KOREAEBOOKDOCUMENT1.3.0Cronicas Austrais - 1974-1998J. Chrys ChrystelloeBooksBrkasileBooksBrasil]B¼ Crónicas Austrais - 1974-1998 - J. Chrys Chrystello Edição eBooksBrasil Versão para eBook eBooksBrasil.com Fonte Digital Documento do Autor Copyright: © 2002 J. Chrys Chrystello ÍNDICE O Autor CRÓNICA 0 PARA UMA CURTA HISTÓRIA DA AUSTRÁLIA (OU DE COMO A DESCONHECER MENOS Iª PARTE: O CONTINENTE-ILHA IIª PARTE: O POVOAMENTO BRANCO IIIª PARTE: OS MEIOS DE TRANSPORTE IVª PARTE: ORGANIZAÇÃO ADMINISTRATIVA E CONDIÇÕES SOCIAIS Vª PARTE: VIDA CULTURAL E SUAS INSTITUIÇÕES CRÓNICA Iª DA VIDA DOS MACAENSES EM TERRAS DO DOWN UNDER CRÓNICA IIª Parte Iª: ASIANIZAÇÃO, IMIGRAÇÃO E RACISMO PARTE IIª: UMA CRISE DE IDENTIDADE NACIONAL AUSTRALIANA 1. A HERANÇA DE BLAINEY 2. O RELATÓRIO FITZGERALD 3. O PAÍS DO CROCODILO DUNDEE ESTÁ DOENTE 4. A RAIVA INTELECTUAL E A ÁSIA 5. “A BATALHA DOS BATALHADORES” 6. DÊ VIVAS À ALEGRIA 7. BEM-VINDOS AO PARAÍSO PROMETIDO: a outra face da Austrália CRÓNICA IIIª A VIDA CULTURAL NA AUSTRÁLIA PARTE 1ª:- O DESERTO PARTE 2ª- O 10 DE JUNHO PARTE 3ª: LITERATURA PORTUGUESA VISITA A AUSTRÁLIA CRÓNICA IVª Parte Iª: A DESCOBERTA DA AUSTRÁLIA PELOS PORTUGUESES PARTE IIª FLINDERS DEU NOME À AUSTRÁLIA PARTE IIIª: FRANCESES NA AUSTRÁLIA CRÓNICA Vª ONDE SE FALA DA AUSTRÁLIA, DE PORTUGAL, DO AUSTRALIANISMO DAS GENTES E DO MAIS, QUE ADIANTE SE VERÁ CRÓNICA VIª ONDE SE FALA DA EXPOSIÇÃO TERRA AUSTRALIS, OU, A POLÉMICA DESCOBERTA DESTE CONTINENTE 1. OS PRIMEIROS CONTACTOS 2. OS ANTECEDENTES GEOGRÁFICOS 3. FERNÃO DE MAGALHÃES E AS ÍNDIAS ORIENTAIS 4. OS MAPAS DE DIEPPE 5. A NOVA GUINÉ 6. A COMPANHIA HOLANDESA DAS ÍNDIAS ORIENTAIS CRÓNICA VIIª O PRIMEIRO GOVERNADOR DA AUSTRÁLIA LUTOU PELA MARINHA PORTUGUESA CRÓNICA VIIIª As palavras nas paredes ou ainda a asianização da Austrália 1. A ACÇÃO NACIONAL 2. A OUTRA FACE DOS ASIÁTICOS NA AUSTRÁLIA 3. A ESCALADA DA DIREITA LUNÁTICA 4. PARA ALÉM DAS FRANJAS LUNÁTICAS DE DIREITA 5. OS ASILADOS NO LIMBO SÃO NON-PERSONÆ 6. CARNE PARA IMPORTAR, CASAMENTOS PARA EXPORTAR CRÓNICA IXª A AUSTRÁLIA NO ANO 2000 - A IDADE DO BRONZE O DECLÍNIO DA RIQUEZA INDIVIDUAL: de 1º a 21º país no ranking mundial, em cem anos. 2. A IDADE DO BRONZE 3. O FUTURO 4. ALTERNATIVAS PROVÁVEIS? CRÓNICA Xª OS ABORÍGENES - Parte I (de 9) I. IGNORÂNCIA, ÁLCOOL, DEUS E AS BOAS INTENÇÕES CRÓNICA XIª Partes II a IX: OS ABORÍGENES DE NOVA GALES DO SUL PARTE 1ª I. O MEIO AMBIENTE E VESTÍGIOS ARQUEOLÓGICOS II. CERIMÓNIAS TRADICIONAIS III. A ARTE IV. HABITAÇÃO E FERRAMENTAS V. PESCADORES - CAÇADORES e porque não agricultores? VI. O PAPEL TRADICIONAL DA MULHER VII. A HERANÇA ABORÍGENE, PASSADA E PRESENTE VIII. AS MISSÕES IX. AS INICIAÇÕES E RITOS CRÓNICA XIIª A AUSTRÁLIA E SUAS COLONIZAÇÕES: Dos Aborígenes aos Ingleses CRÓNICA XIIIª I. A LEI MARCIAL DE 1824 II. O SEGREDO (SECRETO) DE WILLIAM DAMPIER III. A TEORIA DA TERRA NULLIUS IV. A AUSTRÁLIA NO BICENTENÁRIO (1988) CRÓNICA XIVª PARTE Iª A IDADE DAS PEDRAS E DOS HOMENS PARTE IIª O TÚNEL DO TEMPO CRÓNICA XVª A ACULTURAÇÃO DO EMIGRANTE E A MISCIGENAÇÃO DE CULTURAS PARTE Iª: OS EMIGRANTES PORTUGUESES NA AUSTRÁLIA CRÓNICA XVIª PARTE IIª: A FORMAÇÃO PROFISSIONAL REPRESENTA UMA FALSA AMBIENTAÇÃO DAS CAMADAS JUVENIS, ACRESCIDA DE UM CHOQUE CULTURAL INTER GERAÇÕES. CRÓNICA XVIIª PARTE IIIª: O nacional clubismo transportado para terras do além mar perpetua visões salazaristas imunes a revoluções. PARTE IVª: Neologismos, ou a permanente criatividade linguística do emigrado? CRÓNICA XVIIIª PARTE Vª: Associativismo, comunicação social, apatia, naturalização e a almejada viagem de retorno a uma pátria imaginária. CRÓNICA XIXª 100 ANOS DE EMIGRAÇÃO PARA A AUSTRÁLIA 1886-1986 CRÓNICA XXª OS PARAÍSOS DO PRAZER - Da atracção das ilhas sobre os corpos, aos sentimentos românticos e às motivações socio-ocupacionais das classes economicamente desfavorecidas CRÓNICA XXIª PARTE Iª: OS TIMORENSES NA AUSTRÁLIA - Da invasão indonésia até à Austrália, um percurso de 22 anos CRÓNICA XXIIª PARTE IIª: “ENTERRADOS VIVOS” filme sobre a saga de Timor CRÓNICA XXIIIª A BACIA DO PACÍFICO NO SÉCULO XXI 1. A AUSTRÁLIA NA PRIMEIRA PESSOA 2. DE NAÇÃO ABORÍGENE ISOLADA A COLÓNIA 3. A DIVERSIDADE NUMA SOCIEDADE MULTICULTURAL 4. SEGURANÇA SOCIAL 5. DIREITOS HUMANOS 6. O DESAFIO AUSTRALIANO 7. RECURSOS NATURAIS E DESENVOLVIMENTO 8. VIDA ANIMAL 9. O AMBIENTALISMO 10. A AUSTRÁLIA VERDE 11. A DEMOCRACIA AUSTRALIANA 12. A CONSTITUIÇÃO 13. O GOVERNO FEDERAL E O PARLAMENTO 14. GOVERNO ESTADUAL E GOVERNOS LOCAIS 15. O SECTOR JUDICIAL 16. PARA QUANDO A REPÚBLICA AUSTRALIANA? 17. O SÉCULO XXI PREPARADO POR REFORMAS ECONÓMICAS 18. AS RIQUEZAS NATURAIS DA AUSTRÁLIA 19. DESENVOLVIMENTO MINERAL 20. A INDÚSTRIA RURAL 21. A VIRAGEM DA DIPLOMACIA E DAS RELAÇÕES COMERCIAIS 22. REFORMAS COMERCIAIS 23. UMA CULTURA EM CRESCIMENTO 24. EDUCANDO PARA O FUTURO 25. RELEVÂNCIA DA AUSTRÁLIA PARA A EUROPA E PORTUGAL   CRÓNICAS AUSTRAIS 1974-1998 J. CHRYS CHRYSTELLO Em Sydney, Austrália O Autor      J. Chrys Chrystello prestou serviço no exército colonial português sendo destacado para o CTIT (Comando Territorial Independente de Timor) onde chegou em Setembro 1973, regressando a Portugal dois anos mais tarde. Começou então a escrever o seu livro “TIMOR LESTE 1973-75, O DOSSIER SECRETO” antes de rumar a Macau em 1976 e posteriormente à Austrália onde se fixou e naturalizou.      Ao longo de mais de três décadas de jornalismo político, trabalhou em rádio, televisão e imprensa escrita, tendo sido correspondente estrangeiro durante vários anos da agência noticiosa portuguesa ANOP/LUSA, da RDP/Rádio Comercial, TDM (Macau), J. N., Europeu, PÚBLICO, tendo sido publicado em inúmeros jornais e revistas em todo o mundo, para além de ter escrito guiões de filmes e documentários australianos sobre Timor. Entre 1976 e 1994, data em que se reformou do jornalismo activo, esforçou-se por divulgar a saga do povo timorense que o mundo (incluindo a Austrália e Portugal) teimava em não querer ver.      Tendo-se interessado pela linguística ao ser confrontado com mais de 30 dialectos em Timor, descobriu na Austrália provas da chegada ali dos Portugueses (1521-1525) mais de 250 anos antes do capitão Cook, e da existência de tribos aborígenes falando Crioulo Português (herdado quatro séculos antes).      Membro Fundador do AUSIT (Australian Institute for Translators and Interpreters) e Examinador da NAATI (National Authority for the Accreditation of Translators and Interpreters) desde os anos 80, e pertencendo a vários órgãos internacionais congéneres, Chrys dedicou a última década à sociolinguística e tradução, tendo apresentado trabalhos em dezenas de conferências internacionais (da Austrália a Portugal, Espanha, Brasil, EUA e Canadá) onde os temas da língua e cultura portuguesas estão sempre presentes, tendo concluído em 1999 o seu Master of Arts (mestrado com Major in Applied Social and Communication Studies.) sendo concorrente anual à Translation Competition, do British Centre for Literary Translation (British Comparative Literature Association) , University of East Anglia, Inglaterra. 2002 assiste agora à publicação do seu livro de Crónicas Austrais cobrindo a sua fase australiana pura de 1974 a 1998. CRÓNICA 0 PARA UMA CURTA HISTÓRIA DA AUSTRÁLIA (OU DE COMO A DESCONHECER MENOS) Iª PARTE O CONTINENTE-ILHA        A Austrália caracteriza-se basicamente por ser um vasto continente de 8 000 000 km quadrados de baixo relevo orográfico, isolada, com grande número das suas terras, sendo áridas, com uma fauna e flora bem diversas das encontradas em diversos outros locais do globo. O seu isolamento de outras massas de terra, explica até certo ponto a sua fauna e flora, enquanto o relevo pouco pronunciado se poderá atribuir à erosão do vento, das chuvas, e do calor durante as épocas geológicas em que a massa continental esteve acima do nível médio das águas.      Para muitos, a Austrália foi chamada a última das terras pois que isso se deveu ter sido das últimas que foram ‘ descobertas ’ pela civilização ocidental… Dezenas de milhar de anos antes das viagens de Abel Tasman e James Cook ao Pacífico Sul, já os aborígenes haviam coberto a distância que separa a Ásia da Austrália, tendo-se disseminado pelo continente e pela Tasmânia, para não falarmos aqui das digressões portuguesas pela área...      O início daquilo a que muitos chamam a nova era civilizacional, poderá situar-se em 1788, aquando da chegada do Capitão Arthur Phillip, da Real Marinha Britânica (e do Almirantado Português na América do Sul), à frente da 1ª Armada, quando na época existiam cerca de 300 mil aborígenes.      A população actual ronda os 18 milhões, dos quais cerca de 65% são de extracto anglo-celta. O isolamento do país tem permitido um desenvolvimento económico ímpar, dado que a norte se encontra a Papua Nova Guiné (até 1975 administrada pela Austrália), a leste a Polinésia e Melanésia, a oeste a Indonésia e a sudeste outro país da Commonwealth (Comunidade dos Países de origem britânica), a Nova Zelândia, e, os laços de ligação ao país de origem são distantes (19 mil km do Reino Unido e 12 mil km da costa ocidental dos EUA).      A Austrália é uma federação tal como os EUA e o Canadá, constituída por seis estados (Nova Gales do Sul, Vitória, Austrália Meridional, Queenslândia, Austrália Ocidental e Tasmânia), e dois territórios (o Território Norte e o do Capital Federal), para além de algumas possessões insulares: as ilhas Cocos-Kealing, Norfolk (autónoma excepto na defesa e assuntos estrangeiros), Ashmore, Cartier, ilhas do Mar de Coral, Heard, McDonald e o território da Antárctica Australiana.      Para além de ser o continente com menos relevo, a Austrália é também o mais seco de todos. Vista do ar, a paisagem varia entre o tom desértico avermelhado e várias outras tonalidades, sendo, no entanto, possível voar 3 mil km de Sydney a Darwin, no norte, sem se encontrar vestígios de civilização, nem uma cidade, uma vila ou aldeamento, o mesmo se podendo passar em relação a Perth, no oeste, separado de Sydney cerca de 3 200 km. De facto, o planalto central e ocidental são tipicamente desérticos. Como sempre, as aparências podem enganar, encontrando-se na Queenslândia e em Nova Gales do Sul, a maior indústria lanífera do mundo, enquanto nas zonas mais áridas e inabitadas existem enormes fontes de riqueza mineral.      O povoamento branco situou-se preferencialmente, na zona costeira oriental, até ao limite da cordilheira australiana (“The Great Divide Range”), que se estende desde o Cabo Iorque, no norte da Queenslândia até ao sul do continente, na Tasmânia. A principal razão para tal concentração populacional deveu-se sempre a um aspecto de fertilidade associado à zona costeira que se alarga entre 30 e 300 km para o interior, em socalcos que jamais excedem os 1500 metros de altitude. Essa fertilidade costeira está, porém, dado o seu uso intenso e continuado, a ceder lugar a uma nova forma de desertificação dos solos, ora tornados áridos.      Ainda hoje, para a maioria dos australianos, todas as regiões para além da cordilheira são considerados como “outback”, com toda a gama de conceitos míticos hostis a uma penetração populacional intensa. É ainda, a zona de fronteira, área de aventura e esperança, com esparsa população, já que esta se concentra basicamente na costa leste e em alguns pontos da costa sul e ocidental. IIª PARTE O POVOAMENTO BRANCO      A exploração pelo homem branco não foi, nem é, fácil neste enorme continente-ilha. Para os primeiros colonos nem mesmo a costa oriental era de molde a permitir o seu estabelecimento, dada a existência da Grande Cordilheira Central (“The Great Divide Range”), entre 30 e 300 km de distância da costa.      Embora pouco houvesse a temer dos aborígenes, a terra em si era hostil e só na segunda metade deste século, com o advento e propagação do automóvel, do avião e das comunicações via rádio, se reduziram as condições de isolamento. Apesar disto, ainda é vulgar encontrarem-se famílias a mais de 10 ou 30 km umas das outras e a mais de 80 ou 100 km (ou centenas de km nalgumas regiões) do aldeamento mais próximo, embora estejam ligadas por estradas (normalmente) asfaltadas e sistemas de comunicação via rádio ou satélite.      Desde sempre se assistiu ao crescimento de duas espécies de povoamento rural - uma constituída pelos ‘graziers’ [1] e outra pelos ‘farmers’ [2] (ou farmeiros como os portugueses aqui os designam), encarregando-se do cultivo de vastas áreas com 100 mil ou mais acres.      Por causa das distâncias e da reduzida população, jamais se assistiu aqui ao fenómeno rural da aldeia no sentido típico que os europeus dão ao termo, antes se podendo verificar a existência de cidades servindo vastas áreas, e, se bem que muitas dessas cidades não tenham mais do que a rua principal, um hotel, um armazém, certo é que existem centros urbanos cujo crescimento os elevou já a nível de grandes centros urbanos e comerciais.      Um dos paradoxos da Austrália é o de mais de 60% da população viver em sete cidades e, dos restantes, 25% vivem em pequenos centros urbanos e 15% em áreas rurais. A densidade populacional (a mais baixa do mundo) é de menos de 4 habitantes por milha quadrada (4 hab. por cada 2,5 quilómetros quadrados, ou seja 1,6 habitantes por cada quilómetro quadrado).      Sydney e Melbourne detêm 43% da população do país (7,5 milhões) e, embora nenhuma destas cidades seja a capital federal, certo é que se podem comparar sem problema a grandes metrópoles como Paris e Londres ou Nova Iorque, como centros de comércio e indústria. Camberra, a capital, criada apenas em 1913 tem, no entanto, tido um ritmo de crescimento notável. Camberra, com cerca de 400 mil habitantes, tal como tantas outras cidades criadas artificialmente, carece de uma razão de ser, para além da sua importância como centro político do continente, mas, ao mesmo tempo, reveste-se de um manto de cosmopolitismo, sujeito a um planeamento estrito mas modelar.      A população embora, ainda, maioritariamente anglo-celta, apresenta já mais de 35% de imigrantes, na sua maioria europeus e/ou ocidentais (24%), sendo os restantes de origem árabe e asiática (11%). Os aborígenes representam apenas 1,3% da população, dos quais apenas 0,3% são de descendência directa e pura dos primeiros habitantes do continente, com a sua vasta maioria miscigenada. Apesar das políticas proteccionistas iniciadas a partir de 70, continuam, porém, a ser vítimas do círculo vicioso da pobreza, da ignorância, da doença, e com elevadas taxas de mortalidade infantil: 3,5 vezes superior à dos brancos...      Embora se assistisse nas últimas décadas a várias medidas políticas destinadas a repor um certo sentido de justiça social em relação a este grupo, certo é que continuam a carecer de direitos generalizados, fruto de duas centenas de anos de predominância branca e de intolerância. Com uma taxa de crescimento populacional de 2,3% e, com uma restrição pronunciada da imigração na década de 90, a população australiana não vai conseguir atingir os 20 milhões no ano em que recebe, em Sydney os Jogos Olímpicos 2000. IIIª PARTE OS MEIOS DE TRANSPORTE      Devido às distâncias elevadamente grandes e à reduzida população da Austrália, todos os meios tradicionais de transporte se estabeleceram no século passado, quando o país era, ainda, um conjunto de colónias britânicas, separadas entre si, antes de, em 1901, se juntarem numa Federação.      O sistema ferroviário, então implantado era independente para cada uma das colónias, e, só em 1970 se tornou viável ir de Sydney a Perth sem ter de mudar, várias vezes, de comboio, devido à uniformização das dimensões dos carris. Estes haviam sido implantados, em cada estado, com diferentes medidas, para evitar ‘invasões’ ou ‘anexações’. A densidade da rede ferroviária é de 4,3 km por cada mil pessoas, enquanto que existem 350 veículos automóveis por cada mil habitantes. Devido à inconstância dos ciclos fluviais, os transportes aéreos vieram na década de 70 a constituir a grande alternativa, tendo, então, registado um total de passageiros na ordem dos seis milhões anuais.      De um total de um milhão de quilómetros de estrada, cerca de 200 mil são asfaltados e 500 mil em terra batida. As auto-estradas que ligam Sydney a Brisbane (Pacific Highway) e a Melbourne (Hume Highway) são insuficientes para o volume de tráfico que as utiliza.      A nível de experiências devem contar-se as viagens de carro entre Darwin no Território Norte e Adelaide, capital da Austrália Meridional, ou entre esta cidade e Perth, na Austrália Ocidental, que ficam para sempre retidas na retina do viajante, ou por comboio a do Grande Expresso GAN, entre Perth e Sydney, via Adelaide e Melbourne.      As ligações ferroviárias, lançadas no final do século passado continuam a ter uma importância fundamental, embora com os seus elevados custos tenham de se debater com a progressiva importância das ligações aéreas e rodoviárias.      A nível portuário, existem 66 portos, a maioria deles na costa leste. Para além de Sydney, que nos anos 70, orçou uma capacidade de 17 milhões de toneladas anuais, são de citar ainda Melbourne (Vitória), Port Kembla (Nova Gales do Sul), Fremantle (Austrália Ocidental), Geelong (Vitória), Whyalla e Brisbane (Queenslândia) e Port Adelaide na Austrália Meridional, os quais movimentavam na década passada mais de 30 milhões de toneladas importadas e 80 exportadas.      A Austrália possui apenas uma companhia de navegação aérea internacional a QANTAS (Queensland and Northern Territory Airways), e a nível interno dispõe da Australian Airlines e Ansett, para além de pequenas companhias regionais de pequeno movimento. Todo o transporte aéreo sofreu uma revolução na década de 80, quando passou de estritamente regulamentado para uma fase de liberalização, que resultou no aparecimento de novas companhias, algumas das quais, como a Compass, foram à falência. De uma forma geral, porém, os custos de viagens aéreas baixaram entre 20 a 30% nalgumas rotas, havendo ocasiões em que uma viagem de ida e volta entre as duas maiores capitais, Sydney e Melbourne, custa 200 dólares australianos (aproximadamente 25 contos). IVª PARTE ORGANIZAÇÃO ADMINISTRATIVA E CONDIÇÕES SOCIAIS      De uma forma simplista, pode dizer-se que, a Austrália é regida por um sistema político semelhante ao britânico e americano. Por um lado, um sistema monárquico de que é líder a rainha da Grã Bretanha, por outro, uma Federação baseada numa Constituição que apenas pode ser alterada por referendo e que divide os poderes entre os diversos estados e o governo federal. Sendo uma monarquia sujeita a um monarca não residente, a Austrália tem, no Governador Geral a sua entidade máxima, que, em casos tais como a grave crise constitucional de 1975, assume as rédeas do poder [3] . Para além do Governador Geral existem governadores estaduais com poderes semelhantes.      Assuntos, tais como a defesa, política externa, imigração, fisco e comunicações estão normalmente confiados ao poder federal, sendo os restantes, da jurisdição dos estados. Estes poderes derivam directamente da origem colonial dos diferentes estados e mantiveram-se imutáveis até à 2ª Grande Guerra, altura em que o governo federal, a título transitório, que se haveria de tornar definitivo decidiu encarregar-se da colecta dos rendimentos fiscais, ficando, porém, com o encargo de os distribuir posteriormente.      As eleições, onde o voto é obrigatório, são feitas segundo um modelo preferencial para o Senado (Parlamento), em que cada pessoa vota nos candidatos dando-lhes uma ordem de preferência. Depois do apuramento dos votos primários (directos), contam-se os restantes votos de acordo com as preferências dos eleitores e assim são eleitos os senadores através do voto secundário dos eleitores, o que pode implicar que algum dos eleitos pelas preferências dos eleitores acabem com muitos mais votos do que os eleitos por voto directo primário. Para a Câmara Baixa (House of Representatives), são escolhidos 60 senadores (10 por cada estado) de acordo com a sua representação proporcional no eleitorado.      Como partidos políticos existem o Trabalhista (ALP), o Liberal (LP), o Nacional (NP) - que deriva do Country Party (este apenas activo ainda como tal no Território Norte), os Democratas (Australian Democrats) que são derivados duma ala dissidente dos trabalhistas e os Verdes. Para além destes, todos com representação parlamentar, existe ainda o Partido Comunista Australiano cuja influência parlamentar é nula, mas que se encontra bem arreigado no seio de organizações sindicais.      A lei australiana baseada no Direito Comum Inglês é administrada pelos estados, e cada um possui um Supremo Tribunal (Estatal). Para além destes existe ainda o Supremo Tribunal (Federal) que tem jurisdição máxima sobre os tribunais estatais e federais.      O Exército Australiano , se bem que de diminutas proporções, tem uma longa história de actos de bravura, abarcando os combates na província turca de Gallipoli, durante a campanha dos Dardanelos na 1ª Grande Guerra, às intervenções na 2ª Guerra na Malásia, Coreia, Burma (Birmânia ou, mais recentemente, Myanmar), Timor e Vietname. O mesmo se poderá dizer, em mais reduzida escala, da Real Força Aérea e da Real Marinha.      Sendo a Austrália um país de bem estar social (Welfare State), embora não tanto como alguns países da Europa, proporciona vários tipos de pensões de velhice, invalidez, viuvez, subsídios de desemprego, de doença, de maternidade, de família, e muitos outros, embora a tendência desde a crise económica de 1987 tenha sido - cada vez mais - a de reduzir o total de beneficiários de um sistema altamente generoso. Na década de 70, quando eles foram aumentados pelos trabalhistas, sob o slogan de que toda a gente tem direito a alguma coisa (do governo) tais subsídios e pensões eram dos melhores do mundo, quase idênticos aos suecos, que tinham aquele que era, na altura, considerado como o melhor sistema social. Por outro lado, existe uma forte tradição de que cada pessoa deve construir ou comprar casa própria, existindo inúmeros sistemas de apoio a tal, bem mais generosos do que sistemas idênticos introduzidos nas últimas décadas em Portugal.      A educação é um encargo de cada estado, gratuito ao nível primário e secundário, e semi-subsidiada a nível terciário. Paralelamente, existe um sistema de ensino proporcionado pela Igreja (Católica Romana) bem mais dispendioso do que o estatal e que beneficia de subsídios governamentais. Existem cerca de duas dezenas de universidades e inúmeros estabelecimentos de ensino politécnico terciário, disseminados pelos estados e territórios.      O esquema de saúde é gratuito para toda a população, sob as normas do Medicare, que cobre em 85% todas as despesas, e se uma pessoa despender num ano mais do que um certo montante, o Medicare reembolsa-o dessa diferença. Existem médicos que cobram directamente ao Medicare e para os quais os pacientes nada têm de pagar, outros, porém, preferem cobrar aos doentes que depois são reembolsados pelo Medicare. As comparticipações do Medicare excluem próteses dentárias e oftalmológicas (mas as consultas estão cobertas). Existem vários seguros de saúde privados, com inúmeras variações de medicina privada e tratamento hospitalar público e privado, mas o seu custo, é, de uma forma geral, elevado.      O sistema de fixação salarial é por arbitragem e tem servido os interesses do patronato e das classes trabalhadoras, embora ocasionalmente se registem greves tentando forçar a resolução de disputas industriais. Apesar de muitas mudanças ao sistema arbitral introduzidas por governos conservadores e trabalhistas, certo é que a Austrália deixou de ser o país das greves constantes, como era na década de 70 e até finais da de 80. Vª PARTE VIDA CULTURAL E SUAS INSTITUIÇÕES      Durante os primeiros cem anos de ocupação branca do continente, a vida artística e cultural foi, decerto, negligenciada, pois então estavam todos muito mais interessados em explorar e colonizar do que em dedicar-se às gloriosas artes.      A primeira manifestação de uma certa consciência artística surge na última década do século XIX através da revista de Sydney, “The Bulletin” (ainda hoje existente e, integrando a versão australiana da Newsweek). Fundada por um certo número de escritores e artistas de visão radical e equalitária, eles foram precursores de um liberalismo nacionalista. Dentre eles citaremos Tom Collins (1843-1912), autor de livros como “Such is life (Assim é a vida)” em 1903, Henry Lawson (1867-1922) e o artista gráfico Norman Lindsay (falecido em 1970). Depois deste movimento inicial, apenas se poderá considerar como válida, a actividade desenvolvida no pós guerra, em que o isolamento, quer do Reino Unido quer da Europa, aliado à sofisticação e crescimento urbano providenciaram um interessante estímulo, nomeadamente na pintura e poesia.      A partir de 1954, com a atribuição de subsídios governamentais, o vigor da escrita, pintura e música começaram a fazer-se notar, não obstante um pesado regime de censura a obras estrangeiras.      O primeiro campo artístico a atrair as atenções mundiais foi o da pintura, celebrizado por nomes tais como Drysdale, Boyd e sobretudo Sydney Nolan, quer pela sua criatividade inovadora, quer pela sua reprodução dos mitos e da paisagística australiana, quer mesmo pelo impacto que tiveram nos centros mundiais da Arte.      Na poesia, sobressaem Alec Hope e James MacAuley (ambos professores de literatura). Ainda na área das letras, deveremos incluir o mais conhecido de todos os escritores contemporâneos deste continente: Patrick White, autor de obras tais como “The Tree of Man”(1955), “Voss”(1957), “Riders in the Chariot”(1961), algumas das quais já traduzidas para a língua lusa.      Nos anos 70 surgiram vozes clássicas tais como as da Dama Nellie Melba e Joan Sutherland, que durante anos se mantiveram no topo do cartaz de diversas peças de ópera mundial. Igualmente importante para este contributo artístico, são a criação, na mesma época, do Centro de Artes de Vitória, em Melbourne, e da Opera House em Sydney, concebida e quase totalmente executada pelo ainda hoje celebrado arquitecto dinamarquês Jøern Ützon, obras que contribuíram de forma bem activa para o desenvolvimento da ópera, ballet e teatro.      A nível de instituições, as mais importantes surgem em 1954: a “Companhia Nacional Australiana de Ópera” e a “Companhia Australiana de Bailado”. Em 1967, foi criado o “Instituto Australiano das Artes”, que anualmente recebe cerca de três milhões de dólares (aprox. 45 mil milhões de Escudos). depois, foi criada a “ABC” [4] responsável pela radiodifusão e televisão, o “Australian Music Board”, o “Commonwealth Art Advisory Board” e o “Commonwealth Literary Fund”, que mais tarde se conglomeraram no “Australian Council for Arts”.      Em 1967 iniciou-se a construção da Galeria Nacional em Camberra, que embora incapaz de competir com idênticas organizações europeias e norte-americanas, se concentrou mais na arte do Pacífico, Ásia e Austrália.      A nível da imprensa convirá referir o “The Sydney Morning Herald”, em Sydney, e o “The Age”, em Melbourne com mais de 135 anos de existência, um único jornal nacional, o “The Australian”, e os semanários “The Bulletin” (já atrás mencionado) e o “Australian Financial Review”.      A título de curiosidade refiram-se as suas tiragens em Dezembro 1996 [5] :
JORNAL EDIÇÃO N.º DE LEITORES POR EDIÇÃO
The Age - 677 mil
The Age Sábados 1 067 mil
The (Sunday) Age Domingos 622 mil
The Australian - 422 mil
The Weekend Australian Fim de Semana 868 mil
The Financial Review - 278 mil
Sydney Morning Herald - 864 mil (Sydney)
Sydney Morning Herald Sábados 1 258 mil
The Daily Telegraph - 1 256 mil
The Sun-Herald - 1 464 mil
The Herald Sun - 1 564 mil (Melbourne)
The Advertiser - 557 mil
The West Australian - 681 mil (Perth, Australia Oc.)
The Canberra Times - 124 mil
The (Sunday) Canberra Times Domingos 118 mil
The Courier Mail - 640 mil (Brisbane, Qld.)
     A nível televisivo existem cinco canais nacionais, dos quais três são comerciais: os Canais 9, 7 e 10, o canal nacional governamental 2 (ABC) e o canal étnico multicultural SBS 0/28. Nos últimos anos assistiu-se à proliferação dos canais pagos, mas ainda não competem em audiências com os restantes, de forma significativa.      A Austrália tem sido, por diversas vezes, considerado o continente da sorte, não só pelo seu clima ( malgré as secas ), como pelos seus recursos naturais, como também, pelo seu povo vivendo numa atmosfera pouco poluída. O único continente que nunca sofreu nenhuma vicissitude de guerra, um enorme país-continente, de certa forma complacente e preguiçoso, misturando o facto de ser o último entreposto europeu no Pacífico Sul com a sua tendência de se tornar, lentamente, asianizado. O futuro, decerto, não será tão calmo nem descontraído como em mais de duas centenas de anos tem sido, mas, atendendo aos recursos naturais e humanos, adaptabilidade e miscigenação vigentes, o futuro aparece ainda como risonho nesta orbe conturbada em que vivemos. CRÓNICA Iª DA VIDA DOS MACAENSES EM TERRAS DO DOWN UNDER      26 de Janeiro de 1788, após 157 dias de viagem tormentosa, a primeira Armada, com os seus 11 navios (dos quais seis de transporte), 730 condenados (570 varões e 160 mulheres), acompanhados por cerca de 250 homens livres - na sua maioria marinheiros - chegaram a Port Jackson, perto do local onde se localiza hoje a metrópole de Sydney, para aquilo que viria a constituir o primeiro centro colonial branco na Austrália. A Primeira Armada chefiada pelo Capitão James Cook, trouxe consigo todos os germes que haviam de fazer brotar a sociedade australiana contemporânea. Aquando da sua chegada, residiam aqui cerca de 300 mil aborígenes, distribuídos por mais de 500 tribos e semi-tribos, dispersos, de acordo com a morfologia do terreno e suas variantes climatéricas.      Este o preâmbulo necessário para as Crónicas Austrais ou como lhe chamariam os Portugueses de antanho: “ Esta he a chronica de terra australis incognita ”, ainda inseguros da descoberta do grande continente por Cristóvão de Mendonça em 1522 e por Gomes de Sequeira em 1525. É, porém, a partir de 1536 que parece não restarem dúvidas sobre a traçagem cartográfica da Austrália por portugueses.      Esta primeira crónica de ‘Down Under’, contrariamente a algumas expectativas, foi escrita com os pés bem assentes no ar e a cabeça no chão, como convém a quem aqui habita, de forma a que possamos ser lidos sem distorções hemisféricas, pois iremos falar da presença de Macau, na Austrália (mais propriamente em Nova Gales do Sul) [6]      Tentar explicar ou falar da Austrália para quem está a uns milhares de quilómetros, não é tarefa fácil, pois este país para se conhecer, se sentir, se perceber, implica uma presença física e uma certa permanência. Admitida tal premissa, vamos, então, tão sumariamente quanto possível, tentar dar uma ideia do que é, do que faz e como vive a comunidade macaense aqui residente.      Para tal, armados da ingenuidade própria de quem viveu alguns anos em Macau e com os contactos que o quotidiano nos permite estabelecer, esboçaremos aqui os contornos de uma certa comunidade étnica: nem mais nem menos do que qualquer uma das mais de 150 etnias que povoam este continente.      Dentre um total de 65 mil portugueses aqui radicados uns escassos 2 ou 3% são originários ou descendentes de Macau, valendo-nos dos dados do recenseamento australiano, dado inexistirem, quer no Consulado Geral de Sydney, quer na Embaixada, valores exactos de acordo com a naturalidade dos portugueses ali registados (em matéria estatística, ninguém leva a palma aos portugueses).      Quem são e como se localizam neste vasto continente-ilha? Uma vez mais deparamos com a muralha silente das incógnitas, mas a maioria esmagadora está em Nova Gales do Sul, com núcleos mais pequenos nos outros estados e territórios.      Sob o ponto de vista étnico predominam aqui também os descendentes de chineses, embora nas últimas 3 ou 4 décadas se tenha registado um influxo de filhos e netos de macaenses, quer por motivos primordialmente económicos quer em antecipação de 1999. O maior surto de chegadas é relativamente recente e assenta sobremaneira em razões de política interna imigratória, em especial com o términos da política de imigração branca, discriminatória e legalmente incentivada até à década de 70. Até então, a admissão de imigrantes não anglo saxónicos ou europeus era praticamente impossível, mas sucessivos actos legais governamentais em 1956, 1966, 1973 e 1982, vieram de facto a transfigurar de forma notável - e quiçá mesmo brusca - a face populacional deste continente, com alguns reflexos secundários.      Neste contexto surgem filhos-família de diversas esferas e estratos socioeconómicos de Macau, em busca de um eldorado fictício em que a Austrália se tornou, mais por omissão do que por motu-próprio de seus políticos e economistas. Começando por analisar as dificuldades inerentes a uma adaptação e posterior integração, teremos de admitir que, sendo difícil, ela é bem mais facilitada hoje em dia do que em qualquer outro país, e isto ressalta mormente do facto de a Austrália ser recipiente de mais de uma centena e meia de etnias diversas, com mais de 500 dialectos em cerca de 90 línguas diferentes.      A língua, se bem que pareça numa primeira e apressada análise, o factor primordial, torna-se rapidamente diluído como problema, dadas as facilidades de ensino gratuito que o governo proporciona aos recém imigrados para aprendizagem da língua inglesa. Nem sempre as coisas se passaram assim. Tempos houve em que para se imigrar era necessário passar exame de Gaélico, língua da Escócia e Irlanda, ainda hoje falada por uns meros milhares de pessoas, mas isso era na época da Austrália Branca, pouco inclinada a aceitar asiáticos, para além dos que haviam ficado da era dourada das corridas ao ouro do fim do século XIX.      A habitação foi para os mais antigos imigrantes uma verdadeira dor de cabeça, com as restrições legais impostas aos inquilinos, por leis estritas tão diversas das condicionantes socioeconómicas e culturais inerentes a uma sociedade proveniente de Macau. Na década de 80 o governo passou a proporcionar acomodação temporária em Hostel a troco de pagamentos simbólicos deduzidos dos benefícios da Segurança Social, e muitos se queixavam então de a alimentação não ser ao gosto individual. Isto quando, por vezes, se tem de cozinhar para culturas tão diferentes como a libanesa, macaense, indiana, etc. Posteriormente, o governo resolveu cortar despesas e acabou com a provisão de hostéis que ficaram para uso exclusivo das dezenas de milhar de refugiados que anualmente eram aceites pela Austrália e até esta facilidade acabaria já no início da década de 90.      O emprego não foi problema durante décadas, com o país sempre disposto a aceitar pessoas capazes de trabalharem e efectuarem tarefas que aos locais não interessavam. Essa era a norma que se seguiu ao fim da 2ª Grande Guerra, quando à imigração dos países bálticos e norte europeus se juntou a dos mediterrânicos. Nesse período o emprego esperava qualquer um acabado de chegar, mesmo que não fosse anglo falante. O que eram precisos eram dois braços e uma saúde de ferro: corpo para toda a colher, dos invernos inclementes ao Verões abrasadores, vontade de trabalhar ganhando mais do que nos países de origem, com direito a sonhar com casa própria e educação para os filhos. Mas depois veio a realidade da recessão em 1983, 1987 e a depressão que durou até 1992. Com elas, os governos trabalhistas (1983-1996) começaram a cortar mais e mais benefícios no paraíso da Segurança Social e viram-se confrontados com um desemprego permanente. Pela primeira vez na história do país, passou a considerar-se como necessária a coexistência de pessoas que nunca mais iriam trabalhar. A taxa de desemprego - pasme-se! - atingiu mais de 10% da população trabalhadora de 10 milhões e bem difícil foi baixá-la para menos de 7%. Este passou a ser um valor aceitável, por entre as outras alterações que se impuseram ao tradicional modo de vida australiano.      Os subsídios vastos e abrangentes, introduzidos benemeritamente pelo governo trabalhista de Gough Whitlam a partir de 1972, e mantidos depois de 1975 pelos conservadores de Malcolm Fraser, serviam para todas as situações: casais não casados, mães solteiras, etc., e eram uma espécie de rede de salvação do desemprego, mas passaram a não ser suficientes para minorar este e os problemas socioeconómicos daí advindos. Durante algum tempo as pessoas viveram na expectativa de que melhores dias viriam, mas depois passaram a convencer-se de que estes seriam só para alguns felizardos.      Esta sociedade tipicamente insular, que tanto tempo esteve insulada do mundo exterior: 80 mil anos em que os aborígenes estiveram sem serem afectados pelo mundo externo até à invasão britânica de 1788, passou fruto da economia global a ser afectada por factores exógenos, que a passaram a gerir interferindo na textura das suas organizações e tradições. A adaptação dos macaenses a esquemas funcionais diversos fez-se de uma forma ordenada e não caótica, nesta terra que para pretensiosos e snobes não é de modo algum a terra prometida. Para aqueles que passaram este estádio, obtendo colocação e prosperidade, viram-se, no entanto, sem as condições benquistas que poderiam ter tido em Macau, mas economicamente mais recompensadoras, sem as tensões e frustrações inerentes ao limitado mercado de trabalho e de promoção profissional típicos de Macau.      Contrariamente ao que se poderia fazer supor, o afastamento da terra de origem, não parece ter incrementado entre os membros da comunidade um sentimento de unidade (que, como é consabido também não parece existir muito dentro da pequenez dos 16 km quadrados de Macau).      Enquanto não foi criada a controversa “Casa de Macau” em finais de 1989, era com uma certa regularidade, não necessariamente semanal ou mensal, ver alguns membros da comunidade reunidos num dos inúmeros centros gastronómicos de “Chinatown”, para durante os lautos repastos trocarem impressões sobre os mais recentes escândalos, ‘broncas’, e outros acontecimentos que permeando a distância se transportam de Macau para cá, sob a esperança política da mudança, tal como já dantes acontecia no diâmetro urbano da “Solmar”, do “Clube Militar” ou “ Clube de Macau”. Estas reuniões discriminatoriamente reservadas ao sector masculino, servem para manter os pontos de contacto e propagação dos costumes macaenses que estão prestes a encontrar o seu zénite à medida que 1999 se aproxima. Mas não se perdeu a inevitável passagem pelas máquinas de jogo, aqui predominando o poker sobre o Tai Siu, Fan Tan, Blackjack, em pano de fundo nos locais de repasto chineses e não só.      Ressalvando estas situações, a comunidade não parece ter encontrado um núcleo catalisador e centralizador, que se chegou a esperar da “Casa de Macau”, formada por entre a divisão, discórdia, invejas e a velha questão dos “ton-tons [7] serem mais macaenses do que os macaenses”. Assim talvez se tenha desperdiçado a plenitude e vasta capacidade de empreendimento e realização dos descendentes da pequena e setentrional península chinesa de Macau.      A diáspora manteve-se assim na vasta área urbana da metrópole de Sydney com os seus cerca de dois mil quilómetros quadrados (125 vezes maior que Macau), e se bem que os transportes públicos sejam de alto gabarito e eficiência, as distâncias a enfrentar depois de um dia de trabalho para regressar a casa são sem sombra de dúvida um considerando a ter em linha de conta, ao qual deveremos acrescer as constantes campanhas de prevenção rodoviária contra a alcoolemia que implicam sempre pesadas multas e pena de prisão. Raros são os membros da comunidade que não dispõem de viatura própria, mas aqui nem é viável nem económico conduzir para o local de trabalho.      Assim, ficam os fins de semana, iniciados ao pôr de sol de Sexta feira e a prática generalizada em toda a Austrália do B.B.Q. (barbecue = grelhados na brasa), seja na praia, no campo, ou num dos milhares de jardins disseminados pelos subúrbios. Assim, se reúnem em grupos, maiores ou menores frente a uma chapa de grelhar a carvão ou a gás (normalmente pertença do governo local, autarquia, cuja utilização se faz com a introdução de uma moeda de 20 cêntimos, aproximadamente 25 escudos). Depois, é só pôr os enormes e saborosíssimos bifes, as caixas quadradas tetrapak com 4 ou 6 litros do bom vinho australiano de mesa (ou as caixas de cerveja) e assim se passa o tempo, comendo e bebendo, na mais pura tradição australiana até altas horas da madrugada.      Aos sábados os ‘ programas’ variam consoante o grau de assimilação de costumes. Os mais pacatos sairão para o seu passeio ‘dominical’ ou quedar-se-ão em casa. Os mais australianizados repetirão o esquema anterior ou irão a uma sessão de jazz, rock, seja que tipo de música for, num dos milhões de ‘pubs’ disseminados por toda a cidade, onde passarão as horas disponíveis com seus amigos e colegas de trabalho (aqui vulgo mates ) falando de desporto, seja ele futebol, râguebi, VFL (regras australianas) ou até mesmo tentando aquela velha tradição lusíada da canção do bandido à pequena do lado, que normalmente culmina com uma ‘serenata’ bem longe do ‘pub’ e da qual todos os rítmicos acordes serão esquecidos umas horas mais tarde. Domingo, a variante do ‘Yum Cha’ em Chinatown, seguido do passeio pelas montras das lojas chinas, já que à noite o deitar cedo impera para a preparação de uma nova semana de trabalho.      A semana laboral aqui, de uma forma geral, começa Segunda feira pelas 8 da manhã (o comércio abre às 9, os serviços públicos às 8 e 45), o salário é recebido quinzenalmente às Quintas (as pensões e subsídios às Quartas), o que permite pagar a renda semanal todas as Sextas feiras. Quinta à noite todos os Shopping Centres estão abertos até mais tarde (9 da noite) para se fazerem as compras da semana, e o dinheiro remanescente destina-se, como é óbvio, a esse próximo fim de semana!      O jantar celebra-se normalmente entre as 6 e as 7 da tarde, e ás 9 é quase meia noite na cidade, para a maioria das pessoas que compõem o mercado de trabalho. Durante a semana, alguns mais australianizados poderão, eventualmente, depois de largarem os seus locais de trabalho e, em conjunto com os seus colegas de ambos os sexos ir até ao ‘pub’ habitual ou ao bowling, ténis ou squash, ou jogging, conforme as predilecções individuais, assim queimando as horas necessárias até ao jantar e deitar.      A concluir esta curta resenha, um ponto que parece relevante é o de haver inúmeras pessoas que ocupam, hoje e aqui, posições de liderança quer no sector de serviços, quer em actividades industriais ou comerciais com bem melhor proveito do que na sua terra mãe. Bem sucedidos ou não, em todos aqueles que vamos encontrando, uma preocupação constante e comum se desvaneceu ao longo dos anos: a do regresso. Os que o fizeram voltaram desiludidos e frustrados à Austrália, desajustados e desanimados pelo atraso e falta de progresso real que encontraram na terra de onde partiram. De Macau, as imagens por eles trazidas foram-se lentamente destruindo e esvaindo com os novos prédios erguidos sobre os escombros das casas onde guardavam as suas recordações de infância, tudo em nome do sagrado progresso.      Na Austrália, nem tudo é um mar de rosas, mas os benefícios de viver aqui são bem mais palpáveis do que uma despretensiosa crónica como esta pode dar a entender. A cultura, os hábitos e tradições podem ser perpetuadas aqui, mesmo que miscigenadas com outras, capazes de darem futuros mais amplos a filhos e netos, sem jamais se perder o orgulho profundo e saudoso da deusa Ah Má. Assim se compõe esta paisagem multicultural e poliétnica deste continente-ilha de cerca de 18 milhões de almas. CRÓNICA IIª Parte Iª ASIANIZAÇÃO, IMIGRAÇÃO E RACISMO (onde se fala da asianização deste continente-ilha, se discutem políticas de imigração e o mais que adiante se verá)      Na anterior Crónica Austral havíamos prometido voltar a falar da descoberta portuguesa da Austrália e da situação dos nativos aborígenes após mais de 200 anos de colonização branca. No entanto, mais recentemente, outros factos têm dominado não só as páginas da imprensa escrita mas também as ondas hertzianas. Tais eventos dizem respeito a um fenómeno, se não novo, pelo menos recente na história do país: a Asianização da Austrália.      Assim decidimos, quer pela premência dos debates que têm agitado a opinião pública, quer pelas repercussões futuras que temática tão caracteristicamente austral possa vir a ter, passar em revista alguns dos tópicos da mesma, nesta última década e meia [8] . O primeiro grande debate sobre asianização teve lugar em Março de 1984, quando um eminente professor universitário (e líder da Associação de Amizade Sino Australiana), Geoffrey Blainey, afirmou numa reunião de Rotários em Warrnambool, Vitória que “ os imigrantes do Sudeste Asiático eram agora os beneficiários da nova política de imigração em detrimento dos restantes grupos étnicos e em especial dos europeus. ” O tema imigração surgia, então, como arma última e desesperada da oposição conservadora para fazer face à crescente popularidade do (então) 1º Ministro Trabalhista Bob Hawke, preparado para se relançar num segundo mandato eleitoral.      Voltemo-nos pois para as quentes declarações no seio da controvérsia de então, para posteriormente analisarmos o que se passou mais de uma década volvida. O professor em causa, citando as práticas correntes dos responsáveis pela imigração, afirmava que a “ política do governo era discriminatória contra os não asiáticos e que este facto era totalmente oposto à opinião pública corrente, que embora tolerante por décadas, não poderia absorver de forma tão brusca um tão elevado número de imigrantes, todos provenientes da mesma área geopolítica, sem que existisse atrito - e até, quiçá - conflito.      Precipitadamente, Mick Young, então Ministro da Imigração e Assuntos Étnicos defendeu-se dizendo que “ A Asianização da Austrália era inevitável e até mesmo desejada ”, no que foi secundado por Bob Hawke, peremptório na sua negação de qualquer forma de discriminação. Passada a euforia gloriosa da colonização branca passava-se assim ao extremo oposto de “ só asiáticos como imigrantes ”, acusava a oposição liberal, ávida por um tema capaz de os catapultar e reduzir o fosso da opinião pública. Depois de décadas de política dicotómica, em que quer o governo quer a oposição só estavam de acordo numa coisa na política de imigração, abria-se agora uma frecha definitiva.      Blainey manifestara-se preocupado com o facto recorrente de, em anteriores crises económicas, a Austrália ter sempre fechado as portas ao exterior, enquanto que, desta vez, sem estar debelada a depressão se continuavam a aceitar imigrantes asiáticos. Estes, por circunstâncias várias iam fixar-se invariavelmente nas regiões mais duramente atingidas pela crise de desemprego, alterando, assim, um balanço multicultural natural.      O problema dos refugiados asiáticos na Austrália teve origem no já distante dia 26 de Abril de 1976, quando um barco pesqueiro “Kien Giang” atracou a Darwin com 5 vietnamitas a bordo, e os quais haviam efectuado a travessia marítima, das águas infestadas do Índico e do Pacífico através de um desactualizado atlas escolar. Sem serem notados pelas autoridades, atracaram o seu barco com 18 metros de comprido a meio da noite, a pequena distância de Nightcliff, em pleno coração de Darwin, uma praia frequentada pela classe média. De manhã, aproximaram-se do cais de Stokes Hill, o principal da cidade. Quando a polícia marítima chegou numa lancha, um dos cinco homens a bordo fez o seu discurso previamente ensaiado: ”Chamo-me Binh Lam, sejam bem-vindos ao meu barco. Estes são os meus amigos do Vietname do Sul e gostávamos de ter autorização para ficar na Austrália.”      Nos anos que se seguiram, verdadeiras armadas de barcos, pejados de vietnamitas fugindo ao regime comunista na sua pátria, acabaram por encontrar o caminho para a Austrália. Eram os ‘boat people’. Aqueles cinco, foram os pioneiros daquilo que viria a denominar-se a grande invasão de refugiados, mas na época o incidente não mereceu mais do que um parágrafo no jornal “Northern Territory News”. Esta fuga maciça de asiáticos - a maior na história da Austrália - eclipsou a anterior maior, a dos 63 mil polacos fugidos da 2ª Grande Guerra. Entre Abril 1976 e Junho 1983, no período áureo para refugiados, foram 78 mil os chegados do Sudeste Asiático à Austrália. Desses, 80% eram vietnamitas, e os restantes eram do Laos e Camboja. Apenas dois mil vieram directamente de barco, pois a maioria veio de campos de refugiados no Sudeste Asiático: Hong Kong, Macau, Malásia, Indonésia, onde muitos chegaram a passar oito anos em trânsito até à Austrália.      Este influxo veio alterar a paisagem suburbana em muitas cidades que se transformaram em centros equivalentes a cidades asiáticas. Mas, entre aquelas duas vagas de imigrantes, separadas por mais de três décadas, convém referir que a Austrália havia recebido mais de 3,5 milhões de imigrantes e refugiados, abarcando mais de uma centena de nacionalidades, excedendo qualquer outra nação industrializada actual, à excepção de Israel.      A sua chegada não foi pacífica pois nalguns casos resultou em manifestações racistas violentas, embora as implicações de tais incidentes tenham sido exageradas e aproveitadas para fins políticos partidários. Se a nação sofreu mudanças fundamentais como resultado da infusão indochinesa esta ocorreu sem violência generalizada, dado que esta nunca foi parte do nacionalismo australiano. Isto não significa porém que os asiáticos tenham sido recebidos de braços abertos, o que não surpreende, dado que a Austrália, per capita, recebeu mais refugiados asiáticos do que qualquer outro país no mundo. Até que ponto serão verdadeiros, os cíclicos ataques de histeria nacional sobre se a Austrália está a ser asianizada? O passado recente do país está cheio deles, sobre o medo de ser ‘ inundada por hordas asiáticas do norte ’ e tais medos mantêm-se bem depois do fim da política da Austrália Branca.      Em Footscray, um subúrbio interior de Melbourne, verdadeira capital dos colarinhos azuis (a classe trabalhadora), os indochineses chegaram em massa em 1985-1986. Na principal artéria comercial, oito em cada dez lojas são vietnamitas: restaurantes, supermercados, casas de diversões e até agências de viagem. Por entre elas, está Nick Ciancio, nascido em Itália, e que vem gerindo a sua loja de costura há 23 anos: “Uma quantidade de gente não gosta dos vietnamitas, porque pensa que eles são sujos e não entra nas lojas deles” diz Ciancio. Na mesma rua, Geoff Hope tem uma loja de brinquedos desde a década de 50, tendo jogado futebol (regras australianas) por Footscray há 40 anos e lembra-se de quando o subúrbio era predominantemente australiano da classe trabalhadora: ”Os indochineses são mais espertos do que nós. Eles estão dispostos a arriscar e admiro o que eles já conseguiram”.      Em Marrickville, um subúrbio interior de Sydney, existe racismo e tolerância, misturado com gente que aceita os novos imigrantes asiáticos mas que teme que haja demasiados a entrarem muito depressa na sociedade australiana. No último recenseamento, a população de Marrickville era 70% ‘ estrangeira ’ de 1ª ou 2ª geração. Havia 16 mil gregos, 10 mil indochineses e 5 mil portugueses. Gladys Smith, com 81 anos e John Loupos, de 29, são símbolos de gerações diferentes oriundas de distintas origens. Gladys diz que “há mais de 50 anos toda a gente na rua era Australiana, hoje restam apenas dois. As minhas filhas queriam que eu me mudasse quando os asiáticos vieram, mas as pessoas são todas iguais e eu preferi ficar.” Loupos e os pais, que emigraram da Grécia há 45 anos, têm uma confeitaria grega em Marrickville. A maior parte dos seus clientes mudou-se e a maior parte dos indochineses não compra doces na sua Hellas Food Market, mas admite Loupos: “Não temos nenhum problema com os indochineses. Os meus pais são imigrantes. Quando eles chegaram também toda a gente estava contra eles. Nós percebemos o problema deles agora.”      Nem todos porém entendem. Debbie Lyon, 34 anos é australiana da terceira geração e trabalha numa firma de contabilidade de Marrickville, reagindo veementemente contra os vietnamitas que, admite, representam 95% da clientela da sua firma: “Eles trabalham por um salário de miséria, cheiram mal. Vivem cinco famílias em cada apartamento e cospem na rua. Se querem viver no nosso país têm de cumprir as regras, mas eles não o fazem. Chegam cá e poucos meses depois já guiam Mercedes.”      Tal como aqueles que se lhes seguiram, os cinco vietnamitas que chegaram a Darwin em 1976, tinham 16 a 25 anos e não acharam a Austrália nenhum paraíso. Nem todos tiveram uma história de sucessos. Binh Lam, que comprara o barco e organizara a viagem de fuga do Vietname, morreu, com Pau Gip, outro dos seus colegas de barco, num desastre de viação em Brisbane em 1980, depois de ter visto recusado o seu pedido de asilo como refugiado. A sua vida em liberdade não durou muito. O seu irmão mais novo, Tam Tac Lam ficou em Darwin e prosperou, poupando dinheiro suficiente para abrir um restaurante. Agora, com 40 anos, está casado com uma chinesa de Timor Leste e tem duas filhas: “Mesmo que os comunistas saíssem do poder agora”, diz Lam, “ eu não voltaria, pois já passei mais de metade da minha vida aqui”.      Chen Van Nguyen era o capitão do barco “Kien Giang” e morria de saudades do mar. Arranjou um emprego a reparar e a vender os barcos que os refugiados traziam para a costa de Darwin. Um deles foi comprado por um pescador profissional que lhe ofereceu emprego, e hoje ocupa o seu tempo na pesca nas águas do Golfo Van Diemen ao largo de Kakadu. O quinto tripulante do barco, Binh Ngo, casou e tem cinco filhos, vivendo em Brisbane, onde tem uma loja de produtos alimentares e uma videoteca chinesa.      Poucos australianos sabiam fosse o que fosse sobre a Indochina, quando o então 1ª Ministro, Robert Menzies mandou as suas tropas combater, na guerra dos americanos, no Vietname. Antes da queda do Vietname do Sul, Camboja e Laos para as mãos dos comunistas e, depois das longas e sangrentas guerras na região, havia apenas umas centenas de indochineses na Austrália. Em 1991, havia já mais de 160 mil, e o êxodo marítimo para o norte da Austrália terminara em 1981. Embora ainda se mantenha a imigração asiática, esta só se faz agora através do programa de reunião familiar.      Em termos médios, os indochineses representam 10% da imigração australiana, que rondava umas 120 mil pessoas por ano no início da década de 90. Havia em 1992, 664 mil asiáticos, sendo os vietnamitas os segundos mais numerosos, a seguir aos mais de 200 mil chineses étnicos, dos quais 40 mil são descendentes australianos dos imigrantes chineses da corrida ao ouro no final do século XIX. Os indochineses são já uma parcela importante da imigração australiana: 62 mil em Sydney, 51 mil em Melbourne, e 10 mil em Perth, Brisbane e Adelaide.. Em 1990, o cientista demográfico Charles Price causou alarme ao prever que, à taxa actual, haveria 26% da população tendo origem asiática em 2040, comparados com os 5% actuais. Nalguns subúrbios aquela taxa já foi atingida.      Cabramatta no sudoeste de Sydney já é disso um exemplo. Dos seus 80 mil residentes, 55% são asiáticos. Marrickville e Bankstown em Sydney, e Richmond e Footscray em Melbourne parecem mais cidades asiáticas do que australianas, o mesmo acontecendo em alguns subúrbios de Brisbane e Adelaide.      Como se trata na sua maior parte de refugiados e não de imigrantes com aptidões profissionais, os indochineses representaram - desde o início - o maior teste à capacidade australiana de absorver um largo número de imigrantes sem fluência de Inglês, muito afectados pelos cortes profundos que a sua textura familiar sofreu e outras formas de sofrimento trazidas dos países de origem. A falta de dons linguísticos causou desemprego maciço nestas comunidades e existe falta de professores de Inglês como Segunda Língua (TESL) [9] . Muitos destes refugiados com qualificações profissionais vêm a deparar com inúmeras dificuldades por elas não serem reconhecidas, havendo muitos trabalhadores altamente especializados em campos profissionais e científicos, a trabalharem em linhas de montagem.      Os australianos, em geral, designam os indochineses como ‘viets’ ou simplesmente asiáticos, mas na prática eles pertencem a quatro grupos étnicos distintos, com pouco em comum, mas com uma longa história de animosidade entre eles. Oficialmente havia, em 1991, 120 mil vietnamitas, 25 mil cambojanos e 10 mil laocianos. Estes números não indicam porém os de etnia chinesa dentre tais grupos, dos quais sabe-se que, pelo menos, 27 mil vieram integrados nas fugas em massa do Vietname. Se a Austrália está a mudar, os indochineses também contribuíram para mudar a face do país. Cabramatta, que era conhecida depreciativamente como ‘Vietnamatta’ foi durante alguns tempos um local de violência a ser evitado por não-asiáticos. Hoje em dia, as pessoas da margem norte de Sydney (subúrbios ricos) deslocam-se ali para fazerem compras e comerem, salientando-se as suas faces brancas e rosadas num mar de gente asiática.      Esta imagem de turismo interno foi aproveitada por todos os que acreditavam no multiculturalismo, e ali se encontra Phuong Canh Ngo, que se gaba de ter sido o primeiro vereador vietnamita do ocidente e que considera Cabramatta uma cidade eurasiana. Escapado em 1983, com mais 123 vietnamitas num pequeno barco de 10 metros, Phuong conta que ao fim de três dias na água nada havia para beber e duas pessoas já haviam morrido. Ele mesmo estava tão doente que, à vista da costa da Malásia, os outros esperavam que ele morresse para terem mais espaço no barco, mas sobreviveu. Phuong Ngo chegou à Austrália com 6 dólares malaios no bolso e durante os dois primeiros anos trabalhava dezasseis horas por dia numa fábrica em Punchbowl, nos subúrbios ocidentais de Sydney. Depois, amealhou o suficiente para abrir uma loja de comida pronto a vender . Mais tarde abriu uma livraria e, em 1987, concorreu como independente às eleições do município de Fairfield/Cabramatta. Foi eleito, pouco antes de Sang Nguyen, o segundo vereador vietnamita ter sido eleito para Richmond, Melbourne. Embora os vietnamitas sejam maioritários no eleitorado, Ngo não poderia ter ganho sem o apoio de alguns australianos europeus. Ele admite, que no início raramente percebia uma palavra dos debates municipais, mas em 1990, já fluente em Inglês e no jargão autárquico, sentiu-se confiante e cumpriu um mandato como vice-presidente do município.      É com um sentido de segurança, dada pela sua identidade australiana que, cada vez mais, os vietnamitas se dispõem a regressar ao seu país natal. Em 1987, 14 vietnamitas munidos dos seus passaportes australianos foram os primeiros a revisitar o Vietname, atravessando a fronteira com o Laos, numa fútil manobra para tentar derrubar o regime comunista em Da Nang e instalar um movimento de resistência em Hanói. A tentativa foi um descalabro, com as forças mercenárias sendo abatidas, pelos exércitos do Laos e Vietname. Após o julgamento, dos sobreviventes, em Ho Chi Minh foram sentenciados a penas de prisão perpétua. As tentativas da embaixada australiana, em Hanói, foram infrutíferas para saber do seu paradeiro, e as relações cordiais de Camberra com Hanói esfriaram.      Nesse ano, a medo, um primeiro grupo de 15 turistas vietnamitas deslocou-se ao Vietname para visitar familiares, quase em segredo. Quando um jornal de Sydney falou do assunto, a imprensa vietnamita dos exilados na Austrália, quase os acusava de traição. Alguns receberam ameaças de morte e um deles foi obrigado a mudar-se. Em 1991, porém, mais de 10 mil Vietnamitas Australianos fizeram a viagem de regresso para celebrar o Têt, o Novo Ano Lunar Vietnamita. A partir de então tudo isso passou a ser considerado como normal, havendo voos normais ‘charter’ entre Sydney e Ho Chi Minh City.      Para muitos Vietnamitas Australianos, a sua maior prioridade é construir um futuro, na Austrália, para eles e seus filhos. A sua vontade de vencer pode traçar-se nas épicas viagens de fuga que engendraram para atingir o país da liberdade, a Austrália. Mais de um milhão de vietnamitas emigrou da Indochina, na esperança de se poder radicar no Canadá, Estados Unidos, França e Austrália. A maioria fez a viagem em naus incapazes de cruzarem os vastos mares que tiveram de percorrer, sem auxiliares náuticos de navegação, a não ser as estrelas.      Os primeiros a chegarem à Austrália, Binh Lam e os seus quatro colegas, fizeram-no com uma página arrancada a um velho atlas escolar. Dezenas de milhar deles - talvez uns cem mil -, pereceram nos mares, muitos às mãos dos piratas do mar do Sul da China e do arquipélago indonésio. Uma estimativa do Alto-comissário para os Refugiados, das Nações Unidas, aponta para 35% de vítimas dos piratas e 30% como tendo sido recapturados pelos vietnamitas. Muitos ficaram irremediavelmente marcados pela experiência. Crianças assistiram à violação das suas mães e ao assassinato dos seus pais. Antes, tinham sofrido nos campos de reeducação da pátria ou nos campos da morte (‘killing fields’). Ainda hoje, vietnamitas, laocianos e cambojanos recebem tratamento de conselheiros e psicólogos num centro especial para vítimas de tortura nos subúrbios ocidentais de Sydney.      O estereótipo indochinês é o de um próspero homem de negócios ou dono de restaurante com filhos tão brilhantes academicamente e dedicados trabalhadores, que até os colégios privados competem para lhes oferecer vaga. E de facto, alguns correspondem a tal estereótipo. Quang Luu [10] , 55 anos, director da cadeia multicultural de rádio, SBS, é casado com uma vietnamita Mary, tem quatro filhas e um filho: um médico, um farmacêutico, um gerente comercial, um engenheiro e um trabalhador social. Aos olhos europeus, os vietnamitas parecem especialmente obcecados com a educação, por razões culturais e porque para os refugiados, a educação é um bem portátil em tempo de adversidade.      Sem sombra de dúvida, muitos indochineses são excelentes alunos nas áreas de matemáticas e ciência. Mas, mais típica é a luta diária dos indochineses. Ken e Kim Tran chegaram à Austrália em 1987, vindos de um campo de refugiados da Malásia, onde permaneceram apenas seis meses. Depois de uma curta estadia num Hostel (dos quais vos falei no início desta crónica), mudaram-se para Footscray. Kim, então com 32 anos, trabalhava como operadora de máquina de costura e o seu marido Ken era condutor de monta-cargas. Kim estava cheia de saudades e sentia-se só. Era frequentemente humilhada nas lojas e uma vez, enquanto esperava numa paragem de autocarro foi verbalmente insultada por um condutor de automóvel. O seu Inglês continua limitado e ainda é vítima de insultos racistas, mas acha a Austrália um país suportável. “Eu trabalho duro e faço dinheiro, mas no Vietname eu também trabalhava duramente, só que não ganhava nada!”. A solidão mantém-se e o casal continua a ser um casal estrangeiro numa terra estrangeira, tal como aconteceu quase sempre com a primeira geração de imigrantes e refugiados.      Em média, a família indochinesa vive num apartamento ou numa casa, sobrepovoada, o marido trabalhando numa fábrica de automóveis ou de bebidas, e a mulher mal paga numa fabriqueta de vestuário barato. Os pais desempregados e sem hipóteses, devido à total ausência de conhecimentos de Inglês e à sua idade, e as crianças, que podem ter perdido anos de escolaridade, porfiando para tentarem dominar a dificuldade da língua e simultaneamente tentarem manter-se a par dos seus colegas nascidos na Austrália, na matéria dada. Neste ambiente de família as tensões são normalmente grandes. As crianças podem atravessar fases quase suicidas, dada a sua incapacidade de satisfazerem as expectativas dos seus pais. Outros, ‘ encontram-se ‘ através de gangs de rua, à porta dos locais de diversões nos subúrbios predominantemente indochineses.      No subúrbio de Springvale, em Melbourne, Tran Huy Quyen com 54 anos é um expoente da arte marcial vietnamita vovinam . Dois meses depois de chegar à Austrália, em 1985, publicou um anúncio sobre as suas aulas. Por aquilo que observou nos filhos de refugiados, cerca de 12% dos jovens vietnamitas chegaram à Austrália sem pais.      Estudos da Comissão de Assuntos Étnicos de Vitória mostram-nos como jovens desprovidos do estereótipo indochinês: vivendo em casas de passagem que partilham entre si, fumando, bebendo, deitando-se tarde a ver filmes de qualidade duvidosa, movimentando-se em grupos, de centros de diversões a salões de bilhar, e cometendo pequenos crimes em especial relacionados com drogas. Para atrair esses jovens, Quyen ofereceu-lhes aulas gratuitas, tentando dar uma certa estrutura à vida desses jovens, ensinando-lhes o significado da vida e disciplina, honra, auto respeito e auto estima, os quais fazem parte integral do vovinam . Para sobreviver, além de dar 40 horas semanais de aulas, Quyen, um director de escola secundária no Vietname, trabalhava em casa a costurar e lavava pratos num restaurante. Como ex-instrutor do exército do Vietname do Sul, sobrevivente de oito anos num campo de internamento, Quyen declara ter uma taxa de sucesso de 40% ao transformar estes jovens perdidos em bons cidadãos. Ele não é uma personagem única. Com efeito, a filosofia de auto ajuda é bem seguida pela maioria das comunidades vietnamitas.      Anh Huu Nguyen, 43 anos, estudante de engenharia no Vietname e uma das ‘boat people’ [11] , trabalha a tempo inteiro com as crianças de rua no subúrbio de Marrickville em Sydney, num projecto da Barnardo Australiana. Com uma colega australiana, Jayne Powell, Nguyen ajuda-os a encontrar acomodação (a Barnardo tem um hostel para crianças indochinesas) e leva-os a acampar no Real Parque Nacional, a sul de Sydney. Ela viveu num campo de refugiados na Tailândia e sabe o que as crianças vietnamitas têm de sofrer para sobreviver. Outros trabalham com os mais idosos, tal como Thinh Van Lam, 66 anos, que está na Austrália desde 1984. Era um engenheiro electrónico no Vietname, mas foi incapaz de obter colocação na Austrália, e ocupa o seu tempo na Associação de Amizade da Terceira Idade para os Vietnamitas de Cabramatta.      Muitos críticos da imigração asiática falam em ghettos indochineses, mas a verdade é que a proximidade entre os refugiados facilita a manutenção da sua estrutura familiar nuclear, e os recém chegados são ajudados pelos que estão estabelecidos há mais tempo no país. Da mesma forma, os recursos do governo australiano são melhor distribuídos por entre todos.      Um especialista em computadores, Thuat Van Nguyen, 52 anos, viu o seu barco ser socorrido por um navio alemão, tendo passado oito anos a viver e trabalhar na Alemanha, até que decidiu de novo emigrar - para a Austrália - a fim de dar melhores oportunidades à sua família. “O governo alemão não quer ghettos e espalha as pessoas pelo país, por isso muitas vezes, ao fim de vários anos, encontram-se pessoas que não falam a língua ( alemã ), logo, não arranjam emprego. Mas aqui, na Austrália, o sistema de multiculturalismo deixa-nos viver juntos e aprender a língua inglesa, pelo que arranjamos emprego mais depressa”, diz ele com um sorriso feliz.      Não obstante, há muitos críticos desta atitude política, e dentre eles um dos mais vocais tem sido o Dr. Robert Birrell, leitor de sociologia na Universidade Monash em Vitória: ”Existe muito romantismo, em relação à imigração, em especial a indochinesa. Ele surge nas elites profissionais de classe média, que apreciam a culinária étnica e que beneficiam dos serviços baratos proporcionados pelos vietnamitas”. Birrell fala da taxa de desemprego vietnamita como “desastrosa“, alertando para o facto de os vietnamitas estarem sobre representados como recipientes de benefícios da segurança social: 9,3% de todos os desempregados de Melbourne e 10% em Sydney.      Na prática, muitos vietnamitas ficam desempregados durante um ano até aprenderem Inglês, mas a pesquisa feita pelo Dr. Kee Pokong do (extinto em 1996) Bureau de Pesquisa de Imigração sugere que “ao fim de dez anos, os vietnamitas têm uma taxa de propriedade de casas superior à das famílias australianas nascidas no país. E isto, não obstante o facto de a maioria deles ter empregos na indústria de manufacturas e de 60% ganharem 12 mil dólares ao ano ou menos ( N. do Autor: o salário médio australiano é de 33 mil dólares/ano, valor médio de 1997, aproximadamente 3 960 000 ).      Não é por terem dois ou três empregos que os vietnamitas têm capacidade de comprar casas mais depressa do que os outros residentes do país. Assim como outros imigrantes anteriores, eles reverteram para um esquema ou costume de juntar dinheiro, denominado hui . Na sua versão mais simples, neste esquema, juntam-se dez pessoas para contraírem um empréstimo com base nas poupanças acumuladas do grupo.      Também a nível escolar, os vietnamitas parecem deparar com êxitos superiores à média. No Liceu Melbourne High , que tantos ministros já deu à Austrália, os vietnamitas tiveram 14% de "A’s" embora representem apenas 5% da população escolar entre o 9º e o 12º ano. Na prestigiosa escola privada secundária feminina MacRobertson Girls' High de Melbourne, 30% dos ‘Excellence Awards’ (Prémios de Excelência Escolar) foram para alunas vietnamitas do 9º ano de escolaridade. Alguns professores queixam-se de que os vietnamitas como alunos são difíceis, porque não são muito abertos nem desabafam os seus problemas, os quais parece serem resolvidos dentro do âmbito familiar.      Segundo Phach Nguyen, um colega nosso jornalista, vietnamita, que trabalha freelance, grande parte dos seus compatriotas sofre de vários estádios de depressão, e embora necessitem de falar disso, raramente o fazem fora da sua comunidade hermética. Uma vez por outra, a Austrália apercebe-se de tais problemas, quando, por exemplo em 1982, uma brilhante estudante de medicina se atirou de um 12º andar. Veio a saber-se, mais tarde que tinha sido violada durante a guerra no Vietname e nunca recuperara dessa experiência.      A maior parte das mulheres vietnamitas ainda não atingiu posições de proeminência na sociedade australiana, como aconteceu com os homens vietnamitas, mas isso deve-se sobremodo à necessidade de terem uma fase de adaptação ainda mais demorada do que os homens. Recorde-se que, na sociedade vietnamita, o Pai é a pessoa mais importante da família. Ele toma as decisões e o resto da família, acata-as sem discussão. Quando o pai morre, é ao filho mais velho que compete liderar a família, e às mulheres manterem a sua subalternidade.      Uma das mulheres que conseguiu libertar-se, e aproveitar as hipóteses libertárias da Austrália, foi Pauline Chan, 39 anos, actriz e produtora de cinema. Natural de Saigão, chegou à Austrália, via Hong Kong, em 1982, tendo desempenhado papéis de relevo nos filmes ‘Sword of Honour’, ‘Vietname’ e na telenovela ‘A Country Practice’, tendo produzido dois dos três filmes australianos apresentados em Cannes em 1990.      Mesmo assim, um inquérito do Reader’s Digest revelava que mais de metade da comunidade asiática na Austrália havia sido vítima de uma forma ou outra de discriminação e que uma em cada dez pessoas havia sido fisicamente atacada.      Os indochineses raramente se queixam, mas uma nova geração está a surgir. É uma geração de faces asiáticas com sotaques australianos. Em 1986, o recenseamento mostrava que apenas 3% dos vietnamitas casava fora do seu círculo vietnamita, mas lentamente este hermetismo vai-se diluindo interracialmente. E se bem que, durante quase duas décadas a taxa de imigração indochinesa rondou os 40% do total, nestes últimos anos ela diluiu-se a reuniões familiares. A Austrália do futuro terá, de facto demasiado asiáticos para o gosto de alguns, mas estes falarão fluentemente Inglês e serão prósperos. Até agora, eles mudaram mais as zonas onde se fixaram, tais como Springvale (Melbourne) e Cabramatta (Sydney), do que haviam feito os seus predecessores, gregos e italianos, de há 50 anos. E tal como estes, um dia hão-de deixar aqueles subúrbios para dar lugar a novas ondas de imigrantes ou refugiados. De qualquer forma, estes subúrbios ficarão marcados na memória de muitos imigrantes e refugiados, como as margens da Ilha Ellis em Nova Iorque e o seu símbolo (A Estátua da Liberdade) ficaram para um período notável da imigração e da tolerância dos povos.      O debate sobre asianização da Austrália, quer em 1983, quer em 1996, necessita de uma mais profunda explicação para se abarcar, na sua plenitude o significado das mais recentes vagas de imigrantes e refugiados. Até aos anos 60, havia sempre presente o medo de uma invasão amarela . A motivação utilizada pelos governos conservadores de Malcolm Fraser (1975-1983) para justificar o seu humanitarismo era a de que os sul vietnamitas eram aliados da Austrália na sua luta anticomunista e, por isso mesmo, teriam de ser integrados e aceites na sociedade. Desta forma, os asiáticos (vietnamitas) adquiriam uma cor menos amarela , por um processo de alianças políticas e pelo complexo de culpa de participação no conflito vietnamita.      Voltemos ainda mais atrás no tempo, a 1901, data da celebração da Federação Australiana, com o infamemente célebre Decreto Restricionista da Imigração. Segundo este, era proibida a entrada de chineses, para evitar aumentar as hordas asiáticas, que haviam permanecido desempregadas na Austrália após a febre da corrida ao ouro, ocorrida na segunda metade do século passado. Esta foi uma fase triste das relações multinacionais na Austrália.      A história fala-nos de perseguições constantes, maus-tratos, violações de todos os direitos culturais e étnicos, de uma comunidade tão diferente como a chinesa, no seio de uma sociedade semi-letrada e em busca de uma identidade, como era a Austrália até ao início deste século. Infelizmente, esta política de base na nação australiana haveria de manter-se por mais de seis décadas, como o pilar em que assentava a promessa de um futuro próspero e branco para este continente.      Em pleno apogeu do pós guerra, Arthur Calwell [12] , salientava a necessidade de o país se manter “ branco e britânico ”, declarando: “ por cada estrangeiro radicado na Austrália, dez brancos e britânicos lhe sucederão ”. Só, que, fruto de circunstancialismos vários, esses sonhos e o de conseguir 20 milhões de habitantes durante a geração do pós guerra vieram a esfumar-se. Em troca, o que o país daria a Calwell, entre 1947 e 1980, seria 4,5 milhões de imigrantes, dos quais apenas 1/3 tinham origem britânica.      Ao longo dos tempos muitas foram as vozes que se opuseram à entrada de não-britânicos e não-europeus, alegando-se que esses viriam a concorrer nos mercados de trabalho e, desta forma, roubar empregos aos residentes. Esta objecção (aliás, como outras que já atrás mencionamos) pode ser contrabalançada com os dados da década de 80, segundo a qual 80% dos refugiados indochineses ocupava postos de trabalho na manufactura, em posições semiqualificadas ou indiferenciadas, sendo 94% das mulheres empregadas nas linhas de produção, postos de trabalho estes há muito preteridos pelos europeus.      Tradicionalmente, estes lugares de trabalho foram reservados aos não falantes de língua inglesa, europeus ou árabes, pelo que os asiáticos vieram preencher uma lacuna na oferta de mão-de-obra. As taxas de desemprego, da década de 80, mostravam 40% de asiáticos, 35% para os do Médio Oriente e 10% para os restantes australianos. Os asiáticos não vieram ocupar o lugar de trabalho de ninguém! A braços com a adaptação normal num país de usos e costumes diferentes, com as dificuldades linguísticas, com a falta de facilidade de emprego e mesmo subemprego, com as dificuldades de relacionamento social e cultural, eles foram inicialmente mais uma camada de não-privilegiados, ostracizados pelos seus vizinhos imigrantes de ascendência europeia (não britânica), que também neles viam uma espécie de competição injusta, e justamente, por isso, os escolhiam para bodes expiatórios das politiquices do reino.      Voltemos, de novo à abordagem do problema pelo historiador Blainey. Este acusa o governo trabalhista de ter encetado uma política discriminatória, dado que os critérios vigentes favoreciam a vinda de mais pessoas asiáticas, prejudicando movimentos migratórios europeus e não asiáticos. Isto, ressalta, porém, da necessidade de permitir que os mais recentes imigrantes tragam as suas famílias, dado que os europeus há mais anos radicados já se estabeleceram e trouxeram as famílias que queriam, pelo que o número de pretendentes deste grupo é obviamente inferior ao dos asiáticos. Mas também isto é transiente, uma mera temporalidade, que se desvaneceu a partir do fim da entrada de refugiados em massa em plena década de 80.      Blainey, ao citar que aquela política era racista, não deixa, porém, nenhuma saída para justificar que, por exemplo, a troca/mudança da entrada de indochineses por/ara indianos, não seria igualmente racista? Ou, se quisermos, sul-africanos em vez de indochineses, não seria isto também racista?      Claro que teremos de conceder-lhe alguma razão quando ele alegava que, “ se alguém quiser reduzir a imigração asiática em não sei quantos por cento é acusado de racista, mas se alguém quiser aumentá-la, tal epíteto lhe não é aplicado ”. Blainey, porém, vai mais longe ao salientar os aspectos negativos da política de imigração australiana: ” os australianos assumem a posição de que os europeus e os seus descendentes têm ideias racistas, enquanto os povos de outras origens as não têm. Quando a Europa dominava o mundo, tal noção seria apropriada, mas depois da liberalização da Ásia e da África, entre 1945 e 1975, as novas nações daí emergentes logo se afirmaram equalitárias e protestaram contra os excessos dos seus antigos senhores. A palavra racista aplicava-se, então, aos Franceses, Holandeses, Espanhóis, Portugueses, Alemães e Belgas, mas hoje em dia, dezenas dessas novas nações igualmente subjugam minorias raciais, religiosas, etc., dentro das suas próprias fronteiras, sejam elas a Indonésia, as Filipinas, Sri Lanka ou qualquer outra. Nestes últimos anos, mais casos de racismo se cometeram na Ásia e na África do que em muitos mais anos de poderio europeu, mas poucas ou nenhumas são as vozes que se levantam contra tal facto.      Na época, o então ministro trabalhista Stewart West respondeu que “ a vinda de mais europeus e britânicos para corrigir o alegado desequilíbrio migratório poderia apenas significar um aumento do total de pessoas idosas e sem qualificações, o que provocaria ainda mais tensões no sector desempregado da população”. Recorde-se que, em 1982-1983, estavam 26 mil inscritos como potenciais imigrantes do Reino Unido mas apenas metade emigrou, demonstrando a falta de interesse britânico na emigração para a Austrália.      Se considerarmos o total de população asiática existente em 1983, de 2,7%, era previsto que poderia atingir os 4% no ano 2000. Quase vinte anos mais tarde tal número é de cerca de 5%, o que raramente poderia ser considerado como a asianização do continente .      Se bem que naquela época (já distante dos anos 80) ninguém quisesse reduzir o número de asiáticos, o certo é que se se tivesse aumentado o número de não asiáticos, apenas se teria conseguido aumentar o número de desempregados no país. Sabendo à partida que cada grupo étnico tem, de uma forma ou outra, as suas preferências políticas partidárias, podendo representar com o seu voto a mudança de um para outro bloco político, mais importante será recordar que cada um desses grupos tem também a sua história pessoal de mágoa, discriminação e humilhação, e todos os debates racistas servem apenas para reavivar tais feridas.      Pessoalmente, nos meus contactos com pessoas de comunidades de línguas portuguesa, espanhola, francesa, jugoslavas, grega e italiana, pude constatar que estas são das mais atemorizadas pelo perigo de asianização, talvez até porque os membros de tais comunidades estão menos preparados do que outros para poderem enfrentar um reduzido mercado de trabalho, face às poucas habilitações académicas e profissionais, que caracterizam a generalidade dos seus membros. São também eles que vivem nas zonas mais densamente povoadas pelas recentes vagas de asiáticos, com eles lidando no quotidiano, vendo lojas de europeus sendo progressivamente substituídas por lojas asiáticas. Estes europeus e seus descendentes temem esta política imigratória porque ela pode atrasar ou quiçá, mesmo, impedir a concretização dos seus sonhos rápidos de fortuna e vida desafogada. Políticos e historiadores mais não fazem do que agitar estes espectros, capazes de galvanizar as massas e aliciar os seus votos. Existem raras e honrosas excepções, tais como o ex-ministro dos estrangeiros e ex-Governador Geral, Bill Hayden, ao declarar em Setembro 1983 que “ a Austrália estaria totalmente asianizada em menos de duzentos anos ”. CRÓNICA IIª PARTE IIª UMA CRISE DE IDENTIDADE NACIONAL AUSTRALIANA Os australianos têm pugnado por uma sociedade multicultural, aberta aos seus vizinhos asiáticos, mas adivinham-se novos rumos de pensamento. O país está indeciso quanto ao seu futuro. 1. A HERANÇA DE BLAINEY      Em 17 de Março de 1984, como vimos, o historiador Geoffrey Blainey fez um empolgante e controverso discurso aos Rotários de Warrnambool (no estado de Vitória), sobre o ritmo da imigração asiática para a Austrália, que, segundo ele, era demasiado rápido. Aquele discurso, prontamente, se tornou num foco de debate nacional, polarizando opiniões. Quinze anos depois, a Austrália é, quer queiram, quer não, uma sociedade multicultural. As tensões surgidas no período de transição, deram lugar a uma maior aproximação à Ásia, quer em termos de imigração, quer em termos económicos.      Blainey, teve o efeito de um trovão sob os plácidos céus australianos, pois não tinha havido até então ninguém tão proeminente, a lançar um debate racial, categorizando um determinado número de pessoas devido à sua origem asiática, como um perigo para o tecido da sociedade australiana. Conforme vimos, o debate durou todo este tempo, e haveria de aflorar, reforçado, quando menos se esperava, como adiante se verá.       Será que a Austrália aceitara demasiados imigrantes? Será que o governo estava a andar mais depressa do que a opinião pública estava disposta a aceitar? Será que alguns dos subúrbios se haviam transformado em ghettos perigosos, cheios de criminosos asiáticos? Será que a imigração asiática só servira para enfraquecer as instituições democráticas do país, e as capacidades do país em defender-se dos ataques externos, tornando-nos numa nação de tribos, danificando de forma irreversível a coesão social da Austrália ?      A minha resposta a todas estas questões, uma boa dúzia de anos mais tarde, é de que Blainey estava errado e, as tensões raciais, se bem que, de quando em quando, polarizem a nação, não fazem parte do modus vivendi australis . Nem os mais pessimistas poderiam admitir que não somos uma nação, ou o somos menos do que éramos em 1984. Ainda não fomos invadidos por ninguém, os nossos imigrantes (e convém não esquecer que sou um deles) não enfraqueceram as nossas capacidades de defesa, e a nossa integração económica com a Ásia prosseguiu a um ritmo tão rápido quanto o permitiu a globalidade da economia mundial.      Recordemos o livro de Paul Kelly nos anos 80 [13] “The End of Certainty (O Fim das Certezas)”. Nele, Blainey acusava o governo trabalhista de Bob Hawke, então 1º ministro, de “ ser o menos britânico de toda a história australiana ”, e, afirmava que “ poderia haver confrontos como os de Birmingham dentro de 10 a 15 anos ”. Já lá vão os anos e não se vislumbra essa ameaça sombria.      Blainey chegou mesmo a afirmar - sem provar - que a Austrália era apenas uma nação de ghettos e uma colónia do Japão (sic). Os seus dotes de propagandista confundiram a nação e atacaram um dos grupos mais vulneráveis: os imigrantes e refugiados vietnamitas. Embora a Austrália seja uma das sociedades com maior sucesso de imigração, Blainey tentara provar que a Austrália era um país pequeno, de vistas curtas, demasiado intolerante para poder suportar uma tão variada mistura étnica. Também aí se enganou, mas levou irremediavelmente para o seu campo os mais conservadores do país, que ao fim de 13 anos na obscuridade, haveriam de ascender ao poder em 1996, depois de, sem sucesso, se terem tentado servir dos argumentos anti-imigração para derrotar as vitórias dos trabalhistas entre 1983 e 1996.      Como adiante se verá, os debates sobre imigração acabariam por deixar de parte a raça, mas ocasionalmente elementos mais retrógrados trazem de novo à baila esse factor. John Howard, por exemplo, quando era líder da oposição em 1988 (depois de ter destronado, mais uma vez, Andrew Peacock) afirmou depois de se avistar com Margaret Thatcher, que era “ necessário abrandar o ritmo da imigração asiática, para dar tempo de assimilação à população, para benefício da coesão social do país ”. estas declarações haveriam de perseguir Howard até este atingir o poder em Março de 1996. Nunca as retractou, nem desmentiu nem confirmou. Nunca explicou como reduzir a imigração asiática sem discriminar, sem explicar como tal imigração ameaçava o tecido e a coesão social do país. E voltaria a perder a liderança dos conservadores para Peacock, e uma vez mais a recuperaria mais tarde. 2. O RELATÓRIO FITZGERALD      O debate sobre a imigração recebeu, em 1988, com o Relatório FitzGerald, um contributo importante. Estabelecendo o facto de que a imigração era vantajosa, aquele relatório alertava para o perigo de a discussão do assunto resvalar para áreas politicamente perigosas, por haver uma falha de racionalidade na forma como os governos trabalhistas apresentavam a imigração, a qual era entendida mais como uma forma de ajudar os imigrantes do que para beneficiar o país.      FitzGerald, por exemplo, criticava o Programa de Reunião Familiar [14] , que achava dever ser mantido, bem como o Programa de Recepção de Refugiados, mas queria que a ênfase fosse dado aos benefícios económicos que a imigração poderia trazer. O termo multiculturalismo era considerado vago, impreciso e confuso, para a maioria das pessoas, mas FitzGerald achava que nada havia a ser dito sobre a imigração asiática. Um programa destinado a captar pessoas com aptidões necessárias para o país, daria, porém, uma mais imediata contribuição económica, havendo obviamente maior número de candidatos asiáticos, dado o crescente desinteresse dos europeus em emigrarem para a Austrália. Assim, aquele relatório criticava duramente as teses de Blainey e a política do governo trabalhista.      O professor Stephen Castles da Universidade de Wollongong, em Nova Gales do Sul, reconhecido internacionalmente como um académico especializado em políticas de imigração, acredita, porém, que “ a Austrália é o país com maior sucesso em termos de imigração e de adaptação de imigrantes. É interessante ”, acrescenta, “ que grupos , tais como o National Action [15] , nunca tenham tido sucesso na Austrália, para além das franjas lunáticas. O princípio da não discriminação veio para ficar, assim como a imigração e a mudança da componente étnica.      Divisões étnicas, incertezas culturais e perguntas difíceis sobre a sua posição internacional aumentam o clima de possíveis complicações. Esta descrição, que à primeira vista se poderia pensar adequada à China ou à Rússia, diz de facto respeito à Austrália, de que temos vindo a falar. 3. O PAÍS DO CROCODILO DUNDEE ESTÁ DOENTE      Para um mundo habituado às imagens irradiantes de felicidade dos surfistas ou do Crocodilo Dundee, a noção de que os australianos sofrem de introspecção sombria pode parecer inadequada, mas o país confronta-se, de novo, em debate nacional sobre a sua identidade.      Por coincidência, isto acontece quando a publicação, em 1996, de um livro “O Conflito de Civilizações e Uma Nova Ordem Mundial”, de Samuel Huntington, professor da Harvard, está a provocar uma imensa discussão sobre a identidade cultural. Aquele autor considera que o governo trabalhista de Paul Keating, que perdeu as eleições em Março de 1996, cometeu um ‘ erro histórico ’, ao decidir “ afastar-se do ocidente e redefinir-se como uma sociedade asiática ”. Segundo Huntington, aquela decisão estava condenada ao falhanço e a deixar a Austrália permanentemente dividida.      A maioria dos australianos, em ambos os quadrantes políticos, reagiu com alguma irritação a este diagnóstico do professor. Paul Keating negou alguma vez ter declarado que a Austrália era Asiática, em algo mais que não fosse a sua posição geográfica, acusando Huntington de “ tribalismo primitivo ”. John Howard, o novo 1º Ministro afirma que o seu país não deve ter de escolher “entre a sua História e a sua Geografia”. Será que se trata de uma análise, de um académico na outra metade do mundo, totalmente errada? Pode ser que não. A fixação australiana recente sobre a sua própria identidade está intimamente relacionada com os pontos levantados por Huntington.      O debate australiano teve início em Setembro 1996, no discurso parlamentar inaugural de Pauline Hanson, uma deputada independente, a qual pôs em questão os níveis de imigração asiática e falou da possibilidade de a Austrália ser ‘inundada’ por uma vaga asiática. O debate prontamente se estendeu a uma vasta gama de assuntos a ele relacionados: Deverá a Austr