KOREAEBOOKDOCUMENT1.3.0Cronicas Austrais - 1974-1998J. Chrys ChrystelloeBooksBrkasileBooksBrasil]B Crónicas Austrais - 1974-1998 - J. Chrys Chrystello Edição eBooksBrasil Versão para eBook eBooksBrasil.com Fonte Digital Documento do Autor Copyright: © 2002 J. Chrys Chrystello ÍNDICE O Autor CRÓNICA 0 PARA UMA CURTA HISTÓRIA DA AUSTRÁLIA (OU DE COMO A DESCONHECER MENOS I PARTE: O CONTINENTE-ILHA II PARTE: O POVOAMENTO BRANCO III PARTE: OS MEIOS DE TRANSPORTE IV PARTE: ORGANIZAÇÃO ADMINISTRATIVA E CONDIÇÕES SOCIAIS V PARTE: VIDA CULTURAL E SUAS INSTITUIÇÕES CRÓNICA I DA VIDA DOS MACAENSES EM TERRAS DO DOWN UNDER CRÓNICA II Parte I: ASIANIZAÇÃO, IMIGRAÇÃO E RACISMO PARTE II: UMA CRISE DE IDENTIDADE NACIONAL AUSTRALIANA 1. A HERANÇA DE BLAINEY 2. O RELATÓRIO FITZGERALD 3. O PAÍS DO CROCODILO DUNDEE ESTÁ DOENTE 4. A RAIVA INTELECTUAL E A ÁSIA 5. “A BATALHA DOS BATALHADORES” 6. DÊ VIVAS À ALEGRIA 7. BEM-VINDOS AO PARAÍSO PROMETIDO: a outra face da Austrália CRÓNICA III A VIDA CULTURAL NA AUSTRÁLIA PARTE 1:- O DESERTO PARTE 2- O 10 DE JUNHO PARTE 3: LITERATURA PORTUGUESA VISITA A AUSTRÁLIA CRÓNICA IV Parte I: A DESCOBERTA DA AUSTRÁLIA PELOS PORTUGUESES PARTE II FLINDERS DEU NOME À AUSTRÁLIA PARTE III: FRANCESES NA AUSTRÁLIA CRÓNICA V ONDE SE FALA DA AUSTRÁLIA, DE PORTUGAL, DO AUSTRALIANISMO DAS GENTES E DO MAIS, QUE ADIANTE SE VERÁ CRÓNICA VI ONDE SE FALA DA EXPOSIÇÃO TERRA AUSTRALIS, OU, A POLÉMICA DESCOBERTA DESTE CONTINENTE 1. OS PRIMEIROS CONTACTOS 2. OS ANTECEDENTES GEOGRÁFICOS 3. FERNÃO DE MAGALHÃES E AS ÍNDIAS ORIENTAIS 4. OS MAPAS DE DIEPPE 5. A NOVA GUINÉ 6. A COMPANHIA HOLANDESA DAS ÍNDIAS ORIENTAIS CRÓNICA VII O PRIMEIRO GOVERNADOR DA AUSTRÁLIA LUTOU PELA MARINHA PORTUGUESA CRÓNICA VIII As palavras nas paredes ou ainda a asianização da Austrália 1. A ACÇÃO NACIONAL 2. A OUTRA FACE DOS ASIÁTICOS NA AUSTRÁLIA 3. A ESCALADA DA DIREITA LUNÁTICA 4. PARA ALÉM DAS FRANJAS LUNÁTICAS DE DIREITA 5. OS ASILADOS NO LIMBO SÃO NON-PERSON 6. CARNE PARA IMPORTAR, CASAMENTOS PARA EXPORTAR CRÓNICA IX A AUSTRÁLIA NO ANO 2000 - A IDADE DO BRONZE O DECLÍNIO DA RIQUEZA INDIVIDUAL: de 1 a 21 país no ranking mundial, em cem anos. 2. A IDADE DO BRONZE 3. O FUTURO 4. ALTERNATIVAS PROVÁVEIS? CRÓNICA X OS ABORÍGENES - Parte I (de 9) I. IGNORÂNCIA, ÁLCOOL, DEUS E AS BOAS INTENÇÕES CRÓNICA XI Partes II a IX: OS ABORÍGENES DE NOVA GALES DO SUL PARTE 1 I. O MEIO AMBIENTE E VESTÍGIOS ARQUEOLÓGICOS II. CERIMÓNIAS TRADICIONAIS III. A ARTE IV. HABITAÇÃO E FERRAMENTAS V. PESCADORES - CAÇADORES e porque não agricultores? VI. O PAPEL TRADICIONAL DA MULHER VII. A HERANÇA ABORÍGENE, PASSADA E PRESENTE VIII. AS MISSÕES IX. AS INICIAÇÕES E RITOS CRÓNICA XII A AUSTRÁLIA E SUAS COLONIZAÇÕES: Dos Aborígenes aos Ingleses CRÓNICA XIII I. A LEI MARCIAL DE 1824 II. O SEGREDO (SECRETO) DE WILLIAM DAMPIER III. A TEORIA DA TERRA NULLIUS IV. A AUSTRÁLIA NO BICENTENÁRIO (1988) CRÓNICA XIV PARTE I A IDADE DAS PEDRAS E DOS HOMENS PARTE II O TÚNEL DO TEMPO CRÓNICA XV A ACULTURAÇÃO DO EMIGRANTE E A MISCIGENAÇÃO DE CULTURAS PARTE I: OS EMIGRANTES PORTUGUESES NA AUSTRÁLIA CRÓNICA XVI PARTE II: A FORMAÇÃO PROFISSIONAL REPRESENTA UMA FALSA AMBIENTAÇÃO DAS CAMADAS JUVENIS, ACRESCIDA DE UM CHOQUE CULTURAL INTER GERAÇÕES. CRÓNICA XVII PARTE III: O nacional clubismo transportado para terras do além mar perpetua visões salazaristas imunes a revoluções. PARTE IV: Neologismos, ou a permanente criatividade linguística do emigrado? CRÓNICA XVIII PARTE V: Associativismo, comunicação social, apatia, naturalização e a almejada viagem de retorno a uma pátria imaginária. CRÓNICA XIX 100 ANOS DE EMIGRAÇÃO PARA A AUSTRÁLIA 1886-1986 CRÓNICA XX OS PARAÍSOS DO PRAZER - Da atracção das ilhas sobre os corpos, aos sentimentos românticos e às motivações socio-ocupacionais das classes economicamente desfavorecidas CRÓNICA XXI PARTE I: OS TIMORENSES NA AUSTRÁLIA - Da invasão indonésia até à Austrália, um percurso de 22 anos CRÓNICA XXII PARTE II: “ENTERRADOS VIVOS” filme sobre a saga de Timor CRÓNICA XXIII A BACIA DO PACÍFICO NO SÉCULO XXI 1. A AUSTRÁLIA NA PRIMEIRA PESSOA 2. DE NAÇÃO ABORÍGENE ISOLADA A COLÓNIA 3. A DIVERSIDADE NUMA SOCIEDADE MULTICULTURAL 4. SEGURANÇA SOCIAL 5. DIREITOS HUMANOS 6. O DESAFIO AUSTRALIANO 7. RECURSOS NATURAIS E DESENVOLVIMENTO 8. VIDA ANIMAL 9. O AMBIENTALISMO 10. A AUSTRÁLIA VERDE 11. A DEMOCRACIA AUSTRALIANA 12. A CONSTITUIÇÃO 13. O GOVERNO FEDERAL E O PARLAMENTO 14. GOVERNO ESTADUAL E GOVERNOS LOCAIS 15. O SECTOR JUDICIAL 16. PARA QUANDO A REPÚBLICA AUSTRALIANA? 17. O SÉCULO XXI PREPARADO POR REFORMAS ECONÓMICAS 18. AS RIQUEZAS NATURAIS DA AUSTRÁLIA 19. DESENVOLVIMENTO MINERAL 20. A INDÚSTRIA RURAL 21. A VIRAGEM DA DIPLOMACIA E DAS RELAÇÕES COMERCIAIS 22. REFORMAS COMERCIAIS 23. UMA CULTURA EM CRESCIMENTO 24. EDUCANDO PARA O FUTURO 25. RELEVÂNCIA DA AUSTRÁLIA PARA A EUROPA E PORTUGAL   CRÓNICAS AUSTRAIS 1974-1998 J. CHRYS CHRYSTELLO Em Sydney, Austrália O Autor      J. Chrys Chrystello prestou serviço no exército colonial português sendo destacado para o CTIT (Comando Territorial Independente de Timor) onde chegou em Setembro 1973, regressando a Portugal dois anos mais tarde. Começou então a escrever o seu livro “TIMOR LESTE 1973-75, O DOSSIER SECRETO” antes de rumar a Macau em 1976 e posteriormente à Austrália onde se fixou e naturalizou.      Ao longo de mais de três décadas de jornalismo político, trabalhou em rádio, televisão e imprensa escrita, tendo sido correspondente estrangeiro durante vários anos da agência noticiosa portuguesa ANOP/LUSA, da RDP/Rádio Comercial, TDM (Macau), J. N., Europeu, PÚBLICO, tendo sido publicado em inúmeros jornais e revistas em todo o mundo, para além de ter escrito guiões de filmes e documentários australianos sobre Timor. Entre 1976 e 1994, data em que se reformou do jornalismo activo, esforçou-se por divulgar a saga do povo timorense que o mundo (incluindo a Austrália e Portugal) teimava em não querer ver.      Tendo-se interessado pela linguística ao ser confrontado com mais de 30 dialectos em Timor, descobriu na Austrália provas da chegada ali dos Portugueses (1521-1525) mais de 250 anos antes do capitão Cook, e da existência de tribos aborígenes falando Crioulo Português (herdado quatro séculos antes).      Membro Fundador do AUSIT (Australian Institute for Translators and Interpreters) e Examinador da NAATI (National Authority for the Accreditation of Translators and Interpreters) desde os anos 80, e pertencendo a vários órgãos internacionais congéneres, Chrys dedicou a última década à sociolinguística e tradução, tendo apresentado trabalhos em dezenas de conferências internacionais (da Austrália a Portugal, Espanha, Brasil, EUA e Canadá) onde os temas da língua e cultura portuguesas estão sempre presentes, tendo concluído em 1999 o seu Master of Arts (mestrado com Major in Applied Social and Communication Studies.) sendo concorrente anual à Translation Competition, do British Centre for Literary Translation (British Comparative Literature Association) , University of East Anglia, Inglaterra. 2002 assiste agora à publicação do seu livro de Crónicas Austrais cobrindo a sua fase australiana pura de 1974 a 1998. CRÓNICA 0 PARA UMA CURTA HISTÓRIA DA AUSTRÁLIA (OU DE COMO A DESCONHECER MENOS) I PARTE O CONTINENTE-ILHA        A Austrália caracteriza-se basicamente por ser um vasto continente de 8 000 000 km quadrados de baixo relevo orográfico, isolada, com grande número das suas terras, sendo áridas, com uma fauna e flora bem diversas das encontradas em diversos outros locais do globo. O seu isolamento de outras massas de terra, explica até certo ponto a sua fauna e flora, enquanto o relevo pouco pronunciado se poderá atribuir à erosão do vento, das chuvas, e do calor durante as épocas geológicas em que a massa continental esteve acima do nível médio das águas.      Para muitos, a Austrália foi chamada a última das terras pois que isso se deveu ter sido das últimas que foram ‘ descobertas ’ pela civilização ocidental Dezenas de milhar de anos antes das viagens de Abel Tasman e James Cook ao Pacífico Sul, já os aborígenes haviam coberto a distância que separa a Ásia da Austrália, tendo-se disseminado pelo continente e pela Tasmânia, para não falarmos aqui das digressões portuguesas pela área...      O início daquilo a que muitos chamam a nova era civilizacional, poderá situar-se em 1788, aquando da chegada do Capitão Arthur Phillip, da Real Marinha Britânica (e do Almirantado Português na América do Sul), à frente da 1 Armada, quando na época existiam cerca de 300 mil aborígenes.      A população actual ronda os 18 milhões, dos quais cerca de 65% são de extracto anglo-celta. O isolamento do país tem permitido um desenvolvimento económico ímpar, dado que a norte se encontra a Papua Nova Guiné (até 1975 administrada pela Austrália), a leste a Polinésia e Melanésia, a oeste a Indonésia e a sudeste outro país da Commonwealth (Comunidade dos Países de origem britânica), a Nova Zelândia, e, os laços de ligação ao país de origem são distantes (19 mil km do Reino Unido e 12 mil km da costa ocidental dos EUA).      A Austrália é uma federação tal como os EUA e o Canadá, constituída por seis estados (Nova Gales do Sul, Vitória, Austrália Meridional, Queenslândia, Austrália Ocidental e Tasmânia), e dois territórios (o Território Norte e o do Capital Federal), para além de algumas possessões insulares: as ilhas Cocos-Kealing, Norfolk (autónoma excepto na defesa e assuntos estrangeiros), Ashmore, Cartier, ilhas do Mar de Coral, Heard, McDonald e o território da Antárctica Australiana.      Para além de ser o continente com menos relevo, a Austrália é também o mais seco de todos. Vista do ar, a paisagem varia entre o tom desértico avermelhado e várias outras tonalidades, sendo, no entanto, possível voar 3 mil km de Sydney a Darwin, no norte, sem se encontrar vestígios de civilização, nem uma cidade, uma vila ou aldeamento, o mesmo se podendo passar em relação a Perth, no oeste, separado de Sydney cerca de 3 200 km. De facto, o planalto central e ocidental são tipicamente desérticos. Como sempre, as aparências podem enganar, encontrando-se na Queenslândia e em Nova Gales do Sul, a maior indústria lanífera do mundo, enquanto nas zonas mais áridas e inabitadas existem enormes fontes de riqueza mineral.      O povoamento branco situou-se preferencialmente, na zona costeira oriental, até ao limite da cordilheira australiana (“The Great Divide Range”), que se estende desde o Cabo Iorque, no norte da Queenslândia até ao sul do continente, na Tasmânia. A principal razão para tal concentração populacional deveu-se sempre a um aspecto de fertilidade associado à zona costeira que se alarga entre 30 e 300 km para o interior, em socalcos que jamais excedem os 1500 metros de altitude. Essa fertilidade costeira está, porém, dado o seu uso intenso e continuado, a ceder lugar a uma nova forma de desertificação dos solos, ora tornados áridos.      Ainda hoje, para a maioria dos australianos, todas as regiões para além da cordilheira são considerados como “outback”, com toda a gama de conceitos míticos hostis a uma penetração populacional intensa. É ainda, a zona de fronteira, área de aventura e esperança, com esparsa população, já que esta se concentra basicamente na costa leste e em alguns pontos da costa sul e ocidental. II PARTE O POVOAMENTO BRANCO      A exploração pelo homem branco não foi, nem é, fácil neste enorme continente-ilha. Para os primeiros colonos nem mesmo a costa oriental era de molde a permitir o seu estabelecimento, dada a existência da Grande Cordilheira Central (“The Great Divide Range”), entre 30 e 300 km de distância da costa.      Embora pouco houvesse a temer dos aborígenes, a terra em si era hostil e só na segunda metade deste século, com o advento e propagação do automóvel, do avião e das comunicações via rádio, se reduziram as condições de isolamento. Apesar disto, ainda é vulgar encontrarem-se famílias a mais de 10 ou 30 km umas das outras e a mais de 80 ou 100 km (ou centenas de km nalgumas regiões) do aldeamento mais próximo, embora estejam ligadas por estradas (normalmente) asfaltadas e sistemas de comunicação via rádio ou satélite.      Desde sempre se assistiu ao crescimento de duas espécies de povoamento rural - uma constituída pelos ‘graziers’ [1] e outra pelos ‘farmers’ [2] (ou farmeiros como os portugueses aqui os designam), encarregando-se do cultivo de vastas áreas com 100 mil ou mais acres.      Por causa das distâncias e da reduzida população, jamais se assistiu aqui ao fenómeno rural da aldeia no sentido típico que os europeus dão ao termo, antes se podendo verificar a existência de cidades servindo vastas áreas, e, se bem que muitas dessas cidades não tenham mais do que a rua principal, um hotel, um armazém, certo é que existem centros urbanos cujo crescimento os elevou já a nível de grandes centros urbanos e comerciais.      Um dos paradoxos da Austrália é o de mais de 60% da população viver em sete cidades e, dos restantes, 25% vivem em pequenos centros urbanos e 15% em áreas rurais. A densidade populacional (a mais baixa do mundo) é de menos de 4 habitantes por milha quadrada (4 hab. por cada 2,5 quilómetros quadrados, ou seja 1,6 habitantes por cada quilómetro quadrado).      Sydney e Melbourne detêm 43% da população do país (7,5 milhões) e, embora nenhuma destas cidades seja a capital federal, certo é que se podem comparar sem problema a grandes metrópoles como Paris e Londres ou Nova Iorque, como centros de comércio e indústria. Camberra, a capital, criada apenas em 1913 tem, no entanto, tido um ritmo de crescimento notável. Camberra, com cerca de 400 mil habitantes, tal como tantas outras cidades criadas artificialmente, carece de uma razão de ser, para além da sua importância como centro político do continente, mas, ao mesmo tempo, reveste-se de um manto de cosmopolitismo, sujeito a um planeamento estrito mas modelar.      A população embora, ainda, maioritariamente anglo-celta, apresenta já mais de 35% de imigrantes, na sua maioria europeus e/ou ocidentais (24%), sendo os restantes de origem árabe e asiática (11%). Os aborígenes representam apenas 1,3% da população, dos quais apenas 0,3% são de descendência directa e pura dos primeiros habitantes do continente, com a sua vasta maioria miscigenada. Apesar das políticas proteccionistas iniciadas a partir de 70, continuam, porém, a ser vítimas do círculo vicioso da pobreza, da ignorância, da doença, e com elevadas taxas de mortalidade infantil: 3,5 vezes superior à dos brancos...      Embora se assistisse nas últimas décadas a várias medidas políticas destinadas a repor um certo sentido de justiça social em relação a este grupo, certo é que continuam a carecer de direitos generalizados, fruto de duas centenas de anos de predominância branca e de intolerância. Com uma taxa de crescimento populacional de 2,3% e, com uma restrição pronunciada da imigração na década de 90, a população australiana não vai conseguir atingir os 20 milhões no ano em que recebe, em Sydney os Jogos Olímpicos 2000. III PARTE OS MEIOS DE TRANSPORTE      Devido às distâncias elevadamente grandes e à reduzida população da Austrália, todos os meios tradicionais de transporte se estabeleceram no século passado, quando o país era, ainda, um conjunto de colónias britânicas, separadas entre si, antes de, em 1901, se juntarem numa Federação.      O sistema ferroviário, então implantado era independente para cada uma das colónias, e, só em 1970 se tornou viável ir de Sydney a Perth sem ter de mudar, várias vezes, de comboio, devido à uniformização das dimensões dos carris. Estes haviam sido implantados, em cada estado, com diferentes medidas, para evitar ‘invasões’ ou ‘anexações’. A densidade da rede ferroviária é de 4,3 km por cada mil pessoas, enquanto que existem 350 veículos automóveis por cada mil habitantes. Devido à inconstância dos ciclos fluviais, os transportes aéreos vieram na década de 70 a constituir a grande alternativa, tendo, então, registado um total de passageiros na ordem dos seis milhões anuais.      De um total de um milhão de quilómetros de estrada, cerca de 200 mil são asfaltados e 500 mil em terra batida. As auto-estradas que ligam Sydney a Brisbane (Pacific Highway) e a Melbourne (Hume Highway) são insuficientes para o volume de tráfico que as utiliza.      A nível de experiências devem contar-se as viagens de carro entre Darwin no Território Norte e Adelaide, capital da Austrália Meridional, ou entre esta cidade e Perth, na Austrália Ocidental, que ficam para sempre retidas na retina do viajante, ou por comboio a do Grande Expresso GAN, entre Perth e Sydney, via Adelaide e Melbourne.      As ligações ferroviárias, lançadas no final do século passado continuam a ter uma importância fundamental, embora com os seus elevados custos tenham de se debater com a progressiva importância das ligações aéreas e rodoviárias.      A nível portuário, existem 66 portos, a maioria deles na costa leste. Para além de Sydney, que nos anos 70, orçou uma capacidade de 17 milhões de toneladas anuais, são de citar ainda Melbourne (Vitória), Port Kembla (Nova Gales do Sul), Fremantle (Austrália Ocidental), Geelong (Vitória), Whyalla e Brisbane (Queenslândia) e Port Adelaide na Austrália Meridional, os quais movimentavam na década passada mais de 30 milhões de toneladas importadas e 80 exportadas.      A Austrália possui apenas uma companhia de navegação aérea internacional a QANTAS (Queensland and Northern Territory Airways), e a nível interno dispõe da Australian Airlines e Ansett, para além de pequenas companhias regionais de pequeno movimento. Todo o transporte aéreo sofreu uma revolução na década de 80, quando passou de estritamente regulamentado para uma fase de liberalização, que resultou no aparecimento de novas companhias, algumas das quais, como a Compass, foram à falência. De uma forma geral, porém, os custos de viagens aéreas baixaram entre 20 a 30% nalgumas rotas, havendo ocasiões em que uma viagem de ida e volta entre as duas maiores capitais, Sydney e Melbourne, custa 200 dólares australianos (aproximadamente 25 contos). IV PARTE ORGANIZAÇÃO ADMINISTRATIVA E CONDIÇÕES SOCIAIS      De uma forma simplista, pode dizer-se que, a Austrália é regida por um sistema político semelhante ao britânico e americano. Por um lado, um sistema monárquico de que é líder a rainha da Grã Bretanha, por outro, uma Federação baseada numa Constituição que apenas pode ser alterada por referendo e que divide os poderes entre os diversos estados e o governo federal. Sendo uma monarquia sujeita a um monarca não residente, a Austrália tem, no Governador Geral a sua entidade máxima, que, em casos tais como a grave crise constitucional de 1975, assume as rédeas do poder [3] . Para além do Governador Geral existem governadores estaduais com poderes semelhantes.      Assuntos, tais como a defesa, política externa, imigração, fisco e comunicações estão normalmente confiados ao poder federal, sendo os restantes, da jurisdição dos estados. Estes poderes derivam directamente da origem colonial dos diferentes estados e mantiveram-se imutáveis até à 2 Grande Guerra, altura em que o governo federal, a título transitório, que se haveria de tornar definitivo decidiu encarregar-se da colecta dos rendimentos fiscais, ficando, porém, com o encargo de os distribuir posteriormente.      As eleições, onde o voto é obrigatório, são feitas segundo um modelo preferencial para o Senado (Parlamento), em que cada pessoa vota nos candidatos dando-lhes uma ordem de preferência. Depois do apuramento dos votos primários (directos), contam-se os restantes votos de acordo com as preferências dos eleitores e assim são eleitos os senadores através do voto secundário dos eleitores, o que pode implicar que algum dos eleitos pelas preferências dos eleitores acabem com muitos mais votos do que os eleitos por voto directo primário. Para a Câmara Baixa (House of Representatives), são escolhidos 60 senadores (10 por cada estado) de acordo com a sua representação proporcional no eleitorado.      Como partidos políticos existem o Trabalhista (ALP), o Liberal (LP), o Nacional (NP) - que deriva do Country Party (este apenas activo ainda como tal no Território Norte), os Democratas (Australian Democrats) que são derivados duma ala dissidente dos trabalhistas e os Verdes. Para além destes, todos com representação parlamentar, existe ainda o Partido Comunista Australiano cuja influência parlamentar é nula, mas que se encontra bem arreigado no seio de organizações sindicais.      A lei australiana baseada no Direito Comum Inglês é administrada pelos estados, e cada um possui um Supremo Tribunal (Estatal). Para além destes existe ainda o Supremo Tribunal (Federal) que tem jurisdição máxima sobre os tribunais estatais e federais.      O Exército Australiano , se bem que de diminutas proporções, tem uma longa história de actos de bravura, abarcando os combates na província turca de Gallipoli, durante a campanha dos Dardanelos na 1 Grande Guerra, às intervenções na 2 Guerra na Malásia, Coreia, Burma (Birmânia ou, mais recentemente, Myanmar), Timor e Vietname. O mesmo se poderá dizer, em mais reduzida escala, da Real Força Aérea e da Real Marinha.      Sendo a Austrália um país de bem estar social (Welfare State), embora não tanto como alguns países da Europa, proporciona vários tipos de pensões de velhice, invalidez, viuvez, subsídios de desemprego, de doença, de maternidade, de família, e muitos outros, embora a tendência desde a crise económica de 1987 tenha sido - cada vez mais - a de reduzir o total de beneficiários de um sistema altamente generoso. Na década de 70, quando eles foram aumentados pelos trabalhistas, sob o slogan de que toda a gente tem direito a alguma coisa (do governo) tais subsídios e pensões eram dos melhores do mundo, quase idênticos aos suecos, que tinham aquele que era, na altura, considerado como o melhor sistema social. Por outro lado, existe uma forte tradição de que cada pessoa deve construir ou comprar casa própria, existindo inúmeros sistemas de apoio a tal, bem mais generosos do que sistemas idênticos introduzidos nas últimas décadas em Portugal.      A educação é um encargo de cada estado, gratuito ao nível primário e secundário, e semi-subsidiada a nível terciário. Paralelamente, existe um sistema de ensino proporcionado pela Igreja (Católica Romana) bem mais dispendioso do que o estatal e que beneficia de subsídios governamentais. Existem cerca de duas dezenas de universidades e inúmeros estabelecimentos de ensino politécnico terciário, disseminados pelos estados e territórios.      O esquema de saúde é gratuito para toda a população, sob as normas do Medicare, que cobre em 85% todas as despesas, e se uma pessoa despender num ano mais do que um certo montante, o Medicare reembolsa-o dessa diferença. Existem médicos que cobram directamente ao Medicare e para os quais os pacientes nada têm de pagar, outros, porém, preferem cobrar aos doentes que depois são reembolsados pelo Medicare. As comparticipações do Medicare excluem próteses dentárias e oftalmológicas (mas as consultas estão cobertas). Existem vários seguros de saúde privados, com inúmeras variações de medicina privada e tratamento hospitalar público e privado, mas o seu custo, é, de uma forma geral, elevado.      O sistema de fixação salarial é por arbitragem e tem servido os interesses do patronato e das classes trabalhadoras, embora ocasionalmente se registem greves tentando forçar a resolução de disputas industriais. Apesar de muitas mudanças ao sistema arbitral introduzidas por governos conservadores e trabalhistas, certo é que a Austrália deixou de ser o país das greves constantes, como era na década de 70 e até finais da de 80. V PARTE VIDA CULTURAL E SUAS INSTITUIÇÕES      Durante os primeiros cem anos de ocupação branca do continente, a vida artística e cultural foi, decerto, negligenciada, pois então estavam todos muito mais interessados em explorar e colonizar do que em dedicar-se às gloriosas artes.      A primeira manifestação de uma certa consciência artística surge na última década do século XIX através da revista de Sydney, “The Bulletin” (ainda hoje existente e, integrando a versão australiana da Newsweek). Fundada por um certo número de escritores e artistas de visão radical e equalitária, eles foram precursores de um liberalismo nacionalista. Dentre eles citaremos Tom Collins (1843-1912), autor de livros como “Such is life (Assim é a vida)” em 1903, Henry Lawson (1867-1922) e o artista gráfico Norman Lindsay (falecido em 1970). Depois deste movimento inicial, apenas se poderá considerar como válida, a actividade desenvolvida no pós guerra, em que o isolamento, quer do Reino Unido quer da Europa, aliado à sofisticação e crescimento urbano providenciaram um interessante estímulo, nomeadamente na pintura e poesia.      A partir de 1954, com a atribuição de subsídios governamentais, o vigor da escrita, pintura e música começaram a fazer-se notar, não obstante um pesado regime de censura a obras estrangeiras.      O primeiro campo artístico a atrair as atenções mundiais foi o da pintura, celebrizado por nomes tais como Drysdale, Boyd e sobretudo Sydney Nolan, quer pela sua criatividade inovadora, quer pela sua reprodução dos mitos e da paisagística australiana, quer mesmo pelo impacto que tiveram nos centros mundiais da Arte.      Na poesia, sobressaem Alec Hope e James MacAuley (ambos professores de literatura). Ainda na área das letras, deveremos incluir o mais conhecido de todos os escritores contemporâneos deste continente: Patrick White, autor de obras tais como “The Tree of Man”(1955), “Voss”(1957), “Riders in the Chariot”(1961), algumas das quais já traduzidas para a língua lusa.      Nos anos 70 surgiram vozes clássicas tais como as da Dama Nellie Melba e Joan Sutherland, que durante anos se mantiveram no topo do cartaz de diversas peças de ópera mundial. Igualmente importante para este contributo artístico, são a criação, na mesma época, do Centro de Artes de Vitória, em Melbourne, e da Opera House em Sydney, concebida e quase totalmente executada pelo ainda hoje celebrado arquitecto dinamarquês Jern Ützon, obras que contribuíram de forma bem activa para o desenvolvimento da ópera, ballet e teatro.      A nível de instituições, as mais importantes surgem em 1954: a “Companhia Nacional Australiana de Ópera” e a “Companhia Australiana de Bailado”. Em 1967, foi criado o “Instituto Australiano das Artes”, que anualmente recebe cerca de três milhões de dólares (aprox. 45 mil milhões de Escudos). depois, foi criada a “ABC” [4] responsável pela radiodifusão e televisão, o “Australian Music Board”, o “Commonwealth Art Advisory Board” e o “Commonwealth Literary Fund”, que mais tarde se conglomeraram no “Australian Council for Arts”.      Em 1967 iniciou-se a construção da Galeria Nacional em Camberra, que embora incapaz de competir com idênticas organizações europeias e norte-americanas, se concentrou mais na arte do Pacífico, Ásia e Austrália.      A nível da imprensa convirá referir o “The Sydney Morning Herald”, em Sydney, e o “The Age”, em Melbourne com mais de 135 anos de existência, um único jornal nacional, o “The Australian”, e os semanários “The Bulletin” (já atrás mencionado) e o “Australian Financial Review”.      A título de curiosidade refiram-se as suas tiragens em Dezembro 1996 [5] :
JORNAL EDIÇÃO N. DE LEITORES POR EDIÇÃO
The Age - 677 mil
The Age Sábados 1 067 mil
The (Sunday) Age Domingos 622 mil
The Australian - 422 mil
The Weekend Australian Fim de Semana 868 mil
The Financial Review - 278 mil
Sydney Morning Herald - 864 mil (Sydney)
Sydney Morning Herald Sábados 1 258 mil
The Daily Telegraph - 1 256 mil
The Sun-Herald - 1 464 mil
The Herald Sun - 1 564 mil (Melbourne)
The Advertiser - 557 mil
The West Australian - 681 mil (Perth, Australia Oc.)
The Canberra Times - 124 mil
The (Sunday) Canberra Times Domingos 118 mil
The Courier Mail - 640 mil (Brisbane, Qld.)
     A nível televisivo existem cinco canais nacionais, dos quais três são comerciais: os Canais 9, 7 e 10, o canal nacional governamental 2 (ABC) e o canal étnico multicultural SBS 0/28. Nos últimos anos assistiu-se à proliferação dos canais pagos, mas ainda não competem em audiências com os restantes, de forma significativa.      A Austrália tem sido, por diversas vezes, considerado o continente da sorte, não só pelo seu clima ( malgré as secas ), como pelos seus recursos naturais, como também, pelo seu povo vivendo numa atmosfera pouco poluída. O único continente que nunca sofreu nenhuma vicissitude de guerra, um enorme país-continente, de certa forma complacente e preguiçoso, misturando o facto de ser o último entreposto europeu no Pacífico Sul com a sua tendência de se tornar, lentamente, asianizado. O futuro, decerto, não será tão calmo nem descontraído como em mais de duas centenas de anos tem sido, mas, atendendo aos recursos naturais e humanos, adaptabilidade e miscigenação vigentes, o futuro aparece ainda como risonho nesta orbe conturbada em que vivemos. CRÓNICA I DA VIDA DOS MACAENSES EM TERRAS DO DOWN UNDER      26 de Janeiro de 1788, após 157 dias de viagem tormentosa, a primeira Armada, com os seus 11 navios (dos quais seis de transporte), 730 condenados (570 varões e 160 mulheres), acompanhados por cerca de 250 homens livres - na sua maioria marinheiros - chegaram a Port Jackson, perto do local onde se localiza hoje a metrópole de Sydney, para aquilo que viria a constituir o primeiro centro colonial branco na Austrália. A Primeira Armada chefiada pelo Capitão James Cook, trouxe consigo todos os germes que haviam de fazer brotar a sociedade australiana contemporânea. Aquando da sua chegada, residiam aqui cerca de 300 mil aborígenes, distribuídos por mais de 500 tribos e semi-tribos, dispersos, de acordo com a morfologia do terreno e suas variantes climatéricas.      Este o preâmbulo necessário para as Crónicas Austrais ou como lhe chamariam os Portugueses de antanho: “ Esta he a chronica de terra australis incognita ”, ainda inseguros da descoberta do grande continente por Cristóvão de Mendonça em 1522 e por Gomes de Sequeira em 1525. É, porém, a partir de 1536 que parece não restarem dúvidas sobre a traçagem cartográfica da Austrália por portugueses.      Esta primeira crónica de ‘Down Under’, contrariamente a algumas expectativas, foi escrita com os pés bem assentes no ar e a cabeça no chão, como convém a quem aqui habita, de forma a que possamos ser lidos sem distorções hemisféricas, pois iremos falar da presença de Macau, na Austrália (mais propriamente em Nova Gales do Sul) [6]      Tentar explicar ou falar da Austrália para quem está a uns milhares de quilómetros, não é tarefa fácil, pois este país para se conhecer, se sentir, se perceber, implica uma presença física e uma certa permanência. Admitida tal premissa, vamos, então, tão sumariamente quanto possível, tentar dar uma ideia do que é, do que faz e como vive a comunidade macaense aqui residente.      Para tal, armados da ingenuidade própria de quem viveu alguns anos em Macau e com os contactos que o quotidiano nos permite estabelecer, esboçaremos aqui os contornos de uma certa comunidade étnica: nem mais nem menos do que qualquer uma das mais de 150 etnias que povoam este continente.      Dentre um total de 65 mil portugueses aqui radicados uns escassos 2 ou 3% são originários ou descendentes de Macau, valendo-nos dos dados do recenseamento australiano, dado inexistirem, quer no Consulado Geral de Sydney, quer na Embaixada, valores exactos de acordo com a naturalidade dos portugueses ali registados (em matéria estatística, ninguém leva a palma aos portugueses).      Quem são e como se localizam neste vasto continente-ilha? Uma vez mais deparamos com a muralha silente das incógnitas, mas a maioria esmagadora está em Nova Gales do Sul, com núcleos mais pequenos nos outros estados e territórios.      Sob o ponto de vista étnico predominam aqui também os descendentes de chineses, embora nas últimas 3 ou 4 décadas se tenha registado um influxo de filhos e netos de macaenses, quer por motivos primordialmente económicos quer em antecipação de 1999. O maior surto de chegadas é relativamente recente e assenta sobremaneira em razões de política interna imigratória, em especial com o términos da política de imigração branca, discriminatória e legalmente incentivada até à década de 70. Até então, a admissão de imigrantes não anglo saxónicos ou europeus era praticamente impossível, mas sucessivos actos legais governamentais em 1956, 1966, 1973 e 1982, vieram de facto a transfigurar de forma notável - e quiçá mesmo brusca - a face populacional deste continente, com alguns reflexos secundários.      Neste contexto surgem filhos-família de diversas esferas e estratos socioeconómicos de Macau, em busca de um eldorado fictício em que a Austrália se tornou, mais por omissão do que por motu-próprio de seus políticos e economistas. Começando por analisar as dificuldades inerentes a uma adaptação e posterior integração, teremos de admitir que, sendo difícil, ela é bem mais facilitada hoje em dia do que em qualquer outro país, e isto ressalta mormente do facto de a Austrália ser recipiente de mais de uma centena e meia de etnias diversas, com mais de 500 dialectos em cerca de 90 línguas diferentes.      A língua, se bem que pareça numa primeira e apressada análise, o factor primordial, torna-se rapidamente diluído como problema, dadas as facilidades de ensino gratuito que o governo proporciona aos recém imigrados para aprendizagem da língua inglesa. Nem sempre as coisas se passaram assim. Tempos houve em que para se imigrar era necessário passar exame de Gaélico, língua da Escócia e Irlanda, ainda hoje falada por uns meros milhares de pessoas, mas isso era na época da Austrália Branca, pouco inclinada a aceitar asiáticos, para além dos que haviam ficado da era dourada das corridas ao ouro do fim do século XIX.      A habitação foi para os mais antigos imigrantes uma verdadeira dor de cabeça, com as restrições legais impostas aos inquilinos, por leis estritas tão diversas das condicionantes socioeconómicas e culturais inerentes a uma sociedade proveniente de Macau. Na década de 80 o governo passou a proporcionar acomodação temporária em Hostel a troco de pagamentos simbólicos deduzidos dos benefícios da Segurança Social, e muitos se queixavam então de a alimentação não ser ao gosto individual. Isto quando, por vezes, se tem de cozinhar para culturas tão diferentes como a libanesa, macaense, indiana, etc. Posteriormente, o governo resolveu cortar despesas e acabou com a provisão de hostéis que ficaram para uso exclusivo das dezenas de milhar de refugiados que anualmente eram aceites pela Austrália e até esta facilidade acabaria já no início da década de 90.      O emprego não foi problema durante décadas, com o país sempre disposto a aceitar pessoas capazes de trabalharem e efectuarem tarefas que aos locais não interessavam. Essa era a norma que se seguiu ao fim da 2 Grande Guerra, quando à imigração dos países bálticos e norte europeus se juntou a dos mediterrânicos. Nesse período o emprego esperava qualquer um acabado de chegar, mesmo que não fosse anglo falante. O que eram precisos eram dois braços e uma saúde de ferro: corpo para toda a colher, dos invernos inclementes ao Verões abrasadores, vontade de trabalhar ganhando mais do que nos países de origem, com direito a sonhar com casa própria e educação para os filhos. Mas depois veio a realidade da recessão em 1983, 1987 e a depressão que durou até 1992. Com elas, os governos trabalhistas (1983-1996) começaram a cortar mais e mais benefícios no paraíso da Segurança Social e viram-se confrontados com um desemprego permanente. Pela primeira vez na história do país, passou a considerar-se como necessária a coexistência de pessoas que nunca mais iriam trabalhar. A taxa de desemprego - pasme-se! - atingiu mais de 10% da população trabalhadora de 10 milhões e bem difícil foi baixá-la para menos de 7%. Este passou a ser um valor aceitável, por entre as outras alterações que se impuseram ao tradicional modo de vida australiano.      Os subsídios vastos e abrangentes, introduzidos benemeritamente pelo governo trabalhista de Gough Whitlam a partir de 1972, e mantidos depois de 1975 pelos conservadores de Malcolm Fraser, serviam para todas as situações: casais não casados, mães solteiras, etc., e eram uma espécie de rede de salvação do desemprego, mas passaram a não ser suficientes para minorar este e os problemas socioeconómicos daí advindos. Durante algum tempo as pessoas viveram na expectativa de que melhores dias viriam, mas depois passaram a convencer-se de que estes seriam só para alguns felizardos.      Esta sociedade tipicamente insular, que tanto tempo esteve insulada do mundo exterior: 80 mil anos em que os aborígenes estiveram sem serem afectados pelo mundo externo até à invasão britânica de 1788, passou fruto da economia global a ser afectada por factores exógenos, que a passaram a gerir interferindo na textura das suas organizações e tradições. A adaptação dos macaenses a esquemas funcionais diversos fez-se de uma forma ordenada e não caótica, nesta terra que para pretensiosos e snobes não é de modo algum a terra prometida. Para aqueles que passaram este estádio, obtendo colocação e prosperidade, viram-se, no entanto, sem as condições benquistas que poderiam ter tido em Macau, mas economicamente mais recompensadoras, sem as tensões e frustrações inerentes ao limitado mercado de trabalho e de promoção profissional típicos de Macau.      Contrariamente ao que se poderia fazer supor, o afastamento da terra de origem, não parece ter incrementado entre os membros da comunidade um sentimento de unidade (que, como é consabido também não parece existir muito dentro da pequenez dos 16 km quadrados de Macau).      Enquanto não foi criada a controversa “Casa de Macau” em finais de 1989, era com uma certa regularidade, não necessariamente semanal ou mensal, ver alguns membros da comunidade reunidos num dos inúmeros centros gastronómicos de “Chinatown”, para durante os lautos repastos trocarem impressões sobre os mais recentes escândalos, ‘broncas’, e outros acontecimentos que permeando a distância se transportam de Macau para cá, sob a esperança política da mudança, tal como já dantes acontecia no diâmetro urbano da “Solmar”, do “Clube Militar” ou “ Clube de Macau”. Estas reuniões discriminatoriamente reservadas ao sector masculino, servem para manter os pontos de contacto e propagação dos costumes macaenses que estão prestes a encontrar o seu zénite à medida que 1999 se aproxima. Mas não se perdeu a inevitável passagem pelas máquinas de jogo, aqui predominando o poker sobre o Tai Siu, Fan Tan, Blackjack, em pano de fundo nos locais de repasto chineses e não só.      Ressalvando estas situações, a comunidade não parece ter encontrado um núcleo catalisador e centralizador, que se chegou a esperar da “Casa de Macau”, formada por entre a divisão, discórdia, invejas e a velha questão dos “ton-tons [7] serem mais macaenses do que os macaenses”. Assim talvez se tenha desperdiçado a plenitude e vasta capacidade de empreendimento e realização dos descendentes da pequena e setentrional península chinesa de Macau.      A diáspora manteve-se assim na vasta área urbana da metrópole de Sydney com os seus cerca de dois mil quilómetros quadrados (125 vezes maior que Macau), e se bem que os transportes públicos sejam de alto gabarito e eficiência, as distâncias a enfrentar depois de um dia de trabalho para regressar a casa são sem sombra de dúvida um considerando a ter em linha de conta, ao qual deveremos acrescer as constantes campanhas de prevenção rodoviária contra a alcoolemia que implicam sempre pesadas multas e pena de prisão. Raros são os membros da comunidade que não dispõem de viatura própria, mas aqui nem é viável nem económico conduzir para o local de trabalho.      Assim, ficam os fins de semana, iniciados ao pôr de sol de Sexta feira e a prática generalizada em toda a Austrália do B.B.Q. (barbecue = grelhados na brasa), seja na praia, no campo, ou num dos milhares de jardins disseminados pelos subúrbios. Assim, se reúnem em grupos, maiores ou menores frente a uma chapa de grelhar a carvão ou a gás (normalmente pertença do governo local, autarquia, cuja utilização se faz com a introdução de uma moeda de 20 cêntimos, aproximadamente 25 escudos). Depois, é só pôr os enormes e saborosíssimos bifes, as caixas quadradas tetrapak com 4 ou 6 litros do bom vinho australiano de mesa (ou as caixas de cerveja) e assim se passa o tempo, comendo e bebendo, na mais pura tradição australiana até altas horas da madrugada.      Aos sábados os ‘ programas’ variam consoante o grau de assimilação de costumes. Os mais pacatos sairão para o seu passeio ‘dominical’ ou quedar-se-ão em casa. Os mais australianizados repetirão o esquema anterior ou irão a uma sessão de jazz, rock, seja que tipo de música for, num dos milhões de ‘pubs’ disseminados por toda a cidade, onde passarão as horas disponíveis com seus amigos e colegas de trabalho (aqui vulgo mates ) falando de desporto, seja ele futebol, râguebi, VFL (regras australianas) ou até mesmo tentando aquela velha tradição lusíada da canção do bandido à pequena do lado, que normalmente culmina com uma ‘serenata’ bem longe do ‘pub’ e da qual todos os rítmicos acordes serão esquecidos umas horas mais tarde. Domingo, a variante do ‘Yum Cha’ em Chinatown, seguido do passeio pelas montras das lojas chinas, já que à noite o deitar cedo impera para a preparação de uma nova semana de trabalho.      A semana laboral aqui, de uma forma geral, começa Segunda feira pelas 8 da manhã (o comércio abre às 9, os serviços públicos às 8 e 45), o salário é recebido quinzenalmente às Quintas (as pensões e subsídios às Quartas), o que permite pagar a renda semanal todas as Sextas feiras. Quinta à noite todos os Shopping Centres estão abertos até mais tarde (9 da noite) para se fazerem as compras da semana, e o dinheiro remanescente destina-se, como é óbvio, a esse próximo fim de semana!      O jantar celebra-se normalmente entre as 6 e as 7 da tarde, e ás 9 é quase meia noite na cidade, para a maioria das pessoas que compõem o mercado de trabalho. Durante a semana, alguns mais australianizados poderão, eventualmente, depois de largarem os seus locais de trabalho e, em conjunto com os seus colegas de ambos os sexos ir até ao ‘pub’ habitual ou ao bowling, ténis ou squash, ou jogging, conforme as predilecções individuais, assim queimando as horas necessárias até ao jantar e deitar.      A concluir esta curta resenha, um ponto que parece relevante é o de haver inúmeras pessoas que ocupam, hoje e aqui, posições de liderança quer no sector de serviços, quer em actividades industriais ou comerciais com bem melhor proveito do que na sua terra mãe. Bem sucedidos ou não, em todos aqueles que vamos encontrando, uma preocupação constante e comum se desvaneceu ao longo dos anos: a do regresso. Os que o fizeram voltaram desiludidos e frustrados à Austrália, desajustados e desanimados pelo atraso e falta de progresso real que encontraram na terra de onde partiram. De Macau, as imagens por eles trazidas foram-se lentamente destruindo e esvaindo com os novos prédios erguidos sobre os escombros das casas onde guardavam as suas recordações de infância, tudo em nome do sagrado progresso.      Na Austrália, nem tudo é um mar de rosas, mas os benefícios de viver aqui são bem mais palpáveis do que uma despretensiosa crónica como esta pode dar a entender. A cultura, os hábitos e tradições podem ser perpetuadas aqui, mesmo que miscigenadas com outras, capazes de darem futuros mais amplos a filhos e netos, sem jamais se perder o orgulho profundo e saudoso da deusa Ah Má. Assim se compõe esta paisagem multicultural e poliétnica deste continente-ilha de cerca de 18 milhões de almas. CRÓNICA II Parte I ASIANIZAÇÃO, IMIGRAÇÃO E RACISMO (onde se fala da asianização deste continente-ilha, se discutem políticas de imigração e o mais que adiante se verá)      Na anterior Crónica Austral havíamos prometido voltar a falar da descoberta portuguesa da Austrália e da situação dos nativos aborígenes após mais de 200 anos de colonização branca. No entanto, mais recentemente, outros factos têm dominado não só as páginas da imprensa escrita mas também as ondas hertzianas. Tais eventos dizem respeito a um fenómeno, se não novo, pelo menos recente na história do país: a Asianização da Austrália.      Assim decidimos, quer pela premência dos debates que têm agitado a opinião pública, quer pelas repercussões futuras que temática tão caracteristicamente austral possa vir a ter, passar em revista alguns dos tópicos da mesma, nesta última década e meia [8] . O primeiro grande debate sobre asianização teve lugar em Março de 1984, quando um eminente professor universitário (e líder da Associação de Amizade Sino Australiana), Geoffrey Blainey, afirmou numa reunião de Rotários em Warrnambool, Vitória que “ os imigrantes do Sudeste Asiático eram agora os beneficiários da nova política de imigração em detrimento dos restantes grupos étnicos e em especial dos europeus. ” O tema imigração surgia, então, como arma última e desesperada da oposição conservadora para fazer face à crescente popularidade do (então) 1 Ministro Trabalhista Bob Hawke, preparado para se relançar num segundo mandato eleitoral.      Voltemo-nos pois para as quentes declarações no seio da controvérsia de então, para posteriormente analisarmos o que se passou mais de uma década volvida. O professor em causa, citando as práticas correntes dos responsáveis pela imigração, afirmava que a “ política do governo era discriminatória contra os não asiáticos e que este facto era totalmente oposto à opinião pública corrente, que embora tolerante por décadas, não poderia absorver de forma tão brusca um tão elevado número de imigrantes, todos provenientes da mesma área geopolítica, sem que existisse atrito - e até, quiçá - conflito.      Precipitadamente, Mick Young, então Ministro da Imigração e Assuntos Étnicos defendeu-se dizendo que “ A Asianização da Austrália era inevitável e até mesmo desejada ”, no que foi secundado por Bob Hawke, peremptório na sua negação de qualquer forma de discriminação. Passada a euforia gloriosa da colonização branca passava-se assim ao extremo oposto de “ só asiáticos como imigrantes ”, acusava a oposição liberal, ávida por um tema capaz de os catapultar e reduzir o fosso da opinião pública. Depois de décadas de política dicotómica, em que quer o governo quer a oposição só estavam de acordo numa coisa na política de imigração, abria-se agora uma frecha definitiva.      Blainey manifestara-se preocupado com o facto recorrente de, em anteriores crises económicas, a Austrália ter sempre fechado as portas ao exterior, enquanto que, desta vez, sem estar debelada a depressão se continuavam a aceitar imigrantes asiáticos. Estes, por circunstâncias várias iam fixar-se invariavelmente nas regiões mais duramente atingidas pela crise de desemprego, alterando, assim, um balanço multicultural natural.      O problema dos refugiados asiáticos na Austrália teve origem no já distante dia 26 de Abril de 1976, quando um barco pesqueiro “Kien Giang” atracou a Darwin com 5 vietnamitas a bordo, e os quais haviam efectuado a travessia marítima, das águas infestadas do Índico e do Pacífico através de um desactualizado atlas escolar. Sem serem notados pelas autoridades, atracaram o seu barco com 18 metros de comprido a meio da noite, a pequena distância de Nightcliff, em pleno coração de Darwin, uma praia frequentada pela classe média. De manhã, aproximaram-se do cais de Stokes Hill, o principal da cidade. Quando a polícia marítima chegou numa lancha, um dos cinco homens a bordo fez o seu discurso previamente ensaiado: ”Chamo-me Binh Lam, sejam bem-vindos ao meu barco. Estes são os meus amigos do Vietname do Sul e gostávamos de ter autorização para ficar na Austrália.”      Nos anos que se seguiram, verdadeiras armadas de barcos, pejados de vietnamitas fugindo ao regime comunista na sua pátria, acabaram por encontrar o caminho para a Austrália. Eram os ‘boat people’. Aqueles cinco, foram os pioneiros daquilo que viria a denominar-se a grande invasão de refugiados, mas na época o incidente não mereceu mais do que um parágrafo no jornal “Northern Territory News”. Esta fuga maciça de asiáticos - a maior na história da Austrália - eclipsou a anterior maior, a dos 63 mil polacos fugidos da 2 Grande Guerra. Entre Abril 1976 e Junho 1983, no período áureo para refugiados, foram 78 mil os chegados do Sudeste Asiático à Austrália. Desses, 80% eram vietnamitas, e os restantes eram do Laos e Camboja. Apenas dois mil vieram directamente de barco, pois a maioria veio de campos de refugiados no Sudeste Asiático: Hong Kong, Macau, Malásia, Indonésia, onde muitos chegaram a passar oito anos em trânsito até à Austrália.      Este influxo veio alterar a paisagem suburbana em muitas cidades que se transformaram em centros equivalentes a cidades asiáticas. Mas, entre aquelas duas vagas de imigrantes, separadas por mais de três décadas, convém referir que a Austrália havia recebido mais de 3,5 milhões de imigrantes e refugiados, abarcando mais de uma centena de nacionalidades, excedendo qualquer outra nação industrializada actual, à excepção de Israel.      A sua chegada não foi pacífica pois nalguns casos resultou em manifestações racistas violentas, embora as implicações de tais incidentes tenham sido exageradas e aproveitadas para fins políticos partidários. Se a nação sofreu mudanças fundamentais como resultado da infusão indochinesa esta ocorreu sem violência generalizada, dado que esta nunca foi parte do nacionalismo australiano. Isto não significa porém que os asiáticos tenham sido recebidos de braços abertos, o que não surpreende, dado que a Austrália, per capita, recebeu mais refugiados asiáticos do que qualquer outro país no mundo. Até que ponto serão verdadeiros, os cíclicos ataques de histeria nacional sobre se a Austrália está a ser asianizada? O passado recente do país está cheio deles, sobre o medo de ser ‘ inundada por hordas asiáticas do norte ’ e tais medos mantêm-se bem depois do fim da política da Austrália Branca.      Em Footscray, um subúrbio interior de Melbourne, verdadeira capital dos colarinhos azuis (a classe trabalhadora), os indochineses chegaram em massa em 1985-1986. Na principal artéria comercial, oito em cada dez lojas são vietnamitas: restaurantes, supermercados, casas de diversões e até agências de viagem. Por entre elas, está Nick Ciancio, nascido em Itália, e que vem gerindo a sua loja de costura há 23 anos: “Uma quantidade de gente não gosta dos vietnamitas, porque pensa que eles são sujos e não entra nas lojas deles” diz Ciancio. Na mesma rua, Geoff Hope tem uma loja de brinquedos desde a década de 50, tendo jogado futebol (regras australianas) por Footscray há 40 anos e lembra-se de quando o subúrbio era predominantemente australiano da classe trabalhadora: ”Os indochineses são mais espertos do que nós. Eles estão dispostos a arriscar e admiro o que eles já conseguiram”.      Em Marrickville, um subúrbio interior de Sydney, existe racismo e tolerância, misturado com gente que aceita os novos imigrantes asiáticos mas que teme que haja demasiados a entrarem muito depressa na sociedade australiana. No último recenseamento, a população de Marrickville era 70% ‘ estrangeira ’ de 1 ou 2 geração. Havia 16 mil gregos, 10 mil indochineses e 5 mil portugueses. Gladys Smith, com 81 anos e John Loupos, de 29, são símbolos de gerações diferentes oriundas de distintas origens. Gladys diz que “há mais de 50 anos toda a gente na rua era Australiana, hoje restam apenas dois. As minhas filhas queriam que eu me mudasse quando os asiáticos vieram, mas as pessoas são todas iguais e eu preferi ficar.” Loupos e os pais, que emigraram da Grécia há 45 anos, têm uma confeitaria grega em Marrickville. A maior parte dos seus clientes mudou-se e a maior parte dos indochineses não compra doces na sua Hellas Food Market, mas admite Loupos: “Não temos nenhum problema com os indochineses. Os meus pais são imigrantes. Quando eles chegaram também toda a gente estava contra eles. Nós percebemos o problema deles agora.”      Nem todos porém entendem. Debbie Lyon, 34 anos é australiana da terceira geração e trabalha numa firma de contabilidade de Marrickville, reagindo veementemente contra os vietnamitas que, admite, representam 95% da clientela da sua firma: “Eles trabalham por um salário de miséria, cheiram mal. Vivem cinco famílias em cada apartamento e cospem na rua. Se querem viver no nosso país têm de cumprir as regras, mas eles não o fazem. Chegam cá e poucos meses depois já guiam Mercedes.”      Tal como aqueles que se lhes seguiram, os cinco vietnamitas que chegaram a Darwin em 1976, tinham 16 a 25 anos e não acharam a Austrália nenhum paraíso. Nem todos tiveram uma história de sucessos. Binh Lam, que comprara o barco e organizara a viagem de fuga do Vietname, morreu, com Pau Gip, outro dos seus colegas de barco, num desastre de viação em Brisbane em 1980, depois de ter visto recusado o seu pedido de asilo como refugiado. A sua vida em liberdade não durou muito. O seu irmão mais novo, Tam Tac Lam ficou em Darwin e prosperou, poupando dinheiro suficiente para abrir um restaurante. Agora, com 40 anos, está casado com uma chinesa de Timor Leste e tem duas filhas: “Mesmo que os comunistas saíssem do poder agora”, diz Lam, “ eu não voltaria, pois já passei mais de metade da minha vida aqui”.      Chen Van Nguyen era o capitão do barco “Kien Giang” e morria de saudades do mar. Arranjou um emprego a reparar e a vender os barcos que os refugiados traziam para a costa de Darwin. Um deles foi comprado por um pescador profissional que lhe ofereceu emprego, e hoje ocupa o seu tempo na pesca nas águas do Golfo Van Diemen ao largo de Kakadu. O quinto tripulante do barco, Binh Ngo, casou e tem cinco filhos, vivendo em Brisbane, onde tem uma loja de produtos alimentares e uma videoteca chinesa.      Poucos australianos sabiam fosse o que fosse sobre a Indochina, quando o então 1 Ministro, Robert Menzies mandou as suas tropas combater, na guerra dos americanos, no Vietname. Antes da queda do Vietname do Sul, Camboja e Laos para as mãos dos comunistas e, depois das longas e sangrentas guerras na região, havia apenas umas centenas de indochineses na Austrália. Em 1991, havia já mais de 160 mil, e o êxodo marítimo para o norte da Austrália terminara em 1981. Embora ainda se mantenha a imigração asiática, esta só se faz agora através do programa de reunião familiar.      Em termos médios, os indochineses representam 10% da imigração australiana, que rondava umas 120 mil pessoas por ano no início da década de 90. Havia em 1992, 664 mil asiáticos, sendo os vietnamitas os segundos mais numerosos, a seguir aos mais de 200 mil chineses étnicos, dos quais 40 mil são descendentes australianos dos imigrantes chineses da corrida ao ouro no final do século XIX. Os indochineses são já uma parcela importante da imigração australiana: 62 mil em Sydney, 51 mil em Melbourne, e 10 mil em Perth, Brisbane e Adelaide.. Em 1990, o cientista demográfico Charles Price causou alarme ao prever que, à taxa actual, haveria 26% da população tendo origem asiática em 2040, comparados com os 5% actuais. Nalguns subúrbios aquela taxa já foi atingida.      Cabramatta no sudoeste de Sydney já é disso um exemplo. Dos seus 80 mil residentes, 55% são asiáticos. Marrickville e Bankstown em Sydney, e Richmond e Footscray em Melbourne parecem mais cidades asiáticas do que australianas, o mesmo acontecendo em alguns subúrbios de Brisbane e Adelaide.      Como se trata na sua maior parte de refugiados e não de imigrantes com aptidões profissionais, os indochineses representaram - desde o início - o maior teste à capacidade australiana de absorver um largo número de imigrantes sem fluência de Inglês, muito afectados pelos cortes profundos que a sua textura familiar sofreu e outras formas de sofrimento trazidas dos países de origem. A falta de dons linguísticos causou desemprego maciço nestas comunidades e existe falta de professores de Inglês como Segunda Língua (TESL) [9] . Muitos destes refugiados com qualificações profissionais vêm a deparar com inúmeras dificuldades por elas não serem reconhecidas, havendo muitos trabalhadores altamente especializados em campos profissionais e científicos, a trabalharem em linhas de montagem.      Os australianos, em geral, designam os indochineses como ‘viets’ ou simplesmente asiáticos, mas na prática eles pertencem a quatro grupos étnicos distintos, com pouco em comum, mas com uma longa história de animosidade entre eles. Oficialmente havia, em 1991, 120 mil vietnamitas, 25 mil cambojanos e 10 mil laocianos. Estes números não indicam porém os de etnia chinesa dentre tais grupos, dos quais sabe-se que, pelo menos, 27 mil vieram integrados nas fugas em massa do Vietname. Se a Austrália está a mudar, os indochineses também contribuíram para mudar a face do país. Cabramatta, que era conhecida depreciativamente como ‘Vietnamatta’ foi durante alguns tempos um local de violência a ser evitado por não-asiáticos. Hoje em dia, as pessoas da margem norte de Sydney (subúrbios ricos) deslocam-se ali para fazerem compras e comerem, salientando-se as suas faces brancas e rosadas num mar de gente asiática.      Esta imagem de turismo interno foi aproveitada por todos os que acreditavam no multiculturalismo, e ali se encontra Phuong Canh Ngo, que se gaba de ter sido o primeiro vereador vietnamita do ocidente e que considera Cabramatta uma cidade eurasiana. Escapado em 1983, com mais 123 vietnamitas num pequeno barco de 10 metros, Phuong conta que ao fim de três dias na água nada havia para beber e duas pessoas já haviam morrido. Ele mesmo estava tão doente que, à vista da costa da Malásia, os outros esperavam que ele morresse para terem mais espaço no barco, mas sobreviveu. Phuong Ngo chegou à Austrália com 6 dólares malaios no bolso e durante os dois primeiros anos trabalhava dezasseis horas por dia numa fábrica em Punchbowl, nos subúrbios ocidentais de Sydney. Depois, amealhou o suficiente para abrir uma loja de comida pronto a vender . Mais tarde abriu uma livraria e, em 1987, concorreu como independente às eleições do município de Fairfield/Cabramatta. Foi eleito, pouco antes de Sang Nguyen, o segundo vereador vietnamita ter sido eleito para Richmond, Melbourne. Embora os vietnamitas sejam maioritários no eleitorado, Ngo não poderia ter ganho sem o apoio de alguns australianos europeus. Ele admite, que no início raramente percebia uma palavra dos debates municipais, mas em 1990, já fluente em Inglês e no jargão autárquico, sentiu-se confiante e cumpriu um mandato como vice-presidente do município.      É com um sentido de segurança, dada pela sua identidade australiana que, cada vez mais, os vietnamitas se dispõem a regressar ao seu país natal. Em 1987, 14 vietnamitas munidos dos seus passaportes australianos foram os primeiros a revisitar o Vietname, atravessando a fronteira com o Laos, numa fútil manobra para tentar derrubar o regime comunista em Da Nang e instalar um movimento de resistência em Hanói. A tentativa foi um descalabro, com as forças mercenárias sendo abatidas, pelos exércitos do Laos e Vietname. Após o julgamento, dos sobreviventes, em Ho Chi Minh foram sentenciados a penas de prisão perpétua. As tentativas da embaixada australiana, em Hanói, foram infrutíferas para saber do seu paradeiro, e as relações cordiais de Camberra com Hanói esfriaram.      Nesse ano, a medo, um primeiro grupo de 15 turistas vietnamitas deslocou-se ao Vietname para visitar familiares, quase em segredo. Quando um jornal de Sydney falou do assunto, a imprensa vietnamita dos exilados na Austrália, quase os acusava de traição. Alguns receberam ameaças de morte e um deles foi obrigado a mudar-se. Em 1991, porém, mais de 10 mil Vietnamitas Australianos fizeram a viagem de regresso para celebrar o Têt, o Novo Ano Lunar Vietnamita. A partir de então tudo isso passou a ser considerado como normal, havendo voos normais ‘charter’ entre Sydney e Ho Chi Minh City.      Para muitos Vietnamitas Australianos, a sua maior prioridade é construir um futuro, na Austrália, para eles e seus filhos. A sua vontade de vencer pode traçar-se nas épicas viagens de fuga que engendraram para atingir o país da liberdade, a Austrália. Mais de um milhão de vietnamitas emigrou da Indochina, na esperança de se poder radicar no Canadá, Estados Unidos, França e Austrália. A maioria fez a viagem em naus incapazes de cruzarem os vastos mares que tiveram de percorrer, sem auxiliares náuticos de navegação, a não ser as estrelas.      Os primeiros a chegarem à Austrália, Binh Lam e os seus quatro colegas, fizeram-no com uma página arrancada a um velho atlas escolar. Dezenas de milhar deles - talvez uns cem mil -, pereceram nos mares, muitos às mãos dos piratas do mar do Sul da China e do arquipélago indonésio. Uma estimativa do Alto-comissário para os Refugiados, das Nações Unidas, aponta para 35% de vítimas dos piratas e 30% como tendo sido recapturados pelos vietnamitas. Muitos ficaram irremediavelmente marcados pela experiência. Crianças assistiram à violação das suas mães e ao assassinato dos seus pais. Antes, tinham sofrido nos campos de reeducação da pátria ou nos campos da morte (‘killing fields’). Ainda hoje, vietnamitas, laocianos e cambojanos recebem tratamento de conselheiros e psicólogos num centro especial para vítimas de tortura nos subúrbios ocidentais de Sydney.      O estereótipo indochinês é o de um próspero homem de negócios ou dono de restaurante com filhos tão brilhantes academicamente e dedicados trabalhadores, que até os colégios privados competem para lhes oferecer vaga. E de facto, alguns correspondem a tal estereótipo. Quang Luu [10] , 55 anos, director da cadeia multicultural de rádio, SBS, é casado com uma vietnamita Mary, tem quatro filhas e um filho: um médico, um farmacêutico, um gerente comercial, um engenheiro e um trabalhador social. Aos olhos europeus, os vietnamitas parecem especialmente obcecados com a educação, por razões culturais e porque para os refugiados, a educação é um bem portátil em tempo de adversidade.      Sem sombra de dúvida, muitos indochineses são excelentes alunos nas áreas de matemáticas e ciência. Mas, mais típica é a luta diária dos indochineses. Ken e Kim Tran chegaram à Austrália em 1987, vindos de um campo de refugiados da Malásia, onde permaneceram apenas seis meses. Depois de uma curta estadia num Hostel (dos quais vos falei no início desta crónica), mudaram-se para Footscray. Kim, então com 32 anos, trabalhava como operadora de máquina de costura e o seu marido Ken era condutor de monta-cargas. Kim estava cheia de saudades e sentia-se só. Era frequentemente humilhada nas lojas e uma vez, enquanto esperava numa paragem de autocarro foi verbalmente insultada por um condutor de automóvel. O seu Inglês continua limitado e ainda é vítima de insultos racistas, mas acha a Austrália um país suportável. “Eu trabalho duro e faço dinheiro, mas no Vietname eu também trabalhava duramente, só que não ganhava nada!”. A solidão mantém-se e o casal continua a ser um casal estrangeiro numa terra estrangeira, tal como aconteceu quase sempre com a primeira geração de imigrantes e refugiados.      Em média, a família indochinesa vive num apartamento ou numa casa, sobrepovoada, o marido trabalhando numa fábrica de automóveis ou de bebidas, e a mulher mal paga numa fabriqueta de vestuário barato. Os pais desempregados e sem hipóteses, devido à total ausência de conhecimentos de Inglês e à sua idade, e as crianças, que podem ter perdido anos de escolaridade, porfiando para tentarem dominar a dificuldade da língua e simultaneamente tentarem manter-se a par dos seus colegas nascidos na Austrália, na matéria dada. Neste ambiente de família as tensões são normalmente grandes. As crianças podem atravessar fases quase suicidas, dada a sua incapacidade de satisfazerem as expectativas dos seus pais. Outros, ‘ encontram-se ‘ através de gangs de rua, à porta dos locais de diversões nos subúrbios predominantemente indochineses.      No subúrbio de Springvale, em Melbourne, Tran Huy Quyen com 54 anos é um expoente da arte marcial vietnamita vovinam . Dois meses depois de chegar à Austrália, em 1985, publicou um anúncio sobre as suas aulas. Por aquilo que observou nos filhos de refugiados, cerca de 12% dos jovens vietnamitas chegaram à Austrália sem pais.      Estudos da Comissão de Assuntos Étnicos de Vitória mostram-nos como jovens desprovidos do estereótipo indochinês: vivendo em casas de passagem que partilham entre si, fumando, bebendo, deitando-se tarde a ver filmes de qualidade duvidosa, movimentando-se em grupos, de centros de diversões a salões de bilhar, e cometendo pequenos crimes em especial relacionados com drogas. Para atrair esses jovens, Quyen ofereceu-lhes aulas gratuitas, tentando dar uma certa estrutura à vida desses jovens, ensinando-lhes o significado da vida e disciplina, honra, auto respeito e auto estima, os quais fazem parte integral do vovinam . Para sobreviver, além de dar 40 horas semanais de aulas, Quyen, um director de escola secundária no Vietname, trabalhava em casa a costurar e lavava pratos num restaurante. Como ex-instrutor do exército do Vietname do Sul, sobrevivente de oito anos num campo de internamento, Quyen declara ter uma taxa de sucesso de 40% ao transformar estes jovens perdidos em bons cidadãos. Ele não é uma personagem única. Com efeito, a filosofia de auto ajuda é bem seguida pela maioria das comunidades vietnamitas.      Anh Huu Nguyen, 43 anos, estudante de engenharia no Vietname e uma das ‘boat people’ [11] , trabalha a tempo inteiro com as crianças de rua no subúrbio de Marrickville em Sydney, num projecto da Barnardo Australiana. Com uma colega australiana, Jayne Powell, Nguyen ajuda-os a encontrar acomodação (a Barnardo tem um hostel para crianças indochinesas) e leva-os a acampar no Real Parque Nacional, a sul de Sydney. Ela viveu num campo de refugiados na Tailândia e sabe o que as crianças vietnamitas têm de sofrer para sobreviver. Outros trabalham com os mais idosos, tal como Thinh Van Lam, 66 anos, que está na Austrália desde 1984. Era um engenheiro electrónico no Vietname, mas foi incapaz de obter colocação na Austrália, e ocupa o seu tempo na Associação de Amizade da Terceira Idade para os Vietnamitas de Cabramatta.      Muitos críticos da imigração asiática falam em ghettos indochineses, mas a verdade é que a proximidade entre os refugiados facilita a manutenção da sua estrutura familiar nuclear, e os recém chegados são ajudados pelos que estão estabelecidos há mais tempo no país. Da mesma forma, os recursos do governo australiano são melhor distribuídos por entre todos.      Um especialista em computadores, Thuat Van Nguyen, 52 anos, viu o seu barco ser socorrido por um navio alemão, tendo passado oito anos a viver e trabalhar na Alemanha, até que decidiu de novo emigrar - para a Austrália - a fim de dar melhores oportunidades à sua família. “O governo alemão não quer ghettos e espalha as pessoas pelo país, por isso muitas vezes, ao fim de vários anos, encontram-se pessoas que não falam a língua ( alemã ), logo, não arranjam emprego. Mas aqui, na Austrália, o sistema de multiculturalismo deixa-nos viver juntos e aprender a língua inglesa, pelo que arranjamos emprego mais depressa”, diz ele com um sorriso feliz.      Não obstante, há muitos críticos desta atitude política, e dentre eles um dos mais vocais tem sido o Dr. Robert Birrell, leitor de sociologia na Universidade Monash em Vitória: ”Existe muito romantismo, em relação à imigração, em especial a indochinesa. Ele surge nas elites profissionais de classe média, que apreciam a culinária étnica e que beneficiam dos serviços baratos proporcionados pelos vietnamitas”. Birrell fala da taxa de desemprego vietnamita como “desastrosa“, alertando para o facto de os vietnamitas estarem sobre representados como recipientes de benefícios da segurança social: 9,3% de todos os desempregados de Melbourne e 10% em Sydney.      Na prática, muitos vietnamitas ficam desempregados durante um ano até aprenderem Inglês, mas a pesquisa feita pelo Dr. Kee Pokong do (extinto em 1996) Bureau de Pesquisa de Imigração sugere que “ao fim de dez anos, os vietnamitas têm uma taxa de propriedade de casas superior à das famílias australianas nascidas no país. E isto, não obstante o facto de a maioria deles ter empregos na indústria de manufacturas e de 60% ganharem 12 mil dólares ao ano ou menos ( N. do Autor: o salário médio australiano é de 33 mil dólares/ano, valor médio de 1997, aproximadamente 3 960 000 ).      Não é por terem dois ou três empregos que os vietnamitas têm capacidade de comprar casas mais depressa do que os outros residentes do país. Assim como outros imigrantes anteriores, eles reverteram para um esquema ou costume de juntar dinheiro, denominado hui . Na sua versão mais simples, neste esquema, juntam-se dez pessoas para contraírem um empréstimo com base nas poupanças acumuladas do grupo.      Também a nível escolar, os vietnamitas parecem deparar com êxitos superiores à média. No Liceu Melbourne High , que tantos ministros já deu à Austrália, os vietnamitas tiveram 14% de "A’s" embora representem apenas 5% da população escolar entre o 9 e o 12 ano. Na prestigiosa escola privada secundária feminina MacRobertson Girls' High de Melbourne, 30% dos ‘Excellence Awards’ (Prémios de Excelência Escolar) foram para alunas vietnamitas do 9 ano de escolaridade. Alguns professores queixam-se de que os vietnamitas como alunos são difíceis, porque não são muito abertos nem desabafam os seus problemas, os quais parece serem resolvidos dentro do âmbito familiar.      Segundo Phach Nguyen, um colega nosso jornalista, vietnamita, que trabalha freelance, grande parte dos seus compatriotas sofre de vários estádios de depressão, e embora necessitem de falar disso, raramente o fazem fora da sua comunidade hermética. Uma vez por outra, a Austrália apercebe-se de tais problemas, quando, por exemplo em 1982, uma brilhante estudante de medicina se atirou de um 12 andar. Veio a saber-se, mais tarde que tinha sido violada durante a guerra no Vietname e nunca recuperara dessa experiência.      A maior parte das mulheres vietnamitas ainda não atingiu posições de proeminência na sociedade australiana, como aconteceu com os homens vietnamitas, mas isso deve-se sobremodo à necessidade de terem uma fase de adaptação ainda mais demorada do que os homens. Recorde-se que, na sociedade vietnamita, o Pai é a pessoa mais importante da família. Ele toma as decisões e o resto da família, acata-as sem discussão. Quando o pai morre, é ao filho mais velho que compete liderar a família, e às mulheres manterem a sua subalternidade.      Uma das mulheres que conseguiu libertar-se, e aproveitar as hipóteses libertárias da Austrália, foi Pauline Chan, 39 anos, actriz e produtora de cinema. Natural de Saigão, chegou à Austrália, via Hong Kong, em 1982, tendo desempenhado papéis de relevo nos filmes ‘Sword of Honour’, ‘Vietname’ e na telenovela ‘A Country Practice’, tendo produzido dois dos três filmes australianos apresentados em Cannes em 1990.      Mesmo assim, um inquérito do Reader’s Digest revelava que mais de metade da comunidade asiática na Austrália havia sido vítima de uma forma ou outra de discriminação e que uma em cada dez pessoas havia sido fisicamente atacada.      Os indochineses raramente se queixam, mas uma nova geração está a surgir. É uma geração de faces asiáticas com sotaques australianos. Em 1986, o recenseamento mostrava que apenas 3% dos vietnamitas casava fora do seu círculo vietnamita, mas lentamente este hermetismo vai-se diluindo interracialmente. E se bem que, durante quase duas décadas a taxa de imigração indochinesa rondou os 40% do total, nestes últimos anos ela diluiu-se a reuniões familiares. A Austrália do futuro terá, de facto demasiado asiáticos para o gosto de alguns, mas estes falarão fluentemente Inglês e serão prósperos. Até agora, eles mudaram mais as zonas onde se fixaram, tais como Springvale (Melbourne) e Cabramatta (Sydney), do que haviam feito os seus predecessores, gregos e italianos, de há 50 anos. E tal como estes, um dia hão-de deixar aqueles subúrbios para dar lugar a novas ondas de imigrantes ou refugiados. De qualquer forma, estes subúrbios ficarão marcados na memória de muitos imigrantes e refugiados, como as margens da Ilha Ellis em Nova Iorque e o seu símbolo (A Estátua da Liberdade) ficaram para um período notável da imigração e da tolerância dos povos.      O debate sobre asianização da Austrália, quer em 1983, quer em 1996, necessita de uma mais profunda explicação para se abarcar, na sua plenitude o significado das mais recentes vagas de imigrantes e refugiados. Até aos anos 60, havia sempre presente o medo de uma invasão amarela . A motivação utilizada pelos governos conservadores de Malcolm Fraser (1975-1983) para justificar o seu humanitarismo era a de que os sul vietnamitas eram aliados da Austrália na sua luta anticomunista e, por isso mesmo, teriam de ser integrados e aceites na sociedade. Desta forma, os asiáticos (vietnamitas) adquiriam uma cor menos amarela , por um processo de alianças políticas e pelo complexo de culpa de participação no conflito vietnamita.      Voltemos ainda mais atrás no tempo, a 1901, data da celebração da Federação Australiana, com o infamemente célebre Decreto Restricionista da Imigração. Segundo este, era proibida a entrada de chineses, para evitar aumentar as hordas asiáticas, que haviam permanecido desempregadas na Austrália após a febre da corrida ao ouro, ocorrida na segunda metade do século passado. Esta foi uma fase triste das relações multinacionais na Austrália.      A história fala-nos de perseguições constantes, maus-tratos, violações de todos os direitos culturais e étnicos, de uma comunidade tão diferente como a chinesa, no seio de uma sociedade semi-letrada e em busca de uma identidade, como era a Austrália até ao início deste século. Infelizmente, esta política de base na nação australiana haveria de manter-se por mais de seis décadas, como o pilar em que assentava a promessa de um futuro próspero e branco para este continente.      Em pleno apogeu do pós guerra, Arthur Calwell [12] , salientava a necessidade de o país se manter “ branco e britânico ”, declarando: “ por cada estrangeiro radicado na Austrália, dez brancos e britânicos lhe sucederão ”. Só, que, fruto de circunstancialismos vários, esses sonhos e o de conseguir 20 milhões de habitantes durante a geração do pós guerra vieram a esfumar-se. Em troca, o que o país daria a Calwell, entre 1947 e 1980, seria 4,5 milhões de imigrantes, dos quais apenas 1/3 tinham origem britânica.      Ao longo dos tempos muitas foram as vozes que se opuseram à entrada de não-britânicos e não-europeus, alegando-se que esses viriam a concorrer nos mercados de trabalho e, desta forma, roubar empregos aos residentes. Esta objecção (aliás, como outras que já atrás mencionamos) pode ser contrabalançada com os dados da década de 80, segundo a qual 80% dos refugiados indochineses ocupava postos de trabalho na manufactura, em posições semiqualificadas ou indiferenciadas, sendo 94% das mulheres empregadas nas linhas de produção, postos de trabalho estes há muito preteridos pelos europeus.      Tradicionalmente, estes lugares de trabalho foram reservados aos não falantes de língua inglesa, europeus ou árabes, pelo que os asiáticos vieram preencher uma lacuna na oferta de mão-de-obra. As taxas de desemprego, da década de 80, mostravam 40% de asiáticos, 35% para os do Médio Oriente e 10% para os restantes australianos. Os asiáticos não vieram ocupar o lugar de trabalho de ninguém! A braços com a adaptação normal num país de usos e costumes diferentes, com as dificuldades linguísticas, com a falta de facilidade de emprego e mesmo subemprego, com as dificuldades de relacionamento social e cultural, eles foram inicialmente mais uma camada de não-privilegiados, ostracizados pelos seus vizinhos imigrantes de ascendência europeia (não britânica), que também neles viam uma espécie de competição injusta, e justamente, por isso, os escolhiam para bodes expiatórios das politiquices do reino.      Voltemos, de novo à abordagem do problema pelo historiador Blainey. Este acusa o governo trabalhista de ter encetado uma política discriminatória, dado que os critérios vigentes favoreciam a vinda de mais pessoas asiáticas, prejudicando movimentos migratórios europeus e não asiáticos. Isto, ressalta, porém, da necessidade de permitir que os mais recentes imigrantes tragam as suas famílias, dado que os europeus há mais anos radicados já se estabeleceram e trouxeram as famílias que queriam, pelo que o número de pretendentes deste grupo é obviamente inferior ao dos asiáticos. Mas também isto é transiente, uma mera temporalidade, que se desvaneceu a partir do fim da entrada de refugiados em massa em plena década de 80.      Blainey, ao citar que aquela política era racista, não deixa, porém, nenhuma saída para justificar que, por exemplo, a troca/mudança da entrada de indochineses por/ara indianos, não seria igualmente racista? Ou, se quisermos, sul-africanos em vez de indochineses, não seria isto também racista?      Claro que teremos de conceder-lhe alguma razão quando ele alegava que, “ se alguém quiser reduzir a imigração asiática em não sei quantos por cento é acusado de racista, mas se alguém quiser aumentá-la, tal epíteto lhe não é aplicado ”. Blainey, porém, vai mais longe ao salientar os aspectos negativos da política de imigração australiana: ” os australianos assumem a posição de que os europeus e os seus descendentes têm ideias racistas, enquanto os povos de outras origens as não têm. Quando a Europa dominava o mundo, tal noção seria apropriada, mas depois da liberalização da Ásia e da África, entre 1945 e 1975, as novas nações daí emergentes logo se afirmaram equalitárias e protestaram contra os excessos dos seus antigos senhores. A palavra racista aplicava-se, então, aos Franceses, Holandeses, Espanhóis, Portugueses, Alemães e Belgas, mas hoje em dia, dezenas dessas novas nações igualmente subjugam minorias raciais, religiosas, etc., dentro das suas próprias fronteiras, sejam elas a Indonésia, as Filipinas, Sri Lanka ou qualquer outra. Nestes últimos anos, mais casos de racismo se cometeram na Ásia e na África do que em muitos mais anos de poderio europeu, mas poucas ou nenhumas são as vozes que se levantam contra tal facto.      Na época, o então ministro trabalhista Stewart West respondeu que “ a vinda de mais europeus e britânicos para corrigir o alegado desequilíbrio migratório poderia apenas significar um aumento do total de pessoas idosas e sem qualificações, o que provocaria ainda mais tensões no sector desempregado da população”. Recorde-se que, em 1982-1983, estavam 26 mil inscritos como potenciais imigrantes do Reino Unido mas apenas metade emigrou, demonstrando a falta de interesse britânico na emigração para a Austrália.      Se considerarmos o total de população asiática existente em 1983, de 2,7%, era previsto que poderia atingir os 4% no ano 2000. Quase vinte anos mais tarde tal número é de cerca de 5%, o que raramente poderia ser considerado como a asianização do continente .      Se bem que naquela época (já distante dos anos 80) ninguém quisesse reduzir o número de asiáticos, o certo é que se se tivesse aumentado o número de não asiáticos, apenas se teria conseguido aumentar o número de desempregados no país. Sabendo à partida que cada grupo étnico tem, de uma forma ou outra, as suas preferências políticas partidárias, podendo representar com o seu voto a mudança de um para outro bloco político, mais importante será recordar que cada um desses grupos tem também a sua história pessoal de mágoa, discriminação e humilhação, e todos os debates racistas servem apenas para reavivar tais feridas.      Pessoalmente, nos meus contactos com pessoas de comunidades de línguas portuguesa, espanhola, francesa, jugoslavas, grega e italiana, pude constatar que estas são das mais atemorizadas pelo perigo de asianização, talvez até porque os membros de tais comunidades estão menos preparados do que outros para poderem enfrentar um reduzido mercado de trabalho, face às poucas habilitações académicas e profissionais, que caracterizam a generalidade dos seus membros. São também eles que vivem nas zonas mais densamente povoadas pelas recentes vagas de asiáticos, com eles lidando no quotidiano, vendo lojas de europeus sendo progressivamente substituídas por lojas asiáticas. Estes europeus e seus descendentes temem esta política imigratória porque ela pode atrasar ou quiçá, mesmo, impedir a concretização dos seus sonhos rápidos de fortuna e vida desafogada. Políticos e historiadores mais não fazem do que agitar estes espectros, capazes de galvanizar as massas e aliciar os seus votos. Existem raras e honrosas excepções, tais como o ex-ministro dos estrangeiros e ex-Governador Geral, Bill Hayden, ao declarar em Setembro 1983 que “ a Austrália estaria totalmente asianizada em menos de duzentos anos ”. CRÓNICA II PARTE II UMA CRISE DE IDENTIDADE NACIONAL AUSTRALIANA Os australianos têm pugnado por uma sociedade multicultural, aberta aos seus vizinhos asiáticos, mas adivinham-se novos rumos de pensamento. O país está indeciso quanto ao seu futuro. 1. A HERANÇA DE BLAINEY      Em 17 de Março de 1984, como vimos, o historiador Geoffrey Blainey fez um empolgante e controverso discurso aos Rotários de Warrnambool (no estado de Vitória), sobre o ritmo da imigração asiática para a Austrália, que, segundo ele, era demasiado rápido. Aquele discurso, prontamente, se tornou num foco de debate nacional, polarizando opiniões. Quinze anos depois, a Austrália é, quer queiram, quer não, uma sociedade multicultural. As tensões surgidas no período de transição, deram lugar a uma maior aproximação à Ásia, quer em termos de imigração, quer em termos económicos.      Blainey, teve o efeito de um trovão sob os plácidos céus australianos, pois não tinha havido até então ninguém tão proeminente, a lançar um debate racial, categorizando um determinado número de pessoas devido à sua origem asiática, como um perigo para o tecido da sociedade australiana. Conforme vimos, o debate durou todo este tempo, e haveria de aflorar, reforçado, quando menos se esperava, como adiante se verá.       Será que a Austrália aceitara demasiados imigrantes? Será que o governo estava a andar mais depressa do que a opinião pública estava disposta a aceitar? Será que alguns dos subúrbios se haviam transformado em ghettos perigosos, cheios de criminosos asiáticos? Será que a imigração asiática só servira para enfraquecer as instituições democráticas do país, e as capacidades do país em defender-se dos ataques externos, tornando-nos numa nação de tribos, danificando de forma irreversível a coesão social da Austrália ?      A minha resposta a todas estas questões, uma boa dúzia de anos mais tarde, é de que Blainey estava errado e, as tensões raciais, se bem que, de quando em quando, polarizem a nação, não fazem parte do modus vivendi australis . Nem os mais pessimistas poderiam admitir que não somos uma nação, ou o somos menos do que éramos em 1984. Ainda não fomos invadidos por ninguém, os nossos imigrantes (e convém não esquecer que sou um deles) não enfraqueceram as nossas capacidades de defesa, e a nossa integração económica com a Ásia prosseguiu a um ritmo tão rápido quanto o permitiu a globalidade da economia mundial.      Recordemos o livro de Paul Kelly nos anos 80 [13] “The End of Certainty (O Fim das Certezas)”. Nele, Blainey acusava o governo trabalhista de Bob Hawke, então 1 ministro, de “ ser o menos britânico de toda a história australiana ”, e, afirmava que “ poderia haver confrontos como os de Birmingham dentro de 10 a 15 anos ”. Já lá vão os anos e não se vislumbra essa ameaça sombria.      Blainey chegou mesmo a afirmar - sem provar - que a Austrália era apenas uma nação de ghettos e uma colónia do Japão (sic). Os seus dotes de propagandista confundiram a nação e atacaram um dos grupos mais vulneráveis: os imigrantes e refugiados vietnamitas. Embora a Austrália seja uma das sociedades com maior sucesso de imigração, Blainey tentara provar que a Austrália era um país pequeno, de vistas curtas, demasiado intolerante para poder suportar uma tão variada mistura étnica. Também aí se enganou, mas levou irremediavelmente para o seu campo os mais conservadores do país, que ao fim de 13 anos na obscuridade, haveriam de ascender ao poder em 1996, depois de, sem sucesso, se terem tentado servir dos argumentos anti-imigração para derrotar as vitórias dos trabalhistas entre 1983 e 1996.      Como adiante se verá, os debates sobre imigração acabariam por deixar de parte a raça, mas ocasionalmente elementos mais retrógrados trazem de novo à baila esse factor. John Howard, por exemplo, quando era líder da oposição em 1988 (depois de ter destronado, mais uma vez, Andrew Peacock) afirmou depois de se avistar com Margaret Thatcher, que era “ necessário abrandar o ritmo da imigração asiática, para dar tempo de assimilação à população, para benefício da coesão social do país ”. estas declarações haveriam de perseguir Howard até este atingir o poder em Março de 1996. Nunca as retractou, nem desmentiu nem confirmou. Nunca explicou como reduzir a imigração asiática sem discriminar, sem explicar como tal imigração ameaçava o tecido e a coesão social do país. E voltaria a perder a liderança dos conservadores para Peacock, e uma vez mais a recuperaria mais tarde. 2. O RELATÓRIO FITZGERALD      O debate sobre a imigração recebeu, em 1988, com o Relatório FitzGerald, um contributo importante. Estabelecendo o facto de que a imigração era vantajosa, aquele relatório alertava para o perigo de a discussão do assunto resvalar para áreas politicamente perigosas, por haver uma falha de racionalidade na forma como os governos trabalhistas apresentavam a imigração, a qual era entendida mais como uma forma de ajudar os imigrantes do que para beneficiar o país.      FitzGerald, por exemplo, criticava o Programa de Reunião Familiar [14] , que achava dever ser mantido, bem como o Programa de Recepção de Refugiados, mas queria que a ênfase fosse dado aos benefícios económicos que a imigração poderia trazer. O termo multiculturalismo era considerado vago, impreciso e confuso, para a maioria das pessoas, mas FitzGerald achava que nada havia a ser dito sobre a imigração asiática. Um programa destinado a captar pessoas com aptidões necessárias para o país, daria, porém, uma mais imediata contribuição económica, havendo obviamente maior número de candidatos asiáticos, dado o crescente desinteresse dos europeus em emigrarem para a Austrália. Assim, aquele relatório criticava duramente as teses de Blainey e a política do governo trabalhista.      O professor Stephen Castles da Universidade de Wollongong, em Nova Gales do Sul, reconhecido internacionalmente como um académico especializado em políticas de imigração, acredita, porém, que “ a Austrália é o país com maior sucesso em termos de imigração e de adaptação de imigrantes. É interessante ”, acrescenta, “ que grupos , tais como o National Action [15] , nunca tenham tido sucesso na Austrália, para além das franjas lunáticas. O princípio da não discriminação veio para ficar, assim como a imigração e a mudança da componente étnica.      Divisões étnicas, incertezas culturais e perguntas difíceis sobre a sua posição internacional aumentam o clima de possíveis complicações. Esta descrição, que à primeira vista se poderia pensar adequada à China ou à Rússia, diz de facto respeito à Austrália, de que temos vindo a falar. 3. O PAÍS DO CROCODILO DUNDEE ESTÁ DOENTE      Para um mundo habituado às imagens irradiantes de felicidade dos surfistas ou do Crocodilo Dundee, a noção de que os australianos sofrem de introspecção sombria pode parecer inadequada, mas o país confronta-se, de novo, em debate nacional sobre a sua identidade.      Por coincidência, isto acontece quando a publicação, em 1996, de um livro “O Conflito de Civilizações e Uma Nova Ordem Mundial”, de Samuel Huntington, professor da Harvard, está a provocar uma imensa discussão sobre a identidade cultural. Aquele autor considera que o governo trabalhista de Paul Keating, que perdeu as eleições em Março de 1996, cometeu um ‘ erro histórico ’, ao decidir “ afastar-se do ocidente e redefinir-se como uma sociedade asiática ”. Segundo Huntington, aquela decisão estava condenada ao falhanço e a deixar a Austrália permanentemente dividida.      A maioria dos australianos, em ambos os quadrantes políticos, reagiu com alguma irritação a este diagnóstico do professor. Paul Keating negou alguma vez ter declarado que a Austrália era Asiática, em algo mais que não fosse a sua posição geográfica, acusando Huntington de “ tribalismo primitivo ”. John Howard, o novo 1 Ministro afirma que o seu país não deve ter de escolher “entre a sua História e a sua Geografia”. Será que se trata de uma análise, de um académico na outra metade do mundo, totalmente errada? Pode ser que não. A fixação australiana recente sobre a sua própria identidade está intimamente relacionada com os pontos levantados por Huntington.      O debate australiano teve início em Setembro 1996, no discurso parlamentar inaugural de Pauline Hanson, uma deputada independente, a qual pôs em questão os níveis de imigração asiática e falou da possibilidade de a Austrália ser ‘inundada’ por uma vaga asiática. O debate prontamente se estendeu a uma vasta gama de assuntos a ele relacionados: Deverá a Austrália ligar o seu futuro económico aos seus vizinhos do Sudeste Asiático? ou, pelo contrário, deverá incrementar os seus laços tradicionais com a Europa e a América? Deve manter-se uma “sociedade multicultural”, ou quer isto dizer apenas que não passa de uma sociedade dividida? Pode a Austrália atingir uma segurança maior declarando-se uma república e assim cortando os seus laços com a monarquia britânica? Ou será que existe um fosso, cada vez maior, entre uma elite internacionalista australiana e o público, em geral, que permanece pouco convencido, preferindo o glorioso isolamento do seu continente?      A maioria dos australianos, com mentalidade internacionalista gostaria de reduzir o significado e o impacto das declarações da deputada Hanson, proprietária de uma pequena loja de peixe e batatas fritas pronto a servir (fish and chips take away shop) na Queenslândia, fora do triângulo tradicional Sydney - Melbourne - Camberra onde os mais ricos e os mais educados tendem a viver.      Ela foi expulsa do Partido Liberal (de John Howard, agora no poder) pouco antes das últimas eleições, em 1996. Sem grandes poderes de oratória, conforme ficou demonstrado no Parlamento, encheu o seu discurso inaugural de erros crassos, tais como dizer que a população da Malásia era de 300 milhões [16] . Não obstante estes pontos fracos, ela atingiu um ponto crítico, pois apesar de a maioria dos editoriais da comunicação social serem altamente desfavoráveis, inquéritos à opinião pública apontavam uma maioria de australianos como concordantes com as suas opiniões.      A população actual, que ronda os 18 milhões, tem menos de 5% de asiáticos, e em 1996 a imigração não excedeu 80 mil pessoas, um dos níveis mais baixos desde há muito. Esta análise numérica demonstra que a ameaça de uma ‘inundação asiática’ é um exagero despropositado. Mas alguns australianos influentes, tais como o ex-Governador Geral, Bill Hayden, têm declarado que a imigração poderia elevar a população australiana até aos 50 milhões Se então os asiáticos fossem 40% dos novos imigrantes (tal como são actualmente) isto poderia alterar radicalmente a textura étnica do país.      Há 135 anos na pequena cidade de Young, no interior centro do estado de Nova Gales do Sul, os 2 mil mineiros de ouro, chineses, foram encurralados por forças numericamente superiores, espancados e mortos. As suas posses foram saqueadas e as suas tendas destruídas. Ninguém sabe ao certo quantos morreram naquela data, mas hoje a cidade prepara-se para se geminar com Lanzhou, no norte da China, e o seu recém eleito Presidente da Câmara, Tony Hewson, mostra-se orgulhoso ao dizer que, actualmente, ninguém na cidade tem a dizer de mal dos chineses. É isto que se espera possa acontecer no futuro, quando estes debates estiverem esquecidos como anacronismos. 4. A RAIVA INTELECTUAL E A ÁSIA      A noção de que o futuro da Austrália está ligado à Ásia não é recente. Muitos intelectuais, há décadas que vêm afirmando que os laços a uma monarquia distante, relegava o seu país para um estatuto de 2 classe, como “ uma mera delegação do Império ”, utilizando as palavras de Paul Keating.      Eles lamentavam o complexo de inferioridade cultural, segundo o qual se assumia automaticamente que tudo o que fosse Australiano era necessariamente inferior ao produto oriundo do Quartel-general ‘Britânico’. Num famoso estudo da Austrália, publicado em 1964, “O País da Sorte” (The Lucky Country), Donald Horne sugere que “ uma ligação à Ásia, pode ser uma rota alternativa viável, às tentativas, por vezes humilhantes, de manter uma relação familiar com a Europa ... e nessa ligação os australianos podem recuperar um pouco do sentido de confiança e de importância ”. Segundo aquela visão, a ligação asiática, seria uma das três componentes de uma nova agenda: “Aceitação de novas tecnologias; envolvimento com a Ásia; e o choque (quando ocorrer) da proclamação de uma república.” Esta nova agenda atraiu muitos australianos, e na década de 70 começou a transformar-se em política nacional.      Paul Kelly, redactor-chefe do único jornal nacional “ The Australian”. cita que a velha Austrália era constituída por cinco ideias básicas: ”Uma Austrália Branca , proteccionismo tarifário comercial, arbitragem salarial centralizada destinada a dar um nível de vida decente a todos, paternalismo federal e a ligação ao Império Britânico”. De acordo com Kelly, nos últimos 20 anos estas ideias deram lugar a outras cinco: “multiculturalismo, o desmantelar das barreiras tarifárias proteccionistas, um afastamento do sistema de arbitragem salarial centralizado, uma falta de confiança no governo e uma maturidade nacional e aceitação da responsabilidade pelo próprio destino nacional ”.      Nas décadas de 80 e 90 estes conceitos estavam largamente associados aos trabalhistas, no poder, liderados primeiro por Bob Hawke e, depois por Paul Keating. Ao atingir o fim do seu período no poder, Paul Keating trouxe a discussão sobre a república para o centro dos debates políticos, como um corolário lógico e natural para as suas ideias de uma Austrália Multicultural na Ásia. O novo consenso atrás delineado por Paul Kelly não se limitava ao Partido Trabalhista. A opinião política generalizada na década de 80 aceitava a noção de desregulamentar a economia, favorecendo uma aproximação à Ásia e uma Austrália culturalmente mais diversificada.      No entanto, as crises sucessivas que afectaram o governo de John Howard nos seus primeiros 18 meses no poder, levaram-no a confrontar as teses que ele tanto abomina: uma Austrália republicana. Em 3 de Novembro de 1997 [17] , começou uma campanha publicitária e iniciou-se o envio de 12 milhões de boletins de voto para transformar a Austrália numa república.      Os republicanos publicaram anúncios a toda a página com o retrato de Isabel I da Austrália e II de Inglaterra acompanhada da seguinte mensagem: " Se quer que o/a seu/sua filho/a tenham a oportunidade de ser Chefes de Estado, ele/a pode casar com o Príncipe Carlos ou votar no Movimento Republicano Australiano. " Caras mediáticas como as do actor Bryan Brown e Hazel Hawke (ex-mulher do ex-primeiro ministro trabalhista) lançaram na TV e Rádio uma campanha de publicidade pedindo aos australianos que optem pela república, em vez de continuarem sujeitos ao Reino Unido.      Por exemplo, o actor Bryan Brown diz que os jovens australianos podem, um dia, ganhar um Prémio Nobel ou estabelecerem novos recordes olímpicos, mas nunca podem chegar a Chefe de Estado. O envio dos 12 milhões de votos, destina-se a eleger Delegados a uma Convenção Nacional, em 1998, que debaterá o problema da eventual república. O voto neste caso é voluntário, ao contrário do que acontece na Austrália, como anteriormente mencionamos, para as eleições legislativas e autárquicas em que é obrigatório e sujeito a multa. Howard, contrariando assim a lei nacional determinou que o voto fosse voluntário e não sujeito a multa, na esperança de que a abstenção favoreça os seus desígnios pró britânicos.      Aquela Convenção ia também decidir se deveria efectuar-se um referendo sobre a adopção de república antes do ano 2000. Curiosamente a maioria dos referendos realizados na Austrália, desde a Federação em 1901, foi derrotada (8 aprovados em 42), por não ter a maioria de dois terços ou simplesmente porque os australianos são avessos a mudanças?.      Os republicanos, cujas campanhas se intensificaram, depois do Bicentenário, em 1988, querem um cidadão australiano como Chefe de Estado, eleito por uma maioria de dois terços do Parlamento, mas sem alterar o regime parlamentar de duas Câmaras semelhante ao do Reino Unido. Os monárquicos querem a manutenção do status quo com o soberano no trono inglês representado na Austrália por um Governador-geral.      As sondagens revelaram, pela primeira vez na História, que uma maioria da população (entre 52 a 55%) pretende a república, desde a morte de Diana Spencer em Abril de 1997. A coligação liberal-nacional no poder, é dirigida pelo monárquico John Howard, mas alguns dos seus mais vocais membros parecem não serem tão monárquicos. Esse parece ter sido o caso da viúva de Robert Holmes aCourt, Janet (que é a mulher mais rica da Austrália à data em que escrevo) e que declarou em Outubro 1997: " É tempo de mostrar ao mundo que como Nação crescemos ", aliando-se assim à campanha publicitária republicana.      A oposição trabalhista foi sempre maioritariamente republicana e esteve por detrás do lançamento, no início da década de 90 do movimento republicano australiano, mas Paul Keating, então 1 Ministro, convenceu-se cedo demais que a população queria a mudança para o ano 2000 e isso ajudou-o a perder as eleições gerais de Março 1996.      Entretanto a Convenção para a República aprovou em 13 Fevereiro 1998 a realização de um referendo. John Howard, monárquico convicto, tinha um olhar patético perante as câmaras de televisão ao anunciar os resultados: dos 152 membros 73 votos contra 57 a favor da república em troca do actual sistema monárquico.      Surgiram divergências no campo republicano sobre a forma de escolher o futuro Presidente. Howard anunciaria também que colocaria o modelo mais popular - escolha indirecta do chefe do Estado - à apreciação dos cidadãos, dizendo “ Seria uma farsa que a proposta não fosse posta à consideração do povo australiano”. Estão assim criadas as bases para que a Austrália passe a República a 1 de Janeiro de 2001, data em que celebra um centenário de independência numa federação de seis ex-colónias.      Os delegados à convenção - metade eleitos, metade designados - incluíam políticos, republicanos, monárquicos, jornalistas e líderes de opinião, estrelas do desporto e empresários. A convenção aprovou um sistema republicano que inclui um governo eleito e chefiado por um primeiro-ministro, e um Presidente escolhido pelo 1 Ministro e pelo líder da oposição, a partir de nomeações públicas a apresentar ao parlamento, por mandatos de cinco anos. O futuro Presidente reterá os poderes do actual Governador-geral, representante da rainha incluindo o poder de demitir governos, tal como aconteceu em 1975.      Com a queda do governo Keating e a aparição da senhora Hanson, o novo consenso sobre uma Austrália mais aberta, pode estar a mudar novamente. O novo debate sobre imigração acendeu-se, sobretudo devido à incerteza sobre a posição preferida do novo 1 ministro, John Howard. Em 1989, Howard expunha publicamente a sua opinião de que a taxa de imigração asiática deveria ser reduzida, mas como tal opinião foi violentamente atacada ele foi forçado a retractar-se retirando tal comentário. Desde então, John Howard tem-se manifestado contra tudo o que chama de “atitudes politicamente correctas”, defendendo o direito à livre expressão. Quando Pauline Hanson fez o seu discurso, Howard foi convidado a repudiar as suas afirmações, mas nunca o fez. Alegam os seus aliados que não o fez para não dar valor a declarações inócuas, mas poucos acreditam nesta explicação.      Em Junho 1998, o partido ‘One Nation (Uma Nação)’ de Pauline Hanson concorreu às eleições estaduais da Queenslândia onde obteve uns surpreendentes 23% dos votos, contra 30% do governo e 40% da oposição trabalhista. Pauline foi lesta a anunciar que ‘o sucesso de UMA NAÇÃO vai-se estender às zonas rurais de Nova Gales do Sul, Austrália Ocidental e Tasmânia. O ex-Premier da Queenslândia, o dinamarquês da Nova Zelândia, Sir Joh Bjelke PETERSON, um senil octogenário, que ocupou o poder naquele estado durante 20 anos felicitou Pauline por ‘ter feito despertar uma enorme onda de patriotismo... fazendo soar o alarme para os outros políticos em toda a Austrália’      Entretanto, o governo de coligação conseguiu assegurar em 30 Junho 1998, a passagem de uma lei sobre os direitos de terra dos aborígenes, afastando assim o temor de eleições antecipadas, e a capitalização dos votos da extrema-direita representada por Hanson. John Howard teve de chegar a um compromisso de acordo com o vetusto senador Brian Harradine, independente, para que a lei passasse na Câmara Alta do Parlamento na primeira semana de Julho 1998. 5. “A BATALHA DOS BATALHADORES”      A estratégia eleitoral que deu a vitória a John Howard, em Março 1996 baseava-se no “pequeno batalhador australiano”, uma criatura muito discutida, que é, mais ou menos, o normal australiano lutando para viver, educar os filhos e pagar a amortização da casa. Estes “batalhadores” eram tradicionalmente defendidos pela ala Centro Esquerda do Partido Trabalhista de Paul Keating, mas Howard e os Liberais concluíram que ao fim de 13 anos no poder, os trabalhistas se haviam aproximado mais dos ricos do que dos “batalhadores”.      Na economia, Paul Keating estava dedicado ao corte das barreiras tarifárias e a desregulamentação (embora nunca se tenha oposto frontalmente aos sindicatos). Na política externa, estava determinado a fazer com que a Austrália fizesse parte da comunidade asiática de nações, e a cortar os laços constitucionais com o Reino Unido. Culturalmente, ele apoiava uma Austrália multiétnica, uma sociedade multicultural, capaz de reconhecer e corrigir os males feitos pelos colonos brancos aos nativos aborígenes.      John Howard sabe que muitos “batalhadores” estão indiferentes ou até mesmo alienados por esta agenda. Inquéritos à opinião pública regularmente mostram um aumento da oposição a aumentos de imigração e os jornais enchem as suas páginas de histórias sobre gangs criminosos asiáticos. Se a desregulamentação económica trouxe um crescimento económico e mais fortes exportações, certo é que com ela veio um aumento da insegurança económica. Nas relações externas, a política trabalhista de orientação à Ásia veio criar uma nova forma de complexo cultural: os políticos australianos que se orgulham da sua frontalidade, viram-se obrigados a silenciarem-se face às injustiças e violações dos direitos humanos na Ásia. O próprio Keating lutou, até de uma forma embaraçosa na Malásia, para provar que havia afinidades culturais com os países vizinhos, indo ao cúmulo de afirmar em Singapura que o tão típico mateship (camaradagem) australiano era um dos celebrados valores asiáticos.      Ao tentar chamar a si os “batalhadores”, John Howard vai ter um problema: no campo económico: os liberais são tão ‘secos’ como os trabalhistas, havendo até quem afirme não haver distinção entre eles: uma espécie de Tweedledum e Tweedledee . Na prática, os liberais estão dispostos a fazer cortes mais profundos ainda nas despesas públicas e a uma maior desregulamentação do mercado de trabalho, mas esta direcção política, a curto prazo, significa que a “batalha para os batalhadores” vai ser, ainda mais, difícil.      Na política externa, John Howard tem enfatizado os laços tradicionais com a América e Reino Unido, países com os quais os “batalhadores” se identificam mais do que com a Ásia. Mas, também aqui, John Howard enfrentará os mesmos problemas ou factos da vida que confrontaram o seu predecessor Keating: o Sudeste Asiático e o Japão consomem 60% das exportações australianas, bastante mais do que o total combinado da Europa e EUA. (ver gráfico ANEXO II). O futuro económico da Austrália depende, sem sombra de dúvida, da Ásia, o que limita a margem de manobra a um reordenamento das prioridades da política estrangeira. Assim como Keating, John Howard aumentou a cooperação com a Indonésia - um país que muitos australianos vêm sob um olhar profundamente suspeito -, e tal como o seu antecessor, o novo governo mantém-se relutante em provocar a ira asiática, nas áreas de direitos humanos.      No que diz respeito à república, embora John Howard preferisse pessoalmente manter os laços com a coroa britânica, ele sabe que esta foi uma das políticas de Keating que obteve aprovação maioritária.. Os mais recentes inquéritos de opinião indicam que 55% dos australianos querem uma república, existindo uma forte pressão para que algo seja feito antes de a Austrália montar o seu show mundial, nos Jogos Olímpicos de Sydney no ano 2000. O tema república não merece a pena ser contestado, pelo que a Howard resta apenas o tema cultura onde poderá deixar a sua marca. Se bem que Keating falasse muito na ‘ imagem global ’ de uma Austrália multicultural, e dinâmica no futuro, John Howard prefere a imagem de uma Austrália mais relaxada e confortável.      Isto funciona como uma espécie de apelo tácito às certezas de eras passadas, quando os australianos estavam mais certos de tudo e sobretudo mais seguros dos seus empregos, dos seus vizinhos e da sua identidade cultural. Este apelo, para os críticos do governo Howard, representa o saudosismo por uma Austrália caracterizada por uma política racista: a Austrália Branca destinada a deixar de fora a imigração asiática. Marcado por anteriores declarações e temendo que o possam apelidar de racista, John Howard não tem mantido nenhum ataque aberto deliberado no multiculturalismo, hoje abraçado por milhares de australianos, se bem que silenciosamente ele tenha adoptado algumas características da agenda de Pauline Hanson.      Esta agenda crítica surgiu com a publicação do livro “A Austrália Traída” (Australia Betrayed) da autoria de Graham Campbell, outro deputado independente, aliado de Hanson. No livro atacam-se as ‘elites’ que marginalizam as ‘maiorias’, e em especial dois órgãos governamentais como tendo uma agenda política elitista: a OMA (Office of Multicultural Affairs, da qual este autor foi consultor entre 1989 e 1994) e o Bureau da Imigração e Pesquisa da População (Bureau of Immigration and Population Research). Por irónica coincidência, ou não, estes foram dois dos organismos governamentais que o governo de coligação liberal-nacional aboliu, logo nos primeiros meses depois de ter chegado ao poder.      O governo também endureceu a sua política em relação aos assuntos do direito à posse das terras aborígenes e tomou uma atitude menos crítica em relação aos excessos da colonização branca. Por outro lado, as tentativas de alterar os critérios selectivos da imigração (dentre eles, a necessidade de obrigatoriamente todos falarem fluentemente Inglês antes de serem potenciais candidatos a imigrar) foram de tal forma consideradas como reminiscentes da velha política de uma Austrália Branca, que foram reprovadas pelo Senado.      Todos estes sinais contraditórios levaram os trabalhistas a criticar o governo por não se ter demarcado das declarações inflamatórias de Pauline Hanson, embora lhe concedam algum crédito por não ter alterado de forma substancial a identidade nacional australiana ou a sua posição no mundo.      Paul Keating, agora reformado das lides políticas é mais crítico ao afirmar que o debate criado por Hanson veio “pôr à solta um animal selvagem extremamente perigoso, feio, vingativo, xenófobo”. As diferenças entre os dois governos são mais em estilo do que substância e ninguém sugere que a Austrália feche as portas à imigração ou volte as costas à Ásia, e pelo contrário a política imigratória australiana deverá continuar bem mais aberta e tolerante do que a de qualquer seu país vizinho asiático.      Curiosamente, a única área em que o consenso bipartidário não existe é no campo menos discutido e debatido: o económico. Ambos os partidos concordam que ao fim de 24 trimestres (6 anos) de continuado crescimento económico, o vulgar cidadão australiano está baralhado e inseguro. Tal como em muitos outros países ricos, existe muita discussão sobre a insegurança económica, alta taxa de desemprego e salários mais baixos para os menos qualificados.      O governo liberal tem, no entanto, avançado na direcção de limitar o poder sindical e desregular o mercado de trabalho. Da mesma forma, pugna por uma política fiscal conservadora, capaz de lidar com a tendência australiana de viver para além dos seus meios, mas, por outro lado, parece indicar uma tendência de trocar a ênfase numa liberalização unilateral tarifária por uma nova política de acordos bilaterais com cada país, de acordo com as posições destes. Na maior parte das indústrias, as barreiras tarifárias passaram para 5% ou menos. A reciprocidade nas restantes áreas sob proteccionismo (em especial carros e têxteis) pode reflectir a atitude mais céptica do governo Howard, em relação à Ásia, para além do desejo genuíno de proteger os “batalhadores”.      Por seu turno, os trabalhistas, desde o primeiro orçamento do novo governo liberal, concentraram os seus ataques nas medidas de estrangulamento da economia. Gareth Evans, ex-ministro dos estrangeiros, actual ministro sombra da economia, mostra-se pouco preocupado com o enorme défice na balança de contas correntes, considerando a baixa taxa de poupança nacional, como um problema secundário quando comparado com a necessidade de elevadas taxas de crescimento económico. Esta atitude pode querer significar uma tentativa dos trabalhistas recuperarem a lealdade dos seus velhos apoiantes e simpatizantes “batalhadores”, deixando de parte as políticas fiscais ortodoxas dos governos de Paul Keating.      Em Agosto de 1997, o governo conservador de John Howard emitia uma declaração oficial a repudiar o racismo e a defender a tolerância, vitais para a boa imagem do país na Ásia. O documento intitulado “No Interesse da Nação”, uma espécie de Livro Branco para a política externa e comercial, foi a forma encontrada pelo executivo para, finalmente, responder às críticas e polémicas declarações de Pauline Hanson, que havia afirmado que ‘ o país estava submerso por asiáticos ’. Aquelas declarações, como atrás vimos, deixaram o país dividido, tendo havido mesmo países que chegaram a acusar John Howard por este não ter condenado, de imediato, as declarações da sua ex-colega de partido, agora independente e fundadora do partido ‘Uma Nação’.      Quer a classe empresarial, quer a diplomática, não se cansaram durante estes dezoito meses que se seguiram `as controversas declarações de Hanson, de salientar que os comentários anti-imigração haviam prejudicado a reputação da Austrália e as suas relações comerciais com os países asiáticos. Uma prova de que aquelas declarações denegriram o bom-nome do país é a afirmação naquele documento ora vindo a lume de que: “ A discriminação racial não é apenas uma questão moral, ameaça os principais interesses da Austrália. 6. DÊ VIVAS À ALEGRIA      De forma distinta, os debates sobre imigração, identidade cultural e política económica reflectem uma nova postura de incertezas no “País da Sorte” (“Lucky Country”, livro de Donald Horne, publicado em 1964). Ambos os partidos, trabalhista e coligação liberal-nacional [18] parecem estar indecisos quanto ao rumo a adoptar. John Howard pretendia dar mais relevo às sensibilidades dos “batalhadores”, mas até agora tem-se limitado a questões consensuais em assuntos económicos e culturais. Os trabalhistas, que sob Keating, haviam adoptado esta postura, parecem orientar-se num novo rumo económico, até agora pouco definido.      Para um observador externo, muito desta atitude de ansiedade pode parecer excessiva. O antigo consenso sempre tratou as ansiedades australianas com um pouco de desdém, mas pelo menos baseava-se numa visão coerente e optimista do futuro do país. E de facto, a Austrália tem muito de que estar optimista. Pode ter baixado na classificação (ranking) internacional de prosperidade nos últimos 20 anos, mas de acordo com o Banco Mundial continua a ser o mais rico país do mundo, ao tomarmos em consideração as riquezas naturais ainda não exploradas.      Com a taxa de crescimento nos últimos anos bem constante, se bem que não tão elevada como a dos ‘tigres asiáticos’ (ora em crise), a beleza natural da Austrália, o espaço e o sistema sociopolítico aberto fazem do país, um local atraente para viver. Não me recordo de ter alguma vez visto ou ouvido falar de filas de australianos a quererem emigrar para nenhum país asiático, nem mesmo para aproveitar e fazer fortunas rápidas nos últimos anos de Hong Kong como colónia britânica, ou de Macau [19] como território sob administração portuguesa. Sobretudo, e para além de toda esta controvérsia sobre a crise de identidade cultural, a Austrália é um país, que para os que estão de fora tem uma cultura distinta e atraente: robusta, desinibida, instintivamente equalitária e levemente hedonista. A maior parte das culturas do mundo ocidental são bem piores. 7. BEM-VINDOS AO PARAÍSO PROMETIDO: a outra face da Austrália [20]      É vulgar as pessoas em Portugal pensarem na Austrália como um Eldorado mítico (ver P.S. abaixo), onde a fortuna se obtém pontapeando uma qualquer pedra. Bastava chegar, procurar emprego e começar a poupar para a alcançar. a) De médico a condutor de táxi      Existiam durante a década de 80 inúmeros exemplos do jovem analista de sistemas e/ou programador que, chegando com meia dúzia de palavras de Inglês, depressa se impunha para ganhar mais de 50 mil dólares anuais (6 000 contos). Havia também casos de engenheiros, estofadores e toda uma gama de profissionais que rapidamente cresceram na vida e se tornaram ricos neste continente-ilha. A realidade não é tão prosaica nem poética como aquelas simplificações insinuam.      Vejamos alguns casos:      a) No Afeganistão, Zalmai era arqueólogo com uma base educacional impressionante, um bom salário e uma vida típica da classe média desafogada. Estudou nas Universidades de Cabul (Kabul) e da Índia, mas na Austrália esses estudos não contam. Em 1986 disseram-lhe que mais de dez anos de estudos correspondiam apenas a dois anos de ensino superior na Austrália.      b) Pedro era desenhador no Chile de Pinochet desde 1972. Agora faz limpezas e tem um trabalho indiferenciado na construção civil.      c) Maria foi durante 12 anos secretária de direcção de uma conhecida empresa automóvel portuguesa. Chegada à Austrália em 1983 trabalhava em 1988 (há quatro anos) numa fábrica a cortar cabeças a galinhas e a empacotá-las. Hoje, quinze anos mais tarde, é secretária de uma firma e tem um nível de vida bem superior ao que tinha. Divorciou-se, casou de novo e teve mais filhos e consegue conciliar uma vida de mãe e mulher com a de profissional executiva, mas nunca se esquecerá daqueles anos iniciais.      d) José era jornalista economista há vinte anos. Depois de ter passado algum tempo como intérprete de Espanhol para os serviços de imigração, apesar de ser o Português a sua língua mãe, é funcionário do ministério de emprego. Hoje, passados 15 anos e depois de ter tido alguns anos de contrato como jornalista profissional em ministérios ainda não deixou a segurança do lugar vitalício no ministério do emprego.      e) Isabel era arquitecta em Portugal. No começo da carreira e atraída pela visão de uma Austrália rica, largou a Macau das Patacas para vir ganhar 350 contos mensais. Em 1988 tinha três empregos e não consegue nem um terço daquilo que sonhava ganhar.      Estes apenas alguns dos exemplos de uma vasta maioria de imigrados para este país. Muitos deles como vemos não venceram. A culpa não foi deles mas de um sistema antiquado de reconhecimento de qualificações académicas e profissionais que entretanto tem sido melhorado ao longo destas últimas duas décadas, para abarcar cada vez mais cursos e qualificações de países tão diferentes como o Afeganistão e a África do Sul. De qualquer forma muitos talentos não foram aproveitados e são melhor analisados por quem viaja de táxi e conversa com o condutor      Zalmai foi um de milhares de Imigrantes que viram as suas qualificações não reconhecidas pelo governo australiano e que sofreram a humilhação de repetirem os seus estudos para satisfazerem os requisitos locais.      Assistentes sociais afirmam que chega a rondar os 90% o total de pessoas que está a trabalhar em campos diferentes das suas carreiras profissionais. Zalmai era Director do Instituto Arqueológico do Afeganistão, Director Regional do Centro de Estudos de Kushan, a quem a UNESCO encomendou dois volumes de História, para além de ser Membro da Academia de Ciências.      O Dr. A. R. era um dos mais reputados cirurgiões portugueses na década de 70, mas ao chegar à Austrália foi obrigado a fazer um estágio de seis meses antes de ser reconhecido como médico de clínica geral. Um dia fartou-se e regressou a Portugal. Outros, sem poderem regressar aos seus países de origem, palcos de guerras ou perseguições políticas acabaram por se tornar no simpático condutor de táxis com sotaque que a cada passo mete conversa, educadamente quando ouve outro passageiro com sotaqueTal como ele, milhares de médicos reconhecidos em quase todos os países do mundo aqui são obrigados a submeterem-se a exames ridículos fruto do lobby proteccionista dos médicos australianos, temeroso destas invasões estrangeiras que lhes podem vir a dificultar a continuação da prática monopolista da medicina na Austrália. b) A miragem      A maior parte destes casos (e limitamo-nos a citar casos que conhecemos bem e de uma forma pessoal) sofreu durante anos a humilhação de ser recusada para entrevistas de trabalho, muito inferiores aos anteriores empregos, com desculpas tais como ‘ o seu Inglês não é suficiente’, ‘é demasiado qualificado para este emprego’, ‘vai-se fartar depressa deste emprego pois não podemos utilizar os seus conhecimentos’, ‘não tem a experiência local (australiana) necessária para se integrar no serviço’, ‘ o seu sotaque vai ser um problema de comunicação grave em caso de acidente’, ‘as suas qualificações são insuficientes comparadas às locais’, etc., etc.      Muitos destes e doutros casos, ilustram apenas a neo-paisagem humana de uma Austrália, que sempre necessitou de trabalhadores estrangeiros, mas simultaneamente sempre se recusou a permitir-lhes o exercício das suas profissões.      O racismo e a discriminação a nível profissional, no mundo académico e de negócios, têm sido severamente criticados por diferentes entidades, incluindo a própria Igreja Anglicana, e o seu Director, Reverendo Livingstone. Em 1988 ele citava, a propósito que tem visto cientistas a esfregarem o chão das carruagens de comboio, apenas porque, depois de lhe ter sido concedido e garantido o direito a emigrar, lhes foi recusado o direito a trabalhar na sua ocupação. Eu assisti a casos bem piores. A miragem de uma Austrália rica e desesperada por gente capaz tem atraído inúmeras gerações de portugueses, mas a realidade dos factos nem sempre (aliás, pelo contrário) coincide com a do paraíso imaginado.      É comum sabermos de secretárias que estão a trabalhar em fábricas ou como assistentes de vendas, apenas porque a maioria dos patrões não lhes dá uma chance de prosseguirem as suas profissões. Mais alguns exemplos ajudarão a perceber quão difícil é a integração dos imigrados portugueses na sociedade contemporânea australiana.      Leonir (nunca mais soube dele, depois de 1990) era desenhador de arquitectura no Brasil, tendo participado em projectos tão grandiosos como o desenho da Barragem de Iguaçu no Brasil (fronteira com o Paraguai), sendo então considerado como um dos melhores profissionais do seu ramo até que decidiu dar o grande salto e vir para a Austrália. Durante dezoito humilhantes meses foi funcionário de limpeza numa escola, depois conseguiu finalmente um emprego temporário na sua profissão e em 1988 gabava-se de ter o seu próprio atelier de arquitectura. A razão para o seu sucesso deve-se ao apoio de inúmeras pessoas que o incitaram a perseverar. De outro modo estaria ainda hoje a limpar escolas      Luísa era professora até emigrar para a Austrália em 1975, contando mais de 20 anos de serviço no ensino secundário. Como refugiada de Timor teve de satisfazer-se com os empregos existentes e durante anos desempenhou a dura posição de assistente de cozinha num restaurante suburbano. Trabalhava das 10 da manhã às três da tarde e das seis da tarde até à meia-noite nos dias de semana e às duas da manhã nos fins-de-semana. Ganhava então a ridícula quantia de cinco dólares por hora (600$00) da qual descontava 30% para impostos. O marido, demasiado idoso para alguém lhe oferecer emprego, recebia apenas um pequeno subsídio de desemprego com o qual se iam mantendo. Até que um dia, Luísa baixou ao hospital queixando-se de profundas dores de costas. Os médicos diagnosticaram um adiantado estado de uma severa doença. Ficou imobilizada. A família vive da ajuda de amigos e vizinhos pois os subsídios do governo nem para a renda da casa chegam.      Rey, nascido no Irão, viveu quinze anos nos EUA sendo um dos melhores engenheiros de petróleos do país. Auferia fabulosos vencimentos, mas as saudades da família que se havia entretanto radicado na Austrália, trouxe-o até cá. Três anos depois e ainda sem emprego desistiu e regressou aos Estados Unidos onde rapidamente se empregou numa multinacional.      O Dr. A. R. de quem falávamos atrás, ainda chegou a ficar uns dois anos e meio, depois de ter concluído a sua comissão de serviço militar obrigatório em Timor Leste em 1974. Desiludido regressou a Portugal. Ainda hoje é um conceituado cirurgião de um Hospital Público, do qual se reformou por ter atingido o limite de idade.      Maria já não corta cabeças de galinhas. Começou por concluir um curso de readaptação secretarial e tem vencimentos muito acima da média. Curiosamente, manteve o seu sotaque carregado, e empenhou-se em tirar um curso de relações públicas fora das horas de serviço.      José continuou com o seu emprego de funcionário público, com a segurança de emprego até à velhice (se lá chegar). Sente-se frustrado e subutilizado dada a sua experiência anterior. Todos lhe disseram para regressar aos estudos e obter cursos locais que lhe dessem um rápido ingresso na sua profissão, mas o seu orgulho não lho permite. Porquê culpá-lo? Apesar de ser um eficiente funcionário, continua a ser tratado como qualquer outro, sem grandes esperanças de melhorar a sua situação. Um dia também se desempregará e voltará a concentrar-se no trabalho que o ocupou durante décadas.      Luísa já se esqueceu há muito dos anos em que leccionara. Para ela a vida passou a ter uma memória única e avassaladora: a da sua vinda para a Austrália e da doença que a mina. A sua modesta casinha que herdara numa pequena vila portuguesa teve de ser vendida para pagar os tratamentos que aqui fez e não estavam cobertos pelo seguro nacional de saúde, Medicare.      Diana nascida em Macau no seio das tradicionais famílias macaenses, habituada a coabitar com “Tai Pan’s” jamais se preocupou como haveria de ganhar sustento. Hoje, na Austrália em plena meia idade da menopausa, desligada da influência dos núcleos de influência familiar que entretanto se foram esvaindo, trabalha como operadora de computadores e vive muito modestamente nos subúrbios.      Isabel, como jovem que era, aproveitou a vida até chegar ao ponto em que finalmente ganhará o que sonhara, mas terá sempre de continuar com os seus múltiplos empregos, para manter o estilo de vida lisboeta das discotecas aos fins de semana e trabalhando que ‘nem uma moura’ nos outros dias. c) O preço do sucesso      A maior parte destas pessoas continuará a confessar adorar a Austrália e o seu modus vivendi, mas sentem-se desapontadas, frustradas e incapazes de voltar atrás e confessarem o seu falhanço económico. É com elas que a Austrália cresce. Voltar seria admitir a derrota e com tantos casos de sucesso financeiro a rodeá-las, sabem que voltar é admitir o fracasso. Sacrificados/as tais como os antecessores imediatos do percurso migratório, que hoje dispõem de casas e carros e demais atributos de sucesso burguês, representam uma pálida imagem da Austrália contemporânea, multicultural e exploradora do trabalho dos imigrantes.      Um dia também terão o seu torrão residencial e poderão voltar para férias, para com a imagem do sucesso marcada nos vincos de suas rugas e olheiras sobranceiramente tratarem os outros, aqueles que não tiveram a coragem ou a ‘sorte’ de emigrar e os contemplam com inveja dissimulada.      Para muitas destas personagens, na sua maioria incógnitas, a solidão e o desapontamento são recompensados com memórias místicas de um Portugal ou de uma qualquer terra a que chamem torrão natal.      O nível de vida e o seu bem estar pessoal é em muitos casos equivalentes aos dos países/terras de origem. Dirão, em certos casos, que é preferível assim, pois melhoraram as condições de competitividade futura dos seus filhos, mas isto nem sempre corresponde à realidade.      Entretanto no voo QF 02 aterrava hoje em Sydney, às 05.55 da manhã um cansado mas sorridente casal. Mário, 39 anos, casado, engenheiro civil, até há pouco funcionário superior de uma enorme empresa/ministério. Ela, Nazaré de seu nome, professora eventual do ensino primário/secundário. Alguém se esquecera de lhes fazer chegar às mãos esta crónica      Existem engenheiros civis desempregados na Austrália. Desses, 98% imigraram nos últimos anos. Professoras como ela não são cá necessárias para ensinar português. Há uma proliferação de docentes que operam em regime parcial, depois dos estudos curriculares australianos. Desses docentes poucos são diplomados e o salário auferido ronda os 50 contos mensais (Nota do Autor: todos os nomes e personagens são fictícios mas baseados em casos reais e verídicos). [21] CRÓNICA III A VIDA CULTURAL NA AUSTRÁLIA PARTE 1:- O DESERTO      Para uma população tão numerosa como é a da comunidade portuguesa na Austrália, poderá parecer surpreendente o número de organizações que a suporta, mas este facto assenta em razões estruturais da população e da sua formação cultural. De facto, em Sydney e em todo o estado de Nova Gales do Sul, onde se localiza cerca de metade de toda a comunidade lusofalante, existem de momento dois semanários de língua portuguesa e quatro programas de rádio [22] .      A situação nem sempre foi assim. Recordo-me de, em princípios da década de 80, haver, apenas, um programa semanal de duas horas na rádio do canal multicultural SBS [23] e dois jornais semanários de duvidosa qualidade. Naquela época, era raro ver-se algum filme português na SBS e os poucos transmitidos eram fracos em qualidade (Dina & Django em 1983, Brandos Costumes e a série televisiva de Lauro António sobre a obra de Vergílio Ferreira ‘Aparição’ retratando a vida num seminário católico em Portugal). Depois, vai havendo sempre as telenovelas brasileiras, entre as quais as celebradas ‘Escrava Isaura’ e ‘Gabriela’ em repetição, e programas de variedades de artistas musicais contemporâneos como João Gilberto, (o recém falecido Tom) António Carlos Jobim, e Caetano Veloso.      O movimento cultural, na Austrália, carece de definição e caracteriza-se, na maior parte dos casos, pela omissão. A constituinte básica da maioria da população (embora não existam análises de mercado a comprová-lo) assenta ainda em critérios bem ao gosto da verdade salazarista, pelo que muitas tentativas de alargamento do leque cultural são tidas como subversivas e condenadas ao fracasso prematuro. Algumas sobreviveram escasso tempo. Os jornais são disso um óptimo exemplo. Os clubes portugueses dedicam-se sobretudo ao desporto (futebol, atletismo e ciclismo), às actividades de salão (bingo, loto, bilhar, cartas, etc.) e à culinária.      Retratada assim, a quotidiana realidade, pouco mais haveria a dizer sobre a vida cultural, social e desportiva dos portugueses aqui radicados. Existem, a nível clubista, iniciativas anteriores à RTPi, de transmissão de filmes tradicionais portugueses (“O Costa do Castelo”, “O Leão da Estrela”, dentre outros, já foram passados com legendagem em Inglês no canal multicultural SBS) e de jogos desportivos mais importantes.      Será vital referir que a falta de meios e de apoio condigno são, sem sombra de dúvida, as componentes mais responsáveis pelo abandono a que a cultura portuguesa anda votada, mas não são as únicas. A inacção e apatia caracterizaram durante décadas uma comunidade, que financeiramente se soube impor ao nível das suas ambições, limitadas, de posses materiais primárias. Tem havido obstáculos intransponíveis a ultrapassar para alterar este status quo ou deserto cultural em que se vive. PARTE 2- O 10 DE JUNHO      Durante mais de uma década [24] assisti a inúmeras manifestações, a que os políticos gostam de apodar de ‘portuguesismo’. Recordarei, aqui, uma delas, passada no já longínquo ano de 1984, em Marrickville, um subúrbio de Sydney com vasta população de imigrantes (16 mil Gregos, 10 mil Indochineses e 5 mil Portugueses). Domingo à noite, 19:30, temperatura a convidar abafo neste Inverno (sim, aqui Junho é como Dezembro em Portugal). Local: Salão da Câmara Municipal (Town Hall) de Marrickville. Audiência estimada em mil pessoas. O palco engalanado com a bandeira das cinco quinas lusitanas e com os castelos de Afonso IV a provar a sua ligação real ao reino de Castela, ladeada pela bandeira britânica! Ah! não!, é o estandarte australiano que incorpora no seu quarto superior esquerdo a britânica Cruz de S. Jaime (St. James) em branco e encarnado, em fundo azul com as estrelas brancas representando as seis colónias da Austrália. Uma bandeira, britanizada, monárquica de 1901 ao lado da representante da nação que em 1143 se chamou de Portugal.      Atmosfera de festa com as crianças a brincar no chão encerado. As mesas apejadas de gente com caras bem típicas da mescla lusitana oriunda das sete partidas do mundo. Bebidas circulam: um rápido inquérito visual, às preferências públicas, revela como vencedora a cerveja enlatada, seguida de perto pelo vinho português, com predominância para o verde sobre o tinto. A mesa de honra situada no canto da sala, em forma de U, vazia, decorada com os tradicionais adornos. As restantes mesas cobertas por toalhas de papel, sem pratos, talheres ou copos. As luzes e os focos experimentais sobre o palco ainda deserto orlado de taças e medalhas. Nas paredes cartazes alusivos a Luís Vaz de Camões, o poeta e o português que anualmente é louvaminhado nesta data, para, depois, recolher aos sótãos da memória e às mansardas do esquecimento durante os restantes 364 dias do ano.      Por sobre o burburinho do falatório tão tipicamente português, ornado de diferentes tonalidades e dialectos, algumas pessoas entram na sala e dirigem-se para a mesa de honra. A CERIMÓNIA VAI COMEÇAR.      As luzes apagam-se e recobram vida os focos . As câmaras de vídeo aprontadas. Os fotógrafos em posição. Duas jovens aos microfones esforçam-se por sobressair ao zumbido que ecoa nos altos tectos trabalhados deste município onde tantos portugueses vivem e labutam (5 mil dos cerca de 35 mil portugueses do estado de Nova Gales do Sul). Marrickville é um subúrbio interior de Sydney, zona industrial, povoada por inúmeras nacionalidades, a 12 km do centro da cidade (‘A Baixa’ ou ‘The City’), sendo os portugueses a sua 3 nacionalidade predominante.      Finalmente, abafado o ruído, as vozes femininas anunciam o início da confraternização mais esperada do ano para a comunidade: o 10 de Junho. Anunciado, ou antes, lido, o programa das celebrações, é chamado ao palco o Embaixador de Portugal [25] em Camberra, que, numa breve alocução explica o significado da data e da reunião, lamentando o facto de, nem sempre poder estar em Sydney nesta data, face à diversidade geográfica pela qual a comunidade se dispersa. Uma gravação sonora transmite a alocução de S.Ex., o Presidente da República [26] .      As crianças continuam a brincar e a pular alheias ao significado e desenrolar dos discursos, que mal entendem. Antes da alocução todos se ergueram para os hinos dos dois países [27] . O espectáculo começa com um grupo timorense em boa toada reminiscente das mornas cabo-verdianas. Depois, em traje de gala, guerreiros Mauberes (Timor Leste) do grupo ‘Loro Sae’ numa excepcional demonstração das danças de Timor, encantando e aquecendo o público presente, ainda pouco habituado ao exotismo oriental, mas acorrendo em doses maciças ao sector dedicado às bebidas.      Vieram, a seguir, as danças regionais folclóricas portuguesas pelo grupo ‘Aldeias de Portugal’ (o mais antigo da Austrália), de fama bem reconhecida na comunidade, constituído por jovens dos 5 aos 20 anos, desempenhando vários números do seu reportório continental e insular (convém não esquecer que uma grande parte da comunidade aqui residente é originária da Madeira). Mais algumas baladas e canções timorenses lançam definitivamente a favor da comunidade maubere o ónus de manter a festa animada e a audiência entretida.      Seguiu-se um momento alusivo a Camões, com uma pequena aluna de um dos ‘Cursos de Língua e História Portuguesas” recitando passagens célebres de “Os Lusíadas”, infelizmente em fracas condições sonoras e com alterações ao texto vernacular. Outras participações idênticas estavam previstas por parte de escolas portuguesas deste estado, mas foram boicotadas pelos seus docentes, numa manifestação clara de que nem o 10 de Junho acaba com as quezílias e guerrilhas do quotidiano da comunidade. A primeira parte das celebrações do dia de Camões e das Comunidades teria mais danças guerreiras de Timor.      Entretanto, a mesa de honra estava a ser servida dos aperitivos típicos: rojões, pastéis de carne, rissóis, carne assada, pão, vinhos verde e maduro. O remanescente dos convidados e o Zé Pagante satisfazia-se com a possibilidade de comprar bebidas no bar. Chegados ao intervalo foi-nos servida (haviam-nos convidado para a mesa de honra) uma feijoada ou dobrada à portuguesa.      A segunda parte do espectáculo trouxe mais danças timorenses e folclore, tendo culminado com a atribuição de medalhas e troféus a membros da comunidade presente. Para além do embaixador estavam presentes em representação de Portugal, um Vice Cônsul, um Chanceler e dois Secretários Consulares. A festa teria o seu encerramento depois de um baile típico à antiga portuguesa.      Esta foi uma das melhores festas de 10 de Junho que recordamos pelo portuguesismo dos Timorenses. Dir-se-ia que Camões naquele, já longínquo ano de 1984, era Timorense na Austrália de contrastes e nacionalidades distintas. A comunidade aliou-se às comemorações mas não cooperou. PARTE 3 LITERATURA PORTUGUESA VISITA A AUSTRÁLIA      Uma lufada de ar fresco é como se poderia chamar em finais de 1997 a exposição inaugurada em 18 de Agosto na Biblioteca estadual de Nova Gales do Sul. A mostra, composta por dezenas de painéis expressamente preparados reproduzem obras de arte e capas de alguns dos mais importantes textos literários portugueses durou uma quinzena, foi organizada com apoio do Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, e do Instituto Camões, que seleccionaram mais de 250 obras para oferta posterior à Biblioteca Estadual.      Esta iniciativa do cônsul português José Costa Pereira data de 1995 altura em que iniciou os contactos para a concretização deste projecto, um dos maiores nas últimas duas décadas. Depois da abertura do Museu Etnográfico Português da Austrália (Sidney) e da Conferência dos 500 Anos da Viagem de Vasco da Gama à Índia, esta iniciativa assinala a recuperação, com o apoio da Fundação Gulbenkian, de um manuscrito alusivo à viagem de Pedro Fernandez de Queiróz até às paragens australianas em 1606. O texto, é da autoria de D. Diego do Prado Y Tovar, que viajou na caravela de Luiz Paes de Torres, o navegador de origem portuguesa que, ao serviço da coroa de Espanha, descobriu o estreito que separa a Austrália da Papua Nova Guiné e ao qual foi dado o seu nome. O documento pertence ao espólio da colecção Mitchell da Biblioteca estadual de Nova Gales do Sul. Queiróz partiu do Perú em 1605, chegando ao Vanuatu, depois de atravessar o Pacífico Sul em Maio de 1606, regressando a Madrid um ano depois. A viagem continuou sob o comando de Diego do Prado, apesar de haver indicações de que era Torres quem estava aos comandos da frota.      Costa Pereira obteve da Gulbenkian um subsídio de mais de 3 mil dólares (400 contos) para a recuperação do manuscrito. Esta biblioteca, ora oferecida, engloba autores clássicos, contemporâneos, literatura infantil e álbuns, abrangendo edições recentes de Camões, Gil Vicente, Lídia Jorge, José Saramago e João de Melo, e outra oferecida pela Fundação Oriente. Espera-se que esta tenha melhor sorte do que idêntica oferta nos anos 80 que levou sumiço (conforme escrevemos noutra crónica) já que os dois painéis da pintora Teresa Magalhães oferecidos pelo Metropolitano de Lisboa ao City Rail de Sidney recentemente, continuam ainda ao dispor dos passageiros que os queiram ver. CRÓNICA IV Parte I A DESCOBERTA DA AUSTRÁLIA PELOS PORTUGUESES [28]      Desconhecida para a maioria dos australianos é a história deste país, que nas duas últimas décadas sofreu várias alterações conceptuais. É agora aceite, pela maioria dos historiadores, que os primeiros europeus a navegarem e a traçarem cartograficamente a costa australiana não foram, ao contrário do que tem sido ensinado ao longo dos 200 anos da nação, o capitão Cook e seus correligionários, mas marinheiros portugueses que o fizeram mais de 250 anos antes daqueles.      A teoria de os portugueses terem sido os primeiros, não é de agora nem sequer é nova. Com efeito, celebrou-se em 1984 o centésimo aniversário de tal teoria, defendida então pelo historiador George Collingridge, o qual, infelizmente, jamais a conseguiu provar. Depois dele, vários outros tentaram sem sucesso demonstrar a viabilidade de tal interpretação, jamais se quedando para além da especulação. Em 1977, um advogado, de seu nome, Kenneth Gordon McIntyre, publicou um livro intitulado “ A Descoberta Secreta da Austrália ” que, veio alterar totalmente este estado de coisas, passando a partir daí, a ser o ónus dos cépticos de desmentirem as suas alegações.      Embora McIntyre não seja um historiador na acepção académica do termo, certo é que os seus estudos passaram a ser aceites pela maioria dos académicos de todo o mundo. E, embora o autor confesse que tal publicação, umas décadas antes, era impensável, nem teria qualquer probabilidade de ser tomada em consideração, devido à questão de honra que constituía para qualquer historiador britânico assumir a descoberta da Austrália como inegavelmente devida a Cook, certo é que esse xenofobismo se esfumou desde os tempos de Collingridge. Para um dedicado estudante de Cook, conselheiro da Real Sociedade Australiana de História, também o problema da religião influiu na refutação das teorias de Collingridge. Como católico era visto como oponente das correntes maioritárias protestantes a que o próprio Cook pertencera.      A versão de McIntyre tem consideráveis implicações na história europeia da Austrália, colocando toda a temática da primeira colonização numa perspectiva e diferente escala temporal. Significa que os portugueses atingiram Botany Bay e Sydney Heads (pontos costeiros da actual Sidney) cerca de 1524, ou seja, 40 anos antes do nascimento de Shakespeare e sete anos antes das teorias de Martinho Lutero terem atingido a luz do dia.!! Tal versão dá-nos também uma diferente leitura da viagem de Cook, mais próxima dos tempos actuais do que da inicial viagem dos marinheiros portugueses.      O interesse de McIntyre por Portugal deve-se a fortuito acontecimento associado à sua posição de Leitor de Literatura Inglesa na Universidade de Melbourne, quando tomando conhecimento da obra de Elizabeth Barrett Browning “ Sonetos Portugueses ”, um imenso interesse o despertou para a língua e história portuguesas. Assim, em 1966, realiza a sua primeira viagem a Timor Português, que então celebrava o seu 450 aniversário de colonização lusa.      Duas coisas o impressionaram sobremodo nessa visita: primeiro, a distância relativamente curta a que Timor se encontra da Austrália (416 km por mar ou hora de viagem aérea), segundo, que uma potência marítima como Portugal tivesse uma colónia tão perto do continente australiano, 254 anos antes da chegada de Cook. Poderia, então, ser possível que os experientes marinheiros portugueses, capazes de saberem lidar com todos os segredos das velas e dos barcos, que lhes permitira chegar a Timor em 1516, durante séculos nunca tivessem chegado à vasta massa continental da Austrália?      Não havia dúvidas de que a história da exploração necessitava de ser reexaminada. Assim, sem querer, estava a aproximar-se da tese de Collingridge datada de 1880. Tal como o seu antepassado, McIntyre descobriu que um antigo mapa (ver reprodução) provava não apenas que os portugueses tinham atingido a Austrália, mas que haviam traçado 2/3 da sua costa. A sua interpretação do referido mapa provaria ser, no entanto, irrefutável, ao contrário dos esforços do seu compatriota. O mapa em questão, denominado o mapa Delfim por ter sido elaborado para o delfim do trono francês, data de 1536, e é o mais antigo de todos os mapas da antiga escola (e maior centro cartográfico da época) de Dieppe.      É um mapa do mundo, tal como era conhecido na época, que incluía já as ilhas do arquipélago indonésio e uma vasta massa continental, que se estendia a sul da Indonésia e a que se chamava, então, Java a Grande ( Jave la Grande ). Este, era aliás, o nome que lhe havia sido dado antes por Marco Pólo, designando uma vasta área de terra que se sabia existir na região. Java, a Grande, tal como aparece no mapa em questão, tem uma vaga semelhança com a forma da Austrália actual e encontra-se a cerca de 1 500 km a oeste da real posição do continente. O mapa mostra, assim, uma distorção da verdadeira imagem do continente, devida ao facto de os portugueses da época não saberem calcular, com exactidão, a curvatura do globo e os desvios provocados pelo campo magnético terrestre.      McIntyre não foi o primeiro a descobrir este facto, mas os outros haviam-no feito sem qualquer credibilidade, enquanto que ele resolveu dedicar-se a estudar com precisão o método cartográfico português utilizado há mais de 450 anos, servindo-se de um tratado da autoria do célebre matemático Pedro Nunes. Assim, habilitado com os erros da técnica utilizada, à data, pelos portugueses, foi capaz de estabelecer os desvios existentes e, eliminá-los. Para isto, serviu-se de elaborados cálculos matemáticos capazes de desafiar qualquer outra possível explicação. Os resultados eram, de facto, surpreendentes.      Depois de corrigidos os desvios, provenientes dos cálculos dos cartógrafos portugueses, o mapa Delfim aparecia com uma imagem, deveras detalhada, e perfeita da costa australiana, a norte, leste e oeste. Até a larga península triangular na extremidade sudeste se encaixa perfeitamente na versão reconstruída do mapa, devendo-se isto ao efeito de preparar mapas bidimensionais, através de cortes ou segmentos do globo terrestre, os quais eram posicionados ao lado uns dos outros para se obter o efeito final, deste modo, exagerando o Cabo Howe e as suas dimensões (ver mapas reproduzidos).      A versão de McIntyre para os mapas de Dieppe, baseada nos originais ali arquivados, pareceu-lhe prova suficiente de que os portugueses haviam, de facto, traçado uma larga parte da costa australiana, antes de 1536, data do mapa Delfim. A partir daqui, começou a tentar, porém, descobrir quem teria sido o marinheiro português capaz de tal feito, neste campo hipotético, tudo parece apontar, como responsável único, para Cristóvão de Mendonça, capitão da Marinha Portuguesa, que partiu de Malaca, em 1521, com 3 naus, em busca das ilhas do Ouro, então, supostamente localizadas a sul das Índias Orientais. O mapa Delfim comprova que Mendonça (ou outro) passou pelo Estreito de Torres, virando a sul na zona do Cabo Iorque e percorreu parte da costa oriental. Dentre os locais possíveis de identificar naquele mapa aparecem o Cabo Melville, a Grande Barreira de Corais, o porto de Cooktown, a ilha Fraser e a baía de Botany. Depois de dobrar o Cabo Howe, e dirigindo-se para ocidente, Mendonça terá acompanhado o que é hoje a costa do estado de Vitória, até ao Cabo Ottway e à Baía de Phillip, quedando-se em Warrnambool, a partir de onde terá decidido não prosseguir mais além.      Existe aqui uma intrigante coincidência, pois é neste ponto onde Mendonça decidiu regressar, que mais tarde haveria de aparecer o célebre e misterioso “ Mahogany Ship ” (Nau de Mogno, ou madeira de caju), do qual existem cerca de 27 relatos diferentes, entre 1836 e 1880, e que depois desta data, parece ter desaparecido, de vez, das dunas de Warrnambool. De acordo com as descrições existentes tratava-se de um barco extremamente antigo e com um estilo de construção semelhante ao das caravelas portuguesas da época quinhentista. A tratar-se de uma das naus de Mendonça, poderia estar assim explicada a razão pela qual ele não prosseguiu na sua exploração da costa australiana em 1524.      A lista dos historiadores que, finalmente, se decidiram a aceitar a teoria de que os portugueses descobriram a Austrália (antes de outros europeus) vem a aumentar desde que, em 1977, McIntyre publicou o seu livro. O Prof. Geoffrey Blainey (célebre historiador que focamos noutra crónica, por razões diferentes) admite-o no seu livro “A Land Half Won” (“Uma Terra Meia Conquistada”). T. M. Perry, leitor de geografia da Universidade de Melbourne, no seu livro “A Descoberta da Austrália”, e o Prof. Russel Ward, na sua obra “A Austrália Desde a Chegada do Homem (Australia since the coming of man)” admitem igualmente esta ‘descoberta’ da Austrália, aceitando a tese de que a descoberta da Austrália pelos portugueses, antes de 1536, foi, “ uma possibilidade, uma probabilidade, uma verdade conclusiva ”. Na prática, porém, o Capitão James Cook continua ser tema da descoberta da Austrália em muitos livros escolares.      Não há dúvida de que uma teoria tão radical como a de McIntyre vai demorar mais de uma geração a impor-se à burocracia educacional. Curiosamente porém, foi o estado de Vitória, de onde é natural e onde trabalhou sempre McIntyre, o primeiro a incorporar tal teoria nos livros de história oficialmente utilizados. [29]      Quando os portugueses aqui (Austrália) estiveram na primeira metade do século XVI, os aborígenes viviam contentes e nalgumas regiões do país haviam-se habituado a mercadejar com estrangeiros [30] . Há provas evidentes disso com os pescadores e mercadores de Macassar, na altura uma possessão dominada pelos Portugueses, na qual havia sido adoptado um dialecto crioulo derivado do Português.      O próprio Capitão Cook regista na passagem por Savu com a data de 19 de Setembro de 1770, ter-se servido de Manuel Pereira, o português embarcado na ‘Endeavour’ no Rio de Janeiro para se entender com os locais.      A presença de aborígenes brancos está assinalada, assim como a presença de mestiços aborígenes com traços timorenses ou malaios, nas costas ocidental e norte da Austrália.      Para a presença dos portugueses como a História pela mão de Kenneth McIntyre parece provar, curioso será recordar uma ‘descoberta’ em 1967: uma construção em Bittaganbee, perto de Eden, na costa sul de Nova Gales do Sul.      As ruínas ainda hoje existentes atestam a presença de uma casa de pedra, com uma plataforma de 30 por 30 metros, rodeada por largos pedaços de rocha irregularmente cortadas, que em tempos serviram de paredes a tal construção, com existência de alicerces. A construção, sem tecto, é feita de pedra local, e pedaços de conchas marinhas servindo de estuque. (McIntyre interroga-se ‘ Seria isto o quartel general de Inverno de Mendonça ?’      Dentre as possibilidades de analisar essa construção, uma é a do enorme esforço e trabalho que a mesma terá envolvido para transportar, trabalhar e erigir a mesma, em especial dado o tamanho de algumas daquelas pedras. Esse tipo de construção só pode ter sido efectuado por uma tripulação completa de um navio da época, não podendo ser obra de um pequeno grupo de degredados ingleses ou pessoas isoladas.      O primitivismo da construção, semelhante a uma fortificação, é único na Austrália, e decerto antecede em séculos a formação da vila que só foi fundada em 1842 com materiais e fundos londrinos. Mas, curiosamente se aquela construção aqui está fora de lugar, esta construção é semelhante a outra descoberta nas Novas Hébridas, também em 1967: a célebre ‘Nova Jerusalém’ criada em 1606 por Pedro Fernandes Queirós, que juntamente com Luís Vaz de Torres eram portugueses, ao comando de naus espanholas navegaram por estas paragens austrais.      Um outro facto perturbador é o de existir uma data inscrita numa das pedras que 15(?)4, embora o terceiro dígito não pareça um 2, o que a localizaria na época de Mendonça. Cristóvão de Mendonça teve uma presença marcante nestas costas australianas e neozelandesas que importa desvendar. Uma das suas caravelas perdeu-se nas dunas de Warrnambool na Austrália do Sul, a segunda, provavelmente na costa neozelandesa, mas decerto a terceira conseguiu regressar a Malaca, Goa e Lisboa. Faria e Sousa [31] regista que Mendonça efectuou uns anos mais tarde nova viagem a Goa, antes de ser nomeado Governador de Ormuz, quiçá por serviços prestados na descoberta da Austrália.      Em 1817, quando o governo da coroa britânica se mostrou interessado na Nova Zelândia, que em breve se tornaria sua colónia, o almirantado em Londres estudou os mapas ingleses da época comparando-os com a versão de La Rochette (1807). Neles existe uma anotação dessa data (1817) afirmando que embora a Nova Zelândia tenha sido descoberta por Abel Tasman em 1642, a sua costa era conhecida dos portugueses desde 1550.      Este documento ainda hoje existe nos Reais arquivos públicos de Londres. No Museu de Wellington (Nova Zelândia) existe um sino de bronze, descoberto pelo Bispo William Colenso em 1836 e o qual estava na posse dos Maoris (aborígenes locais) que declararam tê-lo há muitas gerações. No sino existe uma inscrição em Tamil (língua indiana, o idioma da Goa de então, que era a capital oriental do Império Português. Idênticos sinos foram descobertos em Java datados do início do século XVI e todos os barcos portugueses da época transportavam consigo goeses e outros indianos, os ‘Lascari’ como ajudantes da tripulação.      Relativamente a este assunto, outro semelhante tem surgido nalgumas páginas da imprensa local (australiana), ou seja, o estudo da presumível descoberta da Nova Zelândia pelos portugueses, face a recentes descobertas ali efectuadas de restos de naus quinhentistas e utensílios tipicamente portugueses. Na altura (1984), o Consulado Geral de Portugal em Sydney, recebeu pedidos de colaboração para o estudo em causa, por parte de historiadores neozelandeses. Será que algo foi feito? Uma dezena e tal de anos passados sabemos que nada se concretizou. Terão de ser sempre os estrangeiros a dizerem-nos o que descobrimos, como e quando? Haverá, em Portugal, alguém interessado em ajudar a desvendar este e outros factos gloriosos da epopeia lusa?      O interesse existe neste continente australiano para se estabelecer a verdade histórica dos factos: será que os homens de hoje têm a vontade e capacidade de reporem Portugal no lugar a que tem direito, como país pequeno que deu novos mundos ao mundo , tal como aprendi nas cábulas de ensino oficial anteriores ao 25 de Abril? Ou será, que na pressa de escrevermos a história presente olvidaremos os grandes homens do passado, a quem devemos hoje esta cultura miscigenada que nos distingue? A resposta, a quem competir responder. Chegamos aqui primeiro e aqui estou eu a repetir um trajecto de antanho, projectando uma imagem do país que fomos e que gostaríamos de voltar a ser. Mais de 450 anos se passaram, quem chegou primeiro a estas plagas? Depois dos aborígenes, tudo parece confirmar que foram os portugueses os primeiros europeus. Quando, como, e em que condições? Para quando a verdadeira história dos descobrimentos, agora que a celebração dos seus 500 anos já passou à história? Dês que passar a via mais que meia Que ao Antárctico Pólo vai da Linha, Duma estatura quase giganteia Homens verá, da terra ali vizinha E mais àvante o Estreito que se arreia Co'o nome dele agora, o qual caminha Para outro mar e terra que fica onde, Com suas frias asas, o Austro a esconde.            In Luís Vaz de Camões. 1572 CRÓNICA IV PARTE II FLINDERS DEU NOME À AUSTRÁLIA      Quem baptizou este continente? Decerto não foram os Portugueses pois que nos seus mapas aparece ainda a designação de Java a Grande ( Jave, la Grande ), essa Terra Australis que eles negavam conhecer.      Durante mais de 30 anos após o histórico dia 26 de Janeiro de 1788, data do desembarque da 1 Armada, ela foi conhecida pelo seu nome em Latim, de ' Terra Australis ' com o adicionar de Incognita , mas também era denominada como Nova Holanda em honra dos navegantes holandeses que durante o século XVII arribaram à inóspita e árida costa do noroeste; ou ainda Nova Gales do Sul , tal como a baptizara o Capitão Cook para toda a metade oriental, ou ainda Terra de Van Diemen (Van Diemen's Land) nome dada à Tasmânia pelo navegador holandês daquele nome.      Houve porém um homem que lhe acabaria por dar um nome único a fim de terminar com a confusão de todas estas terminologias, um oficial da armada, navegador e explorador e hidrógrafo extraordinário com o nome de Matthew Flinders. Ele e o seu colega George Bass, um cirurgião naval com quem partilhava um amor ao mar e um interesse apaixonado na exploração de lugares distantes, exploraram e mapearam em conjunto e separadamente uma grande parte da costa australiana durante os finais do século XVIII e início do século XIX. Eles estavam de tal forma embrenhados no amor ao mar, a crer num dos seus biógrafos (Robert Osbiston [32] ), que deixaram as suas noivas de três meses para partirem em mais uma viagem. Flinders não tornaria a ver a sua mulher durante nove anos, dos quais sete passados numa prisão nas Maurícias. Bass nunca mais viu a sua mulher, pois que juntamente com a sua tripulação desapareceu na vastidão do Pacífico Sul, para nunca mais serem vistos nem ouvidos.      Flinders nasceu em Lincolnshire, na Inglaterra em 1774, e não acedeu aos desejos da família para ser cirurgião, tal como seu pai, avô e bisavô. Inspirado pela obra Robinson Crusoe ele já sabia que rumo ia dar à sua vida e aos 15 anos (1789) embarca como aspirante da marinha real, tendo maravilhado os seus superiores a bordo HMS Scipio com os seus conhecimentos de geometria e de navegação, dado ser muito novo e evidentemente autodidacta. Nos finais de 1790, Flinders juntou-se ao célebre Capitão Bligh (da Bounty e mais tarde Governador de Nova Gales do Sul) na sua segunda viagem ao pacífico Sul, com o fim de transplantar fruta-pão das Índias Ocidentais.      Regressou a Inglaterra em 1793 e no ano seguinte alistou-se no HMS Reliance , então a aprestar-se em Portsmouth, para embarcar como passageiro sob o comando de John Hunter, recentemente nomeado governador da nova colónia. Foi nesse navio que conheceu George Bass. Pouco depois de chegarem, em Setembro de 1795, os dois amigos fizeram-se ao mar com um miúdo como tripulante do barco Tom Thumb, um barquito com uma quilha de 8 pés (aprox 2,4 metros) e um mastro de 5 pés (1,5 metros), para fazerem descobertas ao longo da costa sul de Port Jackson. Exploraram a baía de Botany e o rio Georges, depois numa segunda viagem no 'Reliance' passaram pela ilha Norfolk e mais para sul na costa pelo Lago Illawarra e Port Hacking.      George Bass pode justificadamente gabar-se de ter sido o pai da indústria carbonífera australiana, pois após ter ouvido 'boatos' sobre a existência do 'ouro negro' na costa a sul de Sydney, ofereceu-se como voluntário e com o encorajamento e ajuda do Governador Hunter, deixou Port Jackson num baleeiro em 5 de Agosto de 1797, para voltar uma semana mais tarde com espécimes de carvão (coal) extraído de uma falésia (cliff) mais tarde, apropriadamente denominada Coalcliff. É também a Bass que se deve a mais importante descoberta que o par concretizou: ao chegarem à ponta oriental do estreito que hoje tem o seu nome, ele estava convencido de que a forte ondulação de oeste e as marés indicavam que a terra de Van Diemen (Tasmânia) seria uma ilha e não como muitos imaginavam, uma terra. Assim, em 7 de Outubro de 1798, o par zarpa no Norfolk, uma corveta de um só mastro (chalupa) com 25 toneladas de peso e mantimentos para 12 semanas, com ordens para provar ou negar a teoria que a Tasmânia era uma ilha, tentando fazer a sua circum-navegação. E isso foi o que eles fizeram tendo regressado dois meses mais tarde para celebrarem esse triunfo.      Depois disto, os caminhos foram divergentes para o par de amigos, Bass estava insatisfeito com o baixo soldo da marinha e a falta de hipóteses de promoção e acabaria por dedicar-se à marinha comercial. A sua saúde piorara e estava com baixa por 12 meses, o que lhe permitiu voltar a Londres onde compraria, em sociedade, um brigue (dois mastros), a 'Vénus' que encheu de mercadorias rumo a Sydney. Foi então que outro capítulo da sua vida se iniciou, ao apaixonar-se por Elizabeth Waterhouse (irmã de John Hunter, ex-capitão do 'Reliance' e governador de Nova Gales do Sul), com quem casou em 8 de Outubro de 1800.      Em Janeiro de 1801 o casal separou-se quando Bass deixou Portsmouth rumo a Sydney. Nunca mais se tornariam a ver. O negócio não foi bem sucedido e Bass em Fevereiro de 1803 deixou Port Jackson para estabelecer laços comerciais com a América do Sul, naquela que seria a sua última viagem. A 'Vénus' e a sua tripulação de 25 homens desapareceria sem deixar rasto, e não obstante inúmeras tentativas o seu desaparecimento continua a ser um mistério. Em Março de 1800 Flinders foi finalmente promovido a Tenente da Armada, e voltou no 'Reliance' para Inglaterra, onde dispunha já de elevada reputação, para tentar convencer o Almirantado e o governo britânico a enviar uma expedição toda equipada à Austrália para explorar e mapear toda a costa do continente-ilha.      A burocracia oficial londrina não se mostrou entusiasmada, e até foi obstrutora, mas Flinders acabaria por encontrar em Sir Joseph Banks o apoio de que necessitava, tendo sido nomeado comandante da expedição em Janeiro de 1801, com o título de Comandante da corveta 'Investigator' de 334 toneladas. Também se casou em Inglaterra, com Ann Chappell, filha de um capitão do mar, mas não a pode levar a bordo por não ter tido autorização do Almirantado. Casaram-se em Abril de 1801 e ele zarparia três meses mais tarde para os antípodas. Aqui se iniciou a sua carreira de navegador, hidrógrafo e cartógrafo, e ao partir anunciara com um excesso de confiança que " o meu objectivo é investigar de tal forma cuidada e completa as margens da costa da Terra Australis que com a bênção de Deus nada de importante será deixado para descobertas futuras em parte alguma da sua extensa costa ." A expedição chegaria a Cabo Leeuwin na Austrália Ocidental a 6 de Dezembro e ao Estreito do Rei Jorge (King George's Sound) dois dias mais tarde.      Depois de Flinders ter mapeado a costa sul a leste da Grande Baía Australiana (Great Australian Bight), o navio 'Investigator' ancorava em Port Jackson aos 9 de Maio de 1802. Logo depois de ter feito a manutenção ao barco, fez-se de novo ao mar para completar uma pesquisa inicial que havia feito na costa da Queenslândia e depois até ao Golfo da Carpentária. Depois de velejar através do estreito de Torres, o navio começou a meter água e a adornar. Apesar de a sua madeira estar em más e perigosas condições conseguiu navegar com ele, mapeando as costas do Golfo, dobrando para a costa ocidental em Cabo Leeuwin e chegando a Sydney em Junho de 1803.      Dois meses mais tarde, determinado a concluir a sua missão deixou Sydney como passageiro do 'Porpoise' rumo a Inglaterra para aí obter um navio mais apropriado e duradoiro, e foi então que foi atingido pelo desastre, após umas meras 700 milhas náuticas, o navio atingiu uma barreira de corais e afundou-se. Flinders vogou então no escaler (cúter) do 'Porpoise' de volta a Sydney onde aprestou o 'Cumberland', uma escuna de 29 toneladas.      No seu caminho para Inglaterra, nova desgraça: o navio precisava de ser constantemente bombeado e a sua situação era tão má que resolveu pedir ajuda ao chegar às ilhas Maurícias na costa oriental de África (a norte de Moçambique). A guerra havia então de novo escalado entre a França e a Inglaterra, na luta desta contra Napoleão, e Flinders sentia-se seguro por ter um passaporte francês no qual se declarava que ele não fazia parte de nenhuma actividade militar, mas sim de navegação de exploração marinha. O documento, porém, não agradou ao General de Caen, Governador geral da ilha, que deteve Flinders acusando-o de impostor e espião.      De Caen acabaria mesmo por desrespeitar uma ordem de Napoleão para libertar Flinders em 11 de Março de 1806. Assim se passaram sete anos antes de ele tornar a pôr os pés em Inglaterra aos 23 de Outubro de 1810, onde se juntou à mulher com quem quase não vivera. Como a saúde estivesse abalada, durante três anos dedicou-se a escrever a sua obra "Uma viagem à Terra Australis", que seria publicado em 18 de Julho de 1814, e apesar dos editores lhe terem enviado uma cópia, ele não a chegou a ver pois já estava inconsciente e morreria no dia seguinte, com 40 anos e 4 meses. E aqui a ironia final: não foi senão passados muitos anos sobre a sua morte que o governo do Reino Unido aprovou a sua sugestão de muitos anos antes que o país se chamasse Austrália. A maior parte dos nomes que constam das cartas de marear do Almirantado, que se opunha à mudança de nome para Austrália, são ainda os nomes dados por Flinders nas suas viagens. Curiosamente porém mais de 40% dos alunos do secundário e terciário australiano desconhece hoje quem foi Flinders ou porque é que se chamam Australianos em vez de Neogaleses do Sul CRÓNICA IV PARTE III FRANCESES NA AUSTRÁLIA [33]      Não é só a descoberta portuguesa da Austrália, ou o nome de quem baptizou a Austrália que são desconhecidos para muitos australianos. Ignorado também é o facto de em 1772, o navegador francês François Saint-Allouarn ter ancorado o seu barco ' Gros Ventre ' (Barriga Grande) em Shark Bay (A Baía dos Tubarões) mesmo a meio da costa ocidental australiana (nascida como Nova Holanda , ou Gonevilleland como os Franceses lhe chamaram) e plantando a bandeira emitiu uma ' prise de possession ' (título de posse) para o seu soberano, o rei Luís XV, enterrando uma garrafa na ilha Dirk Hartog. A reivindicação era válida. Saint-Allouarn morreu durante o regresso a França e Luís XV demasiado ocupado com a guerra pelas possessões Franco-Canadianas, até pode não ter dado conta da reivindicação. Os Franceses planeavam ocupar as ilhas Rottnest e Garden (ao largo de Perth), também designadas como as Ilhas Napoleão, mas decidiram não manter uma fronteira comum com a Inglaterra.      Napoleão apoiou uma expedição científica aos antípodas em 1800 liderada por Nicolas Baudin e a Austrália Ocidental voltou à posse de Inglaterra em 1829, assim como Les Malouines' ( Falkland ou Malvinas ) o tinham sido 65 anos antes. A Terra Australis tornou-se assim em mais um acidente da História Anglo-Saxónica que latina.      A ligação da França e da Austrália (apesar das divergências quanto ás explosões em Mururoa) persiste ainda nos nossos dias. Metades das mortes australianas nas 2 Grandes Guerras foram em terras francesas, especialmente no Somme. Em 1918, o Exército Australiano (que não era parte do ANZAC [34] ganharam uma batalha decisiva contra os alemães em Villers-Bretonneux em 25 de Abril, dia que se tornou Feriado Nacional como Dia dos ANZAC's. Existem peregrinações regulares às campas de mais de 35 mil australianos na Picardia. A cidade de Mazamet, perto de Toulouse é ' mais australiana que francesa, e as suas companhias têm mais funcionários em Melbourne ou Geelong do que em Mazamet. As ruas chamam-se Melbourne, Yarra, Victoria, etc .' segundo declarava Alain Serieyx que foi delegado geral da França para as celebrações do Bicentenário em 1988.      A Austrália Ocidental evoca aquilo que o país poderia ter sido com os seus nomes franceses: Esperance, Bonaparte, Bossu, Naturaliste e Vasse. O livro ' France Australe ' de Leslie Marchant (Artlook Books, Perth, 1982) dá o crédito a Binot Paulmier de Gonneville como o primeiro europeu a andar em terras austrais, em 1504.      O navio Esperance , sob o comando de D'Entrecasteaux, fez uma viagem em 1791 da França até à Baía Botany em busca do desaparecido La Perouse. Numa curiosa ironia do destino, La Perouse tinha-se feito à Baía de Botany em 26 de Janeiro de 1788. O Governador Arthur Phillip tinha acabado de chegar com os degredados e colonos ingleses e ao vê-lo, mal teve tempo de hastear a bandeira inglesa.      La Perouse é um nome importante na história australiana, pois enviou despachos e mapas das suas expedições do Pacífico, feitas a partir da Baía de Botany (na Sydney actual). O seu desaparecimento foi um mistério por mais de 39 anos. Ainda hoje existe um monumento à sua memória numa área concedida aos franceses perpetuamente em 1825 (não era bem o que Napoleão queria, mas de qualquer modo era território legitimamente francês em Gonnevilleland). Aquele subúrbio, hoje território aborígene em grande parte, manteve o nome de La Perouse, nome também dado a um Museu na Baía de Botany, inaugurado aquando do Bicentenário (1988), e partilhando um edifício onde existe um controverso Museu Aborígene. Os franceses têm registos históricos dos seus múltiplos contactos com os aborígenes australianos, e os relatórios de François Peron e do artista Charles Leuseur evocam vívidas pinturas dos Tasmanianos que eventualmente pereceram sob o genocídio 'europeu'.      O Conde de La Perouse, Almirante Jean François de Galaup, e as suas duas fragatas ' La Boussoule ' e ' Astrolabe ' ao chegarem ao porto da Baía Botany depararam com os 11 navios da 1 Armada do Capitão Arthur Phillip. Estabeleceram contacto e viram Phillip partir para Port Jackson. Enquanto os britânicos faziam os preparativos para a sua instalação em Sydney Cove, os cientistas e marinheiros franceses descansaram por seis semanas na Baía Botany donde partiriam, de regresso a França em 10 de Março. Pouco depois as duas fragatas e os seus 230 homens desapareceram, sem deixarem rasto. O mistério permaneceu até 1827, quando o navegador irlandês Peter Dillon encontrou a naufragada ' Boussole' a dez metros de profundidade em Vanikoro, nas ilhas Salomão. Uns anos mais tarde também ali foi descoberto o ' Astrolabe ', que soçobrou no mesmo ciclone. Alguns relatos compilados por Dillon, dão conta de que a maior parte dos náufragos foi comida por tubarões e alguns sobreviventes foram-no, mas pelos nativos que temiam que eles fossem espíritos malignos. Alguns sobreviventes demoraram entre 6 a 9 meses a construírem um barco de dois mastros, nos quais apenas dois sobreviventes terão embarcado. Os restos de uma embarcação como a descrita pelos nativos foram encontrados em 1861, perto de Mackay, no norte da Queenslândia.      Hoje, no museu de nove salas, que ostenta o nome de La Perouse, podem observar-se reproduções do primeiro encontro com os aborígenes, do encontro com o capitão Phillip; vendo-se ainda a exploração geral do pacífico depois da viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães e a história de La Perouse, desde o seu nascimento em Albi ao seu envolvimento na Guerra da Independência da América e a libertação dos portos de Hudson Bay das mãos dos ingleses. O Museu tem ainda relíquias da época que atestam os contactos amigáveis entre Sir Joseph Banks e La Perouse, e reproduções diversas da época.      Quando em 1984 se publicou o livro de Colin Wallace 'The Lost Australia of (A Austrália Perdida de) François Peron, imaginava-se que se iria reacender a controvérsia do século XIX sobre a nomenclatura da costa australiana: naquela época a costa meridional ostentava nomes como Terre Napoleon, Golfe Bonaparte, Golfe Josephine . A própria Ilha Kangaroo (Canguru) foi baptizada por Nicholas Baudin como 'Iles Decres' e a Baía Encounter (Encontro) ficou denominada assim por ter sido o ponto de encontro acordado por entre François Peron e Matthew Flinders. O interesse da França por estas paragens, de acordo com aquele livro de Colin Wallace, cresceu a partir da expedição no século XVIII de Louis de Bougainville, antes da Revolução Francesa e da Era de Terror que se lhe seguiu. Napoleão nutria um fascínio secreto pela Austrália, notável, pois enquanto preparava as guerras no continente ainda teve tempo para se dedicar a montar uma expedição científica aos antípodas.      Peron tinha qualidades de liderança notáveis, demonstradas durante a Revolução Francesa e as guerras Prussianas, tendo sido promovido a sargento antes dos 20 anos. Gravemente ferido ficou incapacitado, o que não o impediu de frequentar a escola médica da Sorbonne onde estudou ciências médicas, tendo-se oferecido para a expedição como cientista. Quando Baudin faleceu nas Maurícias, foi ele que assumiu o comando da expedição que durava há já quatro anos. Peron, em Paris, conseguiu classificar as colecções de botânica e zoologia, para além de publicar o relato da expedição, mas morreu de tuberculose aos 36 anos de idade. Uma das curiosidades deste livro é que nele Peron aparece como o primeiro ecologista, alertando para o perigo de extinção de plantas e animais que então considerava raros e em vias de extinção.      Outra curiosidade, aparte as considerações sobre a incompetência de Baudin como comandante de uma missão desta importância, é a de Peron ter sido o ' pai da antropologia ' e o seu estudo dos aborígenes em diversas partes da Austrália, assim o atesta. Ele dava-se bem e gostava deles e, muito do que hoje se sabe sobre os desaparecidos aborígenes da Tasmânia, a ele se deve. Peron é também o primeiro a ter comido carne de ' wallaby' (pequeno canguru) que estava confiante poderia ser criado como animal doméstico, descrevendo a sua carne como semelhante à dos coelhos da sua terra natal. Peron morreu demasiado cedo (1810) para que a sua valiosa obra científica tivesse a consideração merecida e, em vez de termos hoje alguns nomes franceses na costa australiana, decerto teríamos muitos mais. CRÓNICA V ONDE SE FALA DA AUSTRÁLIA, DE PORTUGAL, DO AUSTRALIANISMO DAS GENTES E DO MAIS, QUE ADIANTE SE VERÁ      Mais um fim de semana em terras de Down Under . Lá fora uma onda exacerbada de nacionalismo chauvinista e xenófobo, à boa moda americana, invade as ruas e as conversas de salão. De novo, se ouve falar em racismo, Austrália Branca e da necessidade de tomar medidas contra os asiáticos. Vimos, em anterior crónica, o que se passou nestes últimos tempos que levasse a reavivar feridas antigas, ainda não cicatrizadas.      Poderia pensar-se, que parte desta problemática se deve ao facto de a Austrália ter sido descoberta pelo mundo e ainda não estar habituada a tal. Foi a música? Ou teria sido o desporto? Porque não o cinema? ou até mesmo a moda? Tudo começou entre 1983 e 1984 [35] , quando começou a ser moda falar-se da Austrália, visitá-la, saber dela e de seus costumes. As rádios vomitavam ‘ Midnight Oil’, ‘Cold Chisel’, ‘Men at Work’ e tantos outros sons aqui nascidos e exportados para as quatro partidas do mundo. Na TV via-se o grande épico ‘ Gallipoli’ - epopeia dos australianos na Campanha de Dardanelos durante a 1 Grande Guerra, via-se Pat Cash a destronar John McEnroe no ténis de Wimbledon, e sabia-se que Robert (Bob) de Castella, favorito numas Olimpíadas que Carlos Lopes venceu, vivia desafogadamente, ao contrário do português. Nos vídeos da época havia ‘ The Man from Snowy River ”, pois a epopeia da série ‘ Mad Max ’ ainda não chegara.      Ao pequeno almoço as pessoas continuavam a barrar as suas torradas com ‘Vegemite’, os japoneses suplicavam o envio de mais Koala-Bears (koalas) para os seus Zoos [36] . A Opera House iniciada em 1956 foi concluída em 1973, e a veterana Harbour Bridge inaugurada em 1937 faz agora 60 anos e lá continua: com as suas 12 faixas: 9 para carros, 2 para comboios e uma para peões. E pensar como era tão avançada para a sua época e para a reduzida população de Sydney naquela época, sem trânsito que a pudesse justificar. Hoje, altivamente continua a ligar as duas margens, se bem que haja um túnel marítimo sob ela, por onde se escoa mais de 65% do tráfego entre as duas margens. Ambos se tornaram nos indiscutíveis ex-libris de Sydney e, até mesmo, da Austrália.      Voltando atrás no tempo, naquela data (há quase 15 anos) Perth ainda sonhava em defender o ‘ America’s Cup ’ arrebatado aos norte americanos, pela primeira vez em 130 anos de história. O país enchia-se de glória, mas continuava ainda por descobrir’, para além de se saber que tinha boomerangs (que são umas coisas semielípticas que se lançam ao ar e, por vezes, voltam à origem), país de crocodilos (onde o Crocodile Dundee ainda não havia sido filmado) e cangurus, que, ao contrário do que muitos pensam, não andam a passear pelo meio das ruas (aliás fora isto o que me disseram, antes de aqui chegar em 1974).      País de contrastes e de culturas mescladas sob uma predominância (esbater-se) anglo-celta.. Daqui, deste fim-de-mundo, tentando criar a ponte para o outro lado, para o mundo real - esse onde vivem os que me lêem - crio este diálogo para as paredes surdas e mudas que me escutam assustadas. Tento quebrar este silêncio que asfixia, preenchendo a noite com o sol quente que nos ilumina e os dias com o luar que nos angustia. É assim a lei dos hemisférios, ou, de como a poesia podia ser uma arma carregada de verbos, lentamente inventados no quotidiano.      Ser australiano, é mais uma forma de estar na vida do que uma característica que se sente. É uma negação de valores civilizacionais, com base em tradições e costumes - que nos são alheios - mas aos quais forçosamente nos adaptamos, revivendo simultaneamente valores nossos que julgávamos obnubilados. Os auscultadores dão-nos a voz sensual do jazz de Renée Geyer (made in Australia, de pais húngaros), tudo muito australiano, mesmo que não seja de nascença. Não se houve falar de ciclistas, tenistas ou futebolistas portugueses. Escrevia-se sobre Lisa Martin na maratona de Los Angeles, sem mencionar a vencedora Rosa Mota. Estes os exemplos diários, numa euforia que está prestes a ter o destaque que merece, ou talvez não. Do cinema, à TV, aos desportos, os australianos assumem-se como líderes, fruto de uma estranha atitude de exorcismo nacionalista.      Mário Soares era contemporâneo de Bob Hawke, ambos socialistas. Um conseguiu durante anos fazer convergir as forças políticas em torno da construção de um projecto nacional comum, o outro criava inimigos naqueles que o rodeavam. Ideologias semelhantes, resultados díspares.      Década e meia mais tarde, Portugal virou, de social democrata a socialista, e a Austrália também - mas ao invés -, de trabalhista a liberal conservador. O que falhou? Onde está em Portugal o grande projecto dos anos 80? e o dos anos 90? (será que ainda acreditam que a Expo 98 vai ser a salvação da pátria, em manhã de nevoeiro voltada de Alcácer-Quibir?) Onde ficaram os projectos pioneiros capazes de catapultarem massas amorfas, capazes de arrancá-las ao seu torpor negativista de descendentes do Velho do Restelo ?      Esse espírito está aqui nos cerca de 65 mil portugueses e nos outros milhões de pessoas nascidas fora da Austrália, mas que fizeram deste o seu país, dando a sua quota parte, não só de trabalho, mas de partilha de sua gastronomia, cultura, tradições. Pensei mesmo em exportá-las, mas disseram-me que o se o fizesse, o problema não seria o de sobre população do canteiro-à-beira-mar-plantado . Não saberiam o que fazer com tal gente capaz e trabalhadora, por isso acabei por desistir da ideia.      Claro que a Austrália era o melhor país e o mais avançado do mundo há cem anos, mas também Portugal o foi há 500. Hoje, a Austrália oscila por perto do 20 lugar na tabela (ranking) da OECD [37] , tal como Portugal, mas o Banco Mundial num novo critério adoptado a partir de 1992, considera-a o país potencialmente mais rico. Portugal pelo contrário. Dizia-me um amigo meu, súbdito britânico, residente em Hong Kong, que se Portugal se tivesse estabelecido ali no final do século XIX, o território nunca passaria de volta para a República Popular da China em Julho 1997 pois nunca teria passado de um rochedo deserto...      Não acredito. Recuso esta versão negativista dos factos e da história. Mas o que fizemos? O que fazemos? Criticamos os males dos outros sem atentar nos nossos telhados de vidro? Emigrar, foi, durante muitos anos a solução, mas depois ninguém soube o que fazer com um jardim-à-beira-mar-plantado e despovoado, pelo que se recorreu aos retornados , tal como D. Dinis havia feito ao pinhal de Leiria. Aqui vemos os filhos crescendo australianizados, muitos sem aprenderem a língua e costumes, mas mantemo-nos cônscios da nossa orgulhosa tradição que tende a não se repercutir de continuar a chamar pátria ao torrão natal - "E posto que chegue o bem - o que duvido de ser - que gosto se pode ter no que firmeza não tem ? De tuas vãs esperanças ver-me livre já quisera por me rir das mudanças do que espera e desespera".           ( in Luís Vaz de Camões "Em tudo vejo mudanças" ). CRÓNICA VI ONDE SE FALA DA EXPOSIÇÃO TERRA AUSTRALIS, OU, A POLÉMICA DESCOBERTA DESTE CONTINENTE      Agosto 1984, marcou o começo de uma exposição, quase única até hoje, de seis meses, na Biblioteca Estadual de Nova Gales do Sul, em Sydney. Era uma vasta colecção de gravuras e documentos históricos retratando a descoberta da Austrália, de acordo com estudos feitos por David Pollock, Paulette Jones e Janice Robertson, num total de 108 gravuras, reproduções e originais, e publicações, de 1945 até aos nossos dias. A exibição dividida em 23 partes dava, como não podia deixar de ser, um ênfase especial à actividade dos exploradores anglo-celtas dos dois últimos centénios. Sem comentário, reproduzimos aqui excertos do texto oficial da exposição correctamente intitulada Terra Australis . 1. OS PRIMEIROS CONTACTOS      A discussão da descoberta e exploração da Austrália e do Pacífico Sul tem-se concentrado nas actividades dos povos europeus, ignorando as proezas marítimas de outros povos. Tal atitude, porém, não era partilhada pelos primeiros europeus a atingir estas plagas e os quais se mostraram altamente interessados nos métodos de navegação dos habitantes do Pacífico.      Por exemplo, James Cook, no seu “Diário” de 1744, dá uma detalhada descrição dos barcos catamaran dos habitantes de Tonga, seus métodos de construção e navegação, a qual é ilustrada profusamente por cópias que Cook fez de mapas das ilhas da região, originários de um nativo de Raiatea ( N. do A.: nas ilhas da Sociedade, arquipélago Tuamotu, Polinésia Francesa).      Também relativamente aos habitantes de Tonga surgem desenhos no “Diário” de Abel Tasman de 1642, publicado por Dalrymple em 1767. Citando as facilidades de navegação dos povos chineses, um desenho de 1607 do almirante holandês Metelies, poderia servir de prova da inicial descoberta do continente pelos chineses, os quais enviaram várias expedições marítimas a Ceilão, Java e África durante o século XVI. [38] 2. OS ANTECEDENTES GEOGRÁFICOS      As viagens de exploração europeias dependiam da invenção e melhoramentos dos instrumentos de navegação, tais como, o compasso, o astrolábio e o quadrante, que permitiam a determinação do cálculo da latitude. Já a latitude não podia ser calculada de forma precisa, pois que o recurso às medidas lunares não era ainda possível visto os instrumentos para tal não existirem e só se terem aperfeiçoado totalmente no fim do século XVII.      A visão, grega e romana, da esfericidade do globo fora abandonada durante a Idade Média para apenas ser retomada durante o período da Renascença. As teorias de Ptolomeu e Pompónio Mela foram redescobertas e disseminadas pela recém-inventada imprensa. Tais teorias incluem a crença da existência de uma massa continental no hemisfério sul para contrabalançar as grandes massas de terra do norte.      Os antigos geógrafos haviam, também, sobrestimado o tamanho da Europa e da Ásia, pelo que a distância da Europa às Índias Orientais parecia menor do que na realidade era. [39] 3. FERNÃO DE MAGALHÃES E AS ÍNDIAS ORIENTAIS      Antes do desenvolvimento dos modernos métodos de preservação de alimentos, o negócio das especiarias das Índias Orientais formava parte importante das economias europeias. As viagens portuguesas e espanholas de exploração e descobrimento, desencadeadas nos séculos XV e XVI, surgem na sequência da importância do negócio das especiarias. Fernão de Magalhães partiu de Espanha, em 1519, com 5 naus em busca de uma rota marítima para as Índias, para evitar a longa rota terrestre e os impostos que tal implicava. Das 5 naus com 265 tripulantes, apenas uma sobreviveu, com 18 homens, tendo regressado a Espanha, depois de ter completado a viagem de circum-navegação do mundo através do Estreito de Magalhães. O mareante [40] morreu nas Filipinas.      Os Portugueses atingiram as Índias Orientais através do Cabo da Boa Esperança e em 1511 estavam já com o controlo de Malaca, na Malásia. O mapa de Diego Ribero, de 1529, mostra a visão espanhola do mundo e os resultados do Tratado de Tordesilhas de 1494, que dividia o mundo em duas metades, destinadas a exploração e colonização. As terras a leste do paralelo 47 eram exclusivo português e, a oeste eram da Coroa de Espanha.      Dois exemplos notáveis da cartografia portuguesa expostos na Biblioteca Dixon da Galeria Estadual de Nova Gales do Sul: o Mapa Mundo de 1706, manuscrito em pergaminho de J. da Costa e Miranda sob instruções de Francisco Pereira; e o Mapa das Índias Orientais de Evert Gysbert, de 1599, da autoria de Fernão Vaz Dourado. [41] 4. OS MAPAS DE DIEPPE      Existe bastante controvérsia acerca do facto de os Portugueses, que se estabeleceram em Timor em 1516, terem sido os primeiros europeus a atingir a Austrália. A maior evidência baseia-se nos sete mapas e 11 cartas de marear produzidos em Dieppe, França, entre 1540 e 1570, e os quais são normalmente conhecidos como os mapas da Escola de Dieppe. Dado o elevado número de nomes e palavras portuguesas existentes naqueles mapas, assume-se, que, ou foram copiados ou baseados em anteriores mapas de autoria portuguesa. Os historiadores ainda não são unânimes na sua opinião, em especial porque a política de segredo da época não permitia a divulgação dos conhecimentos de geografia e porque o terramoto de 1755 destruiu a maior parte dos arquivos de Lisboa. [42] 5. A NOVA GUINÉ      Embora a descoberta da Austrália seja um assunto controverso, não existem dúvidas sobre a descoberta da Nova Guiné, em 1526, pelo português, Jorge de Meneses. Em 1593, Cornelius e Gerard de Jode produziram a 2 edição de “Speculum Orbis Terr”, na qual se mostra uma enorme massa de terra continental a sul da Nova Guiné. O texto da época cita que “ depois desta região (Nova Guiné) existe a vasta terra australiana que logo que seja conhecida representará um quinto continente, tão vasto e imenso parece ”. Tem sido aventada a hipótese de o animal representado na parte direita inferior da capa, da segunda edição, representar o corpo de um canguru com uma cabeça imaginária. [43] 6. A COMPANHIA HOLANDESA DAS ÍNDIAS ORIENTAIS      Os portugueses foram os primeiros a atingir as Índias Orientais, mas os seus lucros de tráfico de especiarias, escravos e pau-sândalo foram contestados pela Companhia Holandesa das Índias Orientais. O manuscrito português da área das Ilhas Menores da Sunda mostra, de facto, a ocupação holandesa de Dili, Cupão (Kupang) e Atapupo, entre 1653 e 1656. NOTA DO AUTOR: O catálogo com 21 artigos dedicava atenção aos holandeses, franceses e britânicos e à sua influência na Austrália, pelo que esta Crónica apenas se reporta aos extractos atrás apresentados e traduzidos, os quais poderão dar ao leitor uma imagem das obras expostas, que infelizmente não podem ser fotografadas, dados os riscos de deterioração se estiverem em contacto com a luz. As obras estavam expostas sob uma ténue luz e, nalguns casos, sob cortinados espessos que apenas momentaneamente poderiam ser erguidos para se apreciarem os mapas. Ainda que o relevo dado aos mais recentes europeus a ‘descobrirem’ a Austrália se mantenha, certo é que o interesse por outros europeus (nomeadamente portugueses) existe neste continente-ilha. Este seria um tema inesgotável a manter vivo nestas crónicas, coroando um certo orgulho pátrio, muitas vezes compartilhado com anglo-celtas, sedentos de aprenderem a verdadeira história do passado, sem o manto diáfano dos patrioteirismos nacionalistas. [44] CRÓNICA VII O PRIMEIRO GOVERNADOR DA AUSTRÁLIA LUTOU PELA MARINHA PORTUGUESA      Finalmente, a História começa a repor no seu lugar os factos reais, desimbuídos de conotações patrioteiras, e, neste caso devemos considerar, uma publicação vinda a lume em 1984 do historiador australiano Kenneth Gordon McIntyre, sob o título “ The Rebello Transcripts, Governor Phillip’s Portuguese Prelude [45]      Para os mais desconhecedores das primeiras páginas da história da colonização europeia da Austrália, diremos que o Capitão Arthur Phillip foi o comandante da Primeira Armada que chegou à Austrália em 1788 (8 anos depois da alegada descoberta do Capitão Cook), após 257 dias de tormentosa viagem, com 11 barcos, dos quais 6 de transporte, com 730 degredados (570 condenados e 160 mulheres condenadas), 250 marinheiros e outros homens livres, para constituírem a primeira colónia britânica no continente.      Ao contrário do que se encontra escrito, a nomeação de Phillip não correspondeu ao clímax de uma brilhante carreira na Real Marinha Britânica, mas sim aos relevantes serviços, por ele, prestados à Marinha Portuguesa e, da qual fez parte como mercenário.      O livro de McIntyre [46] “The Rebello Transcripts” baseia-se num estudo efectuado, em finais do século passado pelo General Jacinto Rebelo (Jacintho Ignácio de Brito Rebello), arquivista da Torre do Tombo, que a pedido de historiadores australianos dedicou toda a sua vida a estudar a carreira do Capitão Phillip ao serviço dos portugueses.      Embora os dados então recolhidos tenham estado à disposição dos historiadores, o seu desconhecimento da história portuguesa não permitiu o seu anterior aproveitamento. Refira-se, a propósito, que historiadores, tão consagrados, como George MacKaness ao publicar em 1937 a Biografia do Almirante Arthur Phillip [47] referem a sua participação na defesa de “colónia”, supostamente considerado como o Brasil, em vez de Colónia (Colónia del Sacramento), cidade sul-americana, hoje em território uruguaio [48] .      Nascido em 1738, o capitão Phillip frequentou uma obscura escola em Greenwich, tendo praticado como marinheiro na Groenlândia, sem qualquer acto digno de menção, durante a Guerra dos Sete Anos [49] . Quando esta guerra terminou, a Real Marinha Britânica dispensou os serviços de Phillip, pelo que este teve de recorrer à agricultura para sobreviver durante os dez anos seguintes.      Em 1773 os Portugueses estavam a recrutar oficiais de Marinha estrangeiros, quando Phillip, um mero Tenente Naval, obtém uma posição de Capitão na marinha lusa. Três anos mais tarde, estava já a comandar uma fragata portuguesa encarregue da protecção de Colónia (do Sacramento), uma praça penal na América do Sul, permanentemente ameaçada pela Espanha, de tal forma, que os seus habitantes se viram obrigados a comer ratos, cães e gatos para sobreviverem ao cerco espanhol.      O profissionalismo de Phillip granjeou-lhe a admiração das autoridades portuguesas. Em 1777, uma larga Armada espanhola tentando provocar um confronto com as forças portuguesas passeava-se ao largo da costa sul-americana. À data estava encarregue da defesa da área um comodoro irlandês, de seu nome MacDoual, que depois de consultar Phillip, lhe disse ser de evitar qualquer confronto directo entre as duas nações.      Phillip tentando convencer o irlandês a atacar o inimigo, sabia de antemão o provável resultado de um confronto, demonstrando assim a sua impulsividade e o seu sentimento de dever. Mais tarde, em 1778, de regresso à Inglaterra, motivado por um sentimento de fidelidade ao país que enfrentava a difícil situação da Guerra da Independência (da América), Phillip coloca-se à disposição da Inglaterra. Este exemplo, foi, durante muitos anos, considerado como um exemplo de patriotismo, mas deve-se considerar mais como uma resposta à recusa dos portugueses de manterem os seus notáveis serviços.      Depois de ter sido colocado na Reserva durante 16 meses, a Armada Britânica deu-lhe o comando de uma nave de 64 canhões, a “Europa”. Nesta data, tinha Phillip, 43 anos de idade. Cinco anos mais tarde (1786) era-lhe confiada a missão de conduzir a Primeira Armada até ao porto de Botany Bay, em Sydney.      Uma das razões citadas para esta promoção de Phillip foi a de que mais ninguém estaria interessado na ‘honra’ de assumir tal posição. Na realidade, a razão porque Phillip foi chamado e recomendado para este lugar, deve-se ao facto de a sua acção ter sido meritória ao serviço da Armada Portuguesa.      Tal como Colónia, na América do Sul, debaixo de uma difícil e morosa linha de abastecimentos, também Botany Bay (aqui onde hoje é Sydney) representava uma situação difícil, tal como acontecera à possessão portuguesa.      Assim, nasceu a importância do Capitão Phillip para a moderna história da Austrália. Se bem que sendo de descendência germânica e tenha estado ao serviço dos portugueses [50] , Phillip pode ser considerado o primeiro membro “étnico” de uma Austrália multicultural. QUADRO I: A LUTA PELA COLÓNIA DE SACRAMENTO
DATA ACONTECIMENTO DOMÍNIO NACIONAL
1494 TRATADO DE TORDESILHAS Domínio[51]
1679 Fundação de Colónia pelo Príncipe Pedro Português
1680 Destruição de Colónia pelos Espanhóis Espanhol
1683 Devolução de Colónia após negociações Português
1705 Captura. Guerra da Sucessão em Espanha Espanhol
1713 Devolução. Tratado de Utreque (Utrecht) Português
1750 Renegação do Acordo. Tratado de Madrid Espanholn
1761 Revogação do Acordo. Tratado do Pardo Portuguêsn
1762 Captura. Guerra dos Sete Anos Espanhol
1763 Devolução. Tratado de Paris Português
1777 Destruição pelos espanhóis Espanhol
1821 Anexação por Portugal Português
1822 Independência do Brasil Brasileiro
1828 Fundação do Uruguai Uruguaio
QUADRO II: A CARREIRA DO CAPITÃO PHILLIP NA MARINHA PORTUGUESA 1774 25 DE AGOSTO - Solicita autorização para admissão na Marinha Portuguesa 22 DE DEZEMBRO - Parte de Londres para Lisboa 1775 14 DE JANEIRO - É nomeado Capitão da Marinha Portuguesa 09 DE FEVEREIRO - Parte de Lisboa ao comando da “Belém” ? MAIO - Chega ao Rio de Janeiro 28 DE SETEMBRO - Ao comando da “Pilar” ruma com destino a Colónia 22 DE OUTUBRO - A “Pilar” parte do Desterro ? NOVEMBRO - Regressa ao Rio, partindo logo a seguir 1776 27 DE JANEIRO - Ao comando da “Pilar” ruma a Colónia 18 DE AGOSTO - A “Pilar” intervém na defesa de Colónia 29 DE DEZEMBRO - Parte de Colónia 1777 20 DE FEVEREIRO - Fica baseado na Ilha de Santa Catarina ? MARÇO - Fica integrado num Esquadrão Naval no Rio de Janeiro 01 DE ABRIL - Parte ao comando da “Pilar” numa missão de defesa a sul 26 DE ABRIL - Regressa triunfante com um barco inimigo aprisionado 29 DE MAIO - Nova partida em patrulha às águas do sul 23 DE OUTUBRO - Nomeado capitão do “Santo Agostinho” 1778 10 DE MAIO - Parte do Brasil com destino a Lisboa 04 DE AGOSTO - Chegada a Lisboa 24 DE AGOSTO - Pagamento e exoneração da Marinha Portuguesa CRÓNICA VIII As palavras nas paredes ou ainda a asianização da Austrália      Nas sombrias margens dos quadrantes políticos existe uma área conhecida como extrema direita, povoada de neo-nazis e racistas fanáticos, sedentos de violência e vingança. Os australianos que habitam estas margens do espectro político estão, desde há uns anos, activos, tendo passado da sua natural obscuridade para uma fase mais agressiva contra a imigração asiática. A culpa não é só deles, mas também dos políticos naïf que se servem de argumentos contra a imigração para projectarem as suas agendas pessoais e, quiçá, atingirem uma notoriedade que de outra forma não alcançariam [52] .      Nas paredes, os grafitti proclamam “ Fora com os asiáticos ”, “ Paremos a invasão asiática ”. As latas de spray dão a Sydney e Melbourne um ar semelhante ao de Lisboa pós 25 de Abril e são, na sua maior parte, manipuladas por grupos denominados Acção Nacional e Movimento para uma Austrália Branca .. Além destes, a Liga dos Direitos retoma uma posição cimeira na manipulação política anti-asiática. 1. A ACÇÃO NACIONAL      Noite de Sábado em Darlinghurst (na baixa citadina de Sydney) um grupo de cabeças rapadas ( skinheads ) encostado a uma esquina observa o tráfego nocturno. De repente, com um movimento rápido, o chefe do gang arranca para um carro que parara junto ao semáforo vermelho, e, com as suas botas cardadas pontapeia o veículo ao volante do qual se encontra um assustado asiático, que logo arranca com uma bossa na chaparia do seu Mazda japonês. Logo, os outros 16 cabeças rapadas erguem os seus braços, punhos fechados numa saudação quase Nazi, sob as palavras de ordem “ Viva a Acção Nacional! Acabemos com os asiáticos!      O presidente da Acção Nacional, Jim Saleam, nega qualquer responsabilidade em incidentes deste género, declarando que “ muitos skinheads, influenciados pela nossa literatura podem invocar estar a actuar em nosso nome, sem que, no entanto, estejam envolvidos com as bases da nossa organização .” Saleam, tem 41 anos e, desde os anos 70, que está envolvido em organizações políticas de extrema direita, tendo criado a “Acção Nacional” 1982, e contando hoje com representantes em todas as capitais estaduais e umas largas centenas de membros nas suas bases (eram apenas 300 em 1984!). A sua mensagem política é simples (e simplista): “ Os asiáticos estão a roubar os empregos aos australianos e a colonizar o país. Deverão abandonar estas paragens. Acreditamos que os meios justificam os fins e a mensagem é de violência. Lutamos pela nossa sobrevivência, não como Anglo-Saxões, mas como Europeus.      Curiosamente, aliás como se poderia deduzir pelo apelido, Saleam é de origem árabe (libanês), mas acreditava já, em 1984 [53] , que “ na década de 90 haverá tantas crises no mundo que ninguém dará conta da repatriação forçada dos asiáticos, que será apenas resultado da defesa dos recursos australianos, criando uma sociedade homogénea e tecnológica ”. Parece que apenas se enganou no país, pois com efeito procedeu Hong Kong à repatriação forçada dos vietnamitas sem grandes protestos, e Hong Kong antes da passagem para a soberania chinesa era, um território maioritariamente asiático.      Na Austrália verificaram-se longos períodos de detenção de cambojanos, chineses e outros asiáticos a uma maioria dos quais foi recusada a permanência, mas não se assistiu a nenhum êxodo forçado. Sem se atrapalhar quando lhe perguntam como o seu grupo poderá assumir a condução do poder político, Saleam, cita faccionalismo, culturalismo nacional e “ aceita que uma futura república australiana tenha o poder igualmente partilhado por civis e militares, para que o balanço político seja estabelecido e permita a educação política das camadas mais jovens.      Entretanto, face aos inúmeros actos de provocação verificados nas organizações estudantis universitárias e aos confrontos com organizações de esquerda, como “People Against Racism” e “Students Against Racism”, as autoridades adoptaram uma atitude de maior controlo sobre estes agitadores antidemocráticos, que visam minar a política multicultural integracionista, mas não assimilista, da Austrália. Tudo leva a crer, porém tais confrontos possam ser sangrentos entre os dois extremos do quadrante político universitário “ ...as palavras nas paredes [54] .      O total de pessoas na Austrália que desaprova o influxo de imigrantes tem vindo a aumentar em proporção directa ao sensacionalismo de certa imprensa. Numa recente sondagem mais de 60% da população nascida na Austrália desaprovava o excesso de imigrantes, mas esta proporção diminuía dentre os que haviam nascido na Europa (45%) e era ainda mais pequena dentre os de origem asiática (33%). 2. A OUTRA FACE DOS ASIÁTICOS NA AUSTRÁLIA      Em Cabramatta (subúrbio de Sydney, pejorativamente denominado de Vietnamatta), em qualquer dia da semana pode observar-se em frente aos armazéns Bing Lee (“ as maiores pechinchas do lado de cá de Hong Kong ”) que um jovem baladeiro, em jeans (ganga) e T-shirt, entoando música dos anos 60, merece tanta atenção dos chineses, vietnamitas, laocianos e restantes transeuntes que se deslocam para as compras como um encantador de cobras em Calcutá ou um vendedor de banha da cobra no Rossio. Ao lado do improvisado ‘husker’ um cartaz com a palavra Help! . Uns sorriem, outros atiram moedas, decertamente lembrados de que aquela palavra foi provavelmente a primeira que souberam dizer em Inglês. Se há ressentimento por parte de australianos em Springvale e Cabramatta (os mais densamente povoados por asiáticos) por outro lado, uma nova era de enriquecimento multicultural está a surgir, florescendo com pessoas a aprenderem tudo: da língua mandarim a lições de Tai Chi, King Fu, lições de culinária asiática, etc.      É nos escalões etários mais novos, e entre os desempregados, que se nota maior ressentimento, o que acaba por ser natural, dado serem estes grupos os mais ameaçados pelo elevado número de asiáticos subitamente lançados no seu habitat. Outros, mais idosos, admitem que os asiáticos são respeitadores e não criam problemas, havendo mesmo quem chegue a dizer que “ depois do que sofreram para cá chegarem até merecem apoio ”. Há ainda os que se mostram satisfeitos com o grau de interpenetração cultural obtida em lugares tais como Cabramatta, onde coexistem doze diferentes etnias: uma mercearia (ex-)jugoslava, ao lado de um restaurante vietnamita, um escritório de um advogado polaco, o consultório de um médico indiano, ao lado do centro dos jovens timorenses, ao lado de ...      Uma coisa é comum para a maior parte destes novos residentes da Austrália, ou a política ou a guerra os motivou a emigrar em busca de melhores paragens e da miragem de poderem construir um futuro. Tal como os australianos mais típicos, também eles querem ter uma casa e segurança para as suas famílias. A maior parte chega com pouco ou nada e, depois de algum tempo de trabalho (bem mais árduo do que a maioria dos australianos estaria disposta a aceitar) conseguem realizar os seus sonhos. Muitos trabalham de dia e estudam à noite. Evidentemente que o seu rápido influxo em zonas tradicionais de desemprego, criou focos de tensão, sobretudo entre aqueles que nada mais querem da vida do que um meat pie (torta de carne, prato típico australiano), futebol (mais semelhante ao norte americano do que ao futebol), carros Holden (General Motors, fabricados na Austrália), apostas de cavalos, jogos de poker de máquinas e cerveja sem limites. Estes recusam qualquer alteração ou mudança do seu status quo.      Dois exemplos ressaltam daqueles que contactamos: um é o de Ray Matthews, condutor de pesados interestatais que regularmente visita a Associação Chinesa-Budista de Cabramatta e o seu amigo Chou Ky Thay. Matthews, um veterano australiano da guerra do Vietname parou um dia para ajudar um motorista empanado, para acabar descobrindo que se tratava de um antigo soldado sul-vietnamita, com quem estivera hospitalizado durante a guerra. Daí nasceu uma longa amizade entre eles, embora, por vezes, ainda haja dificuldades de comunicação entre os dois. Matthews não cessa de gabar a capacidade de integração e de trabalho dos novos australianos . O outro é o de Nikhom Panith, um laociano de 43 anos, ex-funcionário da Brigada Anti-Narcóticos Norte-Americana no Laos. Fugiu às tropas comunistas atravessando o Rio Mekong a nado, até à Tailândia, onde se refugiou em 1978. Depois de ter passado três anos em campos de refugiados, foi seleccionado para ser realojado na Austrália, aonde chegou sem um cêntimo. Trabalhou numa fábrica, tal como a sua mulher, até juntar o suficiente para fundar o primeiro talho indochinês de Cabramatta. Depois expandiu os seus negócios com um restaurante adjacente, uma mini fábrica de processamento e congelamento de frangos. Panith conta que nos primeiros tempos de trabalho na fábrica, os colegas australianos lhe atiravam restos de comida acompanhados de insultos “ Go home!, Asian bastard ” (“ vai para a tua terra, meu c.... asiático ”). Ele respondia “ sou católico como alguns de vós. Cristo ensina a acreditar que os homens são todos irmãos. Assim vos considero. Será que vocês não sabem fazer o mesmo? ” A partir daí as provocações desapareceram.      Em Springvale, um terço da população nasceu fora da Austrália, sendo a maior proporção constituída por britânicos e irlandeses, (ex-) jugoslavos, italianos e asiáticos. Também aqui se confirma que a população mais jovem é a que menos aceita a presença asiática, mas trata-se mais de uma questão de cerco mental do que de ódio racial. Um dos factores preocupantes para muitos, porém, é o da acentuada baixa dos valores imobiliários, e a substituição das lojas australianas por restaurantes, talhos, supermercados, asiáticos. Tal como aconteceu nos anos 50, quando a invasão mediterrânica (grega e italiana) atingiu foros de confrontação agressiva por parte dos australianos residentes nas áreas onde eles se instalaram, idêntica reacção, fruto da instabilidade, medo, desconhecimento, da tradicional aversão à mudança verifica-se agora em relação aos asiáticos. Uma época, um ciclo passado nesta longa etapa de absorção de culturas, hábitos, costumes e tradições que tem caracterizado a Austrália pós-guerra. No fundo, trata-se basicamente da falta de comunicação e da dificuldade inicial de comunicação entre os diferentes grupos étnicos distintos, que se vão inter-assimilando ou integrando até fazerem parte integrante deste microcosmos chamado Austrália. Que os políticos e demais personalidades, nomeadamente, os meios de comunicação social saibam compreender e respeitar o processo lento de multiculturalização a que se assiste é, decerto, o meio mais rápido para o despoletar de tensões. 3. A ESCALADA DA DIREITA LUNÁTICA      Que maravilhosa noite (de extrema-direita) estava! Tratava-se, sem dúvida de uma extrema direita no seu sentido histórico e real, e não nos moldes em que é frequentemente citado por bastiões políticos correctos, tais como entidades governamentais ou para-governamentais quando querem criticar aqueles que se opõem às suas agendas. A data era Outubro de 1993 num Congresso Nacional da Liga dos Direitos (League of Rights), a mais antiga organização australiana de extrema direita. Tópico: “ Defender a Austrália Tradicional ”. Orador: nem mais nem menos do que o controverso deputado trabalhista [55] Graeme Campbell, então deputado federal por Kalgoorlie, W.A.. (Austrália Ocidental). Uma pergunta inevitável era a de saber o que um trabalhista (mesmo sendo da ala direita do partido) estava a fazer num sítio destes.      O folheto da reunião anunciava três oradores (homens, pois claro!) de enorme valor: o Brigadeiro (na Reserva) Ted Serong a falar sobre defesa, Jeremy Lee, educado no Reino Unido, conhecido pela sua actuação no League of Rights, a falar sobre “ os males da economia ortodoxa ” e, como convidado de honra, Campbell [56] para falar sobre “ A fuga às responsabilidades ( Engenharia Social, o radicalismo do Supremo Tribunal e a Asianização da Austrália, e de como o multiculturalismo e imigração destroem a coesão nacional e tornam a defesa do país impossível )”.      Estes, alguns dos temas mais favoritos da extrema direita. Graeme Campbell foi acerado como sempre, acusando Paul Keating [57] , o Supremo Tribunal, o multiculturalismo e a asianização, o republicanismo e o Estado Corporativo, como alicerces minados da soberania australiana. Se se tratasse de um mero almoço com os Rotários locais o assunto não teria atingido as manchetes dos jornais, mas tratando-se de um Congresso Nacional da Liga dos Direitos, este discurso veio trazer toda uma importância que faltava àquele movimento de direita. Afinal, tratava-se da primeira vez que um deputado trabalhista se dirigia à direita. Campbell respondeu às críticas alegando que o seu discurso “ não se tratava de um endosse das posições ou políticas seguida por aquela entidade, que, actualmente, se estava a movimentar para o centro conservador” (Nota do Autor: o que não foi, então, nem é agora, verdade) .      Campbell foi sempre assim. Já, em Maio de 1990 profetizava que a “ menos que algo se faça para reduzir radicalmente a imigração, as cidades australianas sofreriam conflitos raciais como os de Brixton ” (Inglaterra, no fim da década de 80), e “ apelava para um regresso à política da Austrália Branca ”. Já, em 1990, estes pontos de vista não deveriam ter sido considerados tão levianamente como muitos fizeram. Existe uma atmosfera política perturbadora e perturbada, em vastas áreas provinciais e rurais da Austrália, causadas pela recessão, pela seca, os baixos preços das ‘commodities’, os elevados juros e o excesso de insolubilidade financeira, para além do próprio envelhecimento das regiões e suas populações. Estas áreas apresentam-se maduras para quem as quiser colher politicamente: os ideólogos, que, nesta época, na maior parte do mundo ocidental tendem a situarem-se na extrema direita [58] .      Esta extrema direita que merece, cada vez mais, destaque nos telejornais europeus está ligada a movimentos similares nos EUA e na Austrália. Esta direita abarca uma gama de correntes de opinião e estilo, que vão do mais moderado às franjas lunáticas do extremismo, vocal e agressivo. A direita serve aqueles que buscam uma ideologia nesta era de mudança rápida e constante, nesta idade do pragmatismo que se apossou do mundo ocidental. Ironicamente, foi a morte do comunismo, estilo europeu, que auxiliou os movimentos da extrema direita de todas as tonalidades, desde os que passam os dias e noites a sonhar com teorias de conspiração até àqueles que praticam, de facto, acções extremistas.      O declínio da Austrália rural (baluarte da nação desde a colonização britânica) foi acompanhado de um crescimento de organismos de extrema direita, algumas das quais ligadas ao ‘lobby’ anti-controlo de armas. Por exemplo, outro dos oradores daquela noite, Ted Serong, teve uma carreira militar brilhante, mas nos últimos anos aliou-se às políticas da franja mais à direita, tornando-se padroeiro dos Escoteiros AUSI ( Australians United for Survival and Freedom, ou seja, Australianos Unidos para a Sobrevivência e Liberdade ). Conjuntamente com o ACM ( Australian Community Movement, Movimento Comunitário Australiano ) eles levam a efeito treino paramilitar para garantir a defesa da Austrália, contra um desconhecido invasor. Aparentemente, Serong, não acredita nas capacidades das tropas ADF ( Australian Defence Force ). Existe um número de grupos rurais de extrema direita, tais como WARAM ( Western Australian Rural Action Movement , ou Movimento Australiano de Acção Rural da Austrália Ocidental ), CAP ( Confederate Action Party , ou o Partido da Acção Confederada , com membros em Nova Gales do Sul e Queenslândia), e um número crescente de organismos cristãos como a Fundação Logos . Todos estes movimentos traçam a sua origem até à Europa do fim da 1 Grande Guerra.      Tradicionalmente, a direita era corporativa, favorecendo o controlo governamental sobre vastos sectores da economia. Era também populista, descaradamente nacionalista e, invariavelmente racista. Num extremo havia os Nazis Alemães de Adolfo Hitler e os Fascistas Italianos de Benito Mussolini., mas por toda a parte havia seguidores: da Falange Espanhola de Franco, à Acção Francesa de Charles Maurras, à própria União Fascista Britânica de Oswald Mosley. A Austrália nunca teve, porém, um movimento de direita como os europeus. De tempos a tempos, surgiram organizações influenciadas por ideologias corporativistas ou nacionalistas. Estas foram a “ Nova Guarda ” de Eric Campbell nos anos 30, o “ Australia First Movement ” ( O Movimento da Austrália Primeiro ) de P.R. ‘Inky’ Stephenson também nos anos 30 e, a Liga Australiana dos Direitos , fundada a nível nacional por Eric Butler em 1960, mas cujas raízes datam também dos anos 30. A ‘ Nova Guarda’ baseia-se em Nova Gales do Sul, como uma reacção ao socialismo do governo estadual trabalhista de Jack Lang, que foi demitido pelo governador, Sir Philip Game, em Maio de 1932. A ‘ Nova Guarda ’ desapareceu assim como surgira. Stephenson, nascido na Queenslândia, começou a sua carreira política muito próximo dos comunistas, mas trocou de cor política em meados da década de 30 ao aliar-se à Extrema Direita, tendo estado preso de 1942 até ao fim da guerra, desta forma terminando o seu ‘ Australia First Movement’ .      A ‘ Liga dos Direitos ’ é o único sobrevivente com mais de uma década de existência. Eric Butler começou a formar grupos rurais na Austrália Meridional em meados dos anos 30, estando já estabelecido no estado de Vitória ao findar da 2 Guerra. O primeiro mentor intelectual da Liga dos Direitos foi um Major C. H. Douglas (1879-1952), autor de inúmeros (e incompreensíveis) estudos e ensinamentos sobre o movimento de crédito social. Este economista britânico acreditava que todos os males económicos advinham da falta de poder de compra. Apoiava um aumento do consumo através do controlo de preços e pela criação, por parte do governo, de créditos sociais a serem distribuídos aos consumidores. Um ponto de vista dos ensinamentos de Douglas era que todo o sistema bancário controla as finanças, pelo que é, largamente culpado da maioria dos problemas económicos existentes. Daí, a criticar os monopólios da finança internacional, vai um pequeno passo de Douglas, que acaba por deitar todas as culpas a uma (alegada) conspiração financeira dos judeus. São muitos os seus seguidores que ainda hoje acreditam piamente nesta asserção.      A Liga dos Direitos está metida até aos olhos em anti-semitismo. Esta ligação já vem de 1946, quando Eric Butler publicou a sua infame obra “ O Judeu Internacional ”. Este anti-semitismo profundo foi documentado num célebre panfleto de 1965 “ Vozes de Ódio ”, por Ken Gott, mantendo-se tal tradição até aos nossos dias. Em 1986, a editora Veritas , de Perth na Austrália Ocidental (e que está associada à Liga dos Direitos) esteve ligada à vinda à Austrália do historiador britânico da extrema direita, David Irving. Este estava na Austrália para relançar o seu livro de 1991 “ Uprising !” (Motim), no qual, o autor apresenta uma desconcertante explicação para a revolta húngara de 1956 contra os comunistas, alegando que “o elevado judaísmo do regime causou ressentimentos populares”. Relembrando os acontecimentos, o motim foi esmagado pelos comandantes não-judeus do Exército Vermelho da União Soviética.      Em 1987, a Veritas , lançou o primeiro volume de Irving, “ A Guerra de Churchill ”, no qual o autor acusa Churchill de ter mantido a guerra na Europa depois de 1941. Assegurando, mas não provando, que a Alemanha estava disposta a aceitar um acordo de paz o qual foi rejeitado por Churchill. Irving teve largas audiências em toda a Austrália. Posteriormente, várias tentativas feitas pela Liga dos Direitos para trazer Irving de volta à Austrália foram indeferidas pelo governo. Em 1993, quando questionado pelo jornal ‘The Sydney Morning Herald” Irving disse que gostaria de poder falar sobre o Holocausto, se fosse autorizado a visitar, de novo, a Austrália.      O livro ‘The League of Rights’, de Eric Campbell (1978) assegura que este movimento se transformou, de facto, numa verdadeira terceira força no espectro político australiano. Além do exagero, conceda-se porém a existência de sólidas bases rurais, a explicar a sua longevidade. Ela, porém, não passa de mais uma das inúmeras organizações políticas de extrema direita, que passam mais tempo a digladiar-se com suas congéneres da direita do que a oporem-se de forma efectiva aos seus inimigos declarados. Daí (felizmente!) a sua ineficácia. Dentre os seus objectivos contam-se a “lealdade ao conceito cristão de Deus e da Coroa” e a “oposição a toda a propaganda anti-britânica”. Esta tendência de serem ‘mais britânicos do que os ingleses’ não agrada a muitos jovens e aos mais radicais.      Na luta pela supremacia das conspirações de direita está o grupo CEC (Conselhos de Cidadãos Eleitores) com base em Melbourne, e ideologia emprestada do norte americano Lyndon LaRouche. Este começou a sua carreira política no Partido Socialista dos Trabalhadores que apoiava o bolchevique Leon Trotsky (depois exilado e assassinado a mando de Estaline). Nos anos 70, LaRouche virou-se à extrema direita, tentando criar um movimento populista de agricultores, pequenos negociantes e trabalhadores indiferenciados ou pouco especializados, cuja raiva contra as drogas, desemprego e altas taxas de juro deveria ser canalizado contra os ‘Sionistas’ (forma mais educada de dizer Judeu). A CEC não parece anti-asiática mas sim anti-semítica, como o provam recentes publicações [59] . Aquando do discurso de Graeme Campbell a CEC acusou-o de “ser um agente do imperialismo britânico, aliado de organizações racistas e genocidas tais como o FMI (Fundo Monetário Internacional), Banco Mundial e o Imperialismo Britânico”. Isto pode parecer ao leitor matéria mais própria de um asilo de dementes, mas não se deve menosprezar a extrema direita radical (ou a extrema esquerda radical) pois as ideias têm consequências e muitas vezes essas são evidentemente desagradáveis.      O que une os vários movimentos de extrema direita australianos é a convicção de que o actual mal estar de parte da população pode ser um resultado de uma conspiração internacional. De facto, eles são os culpados, eles controlam a economia através do Banco Mundial e do FMI. Eles querem criar uma Nova Ordem Mundial para melhor servir os interesses da finança internacional. E muitas vezes, eles são judeus. Esta uma versão actualizada das teorias de Eric Butler para os anos 90.      Brian Wilshire é um apresentador de um programa talkback [60] na rádio 2GB de Sydney, sendo autor de livros [61] , que desmente ser de extrema direita, embora aqueles que o ouvem e lêem discordem. Um dos seus temas favoritos é o de “ existir um elo comum, um plano deliberado, elaborado por aqueles que beneficiam dos nossos azares, o que explica todos os nossos problemas financeiros e políticos .” É tão simples como isto, e, como tal é rapidamente aceite por aqueles que o ouvem ou lêem. Naqueles livros, Wilshire cita Peter Sawyer, um conhecido ex-burocrata de Camberra, tornado advogado de ideias de extrema direita, que atingiu a notoriedade ao anunciar que o Centro de Telecomunicações de Deakin (Canberra) servia como Quartel General Operacional para espionagem e escutas sobre a população, oficialmente sancionadas pelo governo. Sawyer também fez algumas previsões (falhadas) tais como a de haver uma rebelião armada de Aborígenes no Dia Nacional da Austrália em 1988 (ano da comemoração do bicentenário do país).      Para além destes, existe ainda um grupo daqueles que se dedica a denegrir os bancos. Um exemplo é Paul McLean, um parlamentar dos Democratas, moderado da extrema-direita, que se reformou da vida política e se mudou de Nova Gales do Sul para a Tasmânia, onde publicou, em 1992, o livro “Banqueiros e Filhos da P...!” [62] . Neste livro ele acusa os bancos australianos de “ todas as práticas incorrectas, corruptas, perjúrio, decepção, mentira e desonestidade ”. Tal como o major C. H. Douglas, de que atrás falamos, McLean acredita que os bancos determinam a existência de crédito e utilizam esse poder para impor uma escravatura da idade moderna, a todos aqueles que eles colocam, deliberadamente, em situação de insolvência. Resumidamente, eles fazem parte de uma conspiração internacional. Embora McLean não se assuma politicamente em qualquer quadrante, admite que os seus escritos são prontamente aceites pelas extremas (direita e esquerda). Claro que as suas obras encontraram eco nas zonas rurais e nos grupos de acção existentes. Tragicamente, muitos agricultores e latifundiários hipotecaram-se, irremediavelmente, na década de 80, sendo depois fulminados com uma dose dupla de elevadas taxas de juro, baixos preços das ‘commodities’ nos mercados internacionais, a seca e a recessão. Embora o seu caso seja trágico não é necessário engendrar uma conspiração para o explicar.      Em meados de 1993, George e Stephanie Muirhead atraíram a atenção dos meios de comunicação nacional pelo seu acto simbólico de decretarem o Estado Independente de Marlborough, na Queenslândia Central, como forma de protesto contra os bancos e o sistema político que lhes permite operar. Na prática, o casal alega que um avultado empréstimo que fizeram não estava de acordo com as formalidades legais e, como consequência, não se sentiam obrigados a pagá-lo. O Banco discordou, o mesmo acontecendo com o Supremo Tribunal da Queenslândia. Os Muirhead acusaram tudo e todos de conspiração, declarando não reconhecer o sistema legal australiano. O gesto de desafio, mas, sobretudo, simbólico do casal foi apoiado pelas forças tradicionais de direita e o próprio Peter Sawyer organizou um telefone de linha verde (0055) para angariar apoio para a campanha de secessão da fazenda Marlborough, dos Muirhead. Este apoio nada conseguiu para os salvar, mas deu uma considerável cobertura mediática à extrema direita australiana.      Como expressamos, no princípio deste artigo, Graeme Campbell ao dirigir-se à audiência da Liga dos Direitos alertava para o facto de “ muitos indivíduos estarem a contemplar medidas desesperadas, devido ao fosso profundo entre as cidades e o interior da Austrália ”. Lamentavelmente, Campbell esqueceu-se de mencionar que nas últimas décadas houve casos de violência política da extrema direita, e, até mesmo assassinatos, nos quais estiveram envolvidos alguns membros do ANM (Movimento dos Nacionalistas Australianos ou Australian Nationalists Movement) e da Acção Nacional (National Action). Não há motivo para se ser alarmista, da mesma forma que não vale a pena sonhar ou alegar maquinações e conspirações onde elas não existem. Até agora não foi provado que os vários seguidores do vasto espectro de direita, tais como Eric Butler, Lyndon LaRouche, Peter Sawyer, Brian Wilshire e outros estejam (ou tenham estado) envolvidos em violência política de alguma espécie. Existem, porém, vários grupos de extrema direita, que são bastante mais extremistas - em actos e ideologia - e que se alimentam de teorias professadas por organismos tais como a Liga dos Direitos. Em Perth, na Austrália Ocidental, o ANM [63] , o neo-nazi Movimento dos Nacionalistas Australianos, iniciou, em finais da década de 80, uma orgia de assaltos e fogo posto dirigido a Australianos Asiáticos.      Estas actividades criminais vieram a lume quando um certo Russell Wiley, membro dos ANM se tornou numa testemunha de acusação. estas actividades acabariam por resultar num documentário da autoria de David Bradbury “O Super Bufo Nazi” [64] que foi transmitido pela cadeia televisiva ABC em 1993. O líder daquela organização, Jack van Togeren, está a cumprir uma longa sentença por crimes racialmente motivados, incluindo fogo posto. Na sua defesa, aquele extremista defendeu o ANM como sendo uma organização “ a favor da Austrália, contra os bancos internacionais e a asianização da Austrália ”. Alguns membros da organização aproveitaram a ida a tribunal para negarem a existência do Holocausto, em retórica bem conhecida, cujas origens atrás mencionamos mais detalhadamente. Dois membros do ANM foram condenados por terem morto, um colega, que (erroneamente) pensavam ser um bufo da polícia. O jornal “The Sydney Morning Herald” noticiava que um deles, ao sair do tribunal, se voltou para os jornalistas dizendo: “ Seus c... sionistas, vão ter aquilo que merecem, Sieg Heil! [65] É altamente improvável que os skinheads (cabeças rapadas) de hoje, com as suas botas e suspensórios saibam seja o que for sobre o nacional socialismo, Hitler ou seja lá o que for. O seu neonazismo é uma manifestação de alienação da variedade extrema direita. A maior parte daqueles que pertencem a grupos pró-violência, como o ANM, não são revolucionários a sério, mas, alguns deles são perigosos criminosos.      Em Sydney, em Março de 1991, o líder do movimento extremista Acção Nacional, James (Jim) Saleam, que atrás é citado [66] , apesar da sua educação universitária, foi sentenciado a pena de prisão por ter organizado um ataque de caçadeira à residência do representante do ANC [67] na Austrália. O Juiz de Nova Gales do Sul descreveu aquela organização como “ uma organização de extrema direita preparada a recorrer a qualquer acto político criminoso de forma a atingir os seus objectivos .” Posteriormente, outro membro daquela organização acabaria por ser preso ao atingir a tiro um camarada seu, na sede da organização em Sydney. Bizarramente o assassinato foi registado pelas câmaras de circuito interno, utilizadas pela ASIO [68] na sua rotineira vigilância daquele movimento. Estas organizações e os indivíduos, que delas fazem parte, estão à margem política na Austrália, e, embora grupos como o ANM e a Acção Nacional tenham uma história de violência, esta não é tão significativa, como a de idênticos grupos neo-nazis na Europa e Estados Unidos.      Isto, porém, não deve ser motivo para complacência. Os crimes de motivação racial são um facto do quotidiano australiano e não podem ser ignorados, nem exagerados. Em Novembro 1993, a sinagoga de Newtown (Sydney) foi atacada à bomba. Em Melbourne, indivíduos ligados à Acção Nacional têm sido acusados de assaltarem Australianos Asiáticos. Os grafitti da direita radical indisputadamente incitam à violência racial. Esta aparição de uma direita radical apresenta os seus problemas éticos para os meios de comunicação social. Algumas delas merecem destaque porque, de facto, são notícias, mas, por vezes, o simples facto de se lhes dar cobertura está a granjear-lhes uma notoriedade que nem têm, nem merecem. Abundam desses exemplos em todos os jornais australianos. As ideologias de extrema direita não estão vencidas na Austrália (e muito menos com um governo conservador como o de John Howard), e esse é o grande desafio para os conservadores australianos.      Quando, nos anos 40, 50 e 60 a Esquerda pró comunista australiana era forte, os que melhor lhe sabiam e podiam fazer frente eram, eles mesmos, de esquerda. Hoje, passa-se o mesmo com a direita, mas, numa perspectiva diferente. Os que melhor podem confrontar a ideologia lunática, e por vezes, psicótica da extrema direita (desde os não violentos membros da Liga dos Direitos à pró violenta ANM) são os membros da direita conservadora, mas até agora nenhum deles veio a terreiro terçar armas. 4. PARA ALÉM DAS FRANJAS LUNÁTICAS DE DIREITA      Rick McCarty gosta de se vestir como um homem de negócios, blazer azul, calças bem vincadas, camisa branca e uma garrida gravata vermelha com um anzol de pesca debruado a ouro. Este ex-fiel de Bagwhan Shree Rajneesh, autodescrito psicoterapeuta, alega ter um mestrado em filosofia por uma Universidade norte americana, que nunca é mencionada.. O que ele vende, diz ele: “É como a Coca Cola, em termos de posição (somos #1)”. Mas, o produto é menos inócuo do que Coca Cola. Ele vende, nem mais nem menos, preconceitos raciais, sendo o líder do COTC, um grupo de supremacia branca denominado a Igreja do Criador (The Church of the Creator), ou como ele gosta de bazofiar “ a única religião racista de que o homem dispõe ”. O seu título oficial é Pontifex Maximus [69] embora prefira o título de Director Executivo. A religião professada é conhecida como Criatividade, adorando a Natureza - não um Poder Superior - e dedica-se “ à sobrevivência, expansão e progresso da raça branca ”. É violentamente anti-semítica, racista, e, ao contrário da maior parte das religiões, profundamente (virulentamente) anticristã. Os dogmas desta organização incitam a uma RAHOWA [70] , para libertar o mundo de todos “ os parasitas judeus e das raças de lama [71] . De acordo com esta organização uma “conspiração judaica” domina o governo norte americano, a banca internacional e os meios de comunicação mundiais.      McCarty tomou conta desta organização em Janeiro 1993, e rapidamente afirma estar disposto a torná-la lucrativa, adiantando não haver nenhuma diferença no produto que propõe: trata-se de uma ‘commodity’ como qualquer outra. Esta organização existe desde há muito, nas franjas lunáticas da extrema direita, tendo aumentado substancialmente o seu número de fiéis (ou deverei dizer sócios?) a partir da década de 80. McCarty fala de milhares nos Estados Unidos, com capítulos em 37 países, desde a Alemanha, África do Sul à Suécia. O grupo tem alguns seguidores aqui na Austrália, mas ele recusa-se a revelar quantos, quem são ou onde vivem, adiantando que não sendo muitos, eles são activos e contribuem regularmente para o Boletim mensal do grupo, “Lealdade Racial (Racial Loyalty)”, do qual se publicam entre 20 a 40 mil cópias. Mas, analistas de movimentos de supremacistas raciais adiantam que o grupo congrega apenas centenas dos cerca de 25 mil activistas de supremacia racial nos EUA.      Constate-se, porém, o sucesso do grupo ao atingir os mais activos, impressionáveis e violentos discípulos: jovens, racistas, skinheads (cabeças rapadas). A força desta organização deve ser procurada, não nos números, mas na sua potente propaganda. Danny Waltch, director do Klanwatch [72] é peremptório ao afirmar: “ eles são perigosos pela influência que têm sobre adolescentes e jovens adultos em formação. A razão porque eles vão ao COTC é porque (este) instila violência nas pessoas através da sua retórica .” Os membros do COTC são tão violentos que passaram a figurar em número um da lista de organismos observados pelo Klanwatch, suplantando o KKK ( Ku Klux Klan ) no sul dos EUA, a Resistência Ariana Branca da Califórnia e as Nações Arianas de Idaho. Um dos sinais mais visíveis do relevo do grupo é a lista, cada vez maior, dos crimes cometidos pelos seus seguidores. Existe, dentro do grupo, uma ‘irmandade’ de prisioneiros que cometeu crimes raciais.      O ‘reverendo’ Chris Bartle na prisão de Fremantle, Perth (Austrália Ocidental), recebeu uma carta dum seu colega norte americano em que este afirmava: “ estou certo de que tudo farão para que os grandes ideais da Criatividade se propaguem na Austrália, digam-nos aquilo que necessitam nessa missão de suprema importância ”. Bartle, foi um dos seis membros da organização condenados em Setembro 1990 por crimes cometidos contra minorias. O ANM (Australian Nationalist Movement), que descrevemos no capítulo anterior, como sendo um grupo interessado em libertar a Austrália dos Aborígenes e Asiáticos foi condenado entre 1990 e 1994 por 159 crimes, incluindo bombas colocadas em restaurantes chineses em Perth.      Os membros do COTC têm estado ligado a conspirações terroristas e violência (incluindo assassínio) contra minorias, quer nos EUA, quer na Austrália. Em Julho 1992, um júri, na Florida, condenou George Loeb pelo assassinato de Harold Mansfield, um Afro Americano, que tinha servido na Guerra do Golfo, após ter tido uma discussão com este num parque de estacionamento. No Canadá cinco membros da organização foram presos por crimes que vão do assalto a rapto. Outros supremacistas brancos confessaram ter tentado assassinar os músicos ‘rap’ Ice-T e Ice Cube, e propagar uma guerra racial desde o Orégão até à fronteira canadiana. Um deles era ‘ministro de culto’ do COTC e, culpado de ter lançado fogo a organizações negras, para além de ter planeado acções criminosas contra sinagogas e estabelecimentos militares. A importância do COTC levou a que o FBI se infiltrasse e detectasse uma conspiração para abater o activista Afro Americano, Rodney King além de outros activistas negros e judeus.      Esta visibilidade do grupo nos meios racistas surge numa altura em que a organização se debate em lutas interinas para a sua liderança e problemas financeiros, para além de estar a ser vigiada por entidades governamentais e ONG’s [73] . Os seus fundadores estão, porém, confiantes de que lançaram os pilares sólidos de fé para uma geração mais nova de racistas, se sentirem encorajados, em todo o mundo, a manter a revolução branca viva.      O fundador do COTC, Ben Klassen, é um imigrante da Ucrânia, que durante mais de vinte anos foi a força viva por detrás da organização, tendo escrito mais de 15 livros, entre os quais a ‘Bíblia Sagrada’ do grupo: “A Bíblia do Homem Branco (White Man’s Bible)”, “A Religião Eterna da Natureza (Nature’s Eternal Religion)” e “Vida saudável (Salubrious Living)” , um manual de hábitos saudáveis para guerreiros brancos. Sem o saber, Klasse, estava a escrever para a posteridade na Nova Ordem Mundial do Racismo.      O seu mensário “A Lealdade Racial (Racial Loyalty)” é considerado a melhor literatura de ódio nos EUA e no estrangeiro. Existe uma secção intitulada o “Cantinho de Cupido” no qual “ Homens e Mulheres Brancos crescei e multiplicai-vos ” é a palavra de ordem para os seguidores do grupo nos EUA, África do Sul e Austrália. Klasse, que se pavoneava com um bigode à Hitler suicidou-se em Agosto de 1993. A sua morte nunca ficou bem esclarecida mas na sua campa pode ler-se “Ele deu à Humanidade a sua própria Poderosa Religião Racial”. McCarthy não sabe responder à pergunta porque lidera a COTC, declarando-se entusiasmado com o marketing do nome da igreja, do seu moto RAHOWA, e dos livros e demais parafernália que o movimento vende, capitalizando na morte de Klassen, o facto de “a maior parte das religiões só passarem a ser importantes depois da morte do seu fundador, dos quais se podem criar personagens míticos”. 5. OS ASILADOS NO LIMBO SÃO NON-PERSON [74]      Já se esqueceram de que eram jovens. Falam de ‘estar em sítio nenhum’ e aninham-se, juntos, para falar, corpos tensos, olhos de mil ânsias, com os cuidados de quem fala em público incita a violências e represálias contra as famílias que ficaram ‘em casa’ (a pátria). Dizem que, por vezes, não conseguem adormecer à noite e se dormem, têm pesadelos. Vivem com medo de adoecer. Não têm status , ninguém sabe deles, são uma espécie de tribo perdida em busca de uma porta aberta que lhes permita ficar na Austrália.      A coragem impudente da juventude, em tom de bravado, desapareceu quando tentam explicar, em Inglês monossilábico, como se sentem aqui em busca de asilo e descobrem que nada valem. Pelo menos é assim que sentem Abebe, Henry e José (não são os seus verdadeiros nomes) que vivem em Melbourne, raramente sorrindo enquanto nos falam, e que escaparam a violentos regimes de repressão nos seus países de origem, para se encontrarem aqui a viver exactamente em limbo .      Quem sabe da sua existência? A sua história foi empurrada para uma terra de ninguém, numa região burocrática de regras e regulamentos onde se lhes fica facilitado desaparecimento da vista pública. Mas, entretanto, eles vivem aqui nesta Austrália, país de sonhos dourados, sem os pais, sobrevivendo, nem mesmo sabendo como, com as suas emoções, muitas vezes, a rondarem os limites do possível, com expressões nas suas faces a ilustrarem perfeitamente as palavras da escritora francesa Marguerita Duras: “ O concreto maravilhoso do desespero varre todas as teorias ”.      José é natural de Timor Leste e chegou a Melbourne, em 1989, com 17 anos. Olhando para o chão enquanto tenta articular o que vai dizer, acaba por balbuciar: “Eu tento não pensar na minha situação, mas quando o faço, sinto-me perdido no mundo. Por vezes, interrogo-me: ‘ Quando é que a (minha) vida vai começar? cada ano que passa estou mais velho. ” A atenção nacional em finais de 1993 centrava-se na saga dos ‘boat-people’ [75] , cambojanos, detidos há dois anos, e pouco se importava com situações como a do José. Este, nem sequer se podia consolar com o título de ‘refugiado’ que era atribuído aos cambojanos.      As pessoas em busca de asilo são “ pessoas fora dos seus locais de nascimento e vida e cujo motivo principal [76] é uma melhoria social ou económica e que utilizam o processo de refugiado numa tentativa de obterem residência ou estadia prolongada noutro país .” [77] A maior parte delas chega legalmente à Austrália, como estudantes ou com outros vistos legais: declaram ás autoridades consulares que desejam vir visitar familiares. Depois, concorrem ao título de refugiado, para si mesmos e para os pais que ficaram nos países de origem. O moroso processo demora, pelo menos, três anos: início do processo, consideração das circunstâncias, revisão, até que finalmente o seu caso seja apreciado e o seu futuro, literalmente , decidido. De uma forma restrita, uma vez expirada a validade dos seus vistos, eles permanecem ilegalmente, mas enquanto se processam os seus pedidos, eles podem permanecer por um acto de graça ou concessão, em vez de serem deportados.      As alterações ao regime legal, iniciadas em 1990, tornaram um complexo processo num pesadelo. Até Dezembro de 1989, quando a Lei de Imigração se modificou, todos aqueles que buscavam asilo podiam trabalhar se tivessem autorização, por escrito, do Ministério da Imigração, mas não tinham direito de acesso ao Sistema Nacional de Saúde, Medicare. Apenas nalguns casos especiais, por razões humanitárias, lhes poderia ser concedido acesso ao Medicare enquanto o seu processo estava em curso. Agora, eles não têm direito ao Medicare nem ao Cartão de Saúde (Health Card) [78] , nem tão pouco a Subsídios Especiais do Ministério da Segurança Social, ou direito a habitação económica. Podem, ainda, recorrer a assistência especial da Cruz Vermelha nalguns casos, mas não estão cobertas em nenhum caso por motivo de saúde. Caso adoeçam, terão de pagar o mesmo que qualquer estrangeiro, ou seja, um mínimo de 106 dólares por cada visita ao hospital ( N. do A.: aproximadamente 14 contos). Caso queiram continuar os seus estudos secundários ou terciários terão de pagar o mesmo que os estudantes estrangeiros, mas têm direito a ensino primário gratuito [79] . A ironia deste tratamento é reinventar na Austrália o trauma e a instabilidade da vida dos países de origem.      Para os que buscam asilo, a vida é uma emboscada por sobre o precipício. Para além da enorme pressão emocional de terem deixado a sua terra, famílias, viver é uma experiência gélida e sem abrigo numa época que, como jovens, deveriam estar a sair, a experimentar e a aprender a vida como jovens adultos, definindo as suas ambições e planeando o seu futuro. José viveu com uns parentes antes de se mudar para um apartamento que compartilha com outro jovem e suspira ao dizer: “ É muito difícil. Frequento uma escola pública do estado, mas os outros estudantes não sabem que eu espero que me seja concedido asilo. E eu não lhes digo. Ainda nunca estive doente, mas quando tive febre e muita tosse fui a um médico que me cobrou 60 dólares ( N. do A.: aprox. 7 800$00 Esc.). Penso, e preocupo-me com os meus pais e irmãos, mas é muito perigoso escrever porque as cartas são abertas e lidas. Foram eles que me aconselharam a sair de Timor, depois de ter sido detido e interrogado pelos militares indonésios. Vim como estudante para a Austrália, e pensava que, depois de algum tempo, as coisas acalmavam e eu poderia regressar. Foi então que houve o massacre” [80] e eu pedi para me ser concedido asilo .”      Outros jovens em busca de asilo, como o etíope Abebe (pronunciado Ábibii) vivem num apartamento de cujas paredes escorre água, e para eles, a vida é quase insuportável. “ Estive nove meses sem um cêntimo, no ano passado ”, explica-nos ele que viu, recentemente indeferido pela Imigração, o seu pedido de asilo. “ Vivi numa casa da igreja e no Exército de Salvação arranjava cupões para comida. Passava todo o tempo em casa. Não tinha dinheiro para nada. Agora ainda vai ser pior. Estou muito triste. ” O subsídio dado pela Cruz Vermelha foi suspenso logo que o processo foi rejeitado. Sem dinheiro, não pode continuar no apartamento que partilhava com outro jovem em busca de asilo, pelo que apenas lhe resta a esperança de encontrar o apoio da igreja a que, já antes, recorrera para ter um tecto onde pernoitar. Quanto a comida ficou dependente das sopas de caridade distribuídas por diversas entidades aos mais carentes da afluente sociedade australiana. O seu nome foi juntar-se ao de centenas de chineses que intentaram uma acção colectiva contra o ministro da imigração [81] . Abebe chegara à Austrália em Junho 1990, ou seja, seis meses depois da mudança da lei, clandestinamente a bordo de um navio atracado em Port Hassab, na Etiópia. Havia sido preso, maltratado e torturado pelo regime de Mengistu, quando este tentava recrutar todos os jovens para as fileiras do seu exército.      O mesmo desespero pode ver-se espelhado no rosto de Henry (Henrique), outro timorense que fugiu para a Austrália com 21 anos, logo a seguir ao massacre de Santa Cruz de Dili. Na véspera de falarmos com ele desfalecera. Falar era-lhe emocionalmente impossível. O esforço era demasiado. Sentara-se com as mãos nos joelhos, cabeça baixa, silente perante as nossas perguntas. A sua irmã, Diana, então com 15 anos, viera com ele para a Austrália. Nunca tinham saído de Timor Leste, mas obtiveram um visto válido. Um soldado (indonésio) havia entrado em casa deles e quisera forçar a sua irmã a casar-se.      A custo, ele fala, enquanto ela o observa com lágrimas nos olhos, antes de murmurar, quase imperceptivelmente, “tenho saudades da minha mãe e do meu outro irmão”. Fora a mãe quem os aconselhara a partir. “Eu queria ser uma professora”, diz-nos com voz que mal se ouve e sorri. Henry acaba de saber que tem um tumor cerebral. Como não dispunha do cartão Medicare foi tratado no hospital, como se de um estrangeiro se tratasse. Uns dias mais tarde recebeu a conta de uma noite no hospital: 447 dólares ( N. do A.: aprox. 58 contos). Depois de ter desmaiado, houve quem o levasse para o hospital e, quando lhe perguntaram pelo Medicare, e ele respondeu que não tinha, deram-lhe um documento para assinar. Na semana seguinte, quando era para ser operado, já se sentia muito mal, mas não havia camas disponíveis. A pedido de uma coordenadora de Assistência Social, Poppy Christodolou, que o havia acompanhado foi admito para a urgência e operado. Veio a confirmar-se que afinal não era o temido tumor cerebral mas sim uma grave infecção, cuja intervenção cirúrgica custa milhares de dólares ( N. do A.: mil dólares aprox. 130 contos), uma soma a que ele não tem acesso. O seu estado de saúde é o clímax daquilo que foi o seu passado, após ter sido atingido à coronhada na cabeça pelos soldados indonésios, enquanto estes torturavam um colega seu.      Em Melbourne, está alojado com a sua irmã num apartamento, onde vivem seis pessoas, com membros da sua família, todos eles em busca de asilo. Durante os últimos anos, desde que chegou à Austrália sabe ter perfuração do tímpano, resultado de infecção após infecção, provocada por ter tomado banho em águas contaminadas, no mato de Timor, quando em jovem fugira ao exército indonésio. Também terá de ser operado e na única consulta que teve com um otorrinolaringologista acabou por pagar 106 dólares.      A assistente social, Poppy, intervém para pedir para contar um pouco da história de Henry. Ela é a coordenadora social dos alunos da pós primária na Escola de Inglês de Noble Park, Melbourne, onde estão mais 30 jovens à espera que lhes seja dado asilo. A escola não recebe fundos suficientes para operar com estes ‘ilegais’. Poppy diz-nos que “ Henry está muito deprimido, e antes de ter desmaiado tentou falar dele, mas sempre a esconder muito. Ele quer paz e sossego. Sentir-se bem (de saúde), estudar, sentir-se seguro, são e salvo. Ele armazena dentro de si enormes sentimentos que não deixa vir à tona. Apenas chorou uma vez nas aulas pois normalmente controla os seus sentimentos. Diz que ninguém o pode ajudar.      Histórias como as de Abebe e Henry chocaram o Dr. John Cornwall, director da Fundação Australiana da Juventude, de Sydney, que acredita que a Austrália está a violar vários acordos de direitos humanos na forma como lida com os jovens que nela buscam asilo. Ele pediu já um inquérito judicial à situação e escreveu ao ministro responsável: “ Estes jovens vieram de zonas de guerra, situações de tortura e traumas, estando praticamente incapazes de continuar a viver as suas vidas enquanto esta situação de limbo legal prosseguir. A maioria destes jovens não entrou ilegalmente na Austrália aparentemente acreditando que lhes poderia ser concedido o estatuto de refugiado. Existe evidência suficiente sobre a quebra de obrigações internacionais na arena dos direitos humanos, e em particular a Convenção dos Direitos do Homem de 1948. Evidência acumulada aponta para quebra na aplicação de Resoluções e Tratados das Nações Unidas relativas aos Direitos da Criança, dos quais a Austrália é um país signatário.      Um médico de Melbourne, com extensa experiência de trabalho em países do Terceiro Mundo e um dos muitos médicos que ‘subterraneamente’ trata gratuitamente os jovens em busca de asilo diz que: “ para além da inelegibilidade para o Cartão de Saúde e Medicare existem vários problemas de saúde nestes jovens. Sem excepção, sofrem de ansiedade e depressões, derivadas de traumas passados, emocionais e físicos, que não foram devida e atempadamente tratados. É surpreendente que um país com um dos melhores serviços de saúde mundiais exclua um pequeno segmento da sua população do acesso a tais serviços com base em tecnicalidades legais. Não creio que o mais ferrenho adepto de cortes na política de imigração objectasse ao direito de toda a gente ter acesso aos sistema de saúde nacional. Uma atitude inteligente, imaginativa e com mais compaixão, por parte do governo, poderia obviar a este obstáculo técnico.      Os hospitais têm sido obrigados a cancelar como más dívidas, ou pagamentos a receber, todos os custos imputados a este grupo. Num só dos hospitais de Melbourne isto já ascendia a 80 mil dólares (aprox. 10 mil e 400 contos).      Também a Cruz Vermelha se queixa do problema dizendo que lhes resta mendigar aos hospitais e aos médicos que aceitem para tratamento jovens de 48 nacionalidades, cujos grupos maiores são oriundos do Sri Lanka (Ceilão), Timor Leste, China e da antiga Jugoslávia. Das cerca de seis centenas de pessoas nos seus registos, mais de metade ainda não atingiu os 18 anos de idade.      Muitos destes jovens têm famílias alargadas das quais podem receber apoio e até abrigo, mas grande parte delas estão em idêntica situação, esperando a resolução dos seus processos, ou só recentemente obtiveram autorização legal de residência. Outros, como Abebe, autorizado a trabalhar durante seis meses, vivem com outros jovens em busca de asilo que tiveram a sorte de obter emprego e juntam os seus recursos financeiros, para poderem viver tão frugalmente quanto lhes é possível. Abebe estuda numa Escola de Melbourne e ainda não pagou os livros de que necessitou para estudar Inglês. Outros, com menos espírito de iniciativa ou com menos sorte, sobrevivem como podem. Um advogado do Centro de Legal Aid (Apoio Legal) de Sydney diz que tem tido “ filas de refugiados em busca de asilo, desesperados e deprimidos, ao ponto do suicídio, muitos dos quais têm estado a viver na rua.      John Cornwall diz que “ todos os jovens ”, com quem se encontrou, “ estavam preocupados com o seu futuro e o que lhes poderia acontecer. Por exemplo, os refugiados da Bósnia podiam ver na TV o que se passava na sua terra, o mesmo acontecendo, ocasionalmente, com os Timorenses. Mas, mesmo que a estes jovens seja concedido o estatuto de refugiado não existe segurança emocional para eles. De acordo com a antiga lei, estes refugiados adquiriam automaticamente o direito à residência permanente, mas a nova lei estipula que tenham de residir quatro anos sob o estatuto de entrada temporária, embora isto lhes permita ingressar no lote dos que beneficiam de vários serviços do governo. Por isso, deixando de parte, o problema da falta de dinheiro, a falta de acesso à saúde, a falta de acesso realístico à educação ... no fim, pode ser que passem a ter direito a todas essas coisas, mas nada é certo nesta vida.      Em Melbourne muitos destes jovens encontraram um ambiente de segurança na escola de Inglês de Noble Park, cuja directora anglófona, Aline Burgess afirma. “ o nosso objectivo é ensinar-lhes o idioma. Não os pressionamos para que nos contem as histórias das suas vidas, mas sempre que estão dispostos a falar, nós estamos atentos para as ouvirmos. Fazemos-lhes sentir que não devem ficar gratos por aquilo que lhes damos ou fazemos. É a nossa honra e privilégio sabermos algo deles e conhecê-los. 6. CARNE PARA IMPORTAR, CASAMENTOS PARA EXPORTAR      Uma jovem, quase desnuda, colocou os braços em torno do pescoço do mais jovem oficial da imigração, pressionando os seus seios contra o seu corpo. Fazendo-lhe carícias no ouvido murmurou: ” Então, vieste cá outra vez, para gozares bem o teu tempo ?” Os mais experientes oficiais riram-se. Já viram esta táctica desesperada ser aplicada e nunca resulta. A seguir, continuaram a rusga, deitando abaixo uma parede falsa e encontrando mais 17 jovens. Todas haviam sido recrutadas numa aldeia tailandesa. Foram deportadas, diz-nos um oficial, e o dono do bordel onde elas estavam, limitou-se a substitui-las por outras dezassete: para ele não passa de um jogo, e as suas damas não são senão pedaços de carne.      Estas jovens, de idades compreendidas entre 15 e 25 anos, saem das suas miseráveis aldeias para os bares do Sudeste Asiático, atraídas pelo dinheiro fácil, um estilo de vida supostamente atraente e a esperança de poderem manter financeiramente as suas famílias. Desses bares esconsos do sudeste asiático, são recrutadas, com promessas ainda mais aliciantes, com as jovens a terem de pagar entre 6 a 12 mil dólares (entre 790 e 1 600 contos) pelo duvidoso privilégio de vender os seus corpos no País da Sorte [82] . Muito poucas fazem ideia do que as espera: tornarem-se escravas do sexo . Assim, como entre 80 a 100 mil imigrantes ilegais [83] , mais do que os 40 a 60 mil estimados há uma década, elas entrarão no país com vistos de turista, mas sem qualquer intenção de deixarem a Austrália. Prostitutas, estudantes, refugiados por motivos económicos, membros das tríades chinesas todos têm o mesmo objectivo: obter cidadania australiana e, no caso disso falhar, explorar o sistema por todos os meios possíveis.      Um dos métodos mais comuns de evitar o rigor das leis de imigração é através do lucrativo mercado de casamentos de conveniência. Cidadãos de outros países casam com cidadãos/ãs australianos/as que nunca conheceram, pagando pelo privilégio cerca de 25 mil dólares (3 250 contos). Estes casamentos por conveniência nunca são consumados e são anulados logo que seja obtida a residência permanente.      Os investigadores da imigração, têm, nestes últimos anos, feito incidir a sua atenção sobre o alarmante aumento da prostituição originária da Tailândia e doutros países da região. Em 1993, mais de 200 pessoas foram deportadas. Jovens daquele país, muitas vezes com 12 anos apenas, vendem-se nos mercados de ‘carne’ de Banguecoque e Pattaya. Noutros casos, foram vendidas pelas próprias famílias. Se as jovens são demasiado inocentes e ingénuas, depressa aprendem a realidade. Trabalham longas horas para satisfazer as frustrações dos milhares de estrangeiros sequiosos de sexo oriental, que ali se deslocam em viagens de turismo sexual.      Um dono de bordel australiano vai à Tailândia com uma ‘lista’, contacta um intermediário local e paga-lhe 12 mil dólares (1 560 contos) por cada jovem recrutada. Às jovens, é-lhes dito que depois de chegarem à Austrália terão de reembolsar o custo das passagens, passaportes e vistos, obtidos pelo dono do bordel, e deduzi-los ao dinheiro que vão ganhar. O dinheiro que reembolsam é para pagar ao dono do bordel o custo da operação.      Para ter a certeza de que as novas recrutas não o abandonam, confisca-lhes o passaporte, cobra 60% do que ganham, coloca-as em ‘casas seguras’, que não passam de covis aviltados, cobrando-lhes rendas exorbitantes e mudando-as, frequentemente, de um local para outro a fim de evitar que sejam detectadas.      O oficial da imigração, que sabe deste esquema e no-lo detalhou, acrescenta: “ Elas não têm passaporte, praticamente não têm dinheiro e não se podem queixar pois sabem que estão cá ilegalmente .” Fontes da imigração australiana vão mais longe ao afirmar que grande parte dos lucros deste negócio acaba por voltar à Tailândia para encher o bolso de generais corruptos.      Um pequeno número de jovens acaba por ser detido durante rusgas, e essas jovens são repatriadas à custa do dono do bordel. A fim de que nenhuma das suas outras jovens fale, vê-se obrigado a devolver à proveniência as detidas, com a aquiescência das autoridades, satisfeitas, também, por pouparem ao pagante do fisco aquela despesa e o custo elevado em centros de detenção, pelo período que antecede o procedimento legal para a deportação.      Uma rusga não é mais do que uma mera brisa soprando sobre a superfície do lago quieto da prostituição, para usar uma metáfora elegante e poética.      Mais recentemente a lei mudou, para que as autoridades possam multar qualquer entidade patronal até 10 mil dólares (1 300 contos) por cada imigrante ilegal que empregue. A legislação, inicialmente concebida para desincentivar os donos de fábricas de vestuário, e outras de manufactura e de processamento, rapidamente se tornou em arma contra a prostituição.      Já o mercado de casamentos por arranjo ou conveniência é um osso bem mais duro de roer. Anualmente, dão entrada cerca de 30 mil pedidos de residência com base em casamentos reais ou ‘de facto’ [84] . As autoridades crêem que cerca de 70% destes pedidos são falsos. O problema agrava-se com a existência de uma vasta rede de ‘consultores de imigração’ que anunciam livremente os seus serviços em jornais e conhecem todos os truques para ajudarem os seus clientes a abusarem da lei de imigração. Como é óbvio, as suas taxas de consulta são extremamente bem pagas. Os ‘escuteiros’ que trabalham para estes contratam prostitutas locais e pessoas em fraca situação financeira para potenciais esposas de turistas asiáticos e africanos, que aqui chegam como visitantes temporários ou turistas, especificamente para arranjarem cidadania através de casamento.      O cliente paga, em média 25 mil dólares (3250 contos) ao ‘consultor’, o ‘escoteiro’ recebe mil dólares (130 contos) por cabeça, e o noivo ou noiva, com sorte, recebem 3 mil (390 contos). Depois, muitos deles trabalham como ‘escuteiros’ para os ‘consultores’ utilizando a sua própria experiência e exemplo. Dirigem-se a subúrbios de altas taxas de desemprego jovem, onde não lhes é difícil angariar voluntários para receber 3 mil dólares.      Passados doze meses o casamento é anulado e o cliente ganhou já o direito à residência. Depois deste ter sido concedido é quase impossível às autoridades federais anulá-lo. A papelada burocrática sujeita a uma eventual revisão ou fiscalização é ínfima para o número de residências por casamento concedidas em cada ano, e a secção da imigração responsável por esses casos é uma das mais sobrecarregadas de serviço. Esses papéis, normalmente organizados por ‘consultores’ estão, de uma forma geral, impecavelmente elaborados de acordo com a lei, pelo que se torna quase impossível detectar as fraudes dos casos legítimos.      Em 1992, a lei foi reformulada para não autorizar automaticamente o direito a residência para os esposos/as de residentes ou cidadãos, os quais a partir de então, passaram a ser sujeitos a um período de ‘arrefecimento conjugal’ de dois anos, durante os quais estão com residência temporária, e, só depois, se a relação marital for genuína e continuada, através de provas várias (tais como viverem maritalmente de forma visível) lhe pode ser concedida, ou não a cidadania ou residência permanente.      Existem mais de mil suspeitos de organizarem casamentos de conveniência, alguns deles com centenas de casamentos por sua conta, mas desses apenas 1% acaba por ser condenado e mesmo assim a penas menores. Apesar do elevado nível de fraudes cometidas nesta área, é extremamente difícil conseguir um julgamento e condenação nestes casamentos, pois obriga uma das partes a depor e incriminar a outra, e, na maioria dos casos, ambas as partes estiveram envolvidas na conspiração para defraudar a lei. Além disso, envolvia também depor contra o organizador do casamento, mas como também eles receberam dinheiro para tomar parte no casamento falso, passavam a ser co-conspiradores na fraude. Numa economia de mercado, com tanta gente necessitada de fazer dinheiro ‘fácil e rápido’ não há falta de candidatos a ‘casar’. Não foi para isso que se criou o multiculturalismo!      “ Se alguém aqui seja souber de algum impedimento a que este matrimónio se efectue, declare-o agora, ou para sempre impedido de o fazer ”. Estas palavras poderiam ter tentado toda a assistência a rir, pois todos sabiam que os votos sagrados trocados entre o jovem estudante chinês de 23 anos e a prostituta australiana de 17 era tão real como uma nota de 3 dólares (ou tão real como uma nota de 366 escudos). Esta pantomina é típica das muitas que todos os anos se realizam na Austrália. Casamentos em nome da cidadania. Este, porém, era diferente, havia quem estivesse presente para gravar toda esta fraude. A jovem noiva e a sua mãe, prostituta, estavam ambas armadas de radio-microfones. Até o padrinho de casamento estava ‘armadilhado’ e foi tudo gravado em vídeo.      Dez dias antes, Debbie havia sido acostada por uma prostituta mais velha, Jane, com uma proposta de ganhar facilmente 3 mil dólares em dinheiro, se casasse com Cau Shing Lee, que estava a viver na Austrália com um visto temporário de estudante. Jane havia recebido uma proposta de dinheiro de ‘um consultor de imigração’ de Sydney para casar. A história era a de Debbie abrir uma conta conjunta e com o futuro marido tornarem-se sócios de um clube, por exemplo o Mandarin, para que o casamento fosse legítimo. Depois, no escritório do consultor este conta que, inicialmente, Debbie receberá 500 dólares (65 contos) para assinar o pedido de casamento civil. Ao casar, recebe mais mil dólares (130 contos), mais 500 quando os formulários derem entrada na Imigração. Depois da entrevista da imigração, dos exames médicos e da pré-aprovação, receberá os restantes. No dia seguinte Debbie vê pela primeira vez, o marido, no escritório do ‘consultor’ e um celebrante matrimonial, que é um funcionário público que recebe também do ‘consultor’ para efectuar o casamento. Este, detecta um pequeno problema, aconselhando o ‘noivo’ a não se identificar como estudante, mas sim como empregado de mesa ou de bar, para poder provar que pode manter uma família. Mais uma ou duas reuniões e está tudo acordado: data, dinheiro e forma de pagamento.      Na data de casamento, o noivo aparece com duas testemunhas surpresa, os seus pais. Feitas as apresentações e das fotos (para mais tarde mostrar à Imigração) e a cerimónia breve, dez minutos, decorre sem incidente, até o ‘noivo’ ouvir as palavras pelas quais pagara 25 mil dólares: “Com os poderes que me foram concedidos pelo governo da Commonwealth da Austrália, agora, declaro-vos marido e mulher. Pode beijar a noiva.” Este beijo foi o primeiro e único contacto que o marido teve com a mulher.      Cada um vai à sua vida, Debbie vai receber o que lhe é devido e Cau vai à Imigração. Só que a Imigração, armada com a evidência gravada tinha outras ideias: deporta o jovem marido, depois de lhe recusar o direito à residência. O celebrante é expulso do funcionalismo público e o ‘consultor’ é detido para averiguações criminosas. O casamento foi anulado e Debbie guardou o que ganhara e o anel de noivado. [85] CRÓNICA IX A AUSTRÁLIA NO ANO 2000 - A IDADE DO BRONZE O DECLÍNIO DA RIQUEZA INDIVIDUAL: de 1 a 21 país no ranking mundial, em cem anos.      Em 1915, quando a mitologia ANZAC (Australian and New Zealand Armed Corps) surgiu, a primeira, de todas as exportações, era a de carne para canhão ao serviço dos ingleses. O custo foi enorme, depois de meia centena de anos, como o país mais rico do mundo, per capita, a Austrália acabaria por perder a sua posição ao entrar na 1 Grande Guerra. Em 1870, o rendimento médio per capita, de cada australiano, era, em termos médios cerca de 70% superior ao dos Estados Unidos. Mesmo considerando o elevado preço de participação no primeiro conflito mundial e as tarifas imperiais britânicas, de que dependia, a Austrália manteve-se crescendo, embora perdendo a posição cimeira das nações com maior rendimento individual, até meados deste século.      Em 1970, estava já como décima potência económica, em 1980 desaparecia do Top-20. Numa análise mais profunda destes dados estatísticos (ver Quadros anexos) teremos de considerar que, se a Austrália liderava o mundo em 1885, cada um dos seus habitantes tinha à nascença uma esperança de vida de 50 anos, e tratava-se do último continente a ser explorado. A sua riqueza inicial baseava-se em dois produtos muito simples: a lã e o ouro, distribuídos por uma pequena massa populacional. Se o rendimento individual era bem maior do que o norte-americano, isso devia-se mais às riquezas naturais do que ao capital humano, tal como aconteceria, meio século mais tarde com as nações árabes ricas em petróleo. Para além das riquezas naturais e da pequena população, surgia a necessidade de aumentar substancialmente esta, fazendo, desta forma, decrescer, logo à partida, a riqueza per capita. Por outro lado, o crescimento das manufacturas ocorreu neste século a uma taxa oito vezes superior ao crescimento da indústria primária, o que acrescido das enormes distâncias a que o país se encontra do resto do mundo, não favorecia a sua penetração nos mercados mundiais. Por último, uma política económica baseada na implantação de barreiras tarifárias serviu ainda mais para um isolamento restringente do crescimento económico.      1984, marcou o ano do maior crescimento do PIB [86] , dentre todos os países do mundo ocidental: 10,3%. Pensava-se, então que essa etapa seria decisiva no arranque do país para novos voos, desde que se mantivesse a firmeza do dólar australiano face ao norte-americano, desde que a seca terminasse e houvesse injecções maciças de capital estrangeiro, conjuntamente com uma reforma radical do sistema fiscal, uma alteração profunda das relações entre o patronato e os sindicatos, de forma a dar credibilidade às exportações, que então eram constantemente afectadas por greves duradouras.      Muitas outras medidas corajosas teriam de ser tomadas para recolocar a Austrália numa posição cimeira, mas, como sempre, isso foi deixado à arbitrariedade dos políticos e economistas e os resultados, volvida mais de uma década, são poucos. 2. A IDADE DO BRONZE      Talvez sejam poucos os que se recordam ainda, do ‘Bluebird’, um pássaro, que de magnífico passou a estar em risco de extinção. O ‘Bluebird’ foi uma invenção australiana dos anos 60, e era uma raqueta de ténis e squash, das quais se produziam anualmente 70 mil exemplares, e destas 20 mil eram destinadas à exportação. Em 1984, a produção que baixara para cinco mil cessou, tal como havia começado, sem fanfarra nem aviso prévio. A companhia que as produzia passou a ser subsidiária de um grupo norte-americano que entretanto descobriu Taiwan (Formosa) e outra utilização para a grafite. Se as raquetes ‘Bluebird’ eram de madeira, a moderna tecnologia utiliza agora grafite (aquele material que se utiliza nos lápis e nas cargas de minas-lápis) e outros produtos da era espacial. Taiwan passou a deter 95% da produção mundial das raquetes. Esta mudança ficou a dever-se à falta de competitividade dos produtos australianos, aos seus elevados custos laborais e ao reduzido mercado interno. A analogia poderia ser retomada com uma multiplicidade de produtos aqui fabricados, mas a população e a maior parte dos dirigentes políticos, continuam a manter bem vivas as tradições, deste país, de olvidar o óbvio.      Quando em 1984 a Austrália se quedou em 10 lugar no total de medalhas ganhas nas Olimpíadas falava-se de um ressurgir de um novo orgulho nacionalístico, embora ainda chauvinista e xenófobo. Nesse ano, a Austrália ganhou mais do que nos vinte anos anteriores, mas isso ficou a dever-se à ausência dos países de leste. Se tais atletas tivessem participado, a Austrália não teria ganho ouro em pesos, heptatlo, ciclismo e não poderia aspirar melhor do que uma 15 ou 20 posição. Os olímpicos seguintes vieram a demonstrar a real capacidade australiana sem boicotes dos países de leste, e em 1992 e 1996 não chegaram à 10 posição. O mesmo se passa, com a nação, que depois de ter sido a mais rica da Ásia, foi sucessivamente ultrapassada pelo Japão, Brunei, Singapura. A corrida ao ouro terminou e a Austrália está já na Idade do Bronze. 3. O FUTURO      O futuro é desconhecido, mas os glaciares, normalmente, não mudam de posição, de velocidade ou de direcção. O truque é descobri-los a tempo. São extremamente grandes, mas foi sempre difícil vê-los, em especial quando nos encontramos em cima deles ... e eles se movem sob os nossos pés. Vejamos, por exemplo, a letra ‘ C ’ da lista de alunos classificados no topo dos exames finais do ensino secundário no estado de Nova Gales do Sul, publicada em Março de 1983 no jornal diário “The Sydney Morning Herald”: Alvan CHAN , Joseph K. W. CHAN , Kwing S. S. CHAN , Lewis W. L. CHAN , Philip H. K. CHAN , Raymond CHAN , Roger C. H. CHAN , Teresa M. S. CHAN , Timothy T. CHAN , Yee E. CHEE , Wei-Chung CHEN , Anna M. C. CHENG , Henri A. CHEUNG , Mabel CHEW , Jennifer M. CHIA , Ka Kit CHIK , Anthony James CHILDS, Mei C. CHIU , Mark J. CHOLAKYAN , Kevin Le-Ming CHOO , Chia T. CHOU , Koon-Lun CHOY , David K. V. CHUNG , Robert M. CHUNG .      Este um extracto alfabético dos melhores 336 alunos, dos quais exactamente metade (118) eram asiáticos (de nome), embora este grupo representasse uma pequena percentagem dos 33 600 candidatos aos exames finais. O mesmo se passou em anos seguintes, com a diferença da percentagem de asiáticos ter aumentado drasticamente. Os jovens CHAN ’s, CHEN ’s, CHUNG ’s movimentam já o solo sob os nossos pés e a sua qualidade numérica forja já novos laços entre a Austrália e a Ásia, essa região da qual a Austrália fará parte integrante no ano 2000, mesmo contra a vontade de um sector maioritário da opinião pública e do governo conservador que ascendeu ao poder em Março de 1996. Falta saber a velocidade deste glaciar nos próximos anos... 4. ALTERNATIVAS PROVÁVEIS?      As massas populacionais estão finalmente a entender como é fácil ser-se medíocre na Austrália: muitas redes de protecção, demasiadas desculpas, demasiada mediocridade. A taxa de desemprego jovem continua entre os 20 e 25% e em 2000 os jovens enfrentarão as seguintes verdades axiomáticas:       1. Se deixares de estudar antes de teres garantido um emprego ou carreira segura, és um/a mentecapto/a,      2. As oportunidades dadas aos que detêm menos habilitações económicas, serão cada vez menores, pois os trabalhos indiferenciados que passaram para o Sudeste Asiático, continuarão a passar-se para a América Latina e África, onde o trabalho é pouco e a mão-de-obra é muita e barata.      3. A revolução do trabalho, a nível mundial, em que serviços, comunicações e inteligência artificial substituem progressivamente as fábricas e as unidades industriais pesadas, em todo o mundo ocidental.      Assim, e fruto da necessidade, chegará o dia em que os australianos reconhecerão o enorme desperdício característico do sistema educacional e suas reformas, que durante tantos anos lhes garantira a insegurança e a falta de capacidade de competição nos mercados internacionais. O ensino privado passará a ser predominante devido ao novo sentimento paternal de dar aos filhos a melhor educação possível, como forma exclusiva de sobrevivência num universo altamente competitivo, enquanto o ensino público continuará a degradar-se e a restringir-se aos extremamente necessitados.      À medida que a flexibilidade de horários se expande, os centros de ensino passarão a funcionar em turnos, para uma melhor utilização dos recursos e um melhor rendimento dos elevados capitais investidos. As universidades que a partir do fim da década de 80 importavam alunos da Ásia, passará a exportar diplomados para os países de onde eles vieram, para que satisfaçam as necessidades de crescimento das economias de tais países. A economia australiana será, cada vez mais, economicamente interdependente.      Um governo virá e abolirá taxas e criará incentivos à R&D (Pesquisa e Desenvolvimento), obtendo investimento estrangeiro das maiores companhias mundiais para beneficiarem das patentes australianas que não encontraram mercado para serem lucrativas. O proteccionismo à indústria, educação e serviços públicos será reduzido e quase abolido, dado que os subsídios sociais aliados ao envelhecimento da pirâmide etária terão crescido de tal forma, que os cofres públicos estarão deficitários.      Em nome da competitividade e eficiência (palavras-chave do fim da década de 80 e início de 90), os grandes cartéis nacionais passaram a ser dominados por organismos estrangeiros sem face nem país, obrigando a uma total liberalização dos horários de trabalho, salários e outras regalias dos poucos que ainda têm emprego. Os australianos que trabalhavam apenas 27 horas semanais, depois de deduzidas as doenças, férias, feriados, optarão por semanas de trabalho, cada vez mais curtas, para não perderem os seus empregos e ajudarem a criação de novos postos de trabalho a tempo parcial. Com mais horas de lazer disponíveis as pessoas passarão a utilizar melhor os fins-de-semana, viajando mais e proporcionando um crescimento às indústrias hoteleira, de turismo e de lazer.      Os serviços de saúde, reprivatizados, passarão a ser, cada vez mais, eficientes, competindo para fornecer melhores serviços aos poucos que dispõem de meios para deles se utilizarem. Os médicos perderão os seus privilégios posicionais com a entrada em competição de especialistas internacionais, através de consultas e cirurgias por teleconferência via satélite, e nem a recente liberdade de anunciarem os seus serviços e as condições promocionais que oferecem os livrará de perderem, cada vez mais, doentes favoráveis a terapias alternativas.      A desregulamentação dos sectores económicos: aviação civil, telecomunicações veio aumentar os lucros das empresas sectoriais, tornando mais serviços acessíveis a um número maior de pessoas. As mulheres continuarão a partilhar o poder em regime de igualdade com os homens, os pais aprenderão a ter contacto com os filhos, à medida que vão passando a fazer mais serviços domésticos. O machismo invertido verá mulheres perseguindo os homens, que as acusarão de os tratarem como meros objectos sexuais, opcionais à clonagem biológica.      A Austrália que entre 1975 e 1996 se asianizara, acordará um dia com a sensação de não pertencer ao mundo ocidental de que algumas tradições falam. E como não houve nenhuma deflagração nuclear de vulto, pode acontecer que mesmo levando em conta o efeito de estufa e o progressivo aquecimento da crusta terrestre, os glaciares não se tenham derretido permitindo que eu terminasse, de forma utópica e visionária esta crónica. [87] QUADRO I
1885
1. AUSTRÁLIA
2. BÉLGICA
3. REINO UNIDO
4. ESTADOS UNIDOS
5. CANADÁ
6. FRANÇA
7. NOVA ZELÂNDIA
8. DINAMARCA
9. ALEMANHA
10. ARGENTINA
1900
1. AUSTRÁLIA
2. ESTADOS UNIDOS
3. REINO UNIDO
4. NOVA ZELÂNDIA
5. BÉLGICA
6. HOLANDA
7. CANADÁ
8. FRANÇA
9. ARGENTINA
10. ALEMANHA
1950
1. ESTADOS UNIDOS
2. CANADÁ
3. AUSTRÁLIA
4. SUÍÇA
5. SUÉCIA
6. NOVA ZELÂNDIA
7. REINO UNIDO
8. DINAMARCA
9. BÉLGICA
10. NORUEGA
1970
1. ESTADOS UNIDOS
2. SUÉCIA
3. KUWAIT
4. CANADÁ
5. SUÍÇA
6. BÉLGICA
7. LUXEMBURGO
8. R. F. ALEMÃ
9. UAE (EMIRADOS ÁRABES UNIDOS)
10. AUSTRÁLIA
  QUADRO II
1980 RENDIMENTO MÉDIA PER CAPITA ($US/ANO) 1980 RENDIMENTO MÉDIA PER CAPITA ($US/ANO)
1. UAE 40 587.00
2. BRUNEI 21 147.00
3. QATAR 20 300.00
4. KUWAIT 20 143.00
5. SUÍÇA 15 928.00
6. SUÉCIA 14 882.00
7. ARÁBIA SAUDITA 14 150.00
8. NORUEGA 14 035.00
9. R. F. ALEMÃ 13 304.00
10. DINAMARCA 12 964.00
11. LUXEMBURGO 12 819.00
12. ISLÂNDIA 12 414.00
13. FRANÇA 12 137.00
14. BÉLGICA 12 080.00
15. HOLANDA 11 855.00
16. LÍBIA 11 826.00
17. EUA 11 416.00
18. CANADÁ 10 585.00
19. FINLÂNDIA 10 440.00
20. ÁUSTRIA 10 250.00
21. AUSTRÁLIA 10 210.00
22. JAPÃO 8 873.00
     Em 1992, o rendimento per capita cifrava-se em US $ 10 900.00 e a Austrália desaparecera para lá das 20 mais ricas nações de volta à Idade do Ferro de onde os aborígenes a haviam tirado há mais de 80 milénios. CRÓNICA X OS ABORÍGENES - Parte I (de 9)      Daremos, hoje, início a uma série de crónicas destinadas a esclarecer os leitores sobre um fenómeno humano que vem sendo esquecido e obliterado das páginas dos jornais e revistas culturais, talvez por sentimentos de culpa e desideratos de obliteração.      Sem querermos entrar em discursividades polémicas, iremos tentar lançar um pouco de luz sobre aquilo que consideramos ser um acto consciente e deliberado dos meios de comunicação social: a ostracização da cultura aborígene. Focamos aspectos históricos importantes para o entendimento das problemáticas aborígenes, dando exemplos de acontecimentos célebres na ‘ História Branca ’ da Austrália, citando avanços e recuos da política oficial face a um problema que, ainda hoje, está bem longe de ser resolvido. Enfim, tentaremos dar a conhecer as faces distintas do problema. I. IGNORÂNCIA, ÁLCOOL, DEUS E AS BOAS INTENÇÕES      Os primeiros contactos entre os Aborígenes e os Brancos Europeus alteraram de forma dramática a estrutura social e económica da comunidade aborígene, a qual tem sido sistematicamente destruída desde então, pouco sobrevivendo hoje da original estrutura. Desde que a 1 Armada chegou, em 1788, (ver Crónica 2), muitas pessoas se interessaram em observar e estudar as actividades, estilos de vida e línguas, das várias tribos aborígenes, em especial, nas áreas de Sydney e restante NSW (estado de Nova Gales do Sul). O estudo antropológico permitiu criar uma imagem de como eram e viviam os aborígenes antes da chegada dos brancos, e, a pesquisa arqueológica deu-nos uma visão da sua vida nos últimos 40 a 80 mil anos. Se bem que tais estudos tenham sido apurados, extensos e diversificados, eles não influíram de forma notável para reduzir o fosso existente entre os aborígenes e as restantes etnias populacionais deste continente.      Quando o governador Phillip chegou com a sua 1 Armada (ver Crónicas I e VII), as suas instruções eram de tratar bem toda a população autóctone e punir qualquer membro da sua esquadra que não o fizesse. No entanto, menos de 20 anos após a sua chegada, eram já tidos como pestes todos os nativos, e, portanto a exterminar. Assim, em 1796, o então Governador Hunter ordena aos colonos que se organizem em grupos armados contra os aborígenes.      Embora, a nível legal, fosse proibido o assassinato ou homicídio dos nativos, raramente se utilizou a letra da lei contra um colono branco. Em 1838, 7 colonos foram acusados e condenados pela morte de uma criança aborígene, mas a pena de morte não lhes foi imposta por ser considerada ‘ demasiado pesada ’ para condenar ‘ apenas’ a morte de um nativo. Dado que a nível da mão-de-obra a utilização dos aborígenes era desnecessária, devido ao elevado número de condenados e degredados transferidos para a Austrália, e dado que as vastas obras de expansão para o interior e zonas mais remotas se processavam a um ritmo rápido, os aborígenes foram sendo, cada vez mais, tidos como um obstáculo ao progresso da colónia.      Quanto mais expansão branca se verificava, maior era o atrito entre as duas comunidades. Os europeus eram incapazes de entender a ligação dos nativos à terra. Ao chegarem não viram nem vedações nem postes, marcos ou outros sinais óbvios de culturas agrícolas, sentindo, pois como sua obrigação de povos civilizados tornar a terra produtiva. Por outro lado, se a ocupação e cultivo das terras nada significava para os locais, a terra representava não só o meio de subsistência para os seus como a sua própria habitação. Retirar-lha era um corte profundo , como que a remoção da sua cultura ancestral. Para os europeus a terra era dada, doada, vendida, e não propriedade eterna e permanente como para as gentes nativas. A terra possuía as gentes e não o reverso. A falta de compreensão e tolerância mútuas estiveram, desde o início, na fonte dos conflitos.      Os efeitos económicos da alienação das terras, depressa se fez sentir pois impedia os aborígenes de caçar, pescar e viver nas zonas suas conhecidas ancestralmente. Muitos outros eram, porém, mortos pelas balas dos colonos, pelas doenças por estes trazidas ou pela farinha envenenada que estes lhes vendiam. Rapidamente foram sendo empurrados para as franjas urbanas e para zonas aborígenes ainda não afectadas pelo expansionismo europeu. Os colonos ao despojarem os aborígenes das suas terras estavam - sem o saberem - a destruir a estrutura da sociedade local, a privá-la de se manter e preservar para gerações futuras.      No aspecto sexual, a miscigenação entre grupos e tribos distintas ocorria para resolver conflitos ou guerras tribais, e para firmar uniões tribais. Este facto, observado pelos europeus, era considerado promíscuo e amoral, pelo que passou a ser vulgar a utilização de mulheres aborígenes para fins de prostituição e utilização meramente sexual pelos brancos que detinham uma população feminina minoritária. Com a destruição dos padrões de vida tradicionais os nativos deixavam de ter a sua raison d’être , pelo que com a facilidade de introdução do álcool nos seus hábitos, este rapidamente se tornou numa fácil válvula de escape.      Sob a influência desta droga, à qual os seus organismos eram alérgicos, os mais novos que ainda não haviam sido iniciados nos rituais tradicionais tribais, começaram a tornar-se rebeldes e a contestar o poder dos líderes mais idosos, pelo que entendiam ser a falta de poder de oposição aos brancos. As doenças, as péssimas condições de vida num meio hostil e estranho, onde os seus antepassados há dezenas de milhar de anos, aliados ao álcool cedo se manifestaram como razões para o declínio da sociedade aborígene. Os mais jovens nasciam e viviam num clima de dependência económica, de alcoolismo e de inferioridade social. Simultaneamente, começaram a assumir importância, os jovens mestiços, não aceites pelos brancos como prova da sua amoralidade, nem pelos aborígenes, incapazes de se auto-observarem numa fase de mudança e de quebra de tradições. Nem todo o dano causado aos aborígenes era, porém, fruto da animosidade, crueldade deliberada ou negligência, muito era causado por actos bem intencionados mas mal dirigidos.      Alguns governadores, tentaram criar instituições políticas e de autoridade, semelhantes às dos europeus. Um exemplo foi o do governador Lachlan Macquarie, que, em 1815, criou um estatuto de chefes tribais (ou reis) para os líderes das comunidades aborígenes. Simultaneamente, intensificaram-se os esforços de cristianização dos nativos, que, pura e simplesmente se resumiram num falhanço, com os missionários na sua obstinada tentativa de alterar o modus vivendi local, e a tentarem convencer os aborígenes a seguirem os exemplos da vida civilizada sob a palavra divina, mas incapazes de perceber que os locais não reconheciam nada de válido ou superior que fosse benéfico para eles, caso adoptassem, copiassem e adaptassem os estilos de vida europeia. Se, para os missionários, o trabalho e a acumulação de riqueza (propriedade privada) eram a base da sua crença, para os aborígenes o trabalho deveria apenas ser feito para a satisfação das necessidades mediatas, e a propriedade era uma coisa comunitária a partilhar por todos. Os missionários, por outro lado, não estavam preparados para entender a ligação do nativo à terra, os seus costumeiros rituais de iniciação, os quais não passavam de rituais pagãos a eliminar.      Este facto viria a assumir uma criminosa decisão, por parte das autoridades, civis e religiosas: a de retirar as crianças do seio das suas comunidades ancestrais, aborígenes e pagãs, incapazes de redenção, salvando-as assim ao retirá-las para o ambiente esterilizado das missões cristãs ou para os trabalhos domésticos em casa de europeus. Afastadas das suas tribos, as crianças perdiam o elo de ligação com as tribos, costumes, idiomas e leis tradicionais. Simultaneamente aprendiam uma língua estrangeira: a dos invasores e colonizadores, destruidores das suas línguas, seus costumes e leis, adquirindo um novo status social de cidadãos de segunda classe.      As primeiras cinco décadas de colonização europeia (1788-1838) destruíram, de facto, a sociedade aborígene tradicional neste estado de Nova Gales do Sul. Se, para alguns, a extinção foi lenta e aceite com um suspiro de alívio, havia obrigações morais de lhes proporcionar (aos que sobrevivessem) uma vida tão confortável quanto possível, o que misericordiosamente era conseguido com a atribuição anual de cobertores, rações de farinha (quando esta não era propositadamente envenenada), açúcar, chá e a possibilidade de vida nas áreas adjacentes às cidades e vilas de cariz europeu.      Se, de uma forma geral, a destruição cultural local estava praticamente conseguida, em especial nas áreas dos rituais de iniciação, económica, social, certo é que, o sentido de cooperação e interajuda comunitária e as noções de partilhas de bens se mantiveram. Os mitos e os locais sagrados, para além dos idiomas tradicionais foram mantidos até aos dias de hoje, havendo ainda alguns que são capazes de utilizar instrumentos e ferramentas tradicionais. Se bem que, 200 anos se tenham completado em 1988, com grande fanfarra no bicentenário da Austrália, certo é que, para alguns aborígenes, estes pequenos elos de ligação ao passado são, hoje, mais do que nunca, a raison d’être da sua própria identidade e auto-respeito.      Por outro lado, assiste-se hoje, em dia, a um revivalismo activista, capaz de poder proporcionar às novas gerações o contacto com a cultura tradicional que se pensava perdida e até mesmo extinta. Foi no início da década de 80 que os turistas ávidos descobriram a arte aborígene e as suas pinturas únicas e esquisitas, catapultando esta arte para a frente das manifestações de vanguarda, elevando a somas astronómicas o valor de qualquer quadro ou pintura tradicional, mesmo recente. Foram estes novos ‘colonos brancos’ da Norte América e do Japão que deram nova vida e fizeram nascer em tribos quase moribundas a arte há muito esquecida ou relegada, de pintar. Os nativos, desta vez, porém, souberam aproveitar-se destes novos brancos fazendo-os pagar a preço de ouro, nas galerias próprias que eles mesmo gerem e administram, beneficiando com os lucros os seus irmãos de raça, para que estes recuperem a voz que durante mais de dois séculos se não fez ouvir. [88] CRÓNICA XI Partes II a IX OS ABORÍGENES DE NOVA GALES DO SUL [89] Continuamos, hoje, com a série de crónicas destinadas a esclarecer os leitores sobre um fenómeno humano que vem sendo esquecido e obliterado das páginas dos jornais e revistas culturais, talvez por sentimentos de culpa e desideratos de obliteração. PARTE 1 I. O MEIO AMBIENTE E VESTÍGIOS ARQUEOLÓGICOS      Os sistemas tribais de Nova Gales do Sul não são facilmente explicáveis, dado que a sua organização começou a ser desmantelada em termos práticos com a chegada dos primeiros colonos europeus. Nalguns casos as próprias tribos não tinham uma identidade nominal, antes se considerando ‘ NÓS’ para se distinguirem dos outros ‘ ELES ’. Alguns destes nomes estão relacionados com grupos localmente estabelecidos, outros dizem respeito a subgrupos, clãs, nações aliadas, tais como os Yuwin, da Costa Sul (compostos pelos Dhawa, Dhurga, Guyanga, Walbanga e Wandian), os GAMILAROI e os WIRADJURI.      Alguns destes grupos falavam uma linguagem comum, pelo que é provável ter existido uma qualquer forma de federação entre eles. Qualquer mapa da época que se consulte dá apenas indicação dos grupos, tribos, nações, sob um ponto de vista linguístico e social. As suas delimitações são controversas e baseiam-se em locais totémicos onde se realizavam as iniciações dos jovens. A dificuldade em estandardizar nomes deve-se sobretudo ao facto de nenhuma língua aborígene ter forma escrita tradicional.      Inicialmente existiam cerca de 600 idiomas falados por umas 300 mil pessoas, o que dá uma média de um dialecto por cada grupo de 500 pessoas, aquando do desembarque da 1 Armada em 1788. Atendendo a que muitas dezenas de tribos foram dizimadas e considerando a falta de uma linguagem escrita, poucos foram os registos originais preservados, embora desde o início da década de 80 um grande trabalho se tenha feito em termos de recuperação da cultura e línguas aborígenes.      Nas regiões costeiras de Nova Gales do Sul os aborígenes viviam sobretudo de recursos marinhos e fluviais bem como de actividades venatórias. O conhecimento que até nós chegou dos seus hábitos baseia-se sobremodo em diários da época (com todas as deficiências inerentes aos dados recolhidos por exploradores e missionários) e em descobertas arqueológicas, sendo estas na sua maioria relativas a depósitos de conchas nas zonas marinhas. Estes depósitos onde se encontram vestígios piscatórios e ossos de animais eram depositários de restos de refeições aborígenes, as quais eram sempre enterradas na areia. Nalguns locais os artefactos encontrados datam de há mais de 20 mil anos. Geralmente os homens dedicavam-se à pesca e à caça e as mulheres concentravam-se na recolha de mariscos. II. CERIMÓNIAS TRADICIONAIS      Para os colonizadores europeus os aborígenes pareciam ser ateus ou animistas, dado não existirem nem templos nem manifestações de preces ou invocações divinas, mas, de facto, a religião era uma parte de suas vidas embora não distinta de outras actividades quotidianas e assumia normalmente a forma de propagação de mitos, expressando os feitos espirituais dos ancestrais. Estes mitos eram manifestados de forma social e económica, baseando-se numa distinção entre o bem e o mal, assumindo enorme peso a sua relação com o meio físico ambiente. A propagação destes mitos era feita durante as cerimónias de iniciação dos jovens, as quais se desenrolavam ao longo de vários dias e congregavam vasto número de membros de cada comunidade. A participação nestas cerimónias estava interdita a mulheres, embora a presença destas e de crianças fosse permitida nalguns casos. Os jovens a iniciar tinham de passar por períodos de preparação, isolados no mato e deviam submeter-se a certas actividades físicas. Os locais sagrados de iniciação, nalgumas zonas, assumem importância através da configuração de certas rochas ou montes, enquanto noutras se manifestam através de motivos inscritos nas árvores.      Para os rituais da morte, várias eram as formas preferidas, desde a instalação de corpos em caves; à sua colocação em árvores ou até mesmo canoas que eram lançadas às águas, mas sempre depois de uma primeira fase em que o corpo era preparado temporariamente para ficar desprovido de carne. Noutros casos, encontram-se vestígios de actividades crematórias. III. A ARTE      A arte aborígene é ainda hoje bem visível apesar do carácter transitório dos meios de que se serviam para expressá-la: árvores (e cascas destas), rochas (e pinturas esculpidas nelas) e pintura de corpos para rituais. Nalguns casos utilizava-se o carvão e o ocre apigmentado e colorido para dar vida aos trabalhos. A Arte é bem diversa de região para região, embora os meios de que se servissem fossem basicamente os mesmos. Os temas utilizados eram de uma forma geral animais (peixes e pássaros) e figuras antropomórficas, de motivos figurativos, simples de estruturas lineares. IV. HABITAÇÃO E FERRAMENTAS      Os abrigos nas rochas ou em grutas e palhotas rudimentares de madeira de carvalho (Bark tree) constituíam a base dos seus habitat, os quais se destinavam a protegê-los dos elementos, nomeadamente as intensas chuvas que se verificam nesta região da Austrália. Os instrumentos utilizados eram provenientes de fibras vegetais, peles, pedra, e madeira, enquanto os adornos eram conchas, cana de açúcar, dentes de animais e pequenos feijões. Apesar da abundância de água encontram-se vestígios de pequenos poços artesianos, e uma espécie de aquedutos construídos em folhas de palmeira. Para a pesca e caça eram utilizadas lanças de ponta de osso ou concha. As mulheres pescavam pequenos peixes, moluscos e mariscos com uma isca e à linha (feita de fibra vegetal ou pelo de animais). As canoas, construídas de casca de árvore, não excediam em regra os 5 metros e nelas havia sempre fogo aceso, que se destinava a cozinhar de dia e a aquecer de noite. V. PESCADORES - CAÇADORES e porque não agricultores?      Quarenta mil anos atrás (60, dizem uns, ou 80 dizem outros) já haviam aborígenes na Austrália. Como todos os restantes grupos daquela época, viviam dos recursos naturais, fossem eles plantas ou animais. Nalgumas outras áreas do globo uma certa transição desta fase de caça e pesca para actividades agrícolas e horticulturais foi-se estabelecendo, tendo atingido a sua fase de expansão para distintas regiões da terra há uns dez mil anos, e sendo caracterizadas pela domesticação de animais e por métodos de cultivo.      A teoria até há pouco vigente era de que toda esta transferência de hábitos e costumes, tal como ocorrera na América e na Ásia se havia propalado a diversas outras regiões. Hoje em dia acredita-se que esta fase de transição se possa ter passado de forma diferente e de acordo com unidades temporais distintas. Embora não haja vestígios humanos pré-históricos na Austrália, as opiniões diferem quanto à possibilidade de criação de um regime agrícola no continente até à época Plistocénica.      No entanto, o norte do continente (Península de Iorque e Terra de Arnhem) beneficiava de terras aráveis férteis, de luxuriosa vegetação (florestas tropicais) e nelas se verificou o contacto com agricultores indonésios pelo menos durante 200 anos antes da chegada dos primeiros colonos brancos. Se bem que não se verifiquem vestígios de produção agrícola, inúmeros rituais, pertencentes a culturas estranhas à Austrália, se registam (arpões de metal, redes de pesca, canoas de árvores escavadas inexistentes no resto do continente).      Para além disto existem vestígios de uma cuidada política de harmonia com a natureza, com a criação de barragens artificiais primitivas, a plantação de sementes, a prática de ‘queimadas’ para desbastar os matos e atrair animais comestíveis, alguns deles datando de há mais de 15 mil anos. Por outras palavras, enquanto no passado, os aborígenes têm sido denegridos pelos aspectos primários da sua economia, verifica-se que nalgumas áreas desenvolveram técnicas de agricultura enquanto que noutras não as prosseguiram por não verem vantagens em tal. Os arqueólogos não dominam ainda totalmente as causas de mutações sociais e económicas, tendendo a assumir uma tendência de progresso na senda da caça e pesca até à industrialização. Para os nativos da Austrália, o tipo de vida era o melhor socioeconomicamente de acordo com o meio ambiente em que viviam e não havia necessidade de o mudarem. VI. O PAPEL TRADICIONAL DA MULHER      Para descrevermos o papel da mulher aborígene numa sociedade tradicional teríamos de descrever o quotidiano nómada em que habitavam com todas as limitações de conhecimentos de que dispomos. O campo silente com pequenos fogos ateados, o homem dormindo ao lado da(s) sua(s) mulher(es) com os filhos desta(s), sob o improvisado abrigo. Numa das extremidades do campo fica a parte destinada aos homens solteiros e jovens, na extremidade oposto as mulheres solteiras e viúvas. A luz do dia desponta e lentamente todos se vão levantando, sentando-se em pequenos grupos, com as pernas cruzadas formando círculos em torno do lume, aguardando o nascer do sol. As raparigas e jovens mulheres apanham lenha e água, a comida que há é distribuída, quaisquer factos relacionados com a longa noite dos sonhos são narrados e partilhados por todos. Depois, discutem-se os planos para o dia.      O sol aquece, as mulheres e os homens dividem-se em dois grupos, no campo ficam os velhos e incapacitados. As mulheres partem à procura de lagartos de língua azul, peixe, ou de tartarugas, ensinando às mais jovens como cuidar de ir buscar comida. No princípio da tarde regressam para preparar comida, repartindo esta com aqueles que não podem angariar o seu sustento. A tarde é passada a cozinhar, normalmente assados na brasa, havendo refeições que demoram várias horas pela preparação dos ingredientes vegetais que acompanhavam, por exemplo, um canguru caçado pelos homens enquanto as mulheres andavam à pesca.      Se os homens só caçavam animais de grande porte, as mulheres concentravam-se mais na recolha de todos os vegetais, répteis e outros pequenos animais que compunham a dieta habitual. Um campo não excedia normalmente as 50 pessoas, apenas se reunindo mais em época de rituais e cerimónias tradicionais, nas quais as mulheres eram relegadas para uma posição secundária dado que só os homens iniciados podiam participar em muitas delas. Nestas ocasiões competia ainda às mulheres, mais do que habitualmente, o proporcionarem e angariarem a alimentação.      Como na maior parte das sociedades (excepto na nossa) as jovens não tinham voto na selecção de marido. Antes do nascimento ou nos primeiros anos de vida, uma jovem era prometida em casamento de acordo com as propostas recebidas e aceites pelos pais da jovem. Antes da puberdade a jovem aprendia a colher alimentos para o seu futuro marido, que, em troca, retribuía parte da sua colheita. Depois da puberdade, as jovens eram normalmente enviadas para os acampamentos dos seus maridos onde se tornavam na 2 ou 3 mulher, sem se proceder a qualquer cerimónia. As jovens apanhavam alimentos e o marido untava-as com óleo vegetal para as ajudar a crescer e a atingirem a maturidade.      As mulheres, ao tempo de seu primeiro casamento, eram normalmente muito mais jovens do que os maridos, o que se devia ao facto de os mais velhos serem considerados mais capazes de ternura e paciência para com as jovens. Estas, como muitas vezes enviuvavam, acabavam por seleccionar depois um marido mais novo. O casamento na sociedade aborígene era mais uma questão económica que outra coisa. Um dos crimes mais graves era se um casal fugia, pois que todas as mulheres eram as mulheres ou as prometidas de algum homem.      Normalmente, a maior parte das disputas dentro de um campo relacionava-se com mulheres, o direito a elas e/ou a suspeita de infidelidade. O parto era uma situação privada a que nenhum homem podia assistir, e em que a mulher acompanhada da mãe e de outra mulher idosa se retirava para fora do campo. Ninguém podia tocar no bebé antes de totalmente nascido. O período pós natal era geralmente muito curto, havendo, em média, um intervalo de quatro anos entre cada filho. As crianças cresciam sempre junto da mãe até cerca dos 3 anos, a partir de então podiam outras crianças mais velhas cuidar delas.      Embora tivessem muita liberdade, as crianças eram, desde novas, instruídas nos segredos da vida e seus perigos. A disciplina era imposta através da pressão de grupo, não havendo lugar a punições físicas. De uma forma geral, como vimos, a mulher era instrumento para a recolha de alimentos, mas aparte este aspecto assumia uma posição secundária e de subserviência, embora mantivesse secretos, entre outros, aspectos relativos à sua sexualidade e feminilidade, os quais se revestiam de rituais próprios. VII. A HERANÇA ABORÍGENE, PASSADA E PRESENTE      Antes da chegada dos europeus, a terra proporcionava tudo o que os aborígenes necessitavam, desde a alimentação até uma própria explicação sobre a sua existência no mundo, assim satisfazendo as áreas físicas e espirituais de suas vidas. Embora cada tribo possuísse os direitos territoriais sobre as áreas em que habitava, o sentimento de posse ( propriedade ) de terra era-lhes alheio, antes pelo contrário, eles sentiam que a terra os possuía a eles, aos outros animais e plantas que os rodeavam. Este factor jamais foi bem interpretado pelos colonos brancos que, pouco a pouco, nos dois séculos após a sua chegada se assenhorearam da terra sem prever as consequências para futuras comunidades aborígenes. Felizmente uma posição de sentido contrário se começou a verificar na década de 80 culminando com o então 1 ministro australiano Bob Hawke a devolver o ex-libris de Uluru (Alice Springs, as rochas encarnadas e multicolores do maior megalito terreno) aos descendentes de seus legítimos donos.      Este progresso porém viria a ser, uma vez, impedido quando em 1998, o governo conservador de John Howard fez aprovar uma nova lei sobre o direito à propriedade das terras pelos aborígenes. A nova lei que alegadamente vinha clarificar a situação legal vigente sobre as pretensões dos aborígenes aos títulos de posse de terras do estado, que constituem 50% da área australiana, foi contestada por todos os sectores. Os agricultores e mineiros dizem que dá demasiado poder e terra aos aborígenes. Estes, alegam que a nova lei é racista, por privilegiar agricultores e mineiros e viola o seu direito à posse de terra que foi ancestralmente deles. Para grande parte da população a nova lei apenas favorece a prosperidade das indústrias agrícolas e mineiras. VIII. AS MISSÕES      A chegada dos europeus destruiu o modus vivendi nativo e sob a capa de um proteccionismo, o povo aborígene foi forçado a viver em reservas e em missões religiosas disseminadas pelo território. Assim, o governo tomava posse de novos territórios que posteriormente outorgava para colonos e agricultores.      Na maior parte dos casos os aborígenes eram transportados para regiões bem distantes daquelas em que ancestralmente haviam vivido. Todo este processo se repetiu até há poucas décadas atrás. IX. AS INICIAÇÕES E RITOS      Dado que a iniciação era parte integral da religião que fundamentalmente unia os aborígenes à terra, e atendendo a que depois da chegada dos europeus elas rapidamente se extinguiram, conforme explicitamos em crónica anterior, este facto levou à extinção da cultura tradicional nativa. A última cerimónia de iniciação teve lugar na década de 30 e dos presentes a essa cerimónia apenas cinco sobreviviam em 1985 para terem então a oportunidade de narrar o que se passara. Actualmente com as novas leis de protecção da cultura aborígene tenta-se a preservação dos locais sagrados e o revivalismo dessas cerimónias, do seu significado, e importância para a comunidade nativa.      O dilema de sobrevivência cultural de um povo a quem retiraram os elos de ligação com a sua cultura tradicional teve um enorme impacto. Deveriam eles abandonar o remanescente dos seus hábitos e adoptar a cultura e educação dos brancos? Ou deveriam tentar manter acesa a chama do pouco que restava na esperança de um dia a poderem fazer ressurgir? A resposta foi uma longa época à deriva que ainda hoje manifesta os seus efeitos, embora felizmente já muitos dos aborígenes se sintam conscientes das suas origens, identidade e futuro.      Ao proporcionar à herança cultural aborígene um lugar na sociedade contemporânea e uma visão alternativa do mundo que a não excluía, protegendo os locais sagrados, devolvendo a titularidade da posse das terras às tribos que as reclamam, proporcionando uma interpretação dos seus hábitos e costumes, as organizações federais encarregues de fazerem o levantamento dos locais sagrados tentam criar um clima conducente a uma melhor compreensão dos aborígenes como o único grupo étnico nativo do continente, mas integrante desta Austrália multicultural.      Desde que estes programas de pesquisa e levantamento se iniciaram em 1973, vários têm sido os livros publicados, filmes e slides, os quais, lentamente vão repondo a história tradicional dos ocupantes primeiros deste continente-ilha. Por outro lado, várias organizações foram surgindo financiadas com fundos do governo federal de Camberra que visam representar a cultura e o povo aborígenes na sociedade actual desde o mercado de trabalho (onde representam uma fracção bem pequena quando comparada com os pouco mais de 1% de representatividade na totalidade da população australiana) a todos os outros quadrantes da vida. Importante realçar que o significado dos locais sagrados e outros relevantes para os aborígenes inclui a seguinte conceptualização:
SIGNIFICADO TRADICIONAL SIGNIFICADO HISTÓRICO (PÓS EUROPEU) SIGNIFICADO CONTEMPORÂNEO
Locais de Enterro
Áreas de Ritos e Cerimónias
Missões e Reservas
Locais de Massacres (genocídio)
Áreas de Ritos e Cerimónias
Pinturas e Gravuras em rocha
Locais de enterro
Áreas de Ritos e Cerimónias
Pedreiras de Ocre
Agrupamento de Rochas
Árvores Trabalhadas
Depósitos de Conchas de Moluscos
CRÓNICA XII A AUSTRÁLIA E SUAS COLONIZAÇÕES: Dos Aborígenes aos Ingleses [90]      A Austrália foi o primeiro continente a ser ocupado por colonos do Velho Mundo: quando a Civilização Cro-Magnon criava as suas maravilhosas reproduções artísticas nas cavernas de França (Lascaux), Portugal (Foz Côa), Espanha (Altamira) cerca de 15 mil anos antes de Cristo, já os aborígenes australianos se haviam estabelecido há pelo menos 25 mil anos (há quem afirme que eles lá estão desde há 80 mil anos).      As massas continentais ocupavam então uma área diferente, com a Austrália ainda ligada à Papua (Nova Guiné) e Tasmânia, enquanto as ilhas de Java, Samatra, Bornéu e Timor faziam parte do continente asiático. A Austrália era então derivada do vasto continente Gondwana que englobava a actual África do Sul. Assim, parece ser de admitir que os primeiros australianos se limitaram a andar e a atravessar mares por cerca de 30 km no máximo. Nunca saberemos ao certo como os primeiros cá chegaram, se através de jangadas, canoas ou meramente por acidente.      Os primeiros habitantes vieram decerto do subcontinente asiático, do actual Sudeste Asiático, de acordo com idênticos vestígios encontrados nas Filipinas, Indochina, sul da China e Japão. Para os antropólogos todos os territórios desta área eram então ocupados por dois grupos distintos: os Australóides e os Mongolóides, cerca do ano 10 000 a.C. Os Australóides são, provavelmente, geneticamente mais ligados aos Caucasianos do que aos Mongolóides ou Negróides. Com efeito, os Aborígenes de pele tisnada têm uma compleição capilar diferente, que varia do cabelo liso ao encaracolado, mas jamais semelhante aos negros africanos. Linguisticamente existiam mais de 250 idiomas distintos dentre um universo de 600 dialectos, a maior parte deles ininteligível para a maioria dos restantes grupos.      Um outro factor curioso para o estudo dos primeiros australianos reside no DINGO uma espécie de cão selvagem cuja origem foi já traçada até pelo menos 6 mil anos antes da nossa era. Até há pouco mais de um século, os antropólogos consideravam os aborígenes como selvagens ou primitivos e daí entendermos as dificuldades de comunicação social entre os primeiros colonos e as tribos com que contactavam. A sociedade branca assumia a privacidade da propriedade que para os aborígenes era comunal ou tribal. Enquanto para a comunidade branca a terra era de quem a possuía e cultivava, para os aborígenes ela era de todos e partilhada igualmente. À data dos primeiros encontros havia pelo menos 600 tribos com uma dimensão média de 500 habitantes cada. A vida local era baseada na pesca, caça, e na apanha de plantas e insectos de acordo com as leis tribais. A superioridade masculina era parte integrante das regras sociais, sendo a pena de morte instituída para os prevaricadores.      Conforme vimos, em crónicas anteriores, diversas nações tentaram colonizar a Austrália, dentre elas a primeira talvez tenha sido a chinesa no início do século XV, pelos vestígios de obras de estatuária e outras obras de arte já descobertas no continente. Parece no entanto mais do que provado terem sido os Portugueses os primeiros europeus a demandar estas paragens (ver Crónica 4) pois que em 1516 já se haviam estabelecido nas ilhas das especiarias (Molucas) e em Timor, apenas a 456 km da costa da Austrália Ocidental. Em Julho de 1916 foram descobertos dois canhões do século XV ou XVI com o brasão das quinas, em Broome na Austrália Ocidental. Um deles resta no Museu Marítimo de Fremantle (Perth) e o outro na base naval de Garden Island em Sydney. Existem também notícias da aparição de uma embarcação de madeira típica descrita como uma caravela quinhentista conhecida como Mahogany Ship (A Nau de Mogno)’ na costa da Austrália Meridional, em Warrnambool (Vide Crónica 4).      A razão pela qual os portugueses não publicitaram esta sua descoberta deve-se ao Tratado de Tordesilhas (1494), segundo o qual a Austrália pertencia (quase toda) já à metade do mundo sob o domínio de Castela. Como Jaime Cortesão escreve: “ Eles temiam que a Austrália pudesse tornar-se em uma base para as operações espanholas capaz de perturbar a segurança das terras sob domínio português. Isto veio dar ainda mais sentido à Política do Silêncio pois prolongou o período antes que isso acontecesse. [91]      Posteriormente vários navegadores apresentaram as suas credenciais para a descoberta da Austrália, nomeadamente os portugueses de Queiroz em 1595 e Luiz Vaz de Torres em 1605, ambos ao serviço dos reis de Castela (Portugal estava então sob o domínio da côrte espanhola).      Até 1580, os Holandeses eram os intermediários comerciais de Portugal mas, depois da união das coroas dos dois países ibéricos, eles seguiram as rotas inicialmente traçadas pelos portugueses, reclamando para si os espólios conseguidos. Muito mais haveria a dizer sobre as manobras e contra-manobras dos diversos países contra os resultados das descobertas portuguesas, mas as mesmas inserem-se em âmbito distinto do destas crónicas. A partir de 1580 e até à chegada do Capitão Cook, em 1770, muita coisa se passou sem estar registada nos normais livros de História que estudamos, aqui e em Portugal.      Revelemos agora um pouco mais sobre os primeiros colonos aqui chegados, sem olvidar o relato do capitão Cook, em 22 de Agosto de 1770: “ esta área (Nova Gales do Sul) em minha opinião jamais foi visitada ou vista por qualquer outro Europeu antes de nós ” Esta foi uma das poucas ocasiões em que Cook errou, mas a acreditarmos nos historiadores ingleses e australianos deste século e do passado, qualquer prova irrefutável de evidência de anteriores visitas se havia extinto com o terramoto de Lisboa de 1755 ( quinze anos antes ), pelo que poderemos admitir que, caso Cook tivesse o conhecimento da autoria dos mapas de que se serviu, também se sentiria bastante seguro de eles serem quase únicos em todo o mundo, pelo que um pouco de exagero é perfeitamente aceitável e admissível, nas suas afirmações de ‘descoberta’ de um fabuloso continente, sob a alçada do reino de Inglaterra (idênticos exageros haviam sido praticados pelos portugueses séculos antes).      Ora entretanto na Europa, os Ingleses e Franceses estavam em guerra, e de uma forma geral, os condenados eram enviados para as colónias da América do Norte. Era então ministro responsável para os condenados, o Visconde Sydney, Secretário de Estado. A lei que punia cerca de 200 crimes capitais era altamente inobservada, devido ao mau sistema policial e jurídico. Até 1776 os novos colonos norte-americanos foram aceitando os degredados e prostitutas enviados, mas a partir de então começaram a considerar indigno terem de absorver tão largo contingente de párias sociais. As prisões inglesas estavam a abarrotar e havia que encontrar uma solução. Alguns dos membros da expedição de Cook sugeriram então que a Austrália fosse considerada para colonização com essa vasta amálgama de indesejados. A ideia pegou e assim iria nascer este país como o conhecemos agora. A proporção entre sexos dos primeiros colonos era na casa de 1 mulher por cada 4 degredados criando um desequilíbrio notável, que iria proporcionar mais tarde o título de ‘ casa de prazeres’ a esta novel colónia.      Entretanto, uma em cada cinco mulheres desta colónia era oficialmente prostituta, sendo poucas as que praticavam a monogamia sexual. Apesar do Capitão Arthur Phillip, primeiro governador geral da colónia ser uma pessoa extremamente humana e compreensiva, os primeiros contactos entre os aborígenes e colonos foram violentos e permeados de desentendimentos.      Ao mesmo tempo, os confrontos entre os dois grupos de colonos e oficiais tomava forma sob o nome de ‘ emancipalistas ’ e ‘ exclusionistas ’. Os primeiros eram prisioneiros ‘emancipados’ ou seus descendentes e os segundos eram apologistas da exclusão social, dos ex-prisioneiros e de outras classes mais baixas. A falta de uma classe média serviu apenas para exacerbar mais este fosso, cerca de 50 anos depois da chegada da primeira leva de colonos havia 4500 pessoas de grupos profissionais (criadores de gado, importadores mercantis, bancários, etc.,) e 50 mil operários e outros trabalhadores, apenas com cerca de 1800 retalhistas e pequenos comerciantes a separar os dois grupos económico-sociais.      O sistema penitenciário que dera origem à colónia de Nova Gales do Sul acabaria por subverter a estrutura britânica, pervertendo os valores, ao ponto de o Governador Geral Philip Gidley King (1800-1806) ter tido dois filhos de duas prostitutas deportadas. A grande maioria dos filhos nascidos na colónia eram ilegítimos, sendo 9 em cada 10 recém nascidos, filho de degredados e/ou prostitutas. Para tal contribuiu de forma notável o Rum, bebida que era consumida em largas quantidades e servia de moeda-troca, uma espécie de moeda colonial em que eram feitos os pagamentos às tropas. A vinda para a Austrália, de revoltosos irlandeses opostos à Coroa de Londres, viria ainda exacerbar mais a difícil relação entre os colonos. Formaram-se grupos de irlandeses que armando os prisioneiros tentaram rebelar-se contra o - status quo - provocando sangrentos conflitos.      Entretanto, a exploração da costa permitiria levar a colonização até à Tasmânia, através do controle directo de Inglaterra. Nos primeiros quarenta a cinquenta anos (até 1825) a maioria dos 4 ou 5 mil aborígenes da Tasmânia foram dizimados, sendo as mulheres aproveitadas para concubinas dos colonos, dos pescadores e do restante pessoal envolvido na colonização da setentrional ilha. As mulheres eram igualmente utilizadas para a pesca da baleia com as suas técnicas desconhecidas do homem branco. Isto daria início a uma lucrativa exploração de derivados da pesca da baleia e da foca, que se tornariam na primeira exportação comercial da Austrália.      Aparte este comércio, a maior e mais valiosa mercadoria era a madeira, desde o cedro ao sândalo abundante nas ilhas adjacentes à Austrália, na Polinésia e Melanésia. Este lucrativo tráfico era, no entanto, permeado de riscos pois os nativos da Nova Zelândia, os Maoris (pronunciado má:ri) de origem Melanésia eram bem mais evoluídos militarmente que os seus parentes aborígenes, para além de peritos em canibalismo.      Por exemplo, o navio mercante ‘Boyd’ zarpou de Sydney para a Nova Zelândia para tomar uma carga de madeira preciosa. De todos os seus passageiros massacrados e devorados pelos Maori, apenas sobreviveu Betsy Broughton e sua mãe Ann Glossop, uma condenada então amante de William Broughton, Comissário Geral de Nova Gales do Sul. Mais tarde os sobreviventes foram salvos e transportados para Lima (Perú). Betsy, embarcaria de regresso a Sydney um ano mais tarde, onde casaria com Charles Throsby, sobrinho do explorador do mesmo nome.      Um racismo vicioso e viciado era parte integrante da nova identidade nacional que se ia formando à medida que o avanço pastoral das novas fronteiras se enraizava. Foi nessa época, em plena metade do século XIX que se formou a noção, ainda hoje prevalecente, de ‘ mateship ’ (camaradagem) em que um ‘ mate ’ (espécie de companheiro, amigo, confidente, par em igualdade social, etc.) era uma espécie de código de honra entre pares, sobrepondo-se aos restantes membros da comunidade, considerados como inferiores. O ‘ mate ’ (ler mei-te ) era um nacionalista, igualitário, democrático branco, o que então queria apenas dizer que se tratava de um indivíduo mais racista do que a média, membro de uma confraria de brancos superiores aos restantes brancos, pela sua inter união.      A rápida expansão dos brancos iniciada na Austrália de Leste rapidamente provocaria redução dos Aborígenes, estimados entre 300 a 400 mil, em 1788, para uns 50 mil apenas cem anos depois. Apenas um branco foi enforcado por matar um aborígene, durante um período de cem anos, dada a persistente opinião pública de que era despropositado aplicar a pena capital a um branco acusado de matar um nativo. CRÓNICA XIII I. A LEI MARCIAL DE 1824 [92]      Ao longo das últimas crónicas temos vindo a focar, de uma forma geral e breve, o relacionamento entre brancos e aborígenes. Vamos hoje concentrar-nos num exemplo trágico que ficou conhecido como o “Massacre dos Wiradjuri (Wiradhuri)” ou a “Lei Marcial de 1824”. [93]      Os Wiradjuri ocupavam uma larga secção territorial de Nova Gales do Sul: a sua organização social era dividida por quatro grupos de descendência matriarcal. Nunca foram uma tribo guerreira e os primeiros encontros com os brancos foram amistosos.      As ‘ Blue Mountains ’ (Montanhas Azuis) 80 km a noroeste de Sydney foram exploradas pela primeira vez em Novembro de 1813, por um grupo de brancos liderado pelo Cartógrafo Adjunto, General Evans, os quais encontraram duas mulheres e quatro crianças nativas. No seu regresso a Sydney, narraram a luxuriante vegetação e excelentes zonas de pastorícia, o que motivaria o interesse do então Governador Lachlan Macquarie (1810-1821) que prontamente ordenaria a construção de uma estrada até Bathurst a 200 km oeste da actual Sydney. Esta obra foi completada em apenas seis meses com o trabalho árduo de 30 degredados.      No seu términos foi fundada Bathurst, a qual distava nove dias de viagem por carruagem. No auto da proclamação oficial desta cidade, Macquarie consideraria o povo Wiradjuri como ‘ inofensivo e asseado ’. Dez anos mais tarde, e apesar de não serem uma tribo guerreira estavam em guerra com os brancos.      Com a chegada do novo governador geral a Bathurst em 1822, a feitoria do mesmo nome, que se vinha desenvolvendo lentamente passou a ser aceleradamente colonizada, com a concessão de várias estações de criação de gado e concessão de terras, o que imediatamente causou a hostilidade dos Wiradjuri que viam as suas terras tradicionais e colheitas naturais serem destruídas pelo gado.      Em Setembro de 1823 uma fazenda, 16 km a norte de Bathurst foi atacada tendo perecido um deportado que nela trabalhava. Para o eminente historiador australiano, Lawson, alguma provocação teria de ter existido para ter havido um ataque deste, sendo provável que um (ou mais) soldados e/ou degredados tivessem abusado de mulheres Wiradjuri. Tradicionalmente, os Wiradjuri aplicavam a pena de morte para o crime de violação e estupro.      Por outro lado, à medida que a fauna e flora iam desaparecendo fruto da presença branca, ia encurtando o território dos Wiradjuri. Consultando jornais e o Boletim Oficial da época, lê-se que em 17 de Outubro de 1823, o Barão Field, Juiz do Supremo Tribunal da colónia de Nova Gales do Sul, escrevia:” Os nativos de Bathurst há mais de dois meses se encontram em estado de hostilidade para com os colonos, com ataques vários a fazendas de gado, o que motivou já o abandono do posto governamental de Swallow Creek ”.      Windradin (significa Sábado em idioma Wiradjuri) fora o líder do ataque a Swallow Creek, tendo sido capturado e enjaulado, para o que, de acordo com a Gazeta de Sydney de 8 de Janeiro de 1824, “ foram necessários seis guardas, tal a sua força, mas como se vissem incapazes de o dominar tiveram de o atingir com um tiro de fuzil      A reacção dos colonos foi pronta e consistia basicamente no envenenamento de iscas de pesca com arsénico, as quais eram oferecidas de presente aos Wiradjuri ou deixadas em locais estratégicos. Deste modo, inúmeros morreram em extrema agonia. Em Maio de 1824, alguns parentes de Windradin foram chacinados ao colher batatas num campo de colonos. Menos de um mês mais tarde, uma estação de gado que havia sido construída num círculo de danças sagradas foi atacada, sendo mortos os criadores de gado, apreendidas as suas armas e munições, e as habitações incendiadas. Depois, os Wiradjuri atacaram e incendiaram outra quinta, morrendo ao todo nesse dia sete brancos. Uma expedição punitiva foi, de pronto, enviada a Bathurst, tendo apenas liquidado três mulheres Wiradjuri. Pelo fim do mês toda a região estava já em pé de guerra, com vários grupos de nativos armados de setas e fuzis impedindo a normal actividade das fazendas coloniais.      Na ‘Gazeta de Sydney’ escrevia-se então que: “ um largo contingente de nativos, entre 600 a 700 homens havia proclamado a sua hostilidade para com os colonos, pelo que qualquer verdadeiro amigo dos Aborígenes deverá desejar vê-los punidos por meios mais radicais do que os já até agora utilizados , já que a disciplina suave e compreensiva os não impediu nos seus criminosos actos ".      Em 14 de Agosto de 1824, o governador de Brisbane declarou a Lei Marcial e enviou o seu 40 Regimento para Bathurst. A guerra de exterminação começara e todos os Wiradjuri eram implacavelmente abatidos. Nalguns locais, os soldados e as milícias dos colonos ofereciam alimentos às crianças e mulheres para depois as abaterem a sangue frio, à medida que se aproximavam para recolher tais alimentos.      Em Outubro desse ano, os 60 principais chefes Wiradjuri renderam-se. A 'Gazeta de Sydney' reportava então que " a crueldade dos Wiradjuri parece ter-se abatido ," depois de Windradin, com 260 dos seus homens, se ter rendido após uma marcha de mais de 200 km, em Parramatta (a 45 km do centro da actual Sydney).      Entretanto, em Londres, o 3 Conde de Bathurst (que não pertencia à família do governador Bathurst, mas em honra de quem a cidade havia sido baptizada) havia sido empossado como Secretário Colonial do Império Britânico, e, agastado com a arbitrária declaração da Lei Marcial e pela falta de senso do massacre de Bathurst exonerava em nome do rei, o governador geral de Bathurst.      Assim, Windradin e o seu povo Wiradjuri através da sua heróica resistência aos colonos, acabariam por impor a deposição do governador geral, que, diga-se em abono da verdade, não era muito benquisto na colónia.      Este episódio, pouco conhecido da guerra australiana contra os nativos, foi sucedido por outro: os condenados a quem os colonos haviam armado para combater os aborígenes revoltaram-se e formaram gangs criminosos que, durante alguns anos, se dedicaram a aterrorizar as fazendas brancas. Hoje, os Wiradjuri desapareceram totalmente, existindo apenas alguns descendentes mistos que tentam honrar a memória dos seus antepassados numa clara manifestação de reafirmação da sua identidade e herança cultural. Exemplos como este encontram-se em vários jornais e revistas da época, mas poucos têm sido republicados até agora, pois apenas a partir dos anos 70 os australianos começaram a saber destes massacres impostos aos aborígenes e a admitir alguns excessos dos seus antepassados. O dia de reconciliação nacional, que muitos esperavam acontecesse durante as celebrações do Bicentenário em 1988, estão ainda bem longe de acontecer. Lembre-se que até 1967 aos aborígenes não era sequer reconhecida a existência e muito menos a nacionalidade australiana. Claro, que era muito mais fácil, então falar do apartheid sul africano. II. O SEGREDO (SECRETO) DE WILLIAM DAMPIER      Quem vive na rua Dampier [94] em Kurnell, uma península a sul de Sydney, não o sabia até 1988, e a maior parte dos estudantes de História Australiana no secundário continua a desconhecê-lo, mas William Dampier, o primeiro navegador inglês e explorador a pisar solo australiano, foi também o primeiro inglês a matar aborígenes sob custódia. O Dr. Bernard Barrett, Historiador estadual de Vitória afirma que Dampier matou um homem aborígene em 1699, depois de o ter capturado durante um assalto, não provocado, aos aborígenes num local que é hoje conhecido como a cidade da Austrália Ocidental, de Dampier.      Este facto, de acordo com aquele historiador foi sempre escamoteado dos livros de História Australiana. "Dampier, que trouxe a primeira bandeira inglesa para a Austrália um século antes de Cook, é o primeiro inglês conhecido que matou um aborígene. O facto escamoteado por historiadores, escritores, professores e outros necessita ser desvendado, para que a nossa História não seja como os filmes com uma classificação PARA TODOS quando deveria ser de APENAS PARA MAIORES DE 18.      Dampier visitou primeiramente a costa noroeste da Austrália como flibusteiro em 1688 e voltou em 1699 como comandante de uma expedição oficial inglesa, tendo explorado a costa desde a Baía dos Tubarões (Shark Bay) perto de Carnarvon até à Baía de Roebuck (Roebuck Bay) perto de Broome na costa norte da Austrália Ocidental. De acordo com o seu Diário de Bordo, ele e um pequeno grupo foi explorar as cercanias e estava em busca de água, quando viram um pequeno grupo de tímidos aborígenes, decidiram tomar um como prisioneiro, até que a sede dele se apossasse e os conduzisse até à água. Depois de ter havido uma disputa entre o grupo de Dampier e os aborígenes, Dampier afirma " Achei que era a altura de atacar de novo e matei um deles' .      Depois de os outros membros do grupo aborígene terem carregado o corpo do morto, Dampier arrependeu-se e não prosseguiu com o ataque. O certo, porém, é que em 1988 e dentro do espírito de celebração do Bicentenário da Austrália foi erigido um monumento de Comemoração de William Dampier, e apenas houve uma contra manifestação feita por aborígenes que afirmaram que ' ninguém pode mudar a história, mas não temos de fingir que ela não aconteceu; se a pudéssemos reescrever muitos australianos ficariam surpreendidos com os factos e teriam de por cobro a muitos mitos que se perpetuam, através da interpretação da história e não dos factos' . III. A TEORIA DA TERRA NULLIUS      Como em tantos outros casos judiciais os pormenores do caso eram menos importantes do que os princípios. Em Junho de 1992, o que estava em disputa era apenas o controle de três pequenas ilhas na costa norte da Austrália, depois de uma campanha de mais de 10 anos pelo povo Meriam das ilhas Murray, as ilhas mais orientais do arquipélago Torres. O Supremo Tribunal Australiano concedeu-lhes a titularidade de posse, ou título nativo à posse daquelas terras. Isto poderá parecer simbólico, se não se soubesse que desde 1780 vinha vigorando o princípio de Terra Nullius , uma ficção legal que declarava que a Austrália pré-euro peia era uma terra deserta, sem nenhuma prévia declaração de posse. Dois dos juízes declararam que ' tirar a posse da terra aos aborígenes é o aspecto mais negro da nossa História' .      Apesar dos meandros legais que compõem a decisão final que de per si se aplica apenas a 300 habitantes daquelas pequenas ilhas, ele constituiu na altura um precedente para vastas áreas da Austrália (actualmente encontram-se na posse nativa pouco mais de 50% da massa continental). Não é permitido reclamar a posse nativa sobre estações pastorais (de pastorícia) ou propriedade de brancos australianos, e os aborígenes devem provar que existiu um vínculo ininterrupto com as suas terras. A atribuição da titularidade das terras continua, porém, sujeita a ser sobreposta por leis federais e estaduais não havendo lugar a compensações financeiras por parte dos antigos proprietários.      Tudo começou quando Eddie Mabo de 56 anos (falecido em Janeiro 1992) quis na década de 60, voltar à terra natal (a ilha Mer) e lhe foi recusada autorização para o fazer. Depois, com a ajuda de um amigo professor da Universidade James Cook (Henry Reynolds), levou o caso a tribunal, onde se arrastou desde 1982, para declarar que a lei Comum Australiana não reconhecia o direito nem o título comunal nativo. Assim os Meriam (povo da ilha Mer) lutando pela sua terra podem enfrentar as gerações vindouras com o sorriso de quem viu reconhecido um direito adquirido há milhares de anos.      Vejamos uma curta resenha de como foi esta evolução legal: 1770 O capitão Cook na ilha da Possessão proclama toda a costa oriental como Nova Gales do Sul. 1778 A 1 Armada desembarca em Sydney Cove (na Angra de Sydney). 1876 Truganini, então considerado o último aborígene da Tasmânia morre em Hobart e o governo recusa reconhecer qualquer aborígene como descendente da Tasmânia, ou seja qualquer Tasmaniano como sendo de descendência aborígene. 1901 A Federação é instituída, mas aos Aborígenes é negada a cidadania, direitos de voto e o direito a serem recenseados no Censo Geral da População. 1966 Os aborígenes Gurundji abandonam as estações de gado de Wave Hill e Newcastle Waters, começando uma luta vitoriosa durante sete anos para ganharem a titularidade daquelas terras. Mais tarde isto é considerado como o início do movimento do direito à terra (Land Rights Movement) 1967 Um referendo apoia de forma maioritária a cidadania para os Aborígenes, dando ao governo federal poder sobre os seus assuntos. 1974 O relatório da Comissão Woodward sobre os direitos à terra para os aborígenes recomenda que os aborígenes devem receber título de posse à terra onde se possa provar ter existido a posse tradicional ou o seu direito quer em terrenos da Coroa quer em reservas aborígenes, desde que tal possa ser demonstrado. 1985 Uluru (Ayers Rock) é devolvido aos seus donos tradicionais 1992 O Supremo Tribunal anula o princípio de Terra Nullius. [95]      Os debates sobre as virtudes do caso Mabo, como ficou conhecida a decisão do Supremo Tribunal, em Junho 1992 demoraram anos a passar a rodapé de notícia mas será conveniente passar em revista algumas das declarações e acontecimentos do apogeu daqueles debates, em 1994. O Ministro Plenipotenciário do Território Norte da Austrália (uma região autónoma que não foi ainda declarada Estado), Marshall Perron citava o facto de os aborígenes viverem no meio de cães nos seus acampamentos como prova de que ' estavam centenas de anos atrasados nas suas atitudes culturais e aspirações '.      Sir Peter Hasluck, arquitecto da política de assimilação deve-se ter revolvido na sua campa. Já em 1952, ao contemplar as relações interraciais em áreas remotas da Austrália, ele se preocupava com o facto de o termo ' aborígene ' ter adquirido laivos negativos e pejorativos, pois que àqueles a quem tal epíteto era atribuído eram normalmente ' sujos, mal cheirosos, andrajosos e rodeados por nuvens de moscas .' Acrescentando, ' até mesmo uma família de cor que se eleve socialmente o certo é que todos os nativos são julgados pela decrepitude dos negros sem posses, como o padrão pelo qual são julgados todos os nativos, e esta visão do homem primitivo e insanitário será sempre um obstáculo à aceitação pelo mérito de outros aborígenes. A melhoria social deve anteceder sempre qualquer tentativa de melhorar as relações interraciais, e alojar e educar os aborígenes é uma forma de neutralizar esse estigma .'      Embora Hasluck criticasse o governo e o povo em geral pela utilização abusiva do termo aborígene certo é que esta visibilidade mantém-se. A saúde aborígene ou as mortes aborígenes nas cadeias australianas são disso exemplo, como foco de notícias permanente e negativo, sempre agregado a qualquer governo desde essa já longínqua década de 50. Muitas vezes se tem afirmado que a negligência do(s) governo(s) é uma das causas da excessivamente elevada taxa de mortalidade e morbidez (doença) das comunidades aborígenes, e se bem que isto seja parcialmente verdadeiro o certo é que aceitá-lo é negar a verdadeira dimensão do problema. Foi a confrontá-la que o Juiz Muirhead no seu Relatório Interino da Real Comissão sobre as Mortes Aborígenes nas cadeias, acabaria por demonstrar que a já longa e suspeitada desconfiança de mau procedimento policial estaria na base da maior parte daquelas mortes, era de facto verdadeira, não obstante o folclore nacional as atribuir, seguindo a linha normal da polícia de as atribuir ao álcool, como o único elemento constante e permanente em todas essas mortes.      O racismo australiano e as críticas ao mesmo são geralmente mal acatados por uma crença enraizada por preconceitos perpetuados ao longo de mais de 200 anos. O certo é que a realidade é um misto de folclore e de abuso de álcool, tal como pode ser visto no documentário de David Bradbury (cadeia nacional de TV, ABC) 'State of Shock' (Estado de Choque) onde se mostrava aborígenes em permanente estádio de alcoolismo, crime, vivendo em campos de patologias sociais.      Existe em certos sectores da comunidade aborígene um mal estar generalizado pelo círculo vicioso do álcool. Se, para uns o álcool e a violência são uma patologia própria da situação de colonizados (aborígenes), para outros o álcool é apenas uma desculpa para perpetuar a autopiedade e negação aborígene. Há quem pense porém, que o que interessa é resolver este problema em vez de perpetuar o seu círculo mortal vicioso. O estudo sistemático das doenças nos aborígenes só se iniciou na década de 70 e as estatísticas só começaram a ser feitas a partir de 1984. O certo é que apenas se sabe que as taxas de mortalidade e morbidez são bem piores do que a maior parte dos países mais atrasados de África, e a reconciliação entre os povos indígenas com as suas patologias sociais e físicas e a Austrália branca continua por fazer. IV. A AUSTRÁLIA NO BICENTENÁRIO (1988) [96] Embora quer o Capitão James Cook, quer Arthur Phillip tenham utilizado mapas que os portugueses haviam traçado 250 anos antes, não houve em 26 de Janeiro de 1988, aquando da celebração do Bicentenário da Austrália, nenhuma menção nem comemoração do facto .      Em 16 de Janeiro de 1988 mais de dez mil aborígenes marcharam pelas ruas de Sydney protestando contra as manifestações do bicentenário da Austrália branca. Entre eles alguns, descendentes de portugueses, incógnitos quer por preferirem identificar-se com o movimento aborígene, quer por desconhecerem a sua ligação a Portugal, quer ainda por se perder na obscuridade dos tempos a data de tal ligação. Lembro-me, por exemplo, de ter trabalhado com uma aborígene de apelido bem português que desconhecia totalmente a origem etimológica de tal nome.      Havia ainda outros nomes portugueses na multidão, mas eram de paquistaneses, malaios, indianos, para quem apelidos como de Sousa (d’Sousa, de Souza), Lobo, de Silva, Corrêa (Correia), Freitas, Vaz e outros desde há muito são considerados como próprios dos seus países de origem, embora algumas vezes obliterados da sua ligação secular.      Outros eram originários das Índias Ocidentais, do Sri Lanka (antigo Ceilão), a Taprobana tão descrita no épico ‘Os Lusíadas’. Curioso porém, como há ainda hoje muita gente no Sri Lanka que muda os seus nomes de origem Tamil ou Singalês (Sinhalês) para nomes de origem Portuguesa ou Holandesa, para evitarem perseguições políticas e religiosas daqueles dois grupos envolvidos em sangrenta guerra civil há mais de duas décadas.      As câmaras de TV de todo o mundo, as estações de rádio e os correspondentes estrangeiros cobriam entretanto a cena do maravilhoso porto de Sydney que era descrito na Internet como uma enorme mancha multicolorida feita de embarcações de todo o mundo. Com efeito, mais de dez mil embarcações, incluindo os 25 Altos Veleiros (Tall Ships) e os navios de reencenação da viagem da 1 Armada, deslizavam ao vento perante mais de dois milhões e meio de espectadores que enchiam as verdes escarpas e as praias da baía de Sydney (a quem alguns colegas jornalistas portugueses teimavam em chamar a capital australiana, esquecidos da artificial e lânguida Camberra).      Dentre esses milhões muitos eram, de facto, descendentes de portugueses, directos e recentes da Madeira, do Algarve e de outras regiões, desde há muito radicados nesta ‘sua’ Austrália. O português era, para muitos deles, um idioma estrangeiro. Os pais ainda o falavam (se bem que mal, que tempo não houvera para estudar) mas os filhos detinham apenas conhecimentos básicos e de vocabulário isolado. Nem todos os emigrados mandam os seus filhos às escolas de Língua e Cultura Portuguesas que funcionam depois das horas do currículo normal australiano.      O príncipe Carlos e a sua fotogénica mulher, Diana despertavam as emoções dentre os mais afeitos às tradições britânicas e inspeccionavam as tropas vestidas à época colonial da chegada da 1 Armada em 1788.      Ninguém mencionava o nome de Portugal e um grupo aguerrido de brasileiros aproveitava a desculpa para mais uma sessão de samba na conhecida praia de Bondi (diz-se Bondái e não Bondi, como ouvíamos os colegas dizerem). O então primeiro ministro, Bob Hawke, em tom conciliatório, declarava que era altura de ‘ pôr de parte as querelas do passado, e construir o futuro da nação, para que nos próximos duzentos anos a harmonia reinasse na nação mais multicultural do mundo .’      Durante cerca de doze horas o mundo parou para ver as celebrações bicentenárias, mas os aborígenes que ocupam este continente-ilha há mais de 40 mil anos, não se mostraram impressionados. 227 mil deles iniciaram o ano com taxas de mortalidade infantil e adulta mais dignas de países do terceiro Mundo. O mesmo se diria das taxas de morbidez (doença) e de desemprego. Até a África do Sul se gabava de ter tratado os seus nativos melhor do que a Austrália.      Os aborígenes continuavam a morrer nas cadeias por alegado suicídio: 18 casos em 1987 e uma centena desde 1980, o que motivara já a instauração de Reais Comissões de Inquérito, mudanças de lei e tudo o mais (nada se alteraria e o quadro negro mantém-se em 1998).      Os aborígenes eram não cidadãos até 27 de Maio de 1967, não dispondo de direito a passaporte ou direito de voto e eram os únicos habitantes do país sujeitos a prova de identidade ou identificação. Uma espécie de apartheid silencioso.      As crianças haviam sido retiradas do seu seio familiar e remetidas para missões brancas onde lhes eram ensinados os modos para viverem como os brancos.      Em 27 de Abril de 1971 um Juiz do Supremo decidiu que os aborígenes não tinham direito ao solo pátrio, pois este continente era desabitado à data da chegada e anexação à coroa britânica de acordo com a proclamação do capitão Cook. Este ainda é, por muitos, considerado como o ‘descobridor’ da Austrália, embora os historiadores refiram os portugueses, holandeses e franceses antecedendo aquele.      Em 1988 nos céus de Sydney, o fogo de artifício meticulosamente preparado celebrava o bicentenário, numa noite calma do Verão austral, indiferente aos manifestantes aborígenes que continuavam a palmilhar as ruas da cidade, indiferente aos problemas de afirmação pessoal desta novel nação.      Os políticos regozijavam-se com a presença de mais de 25 milhões de pessoas nas celebrações, e com a inexistência de acidentes com os mais de dez mil barcos que enchiam a bela baía de Sydney. Tudo o que navegasse estava na água, de jangadas a pranchas de surf. Uma nação em festa durante doze meses, sob o escrutínio dos correspondentes estrangeiros, celebrava então a sangrenta colonização e o estabelecimento da colónia penal de Nova Gales do Sul.      Apesar de os portugueses aqui terem chegado antes de outros europeus a língua que se falava era o inglês, e nas escolas oficiais muitos dos livros continuavam a dizer que o capitão Cook ‘descobriu’ a Austrália.      Mais de cento e cinquenta nacionalidades diferentes compõem hoje o panorama étnico do país, sem pruridos monárquicos, sem partilharem da herança cultural de duzentos anos que mais de 16 milhões de pessoas celebravam de acordo com as estatísticas oficiais.      O (então) primeiro ministro Bob Hawke satisfeito com as celebrações e o fogo de artifício, dizia que esta ‘ é uma grande nação, onde todos devemos viver em paz, esquecendo os erros do passado, evitando repeti-los nos próximos duzentos anos’ .      À mesma hora, noutras paragens, a réplica da nau de Bartolomeu Dias, celebrava factos bem mais antigos do que a chegada de uma qualquer 1 Armada.      Menos heroicamente talvez, mas ainda dispostos a arriscar e a deslocarem-se para as plagas mais inóspitas deste vasto continente-ilha, os aborígenes menos europeizados têm-se radicado em pequenas comunidades do interior. A sua falta de domínio da língua inglesa e a sua natural tendência para a procriação levaram-nos em décadas idas a radicarem-se em locais inóspitos. O mote político favorito nessas eras (não tão remotas como muitos pensam) era ainda o de uma ‘ Austrália Branca’ (leia-se Anglo-Saxónica ou anglo-celta). Por tal motivo, afastados da dita civilização ocidental e superior, incapazes por motivações socioeconómicas de se miscigenarem com os anglo-saxónicos ou anglo-celtas, predominantes no país, viram-se, assim, compelidos a repetir percursos seculares e ancestrais. Daí haver ainda hoje tantos aborígenes que ignoram o facto e nem sequer o reconheçam.      Há quem afirme que isto é um processo repetido por portugueses desde há mais de 150 anos na Austrália, mas a inexistência de registos civis, a frequente mudança de nomes, e o anglicisamento desses nomes torna extremamente difícil tal pesquisa.      Em muitos casos, os arquivos das igrejas católicas romanas poderiam ajudar mas convém não esquecer que este país foi até há pouco tempo quase exclusivamente anglicano.      Em Timor Leste ainda hoje os Hornay, e os da Costa atestam aquilo que se passa desde há cinco séculos: a miscigenação dos portugueses com os nativos e se alguns deles parecem aborígenes louros, outros parecem mais fruto da diáspora portuguesa de antanho. Prová-lo, por vezes, é bem mais difícil do que especulá-lo.      Os emigrados portugueses aqui radicados não se diferenciam muito dos seus antecessores anglo saxónicos pois que também eles olham com desprezo a raça aborígene e interrogam-se sobre os enormes custos de a manter.      Para eles os aborígenes são ainda uma raça inferior, incapaz de se adaptar às contingências contemporâneas, incapazes de sobreviverem às constantes mutações sofridas por este continente nos últimos duzentos anos. CRÓNICA XIV PARTE I A IDADE DAS PEDRAS E DOS HOMENS      Quando o Dr. Alan Thorne recebeu um crânio opalizado encontrado nas dunas perto do Lago Mungo no interior oeste de Nova Gales do Sul, pensou ter descoberta prova de que um povo, bem mais antigo do que se pensava teria colonizado a Austrália. Os testes de datagem contudo, foram uma desilusão, pois indicavam apenas uma idade provável de 15 mil anos, recente, portanto, ao contrário da natureza robusta do crânio e da mineralização que apontavam para uma data bem mais anterior.      Alan Thorne, um dos mais respeitados antropólogos físicos do país não está convencido que os resultados da datagem por radiocarbono estejam correctos. Este é o segundo enigma que confronta todos os que estudam a história dos primeiros seres humanos na Austrália. Há uns anos atrás em Warrnambool (sudoeste no estado de Vitória) foi descoberto um local que parece ter sido um acampamento, com restos de conchas e pedras de cozer, datando de há 120 mil anos, mas não foram encontrados fósseis para consubstanciar a presença humana, e mesmo encontrando-os tal seria difícil.      Em 1988, outro enigma surgiu, nas margens do seco Lago Eyre com fragmentos de um crânio humano que se crê ter mais de 60 mil anos pelo montante de fluorine encontrado naquele pedaço de osso bem fossilizado. Os factos científicos capazes de provar a presença humana na história australiana para além de 40 mil anos continuam débeis. Existe um vazio de cerca de 60 mil anos que falta comprovar para além de especulação mais ou menos científica. A data 40 000 BP (ou Antes do Presente, Before Present ) é a mais comummente aceite, mas ela está ligada ao limite técnico da datagem por isótopos de radiocarbono usada rotineiramente em restos humanos, se bem que uma visão global aponte para uma chegada ao continente entre 10 a 20 mil anos antes. (ver Figura Z)      O desenvolvimento de técnicas apuradas de datagem nas últimas décadas veio proporcionar um alicerce científico quase inabalável à história dos primeiros humanos, e os métodos demonstradamente resistiram a dúvidas e mesmo a falsificações como foi a ' partida pregada à comunidade científica com o Homem de Piltdown a qual durante mais de 30 anos resistiu a ser desmistificada. Um osso de orangotango e um crânio antigo foram enterrados entre 1908 e 1912 em Piltdown, Sussex (Reino Unido) mas só com o aparecimento da técnica de datagem por fluorine (a mesma usada no Lago Eyre) foi possível descobrir que o crânio era de 1230 AC (roubado de um cemitério medieval) e não tinha nada a ver com o do orangotango do princípio deste século. O método de datagem, por carbono, confirmou na década de 80 que o Manto de Turim não poderia pertencer à era em que Cristo viveu, embora fontes da Igreja disputem aquela conclusão. Claro que as técnicas de datagem não são infalíveis, mas o que frustra mais os cientistas australianos é que elas impõem tantas limitações.      Nas margens do rio Nepean, perto de Penrith nos limites metropolitanos de Sydney, cientistas descobriram pedras cortadas de uma pedreira com a idade de 30 a 40 mil anos, mas testes posteriores com termoluminiscência feitos pelo professor Gerald Nanson do Departamento de Geografia da Universidade de Wollongong apontam para uma data bem anterior (cerca de 70 mil anos). O Professor Nanson é um dos que se opõe ao método de radiocarbono para materiais com mais de 40 mil anos, dado que os erros são enormes, citando o estudo de ribeiros e canais na região de Murrumbidgee inicialmente calculados entre 30 a 40 mil anos mas que se sabe agora terem 400 mil anos.      Muitos outros cientistas acreditam que a termoluminiscência alcança a medição do tempo onde o radiocarbono pára, embora o problema seja o de só poder ser aplicada a rochas com cristais, que tenham absorvido radiação do meio ambiente. Isto deixa de parte os ossos humanos, a menos que estejam firmemente fixados nos registos fossilizados junto daqueles vestígios rochosos. Este sistema datou os vestígios de pedras de cozer de Warrnambool em 132 mil anos, e o local onde elas se encontram data entre 80 a 104 mil anos, de acordo com o Professor John Prescott da Universidade de Adelaide. Embora o aspecto do local possa sugerir uma presença humana, a natureza também pode ter pregado uma das suas partidas. Alan Thorne, perito de renome mundial, assinala que os humanos se estabeleceram na parte meridional do continente há pelo menos 40 mil anos mas existem artefactos que parecem ser mais antigos do que a presença humana. O local cientificamente comprovado como sendo o mais antigo é no Lago Mungo, onde em 1970 foi confirmada a presença humana datando de há 38 mil anos, incluindo um local de enterro e cremação. Idêntica descoberta foi feita em Perth, na Austrália Ocidental, o que leva a supor que ou os humanos chegaram todos ao mesmo tempo àqueles dois locais afastados uns milhares de quilómetros, ou então é admissível supor eles terem chegado uns 5 a 10 mil anos antes.      Evidência mais recente da Indonésia pode provar que a emigração do Homo Sapiens pode servir de especulação para se saber quando chegaram os primeiros homens à Austrália. "Existem registos contínuos da população Solo ( Homo Erectus ) na Indonésia entre 1 milhão a 100 mil anos atrás, quando o homem moderno emigrou da Ásia (continental) para substituir o Homem de Solo.      O Dr. Jim Bowler, do Museu de Vitória é peremptório ao declarar que as técnicas de datagem se confrontam com dois problemas; uns são os limites técnicos e o outro é as modificações do meio físico ambiente. O homem europeu chegou, removeu a vegetação, reactivou as dunas, mudou os níveis subterrâneos da água e alterou toda a dinâmica de solos e subsolos. Como é que os cientistas medem o tempo ou a idade? Todos os organismos vivos absorvem do meio ambiente baixos níveis de carbono 14, o qual é levemente radioactivo pela forma como é processado nas altas camadas da atmosfera por acção dos raios solares. Só quando um organismo morre é que essa absorção cessa e começa o processo reverso de decomposição, o que provoca um autêntico relógio do tempo e desde 1940 a datagem por radiocarbono tornou-se no meio mais comum de datar todos os vestígios orgânicos. Ao fim de 40 mil anos o montante de carbono 14 é quase imperceptível e a mais pequena contaminação desses vestígios pode alterar a análise. Para se datarem vestígios mais antigos as dificuldades aumentam a menos que os vestígios estejam num registo fossilizado onde existam outros materiais que possam ser datados por outro processo. Destes, o mais comum na Austrália é o da termoluminiscência. Cristais, tais como o quartzo e o feldspato (felspar) absorvem radiações ambientais de origens tais como urânio, tório e potássio. Quando as rochas aquecem, este relógio é de novo activado, o que torna esta técnica ideal para datar materiais que tenham sido colocados num fogo, de pedras ou cerâmica. O montante de energia armazenado na rocha pode ser medido se se aquecer o objecto e se medir o seu brilho o luminescência. Alternativamente, com o método de datagem por fluorine, uma técnica bem mais antiga se utiliza. Esta mede a concentração numa amostra de iões de fluorine os quais também são absorvidos do ambiente. Como as taxas de absorção variam de local para local o método não pode ser utilizado como um relógio biológico mas sim como uma técnica associada a outros materiais que tenham fornecido datas firmes e seguras . [97]      Os fragmentos de ossos humanos descobertos em 1969 no Lago Mungo foram datados entre 24 e 30 mil anos e pertenceram a uma jovem denominada Mungo I, que foi cremada. Os ossos foram então esmagados e enterrados numa campa pouco funda: a evidência de ritos de cremação mostra tratar-se dos mais antigos em todo o mundo e vinha demonstrar a existência de crença religiosa. O significado da descoberta do Lago Mungo não é só importante pela idade a que se reporta, mas à luz que vieram trazer a uma sociedade de pessoas vivendo nas margens de um lago, ora morto, há um milhar de gerações.      Podemos quase visualizar um bando de pessoas, as mulheres a apanharem moluscos da lama nas margens do lago e outras pessoas a pescarem a perca dourada, usando talvez redes entrelaçadas. Para cá das margens do lago por entre os arbustos secos havia ovos de emú (ema) e podiam apanhar-se pequenos marsupiais. Instrumentos de pedra, feitos de quartzitos, completavam a parafernália do bando, tais como raspadores de gumes afiados, que até podem ter sido usados para afiar as setas de madeira ou os paus de cavar.      Uma das mais recentes descobertas com prova de antiga ocupação humana da Australásia (Austrália e Papua Nova Guiné) e talvez a mais antiga foi feita na península Huon a noroeste da Nova Guiné. Ali, por entre as paredes de um pequeno riacho correndo por entre terraços elevados de velho coral , foram encontrados utensílios de pedra bem distintos. A estimativa quanto à sua origem apontava conservadoramente para mais de 40 mil anos. E isto porque como atrás foi explicado o sistema de datagem de radiocarbono não consegue aplicar-se para idades anteriores a 40 mil anos. Existem inúmeros locais na Austrália com pedras e outros artefactos estratificados abaixo de zonas de carvão negro (hulha), incluindo um [98] escavado pelo professor Rhys Jones da Universidade Nacional Australiana (departamento de Pré História) no Parque Nacional de Kakadu (Território do Norte Australiano, numa vasta região cuja titularidade de posse da terra foi entregue aos nativos na década de 80 e onde existe uma das maiores reservas de urânio do mundo), e todos eles não podem ser datados pelos métodos existentes.      Outras enigmáticas descobertas incluem a de poros de pólen profundos encontrados por Gurdip Singh no leito do Lago George, perto de Camberra, a qual sugere a aparição súbita de vastas quantidades de fragmentos de carvão e uma notável mudança da composição arbórea ocorrida há cerca de 120 mil anos. Singh era da opinião de que tal tipo de mudanças só pode ter acontecido como resultado da chegada de seres humanos e do impacto do seu regime de fogo no meio ambiente. Uma alternativa do perfil de pólen sugere que tal evento possa ter tido lugar há 60 mil anos, o que sendo consideravelmente anterior a qualquer descoberta arqueológica, não está for a de especulação científica.      Os primeiros imigrantes australianos devem, inicialmente ter vivido nas terras baixas florestadas do Sudeste Asiático. Muitos dos recursos animais e vegetais na costa noroeste da Austrália - Nova Guiné ser-lhe-iam bem familiares. Desde as praias de chegada, uma das maiores zonas ecológicas por onde esses primeiros imigrantes colonizadores teriam de passar seriam as florestas tropicais da Nova Guiné: lá existe evidência arqueológica de penetração humana nestes altos vales há mais de 30 mil anos.      Uma segunda vaga de expansão seria pelas savanas secas da Austrália. Até há poucos anos era incerto se a ocupação do miolo do deserto teria sido ocupada antes do fim do Plistocénico (entre 10 a 12 mil anos). Escavações durante a década passada na Cordilheira McDonnell, perto de Alice Springs, mostraram a existência de fornos (lareiras) e utensílios de pedra com mais de 22 mil anos, com mais depósitos a níveis mais profundos (consequentemente mais antigos). Outros locais de antiguidade idêntica nas zonas áridas foram descobertos na zona de Pilbara e na Planície de Nullarbor (na zona mais meridional da Austrália do Sul).      Reclamar a terra exigia não só uma capacidade ecológica de colher o que ela tinha para dar, mas também uma capacidade intelectual de conhecer locais e a abundância sazonal de recursos, incluindo a água. Talvez, ainda mais importante era saber a relação existente entre as pessoas e pedaços específicos de terra, e a relação entre elas.      Uma das impressões mais duradoiras e avassaladoras é a que se obtém da literatura etnográfica australiana, ou através de experiências contemporâneas com os aborígenes que ainda utilizam aspectos peculiares da sua cultura tradicional em Arnhemland (Terra de Arnhem, norte da Queenslândia) no Grande Deserto Ocidental ou em qualquer outro lugar. O investimento cultural através da arte, dança, música, e cerimónias religiosas assegurava e mantinha esse relacionamento fundamental. Em Nauwalabila encontraram-se pedaços de ocre em depósitos sob as areias e a níveis de profundidade que se crê serem de há 30 mil anos, e lá estavam crayons de hematite de alta qualidade e minério de ferro mostrando facetas intersectadas (fruto de mãos humanas?) A fim de colocar estas descobertas numa perspectiva global , poderemos recordar que a arte antiga em termos de Europa Ocidental (Lascaux, França; Altamira, Espanha, ou mesmo Foz Côa, Portugal) data de há 32 mil anos, ou seja, no mínimo contemporânea da arte aborígene.      Pesquisas recentes na periferia do continente australiano ilustram o facto de o ritmo das descobertas não estar a abrandar. Os colonos da Nova Irlanda, a oriente da Nova Guiné, por exemplo tinham uma excelente técnica de atravessar as águas e aptidões consideráveis para aproveitarem os recursos marinhos. Fascinante também é que a ocupação das grandes ilhas do pacífico Ocidental foi feita pouco depois do grande continente australiano. O homem foi também até ao extremo sul do continente, antes de os altos mares cortarem o acesso à Tasmânia, ligada ao continente até há 12 mil anos atrás. A ocupação mais antiga da Tasmânia foi comprovada na Cave Bluff na Florentine como tendo ocorrido há 23 mil anos..      Uma das dificuldades existentes é datar com precisão essas descobertas. Mungo I de há 26 mil anos é uma jovem extremamente graciosa. Outros fósseis de aproximadamente a mesma idade são bem mais grosseiros e mostram características faciais mais ' primitivas ' tais como largos maxilares e sobrancelhas elevadas e salientes.      Em termos de parâmetros chave, existe maior variação entre os Hominídeos do Plistocénico recuperados na região dos Lagos Willandra, a oeste de Nova Gales do Sul, do que existe agora entre toda a humanidade em toda a terra. Ou será que estamos perante representantes de duas espécies distintas de colonos do continente? Ao lidarmos com acontecimentos de há 20, 30 mil ou mais anos, estamos a lidar com os antepassados mais chegados actuais aborígenes australianos, Papuas da Nova Guiné, melanésios de Irian Jaya (Papua Ocidental) e habitantes das ilhas Salomão a norte da Papua. Sem dúvida que muitos dos seus descendentes são hoje membros das comunidades indígenas das ilhas e territórios do Pacífico. Existe um grande lapso de tempo entre o moderno aborígene e aqueles a cujos traços atrás se descreveram. A nível de pré história não existem preconceitos raciais ou orgulhos étnicos. O facto saliente que emerge de uma perspectiva global é a semelhança das vidas, os restos de artefactos. Os produtos e auxiliares de todos nós humanos em todos os continentes.      Nos últimos séculos os grandes exploradores atravessaram o globo e compete aos da geração presente recriarem essas viagens ao passado, explorando essas paisagens de um futuro comum para quem vem de um passado comum. FIGURA 4. A Idade da Austrália PARTE II O TÚNEL DO TEMPO [99]      Foi já em 1986 que a Austrália descobriu o que muitos consideravam a sua ' Pedra de Rosetta ' do passado: o maior depósito de fósseis com uma idade de cerca de 15 milhões de anos. A região parecia mais uma imagem do fim do mundo permeada de rochas de calcário, poeira cor de siena (castanho avermelhado, a chamada terra ruiva) e colinas estendendo-se através do planalto continental. Foi aqui que, em 1800, o guarda florestal Joe Flick foi morto pelos soldados britânicos, que o enterraram de cabeça para baixo para ir mais depressa para o inferno, e para quem veja a paisagem pela primeira vez isto parece o caminho certo naquela direcção.      A estação de pastorícia de Riversleigh, nos confins da Queenslândia, 300 km a noroeste de Mt. Isa, parece ser mais o começo do que o fim, uma espécie de Pedra de Roseta para o passado australiano do que uma portinhola aberta para o inferno.      Foi lá que os mais ricos depósitos de fósseis foram encontrados e os primeiros na Austrália, com mamíferos, anteriormente apenas conhecidos de outros continentes. É naquele local que se encontram 20 diferentes períodos de tempo, ou eras, entre 50 mil anos a 15 milhões, embrenhados no calcário, capaz de permitir aos cientistas estudar toda a história evolucionista de um continente num só local. Antes das descobertas de Riversleigh apenas se conheciam 70 espécies de mamíferos como tendo existido na Austrália, enquanto que actualmente esse número se situa em mais de 170, dos quais só cem numa pequena área com um quilómetro quadrado.      Quando o Professor Michael Archer começou as suas escavações em 1976, ele que se tornou numa espécie de Indiana Jones dos paleontólogos australianos, jamais esperava vir a abrir uma caixinha de Pandora destas. Nessa altura descobriram uma criatura tão esquisita que lhe chamaram a 'coisadonta' (‘ thingodonta' ) para uma espécie de animais tão diferente das outras como uma baleia de um macaco. No ano seguinte descobriram a sua mandíbula, e em 1986, o focinho. Depois seguiram-se descobertas tais como o cérebro fossilizado de um monotrema: uma espécie de ornitorrinco (platypus) ovíparo.      Noutro local, perto dos antigos e luxuriantes terraços do Rio Gregory , descobriram-se os restos do maior marsupial do continente, um Diprotodonte optatum, um animal do tamanho de uma vaca que viveu há cerca de 50 mil anos atrás. A estação de Riversleigh não foi só fértil em milhares de fósseis de mamíferos, mas também se revelou uma verdadeira mina de ouro quanto a restos de animais e répteis. Um leão marsupial semi-arbóreo (semi-vegetariano), uma nova espécie de lobo marsupial, uma nova família de Possum plantigeriformes e um minúsculo koala, provavelmente um elo de ligação entre os antigos e os actuais.      Numa rocha encontraram-se 40 vértebras de uma piton enorme, com uma espessura de 30 centímetros e pela época em que habitava estas paragens, durante o período Miocénico, há cerca de 15 milhões de anos, era provavelmente o maior réptil do mundo, pelo que foi apropriadamente denominada de Monty Pythonoide. Outra rocha tinha tanta matéria orgânica que produziu cerca de 60 espécies diferentes de animais, e perto desta estavam os restos fossilizados de um crocodilo de há 13 milhões de anos.      Ainda noutro local desta área, em leitos secos do período pré Câmbrico, de há 1,5 biliões de anos, surgiu uma das mais espantosas descobertas: os restos de um Dromornitóide ou pássaro trovão (Thunderbird) que habitou esta terra durante o período terciário, há cerca de 15 milhões de anos e o qual foi 'baptizado' como o 'Grande Pássaro'. A parte inferior desta gigantesca galinha é protuberante como se fosse de um elefante. O pélvis e o osso grande da pata (o dedão) estão também na rocha junto de pequenas pedras ingeridas pelo enorme pássaro não voador, para auxiliar a sua digestão. Ingeriam as pedras com os frutos e as sementes para as esmigalharem dado que ao longo do processo evolutivo perderam os dentes. Apenas, por especulação, se pode tentar saber porque tal animal morreu assim: um crocodilo comeu-lhe a cabeça e deixou a carcaça a apodrecer? Ou talvez tenha caído dentro de uma enorme piscina das que se formavam dos sistemas de lagos de água fresca nesta fase do Miocénico?      Toda esta área, de acordo com o professor Archer, era uma enorme floresta tropical com dezenas de tipos diferentes de Possum (ópossum) escondidos à sombra das folhas da palmeira livastónia, das pandamas e melaleucas, onde répteis gigantes, lagartos e sapos enfiados no solo, enquanto aqueles enormes pássaros não voadores vasculhavam o chão da selva. As enormes piscinas naturais onde estes animais caíam eram cobertas de cal, proveniente da erosão do calcário Câmbrico e são os seus ossos que hoje se podem ver em Riversleigh. Esta variedade fenomenal de espécies começou a extinguir-se há cerca de 15 milhões de anos quando a crosta da plataforma continental australiana chocou com a plataforma indiana, provocando a elevação daquilo que é hoje o Sudeste Asiático. Este contacto provocou a formação da Nova Guiné e levou consigo toda a vasta fauna de Riversleigh.      Os que restam hoje são os antepassados actuais daquelas criaturas das florestas tropicais, mas bastante mais resistentes pois adaptaram-se a um ambiente em mutação e sobreviveram. O Dr. Archer de 52 anos, de origem norte americana começou a ter interesse em paleontologia e zoologia aos onze anos de idade nos Addirondack no estado de Nova Iorque onde cresceu e admira-se que esta região tendo sido descoberta originalmente como tendo fósseis em 1901, só tenha sido explorada tão tarde.      Bruce Stannard do jornal Sydney Morning Herald escrevia em 1987 que visitar Riversleigh era ' como se sentiria um exultante visitante do tempo ao aterrar depois de uma viagem de 15 milhões de anos' . Milhões de anos de erosão estavam, por fim a abrir uma janela não sobre um mundo perdido mas sobre uns 30. Ou como diria, Michael Archer ' uma pessoa chega aqui cheia dos imensos conhecimentos científicos que tem e sai profundamente humilhada. Quanto mais vemos, mais nos apercebemos do pouco que sabemos e do muitíssimo que há ainda para aprender. Ao chegarmos, estamos convencidos de que, se seguirmos as regras da ciência, tudo fará sentido, mas descobrimos que o livro porque nos guiamos foi escrito noutro local, noutro tempo, espaço, por outra pessoa, e que nada do que lá vem se aplica aqui. Apesar de tudo o que vemos, isto parece um enorme puzzle que foi desfeito por uma criança de dois anos e onde a maioria das peças que fazem sentido se perderam. Por exemplo, poderemos comparar os morcegos protuberantes das rochas onde ficaram fossilizados, pertencendo a várias eras e analisar datas radioisométricas com exemplares semelhantes da Europa e Ásia, e isso vai-nos ajudar a entender os diferentes estádios da evolução e datar convenientemente o que se passou aqui' .      E o professor acrescenta: ' Quando descobrimos o crânio do Obdurodonte, completo com dentes e a base do crânio, onde as mudanças são pequenas e permitem estudar bem a evolução de uma espécie, e as marcas das veias, a única coisa que faltava era poder ler os últimos pensamentos daquele gigante ao afundar-se na lama onde morreu. Nada porém, foi mais espantoso que a 'Coisadonte' (Thingadon). Trata-se de um mamífero, provavelmente com pêlo e não maior do que um coelho. Os seus dentes são diferentes de todos os outros mamíferos. É como, se não conhecêssemos uma baleia, estivéssemos diante de um oceano e uma aparecesse. Só que neste caso, nada existe para fazer uma analogia, porque este animal é único. Normalmente associamos esmagar e moer com mamíferos, mas o Thingadon não tem nenhuma capacidade de fazer isso. Os seus dentes são como pequenas tesouras. Tudo o que podia fazer era cortar, talhar, cortar, e o que é que um animal com dentes assim faz? Só saberemos se encontrarmos o resto do corpo, pode ser que se tratasse de um animal aquático, que passasse o tempo a nadar e a cortar a cauda dos peixes, ou então um animal que se especializasse em cortar a carapaça dos ovos das aves, engolindo o embrião todo de uma vez .'      O leão marsupial (Thylacoleo carnifex), que atrás mencionamos, também percorreu esta região durante o Miocénico e se bem que se assemelhasse a um ópossum o seu comportamento nada tinha a ver com essa aparência. Especializados em comer carne, tinham incisivos compridos e bem fortes, para além de longas e aceradas lâminas na frente das mandíbulas. Os seus dentes eram tão afiados que podiam servir para uma pessoa se barbear, sendo capazes de cortar uma perna a um canguru sem se aperceberem de que o tinham feito. Mas, até agora o maior marsupial foi sem dúvida o Diprotodonte optatum, do tamanho de uma vaca, com um crânio com cerca de meio metro e um cérebro do tamanho de um polegar humano, o que de facto, era uma pena, pois se encontrassem um ser humano não saberiam o que fazer. Eram tão estúpidos, que os aborígenes de há 50 mil anos seriam capazes de lhe retalhar uns bifes para o almoço, voltar para buscar mais para o jantar e ainda encontrarem o Diprotodonte no mesmo sítio à espera. Existe mesmo evidência de que os aborígenes os comiam e retalhavam, embora não como descrevi, pois encontraram-se restos de ossos com marcas óbvias de facas primitivas. Archer confessa ainda que embora seja crente não pode aceitar a teoria criacionista pois como paleontólogo não pode aceitar a arrogância de dizer que o homem é um animal superior aos outros, quando toda a evidência sob os seus olhos afirma o contrário. Há criaturas mais importantes, nós somos só animais. CRÓNICA XV A ACULTURAÇÃO DO EMIGRANTE E A MISCIGENAÇÃO DE CULTURAS PARTE I [101] OS EMIGRANTES PORTUGUESES NA AUSTRÁLIA      A emigração portuguesa iniciada há meio milénio foi caracterizada por uma mescla de aventura, ambição, ou desejo de vencer em terra alheia (como um atributo de façanha, vitória socioeconómica sobre os que ficaram, culminando na necessidade de um reconhecimento público pelo Zé Ninguém que, arriscando, vencera. Isto criou entretanto, contarelos míticos de terras vividas e um poder de compra jamais alcançável no torrão pátrio.      Dos traficantes de escravos, aos bandeirantes do sertão brasileiro, aos ' brasileiros ', aos ' africanistas ', legalmente ou a ' salto ', assim povoamos o mundo na década de 60. A Austrália, como meta, surgiu apenas na segunda metade da década de 50, com grandes influxos nas décadas seguintes, mais fruto da guerra colonial e da depauperada economia lusitana do que pela atracção do continente-ilha, misticizado pelas corridas ao ouro do findar do século. O jardim à beira-mar plantado iria ser uma recordação a rever quando possível.      Para essa primeira horda proveniente dos rincões menos desenvolvidos, dos Algarves, Madeira, Beiras e Trás os Montes, a lufa diária não se compadecia com estudos para além dos primários, que nunca tiveram naquela época a reputação de ganharem o pão de cada dia. Chegados a este vasto, e hostil meio ambiente, muitos foram atraídos pela promessa da exploração mineira, a pesca e a agricultura ou vastos trabalhos na construções de infra-estruturas, como as da ' Snowy Mountains ' nos arrabaldes da Sidney contemporânea, um dos maiores projectos hidroeléctricos do mundo.      A falta de compatriotas, a agressividade discriminatória local, o isolamento linguístico e cultural afastava-os da corrente socioeconómica predominante dos Anglo Saxões ou Anglo Celtas.      A miscigenação, em demonstração do velho ' machismo à Portuguesa ' teria de ser feita com aborígenes e outros estratos sociais imigrados e desajustados, ou na melhor das hipóteses com casamentos arranjados à distância e por 'précuração'-. Todo este afastamento de vínculos culturais, sociais e até mesmo linguísticos, se bem que afastando-os da origem não os aproximava da cultura do país de residência.      Se bem que haja alguns dados apontando para a presença de portugueses radicados a partir de 1800 (os célebres pilotos da Barra de Sidney, em Watsons’ Bay, são disso um exemplo), a colonização maciça registou-se apenas em plena década de 50. Existem casos isolados de outros que aqui fizeram fortuna e deixaram nome no século passado, mas pouca documentação foi ainda possível desentranhar dos labirínticos arquivos das Torres do Tombo da colonial Austrália.      Neste século, os emigrados eram gente humilde das regiões menos desenvolvidas do Império, habituadas a fainas laborais, da lavoura (de minifúndio) à pesca, ao artesanato, construção civil ou misteres como a carpintaria ou marcenaria. Nessa época, a Austrália vivia um período de rápida absorção de mão de obra barata e indiferenciada, com grande expansão do sector industrial (quer pesado, quer de manufactura), e despovoada, necessitava de enormes massas de gente, para cumprirem longas horas de trabalho árduo.      Havia quotas diárias de produção em ambientes opressivos, desinteressantes e desmotivadores, mas era um Eldorado comparado com as longas horas de trabalho mal remunerado a que os portugueses estavam habituados. Numa era em que a saúde pública e a segurança ainda não inventara o perigo dos asbestos (fibra de amianto), o envelhecimento precoce, o desgaste físico avassalador e o resto não preocupava os nossos conterrâneos. Era a ambição de amealhar, amealhar e amealhar. Comprar uma casa e trabalhar mais do que os outros para receber recompensas do patronato.      A mítica ânsia que levara outros a descobrir terras distantes como esta, impelia-os a sonhar que iriam regressar ricos e desafogados, e terem uma calma velhice na terrinha pequenina como o país onde nasceram. O afecto ímpar e a saudade sem tradução nos dicionários mundiais ligavam-nos a Portugal, mas os salários locais eram minas de ouro, quando comparados aos salários do então sólido e colonial Escudo.      As casas onde viviam não se comparavam às que para trás tinham deixado. Quando geograficamente solteiros, tinham o suficiente para enviar de retorno e sustentar as famílias ausentes, vivendo eles mesmo melhor do que jamais. Passados os primeiros e mui árduos anos, o poupado era suficiente para pagar a passagem traiçoeira de 50 dias no mar, à mulher e aos filhos, e embora as condições fossem melhores do que nas caravelas da Carreira das Índias, o medo não era menor.      A mira inesgotável do enriquecimento, esfumava-se em muitos casos, da mesma forma que a língua mãe, apenas falada nalguns lares, permeada de anglicismos e neologismos aportuguesados. Raros foram, os que, fruto da construção civil ou da pesca, venceram, embora haja casos de extremo sucesso económico. As novas que vinham falavam de um país em guerra consigo mesmo, anquilosado pelo conflito colonial de Africa, indeciso rumo a um futuro cada vez mais sombrio.      Os jornais eram raros e espaçados no tempo. Eram mais as cartas do João, do Toino e do Manel que mantinham o cada vez mais restrito cordão umbilical com os antípodas. Muitos deles haviam também emigrado, outros iam ensopando as terras de Africa com o seu sangue, defendendo o que políticos e militares lhes determinavam como futuro. Para além da saudade - esse sentimento tão exclusivo como o fado -, havia palavras de pobreza, tristeza, injustiças e atropelos, de exploração, do ritual do chapéu na mão, mais próprio do feudalismo do que na época em que tinham lugar.      Eram juradas vinganças, raramente executadas, e depois era a comparação com a vida na Austrália, dura sim, mas dinheiro à vista, trabalho árduo mas bem remunerado. Novos hábitos se iam adquirindo com outras gentes de línguas, costumes e tradições distintas: italianos, gregos malteses e jugoslavos, todos irmanados do sonho de conquista de uma vida melhor do que aquela que para trás ficara, na húmida despedida do paquete que os transportara.      Simultaneamente, com a aquisição de novos padrões económicos, veio a comenda de um certo reconhecimento social. Afinal, aqui eram todos iguais, patrões ou trabalhadores, e, se bem que houvesse certas diferenças que tornavam uns mais iguais que outros, nada que se comparasse ao feudalismo marrano de Trás os Montes.      Os emigrados sentiam-se bem melhor tratados e lentamente esqueciam e adulteravam as lembranças que detinham, rodeados por uma segunda geração que se estabelecia matrimonialmente fora do seu próprio grupo étnico, com outras línguas, raças e tradições. Os netos podiam ainda conservar nomes de cariz português, mas linguisticamente pouco mais do que apelidos ou nomes próprios sobreviviam, disformes ou anglicizados. O que tivera início como um sonho de se tornar rico, criara já raízes em terras estranhas e longínquas, se bem que a melancolia e o sempre distante sonho saudosista de regressar ainda aflorassem de quando em vez. CRÓNICA XVI PARTE II [102] A FORMAÇÃO PROFISSIONAL REPRESENTA UMA FALSA AMBIENTAÇÃO DAS CAMADAS JUVENIS, ACRESCIDA DE UM CHOQUE CULTURAL INTER GERAÇÕES.      Nas décadas que se seguiram à grande leva de portugueses emigrados, milhares de outros foram engrossando este contingente. Os meios para tal utilizados eram os da reunião familiar de irmãos, pais, tios/as e sobrinhos/as, os quais estabeleceram novos núcleos familiares, mas a partir de 1970, o panorama alterou-se drasticamente. Não eram mais os Timorenses, mas sim os ex-habitantes de Moçambique, Angola, Macau e outras partidas do ex-Império a beneficiar do novo esquema.      Esta nova invasão caracterizava-se mais pelas características de novo-riquismo social e educacional, totalmente afastado e distinto das gerações anteriores. Recusando-se a mesclas tribais, este novo grupo, representou o maior desafio possível à comunidade existente. Como é que pessoas vindas de um mesmo país viveriam harmoniosamente ? Curiosamente, este desafio resultou num incentivo para a ' velha guarda ' começar a criar restaurantes, mercados, serviços, e até mesmo, jornais capazes de satisfazerem a avidez linguística e cultural dos recém chegados.      Novas confeitarias, restaurantes, talhos, lojas de vinhos proliferaram nos últimos anos para darem vazão às necessidades deste novo grupo, que não obstante falar o mesmo idioma, tinha necessidades diversas. Este influxo veio criar um elo motriz entre os que estavam e os que chegavam, e se bem que a comunicação inter grupos nem fosse de uma forma geral harmoniosa, veio dar uma vitalidade que outros grupos étnicos haviam sentido décadas antes.      Os novos ricos dentro do espectro socioeconómico e cultural dos emigrados, permitiu criar uma procura de bens e serviços, há muito sentidas, sem no entanto serem satisfeitas. Desta forma se elevou também o perfil dos que na Austrália primeiro arribaram, mas que finalmente estavam a ser postos numa posição de competição para uma maior porção do bolo comercial que se lhes deparava.      Em 1982, não havia nem um restaurante que se pudesse intitular de tipicamente português, apesar de haver dezenas de cozinheiros profissionais portugueses ao serviço de restaurantes australianos. Toda essa paisagem humana e profissional se transmutou rapidamente na última década.      O Portugal mítico é preservado numa visão estática, incapaz de analisar o discurso temporal e os valores e padrões da sociedade dita contemporânea. Sem o apoio, quiçá fútil, de entidades governamentais, não se constrói a ponte para o lado outro de culturas divergentes.      A reunião e o engrossar da comunidade foi feita através de uma reunião familiar, em que esposos/as, filhos/as, irmãos/as, pais, tios/as, e primos/as se iam reagrupando ao longo dos anos criando e reinventando novos núcleos familiares locais. Comum era a febre de melhoria económica, na maior parte dos casos, à custa do exercício profissional, totalmente inadequado e desajustado dos mesteres ou profissões que haviam trazido consigo.      A segunda geração, os filhos/as, frequentavam escolas de língua inglesa e aprendiam uma nova forma de estar na vida, ao mesmo tempo que em família se sentiam confrontados por pólos opostos e divergentes nas áreas culturais e tradicionais. Se, por um lado, havia a predominância paternal centrada em torno da família nuclear - una e indivisível -, com a sua cega obediência às gerações mais velhas - que por eles se haviam sacrificado e porfiado -, por outro lado não havia já a retribuição em tempos de reforma.      A tradição australiana de cada um de per si, levava os jovens a saírem de casa e a estabelecerem os seus próprios núcleos independentes e livres de interferência, deixando para trás as velhas gerações, incapazes de cuidarem de si e sem apoios que os mantivessem. Os pais e avós tornavam-se assim num pesado encargo cuja factura ninguém estava disposto a aceitar, e era com mágoa que o sentiam.      As novas gerações haviam saído para casamentos inter étnicos, perpetuando alguns valores e tradições, mas na maior parte dos casos abandonando totalmente o património cultural, em troca de um multiculturalismo tingido pela absorção de outros valores. E aqui a acomodação linguística, educacional e cultural criava tremendos fossos inter gerações.      Se bem que os exemplos de renegados abundem, existem também os outros que a todo o custo e - muitas vezes sem meios socioeconómicos ou culturais - tentam preservar essa ponte para o lado outro. As novas gerações educadas por padrões e valores anglo saxões ou anglo celtas estavam em permanente confrontação.      Entre a cultura iletrada ou semi-letrada dos progenitores e a sua, achavam inapropriada a saudade por algo que desconheciam ou que esparsamente haviam visitado. Não havia o elo de ligação a essa terra a que os pais chamavam sua, nostálgica e encarecidamente.      Colegas de estudo ou de trabalho, em grande parte fruto de emigrados, radicados entre seis a uma gerações, viviam uma liberdade jovem, sem preconceitos de classe ou casta, sem a inferioridade por títulos ou estratos sociais. Estava lançada a semente da discórdia, em que uns se recordavam de curtas excursões a Portugal, sem falarem já a língua materna, e de acharem o país atrasado e desinteressante.      Se bem que Portugal caminhe a passos rápidos para a sua total integração numa Europa nova, os contrastes, peculiares a sociedades estáticas, mantêm-se em inúmeros casos, os quais se tornam - como é óbvio - mais díspares em pequenas vilas e aldeias. As recordações de tais visitas eram de tal forma negativas com a lembrança da troça de mal falarem ou falarem mal a língua de origem, que o desejo de regresso se perdia.      Essa, ainda hoje, é a questão principal que - quem de direito - deverá endereçar, se quisermos manter este drama quixotesco a que chamamos o cordão umbilical com o nosso passado, e que no fundo, representa a razão primeira de aqui estarmos hoje. Existe a necessidade de afirmação de padrões e valores distintos dos tradicionais, e esses têm de ser aceites em vez de continuarmos a pretender que os valores das novas gerações sejam uma mera expressão ou acrescento do modus vivendi paternal.      Se o não fizermos, e o resultado é bem visível na Austrália contemporânea, será a de os filhos responderem aos pais num Inglês salpicado, ocasionalmente, de Português. Para eles já basta a discriminação por serem diferentes, sem saberem se são carne ou peixe, e por saberem que os seus pais são unidades distintas dos núcleos familiares dos seus antepassados. Como etnia híbrida em permanente confronto eles não são o fruto do desajustamento mas a sua própria manifestação.      Se a opção de regresso lhes é posta, o respeito ainda existente leva-os/as a aceder para prontamente regressarem desajustados. O regresso e o ajustamento necessário carecem de ser alvo de medidas psicosanitárias para que a perda da cultura e da língua se não tornem irreversíveis. As mais velhas gerações de emigrados da Madeira, Trás os Montes, Algarve ou Beiras, jamais se apercebem de que em Portugal proliferam as discotecas, o homossexualismo (declarado ou não), a droga, a prostituição e tudo o mais que era anátema quando primeiro deixaram o país.      Se bem que a Austrália atravesse a sua maior crise desde a anterior recessão, Portugal também tem crises e greves e já não é o idílico país que a memória transfixou. Para essas gerações, Portugal será sempre a família - una e indivisível -, católica e bem comportada, perpetuando tradições incutidas por avós e pessoas de antanho.      Feiras, procissões, o bom vinho, o futebol e todos os demais chavões típicos de um modus vivendi que há muito deixou de existir. A realidade quotidiana de um país onde a mulher, lentamente, se vai emancipando e, a família descobre formas menos nucleares de vida, e onde tudo o que vem da estranja mantém uma salubre atracção, escapa-lhes.      O Portugal em que mentalmente vivem, perdeu-se na memória dos tempos, quem sabe se num 25 de Abril, ou Março ou Novembro, em tempo de nevoeiro, à espera de um D. Sebastião. O refúgio nessa memória doentia pode ser útil como o fado que nos traz a memória de um povo perdido em Alcácer Quibir, mas que se recusa a aceitar a reencenação do filme de Manoel de Oliveira. Continuamos na vã glória, incapazes de decompormos as múltiplas parcelas do novo quotidiano.      O conflito geracional e educacional não se queda por isto, mas é bem mais profundo. Frequentar os mesmos cafés, ter as mesmas conversas faz parte do dia-a-dia do emigrado, numa recriação constante de mundos perdidos na memória dos tempos, ou a incapacidade de cada um se ajustar ao movimento da evolução?      No lado outro da realidade mantém-se a burocracia anquilosante dos serviços oficiais portugueses - quando comparada com a desburocracia existente na Austrália - e as inúmeras manifestações anuais para português ver e se reafirmar - ainda - como tal. O ciclo vicioso do caranguejo (de Josué de Castro) que pensa que está a progredir mas que não deixa de se alimentar dos dejectos humanos daqueles que o consomem. As quimeras de antanho perpetuadas para gerações vindouras. CRÓNICA XVII PARTE III [103] O nacional clubismo transportado para terras do além mar perpetua visões salazaristas imunes a revoluções.      Em todos os locais onde os Portugueses se radicam - mais tarde ou mais cedo - surgem agremiações ou clubes, e a Austrália não foge a tal regra, tendo associações em todos os territórios e estados (à excepção da Tasmânia). Em Sidney, Nova Gales do Sul concentra-se de momento, pelo menos, 50% da população de expressão portuguesa, ou seja entre 30 a 35 mil almas. Clubes existem desde o Portugal Madeira Club ao Clube Português de Sydney, a pequenos grupos associativos que se dedicam a pessoas da terceira idade e os quais abarcam entre 50 a 3 mil pessoas, das quais nem todas são sócias no sentido lato do termo.      Se no passado estas associações operavam ilegalmente e à margem do sistema australiano, de momento a sua vasta maioria encontra-se oficialmente registada como entidades multiculturais. Se bem que todos ilegais em 1982, agora estão legais e dispõem de património imobiliário importante e de uma constante fonte de receitas.      A maior parte das actividades dos grandes clubes continua a ser o desporto (futebol, atletismo e bilhar) e a gastronomia, havendo no entanto algumas tentativas isoladas de promover a língua e a cultura. Desta forma existem ou existiram, em passado recente, seis semanários em Português em Sidney. Deles falaremos adiante.      Os clubes começam a ser mais competitivos, abrindo as suas portas para almoços e jantares, organizando festas que vão da eleição das Misses a grandes festas, promovendo artistas popularuchos portugueses. Se, no início eles eram pequenas extensões da adega provinciana, onde para além de um copo de bom vinho a martelo se podia discutir a bola, eles passaram a ser núcleos próprios, com actividades específicas e vida autónoma, se bem que disputas e tricas bairristas continuem a existir. A maior parte proporciona pratos regionais ou típicos em dias pré determinados (do leitão à Bairrada, à feijoada, ao bacalhau e às tripas e rojões). Estes clubes mantêm também - como forma substancial de sustento financeiro - o popular bingo (loto) e festas tradicionais como o Baile da Pinhata e outras ocasiões comemorativas.      Por outro lado, se bem que a comunidade tenha adquirido uma outra maturidade na última década e meia, isso deve-se mais à importação de emigrantes das ex-colónias de Angola e Moçambique do que a factores endógenos. Politicamente porém, a sociedade em si, e os clubes em particular, representam uma mera extensão da terra mãe, tal como era vista e sentida há vinte, trinta ou mais anos.      Dissidentes, que é como quem diz, aventureiros políticos são rapidamente atacados pela direita, centro e baixo, sendo denegridos e acusados de buscarem a vã glória pessoal. Novas iniciativas são muitas vezes bombardeadas, devido às pessoas que nelas se envolvem, independentemente do mérito das mesmas. Um exemplo típico foi o da criação de um centro de cuidados de crianças (infantário) e de um centro para a terceira idade, que não obstante inúmeras tentativas, demoraram anos a concretizar.      A mudança foi sempre difícil - depois da descoberta do caminho marítimo - mas assume o papel quase impossível de realizar quando a distância se situa a mais de 18 mil quilómetros do torrão pátrio. Embora se apele ao patriotismo das gentes, o direito a voto não é universal na Austrália. Até há poucos anos tudo era isento de impostos de importação para os novos imigrantes: do automóvel ao televisor, sem quaisquer taxas fiscais durante os primeiros doze meses. No reverso da medalha as severas punições com que somos contemplados ao regressar a Portugal, em termos fiscais e de burocracia.      A cultura e quejandos não têm um ponto alto nas prioridades destas agremiações, tal como acontecia no tempo da ' velha senhora ' e a cultura é mais necessária para se saber em que ano Gomes foi ' Bota de Ouro ', ou quando o Marco Chagas ganhou a última Volta, ou quando Rosa Mota desfeiteou a oposição australiana. Além disso a cultura é sempre a mesma coisa enfadonha que se repete aos 10 de Junho e onde se fala daquele Camões - que ninguém leu.      Essa cultura desnecessária para comprar casas, carros e amealhar fortunas, não serve à comunidade para resolver os seus problemas quotidianos. Nestas últimas décadas, novas hordas de emigrados de Angola, Moçambique, Macau e Portugal, trouxeram novos hábitos e necessidades. E assim, de dois semanários, incipientes e banais atingiram-se seis, e de um programa semanal de uma hora na rádio temos agora mais de seis alternativas em português, se não melhores, pelo menos mais variadas.      Os livros enviados pelos senhores e senhoras da cultura em Portugal costumavam ficar a apanhar pó, mas desde que foi inaugurada a delegação da Secretaria de Estado da Emigração, eles vão de facto para escolas e agremiações. As comunidades de fala portuguesa radicadas na Austrália queixavam-se de que os livros enviados eram sempre relativos a pessoas que viveram há um ror de anos e falavam de História ou de políticos que lhes eram desconhecidos, em vez de coisas levezinhas para ler, saber das grandes estrelas do cinema e de pessoas 'realmente importantes' .      Nos últimos anos a direcção tomada foi diferente, e hoje existe já uma grande variedade de temas impressos e audiovisuais que permitem dar uma outra imagem do país que ficou. Em tempos de antanho, pensam os mais antigos emigrados, uma pessoa era nada e criada para trabalhar, sem tempo de aprender a ler e escrever, e isso foi t.q.b. (tanto quanto basta) para virem até à Austrália, enriquecerem e serem mais importantes do que pessoas que só utilizavam palavras caras nas suas terras de origem.      Existe uma pequena minoria aguerrida que celebra o 25 de Abril, mas teríamos dificuldades em organizar um jogo de futebol entre eles, porque são tão diminutos. Os outros acham que o 25 de Abril só veio criar poucas vergonhas e tudo o mais que os seus familiares se queixam vai já para muitos anos.      Se bem que alguns admitam que, se tivessem estudado mais poderiam estar ainda melhor, outros reconheceram já que aqui atracaram com uma maleta cheia de ilusões e sonhos, sem falarem uma palavra desta língua australiana a que chamam inglês, e rapidamente começaram a trabalhar sem sentir a falta de estudos. E uma coisa de que se não sente a falta, para nada serve. ' Quanto mais ignorantes, mais felizes ' é ainda um refrão infelizmente aplicável a vastos sectores de emigrados. Nesta dicotomia entre maiorias e minorias se perpetuam dois países distintos de emigrados, todos falando português, tal como Eça de Queiroz dizia há mais de um século. Uns falam de futebol, outros discutem a metalinguística de Roland Barthes.      Acontecimentos como este seminário perpetuam a impressão de que algo está a ser feito em nome dos que emigraram, mas é na Austrália, fruto dos biliões de dólares que o governo federal e os estaduais, despendem anualmente, que há dinheiro para manter viva a língua e cultura portuguesas, estações de rádio e semanários. Desta forma, o país adoptado não só beneficia da riqueza cultural e linguística dos seus novos habitantes como ainda lhes proporciona os meios financeiros para o fazerem.      O que falta é uma política activa e dinâmica, capaz de atrair os emigrados sem recorrer aos velhos chavões do folclore e dos feriados nacionais. Aliás na era da electrónica e da aldeia global falta-nos a imagem constante e permanente de Portugal que a RTPi ainda não traz, a inundar os ecrãs do canal de rádio e televisão multicultural SBS. Aliás os gregos, italianos, espanhóis e malteses já o têm todas as semanas. Porque esperas Portugal?      Tantos e bons filmes foram feitos desde 1974 (e antes), mas o que chega à nossa televisão multicultural na Austrália restringe-se a ' Dinas, Djangos ' e quejandos. Claro que de quando em vez vem um Gabriel Cardoso, a Banda do Casaco ou outros para o 10 de Junho. Entretenimento para as massas ou a perpetuação da mediocracia? PARTE IV Neologismos, ou a permanente criatividade linguística do emigrado?      Se nos lembrarmos do permanente enriquecimento neolinguístico do nosso falar lusíada, ocorrido na década de 60 fruto de emigrados a salto - ou não -, para as Franças dos nossos sonhos, poderemos rapidamente criar paralelos com o que se passa aqui nos antípodas. Neste capítulo, muito haveria a dizer, mas restringir-me-ei a uma mão cheia de palavras definitivamente adoptadas pela comunidade local e enriquecendo o seu linguarejar.      Esta inserção de terminologia mesclada de Português e Inglês no contexto quotidiano deve-se a vários factores: – falta de conhecimentos suficientes do idioma do país de adopção – necessidade de comunicação com as gerações nascidas e educadas neste país de adopção, cujo domínio do Português é demasiado rudimentar para estabelecer diálogos profundos – corrupção de terminologias e vocabulários predominantes nos locais de trabalho, capazes de estabelecer a ponte para o lado outro da incompreensão mútua – degeneração linguística, fruto das regiões de origem, e assimilada pelos órgãos de comunicação local e personagens dirigentes de organizações comunitárias.      Tais neologismos distinguem-se dos que, fruto de tecnologias, mass media internacionais e telenovelas têm aumentado o léxico português: – marquéte é loja ou mercado (market) – xópe, ao contrário do brasileiro chope ou cerveja, é loja pequena (shop) – barrista ou bairrista, não é ser-se do mesmo bairro ou subúrbio, mas sim advogado (barrister) – levar o saco é ser-se despedido (get the sack) – bisna é negócio ou comércio por conta própria (business) – ápeséte é estar preocupado/a (to be upset) – fita é electricista, montador (fitter) – emploimento é o serviço federal de emprego, mas é mais corrente para expressar que alguém está a receber o subsídio de desemprego – tiquéte é simultaneamente, consoante o contexto, o cartão de registo sindical, a licença para operar um monta cargas, o bilhete de autocarro, comboio ou eléctrico (ticket) – a fatoria (e este neologismo utilizado em partes do sul do Brasil não foi importado da Austrália) é uma fábrica (factory) – fléte é um apartamento T1 ou T2 (flat) – unite é uma casa tipo vivenda ou casa meada com outra (home unit) – bonde não é o carro eléctrico que roda no Brasil, mas a caução para pagar futuras rendas de aluguer de casa / apartamento (bond) – manageiro é o gerente (manager) – translação é uma tradução ou interpretação (translation) – bossa, não é a do camelo ou dromedário, mas sim a patroa, a dona de negócio / escritório, ou meramente a dona da casa onde se vão fazer limpezas (boss) – a computa, que contrariamente à sua sonoridade não revolve em torno de mulheres de má fama, nem é uma deterioração de compota e muito menos de difíceis operações algébricas, é o humilde computador sempre presente na maioria das casas e em todos os locais de trabalho (computer) – demandora é exigente (demanding) – paquete, longe de ser o moço de recados ou o sumptuoso navio Q.E. II é o denegrido e quase proibido maço de cigarros (packet) – Kôna é canto (corner), o que por vezes cria situações linguísticas caricatas: " a minha bóssa é muito demandora, anda sempre atrás de mim, a ver se limpei bem as kônas ". – aplicar é escrever uma carta ou candidatar-se a um emprego (to apply for) – a côrte deixou de ter os velhos requintes da nobreza e não passa senão do mero tribunal (court) – friza não é o rodapé da parede mas a parte congeladora do frigorífico (freezer) – balconia é apenas a varanda (balcony).      Estes, alguns dos exemplos quotidianos do linguarejar Português na Austrália. Muito mais haveria a dizer sobre o nacional clubismo bairrista, transplantado para a terra Down Under, sobre a apatia política, a eterna esperança de regressar que, quando realizada, acaba por se dissipar em novo retorno ao país de adopção. Poder-se-ia ainda falar sobre a generalizada tendência que os portugueses mostram em naturalizar-se australianos por razões distintas, conforme o estrato socioeconómico donde provêem, e a sua lenta assimilação - maior do que a própria integração na sociedade em que vivem. CRÓNICA XVIII PARTE V [104] Associativismo, comunicação social, apatia, naturalização e a almejada viagem de retorno a uma pátria imaginária.      Pelo que atrás ficou dito sobre o nacional clubismo, não será difícil imaginar-se a situação associativa dos portugueses radicados na Austrália. Para além de grupos dedicados à terceira idade e de interajuda e outras raras excepções, as manifestações de serviços de apoio social e comunitário são raras. Elas existem nos estados de Nova Gales do Sul e Vitória, mas praticamente inexistentes noutros estados e territórios, onde aliás os mais visíveis e actuantes neste campo são os Timorenses com as suas estruturas próprias.      Aliás, será conveniente revelar que os timorenses têm uma propensão curiosa para se associarem, quiçá fruto da sua dolorosa e trágica experiência das últimas décadas.      Desde 1984, as festas do 10 de Junho incluem uma pesada componente em que a arte, cultura e danças do povo maubere fazem parte integrante das mesmas. Interesses divergentes, a descrença em órgãos de massa que não futebolísticos (será ainda uma pesada herança salazarista ?), a habitual má língua e a inveja mesquinhas, em comunidades étnicas diminutas como a portuguesa, podem ser o óbice principal para uma presença física de maior relevo em manifestações comunitárias.      Das 154 comunidades étnicas radicadas na Austrália (ou segundo outras fontes, 161) , a portuguesa até anos bem recentes não dispunha de visibilidade política ou outra, e não desfrutava da vasta gama de subsídios e apoios dos governos federal e estaduais. Cipriotas, malteses, assírios e lituanos tinham mais organismos de apoio às suas comunidades. Falta, talvez, uma consciencialização de base, através de campanhas educacionais ou adquiridas, e uma união capaz de transcender bairrismos, claques e cliques.      A nova geração de emigrados, preferiu porém a via mais fácil de integração nesta sociedade multicultural, com desprezo de clubes e organismos, em vez de os tentar mudar ou enriquecer. Esta nova leva de portugueses, de educação terciária ou não, e de profissões de mais alto gabarito recusou-se assim, a estabelecer a ponte para a outra margem do espectro comunitário de expressão portuguesa, nem mesmo se associando a expressões artísticas tais como grupos de teatro, de música ou outros.      Terminando com uma curta apreciação aos meios da comunicação social impressos semanalmente, uma palavra, de preferência - patética -, englobaria todas as mensagens. O " Português na Austrália " foi fundado no início da década de 70, seguido do " Correio Português ", propriedade actual do mesmo dono, um conhecido agente de viagens, de compra e venda de propriedades, representante de bancos e seguradoras. O seu corpo redactorial carece, aliás como os outros semanários, de alguém qualificado ou experiente em comunicação social, para além das experiências atávicas neles adquirida.      Outros semanários, alguns de curta duração como "A Comunidade", o "Semanário Português", a "Voz de Portugal" representam interesses de clubes ou grupos, e a sua qualidade é também fraca. Politicamente são umas folhas de couve, permeados de erros gramaticais e outras gralhas mais graves, utilizando material copiado directamente de jornais portugueses, sem muitas vezes sequer alterarem a data de origem de tais despachos.      Ocasionalmente, surgem de forma irregular e de tiragem reduzida, jornais panfletários de apoio a causas específicas como a timorense, impressos em Sidney, Melbourne ou Darwin. A estação multicultural SBS Rádio 2EA/3EA utilizou durante mais de uma dezena de anos, uma pessoa da Madeira, ex-emigrada no Brasil, falando uma mescla híbrida de brasileiro e madeirense, o qual se serviu do programa para propagandear os seus negócios e a sua contratação de artistas popularuchos portugueses.      Não obstante petições, abaixo assinados e outras medidas, a pessoa em causa viu-se em 1992 promovida a programas de quatro horas semanais, a assassinar a língua e cultura portuguesas. O concurso para a sua substituição iniciou-se em 1987 e só viria a dar resultados seis anos mais tarde. Quer o Consulado Geral em Sidney, quer a Embaixada em Camberra, foram por diversas vezes alertados para este problema, sem que daí tenha advindo qualquer actuação. Pedantismo foi um dos termos mais utilizados para definir as centenas de pessoas que se têm oposto ao status quo.      De bibliotecas, a mais célebre quando cheguei à Austrália em 1982 existia num talho português, ostentando vídeos e livros da colecção R.T.P., que vagamente recordo da década de 60. Havia também, segundo me foi então asseverado, uma valiosa colecção da Fundação Calouste Gulbenkian, oferecida ao Ministério Estadual de Nova Gales do Sul para os Assuntos Étnicos, mas a mesma lentamente foi desaparecendo, para enriquecer bibliotecas particulares.      Poderíamos ainda falar da situação do ensino da Língua e Cultura Portuguesa, onde muito ainda há a fazer, mas a situação melhorou bastante na última década, faltando ainda - segundo muitas opiniões - um coordenador geral de ensino e animador cultural para colmatar as muitas falhas. A apatia intervencionista dos emigrados, a quase inexistência de grupos de pressão ou acção, leva-os a esta situação carente de uma arma preciosa para o estabelecimento da sua definição de identidade étnica numa Austrália multicultural.      A adopção da cidadania australiana é seguida pela esmagadora maioria dos emigrados, mais por interesses económicos do que por falta de patriotismo, existindo noções míticas e incorrectas sobre a sua consciência cívica, que vão do direito à reforma a outras regalias. São, aliás, tais concepções erróneas que levam a maioria dos portugueses a naturalizarem-se, mas sempre mantendo a nostálgica saudade do regresso definitivo a Portugal.      A meta primeira foi sempre a de ter casa, comprar casa em Portugal e se possível voltar para lá morrer. Quando não, uma reforma ou a compra de um negócio na terra de origem, servem como passaporte para demonstrar a riqueza obtida na estranja. Mais fácil dito do que feito: o desfasamento cultural, político e social entre o emigrado e o país de origem são fossos de que ele mesmo se não apercebe numa viagem de férias.      Depois de resolvidos os seus negócios na Austrália, compradas casas para os filhos, vendidos os carros e os trastes caseiros, ei-los de regresso ao torrão pátrio. Após o regresso, e passada a euforia inicial de libações e celebrações com familiares e amigos, narrando contarelos do país [ Austrália ] que deixaram sem nunca chegarem a conhecer ou a comunicar, o nosso emigrado - ora retornado - lança-se num negócio: oficina mecânica, estação de serviço, carpintaria ou similar.      A início depara apenas com a burocracia (já desburocratizada segundo me asseveram), mas ainda emperrada e emperrante, oleada, muitas vezes, a movimentos subtis sob o balcão. Depois, vangloria-se de ter feito funcionar as rodas dentadas da engrenagem, do advogado ao funcionário público, sempre prontos a ajudarem o filho pródigo, ora regressado, a desenvencilhar-se de uns cobres. Passados os meses e dada a sua inexperiência, vêm as contas e hipotecas, e os milhares de contos amealhados ao longo de uma vida de trabalho árduo esfumam-se no ar. Desiludido e falido, vai buscar o bilhete de regresso que secretamente guardara, e de novo, na maior parte dos casos, torna a deixar a família para trás.      Regressado à Austrália, de onde saíra arrogante, rapidamente se dá conta de não ter casa, carro, dinheiro e muito menos emprego. Com a acostumada diligência dirige-se ao serviço de emprego onde a pergunta sacramental que lhe fazem é: "Fala Inglês?". Pede um intérprete para ouvir que existe quase um milhão de desempregados e que agora tudo é diferente. Se há 20, 30 ou 40 anos conseguia emprego sem falar o idioma, agora existem desempregados (alguns há vários anos), refugiados e muitos outros todos em busca do almejado emprego, todos competindo com ele. Vai ter de aprender Inglês para poder sobreviver nesta nova selva, que é o mercado de trabalho pós depressão e recessão, um mercado saturado da mais vasta diversidade de oferta sem nada, ou pouco, para oferecer em troca.      E assim, o nosso homem, português dos quatro costados, trabalhador incansável que toda a vida se esforçou sem descanso nem lazer, fica num vácuo temporal e espacial, perdido entre duas culturas e civilizações, agastado contra o país de onde saiu jovem para vencer na vida e onde regressou para ver o fruto das suas andanças perder-se no nada. No país de adopção sente-se velho e cansado, sem competitividade no mercado de trabalho, sem falar o idioma, um pobre peão de brega num xadrez que não entende.      A mulher a escrever, mortas já que foram as saudades todas do país mãe/madrasta, pede para regressar. Ele, sem dinheiro, pedra inútil e usada nos mecanismos da sociedade capitalista que o explorou enquanto jovem e produtivo. Contempla mesmo o suicídio para não admitir derrota, depois pede aos filhos/as a quem educou e ajudou a crescer com tanto sacrifício, para o ajudarem, e todas as portas se lhe apresentam encerradas. Eles seguem padrões distintos, e a regra é os pais quando velhos irem ser internados num asilo à espera de morrerem e deixarem fortunas. Está desvanecido o sonho do regresso mágico às pátrias imaginárias. De Portugal chegam-lhe cartas de amigos e parentes, recortes de jornais falando nessa terra mágica chamada Austrália (onde a qualquer pontapé se acha fortuna e fama), pedidos de ajuda para emigrar. A TV falou e a embaixada já nem aceita mais inscrições de potenciais imigrantes. Será que ele radicado há tantos anos, não consegue arranjar um contrato de trabalho para o primo, amigo, vizinho ?      Velho, só, desempregado e desiludido, ainda galvaniza forças para ir ao antigo patrão, para este lhe arranjar um contrato de emprego para o primo, amigo, ou vizinho. Depois de muita conversa, lá vai de papel na mão à Imigração meter o pedido, dando como morada a mansão do/a filho/a, garantindo que o outro seria inicialmente sustentado pela sua família.      Mala na mão e de calções, em pleno mês de Dezembro na Portela ou em Pedras Rubras, lá estava o outro. Sem frio, porque lhe tinham dito que era Verão quando chegasse à Austrália. Sonhava já com a riqueza que encontraria, imediata sob uma qualquer pedra que pontapeasse, que aqueles estúpidos e mandriões dos australianos nem se davam ao trabalho de baixar-se para a obterem. Bom português e vivaço, ia chegar e mostrar-lhes como se fazia. Depois, levaria a família toda, mais tarde, rico, poderia regressar à sua aldeia natal, construir uma casa e mostrar que em Portugal quem quisesse ficar rico melhor fora emigrar.      Ao aterrar na Austrália, com o amigo à espera, vê uma nota de dez dólares no chão e diz ao amigo: "É pá, nem vale a pena começar a trabalhar já, espera até encontrarmos uma nota de cem!". O ciclo repete-se, se casos destes ainda se passam, também muitos são os que vão lentamente deixando o país Austrália, gorados os sonhos. Outros, chegam apenas para a desilusão e a horda de quase 8% de desempregados que a Austrália tem (oficial ou oficiosamente, e ainda há poucos anos chegou aos 10%) e dos quais, felizmente, poucos falam Português. CRÓNICA XIX 100 ANOS DE EMIGRAÇÃO PARA A AUSTRÁLIA 1886-1986 [105]      Estava-se na Inglaterra em 1886 e subitamente a ideia de começar vida nova na ex-colónia penal de Nova Gales do Sul, na Austrália a que chamavam Nova Holanda atraía o leitor, que, pressuroso, acorria a comprar uma passagem num paquete a vapor, em terceira classe ao preço de 21 e, 52 dias depois de acenar adeus aos seus amigos, estava a desembarcar num país totalmente diferente.      De imediato, alugava uma vivenda nos subúrbios de Sydney por uma meia libra semanal e iniciava a sua busca de trabalho. Trabalho de pedreiro abundava e era bem pago: uma meia libra por dia, o que era suficiente para comprar um par de botas de pele de ovelha, meio quilo de queijo, meio quilo de bacon, um quilo de carne de vaca, duas carcaças de pão e meio quilo de manteiga.       Cem anos mais tarde, um pedreiro continua a ser uma profissão procurada e bem paga: em média uns 70 dólares ao dia (45) e com esse montante podia comprar exactamente uma torradeira eléctrica ($30 dólares), uma garrafa de uísque (13 dólares), um quilo de bife (4.40), 300 gramas de café instantâneo (4.15), 3 pastéis de carne (1 dólar), duas galinhas assadas (8 dólares), uma galinha congelada (4.5), 250 gramas de manteiga (0.7), um par de meias grossas de trabalho (1.3) e dois maços de tabaco (2.95). Hoje (1997) o seu salário rondaria o dobro mas não compraria nem metade desta lista: uma garrafa de uísque nunca menos de 25 dólares, um maço de tabaco 7 dólares, um quilo de bife uns 20 dólares, etc.      Entretanto, na colónia a família acha que o clima não só é um pouco (?!) mais quente e saudável do que na velha Albion (Inglaterra), mas também que as roupas trazidas não são, de forma alguma, adaptadas ao clima local. As crianças vão rapidamente para uma escola pública obrigatória onde aprendem a ler e escrever, coisa que aos pais não foi facilitada.      Esta uma imagem da vida em Sydney, há pouco mais de uma centena de anos e que no seu centenário foi doada à Biblioteca Mitchell sob um documento genérico intitulado 'Crónicas Australasianas', datado de 11 de Outubro de 1886. Este documento surgiu, inesperadamente na demolição de uma casa em 1966 e proporciona várias informações tais como a de a população ser estimada em 980 mil almas, da qual mais de um terço residia em Sydney. Havia, à época, mais 100 mil homens do que mulheres. E supomos ser daqui a mitologia ainda hoje (1997) abundante em Lisboa e Porto, de que na Austrália há falta de mulheres Claro, que as coisas são diferentes hoje: existem 1,1 mulheres para cada homem.      A colónia há cem anos produzia lã, carvão, prata, latão, aço, cobre e ouro (por esta ordem de importância) e dispunha de 1600 centros de culto religiosos (hoje, dezenas deles estão convertidos em creches, cafés, ou mudaram de denominação religiosa, etc.). Havia já serviço regular (mensal) de correios distribuído ao domicílio, e bancos e sociedades de aforro cresciam em todos os subúrbios. Os caminhos de ferro dispunham de 1700 km e havia 50 hospitais em toda a colónia. Naquele documento verifica-se que uma enfermeira auferia 40 anuais com direito a acomodação; os casais sem filhos para trabalhar em fazendas agrícolas ou estâncias pastoris 80 ao ano com acomodação; um sapateiro 3 por semana. Havia pouca procura de mão de obra, para além das indústrias de construção civil, caminhos de ferro, trabalhos agrícolas e domésticas (solteiras).      A imigração foi responsável por um aumento de cerca de 30% da população australiana entre 1860 e 1900 (ano anterior ao da federação das colónias e territórios).      Este documento parece ser um antecessor dos panfletos que o Ministério da Imigração (e Assuntos Étnicos , ou Assuntos Multiculturais , ou Governo Local e Assuntos Étnicos , como tem vindo a ser designado nestes últimos anos) distribui aos candidatos a imigrantes e que têm sido publicados, ao longo dos anos em mais de 50 línguas, conforme as oscilações étnicas dos países de origem. Para além da imigração profissional (' ocupações que possam contribuir para este país e seu progresso ') ou de negócios , uma das formas de entrar na Austrália é através do programa de Reunião Familiar. Este, proporciona a vinda de familiares, dentro de um restrito número de ligações familiares legítimas ou consanguíneas, de pessoas que possam patrocinar a dependência de tais familiares. Actualmente existem períodos de não elegibilidade para benefícios da segurança social (em média: dois anos de espera), a fim de que tais novos imigrantes não dependam financeiramente do país receptor.      Outros panfletos descrevem o tipo de vida na Austrália (algumas embaixadas e consulados dispõem de vídeos para o efeito), tipo e custo do ensino primário e secundário (gratuito, mas os pais/encarregados de educação terão de pagar umas verbas para fins específicos, e transporte de e para a escola, livros, etc.).      Nessas brochuras pode ler-se por exemplo que 'A Austrália é uma nação jovem mas industrializada com uma rica e variada sociedade, embelezada por uma vasta riqueza natural. A Austrália tem vastos mercados em constante crescimento e uma localização central que lhe permite o rápido acesso aos mercados da Ásia e Pacífico em fase acelerada de expansão ( Nota do Autor: antes da crise da bolsa e da depressão asiática de 1997 ).      A situação alterou-se substancialmente desde que iniciei estas crónicas em 1985. Esse foi um ano selvagem na então, ainda existente, Embaixada da Austrália em Lisboa, com cenas de centenas de pessoas a atropelarem-se para emigrar. Nesse ano admitia-se a vinda de 84 mil emigrantes (esse número haveria de ultrapassar os 120 mil no fim daquela década) e desses, uns dois mil eram portugueses. Eram precisos então: 500 analistas de sistemas e programadores; 500 enfermeiros/as; 300 mecânicos; 200 chefes de cozinha francesa; 50 chefes de cozinha chinesa; 150 pedreiros, 100 carpinteiros, 100 bate chapas, etc. A partir daquele ano começou, finalmente (e já não era sem tempo) a exigir-se um mínimo de conhecimentos da língua inglesa, cinco anos de experiência profissional comprovada em cada ramo de trabalho profissional a tempo inteiro. Já então o autor tentava desmistificar para os portugueses, que este continente apesar de atraente e longínquo estava longe de ser o paraíso prometido para emigrar (ver Crónica XVIII) e onde sob qualquer pedra que os preguiçosos dos australianos não queriam empurrar se escondia uma fortuna imediata para português arrecadar. CRÓNICA XX OS PARAÍSOS DO PRAZER Da atracção das ilhas sobre os corpos, aos sentimentos românticos e às motivações socio-ocupacionais das classes economicamente desfavorecidas [106]      As ilhas têm, por vezes, aquela capacidade mágica de alterar o estado mental das pessoas, despertando os sentimentos românticos que a vida quotidiana oculta sob pressões diversas. A Austrália dispõe de mais de duas mil ilhas e outros tantos ilhéus, localizados nos mais complexos mapas de navegação, mas muitas vezes olvidados do mais comum dos mortais. Uns são verdadeiros paraísos tropicais, outras não passam de rochedos assolados pela erosão dos ventos e águas.      Para muitos, a noção de paraíso anda definitivamente associada a ilhas onde as pessoas vão uma vez, e não cessam de querer voltar, para reviverem idílios mágicos. Parte desta concepção assenta nas fantasias que todos temos, as mais das vezes opostas a todo e qualquer facto real ou vivido. As vivências da mente nem sempre percorrem as trilhas do corpo que as transporta.      A Austrália descobriu as suas ilhas há pouco mais de uma trintena de anos, quando as pessoas deixaram de ir a Bali (Indonésia) e deixaram de sonhar com as Fiji, descobrindo aqui paraísos bem mais apetecíveis, embora nem sempre com a qualidade de instalações esperadas a nível internacional, ou não fosso o turismo uma indústria. Hoje, finalmente, os ' resorts' de nível internacional detêm já fama após terem atraído na década louca de 80 investidores, e - logicamente - turistas.      Para muitos porém, não se pode dizer que conheçam a Austrália se não conhecerem ou tiverem estado nessa 8 Maravilha do Mundo: a Grande Barreira de Coral. Situada a leste da Queenslândia ocupa uma área de mais de 260 mil quilómetros quadrados, acompanhando a costa durante mais de 2 000 km. Trata-se da maior estrutura maciça criada por organismos vivos, com 71 ilhas de coral e mais de 2000 recifes. Existem 400 espécies de coral e mais de 1 500 espécies de peixes na Grande barreira, que se começou a formar há mais de 10 mil anos e desde 1976 é um Parque Natural protegido.      As diferentes estâncias de férias, da ilha dos Lagartos (Lizzard Is.) à Grande Ilha Keppel proporcionam hoje em dia acomodação que varia entre os 30 e os 500 dólares diários (aprox. 3600$00 a 60000$00). Isto inclui já acomodação, refeições, diversões, equipamento para ténis, windsurf, pesca, mergulho subaquático, barcos à vela, esqui aquático, absailing e parasailing [107] , etc., etc.      Os sonhos são quase totalmente concretizados em lugares destes, quer se seja activo ou passivo. A vida nocturna pode ser nula nalgumas ilhas ou fervilhante noutras. Em meados da década de 80 era vulgar aparecerem personalidades tais como o príncipe Carlos, e os já falecidos Lee Marvin e Aga Khan, entre as várias vedetas do jetset. O ex-Beatle George Harrison comprou uma vivenda em Hamilton (ilha) cujas frondosas árvores observei do barco, mas que fica escondida dos olhares de todos os que se acercam daquele promontório sem acesso por terra ou água.      Experimentar os diversos cocktails locais pode ser uma experiência devastadora. Funciona segundo o princípio da granada defensivaatingindo as vértebras percorrendo de forma célere a coluna até à base do crânio!!! Os efeitos imediatos são agradáveis mas depois são ensurdecedores, levando a estados menos convidativos e podendo conduzir a necessidade de cuidados médicos intensivos.      Segundo as tradições apócrifas apenas um visitante alguma vez se queixou destas ilhas. Tratava-se de um cristão da velha geração de 1800 que não admitia que as mulheres andassem seminuas, o que era imoral, mas depois de pedir para desembarcar para as tentar dissuadir jamais se voltou a queixar      Grandiosos empreendimentos tomaram vulto a partir da década de 70 e na era dos milionários australianos da década de 80. A maioria dos milionários faliu, foi presa ou desapareceu, mas os empreendimentos como os da ilha Hayman e Hamilton permanecem, se bem que alguns deles fossem mais adequados ao Hawai ou a Las Vegas. Dispõem de pistas de aterragem capazes de receber Boeing 767, apesar de ter uma base milenar de corais mortos, e as suas marinas artificiais estão prontas a receber os milionários e os seus iates de luxo, já que os outros turistas pouco acesso terão às mesmas.      A ilha Norfolk celebrizada pela revolta da Bounty (ver caixa seguinte) tem 8 por 5 quilómetros, e fica no Pacífico, a 1600 quilómetros a oriente de Sydney e dispõe de 160 quilómetros de estradas asfaltadas. Desabitada até à altura da 1 Armada (1788) foi colonizada por esta para evitar ameaças externas ao Império Britânico na Austrália. Durante muitos anos serviu de inexorável prisão, uma das mais inóspitas que se possa imaginar. Depois, seria oferecida a Christian Fletcher, o chefe dos amotinados da ‘Bounty’ que depois de se terem dado mal com os ares da ilha Pitcairn para ali emigraram. Ainda hoje, esta ilha autónoma da Austrália, com governo local próprio usa um linguarejar coloquial misto de Inglês arcaico, Escocês, Gaélico (Irlandês) e Taitiano do século XVIII.      De todas as ilhas australianas a mais famosa deve ser sem sombra de dúvida a Keppel, de alvas areias, com capacidade para apenas 320 turistas, normalmente compreendendo idades entre os 18 e os 35 (e estes já serão demasiado cotas). Na sua maioria são solteiros/as ou ‘ unattached’ (um eufemismo que significa não acoplados) em busca da realização dos seus sonhos imediatos e idílicos, mas que por vezes com a inconsequência típica dos jovens australianos se perdem em meras cópulas de ocasião. Estas tornam-se tradicionalmente mais fáceis graças às bebidas favoritas destes locais. Dão por nomes tão sugestivos como: ‘Pink Pussy’ (mistura de Tequila, Kahlua, limonada, creme e Granadina), ‘Sex Machine’ (Tequila, Kahlua, Southern Comfort), ‘Orgasm’ (Creme de cacau, Galiano, Cointreau, sumo de laranja, leite e natas), ‘ET’ (Kahlua, cremes de cacau, de menta, e banana). A Keppel tem 28 quilómetros de praias e uma excepcional dieta de mariscos e frutos locais.      O sonho de grande parte dos jovens numa sociedade afluente e materialista como é a Austrália, é passar, pelo menos, um fim de semana num destes paradisíacos locais para reverem e, se possível, viverem os seus sonhos e fantasias. Ao acordarem terão pela frente a luta pelo quotidiano com a doce recordação em suas bocas deixada pelo sabor das ilhas.      O bom clima e a variedade de opções de férias, apoiado por uma agressiva campanha de operadores turísticos leva muitos australianos a preferirem o turismo interno a deslocações ao estrangeiro, esse ultramar longínquo e por vezes hostil. Seremos nós os últimos a culpá-los disso, quem tem o paraíso em casa não necessita de fazer malas para emigrar A HMS BOUNTY sob o comando do capitão William Bligh, aprestou-se ao mar para ir a Taiti recolher árvores de fruta-pão, destinadas a servir de alimento aos escravos da Índias Ocidentais Britânicas. Fletcher Christian e grande parte dos tripulantes amotinaram-se e colocou o irascível capitão Bligh e 18 homens que lhe ficaram fiéis num largo escaler, no qual haveriam de atingir a salvo Timor. A ‘Bounty’ regressou ao Taiti e a Tubai, onde ficaram 16 amotinados. Christian com mais nove amotinados, seis homens da Polinésia e 12 mulheres e uma criança fizeram-se a um local mais refugiado e tranquilo, que acabou por ser a inóspita ilha de Pitcairn onde chegaram a 15 de Janeiro de 1790. A vida decorreu de forma harmoniosa durante dois anos, embora os polinésios fossem mais tratados como escravos, o que criou ressentimentos. A mulher de um amotinado despenhou-se de uma escarpa morrendo no mar, e logo o marido se assenhoreou duma mulher polinésia. A seguir começaram os massacres. Um amotinado atirou-se de um rochedo depois de uma noite de orgia em álcool caseiro, outro morreu de asma e em 1800 já só restava um homem: John Adams, que tinha 10 mulheres polinésias e 23 crianças como companhia. Adams sonhou uma noite com o Arcanjo Gabriel, pegou na Bíblia da ‘Bounty’ e converteu todo o seu rebanho com zelo religioso. Em 1887, um missionário em passagem pela ilha converteu-os a todos ao Adventismo do Sétimo Dia. Em 1831 todos os habitantes de Pitcairn emigraram para o Taiti, mas como se dessem mal cedo regressaram. Em 1856 toda a população emigrou de novo para a ilha Norfolk, tendo cinco famílias regressado a Pitcairn. Lá se encontram ainda hoje os descendentes dessas seis gerações num total de 56 pessoas, que não autorizam a entrada ou permanência de forasteiros. A viabilidade de Pitcairn é questionada dado só ter doze homens activos para efectuarem todos os duros trabalhos de manutenção na ilha. Eles eram 233 em 1937 mas a população tem vindo a decrescer. Existem apenas quatro apelidos na ilha: Christian, Warren, Brown e Young. Isto levanta o problema melindroso de ligações intermaritais intergrupais, ou a dificuldade de encontrar parceiros/as para aumentar a população. Se bem que tenha havido casos de miscigenação com estranhos (os chamados ‘bush babies’, ou bebés do mato, concebidos com forasteiros ou durante escapadas para for a da ilha, certo é que ao fim de tantas gerações não se verificam deformações ou enfermidades normalmente vulgares em casos de intra casamentos, ou uniões entre parceiros de sangue.      A maior parte destas ilhas porém, comprova a existência de estruturas de suporte verdadeiramente inimagináveis: desde geradores eléctricos ao próprio bife servido no barbecue (churrasco) ao ar livre tudo veio do continente. Local, por vezes, apenas os mariscos e os frutos (ou nem isso).      Para quem, como eu, detesta grupos ou concentrações humanas, existe ainda a possibilidade de alugar ilhas privadas, equipadas com todos os confortos do mundo industrializado. Ali se pode estar ou em solidão absoluta ou com a companhia idílica que o dinheiro pode comprar. Quando se está com quem se ama, normalmente não se tem dinheiro para ir para estes sítios.      Outra alternativa é destinada aos espíritos mais aventureiros que podem optar pela ilha Heard, 3 mil quilómetros a sudoeste de Perth, na Austrália Ocidental e onde existe um vulcão semiactivo. Trata-se da mais alta montanha australiana, o Big Ben, e o acesso terá de ser feito em barco de grande calado, de preferência com corta gelos e equipado com barcos de borracha para desembarque. Um conselho porém tem de ser antecipadamente dado: jamais devem deixar os barcos na rochosa praia. Embora a ondulação seja sempre superior a três metros, o perigo é a limitada visão das morsas (elefantes marinhos) que têm o inconveniente hábito de tentar procriar com os ditos barcos. Se bem que se desconheçam descendentes de tal hábito, certo é que as embarcações ficam em estado pouco próprio para navegar depois daquelas investidas amorosas.      Já a ilha Rottnest, 18 quilómetros a oeste de Perth, tem na origem do seu nome o engano do holandês Willem de Vlaeminck quando ao desembarcar resolveu chamar aos pequenos de ratos os ‘quokkas’ (espécie miniatura de canguru). Assim estava dado o nome à pequena ilha ‘Ninho de Ratos (Rottnest)’.      Como tantas outras ilhas, também esta foi utilizada como prisão, nos primeiros tempos da colonização europeia. Recorde-se que a colonização da Austrália foi feita maioritariamente com degredados. Hoje é um dos maiores centros recreativos de Perth e uma visita à Austrália Ocidental sem uma ida a Rotto, diminutivo carinhoso dado a Rottnest, não está completa. A ilha dispõe de 18 quilómetros de estrada mas toda a gente circula a pé, de barco ou de bicicleta dado ser vedada a circulação de veículos motores, em terra, para além de uma dúzia de excepções, exclusivamente reservados para o transporte dos turistas do cais aos hotéis.      Rotto, não tem (como aliás a maioria da Austrália) códigos de vestuário (antes pelo contrário) e dispõe apenas de acomodação básica, incluindo a reconvertida prisão do século XVIII onde dormi. Ali sonhei com a evasão do mundo de labuta diária para esta cadeia onde me deleitei em evocações históricas, náufrago de uma nau quinhentista portuguesa, abandonado em terra de gentios.      Mas quantas pessoas precisam de acomodação se em qualquer fim de semana existem umas 3 ou 4 centenas de iates ancorados e outros tantos veleiros, ao largo do hotel com o pub (bar) mais famoso do Oeste, o ‘Quokka Arms’???      Embora relativamente longe de Sydney (apenas 4 000 km), Rotto é um dos meus destinos favoritos para férias, não obstante um bilhete de avião entre Sydney e Perth custar tanto como de Sydney para Hong Kong ou Banguecoque.      A dieta é óptima e recordo aqui uma visita em pleno Natal de 1984. O programa de actividades iniciava-se pelas seis da manhã, já o sol ia alto, o iate vinha até à praia para buscar pão fresco e outras ligeirezas para o pequeno almoço servido no ‘deck’ e acompanhado desse cocktail tão australiano o champanhe com sumo de laranja, leve para ajudar a despertar. Depois, pelo meio da manhã, quando o sol já levava o termómetro aos trintas e quase aos quarentas à sombra, um bom mergulho nas águas transparentes, seguido de uma expedição pesqueira para o almoço. De lagosta a tubarão nada faltou naquela manhã (ou em qualquer outra idêntica, numa delas até um espadarte monstruoso de mais de 4 metros foi pescado). Os saborosos frutos do mar são depois trazidos para bordo onde começa a azáfama da sua preparação, nela se envolvendo o pessoal de ambos os sexos que povoa o barco desde a véspera. Pelo meio dia ou uma da tarde já o australiano médio terá emborcado uma ou duas dúzias de cervejas bem fresquinhas (uma espécie de mata bicho local de raça líquida).      De tarde, outros iates de conhecidos, amigos ou até mesmo desconhecidos se vão aproximando e ancorando lado a lado. Começam a revelar a festa típica de Rottnest.      Jovens e lindíssimas, material para modelo, ainda em busca da grande oportunidade surgem de toda a parte modelos consagrados e modelos que nunca chegarão a ser, desfilam, sentando-se por entre os normais e legítimos ocupantes das embarcações.      As conversas frívolas e fúteis de gente estragada pelo dinheiro (Ah! Mas é tão bom pertencer ao seu seio por uns dias de férias), as gargalhadinhas histéricas, as anedotas pretensamente picantes (ou meramente vulgares?), as bebidas a flutuarem nos estômagos pequenos das jovens beldades de inteligência limitada como o vestuário que (não) usam.      Homens e mulheres regressam aos primórdios como descendentes dos primitivos habitantes destas paragens, no fundo eles e elas não passam de meros quokkas Os joguinhos de sociedades complacentes em termos de sexo, casamento e outras instituições (que há muito deixaram de ser sagradas) passam a ser lugar comum para o resto do dia/noite. Quando a noite vai avançada, se a sobriedade - rara - permitir, as pessoas dispõem-se a regressar aos seus locais de origem, neste caso iates, sem sombra de pecado, recriminação ou até mesmo de recordação, e algures, uma jovem sonhará com o dia em que aquilo será também dela (ou não). Apenas resta um travo amargo no palato e a sensação desmemoriada de um dia bem passado. Todos amigos no dia seguinte, assim se repetem rituais ancestrais.      Para as mentes de sociedades conservadoras e tradicionais este tipo de vida será sem dúvida anátema, mas para pessoas de horizontes largos como o autor se julga, estas são oportunidades para ‘estudar‘ as mutações socio-ocupacionais das classes economicamente favorecidas e confrontar a barreira que as separa dos comuns mortais. Como tudo o que é irreal ou fantástico tem o seu tempo limitado de existência, depois é chegado o dia de constatar que a realidade continua a chamar-nos à sua omnipotente presença e, de malas feitas e sonhos realizados, voltamos a casa, e à rotineira obrigação de encher o branco das páginas que um dia serão lidas pelos viajantes de sonhos sem fronteiras que são vocês. CRÓNICA XXI PARTE I OS TIMORENSES NA AUSTRÁLIA Da invasão indonésia até à Austrália, um percurso de 22 anos [108] Vinte e três anos se completaram em 07 Dezembro 1998 sobre a invasão de Timor Leste pela Indonésia, e a maioria dos cerca de 10 mil timorenses e seus descendentes, em Sydney, acredita que o governo australiano - depois de silenciosamente ter assistido à destruição da ex-colónia portuguesa - ignora os problemas sociais que diariamente se acumulam e quotidianamente são enfrentados pelos timorenses. As dúvidas, a distância e o tempo não ajudam a sarar as feridas de que enfermam os timorenses aqui residentes. O futuro pode ser ainda mais sombrio do que o passado e o presente se a independência não vier depressa para este povo esquecido que tantos mártires deu.      Para muitos dos imigrados deste país, as barreiras culturais que se lhes deparam à chegada são incomensuráveis. Para os timorenses elas são ainda maiores do que qualquer outro emigrado poderia esperar.      Consideremos primeiramente o estrato socioeconómico de base rural colonial e neocolonial de que provêm. Um nível educacional muito baixo, nalguns casos grassando o mero analfabetismo da sua língua natal, e o muito reduzido contacto com a cultura dita ocidental que era apanágio dos timorenses provenientes das zonas mais recônditas da antiga colónia, foi gradualmente substituído por uma geração mais nova com uma educação básica indonésia que aniquilou todos os traços culturais do seu passado.      Manteve-se constante, entre os refugiados dos anos 70 e os dos anos 90 um estrato sociocultural de origem tribal, regulado anteriormente (ao longo de séculos) por uma hierarquia estabelecida sob os poderes dos régulos, liurais e chefes de suco, que sobreviveu aos quatro séculos e meio de colonização portuguesa, à invasão e ocupação japonesa durante a 2 Grande Guerra e se mantém ainda hoje sob a ditadura do invasor javanês. As ordens emanando do topo dessa hierarquia tradicional não davam lugar nem a diálogo nem a contestação.      Convirá referir que a reintrodução hierárquica data do pós guerra e se deve a factores coloniais de simpatia para a potência colonizadora à data (Portugal) e não os verdadeiramente tradicionais laços de sangue e família tribal que dominavam a estrutura timorense até à primeira metade deste século. A receita está assim completa para um coquetel (ou cocktail para os anglicizados) explosivo.      Consideremos a seguir que em termos quantitativos a comunidade timorense hoje estabelecida na Austrália duma forma geral e em Sydney em particular é em termos práticos irrelevante. Os timorenses representam aproximadamente 0,2% da população de Sydney e 0,1% da população deste continente-ilha.      Todos estes factores permitem a manutenção de divisões naturais entre os vários núcleos timorenses. Excluímos à partida as divisões ou facções políticas entre simpatizantes da UDT (União Democrática Timorense), FRETILIN (Frente Revolucionária para a Independência de Timor Leste), que ora estão unidas numa frente conjunta ou divergem e um ou outro simpatizante da APODETI (Associação Popular Democrática de Timor) ou até mesmo dos mais recentes grupos como a AST (Associação Socialista de Timor) ou MRUPTL (Movimento de Reunificação de Unidade de Timor Leste).      Existem ainda outras diferenciações de ordem étnica, entre os timorenses melanésios, os de origem chinesa, os mistos destes e de outros grupos étnicos (incluindo os portugueses) Em Sydney pouco mais de um quarto dos timorenses é de origem chinesa (em 1989 dentre 6500 haviam 1800 chineses), facto que deverá talvez identificar-se com razões de ordem económica. Já em Timor, durante os anos coloniais portugueses, os chineses eram minoritários mas desfrutavam de uma superioridade económica em relação aos outros grupos. Durante a ocupação indonésia eles estão a seguir aos javaneses e militares indonésios.      Para os chineses de Timor a integração no modus vivendi australiano não foi feita através de manifestações de solidariedade com os restantes timorenses, mas sobremodo com as restantes comunidades étnicas chinesas já aqui radicadas.      Dos restantes, consideremos dois subgrupos de timorenses: os mais ligados à língua e cultura de Camões e os restantes servindo-se predominantemente da língua franca, Tétum, elemento de unificação das mesclas variegadas da população da metade oriental da ilha.      Outras divisões existiam ainda à data da eclosão da guerra civil, mais baseadas em relações sociopolíticas que dicotomizaram a população entre a UDT e FRETILIN. Hoje em dia com as múltiplas aproximações e separações entre os dois grupos, e a necessidade premente de encontrar soluções para o problema de Timor, essas divisões esfumaram-se aqui.      Na Austrália, ao longo dos anos vários foram aqueles que se revelaram líderes comunitários de segmentos timorenses. Salientarei João Carrascalão em Sydney (o homem da UDT, que acabou de ser reeleito líder do Partido no 3 Congresso daquela organização em Perth em Novembro 1997). Outros líderes actuais ou passados são Ágio Pereira (durante muitos anos o fiel representante da FRETILIN em Darwin e actualmente a residir em Sydney), Lola Reis e Estanislau da Silva ambos da FRETILIN em Sydney, Inês Almeida, Alfredo Borges Ferreira (Darwin, FRETILIN), Abel Guterres (FRETILIN; Melbourne) dentre muitos outros. A razão porque não menciono outros também activos é por os considerar óptimos seguidistas, mas incapazes de gerarem por si mesmos qualquer liderança, embora possam atrair hordas de fiéis dos partidos políticos a que pertencem. Ao nível de João Carrascalão e actualmente residente na Austrália desde 1989 apenas existe o Nobel da Paz de 1996, José Ramos Horta.      Isto longe de ser depreciativo para novos valores como o de Inês Almeida (a eterna candidata a terminar um curso superior de jornalismo) revela apenas a pesada herança colonial que os Portugueses deixaram e que séculos de valores tribais inculcaram. Se bem que haja jovens dissidentes e representantes da RENITIL (o movimento de estudantes timorenses em Timor Leste e na Indonésia) e outros jovens, estes não conseguiram desalojar o peso enorme de figuras carismáticas e veneradas como Carrascalão e Horta. Talvez que o século XXI venha a trazer novos valores a toda a resistência, que continua centrada em torno de clássicos e tradicionais.      Carrascalão afirma: “Timor era conservador e calmo antes da saída portuguesa. A política foi uma invenção recente a que parte da população não prestava a atenção devida. A UDT queria então a independência num período dilatado de dez a quinze anos. Na Austrália a FRETILIN tem sido mais vocal e aliada a organizações de esquerda mas actualmente o que interessa é a libertação do jugo indonésio.”      Distanciando-se de seu irmão Mário Viegas Carrascalão (então governador da 27 província indonésia de Timor Timur) João sempre acreditou que havia motivo para esperança. A timorização limitada dos quadros locais e a pressão internacional, além da pressão quer da guerrilha nas montanhas quer da oposição civil nas cidades, aliada à visibilidade que o Nobel da Paz para dois timorenses (Horta e Monsenhor Carlos Filipe Ximenes Belo) podem contribuir para a resolução do problema em especial depois da crise económica iniciada em Dezembro 1997 na Indonésia.      Nunca negando as suas visitas a Timor Leste, João Carrascalão foi sempre bastante vocal nas suas inúmeras presenças na ONU, no Comité de descolonização embora se distanciasse sempre das posições do seu cunhado (José Ramos Horta), mas manteve sempre uma posição de confrontação contra a posição oficial indonésia a favor da autodeterminação de Timor Leste.      Para este timorense, com estudos feitos na Suíça durante a era salazarista, a FRETILIN teve alguns excessos pelos quais parte da comunidade ainda se ressente, mas admite que se não fosse a presença militar, a resistência passiva civil e eclesiástica nunca teria sido suficiente para alterar o balanço da situação.      A comunidade timorense de origem chinesa não dispõe de porta vozes nem de associações específicas (à excepção de Darwin no Território Norte, onde tem um clube), estando mais unida em torno de grupos ligados por vínculos fraternos e familiares ou regionais, que se reúnem quer em Chinatown, na baixa de Sydney, quer em Cabramatta (a mini Chinatown da subúrbia).      Uma coisa porém, continua a unir todos os timorenses de qualquer conotação política: essa herança inegável do jugo colonial - o futebol, que é jogado com uma paixão e entusiasmo que fariam inveja a qualquer adepto do desporto.      Para Ágio Pereira (ex-Darwin, ora Sydney) ou Alfredo Borges Ferreira (em Darwin) onde se localiza a outra metade dos timorenses da Austrália que não vivem em Sydney ou Melbourne, “a luta continua e de Timor chega sempre a vontade de um povo que quer ser independente”. Nunca, ao longo destes vinte e dois anos, os timorenses deixaram a sua posição aguerrida de recusa ao jugo indonésio e à supremacia do javanês. Apenas o silêncio durante mais de uma década dos meios de comunicação social internacionais impediu publicitar a acção de guerrilha armada e resistência civil. Recorde-se que a guerrilha em Timor Leste foi a única em todo o mundo que nunca dispôs de apoios do exterior. A situação mudou só a partir do massacre de santa Cruz em 11 de Novembro de 1991 e da atribuição do Nobel da Paz em 1996. Portugal começou a fazer-se ouvir a partir de 1989, pois até então o seu semi-silêncio era quase cúmplice.      Aqui, na Austrália, a sociedade timorense defronta-se (de acordo com Carrascalão e Ágio) com a intolerância australiana, a sua falta de conhecimento dos problemas específicos da comunidade, a falta de apoio das entidades governamentais a níveis de subsídios e estruturas sociais de apoio, a falta de apoio das entidades consulares e da embaixada, salvo raras e honrosas excepções como foi o período de 1988 a 1992, do embaixador José Luís Gomes.      Há quem cite casos de doenças mentais que são também comuns a casos de refugiados do Camboja e Laos vítimas do regime de Pol Pot. A Austrália aceitou sempre refugiados até um determinado montante numérico ou quota, para dele obter reconhecimento mundial, alheando-se depois das consequências e traumas que essa vinda de refugiados provoca. O caso de Timor foi durante muito tempo uma espécie de tabu semiencoberto na comunicação social [109] , e durante os anos do governo trabalhista (1983-1996) e a era Howard (depois de Março de 1996) era quase crime atacar a Indonésia ou expor a invasão e genocídio em Timor. Curiosamente, em finais de 1997 o Partido Trabalhista, então na oposição, alterou o seu programa para passar a incluir uma cláusula sobre o direito à autodeterminação do povo de Timor.      Em jornais durante a década de 80 e início de 90 era vulgar ler na secção de ‘cartas à redacção’ depoimentos de veteranos australianos da 2 Grande Guerra, indignados com o pouco que estava a ser feito em relação a Timor, citando eles a valentia e bravura dos 40 mil timorenses que morreram durante a guerra para defenderem os ideais ocidentais e australianos durante a sangrenta ocupação japonesa da ilha. Um deles, Paddy Kenneally ainda recentemente (Julho 1997) se deslocou ao Porto para tomar parte nas Jornadas de Timor da Universidade do Porto, essa instituição respeitável que primeiro que todas em Portugal, pela mão do professor António Barbedo de Magalhães, soube trazer o nome de Timor à academia e à vida dos portugueses.      Ao longo dos anos lidamos na Austrália, com muitos timorenses, desde os que nunca tinham visto um ‘patas de aço’ ou ‘cacatua bote’ (nomes dados ao avião) àqueles que foram educados pelo sistema colonial português terminando ou não os seus estudos em Portugal, àqueles que apenas estudaram aqui e mesmo àqueles que estudaram sob o regime indonésio. Apenas uma coisa é comum a todos: o desejo de verem Timor independente e livre do jugo javanês.      Nota-se, porém uma erosão do poder e da cultura tradicionais que ameaça degenerar numa erosão futura daqueles valores ancestrais, capazes de resistirem a tudo e a todas as colonizações, mas em risco de serem vencidos e alienados pela permissividade cultural e social australiana.      Nos mais idosos e os da minha geração de meio século nota-se, de uma forma geral, a nostalgia, a tristeza de provavelmente jamais poderem pisar solo pátrio. Sente-se o amor e a saudade àquela terra. Nuns casos esses amor saudosista reveste-se de características e valores bem portugueses, próprios daqueles que estavam culturalmente mais próximos do colonizador e/ou faziam parte das suas estruturas administrativas. Noutros casos, porém, Timor é a Nação que deixou de o ser antes de realmente atingir a sua plenitude, mas que, não obstante, perdurará como Pátria enquanto uma gota de sangue e lágrimas puderem continuar a ser derramadas pelos antepassados mauberes.      Para um terceiro grupo, Timor representa uma etapa na conquista material, fortunas amealhadas do nada, reduzidas ao nada, recomeçadas de novo.. Etapa essa marcada por fugazes mas recompensadoras amizades com portugueses das quatro partidas do mundo, sempre prontos a regressar ao oriente exótico dos Macaus e Austrálias deste mundo. Amizades também marcadas pelos indonésios ocupantes brutais mas tolerantes de minorias que servem de tampão e de bode expiatório de ódios coloniais.      Nos refugiados de Timor, ainda de lá emigrados quando era outro tempo, e noutros recém chegados depois da experiência sob o domínio indonésio, algumas noções basilares se podem aprender.      Faça-se o que se fizer vinte e três anos se passaram já. Muitos dos mais novos eram demasiado novos para se recordarem e não mantêm os proibidos dialectos Tétum e a língua portuguesa, para além do empirismo quotidiano de diálogos em família, à revelia dos indonésios. Eles preferem o Inglês que os poderá alcandorar a posições mais propícias de futuro neste país onde vivem agora e quiçá para sempre.      Mas atenção, TIMOR LOROSSAE é também isto: A língua não é só uma forma de comunicação inicial e iniciática vital para os povos, mas pode tornar-se, como no caso de Timor, nestes últimos anos, numa forma revolucionária. Quando se pensa que as gerações hoje opostas à neocolonização indonésia, não eram, na sua maioria, nascidas, quando os Indonésios proibiram o uso do Português, teremos de analisar que elas se vão aproveitar dessa mesma língua proibida para comunicar entre si, fazer oposição ao regime político e para serem ouvidas no mundo exterior. Poderiam, mais facilmente ter-se servido do Inglês, mas escolheram o Português, por este não ser dominado pelos Indonésios, mas ser compreendido pela maioria da geração mais velha, aquela que ainda se lembra da diferença de vida. É assim, como língua da revolução e da resistência, que o Português se mantém hoje em Timor ou na prisão de Cipinang de onde Xanana escreve.      De formas contrárias, o Português em África serviu para aglutinar populações divididas por etnias e dialectos diferentes, sendo hoje a língua oficial que absorvendo neologismos e ataques de línguas estrangeiras (Francês na Guiné Bissau, Inglês em Moçambique, etc.) vai enriquecendo as línguas crioulas ou Pidgin, desta forma se perpetuando e vitalizando, tal como acontecera há uns séculos no Brasil.      Em Goa, Malaca e Macau, persistem hoje pequenos redutos de formas de português, que estão em vias de extinção, pois que com o fim da presença portuguesa não se vislumbraram vantagens - nem culturais nem políticas - para ser mantido de direito próprio, ao contrário do que aconteceu no Sri Lanka (Ceilão) onde a mudança para apelidos portugueses era uma promoção de casta social.      Mas em Timor houve quem reinventasse a própria língua colonizadora para dela se aproveitar e lutar contra os neocolonizadores.      Outra noção é a de que os portugueses ao ‘saírem’ (detesto esta palavra neste contexto, pelo que o melhor é substitui-la por ‘desertarem’) Timor tinha apenas dezasseis quilómetros de estradas asfaltadas e pouco mais a que se pudesse chamar estrada.      A rádio era um luxo para poucos para além da messe militar e do Q.G. em Taibesse. Além disso quem ouvia não tinha sequer uma dezena de horas semanais. Jornais? Havia a conturbada e única ‘A Voz de Timor’ feita de muito esforço e boa vontade, mas sem meios técnicos, humanos ou financeiros capazes. O autor, Cristóvão Santos, o Dr. Martinho e o Lopes da Cruz nos últimos tempos da presença portuguesa, foram alguns dos que tentaram converter a V.T. num jornal. A televisão ainda não havia sido inventada para Timor, aviões e barcos eram quase meteóricos dada a sua frequente ausência e/ou falta de capacidade de transporte.      Hoje Timor Timur tem mais de 250 quilómetros de estradas asfaltadas por onde se deslocam as viaturas militares indonésias e as viaturas comerciais dos monopólios javaneses que continuam a espoliar os timorenses daquilo que é seu. Existem várias estações de rádio, TV a cores (um luxo em muitas outras ilhas na Indonésia), em vez das 47 escolas primárias que os portugueses ali deixaram existem hoje mais de 500, o analfabetismo baixou de 92 para 40 por cento, existem hospitais regionais e centro médicos de Dili ao interior, paramédicos nas aldeias, uma universidade e sei lá que mais que os indonésios não param de apregoar.      Há quem diga que apesar da invasão a Indonésia fez mais por Timor do que Portugal em quatrocentos e cinquenta anos. Isto afectou aqueles - que descontentes ou não - ali viveram estes doze anos.      Como conceber assim, neste cenário, o regresso daqueles que aqui na Austrália, em Macau ou Portugal, se radicaram depois de 1975? Qual o vínculo que os seus filhos têm com Timor, com os seus familiares (e não há família alguma que não tenha tido mortes) e amigos dos pais que sobreviveram a estes vinte e dois anos de ocupação?      Mesmo que a Indonésia, fruto de uma qualquer crise causada pelo desaparecimento de Suharto (e nada nos faz imaginar esta hipótese) abandonasse a ex-colónia, tal regresso seria marcado por profundas diferenças. Os refugiados da Austrália aceitariam de forma pacífica os colaboracionistas que ali permaneceram, voluntária ou involuntariamente?      Que conexão terão os filhos desses, que colaborando ou não, forçosamente ali ficaram com os que falam inglês ou português? Nenhuma, pois provavelmente apenas poderão comunicar através de Bahasa Indonesia.      Em tal contexto e partindo do princípio que a guerrilha e a oposição civil conseguiam libertar o país do jugo javanês, seriam poupados os milhares de pessoas que coabitaram com os indonésios, como forma de sobreviverem?      Por outro lado, pondo questões morais de parte, temos um fait accompli na presença indonésia, por voluntária ausência dos portugueses e lutas internas naquilo que se designou a guerra civil e apenas durou de Agosto a Setembro 1975. Famílias separadas por três continentes sem hipóteses de reunião devem esperar o futuro confiantes de que o bom senso vai prevalecer, com a sua dose de realismo, para permitir àqueles que saíram de Timor se poderem reunir aos que labutam em Portugal, Macau e Austrália. Para os outros há que continuar a insistir em que os organismos internacionais descubram uma fórmula para tornar a situação menos injusta e menos dolorosa.      A alternativa da guerrilha e desobediência civil prolongada levou até agora que nenhuma das partes possa clamar vitória e continuará a ser a realidade da maioria dos timorenses.      Não esqueçamos que pode haver escolas, estradas, televisão, rádio e outros confortos materiais que os portugueses ali não plantaram, mas a política de transmigração, os monopólios e oligopólios ameaçam tornar os nativos numa minoria dentro do seu próprio país, como aliás já aconteceu em outras ilhas indonésias.      Para além disto, vastos sectores da população timorense foram inoculados, ou melhor esterilizados para não procriarem mais timorenses. Isto, aliado a uma aniquilação pela guerra e fome de cerca de 200 mil timorenses, um terço da população, faz prever que dentro de uma geração o problema possa ser ainda menos focado que o genocídio dos arménios no início do século.      Regressar parece difícil, não obstante recentes aberturas oficiais a missões diplomáticas, parlamentares e turistas. Como jornalista, cidadão australiano, português por nascimento, as minhas hipóteses de poder regressar são ainda mais remotas. Sempre que tentei levou com uma educada recusa, sempre acrescida de que se não tratava de motivos políticos. Quanto mais não fosse para descrever a beleza paradisíaca que nem os indonésios conseguirão destruir, gostava de rever as praias, o som dos TOKÉS e as faces amigas dos mauberes, naquela que há muito considero a minha pátria, se bem que poucos conhecidos possam ainda estar sobrevivos.      Timor, ‘ a terra que em nascendo o sol vê primeiro ’ tal como me ensinaram nos velhos compêndios de geografia colonial, os mesmos que teimavam em chamar Vila Salazar à Baucau que perdura ainda hoje.      Aqui na Austrália, os timorenses repetem o ciclo natural da luta pela sobrevivência, tal como o haviam feito durante séculos, marcados por fomes, guerras tribais, por uma colonização portuguesa nem sempre benevolente, por uma violenta e sangrenta invasão e ocupação japonesa e mais recentemente pela ameaça de aniquilação total provocada pela presença indonésia.      A SOBREVIVÊNCIA DO POVO MAUBERE DEPENDE APENAS DELE E DA SUA ADAPTAÇÃO, DO SEU QUERER, DO SEU SABER MANTER A CULTURA TRADICIONAL EM ATMOSFERAS HUMANAS MODERNÍSTICAS - como as de Portugal e da Austrália. Para os restantes é a lei da sobrevivência de um povo animista e redescoberto católico no meio do islamismo indonésio.      Entretanto aqui em Sydney, 23 anos depois, os timorenses, de uma forma geral, começam a sentir-se integrados no panorama humano e social, mas falam ainda da sua pátria com orgulho, o mesmo com que eu descrevo a descoberta de novas plagas e mundos pelos aventureiros portugueses dos séculos XV e XVI.      Entretanto novas guerras, guerrilhas e outros problemas mundiais vão mantendo o problema de Timor afastado das manchetes dos jornais, relegando para o olvido a causa e a brava saga do povo timorense. CRÓNICA XXII PARTE II “ENTERRADOS VIVOS” filme sobre a saga de Timor [110]      As primeiras imagens dão um retrato a preto e branco sobre a Lisboa dos anos 50, com percursos pela baixa citadina e curtas incursões às cenas terceiro-mundistas do Bairro Alto, contrastando com o ar imponente do Marechal Carmona, sob o olhar aquilo e atento de Salazar. Entremeado de discursos narrativos de jornalistas, políticos e sob a potente dialéctica de Noam CHOMSKY que perdura ao longo de sessenta minutos, passa-se então para o mapa da Europa com o Império Colonial sobreposto, dando a noção da vastidão do Império.      Cenas de uma África Negra dominada pelos colonos brancos sucedem-se até ao dealbar das lutas nacionalistas, cenas do mato, soldados portugueses feridos e mortos sendo evacuados, os discursos patéticos do velho regime, acompanhados de discursos condenadores na ONU e noutros órgãos, da velha política colonial portuguesa.      Uma passagem suave a uma ilha aparentemente desabitada, praticamente virgem, de uma beleza inenarrável, dá-nos conta de que existia algures, perdida no tempo e no espaço, uma parcela colonial esquecida. Sim, era de facto, Timor Leste então denominado Timor Português. A pompa da guarda nativa ao Palácio do Governo, o ritmo lento das ruas vazias, centradas no núcleo comercial de Dili, dois quarteirões apenas de ruas asfaltadas. Danças tradicionais e a rica cor das ‘lipas’ [111] perdendo-se no branco e preto das imagens do ecrã.      Cenas do Mercado Municipal de Dili, da célebre luta de galos, e a película passa a colorida. Um aparte curioso de um filme de divulgação turística dedicado ao mercado australiano, incitando as pessoas a visitar um dos paraísos perdidos do Pacífico, descrevendo Timor como uma terra onde há sempre alguém que fala inglês, onde as mulheres são de uma extrema beleza e o povo afável. Uma paródia superficial, descritiva de um Timor que só existia na mente dos produtores do anúncio turístico, da qual perduram na retina as brancas areias das praias e o colorido das lipas.      A narrativa assume agora um corte abrupto, ao passar do idílico Timor para o som e visual das cenas sangrentas da resistência australiana e timorense contra a ocupação japonesa da 2 Guerra Mundial. O comentário oportuno surge pela voz de veteranos australianos, no sentido de que a Austrália talvez fosse hoje japonesa se não tivessem morrido quase 40 mil timorenses a auxiliar os australianos.      Uma dívida de gratidão totalmente esquecida porque incómoda - alguém comentava. Cenas pungentes de um documentário australiano da época (1943) mostrando a resistência anti-nipónica. Desta sequência passamos de uma guerra esquecida para uma revolução inesquecível, com a emocionada voz de um locutor de rádio, narrando os acontecimentos do 25 de Abril de 1974, algures na baixa lisboeta.      O filme segue então o percurso da revolução dos cravos, dos seus ideais e dos seus resultados imediatos. O ‘gonçalvismo’ é visitado sumariamente para nos explicar como do dia para a noite, os maiores anseios de independência foram oferecidos de mão beijada a Moçambique e às outras colónias de África, Os africanos, nas ruas, celebrando a sua independência e o comentador a acrescentar que foram momentos de pouca dura, dado o conturbado período que viria a seguir.      Como nota positiva, apenas o facto de a bandeira colonial ter sido substituída pelos estandartes de povos independentes.      De novo a câmara se volta para os orientes exóticos, lembrando algo que ficara por fazer. Timor, uma vez mais, ficara esquecido. As imagens acompanham a formação dos principais partidos políticos em Timor, as manifs de rua, a primeira campanha de alfabetização na Ponta Leste e a primeira eleição democrática de um Chefe de Suco. Curiosamente, é mostrado o detalhe de uma urna de voto: um saco de palha com cerca de um metro de altura, dentro do qual estão dois sacos mais pequenos, os quais só podem ser vistos pelos votantes, que se aproximam e deitam no respectivo saco a pedrinha de voto. Resultado da eleição: o chefe tradicional desde 1959 é substituído por outro de maior apoio popular.      João Carrascalão, antigo comandante militar da UDT faz a sua análise da situação ao som dos arrulhos do pombal que tem no seu jardim australiano. A partir desse momento o filme começa a centrar-se em torno do futuro Nobel da Paz, José Ramos-Horta, que relata as aspirações dos timorenses à data. É a partir desta altura que o filme muda, uma vez mais, de velocidade. Passa-se para as cenas da guerra civil, seguida pela evacuação do governo de Lemos Pires, o qual é posteriormente entrevistado já na ilha do Ataúro.      As imagens sucedem-se: Carrascalão conta a sua viagem a Jakarta e as falsas declarações dos indonésios. As tropas da FRETILIN preparam-se então para pegar em armas (que os portugueses deixaram). A vacuidade dos pedidos de auxílio internacional, a hipocrisia australiana com a visita do então primeiro ministro trabalhista, Gough Whitlam, a Suharto, a promessa de que a Indonésia jamais interviria no processo de Timor, os americanos a aumentarem as suas vendas de armamento ao regime javanês.      As imagens mostram que já não há guerra civil, trata-se de escaramuças nítidas das forças armadas da FRETILIN contra milícias indonésias. Os preparativos da invasão, a preparação para a impossível defesa, os votos de luta até à morte contra o invasor indonésio.      O filme percorre as manchetes dos jornais, as declarações políticas em várias capitais do mundo, depoimentos vários de testemunhas que, à data, se encontravam em Timor. A inoperância do regime português, a indiferença cúmplice do regime de Camberra, a campanha indonésia denegrida dos timorenses como perigosos comunistas (que nunca foram nem seriam), os últimos retoques para a invasão, até à morte dos cinco jornalistas australianos que testemunhavam em reportagem televisiva as forças invasoras antes de elas terem, oficialmente, declarado a sua intervenção.      Segue-se a declaração fugaz de independência a 28 de Novembro de 1975 para o que seriam apenas nove dias de libertação do jugo colonial. O hastear da bandeira colonial, pela primeira vez em mais de 460 anos de colonização.      Depois passa-se para a visita a Suharto, do então presidente norte-americano Gerald Ford, em plena véspera da invasão, documentos secretos mostrando o conhecimento e o aval dado pelos americanos a essa invasão.      A película percorre depois as imagens terríveis da invasão, a mortandade, as campanhas no estrangeiros dos líderes nacionalistas tentando alertar o mundo mudo para o que se estava a passar fora dos circuitos visuais de um Ocidente preocupado com o efeito dominó do comunismo na Ásia. Entrevistas com governantes e diplomatas tentando, agora, depois de todos estes anos, explicar que as suas atitudes de então eram justificadas face aos dados existentes à data.      Depoimentos vários de sobreviventes, a outra face da miséria no Jamor, e os percursos infindáveis de Ramos Horta nas Nações Unidas e no Comité de Descolonização, de Nova Iorque a Genebra. As forças nacionalistas a tentarem o apoio dos países lusófonos africanos (PALOP’s) mantendo a sua voz para que esta fosse ouvida nos corredores do poder mundial.      Do outro lado da imagem, a segunda colonização, mostrando Suharto a inaugurar a televisão em Timor Timur, a pompa militarista e opressora dos novos colonos, dispostos a tudo destruir e matar para justificar a sua injustificável invasão.      As imagens mostram as cerimónias de rua com mais bandeiras indonésias do que povo, caras indonésias (que não timorenses) aclamando o opressor; a pretensa melhoria de condições de vida proclamada por Jakarta. As câmaras confrontando políticos, nacionalistas e diplomatas em Nova Iorque, Genebra, Lisboa, Camberra, Harare e Maputo. A falta de meios humanos e materiais para os nacionalistas manterem a sua pressão para que o problema não caia no esquecimento. As comparações da cobertura jornalística mundial ao Camboja e a quase ignorância total sobre Timor. A incongruência do presidente Carter se ter momentaneamente esquecido dos direitos humanos para aprovar nova venda de armamento à Indonésia, para que esta pudesse aumentar a sua repressão a Timor.      As votações da ONU, as pressões sobre pequenos países para não votarem contra a Indonésia sob ameaças de cortes de auxílio económico. Horta perambulando entre a ONU e o seu humilde apartamento em Nova Iorque. Imagens potentes entremeadas de entrevistas e depoimentos de dezenas de personalidades. O filme termina com Ramos Horta a sair uma vez mais em busca de nova missão para que a voz do povo de Timor Leste possa ser ouvida e não caia no esquecimento fácil dos fazedores de notícias.      As imagens bem entrelaçadas com depoimentos de inúmeras personalidades mostram bem o porquê do título ‘Buried Alive/Enterrados Vivos’. Um povo traído que se recusou a ser vencido e que jamais deixou de lutar mantendo e querendo a sua voz forte para que um dia a ouçam.      Falamos com Gil Scrine relativamente a este documentário narrativo da saga dos timorenses. Gil apaixonou-se pela causa de Timor em 1986 quando se encontrou com Horta nas Nações Unidas. Daí surgiu a ideia deste filme mais do que um documentário. Depois, sem apoios financeiros, foi a luta constante e o gasto de várias dezenas de milhar de dólares (milhares de contos) para concretizar o plano de filmagens decorrendo de Lisboa a Nova Iorque, Genebra, Sydney, Harare, Maputo, Washington, Camberra, Perth e Darwin.      A apatia das autoridades portuguesas que até ao último momento não havia autorizado a utilização do tema ‘Grândola, Vila Morena’ para tema das imagens da revolução, foram alguns dos milhentos problemas encontrados por Gil.      Para ele “ não se compreende o silêncio e apatia dos australianos face ao problema de Timor ” salientando, no entanto, que obteve bastante apoio de jornalistas portugueses e de refugiados timorenses para a filmagem e narração. “ Todos os povos podem beneficiar desta lição exemplar que o filme retrata, pois ela simboliza não só o termo do Grande Império Colonial Português, como a invasão, e as manipulações das grandes potências contra a vontade soberana de um povo ”, assim comentava na altura Ramos Horta, manifestando-se “ satisfeito com o filme ” e anunciava então que iniciava uma nova meta da sua carreira por ter sido nomeado Director Executivo do programa de Estudos Diplomáticos da Faculdade de Direito da Universidade de Nova Gales do Sul.      Com efeito, nomeado em 1 de Julho de 1989, Ramos Horta iria passar os anos seguintes a leccionar, preparação e treino em diplomacia e política internacional, aos povos indígenas da região, às minorias étnicas e aos timorenses em particular, em área tão distintas como Direito Internacional, Direitos Humanos, Prática Diplomática e de Negociações.      O programa recebeu o apoio unânime da academia estadual e visa perspectivar os âmbitos de acção daqueles grupos nos meandros da política internacional. Ramos Horta é licenciado em Relações Internacionais com especialização em Direito Público Internacional pela Universidade de Colúmbia. Anteriormente havia sido investigador e conferencista na Universidade de Oxford em 1988, tendo sido leitor visitante no Instituto Superior Universitário de Relações Internacionais do Maputo, especializado em política externa a partir de 1980. Em Outubro de 1990 lançou o seu livro ‘Timor - Amanhã em Dili’ uma versão actualizada do livro em inglês ‘FUNU - a saga inacabada do povo de Timor Leste’, publicado em Nova Jersey em Janeiro de 1987. Depois de muitas andanças internacionais acabou por ser agraciado em 1996, juntamente com D. Carlos Filipe Ximenes Belo, Bispo de Timor, com o Prémio Nobel da Paz.      Relativamente ao filme, afirmava então Horta que este projecto fílmico de Gil Scrine não podia nem devia ser considerado como uma autobiografia inacabada, mas antes como um retrato incompleto que só terminará quando os timorenses puderem regressar à sua pátria. Até lá e como João Carrascalão nos afirmava então. “A luta continua e o inimigo é só um: a Indonésia”.      O então Secretário de Estado da Imigração e das Comunidades Portuguesas, Correia de Jesus afirmava com o embaixador de Portugal, José Luís Gomes “ a minha casa é a vossa casa até que possam regressar à vossa ”. A data era incerta mas a vontade de muitos portugueses e australianos era já então a de os timorenses terem direito ao seu lar. Essa também uma das fortes mensagens do filme, que foi o segundo sobre a saga dos timorenses. Ambos realizados por australianos e nunca exibidos comercialmente em Portugal. O que motiva a falta de interesse dos cineastas e produtores portugueses naquela saga? Será que, tal como os políticos portugueses, serão os últimos a acordar e a darem conta de que o problema de Timor existe? Outra questão que se podia por é a de aqueles filmes não terem sido exibidos em Portugal, mas decerto os directores das cadeias de televisão sabem mais do que aquilo que não dizem.      Os anos passaram desde que inicialmente escrevemos todas estas crónicas mas apesar de todas as mudanças mundiais desde a queda do ‘Muro de Berlim’ , ao fim da Guerra Fria uma coisa porém se mantém imutável: a vontade dos timorenses se autodeterminarem e terem a independência a que têm direito, a intransigência dos indonésios durante os 32 anos do regime Suharto e a inoperância das instâncias internacionais em encontrar uma solução justa para o problema. CRÓNICA XXIII A BACIA DO PACÍFICO NO SÉCULO XXI [112] 1. A AUSTRÁLIA NA PRIMEIRA PESSOA      A Austrália celebra o seu centenário como nação, em 2001, com uma identidade e um sentimento profundo daquilo que alcançou. No passado, foi uma nação orgulhosamente consciente das suas origens como a maior colónia europeia na região Pacífico-Asiática. A sua população de 17,8 milhões representa 151 nações e é uma das nações com maior diversidade étnica em todo o mundo, cujos laços com a região Pacífico-Asiática tem perseguido de forma desenfreada desde que o 1 Ministro Trabalhista, Bob Hawke chegou ao poder em 1983, e depois pelo seu sucessor, Paul Keating, derrotado nas eleições de Março de 1996, pelos conservadores de John Howard.      A democracia australiana marcada desde as primeiras legislaturas coloniais por um espírito equalitário confrontou o desafio da diversidade cultural com um mínimo de tensões e conflitos. Inicialmente, a jovem nação explorou os seus vastos recursos naturais, para neste século se dedicar à manufactura e à produção de serviços, para exportar para a região. Estas duas tendências criaram o actual clima socioeconómico que levou a Austrália à APEC, uma parceria de desenvolvimento, denominada “Cooperação Económica Pacífico-Asiática” , que abarca já 18 países. Muitos organismos internacionais e multinacionais estabeleceram os seus centros de actividade regional, tendo mais de uma centena estabelecido as suas sedes regionais de operações e gestão na Austrália. Foram atraídas pelas condições competitivas de comunicações, nível de vida e facilidade de instalar aqueles centros regionais.      Mudanças fundamentais na economia e nas relações industriais produziram uma nova mentalidade, que visa exportar através de uma mão-de-obra mais flexível e infra-estruturas mais eficientes. Na indústria automóvel houve uma reestruturação drástica conjunta, do governo e da indústria, reduzindo o total de manufactores de cinco para quatro, e o total de modelos foi reduzido de treze para seis. Este programa ofereceu incentivos para exportar, com o sector industrial a criar projectos para a exportação de 40 mil viaturas em 1996, das quais cerca de 60% produzidas pela Toyota Motor Corporation Australia Lda. Esta investiu mais de 400 milhões de dólares australianos na sua nova linha de produção de automóveis, a primeira a ser estabelecida desde há 30 anos e, que exportará veículos para seis países do Médio Oriente e para o Sudeste Asiático.      Os australianos continuam a praticar inúmeras actividades ao ar livre, as quais se podem efectuar ao longo de todo o ano e a contar com a participação incrementada de todas as suas comunidades étnicas em todo o tipo de desportos. A Austrália participou em todos os Jogos Olímpicos, desde o seu início, e Melbourne, capital do estado de Vitória, organizou as Olimpíadas de 1956. Sydney, a mais antiga e maior cidade australiana organizará as do ano 2000 e as Para Olimpíadas (Handicapped Olympics ou Olimpíadas dos Deficientes).      Para os turistas, a Austrália é um destino cada vez mais favorecido, com mais de 3,5 milhões de visitantes em 1994, indo a regiões remotas, especialmente a Grande Barreira de Coral no norte da Queenslândia e o espectacular Ayers Rock na Austrália Central, mais conhecido actualmente pelo seu nome aborígene de Uluru. 2. DE NAÇÃO ABORÍGENE ISOLADA A COLÓNIA      Em 1788, uma década depois da redescoberta, pelo britânico Capitão James Cook, do continente inicialmente habitado por centenas de tribos aborígenes, visitado por chineses, povos de Macassar (Celebes/Sulawesi), portugueses, holandeses e franceses, estabeleceu-se a primeira colónia britânica na Baía de Sydney, marcando assim o começo de uma era e o fim de outra.      Durante mais de 60 mil anos os povos Aborígenes e das Ilhas Torres viveram no continente de uma forma materialistamente simples, mas socialmente complexa, numa cultura ambientalista, protectora dos recursos naturais do maior continente-ilha. Alguns, vivendo no norte da Austrália, mantinham laços com povos da Papua Nova Guiné e com navegantes de Macassar, mas a maior parte vivia em paz e isolamento até que a exploração europeia se iniciou, em princípio do século XVI, naquilo que então se chamava de busca pelas “Grandes Terras do Sul”, depois de ‘descobertas’ as Ilhas do Ouro e das Especiarias, numa região que se estende do actual sudeste asiático ao corrente arquipélago indonésio.      Os europeus chegaram a estas plagas, através da língua e cultura portuguesas e a este continente-ilha entre 1521 e 1525, numa expedição de três naus comandadas por Cristóvão de Mendonça. Eles foram os primeiros europeus que aqui arribaram, navegaram e traçaram cartograficamente mais de da costa australiana. Isto passou-se meio século antes dos holandeses e cerca de 250 anos antes dos franceses e ingleses consumarem idêntico feito.      Aliás, em Julho de 1993 foi inaugurada na pitoresca cidade de Warrnambool, 200 km. a sul de Melbourne, uma mini réplica da nau de Cristóvão de Mendonça, que muitos pensam estar enterrada nas dunas daquela cidade costeira. A réplica miniatura foi patrocinada pela cadeia local da McDonalds, tem 16 metros de comprimento e 4 de largura, mas não é de mogno como o original, que em 1521 largou da Malásia.      Recorde-se, que até finais do século passado, várias dezenas de relatórios - de aborígenes e colonos - dão conta da existência de uma nau que não era inglesa, francesa ou holandesa pela sua construção, e desde então, todas tentativas científicas ou amadoras para descobrirem os seus restos foram goradas.      Também a descoberta nas últimas três décadas de dialectos com uma origem portuguesa e da existência de gramática em dialectos aborígenes, pelo Prof. Carl von Brandenstein, justifica a prova da existência de uma colonização portuguesa na área dos montes Kimberley, na Austrália Ocidental. Até então, nunca nenhum dos cerca de 600 dialectos e sub-dialectos aborígenes revelara uma existência de regras gramaticais, e muito menos que esta fosse lusíada e não anglófona como seria, quiçá, óbvio.      Nenhuma das tribos aborígenes tem regras gramaticais tão formais como as dos aborígenes Yawujibarra, cujo último descendente faleceu em 1987. E o professor afirma: A maioria das tribos aborígenes australianas dispõe de conceitos ergativos onde a ênfase se concentra na acção verbal sobre o objecto. Contrastando com isto, as tribos Ngarluma, Karriera e outras utilizam um conceito verbal europeu, com ênfase na acção nominativa do sujeito e o objecto no acusativo. Isto torna-se ainda mais interessante ao verificarmos que estas tribos utilizam a voz passiva, inexistente em qualquer outra tribo australiana. Outra peculiaridade no triângulo tribal Ngarluma-Karriera é a existência, no seu vocabulário, de palavras de origem Portuguesa, que já não são consideradas como estrangeiras pelos aborígenes contemporâneos.      De uma lista de palavras idênticas às suas versões portuguesas seleccionei aqui apenas 16, salientando o comentário daquele erudito linguista germânico que as estudou: ”Elas não têm paralelo com outros termos noutros dialectos aborígenes.” [113]   (P) tartaruga  –  (N, K) thatharuga (P) chama  –  (N, K) thama (pronunciado tchama) (P) fogo/fogueira  –  (N, K) pugara (pron. fugara), (Y) puua/pughara (P) cinza  –  (N, K, Y) tynda (pron. cindza) (P) monte  –  (N, K, Y, PNj) monta/manta (P) fundo  –  (N, Y) punda (pron. funda) (P) paludismo  –  (N) paludi (significando águas paradas, pântano, poça) (P) mal  –  (N) malu (significando mal, diabo, raia, cobra má que morde) (P) pintura  –  (K) pintyura (significando linha, desenho) (P) tardar  –  (N, Y) thardari (significando tornar-se lento, hesitar, demorar) (P) manjouro  –  (N, K) mandyara, manyara, manya (pron. manjiara/manja significando caminho, calha para comer/beber) (P) caçoila/caçarola  –  (N) Kadyuri (pron. caçiula) (P) perdição  –  (N, K, Manduthurnira) perdidya/perdalya/perdadya (significando vingança, morte secreta, combate mortal, perda mortal) (P) bola  –  (N, K, Y) bula (significando redonda) (P) tecto  –  (N, K) thatta (significando tecto) (P) por  –  (N, K) puru (significando através, atrás, por trás, sob, utilizado como aposição)        Os povos Aborígenes e das Ilhas Torres foram desapossados de suas terras e rapidamente se tornaram num núcleo minoritário e disperso, após o estabelecimento, pela Inglaterra, da primeira colónia penal na Austrália, em 1788. A população nativa era de 750 mil pessoas, aquando do primeiro contacto com os Europeus, mas no início do século XX era inferior a 100 mil.      As políticas governamentais só na década de 60 (1960) tomaram em linha de conta que as culturas aborígenes eram únicas, e iniciaram, então, o planeamento de estratégias nacionais a elas relativo, conquanto existam ainda várias divergências entre o governo e os recipientes das suas políticas. Tais divergências manifestam-se ainda entre grupos aborígenes urbanos e não urbanos, os quais estão fartos de serem comandados à distância por hordas de funcionários, que em vez de Anglo Celtas - mesmo alguns bem intencionados - preferem ser eles a gerir os fundos necessários para melhorar as condições de vida das suas gentes.      O governo criou a Comissão para os Assuntos Aborígenes e das Ilhas Torres (ATSIC, Aboriginal and Torres Strait Islanders Commission), a fim de dar aos povos indígenas uma certa forma de autonomia governativa dentro das suas comunidades, e introduziu legislação para fazer cumprir uma recente decisão do Supremo Tribunal Australiano que concede, aos povos Aborígenes e das Ilhas Torres, o direito de reclamar a titularidade das terras com as quais mantiveram um relacionamento tradicional. Foi também criado um Fundo de Terras Aborígenes para adquirir à Coroa Australiana terrenos em nome das comunidades aborígenes.      Todas estas iniciativas, ainda em fase inicial, mantêm os cerca de 257 mil nativos cheios de privações económicas, de saúde, em especial fora dos centros urbanos, onde a esperança de vida à nascença não atinge sequer os 47 anos de idade. Mais de da população desempregada e não empregável, sendo a taxa de mortalidade infantil idêntica à dos países menos desenvolvidos do mundo, e com uma taxa de alcoolismo crónico endémica. 3. A DIVERSIDADE NUMA SOCIEDADE MULTICULTURAL      No período colonial e após a independência, a Austrália era de cariz europeu, ainda muito ligada às suas origens britânicas. Nessa altura foram introduzidas reformas políticas, que na época estavam ainda em fase de discussão na Europa, criando uma igualdade de direitos e de oportunidades para todos os cidadãos. Em finais de 1850 todas as colónias australianas, menos uma, haviam estabelecido o voto secreto. As mulheres ganharam o direito a voto em 1908, e foi, então, aprovado o pagamento de salários aos políticos, encorajando um crescimento de uma representatividade parlamentar equalitária.      A Austrália, dada a sua relação umbilical com o Reino Unido, tomou parte , voluntária e voluntariosamente, na 1 Grande Guerra e em especial na Campanha de Gallipoli (Turquia), e criou um nacionalismo latente, sem afectar os laços tradicionais com o Reino Unido. A 2 Grande Guerra e a ameaça de invasão nipónica levaram o governo australiano a interrogar-se sobre a utilidade de depender da Inglaterra e dos EUA para a sua defesa territorial e para a sua segurança militar face a ameaças externas.      Os sucessivos programas de imigração, após a 2 Grande Guerra, tiveram um impacto devastador nas tradições Anglo Celtas. A entrada de pessoas provenientes de países de língua não Inglesa, da Europa e do Médio Oriente, que se seguiu aos que haviam emigrado depois da 2 Grande Guerra, criou uma maior diversidade populacional. Em 1973, foi finalmente abandonada a política de uma “ Austrália Branca ”, a qual vinha sendo seguida por vários governos desde a Federação (1901), tendo provocado um influxo reduzido mas significativo de asiáticos Recorde-se, que até então, para excluir potenciais imigrantes, estes eram submetidos a questionários sobre a Austrália (numa qualquer língua europeia, mas invariavelmente) em Gaélico (língua tradicional da Irlanda e do País de Gales e da qual existem - ainda hoje - apenas uns milhares de pessoas capazes de a falarem, escreverem ou lerem).      O recenseamento nacional de 1966 assinalava que 1,3% de todas as pessoas nascidas no estrangeiro era oriunda da Ásia e do Pacífico. O recenseamento de 1991 assinalava que 27,7% era daquela origem e demonstrava que mais de 150 nacionalidades estavam agora representadas dentre os 3,7 milhões de residentes nascidos no estrangeiro.      A Austrália é uma sociedade verdadeiramente multicultural, com mais de 40% da sua população e seus filhos nascidos no estrangeiro. Sucessivos governos australianos criaram condições especiais para satisfazer esta diversidade populacional. A SBS - Special Broadcasting Service - proporciona serviços de televisão e rádio multilingues em toda a Austrália. Em 1989, o governo delineou a sua “Agenda Nacional para uma Austrália Multicultural”, proporcionando um programa de 20 milhões de dólares, destinado a reconhecer a diversidade cultural das comunidades australianas, reforçando medidas tais como programas de Inglês para pessoas cuja língua é outra que não o Inglês, e melhorando os meios e fórmulas de reconhecimento de qualificações estrangeiras para o mercado local.      Várias outras iniciativas foram também implementadas, em áreas de serviços comunitários e saúde, autarquias, educação sobre os direitos do consumidor e assuntos relativos a milhares de emigrantes. O montante total disponibilizado pelo governo para tais iniciativas decresceu em termos reais, de forma assustadora, nesta última década, e à medida que a população vai envelhecendo, os encargos com a Segurança Social - de que falaremos adiante - aumentam, sem igual contrapartida por parte da população activa e contribuinte.      O então 1 Ministro, Paul Keating afirmou na Conferência sobre Diversidade Cultural Global, em Sydney em Abril 1995, que “ a experiência multicultural havia ensinado os australianos a gerir a diversidade cultural”. “Nós gostamos de pensar ” - disse, “ que poderemos ter na nossa nacionalidade moderna, pelo menos, alguns dos elementos modelo para o século XXI: diversidade, tolerância, abertura e um ar mundano dentro das fronteiras do interesse nacional e, coesão .” 4. SEGURANÇA SOCIAL      A Austrália foi pioneira no campo da segurança social, ao introduzir pensões de velhice e invalidez, em 1910 e subsídio de maternidade em 1912. Hoje, existem esquemas para todas as pessoas sem rendimentos suficientes, seja por motivo de idade, invalidez, desemprego ou para crianças com um só progenitor, oferecendo formação profissional aos desempregados como forma de entrada ou reentrada no mercado laboral.      Cerca de 5 milhões de australianos têm direito a benefícios de Segurança Social, e os gastos sectoriais em segurança social no ano fiscal de 1994-1995, foram de 15,1 mil milhões de dólares, ou seja aproximadamente 36% do total do orçamento federal. A pensão de velhice para uma pessoa só, é paga aos homens que tenham atingido a idade de 65 anos e às mulheres com mais de 60, à taxa de 25% do vencimento médio semanal, sendo sujeita a um teste de bens e rendimentos. A pensão de família é paga às famílias com filhos, com um subsídio suplementar para aquelas que tenham baixos rendimentos. O serviço de saúde, Medicare, proporciona serviços subsidiados em 85%, para a comunidade em geral, e serviços totalmente gratuitos para aqueles que recebem pensões. 5. DIREITOS HUMANOS      A Constituição Australiana pouco consigna aos Direitos do Homem e dos Cidadãos, mas a necessidade de acompanhar os aspectos étnicos, culturais e religiosos dos vários grupos comunitários, obrigou à criação de legislação e instituições para protecção dos direitos humanos. O Decreto Lei de Discriminação Racial de 1975 e o decreto Lei de Discriminação Sexual de 1984 proíbem preconceitos raciais ou discriminação sexual. A Comissão para os Direitos Humanos e Igualdade de oportunidades foi criada em 1986 para implementar aqueles decretos e o decreto-lei da Privacidade entrou em vigor em 1988, visando direitos humanos, igualdade de oportunidade e tratamento em áreas laborais e ocupacionais. Aquela Comissão vigia o cumprimento de uma variedade de acordos internacionais, incluindo o Acordo Internacional sobre Direitos Civis e Políticos e, a Convenção sobre a Discriminação no Emprego e Ocupações. 6. O DESAFIO AUSTRALIANO      A Austrália tem uma área de 7 682 300 quilómetros quadrados, quase idêntica à área continental dos EUA (excluindo o Alasca) e duas vezes maior do que a Índia e o Paquistão juntos. É uma das massas continentais mais antigas, com uma história geológica datando de há 3,5 milhões de anos. É o continente mais plano e, depois da Antárctica o mais seco. A falta de pluviosidade no interior e um clima agreste foram responsáveis pela concentração de 80% da população, numa faixa estreita costeira de terras baixas, concentrada a sudeste e sudoeste do continente e a qual não representa mais do que 3% da área do continente. A baixa pluviosidade afectou também a natureza das indústrias primárias. Dois terços do continente dedicam-se a indústrias agrícolas e pastorais, mas menos de 10% dessa área é utilizada em áreas de cultivo e pastorícia. O restante é destinado a alimentação de gado em zonas pastorícias nativas. Um terço do continente é desértico ou semidesértico. 7. RECURSOS NATURAIS E DESENVOLVIMENTO      A forma da massa continental é um largo planalto com encostas suaves e algumas áreas mais elevadas, em especial ao longo da Grande Cordilheira Divisória que percorre a costa oriental, desde a parte mais norte da Queenslândia até ao sul da Tasmânia. Quando os primeiros exploradores atravessaram a Grande Cordilheira depressa se aperceberam que a falta de grandes cursos fluviais impedia um crescimento populacional no interior do continente. Os colonos, que a eles se seguiram, encontraram outras oportunidades: as terras baixas do oeste até ao deserto Central eram óptimas para criar carneiros com a melhor lã para exportação: a espinha dorsal do comércio durante mais de um século.      Os exploradores iniciais acabaram também por descobrir ouro e outros minerais os quais criaram um grande desenvolvimento. A corrida ao ouro, após 1850, trouxe mais de um milhão de colonos livres para Vitória e duplicou, numa década, a população de Nova Gales do Sul, Austrália Meridional e Queenslândia. Mais tarde, a exploração para zonas mais remotas do continente veio a provar ser ali que se encontrava a maior parte da riqueza em minério e fontes de energia. O ouro foi descoberto na Segunda metade do século XIX nos montes Kimberley, no norte da Austrália Ocidental, e em Kalgoorlie, na metade sul, já bem perto do Grande deserto Vitória.      A descoberta de depósitos de chumbo e zinco, em Broken Hill na zona ocidental de Nova Gales do Sul, em 1883 e, mais tarde, descobertas de cobre, chumbo e zinco nos Montes Isa no noroeste da Queenslândia, criaram enormes indústrias exportadoras e o estabelecimento de grandes centros populacionais nas áreas mais remotas do interior, a que os australianos chamam ‘outback’. Um novo surto mineiro teve o seu início em 1960 quando foram descobertos vastos depósitos de bauxite, minério de ferro, níquel e areias minerais nas áreas mais remotas do interior da Austrália Ocidental e da Queenslândia. 8. VIDA ANIMAL      Com o seu longínquo isolamento de outras massas de terra, o continente australiano tornou-se num santuário de fauna rara, em especial para marsupiais tais como o canguru, Koala, vombate (wombat), ornitorrinco (platypus) e papa-formigas. Estes mamíferos protegem as suas crias em bolsas. Existem cinquenta espécies de canguru, desde os que atingem a altura do homem aos que têm o tamanho de um gato. Existem cerca de 500 tipos de aves nativas, desde a ema (emú) - incapaz de voar com os seus quase dois metros de altura -, ao pássaro lira - um belo espécime plumoso cujas penas da cauda se assemelham a uma lira -, ao pássaro seda, que constrói largos ninhos nas florestas tropicais e , ao pássaro sino, cujo canto suave pode ser ouvido no sul da Austrália. 9. O AMBIENTALISMO      Mais de 5% de toda a área do continente está reservada à conservação da natureza, existindo onze áreas na lista de Património Mundial das Nações Unidas. Existem mais de 500 parques nacionais e mais de 2700 áreas de conservação, desde os santuários de vida animal selvagem até reservas aborígenes, protegidas por legislação federal e/ou estadual. A Austrália foi um dos primeiros países a assinar a Convenção do Património Mundial, sendo o único país a introduzir legislação para cumprir as suas responsabilidades sob os termos da Convenção.      Quatro das zonas australianas do Património Mundial: a Zona da Vida Selvagem na Tasmânia, Shark Bay (‘A Baía dos Tubarões) na Austrália Ocidental, a Grande Barreira de Coral ao largo do norte da Queenslândia e as zonas tropicais húmidas da Queenslândia, estão em conformidade com os quatro critérios necessários para registo de fenómenos naturais. Só existem no mundo, outras oito áreas que satisfazem todos os critérios. Duas das áreas consideradas Património Mundial são Kakadu e Uluru, no Território Norte da Austrália, ambas geridas conjuntamente pelos seus proprietários ancestrais - os aborígenes - e, pela Agência Australiana para a Conservação da Natureza. Uluru (anteriormente conhecido como Ayers Rock, mas agora com o seu nome original) é uma das maiores atracções turísticas da Austrália e um espectáculo único.      As zonas de Património Mundial e os Parques Nacionais salvaguardaram a preservação de várias florestas tropicais ao longo da costa australiana. As zonas tropicais húmidas da Queenslândia, que se estendem por 500 quilómetros, numa luxuriante região de 894 mil hectares, proporcionam o único habitat para muitas espécies raras de animais e plantas, contendo a maior diversidade de espécies animais do continente. As florestas tropicais, na zona centro leste, abrangem mais de 50 áreas no sul da Queenslândia e a nordeste de Nova Gales do Sul, preservando um exemplo excepcional de florestas subtropicais, com mais de 170 espécies de plantas raras ou ameaçadas. A zona selvagem da Tasmânia, no sudoeste do estado, protege pinheiros Huon com mais de dois mil anos e nela se encontram alguns dos últimos rios bravos em todo o mundo. 10. A AUSTRÁLIA VERDE      A agricultura nas encostas costeiras e nos planaltos do interior teve um grande impacto negativo na protecção que as árvores concediam aos solos. A Associação Nacional Pró Conservação ‘Landcare’ calcula que os solos sob árvores com mais de dez metros de altura se reduziu a metade e que a zona florestada nos planaltos se reduziu a um terço.      Em 1989, o governo federal concedeu 50 milhões de dólares para plantar mil milhões de árvores em toda a Austrália, até ao ano 2000, tendo contratado o organismo nacional ‘Greening Australia’ (‘Tornando a Austrália Verde’) para organizar o projecto, em cooperação com a Landcare e um grupo nacional de voluntários de projectos de conservação, para plantar 550 milhões de árvores nos primeiros quatro anos e tentar exceder o seu alvo em 300 milhões de árvores. O protocolo federal com todos os estados e territórios, relativo à política nacional de florestação, mantêm uma política de gestão dos recursos florestais, para controlar a exportação de aparas de madeira e a banir o corte de árvores em zonas não incluídas naquele protocolo. 11. A DEMOCRACIA AUSTRALIANA      O sistema de democracia australiana teve o seu início em duas grandes tradições democráticas. A seguir à colonização britânica, em 1788, o modelo de Westminster foi utilizado como base de governo nas seis colónias separadas que durante o século XIX se estabeleceram no continente. Quando estas colónias se reuniram em 1890, para discutir a formação de um governo nacional, decidiram estabelecer um relacionamento entre o governo nacional e os estaduais, semelhante ao dos Estados Unidos da América. Ao mesmo tempo, mantiveram o modelo de Westminster como base legislativa, executiva e judicial aos níveis estadual e nacional. A tradição norte-americana está espelhada na Constituição e define os poderes do governo federal. A Federação, criada em 1901, necessitou do consentimento do Parlamento britânico, existindo actualmente seis Governos Estaduais e dois Territórios governados autonomamente, através de parlamentos. 12. A CONSTITUIÇÃO      As convenções constitucionais da década de 90 (1890), ratificadas pelas seis colónias deram origem à Constituição, que reserva para o governo federal poderes sobre a defesa, negócios estrangeiros, comércio, fisco, aduanas e taxas aduaneiras, pensões, imigração e serviços postais. Existem outros poderes conferidos aos governos estaduais, mas a lei federal prevalece, se houver um conflito de poderes. O governo federal tem ainda poderes de impor aos Estados o cumprimento de obrigações australianas resultantes de tratados internacionais.      A Constituição investe os poderes executivos do governo num Governador Geral, representando a Coroa Australiana (Rainha Isabel II da Inglaterra e I da Austrália). Apenas uma vez, em 1975, o Governador Geral exonerou um governo nacional eleito. A Constituição pode apenas ser alterada se, ambas as Câmaras do Parlamento Federal estiverem de acordo para um referendo nacional, e isso, só é possível se houver uma maioria nacional e em quatro dos seis estados. Desde 1901 já houve 43 propostas de alteração constitucional, mas apenas nove tiveram sucesso, sendo a mais recente a que aprovou a substituição da monarquia pela república no início do século XXI.. 13. O GOVERNO FEDERAL E O PARLAMENTO      O governo nacional é à semelhança da tradição britânica. A legislatura federal consiste numa Câmara de Representantes e num Senado. A Câmara de Representantes tem 147 membros, representando eleitorados individuais em todos os estados e territórios, sendo eleita por um sistema de voto preferencial e o Senado tem doze representantes de cada estado e dois de cada território, também eleitos por voto preferencial.      O partido com a maioria na Câmara de Representantes propõe um gabinete ministerial, escolhido dentre os seus membros na Câmara de Representantes e do Senado, sendo o 1 Ministro tradicionalmente proveniente da Câmara de Representantes. A representação desta é normalmente dividida entre os Trabalhistas e uma coligação do Partido Liberal e do Partido Nacional (este de base rural). Existem eleições de três em três anos, mas podem ocorrer mais frequentemente com o assentimento do Governador Geral.      O Senado, com maior diversidade, mantém os dois principais grupos políticos em maioria, mas Democratas e outros partidos minoritários, têm detido a balança do poder nos últimos vinte anos. Se o governo não detiver uma maioria na Câmara de Representantes terá de pedir ao Governador Geral a realização de novas eleições ou demitir-se, mesmo se não detiver uma maioria no Senado. Os Senadores são normalmente eleitos por períodos de seis anos.      Cada Ministro de Estado é responsável, perante o Parlamento, pela acção do seu ministério, e nalguns casos, conjuntamente com outros ministros. A fusão de alguns ministérios (criando os super-ministérios) na última década resultou num aumento de responsabilidades para os maiores ministérios e o seu ministro titular, o qual passou a ser coadjuvado por um ou mais ministros dentro do seu ministério. Existem várias agências estatutárias, corporações, tribunais e comissões no sector público federal, as quais são directamente responsáveis perante um determinado ministro.      A Austrália é um dos poucos países que adoptou o sistema de voto obrigatório a nível nacional e estadual e que dispõe de uma Comissão Eleitoral permanente, a quem compete verificar se as eleições são justas, controlando a redistribuição das fronteiras de cada eleitorado para a Câmara de Representantes. Isto garante, sempre que possível, o mesmo número de eleitores em cada eleitorado. A Comissão Eleitoral permanente administra ainda os fundos públicos para os partidos políticos oficialmente registados e para os candidatos independentes que a eles tenham direito. 14. GOVERNO ESTADUAL E GOVERNOS LOCAIS      Os governos estaduais têm instituições semelhantes às do governo federal. Cada um tem o seu Governador com poderes semelhantes aos do Governador Geral, existindo em cada estado uma Câmara Alta e uma Câmara Baixa, à excepção da Queenslândia (apenas com uma Câmara), operando todas no sistema de gabinete governamental britânico. Os territórios autónomos (Território do Norte e Território da Capital Federal) também têm os seus governos e câmara legislativa, mas com poderes mais limitados do que os estados.      Desde a Federação, em 1901, cada vez mais poderes têm sido transferidos para o governo federal ou partilhados com os governos estaduais. O poder fiscal, exclusivo do governo federal desde há 50 anos, é o principal foco de conflito na redistribuição de rendimentos nacionais. Assuntos relativos à agricultura, educação, habitação, emprego, mineração e energia, transporte e assuntos do foro legal, distribuição de subsídios federais aos estados, em áreas tais como educação e rede viária, têm sido objecto de pareceres de comissões especiais.      Desde a sua fundação, em 1992, o Conselho dos Governos Australianos (Governo Federal, e Chefes de estado ‘Premiers’ dos Estados e Territórios) têm adoptado uma racionalização decisória, uma espécie de fórum para discussão de assuntos de ordem nacional. Este Conselho apoiou estratégias sobre o desenvolvimento ecológico viável e sobre as emissões de gás que contribuem para o efeito da estufa verde (‘Greenhouse Effect’).      Existem mais de 850 governos locais eleitos (municípios, autarquias, freguesias, etc.) que se regem por decretos parlamentares. A responsabilidade de facilidades locais: estradas, abastecimento de água, saneamento e electricidade, pertence a entidades estatutárias estaduais. O financiamento das suas actividades é feito através de subsídios dos governos federais e estaduais. 15. O SECTOR JUDICIAL      O sector judicial do governo é também descendente das tradições britânicas, com algumas diferenças importantes, derivadas da Constituição e do governo federal. Os poderes judiciais pertencem ao Supremo Tribunal, mas outros tribunais (por exemplo, o Tribunal Federal e o Tribunal de Família) foram criados pelo governo federal. O Supremo Tribunal pode lidar a nível federal ou estadual, com jurisdição sobre a interpretação da Constituição e, em disputas entre o governo federal e os governos estaduais, sendo a última instância de apelação. O Tribunal Federal actua em áreas tais como: direitos de autor, leis industriais, práticas comerciais, bancarrota e leis administrativas. O Tribunal de Família actua em casos de divórcio, custódia de crianças, manutenção de alimentos e disputas relativas a bens e propriedades relacionadas com tais casos. 16. PARA QUANDO A REPÚBLICA AUSTRALIANA?      O governo trabalhista australiano (1983 - 1996), iniciou no começo da década de 90, um processo conducente a que os australianos pudessem votar sobre se querem ou não tornar-se numa república, dando seguimento às plataformas e propostas eleitorais para a sua última reeleição em 1993. Depois, nomearam um Comité Consultivo para a República, para aconselhar quais as menores alterações possíveis de implementar e viabilizar a institucionalização de uma república, mantendo as actuais convenções e princípios de governo. Aquele Comité concluiu que a conversão poderia ser feita substituindo o monarca (Isabel II de Inglaterra e I da Austrália, representado por um Governador Geral) por um Chefe de Estado, com uma alteração constitucional, para criar o cargo de Chefe de Estado, sua forma de nomeação e demissão. Os trabalhistas afirmaram querer que o povo australiano decida por referendo se a Austrália se deve tornar em república no ano 2001 e Joh Howard viu-se obrigado depois de subir ao poder a referendar o assunto. Assim, em Fevereiro 1998 uma convenção especial de 152 membros votou por 72 votos contra 57, a favor da República devendo haver um referendo em 1999 para decidir sobre como será escolhido o futuro Presidente e quando. 17. O SÉCULO XXI PREPARADO POR REFORMAS ECONÓMICAS      A preparação da economia foi transformada pelos governos trabalhistas (1983-1996) de uma economia baseada em exportação de ‘commodities’ e de uma indústria doméstica de manufactura proteccionista, rumo a uma economia globalmente integrada, capaz de exportar manufacturas e serviços sofisticados para o mercado externo.      Desde que subiram ao poder em 1983 e até à sua saída em 1996, os trabalhistas conseguiram introduzir:       . a flutuação cambial do dólar australiano,       . a abolição de controlos cambiais,       . a liberalização do sistema bancário, com a entrada no mercado de 16 bancos estrangeiros,       . um pacto de concertação social (‘The Accord’) com o movimento sindical, destinado a obter uma paridade entre preços e vencimentos,       . um novo sistema de relações industriais, reduzindo o total de sindicatos em mais de 60% e, criando a possibilidade de acordos directos entre sindicatos e patronato, desde que haja aumentos de produtividade,       . competição no sistema monopolista de telecomunicações e, a liberalização dos transportes aéreos,       . uma redução tarifária para um nível geral de 5%, em 1996.      Dentre os resultados obtidos, contam-se:       . a redução em 13% dos custos laborais, face aos valores de 1983,       . um aumento de 40% no índice de competitividade internacional,       . um declínio nas disputas industriais, com a média anual de dias de laboração perdidos por cada 1000 trabalhadores passando de 590 (entre 1975 e 1983) para apenas 185 (entre 1989 e 1994),       . um incremento de 13% (1982) para 22% (1994) da proporção do PNB [114] resultante de exportações,       . a manutenção de um baixo nível fiscal, tornando a Austrália no 2 país com menor carga fiscal, dentre os países da OCDE,       . uma redução da inflação para a taxa planeada de 2,25% em 1994-1995, ou seja o mesmo nível que os restantes parceiros comerciais da Austrália.      Estas mudanças alteraram a mentalidade estereotipada da economia australiana e a sua reputação nacional de país em constantes disputas industriais. As reformas estruturais na indústria portuária, iniciadas em 1989, foram promovidas pelos trabalhistas com os estivadores a movimentarem mais carga em metade do tempo com menos de metade da força laboral. O patronato na indústria da estiva é responsável pela contratação directa de trabalhadores portuários, assim como na determinação de práticas de trabalho, pagamento de salários e formação profissional. A reestruturação dos contratos colectivos de trabalho implicou uma redução de 60% da mão-de-obra estivadora, que não obstante estes cortes quase paralisou de novo a nação em 1997, obrigando os conservadores de John Howard a recuar nalguns cortes mais profundos que haviam destinado a este sector, e bem mais gravosos do que os impostos pelos trabalhistas.      Estas reformas beneficiaram importadores e exportadores, e a Junta Australiana do Trigo calcula que as mesmas poupem anualmente à indústria 35 milhões de dólares: um exemplo ainda recente foi o de 61 mil toneladas de trigo destinadas ao Médio Oriente terem sido carregadas no tempo recorde de 24 horas. As reformas causaram ajustamentos penosos: na década de 80, investimentos improdutivos do sector privado e um aumento pronunciado do défice corrente implicaram uma contracção da política monetária e, a depressão - por alguns denominada apenas de recessão - tendo aumentado o desemprego para mais de 10% da força laboral. Estas reformas económicas contribuíram para uma reviravolta súbita logo que as condições económicas melhoraram a partir de 1993-1994.      O crescimento económico em 1994-1995 atingiu a previsão orçamental de 4,5% (o desemprego baixou 1,7% em 1994, o maior decréscimo anual registado desde há 30 anos). O governo introduziu também medidas para reduzir a dívida externa que se cifra em 160 mil milhões de dólares.      O governo trabalhista no seu documento estratégico “Uma Nação de Trabalho”, em Maio 1994, confrontou aquilo que o 1 Ministro da época, Paul Keating, designou “os temas inseparáveis: o desemprego e o crescimento económico”. “No seio desta afirmação”, disse Keating ao Parlamento, “está o princípio de que qualquer medida de eficiência económica deve ser experimentada, tendo em conta o grau de oportunidades e segurança de que os australianos desfrutam”.      Esta estratégia envolveu um programa de 6,5 mil milhões de dólares durante quatro anos, para apoiar trabalhadores e jovens desempregados, para acelerar reformas na educação vocacional e formação profissional. Outras medidas foram a promoção da indústria e das exportações, através da criação de programas de melhoria do sector de negócios e a concessão de incentivos e subsídios ao mercado exportador.      A estratégia de “Uma Nação de Trabalho” enfatiza a importância das trocas comerciais através do apoio dado às trocas comerciais multilaterais, do aumento dos laços com a região Pacífico Asiática, do apoio a empresas australianas em mercados estrangeiros, e do desenvolvimento de uma mentalidade cultural exportadora, em especial nas PME [115] . Uma nova entidade - ‘AUSINDUSTRY’ foi criada para melhorar a coordenação dos programas nacionais de assistência à indústria e comércio e, os ministros do comércio federal, estaduais e dos territórios, estabeleceram mecanismos que lhes permitem trabalhar conjuntamente para elevar o nível de transacções comerciais e a rentabilidade dos investimentos, incluindo a participação regular depois de 1995 da Austrália na CeBIT’ (nesse ano em Hanôver, na Alemanha.      A revisão das leis reguladoras das empresas, das práticas comerciais e a liberalização da política de investimento externo, constituem parte importante da agenda de reformas rumo à criação de estruturas capazes de encararem os desafios do século XXI. As restrições ao investimento estrangeiro aplicam-se agora à propriedade imobiliária, residencial, banca, aviação civil, meios de comunicação social e telecomunicações.      Este esforço de introduzir medidas de competitividade nas áreas da responsabilidade governamental tem tido resultados positivos. A liberalização do sector aéreo produziu uma redução de 25% no custo das passagens aéreas e, com o fim do monopólio nas telecomunicações, houve uma acentuada baixa no custo das chamadas telefónicas e uma mais vasta gama e melhoria de serviços. Os governos federal, estaduais e dos territórios concordaram, em Abril 1995, em aplicar o princípio da competitividade a todas as entidades e agências, de si dependentes, naquilo que então se designou como ‘um acordo histórico '. 18. AS RIQUEZAS NATURAIS DA AUSTRÁLIA      Durante a maior parte dos 209 anos da sua História, e em especial durante a época colonial europeia, os recursos físicos do continente proporcionaram a base de fortes trocas comerciais voltadas às exportações. O domínio tradicional das exportações rurais evaporou-se nas últimas quatro décadas, em que estas passaram de 76% do total (1953-1954) para 22,5% (1993-1994).      A Austrália foi um exportador de minério desde o início da exploração colonial, mas a descoberta de novos minerais: bauxite, tungsténio, níquel, petróleo, gás natural e urânio, vieram a incrementar de forma notória a sua importância. Os minérios constituem actualmente seis das dez ‘commodities’ mais exportadas, com 40% de todos os minérios exportados em 1993-1994 tendo sido processados para além do estádio natural ou extractivo. 19. DESENVOLVIMENTO MINERAL      As principais indústrias de minério que contribuíram para as exportações de ‘commodities’ de minério em 1993-1994 foram: Carvão: Tradicionalmente foi a fonte de produção de energia na Austrália. Dada a sua proximidade da costa leste, os vastos depósitos de carvão na Queenslândia e Nova Gales do Sul e a sua facilidade de extracção pelo método de mina aberta, favoreceram de forma notável e conveniente a sua exportabilidade. A indústria australiana aproveitou de forma oportuna estas vantagens, quando as fundições japonesas necessitaram de carvão para coque na década de 50 e início dos anos 60, tendo a extracção de carvão negro aumentado de 10,6 milhões de toneladas (1980-1981) para 178 milhões (1993-1994). O valor total de exportações, representando 58% da produção, foi de 7,2 mil milhões de dólares (11% do total de exportações), sendo a Austrália, actualmente, o maior exportador anual de carvão negro. Ferro e Aço: as necessidades domésticas de minério de ferro para a indústria do aço foram originalmente satisfeitas por pequenos depósitos na Austrália Meridional, Tasmânia e Austrália Ocidental. As exportações estiveram proibidas até serem descobertos depósitos, nos anos 50, num total de 20 mil milhões de toneladas de minério de ferro pronto para exportar, na região de Pilbara, a noroeste da Austrália Ocidental. Esta descoberta coincidiu com o crescimento da indústria acífera no Japão e deu lugar à negociação de contratos a longo prazo com a indústria de aços japonesa, o que provocou grandes projectos de desenvolvimento para a região de Pilbara. As exportações de 124 milhões de toneladas em 1993-1994 colocaram a Austrália em 4 produtor mundial de minério de ferro, a seguir à Confederação dos Estados Independentes (CIS, ex-URSS), China e Brasil. O Centro Australiano de Agricultura e Recursos Económicos (ABARE) [116] avaliou as exportações em 1995-1996 em 128 milhões de toneladas, ou seja cerca de 2,7 mil milhões de dólares. O Japão continua a ser o principal comprador, embora tenha havido um decréscimo na percentagem de minério de ferro exportado, de cerca de 90% no início da década de 80 para menos de 50% em 1993-1994. Os países neoindustrializados do Norte da Ásia beneficiaram deste declínio, substituindo a Austrália nas exportações para o Japão. A China, a República da Coreia e Taiwan (Formosa) aumentaram conjuntamente cinco vezes o valor das compras na última década, para aproximadamente 40 milhões de toneladas em 1993-1994. A indústria de aços australiana, esteve confinada ao mercado interno, mas recentes melhorias na produtividade e eficiência operacional do sector criaram um crescente mercado exportador. O principal produtor, a BHP, quadruplicou as suas exportações para 2,91 milhões de toneladas nos cinco anos anteriores a 1993-1994. Os mercados asiáticos têm sido os de maior expansão, tendo as exportações para aquelas regiões aumentado 600% nos cinco anos anteriores a 1993-1994. Bauxite, Alumina e Alumínio: o desenvolvimento das exportações australianas deve-se à descoberta na década de 50, de vastos depósitos de bauxite na Austrália Ocidental, norte da Queenslândia e Território Norte. Com recursos de bauxite utilizáveis para cerca de 4,4, mil milhões de toneladas, a Austrália detém agora 1/3 da produção mundial de alumina, sendo o quarto maior produtor mundial de alumínio. Vários programas de expansão foram iniciados e a capacidade da refinaria de alumínio de Wagerup, na Austrália Ocidental, foi aumentada para 1,7 milhões de toneladas em 1995, com um aumento de capacidade previsto para 3,3 milhões de toneladas, idêntico à da refinaria de Gladstone na Queenslândia, assim se tornando ambas nas maiores refinarias mundiais. Na produção do alumínio, o aumento da capacidade de fundição da ilha Boyne, na Queenslândia, para o dobro, atingirá 460 mil toneladas em 1997. Ouro: a Austrália é um exportador tradicional de ouro, tendo aumentado a sua produção e exploração nas décadas de 80 e 90, sendo actualmente o terceiro maior produtor mundial, a seguir à África do Sul e Estados Unidos. A produção de 255,3 toneladas em 1993-1994 criou um valor de 5,27 mil milhões de dólares nas exportações. Nos últimos 3 anos o valor económico das reservas atingiu níveis elevadíssimos e a ABARE prevê que a produção anual de ouro atinja as 375 toneladas no ano 2000. Petróleo: A Austrália não tem muita relevância neste campo, sendo 29 a nível mundial no total de reservas de petróleo e 26 em gás natural. A procura doméstica para derivados de petróleo é satisfeita pela sua capacidade de refinação doméstica, sendo 9 e 10 em petróleo cru e refinado na escala mundial de exportações. Em gás natural é 12, sendo a maior parte exportado para o Japão em regime de contrato a longo prazo. Vastas jazidas têm sido descobertas nas últimas três décadas na Austrália Ocidental e no mar de Timor e, tudo indica que tal padrão de venha a manter. 20. A INDÚSTRIA RURAL      A produção rural, embora seja ainda uma importante componente, nomeadamente de gado bovino (carne de vaca e vitela), de lã e de trigo, entre os dez maiores produtos de exportação, continua a declinar como percentagem das exportações. O açúcar, algodão e lacticínios são outros importantes produtos de exportação. Nos últimos anos, o rendimento dos produtores de lã e trigo foi seriamente abalado, por uma combinação de baixos preços mundiais e por uma prolongada seca, que abrangeu também outros produtores rurais. A ABARE prevê que com a continuação da seca em 1994-1995, o valor bruto da produção agrícola desça 4,3% e que o valor das exportações baixe 3,1%, devendo ocorrer um aumento em ambos indicadores logo que os efeitos da seca se desvaneçam. Gado Bovino (Carne de Vaca e Vitela): O Japão e Estados Unidos são os maiores importadores nesta indústria de rápido crescimento no qual a Austrália se alcandorou a 3 exportador mundial. Também a República da Coreia se tornou num grande comprador nos últimos anos, mas a seca provocou uma redução do valor das exportações em 1994-1995, com redução do valor das exportações para o Japão e Estados Unidos. Lã: É a quarta maior exportação de ‘commodities’, mas uma combinação de baixos preços e um excesso de stocks causaram um efeito negativo no rendimento dos produtores na última década, a sua produção decresceu mais 10% em 1994-1995, devido à seca, embora os preços tivessem levemente aumentado. 21. A VIRAGEM DA DIPLOMACIA E DAS RELAÇÕES COMERCIAIS A) RUMO A UMA ASIANIZAÇÃO      Gareth Evans, ministro trabalhista dos negócios estrangeiros (1988-1996) e Bruce Grant foram co-autores do livro “As relações da Austrália com o Estrangeiro”, e descrevem a posição australiana relativamente ao estrangeiro como “uma diplomacia de uma potência mediana, orientada para a zona Pacífico Asiática”, descrevendo também o enorme interesse nas esferas económicas e comerciais visando criar “um regime livre e liberal de trocas comerciais”.      A 2 Grande Guerra e em especial os acontecimentos no Pacífico, trouxeram aos australianos a mensagem de que o seu futuro estava assente nesta região do mundo. O aparecimento dos nacionalismos asiáticos, imediatamente após a guerra veio apenas reforçar tal imagem. A Austrália representou, depois de 1945, os interesses dos nacionalistas indonésios na ONU e iniciou o Plano Colombo para proporcionar auxílio económico às novas nações asiáticas. A política da Guerra Fria dominou a cena asiática durante as décadas de 50 e 60, e a Austrália centrou as suas prioridades políticas com as dos Estados Unidos e Reino Unido. Contudo, as trocas comerciais passaram, cada vez mais, para os países asiáticos, em especial quando a Austrália assinou um tratado comercial com o Japão, 1956, e a Grã Bretanha passou a voltar-se mais em direcção à Comunidade Europeia.      A eleição na Austrália do governo trabalhista de Gough Whitlam, em 1972, veio causar um afastamento da política da Guerra Fria, com o reconhecimento da China e a retirada das tropas australianas que combatiam no Vietname. Em 1976, a eleição do governo conservador de Malcolm Fraser veio dirigir a política australiana, parcialmente de volta ao regime da Guerra Fria, se bem que se tenham mantido certas atitudes independentes, iniciadas pelo seu predecessor, com um ênfase forte nas políticas humanitárias contra o apartheid na África do Sul e a favor da aceitação de refugiados do Vietname. O governo trabalhista (Bob Hawke e Paul Keating, 1983-1996) concentrou a sua atenção para os problemas regionais e a resolução dos problemas internacionais, tendo desenvolvido enorme esforço para encontrar uma solução pacífica para o problema do Camboja, e remodelou totalmente a política regional de segurança da Austrália.      A publicação, em 1987, do Livro Branco “A Defesa da Austrália” (do perito James Dibb) causou aquilo que os seus autores denominam de ‘aguaceiro conceptual’. O livro e as decisões políticas que se lhe seguiram resultaram numa política de defesa por meios próprios. Esta atinge três objectivos principais:      a teórica capacidade de defesa independente, dos territórios da Austrália;      a promoção da segurança e estabilidade regionais; e,      a capacidade de cumprir as obrigações das alianças australianas para com os outros países.      O governo, para além de uma política de ‘envolvimento construtivo’ com a Ásia Oriental rumo a uma nova estratégia diplomática, económica e de segurança, privilegia uma ‘parceria e integração’ com as economias de rápido crescimento na região, como sendo a sua maior prioridade para com o estrangeiro. Este posicionamento deve-se à noção de a Austrália, apesar de ainda revelar a sua pesada herança e uma nostalgia colonial Anglo Celta, fazer parte do hemisfério asiático oriental: uma vasta região com enormes interesses e laços comuns.      O governo desenvolveu esforços na última década para enfrentar o desafio duplo de diversificar a estrutura das exportações australianas e promover um ambiente de trocas comerciais internacionais mais liberalizado. O senador Gareth Evans, ex-ministro dos estrangeiros (1988-1996), apontava no seu livro “As Relações da Austrália com o Estrangeiro”, cinco acontecimentos recentes como principais indicadores da efectividade desta política evolutiva nos portfólios, conjuntos, dos negócios estrangeiros e comércio:       . a consolidação da iniciativa australiana APEC (Cooperação Económica Pacífico Asiática),       . sucesso na conclusão da Ronda do Uruguai,       . a organização de eleições no Camboja sob os auspícios da ONU,       . a conclusão da Convenção das Nações Unidas sobre Armas Químicas,       . a decisão de estabelecer um novo processo de diálogo sobre segurança na zona Pacífico Asiática no Fórum Regional da ASEAN [117] .      O papel da Austrália no Camboja marca o seu envolvimento na resolução de problemas internacionais, estabelecendo as suas credenciais como parceiro responsável e conhecedor, tendo o senador Gareth Evans delineado, em Novembro 1989, uma nova aproximação para a resolução política do problema. A sua proposta de envolvimento das Nações Unidas, na administração civil do Camboja demorou dois anos a concretizar-se, antes de poder ser, finalmente, firmado, em Paris em 23 Outubro 1991, o Acordo para a Resolução Total do Conflito Cambojano. B) A REFORMA DA ONU      O final de confrontos entre o Ocidente e o Leste fez ressurgir o papel da ONU no centro da cena política internacional e, a Austrália tem sido activa em propostas de alterações à estrutura da ONU, a fim desta se poder tornar naquilo que o seu estatuto original preconizava. Em 1993, na 48 Assembleia Geral da ONU, o senador Evans propôs uma agenda para cooperação no campo da segurança, tal como delineada no seu livro “Cooperando para a Paz”. No seu discurso perante a 49 Assembleia Geral, em 1994, apresentou nova agenda para a redefinição daquela organização, capaz de a transformar num agente activo e efectivo para a resolução pacífica de problemas durante a primeira metade do século XXI. Dentre as suas propostas contam-se:       . o alargamento do Conselho de Segurança a um maior número de membros,       . a criação de quatro novos postos de Adjunto do Secretário Geral, para com ele trabalharem, sendo responsáveis pelas áreas económicas, sociais, de segurança e paz , humanitárias, de administração e gestão,       . a criação do ICC - um Tribunal Criminal Internacional - com funcionamento permanente para tratar das mais severas violações da lei internacional,       . a criação no seio do Secretariado da ONU, dum serviço de resolução de conflitos, expandindo o Departamento de Assuntos Políticos, aumentando a coordenação e troca de informações entre os vários sectores da agência, e com capacidade para alertar antecipadamente sobre tais conflitos.      A Austrália tem desenvolvido esforços na ONU para reforçar os mecanismos que possam evitar a disseminação de armas de destruição maciça, tendo apresentado, em 1991, um novo e completo modelo para a Convenção sobre Armas Químicas, que foi vital na Convenção de 1992. Tem sido igualmente activa na criação de um Registo de Armas Convencionais, e tem apelado para um reforço da Convenção sobre Armas Inumanas, em especial na expansão dos controles sobre a utilização de minas terrestres e sua comercialização.      A procura de uma diplomacia de potência mediana, como forma de posicionamento importante para o século XXI, tem envolvido a Austrália em vários relacionamentos com países fora do círculo daqueles que foram tradicionalmente os seus parceiros económicos e políticos: Estados Unidos, Grã Bretanha, Canadá e Nova Zelândia. O senador Evans e Bruce Grant assinalam que esta rede mais vasta na qual a Austrália se insere, se baseia numa conjuntura ou associação com países de mentalidade semelhante, com os quais partilha interesses específicos e, quaisquer que sejam os seus valores, estão interessados em tal tipo de associação para os atingir. As potências medianas podem alcançar, por vezes, o que grandes potências não conseguem.      A APEC, por exemplo, de acordo com aqueles autores, teria tido muito mais dificuldade em arrancar, se os Estados Unidos ou Japão tivessem sido os seus impulsionadores iniciais. “As políticas globais do poder”, segundo eles, “podem não ter ainda atingido a sua maturidade, mas existe um sentimento em que a diplomacia por iniciativa própria - utilizando redes de apoio e influência, em vez das graduações hierárquicas do poder - se poderá tornar uma opção, cada vez mais, atraente e preferida.” Esta, tem sido, aliás, a tónica dominante, nos últimos anos, dos países asiáticos, como resposta às pressões ocidentais para melhorias nos campos dos direitos humanos e laborais. O núcleo asiático vê os direitos laborais e humanos numa perspectiva económica versus uma noção ocidentalizada, quiçá interessada em reduzir a diferença dos custos de produção das nações em vias de desenvolvimento, e desta forma, manter uma dicotomia Norte - Sul.      Esta visão ocidental, assolada pelos custos crescentes de produção, pelas elevadas taxas fiscais e de segurança social, representando, cada vez mais, uma fracção mais elevada dos custos indirectos de produção, pretende assim elevar aqueles custos no seio das economias emergentes da Ásia: os denominados tigres e novos tigres: Malásia, Singapura, Hong Kong e Macau, Tailândia, Taiwan (Formosa), Coreia do Sul, Indonésia, Brunei e Filipinas.      A Austrália vota normalmente em bloco com os países asiáticos, nomeadamente os da ASEAN (Associação das Nações do Sudeste Asiático) relativamente a violações dos direitos humanos na região, tentando diplomaticamente explicar as diversas conceitualizações entre asiáticos e ocidentais, mas reversamente vota com o bloco ocidental no tocante aos direitos humanos nas restantes partes do globo. C) AS RELAÇÕES COMERCIAIS INTERNACIONAIS      A Austrália foi tradicionalmente uma nação comercial importante, sendo, em 1948, o sexto mais importante exportador mundial. Nas últimas quatro décadas aquela posição evaporou-se, enquanto vários governos lutavam com os ajustamentos básicos de direcção e postura australianas nos mercados internacionais e, nas últimas duas décadas, com a queda do preço das ‘commodities’. A primeira batalha foi ultrapassar a perda dos mercados tradicionais de comércio.      O sucesso de tal reorientação pode ser avaliado no rumo do comércio australiano. Em 1957, quando a Austrália assinou o seu primeiro tratado comercial com o Japão, os países que hoje fazem parte da Comunidade Económica Europeia importavam 51% do total das exportações australianas enquanto os países asiáticos importavam 21,2%. Em 1993-1994, a posição inverteu-se, com os países asiáticos a importar 58% e os europeus 13,3% do total de exportações australianas. Na última década o governo australiano tem tido um relativo êxito na região, em especial, nas dinâmicas economias da ASEAN (Associação das Nações do Sudeste Asiático), República Popular da China, Hong Kong, Japão, República da Coreia e Taiwan (Formosa). D) OS ESTRATOS DE EXPORTAÇÕES      A Austrália teve de enfrentar o seu problema básico relativo à composição das suas exportações, com as indústrias dominantes passando de uma cultura baseada na exportação de ‘commodities’ para uma, mais virada à manufactura e serviços, que constitui agora 46% do total de rendimentos da exportação. As exportações de produtos manufacturados têm crescido à taxa de 16% ao ano desde 1983, com o maior aumento nas manufacturas de transformação de telecomunicações e equipamento de processamento automático de dados, e um crescimento à taxa anual de 10%, na última década, na montagem de componentes automóveis.      A indústria de serviços tem sido um óptimo mercado exportador, catalisado pela indústria turística, com um crescimento real de mais de 12% na década terminada em 1993-1994, na qual ganhou mais de 7,7 mil milhões de dólares ou seja 42% do total de rendimentos do sector de serviços. A tecnologia de informação e a indústria de telecomunicações têm sido igualmente importantes com mais um valor arrecadado de 2 mil milhões de dólares em 1993. Um recente inquérito, feito pela Associação Australiana da Indústria de Informática prevê que as exportações sectoriais possam atingir 8 mil milhões de dólares no ano 2000. Um forte crescimento na exportação de serviços tem servido para baixar, de forma significativa, o défice da balança de serviços, que tendo atingido 1,6% do PIB [118] na década de 70, baixou para 0,3% em 1993-1994, mas se se mantiver a sua taxa de crescimento actual passará a haver um superavit nos próximos anos. 22. REFORMAS COMERCIAIS      A Austrália tem desenvolvido um enorme esforço nas organizações internacionais a fim de se alcançarem relações comerciais mais liberalizadas e abertas. Simultaneamente desencadeou acções decisivas para reduzir as suas barreiras tarifárias. Um programa progressivo de tais reduções baixou para 5% os níveis gerais de subsídios, com excepções para veículos automóveis, têxteis, vestuário e indústria do calçado. A Austrália não espera consolidar a sua posição comercial com a abolição de barreiras tarifárias pois, sendo um país de tamanho médio com pequena influência económica, apoia-se primariamente nos acordos multilaterais de comércio. MAPA DE EXPORTAÇÕES AUSTRALIANAS
TIPO DE EXPORTAÇÕES 1983-1984 1993-1994
SERVIÇOS 17,5% 22,0%
PRODUTOS RURAIS 30,7% 22,5%
MINÉRIOS 32,4% 22,7%
MANUFACTURAS: DE TRANSFORMAÇÃO SIMPLES 6,9% 7,6%
DE TRANSFORMAÇÃO COMPLEXA 10,1% 16,7%
OUTRAS 2,4% 8,5%
TOTAIS 100.0% 100,0%
  A) A RONDA DO URUGUAI      As negociações prolongadas da Ronda do Uruguai proporcionaram a países, como a Austrália, com interesse em alargar os acordos do GATT [119] a áreas de produção agrícola, a possibilidade de tentarem quebrar o proteccionismo - cada vez maior - que se introduziu nas relações comerciais, através de mecanismos tais como a política agrícola comum da U.E. [120] .      A Austrália criou o Grupo de Cairns, constando de 14 países exportadores de produtos agrícolas, capaz de actuar como um tampão entre os Estados Unidos e a EU, reduzindo no caso especial da EU, a sua dependência extrema de subsídios. Ao imporem a negociação das trocas comerciais agrícolas em troca de apoio para outros itens da agenda, o Grupo de Cairns foi capaz de obter uma remodelação total da agenda de trocas comerciais internacionais. A finalização da Ronda do Uruguai e a formação da WTO [121] para administrar os seus vários acordos a fim de liberar as trocas comerciais internacionais do sector agrícola, provocando reformas nos serviços e na propriedade intelectual e abrindo uma nova era no comércio internacional. A Austrália aproveitou esta oportunidade para as suas iniciativas rumo a uma zona Pacífico Asiática de livre trânsito de mercadorias, no século XXI. B) A COOPERAÇÃO PACÍFICO ASIÁTICA      Seis anos após o seu lançamento, pelo então 1 Ministro, Bob Hawke, a APEC é mencionada pelo senador Evans como o “mais visível e significativo avanço feito pela diplomacia australiana”. A participação inicial de 12 países [122] aumentara para 18, com a admissão da República da China, Hong Kong, Taiwan (Formosa), México, Papua Nova Guiné, e Chile. Na sua reunião, em Bogor (Indonésia) em Novembro de 1994, os países membros aceitaram adoptar uma meta a longo prazo, de transacções livres e abertas ao investimento na área Pacífico Asiática, anunciando a sua decisão de ter as economias industrializadas a atingir tal meta até ao ano 2010 e, as economias em vias de desenvolvimento até ao ano 2020. Foi igualmente decidido expandir e acelerar os programas de facilitação de trocas comerciais e de investimento através de um grupo informal da APEC, presidido pela Austrália, para facilitar os programas de transacções comerciais e de investimento através de reformas em áreas tais como a estandardização técnica, linhas mestras de investimento, harmonização de regras aduaneiras e barreiras não tarifárias. 23. UMA CULTURA EM CRESCIMENTO A) DA FAMA DOS DESPORTOS À CULTURA      Os australianos têm renome internacional pelo seu amor aos desportos, mas são também entusiásticos amantes das artes e indústrias de comunicação. O montante total gasto em produtos artísticos é dos maiores, dentre os países desenvolvidos. Pesquisas de mercado, mostram que os australianos lêem mais, per capita, do que os habitantes de qualquer outro país.      Os sucessos culturais australianos são bem conhecidos internacionalmente, através dos prémios ganhos em festivais de cinema e de literatura, para além da reputação ganha pelas tournées dos grupos musicais. “Danças de Salão (Strict Ballroom)” ganhou o Prémio da Juventude no festival de Cinema de Cannes em 1992 e, a co-produção entre a Nova Zelândia e a Austrália, “O Piano” ganhou a Palma de Ouro em 1993. “Shine” (Simplesmente Genial), do realizador Scott Hicks, com Geoffrey Rush foi candidato a 7 Óscares da Academia em 1997(Melhor Filme, Realizador, Actor Principal e Secundário, Montagem e Banda Sonora Original), tendo sido indigitado para 5 Globos de Ouro, vencendo o de melhor actor, ganhando 8 dos principais prémios de cinema australianos e o Prémio de Melhor Realizador na Fantasporto 1997.      Thomas Kenneally e Peter Carey ganharam ambos, no Reino Unido, o prestigiado Prémio Booker para a Literatura. O Ballet Australiano quando fez uma tournée nos Estados Unidos, em 1994, foi descrito pelo New York Times como sendo de ‘gabarito internacional’.      O apoio governamental tem sido um factor importante no desenvolvimento do campo artístico, orçando em mais de 2,5 mil milhões de dólares por ano, através do Ministério das Comunicações e Artes. O governo concedeu mais de 250 milhões de dólares para desenvolver a indústria das artes e das comunicações, naquilo que foi designado como o programa “Uma Nação Criativa”, anunciado em Novembro de 1994. Os canais de televisão e de rádio, subsidiados pelo governo, desempenham um papel activo no desenvolvimento artístico e cultural, com a Corporação de radiodifusão Australiana (ABC) recebendo 515,1 milhões de dólares em 1994-1995, e a SBS (Special Broadcasting Service), canal multicultural e multilíngue, recebendo 75,5 milhões de dólares.      As actividades da ABC proporcionam uma óptima oportunidade para a manifestação do talento artístico, tendo tradicionalmente apoiado o talento musical e dispõe de orquestras sinfónicas em todas as capitais estaduais. As Orquestras Sinfónicas de Sydney e Melbourne têm tido tournées internacionais e nelas têm estado, em visitas através da Austrália, os melhores solistas e maestros de orquestras mundiais. Recorde-se ainda que a Austrália, para além do seu ex-libris - a Opera House, em Sydney - teve na Dama Nellie Melba a melhor soprano de todos os tempos. A maior orquestra sinfónica australiana, a de Sydney, libertou-se em Outubro de 1994 das peias orçamentais da ABC e liderada por Edo de Waart, o reputado director artístico holandês, efectuou em Agosto e Setembro de 1995 uma digressão pela Europa, numa tentativa de emular as suas congéneres de Viena e Berlim. Aquele director conseguiu um feito extraordinário, em 1967, com a Orquestra Filarmónica de Roterdão e, em 1977, com a Orquestra Sinfónica de S. Francisco, ao lançá-las de pouco conhecidas à ribalta mundial.      O governo adoptou várias medidas dentro do âmbito “Uma Nação Criativa” para desenvolver uma estandardização de padrões para a actividade das orquestras, ao criar uma Academia Nacional de Música em Melbourne, dedicada aos mais talentosos músicos, a fim de poderem atingir uma craveira internacional. As actividades de produção de dramas e documentários, pela ABC, com cerca de 75% dos seus programas de fim de tarde e noite dedicados a programação australiana, são também uma forma importante de apoio às artes. A SBS especializa-se em programas internacionais para as comunidades étnicas, embora tenha uma audiência, cada vez maior, entre os outros australianos.      O governo concedeu 20 milhões de dólares anuais dentro do programa “Uma Nação Criativa” para incrementar o conteúdo australiano de programas, nos canais comerciais de televisão, assim como beneficiando a capacidade da indústria australiana dos multimédia para criar programas de cariz australiano para consumo interno e distribuição internacional.      As duas principais entidades envolvidas em ballet e ópera a nível nacional são já subsidiadas pelo governo australiano.. O Ballet Nacional Australiano (Australian Ballet) tem sido o maior representante do ballet clássico, desde há muitos anos. A Companhia de Ópera Australiana (Australian Opera) também tem recebido apoios do governo a fim de fazer mais tournées e com vista ao estabelecimento de um consórcio envolvendo a companhia de ópera e outras entidades, a nível estadual.      Tem havido outras entidades com um papel importante na vida musical e artística, tais como “Musica Viva”, criada há 50 anos para promover a música de câmara e que agora coordena um dos maiores grupos ‘Ensemble’ de todo o mundo, promovendo também digressões internacionais para grupos de música de câmara australianos e encomendando trabalhos a compositores australianos. A Jovem Orquestra Australiana, criada há 20 anos percorre o mundo várias vezes ao ano. B) O CONSELHO AUSTRALIANO DAS ARTES (AUSTRALIA COUNCIL)      Os apoios para a literatura e artes visuais são normalmente concedidos através de subsídios do governo ao Australia Council (Conselho Australiano das Artes), criado em 1972. Os seus cinco directórios têm proporcionado apoio, quer a autores individuais, quer a artistas. O Directório de Literatura já proporcionou mais de cinco mil subsídios ou bolsas, provocando um aumento dez vezes maior na publicação de novelas australianas nas duas últimas décadas. O programa “Uma Nação Criativa” visa alcançar uma nova direcção para o Conselho, movendo o seu foco da oferta de arte para uma posição mais conducente à criação de uma maior procura dos consumidores de arte. Este novo posicionamento envolve a criação de duas novas entidades dentro daquele Conselho: um Conselho de Grandes Organizações para atender às solicitações das maiores entidades ligadas às artes, tais como empresas comerciais, e uma Fundação para o Desenvolvimento Cultural estimularão o sector privado no seu mecenato das artes. C) ARTE ABORÍGENE      Até há bem poucos anos, a arte aborígene era bem pouco conhecida e ainda menos apreciada, em especial por haver um número pequeno de australianos conhecedores da mais antiga arte tradicional viva do mundo. O facto de ser composta em pigmentos naturais e gravada em superfícies naturais tais como rochas, casca de árvores ou em terra, constituíram uma inibição à sua divulgação, mas agora entrou no seio da cultura, através da utilização de lonas e tintas, traduzindo o género peculiar da arte aborígene numa forma permanente e portátil. Enquanto, dantes, estava confinada a estudo em secções etnográficas dos museus, agora ocupa o seu lugar nos museus e galerias de arte contemporânea, sendo exposta internacionalmente.      As danças indígenas e a sua música foram apresentadas, nacional e internacionalmente através de apoios concedidos pelo governo. A Associação nacional de Desenvolvimento Pericial dos Ilhéus (das ilhas Torres) e a sua subsidiária, o Teatro de Danças das Ilhas, têm promovido a divulgação das suas danças, quer na Austrália, quer no estrangeiro. O grupo de rock, aborígene, Yothu Yindi, é composto por músicos aborígenes e não aborígenes combinando temas tradicionais e música moderna australiana, tendo tido enorme sucesso quer na Austrália quer no estrangeiro.      Escritores aborígenes e das Ilhas Torres, tais como Sally Morgan e Jack Davis, e os já falecidos, Kevin Gilbert e Oodgeroo Nunuccal, são bem conhecidos através da Austrália. O livro “O meu lugar (My Place)” de Sally Morgan é um emocionante conto sobre a descoberta da sua ancestralidade aborígene, tendo vendido mais de 300 mil exemplares.      O governo criou uma galeria aborígene, em Camberra, para poder proporcionar uma perspectiva nacional sobre as culturas indígenas. O Instituto Australiano de estudos Aborígenes e das Ilhas Torres foi criado em 1989, como um centro de pesquisas e de publicação e fica localizado naquela galeria. 24. EDUCANDO PARA O FUTURO A) O SISTEMA AUSTRALIANO      O sistema educacional australiano estrutura-se tripartidamente, combinando a educação escolar e formação profissional, a educação vocacional e a educação a nível superior, sendo subsidiada e administrada a nível estadual e federal. O Conselho Ministerial para a Educação, Emprego, Formação Profissional e Assuntos da Juventude proporciona o desenvolvimento de políticas de ensino e sua implementação a todos os níveis de ensino.      A Austrália tem um dos índices educacionais mais elevados dentre os países da OCDE com cerca de 31% da sua população adulta atingindo (mas não necessariamente completando) os estudos a nível terciário. Dentre os alunos (até à idade adulta) inscritos para cursos educacionais, a Austrália situa-se em segundo lugar dentre os países da OCDE. Aos governos estaduais compete a responsabilidade constitucional de prover meios de educação a nível escolar, com o governo federal complementando os seus fundos para atingir objectivos ligados à política de justiça social, como por exemplo, proporcionar oportunidades educacionais para os grupos mais desfavorecidos. As escolas particulares podem cobrar propinas e são uma parte importante da cena escolar, detendo cerca de 28% do total da população escolar do país.      A educação vocacional e a formação profissional são subsidiadas, na sua maior parte pelos governos estaduais, com o governo federal proporcionando cerca de 26% do custo total para implementar as prioridades nacionais rumo a um aumento da produtividade e capacidades periciais para a força laboral, através de programas de formação profissional.      A maior entidade que providencia formação académica, tal como requerida pela força laboral, é uma rede de Colégios de Educação Técnica Avançada (TAFE) [123] , que tem 287 dependências em toda a Austrália. A Autoridade Nacional Australiana para a Formação aconselha o governo federal e define estratégias sectoriais. O governo criou também uma Equipa Nacional de Trabalho para o Emprego e Formação a fim de aperfeiçoar programas de treino e aprendizagem e encontrar empregos para os mais jovens.      A responsabilidade pelo ensino superior é exclusiva do governo federal que gastou 4,9 mil milhões de dólares em 1994-1995 nas universidades de todos os estados e territórios. Nos últimos anos houve um aumento substancial de subsídios governamentais para a educação superior, e a população universitária aumentou 37% entre 1988 e 1993. Os alunos podem ter as suas propinas pagas através do HECS [124] sendo, porém obrigados a devolver os pagamentos adiantados pelo HECS, mal entrem no mercado de trabalho. Embora sujeitos a uma prova de rendimentos e bens, estes alunos podem ser elegíveis para um abono de residência, o qual não tem de ser pago de volta ao governo. Existem algumas instituições privadas de educação superior, incluindo colégios para professores e teólogos, dentre as quais a Universidade Bond de Tecnologia, na Queenslândia, fundada em 1989 como universidade privada. B) RELAÇÕES INTERNACIONAIS      Desde há muitos anos que as instituições e quadros educacionais australianos mantêm laços com universidades e outras instituições educacionais estrangeiras, em especial as da Ásia. O Plano Colombo serviu para trazer à Austrália estudantes asiáticos sob o regime de bolsas de estudo. As universidades australianas estabeleceram laços com as suas congéneres de Singapura, Malásia, Hong Kong, Indonésia, Japão, República da Coreia e Taiwan (Formosa). O governo continua a dar assistência a estudantes estrangeiros, através da AusAID [125] tendo tal apoio sido dispensado a 5700 estudantes em 1994.      As instituições educacionais, recentemente organizaram-se para darem a oportunidade a estudantes estrangeiros de as frequentarem, pagando o valor total das suas propinas de cada curso. O programa de educação internacional teve o seu início em 1986, com 300 estudantes, existindo actualmente 64 mil estudantes internacionais, os quais pagam o total da sua educação. Estes estudantes podem frequentar, desde a escola primária até ao ensino superior, e recebem o apoio de cerca de 40 conselheiros espalhados pelas delegações diplomáticas da Austrália no estrangeiro.      Em 1994, foi criada a Fundação Australiana de Educação Internacional (AIEF) para aumentar a visibilidade do sistema educacional australiano no mundo, e desenvolver comercialmente a educação internacional e os serviços de formação, os quais representam já um total de 1,6 mil milhões de dólares em cada ano. A Fundação, que representa o governo, instituições educacionais e a indústria do ensino, administra um fundo conjunto do governo e da actividade privada, de 6 milhões de dólares ao ano, para promover a educação australiana no estrangeiro.. Existem instituições privadas ligadas à Fundação, as quais gastam cerca de 30 milhões de dólares para se promoverem.      É nos países asiáticos que se vão recrutar cerca de 90% de todos os estudantes que pagam a totalidade das suas propinas e daí, terem sido criados os Centros Australianos de Educação em Jakarta, Hong Kong, Kuala Lumpur, Singapura, Banguecoque, Seul e Taipé, para ajudar os potenciais estudantes a aprenderem as facilidades educacionais oferecidas pelas instituições australianas. O AIEF está, através de programas de auxílio a estudantes e trocas de pessoal docente, a desenvolver oportunidades de estudo, pesquisa e oportunidades de carreira a estudantes australianos que queiram ir para o estrangeiro. C) CIÊNCIA      Cientistas australianos têm sido responsáveis por muitos progressos científicos e sua aplicação à escala mundial. Foram laureados com Prémios Nobel pelo seu trabalho na descoberta da penicilina, progressos na cristalografia por raios-X, imunologia e fisiologia do cérebro. As suas pesquisas produziram progressos práticos, internacionalmente aplicados na separação de genes (engenharia genética), o sistema Synroc para a armazenagem estável de resíduos nucleares e, o Interscan para os sistemas de aterragem aeronáutica.      O sistema australiano de Pesquisa e Desenvolvimento (R&D) tradicionalmente dependia de fundos públicos, mas o sector privado está a tornar-se, cada vez mais, envolvido graças a apoios e incentivos governamentais (incluindo isenções fiscais) e actualmente a Austrália tem uma das taxas mais elevadas de gastos em R&D (Pesquisa e Desenvolvimento). Este sistema consta de 16 agências governamentais de pesquisa, seis instituições não lucrativas, 45 instituições de ensino e vários laboratórios particulares. As agências governamentais incluem a CSIRO (Organismo de Pesquisa Científica e Industrial da Commonwealth), Organismo da Ciência e Tecnologia da Defesa, Organização Australiana da Ciência e Tecnologia Nuclear, e os Laboratórios de Pesquisa da Telecom. A CSIRO tem 5500 funcionários profissionais e técnicos actuando em quase todos os campos de Pesquisa e Desenvolvimento, sendo a maior e mais complexa agência governamental no campo de R&D.      O sector público dá amplo acesso à indústria, com incentivos a entidades públicas de pesquisa a fim de que obtenham financiamento, quer da indústria, quer do governo. A maior parte das 35 Divisões da CSIRO está a ser gerida por gestores especializados em administração. A maior parte das instituições de educação superior têm sectores comerciais que encomendam pesquisa em regime contratual e que procuram empresas interessadas em comercializar os resultados das suas pesquisas.      O programa dos Centros Cooperativos de Pesquisa foi lançado em 1990, e envolve já 61 centros, os quais se dedicam a estreitar os laços entre a pesquisa e suas aplicações comerciais. O Centro das Fibras Ópticas e Tecnologia Fotónica é um exemplo típico do trabalho destes centros, combinando grupos de pesquisa de Sydney, Melbourne e Universidades Nacionais Australianas e os Laboratórios de Pesquisa da Telecom e outras instituições. Os programas de R&D centram-se em torno de aparelhos de condução de ondas ópticas e redes fotónicas (luz e electrónica) e de sistemas de comunicações, sistemas de processamento e leitura de informação e suas aplicações industriais. 25. RELEVÂNCIA DA AUSTRÁLIA PARA A EUROPA E PORTUGAL      A pergunta que importa colocar aqui e agora, será a de aproveitarmos - a nível europeu e a nível de Portugal - as potencialidades da Austrália como parceiro económico e até político nalgumas áreas.      Recordemos a relevância dos protestos australianos e doutros países do Pacífico Sul - instrumentalmente vocais - na condenação dos testes nucleares franceses nos atóis da Mururoa. Eles representam um sinal de maturidade política que não deve, nem pode, ser olvidada.      A reduzida presença militar no Pacífico, a aparição de uma nova ordem com o Japão como motor (agora retardadamente lento) da economia mundial na região do Pacífico, seguido por economias, como a chinesa e indiana, e, a crescente afirmação das pequenas nações independentes do Pacífico Sul cansadas de neocolonialismos, têm levado a Austrália a distanciar-se económica e politicamente da Europa, concentrando-se em abrir pontes para o Sudeste Asiático e Pacífico Sul.      A crescente influência das marinhas da República da China, da Índia e até mesmo da Indonésia, numa época em que a última presença predominantemente europeia na região (Austrália) está, cada vez mais, isolada e asianizada pode, para a Europa, vir a abrir novos pontos de penetração económica e até mesmo política, numa região que se prevê venha a ser a mais vibrante fonte de crescimento económico no século XXI. As taxas de crescimento das nações asiáticas em desenvolvimento - sem disporem de recursos naturais ou infra-estruturas para os explorarem - durante a recente fase de depressão, não puderam ser explicadas apenas pela existência de mão de obra barata e abundante.      Especificamente, para os países europeus, existem vastas possibilidades de imediata aprovação de investimento na Austrália, nas seguintes áreas: mineração, manufacturas, serviços, processamento de recursos, petróleo e gás natural, instituições financeiras não bancárias, seguradoras, turismo (hotelaria e exploração de unidades hoteleiras), propriedade rural e sua exploração, recursos florestais e piscatórios . Para estas áreas, o governo australiano concede atraentes incentivos fiscais, deduções em investimentos para R&D (Pesquisa e Desenvolvimento), empréstimos bonificados, concessões para a criação de postos de trabalho e de produção destinada à exportação e à obtenção de divisas estrangeiras. Apenas Portugal, dentre os países da U.E. não tem ainda acordo firmado para evitar uma dupla carga fiscal entre os dois países, se bem que tenha havido contactos preliminares desde que, em 1989, foi firmado o Acordo de paridade da Segurança Social.      A escassa participação portuguesa na balança de trocas comerciais, como adiante se verá, deveu-se inicialmente ao factor distância e à pequenez da comunidade portuguesa ali residente [126] , se bem que nos últimos anos com a criação de uma Câmara de Comércio Portugal-Australásia, tenha havido um maior intercâmbio. Hoje, a nível da cerâmica vemos peças portuguesas nos maiores shopping centres (David Jones, Grace Bros., Meyer, etc.), existem edifícios construídos com mármores lusitanos e. podem comprar-se quase todos os itens de comida portuguesa em lojas especializadas, mas basicamente Portugal continua a ser um país desconhecido na Austrália, para além do eventual conhecimento de que foram os Portugueses os primeiros europeus a descobrir o continente.      Os enormes sacrifícios que os trabalhadores australianos têm suportado na última década e meia, com redução de salários e do seu poder real de compra, vieram pôr fim à teoria de que se tratava de um direito normal de actualização automática de vencimentos e de custo de vida. A compensação desta mudança revestiu-se, para o país, num aumento da produtividade que catapultou a Austrália a taxas de crescimento económico entre 4,5 e 5% ao ano [127] . Com os incrementos provenientes de um melhor clima de relações industriais, desde o Acordo de Concertação Social com a ACTU [128] , verificou-se uma redução dos dias de trabalho perdido por greves e disputas industriais e um manifesto aumento dos níveis educacionais, acompanhado de profundos cortes num dos mais benevolentes sistemas de segurança e protecção social do mundo.      Mesmo assim, a Austrália continua a necessitar da Europa, no seu todo, para que uma vasta maioria das suas invenções e inovações tecnológicas, fruto de R&D (Pesquisa e Desenvolvimento) não seja patenteada e explorada comercialmente pelos Estados Unidos, mas por nações que queiram contribuir para o crescimento e progresso da Austrália. Será aqui que a Europa pode intervir numa aposta de interesse mútuo.      De idêntica forma, a República da China, Vietname e outras nações da região com uma crescente massa populacional, necessitam de apoios e incentivos exteriores para desenvolverem as suas economias. A Europa, concentrada nos seus problemas internos e na sua expansão a leste tem obliterado a importância de retomar a sua presença primordial nesta área do globo.      Recorde-se a propósito uma estatística, publicada na revista “TIME” em 2 de Outubro 1994, na qual a Austrália era o país mais rico, de acordo com as novas definições estabelecidas pelo Banco Mundial. De acordo com estes novos critérios de riqueza, os países passam a ser considerados em consonância com os seus recursos naturais, zonas naturais protegidas (tais como a Grande Barreira de Coral) e zonas agrárias.      Este novo critério considera como sendo de menor importância itens como o PNB [129] e enfatiza os recursos naturais, protecção do meio ambiente, educação, flexibilidade dos meios sociais e outros recursos subavaliados, importantes numa perspectiva a longo prazo. Em vez de se concentrar na riqueza de rendimentos, o novo sistema aponta para novas formas de avaliar a riqueza dos países, para além do dinheiro e investimentos. Países com pequenas densidades populacionais, bem equipados em termos profissionais e técnicos, para além dos recursos naturais, colocam a Austrália na posição cimeira, seguida do Canadá, Luxemburgo, Suíça, Japão, Suécia, Islândia e Qatar, com rendimentos per capita entre os 835 mil dólares e os 473 mil, em comparação com os países mais pobres como a Índia, Nigéria, Mali, Quénia, Camboja, Burkina Faso e Gambia, que oscilam entre os 4300 e 3500 dólares per capita. Os E.U.A. considerado como um dos países mais ricos aparece na 12 posição.      De acordo com esta nova classificação, os valores dólares são repartidos por “bens produzidos”: maquinaria, equipamento, fábricas, estradas e, “outras infra-estruturas necessárias à indústria” . Depois, consideram-se os “bens naturais: minerais, terra, água e outros recursos naturais . Por último, “o poder pessoal baseado em critérios nutritivos e níveis educacionais” . Dois terços da riqueza assentam no poder pessoal da população, enquanto que os bens processados (manufacturas, por ex.) não ultrapassam 1/5 da produção total. Os países mais ricos são obviamente, os que mais investem em R&D (Pesquisa e Desenvolvimento) e em recursos naturais. Uma boa política ambiental é simultaneamente uma boa política económica. Se bem que esta nova visão não tenha sido anteriormente adoptada pelo Banco Mundial, ela representa uma viragem provocada em Junho 1975 pela nomeação de James Wolfensohn para seu novo Presidente, capaz não só de promover o crescimento económico mas também um crescimento aceitável e constante.      Vejamos, por fim, agora o mapa estatístico das trocas comerciais entre a Austrália e Portugal [130] : IMPORTADO TONELADAS: 73 071 VALOR ESC.$: 1 589 393 100$00 EXPORTADO TONELADAS: 6 195 VALOR ESC.$:3 586 826 100$00      Vê-se assim que o défice das trocas, entre os dois países é desfavorável a Portugal em quase dois milhões de contos: (-1 997 433 000$00) e - 66,9 mil toneladas. O melhor que Portugal exportou, até agora para a Austrália, foi um contingente de pessoas capazes e trabalhadoras que aqui vivem e labutam e, isso enriqueceu a Austrália empobrecendo Portugal. Será que nada mais existe para ser exportado? NOTAS [1] – Criadores de gado em vasta escala. [2] – Cultivadores de vastas áreas de terra. [3] – O caso foi o da demissão do governo trabalhista de Gough Whitlam e a constituição de um governo da coligação liberal-nacional chefiado por Malcolm Fraser. [4] – Australian Broadcasting Corporation [5] – Roy Morgan Research, citado pelo Australian Media Update de 2 Dez 1996. [6] – Artigo originalmente publicado in Revista Nam Van 1.6.1984 p.49-52. [7] – Nota do Autor: Ton Ton é o macaense originário de Hong Kong e que sempre se arrogou superiormente ao seu irmão de Macau. [8] – Inicialmente publicado na Revista Nam Van, #2, Macau, de 1 de Julho 1984, páginas 9-13. [9] – TESL - Teachers of English as Second Language. [10] – Tuong Quang Luu, deixou o Vietname em 1975. Era um diplomata à data da queda de Saigão e estava destinado a um dos muitos campos de reeducação, mas veio para a Austrália como refugiado. No início achou os australianos compreensivos para a saga do seu povo, e talvez devido a isso, considera que foi possível à Austrália ter a política de aceitação de refugiados que teve. Os refugiados, diz Quang Luu, trazem consigo um sentimento de gratidão e devoção. Como recebem, inicialmente ajuda, estão dispostos a retribuir tal ajuda à sociedade que os recebeu, não só económica como culturalmente. [11] – Boat people era a designação genérica dada a todos os refugiados indochineses, quer tivessem vindo de barco, ou não. [12] – O slogan utilizado na época era “Povoar ou Perecer!” e, num espaço de 10 anos a Austrália recebeu 1 milhão de imigrantes. [13] – Editor do jornal nacional The Australian. [14] – Family Reunion Programme- segundo este programa, qualquer cidadão ou residente permanente na Austrália (imigrante não naturalizado) poderia apresentar um pedido de admissão no país para os seus familiares mais chegados. Apesar de, ao longo dos anos, ter havido várias alterações quanto a este esquema, os avós, pais, filhos, esposos, irmãos e sobrinhos/as poderiam ser classificados como família imediata do 3 grau, logo tendo direito a qualificarem-se para o programa. [15] – National Action , Acção Nacional, um grupo extremista de direita que advoga a supremacia branca. O seu líder australiano, Jack Van Togeren, foi preso e condenado a prisão por incitar o racismo e violência. [16] – Nota do Autor: A Malásia tem cerca de 20 milhões e se ela pensava na Indonésia, este país tem cerca de 185 milhões. [17] – Jornal Público, 4 de Novembro 1997 [18] – A coligação conservadora Liberal Nacional, é maioritariamente Liberal, com o pequeno Partido Nacional, representando as minorias rurais, situando-se ainda mais à direita que os Liberais, na maior parte dos temas. Eles têm sido sempre indispensáveis em todos os governos de coligação, pois os Liberais nunca atingiram uma maioria absoluta que lhes permitisse governar a Austrália, sem estarem em coligação. [19] – Hong Kong reverteu para a soberania chinesa em Julho 1997 e Macau terá o mesmo destino em Dezembro 1999. [20] – Publicado originalmente na revista Macau, #13, de Julho 1988 [21] – BIBLIOGRAFIA: 1. J. CHRYS CHRYSTELLO - Arquivos próprios (1973-1997), registos magnéticos e impressos de diversos trabalhos publicados, apresentados ou doutra forma divulgados. inclui Congressos, Seminários e Conferências. 2. Ministério Australiano de Negócios Estrangeiros e Comércio, Departamento de Assuntos Públicos Internacionais, “Introducing Australia”, editado por John Graham, Abril 1995, Camberra. 3. G. Collingridge “The Discovery of Australia”, Sydney, 1906, manuscritos da Colecção Dixon, Biblioteca Mitchell, Sydney, NSW (MS Q243). 4. Cap. James Cook - “Journal of the Voyages of the Endeavour”, editado por W.J.L. Wharton, Londres, 1893, editado por J.C. Beaglehole (4 vols.), Londres, 1955. 5. Jaime Cortesão - “Os Descobrimentos Portugueses”, Lisboa, 1934. 6. Kenneth Gordon McIntyre, O.B.E.,M.A,LL.B. (Melbourne), Comendador da Ordem do Infante, “The Secret Discovery of Australia”, Souvenir Press, South Australia 1977, “Portuguese Discoverers on the Australian Coast”, Victorian Historical Magazine, Vol. XLV, #4, Melbourne 1974. 7. O. H. K: Spate -“Terra Australis - cognita?”, Melbourne, 1957. 8. ISCET, Maio 1995, “Dados Temporários - Comércio Externo de Portugal”. AGRADECIMENTOS: Arquivos dos jornais: The Sydney Morning Herald, The Age, The Australian. O Autor agradece amistosamente a colaboração dos Ministérios Federais Australianos, Entidades Para-Estaduais, Entidades Estatutárias e outras entidades australianas que permitiram a compilação deste trabalho. [22] – Informação oficial do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal, através da sua Direcção geral dos Assuntos Consulares e Comunidades Portuguesas. [23] – SBS Special Broadcasting Service, estação multicultural de rádio e TV, subsidiada pelo governo federal para as diferentes comunidades étnicas. [24] – Trabalho originalmente publicado na revista Nam Van, Macau, #3 de 1 de Agosto de 1984. [25] – à data era o Dr. Rebello de Andrade. [26] – à data o General Ramalho Eanes. [27] – A Austrália não tem um hino oficial como Portugal, mas sim duas canções nacionais de significados diferentes: uma delas datando do fim dos anos 70 “Advance Australia Fair”, de feição mais republicana e que é aceite como uma espécie de hino nacional, e a outra o consagrado hino britânico “God Save the Queen”. [28] – Bibliografia: 1. Kenneth Gordon McIntyre “The Secret Discovery of Australia (Descoberta Secreta da Austrália)”, Souvenir Press, S.A., Australia 2. Phillip Derriman, “The Sydney Morning Herald”, Sydney, edição de 30 Julho 1983 3. W. A. R. Richardson, “Camões, Vasco da Gama, Portugal & Australia”, Flinders University of South Australia, 1981 [29] – Artigo originalmente publicado na revista Nam Van, Macau, #4 de 1 de Setembro de 1984. [30] – Parte deste artigo foi publicado originalmente na revista ’Macau’, #10 de Abril de 1988 [31] – Faria y Sousa, E. de - Ásia Portuguesa, Porto, 1590-1607, traduzido para Inglês por J. Stevens, 1694, Londres. [32] – 1. Robert Osbiston, jornal Sydney Morning Herald, 19 NOV. 1988 2. Biblioteca Mitchell, Sydney 3. Royal Australian Historic Society 4. Australian Dictionary of National Biography, 5. New Universal Encyclopedia 6. The Story of Australia (A História da Austrália) A. G. I. Shaw ed. Faber & Faber [33] – Bibliografia: 1. Frank Bren, The Bulletin, Janeiro, 1988 2. Hal Colebatch, The Bulletin, Novembro, 1987 3. Carol Henty, The Bulletin, Dezembro, 1987 4. John Stackhouse, The Bulletin, Julho, 1984 5. Denis Reinhardt, The Bulletin, Novembro, 1985 6. Leslie Marchant, France Australe, Artlook Books, Perth, 1982 7. Colin Wallace, The Lost Australia (A Austrália Perdida de) of François Peron, Nottingham Court Press. [34] – ANZAC: Australian and New Zealand Expeditionary Corps (corpo expedicionário da Austrália e Nova Zelândia). [35] – Artigo original, publicado na revista Nam Van, Macau, #5, 1 de Outubro 1984. [36] – Ao contrário do que o seu nome indica, Koala Bear não é um urso, mas um marsupial que se alimenta de folhas de eucalipto [37] – OECD em Inglês ou OECD em Português, Organização Económica para a Cooperação e Desenvolvimento. [38] – Bibliografia: 1. W, Hodges, “A large sailing canoe of the Friendly Islands”, 1774, 2. Chu-Hsien, “The Chinese Discovery of Australia”, Hong Kong, 1961, 3. I. Commelin, “Begin end voortgangh van de Vereenighde Nederlandtsche Geoctryunde OostIndisch Compagnie”, Amsterdão, 1646, 4. F. Peyron e L. Freycinet, “Voyage de découvertes aux Terres Australes, Atlas, par Leuseur et Petit”, Paris, 1811, 5. A. Dalrymple, “An account of the discoveries made in the South Pacific Ocean, previous to 1764”, Londres, 1767, 6. J. Cook, “The Journals on his voyages of discovery”, Cambridge, 1955. [39] – Bibliografia: 1. Ptolomeu, “La Geographia”, Veneza, 1573, 2. Ptolomeu, “Claudii Ptolomi Alexandrini geographic enarrationis libri octo”, Ludguni, 1535, 3. Apianus, “Libro della Cosmographia”, Envers, 1548, 4. P. Mela, “Cosmographia de situ orbis”, 1495, 5. Ptolomeu, “Mapa Mundi”, Veneza, 1511. [40] – Magalhães era um português ao serviço dos reis de Espanha. [41] – Bibliografia: 1. C. Leyrand, #Fernão de Magalhães”, ?,? 2. A. Ortelius, “Americ sive Novi Orbis nova descriptio”, Antuérpia, 1579, 3. Diego Ribero, “Carta Universal en que se contiéne todo lo que del mundo se ha descubierto hasta agora, hizola Diego Ribero, cosmographo de su magestad, anno de 1529 e Sevilla”, [42] – Bibliografia 1. O mapa Delfim, fac-símile de antigas cartas da Austrália existentes no Museu Britânico, 1855, 2. J. Rotz, “The maps and the text of the Book of Hydrography”, Oxford, 1981, 3. H. Reinhardt, “King Henri VIII”, Holbein, Londres, 1938, 4. Harris, Sir Francis Drake, “Navigatium atque itinerantium bibliotheca”, Londres, 1764. [43] – Bibliografia: 1. “Nov Guine forma et situs in C. de Jode “Speculum orbis terr”, 1593, [44] – Trabalho originalmente publicado na revista Nam Van, Macau, #7 de 1 de Dezembro 1984. [45] – Edição da Souvenir Press Ltd, Adelaide, South Australia com este título, que se poderia traduzir como “A Transcrição (dos Arquivos Nacionais pelo General Jacintho Ignácio de Brito) Rebello, Um Prelúdio Português para o Governador (Capitão de Mar e Guerra Arthur) Phillip.” [46] – Nota do Autor: Kenneth Gordon McIntyre, OBE, MA, LL. B (Melb), Comendador da Ordem do Infante, nasceu em Geelong, nos arredores de Melbourne, estado de Vitória, sendo Leitor de Literatura Inglesa na Universidade de Melbourne, entre 1931 e 1945, tendo-se dedicado, a partir daí, a uma bem sucedida prática de advocacia, sendo Assessor do Governo em assuntos legais, e Presidente da Câmara Municipal de Box Hill. Sempre interessado na Língua e Literatura Portuguesas, dedicou a sua reforma ao estudo de antigos documentos portugueses. O primeiro resultado deste labor foi o livro “A Descoberta Secreta da Austrália” publicado pela Souvenir Press, em 1977, no qual prova que os primeiros europeus a descobrirem a Austrália haviam sido os Portugueses no século XVI e não o Capitão Cook que apenas atracou em 1770. Foi graças a este livro que o General Ramalho Eanes, em nome do Governo Português lhe concedeu a Comenda da Ordem do Infante (D. Henrique, o navegador). [47] – Publicado em Sydney em 1937. [48] – O autor usa a grafia portuguesa Colónia, em vez do brasileiro Colônia, que é, além da cidade uruguaia, também, o nome dado à cidade alemã de Köln. [49] – 1756-1763: Guerra pela supremacia nas colónias sul americanas opondo a Espanha, apoiada pela França, contra Portugal e Inglaterra., e da qual estas sairiam vencedoras, com a excepção da perda de Rio Grande, que acabou por ficar em mãos espanholas. Ao contrário do que acontecera na guerra, durante a qual a Inglaterra ganhou Cuba aos Espanhóis e Manila (Filipinas), os ministros plenipotenciários que assinaram o Tratado de Paz, desconheciam esse facto. Se um Tratado devolveu Cuba a Espanha, e mais tarde foi acrescentada a devolução de Manila, no caso vertente o Rio Grande ficou na posse espanhola e não foi devolvido aos portugueses, quando estes finalmente obtiveram a devolução de Colónia do Sacramento, com o Tratado de Paris de 1763. [50] – ver Quadro II. [51] – Denota apenas mudança teórica do domínio legal, já que na prática (fisicamente) nada se alterou. [52] – Ver Crónica Austral 2. [53] – Artigo inicialmente publicado no #9 da revista Nam Van, Macau, em 01 de Fevereiro 1985. [54] – The Wall, obra musical dos Pink Floyd. [55] – Graeme Campbell foi eleito para a Câmara dos Representantes como independente nas eleições de Março de 1996, representando o eleitorado de Kalgoorlie, na Austrália Ocidental [56] – Ver Crónica 2, foi autor do controverso livro “A Austrália Traída” (Australia Betrayed) em 1996, despoletando nova vaga de racismo e intolerância, como então se explicou naquela Crónica Austral. [57] – Foi 1 Ministro trabalhista entre 1992 e 1996, sendo defensor intransigente de uma maior ligação comercial e cultural à Ásia. [58] – Ver Le Pen e seu movimento na França, ver o novo líder da direita na Áustria, e tantos outros indicadores de que a extrema direita está em ascensão no mundo europeu. [59] – David Greason, um perito em assuntos de extrema direita, foi discípulo de Eric Butler na sua juventude, a quem ouviu dizer que existe uma ligação intensa entre a finança internacional, sionismo e comunismo. Greason acabaria por juntar-se à Acção Nacional, de extrema direita, em Sydney. Mais tarde, cortou radicalmente estes laços e publicou o livro ‘Eu fui um teenager fascista (I was a teenage fascist)’. Posteriormente publicou em 1992, Lyndon LaRouche Down Under’ em edição de ‘Without Prejudice’ do Instituto Australiano dos Assuntos Judaicos. Os seus trabalhos identificam as ligações dos movimentos de extrema direita australianos aos seus congéneres norte-americanos. Ultimamente, porém, a CEC e a Liga dos Direitos estão de candeias às avessas porque os discípulos de LaRouche são anti-britânicos e acusam o sionismo internacional e a Família Real Britânica de envolvimento no mundo das drogas e de tentarem controlar o mundo. LaRouche está a cumprir uma longa sentença numa penitenciária norte-americana por evasão fiscal e fraude, mas isto não afectou o entusiasmo dos seus seguidores num e noutro lado do Pacífico. [60] – Programas onde uma conhecida personalidade pública, normalmente não se trata de um jornalista, dá o tema e convida os ouvintes a manifestarem a sua opinião. Estes programas tão comuns na América do Norte, onde o formato foi criado, e na Austrália são normalmente uma conduta para as vozes mais reaccionárias, e para os pontos de vista politicamente mais à direita. [61] – “The Fine Print: Australia’s Special Role in the New World Order”, 1992 (“Em letra miudinha: O Papel Especial da Austrália na Nova Ordem Mundial”), “The Fine Print II” (1993). Trata-se de duas obras do autor, embora o segundo seja distribuído pela Editora Simon & Schuster. [62] – “Bankers and Bastards” [63] – Australian Nationalists Movement [64] – The Nazi Supergrass [65] – Sieg Heil saudação nazi. [66] – Ver 1 A Acção Nacional. [67] – ANC, African National Congress, de Nelson Mandela [68] – Australian Security Intelligence Office, serviços secretos australianos para fins internos. [69] – Latim significando um Alto Sacerdote [70] – Jargão da organização significando Racial Holy War, uma guerra santa racial. [71] – Povos mestiços [72] – Klanwatch é uma entidade monitora dos movimentos racistas, tais como a famigerada Ku Klux Klan, com sede em Alabama [73] – NGO ou ONG, organizações não governamentais [74] – Título burocrático dado pela imigração australiana aos sem-terra, apátridas com pátria aonde voltar é morrer ou apodrecer no calabouço.. [75] – Título originalmente dado nos anos 70 aos vietnamitas que escapavam ao comunismo em qualquer tipo de embarcação e arriscando pilhagens, violações, e morte acabaram por arribar à Austrália em busca de uma pátria onde pudessem viver. Essa designação passou posteriormente a ser extensiva a quase todos aqueles que buscavam asilo. [76] – De acordo com a definição oficial do (então designado como) Ministério da Imigração, Governo Local e Assuntos Étnicos, actualmente, Imigração e Assuntos Multiculturais. [77] – “Qualquer pessoa, que devido a um bem fundado temor de ser perseguida por razão da sua raça, religião, nacionalidade, associação social ou política, se encontre fora do país da sua nacionalidade, e que seja incapaz, ou que devido a tal temor, se encontre incapacitado/a de obter a protecção desse país, ou que, não tendo uma nacionalidade, e estando ausente do seu país de residência habitual em resultado de tal acontecimento, esteja incapaz de, ou, devido a tal temor não queira, regressar”, é considerado/a refugiado/a de acordo com a Convenção das Nações Unidas de 1951 e do Protocolo de 1967 relativo ao estatuto de refugiado. Existem em média, 16 mil casos anuais de pedido de asilo (1 Fase) na Austrália e desses, um terço (2 Fase) foram sujeitos a um apelo ou revisão da decisão inicial. As estatísticas indicam que, em 1993, apenas 5,5% de todos os que pediram asilo à Austrália foram considerados dentro do âmbito daquela definição da ONU. [78] – Concedido a todas as pessoas de posses reduzidas, e para as quais o serviço nacional de saúde é ainda totalmente gratuito. No Medicare, a comparticipação do governo é, no máximo, de 85% do custo de serviços médicos tabelado. [79] – Não estava na mente do legislador que a Austrália pudesse ser inundada por estudantes da primária em busca de asilo, daí eles poderem ter acesso ao ensino primário estadual gratuito. [80] – Massacre de Santa Cruz de Dili, 11 Novembro 1991. [81] – A acção conjunta acabaria por resultar, mais tarde, na autorização de todos aqueles que nela estavam incluídos fossem autorizados a permanecer legalmente na Austrália, num dos muitos casos legais e jurídicos que o governo perdeu por excesso de zelo na aplicação da lei de imigração [82] – The Lucky Country, é o cognome que vem sendo aplicado à Austrália devido à qualidade de vida elevada, desde há muito. [83] – Em 1985 estimava-se existirem apenas 40 mil imigrantes ilegais. [84] – Este número está a duplicar em cada cinco anos. [85] – Bibliografia: 1. Sarah Henry, Center for Investigative Reporting, S. Francisco, 2. Gerard Henderson, Executive Director, The Sydney Institute, Australia, 3. OMA (Office of Multicultural Affairs, Secretaria de Estado dos Assuntos Multiculturais), 1990-1996, 4. Chrys Chrystello, arquivos do autor, 4. Arquivos dos jornais e revistas (durante o período 1984-1997): 5. The Sydney Morning Herald, 6. The Age, 7. The Australian, 8. The Weekend Australian, 9. AFR (Australian Financial Review), 10. TIME (Pacific Edition), 11. The Bulletin (incl. Newsweek), 12. Australian Penthouse, e, as edições específicas de: 13. Good Weekend Magazine (The Sydney Morning Herald/The Age), Agosto, 7, 1993, Setembro, 4, 1993 e Abril, 4, 1994; j) TIME Magazine (Pacific) Maio, 14, 1990, Abril, 8, 1991, Novembro, 25, 1991, 6. Excertos de “Six Migrant Stories” (6 histórias imigrantes) de Anne Henderson, publicado pela Allen & Unwin, Set. 1993, e lançado pela mulher do então 1 Ministro, Annita Keating, em homenagem às mulheres emigrantes como ela (ela é descendente de família holandesa). [86] – Produto Interno Bruto [87] – Inicialmente publicado na revista Nam Van, de Macau, #11, de 1 de Abril de 1985. [88] – Crónica originalmente publicada na revista Nam Van, #12, Macau, 1 de Maio de 1985. Bibliografia: “The Aborigenes of New South Wales”, Parks and Wildlife vol. 2, #5, textos de Christine Haigh. Colaboração de: Aboriginal Resource Centre, Chippendale, Sydney, e de James Williams Aboriginal Vocational Officer’ do Serviço Federal de Emprego ‘CES’. [89] – Crónica originalmente publicada na revista Nam Van, #14, Macau, 1 de Julho de 1985. Bibliografia: 1. Christine Haigh, ‘Os Aborígenes de Nova Gales do Sul’ (“The Aborigenes of New South Wales”, Parks and Wildlife”) vol. 2, #5. 2. Gillian Cowlish, Dept de Antropologia da Universidade de Sydney. 3. Gretchen Pioner, Dept de Antropologia da Universidade de Sydney. 4. Helen Clemens, Conservadora do NPWS (Serviços de Parques, Reservas e Vida Animal); 5. Howard Creamer, Research Officer, Aboriginal Sites Survey Team, NPWS (Serviços Nacionais de Parques, Reservas e Vida Animal). 6. Colaboração de: Aboriginal Resource Centre, Chippendale, Sydney, e de James Williams Aboriginal Vocational Officer’ do Serviço Federal de Emprego ‘CES’. [90] – Publicada originalmente na Revista Nam Van, de Macau, n. 15 de 1 de Agosto de 1985. Bibliografia: Russel Ward, ‘Australia since the coming of man’, Lansdowne Press. [91] – Cortesão, Jaime ‘Os descobrimentos portugueses’, Lisboa, 1934, Vol. II p.229. [92] – Originalmente publicada na revista Nam Van, n. 16 de 1 de Setembro de 1985. [93] – Bibliografia: 1. Norman Tindale 'Aboriginal Tribes of Australia' (Tribos Aborígenes da Austrália), ed. Da Universidade de Berkeley, L.A., California; 2. Glenn Hennessy, T. Salisbury, P. J. Gresser, 'Windradin of the WIRADJURI', 1971 [94] – Helen Pitt, jornal Sydney Morning Herald de 18 Julho 1988 [95] – 1. Bill Mellor in Time, Junho, 15, 1992 2. Tim Rowse, Time, Março, 7, 1994 [96] – Originalmente publicado na revista ‘Macau’ #10 em Abril 1988. [97] – Bibliografia: 1. Peter Quiddington, Editor Científico do jornal Sydney Morning Herald, NOV., 1988 2. Dr. Rhys Jones, professor da ANU (Universidade Nacional Australiana, Camberra), Departamento de Pré História e Conferência "Terra Australis Australia" Setembro 1988, Sydney. [98] – Denominado Lindner Site (o local de Lindner), Nauwalabila I. [100] – David Leser e jornal Australian, Abril 1986. [103] – Derivada da hilariante série satírica inglesa dos anos 70, 'Monthy Python' com John Cleese. [101] – Publicado originalmente na revista Nam Van, Macau, n. 18, 1 Novembro 1985, como o 1 de uma série de artigos fazendo parte do trabalho apresentado ao Seminário de Verão 1985, da Secretaria de Estado da Emigração e do Instituto Universitário de Trás os Montes e Alto Douro (IUTAD), em Vila Real de 15 a 27 de Julho 1985. [102] – Publicado originalmente na revista Nam Van, Macau, n. 19, 1 Dezembro 1985, como o 2 de uma série de artigos fazendo parte do trabalho apresentado ao Seminário de Verão 1985, da Secretaria de Estado da Emigração e do Instituto Universitário de Trás os Montes e Alto Douro (IUTAD), em Vila Real de 15 a 27 de Julho 1985. [103] – Publicado originalmente na revista Nam Van, Macau, n. 20, 1 Janeiro 1986, como o 3 de uma série de artigos fazendo parte do trabalho apresentado ao Seminário de Verão 1985, da Secretaria de Estado da Emigração e do Instituto Universitário de Trás os Montes e Alto Douro (IUTAD), em Vila Real de 15 a 27 de Julho 1985. [104] – Publicado originalmente na revista Nam Van, Macau, n. 23, 1 Abril 1986, como o 4 de uma série de artigos fazendo parte do trabalho apresentado ao Seminário de Verão 1985, da Secretaria de Estado da Emigração e do Instituto Universitário de Trás os Montes e Alto Douro (IUTAD), em Vila Real de 15 a 27 de Julho 1985. [105] – Publicado originalmente na revista Nam Van, Macau, n. 21, 1 Fevereiro 1986. [106] – Originalmente publicado na revista Nam Van, Macau, n. 24, 1 Maio 1986. [107] – Absailing é uma espécie de asa delta, enquanto parasailing é elevar-se num pára-quedas puxado por um barco a motor. [108] – Originalmente publicado na revista Macau, #15 de Fevereiro 1989. [109] – Lembro-me de em 1989 em Camberra a conhecida jornalista e apresentadora de rádio e TV, Pru Goward perguntar a Ramos Horta sobre a religião muçulmana em Timor e ele responder que em 1974 havia cerca de 500 muçulmanos, pelo que ela insistiu aludindo ao budismo inexistente no território salvo excepções não quantificadas. [110] – Originalmente publicado na revista Macau, #19 de Fevereiro 1990. [111] – Tecido tipo ‘sari indiano’ enrolado à cintura [112] – BIBLIOGRAFIA: 1. J. CHRYS CHRYSTELLO - Arquivos próprios (1973-1996), registos magnéticos e impressos de diversos trabalhos publicados, apresentados ou doutra forma divulgados.. Inclui congressos e seminários. 2. DFAC, Ministério Australiano de Negócios Estrangeiros e Comércio, Departamento de Assuntos Públicos Internacionais, “Introducing Australia”, editado por John Graham, Abril 1995, Camberra. 3. G. Collingridge “The Discovery of Australia”, Sydney, 1906, manuscritos da Colecção Dixon, Biblioteca Mitchell, Sydney, NSW (MS Q243). 4. Cap. James Cook - “Journal of the Voyages of the Endeavour”, editado por W.J.L. Wharton, Londres, 1893, editado por J.C. Beaglehole (4 vols.), Londres, 1955. 5. Jaime Cortesão - “Os Descobrimentos Portugueses”, Lisboa, 1934. 6. Kenneth Gordon McIntyre, O.B.E., M.A., LL.B. (Melbourne), Comendador da Ordem do Infante, “The Secret Discovery of Australia”, Souvenir Press, South Australia, 1977, “Portuguese Discoverers on the Australian Coast”, Victorian Historical Magazine, Vol. XLV,#4, Melbourne 1974. 7. O. H. K: Spate -“Terra Australis - cognita?”, Melbourne, 1957. 8. ISCET, Maio 1995, “Dados Temporários - Comércio Externo de Portugal”. AGRADECIMENTOS: Prof. Carl Georg von Brandenstein - “The First Europeans on Australia’s West Coast”, 1989, “Portuguese Loan-Words in Aboriginal Languages of North Western Australia”, em W. S. Würm e D.C. Laycock, ed. Pacific Linguistic Studies in honour of Arthur Capell, 617-650, PACIFIC LINGUISTICS, C-13. Arquivos dos jornais: The Sydney Morning Herald, The Age, The Australian. O Autor agradece amistosamente a colaboração dos Ministérios Federais Australianos, Entidades Para-Estaduais, Entidades Estatutárias e outras entidades australianas que permitiram a compilação deste trabalho. [113] – (P) indica Português, (N) dialecto Ngarluma, (K) dialecto Karriera, (Y) dialecto Yindjiparndi, (PNj) dialecto Pitjantara. [114] – PNB Produto Nacional Bruto. [115] – PME pequenas e médias empresas. [116] – ABARE- Centro Australiano de Agricultura e Recursos Económicos. [117] – ASEAN: Associação das Nações do Sudeste Asiático. [118] – PIB Produto Interno Bruto. [119] – GATT Acordos Gerais sobre Tarifas e Trocas Comerciais. [120] – U.E União Europeia. [121] – WTO World Trade Organization: Organização Mundial de Trocas Comerciais. [122] – Os 12 países originais eram os Estados Unidos, Japão, Canadá, República da Coreia, os 6 países da ASEAN, Austrália e Nova Zelândia. [123] – TAFE- TECHNICAL ADVANCED AND FURTHER EDUCATION. [124] – HECS- Esquema de Contribuição para o Ensino Superior. [125] – AusAID- Agência Australiana para o Desenvolvimento Internacional. [126] – Aproximadamente 65 mil pessoas em 1995. [127] – Maiores do que as da Europa, mas inferiores à dos países da Ásia. [128] – ACTU- Confederação Sindical Australiana. [129] – PNB- Produto Nacional Bruto. [130] – Dados fornecidos pelo ISEP relativos a Maio 1995. ©2002 — J. Chrys Chrystello Versão para eBook eBooksBrasil.com __________________ Abril 2002
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