KOREAEBOOKDOCUMENT1.2.0A Famlia Barrett (As donzelas de Wimpole Street)Giorgia PisanieBooksBrasil.comeBooksBrasil.com3w=para.xmlcapa.jpgnormal.sty{ !para.xml /smaller.sty7small.stya@normal.sty Ilarge.styQlarger.stybZLcapa.jpg A Família Barrett (As donzelas de Wimpole Street) Giorgia Pisani Tradução base Dona Adelina Fernandes Versão para eBook eBooksBrasil.com Fonte Digital Digitalização de edição em papel Edições Cultura Brasileira S.A., 1927 © 2002 — Giorgia Pisani ÍNDICE Capítulo I      A Avezinha na gaiola Capítulo II      A Mãe morre Capítulo III      Liberdade Capítulo IV      Entretanto... Capítulo V      Londres Capítulo VI      Reclusão Capítulo VII      Palavras cruéis Capítulo VIII      Abismos Capítulo IX      Robert Browning Capítulo X      A correspondência Capítulo XI      A visita Capítulo XII      É o amor que chega Capítulo XIII      O amor aumenta Capítulo XIV      Vigília de amor Capítulo XV      Guardemos segredo Capítulo XVI      Luzes e sombras Capítulo XVII      Aleluia Capítulo XVIII      Sim! Capítulo XIX      As últimas cartas Capítulo XX      Ressurreição Capítulo XXI      Pisa Capítulo XXII      Sonetos traduzidos do português Capítulo XXIII      Florença Capítulo XXIV      1848 Capítulo XXV      As janelas do palácio Guidi Capítulo XXVI      A Constituição Toscana Capítulo XXVII      A minha casa Capítulo XXVIII      Os passeios em Florença Capítulo XXIX      Vida nova Capítulo XXX      1849–1850 Capítulo XXXI      Nuvens Capítulo XXXII      Em viagem Capítulo XXXIII      A vida em Florença Capítulo XXXIV      Aurora Leigh Capítulo XXXV      Crepúsculo A Família Barrett (As donzelas de Wimpole Street) Giorgia Pisani Tradução de DONA ADELINA FERNANDES A AVEZINHA NA GAIOLA        “A história da minha infância é simples como a de um passarinho cativo. Pela imaginação senti a maior parte das minhas mais intensas alegrias e vivi os fatos essenciais da minha juventude. Muito pequena ainda já escrevia versos. Quantas crianças escrevem versos sem que estejam destinadas a tornarem-se poetas!... Mas esta paixão infantil (o que muito raramente acontece) transformou-se rapidamente numa vontade de ferro. Depois desta época, a poesia foi para mim uma ardente realidade, pela qual vivi, trabalhei e pensei. Os heróis gregos da época clássica instigavam o meu entusiasmo; apoderaram-se a tal ponto do meu espírito que me levaram a abandonar o meu divertimento preferido, um cavalo preto que se chamava Moisés.”      A avezinha que tão modestamente conta como iniciou os primeiros trinados é ELISABETH BARRETT. Nesse tempo — por volta de 1820 — era uma débil mocinha de rosto pálido, emoldurado em cachos negros e iluminado por uns grandes olhos ávidos de ver e de compreender.      A “gaiola” era um casarão barroco, quase ridículo; as cúpulas, as torrinhas, as janelas em ogiva, de estilo árabe, destoavam singularmente no meio da suave paisagem inglesa, onde os modestos “cottages” eram revestidos de plantas trepadeiras. O pai de Elisabeth acabava de mandar construir esse edifício; era um homem severo, despótico, maníaco; hoje chamar-se-lhe-ia um neurastênico; descendia de uma família de fazendeiros das Índias Ocidentais, senhores de numerosos escravos e parecia encarar o direito paterno da mesma forma como os seus antepassados consideravam o domínio do dono sobre o escravo. Era, no entanto, dotado de grandes qualidades morais, mas prejudicadas por um egoísmo impiedoso, causa constante de sofrimentos para aqueles a quem mais queria. O senhor Barrett instalara a numerosa família nesse grande casarão: a esposa, criatura tímida, curvada ao jugo da autoridade marital, e uma ninhada de filhos, onze entre rapazes e raparigas. A vida decorria ali insípida e austera; não recebiam visitas e os jovens não se reuniam a camaradas da mesma idade, nem tinham qualquer outra distração “para não perturbar o pai.” ***      A casa era feia, o ambiente severo; mas, em compensação, que bosques magníficos ao redor, que abundante e luxuriante vegetação! Esses bosques eram o refúgio, o domínio de Elisabeth; encontrava neles numerosos amigos; sentia-se em comunhão secreta com as árvores e com todos os pedacinhos de relva; comprazia-se em escutar as vozes misteriosas que vibravam no seio da natureza, fonte inesgotável de poesia. Tinha por companheiro Eduardo, o irmãozinho preferido, tratado na intimidade por “Bro”. As duas crianças viviam nesses solitários campos ingleses uma vida irreal e de alada fantasia. Os carvalhos seculares abrigavam com a sua sombra os divertimentos mais estranhos. Uma tradução de Homero e um livro de mitologia grega, caindo, por acaso, nas mãos dos garotos, abriam-lhes horizontes maravilhosos. Júpiter, Vénus, Minerva, tornaram-se-lhes familiares. “Um dia”, conta Elisabeth, “saí de casa dissimulando sob o avental um feixe de lenha e fósforos, dos quais conseguira apoderar-me, com o fito de celebrar um sacrifício no altar de Minerva dos olhos azuis, minha deusa preferida na sua qualidade de protetora de Atenas”      Nessa época, já Elisabeth escrevia versos com extrema facilidade, Acontecia-lhe freqüentemente adormecer ligando rimas — reminiscências e glosas do que lera durante o dia — e, ao acordar, garatujava às pressas, sobre laudas de papel escondidas debaixo do travesseiro, as inspirações noturnas. Depois, seguida pelo irmãozinho, corria a instalar-se nos bosques onde fazia a “Bro” a leitura das suas obras, que ele escutava com religiosa admiração.      Mas, sobre esta juventude que decorria ao sabor dos sonhos, breve iria estender-se a sombra da dor. II A MÃE MORRE        A mãe morreu. A bondosa mãe de tão numerosa família, cujo perfil doloroso mal se delineia nas recordações de Elisabeth, desaparece do teatro da vida. Os onze passarinhos da ninhada acocoram-se uns contra os outros, assustados com o súbito retraimento da asa vigilante que os protegia contra perigos desconhecidos, mas dos quais tinham o presentimento.      Com quem poderia Elisabeth, agora que a mãe desaparecera, repartir a exuberante ternura que lhe transbordava do coração?      Quer muito ao pai, mas não é, certamente, com ele que poderia abandonar-se a efusões íntimas. As duas irmãs mais novas formam um grupo à parte. Henriette, alegre, sociável, recalcando um desejo ardente de distrações; Arabella, pelo contrário, seriíssima, tímida, caráter reservado, ocultando tesouros de dedicação. Mas há Eduardo, felizmente: “Bro”, o irmãozinho dois anos mais novo do que a irmã, é o fiel companheiro de brinquedos de Elisabeth, que lhe quer com todo o ardor da sua alma apaixonada. A ternura é recíproca: para “Bro” não há ninguém no mundo como “Ba”, (é este o sobrenome de Elisabeth). Eduardo encontrava na irmã mais velha conforto para todos os desgostos, conselhos sempre sensatos e também a criadora de ficções poéticas e maravilhosas. Agora já não são crianças. O estudo reuniu-os como outrora os reunia a brincadeira. Eduardo aprendia grego e latim; por sua vez, Elisabeth obteve o privilégio de seguir os mesmos estudos. Os heróis e os deuses que lhes eram familiares desde a infância, apareceram-lhe desde então no esplendor da arte. O latim e o grego não eram para ela línguas mortas, antes lhe abriam amplas janelas sobre um mundo desconhecido; na universal inspiração grega, nas églogas latinas, absorve a ciência dos sentimentos profundos dos quais vive a humanidade de todos os tempos. Sentia crescer em si, dia a dia, a paixão pela poesia e pelo estudo. Para Elisabeth, a poesia não era um frívolo passatempo, mas a própria essência da vida. Não duvidava da sua vocação, mas não ignorava que as encostas do Parnaso estavam cobertas de espinhos, que as flores ali eram raras e reservadas apenas a alguns eleitos. E pensa: “Ainda que não se possa atingir o cimo, é belo tentar escalar a montanha.” Seu pai, que tinha sempre a tendência de dizer “não” quando lhe manifestavam um desejo, encontrou dessa vez palavras para encorajar o talento do qual havia seguido o desenvolvimento que o enchia de orgulho; resolveu fazer imprimir à sua custa, nuns tantos exemplares, uma primeira tentativa: “A batalha da Maratona”. Ao ler-se hoje essa obra encontra-se-lhe uma grande ingenuidade, mas é preciso considerar que Elisabeth não tinha ainda dezasseis anos quando a compôs e que estudava havia apenas alguns meses. Eduardo admirava cada vez mais a irmã e declarava com imperturbável convicção: “Ba será célebre!” A intimidade entre ambos tornava-se dia a dia mais profunda com o decorrer de graves conversações, sob os velhos carvalhos que tinham abrigado os seus primeiros brinquedos. Compartilhavam as mesmas aspirações de um ideal um pouco vago de beleza, de bondade e de justiça. Ao serão lia durante horas e horas, sentados à roda do fogão, onde a chama brilhava quase todo o ano. Elisabeth era insaciável, queria ler tudo! “Meu pai dizia-me: — Não leias a história de Gibbon, não é livro para ti; nem tampouco Tom Jones; lembra-te de que não deves ler nenhum dos volumes que estão nesta estante à direita. Obedecia e jamais tocava nos livros que me haviam proibido. Mas, em compensação, lia o Dicionário Filosófico de Voltaire, as obras de Rousseau e todos os livros que não se encontravam na estante em questão ou que meu pai se esquecera de mencionar”      Fora assim que, de uma forma um pouco desordenada e desigual, se moldara a cultura intelectual de Elisabeth. Mas era sobretudo a alma que se lhe desenvolvia: alma ardente, susceptível a todo o ideal. Elisabeth começava a escutar no mais profundo do ser as inúmeras vozes da misteriosa humanidade! III LIBERDADE        EM casa dos Barrett, depois de vários tempos assinalados por um traço negro, outros se sucederam carregados de inquietação. O pai, sobrolho franzido, visivelmente preocupado, fechava-se o dia inteiro no gabinete de trabalho. Tinha-se a impressão de que o meio ambiente estava saturado de ansiedade e de incerteza. Que se estaria passando?      Elisabeth escreve a propósito disso à senhora Martin, única pessoa estranha admitida na intimidade dos Barrett: “A minha amiga sabe, sem dúvida, que se prepara neste momento uma lei sobre a emancipação dos escravos; se essa lei for finalmente votada, os proprietários das Índias Ocidentais ficarão irremediavelmente arruinados. Meu pai diz que nenhuma pessoa de bom senso quererá, doravante, dedicar-se à cultura da cana de açúcar; na sua opinião seria o mesmo que atulhar de blocos de pedra a ilha de Jamaica para a fazer ir a pique!” Após alguns dias, Elisabeth confirma a má nova à sua correspondente: “Já sabe decerto que a lei foi votada; todos os proprietários das Índias Ocidentais ficam arruinados. Na nossa casa a consternação é geral... Quanto a mim sinto-me contente; e, haja o que houver, ficá-lo-ei sempre, sabendo que os pretos estão virtualmente livres” O pai de Elisabeth tinha a maior parte do seu capital empregado na exploração de açúcar das Índias Ocidentais. A escravatura foi, em todos os tempos, considerada pelos Barrett como condição essencial e imprescritível da agricultura colonial. Elisabeth não ignorava que a nova legislação significava para todos eles a ruína financeira, sacrifícios, privações e uma vida mais triste ainda. Contudo, não hesitou em escrever à sua amiga, confessando-lhe o seu regozijo pela alforria do negro. Na alma de Elisabeth, persistirá até ao último dia de vida esse amor pela liberdade, essa revolta contra toda a espécie de opressão; e é dessa fé ardente que ela arrancará as mais nobres inspirações. IV ENTRETANTO...        AFINAL, ao contrário do que previra o senhor Barrett, a lei votada não fora para os agricultores a ruína total. Assim sucede, freqüentemente, nos momentos das grandes transformações sociais e econômicas: pouco a pouco, após bruscas oscilações e graças a uma adaptação progressiva de interesses, o equilíbrio restabelece-se.      Todavia, o golpe fora rude, O senhor Barrett decidiu tomar medidas imediatas para reduzir os gastos de família. A casa de Hope End , à qual eram todos tão afeiçoados, foi posta à venda. Entretanto, a numerosa família iria residir durante alguns meses à beira-mar, em Sidmouth.      Para Elisabeth era uma tortura abandonar Hope End , os bosques familiares e todas as recordações de infância. Por outro lado os irmãos sentiam certa dificuldade em se habituar às proporções modestas da nova casa. Mas Sidmouth era pitoresca. O mar tornou-se uma revelação para Elisabeth que passava horas e horas contemplando esse espectáculo incessantemente renovado, mas sempre majestoso. O lugar rodeado de colinas verdejantes que se desdobravam em semicírculos; mais abaixo, as espigas douradas revestindo as vertentes, e os arredores, ofereciam a Elisabeth encantadores motivos de passeio em companhia de “Bro” — na mão um livro, o coração transbordando de sonho!      Uma ou outra vez, montados em burros, os pequenos divertiam-se em alegres cavalgadas. O pai raramente se demorava em Sidmouth; os negócios retinham-no em Londres. Os filhos e as filhas, livres da inflexibilidade paterna, levavam uma vida mais animada, estreitavam relações, gozavam enfim da alegria de se sentirem jovens. ........................      Do jardim para a janela de Elisabeth ouvem-se vozes alegres:      — Vem conosco, o tempo está esplêndido, o ar é agradável, os burros estão selados. Despacha-te!      Elisabeth responde que não poderá ir. Durante a noite sentira-se mal... Não era a primeira vez que lhe acontecia estar indisposta, mas nunca estivera tão aflita: opressão violenta, palpitações, tosse. E agora sentia-se infinitamente fatigada. O médico hesitara em pronunciar-se; não fazia bem uma idéia do que se tratava; os pulmões eram delicados, mas o que constatava, principalmente, era uma grande depressão nervosa. O repouso era indispensável, repouso completo de corpo e de espírito. Nada de livros, de tinta ou de canetas!      As irmãs aprovam: “Sim, sim, foram os livros que lhe fizeram mal!”      Precisamente durante esse período, Elisabeth estava em plena febre de trabalho e a leitura já não a satisfazia; sentia a imperiosa necessidade de exprimir o que lhe ia na alma tão intensamente. Ésquilo, Sófocles, Eurípides continuavam sendo os seus inspiradores e os seus guias e quereria traduzir em versos ingleses o “Prometeu vencido” de Ésquilo. Pede que lho deixem experimentar e repousar depois. E, a propósito disso, escreve: “Fiz essa tradução em doze dias; ao décimo terceiro deveria tê-la queimado; seria essa a única forma de lhe insuflar um pouco de calor!” A despeito de tão severa declaração da autora, a tradução publicada tempos depois alcançou um êxito lisonjeiro. Vários círculos literários começaram a interessar-se pela personalidade dessa pequena que entrava com o pé direito na intimidade dos colossos da antigüidade clássica. ........................      O tempo ia passando e o senhor Barrett não levava para Londres a família; três anos tinham decorrido desde o dia em que os jovens Barrett haviam sido enviados provisoriamente para Sidmouth, onde aguardavam a nova e próxima instalação em Londres. Elisabeth não pudera vencer a sua fraqueza. As crises de asma e de sufocação tornavam-se cada vez mais freqüentes. V LONDRES        “COMO a minha amiga pode constatar, regressámos finalmente a Londres”, escreve Elisabeth à senhora Martin em 1831, “e a nossa pobre Sidmouth já não é mais do que uma recordação. Espero habituar-me a pouco e pouco à obscuridade desta prisão, onde a minha distração principal consiste em observar as aranhas. Entretanto o meu coração ficou em Sidmouth, preso à beleza do mar, ao qual, agora que o deixei, quero mais ainda. Londres está, atualmente, como se fora uma múmia, enfaixada num nevoeiro amarelo e tão cerrado que ainda não consegui ter uma idéia do aspecto da cidade. Farei, no entanto, quanto possa para me adaptar e é muito provável que, com o tempo, se os meus gostos mudarem e os meus cinco sentidos se transformarem, venha a consegui-lo! Em compensação a vida em Londres tem uma vantagem incontestável: proporcionar-nos a ocasião de conhecer certas figuras que não encontraríamos longe dela.” Com efeito, Elisabeth começava a sentir a necessidade de alargar o seu horizonte, de respirar mais livremente o ar exterior; ambicionava conhecer alguns escritores, entrar em contacto com o movimento intelectual contemporâneo, conhecer, numa palavra, por experiência própria, tudo o que a imaginação lhe havia revelado. Um primo do seu pai, o senhor Jean Kenyon, mais velho do que ele, estava nas condições de satisfazer o desejo da pequena; ele próprio escrevia versos com certa distinção, mas era, sobretudo, o amigo inteligente dos mais eminentes literatos ingleses, a quem hospedava faustosamente; era um magnata apaixonado pela intelectualidade e de índole bondosa e amável. A jovem prima provinciana, dotada duma inteligência viva e duma cultura clássica pouco comum, interessou-o imediatamente; rapidamente se estabeleceu entre ambos uma afetuosa intimidade. Elisabeth apreciava o encanto da conversação do senhor Kenyon, sempre brilhante, original e abundante em anedotas interessantes. Entrevia agora um mundo completamente ignorado: estava maravilhada! Kenyon falava familiarmente dos grandes homens — poetas e literatos — que, até esse momento, apareciam a Elisabeth entre nuvens douradas!      — O Olimpo não é então inacessível? Poderei eu também ser nele admitida?      — Proporcionar-lhe-ei a admissão se assim o deseja; apresentá-la-ei aos semideuses — propõe gentilmente o senhor Kenyon.      A esta perspectiva o coração de Elisabeth bateu com mais força... Hesitou. Decidiu-se, um tanto apreensiva, a pedir conselho ao pai...      Maravilhoso! O pai consentiu.      Elisabeth, sob os auspícios de Kenyon e acompanhada pelo seu fiel Eduardo, é acolhida nos salões literários de Londres. Não é bonita, mas o seu aspecto de extrema juventude desperta interesse; os seus grandes olhos claros atraem; os longos e sedosos cachos, em volta do rosto, à moda de então, enquadram-lhe as feições pálidas; as maneiras simples, a distinção dos gestos, o requinte da sua conversa conquistam-lhe todos os votos. O excelente senhor Kenyon tem o prazer de ouvir repetirem-lhe: “Como é encantadora, graciosa e simpática a senhorita Barrett!”      Elisabeth entra pois em relações com os grandes homens. Todavia, mesmo reduzidos à sua condição humana, sente em frente deles uma timidez supersticiosa. Entre outros, encontra o poeta Wordsworth. E a propósito disso escreve à sua amiga: “Pergunta você quais as minhas impressões no decorrer da nossa palestra; toda eu estremecia de corpo e alma... Mas Wordsworth deu provas duma enorme bondade: sentou-se ao meu lado e conversou comigo durante todo o tempo da sua visita.”      O cético Kenyon deve ter sofrido, sem dúvida, ao receber dias depois do memorável encontro, o bilhete da sua romântica priminha:      “Querido senhor Kenyon.      “...Suponho que o meu amigo irá um destes dias visitar Wordsworth à sua propriedade de “Rydall Mount”; muito gostaria que lhe pedisse, como se fosse para o primo, dois pedacinhos de mirto ou de geranium do jardim. Quer dar-se a esse incômodo? Terei um grande prazer se me responder afirmativamente, mas não ficarei demasiado aborrecida, se não lhe parecer fácil o que lhe peço. Poderá, caso o consiga, enviar-me os dois pedacinhos pelo correio...”      Gradualmente, Londres, “enfaixada de nevoeiro, como uma múmia,” conquista Elisabeth, que até então se conservara o pássaro cativo de “Hope End”. Agora, a porta da gaiola entreabriu-se e a jovem criatura, um pouco hesitante ainda, abre os olhos maravilhados sobre o universo. Pensa que a vida é bela, toma interesse por todas as coisas e o seu ardor pelo estudo e pela poesia aumentam mais ainda. Trabalha sem descanso. Kenyon, crítico conhecedor e severo, aconselha-a. Por essa ocasião as revistas publicam os primeiros poemas assinados por “Elisabeth Barrett”. A crítica tece-lhe elogios. Algumas personalidades do meio literário pedem para conhecer a jovem poetisa. Pouco a pouco Elisabeth sente-se levada pela torrente entusiasta da admiração e da simpatia de todos. Uma literata muito conhecida — Mary Russel Mitford — com quem Elisabeth se ligou por uma profunda amizade, escreve numa revista em voga a biografia da jovem poetisa e proclama-a uma das personalidades mais originais da época. Pouco depois aparece nas livrarias, sob o título “The Seraphins”, uma compilação de poemas: a primeira obra importante de Elisabeth. O êxito ultrapassa as previsões mais otimistas.      Elisabeth, cuja ingenuidade e simplicidade não haviam mudado, fica em extremo surpreendida ao verificar que, nas reuniões mundanas, faz figura de personagem de certa importância e que a rodeiam os admiradores da sua arte! “Que estranha impressão! Como os homens são bons! Como é belo o mundo!”      “Bro” exulta: a sua profecia realizara-se: “Ba” tornara-se célebre.      Mas mal o pássaro tentara voar, mão inflexível encerra-o na gaiola... Elisabeth cai doente, gravemente doente. VI RECLUSÃO        NUM momento de desânimo, Elisabeth escreve a uma das suas amigas: “Estou ameaçada duma pneumonia e o sistema nervoso está completamente desequilibrado; o estado do pulso é inquietante. Habituei-me a tomar quarenta gotas de láudano por dia e não posso diminuir a dose sem correr perigo; é a opinião do meu médico assistente. A estação fria, perniciosa aos pulmões, é, além disso, a causa indireta da minha debilidade nervosa, obrigando-me a ficar de cama. Conquanto a minha vida não perigue, eis-me desterrada do mundo, impossibilitada de freqüentar os centros de atividade social e intelectual. Tornei-me, em suma, um fardo para mim e para os outros.”      Mas Elisabeth não se deixa invadir pelo desalento; luta e pede a Deus forças para dominar essa fraqueza moral; o mundo brilhante que, sem dúvida, a tinha atordoado um pouco, está agora posto de parte. Mas não tem a doente à sua disposição as riquezas infinitas do mundo espiritual? Não é esse o seu verdadeiro caminho?      O soturno quarto da sombria casa de Londres onde Elisabeth está agora encerrada, não será a cela na qual uma prisioneira pense em tudo o que perdeu! Não tem a rodeá-la os seus livros, todos os seus livros, dos quais cada um lhe é querido como um amigo? A doente acolhe com um sorriso aqueles que vêm vê-la; fala-lhes alegremente. Pela manhã e à noite, a horas certas, o pai, de rosto invariavelmente severo, entra no quarto. Depois chega “Bro”, que pousa sobre a enferma um terno e ansioso olhar interrogaíivo. Em seguida é a visita das irmãs: a doce Arabella, a alegre e azougada Henriette; vêm depois os irmãos mais novos. Por fim chegam os amigos: Kenyon, sempre cordial, traz-lhe livros, novidades literárias; Mary Mitford, expansiva, afetuosa, exuberante de palavras. Todos se retiram tranqüilizados — todos, exceto “Bro” a quem a grande afeição pela irmã torna mais clarividente — e trocam impressões: “Elisabeth é feliz; os livros e a poesia são-lhe suficientes.”      É sempre fácil resignarmo-nos ao sofrimento do próximo; poucas pessoas são capazes de avaliar quanto às vezes é doloroso um sorriso nos lábios que o esboçam! Aos amigos que residem em “Hope End”, envia Elisabeth notícias tranqüilizadoras. Aproveita as mais leves melhoras para escrever: “Estou melhorando e encontrando forças lenta e gradualmente; o médico autorizou-me a descer ao rés-do-chão e a retomar o meu lugar na otomana.” Coitada! Que ilusão! O médico está preocupado com o estado da doente; e pensa quanto será perigoso para ela passar um segundo inverno em Londres. Elisabeth precisa dum clima mais benigno... Resolve-se então o seu regresso aos ares do mar; a doente irá para Torquay, onde se reunirá a alguns parentes que vivem ali. Eduardo acompanha-la-á e depois voltará para Londres. VII PALAVRAS CRUÉIS        A viagem foi extenuante; e a chegada a um lugar desconhecido, para ir residir numa casa estranha, leva à tristeza... Doravante Elisabeth será uma doente. Apenas se levanta alguns instantes durante o dia. Somente lhe restam forças para o trabalho. Melhorará? Viverá? Os médicos recusam pronunciar-se. O estado da enferma é, evidentemente, muito grave. Quanto lhe custa estar longe da família, dos amigos! E há ainda um sacrifício em perspectiva. Terá ela de carregar sozinha essa cruz? Será imprescindível que Eduardo regresse imediatamente a Londres? Será preciso que renuncie também a esse carinhoso convívio que tanto a reconforta? Terá que preparar-se para tão cruel separação? Um choro convulso — pouco vulgar nela — subjuga-a. Não consentirá o pai que Eduardo fique? Elisabeth escreve-lhe para submeter esse desejo à sua apreciação e o pai responde-lhe: “Atendendo às circunstâncias muito especiais, concedo a autorização pedida. Devo acrescentar, todavia, que Elisabeth, ao fazer tal pedido, incorreu na minha desaprovação paternal.” Os filhos do senhor Barrett são todos homens agora; no entanto, a tirânica autoridade do pai não quer abdicar em coisa alguma. Dois dos filhos abandonaram a casa paterna e tornaram-se independentes moral e economicamente; aos olhos do pai ambos cometeram uma falta de que ele guarda inflexível rancor. Supõe que Henriette dissimula um sonho de amor e redobra de severidade a seu respeito. Toda a família sofre essa intransigência mórbida em silêncio... heroicamente! Sob que misteriosa influência terá agido o senhor Barrett ao conceder a Eduardo o privilégio de permanecer em Torquay? Mas as palavras cruéis que acompanhavam a autorização jamais serão esquecidas por aquela a quem foram destinadas. VIII ABISMOS        EDUARDO, um dia pela manhã, vai ter com Elisabeth e diz-lhe: “Chegaram de Londres alguns amigos meus que vêm visitar-me; desejariam dar um passeio de barco. Se consentes, “Ba”, deixar-te-ei hoje por umas horas.”      “Ba” sente-se feliz ao ver Eduardo distrair-se um pouco; regozija-se ao saber que ele irá gozar esse belo dia em pleno mar. Ao regressar, “Bro” contar-lhe-á as suas aventuras!      Pela janela aberta, o ar carregado de perfumes balsâmicos do mar penetra no quarto. Os raios de sol esbatem-se sobre o “couvre-pied” branco do leito de Elisabeth: esta segue com interesse os ziguezagues da sombra e da luz. Sobre a cama há livros, grandes folhas de papel e vários lápises. A doente propõe-se consagrar ao trabalho esse dia solitário... As horas passam tranqüilas, iguais; as laudas vão-se enegrecendo; completamente entregue à sua inspiração, Elisabeth nem se apercebe do tempo que foge. Mas a noite vem caindo, e, no pequeno quarto, mal se distinguem os objetos... Como! Já é noite! Eduardo não voltou ainda, diverte-se, sem dúvida, com os amigos e esqueceu-se das horas ... O mar, tão calmo pela manhã, está agora agitado! As vagas sucedem-se enfurecidas, o vento sopra até dentro do quarto. É preciso fechar a janela... Elisabeth chama a criada; esta entra trazendo uma luz.      — Boa noite, menina!      — Eduardo ainda não voltou? É noite... Que tempestade! Não compreendo a sua demora.      — Os senhores refugiaram-se decerto num dos portos à entrada do golfo. O senhor Eduardo voltará com certeza amanhã de manhã. ........................      Eduardo não voltou! ........................      Haverá uma fronteira entre a loucura e a razão? É a razão ou a loucura que comprime o coração de Elisabeth como se fossem as garras duma tenaz? Começa, desde então, a torturá-la uma dúvida que depressa se transforma em certeza... Semelhante a um dobre a finados, ouve ressoar o horrível estribilho: “Foi por tua causa que ele aqui ficou.” E, produto da loucura ou da razão, um verme insaciável corrói agora o coração de Elisabeth. Noites de insônia, torpores entrecortados por sobressaltos angustiosos, visões terríveis que se renovam sem cessar, espasmos dolorosos seguidos dum aniqüilamento quase absoluto... Elisabeth sai destes horríveis pesadelos soltando um grito: “Como é possível que eu viva ainda?”      Há um refúgio supremo para aqueles que desesperam: Elisabeth agarra-se a esse refúgio. As lágrimas apaziguam-se quando a dor se envolve nas asas da Fé! Elisabeth escuta as palavras eternas que, passados tantos séculos, ensinam a resignação aos homens e lhes abrem as portas da ressurreição! ***      “O Senhor está junto daqueles que têm o coração despedaçado...” (Salmo XXXIV.)      “...Estou como uma boneca a quem tivessem partido a corda...” É nestes termos que, cerca de um ano após a morte do irmão, Elisabeth escreve à senhora Martin. Todavia, na sua correspondência, raras fezes se refere à tragédia que lhe enegreceu a vida; e escreve ainda: “Quando se perderam todas as esperanças, nunca mais interroguei fosse quem fosse e por isso nunca mais pude manifestar exteriormente o meu desgosto; encerrei-o para sempre no fundo da minha alma.” Com um pudor sombrio, protege o seu sofrimento de qualquer contato exterior. É já o silêncio eterno!      E, após a catástrofe, Elisabeth pede apenas uma coisa: abandonar Torquay... não mais ver o mar!... Fugir! — E a viagem? O médico receia que essa sombra dolorosa não possa suportar-lhe as fadigas... mas cede, afinal, a súplicas tão tocantes. Virá de Londres um carro apropriado para transportar Elisabeth numa padiola... Milagre da natureza humana? Milagre da bondade divina? Elisabeth dá provas duma inesperada resistência física: não teve ela a força de viver? Ao encontrar o pai, conserva-se calma; contudo, as duras frases paternas estão gravadas em letras de fogo no seu coração; e treme intimamente de que ele lhas repita... Mas o pai compadece-se dessa pobre criatura: viu, talvez, nesse instante, perpassar de novo a morte pelo seu lar! E não se referiu à catástrofe.      Elisabeth lembrar-se-á, toda a vida, com um reconhecimento infinito, de que nesse dia o pai não lhe dirigiu a menor censura! ........................      No sombrio quarto de Londres, durante esse rigoroso inverno, a doente retomou o curso da sua monótona existência. Vive? Sim! Procura, na religião e no trabalho, força para viver. A religião de Elisabeth não é ortodoxa; fora educada nos princípios de um protestantismo rígido, mas, durante a doença, e sobretudo depois de ter sido esmagada pelo sofrimento, abandonou-se a um misticismo pessoal, no qual encontrou uma consolação suprema. A sua religião é essencialmente: Amor! Na sua aspiração de infinito, reúne o amor de Deus e o amor da humanidade: é desse duplo amor que se alimenta a sua inspiração poética, que é ao mesmo tempo uma chama e uma prece. Durante esse período da vida, Elisabeth entrega-se a um trabalho intenso; tem a intuição de que, se o trabalho a não protegesse, o seu juízo vacilaria. Impõe a si própria um esforço que é para ela um estímulo moral. É comovedor ver essa frágil criatura — quase imaterial — encontrar maneira de mostrar ao mundo novas razões de fé e de esperança!      Nada em Elisabeth lembra uma literata pretenciosa; é, pelo contrário, invariavelmente simples. Não tem, além disso, falsas modéstias; ama a sua arte pelo esforço que lhe custa; fala dela com agrado, testemunhando reconhecimento a quantos lhe criticam a obra e lhe dão conselhos. Está sempre pronta a pôr de lado livros, laudas, manuscritos, para escutar, com interesse sincero, as confidências dos irmãos, das irmãs e dos amigos. Todos, instintivamente, vêm contar-lhe os seus desgostos e alegrias; Elisabeth tem o segredo de conquistar-lhes os corações. Todos lhe querem; grande número de admiradores desejam conhecê-la pessoalmente. A sua fama propaga-se. O poeta Wordsworth, recordando o encontro anterior, escreve pedindo autorização para lhe apresentar as suas homenagens. Respondem-lhe como a toda a gente: “Elisabeth Barrett não está em estado de receber visitas; necessita de um repouso absoluto.” No entanto, faz-se de vez em quando uma exceção: A senhora Jameson — mulher de grande valor, conhecida pelos seus trabalhos sobre a história da arte —, após repetidas tentativas, é admitida no quarto da doente. Elisabeth escreve, a propósito disso: “A senhora Jameson voltou mais uma vez, deixando uma carta; depois desta nova manifestação de interesse e gentileza, recebi-a no sábado passado. Estivemos juntas quase uma hora e, desde o primeiro momento, tornámo-nos amigas; foi mais uma prova daquilo a que as minhas irmãs chamam: as minhas intimidades fulminantes,” Essa intimidade devia durar toda a vida. Miss Mitford e Jean Kenyon — os sempre fiéis — fazem tudo para distrair a amiga. Miss Mitford, um dia, leva-lhe um cachorrinho: “Flush” tornar-se-á um dos mais célebres cães do século passado, após a publicação da poesia que a sua dona lhe consagrou: “Flush, my dog”. Kenyon, pela sua parte procura alegrar a cela da prisioneira. Elisabeth descreve assim à senhora Martin os melhoramentos feitos no seu quarto: “Se a minha amiga viesse visitar-me, não reconheceria decerto a minha prisão. Sobre o parapeito da janela colocaram uma grande caixa, cheia de terra, donde brotam, enlaçando-se, os troncos duma planta trepadeira de flores vermelhas; o seu desenvolvimento foi um pouco prejudicado por lhe juntarem um enorme pé de hera, cujos ramos são tão compridos que as extremidades se foram fixar na janela de Henriette, que fica no andar superior, enquanto os rebentos mais débeis serpenteiam em volta da minha janela. Esta planta é um presente do senhor Kenyon.”      Contudo, apesar de todas essas provas de interesse e simpatia, Elisabeth, no fundo da sua alma, sente a amargura da solidão: A morte do irmão tão ternamente querido arrancou-lhe do coração fibras que jamais serão substituídas. Os anos passam. Elisabeth aproxima-se da hora melancólica em que a primeira juventude declina; a sombra estende o seu manto, mas a luz calma da idade madura não brilha ainda na alma de Elisabeth! Então, às vezes, o desânimo apodera-se dela. IX ROBERT BROWNING   De Robert Browning a Elisabeth Barrett... New Cross Hatcham (Surrey). 10 de janeiro de 1845.      ADORO os seus versos de todo o coração, minha querida menina Barrett; esta carta não é uma fórmula protocolar que se escreve como um dever, nem a expressão banal de uma vaga admiração pelo talento. Sorrio ao recapitular tudo o que tive intenção de lhe escrever (depois do dia da semana passada em que li os seus versos pela primeira vez) a fim de lhe patentear a impressão que senti. O meu primeiro ímpeto após essa leitura, foi renunciar, desta vez, à minha atitude habitual de receptividade passiva e explicar-lhe as razões da minha admiração; talvez eu tenha tido a intenção de fazer o papel de mestre-camarada e de lhe submeter as minhas críticas na esperança de lhe ser útil, com o que me sentiria assaz orgulhoso. Mas não consegui dividir-me e a sua brilhante inspiração poética tornou-se, pelo contrário, parte integrante de mim mesmo... Em todo o caso, não renuncio definitivamente a comunicar-lhe a minha opinião: com efeito, quando falo da sua obra com aqueles que estão à altura de apreciá-la, consigo, sem dificuldade, demonstrar as razões do meu entusiasmo e dar o justo valor a uma ou outra das qualidades características dos seus versos: a fresca originalidade musical, a riqueza do vocabulário, a emoção requintada, o ineditismo, a sinceridade e a elevação dos pensamentos; mas, em compensação, ao escrever-lhe pela primeira vez, sinto-me emocionado e tímido. Repito-lhe: gosto dos seus livros e também gosto de você. Sabe, porventura, que, há muito tempo, tive quase a oportunidade de conhecê-la? Kenyon disse-me um dia: “Dar-lhe-ia prazer encontrar-se com a menina Barrett?” Após a minha resposta, Kenyon foi vê-la imediatamente para lhe anunciar a minha visita... Ao voltar, comunicou-me que a encontrara muito doente para receber quem quer que fosse. Muitos anos decorreram depois dessa visita fracassada; hoje, tenho a impressão de que, por um infortúnio singular, me encontrei, no decurso duma longa viagem, à porta de uma das maravilhas do mundo, conservadas numa cripta; eu estava no patamar e bastar-me-ia afastar um pouco o reposteiro para penetrar no interior, mas, no momento preciso, um obstáculo, fácil, aliás, de transpor — pelo menos hoje parece-me que um pouco de perseverança me haveria sido propícia — sustou o meu gesto; a porta entreaberta fechou-se... e eis-me forçado a retomar a longa estrada do regresso: centenas de léguas! Talvez que eu nunca mais tenha oportunidade de realizar essa peregrinação! Felizmente os seus poemas foram publicados, concedendo-me o privilégio de lhe manifestar com os mais sinceros sentimentos de prazer e de orgulho, a profunda dedicação do      Robert Browning. ........................      Elisabeth Barrett respondeu imediatamente à primeira carta de Robert Browning. 50 Wimpole Street, Londres, 11 de janeiro de 1845.      De todo o coração lhe agradeço, meu caro senhor Browning. Ao escrever-me essa caria foi, certamente, sua intenção, proporcionar-me uma grande alegria; e ainda que o senhor não o tivesse conseguido, ser-lhe-ia eu, não obstante, devedora dos maiores agradecimentos. Mas, a verdade é que lhe devo uma rara alegria! Receber uma carta tão lisonjeira... escrita pelo senhor! Sinto-me sempre feliz ao saber-me rodeada de simpatias, mas a simpatia de um poeta como o senhor é para mim mais preciosa do que tudo! Quer pois aceitar o meu reconhecimento?... A sua gentileza incita-me a tornar-me indiscreta: jamais nos podemos desembaraçar das pessoas a quem proporcionámos um grande prazer! É a experiência que o afirma; renunciemos a encontrar-lhe a moral. Decido-me, portanto, depois de muitas e naturais hesitações, a pedir-lhe — caso não lhe custe muito renunciar à “receptividade passiva” — que tenha a bondade de me indicar os erros mais em evidência nos meus poemas (não penso sequer em lhe pedir uma crítica detalhada). Far-me-ia um favor incomparável ao qual ficaria eternamente reconhecida; seria um tão grande privilégio, que não posso deixar de me sentir impaciente por gozá-lo! Não quero fazer-lhe acreditar que sou dócil aos conselhos e não lhe garanto que siga à risca mesmo os seus, mas aprecio de tal forma a elevação da sua inspiração e da sua experiência de artista, que uma simples observação geral sobre os meus defeitos principais, ser-me-á de uma utilidade singular; e não duvido que de uma ou de outra forma, eu não faça dela um tesouro... Poderia eu ter tido, de fato, há muito tempo, o prazer e a honra de o conhecer pessoalmente? É possível que o senhor pense ainda com mágoa nessa oportunidade perdida? Mas já pensou que, se tivesse efetivamente penetrado na “cripta”, teria corrido o risco de apanhar frio e de se aborrecer mortalmente, a ponto de ter talvez desejado estar a “centenas de léguas” dali? Seria porém ir contra os próprios interesses querer persuadi-lo de que foi melhor assim. Prefiro esperar que qualquer ocasião, desta vez favorável, me permita a honra que me foi interdita. Contudo, o inverno — estação em que as marmotas hibernam — separa-me do mundo. Na primavera retomaremos este projeto. Entretanto, aprenderei a conhecê-lo, não só através dos seus versos, como pelas efusões da sua bondade. O senhor Kenyon fala-me muito a seu respeito! O senhor Kenyon! Não posso dizer — ou melhor, não posso dizê-lo sem lágrimas nos olhos — que amigo bondoso tenho encontrado invariavelmente nele: amigo e guia, pois é também amigo e mentor dos meus livros. O senhor conhece-o bastante para poder avaliar quanto lhe devo. Esta carta já vai longa e, no entanto, quero ainda acrescentar-lhe algumas linhas essenciais. Sinto que a dívida de gratidão que contraí para consigo não deriva apenas da sua carta tão cordial e do grande prazer que experimentei, mas de razões mais elevadas e já antigas: enquanto eu viver e cultivar a poesia, o amor e a devoção que me animam para a nossa arte confirmarão que sou uma ardente e estudiosa admiradora dos seus trabalhos. Desejaria saber dizer-lhe tudo o que o coração me inspira.      Confessa-se com orgulho      Sua muito obediente e fiel      E. B.      Senhor Robert Browning New Cross Hatcham, Surrey.      A correspondência entre Elisabeth Barrett e Browning tornou-se gradualmente cada vez mais assídua. X A CORRESPONDÊNCIA        PARA Elisabeth é, daí por diante, um precioso hábito receber, das mãos do correio, duas ou três vezes por semana, uma folha de papel de carta cuidadosamente dobrada e selada — nessa época ainda não se usavam envelopes — na qual reconhece imediatamente a caligrafia minúscula e perfeitamente regular de Robert Browning. A correspondência de Elisabeth é geralmente importante: cartas de admiradores desconhecidos e de editores que se impacientam; cartas de velhos amigos de Hope Hend, de críticos e de literatos; quanto às de Browning, contêm o harmonioso eco de um entusiasmo juvenil: o poeta que atingira já a celebridade é de fato muito novo, pois não fez ainda trinta anos; também ele leva uma vida recatada, com os pais e a irmã, num bairro próximo de Londres, mas longe, todavia, do ruído e das distrações. A sua fama, aliás, não vai além de um círculo restrito de conhecedores; a sua arte é, com efeito, essencialmente aristocrática: pensamentos filosóficos revestidos da graça flutuante de um estilo por vezes difícil. Elisabeth, pela sua parte, apreciou imediatamente a vigorosa originalidade do poeta e, dois anos antes de o conhecer, escrevia: “...Pode talvez citar-se um estilista mais perfeito, mas nenhum poeta possui mais inspiração...”      Elisabeth tem agora o orgulho da amizade dedicada que lhe é oferecida e responde longamente, e com igual cordialidade, às cartas de Browning. Os dois poetas tratam de assuntos de arte e de literatura, mas procuram também conhecer-se melhor reciprocamente, confiando livremente os seus pensamentos, as suas tendências e os seus hábitos. Um dia, Browning refere-se à sua instintiva simpatia pelas coisas inanimadas. Elisabeth responde: “Recordo-me de que em criança escrevia nuns livrinhos de notas munidos de fechos; pois, antes de os fechar, beijava-os, em sinal de gratidão pela felicidade que lhes devia; e, quando saía, levava um deles comigo, alternadamente, a fim de lhes mostrar o mundo! De resto, tratava com a mesma consideração todos os meus livros; também, instintivamente, me entretinha com as árvores e as flores... Mas, ai de mim! entre essa época da minha vida e a minha personalidade atual, desdobra-se um sombrio e espesso reposteiro de ciprestes!”      Cinco anos haviam decorrido após a tragédia de Torquay, mas as recordações da infância ficaram para sempre mergulhadas na sombra fúnebre! Melancolicamente, Elisabeth evoca essas horas do passado com o seu novo amigo... “O que me diz, relativo à alta sociedade, incita-me a comparar a sua existência com a minha. O meu amigo — pelo menos, assim me parece — bebeu a grandes tragos, na taça da vida, um vinho cheio de sol! Mas eu apenas tenho vivido uma vida espiritual e dolorosa! Mesmo antes da doença me constranger à reclusão, já eu estava moralmente enclausurada... Criei-me no campo, sem jamais ter tido ocasião de entrar no mundo... Vivi com os meus devaneios e os meus livros, enquanto à minha volta a vida familiar zumbia como um enxame de abelhas num prado. E assim se passava o tempo... Mais tarde, fiquei gravemente doente e a minha vida parecia estar apenas por um fio, ou, na melhor das hipóteses, na perspectiva de nunca mais me deixar transpor a porta do meu quarto... Ao conformar-me com o grande desgosto em que a minha razão quase se extinguiu, senti uma certa amargura ao pensar que teria de deixar o templo do universo onde vivera em completa cegueira: ignorava tudo da humanidade, não contemplara jamais os cimos das altas montanhas, nem o curso dos rios poderosos com os quais me sentia aparentada ... Em suma, nada havia visto... O meu amigo avalia, decerto, quantas dificuldades tive a vencer para servir a minha arte, a despeito da minha ignorância! Não lhe parece que, se continuo a viver como uma reclusa, me encontrarei, por fim, em condições de absoluta inferioridade para o meu trabalho? Sou uma poetisa cega! Há, sem dúvida, certas compensações para este estado de coisas: a intensidade da minha vida interior, o hábito de observar e de analisar os meus sentimentos têm-me permitido aprofundar bastante a natureza humana. Contudo, embora poetisa, trocaria de boa vontade toda a cultura que tenho dos livros, pela possibilidade de afrontar diretamente a vida dos homens... Mas é cobardia lamentarmo-nos. Todos devemos enquanto vivermos, agradecer a Deus o destino que nos traçou; é, sem dúvida, aquele que merecemos! Alonguei-me um pouco sobre este assunto, por isso não ficará surpreendido quando me ouvir dizer que as minhas maiores alegrias e mais profundas emoções me foram reveladas através da poesia...” ***      Na sua primeira carta a Robert Browning, escrita em janeiro, Elisabeth, aludindo a uma possível entrevista, acrescentava: “Retomaremos esse projeto na primavera” A primavera chegou. As grinaldas de hera que alegram a janela da doente, agitam-se docemente ao sabor da brisa e, de quando em quando, roçando pela vidraça, parecem dizer: “Acolhe-nos!” Browning, em quase todas as suas cartas, recorda a Elisabeth a promessa feita e repete-lhe também: “Acolha-me! Acolha-me!” Finalmente Elisabeth escreve-lhe: “Pois bem, seja!... Apenas umas linhas para lhe dizer que, se o deseja absolutamente, pode vir; o prazer será inteiramente meu. Em todo o caso, não fale disso a ninguém, pois, se aceitei em princípio conhecer duas ou três pessoas em cada verão, não o coloco nessa categoria; recebo-o porque anseio conhecê-lo pessoalmente, — prefiro escolher o momento, segundo o meu estado de saúde; de resto, repugna-me fazer alarde da minha doença e excitar a compaixão. Pensaria mal de uma mulher que procedesse assim. Quanto ao mais... o meu bom amigo não pode saber de antemão se o conhecer-me de outra maneira que não seja por intermédio das folhas escritas, lhe trará algum prazer. Pelo contrário, eu estou em condições de poder avaliá-lo e posso dizer-lhe honestamente que tal não se dará. Não há nada que ver de interessante em mim e nada digo que valha a pena ser ouvido. Nunca aprendi a conversar, como se faz habitualmente em Londres: contento-me em admirar em Kenyon e noutros essa forma brilhante e maravilhosa de se expressarem. Se os meus poemas, segundo dizem certas pessoas, têm algum valor, fique certo de que pus neles o que de melhor havia em mim... Enfim, venha! De qualquer modo enconcontrará sinceridade de sentimentos. Não responda a esta carta. Não a escrevi para que me faça elogios...” XI A VISITA        NUMA tarde de maio, no seu quartinho obscuro, cuja janela é emoldurada pela hera, Elisabeth espera a visita de Robert Browning. Como habitualmente, está estendida sobre a otomana e, a despeito das carícias quentes prodigalizadas pela primavera, a doente envolve-se ainda num xale de lã.      Apesar de não querer confessá-lo a si própria, sente-se perturbada. A correspondência com Robert Browning era-lhe muito querida: entre ambos haviam-se formado, a pouco e pouco, laços de uma intimidade confiante... Que viria a acontecer após conhecerem-se pessoalmente? É de longe que a miragem ilude; não é de fato a realidade que traz a desilusão? Teria sido bem preferível não modificar as relações: a amizade que une duas almas não necessita de enterrar as raízes na terra para florescer!... Como de costume, “Flush” está deitado aos pés de Elisabeth: fita-a com os seus olhos interrogativos; tê-lo-ia o instinto advertido de que a dona, nesse dia, acolheria, no seu quartinho tranqüilo, um novo visitante?... Batem à porta. A criada de quarto, “Wilson”, desce para abri-la. Ouvem-se ressoar passos na escada e, de repente, à entrada do aposento, destaca-se a alta e elegante figura de Robert Browning, que se inclina diante de Elisabeth, cujos grandes olhos sorriem na sombra. ........................      No dia seguinte de manhã, um gentil bilhete de Robert Browning, exprimindo a sua ansiedade pela saúde da enferma, espera que a sua prolongada visita a não tenha fatigado muito!      No mesmo dia, uma carta seguiu este primeiro bilhete... mas jamais se lhe conhecerá o texto: Elisabeth, logo que a recebeu, destruiu-a; todavia, pode-se-lhe reconstituir aproximadamente o conteúdo pela resposta de Elisabeth:      “Sexta-feira à noite, 24 de maio de 1845.      Quis escrever-lhe ontem à noite, tentei fazê-lo esta manhã, mas não o consegui. Não pode calcular o tormento que me causou ao escrever-me tais loucuras. Se lhe desobedeço, meu querido amigo, respondendo-lhe sobre o assunto, faço-o, não com a intenção de lhe desagradar, mas com o fim de me sentir mais digna, ou melhor, menos indigna do seu generoso impulso que repelirei agora e sempre... Preste bem atenção. Escreveu-me coisas insensatas que nunca mais repetirá, que irá esquecer imediatamente; ficarão amortalhadas dentro de nós, tal como um pastel de revisão que, corrigido nas suas provas, não deixa vestígio algum: somente o senhor e o tipógrafo terão tido conhecimento dele! Procederia assim, não é verdade?, por estima por mim, que sou a sua mais sincera amiga. É esta uma condição absoluta para as nossas relações futuras, É impossível que tenha esquecido que me encontro numa situação excepcional e que, no estado miserável em que me sinto definhar, se eu consentisse sequer em ouvir certos exageros verbais, seria isso tão inconveniente para mim como perigoso para o meu amigo. Este é o lado essencial da questão. Agora, se respondesse uma palavra que fosse, se fizesse uma simples alusão ao que lhe escrevo, seria meu dever — e cumpri-lo-ia estritamente — nunca mais voltar a vê-lo! Um dia virá em que o seu coração me aplaudirá! Mas sei que, por consideração por mim, nada dirá e me poupará o desgosto de cortar as nossas relações de amizade no momento preciso em que eu me prometia tanta alegria através delas; o meu amigo não quererá privar-me de um prazer, quando tão poucos tenho e estou sobrecarregada de tantos fardos dolorosos! Proporcionou-me momentos tão bons! Garanta-me também a tranqüilidade de espírito. Dessa forma poderei enriquecer-me com os seus conselhos, os seus pensamentos, a sua cultura literária... aqui em casa estou rodeada de afeições, mas ninguém da minha família poderá, doravante, aconselhar-me. A sua amizade, a sua simpatia, ser-me-ão preciosas e queridas toda a vida... se porventura consente em aturar-me por um tão longo — ou tão curto — lapso de tempo!”      Que teria, pois, acontecido! Elisabeth, que tem a consciência do seu mal e sabe que não é bonita nem jovem (vai fazer quarenta anos), não tem a menor noção do encanto misterioso que emana da sua pessoa, realçado ainda pelo prestígio da sua arte e dos seus êxitos. Browning, ao contrário, foi presa dessa atração logo à primeira leitura da “poesia palpitante de vida”, que diferia tão profundamente das efusões sentimentais e acadêmicas de um grande número de mulheres de letras. Pela continuação, e no decorrer da sua correspondência regular com a escritora, aprendeu a conhecer melhor e a amar ainda mais esse espírito feminino tão límpido, tão puro, tão original. A imaginação e o coração do poeta, naturalmente românticos, entusiasmaram-se. Às vezes, dominado por um impulso irresistível, deixava a casinha de New Cross e ia para Londres; absorvido pelos pensamentos íntimos, dirigia-se, quase inconscientemente, para a casinha de Wimpole Street, donde irradiava o mistério que tão profundamente o emocionava... Agora desvendara-se o mistério; Robert Browning vira Elisabeth: o encanto dela agira; e a idéia de unir a sua vida à daquela mulher apresenta-se-lhe imediatamente... para logo se lhe impor. Pega na pena e escreve a carta que Elisabeth destruiu. A resposta dela, franca, leal, imperiosa, perturba, porém, a segurança de Browning. Receia por sua vez ter maculado para sempre a doce intimidade que lhe é tão preciosa. Que fazer? Como reparar o erro? O mais simples seria calar-se, segundo o desejo de Elisabeth. Mas Browning escolherá a resolução contrária... No grupo dos amigos do poeta, a reputação das frases cacofônicas que lhe escapavam umas vezes por distração, outras pela influência da timidez, constituía um caso de risota; e o poeta era o primeiro a rir quando lhe repetiam as próprias frases! Deliberou pois insistir e escreveu no meio de longos períodos, cortados de incidentes e parêntesis: “Não tive a intenção de dizer o que você supôs!”      Não são agradáveis para um mulher desmentidos deste gênero, mas Elisabeth não se preocupa com a ferida causada ao seu amor-próprio; vê apenas uma coisa: Browning continuará seu amigo. É o essencial. Nada mais interessa. Reenceta a correspondência interrompida, no mesmo tom de franca cordialidade, após dar por liquidado o incidente, aceitando a interpretação fornecida pelo poeta: “Desculpe-me, meu caro senhor Browning, se dei excessiva importância a palavras que a não tinham.” Na mesma carta tem Elisabeth o cuidado de fixar uma data para a próxima entrevista.      As visitas recomeçam então e a correspondência continua. Durante todo o verão, e uma vez por semana, Robert Browning sobe ao quartinho de Wimpole Street, levando entre os braços molhos de flores colhidas no seu jardim. De vez em quando encontra as irmãs de Elisabeth, — Arabella e Henriette — para as quais será, doravante, “o amigo de Ba”.      E as irmãs pensam: “Fantasia literária!” Não! É o amor que chega! XII É O AMOR QUE CHEGA        NO decorrer dessas longas e freqüentes visitas, que se prolongarão pelo inverno seguinte, nessa correspondência regular, tratar-se-á exclusivamente, doravante, de arte e de literatura? É raro os raios de sol não penetrarem os obstáculos que encontram no caminho; assim também o ardor dos sentimentos se filtra por vezes através das frases e das cartas de Robert Browning; é a princípio um pálido clarão que, gradualmente, se intensifica!      Mas Elisabeth não cede nunca; esforça-se por reconstituir a amizade primitiva, a boa camaradagem do início; não pode resignar-se a ver extinguir-se essa luz suave que veio providencialmente iluminar a sua noite. Elisabeth escreve regularmente, conservando nas cartas um tom amável e natural; procura desenvolver assuntos que se não prestem a qualquer sentimentalidade. Fala, por exemplo, nos primeiros tempos do feminismo — do feminismo de há um século! — “...A propósito de poetisas... sob a condição, todavia, de que me prometa não o repetir à senhora Jameson, far-lhe-ei a minha secreta profissão de fé... Diga-se o que se disser, faça-se o que se fizer, a verdade é que a inteligência das mulheres é, por natureza, inferior à dos homens. Refiro-me, bem entendido, à inteligência propriamente dita, não ao valor moral. As mulheres — tomando em globo o nosso sexo — têm talvez mais vivacidade de espírito, mas este não atinge nem a profundidade, nem o poder intelectual do homem. Sou de opinião que se os homens nos dominam por completo, submetendo-nos ao seu jugo, é por que afetivamente raras vezes somos capazes de marchar sozinhas. Não é justo, sem dúvida, que os homens abusem da sua força (não se vanglorie demasiado)... mas se os homens são parcialmente responsáveis desta injustiça, não penso, no entanto, que ela deva desaparecer completamente, em virtude do nivelamento anunciado pelas nossas profetisas.” E escreve numa outra carta: “...A maior parte dos dissabores — tão freqüentes, dizem, na vida —, tenho eu o privilégio de os ignorar. Não conheço nem a maldade do mundo, nem a sua falsidade, nem as desilusões sentimentais. Se as julgo com a minha experiência pessoal, a bondade está muito mais espalhada no planeta, e as manifestações inspiradas pelo amor são nele muito mais freqüentes do que o deixariam acreditar as obras da maioria dos moralistas.” Os bilhetes de Elisabeth têm a miúdo o fim de marcar a hora e o dia da próxima visita, o que é por vezes assaz complicado: “...Esperava, de um momento para o outro, uma palavra de miss Mitford, a fim de saber se devia contar com ela quinta ou sexta-feira, quando chegou um bilhete do senhor Kenyon anunciando-me a sua visita para quinta-feira às quatro horas. Mas não é tudo: simultaneamente recebi uma carta da minha tia, a senhora Hedley (cuja estadia em Brighton devia, segundo os projetos que nos deu a conhecer, prolongar-se ainda por mais dois meses), anunciando-me a sua visita para quinta-feira ao meio-dia. Que fazer? Pondo mesmo de parte a possibilidade da opção de miss Mitford, há a visita inadiável do senhor Kenyon e a chegada iminente da senhora Hedley... Fixemos, portanto, o nosso encontro para sexta-feira; e de futuro esse dia será para mim de bom presságio...”      Vejamos agora o reverso desta correspondência: Browning esforça-se honestamente por se conformar com as condições impostas por Elisabeth, mas de quando em quando escapa-lhe qualquer alusão aos seus verdadeiros sentimentos: “Seja indulgente com esta carta que tanto me fez sofrer para lhe dar uma forma atenuada... menos espontânea, menos direta! Escrevi uma outra antes desta, muito mais sentida e mais sincera.”      De outra vez, Browning começa nestes termos: “Permita-me iniciar esta carta com a fórmula final: “Com você, para sempre”. Conseguirá Elisabeth manter a amizade tranqüila, a boa camaradagem entre ela e Robert Browning? XIII O AMOR AUMENTA        “NA minha correspondência, esforçava-me por convencê-lo — escreve Elisabeth à senhora Martin, muito depois dos acontecimentos — que, de futuro, os dons da juventude seriam, para mim, apenas recordações; o meu coração perdera, disse-lhe, a própria força de ambicionar as alegrias naturais da vida. Quis que ele soubesse tudo... Browning não me respondeu com desmentidos lisonjeiros e disse-me simplesmente que “daí em diante não lhe restava outra escolha”. Robert supôs estar na verdade, mas, talvez, pelo contrário, tenha sido eu quem teve razão... Fosse como fosse, Browning amava-me e amar-me-á até ao fim da sua vida. Conhecia o temperamento dele e sabia que me quereria sempre, mesmo que eu nunca lhe correspondesse. Contudo, não quis de forma alguma atormentar-me e estava pronto a esperar vinte anos, se eu assim o desejasse. Preferia, dizia-me ele, passar comigo uma hora por dia, a ver realizado qualquer outro projeto mais brilhante onde eu não fosse incluída.”      Será possível que Elisabeth persista em impedir as manifestações de um sentimento tão profundo, respondendo-lhe com indiferença? Desde muito nova, Elisabeth afastara corajosamente do espírito e do coração a idéia do casamento, de uma afeição recíproca, de uma família, de uma casa sua. Dedicara-se a viver dia a dia sem projetos de futuro, esforçando-se por fazer sentir à sua volta a pouca influência benfazeja de que dispunha; concentrava a vida nas emoções da arte; rezava, encarando corajosamente a morte; não seria esta, para ela, um alívio? E agora? Agora, no decorrer dos seus dias solitários, das noites de insónia, Elisabeth sente germinar no mais íntimo da alma, maravilhosa florescência de sentimentos ignorados; experimenta a deliciosa sensação de se elevar da terra sobre asas! Escuta vozes suaves, vozes tentadoras! Uma luz deslumbrante perpassa na escuridão... Sonhos, sem dúvida, ilusões? Elisabeth procura destruir essas visões, esses esboços de felicidade! E escreve a Browning: “...Tenho hesitado bastante, sem saber se é preferível guardar silêncio, ou censurar certas expressões que você emprega. O meu amigo continua — já deu por isso? — a deixar-se seduzir por miragens e a enganar-se redondamente... No entanto, é preciso que o saiba: guardarei até ao último alento a recordação inalterável do generoso interesse que me demonstra... ia dizer: que desperdiça comigo! Que Deus o ajude em todas as suas iniciativas e me defenda de ser alguma vez — esta idéia é-me intolerável — um obstáculo direto ou indireto, ainda que mais não seja do que um minúsculo grão de areia sobre a bela e plana estrada da sua vida!” Elisabeth luta ainda, sem dúvida, mas as censuras amenizam-se e as interdições tornam-se menos absolutas.      Naturalmente, a intimidade entre os dois amigos aumenta aos poucos; a aproximação sentimental acentua-se: as confidências afloram-lhes aos lábios. Elisabeth, tão reservada em tudo que lhe diz respeito, entreabre pouco a pouco o templo secreto dos seus pensamentos e sentimentos. Refere-se à vida de família, sempre difícil e tanta vez desagradável. Fala do pai com uma delicadeza infinita e chega mesmo a evocar atragédia de Torquay. E escreve, após uma visita: “...Receio que o meu amigo forme uma opinião injusta acerca do que hoje lhe confiei. Talvez que eu tivesse feito melhor em me calar... Mas é difícil esconder de um amigo o que salta aos olhos de toda a gente. Contudo, no que me diz respeito, posso afirmar-lhe que, na vida de todos os dias, pessoa alguma impõe menos a sua vontade do que eu. De tempos a tempos, evidentemente, surgem pequenos desacordos, mas, quando se trata de desejos que nos interessam pessoalmente, vale mais ceder do que contrariar aqueles que amamos. O estorvo das rédeas curtas torna-se um hábito, não impedindo o galope! De resto, não temos nós reservada uma zona inteira onde podemos pensar livremente?... Ah! é esse, talvez, o mais grave inconveniente: Não se poder falar com o coração nas mãos a um outro coração, o mais próximo — segundo a natureza — do nosso. A continuidade da dissimulação, as reticências... são os vícios dos escravos! Vejo os meus irmãos constrangidos pela mais baixa e a mais vil das necessidades, que é a de viver numa submissão aparente; todos, exceto eu, estão sob a dependência pecuniária dessa vontade inflexível. Está compreendendo?... Mas o que o meu amigo não pode calcular é a profunda afeição, a ternura que sustém esta idéia patriarcal de querer continuar a regular, segundo as diretrizes tradicionais, a vida dos filhos que atingiram a maioridade. Sob estas estratificações hereditárias esconde-se a mais sincera afeição paterna. Sei que não existe um coração mais leal, mais puro, mais digno de respeito. O mal está no sistema: o nosso pai considera como um dever distribuir por nós, como senhor absoluto, a felicidade que nos compete, como se esta fosse propriedade sua... Apesar de tudo, asseguro-lhe, ama-nos, e eu, pela minha parte, quero-lhe muito. Quando — há cinco anos — perdi o ente a quem mais queria no mundo... foi meu pai quem senti mais intimamente ligado à minha dor, quando me ajoelhava junto ao túmulo cerrado, ou contemplava o abismo sempre escancarado do mar!... Não só deu provas de bondade e de paciência durante a minha longa doença, como também, na hora mais amarga do meu desgosto, teve a generosidade de perdoar; jamais me fez censuras, como teria o direito de fazer e como eu a mim própria as dirijo. Nunca me disse, nem nesse momento nem depois, que se o mais belo florão da sua casa fora ceifado antes de tempo, era sobre mim que recaía a responsabilidade! Nunca fez tal alusão. E se nessa ocasião meu pai tivesse usado desse direito, eu nada mais poderia fazer do que baixar silenciosamente a cabeça!... XIV VIGÍLIA DE AMOR        PASSA mais um verão.      Gradualmente, depois de alguns meses, Elisabeth sente-se melhorar; não foi, no entanto, o estio quem fez o milagre ... Não! Tinham passado já bastantes verões e a doente mal lhes sentira a influência; noutro tempo, nem mesmo nos mais belos dias podia abandonar a cela. Não! O milagre deve ser atribuído a essa luminosa atmosfera de ternura em que Elisabeth passou a viver mergulhada!      O médico está satisfeito. É evidente que as forças voltaram e que a tosse desapareceu; os curtos passeios não só já não a fatigam como ainda reanimam a sua vitalidade. O organismo emurchecido parece reflorir. É preciso, custe o que custar — afirma o médico — aproveitar sem delonga essas melhoras para evitar uma recaída; partir aos primeiros sintomas de inverno seria o ideal; é necessário levar Elisabeth para um país quente: a Itália. Só de ouvir pronunciar essas sílabas: Itália! Elisabeth tem a impressão, por instantes, de que o seu quarto está inundado de sol! Quem sabe se ali, sob aquele clima maravilhoso, não germinará a débil e vacilante esperança de felicidade que palpita dentro de si mesma!      Todos, à volta dela, parentes e amigos, a encorajam. “É preciso tentar!” Kenyon é dos mais entusiastas: “Parta, Elisabeth. Voltará curada!” O irmão Georges e a irmã Arabella dizem-lhe: “Não podes viajar sozinha; acompanhar-te-emos.”      Robert Browning pensa e escreve: “Onde Elisabeth Barrett for, irei eu também!” Browning conhece e adora a Itália. Imagina já a grande alegria de se encontrar em companhia de Elisabeth nessa terra de beleza, nessa pátria de poetas.      Mas...      16 de outubro de 1845.      “Não se zangue comigo; não me atribua a responsabilidade... já não vou para a Itália! Como eu tanto receava, esse projeto não se realizará. Não lhe contarei a cena que se passou entre Georges e papai. Dir-lhe-ei apenas a conclusão formulada por meu pai: “Tenho a liberdade de partir, se me aprouver, mas, quanto a ele, desaprova em absoluto a minha partida” Georges, indignadíssimo, ainda insistiu, mas em vão. Eis a situação: poderei partir, mas sob a ameaça da reprovação mais severa. Depois de todos os argumentos que você e o senhor de Kenyon apresentaram em favor da minha partida, argumentos aos quais adiro em consciência, se eu estivesse sozinha nesta causa, afrontaria sem hesitar a cólera de meu pai; mas não posso resolver-me a colocar na mesma contingência meu irmão e minha irmã; sinto que é impossível, que não posso fazê-lo... Nestas condições, espero que o meu amigo reconhecerá que não tenho culpa de ter que pôr de novo a corrente aos pés e de ser obrigada a curvar-me a tão dura imposição. Imaginei — quanto me amargura esta revelação! — que meu pai era mais meu amigo... Nunca, porém, lamento conhecer a verdade; e devo aceitar esta provação como as outras...”      Essa renúncia é particularmente dolorosa para Elisabeth: não só tem que abandonar a esperança de se curar, mas descobre finalmente que a afeição de seu pai, na qual sempre acreditara, apesar de tantas provas de severidade e dureza, fora suplantada pelo egoísmo. Doravante, será a uma vontade mórbida que Elisabeth deverá submeter-se. A submissão será completa; o coração de Elisabeth, todo amor e perdão, não guardará o menor azedume. Não obstante, a desilusão é cruel para a sua natureza sensível.      Nessa hora de melancolia e desânimo, o pensamento de Robert Browning chega até Elisabeth: “A minha amiga está sujeita a uma verdadeira escravatura — não hesito em escrever a palavra — e eu, que poderia dispor do poder de libertá-la, mal ouso exprimir o meu pensamento; contudo, sei que me perdoará a transcrição destas palavras que fervilham dentro de mim... todavia, se mo ordenasse, calcá-las-ia de novo no mais fundo da minha alma... A minha amiga poderia fazer-me feliz, muito para além de qualquer expressão humana... Se isto é um sonho, deixe-me sonhar um pouco... Poderíamo-nos casar imediatamente...”      Elisabeth responde: “Você perturbou-me mais do que eu julgava possível, supunha que nem mesmo o meu amigo pudesse despertar em mim uma tão profunda emoção!... A partir deste instante pertenço-lhe para tudo, menos para lhe fazer mal. Sinto que o meu coração é demasiado seu para consentir — como você me pede — que lhe faça mal... Se eu acedesse ao seu desejo, sinto-o, seria não só menos leal, mas também menos sua! É com a maior sinceridade que lhe dou esta resposta. Não seria capaz de lhe falar hoje de outra maneira e talvez seja sempre assim. Contudo, quero fazer-lhe uma promessa: aconteça o que acontecer, ninguém, doravante, poderá interpor-se entre nós senão Deus e a própria vontade do meu amigo. Quero dizer com isto que, se estiver nos desígnios da Providencia, num tempo relativamente próximo, curar-me do meu mal, serei então sua na acepção que você desejaria dar a este termo: amiga ou mais do que amiga... sua amiga, em todo o caso, até ao último dia da minha vida! Portanto, tudo depende de Deus e de você. Entretanto, considere-se como absolutamente livre a todo o momento; é preciso que não se sinta preso nem pelo mais frágil fio... senão preferirei renunciar a vê-lo, seja qual for a dor que eu possa sofrer!”      Browning responde pressuroso: “Minha, minha..., doravante será minha! Fique tranqüila, não sentirei o peso do seu jugo...” XV GUARDEMOS SEGREDO        O inverno envolve Londres de geada e nevoeiro... mas o quartinho que deita para Wimpole Street já não é sombrio; está iluminado pelo mais belo sol do universo: o amor! A pequenina cela parece agora um jardim; todos os dias Browning leva ou envia flores magníficas. Que pensarão as irmãs, os irmãos, os amigos, ao verificar essa perpétua primavera que cerca Elisabeth? As irmãs estão de agora em diante ao corrente do que se passa, e Elisabeth di-lo a Browning: “Minhas irmãs sabem tudo. Como agora estamos muito mais vezes juntos do que dantes, adivinharam-no e pediram-me para lhes dizer toda a verdade.”      A verdade é, por enquanto, apenas: Amor! Nenhuma promessa prende Browning. Enquanto o milagre da cura não for um fato, o casamento deve ser considerado como um sonho. Ninguém, exceto as irmãs de Elisabeth — nem os irmãos, nem os amigos — deve saber que tal projeto foi eventualmente encarado. Tanto segredo porquê? Uma das manias do velho Barrett é justamente uma aversão inveterada ao casamento dos filhos. Henriette espera e sofre em silêncio, não encontrando possibilidade de se tornar independente. Também Eduardo, pouco tempo antes da sua morte trágica, enamorado e correspondido, tentara em vão obter o consentimento do pai; Elisabeth, que dispunha de fortuna pessoal, desejara ardentemente facilitar o casamento do irmão. A propósito disto escreve a Browning: “Não teria feito o menor sacrifício dando uma parte do meu dinheiro para facilitar o casamento de Eduardo; que poderia eu comprar que me fosse mais precioso do que a sua felicidade? Também dessa vez me impediram de agir,” Elisabeth sabia que à primeira suspeita o pai proibiria, certamente, as visitas de Browning, essas visitas em que ela ia buscar a força e a razão de viver e às quais sentia que não poderia renunciar. É pois necessário que ninguém saiba coisa alguma, para sua tranqüilidade pessoal e também para evitar aos irmãos uma cumplicidade perigosa. E escreve, a propósito dos amigos: “Tenho refletido na melhor maneira de proceder em relação ao senhor Kenyon. Será preferível, creio, se ele o interrogar ou disser algo equivalente a uma interrogação, confessar-lhe que vem ver-me uma vez por semana... Receio que esta novidade o surpreenda um pouco, pois me disse um dia, olhando-me através dos grossos óculos inquisitoriais, que não podia compreender como é que você conseguira introduzir-se na minha intimidade. — “Miss” Mitford passou aqui a tarde inteira. Chegou às 2 horas e saiu às 7, e eu fiquei muito fatigada. Essa querida “Miss” Mitford falou por ela e por mim; no entanto, de dez em dez minutos via-me obrigada a replicar-lhe — o meu companheiro habitual “Flush”, é menos exigente ainda. — Estou cansada e venho repousar em você... Graças à minha paciente estratégia, o nome do meu amigo não foi pronunciado uma única vez; quando me parecia que a sua personalidade podia ser a finalidade de certas associações de idéias, apressava-me a fazer desviar a conversa. Tenho um medo enorme de ouvir perguntas concretas e de sentir dois olhos de mulher fixarem os meus. Receio-os mais ainda do que aos óculos do senhor Kenyon!... XVI LUZES E SOMBRAS        O inverno de 1845-1846 em Londres, foi excepcionalmente suave. Elisabeth, animada por uma febril vontade de viver, sentia acumular em si reservas de força, mas precisava ainda tomar grandes precauções. Não saía de casa, mas já não estava prisioneira no quarto. Deixara de estar continuamente estendida na otomana e já a autorizavam a descer ao rés-do-chão e a juntar-se com as irmãs no salão familiar. Passava horas a trabalhar; as pequenas laudas que usava tingiam-se com a sua bela caligrafia. Que escrevia Elisabeth nessa época? Ninguém o sabia, nem mesmo Robert Browning.      Elisabeth viveu nesse inverno como num sonho. Contudo, as nuvens douradas eram às vezes encobertas por sombras. Demais sabia ela que, se o pai chegasse a descobrir a verdade, jamais lhe perdoaria; essa idéia torturava-a: “É a minha cruz! Mas não é culpa minha se tenho de escolher entre dois afetos!” escrevia ela a Browning. Depois, a dúvida sobre o que deve decidir volta sem cessar ao seu pensamento e às suas cartas. Terá ela o direito de ligar a sua vida, tão frágil ainda, à mocidade robusta de Robert Browning? “Se alguém contasse o que se passa ao senhor Kenyon, este não deixaria de nos felicitar afetuosamente, mas no fundo do coração pensaria que você é louco e que eu sou egoísta,” Elisabeth, logo que o amor lhe apareceu como uma débil esperança, escrevera a Browning: “Serei inteiramente sua, salvo se for para lhe fazer mal.” Repetia a si própria esta restrição e repetia-a também a Robert Browning, apesar de se sentir agora presa nas doces cadeias do amor. E escrevia: “Prometa-me ser razoável se a minha saúde vacilar. Tanto você como eu, deveremos, nesse caso, resignarmo-nos à vontade de Deus!” Mas a esperança da cura acentuava-se irresistivelmente. Elisabeth curar-se-á...! “Falta-me o sol de Pisa, mas outro sol me aquece quando você está presente”      De quando em quando, a sua aventura de amor apresenta-se-lhe como um maravilhoso, um inverosímel conto de fadas: “Você veio até mim como um sonho bom: necessito traçar um sinal no lugar onde acaba o sonho e onde a realidade começa!” Numa outra carta escreve: “Se eu pensasse só em mim, desejaria morrer agora, imediatamente, antes de ter tido oportunidade de lhe dar a menor desilusão... Com efeito, tremo às vezes ao pensar que, quando você me conhecer como eu me conheço, terá, sem dúvida, uma desilusão. Que posso eu oferecer? Uma coisa apenas — bem pouco; — há só uma coisa que eu sei fazer melhor do que quem quer que seja, uma coisa que eu faço melhor do que qualquer outra: amar!” XVII ALELUIA        ABRIL volta com o seu cortejo de flores. “...As suas flores trouxeram a primavera para o meu quarto. Que riqueza de colorido!... E à medida que o sol penetra no interior, as cores avivam-se ainda mais! Adoro o mês de abril com as suas rápidas alternativas de sol e nuvens; lembra-me o tempo longínquo em que, em Hope End, me afundava até à cintura na erva úmida, enquanto o sol espalhava os seus raios pela minha cabeça e o vento brincava com a luz e com a sombra, entre a vegetação circundante. Mas, meu bom amigo, estas sensações extremas não eram a felicidade. A ventura não depende da chuva nem do sol. Quando a porta do futuro parecia para sempre fechada para mim, e me sentia cansada de ter batido tanta vez em vão, julgava-me feliz, graças à calma com que aceitava a morte! Compreendo agora o abismo que separa a vida da morte. Conheço, finalmente, a vida separada da dor!...” Um hino de gratidão, uma aleluia se eleva do coração de Elisabeth:      “Quando à dor sucedia a dor, nunca disse: não a mereci... Agora, que a alegria precede a alegria, digo sinceramente: Como pude eu merecer a felicidade?” XVIII SIM!        A palavra tão ansiosamente esperada por Robert Browning foi finalmente pronunciada:      — Sim! sim, com a ajuda de Deus, se as melhoras miraculosas persistirem... no fim do verão, ou o mais tardar no outono. Elisabeth, esposa, enfim, de Robert Browning, partirá com o marido para a Itália.      O tempo parecia agora apressar a data fatídica. Elisabeth, às vezes, quereria poder dizer-lhe; “Mais devagar!” De fato, sente-se profundamente perturbada ao pensar no pai. E escreve a Browning: “...Pobre papai! Não cesso de me interrogar se o ofenderei menos revelando-lhe a verdade do que pondo-o em face do fato consumado. Quem sabe... Se me sentisse mais forte, preferiria correr esse risco... Mas no estado em que estou! Logo que meu pai soubesse o que se passa, proibir-me-ia de te ver, de te escrever... e estou muito fraca para lutar... De resto, é possível que um ato de desobediência formal o fira ainda mais do que uma manifestação de independência... De vez em quando, perturbada por vertigens, fecho os olhos! Que Deus nos inspire e nos ajude!... De qualquer forma, após a nossa fuga, pedir-lhe-emos humildemente perdão, faremos tudo para o obter...”      O tempo prossegue na sua marcha. Ei-lo, o mês de agosto! A senhora Jameson dispõe-se a partir para a Itália; insiste com Elisabeth para que a acompanhe; não pode convencer-se de que, ainda desta vez, a um pedido tão legítimo, se oponha uma nova recusa. Elisabeth não sabe de todo o que deve responder; o que é preciso, porém, mais do que nunca, é guardar segredo. Agradece à amiga com um sorriso onde se estampa o futuro! Havia muitos anos que a família Barrett não saía de Londres, nem mesmo na época dos grandes calores em que a mudança de ares teria sido essencial a Elisabeth. Mas, justamente nesse ano, o senhor Barreit fala de uma provável vilegiatura; a casa parece necessitar de reparações e, deste modo, será preciso que a família se ausente durante algum tempo. Essa perspectiva é uma nova fonte de inquietações para Elisabeth e para Browning: uma partida para o campo obrigá-los-á a retardar o casamento até ao inverno; nessa época de frio a viagem tornar-se-á mais difícil e perigosa. Os dias passam e a incerteza aumenta. O pai concentra-se num silêncio impenetrável. Mas, a 9 de setembro, Elisabeth escreve a Browning: “...Esta noite o decreto foi promulgado. Georges partirá amanhã, a fim de procurar uma casa em Douvres, Reigate ou Tumbridge; o lugar, na opinião de meu pai, não tem importância; o essencial é que a nossa casa fique vazia durante um mês, para que se possa proceder às reparações. A partida deve efetuar-se o mais depressa possível... E, agora, que faremos nós? É muito possível que a estadia se prolongue por mais de um mês; é mesmo provável, visto haver grandes reparações a fazer em Wimpole Street, para as quais, segundo ouvi dizer, um mês não será suficiente. Sinto-me agitada e perplexa; não vejo bem o caminho que devemos seguir. Se partirmos na segunda-feira para o campo, como realizaremos os nossos projetos?... Reflete e toma uma decisão pelos dois. Passa da meia noite e tenho apenas o tempo de dar esta carta a Henriette para que a ponha no correio amanhã, bem cedo. Sou mais do que nunca, meu amor,      A tua “Ba”.      P. S. — Farei tudo o que quiseres... Compreendes?”      Browning responde imediatamente: “É meio dia e ao entrar encontrei o teu bilhete. — “Farei tudo o que quiseres !” — Compreendo que não são vãs essas palavras. Se partes na segunda-feira, o nosso casamento atrasar-se-á um mês. Será um desastre. Aí tens o que lucrámos em suspender por tanto tempo a realização do nosso projeto... Casemo-nos imediatamente e partamos para a Itália. Vou em seguida tratar dos papéis necessários e no sábado poderá celebrar-se o nosso casamento. Irei aí amanhã e combinaremos tudo. Sempre teu.      R.”      No dia seguinte Browning dirige-se a casa de Elisabeth; será a sua última visita à casinha de Wimpole Street. Robert e a sua amada tomam as últimas disposições. O casamento celebrar-se-á secretamente na igrejazinha de Marylebonne. Ninguém terá conhecimento do fato, nem mesmo as irmãs de Elisabeth; é preciso que elas possam responder sem mentir: “Nós não sabíamos nada!” quando, inevitavelmente, explodir a cólera paterna. Elisabeth será acompanhada à igreja unicamente pela sua criada de quarto, a boa e dedicada “Wilson” que, em seguida, deve partir com eles para a Itália. Logo às primeira palavras pronunciadas por Elisabeth, para lhe perguntar se quereria acompanhá-la, respondeu:      — Irei com a menina para qualquer parte, seja para onde for.      — Ser-lhe-ei grata toda a minha vida, Wilson. ........................      O casamento de Elisabeth Barrett e de Robert Browning realizou-se num sábado, 12 de setembro de 1846, na igreja de Marylebonne.      Depois da cerimônia, Elisabeth, querendo refazer-se de tantas emoções, voltou por alguns dias para casa do pai. Browning pensou que, realmente, teria sido imprudente não proporcionar uma transição a Elisabeth antes de a expor às fadigas da viagem. XIX AS ÚLTIMAS CARTAS        DURANTE os dias que se seguiram, Elisabeth viveu como num sonho, no meio da família que tudo ignorava. Ficar-lhe-á sempre uma recordação dolorosa desses dias de inquietação. O silêncio a que se via obrigada parecia-lhe (Elisabeth era sincera até ao escrúpulo) constituir um verdadeiro embuste. Os bilhetes apaixonados de Robert vinham reconfortá-la; Browning renunciara às suas visitas habituais; também ao seu caráter reto repugnava a dissimulação. E escrevia: “Sábado... Mergulho o meu olhar no nosso passado e, em tudo, quer seja nas tuas frases, nos teus gestos, nos dizeres das tuas cartas, ou nos teus próprios silêncios, me apareces perfeita! Não desejaria por coisa alguma deste mundo trocar uma das tuas palavras, modificar um dos teus olhares. Tenho esperança de gozar sempre deste amor; Deus que mo deu deve querer conservar-mo: tenho fé n’Ele! Minha Ba, tão inteiramente minha, deste-me a maior, a mais absoluta prova de amor que um ser pode dar a outro. O meu coração está cheio de reconhecimento e transbordante de orgulho. Que Deus derrame sobre ti as suas bênçãos, são os votos do teu R. Cuida, principalmente, da “minha” vida que tens inteira na tua mãozinha. Esforça-te por ser calma, meu amor! Não deixes de agradecer a Wilson da minha parte.”      Domingo, 13 de setembro.      “...Se me convencesse de que conseguiria apaziguar o ressentimento que a minha ação vai despertar, se me convencesse de que estaria na minha mão conservar-te o afeto de que gozaste até hoje, não hesitaria um instante em humilhar-me perante teu pai... Em todo o caso, a adoração que tenho pela sua filha impedir-me-á, seja em que circunstância for, de faltar ao respeito que lhe devo. Que Deus te abençoe, minha “Ba”, minha alegria, meu orgulho, meu conforto!”      Elisabeth, após a leitura dessas cartas, esquecia o tormento das lutas interiores para se abismar no amor triunfante. E escrevia: “Quando fico só, reato o fio do meu sonho. E parece-me impossível... Não compreendo... A despeito da triste, embaraçosa, difícil situação em que me encontro atualmente, exulto com a idéia de ser tua; tua indissoluvelmente, apesar de todas as oposições humanas, de toda a vontade em contrário. Doravante, ninguém no mundo poderá separar-nos!” Mas, no dia seguinte, ao pensar na carta que tem de mandar ao pai, escreve: “—Segunda-feira... Essa carta! essa carta! Sinto-me morrer, só com a idéia da obrigação em que vou encontrar-me de escrever frases deste gênero: “Papai, casei... Espero que não ficarás muito aborrecido com isto...” “Ah! pobre pai... Enganas-te, com o teu otimismo, julgando que papai se conservará calmo, que simulará indiferença. Muito ao contrário! Ficará terrivelmente colérico! Expulsar-me-á do seu coração! Mas de que serve apoquentar-me com esses pensamentos?! Ah! nem calculas a minha perturbação íntima, a primeira vez que o vi, após o acontecimento de sábado último! E dirigiu-se a mim, com bondade, a informar-se da minha saúde! Constou-me que dissera um dia ser eu a mulher mais perfeitamente pura que ele conhecia. Sorri quando me repetiram esta apreciação; devo isso ao fato de até então não o ter atormentado com intrigas amorosas e escandalosas veleidades matrimoniais!... Mas agora, meu amor, submeter-nos-emos às mais amargas penitências. Pela minha parte, estou pronta a deitar-me aos seus pés, se assim puder conseguir ser perdoada... parcialmente, o bastante para ter o direito de o beijar ainda. Quero-lhe com ternura; é meu pai e possui nobres qualidades. Sobretudo, é meu pai! Tu, que és tão bom e generoso para mim, ajudar-me-ás — como prometeste — a reconquistar a afeição que me vai ser retirada. Muito to agradeço. Não te agradeci bastante na minha carta desta manhã. Posso, absolutamente, dizer a meu pai: “Em toda a minha vida — exceto nesta emancipação — me curvei aos teus menores desejos. Põe toda essa vida anterior num dos pratos da balança e sobre a outra o fato em questão: julga-me e perdoa-me em nome da afeição que tiveste até hoje pela tua filha. “Tenho, sem dúvida, o direito de lhe falar assim; posso evocar também os meus prolongados sofrimentos e suplicar-lhe que me perdoe esta felicidade que, finalmente, me é concedida!”      As cartas, os bilhetes de Browning sucedem-se no mesmo dia. É urgente tomar todas as disposições para a partida iminente: itinerário da viagem, horários, melhor forma a dar a nova do casamento, expedição de bagagens, — “Bagagem reduzida ao mínimo” — recomenda Browning, “Eu e Wilson levaremos apenas uma mala pequena e outra de mão”, responde Elisabeth, São feitas, enfim, as últimas combinações. Os esposos encontrar-se-ão num livreiro vizinho; uma carruagem os conduzirá dali até à estação de Vauxhall; tomarão o trem para Southampton onde embarcarão para atravessar a Mancha.      “Sexta-feira à noite, 19-9-1844.      “Fica então combinado! Das 3 e meia para as 4 horas. Não te escreverei mais. Não tenho coragem... Amanhã por esta hora só te terei a ti, meu amor, para me querer. Vou enviar a tua casa, em New Cross, o volume de poesias de Hammer que te pertence e os dois preciosos livros que me ofereceste; não quero deixá-los aqui e receio estragá-los na viagem. Queres pedir a nossa irmã para guardar tudo numa caixa que encontraremos ao regressar? Quanto às tuas cartas, levo-as comigo; tentei separar-me delas mas não pude; ou melhor, foram “elas” que recusaram deixar-me. Não me ralhes.      Será a última carta que te escrevo, meu amor. Oh!... se eu te amasse um quase nada menos, só um quase nada... dir-te-ia que o nosso casamento não é válido e que não contasses comigo amanhã; é uma coisa horrível ser-se constrangido a infligir, voluntariamente, uma dor a outra pessoa! É a primeira vez na minha vida! Reza por minha intenção esta noite, Robert! E pensa em mim, a fim de me incutires coragem.      Tua “Ba”.      P. S. — A nossa bagagem foi transportada sem obstáculo. Wilson é perfeita; e eu que a julgava tímida! Começo a crer que as pessoas tímidas estão singularmente aptas a dar provas de audácia na primeira ocasião...”      Na tarde de sábado, 19 de setembro, oito dias depois do casamento, Elisabeth, seguida por Wilson, deixa, sem ser notada, a casa paterna... para sempre! Está pálida, inquieta, perturbada. Leva “Flush” nos braços e afaga-o para o impedir de ladrar. XX RESSURREIÇÃO        A senhora Jameson encontra-se ainda em Paris, primeira etapa da sua viagem. Uma bela tarde de setembro, está estendida na otomana do seu quarto de hotel, em companhia de uma sobrinha que viaja com ela, quando lhe trazem uma carta. Mal a abre... solta exclamações de surpresa! É uma carta de Robert Browning, que lhe comunica o seu recente casamento, suplicando-lhe, em termos solícitos, que vá visitar Elisabeth, a qual está de cama, prostrada pela fadiga. Browning mostra-se manifestamente inquieto.      A novidade causa imensa surpresa à senhora Jameson que, no entanto, não perde tempo em comentários. Corre a casa da amiga... Encontra Elisabeth exausta, deprimida mais ainda pelas emoções e lutas interiores do que pelas canseiras da viagem. Encoraja-a; tenta também acalmar a agitação de Browning. A senhora Jameson abraça um e outro chamando-lhes “milagres da luz”; é feliz com a felicidade deles, aprova as suas decisões sem nenhuma restrição e assegura-lhes que se teria orgulhado de haver sido admitida como cúmplice. E escreve nestes termos a uma amiga de Londres: “Estou em companhia de um poeta e de uma poetisa célebres, que fugiram juntos, depois de se terem casado secretamente. Circunstâncias excepcionais obrigaram-nos a recorrer a essa solução extrema. São duas almas de eleição. Rogo a Deus que os proteja, mas não vejo como dois corações e duas inteligências poéticas poderão adaptar-se a este mundo prosaico.” A senhora Jameson arranja para os Browning, no hotel onde habita, quartos mais confortáveis. Dá provas à sua amiga de uma solicitude materna. Ao fim de oito dias, Elisabeth, reanimada pela infinita ternura do marido, sente-se já mais calma, mais forte e começa a interessar-se pelas belezas de Paris. Em breve se encontrará em estado de continuar a viagem, que será feita em pequenas etapas. São ao todo seis: A senhora Jameson e a sobrinha; Robert e Elisabeth Browning, Wilson e Flush; este último mostrar-se-ia perfeitamente satisfeito com essa vida errante, se as autoridades ferroviárias não lhe infligissem a humilhação de o fazer fechar, durante toda a viagem, num caixote como qualquer mercadoria vulgar! Os viajantes param em Orleans e em Avignon; nesta última cidade vão em peregrinação poética a Vaucluse. A senhora Jameson conta esse episódio a uma sua amiga: “No próprio lugar onde nascem as águas, Browning levantou a esposa nos braços e atravessou a vau o rio indo depô-la sobre um rochedo que se elevava como um trono no meio da corrente. E, assim, o amor e a poesia exaltaram pela segunda vez os lugares que a fantasia de Petrarca imortalizou.”      De Avignon dirigem-se a Marselha, onde embarcam para Livorno.      Finalmente, atingem o objetivo da viagem : Pisa. XXI PISA        PISA! Uma das deliciosas cidades do silêncio! Ruas adormecidas onde a erva cresce entre as pedras e onde grupos de crianças vagueiam de um lado para o outro; ruas estreitas, sombrias, que desembocam de súbito na grande luz do “Lungarno”. Uma paz imensa e uma tepidez primaveril parecem reinar ali perpetuamente. Momentos de uma arte incomparável se agrupam em maravilhosa e natural decoração.      Muito perto da praça do Zimbório, na rua de Santa Maria, num palácio do século XVI, pertencente ao antigo colégio “Ferdinand”, construído por Vasari, Robert e Elisabeth Browning instalam o seu primeiro ninho. E a vida começa-lhes tranqüila — como um sonho — toda impregnada de uma atmosfera de ternura íntima e profunda.      No decurso da viagem a Orleans, Elisabeth recebera notícias de Inglaterra; o excelente senhor Kenyon, com a expressão da mais calorosa simpatia, enviara paternais felicitações. “Miss” Mitford manifestara também a sua amizade e o seu interesse; sentia-se um pouco mortificada por nada ter adivinhado. Além disso, também o seu puritanismo de velha-donzela se perturbara perante esse casamento clandestino: “Se a minha amiga me houvesse metido no segredo, teria tido ao menos alguém para a acompanhar à igreja!” Chegaram também cartas das irmãs, cuja leitura fez assomar lágrimas aos olhos de Elisabeth: Arabella e Henriette não puderam ocultar a furibunda indignação do pai: “Que nunca mais, doravante, o nome de Elisabeth seja pronunciado nesta casa!” Também os irmãos — surpresa dolorosa! — a censuravam voltando-se para o lado do pai. Porquê? Porquê?      Em compensação, uma velha amiga residente em Hope End, a senhora Martin, não põe em dúvida, um instante, a retidão moral de Elisabeth; e, sem hesitar, absolve-a: se Elisabeth, apesar da sua natureza tão honesta e tão sincera, recorrera a esse meio supremo, fora por não ter encontrado outra saída. Defende a causa da filha junto do velho Barrett e dos irmãos. Desejaria poder transmitir para Itália uma palavra de perdão... É tempo perdido! Elisabeth, emocionada com esses pensamentos afetivos, escreve: “Recordarei até ao fim da vida o direito que a minha amiga conquistou ao meu reconhecimento.” Pretende então pôr essa fiel amiga ao corrente de todas as circunstâncias, a fim de que ela possa julgar com conhecimento de causa. Conta-lhe, por isso, a sua longa história de amor, dando, entretanto, livre curso ao desgosto que a penaliza no meio de tanta alegria. Robert deve ignorar os remorsos que vêm perturbar a felicidade de Elisabeth; esta quer que, para ele, o céu se mostre sempre sem nuvens. Recorda à velha amiga os anos da mísera juventude que teve. Evoca esse tempo “...com o terror que deve experimentar ao pensar na mortalha em que foi envolvido, um homem que, por um horrível engano, tivesse sido encerrado vivo num caixão! Somente o amor poude arrancar a mortalha colada já ao seu corpo! A recordação de horas tão trágicas não deveria incitar ao perdão aqueles que delas foram testemunhas?” A partir desse momento, Elisabeth manterá com a senhora Martin uma correspondência regular que só acabará com a vida. Escreve também grandes cartas a outros amigos da Inglaterra: Kenyon, Miss Mitford. Que dizem essas cartas? Elisabeth tem a alma como que deslumbrada pela luz interior que resplende no fundo de si mesma, enquanto os olhos se lhe deixam também encadear por toda a beleza que a rodeia. E repete como um estribilho: “Parece que estou sonhando!” Tudo a encanta em Pisa, que lhe revela a Itália: os “lugarni” cheios de sol, as laranjas de ouro ao alcance da mão, os monumentos testemunhando o esplendor do passado, dispostos como jóias, sobre o veludo verde da praça Zimbório. A senhora Martin viajara já pela Itália; conhece Pisa. E pergunta: “Já foi até à borda do mar donde se avista a Córsega?” Elisabeth responde: “Fui, sim! Estivemos na praia e vimos a ilha de que me fala, mas Robert afirma que se trata da Gorgonne e não da Córsega. Seja qual for, essa ilha destaca-se maravilhosamente no azul das águas”. Tudo encanta Elisabeth; as longas excursões de carruagem por entre as matas de pinheiro de “San Rossore”, os curtos passeios a pé, durante os quais “se senta sobre uma grande pedra para seguir as evoluções dos luciolas que brincam com os raios de sol”. Saboreia a doçura do clima de novembro, tão diferente do mês de novembro em Inglaterra. De quando em quando, experimenta uma espécie de embriaguez ao sentir-se invadida pela seiva da saúde readquirida. “A senhora Jameson dizia-me ontem: A saúde da minha amiguinha não melhorou, transformou-se”. E assim lhe decorre a vida, uniformemente suave como um belo sonho, numa atmosfera de ternura íntima e profunda! Como é acariciante, quando a noite chega, o calor do fogão onde a lenha se transforma em brasas! Após uma ceia frugal — castanhas assadas e uvas — os esposos evocam juntos as impressões do dia. Freqüentemente, Browning abre um livro italiano; e o poeta, com marcada pronúncia estrangeira, mas com fervor, faz ressoar no salão os harmoniosos períodos do idioma de Dante. XXII SONETOS TRADUZIDOS DO PORTUGUÊS        ROBERT Browning, de pé em frente da janela do salão, prepara-se para escrever... Os dois poetas trabalham durante a tarde; são as únicas horas em que se separam. Elisabeth sobe geralmente ao seu quarto, situado no primeiro andar; Browning fica na sala do rés-do-chão. Nesse dia, Elisabeth está já no quarto... mas a porta da sala entreabre-se docemente. Browning ouve um passo ligeiro aproximar-se; uma pequenina mão colocada sobre o seu rosto impede-o de se voltar; uma outra mão introduz nos bolsos do poeta uma porção de laudas cober