KOREAEBOOKDOCUMENT1.3.0Abraar Ordenhar AleitarJorge Lucio de CamposAgulhaeBooksBrasil#zaoa8.jpg7aoa9.jpgt'aoa10.jpg=zaoa11.jpg%jorgeluciodecampos.jpg#fernandovelazquez.jpg Abraçar Ordenhar Aleitar Jorge Lucio de Campos Fotografias Fernando Velázquez Projeto Gráfico Socorro Nunes Edição Agulha Versão para eBook eBooksBrasil.com Fonte Digital Documento do Editor Copyright: © 2001 Edições Agulha ÍNDICE O jogo da arte: a vertigem em Jorge Lucio de Campos Floriano Martins a matemática dos melões a crueldade paterna disfarce chinês (primeira versão) disfarce chinês (segunda versão) o império das luzes composição oval longe-perto um táxi chuvoso os bons tempos antropometria inveja pra mim o amor é isto a tentação de santo antonio paisagem bárbara abraçar ordenhar aleitar eternidade o acontecimento a tristeza do clã os dias gigantescos a dor da linguagem rezar sem interrupção o despertar da consciência et pour cause diálogo com a juventude migração moderna do espírito idiossincrasia observação minuciosa (primeira versão) observação minuciosa (segunda versão) observação minuciosa (terceira versão) sucção anamorfoses amizade Autor Fotos Abraçar  Ordenhar Aleitar Jorge Lucio de Campos Coleção Resto do Mundo Edições da Agulha/eBooksBrasil O jogo da arte: a vertigem em Jorge Lucio de Campos A poética de Jorge Lucio de Campos soma-se às reflexões sobre a obra plástica de inúmeros artistas, ensaios que vem publicando em livros e revistas, na condição de uma vertiginosa compreensão do que ele próprio já chamou de a dor da linguagem , belo título de um livro de 1996. Neste livro, aliás, logo no prólogo Marco Lucchesi o chama de "poeta peregrino", no que acerta por completo, tanto pelo sentido de rara beleza que ali alcançam as imagens como pelo incansável percurso desfiado por Lucio de Campos à procura de uma voz interior que o distinga da paisagem à volta, ao mesmo tempo em que lhe afirme, com base na própria individualidade, como parte essencial dessa mesma paisagem. Não à toa a idéia de incomunicabilidade que o título sugere é igualmente uma afirmação de seu revés, o dentro e o fora como vasos comunicantes, interrelacionados. Em um livro seguinte, uma vez mais no título a chave para o entendimento de uma poética: À maneira negra (1997), sugerindo uma nova faceta da dor da linguagem, a aflição do transitório, como acerta Carlos Lima no prólogo, sim, mas também o conflito da simetria, pois ali se percebe, mais do que em qualquer outro momento da poesia de Lucio de Campos, a tensão entre homem e natureza – uma indagação lancinante se encontra em poema dedicado a Escher: pode a linha do corpo / a cada hora do dia // por no rosto uma cor / não constante? E logo: pode a esfera / começar o transe // sem que nada / mude? A propósito de Escher, cabe lembrar que também este livro confirma a plasticidade de uma poética, a afirmação de uma visão de mundo através do diálogo com inúmeros artistas, a rigor: com a obra desses artistas, com os silêncios, as iluminações, recortes, sombras, fluir e refluir de outras linguagens caídas em um mesmo abismo de identificações. Lucio de Campos não oculta a conversa que mantém com o mundo, a fonte de experiências dos poemas, ao contrário: vê em tal revelação uma forma de convivência, o que, inclusive, lhe dá a medida de um conhecimento, precário, dolorido, turbulento, sim, e por isto humano. E observo ainda que esses diálogos nos levam a compreender que não há motivos para que escritores, músicos, pintores, quaisquer artistas, vivamos em mundos isolados, como se não fosse a mesma a dor da linguagem. Em um ensaio intitulado O poema em prosa como forma em evolução , Robert Bly gera um delicioso comentário de Heriberto Yépez, que o traduziu para a revista mexicana Paréntesis , quando este menciona "a diligente percepção intelectual e a intensa descrição amorosa que exige o perfeito poema em prosa". Bly concentra-se na eleição por um objetc poem , a exemplo do praticado por autores como Francis Ponge, Tomas Transtrmer, Murilo Mendes, José Antonio Ramos Sucre. Refere-se a uma "composição integral", cuja medida essencial é dada não por um padrão – o metro, a estrofe –, mas antes pelas "mudanças que a mente tem enquanto observa". Se me estendo aqui na referência o faço pelo fato de que Lucio de Campos tem praticado o object poem com uma freqüência considerável, o que inclusive nos leva ao presente livro, na verdade uma recolha de poemas em prosa, em grande parte já inseridos em outros livros, que constituem uma afirmação dessa poética de exceção com a qual se identifica. A idéia de um aprendizado ou convivência com o "jogo do mundo" a que se refere Badiou, logo na epígrafe de Abraçar ordenhar aleitar , me parece que nos leva a uma discussão já apontada por Bly, ao mencionar que a idéia de forma fixa está ligada ao homem e não à natureza. Recordemos o comentário acerca de À maneira negra , quando me referi ao conflito da simetria. Bly acentua: "a forma na natureza remonta à tensão entre a espontaneidade individual e a rigidez impessoal". Então relacionemos as tensões, de reflexão e criação, sem deixar de perceber as linhas de acesso à impessoalidade e o que Bly chama de "forma pessoal que deseja adquirir" o poeta. Lucio de Campos nos mostra em Abraçar ordenhar aleitar uma confluência admirável que lhe define a poética. De exceção? Sim. A ruptura com um clima harmônico de dizer está presente, mas sem deixar de atentar para a elegância do discurso. Acentuar a condição de exceção, no caso brasileiro, exige uma leitura outra, já de muito necessária, de compreensão daquelas zonas de tensão apontadas por Bly. O presente livro de Lucio de Campos situa desdobramento e confirmação de uma poética. Não se priva de um diálogo com o mundo, antes o afirma à maneira da própria vertigem, longe da impessoalidade como evasiva, mergulhado na matéria ressonante da existência humana. Floriano Martins Pensar não é o escoamento espontâneo de uma capacidade pessoal,mas o poder, duramente conquistado contra si, de estar obrigado ao jogo do mundo. A. Badiou a matemática dos melões a Markus Lüperz Há dias em que um astrônomo nada pode fazer: a luneta, fatalmente, repousará na estante. Em outros, pregar o olho é tarefa árdua. Cultivar a astronomia implica num velho receio: o de que a noite, ofendida com a indiscrição, queira castigá-lo. Convicto de que o firmamento, de fato, possa e venha puni-lo, nosso homem já não glosará a poesia celeste. Horas se escoarão inutilmente. Ele, sem alternativa, se porá à espera... Já há muito a ciência não evolui. Para o alívio do universo...   a crueldade paterna a David Salle Observando daqui o nado ágil de minha filha, já quase não comporto tanto orgulho. Olhos atentos, acompanho a trajetória de espuma que as braçadas desenham na superfície aquática. Aos poucos me convenço de que, de fato, nada pode ser mais belo. Fora isso, tudo parece banal e o nível de hipocrisia diminui numa situação como esta: um pai – sentado em seu banquinho à beira da piscina – interrompe o bate-papo e se dá conta de que a filha nadadora está bem à frente, com seu jeito cetáceo, num jogo de imersões e empuxos que só as boas águas propiciam. Não devo reclamar quando os presentes tecem, boquiabertos, rasgados elogios. Afinal, afora a técnica impecável, o desempenho da menina, por si só, impressiona. Sua habilidade em chegar ao fundo, tocar os últimos ladrilhos e lá permanecer durante horas sem que isso a aniquile, é digna de louvor. Mas a aparência de minha filha – sua forma binária e esdrúxula – pode gerar cochichos e, de minha parte, sobram risos amarelos. Aprender a lição por mais que dirija impropérios (ou mesmo peça desculpas) à platéia - um golpe de ar na cena faiscante.   disfarce chinês (primeira versão) Na cidade de Kan-Sou, província de Yun-Kang, as gangues locais raptaram o marido da Sra. K'i e, graças a uma antiga desavença, devolveram-no degolado à família. Durante dias, a viúva procurou o que faltava. Penalizado, um exímio nadador da região explorou as águas barrentas do rio Tchong, afluente do Louan-Yan, responsável pela irrigação de 3/4 dos arrozais de Kan-Sou. Certa vez, recolheu num saco vinte cabeças. Em tempo: ali não estava a do infeliz Sr. K'i.   disfarce chinês (segunda versão) A revolta acompanhou o vento que veio sem muita pressa e, sem muita pressa, espalhou-se entre os montes humanos. Por todos os lados, vestígios marcados de uma juventude esquecida, de um profundo langor retido no peito. Não houve submissão ou dissidência: os montes humanos formaram montanhas e os vestígios marcados ficaram no fundo. Formarão cordilheiras e assim será – eternamente – essas coisas impossíveis de definir.   o império das luzes a René Magritte Tenho um curioso amigo. Os espelhos insistem em negá-lo, mas não importa: cá está como sempre tem feito. Visualizo a cena: seu vulto indecifrável avança, transpõe as barricadas, aproxima-se e beija meus lábios... Se esvaece, depois, sem que eu chegue a tocá-lo. Fim da espera: luminoso, ele ressurge bem à frente. Debruça-se e novamente me beija. Algo então foge pelos poros e, engatados, devoramos as nuvens.   composição oval Não me resta outra alternativa que a miséria. Colher nas fontes a água limpa pela luz do sol. Talhar uma torre de marfim. De resto, somente a vontade de chegar à terra que me foi prometida – assim como foi a Abraão – e construir nosso castelo. Reerguendo a casa, afugentar a miséria. Porém sustentar a fé requereria o sacrifício de meus possíveis filhos – assim aconteceu com Isaac – e replantar os filhos desses filhos. Tecer a estrada que me conduzirá ao ponto de partida é tarefa que não poderei cumprir. longe-perto a Bernd Zimmer Desagradam-me as descrições, mas, perto dos estábulos, presenciei seu banho e apreciei o fato. Pouco importou o resto: cativaram-me os giros, os movimentos de surpresa ao redor do chuveiro. Ela nem mesmo estava nua. Apesar das lentes sujas, contei buquês na vagina e, em cada botão, alternativas. Um espetáculo lindo e irreal: ramos, vasos, tatuagens...   um táxi chuvoso a Salvador Dali O que é o universo: um animal que muda a todo instante, se opondo à morte... Daqui se vê uma colina verde, uma nesga de céu, uma nódoa vermelha. Sou uma imagem que se furta... mas como pintar um grito, a agressão do mundo, essa impotência lívia que se chama fuga? Exposto em meu leito, virado pra janela, não sou belo ou feio: "Foi crucificado" - alguém suspira.   os bons tempos a Balthus Ocorria-lhes remoer os mesmos papéis. Não notavam que, do lado de dentro, um cheiro de peixe exalava em tais ocasiões. Um que, sem circunlóquios, em geral, se expandia, em limites fixos, pela extensão da sala. Sempre fora assim: não havia porque mudar. Em nome dos bons tempos, manter-se-ão a postos. Ao pé da lareira – há muito acesa – desaguando juntos o langor das horas.   antropometria a Yves Klein O quarto ficava a alguns passos do nada onde, em atletismos curtos, o sol trincava as paredes mal pintadas. Havia mais sombra que luz. Um semblante de cansaço que nos fez sofrer. Ela tirou da bolsa uma navalha e pediu-me que a cortasse. Uma estranha sensação começou então a retinir. Conforme a lâmina agia, a pele esticava, tentando compensar, em vão, a falta de estofo. Em nenhum momento, contudo, pediu-me arrego. Já perto dos quadris, estoquei mais fundo. Antes que a enchesse de dor, uma borboleta trêmula cruzou o ar bem à frente: "Estou conseguindo!" À medida que se fendia, ela mudava. Atendendo a meus caprichos, virou, de relance, um paletó, um urinol, uma capa de chuva... O zíper desengatou-se e, por um instante apenas, conheci seu auge. Um dedo, um punho, um braço inteiro se desfez dentro dela. Ficaram, sob as unhas, os trapos daquele dia.   inveja a Edvard Munch Desde a mais tenra existência, um único desejo me tem arrastado: o de igualar, em minha insignificância, a grandeza do Criador. Após um primeiro risco na escuridão – um passo, salto ou esforço de pensamento – assim continuei sendo: sempre a querer entender-me, sempre a tentar estender-me – sem que eu mesmo perceba – rumo ao infinito, na vã tentativa de ser o infinito. Mas só Ele sabe o quanto resta... pra mim o amor é isto a Jürgen Klauke "Odeio bonecas!" Faço o que posso para mostrar-lhes isso. Basta um simples descuido e elas grudam em você. Esbarrei com uma dias atrás. Sugou-me em plena matinê e ainda ousou declarar-se, na saída, em voz alta, na frente de todos. Alterado, grunhi de volta: "Porra, eu não te amo!" – e não cansei de repetir, quebrando, a pontapés, suas costelas. A mesma cena se repete vinte vezes na vidraça.   a tentação de santo antonio a Claudio Bravo Há muitas maneiras de se dizer o óbvio. Às vezes, já bem posta a luz do dia, o sol se cobre de manchas engraçadas e danamos a rir, um pouco alucinadamente, ainda mais velozes que o caos em nossos cabelos. Outras vezes, contudo, nada tem a ver com nada e nossos risos – eles próprios – se interrompem. As bocas, visivelmente perturbadas pelo silêncio, começam a salivar e o mar se esvai numa língua de fogo.   paisagem bárbara a Nino Longobardi A sombra desviou os olhos, mas foi difícil acreditar: num ritmo sincopado, o animal farejava nos ombros. "De que sorriria? De que mal sofreria?" Se me curvo, contemplo os anéis de sua cauda. Pra tirá-lo da cabeça, afago-lhe o dorso, ofereço-lhe o colo, deixo que me excite... Apresso-me, depois, em mandá-lo às favas. "Afinal, o que quer comigo?" – provoco. Seria bom detoná-lo logo. Importa saber algo a respeito? Sei que, o tempo todo, ficará por perto. Entre um trago e outro, uma cheirada e outra, no blá-blá-blá de sempre... Lá fora a porrada come.   abraçar ordenhar aleitar Visão que se impõe, a dos amantes. Após o coito – garbosos como nunca – ainda trocam carícias. Mesmo sem estarem prontos, brincam, respiram o mesmo ar (ao mesmo tempo), sabendo que, cumprido o ritual, haverá sempre a chance do retorno: num pulsar ou piparote, enfim, em algo que os traga à tona. Nada mais difícil do que amar, contudo. No fim de cada assombro, deverão ficar em silêncio, não porque estejam certos ou errados (ou aguçados seus ouvidos). Na orla da tarde – alfarrobas zonzas e, em certa medida, na usura do dia – uma vez mais se sufocam e perecíveis soçobram; ordinários, feios, hiantes se arrogam. eternidade Somente ontem dei-me conta do que sou. Percebi que, ao longo da vida, jamais tropecei numa escada ou fui atropelado ou briguei com alguém. Sei que parece bobagem, mas se contar as vezes em que vivi tais experiências – as centenas de ocasiões em que subi e desci degraus, cruzei perigosas vias, abaixei os olhos, fingindo não ouvir as afrontas a mim dirigidas por toda espécie de gente – ou seja, o número de vezes que, nesse sentido, fui posto à prova, é justo que me envaideça. Em função disso, acho também justo que, presunção à parte, eu possa, lá no fundo, considerar-me um herói... Quase eufórico, permito-me ir ainda além: de agora em diante, assumir-me-ei e comportar-me-ei como um, mesmo que tal descoberta só repercuta nos limites de meu mundo. Resta-me, portanto, estufar o peito e, sorrindo, juntar-me à multidão.   o acontecimento a Richard Shaffer Sob um facho de luz, peço vênia. Ao menos pretendo. Esse o fato: lamento não fazê-lo melhor. Tudo constitui um código: a chaminé ensimesmada, a máquina-sofá, o relógio e o tempo, o boudoir e os retratos, as paredes e a cruz. ...De algum modo, tudo justifica a ordem construída nas malhas do ar. Querendo ou não, é como digo: há uma arché em toda a casa; será difícil quebrá-la. Devo ter razão: ao fim de mais um dia – expressão de algo que não quero – "só havia o facho lá dentro, eu juro".   a tristeza do clã Se alguém, por maldade, pingasse veneno em meu dorso, dele desviar-me-ia – graças a algum providencial malabarismo – sem maiores problemas. Contudo, para meu azar, talvez um salpico me atingisse, o que bastaria para condenar-me a agonizar entre os bules e as xícaras, no breu implacável da cozinha. É deveras ingrata a morte adiada. Dói imaginar os pares fuçando meus restos num covil qualquer... Dói antever-me embrulhada, pernas recolhidas em decúbito dorsal... Porém o que mais dói, já apagadas as luzes e o caso de vez encerrado, é servir de pretexto – apenas de pretexto – para a tristeza do clã.   os dias gigantescos a René Magritte Houve uma ocasião na vida em que me iludi com o mundo e acreditei em seu bom acabamento. Isso porque o observava de longe e, de minha janela, não me dava conta da inconsistência dos rios, nuvens e montanhas. Contudo, à medida que amadureci, pude notar que, ao redor, havia apenas uma obra inacabada, ainda muito longe de uma eficaz solução. De lá pra cá, tal sentimento, infelizmente, só tem se reforçado. Agora mesmo, ao caminhar por aí, meus olhos – hoje tão detalhistas – logo percebem que imperceptíveis vigas sustentam as coisas num equilíbrio improvável. E que, vindo de todos os lados, inúmeras galerias se cruzam, sendo que, ao fim de cada uma, centenas de outras conduzem a tantas mais. Creio que passarei o resto dos dias tentando esquematizá-las. Certo de que há uma saída – e de que há muito a fazer em relação a ela – impus a mim mesmo a tarefa de sabotar, no jogo do eterno e do infinito dessas galerias, quantas vigas puder. Quem sabe assim desmascare a farsa do mundo e alguém se habilite a arrematá-lo... Quem sabe assim – quiçá na derradeira chance – as partes possam conceber um todo. a dor da linguagem De que adianta tentar? A dor da linguagem sempre impediu-me de dizer o resto, do único modo de que disponho. Pra mim, de fato, é o que importa: não passar de um olhar sereno que, com o tempo – e sobre o tempo – virará um anjo e, mais claramente ainda, um lugar oculto onde poderei, enfim, arrojar-me, sem problema algum.   rezar sem interrupção a Bill Viola Deceparam-na, mas o corpo, que ainda não sabe, continua a agitar sua máquina. As mãos apalpam – como se quisessem digitar o vazio – a medula espuma, os nervos disparam raios, as pernas galopam esbaforidas... Tudo se resume a um esforço inútil que, em alguns minutos, não fará mais sentido e o que era uma usina de vida virará uma peça de açougue exposta ao vento, aos insetos, à desagradável deterioração . Feliz só mesmo ela que, cuidadosamente contida num saquinho plástico (um mais que providencial espaço térmico), já não pensará como antes, já não sofrerá como antes, já não esquentará a própria cabeça.   o despertar da consciência a William Holam Hunt Eu e minha mulher convivemos há tanto tempo que nos tornamos, sem perceber, uma só pessoa. O grau de nossa semelhança é sutil e ultrapassa o plano fisionômico. Somos, de fato, quase gêmeos no que tange aos trejeitos, cacoetes e gestos. Amigos já nos haviam alertado sobre tal peculiaridade. Nossas idéias foram adquirindo uma funda afinidade quanto às grandes causas e questões, embora difiramos sobre coisas triviais: a cor preferida, o tipo de literatura, os hábitos alimentares, etc. O tipo de mimetismo que só o matrimônio proporciona é estranhamente belo, atraente, cativante... Hoje entendo porque determinados casais não só nascem juntos, como também sorriem, choram, padecem e até morrem do mesmo jeito, como que arrastados por uma estranha teia de verossimilhanças que, casualmente ou não, os torna, mais que indivíduos, uma perfeita amostra do que se poderia chamar, por ora e provisoriamente, de necessária e inexorável humanidade.   et pour cause Só me resta um fragmento, um fragmento pensado de mim, passado ou impensado, ou melhor, esquecido de mim. Algo que de mim se desgarra e sorri e, com desdém, se isola no que há de mais negro em mim. Primeiro vai o braço e, junto com ele, os dedos, as unhas, a terra de um poema não-feito, ainda por ser. Depois vão as pernas e, junto com elas, a vontade de ir além, de ser mais do que se carece, de ser menos do que se espera. Por fim, vai o tronco desmembrado, arfante e em soluços, aferrado ao pouco chão que resta. E à cabeça que só pensa, que só faz pensar, sobrevém parar e, objetivamente, ensaiar uma elipse, um novo ponto a luzir no quarto escuro.   diálogo com a juventude a Martin Kippenberger A visão dela persistiu durante a noite, metida num maiô listrado, dourado e negro, sentada num banco arruinado pelo tempo, sorrindo já sem nenhum traço, a pele brilhante no claro-escuro da cena indizível. Mas aí acordei e dei-me conta de que era a hora de descolar os olhos, levantar-me da cama, pôr pra fora o membro teso e, então, urinar, urinar, urinar na pia até dizer chega e, depois de um banho rápido, penteados os cabelos, borrifado o tórax com um perfume barato, trocar de cueca e, de novo, começar a morrer, lentamente, a morrer, lentamente....   migração moderna do espírito a José Clemente Orozco Diante das trevas que, há muito, tomam de assalto minha vida, não vejo outra alternativa que brilhar intensamente. Pois é assim que as coisas são: por mais que você se empenhe ou esforce num ato de inútil apagamento ou mimetismo das pistas, o que brilha é o que conta, seja um qualquer-um ou mesmo o sol ou a lua ou um escaravelho em meio-tom ou a brisa enferrujada que nos enche a pele de rasuras ou os espaços entre os astros desenhando um outro céu fosforescente. Por isso, de agora em diante, tratarei de reunir-me a eles: expor-me-ei sistematicamente à luz, de modo a incorporá-la a mim mesmo. Ou melhor: tentarei fabricar a minha própria, expulsar de mim tudo que é negro e, inebriado pela nova condição, fazer muitos vaticínios, dar declarações bombásticas, retraçar livremente o curso da história e isso bem antes de tornar-me um prisioneiro de meu próprio factóide, de desvelar de vez a fatalidade que guarda todo brilho forjado.   idiossincrasia Há dentro de mim, quer eu saiba ou não, quer eu queira ou não, raízes profundas, vínculos marcantes que, me ligando inapelavelmente aos outros, comprometem minha maneira de ser: a minha própria, quem sabe a humana... Por inconveniente que seja, é com ela que sempre terei a ver, que acertar as contas, agora ou mais adiante, porém inexoravelmente . Mesmo que, de forma pouco hábil, brinque com isso e esqueça que assim as coisas são – e m mim e para mim – sei que estas são as regras de meu jogo, que só assim poderei, um belo dia, funcionar pra valer. observação minuciosa (primeira versão) a James Valerio No embotamento da noite, nada a fazer senão sentar e esperar. Mas tal ato levar-me-á a pensar e, por fim, fará com que me sinta outra coisa. A solidão é sempre muito dura nessas horas. A cabeça normalmente gira e as idéias, numa pirueta indescritível, disparam a fazer conexões (em sua maioria, gratuitas) entre as coisas ao redor. Nada demais até então. Nada que impressione ou que valha a pena registrar: uma régua, o telefone, o despertador, os papéis de sempre, um submarino de brinquedo, ali misteriosamente 'esquecido', talvez por engano (ou mesmo de propósito), só para atrair uma atenção imerecida... Cena simples demais pra funcionar a contento. Ou adequada em demasia na coincidência dos fatos. Sob tal ótica, tudo acabaria bem se não me visse compelido a pensar e, dentro de pouco tempo, encharcado de suor – vexado por expor meus limites – não abandonasse a sala, num movimento brusco, sem nada escrever...   observação minuciosa (segunda versão) a James Valerio Penso quando quero e mesmo quando não preciso. Neste caso, penso quando meu pensamento, aparentemente, quer que eu pense ou, pior, me ordena que assim o faça ou, ainda, quando ele próprio decide pensar, sem mim ou minha anuência, num absurdo ato de egoísmo e solidão cerebral. Aí me torno um joguete de meu pensamento e é duro demais, por vezes, admitir isso. Penso quando me perfilo diante de uma folha em branco, quando me deito à sombra de uma árvore, quando passeio numa tarde enevoada ou quando me misturo com o meu silêncio e passo a imaginar geometrias luminosas, amorfias que se multiplicam e transmutam no buraco solto do imaginário. Há muitas máquinas dentro de um homem: as que geram, elaboram, aperfeiçoam e as que matam, destroem, desperdiçam. Há as que farejam, devoram, vomitam e as que sentem o que não devem e ensejam o que não vale a pena. Assim ocorre quando penso, seja com o que penso , seja com o que pensa em mim . Ora crio utilidades, renovo conceitos, elaboro sentidos que preenchem muitas frestas – quero crer que sejam sentimentos puros – ora transtorno tudo ao redor, amasso-o como as páginas de um livro caduco e depois jogo fora, inclusive o que me diz respeito, como se já não precisasse nem um pouco de mim. Todo este maquinário sou eu mesmo nos termos do bem e do mal, porém continuarei pensando e insistirei nisso. Como se isso bastasse, nessa condição tão pouca, pra que eu venha a existir...   observação minuciosa (terceira versão) a James Valerio Subitamente me viro e, insone, contemplo os objetos espalhados sobre a escrivaninha. Não são muitos e os identifico a todos, sem problema, rapidamente... Sua desordem é uma espécie de ‘outra ordem’, pois me satisfaz de algum modo. Levanto-me, vou direto ao baú de miudezas e de lá tiro algo insólito, que não consigo, por mais que tente – por maior que seja o meu empenho ou boa vontade nesse sentido – identificar, descrever ou nomear. Uma vez escolhida a coisa, passo a perscrutá-la, sob a luz da lanterna, a apreciar sua configuração, a capturar, com paciência, suas formas. A questão parece inevitável. A interrogação vem logo à boca e perturba a língua, desarranja a fala. Ei-la que surge, a pergunta que, afinal, não quer calar: o que é isso? O que é esse artefato em minha mão que, diante dos olhos, custo tanto a assimilar? Engraçado como, em tais circunstâncias, quase sempre se diz: " como é isso?" Na verdade, tal pergunta é tratada como se fosse outra, a saber: " como isso me aparece? ", ou ainda, " que aparência isso tem ?" Sei, contudo, o quanto elas diferem entre si. No fundo, basta que se pense um pouco mais pra se perceber que a primeira pergunta é irrespondível, quase perversa em sua impenetrabilidade, quer se refira a um ente qualquer, simples em seu dar-se a nós (um apontador, uma cigarrilha, uma lapiseira, etc.) ou de um outro cuja complexidade é bem maior: um ser humano, por exemplo. Arrisco novamente: "afinal, o que é isso que chamam de homem". Inúmeras foram ou têm sido as definições propostas. Elejo uma delas, ao léu de um livro, qualquer uma... Apelo a Cioran que diz: é um gorila que perdeu os pelos e os substituiu por ideais, um gorila com luvas, forjador de deuses, agravando suas caretas e adorando o céu . Ou a Carrossa que assevera: é a única criatura da terra que tem vontade de olhar para o interior da outra . Ou ainda e, simplificando bastante, a um dicionário que garante: é qualquer indivíduo pertencente à espécie animal que apresenta o maior grau de complexidade na escala evolutiva . De um modo ou de outro, sei que não acabarei sabendo o que é exatamente a coisa-homem, o isso-homem. No máximo, poderei dizer como sinto a sua trama: carne, ossos e tendões de que sinto o cheiro, o toque na pele que não me agrada, o gosto que não aprecio... Sem dúvida, as outras miudezas do baú, em sua enorme dificuldade de definição, não são, comparativamente, tão trabalhosas. Ao menos, me soa indiferente tentar defini-las, pois já disse: não são muitas e o fato de poder identificá-las ou não, sem problema ou não, de pouco valerá para alguém a essa hora. Decerto também não vale a pena perder o sono por tão pouco. Às quatro da manhã, creio que o melhor a fazer é virar para o lado, tentar de novo adormecer... sucção a Helmut Newton 1 Desabar será sempre assim: uma espécie de cut-up? Primeiro os dentes, agora os pelos; tudo cai, se descola, despenca. 2 Isso já não cabe aqui. Sentirei o que ao engolir meu gosto? É como dar um passo sem sair do lugar; andar e aspirar e morrer e crescer e falar sem as coisas. Preferia deleitar-me, desolar-me, cavalgar no grelo ocre da lua-esporra cagalhão safira. Outros dias surgirão desse mau hálito. 3 Ou pior: nada de estranho nisso: fechar os olhos na hora certa, pois já disse coisas vãs antes. Estava tudo aqui dentro, aos poucos, desnorteio indomável. Apesar de tudo, ainda me estico, apesar de improvável pra quem quer que seja. Acima de tudo, um orgasmo nos mamilos. 4 Lamento que assim seja: extensão do microondas beige do maleiro das bancadas do closet. Já não capto detalhes no flou de losangos onde a angústia de sempre fustiga. Tornei-me um uivo entrecortado; no fundo, a expressão de algo que não eu mesma. 5 Soube de mim por acaso e não me importo. É o que basta por ora. Algo por acontecer. Haverá coisa mais ota? Saltar daqui pra ali sem saber porque? Assim tem sido: comichões na escápula – como muitos podem pensar – numa delas, ou melhor, com certeza. Alguém aqui ousaria censurar-me? Alguém aqui não o faria? 6 Talvez tenha dito isso. Pois bem: assovios nada ingênuos; na goela um farol e the ant o jobem ri utr calcanhar de violetas. Não há dúvida: como se vê, assim tem sido. Polaina que se ajusta à aura rude da cambraia das lágrimas. 7 Nem sei direito. Gostaria que, de fato, ocorresse algo: baleia-de-bryde entre tantas amostras do que sempre quis ser. Eis que me sinto esquiv a porosa que rend omem order. Bastaria que os olhos se abrissem e, de repente, omundot odo se encaixasse. 8 Na voragem de braços, raspar a boceta ao meio-dia. anamorfoses   CATILINA (Aprox. 108 - Pistoria, 62 a.C.) Após render-se, Catilina pôs os olhos no infinito, a ele se agarrando como não ousara antes (nessa posição permaneceu, durante dias, repelidos os escrúpulos). Já abafada a conjura e as penas aplicadas, foi enfim executado. Em inesperada romaria, a cidade foi ao local onde, ao que parece, até o último instante, seu olhar putrefato a todos encarou, clamando, é claro, por justiça.   GAMBETTA (Cahors, 1838 - Auray, 1882) Mal sabia Gambetta que a liberdade – embora alguns alardem o contrário – não foi feita para os homens. Durante anos, dignou-se a pregá-la inutilmente. Abatido com a apatia universal, decidiu acabar com a própria vida e fazer disso um corolário. Assim feito, simplesmente sumiu, sem que ninguém notasse. Só bem depois foi encontrado. Arrombada a porta, seu corpo estava no vestíbulo. As pernas, apoiadas num degrau, gozavam a liberdade do que já não pode se mover.   MOHAMMED DE GHOR (? - Damyak, 1206) Logo após derrotar os Punjab e fundar o sultanato dos Ud Nin, Mohammed de Ghor caiu em profunda prostração. Movido pelo que considerou ser um sinal divino (viu, durante toda uma noite, o próprio rosto estampado nos prados afegãos), chegou a duvidar da nobreza de seus atos. Depois, já inteiramente cego pela fé, levou a destruição a todo o norte da Índia. Os que sobreviveram-lhe à espada, afundaram sob o peso de sua sanha. A partir dali, a maior infelicidade de um Mohammed passou a ser a não-semelhança com o outro. A fidelidade dos traços é, ainda hoje, uma dádiva no Oriente.   FLORENCE NIGHTINGALE (Florença, 1820 - Londres, 1910) No corredor principal, ela cochila; e a luz escalena que a inocula, se não toca o cão que a guarda, ao menos o abençoa.   PUGATCHEV (Zimoievskaia, 1742 - Moscou, 1775) O que há de pior em Pugatchev é sua indefinição física. O nariz parece um pé e o queixo se contrai a toda hora como um ventre furibundo. As mãos puxam aos joelhos e os artelhos pouco distam entre si. Há rugas demais na fronte e olheiras quase impedem-lhe a visão. Há quem veja no valente campônio um 'corpo glorioso' ou nele conceba um 'puro espírito'. Em minha modesta opinião, ele mais lembra um ente demoníaco ou algo mais inútil: o ranger de uma calha, talvez, num dia quente de verão.   SHOTOKU (Japão, 572-621) É curioso que na construção do templo de Horiuji tantas pedras tenham sido utilizadas. Poucos sabem, no entanto, que o intento de Shotoku – na condição de homem forte da Imperatriz Suiko – foi apenas resguardar a aceitação da fé na região. Acreditava que assim encarceraria os maus espíritos que a ameaçavam. Habitantes silentes das paredes e nichos do templo, aquelas entidades aguardam, pacientemente, desde então... Quiçá na expectativa de que forças naturais (um terremoto, um raio, etc.) ou um descuido – ou mesmo a má fé – dos homens possam um dia libertá-los e, assim, reinarem num mundo pronto para a adoração.   PIERRE VALDO (França? - 1217) Sobre Valdo, que se celebrizou pela extrema pobreza, diz-se que foi tentado por um anjo que, durante o sono, prometeu-lhe as riquezas do céu se abrisse mão das suas na terra. Movido pela cobiça do divino, diz-se que dividiu o que tinha com os pobres de Lyon que, sendo muitos, lhe tiraram tudo. Por um capricho da história, veio a tornar-se um doutrinador. Acusados de heresia, seus seguidores foram sendo lentamente eliminados. Ao que parece, ele foi o último. Diz-se ainda que, na mais extrema penúria, restaram-lhe as lágrimas. Que o resto de sua vida resumiu-se a uma empresa inútil: chorar por Deus e pelo prejuízo.   WANG MANG (Imperador chinês de 9 d.C. - 22) O maior problema de Wang Mang – o mais jovem soberano da dinastia Han - foi decerto a feiúra. Poucos saberiam mesmo conviver com esse percalço. Bem ou mal, ele aprendeu a fazê-lo e um esgar nada convincente marcou-lhe as feições, cravando-as num tempo de expectativas. É certo que se indispôs com quase todos. Os camponeses culparam-no por suas desditas. Os Grandes Senhores acharam-no por demais burocrático. O fato é que, mesmo agraciando aqueles com terras (o que desagradou a estes), para em seguida confiscá-las (agradando a estes, mas não àqueles) foi deposto por conspiradores que nem chegou a conhecer. Além dos dados relativos à sua morte (sabe-se que sua cabeça foi lançada num abismo), restou-lhe a dimensão mítica. Os chineses o representam como um cavalo cujo focinho se contorce num esforço indefinível. O que, afinal de contas, estaria fazendo? Simplesmente rindo? Do que então? De si mesmo? A verdade de Wang Mang – e o grau exato de sua feiúra – evaporaram-se na história e é difícil concebê-las com firmeza. amizade a Michael Andrews 1 Acabou de ler a própria perna. Deitou-se na relva, traseiro empinado, tostado de sol. Um odor de cânhamo castigou o ar. Impacientou-se. O amigo sempre vinha por ali, naquele horário, assobiando. Em verdade, parecia flutuar, tinha vocação pra isso. Cada passo estalava na relva, sangrava o silêncio que, no campo, era ouro e impressionista. Tempos atrás, ainda pequeno, explorara o local, conferira-lhe a ordem. Mesmo assim, insistiu em voltar e seu corpo veio à tona quando a fleuma permitiu. 2 Havia um céu oposto ao que era antes. Talvez não houvesse motivo para marejar os olhos, a cabeça cheia de vagares, o corpo espetado por sensações. O mundo todo se espalhara. – Está a caminho... 3 Por vezes, discordava de si mesmo. Pensou com os botões se valera a pena ter vindo ali vigiar a estrada, gastar o tempo de um modo tão patético. Afinal de contas, talvez o amigo nem mais o conhecesse; talvez olhasse em seus olhos e, grave, perguntasse: – Quem é você? 4 Uma cisma inesperada começou a miná-lo. Pôs-se de lado. Aproveitou para raptar com os olhos um pouco mais da paisagem. Havia um galho de árvore, um poço abandonado, seixos nos cotovelos. Passados os anos, talvez nem se lembrasse de nada, mas, por alguns segundos – no auge da inquietação – imaginou-se numa mesa, sem vísceras, uma espécie de homem-iguana ou labareda congelada, como há muito não se vê, em parte sem alinho, incompleto... 5 O fato é que não se deixaria misturar com o pó tão facilmente. Vaguearia, opaco, pela estrada anotando detalhes, de forma crescente. Quem sabe, algo ocorresse e ele, então, visse que nunca há nada que não valha a pena. Afinal, estava ali desde cedo, quando a manhã se abriu bruna, desarranjada. Assistira às gradações, meio alheio, de pernas para o ar... Não deu pra evitar um prazer que, a todo momento, lhe pregava sustos. 6 Esperar tornou-se doloroso. Era fácil constatar isso entre as frondes. Com um dos flancos em vias de escurecer, percebeu algo a mais entre os rochedos. Sozinho, de bruços, sobre a grama mosqueada, ali ficou num delírio indomável, sem respirar por segundos. Olhou fixamente para o azul que tingia as ilhotas ao norte. 7 Em pé. Não há matiz mais fulgurante que o arrebol. A cor a escapar do fundo das casas, da topografia um pouco líquida que vibrava em flocos com um rancor divino. Lembrou-se da última regata a que assistiu. De qualquer modo, o amigo ainda não passara. Tampouco seu vulto se tornou visível no horizonte. O dorso e a nuca se contraíam. Não seria fácil agüentar por muito tempo. Deliberadamente viu-se no auge, morno... Em meio a um nevoeiro, odiou-se com fervor. 8 Deitado. Tomou-o de assalto uma nova esperança. Sentiu-se risível naquela posição. O braço se paralizara contra o fundo ocre. Difícil era dar o passo seguinte. A qualquer momento o amigo surgiria na estrada e então decidiria o que fazer. A luz, a essa altura, se reproduzia livremente na superfície polida do prado que se transformara numa cartela aguda de reflexos. O vento entregava-se a uma marcha surda. Aquela imagem custaria mesmo a desgrudar de seus olhos: o gado na paisagem de cardos. 9 Em pé. Deitado. Alguém murmura e algo em volta sorri um ruído claro rumo à outra ilha. Levemente corado, ruminando algo sem nexo, o amigo era como um leopardo, fadado a anéis de amônia. – A vida é curta. 10 Em pé. Sem perda de tempo, uma gota estouvada e, em seus olhos leigos, tudo se derrama. Era o amigo que, sem dúvida, vinha pela estrada. A última coisa de que lembrou foi o cânhamo. Isso, porém, não importava...   Jorge Lucio de Campos - Rio de Janeiro 1958 Mora em Niterói, RJ. Poeta e ensaísta. Autor de livros como Do simbólico ao virtual. A representação do espaço em Panofsky e Francastel (SP, 1990), A vertigem da maneira: pintura e vanguarda nos anos 80 (RJ, 1993),  Belveder (Poemas 1988-93) (RJ, 1994), A dor da linguagem (RJ, 1996) e À maneira negra (RJ, 1997). jorgeluciocampos@bol.com.br   Fernando Velázquez – Uruguai 1970 Mora no Brasil desde 1997. Artista Plástico e Designer Gráfico, estudou arquitetura e pintura em Montevidéu. Em 2001 foi finalista do Festival do Minuto. www.velazquez.com.br www.ecoterra.com.br Abraçar Ordenhar Aleitar 2001 Edições da Agulha/eBooksBrasil Poemas Jorge Lucio de Campos Fotografias Fernando Velázquez Projeto gráfico Socorro Nunes Contato floriano@secrel.com.br Caixa postal 52924 Ag. Aldeota Fortaleza CE 60151-970 Brasil Versão para eBook eBookBrasil.com Brasil, dezembro de 2001 2001 Edições da Agulha floriano@secrel.com.br Versão para eBook eBooksBrasil.com __________________ Dezembro 2001 eBooksBrasil www.ebooksbrasil.com KOREAEBOOKSTYLEFILE_1.1.0gA}W3s   9 [ Times New Roman 2defaultdefaultTimes New Roman 2hr_file_0 para0hr_file_0 para0Times New Roman 2hr_file_0 para1hr_file_0 para1Times New Roman Khr_file_0 para2hr_file_0 para2Times New Roman 2hr_file_0 para3hr_file_0 para3Times New Roman Khr_file_0 para4hr_file_0 para4Times New Roman 2hr_file_0 para5hr_file_0 para5@Lucida Console 2hr_file_0 para6hr_file_0 para6Verdana 2hr_file_0 para7hr_file_0 para7Times New Roman 2hr_file_0 para8hr_file_0 para8Times New Roman 2hr_file_0 para9hr_file_0 para9Tahoma 2hr_file_0 para10hr_file_0 para10Tahoma 2hr_file_0 para11hr_file_0 para11Times New Roman 2hr_file_0 para12hr_file_0 para12Times New Roman 2hr_file_0 para13hr_file_0 para13Times New Roman 2brbrTimes New Roman 2paraparaTimes New Roman 2figgrfiggrTimes New Roman 2fig.contfig.contTimes New Roman 2 tablepara tableparaTimes New Roman 2listparalistparaTimes New Roman 2fontfontKOREAEBOOKSTYLEFILE_1.1.0gA}W3s   9 [ Times New Roman 2defaultdefaultTimes New Roman 2hr_file_0 para0hr_file_0 para0Times New Roman 2hr_file_0 para1hr_file_0 para1Times New Roman Khr_file_0 para2hr_file_0 para2Times New Roman 2hr_file_0 para3hr_file_0 para3Times New Roman Khr_file_0 para4hr_file_0 para4Times New Roman 2hr_file_0 para5hr_file_0 para5@Lucida Console 2hr_file_0 para6hr_file_0 para6Verdana 2hr_file_0 para7hr_file_0 para7Times New Roman 2hr_file_0 para8hr_file_0 para8Times New Roman 2hr_file_0 para9hr_file_0 para9Tahoma 2hr_file_0 para10hr_file_0 para10Tahoma 2hr_file_0 para11hr_file_0 para11Times New Roman 2hr_file_0 para12hr_file_0 para12Times New Roman 2hr_file_0 para13hr_file_0 para13Times New Roman 2brbrTimes New Roman 2paraparaTimes New Roman 2figgrfiggrTimes New Roman 2fig.contfig.contTimes New Roman 2 tablepara tableparaTimes New Roman 2listparalistparaTimes New Roman 2fontfontKOREAEBOOKSTYLEFILE_1.1.0gA}W3s   9 [ Times New Roman 2defaultdefaultTimes New Roman 2hr_file_0 para0hr_file_0 para0Times New Roman 2hr_file_0 para1hr_file_0 para1Times New Roman Khr_file_0 para2hr_file_0 para2Times New Roman 2hr_file_0 para3hr_file_0 para3Times New Roman Khr_file_0 para4hr_file_0 para4Times New Roman 2hr_file_0 para5hr_file_0 para5@Lucida Console 2hr_file_0 para6hr_file_0 para6Verdana 2hr_file_0 para7hr_file_0 para7Times New Roman 2hr_file_0 para8hr_file_0 para8Times New Roman 2hr_file_0 para9hr_file_0 para9Tahoma 2hr_file_0 para10hr_file_0 para10Tahoma 2hr_file_0 para11hr_file_0 para11Times New Roman 2hr_file_0 para12hr_file_0 para12Times New Roman 2hr_file_0 para13hr_file_0 para13Times New Roman 2brbrTimes New Roman 2paraparaTimes New Roman 2figgrfiggrTimes New Roman 2fig.contfig.contTimes New Roman 2 tablepara tableparaTimes New Roman 2listparalistparaTimes New Roman 2fontfontKOREAEBOOKSTYLEFILE_1.1.0gA}W3s   9 [ Times New Roman 2defaultdefaultTimes New Roman 2hr_file_0 para0hr_file_0 para0Times New Roman 2hr_file_0 para1hr_file_0 para1Times New Roman Khr_file_0 para2hr_file_0 para2Times New Roman 2hr_file_0 para3hr_file_0 para3Times New Roman Khr_file_0 para4hr_file_0 para4Times New Roman 2hr_file_0 para5hr_file_0 para5@Lucida Console 2hr_file_0 para6hr_file_0 para6Verdana 2hr_file_0 para7hr_file_0 para7Times New Roman 2hr_file_0 para8hr_file_0 para8Times New Roman 2hr_file_0 para9hr_file_0 para9Tahoma 2hr_file_0 para10hr_file_0 para10Tahoma 2hr_file_0 para11hr_file_0 para11Times New Roman 2hr_file_0 para12hr_file_0 para12Times New Roman 2hr_file_0 para13hr_file_0 para13Times New Roman 2brbrTimes New Roman 2paraparaTimes New Roman 2figgrfiggrTimes New Roman 2fig.contfig.contTimes New Roman 2 tablepara tableparaTimes New Roman 2listparalistparaTimes New Roman 2fontfontKOREAEBOOKSTYLEFILE_1.1.0gA}W3s   9 [ Times New Roman 2defaultdefaultTimes New Roman 2hr_file_0 para0hr_file_0 para0Times New Roman 2hr_file_0 para1hr_file_0 para1Times New Roman Khr_file_0 para2hr_file_0 para2Times New Roman 2hr_file_0 para3hr_file_0 para3Times New Roman Khr_file_0 para4hr_file_0 para4Times New Roman 2hr_file_0 para5hr_file_0 para5@Lucida Console 2hr_file_0 para6hr_file_0 para6Verdana 2hr_file_0 para7hr_file_0 para7Times New Roman 2hr_file_0 para8hr_file_0 para8Times New Roman 2hr_file_0 para9hr_file_0 para9Tahoma 2hr_file_0 para10hr_file_0 para10Tahoma 2hr_file_0 para11hr_file_0 para11Times New Roman 2hr_file_0 para12hr_file_0 para12Times New Roman 2hr_file_0 para13hr_file_0 para13Times New Roman 2brbrTimes New Roman 2paraparaTimes New Roman 2figgrfiggrTimes New Roman 2fig.contfig.contTimes New Roman 2 tablepara tableparaTimes New Roman 2listparalistparaTimes New Roman 2fontfontJFIFHHC    $.' 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