KOREAEBOOKDOCUMENT1.3.0Cronicas Austrais - 1974-1998J. Chrys ChrystelloeBooksBrkasileBooksBrasil]B¼ Crónicas Austrais - 1974-1998 - J. Chrys Chrystello Edição eBooksBrasil Versão para eBook eBooksBrasil.com Fonte Digital Documento do Autor Copyright: © 2002 J. Chrys Chrystello ÍNDICE O Autor CRÓNICA 0 PARA UMA CURTA HISTÓRIA DA AUSTRÁLIA (OU DE COMO A DESCONHECER MENOS Iª PARTE: O CONTINENTE-ILHA IIª PARTE: O POVOAMENTO BRANCO IIIª PARTE: OS MEIOS DE TRANSPORTE IVª PARTE: ORGANIZAÇÃO ADMINISTRATIVA E CONDIÇÕES SOCIAIS Vª PARTE: VIDA CULTURAL E SUAS INSTITUIÇÕES CRÓNICA Iª DA VIDA DOS MACAENSES EM TERRAS DO DOWN UNDER CRÓNICA IIª Parte Iª: ASIANIZAÇÃO, IMIGRAÇÃO E RACISMO PARTE IIª: UMA CRISE DE IDENTIDADE NACIONAL AUSTRALIANA 1. A HERANÇA DE BLAINEY 2. O RELATÓRIO FITZGERALD 3. O PAÍS DO CROCODILO DUNDEE ESTÁ DOENTE 4. A RAIVA INTELECTUAL E A ÁSIA 5. “A BATALHA DOS BATALHADORES” 6. DÊ VIVAS À ALEGRIA 7. BEM-VINDOS AO PARAÍSO PROMETIDO: a outra face da Austrália CRÓNICA IIIª A VIDA CULTURAL NA AUSTRÁLIA PARTE 1ª:- O DESERTO PARTE 2ª- O 10 DE JUNHO PARTE 3ª: LITERATURA PORTUGUESA VISITA A AUSTRÁLIA CRÓNICA IVª Parte Iª: A DESCOBERTA DA AUSTRÁLIA PELOS PORTUGUESES PARTE IIª FLINDERS DEU NOME À AUSTRÁLIA PARTE IIIª: FRANCESES NA AUSTRÁLIA CRÓNICA Vª ONDE SE FALA DA AUSTRÁLIA, DE PORTUGAL, DO AUSTRALIANISMO DAS GENTES E DO MAIS, QUE ADIANTE SE VERÁ CRÓNICA VIª ONDE SE FALA DA EXPOSIÇÃO TERRA AUSTRALIS, OU, A POLÉMICA DESCOBERTA DESTE CONTINENTE 1. OS PRIMEIROS CONTACTOS 2. OS ANTECEDENTES GEOGRÁFICOS 3. FERNÃO DE MAGALHÃES E AS ÍNDIAS ORIENTAIS 4. OS MAPAS DE DIEPPE 5. A NOVA GUINÉ 6. A COMPANHIA HOLANDESA DAS ÍNDIAS ORIENTAIS CRÓNICA VIIª O PRIMEIRO GOVERNADOR DA AUSTRÁLIA LUTOU PELA MARINHA PORTUGUESA CRÓNICA VIIIª As palavras nas paredes ou ainda a asianização da Austrália 1. A ACÇÃO NACIONAL 2. A OUTRA FACE DOS ASIÁTICOS NA AUSTRÁLIA 3. A ESCALADA DA DIREITA LUNÁTICA 4. PARA ALÉM DAS FRANJAS LUNÁTICAS DE DIREITA 5. OS ASILADOS NO LIMBO SÃO NON-PERSONÆ 6. CARNE PARA IMPORTAR, CASAMENTOS PARA EXPORTAR CRÓNICA IXª A AUSTRÁLIA NO ANO 2000 - A IDADE DO BRONZE O DECLÍNIO DA RIQUEZA INDIVIDUAL: de 1º a 21º país no ranking mundial, em cem anos. 2. A IDADE DO BRONZE 3. O FUTURO 4. ALTERNATIVAS PROVÁVEIS? CRÓNICA Xª OS ABORÍGENES - Parte I (de 9) I. IGNORÂNCIA, ÁLCOOL, DEUS E AS BOAS INTENÇÕES CRÓNICA XIª Partes II a IX: OS ABORÍGENES DE NOVA GALES DO SUL PARTE 1ª I. O MEIO AMBIENTE E VESTÍGIOS ARQUEOLÓGICOS II. CERIMÓNIAS TRADICIONAIS III. A ARTE IV. HABITAÇÃO E FERRAMENTAS V. PESCADORES - CAÇADORES e porque não agricultores? VI. O PAPEL TRADICIONAL DA MULHER VII. A HERANÇA ABORÍGENE, PASSADA E PRESENTE VIII. AS MISSÕES IX. AS INICIAÇÕES E RITOS CRÓNICA XIIª A AUSTRÁLIA E SUAS COLONIZAÇÕES: Dos Aborígenes aos Ingleses CRÓNICA XIIIª I. A LEI MARCIAL DE 1824 II. O SEGREDO (SECRETO) DE WILLIAM DAMPIER III. A TEORIA DA TERRA NULLIUS IV. A AUSTRÁLIA NO BICENTENÁRIO (1988) CRÓNICA XIVª PARTE Iª A IDADE DAS PEDRAS E DOS HOMENS PARTE IIª O TÚNEL DO TEMPO CRÓNICA XVª A ACULTURAÇÃO DO EMIGRANTE E A MISCIGENAÇÃO DE CULTURAS PARTE Iª: OS EMIGRANTES PORTUGUESES NA AUSTRÁLIA CRÓNICA XVIª PARTE IIª: A FORMAÇÃO PROFISSIONAL REPRESENTA UMA FALSA AMBIENTAÇÃO DAS CAMADAS JUVENIS, ACRESCIDA DE UM CHOQUE CULTURAL INTER GERAÇÕES. CRÓNICA XVIIª PARTE IIIª: O nacional clubismo transportado para terras do além mar perpetua visões salazaristas imunes a revoluções. PARTE IVª: Neologismos, ou a permanente criatividade linguística do emigrado? CRÓNICA XVIIIª PARTE Vª: Associativismo, comunicação social, apatia, naturalização e a almejada viagem de retorno a uma pátria imaginária. CRÓNICA XIXª 100 ANOS DE EMIGRAÇÃO PARA A AUSTRÁLIA 1886-1986 CRÓNICA XXª OS PARAÍSOS DO PRAZER - Da atracção das ilhas sobre os corpos, aos sentimentos românticos e às motivações socio-ocupacionais das classes economicamente desfavorecidas CRÓNICA XXIª PARTE Iª: OS TIMORENSES NA AUSTRÁLIA - Da invasão indonésia até à Austrália, um percurso de 22 anos CRÓNICA XXIIª PARTE IIª: “ENTERRADOS VIVOS” filme sobre a saga de Timor CRÓNICA XXIIIª A BACIA DO PACÍFICO NO SÉCULO XXI 1. A AUSTRÁLIA NA PRIMEIRA PESSOA 2. DE NAÇÃO ABORÍGENE ISOLADA A COLÓNIA 3. A DIVERSIDADE NUMA SOCIEDADE MULTICULTURAL 4. SEGURANÇA SOCIAL 5. DIREITOS HUMANOS 6. O DESAFIO AUSTRALIANO 7. RECURSOS NATURAIS E DESENVOLVIMENTO 8. VIDA ANIMAL 9. O AMBIENTALISMO 10. A AUSTRÁLIA VERDE 11. A DEMOCRACIA AUSTRALIANA 12. A CONSTITUIÇÃO 13. O GOVERNO FEDERAL E O PARLAMENTO 14. GOVERNO ESTADUAL E GOVERNOS LOCAIS 15. O SECTOR JUDICIAL 16. PARA QUANDO A REPÚBLICA AUSTRALIANA? 17. O SÉCULO XXI PREPARADO POR REFORMAS ECONÓMICAS 18. AS RIQUEZAS NATURAIS DA AUSTRÁLIA 19. DESENVOLVIMENTO MINERAL 20. A INDÚSTRIA RURAL 21. A VIRAGEM DA DIPLOMACIA E DAS RELAÇÕES COMERCIAIS 22. REFORMAS COMERCIAIS 23. UMA CULTURA EM CRESCIMENTO 24. EDUCANDO PARA O FUTURO 25. RELEVÂNCIA DA AUSTRÁLIA PARA A EUROPA E PORTUGAL   CRÓNICAS AUSTRAIS 1974-1998 J. CHRYS CHRYSTELLO Em Sydney, Austrália O Autor      J. Chrys Chrystello prestou serviço no exército colonial português sendo destacado para o CTIT (Comando Territorial Independente de Timor) onde chegou em Setembro 1973, regressando a Portugal dois anos mais tarde. Começou então a escrever o seu livro “TIMOR LESTE 1973-75, O DOSSIER SECRETO” antes de rumar a Macau em 1976 e posteriormente à Austrália onde se fixou e naturalizou.      Ao longo de mais de três décadas de jornalismo político, trabalhou em rádio, televisão e imprensa escrita, tendo sido correspondente estrangeiro durante vários anos da agência noticiosa portuguesa ANOP/LUSA, da RDP/Rádio Comercial, TDM (Macau), J. N., Europeu, PÚBLICO, tendo sido publicado em inúmeros jornais e revistas em todo o mundo, para além de ter escrito guiões de filmes e documentários australianos sobre Timor. Entre 1976 e 1994, data em que se reformou do jornalismo activo, esforçou-se por divulgar a saga do povo timorense que o mundo (incluindo a Austrália e Portugal) teimava em não querer ver.      Tendo-se interessado pela linguística ao ser confrontado com mais de 30 dialectos em Timor, descobriu na Austrália provas da chegada ali dos Portugueses (1521-1525) mais de 250 anos antes do capitão Cook, e da existência de tribos aborígenes falando Crioulo Português (herdado quatro séculos antes).      Membro Fundador do AUSIT (Australian Institute for Translators and Interpreters) e Examinador da NAATI (National Authority for the Accreditation of Translators and Interpreters) desde os anos 80, e pertencendo a vários órgãos internacionais congéneres, Chrys dedicou a última década à sociolinguística e tradução, tendo apresentado trabalhos em dezenas de conferências internacionais (da Austrália a Portugal, Espanha, Brasil, EUA e Canadá) onde os temas da língua e cultura portuguesas estão sempre presentes, tendo concluído em 1999 o seu Master of Arts (mestrado com Major in Applied Social and Communication Studies.) sendo concorrente anual à Translation Competition, do British Centre for Literary Translation (British Comparative Literature Association) , University of East Anglia, Inglaterra. 2002 assiste agora à publicação do seu livro de Crónicas Austrais cobrindo a sua fase australiana pura de 1974 a 1998. CRÓNICA 0 PARA UMA CURTA HISTÓRIA DA AUSTRÁLIA (OU DE COMO A DESCONHECER MENOS) Iª PARTE O CONTINENTE-ILHA        A Austrália caracteriza-se basicamente por ser um vasto continente de 8 000 000 km quadrados de baixo relevo orográfico, isolada, com grande número das suas terras, sendo áridas, com uma fauna e flora bem diversas das encontradas em diversos outros locais do globo. O seu isolamento de outras massas de terra, explica até certo ponto a sua fauna e flora, enquanto o relevo pouco pronunciado se poderá atribuir à erosão do vento, das chuvas, e do calor durante as épocas geológicas em que a massa continental esteve acima do nível médio das águas.      Para muitos, a Austrália foi chamada a última das terras pois que isso se deveu ter sido das últimas que foram ‘ descobertas ’ pela civilização ocidental… Dezenas de milhar de anos antes das viagens de Abel Tasman e James Cook ao Pacífico Sul, já os aborígenes haviam coberto a distância que separa a Ásia da Austrália, tendo-se disseminado pelo continente e pela Tasmânia, para não falarmos aqui das digressões portuguesas pela área...      O início daquilo a que muitos chamam a nova era civilizacional, poderá situar-se em 1788, aquando da chegada do Capitão Arthur Phillip, da Real Marinha Britânica (e do Almirantado Português na América do Sul), à frente da 1ª Armada, quando na época existiam cerca de 300 mil aborígenes.      A população actual ronda os 18 milhões, dos quais cerca de 65% são de extracto anglo-celta. O isolamento do país tem permitido um desenvolvimento económico ímpar, dado que a norte se encontra a Papua Nova Guiné (até 1975 administrada pela Austrália), a leste a Polinésia e Melanésia, a oeste a Indonésia e a sudeste outro país da Commonwealth (Comunidade dos Países de origem britânica), a Nova Zelândia, e, os laços de ligação ao país de origem são distantes (19 mil km do Reino Unido e 12 mil km da costa ocidental dos EUA).      A Austrália é uma federação tal como os EUA e o Canadá, constituída por seis estados (Nova Gales do Sul, Vitória, Austrália Meridional, Queenslândia, Austrália Ocidental e Tasmânia), e dois territórios (o Território Norte e o do Capital Federal), para além de algumas possessões insulares: as ilhas Cocos-Kealing, Norfolk (autónoma excepto na defesa e assuntos estrangeiros), Ashmore, Cartier, ilhas do Mar de Coral, Heard, McDonald e o território da Antárctica Australiana.      Para além de ser o continente com menos relevo, a Austrália é também o mais seco de todos. Vista do ar, a paisagem varia entre o tom desértico avermelhado e várias outras tonalidades, sendo, no entanto, possível voar 3 mil km de Sydney a Darwin, no norte, sem se encontrar vestígios de civilização, nem uma cidade, uma vila ou aldeamento, o mesmo se podendo passar em relação a Perth, no oeste, separado de Sydney cerca de 3 200 km. De facto, o planalto central e ocidental são tipicamente desérticos. Como sempre, as aparências podem enganar, encontrando-se na Queenslândia e em Nova Gales do Sul, a maior indústria lanífera do mundo, enquanto nas zonas mais áridas e inabitadas existem enormes fontes de riqueza mineral.      O povoamento branco situou-se preferencialmente, na zona costeira oriental, até ao limite da cordilheira australiana (“The Great Divide Range”), que se estende desde o Cabo Iorque, no norte da Queenslândia até ao sul do continente, na Tasmânia. A principal razão para tal concentração populacional deveu-se sempre a um aspecto de fertilidade associado à zona costeira que se alarga entre 30 e 300 km para o interior, em socalcos que jamais excedem os 1500 metros de altitude. Essa fertilidade costeira está, porém, dado o seu uso intenso e continuado, a ceder lugar a uma nova forma de desertificação dos solos, ora tornados áridos.      Ainda hoje, para a maioria dos australianos, todas as regiões para além da cordilheira são considerados como “outback”, com toda a gama de conceitos míticos hostis a uma penetração populacional intensa. É ainda, a zona de fronteira, área de aventura e esperança, com esparsa população, já que esta se concentra basicamente na costa leste e em alguns pontos da costa sul e ocidental. IIª PARTE O POVOAMENTO BRANCO      A exploração pelo homem branco não foi, nem é, fácil neste enorme continente-ilha. Para os primeiros colonos nem mesmo a costa oriental era de molde a permitir o seu estabelecimento, dada a existência da Grande Cordilheira Central (“The Great Divide Range”), entre 30 e 300 km de distância da costa.      Embora pouco houvesse a temer dos aborígenes, a terra em si era hostil e só na segunda metade deste século, com o advento e propagação do automóvel, do avião e das comunicações via rádio, se reduziram as condições de isolamento. Apesar disto, ainda é vulgar encontrarem-se famílias a mais de 10 ou 30 km umas das outras e a mais de 80 ou 100 km (ou centenas de km nalgumas regiões) do aldeamento mais próximo, embora estejam ligadas por estradas (normalmente) asfaltadas e sistemas de comunicação via rádio ou satélite.      Desde sempre se assistiu ao crescimento de duas espécies de povoamento rural - uma constituída pelos ‘graziers’ [1] e outra pelos ‘farmers’ [2] (ou farmeiros como os portugueses aqui os designam), encarregando-se do cultivo de vastas áreas com 100 mil ou mais acres.      Por causa das distâncias e da reduzida população, jamais se assistiu aqui ao fenómeno rural da aldeia no sentido típico que os europeus dão ao termo, antes se podendo verificar a existência de cidades servindo vastas áreas, e, se bem que muitas dessas cidades não tenham mais do que a rua principal, um hotel, um armazém, certo é que existem centros urbanos cujo crescimento os elevou já a nível de grandes centros urbanos e comerciais.      Um dos paradoxos da Austrália é o de mais de 60% da população viver em sete cidades e, dos restantes, 25% vivem em pequenos centros urbanos e 15% em áreas rurais. A densidade populacional (a mais baixa do mundo) é de menos de 4 habitantes por milha quadrada (4 hab. por cada 2,5 quilómetros quadrados, ou seja 1,6 habitantes por cada quilómetro quadrado).      Sydney e Melbourne detêm 43% da população do país (7,5 milhões) e, embora nenhuma destas cidades seja a capital federal, certo é que se podem comparar sem problema a grandes metrópoles como Paris e Londres ou Nova Iorque, como centros de comércio e indústria. Camberra, a capital, criada apenas em 1913 tem, no entanto, tido um ritmo de crescimento notável. Camberra, com cerca de 400 mil habitantes, tal como tantas outras cidades criadas artificialmente, carece de uma razão de ser, para além da sua importância como centro político do continente, mas, ao mesmo tempo, reveste-se de um manto de cosmopolitismo, sujeito a um planeamento estrito mas modelar.      A população embora, ainda, maioritariamente anglo-celta, apresenta já mais de 35% de imigrantes, na sua maioria europeus e/ou ocidentais (24%), sendo os restantes de origem árabe e asiática (11%). Os aborígenes representam apenas 1,3% da população, dos quais apenas 0,3% são de descendência directa e pura dos primeiros habitantes do continente, com a sua vasta maioria miscigenada. Apesar das políticas proteccionistas iniciadas a partir de 70, continuam, porém, a ser vítimas do círculo vicioso da pobreza, da ignorância, da doença, e com elevadas taxas de mortalidade infantil: 3,5 vezes superior à dos brancos...      Embora se assistisse nas últimas décadas a várias medidas políticas destinadas a repor um certo sentido de justiça social em relação a este grupo, certo é que continuam a carecer de direitos generalizados, fruto de duas centenas de anos de predominância branca e de intolerância. Com uma taxa de crescimento populacional de 2,3% e, com uma restrição pronunciada da imigração na década de 90, a população australiana não vai conseguir atingir os 20 milhões no ano em que recebe, em Sydney os Jogos Olímpicos 2000. IIIª PARTE OS MEIOS DE TRANSPORTE      Devido às distâncias elevadamente grandes e à reduzida população da Austrália, todos os meios tradicionais de transporte se estabeleceram no século passado, quando o país era, ainda, um conjunto de colónias britânicas, separadas entre si, antes de, em 1901, se juntarem numa Federação.      O sistema ferroviário, então implantado era independente para cada uma das colónias, e, só em 1970 se tornou viável ir de Sydney a Perth sem ter de mudar, várias vezes, de comboio, devido à uniformização das dimensões dos carris. Estes haviam sido implantados, em cada estado, com diferentes medidas, para evitar ‘invasões’ ou ‘anexações’. A densidade da rede ferroviária é de 4,3 km por cada mil pessoas, enquanto que existem 350 veículos automóveis por cada mil habitantes. Devido à inconstância dos ciclos fluviais, os transportes aéreos vieram na década de 70 a constituir a grande alternativa, tendo, então, registado um total de passageiros na ordem dos seis milhões anuais.      De um total de um milhão de quilómetros de estrada, cerca de 200 mil são asfaltados e 500 mil em terra batida. As auto-estradas que ligam Sydney a Brisbane (Pacific Highway) e a Melbourne (Hume Highway) são insuficientes para o volume de tráfico que as utiliza.      A nível de experiências devem contar-se as viagens de carro entre Darwin no Território Norte e Adelaide, capital da Austrália Meridional, ou entre esta cidade e Perth, na Austrália Ocidental, que ficam para sempre retidas na retina do viajante, ou por comboio a do Grande Expresso GAN, entre Perth e Sydney, via Adelaide e Melbourne.      As ligações ferroviárias, lançadas no final do século passado continuam a ter uma importância fundamental, embora com os seus elevados custos tenham de se debater com a progressiva importância das ligações aéreas e rodoviárias.      A nível portuário, existem 66 portos, a maioria deles na costa leste. Para além de Sydney, que nos anos 70, orçou uma capacidade de 17 milhões de toneladas anuais, são de citar ainda Melbourne (Vitória), Port Kembla (Nova Gales do Sul), Fremantle (Austrália Ocidental), Geelong (Vitória), Whyalla e Brisbane (Queenslândia) e Port Adelaide na Austrália Meridional, os quais movimentavam na década passada mais de 30 milhões de toneladas importadas e 80 exportadas.      A Austrália possui apenas uma companhia de navegação aérea internacional a QANTAS (Queensland and Northern Territory Airways), e a nível interno dispõe da Australian Airlines e Ansett, para além de pequenas companhias regionais de pequeno movimento. Todo o transporte aéreo sofreu uma revolução na década de 80, quando passou de estritamente regulamentado para uma fase de liberalização, que resultou no aparecimento de novas companhias, algumas das quais, como a Compass, foram à falência. De uma forma geral, porém, os custos de viagens aéreas baixaram entre 20 a 30% nalgumas rotas, havendo ocasiões em que uma viagem de ida e volta entre as duas maiores capitais, Sydney e Melbourne, custa 200 dólares australianos (aproximadamente 25 contos). IVª PARTE ORGANIZAÇÃO ADMINISTRATIVA E CONDIÇÕES SOCIAIS      De uma forma simplista, pode dizer-se que, a Austrália é regida por um sistema político semelhante ao britânico e americano. Por um lado, um sistema monárquico de que é líder a rainha da Grã Bretanha, por outro, uma Federação baseada numa Constituição que apenas pode ser alterada por referendo e que divide os poderes entre os diversos estados e o governo federal. Sendo uma monarquia sujeita a um monarca não residente, a Austrália tem, no Governador Geral a sua entidade máxima, que, em casos tais como a grave crise constitucional de 1975, assume as rédeas do poder [3] . Para além do Governador Geral existem governadores estaduais com poderes semelhantes.      Assuntos, tais como a defesa, política externa, imigração, fisco e comunicações estão normalmente confiados ao poder federal, sendo os restantes, da jurisdição dos estados. Estes poderes derivam directamente da origem colonial dos diferentes estados e mantiveram-se imutáveis até à 2ª Grande Guerra, altura em que o governo federal, a título transitório, que se haveria de tornar definitivo decidiu encarregar-se da colecta dos rendimentos fiscais, ficando, porém, com o encargo de os distribuir posteriormente.      As eleições, onde o voto é obrigatório, são feitas segundo um modelo preferencial para o Senado (Parlamento), em que cada pessoa vota nos candidatos dando-lhes uma ordem de preferência. Depois do apuramento dos votos primários (directos), contam-se os restantes votos de acordo com as preferências dos eleitores e assim são eleitos os senadores através do voto secundário dos eleitores, o que pode implicar que algum dos eleitos pelas preferências dos eleitores acabem com muitos mais votos do que os eleitos por voto directo primário. Para a Câmara Baixa (House of Representatives), são escolhidos 60 senadores (10 por cada estado) de acordo com a sua representação proporcional no eleitorado.      Como partidos políticos existem o Trabalhista (ALP), o Liberal (LP), o Nacional (NP) - que deriva do Country Party (este apenas activo ainda como tal no Território Norte), os Democratas (Australian Democrats) que são derivados duma ala dissidente dos trabalhistas e os Verdes. Para além destes, todos com representação parlamentar, existe ainda o Partido Comunista Australiano cuja influência parlamentar é nula, mas que se encontra bem arreigado no seio de organizações sindicais.      A lei australiana baseada no Direito Comum Inglês é administrada pelos estados, e cada um possui um Supremo Tribunal (Estatal). Para além destes existe ainda o Supremo Tribunal (Federal) que tem jurisdição máxima sobre os tribunais estatais e federais.      O Exército Australiano , se bem que de diminutas proporções, tem uma longa história de actos de bravura, abarcando os combates na província turca de Gallipoli, durante a campanha dos Dardanelos na 1ª Grande Guerra, às intervenções na 2ª Guerra na Malásia, Coreia, Burma (Birmânia ou, mais recentemente, Myanmar), Timor e Vietname. O mesmo se poderá dizer, em mais reduzida escala, da Real Força Aérea e da Real Marinha.      Sendo a Austrália um país de bem estar social (Welfare State), embora não tanto como alguns países da Europa, proporciona vários tipos de pensões de velhice, invalidez, viuvez, subsídios de desemprego, de doença, de maternidade, de família, e muitos outros, embora a tendência desde a crise económica de 1987 tenha sido - cada vez mais - a de reduzir o total de beneficiários de um sistema altamente generoso. Na década de 70, quando eles foram aumentados pelos trabalhistas, sob o slogan de que toda a gente tem direito a alguma coisa (do governo) tais subsídios e pensões eram dos melhores do mundo, quase idênticos aos suecos, que tinham aquele que era, na altura, considerado como o melhor sistema social. Por outro lado, existe uma forte tradição de que cada pessoa deve construir ou comprar casa própria, existindo inúmeros sistemas de apoio a tal, bem mais generosos do que sistemas idênticos introduzidos nas últimas décadas em Portugal.      A educação é um encargo de cada estado, gratuito ao nível primário e secundário, e semi-subsidiada a nível terciário. Paralelamente, existe um sistema de ensino proporcionado pela Igreja (Católica Romana) bem mais dispendioso do que o estatal e que beneficia de subsídios governamentais. Existem cerca de duas dezenas de universidades e inúmeros estabelecimentos de ensino politécnico terciário, disseminados pelos estados e territórios.      O esquema de saúde é gratuito para toda a população, sob as normas do Medicare, que cobre em 85% todas as despesas, e se uma pessoa despender num ano mais do que um certo montante, o Medicare reembolsa-o dessa diferença. Existem médicos que cobram directamente ao Medicare e para os quais os pacientes nada têm de pagar, outros, porém, preferem cobrar aos doentes que depois são reembolsados pelo Medicare. As comparticipações do Medicare excluem próteses dentárias e oftalmológicas (mas as consultas estão cobertas). Existem vários seguros de saúde privados, com inúmeras variações de medicina privada e tratamento hospitalar público e privado, mas o seu custo, é, de uma forma geral, elevado.      O sistema de fixação salarial é por arbitragem e tem servido os interesses do patronato e das classes trabalhadoras, embora ocasionalmente se registem greves tentando forçar a resolução de disputas industriais. Apesar de muitas mudanças ao sistema arbitral introduzidas por governos conservadores e trabalhistas, certo é que a Austrália deixou de ser o país das greves constantes, como era na década de 70 e até finais da de 80. Vª PARTE VIDA CULTURAL E SUAS INSTITUIÇÕES      Durante os primeiros cem anos de ocupação branca do continente, a vida artística e cultural foi, decerto, negligenciada, pois então estavam todos muito mais interessados em explorar e colonizar do que em dedicar-se às gloriosas artes.      A primeira manifestação de uma certa consciência artística surge na última década do século XIX através da revista de Sydney, “The Bulletin” (ainda hoje existente e, integrando a versão australiana da Newsweek). Fundada por um certo número de escritores e artistas de visão radical e equalitária, eles foram precursores de um liberalismo nacionalista. Dentre eles citaremos Tom Collins (1843-1912), autor de livros como “Such is life (Assim é a vida)” em 1903, Henry Lawson (1867-1922) e o artista gráfico Norman Lindsay (falecido em 1970). Depois deste movimento inicial, apenas se poderá considerar como válida, a actividade desenvolvida no pós guerra, em que o isolamento, quer do Reino Unido quer da Europa, aliado à sofisticação e crescimento urbano providenciaram um interessante estímulo, nomeadamente na pintura e poesia.      A partir de 1954, com a atribuição de subsídios governamentais, o vigor da escrita, pintura e música começaram a fazer-se notar, não obstante um pesado regime de censura a obras estrangeiras.      O primeiro campo artístico a atrair as atenções mundiais foi o da pintura, celebrizado por nomes tais como Drysdale, Boyd e sobretudo Sydney Nolan, quer pela sua criatividade inovadora, quer pela sua reprodução dos mitos e da paisagística australiana, quer mesmo pelo impacto que tiveram nos centros mundiais da Arte.      Na poesia, sobressaem Alec Hope e James MacAuley (ambos professores de literatura). Ainda na área das letras, deveremos incluir o mais conhecido de todos os escritores contemporâneos deste continente: Patrick White, autor de obras tais como “The Tree of Man”(1955), “Voss”(1957), “Riders in the Chariot”(1961), algumas das quais já traduzidas para a língua lusa.      Nos anos 70 surgiram vozes clássicas tais como as da Dama Nellie Melba e Joan Sutherland, que durante anos se mantiveram no topo do cartaz de diversas peças de ópera mundial. Igualmente importante para este contributo artístico, são a criação, na mesma época, do Centro de Artes de Vitória, em Melbourne, e da Opera House em Sydney, concebida e quase totalmente executada pelo ainda hoje celebrado arquitecto dinamarquês Jøern Ützon, obras que contribuíram de forma bem activa para o desenvolvimento da ópera, ballet e teatro.      A nível de instituições, as mais importantes surgem em 1954: a “Companhia Nacional Australiana de Ópera” e a “Companhia Australiana de Bailado”. Em 1967, foi criado o “Instituto Australiano das Artes”, que anualmente recebe cerca de três milhões de dólares (aprox. 45 mil milhões de Escudos). depois, foi criada a “ABC” [4] responsável pela radiodifusão e televisão, o “Australian Music Board”, o “Commonwealth Art Advisory Board” e o “Commonwealth Literary Fund”, que mais tarde se conglomeraram no “Australian Council for Arts”.      Em 1967 iniciou-se a construção da Galeria Nacional em Camberra, que embora incapaz de competir com idênticas organizações europeias e norte-americanas, se concentrou mais na arte do Pacífico, Ásia e Austrália.      A nível da imprensa convirá referir o “The Sydney Morning Herald”, em Sydney, e o “The Age”, em Melbourne com mais de 135 anos de existência, um único jornal nacional, o “The Australian”, e os semanários “The Bulletin” (já atrás mencionado) e o “Australian Financial Review”.      A título de curiosidade refiram-se as suas tiragens em Dezembro 1996 [5] :
JORNAL EDIÇÃO N.º DE LEITORES POR EDIÇÃO
The Age - 677 mil
The Age Sábados 1 067 mil
The (Sunday) Age Domingos 622 mil
The Australian - 422 mil
The Weekend Australian Fim de Semana 868 mil
The Financial Review - 278 mil
Sydney Morning Herald - 864 mil (Sydney)
Sydney Morning Herald Sábados 1 258 mil
The Daily Telegraph - 1 256 mil
The Sun-Herald - 1 464 mil
The Herald Sun - 1 564 mil (Melbourne)
The Advertiser - 557 mil
The West Australian - 681 mil (Perth, Australia Oc.)
The Canberra Times - 124 mil
The (Sunday) Canberra Times Domingos 118 mil
The Courier Mail - 640 mil (Brisbane, Qld.)
     A nível televisivo existem cinco canais nacionais, dos quais três são comerciais: os Canais 9, 7 e 10, o canal nacional governamental 2 (ABC) e o canal étnico multicultural SBS 0/28. Nos últimos anos assistiu-se à proliferação dos canais pagos, mas ainda não competem em audiências com os restantes, de forma significativa.      A Austrália tem sido, por diversas vezes, considerado o continente da sorte, não só pelo seu clima ( malgré as secas ), como pelos seus recursos naturais, como também, pelo seu povo vivendo numa atmosfera pouco poluída. O único continente que nunca sofreu nenhuma vicissitude de guerra, um enorme país-continente, de certa forma complacente e preguiçoso, misturando o facto de ser o último entreposto europeu no Pacífico Sul com a sua tendência de se tornar, lentamente, asianizado. O futuro, decerto, não será tão calmo nem descontraído como em mais de duas centenas de anos tem sido, mas, atendendo aos recursos naturais e humanos, adaptabilidade e miscigenação vigentes, o futuro aparece ainda como risonho nesta orbe conturbada em que vivemos. CRÓNICA Iª DA VIDA DOS MACAENSES EM TERRAS DO DOWN UNDER      26 de Janeiro de 1788, após 157 dias de viagem tormentosa, a primeira Armada, com os seus 11 navios (dos quais seis de transporte), 730 condenados (570 varões e 160 mulheres), acompanhados por cerca de 250 homens livres - na sua maioria marinheiros - chegaram a Port Jackson, perto do local onde se localiza hoje a metrópole de Sydney, para aquilo que viria a constituir o primeiro centro colonial branco na Austrália. A Primeira Armada chefiada pelo Capitão James Cook, trouxe consigo todos os germes que haviam de fazer brotar a sociedade australiana contemporânea. Aquando da sua chegada, residiam aqui cerca de 300 mil aborígenes, distribuídos por mais de 500 tribos e semi-tribos, dispersos, de acordo com a morfologia do terreno e suas variantes climatéricas.      Este o preâmbulo necessário para as Crónicas Austrais ou como lhe chamariam os Portugueses de antanho: “ Esta he a chronica de terra australis incognita ”, ainda inseguros da descoberta do grande continente por Cristóvão de Mendonça em 1522 e por Gomes de Sequeira em 1525. É, porém, a partir de 1536 que parece não restarem dúvidas sobre a traçagem cartográfica da Austrália por portugueses.      Esta primeira crónica de ‘Down Under’, contrariamente a algumas expectativas, foi escrita com os pés bem assentes no ar e a cabeça no chão, como convém a quem aqui habita, de forma a que possamos ser lidos sem distorções hemisféricas, pois iremos falar da presença de Macau, na Austrália (mais propriamente em Nova Gales do Sul) [6]      Tentar explicar ou falar da Austrália para quem está a uns milhares de quilómetros, não é tarefa fácil, pois este país para se conhecer, se sentir, se perceber, implica uma presença física e uma certa permanência. Admitida tal premissa, vamos, então, tão sumariamente quanto possível, tentar dar uma ideia do que é, do que faz e como vive a comunidade macaense aqui residente.      Para tal, armados da ingenuidade própria de quem viveu alguns anos em Macau e com os contactos que o quotidiano nos permite estabelecer, esboçaremos aqui os contornos de uma certa comunidade étnica: nem mais nem menos do que qualquer uma das mais de 150 etnias que povoam este continente.      Dentre um total de 65 mil portugueses aqui radicados uns escassos 2 ou 3% são originários ou descendentes de Macau, valendo-nos dos dados do recenseamento australiano, dado inexistirem, quer no Consulado Geral de Sydney, quer na Embaixada, valores exactos de acordo com a naturalidade dos portugueses ali registados (em matéria estatística, ninguém leva a palma aos portugueses).      Quem são e como se localizam neste vasto continente-ilha? Uma vez mais deparamos com a muralha silente das incógnitas, mas a maioria esmagadora está em Nova Gales do Sul, com núcleos mais pequenos nos outros estados e territórios.      Sob o ponto de vista étnico predominam aqui também os descendentes de chineses, embora nas últimas 3 ou 4 décadas se tenha registado um influxo de filhos e netos de macaenses, quer por motivos primordialmente económicos quer em antecipação de 1999. O maior surto de chegadas é relativamente recente e assenta sobremaneira em razões de política interna imigratória, em especial com o términos da política de imigração branca, discriminatória e legalmente incentivada até à década de 70. Até então, a admissão de imigrantes não anglo saxónicos ou europeus era praticamente impossível, mas sucessivos actos legais governamentais em 1956, 1966, 1973 e 1982, vieram de facto a transfigurar de forma notável - e quiçá mesmo brusca - a face populacional deste continente, com alguns reflexos secundários.      Neste contexto surgem filhos-família de diversas esferas e estratos socioeconómicos de Macau, em busca de um eldorado fictício em que a Austrália se tornou, mais por omissão do que por motu-próprio de seus políticos e economistas. Começando por analisar as dificuldades inerentes a uma adaptação e posterior integração, teremos de admitir que, sendo difícil, ela é bem mais facilitada hoje em dia do que em qualquer outro país, e isto ressalta mormente do facto de a Austrália ser recipiente de mais de uma centena e meia de etnias diversas, com mais de 500 dialectos em cerca de 90 línguas diferentes.      A língua, se bem que pareça numa primeira e apressada análise, o factor primordial, torna-se rapidamente diluído como problema, dadas as facilidades de ensino gratuito que o governo proporciona aos recém imigrados para aprendizagem da língua inglesa. Nem sempre as coisas se passaram assim. Tempos houve em que para se imigrar era necessário passar exame de Gaélico, língua da Escócia e Irlanda, ainda hoje falada por uns meros milhares de pessoas, mas isso era na época da Austrália Branca, pouco inclinada a aceitar asiáticos, para além dos que haviam ficado da era dourada das corridas ao ouro do fim do século XIX.      A habitação foi para os mais antigos imigrantes uma verdadeira dor de cabeça, com as restrições legais impostas aos inquilinos, por leis estritas tão diversas das condicionantes socioeconómicas e culturais inerentes a uma sociedade proveniente de Macau. Na década de 80 o governo passou a proporcionar acomodação temporária em Hostel a troco de pagamentos simbólicos deduzidos dos benefícios da Segurança Social, e muitos se queixavam então de a alimentação não ser ao gosto individual. Isto quando, por vezes, se tem de cozinhar para culturas tão diferentes como a libanesa, macaense, indiana, etc. Posteriormente, o governo resolveu cortar despesas e acabou com a provisão de hostéis que ficaram para uso exclusivo das dezenas de milhar de refugiados que anualmente eram aceites pela Austrália e até esta facilidade acabaria já no início da década de 90.      O emprego não foi problema durante décadas, com o país sempre disposto a aceitar pessoas capazes de trabalharem e efectuarem tarefas que aos locais não interessavam. Essa era a norma que se seguiu ao fim da 2ª Grande Guerra, quando à imigração dos países bálticos e norte europeus se juntou a dos mediterrânicos. Nesse período o emprego esperava qualquer um acabado de chegar, mesmo que não fosse anglo falante. O que eram precisos eram dois braços e uma saúde de ferro: corpo para toda a colher, dos invernos inclementes ao Verões abrasadores, vontade de trabalhar ganhando mais do que nos países de origem, com direito a sonhar com casa própria e educação para os filhos. Mas depois veio a realidade da recessão em 1983, 1987 e a depressão que durou até 1992. Com elas, os governos trabalhistas (1983-1996) começaram a cortar mais e mais benefícios no paraíso da Segurança Social e viram-se confrontados com um desemprego permanente. Pela primeira vez na história do país, passou a considerar-se como necessária a coexistência de pessoas que nunca mais iriam trabalhar. A taxa de desemprego - pasme-se! - atingiu mais de 10% da população trabalhadora de 10 milhões e bem difícil foi baixá-la para menos de 7%. Este passou a ser um valor aceitável, por entre as outras alterações que se impuseram ao tradicional modo de vida australiano.      Os subsídios vastos e abrangentes, introduzidos benemeritamente pelo governo trabalhista de Gough Whitlam a partir de 1972, e mantidos depois de 1975 pelos conservadores de Malcolm Fraser, serviam para todas as situações: casais não casados, mães solteiras, etc., e eram uma espécie de rede de salvação do desemprego, mas passaram a não ser suficientes para minorar este e os problemas socioeconómicos daí advindos. Durante algum tempo as pessoas viveram na expectativa de que melhores dias viriam, mas depois passaram a convencer-se de que estes seriam só para alguns felizardos.      Esta sociedade tipicamente insular, que tanto tempo esteve insulada do mundo exterior: 80 mil anos em que os aborígenes estiveram sem serem afectados pelo mundo externo até à invasão britânica de 1788, passou fruto da economia global a ser afectada por factores exógenos, que a passaram a gerir interferindo na textura das suas organizações e tradições. A adaptação dos macaenses a esquemas funcionais diversos fez-se de uma forma ordenada e não caótica, nesta terra que para pretensiosos e snobes não é de modo algum a terra prometida. Para aqueles que passaram este estádio, obtendo colocação e prosperidade, viram-se, no entanto, sem as condições benquistas que poderiam ter tido em Macau, mas economicamente mais recompensadoras, sem as tensões e frustrações inerentes ao limitado mercado de trabalho e de promoção profissional típicos de Macau.      Contrariamente ao que se poderia fazer supor, o afastamento da terra de origem, não parece ter incrementado entre os membros da comunidade um sentimento de unidade (que, como é consabido também não parece existir muito dentro da pequenez dos 16 km quadrados de Macau).      Enquanto não foi criada a controversa “Casa de Macau” em finais de 1989, era com uma certa regularidade, não necessariamente semanal ou mensal, ver alguns membros da comunidade reunidos num dos inúmeros centros gastronómicos de “Chinatown”, para durante os lautos repastos trocarem impressões sobre os mais recentes escândalos, ‘broncas’, e outros acontecimentos que permeando a distância se transportam de Macau para cá, sob a esperança política da mudança, tal como já dantes acontecia no diâmetro urbano da “Solmar”, do “Clube Militar” ou “ Clube de Macau”. Estas reuniões discriminatoriamente reservadas ao sector masculino, servem para manter os pontos de contacto e propagação dos costumes macaenses que estão prestes a encontrar o seu zénite à medida que 1999 se aproxima. Mas não se perdeu a inevitável passagem pelas máquinas de jogo, aqui predominando o poker sobre o Tai Siu, Fan Tan, Blackjack, em pano de fundo nos locais de repasto chineses e não só.      Ressalvando estas situações, a comunidade não parece ter encontrado um núcleo catalisador e centralizador, que se chegou a esperar da “Casa de Macau”, formada por entre a divisão, discórdia, invejas e a velha questão dos “ton-tons [7] serem mais macaenses do que os macaenses”. Assim talvez se tenha desperdiçado a plenitude e vasta capacidade de empreendimento e realização dos descendentes da pequena e setentrional península chinesa de Macau.      A diáspora manteve-se assim na vasta área urbana da metrópole de Sydney com os seus cerca de dois mil quilómetros quadrados (125 vezes maior que Macau), e se bem que os transportes públicos sejam de alto gabarito e eficiência, as distâncias a enfrentar depois de um dia de trabalho para regressar a casa são sem sombra de dúvida um considerando a ter em linha de conta, ao qual deveremos acrescer as constantes campanhas de prevenção rodoviária contra a alcoolemia que implicam sempre pesadas multas e pena de prisão. Raros são os membros da comunidade que não dispõem de viatura própria, mas aqui nem é viável nem económico conduzir para o local de trabalho.      Assim, ficam os fins de semana, iniciados ao pôr de sol de Sexta feira e a prática generalizada em toda a Austrália do B.B.Q. (barbecue = grelhados na brasa), seja na praia, no campo, ou num dos milhares de jardins disseminados pelos subúrbios. Assim, se reúnem em grupos, maiores ou menores frente a uma chapa de grelhar a carvão ou a gás (normalmente pertença do governo local, autarquia, cuja utilização se faz com a introdução de uma moeda de 20 cêntimos, aproximadamente 25 escudos). Depois, é só pôr os enormes e saborosíssimos bifes, as caixas quadradas tetrapak com 4 ou 6 litros do bom vinho australiano de mesa (ou as caixas de cerveja) e assim se passa o tempo, comendo e bebendo, na mais pura tradição australiana até altas horas da madrugada.      Aos sábados os ‘ programas’ variam consoante o grau de assimilação de costumes. Os mais pacatos sairão para o seu passeio ‘dominical’ ou quedar-se-ão em casa. Os mais australianizados repetirão o esquema anterior ou irão a uma sessão de jazz, rock, seja que tipo de música for, num dos milhões de ‘pubs’ disseminados por toda a cidade, onde passarão as horas disponíveis com seus amigos e colegas de trabalho (aqui vulgo mates ) falando de desporto, seja ele futebol, râguebi, VFL (regras australianas) ou até mesmo tentando aquela velha tradição lusíada da canção do bandido à pequena do lado, que normalmente culmina com uma ‘serenata’ bem longe do ‘pub’ e da qual todos os rítmicos acordes serão esquecidos umas horas mais tarde. Domingo, a variante do ‘Yum Cha’ em Chinatown, seguido do passeio pelas montras das lojas chinas, já que à noite o deitar cedo impera para a preparação de uma nova semana de trabalho.      A semana laboral aqui, de uma forma geral, começa Segunda feira pelas 8 da manhã (o comércio abre às 9, os serviços públicos às 8 e 45), o salário é recebido quinzenalmente às Quintas (as pensões e subsídios às Quartas), o que permite pagar a renda semanal todas as Sextas feiras. Quinta à noite todos os Shopping Centres estão abertos até mais tarde (9 da noite) para se fazerem as compras da semana, e o dinheiro remanescente destina-se, como é óbvio, a esse próximo fim de semana!      O jantar celebra-se normalmente entre as 6 e as 7 da tarde, e ás 9 é quase meia noite na cidade, para a maioria das pessoas que compõem o mercado de trabalho. Durante a semana, alguns mais australianizados poderão, eventualmente, depois de largarem os seus locais de trabalho e, em conjunto com os seus colegas de ambos os sexos ir até ao ‘pub’ habitual ou ao bowling, ténis ou squash, ou jogging, conforme as predilecções individuais, assim queimando as horas necessárias até ao jantar e deitar.      A concluir esta curta resenha, um ponto que parece relevante é o de haver inúmeras pessoas que ocupam, hoje e aqui, posições de liderança quer no sector de serviços, quer em actividades industriais ou comerciais com bem melhor proveito do que na sua terra mãe. Bem sucedidos ou não, em todos aqueles que vamos encontrando, uma preocupação constante e comum se desvaneceu ao longo dos anos: a do regresso. Os que o fizeram voltaram desiludidos e frustrados à Austrália, desajustados e desanimados pelo atraso e falta de progresso real que encontraram na terra de onde partiram. De Macau, as imagens por eles trazidas foram-se lentamente destruindo e esvaindo com os novos prédios erguidos sobre os escombros das casas onde guardavam as suas recordações de infância, tudo em nome do sagrado progresso.      Na Austrália, nem tudo é um mar de rosas, mas os benefícios de viver aqui são bem mais palpáveis do que uma despretensiosa crónica como esta pode dar a entender. A cultura, os hábitos e tradições podem ser perpetuadas aqui, mesmo que miscigenadas com outras, capazes de darem futuros mais amplos a filhos e netos, sem jamais se perder o orgulho profundo e saudoso da deusa Ah Má. Assim se compõe esta paisagem multicultural e poliétnica deste continente-ilha de cerca de 18 milhões de almas. CRÓNICA IIª Parte Iª ASIANIZAÇÃO, IMIGRAÇÃO E RACISMO (onde se fala da asianização deste continente-ilha, se discutem políticas de imigração e o mais que adiante se verá)      Na anterior Crónica Austral havíamos prometido voltar a falar da descoberta portuguesa da Austrália e da situação dos nativos aborígenes após mais de 200 anos de colonização branca. No entanto, mais recentemente, outros factos têm dominado não só as páginas da imprensa escrita mas também as ondas hertzianas. Tais eventos dizem respeito a um fenómeno, se não novo, pelo menos recente na história do país: a Asianização da Austrália.      Assim decidimos, quer pela premência dos debates que têm agitado a opinião pública, quer pelas repercussões futuras que temática tão caracteristicamente austral possa vir a ter, passar em revista alguns dos tópicos da mesma, nesta última década e meia [8] . O primeiro grande debate sobre asianização teve lugar em Março de 1984, quando um eminente professor universitário (e líder da Associação de Amizade Sino Australiana), Geoffrey Blainey, afirmou numa reunião de Rotários em Warrnambool, Vitória que “ os imigrantes do Sudeste Asiático eram agora os beneficiários da nova política de imigração em detrimento dos restantes grupos étnicos e em especial dos europeus. ” O tema imigração surgia, então, como arma última e desesperada da oposição conservadora para fazer face à crescente popularidade do (então) 1º Ministro Trabalhista Bob Hawke, preparado para se relançar num segundo mandato eleitoral.      Voltemo-nos pois para as quentes declarações no seio da controvérsia de então, para posteriormente analisarmos o que se passou mais de uma década volvida. O professor em causa, citando as práticas correntes dos responsáveis pela imigração, afirmava que a “ política do governo era discriminatória contra os não asiáticos e que este facto era totalmente oposto à opinião pública corrente, que embora tolerante por décadas, não poderia absorver de forma tão brusca um tão elevado número de imigrantes, todos provenientes da mesma área geopolítica, sem que existisse atrito - e até, quiçá - conflito.      Precipitadamente, Mick Young, então Ministro da Imigração e Assuntos Étnicos defendeu-se dizendo que “ A Asianização da Austrália era inevitável e até mesmo desejada ”, no que foi secundado por Bob Hawke, peremptório na sua negação de qualquer forma de discriminação. Passada a euforia gloriosa da colonização branca passava-se assim ao extremo oposto de “ só asiáticos como imigrantes ”, acusava a oposição liberal, ávida por um tema capaz de os catapultar e reduzir o fosso da opinião pública. Depois de décadas de política dicotómica, em que quer o governo quer a oposição só estavam de acordo numa coisa na política de imigração, abria-se agora uma frecha definitiva.      Blainey manifestara-se preocupado com o facto recorrente de, em anteriores crises económicas, a Austrália ter sempre fechado as portas ao exterior, enquanto que, desta vez, sem estar debelada a depressão se continuavam a aceitar imigrantes asiáticos. Estes, por circunstâncias várias iam fixar-se invariavelmente nas regiões mais duramente atingidas pela crise de desemprego, alterando, assim, um balanço multicultural natural.      O problema dos refugiados asiáticos na Austrália teve origem no já distante dia 26 de Abril de 1976, quando um barco pesqueiro “Kien Giang” atracou a Darwin com 5 vietnamitas a bordo, e os quais haviam efectuado a travessia marítima, das águas infestadas do Índico e do Pacífico através de um desactualizado atlas escolar. Sem serem notados pelas autoridades, atracaram o seu barco com 18 metros de comprido a meio da noite, a pequena distância de Nightcliff, em pleno coração de Darwin, uma praia frequentada pela classe média. De manhã, aproximaram-se do cais de Stokes Hill, o principal da cidade. Quando a polícia marítima chegou numa lancha, um dos cinco homens a bordo fez o seu discurso previamente ensaiado: ”Chamo-me Binh Lam, sejam bem-vindos ao meu barco. Estes são os meus amigos do Vietname do Sul e gostávamos de ter autorização para ficar na Austrália.”      Nos anos que se seguiram, verdadeiras armadas de barcos, pejados de vietnamitas fugindo ao regime comunista na sua pátria, acabaram por encontrar o caminho para a Austrália. Eram os ‘boat people’. Aqueles cinco, foram os pioneiros daquilo que viria a denominar-se a grande invasão de refugiados, mas na época o incidente não mereceu mais do que um parágrafo no jornal “Northern Territory News”. Esta fuga maciça de asiáticos - a maior na história da Austrália - eclipsou a anterior maior, a dos 63 mil polacos fugidos da 2ª Grande Guerra. Entre Abril 1976 e Junho 1983, no período áureo para refugiados, foram 78 mil os chegados do Sudeste Asiático à Austrália. Desses, 80% eram vietnamitas, e os restantes eram do Laos e Camboja. Apenas dois mil vieram directamente de barco, pois a maioria veio de campos de refugiados no Sudeste Asiático: Hong Kong, Macau, Malásia, Indonésia, onde muitos chegaram a passar oito anos em trânsito até à Austrália.      Este influxo veio alterar a paisagem suburbana em muitas cidades que se transformaram em centros equivalentes a cidades asiáticas. Mas, entre aquelas duas vagas de imigrantes, separadas por mais de três décadas, convém referir que a Austrália havia recebido mais de 3,5 milhões de imigrantes e refugiados, abarcando mais de uma centena de nacionalidades, excedendo qualquer outra nação industrializada actual, à excepção de Israel.      A sua chegada não foi pacífica pois nalguns casos resultou em manifestações racistas violentas, embora as implicações de tais incidentes tenham sido exageradas e aproveitadas para fins políticos partidários. Se a nação sofreu mudanças fundamentais como resultado da infusão indochinesa esta ocorreu sem violência generalizada, dado que esta nunca foi parte do nacionalismo australiano. Isto não significa porém que os asiáticos tenham sido recebidos de braços abertos, o que não surpreende, dado que a Austrália, per capita, recebeu mais refugiados asiáticos do que qualquer outro país no mundo. Até que ponto serão verdadeiros, os cíclicos ataques de histeria nacional sobre se a Austrália está a ser asianizada? O passado recente do país está cheio deles, sobre o medo de ser ‘ inundada por hordas asiáticas do norte ’ e tais medos mantêm-se bem depois do fim da política da Austrália Branca.      Em Footscray, um subúrbio interior de Melbourne, verdadeira capital dos colarinhos azuis (a classe trabalhadora), os indochineses chegaram em massa em 1985-1986. Na principal artéria comercial, oito em cada dez lojas são vietnamitas: restaurantes, supermercados, casas de diversões e até agências de viagem. Por entre elas, está Nick Ciancio, nascido em Itália, e que vem gerindo a sua loja de costura há 23 anos: “Uma quantidade de gente não gosta dos vietnamitas, porque pensa que eles são sujos e não entra nas lojas deles” diz Ciancio. Na mesma rua, Geoff Hope tem uma loja de brinquedos desde a década de 50, tendo jogado futebol (regras australianas) por Footscray há 40 anos e lembra-se de quando o subúrbio era predominantemente australiano da classe trabalhadora: ”Os indochineses são mais espertos do que nós. Eles estão dispostos a arriscar e admiro o que eles já conseguiram”.      Em Marrickville, um subúrbio interior de Sydney, existe racismo e tolerância, misturado com gente que aceita os novos imigrantes asiáticos mas que teme que haja demasiados a entrarem muito depressa na sociedade australiana. No último recenseamento, a população de Marrickville era 70% ‘ estrangeira ’ de 1ª ou 2ª geração. Havia 16 mil gregos, 10 mil indochineses e 5 mil portugueses. Gladys Smith, com 81 anos e John Loupos, de 29, são símbolos de gerações diferentes oriundas de distintas origens. Gladys diz que “há mais de 50 anos toda a gente na rua era Australiana, hoje restam apenas dois. As minhas filhas queriam que eu me mudasse quando os asiáticos vieram, mas as pessoas são todas iguais e eu preferi ficar.” Loupos e os pais, que emigraram da Grécia há 45 anos, têm uma confeitaria grega em Marrickville. A maior parte dos seus clientes mudou-se e a maior parte dos indochineses não compra doces na sua Hellas Food Market, mas admite Loupos: “Não temos nenhum problema com os indochineses. Os meus pais são imigrantes. Quando eles chegaram também toda a gente estava contra eles. Nós percebemos o problema deles agora.”      Nem todos porém entendem. Debbie Lyon, 34 anos é australiana da terceira geração e trabalha numa firma de contabilidade de Marrickville, reagindo veementemente contra os vietnamitas que, admite, representam 95% da clientela da sua firma: “Eles trabalham por um salário de miséria, cheiram mal. Vivem cinco famílias em cada apartamento e cospem na rua. Se querem viver no nosso país têm de cumprir as regras, mas eles não o fazem. Chegam cá e poucos meses depois já guiam Mercedes.”      Tal como aqueles que se lhes seguiram, os cinco vietnamitas que chegaram a Darwin em 1976, tinham 16 a 25 anos e não acharam a Austrália nenhum paraíso. Nem todos tiveram uma história de sucessos. Binh Lam, que comprara o barco e organizara a viagem de fuga do Vietname, morreu, com Pau Gip, outro dos seus colegas de barco, num desastre de viação em Brisbane em 1980, depois de ter visto recusado o seu pedido de asilo como refugiado. A sua vida em liberdade não durou muito. O seu irmão mais novo, Tam Tac Lam ficou em Darwin e prosperou, poupando dinheiro suficiente para abrir um restaurante. Agora, com 40 anos, está casado com uma chinesa de Timor Leste e tem duas filhas: “Mesmo que os comunistas saíssem do poder agora”, diz Lam, “ eu não voltaria, pois já passei mais de metade da minha vida aqui”.      Chen Van Nguyen era o capitão do barco “Kien Giang” e morria de saudades do mar. Arranjou um emprego a reparar e a vender os barcos que os refugiados traziam para a costa de Darwin. Um deles foi comprado por um pescador profissional que lhe ofereceu emprego, e hoje ocupa o seu tempo na pesca nas águas do Golfo Van Diemen ao largo de Kakadu. O quinto tripulante do barco, Binh Ngo, casou e tem cinco filhos, vivendo em Brisbane, onde tem uma loja de produtos alimentares e uma videoteca chinesa.      Poucos australianos sabiam fosse o que fosse sobre a Indochina, quando o então 1ª Ministro, Robert Menzies mandou as suas tropas combater, na guerra dos americanos, no Vietname. Antes da queda do Vietname do Sul, Camboja e Laos para as mãos dos comunistas e, depois das longas e sangrentas guerras na região, havia apenas umas centenas de indochineses na Austrália. Em 1991, havia já mais de 160 mil, e o êxodo marítimo para o norte da Austrália terminara em 1981. Embora ainda se mantenha a imigração asiática, esta só se faz agora através do programa de reunião familiar.      Em termos médios, os indochineses representam 10% da imigração australiana, que rondava umas 120 mil pessoas por ano no início da década de 90. Havia em 1992, 664 mil asiáticos, sendo os vietnamitas os segundos mais numerosos, a seguir aos mais de 200 mil chineses étnicos, dos quais 40 mil são descendentes australianos dos imigrantes chineses da corrida ao ouro no final do século XIX. Os indochineses são já uma parcela importante da imigração australiana: 62 mil em Sydney, 51 mil em Melbourne, e 10 mil em Perth, Brisbane e Adelaide.. Em 1990, o cientista demográfico Charles Price causou alarme ao prever que, à taxa actual, haveria 26% da população tendo origem asiática em 2040, comparados com os 5% actuais. Nalguns subúrbios aquela taxa já foi atingida.      Cabramatta no sudoeste de Sydney já é disso um exemplo. Dos seus 80 mil residentes, 55% são asiáticos. Marrickville e Bankstown em Sydney, e Richmond e Footscray em Melbourne parecem mais cidades asiáticas do que australianas, o mesmo acontecendo em alguns subúrbios de Brisbane e Adelaide.      Como se trata na sua maior parte de refugiados e não de imigrantes com aptidões profissionais, os indochineses representaram - desde o início - o maior teste à capacidade australiana de absorver um largo número de imigrantes sem fluência de Inglês, muito afectados pelos cortes profundos que a sua textura familiar sofreu e outras formas de sofrimento trazidas dos países de origem. A falta de dons linguísticos causou desemprego maciço nestas comunidades e existe falta de professores de Inglês como Segunda Língua (TESL) [9] . Muitos destes refugiados com qualificações profissionais vêm a deparar com inúmeras dificuldades por elas não serem reconhecidas, havendo muitos trabalhadores altamente especializados em campos profissionais e científicos, a trabalharem em linhas de montagem.      Os australianos, em geral, designam os indochineses como ‘viets’ ou simplesmente asiáticos, mas na prática eles pertencem a quatro grupos étnicos distintos, com pouco em comum, mas com uma longa história de animosidade entre eles. Oficialmente havia, em 1991, 120 mil vietnamitas, 25 mil cambojanos e 10 mil laocianos. Estes números não indicam porém os de etnia chinesa dentre tais grupos, dos quais sabe-se que, pelo menos, 27 mil vieram integrados nas fugas em massa do Vietname. Se a Austrália está a mudar, os indochineses também contribuíram para mudar a face do país. Cabramatta, que era conhecida depreciativamente como ‘Vietnamatta’ foi durante alguns tempos um local de violência a ser evitado por não-asiáticos. Hoje em dia, as pessoas da margem norte de Sydney (subúrbios ricos) deslocam-se ali para fazerem compras e comerem, salientando-se as suas faces brancas e rosadas num mar de gente asiática.      Esta imagem de turismo interno foi aproveitada por todos os que acreditavam no multiculturalismo, e ali se encontra Phuong Canh Ngo, que se gaba de ter sido o primeiro vereador vietnamita do ocidente e que considera Cabramatta uma cidade eurasiana. Escapado em 1983, com mais 123 vietnamitas num pequeno barco de 10 metros, Phuong conta que ao fim de três dias na água nada havia para beber e duas pessoas já haviam morrido. Ele mesmo estava tão doente que, à vista da costa da Malásia, os outros esperavam que ele morresse para terem mais espaço no barco, mas sobreviveu. Phuong Ngo chegou à Austrália com 6 dólares malaios no bolso e durante os dois primeiros anos trabalhava dezasseis horas por dia numa fábrica em Punchbowl, nos subúrbios ocidentais de Sydney. Depois, amealhou o suficiente para abrir uma loja de comida pronto a vender . Mais tarde abriu uma livraria e, em 1987, concorreu como independente às eleições do município de Fairfield/Cabramatta. Foi eleito, pouco antes de Sang Nguyen, o segundo vereador vietnamita ter sido eleito para Richmond, Melbourne. Embora os vietnamitas sejam maioritários no eleitorado, Ngo não poderia ter ganho sem o apoio de alguns australianos europeus. Ele admite, que no início raramente percebia uma palavra dos debates municipais, mas em 1990, já fluente em Inglês e no jargão autárquico, sentiu-se confiante e cumpriu um mandato como vice-presidente do município.      É com um sentido de segurança, dada pela sua identidade australiana que, cada vez mais, os vietnamitas se dispõem a regressar ao seu país natal. Em 1987, 14 vietnamitas munidos dos seus passaportes australianos foram os primeiros a revisitar o Vietname, atravessando a fronteira com o Laos, numa fútil manobra para tentar derrubar o regime comunista em Da Nang e instalar um movimento de resistência em Hanói. A tentativa foi um descalabro, com as forças mercenárias sendo abatidas, pelos exércitos do Laos e Vietname. Após o julgamento, dos sobreviventes, em Ho Chi Minh foram sentenciados a penas de prisão perpétua. As tentativas da embaixada australiana, em Hanói, foram infrutíferas para saber do seu paradeiro, e as relações cordiais de Camberra com Hanói esfriaram.      Nesse ano, a medo, um primeiro grupo de 15 turistas vietnamitas deslocou-se ao Vietname para visitar familiares, quase em segredo. Quando um jornal de Sydney falou do assunto, a imprensa vietnamita dos exilados na Austrália, quase os acusava de traição. Alguns receberam ameaças de morte e um deles foi obrigado a mudar-se. Em 1991, porém, mais de 10 mil Vietnamitas Australianos fizeram a viagem de regresso para celebrar o Têt, o Novo Ano Lunar Vietnamita. A partir de então tudo isso passou a ser considerado como normal, havendo voos normais ‘charter’ entre Sydney e Ho Chi Minh City.      Para muitos Vietnamitas Australianos, a sua maior prioridade é construir um futuro, na Austrália, para eles e seus filhos. A sua vontade de vencer pode traçar-se nas épicas viagens de fuga que engendraram para atingir o país da liberdade, a Austrália. Mais de um milhão de vietnamitas emigrou da Indochina, na esperança de se poder radicar no Canadá, Estados Unidos, França e Austrália. A maioria fez a viagem em naus incapazes de cruzarem os vastos mares que tiveram de percorrer, sem auxiliares náuticos de navegação, a não ser as estrelas.      Os primeiros a chegarem à Austrália, Binh Lam e os seus quatro colegas, fizeram-no com uma página arrancada a um velho atlas escolar. Dezenas de milhar deles - talvez uns cem mil -, pereceram nos mares, muitos às mãos dos piratas do mar do Sul da China e do arquipélago indonésio. Uma estimativa do Alto-comissário para os Refugiados, das Nações Unidas, aponta para 35% de vítimas dos piratas e 30% como tendo sido recapturados pelos vietnamitas. Muitos ficaram irremediavelmente marcados pela experiência. Crianças assistiram à violação das suas mães e ao assassinato dos seus pais. Antes, tinham sofrido nos campos de reeducação da pátria ou nos campos da morte (‘killing fields’). Ainda hoje, vietnamitas, laocianos e cambojanos recebem tratamento de conselheiros e psicólogos num centro especial para vítimas de tortura nos subúrbios ocidentais de Sydney.      O estereótipo indochinês é o de um próspero homem de negócios ou dono de restaurante com filhos tão brilhantes academicamente e dedicados trabalhadores, que até os colégios privados competem para lhes oferecer vaga. E de facto, alguns correspondem a tal estereótipo. Quang Luu [10] , 55 anos, director da cadeia multicultural de rádio, SBS, é casado com uma vietnamita Mary, tem quatro filhas e um filho: um médico, um farmacêutico, um gerente comercial, um engenheiro e um trabalhador social. Aos olhos europeus, os vietnamitas parecem especialmente obcecados com a educação, por razões culturais e porque para os refugiados, a educação é um bem portátil em tempo de adversidade.      Sem sombra de dúvida, muitos indochineses são excelentes alunos nas áreas de matemáticas e ciência. Mas, mais típica é a luta diária dos indochineses. Ken e Kim Tran chegaram à Austrália em 1987, vindos de um campo de refugiados da Malásia, onde permaneceram apenas seis meses. Depois de uma curta estadia num Hostel (dos quais vos falei no início desta crónica), mudaram-se para Footscray. Kim, então com 32 anos, trabalhava como operadora de máquina de costura e o seu marido Ken era condutor de monta-cargas. Kim estava cheia de saudades e sentia-se só. Era frequentemente humilhada nas lojas e uma vez, enquanto esperava numa paragem de autocarro foi verbalmente insultada por um condutor de automóvel. O seu Inglês continua limitado e ainda é vítima de insultos racistas, mas acha a Austrália um país suportável. “Eu trabalho duro e faço dinheiro, mas no Vietname eu também trabalhava duramente, só que não ganhava nada!”. A solidão mantém-se e o casal continua a ser um casal estrangeiro numa terra estrangeira, tal como aconteceu quase sempre com a primeira geração de imigrantes e refugiados.      Em média, a família indochinesa vive num apartamento ou numa casa, sobrepovoada, o marido trabalhando numa fábrica de automóveis ou de bebidas, e a mulher mal paga numa fabriqueta de vestuário barato. Os pais desempregados e sem hipóteses, devido à total ausência de conhecimentos de Inglês e à sua idade, e as crianças, que podem ter perdido anos de escolaridade, porfiando para tentarem dominar a dificuldade da língua e simultaneamente tentarem manter-se a par dos seus colegas nascidos na Austrália, na matéria dada. Neste ambiente de família as tensões são normalmente grandes. As crianças podem atravessar fases quase suicidas, dada a sua incapacidade de satisfazerem as expectativas dos seus pais. Outros, ‘ encontram-se ‘ através de gangs de rua, à porta dos locais de diversões nos subúrbios predominantemente indochineses.      No subúrbio de Springvale, em Melbourne, Tran Huy Quyen com 54 anos é um expoente da arte marcial vietnamita vovinam . Dois meses depois de chegar à Austrália, em 1985, publicou um anúncio sobre as suas aulas. Por aquilo que observou nos filhos de refugiados, cerca de 12% dos jovens vietnamitas chegaram à Austrália sem pais.      Estudos da Comissão de Assuntos Étnicos de Vitória mostram-nos como jovens desprovidos do estereótipo indochinês: vivendo em casas de passagem que partilham entre si, fumando, bebendo, deitando-se tarde a ver filmes de qualidade duvidosa, movimentando-se em grupos, de centros de diversões a salões de bilhar, e cometendo pequenos crimes em especial relacionados com drogas. Para atrair esses jovens, Quyen ofereceu-lhes aulas gratuitas, tentando dar uma certa estrutura à vida desses jovens, ensinando-lhes o significado da vida e disciplina, honra, auto respeito e auto estima, os quais fazem parte integral do vovinam . Para sobreviver, além de dar 40 horas semanais de aulas, Quyen, um director de escola secundária no Vietname, trabalhava em casa a costurar e lavava pratos num restaurante. Como ex-instrutor do exército do Vietname do Sul, sobrevivente de oito anos num campo de internamento, Quyen declara ter uma taxa de sucesso de 40% ao transformar estes jovens perdidos em bons cidadãos. Ele não é uma personagem única. Com efeito, a filosofia de auto ajuda é bem seguida pela maioria das comunidades vietnamitas.      Anh Huu Nguyen, 43 anos, estudante de engenharia no Vietname e uma das ‘boat people’ [11] , trabalha a tempo inteiro com as crianças de rua no subúrbio de Marrickville em Sydney, num projecto da Barnardo Australiana. Com uma colega australiana, Jayne Powell, Nguyen ajuda-os a encontrar acomodação (a Barnardo tem um hostel para crianças indochinesas) e leva-os a acampar no Real Parque Nacional, a sul de Sydney. Ela viveu num campo de refugiados na Tailândia e sabe o que as crianças vietnamitas têm de sofrer para sobreviver. Outros trabalham com os mais idosos, tal como Thinh Van Lam, 66 anos, que está na Austrália desde 1984. Era um engenheiro electrónico no Vietname, mas foi incapaz de obter colocação na Austrália, e ocupa o seu tempo na Associação de Amizade da Terceira Idade para os Vietnamitas de Cabramatta.      Muitos críticos da imigração asiática falam em ghettos indochineses, mas a verdade é que a proximidade entre os refugiados facilita a manutenção da sua estrutura familiar nuclear, e os recém chegados são ajudados pelos que estão estabelecidos há mais tempo no país. Da mesma forma, os recursos do governo australiano são melhor distribuídos por entre todos.      Um especialista em computadores, Thuat Van Nguyen, 52 anos, viu o seu barco ser socorrido por um navio alemão, tendo passado oito anos a viver e trabalhar na Alemanha, até que decidiu de novo emigrar - para a Austrália - a fim de dar melhores oportunidades à sua família. “O governo alemão não quer ghettos e espalha as pessoas pelo país, por isso muitas vezes, ao fim de vários anos, encontram-se pessoas que não falam a língua ( alemã ), logo, não arranjam emprego. Mas aqui, na Austrália, o sistema de multiculturalismo deixa-nos viver juntos e aprender a língua inglesa, pelo que arranjamos emprego mais depressa”, diz ele com um sorriso feliz.      Não obstante, há muitos críticos desta atitude política, e dentre eles um dos mais vocais tem sido o Dr. Robert Birrell, leitor de sociologia na Universidade Monash em Vitória: ”Existe muito romantismo, em relação à imigração, em especial a indochinesa. Ele surge nas elites profissionais de classe média, que apreciam a culinária étnica e que beneficiam dos serviços baratos proporcionados pelos vietnamitas”. Birrell fala da taxa de desemprego vietnamita como “desastrosa“, alertando para o facto de os vietnamitas estarem sobre representados como recipientes de benefícios da segurança social: 9,3% de todos os desempregados de Melbourne e 10% em Sydney.      Na prática, muitos vietnamitas ficam desempregados durante um ano até aprenderem Inglês, mas a pesquisa feita pelo Dr. Kee Pokong do (extinto em 1996) Bureau de Pesquisa de Imigração sugere que “ao fim de dez anos, os vietnamitas têm uma taxa de propriedade de casas superior à das famílias australianas nascidas no país. E isto, não obstante o facto de a maioria deles ter empregos na indústria de manufacturas e de 60% ganharem 12 mil dólares ao ano ou menos ( N. do Autor: o salário médio australiano é de 33 mil dólares/ano, valor médio de 1997, aproximadamente 3 960 000 ).      Não é por terem dois ou três empregos que os vietnamitas têm capacidade de comprar casas mais depressa do que os outros residentes do país. Assim como outros imigrantes anteriores, eles reverteram para um esquema ou costume de juntar dinheiro, denominado hui . Na sua versão mais simples, neste esquema, juntam-se dez pessoas para contraírem um empréstimo com base nas poupanças acumuladas do grupo.      Também a nível escolar, os vietnamitas parecem deparar com êxitos superiores à média. No Liceu Melbourne High , que tantos ministros já deu à Austrália, os vietnamitas tiveram 14% de "A’s" embora representem apenas 5% da população escolar entre o 9º e o 12º ano. Na prestigiosa escola privada secundária feminina MacRobertson Girls' High de Melbourne, 30% dos ‘Excellence Awards’ (Prémios de Excelência Escolar) foram para alunas vietnamitas do 9º ano de escolaridade. Alguns professores queixam-se de que os vietnamitas como alunos são difíceis, porque não são muito abertos nem desabafam os seus problemas, os quais parece serem resolvidos dentro do âmbito familiar.      Segundo Phach Nguyen, um colega nosso jornalista, vietnamita, que trabalha freelance, grande parte dos seus compatriotas sofre de vários estádios de depressão, e embora necessitem de falar disso, raramente o fazem fora da sua comunidade hermética. Uma vez por outra, a Austrália apercebe-se de tais problemas, quando, por exemplo em 1982, uma brilhante estudante de medicina se atirou de um 12º andar. Veio a saber-se, mais tarde que tinha sido violada durante a guerra no Vietname e nunca recuperara dessa experiência.      A maior parte das mulheres vietnamitas ainda não atingiu posições de proeminência na sociedade australiana, como aconteceu com os homens vietnamitas, mas isso deve-se sobremodo à necessidade de terem uma fase de adaptação ainda mais demorada do que os homens. Recorde-se que, na sociedade vietnamita, o Pai é a pessoa mais importante da família. Ele toma as decisões e o resto da família, acata-as sem discussão. Quando o pai morre, é ao filho mais velho que compete liderar a família, e às mulheres manterem a sua subalternidade.      Uma das mulheres que conseguiu libertar-se, e aproveitar as hipóteses libertárias da Austrália, foi Pauline Chan, 39 anos, actriz e produtora de cinema. Natural de Saigão, chegou à Austrália, via Hong Kong, em 1982, tendo desempenhado papéis de relevo nos filmes ‘Sword of Honour’, ‘Vietname’ e na telenovela ‘A Country Practice’, tendo produzido dois dos três filmes australianos apresentados em Cannes em 1990.      Mesmo assim, um inquérito do Reader’s Digest revelava que mais de metade da comunidade asiática na Austrália havia sido vítima de uma forma ou outra de discriminação e que uma em cada dez pessoas havia sido fisicamente atacada.      Os indochineses raramente se queixam, mas uma nova geração está a surgir. É uma geração de faces asiáticas com sotaques australianos. Em 1986, o recenseamento mostrava que apenas 3% dos vietnamitas casava fora do seu círculo vietnamita, mas lentamente este hermetismo vai-se diluindo interracialmente. E se bem que, durante quase duas décadas a taxa de imigração indochinesa rondou os 40% do total, nestes últimos anos ela diluiu-se a reuniões familiares. A Austrália do futuro terá, de facto demasiado asiáticos para o gosto de alguns, mas estes falarão fluentemente Inglês e serão prósperos. Até agora, eles mudaram mais as zonas onde se fixaram, tais como Springvale (Melbourne) e Cabramatta (Sydney), do que haviam feito os seus predecessores, gregos e italianos, de há 50 anos. E tal como estes, um dia hão-de deixar aqueles subúrbios para dar lugar a novas ondas de imigrantes ou refugiados. De qualquer forma, estes subúrbios ficarão marcados na memória de muitos imigrantes e refugiados, como as margens da Ilha Ellis em Nova Iorque e o seu símbolo (A Estátua da Liberdade) ficaram para um período notável da imigração e da tolerância dos povos.      O debate sobre asianização da Austrália, quer em 1983, quer em 1996, necessita de uma mais profunda explicação para se abarcar, na sua plenitude o significado das mais recentes vagas de imigrantes e refugiados. Até aos anos 60, havia sempre presente o medo de uma invasão amarela . A motivação utilizada pelos governos conservadores de Malcolm Fraser (1975-1983) para justificar o seu humanitarismo era a de que os sul vietnamitas eram aliados da Austrália na sua luta anticomunista e, por isso mesmo, teriam de ser integrados e aceites na sociedade. Desta forma, os asiáticos (vietnamitas) adquiriam uma cor menos amarela , por um processo de alianças políticas e pelo complexo de culpa de participação no conflito vietnamita.      Voltemos ainda mais atrás no tempo, a 1901, data da celebração da Federação Australiana, com o infamemente célebre Decreto Restricionista da Imigração. Segundo este, era proibida a entrada de chineses, para evitar aumentar as hordas asiáticas, que haviam permanecido desempregadas na Austrália após a febre da corrida ao ouro, ocorrida na segunda metade do século passado. Esta foi uma fase triste das relações multinacionais na Austrália.      A história fala-nos de perseguições constantes, maus-tratos, violações de todos os direitos culturais e étnicos, de uma comunidade tão diferente como a chinesa, no seio de uma sociedade semi-letrada e em busca de uma identidade, como era a Austrália até ao início deste século. Infelizmente, esta política de base na nação australiana haveria de manter-se por mais de seis décadas, como o pilar em que assentava a promessa de um futuro próspero e branco para este continente.      Em pleno apogeu do pós guerra, Arthur Calwell [12] , salientava a necessidade de o país se manter “ branco e britânico ”, declarando: “ por cada estrangeiro radicado na Austrália, dez brancos e britânicos lhe sucederão ”. Só, que, fruto de circunstancialismos vários, esses sonhos e o de conseguir 20 milhões de habitantes durante a geração do pós guerra vieram a esfumar-se. Em troca, o que o país daria a Calwell, entre 1947 e 1980, seria 4,5 milhões de imigrantes, dos quais apenas 1/3 tinham origem britânica.      Ao longo dos tempos muitas foram as vozes que se opuseram à entrada de não-britânicos e não-europeus, alegando-se que esses viriam a concorrer nos mercados de trabalho e, desta forma, roubar empregos aos residentes. Esta objecção (aliás, como outras que já atrás mencionamos) pode ser contrabalançada com os dados da década de 80, segundo a qual 80% dos refugiados indochineses ocupava postos de trabalho na manufactura, em posições semiqualificadas ou indiferenciadas, sendo 94% das mulheres empregadas nas linhas de produção, postos de trabalho estes há muito preteridos pelos europeus.      Tradicionalmente, estes lugares de trabalho foram reservados aos não falantes de língua inglesa, europeus ou árabes, pelo que os asiáticos vieram preencher uma lacuna na oferta de mão-de-obra. As taxas de desemprego, da década de 80, mostravam 40% de asiáticos, 35% para os do Médio Oriente e 10% para os restantes australianos. Os asiáticos não vieram ocupar o lugar de trabalho de ninguém! A braços com a adaptação normal num país de usos e costumes diferentes, com as dificuldades linguísticas, com a falta de facilidade de emprego e mesmo subemprego, com as dificuldades de relacionamento social e cultural, eles foram inicialmente mais uma camada de não-privilegiados, ostracizados pelos seus vizinhos imigrantes de ascendência europeia (não britânica), que também neles viam uma espécie de competição injusta, e justamente, por isso, os escolhiam para bodes expiatórios das politiquices do reino.      Voltemos, de novo à abordagem do problema pelo historiador Blainey. Este acusa o governo trabalhista de ter encetado uma política discriminatória, dado que os critérios vigentes favoreciam a vinda de mais pessoas asiáticas, prejudicando movimentos migratórios europeus e não asiáticos. Isto, ressalta, porém, da necessidade de permitir que os mais recentes imigrantes tragam as suas famílias, dado que os europeus há mais anos radicados já se estabeleceram e trouxeram as famílias que queriam, pelo que o número de pretendentes deste grupo é obviamente inferior ao dos asiáticos. Mas também isto é transiente, uma mera temporalidade, que se desvaneceu a partir do fim da entrada de refugiados em massa em plena década de 80.      Blainey, ao citar que aquela política era racista, não deixa, porém, nenhuma saída para justificar que, por exemplo, a troca/mudança da entrada de indochineses por/ara indianos, não seria igualmente racista? Ou, se quisermos, sul-africanos em vez de indochineses, não seria isto também racista?      Claro que teremos de conceder-lhe alguma razão quando ele alegava que, “ se alguém quiser reduzir a imigração asiática em não sei quantos por cento é acusado de racista, mas se alguém quiser aumentá-la, tal epíteto lhe não é aplicado ”. Blainey, porém, vai mais longe ao salientar os aspectos negativos da política de imigração australiana: ” os australianos assumem a posição de que os europeus e os seus descendentes têm ideias racistas, enquanto os povos de outras origens as não têm. Quando a Europa dominava o mundo, tal noção seria apropriada, mas depois da liberalização da Ásia e da África, entre 1945 e 1975, as novas nações daí emergentes logo se afirmaram equalitárias e protestaram contra os excessos dos seus antigos senhores. A palavra racista aplicava-se, então, aos Franceses, Holandeses, Espanhóis, Portugueses, Alemães e Belgas, mas hoje em dia, dezenas dessas novas nações igualmente subjugam minorias raciais, religiosas, etc., dentro das suas próprias fronteiras, sejam elas a Indonésia, as Filipinas, Sri Lanka ou qualquer outra. Nestes últimos anos, mais casos de racismo se cometeram na Ásia e na África do que em muitos mais anos de poderio europeu, mas poucas ou nenhumas são as vozes que se levantam contra tal facto.      Na época, o então ministro trabalhista Stewart West respondeu que “ a vinda de mais europeus e britânicos para corrigir o alegado desequilíbrio migratório poderia apenas significar um aumento do total de pessoas idosas e sem qualificações, o que provocaria ainda mais tensões no sector desempregado da população”. Recorde-se que, em 1982-1983, estavam 26 mil inscritos como potenciais imigrantes do Reino Unido mas apenas metade emigrou, demonstrando a falta de interesse britânico na emigração para a Austrália.      Se considerarmos o total de população asiática existente em 1983, de 2,7%, era previsto que poderia atingir os 4% no ano 2000. Quase vinte anos mais tarde tal número é de cerca de 5%, o que raramente poderia ser considerado como a asianização do continente .      Se bem que naquela época (já distante dos anos 80) ninguém quisesse reduzir o número de asiáticos, o certo é que se se tivesse aumentado o número de não asiáticos, apenas se teria conseguido aumentar o número de desempregados no país. Sabendo à partida que cada grupo étnico tem, de uma forma ou outra, as suas preferências políticas partidárias, podendo representar com o seu voto a mudança de um para outro bloco político, mais importante será recordar que cada um desses grupos tem também a sua história pessoal de mágoa, discriminação e humilhação, e todos os debates racistas servem apenas para reavivar tais feridas.      Pessoalmente, nos meus contactos com pessoas de comunidades de línguas portuguesa, espanhola, francesa, jugoslavas, grega e italiana, pude constatar que estas são das mais atemorizadas pelo perigo de asianização, talvez até porque os membros de tais comunidades estão menos preparados do que outros para poderem enfrentar um reduzido mercado de trabalho, face às poucas habilitações académicas e profissionais, que caracterizam a generalidade dos seus membros. São também eles que vivem nas zonas mais densamente povoadas pelas recentes vagas de asiáticos, com eles lidando no quotidiano, vendo lojas de europeus sendo progressivamente substituídas por lojas asiáticas. Estes europeus e seus descendentes temem esta política imigratória porque ela pode atrasar ou quiçá, mesmo, impedir a concretização dos seus sonhos rápidos de fortuna e vida desafogada. Políticos e historiadores mais não fazem do que agitar estes espectros, capazes de galvanizar as massas e aliciar os seus votos. Existem raras e honrosas excepções, tais como o ex-ministro dos estrangeiros e ex-Governador Geral, Bill Hayden, ao declarar em Setembro 1983 que “ a Austrália estaria totalmente asianizada em menos de duzentos anos ”. CRÓNICA IIª PARTE IIª UMA CRISE DE IDENTIDADE NACIONAL AUSTRALIANA Os australianos têm pugnado por uma sociedade multicultural, aberta aos seus vizinhos asiáticos, mas adivinham-se novos rumos de pensamento. O país está indeciso quanto ao seu futuro. 1. A HERANÇA DE BLAINEY      Em 17 de Março de 1984, como vimos, o historiador Geoffrey Blainey fez um empolgante e controverso discurso aos Rotários de Warrnambool (no estado de Vitória), sobre o ritmo da imigração asiática para a Austrália, que, segundo ele, era demasiado rápido. Aquele discurso, prontamente, se tornou num foco de debate nacional, polarizando opiniões. Quinze anos depois, a Austrália é, quer queiram, quer não, uma sociedade multicultural. As tensões surgidas no período de transição, deram lugar a uma maior aproximação à Ásia, quer em termos de imigração, quer em termos económicos.      Blainey, teve o efeito de um trovão sob os plácidos céus australianos, pois não tinha havido até então ninguém tão proeminente, a lançar um debate racial, categorizando um determinado número de pessoas devido à sua origem asiática, como um perigo para o tecido da sociedade australiana. Conforme vimos, o debate durou todo este tempo, e haveria de aflorar, reforçado, quando menos se esperava, como adiante se verá.       Será que a Austrália aceitara demasiados imigrantes? Será que o governo estava a andar mais depressa do que a opinião pública estava disposta a aceitar? Será que alguns dos subúrbios se haviam transformado em ghettos perigosos, cheios de criminosos asiáticos? Será que a imigração asiática só servira para enfraquecer as instituições democráticas do país, e as capacidades do país em defender-se dos ataques externos, tornando-nos numa nação de tribos, danificando de forma irreversível a coesão social da Austrália ?      A minha resposta a todas estas questões, uma boa dúzia de anos mais tarde, é de que Blainey estava errado e, as tensões raciais, se bem que, de quando em quando, polarizem a nação, não fazem parte do modus vivendi australis . Nem os mais pessimistas poderiam admitir que não somos uma nação, ou o somos menos do que éramos em 1984. Ainda não fomos invadidos por ninguém, os nossos imigrantes (e convém não esquecer que sou um deles) não enfraqueceram as nossas capacidades de defesa, e a nossa integração económica com a Ásia prosseguiu a um ritmo tão rápido quanto o permitiu a globalidade da economia mundial.      Recordemos o livro de Paul Kelly nos anos 80 [13] “The End of Certainty (O Fim das Certezas)”. Nele, Blainey acusava o governo trabalhista de Bob Hawke, então 1º ministro, de “ ser o menos britânico de toda a história australiana ”, e, afirmava que “ poderia haver confrontos como os de Birmingham dentro de 10 a 15 anos ”. Já lá vão os anos e não se vislumbra essa ameaça sombria.      Blainey chegou mesmo a afirmar - sem provar - que a Austrália era apenas uma nação de ghettos e uma colónia do Japão (sic). Os seus dotes de propagandista confundiram a nação e atacaram um dos grupos mais vulneráveis: os imigrantes e refugiados vietnamitas. Embora a Austrália seja uma das sociedades com maior sucesso de imigração, Blainey tentara provar que a Austrália era um país pequeno, de vistas curtas, demasiado intolerante para poder suportar uma tão variada mistura étnica. Também aí se enganou, mas levou irremediavelmente para o seu campo os mais conservadores do país, que ao fim de 13 anos na obscuridade, haveriam de ascender ao poder em 1996, depois de, sem sucesso, se terem tentado servir dos argumentos anti-imigração para derrotar as vitórias dos trabalhistas entre 1983 e 1996.      Como adiante se verá, os debates sobre imigração acabariam por deixar de parte a raça, mas ocasionalmente elementos mais retrógrados trazem de novo à baila esse factor. John Howard, por exemplo, quando era líder da oposição em 1988 (depois de ter destronado, mais uma vez, Andrew Peacock) afirmou depois de se avistar com Margaret Thatcher, que era “ necessário abrandar o ritmo da imigração asiática, para dar tempo de assimilação à população, para benefício da coesão social do país ”. estas declarações haveriam de perseguir Howard até este atingir o poder em Março de 1996. Nunca as retractou, nem desmentiu nem confirmou. Nunca explicou como reduzir a imigração asiática sem discriminar, sem explicar como tal imigração ameaçava o tecido e a coesão social do país. E voltaria a perder a liderança dos conservadores para Peacock, e uma vez mais a recuperaria mais tarde. 2. O RELATÓRIO FITZGERALD      O debate sobre a imigração recebeu, em 1988, com o Relatório FitzGerald, um contributo importante. Estabelecendo o facto de que a imigração era vantajosa, aquele relatório alertava para o perigo de a discussão do assunto resvalar para áreas politicamente perigosas, por haver uma falha de racionalidade na forma como os governos trabalhistas apresentavam a imigração, a qual era entendida mais como uma forma de ajudar os imigrantes do que para beneficiar o país.      FitzGerald, por exemplo, criticava o Programa de Reunião Familiar [14] , que achava dever ser mantido, bem como o Programa de Recepção de Refugiados, mas queria que a ênfase fosse dado aos benefícios económicos que a imigração poderia trazer. O termo multiculturalismo era considerado vago, impreciso e confuso, para a maioria das pessoas, mas FitzGerald achava que nada havia a ser dito sobre a imigração asiática. Um programa destinado a captar pessoas com aptidões necessárias para o país, daria, porém, uma mais imediata contribuição económica, havendo obviamente maior número de candidatos asiáticos, dado o crescente desinteresse dos europeus em emigrarem para a Austrália. Assim, aquele relatório criticava duramente as teses de Blainey e a política do governo trabalhista.      O professor Stephen Castles da Universidade de Wollongong, em Nova Gales do Sul, reconhecido internacionalmente como um académico especializado em políticas de imigração, acredita, porém, que “ a Austrália é o país com maior sucesso em termos de imigração e de adaptação de imigrantes. É interessante ”, acrescenta, “ que grupos , tais como o National Action [15] , nunca tenham tido sucesso na Austrália, para além das franjas lunáticas. O princípio da não discriminação veio para ficar, assim como a imigração e a mudança da componente étnica.      Divisões étnicas, incertezas culturais e perguntas difíceis sobre a sua posição internacional aumentam o clima de possíveis complicações. Esta descrição, que à primeira vista se poderia pensar adequada à China ou à Rússia, diz de facto respeito à Austrália, de que temos vindo a falar. 3. O PAÍS DO CROCODILO DUNDEE ESTÁ DOENTE      Para um mundo habituado às imagens irradiantes de felicidade dos surfistas ou do Crocodilo Dundee, a noção de que os australianos sofrem de introspecção sombria pode parecer inadequada, mas o país confronta-se, de novo, em debate nacional sobre a sua identidade.      Por coincidência, isto acontece quando a publicação, em 1996, de um livro “O Conflito de Civilizações e Uma Nova Ordem Mundial”, de Samuel Huntington, professor da Harvard, está a provocar uma imensa discussão sobre a identidade cultural. Aquele autor considera que o governo trabalhista de Paul Keating, que perdeu as eleições em Março de 1996, cometeu um ‘ erro histórico ’, ao decidir “ afastar-se do ocidente e redefinir-se como uma sociedade asiática ”. Segundo Huntington, aquela decisão estava condenada ao falhanço e a deixar a Austrália permanentemente dividida.      A maioria dos australianos, em ambos os quadrantes políticos, reagiu com alguma irritação a este diagnóstico do professor. Paul Keating negou alguma vez ter declarado que a Austrália era Asiática, em algo mais que não fosse a sua posição geográfica, acusando Huntington de “ tribalismo primitivo ”. John Howard, o novo 1º Ministro afirma que o seu país não deve ter de escolher “entre a sua História e a sua Geografia”. Será que se trata de uma análise, de um académico na outra metade do mundo, totalmente errada? Pode ser que não. A fixação australiana recente sobre a sua própria identidade está intimamente relacionada com os pontos levantados por Huntington.      O debate australiano teve início em Setembro 1996, no discurso parlamentar inaugural de Pauline Hanson, uma deputada independente, a qual pôs em questão os níveis de imigração asiática e falou da possibilidade de a Austrália ser ‘inundada’ por uma vaga asiática. O debate prontamente se estendeu a uma vasta gama de assuntos a ele relacionados: Deverá a Austrália ligar o seu futuro económico aos seus vizinhos do Sudeste Asiático? ou, pelo contrário, deverá incrementar os seus laços tradicionais com a Europa e a América? Deve manter-se uma “sociedade multicultural”, ou quer isto dizer apenas que não passa de uma sociedade dividida? Pode a Austrália atingir uma segurança maior declarando-se uma república e assim cortando os seus laços com a monarquia britânica? Ou será que existe um fosso, cada vez maior, entre uma elite internacionalista australiana e o público, em geral, que permanece pouco convencido, preferindo o glorioso isolamento do seu continente?      A maioria dos australianos, com mentalidade internacionalista gostaria de reduzir o significado e o impacto das declarações da deputada Hanson, proprietária de uma pequena loja de peixe e batatas fritas pronto a servir (fish and chips take away shop) na Queenslândia, fora do triângulo tradicional Sydney - Melbourne - Camberra onde os mais ricos e os mais educados tendem a viver.      Ela foi expulsa do Partido Liberal (de John Howard, agora no poder) pouco antes das últimas eleições, em 1996. Sem grandes poderes de oratória, conforme ficou demonstrado no Parlamento, encheu o seu discurso inaugural de erros crassos, tais como dizer que a população da Malásia era de 300 milhões [16] . Não obstante estes pontos fracos, ela atingiu um ponto crítico, pois apesar de a maioria dos editoriais da comunicação social serem altamente desfavoráveis, inquéritos à opinião pública apontavam uma maioria de australianos como concordantes com as suas opiniões.      A população actual, que ronda os 18 milhões, tem menos de 5% de asiáticos, e em 1996 a imigração não excedeu 80 mil pessoas, um dos níveis mais baixos desde há muito. Esta análise numérica demonstra que a ameaça de uma ‘inundação asiática’ é um exagero despropositado. Mas alguns australianos influentes, tais como o ex-Governador Geral, Bill Hayden, têm declarado que a imigração poderia elevar a população australiana até aos 50 milhões… Se então os asiáticos fossem 40% dos novos imigrantes (tal como são actualmente) isto poderia alterar radicalmente a textura étnica do país.      Há 135 anos na pequena cidade de Young, no interior centro do estado de Nova Gales do Sul, os 2 mil mineiros de ouro, chineses, foram encurralados por forças numericamente superiores, espancados e mortos. As suas posses foram saqueadas e as suas tendas destruídas. Ninguém sabe ao certo quantos morreram naquela data, mas hoje a cidade prepara-se para se geminar com Lanzhou, no norte da China, e o seu recém eleito Presidente da Câmara, Tony Hewson, mostra-se orgulhoso ao dizer que, actualmente, ninguém na cidade tem a dizer de mal dos chineses. É isto que se espera possa acontecer no futuro, quando estes debates estiverem esquecidos como anacronismos. 4. A RAIVA INTELECTUAL E A ÁSIA      A noção de que o futuro da Austrália está ligado à Ásia não é recente. Muitos intelectuais, há décadas que vêm afirmando que os laços a uma monarquia distante, relegava o seu país para um estatuto de 2ª classe, como “ uma mera delegação do Império ”, utilizando as palavras de Paul Keating.      Eles lamentavam o complexo de inferioridade cultural, segundo o qual se assumia automaticamente que tudo o que fosse Australiano era necessariamente inferior ao produto oriundo do Quartel-general ‘Britânico’. Num famoso estudo da Austrália, publicado em 1964, “O País da Sorte” (The Lucky Country), Donald Horne sugere que “ uma ligação à Ásia, pode ser uma rota alternativa viável, às tentativas, por vezes humilhantes, de manter uma relação familiar com a Europa ... e nessa ligação os australianos podem recuperar um pouco do sentido de confiança e de importância ”. Segundo aquela visão, a ligação asiática, seria uma das três componentes de uma nova agenda: “Aceitação de novas tecnologias; envolvimento com a Ásia; e o choque (quando ocorrer) da proclamação de uma república.” Esta nova agenda atraiu muitos australianos, e na década de 70 começou a transformar-se em política nacional.      Paul Kelly, redactor-chefe do único jornal nacional “ The Australian”. cita que a velha Austrália era constituída por cinco ideias básicas: ”Uma Austrália Branca , proteccionismo tarifário comercial, arbitragem salarial centralizada destinada a dar um nível de vida decente a todos, paternalismo federal e a ligação ao Império Britânico”. De acordo com Kelly, nos últimos 20 anos estas ideias deram lugar a outras cinco: “multiculturalismo, o desmantelar das barreiras tarifárias proteccionistas, um afastamento do sistema de arbitragem salarial centralizado, uma falta de confiança no governo e uma maturidade nacional e aceitação da responsabilidade pelo próprio destino nacional ”.      Nas décadas de 80 e 90 estes conceitos estavam largamente associados aos trabalhistas, no poder, liderados primeiro por Bob Hawke e, depois por Paul Keating. Ao atingir o fim do seu período no poder, Paul Keating trouxe a discussão sobre a república para o centro dos debates políticos, como um corolário lógico e natural para as suas ideias de uma Austrália Multicultural na Ásia. O novo consenso atrás delineado por Paul Kelly não se limitava ao Partido Trabalhista. A opinião política generalizada na década de 80 aceitava a noção de desregulamentar a economia, favorecendo uma aproximação à Ásia e uma Austrália culturalmente mais diversificada.      No entanto, as crises sucessivas que afectaram o governo de John Howard nos seus primeiros 18 meses no poder, levaram-no a confrontar as teses que ele tanto abomina: uma Austrália republicana. Em 3 de Novembro de 1997 [17] , começou uma campanha publicitária e iniciou-se o envio de 12 milhões de boletins de voto para transformar a Austrália numa república.      Os republicanos publicaram anúncios a toda a página com o retrato de Isabel I da Austrália e II de Inglaterra acompanhada da seguinte mensagem: " Se quer que o/a seu/sua filho/a tenham a oportunidade de ser Chefes de Estado, ele/a pode casar com o Príncipe Carlos ou votar no Movimento Republicano Australiano. " Caras mediáticas como as do actor Bryan Brown e Hazel Hawke (ex-mulher do ex-primeiro ministro trabalhista) lançaram na TV e Rádio uma campanha de publicidade pedindo aos australianos que optem pela república, em vez de continuarem sujeitos ao Reino Unido.      Por exemplo, o actor Bryan Brown diz que os jovens australianos podem, um dia, ganhar um Prémio Nobel ou estabelecerem novos recordes olímpicos, mas nunca podem chegar a Chefe de Estado. O envio dos 12 milhões de votos, destina-se a eleger Delegados a uma Convenção Nacional, em 1998, que debaterá o problema da eventual república. O voto neste caso é voluntário, ao contrário do que acontece na Austrália, como anteriormente mencionamos, para as eleições legislativas e autárquicas em que é obrigatório e sujeito a multa. Howard, contrariando assim a lei nacional determinou que o voto fosse voluntário e não sujeito a multa, na esperança de que a abstenção favoreça os seus desígnios pró britânicos.      Aquela Convenção ia também decidir se deveria efectuar-se um referendo sobre a adopção de república antes do ano 2000. Curiosamente a maioria dos referendos realizados na Austrália, desde a Federação em 1901, foi derrotada (8 aprovados em 42), por não ter a maioria de dois terços ou simplesmente porque os australianos são avessos a mudanças?.      Os republicanos, cujas campanhas se intensificaram, depois do Bicentenário, em 1988, querem um cidadão australiano como Chefe de Estado, eleito por uma maioria de dois terços do Parlamento, mas sem alterar o regime parlamentar de duas Câmaras semelhante ao do Reino Unido. Os monárquicos querem a manutenção do status quo com o soberano no trono inglês representado na Austrália por um Governador-geral.      As sondagens revelaram, pela primeira vez na História, que uma maioria da população (entre 52 a 55%) pretende a república, desde a morte de Diana Spencer em Abril de 1997. A coligação liberal-nacional no poder, é dirigida pelo monárquico John Howard, mas alguns dos seus mais vocais membros parecem não serem tão monárquicos. Esse parece ter sido o caso da viúva de Robert Holmes aCourt, Janet (que é a mulher mais rica da Austrália à data em que escrevo) e que declarou em Outubro 1997: " É tempo de mostrar ao mundo que como Nação crescemos ", aliando-se assim à campanha publicitária republicana.      A oposição trabalhista foi sempre maioritariamente republicana e esteve por detrás do lançamento, no início da década de 90 do movimento republicano australiano, mas Paul Keating, então 1º Ministro, convenceu-se cedo demais que a população queria a mudança para o ano 2000 e isso ajudou-o a perder as eleições gerais de Março 1996.      Entretanto a Convenção para a República aprovou em 13 Fevereiro 1998 a realização de um referendo. John Howard, monárquico convicto, tinha um olhar patético perante as câmaras de televisão ao anunciar os resultados: dos 152 membros 73 votos contra 57 a favor da república em troca do actual sistema monárquico.      Surgiram divergências no campo republicano sobre a forma de escolher o futuro Presidente. Howard anunciaria também que colocaria o modelo mais popular - escolha indirecta do chefe do Estado - à apreciação dos cidadãos, dizendo “ Seria uma farsa … que a proposta não fosse posta à consideração do povo australiano”. Estão assim criadas as bases para que a Austrália passe a República a 1 de Janeiro de 2001, data em que celebra um centenário de independência numa federação de seis ex-colónias.      Os delegados à convenção - metade eleitos, metade designados - incluíam políticos, republicanos, monárquicos, jornalistas e líderes de opinião, estrelas do desporto e empresários. A convenção aprovou um sistema republicano que inclui um governo eleito e chefiado por um primeiro-ministro, e um Presidente escolhido pelo 1º Ministro e pelo líder da oposição, a partir de nomeações públicas a apresentar ao parlamento, por mandatos de cinco anos. O futuro Presidente reterá os poderes do actual Governador-geral, representante da rainha incluindo o poder de demitir governos, tal como aconteceu em 1975.      Com a queda do governo Keating e a aparição da senhora Hanson, o novo consenso sobre uma Austrália mais aberta, pode estar a mudar novamente. O novo debate sobre imigração acendeu-se, sobretudo devido à incerteza sobre a posição preferida do novo 1º ministro, John Howard. Em 1989, Howard expunha publicamente a sua opinião de que a taxa de imigração asiática deveria ser reduzida, mas como tal opinião foi violentamente atacada ele foi forçado a retractar-se retirando tal comentário. Desde então, John Howard tem-se manifestado contra tudo o que chama de “atitudes politicamente correctas”, defendendo o direito à livre expressão. Quando Pauline Hanson fez o seu discurso, Howard foi convidado a repudiar as suas afirmações, mas nunca o fez. Alegam os seus aliados que não o fez para não dar valor a declarações inócuas, mas poucos acreditam nesta explicação.      Em Junho 1998, o partido ‘One Nation (Uma Nação)’ de Pauline Hanson concorreu às eleições estaduais da Queenslândia onde obteve uns surpreendentes 23% dos votos, contra 30% do governo e 40% da oposição trabalhista. Pauline foi lesta a anunciar que ‘o sucesso de UMA NAÇÃO vai-se estender às zonas rurais de Nova Gales do Sul, Austrália Ocidental e Tasmânia. O ex-Premier da Queenslândia, o dinamarquês da Nova Zelândia, Sir Joh Bjelke PETERSON, um senil octogenário, que ocupou o poder naquele estado durante 20 anos felicitou Pauline por ‘ter feito despertar uma enorme onda de patriotismo... fazendo soar o alarme para os outros políticos em toda a Austrália’      Entretanto, o governo de coligação conseguiu assegurar em 30 Junho 1998, a passagem de uma lei sobre os direitos de terra dos aborígenes, afastando assim o temor de eleições antecipadas, e a capitalização dos votos da extrema-direita representada por Hanson. John Howard teve de chegar a um compromisso de acordo com o vetusto senador Brian Harradine, independente, para que a lei passasse na Câmara Alta do Parlamento na primeira semana de Julho 1998. 5. “A BATALHA DOS BATALHADORES”      A estratégia eleitoral que deu a vitória a John Howard, em Março 1996 baseava-se no “pequeno batalhador australiano”, uma criatura muito discutida, que é, mais ou menos, o normal australiano lutando para viver, educar os filhos e pagar a amortização da casa. Estes “batalhadores” eram tradicionalmente defendidos pela ala Centro Esquerda do Partido Trabalhista de Paul Keating, mas Howard e os Liberais concluíram que ao fim de 13 anos no poder, os trabalhistas se haviam aproximado mais dos ricos do que dos “batalhadores”.      Na economia, Paul Keating estava dedicado ao corte das barreiras tarifárias e a desregulamentação (embora nunca se tenha oposto frontalmente aos sindicatos). Na política externa, estava determinado a fazer com que a Austrália fizesse parte da comunidade asiática de nações, e a cortar os laços constitucionais com o Reino Unido. Culturalmente, ele apoiava uma Austrália multiétnica, uma sociedade multicultural, capaz de reconhecer e corrigir os males feitos pelos colonos brancos aos nativos aborígenes.      John Howard sabe que muitos “batalhadores” estão indiferentes ou até mesmo alienados por esta agenda. Inquéritos à opinião pública regularmente mostram um aumento da oposição a aumentos de imigração e os jornais enchem as suas páginas de histórias sobre gangs criminosos asiáticos. Se a desregulamentação económica trouxe um crescimento económico e mais fortes exportações, certo é que com ela veio um aumento da insegurança económica. Nas relações externas, a política trabalhista de orientação à Ásia veio criar uma nova forma de complexo cultural: os políticos australianos que se orgulham da sua frontalidade, viram-se obrigados a silenciarem-se face às injustiças e violações dos direitos humanos na Ásia. O próprio Keating lutou, até de uma forma embaraçosa na Malásia, para provar que havia afinidades culturais com os países vizinhos, indo ao cúmulo de afirmar em Singapura que o tão típico mateship (camaradagem) australiano era um dos celebrados valores asiáticos.      Ao tentar chamar a si os “batalhadores”, John Howard vai ter um problema: no campo económico: os liberais são tão ‘secos’ como os trabalhistas, havendo até quem afirme não haver distinção entre eles: uma espécie de Tweedledum e Tweedledee . Na prática, os liberais estão dispostos a fazer cortes mais profundos ainda nas despesas públicas e a uma maior desregulamentação do mercado de trabalho, mas esta direcção política, a curto prazo, significa que a “batalha para os batalhadores” vai ser, ainda mais, difícil.      Na política externa, John Howard tem enfatizado os laços tradicionais com a América e Reino Unido, países com os quais os “batalhadores” se identificam mais do que com a Ásia. Mas, também aqui, John Howard enfrentará os mesmos problemas ou factos da vida que confrontaram o seu predecessor Keating: o Sudeste Asiático e o Japão consomem 60% das exportações australianas, bastante mais do que o total combinado da Europa e EUA. (ver gráfico ANEXO II). O futuro económico da Austrália depende, sem sombra de dúvida, da Ásia, o que limita a margem de manobra a um reordenamento das prioridades da política estrangeira. Assim como Keating, John Howard aumentou a cooperação com a Indonésia - um país que muitos australianos vêm sob um olhar profundamente suspeito -, e tal como o seu antecessor, o novo governo mantém-se relutante em provocar a ira asiática, nas áreas de direitos humanos.      No que diz respeito à república, embora John Howard preferisse pessoalmente manter os laços com a coroa britânica, ele sabe que esta foi uma das políticas de Keating que obteve aprovação maioritária.. Os mais recentes inquéritos de opinião indicam que 55% dos australianos querem uma república, existindo uma forte pressão para que algo seja feito antes de a Austrália montar o seu show mundial, nos Jogos Olímpicos de Sydney no ano 2000. O tema república não merece a pena ser contestado, pelo que a Howard resta apenas o tema cultura onde poderá deixar a sua marca. Se bem que Keating falasse muito na ‘ imagem global ’ de uma Austrália multicultural, e dinâmica no futuro, John Howard prefere a imagem de uma Austrália mais relaxada e confortável.      Isto funciona como uma espécie de apelo tácito às certezas de eras passadas, quando os australianos estavam mais certos de tudo e sobretudo mais seguros dos seus empregos, dos seus vizinhos e da sua identidade cultural. Este apelo, para os críticos do governo Howard, representa o saudosismo por uma Austrália caracterizada por uma política racista: a Austrália Branca destinada a deixar de fora a imigração asiática. Marcado por anteriores declarações e temendo que o possam apelidar de racista, John Howard não tem mantido nenhum ataque aberto deliberado no multiculturalismo, hoje abraçado por milhares de australianos, se bem que silenciosamente ele tenha adoptado algumas características da agenda de Pauline Hanson.      Esta agenda crítica surgiu com a publicação do livro “A Austrália Traída” (Australia Betrayed) da autoria de Graham Campbell, outro deputado independente, aliado de Hanson. No livro atacam-se as ‘elites’ que marginalizam as ‘maiorias’, e em especial dois órgãos governamentais como tendo uma agenda política elitista: a OMA (Office of Multicultural Affairs, da qual este autor foi consultor entre 1989 e 1994) e o Bureau da Imigração e Pesquisa da População (Bureau of Immigration and Population Research). Por irónica coincidência, ou não, estes foram dois dos organismos governamentais que o governo de coligação liberal-nacional aboliu, logo nos primeiros meses depois de ter chegado ao poder.      O governo também endureceu a sua política em relação aos assuntos do direito à posse das terras aborígenes e tomou uma atitude menos crítica em relação aos excessos da colonização branca. Por outro lado, as tentativas de alterar os critérios selectivos da imigração (dentre eles, a necessidade de obrigatoriamente todos falarem fluentemente Inglês antes de serem potenciais candidatos a imigrar) foram de tal forma consideradas como reminiscentes da velha política de uma Austrália Branca, que foram reprovadas pelo Senado.      Todos estes sinais contraditórios levaram os trabalhistas a criticar o governo por não se ter demarcado das declarações inflamatórias de Pauline Hanson, embora lhe concedam algum crédito por não ter alterado de forma substancial a identidade nacional australiana ou a sua posição no mundo.      Paul Keating, agora reformado das lides políticas é mais crítico ao afirmar que o debate criado por Hanson veio “pôr à solta um animal selvagem extremamente perigoso, feio, vingativo, xenófobo”. As diferenças entre os dois governos são mais em estilo do que substância e ninguém sugere que a Austrália feche as portas à imigração ou volte as costas à Ásia, e pelo contrário a política imigratória australiana deverá continuar bem mais aberta e tolerante do que a de qualquer seu país vizinho asiático.      Curiosamente, a única área em que o consenso bipartidário não existe é no campo menos discutido e debatido: o económico. Ambos os partidos concordam que ao fim de 24 trimestres (6 anos) de continuado crescimento económico, o vulgar cidadão australiano está baralhado e inseguro. Tal como em muitos outros países ricos, existe muita discussão sobre a insegurança económica, alta taxa de desemprego e salários mais baixos para os menos qualificados.      O governo liberal tem, no entanto, avançado na direcção de limitar o poder sindical e desregular o mercado de trabalho. Da mesma forma, pugna por uma política fiscal conservadora, capaz de lidar com a tendência australiana de viver para além dos seus meios, mas, por outro lado, parece indicar uma tendência de trocar a ênfase numa liberalização unilateral tarifária por uma nova política de acordos bilaterais com cada país, de acordo com as posições destes. Na maior parte das indústrias, as barreiras tarifárias passaram para 5% ou menos. A reciprocidade nas restantes áreas sob proteccionismo (em especial carros e têxteis) pode reflectir a atitude mais céptica do governo Howard, em relação à Ásia, para além do desejo genuíno de proteger os “batalhadores”.      Por seu turno, os trabalhistas, desde o primeiro orçamento do novo governo liberal, concentraram os seus ataques nas medidas de estrangulamento da economia. Gareth Evans, ex-ministro dos estrangeiros, actual ministro sombra da economia, mostra-se pouco preocupado com o enorme défice na balança de contas correntes, considerando a baixa taxa de poupança nacional, como um problema secundário quando comparado com a necessidade de elevadas taxas de crescimento económico. Esta atitude pode querer significar uma tentativa dos trabalhistas recuperarem a lealdade dos seus velhos apoiantes e simpatizantes “batalhadores”, deixando de parte as políticas fiscais ortodoxas dos governos de Paul Keating.      Em Agosto de 1997, o governo conservador de John Howard emitia uma declaração oficial a repudiar o racismo e a defender a tolerância, vitais para a boa imagem do país na Ásia. O documento intitulado “No Interesse da Nação”, uma espécie de Livro Branco para a política externa e comercial, foi a forma encontrada pelo executivo para, finalmente, responder às críticas e polémicas declarações de Pauline Hanson, que havia afirmado que ‘ o país estava submerso por asiáticos ’. Aquelas declarações, como atrás vimos, deixaram o país dividido, tendo havido mesmo países que chegaram a acusar John Howard por este não ter condenado, de imediato, as declarações da sua ex-colega de partido, agora independente e fundadora do partido ‘Uma Nação’.      Quer a classe empresarial, quer a diplomática, não se cansaram durante estes dezoito meses que se seguiram `as controversas declarações de Hanson, de salientar que os comentários anti-imigração haviam prejudicado a reputação da Austrália e as suas relações comerciais com os países asiáticos. Uma prova de que aquelas declarações denegriram o bom-nome do país é a afirmação naquele documento ora vindo a lume de que: “ A discriminação racial não é apenas uma questão moral, ameaça os principais interesses da Austrália. 6. DÊ VIVAS À ALEGRIA      De forma distinta, os debates sobre imigração, identidade cultural e política económica reflectem uma nova postura de incertezas no “País da Sorte” (“Lucky Country”, livro de Donald Horne, publicado em 1964). Ambos os partidos, trabalhista e coligação liberal-nacional [18] parecem estar indecisos quanto ao rumo a adoptar. John Howard pretendia dar mais relevo às sensibilidades dos “batalhadores”, mas até agora tem-se limitado a questões consensuais em assuntos económicos e culturais. Os trabalhistas, que sob Keating, haviam adoptado esta postura, parecem orientar-se num novo rumo económico, até agora pouco definido.      Para um observador externo, muito desta atitude de ansiedade pode parecer excessiva. O antigo consenso sempre tratou as ansiedades australianas com um pouco de desdém, mas pelo menos baseava-se numa visão coerente e optimista do futuro do país. E de facto, a Austrália tem muito de que estar optimista. Pode ter baixado na classificação (ranking) internacional de prosperidade nos últimos 20 anos, mas de acordo com o Banco Mundial continua a ser o mais rico país do mundo, ao tomarmos em consideração as riquezas naturais ainda não exploradas.      Com a taxa de crescimento nos últimos anos bem constante, se bem que não tão elevada como a dos ‘tigres asiáticos’ (ora em crise), a beleza natural da Austrália, o espaço e o sistema sociopolítico aberto fazem do país, um local atraente para viver. Não me recordo de ter alguma vez visto ou ouvido falar de filas de australianos a quererem emigrar para nenhum país asiático, nem mesmo para aproveitar e fazer fortunas rápidas nos últimos anos de Hong Kong como colónia britânica, ou de Macau [19] como território sob administração portuguesa. Sobretudo, e para além de toda esta controvérsia sobre a crise de identidade cultural, a Austrália é um país, que para os que estão de fora tem uma cultura distinta e atraente: robusta, desinibida, instintivamente equalitária e levemente hedonista. A maior parte das culturas do mundo ocidental são bem piores. 7. BEM-VINDOS AO PARAÍSO PROMETIDO: a outra face da Austrália [20]      É vulgar as pessoas em Portugal pensarem na Austrália como um Eldorado mítico (ver P.S. abaixo), onde a fortuna se obtém pontapeando uma qualquer pedra. Bastava chegar, procurar emprego e começar a poupar para a alcançar. a) De médico a condutor de táxi      Existiam durante a década de 80 inúmeros exemplos do jovem analista de sistemas e/ou programador que, chegando com meia dúzia de palavras de Inglês, depressa se impunha para ganhar mais de 50 mil dólares anuais (6 000 contos). Havia também casos de engenheiros, estofadores e toda uma gama de profissionais que rapidamente cresceram na vida e se tornaram ricos neste continente-ilha. A realidade não é tão prosaica nem poética como aquelas simplificações insinuam.      Vejamos alguns casos:      a) No Afeganistão, Zalmai era arqueólogo com uma base educacional impressionante, um bom salário e uma vida típica da classe média desafogada. Estudou nas Universidades de Cabul (Kabul) e da Índia, mas na Austrália esses estudos não contam. Em 1986 disseram-lhe que mais de dez anos de estudos correspondiam apenas a dois anos de ensino superior na Austrália.      b) Pedro era desenhador no Chile de Pinochet desde 1972. Agora faz limpezas e tem um trabalho indiferenciado na construção civil.      c) Maria foi durante 12 anos secretária de direcção de uma conhecida empresa automóvel portuguesa. Chegada à Austrália em 1983 trabalhava em 1988 (há quatro anos) numa fábrica a cortar cabeças a galinhas e a empacotá-las. Hoje, quinze anos mais tarde, é secretária de uma firma e tem um nível de vida bem superior ao que tinha. Divorciou-se, casou de novo e teve mais filhos e consegue conciliar uma vida de mãe e mulher com a de profissional executiva, mas nunca se esquecerá daqueles anos iniciais.      d) José era jornalista economista há vinte anos. Depois de ter passado algum tempo como intérprete de Espanhol para os serviços de imigração, apesar de ser o Português a sua língua mãe, é funcionário do ministério de emprego. Hoje, passados 15 anos e depois de ter tido alguns anos de contrato como jornalista profissional em ministérios ainda não deixou a segurança do lugar vitalício no ministério do emprego.      e) Isabel era arquitecta em Portugal. No começo da carreira e atraída pela visão de uma Austrália rica, largou a Macau das Patacas para vir ganhar 350 contos mensais. Em 1988 tinha três empregos e não consegue nem um terço daquilo que sonhava ganhar.      Estes apenas alguns dos exemplos de uma vasta maioria de imigrados para este país. Muitos deles como vemos não venceram. A culpa não foi deles mas de um sistema antiquado de reconhecimento de qualificações académicas e profissionais que entretanto tem sido melhorado ao longo destas últimas duas décadas, para abarcar cada vez mais cursos e qualificações de países tão diferentes como o Afeganistão e a África do Sul. De qualquer forma muitos talentos não foram aproveitados e são melhor analisados por quem viaja de táxi e conversa com o condutor…      Zalmai foi um de milhares de Imigrantes que viram as suas qualificações não reconhecidas pelo governo australiano e que sofreram a humilhação de repetirem os seus estudos para satisfazerem os requisitos locais.      Assistentes sociais afirmam que chega a rondar os 90% o total de pessoas que está a trabalhar em campos diferentes das suas carreiras profissionais. Zalmai era Director do Instituto Arqueológico do Afeganistão, Director Regional do Centro de Estudos de Kushan, a quem a UNESCO encomendou dois volumes de História, para além de ser Membro da Academia de Ciências.      O Dr. A. R. era um dos mais reputados cirurgiões portugueses na década de 70, mas ao chegar à Austrália foi obrigado a fazer um estágio de seis meses antes de ser reconhecido como médico de clínica geral. Um dia fartou-se e regressou a Portugal. Outros, sem poderem regressar aos seus países de origem, palcos de guerras ou perseguições políticas acabaram por se tornar no simpático condutor de táxis com sotaque que a cada passo mete conversa, educadamente quando ouve outro passageiro com sotaque…Tal como ele, milhares de médicos reconhecidos em quase todos os países do mundo aqui são obrigados a submeterem-se a exames ridículos fruto do lobby proteccionista dos médicos australianos, temeroso destas invasões estrangeiras que lhes podem vir a dificultar a continuação da prática monopolista da medicina na Austrália. b) A miragem      A maior parte destes casos (e limitamo-nos a citar casos que conhecemos bem e de uma forma pessoal) sofreu durante anos a humilhação de ser recusada para entrevistas de trabalho, muito inferiores aos anteriores empregos, com desculpas tais como ‘ o seu Inglês não é suficiente’, ‘é demasiado qualificado para este emprego’, ‘vai-se fartar depressa deste emprego pois não podemos utilizar os seus conhecimentos’, ‘não tem a experiência local (australiana) necessária para se integrar no serviço’, ‘ o seu sotaque vai ser um problema de comunicação grave em caso de acidente’, ‘as suas qualificações são insuficientes comparadas às locais’, etc., etc.      Muitos destes e doutros casos, ilustram apenas a neo-paisagem humana de uma Austrália, que sempre necessitou de trabalhadores estrangeiros, mas simultaneamente sempre se recusou a permitir-lhes o exercício das suas profissões.      O racismo e a discriminação a nível profissional, no mundo académico e de negócios, têm sido severamente criticados por diferentes entidades, incluindo a própria Igreja Anglicana, e o seu Director, Reverendo Livingstone. Em 1988 ele citava, a propósito que tem visto cientistas a esfregarem o chão das carruagens de comboio, apenas porque, depois de lhe ter sido concedido e garantido o direito a emigrar, lhes foi recusado o direito a trabalhar na sua ocupação. Eu assisti a casos bem piores. A miragem de uma Austrália rica e desesperada por gente capaz tem atraído inúmeras gerações de portugueses, mas a realidade dos factos nem sempre (aliás, pelo contrário) coincide com a do paraíso imaginado.      É comum sabermos de secretárias que estão a trabalhar em fábricas ou como assistentes de vendas, apenas porque a maioria dos patrões não lhes dá uma chance de prosseguirem as suas profissões. Mais alguns exemplos ajudarão a perceber quão difícil é a integração dos imigrados portugueses na sociedade contemporânea australiana.      Leonir (nunca mais soube dele, depois de 1990) era desenhador de arquitectura no Brasil, tendo participado em projectos tão grandiosos como o desenho da Barragem de Iguaçu no Brasil (fronteira com o Paraguai), sendo então considerado como um dos melhores profissionais do seu ramo até que decidiu dar o grande salto e vir para a Austrália. Durante dezoito humilhantes meses foi funcionário de limpeza numa escola, depois conseguiu finalmente um emprego temporário na sua profissão e em 1988 gabava-se de ter o seu próprio atelier de arquitectura. A razão para o seu sucesso deve-se ao apoio de inúmeras pessoas que o incitaram a perseverar. De outro modo estaria ainda hoje a limpar escolas…      Luísa era professora até emigrar para a Austrália em 1975, contando mais de 20 anos de serviço no ensino secundário. Como refugiada de Timor teve de satisfazer-se com os empregos existentes e durante anos desempenhou a dura posição de assistente de cozinha num restaurante suburbano. Trabalhava das 10 da manhã às três da tarde e das seis da tarde até à meia-noite nos dias de semana e às duas da manhã nos fins-de-semana. Ganhava então a ridícula quantia de cinco dólares por hora (600$00) da qual descontava 30% para impostos. O marido, demasiado idoso para alguém lhe oferecer emprego, recebia apenas um pequeno subsídio de desemprego com o qual se iam mantendo. Até que um dia, Luísa baixou ao hospital queixando-se de profundas dores de costas. Os médicos diagnosticaram um adiantado estado de uma severa doença. Ficou imobilizada. A família vive da ajuda de amigos e vizinhos pois os subsídios do governo nem para a renda da casa chegam.      Rey, nascido no Irão, viveu quinze anos nos EUA sendo um dos melhores engenheiros de petróleos do país. Auferia fabulosos vencimentos, mas as saudades da família que se havia entretanto radicado na Austrália, trouxe-o até cá. Três anos depois e ainda sem emprego desistiu e regressou aos Estados Unidos onde rapidamente se empregou numa multinacional.      O Dr. A. R. de quem falávamos atrás, ainda chegou a ficar uns dois anos e meio, depois de ter concluído a sua comissão de serviço militar obrigatório em Timor Leste em 1974. Desiludido regressou a Portugal. Ainda hoje é um conceituado cirurgião de um Hospital Público, do qual se reformou por ter atingido o limite de idade.      Maria já não corta cabeças de galinhas. Começou por concluir um curso de readaptação secretarial e tem vencimentos muito acima da média. Curiosamente, manteve o seu sotaque carregado, e empenhou-se em tirar um curso de relações públicas fora das horas de serviço.      José continuou com o seu emprego de funcionário público, com a segurança de emprego até à velhice (se lá chegar). Sente-se frustrado e subutilizado dada a sua experiência anterior. Todos lhe disseram para regressar aos estudos e obter cursos locais que lhe dessem um rápido ingresso na sua profissão, mas o seu orgulho não lho permite. Porquê culpá-lo? Apesar de ser um eficiente funcionário, continua a ser tratado como qualquer outro, sem grandes esperanças de melhorar a sua situação. Um dia também se desempregará e voltará a concentrar-se no trabalho que o ocupou durante décadas.      Luísa já se esqueceu há muito dos anos em que leccionara. Para ela a vida passou a ter uma memória única e avassaladora: a da sua vinda para a Austrália e da doença que a mina. A sua modesta casinha que herdara numa pequena vila portuguesa teve de ser vendida para pagar os tratamentos que aqui fez e não estavam cobertos pelo seguro nacional de saúde, Medicare.      Diana nascida em Macau no seio das tradicionais famílias macaenses, habituada a coabitar com “Tai Pan’s” jamais se preocupou como haveria de ganhar sustento. Hoje, na Austrália em plena meia idade da menopausa, desligada da influência dos núcleos de influência familiar que entretanto se foram esvaindo, trabalha como operadora de computadores e vive muito modestamente nos subúrbios.      Isabel, como jovem que era, aproveitou a vida até chegar ao ponto em que finalmente ganhará o que sonhara, mas terá sempre de continuar com os seus múltiplos empregos, para manter o estilo de vida lisboeta das discotecas aos fins de semana e trabalhando que ‘nem uma moura’ nos outros dias. c) O preço do sucesso      A maior parte destas pessoas continuará a confessar adorar a Austrália e o seu modus vivendi, mas sentem-se desapontadas, frustradas e incapazes de voltar atrás e confessarem o seu falhanço económico. É com elas que a Austrália cresce. Voltar seria admitir a derrota e com tantos casos de sucesso financeiro a rodeá-las, sabem que voltar é admitir o fracasso. Sacrificados/as tais como os antecessores imediatos do percurso migratório, que hoje dispõem de casas e carros e demais atributos de sucesso burguês, representam uma pálida imagem da Austrália contemporânea, multicultural e exploradora do trabalho dos imigrantes.      Um dia também terão o seu torrão residencial e poderão voltar para férias, para com a imagem do sucesso marcada nos vincos de suas rugas e olheiras sobranceiramente tratarem os outros, aqueles que não tiveram a coragem ou a ‘sorte’ de emigrar e os contemplam com inveja dissimulada.      Para muitas destas personagens, na sua maioria incógnitas, a solidão e o desapontamento são recompensados com memórias místicas de um Portugal ou de uma qualquer terra a que chamem torrão natal.      O nível de vida e o seu bem estar pessoal é em muitos casos equivalentes aos dos países/terras de origem. Dirão, em certos casos, que é preferível assim, pois melhoraram as condições de competitividade futura dos seus filhos, mas isto nem sempre corresponde à realidade.      Entretanto no voo QF 02 aterrava hoje em Sydney, às 05.55 da manhã um cansado mas sorridente casal. Mário, 39 anos, casado, engenheiro civil, até há pouco funcionário superior de uma enorme empresa/ministério. Ela, Nazaré de seu nome, professora eventual do ensino primário/secundário. Alguém se esquecera de lhes fazer chegar às mãos esta crónica…      Existem engenheiros civis desempregados na Austrália. Desses, 98% imigraram nos últimos anos. Professoras como ela não são cá necessárias para ensinar português. Há uma proliferação de docentes que operam em regime parcial, depois dos estudos curriculares australianos. Desses docentes poucos são diplomados e o salário auferido ronda os 50 contos mensais… (Nota do Autor: todos os nomes e personagens são fictícios mas baseados em casos reais e verídicos). [21] CRÓNICA IIIª A VIDA CULTURAL NA AUSTRÁLIA PARTE 1ª:- O DESERTO      Para uma população tão numerosa como é a da comunidade portuguesa na Austrália, poderá parecer surpreendente o número de organizações que a suporta, mas este facto assenta em razões estruturais da população e da sua formação cultural. De facto, em Sydney e em todo o estado de Nova Gales do Sul, onde se localiza cerca de metade de toda a comunidade lusofalante, existem de momento dois semanários de língua portuguesa e quatro programas de rádio [22] .      A situação nem sempre foi assim. Recordo-me de, em princípios da década de 80, haver, apenas, um programa semanal de duas horas na rádio do canal multicultural SBS [23] e dois jornais semanários de duvidosa qualidade. Naquela época, era raro ver-se algum filme português na SBS e os poucos transmitidos eram fracos em qualidade (Dina & Django em 1983, Brandos Costumes e a série televisiva de Lauro António sobre a obra de Vergílio Ferreira ‘Aparição’ retratando a vida num seminário católico em Portugal). Depois, vai havendo sempre as telenovelas brasileiras, entre as quais as celebradas ‘Escrava Isaura’ e ‘Gabriela’ em repetição, e programas de variedades de artistas musicais contemporâneos como João Gilberto, (o recém falecido Tom) António Carlos Jobim, e Caetano Veloso.      O movimento cultural, na Austrália, carece de definição e caracteriza-se, na maior parte dos casos, pela omissão. A constituinte básica da maioria da população (embora não existam análises de mercado a comprová-lo) assenta ainda em critérios bem ao gosto da verdade salazarista, pelo que muitas tentativas de alargamento do leque cultural são tidas como subversivas e condenadas ao fracasso prematuro. Algumas sobreviveram escasso tempo. Os jornais são disso um óptimo exemplo. Os clubes portugueses dedicam-se sobretudo ao desporto (futebol, atletismo e ciclismo), às actividades de salão (bingo, loto, bilhar, cartas, etc.) e à culinária.      Retratada assim, a quotidiana realidade, pouco mais haveria a dizer sobre a vida cultural, social e desportiva dos portugueses aqui radicados. Existem, a nível clubista, iniciativas anteriores à RTPi, de transmissão de filmes tradicionais portugueses (“O Costa do Castelo”, “O Leão da Estrela”, dentre outros, já foram passados com legendagem em Inglês no canal multicultural SBS) e de jogos desportivos mais importantes.      Será vital referir que a falta de meios e de apoio condigno são, sem sombra de dúvida, as componentes mais responsáveis pelo abandono a que a cultura portuguesa anda votada, mas não são as únicas. A inacção e apatia caracterizaram durante décadas uma comunidade, que financeiramente se soube impor ao nível das suas ambições, limitadas, de posses materiais primárias. Tem havido obstáculos intransponíveis a ultrapassar para alterar este status quo ou deserto cultural em que se vive. PARTE 2ª- O 10 DE JUNHO      Durante mais de uma década [24] assisti a inúmeras manifestações, a que os políticos gostam de apodar de ‘portuguesismo’. Recordarei, aqui, uma delas, passada no já longínquo ano de 1984, em Marrickville, um subúrbio de Sydney com vasta população de imigrantes (16 mil Gregos, 10 mil Indochineses e 5 mil Portugueses). Domingo à noite, 19:30, temperatura a convidar abafo neste Inverno (sim, aqui Junho é como Dezembro em Portugal). Local: Salão da Câmara Municipal (Town Hall) de Marrickville. Audiência estimada em mil pessoas. O palco engalanado com a bandeira das cinco quinas lusitanas e com os castelos de Afonso IV a provar a sua ligação real ao reino de Castela, ladeada pela bandeira britânica! Ah! não!, é o estandarte australiano que incorpora no seu quarto superior esquerdo a britânica Cruz de S. Jaime (St. James) em branco e encarnado, em fundo azul com as estrelas brancas representando as seis colónias da Austrália. Uma bandeira, britanizada, monárquica de 1901 ao lado da representante da nação que em 1143 se chamou de Portugal.      Atmosfera de festa com as crianças a brincar no chão encerado. As mesas apejadas de gente com caras bem típicas da mescla lusitana oriunda das sete partidas do mundo. Bebidas circulam: um rápido inquérito visual, às preferências públicas, revela como vencedora a cerveja enlatada, seguida de perto pelo vinho português, com predominância para o verde sobre o tinto. A mesa de honra situada no canto da sala, em forma de U, vazia, decorada com os tradicionais adornos. As restantes mesas cobertas por toalhas de papel, sem pratos, talheres ou copos. As luzes e os focos experimentais sobre o palco ainda deserto orlado de taças e medalhas. Nas paredes cartazes alusivos a Luís Vaz de Camões, o poeta e o português que anualmente é louvaminhado nesta data, para, depois, recolher aos sótãos da memória e às mansardas do esquecimento durante os restantes 364 dias do ano.      Por sobre o burburinho do falatório tão tipicamente português, ornado de diferentes tonalidades e dialectos, algumas pessoas entram na sala e dirigem-se para a mesa de honra. A CERIMÓNIA VAI COMEÇAR.      As luzes apagam-se e recobram vida os focos . As câmaras de vídeo aprontadas. Os fotógrafos em posição. Duas jovens aos microfones esforçam-se por sobressair ao zumbido que ecoa nos altos tectos trabalhados deste município onde tantos portugueses vivem e labutam (5 mil dos cerca de 35 mil portugueses do estado de Nova Gales do Sul). Marrickville é um subúrbio interior de Sydney, zona industrial, povoada por inúmeras nacionalidades, a 12 km do centro da cidade (‘A Baixa’ ou ‘The City’), sendo os portugueses a sua 3ª nacionalidade predominante.      Finalmente, abafado o ruído, as vozes femininas anunciam o início da confraternização mais esperada do ano para a comunidade: o 10 de Junho. Anunciado, ou antes, lido, o programa das celebrações, é chamado ao palco o Embaixador de Portugal [25] em Camberra, que, numa breve alocução explica o significado da data e da reunião, lamentando o facto de, nem sempre poder estar em Sydney nesta data, face à diversidade geográfica pela qual a comunidade se dispersa. Uma gravação sonora transmite a alocução de S.Ex.ª, o Presidente da República [26] .      As crianças continuam a brincar e a pular alheias ao significado e desenrolar dos discursos, que mal entendem. Antes da alocução todos se ergueram para os hinos dos dois países [27] . O espectáculo começa com um grupo timorense em boa toada reminiscente das mornas cabo-verdianas. Depois, em traje de gala, guerreiros Mauberes (Timor Leste) do grupo ‘Loro Sae’ numa excepcional demonstração das danças de Timor, encantando e aquecendo o público presente, ainda pouco habituado ao exotismo oriental, mas acorrendo em doses maciças ao sector dedicado às bebidas.      Vieram, a seguir, as danças regionais folclóricas portuguesas pelo grupo ‘Aldeias de Portugal’ (o mais antigo da Austrália), de fama bem reconhecida na comunidade, constituído por jovens dos 5 aos 20 anos, desempenhando vários números do seu reportório continental e insular (convém não esquecer que uma grande parte da comunidade aqui residente é originária da Madeira). Mais algumas baladas e canções timorenses lançam definitivamente a favor da comunidade maubere o ónus de manter a festa animada e a audiência entretida.      Seguiu-se um momento alusivo a Camões, com uma pequena aluna de um dos ‘Cursos de Língua e História Portuguesas” recitando passagens célebres de “Os Lusíadas”, infelizmente em fracas condições sonoras e com alterações ao texto vernacular. Outras participações idênticas estavam previstas por parte de escolas portuguesas deste estado, mas foram boicotadas pelos seus docentes, numa manifestação clara de que nem o 10 de Junho acaba com as quezílias e guerrilhas do quotidiano da comunidade. A primeira parte das celebrações do dia de Camões e das Comunidades teria mais danças guerreiras de Timor.      Entretanto, a mesa de honra estava a ser servida dos aperitivos típicos: rojões, pastéis de carne, rissóis, carne assada, pão, vinhos verde e maduro. O remanescente dos convidados e o Zé Pagante satisfazia-se com a possibilidade de comprar bebidas no bar. Chegados ao intervalo foi-nos servida (haviam-nos convidado para a mesa de honra) uma feijoada ou dobrada à portuguesa.      A segunda parte do espectáculo trouxe mais danças timorenses e folclore, tendo culminado com a atribuição de medalhas e troféus a membros da comunidade presente. Para além do embaixador estavam presentes em representação de Portugal, um Vice Cônsul, um Chanceler e dois Secretários Consulares. A festa teria o seu encerramento depois de um baile típico à antiga portuguesa.      Esta foi uma das melhores festas de 10 de Junho que recordamos pelo portuguesismo dos Timorenses. Dir-se-ia que Camões naquele, já longínquo ano de 1984, era Timorense na Austrália de contrastes e nacionalidades distintas. A comunidade aliou-se às comemorações mas não cooperou. PARTE 3ª LITERATURA PORTUGUESA VISITA A AUSTRÁLIA      Uma lufada de ar fresco é como se poderia chamar em finais de 1997 a exposição inaugurada em 18 de Agosto na Biblioteca estadual de Nova Gales do Sul. A mostra, composta por dezenas de painéis expressamente preparados reproduzem obras de arte e capas de alguns dos mais importantes textos literários portugueses durou uma quinzena, foi organizada com apoio do Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, e do Instituto Camões, que seleccionaram mais de 250 obras para oferta posterior à Biblioteca Estadual.      Esta iniciativa do cônsul português José Costa Pereira data de 1995 altura em que iniciou os contactos para a concretização deste projecto, um dos maiores nas últimas duas décadas. Depois da abertura do Museu Etnográfico Português da Austrália (Sidney) e da Conferência dos 500 Anos da Viagem de Vasco da Gama à Índia, esta iniciativa assinala a recuperação, com o apoio da Fundação Gulbenkian, de um manuscrito alusivo à viagem de Pedro Fernandez de Queiróz até às paragens australianas em 1606. O texto, é da autoria de D. Diego do Prado Y Tovar, que viajou na caravela de Luiz Paes de Torres, o navegador de origem portuguesa que, ao serviço da coroa de Espanha, descobriu o estreito que separa a Austrália da Papua Nova Guiné e ao qual foi dado o seu nome. O documento pertence ao espólio da colecção Mitchell da Biblioteca estadual de Nova Gales do Sul. Queiróz partiu do Perú em 1605, chegando ao Vanuatu, depois de atravessar o Pacífico Sul em Maio de 1606, regressando a Madrid um ano depois. A viagem continuou sob o comando de Diego do Prado, apesar de haver indicações de que era Torres quem estava aos comandos da frota.      Costa Pereira obteve da Gulbenkian um subsídio de mais de 3 mil dólares (400 contos) para a recuperação do manuscrito. Esta biblioteca, ora oferecida, engloba autores clássicos, contemporâneos, literatura infantil e álbuns, abrangendo edições recentes de Camões, Gil Vicente, Lídia Jorge, José Saramago e João de Melo, e outra oferecida pela Fundação Oriente. Espera-se que esta tenha melhor sorte do que idêntica oferta nos anos 80 que levou sumiço (conforme escrevemos noutra crónica) já que os dois painéis da pintora Teresa Magalhães oferecidos pelo Metropolitano de Lisboa ao City Rail de Sidney recentemente, continuam ainda ao dispor dos passageiros que os queiram ver. CRÓNICA IVª Parte Iª A DESCOBERTA DA AUSTRÁLIA PELOS PORTUGUESES [28]      Desconhecida para a maioria dos australianos é a história deste país, que nas duas últimas décadas sofreu várias alterações conceptuais. É agora aceite, pela maioria dos historiadores, que os primeiros europeus a navegarem e a traçarem cartograficamente a costa australiana não foram, ao contrário do que tem sido ensinado ao longo dos 200 anos da nação, o capitão Cook e seus correligionários, mas marinheiros portugueses que o fizeram mais de 250 anos antes daqueles.      A teoria de os portugueses terem sido os primeiros, não é de agora nem sequer é nova. Com efeito, celebrou-se em 1984 o centésimo aniversário de tal teoria, defendida então pelo historiador George Collingridge, o qual, infelizmente, jamais a conseguiu provar. Depois dele, vários outros tentaram sem sucesso demonstrar a viabilidade de tal interpretação, jamais se quedando para além da especulação. Em 1977, um advogado, de seu nome, Kenneth Gordon McIntyre, publicou um livro intitulado “ A Descoberta Secreta da Austrália ” que, veio alterar totalmente este estado de coisas, passando a partir daí, a ser o ónus dos cépticos de desmentirem as suas alegações.      Embora McIntyre não seja um historiador na acepção académica do termo, certo é que os seus estudos passaram a ser aceites pela maioria dos académicos de todo o mundo. E, embora o autor confesse que tal publicação, umas décadas antes, era impensável, nem teria qualquer probabilidade de ser tomada em consideração, devido à questão de honra que constituía para qualquer historiador britânico assumir a descoberta da Austrália como inegavelmente devida a Cook, certo é que esse xenofobismo se esfumou desde os tempos de Collingridge. Para um dedicado estudante de Cook, conselheiro da Real Sociedade Australiana de História, também o problema da religião influiu na refutação das teorias de Collingridge. Como católico era visto como oponente das correntes maioritárias protestantes a que o próprio Cook pertencera.      A versão de McIntyre tem consideráveis implicações na história europeia da Austrália, colocando toda a temática da primeira colonização numa perspectiva e diferente escala temporal. Significa que os portugueses atingiram Botany Bay e Sydney Heads (pontos costeiros da actual Sidney) cerca de 1524, ou seja, 40 anos antes do nascimento de Shakespeare e sete anos antes das teorias de Martinho Lutero terem atingido a luz do dia.!! Tal versão dá-nos também uma diferente leitura da viagem de Cook, mais próxima dos tempos actuais do que da inicial viagem dos marinheiros portugueses.      O interesse de McIntyre por Portugal deve-se a fortuito acontecimento associado à sua posição de Leitor de Literatura Inglesa na Universidade de Melbourne, quando tomando conhecimento da obra de Elizabeth Barrett Browning “ Sonetos Portugueses ”, um imenso interesse o despertou para a língua e história portuguesas. Assim, em 1966, realiza a sua primeira viagem a Timor Português, que então celebrava o seu 450º aniversário de colonização lusa.      Duas coisas o impressionaram sobremodo nessa visita: primeiro, a distância relativamente curta a que Timor se encontra da Austrália (416 km por mar ou ½ hora de viagem aérea), segundo, que uma potência marítima como Portugal tivesse uma colónia tão perto do continente australiano, 254 anos antes da chegada de Cook. Poderia, então, ser possível que os experientes marinheiros portugueses, capazes de saberem lidar com todos os segredos das velas e dos barcos, que lhes permitira chegar a Timor em 1516, durante séculos nunca tivessem chegado à vasta massa continental da Austrália?      Não havia dúvidas de que a história da exploração necessitava de ser reexaminada. Assim, sem querer, estava a aproximar-se da tese de Collingridge datada de 1880. Tal como o seu antepassado, McIntyre descobriu que um antigo mapa (ver reprodução) provava não apenas que os portugueses tinham atingido a Austrália, mas que haviam traçado 2/3 da sua costa. A sua interpretação do referido mapa provaria ser, no entanto, irrefutável, ao contrário dos esforços do seu compatriota. O mapa em questão, denominado o mapa Delfim por ter sido elaborado para o delfim do trono francês, data de 1536, e é o mais antigo de todos os mapas da antiga escola (e maior centro cartográfico da época) de Dieppe.      É um mapa do mundo, tal como era conhecido na época, que incluía já as ilhas do arquipélago indonésio e uma vasta massa continental, que se estendia a sul da Indonésia e a que se chamava, então, Java a Grande ( Jave la Grande ). Este, era aliás, o nome que lhe havia sido dado antes por Marco Pólo, designando uma vasta área de terra que se sabia existir na região. Java, a Grande, tal como aparece no mapa em questão, tem uma vaga semelhança com a forma da Austrália actual e encontra-se a cerca de 1 500 km a oeste da real posição do continente. O mapa mostra, assim, uma distorção da verdadeira imagem do continente, devida ao facto de os portugueses da época não saberem calcular, com exactidão, a curvatura do globo e os desvios provocados pelo campo magnético terrestre.      McIntyre não foi o primeiro a descobrir este facto, mas os outros haviam-no feito sem qualquer credibilidade, enquanto que ele resolveu dedicar-se a estudar com precisão o método cartográfico português utilizado há mais de 450 anos, servindo-se de um tratado da autoria do célebre matemático Pedro Nunes. Assim, habilitado com os erros da técnica utilizada, à data, pelos portugueses, foi capaz de estabelecer os desvios existentes e, eliminá-los. Para isto, serviu-se de elaborados cálculos matemáticos capazes de desafiar qualquer outra possível explicação. Os resultados eram, de facto, surpreendentes.      Depois de corrigidos os desvios, provenientes dos cálculos dos cartógrafos portugueses, o mapa Delfim aparecia com uma imagem, deveras detalhada, e perfeita da costa australiana, a norte, leste e oeste. Até a larga península triangular na extremidade sudeste se encaixa perfeitamente na versão reconstruída do mapa, devendo-se isto ao efeito de preparar mapas bidimensionais, através de cortes ou segmentos do globo terrestre, os quais eram posicionados ao lado uns dos outros para se obter o efeito final, deste modo, exagerando o Cabo Howe e as suas dimensões (ver mapas reproduzidos).      A versão de McIntyre para os mapas de Dieppe, baseada nos originais ali arquivados, pareceu-lhe prova suficiente de que os portugueses haviam, de facto, traçado uma larga parte da costa australiana, antes de 1536, data do mapa Delfim. A partir daqui, começou a tentar, porém, descobrir quem teria sido o marinheiro português capaz de tal feito, neste campo hipotético, tudo parece apontar, como responsável único, para Cristóvão de Mendonça, capitão da Marinha Portuguesa, que partiu de Malaca, em 1521, com 3 naus, em busca das ilhas do Ouro, então, supostamente localizadas a sul das Índias Orientais. O mapa Delfim comprova que Mendonça (ou outro) passou pelo Estreito de Torres, virando a sul na zona do Cabo Iorque e percorreu parte da costa oriental. Dentre os locais possíveis de identificar naquele mapa aparecem o Cabo Melville, a Grande Barreira de Corais, o porto de Cooktown, a ilha Fraser e a baía de Botany. Depois de dobrar o Cabo Howe, e dirigindo-se para ocidente, Mendonça terá acompanhado o que é hoje a costa do estado de Vitória, até ao Cabo Ottway e à Baía de Phillip, quedando-se em Warrnambool, a partir de onde terá decidido não prosseguir mais além.      Existe aqui uma intrigante coincidência, pois é neste ponto onde Mendonça decidiu regressar, que mais tarde haveria de aparecer o célebre e misterioso “ Mahogany Ship ” (Nau de Mogno, ou madeira de caju), do qual existem cerca de 27 relatos diferentes, entre 1836 e 1880, e que depois desta data, parece ter desaparecido, de vez, das dunas de Warrnambool. De acordo com as descrições existentes tratava-se de um barco extremamente antigo e com um estilo de construção semelhante ao das caravelas portuguesas da época quinhentista. A tratar-se de uma das naus de Mendonça, poderia estar assim explicada a razão pela qual ele não prosseguiu na sua exploração da costa australiana em 1524.      A lista dos historiadores que, finalmente, se decidiram a aceitar a teoria de que os portugueses descobriram a Austrália (antes de outros europeus) vem a aumentar desde que, em 1977, McIntyre publicou o seu livro. O Prof. Geoffrey Blainey (célebre historiador que focamos noutra crónica, por razões diferentes) admite-o no seu livro “A Land Half Won” (“Uma Terra Meia Conquistada”). T. M. Perry, leitor de geografia da Universidade de Melbourne, no seu livro “A Descoberta da Austrália”, e o Prof. Russel Ward, na sua obra “A Austrália Desde a Chegada do Homem (Australia since the coming of man)” admitem igualmente esta ‘descoberta’ da Austrália, aceitando a tese de que a descoberta da Austrália pelos portugueses, antes de 1536, foi, “ uma possibilidade, uma probabilidade, uma verdade conclusiva ”. Na prática, porém, o Capitão James Cook continua ser tema da descoberta da Austrália em muitos livros escolares.      Não há dúvida de que uma teoria tão radical como a de McIntyre vai demorar mais de uma geração a impor-se à burocracia educacional. Curiosamente porém, foi o estado de Vitória, de onde é natural e onde trabalhou sempre McIntyre, o primeiro a incorporar tal teoria nos livros de história oficialmente utilizados. [29]      Quando os portugueses aqui (Austrália) estiveram na primeira metade do século XVI, os aborígenes viviam contentes e nalgumas regiões do país haviam-se habituado a mercadejar com estrangeiros [30] . Há provas evidentes disso com os pescadores e mercadores de Macassar, na altura uma possessão dominada pelos Portugueses, na qual havia sido adoptado um dialecto crioulo derivado do Português.      O próprio Capitão Cook regista na passagem por Savu com a data de 19 de Setembro de 1770, ter-se servido de Manuel Pereira, o português embarcado na ‘Endeavour’ no Rio de Janeiro para se entender com os locais.      A presença de aborígenes brancos está assinalada, assim como a presença de mestiços aborígenes com traços timorenses ou malaios, nas costas ocidental e norte da Austrália.      Para a presença dos portugueses como a História pela mão de Kenneth McIntyre parece provar, curioso será recordar uma ‘descoberta’ em 1967: uma construção em Bittaganbee, perto de Eden, na costa sul de Nova Gales do Sul.      As ruínas ainda hoje existentes atestam a presença de uma casa de pedra, com uma plataforma de 30 por 30 metros, rodeada por largos pedaços de rocha irregularmente cortadas, que em tempos serviram de paredes a tal construção, com existência de alicerces. A construção, sem tecto, é feita de pedra local, e pedaços de conchas marinhas servindo de estuque. (McIntyre interroga-se ‘ Seria isto o quartel general de Inverno de Mendonça ?’      Dentre as possibilidades de analisar essa construção, uma é a do enorme esforço e trabalho que a mesma terá envolvido para transportar, trabalhar e erigir a mesma, em especial dado o tamanho de algumas daquelas pedras. Esse tipo de construção só pode ter sido efectuado por uma tripulação completa de um navio da época, não podendo ser obra de um pequeno grupo de degredados ingleses ou pessoas isoladas.      O primitivismo da construção, semelhante a uma fortificação, é único na Austrália, e decerto antecede em séculos a formação da vila que só foi fundada em 1842 com materiais e fundos londrinos. Mas, curiosamente se aquela construção aqui está fora de lugar, esta construção é semelhante a outra descoberta nas Novas Hébridas, também em 1967: a célebre ‘Nova Jerusalém’ criada em 1606 por Pedro Fernandes Queirós, que juntamente com Luís Vaz de Torres eram portugueses, ao comando de naus espanholas navegaram por estas paragens austrais.      Um outro facto perturbador é o de existir uma data inscrita numa das pedras que 15(?)4, embora o terceiro dígito não pareça um 2, o que a localizaria na época de Mendonça. Cristóvão de Mendonça teve uma presença marcante nestas costas australianas e neozelandesas que importa desvendar. Uma das suas caravelas perdeu-se nas dunas de Warrnambool na Austrália do Sul, a segunda, provavelmente na costa neozelandesa, mas decerto a terceira conseguiu regressar a Malaca, Goa e Lisboa. Faria e Sousa [31] regista que Mendonça efectuou uns anos mais tarde nova viagem a Goa, antes de ser nomeado Governador de Ormuz, quiçá por serviços prestados na descoberta da Austrália.      Em 1817, quando o governo da coroa britânica se mostrou interessado na Nova Zelândia, que em breve se tornaria sua colónia, o almirantado em Londres estudou os mapas ingleses da época comparando-os com a versão de La Rochette (1807). Neles existe uma anotação dessa data (1817) afirmando que embora a Nova Zelândia tenha sido descoberta por Abel Tasman em 1642, a sua costa era conhecida dos portugueses desde 1550.      Este documento ainda hoje existe nos Reais arquivos públicos de Londres. No Museu de Wellington (Nova Zelândia) existe um sino de bronze, descoberto pelo Bispo William Colenso em 1836 e o qual estava na posse dos Maoris (aborígenes locais) que declararam tê-lo há muitas gerações. No sino existe uma inscrição em Tamil (língua indiana, o idioma da Goa de então, que era a capital oriental do Império Português. Idênticos sinos foram descobertos em Java datados do início do século XVI e todos os barcos portugueses da época transportavam consigo goeses e outros indianos, os ‘Lascari’ como ajudantes da tripulação.      Relativamente a este assunto, outro semelhante tem surgido nalgumas páginas da imprensa local (australiana), ou seja, o estudo da presumível descoberta da Nova Zelândia pelos portugueses, face a recentes descobertas ali efectuadas de restos de naus quinhentistas e utensílios tipicamente portugueses. Na altura (1984), o Consulado Geral de Portugal em Sydney, recebeu pedidos de colaboração para o estudo em causa, por parte de historiadores neozelandeses. Será que algo foi feito? Uma dezena e tal de anos passados sabemos que nada se concretizou. Terão de ser sempre os estrangeiros a dizerem-nos o que descobrimos, como e quando? Haverá, em Portugal, alguém interessado em ajudar a desvendar este e outros factos gloriosos da epopeia lusa?      O interesse existe neste continente australiano para se estabelecer a verdade histórica dos factos: será que os homens de hoje têm a vontade e capacidade de reporem Portugal no lugar a que tem direito, como país pequeno que deu novos mundos ao mundo , tal como aprendi nas cábulas de ensino oficial anteriores ao 25 de Abril? Ou será, que na pressa de escrevermos a história presente olvidaremos os grandes homens do passado, a quem devemos hoje esta cultura miscigenada que nos distingue? A resposta, a quem competir responder. Chegamos aqui primeiro e aqui estou eu a repetir um trajecto de antanho, projectando uma imagem do país que fomos e que gostaríamos de voltar a ser. Mais de 450 anos se passaram, quem chegou primeiro a estas plagas? Depois dos aborígenes, tudo parece confirmar que foram os portugueses os primeiros europeus. Quando, como, e em que condições? Para quando a verdadeira história dos descobrimentos, agora que a celebração dos seus 500 anos já passou à história? Dês que passar a via mais que meia Que ao Antárctico Pólo vai da Linha, Duma estatura quase giganteia Homens verá, da terra ali vizinha E mais àvante o Estreito que se arreia Co'o nome dele agora, o qual caminha Para outro mar e terra que fica onde, Com suas frias asas, o Austro a esconde.            In Luís Vaz de Camões. 1572 CRÓNICA IVª PARTE IIª FLINDERS DEU NOME À AUSTRÁLIA      Quem baptizou este continente? Decerto não foram os Portugueses pois que nos seus mapas aparece ainda a designação de Java a Grande ( Jave, la Grande ), essa Terra Australis que eles negavam conhecer.      Durante mais de 30 anos após o histórico dia 26 de Janeiro de 1788, data do desembarque da 1ª Armada, ela foi conhecida pelo seu nome em Latim, de ' Terra Australis ' com o adicionar de Incognita , mas também era denominada como Nova Holanda em honra dos navegantes holandeses que durante o século XVII arribaram à inóspita e árida costa do noroeste; ou ainda Nova Gales do Sul , tal como a baptizara o Capitão Cook para toda a metade oriental, ou ainda Terra de Van Diemen (Van Diemen's Land) nome dada à Tasmânia pelo navegador holandês daquele nome.      Houve porém um homem que lhe acabaria por dar um nome único a fim de terminar com a confusão de todas estas terminologias, um oficial da armada, navegador e explorador e hidrógrafo extraordinário com o nome de Matthew Flinders. Ele e o seu colega George Bass, um cirurgião naval com quem partilhava um amor ao mar e um interesse apaixonado na exploração de lugares distantes, exploraram e mapearam em conjunto e separadamente uma grande parte da costa australiana durante os finais do século XVIII e início do século XIX. Eles estavam de tal forma embrenhados no amor ao mar, a crer num dos seus biógrafos (Robert Osbiston [32] ), que deixaram as suas noivas de três meses para partirem em mais uma viagem. Flinders não tornaria a ver a sua mulher durante nove anos, dos quais sete passados numa prisão nas Maurícias. Bass nunca mais viu a sua mulher, pois que juntamente com a sua tripulação desapareceu na vastidão do Pacífico Sul, para nunca mais serem vistos nem ouvidos.      Flinders nasceu em Lincolnshire, na Inglaterra em 1774, e não acedeu aos desejos da família para ser cirurgião, tal como seu pai, avô e bisavô. Inspirado pela obra Robinson Crusoe ele já sabia que rumo ia dar à sua vida e aos 15 anos (1789) embarca como aspirante da marinha real, tendo maravilhado os seus superiores a bordo HMS Scipio com os seus conhecimentos de geometria e de navegação, dado ser muito novo e evidentemente autodidacta. Nos finais de 1790, Flinders juntou-se ao célebre Capitão Bligh (da Bounty e mais tarde Governador de Nova Gales do Sul) na sua segunda viagem ao pacífico Sul, com o fim de transplantar fruta-pão das Índias Ocidentais.      Regressou a Inglaterra em 1793 e no ano seguinte alistou-se no HMS Reliance , então a aprestar-se em Portsmouth, para embarcar como passageiro sob o comando de John Hunter, recentemente nomeado governador da nova colónia. Foi nesse navio que conheceu George Bass. Pouco depois de chegarem, em Setembro de 1795, os dois amigos fizeram-se ao mar com um miúdo como tripulante do barco Tom Thumb, um barquito com uma quilha de 8 pés (aprox 2,4 metros) e um mastro de 5 pés (1,5 metros), para fazerem descobertas ao longo da costa sul de Port Jackson. Exploraram a baía de Botany e o rio Georges, depois numa segunda viagem no 'Reliance' passaram pela ilha Norfolk e mais para sul na costa pelo Lago Illawarra e Port Hacking.      George Bass pode justificadamente gabar-se de ter sido o pai da indústria carbonífera australiana, pois após ter ouvido 'boatos' sobre a existência do 'ouro negro' na costa a sul de Sydney, ofereceu-se como voluntário e com o encorajamento e ajuda do Governador Hunter, deixou Port Jackson num baleeiro em 5 de Agosto de 1797, para voltar uma semana mais tarde com espécimes de carvão (coal) extraído de uma falésia (cliff) mais tarde, apropriadamente denominada Coalcliff. É também a Bass que se deve a mais importante descoberta que o par concretizou: ao chegarem à ponta oriental do estreito que hoje tem o seu nome, ele estava convencido de que a forte ondulação de oeste e as marés indicavam que a terra de Van Diemen (Tasmânia) seria uma ilha e não como muitos imaginavam, uma terra. Assim, em 7 de Outubro de 1798, o par zarpa no Norfolk, uma corveta de um só mastro (chalupa) com 25 toneladas de peso e mantimentos para 12 semanas, com ordens para provar ou negar a teoria que a Tasmânia era uma ilha, tentando fazer a sua circum-navegação. E isso foi o que eles fizeram tendo regressado dois meses mais tarde para celebrarem esse triunfo.      Depois disto, os caminhos foram divergentes para o par de amigos, Bass estava insatisfeito com o baixo soldo da marinha e a falta de hipóteses de promoção e acabaria por dedicar-se à marinha comercial. A sua saúde piorara e estava com baixa por 12 meses, o que lhe permitiu voltar a Londres onde compraria, em sociedade, um brigue (dois mastros), a 'Vénus' que encheu de mercadorias rumo a Sydney. Foi então que outro capítulo da sua vida se iniciou, ao apaixonar-se por Elizabeth Waterhouse (irmã de John Hunter, ex-capitão do 'Reliance' e governador de Nova Gales do Sul), com quem casou em 8 de Outubro de 1800.      Em Janeiro de 1801 o casal separou-se quando Bass deixou Portsmouth rumo a Sydney. Nunca mais se tornariam a ver. O negócio não foi bem sucedido e Bass em Fevereiro de 1803 deixou Port Jackson para estabelecer laços comerciais com a América do Sul, naquela que seria a sua última viagem. A 'Vénus' e a sua tripulação de 25 homens desapareceria sem deixar rasto, e não obstante inúmeras tentativas o seu desaparecimento continua a ser um mistério. Em Março de 1800 Flinders foi finalmente promovido a Tenente da Armada, e voltou no 'Reliance' para Inglaterra, onde dispunha já de elevada reputação, para tentar convencer o Almirantado e o governo britânico a enviar uma expedição toda equipada à Austrália para explorar e mapear toda a costa do continente-ilha.      A burocracia oficial londrina não se mostrou entusiasmada, e até foi obstrutora, mas Flinders acabaria por encontrar em Sir Joseph Banks o apoio de que necessitava, tendo sido nomeado comandante da expedição em Janeiro de 1801, com o título de Comandante da corveta 'Investigator' de 334 toneladas. Também se casou em Inglaterra, com Ann Chappell, filha de um capitão do mar, mas não a pode levar a bordo por não ter tido autorização do Almirantado. Casaram-se em Abril de 1801 e ele zarparia três meses mais tarde para os antípodas. Aqui se iniciou a sua carreira de navegador, hidrógrafo e cartógrafo, e ao partir anunciara com um excesso de confiança que " o meu objectivo é investigar de tal forma cuidada e completa as margens da costa da Terra Australis … que com a bênção de Deus nada de importante será deixado para descobertas futuras em parte alguma da sua extensa costa ." A expedição chegaria a Cabo Leeuwin na Austrália Ocidental a 6 de Dezembro e ao Estreito do Rei Jorge (King George's Sound) dois dias mais tarde.      Depois de Flinders ter mapeado a costa sul a leste da Grande Baía Australiana (Great Australian Bight), o navio 'Investigator' ancorava em Port Jackson aos 9 de Maio de 1802. Logo depois de ter feito a manutenção ao barco, fez-se de novo ao mar para completar uma pesquisa inicial que havia feito na costa da Queenslândia e depois até ao Golfo da Carpentária. Depois de velejar através do estreito de Torres, o navio começou a meter água e a adornar. Apesar de a sua madeira estar em más e perigosas condições conseguiu navegar com ele, mapeando as costas do Golfo, dobrando para a costa ocidental em Cabo Leeuwin e chegando a Sydney em Junho de 1803.      Dois meses mais tarde, determinado a concluir a sua missão deixou Sydney como passageiro do 'Porpoise' rumo a Inglaterra para aí obter um navio mais apropriado e duradoiro, e foi então que foi atingido pelo desastre, após umas meras 700 milhas náuticas, o navio atingiu uma barreira de corais e afundou-se. Flinders vogou então no escaler (cúter) do 'Porpoise' de volta a Sydney onde aprestou o 'Cumberland', uma escuna de 29 toneladas.      No seu caminho para Inglaterra, nova desgraça: o navio precisava de ser constantemente bombeado e a sua situação era tão má que resolveu pedir ajuda ao chegar às ilhas Maurícias na costa oriental de África (a norte de Moçambique). A guerra havia então de novo escalado entre a França e a Inglaterra, na luta desta contra Napoleão, e Flinders sentia-se seguro por ter um passaporte francês no qual se declarava que ele não fazia parte de nenhuma actividade militar, mas sim de navegação de exploração marinha. O documento, porém, não agradou ao General de Caen, Governador geral da ilha, que deteve Flinders acusando-o de impostor e espião.      De Caen acabaria mesmo por desrespeitar uma ordem de Napoleão para libertar Flinders em 11 de Março de 1806. Assim se passaram sete anos antes de ele tornar a pôr os pés em Inglaterra aos 23 de Outubro de 1810, onde se juntou à mulher com quem quase não vivera. Como a saúde estivesse abalada, durante três anos dedicou-se a escrever a sua obra "Uma viagem à Terra Australis", que seria publicado em 18 de Julho de 1814, e apesar dos editores lhe terem enviado uma cópia, ele não a chegou a ver pois já estava inconsciente e morreria no dia seguinte, com 40 anos e 4 meses. E aqui a ironia final: não foi senão passados muitos anos sobre a sua morte que o governo do Reino Unido aprovou a sua sugestão de muitos anos antes que o país se chamasse Austrália. A maior parte dos nomes que constam das cartas de marear do Almirantado, que se opunha à mudança de nome para Austrália, são ainda os nomes dados por Flinders nas suas viagens. Curiosamente porém mais de 40% dos alunos do secundário e terciário australiano desconhece hoje quem foi Flinders ou porque é que se chamam Australianos em vez de Neogaleses do Sul… CRÓNICA IVª PARTE IIIª FRANCESES NA AUSTRÁLIA [33]      Não é só a descoberta portuguesa da Austrália, ou o nome de quem baptizou a Austrália que são desconhecidos para muitos australianos. Ignorado também é o facto de em 1772, o navegador francês François Saint-Allouarn ter ancorado o seu barco ' Gros Ventre ' (Barriga Grande) em Shark Bay (A Baía dos Tubarões) mesmo a meio da costa ocidental australiana (nascida como Nova Holanda , ou Gonevilleland como os Franceses lhe chamaram) e plantando a bandeira emitiu uma ' prise de possession ' (título de posse) para o seu soberano, o rei Luís XV, enterrando uma garrafa na ilha Dirk Hartog. A reivindicação era válida. Saint-Allouarn morreu durante o regresso a França e Luís XV demasiado ocupado com a guerra pelas possessões Franco-Canadianas, até pode não ter dado conta da reivindicação. Os Franceses planeavam ocupar as ilhas Rottnest e Garden (ao largo de Perth), também designadas como as Ilhas Napoleão, mas decidiram não manter uma fronteira comum com a Inglaterra.      Napoleão apoiou uma expedição científica aos antípodas em 1800 liderada por Nicolas Baudin e a Austrália Ocidental voltou à posse de Inglaterra em 1829, assim como Les Malouines' ( Falkland ou Malvinas ) o tinham sido 65 anos antes. A Terra Australis tornou-se assim em mais um acidente da História Anglo-Saxónica que latina.      A ligação da França e da Austrália (apesar das divergências quanto ás explosões em Mururoa) persiste ainda nos nossos dias. Metades das mortes australianas nas 2 Grandes Guerras foram em terras francesas, especialmente no Somme. Em 1918, o Exército Australiano (que não era parte do ANZAC [34] ganharam uma batalha decisiva contra os alemães em Villers-Bretonneux em 25 de Abril, dia que se tornou Feriado Nacional como Dia dos ANZAC's. Existem peregrinações regulares às campas de mais de 35 mil australianos na Picardia. A cidade de Mazamet, perto de Toulouse é ' mais australiana que francesa, e as suas companhias têm mais funcionários em Melbourne ou Geelong do que em Mazamet. As ruas chamam-se Melbourne, Yarra, Victoria, etc .' segundo declarava Alain Serieyx que foi delegado geral da França para as celebrações do Bicentenário em 1988.      A Austrália Ocidental evoca aquilo que o país poderia ter sido com os seus nomes franceses: Esperance, Bonaparte, Bossu, Naturaliste e Vasse. O livro ' France Australe ' de Leslie Marchant (Artlook Books, Perth, 1982) dá o crédito a Binot Paulmier de Gonneville como o primeiro europeu a andar em terras austrais, em 1504.      O navio Esperance , sob o comando de D'Entrecasteaux, fez uma viagem em 1791 da França até à Baía Botany em busca do desaparecido La Perouse. Numa curiosa ironia do destino, La Perouse tinha-se feito à Baía de Botany em 26 de Janeiro de 1788. O Governador Arthur Phillip tinha acabado de chegar com os degredados e colonos ingleses e ao vê-lo, mal teve tempo de hastear a bandeira inglesa.      La Perouse é um nome importante na história australiana, pois enviou despachos e mapas das suas expedições do Pacífico, feitas a partir da Baía de Botany (na Sydney actual). O seu desaparecimento foi um mistério por mais de 39 anos. Ainda hoje existe um monumento à sua memória numa área concedida aos franceses perpetuamente em 1825 (não era bem o que Napoleão queria, mas de qualquer modo era território legitimamente francês em Gonnevilleland). Aquele subúrbio, hoje território aborígene em grande parte, manteve o nome de La Perouse, nome também dado a um Museu na Baía de Botany, inaugurado aquando do Bicentenário (1988), e partilhando um edifício onde existe um controverso Museu Aborígene. Os franceses têm registos históricos dos seus múltiplos contactos com os aborígenes australianos, e os relatórios de François Peron e do artista Charles Leuseur evocam vívidas pinturas dos Tasmanianos que eventualmente pereceram sob o genocídio 'europeu'.      O Conde de La Perouse, Almirante Jean François de Galaup, e as suas duas fragatas ' La Boussoule ' e ' Astrolabe ' ao chegarem ao porto da Baía Botany depararam com os 11 navios da 1ª Armada do Capitão Arthur Phillip. Estabeleceram contacto e viram Phillip partir para Port Jackson. Enquanto os britânicos faziam os preparativos para a sua instalação em Sydney Cove, os cientistas e marinheiros franceses descansaram por seis semanas na Baía Botany donde partiriam, de regresso a França em 10 de Março. Pouco depois as duas fragatas e os seus 230 homens desapareceram, sem deixarem rasto. O mistério permaneceu até 1827, quando o navegador irlandês Peter Dillon encontrou a naufragada ' Boussole' a dez metros de profundidade em Vanikoro, nas ilhas Salomão. Uns anos mais tarde também ali foi descoberto o ' Astrolabe ', que soçobrou no mesmo ciclone. Alguns relatos compilados por Dillon, dão conta de que a maior parte dos náufragos foi comida por tubarões e alguns sobreviventes foram-no, mas pelos nativos que temiam que eles fossem espíritos malignos. Alguns sobreviventes demoraram entre 6 a 9 meses a construírem um barco de dois mastros, nos quais apenas dois sobreviventes terão embarcado. Os restos de uma embarcação como a descrita pelos nativos foram encontrados em 1861, perto de Mackay, no norte da Queenslândia.      Hoje, no museu de nove salas, que ostenta o nome de La Perouse, podem observar-se reproduções do primeiro encontro com os aborígenes, do encontro com o capitão Phillip; vendo-se ainda a exploração geral do pacífico depois da viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães e a história de La Perouse, desde o seu nascimento em Albi ao seu envolvimento na Guerra da Independência da América e a libertação dos portos de Hudson Bay das mãos dos ingleses. O Museu tem ainda relíquias da época que atestam os contactos amigáveis entre Sir Joseph Banks e La Perouse, e reproduções diversas da época.      Quando em 1984 se publicou o livro de Colin Wallace 'The Lost Australia of (A Austrália Perdida de) François Peron, imaginava-se que se iria reacender a controvérsia do século XIX sobre a nomenclatura da costa australiana: naquela época a costa meridional ostentava nomes como Terre Napoleon, Golfe Bonaparte, Golfe Josephine . A própria Ilha Kangaroo (Canguru) foi baptizada por Nicholas Baudin como 'Iles Decres' e a Baía Encounter (Encontro) ficou denominada assim por ter sido o ponto de encontro acordado por entre François Peron e Matthew Flinders. O interesse da França por estas paragens, de acordo com aquele livro de Colin Wallace, cresceu a partir da expedição no século XVIII de Louis de Bougainville, antes da Revolução Francesa e da Era de Terror que se lhe seguiu. Napoleão nutria um fascínio secreto pela Austrália, notável, pois enquanto preparava as guerras no continente ainda teve tempo para se dedicar a montar uma expedição científica aos antípodas.      Peron tinha qualidades de liderança notáveis, demonstradas durante a Revolução Francesa e as guerras Prussianas, tendo sido promovido a sargento antes dos 20 anos. Gravemente ferido ficou incapacitado, o que não o impediu de frequentar a escola médica da Sorbonne onde estudou ciências médicas, tendo-se oferecido para a expedição como cientista. Quando Baudin faleceu nas Maurícias, foi ele que assumiu o comando da expedição que durava há já quatro anos. Peron, em Paris, conseguiu classificar as colecções de botânica e zoologia, para além de publicar o relato da expedição, mas morreu de tuberculose aos 36 anos de idade. Uma das curiosidades deste livro é que nele Peron aparece como o primeiro ecologista, alertando para o perigo de extinção de plantas e animais que então considerava raros e em vias de extinção.      Outra curiosidade, aparte as considerações sobre a incompetência de Baudin como comandante de uma missão desta importância, é a de Peron ter sido o ' pai da antropologia ' e o seu estudo dos aborígenes em diversas partes da Austrália, assim o atesta. Ele dava-se bem e gostava deles e, muito do que hoje se sabe sobre os desaparecidos aborígenes da Tasmânia, a ele se deve. Peron é também o primeiro a ter comido carne de ' wallaby' (pequeno canguru) que estava confiante poderia ser criado como animal doméstico, descrevendo a sua carne como semelhante à dos coelhos da sua terra natal. Peron morreu demasiado cedo (1810) para que a sua valiosa obra científica tivesse a consideração merecida e, em vez de termos hoje alguns nomes franceses na costa australiana, decerto teríamos muitos mais. CRÓNICA Vª ONDE SE FALA DA AUSTRÁLIA, DE PORTUGAL, DO AUSTRALIANISMO DAS GENTES E DO MAIS, QUE ADIANTE SE VERÁ      Mais um fim de semana em terras de Down Under . Lá fora uma onda exacerbada de nacionalismo chauvinista e xenófobo, à boa moda americana, invade as ruas e as conversas de salão. De novo, se ouve falar em racismo, Austrália Branca e da necessidade de tomar medidas contra os asiáticos. Vimos, em anterior crónica, o que se passou nestes últimos tempos que levasse a reavivar feridas antigas, ainda não cicatrizadas.      Poderia pensar-se, que parte desta problemática se deve ao facto de a Austrália ter sido descoberta pelo mundo e ainda não estar habituada a tal. Foi a música? Ou teria sido o desporto? Porque não o cinema? ou até mesmo a moda? Tudo começou entre 1983 e 1984 [35] , quando começou a ser moda falar-se da Austrália, visitá-la, saber dela e de seus costumes. As rádios vomitavam ‘ Midnight Oil’, ‘Cold Chisel’, ‘Men at Work’ e tantos outros sons aqui nascidos e exportados para as quatro partidas do mundo. Na TV via-se o grande épico ‘ Gallipoli’ - epopeia dos australianos na Campanha de Dardanelos durante a 1ª Grande Guerra, via-se Pat Cash a destronar John McEnroe no ténis de Wimbledon, e sabia-se que Robert (Bob) de Castella, favorito numas Olimpíadas que Carlos Lopes venceu, vivia desafogadamente, ao contrário do português. Nos vídeos da época havia ‘ The Man from Snowy River ”, pois a epopeia da série ‘ Mad Max ’ ainda não chegara.      Ao pequeno almoço as pessoas continuavam a barrar as suas torradas com ‘Vegemite’, os japoneses suplicavam o envio de mais Koala-Bears (koalas) para os seus Zoos [36] . A Opera House iniciada em 1956 foi concluída em 1973, e a veterana Harbour Bridge inaugurada em 1937 faz agora 60 anos e lá continua: com as suas 12 faixas: 9 para carros, 2 para comboios e uma para peões. E pensar como era tão avançada para a sua época e para a reduzida população de Sydney naquela época, sem trânsito que a pudesse justificar. Hoje, altivamente continua a ligar as duas margens, se bem que haja um túnel marítimo sob ela, por onde se escoa mais de 65% do tráfego entre as duas margens. Ambos se tornaram nos indiscutíveis ex-libris de Sydney e, até mesmo, da Austrália.      Voltando atrás no tempo, naquela data (há quase 15 anos) Perth ainda sonhava em defender o ‘ America’s Cup ’ arrebatado aos norte americanos, pela primeira vez em 130 anos de história. O país enchia-se de glória, mas continuava ainda por descobrir’, para além de se saber que tinha boomerangs (que são umas coisas semielípticas que se lançam ao ar e, por vezes, voltam à origem), país de crocodilos (onde o Crocodile Dundee ainda não havia sido filmado) e cangurus, que, ao contrário do que muitos pensam, não andam a passear pelo meio das ruas (aliás fora isto o que me disseram, antes de aqui chegar em 1974).      País de contrastes e de culturas mescladas sob uma predominância (esbater-se) anglo-celta.. Daqui, deste fim-de-mundo, tentando criar a ponte para o outro lado, para o mundo real - esse onde vivem os que me lêem - crio este diálogo para as paredes surdas e mudas que me escutam assustadas. Tento quebrar este silêncio que asfixia, preenchendo a noite com o sol quente que nos ilumina e os dias com o luar que nos angustia. É assim a lei dos hemisférios, ou, de como a poesia podia ser uma arma carregada de verbos, lentamente inventados no quotidiano.      Ser australiano, é mais uma forma de estar na vida do que uma característica que se sente. É uma negação de valores civilizacionais, com base em tradições e costumes - que nos são alheios - mas aos quais forçosamente nos adaptamos, revivendo simultaneamente valores nossos que julgávamos obnubilados. Os auscultadores dão-nos a voz sensual do jazz de Renée Geyer (made in Australia, de pais húngaros), tudo muito australiano, mesmo que não seja de nascença. Não se houve falar de ciclistas, tenistas ou futebolistas portugueses. Escrevia-se sobre Lisa Martin na maratona de Los Angeles, sem mencionar a vencedora Rosa Mota. Estes os exemplos diários, numa euforia que está prestes a ter o destaque que merece, ou talvez não. Do cinema, à TV, aos desportos, os australianos assumem-se como líderes, fruto de uma estranha atitude de exorcismo nacionalista.      Mário Soares era contemporâneo de Bob Hawke, ambos socialistas. Um conseguiu durante anos fazer convergir as forças políticas em torno da construção de um projecto nacional comum, o outro criava inimigos naqueles que o rodeavam. Ideologias semelhantes, resultados díspares.      Década e meia mais tarde, Portugal virou, de social democrata a socialista, e a Austrália também - mas ao invés -, de trabalhista a liberal conservador. O que falhou? Onde está em Portugal o grande projecto dos anos 80? e o dos anos 90? (será que ainda acreditam que a Expo 98 vai ser a salvação da pátria, em manhã de nevoeiro voltada de Alcácer-Quibir?) Onde ficaram os projectos pioneiros capazes de catapultarem massas amorfas, capazes de arrancá-las ao seu torpor negativista de descendentes do Velho do Restelo ?      Esse espírito está aqui nos cerca de 65 mil portugueses e nos outros milhões de pessoas nascidas fora da Austrália, mas que fizeram deste o seu país, dando a sua quota parte, não só de trabalho, mas de partilha de sua gastronomia, cultura, tradições. Pensei mesmo em exportá-las, mas disseram-me que o se o fizesse, o problema não seria o de sobre população do canteiro-à-beira-mar-plantado . Não saberiam o que fazer com tal gente capaz e trabalhadora, por isso acabei por desistir da ideia.      Claro que a Austrália era o melhor país e o mais avançado do mundo há cem anos, mas também Portugal o foi há 500. Hoje, a Austrália oscila por perto do 20º lugar na tabela (ranking) da OECD [37] , tal como Portugal, mas o Banco Mundial num novo critério adoptado a partir de 1992, considera-a o país potencialmente mais rico. Portugal pelo contrário. Dizia-me um amigo meu, súbdito britânico, residente em Hong Kong, que se Portugal se tivesse estabelecido ali no final do século XIX, o território nunca passaria de volta para a República Popular da China em Julho 1997 pois nunca teria passado de um rochedo deserto...      Não acredito. Recuso esta versão negativista dos factos e da história. Mas o que fizemos? O que fazemos? Criticamos os males dos outros sem atentar nos nossos telhados de vidro? Emigrar, foi, durante muitos anos a solução, mas depois ninguém soube o que fazer com um jardim-à-beira-mar-plantado e despovoado, pelo que se recorreu aos retornados , tal como D. Dinis havia feito ao pinhal de Leiria. Aqui vemos os filhos crescendo australianizados, muitos sem aprenderem a língua e costumes, mas mantemo-nos cônscios da nossa orgulhosa tradição que tende a não se repercutir de continuar a chamar pátria ao torrão natal - "E posto que chegue o bem - o que duvido de ser - que gosto se pode ter no que firmeza não tem ? De tuas vãs esperanças ver-me livre já quisera por me rir das mudanças do que espera e desespera".           ( in Luís Vaz de Camões "Em tudo vejo mudanças" ). CRÓNICA VIª ONDE SE FALA DA EXPOSIÇÃO TERRA AUSTRALIS, OU, A POLÉMICA DESCOBERTA DESTE CONTINENTE      Agosto 1984, marcou o começo de uma exposição, quase única até hoje, de seis meses, na Biblioteca Estadual de Nova Gales do Sul, em Sydney. Era uma vasta colecção de gravuras e documentos históricos retratando a descoberta da Austrália, de acordo com estudos feitos por David Pollock, Paulette Jones e Janice Robertson, num total de 108 gravuras, reproduções e originais, e publicações, de 1945 até aos nossos dias. A exibição dividida em 23 partes dava, como não podia deixar de ser, um ênfase especial à actividade dos exploradores anglo-celtas dos dois últimos centénios. Sem comentário, reproduzimos aqui excertos do texto oficial da exposição correctamente intitulada Terra Australis . 1. OS PRIMEIROS CONTACTOS      A discussão da descoberta e exploração da Austrália e do Pacífico Sul tem-se concentrado nas actividades dos povos europeus, ignorando as proezas marítimas de outros povos. Tal atitude, porém, não era partilhada pelos primeiros europeus a atingir estas plagas e os quais se mostraram altamente interessados nos métodos de navegação dos habitantes do Pacífico.      Por exemplo, James Cook, no seu “Diário” de 1744, dá uma detalhada descrição dos barcos catamaran dos habitantes de Tonga, seus métodos de construção e navegação, a qual é ilustrada profusamente por cópias que Cook fez de mapas das ilhas da região, originários de um nativo de Raiatea ( N. do A.: nas ilhas da Sociedade, arquipélago Tuamotu, Polinésia Francesa).      Também relativamente aos habitantes de Tonga surgem desenhos no “Diário” de Abel Tasman de 1642, publicado por Dalrymple em 1767. Citando as facilidades de navegação dos povos chineses, um desenho de 1607 do almirante holandês Metelies, poderia servir de prova da inicial descoberta do continente pelos chineses, os quais enviaram várias expedições marítimas a Ceilão, Java e África durante o século XVI. [38] 2. OS ANTECEDENTES GEOGRÁFICOS      As viagens de exploração europeias dependiam da invenção e melhoramentos dos instrumentos de navegação, tais como, o compasso, o astrolábio e o quadrante, que permitiam a determinação do cálculo da latitude. Já a latitude não podia ser calculada de forma precisa, pois que o recurso às medidas lunares não era ainda possível visto os instrumentos para tal não existirem e só se terem aperfeiçoado totalmente no fim do século XVII.      A visão, grega e romana, da esfericidade do globo fora abandonada durante a Idade Média para apenas ser retomada durante o período da Renascença. As teorias de Ptolomeu e Pompónio Mela foram redescobertas e disseminadas pela recém-inventada imprensa. Tais teorias incluem a crença da existência de uma massa continental no hemisfério sul para contrabalançar as grandes massas de terra do norte.      Os antigos geógrafos haviam, também, sobrestimado o tamanho da Europa e da Ásia, pelo que a distância da Europa às Índias Orientais parecia menor do que na realidade era. [39] 3. FERNÃO DE MAGALHÃES E AS ÍNDIAS ORIENTAIS      Antes do desenvolvimento dos modernos métodos de preservação de alimentos, o negócio das especiarias das Índias Orientais formava parte importante das economias europeias. As viagens portuguesas e espanholas de exploração e descobrimento, desencadeadas nos séculos XV e XVI, surgem na sequência da importância do negócio das especiarias. Fernão de Magalhães partiu de Espanha, em 1519, com 5 naus em busca de uma rota marítima para as Índias, para evitar a longa rota terrestre e os impostos que tal implicava. Das 5 naus com 265 tripulantes, apenas uma sobreviveu, com 18 homens, tendo regressado a Espanha, depois de ter completado a viagem de circum-navegação do mundo através do Estreito de Magalhães. O mareante [40] morreu nas Filipinas.      Os Portugueses atingiram as Índias Orientais através do Cabo da Boa Esperança e em 1511 estavam já com o controlo de Malaca, na Malásia. O mapa de Diego Ribero, de 1529, mostra a visão espanhola do mundo e os resultados do Tratado de Tordesilhas de 1494, que dividia o mundo em duas metades, destinadas a exploração e colonização. As terras a leste do paralelo 47º eram exclusivo português e, a oeste eram da Coroa de Espanha.      Dois exemplos notáveis da cartografia portuguesa expostos na Biblioteca Dixon da Galeria Estadual de Nova Gales do Sul: o Mapa Mundo de 1706, manuscrito em pergaminho de J. da Costa e Miranda sob instruções de Francisco Pereira; e o Mapa das Índias Orientais de Evert Gysbert, de 1599, da autoria de Fernão Vaz Dourado. [41] 4. OS MAPAS DE DIEPPE      Existe bastante controvérsia acerca do facto de os Portugueses, que se estabeleceram em Timor em 1516, terem sido os primeiros europeus a atingir a Austrália. A maior evidência baseia-se nos sete mapas e 11 cartas de marear produzidos em Dieppe, França, entre 1540 e 1570, e os quais são normalmente conhecidos como os mapas da Escola de Dieppe. Dado o elevado número de nomes e palavras portuguesas existentes naqueles mapas, assume-se, que, ou foram copiados ou baseados em anteriores mapas de autoria portuguesa. Os historiadores ainda não são unânimes na sua opinião, em especial porque a política de segredo da época não permitia a divulgação dos conhecimentos de geografia e porque o terramoto de 1755 destruiu a maior parte dos arquivos de Lisboa. [42] 5. A NOVA GUINÉ      Embora a descoberta da Austrália seja um assunto controverso, não existem dúvidas sobre a descoberta da Nova Guiné, em 1526, pelo português, Jorge de Meneses. Em 1593, Cornelius e Gerard de Jode produziram a 2ª edição de “Speculum Orbis Terræ”, na qual se mostra uma enorme massa de terra continental a sul da Nova Guiné. O texto da época cita que “ depois desta região (Nova Guiné) existe a vasta terra australiana que logo que seja conhecida representará um quinto continente, tão vasto e imenso parece ”. Tem sido aventada a hipótese de o animal representado na parte direita inferior da capa, da segunda edição, representar o corpo de um canguru com uma cabeça imaginária. [43] 6. A COMPANHIA HOLANDESA DAS ÍNDIAS ORIENTAIS      Os portugueses foram os primeiros a atingir as Índias Orientais, mas os seus lucros de tráfico de especiarias, escravos e pau-sândalo foram contestados pela Companhia Holandesa das Índias Orientais. O manuscrito português da área das Ilhas Menores da Sunda mostra, de facto, a ocupação holandesa de Dili, Cupão (Kupang) e Atapupo, entre 1653 e 1656. NOTA DO AUTOR: O catálogo com 21 artigos dedicava atenção aos holandeses, franceses e britânicos e à sua influência na Austrália, pelo que esta Crónica apenas se reporta aos extractos atrás apresentados e traduzidos, os quais poderão dar ao leitor uma imagem das obras expostas, que infelizmente não podem ser fotografadas, dados os riscos de deterioração se estiverem em contacto com a luz. As obras estavam expostas sob uma ténue luz e, nalguns casos, sob cortinados espessos que apenas momentaneamente poderiam ser erguidos para se apreciarem os mapas. Ainda que o relevo dado aos mais recentes europeus a ‘descobrirem’ a Austrália se mantenha, certo é que o interesse por outros europeus (nomeadamente portugueses) existe neste continente-ilha. Este seria um tema inesgotável a manter vivo nestas crónicas, coroando um certo orgulho pátrio, muitas vezes compartilhado com anglo-celtas, sedentos de aprenderem a verdadeira história do passado, sem o manto diáfano dos patrioteirismos nacionalistas. [44] CRÓNICA VIIª O PRIMEIRO GOVERNADOR DA AUSTRÁLIA LUTOU PELA MARINHA PORTUGUESA      Finalmente, a História começa a repor no seu lugar os factos reais, desimbuídos de conotações patrioteiras, e, neste caso devemos considerar, uma publicação vinda a lume em 1984 do historiador australiano Kenneth Gordon McIntyre, sob o título “ The Rebello Transcripts, Governor Phillip’s Portuguese Prelude [45]      Para os mais desconhecedores das primeiras páginas da história da colonização europeia da Austrália, diremos que o Capitão Arthur Phillip foi o comandante da Primeira Armada que chegou à Austrália em 1788 (8 anos depois da alegada descoberta do Capitão Cook), após 257 dias de tormentosa viagem, com 11 barcos, dos quais 6 de transporte, com 730 degredados (570 condenados e 160 mulheres condenadas), 250 marinheiros e outros homens livres, para constituírem a primeira colónia britânica no continente.      Ao contrário do que se encontra escrito, a nomeação de Phillip não correspondeu ao clímax de uma brilhante carreira na Real Marinha Britânica, mas sim aos relevantes serviços, por ele, prestados à Marinha Portuguesa e, da qual fez parte como mercenário.      O livro de McIntyre [46] “The Rebello Transcripts” baseia-se num estudo efectuado, em finais do século passado pelo General Jacinto Rebelo (Jacintho Ignácio de Brito Rebello), arquivista da Torre do Tombo, que a pedido de historiadores australianos dedicou toda a sua vida a estudar a carreira do Capitão Phillip ao serviço dos portugueses.      Embora os dados então recolhidos tenham estado à disposição dos historiadores, o seu desconhecimento da história portuguesa não permitiu o seu anterior aproveitamento. Refira-se, a propósito, que historiadores, tão consagrados, como George MacKaness ao publicar em 1937 a Biografia do Almirante Arthur Phillip [47] referem a sua participação na defesa de “colónia”, supostamente considerado como o Brasil, em vez de Colónia (Colónia del Sacramento), cidade sul-americana, hoje em território uruguaio [48] .      Nascido em 1738, o capitão Phillip frequentou uma obscura escola em Greenwich, tendo praticado como marinheiro na Groenlândia, sem qualquer acto digno de menção, durante a Guerra dos Sete Anos [49] . Quando esta guerra terminou, a Real Marinha Britânica dispensou os serviços de Phillip, pelo que este teve de recorrer à agricultura para sobreviver durante os dez anos seguintes.      Em 1773 os Portugueses estavam a recrutar oficiais de Marinha estrangeiros, quando Phillip, um mero Tenente Naval, obtém uma posição de Capitão na marinha lusa. Três anos mais tarde, estava já a comandar uma fragata portuguesa encarregue da protecção de Colónia (do Sacramento), uma praça penal na América do Sul, permanentemente ameaçada pela Espanha, de tal forma, que os seus habitantes se viram obrigados a comer ratos, cães e gatos para sobreviverem ao cerco espanhol.      O profissionalismo de Phillip granjeou-lhe a admiração das autoridades portuguesas. Em 1777, uma larga Armada espanhola tentando provocar um confronto com as forças portuguesas passeava-se ao largo da costa sul-americana. À data estava encarregue da defesa da área um comodoro irlandês, de seu nome MacDoual, que depois de consultar Phillip, lhe disse ser de evitar qualquer confronto directo entre as duas nações.      Phillip tentando convencer o irlandês a atacar o inimigo, sabia de antemão o provável resultado de um confronto, demonstrando assim a sua impulsividade e o seu sentimento de dever. Mais tarde, em 1778, de regresso à Inglaterra, motivado por um sentimento de fidelidade ao país que enfrentava a difícil situação da Guerra da Independência (da América), Phillip coloca-se à disposição da Inglaterra. Este exemplo, foi, durante muitos anos, considerado como um exemplo de patriotismo, mas deve-se considerar mais como uma resposta à recusa dos portugueses de manterem os seus notáveis serviços.      Depois de ter sido colocado na Reserva durante 16 meses, a Armada Britânica deu-lhe o comando de uma nave de 64 canhões, a “Europa”. Nesta data, tinha Phillip, 43 anos de idade. Cinco anos mais tarde (1786) era-lhe confiada a missão de conduzir a Primeira Armada até ao porto de Botany Bay, em Sydney.      Uma das razões citadas para esta promoção de Phillip foi a de que mais ninguém estaria interessado na ‘honra’ de assumir tal posição. Na realidade, a razão porque Phillip foi chamado e recomendado para este lugar, deve-se ao facto de a sua acção ter sido meritória ao serviço da Armada Portuguesa.      Tal como Colónia, na América do Sul, debaixo de uma difícil e morosa linha de abastecimentos, também Botany Bay (aqui onde hoje é Sydney) representava uma situação difícil, tal como acontecera à possessão portuguesa.      Assim, nasceu a importância do Capitão Phillip para a moderna história da Austrália. Se bem que sendo de descendência germânica e tenha estado ao serviço dos portugueses [50] , Phillip pode ser considerado o primeiro membro “étnico” de uma Austrália multicultural. QUADRO I: A LUTA PELA COLÓNIA DE SACRAMENTO
DATA ACONTECIMENTO DOMÍNIO NACIONAL
1494 TRATADO DE TORDESILHAS Domínio[51]
1679 Fundação de Colónia pelo Príncipe Pedro Português
1680 Destruição de Colónia pelos Espanhóis Espanhol
1683 Devolução de Colónia após negociações Português
1705 Captura. Guerra da Sucessão em Espanha Espanhol
1713 Devolução. Tratado de Utreque (Utrecht) Português
1750 Renegação do Acordo. Tratado de Madrid Espanholn
1761 Revogação do Acordo. Tratado do Pardo Portuguêsn
1762 Captura. Guerra dos Sete Anos Espanhol
1763 Devolução. Tratado de Paris Português
1777 Destruição pelos espanhóis Espanhol
1821 Anexação por Portugal Português
1822 Independência do Brasil Brasileiro
1828 Fundação do Uruguai Uruguaio
QUADRO II: A CARREIRA DO CAPITÃO PHILLIP NA MARINHA PORTUGUESA 1774 25 DE AGOSTO - Solicita autorização para admissão na Marinha Portuguesa 22 DE DEZEMBRO - Parte de Londres para Lisboa 1775 14 DE JANEIRO - É nomeado Capitão da Marinha Portuguesa 09 DE FEVEREIRO - Parte de Lisboa ao comando da “Belém” ? MAIO - Chega ao Rio de Janeiro 28 DE SETEMBRO - Ao comando da “Pilar” ruma com destino a Colónia 22 DE OUTUBRO - A “Pilar” parte do Desterro ? NOVEMBRO - Regressa ao Rio, partindo logo a seguir 1776 27 DE JANEIRO - Ao comando da “Pilar” ruma a Colónia 18 DE AGOSTO - A “Pilar” intervém na defesa de Colónia 29 DE DEZEMBRO - Parte de Colónia 1777 20 DE FEVEREIRO - Fica baseado na Ilha de Santa Catarina ? MARÇO - Fica integrado num Esquadrão Naval no Rio de Janeiro 01 DE ABRIL - Parte ao comando da “Pilar” numa missão de defesa a sul 26 DE ABRIL - Regressa triunfante com um barco inimigo aprisionado 29 DE MAIO - Nova partida em patrulha às águas do sul 23 DE OUTUBRO - Nomeado capitão do “Santo Agostinho” 1778 10 DE MAIO - Parte do Brasil com destino a Lisboa 04 DE AGOSTO - Chegada a Lisboa 24 DE AGOSTO - Pagamento e exoneração da Marinha Portuguesa CRÓNICA VIIIª As palavras nas paredes ou ainda a asianização da Austrália      Nas sombrias margens dos quadrantes políticos existe uma área conhecida como extrema direita, povoada de neo-nazis e racistas fanáticos, sedentos de violência e vingança. Os australianos que habitam estas margens do espectro político estão, desde há uns anos, activos, tendo passado da sua natural obscuridade para uma fase mais agressiva contra a imigração asiática. A culpa não é só deles, mas também dos políticos naïf que se servem de argumentos contra a imigração para projectarem as suas agendas pessoais e, quiçá, atingirem uma notoriedade que de outra forma não alcançariam [52] .      Nas paredes, os grafitti proclamam “ Fora com os asiáticos ”, “ Paremos a invasão asiática ”. As latas de spray dão a Sydney e Melbourne um ar semelhante ao de Lisboa pós 25 de Abril e são, na sua maior parte, manipuladas por grupos denominados Acção Nacional e Movimento para uma Austrália Branca .. Além destes, a Liga dos Direitos retoma uma posição cimeira na manipulação política anti-asiática. 1. A ACÇÃO NACIONAL      Noite de Sábado em Darlinghurst (na baixa citadina de Sydney) um grupo de cabeças rapadas ( skinheads ) encostado a uma esquina observa o tráfego nocturno. De repente, com um movimento rápido, o chefe do gang arranca para um carro que parara junto ao semáforo vermelho, e, com as suas botas cardadas pontapeia o veículo ao volante do qual se encontra um assustado asiático, que logo arranca com uma bossa na chaparia do seu Mazda japonês. Logo, os outros 16 cabeças rapadas erguem os seus braços, punhos fechados numa saudação quase Nazi, sob as palavras de ordem “ Viva a Acção Nacional! Acabemos com os asiáticos!      O presidente da Acção Nacional, Jim Saleam, nega qualquer responsabilidade em incidentes deste género, declarando que “ muitos skinheads, influenciados pela nossa literatura podem invocar estar a actuar em nosso nome, sem que, no entanto, estejam envolvidos com as bases da nossa organização .” Saleam, tem 41 anos e, desde os anos 70, que está envolvido em organizações políticas de extrema direita, tendo criado a “Acção Nacional” 1982, e contando hoje com representantes em todas as capitais estaduais e umas largas centenas de membros nas suas bases (eram apenas 300 em 1984!). A sua mensagem política é simples (e simplista): “ Os asiáticos estão a roubar os empregos aos australianos e a colonizar o país. Deverão abandonar estas paragens. Acreditamos que os meios justificam os fins e a mensagem é de violência. Lutamos pela nossa sobrevivência, não como Anglo-Saxões, mas como Europeus.      Curiosamente, aliás como se poderia deduzir pelo apelido, Saleam é de origem árabe (libanês), mas acreditava já, em 1984 [53] , que “ na década de 90 haverá tantas crises no mundo que ninguém dará conta da repatriação forçada dos asiáticos, que será apenas resultado da defesa dos recursos australianos, criando uma sociedade homogénea e tecnológica ”. Parece que apenas se enganou no país, pois com efeito procedeu Hong Kong à repatriação forçada dos vietnamitas sem grandes protestos, e Hong Kong antes da passagem para a soberania chinesa era, um território maioritariamente asiático.      Na Austrália verificaram-se longos períodos de detenção de cambojanos, chineses e outros asiáticos a uma maioria dos quais foi recusada a permanência, mas não se assistiu a nenhum êxodo forçado. Sem se atrapalhar quando lhe perguntam como o seu grupo poderá assumir a condução do poder político, Saleam, cita faccionalismo, culturalismo nacional e “ aceita que uma futura república australiana tenha o poder igualmente partilhado por civis e militares, para que o balanço político seja estabelecido e permita a educação política das camadas mais jovens.      Entretanto, face aos inúmeros actos de provocação verificados nas organizações estudantis universitárias e aos confrontos com organizações de esquerda, como “People Against Racism” e “Students Against Racism”, as autoridades adoptaram uma atitude de maior controlo sobre estes agitadores antidemocráticos, que visam minar a política multicultural integracionista, mas não assimilista, da Austrália. Tudo leva a crer, porém tais confrontos possam ser sangrentos entre os dois extremos do quadrante político universitário “ ...as palavras nas paredes [54] .      O total de pessoas na Austrália que desaprova o influxo de imigrantes tem vindo a aumentar em proporção directa ao sensacionalismo de certa imprensa. Numa recente sondagem mais de 60% da população nascida na Austrália desaprovava o excesso de imigrantes, mas esta proporção diminuía dentre os que haviam nascido na Europa (45%) e era ainda mais pequena dentre os de origem asiática (33%). 2. A OUTRA FACE DOS ASIÁTICOS NA AUSTRÁLIA      Em Cabramatta (subúrbio de Sydney, pejorativamente denominado de Vietnamatta), em qualquer dia da semana pode observar-se em frente aos armazéns Bing Lee (“ as maiores pechinchas do lado de cá de Hong Kong ”) que um jovem baladeiro, em jeans (ganga) e T-shirt, entoando música dos anos 60, merece tanta atenção dos chineses, vietnamitas, laocianos e restantes transeuntes que se deslocam para as compras como um encantador de cobras em Calcutá ou um vendedor de banha da cobra no Rossio. Ao lado do improvisado ‘husker’ um cartaz com a palavra Help! . Uns sorriem, outros atiram moedas, decertamente lembrados de que aquela palavra foi provavelmente a primeira que souberam dizer em Inglês. Se há ressentimento por parte de australianos em Springvale e Cabramatta (os mais densamente povoados por asiáticos) por outro lado, uma nova era de enriquecimento multicultural está a surgir, florescendo com pessoas a aprenderem tudo: da língua mandarim a lições de Tai Chi, King Fu, lições de culinária asiática, etc.      É nos escalões etários mais novos, e entre os desempregados, que se nota maior ressentimento, o que acaba por ser natural, dado serem estes grupos os mais ameaçados pelo elevado número de asiáticos subitamente lançados no seu habitat. Outros, mais idosos, admitem que os asiáticos são respeitadores e não criam problemas, havendo mesmo quem chegue a dizer que “ depois do que sofreram para cá chegarem até merecem apoio ”. Há ainda os que se mostram satisfeitos com o grau de interpenetração cultural obtida em lugares tais como Cabramatta, onde coexistem doze diferentes etnias: uma mercearia (ex-)jugoslava, ao lado de um restaurante vietnamita, um escritório de um advogado polaco, o consultório de um médico indiano, ao lado do centro dos jovens timorenses, ao lado de ...      Uma coisa é comum para a maior parte destes novos residentes da Austrália, ou a política ou a guerra os motivou a emigrar em busca de melhores paragens e da miragem de poderem construir um futuro. Tal como os australianos mais típicos, também eles querem ter uma casa e segurança para as suas famílias. A maior parte chega com pouco ou nada e, depois de algum tempo de trabalho (bem mais árduo do que a maioria dos australianos estaria disposta a aceitar) conseguem realizar os seus sonhos. Muitos trabalham de dia e estudam à noite. Evidentemente que o seu rápido influxo em zonas tradicionais de desemprego, criou focos de tensão, sobretudo entre aqueles que nada mais querem da vida do que um meat pie (torta de carne, prato típico australiano), futebol (mais semelhante ao norte americano do que ao futebol), carros Holden (General Motors, fabricados na Austrália), apostas de cavalos, jogos de poker de máquinas e cerveja sem limites. Estes recusam qualquer alteração ou mudança do seu status quo.      Dois exemplos ressaltam daqueles que contactamos: um é o de Ray Matthews, condutor de pesados interestatais que regularmente visita a Associação Chinesa-Budista de Cabramatta e o seu amigo Chou Ky Thay. Matthews, um veterano australiano da guerra do Vietname parou um dia para ajudar um motorista empanado, para acabar descobrindo que se tratava de um antigo soldado sul-vietnamita, com quem estivera hospitalizado durante a guerra. Daí nasceu uma longa amizade entre eles, embora, por vezes, ainda haja dificuldades de comunicação entre os dois. Matthews não cessa de gabar a capacidade de integração e de trabalho dos novos australianos . O outro é o de Nikhom Panith, um laociano de 43 anos, ex-funcionário da Brigada Anti-Narcóticos Norte-Americana no Laos. Fugiu às tropas comunistas atravessando o Rio Mekong a nado, até à Tailândia, onde se refugiou em 1978. Depois de ter passado três anos em campos de refugiados, foi seleccionado para ser realojado na Austrália, aonde chegou sem um cêntimo. Trabalhou numa fábrica, tal como a sua mulher, até juntar o suficiente para fundar o primeiro talho indochinês de Cabramatta. Depois expandiu os seus negócios com um restaurante adjacente, uma mini fábrica de processamento e congelamento de frangos. Panith conta que nos primeiros tempos de trabalho na fábrica, os colegas australianos lhe atiravam restos de comida acompanhados de insultos “ Go home!, Asian bastard ” (“ vai para a tua terra, meu c.... asiático ”). Ele respondia “ sou católico como alguns de vós. Cristo ensina a acreditar que os homens são todos irmãos. Assim vos considero. Será que vocês não sabem fazer o mesmo? ” A partir daí as provocações desapareceram.      Em Springvale, um terço da população nasceu fora da Austrália, sendo a maior proporção constituída por britânicos e irlandeses, (ex-) jugoslavos, italianos e asiáticos. Também aqui se confirma que a população mais jovem é a que menos aceita a presença asiática, mas trata-se mais de uma questão de cerco mental do que de ódio racial. Um dos factores preocupantes para muitos, porém, é o da acentuada baixa dos valores imobiliários, e a substituição das lojas australianas por restaurantes, talhos, supermercados, asiáticos. Tal como aconteceu nos anos 50, quando a invasão mediterrânica (grega e italiana) atingiu foros de confrontação agressiva por parte dos australianos residentes nas áreas onde eles se instalaram, idêntica reacção, fruto da instabilidade, medo, desconhecimento, da tradicional aversão à mudança verifica-se agora em relação aos asiáticos. Uma época, um ciclo passado nesta longa etapa de absorção de culturas, hábitos, costumes e tradições que tem caracterizado a Austrália pós-guerra. No fundo, trata-se basicamente da falta de comunicação e da dificuldade inicial de comunicação entre os diferentes grupos étnicos distintos, que se vão inter-assimilando ou integrando até fazerem parte integrante deste microcosmos chamado Austrália. Que os políticos e demais personalidades, nomeadamente, os meios de comunicação social saibam compreender e respeitar o processo lento de multiculturalização a que se assiste é, decerto, o meio mais rápido para o despoletar de tensões. 3. A ESCALADA DA DIREITA LUNÁTICA      Que maravilhosa noite (de extrema-direita) estava! Tratava-se, sem dúvida de uma extrema direita no seu sentido histórico e real, e não nos moldes em que é frequentemente citado por bastiões políticos correctos, tais como entidades governamentais ou para-governamentais quando querem criticar aqueles que se opõem às suas agendas. A data era Outubro de 1993 num Congresso Nacional da Liga dos Direitos (League of Rights), a mais antiga organização australiana de extrema direita. Tópico: “ Defender a Austrália Tradicional ”. Orador: nem mais nem menos do que o controverso deputado trabalhista [55] Graeme Campbell, então deputado federal por Kalgoorlie, W.A.. (Austrália Ocidental). Uma pergunta inevitável era a de saber o que um trabalhista (mesmo sendo da ala direita do partido) estava a fazer num sítio destes.      O folheto da reunião anunciava três oradores (homens, pois claro!) de enorme valor: o Brigadeiro (na Reserva) Ted Serong a falar sobre defesa, Jeremy Lee, educado no Reino Unido, conhecido pela sua actuação no League of Rights, a falar sobre “ os males da economia ortodoxa ” e, como convidado de honra, Campbell [56] para falar sobre “ A fuga às responsabilidades ( Engenharia Social, o radicalismo do Supremo Tribunal e a Asianização da Austrália, e de como o multiculturalismo e imigração destroem a coesão nacional e tornam a defesa do país impossível )”.      Estes, alguns dos temas mais favoritos da extrema direita. Graeme Campbell foi acerado como sempre, acusando Paul Keating [57] , o Supremo Tribunal, o multiculturalismo e a asianização, o republicanismo e o Estado Corporativo, como alicerces minados da soberania australiana. Se se tratasse de um mero almoço com os Rotários locais o assunto não teria atingido as manchetes dos jornais, mas tratando-se de um Congresso Nacional da Liga dos Direitos, este discurso veio trazer toda uma importância que faltava àquele movimento de direita. Afinal, tratava-se da primeira vez que um deputado trabalhista se dirigia à direita. Campbell respondeu às críticas alegando que o seu discurso “ não se tratava de um endosse das posições ou políticas seguida por aquela entidade, que, actualmente, se estava a movimentar para o centro conservador” (Nota do Autor: o que não foi, então, nem é agora, verdade) .      Campbell foi sempre assim. Já, em Maio de 1990 profetizava que a “ menos que algo se faça para reduzir radicalmente a imigração, as cidades australianas sofreriam conflitos raciais como os de Brixton ” (Inglaterra, no fim da década de 80), e “ apelava para um regresso à política da Austrália Branca ”. Já, em 1990, estes pontos de vista não deveriam ter sido considerados tão levianamente como muitos fizeram. Existe uma atmosfera política perturbadora e perturbada, em vastas áreas provinciais e rurais da Austrália, causadas pela recessão, pela seca, os baixos preços das ‘commodities’, os elevados juros e o excesso de insolubilidade financeira, para além do próprio envelhecimento das regiões e suas populações. Estas áreas apresentam-se maduras para quem as quiser colher politicamente: os ideólogos, que, nesta época, na maior parte do mundo ocidental tendem a situarem-se na extrema direita [58] .      Esta extrema direita que merece, cada vez mais, destaque nos telejornais europeus está ligada a movimentos similares nos EUA e na Austrália. Esta direita abarca uma gama de correntes de opinião e estilo, que vão do mais moderado às franjas lunáticas do extremismo, vocal e agressivo. A direita serve aqueles que buscam uma ideologia nesta era de mudança rápida e constante, nesta idade do pragmatismo que se apossou do mundo ocidental. Ironicamente, foi a morte do comunismo, estilo europeu, que auxiliou os movimentos da extrema direita de todas as tonalidades, desde os que passam os dias e noites a sonhar com teorias de conspiração até àqueles que praticam, de facto, acções extremistas.      O declínio da Austrália rural (baluarte da nação desde a colonização britânica) foi acompanhado de um crescimento de organismos de extrema direita, algumas das quais ligadas ao ‘lobby’ anti-controlo de armas. Por exemplo, outro dos oradores daquela noite, Ted Serong, teve uma carreira militar brilhante, mas nos últimos anos aliou-se às políticas da franja mais à direita, tornando-se padroeiro dos Escoteiros AUSI ( Australians United for Survival and Freedom, ou seja, Australianos Unidos para a Sobrevivência e Liberdade ). Conjuntamente com o ACM ( Australian Community Movement, Movimento Comunitário Australiano ) eles levam a efeito treino paramilitar para garantir a defesa da Austrália, contra um desconhecido invasor. Aparentemente, Serong, não acredita nas capacidades das tropas ADF ( Australian Defence Force ). Existe um número de grupos rurais de extrema direita, tais como WARAM ( Western Australian Rural Action Movement , ou Movimento Australiano de Acção Rural da Austrália Ocidental ), CAP ( Confederate Action Party , ou o Partido da Acção Confederada , com membros em Nova Gales do Sul e Queenslândia), e um número crescente de organismos cristãos como a Fundação Logos . Todos estes movimentos traçam a sua origem até à Europa do fim da 1ª Grande Guerra.      Tradicionalmente, a direita era corporativa, favorecendo o controlo governamental sobre vastos sectores da economia. Era também populista, descaradamente nacionalista e, invariavelmente racista. Num extremo havia os Nazis Alemães de Adolfo Hitler e os Fascistas Italianos de Benito Mussolini., mas por toda a parte havia seguidores: da Falange Espanhola de Franco, à Acção Francesa de Charles Maurras, à própria União Fascista Britânica de Oswald Mosley. A Austrália nunca teve, porém, um movimento de direita como os europeus. De tempos a tempos, surgiram organizações influenciadas por ideologias corporativistas ou nacionalistas. Estas foram a “ Nova Guarda ” de Eric Campbell nos anos 30, o “ Australia First Movement ” ( O Movimento da Austrália Primeiro ) de P.R. ‘Inky’ Stephenson também nos anos 30 e, a Liga Australiana dos Direitos , fundada a nível nacional por Eric Butler em 1960, mas cujas raízes datam também dos anos 30. A ‘ Nova Guarda’ baseia-se em Nova Gales do Sul, como uma reacção ao socialismo do governo estadual trabalhista de Jack Lang, que foi demitido pelo governador, Sir Philip Game, em Maio de 1932. A ‘ Nova Guarda ’ desapareceu assim como surgira. Stephenson, nascido na Queenslândia, começou a sua carreira política muito próximo dos comunistas, mas trocou de cor política em meados da década de 30 ao aliar-se à Extrema Direita, tendo estado preso de 1942 até ao fim da guerra, desta forma terminando o seu ‘ Australia First Movement’ .      A ‘ Liga dos Direitos ’ é o único sobrevivente com mais de uma década de existência. Eric Butler começou a formar grupos rurais na Austrália Meridional em meados dos anos 30, estando já estabelecido no estado de Vitória ao findar da 2ª Guerra. O primeiro mentor intelectual da Liga dos Direitos foi um Major C. H. Douglas (1879-1952), autor de inúmeros (e incompreensíveis) estudos e ensinamentos sobre o movimento de crédito social. Este economista britânico acreditava que todos os males económicos advinham da falta de poder de compra. Apoiava um aumento do consumo através do controlo de preços e pela criação, por parte do governo, de créditos sociais a serem distribuídos aos consumidores. Um ponto de vista dos ensinamentos de Douglas era que todo o sistema bancário controla as finanças, pelo que é, largamente culpado da maioria dos problemas económicos existentes. Daí, a criticar os monopólios da finança internacional, vai um pequeno passo de Douglas, que acaba por deitar todas as culpas a uma (alegada) conspiração financeira dos judeus. São muitos os seus seguidores que ainda hoje acreditam piamente nesta asserção.      A Liga dos Direitos está metida até aos olhos em anti-semitismo. Esta ligação já vem de 1946, quando Eric Butler publicou a sua infame obra “ O Judeu Internacional ”. Este anti-semitismo profundo foi documentado num célebre panfleto de 1965 “ Vozes de Ódio ”, por Ken Gott, mantendo-se tal tradição até aos nossos dias. Em 1986, a editora Veritas , de Perth na Austrália Ocidental (e que está associada à Liga dos Direitos) esteve ligada à vinda à Austrália do historiador britânico da extrema direita, David Irving. Este estava na Austrália para relançar o seu livro de 1991 “ Uprising !” (Motim), no qual, o autor apresenta uma desconcertante explicação para a revolta húngara de 1956 contra os comunistas, alegando que “o elevado judaísmo do regime causou ressentimentos populares”. Relembrando os acontecimentos, o motim foi esmagado pelos comandantes não-judeus do Exército Vermelho da União Soviética.      Em 1987, a Veritas , lançou o primeiro volume de Irving, “ A Guerra de Churchill ”, no qual o autor acusa Churchill de ter mantido a guerra na Europa depois de 1941. Assegurando, mas não provando, que a Alemanha estava disposta a aceitar um acordo de paz o qual foi rejeitado por Churchill. Irving teve largas audiências em toda a Austrália. Posteriormente, várias tentativas feitas pela Liga dos Direitos para trazer Irving de volta à Austrália foram indeferidas pelo governo. Em 1993, quando questionado pelo jornal ‘The Sydney Morning Herald” Irving disse que gostaria de poder falar sobre o Holocausto, se fosse autorizado a visitar, de novo, a Austrália.      O livro ‘The League of Rights’, de Eric Campbell (1978) assegura que este movimento se transformou, de facto, numa verdadeira terceira força no espectro político australiano. Além do exagero, conceda-se porém a existência de sólidas bases rurais, a explicar a sua longevidade. Ela, porém, não passa de mais uma das inúmeras organizações políticas de extrema direita, que passam mais tempo a digladiar-se com suas congéneres da direita do que a oporem-se de forma efectiva aos seus inimigos declarados. Daí (felizmente!) a sua ineficácia. Dentre os seus objectivos contam-se a “lealdade ao conceito cristão de Deus e da Coroa” e a “oposição a toda a propaganda anti-britânica”. Esta tendência de serem ‘mais britânicos do que os ingleses’ não agrada a muitos jovens e aos mais radicais.      Na luta pela supremacia das conspirações de direita está o grupo CEC (Conselhos de Cidadãos Eleitores) com base em Melbourne, e ideologia emprestada do norte americano Lyndon LaRouche. Este começou a sua carreira política no Partido Socialista dos Trabalhadores que apoiava o bolchevique Leon Trotsky (depois exilado e assassinado a mando de Estaline). Nos anos 70, LaRouche virou-se à extrema direita, tentando criar um movimento populista de agricultores, pequenos negociantes e trabalhadores indiferenciados ou pouco especializados, cuja raiva contra as drogas, desemprego e altas taxas de juro deveria ser canalizado contra os ‘Sionistas’ (forma mais educada de dizer Judeu). A CEC não parece anti-asiática mas sim anti-semítica, como o provam recentes publicações [59] . Aquando do discurso de Graeme Campbell a CEC acusou-o de “ser um agente do imperialismo britânico, aliado de organizações racistas e genocidas tais como o FMI (Fundo Monetário Internacional), Banco Mundial e o Imperialismo Britânico”. Isto pode parecer ao leitor matéria mais própria de um asilo de dementes, mas não se deve menosprezar a extrema direita radical (ou a extrema esquerda radical) pois as ideias têm consequências e muitas vezes essas são evidentemente desagradáveis.      O que une os vários movimentos de extrema direita australianos é a convicção de que o actual mal estar de parte da população pode ser um resultado de uma conspiração internacional. De facto, eles são os culpados, eles controlam a economia através do Banco Mundial e do FMI. Eles querem criar uma Nova Ordem Mundial para melhor servir os interesses da finança internacional. E muitas vezes, eles são judeus. Esta uma versão actualizada das teorias de Eric Butler para os anos 90.      Brian Wilshire é um apresentador de um programa talkback [60] na rádio 2GB de Sydney, sendo autor de livros [61] , que desmente ser de extrema direita, embora aqueles que o ouvem e lêem discordem. Um dos seus temas favoritos é o de “ existir um elo comum, um plano deliberado, elaborado por aqueles que beneficiam dos nossos azares, o que explica todos os nossos problemas financeiros e políticos .” É tão simples como isto, e, como tal é rapidamente aceite por aqueles que o ouvem ou lêem. Naqueles livros, Wilshire cita Peter Sawyer, um conhecido ex-burocrata de Camberra, tornado advogado de ideias de extrema direita, que atingiu a notoriedade ao anunciar que o Centro de Telecomunicações de Deakin (Canberra) servia como Quartel General Operacional para espionagem e escutas sobre a população, oficialmente sancionadas pelo governo. Sawyer também fez algumas previsões (falhadas) tais como a de haver uma rebelião armada de Aborígenes no Dia Nacional da Austrália em 1988 (ano da comemoração do bicentenário do país).      Para além destes, existe ainda um grupo daqueles que se dedica a denegrir os bancos. Um exemplo é Paul McLean, um parlamentar dos Democratas, moderado da extrema-direita, que se reformou da vida política e se mudou de Nova Gales do Sul para a Tasmânia, onde publicou, em 1992, o livro “Banqueiros e Filhos da P...!” [62] . Neste livro ele acusa os bancos australianos de “ todas as práticas incorrectas, corruptas, perjúrio, decepção, mentira e desonestidade ”. Tal como o major C. H. Douglas, de que atrás falamos, McLean acredita que os bancos determinam a existência de crédito e utilizam esse poder para impor uma escravatura da idade moderna, a todos aqueles que eles colocam, deliberadamente, em situação de insolvência. Resumidamente, eles fazem parte de uma conspiração internacional. Embora McLean não se assuma politicamente em qualquer quadrante, admite que os seus escritos são prontamente aceites pelas extremas (direita e esquerda). Claro que as suas obras encontraram eco nas zonas rurais e nos grupos de acção existentes. Tragicamente, muitos agricultores e latifundiários hipotecaram-se, irremediavelmente, na década de 80, sendo depois fulminados com uma dose dupla de elevadas taxas de juro, baixos preços das ‘commodities’ nos mercados internacionais, a seca e a recessão. Embora o seu caso seja trágico não é necessário engendrar uma conspiração para o explicar.      Em meados de 1993, George e Stephanie Muirhead atraíram a atenção dos meios de comunicação nacional pelo seu acto simbólico de decretarem o Estado Independente de Marlborough, na Queenslândia Central, como forma de protesto contra os bancos e o sistema político que lhes permite operar. Na prática, o casal alega que um avultado empréstimo que fizeram não estava de acordo com as formalidades legais e, como consequência, não se sentiam obrigados a pagá-lo. O Banco discordou, o mesmo acontecendo com o Supremo Tribunal da Queenslândia. Os Muirhead acusaram tudo e todos de conspiração, declarando não reconhecer o sistema legal australiano. O gesto de desafio, mas, sobretudo, simbólico do casal foi apoiado pelas forças tradicionais de direita e o próprio Peter Sawyer organizou um telefone de linha verde (0055) para angariar apoio para a campanha de secessão da fazenda Marlborough, dos Muirhead. Este apoio nada conseguiu para os salvar, mas deu uma considerável cobertura mediática à extrema direita australiana.      Como expressamos, no princípio deste artigo, Graeme Campbell ao dirigir-se à audiência da Liga dos Direitos alertava para o facto de “ muitos indivíduos estarem a contemplar medidas desesperadas, devido ao fosso profundo entre as cidades e o interior da Austrália ”. Lamentavelmente, Campbell esqueceu-se de mencionar que nas últimas décadas houve casos de violência política da extrema direita, e, até mesmo assassinatos, nos quais estiveram envolvidos alguns membros do ANM (Movimento dos Nacionalistas Australianos ou Australian Nationalists Movement) e da Acção Nacional (National Action). Não há motivo para se ser alarmista, da mesma forma que não vale a pena sonhar ou alegar maquinações e conspirações onde elas não existem. Até agora não foi provado que os vários seguidores do vasto espectro de direita, tais como Eric Butler, Lyndon LaRouche, Peter Sawyer, Brian Wilshire e outros estejam (ou tenham estado) envolvidos em violência política de alguma espécie. Existem, porém, vários grupos de extrema direita, que são bastante mais extremistas - em actos e ideologia - e que se alimentam de teorias professadas por organismos tais como a Liga dos Direitos. Em Perth, na Austrália Ocidental, o ANM [63] , o neo-nazi Movimento dos Nacionalistas Australianos, iniciou, em finais da década de 80, uma orgia de assaltos e fogo posto dirigido a Australianos Asiáticos.      Estas actividades criminais vieram a lume quando um certo Russell Wiley, membro dos ANM se tornou numa testemunha de acusação. estas actividades acabariam por resultar num documentário da autoria de David Bradbury “O Super Bufo Nazi” [64] que foi transmitido pela cadeia televisiva ABC em 1993. O líder daquela organização, Jack van Togeren, está a cumprir uma longa sentença por crimes racialmente motivados, incluindo fogo posto. Na sua defesa, aquele extremista defendeu o ANM como sendo uma organização “ a favor da Austrália, contra os bancos internacionais e a asianização da Austrália ”. Alguns membros da organização aproveitaram a ida a tribunal para negarem a existência do Holocausto, em retórica bem conhecida, cujas origens atrás mencionamos mais detalhadamente. Dois membros do ANM foram condenados por terem morto, um colega, que (erroneamente) pensavam ser um bufo da polícia. O jornal “The Sydney Morning Herald” noticiava que um deles, ao sair do tribunal, se voltou para os jornalistas dizendo: “ Seus c... sionistas, vão ter aquilo que merecem, Sieg Heil! [65] É altamente improvável que os skinheads (cabeças rapadas) de hoje, com as suas botas e suspensórios saibam seja o que for sobre o nacional socialismo, Hitler ou seja lá o que for. O seu neonazismo é uma manifestação de alienação da variedade extrema direita. A maior parte daqueles que pertencem a grupos pró-violência, como o ANM, não são revolucionários a sério, mas, alguns deles são perigosos criminosos.      Em Sydney, em Março de 1991, o líder do movimento extremista Acção Nacional, James (Jim) Saleam, que atrás é citado [66] , apesar da sua educação universitária, foi sentenciado a pena de prisão por ter organizado um ataque de caçadeira à residência do representante do ANC [67] na Austrália. O Juiz de Nova Gales do Sul descreveu aquela organização como “ uma organização de extrema direita preparada a recorrer a qualquer acto político criminoso de forma a atingir os seus objectivos .” Posteriormente, outro membro daquela organização acabaria por ser preso ao atingir a tiro um camarada seu, na sede da organização em Sydney. Bizarramente o assassinato foi registado pelas câmaras de circuito interno, utilizadas pela ASIO [68] na sua rotineira vigilância daquele movimento. Estas organizações e os indivíduos, que delas fazem parte, estão à margem política na Austrália, e, embora grupos como o ANM e a Acção Nacional tenham uma história de violência, esta não é tão significativa, como a de idênticos grupos neo-nazis na Europa e Estados Unidos.      Isto, porém, não deve ser motivo para complacência. Os crimes de motivação racial são um facto do quotidiano australiano e não podem ser ignorados, nem exagerados. Em Novembro 1993, a sinagoga de Newtown (Sydney) foi atacada à bomba. Em Melbourne, indivíduos ligados à Acção Nacional têm sido acusados de assaltarem Australianos Asiáticos. Os grafitti da direita radical indisputadamente incitam à violência racial. Esta aparição de uma direita radical apresenta os seus problemas éticos para os meios de comunicação social. Algumas delas merecem destaque porque, de facto, são notícias, mas, por vezes, o simples facto de se lhes dar cobertura está a granjear-lhes uma notoriedade que nem têm, nem merecem. Abundam desses exemplos em todos os jornais australianos. As ideologias de extrema direita não estão vencidas na Austrália (e muito menos com um governo conservador como o de John Howard), e esse é o grande desafio para os conservadores australianos.      Quando, nos anos 40, 50 e 60 a Esquerda pró comunista australiana era forte, os que melhor lhe sabiam e podiam fazer frente eram, eles mesmos, de esquerda. Hoje, passa-se o mesmo com a direita, mas, numa perspectiva diferente. Os que melhor podem confrontar a ideologia lunática, e por vezes, psicótica da extrema direita (desde os não violentos membros da Liga dos Direitos à pró violenta ANM) são os membros da direita conservadora, mas até agora nenhum deles veio a terreiro terçar armas. 4. PARA ALÉM DAS FRANJAS LUNÁTICAS DE DIREITA      Rick McCarty gosta de se vestir como um homem de negócios, blazer azul, calças bem vincadas, camisa branca e uma garrida gravata vermelha com um anzol de pesca debruado a ouro. Este ex-fiel de Bagwhan Shree Rajneesh, autodescrito psicoterapeuta, alega ter um mestrado em filosofia por uma Universidade norte americana, que nunca é mencionada.. O que ele vende, diz ele: “É como a Coca Cola, em termos de posição (somos #1)”. Mas, o produto é menos inócuo do que Coca Cola. Ele vende, nem mais nem menos, preconceitos raciais, sendo o líder do COTC, um grupo de supremacia branca denominado a Igreja do Criador (The Church of the Creator), ou como ele gosta de bazofiar “ a única religião racista de que o homem dispõe ”. O seu título oficial é Pontifex Maximus [69] embora prefira o título de Director Executivo. A religião professada é conhecida como Criatividade, adorando a Natureza - não um Poder Superior - e dedica-se “ à sobrevivência, expansão e progresso da raça branca ”. É violentamente anti-semítica, racista, e, ao contrário da maior parte das religiões, profundamente (virulentamente) anticristã. Os dogmas desta organização incitam a uma RAHOWA [70] , para libertar o mundo de todos “ os parasitas judeus e das raças de lama [71] . De acordo com esta organização uma “conspiração judaica” domina o governo norte americano, a banca internacional e os meios de comunicação mundiais.      McCarty tomou conta desta organização em Janeiro 1993, e rapidamente afirma estar disposto a torná-la lucrativa, adiantando não haver nenhuma diferença no produto que propõe: trata-se de uma ‘commodity’ como qualquer outra. Esta organização existe desde há muito, nas franjas lunáticas da extrema direita, tendo aumentado substancialmente o seu número de fiéis (ou deverei dizer sócios?) a partir da década de 80. McCarty fala de milhares nos Estados Unidos, com capítulos em 37 países, desde a Alemanha, África do Sul à Suécia. O grupo tem alguns seguidores aqui na Austrália, mas ele recusa-se a revelar quantos, quem são ou onde vivem, adiantando que não sendo muitos, eles são activos e contribuem regularmente para o Boletim mensal do grupo, “Lealdade Racial (Racial Loyalty)”, do qual se publicam entre 20 a 40 mil cópias. Mas, analistas de movimentos de supremacistas raciais adiantam que o grupo congrega apenas centenas dos cerca de 25 mil activistas de supremacia racial nos EUA.      Constate-se, porém, o sucesso do grupo ao atingir os mais activos, impressionáveis e violentos discípulos: jovens, racistas, skinheads (cabeças rapadas). A força desta organização deve ser procurada, não nos números, mas na sua potente propaganda. Danny Waltch, director do Klanwatch [72] é peremptório ao afirmar: “ eles são perigosos pela influência que têm sobre adolescentes e jovens adultos em formação. A razão porque eles vão ao COTC é porque (este) instila violência nas pessoas através da sua retórica .” Os membros do COTC são tão violentos que passaram a figurar em número um da lista de organismos observados pelo Klanwatch, suplantando o KKK ( Ku Klux Klan ) no sul dos EUA, a Resistência Ariana Branca da Califórnia e as Nações Arianas de Idaho. Um dos sinais mais visíveis do relevo do grupo é a lista, cada vez maior, dos crimes cometidos pelos seus seguidores. Existe, dentro do grupo, uma ‘irmandade’ de prisioneiros que cometeu crimes raciais.      O ‘reverendo’ Chris Bartle na prisão de Fremantle, Perth (Austrália Ocidental), recebeu uma carta dum seu colega norte americano em que este afirmava: “ estou certo de que tudo farão para que os grandes ideais da Criatividade se propaguem na Austrália, digam-nos aquilo que necessitam nessa missão de suprema importância ”. Bartle, foi um dos seis membros da organização condenados em Setembro 1990 por crimes cometidos contra minorias. O ANM (Australian Nationalist Movement), que descrevemos no capítulo anterior, como sendo um grupo interessado em libertar a Austrália dos Aborígenes e Asiáticos foi condenado entre 1990 e 1994 por 159 crimes, incluindo bombas colocadas em restaurantes chineses em Perth.      Os membros do COTC têm estado ligado a conspirações terroristas e violência (incluindo assassínio) contra minorias, quer nos EUA, quer na Austrália. Em Julho 1992, um júri, na Florida, condenou George Loeb pelo assassinato de Harold Mansfield, um Afro Americano, que tinha servido na Guerra do Golfo, após ter tido uma discussão com este num parque de estacionamento. No Canadá cinco membros da organização foram presos por crimes que vão do assalto a rapto. Outros supremacistas brancos confessaram ter tentado assassinar os músicos ‘rap’ Ice-T e Ice Cube, e propagar uma guerra racial desde o Orégão até à fronteira canadiana. Um deles era ‘ministro de culto’ do COTC e, culpado de ter lançado fogo a organizações negras, para além de ter planeado acções criminosas contra sinagogas e estabelecimentos militares. A importância do COTC levou a que o FBI se infiltrasse e detectasse uma conspiração para abater o activista Afro Americano, Rodney King além de outros activistas negros e judeus.      Esta visibilidade do grupo nos meios racistas surge numa altura em que a organização se debate em lutas interinas para a sua liderança e problemas financeiros, para além de estar a ser vigiada por entidades governamentais e ONG’s [73] . Os seus fundadores estão, porém, confiantes de que lançaram os pilares sólidos de fé para uma geração mais nova de racistas, se sentirem encorajados, em todo o mundo, a manter a revolução branca viva.      O fundador do COTC, Ben Klassen, é um imigrante da Ucrânia, que durante mais de vinte anos foi a força viva por detrás da organização, tendo escrito mais de 15 livros, entre os quais a ‘Bíblia Sagrada’ do grupo: “A Bíblia do Homem Branco (White Man’s Bible)”, “A Religião Eterna da Natureza (Nature’s Eternal Religion)” e “Vida saudável (Salubrious Living)” , um manual de hábitos saudáveis para guerreiros brancos. Sem o saber, Klasse, estava a escrever para a posteridade na Nova Ordem Mundial do Racismo.      O seu mensário “A Lealdade Racial (Racial Loyalty)” é considerado a melhor literatura de ódio nos EUA e no estrangeiro. Existe uma secção intitulada o “Cantinho de Cupido” no qual “ Homens e Mulheres Brancos crescei e multiplicai-vos ” é a palavra de ordem para os seguidores do grupo nos EUA, África do Sul e Austrália. Klasse, que se pavoneava com um bigode à Hitler suicidou-se em Agosto de 1993. A sua morte nunca ficou bem esclarecida mas na sua campa pode ler-se “Ele deu à Humanidade a sua própria Poderosa Religião Racial”. McCarthy não sabe responder à pergunta porque lidera a COTC, declarando-se entusiasmado com o marketing do nome da igreja, do seu moto RAHOWA, e dos livros e demais parafernália que o movimento vende, capitalizando na morte de Klassen, o facto de “a maior parte das religiões só passarem a ser importantes depois da morte do seu fundador, dos quais se podem criar personagens míticos”. 5. OS ASILADOS NO LIMBO SÃO NON-PERSONÆ [74]      Já se esqueceram de que eram jovens. Falam de ‘estar em sítio nenhum’ e aninham-se, juntos, para falar, corpos tensos, olhos de mil ânsias, com os cuidados de quem fala em público incita a violências e represálias contra as famílias que ficaram ‘em casa’ (a pátria). Dizem que, por vezes, não conseguem adormecer à noite e se dormem, têm pesadelos. Vivem com medo de adoecer. Não têm status , ninguém sabe deles, são uma espécie de tribo perdida em busca de uma porta aberta que lhes permita ficar na Austrália.      A coragem impudente da juventude, em tom de bravado, desapareceu quando tentam explicar, em Inglês monossilábico, como se sentem aqui em busca de asilo e descobrem que nada valem. Pelo menos é assim que sentem Abebe, Henry e José (não são os seus verdadeiros nomes) que vivem em Melbourne, raramente sorrindo enquanto nos falam, e que escaparam a violentos regimes de repressão nos seus países de origem, para se encontrarem aqui a viver exactamente em limbo .      Quem sabe da sua existência? A sua história foi empurrada para uma terra de ninguém, numa região burocrática de regras e regulamentos onde se lhes fica facilitado desaparecimento da vista pública. Mas, entretanto, eles vivem aqui nesta Austrália, país de sonhos dourados, sem os pais, sobrevivendo, nem mesmo sabendo como, com as suas emoções, muitas vezes, a rondarem os limites do possível, com expressões nas suas faces a ilustrarem perfeitamente as palavras da escritora francesa Marguerita Duras: “ O concreto maravilhoso do desespero varre todas as teorias ”.      José é natural de Timor Leste e chegou a Melbourne, em 1989, com 17 anos. Olhando para o chão enquanto tenta articular o que vai dizer, acaba por balbuciar: “Eu tento não pensar na minha situação, mas quando o faço, sinto-me perdido no mundo. Por vezes, interrogo-me: ‘ Quando é que a (minha) vida vai começar? cada ano que passa estou mais velho. ” A atenção nacional em finais de 1993 centrava-se na saga dos ‘boat-people’ [75] , cambojanos, detidos há dois anos, e pouco se importava com situações como a do José. Este, nem sequer se podia consolar com o título de ‘refugiado’ que era atribuído aos cambojanos.      As pessoas em busca de asilo são “ pessoas fora dos seus locais de nascimento e vida e cujo motivo principal [76] é uma melhoria social ou económica e que utilizam o processo de refugiado numa tentativa de obterem residência ou estadia prolongada noutro país .” [77] A maior parte delas chega legalmente à Austrália, como estudantes ou com outros vistos legais: declaram ás autoridades consulares que desejam vir visitar familiares. Depois, concorrem ao título de refugiado, para si mesmos e para os pais que ficaram nos países de origem. O moroso processo demora, pelo menos, três anos: início do processo, consideração das circunstâncias, revisão, até que finalmente o seu caso seja apreciado e o seu futuro, literalmente , decidido. De uma forma restrita, uma vez expirada a validade dos seus vistos, eles permanecem ilegalmente, mas enquanto se processam os seus pedidos, eles podem permanecer por um acto de graça ou concessão, em vez de serem deportados.      As alterações ao regime legal, iniciadas em 1990, tornaram um complexo processo num pesadelo. Até Dezembro de 1989, quando a Lei de Imigração se modificou, todos aqueles que buscavam asilo podiam trabalhar se tivessem autorização, por escrito, do Ministério da Imigração, mas não tinham direito de acesso ao Sistema Nacional de Saúde, Medicare. Apenas nalguns casos especiais, por razões humanitárias, lhes poderia ser concedido acesso ao Medicare enquanto o seu processo estava em curso. Agora, eles não têm direito ao Medicare nem ao Cartão de Saúde (Health Card) [78] , nem tão pouco a Subsídios Especiais do Ministério da Segurança Social, ou direito a habitação económica. Podem, ainda, recorrer a assistência especial da Cruz Vermelha nalguns casos, mas não estão cobertas em nenhum caso por motivo de saúde. Caso adoeçam, terão de pagar o mesmo que qualquer estrangeiro, ou seja, um mínimo de 106 dólares por cada visita ao hospital ( N. do A.: aproximadamente 14 contos). Caso queiram continuar os seus estudos secundários ou terciários terão de pagar o mesmo que os estudantes estrangeiros, mas têm direito a ensino primário gratuito [79] . A ironia deste tratamento é reinventar na Austrália o trauma e a instabilidade da vida dos países de origem.      Para os que buscam asilo, a vida é uma emboscada por sobre o precipício. Para além da enorme pressão emocional de terem deixado a sua terra, famílias, viver é uma experiência gélida e sem abrigo numa época que, como jovens, deveriam estar a sair, a experimentar e a aprender a vida como jovens adultos, definindo as suas ambições e planeando o seu futuro. José viveu com uns parentes antes de se mudar para um apartamento que compartilha com outro jovem e suspira ao dizer: “ É muito difícil. Frequento uma escola pública do estado, mas os outros estudantes não sabem que eu espero que me seja concedido asilo. E eu não lhes digo. Ainda nunca estive doente, mas quando tive febre e muita tosse fui a um médico que me cobrou 60 dólares ( N. do A.: aprox. 7 800$00 Esc.). Penso, e preocupo-me com os meus pais e irmãos, mas é muito perigoso escrever porque as cartas são abertas e lidas. Foram eles que me aconselharam a sair de Timor, depois de ter sido detido e interrogado pelos militares indonésios. Vim como estudante para a Austrália, e pensava que, depois de algum tempo, as coisas acalmavam e eu poderia regressar. Foi então que houve o massacre” [80] e eu pedi para me ser concedido asilo .”      Outros jovens em busca de asilo, como o etíope Abebe (pronunciado Ábibii) vivem num apartamento de cujas paredes escorre água, e para eles, a vida é quase insuportável. “ Estive nove meses sem um cêntimo, no ano passado ”, explica-nos ele que viu, recentemente indeferido pela Imigração, o seu pedido de asilo. “ Vivi numa casa da igreja e no Exército de Salvação arranjava cupões para comida. Passava todo o tempo em casa. Não tinha dinheiro para nada. Agora ainda vai ser pior. Estou muito triste. ” O subsídio dado pela Cruz Vermelha foi suspenso logo que o processo foi rejeitado. Sem dinheiro, não pode continuar no apartamento que partilhava com outro jovem em busca de asilo, pelo que apenas lhe resta a esperança de encontrar o apoio da igreja a que, já antes, recorrera para ter um tecto onde pernoitar. Quanto a comida ficou dependente das sopas de caridade distribuídas por diversas entidades aos mais carentes da afluente sociedade australiana. O seu nome foi juntar-se ao de centenas de chineses que intentaram uma acção colectiva contra o ministro da imigração [81] . Abebe chegara à Austrália em Junho 1990, ou seja, seis meses depois da mudança da lei, clandestinamente a bordo de um navio atracado em Port Hassab, na Etiópia. Havia sido preso, maltratado e torturado pelo regime de Mengistu, quando este tentava recrutar todos os jovens para as fileiras do seu exército.      O mesmo desespero pode ver-se espelhado no rosto de Henry (Henrique), outro timorense que fugiu para a Austrália com 21 anos, logo a seguir ao massacre de Santa Cruz de Dili. Na véspera de falarmos com ele desfalecera. Falar era-lhe emocionalmente impossível. O esforço era demasiado. Sentara-se com as mãos nos joelhos, cabeça baixa, silente perante as nossas perguntas. A sua irmã, Diana, então com 15 anos, viera com ele para a Austrália. Nunca tinham saído de Timor Leste, mas obtiveram um visto válido. Um soldado (indonésio) havia entrado em casa deles e quisera forçar a sua irmã a casar-se.      A custo, ele fala, enquanto ela o observa com lágrimas nos olhos, antes de murmurar, quase imperceptivelmente, “tenho saudades da minha mãe e do meu outro irmão”. Fora a mãe quem os aconselhara a partir. “Eu queria ser uma professora”, diz-nos com voz que mal se ouve e sorri. Henry acaba de saber que tem um tumor cerebral. Como não dispunha do cartão Medicare foi tratado no hospital, como se de um estrangeiro se tratasse. Uns dias mais tarde recebeu a conta de uma noite no hospital: 447 dólares ( N. do A.: aprox. 58 contos). Depois de ter desmaiado, houve quem o levasse para o hospital e, quando lhe perguntaram pelo Medicare, e ele respondeu que não tinha, deram-lhe um documento para assinar. Na semana seguinte, quando era para ser operado, já se sentia muito mal, mas não havia camas disponíveis. A pedido de uma coordenadora de Assistência Social, Poppy Christodolou, que o havia acompanhado foi admito para a urgência e operado. Veio a confirmar-se que afinal não era o temido tumor cerebral mas sim uma grave infecção, cuja intervenção cirúrgica custa milhares de dólares ( N. do A.: mil dólares aprox. 130 contos), uma soma a que ele não tem acesso. O seu estado de saúde é o clímax daquilo que foi o seu passado, após ter sido atingido à coronhada na cabeça pelos soldados indonésios, enquanto estes torturavam um colega seu.      Em Melbourne, está alojado com a sua irmã num apartamento, onde vivem seis pessoas, com membros da sua família, todos eles em busca de asilo. Durante os últimos anos, desde que chegou à Austrália sabe ter perfuração do tímpano, resultado de infecção após infecção, provocada por ter tomado banho em águas contaminadas, no mato de Timor, quando em jovem fugira ao exército indonésio. Também terá de ser operado e na única consulta que teve com um otorrinolaringologista acabou por pagar 106 dólares.      A assistente social, Poppy, intervém para pedir para contar um pouco da história de Henry. Ela é a coordenadora social dos alunos da pós primária na Escola de Inglês de Noble Park, Melbourne, onde estão mais 30 jovens à espera que lhes seja dado asilo. A escola não recebe fundos suficientes para operar com estes ‘ilegais’. Poppy diz-nos que “ Henry está muito deprimido, e antes de ter desmaiado tentou falar dele, mas sempre a esconder muito. Ele quer paz e sossego. Sentir-se bem (de saúde), estudar, sentir-se seguro, são e salvo. Ele armazena dentro de si enormes sentimentos que não deixa vir à tona. Apenas chorou uma vez nas aulas pois normalmente controla os seus sentimentos. Diz que ninguém o pode ajudar.      Histórias como as de Abebe e Henry chocaram o Dr. John Cornwall, director da Fundação Australiana da Juventude, de Sydney, que acredita que a Austrália está a violar vários acordos de direitos humanos na forma como lida com os jovens que nela buscam asilo. Ele pediu já um inquérito judicial à situação e escreveu ao ministro responsável: “ Estes jovens vieram de zonas de guerra, situações de tortura e traumas, estando praticamente incapazes de continuar a viver as suas vidas enquanto esta situação de limbo legal prosseguir. A maioria destes jovens não entrou ilegalmente na Austrália aparentemente acreditando que lhes poderia ser concedido o estatuto de refugiado. Existe evidência suficiente sobre a quebra de obrigações internacionais na arena dos direitos humanos, e em particular a Convenção dos Direitos do Homem de 1948. Evidência acumulada aponta para quebra na aplicação de Resoluções e Tratados das Nações Unidas relativas aos Direitos da Criança, dos quais a Austrália é um país signatário.      Um médico de Melbourne, com extensa experiência de trabalho em países do Terceiro Mundo e um dos muitos médicos que ‘subterraneamente’ trata gratuitamente os jovens em busca de asilo diz que: “ para além da inelegibilidade para o Cartão de Saúde e Medicare existem vários problemas de saúde nestes jovens. Sem excepção, sofrem de ansiedade e depressões, derivadas de traumas passados, emocionais e físicos, que não foram devida e atempadamente tratados. É surpreendente que um país com um dos melhores serviços de saúde mundiais exclua um pequeno segmento da sua população do acesso a tais serviços com base em tecnicalidades legais. Não creio que o mais ferrenho adepto de cortes na política de imigração objectasse ao direito de toda a gente ter acesso aos sistema de saúde nacional. Uma atitude inteligente, imaginativa e com mais compaixão, por parte do governo, poderia obviar a este obstáculo técnico.      Os hospitais têm sido obrigados a cancelar como más dívidas, ou pagamentos a receber, todos os custos imputados a este grupo. Num só dos hospitais de Melbourne isto já ascendia a 80 mil dólares (aprox. 10 mil e 400 contos).      Também a Cruz Vermelha se queixa do problema dizendo que lhes resta mendigar aos hospitais e aos médicos que aceitem para tratamento jovens de 48 nacionalidades, cujos grupos maiores são oriundos do Sri Lanka (Ceilão), Timor Leste, China e da antiga Jugoslávia. Das cerca de seis centenas de pessoas nos seus registos, mais de metade ainda não atingiu os 18 anos de idade.      Muitos destes jovens têm famílias alargadas das quais podem receber apoio e até abrigo, mas grande parte delas estão em idêntica situação, esperando a resolução dos seus processos, ou só recentemente obtiveram autorização legal de residência. Outros, como Abebe, autorizado a trabalhar durante seis meses, vivem com outros jovens em busca de asilo que tiveram a sorte de obter emprego e juntam os seus recursos financeiros, para poderem viver tão frugalmente quanto lhes é possível. Abebe estuda numa Escola de Melbourne e ainda não pagou os livros de que necessitou para estudar Inglês. Outros, com menos espírito de iniciativa ou com menos sorte, sobrevivem como podem. Um advogado do Centro de Legal Aid (Apoio Legal) de Sydney diz que tem tido “ filas de refugiados em busca de asilo, desesperados e deprimidos, ao ponto do suicídio, muitos dos quais têm estado a viver na rua.      John Cornwall diz que “ todos os jovens ”, com quem se encontrou, “ estavam preocupados com o seu futuro e o que lhes poderia acontecer. Por exemplo, os refugiados da Bósnia podiam ver na TV o que se passava na sua terra, o mesmo acontecendo, ocasionalmente, com os Timorenses. Mas, mesmo que a estes jovens seja concedido o estatuto de refugiado não existe segurança emocional para eles. De acordo com a antiga lei, estes refugiados adquiriam automaticamente o direito à residência permanente, mas a nova lei estipula que tenham de residir quatro anos sob o estatuto de entrada temporária, embora isto lhes permita ingressar no lote dos que beneficiam de vários serviços do governo. Por isso, deixando de parte, o problema da falta de dinheiro, a falta de acesso à saúde, a falta de acesso realístico à educação ... no fim, pode ser que passem a ter direito a todas essas coisas, mas nada é certo nesta vida.      Em Melbourne muitos destes jovens encontraram um ambiente de segurança na escola de Inglês de Noble Park, cuja directora anglófona, Aline Burgess afirma. “ o nosso objectivo é ensinar-lhes o idioma. Não os pressionamos para que nos contem as histórias das suas vidas, mas sempre que estão dispostos a falar, nós estamos atentos para as ouvirmos. Fazemos-lhes sentir que não devem ficar gratos por aquilo que lhes damos ou fazemos. É a nossa honra e privilégio sabermos algo deles e conhecê-los. 6. CARNE PARA IMPORTAR, CASAMENTOS PARA EXPORTAR      Uma jovem, quase desnuda, colocou os braços em torno do pescoço do mais jovem oficial da imigração, pressionando os seus seios contra o seu corpo. Fazendo-lhe carícias no ouvido murmurou: ” Então, vieste cá outra vez, para gozares bem o teu tempo ?” Os mais experientes oficiais riram-se. Já viram esta táctica desesperada ser aplicada e nunca resulta. A seguir, continuaram a rusga, deitando abaixo uma parede falsa e encontrando mais 17 jovens. Todas haviam sido recrutadas numa aldeia tailandesa. Foram deportadas, diz-nos um oficial, e o dono do bordel onde elas estavam, limitou-se a substitui-las por outras dezassete: para ele não passa de um jogo, e as suas damas não são senão pedaços de carne.      Estas jovens, de idades compreendidas entre 15 e 25 anos, saem das suas miseráveis aldeias para os bares do Sudeste Asiático, atraídas pelo dinheiro fácil, um estilo de vida supostamente atraente e a esperança de poderem manter financeiramente as suas famílias. Desses bares esconsos do sudeste asiático, são recrutadas, com promessas ainda mais aliciantes, com as jovens a terem de pagar entre 6 a 12 mil dólares (entre 790 e 1 600 contos) pelo duvidoso privilégio de vender os seus corpos no País da Sorte [82] . Muito poucas fazem ideia do que as espera: tornarem-se escravas do sexo . Assim, como entre 80 a 100 mil imigrantes ilegais [83] , mais do que os 40 a 60 mil estimados há uma década, elas entrarão no país com vistos de turista, mas sem qualquer intenção de deixarem a Austrália. Prostitutas, estudantes, refugiados por motivos económicos, membros das tríades chinesas todos têm o mesmo objectivo: obter cidadania australiana e, no caso disso falhar, explorar o sistema por todos os meios possíveis.      Um dos métodos mais comuns de evitar o rigor das leis de imigração é através do lucrativo mercado de casamentos de conveniência. Cidadãos de outros países casam com cidadãos/ãs australianos/as que nunca conheceram, pagando pelo privilégio cerca de 25 mil dólares (3 250 contos). Estes casamentos por conveniência nunca são consumados e são anulados logo que seja obtida a residência permanente.      Os investigadores da imigração, têm, nestes últimos anos, feito incidir a sua atenção sobre o alarmante aumento da prostituição originária da Tailândia e doutros países da região. Em 1993, mais de 200 pessoas foram deportadas. Jovens daquele país, muitas vezes com 12 anos apenas, vendem-se nos mercados de ‘carne’ de Banguecoque e Pattaya. Noutros casos, foram vendidas pelas próprias famílias. Se as jovens são demasiado inocentes e ingénuas, depressa aprendem a realidade. Trabalham longas horas para satisfazer as frustrações dos milhares de estrangeiros sequiosos de sexo oriental, que ali se deslocam em viagens de turismo sexual.      Um dono de bordel australiano vai à Tailândia com uma ‘lista’, contacta um intermediário local e paga-lhe 12 mil dólares (1 560 contos) por cada jovem recrutada. Às jovens, é-lhes dito que depois de chegarem à Austrália terão de reembolsar o custo das passagens, passaportes e vistos, obtidos pelo dono do bordel, e deduzi-los ao dinheiro que vão ganhar. O dinheiro que reembolsam é para pagar ao dono do bordel o custo da operação.      Para ter a certeza de que as novas recrutas não o abandonam, confisca-lhes o passaporte, cobra 60% do que ganham, coloca-as em ‘casas seguras’, que não passam de covis aviltados, cobrando-lhes rendas exorbitantes e mudando-as, frequentemente, de um local para outro a fim de evitar que sejam detectadas.      O oficial da imigração, que sabe deste esquema e no-lo detalhou, acrescenta: “ Elas não têm passaporte, praticamente não têm dinheiro e não se podem queixar pois sabem que estão cá ilegalmente .” Fontes da imigração australiana vão mais longe ao afirmar que grande parte dos lucros deste negócio acaba por voltar à Tailândia para encher o bolso de generais corruptos.      Um pequeno número de jovens acaba por ser detido durante rusgas, e essas jovens são repatriadas à custa do dono do bordel. A fim de que nenhuma das suas outras jovens fale, vê-se obrigado a devolver à proveniência as detidas, com a aquiescência das autoridades, satisfeitas, também, por pouparem ao pagante do fisco aquela despesa e o custo elevado em centros de detenção, pelo período que antecede o procedimento legal para a deportação.      Uma rusga não é mais do que uma mera brisa soprando sobre a superfície do lago quieto da prostituição, para usar uma metáfora elegante e poética.      Mais recentemente a lei mudou, para que as autoridades possam multar qualquer entidade patronal até 10 mil dólares (1 300 contos) por cada imigrante ilegal que empregue. A legislação, inicialmente concebida para desincentivar os donos de fábricas de vestuário, e outras de manufactura e de processamento, rapidamente se tornou em arma contra a prostituição.      Já o mercado de casamentos por arranjo ou conveniência é um osso bem mais duro de roer. Anualmente, dão entrada cerca de 30 mil pedidos de residência com base em casamentos reais ou ‘de facto’ [84] . As autoridades crêem que cerca de 70% destes pedidos são falsos. O problema agrava-se com a existência de uma vasta rede de ‘consultores de imigração’ que anunciam livremente os seus serviços em jornais e conhecem todos os truques para ajudarem os seus clientes a abusarem da lei de imigração. Como é óbvio, as suas taxas de consulta são extremamente bem pagas. Os ‘escuteiros’ que trabalham para estes contratam prostitutas locais e pessoas em fraca situação financeira para potenciais esposas de turistas asiáticos e africanos, que aqui chegam como visitantes temporários ou turistas, especificamente para arranjarem cidadania através de casamento.      O cliente paga, em média 25 mil dólares (3250 contos) ao ‘consultor’, o ‘escoteiro’ recebe mil dólares (130 contos) por cabeça, e o noivo ou noiva, com sorte, recebem 3 mil (390 contos). Depois, muitos deles trabalham como ‘escuteiros’ para os ‘consultores’ utilizando a sua própria experiência e exemplo. Dirigem-se a subúrbios de altas taxas de desemprego jovem, onde não lhes é difícil angariar voluntários para receber 3 mil dólares.      Passados doze meses o casamento é anulado e o cliente ganhou já o direito à residência. Depois deste ter sido concedido é quase impossível às autoridades federais anulá-lo. A papelada burocrática sujeita a uma eventual revisão ou fiscalização é ínfima para o número de residências por casamento concedidas em cada ano, e a secção da imigração responsável por esses casos é uma das mais sobrecarregadas de serviço. Esses papéis, normalmente organizados por ‘consultores’ estão, de uma forma geral, impecavelmente elaborados de acordo com a lei, pelo que se torna quase impossível detectar as fraudes dos casos legítimos.      Em 1992, a lei foi reformulada para não autorizar automaticamente o direito a residência para os esposos/as de residentes ou cidadãos, os quais a partir de então, passaram a ser sujeitos a um período de ‘arrefecimento conjugal’ de dois anos, durante os quais estão com residência temporária, e, só depois, se a relação marital for genuína e continuada, através de provas várias (tais como viverem maritalmente de forma visível) lhe pode ser concedida, ou não a cidadania ou residência permanente.      Existem mais de mil suspeitos de organizarem casamentos de conveniência, alguns deles com centenas de casamentos por sua conta, mas desses apenas 1% acaba por ser condenado e mesmo assim a penas menores. Apesar do elevado nível de fraudes cometidas nesta área, é extremamente difícil conseguir um julgamento e condenação nestes casamentos, pois obriga uma das partes a depor e incriminar a outra, e, na maioria dos casos, ambas as partes estiveram envolvidas na conspiração para defraudar a lei. Além disso, envolvia também depor contra o organizador do casamento, mas como também eles receberam dinheiro para tomar parte no casamento falso, passavam a ser co-conspiradores na fraude. Numa economia de mercado, com tanta gente necessitada de fazer dinheiro ‘fácil e rápido’ não há falta de candidatos a ‘casar’. Não foi para isso que se criou o multiculturalismo!      “ Se alguém aqui seja souber de algum impedimento a que este matrimónio se efectue, declare-o agora, ou para sempre impedido de o fazer ”. Estas palavras poderiam ter tentado toda a assistência a rir, pois todos sabiam que os votos sagrados trocados entre o jovem estudante chinês de 23 anos e a prostituta australiana de 17 era tão real como uma nota de 3 dólares (ou tão real como uma nota de 366 escudos). Esta pantomina é típica das muitas que todos os anos se realizam na Austrália. Casamentos em nome da cidadania. Este, porém, era diferente, havia quem estivesse presente para gravar toda esta fraude. A jovem noiva e a sua mãe, prostituta, estavam ambas armadas de radio-microfones. Até o padrinho de casamento estava ‘armadilhado’ e foi tudo gravado em vídeo.      Dez dias antes, Debbie havia sido acostada por uma prostituta mais velha, Jane, com uma proposta de ganhar facilmente 3 mil dólares em dinheiro, se casasse com Cau Shing Lee, que estava a viver na Austrália com um visto temporário de estudante. Jane havia recebido uma proposta de dinheiro de ‘um consultor de imigração’ de Sydney para casar. A história era a de Debbie abrir uma conta conjunta e com o futuro marido tornarem-se sócios de um clube, por exemplo o Mandarin, para que o casamento fosse legítimo. Depois, no escritório do consultor este conta que, inicialmente, Debbie receberá 500 dólares (65 contos) para assinar o pedido de casamento civil. Ao casar, recebe mais mil dólares (130 contos), mais 500 quando os formulários derem entrada na Imigração. Depois da entrevista da imigração, dos exames médicos e da pré-aprovação, receberá os restantes. No dia seguinte Debbie vê pela primeira vez, o marido, no escritório do ‘consultor’ e um celebrante matrimonial, que é um funcionário público que recebe também do ‘consultor’ para efectuar o casamento. Este, detecta um pequeno problema, aconselhando o ‘noivo’ a não se identificar como estudante, mas sim como empregado de mesa ou de bar, para poder provar que pode manter uma família. Mais uma ou duas reuniões e está tudo acordado: data, dinheiro e forma de pagamento.      Na data de casamento, o noivo aparece com duas testemunhas surpresa, os seus pais. Feitas as apresentações e das fotos (para mais tarde mostrar à Imigração) e a cerimónia breve, dez minutos, decorre sem incidente, até o ‘noivo’ ouvir as palavras pelas quais pagara 25 mil dólares: “Com os poderes que me foram concedidos pelo governo da Commonwealth da Austrália, agora, declaro-vos marido e mulher. Pode beijar a noiva.” Este beijo foi o primeiro e único contacto que o marido teve com a mulher.      Cada um vai à sua vida, Debbie vai receber o que lhe é devido e Cau vai à Imigração. Só que a Imigração, armada com a evidência gravada tinha outras ideias: deporta o jovem marido, depois de lhe recusar o direito à residência. O celebrante é expulso do funcionalismo público e o ‘consultor’ é detido para averiguações criminosas. O casamento foi anulado e Debbie guardou o que ganhara e o anel de noivado. [85] CRÓNICA IXª A AUSTRÁLIA NO ANO 2000 - A IDADE DO BRONZE O DECLÍNIO DA RIQUEZA INDIVIDUAL: de 1º a 21º país no ranking mundial, em cem anos.      Em 1915, quando a mitologia ANZAC (Australian and New Zealand Armed Corps) surgiu, a primeira, de todas as exportações, era a de carne para canhão ao serviço dos ingleses. O custo foi enorme, depois de meia centena de anos, como o país mais rico do mundo, per capita, a Austrália acabaria por perder a sua posição ao entrar na 1ª Grande Guerra. Em 1870, o rendimento médio per capita, de cada australiano, era, em termos médios cerca de 70% superior ao dos Estados Unidos. Mesmo considerando o elevado preço de participação no primeiro conflito mundial e as tarifas imperiais britânicas, de que dependia, a Austrália manteve-se crescendo, embora perdendo a posição cimeira das nações com maior rendimento individual, até meados deste século.      Em 1970, estava já como décima potência económica, em 1980 desaparecia do Top-20. Numa análise mais profunda destes dados estatísticos (ver Quadros anexos) teremos de considerar que, se a Austrália liderava o mundo em 1885, cada um dos seus habitantes tinha à nascença uma esperança de vida de 50 anos, e tratava-se do último continente a ser explorado. A sua riqueza inicial baseava-se em dois produtos muito simples: a lã e o ouro, distribuídos por uma pequena massa populacional. Se o rendimento individual era bem maior do que o norte-americano, isso devia-se mais às riquezas naturais do que ao capital humano, tal como aconteceria, meio século mais tarde com as nações árabes ricas em petróleo. Para além das riquezas naturais e da pequena população, surgia a necessidade de aumentar substancialmente esta, fazendo, desta forma, decrescer, logo à partida, a riqueza per capita. Por outro lado, o crescimento das manufacturas ocorreu neste século a uma taxa oito vezes superior ao crescimento da indústria primária, o que acrescido das enormes distâncias a que o país se encontra do resto do mundo, não favorecia a sua penetração nos mercados mundiais. Por último, uma política económica baseada na implantação de barreiras tarifárias serviu ainda mais para um isolamento restringente do crescimento económico.      1984, marcou o ano do maior crescimento do PIB [86] , dentre todos os países do mundo ocidental: 10,3%. Pensava-se, então que essa etapa seria decisiva no arranque do país para novos voos, desde que se mantivesse a firmeza do dólar australiano face ao norte-americano, desde que a seca terminasse e houvesse injecções maciças de capital estrangeiro, conjuntamente com uma reforma radical do sistema fiscal, uma alteração profunda das relações entre o patronato e os sindicatos, de forma a dar credibilidade às exportações, que então eram constantemente afectadas por greves duradouras.      Muitas outras medidas corajosas teriam de ser tomadas para recolocar a Austrália numa posição cimeira, mas, como sempre, isso foi deixado à arbitrariedade dos políticos e economistas e os resultados, volvida mais de uma década, são poucos. 2. A IDADE DO BRONZE      Talvez sejam poucos os que se recordam ainda, do ‘Bluebird’, um pássaro, que de magnífico passou a estar em risco de extinção. O ‘Bluebird’ foi uma invenção australiana dos anos 60, e era uma raqueta de ténis e squash, das quais se produziam anualmente 70 mil exemplares, e destas 20 mil eram destinadas à exportação. Em 1984, a produção que baixara para cinco mil cessou, tal como havia começado, sem fanfarra nem aviso prévio. A companhia que as produzia passou a ser subsidiária de um grupo norte-americano que entretanto descobriu Taiwan (Formosa) e outra utilização para a grafite. Se as raquetes ‘Bluebird’ eram de madeira, a moderna tecnologia utiliza agora grafite (aquele material que se utiliza nos lápis e nas cargas de minas-lápis) e outros produtos da era espacial. Taiwan passou a deter 95% da produção mundial das raquetes. Esta mudança ficou a dever-se à falta de competitividade dos produtos australianos, aos seus elevados custos laborais e ao reduzido mercado interno. A analogia poderia ser retomada com uma multiplicidade de produtos aqui fabricados, mas a população e a maior parte dos dirigentes políticos, continuam a manter bem vivas as tradições, deste país, de olvidar o óbvio.      Quando em 1984 a Austrália se quedou em 10º lugar no total de medalhas ganhas nas Olimpíadas falava-se de um ressurgir de um novo orgulho nacionalístico, embora ainda chauvinista e xenófobo. Nesse ano, a Austrália ganhou mais do que nos vinte anos anteriores, mas isso ficou a dever-se à ausência dos países de leste. Se tais atletas tivessem participado, a Austrália não teria ganho ouro em pesos, heptatlo, ciclismo e não poderia aspirar melhor do que uma 15ª ou 20ª posição. Os olímpicos seguintes vieram a demonstrar a real capacidade australiana sem boicotes dos países de leste, e em 1992 e 1996 não chegaram à 10ª posição. O mesmo se passa, com a nação, que depois de ter sido a mais rica da Ásia, foi sucessivamente ultrapassada pelo Japão, Brunei, Singapura. A corrida ao ouro terminou e a Austrália está já na Idade do Bronze. 3. O FUTURO      O futuro é desconhecido, mas os glaciares, normalmente, não mudam de posição, de velocidade ou de direcção. O truque é descobri-los a tempo. São extremamente grandes, mas foi sempre difícil vê-los, em especial quando nos encontramos em cima deles ... e eles se movem sob os nossos pés. Vejamos, por exemplo, a letra ‘ C ’ da lista de alunos classificados no topo dos exames finais do ensino secundário no estado de Nova Gales do Sul, publicada em Março de 1983 no jornal diário “The Sydney Morning Herald”: Alvan CHAN , Joseph K. W. CHAN , Kwing S. S. CHAN , Lewis W. L. CHAN , Philip H. K. CHAN , Raymond CHAN , Roger C. H. CHAN , Teresa M. S. CHAN , Timothy T. CHAN , Yee E. CHEE , Wei-Chung CHEN , Anna M. C. CHENG , Henri A. CHEUNG , Mabel CHEW , Jennifer M. CHIA , Ka Kit CHIK , Anthony James CHILDS, Mei C. CHIU , Mark J. CHOLAKYAN , Kevin Le-Ming CHOO , Chia T. CHOU , Koon-Lun CHOY , David K. V. CHUNG , Robert M. CHUNG .      Este um extracto alfabético dos melhores 336 alunos, dos quais exactamente metade (118) eram asiáticos (de nome), embora este grupo representasse uma pequena percentagem dos 33 600 candidatos aos exames finais. O mesmo se passou em anos seguintes, com a diferença da percentagem de asiáticos ter aumentado drasticamente. Os jovens CHAN ’s, CHEN ’s, CHUNG ’s movimentam já o solo sob os nossos pés e a sua qualidade numérica forja já novos laços entre a Austrália e a Ásia, essa região da qual a Austrália fará parte integrante no ano 2000, mesmo contra a vontade de um sector maioritário da opinião pública e do governo conservador que ascendeu ao poder em Março de 1996. Falta saber a velocidade deste glaciar nos próximos anos... 4. ALTERNATIVAS PROVÁVEIS?      As massas populacionais estão finalmente a entender como é fácil ser-se medíocre na Austrália: muitas redes de protecção, demasiadas desculpas, demasiada mediocridade. A taxa de desemprego jovem continua entre os 20 e 25% e em 2000 os jovens enfrentarão as seguintes verdades axiomáticas:       1. Se deixares de estudar antes de teres garantido um emprego ou carreira segura, és um/a mentecapto/a,      2. As oportunidades dadas aos que detêm menos habilitações económicas, serão cada vez menores, pois os trabalhos indiferenciados que passaram para o Sudeste Asiático, continuarão a passar-se para a América Latina e África, onde o trabalho é pouco e a mão-de-obra é muita e barata.      3. A revolução do trabalho, a nível mundial, em que serviços, comunicações e inteligência artificial substituem progressivamente as fábricas e as unidades industriais pesadas, em todo o mundo ocidental.      Assim, e fruto da necessidade, chegará o dia em que os australianos reconhecerão o enorme desperdício característico do sistema educacional e suas reformas, que durante tantos anos lhes garantira a insegurança e a falta de capacidade de competição nos mercados internacionais. O ensino privado passará a ser predominante devido ao novo sentimento paternal de dar aos filhos a melhor educação possível, como forma exclusiva de sobrevivência num universo altamente competitivo, enquanto o ensino público continuará a degradar-se e a restringir-se aos extremamente necessitados.      À medida que a flexibilidade de horários se expande, os centros de ensino passarão a funcionar em turnos, para uma melhor utilização dos recursos e um melhor rendimento dos elevados capitais investidos. As universidades que a partir do fim da década de 80 importavam alunos da Ásia, passará a exportar diplomados para os países de onde eles vieram, para que satisfaçam as necessidades de crescimento das economias de tais países. A economia australiana será, cada vez mais, economicamente interdependente.      Um governo virá e abolirá taxas e criará incentivos à R&D (Pesquisa e Desenvolvimento), obtendo investimento estrangeiro das maiores companhias mundiais para beneficiarem das patentes australianas que não encontraram mercado para serem lucrativas. O proteccionismo à indústria, educação e serviços públicos será reduzido e quase abolido, dado que os subsídios sociais aliados ao envelhecimento da pirâmide etária terão crescido de tal forma, que os cofres públicos estarão deficitários.      Em nome da competitividade e eficiência (palavras-chave do fim da década de 80 e início de 90), os grandes cartéis nacionais passaram a ser dominados por organismos estrangeiros sem face nem país, obrigando a uma total liberalização dos horários de trabalho, salários e outras regalias dos poucos que ainda têm emprego. Os australianos que trabalhavam apenas 27 horas semanais, depois de deduzidas as doenças, férias, feriados, optarão por semanas de trabalho, cada vez mais curtas, para não perderem os seus empregos e ajudarem a criação de novos postos de trabalho a tempo parcial. Com mais horas de lazer disponíveis as pessoas passarão a utilizar melhor os fins-de-semana, viajando mais e proporcionando um crescimento às indústrias hoteleira, de turismo e de lazer.      Os serviços de saúde, reprivatizados, passarão a ser, cada vez mais, eficientes, competindo para fornecer melhores serviços aos poucos que dispõem de meios para deles se utilizarem. Os médicos perderão os seus privilégios posicionais com a entrada em competição de especialistas internacionais, através de consultas e cirurgias por teleconferência via satélite, e nem a recente liberdade de anunciarem os seus serviços e as condições promocionais que oferecem os livrará de perderem, cada vez mais, doentes favoráveis a terapias alternativas.      A desregulamentação dos sectores económicos: aviação civil, telecomunicações veio aumentar os lucros das empresas sectoriais, tornando mais serviços acessíveis a um número maior de pessoas. As mulheres continuarão a partilhar o poder em regime de igualdade com os homens, os pais aprenderão a ter contacto com os filhos, à medida que vão passando a fazer mais serviços domésticos. O machismo invertido verá mulheres perseguindo os homens, que as acusarão de os tratarem como meros objectos sexuais, opcionais à clonagem biológica.      A Austrália que entre 1975 e 1996 se asianizara, acordará um dia com a sensação de não pertencer ao mundo ocidental de que algumas tradições falam. E como não houve nenhuma deflagração nuclear de vulto, pode acontecer que mesmo levando em conta o efeito de estufa e o progressivo aquecimento da crusta terrestre, os glaciares não se tenham derretido permitindo que eu terminasse, de forma utópica e visionária esta crónica. [87] QUADRO I
1885
1. AUSTRÁLIA
2. BÉLGICA
3. REINO UNIDO
4. ESTADOS UNIDOS
5. CANADÁ
6. FRANÇA
7. NOVA ZELÂNDIA
8. DINAMARCA
9. ALEMANHA
10. ARGENTINA
1900
1. AUSTRÁLIA
2. ESTADOS UNIDOS
3. REINO UNIDO
4. NOVA ZELÂNDIA
5. BÉLGICA
6. HOLANDA
7. CANADÁ
8. FRANÇA
9. ARGENTINA
10. ALEMANHA
1950
1. ESTADOS UNIDOS
2. CANADÁ
3. AUSTRÁLIA
4. SUÍÇA
5. SUÉCIA
6. NOVA ZELÂNDIA
7. REINO UNIDO
8. DINAMARCA
9. BÉLGICA
10. NORUEGA
1970
1. ESTADOS UNIDOS
2. SUÉCIA
3. KUWAIT
4. CANADÁ
5. SUÍÇA
6. BÉLGICA
7. LUXEMBURGO
8. R. F. ALEMÃ
9. UAE (EMIRADOS ÁRABES UNIDOS)
10. AUSTRÁLIA
  QUADRO II
1980 RENDIMENTO MÉDIA PER CAPITA ($US/ANO) 1980 RENDIMENTO MÉDIA PER CAPITA ($US/ANO)
1. UAE 40 587.00
2. BRUNEI 21 147.00
3. QATAR 20 300.00
4. KUWAIT 20 143.00
5. SUÍÇA 15 928.00
6. SUÉCIA 14 882.00
7. ARÁBIA SAUDITA 14 150.00
8. NORUEGA 14 035.00
9. R. F. ALEMÃ 13 304.00
10. DINAMARCA 12 964.00
11. LUXEMBURGO 12 819.00
12. ISLÂNDIA 12 414.00
13. FRANÇA 12 137.00
14. BÉLGICA 12 080.00
15. HOLANDA 11 855.00
16. LÍBIA 11 826.00
17. EUA 11 416.00
18. CANADÁ 10 585.00
19. FINLÂNDIA 10 440.00
20. ÁUSTRIA 10 250.00
21. AUSTRÁLIA 10 210.00
22. JAPÃO 8 873.00
     Em 1992, o rendimento per capita cifrava-se em US $ 10 900.00 e a Austrália desaparecera para lá das 20 mais ricas nações … de volta à Idade do Ferro de onde os aborígenes a haviam tirado há mais de 80 milénios. CRÓNICA Xª OS ABORÍGENES - Parte I (de 9)      Daremos, hoje, início a uma série de crónicas destinadas a esclarecer os leitores sobre um fenómeno humano que vem sendo esquecido e obliterado das páginas dos jornais e revistas culturais, talvez por sentimentos de culpa e desideratos de obliteração.      Sem querermos entrar em discursividades polémicas, iremos tentar lançar um pouco de luz sobre aquilo que consideramos ser um acto consciente e deliberado dos meios de comunicação social: a ostracização da cultura aborígene. Focamos aspectos históricos importantes para o entendimento das problemáticas aborígenes, dando exemplos de acontecimentos célebres na ‘ História Branca ’ da Austrália, citando avanços e recuos da política oficial face a um problema que, ainda hoje, está bem longe de ser resolvido. Enfim, tentaremos dar a conhecer as faces distintas do problema. I. IGNORÂNCIA, ÁLCOOL, DEUS E AS BOAS INTENÇÕES      Os primeiros contactos entre os Aborígenes e os Brancos Europeus alteraram de forma dramática a estrutura social e económica da comunidade aborígene, a qual tem sido sistematicamente destruída desde então, pouco sobrevivendo hoje da original estrutura. Desde que a 1ª Armada chegou, em 1788, (ver Crónica 2ª), muitas pessoas se interessaram em observar e estudar as actividades, estilos de vida e línguas, das várias tribos aborígenes, em especial, nas áreas de Sydney e restante NSW (estado de Nova Gales do Sul). O estudo antropológico permitiu criar uma imagem de como eram e viviam os aborígenes antes da chegada dos brancos, e, a pesquisa arqueológica deu-nos uma visão da sua vida nos últimos 40 a 80 mil anos. Se bem que tais estudos tenham sido apurados, extensos e diversificados, eles não influíram de forma notável para reduzir o fosso existente entre os aborígenes e as restantes etnias populacionais deste continente.      Quando o governador Phillip chegou com a sua 1ª Armada (ver Crónicas I e VII), as suas instruções eram de tratar bem toda a população autóctone e punir qualquer membro da sua esquadra que não o fizesse. No entanto, menos de 20 anos após a sua chegada, eram já tidos como pestes todos os nativos, e, portanto a exterminar. Assim, em 1796, o então Governador Hunter ordena aos colonos que se organizem em grupos armados contra os aborígenes.      Embora, a nível legal, fosse proibido o assassinato ou homicídio dos nativos, raramente se utilizou a letra da lei contra um colono branco. Em 1838, 7 colonos foram acusados e condenados pela morte de uma criança aborígene, mas a pena de morte não lhes foi imposta por ser considerada ‘ demasiado pesada ’ para condenar ‘ apenas’ a morte de um nativo. Dado que a nível da mão-de-obra a utilização dos aborígenes era desnecessária, devido ao elevado número de condenados e degredados transferidos para a Austrália, e dado que as vastas obras de expansão para o interior e zonas mais remotas se processavam a um ritmo rápido, os aborígenes foram sendo, cada vez mais, tidos como um obstáculo ao progresso da colónia.      Quanto mais expansão branca se verificava, maior era o atrito entre as duas comunidades. Os europeus eram incapazes de entender a ligação dos nativos à terra. Ao chegarem não viram nem vedações nem postes, marcos ou outros sinais óbvios de culturas agrícolas, sentindo, pois como sua obrigação de povos civilizados tornar a terra produtiva. Por outro lado, se a ocupação e cultivo das terras nada significava para os locais, a terra representava não só o meio de subsistência para os seus como a sua própria habitação. Retirar-lha era um corte profundo , como que a remoção da sua cultura ancestral. Para os europeus a terra era dada, doada, vendida, e não propriedade eterna e permanente como para as gentes nativas. A terra possuía as gentes e não o reverso. A falta de compreensão e tolerância mútuas estiveram, desde o início, na fonte dos conflitos.      Os efeitos económicos da alienação das terras, depressa se fez sentir pois impedia os aborígenes de caçar, pescar e viver nas zonas suas conhecidas ancestralmente. Muitos outros eram, porém, mortos pelas balas dos colonos, pelas doenças por estes trazidas ou pela farinha envenenada que estes lhes vendiam. Rapidamente foram sendo empurrados para as franjas urbanas e para zonas aborígenes ainda não afectadas pelo expansionismo europeu. Os colonos ao despojarem os aborígenes das suas terras estavam - sem o saberem - a destruir a estrutura da sociedade local, a privá-la de se manter e preservar para gerações futuras.      No aspecto sexual, a miscigenação entre grupos e tribos distintas ocorria para resolver conflitos ou guerras tribais, e para firmar uniões tribais. Este facto, observado pelos europeus, era considerado promíscuo e amoral, pelo que passou a ser vulgar a utilização de mulheres aborígenes para fins de prostituição e utilização meramente sexual pelos brancos que detinham uma população feminina minoritária. Com a destruição dos padrões de vida tradicionais os nativos deixavam de ter a sua raison d’être , pelo que com a facilidade de introdução do álcool nos seus hábitos, este rapidamente se tornou numa fácil válvula de escape.      Sob a influência desta droga, à qual os seus organismos eram alérgicos, os mais novos que ainda não haviam sido iniciados nos rituais tradicionais tribais, começaram a tornar-se rebeldes e a contestar o poder dos líderes mais idosos, pelo que entendiam ser a falta de poder de oposição aos brancos. As doenças, as péssimas condições de vida num meio hostil e estranho, onde os seus antepassados há dezenas de milhar de anos, aliados ao álcool cedo se manifestaram como razões para o declínio da sociedade aborígene. Os mais jovens nasciam e viviam num clima de dependência económica, de alcoolismo e de inferioridade social. Simultaneamente, começaram a assumir importância, os jovens mestiços, não aceites pelos brancos como prova da sua amoralidade, nem pelos aborígenes, incapazes de se auto-observarem numa fase de mudança e de quebra de tradições. Nem todo o dano causado aos aborígenes era, porém, fruto da animosidade, crueldade deliberada ou negligência, muito era causado por actos bem intencionados mas mal dirigidos.      Alguns governadores, tentaram criar instituições políticas e de autoridade, semelhantes às dos europeus. Um exemplo foi o do governador Lachlan Macquarie, que, em 1815, criou um estatuto de chefes tribais (ou reis) para os líderes das comunidades aborígenes. Simultaneamente, intensificaram-se os esforços de cristianização dos nativos, que, pura e simplesmente se resumiram num falhanço, com os missionários na sua obstinada tentativa de alterar o modus vivendi local, e a tentarem convencer os aborígenes a seguirem os exemplos da vida civilizada sob a palavra divina, mas incapazes de perceber que os locais não reconheciam nada de válido ou superior que fosse benéfico para eles, caso adoptassem, copiassem e adaptassem os estilos de vida europeia. Se, para os missionários, o trabalho e a acumulação de riqueza (propriedade privada) eram a base da sua crença, para os aborígenes o trabalho deveria apenas ser feito para a satisfação das necessidades mediatas, e a propriedade era uma coisa comunitária a partilhar por todos. Os missionários, por outro lado, não estavam preparados para entender a ligação do nativo à terra, os seus costumeiros rituais de iniciação, os quais não passavam de rituais pagãos a eliminar.      Este facto viria a assumir uma criminosa decisão, por parte das autoridades, civis e religiosas: a de retirar as crianças do seio das suas comunidades ancestrais, aborígenes e pagãs, incapazes de redenção, salvando-as assim ao retirá-las para o ambiente esterilizado das missões cristãs ou para os trabalhos domésticos em casa de europeus. Afastadas das suas tribos, as crianças perdiam o elo de ligação com as tribos, costumes, idiomas e leis tradicionais. Simultaneamente aprendiam uma língua estrangeira: a dos invasores e colonizadores, destruidores das suas línguas, seus costumes e leis, adquirindo um novo status social de cidadãos de segunda classe.      As primeiras cinco décadas de colonização europeia (1788-1838) destruíram, de facto, a sociedade aborígene tradicional neste estado de Nova Gales do Sul. Se, para alguns, a extinção foi lenta e aceite com um suspiro de alívio, havia obrigações morais de lhes proporcionar (aos que sobrevivessem) uma vida tão confortável quanto possível, o que misericordiosamente era conseguido com a atribuição anual de cobertores, rações de farinha (quando esta não era propositadamente envenenada), açúcar, chá e a possibilidade de vida nas áreas adjacentes às cidades e vilas de cariz europeu.      Se, de uma forma geral, a destruição cultural local estava praticamente conseguida, em especial nas áreas dos rituais de iniciação, económica, social, certo é que, o sentido de cooperação e interajuda comunitária e as noções de partilhas de bens se mantiveram. Os mitos e os locais sagrados, para além dos idiomas tradicionais foram mantidos até aos dias de hoje, havendo ainda alguns que são capazes de utilizar instrumentos e ferramentas tradicionais. Se bem que, 200 anos se tenham completado em 1988, com grande fanfarra no bicentenário da Austrália, certo é que, para alguns aborígenes, estes pequenos elos de ligação ao passado são, hoje, mais do que nunca, a raison d’être da sua própria identidade e auto-respeito.      Por outro lado, assiste-se hoje, em dia, a um revivalismo activista, capaz de poder proporcionar às novas gerações o contacto com a cultura tradicional que se pensava perdida e até mesmo extinta. Foi no início da década de 80 que os turistas ávidos descobriram a arte aborígene e as suas pinturas únicas e esquisitas, catapultando esta arte para a frente das manifestações de vanguarda, elevando a somas astronómicas o valor de qualquer quadro ou pintura tradicional, mesmo recente. Foram estes novos ‘colonos brancos’ da Norte América e do Japão que deram nova vida e fizeram nascer em tribos quase moribundas a arte há muito esquecida ou relegada, de pintar. Os nativos, desta vez, porém, souberam aproveitar-se destes novos brancos fazendo-os pagar a preço de ouro, nas galerias próprias que eles mesmo gerem e administram, beneficiando com os lucros os seus irmãos de raça, para que estes recuperem a voz que durante mais de dois séculos se não fez ouvir. [88] CRÓNICA XIª Partes II a IX OS ABORÍGENES DE NOVA GALES DO SUL [89] Continuamos, hoje, com a série de crónicas destinadas a esclarecer os leitores sobre um fenómeno humano que vem sendo esquecido e obliterado das páginas dos jornais e revistas culturais, talvez por sentimentos de culpa e desideratos de obliteração. PARTE 1ª I. O MEIO AMBIENTE E VESTÍGIOS ARQUEOLÓGICOS      Os sistemas tribais de Nova Gales do Sul não são facilmente explicáveis, dado que a sua organização começou a ser desmantelada em termos práticos com a chegada dos primeiros colonos europeus. Nalguns casos as próprias tribos não tinham uma identidade nominal, antes se considerando ‘ NÓS’ para se distinguirem dos outros ‘ ELES ’. Alguns destes nomes estão relacionados com grupos localmente estabelecidos, outros dizem respeito a subgrupos, clãs, nações aliadas, tais como os Yuwin, da Costa Sul (compostos pelos Dhawa, Dhurga, Guyanga, Walbanga e Wandian), os GAMILAROI e os WIRADJURI.      Alguns destes grupos falavam uma linguagem comum, pelo que é provável ter existido uma qualquer forma de federação entre eles. Qualquer mapa da época que se consulte dá apenas indicação dos grupos, tribos, nações, sob um ponto de vista linguístico e social. As suas delimitações são controversas e baseiam-se em locais totémicos onde se realizavam as iniciações dos jovens. A dificuldade em estandardizar nomes deve-se sobretudo ao facto de nenhuma língua aborígene ter forma escrita tradicional.      Inicialmente existiam cerca de 600 idiomas falados por umas 300 mil pessoas, o que dá uma média de um dialecto por cada grupo de 500 pessoas, aquando do desembarque da 1ª Armada em 1788. Atendendo a que muitas dezenas de tribos foram dizimadas e considerando a falta de uma linguagem escrita, poucos foram os registos originais preservados, embora desde o início da década de 80 um grande trabalho se tenha feito em termos de recuperação da cultura e línguas aborígenes.      Nas regiões costeiras de Nova Gales do Sul os aborígenes viviam sobretudo de recursos marinhos e fluviais bem como de actividades venatórias. O conhecimento que até nós chegou dos seus hábitos baseia-se sobremodo em diários da época (com todas as deficiências inerentes aos dados recolhidos por exploradores e missionários) e em descobertas arqueológicas, sendo estas na sua maioria relativas a depósitos de conchas nas zonas marinhas. Estes depósitos onde se encontram vestígios piscatórios e ossos de animais eram depositários de restos de refeições aborígenes, as quais eram sempre enterradas na areia. Nalguns locais os artefactos encontrados datam de há mais de 20 mil anos. Geralmente os homens dedicavam-se à pesca e à caça e as mulheres concentravam-se na recolha de mariscos. II. CERIMÓNIAS TRADICIONAIS      Para os colonizadores europeus os aborígenes pareciam ser ateus ou animistas, dado não existirem nem templos nem manifestações de preces ou invocações divinas, mas, de facto, a religião era uma parte de suas vidas embora não distinta de outras actividades quotidianas e assumia normalmente a forma de propagação de mitos, expressando os feitos espirituais dos ancestrais. Estes mitos eram manifestados de forma social e económica, baseando-se numa distinção entre o bem e o mal, assumindo enorme peso a sua relação com o meio físico ambiente. A propagação destes mitos era feita durante as cerimónias de iniciação dos jovens, as quais se desenrolavam ao longo de vários dias e congregavam vasto número de membros de cada comunidade. A participação nestas cerimónias estava interdita a mulheres, embora a presença destas e de crianças fosse permitida nalguns casos. Os jovens a iniciar tinham de passar por períodos de preparação, isolados no mato e deviam submeter-se a certas actividades físicas. Os locais sagrados de iniciação, nalgumas zonas, assumem importância através da configuração de certas rochas ou montes, enquanto noutras se manifestam através de motivos inscritos nas árvores.      Para os rituais da morte, várias eram as formas preferidas, desde a instalação de corpos em caves; à sua colocação em árvores ou até mesmo canoas que eram lançadas às águas, mas sempre depois de uma primeira fase em que o corpo era preparado temporariamente para ficar desprovido de carne. Noutros casos, encontram-se vestígios de actividades crematórias. III. A ARTE      A arte aborígene é ainda hoje bem visível apesar do carácter transitório dos meios de que se serviam para expressá-la: árvores (e cascas destas), rochas (e pinturas esculpidas nelas) e pintura de corpos para rituais. Nalguns casos utilizava-se o carvão e o ocre apigmentado e colorido para dar vida aos trabalhos. A Arte é bem diversa de região para região, embora os meios de que se servissem fossem basicamente os mesmos. Os temas utilizados eram de uma forma geral animais (peixes e pássaros) e figuras antropomórficas, de motivos figurativos, simples de estruturas lineares. IV. HABITAÇÃO E FERRAMENTAS      Os abrigos nas rochas ou em grutas e palhotas rudimentares de madeira de carvalho (Bark tree) constituíam a base dos seus habitat, os quais se destinavam a protegê-los dos elementos, nomeadamente as intensas chuvas que se verificam nesta região da Austrália. Os instrumentos utilizados eram provenientes de fibras vegetais, peles, pedra, e madeira, enquanto os adornos eram conchas, cana de açúcar, dentes de animais e pequenos feijões. Apesar da abundância de água encontram-se vestígios de pequenos poços artesianos, e uma espécie de aquedutos construídos em folhas de palmeira. Para a pesca e caça eram utilizadas lanças de ponta de osso ou concha. As mulheres pescavam pequenos peixes, moluscos e mariscos com uma isca e à linha (feita de fibra vegetal ou pelo de animais). As canoas, construídas de casca de árvore, não excediam em regra os 5 metros e nelas havia sempre fogo aceso, que se destinava a cozinhar de dia e a aquecer de noite. V. PESCADORES - CAÇADORES e porque não agricultores?      Quarenta mil anos atrás (60, dizem uns, ou 80 dizem outros) já haviam aborígenes na Austrália. Como todos os restantes grupos daquela época, viviam dos recursos naturais, fossem eles plantas ou animais. Nalgumas outras áreas do globo uma certa transição desta fase de caça e pesca para actividades agrícolas e horticulturais foi-se estabelecendo, tendo atingido a sua fase de expansão para distintas regiões da terra há uns dez mil anos, e sendo caracterizadas pela domesticação de animais e por métodos de cultivo.      A teoria até há pouco vigente era de que toda esta transferência de hábitos e costumes, tal como ocorrera na América e na Ásia se havia propalado a diversas outras regiões. Hoje em dia acredita-se que esta fase de transição se possa ter passado de forma diferente e de acordo com unidades temporais distintas. Embora não haja vestígios humanos pré-históricos na Austrália, as opiniões diferem quanto à possibilidade de criação de um regime agrícola no continente até à época Plistocénica.      No entanto, o norte do continente (Península de Iorque e Terra de Arnhem) beneficiava de terras aráveis férteis, de luxuriosa vegetação (florestas tropicais) e nelas se verificou o contacto com agricultores indonésios pelo menos durante 200 anos antes da chegada dos primeiros colonos brancos. Se bem que não se verifiquem vestígios de produção agrícola, inúmeros rituais, pertencentes a culturas estranhas à Austrália, se registam (arpões de metal, redes de pesca, canoas de árvores escavadas inexistentes no resto do continente).      Para além disto existem vestígios de uma cuidada política de harmonia com a natureza, com a criação de barragens artificiais primitivas, a plantação de sementes, a prática de ‘queimadas’ para desbastar os matos e atrair animais comestíveis, alguns deles datando de há mais de 15 mil anos. Por outras palavras, enquanto no passado, os aborígenes têm sido denegridos pelos aspectos primários da sua economia, verifica-se que nalgumas áreas desenvolveram técnicas de agricultura enquanto que noutras não as prosseguiram por não verem vantagens em tal. Os arqueólogos não dominam ainda totalmente as causas de mutações sociais e económicas, tendendo a assumir uma tendência de progresso na senda da caça e pesca até à industrialização. Para os nativos da Austrália, o tipo de vida era o melhor socioeconomicamente de acordo com o meio ambiente em que viviam e não havia necessidade de o mudarem. VI. O PAPEL TRADICIONAL DA MULHER      Para descrevermos o papel da mulher aborígene numa sociedade tradicional teríamos de descrever o quotidiano nómada em que habitavam com todas as limitações de conhecimentos de que dispomos. O campo silente com pequenos fogos ateados, o homem dormindo ao lado da(s) sua(s) mulher(es) com os filhos desta(s), sob o improvisado abrigo. Numa das extremidades do campo fica a parte destinada aos homens solteiros e jovens, na extremidade oposto as mulheres solteiras e viúvas. A luz do dia desponta e lentamente todos se vão levantando, sentando-se em pequenos grupos, com as pernas cruzadas formando círculos em torno do lume, aguardando o nascer do sol. As raparigas e jovens mulheres apanham lenha e água, a comida que há é distribuída, quaisquer factos relacionados com a longa noite dos sonhos são narrados e partilhados por todos. Depois, discutem-se os planos para o dia.      O sol aquece, as mulheres e os homens dividem-se em dois grupos, no campo ficam os velhos e incapacitados. As mulheres partem à procura de lagartos de língua azul, peixe, ou de tartarugas, ensinando às mais jovens como cuidar de ir buscar comida. No princípio da tarde regressam para preparar comida, repartindo esta com aqueles que não podem angariar o seu sustento. A tarde é passada a cozinhar, normalmente assados na brasa, havendo refeições que demoram várias horas pela preparação dos ingredientes vegetais que acompanhavam, por exemplo, um canguru caçado pelos homens enquanto as mulheres andavam à pesca.      Se os homens só caçavam animais de grande porte, as mulheres concentravam-se mais na recolha de todos os vegetais, répteis e outros pequenos animais que compunham a dieta habitual. Um campo não excedia normalmente as 50 pessoas, apenas se reunindo mais em época de rituais e cerimónias tradicionais, nas quais as mulheres eram relegadas para uma posição secundária dado que só os homens iniciados podiam participar em muitas delas. Nestas ocasiões competia ainda às mulheres, mais do que habitualmente, o proporcionarem e angariarem a alimentação.      Como na maior parte das sociedades (excepto na nossa) as jovens não tinham voto na selecção de marido. Antes do nascimento ou nos primeiros anos de vida, uma jovem era prometida em casamento de acordo com as propostas recebidas e aceites pelos pais da jovem. Antes da puberdade a jovem aprendia a colher alimentos para o seu futuro marido, que, em troca, retribuía parte da sua colheita. Depois da puberdade, as jovens eram normalmente enviadas para os acampamentos dos seus maridos onde se tornavam na 2ª ou 3ª mulher, sem se proceder a qualquer cerimónia. As jovens apanhavam alimentos e o marido untava-as com óleo vegetal para as ajudar a crescer e a atingirem a maturidade.      As mulheres, ao tempo de seu primeiro casamento, eram normalmente muito mais jovens do que os maridos, o que se devia ao facto de os mais velhos serem considerados mais capazes de ternura e paciência para com as jovens. Estas, como muitas vezes enviuvavam, acabavam por seleccionar depois um marido mais novo. O casamento na sociedade aborígene era mais uma questão económica que outra coisa. Um dos crimes mais graves era se um casal fugia, pois que todas as mulheres eram as mulheres ou as prometidas de algum homem.      Normalmente, a maior parte das disputas dentro de um campo relacionava-se com mulheres, o direito a elas e/ou a suspeita de infidelidade. O parto era uma situação privada a que nenhum homem podia assistir, e em que a mulher acompanhada da mãe e de outra mulher idosa se retirava para fora do campo. Ninguém podia tocar no bebé antes de totalmente nascido. O período pós natal era geralmente muito curto, havendo, em média, um intervalo de quatro anos entre cada filho. As crianças cresciam sempre junto da mãe até cerca dos 3 anos, a partir de então podiam outras crianças mais velhas cuidar delas.      Embora tivessem muita liberdade, as crianças eram, desde novas, instruídas nos segredos da vida e seus perigos. A disciplina era imposta através da pressão de grupo, não havendo lugar a punições físicas. De uma forma geral, como vimos, a mulher era instrumento para a recolha de alimentos, mas aparte este aspecto assumia uma posição secundária e de subserviência, embora mantivesse secretos, entre outros, aspectos relativos à sua sexualidade e feminilidade, os quais se revestiam de rituais próprios. VII. A HERANÇA ABORÍGENE, PASSADA E PRESENTE      Antes da chegada dos europeus, a terra proporcionava tudo o que os aborígenes necessitavam, desde a alimentação até uma própria explicação sobre a sua existência no mundo, assim satisfazendo as áreas físicas e espirituais de suas vidas. Embora cada tribo possuísse os direitos territoriais sobre as áreas em que habitava, o sentimento de posse ( propriedade ) de terra era-lhes alheio, antes pelo contrário, eles sentiam que a terra os possuía a eles, aos outros animais e plantas que os rodeavam. Este factor jamais foi bem interpretado pelos colonos brancos que, pouco a pouco, nos dois séculos após a sua chegada se assenhorearam da terra sem prever as consequências para futuras comunidades aborígenes. Felizmente uma posição de sentido contrário se começou a verificar na década de 80 culminando com o então 1º ministro australiano Bob Hawke a devolver o ex-libris de Uluru (Alice Springs, as rochas encarnadas e multicolores do maior megalito terreno) aos descendentes de seus legítimos donos.      Este progresso porém viria a ser, uma vez, impedido quando em 1998, o governo conservador de John Howard fez aprovar uma nova lei sobre o direito à propriedade das terras pelos aborígenes. A nova lei que alegadamente vinha clarificar a situação legal vigente sobre as pretensões dos aborígenes aos títulos de posse de terras do estado, que constituem 50% da área australiana, foi contestada por todos os sectores. Os agricultores e mineiros dizem que dá demasiado poder e terra aos aborígenes. Estes, alegam que a nova lei é racista, por privilegiar agricultores e mineiros e viola o seu direito à posse de terra que foi ancestralmente deles. Para grande parte da população a nova lei apenas favorece a prosperidade das indústrias agrícolas e mineiras. VIII. AS MISSÕES      A chegada dos europeus destruiu o modus vivendi nativo e sob a capa de um proteccionismo, o povo aborígene foi forçado a viver em reservas e em missões religiosas disseminadas pelo território. Assim, o governo tomava posse de novos territórios que posteriormente outorgava para colonos e agricultores.      Na maior parte dos casos os aborígenes eram transportados para regiões bem distantes daquelas em que ancestralmente haviam vivido. Todo este processo se repetiu até há poucas décadas atrás. IX. AS INICIAÇÕES E RITOS      Dado que a iniciação era parte integral da religião que fundamentalmente unia os aborígenes à terra, e atendendo a que depois da chegada dos europeus elas rapidamente se extinguiram, conforme explicitamos em crónica anterior, este facto levou à extinção da cultura tradicional nativa. A última cerimónia de iniciação teve lugar na década de 30 e dos presentes a essa cerimónia apenas cinco sobreviviam em 1985 para terem então a oportunidade de narrar o que se passara. Actualmente com as novas leis de protecção da cultura aborígene tenta-se a preservação dos locais sagrados e o revivalismo dessas cerimónias, do seu significado, e importância para a comunidade nativa.      O dilema de sobrevivência cultural de um povo a quem retiraram os elos de ligação com a sua cultura tradicional teve um enorme impacto. Deveriam eles abandonar o remanescente dos seus hábitos e adoptar a cultura e educação dos brancos? Ou deveriam tentar manter acesa a chama do pouco que restava na esperança de um dia a poderem fazer ressurgir? A resposta foi uma longa época à deriva que ainda hoje manifesta os seus efeitos, embora felizmente já muitos dos aborígenes se sintam conscientes das suas origens, identidade e futuro.      Ao proporcionar à herança cultural aborígene um lugar na sociedade contemporânea e uma visão alternativa do mundo que a não excluía, protegendo os locais sagrados, devolvendo a titularidade da posse das terras às tribos que as reclamam, proporcionando uma interpretação dos seus hábitos e costumes, as organizações federais encarregues de fazerem o levantamento dos locais sagrados tentam criar um clima conducente a uma melhor compreensão dos aborígenes como o único grupo étnico nativo do continente, mas integrante desta Austrália multicultural.      Desde que estes programas de pesquisa e levantamento se iniciaram em 1973, vários têm sido os livros publicados, filmes e slides, os quais, lentamente vão repondo a história tradicional dos ocupantes primeiros deste continente-ilha. Por outro lado, várias organizações foram surgindo financiadas com fundos do governo federal de Camberra que visam representar a cultura e o povo aborígenes na sociedade actual desde o mercado de trabalho (onde representam uma fracção bem pequena quando comparada com os pouco mais de 1% de representatividade na totalidade da população australiana) a todos os outros quadrantes da vida. Importante realçar que o significado dos locais sagrados e outros relevantes para os aborígenes inclui a seguinte conceptualização:
SIGNIFICADO TRADICIONAL SIGNIFICADO HISTÓRICO (PÓS EUROPEU) SIGNIFICADO CONTEMPORÂNEO
Locais de Enterro
Áreas de Ritos e Cerimónias
Missões e Reservas
Locais de Massacres (genocídio)
Áreas de Ritos e Cerimónias
Pinturas e Gravuras em rocha
Locais de enterro
Áreas de Ritos e Cerimónias
Pedreiras de Ocre
Agrupamento de Rochas
Árvores Trabalhadas
Depósitos de Conchas de Moluscos
CRÓNICA XIIª A AUSTRÁLIA E SUAS COLONIZAÇÕES: Dos Aborígenes aos Ingleses [90]      A Austrália foi o primeiro continente a ser ocupado por colonos do Velho Mundo: quando a Civilização Cro-Magnon criava as suas maravilhosas reproduções artísticas nas cavernas de França (Lascaux), Portugal (Foz Côa), Espanha (Altamira) cerca de 15 mil anos antes de Cristo, já os aborígenes australianos se haviam estabelecido há pelo menos 25 mil anos (há quem afirme que eles lá estão desde há 80 mil anos).      As massas continentais ocupavam então uma área diferente, com a Austrália ainda ligada à Papua (Nova Guiné) e Tasmânia, enquanto as ilhas de Java, Samatra, Bornéu e Timor faziam parte do continente asiático. A Austrália era então derivada do vasto continente Gondwana que englobava a actual África do Sul. Assim, parece ser de admitir que os primeiros australianos se limitaram a andar e a atravessar mares por cerca de 30 km no máximo. Nunca saberemos ao certo como os primeiros cá chegaram, se através de jangadas, canoas ou meramente por acidente.      Os primeiros habitantes vieram decerto do subcontinente asiático, do actual Sudeste Asiático, de acordo com idênticos vestígios encontrados nas Filipinas, Indochina, sul da China e Japão. Para os antropólogos todos os territórios desta área eram então ocupados por dois grupos distintos: os Australóides e os Mongolóides, cerca do ano 10 000 a.C. Os Australóides são, provavelmente, geneticamente mais ligados aos Caucasianos do que aos Mongolóides ou Negróides. Com efeito, os Aborígenes de pele tisnada têm uma compleição capilar diferente, que varia do cabelo liso ao encaracolado, mas jamais semelhante aos negros africanos. Linguisticamente existiam mais de 250 idiomas distintos dentre um universo de 600 dialectos, a maior parte deles ininteligível para a maioria dos restantes grupos.      Um outro factor curioso para o estudo dos primeiros australianos reside no DINGO uma espécie de cão selvagem cuja origem foi já traçada até pelo menos 6 mil anos antes da nossa era. Até há pouco mais de um século, os antropólogos consideravam os aborígenes como selvagens ou primitivos e daí entendermos as dificuldades de comunicação social entre os primeiros colonos e as tribos com que contactavam. A sociedade branca assumia a privacidade da propriedade que para os aborígenes era comunal ou tribal. Enquanto para a comunidade branca a terra era de quem a possuía e cultivava, para os aborígenes ela era de todos e partilhada igualmente. À data dos primeiros encontros havia pelo menos 600 tribos com uma dimensão média de 500 habitantes cada. A vida local era baseada na pesca, caça, e na apanha de plantas e insectos de acordo com as leis tribais. A superioridade masculina era parte integrante das regras sociais, sendo a pena de morte instituída para os prevaricadores.      Conforme vimos, em crónicas anteriores, diversas nações tentaram colonizar a Austrália, dentre elas a primeira talvez tenha sido a chinesa no início do século XV, pelos vestígios de obras de estatuária e outras obras de arte já descobertas no continente. Parece no entanto mais do que provado terem sido os Portugueses os primeiros europeus a demandar estas paragens (ver Crónica 4ª) pois que em 1516 já se haviam estabelecido nas ilhas das especiarias (Molucas) e em Timor, apenas a 456 km da costa da Austrália Ocidental. Em Julho de 1916 foram descobertos dois canhões do século XV ou XVI com o brasão das quinas, em Broome na Austrália Ocidental. Um deles resta no Museu Marítimo de Fremantle (Perth) e o outro na base naval de Garden Island em Sydney. Existem também notícias da aparição de uma embarcação de madeira típica descrita como uma caravela quinhentista conhecida como Mahogany Ship (A Nau de Mogno)’ na costa da Austrália Meridional, em Warrnambool (Vide Crónica 4ª).      A razão pela qual os portugueses não publicitaram esta sua descoberta deve-se ao Tratado de Tordesilhas (1494), segundo o qual a Austrália pertencia (quase toda) já à metade do mundo sob o domínio de Castela. Como Jaime Cortesão escreve: “ Eles temiam que a Austrália pudesse tornar-se em uma base para as operações espanholas capaz de perturbar a segurança das terras sob domínio português. Isto veio dar ainda mais sentido à Política do Silêncio pois prolongou o período antes que isso acontecesse. [91]      Posteriormente vários navegadores apresentaram as suas credenciais para a descoberta da Austrália, nomeadamente os portugueses de Queiroz em 1595 e Luiz Vaz de Torres em 1605, ambos ao serviço dos reis de Castela (Portugal estava então sob o domínio da côrte espanhola).      Até 1580, os Holandeses eram os intermediários comerciais de Portugal mas, depois da união das coroas dos dois países ibéricos, eles seguiram as rotas inicialmente traçadas pelos portugueses, reclamando para si os espólios conseguidos. Muito mais haveria a dizer sobre as manobras e contra-manobras dos diversos países contra os resultados das descobertas portuguesas, mas as mesmas inserem-se em âmbito distinto do destas crónicas. A partir de 1580 e até à chegada do Capitão Cook, em 1770, muita coisa se passou sem estar registada nos normais livros de História que estudamos, aqui e em Portugal.      Revelemos agora um pouco mais sobre os primeiros colonos aqui chegados, sem olvidar o relato do capitão Cook, em 22 de Agosto de 1770: “ … esta área (Nova Gales do Sul) em minha opinião jamais foi visitada ou vista por qualquer outro Europeu antes de nós… ” Esta foi uma das poucas ocasiões em que Cook errou, mas a acreditarmos nos historiadores ingleses e australianos deste século e do passado, qualquer prova irrefutável de evidência de anteriores visitas se havia extinto com o terramoto de Lisboa de 1755 ( quinze anos antes ), pelo que poderemos admitir que, caso Cook tivesse o conhecimento da autoria dos mapas de que se serviu, também se sentiria bastante seguro de eles serem quase únicos em todo o mundo, pelo que um pouco de exagero é perfeitamente aceitável e admissível, nas suas afirmações de ‘descoberta’ de um fabuloso continente, sob a alçada do reino de Inglaterra (idênticos exageros haviam sido praticados pelos portugueses séculos antes).      Ora entretanto na Europa, os Ingleses e Franceses estavam em guerra, e de uma forma geral, os condenados eram enviados para as colónias da América do Norte. Era então ministro responsável para os condenados, o Visconde Sydney, Secretário de Estado. A lei que punia cerca de 200 crimes capitais era altamente inobservada, devido ao mau sistema policial e jurídico. Até 1776 os novos colonos norte-americanos foram aceitando os degredados e prostitutas enviados, mas a partir de então começaram a considerar indigno terem de absorver tão largo contingente de párias sociais. As prisões inglesas estavam a abarrotar e havia que encontrar uma solução. Alguns dos membros da expedição de Cook sugeriram então que a Austrália fosse considerada para colonização com essa vasta amálgama de indesejados. A ideia pegou e assim iria nascer este país como o conhecemos agora. A proporção entre sexos dos primeiros colonos era na casa de 1 mulher por cada 4 degredados criando um desequilíbrio notável, que iria proporcionar mais tarde o título de ‘ casa de prazeres’ a esta novel colónia.      Entretanto, uma em cada cinco mulheres desta colónia era oficialmente prostituta, sendo poucas as que praticavam a monogamia sexual. Apesar do Capitão Arthur Phillip, primeiro governador geral da colónia ser uma pessoa extremamente humana e compreensiva, os primeiros contactos entre os aborígenes e colonos foram violentos e permeados de desentendimentos.      Ao mesmo tempo, os confrontos entre os dois grupos de colonos e oficiais tomava forma sob o nome de ‘ emancipalistas ’ e ‘ exclusionistas ’. Os primeiros eram prisioneiros ‘emancipados’ ou seus descendentes e os segundos eram apologistas da exclusão social, dos ex-prisioneiros e de outras classes mais baixas. A falta de uma classe média serviu apenas para exacerbar mais este fosso, cerca de 50 anos depois da chegada da primeira leva de colonos havia 4500 pessoas de grupos profissionais (criadores de gado, importadores mercantis, bancários, etc.,) e 50 mil operários e outros trabalhadores, apenas com cerca de 1800 retalhistas e pequenos comerciantes a separar os dois grupos económico-sociais.      O sistema penitenciário que dera origem à colónia de Nova Gales do Sul acabaria por subverter a estrutura britânica, pervertendo os valores, ao ponto de o Governador Geral Philip Gidley King (1800-1806) ter tido dois filhos de duas prostitutas deportadas. A grande maioria dos filhos nascidos na colónia eram ilegítimos, sendo 9 em cada 10 recém nascidos, filho de degredados e/ou prostitutas. Para tal contribuiu de forma notável o Rum, bebida que era consumida em largas quantidades e servia de moeda-troca, uma espécie de moeda colonial em que eram feitos os pagamentos às tropas. A vinda para a Austrália, de revoltosos irlandeses opostos à Coroa de Londres, viria ainda exacerbar mais a difícil relação entre os colonos. Formaram-se grupos de irlandeses que armando os prisioneiros tentaram rebelar-se contra o - status quo - provocando sangrentos conflitos.      Entretanto, a exploração da costa permitiria levar a colonização até à Tasmânia, através do controle directo de Inglaterra. Nos primeiros quarenta a cinquenta anos (até 1825) a maioria dos 4 ou 5 mil aborígenes da Tasmânia foram dizimados, sendo as mulheres aproveitadas para concubinas dos colonos, dos pescadores e do restante pessoal envolvido na colonização da setentrional ilha. As mulheres eram igualmente utilizadas para a pesca da baleia com as suas técnicas desconhecidas do homem branco. Isto daria início a uma lucrativa exploração de derivados da pesca da baleia e da foca, que se tornariam na primeira exportação comercial da Austrália.      Aparte este comércio, a maior e mais valiosa mercadoria era a madeira, desde o cedro ao sândalo abundante nas ilhas adjacentes à Austrália, na Polinésia e Melanésia. Este lucrativo tráfico era, no entanto, permeado de riscos pois os nativos da Nova Zelândia, os Maoris (pronunciado má:ri) de origem Melanésia eram bem mais evoluídos militarmente que os seus parentes aborígenes, para além de peritos em canibalismo.      Por exemplo, o navio mercante ‘Boyd’ zarpou de Sydney para a Nova Zelândia para tomar uma carga de madeira preciosa. De todos os seus passageiros massacrados e devorados pelos Maori, apenas sobreviveu Betsy Broughton e sua mãe Ann Glossop, uma condenada então amante de William Broughton, Comissário Geral de Nova Gales do Sul. Mais tarde os sobreviventes foram salvos e transportados para Lima (Perú). Betsy, embarcaria de regresso a Sydney um ano mais tarde, onde casaria com Charles Throsby, sobrinho do explorador do mesmo nome.      Um racismo vicioso e viciado era parte integrante da nova identidade nacional que se ia formando à medida que o avanço pastoral das novas fronteiras se enraizava. Foi nessa época, em plena metade do século XIX que se formou a noção, ainda hoje prevalecente, de ‘ mateship ’ (camaradagem) em que um ‘ mate ’ (espécie de companheiro, amigo, confidente, par em igualdade social, etc.) era uma espécie de código de honra entre pares, sobrepondo-se aos restantes membros da comunidade, considerados como inferiores. O ‘ mate ’ (ler mei-te ) era um nacionalista, igualitário, democrático branco, o que então queria apenas dizer que se tratava de um indivíduo mais racista do que a média, membro de uma confraria de brancos superiores aos restantes brancos, pela sua inter união.      A rápida expansão dos brancos iniciada na Austrália de Leste rapidamente provocaria redução dos Aborígenes, estimados entre 300 a 400 mil, em 1788, para uns 50 mil apenas cem anos depois. Apenas um branco foi enforcado por matar um aborígene, durante um período de cem anos, dada a persistente opinião pública de que era despropositado aplicar a pena capital a um branco acusado de matar um nativo. CRÓNICA XIIIª I. A LEI MARCIAL DE 1824 [92]      Ao longo das últimas crónicas temos vindo a focar, de uma forma geral e breve, o relacionamento entre brancos e aborígenes. Vamos hoje concentrar-nos num exemplo trágico que ficou conhecido como o “Massacre dos Wiradjuri (Wiradhuri)” ou a “Lei Marcial de 1824”. [93]      Os Wiradjuri ocupavam uma larga secção territorial de Nova Gales do Sul: a sua organização social era dividida por quatro grupos de descendência matriarcal. Nunca foram uma tribo guerreira e os primeiros encontros com os brancos foram amistosos.      As ‘ Blue Mountains ’ (Montanhas Azuis) 80 km a noroeste de Sydney foram exploradas pela primeira vez em Novembro de 1813, por um grupo de brancos liderado pelo Cartógrafo Adjunto, General Evans, os quais encontraram duas mulheres e quatro crianças nativas. No seu regresso a Sydney, narraram a luxuriante vegetação e excelentes zonas de pastorícia, o que motivaria o interesse do então Governador Lachlan Macquarie (1810-1821) que prontamente ordenaria a construção de uma estrada até Bathurst a 200 km oeste da actual Sydney. Esta obra foi completada em apenas seis meses com o trabalho árduo de 30 degredados.      No seu términos foi fundada Bathurst, a qual distava nove dias de viagem por carruagem. No auto da proclamação oficial desta cidade, Macquarie consideraria o povo Wiradjuri como ‘ inofensivo e asseado ’. Dez anos mais tarde, e apesar de não serem uma tribo guerreira estavam em guerra com os brancos.      Com a chegada do novo governador geral a Bathurst em 1822, a feitoria do mesmo nome, que se vinha desenvolvendo lentamente passou a ser aceleradamente colonizada, com a concessão de várias estações de criação de gado e concessão de terras, o que imediatamente causou a hostilidade dos Wiradjuri que viam as suas terras tradicionais e colheitas naturais serem destruídas pelo gado.      Em Setembro de 1823 uma fazenda, 16 km a norte de Bathurst foi atacada tendo perecido um deportado que nela trabalhava. Para o eminente historiador australiano, Lawson, alguma provocação teria de ter existido para ter havido um ataque deste, sendo provável que um (ou mais) soldados e/ou degredados tivessem abusado de mulheres Wiradjuri. Tradicionalmente, os Wiradjuri aplicavam a pena de morte para o crime de violação e estupro.      Por outro lado, à medida que a fauna e flora iam desaparecendo fruto da presença branca, ia encurtando o território dos Wiradjuri. Consultando jornais e o Boletim Oficial da época, lê-se que em 17 de Outubro de 1823, o Barão Field, Juiz do Supremo Tribunal da colónia de Nova Gales do Sul, escrevia:” Os nativos de Bathurst há mais de dois meses se encontram em estado de hostilidade para com os colonos, com ataques vários a fazendas de gado, o que motivou já o abandono do posto governamental de Swallow Creek ”.      Windradin (significa Sábado em idioma Wiradjuri) fora o líder do ataque a Swallow Creek, tendo sido capturado e enjaulado, para o que, de acordo com a Gazeta de Sydney de 8 de Janeiro de 1824, “ foram necessários seis guardas, tal a sua força, mas como se vissem incapazes de o dominar tiveram de o atingir com um tiro de fuzil …”      A reacção dos colonos foi pronta e consistia basicamente no envenenamento de iscas de pesca com arsénico, as quais eram oferecidas de presente aos Wiradjuri ou deixadas em locais estratégicos. Deste modo, inúmeros morreram em extrema agonia. Em Maio de 1824, alguns parentes de Windradin foram chacinados ao colher batatas num campo de colonos. Menos de um mês mais tarde, uma estação de gado que havia sido construída num círculo de danças sagradas foi atacada, sendo mortos os criadores de gado, apreendidas as suas armas e munições, e as habitações incendiadas. Depois, os Wiradjuri atacaram e incendiaram outra quinta, morrendo ao todo nesse dia sete brancos. Uma expedição punitiva foi, de pronto, enviada a Bathurst, tendo apenas liquidado três mulheres Wiradjuri. Pelo fim do mês toda a região estava já em pé de guerra, com vários grupos de nativos armados de setas e fuzis impedindo a normal actividade das fazendas coloniais.      Na ‘Gazeta de Sydney’ escrevia-se então que: “ um largo contingente de nativos, entre 600 a 700 homens havia proclamado a sua hostilidade para com os colonos, pelo que qualquer verdadeiro amigo dos Aborígenes deverá desejar vê-los punidos por meios mais radicais do que os já até agora utilizados , já que a disciplina suave e compreensiva os não impediu nos seus criminosos actos …".      Em 14 de Agosto de 1824, o governador de Brisbane declarou a Lei Marcial e enviou o seu 40º Regimento para Bathurst. A guerra de exterminação começara e todos os Wiradjuri eram implacavelmente abatidos. Nalguns locais, os soldados e as milícias dos colonos ofereciam alimentos às crianças e mulheres para depois as abaterem a sangue frio, à medida que se aproximavam para recolher tais alimentos.      Em Outubro desse ano, os 60 principais chefes Wiradjuri renderam-se. A 'Gazeta de Sydney' reportava então que " a crueldade dos Wiradjuri parece ter-se abatido …," depois de Windradin, com 260 dos seus homens, se ter rendido após uma marcha de mais de 200 km, em Parramatta (a 45 km do centro da actual Sydney).      Entretanto, em Londres, o 3º Conde de Bathurst (que não pertencia à família do governador Bathurst, mas em honra de quem a cidade havia sido baptizada) havia sido empossado como Secretário Colonial do Império Britânico, e, agastado com a arbitrária declaração da Lei Marcial e pela falta de senso do massacre de Bathurst exonerava em nome do rei, o governador geral de Bathurst.      Assim, Windradin e o seu povo Wiradjuri através da sua heróica resistência aos colonos, acabariam por impor a deposição do governador geral, que, diga-se em abono da verdade, não era muito benquisto na colónia.      Este episódio, pouco conhecido da guerra australiana contra os nativos, foi sucedido por outro: os condenados a quem os colonos haviam armado para combater os aborígenes revoltaram-se e formaram gangs criminosos que, durante alguns anos, se dedicaram a aterrorizar as fazendas brancas. Hoje, os Wiradjuri desapareceram totalmente, existindo apenas alguns descendentes mistos que tentam honrar a memória dos seus antepassados numa clara manifestação de reafirmação da sua identidade e herança cultural. Exemplos como este encontram-se em vários jornais e revistas da época, mas poucos têm sido republicados até agora, pois apenas a partir dos anos 70 os australianos começaram a saber destes massacres impostos aos aborígenes e a admitir alguns excessos dos seus antepassados. O dia de reconciliação nacional, que muitos esperavam acontecesse durante as celebrações do Bicentenário em 1988, estão ainda bem longe de acontecer. Lembre-se que até 1967 aos aborígenes não era sequer reconhecida a existência e muito menos a nacionalidade australiana. Claro, que era muito mais fácil, então falar do apartheid sul africano. II. O SEGREDO (SECRETO) DE WILLIAM DAMPIER      Quem vive na rua Dampier [94] em Kurnell, uma península a sul de Sydney, não o sabia até 1988, e a maior parte dos estudantes de História Australiana no secundário continua a desconhecê-lo, mas William Dampier, o primeiro navegador inglês e explorador a pisar solo australiano, foi também o primeiro inglês a matar aborígenes sob custódia. O Dr. Bernard Barrett, Historiador estadual de Vitória afirma que Dampier matou um homem aborígene em 1699, depois de o ter capturado durante um assalto, não provocado, aos aborígenes num local que é hoje conhecido como a cidade da Austrália Ocidental, de Dampier.      Este facto, de acordo com aquele historiador foi sempre escamoteado dos livros de História Australiana. "Dampier, que trouxe a primeira bandeira inglesa para a Austrália um século antes de Cook, é o primeiro inglês conhecido que matou um aborígene. O facto escamoteado por historiadores, escritores, professores e outros necessita ser desvendado, para que a nossa História não seja como os filmes com uma classificação PARA TODOS quando deveria ser de APENAS PARA MAIORES DE 18.      Dampier visitou primeiramente a costa noroeste da Austrália como flibusteiro em 1688 e voltou em 1699 como comandante de uma expedição oficial inglesa, tendo explorado a costa desde a Baía dos Tubarões (Shark Bay) perto de Carnarvon até à Baía de Roebuck (Roebuck Bay) perto de Broome na costa norte da Austrália Ocidental. De acordo com o seu Diário de Bordo, ele e um pequeno grupo foi explorar as cercanias e estava em busca de água, quando viram um pequeno grupo de tímidos aborígenes, decidiram tomar um como prisioneiro, até que a sede dele se apossasse e os conduzisse até à água. Depois de ter havido uma disputa entre o grupo de Dampier e os aborígenes, Dampier afirma " Achei que era a altura de atacar de novo e matei um deles' .      Depois de os outros membros do grupo aborígene terem carregado o corpo do morto, Dampier arrependeu-se e não prosseguiu com o ataque. O certo, porém, é que em 1988 e dentro do espírito de celebração do Bicentenário da Austrália foi erigido um monumento de Comemoração de William Dampier, e apenas houve uma contra manifestação feita por aborígenes que afirmaram que ' ninguém pode mudar a história, mas não temos de fingir que ela não aconteceu; se a pudéssemos reescrever muitos australianos ficariam surpreendidos com os factos e teriam de por cobro a muitos mitos que se perpetuam, através da interpretação da história e não dos factos' . III. A TEORIA DA TERRA NULLIUS      Como em tantos outros casos judiciais os pormenores do caso eram menos importantes do que os princípios. Em Junho de 1992, o que estava em disputa era apenas o controle de três pequenas ilhas na costa norte da Austrália, depois de uma campanha de mais de 10 anos pelo povo Meriam das ilhas Murray, as ilhas mais orientais do arquipélago Torres. O Supremo Tribunal Australiano concedeu-lhes a titularidade de posse, ou título nativo à posse daquelas terras. Isto poderá parecer simbólico, se não se soubesse que desde 1780 vinha vigorando o princípio de Terra Nullius , uma ficção legal que declarava que a Austrália pré-euro peia era uma terra deserta, sem nenhuma prévia declaração de posse. Dois dos juízes declararam que ' tirar a posse da terra aos aborígenes é o aspecto mais negro da nossa História' .      Apesar dos meandros legais que compõem a decisão final que de per si se aplica apenas a 300 habitantes daquelas pequenas ilhas, ele constituiu na altura um precedente para vastas áreas da Austrália (actualmente encontram-se na posse nativa pouco mais de 50% da massa continental). Não é permitido reclamar a posse nativa sobre estações pastorais (de pastorícia) ou propriedade de brancos australianos, e os aborígenes devem provar que existiu um vínculo ininterrupto com as suas terras. A atribuição da titularidade das terras continua, porém, sujeita a ser sobreposta por leis federais e estaduais não havendo lugar a compensações financeiras por parte dos antigos proprietários.      Tudo começou quando Eddie Mabo de 56 anos (falecido em Janeiro 1992) quis na década de 60, voltar à terra natal (a ilha Mer) e lhe foi recusada autorização para o fazer. Depois, com a ajuda de um amigo professor da Universidade James Cook (Henry Reynolds), levou o caso a tribunal, onde se arrastou desde 1982, para declarar que a lei Comum Australiana não reconhecia o direito nem o título comunal nativo. Assim os Meriam (povo da ilha Mer) lutando pela sua terra podem enfrentar as gerações vindouras com o sorriso de quem viu reconhecido um direito adquirido há milhares de anos.      Vejamos uma curta resenha de como foi esta evolução legal: 1770 O capitão Cook na ilha da Possessão proclama toda a costa oriental como Nova Gales do Sul. 1778 A 1ª Armada desembarca em Sydney Cove (na Angra de Sydney). 1876 Truganini, então considerado o último aborígene da Tasmânia morre em Hobart e o governo recusa reconhecer qualquer aborígene como descendente da Tasmânia, ou seja qualquer Tasmaniano como sendo de descendência aborígene. 1901 A Federação é instituída, mas aos Aborígenes é negada a cidadania, direitos de voto e o direito a serem recenseados no Censo Geral da População. 1966 Os aborígenes Gurundji abandonam as estações de gado de Wave Hill e Newcastle Waters, começando uma luta vitoriosa durante sete anos para ganharem a titularidade daquelas terras. Mais tarde isto é considerado como o início do movimento do direito à terra (Land Rights Movement) 1967 Um referendo apoia de forma maioritária a cidadania para os Aborígenes, dando ao governo federal poder sobre os seus assuntos. 1974 O relatório da Comissão Woodward sobre os direitos à terra para os aborígenes recomenda que os aborígenes devem receber título de posse à terra onde se possa provar ter existido a posse tradicional ou o seu direito quer em terrenos da Coroa quer em reservas aborígenes, desde que tal possa ser demonstrado. 1985 Uluru (Ayers Rock) é devolvido aos seus donos tradicionais 1992 O Supremo Tribunal anula o princípio de Terra Nullius. [95]      Os debates sobre as virtudes do caso Mabo, como ficou conhecida a decisão do Supremo Tribunal, em Junho 1992 demoraram anos a passar a rodapé de notícia mas será conveniente passar em revista algumas das declarações e acontecimentos do apogeu daqueles debates, em 1994. O Ministro Plenipotenciário do Território Norte da Austrália (uma região autónoma que não foi ainda declarada Estado), Marshall Perron citava o facto de os aborígenes viverem no meio de cães nos seus acampamentos como prova de que ' estavam centenas de anos atrasados nas suas atitudes culturais e aspirações '.      Sir Peter Hasluck, arquitecto da política de assimilação deve-se ter revolvido na sua campa. Já em 1952, ao contemplar as relações interraciais em áreas remotas da Austrália, ele se preocupava com o facto de o termo ' aborígene ' ter adquirido laivos negativos e pejorativos, pois que àqueles a quem tal epíteto era atribuído eram normalmente ' sujos, mal cheirosos, andrajosos e rodeados por nuvens de moscas .' Acrescentando, ' até mesmo uma família de cor que se eleve socialmente o certo é que todos os nativos são julgados pela decrepitude dos negros sem posses, como o padrão pelo qual são julgados todos os nativos, e esta visão do homem primitivo e insanitário será sempre um obstáculo à aceitação pelo mérito de outros aborígenes. A melhoria social deve anteceder sempre qualquer tentativa de melhorar as relações interraciais, e alojar e educar os aborígenes é uma forma de neutralizar esse estigma .'      Embora Hasluck criticasse o governo e o povo em geral pela utilização abusiva do termo aborígene certo é que esta visibilidade mantém-se. A saúde aborígene ou as mortes aborígenes nas cadeias australianas são disso exemplo, como foco de notícias permanente e negativo, sempre agregado a qualquer governo desde essa já longínqua década de 50. Muitas vezes se tem afirmado que a negligência do(s) governo(s) é uma das causas da excessivamente elevada taxa de mortalidade e morbidez (doença) das comunidades aborígenes, e se bem que isto seja parcialmente verdadeiro o certo é que aceitá-lo é negar a verdadeira dimensão do problema. Foi a confrontá-la que o Juiz Muirhead no seu Relatório Interino da Real Comissão sobre as Mortes Aborígenes nas cadeias, acabaria por demonstrar que a já longa e suspeitada desconfiança de mau procedimento policial estaria na base da maior parte daquelas mortes, era de facto verdadeira, não obstante o folclore nacional as atribuir, seguindo a linha normal da polícia de as atribuir ao álcool, como o único elemento constante e permanente em todas essas mortes.      O racismo australiano e as críticas ao mesmo são geralmente mal acatados por uma crença enraizada por preconceitos perpetuados ao longo de mais de 200 anos. O certo é que a realidade é um misto de folclore e de abuso de álcool, tal como pode ser visto no documentário de David Bradbury (cadeia nacional de TV, ABC) 'State of Shock' (Estado de Choque) onde se mostrava aborígenes em permanente estádio de alcoolismo, crime, vivendo em campos de patologias sociais.      Existe em certos sectores da comunidade aborígene um mal estar generalizado pelo círculo vicioso do álcool. Se, para uns o álcool e a violência são uma patologia própria da situação de colonizados (aborígenes), para outros o álcool é apenas uma desculpa para perpetuar a autopiedade e negação aborígene. Há quem pense porém, que o que interessa é resolver este problema em vez de perpetuar o seu círculo mortal vicioso. O estudo sistemático das doenças nos aborígenes só se iniciou na década de 70 e as estatísticas só começaram a ser feitas a partir de 1984. O certo é que apenas se sabe que as taxas de mortalidade e morbidez são bem piores do que a maior parte dos países mais atrasados de África, e a reconciliação entre os povos indígenas com as suas patologias sociais e físicas e a Austrália branca continua por fazer. IV. A AUSTRÁLIA NO BICENTENÁRIO (1988) [96] Embora quer o Capitão James Cook, quer Arthur Phillip tenham utilizado mapas que os portugueses haviam traçado 250 anos antes, não houve em 26 de Janeiro de 1988, aquando da celebração do Bicentenário da Austrália, nenhuma menção nem comemoração do facto .      Em 16 de Janeiro de 1988 mais de dez mil aborígenes marcharam pelas ruas de Sydney protestando contra as manifestações do bicentenário da Austrália branca. Entre eles alguns, descendentes de portugueses, incógnitos quer por preferirem identificar-se com o movimento aborígene, quer por desconhecerem a sua ligação a Portugal, quer ainda por se perder na obscuridade dos tempos a data de tal ligação. Lembro-me, por exemplo, de ter trabalhado com uma aborígene de apelido bem português que desconhecia totalmente a origem etimológica de tal nome.      Havia ainda outros nomes portugueses na multidão, mas eram de paquistaneses, malaios, indianos, para quem apelidos como de Sousa (d’Sousa, de Souza), Lobo, de Silva, Corrêa (Correia), Freitas, Vaz e outros desde há muito são considerados como próprios dos seus países de origem, embora algumas vezes obliterados da sua ligação secular.      Outros eram originários das Índias Ocidentais, do Sri Lanka (antigo Ceilão), a Taprobana tão descrita no épico ‘Os Lusíadas’. Curioso porém, como há ainda hoje muita gente no Sri Lanka que muda os seus nomes de origem Tamil ou Singalês (Sinhalês) para nomes de origem Portuguesa ou Holandesa, para evitarem perseguições políticas e religiosas daqueles dois grupos envolvidos em sangrenta guerra civil há mais de duas décadas.      As câmaras de TV de todo o mundo, as estações de rádio e os correspondentes estrangeiros cobriam entretanto a cena do maravilhoso porto de Sydney que era descrito na Internet como uma enorme mancha multicolorida feita de embarcações de todo o mundo. Com efeito, mais de dez mil embarcações, incluindo os 25 Altos Veleiros (Tall Ships) e os navios de reencenação da viagem da 1ª Armada, deslizavam ao vento perante mais de dois milhões e meio de espectadores que enchiam as verdes escarpas e as praias da baía de Sydney (a quem alguns colegas jornalistas portugueses teimavam em chamar a capital australiana, esquecidos da artificial e lânguida Camberra).      Dentre esses milhões muitos eram, de facto, descendentes de portugueses, directos e recentes da Madeira, do Algarve e de outras regiões, desde há muito radicados nesta ‘sua’ Austrália. O português era, para muitos deles, um idioma estrangeiro. Os pais ainda o falavam (se bem que mal, que tempo não houvera para estudar) mas os filhos detinham apenas conhecimentos básicos e de vocabulário isolado. Nem todos os emigrados mandam os seus filhos às escolas de Língua e Cultura Portuguesas que funcionam depois das horas do currículo normal australiano.      O príncipe Carlos e a sua fotogénica mulher, Diana despertavam as emoções dentre os mais afeitos às tradições britânicas e inspeccionavam as tropas vestidas à época colonial da chegada da 1ª Armada em 1788.      Ninguém mencionava o nome de Portugal e um grupo aguerrido de brasileiros aproveitava a desculpa para mais uma sessão de samba na conhecida praia de Bondi (diz-se Bondái e não Bondi, como ouvíamos os colegas dizerem). O então primeiro ministro, Bob Hawke, em tom conciliatório, declarava que era altura de ‘ pôr de parte as querelas do passado, e construir o futuro da nação, para que nos próximos duzentos anos a harmonia reinasse na nação mais multicultural do mundo .’      Durante cerca de doze horas o mundo parou para ver as celebrações bicentenárias, mas os aborígenes que ocupam este continente-ilha há mais de 40 mil anos, não se mostraram impressionados. 227 mil deles iniciaram o ano com taxas de mortalidade infantil e adulta mais dignas de países do terceiro Mundo. O mesmo se diria das taxas de morbidez (doença) e de desemprego. Até a África do Sul se gabava de ter tratado os seus nativos melhor do que a Austrália.      Os aborígenes continuavam a morrer nas cadeias por alegado suicídio: 18 casos em 1987 e uma centena desde 1980, o que motivara já a instauração de Reais Comissões de Inquérito, mudanças de lei e tudo o mais (nada se alteraria e o quadro negro mantém-se em 1998).      Os aborígenes eram não cidadãos até 27 de Maio de 1967, não dispondo de direito a passaporte ou direito de voto e eram os únicos habitantes do país sujeitos a prova de identidade ou identificação. Uma espécie de apartheid silencioso.      As crianças haviam sido retiradas do seu seio familiar e remetidas para missões brancas onde lhes eram ensinados os modos para viverem como os brancos.      Em 27 de Abril de 1971 um Juiz do Supremo decidiu que os aborígenes não tinham direito ao solo pátrio, pois este continente era desabitado à data da chegada e anexação à coroa britânica … de acordo com a proclamação do capitão Cook. Este ainda é, por muitos, considerado como o ‘descobridor’ da Austrália, embora os historiadores refiram os portugueses, holandeses e franceses antecedendo aquele.      Em 1988 nos céus de Sydney, o fogo de artifício meticulosamente preparado celebrava o bicentenário, numa noite calma do Verão austral, indiferente aos manifestantes aborígenes que continuavam a palmilhar as ruas da cidade, indiferente aos problemas de afirmação pessoal desta novel nação.      Os políticos regozijavam-se com a presença de mais de 25 milhões de pessoas nas celebrações, e com a inexistência de acidentes com os mais de dez mil barcos que enchiam a bela baía de Sydney. Tudo o que navegasse estava na água, de jangadas a pranchas de surf. Uma nação em festa durante doze meses, sob o escrutínio dos correspondentes estrangeiros, celebrava então a sangrenta colonização e o estabelecimento da colónia penal de Nova Gales do Sul.      Apesar de os portugueses aqui terem chegado antes de outros europeus a língua que se falava era o inglês, e nas escolas oficiais muitos dos livros continuavam a dizer que o capitão Cook ‘descobriu’ a Austrália.      Mais de cento e cinquenta nacionalidades diferentes compõem hoje o panorama étnico do país, sem pruridos monárquicos, sem partilharem da herança cultural de duzentos anos que mais de 16 milhões de pessoas celebravam de acordo com as estatísticas oficiais.      O (então) primeiro ministro Bob Hawke satisfeito com as celebrações e o fogo de artifício, dizia que esta ‘ é uma grande nação, onde todos devemos viver em paz, esquecendo os erros do passado, evitando repeti-los nos próximos duzentos anos’ .      À mesma hora, noutras paragens, a réplica da nau de Bartolomeu Dias, celebrava factos bem mais antigos do que a chegada de uma qualquer 1ª Armada.      Menos heroicamente talvez, mas ainda dispostos a arriscar e a deslocarem-se para as plagas mais inóspitas deste vasto continente-ilha, os aborígenes menos europeizados têm-se radicado em pequenas comunidades do interior. A sua falta de domínio da língua inglesa e a sua natural tendência para a procriação levaram-nos em décadas idas a radicarem-se em locais inóspitos. O mote político favorito nessas eras (não tão remotas como muitos pensam) era ainda o de uma ‘ Austrália Branca’ (leia-se Anglo-Saxónica ou anglo-celta). Por tal motivo, afastados da dita civilização ocidental e superior, incapazes por motivações socioeconómicas de se miscigenarem com os anglo-saxónicos ou anglo-celtas, predominantes no país, viram-se, assim, compelidos a repetir percursos seculares e ancestrais. Daí haver ainda hoje tantos aborígenes que ignoram o facto e nem sequer o reconheçam.      Há quem afirme que isto é um processo repetido por portugueses desde há mais de 150 anos na Austrália, mas a inexistência de registos civis, a frequente mudança de nomes, e o anglicisamento desses nomes torna extremamente difícil tal pesquisa.      Em muitos casos, os arquivos das igrejas católicas romanas poderiam ajudar mas convém não esquecer que este país foi até há pouco tempo quase exclusivamente anglicano.      Em Timor Leste ainda hoje os Hornay, e os da Costa atestam aquilo que se passa desde há cinco séculos: a miscigenação dos portugueses com os nativos e se alguns deles parecem aborígenes louros, outros parecem mais fruto da diáspora portuguesa de antanho. Prová-lo, por vezes, é bem mais difícil do que especulá-lo.      Os emigrados portugueses aqui radicados não se diferenciam muito dos seus antecessores anglo saxónicos pois que também eles olham com desprezo a raça aborígene e interrogam-se sobre os enormes custos de a manter.      Para eles os aborígenes são ainda uma raça inferior, incapaz de se adaptar às contingências contemporâneas, incapazes de sobreviverem às constantes mutações sofridas por este continente nos últimos duzentos anos. CRÓNICA XIVª PARTE Iª A IDADE DAS PEDRAS E DOS HOMENS      Quando o Dr. Alan Thorne recebeu um crânio opalizado encontrado nas dunas perto do Lago Mungo no interior oeste de Nova Gales do Sul, pensou ter descoberta prova de que um povo, bem mais antigo do que se pensava teria colonizado a Austrália. Os testes de datagem contudo, foram uma desilusão, pois indicavam apenas uma idade provável de 15 mil anos, recente, portanto, ao contrário da natureza robusta do crânio e da mineralização que apontavam para uma data bem mais anterior.      Alan Thorne, um dos mais respeitados antropólogos físicos do país não está convencido que os resultados da datagem por radiocarbono estejam correctos. Este é o segundo enigma que confronta todos os que estudam a história dos primeiros seres humanos na Austrália. Há uns anos atrás em Warrnambool (sudoeste no estado de Vitória) foi descoberto um local que parece ter sido um acampamento, com restos de conchas e pedras de cozer, datando de há 120 mil anos, mas não foram encontrados fósseis para consubstanciar a presença humana, e mesmo encontrando-os tal seria difícil.      Em 1988, outro enigma surgiu, nas margens do seco Lago Eyre com fragmentos de um crânio humano que se crê ter mais de 60 mil anos pelo montante de fluorine encontrado naquele pedaço de osso bem fossilizado. Os factos científicos capazes de provar a presença humana na história australiana para além de 40 mil anos continuam débeis. Existe um vazio de cerca de 60 mil anos que falta comprovar para além de especulação mais ou menos científica. A data 40 000 BP (ou Antes do Presente, Before Present ) é a mais comummente aceite, mas ela está ligada ao limite técnico da datagem por isótopos de radiocarbono usada rotineiramente em restos humanos, se bem que uma visão global aponte para uma chegada ao continente entre 10 a 20 mil anos antes. (ver Figura Z)      O desenvolvimento de técnicas apuradas de datagem nas últimas décadas veio proporcionar um alicerce científico quase inabalável à história dos primeiros humanos, e os métodos demonstradamente resistiram a dúvidas e mesmo a falsificações como foi a ' partida pregada à comunidade científica com o Homem de Piltdown a qual durante mais de 30 anos resistiu a ser desmistificada. Um osso de orangotango e um crânio antigo foram enterrados entre 1908 e 1912 em Piltdown, Sussex (Reino Unido) mas só com o aparecimento da técnica de datagem por fluorine (a mesma usada no Lago Eyre) foi possível descobrir que o crânio era de 1230 AC (roubado de um cemitério medieval) e não tinha nada a ver com o do orangotango do princípio deste século. O método de datagem, por carbono, confirmou na década de 80 que o Manto de Turim não poderia pertencer à era em que Cristo viveu, embora fontes da Igreja disputem aquela conclusão. Claro que as técnicas de datagem não são infalíveis, mas o que frustra mais os cientistas australianos é que elas impõem tantas limitações.      Nas margens do rio Nepean, perto de Penrith nos limites metropolitanos de Sydney, cientistas descobriram pedras cortadas de uma pedreira com a idade de 30 a 40 mil anos, mas testes posteriores com termoluminiscência feitos pelo professor Gerald Nanson do Departamento de Geografia da Universidade de Wollongong apontam para uma data bem anterior (cerca de 70 mil anos). O Professor Nanson é um dos que se opõe ao método de radiocarbono para materiais com mais de 40 mil anos, dado que os erros são enormes, citando o estudo de ribeiros e canais na região de Murrumbidgee inicialmente calculados entre 30 a 40 mil anos mas que se sabe agora terem 400 mil anos.      Muitos outros cientistas acreditam que a termoluminiscência alcança a medição do tempo onde o radiocarbono pára, embora o problema seja o de só poder ser aplicada a rochas com cristais, que tenham absorvido radiação do meio ambiente. Isto deixa de parte os ossos humanos, a menos que estejam firmemente fixados nos registos fossilizados junto daqueles vestígios rochosos. Este sistema datou os vestígios de pedras de cozer de Warrnambool em 132 mil anos, e o local onde elas se encontram data entre 80 a 104 mil anos, de acordo com o Professor John Prescott da Universidade de Adelaide. Embora o aspecto do local possa sugerir uma presença humana, a natureza também pode ter pregado uma das suas partidas. Alan Thorne, perito de renome mundial, assinala que os humanos se estabeleceram na parte meridional do continente há pelo menos 40 mil anos mas existem artefactos que parecem ser mais antigos do que a presença humana. O local cientificamente comprovado como sendo o mais antigo é no Lago Mungo, onde em 1970 foi confirmada a presença humana datando de há 38 mil anos, incluindo um local de enterro e cremação. Idêntica descoberta foi feita em Perth, na Austrália Ocidental, o que leva a supor que ou os humanos chegaram todos ao mesmo tempo àqueles dois locais afastados uns milhares de quilómetros, ou então é admissível supor eles terem chegado uns 5 a 10 mil anos antes.      Evidência mais recente da Indonésia pode provar que a emigração do Homo Sapiens pode servir de especulação para se saber quando chegaram os primeiros homens à Austrália. "Existem registos contínuos da população Solo ( Homo Erectus ) na Indonésia entre 1 milhão a 100 mil anos atrás, quando o homem moderno emigrou da Ásia (continental) para substituir o Homem de Solo.      O Dr. Jim Bowler, do Museu de Vitória é peremptório ao declarar que as técnicas de datagem se confrontam com dois problemas; uns são os limites técnicos e o outro é as modificações do meio físico ambiente. O homem europeu chegou, removeu a vegetação, reactivou as dunas, mudou os níveis subterrâneos da água e alterou toda a dinâmica de solos e subsolos. Como é que os cientistas medem o tempo ou a idade? Todos os organismos vivos absorvem do meio ambiente baixos níveis de carbono 14, o qual é levemente radioactivo pela forma como é processado nas altas camadas da atmosfera por acção dos raios solares. Só quando um organismo morre é que essa absorção cessa e começa o processo reverso de decomposição, o que provoca um autêntico relógio do tempo e desde 1940 a datagem por radiocarbono tornou-se no meio mais comum de datar todos os vestígios orgânicos. Ao fim de 40 mil anos o montante de carbono 14 é quase imperceptível e a mais pequena contaminação desses vestígios pode alterar a análise. Para se datarem vestígios mais antigos as dificuldades aumentam a menos que os vestígios estejam num registo fossilizado onde existam outros materiais que possam ser datados por outro processo. Destes, o mais comum na Austrália é o da termoluminiscência. Cristais, tais como o quartzo e o feldspato (felspar) absorvem radiações ambientais de origens tais como urânio, tório e potássio. Quando as rochas aquecem, este relógio é de novo activado, o que torna esta técnica ideal para datar materiais que tenham sido colocados num fogo, de pedras ou cerâmica. O montante de energia armazenado na rocha pode ser medido se se aquecer o objecto e se medir o seu brilho o luminescência. Alternativamente, com o método de datagem por fluorine, uma técnica bem mais antiga se utiliza. Esta mede a concentração numa amostra de iões de fluorine os quais também são absorvidos do ambiente. Como as taxas de absorção variam de local para local o método não pode ser utilizado como um relógio biológico mas sim como uma técnica associada a outros materiais que tenham fornecido datas firmes e seguras . [97]      Os fragmentos de ossos humanos descobertos em 1969 no Lago Mungo foram datados entre 24 e 30 mil anos e pertenceram a uma jovem denominada Mungo I, que foi cremada. Os ossos foram então esmagados e enterrados numa campa pouco funda: a evidência de ritos de cremação mostra tratar-se dos mais antigos em todo o mundo e vinha demonstrar a existência de crença religiosa. O significado da descoberta do Lago Mungo não é só importante pela idade a que se reporta, mas à luz que vieram trazer a uma sociedade de pessoas vivendo nas margens de um lago, ora morto, há um milhar de gerações.      Podemos quase visualizar um bando de pessoas, as mulheres a apanharem moluscos da lama nas margens do lago e outras pessoas a pescarem a perca dourada, usando talvez redes entrelaçadas. Para cá das margens do lago por entre os arbustos secos havia ovos de emú (ema) e podiam apanhar-se pequenos marsupiais. Instrumentos de pedra, feitos de quartzitos, completavam a parafernália do bando, tais como raspadores de gumes afiados, que até podem ter sido usados para afiar as setas de madeira ou os paus de cavar.      Uma das mais recentes descobertas com prova de antiga ocupação humana da Australásia (Austrália e Papua Nova Guiné) e talvez a mais antiga foi feita na península Huon a noroeste da Nova Guiné. Ali, por entre as paredes de um pequeno riacho correndo por entre terraços elevados de velho coral , foram encontrados utensílios de pedra bem distintos. A estimativa quanto à sua origem apontava conservadoramente para mais de 40 mil anos. E isto porque como atrás foi explicado o sistema de datagem de radiocarbono não consegue aplicar-se para idades anteriores a 40 mil anos. Existem inúmeros locais na Austrália com pedras e outros artefactos estratificados abaixo de zonas de carvão negro (hulha), incluindo um [98] escavado pelo professor Rhys Jones da Universidade Nacional Australiana (departamento de Pré História) no Parque Nacional de Kakadu (Território do Norte Australiano, numa vasta região cuja titularidade de posse da terra foi entregue aos nativos na década de 80 e onde existe uma das maiores reservas de urânio do mundo), e todos eles não podem ser datados pelos métodos existentes.      Outras enigmáticas descobertas incluem a de poros de pólen profundos encontrados por Gurdip Singh no leito do Lago George, perto de Camberra, a qual sugere a aparição súbita de vastas quantidades de fragmentos de carvão e uma notável mudança da composição arbórea ocorrida há cerca de 120 mil anos. Singh era da opinião de que tal tipo de mudanças só pode ter acontecido como resultado da chegada de seres humanos e do impacto do seu regime de fogo no meio ambiente. Uma alternativa do perfil de pólen sugere que tal evento possa ter tido lugar há 60 mil anos, o que sendo consideravelmente anterior a qualquer descoberta arqueológica, não está for a de especulação científica.      Os primeiros imigrantes australianos devem, inicialmente ter vivido nas terras baixas florestadas do Sudeste Asiático. Muitos dos recursos animais e vegetais na costa noroeste da Austrália - Nova Guiné ser-lhe-iam bem familiares. Desde as praias de chegada, uma das maiores zonas ecológicas por onde esses primeiros imigrantes colonizadores teriam de passar seriam as florestas tropicais da Nova Guiné: lá existe evidência arqueológica de penetração humana nestes altos vales há mais de 30 mil anos.      Uma segunda vaga de expansão seria pelas savanas secas da Austrália. Até há poucos anos era incerto se a ocupação do miolo do deserto teria sido ocupada antes do fim do Plistocénico (entre 10 a 12 mil anos). Escavações durante a década passada na Cordilheira McDonnell, perto de Alice Springs, mostraram a existência de fornos (lareiras) e utensílios de pedra com mais de 22 mil anos, com mais depósitos a níveis mais profundos (consequentemente mais antigos). Outros locais de antiguidade idêntica nas zonas áridas foram descobertos na zona de Pilbara e na Planície de Nullarbor (na zona mais meridional da Austrália do Sul).      Reclamar a terra exigia não só uma capacidade ecológica de colher o que ela tinha para dar, mas também uma capacidade intelectual de conhecer locais e a abundância sazonal de recursos, incluindo a água. Talvez, ainda mais importante era saber a relação existente entre as pessoas e pedaços específicos de terra, e a relação entre elas.      Uma das impressões mais duradoiras e avassaladoras é a que se obtém da literatura etnográfica australiana, ou através de experiências contemporâneas com os aborígenes que ainda utilizam aspectos peculiares da sua cultura tradicional em Arnhemland (Terra de Arnhem, norte da Queenslândia) no Grande Deserto Ocidental ou em qualquer outro lugar. O investimento cultural através da arte, dança, música, e cerimónias religiosas assegurava e mantinha esse relacionamento fundamental. Em Nauwalabila encontraram-se pedaços de ocre em depósitos sob as areias e a níveis de profundidade que se crê serem de há 30 mil anos, e lá estavam crayons de hematite de alta qualidade e minério de ferro mostrando facetas intersectadas (fruto de mãos humanas?) A fim de colocar estas descobertas numa perspectiva global , poderemos recordar que a arte antiga em termos de Europa Ocidental (Lascaux, França; Altamira, Espanha, ou mesmo Foz Côa, Portugal) data de há 32 mil anos, ou seja, no mínimo contemporânea da arte aborígene.      Pesquisas recentes na periferia do continente australiano ilustram o facto de o ritmo das descobertas não estar a abrandar. Os colonos da Nova Irlanda, a oriente da Nova Guiné, por exemplo tinham uma excelente técnica de atravessar as águas e aptidões consideráveis para aproveitarem os recursos marinhos. Fascinante também é que a ocupação das grandes ilhas do pacífico Ocidental foi feita pouco depois do grande continente australiano. O homem foi também até ao extremo sul do continente, antes de os altos mares cortarem o acesso à Tasmânia, ligada ao continente até há 12 mil anos atrás. A ocupação mais antiga da Tasmânia foi comprovada na Cave Bluff na Florentine como tendo ocorrido há 23 mil anos..      Uma das dificuldades existentes é datar com precisão essas descobertas. Mungo I de há 26 mil anos é uma jovem extremamente graciosa. Outros fósseis de aproximadamente a mesma idade são bem mais grosseiros e mostram características faciais mais ' primitivas ' tais como largos maxilares e sobrancelhas elevadas e salientes.      Em termos de parâmetros chave, existe maior variação entre os Hominídeos do Plistocénico recuperados na região dos Lagos Willandra, a oeste de Nova Gales do Sul, do que existe agora entre toda a humanidade em toda a terra. Ou será que estamos perante representantes de duas espécies distintas de colonos do continente? Ao lidarmos com acontecimentos de há 20, 30 mil ou mais anos, estamos a lidar com os antepassados mais chegados actuais aborígenes australianos, Papuas da Nova Guiné, melanésios de Irian Jaya (Papua Ocidental) e habitantes das ilhas Salomão a norte da Papua. Sem dúvida que muitos dos seus descendentes são hoje membros das comunidades indígenas das ilhas e territórios do Pacífico. Existe um grande lapso de tempo entre o moderno aborígene e aqueles a cujos traços atrás se descreveram. A nível de pré história não existem preconceitos raciais ou orgulhos étnicos. O facto saliente que emerge de uma perspectiva global é a semelhança das vidas, os restos de artefactos. Os produtos e auxiliares de todos nós humanos em todos os continentes.      Nos últimos séculos os grandes exploradores atravessaram o globo e compete aos da geração presente recriarem essas viagens ao passado, explorando essas paisagens de um futuro comum para quem vem de um passado comum. FIGURA 4. A Idade da Austrália PARTE IIª O TÚNEL DO TEMPO [99]      Foi já em 1986 que a Austrália descobriu o que muitos consideravam a sua ' Pedra de Rosetta ' do passado: o maior depósito de fósseis com uma idade de cerca de 15 milhões de anos. A região parecia mais uma imagem do fim do mundo permeada de rochas de calcário, poeira cor de siena (castanho avermelhado, a chamada terra ruiva) e colinas estendendo-se através do planalto continental. Foi aqui que, em 1800, o guarda florestal Joe Flick foi morto pelos soldados britânicos, que o enterraram de cabeça para baixo para ir mais depressa para o inferno, e para quem veja a paisagem pela primeira vez isto parece o caminho certo naquela direcção.      A estação de pastorícia de Riversleigh, nos confins da Queenslândia, 300 km a noroeste de Mt. Isa, parece ser mais o começo do que o fim, uma espécie de Pedra de Roseta para o passado australiano do que uma portinhola aberta para o inferno.      Foi lá que os mais ricos depósitos de fósseis foram encontrados e os primeiros na Austrália, com mamíferos, anteriormente apenas conhecidos de outros continentes. É naquele local que se encontram 20 diferentes períodos de tempo, ou eras, entre 50 mil anos a 15 milhões, embrenhados no calcário, capaz de permitir aos cientistas estudar toda a história evolucionista de um continente num só local. Antes das descobertas de Riversleigh apenas se conheciam 70 espécies de mamíferos como tendo existido na Austrália, enquanto que actualmente esse número se situa em mais de 170, dos quais só cem numa pequena área com um quilómetro quadrado.      Quando o Professor Michael Archer começou as suas escavações em 1976, ele que se tornou numa espécie de Indiana Jones dos paleontólogos australianos, jamais esperava vir a abrir uma caixinha de Pandora destas. Nessa altura descobriram uma criatura tão esquisita que lhe chamaram a 'coisadonta' (‘ thingodonta' ) para uma espécie de animais tão diferente das outras como uma baleia de um macaco. No ano seguinte descobriram a sua mandíbula, e em 1986, o focinho. Depois seguiram-se descobertas tais como o cérebro fossilizado de um monotrema: uma espécie de ornitorrinco (platypus) ovíparo.      Noutro local, perto dos antigos e luxuriantes terraços do Rio Gregory , descobriram-se os restos do maior marsupial do continente, um Diprotodonte optatum, um animal do tamanho de uma vaca que viveu há cerca de 50 mil anos atrás. A estação de Riversleigh não foi só fértil em milhares de fósseis de mamíferos, mas também se revelou uma verdadeira mina de ouro quanto a restos de animais e répteis. Um leão marsupial semi-arbóreo (semi-vegetariano), uma nova espécie de lobo marsupial, uma nova família de Possum plantigeriformes e um minúsculo koala, provavelmente um elo de ligação entre os antigos e os actuais.      Numa rocha encontraram-se 40 vértebras de uma piton enorme, com uma espessura de 30 centímetros e pela época em que habitava estas paragens, durante o período Miocénico, há cerca de 15 milhões de anos, era provavelmente o maior réptil do mundo, pelo que foi apropriadamente denominada de Monty Pythonoide. Outra rocha tinha tanta matéria orgânica que produziu cerca de 60 espécies diferentes de animais, e perto desta estavam os restos fossilizados de um crocodilo de há 13 milhões de anos.      Ainda noutro local desta área, em leitos secos do período pré Câmbrico, de há 1,5 biliões de anos, surgiu uma das mais espantosas descobertas: os restos de um Dromornitóide ou pássaro trovão (Thunderbird) que habitou esta terra durante o período terciário, há cerca de 15 milhões de anos e o qual foi 'baptizado' como o 'Grande Pássaro'. A parte inferior desta gigantesca galinha é protuberante como se fosse de um elefante. O pélvis e o osso grande da pata (o dedão) estão também na rocha junto de pequenas pedras ingeridas pelo enorme pássaro não voador, para auxiliar a sua digestão. Ingeriam as pedras com os frutos e as sementes para as esmigalharem dado que ao longo do processo evolutivo perderam os dentes. Apenas, por especulação, se pode tentar saber porque tal animal morreu assim: um crocodilo comeu-lhe a cabeça e deixou a carcaça a apodrecer? Ou talvez tenha caído dentro de uma enorme piscina das que se formavam dos sistemas de lagos de água fresca nesta fase do Miocénico?      Toda esta área, de acordo com o professor Archer, era uma enorme floresta tropical com dezenas de tipos diferentes de Possum (ópossum) escondidos à sombra das folhas da palmeira livastónia, das pandamas e melaleucas, onde répteis gigantes, lagartos e sapos enfiados no solo, enquanto aqueles enormes pássaros não voadores vasculhavam o chão da selva. As enormes piscinas naturais onde estes animais caíam eram cobertas de cal, proveniente da erosão do calcário Câmbrico e são os seus ossos que hoje se podem ver em Riversleigh. Esta variedade fenomenal de espécies começou a extinguir-se há cerca de 15 milhões de anos quando a crosta da plataforma continental australiana chocou com a plataforma indiana, provocando a elevação daquilo que é hoje o Sudeste Asiático. Este contacto provocou a formação da Nova Guiné e levou consigo toda a vasta fauna de Riversleigh.      Os que restam hoje são os antepassados actuais daquelas criaturas das florestas tropicais, mas bastante mais resistentes pois adaptaram-se a um ambiente em mutação e sobreviveram. O Dr. Archer de 52 anos, de origem norte americana começou a ter interesse em paleontologia e zoologia aos onze anos de idade nos Addirondack no estado de Nova Iorque onde cresceu e admira-se que esta região tendo sido descoberta originalmente como tendo fósseis em 1901, só tenha sido explorada tão tarde.      Bruce Stannard do jornal Sydney Morning Herald escrevia em 1987 que visitar Riversleigh era ' como se sentiria um exultante visitante do tempo ao aterrar depois de uma viagem de 15 milhões de anos' . Milhões de anos de erosão estavam, por fim a abrir uma janela não sobre um mundo perdido mas sobre uns 30. Ou como diria, Michael Archer ' uma pessoa chega aqui cheia dos imensos conhecimentos científicos que tem e sai profundamente humilhada. Quanto mais vemos, mais nos apercebemos do pouco que sabemos e do muitíssimo que há ainda para aprender. Ao chegarmos, estamos convencidos de que, se seguirmos as regras da ciência, tudo fará sentido, mas descobrimos que o livro porque nos guiamos foi escrito noutro local, noutro tempo, espaço, por outra pessoa, e que nada do que lá vem se aplica aqui. Apesar de tudo o que vemos, isto parece um enorme puzzle que foi desfeito por uma criança de dois anos e onde a maioria das peças que fazem sentido se perderam. Por exemplo, poderemos comparar os morcegos protuberantes das rochas onde ficaram fossilizados, pertencendo a várias eras e analisar datas radioisométricas com exemplares semelhantes da Europa e Ásia, e isso vai-nos ajudar a entender os diferentes estádios da evolução e datar convenientemente o que se passou aqui' .      E o professor acrescenta: ' Quando descobrimos o crânio do Obdurodonte, completo com dentes e a base do crânio, onde as mudanças são pequenas e permitem estudar bem a evolução de uma espécie, e as marcas das veias, a única coisa que faltava era poder ler os últimos pensamentos daquele gigante ao afundar-se na lama onde morreu. Nada porém, foi mais espantoso que a 'Coisadonte' (Thingadon). Trata-se de um mamífero, provavelmente com pêlo e não maior do que um coelho. Os seus dentes são diferentes de todos os outros mamíferos. É como, se não conhecêssemos uma baleia, estivéssemos diante de um oceano e uma aparecesse. Só que neste caso, nada existe para fazer uma analogia, porque este animal é único. Normalmente associamos esmagar e moer com mamíferos, mas o Thingadon não tem nenhuma capacidade de fazer isso. Os seus dentes são como pequenas tesouras. Tudo o que podia fazer era cortar, talhar, cortar, e o que é que um animal com dentes assim faz? Só saberemos se encontrarmos o resto do corpo, pode ser que se tratasse de um animal aquático, que passasse o tempo a nadar e a cortar a cauda dos peixes, ou então um animal que se especializasse em cortar a carapaça dos ovos das aves, engolindo o embrião todo de uma vez .'      O leão marsupial (Thylacoleo carnifex), que atrás mencionamos, também percorreu esta região durante o Miocénico e se bem que se assemelhasse a um ópossum o seu comportamento nada tinha a ver com essa aparência. Especializados em comer carne, tinham incisivos compridos e bem fortes, para além de longas e aceradas lâminas na frente das mandíbulas. Os seus dentes eram tão afiados que podiam servir para uma pessoa se barbear, sendo capazes de cortar uma perna a um canguru sem se aperceberem de que o tinham feito. Mas, até agora o maior marsupial foi sem dúvida o Diprotodonte optatum, do tamanho de uma vaca, com um crânio com cerca de meio metro e um cérebro do tamanho de um polegar humano, o que de facto, era uma pena, pois se encontrassem um ser humano não saberiam o que fazer. Eram tão estúpidos, que os aborígenes de há 50 mil anos seriam capazes de lhe retalhar uns bifes para o almoço, voltar para buscar mais para o jantar e ainda encontrarem o Diprotodonte no mesmo sítio à espera. Existe mesmo evidência de que os aborígenes os comiam e retalhavam, embora não como descrevi, pois encontraram-se restos de ossos com marcas óbvias de facas primitivas. Archer confessa ainda que embora seja crente não pode aceitar a teoria criacionista pois como paleontólogo não pode aceitar a arrogância de dizer que o homem é um animal superior aos outros, quando toda a evidência sob os seus olhos afirma o contrário. Há criaturas mais importantes, nós somos só animais. CRÓNICA XVª A ACULTURAÇÃO DO EMIGRANTE E A MISCIGENAÇÃO DE CULTURAS PARTE Iª [101] OS EMIGRANTES PORTUGUESES NA AUSTRÁLIA      A emigração portuguesa iniciada há meio milénio foi caracterizada por uma mescla de aventura, ambição, ou desejo de vencer em terra alheia (como um atributo de façanha, vitória socioeconómica sobre os que ficaram, culminando na necessidade de um reconhecimento público pelo Zé Ninguém que, arriscando, vencera. Isto criou entretanto, contarelos míticos de terras vividas e um poder de compra jamais alcançável no torrão pátrio.      Dos traficantes de escravos, aos bandeirantes do sertão brasileiro, aos ' brasileiros ', aos ' africanistas ', legalmente ou a ' salto ', assim povoamos o mundo na década de 60. A Austrália, como meta, surgiu apenas na segunda metade da década de 50, com grandes influxos nas décadas seguintes, mais fruto da guerra colonial e da depauperada economia lusitana do que pela atracção do continente-ilha, misticizado pelas corridas ao ouro do findar do século. O jardim à beira-mar plantado iria ser uma recordação a rever quando possível.      Para essa primeira horda proveniente dos rincões menos desenvolvidos, dos Algarves, Madeira, Beiras e Trás os Montes, a lufa diária não se compadecia com estudos para além dos primários, que nunca tiveram naquela época a reputação de ganharem o pão de cada dia. Chegados a este vasto, e hostil meio ambiente, muitos foram atraídos pela promessa da exploração mineira, a pesca e a agricultura ou vastos trabalhos na construções de infra-estruturas, como as da ' Snowy Mountains ' nos arrabaldes da Sidney contemporânea, um dos maiores projectos hidroeléctricos do mundo.      A falta de compatriotas, a agressividade discriminatória local, o isolamento linguístico e cultural afastava-os da corrente socioeconómica predominante dos Anglo Saxões ou Anglo Celtas.      A miscigenação, em demonstração do velho ' machismo à Portuguesa ' teria de ser feita com aborígenes e outros estratos sociais imigrados e desajustados, ou na melhor das hipóteses com casamentos arranjados à distância e por 'précuração'-. Todo este afastamento de vínculos culturais, sociais e até mesmo linguísticos, se bem que afastando-os da origem não os aproximava da cultura do país de residência.      Se bem que haja alguns dados apontando para a presença de portugueses radicados a partir de 1800 (os célebres pilotos da Barra de Sidney, em Watsons’ Bay, são disso um exemplo), a colonização maciça registou-se apenas em plena década de 50. Existem casos isolados de outros que aqui fizeram fortuna e deixaram nome no século passado, mas pouca documentação foi ainda possível desentranhar dos labirínticos arquivos das Torres do Tombo da colonial Austrália.      Neste século, os emigrados eram gente humilde das regiões menos desenvolvidas do Império, habituadas a fainas laborais, da lavoura (de minifúndio) à pesca, ao artesanato, construção civil ou misteres como a carpintaria ou marcenaria. Nessa época, a Austrália vivia um período de rápida absorção de mão de obra barata e indiferenciada, com grande expansão do sector industrial (quer pesado, quer de manufactura), e despovoada, necessitava de enormes massas de gente, para cumprirem longas horas de trabalho árduo.      Havia quotas diárias de produção em ambientes opressivos, desinteressantes e desmotivadores, mas era um Eldorado comparado com as longas horas de trabalho mal remunerado a que os portugueses estavam habituados. Numa era em que a saúde pública e a segurança ainda não inventara o perigo dos asbestos (fibra de amianto), o envelhecimento precoce, o desgaste físico avassalador e o resto não preocupava os nossos conterrâneos. Era a ambição de amealhar, amealhar e amealhar. Comprar uma casa e trabalhar mais do que os outros para receber recompensas do patronato.      A mítica ânsia que levara outros a descobrir terras distantes como esta, impelia-os a sonhar que iriam regressar ricos e desafogados, e terem uma calma velhice na terrinha pequenina como o país onde nasceram. O afecto ímpar e a saudade sem tradução nos dicionários mundiais ligavam-nos a Portugal, mas os salários locais eram minas de ouro, quando comparados aos salários do então sólido e colonial Escudo.      As casas onde viviam não se comparavam às que para trás tinham deixado. Quando geograficamente solteiros, tinham o suficiente para enviar de retorno e sustentar as famílias ausentes, vivendo eles mesmo melhor do que jamais. Passados os primeiros e mui árduos anos, o poupado era suficiente para pagar a passagem traiçoeira de 50 dias no mar, à mulher e aos filhos, e embora as condições fossem melhores do que nas caravelas da Carreira das Índias, o medo não era menor.      A mira inesgotável do enriquecimento, esfumava-se em muitos casos, da mesma forma que a língua mãe, apenas falada nalguns lares, permeada de anglicismos e neologismos aportuguesados. Raros foram, os que, fruto da construção civil ou da pesca, venceram, embora haja casos de extremo sucesso económico. As novas que vinham falavam de um país em guerra consigo mesmo, anquilosado pelo conflito colonial de Africa, indeciso rumo a um futuro cada vez mais sombrio.      Os jornais eram raros e espaçados no tempo. Eram mais as cartas do João, do Toino e do Manel que mantinham o cada vez mais restrito cordão umbilical com os antípodas. Muitos deles haviam também emigrado, outros iam ensopando as terras de Africa com o seu sangue, defendendo o que políticos e militares lhes determinavam como futuro. Para além da saudade - esse sentimento tão exclusivo como o fado -, havia palavras de pobreza, tristeza, injustiças e atropelos, de exploração, do ritual do chapéu na mão, mais próprio do feudalismo do que na época em que tinham lugar.      Eram juradas vinganças, raramente executadas, e depois era a comparação com a vida na Austrália, dura sim, mas dinheiro à vista, trabalho árduo mas bem remunerado. Novos hábitos se iam adquirindo com outras gentes de línguas, costumes e tradições distintas: italianos, gregos malteses e jugoslavos, todos irmanados do sonho de conquista de uma vida melhor do que aquela que para trás ficara, na húmida despedida do paquete que os transportara.      Simultaneamente, com a aquisição de novos padrões económicos, veio a comenda de um certo reconhecimento social. Afinal, aqui eram todos iguais, patrões ou trabalhadores, e, se bem que houvesse certas diferenças que tornavam uns mais iguais que outros, nada que se comparasse ao feudalismo marrano de Trás os Montes.      Os emigrados sentiam-se bem melhor tratados e lentamente esqueciam e adulteravam as lembranças que detinham, rodeados por uma segunda geração que se estabelecia matrimonialmente fora do seu próprio grupo étnico, com outras línguas, raças e tradições. Os netos podiam ainda conservar nomes de cariz português, mas linguisticamente pouco mais do que apelidos ou nomes próprios sobreviviam, disformes ou anglicizados. O que tivera início como um sonho de se tornar rico, criara já raízes em terras estranhas e longínquas, se bem que a melancolia e o sempre distante sonho saudosista de regressar ainda aflorassem de quando em vez. CRÓNICA XVIª PARTE IIª [102] A FORMAÇÃO PROFISSIONAL REPRESENTA UMA FALSA AMBIENTAÇÃO DAS CAMADAS JUVENIS, ACRESCIDA DE UM CHOQUE CULTURAL INTER GERAÇÕES.      Nas décadas que se seguiram à grande leva de portugueses emigrados, milhares de outros foram engrossando este contingente. Os meios para tal utilizados eram os da reunião familiar de irmãos, pais, tios/as e sobrinhos/as, os quais estabeleceram novos núcleos familiares, mas a partir de 1970, o panorama alterou-se drasticamente. Não eram mais os Timorenses, mas sim os ex-habitantes de Moçambique, Angola, Macau e outras partidas do ex-Império a beneficiar do novo esquema.      Esta nova invasão caracterizava-se mais pelas características de novo-riquismo social e educacional, totalmente afastado e distinto das gerações anteriores. Recusando-se a mesclas tribais, este novo grupo, representou o maior desafio possível à comunidade existente. Como é que pessoas vindas de um mesmo país viveriam harmoniosamente ? Curiosamente, este desafio resultou num incentivo para a ' velha guarda ' começar a criar restaurantes, mercados, serviços, e até mesmo, jornais capazes de satisfazerem a avidez linguística e cultural dos recém chegados.      Novas confeitarias, restaurantes, talhos, lojas de vinhos proliferaram nos últimos anos para darem vazão às necessidades deste novo grupo, que não obstante falar o mesmo idioma, tinha necessidades diversas. Este influxo veio criar um elo motriz entre os que estavam e os que chegavam, e se bem que a comunicação inter grupos nem fosse de uma forma geral harmoniosa, veio dar uma vitalidade que outros grupos étnicos haviam sentido décadas antes.      Os novos ricos dentro do espectro socioeconómico e cultural dos emigrados, permitiu criar uma procura de bens e serviços, há muito sentidas, sem no entanto serem satisfeitas. Desta forma se elevou também o perfil dos que na Austrália primeiro arribaram, mas que finalmente estavam a ser postos numa posição de competição para uma maior porção do bolo comercial que se lhes deparava.      Em 1982, não havia nem um restaurante que se pudesse intitular de tipicamente português, apesar de haver dezenas de cozinheiros profissionais portugueses ao serviço de restaurantes australianos. Toda essa paisagem humana e profissional se transmutou rapidamente na última década.      O Portugal mítico é preservado numa visão estática, incapaz de analisar o discurso temporal e os valores e padrões da sociedade dita contemporânea. Sem o apoio, quiçá fútil, de entidades governamentais, não se constrói a ponte para o lado outro de culturas divergentes.      A reunião e o engrossar da comunidade foi feita através de uma reunião familiar, em que esposos/as, filhos/as, irmãos/as, pais, tios/as, e primos/as se iam reagrupando ao longo dos anos criando e reinventando novos núcleos familiares locais. Comum era a febre de melhoria económica, na maior parte dos casos, à custa do exercício profissional, totalmente inadequado e desajustado dos mesteres ou profissões que haviam trazido consigo.      A segunda geração, os filhos/as, frequentavam escolas de língua inglesa e aprendiam uma nova forma de estar na vida, ao mesmo tempo que em família se sentiam confrontados por pólos opostos e divergentes nas áreas culturais e tradicionais. Se, por um lado, havia a predominância paternal centrada em torno da família nuclear - una e indivisível -, com a sua cega obediência às gerações mais velhas - que por eles se haviam sacrificado e porfiado -, por outro lado não havia já a retribuição em tempos de reforma.      A tradição australiana de cada um de per si, levava os jovens a saírem de casa e a estabelecerem os seus próprios núcleos independentes e livres de interferência, deixando para trás as velhas gerações, incapazes de cuidarem de si e sem apoios que os mantivessem. Os pais e avós tornavam-se assim num pesado encargo cuja factura ninguém estava disposto a aceitar, e era com mágoa que o sentiam.      As novas gerações haviam saído para casamentos inter étnicos, perpetuando alguns valores e tradições, mas na maior parte dos casos abandonando totalmente o património cultural, em troca de um multiculturalismo tingido pela absorção de outros valores. E aqui a acomodação linguística, educacional e cultural criava tremendos fossos inter gerações.      Se bem que os exemplos de renegados abundem, existem também os outros que a todo o custo e - muitas vezes sem meios socioeconómicos ou culturais - tentam preservar essa ponte para o lado outro. As novas gerações educadas por padrões e valores anglo saxões ou anglo celtas estavam em permanente confrontação.      Entre a cultura iletrada ou semi-letrada dos progenitores e a sua, achavam inapropriada a saudade por algo que desconheciam ou que esparsamente haviam visitado. Não havia o elo de ligação a essa terra a que os pais chamavam sua, nostálgica e encarecidamente.      Colegas de estudo ou de trabalho, em grande parte fruto de emigrados, radicados entre seis a uma gerações, viviam uma liberdade jovem, sem preconceitos de classe ou casta, sem a inferioridade por títulos ou estratos sociais. Estava lançada a semente da discórdia, em que uns se recordavam de curtas excursões a Portugal, sem falarem já a língua materna, e de acharem o país atrasado e desinteressante.      Se bem que Portugal caminhe a passos rápidos para a sua total integração numa Europa nova, os contrastes, peculiares a sociedades estáticas, mantêm-se em inúmeros casos, os quais se tornam - como é óbvio - mais díspares em pequenas vilas e aldeias. As recordações de tais visitas eram de tal forma negativas com a lembrança da troça de mal falarem ou falarem mal a língua de origem, que o desejo de regresso se perdia.      Essa, ainda hoje, é a questão principal que - quem de direito - deverá endereçar, se quisermos manter este drama quixotesco a que chamamos o cordão umbilical com o nosso passado, e que no fundo, representa a razão primeira de aqui estarmos hoje. Existe a necessidade de afirmação de padrões e valores distintos dos tradicionais, e esses têm de ser aceites em vez de continuarmos a pretender que os valores das novas gerações sejam uma mera expressão ou acrescento do modus vivendi paternal.      Se o não fizermos, e o resultado é bem visível na Austrália contemporânea, será a de os filhos responderem aos pais num Inglês salpicado, ocasionalmente, de Português. Para eles já basta a discriminação por serem diferentes, sem saberem se são carne ou peixe, e por saberem que os seus pais são unidades distintas dos núcleos familiares dos seus antepassados. Como etnia híbrida em permanente confronto eles não são o fruto do desajustamento mas a sua própria manifestação.      Se a opção de regresso lhes é posta, o respeito ainda existente leva-os/as a aceder para prontamente regressarem desajustados. O regresso e o ajustamento necessário carecem de ser alvo de medidas psicosanitárias para que a perda da cultura e da língua se não tornem irreversíveis. As mais velhas gerações de emigrados da Madeira, Trás os Montes, Algarve ou Beiras, jamais se apercebem de que em Portugal proliferam as discotecas, o homossexualismo (declarado ou não), a droga, a prostituição e tudo o mais que era anátema quando primeiro deixaram o país.      Se bem que a Austrália atravesse a sua maior crise desde a anterior recessão, Portugal também tem crises e greves e já não é o idílico país que a memória transfixou. Para essas gerações, Portugal será sempre a família - una e indivisível -, católica e bem comportada, perpetuando tradições incutidas por avós e pessoas de antanho.      Feiras, procissões, o bom vinho, o futebol e todos os demais chavões típicos de um modus vivendi que há muito deixou de existir. A realidade quotidiana de um país onde a mulher, lentamente, se vai emancipando e, a família descobre formas menos nucleares de vida, e onde tudo o que vem da estranja mantém uma salubre atracção, escapa-lhes.      O Portugal em que mentalmente vivem, perdeu-se na memória dos tempos, quem sabe se num 25 de Abril, ou Março ou Novembro, em tempo de nevoeiro, à espera de um D. Sebastião. O refúgio nessa memória doentia pode ser útil como o fado que nos traz a memória de um povo perdido em Alcácer Quibir, mas que se recusa a aceitar a reencenação do filme de Manoel de Oliveira. Continuamos na vã glória, incapazes de decompormos as múltiplas parcelas do novo quotidiano.      O conflito geracional e educacional não se queda por isto, mas é bem mais profundo. Frequentar os mesmos cafés, ter as mesmas conversas faz parte do dia-a-dia do emigrado, numa recriação constante de mundos perdidos na memória dos tempos, ou a incapacidade de cada um se ajustar ao movimento da evolução?      No lado outro da realidade mantém-se a burocracia anquilosante dos serviços oficiais portugueses - quando comparada com a desburocracia existente na Austrália - e as inúmeras manifestações anuais para português ver e se reafirmar - ainda - como tal. O ciclo vicioso do caranguejo (de Josué de Castro) que pensa que está a progredir mas que não deixa de se alimentar dos dejectos humanos daqueles que o consomem. As quimeras de antanho perpetuadas para gerações vindouras. CRÓNICA XVIIª PARTE IIIª [103] O nacional clubismo transportado para terras do além mar perpetua visões salazaristas imunes a revoluções.      Em todos os locais onde os Portugueses se radicam - mais tarde ou mais cedo - surgem agremiações ou clubes, e a Austrália não foge a tal regra, tendo associações em todos os territórios e estados (à excepção da Tasmânia). Em Sidney, Nova Gales do Sul concentra-se de momento, pelo menos, 50% da população de expressão portuguesa, ou seja entre 30 a 35 mil almas. Clubes existem desde o Portugal Madeira Club ao Clube Português de Sydney, a pequenos grupos associativos que se dedicam a pessoas da terceira idade e os quais abarcam entre 50 a 3 mil pessoas, das quais nem todas são sócias no sentido lato do termo.      Se no passado estas associações operavam ilegalmente e à margem do sistema australiano, de momento a sua vasta maioria encontra-se oficialmente registada como entidades multiculturais. Se bem que todos ilegais em 1982, agora estão legais e dispõem de património imobiliário importante e de uma constante fonte de receitas.      A maior parte das actividades dos grandes clubes continua a ser o desporto (futebol, atletismo e bilhar) e a gastronomia, havendo no entanto algumas tentativas isoladas de promover a língua e a cultura. Desta forma existem ou existiram, em passado recente, seis semanários em Português em Sidney. Deles falaremos adiante.      Os clubes começam a ser mais competitivos, abrindo as suas portas para almoços e jantares, organizando festas que vão da eleição das Misses a grandes festas, promovendo artistas popularuchos portugueses. Se, no início eles eram pequenas extensões da adega provinciana, onde para além de um copo de bom vinho a martelo se podia discutir a bola, eles passaram a ser núcleos próprios, com actividades específicas e vida autónoma, se bem que disputas e tricas bairristas continuem a existir. A maior parte proporciona pratos regionais ou típicos em dias pré determinados (do leitão à Bairrada, à feijoada, ao bacalhau e às tripas e rojões). Estes clubes mantêm também - como forma substancial de sustento financeiro - o popular bingo (loto) e festas tradicionais como o Baile da Pinhata e outras ocasiões comemorativas.      Por outro lado, se bem que a comunidade tenha adquirido uma outra maturidade na última década e meia, isso deve-se mais à importação de emigrantes das ex-colónias de Angola e Moçambique do que a factores endógenos. Politicamente porém, a sociedade em si, e os clubes em particular, representam uma mera extensão da terra mãe, tal como era vista e sentida há vinte, trinta ou mais anos.      Dissidentes, que é como quem diz, aventureiros políticos são rapidamente atacados pela direita, centro e baixo, sendo denegridos e acusados de buscarem a vã glória pessoal. Novas iniciativas são muitas vezes bombardeadas, devido às pessoas que nelas se envolvem, independentemente do mérito das mesmas. Um exemplo típico foi o da criação de um centro de cuidados de crianças (infantário) e de um centro para a terceira idade, que não obstante inúmeras tentativas, demoraram anos a concretizar.      A mudança foi sempre difícil - depois da descoberta do caminho marítimo - mas assume o papel quase impossível de realizar quando a distância se situa a mais de 18 mil quilómetros do torrão pátrio. Embora se apele ao patriotismo das gentes, o direito a voto não é universal na Austrália. Até há poucos anos tudo era isento de impostos de importação para os novos imigrantes: do automóvel ao televisor, sem quaisquer taxas fiscais durante os primeiros doze meses. No reverso da medalha as severas punições com que somos contemplados ao regressar a Portugal, em termos fiscais e de burocracia.      A cultura e quejandos não têm um ponto alto nas prioridades destas agremiações, tal como acontecia no tempo da ' velha senhora ' e a cultura é mais necessária para se saber em que ano Gomes foi ' Bota de Ouro ', ou quando o Marco Chagas ganhou a última Volta, ou quando Rosa Mota desfeiteou a oposição australiana. Além disso a cultura é sempre a mesma coisa enfadonha que se repete aos 10 de Junho e onde se fala daquele Camões - que ninguém leu.      Essa cultura desnecessária para comprar casas, carros e amealhar fortunas, não serve à comunidade para resolver os seus problemas quotidianos. Nestas últimas décadas, novas hordas de emigrados de Angola, Moçambique, Macau e Portugal, trouxeram novos hábitos e necessidades. E assim, de dois semanários, incipientes e banais atingiram-se seis, e de um programa semanal de uma hora na rádio temos agora mais de seis alternativas em português, se não melhores, pelo menos mais variadas.      Os livros enviados pelos senhores e senhoras da cultura em Portugal costumavam ficar a apanhar pó, mas desde que foi inaugurada a delegação da Secretaria de Estado da Emigração, eles vão de facto para escolas e agremiações. As comunidades de fala portuguesa radicadas na Austrália queixavam-se de que os livros enviados eram sempre relativos a pessoas que viveram há um ror de anos e falavam de História ou de políticos que lhes eram desconhecidos, em vez de coisas levezinhas para ler, saber das grandes estrelas do cinema e de pessoas 'realmente importantes' .      Nos últimos anos a direcção tomada foi diferente, e hoje existe já uma grande variedade de temas impressos e audiovisuais que permitem dar uma outra imagem do país que ficou. Em tempos de antanho, pensam os mais antigos emigrados, uma pessoa era nada e criada para trabalhar, sem tempo de aprender a ler e escrever, e isso foi t.q.b. (tanto quanto basta) para virem até à Austrália, enriquecerem e serem mais importantes do que pessoas que só utilizavam palavras caras nas suas terras de origem.      Existe uma pequena minoria aguerrida que celebra o 25 de Abril, mas teríamos dificuldades em organizar um jogo de futebol entre eles, porque são tão diminutos. Os outros acham que o 25 de Abril só veio criar poucas vergonhas e tudo o mais que os seus familiares se queixam vai já para muitos anos.      Se bem que alguns admitam que, se tivessem estudado mais poderiam estar ainda melhor, outros reconheceram já que aqui atracaram com uma maleta cheia de ilusões e sonhos, sem falarem uma palavra desta língua australiana a que chamam inglês, e rapidamente começaram a trabalhar sem sentir a falta de estudos. E uma coisa de que se não sente a falta, para nada serve. ' Quanto mais ignorantes, mais felizes ' é ainda um refrão infelizmente aplicável a vastos sectores de emigrados. Nesta dicotomia entre maiorias e minorias se perpetuam dois países distintos de emigrados, todos falando português, tal como Eça de Queiroz dizia há mais de um século. Uns falam de futebol, outros discutem a metalinguística de Roland Barthes.      Acontecimentos como este seminário perpetuam a impressão de que algo está a ser feito em nome dos que emigraram, mas é na Austrália, fruto dos biliões de dólares que o governo federal e os estaduais, despendem anualmente, que há dinheiro para manter viva a língua e cultura portuguesas, estações de rádio e semanários. Desta forma, o país adoptado não só beneficia da riqueza cultural e linguística dos seus novos habitantes como ainda lhes proporciona os meios financeiros para o fazerem.      O que falta é uma política activa e dinâmica, capaz de atrair os emigrados sem recorrer aos velhos chavões do folclore e dos feriados nacionais. Aliás na era da electrónica e da aldeia global falta-nos a imagem constante e permanente de Portugal que a RTPi ainda não traz, a inundar os ecrãs do canal de rádio e televisão multicultural SBS. Aliás os gregos, italianos, espanhóis e malteses já o têm todas as semanas. Porque esperas Portugal?      Tantos e bons filmes foram feitos desde 1974 (e antes), mas o que chega à nossa televisão multicultural na Austrália restringe-se a ' Dinas, Djangos ' e quejandos. Claro que de quando em vez vem um Gabriel Cardoso, a Banda do Casaco ou outros para o 10 de Junho. Entretenimento para as massas ou a perpetuação da mediocracia? PARTE IVª Neologismos, ou a permanente criatividade linguística do emigrado?      Se nos lembrarmos do permanente enriquecimento neolinguístico do nosso falar lusíada, ocorrido na década de 60 fruto de emigrados a salto - ou não -, para as Franças dos nossos sonhos, poderemos rapidamente criar paralelos com o que se passa aqui nos antípodas. Neste capítulo, muito haveria a dizer, mas restringir-me-ei a uma mão cheia de palavras definitivamente adoptadas pela comunidade local e enriquecendo o seu linguarejar.      Esta inserção de terminologia mesclada de Português e Inglês no contexto quotidiano deve-se a vários factores: – falta de conhecimentos suficientes do idioma do país de adopção – necessidade de comunicação com as gerações nascidas e educadas neste país de adopção, cujo domínio do Português é demasiado rudimentar para estabelecer diálogos profundos – corrupção de terminologias e vocabulários predominantes nos locais de trabalho, capazes de estabelecer a ponte para o lado outro da incompreensão mútua – degeneração linguística, fruto das regiões de origem, e assimilada pelos órgãos de comunicação local e personagens dirigentes de organizações comunitárias.      Tais neologismos distinguem-se dos que, fruto de tecnologias, mass media internacionais e telenovelas têm aumentado o léxico português: – marquéte é loja ou mercado (market) – xópe, ao contrário do brasileiro chope ou cerveja, é loja pequena (shop) – barrista ou bairrista, não é ser-se do mesmo bairro ou subúrbio, mas sim advogado (barrister) – levar o saco é ser-se despedido (get the sack) – bisna é negócio ou comércio por conta própria (business) – ápeséte é estar preocupado/