KOREAEBOOKDOCUMENT1.3.0Cidade ntimaLeontino FilhoAgulhaeBooksBrasil Cidade Íntima Leontino Filho Prólogo Alfredo Fressia Fotografias Sandra Mercedes Espósito Projeto Gráfico Socorro Nunes Edição Agulha Versão para eBook eBooksBrasil.com Fonte Digital Documento do Editor Copyright: © 2001 Edições Agulha ÍNDICE Cidade íntima, poesia aberta Alfredo Fressia evoluções cidade íntima sementes somos o poema arco-íris represa Leontino Filho Sandra Espósito Alfredo Fressia c idade   í ntima Leontino Filho Coleção Resto do Mundo Edições da Agulha/eBooksBrasil Cidade íntima, poesia aberta O itinerário existencial de R. Leontino Filho, ao menos aquele itinerário que se deixa contar, situar, cronometrar, e que começa, dizem, com um nascimento, no caso um dia de maio de 1961, ocupou várias cidades. A primeira foi a Aracati natal, bela e travessa como seu nome, esse porto aberto à outra face, marítima, de um Ceará que, visto do Sul, aparece mítico e grave, como o sol e seus excessos. Sem dúvida, tudo que é natal, incluindo nisso a cidade, rima com fatal, mas no caminho de Leontino ainda havia outras cidades. Eram potiguares e também eram um convite à viagem mítica, ou trágica, ou esplêndida – como a das " villes splendides " de Rimbaud. Leontino, já homem feito e poeta publicado, peregrina a partir de 1985 por Natal e Mossoró, até se estabelecer, como professor de Literatura Brasileira, em Pau dos Ferros, essa cidade que se esconde atrás de seu nome beligerante, duro o bastante para os forasteiros pedirem por um sorriso onde achar refúgio. Pode-se dizer assim: era evidente (e estava escrito) que nosso Leontino tinha de criar uma "cidade íntima", uma cidade outra, a polis que juntasse em si tantos mitos, a cidade que vinha do mar e seguiu o caminho inverso dos rios, a praça aberta onde se encontrassem a aves migratórias de todas as direções. Talvez os paraísos se percam sempre, e é sabido que, perdido o paraíso, só resta a vagância, o destino de Caim, o fundador de cidades. Sabe disso o leitor que tem frente a si um livro de poesia chamado justamente Cidade íntima , publicado em 1987, aos 26 anos do seu autor, e reeditado até hoje. De fato, se reparar melhor, verá que o livro foi republicado em 1991, e ainda em 1999. Sabe também o leitor que o interesse implícito nas reedições, várias ao longo do tempo, não costuma acompanhar a poesia de meras cores locais nem de indiscretos mitos privados, autobiográficos, de tons exacerbados e efêmeros. Definitivamente, esta Cidade é outra. Não é que a obra de Leontino seja um objeto “desterritorializado”, como a mesma pós-modernidade. É mais simples, e mais árduo. Seu território é a poesia. É obra de poeta que faz incursões em si mesma e acha em si (no em-si da poesia) o material dos seus tijolos, a ordem dos seus distritos, a encruzilhada dessas ruas onde poeta e poesia se reencontram e se explicam para sair uma e outra vez do labirinto. O equilíbrio desta cidade se sustenta em seis partes (tituladas Evoluções , Cidade íntima , Sementes , Somos o Poema , Arco-Íris e Represa ) mas a obra é una, bordada das mesmas obsessões, recorrente em sua unidade. O poeta-arquiteto, o artista que projetou esta cidade, não faz autobiografia nela. O leitor não penetra numa leontinópolis confessional e privada. Entra – guiado por esses repetidos cristais, ecos, cores do arco-íris – na reflexão, feita na poesia, sobre si mesma, seu paradoxal infinito, circular, e seus limites, " o cristal do sim e do não/ signos soltos/ no papel ". Os limites desta cidade vêm da cidade de Deus , uma opção que nesta obra é de natureza ética mas não exatamente agostiniana. Aqui existe o Bem e o Mal. O pecado habita esta cidade (habita sempre na poesia, com carta de cidadania depois de Baudelaire), aparece, com seu nome, duas vezes em Arco-Íris : " Entre o pecado da lua com o sol ", " E vem a chama do pecado ". Na cidade fundadora de Leontino, na cidade da poesia (que aqui não é poesia da cidade, obra urbana), o Bem é a ordem natural do universo: " Os desertores da dor/ ironizam o bem/ – lâmpada natural do universo – ", diz Somos o poema . Leontino não desata o nó da mulher-pecado, as sereias da tentação, nem se propõe ser "politicamente correto". A mulher-armadilha, a da cidade de Deus , comparece " vasta " e "sideral " ( Cidade íntima ), " mulher, água , menina,/ armadilhas " ( Arco-Íris ). O "dilema", "l(eva)do pela mão amante", tem a nostalgia platônica, e às vezes, nesta poesia, poderia se entrever a face de Deus ( Somos o Poema , VI). É quando o amor aproxima esse Deus prístino e primeiro até os habitantes da cidade. O impetuoso poema X de Somos o poema , dos melhores do livro, poderia encerrar-se com certo verso, eternizado, de Quevedo. Assim: " Nós somos o poema,/ e do amor/ seremos. Polvo seré mas polvo enamorado ". Aliás o universo de referencias da obra é vasto (Drummond chega a ser citado literalmente). Mas seu encanto – e ao que se saiba, sem encanto não há poesia – reside num dizer, que é um construir, próprio, único. Chama-se: poesia de Leontino, um burgomestre que evita os excessos porque pensou muito bem a arquitetura da obra, que vai do quase hai-kai ao poema longo, e conseguiu dominar as tentações do ímpeto lírico sem apelar aos esqueletos da anti-lírica. No fim da década dos ’80, Leontino supera o desafiante minimalismo que grassava na poesia brasileira daqueles anos Sarney da imediata pós-ditadura, quando João Cabral já tinha dado seu recado, os "marginais" se retiravam da cena e a lírica nacional parecia deixar os poetas num desamparo novo, instigante para os melhores. É nessa encruzilhada que nasce Cidade íntima , " a metafórica cidade do poeta ", dinamizada pelo quase oxímoron do título, situada entre o sim e o não, Deus e o pecado, a dor e o amor, a intimidade e a abertura de um texto sem opacidades. Um texto em que Leontino, habitante de tantas cidades – Araraquara, em São Paulo, é a mais recente – funda a sua, a duradoura, reeditada agora neste eBook, à espreita do silêncio íntimo que o egípcio Edmond Jabès também procurou " entre " a palavra, a que " se esforça por não ser ". Alfredo Fressia A veces la noche crece como la barba de un dios desconocido. ... Mi mano posada sobre tu nombre escrito, mi mano como un grito gastado por el viento. J osé C arlos B ecerra O silêncio não está nem no começo nem no fim; está entre . Subjugada, a palavra abandona a palavra. Esforça-se por não ser. E dmond J abès evoluções o sol na varanda  loucura a vida se esparrama pedras sobre a vidraça aquecem a luminosa prece madrugada chuva fina esta lição de vida em mim teu horizonte espelha demais ardentes desejos paz                            tropeços desposam lábios    pupilas o sono futuro    a cair borboleta abatida flutua tarda ausência tua vontade fugaz quis a doce volúpia todo canto jazz adorno fragmentos em teu olhar ecos ferem meus momentos gritos sufocados pela magia      anjos      anos      anodia preso à aurora o casulo até a paixão devora cidade íntima I Visito a metafórica cidade do poeta casas ruas cristais esculpidos na vasta armadilha sideral da mulher por ele amada. Equilibro as doses amargas do vinho trajetória abandonada no fundo da água do mar do espaço cercas que brincam com a frágil lâmina da árvore descalçada. Singro ilhas condenadas ao exílio inferno céu dentes imutáveis, folhas opacas tempestades vôos grudados no seio da poesia. A brincadeira é leve como leve é o estouro da inspiração. Molham-se os pequenos jogos quando o universo do verso é descoberto. II Eis mais uma vez a musa serena, louca e desvairada cavalgo, cavalgo, preciso cavalgar teu ser, boca de prazer (cidade do poeta) fornalha que arde e não se apaga com o sorriso de menina que possuis. E deslizo na realidade do teu rosto realidade de menina que vaga nas praças que rompe toda paz de milênios despertando em mim sensações estranhas de viver alimentadas por outras vontades. Daqui, o coração indaga mergulha no abandono azul das palavras quando por entre sons reclamo, para mim lá fora é dentro do teu corpo e o abismo do teu ventre é mais sereno que o orvalhar do meu pranto. III Foi inútil enterrar deuses guarnecer paisagens feitas na penumbra das conversas. Foi inútil deixar marcas rastro de um redskin na distante ruína vegetal. Deixar a cidade tuas carícias, teus olhos, teus lábios tua infindável surpresa. Partir numa migração de ilusões quando o tempo é pó pão é novelo que faz de tua intimidade uma virtude momentânea no pecado do dia a dia. IV Mas é tarde agora a metafórica cidade dorme. Quem sabe pelo sono acolhido nas pérolas do luar, quem sabe pelo nosso clandestino beijo a se derramar na grama, quem sabe não seja pelo inelutável olhar que vem contigo ângulo de carinho rua nua pedras apagando colinas na minha calma. Contigo vem a tua lembrança voragem palma que se desfaz gota a gota no atalho da minha lei grávida de tanto te querer. V Ah, nesta cidade sou o apátrida o sempre só o difícil rasgo matinal. Cada vez mais passeio no escuro silêncio e encontro-me sendo o teu verso reverso o teu fim. sementes do homem Antes dos mutilados giros queimam-se os crepúsculos rebeldes em teu eco que desmorona perante à retidão das jornadas e desatam a ira de tua missão. Limites da vida refúgios esmaltados na pele seca do homem dura espera daqueles que sobrevivem aos mágicos embaraços da angústia que cristalizam a demorada fecunda soterrada vivência humana. da pátria Ante o aconchego da pátria quis o abraço divino do irmão – sofredor em plena aurora. Pátria carrossel de incertezas relógio parado fusão entre caminho e raio adelgaça tuas raízes e cede ao povo a fragrância fumaça da rebelião desfraldada na justiça. Pátria queima a fadiga burguesa da injustiça que prolonga o sofrimento do povo recém-chegado para a noite mais terna onde se guarda o arco-íris onde se quis a selva dos desejos da infância. Pátria diamante e sumo da paz traz a vida. da vida Com o canto metálico esperamos sufocar o adeus vestido em seda universal. Cigarra guitarra vida escamas a compartilhar a ondulada essência do afeto. Para a vida conquistamos o silêncio da sorte (a vaporosa presença do sonho) assopramos incensos abençoamos o firme suor que ladra – geme no esquecimento. Para a vida estamos abertos – claros enigmas estamos assim: sombra e calor navalhas a cortar o ódio teimoso – residente em nosso ser. Com a vida arrastamos translúcidas esperanças e erguemos a estrada da morte. do sonho Uso a palavra decotada amplo incêndio em meu peito repartido em mil vontades. Volto a cada canto gritando seja esse o momento de sonhar seja essa a recém-aberta loucura ferida explodindo na cabeça dos guardiões humilhados de tanto sonho. Afio a lição em minhas mãos que resgatam o sonho caído no chão pisado desprezado pelas águas imperdoáveis da ambição. Quanto mais sonho, mais aprendo a lição quanto mais vivo, mais esqueço o ódio quanto mais liberto, mais adormeço a sonhar. E para isso necessito de luz dos violões dos rumos amassados (em tempos diversos) para juntos sonharmos. do amor Plantei sementes por toda nossa vida E deixei-as a florescer por canteiros diversos. Não desejei trazer felicidades enfraquecidas apenas canções de amor que saem dos subterrâneos do homem procurando corais amigos residência de pássaros noturnos cantores da peluda paixão do tempo. Nada mais queria contudo, sorria pelos caminhos solitários tragando amor em cada trincheira. Retive raios fumegantes a nos perturbar para que depois pudéssemos amar toda a existência mas vi que o depois não se realiza na vontade deixada de lado que o depois é o agora prestes a acontecer e que o amor – ébano companheiro já existe antes do nosso medo. Quando então, partiremos com este nome latejando, perdido a nossa procura? Quando sorriremos sem receio de chorar certeza de amar? Duvido das certezas listas negras a despedaçar a vida e construo países que desconhecem a mentira a vaidade o rancor (triste fim de quem não amor) a glória o poder o erro (condenação de quem acerta) países que somente conhecem as sementes de amor espalhadas todos os dias nos jardins que nascem dentro de nós e morrem sem o nosso amor. somos o poema I A dor pelos trilhos soltos valsa na alma do indivíduo que sangra todas as noites feito um vigia sonolento. Ela que se alimenta na loucura do suicida espreita o poema e arma o circo da morte porque seu remorso é antigo e tomba frente à saliva do ar. A dor, ausência do gosto, assusta as horas porque reparte fogos, violência, frio e morte sobre os vidros do medo. Ela anda no mundo floresce, e seu segredo é desejar ser coletiva. A dor chega, e surge o poema. II Sorrateiramente, a correnteza sustenta o poema: templo onde se fuma o amor, trincheira rasgada de paixão. Levemente o vazio é banido. Faminto, ele ensaia sua dança: estranho rasgo de dignidade e obscenidade. Antes de qualquer proclamação ele se coroa habitante do infinito que milita e amamenta as manhãs do amanhã; por isso: um grito de Deus é o poema, uma vontade do homem é o poema, o gorjeio dos pássaros é o poema, as raízes do vento presas no cabelo formam o poema, o remanso da infância é o poema. O poema é de amor. III Agora corpo e alma estão no amor desenrolando o mel pelo capim de cada um. Agora provável e improvável juntos estão quando escapam pelos becos das cicatrizes e renovam seu gozo, e não pensam jamais em separação; já que pedalam artérias, palmilham teias na busca da eterna ligação. Agora Deus foi renovado em algum lugar em outra cidade com a explosão da terra, da vida que continuará. IV O itinerário do mistério os ossos da pátria. O itinerário do eco os gestos do horizonte. O itinerário da virtude as páginas dos livros. O itinerário do braço um simples trote. O itinerário do terrível os fogosos bagaços. Meu itinerário: o poema de amor. V Guiado pela líquida bússola caço a madrugada, que foge com a velocidade do relâmpago para as hastes da chuva. Navego na brisa da aventura que estranha o meu rosto coberto pela aliança com o sol. Espio o oceano renovado e seu semblante corrosivo: clara ventania a respirar. Guiado pela temperatura da paciência sustento o amor que vaga pelos becos do poema. O poema é de amor. VI Se é de amor: planta as sementes da fascinação, escorre raso a mostrar a face de Deus, suporta a violência contida no seio da ambição, cobre o abismo que conversa com o deserto dos homens. Se é de amor: ama. VII Sinto o amargo nó da labareda que passeia em minha desajeitada entrega a ti. Antes, nada levava, agora, levo no bolso a luz enrolada pela fumaça do poema: sinal de minha cristalizada agonia. Levo nas mãos os raios transistorizados pela distância: insuportável limite de tua recusa. Levo na boca o morno encanto da esperança que se limita a aproximar minha sede de tua fome: como uma operária que abotoa a primavera aos pés magistrais do céu. VIII Quero os teus abraços, seguir teus passos, estreitar nossos laços, abandonar nossos embaraços. Quero medir teus compassos e decifrar teus traços. Quero soltar o luar preso por cadarços, amor, amarra-me em teus braços. IX Os fragmentos da dor continuam rebeldes – bailam na criação – dilatando a vida. Os sentinelas da dor cristalizam o coração – funda floresta do mundo – transpondo o silêncio. Os desertores da dor ironizam o bem – lâmpada natural do universo – contornando o olhar do fogo. A dor ainda é alma. Resto de areia não consumido pelo mar. Ainda é fruto resto de flor, triste como o gesto banal. A dor ainda dói, e é dor. X Mas o poema é de amor: espiritual e corpóreo, nele estamos e duramos (ponta de cigarro que se apaga). O poema é amor, vista abstrata que amamos (dinamite em nosso ser). É amor o poema viola que rasga o som (ruminando o tom). Nós somos o poema, e do amor seremos. arco-íris I A configuração (vermelho) 1. Guarnecido pela rústica aparência do paraíso atalho o eco – o sonho se desfaz em imutáveis colorações. Abandonada pérola, o olhar acaricia a beleza do mundo, lábios que buscam o teu sabor, perdidos momentos – trajetória do adeus. Todavia, contraceno com a tua boca – infinita perdição, molho o rosto no teu indivisível desejo, beijo os seios – grudados em mim. Aflora o brilho deste instante.                         Rompem as cores                         ai de quem não ver! 2. À luz de um poema, vou construindo a perigosa travessia do pudor. Outras vezes, acreditava na loucura e via a inconseqüente mentira da razão. Soterradas verdades atreladas ao meu frenesi. Luzes que indagam por mim: mar, mulher, água, menina, armadilhas, o arco vermelho, árvore atemporal recompondo o caos da humana raça.                         Rompem as cores                         ai de quem não ver! II O flerte (alaranjado) 3.                         A noite desfolha o dia                         estrelas trazem a rebeldia. Por isto, de nada vale descrer da própria vida enforcando a fé. Tudo existe bem antes do tempo. Tudo renasce mil vezes diferente: o pavor rondando nas trevas as lâmpadas de rua existindo para ninguém, o vinho implorando goles mais profundos. Inútil é negar os amargos pingos de suor. Inútil é querer endurecer o coração perante a paixão. Inútil é não enxergar a cor brilhante do perdão que flutua nos lençóis da emoção. Vai, alegrar a força juvenil escondida dentro da fecunda esperança, rastejar com o fuzil esculpindo na ternura, na imensa ilha do prazer. 4. Entre o pecado da lua com o sol o nu pereniza o alaranjado calor. Entre o viver na cidade dos mortos, habitado pela cinza viva dos seres humanos, melhor alijar os impulsos tumulares, melhor brilhar no horizonte de uma alcova. Cai,                         a noite desfolha o dia                         estrelas trazem a rebeldia. III A vigília (amarelo) 5. Antes era a longa caminhada                         o esplendor                         o vasto movimento por deslumbrantes paisagens. Antes era a graça aprimorada                         a surpresa                         a mansa dança pela solitária, luminosa manhã. Até quando dormirá em nós a descalça presença do amanhã? Até quando anoitecerá em nós a infinita paciência para a luta? Fecundamos: seiva, metal, vôo, cristal, navios que singram os agressivos mares. Renovamos: clima, sumo, erva, éter, incensos purificadores em nós.                                 Gota a gota                         o sempre é tão pertinho! 6. Já vem vindo, o vento entorpecendo as raízes da volúpia. Já vem vindo, o vento parindo o pó amarelo da fadiga. Nisto consiste o nosso eterno dilema:                         l(eva)do pela mão amante sorvemos o pacto iniciando a floração. Além, muito além, surge a constelação, solitário refúgio. Além, muito além, o nome                         sede                         gota a gota                  o sempre é tão pertinho! IV A palavra (verde) 7. A palavra é o retrato guardando o fascínio das horas. A palavra é o começo inesquecível gritando as coisas, as mentiras, as jóias tecendo a hipocrisia. A palavra é a existência, a fornalha surdindo na insônia. E a humanidade conhece a distância para o sacrifício, só a palavra salva da fulminante derrota, os homens se enganam exilando suas paixões, os homens se espantam cavalgando suas tristezas, só a palavra circula entre as lágrimas, os homens se afundam clamando por suas sombras, os homens se emocionam percorrendo suas vitórias. Assim é a rota do viajante.               Ah, mulher – a incredulidade do abraço               é a fronteira por onde passo. 8. Quando a história nega a fome, a sede, os heróis perdem o direito à lembrança; falta confiança diante da insanidade, jamais a injustiça será aplacada com a insensatez, a corrida terá apenas um desfecho cruel: feridas, chagas abertas no peito do homem, o verde de nada adianta será insuficiente, quando o homem se refugiar em guerras, será desprezível, quando o homem demonstra sua impotência para o sonho. Não, todos os homens, talvez, voltem a viver o significado da paz (fios dourados de esperança, néctar da felicidade). Em breve, tudo será possível.               Ah, mulher – a incredulidade do abraço               é a fronteira por onde passo. V O mistério (azul) 9. Bate em você, o azul do céu multifacetado em seus olhos, vigilância fecunda, canção que amanhece em plena selva do seu ser. Você, ponto agreste neste paradisíaco lugar. Você, bruma fresca nesta noite infantil. Cada minuto, você rasga os laços de todas as saudades, pilares desordenados, ordem projetada na aflição. Cada segundo, você viola o tamanho da utopia, arrepio matinal, parco suspiro (embrião). Vem, aqui está o script - trégua em revoada. 10. Todos os sentidos foram perdidos com a recriação total dos mitos. Num piscar de olhos, Você Transformou o evento – palhaços a desfilar, somente assim há ilusão – cortada ilusão, duradoura teimosia, moinhos a disparar gargalhadas indiferentes. Você, certeza que atravessa a vida. Você, ensaio necessário que orienta os gestos. Você, romance perfumado:                         Vem, aqui está o script                         – trégua em revoada. VI O diálogo (anil) 11. Pétalas deste dia cintilam cúmplice a vida se encanta. Uns poucos perigos rondam a gruta, onde permanecem as cansadas mãos. Mãos marcadas com riscos em desalinho, muitas vezes, obscuros... Mãos que novamente despertam esquisitos ocasos. Que feitiço desembarca naquele cais? Mãos – o coração do porto. Mãos – o labirinto – e depois, a escadaria do corpo. Mãos – que dizer dos inúmeros planos,           que dizer das felizes mudanças, estendidas na atmosfera de tuas raízes? Enganados, isolamo-nos de ti – impossível! Inevitável lembrança... Chorar, chorar. Mas o vento tropical lambe as delícias que revestem o teu silêncio. Afora isso, conversamos, nutridos pelas batalhas, o sono – resto mortal – nosso ofício até novas explorações. Mãos fundas, jeito de natureza, fogo permanente em nosso globo – mãos:                         Pétalas deste dia cintilam                         cúmplice a vida se encanta. 12. Se ao menos as pessoas e os animais estraçalhassem a angústia: cada noite, novas estrelas, nova lua, cada noite, repleta por belos milagres. Se ao menos as asas – janelas, portas jogadas no céu figura anil – véu – agora, nada recompor. Barco guardando antigos tesouros, depois o vazio, perplexa certeza. Barco, buscamos as mãos, custa tanto proceder assim. Roteiro – mãos: barco, nosso regresso. VII A canção (violeta) 13. Outra vez, as avenidas nos ensinam velhas teorias: máscaras, migalhas, lágrimas, corações, perscrutam a terra passo a passo sol a sol com seus sofrimentos       suas ameaças. Ou então, a escuridão devasta as tardes, as manhãs, insinuando abismos entre o querer: fúrias, conflitos, pedras, ataques, que devolvam a mais preciosa vantagem          o barulho do vento          a voz          o rumor a ventania jorrando pequenos desejos, soprando, lentamente, a delinqüência do caminho. Enfim, ninguém atravessa o presente sem a repentina flor do sorriso.                         O arco-íris é pouco                                   tão pouco,                         vertigem em mim...                         sonho cravado nas canções                                   dos homens. 14. E vem a chama do pecado. E vem o curso da história. E vem o peso da terra. E vem a libertação do homem. Tudo renascendo deste vaivém: destinos cortados. Mas, os espinhos são efêmeros, desfazem a viagem inteira, gritando na distância – violeta:                         O arco-íris é pouco                                   tão pouco,                         vertigem em mim...                         sonho cravado nas canções                                   dos homens. represa 1. o mesmo corpo tardado tempo sempre no resguardo da noite sem alma tampouco o objeto vislumbra margens saberes futuras equações ontem o sujeito entrevado em raízes riachos armadura de terras mundo que resvala no horizonte madura órbita porosa silêncio de si mesmo infância – asa de pássaro aços são vôos de flores constelação furor no olho quase simulacro e lágrimas 2. costuro lembranças essência íngreme da lenda talvez a memória batida na canção seja do tamanho que o mundo não comporta faíscas de um tigre apenas misturas em trilhas de corpos que oscilam prisma chuvoso sob o sol o passo inicial cancelado olho de lado e a herança do mar estanca o choro largo da cidade 3. tamanho vulto chega sonolento plano que atravessa sombras ruas cortadas no âmago da vida busco cheiros pela cidade em seu lugar as reticências delicadas da ruptura adormecem subterrâneas persianas do corpo fábula vencida por ondas náufragas do oceano olhos assim em meu uivo habitado por nomes destroçados no ventre do texto avencas cotidianas do querer 4. solene riso percorrendo madrugadas ausências soltas dos caminhos traçados pelo vento inusitado quando o cavalo desencaminhado de nascença esboça os vagos ritmos dos labirintos sou os tormentos e as mordeduras desengavetadas pela escritura tempestade de vidro quando o múltiplo acalanto da mão repisa o campo das estrelas afogueadas música entesourada – ilha intacta fagulhas do paraíso 5. cuidado beco silêncio a última elegância jorra relatos aparências por tardes grisalho amor nascente caracóis são moradas que revertem o viver violenta brancura que soçobra carnívora aurora dos ossos rosto das moradas azuis crisálida-ira núcleo das coisas cristal do sim e do não signos soltos no papel Leontino Filho (Aracati, 1961). Poeta e ensaísta. É autor de Sob o Signo de Lumiar: Uma Leitura da Trilogia de Sérgio Campos (estudo defendido como tese de mestrado em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, 1997). Atualmente faz o doutorado em Estudos Literários na UNESP, Campus de Araraquara/SP. Publicou os seguintes livros de poemas: Amor – uma palavra de consolo (1982), Imagens (1984), Cidade íntima (3 edições: 1987, 1989, 1999), Entressafras (1988, em parceria com Gustavo Luz) e Sagrações ao meio (1993). r.leontino@ig.com.br Sandra Espósito nació un 2 de octubre de 1965 en Buenos Aires. Estudió fotografía entre 1991 y 1996 con distintos maestros en esa ciudad: Manuel Bendoiro, Bécquer Casaballe, Aldo Bressi, Gabriel Valansi y Lutz Matschke le dieron los conocimientos técnicos. Se resiste a insertarse en el mercado y en el mundo de las muestras fotográficas, pero sobrevive. Actualmente cursa la carrera de Letras en la Universidad de Buenos Aires. sandraeme@hotmail.com Alfredo Fressia (Montevideo, 1948). Poeta e ensaísta. Obra poética: Un esqueleto azul y otra agonía . Ediciones de la Banda Oriental. Montevideo. 1973. Premio MEC, Uruguay. / Clave final . Ediciones del Mirador. Montevideo. 1982. / Noticias extranjeras . Ediciones del Mirador. Montevideo. 1984. / Destino: Rua Aurora . Edición del autor. São Paulo. 1986. / Cuarenta poemas . Ediciones de UNO. Montevideo. 1989. / Frontera móvil . Ediciones Aymara. Montevideo. 1997. Premio MEC, Uruguay. / El futuro/ O futuro . Edições Tema (bilingüe). Lisboa. 1998. / Amores impares . (Collage sobre textos de 9 poetas). Ediciones Aymara. Montevideo. 1998. / Veloz eternidad . Vintén Editor. Montevideo. 1999. Premio MEC, Uruguay. alfress@originet.com.br Cidade Íntima © 2001 Edições da Agulha/eBooksBrasil Poemas © Leontino Filho Prólogo © Alfredo Fressia Fotografias © Sandra Mercedes Espósito Projeto gráfico © Socorro Nunes Contato floriano@secrel.com.br Caixa postal 52924 Ag. Aldeota Fortaleza CE 60151-970 Brasil Versão para eBook eBookBrasil.com Brasil, dezembro de 2001 ©2001 Edições da Agulha floriano@secrel.com.br Versão para eBook eBooksBrasil.com __________________ Dezembro 2001 eBooksBrasil www.ebooksbrasil.com KOREAEBOOKSTYLEFILE_1.1.0G!]7s + Times New Roman 2defaultdefaultTimes New Roman 2hr_file_0 para0hr_file_0 para0Times New Roman 2hr_file_0 para1hr_file_0 para1Times New Roman Khr_file_0 para2hr_file_0 para2Times New Roman 2hr_file_0 para3hr_file_0 para3Times New Roman Khr_file_0 para4hr_file_0 para4Times New Roman 2hr_file_0 para5hr_file_0 para5@Times New Roman 2hr_file_0 para6hr_file_0 para6Verdana 2hr_file_0 para7hr_file_0 para7Times New Roman 2hr_file_0 para8hr_file_0 para8Tahoma 2hr_file_0 para9hr_file_0 para9Times New Roman 2brbrTimes New Roman 2paraparaTimes New Roman 2figgrfiggrTimes New Roman 2fig.contfig.contTimes New Roman 2 tablepara tableparaTimes New Roman 2listparalistparaTimes New Roman 2fontfontKOREAEBOOKSTYLEFILE_1.1.0G!]7s + Times New Roman 2defaultdefaultTimes New Roman 2hr_file_0 para0hr_file_0 para0Times New Roman 2hr_file_0 para1hr_file_0 para1Times New Roman Khr_file_0 para2hr_file_0 para2Times New Roman 2hr_file_0 para3hr_file_0 para3Times New Roman Khr_file_0 para4hr_file_0 para4Times New Roman 2hr_file_0 para5hr_file_0 para5@Times New Roman 2hr_file_0 para6hr_file_0 para6Verdana 2hr_file_0 para7hr_file_0 para7Times New Roman 2hr_file_0 para8hr_file_0 para8Tahoma 2hr_file_0 para9hr_file_0 para9Times New Roman 2brbrTimes New Roman 2paraparaTimes New Roman 2figgrfiggrTimes New Roman 2fig.contfig.contTimes New Roman 2 tablepara tableparaTimes New Roman 2listparalistparaTimes New Roman 2fontfontKOREAEBOOKSTYLEFILE_1.1.0G!]7s + Times New Roman 2defaultdefaultTimes New Roman 2hr_file_0 para0hr_file_0 para0Times New Roman 2hr_file_0 para1hr_file_0 para1Times New Roman Khr_file_0 para2hr_file_0 para2Times New Roman 2hr_file_0 para3hr_file_0 para3Times New Roman Khr_file_0 para4hr_file_0 para4Times New Roman 2hr_file_0 para5hr_file_0 para5@Times New Roman 2hr_file_0 para6hr_file_0 para6Verdana 2hr_file_0 para7hr_file_0 para7Times New Roman 2hr_file_0 para8hr_file_0 para8Tahoma 2hr_file_0 para9hr_file_0 para9Times New Roman 2brbrTimes New Roman 2paraparaTimes New Roman 2figgrfiggrTimes New Roman 2fig.contfig.contTimes New Roman 2 tablepara tableparaTimes New Roman 2listparalistparaTimes New Roman 2fontfontKOREAEBOOKSTYLEFILE_1.1.0G!]7s + Times New Roman 2defaultdefaultTimes New Roman 2hr_file_0 para0hr_file_0 para0Times New Roman 2hr_file_0 para1hr_file_0 para1Times New Roman Khr_file_0 para2hr_file_0 para2Times New Roman 2hr_file_0 para3hr_file_0 para3Times New Roman Khr_file_0 para4hr_file_0 para4Times New Roman 2hr_file_0 para5hr_file_0 para5@Times New Roman 2hr_file_0 para6hr_file_0 para6Verdana 2hr_file_0 para7hr_file_0 para7Times New Roman 2hr_file_0 para8hr_file_0 para8Tahoma 2hr_file_0 para9hr_file_0 para9Times New Roman 2brbrTimes New Roman 2paraparaTimes New Roman 2figgrfiggrTimes New Roman 2fig.contfig.contTimes New Roman 2 tablepara tableparaTimes New Roman 2listparalistparaTimes New Roman 2fontfontKOREAEBOOKSTYLEFILE_1.1.0G!]7s + Times New Roman 2defaultdefaultTimes New Roman 2hr_file_0 para0hr_file_0 para0Times New Roman 2hr_file_0 para1hr_file_0 para1Times New Roman Khr_file_0 para2hr_file_0 para2Times New Roman 2hr_file_0 para3hr_file_0 para3Times New Roman Khr_file_0 para4hr_file_0 para4Times New Roman 2hr_file_0 para5hr_file_0 para5@Times New Roman 2hr_file_0 para6hr_file_0 para6Verdana 2hr_file_0 para7hr_file_0 para7Times New Roman 2hr_file_0 para8hr_file_0 para8Tahoma 2hr_file_0 para9hr_file_0 para9Times New Roman 2brbrTimes New Roman 2paraparaTimes New Roman 2figgrfiggrTimes New Roman 2fig.contfig.contTimes New Roman 2 tablepara tableparaTimes New Roman 2listparalistparaTimes New Roman 2fontfontJFIFHHC    $.' 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