KOREAEBOOKDOCUMENT1.2.0CaracteresJean de La BruyreRidendo Castigat MoreseBooksBrasil %=para.xmlcapa.jpgnormal.stypara.xml1_smaller.sty_small.sty_normal.styN_large.sty_larger.sty 9capa.jpg autor.jpg Caracteres Jean de La Bruyère Tradução Luiz Fontoura Edição eletrônica Ed Ridendo Castigat Mores www.ngarcia.org Versão para eBook eBooksBrasil.com Fonte Digital www.ngarcia.org © 2002 - Jean de La Bruyère ÍNDICE Biografia do autor Prefácio Das Obras do Espírito Do Mérito Pessoal Das Mulheres Do Coração Da Sociedade e da Conversação Dos Bens de Fortuna Da Cidade Da Corte Dos Nobres Do Soberano ou da República Notas CARACTERES Jean de La Bruyère BIOGRAFIA DO AUTOR      Jean de La Bruyère, moralista notável e um dos mais finos buriladores da frase francesa, nasceu em Paris em 1645 e morreu em Versalhes em 1696. De família burguesa, licenciou-se em direito pela Universidade de Poitiers e dedicou-se à advocacia, profissão que logo abandonou para comprar o cargo de tesoureiro geral de França no Tribunal das finanças da Generalidade de Caen. Finalmente revendeu o cargo, sendo nomeado preceptor do príncipe Louis de Condé.      Desambientado e descontente dos costumes e dos homens de seu tempo, a quem nunca conseguiu fazer valer seu mérito, La Bruyère, movido de forte tendência moralizadora e de reforma dos costumes, dedica-se ao estudo e observação de seus contemporâneos. O fruto desses estudos são “Os Caracteres”, um dos mais acabados retratos morais de todos os tempos. Deixou por terminar uma segunda obra — Diálogos sobre o Quietismo.      La Bruyère não foi o criador de um sistema de moral, porém o retratista e satirizador da moral de seu tempo. Como literato ocupa lugar de primeira linha entre os maiores escritores franceses, tendo-se notabilizado por seu estudo ameno, variegado e de grande força de expressão. Foi membro da Academia Francesa. PREFÁCIO        Devolvo ao público o que ele me emprestou; dele tomei a matéria desta obra; justo é que ao terminá-la, com todo o respeito à verdade de que sou capaz, e que ele me merece, faça-lhe agora esta restituição. Pode mirar-se com alma neste retrato que lhe fiz, tomado do natural; e se reconhecer em si alguns dos defeitos que aponto, corrija-os. É o único fim que se deve ter em vista ao escrever, e também o sucesso com que menos se deve contar.      Mas como os homens não aborrecem o vício, por isso mesmo é preciso não se cansar também de reprová-los: talvez fossem piores se viessem a faltar-lhes censores ou críticos: é isso que faz com que se exorte e se escreva.      O orador e o escritor não saberiam vencer a alegria que têm de ser aplaudidos: mas deviam se envergonhar caso não procurassem, com discursos e escritos, mais do que elogios; além de que a aprovação mais certa e menos equívoca é a mudança de costumes e a reforma daqueles que os lêem ou que os ouvem. Não devemos falar, não devemos escrever, senão para instrução; e se acontecer agradarmos, nem por isso devemos arrepender-nos, quando o sucesso servir para insinuar e tornar aceitáveis as verdades que instruem. Quando, pois, escorregarem num livro alguns pensamentos e reflexões que não tenham a veemência, nem a forma, nem a vivacidade de outros, ainda que pareçam incluídos para variar, descansar o espírito, torná-lo mais presente, mais atento ao que se segue, quando não sejam suaves, naturais, instrutivos, acomodados ao simples do povo — que não é permitido desprezar —, pode o leitor condená-los e deve o autor prescrevê-los: eis a regra.      Há outra, que me interessa ver seguida: é não perder de vista o meu título, e pensar sempre, durante toda a leitura desta obra, que eu descrevo caracteres e costumes deste século: porque se bem me inspire freqüentemente na corte de França, não se pode restringi-los a uma só corte, nem limitá-los a um só país, sem que muito perca o livro de seu alcance e utilidade, se afaste do plano que me tracei — pintar os homens em geral —, como das razões que entram na ordem dos capítulos e uma certa seqüência insensível nas reflexões que os compõem. Depois dessa precaução tão necessária, cujas conseqüências tão bem se percebem, creio poder protestar contra toda mágoa, toda queixa, toda interpretação maligna, toda falsa aplicação e toda censura; contra os severos impertinentes e os leitores mal-intencionados.      É preciso saber ler, e em seguida silenciar, ou poder relatar o que se leu, e nem mais nem menos do que aquilo que se leu; e se às vezes se pode fazer isso, não basta; é preciso ainda querer fazê-lo. Sem essas condições, que um autor exato e escrupuloso tem o direito de exigir de certos espíritos, como única recompensa do seu trabalho, duvido que ele deva continuar a escrever, salvo se preferir sua própria satisfação ao aproveitamento alheio e ao zelo da verdade. Confesso, aliás, que desde o ano de 1690, e antes da quinta edição, hesitei entre a impaciência de dar ao meu livro mais amplitude e melhor forma introduzindo novos caracteres, o temor de que alguns dissessem: não acabam mais esses Caracteres, e não veremos mais outra coisa desse escritor? Por um lado, pessoas circunspectas me diziam: a matéria é sólida, útil, agradável, inesgotável; viva muito tempo, e trate-a sem interrupção enquanto viver: que poderia fazer de melhor? Não há ano em que a estultícia dos homens não possa dar um volume.      Outras, com muita razão, me punham de sobreaviso contra os caprichos da multidão e a leviandade do público, com o qual, aliás, tantos motivos tenho para estar contente; e não deixaram essas pessoas de me sugerir que ninguém nos últimos trinta anos lendo mais que por ler, eram precisos, para divertir os homens, novos capítulos e novo título: que essa indolência do público enchera as lojas e povoara o mundo, esse tempo todo, de livros insípidos e cacetes, de mau estilo e nenhum recurso, sem regras e desconchavados, contrários aos costumes e conveniências, escritos com precipitação e lidas da mesma forma, só por serem novidade; e que se eu só sabia ampliar um livro razoável, o melhor que podia fazer era descansar. Tomei então um pouco de cada um desses dois conselhos opostos, e adotei uma forma que os aproximava. Não hesitei em acrescentar algumas observações novas às que já tinham aumentado do dobro a primeira edição de minha obra; mas para que o público não fosse obrigado a reler o antigo para passar ao que havia de novo, e tivesse diante dos olhos apenas o que sentisse vontade de ler, tomei a precaução de lhe designar este segundo acréscimo por um sinal particular: julguei também que não seria inútil diferençar o primeiro acréscimo com outra marca mais simples, que servisses para mostrar os progressos dos meus “caracteres” e auxiliar a escolha da leitura que se quisesse fazer (1) ; e como se pudesse temer que esse progresso fosse infinito acrescentei a todos esses cuidados uma promessa sincera de não tentar mais nada no gênero. Se alguém me acusar de ter faltado à palavra, inserindo, nas três edições que se seguiram, grande número de observações novas, ao menos verá que ao misturá-las com as antigas pela completa supressão dessas diferenças que se vêm em notas aparte, pensei menos em fazer com que se leia algo novo do que em deixar, talvez, à posteridade, um estudo de costumes mais completo, mais rematado e mais regular.      De resto não foram máximas que eu quis escrever: elas são como leis no domínio da moral; e confesso que não tenho autoridade bastante, nem gênio, para me fazer legislador. Sei mesmo que teria pecado contra os usos das máximas, os quais determinam que elas sejam, à maneira dos oráculos, curtas e concisas. Algumas dessas observações são assim; outras são mais extensas: pensam-se as coisas de maneira diferente e se explicam, de uma forma também completamente diferente, por uma sentença, um raciocínio, uma metáfora ou outra figura qualquer, por um paralelo, uma simples comparação, por um fato completo, por um único pormenor, por uma descrição, por uma cena; daí a extensão ou brevidade de minhas reflexões. Finalmente: aqueles que fazem máximas querem ser acreditados: eu, ao contrário, consinto que se diga de mim que algumas vezes não observei bem.; contanto que se observe .melhor do que eu. DAS OBRAS DO ESPÍRITO        Tudo está dito: e chegamos tarde, depois que existem homens há mais de sete mil anos e homens que pensam. No que concerne aos costumes, o mais belo e melhor foi feito; não se faz mais que respigar os antigos e os mais capazes dentre os modernos.      É preciso que se procure apenas pensamento e palavra justa, sem querer trazer os outros ao nosso gosto — e aos nossos sentimentos: é projeto grande demais.      Fazer um livro é ofício, como fazer um relógio. É preciso mais do que inteligência para ser autor. Um magistrado atingira, pelo seu mérito, à mais alta dignidade: era um homem sutil e prático nos negócios. Fez imprimir uma obra sobre moral, extraordinária pelo ridículo.      Não é tão fácil fazer nome por uma obra perfeita, quanto fazer valer uma obra medíocre pelo nome que já se fez.      Uma obra satírica ou de façanhas, distribuída em fascículos clandestinos, contanto que seja devolvida da mesma forma, se for medíocre, passa por maravilhosa: a impressão é que atrapalha.      Se tirar de muitas obras de moral a advertência ao leitor, a epístola dedicatória, o prefácio, o índice, as referências de aplauso, sobram apenas as páginas bastantes para merecerem o nome de livro.      Há certas coisas em que a mediocridade é insuportável: a poesia, a música, a pintura, a oratória.      Que suplício ouvir declamar pomposamente um discurso frio, ou pronunciar versos medíocres com toda a ênfase de um mau poeta      Certos poetas, no gênero dramático, são propensos a longas tiradas de versos pomposos, que parecem fortes, elevados e cheios de grandes sentimentos. O povo ouve avidamente, olhos arregalados e boca aberta, pensa que isso lhe agrada, e quanto menos compreende mais admira; não tem tempo de respirar, mal tem o de gritar e aplaudir. Antigamente, na minha primeira juventude, cheguei a pensar que essas passagens eram claras e inteligíveis para os atores, platéia e anfiteatro; que os autores se entendiam a si mesmas e que com toda a atenção que eu prestava à sua história, estava errado em não entender nada daquilo.      Estou desenganado.      Não se viu até hoje obra prima da inteligência que seja obra de vários. Homero escreveu a Ilíada; Virgílio, a Eneida; Tito Livio, suas Décadas; e o Orador Romano, seus Discursos.      Há na arte um ponto de perfeição, como de bondade ou maturidade na natureza:, aquele que o sente e o aprecia, tem o gosto perfeito; quem não o sente e o aprecia aquém ou além do verdadeiro valor, tem o gosto defeituoso. Existe, portanto, bom e mau gosto, e o gosto se discute com fundamento.      Há muito mais vivacidade que gosto entre os homens; ou melhor, poucos são os homens que a par de inteligência sejam dotados de gosto seguro e crítica judiciosa.      A vida dos heróis enriqueceu a história, e a história embelezou as ações dos heróis: assim, não sei quem deva mais ao outro, se os que escrevem a história aos que forneceram tão nobre matéria, se esses grandes homens aos seus historiadores.      Monte de epítetos: maus louvores; os fatos é que louvam, e a maneira de contá-los.      Todo o engenho do autor consiste em bem definir e bem pintar. Moisés (2) , Homero, Platão, Virgílio, Horácio, só estão acima dos outros escritores pelas suas expressões e imagens: é preciso exprimir a verdade para escrever naturalmente, rijamente, delicadamente.      Foi preciso fazer com o estilo o que se fez com a arquitetura; abandonou-se inteiramente a ordem gótica que a barbaria introduzira nos palácios e templos; restabeleceu-se o dórico, o jônico e o coríntio; o que não se via mais senão nas ruínas da Roma antiga e da velha Grécia, tornado moderno, resplandece nos nossos pórticos e peristilos. Da mesma forma não se poderia, escrevendo, encontrar a perfeição, e se é possível, sobrepujar os antigos, senão imitando-os. -      Quantos séculos se passaram antes que os homens, nas ciências e nas artes, tenham podido voltar ao gosto dos antigos, e retomar enfim, simplicidade e naturalidade!      A gente se alimenta dos antigos e dos mais capazes dentre os modernos; espremendo-os, tira-se deles o mais que se pode, enchem-se deles as obras; e quando afinal se é autor, e se pensa avançar sozinho, a gente se levanta contra eles, maltrata-os, como essas crianças atrevidas que criadas com o bom leite que sugaram, espancam sua ama.      Um autor moderno (3) prova geralmente de duas maneiras que os antigos são inferiores a nós; pela razão e pelo exemplo: tira a razão do seu gosto pessoal e o exemplo das obras deles. Confessa que os antigos, desiguais e pouco corretos que sejam, têm belas passagens e as cita; e são tão belos esses trechos, que nos fazem ler sua crítica.      Alguns entendidos (4) pronunciam-se a favor dos antigos contra os modernos; mas são suspeitos e parecem julgar em causa própria tanto suas obras são feitas ao gosto da antigüidade: a gente as recusa.      Devíamos gostar de ler nossas obras àqueles que sabem delas bastante para corrigi-las e avaliá-las.      Não querer conselhos nem correções para sua obra é pedantismo.      Um autor deve receber com igual modéstia os elogios e a crítica que se faz de suas obras.      Entre todas as diferentes expressões que podem representar um só dos nossos pensamentos, só há uma boa; nem sempre se pode encontrá-la falando ou escrevendo. É verdade, no entanto, que existe, e que tudo o que não seja ela é fraco e não satisfaz um homem inteligente que queira se fazer ouvido.      Um bom autor, que escreve com cuidado, verifica freqüentemente que a expressão que há tanto tempo procurava sem encontrar, e que afinal encontrou, é de todas a mais simples, a mais natural, a que parecia dever ter-lhe ocorrido em primeiro lugar e sem esforço.      Os que escrevem de acordo com as disposições de momento são propensos a retocar suas obras. Como não são sempre iguais e variam neles segundo a ocasião, cedo aborrecem as expressões e termos que mais amaram.      A mesma clareza de inteligência que nos faz escrever boas coisas, nos faz perceber quando não o são bastante para merecerem ser lidas.      Uma inteligência medíocre pensa escrever divinamente; uma inteligência boa pensa escrever razoavelmente.      Fizeram-me prometer, diz Aristo, ler minhas obras a Zoilo; li-as; a princípio o empolgaram e antes que tivesse calma para achá-las mas, elogiou-as modestamente na minha frente; depois não as elogiou mais diante de ninguém; eu o desculpo, e não peço a um autor mais do que isso; até o lamento por ter ouvido belas coisas que não foram feitas por ele.      Aqueles que pela sua condição se acham isentos da inveja de autor, têm paixões ou necessidades que os distraem e os tornam frios em relação às concepções alheias: quase ninguém, por disposição de espírito, de coração e de fortuna, se acha em estado de se entregar ao prazer que dá a perfeição de uma obra.      O prazer da crítica nos tira o de nos comovermos vivamente diante de coisas muito bonitas.      Muita gente chega a sentir o mérito de um manuscrito que se lhes lê, mas não se lhe pode declarar em favor antes de ter visto a aceitação que terá do público, depois de impresso, ou qual será sua sorte entre os entendidos. Não aventuram sufrágios, e querem ser levados pela turba, arrastados pela multidão. Então dizem que foram os primeiros a aprovar essa obra, e que o público participa de sua opinião.      Essa gente deixa passar as melhores ocasiões de nos convencer de que têm capacidade e luzes, que sabem julgar, achar bom o que é bom e melhor o que é melhor. Uma bela obra cai nas suas mãos; é uma obra de estréia, o autor ainda não fez grande nome, não tem nada que intervenha em seu favor; não se trata de cortejá-lo nem de agradar poderosos aplaudindo seus escritos. Não se pede a você, Zelotes, que grite: “É uma obra prima do pensamento; a humanidade não vai além dai; é o máximo a que a palavra humana pode se elevar: futuramente não se julgará o gosto de alguém senão na proporção em que gostar desta peça!”; frases excessivas, desprezíveis, que cheiram a pensionato ou abadia, prejudiciais mesmo ao que é louvável e que se quer louvar. Por que não disse simplesmente: eis um — bom livro? Você diz isso, é verdade, com toda a França, com os estrangeiros como com os compatriotas, quando .a obra está impressa em toda a Europa e traduzida em diversas línguas; não é mais tempo de dizer essas coisas.      Alguns dos que leram uma obra extraem dela certos trechos cujo sentido não compreenderam, e ainda os alteram, com tudo o que acrescentam por sua conta; e esses trechos assim corrompidos e desfigurados, que não são mais que seus próprios pensamentos e expressões, expõem-nos à censura, sustentando que são maus, e todo mundo concorda em que o são; mas o trecho da obra que esses críticos pensam citar, e que na realidade não citam, não é pior.      Que diz você do livro de Hermodoro? Que é mau, responde Antimo, que é mau; tão mau que não é um livro que pelo menos mereça que se fale dele. Mas já o leu? Não, diz Antimo. Por que não acrescenta que Fúlvio e Melânio o condenaram sem o ler, e que ele é amigo de Fulvio e de Melânio?      Arsênio, das culminâncias do seu espírito, contempla os homens; e da distância em que os vê, está como que assustado com a pequenez dos homens. Louvado, exaltado, elevado até os céus por certas pessoas que se prometeram admirar-se reciprocamente, acredita, com algum mérito que tem, possuir tudo o que se pode ter, e que ele jamais terá; ocupado e recheado dessas idéias sublimes, apenas se digna pronunciar alguns oráculos; elevado pelo seu caráter acima dos julgamentos humanos, abandona às almas comuns o mérito de uma vida conseqüente e uniforme; só é responsável pelas suas inconstâncias perante esse círculo de amigos que o idolatram. Só eles sabem julgar, sabem pensar, sabem escrever, devem escrever. Não há obra de pensamento, por melhor que seja recebida no mundo e universalmente apreciada pela gente de bem, não digo que ele queira aprovar, mas que se digne ler; é incapaz de ser corrigido por essa pintura, que ele não lerá.      Teócrines sabe coisas bastante inúteis, tem sempre opiniões singulares; é menos profundo que metódico, só exercita a memória; abstrato, desdenhoso, parece sempre rir para dentro, daqueles que pensa não valerem o que ele vale. O acaso faz com que eu leia minha obra para ele ouvir. Ele ouve. Acabo a leitura, ele me fala da obra dele. E da sua, perguntarão, que pensa ele? Já vos disse: fala da obra dele.      Não haveria obra bastante perfeita que não se liqüidasse inteiramente, no meio da crítica, se seu autor quisesse acreditar em todos os censores, cada um tirando o trecho que menos lhe agradar.      E uma experiência feita: quando se encontram dez pessoas que riscam de um livro uma expressão ou um sentimento, encontram-se facilmente outras tantas que os reclamam; estes perguntam: por que suprimir esse conceito? Ele é novo, belo, e a forma é admirável; aqueles afirmam, ao contrário, que teriam desprezado esse conceito ou que lhe teriam dado outra forma. Há um termo na sua obra, dizem uns, que é bem achado e exprime bem a realidade; há uma palavra, dizem outros, que é arriscada e aliás não significa muito claramente o que você talvez quisesse dar a entender: e é do mesmo trecho e da mesma palavra que toda essa gente fala assim; e todos são entendidos e tidos como tais. Que outro partido resta ao autor, senão ousar seguir a opinião dos que o aprovam?      Um autor que se preza não é obrigado a encher o espírito com todas as extravagâncias, todas as porcarias, todas as más palavras que lhe podem dizer e todas as ineptas aplicações que se podem fazer a propósito de alguns trechos de sua obra; e, ainda menos, suprimi-los. Está convencido de que, por mais escrupulosa exatidão que se tenha na maneira de escrever, a zombaria pueril dos impertinentes é um mal inevitável, e as melhores coisas freqüentemente só servem para faze-los achar uma tolice.      Se alguns espíritos vivos e decisivos fossem acreditados, seria ainda demais empregar termos para exprimir sentimentos; seria necessário falar-lhes por sinais, ou se fazer entendido sem falar. Por mais cuidado que se tenha em ser conciso e lacônico, e ainda que se seja reputado por isso, eles nos acham prolixos. É preciso deixar tudo para eles completarem, e escrever só para eles; concebem um período pela palavra que o começa; e por um período, todo o capítulo: leu-se para eles um único trecho da obra, basta: já penetraram tudo, e entendem a obra. Um tecido de enigmas ser-lhes-ia leitura divertida; e é uma pena para eles que esse estilo estropiado que os enleva seja raro, e poucos escritores se resignem a isso. As comparações tiradas de um rio cujo curso, apesar de rápido, é igual e uniforme, ou dum braseiro que empurrado pelos ventos se expande longe numa floresta em que consome carvalhos e pinheiros, não lhes fornece a menor idéia da eloqüência. Mostre-lhes um fogo que arde n’água, que os surpreende, o um relâmpago, que os ofusca: ficarão encantados com você.      Que prodigiosa distância entre uma bela obra e uma obra perfeita e regular! Não sei se se encontra desse último gênero. Talvez seja menos difícil nos raros gênios encontrar o grande e o sublime, que evitar alguns erros. O Cid só teve um voto por ele no seu aparecimento, e foi o voto da admiração: tornou-se mais forte que a autoridade e a política, que em vão tentaram destruí-lo; reuniu em seu favor espíritos sempre divididos em opiniões e sentimentos, os nobres e o povo; todos concordam em sabê-lo de cor e aplaudir no teatro os atores que o recitam. O Cid, enfim, é um dos mais belos poemas que se pode fazer; e uma das melhores críticas que foram feitas sobre qualquer assunto, foi a do Cid.      Quando uma leitura encanta o seu espírito, e lhe inspira sentimentos nobres e corajosos, não procure outra regra para julgar a obra; esta é boa, e feita com mão de bom operário.      Capis, que se arvora juiz do bom estilo, e pensa escrever como BOUHOURS e RABUTIN, resiste à voz do povo, e diz sozinho que Damis não é bom autor, Damis cede à multidão e diz ingênuamente, com o público, que Gapis é um escritor sem fibra.      O dever do jornalista é dizer: há um livro tal que está à venda, impresso por Cramoisy, em tipo tal; está bem encadernado em bonito papel; o preço é tanto. Deve saber até a marca do livreiro que o divulga; sua imprudência é querer criticá-lo.      O sublime do jornalista é o raciocínio oco sobre política.      O jornalista se deita de noite tranqüilamente sobre uma notícia que se corrompe durante a noite, e se, vê obrigado a abandoná-la de manhã ao acordar.      O filósofo consome sua vida observando os homens, usa seus talentos. para separar os vícios e o ridículo: se dá alguma forma aos pensamentos é menos por vaidade de autor que para trazer uma verdade que encontrou para, toda a luz necessária à impressão que deve servir ao seu objetivo. Alguns leitores, entretanto, pensam pagar com juros por dizerem doutoralmente que leram o livro, e que acharam engenho nele; mas ele devolve todos os elogios, que não procurou com seus trabalhos e vigílias. Tem mais altos projetos, e age para um fim mais elevado: pede aos homens um sucesso maior e mais extraordinário que louvores, e mesmo recompensas: tornarem-se melhores.      Os tolos lêem um livro, e não o entendem; os espíritos medíocres pensam entendê-lo perfeitamente; os grandes espíritos às vezes não o entendem de todo; acham obscuro o que está obscuro, como acham claro o que está claro. Os espíritos “brilhantes” querem achar obscuro o que não o é, e não entender o que é muito inteligível.      Em vão procura um autor fazer-se admirar por sua obra. Os tolos admiram às vezes; mas são tolos. As pessoas inteligentes têm em si a semente de todas as verdades e sentimentos; nada é novo para elas; admiram pouco; aprovam.      Não sei se jamais se poderá pôr nas cartas mais espírito, mais elegância, mais estilo, do que vemos nas de BALZAC e de VOITURE. São vazias de sentimentos que só reinaram depois deles, e que devem às mulheres seu advento. Esse sexo vai mais longe que o nosso em tal gênero de escrita. Elas acham na pena formas e expressões que para nós, às vezes, são o resultado de longo trabalho e penosa procura: são felizes na escolha dos termos e os empregam tão oportunos, que por conhecidos que sejam, têm encanto de novidade e parecem feitos apenas para o uso em que elas os tomam. Só elas fazem ler numa só palavra um sentimento inteiro, nos apresentam delicadamente um pensamento delicado. Têm um encadeamento de discurso inimitável, que se segue naturalmente e só se liga pelo sentido. Se as mulheres fossem sempre corretas, eu ousaria dizer que as cartas de algumas delas seriam talvez o que temos de melhor escrito na nossa língua (5) . Só faltou a Terêncio ser menos frio; que pureza, que exatidão, que polidez que elegância, que caracteres! Só faltou a Molière evitar a gíria e escrever com pureza: que vivacidade, que ingenuidade, que fonte de boa piada, que imitação dos costumes, que imagens, e que flagelo do ridículo! Mas que homem se poderia fazer com esses dois cômicos!      Li Malherbe e Teófilo. Todos dois conheceram a natureza, com a diferença que o primeiro, com estilo cheio e uniforme, mostra ao mesmo tempo o que ela tem de mais belo e mais nobre, de mais ingênuo e mais simples; faz-lhe a pintura ou a história. O outro, sem escolha, sem exatidão, com a pena livre e desigual, às vezes se encarrega das descrições, acentuando demais os pormenores; faz anatomia: às vezes claudica, exagera, despreza o verdadeiro na natureza, e faz-lhe o romance.      Ronsard e Balzac tiveram, cada um no seu gênero, coisas boas e más, bastantes para formar depois deles grandes homens em verso e prosa.      Marot, pela forma e pelo estilo, parece ter escrito depois de Ronsard: só existe, entre O primeiro e nós, a diferença de algumas palavras.      Ronsard e os autores seus contemporâneos mais perturbaram do que favoreceram o estilo. Retardaram-no no caminho da perfeição; expuseram-se a nunca atingir, a nunca mais voltar a ela. É de admirar que as obras de Marot, tão naturais e tão fáceis, não tenham sabido fazer, de Ronsard, tão cheio de estro e entusiasmo, maior poeta que Ronsard e Marot; e, ao contrário, que Belleau, Jodelle e Saint-Gelais, tenham sido logo seguidos por um Racan, um Malherbe; e que a nossa língua, mal fora corrompida, tenha sido restaurada.      Marot e Rabelais são indesculpáveis por ter espalhado imundície nos seus escritos;: tanto um como outro tinham bastante gênio e naturalidade para poder dispensá-la, mesmo para os que procuram menos admirar que rir de um autor. Rabelais, principalmente, é incompreensível. Seu livro é um enigma por mais que se diga, inexplicável; uma quimera: um rosto de mulher bonita com pés e cauda de víbora ou de outro animal mais disforme; é um amontoado monstruoso de moral fina e engenhosa e de corrupção porca. Onde ele é mau, passa muito além do que há de pior: é o encanto da canalha;, onde é bom, vai até o delicioso e o excelente, pode ser a iguaria dos mais exigentes.      Dois escritores (6) , em suas obras, censuraram Montaigne, que, tanto quanto eles, não julgo isento de qualquer censura; parece que todos dois não o apreciaram de forma alguma. Um não pensava bastante para saborear um autor que pensa muito; o outro pensa com excesso de sutileza para se conformar com pensamentos que são naturais.      Um estilo grave, sério, escrupuloso, vai muito longe: Lê-se Amyot e Coeffeteau; qual de seus contemporâneos se lê ainda? Balzac, pelos termos e expressões, é mais antigo que Voiture: mas se este último, pela forma, por. espírito e por índole, não é moderno, e não se parece em nada com nossos escritores, é que lhes foi mais fácil desprezá-lo que o imitar; e o pequeno número dos que o seguem não pode atingi-lo.      O H. G. (7) está: imediatamente abaixo do nada: há muitas outras obras que se lhe assemelham. Há tanta habilidade em se enriquecer com um livro estúpido,: quanto de estupidez em comprá-lo: não ousar às vezes grandes tolices ignorar o gosto do povo.      Vê-se bem que a Ópera é o esboço de um grande espetáculo: dá uma idéia disso.      Não sei como a Ópera, com música tão perfeita e gastos tão régios pode chegar à perfeição de me cacetear.      Há trechos na Ópera que fazem desejar outros. As vezes arriscam fazer desejar o fim de todo o espetáculo: falta de teatro, de ação e de coisas que interessem.      A Ópera, até hoje, não é um poema: são versos; nem um espetáculo, depois que o artifício desapareceu, pelos bons ofícios de Anfion e sua raça (8) : é um concerto, ou vozes amparadas por instrumentos. É se enganar completamente e cultivar o mau gosto dizer-se, como se diz, que o artifício não passa de brincadeira de crianças, e só convêm às marionetes; ele aumenta e embeleza a ficção, sustenta nos espectadores essa doce ilusão que é todo o prazer do teatro, onde acrescenta ainda o maravilhoso.      Não são necessários vôos, nem carruagens, nem mudanças, às Berenices (9) e a Penélope (10) ; as óperas é que precisam desses acessórios; e o característico desse espetáculo é manter espírito, olhos, ouvidos, num mesmo encantamento.      Esses abelhudos fizeram o teatro, enredo, bailados, versos, música, todo o espetáculo: até a sala em que se deu o espetáculo, isto é, teto e quatro paredes, desde os alicerces: quem duvida que a caça aquática, o encanto da mesa (11) , a maravilha do labirinto (12) , sejam invenção deles? Julgo assim pela agitação em que ficam e pelo ar contente com que se aplaudem a si próprios pelo sucesso. Se estou enganado, e eles não tiverem contribuído em nada para essa festa soberba, e tão galante, tanto tempo conservada e onde um só bastou para projeto e despesa, admiro duas coisas: a tranqüilidade e fleuma daquele que tudo movimentou e o embaraço e agitação dos que nada fizeram.      Os entendidos, ou os que assim se julgam, atribuem-se voto deliberativo e decisivo sobre os espetáculos, também se aboletam num canto, e se dividem em partidos contrários, nos quais cada um, levado por interesse muito diferente do interesse público ou da eqüidade, admira certo poema ou certa música e vaia quaisquer outros. Prejudicam igualmente, por esse calor em defender suas prevenções, a facção oposta e sua própria facção: desencorajam por mil contradições os poetas e os músicos, retardam o progresso das ciências e das artes, privando-as do fruto que elas podiam colher da emulação e liberdade que teriam diversos mestres excelentes fazendo, cada um no seu gênero e segundo seu gênio, muito boas obras.      Donde vem o costume de se rir tão livremente no teatro e ter vergonha de ali chorar?      Será menos natural enternecer-se com o que é comovente, que estourar de riso com o ridículo? Será a alteração dos traços que nos prende? Ela é maior num riso imoderado que na mais amarga dor; e a gente esconde o rosto, para chorar como para rir, na presença dos nobres e de todos aqueles que se respeitam. Será repugnância que se sente em deixar ver que se é meigo e demonstrar certa fraqueza, principalmente num tema fictício, em que parece ser-se logrado?      Mas sem levar em conta as pessoas graves ou espíritos fortes que acham fraqueza tanto num riso excessivo como no pranto, e evitam igualmente os dois, que se espera de uma cena trágica? Que faça rir?      E além do mais, a verdade não reina ali tão viva nas suas imagens quanto no cômico? A alma não chega até à verdade num e noutro gênero antes de se comover? Será ela tão fácil de contentar? Não será necessária ainda a verossimilhança? Assim como não é coisa do outro mundo ouvir levantar-se em todo o anfiteatro um riso unânime nalgum trecho da comédia, e ao contrário supõe que a comédia é agradável e representada com naturalidade, também a extrema violência a que cada um se obriga ao conter as lágrimas e o riso contrafeito com que se pretende disfarçá-las provam claramente que o efeito natural do grande trágico seria chorar francamente e em conjunto, à vista uns dos outros, sem outra preocupação que a de enxugar as lágrimas; ainda mais que depois de concordar em chorar sem constrangimento, ainda se verificaria que geralmente há menos razão para ter receio de chorar no teatro que de nele perder tempo.      O poema trágico comove de pronto o coração, mal deitando, em todo o seu desenvolvimento, liberdade e tempo de se recuperar a calma; se dá alguma folga é para reconduzir a novos abismos e novos lances. Chega ao assombro pelo sentimento de compaixão, ou, reciprocamente, chega à compaixão pelo sentimento de assombro; leva, por lágrimas, soluços, incerteza, esperança, temor, surpresa, horror, até a catástrofe. Não se trata, portanto, de uma trama de chistes, declarações ternas, palestras galantes, retratos agradáveis, palavras açucaradas, ou, às vezes, suficientemente divertidas para fazer rir, em seguida à verdade de uma última cena (13) em que os amotinados não atendem a nenhuma razão e, para geral satisfação, há sangue derramado se algum infeliz a quem isso custa a vida.      Não basta que os costumes do teatro não sejam maus: é preciso que sejam decentes e instrutivos. Pode haver nele um ridículo tão baixo e tão grosseiro, ou mesmo tão insípido e desinteressante, que não é permitido ao poeta prestar-lhe atenção, nem possível aos espectadores divertir-se com ele.      O camponês ou o ébrio fornecem algumas cenas a um farsista, mas mal penetra no verdadeiro cômico: como poderia ele constituir o fundo ou a ação principal da comédia? Esses caracteres, diz-se, são naturais: assim, por essa regra, breve todo o anfiteatro terá que se ocupar com um lacaio que assobia, um doente metido no seu roupão, um bêbado que dorme ou vomita: haverá coisa mais natural?      É próprio do afeminado levantar-se tarde, passar boa parte do dia na sua toalete, mirar-se no espelho, perfumar-se, colar sinais no rosto, receber bilhetinhos e respondê-los: leve esse papel à cena, quanto mais o fizer durar, um ato, dois atos, mais natural e conforme ao original ele será; mas também mais cacete e insípido há de ficar (14) .      Parece que o romance e a comédia poderiam ser tão úteis quanto são prejudiciais: vêm-se neles tão grandes exemplos de constância, virtude, ternura e desinteresse, tão belos e perfeitos caracteres, que quando uma criatura jovem tira os olhos deles e vê tudo o que a cerca, não encontrando senão pessoas indignas e muito abaixo do que acaba de admirar, duvido que seja capaz da menor fraqueza por elas.      CORNEILLLE não pode ser igualado, nos trechos em que é eminente: possui ai um caráter original e inimitável; mas é desigual. Suas primeiras comédias são secas, insípidas, e não faziam esperar que ele fosse tão longe, assim como as últimas fazem com que nos espantemos de ver que ele tenha podido cair de tão alto. Em algumas de suas melhores peças, há erros indesculpáveis contra os costumes; um estilo de declamador que trava a ação e a faz esmorecer; negligências nos versos e na expressão, que não se podem compreender em tão grande homem. O que há nele de mais eminente é a inspiração, que tinha sublime, à qual ficou devendo certos versos, os mais felizes que já se leram até hoje, a maneira do seu teatro, que às vezes ousou conduzir contra as regras dos antigos, e, finalmente, os desfechos de suas peças, porque nem sempre se sujeitou ao gosto dos gregos e à sua grande simplicidade; ao contrário, gostava de sobrecarregar a cena com acontecimentos dos quais geralmente dava conta com sucesso admirável, principalmente pela extrema variedade e pouca relação que se encontra, quanto ao delineamento, entre tão grande número de poemas que compôs.      Parece haver mais uniformidade nos de Racine, e que tendem um pouco mais para um mesmo fim; ele é igual, firme, sempre o mesmo em toda parte, seja pelo plano de desenvolvimento e o modo de conduzir suas peças, que são justas, regulares, tomadas no bom sentido e na natureza, seja pela versificação que é correta, rica nas rimas, elegante, numerosa, harmoniosa; imitador exato dos antigos, cuja clareza e simplicidade de ação ele seguiu escrupulosamente; a quem o grandioso e o maravilhoso não faltaram, assim como a Corneille não faltaram o comovente e o patético.      Que maior ternura pode haver do que a que se difunde em todo o Cid, em Polieuctes, e em Os Horácios? Que grandeza não se nota em Mitridates, em Porus, em Burrus? Estas paixões, também favoritas dos antigos, que os trágicos gostavam de excitar nos teatros — terror e compaixão — foram conhecidas desses dois poetas: Orestes, na Andromaque, de Racine, e Pedro, do mesmo autor, como o Édipo e Os Horácios de Corneille, são a prova. Entretanto, se for permitido fazer alguma comparação entre eles, e marcá-los, um e outro, pelo que têm de mais característico e pelo que mais se destaca comumente nas suas obras, talvez se. pudesse dizer: Corneille nos prende a seus caracteres e suas idéias, Racine se conforma às nossas: aquele pinta os homens como deviam ser, este pinta os homens como são.      Há no primeiro mais daquilo que se admira, e mesmo do que se deve imitar; há no segundo aquilo que se reconhece nos outros, ou que se experimenta em si mesmo. Um eleva, assombra, domina, instrui; o outro agrada, perturba, comove, penetra. O que há de mais belo, de mais nobre, de mais imperioso na razão, é manejado pelo primeiro; e pelo outro, o que há de mais brando e delicado na paixão.      Encontram-se, naquele, máximas, regras, preceitos; neste, gosto e sentimento. A gente se absorve mais nas peças de Corneille; e mais se abala e se enternece nas de Racine. Comeille é mais moral; Racine, mais natural. Parece que um imita Sófocles e o outro deve mais a Eurípides.      O povo chama eloquência a facilidade que alguns têm de falar sozinhos muito tempo, aliada ao arrebatamento do gesto, ao fragor da voz e à força dos pulmões. Os pedantes também não a admitem senão no discurso oratório, e não a distinguem do amontoado de imagens, do uso de palavrório e dos períodos arredondados.      Parece que a lógica é, a arte de convencer de alguma verdade; e a eloqüência um dom da alma, que nos torna senhores do coração e do espirito dos outros; que nos faz inspirar ou convencer os outros de tudo o que nos apraz.      A eloqüência pode se encontrar nas palestras e em todo gênero de escrito Raramente está onde a procuram, e às vezes está onde não a procuram.      A eloqüência está para o sublime como o todo para a parte.      Que é o sublime? Não parece que o tenham definido. É uma imagem? Todo gênero de escrito comportará o sublime, ou só os grandes temas serão capazes disso? Poderá brilhar, outra coisa na égloga além de uma bela naturalidade e nas cartas familiares, como nas palestras, uma grande delicadeza? Ou naturalidade e delicadeza serão o sublime das obras, que tornam perfeitas? Que é o sublime? Onde está o sublime?      Os sinônimos são diversas dicções, ou diversas frases diferentes, que significam a mesma coisa.      A antítese é uma oposição de duas verdades que se dão à luz mutuamente. A metáfora, ou a comparação, tira de uma coisa estranha uma imagem sensível e natural de uma verdade.      A hipérbole exprime além da verdade, para permitir ao espírito conhecê-la melhor.      O sublime não pinta mais que a verdade, mas num tema nobre; pinta-a inteira, na causa e no efeito; é a expressão ou a imagem mais digna dessa verdade. Os espíritos medíocres não acham uma expressão única e usam sinônimos. Os jovens se deixam ofuscar pelo brilho da antítese, e se servem dela. Os espíritos justos, que gostam de imagens precisas, vão dar naturalmente na comparação e na metáfora. Os espíritos vivos, ardentes, e arrastados por vasta imaginação para fora das regras e da exatidão, não podem se contentar senão com a hipérbole. Ao sublime, mesmo entre os grandes gênios, só os mais elevados são capazes de atingir.      Todo escritor, para escrever claramente, deve colocar-se no lugar de seus leitores, examinar sua própria obra como algo novo para ele, algo que pela primeira vez ele esteja lendo, e que o autor tivesse submetido à sua crítica; e persuadir-se depois de que não somos entendidos quando nos entendemos, mas sim quando o que fazemos é de fato inteligível.      Só se escreve para ser ouvido: mas é preciso, pelo menos, ao escrever, fazer ouvir belas coisas. Deve-se ter dicção pura e usar termos adequados à verdade; mas é preciso que esses termos tão justos sejam expressão de pensamentos nobres, vivos, sólidos, e que contenham sentido muito belo.      É fazer mau uso da pureza e da clareza do discurso, fazê-lo servir a matéria árida, infrutífera, sem sal, sem utilidade, sem novidade: de que serve aos leitores compreender facilmente e sem esforço coisas frívolas e pueris, às vezes insípidas e vulgares, e estarem menos incertos em relação ao pensamento de um autor que caceteados com sua obra?      Quando se põe alguma profundidade em certos escritos, quando se afeta finura de estilo, e às vezes excesso de delicadeza, é apenas pela boa opinião que se tem dos leitores.      Temos de suportar este constrangimento (15) na leitura dos livros feitos por gente de partido e facção: de nem sempre ver aí a verdade. Os fatos são disfarçados, as razões recíprocas não são relatadas em toda sua força, nem com inteira exatidão; e o que esgota a mais longa paciência, é preciso ler grande. número de termos duros e injuriosos que homens graves se dizem, por fazerem de um ponto de doutrina, ou dum fato contestado, querela pessoal. Essas obras têm isso de particular, é não merecerem a voga prodigiosa de que gozam durante algum tempo, nem o profundo esquecimento em que caem quando, extinto o ardor da pendência, se transformam em almanaques do ano passado.      A glória ou o mérito de certos homens está em escrever bem, a de alguns outros, em não escrever      Escreve-se regularmente há vinte anos; é-se escravo da construção: enriqueceu-se a língua de palavras novas, sacudido o jugo do latinismo, e reduziu-se o estilo à frase puramente francesa: quase se encontrou o número que MALHERBE e BALZAC pela primeira vez tinham encontrado, e depois tantos autores deixaram fugir-lhes Estabeleceu-se, enfim, no discurso, toda a ordem e clareza de que ele é capaz; isso conduz sensivelmente a acrescentar-lhe espírito.      Existem artífices ou eruditos cuja inteligência é tão vasta quanto a arte ou a ciência que professam; retribuem-lhe com vantagem, pelo gênio e pela invenção, o que recebem dela e dos seus princípios: saem da arte para enobrecê-la, afastam-se das regras, se estas não conduzem ao grandioso e ao sublime; andam sozinhos e sem companhias, mas chegam bem alto e penetram bem longe, sempre seguros e confirmados pelo sucesso, das vantagens que às vezes se tiram da irregularidade.      Os espíritos justos, pacíficos, moderados, não só não os atingem, como não os compreendem, e menos ainda quereriam imitá-los. Permanecem tranqüilos nos confins de sua esfera, vão até certo ponto que enche os limites de sua capacidade e de suas luzes; não vão mais longe porque nada vêm além; não podem ser mais que os primeiros de uma segunda classe, e sobrepairar no medíocre.      Há inteligências, se assim me atrevo a dizer, inferiores e subalternas, que não parecem feitas senão para compilação, registro ou armazém de todas as produções dos outros gênios. São plagiários, tradutores, compiladores: não pensam, dizem o que os autores pensaram; e como a escolha dos pensamentos é invenção, têm má escolha, preferem relatar muitas coisas do que coisas excelentes: não têm nada de original, que lhes pertença: não sabem o que aprenderam; e só aprendem aquilo que todo mundo prefere ignorar, uma ciência vã, árida, despida de graça e de utilidade, que não surge na conversação, que está fora do comércio, feito moeda que não tem mais curso. Sua leitura nos espanta e ao mesmo tempo são cacetes suas conversas e suas obras.      Esses são os que os nobres e o vulgo confundem com os sábios e os homens de engenho encaminham ao pedantismo.      Em geral a crítica não é ciência: é um oficio em que se precisa mais de saúde que de espírito, mais trabalho que capacidade mais hábito que gênio. Se vem de um homem que tem menos discernimento que leitura, e se exerce sobre certos capítulos, corrompe os leitores e o escritor.      Aconselho a uma autor copista de nascença, que tem a extrema modéstia de trabalhar segundo alguém, a não escolher para modelo senão essa espécie de obras em que entram inteligência, imaginação ou mesmo erudição: se não atingir os seus originais, pelo menos se aproxime deles e assim se fará ler. Deve, ao contrário, evitar como um escolho o desejo de imitar os que escrevem por ímpeto, falam pelo coração que lhes inspira termos e imagens, e tiram, por assim dizer, das próprias entranhas, tudo o que expressam no papel; modelos perigosos, próprios para fazer cair na frieza, na baixeza e no ridículo os que se metem a segui-los. De fato eu riria de um homem que quisesse seriamente falar com o meu tom de voz ou parecer-se com meu rosto.      Um homem nascido cristão e francês se constrange na sátira: os grandes assuntos lhe são proibidos:, aborda-os às vezes e depois se afasta para pequenas coisas, a que ele dá relevo pela beleza do seu gênio e do seu estilo.      É preciso evitar-se o estilo vão e pueril, para não se parecer com Dorilas e Handburg (16) .      Pode-se, ao contrário, em alguns gêneros de escrito, ousar certas expressões, usar termos transpostos que compõem a frase com vivacidade, e lamentar os que não sentem o prazer que existe em se servir desses recursos, ou ouvir os que deles se serviram.      Aquele que ao escrever só pensa no seu século pensa mais na sua pessoa que no que escreve. É preciso tender sempre para a perfeição; e então essa justiça que os contemporâneos nos recusam, a posteridade nos fará.      Não se deve pôr ridículo onde não existe: é estragar o gasto, corromper o julgamento próprio e o alheio.      Mas o ridículo que está em algum lugar, é preciso vê-lo aí, ressaltá-lo, com graça e de maneira que agrade e instrua.      HORÁCIO e DESPRÉAUX disseram isso antes de você. Mas eu disse como coisa minha. Não posso, então, pensar depois deles uma verdade que outros ainda irão pensar depois de mim? DO MÉRITO PESSOAL        Quem poderá, com os mais raros talentos e mais excelente mérito, deixar de se convencer da própria inutilidade quando verifica que deixa, ao morrer, um mundo que não lhe sente a perda e no qual se acha tanta gente para substituí-lo?      De muitos nada mais existe, além do nome, capaz de valer alguma coisa. Quando os vemos de muito perto, são menos que nada: de longe, fazem figura.      Apesar de convencido de que os escolhidos para diferentes empregos, segundo seu gasto e profissão, saem-se bem, ouso dizer que pode acontecer existirem no mundo muitas pessoas conhecidas ou desconhecidas, que não são utilizadas, e que se sairiam muito bem: e sou induzido a esse sentimento pelo sucesso maravilhoso de certas pessoas que só o acaso colocou e das quais até então não se esperaram coisas muito notáveis.      Quantos homens admiráveis, possuidores de belas qualidades, morreram sem que se falasse deles! Quantos ainda vivem dos quais nada se fala e jamais nada se falará?      Que terrível trabalho tem um homem, sem padrinhos e sem cabala, sem estar inscrito em nenhuma corporação, sendo sozinho, e só tendo por recomendação um grande mérito, para fazer luz sobre a obscuridade em que se encontra, e chegar ao nível de um tolo bem cotado!      Quase ninguém percebe por si mesmo o mérito dos outros.      Os homens estão ocupados demais consigo mesmos para ter tempo de compreender e discernir os outros: daí o fato de que com grande mérito e modéstia ainda maior pode-se ficar muito tempo ignorado.      O gênio e os grandes talentos muitas vezes faltam, às vezes também faltam só as ocasiões: alguns podem ser louvados pelo que fizeram, outros pelo que teriam feito.      É menos raro encontrar espírito, do que pessoas que se sirvam do seu, ou façam valer o dos outros e o utilizem em alguma coisa.      Há mais ferramentas do que operários, e entre estes, há mais maus do que excelentes: que pensar de quem queira serrar com uma plaina e tome o serrote para aplainar?      Não há no mundo ofício mais penoso que o de fazer nome ilustre: a vida acaba quando apenas se esboçou a obra.      Que fazer com Egesipo, que pede emprego? Colocá-lo na Fazenda ou no Exército? Isso é indiferente, é preciso que só o interesse decida; porque ele é tão capaz de manejar com dinheiro, ou fazer contas, quanto de carregar armas. Serve para tudo, dizem os amigos: isso significa sempre que não tem mais jeito para uma coisa que para outra; ou, noutras palavras, que não serve para nada.      Assim a maior parte dos homens, preocupados consigo mesmos na juventude, corrompidos pela preguiça ou pela farra, pensam erradamente, numa idade mais avançada, que lhes basta ser inúteis ou indigentes para que a república deva colocá-los ou socorrê-los; e raramente aproveitam esta lição tão importante: os homens deveriam empregar os primeiros anos da vida em se tornarem tais, pelos seus estudos e trabalhos, que a própria república precisasse de sua inteligência e de suas luzes; fossem como uma peça necessária a todo o seu edifício, e ela se visse na contingência de, para sua própria vantagem, fazer-lhes a fortuna ou aumentá-la.      Devemos trabalhar para nos tornarmos muito dignos de qualquer emprego: o resto não é conosco, é com os outros.      Valorizar-se por coisas que não dependem dos outros, e sim de si próprio, ou desistir de se valorizar: máxima inestimável e de infinita aplicação na prática, útil aos fracos, aos virtuosos, às pessoas de espírito, que torna senhoras de sua sorte ou de sua tranqüilidade; perniciosa para os poderosos, pois diminuiria seu séquito, ou antes, o número de seus escravos destruiria sua arrogância com uma parte da sua autoridade, e os reduziria quase às suas baixelas e equipagens; iria privá-los do prazer que sentem em se fazer rogados, solicitados, fazer esperar ou recusar, prometer e não dar; iria desmanchar o prazer que às vezes têm de pôr em destaque os tolos e esmagar o mérito, quando lhes acontece discerni-lo; baniria das cortes as intrigas, cabalas, maus ofícios, baixeza, adulação, trapaça; faria de uma corte tempestuosa, cheia de agitações e intrigas, como que uma peça cômica, ou mesmo trágica, na qual os prudentes seriam apenas espectadores; restituiria dignidade às diferentes condições dos homens, serenidade a suas faces, hábito de trabalho e de exercício; iria levá-los à emulação, desejo de glória, amor da virtude; em vez de cortesãos vis, inquietos, inúteis, muitas vezes onerosos à república, far-se-iam administradores hábeis ou excelentes pais de família, juizes íntegros, bons oficiais, grandes capitães, oradores, filósofos; e não lhes daria, a todos, outro inconveniente que o de, talvez, deixar aos herdeiros menos tesouros do que bons exemplos.      É preciso, na França, muita firmeza e grande amplitude de espírito para dispensar as comissões e empregos e consentir, assim, em ficar em casa e não fazer nada. Quase ninguém tem mérito bastante para desempenhar esse papel com dignidade, nem bastantes fundos para encher o vazio do tempo com aquilo que o vulgo chama negócios. Entretanto só falta à ociosidade do homem prudente um melhor nome: que meditar, falar, ler, estar tranqüilo se chamasse: trabalhar.      Um homem de mérito que está no seu lugar nunca se aflige por vaidade; deslumbra-se menos com o posto que ocupa do que se sente humilde pelo posto maior que não ocupa, e do qual se acha digno; mais capaz de inquietação que de orgulho ou desprezo pelos outros, ele só pesa a si mesmo.      Custa a um homem de mérito comparecer à corte, mas por uma razão bem oposta à que se poderia imaginar. Não seria homem de mérito sem uma grande modéstia, que o impede de pensar que possa dar grande prazer aos príncipes postando-se à sua passagem, plantando-se diante, dos seus olhos e mostrando-lhes o rosto. Mais depressa se convence de que os importuna; e precisa de todos os argumentos tirados do uso e do dever, para resolver se mostrar. Ao contrário, aquele que tem boa opinião de si, e que o vulgo chama brilhante, sente prazer em se tornar visto e faz a corte com tanto maior confiança quanto é incapaz de imaginar que os poderosos, ao vê-lo, pensam sobre a sua pessoa diferente do que ele próprio pensa.      Um homem de bem se paga por suas mãos da aplicação ao dever, pelo prazer que sente em cumpri-lo, e se desinteressa dos elogios, estima e reconhecimento que algumas vezes lhe faltam.      Se eu ousasse fazer uma comparação entre duas condições completamente desiguais, diria que um homem de coragem pensa em cumprir seus deveres exatamente como o homem que faz telhados pensa em colocar telhas: nem um nem outro procuram expor sua vida, nem se afastam por medo do perigo; a morte, para eles, é um incidente do ofício, e nunca um obstáculo.      O primeiro, por ter estado na trincheira, tomado uma posição ou forçado um refúgio inimigo, não se vangloria mais do que este por ter subido na ponta das cumieiras ou no alto de um campanário. Todos dois trataram, apenas, de trabalhar bem; enquanto que O fanfarrão trabalha em fazer com que se diga que ele trabalhou bem.      A modéstia é para o mérito o que as sombras são para as figuras de um quadro: dá-lhe sombra e relevo.      Uma aparência simples é a vestimenta dos homens vulgares; talhada para eles, e sob medida. Mas é enfeite para os que encheram sua vida de grandes ações; comparo-a a uma beleza descuidada, por isso mais sedutora.      Certos homens, contentes consigo, com alguma ação ou obra que lhes saiu bem feita, tendo ouvido dizer que a modéstia assenta bem aos grandes homens, ousam ser modestos, arremedam os simples e naturais, como essas pessoas de estatura mediana que se abaixam nas portas por medo de bater com a cabeça no portal.      Seu filho é gago: não o faça subir à tribuna. Sua filha nasceu para o mundo: não a meta entre vestais. Xanto, seu liberto, é fraco e tímido: não hesite em retirá-lo das legiões e da milícia. Quero fazê-lo progredir, diz: encha-o de bens, sobrecarregue-o de terras, títulos e posses: siga o seu tempo: vivemos num século em que isso lhe dará mais honrarias que virtudes. Isso me custará muito. Falou sério, Crasso? Pensa você que basta uma gota d’água que tira do Tibre para enriquecer Xanto, de quem você gosta, e prevenir as conseqüências vergonhosas de um negócio em que ele não está muito limpo?      Não se deve olhar nos amigos senão a única virtude que nos prende a eles, sem nenhum exame da sua boa ou má fortuna; e quando nos sentimos capazes de segui-los na desgraça, é preciso freqüentá-los com decisão e confiança até na sua maior prosperidade.      Se é comum surpreendermo-nos com as coisas raras, por que nos surpreendemos tão pouco com a virtude?      Se é bom ter bom nascimento, não o é menos ser-se de tal forma que não se indague mais do nosso nascimento.      Aparecem de tempos em tempos na face da terra homens singulares, preciosos, que brilham pela virtude, e cujas qualidades eminentes lançam fulgor .prodigioso. Parecidos com essas estrelas extraordinárias das quais se ignoram as causas, e ainda menos se sabe o que será delas depois que desaparecerem, eles não têm antepassados nem descendentes: compõem sozinhos toda a sua raça.      O bom caráter nos revela nosso dever, nosso empenho em cumpri-lo; se há perigo, com perigo; inspira coragem e a substitui.      Quando se é inexcedível na sua arte, dando-lhe toda a perfeição de que ela é capaz, de qualquer maneira se sobressai, igualando-se ao que há de mais nobre e mais elevado. V... é um pintor, C... é um músico, o autor de Pyrame é um. poeta (17) : mas MIGNARD é MIGNARD, LULLI é LULLI e CORNEILLE é CORNEILLE.      Um homem livre, que não tem mulher, se tiver algum engenho, pode transmontar à própria sorte, meter-se pelo mundo e se equiparar às pessoas mais notáveis: isso é menos fácil para aquele que está comprometido; parece que o casamento submete todo mundo às suas ordens.      Depois do mérito pessoal, é preciso confessar, é das dignidades extraordinárias e dos grandes títulos que os homens tiram mais distinção e maior brilho; quem não sabe ser um ERASMO deve pensar em ser bispo.      Alguns, para ampliar sua fama, amontoam sobre si os pariatos, cordões de ordem, primados, púrpura, teriam necessidade de uma tiara: mas que necessidade teria Trofines (18) de ser cardeal?      Você diz que o ouro cintila nas roupas de Filémon; mas também cintila nos ourives. Ele se veste com as mais lindas fazendas; mas por isso deixarão elas de ser desdobradas nas lojas, e vendidas a retalho? Mas os bordados e ornamentos acrescentam magnificência a essas roupas! Pagarei então o trabalho de um artífice. Se perguntam que horas são, Filémon saca um relógio que é obra prima; a guarda de sua espada é um ônix (19) ; tem no dedo um diamante enorme e perfeito, que faz ofuscar os olhos; não lhe falta nenhuma dessas curiosas bagatelas que se leva sobre si, tanto para uso como por vaidade; e não poupa toda sorte de enfeites, tal como um jovem casado com uma velha rica.      Afinal me desperta curiosidade: é preciso, ao menos, ver essas coisas tão preciosas: mandem-me essa roupa e essas jóias de Filémon; dispenso a pessoa.      Tu te enganas, Filémon, se com essa carruagem brilhante, esse grande número de velhacos que te seguem, e esses seis animais que te puxam, pensas que te respeitam mais. Afastam todo esse aparato que te é estranho, para penetrarem em ti, que não passas de um tolo.      Não é preciso perdoar, às vezes, aquele que com grande cortejo, roupa suntuosa, equipagem magnífica, se julga com melhor nascimento e mais inteligência: ele lê o perdão na atitude e nos olhos de quem lhe fala.      Um homem na corte, e às vezes na cidade, com um grande manto de seda ou tecido de holanda, cinto largo posto sobre o estômago, calçado de marroquim, lindo barrete cor de uva, gola bem feita e bem engomada, cabelos compostos e tez rubicunda; que além disso recorda algumas distinções metafísicas, explica o que é a luz da glória e sabe precisamente como se vê Deus: isso se chama um doutor.      Uma pessoa humilde, que mergulhou no seu gabinete, meditou, procurou, consultou, confrontou, leu ou escreveu durante toda a vida: é um homem douto.      Entre nós, o soldado é bravo e o homem de toga é sábio: não vamos além Entre os romanos, o homem togado era bravo e o soldado, sábio: um romano era ao mesmo tempo soldado e homem de toga.      Parece que o herói só tem um ofício, que é a guerra; e o grande homem tem todos os ofícios, o da toga, o da espada, o do gabinete, o da corte: um e outro juntos não valem um homem de bem.      Na guerra a diferença entre o herói e o grande homem é sutil: todas as virtudes militares fazem um e outro. Julga-se, entretanto, que o primeiro há de ser jovem, empreendedor, de grande coragem, firme no perigo, intrépido; que o outro é insuperável em bom senso, vasta previdência, alta capacidade, longa experiência. Talvez ALEXANDRE não fosse mais que herói e CÉSAR fosse um grande homem.      EMÍLIO (20) tinha de nascença o que os homens mais ilustres só conseguem a força de regras, meditação e exercício. Só teve de, nos primeiros anos, utilizar talentos que eram naturais e entregar-se ao seu gênio.      Fez, agiu, antes de saber, ou antes, soube o que nunca aprendera. Poderia dizer que os brinquedos da sua infância foram outras tantas vitórias? Uma vida ornada de extrema felicidade junto a uma longa experiência seria ilustre só com as ações praticadas desde a sua juventude. Todas as ocasiões de vencer que depois se apresentaram, ele as adotou; as que não eram, sua virtude e sua estréia fizeram-nas aparecer: admirável tanto pelas coisas que fez como pelas que poderia ter feito. Consideraram-no como um homem incapaz de ceder ao inimigo, dobrar-se ante o número e sob os obstáculos, como uma alma de primeira ordem, cheia de recursos e de luzes e que via mesmo onde ninguém via; como aquele que, à frente das legiões, era para elas um presságio de vitória, e valia, sozinho, por diversas legiões; grande na prosperidade, maior ainda quando a sorte lhe era contrária: levantar um sítio, uma retirada, enobreceram-no mais do que os triunfos das batalhas ganhas e das cidades tomadas; cheio de glória e de modéstia, ouviram-no dizer: Eu ia fugindo, com a mesma graça com que dizia: Nós os vencemos; homem dedicado ao Estado, à sua família, ao chefe de sua família; sincero para Deus e os homens, admirador do mérito como se este lhe fosse menos familiar: homem verdadeiro, simples, magnânimo, ao qual só faltaram as virtudes menores.      Os filhos dos deuses (21) , por assim dizer, escapam às regras da natureza, e são como exceções: quase nada esperam do tempo e dos anos. O mérito, entre eles, antecede a idade. Nascem instruídos e são homens perfeitos antes que o comum dos homens tenha saldo da infância.      Os vistas-curtas, quer dizer, os espíritos estreitos e fechados na sua pequena esfera, não podem compreender a universalidade de talentos que se observa às vezes numa mesma pessoa: onde eles vêm o agradável, excluem o sólido; onde pensam descobrir as graças do corpo, agilidade, flexibilidade, destreza, não querem admitir os dons da alma, profundeza, reflexão, sabedoria: omitem, na história de Sócrates, o fato de ele ter dançado.      Não existe homem bastante perfeito e necessário aos seus que não tenha de que se tornar menos pranteado.      Um homem inteligente, de caráter simples e reto, pode cair nalguma peça; não pensa que alguém possa querer armar-lhe alguma, e escolhê-lo para objeto de logro: essa confiança torna-o menos precavido, e os espertalhões o agarram por aí. Só têm a perder os que venham para segunda tentativa: ele só se engana uma vez.      Se eu for justo, evitarei cuidadosamente ofender a quem quer que seja; mas sobretudo a um homem inteligente, se eu zelar, um pouco que seja, pelos meus interesses.      Não há nada bastante sutil, simples, imperceptível, em que não entre um que especial que nos revele. Um tolo não entra, nem sai, nem se senta, nem se levanta, nem se cala, nem fica em pé, como um homem de espírito.      Conheço Mopse de uma visita que me fez sem me conhecer. Ele pede a pessoas que não conhece para o levarem à casa de outras que não o conhecem; escreve a mulheres que conhece de vista, insinua-se num círculo de pessoas respeitáveis, que não sabem quem é ele; e aí, sem esperar que o interroguem, sem sentir que interrompe, fala, ininterruptamente, ridiculamente.      Outra vez, entra numa assembléia, fica onde entende, sem nenhuma atenção pelos outros, nem por si mesmo: tiram-no do lugar destinado a um ministro, ele se senta no de um duque, par do reino: aí está precisamente aquele de quem a multidão se ri, e só ele conserva-se grave e não ri.      Expulse-se um cachorro da poltrona do rei, ele subirá ao púlpito do pregador; olha o mundo com indiferença, sem inquietação, sem pudor; tal como o tolo, o cachorro não tem de que se envergonhar.      Celso é medíocre; mas alguns poderosos o suportam; não é sábio; mantém relações com sábios; tem pouco mérito; mas conhece pessoas que o têm muito; não é inteligente, mas tem uma língua que pode servir de intérprete e pés que podem levá-lo de um lugar a outro. É um homem nascido para idas e vindas, para ouvir proposições e mexericar, para fazer disso ocupação, ir além do seu recado e ser desmentido; reconciliar pessoas que discutem desde o primeiro encontro; ter sucesso em um negócio e falhar em mil; chamar a si toda a glória de um sucesso e desviar sobre os outros o ódio de um fracasso. Conhece os boatos correntes, as intriguinhas da cidade; não faz nada; diz ou escuta o que os outros fazem: é noticiarista; sabe até o segredo das famílias; penetra nos mais altos mistérios; pode dizer por que este foi exilado, e por que repatriaram aquele: conhece o fundo e as causas da discórdia entre irmãos e do rompimento de dois ministros. Não predisse, desde o começo, as tristes conseqüências dessa desinteligência? Não disse destes que sua união não seria longa? Não estava presente ouvindo certas palavras que foram ditas? Não tomou parte numa espécie de negociação? Quiseram acreditar nele? Ouviram-no? A quem vem você falar dessas coisas! Quem mais que Celso tomou parte nessas intrigas da corte? E se não fosse assim, se ele não tivesse, pelo menos, sonhado ou imaginado, pensaria ele em fazê-lo acreditar? Tomaria o ar importante e misterioso de homem que volta de embaixada?      Menipo é o pássaro enfeitado com penas alheias: não fala, não sente; repete sentimentos e discursos, serve-se até com tanta naturalidade da inteligência alheia, que é o primeiro a se enganar, e muitas vezes pensa dar sua opinião ou explicar seu pensamento, quando não é mais que o eco de alguém que acaba de deixar.      E um homem que aparenta bem um quarto de hora seguida; no momento seguinte se rebaixa, degenera, perde o pouco verniz que um pouco de memória lhe dava e se mostra tal qual é; só ele ignora quanto está abaixo do sublime e do heróico; incapaz de saber até onde se pode ter espírito, pensa ingenuamente que o seu é todo o espírito que os homens podem ter: por isso tem o ar e o aprumo de quem nada mais deseja nesse capítulo, e nada inveja de ninguém. Freqüentemente fala sozinho e não se esconde para isso: quem passa, vê; parece sempre tomar partido, ou decidir que tal coisa é incontestável.      Cumprimentá-lo alguma vez é metê-lo em dificuldade para saber se deve ou não responder à saudação; e enquanto delibera, já se está for a de alcance.      A vaidade fez dele homem correto; colocou-o acima de si mesmo, fez com que se tornasse o que não era. Julga-se, ao vê-lo, que só está ocupado com sua pessoa; sabe que tudo lhe assenta e que os enfeites lhe vão bem; pensa que todos os olhares estão fixados nele, e que os homens se revezam para contemplá-lo.      Aquele que, confortavelmente instalado num palácio, com dois apartamentos para inverno e verão, vem se deitar num sótão do Louvre, não o faz por modéstia.      O outro que para conservar talhe esbelto se abstém de vinho, e só toma uma refeição; não é sóbrio nem temperante; e de um terceiro que, importunado por um amigo, pobre, afinal lhe dá algum socorro, diz-se que compra o descanso, e nunca que é liberal.      Só o motivo faz o mérito das ações humanas, e o desinteresse acrescenta perfeição.      A falsa grandeza é intratável e inacessível: como sente seu fraco, esconde-se, ou pelo menos não mostra o rosto mais que o necessário para se impor e não aparecer tal como é, digo, uma autêntica pequenez.      A verdadeira grandeza é livre, afável, familiar, popular. Deixa-se tocar e examinar; não perde nada ao ser vista de perto: quanto mais a conhecem, mais a admiram. Curva-se, por bondade, para os seus inferiores e volta, sem esforço, ao seu natural.      As vezes se abandona, se descuida, dá uma folga à sua superioridade, podendo sempre retomá-la e fazê-la valer: ri, brinca e se diverte, mas com dignidade. A gente se aproxima dela com liberdade e respeito. Seu caráter é nobre a acessível, inspira respeito e confiança, e faz com que os príncipes nos pareçam grandes e muito grandes, sem nos fazer sentir que somos pequenos.      O homem de juízo cura-se da ambição com a própria ambição; tende a tão grandes coisas que não pode se limitar ao que chamam tesouros, postos, fortuna, proteções. Não vê, nessas vantagens tão minguadas, nada bastante bom e sólido para encher o coração e merecer seus cuidados e desejos; tem até necessidade de esforços para desdenhá-las. O único tem capaz de tentá-lo é essa espécie de glória que deveria nascer da virtude pura e simples: mas os homens não a concedem; ele a dispensa.      É bom aquele que faz o bem aos outros; se sofre pelo bem que faz, é muito bom; se recebe sofrimento daqueles a quem fez bem, tem uma bondade tão grande que só pode ser aumentada no caso de aumentarem seus sofrimentos; e se morre deles, sua virtude não podia ir mais longe: é heróica e perfeita. DAS MULHERES        Os homens e as mulheres raramente concordam sobre o mérito de uma mulher: seus interesses são completamente diferentes. As mulheres não se agradam umas às outras pelas mesmas qualidades com que agradam aos homens: mil maneiras que acendem nestas grandes paixões, criam entre elas aversão e antipatia.      Há em algumas mulheres uma grandeza artificial relacionada com o movimento dos olhos, um jeito de cabeça, modos de andar, e não passa daí; um espírito encantador que se impõe e só se aprecia porque não é profundo. Há, noutras, uma grandeza simples, natural, independente do gesto e do andar, que brota do coração e é como uma conseqüência de seu alto nascimento; um mérito plácido, mas sólido, acompanhado de mil virtudes que elas não podem cobrir com sua modéstia: escapam desta e se mostram aos que têm olhos. Eu vi alguém desejar ser moça, e moça bonita, dos treze aos vinte e dois anos, e dessa idade em diante, se tornar homem.      Algumas jovens não conhecem suficientemente as vantagens duma natureza feliz, e quanto seria útil abandonar-se a ela. Desvirtuam esses dons do céu, tão raros, tão frágeis, com maneiras afetadas e má imitação. O som da voz e o andar são copiados. Elas se compõem, se procuram, olham no espelho a ver se se afastam bastante do natural: não é sem dificuldades que conseguem agradar menos.      Entre as mulheres, enfeitar-se e pintar-se não é — confesso — falar contra seu pensamento; também não eqüivale ao disfarce e à mascarada, em que ninguém procura passar pelo que não é; pensam apenas em se esconderem e se tornarem desconhecidas: procuram impor-se aos olhos e querem parecer, segundo seu exterior, contra a verdade; é uma espécie de mentira.      É preciso julgar as mulheres do calçado ao penteado, exclusivamente, mais ou menos como: se mede, o peixe entre a cauda e a cabeça.      Se as mulheres querem ser belas apenas aos seus próprios olhos, e agradar a si mesmas, podem, sem dúvida, seguir seu gosto e capricho na escolha dos trajes e enfeites: mas se é aos homens que querem agradar, se é para eles que se pintam e aplicam iluminuras, recolhi opiniões, e lhas transmito, da parte de todos os homens, ou da maior parte: acham eles que o branco e vermelho as tornam horríveis e repugnantes; que o vermelho só as envelhece e mascara; odeiam tanto vê-las com alvaiade no rosto quanto com dentes postiços na boca e bolas de cera nas mandíbulas; protestam seriamente contra todo artifício que usam para se tornarem feias; e longe de responder por isso diante de Deus, parece que, ao contrário, ele lhes reservou esse último e infalível meio de curar as mulheres.      Se as mulheres fossem, naturalmente, iguais ao que se tornam com artifícios, se perdessem num momento toda a frescura da pele e tivessem o rosto tão aceso e vidrado quanto fazem com o carmim e tintas com que se pintam, ficariam inconsoláveis.      Uma mulher vaidosa não desiste da paixão de agradar e da opinião que tem sobre sua beleza. Considera o tempo e os anos como algo que enruga e enfeia apenas as outras mulheres: esquece que pelo menos a idade está escrita no rosto. O mesmo enfeite que antes lhe embelezara a juventude, desfigura agora sua pessoa, ilumina os defeitos da sua velhice. Os requebros e a afetação acompanham-na na dor e na febre: morre enfeitada, e com fitas de cor.      Lise ouve dizer de outra vaidosa que ela gosta de afetar mocidade e quer usar adornos que não convêm mais a uma mulher de quarenta anos. Lise já completou quarenta; mas os anos para ela têm menos de doze meses e não a envelhecem. Assim acha ela; enquanto se olha no espelho, espalha carmim no rosto e coloca sinais, concorda que não é permitido a uma certa idade fingir de jovem, e que realmente Clarice, com seus sinais e seu carmim, é ridícula.      As mulheres se preparam para seus amantes, quando os esperam; mas se são surpreendidas, esquecem, quando eles chegam, o estado em que se acham; não se vêm mais. Com os que lhes são indiferentes, têm mais ócios; sentem a desordem em que estão, endireitam-se na presença deles, ou desaparecem um momento, para voltarem enfeitadas.      Um rosto bonito é o mais bonito de todos os espetáculos; a mais doce harmonia é o som da voz que a gente ama.      A graça é arbitrária; — a beleza — é algo mais real e mais independente do gosto e da opinião.      Pode-se ficar de tal maneira impressionado com belezas tão perfeitas, de tão grande mérito, que a gente se contente em vê-las e falar-lhes.      Uma mulher bonita com as qualidades de um homem de bem, é o que há de mais delicioso no mundo para o convívio: encontra-se nela todo o mérito dos dois sexos.      Sem sentir, uma jovem faz pequenas coisas que convencem e agradam sensivelmente aquele para quem essas coisas são feitas: os homens quase nada fazem sem sentir; suas carícias são voluntárias, eles falam, agem, são solícitos, e convencem menos.      O capricho, nas mulheres, está muito próximo da beleza; para ser o seu contraveneno, e para que faça menos mal aos homens, que não se curariam sem remédio.      As mulheres se prendem aos homens pelos favores que lhes concedem: os homens se desprendem por esses mesmos favores.      Uma mulher esquece, de um homem que ela já não ama, até os favores que ele recebeu dela.      Uma mulher que tem um amante pensa não ser namoradeira, a que tem diversos amantes pensa ser apenas namoradeira.      Certa mulher que evita ser leviana por sua firme dedicação a um só, passa por louca pela sua má escolha.      Um antigo amante depende de tão pouco que cede a um novo marido; e este dura tão pouco que um novo amante que lhe sucede, paga-lhe na mesma moeda.      Um antigo amante teme ou despreza um novo rival, segundo o caráter da pessoa a quem serve.      Muitas vezes só falta a um antigo amante, junto à mulher que o prende, o nome de marido: é muito; ele estaria mil vezes perdido sem esta circunstância.      Parece que a galanteria, numa mulher, aumenta a feminilidade. Um homem feminil, ao contrário, é algo pior que um homem galante. O homem feminil e a mulher galante se eqüivalem.      Há poucas galanterias secretas: muitas mulheres não são melhor designadas pelo nome dos maridos que pelo dos amantes.      Uma mulher amorosa quer ser amada: a uma namoradeira basta que a considerem amável e se contenta com isso. Aquela procura compromisso, esta se contenta em agradar. A primeira passa sucessivamente de um compromisso a outro; a segunda tem diversos ao mesmo tempo. O que domina numa, é a paixão e o prazer; na outra vaidade e leviandade. A galanteria é uma fraqueza sentimental, ou, talvez, um vício orgânico, a vaidade é um desregramento da inteligência; a mulher amorosa faz-se temer, a namoradeira faz-se odiar. Pode-se tirar desses dois caracteres o bastante para fazer um. terceiro, o pior de todos.      Fraca é a mulher a quem se reprova uma falta, que ela reprova a si mesma, cujo coração combate a razão; que quer se curar e não se curará, ou só muito tarde.      Inconstante é a mulher que já não ama; leviana é aquela que já ama outro; volúvel, a que não sabe se ama e a quem ama; indiferente, a que não ama.      A perfídia, se assim ouse dizer, é uma mentira de corpo inteiro: é, na mulher, a arte de proferir uma palavra ou praticar uma ação que enganam, e, às vezes, de fazer juramentos e promessas que não lhe custam mais fazer que violar.      Uma mulher infiel, quando conhecida como tal pela pessoa interessada, não passa de infiel; se essa pessoa pensa que ela é fiel, ela é pérfida.      Um beneficio resulta da perfídia das mulheres: cura o ciúme.      Algumas mulheres têm, durante a vida, um duplo compromisso a sustentar, igualmente difícil de romper e dissimular: só falta a um o contrato, e a outro, o coração.      A julgar esta mulher pela sua beleza, sua mocidade, seu orgulho e seus desdens, ninguém duvida que seja um herói quem há de um dia conquistá-la: ei-la que escolhe: trata-se de um monstrengo sem inteligência. Há mulheres já maculadas que por sua constituição orgânica, ou pelo mau caráter, são naturalmente o recurso dos rapazes que não têm bastantes bens. Não sei quem é mais lamentável, a mulher de idade avançada que precisa de um galã ou um galã que precisa de uma velha.      O rebotalho da corte é recebido na cidade numa ruazinha em que desbanca o próprio magistrado de gravata e roupa cinzenta, assim como o burguês de talabarte, afasta-os e se torna senhor da situação: é ouvido e amado; não se resiste mais que um momento contra um cinto de ouro e um penacho branco, contra um homem que fala aos reis e vê os ministros. Ele faz ciumentos e ciumentas; admiram-no, invejam-no: a quatro léguas daí, ele causa piedade.      Um homem da cidade é, para um mulher da província, o que é, para uma mulher da cidade, um homem da corte.      A um homem fátuo, indiscreto, falador e impertinente, que fala de si com confiança e dos outros com desprezo: impetuoso, presunçoso, audaz, sem costumes nem probidade, nenhum critério e imaginação muito livre, só falta, para ser adorado de certas mulheres, belos traços e boa estatura.      Será por ter em vista o segredo, ou por gosto hipocôndrio, que essa mulher ama um criado, a outra, um monge, e Dorina, o seu médico?      Róscio (22) entra em cena com geral agrado, sim, Lélia, e acrescento ainda que tem pernas bem torneadas, representa bem papéis de destaque e para declamar perfeitamente só lhe falta, como se diz, fazer falar a boca: mas será o único que agrade no que faz? E o que faz será a coisa mais nobre e mais honesta que se possa fazer? Róscio, aliás, não pode ser seu; já é de outra; e quando não fosse assim, está reservado: Cláudia espera, para tê-lo, que tenha aborrecido Messalina. Tome Batildo, Lélia: onde encontrará um jovem que chegue tão alto dançando e faça melhor a cabriola?      Queria o dançarino Cobus, que, jogando os pés para a frente, roda uma vez no ar antes de pousar na terra? Ignora você que ele é mais moço? Para Batildo, diz você, a solicitação é inumerável, ele recusa mais do que concede. Mas você tem Dracon, o flautista: nenhum outro, no seu ofício, enche mais docemente as bochechas soprando no oboé ou na gaita: porque é infinito o número de instrumentos que ele faz falar; engraçado, além do mais, faz rir até as crianças e as mulherinhas. Quem come e bebe melhor, numa refeição, do que Dracon? Embebeda todos os convivas e é o último a se render. Você suspira, Lélia: será que Dracon teria escolhido alguém, ou que desgraçadamente alguém a houvesse antecipado? Teria ele, afinal, se comprometido com Cesônia, que tanto o perseguiu, sacrificou-lhe um bando de amantes, direi mesmo, toda a flor dos Romanos; Cesônia que é de família patrícia, e tão jovem, e bela, e séria? Lamento, Lélia, se você apanhou por contágio esse novo gosto que têm tantas mulheres romanas pelo que se chamam homens públicos, expostos, pela sua condição, à vista dos outros. Que fará você, quando o melhor do gênero lhe for roubado? Ainda resta Bronte, o carrasco; o povo só fala na sua força e destreza; é um jovem de ombros largos e grande estatura, negro além do mais, um homem preto.      Para as mulheres mundanas um jardineiro é um jardineiro e um pedreiro é um pedreiro; para algumas outras, mais retraídas, um pedreiro é um homem, um jardineiro é um homem. Tudo é tentação para quem a teme.      Algumas mulheres doam aos conventos e aos amantes: amorosas e benfeitoras, têm até no âmbito do altar tribunas e oratórios em que lêem bilhetes de amor, onde ninguém vê que não estão rezando para Deus.      Que é uma mulher às direitas? Será uma mulher mais condescendente com o marido, mais indulgente com os criados, mais dedicada à família e às suas ocupações, mais ardente e mais sincera com os amigos; menos escrava de seus humores, menos agarrada a seus interesses; amando menos as comodidades da vida; não digo que faça larguezas aos filhos, que já são ricos, mas que, opulenta e repleta do supérfluo, lhes forneça o necessário, e faça ao menos a justiça que lhes deve; mais isenta de amor próprio e de hostilidade para com os outros; mais livre de todos os apegos humanos? Não, dizem, não é nada dessas coisas. Insisto e pergunto: que é então, uma mulher às direitas? Ouso dizer: é uma mulher que tem um diretor.      Se o confessor e o diretor não concordam sobre uma regra de conduta, quem será o terceiro que uma mulher tomará para super-árbitro? Fundamental para uma mulher não é ter um diretor, mas viver tão lealmente que possa dispensá-lo.      Se uma mulher pudesse dizer ao seu confessor, com suas outras fraquezas, as que tem pelo diretor e o tempo que com ele perde, talvez lhe fosse dado, como penitência, renunciar a isso.      Queria que fosse permitido gritar com todas as forças a esses santos homens que foram, antigamente, feridos pela mulher: fujam das mulheres, não as dirijam; deixem a outros o cuidado de salvá-las.      É demais, contra um marido, ser namoradeira e devota: a mulher devia optar.      Hesitei em dizê-lo, e sofri com isso; mas desabafo agora, e espero que minha franqueza será útil àquelas que, não achando bastante um confessor para conduzi-las, não têm nenhum discernimento na escolha de seus diretores. Não canso de me admirar e surpreender à vista de certas personagens cujo nome não digo. Arregalo os olhos para elas; contemplo-as: elas falam, sou todo ouvidos, me informo; contam-me fatos, recolho-os; e não compreendo como pessoas em que penso ver todas as coisas diametralmente opostas ao bom espírito, ao bom sentimento, à experiência dos negócios do mundo, ao conhecimento do homem, à ciência da religião e dos costumes, presumem que Deus deva renovar nos nossos dias a maravilha do apostolado e fazer um milagre nas suas pessoas, tornando-as capazes, espíritos estreitos e simplórios que são, do ministério de almas, o mais delicado e mais sublime; e se, ao contrário, se julgam aptos para um função tão elevada e difícil, concedida a tão poucas pessoas, se convencem de não estar fazendo mais do que aplicar seus talentos naturais e seguir uma vocação comum, ainda os entendo menos.      Sei muito bem que o prazer de se tornar depositário do segredo das famílias, de se tornar necessário para as conciliações, obter encomendas, e colocar empregados, ter todas as portas abertas na casa dos poderosos, comer freqüentemente em mesas opulentas, passear de carruagem numa grande cidade, e fazer deliciosos retiros no campo, ver diversas pessoas de nome e distinção interessar-se pela sua vida e sua saúde, dispor para os outros e para si mesmo de todos os interesses humanos: vejo perfeitamente, ainda uma vez, que só isso fez ignorar o especioso e irrepreensível pretexto de cuidar das almas, e espalhou no mundo essa escola inesgotável de diretores.      A devoção vem para alguns, e principalmente para as mulheres, como uma paixão ou a fraqueza de uma certa idade, ou uma moda que se tem de seguir. Antigamente elas contavam uma semana pelos dias de jogo, espetáculo, concerto, mascarada, e de sermão bonito. Iam na segunda feira perder dinheiro em casa de Ismênia, na terça, o tempo em casa de Climenes, na quarta, a reputação na de Climenes; sabiam de véspera toda a alegria que deviam ter no dia seguinte e no outro: desfrutavam, ao mesmo tempo, o prazer presente e o que não lhes podia faltar; desejariam poder juntá-los todos num dia só. Era, então, sua única inquietação, e todo o tema das suas distrações; e se elas compareciam às vezes à Ópera, era para lamentar a falta da comédia.      Outros tempos, outros costumes: afetam austeridade e retiro; não abrem mais os olhos que lhes foram dados para ver; não usam mais os sentidos para nada, e, coisa incrível! falam pouco: pensam bastante bem de si mesmas e bastante mal das outras. Há entre elas uma emulação de virtude e de reforma que se parece bastante com o ciúme. Não odeiam superar nesse novo gênero de vida, como faziam no que acabam de abandonar por política ou fastio. Perdiam-se alegremente por galanteria, pela boa farra, e ociosidade; e se perdem tristemente por presunção e inveja. Se desposo, Hermas, (23) , uma mulher avara, ela não me arruinará; se for uma jogadora, poderá me enriquecer; se sábia, saberá me instruir; se dissimulada, não será geniosa; se geniosa, exercitará minha paciência; se faceira, há de querer me agradar; se amorosa, sê-lo-á talvez a ponto de me amar; se devota, responde, Hermas, que devo esperar de quem quer enganar a Deus, e se engana a si mesma?      Fácil é governar uma mulher; contanto que seja homem quem se dê a esse trabalho. Um só homem governa diversas; cultiva-lhes o espírito e a memória, fixa e determina a sua religião; ousa até regular-lhes o coração. Elas não aprovam nem desaprovam, não louvam nem condenam senão depois de lhe ter consultado os olhos e o rosto. Ele é depositário de suas alegrias e tristezas, desejos, ciúmes, ódios e amores, ele as faz romper com os amantes; fá-las brigar e as reconcilia com os maridos; e aproveita os interregnos. Trata dos negócios delas; advoga seus processos, e se entende com seus juizes; dá-lhes seu médico, seu freguês, seus operários; ocupa-se de instalá-las, mobiliá-las, e dispõe sobre a equipagem. A gente o vê com elas nas carruagens, nas ruas duma cidade e nos passeios, assim como nos bancos de igreja e no camarote da comédia. Faz com elas as mesmas visitas; acompanha-as ao banho, às águas, nas viagens; tem o apartamento mais cômodo da casa delas no campo; Envelhece sem decair na sua autoridade: um pouco de espírito e muito tempo a perder bastam-lhe para conservá-la. Os filhos, os herdeiros, a nora, a sobrinha, os empregados, todos dependem dele. Começou por se fazer estimado, acabou por se tornar temido. Esse amigo tão antigo, tão necessário, morre sem ser chorado; e dez mulheres de quem era o tirano, herdam, com sua morte, a liberdade.      Algumas mulheres quiseram esconder sua conduta sob aparência de modéstia; e tudo o que cada uma pode ganhar à custa de contínua afetação, nunca desmentida, foi fazer com que se dissesse dela: A gente a tomaria por uma vestal.      É, nas mulheres, irrecusável prova de reputação firme e irremovível, não ser nem sequer tocada pela familiaridade de algumas que não se parecem com elas; e que com toda a propensão que se tem para as explicações malignas, se recorra a uma razão bem diferente para esse comércio, que a da conveniência dos costumes.      Um cômico exagera, no palco as suas personagens; um poeta carrega nas suas descrições; um pintor que tira do natural, força e exagera uma paixão, contrastes, atitudes; e o que copia, se não mede com o compasso as grandezas e as proporções, amplia as figuras, dá a todas as peças que entram na disposição do quadro mais volume do que têm as do original: assim também a dissimulação de virtude é uma imitação do pudor.      Há uma falsa modéstia que é vaidade, uma falsa glória que é leviandade; uma falsa grandeza que é mediocridade; uma falsa virtude que é hipocrisia; um falso pudor que é afetação de virtude.      Uma mulher que finge virtude satisfaz com atitude e palavras; uma mulher digna satisfaz com sua conduta. Aquela segue seu humor e sua natureza, esta segue a razão e o coração. Uma é séria e austera; outra é, em todas as situações, precisamente o que deve ser. A primeira esconde as fraquezas sob aparências plausíveis, a segunda mostra sólidas virtudes com ar simples e natural.      A falsa virtude constrange o espírito, não esconde idade nem feiura; muitas vezes as pressupõe. A verdadeira, ao contrário, faz empalidecer os defeitos do corpo, enobrece o espírito, só torna a juventude mais sedutora, e a beleza mais perigosa.      Por que acusar os homens, por não serem as mulheres instruídas? Porque leis, porque editos, porque rescritos lhes proibiram abrir os olhos e ler, assimilar o que leram, e prestar contas do que sabem nas suas palavras, ou por suas obras? Não estabeleceram elas, ao contrário, por si mesmas, esse hábito de não saber nada, por fraqueza, ou preguiça de espírito, ou cuidados com a beleza, ou certa leviandade que lhes impede seguir estudo, ou pelo talento e gênio que elas só têm para os trabalhos manuais, ou pelas distrações que lhes dão as ordens aos empregados, ou por um afastamento natural das coisas penosas e sérias, ou por curiosidade completamente diferente daquela que contenta o espírito, ou por gosto muito diferente que o de exercitar a memória? Mas qualquer que seja a causa a que os homens devam essa ignorância das mulheres, eles se sentem felizes pelo fato das mulheres, que os dominam sob tantos aspectos, terem sobre eles essa vantagem de menos.      Olha-se uma mulher instruída como se faz com uma bela arma: artisticamente cinzelada, admiravelmente polida, caprichadamente trabalhada; peça de gabinete que se mostra aos curiosos, que não é para uso corrente, não serve na guerra nem na caça mais que um cavalo de picadeiro, por mais instruída que seja.      Se a ciência e a sabedoria aparecem aliadas na mesma pessoa, não indago do sexo, admiro; e se me disserem que uma mulher ajuizada não pensa em ser instruída, ou que uma mulher instruída não é ajuizada, é que já esqueceram o que acabam de ler; as mulheres só se afastam da ciência por certas imperfeições: conclua, portanto, sozinho, que quanto menos defeitos elas tivessem, mais ajuizadas seriam; e assim uma mulher ajuizada só poderia ser mais apta a se tornar instruída, ou uma mulher instruída, não podendo ser instruída senão vencendo muitas imperfeições, só pode ser mais ajuizada.      A neutralidade entre mulheres que são igualmente amigas, apesar de terem rompido por questões em que não tomamos parte, é um ponto difícil; geralmente é preciso escolher entre elas ou perder a ambas.      Há mulheres que gostam mais do dinheiro que dos amigos, e dos amantes mais que do dinheiro.      É espantoso ver no coração de certas mulheres algo mais vivo e mais forte que o amor pelos homens, quero dizer, a ambição e o jogo: tais mulheres tornam os homens castos; só têm, do seu sexo, o vestido.      As mulheres são extremas: são melhores ou piores do que os homens.      A maior parte das mulheres não têm princípios; guiam-se pelo coração, dependem, para seus costumes, daqueles a quem amam.      As mulheres vão mais longe, em amor, que a maior parte dos homens; mas os homens lhes passam adiante em amizade.      Os homens são a causa das mulheres não se amarem.      Há perigo em falsificar. Lise, já velha, quer ridicularizar uma jovem, e se torna disforme; me faz medo. Usa, para imitá-la, caretas e contorções: ei-la tão feia quanto é preciso para tornar bonita aquela de quem caçoa.      Quer-se, na cidade, que muitos e muitas idiotas tenham espírito. Na corte se quer que gente de muito espírito não o tenha; e entre as pessoas deste último gênero, uma mulher bonita mal escapa perante outras mulheres.      Um homem é mais fiel ao segredo alheio que ao seu segredo; uma mulher, ao contrário, guarda melhor o segredo próprio que o alheio.      Não há no coração duma jovem amor tão violento que o interesse e a ambição não acrescentem.      Há uma época em que as moças mais ricas têm de tomar partido. Elas não deixam passar as primeiras ocasiões sem preparar um grande arrependimento. Parece que a reputação dos bens diminui nelas com a da beleza. Ao contrário, tudo favorece uma jovem junto à opinião dos homens, que gostam de lhe atribuir todas as vantagens que podem torná-la mais desejável.      Quantas moças a quem uma grande beleza nunca serviu senão para fazê-las aguardar uma grande fortuna!      As jovens bonitas são sujeitas a vingar os amantes que maltrataram, por feios, ou velhos, ou indignos maridos.      A maior parte das mulheres julga o mérito e valor de um homem pela impressão que ele lhes causa, e não concedem nem um nem outro àqueles por quem elas nada sentem.      Um homem que esteja em dificuldade para saber se está mudando, se começa a envelhecer, pode consultar os olhos de uma jovem que aborda, e o tom com que ela lhe fala: saberá o que teme saber. Dura escola!      Uma mulher que só tem olhos para uma única pessoa, ou que os afasta sempre dela, faz pensar de si a mesma coisa.      Custa pouco, às mulheres, dizer o que não sentem; custa menos ainda, aos homens, dizer o que sentem.      Acontece às vezes uma mulher esconder a um homem toda a paixão que sente por ele, enquanto, por sua vez, ele simula por ela toda a paixão que não sente.      Suponha-se um homem indiferente, querendo persuadir uma mulher de uma paixão que não sente; pergunta-se se não lhe seria mais fácil convencer aquela que o ama do que aquela que não o ama.      Um homem pode enganar uma mulher por um afeto simulado, contanto que não tenha, noutro lugar, um verdadeiro.      Um homem se enfurece contra uma mulher que não mais o ama, e se consola: uma mulher faz menos barulho quando é abandonada, e fica muito tempo inconsolável.      As mulheres se cura