povoações, que os Jesuítas espanhóis tinham fundado, entrando a largos passos pelos domínios Brasilienses; e se eles continuassem com prosperidade não teriam os portugueses desfrutado as ricas minas de Cuiabá, Goiáz, e Mato-Grosso, donde saíram tantas centenas de arrobas de ouro.      A partir de S. Paulo, e tomar a estrada geral, atravessa-se a ponte do Lorena, e logo entra-se na Cidade nova: a rua é larga, e por ela vai-se suavemente subindo até ao Pico, onde existe uma Ermida de N. S. da Consolação: aqui finda a Cidade, e na mesma direção da rua principia a estrada que vai para Itú, e Sorocaba, a rumo de Les-nordeste. A poucos passos do Pico, para o lado direito, a rumo de Oes-noroeste, tem princípio a estrada de Minas Gerais, Goiáz e Cuiabá: não distante está uma pequena ponte de pau no sítio denominado Pacaembú; imediato passa-se o rancho, e ribeiro d’Água-branca, e a estalagem do mesmo nome, que é de gosto sertanejo. Na distância de quatro léguas, pouco mais, ou menos, para a direita, estende-se a serra de Juqueri, em direção quase paralela à estrada: um pouco mais adiante segui ao Noroeste o caminho da Freguesia de N. S. do Ó, por me dizerem ser mais curto para Jaraguay; este caminho torna-se impraticável no tempo das águas, por ser conduzido por uma vargem inundada pelas cheias do Tietê, que chegam muito perto do sítio, em que está a Igreja. Tem o mesmo caminho alguns espaços aterrados, e com arbustos, de um e outro lado para susterem a terra; mas tão estreitos, que duas bestas carregadas não podem passar uma a par da outra. Há por aqui sofríveis pastos, e algum gado: e louco além se atravessa o Tietê, por uma ponte de madeira em péssimo estado de serviço. A volta que faz o rio nesta paragem, segue o rumo de Oes-noroeste, e o caminho vai ao Noroeste; adiante está a Igreja de Nossa Senhora do Ó, colocada em uma colina com o frontespício para S. Paulo, donde dista légua e meia; o estado de ruína, em que se acha dá logo a conhecer a pobreza do povo, que chega a mil e duzentas almas de confissão, suas fazendas, e moradas são distantes umas das outras, e somente há um pequeno número de casas perto da Igreja. Do cimo do monte, em que ela está fundada, se desviam muitas outras colinas, e campos aprazíveis; ao Sueste quarta de Leste, a Cidade de S. Paulo; e mais à direita deste rumo o giro tortuoso do rio Tietê, que assim corre até a ponte denominada do Coronel Anastácio; onde principia a ser mais regular. Os habitantes desta Freguesia cultivam a cana de açúcar para extraírem aguardente, o que forma o principal ramo do seu negócio; colhem café, mandioca, algodão; plantam milho, e legumes, quanto baste para o seu consumo.      Pouco mais de um quarto de légua distante da Igreja entra-se na estrada geral; o terreno tem algumas inclinações, é seco e geralmente calvo; somente se observam curtos arbustos, e muitas pirâmides feitas de terra, e algumas quase da altura de um homem, fabricadas pelo cupim (12) . Perto do sítio do Tenente João Pinto Guedes, o terreno é mais irregular. Este homem existe aqui há vinte anos, e tem de idade setenta, conservando-se ainda muito robusto, e trabalhador; vive das suas plantações, principalmente da cana de açúcar, de que faz aguardente; a sua morada perto do morro de Jaraguay, a três léguas da Cidade: aqui o terreno é cortado por montes, e vales, alguns cobertos de arvoredo; as águas são boas, e abundantes e assim os pastos: os moradores criam gado vacum, e mandam diariamente vender à Cidade grande porção de leite: sustentam-se de legumes, fazendo maior uso do feijão: comem o milho branco cozinhado em água, e sal, a que chamam canjica; o seu pão é a farinha de milho: para a fazerem lançam o grão de molho até fermentar, pilam-no depois, e torram a farinha; a qual, deitada em água forma uma bebida, a que chamam jacuba, que tem por muito saborosa, e fresca; fazem uso do leite, do toucinho, e de alguma carne salgada ou seca, mas não todos os dias.      Seguindo deste lugar para a Vila de Jundiahy, a estrada vai formando, a rumo geral Oes-noroeste, diversas curvas, subidas e descidas, mais, ou menos inclinadas, segundo a forma dos montes, por onde passa, corre pela direita do morro de Jaraguay, e no lugar, em que este lhe fica ao Sudoeste, avista-se a Cidade a Oes-sudoeste. Continuando-se a jornada por um caminho mnais regular chega-se ao sítio de Juquirí, que tira o seu nome do rio, que por ali corre, onde só há dois moradores, um d’aquém, outro d’além do rio, que se passa por uma ponte de madeira, já arruinada. A estrada corre neste lugar de Les-sueste a Oes-noroeste, o rio ao Sul-sudoeste, e vai confluir no Tietê, abaixo do rio Parnaiba; aquele pela direita, e este pela esquerda. A curta distância deste sítio, na descida de um monte aparece granito a um, e outro lado da estrada; a qual vai seguindo por um terreno, em partes avermelhado, e noutras amarelado, notando-se em algumas paragens bancos de pedra arenosa da mesma cor: os bosques são de pequena altura, e os troncos das árvores delgados. Adiante entra-se em um sítio chamado o Félix, onde há um pouso Reiuno, (nome posto pelos Arrieiros, ou Tropeiros, por ser construído à custa do Estado) e só três moradores, à esquerda; e pouco depois outro denominado os Cristais, onde a estrada segue ao Norte, por formar uma curva. São poucos os moradores neste lugar, e geralmente pobres; as mulheres vestem-se de baeta, e pano de algodão tecido por elas; pois é rara a casa, em que não haja um pequeno tear. No progresso da jornada, o primeiro pouso, que se encontra, está no sítio chamado o Prestes, do qual para diante segue a estrada quase sempre bordada de arvoredo; e o primeiro morador, passado o Prestes, é o do sítio denominado o Campinho, que fica à direita da estrada, à qual, nesta paragem, e pela esquerda, vem unir-se a de Parnahyba. Imediato passa-se um ribeirão de cristalinas águas, e entra-se em um bosque espesso, impenetrável aos raios do Sol (13) ; e aonde aqueles principia a abrir, atravessa-se o lindo ribeirão das Pedras: assim chamado por correrem as suas saborosas águas por cima de seixos, e calhaus, de que é coberto o seu leito; e continuando-se a marchar, por bom caminho, chega-se à Vila de Jundiahy.      Jundiahy, pequena Vila na Latitude de 23o 6’40 e longitude de 46o 57’ a Oeste do Meridiano de Greenwich, menos de uma milha distante da margem esquerda do rio Jundiahy-Guacú, que lhe passa ao norte, e vai desaguar no Tietê, quatorze, para quinze léguas distante da direção, em que este rio corre próximo a S. Paulo; está colocada ao longo do cabeço de um monte, dez léguas ao Nor-noroeste desta Cidade: o monte tem suave declive até ao vale, que lhe fica ao Sudoeste; para o lado oposto a inclinação é mais áspera; as ruas são alinhadas, e largas, dispostas paralelamente umas às outras; todas as casas construídas de taipa e terras, à exceção de duas moradas, a maior parte delas são cobertas de telha vã, e guarnecem as ruas com muita irregularidade em suas frentes, e alturas: a rua direita está no ponto mais elevado, disposta ao longo do cabeço do monte; depois segue-se a do meio, e são as mais povoadas; à rua do meio segue-se a nova, e a esta a da Boa Vista, que é mais baixa, e a menos povoada; a qual tem grandes espaços tapados com muros de taipa, e outros inteiramente abertos. Há nesta Vila três Igrejas; a Matriz, da invocação de Nossa Senhora do Desterro, colocada quase no centro da Vila, com uma pequena praça na frente; a de Nossa Senhora do Rosário, situada na extremidade da parte de S. Paulo e a de S. Bento, no outro extremo, havendo entre esta, e a Vila, um comprido largo coberto de pequenos arbustos. Foi Jundiahy no seu princípio uma Freguesia, erecta há perto de cento e oitenta anos: tira o nome do rio Jundiahy, e estes dos peixes chamados Jundiás, a cuja palavra juntando-se-lhe o y, que tendo na linguagem Indiana a pronúncia de ú francês, quer dizer rio, assim os dois substantivos formam um só nome que exprime rio de Jundiás, ou rio em que há Jundiás. É esta Vila pouco povoada, porque grande número de seus moradores, se aplica à cultura das terras; principalmente no tempo dos roçados para as plantações: e outros saem por camaradas, e arrieiros das diversas tropas; que ali se arranjam do preciso, para seguirem jornada; e em que se empregam, todos os anos, de oitocentas a mil bestas, o que forma um mui útil ramo de negócio destes habitantes (14) . O açúcar, aguardente, e toucinho são os principais gêneros de exportação: colhe-se milho em quantidade, arroz, legumes de várias qualidades, e especialmente feijão: fazem farinha de mandioca; plantam algum trigo, e criam gado vacum, e cavalar. Há no Termo perto de quarenta engenhos, entrando neste número os de aguardente, situados pela maior parte na serra de Japí, cinco léguas distante, que corre do Nordeste, ao Sudoeste, e fica ao Sueste da Vila: é o melhor local de todo o Termo para produzir a cana. Ao rio Jundiahy-Guaçú se vão juntar os ribeiros Quapéba, e Mangabaú, que atravessam a estrada geral; e passam junto à Vila. Uma grande parte de seus habitantes tem os pescoços defeituosos por causa da moléstia, a que vulgarmente chamam papos, que ataca as pessoas de ambos os sexos, e até de menos idade; julga-se que esta moléstia provém da qualidade das águas.      Na noite de 6 para 7 de Setembro, estando eu aqui de pouso, às 11 horas pouco mais, ou menos, houve um tempestuoso furacão, que se fez notável pelos seus efeitos: a trovoada foi horrível, e, entre os muitos raios que ofenderam a terra, um caiu sobre a Matriz, o impetuoso vento arrancou telhas, derribou algumas casas, e fez grande estrago nas plantações, e arvoredos: disseram alguns velhos do lugar, que não se lembravam de ter havido um temporal semelhante nos seus dias.   POUSO DE UMA TROPA — (Rugendas)        De Jundiahy segue o caminho no prolongamento da rua direita, e toma por detrás de S. Bento em ladeira, pelo declive, que tem o monte, que termina no rio Jundiahy-Guaçú, que se passa por uma ponte estreita, construída de madeira e corre nesta paragem do Nor-noroeste, ao Sul-sudoeste: junto a ele, da parte da Vila, há seis pequenas moradas de casas (15) ; e a este sítio dão o nome da ponte: a estrada vai a Oes-noroeste plana, e coberta de arvoredo. Pouco adiante passa-se o ribeiro, que chamam a Fonde (**) do Aterrado, e quase duas léguas distante da Vila, se desce a um vale, onde há dois moradores próximos à estrada, e o pouso chamado da Oliveira. Deixado este sítio, o primeiro morador, que se encontra, à esquerda do caminho, que vai continuando coberto de arvoredo, e plano, é o Capitão Felisberto: deixa-se depois outro morador, à direita, e finalmente chega-se ao rio Capivary, que tem as suas cabeceiras perto de S. João de Atibaya, e deságua no Tiête, quinze léguas abaixo da confluência do rio de Jundihay, que sai igualmente dos mesmos montes. (16) O rio Capivary tira o nome de capivara, do y com pronúncia de u francês, como já disse, o que exprime, na língua indígena, rio de capivaras. (17)      Na passagem de Capivary contam os moradores meia jornada da Vila de Jundiahy, à de Campinas: o rio corre, neste lugar, ao Sudoeste: junto a ele há um pouso, ou rancho (assim chamam a uns telheiros levantados em certas paragens, em que se abrigam as cargas das tropas) e uma casa, em que, nesta ocasião havia um grande número de pessoas, de ambos os sexos; por ser costume juntarem-se muitos para o trabalho a que chamam muchiron na linguagem indiana; e assim passam de umas a outras casas, à medida que vão findando as tarefas: o trabalho consiste em prepararem, e fiarem algodão, e fazerem roçados para as plantações. Desta sorte se empregam a gente pobre, nos meses de Setembro, Outubro e Novembro; e as noites passam-nas alegremente com seus toques, e folias.      Além deste sítio, o terreno é mais irregular; porém para produzir melhor do que até ao rio. Há na estrada várias subidas, e descidas, e é descoberta por causa dos roçados; as árvores são mais corpulentas, do que as que ficam do rio para Jundiahy, que geralmente são de troncos delgados, formando densos bosques. Por toda a estrada se divisavam os terríveis efeitos do temporal, de que fiz menção, que até chegou a derribar árvores de extraordinária grossura: algumas das quais ficando atravessadas no caminho, obrigaram a abrir veredas por entre o mato, para se poder passar. Continuando-se a jornada, o caminho entra a ser coberto; adiante há uma baixa, onde aparece granito, e depois de subida uma ladeira íngreme, desce-se a um vale, além do qual está o sítio chamado a Rocinha, em que existem aiguns moradores, apartados uns dos outros, tanto à direita como à esquerda do caminho, que segue nesta paragem ao Noroeste. Passado o sítio do engenho seco, que ainda pertence ao lugar da Rocinha, está o ribeirão de Jurubatuba, e seus moradores em pequeno número, e a curta distância deste sítio, se encontram mais alguns, debaixo da mesma denominação. As águas destes ribeirões, e ribeiros, todas vão ao Tietê, entrando nos diferentes rios Jundiahy, Capivary, e Atibaya, que a ele vão desaguar. Adiante estão os poucos moradores do sítio chamado os Dois-Corvos; e perto deste lugar passa-se o ribeirão da Ponte-Alta, que é formada de pranchões, e próximo a ela está o rancho do Pinheiro, além do qual sobe-se uma ladeira alcantilada, que, em tempo de chuva, se torna quase impraticável, por ser de um barro muito escorregadio, e depois desta passam-se mais duas, e o vale do Coronel Luiz Antônio, seguindo a estrada ao Noroeste, a Oes-noroeste, até que enfim chega-se à Vila de Campinas.      S. Carlos de Campinas é Vila ainda pequena (18) , situada em uma alegre planície, na Latitude Austral de 22o 50’, e Longitude de 47o 20’ de Greenwich, 18 léguas ao Noroeste de S. Paulo; o terreno que a cerca, a curta distância, é algum tanto mais elevado, representando à vista a forma circular, todo coberto de curto, e espesso arvoredo. Foi S. Carlos ao princípio uma Freguesia, pertencente ao Termo de Jundiahy; depois, pelos poderes, que vieram ao Governo da Província, foi criada Vila, no dia 4 de Novembro, e proclamada tal em 14 de Dezembro de 1797, com o título de S. Carlos, em comemoração do Augusto Nome da Rainha, a Senhora D. Carlota Joaquina. Antes de ser Vila, constava somente de nove moradas de casas, hoje chegam estas a mil, e a seis mil almas a população de toda a Freguesia (em 1818), cujo Orago é N. S. da Conceição. A Igreja, que foi erecta em Freguesia, e em que se celebrou a primeira Missa, no ano de 1776, está bastantemente arruinada. É Vigário atual dela O Reverendo Joaquim José Gomes, que serve, há 22 anos; homem muito cuidadoso em seus deveres, e dotado de alguns conhecimentos, além dos que são privativos do seu Ministério: com ele contam-se dez Vigários. A Vila estende-se do Sueste quarta de Sul, ao Noroeste quarta de Norte, e, à esquerda da rua da entrada, é lindo o local para se continuar a mesma. No lugar marcado na Planta com uma cruz, projeta-se edificar um novo Templo. O terreno para a direita da rua do comércio, e para além da segunda rua, por detrás da Matriz, declina suavemente até ao ribeiro, que fica próximo e corta a estrada à saída da Vila, o qual se passa por uma ponte de pranchões; e a poucos passos, subindo-se uma ladeira pouco inclinada, existe o Bairo (***) de Santa Cruz, formado de algumas casas em torno de um largo (19) , e uma Ermida na frente.      As ruas de S. Carlos são direitas, e de boa largura, mas não guarnecidas de casas, em toda a sua extensão; por haver nelas repetidos espaços murados; principalmente nas ruas extremas à direita, e esquerda, e na segunda por detrás da Igreja. As casas são térreas, exceto uma propriedade; em geral de telha vã, e construídas de taipa. A cadeia é um pequeno edifício velho, com grades de pau, e a Casa da Câmara é pouco melhor, uma grossa estaca de madeira toscamente lavrada, com a Era, em que foi erecta a Vila, forma o Pelourinho, que está no largo da Matriz.      O açúcar faz o primeiro, e mais considerável ramo de exportação, que monta a cem mil arrobas, por ano; a aguardente o segundo: abunda em milho, feijão, arroz, capados, e outros gêneros, de que, depois de deduzido o preciso para consumo do país, o restante, que monta a quantidade não pequena, vai abastecer S. Paulo, Itú, e Sorocaba. Tem muito boas frutas; como figos, uvas, limões doces, limas, pêssegos, laranjas, jaboticabas, melões, melancias, ananazes, algumas silvestres, e o terreno é apropriado para a cultura de muitas outras, se não obstasse a isso a incúria dos habitamites. A escravatura forma o principal ramo de importação, depois o sal, ferro, aço, gado, e outros gêneros em menor quantidade.      Geralmente sustenta-se o povo de feijão, toucinho, carne de porco, arroz, e milho. Os preços correntes das produções do país são os seguintes – o açúcar em 1817, regulou a 1280 réis a arroba: o alqueire de feijão a 400 réis; o de milho a 160; o de arroz a 320; os capados de quatro arrobas a 3200, os lombos frescos a 160; as galinhas a 80 réis, &c. (20)      Todo o terreno de Campinas é ótimo para a plantação da cana; de maneira que, há doze anos a esta parte, tem se conhecido um aumento considerável na exportação do açúcar. O lugar chamado Anhumas (21) tem a primazia entre os mais para a dita plantação; basta dizer-se que, a perto de sessenta anos, que recebe a planta, sem que tenha sido preciso deixar-se o terreno em descanso, por se não conhecer o menor abatimento na produção: tal é a sua força! Tem o terreno todo de Campinas a grande vantagem de não ser minado pelas formigas, que são fatais às plantações, em outros muitos lugares da Província. Há no termo desta Vila sessenta engenhos, contando os do fabrico de aguardente; quinze dos quais são movidos por água; e outros muitos se podem levantar por esta maneira cômoda. O principal senhor de engenho é o Coronel de Milícias Luiz Antônio, morador em S. Paulo (22) , homem ajudado pela fortuna de um modo espantoso, e que possui uma das mais sólidas casas do Brasil; só ele, em Campinas, tem dezesseis engenhos, um dos quais lhe rendeu em 1817, nove contos de réis; a sua colheita anual não desce de trinta mil arrobas de açúcar, e a renda da sua casa anda em oitenta mil cruzados. Além desta, existem outras de bons fundos. A do Coronel Francisco Antônio de Sousa anda de dez, a doze mil arrobas, em cinco engenhos, quatro dos quais são próprios. A do Sargento Mor Floriano de Camargo Penteado chega a oito mil arrobas em dois engenhos. A do Capitão Theodoro Ferrás Leite de três, a quatro mil; e outras muitas deste lote: de maneira que se podem regular vinte engenhos a três mil arrobas cada um. O terreno é próprio, tanto para a cana miúda, como para a de Caiena: contudo fazem mais uso desta última, que chega a dez, e doze palmos de alto. Apesar do grande número de arrobas de açúcar, que se extraem de Campinas, a cultura deste fertilíssimo, e delicioso país deve reputar-se nascente ainda há léguas, e léguas de terreno inteiramente coberto de mato virgem; e o mesmo se vê em muitas sesmarias, que deixam de ser cultivadas, pela falta de forças de seus donos.      São grandes as proporções que tem S. Carlos para ser uma Vila opulenta; além da admirável posição, que ocupa, e da fertilidade do terreno; respira-se ali um ar puro, goza-se de um clima sadio, e de belas águas; e finalmente ainda se não tem conhecido uma só moléstia endêmica. Os Senhores de engenho compõem a classe principal da terra; são homens assaz polidos, e de agradável trato; entre eles há um notável, o Capitão Mor João Francisco de Andrade, por sua altura, e extraordinária gordura, que o priva de montar a cavalo: e outro, por nome José Rodrigues do Amaral, dotado de muitos bons princípios de Geometria, e até de alguns de Hidráulica.      O rumo geral da estrada para a Vila de Mugi-Mirim é Norte: ainda perto da Vila desce-se a um pequeno vale, e passa-se o ribeiro Lapa-pés; a estrada vai seguindo em partes coberta de arvoredo, e noutras descoberta; e por ser o terreno algum tanto irregular, se encontram algumas pequenas subidas, e descidas. Meia légua distante de S. Carlos atravessa-se o ribeiro Taquaral, e o caminho começa a descrever diversas curvas; mais adiante passa-se o ribeirão das Anhumas, légua e meia distante da Vila; suas águas se dirigem a Oeste, e não longe há uma subida, da qual se desce a um vale; em que se descobre pedra com veios escuros, e avermelhados. Continuando passa-se o ribeiro da Minhoca, e próximo a ele deixa-se, à esquerda, o engenho do Capitão José da Rocha; e, a poucos passos, encontra-se, do mesmo lado, o do Capitão Manoel Ferraz: então principia-se a divisar a grande plantação de cana pertencente a estes dois engenhos, que cobre a superfície de um dilatado monte, quase paralelo à estrada, que pertence ao grande torrão dos Anhumas. Deixa-se depois, à esquerda, o engenho dágua do Capitão Antônio de Cerqueira, seguindo-se a passagem do ribeiro Tijuco, e perto dele, o engenho do mesmo nome. O caminho, que vai nestas paragens, ao Nordeste, é agradável e a diferença de ser repetidas vezes coberto ou ourelado de arvoredo, e outras descoberto, recreia a vista. Avançando mais encontra-se, ao mesmo lado, um pouso de tropas; e adiante, da parte direita, uma pequena lagoa: do mesmo lado o engenho do Sargento Mor Floriano; e, a curta distância deste, existem mais dois, um da viúva D. Ana de Campos, moradora em S. Paulo, e outro de seu filho, José de Campos. Continuando-se a jornada atravessa-se um pequeno vale, e o ribeiro da Ponte alta: a estrada é sempre agradável, e em partes mui direita: perto dela está o canavial, e logo o engenho do filho do Capitão-Mor, e com as suas terras confinam as do engenho, que pertence, ao pai. Mais adiante principia-se a descortinar grossos penedos, sobressaídos à superfície da terra; o que se vai observando até ao rio Tybaia, ou Atybaia, que nasce na serra do Cubatão, a poucas léguas, e ao Nordeste de S. Paulo; e vai desaguar no Piracicaba, acima da Vila deste nome; e este último, depois de atravessar uma grande floresta de corpulentas árvores, conflui no Tietê. O Tybaia passa-se por uma ponte estreita de madeira, e o seu leito, pela parte de cima da ponte, é coberto de rocha, que aparece à superfície dágua; as margens são da mesma pedra, e guarnecidas de arvoredo; sua corrente é de águas turvas, e mais que ordinárias no tempo seco; no chuvoso torna-se impetuosa, e sai de suas barreiras; dirige-se de Leste para Oeste nesta paragem, onde tem quarenta passos de largura, e onde marcam três léguas e meia de S. Carlos: dá vau, no tempo da seca; e nele se pesca algum peixe saboroso. Paga-se na sua passagem, bem como na de outros rios, uma exorbitante contribuição a Bartholomeu Bueno Anhanguéra, descendente do primeiro Anhanguéra (23) , explorador destes terrenos: um homem a cavalo paga 120 réis; uma besta sem carga 120: e com ele paga segundo os volumes; um carro 1200 réis; e uma pessoa a pé 40 réis. Apesar deste produto, assaz pesado ao público, e até impolítico, (24) a ponte, além da sua má construção ameaça ruína; ela é mui estreita, de maneira que não dá lugar à passagem de duas bestas a par carregadas, e ainda para a de um carro é preciso haver toda a vigilância; pois não tem resguardo dos lados.      Na passagem do Tybaia existe um só morador, que é quem recebe as taxações (25) ; e continuando jornada para Mugi-Mirim, passa-se imediato ao rio, um ribeiro, que nele vai entrar; mais adiante encontra-se outro; a estrada continua a ser agradável; passa-se algumas subidas, e descidas; pequenos campões, ou bosques até que se chega ao rio Jaguary, quatro léguas e meia distante de S. Carlos. Aqui há quatro moradores; o rio passa-se por uma ponte da mesma construção, que a do Tybaia; porém mais arruinada (26) . As pagas das passagens não têm diferença das antecedentes, e são destinadas para o mesmo Anhanguéra. Pouco acima da ponte, em distância de trezentos a quatrocentos passos, se une ao Jaguary o rio Camandaucaya, cujas fontes nascem da serra Mugiuaçú, que servem de limites à Província de S. Paulo, pelo Nordeste, separando-a da de Minas Gerais: este rio corre do Nordeste, e o Jaguary, até a confluência de Les-sueste; dirige-se depois neste lugar, onde tem cinquenta e oito passos de largura, a Oes-noroeste: suas margens sobem a dezoito pés, apesar do que, no tempo das águas, transbordam muito: é neste rio que finda o Distrito, e belo terreno de Campinas.      A estrada vai correndo ao Nor-nordeste, e depois de passar-se uma ladeira íngreme, a que se segue uma suave descida, o caminho é plano, e, por espaço de uma légua, coberto d’arvoredo, que finda além do sítio chamado o Morro das Pedras: vêm-se então largas campinas, nas quais aparecem com freqüência as pirâmides do cupim, de que já falei; e nestas paragens todo o terreno é mui fraco para as plantações. Vai-se descendo depois para o rio dos Coiros, que propriamente falando, só merece o nome de um ribeirão; e não longe dele está, à direita, o engenho de Pirapitingui,que pertence a D. Gertrudes Mathildes, irmã do Brigadeiro Francisco Xavier dos Santos, morador em S. Paulo: este engenho é só de quatrocentas, a quinhentas arrobas de açúcar. Tem este sítio (27) alguns moradores; o engenho está junto a um ribeirão, que vai correndo para o Sul-sudoeste, e a estrada segue ao Nor-noroeste. Atravessado o ribeirão, monta-se uma ladeira, e ao alto oferece um agradável ponto de vista; descobre-se a grande campina matizada por diversos bosques, dispostos com intervalos muito variados; o caminho, e terreno próximo a ele é descoberto; e no fim de légua e meia, a contar do engenho, entra-se no chamado Campão Grosso, então a estrada segue coberta de alto arvoredo; e depois de ter-se caminhado por um comprido espaço, torna a descobrir, e continuando a marcha um pouco mais avante chega-se à Vila de Mugi.      S. José de Mugi-Mirim, Vila pequena, na Latitude Austral de 22o 22’ e Longitude 47o 22’ de Greenwich, é colocada em um plano suavemente inclinado, que tem princípio antes de entrar-se na Vila, e fim à saida da mesma, em um pequeno vale: ele estende-se do Sul-sudoeste ao Nor-nordeste, a cujo rumo, e ao Noroeste o terreno se eleva algum tanto em áspera subida, formando um monte, que a circula por este lado, a curta distância. Foi erecta em Vila no primeiro de Abril de 1770, com o nome do seu Orago, o Patriarca S. José, sua largura é pequena, e as ruas mais povoadas, e únicas, que merecem este nome, são a direita, e a do comércio, dispostas em direção paralela; a direita desde a entrada da Vila até ao largo da Matriz, conserva a mesma largura, e ainda está mui pouco povoada, do largo até ao fim vai estreitando: a rua nova existe ainda em princípio, é a que fica mais a Leste: geralmente as casas são pequenas, algumas de taipa, porém a maior parte construída de paus a prumo, ligados com ripas horizontais e os vãos cheios de barro; há somente duas moradas altas, a do Capitão Mor, e a da Câmara, com a Cadeia por baixo; as ruas direita, e do comércio são as mais povoadas. Todo o Termo de Mugi compreende 6150 almas de confissão.      Os seus habitantes plantam arroz, trigo, milho, e feijão; fazem azeite de mamona, e amendoim; as colheitas são pequenas, e escassamente chegam para o consumo do país; de maneira que os anos de esterilidade fazem imediatamente sentir a fome ao geral do povo: o terreno é apropriado para as plantações, principalmente o que demora ao Norte, e Nordeste da Vila, não obstante o ser todo perseguido pelas formigas; as frutas são poucas; as laranjeiras, limoeiros, e limeiras produzem abundantemente. O algodão fez em outro tempo o principal comércio deste povo; porém há alguns anos a esta parte tem diminuido muito, por causa das repetidas geadas. Hoje exporta-se algum açúcar, e aguardente, gado vacum, e bestas muares. Os engenhos deste Termo não chegam a trinta, contando as fábricas de aguardente; não existe uma só casa de bons fundos, e as mais notáveis apenas contam três mil arrobas de açúcar por ano: a importação consiste em sal, ferro, fazendas, e outros gêneros em diminuta quantidade, e também alguns escravos.      A Vila, e seus subúrbios são doentios: há sezões, hidropsias, febres agudas, e papos em quantidade; tira o nome do rio Mugí-Mirim, que desagua no Mugí-Guaçú. Este lugar manifesta sensivelmente o lastimoso dano, provindo das pagas nas passagens; a cultura das terras cada vez vai em maior decadência, e o geral do povo, como não pode exportar, e não é animado pelo interesse, mola real do coração humano, tem-se entregado à indolência, e preguiça; causas fatais à população. Na mesma Vila, a cada passo se apresenta a pobreza, e miséria; e finalmente comparando-se Campinas a Mugí, apesar da sua proximidade, que não excede a dez léguas, cabalmente se conhece a felicidade daquela, e a desgraça desta; aquela exporta livre os seus efeitos, esta decai consideravelmente, por não ter igual fortuna (28) .      A partir da Vila passa-se a ponte de madeira sobre o ribeirão Belém, a estrada segue descoberta a rumo de Nor-nordeste; pouco adiante se desce a um vale alagadiço; atravessa-se depois, por uma ponte de madeira, o rio Mugi-Mirim, que corre, nesta paragem, ao Sul; mais adiante avista-se o engenho da Estância Floresta, que pertence ao Capitão Manoel Dias de Barros; e continuando-se jornada, passa-se a ponte também de madeira, sobre o rio Mugi-Guaçú, mal construída, estreita, e sem reparos aos lados, e subindo-se a ribanceira, entra-se na Freguesia, que tira o seu nome do rio.      A Freguesia de Mugí-Guaçú está uma légua distante da Vila, mais antiga do que ela, e em outro tempo sua cabeça, assim como do Arraial da França, Freguesia da Casa-Branca, e da dos Batatais. Consta esta Povoação de um largo retangular, ornado de casas, construídas de paus a prumo, ripas, e barro; tem princípio sobre a margem do rio, e estende-se em curto espaço, do Sul-sudoeste ao Nor-nordeste; a Igreja, que é da invocação de Nossa Senhora da Conceição, está à entrada do largo, da parte do rio, que neste ponto corre a Oes-sudoeste, e tem de largura sessenta e oito passos; aqui paga-se a contribuição das passagens da maneira já descrita. O rio nasce na serra de Mugi-Guaçú, que vão pegar na grande Mantiqueira, e desagua no Paraná, ou Rio Grande do Sul; as águas do Guaçú são doentias, principalmente no tempo das grandes cheias, pela muita imundície que arrastam; acima da ponte está uma pequena cachoeira, e por algum espaço, o leito do rio é coberto de rocha: este sítio é assaz doentio por causa do mesmo rio, e dos pantanais, que infeccionando o ar com seus vapores, causam sezões, e outras moléstias. Haverão vinte e quatro anos, que esta Freguesia sofreu uma grande epidemia, causada pelo pernicioso costume que tinha o povo de matar o peixe, pisando o cipó chamado Timbó, e deitando-o no rio; o peixe acudia em cardumes a engolir a poeira, que o fazia morrer sem demora, e assim tornavam fácil a pesca; porém no dito ano foi tão grande a quantidade de peixe, que, apodrecendo, infestou de tal forma o ar, que foi causa de perecer um grande número de pessoas. Há neste rio excelentes dourados, nos meses próprios de se pescarem, outubro, novembro e parte de dezembro. A população de toda a Freguesia chega a duas mil almas; exporta capados, aguardente, azeite de mamona amendoim, rapadura e trigo; tudo em pequena quantidade. Não chegou este lugar a ser Vila por causa de ser muito doentio, e é lástima que havendo perto locais desafogados, e sadios, não se tenha deliberado o povo a sair deste açougue. (29) .      Continuando-se a jornada, corre o caminho ao Noroeste, e, a curta distância, subindo-se, começa a atravessar dilatadas Campinas, voltando então ao Nor-noroeste. A quatro léguas para Leste estende-se a Serra Negra (30) , limite desta Província com a de Minas Gerais; um pouco mais adiante notam-se os fundamentos da primeira Igreja; e não sei por que mania os primeiros povoadores deixaram de continuar a estabelecer-se neste lugar, por natureza agradável, e farto de excelentes águas, para o irem fazer junto ao rio. Estes campos são inteiramente descobertos, e neles encontram-se muitas ervas medicinais: avançando mais, deixa-se à direita, perto da estrada, e engenho da Lagoa, e adiante, do mesmo lado, estendem-se as terras do Vigário da Freguesia, João Damasceno: nem um só ribeiro atravessa o caminho nestas paragens; mas de um e de outro lado, e a curta distância do mesmo vertem saborosas águas. Seguindo jornada, notam-se à esquerda duas lagoas; e mais adiante à direita, três grandes, sendo a maior do centro; tem jacarés, cágados corpulentos, e muita caça, como patos, garças, e grande quantidade de tuiuiús; e no tempo chuvoso é quando aparecem em maior número. Adiante principia-se a descer suavemente, e até que se chega ao pouso, e morador da Oriçanga, nome derivado do ribeiro, que ali corre; tem-se marchado perto de quatro léguas, a contar da Vila de Mugi-Mirim.      Seguindo da Oriçanga passa-se logo o ribeiro do mesmo nome; a estrada dirige-se ao Nor-noroeste; o terreno compõe-se de colinas, e vales, as subidas, e descidas são curtas, e a poucos passos entra-se em aprazíveis campinas cortadas de pequenos vales que principiam aos lados do caminho, e próximo a ele, cobertos de arvoredo, que aformoseiam a vista: a estrada segue plana, e ao Nordeste; descobre-se dela a serra da Boa Vista; deixam-se depois uns moradores, à esquerda, no sítio chamado de André Rodrigues, e descendo suavemente, segue o caminho ao Nor-noroeste; atravessa-se o ribeiro Itaqui, e logo à esquerda, estende-se um comprido bosque, depois baixa-se ao ribeirão das Pedras, que tem junto alguns moradores, duas léguas distante de Oriçanga; segue-se a este sítio o de Taquarantan, onde corre o ribeiro deste nome, cujas margens são habitadas por vários moradores que negociam para a Corte em gado vacum; avançando mais avista-se ao longe, para a direita, a serra das Caldas, assim chamada por ter em si banhos quentes: o terreno continua a ser lindo, e os pequenos bosques ou capoeiras cobertos de um verde escuro, e colocados irregularmente fazem parecer um Arquipélago estes campos, que abundam em perdizes, cordonizes, veados, e outras caças; e finalmente chega-se ao pouso de Itupéba, onde há alguns moradores, que têm criações de gado, e capados; dista légua e meia de Taquarantan.      Além do pouso de Itupéba, passa-se o ribeiro deste nome, perto do qual corre um regato de cristalinas águas; a estrada segue a rumo geral Nor-noroeste, e continua por aprazíveis campos, porém infestados de moscas, e mosquitos: adiante deixam-se, à direita, dois moradores; todo este terreno se vê semeado de gado, o que forma o forte negócio de seus habitantes. Depois pnncipia-se a descer suavemente para o rio Jaguarí-Mirim, que partindo da serra de Limites, corre de Leste, e vai confluir no Mugí-Guacú; suas águas são más, porém perto dele há excelentes; as margens são cobertas de arvoredo alto, e denso, formando por baixo largos espaços, mui limpos, e agradáveis; por aqui existem espalhados alguns moradores e o sítio dista uma légua de Itupéba; o rio no tempo das águas abunda em peixe, e suas margens têm bastante caça de diversas qualidades; passa-se a vau no tempo seco, e em canoa, (31) quando corre alto, pagando-se passagem a Bartholomneo Boeno, a quem pertencem êsses terrenos. Continuando a marcha, segue o caminho ao Nordeste, e, a poucos passos, entra-se em novas campinas; volta-se então ao Nor-noroeste, e deixando à esquerda o ribeirão Iberaba, vai-se descendo docemente a entrar no Campão dos Olhos de Água; atravessa-se um pequeno ribeiro, e o cristalino dos Olhos d’Agua; onde existe alguns moradores, distantes duas léguas do Jaguarí; d’aqui marcha-se ao Norte, e o caminho passa entre dois vales; mais adiante notam-se duas lagoas, que têm grandes jacarés, e uma espécie de Jamanta, que dizem os povos daqueles lugares, é monstruosa, do feitio de uma pipa, com boca na barriga, dão-lhe o nome de minhôtoçú; o terreno continua a ser belo, e tendo-se descido uma ladeira suave, chega-se ao pouso, e moradores de Cocais.      Parte-se deste sítio ao Norte, sobe-se ao Noroeste, entra-se em caminho plano, e o terreno é semelhante ao antecedente; deixa-se à direita a Capela de S. Ana; e então a estrada inclina ao Nor-noroeste; avista-se depois o formoso Campão dos papagaios, onde os há em quantidade, e são de grande estimação; ali se colhem muitos para a Corte, e outras Cidades. Só há vinte anos a esta parte, é que estes terrenos deixarão de ser perseguidos pelos selvagens; ainda se vê o lugar onde eles mataram muitos Portugueses. O caminho vai continuando excelente, e atravessando-se o Campão, e ribeiro Pissarrão, avista-se ao Noroeste, e na distância de três para quatro léguas, a serra das Pederneiras; e continuando a marchar, entra-se na Freguesia da Casa Branca.      O lugar de Nossa Senhora das Dores da Casa Branca na Latitude Austral de 21o 29’; e Longitude 47o 28’ de Greenwich, e distante légua e meia de Cocais, consta de um largo retangular, ornado com pequenas casas cobertas de palha, e com uma Igreja no fim do mesmo largo, ainda por acabar, de que é Padroeira Nossa Senhora das Dores: há mais algumas casas fora do largo, colocadas avulsamente (31-A) ; foi erecto em Freguesia há quatro anos; a gente é bisonha, e desconfiada, o sítio saudável, e alegre; as águas boas: um comprido vale coberto de arvoredo, semicircunda o lugar e a ele vão dar outros menores igualmente cobertos, cuja variedade forma uma agradável perspectiva. Estes povos colhem algodão, milho, feijão, e algum trigo; plantam cana de açúcar; porém o forte do seu negócio consta de gado vacum, e capados. Para este lugar vieram vinte e quatro casais de Ilhéus, dos quais existem unicamente seis, por se terem ausentado os outros para diversas paragens, que lhes ofereceram maiores interesses; ao que deu causa o esquecimento, que houve de se lhes fornecer tudo quanto o Estado lhes tinha prometido. (32) .      Da Casa Branca segue-se jornada a Oes-noroeste, e logo passa-se uma pequena ponte de pau, e quatro ribeiros, até ao sítio chamado a Estiva onde existem alguns moradores pobres, colocados em uma chapada; continua-se ao Noroeste, e o terreno mostra linda, e pitoresca vista; adiante atravessa-se um campão, passa-se a ponte de madeira sobre o ribeirão Tambaú, e chega-se ao Engenho do Resende, ou Fazenda da Paciência.      A Fazenda da Paciência, ocupa um agradável terreno, próprio para muitas, e diferentes plantações, com grande extensão de terras, bons matos, e excelentes águas, criação de gado vacum, e cavalar, capados, e galinhas, planta-se milho, feijão, e outros legumes; a cana produz muito bem; há um engenho de açúcar, e uma fábrica de aguardente. Deste sítio a S. Paulo contam-se cinco passagens, em que se pagam as contribuições já expressas, isto na distância de quarenta e quatro, a quarenta e cinco léguas.      Da Paciência segue-se a Oes-noroeste; imediato ao engenho passa-se um pequeno ribeiro, e o terreno daqui até ao Rio Pardo, é algum tanto irregular, com pequenas subidas, e descidas, e muito farto de saborosas águas; cinco ribeiros, atravessam a estrada até ao rio; ela vai algumas vezes por baixo de fresco arvoredo, e a face do país, em partes plana, e noutras variada, é aprazível. Adiante do Resende está o sítio da Oleria, com um só morador; a serra das Pederneiras, de que já falei, vai ficando à esquerda, e a estrada corre ao Noroeste, e continuando a marcha, no fim de duas léguas, existe o sítio chamado o Cercado, com quatro moradores. Seguindo para o Rio Pardo, encontram-se mais dois moradores, onde o terreno é alagadiço; mais além avistam-se, à esquerda alguns moradores próximos à mata do rio; e atravessando uma vargem, entra-se no bosque, que borda a margem do mesmo, que fica a pouco mais de quatro léguas da Paciência.      Este rio vem de Minas Gerais, e deságua no Paraná, neste lugar, em que o toca a estrada, corre a Oeste, suas margens são pouco altas, cobertas de espesso arvoredo, que se estende perto de meia milha além delas; suas águas não são boas para se beberem, porém, as dos ribeiros próximos são sofríveis; abunda em peixe no tempo próprio, e os bosques em caça de diversa qualidade: um dia de viagem, a contar do porto para cima, existe uma cachoeira, que faz estreitar o rio, e torna velocíssima a sua corrente, de maneira que embaraça a passagem das canoas; à vista do porto há outra, mas esta deixa livre a navegação; o rio nesta paragem tem de largo cento e cinqüenta braças, com pouca diferença: as cargas, e pessoas passam em canoa, pagando-se por cada carga vinte réis, por cada pessoa quatrocentos réis, e por cada besta, que passa a nado, 60 réis; no tempo seco dá vau; aqui há dois moradores, e a curta distância deste sítio, maior número deles.      Partindo deste lugar, segue-se ao Norte, e acabado o bosque da margem do rio é o caminho descoberto, e junto a ele vivem algumas famílias, a longa distância umas das outras; o terreno em partes oferece uma superfície plana, e noutras algumas pequenas ladeiras, até ao sítio chamado a Campina, em que há um só morador; e continuando-se a jornada, entra-se finalmente na serra do segundo Cubatão, que é de fácil acesso; mas na segunda descida há uma ladeira íngreme, e no fim dela atravessa-se o rio Cubatão por uma ponte de pau, além da qual está o pouso, que tira seu nome deste rio, contando-se desde o Pardo até aqui, cinco ribeiros, dos quais o segundo é chamado o das Pedras.      O pouso do Cubatão dista três léguas do Rio Pardo; está situado em um plano elevado, donde se descortinam, para o lado da serra, os cumes de diversos bosques, que vão aparecendo uns por detrás dos outros, à medida que o terreno se eleva, e de tal maneira, que representam bem a imagem do Oceano embravecido. Deve notar-se, que passadas as Vilas, os habitantes dos campos vão sendo cada vez mais bisonhos.      Do pouso do Cubatão parte-se a Oes-noroeste; o terreno de contínuo vai oferecendo diversos campões e capoeiras; o caminho é bom, e plano por largos espaços; à esquerda deixa-se uma densa floresta, que cobre um profundo vale, a serra das Caldas avista-se à direita; a estrada, depois de voltar-se ao Norte, passa ao Nor-nordeste, e finalmente chega-se à Fazenda das Lages (33) .      Esta Fazenda, que dista três léguas do pouso do Cubatão, pertence a seis irmãos unidos, que fazem um grande negócio em gado; ali corre um ribeiro a Oeste, por cima de lajes, de que tira o nome este sítio.      Das Lajes parte-se ao Norte, desce-se a um vale cortado por um ribeiro, além do qual está a serra do Morro; o caminho é por aqui mau, e há nele uma ladeira íngreme, com muita pedra solta; atravessa-se o ribeiro que tem o nome da serra, a qual só apresenta a sua altura da parte do Norte do lado oposto está igual com o terreno e adiante passa-se o ribeiro das Pedras. Todos estes ribeiros, a contar do Rio Pardo, se dirigem em rumo geral ao Norte, e a maior parte deles vai desaguar naquele rio; a estrada faz algumas voltas seguindo os rumos Nor-noroeste, Noroeste, e Norte, até chegar-se ao ribeirão, e moradores do Araraquara: aqui o ribeirão vai a Oeste, e o caminho a Oes-noroeste. Em frente deste sítio há um morro escalvado, que representa a figura de um antigo Castelo em ruína; a estrada lhe passa ao lado direito. Todo este terreno vai sendo cada vez mais infestado de moscas, e mosquitos: continuando a marchar por ele chega-se ao ribeirão do Cervo, onde não há mais que dois moradores, e é lugar descoberto e desafogado, tira o nome de um cervo de extraordinário tamanho que nele se matou: aqui se unem dois ribeiros, ambos de belas, e cristalinas águas, o da direita corre do Sudoeste, o da esquerda de Oeste, e o que eles formam, na sua confluência, vai ao Sul desaguar no Araraquara, e este no rio Pardo. A estrada segue ao Nor-noroeste plana, e agradável; adiante se desce a passar o ribeirão do Catingueiro, e principia-se a subir a serra de Mato-Grosso, coberta de altas, e grossas árvores, e passado o ribeiro da Bela Vista, a poucos passos se apresenta aos olhos um quadro encantador; extensos campos, semeados de gado, diversos campões, e capoeiras, cristalinos ribeiros e algumas colinas ao longe: a estrada é boa, e o terreno arrochado. Depois de uma descida fácil chega-se ao morador dos Batatais.      Este lugar é muito alegre, seu dono Manoel Bernardo do Nascimento, ajudado de seus filhos, desenvolve a maior atividade na lavoura; faz muito bom negócio em gado vacum, e em queijos. Afastados do caminho há, nestas paragens, muitos vizinhos, mais, ou menos distantes uns dos outros, que possuem grande quantidade de gado.      Deste sítio segue a estrada ao Nor-noroeste, e deixado à esquerda o caminho para a Freguesia do Sr. Bom Jesus da Cana Verde, vai-se passar, ao mesmo lado da estrada, por uma ponte de pau, o ribeirão da Paciência, para chegar ao pouso do mesmo nome.      O morador da Paciência vive a duas léguas dos Batatais, e quatro do Cervo; a estrada segue, nesta paragem, ao Nordeste, inclinava depois ao Nor-nordeste, e, passado um ribeiro, volta ao Noroeste. Largas campinas, matizadas de pequenos bosques, se avistam, até que na proximidade do rio Sapucahy, o terreno torna-se irregular, e o caminho, com algumas ladeiras, vai fechar nas margens daquele rio, que são cobertas de arvoredo; o rio atravessa-se por uma ponte de madeira, e no tempo da seca dá excelente vau; dista da Paciência légua e meia, nasce na serra de Muguaçú e vai confluir no Pardo: deixa-se depois o ribeiro do Patrocínio, que vem correndo de Leste por cima de Lajes; o caminho vai ao Nor-noroeste, e a quatro léguas, e um quarto distante da Paciência está o morador de Santa Barbara, à direita; passa-se logo, por uma ponte estreita de madeira, o grande ribeirão do mesmo nome, que corre ao Noroeste, por um leito formado de grossas pedras; e aqui há uma cachoeira. Deste sítio à Franca contam-se três léguas, e três quartos; larga-se adiante, à esquerda, a estrada geral, para tomar-se, à direita, para a Fazenda das Macahubas, junto à qual se passa o ribeiro Sapucahy.      O dono desta Fazenda, natural de Guimarães, conta oitenta e auatro anos, em muito bom estado de saúde, e robustez, faz o seu maior negócio em gado. Além deste sítio, entra-se um pouco adiante, na estrada geral, que vai ao Nor-noroeste: o terreno continua a ser agradável, ornado de campões, e capoeiras; passam-se três ribeiros até chegar-se ao Arraial da Franca.      O Arraial da Franca está na Latitude Austral de 2Oo 28’, e Longitude 47o 26’ de Greenwich, foi fundado há treze para quatroze anos, por Hypolito Antonio Pinheiro, Capitão de Distrito, e natural da Comarca de S. João d’El-Rei, Província de Minas Gerais; é ele o mais opulento do lugar, e sete léguas arredado, possui uma grande fazenda: antes desta fundação eram estes terrenos demasiadamente infestados pelos selvagens. Deu-se a este Arraial o nome de Franca, por virem a ele estabelecer-se toda a qualidade de pessoas de diversos lugares; todavia a mor parte delas veio de Minas Gerais: a fama deste lugar é muito má, por causa dos facinorosos, que, em grande número, o habitam; e de certo a conservará enquanto ali se não estabelecerem as Autoridades, que mantenham as Leis do Soberano, e a Justiça. Este povo existe como os da primitiva: o mais astuto, e valente, ou para dizer melhor, o de pior coração dá a lei, os outros tremem, e cegamente obedecem; e, como a Justiça está muito longe, nada receiam. Houve ali um malvado, que fez quatorze mortes, e se recreava com a narração delas; porém, graças às deligências do Exm.o D. Manoel de Portugal e Castro, Capitão General de Minas, que fizeram acabar cora tal monstro, que se tinha refugiado neste Arraial, onde ainda existe um delinquente de sete mortes, e vários outros de menor número (confissão dos mesmos povos). Não trato da qualidade de mortes, das traições, e de muitos pais roubados a seus filhos; pois são tão diferentes os casos, que seria necessário descrevê-los muito por miúdo; finalmente pela mais leve causa não há escrúpulo em tirar a vida.      Os habitantes deste lugar são industriosos, e trabalhadores; fazem diversos tecidos de algodão; boas toalhas, colchas e cobertores; fabricam pano azul de lã muito sofrível; chapéus: alguma pólvora; e até já têm feito espingardas: a sua principal exportação consta de gado vacum, porcos, e algodão, que levam a Minas: plantam milho, feijão, e outros legumes para consumo do país. O Arraial está bem arruado, porém a maior parte das ruas é ainda mui pouco povoada, só o largo da Matriz está mais guarnecido de casas que são construídas de pau a prumo, com travessões, e ripas, cheios os vãos de barro, e as paredes rebocadas com areia fina, misturada com bosta, geralmente são pequenas, e a maior parte delas cobertas de palha (34) . Tem a Franca duas Igrejas: a de N. Senhora do Rosário, pequena, e baixa foi a primeira, que se fundou; e a Matriz de N. Senhora da Conceição está quase acabada, e é um lindo Templo. Esta Freguesia chega a três mil almas de confissão; e a meu ver deveria entrar o Arraial no número das Vilas, para melhor governo, ordem e polícia de seu povo, que tendo em meio de si as Autoridades de Justiça, não haverá ali tantos crimes.      É dos mais lindos, e desafogados locais, que tenho encontrado; um comprido Campo se estende de Norte ao Sul, e suavemente vai declinando até aos ribeiros, que o limitam a Leste, e Oeste, os quais reunindo-se ao Sul, formam um só ribeirão; assim fica representando uma península este terreno: que é mais elevado, mais ventilado, e inteiramente plano ao Norte da Matriz: para Oeste, contíguo ao Arraial, vai ele abrindo-se em duas ribanceiras, formadas pelas chuvas, que destruirão bem depressa esta parte, se lhe não derem remédio pronto. O ribeiro d’Oeste, que tem o nome de Itambé, forma um salto de seis, ou sete braças de alto, logo abaixo da boca da ribanceira; o de Leste denomina-se do Vigário, porque este habita na sua vizinhança em uma excelente casa. Além dos ribeiros eleva-se o terreno em doce ladeira, e, a poucas léguas de distância há um olho d’água, que se conserva quente em todo o tempo.      Partindo da Franca dirige-se a estrada a Oes-noroeste; depois a Oeste; o terreno vai oferecendo a mesma perspectiva agradável que o antecedente, passam-se quatro ribeiros, o primeiro dos quais tem uma cachoeira à vista do caminho, e vai correndo por cima de lajes; finalmente principia-se a descer, até que se chega ao pouso, e fazenda do Machado, (35) duas léguas e meia da Franca: o morador fica à direita, e cercado de montes e vales; as águas são boas, e abundantes, e junto à casa corre um claro ribeiro.      Continuando jornada, o caminho vai ao Norte; e, a poucos passos, volta ao Nor-noroeste; vira depois a Oeste, e Oes-noroeste, até chegar-se ao morador da Ressaca, distante três léguas e meia do Machado: boa estrada, e o terreno aos lados cortado de montes, vales, e bosques; perto do sítio passa-se um ribeiro, e continua-se a marcha ao Nor-noroeste; mais adiante segue-se ao Noroeste, e algumas vezes por baixo de arvoredo, parecendo em partes uma rua da mais bem arranjada chácara; chega-se depois ao morador do Monjolinho; atravessa-se um ribeiro, e logo outro; mais adiante, à direita, vai correndo a Oeste por cima de grandes lajes, o ribeirão dos Córregos: o caminho tem algumas subidas, e descidas, deixa-se logo à direita um morador, e passam-se dois Córregos, perto um do outro, que dão o nome ao sítio, e prosseguindo assim, atravessa-se outro ribeiro junto ao morador do Pouso Alto, que dista seis léguas do Machado.      O ribeiro do Pouso Alto corre para Leste; o terreno por estas paragens, é guarnecido de curtas, e esquisitas árvores, umas de folhas delgadas, e outras de mui estreitas, e coberto de agradáveis, e lindas flores. A estrada parte daqui ao Noroeste, plana, e o terreno vai mostrando a mesma superfície lisonjeira: deixa-se à esquerda o morador do Calção de Coiro, (36) e atravessa-se adiante um ribeiro; depois de subida uma ladeira comprida o caminho é coberto, e nele passa-se outro ribeiro, chega-se à fazenda, e moradores do Rio das Pedras, onde se contam quatro léguas do Pouso Alto; encontra-se além mais um ribeiro, e entra-se depois na extensa mata, que cobre as margens do grande Paraná, e que se estende muito pela terra dentro; e então vai o caminho em declive até chegar-se ao porto deste rio.      O Rio Grande, ou Paraná, tem a sua origem na face Ocidental da comprida serra de nome Mantiqueira, que divide a Província do Rio de Janeiro, da de Minas Gerais; e a oeste da Vila do Paraty, vinte e cinco léguas; até ao limite desta Província com a de Goyáz, correm as suas águas em rumo geral ao Noroeste, voltam depois a Oeste, e poucas léguas abaixo da foz do Rio Paranahyba, ao Sul, forma a comprida ilha Délsalto, e vai confluir no Paraguay, com mais de quatrocentas léguas de curso; correndo então para ele a Oeste, depois de ter recebido as torrentes de muitos, e caudalosos rios, tanto pela direita, como pela esquerda: suas margens são cobertas de espesso, e alto arvoredo, que o torna mui sombrio em várias paragens; da parte de cima do sítio, em que se atravessa o Paraná, há uma grande Ilha; ele forma o limite da Província de S. Paulo pelo Norte e Oeste; e a este último rumo, se dirigem suas águas na paragem, em que o toca a estrada; paragem triste, esezonática, por causa da inundação do mesmo rio no tempo chuvoso, formando-se então dilatados pantanais de fácil navegação para canoas: neste lugar é já o Paraná bastantemente largo, e atravessa-se em uma barca, formada sobre duas canoas. Da Cidade de S. Paulo a este ponto contam-se perto de noventa léguas pela estrada: (37) paga-se passagem como se fosse por três rios, a Bartholomeu Boeno.      A estrada segue do Rio Grande plana a Oes-noroeste, e coberta pela mata do rio; descobre depois, e vai a Nor-noroeste, passa-se um morador à direita, e adiante um ribeiro, e por caminho sempre bom, no tempo seco, chega-se ao Registo da Posse, três léguas distante do porto do Paraná.      No Registo da Posse, modernamente estabelecido, há um destacamento de Cavalaria de Linha de Minas Gerais; de cuja Província faz parte o terreno, que fica entre o Paraná, e o Paranahyba, o qual pertencia antes a Goyaz: junto a este Registo passa um ribeiro de boas águas. Deste lugar parte-se ao Noroeste, no fim de uma légua deixa-se um morador, e, decorrendo outra, novo morador se encontra; continuando passa-se um ribeiro, até que se avista o lugar da Farinha Podre: todo o terreno, que medeia dele ao Registo, é agradável, composto de chapadas altas, que se mostram umas por detrás das outras, muitas das quais estavam neste tempo abrasadas; a estrada é bela.      A Farinha Podre, é lugar de quinhentas pessoas de confissão; as casas, que aí são geralmente cobertas de palha, estão dispostas segundo o capricho de seus donos, (38) sobre as duas margens de um ribeiro, que vai correndo ao Noroeste: tem a pouca distância uma Capela da invocação de Santo Antônio, e S. Sebastião, colocada no alto da ladeira da parte do Registo, do qual dista três léguas e meia; o terreno de um, e outro lado do ribeiro, eleva-se suavemente, e é cortado por outros pequenos ribeiros: o principal negócio desta gente consiste em gado, e capados; e planta legumes, milho, e algodão. Aqui têm-se refugiado muitos criminosos, e em geral este povo é de tal sorte desconfiado, que logo que se aproxima alguma comitiva, retira-se ao mato, e só de noite vem a espreitar o que se passa ali (39) .      Segue-se viagem deste sítio a Oes-noroeste, caminho bom; e adiante desce-se a passar o pequeno rio Uberava-Falsa, e no fim de três léguas de marcha está o pouso do Lanhoso, onde há um só