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A Violação das Massas pela Propaganda Política

Serguei Tchakhotine

Tradução de Miguel Arraes

Revisão e atualização de Nélson Jahr Garcia

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A Violação das Massas pela Propaganda Política
Serguei Tchakhotine
Tradução: Miguel Arraes.
Revisão e atualização: Nélson Jahr Garcia

Edição
Ridendo Castigat Mores

Versão para eBook
eBooksBrasil.org

Fonte Digital
www.jahr.org

Copyright ©
Autor: Serguei Tchakhotine
Tradução: Miguel Arraes
Edição eletrônica:
Ed. Ridendo Castigat Mores
(www.jahr.org)

“Todas as obras são de acesso gratuito. Estudei sempre por conta do Estado, ou melhor, da Sociedade que paga impostos; tenho a obrigação de retribuir ao menos uma gota do que ela me proporcionou.”
Nélson Jahr Garcia (1947-2002)


SUMÁRIO

Prefácio
Introdução
Capítulo I – Psicologia, ciência exata
Capítulo II – O maquinismo psíquico
Capítulo III – Reflexologia individual aplicada
Capítulo IV – A Psicologia Social
Capítulo V – Pulsão número um
Capítulo VI – O simbolismo e a propaganda política
Capítulo VII – A propaganda política do passado
Capítulo VIII – O segredo do sucesso de Hitler
Capítulo IX – Resistência ao Hitlerismo
Capítulo X – A violência psíquica na política mundial
Capítulo XI – As ameaças da situação atual
Capítulo XII – A construção do futuro
Conclusão
Notas
Bibliografia


A VIOLAÇÃO DAS MASSAS PELA PROPAGANDA POLÍTICA

(Le viol des foules par la propagande politique)

Serguei Tchakhotine


PREFÁCIO

Este livro tem uma história bastante movimentada. Já a sua primeira edição, em 1939, na França, dois meses antes da guerra, não se fez sem incidentes. Depois de todas as correções, o autor recebeu as últimas provas – para autorizar a impressão – sem que viessem acompanhadas das anteriormente corrigidas. Para sua grande surpresa, verificou que o livro, nesse meio tempo, tinha sido censurado (na França! onde a censura não existe): todas as passagens desagradáveis a Hitler e Mussolini estavam suprimidas (e isso dois meses antes da guerra), da mesma forma que a dedicatória, assim redigida: “Dedico este livro ao gênio da França, por ocasião do 15O° aniversário de sua Grande Revolução.” Soube-se, em seguida, que a censura havia sido feita pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros, então o Sr. Georges Bonnet, no que concerne à dedicatória. O Ministro dos Negócios Estrangeiros da Terceira República achou que “estava fora de moda”! E isso no ano em que o mundo inteiro festejava esse aniversário!

Mediante protesto do autor que, firmado na lei francesa, reagiu, as frases e as idéias suprimidas foram recolocadas e o livro apareceu na forma original. Dois meses depois de sua aparição, quando a guerra já estava declarada, a polícia de Paris apreendeu-o nas livrarias. Finalmente, em 1940, tendo os alemães ocupado Paris, confiscaram-no e o destruíram.

Nesse ínterim edições inglesas (entre outras, uma popular feita pela seção editorial do Partido Trabalhista), americanas e canadenses, difundiram as idéias enunciadas e, depois da guerra, uma nova tiragem francesa se impôs. Aparece esta edição, totalmente revista e ampliada, uma vez que a ciência da psicologia objetiva, base deste livro, havia acumulado um grande número de novos fatos de primeira importância e os acontecimentos políticos tinham mudado consideravelmente a face do mundo. O autor acreditou útil ilustrar esta nova edição com uma vasta bibliografia, com gráficos, que facilitam a compreensão dos fatos e das leis científicas enunciadas.

Poder-se-ia talvez reprovar o autor, por não se ter limitado a expor as idéias e as demonstrações científicas essenciais do principio da “violação psíquica das multidões”, bem como por se haver arriscado a fazer referência à atualidade política do momento histórico em que vivemos e, até mesmo, por tomar posição (um crítico, aliás benevolente, acusou-o de ser “sistemático”). Justificando-se, o autor desejaria dizer que, na sua opinião, a melhor demonstração da justeza das idéias enunciadas, que transforma a “hipótese” em “teoria”, é precisamente a possibilidade de fornecer provas extraídas do passado (nesse caso, por exemplo, a história da luta de 1932, na Alemanha) e esboços do futuro, corroborando essas idéias, seguindo logicamente a aplicação das leis enunciadas, nas realizações pressupostas, pode-se verificar o valor das primeiras.

Por outro lado, a análise da existência atualmente, por meio das novas normas, dá a impressão da “tomada ao vivo” da realidade concreta. Ademais, parece-nos que, fazendo uma crítica puramente abstrata, teórica, abandonamos o leitor a meio caminho, insatisfeito, pensativo. A crítica deve vir sempre acompanhada de propostas de soluções práticas, para ser construtiva. Enfim, cada ato humano deve ter, em nosso entender, um elemento social, um incitamento à ação, dirigido a outrem – se quisermos – um pouco de psicologia, que promova, que crie o élan otimista, fonte de progresso.

Ah!, o mundo está dividido hoje em dois campos hostis, que têm mútua desconfiança, que se preparam para se arrojar um sobre o outro e transformar esta terra maravilhosa que viu a aventura humana e onde tantos milagres do pensamento, da arte, da bondade se realizaram em um braseiro que só deixará ruínas fumegantes...

Ah!, tudo se polariza hoje em uma ou outra direção. Este livro procura ser objetivo, imparcial, e denunciar aos dois campos os fatos sem circunlóquios, perseguindo dois únicos objetivos: a verdade científica e a felicidade de todo o gênero humano. Pode-se, deve-se alcançar isso!

O autor sente-se feliz em agradecer cordialmente aos seus amigos M. Ch. Abdullah, M. St. Jean Vitus, que o ajudaram a rever o manuscrito, no que respeita à redação em língua francesa.

Serguei Tchakhotine
Doutor em Ciências
Professor Universitário.
Paris, 1° de setembro de 1952.


INTRODUÇÃO

A derrota das democracias – Fins da cultura humana – Perigo de sua destruição – A salvação – A tese revolucionária – A tese científica realista.

 

Para legitimar suas conquistas, os ditadores sustentaram, seguidamente, que elas eram efetuadas, quase sempre, pacificamente, ou, pelo menos, sem emprego de violência física. Isso não é verdade senão na aparência: a ausência da guerra não impede o emprego de uma violência não menos real, é a violência psíquica.

A ameaça – os discursos de Hitler – associada à visão da arma mortífera – a mobilização do exército alemão – eis a fórmula exata, segundo a qual os ditadores modernos exercem a violência psíquica. Foi precisamente isso o que se passou, por exemplo, na Europa, em setembro de 1938, e que levou as velhas democracias à capitulação, em Munich.

“Construímos um armamento tal que o mundo jamais viu – posso agora confessar abertamente”.

“Em cinco anos, eu me armei efetivamente. Gastei milhões e equipei tropas com as armas mais modernas”.

“Temos os melhores aviões, os melhores tanques...”

São frases do discurso do chanceler Hitler, no Palácio dos Esportes, em Berlim, em 27 de setembro de 1938, discurso dirigido ao mundo inteiro, que ouvia atento.

“Dei ordem de erigir fortalezas gigantes em frente à linha Maginot francesa”, declarava ele, em meio aos urros aprovadores da massa nazista em Nuremberg.

“As forças alemãs”, “o gládio alemão” etc., eis o que se ouvia da boca do senhor da Alemanha, nos anos fatídicos que precederam à Segunda Guerra mundial e isso se repetia em todas as ocasiões.

“O punhal – eis o nosso melhor amigo”, declarava cinicamente Mussolini; uma carabina sobre um livro foi o símbolo que ele ofereceu à juventude universitária italiana.

“Que preferis, manteiga ou canhões?”, perguntava a uma multidão eletrizada, em delírio, que respondia, bestificada, – “Canhões!”

“A paz”, “da paz”, “pela paz”... era o refrão que se oferecia como desculpa a essas palavras dos ditadores, em todas as oportunidades, em todas as situações, no campo adverso, nas democracias européias.

A paz, certamente, quem não a deseja? Quem é tão tolo ou tão miserável para invocar o pior dos flagelos humanos? Mas, ter horror à guerra é uma coisa, e cultivar a esperança de evitá-la só com palavras, com ladainhas e invocações em face do perigo é outra bem diferente, que restabelece, na verdade, certas práticas medievais, em que ao incêndio, à peste, à seca, se opunham as procissões com imagens santas!

Em face do perigo, é mister indagar: para onde marcha a humanidade? Como é possível que ela continue correndo, fatalmente, para o suicídio? Por que essa incapacidade de dirigir seu destino, quando tudo nos prova que o produto da inteligência humana, a ciência e suas conquistas, os progressos técnicos e os da cultura atingiram alturas vertiginosas?

Que é a cultura humana? Não é uma evolução do homem para sua emancipação, sua libertação das dificuldades materiais, seu impulso para um estado em que todas as sementes sublimes, de que ele é o receptáculo por eleição, possam desabrochar? Na marcha para a Liberdade, está o sentido da cultura humana. Os benefícios materiais não saciam os desejos do homem: desde que os adquire, aspira valores mais altos, satisfações, anseios de ordem puramente espiritual e isso é inconcebível sem a liberdade. Ainda mais. O Homem de nosso tempo tende a desejar a liberdade, mesmo quando ainda não tem a posse dos bens materiais, e aí está uma coisa sublime: desesperado, chega a sonhar, muitas vezes, que a liberdade é a única forma real de conseguir esses bens que lhe são recusados. Cultura humana e liberdade não se separam.

Surge, no entanto, uma corrente de idéias, cada vez mais poderosa, que busca aniquilar o pouco de liberdade já existente e esparsa pelo mundo, corrente essa que proclama, falsamente (dada a sua contradição com as leis biológicas da evolução), que uma diferença capital separa as raças humanas, que a seleção natural consegue formar raças puras, que essas raças existem, que têm o direito, em razão de sua superioridade, de privar as demais da liberdade, que um homem pode e deve dominar os outros, que tem mesmo o direito de dispor da vida e da morte de seus semelhantes.

Essas teorias não são realmente reminiscências de uma etapa inferior, ultrapassada pela humanidade, não são um recuo disfarçado para uma época que se tenta fazer reviver em benefício de usurpadores egoístas, tentativa, sem dúvida vã, de inverter o sentido da marcha da História? Vã, porque em contradição flagrante com tudo o que é a causa do nosso progresso, com a Ciência, a Técnica, a Idéia de Sociedade.

Se, por uma coincidência fortuita, essa tendência errônea se adianta à evolução normal e sadia, se ela não é combatida e dominada como uma doença contagiosa, o abismo então está próximo e a ameaça de destruição geral se prepara, como horrível espectro, diante de toda a humanidade.

Mas, como um organismo invadido pelo mal, reage, luta, busca fugir do perigo, do mesmo modo os povos, inquietos, sentindo vagamente a ameaça, começam a excitar-se, a impelir os seus melhores filhos em busca do caminho da salvação. E surge, então, a tese revolucionária. A revolução, a verdadeira revolução de um – povo, é sempre uma reação no sentido de sua salvação. Quando digo “verdadeira revolução”, entendo que um putsch, mesmo vitorioso, não é ainda uma revolução. Isso, porque a pretensa “revolução” fascista ou nazista, montada em todas as peças por um indivíduo, um Hitler, um Mussolini, não é jamais comparável à Grande Revolução Francesa, à Russa ou à Chinesa. Certamente, um Robespierre, um Lênin, desempenharam para o seu desenlace um papel importante, mas eles próprios foram movidos pela força da onda humana formada, espontaneamente, sem preparação, sem aqueles cálculos que caracterizam o movimento fascista e nacional socialista. A contra-revolução é sempre, ao inverso, um movimento organizado por indivíduos e, por isso, é muito mais lógico tratar fascismo e hitlerismo ou o que, hoje, a eles se assemelha, como movimentos contra-revolucionários.

A teoria extremista do “quanto pior, melhor”, para acelerar o advento da idade de ouro, outrora justificada, está hoje morta. Os partidos socialistas e democráticos não puderam explorar as possibilidades que se lhes ofereciam, num passado mais ou menos recente. A última vez foi no fim da Segunda Guerra mundial. Não tiveram coragem de ir adiante, olhavam para trás – e isso vale para todos os países. O ímpeto da resistência foi desperdiçado em toda parte. Uma nova e verdadeira revolução se prepara, ruge nas entranhas de todos os povos; um mal-estar se manifesta e está precisamente aí um reflexo coletivo contra a tentativa de impor à marcha da humanidade uma direção oposta à sua evolução natural, que se caracteriza pelo reencontro, no tempo, do progresso material e da sede de liberdade.

Mas, essa revolução iminente, como deverá ser feita? Nisso reside toda a questão. Deve ser uma explosão elementar, varrendo todos os obstáculos do seu caminho, carregando no turbilhão as conquistas que o progresso humano acumulou, num ritmo cada vez mais acelerado, nesses últimos tempos? Ou deve-se e pode-se canalizar a onda impetuosa, levá-la a bom porto, sem muitos sobressaltos, sem a destruição de nervos “vitais”, sem efusão de sangue precioso, sem uma guerra “moderna”, pesadelo pavoroso do nosso tempo, conseqüência dos progressos técnicos recentes?

Sim, essa possibilidade de revolução “seca” existe; ela é perfeitamente real, não menos real que qualquer outra bem sucedida até agora pelas armas mortíferas, conhecida há séculos. E esse caminho nos é indicado pelo realismo científico, pelas deduções que se podem tirar dos nossos progressos científicos modernos bem como pelo exame prático dos movimentos anti-sociais do nosso tempo – o fascismo e o hitlerismo.

É verdade que a arma empregada por Hitler tanto na sua luta pelo poder na Alemanha, como pela hegemonia na Europa, e hoje retomada por seus sucessores, para obter o domínio do mundo, não era, de forma alguma, o produto de refletidas meditações e de um conhecimento científico das bases biológicas das atividades humanas; longe disso, esse pintor de paredes não estava preocupado com estudos de Sociologia, de Economia Política, de Direito, com dogmas entrecruzando-se, chocando-se, acumulando mais teorias que fatos. Não, como verdadeiro ingênuo, como homem novo, tinha ele apenas uma intuição sadia, um bom senso bem primitivo e sem escrúpulo. Está aí o segredo de seu sucesso contra todos os homens de Estado diplomados de seu próprio país e de toda a Europa.

Quais são, pois, essas armas prodigiosas, a “pedra filosofal” desse alquimista político de nosso tempo? Sem conhecer os seus mecanismos, sem os compreender, ele manejava essas armas e triunfava, porque era – diga-se, a bem da verdade – o único que as utilizava; era monopólio seu, seu privilégio, pois os adversários não as distinguiam ou, se as viam, detestavam-nas e a elas renunciavam, deliberadamente, como bons intelectuais imobilizados pela sua erudição ultrapassada.

Convém então libertar as principais idéias que estão na essência dos acontecimentos que vivemos tão dolorosamente, uma vez que o fascismo e seu herdeiro atual, o capitalismo militante, violam, – na verdade, o psiquismo das massas populares através de sua nefasta propaganda. Que fazer, portanto, para lhe barrar o caminho?

A primeira condição é compreender os mecanismos que constituem o alicerce de sua ação: as teorias da psicologia objetiva do meu grande Mestre, o professor Pavlov, dão a resposta.

Depois de haver compreendido, é mister agir. O socialismo, a fé nos destinos humanos, o entusiasmo, baseando-se nos dados da ciência moderna, constituem a sua segunda condição. A visão de H. G. Wells nos dá uma síntese.

Este trabalho, que é uma tentativa de colocar a ação política sobre uma base rigorosamente científica, deseja contribuir para a fusão dessas duas formas essenciais do pensamento atual.


Capítulo I
Psicologia, ciência exata

As ciências do Homem – O Sistema das Ciências – O lugar da Psicologia – Behaviorismo – Pavlov e a psicologia objetiva – A teoria dos reflexos condicionados – A sinalização psíquica – A inibição – A irradiação e a concentração – Os analisadores – As localizações cerebrais – Os reflexos de 2° grau (enxertados) – Atores e Espectadores – O sono – A sugestão – Reflexo de fim – Reflexo de liberdade – Os caracteres – A palavra – A ordem imperativa – Fisiologia evolutiva – Os fenômenos subjetivos – Os fatores humorais – A Psicofisiologia comparada – As reações condicionadas nos protozoários – A micropunctura ultravioleta – A memória celular – O sistema das reações de comportamento – Os instintos e os pulsões – Os reflexos à base da pulsão combativa – As quatro pulsões e a Sociologia.

 

“A distância que observamos, atualmente, na origem dos desequilíbrios contemporâneos é ocasionada por um inquietante atraso das ciências do Homem, que lhe dariam domínio sobre si mesmo, em comparação com as ciências da natureza que, em três séculos, lhe deram poder sobre as coisas. Pois que o Homem, após haver transformado seu meio, começa a ter condições de agir sobre si mesmo e, efetivamente agindo, surge a questão: como tornar esta ação inofensiva e, se possível, fecunda?”[1] Uma vez que, acrescentamos, a ação humana não é senão uma conseqüência dos processos biológicos, e até nervosos, que se desenvolvem em cada indivíduo, é claro que a questão das atividades humanas, de suas formas e de seus desígnios, pertence ao domínio da ciência conhecida como Psicologia.

Entendamos: pode-se considerar essa palavra sob dois aspectos. De um lado, a psicologia introspectiva, que fala do Eu, das sensações, da vontade, etc. Embora esse ramo do pensamento humano tenha, sem dúvida, acumulado, durante séculos, uma enorme soma de observações e de reflexões de grande valor, não pode mais ser considerada como uma “ciência” equivalente às nossas ciências exatas de hoje: a Física, a Química e mesmo a Fisiologia. A análise e a síntese científicas nada podem fazer sem a noção do encadeamento, da causalidade, e é claro que, no caso dos estudos psicológicos clássicos ou introspectivos, a causalidade não pode ser considerada com o rigor exigido, necessariamente, pelas ciências exatas.

É preciso fazer uma distinção nítida entre os tipos de pensamento que se impõem à elucidação de diferentes aspectos, como no caso presente: há o pensamento antropomorfo que atribui elementos intencionais (fins) aos fenômenos naturais, partindo da experiência de que a atividade humana, sobretudo social, é sempre acompanhada de fins a preencher; e há o pensamento objetivo das ciências exatas, que não reconhece finalidades nos fenômenos da natureza.

Chegamos então, a essa outra psicologia, que tomou o nome de psicologia objetiva e que está em estreita ligação com a Fisiologia, ciência do próprio dinamismo dos fenômenos vitais, que realiza, cada vez mais, a união desses com os fenômenos gerais da natureza, objeto das ciências exatas: a Física e a Química.

Essas ciências exatas tiveram, em nossos dias, um formidável progresso assinalado a cada passo, graças a dois elementos essenciais que as caracterizam: de um lado, o apelo ao dinamismo da razão, que procura conduzir à unidade as pluralidades que a experiência de cada dia revela, e, de outro, a verificação da justeza dessa maneira de pensar por uma experimentação ad hoc.

Ora, se desejamos tratar dessa nova psicologia objetiva ou fisiológica, a primeira questão que se impõe é a do seu lugar exato no sistema das ciências biológicas.

Freud (56) faz uma distinção entre a Psicologia e as ciências naturais: para ele, existem apenas dois grandes ramos dos conhecimentos humanos; na própria Psicologia, distingue a individual e a psicossocial (ou psicologia das massas). Mas, a Psicologia não se ocupa, senão raramente, do indivíduo isolado; na bagagem psíquica de cada homem – ser social, os elementos sociais estão sempre presentes e determinam seu comportamento, a cada instante. Daí porque, segundo entendemos, para situar com precisão o lugar da Psicologia como ciência exata, é necessário partir de um ponto de vista diferente, o da análise lógica que coloca suas bases na Biologia.

Os critérios analíticos modernos, que permitem diferenciar as disciplinas, respondem às duas questões primordiais seguintes: “como evoluíram as formas de vida sobre nosso planeta?” e “por que evoluíram?”. No primeiro caso, é o interesse histórico ou episódico que nos guia; poder-se-ia, também, dizer que é nossa necessidade narrativa que busca ser satisfeita. No segundo caso, é o interesse de função ou de causalidade – necessidade de explicação. Em correspondência com esse raciocínio, verificamos que a ciência da vida se divide em Bio-história e Bionomia, buscando, esta última, pesquisar as leis (nomos) que governam os fenômenos vitais (bios) O critério para a diferenciação seguinte da Bionomia, que nos interessa aqui, está baseada na questão: como se pode pesquisar essas leis? É pela reflexão ou pela experimentação que elas são encontradas? No primeiro caso, tratamos com a Biofilosofia e, no segundo, com a Biologia experimental, que é a Biologia moderna por excelência.

A experimentação pode proceder-se por método analítico ou sintético. Aí estão os dois ramos da Biologia experimental que resultam dela: a Biologia sintética, que está apenas no começo e a Biologia analítica, que está na ordem do dia. Dividimos esta última, por sua vez, em Bioautonomia e Biomaquinismo. A primeira trata das questões biológicas sem se preocupar em saber se os fenômenos observados podem ou não ser explicados atualmente em função dos nossos conhecimentos das leis físicas e químicas; consideram-se esses fenômenos vitais, pelo menos no momento, como fenômenos sui generis, os quais permitem, todavia, a aplicação dos métodos experimentais. O Biomaquinismo, ao contrário, é uma ciência que já pode submeter fenômenos biológicos ao jogo de fatores físicos e químicos conhecidos.

É evidente que os problemas que nos interessam nesta obra se referem à primeira disciplina, isto é, à Biologia experimental autônoma. Com efeito, esta última pode ser subdividida em três ramos principais: o que cuida das leis relativas à forma biológica ou Morfonomia; o das trocas materiais ou Metabolonomia; e o das formas de energia nos seres vivos ou Cinetonomia. As atividades motoras, musculares, nervosas, sensoriais, entram no domínio desta última ciência.

À Cinetonomia biológica interessam igualmente as leis que comandam os fenômenos do comportamento dos seres vivos. Dois exemplos significativos do caráter puramente psíquico que tomam as reações de comportamento, ao se materializarem, ao mesmo tempo, em fatos claramente fisiológicos, são os referidos por Clyde Miller (105) [2] um paciente, sofrendo de estados alérgicos, habituou-se a amenizar esses ataques com injeções subcutâneas de adrenalina. Se lhe era aplicada uma simples injeção d'água esterilizada, sem nenhum traço de adrenalina, mas sem seu conhecimento e observando-se todos os detalhes da intervenção que lhe eram costumeiros, o resultado seria o mesmo: ele experimentava um alívio da doença. Outro fato: o ataque de febre de feno de um paciente, cujas mucosas são sensíveis ao pólen da rosa, é desencadeado pela percepção visual de um símbolo: rosas artificiais de papel. [3]

Estamos, então, na presença de questões que nos ocupam neste livro, isto é, dos problemas da psicologia objetiva que trata. exatamente, de examinar as reações dos seres, animais ou homens. Essas reações se manifestam sob a forma de atividades de toda espécie, sejam espontâneas, sejam reativas, geralmente de natureza motora, isto é, em que os mecanismos musculares e nervosos desempenham o primeiro papel. O estudo das formas que tomam essas reações dos seres vivos, em todo o encadeamento dos elementos que as caracterizam, a análise dos motivos e de sua formação – aí está o fim a que se propõe essa nova ciência, fundamento de todo o complexo de noções, conhecido sob o nome de comportamento, conduta, ou behavior na América, onde nasceu essa tendência. Ela é ainda identificada como psicologia objetiva, resultante dos trabalhos da escola do grande fisiologista russo I. Pavlov.

O behaviorismo americano, provindo das pesquisas de Thorndike, Jennings, Yerkes e seus colaboradores, aplicou os métodos biológicos experimentais, inicialmente no estudo das manifestações vitais, ditas psíquicas dos animais e depois também dos homens. E isto não só em relação a seu comportamento individual, num determinado ambiente, isto é, sujeito a influências que os atingem do exterior, como também tendo em vista as reações causadas por fatores que lhes são inerentes, de ordem hereditária ou adquiridas no curso de sua vida e de sua evolução individual e tornadas latentes. Este estudo relaciona-se, também, com o seu comportamento para com os fatores vitais do ambiente que os envolve, isto é, através do que se denomina habitualmente a ambiência social e o comportamento social dos indivíduos e das multidões. Porque, como diz Clyde Miller (105), “estudando os hábitos, descobrem-se as – atividades que estão em sua base e, atrás delas, descobrem-se as condições de vida, que tornam essas atividades biologicamente necessárias.”

A escola behaviorista exerceu uma grande influência nos Estado Unidos sobre todo o conjunto das teorias científicas e suas aplicações e mesmo sobre a orientação dos indivíduos na vida em geral, graças sobretudo ao fato de que a educação tirou dela conclusões válidas para sua atividade. Na tendência de aplicação pragmática à vida corrente, o behaviorismo nos Estados Unidos tem traços comuns com o puritanismo anglo-saxônico: assim como este penetrou nos costumes, por via religiosa, o behaviorismo o fez, pelo caminho da ciência.[4]

A escola americana tomou por base, nas suas pesquisas, os fatos observados no mundo humano e procurou, sobretudo, encontrar analogias com o comportamento do homem, evitando, claramente, cair no antropomorfismo. É assim que Jennings (82) fala da “tentativa e erro” (trial and error) como de um dos princípios fundamentais do comportamento dos seres vivos.

Entre o behaviorismo americano e os enunciados das teorias pavlovianas houve influências recíprocas: ambos buscam estabelecer, no comportamento dos seres, os fatores de excitação e de reação correspondente.[5] O que caracteriza a idéia behaviorista é que ela não faz grande caso do instinto no homem e, na atividade social deste último, acentua sobretudo a inteligência e os reflexos condicionados de Pavlov.

O ponto de partida da escola russa de Pavlov foi nitidamente fisiológico. Pavlov (110) estudava os fenômenos de nutrição e especialmente o reflexo da salivação em função das excitações gustativas. Chamou-lhe a atenção, desde o começo de sua pesquisas, a ocorrência de uma salivação chamada comumente psíquica. O fato sempre foi bem conhecido: a saliva se acumula na boca a simples vista do alimento, sem que este seja introduzido. Observa, em seguida, que esse efeito não é mais que um reflexo, isto é, uma adaptação do organismo a uma dada situação, uma reação, em que o sistema nervoso, transmissor e coordenador das excitações e dos efeitos, tem importância decisiva. Mas, analisando o fenômeno, ele foi levado, imediatamente, a constatar que a reação observada difere, apesar de tudo, muito distintamente dos reflexos automáticos, absolutos ou inatos: por exemplo, a salivação aparece sempre, se introduzimos na garganta de um cão (animal que serve a Pavlov nas suas experiências clássicas) alimento ou líquido ácido. Mas, a salivação psíquica, à distância ou à vista é, de certa forma, condicionada: pode produzir-se mas, pode também, falhar. Estudando as modalidades do aparecimento dessa reação, Pavlov estabelece sua famosa teoria dos reflexos condicionados, que está em vias de se tornar, pouco a pouco, a base científica de todo comportamento animal, e humano. Porque “nossos mecanismos psíquicos só registram e fixam aquilo a que foram expostos” [6] e “os acontecimentos vividos são fatores condicionantes poderosos e, por isso mesmo, determinam a conduta dos homens: podem mesmo fazer ceder a natureza humana, mudando suas experiências. [7]

Poder-se-ia perguntar, à primeira vista, porque Pavlov escolheu a atividade das glândulas salivares como índice dos processos nervosos que têm lugar no cérebro e não as reações motoras, o próprio movimento, o que poderia parecer mais lógico. Ele o escolheu porque, em nossa vida cotidiana, estamos habituados a medir o comportamento humano por sua atividade motora, de tal forma associada à explicação psicológica introspectiva, que é bem difícil dela fazer abstração. Pavlov rejeitou toda a terminologia da psicologia corrente, porque empregando-a, correria o risco de contribuir para a confusão costumeira. Era disso, precisamente, que desejava desembaraçar-se, custasse o que custasse. Recorrendo ao mecanismo da função das glândulas salivares, pouco conhecido, estava mais seguro de poder permanecer no terreno da objetividade. Por outro lado, a atividade das glândulas salivares é bastante simples para permitir revelar as leis fundamentais que a regem, mais facilmente que as modalidades complicadas das funções motoras. No primeiro caso, o encadeamento dos fatores aparecia mais transparente. Esse órgão pode servir de modelo, na primeira etapa da pesquisa, com muito mais probabilidade de sucesso.

Toda a técnica de pesquisa empregada e o raciocínio de Pavlov permitem afirmar que a possibilidade de salvaguardar o princípio da objetividade no estudo dos fenômenos psíquicos, é assegurada por suas experiências. Para medir a enorme distância percorrida pelo espírito humano, durante os dois últimos séculos, no caminho da objetivação dos fenômenos da natureza, não podemos abster-nos de citar dois fatos significativos que ilustram o progresso realizado. Vamos buscá-los no livro de Stuart Chase, A tirania das palavras (26) [8] – “Quando Galileu pôde mostrar, com o auxílio de seu novo telescópio, a lua com suas montanhas e Júpiter com seus satélites, o professor de filosofia da Universidade de Pádua recusou-se a olhar: preferia acreditar nas suas idéias antes que nos seus olhos”. E eis outra citação [9]: “o doutor Redi, de Florença, demonstrou que a carne em putrefação não dava origem, por si própria, às larvas de moscas: colocando uma rede de gaze por cima da carne, podia assim impedir que as moscas ali depositassem seus ovos. Esse fato enfureceu os padres, que acusaram Redi de haver limitado o “poder do Todo-Poderoso”.

Foi precisamente por essa maneira objetiva de pensar, com todas as conseqüências que dela decorrem, que Pavlov procurou e conseguiu incorporar a Psicologia às ciências exatas da natureza. Seu objetivo era descobrir as leis segundo as quais se desenrolam os fenômenos psíquicos. As leis naturais são constantes que permitem aprofundar as causas determinantes dos fenômenos, cuja repetição é constatada pelo homem. O intelectual procura “reencontrar nas leis, a segurança que perdeu pelo fato de, movido pela razão, se ter afastado da tutela da Igreja. Depois da descoberta das leis da natureza, veio a das leis da vida econômica e social e a tendência, enfim, de submeter também a vida interior do homem ao seu domínio. A adoração romântica do irracional apareceu, em seguida, como uma reação contra esse domínio implacável. Mas, as formas da razão humana não foram detidas em seu curso: procuram-se e encontram-se leis que governam, até mesmo, o irracional” [10].

Assim, Pavlov reconhecia como seu intuito último a possibilidade de chegar ao estudo objetivo da psicologia humana. O cão lhe serviu de modelo, numa primeira etapa de pesquisas, porque apresentava uma simplificação notável para o esclarecimento do problema. Ele buscava, como dizia, estabelecer “um esboço fisiológico que poderia servir de base à análise ulterior de toda a complexidade do mundo subjetivo do Homem.”

Levantou-se uma dúvida a propósito da equivalência das observações feitas nos animais e no homem. Se consideramos que as estruturas nervosas são, em princípio, as mesmas no homem e nos animais é muito provável e mesmo certo que as leis sejam idênticas nos dois casos. A diferença é apenas de ordem quantitativa e devida, sobretudo, ao fato de que o homem possui a faculdade exclusiva de formar reflexos condicionados com complexos verbais, que desempenham o papel de sinais desencadeadores das reações condicionais, de uma riqueza e variedade extraordinárias.

A importância biológica da doutrina de Pavlov reside no fato de que nos revelou o processo de formação de novos reflexos: de ora em diante, é possível seguir o processo de formação desses reflexos, como são inibidos e recobertos por novos. Do ponto de vista da fisiologia evolutiva, podemos ver como se realizou, sucessivamente, na história filética da humanidade e mesmo na do reino animal, a formação da atividade reflexa, em geral.

A possibilidade de se orientar em toda a complexidade do mundo que cerca o indivíduo, não é tarefa fácil. Na realidade, lida-se na vida, como também nas experiências de laboratório, não com uma excitação única, isolada, poder-se-ia dizer pura, mas, com complexos de excitações, simultâneas ou sucessivas, portanto, com cadeias de excitações. Desse conjunto de excitações, trata-se, por vezes, de reagir sobre todo esse complexo, tomado como unidade; e, outras vezes, de realizar a diferenciação de uma componente isolada do mesmo complexo.

Fig.2
A. – O dispositivo para recolher a saliva do cão dentro de uma sonda graduada.
B. – Esquema da disposição dos aparelhos na experiência da formação dos reflexos condicionados na casa do cão; e, tela para as excitações visuais; c, contato elétrico que se fecha pela queda das gotas da saliva; m, tambor Marcy registrador das gotas da saliva recolhidas (de acordo com Buytendijk Psychologie des animaux, 1928, Payot, Paris).

Tratemos de esclarecer aqui os dados principais da teoria dos reflexos condicionados. [11] Eis o fato capital: (fig.2) se alimentamos um cão, a saliva escorre automaticamente. É um mecanismo dado pela natureza ao indivíduo, desde o seu nascimento, um reflexo inato ou absoluto, segundo a terminologia de Pavlov (III). É óbvio que, se fazemos um cão qualquer ouvir o som de uma campainha, essa excitação não terá nenhuma relação com a salivação. Mas, se começamos a sincronizar os dois fatos, a alimentação e a excitação sonora, se repetimos 40, 50 ou 60 vezes, podemos verificar que, depois dessa aprendizagem do sistema nervoso do cão, o som da campainha apenas, sem nenhuma alimentação, provoca salivação. Uma ligação se estabelece no organismo do cão, entre essas duas excitações, um novo reflexo, artificial ou temporário se formou, o reflexo condicionado, como chamou Pavlov. Pode-se esquematizar a fórmula desse reflexo, da seguinte maneira:

FasesFator absolutoFator condicionanteEfeito
1a. fase-somnenhuma salivação (excitação indiferente)
2a. fasecarne-salivação (reflexo inato)
3a. fasecarne somsalivação (reflexo inato presente)
4a. fase (Após 60 repetições da fase 3a.)- somsalivação (reflexo condicionado formado)

Tendo estabelecido a regra da formação de reflexos condicionados, Pavlov estuda suas modalidades sob todas as facetas. Constata que qualquer excitação pode tornar-se um fator condicionante, isto é, depois das coincidências reiteradas com a tomada de alimento e agir como fator que determina, por si só, a salivação: não importa se o som, a visão de figuras, de sinais luminosos, a percepção gustativa ou olfativa, a aplicação, sobre a pele, de calor ou de frio, as irritações mecânicas aplicadas a qualquer parte do corpo, sob a forma, por exemplo, de arranhadura, de pressão, de contato, de estímulos elétricos etc. Estuda, em seguida, a sutileza de distinção das excitações: por exemplo, faz-se tornar agente condicionante um som determinado (800 vibrações por segundo) e faz-se perceber ao cão, em seguida, um outro som diferente do primeiro, de um oitavo apenas (812 vibrações por segundo); a reação de salivação não aparece.

Se atua sobre um cão, como fator condicionante, uma combinação formada de três sons, será bastante produzir um deles e o reflexo se mostra ativo: o cão reconhece seu excitante, poder-se-ia dizer, segundo a terminologia corrente ou da psicologia introspectiva.

Eis ainda um regra muito importante: se depois de havermos formado um reflexo condicionado, repetimos, muitas vezes, o excitante que se tornou condicional, sem dar, simultaneamente, o alimento, no fim de algum tempo a reação se torna cada vez mais fraca e desaparece totalmente: o reflexo extingue-se, como diz Pavlov. Mas, se, então, combinamos, novamente, esse agente com a tomada de alimento, a reação condicionada reaparece: é a revivescência do reflexo, como resultado do seu revigoramento, segundo a terminologia de Pavlov. Já se entrevê a analogia com os fenômenos que conhecemos sob forma de esquecimento e de memória.

Pavlov considerou os reflexos que se formam, durante a vida, como fenômenos de sinalização, úteis ao organismo, porquanto lhe asseguram a possibilidade de reagir às mudanças do meio ambiente, antes de ser afetado, irreversivelmente, por uma ação brutal dessas mudanças, que poderiam constituir um perigo para sua existência. Se o organismo tivesse de contentar-se unicamente com as formas do comportamento fixadas pela hereditariedade, que se transmitem de geração em geração, nenhum progresso biológico, intelectual e social seria possível.

Graças aos reflexos condicionados, como afirma muito bem Orbeli (109), o organismo tem a possibilidade de realizar suas reações de defesa, ou sua atividade alimentar, ou qualquer outra função fisiológica, não no último momento, quando as excitações correspondentes se apresentam imperiosamente, mas, ao contrário, desde que a aproximação das excitações é anunciada.

Assim, a atividade digestiva das glândulas pode começar antes que o alimento penetre no canal digestivo; um reflexo de defesa pode entrar em ação antes que o agente nocivo aja sobre o organismo etc. Esse fenômeno de sinalização pode então ser utilizado pelo organismo para estimular a atividade de um ou outro órgão, preventivamente, o que apresenta, para o organismo, certas vantagens.

Orbeli (109) chama a atenção para o fato de que, na atividade nervosa superior, observamos, continuamente, o choque de duas tendências antagônicas: de um lado, a de conservar as ligações formadas, de prender-se a um comportamento estereotipado e, do outro, a de mudar a estrutura, transformar as relações, ajustar-se a condições novas.

Na vida humana, essas duas tendências têm, também, uma grande importância e determinam as formas do nosso comportamento. É fácil conformar-se ao hábito adquirido de viver segundo uma certa ordem, que elimina as preocupações, quando uma atividade provoca, automaticamente, uma outra, isto é, quando, graças às ligações fixadas sob a forma de reflexos condicionados, se realizam, de certa forma, reações em cadeia de atividades, que se sucedem rapidamente e podem repetir-se de um dia para o outro. Essas cadeias de reflexos condicionados nos servem a cada passo, quando executamos movimentos familiares, atos de trabalho habituais, serviços pessoais diários, formas de relações costumeiras com outras pessoas, objetivos, elementos da natureza etc. É o que constitui nossos costumes, nossas atividades habituais, nosso estereótipo vital; esse mecanismo nos evita esforços demasiadamente grandes e economiza o gasto de energia.

De outro lado, combatemos seguidamente a sujeição servil a esses hábitos. Um homem adulto não pode agarrar-se a todas as formas de comportamento a que se habituou desde a infância. Durante toda sua vida, produz-se uma transformação de velhas ligações em reflexos condicionados novos, por vezes mesmo, de natureza oposta. Os velhos reflexos são, então, recalcados, mas é bastante enfraquecer a tensão de seu sistema nervoso, adoecer ou tomar uma certa quantidade de álcool, para ver ressurgirem certos modos infantis, formas de expressão, maneira de fazer blagues etc. Esses fenômenos são conhecidos também na prática da psicanálise.

Chegamos agora a um outro grupo de fenômenos estreitamente ligados aos primeiros e que são de grande importância para a compreensão de toda a complexidade dos atos psíquicos. O fato principal é o seguinte – forma-se um reflexo condicionado. Por exemplo, um som determinado produz a salivação em um cão. Fazemos aparecer, diante dele, um gato, no exato momento em que o som é percebido: a salivação não se produz mais, ou melhor, uma vez começada, pára bruscamente. A função do gato pode ser desempenhada por qualquer outro excitante novo, desde que seja bastante forte. É o fenômeno de inibição. Ora, Pavlov distingue a inibição interna da externa. No primeiro caso, descrito há pouco, o excitante novo vem do exterior como um agente de todo imprevisto. Essa inibição externa não se desenvolve, progressivamente, como a inibição interna, mas manifesta-se instantaneamente. Ela se produz, a cada nova atividade dos hemisférios, provocada por uma excitação automática ou reflexa e apresenta uma analogia perfeita com a inibição, conhecida há muito tempo, nos outros pontos do sistema nervoso central. Na inibição interna o processo é o seguinte: depois da formação de um reflexo condicionado, pela combinação da tomada de alimento com a visão de um sinal luminoso, submete-se o cão a percepções reiteradas de um outro excitante (um som, por exemplo), sem lhe oferecer a alimentação. Essa excitação fixa-se no seu mecanismo cerebral, mas não provoca salivação, é latente. Ao contrário, torna-se um fator de inibição, se se combina agora com a excitação ativa – o sinal luminoso: este último não provoca mais salivação, perdeu seu poder excitador. É o caso de inibição condicionada, assim o chama Pavlov. As diversas formas de inibição interna podem ser facilmente suprimidas, ou seja, elas podem, por sua vez, ser inibidas. Esse fato se produz sob a influência de novas excitações que surgem no meio que envolve o animal, excitações que provocam nele, por exemplo, uma reação de orientação; a conseqüência desta ação é o restabelecimento do reflexo inibido; é o que Pavlov denomina desinibição do reflexo condicionado, processo que também desempenha função de grande importância no mecanismo das interações dos fenômenos psíquicos.

Quanto mais se fazem experiências sobre os reflexos condicionados, mais se encontram fatos, demonstrando que esse processo de inibição interna é, em geral, muito mais instável que o de excitação condicionada; ou por outra, as manifestações da inibição interna são muito mais sensíveis à influência das excitações acidentais do que as dos excitantes condicionais. Esses fatos são de observação constante; se alguém penetra, diz Pavlov, no local onde são feitas experiências, em cães, sobre reflexos condicionados, a inibição que possa existir, naquele instante, nos animais, fica profundamente perturbada, ao passo que a excitação condicionada, uma vez bem estabelecida, não sofre quase ou nenhuma modificação.

Pavlov ressalta o princípio temporário dessas ligações. Se o organismo, continuadamente exposto às influências exteriores, determinantes da formação de reflexos condicionados, não tivesse meios de se libertar, mais ou menos facilmente, dessas ligações, seu sistema nervoso seria invadido por milhões de reflexos acumulados, que abalariam, seguidamente, seus mecanismos de execução, músculos, glândulas, órgãos genitais e outros, causando, muitas vezes, conflitos entre eles, o que criaria um caos e uma fadiga surpreendente. Pavlov mostra a existência de mecanismos antagônicos que controlam e suprimem, ativamente, com o tempo, toda a estrutura reflexo-condicionada supérflua, inútil ou tornada tal e libertam assim o organismo do perigo de superatividade desordenada. O esquecimento repousa sobre os mesmos mecanismos. É precisamente a significação do processo de inibição.

O sistema nervoso é a sede de dois processos antagônicos: a faculdade de ser excitado e a de frear, inibir a excitação, que pode desaparecer ou ser recalcada na esfera dita subconsciente, sem se manifestar de maneira alguma. Aliás, esse recalque pode afetar também as formas inatas do comportamento, que, contudo, permanecem fixadas no fundo do sistema nervoso. Todo o conjunto dessas estruturas, adquiridas e inatas, manifestas e recalcadas, forma a particularidade de um dado indivíduo, sua personalidade.

O que ocorre com a inibição tem um enorme alcance para a compreensão dos fenômenos que caracterizam a atividade dos seres vivos, sobretudo porque são eles que determinam os estados conhecidos na psicologia clássica ou subjetiva e também, em conseqüência, no vocabulário corrente, como atos volitivos, pois a faculdade de querer está estreitamente ligada à possibilidade de resistir a uma tendência para agir num determinado sentido. Concebe-se imediatamente toda a importância decorrente da possibilidade de compreender, de explicar e, por conseguinte, de dirigir as atividades humanas, se essa possibilidade se baseia em fatos científicos inelutáveis.

Podemos entrever mais claramente, agora, as razões pela quais nos é impossível utilizar, na ciência, os fatos da introspecção, os fenômenos da consciência, expressos pelas palavras, na qualidade de indicadores de processos psíquicos. É impossível estabelecer uma correspondência objetiva da sensação com os processos que efetivamente ocorrem no sistema nervoso. Na Psicologia objetiva (reflexologia) isso é possível: a salivação ou o movimento muscular que podem ser registrados, objetivamente e até medidos, revelam a presença de processos de excitação e inibição.

Na psicologia introspectiva, poder-se-ia, a rigor, marcar, aparentemente, a presença de excitação pela sensação. Mas, esta pode também faltar, isto é, permanecer latente, embora o processo fisiológico tenha lugar, mas não se exteriorize, porque foi encoberto pela inibição. Pode-se, então, explicar a ausência da sensação, como indicadora, seja pela falta efetiva do processo de excitação, seja pela presença de inibição: é então impossível estabelecer o fato real.

Vê-se de tudo isso que não existe, na introspecção, indicador para o processo fisiológico de inibição; é a razão por que ela não pode ser utilizável, quando se tem de construir a ciência do pensamento e do comportamento à base de palavras (como indicadoras da sensação), ainda mesmo que se consiga fazer malabarismos com os vocábulos. É possível que um dia se consiga registrar a inibição pelo método da eletroencefalografia: então, pondo em relação as curvas obtidas e as sensações experimentadas, poder-se-á, talvez, tirar conclusões sobre os processos reais no cérebro.

No que concerne à natureza mesma do processo inibitório, Pavlov considerava que este se apresenta em toda a parte onde tem lugar o processo de excitação, uma vez que coexista com este e ambas – a excitação e sua inibição – não seriam senão dois fenômenos antagônicos do mesmo processo nervoso.

Nosso resumo da teoria dos reflexos condicionados de Pavlov não estaria completo, se não mencionássemos aqui, ainda, a idéia desse sábio sobre o mecanismo que rege o funcionamento dos instrumentos superiores de que a Natureza dotou os seres vivos, inclusive os homens. Esse mecanismo seria, segundo ele, determinado por dois processos a que chama irradiação e concentração das excitações e das inibições nos hemisférios cerebrais. É uma experiência clássica que uma breve excitação num ponto qualquer dos hemisférios provoca o movimento de um grupo muscular dado. Mas, se ao contrário, a excitação é prolongada, a reação se propaga a músculos cada vez mais distantes e acaba em convulsões generalizadas. Nos hemisférios cerebrais, a excitação de um ponto determinado se estende, então, com grande facilidade, sobre um vasto raio. Essa irradiação da excitação através do sistema dos neurônios corticais se observa, a cada instante, na fisiologia dos reflexos condicionados. (114).

Se formamos, por exemplo, um reflexo condicionado, onde um som tem a função de excitante, observar-se-á que, no início, afinal todos os sons musicais serão eficazes e mesmo todos os ruídos. A excitação, chegada a um dado ponto dos hemisférios, irradia-se, a partir desse ponto, a toda a região correspondente.

O mesmo fato é válido para a inibição interna: esse processo também se irradia. Pavlov fez a seguinte experiência (112): colocou pequenos aparelhos mecânicos, excitadores da pele, sobre a pata de um cão; foram fixados e alinhados sobre a pata. Forma-se um reflexo condicionado com quatro aparelhos superiores: a excitação desses pontos provoca a salivação. Constata-se, então, que o quinto aparelho, o mais distante, torna-se igualmente um excitante, embora tenha sido deixado separado, quando da formação do reflexo. É que a excitação se irradiou. Em seguida, provoca-se a excitação muita vezes, continuadamente, sem ministrar o alimento; observa-se então que sua ação condicionada desaparece: um processo de inibição surgiu no córtex, num ponto correspondente deste. Após alguns instantes, pode-se verificar que os quatro outros aparelhos também não provocam mais a reação: é que houve a irradiação da inibição do ponto de partida para as outras partes vizinhas dessa região do córtex.

Contudo, quanto mais o intervalo entre o funcionamento do aparelho inferior e dos outros é aumentado, mais os aparelhos superiores se libertam da inibição e isso, progressivamente, até que, tornando-se o intervalo bastante grande, a inibição não se faça mais sentir, mesmo sobre o aparelho mais próximo do quinto. Pode-se seguir com os olhos, diz Pavlov, a vaga inibidora que recua e volta a seu ponto de partida: a inibição se concentra. Duas leis gerais regem então essas manifestações e a da concentração do processo nervoso.

Ao lado desses mecanismos fundamentais, que determinam a atividade nervosa superior dos animais e do homem, é preciso ter em conta um segundo mecanismo muito importante: é o de análise, realizada pelos órgãos dos sentidos. É evidente que, já que o organismo não reage senão a certos fenômenos do meio interior, decompõe esse meio e só retém alguns fenômenos particulares. Pavlov caracteriza os analisadores como “aparelhos particulares do sistema nervoso, cada um compreendendo uma extremidade periférica de um dos órgãos dos sentidos, um nervo centrípeto que a ele se liga e a terminação deste nervo nos neurônios corticais. Os analisadores estão estreitamente ligados ao mecanismo gerador dos reflexos condicionados. Os detalhes dos analisadores podem ser principalmente estudados pelo método da destruição parcial das extremidades, periférica ou central dos analisadores.”

É aqui que se encadeia o problema das localizações corticais, para o qual Pavlov (115) e seus discípulos contribuíram plenamente, realizando experiências em que se faz, cirurgicamente, a ablação de certas partes do córtex cerebral. A ablação dos hemisférios provoca o desaparecimento total dos novos reflexos condicionados. Mas, em se destruindo apenas determinadas zonas do córtex cerebral, verifica-se o desaparecimento imediato de tal ou qual reflexo condicionado, em correspondência com a topografia dos mecanismos receptores do córtex, pois, cada aparelho receptor periférico possui, na substância cortical, um território central particular, que é seu ponto terminal e que representa sua projeção exata. Isso não impede, todavia, a formação posterior de novos reflexos condicionados do mesmo tipo daqueles que desapareceram após a ablação da zona correspondente. O córtex tem uma estrutura especial, que se manifesta, de um lado, por uma concentração dos elementos receptores em determinadas zonas e, de outro, pela disseminação desses elementos sobre uma grande superfície. Isso explica o mecanismo da restituição progressiva, depois da operação de ablação parcial, das funções perdidas, fenômeno que foi posto em evidência por Pavlov e outros cientistas. Ele interpreta o caminho contornado pelos filamentos nervosos, seus numerosos cruzamentos, o número, que parece exagerado, desses elementos, etc., como meio de compensar, mais ou menos, as possíveis destruições.

Experiências indicaram também que, depois da ablação da metade posterior, a zona que permanece indene, embora muito pouco extensa, era entretanto capaz de assegurar uma atividade nervosa superior. O princípio da substituição dos órgãos tem aqui grande importância, o que demonstra a equivalência, sob o ponto de vista do mecanismo geral, de todas as regiões dos hemisférios, ponto sobre que já insistia Munk.

Em resumo, devemos considerar, segundo Pavlov (116) seis ordens de fenômenos, se desejamos abranger toda a atividade nervosa, todo o comportamento dos animais superiores. São eles 1.0 – a excitação: 2° – a inibição; 3° – o deslocamento da inibição; 4° – a indução recíproca da excitação sobre a inibição ou da inibição sobre a excitação: 5° – o fenômeno de formação e destruição das vias que ligam, entre si, as diferentes regiões do sistema nervoso; 6° – enfim, os fenômenos de análise, que decompõem o mundo exterior e interior em seus elementos.

A enorme importância do fenômeno da formação dos reflexos condicionados, contudo, salta aos olhos, principalmente quando se encara a faculdade do córtex cerebral, de formar novos reflexos (de segundo grau) à base de reflexos condicionados já existentes (de primeiro grau). Inicialmente, Pavlov sofreu um revés: associando a excitação pelo fator condicionante (por exemplo, o som) ao reflexo que serve de início a uma nova excitação qualquer (por exemplo, visual) e sem dar alimento ao cão, o que quer dizer, sem excitar seu reflexo inato, constatou-se que, em vez de um novo reflexo condicionado (reagindo sobre a excitação visual), observava-se o desaparecimento do primeiro reflexo (ao som): Pavlov denominou essa nova reação de inibição condicionada. A luz tornou-se uma inibição condicionada pelo reflexo ao som. Tal reação se apresenta como elemento útil para o organismo e aqui está o motivo: os sinais, que têm uma razão vital, de vez que biologicamente confirmados, persistem, enquanto as excitações que se fazem acompanhar de uma ação efetiva, provocam uma auto-supressão por inibição. Pesquisas posteriores, contudo, mostraram que, juntando-se uma excitação suplementar, chegava-se a afastar a inibição, a libertar o reflexo da ação inibidora e obter assim um novo reflexo condicionado enxertado sobre o primeiro. Para obter esse resultado, aplica-se o princípio das excitações de retardamento: alongam-se, progressivamente, as pausas entre a excitação sinal e a do reflexo inato (alimentação), em outros termos, estende-se a fase latente da excitação condicionada. Então, a excitação se extingue, pouco a pouco, mas seus traços se associam com o reflexo inato e levam à formação de um novo reflexo enxertado (reflexo condicionado de segundo grau).

Um exemplo de Williams James (80), tirado de atos humanos e citado por Clyde Miller (105), [12] ilustra a questão: “Você se apresenta diante de uma criança com um brinquedo nas mãos. Logo que ela percebe, procura tomá-lo. Você lhe bate na mão que avança. Ela recolhe a mão, chorando. Você levanta o brinquedo, sorrindo e diz: “Peça bem direitinho – assim!”. Ela pára de chorar e imita-o, recebe o brinquedo e canta vitória“. Assim, uma nova reação (súplica) enxertou-se na primeira (agressão).

Já depois da morte de Pavlov, seus discípulos, que continuam essas pesquisas em muitos domínios, puderam estabelecer uma série de novos fatos de grande importância. Entre esses, insistiremos sobre o seguinte: encontrou-se um novo método de procedimento para formar reflexos condicionados, que Orbeli (109) [13] descreve. Kriajev o empregou em cães e Schtodine, em macacos. Consiste em formar, pelo método habitual, um reflexo condicionado no animal, mas, em presença de outro. O primeiro é designado como ator e o segundo como espectador”. Ora, as ligações condicionadas se formam então, não só no indivíduo, naquele em que a excitação sinal é reforçada pelo reflexo inato, mas também no que assiste ao processo, como espectador. A importância biológica desse fato, do ponto de vista da evolução, é muito grande, porque os espectadores vendo, por exemplo, seu companheiro debater-se contra um agressor e empregar certas atitudes, delas se apropriam e formam, assim, reflexos condicionados defensivos, que lhes permitirão, dando-se o fato, fugir do perigo. Os atores podem sucumbir na luta, mas entre os espectadores se cria um reflexo condicionado, que lhes permite salvarem-se.

M. Ad. Ferrière me deu a conhecer uma observação interessante, ocorrida em Genebra e que corrobora os fatos mencionados. Fez-se passar um condutor aéreo, em fios de alta tensão, por cima do lago Leman. Ora, os cisnes, numerosos em Genebra, sobrevoavam esses fios e, a princípio, tocando-os, tombavam, às vezes, fulminados pela corrente. Depois de um certo tempo, não se via mais cisnes mortos pelo choque elétrico: os espectadores, tendo visto seus companheiros (atores) perecerem ao tocar os fios, aprenderam a evitá-los, isto é, reflexos condicionados apropriados se formaram nos primeiros, ao verem as condições em que a má sorte atingiu os segundos.

Na educação, os reflexos de imitação têm grande importância, assim como as reações semelhantes às que mencionamos acima. Bovet (19) [14] a elas se refere como devidas a um “instinto de espectador” e as surpreende também na luta e no jogo: “Se dois estudantes se põem a correr, toda a classe correrá, se jogam pedras no lago, todos os que os virem farão, em seguida, outro tanto. Mas, se chegam às vias de fato, seus companheiros longe de os imitar, gravemente, formarão um círculo para vê-los lutar”.

Bovet faz distinção entre imitação, que seria um processo ideomotor e emulação, quando se admira alguém maior do que nós. A imitação nas crianças é quase sempre emulação, de sorte que a ação do meio sobre o seu comportamento, e, notadamente, sobre sua combatividade, se exerce, de um lado, pelo exemplo, que se torna um fator involuntário de estímulo à imitação e, de outro, pela educação, que faz nascer uma provocação consciente e desejada, que toma assim a aparência de espontaneidade.

Partindo dos fenômenos de inibição interna, Pavlov chega a constatar que, se a inibição se irradia sobre toda a superfície cortical, segue-se um estado de sonolência. O mecanismo é o seguinte: se se excita demoradamente um ponto qualquer dos hemisférios e se essa excitação não é acompanhada de uma excitação simultânea de outros pontos dos hemisférios, observa-se, cedo ou tarde, uma inibição nesse ponto, que leva a um sono total. É, sobretudo, o caso do organismo que fica sob a influência de excitantes de baixa intensidade, monótonos e repetidos. Um excitante térmico, cuja ação se prolonga, é próprio para provocar o sono: conhece-se a ação do saco de água quente depois das refeições ou na cama, à noite. Pode-se criar, então, um ambiente hipnógeno.

Esses fatos levam Pavlov a estudar os fenômenos de hipnose e de sugestão. Com efeito, se o processo de inibição não atinge um grau bastante forte, observa-se um estado intermediário entre o sono e a vigília, que lembra muito o estado de hipnose. Geralmente, nos casos de hipnose, trata-se antes de estados de inibição de fraca intensidade. Daí porque, para Pavlov, os dois estados são, em princípio, idênticos e, tanto mais quanto no sono como na hipnose, se nota uma disjunção da atividade nervosa superior: as reações motoras são, em geral, suprimidas no sono, mas certas atividades psíquicas, como os sonhos, persistem: isto prova que a inibição atingiu certas partes do córtex cerebral e talvez mesmo dos centros subcorticais, deixando outros livres. Na hipnose, vê-se que o indivíduo fica insensível às influências do ambiente, mas, capaz de efetuar certas ações sugeridas do exterior.

Um exemplo expressivo, que se ajusta a esses fenômenos, extraído da fisiologia comparada dos animais, é citado por Orbeli (109); [15] pode-se observar, facilmente, nos aquários marinhos da Estação Zoológica de Nápoles: um grande molusco cefalópode, o Eledone, que tem oito braços, dorme envolvendo seu corpo em sete desses longos braços, que, como toda musculatura do animal, permanecem relaxados, enquanto o oitavo se eleva acima do corpo e executa movimentos rotativos, velando, para garantir a segurança do animal em repouso. Se se atinge ligeiramente com uma varinha o corpo e os sete braços, permanece imóvel e continua a dormir; mas, é suficiente tocar o braço em movimento para que o animal acorde instantaneamente, lance um jato de sua tinta e fuja.

Mas, conhece-se também casos em que um estado cataléptico ou hipnótico é procurado por uma excitação violenta, durante a qual toda a veleidade de oposição do animal é aniquilada: é o experimentum mirabile de Kircher. Em 1646, descreveu ele que, fazendo com um movimento brusco um risco no solo, em frente ao bico de um galo, com um pedaço de giz, o animal ficou imobilizado diante desse risco, durante algum tempo. O mesmo resultado pode ser obtido com cães e gatos novos, crianças, cobaias, rãs, agarrando-os bruscamente e mantendo-os à força, imóveis, durante alguns instantes: ficam inertes, sem movimentos e podem mesmo ser excitados sem sair do seu estupor... Charles Richart [16] descreveu, assim, a hipnose da rã: “Prende-se uma rã vigorosa e ágil, segurando-a durante cerca de dois minutos, entre os dedos, o polegar sobre o ventre os quatro dedos no dorso, apertando apenas o necessário para impedir sua fuga. Nesse meio tempo, os seus movimentos se tornam cada vez mais lentos e preguiçosos; com dificuldade, faz esforço para fugir; finalmente, quando é colocada sobre a mesa, fica de ventre para o ar, imóvel, durante um quarto de hora, uma hora e até mais. Pode-se fazê-la tomar as posições mais inverossímeis.”

O comportamento descrito é um reflexo de defesa sob a forma de inibição: em presença de um força imensa, a que o animal não pode escapar, nem pela luta, nem pela fuga, sua única oportunidade de salvação reside na imobilidade, que permite ao animal passar despercebido – considerando que são sobretudo os objetos animados que despertam a atenção – ou evitar uma ação agressiva dessa força temível, que os movimentos desordenados poderiam provocar. Eis aí, segundo Pavlov (117) o mecanismo que determina essa imobilidade: “As excitações exteriores de extrema intensidade, ou de natureza extraordinária, determinam o aparecimento de uma rápida inibição reflexa da zona motora dos hemisférios, zonas que dirigem os chamados movimentos voluntários: conforme a intensidade e a duração da excitação, essa inibição se localiza, exclusivamente, na zona motora, permitindo manter imutável a posição tomada pelo animal, é a catalepsia – ou então ela se estende a outras regiões dos hemisférios e mesmo ao mesencéfalo. Nesse caso, todos os reflexos desaparecem, pouco a pouco o animal torna-se absolutamente passivo e entra no estado do sono, com relaxamento muscular. A imobilidade, o aspecto rígido, na ocasião de um grande medo, é uma reação idêntica ao reflexo descrito”.

Distingue-se, no homem, em estados análogos, determinados por reações nervosas anormais, a cataplexia, que é um sono parcial patológico, em que a consciência é mantida, mas com perda da faculdade motora, como conseqüência de uma atonia muscular; a catalepsia, um estado no qual o tônus muscular não é abolido, mas há paralisia dos atos volitivos, de forma que as mais estranhas atitudes, impostas de fora, podem persistir: por exemplo, a permanência de um braço no ar durante um tempo muito longo etc. Em seguida, uma neurose vizinha da histeria, a catatonia, onde o estado cataléptico é associado a uma rigidez muscular que impede os movimentos.

Concebe-se facilmente a importância que esses fenômenos de natureza fisiológica apresentam para o estudo do comportamento humano nos casos em que, sobretudo nas massas, os fatores de sugestão desempenham um importante papel.

No curso de seus trabalhos, Pavlov teve sua atenção atraída para dois fenômenos da atividade psíquica, a que chamou de reflexo de fim e reflexo de liberdade. Ele é de opinião que se trata de dispositivos primitivos ou reflexos absolutos, inatos. Por exemplo (118), nota-se em certos obcecados que a tendência para colecionar não está freqüentemente em relação com o valor do fim perseguido; Pavlov entende que é uma característica inata, pois se pode observar que a mesma pessoa gastará igual energia, qualquer que seja o objeto que tenha em vista, seja importante ou fútil. Fica-se, por vezes, tomado pela paixão de colecionar objetos absolutamente insignificantes, em que o único valor é o pretexto para colecionar. Apesar da insignificância do objetivo, é bem conhecida a energia despendida pelo colecionador para atingi-lo e que pode ir até ao sacrifício de sua vida. O colecionador chega, diz Pavlov, para satisfazer sua paixão, a enfrentar o ridículo, tornar-se criminoso, dominar suas necessidades mais urgentes. Tratar-se-ia então, no seu entender, de uma pulsão irresistível, de um instinto primitivo ou de um reflexo – Ele o coloca em relação com o instinto alimentar, baseando-se sobretudo no fato de que ambos apresentam a característica de preensão (a tendência de agarrar o objeto) e de periodicidade. Todo progresso, toda cultura seriam função desse reflexo de fim, pois são devidos, unicamente, aos homens que na vida se entregam a uma determinada tarefa. O suicídio não é, segundo Pavlov, mais do que o resultado de uma inibição do reflexo de fim.

O outro reflexo inato seria o de liberdade. Pavlov (119) partiu de uma observação sobre um cão que, nascido de pais livres, de cães errantes, opunha, no laboratório, uma grande resistência, quando nele se tentava formar reflexos condicionados caracterizados – debatia-se na mesa de experiências, salivava contínua e espontaneamente, apresentava sintomas de excitação geral e não foi senão depois de meses que veio a se tornar dócil e a ser utilizado para a formação de reflexos condicionados. Esse cão não suportava entraves aos movimentos e Pavlov classifica essa atitude como um reflexo inato de liberdade; em oposição, a docilidade seria a manifestação de outro reflexo, inato, inverso ao primeiro, precisamente o reflexo de servidão. Como veremos mais adiante, somos mais inclinados a considerar o comportamento de liberdade ou de servidão, como aquisições, como reflexos condicionados, tendo sua base no instinto ou pulsão, a que denominamos de defesa individual ou combativa.

Mas, o que se estabeleceu, sem nenhum equívoco, nos laboratórios de Pavlov, ainda durante sua vida, foi a possibilidade de agir na formação do caráter. Assim é que se separaram os cães de um mesmo parto em dois lotes, desde seu nascimento: uns foram deixados em liberdade, durante dois anos, os outros fechados em canis. Quando se começou a provocar, mais tarde, reflexos condicionados em uns e outros, evidenciou-se que se formavam mais facilmente nos que foram conservados presos e que, além disso, apresentavam sintomas de uma grande sensibilidade às excitações sonoras: eram medrosos, tremiam continuadamente ao menor ruído, enquanto os outros, habituados a múltiplas excitações, quando trazidos ao laboratório, sob a influência de excitações monótonas, tornavam-se rapidamente sonolentos e resistiam mais tempo à formação de um reflexo.

Esses estudos levaram Pavlov a estabelecer diferenças de caráter que coincidem perfeitamente com a velha divisão hipocrática dos temperamentos, conhecida comumente no que concerne aos homens: distingue os cães melancólicos, fleumáticos, coléricos e sangüíneos. Fala de quatro tipos do sistema nervoso e assinala, antes de tudo, os sistemas de reações fortes e os de reações fracas. Os primeiros podem apresentar indivíduos cujo sistema nervoso mostra um certo desequilíbrio: são os coléricos. Entre eles a excitação prevalece sobre a faculdade de inibição. A outra parte desse grupo é constituída por elementos equilibrados, mas estes podem, por sua vez, ser divididos em indivíduos com reações rápidas e em que a força de excitação iguala a de inibição: os sangüíneos; suas reações são ágeis, no sentido de que os processos de irradiação e de concentração se fazem numa velocidade mais intensa, o que facilita a passagem de um processo a outro. No outro grupo, acham-se os indivíduos que têm reações lentas, embora equilibradas. São marcados por certa inércia: os fleumáticos. Enfim os tipos fracos se caracterizam por uma preponderância da inibição sobre a excitação e essa inibição é do tipo defensivo: os melancólicos. Formam o grande número de indivíduos que constituem as multidões e as massas e são mais facilmente influenciáveis ou violáveis, segundo nossa terminologia [17] na vida política. Assim, essa divisão de caracteres humanos recebe uma base biológica.

Nessa ordem de idéias, que consiste em aproximar todos esses resultados de pesquisas de laboratório, rigorosamente científicas, de reações do comportamento humano, resta-nos ainda indicar que Pavlov atribuía à forma eminentemente humana de excitação, que é a palavra, uma grande importância. É claro, depois de tudo que vimos, que a palavra, falada ou escrita, pode também tornar-se um excitante, condicionante, formando um reflexo, como qualquer outro excitante. “A palavra”, diz Pavlov, (120), “entra em relação com todas as excitações externas e internas que chegam aos hemisférios cerebrais, assinala-os, substitui-os e, por essa razão, pode provocar as mesmas reações que as suscitadas por esses mesmos excitantes”. É fácil compreender que a palavra forma, sobretudo enxertando-se uns sobre os outros, uma série de reflexos condicionados sempre mais complicados, resultando disso toda a complexidade das reações verbais e do pensamento humano. Como diz Clyde Miller (105), “as palavras e os símbolos que as representam dão aos homens a possibilidade de transmitir, de geração em geração, sua herança de conhecimentos e de ignorância, de superstições e de conceitos científicos”. No excelente livro de Stuart Chase – A tirania das palavras (26), encontram-se muitos dados sobre a importância desse fator que condiciona as reações humanas-

Como se pode compreender a possibilidade de exprimir certos estados d'alma pela palavra do ponto de vista da formação de reflexos condicionados? Primeiro, temos um reflexo que se forma partindo da impressão sensorial de um objeto, como sinal que condiciona e explora o interesse de atingi-lo mentalmente; esse interesse desempenha, então, a função de fator absoluto de base, referindo-se precisamente à pulsão [18] que o determina: por exemplo, a pulsão designada como número 2 ou material – Em seguida, sobre esse reflexo se enxerta um novo reflexo, em cuja formação a função básica é desempenhada pelo reflexo precedente (imagem) e como sinal condicionante funciona a palavra – falada (excitações auditivas) ou escrita (excitações visuais); assim, essa palavra se torna, daí em diante, um excitante que desencadeia o reflexo de origem (representação da imagem do objeto). Poder-se-ia, por exemplo, ilustrar esse fato com o esquema da página precedente (fig. 3).

Assim, ligações estáveis se estabelecem entre as excitações complexas, ópticas ou acústicas, que se produzem gráfica ou oralmente e objetos e fenômenos determinados do mundo exterior. Como resultado, os primeiros se tornam sinais para os últimos e podem substituí-los na realização das reações condicionadas.

A questão da sugestão, sobretudo pela palavra, ou por qualquer outro símbolo, tem aqui importância fundamental – Já vimos que, através de certa forma de ação, pode-se enfraquecer a faculdade de resistência dos mecanismos nervosos superiores, como o córtex cerebral: basta provocar uma generalização da inibição interna, que é idêntica ao sono ou recorrer à fadiga; enfim, essa força de resistência pode ser fraca por motivos de estrutura congênita ou ainda enfraquecida por um abalo do sistema nervoso por meio de uma excitação muito forte, uma emoção profunda ou pelo envenenamento (álcool, etc.). Se nessas condições o paciente é atingido por uma palavra imperativa, por uma ordem, essa ordem se torna irresistível, graças à irradiação, em todo o córtex da inibição por ela causada.

Fig. 3
Esquema ilustrando a formação de reflexos condicionados.
A. – Excitação auditiva (fator condicionado) (*****), sincronizada com uma excitação gustativa (----) (reação inata), dá um reflexo condicionado (....): salivação mediante a excitação sonora apenas. Uma ligação, entre os dois centros abalados simultaneamente, se estabelece depois de 50 a 60 repetições. A reação pode ser provocada pela agulha do músculo (sistema 1), glândula salivar (2), aparelho genital (3) ou mamas (4). Ou orelha; o olho; a língua; I, primeiro sistema de sinalização; II, segundo sistema de sinalização.
B. – Inibição: um reflexo condicionado auditivo se forma (*****). Um excitante visual (= = =) desencadeia um abalo do centro excitado que freia o reflexo condicionado (++++++): nenhuma salivação.
C. – Neo-reflexos aparentemente espontâneos. Um reflexo condicionado auditivo se forma (~~~~) por meio de alguma excitação espontânea (na realidade, talvez de natureza hormonal) (----) proveniente das profundezas do segundo sistema de sinalização (II), o reflexo condicionado em referência é modificado, transformado e assume um caráter novo. É a fonte do progresso.

Insistimos sobre esses fatos, porque estão intimamente ligados ao comportamento das massas humanas, quando dos atos conhecidos como propaganda política, que engendram precisamente efeitos de que iremos falar em seguida. Vimos a explicação dada por Pavlov ao fenômeno do sono, que ele põe em relação fisiológica com a hipnose e a sugestionabilidade – A sugestão sobrevém se a palavra, a ordem atinge um mecanismo psíquico que se encontra num estado de fraqueza fisiológica. Se se analisam as possibilidades de resistência à sugestão – uma questão da mais alta importância, como veremos mais adiante – estabelece-se, então, que à parte os casos patológicos, de insuficiência congênita, de doença ou de envenenamento, elas são, em grande parte, função do grau de cultura, isto é, da riqueza em cadeias de reflexos condicionados, enxertados uns sobre os outros, de que se compõe o mecanismo psíquico dos indivíduos em questão. A ignorância é, portanto, o melhor meio para formar massas que se prestam facilmente à sugestão – Isso sempre foi conhecido, mas graças a Pavlov estamos agora em condições de compreender as razões fisiológicas desse fato fundamental no domínio social e político.

Um novo capítulo da fisiologia do sistema nervoso e da fisiologia geral inaugurou-se com as pesquisas sobre os reflexos condicionados: a fisiologia evolutiva, cujos problemas estão sendo estudados nos laboratórios da URSS, dirigidos pelos discípulos de Pavlov, depois de sua morte – Seu objetivo é a descoberta dos processos que se verificam na base da aquisição, na série animal, ao longo da história filogenética das espécies, dos mecanismos dos reflexos condicionados e sua comparação com as mudanças que hoje se observam na ontogênese. Esforça-se por criar, à vontade, por meio da seleção artificial e de cruzamentos, diferentes tipos do sistema nervoso. As mutações provocadas experimentalmente são também encaradas. As pesquisas sobre reflexos condicionados em indivíduos de diversas idades, adquirem também grande importância: é sobretudo Krasnogorsky [19] e seus discípulos que realizam essas pesquisas.

Criticou-se, por vezes, Pavlov, alegando-se que sua teoria rejeita o fato, sentido por todos, da existência de fenômenos subjetivos. Isso é falso: na realidade, as pesquisas por ele feitas em cães e conduzidas com todo o rigor das experiências fisiológicas clássicas de um Claude Bernard ou de um Pasteur, eram apenas uma primeira aproximação com os fenômenos subjetivos; aliás, ele mesmo se pronunciou, muitas vezes, claramente, dizendo que seria inadmissível separar os dois tipos de fenômenos. Considerava os fenômenos subjetivos como uma das manifestações do estado ativo da matéria altamente organizada. Esperava obter “uma tela fisiológica, sobre a qual seria um dia possível bordar toda a multiformidade do mundo subjetivo do homem”.

Um dos novos ramos dessa fisiologia evolutiva, a que nos conduz a teoria dos reflexos condicionados de Pavlov e que atualmente seus discípulos desenvolvem na URSS, é o das ações dos fatores internos do organismo, de ordem humoral, sobre os reflexos condicionados, tais como o sistema nervoso simpático e os elementos do sistema endócrino. Assim, foi possível demonstrar que a extirpação de gânglios cervicais aumenta as tendências de inibição; e, também, que a excitação da hipófise provoca o sono. Em geral, o sistema simpático se evidencia como um fator que controla e regula o estado do córtex cerebral e exerce, assim, influência sobre os processos que nele se desenrolam. As glândulas endócrinas, como os testículos e a tiróide, têm também uma influência correspondente, assim como a extirpação do cerebelo e das supra-renais – Ao contrário, o estudo de certas substâncias químicas do grupo das simpatomiméticas como a efedrina e a benzedrina, mostra que elas aumentam as atividades funcionais do córtex, restaurando o sistema nervoso enfraquecido, aumentando o antagonismo entre a excitação e a inibição e tornando mais nítidos os processos de diferenciação.

Nas páginas precedentes, descrevemos as experiências clássicas de Pavlov e as leis fundamentais que decorrem de sua teoria dos reflexos condicionados. Essa teoria aparece na base de toda a atividade, até então denominada psíquica, do homem e dos animais, dotados de mecanismos superiores; mecanismos que controlando as relações existentes entre o meio ambiente e o organismo, asseguram a adaptação do último e sua viabilidade. Seria interessante fazer a seguinte pergunta: esses mecanismos são privilégio de seres superiores, dotados de hemisférios cerebrais evoluídos ou é um princípio de caráter geral que dirige as reações de todos os seres vivos, mesmo dos mais simples? Essa idéia se impõe por si mesma, pois a ciência biológica nos ensina que não há demarcações bruscas na escala zoológica e que nossa distinção entre os que denominamos superiores e os chamados inferiores é completamente fortuita e arbitrária. De resto, os estudos dos behavioristas nos ensinaram, já há longo tempo que, mesmo nos invertebrados, existem reações temporárias adquiridas, ao lado de reflexos inatos, absolutos. Basta, com efeito, como foi demonstrado depois, aplicar ao estudo do comportamento dos animais, em todos os degraus da escala da evolução, os princípios da experimentação de Pavlov e sua terminologia, para constatar a presença dos reflexos condicionados em todos os Metazoários, mesmo os mais simples. Na URSS, as pesquisas sobre reflexos condicionados foram também estendidas nessa direção, criando-se laboratórios especiais para o estudo da fisiologia comparada do sistema nervoso, nos insetos que apresentam um grande interesse, pois ali se experimentam as diversas formas de comportamento determinadas pelos mecanismos inatos, extremamente estáveis: não se conhece caso em que os reflexos inatos cederiam lugar a novas aquisições do tipo de reflexos condicionados – Outro grande laboratório se ocupa dos reflexos condicionados nos pássaros; são eles animais em que as duas formas de elementos – inatas e adquiridas – são admiravelmente equilibradas.

Na psicofisiologia comparada, pode-se confrontar as modalidades da mesma função nas diferentes formas animais. Subindo-se, então, a escala das diversas espécies, estabelece-se três tipos principais: os que se limitam a ligar diretamente o excitante condicional com o inato (por exemplo, cães); em seguida os que podem formar reflexos condicionados, assistindo como espectadores ou imitando (por exemplo macacos); e, enfim, os que são capazes de estabelecer laços estáveis entre determinados sinais verbais e os objetos (homens), o que permite fazer uma infinidade de ligações novas por meio do 2° sistema de sinalização. É, então, é fácil a resposta à pergunta: qual a diferença essencial entre o homem e os outros seres vivos? É, precisamente, o enxerto dos reflexos condicionados por meio de símbolos verbais – Sabia-se isso, naturalmente, desde longo tempo, mas agora possuímos uma explicação válida para o fato.

Poder-se-ia dizer que a possibilidade de formar reflexos condicionados é uma função específica do sistema nervoso, de que todos os animais, mesmo os Celenterados (medusas e pólipos) são providos. Ora, os Unicelulares (protozoários), seres microscópicos, a que se poderia atribuir um sistema nervoso, se movem, também, buscam evitar o perigo, reagem às influências do meio, etc., em outras palavras, procedem como se raciocinassem, pois seu comportamento é racional. Jennings (82), um behaviorista americano, já havia feito experiências sobre infusórios, as quais pareciam provar que uma reação dessas células isoladas por ser mortificada e adaptar-se, temporariamente, a um conjunto de fatores, agindo sobre suas faculdades receptivas. Eu próprio (152) [20] pude fazer experiências nessas células, com todo o rigor de uma técnica moderna e verificar que uma analogia perfeita com os reflexos condicionados de Pavlov, nos seres dotados de sistema nervoso, manifesta-se também nas células isoladas, cujo tamanho é, aproximadamente de um décimo de milímetro ou menos ainda – Eis uma experiência decisiva (fig. 4): em uma gota d'água, sobre uma lâmina de quartzo, está colocada uma Paramécia; ela ladeia, sem parar, nadando, à margem da gota. No seu percurso, coloco, na gota, uma barreira microscópica invisível, constituída de raios ultravioletas – meu método de micropunctura ultravioleta ou microfotocirurgia (153) [21] que, partindo do fato de que os raios ultravioletas lesam a substância ativa, permite concentrar um feixe microscópico desses raios, sobre qualquer pequena parte do corpo celular, sobre o núcleo, por exemplo, ou sobre os duos vibráteis etc. O infusório, atingido o ponto da gota onde se estabeleceu a barragem ultravioleta, recebe um choque, titubeia e evita esse lugar, desviando sua trajetória usual – Depois de ter sofrido, nesse lugar, um certo número de choques, isto é, depois de ter sido submetido a excitações reiteradas, que determinam a fuga, excitações combinadas com a percepção da topografia do local onde elas se exercem, ele modifica a forma da trajetória: o infusório, ao nadar, evita o lugar perigoso, descreve agora círculos cujo centro se desloca lateralmente. Tira-se então a barreira ultravioleta e observa-se que o animal continua a nadar excentricamente como se a barreira subsistisse: conserva a memória do local do perigo; essa reação persiste durante quase vinte minutos, depois do que o infusório deixa de evitar, pouco a pouco, aquele lugar, daí em diante sem perigo para ele. A lembrança persiste um lapso de tempo muito curto; dá-se a extinção da reação condicionada adquirida. Pode-se provar também que uma espécie de inibição atua igualmente no comportamento do infusório. Assim, somos levados a concluir que a faculdade de apresentar reações condicionadas, temporárias, adquiridas, não é somente uma prerrogativa do sistema nervoso, mas, antes, uma faculdade geral da matéria viva, uma vez que o corpo do infusório é formado somente de citoplasma.

Fig. 4
Formação de uma reação condicionada na Paramécia. i, infusório; ir, trajetória do seu movimento; bu,, microbarreira de luz ultravioleta; p, lugar em que se achava, na fase precedente, o obstáculo ultravioleta.
a-b: 1a. fase – a célula nada na periferia da gota.
c: 2a. fase – ela se choca com a barreira invisível ultravioleta.
d: 3a. fase – ela suporta o choque de luz ultravioleta e se afasta de sua trajetória.
e: 4a. fase – ela aprendeu a afastar-se do perigo (a reação condicionada se formou).
f: 5a. fase – a barreira é retirada, mas, a célula continua a se afastar (a memória persiste).
g: 6a. fase – ela volta, pouco a pouco, à zona antes perigosa (esqueceu, a reação condicionada se extinguiu)

Mais ainda. A reação citada se formou ao término de poucos minutos, depois de algumas dezenas de experiências reiteradas. Metalnikoff (103) mostrou, num interessante estudo, que uma paramécia pode aprender a distinguir o alimento. Colocam-se paramécias num meio que contém pó de carmim – As pequenas partículas indigestas são absorvidas do mesmo modo que micróbios ou outros elementos nutritivos, mas o fato não ocorre senão nos dois primeiros dias; no terceiro, a célula recusa o carmim, absorvendo, ao mesmo tempo, a alimentação normal. Formou-se uma reação condicionada; o interessante, porém, é que ela só se verificou depois de três dias – poder-se-ia dizer – de experiências, durante os quais milhares de partículas de carmim foram absorvidas.

Dessas duas experiências, tira-se a seguinte conclusão: uma reação condicionada, referindo-se à alimentação, baseada, por conseguinte, na satisfação da pulsão alimentar, forma-se muito mais devagar, com mais dificuldade, que uma reação condicionada motora pertinente à fuga diante de um perigo imediato, firmada, então, poder-se-ia dizer, na pulsão de defesa ou, como eu a chamo geralmente, pulsão combativa.

Podemos, depois desta constatação essencial, abordar agora a questão de um sistema de reações do comportamento, que caracterizam os seres vivos e que são, como vemos, função da própria matéria viva. Tomemos um ser extremamente simples, uma ameba, por exemplo e analisemos seus reflexos ou reações imediatas –: É possível reduzi-las a quatro essenciais: ela foge do perigo, absorve alimentos, multiplica-se e pode mesmo, enquistando-se, dar abrigo à sua descendência, pois no interior do quisto, consegue dividir-se em um enxame de pequenas amebas.

Do ponto de vista biológico, no que concerne aos seres vivos e suas reações, é possível, portanto, formular o que segue: a Natureza procura conservar a vida e para esse fim, ela a diferencia segundo dois princípios: o do soma e o do gérmen. O primeiro, o indivíduo, conduz o segundo, a espécie. O primeiro é mortal, descontínuo; o segundo, imortal, contínuo. Para garantir uma certa duração do indivíduo, para preservá-lo do aniquilamento, antes que tenha cumprido sua tarefa, que é a de transmitir o gérmen da espécie, a Natureza o dotou de dois mecanismos especiais; do mesmo modo, para a preservação da espécie existem ainda dois outros mecanismos. Para a conservação do indivíduo esses mecanismos ou instintos fundamentais são: o de defesa ou combativo e o de nutrição. Para a conservação da espécie, os dois mecanismos inatos nos organismos são: o da sexualidade e o da maternidade. Esses mecanismos fundamentais inatos são geralmente chamados instintos; prefiro designá-los de outra forma, de vez que a palavra instinto é seguidamente empregada em diferentes sentidos, podendo gerar confusão. Na verdade, um instinto é antes um conjunto mais ou menos complexo de muitos elementos inatos que formam uma cadeia. Prefiro chamar pulsões esses quatro mecanismos de base inatos.

Temos, então, um quadro esquemático do conjunto do sistema.

Mecanismos de conservação do indivíduo:

N° 1 – Pulsão combativa

N° 2 – Pulsão alimentar

Mecanismos de conservação da espécie:

N° 3 – Pulsão sexual

N° 4 – Pulsão paternal.

Todas as reações dos seres se prendem a esse esquema ou derivam dos pulsões que aí estão indicadas. Não há, propriamente, outras reações, apesar de toda a complexidade aparente das reações dos seres superiores e das do homem. A seriação numérica que demos a esses pulsões corresponde à sua importância biológica: o mais importante, porque mais geral, é a pulsão N° 1, a de luta ou combativa: todo ser vivo deve lutar contra a morte, contra o perigo. Esse perigo é mais imediato que o da carência alimentar: quando um perigo, sob a forma de agressão, por exemplo, se manifesta, é imediato e pode levar à morte, ao passo que o perigo de uma morte decorrente da falta de alimento, é antes crônico ou temporal: não se morre de fome, repentinamente, pode-se resistir algum tempo mesmo, passivamente e não se perde a esperança de resolver a dificuldade. Aí está porque essa pulsão (nutritiva) pode ser colocada como N° 2. No entanto, ela é também comum a todos os seres, enquanto que a pulsão sexual, designada como N° 3, é mais limitada e mais específica, não é universal; enfim, a maternal ou paternal, em seu caso mais perfeito, é mais limitada ainda quanto ao número de indivíduos, que a ele recorrem, que cuidam de sua descendência; não é evidentemente o caso geral. Eis por que a colocamos no n° 4.

Ora, as pulsões não são outra coisa senão os mecanismos que estão na base das reações ou reflexos inatos ou absolutos, de que fala Pavlov e a que chamamos de automatismos. [22] Estão na origem do comportamento dos seres. Vimos, porém, nas experiências de Pavlov, que se pode obter reflexos associados ou condicionados, derivados de reflexos inatos ou em relação com eles. E mostrou-o Pavlov, utilizando, com esse objetivo, a pulsão alimentar ou de nutrição: foi a salivação, em ligação com a tomada de alimento, que lhe serviu de base – Ele mesmo indicou, contudo, que outras bases poderiam servir a esse fim. De fato, fizeram-se, depois, experiências em que as reações motoras formavam a base das reações condicionadas – De acordo com nosso esquema, é lícito dizer que se pode também formar reflexos condicionados, por exemplo, à base da pulsão combativa, ou sexual ou maternal. É certo que eles não foram tão profundamente estudados, como os de Pavlov, no que respeita à pulsão alimentar.

Pavlov mostrou a condição essencial para o sucesso dessa experiência: é preciso que os dois excitantes em causa – o absoluto e o condicionante – coincidam no tempo. O condicionante deve atingir os receptores do indivíduo, enquanto um reflexo inato, portanto, hereditário, se processa de uma pulsão. Se, ao contrário, tal processo se extinguiu, se o animal, por exemplo, está saciado, seria inútil aplicar-lhe uma excitação para criar um reflexo condicionado à base da pulsão N° 2: o reflexo não se formará.

Seria de grande interesse conhecer todas as estruturas inatas, hereditárias, nos animais e sobretudo no homem, que podem servir de base para a formação de reflexos condicionados. São numerosos, muito embora possam ser agrupados em quatro pulsões fundamentais, que resumimos, no esquema acima. Pode-se afirmar, somente, que é possível distinguir, ainda, além dessas quatro pulsões de forma pura, o grupo dos instintos que, segundo nossa maneira de ver, são cadeias, mais ou menos complicadas, de reflexos simples, inatos; depois, o grupo de complexos, que não seriam senão os reflexos condicionados recalcados no subconsciente, ou reflexos condicionados estabilizados, isto é, que se tornaram hereditários, se essa possibilidade realmente existe, como é justo acreditar.

Ora, uma parte notável desses elementos inatos, base para a formação dos reflexos condicionados, permanece certamente em estado latente, mesmo durante toda a vida e só pode ser descoberta em condições especiais. Assim, um meio de fazê-los aparecer consiste na ablação cirúrgica ou na paralisia farmacológica do córtex cerebral, portanto, na eliminação de estruturas especificas para a formação de reflexos condicionados: nesse caso, obtém-se um indivíduo modelo, desprovido de suas estruturas individuais e portador do conjunto de reações inatas, hereditárias, postas a descoberto.

Citamos, mais acima, o exemplo clássico de Pavlov da formação de um reflexo condicionado à base da pulsão alimentar. (n° 2).

Vejamos, agora, um outro exemplo, o da formação de um reflexo condicionado, que tenha por base a pulsão combativa; tomemos um cão, açoitemo-lo com um bastão que lhe deve ser mostrado; ele fugirá. Se repetirmos isso, duas ou três vezes, veremos que o cão reage, daí em diante, à simples vista do bastão: um reflexo condicionado se formou com rapidez muito maior do que nos casos em que se usa a pulsão alimentar. Pode-se escrever a seguinte fórmula:
 

Pulsão Fator absoluto Fator condicionante Reação
no. 1 - combativo - 2 vezes dor causada por uma bastonada vista do bastãofuga

Comparando esses fatos com as experiências sobre os infusórios, que foram atrás descritas, causa admiração constatar que essa lei da preponderância do sistema combativo sobre o de nutrição rege os reflexos condicionados dos seres superiores, da mesma forma que os dos mais ínfimos: deve ser então uma lei geral, inerente à própria matéria. É preciso reter esse fato, porque sua importância será posta em causa no comportamento dos homens, no que tange à política e à propaganda.

Vimos, a cada passo, que é possível falar de uma força relativa de reflexos inatos (base sobre a qual se formam os reflexos condicionados) e que essa diferença encontra repercussão na força relativa dos reflexos condicionados. Mas, vimos também que a própria base, o reflexo inato, pode ser enfraquecido, seja por um defeito orgânico, como a doença ou a intoxicação, seja por um estado funcional que o torne inapto para receber um excitante condicional, como, por exemplo, uma inibição, que paralisa a atividade (logo depois que a necessidade em questão tenha sido satisfeita).

Podem ocorrer ainda casos em que a formação dos reflexos condicionados é entravada por um conflito de duas pulsões, movidas simultaneamente: por exemplo, uma excitação mecânica ou elétrica da pele que vá até a provocação da dor, ao mesmo tempo que uma gustativa, como a tomada do alimento. Pode suceder, então, que o animal, apesar do sofrimento, não se deixe dissuadir da possibilidade de matar a fome. O resultado dependerá de seu estado fisiológico e da força respectiva das excitações. No termo força, deve-se entender o valor especifico do excitante condicional; por exemplo, nos cães, os excitantes olfativos (o faro) ou auditivos, são mais atuantes que os visuais e os reflexos condicionados se formam mais facilmente nos primeiros casos. Enfim, como força pode-se entender ainda o grau de intensidade do excitante condicional aplicado.

Esses exemplos mostram que a descoberta de todas as modalidades de formação dos reflexos condicionados parece bastante complicada, mas já se entrevêem possibilidades de progredir em caminhos que se supunha até então, inextricáveis.

Vemos, assim, que a teoria dos reflexos condicionados, fundamento essencial da psicologia objetiva, baseando-se sobre leis biológicas de caráter geral, pode explicar atualmente toda a complexidade de formas de comportamento dos animais e do homem. A compreensão dos mecanismos do comportamento, porém, oferece a possibilidade de manobrá-los à vontade. Pode-se, de ora em diante, desencadear, com precisão, as reações dos homens em direções de antemão determinadas. Sempre houve, certamente, a possibilidade de influenciar os homens, desde que o homem existe, fala e tem relações com seus semelhantes; mas, era uma possibilidade jogada às cegas e que exigia uma grande experiência ou atitudes especiais: era, de certa forma, uma arte. Eis que essa arte se torna uma ciência, que pode calcular, prever e agir, segundo regras controláveis. Um imenso passo à frente se desenha no campo sociológico.

Quais são essas regras tão importantes? Vê-las-emos mais adiante, explicadas pelas ações, por tentativas preparadas e bem sucedidas. Limitar-nos-emos a sublinhar, no momento, que na base de toda a construção da psicologia aplicada, se encontra o esquema das pulsões ou reações inatas, que conhecemos há pouco. Dizemos, somente, que um conjunto de noções derivadas se liberta, das quais mencionaremos aqui apenas algumas, a título de exemplo. Empregaremos a terminologia da vida quotidiana, para simplificar as coisas. A análise puramente científica falta, ainda na maioria dos casos e as atitudes em questão podem ser suficientemente definidas pelos termos habituais para serem reconhecidas. Aí está, por exemplo, o primeiro sistema (n° 1), o da combatividade. Entre os estados relativos a esse sistema, pode-se citar o medo, a angústia a depressão, ou também, como correlativo oposto, a agressividade, o furor, a coragem, o entusiasmo; em uma palavra, tudo o que se relaciona, no domínio social ou político, com a luta pelo poder, pela dominação. A ameaça e o encorajamento, a exaltação têm grande importância como formas de estímulo.

Para o segundo sistema, o da nutrição, poder-se-ia mencionar tudo o que se refere às vantagens econômicas e às satisfações materiais. As promessas e os engodos, de um lado, os quadros de miséria e nudez, do outro, são as formas que podem ter influência nesse caso.

Para o terceiro sistema, o da sexualidade, tudo o que sensibiliza a alma humana e nela penetra. Distinguem-se elementos primitivos e sublimados. Um exemplo claro dos primeiros abarca tudo o que provoca diretamente uma excitação erótica. Nossa civilização os utiliza cada vez menos, mas, tinha ou tem uma grande importância entre os povos antigos ou primitivos. Basta relembrar os mistérios da antigüidade, os jogos dionisíacos ou o culto fálico, que eram mesmo empregados em procissões como meio de influenciar psicologicamente as massas. Sobre uma ação negativa, cujo ponto de partida é sexual, assenta-se tudo o que resulta em escárnio, desdém, chacota. As caricaturas, os préstitos carnavalescos, os folguedos populares são exemplos expressivos. No que tange à utilização da pulsão sexual sob a forma sublimada, poder-se-ia citar a alegria, o amor elevado: as canções populares, as danças, os ditados em voga, a exibição de mulheres bonitas como personificação de ideais, a ele se relacionam. Como exemplo, tirado da história, mencionemos a deusa Razão, da Revolução Francesa, uma célebre e bela atriz de seu tempo, levada em procissão, seminua, pelas ruas de Paris.

A quarta pulsão, enfim, a da maternidade ou paternal, constitui o fundamento de tudo o que se manifesta sob a forma de piedade, preocupação com outrem, comiseração, amizade, previdência, mas também indignação, cólera.


Capítulo II
O maquinismo psíquico

A – FENÔMENOS GERAIS
O sistema nervoso – Os centros – a cronaxia – A eletroencefalografia – Os reflexos – Os reflexos rítmicos – Os reflexos de conservação – A inibição.
B – AS ESTRUTURAS
A consciência – A atenção – O inconsciente – A psicanálise – A narcoanálise – O segundo sistema de sinalização de Pavlov – As pulsões.
C – A INTUIÇÃO
Os reflexos intuitivos – Os automatismos (reflexos inatos) – Os tropismos – Os instintos – Os hábitos – Os arquétipos – Os complexos – Os fenômenos metapsíquicos – Os esquecimentos – (As refenações) – Os recalques – As fulgurações – (Espectrações) – Síntese da Psicanálise e dos reflexos condicionados.
D – A INTELIGÊNCIA
Os reflexos intelectivos – Os reflexos imediatos – Os heredorreflexos – Os neo-reflexos – Os reflexos reativos – As vitatitudes – Os sentimentos – Os interesses culturais – As deformações – Os vícios – Os reflexos psicológicos – As alavancas psíquicas.
E – OS GRANDES PROBLEMAS
Funcionamento do maquinismo psíquico – inventário psíquico – Determinismo ou livre arbítrio?

 

O conjunto de estruturas orgânicas, em cujo seio se desenrolam os processos que analisamos no capítulo precedente e que determinam o comportamento dos seres vivos, é o sistema nervoso. Os elementos que o compõem são as células nervosas dos centros e as fibras nervosas que saem das células e ligam os centros, os receptores (órgãos dos sentidos) e os executores (músculos, glândulas). Resulta daí um emaranhado excessivamente grande, em razão do extraordinário número de células do cérebro, que chega a nove ou dez bilhões no homem. [23] Na evolução ontogenética, partindo da primeira célula nervosa diferenciada do mesoblasto, para chegar a nove bilhões no adulto, são necessárias 33 divisões celulares bipartidas; nos macacos antropóides, 31 divisões; nos cães e nos gatos, 30 divisões; nos pássaros, 28 etc. Isso explica os graus de inteligência que se pode distinguir nos animais e, precisamente, nessa mesma ordem.

Nos centros nervosos, uma pequena parte da substância cinzenta é ocupada pelas próprias células, a maior parte pelas fibras que se entrecruzam. Como corolário da existência de uma relação entre a inteligência e a massa dessas fibras, pode-se concluir que os processos considerados psíquicos ocorrem nestes últimos e não nas células, que teriam, antes, uma função nutritiva, para a manutenção do sistema de fibras em bom estado, assegurando o seu funcionamento. No homem, os centros tornam-se mais complexos na seguinte ordem: gânglios, centros medulares, bulbo, cerebelo, centros subcorticais, córtex cerebral (écorce).

O córtex dos hemisférios compreende zonas de recepção sensitivo-sensorial e zonas de associação. Estas são tanto mais desenvolvidas quanto mais evoluída for a espécie animal. As zonas de associação ocupam 2,2% da superfície total dos hemisférios no coelho; 3,4% no gato; 6,9% no cão; 11,3% no macaco; 16,9% no chimpanzé; 29% no homem.

Em toda a matéria viva, existe irritabilidade, condutividade e contratibilidade. A irritabilidade é, então, uma propriedade geral da matéria viva; a formação de influxo nervoso é um caso particular mais aperfeiçoado.

A excitação introduzida nos nervos se propaga nos dois sentidos, mas, imediatamente após a passagem, o nervo se torna inexcitável. O seu funcionamento, uma vez desencadeado, independe da natureza, da intensidade, da duração do estímulo que provocou sua irritabilidade. O condutor nervoso é, ao mesmo tempo, gerador de energia. Na energia nervosa, não há necessidade de dois condutores de corrente para ir e vir, como na corrente elétrica. O influxo nervoso explica-se por um processo eletroquímico; consiste numa breve variação do potencial elétrico no sentido negativo (em outras palavras, em uma onda negativa). Para um determinado neurônio, em seu estado habitual e normal (salvo, entretanto, os casos de envenenamento do neurônio ou de modificação de cronaxia) o influxo é sempre idêntico a si mesmo, tanto em forma, como em intensidade e velocidade. Cada estímulo provoca um só influxo, ou melhor, vários influxos separados: não há, nesse caso, fenômeno oscilatório. Se o músculo voluntário estimulado apresenta uma evidente gradação da resposta, de acordo com a intensidade do estímulo, é porque então intervêm o número de fibras nervosas postas em ação e a cadência dos influxos. A velocidade de transmissão do influxo varia de 6cm a 120m por segundo, conforme os neurônios e os animais. No homem, os diâmetros das fibras de um nervo podem variar de 1 a 84(. Em geral, admite-se quatro grupos de fibras com igual número de velocidades diferentes de propagação. Cada nervo pode conter fibras de velocidades diversas: as várias excitações produzem ondas diferentes, assim como amplitude, duração, forma e velocidade: 60m para as sensações táteis simples, 15 a 20m para as picadas, 4 a 5 para as queimaduras.

Visando a uma melhor compreensão do fenômeno inibitório, que é essencial na fisiologia nervosa e que acompanha, segundo Pavlov, toda excitação que se propaga no sistema nervoso, para dominá-la e freá-la, quando ocorre, queremos deter-nos um pouco no estudo do mecanismo íntimo do funcionamento nervoso. Tomamos esses fatos de uma obra de Brach (20), onde são tratados com clareza.

No mecanismo em questão, o essencial é um fator cuja função foi elucidada por L. Lapicque (88). É a cronaxia (de constituição) ou a velocidade funcional própria a cada elemento nervoso (e também a cada músculo). Essa velocidade é medida por uma corrente elétrica constante de intensidade mínima que é ainda capaz de provocar a resposta do músculo. É o começo da excitação. “Ora, as passagens do influxo de um neurônio a outro, ou de um nervo a um músculo, só são possíveis se há isocronismo, isto é, se as cronaxias são iguais nos dois. Se há heterocronismo, o influxo não passa. Os centros superiores e os demais, produzindo espontaneamente influxos, podem modificar as diferentes cronaxias entre neurônios e entre neurônio e músculo: forma-se uma cronaxia de subordinação; esse processo chama-se metacronose. A metacronose corresponde a uma variação relativamente durável de potencial e pode modificar, não só a velocidade, mas a amplitude do influxo.

Os reflexos condicionados se formam graças ao isocronismo que se estabelece progressivamente entre os neurônios corticais e periféricos: é o caso particular da cronaxia de subordinação (Drabovitch e Chauchard). A inibição corresponde à obstrução das vias por meio de um heterocronismo, que pode ser provocado pelos centros.

As fibras sensitivas de uma região têm a mesma cronaxia que os músculos subjacentes. Nos movimentos de flexão e de extensão dos membros, a cronaxia dos músculos antagônicos difere em sua relação de 1 para 2, que é bastante para assegurar a disjunção. No gânglio simpático a transmissão é compatível com a variação de cronaxia maior que a relação de 1 para 2, que é, muitas vezes, o limite para a transmissão nervo-músculo.

A cronaxia do nervo centrípeto é sensivelmente igual a do nervo motor correspondente. Haveria entre dois neurônios periféricos, isócronos, pelo menos um neurônio inserido na cronaxia maior. A metacronose atua principalmente sobre o nervo sensitivo. O nervo, quando a subordinação diminui sua cronaxia, tem uma sobrecarga elétrica positiva.

A cronaxia dos centros motores do córtex cerebral muda de uma região a outra e é muito variável numa mesma região. Parece que há duas espécies de transmissões entre dois neurônios ou entre um neurônio e um músculo: 1° 0 um mecanismo elétrico (preponderante no caso de um músculo estriado); 2° 0 mediadores químicos (adrenalina ou acetilcolina) produzidas pelos nervos) nos casos dos músculos lisos muito lentos. Nos outros casos, ocorrem as duas espécies de transmissão. Entre neurônios, forma-se apenas a acetilcolina. As fibras simpáticas libertam adrenalina, ao nível dos órgãos.

O funcionamento do sistema nervoso pode ser modificado por certos hormônios ou por determinados venenos (existentes, às vezes, em pequenas doses, nos medicamentos). A anestesia geral suprime a ação da metacronose.

A inibição cerebral é acompanhada de um forte aumento da cronaxia nervosa que pode, assim, servir de índice dessa inibição.

Um novo método objetivo de pesquisa da atividade do cérebro traz esperanças de outros progressos na análise dos fenômenos nervosos e psíquicos dos mecanismos superiores. Trata-se do método dos eletroencefalogramas (EEG) de Berger. Estudando o estado elétrico das diferentes regiões do cérebro por um método que se assemelha à eletrocardiografia, chega-se a revelar e a registrar curvas características, produzidas por ondas elétricas que variam segundo os diversos estados de atividade do córtex cerebral (fig. 5). Distinguem-se dois tipos: as ondas alfa, que são grandes e regulares e caracterizam o estado de repouso e as beta, pequenas e irregulares, que surgem nos casos de excitação, em lugar as primeiras. Nos estados de inibição, registram-se ritmos caracterizados por uma diminuição de amplitude das ondas e redução de velocidade. Esse último fenômeno, também se observa no sono que, como demonstra Pavlov e veremos adiante, não é mais do que um estado de inibição generalizado do córtex cerebral. Nas curvas EEG, vê-se nitidamente que as excitações dos sentidos são ineficazes no sono.

Fig. 5 – Eletroencefalogramas (EEG) [24]
A. – A excitação táctil. Esta figura mostra a modificação do EEG consecutiva a uma picada no dedo. O momento da picada está marcado por uma flecha. No alto: um eletrocardiograma. No meio: um EEG. Em baixo: tempo, em 0,1 de segundo. (De acordo com Berger, reproduzido por Jean Delay, 41).
B. – Comparação do ritmo elétrico registrado a partir do gânglio óptico de um coleóptero (inseto, traçado superior) e do EEG de um fisiologista agraciado com o prêmio Nobel. (traçado inferior). O: obscuridade; L: luz; Yq: olhos fechados (yeux fermés). Yo: olhos abertos (yeux ouverts). (De acordo com Jean Delay, 41).
C. – Influência da atividade mental sobre o EEG. A seta indica o início do cálculo mental – Tempo em 0,1 de segundo (de acordo com Berger, citado por Jean Delay, 41).

Estudos experimentais atualmente em curso, sobre a encefalografia e os reflexos condicionados, são de excepcional interesse e poderão, certamente, abrir novos caminhos de exploração da atividade nervosa superior, mormente nas questões de localizações, irradiações e concentrações dos fenômenos nervosos.

Para melhor compreensão do que segue, recapitulemos rapidamente os fatos essenciais. Uma tensão em um neurônio consiste em uma modificação provisória de sua cronaxia. A tensão corresponde uma sensação desagradável. A realização corresponde um repouso neurônico. A cada repouso corresponde uma sensação agradável.

Na complexa arquitetura do cérebro, constituídos por neurônios (células e fibras nervosas) circulam influxos nervosos, caracterizados por ondas elétricas produzidas por processos químicos, desencadeados nos elementos citoplásmicos das células pelas excitações. Essa arquitetura lembra, estranhamente, os complicados circuitos das grandes máquinas eletrônicas modernas, os servomecanismos, [25] que são objeto da nova ciência, a Cibernética, descoberta por Wiener (165) e sobre que teremos ainda de falar [26] A analogia é chocante, como se vê do seguinte fato relatado por Chauchard (28) [27] “Mac Culloch construiu uma máquina para ensinar os cegos a lerem por meio de um código sonoro e o histologista Bonin, vendo o desenho de suas conexões, tomou-o como o dos neurônios da camada visual do cérebro.”

A só circulação das pulsões nervosas nas cadeias neurônicas complexas, compreendendo numerosos circuitos derivados, em que as pulsações podem girar em círculo (base de certos processos da memória imediata, análoga aos das máquinas) atinge o sistema de agulhas eletivas, permitindo compreender a adaptação da resposta ao comando, característica da reação nervosa – Com efeito, a propagação da pulsão deixa atrás dela modificações de excitabilidade que abrem ou fecham o caminho às pulsões seguintes, notadamente aquelas que se retardaram nas vias derivadas. As mensagens reflexas de auto-regulação contribuem para essa preparação fisiológica do caminho. Cada neurônio oscila entre dois estados opostos, ligados à variação de sua atividade (tônus nervoso) e da fluidez protoplásmica: um estado ativado com quimismo acelerado e um estado inibido com quimismo suavizado, orientado para a desnutrição dos desperdícios e a reconstituição das reservas. A excitação, que é uma despolarização elétrica da superfície celular, produz a ativação e a ausência de excitação, a superpolarização, chega até a inibição. A ativação diz respeito à emissão facilitada de pulsões e também à abertura de caminhos em que as pulsões se propagarão de maneira preferencial, em razão da facilitação que resulta, neste caminho, da existência de um acordo funcional entre a maneira de ser de todos os neurônios. As outras vias anatomicamente possíveis serão cortadas pela inibição que, além da diminuição de aptidão, para emitir pulsões, compreende o desprendimento fisiológico dos outros neurônios, em conseqüência de um desacordo funcional. Essas leis de acordo e desacordo são estabelecidas pela cronaximetria. Cronaxia curta eqüivale à excitação, e longa, à inibição. Esses processos de acordo e desacordo permitem um sistema de agulhas variável em função das necessidades, segundo uma autoregulação reflexa (28).

Os mecanismos nervosos que asseguram o funcionamento da máquina viva com todos os seus órgãos receptores e executores e que garantem sua inteira manutenção no meio ambiente, são os reflexos. No organismo, existem reflexos por meio dos quais as diversas partes do corpo se mantêm em coesão necessária ao seu rápido funcionamento, de cada instante. Por exemplo, nosso queixo tomaria uma posição deiscente em razão do seu peso e a massa dos nossos músculos teria tendência para se abater, se não existisse o tônus muscular, um mecanismo reflexo que age automaticamente e de maneira contínua, contra a força da gravidade. [28]

Por outro lado, conhecem-se reflexos rítmicos que regulam as batidas do coração, a respiração etc. O ritmo que condiciona os períodos de atividade e de repouso, tem por fim preservar esses mecanismos do desgaste pela fadiga. Um exemplo frisante dessa ritmia, fácil de observar, é o do estatocisto, órgão de equilíbrio, no Pterotráquio, molúscolo heterópode, marinho, transparente. [29] Vê-se o órgão suspenso no corpo, nas proximidades do gânglio cerebral. Consiste em uma vesícula (fig. 6) cuja parede é formada por um conjunto de células achatadas, munidas de duos extensos e rígidos, dobrados ao longo da parede; no centro dessa vesícula, flutua uma esfera cistalina, mantida nessa posição pelas correntes do líquido provocadas pelas vibrações quase invisíveis desses duos; no pólo inferior da vesícula, encontram-se células sensíveis, com duos curtos e rígidos. Os ethos das células achatadas são mais longos no pólo oposto. De tempo em tempo, segundo um determinado ritmo, uma pulsão vem do cérebro às células achatadas, pelo nervo estático; todos os duos dessas células se eriçam, então, em um só movimento e impelem a esfero-cristal na direção do pólo sensível: ela faz pressão sobre as células desse pólo e, segundo a inclinação do corpo em relação à direção da gravitação, excita uma ou outra célula, transmitindo ao cérebro uma mensagem que consiste em uma exata informação de sua situação no espaço. No fim de um instante uma nova pulsão reflexa alcança as células achatadas, seus duos se endireitam como se obedecessem a uma ordem, vibram e provocam outra vez correntes no líquido intravesicular, que levantam a esfera cristalina e dão às células sensitivas, dessa forma, a possibilidade de repousar.

Ao lado desses reflexos, que se poderia chamar de reflexos de constituição, existem os reflexos de conservação, cuja finalidade é garantir ao ser, como indivíduo e também como portador de germens, a salvaguarda da existência, em um mundo cheio de perigos, para si e para a espécie que representa. Vimos no capítulo precedente que Pavlov distinguiu, entre esses reflexos, dois tipos: os inatos ou absolutos e os condicionados ou associativos, como são também conhecidos.

O que caracteriza a diferença entre esses dois tipos de reflexos, do ponto de vista da psicologia humana, é que os primeiros se desenvolvem, sem que sejam acompanhados pelo fenômeno da consciência, de modo que alguns os designam como automáticos. Mas, essa designação não é clara, uma vez que ela supõe a não automaticidade dos reflexos condicionados, o que, do ponto de vista da psicologia objetiva, não pode prevalecer: os últimos se desenvolvem também segundo leis inexoráveis e são igualmente de terminados e, por conseguinte, automáticos. A diferença está, antes, em ver no fato de que os reflexos condicionados são acompanhados de um estado que se designa como consciente. Na discussão desse problema, encontram-se seguidamente dois termos que têm razão de ser: intuição e inteligência. Sua oposição pode ser conservada no nosso caso.

Fig. 6
Funcionamento do estatocisto (órgão de equilíbrio) do Pterotráquio (molusco heterópode). A: em estado de repouso. B: em estado de atividade. N. Est: nervo estático. Est: estatolito. C.S.: células sensíveis. C.V.: duos vibráteis. (De acordo com Tchakhotine, 154).

Daí por que preferimos, falando dos reflexos do ponto de vista da psicologia, distinguir dois grandes grupos: os reflexos intuitivos e os reflexos intelectivos. Os primeiros pertencem à esfera da intuição e não são aclarados pelo feixe da consciência, muito embora, uma vez realizados, possam tornar-se conscientes: os reflexos absolutos formam apenas uma categoria desses reflexos: os intuitivos. Os intelectivos são sempre reflexos condicionados, iluminados pela consciência e seu conjunto forma aquilo que se chama inteligência. Não é preciso dizer que sua base fisiológica, nos dois casos, são as quatro pulsões fundamentais de que falamos antes: combativo (agressivo), digestivo (nutritivo), propagativo (sexual) e protetivo (paternal).

Segundo Henri Bergson, [30] a origem da consciência e da inteligência estaria num obstáculo, numa contenção da pulsão, o que ocorre em toda a coletividade, de modo que a vida intelectual dependeria da social. Vimos a enorme importância que Pavlov atribuía à inibição, falando mesmo de reflexos condicionados inibitivos e acentuando que cada excitação estaria acompanhada, automaticamente, de um fenômeno concomitante de inibição, podendo tornar-se dominante e determinar o último efeito. Concebe-se facilmente que a inibição tem importância primordial na educação, na esfera moral e na vida social em geral. O tabu das tribos primitivas tem aí sua origem. R. de Saussure (141) descreveu um instinto de inibição, que seria “condicionado pelo sistema nervoso cérebroespinhal, órgão de moderação e de contenção oposto aos ímpetos da vida vegetativa”. Allendy (5) é de opinião que existe um instinto social, ligado aos órgãos da fonação e da locomoção e cuja realização vem acompanhada, como em todos os instintos, da satisfação, ao mesmo tempo, como prazer, o sentimento de ser protegido e aprovado. Esse instinto social autônomo tenderia à formação de uma “síntese coletiva, pela necessidade de segurança e como reação ao estado de guerra absoluto que caracteriza a fase sádica na evolução do indivíduo. O instinto social comportaria tendências positivas: imitação, constituição de grupos, busca de aprovação, atenuação da atividade sádica em emulação codificada pelo meio. As tendências negativas – inibições – consistiriam em restringir ou dissimular as pulsões anti-sociais”. Assim, a inibição desempenha uma importante função, na fisiologia do estado de consciência que é o atributo de um restrito campo de reações cerebrais. No plano fisiológico, existem duas formas de inibição: a ativa – que funciona normalmente comandada pelo centro e a passiva – quando o centro deixa de funcionar. Sua formação é sempre precedida de uma inibição ativa; os dois fenômenos são ligados entre si. [31]

Entre as estruturas diferenciadas do cérebro, deve-se notar, em primeiro lugar, o centro regulador do sistema de agulhas. [32] Esse centro tem sob seu controle o estado de ativação ou de inibição dos diversos neurônios pelo nível de sua paralisação e pode modulá-lo, a fim de abrir caminhos adaptados às necessidades de que é informado, por via reflexa. É um órgão de coordenação e planejamento, como também se encontra nos servomecanismos. Certos neurônios especializam-se nessa função. A regulação geral de todo o funcionamento nervoso decorre de estruturas localizadas na região mesendefálica da base do cérebro, dispositivos que têm sua função em regular o tônus que é, no fundo, um aspecto dessa regulação do “sistema de agulhas nervosas”. Assim, o cerebelo, que rege a motricidade, é um aparelho suplementar de precisão, afetado por essa regulação do sistema de agulhas. Essas estruturas da base têm a função de inserir o cérebro no mundo exterior. Se o centro não funciona, os neurônios cerebrais, voltando a um estado primitivo, são inibidos e desligados dos neurônios periféricos, sensitivos e motores. O emprego desses centros da subordinação leva ao despertar, à diferenciação dos neurônios cerebrais por um jogo harmonioso de ativações e de inibições e em combinação com os neurônios periféricos.

Entre a base e o córtex cerebral há numerosas interconexões; elas informam o centro sobre as necessidades do córtex e a ele conduzem as ordens do centro. Seu papel é da maior importância no funcionamento do cérebro. A psicocirurgia pode realizar sua interrupção em uma zona determinada, como também suas conexões com o centro de subordinação.

O grande problema da psicologia humana, sempre insolúvel, cuja dificuldade é utilizada constantemente pela filosofia e pela psicologia introspectiva, como maior argumento em favor da existência de forças transcendentais e a natureza espiritualista do psiquismo – é o da consciência. A psicologia objetiva não pode negar a existência dos fatos do mundo subjetivo do homem e da consciência; deve abordar esse problema com o mesmo critério das ciências exatas.

Alverdes (7) vê a aparição da consciência no homem como a compensação pela perda da segurança instintiva. Reiwald (131) escreve que, no momento de um ataque de cavalaria, no curso de manobras, à medida que a consciência se eclipsava, as ações e reações instintivas ganhavam uma precisão e segurança impressionantes. Ele assinala o mesmo fato nos sonâmbulos.

O doutor Arthus (10) [33] define a diferença entre o Eu inconsciente e o Eu consciente pelas características seguintes: o primeiro é o que vive e pode; o segundo, o que sabe e que, por isso, pode controlar, orientar e dirigir as forças cegas do inconsciente, desde que consiga desvendá-las. A experiência individual tem nisso grande função, de forma a poder dizer-se que o Eu consciente é o “Homem que sente e que vê, acrescido de tudo o que sentiu e pode rever”.

Afirma-se comumente que o grau de consciência do homem é função inversa de sua sugestionabilidade. A esse respeito, coincidem os dados da psicologia objetiva e as constatações introspectivas sobre a consciência. Que é a consciência? Poder-se-á um dia definir esse fenômeno nos termos das ciências exatas, encontrar um vínculo seguro com dados rigorosamente reproduzíveis e verificáveis?

Pavlov, num de seus últimos discursos antes de morrer, expressa essa esperança. Mas, já em 1913, em outro discurso, deixava entrever certas possibilidades de explicação. Seus pensamentos são tão claramente formulados e ele dá, no final, uma visão hipotética de tal modo pitoresca e original que acreditamos útil citar aqui toda essa notável passagem.

A consciência me aparece – diz ele [34] “como a atividade nervosa de uma determinada região dos hemisférios que desfrutam, nesse momento e em dadas condições, de uma excitabilidade “ótima” (que deve ser, provavelmente, uma excitabilidade média). Nessa ocasião, a excitabilidade das outras regiões dos hemisférios se encontra mais ou menos enfraquecida. Na zona de excitabilidade “ótima”, os novos reflexos condicionados se estabelecem facilmente e as diferenciações se fazem com precisão. Esta zona constitui, portanto, nesta oportunidade, o que se pode chamar de região criadora dos hemisférios. As outras regiões, ao contrário, tendo no mesmo momento sua excitabilidade diminuída, não desfrutam dessas propriedades e sua função consiste, quando muito, em uma atividade limitada ao reflexo anteriormente estabelecido, estereotipado. A atividade dessas regiões é o que se chama, subjetivamente, atividade inconsciente, automática. A região que goza de excitabilidade “ótima” não é fixa, ao contrário, se desloca, continuamente em toda a extensão dos hemisférios, conforme os laços recíprocos dos centros nervosos e sob a influência das excitações externas. As áreas de excitabilidade diminuída se deslocam, de modo natural, paralelamente.

Se pudéssemos ver através da abóbada craniana – diz ele ainda – e se a zona de “ótima” excitabilidade fosse luminosa, perceberíamos, num homem cujo cérebro trabalha, a mudança incessante desse ponto luminoso, alterando continuamente forma e dimensões e envolvido por uma zona de sombra mais ou menos espessa, ocupando todo o resto do hemisfério.

Referimo-nos ao livro de Chauchard (27), sobre a fisiologia da consciência que formula, com bastante clareza, certos fatos que ilustram a atual situação desse problema. Especifica ele que três condições fisiológicas devem ser preenchidas para que haja consciência: a existência de um estado de vigília do córtex cerebral, comandado pelo centro regulador da base do cérebro, a presença de um conjunto de lembranças (engramas) ligados à sensibilidade e dando a imagem de nosso corpo (imagem do Eu), lembranças perpetuamente evocadas por nossas sensações atuais, enfim, um processo de atenção.

Para que o feixe da consciência funcione, é indispensável que haja uma reação emotiva de interesse, a fim de que possa ser útil a nosso organismo e a que dirigimos atenção. Pavlov se referia a um reflexo de orientação. O campo aclarado pela consciência normalmente estreito, tem-se consciência perfeita apenas de certas sensações, de certos movimentos. H. Roger (137) diz: “o trabalho muscular e também o psíquico podem ser realizados com ou sem consciência. A diferença, nos dois casos, reside na atenção. É preciso que a atenção se fixe nos atos que executamos, para que tenhamos deles consciência”. Há, portanto, uma seleção, imposta pela atenção, o estreitamento do campo da consciência, o que garante à nossa ação sua plena eficácia: se fossemos conscientes de tudo o que se passa em torno de nós e em nós mesmos, disso resultaria um caos e toda ação se tornaria impossível.

No que concerne à natureza do processo de atenção, segundo Pieron (121) [35] trata-se de “um processo de orientação unificado da conduta; implica na canalização dos fenômenos da atividade estática ou dinâmica em uma certa direção e uma pausa da atividade em qualquer direção possível, uma inibição de todas as formas de comportamento que não se ajustem à orientação dominante”. – “O espírito tende a se fixar sobre um objeto determinado, pensamento, coisa, palavra”. Assim a atenção consiste no aparecimento de um processo de dinamogenia (excitação) em uma zona cerebral, mas enquanto o sono pode ser considerado – segundo Pavlov – como causado por uma onda de inibição, que submerge o córtex cerebral, a atenção, a base fisiológica da consciência, é uma vaga de excitação. “Quanto maior for essa excitação, menor será o campo da consciência, mais inibido será nosso cérebro por tudo o que não está sujeito à atenção” [36].

“A intensidade da atenção depende, de uma parte, das características da mensagem que a provoca e notadamente do seu interesse afetivo; de outra parte, o estado do cérebro, a fadiga, impedem essa concentração; certas pessoas têm menor capacidade de atenção”. O estudo dos reflexos condicionados e o registro paralelo dos EEG darão a possibilidade de fixar objetivamente as modalidades do fenômeno da atenção. “Um estímulo que dá uma sensação muito fraca para ser percebida e traduzida por uma resposta verbal ou motora, ultrapassa esse limite sob o efeito da atenção, o que permite avaliar o seu grau [37]”.

Pode-se indicar duas formas de atenção: 1.0 a atenção espontânea, assim designada por Chauchard, [38] mas, que preferimos chamar de automática, reflexa, provocada por um estímulo imediato; 2.° a atenção dirigida, chamada por Chauchard de voluntária, que mantém em boa disposição o “que está à espreita”, que alcança ou se concentra num determinado objeto, recusando-se a se deixar distrair por tudo o que não é este objeto”. “O caso extremo e patológico é o da idéia fixa, em que a atenção está, de alguma forma, bloqueada e relaciona tudo a um só objeto suscetível de interesse. A atenção é por conseguinte a orientação da atividade de um indivíduo; a mudança de orientação se faz, rapidamente, em 0,2 a 0,3 de segundo. [39]

“O esforço de atenção se acompanha de modificações características, notadamente da fisionomia que resultem de uma irradiação periférica do fenômeno da excitação cerebral; existem vários tipos de atenção motora nas diversas atenções sensoriais. Notam-se também repercussões viscerais da atenção”.

Por meio de exercício, a capacidade de concentrar a atenção pode ser aguçada; pela fadiga, ela baixa. Depois de fixar a atenção durante um determinado tempo, sobrevem a impossibilidade de concentrá-la sobre uma coisa, e a pessoa torna-se distraída. A atenção produz fadiga, e a distração que disso resulta é uma reação de desinteresse que baixa o estado de consciência e conduz ao sono, “visto que a regulação do sistema de agulhas nervosas, da dinamogenia e da inibição supõem o funcionamento ativo de um centro situado na base do cérebro, compreende-se que a fadiga da atenção diz respeito especialmente a esse centro; ora é precisamente quando pára o seu funcionamento que se desencadeia o sono” [40].

Falamos já, muitas vezes, da importância do inconsciente na vida psíquica do homem e reencontramos suas bases na vida animal em geral. “A princípio, desconhecido por motivos religiosos, o inconsciente apareceu no estudo dos fenômenos de automatismo, de hipnose, de desdobramento, depois revelou sua importante função em toda a vida psicofisiológica. É formado de imagens e tendências instintivas, cuja energia mantém a síntese do indivíduo, tem papel essencial na hereditariedade psicológica, no metapsiquismo etc.” [41] Teremos ainda que falar do conteúdo propriamente dito do inconsciente, quando da classificação dos reflexos. [42] Aqui desejamos apenas indicar que, segundo C. Jung (83), pode-se distinguir duas camadas no inconsciente: a individual, formada de lembranças apagadas ou recalcadas e de percepções que permanecem estranhas à atenção (subliminares) e a superindividual ou coletiva, contendo as mais remotas imagens ancestrais, os arquétipos, tais como os que concernem às forças naturais, o ciclo solar ou lunar, as idéias religiosas etc. e que Platão já havia designado sob o nome de Eidola. [43]

A bagagem do inconsciente individual forma-se por uma atividade combinatória, que existe também na origem dos sonhos. Juntam-se a ela, ainda, todos os recalques, mais ou menos intencionais de pessoas, representações e impressões penosas. O inconsciente coletivo seria, ao contrário, “uma expressão psíquica da identidade das estruturas cerebrais dos indivíduos na massa, fora de suas diferenças pessoais” [44]. São elementos comuns a todos os indivíduos que compõem uma coletividade. Os recalques não são os únicos a povoar o inconsciente. Ao lado deles existem ainda os arquétipos, o que Freud entendia por hereditariedade arcaica. Essas imagens ancestrais podem manifestar-se nos sonhos. É óbvio que esses engramas herdados não são apenas imagens verdadeiras ou representações definidas mas, disposições nervosas ou facilitações, aberturas de vias, transmitidas hereditariamente.“

Para se formar uma idéia mais nítida do inconsciente e de suas relações com o consciente, julgamos útil aqui juntar um esquema do Dr. Arthur (10), que – segundo ele próprio [45] – é “uma simples comparação destinada a facilitar a compreensão do que, sendo psíquico, não pode ser real e materialmente representado”. Ele compara nosso psiquismo a uma cuba (fig. 7), contendo todas as representações (diríamos, com Richard Semen (143), engramas recolhidas no curso de nossa vida e em nós definitivamente gravadas. Acima dessa cuba, está o Eu consciente, o homem que vê e que, munido de um projetor, ilumina esta ou aquela zona da cuba, tornando, assim, consciente tudo o que é surpreendido pelo feixe luminoso projetado.

“O que chamamos campo da consciência seria, assim, a zona iluminada pelo feixe, a região em cujo interior as imagens são tornadas conscientes. A intensidade maior ou menor da tomada de consciência, o grau de consciência que pode alcançar, uma imagem escondida no nosso inconsciente, quando a reencontramos depende do poder do feixe dirigido sobre ela pelo Eu consciente.

São, como dissemos, imagens que não podemos mais rever, nossa memória tem lacunas, o feixe do Eu consciente se choca, seguidamente, com camadas impermeáveis no inconsciente e não consegue clarear as representações que sabemos existir, mas, que, apesar de nossos esforços, permanecem ocultas na sombra.

Fig. 7
Esquema que ilustra as relações em nosso psiquismo.
Zona obscura: todas as imagens que se encontram nesta zona de opacidade psíquica são inaclaráveis. Elas não podem se tornar conscientes. Elas são esquecidas (“recalcadas”). M, o eu consciente: “foco iluminador”. F, feixe de luz, ic, imagens iluminadas atualmente conscientes. ii, imagens atualmente não iluminadas mas ilumináveis (provisoriamente inconscientes). (De acordo com Arthus, 10).

A psicopatologia, isto é, o estudo das anomalias da vida psíquica, nos revelou esse importante fato: quando um indivíduo guarda uma imagem nas profundezas do seu inconsciente, recolhida por ocasião de um acontecimento trágico ou penoso e suscetível de despertar-lhe um sofrimento ou uma angústia (caso em que ela viria a reaparecer no campo de sua consciência), esse indivíduo é protegido contra essa lembrança dolorosa e o impede de tomar consciência das imagens desagradáveis, afastando dessas apresentações perigosas o feixe luminoso do Eu consciente. Tudo se passa como se um anteparo opaco, no esquema que reproduzimos, viesse interpor-se entre o Eu consciente e certos recantos, determinadas zonas do inconsciente, impedindo, dessa forma, o feixe de consciência de esquadrinhá-los. O inconsciente se encontra assim dividido em zonas aclaráveis e zonas obscuras.

Em decorrência do fato de que as imagens escondidas nas zonas obscuras não podem mais ser iluminadas pelo feixe do Eu consciente, essas representações estão condenadas a permanecer definitivamente inconscientes. Estão assim terminantemente subtraídas à memória, para sempre “esquecidas” e delas dizemos, fazendo menção ao mecanismo que se opõe à sua passagem ao campo da consciência, que estão recalcadas. (Deveríamos dizer, com maior precisão, que estão excluídas). Chamamos dessensibilização o fenômeno biológico, em virtude do qual um anteparo se coloca entre certas zonas do nosso inconsciente, onde dormem as lembranças “perigosas” e o feixe luminoso do Eu consciente.

As dessensibilizações psíquicas são, com freqüência, reflexos adquiridos, repetições de antigos processos, automaticamente mesmo que sua manutenção já não se justifique, diante das circunstâncias atuais. A ação dos reflexos de dessensibilização é, portanto, uma manifestação do conflito que explode freqüentemente em nós, entre nossas tendências conscientes, essencialmente variadas e variáveis, adaptadas às circunstâncias, e o Eu inconsciente, reino do automatismo, que tende a conservar sempre as formas adquiridas e que se caracteriza por uma propensão à imutabilidade.

De acordo com a importância das forças que intervêm para tornar impotente o feixe luminoso do Eu consciente, as zonas obscuras são mais ou menos amplas. As zonas obscuras mais amplas, correspondem sempre anomalias importantes na vida psíquica da pessoa. Se o Eu consciente é forte e as dessensibilizações raras, as possibilidades de memória serão aumentadas. Mas, se as dessensibilizações são numerosas, as zonas obscuras extensas e o Eu consciente fraco, as possibilidades de memória serão muito reduzidas. É o que se produz nos indivíduos que sofreram repetidos traumas psíquicos ou que foram vítimas de circunstâncias infelizes e que tiveram, desses acontecimentos, muitas representações recalcadas, zonas obscuras muito extensas. [46]

Resumindo, pode-se dizer com Chauchard (27) [47] que o inconsciente é tudo o que está fora do campo da consciência, ou seja:

1° – os processos fisiológicos que se operam nas vísceras;

2° – toda atividade automática reflexa ou instintiva, à base dos quatro pulsões tratados no capítulo precedente; [48]

3° – toda a massa de excitações recalcadas (lembranças ou engramas, de acordo com nossa terminologia);

4° – toda a atividade cerebral localizada muito pouco intensa para atrair uma massa de lembranças suscetível de implicar a imagem do Eu.

Mas, elementos inconscientes podem aparecer no nível da consciência, como certos automatismos sobre os quais se fixa a atenção, ou engramas recalcados que retornam à consciência. Inversamente, também, um ato começado na consciência pode terminar no inconsciente; é o caso freqüente dos hábitos ou o relatado por Chauchard [49]: “um paciente que adormece sob a ação de cloreto de etila, processo rápido, é convidado a contar em voz alta; ele pára adormecido em um certo número; ao acordar, afirma ter-se detido muito adiante; a partir desse momento, havia continuado inconscientemente”.

A psicanálise, sob o estímulo de Freud e de sua escola, contribuiu largamente para nossos conhecimentos sobre o inconsciente. Mas, seria errôneo identificá-la com as idéias de Freud. Na realidade, difere do freudismo tanto quanto o fato, da teoria. É um método para explorar o inconsciente, cuja originalidade, segundo Allendy [50] consiste em que procede por uma interpretação. É um método afetivo, que funciona essencialmente pela via sentimental e só acessoriamente pela via intelectual e representativa. Parte, sobretudo, das perturbações do inconsciente e busca, por um tratamento psíquico apropriado, compensar a lesão psíquica inicial. A terapêutica psicanalítica difere profundamente da sugestão, naquilo em que visa a reconduzir à consciência os elementos recalcados (para permitir sua assimilação), a corrigir um comportamento vicioso, a descarregar as emoções latentes. Esse tratamento deve vencer resistências, transferir os afetos recalcados, depois liquidar esta transferência. [51] “Breuer [52] determinou o princípio da cura psicanalítica: ”o fato de reconduzir à consciência um elemento afetivo recalcado, destrói o sintoma nevrótico que dele depende, pois tudo o que pode fazer vibrar as emoções esquecidas, mesmo sem formulá-las explicitamente na consciência, como a conversação, a leitura, os espetáculos, a música etc., possui um valor catártico, isto é, pode esvaziar o inconsciente de uma parte de sua carga dolorosa. Falou-se, mil vezes, dos efeitos da confissão, que é uma catarse, mas, a psicanálise possui esse caráter incomparável de descobrir explicitamente os elementos ignorados do paciente, por conseguinte, impossível de revelar por alguma maneira introspectiva“.

Na evolução individual, pode-se distinguir fases caracterizadas pela aparição – em cada nova fase – de reações novas à base de pulsões elementares que se acumulam progressivamente: assim, depois do choque do nascimento – em que o indivíduo trava conhecimento com o mundo exterior, que lhe causa, pela primeira vez, excitações dolorosas e põe em função os mecanismos da primeira pulsão (defensivo-agressivo), – se desenvolvem as reações a pulsões, número 2 (digestivo) e precisamente nas suas subfases labial, dentária e anal. Depois da desmama e durante o período lactente que a segue, são os instintos sociais que se organizam, que têm relações com a pré-sexualidade infantil. Vem, em seguida, a fase da puberdade, em que, ao lado dos pulsões 1 e 2, se apresentam os mecanismos físicos e psíquicos da pulsão sexual (n° 3). Enfim, são os mecanismos pertinentes à pulsão n° 4 – paternal – que caracterizam a fase seguinte e definitiva da evolução – Obstáculos que se opõem ao ciclo de desenvolvimento das energias psíquicas, causam perturbações de inconsciente, paradas ou regressões, que se complicam de mecanismos compensadores. Tais lesões iniciais são [53] “a renúncia ao esforço, as associações viciosas (os complexos), atitudes resultantes de conflitos de pulsões. Os mecanismos de reação são o recalque, a compensação ou o deslocamento (com suas formas de projeção, introjeção, transferência, sublimação); prestam-se sempre a uma racionalização. Todos esses processos de reação, incluindo a racionalização, servem para compensar a lesão psíquica inicial”. No decorrer do tratamento psicoterapêutico, [54] a análise, penetrando cada vez mais profundamente no psiquismo, atua por uma espécie de ablação progressiva das camadas da personalidade: mecanismos cada vez mais elementares do inconsciente aparecem, que são comuns a todos: a pulsão sexual, a pulsão agressiva, o narcisismo, e conflitos da infância, como o complexo de Édipo etc.

Assim, a psicanálise se revela o método por excelência, para explorar o inconsciente e interpretar o comportamento, seja diretamente, seja simbolicamente. Allendy (4) [55] explica que o simbolismo é um processo primitivo, dependente da falta de representações abstratas e do recalque: produz-se automaticamente no inconsciente. É sobretudo o sonho que opera por símbolos. “O símbolo permite (como na álgebra) lidar facilmente com conceitos que o espírito teria muita dificuldade de abarcar na sua totalidade sem esse artifício.”

Ao lado da psicanálise, novos métodos de exploração do inconsciente se desenvolveram nos últimos tempos. Conhecem-se esses processos sob o nome de narcoanálise e são de certa forma uma psicanálise química, isto é, que procuram, como esta última, reconduzir, por meios químicos, à consciência, às lembranças recalcadas a fim de neutralizar, com fim psicoterapêutico, seu poder maléfico sobre o corpo e o psiquismo do homem. O paciente é mergulhado num estado de inconsciência relativa. Esse estado pode ser obtido também pelos métodos da comoterapia convulsiva: é o eletrochoque, uma crise convulsiva resultante da passagem de uma corrente elétrica no cérebro. “Nos pacientes assim tratados, a consciência, antes de voltar ao normal, passa por um estado comparável ao que existe na hipnose, período que pode ser utilizado pela sugestão em psicoterapia, e mesmo na psicanálise. [56] Para obter igual possibilidade por via química, empregou-se o coma insulínico ou o cardiazol, um convulsionante. Dessas práticas “nasceram as idéias de suprir a lentidão da psicanálise clássica, pondo o paciente, com o auxílio de uma droga, num estado de semi-inconsciência (segundo estado) que abre seu subconsciente ao experimentador”. (28) [57]

Sabia-se já que uma ligeira embriaguez, devida ao álcool, predispõe à loquacidade, faz perder o controle de si mesmo; até os selvagens empregavam drogas naturais com esses objetivos: o peyotl mexicano, por exemplo, era utilizado pelos índios para tornar a vítima incapaz de guardar segredo. No começo de nosso século, uma série de drogas foi empregada com os mesmos fins e essas atividades trouxeram a noção do soro da verdade e o seu emprego em finalidades judiciárias e policiais. Desde a última guerra, foi o pentotal, um barbitúrico, que adquiriu certa celebridade, sobretudo depois que, em 1945, Delay propôs a introdução da narcoanálise na prática da medicina legal “a título puramente médico como meio de diagnóstico, depois do fracasso dos processos correntes de investigação” (28) [58] No caso da aplicação da droga, há o desaparecimento da censura, que está na origem do recalque. A adição de uma amina excitante do tipo da ortedrina pode acrescentar à depressão hipnótica uma excitação verbal que facilita a confissão. [59] Viu-se, também, que a narcoanálise pode não somente incitar à confissão dos pensamentos mais secretos, mas, ainda, sugerir condutas ou opiniões. Contudo, há aqui, como no caso da hipnose, um limite: o narcoanalisado “não fará o que está muito em desacordo com sua consciência em vigília, não obedecerá a uma sugestão de crime. Mais eficaz, decerto, para violar a personalidade e fazer de um indivíduo enérgico um farrapo, seria o emprego repetido dos métodos de choque ou de psicocirurgia. [60] Do ponto de vista da moral social, essas práticas são repreensíveis, da mesma forma que aquelas que denunciamos nesse livro sob o nome de violação psíquica. Felizmente, a psicocirurgia tem menor alcance prático e se contenta em enfraquecer os processos conscientes em fins terapêuticos: desconectam-se os lóbulos prefrontais do córtex cerebral dos centros até sua base, onde se encontram as energias principais da vida instintiva, vegetativa, emocional, recobertas de um córtex de inibição, [61] “que são então retiradas, dando lugar a um estado de indiferença, liberando o doente da melancolia depressiva e, nos casos dos doentes agitados, acalmando-os. Se se pode admitir o emprego dessas práticas em fins medicinais, sua utilização em fins políticos, por exemplo, em certos processos intencionais, encontrou uma reprovação universal: o fato de que a consciência humana se insurge contra essas práticas é um sinal reconfortante na nossa época, em que a noção de fronteira entre o que é socialmente moral e imoral se perde cada vez mais, porque a possibilidade de utilizar, para o bem ou para o mal, o progresso da ciência não é afirmada com a força necessária; vê-se isso, por exemplo, no fato de que sábios não se recusam a trabalhar para a guerra e a pesquisar, em seus laboratórios, novas armas mortíferas, uma atividade que lhes é imposta pelos politiqueiros e que desonra a ciência. E Chesterton tem razão de dizer que “a heresia moderna é querer modificar a alma humana para adaptá-la às circunstâncias, em lugar de modificar as circunstâncias para adaptá-las à alma humana. - Parece que o progresso consiste em ser empurrado para a frente, pela polícia ” [62]

Em relação com o mundo de reações reflexas do inconsciente, mas, também, com o do consciente, existe uma grande massa de outras que foram reunidas por Pavlov e sua escola, nos últimos anos de sua vida, sob o nome de segundo sistema de sinalização. Este sistema se baseia na faculdade aparente do cérebro humano de reagir espontaneamente, porém, na realidade, valendo-se de símbolos que se fixaram, anteriormente, nas estruturas íntimas do sistema nervoso central. A palavra, os símbolos verbais (pronunciados ou escritos) têm nisso muita importância. As excitações aí chegam, são armazenadas, entram em contato com outras depositadas anteriormente (engramas), combinam-se com elas e não voltam à superfície senão quando uma necessidade correspondente se manifesta e isso, muitas vezes, sob a forma de complexa cadeia de sinais – Nessas cadeias, reflexos condicionados podem ser combinados e suceder-se a reflexos absolutos e de todas as categorias – Dispensou-se, então, a formação de cada elo dessa complicada cadeia de reflexos, por uma ação especial; utilizam-se os elos intermediários já preparados que formam os elementos de nossa bagagem hereditária ou anteriormente adquirida. Orbei (109) cita, como exemplo de tal exploração do princípio do segundo sistema de sinalização, o fato de que se pode cantar ou tocar uma melodia que um músico conseguirá executar, em seguida, no seu instrumento, isto é, fazer toda a complexa série de movimentos que são necessários para repetir esse trecho; ou ainda, ele a escreverá, sob a forma de notas musicais, o que permitirá a centenas de outros músicos e cantores reproduzir a mesma melodia, empregando técnicas de execução as mais diversas. Outro exemplo é fornecido pelas aulas de cultura física. Pode-se utilizar, para esse fim, o ato de imitação: o professor mostra os movimentos que quer ensinar e os alunos os repetem, imitando-o. Mas, pode-se também, simplesmente, expor em palavras ou por escrito, os movimentos a executar o aluno saberá reproduzi-los, sem vê-los, por conseguinte, sem reflexos imitativos, porém, repetindo, de memória, impressões motoras anteriormente recolhidas e realizando-as, em seguida, sob forma de movimentos correspondentes – Todos os animais que possuam uma organização nervosa, podem adquirir um reflexo condicionado, associando uma sensação apresentativa (condicionante) e uma sensação afetiva (absoluta), quase simultânea. Nos animais superiores, a demora entre essas duas sensações pode, depois da aquisição, tornar-se bastante longa: são, nesse caso, reflexos condicionados retardados.

“Os homens e alguns macacos antropóides têm aptidão para o símbolo, isto é, para uma associação bastante durável e completa entre uma percepção apresentativa e outra afetiva (reflexos condicionados complexos e de grande retardamento”. Como resultado do recurso ao segundo sistema de sinalização é possível registrar novas estruturas jamais vividas, cujo conjunto exterioriza algo de novo, um passo adiante, um progresso – É precisamente isso o que, de certa forma, se faz típico na vida humana individual e coletiva.

Antes de iniciar o inventário das esferas do inconsciente (reflexos intuitivos), e do consciente (reflexos intelectivos), desejamos repetir, ainda uma vez, que na base de uns e de outros se encontram sempre, como elementos indispensáveis à formação de reações de todas as categorias, as reações fundamentais inatas ou absolutas, denominadas, quase sempre, instintos, que os autores franceses chamam, às vezes, de tendências, que Wundt designava trieb e que preferimos denominar pulsões, para evitar confusão. Observamos quatro dessas pulsões, cada uma com dois aspectos: positivo (ou captativo) e negativo (ou oblativo). São as pulsões (com a numeração que lhes atribuímos) n° 1 – combativo, com agressão (como aspecto positivo), e fuga, como negativo; n° 2 – digestivo, com absorção (+) e repulsão (-); n° 3 – propagativo, com conjunção (+) e disjunção (-); n° 4 – protetivo, conglomeração (+) e dispersão (-).

Allendy (4) [63]aplicou o termo pulsão à noção trieb de Wundt, mas, este compreende, na verdade, sob esse nome, uma tendência primitiva interna e própria, através do qual todo ser vivo responderia às ações do exterior.

Os reflexos que se desenrolam no inconsciente foram por nós designados como intuitivos, porquanto é por eles que se opera o que habitualmente se chama intuição, uma atividade psíquica que se serve, como meios de execução, dos mecanismos do sistema nervoso mais estáveis, mais imediatos, dir-se-ia talvez mais curtos do que os que são aclarados pelo feixe da consciência e que designamos como reflexos intelectivos, base da inteligência. Diferindo destes, que são sempre reflexos condicionados, adquiridos por uma experiência pessoal durante a vida, o grupo de reflexos intuitivos engloba reflexos inatos ou absolutos de Pavlov, assim como reflexos condicionados que, servindo-se de caminhos não iluminados pela consciência, podem, contudo, tornar-se conscientes, uma vez realizados ou, ao contrário, sendo conscientes, a princípio, poderão perder essa claridade e aprofundar-se na esfera obscura do segundo sistema de sinalização de Pavlov.

Freud acreditou que devia distinguir, como base de todo psiquismo biológico, uma espécie de força vital ou de pulsão vital a que deu o nome de libido e que se relaciona com a sexualidade. Essa força dirigiria todas as manifestações psíquicas, realizando-se como uma mola, um primeiro movimento, das mil formas que tomam as atividades humanas. Libido seria o agente dinâmico do inconsciente. Platão defendia, também, a existência dessa força, que chamava Eros.

Allendy (4), [64] como Freud, pensa que, se os homens chegaram à civilização, foi derivando, para suas artes, suas indústrias, uma parte da libido primitivamente ligada apenas à satisfação dos instintos naturais. Não acreditamos que o postulado de um tal deus ex maquina seja inevitável para a explicação dos fatos psíquicos do comportamento humano. Para Allendy (4), [65] o inconsciente apresenta “dois aspectos diferentes: um ativo, a libido, que tende a perseguir as finalidades vitais e que é um motor de ação; o outro, passivo, constituído pelas impressões registradas engramas, de acordo com nossa terminologia, pelos automatismos estabelecidos, pelas associações fixadas, e que resulta das experiências feitas. D. Dwellshauvers (51) os designa, respectivamente, sob os nomes de inconsciente dinâmico e de subconsciente automático”.

Não acreditamos que seja compatível com a nova tendência objetiva da psicologia valer-se de uma noção que poderia evocar a idéia de uma força vital misteriosa e finalmente mística. A nosso ver, é suficiente falar, unicamente, do fenômeno da própria vida, que se distingue pelos fatos concretos do mesmo caráter que o de todos os fenômenos naturais, somente apresentando, entretanto, um grau extraordinário de complicação, em virtude da extrema complexidade química da matéria viva – O fato de existência de um domínio do nosso psiquismo, em que os fenômenos concretos da atividade nervosa se desenrolam sem nosso conhecimento, não aclarados pela consciência e que designamos pelo nome de intuição, não contradiz essa maneira de ver. Não nos incomodamos de não sentir o funcionamento de alguns de nossos órgãos interiores, como os movimentos do intestino, o ritmo do coração, a secreção das glândulas etc. “Pelo fato de serem latentes, inconscientes, totalmente ignoradas do Eu – diz Arthus (10), “as imagens do inconsciente (diríamos melhor engramas) não são menos precisas: os raciocínios inconscientes, as associações de imagens inconscientes, não perdem nem em justeza, nem em lógica” [66]

E isso porque esses processos no inconsciente, esses reflexos latentes, sofrem também a regulação do sistema de agulha pelo centro até a base do cérebro que permite, no estado de vigília, a extensão da excitação, nascida em um ponto do córtex, expandir-se, como já supunha Pavlov, na citação que vimos acima. A atividade inconsciente é orientada por uma efetividade elementar que conhecemos sob a designação de pulsões. E é bastante significativo que esse centro do sistema de agulhas se situe na mesma região do diencéfalo em que se encontra o centro do sono, de onde parte a vaga de inibição, desorganizadora do sistema de agulhas nervosas.

Desejamos fazer, agora, uma tentativa de inventariar e classificar esses reflexos intuitivos, que povoam a esfera inconsciente. Para melhor separar certas categorias desses reflexos, seremos obrigados a inventar neologismos, pelo que pedimos, desde logo, desculpas ao leitor.

Entre esses reflexos, em primeiro lugar, então os automatismos, que Pavlov chamou de reflexos inatos ou absolutos e que são, como vimos no capítulo precedente, a base para a formação dos reflexos condicionados ou adquiridos. Diferentemente das pulsões, em número de quatro – combativa, digestiva, propagativa e protetiva – e que marcam as categorias biológicas, segundo as quais é possível classificar todos os reflexos, pode existir um grande número de automatismos, de acordo com a natureza dos elementos fisiológicos que constituem os excitantes em jogo; assim, por exemplo, no caso do reflexo nutritivo, seria a carne, o pão ou qualquer outra substância alimentar, com suas características gustativas, que desencadeiam a atividade do mecanismo reflexo. Mas, todos esses automatismos, na qualidade de fatores que formam reflexos condicionados, podem ser distinguidos, segundo as pulsões que estão em sua base, como combativas, nutritivas, sexuais ou paternais . O que as caracteriza a todas e que são desencadeadas, automaticamente, pelos excitantes adequados, que se transmitem por hereditariedade e que, portanto, se encontram no organismo, desde o seu nascimento. As reações que desencadeiam lhes são adequadas, isto é, os executores ativados respondem sempre por uma mesma ação fisiológica; há apenas uma variação de intensidade, conforme a intensidade da excitação: por exemplo, a salivação será mais abundante no caso de uma massa maior de alimento, da duração do ato de tomá-lo ou de uma agudeza de excitação gustativa; mas, a intensidade da reação pode depender tanto da capacidade do órgão receptor como também do estado fisiológico do executor (sua tonicidade – no caso dos músculos – fadiga, saciedade etc.). Há, todavia, automatismos que funcionam segundo a lei do tudo ou nada, ou seja, a intensidade da reação permanece sempre a mesma, contanto que seja alcançado o limiar de excitação válido, embora, às vezes, muito baixa.

Falando-se de reações inatas automáticas nos organismos, é preciso distinguir reações igualmente automáticas e inatas, mas, apesar disso, diferentes das primeiras: São os tropismos. Observam-se, sobretudo, nos animais inferiores: conhece-se, por exemplo, a atração exercida sobre as mariposas por um foco de luz intensa, que as atrai com tamanha força que ali queimam as asas e morrem. Seria absurdo supor a existência, nesses animais, de um instinto de morte, como alguns pretenderam afirmar. Isso não é mais que o efeito da presença de um fototropismo, o mesmo fenômeno que se observa nas plantas, quando orientam suas hastes na direção da luz. Outro exemplo seria o estereotropismo [67] de certos animais (peixes), que fogem aos estímulos táteis muito variáveis, para eles, no meio exterior, se não estão protegidos e buscam, nesse caso, um contato geral e estável. Ainda outro exemplo: é o geotropismo ou forma de reação à lei de gravitação que se observa nos crustáceos e outros animais inferiores providos de estatocistos ou órgãos de equilíbrio primitivos.

“No tropismo“ – diz Brach – ”o foco estimulante é externo, perceptível e provoca no animal um desequilíbrio orgânico generalizado, que será atenuado ou suprimido pela aproximação ou contato com esse foco (ou, ao contrário, pelo seu afastamento, nos casos de tropismo negativo) o animal é, portanto atraído ou repelido pelo estimulante. O desequilíbrio provoca uma tensão neurônica, em geral inconsciente e o animal faz deslocamentos orientados até a solução dessa tensão“.

O mecanismo dos tropismos não está ainda muito claro, não se exclui que se trate de ações diretas bioquímicas dos estimulantes sobre os receptores, como no caso das plantas e dos unicelulares desprovidos de sistema nervoso. É uma explicação dos tropismos já sugerida por Jacques Loeb.

Em todo o caso, há uma diferença nítida entre o tropismo e os reflexos intuitivos, mesmo os mais simples, como os automatismos. Nos primeiros, o estimulante (foco do tropismo) provocando uma excitação (atração ou repulsão) do animal, é de importância capital, ao passo que, nos reflexos intuitivos, é o desequilíbrio interior, provocado pelo estimulante no sistema nervoso do animal, que está em causa e persiste até sua supressão. “Nas tensões-tropismos, devido a que o foco de estímulo externo, próximo e perceptível, provoca uma realização imediata, não há demora entre o estímulo que determina o início da tensão e sua execução e nesse caso não há nenhuma possibilidade de associação com um outro estímulo externo durante a ativação da tendência, antes de sua realização ” [68] Poder-se-ia dizer, talvez, que, nos casos de tropismo, trata-se de simples reações automáticas, enquanto que, nos de automatismo, o que há são reflexos automáticos, em que o sistema nervoso está engajado a fundo.

Uma grande parte da esfera inconsciente ocupa os instintos. Com essa noção e esse termo houve e ainda existe, na psicologia, muita confusão. Quase todos os autores dão sua interpretação pessoal a esse termo. Já Ribot, [69] em 1873, dizia: “Quando se fala de instinto, a primeira dificuldade é podermos entendê-lo” – Nós próprios acreditamos, na primeira edição deste livro, [70] ser possível identificar os instintos com os automatismos em geral e mesmo com as pulsões. Isso é errôneo: as pulsões, como tendências biológicas fundamentais, não podem ser, segundo vimos acima, senão quatro, enquanto que é possível haver um grande número de instintos e isso em função das espécies das pulsões, dos estimulantes específicos, dos automatismos empregados, das realizações características. O que distingue os instintos dos reflexos absolutos ou automatismos é sua complexidade. Herbert Spencer (145) [71] reconhecia essa característica, dizendo: “Os instintos são atividades reflexas complexas”. Bovet (19) disse também: “Trata-se de alguma coisa mais do que um espirro ou uma piscadela de olhos, que são reflexos simples”.

Segundo Rabaud (126), [72] os instintos não seriam simples reflexos, mas, teriam sua origem em uma reação, facilitada por um estado fisiológico; essa reação, sendo provocada por estímulo intenso e terminando por uma realização característica, tem a aparência de um simples reflexo. Os hábitos devem ter-se formado nos indivíduos do começo da espécie, tornaram-se posteriormente hereditários e constituíram os instintos.

Os instintos são, ao que parece, cadeias de reflexos elementares do tipo dos automatismos. Os automatismos, também, constituindo uma cadeia no instinto, podem pertencer a diversas pulsões, que estão, nesse caso, associadas. Assim, no exemplo da Amofila, um inseto himenóptero predatório, que vive nos lugares arenosos e se alimenta de lagartos, vê-se que um instinto de “conservação da presa paralisada para a criação da prole” é constituído por uma série de atos consecutivos; são “movimentos elementares diversos e eles próprios relativamente complexos, embora sempre precisos e mais ou menos idênticos, na mesma espécie”, seguindo uma determinada ordem que parece lógica: caça, captura da presa, escavação do terreno, enterramento, postura do ovo sobre a presa, tapagem do buraco. “A renovação freqüente, na espécie, dessa série de acontecimentos e de estímulos externos na forma indicada, criou uma facilitação hereditária para uma ordem lógica na série de comportamentos. [73] Pouco a pouco, na espécie, cada fim de uma manobra (realização de um automatismo-filho [74] teria provocado a ativação do automatismo-filho seguinte”. Para os instintos nos homens, a definição de Claparede (31) [75] parece-nos bastante clara: ”O ato instintivo é um ato adaptado, completo, sem ter sido aprendido de maneira uniforme por todos os indivíduos da mesma espécie, sem conhecimento do fim a que tende, nem da relação entre esse fim e os meios postos em ação para alcançá-lo.“ E Bovet (19) frisa que o “instinto não ordena ao indivíduo os atos a executar, senão no momento em que uma circunstância exterior, bem determinada, põe em funcionamento a cadeia de reflexos [76]”.

Durante muito tempo, os instintos foram tidos como imutáveis, mas, atualmente, sabe-se que somente alguns são permanentes, no homem, no curso de sua vida. [77] Permanentes são, na realidade, os hábitos que os instintos criaram, mas os instintos propriamente ditos são, freqüentemente, alguma coisa de transitório – Assim, “se o recém-nascido deve ser alimentado de colher, o instinto de mamar desaparece no fim de alguns dias. Quando se diz que o instinto de sucção persiste, é que se confunde o hábito adquirido e durável com o instinto inato, mas, passageiro...”. No entanto, [78] “se as condições que teriam podido determinar um hábito que substituísse o instinto, não são preenchidas, o hábito não se forma.”

No homem, é a tradição, ou seja, os reflexos condicionados, tornados hábitos, que substituem o que ele perdeu em segurança instintiva – Por essa razão, as ações humanas adquirem uma plasticidade que torna possível o progresso.

Ao contrário, os insetos Himenópteros possuem uma estabilidade surpreendente dos instintos: todas as suas atividades são por eles determinadas; nada têm a aprender no curso de sua vida individual, diferentemente dos pássaros que se adaptam e crescem tanto melhor quanto tenham ocasião de observar os atos de comer, beber e voar dos pais e de fazer uma aprendizagem por imitação. Os homens devem aprender e exercitar-se em quase tudo. [79]

Acreditou-se poder afirmar que existe, em todos os seres vivos e no homem, um instinto especial de morte. Assim, segundo Freud, é possível constatar a presença de dois instintos fundamentais: o da conservação da substância viva que seria a libido ou o Eros e, em contrapartida, o da dissolução, que seria o instinto da morte, que ele identifica com o que chamamos de pulsão agressiva. Mas, Reiwald (130), tem razão, quando diz que a agressividade não pode ser tida como instinto da morte, pois, nela se manifesta precisamente uma vitalidade máxima. A nosso ver, se se pode às vezes falar de uma pulsão para o aniquilamento de si mesmo, como no suicídio, por exemplo, seria de considerá-lo como um desvio vicioso ou doentio, nunca como um instinto e, muito menos, como uma pulsão. Todos os mecanismos fisiológicos e, nesse caso, também psicológicos sadios, só podem tender para a preservação da vida, quer individual, quer a da espécie: é a razão intrínseca de sua presença em todos os seres vivos. Não é possível negar, porém, que, tendo todas as coisas um fim, poder-se-ia dizer que, sob o ponto de vista puramente especulativo e filosófico, todos as pulsões, na sua última fase, apresentam um aspecto de aniquilamento: assim, para a primeira pulsão (combativa), eminentemente vital, é o fim da existência, a morte pessoal; para a segunda (nutritiva) – a evacuação dos objetos do metabolismo; para a terceira (sexual) – é o post coitum omne animal triste “ [80]; para a quarta – a expulsão do fruto do útero, assim como o desmame, a separação dos filhos que se tornaram adultos.

Tendo aflorado acima a patologia do instinto, devemos ainda precisar que, segundo Allendy (4), [81] é necessário encarar quatro fases críticas no ciclo evolutivo dos instintos: diremos desde já, que correspondem às fases da predominância de nossas quatro pulsões: 1° – o nascimento, em que se trataria da aceitação das primeiras experiências no contato com o mundo exterior – é a primeira pulsão que está em causa; 2° – o desmame, que está ligado à aceitação da realidade, das obrigações sociais – 2° pulsão; 3° – desenvolvimento da sexualidade, com o complexo de Édipo, de castração e de autopunição: 3° pulsão; 4.° – enfim, a prova de separação dos pais, com o momento da velhice e da morte: 4° pulsão – “Dessas dificuldades biológicas e, ao mesmo tempo, psicológicas, resultam as perturbações do inconsciente, de que procedem não só as doenças psíquicas, mas, ainda, uma boa parte das orgânicas”.

Mac Dougall (98) [82] distingue 11 instintos fundamentais e, além disso, pseudo instintos. Seria de grande interesse estabelecer nas diversas espécies animais e no homem, naturalmente, inventários dos sistemas de instintos, tentar decompô-los em seus elementos (automatismos) e fazer também estudos comparativos.

Outro grupo de reflexos intuitivos se forma pelos hábitos. São, na origem, reflexos condicionados, atos conscientes que, seguidamente repetidos, se fixam cada vez mais, se automatizam pouco a pouco e terminam por se tornar inconscientes. Se determinada pulsão de um animal, se realiza por ações coerentes e precisas que se desenvolvem rapidamente, isso prova que esse processo foi seguidamente renovado. Como resultado dessa renovação, foi ele facilitado, o caminho se abriu. Mas, “as observações provam que o indivíduo atual se comporta, imediatamente, de maneira perfeita e que não existe nele formação de hábitos. Nesse caso, os hábitos nos indivíduos, no começo da espécie, tornaram-se hereditários e formaram os instintos” – É simples de conceber que não é fácil fazer distinção nítida entre os hábitos e os reflexos condicionados conscientes, podendo subsistir todas as formas intermediárias, caracterizadas por diversos graus de consciência.

Dissemos que Jung (83) diferencia duas camadas no inconsciente: a individual, formada de engramas, provindo da experiência pessoal (lembranças apagadas e recalcadas e percepções acima do limiar da atenção) e o superindividual ou coletivo, constituído por imagens inatas, hereditárias, ancestrais, os arquétipos. Evidentemente, esses símbolos conservados no inconsciente podem ter influência sobre o caráter das pulsões que vêm dessa esfera e determinam o comportamento, sem que se dê conta disto, bem como sobre os processos reflexos que aí têm lugar.

Reflexos condicionados recalcados no inconsciente e que aí se combinam com engramas coloridos dessa ou daquela pulsão, sobretudo dos engramas ancestrais, arquétipos, podem dar origem a complicados processos nervosos, que influenciam o comportamento. São, nesse caso, complexos que podem ser tirados das profundezas do segundo sistema de sinalização e tornam-se conscientes, pelo menos parcialmente. Allendy (4) [83] insiste que “em todo o caso, no complexo, há pelo menos um elemento inconsciente, é o elo que une a representação (nosso engrama) ao sentimento (nossa pulsão). Na terapêutica psicanalítica, procura-se pôr a nu a presença de certos complexos que podem estar na origem dos desvios psíquicos: uma constelação típica de fatores excitantes pode contribuir para o estabelecimento dos complexos.

Outro domínio da atividade psíquica deve ser ainda considerado como pertencente à esfera dos reflexos intuitivos: é o domínio dos fatos conhecidos sob o nome de telepatia ou adivinhação. Não se sabe, ainda, grande coisa sobre esses fatos, senão, como diz Allendy (4), [84] que realmente existem e que não procedem de tentativas intelectuais nem de nenhum mecanismo consciente. ”Se se chegar um dia a lançar luz sobre o que constitui até aqui o ocultismo, será certamente por um conhecimento mais profundo das leis que regem o inconsciente e de suas possibilidades. Atualmente, os fenômenos metapsíquicos são tão misteriosos (porém não mais) quanto os da hereditariedade psicológica“.

Pavlov indicava que estando continuamente expostos às excitações por toda sorte de fatores externos, seríamos invadidos, submergidos por uma enorme quantidade de impressões, que formam reflexos condicionados, em que não poderíamos orientar-nos, se nosso córtex cerebral não possuísse a faculdade de suprimir a maior parte dessas formações psíquicas, votá-los ao esquecimento ou, como se diz na psicanálise, recalcá-los. O mecanismo fisiológico desse recalque deve repousar na inibição que, segundo Pavlov, está sempre presente ao lado de cada excitação e pode se fazer valer, caso ocorra. Mas, a experiência quotidiana, o fenômeno da memória, as experiências em laboratório, nos provam que não se trata de um aniquilamento total das impressões esquecidas, que elas podem retornar, reaparecer na consciência – Desta constatação, se conclui que são, temporariamente, conservadas no inconsciente. Chamamos essas impressões de engramas, tomando o termo adotado por R. Semon (143), em sua obra La Mnème.

Ora, Arthus (10) distingue dois tipos de esquecimento: o ativo e o passivo. “É normal” – diz ele – “esquecer certas coisas de pouca importância e que apresentam para nós pequeno ou nenhum interesse”. É o esquecimento passivo. É o caso desses reflexos condicionados que se formam inumeravelmente, segundo Pavlov e que desaparecem, sem atrair nossa atenção; é também o caso do esquecimento das coisas que perdem sua atualidade e utilidade, que são de natureza efêmera. Eis um exemplo dado por Arthus: (10) “Se mudo de residência, esquecerei rapidamente os números de telefone que tinha presentes à memória, já não são mais necessários no meu novo domicílio e deles não tenho mais oportunidade de me servir.”

A esse esquecimento passivo, normal e de que só temos razão para nos alegrar, pois que alivia nosso trabalho intelectual, deve-se opor o esquecimento ativo, devido a um fenômeno de censura ou dessensibilização, de que já falamos [85] [86] “o esquecimento ativo subtrai [87] de nossa memória imagens que, conscientemente, teríamos interesse em reencontrar. Exerce-se em detrimento de nosso eu consciente“ (diríamos antes: de processos mais complexos de nosso psiquismo, aclarados pela consciência).

A psicopatologia nos ensina que o esquecimento ativo é uma vitória dos reflexos intuitivos (inconscientes), automáticos, sobre os reflexos condicionados superiores de nossa inteligência raciocinante (consciente), uma “vitória dos reflexos sobre as resoluções”, diz Arthus (10), uma vitória dos reflexos intuitivos sobre os intelectivos, diremos nós, da afetividade sobre o raciocínio – Todo esquecimento ativo torna possível a realização de um desejo, de uma pulsão de nosso inconsciente – Implica sempre em uma oposição do inconsciente à consciência, representa uma impotência da consciência a favor da qual poderá realizar-se o que o inconsciente, o que a vida intuitiva, afetiva, reclama.

Parece-nos que, no esquecimento ativo, pode-se, por sua vez, distinguir dois casos: num, há uma firme oposição do inconsciente: o esquecimento ativo total; no outro, a oposição é menor: o esquecimento ativo parcial. Ao passo que no primeiro caso a reaparição de coisas esquecidas se choca com obstáculos que anulam – poder-se-ia dizer – a memória, no segundo a recordação pode ser alcançada com menor esforço e, em certos casos, até sem nenhuma dificuldade. Voltaremos a esses fatos daqui a pouco, quando tratarmos da questão da revivescência dos reflexos condicionados intelectivos.

O esquecimento ativo é denominado, na psicanálise, de recalque. Vimos que, do ponto de vista fisiológico, é um processo de inibição. Allendy (4) [88] expôs muito bem o assunto e, por isso, acreditamos útil transcrever, in extenso, suas próprias palavras:

A consciência é o resultado de uma síntese ativa: só realiza sua unidade ao preço de um perpétuo esforço de coordenação e, correlativamente, de rejeição, uma vez que se trata de eliminar tudo o que poderia comprometê-la. Do mesmo modo que no organismo fisiológico, a função de excreção assegura a evacuação de toda substância capaz de perturbar a síntese do corpo e dos tecidos, de que essa função constitui a condição sine qua non da integridade, a segurança contra a putrefação – assim também na síntese psíquica, deve ser feita a rejeição dos elementos perturbadores. Nenhum trabalho intelectual seria possível se a consciência ficasse aberta, igualmente, a todas as pequenas sensações do momento, a todas as representações que desejariam, pela força da associação, agrupar-se em torno da idéia central. Para pensar, é preciso desviar a atenção dos ruídos da rua, das imagens que esses ruídos não deixariam de suscitar na desordem de um devaneio. A síntese consciente supõe, portanto, uma força de eliminação muito ativa, dirigida contra tudo o que é estranho à atividade intelectual, ao que Bergson [89] chama o esquema dinâmico. A mesma coisa na vida afetiva. Toda situação pode acordar em nós sentimentos diferentes, contraditórios, de acordo com cada pormenor considerado – Não poderíamos sentir, senão bem raramente, uma impressão nítida, caso um poder de eliminação não fizesse calar as pequenas emoções em oposição à resultante geral. Não poderíamos lutar contra as flutuações do momento, nem manter uma unidade de conduta, sem essa barricada erguida contra as solicitações perturbadoras. Nisto consiste, precisamente, o recalque: é uma atividade dinâmica que contém fora da percepção consciente, portanto, no domínio do inconsciente, as tendências, representações ou afetos indesejáveis. Não seria demais repetir, para combater os mal-entendidos ou a malevolência a respeito das idéias psicanalíticas, que se trata de um procedimento inconsciente, também involuntário, por exemplo, como a excreção fisiológica, em que a personalidade consciente não seria de forma alguma tida como responsável. Naturalmente, uma eliminação semelhante pode ser consciente, por exemplo, quando alguém se põe a lutar contra distrações tentadoras para escutar atentamente uma conferência ou quando luta contra seu ódio para falar polidamente a um inimigo, mas, em igual caso, não o chamamos de recalque; dizemos: repressão. O recalque não designa mais que a eliminação automática, involuntária, de forma que o elemento recalcado permanece inteiramente desconhecido de nossa introspecção, por exemplo, nos que se acreditam tolerantes, desinteressados etc. e cujos sentimentos raivosos ou cúpidos manifestam-se aos olhos de todos. O recalque preenche sempre uma finalidade vital, lutando contra a dissociação afetiva, evitando as hesitações, as contradições, os remorsos, em suma, mantendo a síntese consciente na sua rigidez intencional. O recalque produz o esquecimento, o completo desconhecimento do elemento recalcado, mas, não destrói efetivamente esse elemento, (do mesmo modo que os rins não destroem a uréia); ele o faz somente passar ao exterior da consciência, ao psiquismo inconsciente e aí o mantém.

O recalque tem grande importância no quadro das teorias e da prática psicanalíticas: dá, na maior parte, origem a perturbações psíquicas que estão na base de muitos estados mórbidos mentais, mormente das neuroses. A idéia genial de Freud foi, precisamente, a de procurar, através de técnicas especiais – interpretação simbólica dos sonhos e de certos atos da vida por meio da provocação de associações espontâneas de idéias – caminhos pelos quais esses elementos recalcados podiam escapar do inconsciente e revelar-se, dando ao médico a possibilidade de compreender a trama da confusão íntima dos processos reflexos, no psiquismo de seu paciente e de ajudá-lo a dela se desembaraçar.

O recalque tem, ainda, grande importância na formação do símbolo, como demonstraram Rank e Sachs (127). Os estados afetivos se exprimem em imagens simbólicas, mas, não são símbolos diretos em relações imediatas com seu conteúdo; esses símbolos tomam uma forma disfarçada, difícil de interpretar, porque um recalque habitual elimina sua expressão aproximada. É a razão pela qual o símbolo constitui um meio de expressão das idéias e dos sentimentos reprimidos.

Rank e Sachs (127) [90] dizem que o símbolo é o melhor meio de dissimular o inconsciente e de adaptá-lo (a favor da formação de compromisso) a novos conteúdos da consciência. Servimo-nos do termo símbolo para designar um gênero especial de representação indireta, que difere, por certas particularidades, da comparação, da metáfora, da alegoria, da alusão e de todas as outras formas de representação por imagens (à maneira de enigma), de materiais intelectuais, tendo, com essas outras formas, certos traços comuns. O símbolo representa uma união quase ideal de todos esses modos de expressão: constitui uma expressão perceptiva, substitutiva, destinada a tomar o lugar de qualquer coisa de oculto com a qual possui certos caracteres comuns ou a que está ligada por laços internos de associações. A essência do símbolo reside no fato de que tem dois ou mais sentidos, da mesma maneira que nasceu de uma espécie de condensação, de amálgama, de um determinado número de elementos individuais característicos. Sua tendência a despojar-se de todo caráter conceitual, para assumir caracteres perceptuais, o reaproxima do pensamento primitivo e, a este respeito, a simbolização faz parte, essencialmente, do inconsciente, mas, não é menos verdade que relativamente à formação de compromisso, o símbolo sofre igualmente a ação de fatores conscientes, de que dependem, em graus diversos, tanto a formação de um símbolo como sua compreensão.

Por esses últimos fatos, falamos de fenômenos de reevocação dos engramas do subconsciente à luz da consciência, de processos reflexos que ressurgem do 2° sistema de sinalização de Pavlov os quais entendemos útil designar como refenação (do grego pháinomai, parecer) para melhor isolá-los de outros reflexos intuitivos de que já tratamos e de outros ainda a conhecer, que se aparentam com eles, mas, que também têm sintomas especiais. Reflexos condicionados recalcados, na esfera do inconsciente, tornados esquecimentos ativos, podem apresentar-se como mesclados de interesse pelo indivíduo em cujo psiquismo se desenvolvem: isto significa que as pulsões, à base de que se formaram, são bastante fortes, neste indivíduo, para se imporem à fixação, pelos mecanismos fisiológicos do inconsciente, para nele se tornarem engramas. Ora, o futuro desses engramas depende da estrutura psíquica que eles aí encontram. O inconsciente, sede do segundo sistema de sinalização, não é uma tábula rasa que só tem de registrar as novidades que chegam: tem estrutura própria, determinada, elementos hereditários, engramas ancestrais, os arquétipos e também outros que antecederam os novos e que estão depositados e formam uma certa estrutura. É, sobretudo, um conjunto de elementos de natureza dita moral que nele domina: veremos, mais adiante, [91] o que entendemos a respeito desse termo – aqui só podemos mencionar o fato de que a base da noção moral é de origem social e deriva também da força recíproca das pulsões como já vimos: [92] designaremos aqui como dextrípeto a direção no sentido de um potencial moral maior, porque, no esquema em questão, [93] está situado à direita e levípeto o inverso (por analogia com os termos dextrógiro e levógiro na bioquímica). Ora, o interesse de uma ação por nós desejada pode ser mais sublimado, mais moral ou mais egoísta, menos moral. No inconsciente da maior parte das pessoas, encontram-se estruturas implantadas pela educação, experiência social etc., que são de ordem moral, ou seja, que as impelem no sentido de uma atividade em consonância com os sistemas de reflexos condicionados, propícios aos interesses da sociedade humana e opostos, por tabus tornados inconscientes, aos interesses contrários. De maneira que, se os engramas novos, marcados pelo interesse pessoal (nesse caso reevocáveis), e de natureza dextripeta, portanto moral, recalcados, se depositam no inconsciente, nele encontram estruturas convenientes e podem tornar-se, no momento necessário ao indivíduo, refenações que são evocadas pelos mecanismos de facilitação sem esforço na consciência. Outros, ao contrário, de interesse levípeto, nesse caso grosseiramente egoístas, imorais, recalcados, se chocam com estruturas a eles opostas (a censura), que impedem sua evocação e são “ativamente esquecidos”: caem no regime de uma inibição mais ou menos total ou parcial e não podem facilmente transformar-se em refenações, reflexos condicionados intelectivos atuantes, iluminados pelo feixe da consciência.

Mas, ainda uma modalidade pode ocorrer: é quando um reflexo intelectivo recalcado está muito afastado dos interesses do indivíduo, quando a estrutura biológica deste último corre um grande risco de sofrer por isso: nesse caso, a refenação é também entravada, as estruturas inibidoras do inconsciente fazem valer os direitos afetivos da natureza humana e impedem a irrupção de um reflexo dessa ordem, na atividade consciente.

Enfim, os reflexos recalcados e fixados como engramas no segundo sistema de sinalização, podem sofrer modificações por um contato e combinações com engramas preexistentes. Neste caso, reaparecendo ao nível da consciência, sob a forma de refenação, podem apresentar novas características e surgir como reações espontâneas e condicionando, por sua vez, novas reações. Designamos essas novas reações como neo-reflexos: deles falaremos mais adiante. [94]

Na linguagem corrente, é hábito chamar de lembranças essas reaparições de engramas recalcados, mas, como se trata de um termo usual da psicologia introspectiva, preferimos utilizar o de refenações para evitar a confusão dessas noções. O retorno das lembranças esquecidas é designado por Dalbiez (35) como descalque e a interpretação, palavra freqüentemente empregada em psicanálise, é uma explicação para uma lembrança.

Dois grandes problemas surgiriam para o estudo ulterior desses mecanismos a que chamamos de refenações: 1° – Como se modifica um engrama oculto no 2° sistema de sinalização, no momento de sua projeção espontânea na superfície consciente, em seguida a um contato com outros engramas, nele anteriormente acumulados e aí persistentes? 2° – Que agentes provocam a projeção de um engrama oculto, na direção da superfície consciente? Não poderiam esses agentes ser de natureza hormonal?

Um caso especial de refenações é fornecido por fenômenos psíquicos do domínio daquilo que geralmente se chama intuição e de que tratamos também como reflexos condicionados intuitivos que se baseiam sobre elementos acumulados, no 2° sistema de sinalização de Pavlov, portanto no inconsciente e que podem irromper na esfera consciente, escolhendo os caminhos mais curtos; em face do seu deslizamento rápido e súbito, damos-lhe o nome de fulgurações. [95] O que as caracteriza, também e sobretudo, é que seus resultados se manifestam na consciência, no fim de seu curso, como aquisições imediatas. São evidentemente reflexos condicionados facilitados. São precisamente esses reflexos intuitivos, revelando-se conscientes que, com os reflexos intelectivos próprios, isto é, evoluindo, desde o começo, à luz da consciência, formam a inteligência dos seres vivos superiores, sobretudo do homem.

Bergson (16), [96] de certa forma, se aproxima dessa maneira de considerar a intuição, dizendo que ela é “o instinto capaz de refletir sobre seu objeto” – atualmente podemos dar um sentido fisiológico a essa definição. É possível que o estudo dos fenômenos metapsíquicos, conhecidos como ocultos (adivinhação do passado, predição do futuro), possam um dia ser abordados sob esse ponto de vista, utilizando-se também o conhecimento dos fatos do inconsciente coletivo.

As fulgurações apresentam-se sobretudo nas atividades criadoras, lá onde se encontra a questão do novo, na Arte, na Ciência isto é, nas atividades pertinentes às manifestações das quatro pulsões fundamentais, sobre níveis sublimados do nosso esquema. [97] Vejamos alguns exemplos, relacionando-se a cada uma das quatro pulsões: no domínio da 3° pulsão (sexual), a mais favorável, ao que parece, às fulgurações, pode-se indicar o fato do “amor à primeira vista”, como sentimento; mas, também, no nível superior da Arte, onde são encontradas essas molas psíquicas que atuam na poesia, na composição musical e em outras criações artísticas. No domínio da 4° pulsão (paternal), em seu nível de atividade científica, é o caso das grandes descobertas, de invenções. Para a 2° pulsão (digestivo ou captativo, no sentido que lhe damos), poder-se-ia aludir, ainda, ao nível sublimado, nesse caso às grandes inspirações religiosas e de síntese filosófica. Mas, mesmo na 1° pulsão (agressiva ou combativa), as idéias, por vezes geniais, dos grandes estrategistas, dos organizadores, dos grandes campeões de jogo de xadrez e até as inspirações dos grandes oradores sociais e políticos, nos seus atos e nos seus discursos, sobressai o que aqui chamamos de fulgurações.

Um grande problema para os estudos psicofisiológicos, no domínio em questão, seria elucidar o como e o por que da irrupção desses reflexos intuitivos na esfera da consciência, em outros termos, descobrir os mecanismos fisiológicos íntimos que estão na base desses fenômenos e as leis que os regem. No nosso livro L'organisation de soi-même [98], trouxemos exemplos de técnicas, por vezes contendo até manias bizarras, conhecidas dos biógrafos de escritores e de outros homens célebres que utilizavam certas práticas para estimular, à vontade, sua intuição criadora, sua verve, em nossos termos, para desencadear, conscientemente, fulgurações que tornaram suas obras psicologicamente tão eficazes.

Assim, Schiller era estimulado pelo odor de maçãs apodrecidas, que guardava na gaveta de sua mesa de trabalho; Buffon vestia, para redigir sua História Natural, seus punhos e sua roupa de gala; Baudelaire punha-se de bruços no assoalho para escrever seus versos; outros absorviam café, como Balzac; outros ainda consumiam bebidas; muitas pessoas têm necessidade de fumar para trabalhar com inspiração; para Humbolt, o melhor estímulo para o trabalho mental era subir, lentamente, na direção do cume de uma montanha, ao sol; para Goethe, era a visão longínqua de prados verdejantes e de nuvens passando no céu, que ele entrevia de sua mesa, etc. Quando nos cercamos, no nosso gabinete de trabalho ou sobre a mesa, de imagens agradáveis, de fotografias de pessoas que nos são caras e de bibelôs artísticos que evocam certas sensações ou lembranças, o princípio é o mesmo.

Resta-nos dizer, ainda, algumas palavras sobre o último domínio dos reflexos intuitivos a que chamamos espectrações. São sonhos durante o estado de sono, que têm sido melhor explorados em seguida aos sonhos acordados, aos devaneios e às inspirações, sobretudo as artísticas, musicais, poéticas, etc. Como formas de pensamento antes e durante sua realização.

Nesses últimos casos, as espectrações se aproximam freqüentemente, das fulgurações e com elas se confundem, poder-se-ia, talvez, distingui-los destas, no fato de que as primeiras têm uma duração geralmente prolongada, ao passo que, nas fulgurações, o processo se caracteriza, muitas vezes, por uma aparição súbita e rápida. As primeiras são também mais ligadas aos estados conscientes; há uma certa diferença, todavia, entre espectrações oníricas (no sono), de um lado e os sonhos acordados e espectrações criadoras, do outro: é que, nas primeiras, o estado de consciência não é completo, os movimentos correspondentes do corpo são abolidos, inibidos e somente as imagens se apresentam à consciência.

A exploração dos sonhos tomou uma importância capital por força da obra de Freud, que reconheceu no sonho “uma estrada real” para chegar ao inconsciente.

O sonho – diz Allendy (4) [99] – tira todo seu valor do fato de que se produz quando a síntese consciente se encontra fortemente relaxada pelo sono. Seus inconvenientes decorrem das dificuldades de interpretação, mas, resultam de uma extrema riqueza de imagens e da grande facilidade com que os sentimentos podem atuar e se manifestar, quando não são contidos por um controle intelectual severo. Os símbolos do sonho são freqüentemente muito desviados, porque com a diminuição da síntese intelectual, as forças de recalque continuam ainda atuantes. Das aspirações inconscientes que desejam exprimir-se, das forças de recalque que persistem em lutar, da plasticidade imaginativa que cria, sem esforço, um aumento de representações, resulta o sonho com suas espantosas possibilidades.

O sonho compreende elementos (imagens, sensações) e uma organização desses elementos sob forma de reflexos condicionados do tipo intuitivo. “O sonho realiza um desejo, debaixo de um simbolismo mais ou menos complicado, próprio de quem sonha: é interpretável somente por associações de idéias. Comporta, também, uma lembrança, uma impressão atual, uma intenção para o futuro. [100] Exprime, às vezes, um desejo insatisfeito e que continua a reclamar satisfação. Toma, então, o significado de um prazer alucinatório para amortecer, momentaneamente, a libido (pulsão, na nossa terminologia). Os exploradores, privados, de alimentação – conta Nordenskjold – sonhavam com festins superabundantes. [101] Entre esses desejos estão, com freqüência, os de caráter sexual que, filtrados pela censura de Freud e mascarados sob forma de símbolos, enchem os sonhos. Os pesadelos, que parecem ser diferentes dos desejos, não são mais do que cenas insuficientemente elaboradas pela censura e das quais certos sentimentos desagradáveis não puderam ser filtrados. Assim, quando uma moça vê, com terror, em sonho, um ladrão forçar a porta de seu quarto e entrar, ameaçando-a com uma faca, conclui-se que ela está curiosa do amor, mas, teme o defloramento [102]”.

Ao simbolismo, que desempenha um papel de primeira importância nos sonhos, voltaremos, ainda, no capítulo VI.

No sonho acordado, objeto de estudo de Desoille (44), que criou um método de explorá-lo, o paciente é levado, partindo de uma palavra associativa, a revelar tudo o que se passa no seu espírito, o que conduz a uma interpretação de seu inconsciente.

Agora que conhecemos, em toda a sua amplitude, os principais enunciados da psicanálise, tão importante para a compreensão do comportamento humano, podemos tentar colocar as noções da psicanálise em relação com as noções da doutrina de Pavlov, sobre reflexos condicionados. Assim, o que corresponde, na psicanálise, ao inconsciente, é o segundo sistema de sinalização. O recalque é um ato que, para Pavlov, tem seu corolário fisiológico na inibição de um reflexo, cujos traços se fixam nos mecanismos do segundo sistema e podem reaparecer nas vias do primeiro sistema de sinalização, no curso de um processo denominado, por Pavlov, desinibição e cuja característica fisiológica seria uma facilitação. Chamamos refenações esses elementos reflexos que retornam, mais ou menos modificados. O simbolismo que a psicanálise revelou e a que atribui uma importância de primeira ordem, é um fenômeno, aliás complexo, em que a diferenciação dos engramas em relação com outros já acumulados no segundo sistema, deve ser considerada como determinante. Enfim, o que para a psicanálise é a consciência, atribuiríamos a uma facilitação generalizada numa região mais ou menos localizada do córtex cerebral, deslocável em função da origem sensorial das excitações, que a atingem e das conexões preexistentes como resultado dos processos que tiveram lugar anteriormente.

Alongamo-nos sobre a questão do inconsciente, em face da importância da matéria. Vimos que é a sede do que se chamou a intuição, a ponto que nos pareceu lógico designar como reflexos intuitivos os processos reflexos que nele se desenvolvem. Vimos que aqueles englobam os automatismos psíquicos propriamente ditos e também os diversos grupos de reflexos condicionados que ocorrem sem que a luz da consciência os aclare ou em que ela não intervém senão parcialmente ou quando já se manifestam pelos seus resultados.

Falaremos agora de reflexos condicionados, nos quais a característica reside no fato de que são, muitas vezes, plenamente conscientes, sem todavia, perder o contato com a afetividade intuitiva sob forma de pulsões, que são sempre, como demonstrou Pavlov, a base para a formação dos primeiros. Designamos esse grupo de reflexos condicionados reflexos intelectivos, pois é sobre eles que se edifica a inteligência. Esta é tanto maior quanto maior a riqueza desses reflexos no indivíduo e a bagagem de engramas em seu segundo sistema de sinalização for mais importante e melhor diferenciada.

Para passar em revista as diversas categorias desses reflexos, parece-nos útil fazer discriminação segundo o ponto de vista de sua natureza, condicionada por sua origem, por um lado e, por outro, de acordo com o ponto de vista de sua classificação segundo o significado que tem na realização das atividades humanas, aplicadas aos diversos fins da vida social. No que concerne à origem dos reflexos intelectivos, deve-se distinguir, em primeiro lugar, os que constituem reações imediatas a excitações que vêm dos receptores (órgãos dos sentidos) e que são, de certa forma, verdadeiros estereótipos psíquicos. Chamamo-los reflexos reativos. Segundo as pulsões que lhes servem de base, distinguimos quatro tipos com dois aspectos em cada um; são os seguintes: positivo ou captativo, característico de um reflexo que procura se aproximar e agarrar (captar), por algum meio, o objeto ambicionado pelo indivíduo, no qual esse reflexo age. O outro aspecto é negativo ou oblativo: procura afastar-se, separar-se do objeto, dar o objeto (oblação). Os 4 tipos são: o agressivo (n° 1), o digestivo (n° 2), o propagativo (n° 3) e o protetivo (n° 4).

As formas que tomam os dois aspectos nos quatro tipos são:

CCC

A possibilidade de existência de uma categoria de reflexos condicionados que ainda não podemos ilustrar com segurança, através de exemplos, mas que o raciocínio pode e deve mesmo admitir sem grande dificuldade, é dada pela idéia de reflexos condicionados hereditários, ou melhor, da hereditariedade dos caracteres psíquicos adquiridos. Essa questão tem sido freqüentemente debatida pela ciência. Acreditou-se, às vezes, ser possível afirmar que o enigma da tendência progressiva da evolução poderia ser resolvido, baseando-se nessa hereditariedade; supôs-se ainda que o sistema nervoso poderia ser o substrato que se prestaria sobretudo a isso, dada a maleabilidade de suas funções e sua faculdade de adaptação para receber e conservar impressões. Sabe-se que o quimismo da matéria nervosa e do óvulo tem traços que se aproximam (por exemplo, no que concerne à riqueza em lecitídios). R. Semon (143) não hesitou, realizando estudos sobre hereditariedade e elementos germinativos, em designar o princípio que une os dois sistemas pela palavra mneme (memória, no grego). Allendy (4) [103] é de opinião que os casos de uma hereditariedade psicológica são inumeráveis e indiscutíveis, mas, sua explicação fisiológica está ainda obscura, como de resto, também, a da hereditariedade em geral. Bovet (19) vê a validade do princípio da herança dos caracteres adquiridos no fato de que o instinto pode evoluir, isto é, segundo ele, as adaptações psíquicas devem ter sido transmitidas às gerações seguintes.

O próprio Pavlov acreditou, em certo momento, que ratos de seu laboratório, nos quais se tinham formado reflexos condicionados – isto é, a chegada deles num lugar em que se lhes oferecia alimentos, ao som de uma campainha – produziam mais tarde novas gerações, em que este reflexo podia ser obtido com uma facilidade sempre crescente. Renunciou, mais tarde, a essa maneira de ver, depois de haver provado que se tratava, nos casos observados, simplesmente de influências devidas ao emprego de uma técnica de experimentação progressivamente mais aperfeiçoada.

Existe, atualmente, em Pavlovo, localidade perto de Leningrado, um Instituto especial, onde os continuadores da obra de Pavlov fazem pesquisas sobre a atividade nervosa, sob o ponto de vista da Fisiologia Genética: os problemas de hereditariedade das reações nervosas adquiridas, como também os problemas da variabilidade individual, são ali estudados.

O problema da hereditariedade dos caracteres adquiridos, em toda a sua amplitude, é levantado atualmente na vida científica da URSS, em relação com os grandes resultados práticos obtidos por Mitchourine, no domínio da agronomia.

Brach (20) diz também que “seria impossível explicar a exaltação progressiva de virulência por bactérias, que se dá, sucessivamente, em indivíduos da mesma raça, se não se admitisse, nessas bactérias, a hereditariedade de caracteres adquiridos. Para os insetos e vertebrados, sabemos que os elementos da linhagem germinal se separam muito cedo do resto do organismo. Mas, a independência absoluta do soma e do gérmen, já afirmada por Weismann e, em nossa época, por Morgan e sua escola, precisa ser provada, mesmo no adulto. E Brach (20) tenta dar uma sugestão no sentido de que se poderia explicar fisiologicamente o mecanismo de tal fenômeno, partindo-se das interações entre os genes e a produção especial de hormônios às sinapses entre os neurônios. Ele cita E. Chauchard (29), segundo o qual, no ontogênese, ”as regiões afetadas por uma substância determinada têm seu quimismo modificado e produzem elas próprias essa substância.“ Essa idéia não é tão improvável como parecia à primeira vista, desde que se sabe, agora, que certos vírus elementares não se reproduzem, mas, modificam as células em contato com eles até torná-las idênticas a si próprios. E Brach (20) conclui: “Haverá, no descendente hereditariedade de um caráter adquirido, pelo repetido funcionamento dos neurônios correspondentes no ascendente”.

“Os geneticistas afirma a independência absoluta do soma e do germe, mas, apóiam-se somente em experiências negativas. Se, não obstante, admitirmos a hereditariedade de certos caracteres adquiridos, pode-se-á aceitar a influência progressiva da repercussão recorrente [104] não somente sobre facilidades de certos funcionamentos nervosos, provocados pelas associações adquiridas dos pais e herdadas pelos filhos, mas, também, sobre a evolução do sistema nervoso nas diferentes espécies”.

Designamos os reflexos condicionados, indicados como hereditários – heredorreflexos, os quais podiam instituir-se definitivamente, como resultado de uma transmissão e fixação hereditária que condicionaria, por sua vez, o comportamento. Seria da mais alta importância fazer estudos nesse sentido.

Do ponto de vista da origem dos reflexos intelectivos, falamos de reflexos reativos imediatos e heredorreflexos. Outro grupo de reflexos intelectivos bastante numeroso é o dos neo-reflexos; são reflexos condicionados que, recalcados no segundo sistema de sinalização e voltando à consciência no momento necessário, como as refenações, têm, ao contrário destas, um aspecto novo. As refenações eram reflexos estereotipados que voltavam inalterados e que não sofreram, deste modo, qualquer modificação durante o seu internamento no segundo sistema de sinalização. Os neo-reflexos, cujos elementos, tendo demorado nesse sistema, combinaram-se com engramas de toda espécie que ali são armazenados, por ocasião de processos psíquicos anteriores recalcados. Podem não somente combinar-se com estes últimos modificar-se, complicar-se, tomar uma forma completamente nova e, reaparecendo na superfície, figurar reações espontâneas, de caráter totalmente novo, talvez mesmo jamais vivido. Assim, podem dar lugar a progressos na elaboração e realização de um comportamento, de uma atitude. Essa concepção lança uma nova luz sobre a vida ativa criadora, sobretudo social, cuja complexidade e riqueza perdem seu caráter misterioso, explorado pelos defensores da idéia da existência de uma ordem espiritualista, transcendental, que escaparia a tratamento com os métodos exatos das ciências positivas. Não há necessidade de admitir que a alma humana seja uma tábula rasa, autônoma e que possa manifestar espontaneamente aspectos e atitudes sem nenhuma ligação com a vida precedente do indivíduo em questão. Concebe-se, facilmente, que um caminho está aberto para compreender que se trata sempre de uma pseudo-espontaneidade: tudo tem seus fundamentos materiais, tudo se encadeia mesmo nesse domínio psíquico superior, que é a inteligência.

Se passarmos agora a considerar a classificação dos reflexos intelectivos do ponto de vista de seu conteúdo, condicionante das atividades humanas, sobretudo sociais, vemos que se poderia dividi-los nos seguintes grupos: a) – reflexos reativos imediatos; b) – reflexos iniciativos, que não se limitam a reações estereotipadas, mas, em que as atividades são caracterizadas principalmente por uma complicação crescente, condicionado pelo enxerto de reflexos uns sobre os outros, por aquilo que se compreende sob o nome de iniciativa, – daí sua designação; e) – ter-se-ia que falar, finalmente, dos reflexos psicagógicos, isto é, de reflexos que se relacionam com o domínio da ação organizada sobre o homem isolado e sobre as coletividades humanas e que nos interessam especialmente nesta obra, consagrada aos meios de influenciar psiquicamente outrem.

A propósito de reflexos reativos e de sua classificação à base das pulsões, falamos pouco antes (ver acima) [105]

Mais adiante, [106] ao falarmos da psicologia social, veremos, mais detalhadamente, os reflexos iniciativos. Aqui, desejamos dizer apenas que eles também são condicionados por bases afetivas, que conhecemos como as quatro pulsões; de modo que, ao classificá-los, deles devemos valer-nos e distinguir quatro colunas; em cada uma dessas colunas, há tipos que podem ser escalonados em vertical, situando-os em diversos níveis superpostos. Esses níveis correspondem a atitudes e atividades que diferenciamos como se vê no esquema [107]. Entre esses níveis – tipo, as vitatitudes caracterizam as atividades normais de base, na vida. Nas colunas correspondentes às quatro pulsões, encontramos os quatro grupos de vitatitudes que com eles se relacionam: o das vitatitudes combativas, depois as nutritivas, em seguida as sexuais e, finalmente, as paternais. A cada uma dessas categorias correspondem reflexos característicos.

Se subimos ao nível seguinte do esquema, chegamos ao tipo das atividades sentimentais; as categorias que aí se relacionam, sempre na mesma ordem, serão: o sentimento nacional, depois o religioso, em seguida o amor e finalmente a amizade.

Se continuamos acompanhando o movimento ascendente, o da sublimação das atividades, alcançamos o nível seguinte, que é o das atitudes determinadas pelos reflexos condicionados intelectivos do grupo iniciativo, relacionados com os interesses culturais. Ainda aqui a divisão, segundo os pulsões, seria: as idéias socialistas, depois a Filosofia, em seguida, a Arte e, finalmente, a Ciência.

Continuando a subida, chega-se às exacerbações da sublimação, às extravagâncias ou deformações das atividades. A diferenciação, segundo as pulsões, seria então: a anarquia; depois, o misticismo, em seguida, a extravagâncias artísticas, como o surrealismo, por exemplo; e, finalmente, a adoração das máquinas, a maquinocracia. Poder-se-ia definir esse nível como comportando atitudes platônicas de grande envergadura, realizando-se por meio de reflexos condicionados, em desarmonia com os interesses sociais.

Mas, pode-se também considerar, na classificação, o movimento contrário à sublimação, que seria a degradação, partindo do nível das vitatitudes. São as atitudes em que a pulsão toma um desenvolvimento excessivo, que domina tudo e dá causa então a formas socialmente negativas. É o tipo de atitudes que correspondem ao que chamamos geralmente vícios. Em razão de sua classificação, empregando-se o critério das pulsões, chega-se: ao despotismo, depois à avareza e à glutoneria, em seguida às depravações sexuais e, finalmente, à atitude misantrópica. Poder-se-ia, também, definir esse nível como comportando atitudes egoístas degradadas, realizando-se por meio de reflexos condicionados, com exacerbação desarmônica de uma só pulsão.

No seu livro The process of persuasion, consagrado à psicologia da propaganda, Clyde Miller (105) analisa essa função, do ponto de vista da possibilidade de dirigir a opinião pública – o indivíduo, como a coletividade – por meios psíquicos a que chama alavancas (device), partindo-se da teoria dos reflexos condicionados. É uma aplicação prática dos enunciados científicos da psicologia objetiva, de que tratamos neste capítulo. Para ele, essas alavancas são os verdadeiros propulsores ou disparadores que desencadeiam uma reação, um reflexo condicionado: na psicologia objetiva, são as excitações condicionais verbais e finalistas.

Do ponto de vista da classificação dos reflexos, que condicionam esse comportamento dirigido das massas, podemos chamá-los psicagógicos – se quisermos designar esse comportamento como psicagogia – termo empregado por Ch. Baudoin (14), talvez em um sentido um tanto restrito de uma orientação das massas conduzidas numa direção socialmente positiva, portanto moral, em oposição à noção de demogogia. Parece-nos que seria talvez mais objetivo falar da psicagogia como atividade de direção psíquica em geral.

Clyde Miller (105) concorda com J. H. Robinson que, no seu livro L'esprit comme il se forme (134), afirma que nossa mentalidade é ainda a dos homens das cavernas, apenas recoberta de uma fina camada do que chamamos espírito civilizado.

Expõe que “as origens da linguagem remontam a nossos ancestrais pré-históricos. As primeiras palavras eram provavelmente gritos de alarme e expressões garantidoras de segurança à vista. Os homens primitivos lutavam por sua existência em um mundo em que os sons, os ruídos e os gritos que emitiam tinham a significação exclusiva do “bom” ou de “mau”, do “perigoso”. Porque esses homens primitivos ou escapavam às feras, ou pereciam; eram afogados, quando as águas submergiam suas cavernas, ou logravam escapar; conseguiam encontrar alimento ou morriam de fome. Não havia situações intermediárias entre a vida e a morte, entre o perigo iminente e a segurança da vida de nossos ancestrais selvagens. Era um mundo do “sim ou não”. Hoje, ainda, quando estamos em perigo, nossa mentalidade selvagem ressurge. O que nos ajuda na luta é “bom”; o que não o faz é “mau”. Assim, esse espírito selvagem predomina no estado de guerra. Nesses tempos de crise, vivemos em mundo de “sim” ou “não”, num mundo de “pró ou contra”, de “preto e branco”. Quem não está conosco, está contra nós. As palavras e os símbolos limitam-se, então, a duas categorias apenas: a de sobreviver e a de perecer. Hayakawa, no seu livro notável Le langage en action (75) fala de uma orientação bivalente e diz: “Se desenvolvemos essa orientação bivalente, somos levados a querer lutar”. E Clyde Miller (105) acentua: “Num mundo do preto e branco, cada alemão, judeu, russo, japonês, fascista, comunista, líder operário, capitalista, preto ou branco, ou cada homem a quem se aplica uma dessas palavras, torna-se um estimulante destinado a pôr pessoas numa atitude combativa. A palavra, nome ou símbolo, que se transformou em estimulante, pode até estar ao longe da realidade como as flores artificiais estão das naturais. É o resultado daquilo que se instala, quando nos tornamos vítimas de um estado psíquico a que se poderia chamar de “o mal do preto e branco”. A ciência, o conhecimento, são indicados, nesse caso, como meio exclusivo de cura e como preventivo. O livro do Professor Thouless (158), Comment penser droit, dá uma idéia dessa terapêutica mental. E Clyde Miller (105) conclui: “Os vocábulos e símbolos que representam palavras, permitem aos homens transmitir, de geração em geração, sua herança de ignorância, assim como a de conhecimentos, de superstições, tanto quanto de ciência” [108].

Ora, a propaganda atinge seus fins rapidamente quando está apta a lançar, por meio de certas palavras (slogans), símbolos ou atos, ao evocar imagens – latentes no segundo caso e conservadas no nosso segundo sistema de sinalização – no nosso espírito.

“Freqüentemente”, – diz Clyde Miller (105) – “são imagens de tipos de pessoas que desejaríamos ser: gozando de boa saúde e simpáticas; adestradas em esportes e jogos; respeitadas por sucessos profissionais e nos negócios, felizes no amor e no casamento; possuidoras de prestígio e de boa situação social. As imagens desse gênero se relacionam com nossos sentimentos e desejos de propriedade, de ambição, de rivalidade, de satisfações sexuais, de emulação, de altivez, de razão, de generosidade” (em outros termos, segundo nosso modo de ver, – com as quatro pulsões fundamentais de nosso psiquismo). Mas, continua Clyde Miller, (105), “existem também outras imagens, as de pessoas ou de coisas que ameaçam aniquilar nossas esperanças e destruir nossos sonhos de sucesso e de ventura. Correspondem a nossos pesadelos, engendrados pelo medo. Essas imagens, que evocam em nós sensações agradáveis ou desagradáveis, desencadeiam reflexos condicionados, de forma que experimentamos, automaticamente, a necessidade de seguir as idéias, o caminho, as ações sugeridas, para alcançar nossos sonhos e vencer ou desprezar pessoas e coisas que se apresentam como obstáculos entre nós e a realização de nossas esperanças”.

Assim, uma palavra, lançando em nosso espírito uma imagem, tem uma ação desencadeadora na direção desejada por quem a lança. “Os propagandistas ou chefes de publicidade astuciosos o sabem. Utilizam – sabendo bem o que fazem – palavras que são instrumentos para provocar não somente respostas que supõem seríamos levados a dar, mas, também e principalmente, respostas que servem a um fim em que eles estão interessados. Assim, também, toda a eficácia da propaganda comercial depende dessas palavras e símbolos, desencadeadores das ações na direção desejada.

Ora, Clyde Miller (105) tenta fazer uma classificação dessas palavras e símbolos-detonadores, que também chama de estratagemas ou dispositivos (devices), e que preferimos designar como alavancas psíquicas. Distingue quatro grupos:

1° – alavancas de adesão ou aceitação (chama-as virtue device, alavancas de virtude): seu fim é fazer aceitar pessoas, coisas ou idéias, associando-as a palavras ou símbolos tidas como bons; por exemplo: democracia, liberdade, justiça, pátria etc.

2° – alavancas de rejeição – (“Poison” device) que têm a finalidade de rejeitar certas idéias, pessoas etc., associando-as a males: “palavras, símbolos e atos, que invocam o medo, o desgosto etc.; por exemplo: guerra, morte, fascismo, imoral etc.

3° – alavancas de autoridade ou de testemunho (“Testemonial” device), caso em que é empregada a voz da experiência, do conhecimento, da autoridade, que procura nos fazer aprovar e aceitar ou desaprovar e rejeitar pessoas, coisas e idéias. Apóiam-se sobre o testemunho, conselho de pessoas conhecidas, de instituições etc.; indicam, ainda, “exemplos horríveis”, ou, ao contrário, “meritórios”; exemplos de tais palavras são Roosevelt, Lênin, Ciência, Deus etc.;

4° – alavancas de “conformização” (“Together” device, de conjunto): por essas se procura fazer aceitar ou rejeitar pessoas, idéias etc., enunciadas nos três casos acima, fazendo-se apelo à solidariedade, à pressão das emoções ou das ações coletivas, principalmente de massa. Essa alavanca se aplica sobretudo para ganhar as massas. Exemplos dessas palavras são: Cristandade, A união faz a força, Deutschland über alles [109] (slogan de Hitler).

Clyde Miller (105) analisa o modo de agir dessas alavancas psíquicas e resume-as em sete pontos:

1° – operam de per si ou em combinação uma com as outras;

2° – são chaves para servir a fins de segurança individual ou coletiva, a nossos desejos e necessidades relacionados com a fome, a propriedade, o medo, a esperança, a combatividade, a ambição, a Sexualidade, a fraternidade, a rivalidade, a vaidade etc.

3° – são chaves para o conjunto de modelos que povoam nosso psiquismo (maps in our minds), de natureza agradável ou desagradável, que podem ser acesas ou apagadas no nosso espírito por palavras, símbolos, ou ações que servem, nesse caso, de mola.

4° – operam sob forma de reflexos condicionados. As palavras: veneno e as palavras-virtude desencadeiam esses reflexos e procuram, assim, nos constranger a rejeitar ou aceitar, automaticamente, a aprovar ou a condenar pessoas, produtos, proposições, programas, políticos, grupos, raças, religiões ou nações.

5° – são manobrados pelos que desejam persuadir outras pessoas e pelos propagandistas.

6° – revelam-se como a força de homens honestos, ou como índices de tortuosidade de charlatães e demagogos.

7° – refletem os fatores que alteram os diversos canais de comunicação que são os órgãos públicos: imprensa, rádio, cinema, igreja, escola, câmara de comércio, sindicato, entidade agrícola, sociedade patriótica, partido político, governo etc.

O que as caracteriza, sobretudo, é que operam rapidamente, valendo-se do caminho de nossos reflexos condicionados, buscando influenciar-nos para que aceitemos ou recusemos, automaticamente, aquilo que nos transmitem.

Como exemplo dessas ações, Clyde Miller (105) indica que é precisamente pelo emprego das alavancas-veneno que os agentes da saúde pública puderam reduzir a taxa de moléstias contagiosas na enorme proporção que se sabe: é graças à propaganda visando à higiene pública que tossimos e espirramos usando lenços; que preservamos nosso alimento contra as moscas; que evitamos o contato com os germens contagiosos; que procuramos fortalecer a resistência de nosso corpo contra os micróbios perigosos.

Há muito tempo, reconheceu-se que o falso emprego, desonesta e maldosamente, de alavanca-veneno é um crime. Leis contra a difamação e a calúnia protegem o indivíduo contra a injúria; contudo, essas leis não protegem, ainda, contra a injúria, as raças, os grupos, as religiões e as idéias.

A propósito das alavancas de conjunto (together-device), Clyde Miller (105) diz que elas exploram nosso desejo de seguir um líder. O anúncio, por vezes, de qualidades mais destacadas do líder ou de uma organização, feito por um propagandista, não podem conferir sucesso às alavancas empregadas por ele, se as condições de vida daquele a quem se destinam, estão em flagrante oposição com os fins dessa propaganda. Como exemplo, cita as eleições presidenciais nos Estados Unidos, em 1932. A campanha a favor da eleição de Herbert Hoover era enorme. Mas, para muitos eleitores, o nome de Hoover estava contaminado da noção de desemprego. Para esses, o slogan de Hoover, advogando uma Nova era econômica, que era antes uma alavanca-virtude, se transformara em alavanca-veneno que desencadeava uma exclamação irônica – Oh! yeah! – (Pois sim!)

Terminando este capítulo, desejamos chamar a atenção para algumas conclusões que decorrem das questões tratadas e que abrem um horizonte para os grandes problemas inerentes aos fatos do psiquismo.

Em primeiro lugar, recapitulemos, em poucas palavras, tudo o que se disse a propósito dos mecanismos que controlam o comportamento humano e tentemos esboçar uma imagem de conjunto hipotético do funcionamento da maquinaria psíquica, que determina esse comportamento.

Estímulos exteriores ou reações químicas internas causam desequilíbrios energéticos nos neurônios. O desequilíbrio provoca uma tensão [110] num neurônio, a qual é levantada, se compensada. As compensações se fazem na direção de quatro tendências de que tratamos acima e que designamos como pulsões. A compensação é realizada se a tensão percorre todo o trajeto de uma tendência. A força dessas pulsões, que é determinada pela facilidade à reação, não é igual.

As pulsões são caracterizadas pelos dispositivos anatômicos dos neurônios. Os dispositivos realizam fenômenos fisiológicos estereotipados, os reflexos. Existem reflexos, cujas estruturas e formas de reação são fixadas hereditariamente e se transmitem de geração em geração – reflexos inatos ou absolutos – e outros, ainda plásticos que, utilizando a trama anatômica dos primeiros, realizam apenas conexões mais ou menos estáveis, entre as diversas partes do sistema nervoso superior e se formam, no curso da vida, em função de estímulo dos órgãos dos sentidos – reflexos adquiridos ou condicionados. Repetindo-se regularmente e durante longos períodos, em gerações consecutivas de uma mesma espécie, podem fixar-se anatomicamente e ser transmitidos finalmente por hereditariedade: tornam-se, então, instintos, tendo por base uma das quatro pulsões citados acima e constituem, seguidamente, cadeias de reflexos mais elementares.

A maior parte das excitações e reflexos condicionados, inúteis ao indivíduo, é inibida e cai no esquecimento; outros são recalcados para a esfera inconsciente, do 2° sistema de sinalização e ai permanecem em estado latente, representam o estoque de lembranças, reevocáveis em caso de necessidade (refenações); enfim, ainda outros, se chocam com as bases da estrutura psíquica do indivíduo, mormente de ordem moral, ancoradas no seu 2° sistema de sinalização psíquica – a censura – são recalcados, por inibição, para o subconsciente; transformam-se, então, no que se denominou complexos.

Esses últimos, que têm grande importância na psicanálise, São grupos de reflexos adquiridos no estado latente e podem manifestar-se direta ou indiretamente, influenciando, quase sempre negativamente, as atitudes do comportamento, que dependem de diversas pulsões e parecem ter um caráter espontâneo. Como um reflexo adquirido, para que se forme, deve ter por base um reflexo inato, assim, um reflexo condicionado adquirido pode tornar-se a base para a constituição de um reflexo condicionado de grau superior (reflexo enxertado). Desses últimos podem nascer reflexos condicionados de diversos graus de complexidade e que caracterizam os comportamentos nos diversos níveis da vida social e cultural.

Partindo de quatro grupos de um nível de base que engloba as atitudes instintivas normais (vitatitudes), orientadas nas quatro direções – pulsões – pode-se distinguir quatro grupos de atitudes no nível negativo, do ponto de vista da moral social; são os vícios: despotismo, glutoneria, depravação sexual, misantropia. E da mesma forma, quatro grupos, em cada nível de sublimação progressiva. No nível dos sentimentos, os grupos: nacional, religioso, amoroso, amigável; nível de interesses culturais: social, filosófico, artístico, científico; nível de deformações ou extravagâncias: anárquico, místico, surrealista, maquinocrata.

Alguns esboços esquemáticos poderiam dar talvez uma compreensão mais fácil do processo de formação dos reflexos condicionados e sobretudo da atividade do 2° sistema de sinalização de Pavlov.

Outro problema de grande interesse que se apresenta é o do inventário dos elementos que constituem o conteúdo dos mecanismos em questão, especialmente do 2° sistema de sinalização. É precisamente esse conteúdo que caracteriza o homem do ponto de vista das possibilidades de ressonância aos estímulos vindos de fora, sobretudo de ordem social e também do ponto de vista das possibilidades de exercer, no seu comportamento, uma atividade progressiva, função da riqueza desse conteúdo, ao lado das aptidões biológicas de sua natureza.

A tarefa é extremamente árdua e não se trata aqui, é óbvio, de querer encontrar uma solução qualquer para resolvê-la. Só podemos indicar que esse problema se apresenta, imperiosamente, a quem quiser racionalizar e conquistar intelectualmente todo esse domínio, a fim de poder compreender a estrutura do psiquismo daqueles a quem se dirige e agir em conformidade, para transmitir-lhes idéias, sentimentos ou ordens que incitem às ações. É claro que os homens já exercem, continuamente, na vida, essas atividades, mas, o fazem mais ou menos ao acaso, armados apenas das noções mais elementares e, muitas vezes, insuficientes ou falsas que os impelem em direções ineficazes ou socialmente repreensíveis.

Ê verdade que o conhecimento, mais ou menos sumário, da psicologia de outrem, nos é fornecido pela própria vida, pelas leituras literárias, pela arte, o teatro, o cinema, pelo ensino na escola e pelos contatos humanos. Basta, porém, um pouco de perspicácia para se verificar que todas essas práticas são insuficientes e, muitas vezes, duvidosas. Não há senão o apelo à ciência, que pode dar, nesse campo, resultados verdadeiramente valiosos. Mas, estamos ainda no começo.

Os testes psicotécnicos são um início, embora, em geral, se limitem a descobrir certas aptidões, porém menos o conteúdo do psiquismo em engramas, de algum modo sua bagagem. A psicanálise é, a esse respeito, mais reveladora. Os testes psicotécnicos nos dão perfis psicológicos. O de que falamos aqui seria antes o estabelecimento de perfis intelectuais e morais e mesmo de uma geografia individual do conteúdo subconsciente.

Tratar-se-ia, para nós, aqui, somente de uma tentativa de divisar as vias de aproximação para colocar esses problemas em estudo, baseando-nos naqueles conhecimentos que nos são oferecidos hoje pela ciência da psicologia objetiva.

A premissa para o estudo que se orientaria nessa direção, desde logo, é o estabelecimento de uma linguagem convencional, de preferência sob a forma de símbolos gráficos, que permitam diferenciar, com rapidez, os elementos que são, necessariamente, muito abundantes e variados. Em seguida, viria o cuidado de distinguir as categorias de elementos expressos por esses símbolos e de encontrar, para essas categorias expressões também simbólicas. Depois, seria necessário tentar amalgamar os diversos pontos de vista sob os quais essas categorias poderiam figurar simultaneamente, isto é, entrever uma certa disposição pluridimensional dos elementos.

A tarefa seguinte seria a de poder descobrir o conteúdo de um psiquismo individual, registrar de certa forma sua bagagem psíquica por meio de métodos apropriados, testes, enquetes (do tipo realizado por Roubakine (138), sondagens individuais e coletivas (tipo Gallup), exames de consciências, experiências de laboratório, psicanálise, sonhos acordados etc. Então, novos métodos estariam ainda por buscar. Como resultado de todos esses esforços, dever-se-ia poder fazer uma espécie de topografia do 2° sistema de sinalização dos indivíduos e, talvez, até encontrar, em seguida, as leis que regulam o funcionamento desse sistema, confrontando os traços comuns no psiquismo daqueles que pertencem aos mesmos grupos biológicos, étnicos, nacionais, sociais e profissionais.

Chegar-se-ia, assim, a estabelecer de certo modo cartas de pilotagem psicológica, base racional de toda atividade psicagógica. Parece-nos que Hayakawa (75) e Clyde Miller (105) devem entrever qualquer coisa nesse sentido, quando falam de cartas geográficas (maps) em nosso espírito. O primeiro diz, por exemplo: “muitos, entre nós, possuem belas cartas no cérebro, mas, muitas vezes, são cartas de territórios que não existem na realidade.” E Miller (105): “Mas, fora de uma pura fantasia e de nossos desejos, podemos construir cartas do mundo no qual vivemos. Muitas dessas cartas, no nosso espírito, são expressas em palavras e símbolos.”

Ainda é prematuro, evidentemente, falar de um sistema topográfico do inventário dos engramas do segundo sistema de sinalização, mas, não podemos abster-nos de acentuar o extremo interesse que apresentaria, para a psicagogia e a cultura humanas, o poder de fazer inventários desse gênero; por exemplo: não somente dos homens atuais, mas, de grandes personalidades do passado, como Goethe, Tolstoi, Lênin, Roosevelt, Beethoven etc., tomando-se como fontes, suas biografias, cartas, obras. Fazer, também, inventários típicos para as diversas atividades e profissões. Indagar como, de que engramas dotar o segundo sistema de sinalização durante a educação, para chegar à criação de um Homem Novo, que edificará esse Novo Mundo, com que sonhavam H. G. Wells, Gandhi, Cristo e outros grandes espíritos e em cujo advento todos desejamos acreditar, perseguidos hoje pelos horrores do mundo que nos cerca e que se aniquila visivelmente – senão para nós, ao menos para nossos filhos e as gerações vindouras.

Enfim, depois de tudo o que foi dito, um outro grande problema geral se impõe, facilitado pelas descobertas da psicologia objetiva e que, há séculos, atormenta o espírito dos homens que pensam. Era e ainda é, muitas vezes, o ponto de discórdia entre os filósofos humanistas e os pesquisadores científicos. Eis a questão: existe o livre arbítrio no comportamento humano? ou tudo é determinado, condicionado por uma constelação de fatores externos e internos que atuam em nossa vida? Parece-nos que não é muito difícil, a escolha depois da constatação da validade dos dados que nos são trazidos atualmente pela ciência da psicologia objetiva.

“O homem é livre”, “A liberdade fundada sobre a consciência refletida é própria do homem e caracteriza sua natureza, é uma propriedade da espécie”, – diz Chauchard (28) [111] São afirmações gratuitas da introspecção, para as quais não existe nenhum ponto de apoio, na psicologia objetiva. Os fatos referidos por esse autor [112] falam antes em sentido contrário: “nas crianças isoladas do meio, não só a inteligência se retarda, mas, as possibilidades de seu desenvolvimento diminuem, há regressão cerebral. Pode-se observar crianças, sobretudo, na Índia, que foram criadas por lobos; seu psiquismo era inteiramente diferente do psiquismo humano; não falavam e corriam de quatro patas, como os lobos”. E Pierron (121), [113] tratando desses casos, pergunta: “Se o desenvolvimento biológico espontâneo, na ausência do instrumento verbal, da educação e da socialização do pensamento, poderia fornecer capacidades mentais bastante notáveis, de substrato sensorial”. Pois, acrescenta: “Todos esses fatos parecem demonstrar o papel essencial que tem o meio nos primeiros anos do crescimento, em que as crianças poderiam ser, realmente, animalizadas e seriam dificilmente reumanizadas depois (a aprendizagem da linguagem é particularmente difícil)”.

Parece-nos que, precisamente nesse caso, se um princípio sobrenatural, espiritualista, que caracteriza a espécie humana, segundo as teorias animistas, existisse, seria de esperar que se manifestasse e que reduzisse a nada o determinismo da decisiva influência das condições do meio. As afirmações peremptórias de Chauchard, que citamos, espantam, com maior razão, quando ele próprio diz, nas páginas seguintes, que “tudo o que nos sensibilizou, do ponto de vista emotivo, tudo o que aprendemos a não fazer, continua a viver em nós, lembranças recalcadas, manancial patológico. Adquirimos rapidamente hábitos e deles não podemos mais desfazer-nos. Tudo o que desvia a atenção, notadamente as grandes dores, é favorável ao automatismo e à diminuição do controle da consciência. As toxicomanias são um bom exemplo dessa perda de controle; visando a um fim agradável ou por imitação, recorremos a um tóxico, o hábito vem prontamente e não podemos mais dispensá-lo; não somos mais livres”. Mais adiante: “O jorro de espontaneidade no comportamento humano não faz, em geral, senão esconder um profundo condicionamento.” E, no auge: “mesmo nossa consciência é invadida pelo automatismo [114].” Isso nos lembra a anedota de que nos fala Clyde Miller (105), a propósito da demonstração experimental, por Francisco Redi, da não validade do princípio da geração espontânea: esse sábio do século XVII, colocando uma gaze por cima da carne crua, impediu que as moscas depositassem seus ovos e a aparição espontânea de suas larvas não ocorreu. Os padres ficaram indignados com essa experiência e acusaram Redi de ter limitado o poder do Todo-Poderoso.

Pensamos que a confusão, nesse problema, repousa no emprego da palavra liberdade no sentido absoluto, ao passo que, na realidade, se deveria distinguir entre a noção filosófica do livre arbítrio, incompatível com os dados das ciências exatas, para as quais o determinismo é a própria essência e a noção corrente de liberdade que é, de fato, uma liberdade relativa; Pavlov (119) fala de um reflexo inato de liberdade.

A ciência moderna desembaraçou-se, naturalmente, de um materialismo ingênuo à moda dos meados do século passado. A fórmula “o cérebro segrega o pensamento como o rim, a urina” nada tem a ver com as idéias biológicas de hoje; sabemos que tudo está no funcionamento do cérebro e as lembranças não são senão uma possibilidade de chamada do sistema de agulhas, como diz o próprio Chauchard (28), que conclui que “o funcional substituiu o material [115]”. E cita palavras de Rijlant (133); [116] “No estado de evolução atual das ciências fisiológicas, não se pode pretender definir completamente todos os problemas do comportamento humano... Parece, entretanto, provável que, no futuro e à medida que as técnicas se aperfeiçoem, sobretudo o pensamento experimental, a solução objetiva desses problemas poderá ser prevista e se tornará possível definir, completamente, o trabalho mental em termos físicos e químicos e precisar todas as características funcionais da máquina humana, parte integrante de um mundo de que ela sofre as alterações e que, por sua vez, modifica”.

Para situar o problema, como se apresenta, atualmente, julgamos útil distinguir as principais tendências, valendo-nos, em parte (no que concerne sobretudo às idéias tomistas), das fórmulas de Chauchard (27). [117] Edificando um sistema de concepções que se opõem, na questão do livre arbítrio, diferenciamos, antes de tudo, o grupo causalista ou materialista e o grupo finalista ou espiritualista.

Para os materialistas, a consciência é uma propriedade da matéria cerebral e não haveria como falar, então, de liberdade de escolha; para os espiritualistas ela depende da presença de um princípio imaterial, a alma, cuja característica seria, precisamente, o livre arbítrio.

No primeiro grupo, pode-se falar do materialismo ingênuo, hoje ultrapassado, segundo o qual o psiquismo era simplesmente um produto da matéria e o materialismo moderno, em que existem duas tendências: o materialismo dialético ou filosófico, segundo o qual a consciência não é mais do que um dos aspectos dos fenômenos materiais da vida: “a complexidade pode fazer aparecer propriedades novas que não estavam nos componentes: dá-se a emergência.”

A outra tendência materialista a que se poderia chamar materialismo científico, compreende, por sua vez, dois ramos: o dos que poderíamos chamar ignorabistas cujas idéias sobressaem do célebre discurso Ignorabismus de Du Bois Reymond e que “pensam que haverá sempre um aspecto da questão que escapará à ciência: os sistemas de agulhas do influxo nervoso são mecanismos elementares que não bastam para explicar a complexidade do conjunto [118]” e os que designaríamos espectantes (attentistes), que afirmam que nossos conhecimentos são ainda fragmentários, mas, que acreditam que um dia saber-se-á tudo interpretar, pela psicologia“.

No espiritualismo, pode-se distinguir, também, um ingênuo ou animismo, que considera o processo cerebral como um mecanismo a serviço da alma, princípio independente, imaterial, que comanda os fenômenos vitais e, em seguida, um filosófico. Nesse último, encontra-se, de um lado, o dualismo, que pretende que o aspecto fisiológico diz respeito ao corpo, mas, o aspecto psicológico depende da alma, princípio metafísico, unido à matéria; de outro lado, o tomismo, para o qual “a alma representa a forma do corpo, não a causa, mas, a razão de sua organização, o princípio metafísico de unidade e de harmonia”. O tomismo fala do corpo animado ou alma encarnada, ou, ainda, do cérebro animado“. Esse conceito híbrido nos parece sem sentido, como se se dissesse “um corpo não corporal”. Segundo Chauchard (27), [119] o conceito tomista não estaria tão distante do que expressa o materialismo dialético: parece-nos que ele podia assemelhar-se, do ponto de vista lógico, antes, ao materialismo ingênuo que, também, desejava que a matéria produzisse algo de imaterial.

Para terminar esse capítulo, parece-nos útil citar as idéias de Brach (20), muito claras a esse respeito. Diz ele, especialmente[120]

Se alguém deseja fazer obra científica em psicologia, é mister abster-se de toda idéia de finalidade para explicar a evolução biológica e não se apoiar em um livre arbítrio humano que não passa do ilusão. Precisa perceber o próprio determinismo e a possibilidade de sua verificação. Com muita freqüência, quando se diz que o princípio do determinismo é aproximativo, confunde-se o próprio determinismo (que permanece rigoroso) com a possibilidade de verificação desse determinismo pelos homens (que, de fato, é pouco rigorosa em física nuclear e em certos casos de probabilidade). Até agora, à medida que nossas experiências se tornam mais numerosas e mais precisas, o determinismo se vem mostrando cada vez mais válido. A prova experimental de sua validade só se detém com as dificuldades de certas experiências. A aparente indeterminação provém da insuficiência de nossos conhecimentos.“

E acrescenta, ainda:

A causalidade estrita requer o comportamento automático dos seres vivos (visto que as causas bem determinadas produzem sempre, automaticamente, o mesmo efeito), a impossibilidade do livre arbítrio e um determinismo estrito para os fatos reais. Existe uma doutrina determinista, que admite uma causalidade estrita e uma doutrina espiritualista que admite uma causalidade não estrita. Não há compromisso possível entre essas duas doutrinas: é preciso escolher uma ou outra.

As idéias de Brach (20) [121] sobre a finalidade não são menos pertinentes:

Quase todos os acontecimentos podem ser considerados, pelo ser humano que os observa, como agradáveis ou desagradáveis, como úteis ou importunos. Se não conhece exatamente as causas desse acontecimento, tem a impressão de que essa ocorrência foi desejada de modo preciso por um outro ser vivo (divindade, homem ou animal) amigável ou hostil: tem a impressão de finalidade. Isso foi uma ilusão constante para o homem nas idades pré-lógicas. Graças ao progresso científico, essa ilusão se atenuou para a maior parte dos acontecimentos.

E, enfim, sobre o livre arbítrio, observa: “A liberdade filosófica ou livre arbítrio consiste em ter consciência de um fenômeno que começa em si ou, como diz Renouvier, [122] que tem um começo absoluto”.

Quando o homem reflete sobre os fenômenos conscientes que percebe em si mesmo, está, desde logo, inclinado a acreditar que são independentes e inteiramente diferentes dos fenômenos inconscientes (que, aliás, não conhece diretamente) e que são fenômenos sem causa, porque sucedem a fenômenos inconscientes.

Achille-Delmas e Marcel Boll (1) [123] dizem igualmente que “não é o mecanismo aparente de nossos atos que nos faz agir, são nossas disposições que antecedem nossos atos”. Há, então, a ilusão do livre arbítrio, baseada numa aparente finalidade, uma pseudofinalidade que “resulta de uma confusão entre os fatos futuros e a imagem que deles fazemos, imagens anteriores a nossos atos”.

Como nasceu no homem a ilusão da liberdade e a consciência do livre arbítrio? Brach (20) [124] nos dá a resposta:

Os homens, nas primeiras eras da humanidade, não tinham certamente, qualquer atividade voluntária: seus atos eram ou reflexos, ou impulsivos. Em decorrência da vida em sociedade, o indivíduo adquiriu não somente graus mais elevados de consciência e um número considerável de reflexos condicionados independentes uns dos outros, mas também, a linguagem, facilitando a representação dos meios de realização, a possibilidade de desencadear séries de reflexos condicionados engrenados (dizemos enxertados) uns nos outros (em que cada um é provocado pelo precedente) e, portanto, uma organização cada vez mais eficaz de sua atividade. Simultaneamente, na espécie humana, a organização específica da atividade foi adquirida, pouco a pouco, através de uma organização progressiva do sistema nervoso e do cérebro (no homem, a extensão dos lóbulos frontal e prefrontal foi concomitante com o nascimento e a evolução de sua conduta social e voluntária e da consciência refletida). De resto, essa organização específica dos centros nervosos facilita, nos homens atuais, a aquisição individual e progressiva de sua atividade.

A ilusão do livre arbítrio é superficial e não resiste à reflexão. Mas, a sociedade se apoderou, desde muito tempo, dessa ilusão, transformou-a em pretensa realidade, dela se serviu para emitir julgamento de valor sobre os homens, para enunciar o que deve ser feito e o que é proibido, para promulgar as leis sociais e morais, bem como para determinar as sanções e as recompensas correspondentes.

Um observador infinitamente inteligente e infinitamente ciente poderia prever todas as decisões de um indivíduo e não teria a ilusão do livre arbítrio deste. Isso não impede a maior parte dentre nós de ter essa ilusão, necessária, afinal, para a vida normal.

Uma sociedade só é verdadeira quando seus membros são suficientemente ativos e se sentem uns para com os outros, responsáveis pelos seus atos. Para uma sociedade é preciso que tudo se passe como se o livre arbítrio não fosse uma ilusão, como se fosse uma realidade. Foi o começo da vida em sociedade que fez nascer essa ilusão; foi, sobretudo, a sociedade, por meio de suas regras e sanções, bem como pelos obstáculos que ela oferece às tendências e aos reflexos do indivíduo que o fez tomar consciência de si mesmo, do meio, de seus atos e responsabilidades e que lhe dá a ilusão perpétua de uma livre escolha.

A função da sanção numa sociedade não consiste em punir quem infringe o código social, mas, em defender a sociedade contra as tendências individualistas, acentuadamente, anti-sociais, em proporcionar um exemplo suscetível de emocionar e fazer refletir os outros membros de comportamento ainda hesitante e impedi-los, então, de imitar, posteriormente, o delinqüente.

Se o livre arbítrio fosse uma realidade e os homens capazes de criar começos absolutos, seu temperamento inato e seu caráter interviriam mais para fazer obstrução às sugestões sociais. É justamente porque são irresponsáveis que a educação, a família e as leis têm tanta importância sobre seu comportamento.

Qualquer que seja, essa ilusão de liberdade faz, agora; parte integrante de nossa atividade. Mas, se é verdade que a consciência de nossa liberdade foi provocada, sobretudo, pela desproporção entre nossa sensação que desencadeia a série de atos inconscientes e o resultado consciente dessa série de atos; se é verdade que, com a consciência de todos os nossos atos, não teríamos mais essa ilusão de liberdade, teremos, contudo, com tanto maior freqüência, essa ilusão, quanto mais amiúde, tomarmos consciência de um deles, enquanto a série se vai efetuando.

E conclui [125]

O homem, para ter, no mais alto grau, consciência da liberdade e do sentimento do livre arbítrio, deverá tomar, ao máximo, consciência dos acontecimentos exteriores e de seus atos: ser livre é sobretudo ser consciente.

Em suma, de tudo o que dissemos neste capítulo, cremos poder afirmar que a ilusão de nossa liberdade de escolha repousa na existência, no nosso psiquismo, da esfera inconsciente (absoluta ou automática) e da esfera consciente (ou condicionada): percebemos a excitação inicial que atinge nossos sentidos e constatamos conscientemente nossa ação em resposta, mas, não nos apercebemos do processo intermediário que se desenvolve no inconsciente. Essa interrupção da continuidade na consciência causa, em nós, a ilusão do livre arbítrio.


Capítulo III
Reflexologia individual aplicada

A análise espectral da alma – o amestramento – Os animais sábios – A Pedagogia – A Psiquiatria – O delírio e a terapêutica sonífera – As últimas aplicações clínicas da reflexologia – A psicologia nos negócios – A publicidade e o anúncio – A organização científica do trabalho – A documentação – A Noografia e o princípio do cinematismo do pensamento – A organização de si mesmo – A psicagogia.

 

A diferenciação, uma verdadeira dissecação dos estados d'alma, em uma série de elementos diversos que conhecemos no capítulo precedente, uma espécie de análise espectral da alma, nos mostra que é possível fazer vibrar, à vontade, partes determinadas desse espectro. Eis uma informação essencial para quem deseja orientar seus semelhantes em uma direção antecipadamente escolhida, influenciá-los psicologicamente, decidir de seu comportamento. O fundamental, nessa tarefa, é abraçar, por todos os lados, o complexo psíquico, de não lhe deixar qualquer escapatória, de não tocar, ao acaso, uma só corda; a regra, ao contrário, é fazer oscilar todas as bases profundas da alma humana, as pulsões, que são do domínio do inconsciente.

Mostramos, a cada passo, que todas as atividades humanas são o resultado de um emaranhado, mais ou menos complexo, de processos que se desencadeiam nos mecanismos do sistema nervoso, baseando-se numa grande quantidade de impressões, recebidas pelo organismo, durante a vida.

Mas, há domínios em que esses fenômenos tomam um aspecto muito nítido, em que se podem formar, sem dificuldade, os reflexos condicionados pretendidos e seguir, facilmente, sua evolução. É por exemplo, o domínio do amestramento de animais. Um circo é uma escola, onde se formam reflexos condicionados, de acordo com métodos muito claros e seguros. O mesmo se verifica na domesticação de animais: cavalos, ruminantes, cães etc. Certamente, no que respeita à aptidão para a aprendizagem há variações entre os animais de diferentes espécies e também entre indivíduos da mesma espécie, como já vimos, quando das experiências de Pavlov, e como sabem todos os que lidam com irracionais. No final de contas, porém, todos os animais podem ser ensinados, como diz Hachet Souplet (70) que une a uma grande experiência pessoal do adestramento o saber de um zoopsicólogo.

Na técnica da amestragem reconhecem-se, facilmente, os princípios de que falamos acima: é exclusivamente o engodo e o medo das sanções, o receio da dor, que constituem os móveis em que repousa a aprendizagem dos animais; é, nesse caso, a ação sobre as pulsões n° 2 (nutrição) e n° 1 (combativa). Uma regra geral da amestragem é a associação do fator condicionante (o sinal que se dá ao animal e que deve provocar sua ação) e do fator formado pelo mecanismo inato do medo (pulsão combativa) ou do apetite (pulsão alimentar), associação efetuada de tal modo que o primeiro preceda, de alguns instantes, o segundo, sem o que o efeito desejado não se produz: um animal saciado ou que sofreu um choque nervoso já não reage a uma excitação fisiologicamente mais fraca como o aparecimento de um sinal. Reencontramos, aqui, a lei da carga energética de um centro, de que nos fala Pavlov.

Outra regra é que a excitação que se deve tornar condicionante precisa ser bem definida, não deve variar, nem apresentar, portanto, aspectos novos que poderiam tornar-se inibidores. Daí porque, como diz Hachet-Souplet (70) na forma e na disposição dos aparelhos, uma vez utilizados, nada de essencial deve ser modificado. Por conseqüência, é aconselhável não mudar a cor dos acessórios. Ele conta a aventura divertida de um exibidor de pássaros que, tendo “reformado os poleiros e os tabuleiros (que de vermelhos passaram a azuis), cometeu a imprudência de usá-los em público. Os pombos, seus aprendizes, buscando, a todo custo, reencontrar a impressão vermelha, desprezaram os tabuleiros azuis que lhes eram estendidos da maneira mais insinuante possível; voaram em torno do circo e, avistando o grande chapéu de uma espectadora, ornado de papoulas, nele pousaram sem a menor cerimônia.”

A imitação influi no adestramento: vendo seus semelhantes executarem determinados movimentos, os animais os aprendem mais rapidamente. A razão é que se habituam a perceber as excitações, o que resulta da observação de seus próprios membros quando executam movimentos normalmente; os mecanismos que presidem sua realização, postos em ação, aparecem drenados pela passagem dessas excitações. Atrelam-se potros, por exemplo, aos quais se deseja ensinar a puxar veículos, juntos a um cavalo já acostumado ao trabalho, tomando-se o cuidado de colocá-los de um e de outro lado do mais velho – Encontraremos, também, esse fato na formação de hábitos entre as crianças, na escola, onde a imitação tem uma grande importância. É o mesmo processo que conhecemos acima, [126] ao falarmos dos espectadores e dos atores, quando da descrição de um novo processo para a formação de reflexos condicionados.

Ainda um fato característico do amestramento: a cadência das excitações e até seu acompanhamento de percepções rítmicas sonoras, como a música, favorecem a formação de hábitos e seu automatismo. Esse procedimento é utilizado nos circos. Está conforme as leis que regem a sugestão: os mecanismos superiores entram, nesse caso, num estado que convida ao sono, a inibição interna generalizada aumenta e a possibilidade de responder automaticamente às excitações impostas, durante esse estado, se torna mais segura. O rufo de tambores, por exemplo, ajuda a execução impecável do passo de ganso, tão caro ao militarismo alemão de outrora e ressuscitado, em nossos dias, por Hitler, que era, como veremos melhor ainda mais adiante, na verdade, um domesticador cujo interesse consistia em ter à sua disposição autômatos, verdadeiros robots vivos.

Os estudos d'Espinas, no fim do século passado e começo deste, muito contribuíram para a compreensão de fatos observados nos animais e sua integração no conjunto dos conhecimentos sobre a formação e funcionamento de associações de seres vivos, base de fenômenos da vida social. Ele fala de uma contaminação psíquica na execução dos movimentos das vespas, de certos peixes como os tubarões, as arraias, os cações e outros animais que vivem em comunidade e trata a sociedade como organismo de categoria superior, tendo mesmo uma consciência coletiva. Alverdes (7), que estudou a importância do instinto gregário na formação das sociedades animais e humanas, entende que o casamento, a família e a sociedade são fenômenos biológicos, existentes nos animais antes do homem, de modo que é levado a falar de uma verdadeira sociologia dos animais, a descrever o fenômeno do pânico, da imitação nas formigas, da existência de um complexo de Édipo no reino animal etc. [127]

Esses fatos, como os relativos à amestragem, lembrando os da educação na sociedade humana, provocaram a questão muitas vezes suscitada: a de saber se se pode admitir, nos animais, graus mais altos de inteligência ou, segundo nosso modo de ver, possibilidades de formar reflexos condicionados enxertados ou de grau superior. Em apoio a essa tese tem sido apresentado o exemplo de animais sábios, de animais calculadores etc., como os famosos cavalos de Elberfeld, que teriam a faculdade de extrair raízes de qualquer potência, ou o cão Rolf, de Madame Moecker, de Mannheim, que “enunciava sentenças quase filosóficas e comunicava à sua dona as mudanças do seu humor”. Foi possível verificar, em seguida, que eram sempre resultados de amestramento, mais ou menos involuntário e a transmissão de sinais, quase imperceptíveis, aos animais, pelos seus donos.

A escola e os métodos pedagógicos não são mais do que uma espécie de adestramento das crianças, com vista a suas atividades futuras na vida.

É de importância fundamental conhecer a origem das atitudes do comportamento e as leis que a determinam, de modo a poder influenciar a criação de maneiras socialmente positivas e dirigir a educação. Isto desde o começo, porque a ciência e a prática pedagógicas nos mostram que é nos primeiros anos da vida que se formam as bases mais sólidas das atitudes ulteriores. Tanto mais que é preciso ter em conta o papel dos fatores biológicos para o comportamento. Assim, por exemplo, “a escola americana de psicologia constatou que os preconceitos raciais se fixam no indivíduo desde a idade de 5 anos” [128].

Discípulos de Pavlov estudaram a formação dos reflexos condicionados nas crianças. As primeiras experiências do Doutor Krassnogorsky que empregou, em seus estudos sobre meninos de tenra idade, o reflexo de deglutição, evidenciaram que tudo o que se demonstrou nas experiências clássicas de Pavlov a respeito das glândulas salivares dos cães, era perfeitamente aplicável às crianças. Foi possível estabelecer com nitidez que reflexos condicionados bem definidos podiam ser obtidos cerca de oito semanas após o nascimento. Os primeiros meses e anos depois do nascimento constituem um período em que uma infinidade de novos reflexos condicionados se formam nas crianças, seja por uma associação direta entre as reações inatas e as novas impressões que provêm do exterior ou por um enxerto de novos reflexos sobre outros já assimilados. Mais tarde, experiências foram repetidas na Rússia, na América, na Romênia e em outros lugares em crianças de mais idade (10 a 14 anos) e que freqüentavam a escola. Viu-se que a excitação verbal que tem emprego especial na escola como meio de educação, isto é, como instrumento de formação de hábitos cada vez mais complexos, é excitante condicional por excelência que faculta enxertar facilmente reflexos uns sobre outros. Evidenciou-se, igualmente, outro fato, de que falamos a propósito do adestramento de animais: a imitação praticada em larga escala na educação tem um valor muito grande na formação de reflexos nas crianças: o mecanismo, evidentemente, é o mesmo. O reflexo de imitação é, sem dúvida, uma aquisição tornada estável, inata e hereditária, no curso da evolução filogenética. Pode-se observar, diz Orbeli (109), num canil, que é bastante um cão começar a ladrar para que todos os demais o imitem; se, numa matilha de pequenos cães, um se precipita atrás de uma pessoa, todos os outros farão o mesmo; se um salta sobre ela, os restantes o imitarão. Se se trata de um macaco, pode ele executar os movimentos mais complicados, observando alguém fazê-los. Enfim, no que toca ao homem, até uma criança de tenra idade imita os pais e as visitas ou repete os sons que ouve pronunciar. A formação de reflexos condicionados, por meio do de imitação, distingue os animais superiores, como os macacos e o homem, dos representantes inferiores do reino animal.

Se promovemos a formação de reflexos condicionados em escolares, na presença de outras crianças, estas se tornam mais aptas a captá-los: dá-se uma espécie de drenagem. As experiências efetuadas com esse fim, baseiam-se na formação de reflexos chamados retardados, por Pavlov, em experiências nos cães. Foram sobretudo os trabalhos de dois de seus discípulos, os doutores Polossine e Fadeéva (123) que esclareceram essas questões. Os reflexos retardados são aqueles que se elaboram deixando uma excitação que põe em função um reflexo inato (nutrição) seguir a excitação condicionante depois de uma certa demora que vai de segundos a alguns minutos. O resultado é que a reação (a salivação, por exemplo) surge no fim do intervalo, cuja duração se estende entre o aparecimento do sinal (excitante condicional) e a apresentação do alimento (excitante absoluto).

Vê-se, desde logo, que a importância de um reflexo condicionado retardado, para a educação das crianças, é extremamente grande, considerando que se trata de lhes dar o domínio de si, a capacidade de esperar, a de fazer funcionar, assim, esta inibição interna que está na base dos processos conhecidos, em psicologia introspectiva, como os da vontade.

Eis como se procedia. Mostrava-se às crianças um sinal luminoso e, depois de um certo tempo, um minuto, por exemplo, mandava-se que executassem um movimento (comprimir um balão de borracha) que punha em funcionamento um aparelho de onde sairia a recompensa – um bombom. Depois de muitas repetições (perto de uma centena), verificou-se que as crianças faziam o movimento prescrito sem que lhes fosse dito e com a demora desejada (um minuto, no caso). Formava-se, então, um reflexo condicionado em que a medição do tempo se fazia automaticamente, pelos mecanismos do sistema nervoso das crianças; aprenderam a fazer durar o processo de inibição, exatamente, o tempo que se desejava.

Desse modo, os processos educativos que procuram inculcar disciplina na criança, habituá-la a saber esperar, a “dominar-se em determinados casos da vida real”, são um adestramento pelos reflexos condicionados retardados. Esse ensino inicial deve, é claro, ser substituído, em seguida, pela elaboração de reflexos condicionados de ordem superior em que o enxerto dos reflexos, como a constituição, no segundo sistema de sinalização do jovem, de uma bagagem de engramas apropriada e o apelo às refenações, isto é, ao desrecalque desses engramas, acompanhado de seu aclaramento pela consciência são essenciais aos educadores e conduzem à faculdade da disciplina consentida e do autocontrole.

As pesquisas dos discípulos de Pavlov puseram à mostra, ainda, uma certa diferença dos caracteres das crianças: em uns o reflexo se constituía mais rapidamente que em outros; mas, chegou-se a acelerar sua formação em certa medida, nos mais lentos e a retardá-lo, à vontade, por inibição, nos mais vivos. Vêem-se, imediatamente, as relações existentes entre as práticas de ensino, de educação e os fenômenos da formação de reflexos condicionados desde agora conhecidos. Poder-se-ia melhor dizer que os primeiros são uma aplicação das leis que governam os segundos.

Em um de seus últimos trabalhos, publicado antes de sua morte, Pavlov proclama que o processo dos reflexos condicionados assegura as maiores possibilidades para o treino do órgão do pensamento, isto é, do córtex dos hemisférios cerebrais do homem.

Pode-se entrever relações muito nítidas entre a educação, por um lado e a propaganda e a publicidade, por outro, pois, ambas procuram atuar sobre os mesmos mecanismos essenciais do homem e formar reflexos condicionados apropriados. A diferença consiste, apenas, em que os fins a que aspira a educação são de natureza durável: busca formar o indivíduo, enquanto a propaganda e a publicidade visam a um efeito ad hoc, importa-lhes “criar, transformar ou confirmar opiniões, [129] As técnicas que habitualmente empregam, sobretudo seu desígnio de convencer e subjugar, sem formar, fazem a antítese”.

Durante os últimos anos de sua vida, Pavlov refletiu bastante sobre a aplicação de seus princípios à atividade psíquica, desviada ou doentia, por conseguinte, à psiquiatria. Partindo do fato da generalização da inibição interna e de suas relações com o sono, foi levado a examinar os estados de sugestão, de um lado e a formação de caracteres, do outro. Encorajou-se a estudar os fenômenos mórbidos da personalidade, os estados de demência, as neuroses e a esquizofrenia, colocando-se do ponto de vista dos reflexos condicionados. Todo o comportamento do animal e, naturalmente, do homem, depende do equilíbrio dos processos de excitação e inibição. Se há dificuldade em mantê-lo, como no caso do cão, ele geme, late, debate-se na mesa, a atividade normal do cérebro está perturbada. Isso explica a origem das doenças que se observam freqüentemente na vida, em seguida a operações agudas de excitação e inibição. Fica-se, de uma parte, sob a influência de um processo de excitação intensa e, de outro, as exigências da vida obrigam a inibir esse processo. É freqüente encontrar, em decorrência disso, perturbações da atividade normal do sistema nervoso. As modificações mórbidas de funções normais do cérebro podem relacionar-se com o processo de inibição ou com o de excitação. Em geral, os neurastênicos, por exemplo, inibem mal; na histeria, ao contrário, é quase sempre a inibição que predomina, sob forma de anestesias, paralisias, sugestionabiidade exagerada etc. Pelas experiências de laboratório, perturbando os processos de formação de reflexos condicionados ou sua inibição, criando nos animais, em experiência, condições progressivamente mais difíceis, colocando, diante de seu sistema nervoso, tarefas cada vez mais pesadas, Pavlov conseguiu reproduzir nos cães estados nervosos correspondentes exatamente às formas mórbidas conhecidas no homem: as diversas modalidades de neurose, a neurastenia, a histeria. Os trabalhos nesse sentido progrediram tanto, nos últimos tempos, que a colaboradora de Pavlov, Madame Petrova, [130] consegue atualmente provocar em qualquer indivíduo (cão) e a qualquer momento, diversos estados nevróticos, à vontade e fazê-los desaparecer com tratamentos adequados. Tentou-se mesmo tratar esses cães neurosados com brometos e chegou-se a obter resultados semelhantes aos conseguidos no homem.

Eis outra experiência muito significativa: mostra-se a um cão, numa tela, a imagem de um círculo e dá-se-lhe, ao mesmo tempo, o alimento; depois, mostra-se-lhe uma elipse, sem lhe dar a comida. Após muitas sessões, forma-se um reflexo condicionado positivo (salivação) para a primeira excitação e uma inibição condicionada (ausência de salivação) para a segunda. Em seguida, mostrando-lhe a elipse, modifica-se, pouco a pouco, sua forma, igualando os diâmetros de maneira que se aproximem do círculo. A medida que a imagem da elipse evoca, cada vez mais, a do círculo, o animal torna-se inquieto, uiva, debate-se, segue-se um fenômeno designado como ruptura: ora o cão saliva, ora a salivação não se faz. Sobrevem um estado de completo descontrole nervoso, lembrando, em todos os pontos, uma crise de neurastenia humana.

O estudo dos estados nevróticos, levando-se em conta a fisiologia dos reflexos condicionados, num modelo simples e cômodo, como o cão, revela-nos que tais estados são freqüentemente condicionados por desequilíbrios que se instalam no sistema nervoso, entre os processos de excitação e inibição, em decorrência de uma carga muito grande a que se submete experimentalmente o sistema, ou, ainda, pela ação de excitações muito violentas.

Eis uma interessante experiência feita em um cão. Uma fortíssima excitação (elétrica) é associada a um som; o cão reage, violentamente, uivando, debatendo-se etc. Um outro som é combinado com a alimentação e se torna excitante condicionante. Fazendo-se atuar os dois sons, ao mesmo tempo, vê-se que a reação causada pelo primeiro prevalece: o cão não saliva, debate-se, uiva etc. A reação se enxerta mesmo sobre o segundo: apresentado isoladamente, desencadeia também a reação de defesa. Depois de um certo tempo, durante o qual se poupou o cão dos choques elétricos, o segundo som, isoladamente, provoca a salivação, mas, é bastante fazer agir sobre o animal, quando começa a cochilar, para que a reação de defesa (grito etc.) reapareça. Essa reação é absolutamente igual à dos nevrosados em seguida a uma catástrofe, a uma batalha, etc.: quando adormecem, caem num estado de delírio que lembra o sonambulismo – agitam-se, soltam gritos, comportam-se como se revivessem, mais uma vez, os acontecimentos que deram causa à sua doença.

Nos últimos tempos, antes de sua morte, Pavlov, prosseguindo suas pesquisas sobre as relações entre sua doutrina e a psiquiatria, interessou-se, sobretudo, pelo problema do delírio, cuja explicação fisiológica, segundo ele, apresentava notáveis dificuldades. A característica particular do delírio consiste numa posição errônea ante o mundo ambiente. Pode ter duas origens: ou o paciente tem sensações falsas, provenientes do exterior, delas tira conclusões logicamente válidas e vive num mundo que corresponde a essas conclusões, ou, então, suas percepções são normais, mas, o erro começa a atuar nas camadas superiores do sistema nervoso central, em que conclusões são tiradas partindo da percepção. É possível que esses dois grupos de processos tenham lugar em camadas diferentes do cérebro ou em partes diferentes do córtex. É no último caso, que intervém o segundo sistema de sinalização, encontrado por Pavlov. Uma inércia do processo nervoso é outro traço característico do delírio, que pode levar, até ao bloqueio funcional, as diversas partes do sistema nervoso central. A fisiologia dos órgãos dos sentidos dá certas indicações úteis para a compreensão do mecanismo do delírio. Os centros corticais podem, nesses casos, perder suas conexões com os órgãos dos sentidos, a atividade reflexa é, então, abolida e observa-se a predominância da atividade automática, baseada no princípio humoral, sobre o quimismo do sangue.

Enfim, precisaria citar ainda aqui o grande progresso realizado na clínica psiquiátrica, através da aplicação do método do tratamento da esquizofrenia, sobretudo de sua forma catatônica, pela terapêutica sonífera, que se baseia precisamente nas idéias de Pavlov, sobre o papel da inibição de reflexos condicionados.

As últimas aplicações da teoria dos reflexos condicionados, que abre a si mesma um caminho cada vez mais largo na medicina, na profilaxia mental e em todos os domínios da vida social da URSS, são verdadeiramente surpreendentes: assim, chega-se a tratar com sucesso a hipertensão arterial, flagelo de nossa civilização, por uma cura metódica de sono prolongado; pratica-se uma técnica de parto sem dor sem recorrer à anestesia pelos narcóticos, mas, empregando-se um tratamento psíquico prévio, baseado na sugestão consciente etc.

Relacionamos esses exemplos para ressaltar, mais uma vez, que a teoria dos reflexos condicionados é que nos dá a possibilidade de explicar muitos estados psíquicos humanos, tanto normais como patológicos e isso tem a maior importância para a compreensão dos fatos de que trata este livro.

Ao lado da publicidade que procura influenciar o homem da rua, a massa e desencadear nos indivíduos que a compõem determinadas ações – efeitos de reflexos condicionados – no sentido visado por quem faz o anúncio, há outra atividade que utiliza as mesmas leis dos reflexos condicionados, da inibição etc., pertinente à gestão de negócios, mas que utiliza uma técnica um pouco diferente. É a psicologia nos negócios relacionada com o trabalho dos homens de negócios, dos comerciantes, caixeiros, viajantes, vendedores, agentes de seguro etc. Eles também devem conhecer, com perfeição, a estrutura da alma daqueles que querem tornar dispostos a uma ação que lhes será propícia; devem saber como implantar, na mentalidade de seus parceiros e, às vezes, de suas vítimas, determinados reflexos condicionados; sabem que corda devem tocar, como provocar inibições, como desinibi-los em um dado momento etc. É óbvio que os homens de negócios não são psicólogos diplomados que operam com conhecimento das leis dos reflexos condicionados. São homens que agem por intuição, segundo o bom senso, como se diz; às vezes, quase farejam sua vítima, seus lados fracos, como um cão que, descobrindo a caça, toma uma atitude tensa. O businessman americano é típico. Deve possuir certas qualidades que podem ser elevadas por uma educação especial ao máximo de desenvolvimento. Entre essas qualidades, conta-se um certo vigor e resistência física, daí porque se cultiva, nos meios comerciais, o treinamento esportivo. Ao lado de fator puramente intelectual, porém, que pode ser melhorado por um ensino geral e especial, são as qualidades psicológicas, no exato sentido, consideradas da mais alta importância para um homem de negócios. E aqui ocupa o primeiro plano a faculdade de se deixar guiar pelo princípio, segundo o qual toda atenção e toda a vontade devem ser voltadas para o fim que se deseja alcançar, é o que Pavlov denominou reflexo de fim (118), com o mínimo de energia e de tempo. O espírito de iniciativa, o desembaraço, o sangue frio, o amor à ordem, à sistematização, ao trabalho perfeito são outras qualidades que caracterizam um homem de negócios moderno. Enfim, uma condição essencial para o sucesso é a capacidade de entusiasmo. É talvez a maior fonte de energia e se apóia na pulsão n° 1, sendo, por isso mesmo, um fator de primeira ordem. No momento de sucesso, quando um homem desse tipo se aproxima do fim visado, nascem novas forças na sua estrutura psíquica que o encorajam para novos objetivos. Em um momento de depressão, de insucesso, de fadiga, isso constitui um ideal que vive no mais profundo do seu psiquismo, um excitante condicionado de uma ordem das mais altas, que ilumina, como um farol, que dá forças ao náufrago e lhe permite sair de uma situação perigosa.

Na atividade dos homens de negócios, distinguem-se aptidões especiais para a arte de vender, de comprar, para orientar a correspondência comercial – tudo constituindo sistemas de comportamento, estabelecidos sobre complexos de reflexos condicionados que, controlados pelos fenômenos de excitação, de inibição e desinibição, pelo trabalho de analisadores de toda ordem, seguem as leis de que tratamos, quando da exposição da teoria de Pavlov.

O seguinte fato serve de exemplo do valor desses fenômenos, como base da atividade nesse campo: na correspondência comercial não são apenas os termos da carta que têm influência psicológica, determinando no destinatário essa ou aquela atitude, mas, também, fatores externos, o aspecto e a forma, a qualidade do papel e até – o que pode, à primeira vista, parecer pouco compreensível – o envelope e a disposição do endereço. Existem manuais em que são descritos os melhores métodos e formas de correspondência comercial, visando ao sucesso.

Voltando aos fenômenos da sugestão individual, e coletiva aplicada, conscientemente, na vida prática, sob a forma, por exemplo, de publicidade e anúncio, concebe-se facilmente que se trata de um campo em que os reflexos condicionados têm função extremamente importante.

A princípio, de caráter informativo, a publicidade busca, antes atingir que convencer, sugestionar antes que explicar. Ela joga com a obsessão [131] e apela, então, para diversas pulsões. Procura até criar a necessidade naquele a quem se dirige. São as mesmas regras técnicas que vimos para o amestramento, com a diferença somente de que, tratando-se aqui de seres humanos, utilizam-se sistemas de reflexos condicionados de um plano mais elevado e joga-se, naturalmente, com toda uma gama de pulsões e seus derivados. Assim é que, para levar um homem a comprar um bilhete de loteria, tentar-se-á sugerir por repetição e sob a forma de cartazes ilustrados que atuem fortemente sobre ele, ser de seu interesse comprar o bilhete: descrever-se-ão as vantagens de uma vida feliz e segura, as possibilidades que oferece a posse de uma fortuna etc., atua-se, em suma, sobre a pulsão n° 2 – o do bem-estar material. Fazendo-se publicidade para um artigo de toilette destinado às mulheres, representar-se-ão, no cartaz os atrativos de uma jovem bela, seminua: trata-se, apelando-se para a pulsão n° 3 (sexual) de sugerir a quem o vê, substituir-se, em idéia, à figura representada, de tornar-se tão atraente quanto esta e, chegando a isso, comprar o artigo anunciado. Como outro exemplo de uso da pulsão n° 3 há o fato de que as viagens aéreas tornaram-se populares depois que as companhias que exploram esse meio de transporte empregaram, nos aviões, jovens e belas aeromoças, que se ocupam dos passageiros, presos de acessos de náusea ou de medo, tomando-lhes a mão, para dar-lhes segurança e proporcionar-lhes sensações agradáveis.[132]

A publicidade de uma companhia de seguros de vida fará ressaltar, em termos sugestivos, os perigos da vida quotidiana e especialmente as desastrosas conseqüências de um sinistro para a família dos acidentados, as vantagens de ser segurado: o bem-estar, a velhice tranqüila etc. Aqui, está em jogo, em primeiro plano, a pulsão n° 4 (maternal ou paternal).

Enfim, tomemos a publicidade para os esportes de inverno, o turismo, as belas viagens, etc. – explora a pulsão n° 1 (combativa) – a possibilidade de conservar a saúde, o vigor, fonte de força e domínio. Poderíamos continuar esses exemplos indefinidamente. Desejamos pôr em relevo, apenas, que são sempre as quatro pulsões essenciais que fornecem a base das excitações condicionadas que agem sobre os homens nesta atividade publicitária.

As formas que toma a publicidade, apresentam variações infinitas, muitas vezes tão inesperadas e engenhosas que inspiram freqüentemente os propagandistas políticos. A publicidade atingiu o máximo de seu desenvolvimento na América do Norte, onde assume proporções extraordinárias: anúncio à americana, como se diz, comumente. É curioso, mas lógico, acentuar que, na luta política na Alemanha, na primavera de 1932, Goebbels, chefe da propaganda de Hitler, desejando impressionar o mundo, epatant le bourgeois, submetê-lo a seus fins, declarava, urbi et orbi, que iria empregar – na eleição de Hitler para Presidente da República Alemã – “métodos americanos e em escala americana”, o que não o impediu de vociferar, mais tarde, depois da sua derrota nessas eleições, que seu adversário, a Frente de Bronze, vencera graças ao emprego de métodos “mercantis” americanos, “sugeridos e pagos, naturalmente, pelos judeus”.

A base fisiológica da publicidade é, por vezes, tão manifesta neste anúncio à americana, que vale a pena citar aqui um exemplo desse gênero: uma salsicharia de Nova Iorque teve a idéia de colocar no estabelecimento um toca-discos que reproduzia os gritos estridentes e os roncos dos porcos que se abatem nos matadouros; estava sempre cheia de pessoas que disputavam as salsichas. O proprietário de um café deixou sair para a rua uma chaminé de seu forno: o cheiro apetitoso espalhava-se em volta e os transeuntes vinham em grande número, atraídos por essas excitações condicionais que provocavam o desejo de saborear os pratos preparados.

Para ter uma idéia dos processos de que se valeu uma publicidade tão astuciosa, quanto inescrupulosa, basta citar um exemplo dado por Clyde Miller (105), tirado da prática americana: numa campanha publicitária do Natal, viam-se cartazes representando o interior de uma capela, com raios de sol atravessando os vitrais multicores, criando uma atmosfera de piedade e recolhimento com a inscrição de um versículo em letras douradas, geralmente utilizadas na prática religiosa e que saltavam aos olhos: “Eles não buscavam ouro, mas, bondade”. Embaixo, em letras menos chocantes, um texto que indicava tratar-se de um conhaque fabricado pelos Christian Brothers (Irmãos Cristãos), no mosteiro de Napa, Califórnia. A eficiência do anúncio era fundada no fato de que, para os espíritos pouco críticos, devia parecer quase um sacrilégio não comprar o licor.

A repetição desempenha um grande papel na publicidade, como em toda a formação de reflexos condicionados: daí porque num anúncio que procura persuadir repete-se a mesma idéia, sobretudo o mesmo imperativo, um certo número de vezes, ou colocam-se cartazes em grande quantidade ou em muitos lugares e reproduzidos sempre de maneira uniforme, durante um período mais ou menos prolongado. Assim, Hitler fazia aplicar sua marca da fábrica, seu símbolo – a cruz gamada – em todas as ocasiões, em todos os muros, cruzamentos e até nos abrigos da via pública.

A publicidade comercial e também a política, que se dirigem às massas, têm pleno conhecimento de que o nível intelectual, isto é, a faculdade de crítica é muito baixa na multidão, utilizando, em decorrência, dois princípios importantes: repetição incessante e compacta das mesmas fórmulas, slogans etc., acrescidos minuciosamente de excitações luminosas, em cores berrantes, de sonoridades ritmadas obsedantes, criam um estado de fadiga mental propícia à subordinação àquele que faz esse tipo de publicidade aparatosa. O outro princípio consiste em que os homens, mormente nas massas, se inclinam a acreditar nas coisas que desejam ver realizadas, embora apoiadas em argumentos pouco fundados, mas, de tipo emocional. Por exemplo, um apelo de um advogado diante dos jurados “Senhores, não esqueçam que esta mulher é mãe”, tem sempre uma força persuasiva. Clyde Miller (105) cita ainda exemplos desse gênero: “o fascismo é aceitável, porque Mussolini conseguiu fazer os trens andarem no horário” ou as afirmações de Goebbels: “Jesus Cristo não podia ser um Judeu – Não tenho necessidade de prová-lo cientificamente – é um fato.” É a lógica que se deixa persuadir por um silogismo desse tipo: “nenhum gato tem oito caudas. Cada gato tem uma cauda a mais que nenhum gato. Logo, cada gato tem nove caudas [133].” A propaganda e a publicidade não hesitam em valer-se de tais raciocínios... e têm sucesso.

Estamos, nesse caso, diante de verdadeira impostura psíquica, uma violação psíquica, exercida sobre o indivíduo, como veremos mais adiante, sobretudo aplicada às massas pela propaganda política – Essa violação psíquica individual, porém, é ainda mais evidente nos casos de aplicação do pretenso soro da verdade ou da narcoanálise: com esse nome se designa um método que utiliza a injeção de certas substâncias químicas como o pentotal, para constranger, na prática judiciária, o acusado a esvaziar seu inconsciente, a fornecer, num estado psíquico de baixa resistência, os fatos e os motivos, por exemplo, de um crime, que o indivíduo procura dissimular.

A publicidade comercial tornou-se atualmente uma espécie de ciência prática que estuda, com métodos de laboratório, toda a eficácia das formas, bem como do número, e a influência do meio sobre os efeitos registrados, controle e análise desses resultados. A propaganda política que se baseia sobre as mesmas leis de reflexos condicionados, e que, cada vez mais, vai buscar suas formas na publicidade, deveria submeter-se à idéia do estudo científico das reações e dos efeitos, se quer, também, dominar as massas e guiá-las segundo sua vontade.

Falando de um campo em que a aplicação de nossos conhecimentos atuais da psicologia individual está na ordem do dia, não é possível silenciar sobre a organização do trabalho, cuja racionalização fez grande progresso, desde que R. W. Taylor reconheceu as possibilidades e necessidades que existem nesse domínio. O lado psicológico dos esforços nessa direção, que tem como fim principal aumentar o rendimento do trabalho em todas as atividades humanas, se manifesta, sobretudo, na psicotécnica que procura determinar, pelo método dos testes psicológicos, as aptidões individuais para atividades profissionais, assim como influenciar favoravelmente, através de certas medidas, a parte psicológica do próprio trabalho nas empresas industriais, comerciais, escritórios administrativos etc. Trata-se, sempre, nesses casos, de aplicação de nossos conhecimentos das leis de formação de reflexos condicionados, inibições etc.

Em relação estreita com o problema da organização científica do trabalho, coloca-se o da documentação científica, que está no fundamento de toda nossa cultura. Esse problema é da mais alta importância e sua racionalização torna-se cada vez mais urgente, pois, a acumulação de conhecimentos humanos e de publicações que os divulgam, atingem um volume inquietante (mais de cem mil, com milhões de páginas por ano), engendrando o caos em sua classificação e em sua utilização eficaz, que se torna progressivamente ilusória, causando uma especialização excessiva e uma queda da cultura geral. O sistema decimal de classificação, os métodos de fichário, microfilmes, mecanização etc., que permitem uma certa economia de espaço e de tempo, como ordenar o manuseio de documentos, não são mais suficientes. O que se faz absolutamente indispensável é a ordem mental, a economia das energias psíquicas a serem empregadas. É preciso poupar as funções mentais e utilizar as que restam livres numa melhor construção dos elos, das relações entre os engramas.

A aceitação dos enunciados da teoria dos reflexos condicionados pode, nesse particular, apresentar vantagens extremamente importantes, mormente pela síntese – verdadeiro objetivo de todos os esforços da ciência. Em meu livro Organisation rationelle de la recherche scientifique [134] está exposto o princípio do cinematismo do pensamento: constatei que a síntese de idéias e de fatos e o nascimento de novas idéias se dá tanto mais facilmente quanto melhor isolamos elementos a ela necessários e os fazemos penetrar nos mecanismos cerebrais com certa rapidez. É o mesmo principio do cinematógrafo: deixando uma série de imagens se apresentarem diante de nossos olhos com uma velocidade que ultrapasse sete imagens por segundo conseguiremos fundi-las na nossa percepção e criar em nós a ilusão do movimento das figuras observadas nas fotografias. Coisa análoga se passa no nosso cérebro, no caso acima indicado e nos dota de uma facilidade imprevista para fazer novos achados.

Com essa finalidade, emprego fichas analíticas em que os elementos são dispostos de uma forma e numa ordem estandardizada, e as anotações feitas em uma escrita convencional (lográfica), empregando símbolos que lembram a ideografia e certos princípios da logística, escrita a que denominei Noografia. A vantagem apresentada pela escrita lográfica não apenas no que toca à economia de lugar e tempo, mas, ainda ao gasto da energia nervosa empregada na percepção, é evidente: vendo-se essa fórmula que lembra as algébricas, compreende-se do que se trata, em um relancear de olhos. Se as fichas estandardizadas de que falávamos são preenchidas dessa maneira, sua compreensão é quase instantânea e o princípio do cinematismo do pensamento entra em ação.

A possibilidade de utilizar, com esse objetivo, os conhecimentos psicológicos modernos no trabalho, encontra aplicação em todos os aspectos da vida quotidiana de cada um, economizando esforços, tornando-os menos penosos, mais agradáveis e, portanto, mais eficazes, estimulando, racionalmente, as energias psíquicas nas atividades individuais, criando a alegria de viver e trabalhar, fatores primordiais para o sucesso e formação do sentimento de felicidade a que aspira todo ser humano. Trata-se daquilo a que chamamos “a organização de si mesmo [135]”. As questões da auto-educação, da formação de hábitos, de reflexos condicionados etc. relacionam-se com isso.

Vemos que já exploramos, em parte, o campo do que se poderia chamar, segundo a expressão de Ch. Baudoin (14) – a psicagogia, ciência prática da direção das atividades próprias ou de outrem, pela ação de influências calculadas de acordo com seus mecanismos psíquicos. A possibilidade dessa ação vimos em tudo o que precede, ao examinarmos os conhecimentos atuais sobre o funcionamento dos mecanismos psíquicos do homem e dos animais. A ciência nos diz, claramente, que esses propósitos são realizáveis, fornecendo-nos as chaves para tanto.

Resta agora verificar nos capítulos seguintes, de que maneira essa possibilidade teórica se aplica às diversas formas de comportamento do homem, enquanto homo politicus. Vemos, continuamente, os homens agirem uns sobre os outros, para o bem ou para o mal. É também de grande interesse prático examinar os dados da ciência, buscando estabelecer, isolar regras que permitiriam conduzir os homens não no sentido de sua perdição, mas, de sua salvação comum. Então, a ciência prática da psicagogia tornar-se-á uma atividade social, não baseada na violação da vontade dos homens e dos mecanismos do seu pensamento, como é freqüentemente o caso, em nossos dias, mas fundada no interesse de melhor conduzi-los para as finalidades sublimes da cultura, entre as quais uma das primeiras é o dever social.


Capítulo IV
A Psicologia Social

A atividade política – As teorias sociológicas – A psicologia das multidões – O erro de Gustave Le Bon – As massas e as multidões – A sociologia animal – A mentalidade primitiva – Os estados gregários – Multidões, massas, público – A estrutura da sociedade – Contágio psíquico por imitação – Exemplos tirados da Revolução Russa – O episódio das máscaras de gás – Ajuda fraterna – A experiência dos balões vermelhos, em Copenhague – A multidão parisiense – As idéias dos behavioristas – O sistema das pulsões – O sistema das atividades humanas – Os vícios – A sublimação – Os sentimentos – Os interesses culturais – As extravagâncias – A complexidade das atividades humanas – As quatro doutrinas fundamentais na evolução da sociedade humana – A escola de Freud – As idéias de Alfredo Adler – A doutrina de Karl Marx – O Cristianismo – A série dos grandes movimentos populares na história.

 

Os atos das multidões humanas, os fenômenos da vida social, entre os quais se deve, é claro, classificar também as manifestações da atividade política, são, evidentemente, os atos psiquicamente determinados e, como tais, submetidos às leis que regem o sistema nervoso do indivíduo. Sem o homem, não haveria política e, como o comportamento político é caracterizado pelo ato, isto é, por um fenômeno em que os músculos, os nervos, os sentidos desempenham um papel combinado, é impossível, tratando-se de política, deixar de lado os fenômenos biológicos, base efetiva de todo ato. Os reflexos condicionados têm neles função preponderante, senão exclusiva. Com efeito, se um orador arenga para uma multidão, na rua, num comício ou no Parlamento, se um jornalista escreve um artigo político, se um homem de estado assina um manifesto ou um decreto, se um cidadão vai depositar sua cédula na urna ou um deputado toma parte numa votação na Câmara, Se, finalmente, adversários políticos se enfrentam na rua e vão às vias de fato – todos esses atos, sem exceção, são sempre atos musculares, determinados por processos nervosos, que se desencadeiam nos seus mecanismos superiores, em seguida a excitações, inibições etc., relacionadas com impressões múltiplas latentes nos seus órgãos; os mecanismos de suas combinações são os dos reflexos condicionados de diversos graus.

É evidente, ainda, que não pode existir questão política, senão onde há aglomerados humanos que tomam parte na ação. Aparecem eles como elementos manobrados ou como atores, seja em forma compacta – as multidões, seja em forma difusa – as massas. [136]

Acreditamos que, lançando um rápido olhar sobre o conjunto histórico das teorias sociológicas, pode-se divisar quatro grupos, em função dos princípios que presidem o enunciado dessas teorias, pelos seus autores. O primeiro grupo, que se poderia designar como os psicologistas – Gustave Le Bon, Tarde, Sighele, Mac Dougall – baseiam suas idéias na psicologia introspectiva, que está ultrapassada pela ciência, como fundamento suficiente para a compreensão objetiva dos fatos do comportamento social. Um outro grupo, o dos sociologistas, constituído, sobretudo, pelos socialistas alemães Kautsky, Geiger, Michels, rejeita a base psicológica. Isso é compreensível, se se considerar que, no tempo em que esses autores expunham suas idéias, a tendência introspectiva predominava em psicologia; os socialistas temiam-na com razão, aliás, como apresentando o perigo, em virtude do caráter vago de suas afirmações, de favorecer a proliferação da mentalidade idealista, incompatível com as ciências positivas, sobre as quais se fundava o materialismo do seu tempo, base mesma de suas idéias sociais e políticas. Encontra-se o extremo dessa tendência em Durkheim que se impôs como mestre da sociologia francesa, desde o começo de nosso século: trata os elementos sociológicos como entidades próprias, do mesmo modo que certos economistas de nosso tempo lidam com noções de uma ciência econômica, emancipada de considerações filosóficas do passado, mas, também falha de dados psicológicos e biológicos modernos, que são as verdadeiras bases científicas de todas as atividades humanas, incluídas a economia e a sociologia.

O grupo de sociólogos psicanalistas – Freud, Jung, Adler – tem fundamentos mais sólidos para se aproximar da solução dos problemas sociológicos, porque se firmam em fatos de origem psicobiológica e psiquiátrica, mas, a psicanálise, utilizando ainda freqüentemente noções tiradas da introspecção, chega a conclusões por vezes contaminadas de um caráter vago e temerário. As idéias de Reiwald sobre a massa produtiva, além de considerações psicanalíticas, reúnem, com sucesso, os princípios dos três grupos mencionados.

Enfim, nas idéias dos behavioristas americanos e nos fatos da psicologia objetiva de Pavlov que começam a penetrar na sociologia moderna, surge uma nova tendência que parece ter todas as condições de lançar uma nova luz sobre o problema que nos ocupa. Designa-la-emos objetivista.

As noções de multidão, massa, líder, são elementos essenciais da Sociologia humana, a qual faz parte, naturalmente, das ciências biológicas e como estas, deve prevalecer-se dos mesmos critérios de análise e de síntese. Esse ponto de vista, porém, é de data relativamente recente, o que é bem demonstrado pelo fato de que a Sociologia continua sendo ensinada nas faculdades de letras ou de direito. Na França, não existe, ainda, a cadeira de Sociologia na Universidade. O resultado de um tal estado de coisas é que as questões da psicologia social, que, é óbvio, constituem a própria base da Sociologia como ciência do comportamento das coletividades, ocasionaram numerosas controvérsias, confusões, tomadas de posições errôneas.

Reiwald, na sua obra documentada (130), empreendeu a louvável tarefa de reunir uma grande parte de pontos de vista, que são sustentados na sociologia das últimas décadas e de confrontá-los uns com os outros, em função da psicologia coletiva. Expõe os pontos essenciais das teorias de diversos autores, partindo dos biologistas e zoo-sociólogos, como Espinas, Trotter, Alverdes, Bechterew, Tchakhotine, passando, em seguida, pelos psicólogos – Sighele, Tarde, Le Bon, Mac Dougall, Freud, Jung, Adler e Reiwald e chegando aos sociólogos puros, como Geiger, Kautsky, Michels, Durkheim, R. Levy-Bruhl, Hardy e os sociólogos behavioristas americanos, Dewey, Allport, Brown, W. Lippmann, Gallup; confronta, a seguir, essas teorias com as idéias levadas à prática pelos políticos, como Trotsky, Lênin, Hitler, Mussolini.

Desse estudo histórico dos problemas da psicologia das massas resultam dois fatos essenciais: de um lado, a confusão decorre do emprego de noções de diversas procedências, insuficientemente definidas: assim, confundem-se, freqüentemente, os termos massa e multidão. De outro, os critérios empregados para analisar fatos complexos têm, muitas vezes, uma origem dogmática e carecem de apoio objetivo: dessarte, muitos autores falam de uma alma coletiva, de vontade da multidão, do pensamento da massa e até de uma personalidade coletiva.

Diz-se, por exemplo, que “a guerra é uma regressão da alma social” (Pfister). Mas, Bovet (19) faz a ressalva muito oportuna de que é muito perigoso empregar uma expressão como alma social, mesmo quando não passe de uma metáfora: sabe-se com que facilidade as criações da linguagem se transformam em entidades metafísicas. “É preciso – acrescenta – com toda nossa energia impedir a ressurreição, no campo das ciências sociais, dessas entidades nascidas de uma palavra, que a filosofia positiva tem, tão impiedosamente, perseguido nas ciências físicas”. Foi sobretudo Gustave Le Bon (91) que criou confusão, empregando a expressão alma social, na descrição da psicologia das multidões. Escreveu, por exemplo: “Pelo único fato de os indivíduos se transformarem em multidão, possuem uma espécie de alma coletiva, que os faz sentir, pensar e agir de uma maneira inteiramente diferente daquela pela qual sentiria, pensaria e agiria cada um deles isoladamente”. Bovet (19) rejeita essa fórmula, dizendo:

“O fato é muito observado, mas, nada tem de espantoso. Explica-se, integralmente, pela psicologia individual. Os indivíduos não pensam como pensariam fora da multidão, porque um estado de espírito não é jamais outra coisa, senão o que é, num dado momento, em dadas circunstâncias; nunca é o que seria, se essas circunstâncias não existissem”.

Uma certa clareza das noções se projeta com o advento dos estudos das idéias behavioristas e dos pontos de vista biológicos. A biologia cria as bases gerais para a compreensão de todos os fatos que caracterizam a vida social.

Não há dúvida que o ponto de partida de toda a análise psicológica das atividades coletivas do homem é a constatação de que nenhuma sociedade, mesmo animal, pode ser concebida sem um certo respeito pela vida de outrem, objeto de um tabu formulado ou silenciosamente admitido. Esse tabu não pertence privativamente ao homem: mergulha suas raízes na animalidade. [137] Os fatos relatados por Sighele, [138] segundo os quais, na Sicília, durante uma revolta causada pela fome, mulheres que faziam parte de uma multidão, arrancaram e tragaram pedaços de carne humana dos corpos de policiais mortos, não invalidam a existência, em toda sociedade, desse tabu: trata-se, no caso em questão, de um comportamento patológico, desviado; apesar disto, não se deve perder de vista que um determinado meio social pode impor, sempre e a todos, formas particulares aos fenômenos que se produzem em seu seio.

A psicologia das multidões tem sido muitas vezes objeto de estudos avançados. Foi notadamente Gustave Le Bon (91), na França, que inaugurou a série de trabalhos a esse respeito, os quais datam já de mais de meio século. Ele fala da alma das multidões, onde dizemos, atualmente, comportamento e móveis. Distingue o povo e a multidão e adianta que o meio e a hereditariedade impõem a todos os indivíduos de um povo um conjunto de caracteres comuns, estáveis, pois que de origem ancestral, mas, que a atividade consciente desses indivíduos, reunidos em multidões, desapareceria e daria lugar a uma ação inconsciente, muito poderosa, porém, elementar. Le Bon, cujas idéias fizeram escola na sociologia moderna, tem tendência para atribuir às multidões todos os males de que sofremos e fazer recair sobre elas toda a responsabilidade pelos dissabores da vida política e social de nossa época, que chama a era das multidões. Se consideramos que essa opinião foi emitida por volta do fim do século passado, em que o compasso dos acontecimentos, comparado com o dinamismo de nossos dias, coloca aquela época como um período de estagnação, ficamos persuadidos, de que a opinião de Le Bon não fora ditada por um preconceito e por um exagero da real influência que a atividade das multidões pode ter na vida dos Estados. Há, também, uma confusão das noções das diversas categorias das coletividades humanas. Com efeito, parece pueril, atualmente, pôr no mesmo plano uma multidão que faz um linchamento, um exército desfilando numa parada e uma cena da Câmara dos Comuns, na Inglaterra. Só uma certa perturbação do espírito pode justificar a seguinte frase de Le Bon: “Sintomas universais mostram, em todas as nações, o rápido crescimento do poder das multidões. O seu advento marcará, talvez, uma das últimas etapas das civilizações do Ocidente, um retorno aos períodos de anarquia confusa, que precede a eclosão de novas sociedades”. É verdade que Platão, na sua República, já dizia que o poder das multidões é uma embriaguez que prepara fatalmente o triunfo de alguma tirania.

Mas, o que caracteriza, efetivamente, a época em que vivemos é, em primeiro lugar, um decréscimo da influência real das coletividades na vida pública: tornam-se, antes, instrumentos dóceis nas mãos dos ditadores e dos usurpadores que, utilizando, de uma parte, conhecimentos mais ou menos intuitivos das leis psicológicas e, de outra, dispondo de formidáveis meios técnicos que lhes fornece hoje o Estado moderno, não se deixando frear por nenhum escrúpulo de ordem moral, exercem, sobre o conjunto dos indivíduos que formam um povo, uma ação eficaz que apresentamos aqui como uma espécie de violação psíquica. Pode-se dizer, com decisão, que, sem cessar, as violentam psiquicamente. É natural que sejam obrigados, de tempo em tempo, a recorrer a manifestações estrondosas, em que exploram e desencadeiam forças peculiares às multidões; por exemplo, as estrepitosas paradas militares, exibições espetaculares, como os Congressos de Nuremberg, de Hitler, ou as arengas de Mussolini, do alto de seu balcão. Isso se explica muito simplesmente: vimos, mais acima, que um reflexo condicionado, se não é revigorado de tempo em tempo, isto é, acompanhado de um reflexo absoluto, perde sua eficácia; quando se emprega como método de governo a violência psíquica, a força dos símbolos que agem sobre nove décimos das massas, isto é, a força eficaz das ordens imperativas sobre os sugestionados, sobre os escravos psíquicos, desaparece, pouco a pouco, se não se tocam, periodicamente, as cordas que o medo ou o entusiasmo são capazes de fazer vibrar. Daí porque a arte de governar dos ditadores compreende sempre duas formas ou fases essenciais de ação: 1 – reunir as massas em multidões, impressioná-las por uma chicotada psíquica, discursando para elas violentamente e fazendo-as perceber, ao mesmo tempo, certos símbolos – chave de sua afetividade – reavivando nelas a fé nesses símbolos. 2 – dispersar, novamente, as multidões, transformando-as em massa, fazê-las agir, por um certo tempo, cercando-as, por todos os lados, de símbolos tornados, novamente, atuantes.

Na França, as idéias de Le Bon encontraram uma veemente oposição de Durkheim e de sua escola sociológica que se levantaram contra sua tendência psicológica. Segundo Durkheim, a multidão não é um fenômeno primitivo, pré-social, mas, antes, uma sociedade in statu nascendi. [139] O que caracteriza uma sociedade evoluída é sua estrutura social fixada (as instituições) que exclui a multidão, privada dessa estrutura. Enfim, ainda de acordo com Durkheim, a idéia de Le Bon, sobre a influência das multidões na vida social, é exagerada: os fatos fundamentais da vida da sociedade não encontram sua solução nos golpes bruscos e trágicos da rua; estes não podem senão reforçar os movimentos da sociedade, já existentes, em estado latente.

Correntes sociais exercem sobre o indivíduo uma pressão, que se transmite às massas. Essa pressão vem, assim, de fora, mas, onde há formação de multidões, pode tomar o caráter mais primitivo dos instintos (fundada em pulsões). Durkheim repele a idéia de um psiquismo coletivo que se manifestaria na multidão. Dupréel entrevê a necessidade de distinguir multidões e massas, a que chama de multidões difusas.

Se acompanhamos as teorias de Le Bon, vemos que suas afirmações sobre a dominação das multidões na vida moderna, não são, de modo algum, aplicáveis às ações dos ditadores, mas, verificamos que ele visa a atingir sobretudo a idéia democrática, insinuando que as assembléias, freqüentemente agitadas, irrefletidas, caóticas, impõem soluções, atos visivelmente irracionais, que agravam, por vezes, as difíceis situações políticas, em lugar de remediá-las. Um pouco de verdade existe nesta afirmação. A nosso ver, porém, é justamente uma revolta das massas contra uma opressão psíquica tornada intolerável, uma reação sadia que precede a verdadeira revolução ou que anuncia o seu advento. A massa difusa passiva, submissa, torna-se multidão, que passa mais facilmente à ação; agitada, dá livre curso às suas paixões, se não são freadas e canalizadas por um tribuno, um homem que, identificado com as aspirações da multidão, saiba explorar as forças desencadeadas e dirigi-las num sentido que contenha a salvação. É precisamente a tarefa dos verdadeiros líderes ou condutores da humanidade, nos períodos de fermentação e de revolta mais ou menos consciente das almas, saber utilizar as energias que se desprendem para chegar a situações de onde se possa ver desenhar os horizontes luminosos do futuro da humanidade, emancipada da escravidão material e psíquica. São os legítimos profetas de melhores tempos.

A finalidade deste livro é contribuir, de uma parte, para a compreensão do mecanismo da opressão psíquica, tal como a utilizam os usurpadores modernos e que entrava a marcha do progresso; e de outra, dar armas eficazes aos que, custe o que custar, desejam libertar os homens e fazê-los alcançar, mais rapidamente, o ideal longínquo que guia a humanidade.

Para compreender o mecanismo da violação psíquica, precisamos reportar-nos às noções expostas no capítulo II – a formação de reflexos condicionados, o 2° sistema de sinalização, o sistema das pulsões, o sistema de atividades humanas – e orientar o estudo de fatores ativos e das reações dos indivíduos, no seio das comunidades. Duas formas coletivas apresentam-se diante de nós: a multidão e a massa ou multidão difusa. O método a ser utilizado seria tentar fazer um balanço dos engramas no segundo sistema de sinalização, dos indivíduos nas multidões e nas massas, separadamente, estabelecer o grau de homogeneidade da composição das multidões e das massas, determinar os fatores condicionantes e registrar as reações nos dois casos. De tal estude, dirigido com os critérios indicados, poder-se-ia esperar a projeção de uma luz favorável à solução do problema.

Com a intenção de poder agir metodicamente, na direção indicada, desejamos ocupar-nos, um pouco, de dados conhecidos – fatos e idéias – dos autores que se preocupam com essas questões.

No que concerne aos métodos empregados para explicar a psicologia das multidões e das massas, poder-se-ia citar Reiwald (130) [140], que distingue os métodos experimentais, de um lado, e a prática psicológica, que se baseia em observações da vida corrente das coletividades, do outro. Para os primeiros, oferece exemplos de experiências de grupos feitas sobretudo por Mode e, também, pelos behavioristas dos Estados Unidos, que não hesitaram em constituir até multidões artificiais; enfim, pesquisas que deviam responder a certas questões relativas ao problema; o método de sondagem da opinião pública de Gallup pôde ser utilizado, com sucesso, nesses casos. No domínio da prática da psicologia coletiva, a metodologia aplicada se reportava a observações sistemáticas na escola, no asilo de alienados, no instituto de crianças abandonadas.

O método de associações de idéias, criado por Jung, para o estudo da psicologia coletiva, revela-se aplicável, com sucesso, nas pesquisas experimentais, assim como nas fundadas em enquetes e observações.

Para poder alguém prever as reações da massas humanas a qualquer excitação coletiva e saber dirigi-las aos fins a que se propõe, é necessário não só familiarizar-se com seus traços característicos – nacionais e profissionais – como também conhecer o que caracteriza sua psicologia e a das multidões em geral. Desde longo tempo, observou-se que essa psicologia difere, radicalmente, no homem que se encontra entre seus semelhantes e naquele que se acha isolado. O primeiro é mais facilmente excitável e nele os fenômenos de inibição, o domínio de si mesmo, estão enfraquecidos.

Outro traço regressivo característico é a perda de pulsões volitivas próprias: submete-se mais facilmente às ordens vindas do exterior. Assim, na Rússia tzarista, as autoridades embriagavam os cossacos com vodka, quando os enviavam contra os estudantes nos motins universitários, criando neles um estado de regressão volitiva para poder melhor impor-lhes um comportamento brutal para com a juventude revolucionária.

Aliás, verifica-se que esse enfraquecimento de certas faculdades críticas e volitivas também se observa em outros casos de aglomerações humanas, que não as verdadeiras multidões; por exemplo, nos debates em clubes e associações, parlamentos etc. Outro traço psicológico característico nas aglomeração humanas, como as multidões e mesmo as massas, reside no fato de que uma mudança psíquica se opera facilmente no indivíduo pela comunhão com grande número de seus semelhantes, isso numa direção mais freqüentemente negativa que positiva. A imitação é sempre um fator psíquico muito importante nas situações gregárias. A identificação que em tal caso, o indivíduo faz, de si mesmo com os demais circunstantes tem, certamente, origem, como afirma Reiwald (130), [141] num estado precoce da infância: o indivíduo tende a libertar-se da responsabilidade intelectual e moral que pesa sobre ele, deixando-a recair sobre os ombros do líder.

Não se distinguindo o homem, em princípio, quase nada dos irracionais, os fatos da sociologia animal não podem deixar de atrair nossa atenção. Assim é que a independência genética completa das duas formas de aglomerados – a sociedade e a multidão – prova nitidamente a diferença que as separa: vê-se que, entre os gafanhotos migratórios, uma multidão se forma no seio da sociedade. [142] Trotter (160) fala de um instinto gregário que se colocaria no mesmo plano das nossas pulsões. Poder-se-ia assemelhar a nossa pulsão n° 4, baseando-se no que Trotter diz do sentimento altruísta que ele faz derivar diretamente do instinto gregário. Parece-nos, no entanto, que essa tendência se relacionaria antes com a pulsão n° 1, que impele os seres vivos a se congregar para aumentar sua segurança, em face do perigo de agressão. Segundo Trotter, todo comportamento humano traria sinais do valor determinado desse instinto gregário: sua sensibilidade para as diretivas da coletividade a que pertencem, sua conduta em caso de pânico, sua tendência a buscar e naturalmente se inclinar diante dos dirigentes, sua subordinação a explosões violentas dos sentimentos, conduzindo facilmente aos excessos dos ajuntamentos do tipo MOB.

E sobretudo Alverdes (8) [143], na qualidade de biologista experimentado, que parece ter chegado mais perto da verdadeira importância desses problemas, quando diz que “nenhum fato sociológico pode ser compreendido sem que seja reconduzido à sua base psicológica” e que “nos animais, são o casamento e a família, de um lado e a associação em entidades mais vastas, de outro, formas societárias que, em certas espécies, se excluem reciprocamente e, em outras, coexistem no tempo e umas ao lado das outras”.

Dois princípios biológicos então, se verificam, que não podem reduzir-se um ao outro. Essas formas de associação preexistiam ao aparecimento do homem na Terra. Entre as sociedades animais, Alverdes distingue aglomerações simples e massas animais, às quais atribui um porquê coletivo. Ele encontra o primeiro princípio entre os protozoários, entre pequenos crustáceos, entre os ofídios e os lemmings: Uma associação desse tipo pode transformar-se numa sociedade: vê-se, nos gafanhotos que, pousados em massa, podem levantar-se, todos de uma vez, para fugir. A imitação atua nesse caso e seria, assim, responsável pela formação de um psiquismo gregário. Nas formigas, pode-se observar o mecanismo de excitação do instinto de imitação que se realiza por batimentos das antenas que entram em ação tanto nos casos de transmissão de ordens para alimentação, agressão ou fuga, como para prevenir a sociedade do perigo ou, ainda, para tranqüilizar as companheiras inquietas. Essa sinalização de alarme, por meio de movimentos de antenas, propaga-se rapidamente de um a outro indivíduo, através de todo o formigueiro.

Köhler pôde observar fenômenos de imitação puramente psíquica, desencadeada, experimentalmente, nos chimpanzés, na estação de Tenerife: ele tomava uma atitude, exprimindo um intenso pavor e fixava o olhar num determinado ponto; todos os macacos tomavam, imediatamente, a mesma atitude, embora não houvesse nada a observar. Pode-se refazer a experiência na rua, parando e olhando o céu, com sinais de vivo interesse; imediatamente, transeuntes detêm-se e fitam também o céu; no fim de alguns instantes, uma multidão está aglomerada no local.

A etapa seguinte, depois dos fatos da sociopsicologia animal, é a da sociedade primitiva, cujos espécimes foram estudados entre tribos selvagens ainda encontradas no mundo. Antes de tudo, uma constatação se impõe: as multidões primitivas não são numerosas, a quantidade não é, pois, uma de suas características essenciais: o efetivo de uma tribo australiana se reduz, muitas vezes, a algumas dezenas de indivíduos. Como diz De Felice (37), extraordinária sugestionabilidade caracteriza os selvagens. Em virtude de sua instabilidade mental (falta de inibição, irradiação de uma excitação fulminante) certas emoções invadindo, de súbito, todo o campo de sua consciência, produzem neles uma sideração tão violenta que desempenham o que se denominou de fator provocador da histeria e afirma – não sem razão – como veremos em seguida pela nossa exposição – que “as considerações políticas, sociais, religiosas ou filosóficas de nossa sociedade... não estão muito longe da crença dos selvagens em entidades misteriosas que presidem os destinos dos homens, reduzindo-os ao estado de possessos e dementes”.

R. Levy Bruhl (95) [144] cujos estudos nos forneceram dados preciosos sobre a mentalidade primitiva, encontra diferenças capitais entre esta última e a do homem civilizado, mas, o que tem uma enorme significação é a observação de que a mentalidade do civilizado, quando faz parte de uma multidão, aproxima-se singularmente da do selvagem; a mesma mentalidade verifica-se nas crianças, nos nevrosados e, em parte, também, no sono. Assim, a afetividade dos primitivos se apraz em utilizar a forma visual de imagens em tudo o que se referem ao medo, à esperança, ao respeito religioso, ao apelo a uma força protetora. Na multidão, são, também as idéias imagens (também Le Bon) sobretudo nos casos de aglomerações religiosas, que predominam. Em ambos os casos, trata-se das impressões da primeira infância. A representação da força protetora fá-la venerável, temível e sagrada para os que nela baseiam sua salvação. As representações dos primitivos são mais de ordem imperativa do que intelectual; o indivíduo, numa multidão, submete-se mais facilmente a ordens. Regressão nas idéias e amplitude de noções caracterizam o primitivo e o indivíduo numa multidão. Ambos não se apercebem das contradições. Uma dissociação da personalidade é comum aos dois estados: o indivíduo se sente ele mesmo e se identifica, simultaneamente, com os outros que fazem parte da coletividade.

G. Hardy que tratou, também, do problema conclui que a mentalidade dos primitivos é, em tudo, idêntica à que rege a multidão civilizada: essa coincidência de características torna-se ainda mais evidente quando se considera a formação de multidões nos homens primitivos. A diferença entre a multidão e a sociedade normal é, entre os primitivos, tão radical que a primeira, longe de aparecer como uma manifestação da segunda, ao contrário, a ela se opõe e tenta anulá-la, [145] de modo que a natureza de fenômeno da multidão, na qualidade de formação patológica que ameaça até a existência da coletividade, aparece como altamente provável: todos os traços de multidão são ampliados na multidão primitiva, como acentua Hardy. Assim, a homogeneidade – as mesmas raças, religião, estilo de vida, o mesmo nível social, condicionamento intelectual e moral – facilita a formação das multidões. Se acrescentamos isso a emotividade apaixonada, mormente sob a forma de medo e de ódio, fixados hereditariamente, a experiência de um passado inseguro, concebe-se que os primitivos viviam e vivem num mundo cheio de inquietudes e angústias. Os menores movimentos exteriores provocam a aglomeração sob a forma de multidões.

Certos elementos de ordem fisiológica, como a fome e a subalimentação crônica, tornam esses estados ainda mais agudos. Estão de tal forma habituados a esses estados gregários que consideram desejáveis, que têm sempre à mão os meios para atingi-los: tantãs desenfreados, uma música de ritmo brutal, criando a obsessão e arrastando até os mais calmos. A agitação, o cheiro de poeira, os gritos e os uivos, gestos automáticos, oscilações regulares do corpo, das extremidades e de cabeça, levam a uma espécie de hipnose. De passagem, poder-se-ia lembrar que, nos nossos dias, nos grandes ajuntamentos populares, emprega-se muitas vezes a algazarra, a música, as grandes paradas, para atingir os mesmos fins.

Essas tribos selvagens buscam, na embriaguez coletiva, um estado de obnubilação gregária que aparece numa multidão excitada e que lembra a ebriedade causada pelos narcóticos.

Da formação das multidões entre os primeiros, o caminho psicológico que faz compreender o fenômeno gregário nos povos chamados civilizados é direto. De um lado, a multidão civilizada se distingue pouco, em princípio, da primitiva, com a única diferença de que os mesmos traços característicos aparecem mais enfraquecidos, menos brutais, se bem que se assista, por vezes, a explosões de paixões de uma extrema violência, verdadeira selvageria, como ressalta de uma cena de greve dos mineiros, descrita por Emile Zola, no seu romance Germinal. É certo que os fenômenos gregários nos primitivos, que tomam o caráter de festas associadas a ritos religiosos, em que um frenesi desarrazoado se apodera, às vezes, dos participantes, que caem em um estado de êxtase coletivo, êxtase que leva freqüentemente a massacres e a fenômenos de desgaste e desagregação da sociedade, não podem ser considerados senão como formas patológicas.

De outro lado, a existência da multidão primitiva pode dar lugar à criação das massas ou multidões difusas em que a mentalidade conserva certos caracteres primitivos, como a credulidade, a preponderância da afetividade sobre os elementos da razão, as tendências conformistas, a presteza para seguir os líderes; a diferença é que não há contágio afetivo, indução motora, imitação: as reações não são tão veementes e explosivas como numa multidão. O motivo está no isolamento espacial. A gênese das massas e, portanto, das formas da sociedade constituída, foi esclarecida por Mac Dougall (99) [146], em cuja opinião o isolamento social pode tornar-se um peso insuportável para o indivíduo, que se encontra em dificuldades econômicas e que perdeu, por isso, a força de resistência psíquica. Seria, segundo Reiwald, (130) uma das causas do sucesso do nazismo que levava a uma fácil aglomeração dos elementos sem classe e desajustados. Quando uma certa organização contrabalança os caracteres caóticos da multidão, deixa ela de existir, transforma-se em multidão difusa, em massa, que é já um elemento normal, integrado na sociedade.

É preciso mencionar, ainda, a idéia de Fromm (60), [147] que esclarece o processo de aglomeração e que se poderia talvez encarar como um contrapeso à tendência para a liberdade que, segundo Pavlov, teria suas origens em um reflexo especial inato. Fromm (60) fala do “medo da liberdade” que sobrevem, possivelmente, como uma conseqüência do caráter mecanicista e enervante adquirido por nossa civilização. O indivíduo sente-se isolado em um mundo imenso e ameaçador. A sensação de liberdade total provocaria sentimentos de insegurança, impotência, dúvidas, solidão e angústia. Para poder sobreviver, o homem precisa que esses sentimentos sejam enfraquecidos, aliviados, amenizados. Uma tendência na direção sádica e masoquista contribui para que o homem procure fugir da solidão que lhe é insuportável.

O raciocínio de Reiwald (130) [148] é muito interessante no que concerne à psicologia da formação da sociedade. “A sociedade se constitui – diz ele – em decorrência do fato de que a maioria consegue dominar e recalcar suas tendências agressivas”. No início as manifestações da pulsão n° 1 vão polarizar-se no exterior, sob forma de guerras, colonização etc. Mas, uma parte da agressividade subsiste, aquela que se manifesta sob forma de crimes. A sociedade dirige uma luta contínua e encarniçada contra a criminalidade, buscando uma compensação sob a forma de sublimação da pulsão agressiva pelo trabalho, a arte e as atividades intelectuais, assim como pelos esportes e, mais diretamente, sob forma de vingança coletiva, pela justiça punitiva. No início, cada membro da sociedade participa – por exemplo – de apedrejamento. Assim, a satisfação de pretensões criminosas é desviada por uma projeção sobre os culpados, levada a efeito com outros membros da sociedade. Esse apaziguamento coletivo se manifesta, também, na participação em execuções públicas que revestiam, até fins do século XVIII, o caráter de festas populares. Atualmente, limita-se ao espetáculo de causas célebres.

A compensação da pulsão combativa se faz, nos nossos dias, ainda em outra direção: tudo o que o indivíduo não mais se pode permitir no seio da sociedade (ambição exagerada do poder, veleidade de propriedade excessiva, satisfação de uma vontade selvagem de destruição) é transferido ao Estado, que se torna, então, uma espécie de reservatório onde se acumula a energia agressiva potencial dos indivíduos. O Estado pode permitir-se tudo o que é proibido aos indivíduos. Os crimes que comete são justificados. Somente o Estado pode continuar a viver numa espécie de estado natural que está ultrapassado pelo indivíduo.

A análise feita acima mostra-nos o fenômeno da evolução psicológica ascendente dos elementos gregários do homem, a formação da sociedade estruturada. Mas, por instantes e em determinadas circunstâncias, a sociedade se relaxa, diz De Felice (37) e os indivíduos que a compõem cedem a uma irresistível necessidade de explosão, esforçam-se por se subtrair aos costumes e às leis que vieram contrariar o livre jogo de seus instintos: agregam-se em multidões com todas as suas características afetivas que podem dar lugar à realização do comportamento das multidões primitivas. Os entusiasmos afetivos, “a embriaguez dessas multidões pode conduzir à destruição de toda espécie de sociedade”. [149] E, nesse caso, “longe de insuflar no corpo social um vigor novo, não passam de espasmos de um mal que a corrói e são sintomas de sua decomposição temporária ou definitiva... provocam loucuras, ao acaso, arrebatamentos histéricos e golpes de força”. Desses fatos, vê-se que, enquanto a sociedade representa um agregado durável, a multidão é um ajuntamento passageiro em que se abre caminho para uma intoxicação psíquica que uma tirania qualquer pode explorar em seu proveito. Poder-se-ia, ainda, dizer que “a sociedade é um fenômeno normal que se apoia na realidade biológica do indivíduo, do qual é a sua salvaguarda”. A multidão, ao contrário, “fenômeno anormal, aniquila, provisoriamente, essa realidade, submergindo-a, numa massa amorfa, cuja origem e comportamento atestam suficientemente o caráter patológico”.

É preciso distinguir, como dissemos acima, entre as noções de massa e multidão. Uma multidão é sempre uma massa, enquanto uma massa de indivíduos não é, necessariamente, uma multidão. A massa está, geralmente, dispersa topograficamenie, os indivíduos que a formam não têm contato imediato, corporal e esse fato, do ponto de vista psicológico, a distingue, sensivelmente, da multidão. Mas, há um elo, apesar de tudo, entre os elementos de uma massa: uma certa homogeneidade quanto à sua estrutura psíquica, determinada por uma identidade de interesses, de meio, de educação, de nacionalidade, de trabalho etc.

G. Tarde (151) ao contrário de outros sociólogos chamou a atenção não só para o problema das multidões, mas, também, para o do público que corresponde, em certa medida, ao elemento na sociedade a que designamos pelo nome de massa. Tarde contradiz a opinião de Le Bon (91), segundo a qual vivíamos numa “era das multidões”, dizendo que seria, antes, a “era do público”. Considera o público como o grupo social do futuro. Falando das diferenças entre o público (massa) e a multidão, acentua que, enquanto o comportamento da massa depende de fatores como o clima, o tempo, a estação (“o sol é um dos grandes tônicos da multidão”), o público não depende deles. O público pode ser internacional, mas, não a multidão. O público (massa) pode fazer nascer o fenômeno multidão, como a multidão, também, dispersando-se, torna-se massa. A fisionomia do público pode ser diferenciada segundo a multidão que dele sai; assim, os elementos piedosos do público se reúnem na multidão dos fiéis da Igreja, nas peregrinações a Lourdes etc., os elementos mundanos nas corridas de Longchamps, nos bailes e banquetes, os elementos intelectuais nos teatros, conferências etc., os elementos operários nas greves, os elementos políticos nas reuniões eleitorais, nos parlamentos; os elementos revolucionários nos movimentos insurrecionais.

Uma classificação das multidões pode ser feita também na base de nossa diferenciação de pulsões, como elementos fundamentais das afetividades, servindo para caracterizar os reflexos absolutos e construir os condicionados. As realizações de entidades sociais, como as multidões, quase nunca são do tipo puro, isto é, baseando-se numa só pulsão, mas, seguidamente, são duas pulsões que servem de esteio a uma multidão caracterizada. Assim, poder-se-ia estabelecer um quadro esquemático de diversas realizações nesse sentido, o qual incluímos mais adiante.

Nesse quadro, as quatro colunas verticais correspondem às quatro pulsões; assim como as quatro linhas horizontais; nas casas que estão situadas nos cruzamentos das colunas e linha, encontram-se as denominações das multidões, de modo que se pode, por exemplo, seguindo a linha 2 (pulsão n° 2) até a coluna 3 (pulsão 3), encontrar o nome cabaré, pois, o conjunto de pessoas reunidas forma uma multidão, cuja natureza é caracterizada pelas pulsões nutritiva (2) e sexual (3), que as impeliram a procurar esse lugar. Se as duas coordenadas são da mesma natureza (do mesmo número), tem-se uma multidão do tipo puro; por exemplo, na interseção da linha 2 com a coluna 2, encontra-se a casa banquete, em que a satisfação da pulsão 2 (nutritiva) determina a reunião.


É necessário diferenciar, qualitativa e quantitativamente, a noção de massas da de multidões. No que concerne ao fator qualidade, pode-se ter diversas massas (como, aliás, diversas multidões). Assim, uma massa composta exclusivamente de elementos do grupo dos violáveis (90%, grupo V) ou dos resistentes (10%, grupo R) [150] mesmo no interior desses grupos, pode haver subgrupos, por exemplo um grupo RI (intelectuais), RO (operários), RA (agricultores) etc. Cada massa terá, então, sua característica psíquica que é preciso levar em consideração, quando a temos diante de nós, quer aglomerada e formando, nesse caso, uma multidão, quer difusa, portanto reunida apenas na imaginação de quem se dirige aos elementos que a compõem.

Por outro lado, do ponto de vista da quantidade, é necessário ainda ter presente ao espírito que as massas, assim como as multidões, podem numerosas ou pequenas, com toda uma escala entre esses dois extremos que o poder e até a qualidade das forças psíquicas que as caracterizam, influenciam o comportamento do ator, líder ou orador que a domina, do mesmo modo que o da própria massa

Depois de haver enunciado as características de noções de multidão, massa, sociedade e formas elementares de que derivam, depois de ter conhecido, em seguida, a mentalidade primitiva que constitui a origem dessas formas, e, finalmente, os traços essenciais da psicologia coletiva, podemos tentar fazer uma classificação de todos esses elementos. Essa classificação, sob forma de uma estrutura da sociedade, facilitar-nos-á a compreensão de fenômenos de que tratamos neste livro. O esquema estrutural abaixo pode resumi-la muito bem:

Sociedade:
A – Organizada (estruturada, progressiva);
a) instituída (quadros)
1° – instituições;
2° – elites;
b) latente (massas)
1° – os violáveis (90%);
2° – os resistentes (10%);
B – Aglomerada (multidões, regressiva);
a) passiva (estática, acéfala)
1° – amorfa (fortuita, indiferente);
2° – caracterizada (intencional, polarizada);
b) ativa (dinâmica, cefalizada)
1° – caótica (histérica);
2° – dirigida (estática, paroxística).

Autores que tentaram tratar a sociedade humana como uma entidade biológica de grau superior, como um organismo de natureza coletiva superpondo-se ao estágio de unidade individual, acreditaram poder discernir um paralelismo na evolução do indivíduo e da sociedade [151]. Desse modo, distinguiram-se cinco períodos, na vida desta última, que correspondiam às cinco fases de evolução do indivíduo:
 

Períodos na evolução da sociedade humanaFases na evolução do indivíduo
1o. Pastoril e agrícola nutritiva - juventude (dominada pela pulsão no.2)
2o. Expansão teritorial e conquistas agressiva - adolescência (pulsão no.1)
3o. Emigração e colonização genésica - homem adulto jovem (pulsão no.3)
4o. Industrial e científica emotivo-intelectual - homem maduro (pulsão no.4)
5o. Declínio declínio da velhice

É mister, todavia, não levar muito longe a comparação da sociedade a um organismo vivo. Uma crítica pertinente dessa tendência exagerada é feita por Ad. Ferrière (53), em sua obra principal La loi du progrès en biologie et sociologie.

Dissemos já que, na prática, atualmente, se trata com as massas mais do que com as multidões. É certo que se pode obter da multidão a execução de uma ou outra ação, dela servir-se em certos momentos, mas, seria temerário pretender governar um Estado por meio de ações de multidões. Uma vez que nos capítulos seguintes falaremos, sobretudo, da propaganda política moderna que apela para as massas, desejamos aqui, em compensação, ilustrar previamente o essencial das reações das multidões que, conforme já vimos, são caracterizadas por Gustave Le Bon, em seu estudo sobre a psicologia das multidões, como dependentes de uma sensibilidade exagerada e sujeitas ao contágio psíquico. Isso é tanto mais importante quando a propaganda política afetiva, de que falaremos adiante, dirigindo-se principalmente às massas, não desdenha, de tempo em tempo, recorrer aos métodos que as transformam em multidões, as quais utiliza, em seguida, para seus fins.

Os tabus da consciência são, na maior parte, acompanhados de sentimentos desagradáveis que desaparecem, na multidão ou na massa, quando o indivíduo pode fazê-los recair sobre outrem; é possível, então, agir segundo suas pulsões primitivas, sem assumir responsabilidade. É a razão por que se observam, às vezes, os piores excessos cometidos pela multidão. Esse fato se explica em parte, porque “existem muitos retrógrados na sociedade, como diz Bovet (19), que permaneceram num estágio de evolução inferior, seja nas suas aspirações e conduta de verdadeiros apaches, seja em suas idéias, como certos entusiastas da linha dura. Representam um estado social desaparecido. Contudo, há, também, a nosso lado, precursores, homens que representam um estágio social a que a massa ainda não chegou”.

É verdade que uma multidão pode ser arrastada ao paroxismo, a uma explosão, a veleidades de violência, como a um entusiasmo delirante; é verdade que ela é capaz de inauditas covardias ou de heroísmos sublimes. Mas, o que é sempre característico é que ela só age quando dirigida, quando há protagonistas que manobram suas reações, os engenheiros de almas. O próprio Le Bon diz, aliás, que “sem líder a multidão é um ser amorfo, incapaz de ação”. Poder-se-ia citar, como exemplo, os fenômenos de linchamento: basta, muitas vezes, que um só homem faça um gesto irrefletido e o contágio empolga os outros que praticam, por um reflexo de imitação, atos de horror.

Falamos, antes, [152] dos reflexos de imitação. Agora, queremos acrescentar que se pode distinguir, no domínio dos fatos do comportamento social – em que a imitação desempenha, como diz Bovet, (19) o papei de “modo de ação, por excelência, da coletividade sobre o indivíduo, do grande agente de constrangimento”, duas espécies de imitação: uma por necessidade instintiva, a outra, por dever e obrigação. Trata-se do primeiro tipo no caso das multidões. Esse tipo se “liga a um mecanismo psicofisiológico – o poder ideomotor comum a todas as representações de um movimento, partindo de todas as percepções de gestos e atos: ao ver dançar, dançamos, ao ouvir gritar, gritamos. Há, em nós, alguma coisa que nos impele a agir, sem pensar, como age o indivíduo que temos diante de nossos olhos. Se a multidão, em que nos encontramos, desencadeia em nós esse instinto de imitação, não é porque se trate de uma multidão, mas, porque ela se move e vemos que se move”. “A emoção se propaga, provocando a imitação de gestos que a traduzem. Qualquer outra é imitação-dever, acompanhada do sentimento de obrigação”.

Essa imitação, reflexo que caracteriza a multidão amorfa, propaga a repetição de um gesto em todos os sentidos enquanto na multidão cefalizada, dirigida por líderes e, na sociedade estruturada, os gestos só se propagam, por imitação, numa única direção: de cima para baixo. Assim, nas aglomerações impelidas pela pulsão combativa, observam-se, também, dois tipos de imitação: instintiva, sob a forma de explosão espontânea – o motim – na multidão e obrigatória, em que se vê uma tomada de posição provocada – a insurreição, numa massa cefalizada, dirigida. Para Tarde, “a sociabilidade não é senão imitatividade”. Já Spinoza, [153] na sua Ética, distinguia atos de imitação, de emulação, que se caracterizam porque “imitamos os desígnios e os atos somente dos que, a nossos olhos, gozam de prestígio”, isto é, os chefes, os líderes. Aliás, pode-se dizer que o estado de uma multidão amorfa, acéfala, é muito instável: rapidamente, uma hierarquia – líderes e liderados – se institui. Então, a imitação instintiva se desdobra em imitação obrigatória e daí passa, prontamente, de imitação, sentida como um dever, à obediência.

Teremos, ainda, de falar do problema relativo ao papel dos líderes das multidões e das massas, o qual tem, na sociologia, uma grande importância. Aqui, limitar-nos-emos a ressaltar a idéia, emitida por Bovet (19), de que “os líderes são criados pelo próprio tumulto. Seu prestígio não é anterior à multidão reunida e, geralmente, na multidão ele não sobrevive à sua dispersão”. Em compensação, “a insurreição e a guerra são pregadas por qualquer um na sociedade; esses ou quaisquer outros impelem os demais e o movimento ganha as massas e as multidões, não por força de reflexos imitativos, ideomotores, mas, de reflexos de emulação”, isto é, que se baseiam em processos de tipo intelectivo.

Para dar uma idéia da eficácia dos meios psicológicos que influenciam a multidão, citaremos, como exemplo, alguns episódios significativos, vividos durante a revolução russa.

A cena se passa em Petrogrado, a 5 de março de 1917. Ao amanhecer, multidões espalham-se pelas ruas da capital, um surdo descontentamento invadira, nos últimos dias, o povo, fatigado pela guerra, pelas privações, pelos murmúrios que circulam. A gota d'água que fez transbordar a taça foi o aumento do preço do pão. E eis o povo na rua, espontaneamente, sem plano, sem guias. Tem-se tentado, muitas vezes, fazer crer que todo esse movimento foi organizado, calculado e dirigido: isso é falso e inteiramente inventado. A verdade é que toda a capital, o Governo e os partidos políticos, foram apanhados desprevenidos pelo movimento, quando eclodiu naquele dia. Todas as grandes artérias da cidade estavam cheias de gente, a polícia, presa de pânico, desaparecera e as multidões silenciosas, inquietas, grunhindo, surdamente, vagavam, desamparadas... Nas casernas e nos pátios, as tropas estavam de prontidão, mas, os oficiais não ousavam fazê-las sair. O tráfego dos bondes cessou às primeiras horas da manhã; por volta do meio-dia, os funcionários da empresa telefônica começaram a deixar seus postos, as ligações falhavam, cada vez mais, a maior confusão reinava nos escritórios, nos serviços de administração; faziam-se interrogações, espalhavam-se rumores cada vez mais pessimistas, tinha-se a nítida sensação de que tudo se dissolvia, de que se era arrastado para o desconhecido, para o caos. Repito, nenhum sinal de organização, de plano, de vontade dirigente. Sabia-se que na Duma (Parlamento) a confusão e a abulia mais profunda reinavam no seio de todos os grupos políticos. Secretário geral de uma grande organização de ajuda técnica militar, constituída pelas sociedades técnicas e científicas, eu me achava, nesse momento, nos escritórios dessa organização, no centro da cidade. Perto de duas horas da tarde, vendo o desmoronamento completo de toda a estrutura, sabendo que, dentro de três horas, a escuridão cairia sobre a cidade e que esta se arriscava a mergulhar no mais completo caos, de onde o pior podia sair. Alguns diretores, presentes ao escritório, tomaram uma decisão – compreendia-se, por fim, que cada grupo devia tentar fazer, por sua própria conta, esforços de organização – transmitiu-se às duas escolas de técnicos em gás de combate, que o Comitê dirigia, em Petrogrado, a ordem de marchar para o centro, em formação militar, fardados e com máscaras de gás à cintura. Uma hora mais tarde, a tropa – uma centena de homens – desfila em uma das grandes avenidas, a Liteyny, abrindo caminho entre a multidão, em formação cerrada, fuzil ao ombro. banda de música à frente, seguida de grandes bandeiras vermelhas e ladeada pelos membros do Comitê, munidos de braçadeiras também vermelhas. Trezentos metros antes de chegar ao centro, a Vevesky, uma ordem foi dada: pôr as máscaras de gás! E a pequena tropa, atraindo a atenção da multidão, pela música e pelas bandeiras vermelhas a tremular, marcha com porte marcial; as máscaras, conferindo aos homens um aspecto sinistro, ameaçador. Em poucos instantes, a multidão está eletrizada, polarizada numa só direção, todas as suas incertezas, as apreensões desapareceram, dissiparam-se, o dique psicológico rompeu-se, dá-se a desinibição; como um rastilho de pólvora, a notícia se espalha, “as tropas revolucionárias chegam: vão atacar, com gás, as casernas do cruzamento”. Naturalmente, não havia gás, mas, apenas as máscaras. era simplesmente um blefe, nada mais que uma manobra psíquica! Mas, isso bastou, a notícia foi tomada e difundida em poucos instantes – penetra nas casernas próximas – e, ao fim de alguns minutos, viu-se os soldados saírem, isolados, de arma na mão, aclamados pela multidão que agora delirava; eles se juntaram à tropa que conduzia máscaras. Um quarto de hora mais tarde, as casernas estavam vazias, os soldados confraternizavam com a multidão. Nesse recanto da capital, a causa da Revolução estava ganha, sem efusão de sangue, por um simples golpe psicológico.

Eis, agora, outro exemplo da possibilidade de manejar, à vontade, as aglomerações humanas, por meio de armas psicológicas. Em novembro de 1917, depois da chegada dos bolcheviques ao Poder, excessos, como se sabe, não eram raros; a multidão, superexcitada, atacava, muitas vezes, pessoas nas ruas, sem nenhuma razão, sob mera suspeita, levantada não importa por quem. Sabe-se que, mesmo os animais, num rebanho, são mais sensíveis às reações de seus companheiros, que aos estímulos exteriores. [154] As pessoas atacadas corriam o risco de serem linchadas, o que aconteceu algumas vezes. Para evitar esse perigo, uma organização de intelectuais, simpatizante do Governo soviético, imaginou um método psicológico de ação sobre a multidão, em casos semelhantes: uma alocução direta não era sempre eficaz e comportava, às vezes, riscos reais para quem desejasse salvar o assaltado. Criou-se, então, um serviço que recebeu a denominação de Ajuda fraternal. Eis como procedia: se um homem era atacado na rua, agentes dessa organização, testemunhas da cena, recorriam ao telefone mais próximo e falavam com o centro, onde havia, noite e dia, um permanente. Em seguida, homens especializados em propaganda e que se mantinham à disposição do centro, tomavam um carro, sempre disponível, na permanência e transportavam-se, a toda velocidade, ao ponto indicado. Chegando às proximidades do lugar, onde se encontrava a pessoa ameaçada, numa situação perigosa, misturavam-se à multidão, em diversos pontos de sua periferia e começavam a tomar parte na contenda, cada um por sua conta, procurando atrair sobre si a atenção e a desviar as discussões. Agitadores experimentados, tornavam-se, assim, rapidamente, novos centros de atração para a multidão; recuando, pouco a pouco, em direções opostas, procuravam afastar-se, insensivelmente, uns dos outros, arrastando consigo os que os cercavam e deslocando, desse modo, a multidão ameaçadora em muitos grupos, o que acabava por destruir sua coerência: a pessoa ameaçada era, rapidamente, esquecida e podia desaparecer, salvando sua vida. Essa organização era também conhecida como serviço de socorro espiritual.

Ainda uma outra forma de ação psíquica sobre ajuntamentos nas ruas que foi comprovada: no curso de uma campanha política, durante a guerra civil, no sul da Rússia, havia vitrinas, nas vias públicas, em que eram expostos cartazes, mapas, fotografias etc. Transeuntes estacionavam, freqüentemente, diante delas. Os propagandistas se misturavam a essas pessoas, dois a dois, por exemplo e começavam a conversar em voz alta, diante da vitrina, ou mesmo a discutir. Logo o público se juntava em torno deles e tomava parte na controvérsia. Os dois homens, experimentados em propaganda, munidos de dados e de argumentos capazes de causar impressão, podiam, freqüentemente, dirigir, à vontade, o espírito da multidão que se reunia diante da vitrina.

O que é muito característico para uma multidão, mas, como veremos mais adiante, igualmente para a massa, é a preponderância de manifestações da vida afetiva sobre o raciocínio: a atenção de uma multidão, embora composta de pessoas mais ou menos cultas, disciplinadas e razoáveis, pode ser facilmente desviada e atraída para ações fúteis, mas, que agem sobre os sentidos, vista, ouvidos etc. Um exemplo significativo, tirado da vida política de um povo nórdico muito culto, equilibrado, os dinamarqueses, é o que se segue. Esse exemplo é tão mais interessante quanto os chefes políticos que acreditavam ter suas massas inteiramente nas mãos, graças a argumentos lógicos, baseados em raciocínios, chefes que afirmavam, orgulhosamente, que as experiências dos movimentos populares russo, italiano, alemão, não tinham valor algum para as massas nórdicas, organizadas, havia dezenas de anos, em entidades profissionais, ensinadas a refletir diante de tudo, a raciocinar, a pesar friamente, deviam persuadir-se do contrário, por uma experiência simples e concludente. Um grande comício de dez mil pessoas realiza-se, certo dia, num belo parque de Copenhague. Numa tribuna improvisada, um jovem deputado, muito popular, muito incisivo na sua argumentação, discursa. A multidão o escuta, num silêncio religioso; os cérebros trabalham, seguem a cadência lógica do pensamento do orador, estão visivelmente de acordo. Mas, eis que, atrás da multidão, ensaiadores deixam, repentinamente, escapar e voar para o céu uns cinqüenta pequenos balões vermelhos de criança, com bandeirolas. E, em seguida, quase toda essa multidão (90% da assistência, pelo menos) atenta, raciocinante até então, volta-se para o espetáculo que se oferece a seus olhos, segue as evoluções dos balões, aclama-os, esquece o orador e o pobre, desconcertado, esforça-se para retê-la, recapturar sua atenção; ah! trabalho perdido, os balões têm uma ação mais forte sobre nove décimos do auditório. Finalmente, ele coordena as idéias, faz uma associação entre os balões e seu discurso e exclama: “Eis, companheiros, como esses balões sobem para o céu, assim também nossas esperanças” etc. etc. Só então a multidão volta-se, novamente, para ele e põe-se a ouvir sua dissertação interrompida. Esse é um exemplo concludente a respeito da mentalidade das multidões, mesmo para aquelas que melhor resistem à sugestão dos sentidos.

Mas, se as multidões estão sujeitas a pulsões, que tocam a afetividade emotiva, é preciso confessar que seria falso acreditar se deixem elas conduzir por móveis moral ou racionalmente negativos. É sempre emocionante poder consignar a bonomia e a disciplina das multidões parisienses, como, por exemplo, nas grandes manifestações da Frente Popular: apesar da emotividade natural dos franceses, como de todo povo latino, a multidão parisiense mostra-se dócil e facilmente preservável ao pânico. O contraste com a multidão russa de outrora é bem marcante. Em 1894, durante as festas de coroação de Nicolau II, em Moscou, ocorreu uma terrível catástrofe no campo de Khodynka: uma enorme multidão, presa de louco pânico, arrojou-se em direção às estreitas saídas do campo, derrubando e esmagando tudo em sua correria. Alguns milhares de mortos, tal foi o trágico resultado! Em Paris, foi-nos dada oportunidade de testemunhar uma situação angustiosa: os arredores do Velodrome d'Hiver, por ocasião de um grande comício, estavam repletos de gente – duas entradas estreitas, ausência completa de polícia no local. A multidão lançava-se na direção das entradas, comprimia-se, sufocava-se, temeu-se, num momento, a iminência de uma catástrofe. Ora,, subitamente, da própria multidão partiram gritos, ritmicamente destacados que foram logo respondidos e cantados, em coro, por toda a multidão: “Não empurre! Não empurre!” O efeito foi maravilhoso: tudo se canalizou, a tensão decresceu, uma inibição coletiva expandiu-se por todos os cérebros.

Desejamos concluir nossa exposição das principais noções sociológicas, pelas idéias dos behavioristas – Williams Brown, Dewey, Allport. Reiwald (130) diz, a propósito, que, segundo as idéias desses autores, o organismo humano individual e social torna-se uma máquina. Com efeito, pensam que a diferença, no comportamento do indivíduo isolado e na multidão, é gradual e que toda ação, mesmo na multidão, é condicionada por um treino, uma aprendizagem. Brown enumera, como exemplo, alguns espécimes característicos de multidões, em que a experiência entra como fator decisivo. São: a reunião na Igreja, um comício político, um regimento em campanha, uma equipe de futebol, uma seita religiosa. O comportamento do indivíduo difere do que tem na multidão, porque o ambiente, nos dois casos, é diverso. A ação da aprendizagem e do meio ambiente domina, claramente, as pulsões de origem hereditária e instintiva. Vê-se que as idéias se aproximam, sensivelmente, das que decorrem da doutrina pavloviana dos reflexos condicionados. Allport (6) [155] fala, diretamente, desses reflexos, por exemplo, diz que tal reflexo é a reação de um homem que, numa multidão nazista, embora sendo hostil ao movimento, faz o gesto de saudação hitlerista, juntamente com os outros participantes da reunião e isso não por imitação, mas, por submissão e sugestão do grande número: é o prestígio esmagador da massa, da multidão que determina seu gesto conformista. A expressão fisionômica de outras pessoas na multidão, assim como outros sintomas afetivos de seu comportamento, desencadeiam, no indivíduo, uma reação reflexa, mas, por via indireta, não por indução afetiva direta, como diria Mac Dougall ou por imitação (Espinas), porque se compreende que a excitação observada, no grupo, poderia provocar, também, outras reações; por exemplo, poderia fazer-nos sorrir ou indignar-nos; é, antes, uma reação complexa sobre o conjunto da situação, isto é, mediante um apelo ao segundo sistema de sinalização que conhecemos acima, [156] com a refenação de um reflexo intelectivo que atua, então, provocando uma desinibição.

Em geral, o behaviorismo dos últimos tempos repele, em oposição a Mac Dougall, a importância, para o homem, dos instintos como determinantes de suas atividades que entende exercer-se pelo jogo dos reflexos condicionados e da inteligência, isto é, pelos reflexos intelectivos, segundo nossa terminologia. Considera que todas as ações são condicionadas por tratamentos correspondentes que podem ser suprimidas, transformadas ou mantidas e exercidas à vontade.

Vimos que as noções de uma alma da multidão de inconsciente coletivo, group mind etc., mesmo no sentido que lhes dá Mac Dougall, não podem ser conservadas na psicologia social, que se baseia sobre a psicologia objetiva. O behaviorismo americano repele-as também [157] Os costumes ou hábitos largamente difundidos têm por base o fato de que, freqüentemente, os indivíduos se encontram na mesma situação e reagem de forma idêntica. O jornalista americano Walter Lippmann (96) faz sua a fórmula de Sir Robert Peel sobre a idéia da alma coletiva. [158] Para este, alma coletiva é “uma generalização de um amálgama de asneira, fraqueza, preconceitos, sensações justas, sensações falsas, obstinação e de... recortes de jornais”.

Para compreender a ação coletiva, sobretudo a das massas que determinam, a nosso ver, os fatos políticos nas máquinas governamentais de hoje, depois de haver acentuado algumas características marcantes da psicologia das multidões – um dos aspectos das massas populares – para compreendê-las em função dos dados científicos modernos, é preciso partir do conceito de que os fenômenos que regem o comportamento dos indivíduos são responsáveis pelo das multidões. Vimos que quatro pulsões constituem os alicerces de todo comportamento e ainda que, sobre cada uma delas, é possível construir reflexos condicionados. São as pulsões combativa, alimentar, sexual e paternal. Os mecanismos dos reflexos inatos ou absolutos, com os quais os homens vêm ao mundo, são essas pulsões. Partindo desse ou daquele sistema de pulsão, associando o reflexo inato correspondente com as excitações provenientes, durante a vida, das diversas superfícies receptoras dos órgãos dos sentidos, o homem se apropria de todo um conjunto de fenômenos que nele se desencadeiam, segundo as circunstâncias, fenômenos infinitamente variados e que presidem sua adaptação à vida. As atividades são as resultantes de toda essa bagagem que ele leva consigo. É óbvio que reações secundárias nele se preparam, porquanto, sobre reflexos condicionados formados, uma enorme quantidade de outros de diversos graus pode ser enxertada; assim todos os sistemas, de que falamos, entram em jogo e formam sua personalidade. Vimos, ainda, que as palavras são outros tantos fatores condicionais que concorrem para a formação desses reflexos. A educação desempenha, como estamos convencidos, por essa razão, um papel fundamental na formação do homem e determina, em grande parte, seus atos. A importância dos diversos sistemas de reflexos condicionados não é a mesma e a velocidade de sua formação, sua força respectiva é diversa; difere, também, em cada indivíduo; os fatores hereditários e as particularidades fisiológicas que determinam, igualmente, os caracteres de cada um, têm influência capital. Pode-se encontrar, apesar de tudo, nas multidões, indivíduos que apresentam traços semelhantes, é possível diferenciá-los em grupos, mais ou menos homogêneos, tentar influenciá-los no mesmo sentido e isso constitui a finalidade da política, pois, atualmente, é a multidão que importa.

Sobre os quatro sistemas de base indicados acima, que engendram igual número de sistemas de reflexos condicionados, pode-se enxertar outros reflexos que deles derivam. Observa-se que essas derivações podem ser não apenas de natureza quantitativa (isto é, pertencendo ao mesmo grupo ou nível, vir acrescer o número, a riqueza de reflexos de que o indivíduo dispõe) mas, serem também submetidas a uma variação qualitativa, ou seja, dar lugar à formação de atividades em níveis ou planos diferentes.

Para melhor ilustrar nossa idéia, tentaremos construir um esquema das atividades humanas, no qual, em quatro colunas, da esquerda para a direita, colocaremos os quatro pulsões de base, em ordem decrescente de importância e, verticalmente, os respectivos níveis para cada coluna.

Como se vê do quadro abaixo, partindo-se das quatro pulsões de base, pode-se verificar uma evolução nas duas direções, para baixo e para cima. No primeiro caso poder-se-ia falar de degradação, de uma queda moral do nível e, no segundo, de sublimação. Isto significa que, partindo de reflexos condicionados relativamente primitivos, situados no nível das bases elementares, que denominamos vitatitudes, podemos ver no primeiro caso, formar-se por um processo de sublimação falhada ou de exacerbação dos móveis primitivos, complexos de comportamento a que habitualmente chamamos de vícios na vida social quotidiana. Tais complexos caracterizam-se pelo excessivo desenvolvimento de um só instinto ou mecanismo inato que dirige as atividades do homem para um objetivo individual, associal.

Assim é que, na esfera da primeira pulsão (combativa), o decréscimo de nível leva ao despotismo, à tendência a submeter os homens, a comandá-los pelo prazer do domínio; a tirania, com suas perversões sádicas, é uma exacerbação ainda mais avançada desse complexo que se liga também à sexualidade. No da segunda pulsão (nutritiva) a exacerbação anti-social leva ao vício da glutoneria, da cupidez e da avareza: máximo de prazeres materiais em benefício pessoal – Na terceira pulsão (sexual) o rebaixamento de nível conduz à libertinagem, à depravação e a todos os excessos dessa esfera; a psicopatologia sexual dá exemplos em profusão. Enfim, no domínio da quarta pulsão (paternal) o exagero negativo caminha para a misantropia. É o caso de um homem, sobretudo de uma mãe, desconfiada de todas as pessoas que não sejam de sua família, que só tem olhos para sua prole e para quem os outros homens, a humanidade inteira, aparece sob um aspecto hostil e odioso.

Abordemos, agora, o movimento contrário, ascendente, a sublimação. Freud (57), que criou esse termo, fornece do mesmo uma boa definição: [159] “A sublimação permite que as excitações excessivas, provenientes de outra fonte afetiva, [160] se escoem para outras regiões em que encontram aplicação – De uma disposição cheia de perigos, resulta, destarte, um notável acréscimo de rendimento psíquico. Os componentes do instinto sexual são particularmente aptos à sublimação, a essa troca de sua finalidade sexual por um objetivo mais longínquo e de maior valor social”. O conceito de sublimação pertence, segundo Bovet, à medicina e à pedagogia, mais do que à psicologia; como se reconhece, a sublimação por seus efeitos, considerados quanto ao interesse social, seu conceito, implica, sempre, um julgamento de valor, uma apreciação moral, conseqüentemente. Pfister acentua: “a sublimação é um desvio que leva a resultados de elevado valor moral. E a moral, é a moral social”.

Quanto mais se sobe a escada da sublimação, mais as atividades se distanciam das bases instintivas, automáticas e adquirem as características de ações fundadas nos reflexos condicionados intelectivos, em que o segundo sistema de sinalização desempenha função fundamental.

Firmada no alicerce da primeira pulsão, a evolução humana, sob a influência de fatores sociais, gera os complexos ou sistemas de reflexos condicionados, que caracteriza o sentimento do clã, da comunidade, que dá lugar à formação do sentimento nacional. É o entusiasmo, a coragem, que cimentam as uniões entre os homens, que formam uma nação, mas, é aí, também, que se encontra a ameaça guerreira, a tendência para fazer nascer nos outros o medo, o respeito. No que toca à segunda pulsão – nutritiva – acreditamos poder afirmar que representa a base biológica do essencial ao culto religioso. Com efeito, se estudamos os rituais dos povos mais primitivos, se mergulhamos na história antiga e na pré-história da humanidade, se analisamos, enfim, certas formas do culto nas diversas religiões, ficamos surpreendidos, ao verificarmos a existência de laços nítidos entre os elementos do culto e as funções nutritivas. Assim é que, em muitos povos da Antigüidade, por exemplo, a divindade é representada com atributos de voracidade, a que é preciso satisfazer com oferendas, sacrifícios, sobretudo de tipo alimentar: imolam-se animais em sua honra, prepararam-se-lhes iguarias para depositar nos seus altares etc. O jejum, como prescrição religiosa, persiste, ainda, em muitos países. Em muitos povos, costumes religiosos foram conservados até hoje, como os que prescrevem aos parentes próximos do defunto reunirem-se depois do enterro e tomarem parte num banquete funerário, em que são servidos, às vezes, pratos especiais (koutia, na Rússia) – Outro exemplo desse gênero é o repasto totêmico dos povos africanos primitivos, que consiste em despedaçar a carne de um camelo e tragar pedaços crus. Esse ritual é interpretado por Freud como uma reminiscência do assassínio do chefe da horda pelos filhos. A própria Igreja cristã conserva ritos que se ligam a atos nutritivos: em primeiro lugar, o sacramento da comunhão, em que os fiéis recebem pão consagrado ou hóstias e vinho, representando a carne e o sangue do Cristo. O dogma, é claro, deu uma interpretação simbólica a esses atos, mas, seus laços com a pulsão alimentar permanecem indiscutíveis. Poder-se-ia citar, ainda, numerosos exemplos. A sublimação, no domínio da sexualidade, cria o que se denomina de sentimento do amor, como nasce entre os sexos nas comunidades civilizadas de cultura avançada. Toda uma série de atitudes precede a aproximação íntima; conduzem a formas de amor que exige uma simpatia intelectual, moral, que se traduz em sacrifício pela pessoa amada, em ações para atraí-la: expressões que evocam sensações agradáveis, canto, música, poesia etc. A pulsão maternal ou paternal sublimada conduz ao sentimento de amizade; é a irradiação do sentimento de ligação do homem à sua progenitura, com pessoas que a ele não estão ligadas geneticamente e que não o atraem sexualmente. Esse sentimento condiciona atitudes de comportamento em que a pessoa que inspira a amizade é cumulada de simpatia; está-se pronto a lamentá-la, a fazer sacrifícios, a ajudá-la em todas as circunstâncias.

Passemos agora a uma sublimação ainda mais evoluída que, partindo dos sentimentos, atinge interesses muito mais elevados, mais abstratos: é o nível das aquisições ou de bens da cultura humana, que engendram os interesses culturais. A vida em comum, o progresso levam infalivelmente a uma complexidade que cria, nos indivíduos, tendências ou sistemas de reflexos condicionados de graus mais altos, mas, que ainda permitem divisar as bases biológicas que estão em sua origem. A analise mostra a fixação de quatro grandes grupos de conquistas da vida social do Homem: o ideal social, o pensamento filosófico, a Arte e a Ciência. São os resultados de nossas quatro colunas; voltamos, então, às quatro pulsões elementares como base. O ideal social ou a doutrina socialista, estabelecida na mentalidade dos homens sob a forma de comportamento ou de mecanismos de reflexos condicionados a ela ligados, é o desenvolvimento lógico da idéia de nação que, com o progresso técnico e científico, não pode parar a meio caminho e é forçada a expandir-se, envolvendo toda a humanidade. Provém, nesse caso, das profundezas da pulsão n° 1. A Filosofia, que é uma tendência especial do pensamento humano a encarar os fenômenos de seu próprio domínio, do ponto de vista introspectivo e que deve estar unida à sede da História, à narração da série de fenômenos, constitui um campo sui generis, sem ligação necessária com a ciência exata. É muito interessante consignar que o pensamento e a língua francesa distinguem, muito claramente e com justa razão, a Filosofia e as Ciências, compreendendo, sob este último termo, as ciências exatas, em que governa o princípio da causalidade. Mas, a Filosofia, enquanto matéria especulativa, relaciona-se, antes, como tendência à religião, do mesmo modo que o sentimento religioso, como a análise precedente nos mostrou, pode ser vinculada, pelos ritos do culto, à base biológica da segunda pulsão (nutritiva). Parece estranho, à primeira vista, que nossas deduções levem a pensar que a Filosofia pudesse desenvolver-se como uma excrescência dos fenômenos psíquicos que têm ligações fisiológicas com a nutrição, mas, essa dedução afigura-se-nos bastante lógica e correspondente aos fatos, apesar de todo o inesperado dessa conclusão. Para a terceira pulsão (sexual) nada pode contradizer a interpretação da Arte, como atividade sublimada do sentimento do Amor. – No que concerne à quarta pulsão (paternal) pode-se afirmar que seu desaguadouro lógico na ciência, no nível das conquistas da cultura humana – por intermédio do sentimento da amizade – nada tem que nos possa espantar: a amizade, alargando-se até a noção de um amor a toda a humanidade, implica a idéia de sua proteção contra todos os perigos exteriores, da própria natureza; nasce, então, e desenvolve-se a idéia de dominar as forças brutas da natureza, inerente à pesquisa científica, criando a esfera das ciências positivas: física, química, cosmológica, biológica e, como arremate, as ciências aplicadas, a técnica. Quanto ao esquema, há ainda um plano, acima dos interesses culturais, sob a forma, por assim dizer, de água-furtada. Pode-se crer e constatar, aliás, que fenômenos doentios vêm enxertar-se nos reflexos que indicamos como resultantes das conquistas da cultura humana. De fato, há desdobramentos que ultrapassam as formas harmoniosas dessas conquistas e, tornando-se excessivos, extravagantes, degeneram, conduzem a complexos negativos, do ponto de vista social: uma hipertrofia de certos processos leva à degenerescência. Assim, da Filosofia podem nascer diversas místicas que parecem inteiramente privadas de fundamento e se perdem em especulações sem base, nem saída. No campo da primeira coluna, o Socialismo degenera em extravagâncias anarquistas; na terceira, a Arte produz o surrealismo e outros absurdos semelhantes; a ciência, enfim, na quarta, tornando-se origem de um excessivo desenvolvimento da idéia de técnica, perde sua característica moral – a tendência à pesquisa pura, desinteressada – para acabar serva da indústria e da corrida ao lucro, uma espécie de maquinismo ou até de maquinocracia.

Em correlação com o que dissemos no capítulo II, poder-se-ia completar esse esquema, introduzindo, ainda, as noções que ali desenvolvemos. [161] No esquema que se segue, o conteúdo das casas é inteligível sem mais ampla explicação.

Acreditamos útil confeccionar esses esquemas para indicar, sucintamente, os desdobramentos e as correlações de esferas das atividades humanas, e em que o jogo dos mecanismos do nosso comportamento, pode-se fazer, enxertando, no curso da evolução geral da humanidade, as reações ou reflexos condicionados, uns sobre os outros; são, nesse caso, pontos de partida de atos que, sob o aspecto de ações das multidões, se tornam objeto da psicologia social ou coletiva e, em conseqüência, da política.

É óbvio que esse esquema, como os demais, não pretende ser completo e infalível, sobretudo quando não se quer afirmar que as divisões nele indicadas, signifiquem que as reações ou sua origem sejam sempre nitidamente distintas e separadas: na realidade, muitas, dentre elas, são complexas ou misturadas e o esquema indica somente a predominância de uma ou outra característica. Por exemplo, na religião, notadamente na cristã, que colocamos na segunda coluna, há, na base do culto, outros elementos da segunda pulsão (nutritiva), da quarta pulsão – paternal – tais como a idéia de misericórdia, de piedade e de amor aos semelhantes.

Como exemplo de uma associação tríplice (religião, combatividade e sexualidade) pode-se tomar a proclamação de Maomé, da guerra santa, com promessas do paraíso sensual. Na religião cristã, encontram-se também exemplos de associação da pulsão n° 2 com a 3: certos cânticos à Virgem inspiram-se em um êxtase amoroso de extrema intensidade. Pode-se mencionar ainda o grande lugar que ocupam, no vocabulário dos místicos e mesmo na linguagem religiosa corrente, os termos tomados por empréstimo ao do amor carnal, as metáforas, algumas muito audaciosas, empregadas para descrever os arrebatamentos divinos“ [162]. Segundo a psicologia contemporânea, há uma relação muito estreita entre a vida religiosa e a sexualidade: esta seria mesmo a fonte da primeira, de acordo com a escola de Freud.

Da mesma forma, é possível apontar exemplos de tal complexidade ou associação de duas ou mais pulsões, na esfera de degradação ou de sublimação falhada, como a designa Bovet (19). Assim, a pulsão sexual estava na origem de certas manifestações da vida religiosa em todas as civilizações primitivas: o culto fálico, a prostituição sagrada, os ritos obscenos são exemplos disso.

O mesmo fenômeno de complexidade e associação das pulsões é assinalado no emprego de termos tirados do vocabulário militar, pela linguagem cristã. ”São Paulo já descrevia a panóplia do fiel, fala de “campanha”, de “exército”, de “soldo”, de “prisioneiros”, de “bagagem”, de “companheiro de armas”, do “combate” e da “coroa” que será a recompensa do vencedor. Essas metáforas tornam-se, mais tarde, lugar comum – Os cristãos dizem-se guerreiros alistados num exército de que Cristo é o chefe“. [163] Nas compilações católicas encontra-se: “Marchemos, ao combate, à glória! Armemo-nos! A voz do Senhor, Cristãos, vos chama ao combate” [164]. Essas expressões guerreiras culminam na organização do Exército da Salvação.

Na noção de força produtiva, massa produtora, de Reiwald (130) [165] temos a pulsão n° 2 (material, nutritiva) associado à n° 1 (agressiva, dinâmica, vital) e talvez até a n° 3 (produção).

Na primeira coluna do esquema, ideal nacional e social, existem também elementos da segunda pulsão – os das doutrinas econômicas, etc. Mas, para obter uma certa clareza do pensamento a respeito das bases biológicas de diversas formas de atividade do homem, um esquema, como o estudado, tem utilidade.

É muito interessante constatar que se procuramos nas explicações do comportamento humano, como foram dadas pelas diversas doutrinas que o encaminhamento do pensamento filosófico tomou no decorrer do tempo os elementos que estão na origem de tais doutrinas, aí encontram-se as quatro noções fundamentais, de que tratamos acima. A doutrina cristã estabelece sua ética sobre uma dessas noções – E, mais perto de nós, Freud e Adler, por um lado e Marx, por outro, baseiam-se, para a formulação de suas teorias, nas três outras noções capitais que discutimos há pouco.

O sistema do Cristo repousa, inteiramente, na coluna que chamamos de pulsão paternal (4), uma vez que a misericórdia, a compaixão, o amor ao próximo, fundamentos do cristianismo, representam o amor generalizado, o amor maternal, estendido aos seus semelhantes e não somente à própria família, limitado, o amor social exclusivo.

Freud, o eminente psicanalista vienense, acredita que a característica do homem e de suas reações é, na maior parte, decorrente dos fenômenos da vida sexual; deduz que as formas de atividade derivam dos complexos de origem sexual, que já se manifestam desde a infância. Essa concepção tem como base os mecanismos que designamos na rubrica da 3° pulsão, a da sexualidade.

Karl Marx – ou, antes, o marxismo reformista – acredita poder afirmar que o primum movens de todas as manifestações do comportamento humano decorre de fatores econômicos; isto é, que as atividades humanas repousam, em primeiro lugar, sobre a nossa base n° 2, a pulsão alimentar.

Enfim, Adler, criador da psicologia individual e discípulo de Freud, é de opinião que o móvel preponderante do comportamento humano não reside, como supunha seu mestre, na base sexual, mas, na sede da dominação, na aspiração ao poder, portanto, no que chamamos pulsão combativa n° 1.

Se tentamos aprofundar, um pouco mais, os pontos de vista enunciados, para medir-lhes a importância, se nos valemos de um critério biológico, como o que se acha exposto neste livro, vemos que o erro fundamental de todas essas teorias, consiste em que tendem a edificar seu sistema sobre um só aspecto das atividades humanas. Sigmund Freud, sobretudo, cometeu esse pecado. Sua tendência para ver o comportamento humano, quase que exclusivamente, sob o ângulo da sexualidade, trouxe um grande prejuízo a suas teorias, que contêm, afinal, muitas constatações e idéias do mais alto valor (58). Por isso, o freudismo é freqüentemente combatido com exagero e sua incontestável importância, menosprezada. O que o caracteriza é uma tentativa de explicação da origem das neuroses, uma técnica especial de tratamento, pela psicanálise e uma interpretação, pela influência psicossexual, dos seguintes fenômenos: os sonhos, os atos falhados da vida quotidiana, as aspirações artísticas e religiosas dos indivíduos, os caracteres morais das grandes raças humanas. Freud vê a origem das neuroses na falta de satisfação de certas aspirações sexuais; supõe que as aspirações eróticas da juventude são recalcadas no inconsciente: que, no homem, se manifesta uma resistência contra o retorno das aspirações recalcadas à consciência e que uma censura escolhe as aspirações capazes de serem receptíveis pelo Ego. As aspirações recalcadas tomam formas simbólicas para burlar a censura. Se o eu triunfa, o estado é normal; se a aspiração sexual (libido) consegue a vitória, chega-se a estados de perversão sexual; no caso de um compromisso, são as neuroses que aparecem.

Freud (59) demonstrou que, na vida diária, se pode observar, freqüentemente, ações que se qualificam como atos falhados ou gafes, lapsus liguae etc., que testemunham ingerência, na determinação desses atos, de processos que são estímulos do inconsciente e que, chocando-se com as barreiras da censura, experimentam uma desfiguração mais ou menos patológica.

Vê-se que Freud, desejando tratar os fenômenos conhecidos sob o nome de casos subconscientes, automáticos, em outros termos, emprega a terminologia da psicologia introspectiva, o que, como já expusemos, torna a análise objetiva dos fatos muito difícil, senão impossível; por outro lado, é de todo evidente que não há qualquer razão biológica que torne preponderante a terceira pulsão (sexual). Vimos que outras pulsões primitivas bastam, aliás, como ponto de partida para a edificação de sistemas de reflexos condicionados e são aquelas que, afinal, formam os mecanismos do comportamento.

Depois de haver indicado as bases da psicologia do indivíduo, de acordo com Freud, é interessante ver como sua teoria se relaciona com a psicologia social, como ele explica o fenômeno gregário. Freud levantou uma hipótese, tão original quanto sedutora, sobre a gênese da primeira sociedade. Segundo ele, o pai e chefe da horda primitiva é morto por seus filhos tornados adultos, que ele expulsou para assegurar-se a posse exclusiva das fêmeas; depois da morte do pai, os filhos estabelecem uma união entre si, a qual se torna a primeira sociedade totêmica, [166] agrupada em torno de um símbolo – o totem. Este substitui o pai, toma o caráter de uma divindade e, em seu nome, se estabelecem os tabus – as interdições – as primeiras leis, germes de todas as instituições e aspirações culturais da sociedade humana: a religião, o direito, os costumes.

Freud explica o sentimento obscuro de culpabilidade por uma instância psíquica especial, o superego, que seria uma identificação parcial das aspirações psíquicas com o ideal do pai, detentor da autoridade e da justiça. [167] Esse superego de Freud não é mais do que o sentimento moral, que se desenvolve à base de um instinto social. A gênese da imagem do pai, como fonte de poder, seria assim esboçada: para a criança existe apenas: o eu e o mundo exterior. O eu são as sensações do próprio corpo e da mãe, que nutre e a quem o recém-nascido não distingue de seu próprio corpo. Esse eu não produz o medo. O mundo exterior, ao contrário, é uma fonte de terror. O pai faz parte desse mundo e, como tal, aparece sob forma de gigante, de qualquer coisa de terrífico, de poderoso. Essa relação com o pai se renova em cada contacto com um chefe, um líder. E a revolta contra o que está à frente, o rei, o chefe, o líder, não passa de uma revolta contra o pai. Na Rússia, o czar era chamado de paizinho (hatiuchka).

Assim, para Freud, o protótipo da multidão é a horda primitiva: o pai da horda, o protótipo do líder. Napoleão e Hitler têm traços comuns com o pai da horda. A massa e a multidão são formações que se desenvolveram através de regressão. Dois fatos caracterizam a constituição de uma multidão: a identificação com os outros membros da multidão e com o líder.

Jung, o discípulo mais conhecido de Freud, que se separou de seu mestre, diz, a propósito da multidão, que ela é um animal cego, [168] mas, enquanto Le Bon (19) a compara com a criança, a mulher e o primitivo, Jung a coloca em paralelo com o alienado, pois, a loucura, segundo ele, é uma inundação do cérebro do indivíduo pelo conteúdo do inconsciente, o que caracterizaria também a multidão. Sustenta que a única salvação contra o perigo de ser submerso pela mentalidade das multidões está no minucioso trabalho de educação individual, isto é, na acumulação de engramas que servem aos reflexos intelectivos e aos processos de inibição, de acordo com nossa maneira de ver.

Visto a tendência de Freud de ver toda a psicologia sob o ângulo da preponderância e até da exclusividade da pulsão sexual, compreende-se que, entre os discípulos do próprio Freud, tenham surgido opositores, dos quais o principal foi Alfred Adler. Este, criando sua psicologia individual, (2) contrapeso da psicanálise, combate-a no plano das neuroses, terreno da predileção de Freud e que tornou célebres suas teorias. Mas, como acontece, freqüentemente, nesses casos, Adler, ao condenar Freud por essa maneira de ver, cai no mesmo erro do exclusivismo, no lado oposto: entende que Freud comete um excesso ao encaminhar quase todos os fenômenos do comportamento humano para uma base sexual, mas, ele próprio afirma que a vontade de dominação ou a sede do poder (Machtrieb) está no origem de tudo. E, diz Adler, (2) nas tendências e veleidades originárias, retilíneas de natureza combativa e agressiva, é que o objetivo, a direção, o fim imaginário dos traços de caráter se deixam melhor compreender. Essas tendências combativas exprimem-se pela rapacidade, a inveja, a procura da superioridade. Mas, o homem, sobretudo o que se aproxima do tipo nervoso (e poder-se-ia afirmar, sem exagero, que elementos ou apenas traços de lesões nevróticas, estão latentes em todos os homens que vivem nas atuais condições da civilização) é também portador de um sentimento de inferioridade, que pode atingir diversos graus; esses sentimento de inferioridade é causado por uma desconfiança de suas próprias forças em relação às exigências da vida, sobretudo social; torna-se acentuadamente agudo se o homem possui taras orgânicas de que se apercebe. Ele tenta compensar esse sentimento de inferioridade através de criações imaginativas, as ficções; Adler acredita, então, que uma vocação, o desenvolvimento de uma tendência psíquica pode vir de uma tal compensação. A neurose, como diz Ch. Baudoin, (13) numa feliz apreciação sobre o antagonismo Freud-Adler, “põe em ação mecanismos de compensação de um sentimento de inferioridade; é além do mais um meio de dominação sobre os outros: por exemplo, uma mãe que mima seus filhos para, inconscientemente, tiranizá-los”. Na análise do comportamento de uma pessoa em estado nevrótico, tão comum na nossa época, Adler assinala, com muita justeza, o fato de que, nelas se observa, comumente, uma tendência à fuga, à busca de subterfúgios, pelos quais evitam tomar decisões nas situações que a exigiriam. Diante da ameaça de uma derrota todos os dispositivos e sintomas nevróticos entram em funcionamento e entravam a ação. É também o motivo muito importante que determina, em numerosas pessoas sugestionáveis, sua atitude política, como vimos, ao falar da distinção entre os 90% e os 10%. Pelo choque da ameaça, em meio a símbolos hitleristas, por exemplo, muitos indivíduos, sobretudo aqueles cuja vida atualmente não é risonha – e é a grande massa de 90% – tornam-se nevrosados.

É interessante consignar que o elemento social tem muita importância na doutrina de Adler. Baudoin acredita mesmo que é sua característica principal: a neurose seria uma perturbação do sentido social, ao passo que, segundo Freud, resultaria da formação de pulsões perversas e de seu recalque falhado no inconsciente. Poder-se-ia dizer, com Baldouin, que a psicologia de Freud é, antes de tudo, de inspiração biológica e a de Adler, de inspiração sociológica, entendendo-se aqui, naturalmente, pelo termo biológico a noção da psicologia do indivíduo.

Reiwald (130) [169] diz que o que importa para Adler é saber em que grau e em que sentido a tendência do homem de ter consciência do seu valor encontra sua expressão na situação gregária, realizada na multidão, na massa e na sociedade em geral. A posição psicológica do indivíduo, em relação aos movimentos e às idéias sociais, é determinada pelo sentimento que experimenta de si mesmo e de suas possibilidades. Para Freud, esse elemento individual é decisivo no comportamento da multidão; Jung o situa totalmente na pessoa do líder. Para a psicologia individual de Adler, o ponto de partida seria também o indivíduo, mas, ela transfere o processo psíquico do indivíduo para a massa. Não admite diferença psicológica entre o isolado e o membro de uma organização gregária. Na psicologia do chefe, do líder, para Adler o importante é a afirmação viril: é ela que corporifica a idéia masculina: sabe-se que muitos lideres tratam a multidão do alto e a comparam, muitas vezes e de bom grado a um ser dotado de caracteres femininos. É um meio de vencer seu próprio sentimento de inferioridade. [170] Segundo Adler, o caráter e o comportamento de um Hitler ou de um Goebbels seriam facilmente explicáveis se se conhecessem todos os fatores que poderiam determinar neles a origem de um sentimento de inferioridade. Todo seu comportamento seria uma reação inteligível através das impressões dos primeiros anos de sua infância, do insuficiente desenvolvimento do sentimento social, de uma falha ligação com a evolução da sociedade, complicada e agravada por suas experiências na vida posterior. Segundo Adler, Hitler deve ter-se tornado líder, por força de ressentimento. Para Freud, Jung e o próprio Reiwald, essa explicação seria unilateral e deveria ser completada por pulsões irracionais do inconsciente, que deveriam ter precedência sobre os admitidos por Adler.

A tendência social de Adler é manifesta, sobretudo, na sua ação: não se limita a enunciar teorias sobre o valor psicológico dos móveis da atividade humana, que ele polariza no sentido de vontade de poder, mas, cria, em Viena e, mais tarde, na América, dispensários médico-pedagógicos para crianças nervosas e difíceis. É ainda ele que, no prefácio a seu livro Le tempérament nerveux (2) fala da guerra mundial como “da mais terrível das neuroses coletivas, em que nossa civilização nevropata se lançou, em virtude de sua vontade de poderio e de sua política de prestigio... – Ela se revela como a obra demoníaca da sede de dominação desencadeada em todos os sentidos, que sufoca o sentimento imortal de solidariedade humana ou dela abusa, artificialmente.

Os movimentos de massa não podem ter sucesso, segundo Adler (3), [171] se não estão em consonância com a evolução da sociedade humana. Devem falhar, se a ela se opõem. Há quase dois mil anos, por exemplo, a evolução da civilização européia se fez no sentido da emancipação da mulher. A subordinação da mulher se deu como conseqüência do advento do fenômeno das guerras, que arrastou consigo a razão mais alta da força muscular e da resistência, prerrogativas do macho. Se, no decorrer dos séculos, o sentido social tivesse sido mais desenvolvido, o terrível período da caça às feiticeiras que durou mais de trezentos anos, teria sido poupado à humanidade. O meio, por excelência, para eliminar da vida social tendências dessa espécie, a que se deve somar também a guerra, seria a educação das crianças no sentido do amor ao próximo – Na falta dessas medidas, os movimentos de massa servirão sempre para procurar a satisfação das veleidades pessoais falsas, condicionadas pelas tendências de base social errônea.

O materialismo histórico recebe de Adler uma notável restrição, quando diz: “As reações do indivíduo e das massas às condições econômicas de cada tempo estão em função de seu condicionamento anterior.”

Além do domínio da neurose é também no dos sonhos, que se chocam as idéias de Freud e Adler: contrariamente ao que afirmou Freud, não é uma realização de desejos infantis e uma regressão que ocorreria no sonho, mas, uma mera tentativa antecipada de conquistar a segurança, tentativa em que se utilizaram lembranças tendenciosamente grupadas, as quais nada têm a ver com os desejos libidinosos ou sexuais da infância. Nesse caso, segundo Adler, “o sonho consiste em apalpadelas mais ou menos judiciosas ou fantasistas, no sentido de combinar meios para atingir a tal fim preconcebido, para solucionar determinado problema”. Para Freud, o sonho contém traços de antigos desejos recalcados, portanto, de revivescências do passado; para Adler, o sonho está voltado para o futuro (13) [172] “Vê-se, então, claramente, na doutrina de Adler, tanto sobre os sonhos, como sobre as neuroses, elementos de um dinamismo finalista; um objetivo final, é o que caracteriza sua idéia, o que corresponde ao que vimos, no reflexo de fim, de Pavlov, que, a nosso ver, surge sobretudo do primeiro sistema, ou se é ele o protótipo da apreensão, como acredita Pavlov e pertence, nesse caso, ao sistema alimentar (n° 2) tem, em todo caso, também, elementos do sistema n° 1 (combativo). O próprio Adler afirma que o objetivo final, puramente fictício, que o paciente imagina, caracteriza-se pelo desejo de mando, nasce da aspiração à segurança (2). Descobre as ficções, como compensação pelas dificuldades encontradas na vida, não apenas entre os nevrosados mas, igualmente, nas crianças, nos selvagens, nos primitivos, pois, todos esses estados, em relação ao do homem sadio e vigoroso, provocam questões e exigem uma solução que considere a ânsia do poder.

Em suma, enquanto Freud se baseia no prazer, Adler prefere o poder, cometendo o mesmo erro de seu mestre, mas, em sentido inverso; exagera ao afirmar que o sentimento do prazer seria a expressão de um sentimento de poder, enquanto que o de desprazer decorreria de um outro de impotência. Considera até o complexo incestuoso, o célebre complexo de Édipo, estudado por Freud, como símbolo da sede de domínio. Para ele, nos nevrosados é “em primeiro lugar, a sede de dominação que, tal como os outros caracteres, se serve do amor como de um veículo, para afirmar-se de uma maneira visível e manifesta”. Uma série de exemplos, bem significativos, são trazidos por Adler, em favor dessa idéia (13) [173]: conhecem-se casos em que conquistas amorosas se fundam mais na vaidade do que no erotismo; a atitude sexual dos nevropatas é, às vezes, condicionada pelo sentimento de sua fraqueza e pelo receio de encontrar um “parceiro mais poderoso”; alguns tornam-se Don Juan ou se prostituem pelo temor de um “parceiro único” que ameaçaria escravizá-los e não por uma superabundância de erotismo. Um outro exemplo é o da mulher que pode amar um homem fraco, somente pela vontade de dominá-lo e que disfarçará, a seus próprios olhos, o verdadeiro motivo em piedade: uma mulher pode também pretender desempenhar um papel viril e recusará, nesse caso, a maternidade e até o amor.

Adler, prosseguindo em suas idéias, considera a homossexualidade como uma prática através da qual o nevrosado procura escapar ao perigo.

Esses fatos limitam-se a provar, no nosso entender, que as formas do comportamento humano são raramente circunscritas a sistemas isolados, que são antes complexas e não permitem, muitas vezes, discernir senão uma preponderância, mais ou menos evidente, de um deles sobre os demais. Baudouin, aliás, exprime essa idéia, com muita clareza, nas seguintes palavras, que nos parece útil transcrever: (13) “Indagando-se a que instinto se liga uma determinada manifestação mais evoluída, coloca-se mal a questão, pois, além do plano dos institutos e do das manifestações evoluídas, há o degrau dos complexos; uma manifestação se prende não a um instinto, mas, a um complexo e, em cada complexo, todos os grandes instintos são representados”.

É assim que há, sem dúvida, laços entre o instinto sexual e o combativo, [174] que são de origem nitidamente biológica. Na realidade, vê-se que os neurosados, nos quais reside a origem da neurose, sem dúvida, na maior parte dos casos, em seu sentimento de inferioridade e, como demonstrou Adler, são, ao mesmo tempo, freqüentemente sexopatas; a razão está em que esse sentimento de preferência, tem, quase sempre, sua causa profunda na inferioridade de certos órgãos; nenhum deles é independente dos outros e vê-se, por exemplo, como por meio das endócrinas, o universo sexual dos indivíduos pode encontrar-se atingido. Daí, a evolução do seu caráter e do seu comportamento. O próprio Adler pôde constatar que, nos indivíduos que apresentam perturbações funcionais de seu aparelho gastrointestinal, o amor ao lucro, a paixão do dinheiro e do poder, constituem um dos principais fatores de sua formação, de um ideal pessoal e humano.

Se nos voltamos, agora, para a obra de Karl Marx, o grande sociólogo e pai do socialismo científico, vemos que sua análise penetrante dos fatos sócio-econômicos, evidentes em sua época, o leva a verificar que os males experimentados pela humanidade provêm do fato de que a acumulação dos bens materiais, nas mãos de categorias restritas da sociedade humana leva ao caos econômico que provoca, necessariamente, uma reação salutar: a organização dos explorados que defendem o direito à vida e que findarão, inelutavelmente, por vencer a desordem; criarão uma nova sociedade socialista, caracterizada pela planificação da produção e da distribuição dos bens e pela impossibilidade de os homens explorarem seus semelhantes.

Para a edificação de sua teoria, Marx repousa seus argumentos em três fontes: a filosofia alemã, a economia política inglesa e o socialismo francês. Em correspondência com essas três bases do pensamento humano do século XIX, estabelece os três elementos fundamentais, os três pilares de sua doutrina (93) (175) o materialismo histórico que, tomando de empréstimo o método filosófico de Hegel, aplica a dialética ao estudo das relações na sociedade humana; introduz, então, a idéia científica da evolução (que graças às doutrinas de Darwin, acabavam de triunfar na biologia, causando uma impressão profunda no pensamento humano, na segunda metade do século passado), no domínio sociológico, nas concepções da história e da política, onde o caos e o arbitrário reinavam antes; mostra, de maneira muito sugestiva, como se desenvolve, de uma forma de organização social dada, em conseqüência do crescimento das forças produtivas, uma outra forma mais evoluída, como por exemplo, o feudalismo engendra a época do capitalismo – O segundo aspecto fundamental da doutrina de Marx é sua teoria econômica, baseada na crítica do fenômeno capital. A pedra angular é a análise da noção de mais-valia, contida no valor da mercadoria e proveniente do fato de que o operário, em razão da dependência em que se encontra, é obrigado, por seu patrão, dono dos meios de produção, a criar um benefício suplementar, não retribuído pelo capitalista. Esse produto beneficia somente o último e promove o acréscimo do poder do dinheiro acumulado, do capital. A concentração do capital leva a uma anarquia da produção: crises, corrida louca à procura de mercados, insegurança da vida das massas.

A terceira parte da doutrina, aquela que decorre, de um lado, da influência das idéias da primeira Revolução libertadora da humanidade, de outro, das doutrinas socialistas francesas, é a idéia – conseqüência lógica da doutrina econômica de Marx – da luta de classes e de uma revolução social que virá inevitavelmente destruir o regime capitalista e instituir a forma socialista da sociedade humana. É o próprio regime capitalista que, aglomerando as massas operárias nas grandes empresas, cria a grande força do trabalho unificado nas organizações do proletariado que empreenderá, um dia, o assalto definitivo a seus exploradores.

Há pouco o que dizer aqui a respeito do ponto de vista materialista aplicado à sociologia por Marx. Com os progressos incessantes das ciências em todos os domínios, tornou-se um truismo e o mérito inalienável de Marx é o de ter então visto a possibilidade e de a ter sabido aplicar, com tanta sagacidade, aos fenômenos sociológicos. Foi a mesma visão grandiosa, aplicada à sociologia, que guiou Darwin na utilização da idéia da evolução aos fenômenos biológicos. Os méritos de Marx e de Darwin são imortais, sob esse aspecto. Sabemos, atualmente, porém, que a própria hipótese darwiniana, a explicação da evolução que Darwin acreditou poder atribuir ao fenômeno da seleção natural, não mais se sustém diante da crítica científica moderna; fatos, depois observados, especialmente as variações mutacionistas e a genética, mostram que o fator da seleção, sendo embora um dos agentes da evolução das formas vivas, não é, todavia, o que determina e explica tudo; não é o princípio geral, como acreditava Darwin. Assim, na doutrina econômica de Marx (que mais chama a atenção, quando se fala em marxismo) ao lado de afirmações que permanecem verdadeiras e imutáveis, existem outras que não são válidas, em face dos modernos conhecimentos da ciência. Marx chegou à Sociologia – e o estudo dos fatores econômicos é um problema sociológico – pelo caminho da filosofia e da história. Ora, sabemos, atualmente, que a Sociologia é uma ciência do comportamento humano e que se firma, por conseguinte, em dados biológicos. Mas, como vimos em toda nossa exposição anterior, o comportamento humano é função de processos nervosos, que não se limitam a uma só esfera de atividade, a da pulsão alimentar, como parecem admitir certos economistas; além disso, essa pulsão, base de toda economia, não é a mais importante entre as quatro pulsões de base, de que tantas vezes falamos neste livro; não é o que determina, em primeiro plano, as atividades humanas. O que indicamos sob número 1, a combativa, domina os fenômenos do comportamento individual e coletivo. É certo que fenômenos de inibição podem dirigi-lo e fazer atuar os demais a expensas do primeiro, mas, isso em casos manifestamente patológicos ou resultantes de ensinamentos, de uma educação especial, função do grau de cultura atingido pela comunidade humana. Não é, absolutamente, o caso atual: veremos, ainda, mais adiante, que a proporção dos indivíduos que raciocinam, isto é, que podem inibir as pulsões provenientes de mecanismos automáticos, sobretudo do sistema combativo, e os que, facilmente, se rendem à sugestão, aos fatores emotivos, não ultrapassa a proporção de um décimo, mesmo nos povos que acreditam haver atingido o ápice da cultura. Por essas razões, somos levados a constatar que, numa teoria baseada na preponderância, nos fenômenos sociológicos, dos fatores econômicos, da pulsão alimentar (e é precisamente a conseqüência lógica das idéias de Marx, tais como foram adotadas e desenvolvidas por seus epígonos, a maior parte dos teóricos do marxismo) não mais corresponde ao estágio atual dos nossos conhecimentos. Marx nada tem a ver com a evolução que sofreram suas idéias; pessoalmente, insistiu sempre na necessidade de utilizar o pensamento científico, a dialética, nas construções econômicas e sociológicas, isto é, estar em dia com o avanço das ciências positivas. Afinal, na sua vida de revolucionário ativo e perseguido provou que a luta era o que predominava e sem ela, no sentido mais concreto da palavra, não se podia conquistar um melhor destino para a humanidade. Toda sua teoria da luta de classes que, como afirma, “não pode ser, no fundo, senão uma luta política”, representa, sem dúvida, a melhor prova da verdade de nossa tese. Há, nesse caso, uma certa contradição no sistema de Marx, que se manifesta em sua própria personalidade e em suas concepções sobre os meios de se chegar ao socialismo, sobre a tática a seguir pela classe operária nessa luta. Tal contradição motiva a encarniçada controvérsia que separa os comunistas dos socialistas-reformistas, os bolcheviques e os mencheviques, na Rússia. Uns e outros apresentam-se como defensores do marxismo. E estão, igualmente, com a razão: é que os segundos se limitaram a adotar as construções teóricas que lhes fornecia a teoria econômica de Marx, ao admitir a superioridade da pulsão alimentar sobre a combativa: daí, sua tendência a evitar os choques, a parlamentar, a convencer a qualquer preço e os resultados obtidos – sua derrota constante e universal ante os movimentos cuja tática repousa na utilização do primeira pulsão: os dos bolcheviques, no movimento socialista, e os dos fascistas, como força de defesa do capitalismo. A outra fração do campo socialista, a que se poderia chamar de ativistas, adotando as idéias gerais de Marx, não as segue, contudo, cegamente, mas, através da obra revolucionária de Lênin e construtiva de Stalin; e traz-lhe corretivos; admite a eficácia do primeira pulsão, inspira-se nos ensinamentos da própria vida, senão das teorias biológicas e leva sempre vantagem, onde as duas teses se chocam, na vida concreta: é o caso da Revolução Russa. É, também, a única esperança para a humanidade poder resistir à maré fascista, última tentativa capitalista que, embora quebrada aparentemente pelo êxito da Segunda Guerra mundial, ressuscita e toma novo alento, como a hidra de muitas cabeças que, cortadas, ressurgem mais numerosas. O ativismo socialista é a única oportunidade de conter, de quebrar e destruir esse movimento, esse retrocesso ao barbarismo, verdadeiro perigo para o progresso humano. Em conseqüência, os métodos propagandísticos de combate dessas duas frações socialistas diferem, fundamentalmente, com desvantagem para a primeira.

Lênin (93) os combatia de maneira incisiva, aconselhando os jovens militantes, por exemplo, a retomarem o espírito audacioso dos grandes enciclopedistas franceses: “Os escritos vivos, ardentes, engenhosos, espirituais dos velhos ateus do século XVIII que atacavam abertamente a padralhada reinante, afirmaram-se mil vezes mais capazes de tirar as pessoas do sono religioso que os repetidores do marxismo, fastidiosos, áridos, quase inteiramente vazios de fatos habilmente escolhidos e destinados a ilustrar, que dominam na nossa literatura e que (é inútil esconder) deformam freqüentemente o marxismo. Aliás, também Stalin admite o acerto das idéias neste sentido, como se vê de seu artigo sobre lingüística (146), publicado em 1950 e que causou tanto ruído.

Nossa sucinta análise do marxismo seria incompleta, se não a puséssemos em confronto com as noções sociológicas modernas, que levam em conta os últimos avanços da psicologia objetiva. É precisamente a parte fraca de Marx e de seus continuadores que ainda não estão familiarizados com a idéia de que a Sociologia não é uma ciência autônoma em que se pode trabalhar com noções a priori.

O erro principal dos sociólogos da escola marxista consiste em que tomam, ao pé da letra, a idéia de Durkheim, segundo a qual “a primeira regra e a mais fundamental é considerar os fatos sociais como coisas [176]”; não concebem que um fato social, que se reconhece pelo “poder de coerção externa” (Durkheim), para agir sobre o homem, deve ser, antes de tudo, transposto em fato psíquico, que Tarde (151) [177] interpreta como constrangimento psíquico exercido por um indivíduo sobre outro e tendo como protótipo a relação de pai para filho. O mesmo mecanismo está na base dos fatos econômicos: sua ação não é direta, passa pela maquinaria psíquica daqueles a quem ela atinge.

Kautsky, o principal teórico do marxismo, considera, porém, que o caráter essencial da massa atuante reside no fato de sua organização ou não organização, sem se aperceber que todo comportamento do indivíduo isolado ou agindo numa multidão e na sociedade, em geral, é condicionado pelos processos nervosos que se desenrolam nos seus mecanismos psíquicos.

Isso também se vê, claramente, na circunstância de que a organização, por ela própria, não protege ainda as massas humanas contra os piores excessos: assim, no movimento nazista, uma perfeita organização das multidões não as impediu de cometer crimes cuja fria e calculada bestialidade sobrepujou tudo o que se sabia sobre as atrocidades das multidões primitivas. [178]

Falando de massas, Kautsky só as considera constituídas de operários, funcionários, desempregados, não menciona sequer o proletariado esfarrapado, nem os profissionais liberais, nem os intelectuais que são, as mais das vezes, os que mais tomam parte nas ações de massas e entre os quais se recrutam os líderes; ele próprio avalia em 10% os sindicalizados que tomam parte nessas ações na Alemanha, o que corresponde ao nosso cálculo de 10% de resistentes à violação psíquica das massas, contra 90% dos que a ela se submetem. [179] Assim, nos seus estudos, Kautsky e outros autores marxistas, como Geiger, por exemplo (62), só consideram as massas sob o reduzido ângulo da luta de classes. Para este último, que, tendo a opor à psicologia das massas uma sociologia das massas, [180] as noções desta seriam inseparáveis do conceito da revolução. Para poder tratar as massas como objeto da sociologia, limita seu conceito ao de massas revolucionárias e até às dos últimos 150 anos, depois que ocorreram verdadeiras revoluções, como a Grande Revolução Francesa de 1789, a Alemã de 1848, a Grande Revolução Russa de 1917. A característica das verdadeiras revoluções reside em que levam a uma inversão dos valores; Geiger (62) [181] oferece um pequeno quadro comparativo das relações existentes entre os valores e as camadas dirigentes que os suportam:

Valor:Forma:Camada dirigente:
DeusIgrejaPríncipes da Igreja
PoderEstadoNobreza
LiberdadeEconomiaBurguesia
Acrescentaríamos, de bom grado, as noções relativas à situação atual:
Organização

Imperialismo


Burocracia[182]

São muito importantes as idéias de Geiger sobre o papel das massas proletárias na luta que levam à revolução social esboçada nestes tempos. Diz que o proletariado forma uma entidade unida, de certo modo, mecanicamente, pelas condições de vida e de trabalho. A revolta contra essas condições intoleráveis impele os indivíduos assim mecanizados pelo processo da produção industrial, no sentido da formação de grupos de luta organizados para a queda da atual sociedade (partidos socialistas, sindicatos, uniões culturais e juventudes). A tragédia do proletariado consiste em que ele se encontra em um conflito inextricável: toda sua existência está ligada à sociedade que ele combate – Essa contradição lógica é a chave para compreender seu comportamento que se manifesta por explosões, por ações de massa. Mas, nessas ações revolucionárias, na realidade, não são os organismos obreiros que delas participam, mas, os indivíduos membros de diversas associações proletárias. E, então, em tais ações, o que se observa, são fenômenos gregários próprios das multidões, que se deixam levar pela sugestão, quase hipnótica, dos líderes. As verdadeiras revoluções, que se seguem a movimentos de massas populares, são sempre feitas, isto é, organizadas e dirigidas, pelo menos no início, por pequenas minorias: foi assim na Revolução Russa e também nas contra-revoluções nazista e fascista. A profecia de Marx mostrou-se errônea, quando dizia: “o tempo de revoluções por golpes de mão, efetuados por minorias conscientes, à frente de massas inconscientes, terminou [183]”.

G. Tarde dá uma imagem do funcionamento do mecanismo numa multidão e na sociedade em geral: [184] "Se se admite que um indivíduo, num estado de sonambulismo, leve a imitação de seu médium tão longe que caia em estado de transe e hipnotize um terceiro e assim por diante, poder-se-ia afirmar que uma tal corrente de hipnoses sucessivas e encadeadas, prefigura a vida social". Reiwald corrige essa imagem, dizendo que, na verdade, não se trata de imitação, no caso, mas, de uma influência psíquica que a provoca, a seguir, influência que pode tornar-se um constrangimento psíquico – a violação psíquica, de que tratamos neste livro Reiwald (130) [185] critica as idéias de Kautsky, reprovando-lhe os seguintes erros: 1) comparar as massas com o proletariado; 2) não considerar a função do líder e de uma camada dirigente; 3) faltar a noção da massa produtora.

Finalmente, o grande movimento humano, o Cristianismo, nos dá um exemplo de um sistema em que prevalecem os elementos atribuídos ao quarto pilar fundamental da estrutura biológica, que caracteriza o mundo vivo e suas reações: o do instinto maternal (ou pulsão paternal, segundo nossa terminologia). Com efeito, a Paixão de Cristo, base do dogma cristão, é o sofrimento de um inocente para a salvação dos outros, sofrimento proveniente do devotamento e do amor: é, nesse caso, a mesma base que dá origem ao amor materno. É a propagação dessa idéia (em que se encontram, de resto, também, elementos de outras religiões, notadamente no Budismo e na do Egito) tem seu ponto de partida na imitação do ato do Mestre por seus primeiros discípulos: o sangue dos mártires cristãos torna-se a semente dessa religião – a cada perseguição, a cada novo sacrifício, em que se imolam por uma idéia, “novos adeptos surgem, mais numerosos, em torno dos instrumentos de suplício e das fogueiras”.

A moral, que daí nasce e que se propaga, assinala todos os elementos associados à realização dessa função biológica: Deus é o pai da comunidade humana, os homens, seus filhos, devem, no fim da vida, prestar contas de seus atos, a recompensa eterna é prometida aos bons, o castigo sem fim aos maus – encontramos aí os princípios da educação, da pedagogia. O amor a Deus – pai de todos os homens – deve traduzir-se pelo cumprimento da lei do amor ao próximo, isto é, a todos os homens. A religião dá a seus fiéis deveres a cumprir (os dez mandamentos) e conselhos evangélicos. De resto, o Budismo tem também seu dogma de amor fraternal, de altruísmo. A distinção estabelecida entre o bem e o mal e a sanção reservada à conduta moral ressaltam da própria essência do budismo. [186]

No cristianismo, essa clara origem biológica da verdade evangélica foi, em seguida, pouco a pouco, deformada e desviada de seu sentido primitivo pela gnose ou pela doutrina penetrada de mistérios, sobrecarregada de empréstimos feitos principalmente às religiões do Oriente; cobriu-se de símbolos e de ritos, realçando outras bases biológicas, impressionando facilmente as grandes massas: já indicamos que a segunda pulsão – alimentar – influiu, como de resto, em outras religiões primitivas. Mais tarde, bases filosóficas foram acrescentadas à estrutura primitiva e, desde então, o conjunto forma um sistema muito complexo, em que atuam elementos de todos os sistemas de base.

A influência de novas idéias sobre o mundo antigo foi de tal forma poderosa que é possível afirmar, com Chateaubriand, terem transformado totalmente o mundo e exatamente na direção que caracteriza biologicamente seus fundamentos: os costumes foram abrandados, a escravidão abolida, melhorou a condição da mulher, os combates sangrentos do anfiteatro caíram em desuso, a própria guerra, em relação aos costumes anteriores, foi humanizada.

Ora, a Igreja ou a organização de propaganda da religião cristã, empregou métodos muito eficazes para a difusão dessas idéias: além do culto, instituído na base de uma propaganda através de símbolos, propaganda popular apelando para as emoções, ao lado de um programa escrito – o Evangelho – empregou todo um exército de propagandistas, de religiosos e religiosas de diversas ordens, fundadas no curso dos séculos e que lhe prestaram inestimáveis serviços, sacrificando-se em verdadeiras campanhas quando das crises e dificuldades que a Igreja viveu: assim foi na fase das diversas heresias, depois do século XIII: o poderio e a riqueza da Ordem dos Beneditinos, foco de cultura intelectual e artística desse tempo, seguidos de seu afastamento das massas populares, provocaram uma reação. Ela se manifestou pelo aparecimento de ordens mendicantes dos franciscanos, dos dominicanos e de outros ainda, cuja norma era só viver de esmolas, a fim de melhor penetrar nas camadas populares com sua pregação. Assim foi, ainda, no século XVI, quando as ordens dos Jesuítas, dos Lazaristas e outras foram fundadas, para defender a fé católica contra o protestantismo nascente.

É interessante assinalar um fato que confirma, de maneira eloqüente, nossa tese das quatro bases biológicas do comportamento humano e da idéia de que a religião cristã se ergue da quarta, a que designamos como pulsão paternal. Sabe-se que os religiosos de todas as ordens importantes são compelidos a proferir três votos solenes que se obrigam a respeitar: [187] os de pobreza, castidade e obediência. Reconhecemos, logo, que são, respectivamente, nossas três pulsões – alimentar, sexual e combativa – menos a pulsão paternal – em benefício da qual todos os demais devem ser suprimidos.

A análise dos sistemas de que tratamos, há pouco, se nos colocamos do ponto de vista da biologia moderna, leva-nos a consignar que, cada um deles tem, em algum grau, sua parte de verdade, pelo simples motivo de que as reações sobre as quais se apoiam, são os reflexos que denominamos as quatro pulsões – bases do comportamento. O erro, porém, reside na tendência exclusiva, inerente a cada um desses sistemas, tendência inaceitável do ponto de vista biológico: são válidos todos os quatro, é certo; outra verificação a que chegamos nos leva a afirmar que há certa escala de importância biológica que permite classificá-los. Pode-se admitir, todavia que, em certos casos, são as tendências dependentes de um desses sistemas que dominam, em outros, as demais tendências; mas, podem coexistir, ora em oposição uns com os outros, ora secundando-os, ajudando-se ou combinando-se mutuamente. Bovet (19) diz que, no Cristianismo, se distinguem duas aspirações fundamentais: uma visa a triunfar do mal e a outra, a unir-se com o princípio do Bem. Isso significa, segundo nosso modo de ver, que são, realmente, duas pulsões associadas que estão na base desse movimento: no primeiro caso, trata-se da pulsão combativa e, no segundo, da paternal.

Se aplicamos essa maneira de ver aos fatos da história humana, observamos que é possível encontrar períodos em que uma tendência, um sistema predomina ou até subjuga os demais para dar lugar, em seguida, a um outro sistema. E é curioso ver que, a esse respeito, se poderia dispor, talvez, os grandes movimentos populares em uma ordem consecutiva e lógica, segundo a força ou a importância de um ou de outro que corresponderia, de certa maneira, à série cronológica. É certo que só poderíamos fazer uma tal verificação, reportando-a à nossa própria civilização, que abrange um período de quase dois mil anos, deixando aberta a questão de saber se seria possível descobrir fatos análogos em outras. Em todo caso, divisamos três períodos na nossa história: o primeiro, o mais longo, caracterizado pelo domínio da idéia cristã e pela Igreja; o segundo, em que o progresso da ciência e da técnica deram causa à expansão da idéia materialista, que caracteriza o período capitalista e o terceiro, finalmente, que apenas começou e que, segundo todas as previsões, será marcado pelo advento do Socialismo ou pela queda e destruição de toda a civilização atual; experimentará, então, a sorte de outras civilizações que existiram e pereceram antes da nossa. Nesse caso, três períodos: cristão, capitalista, socialista. É surpreendente acentuar, depois de tudo o que acima examinamos, que se substituirmos, nesses períodos, as bases sobre as quais acreditamos possível construí-los, respectivamente, como doutrinas sociais, chegaremos à seguinte ordem: pulsão paternal, pulsão alimentar, pulsão combativa. Então, somos imediatamente levados a pensar que esta série, também ela, tem sua razão de ser: corresponde à força ascendente das pulsões em questão. Compreende-se, assim, sua origem: os grandes movimentos sociais se sucedem, sendo os primeiros afastados, dominados pela força crescente dos posteriores. Assim, o sistema paternal, tornando-se mais fraco do que o alimentar, o movimento capitalista, baseado na preponderância de fatores econômicos, sobrepuja o movimento cristão e vemos, de fato, que a Idade Média dera lugar à Renascença e à época dos Enciclopedistas, da ciência e da técnica, em que se apoia o período de dominação dos interesses econômicos – É também, a razão por que, em todos os lugares onde os dois sistemas vêm a chocar-se, nas suas veleidades de domínio, por exemplo, na sua ideologia e na sua propaganda, o sistema cristão não consegue ficar à frente; o último exemplo é oferecido pela luta que precedeu o advento do fascismo, entre as ideologias burguesas, ainda fortemente imbuídas de idéias eclesiásticas e a das organizações operárias, tendo por base a idéia sindical que, embora proveniente de uma antítese ao mundo burguês, surge naturalmente no período capitalista, pois, tem como fundamento, primordialmente, as tendências econômicas ou referentes à segunda pulsão. A propaganda cristã e burguesa idealista não resiste quando se choca com a propaganda chamada, em geral e injustamente, marxista.

Estamos, atualmente, no limiar de um novo período, em que as ideologias e as propagandas, tendo como fundamento a segunda pulsão – alimentar – são vivamente atacadas pelas que se apoiam na primeira – combativa. Sendo esta última a mais forte, o resultado não é difícil de prever; e, efetivamente, vemos que, por toda a parte, onde a idéia reformista do movimento operário, – idéia que se baseia sobre a prioridade do princípio econômico – entra em colisão com a da propaganda socialista ativista, assentada sobre a pulsão combativa, a primeira é derrotada. É o caso da Rússia soviética, onde assistimos à vitória dos bolcheviques que, graças a Lênin, corrigiram, na prática, as idéias originais de Marx e conseguiram vencer os mencheviques, os intérpretes fiéis do marxismo, isto é, da teoria da predominância das causas econômicas. Não pode haver dúvida quanto ao fato de que a ideologia socialista na Rússia tem, como fundamento tático, a pulsão combativa: todos os métodos de luta, mesmo a aplicação, em determinados períodos, do regime do Terror, toda a propaganda, são afirmativas, autoritárias, combativas. Está aí o motivo por que conseguiram vencer em seu próprio país, do ponto de vista tático da luta. O mesmo fenômeno se observava também nos países totalitários fascistas, a Alemanha e a Itália, em que se viram tendências socialistas, embora totalmente desfiguradas, mas, utilizando o sistema combativo que as levou a tomar o Poder e a dominar as ideologias e as táticas de propaganda dos movimentos obreiros do tipo social-democrata que insistiam em opor-lhes couraça bem mais fraca de raciocínios e fatos emotivos, com base nos interesses econômicos dos povos.


Capítulo V
Pulsão número um
(Instinto combativo)

A pulsão combativa, base do comportamento de luta – As batalhas infantis – A implicância – A crueldade – A influência da guerra sobre as crianças – Os jogos – A educação esportiva e militar – A luta – O instinto agressivo – As profissões agressivas – Canalização e sublimação do instinto combativo – A violência corporal – A dor – A ameaça – A fascinação – O mimetismo de terrificação – O medo e a angústia – O pânico – Khodynka – A invasão dos marcianos – Os arrebatamentos gregários nos não civilizados – Os derviches – Os Khlystes e as epidemias de dança – Glossolalia e possessão – Lourdes – Arrebatamentos gregários nos protestantes – A psicopatologia coletiva – Os adornos guerreiros – O uniforme – O passo de ganso – A disciplina – A música militar – O êxtase e o entusiasmo – A coragem – A psicologia e a guerra (o inferno de Verdun) – O problema do chefe – Os líderes – O arquétipo Wotan dos alemães – A divinização do chefe – A divinização das massas – O Marechal Psicólogo.

 

Mencionamos, nos capítulos precedentes, que o comportamento humano, no domínio da vida coletiva e política, pode ser objetivo de uma ciência exata, baseada em dados da psicologia objetiva individual e em seus reflexos na ambiência social.

Vimos, igualmente, entre os sistemas de reflexos condicionados, objeto desses estudos, como o sistema que repousa sobre a pulsão mais poderosa, a que demos o número 1 – a da combatividade – se impõe como pulsão de eleição, no domínio das atividades políticas.

Para que um reflexo condicionado se forme, é necessária a coincidência de dois fatores: o do reflexo absoluto ou de um automatismo, à base de uma das quatro pulsões e o de excitação, cuja forma pode ser escolhida à vontade e que se torna o fator condicionante, desencadeando o reflexo em questão. Trata-se, aqui, em princípio, de uma pulsão, mas freqüentemente, em face de uma determinada complexidade de elementos engajados que se manifestam, pode-se, também, falar do instinto que, recordemos, representa, a nosso ver, uma cadeia de elementos simples, com os automatismos. Assim, é possível falar da pulsão combativa ou agressiva, mas, em compensação, do instinto de luta, englobando a noção de luta toda uma cadeia de atitudes na direção de um apaziguamento da pulsão combativa.

Repitamos, mais uma vez, as fórmulas que vimos, nos capítulos precedentes, dispondo-as uma ao pé da outra, para melhor compará-las:

Vemos, por esse quadro, que a analogia é perfeita. Com efeito, a análise que faremos, dentro em breve, neste e nos capítulos seguintes, nos fornecerá provas essenciais, em apoio desta teoria. Tentaremos, ainda, neste capítulo, estudar um pouco mais de perto, a base que serve à edificação do reflexo em exame, isto é, a pulsão combativa; no capítulo seguinte, analisaremos as formas de excitações condicionadas, os símbolos que são associados atualmente à pulsão combativa, na luta de propaganda, para chegar à formação, nas massas, de reflexos condicionados que presidem a uniformização, finalidade última da luta política de nossos dias.

Nesse caso, se se deseja tratar da pulsão combativa e das formas que tomam suas derivações, as primeiras questões, que se apresentam, são as dos fatores psicológicos que a condicionam e de sua evolução genética nos indivíduos. Trataremos, inicialmente, do último problema. Bovet analisou-o de forma excelente, no seu livro L'instinct combatif (19).

Todas as crianças brigam. A primeira razão desse comportamento é a defesa. Os gestos de defesa evoluem com a idade; no começo, são as unhas e os dentes de que se serve a criança: ela arranha e morde. Mais tarde, começa a utilização dos pés e, em seguida, das mãos, transformadas na arma mais primitiva – o punho; depois, prende pelos cabelos e, finalmente, arma-se de um pau que estende a ação de seu braço e termina por atirar pedras. Essa última forma de luta fundamenta-se num instinto extraordinariamente poderoso: o ato de jogar pedras produz, na criança, um prazer intenso. E, notadamente, na idade de 10 a 13 anos que o jovem se bate com mais vontade. A seguir, a pulsão agressiva “canaliza-se ou transforma-se, em razão das idéias morais, incorporadas no código penal, o que levou ao desenvolvimento da sociedade [188]”.

O homem primitivo tinha à sua disposição, evidentemente, os mesmos meios de combate que a criança. É interessante comparar os recursos utilizados nos dois casos: a filogenia permite, segundo Senet (144), [189] compreender melhor as razões da ordem em que nossos ancestrais aprenderam a utilizá-los. Damos, abaixo, um quadro em que as armas da criança e as do homem primitivo são comparadas, na série de sua evolução:

CriançaHomem primitivo
Arranhaduras e mordedurasUnhas e dentes
Pontapés(depois que o homem tomou a posição completamente vertical do corpo)
MurrosPé e punho
Pau Paus e pedras
PedraArmas de sílex
FundaMachados
Arco Pontas de lança
FuzilPontas de flechas
Clava

A luta, a princípio, era defensiva, mas, com a descoberta do instrumento – pau e pedra – tomou, também, o caráter ofensivo; além disso, esses primeiros instrumentos tornaram-se utensílios para trabalhar a madeira e até os metais. A importância dessa descoberta e a da arte de lançar objetos, outra prerrogativa do homem, segundo Stanley Hall (72), [190] explica o lugar que têm, na vida dos primitivos e na da criança, os jogos de pau e de atirar. No que diz respeito à diferença de sexos, no emprego de meios de luta, pode-se observar nas crianças: as meninas jogam mal as pedras. Usam pouco os punhos e arranham com mais vantagem, mordem e pegam pelos cabelos, diferentemente dos meninos que agem de forma inversa. Bovet (19) [191] levanta a hipótese de que “os instintos dos dois sexos se diferenciaram nessa parte, no momento em que a divisão do trabalho fez do macho o caçador que sai a campo para suprir as necessidades da fêmea que fica a cuidar dos pequenos”.

Nas batalhas infantis, o desafio, que precede a luta, tem por fim amedrontar o adversário, cuja força de resistência fica, por isso, diminuída, de antemão, ao mesmo tempo que acresce as suas próprias, pela auto-sugestão, exaltando a si mesmo e proclamando suas façanhas passadas e futuras. As causas das batalhas de escolares podem ser julgadas pelas respostas a uma enquete feita na Suíça e relatada por Bovet (19): “Lutamos algumas vezes por chicana (lutas hostis); outras por divertimento (lutas de brincadeira) ”. Mas, existem também as lutas pela posse. Disputa-se um objeto e é o pensamento desse objeto que está em primeiro plano. A grande maioria das crianças de 9 a 12 anos procura a briga [192] pelo prazer que lhes dá – em outros termos: bater-se é, para elas, uma diversão. No curso destas lutas, que compreendem, também, as suscitadas pela implicância ou provocação e que, a princípio, parecem de hostilidade, como também, durante as de posses surgem novos sentimentos, um interesse “hostil pelo adversário, o desejo de o fazer sofrer e regozijar-se com o seu sofrimento. Mais tarde, esses sentimentos podem tornar-se pontos de partida de novas desavenças: as verdadeiras lutas de hostilidade”. Os jogos podem provocar, às vezes, batalhas travadas com os maus jogadores, com os que trapaceiam: é uma antecipação das lutas políticas pela manutenção da ordem. [193]

Ao atirar pedras, ao manejar um cacete, ao mover vigorosamente braços e pernas, ao empenhar, no corpo a corpo, todos os músculos, o menino experimenta um prazer elementar e imediato, bastante para explicar um grande número de agressões, a que não acompanha nenhum sentimento de hostilidade, nem de cobiça. Mas, logo a essa volúpia de ação, que coroa todos os desdobramentos naturais das energias físicas, um elemento espiritual vem juntar-se: o prazer de se afirmar, o orgulho de se sentir e de se saber forte. A criança sente, desde então, o desejo de verificar sua força, de prová-la em toda a extensão, de medi-la. Luta com seus companheiros, “para saber quem será o mais forte”. Assim agindo, porém, não tarda a perceber que essa força que exibe, lhe dá um prestígio invejável. Surge um terceiro motivo, que o incita a brigar mesmo sem objetivo; bate-se para mostrar sua força e fazê-la admirada pelos outros. As batalhas, afinal, preenchem, admiravelmente, a necessidade que têm certas crianças de chamar a atenção sobre sua pequena pessoa. O resultado pouco importa, contanto que seja notado [194].

Para chegar às vias de fato, as crianças provocam-se mutuamente. O espírito provocador é semelhante ao instinto combativo, sua manifestação é um instrumento seu. A implicância ou prepara a luta e conduz a ela ou a supre e a ela se substitui. Para chegar ao corpo a corpo, irrita-se o adversário, incita-se-lhe a cólera. Os movimentos da cólera representam, em ponto pequeno, gestos de luta muito antiga. [195]

Para o provocador, trata-se, sobretudo, de mostrar sua própria força e a fraqueza do outro. Ela tem lugar, principalmente, onde existe excesso de forças não utilizadas. Os ociosos são implicantes e, entre as crianças, as que pouco se movimentam. Daí porque Bovet sugere uma medida pedagógica: se uma criança leva esse espírito, além dos limites suportáveis, é necessário obrigá-la a fazer exercícios, dar-lhe oportunidade de se divertir e de se agitar.

O implicante é, em geral, mais experiente do que sua vítima, porque tem mais forças disponíveis. Mas, a implicância é, também, a arma dos fracos: os corcundas, os surdos, têm a reputação de possuí-la. Bovet cita Goethe: “As mistificações são um entretenimento dos ociosos. Pessoas que não sabem trabalhar a sós, nem se aplicar de maneira útil, exteriormente, gostam de fazer pequenas maldades e de se felicitar, prazerosamente, do mal que alcança os outros. Nenhuma idade escapa a esse prurido”. E Bovet adianta que a comparação das profissões leva à mesma conclusão. Os relojoeiros, imóveis no seu estabelecimento, são hábeis nas farsas de toda natureza, ao passo que os camponeses fazem poucos gracejos.

O implicante, escondendo-se atrás de uma porta para saltar sobre quem vai passar, de forma a fazê-lo gritar ou estremecer, pretende provocar, no outro, o medo ou emoções vivas. São principalmente as emoções que se exprimem que causam a alegria do carrasco. Não basta saber que um companheiro teve medo, adivinhar que o professor deve ter-se irritado; o que ele espreita, com volúpia, é o grito, o tremor de voz, o franzir das sobrancelhas ou a cor do rosto daquele que, perdendo o controle de si mesmo, mostra que está à sua mercê“ [196].

A implicância tem relações estreitas com o galanteio, por conseguinte, com a pulsão n° 3. É um meio de afirmar seu poder sobre o outro sexo e de assinalar, aos olhos dele, seus méritos e sua força. Um provérbio alemão diz Wer liebt sich, neck sich (quem ama se maltrata) e um outro russo, mais brutal ainda, Kovo lioubliou, tovo i biou“ (aquele que eu amo, nesse eu bato) todo mundo conhece, também, o famoso provérbio “quem bem ama, bem castiga”. Provocações de um sexo a outro são parte essencial de certo galanteio popular e tomam lugar destacado em todos os flertes. É uma modificação da luta erótica contra a fêmea.

Bovet (19) chega a conclusões muito importantes que ilustram, claramente, o que dissemos a propósito dos mecanismos, condicionantes do comportamento com base na pulsão agressiva.

A implicância – diz ele [197] – “é fruto de tendências instintivas, cuja função é ajudar a seleção natural, particularmente a sexual, mostrando as forças e as fraquezas dos indivíduos de ambos os sexos. Ela é, originariamente, provocação para a luta física, mas, à medida que os costumes, que se transformam, favorecem menos a esta, a provocação acaba por substitui-la pouco a pouco. Depois de estar identificada, em seu início, com o instinto combativo, o espírito provocador toma uma forma alterada. Enfim, essa transformação se completa, mais lentamente, no sexo masculino, sem dúvida porque o interesse da espécie, impondo ao macho triunfar sucessivamente sobre seus concorrentes e sobre a resistência que lhe oferece a fêmea, concede, por isso, à força combativa um lugar preponderante entre as qualidades do macho”.

Entre as formas de molestar uma é sobremodo odiosa, porque cruel: propor um tempo de corrida a um coxo; ou a um maneta uma prova de destreza, que exija as duas mãos. Também nestes casos trata-se de fazer sobressair sua força, em comparação com a fraqueza do outro. Já é a crueldade que se manifesta, associada à pulsão combativa degradada. Tem por divisa, a “desgraça de uns faz a felicidade dos outros”. Uma criança se compraz, às vezes, com brinquedos de destruição ou como os chama K. Gross, (66) brinquedos analíticos: todo menino rasga papel, esvazia gavetas, destrói caixas, desmonta jogos; tudo isso lhe causa evidentemente uma satisfação. Além disso, arranca as asas da mosca, as patas da aranha etc. Seria errôneo, porém, atribuir esse comportamento à crueldade, trata-se, na verdade, de uma insensibilidade por defeito de representação e de imaginação ou predominância exclusiva de um desejo de conhecer, portanto de um ato em que a pulsão n° 4, sublimado entra em função. “Todas as tendências passionais – diz Bovet (19) [198], monopolizam o espírito, de maneira exclusiva, ao ponto de nos tornar insensíveis a tudo o que não é seu objeto e, nesse caso, inatentos e cegos a todos os sofrimentos que possamos causar. A curiosidade, o ardor científico causam esse efeito, mas, também, o amor ao lucro e à avareza, a paixão sensual, o zelo confessional etc. Assim, os instintos primitivos da caça e da luta podem, igualmente, tornar o homem surdo às dores que ele causa”.

Existem, no entanto, atitudes de crueldade nas crianças, como nos adultos; elas estão ligadas à luta, à pulsão n° 1; freqüentemente, porém, o fenômeno é mais complexo, pois, a pulsão n° 3, sexual, nele entra, também, por algum motivo. “A sexualidade da maior parte dos homens é mesclada de agressividade, diz Freud, (57) [199] de uma tendência à posse, cuja importância biológica consiste, sem dúvida, na necessidade de superar a resistência do objeto amado de outro modo que por atos de galanteria. O sadismo corresponderia, então, ao isolamento e ao exagero de um dos componentes da agressão do instinto sexual que tomaria, assim, o primeiro plano”. Na mulher, a coqueterie teria a mesma fonte que a crueldade, pois, ela tem prazer em excitar o pretendente pelas humilhações que lhe inflige. O masoquismo, que é crueldade às avessas, imposta a si mesmo, tem raiz idêntica. Na mulher, a explicação é ainda mais simples: na maior parte das espécies animais, como na mulher, a volúpia é necessariamente precedida de sofrimento. O combate, intimamente ligado ao amor, consiste, ao mesmo tempo, em golpes dados e recebidos. Mas, o gosto de dar golpes, sem correr o risco de recebê-los é a crueldade pura, destacada do instinto de combate e implicando afrouxamento, [200] portanto, num desvio mórbido do instinto. A crueldade das crianças resulta da agressividade brutal dos adultos contra elas. Quando uma criança se torna vítima, sua cólera impotente desvia-se freqüentemente para quem não pode com ela: toma, então, o aspecto de uma combatividade impulsiva. É essa, também, a fonte da sua crueldade contra os animais, como demonstrou a psicanálise. [201]

Acreditou-se poder comprovar que a guerra tem uma influência, particularmente nefasta sobre as crianças. É verdade que, durante a guerra e, notadamente, depois dela, mostram-se, com freqüência, mais insubordinadas, mais difíceis“, o que se explica antes por um certo relaxamento da disciplina na escolha e em casa, como conseqüência da desorganização geral da vida social, em decorrência da guerra. Seria exagerado pretender, contudo, que elas se tornam mais briguentas, que sua pulsão combativa seria particularmente estimulado pelos acontecimentos da guerra. Ela tem, no entanto, um lugar considerável nas suas preocupações: fornece-lhes, em abundância, imagens, palavras, idéias, novos sentimentos que elas assimilam e que reaparecem nos diferentes domínios em que são as criadoras (desenhos, composições, jogos). Nos seus brinquedos, não há mais guardas e ladrões, porém, franceses e alemães ou soldados e espiões etc. Nos de movimento, de caça, de construção, de luta, jogos imitativos etc., tiram da guerra sua representação.

Naturalmente, a influência da guerra é enorme sobre o psiquismo das crianças vítimas da catástrofe, das que a sofreram diretamente; isso se depreende, nítida e dolorosamente, de todo o seu comportamento, como era fácil de observar nos órfãos, por exemplo, recolhidos na Vila Pestalozi, em Trogen, na Suíça, maravilhosa instituição, devida à energia e ao grande coração de seu fundador, o Dr. W. R. Corti: durante os primeiros meses de permanência dessas crianças na Vila, exteriorizam, nos seus desenhos livres, os horrores vividos. Que a guerra em si não contribui para estimular a pulsão combativa, é fácil de compreender, porque o conflito moderno perdeu seu caráter excitante, em face da mecanização e das distâncias, relativamente grandes, que separam os combatentes; ela não pode ser mais considerada como a explosão espontânea do instinto combativo de um povo, não é possível a ela nos referirmos como a uma regressão da alma social. [202] ”Contudo – diz Bovet – não há dúvida que os movimentos coletivos, provocados pela guerra, tanto nas multidões da retaguarda, como nas próprias batalhas, não determinam, em grande número, regressões do instinto combativo nas almas individuais em que esse instinto estava completamente platonizado [203] ou mesmo sublimado, em tempo de paz. O caráter regressivo do fenômeno é particularmente visível, quando a luta põe em relevo as componentes secundárias da combatividade, que são a crueldade, freqüentemente sádica, o instinto de destruição etc.

A grande explosão do instinto é contemporânea do despertar dos sentimentos sociais. O indivíduo descobre a vantagem de não se lançar na batalha sozinho. A combatividade associa-se com a inteligência e com o instinto social. Vimos que o instinto combativo tem oportunidade de se exercer sob a forma de jogos, que se podem dividir em dois grandes grupos: jogos de luta, entre 9 e 12 anos, e jogos sociais (ou jogos de equipe), depois de 12 anos Encontram-se, também, os jogos combativos entre os animais novos assim, nos pássaros: pardais, cambaxirras, lavadeiras, perdizes, cacatuas; e nos mamíferos: lontras, ursos, doninhas, gatos, cães, filhotes de leões, de lobos, cabritos, bovinos, solípedes, babuínos e macacos em geral. Esses jogos são, realmente, de acasalamento, porque “a reprodução está estreitamente ligada ao instinto combativo: muitos animais atacam outros na época do cio. K. Gross (67) [204] indica que os jogos de luta, como também os de locomoção, de exibição, de canto etc., estão em estreita ligação com o galanteio. Mas, há igualmente jogos de luta sem relação aparente com a pulsão sexual, mesmo nos animais: assim, nas formigas operárias e nas vacas, para a designação de uma rainha. Esta desempenha um papel que, nos bovinos selvagens, devia pertencer, evidentemente, a um macho. [205] Os hábitos permaneceram os mesmos, apesar da domesticação; mas, passando de um sexo a outro, perderam alguma coisa de sua significação primitiva. Desse modo, houve, de uma só vez, conservação e transformação do instinto. Na verdade, a significação dos jogos de luta é a dos demais: treinar, por antecipação, o animal novo numa forma de atividade que, mais tarde, será exigida pelas necessidades de sua existência. São exercícios sem utilidade imediata. Não se destinam a atacar as espécies mais fracas que devem servir de alimento, nem a resistir aos mais fortes que as cobiçam como presa, mas, para se medir com outros de sua própria espécie. Servem para as lutas de posse: do alimento e da fêmea. A fim de viver e se perpetuar é necessário que o indivíduo esteja preparado para disputar um e outro a seus congêneres. K. Gross (67) diz: “a razão dos jogos da primeira idade (criança e pequeno animal) reside em que certos instintos particularmente importantes para a conservação da espécie se manifestam numa época em que o animal ainda não tem graves necessidades”...

Nos jogos de combate organizados – boxe, futebol, esgrima e nas diversas alterações do instinto – alpinismo, xadrez, romances de aventuras – encontramos a influência da sociedade sobre o indivíduo. Nenhuma dessas coisas é inventada pela criança de hoje. Quando ela cresce, encontra jogos já instituídos; clubes fundados a solicitam. Mesmo quando brinca com soldados de chumbo, a criança submete-se a uma tradição que lhe vem dos adultos. Esses modelos correspondem mal à agressividade de sua idade. A paixão pelos pequenos soldados comprova antes um recalque dos instintos belicosos. Não nos espantamos com o fato de que grandes cabos de guerra (Frederico II) estivessem interessados nesses brinquedos, [206] no intervalo de suas campanhas. Bovet apresenta, também, uma interessante estatística, [207] indicando que, na guerra de 1914, havia mais jogadores de futebol que de xadrez, no exército britânico; no alemão, era o inverso; isso prova que o xadrez, jogo de combinação estratégica e de reflexão, está mais perto da agressividade primitiva que o futebol, o que concorda com o fato de que a guerra, atualmente, não pode mais ser considerada como estimulante do instinto combativo puro, que se exterioriza nos jogos de luta corporal como o futebol.

W. Brown, um behaviorista americano, não considera a guerra de nossos tempos como uma manifestação de agressividade das massas, que se socorrem das tendências sadistas do indivíduo: [208] a guerra é sempre precedida, atualmente, de um período de preparação psicológica das massas, por uma propaganda patriótica apropriada. A validade dessa afirmação é demonstrada, também, pela introdução, em todos os países, do serviço militar obrigatório, uma medida de coerção, por conseguinte. Viu-se, igualmente, em 1918, que os soldados das duas trincheiras fraternizavam muitas vezes.

Numa conclusão geral do problema da relação entre o instinto combativo e os jogos como meios de educação é interessante constatar, como fez Bovet, (19) que se pode classificar as teorias sobre o seu significado em três grupos:

1° – A teoria atávica (Stanley Hall), segundo a qual os jogos não têm importância atualmente, os instintos, que neles se manifestam, são sobrevivências: a criança trepa nas árvores porque seus ancestrais foram outrora orangotangos. Se se bate, é que houve um tempo em que o corpo a corpo era uma obrigação que o estado de selvageria impunha aos primitivos. Os jogos, como as tendências instintivas, que neles se manifestam, revivem os grandes capítulos passados da história da civilização humana. Não é uma preparação para as etapas futuras. Em vista disto, o educador nada tem a reprimir ou encorajar. A criança os desprezará por si mesma, naturalmente.

2° – A teoria do pré-exercício (K. Gross) diz, ao contrário, que os jogos têm alcance atual e positivo. São exercícios preparatórios: a criança se bate, porque terá que lutar pela vida. O jogo tem por função e efeito criar hábitos. Para evitar que alguns deles se formem, o educador deve opor-se às primeiras manifestações do instinto.

3° – A teoria catártica (Carr) considera que os jogos têm alcance atual, mas, negativo. Teriam por finalidade e por resultado eliminar do indivíduo certas pulsões anti-sociais. A educação deve tender a encorajar os jogos de combate, se desejamos libertar a criança de sua agressividade. Ela luta, porque interessa à espécie que não mais se bata quando for grande.

Mas, segundo Claparede (31), essas três teorias não se excluem entre si e pensamos, também, que os fins de cada uma delas, diferenciando-se e completando-se, podem ser utilizadas nos diversos aspectos educativos: a teoria atávica que tem em vista canalizar as pulsões primitivas – na educação esportiva e militar, a do pré-exercício, cujo objetivo é fazer desviá-las – na educação moral; e a catártica que procura platonizar, sublimar as pulsões – na educação pacifista e social.

A educação esportiva, sobretudo desde Baden Powell, com sua idéia de escotismo, fornece o melhor exemplo do sucesso nos métodos que se apoiam na pulsão combativa, a fim de ultrapassar os seus desdobramentos perigosos para a sociedade humana. O próprio Baden Powell diz [209] “O exercício militar tende a destruir a individualidade, desejaremos, ao contrario, desenvolver o caráter”. Mostrando ao jovem um ideal sob o aspecto cavalheiresco e prescrevendo-lhe, como obrigação, prestar a seu próximo pelo menos um serviço por dia, o escotismo conduz a um fim altruístico as forças acumuladas. “Bem longe de formar máquinas para os exercícios de obediência passiva, estimula as iniciativas refletidas” [210].

É verdade que os esportes “fazem florescer todas as qualidades que servem à guerra: indiferença, bom humor, disposição para o imprevisto, noção exata do esforço a fazer sem desperdício inútil de força” [211]. Os esportes preparam para a guerra e “quando alguém se sente preparado para uma coisa, a executa de bom grado”. Mas, é sobretudo, na educação militar preparatória que, ao lado do treinamento disciplinar, exercita o corpo e dá uma instrução militar especial, onde está o perigo, porque, preparando para a guerra, se prepara a própria guerra: o exercício físico, dando ao jovem consciência de sua força encoraja-o facilmente a dela abusar e a instrução militar, concentrando seu pensamento na guerra, leva a desejá-la. O exercício físico, ao contrário, tem a propriedade de se tornar um fim em si e a organização dos esportes fornece à força acumulada uma derivação inofensiva, podendo criar, no espírito público, sugestões que contrariam a idéia de guerra. Por outro lado, a própria escola, pelo ensino da História, voltada, na maior parte, para os acontecimentos da vida nacional dos Estados, desenvolve, freqüentemente, na criança, sem se aperceber, o gosto pela luta, ao exaltar as virtudes guerreiras. Aliás, conhecem-se exemplos de treinamento para o combate até entre os animais: assim, Letourneau [212] interpreta, como “lições de uma espécie de esgrima guerreira”, os combates singulares observados por Huber nas formigas.

Depois de ter passado em revista os fatos relativos à gênese e evolução da pulsão agressiva na criança, como se manifestam nos jogos e na educação, desejamos nos voltar para a análise das manifestações dessa pulsão que reconhecemos como a mais forte de todas e que indicamos, por isso mesmo, como n° 1, no adulto. Veremos, em seguida, as possibilidades de sua platonização e sublimação.

A necessidade de lutar, de se preservar do perigo causado pelas agressões inimigas, seja, pondo-se em guarda ou, ao contrário, atacando o adversário, é uma atividade humana tão velha quanto o homem ou o ser vivo em geral. Sob o nome de luta, entende-se, em biologia, a resistência a toda a sorte de fatores que ameaçam a existência, luta contra as forças brutais da natureza, contra as intempéries, as doenças etc., mas, num sentido mais restrito, a palavra designa uma reação contra os perigos que se apresentam de uma maneira mais ou menos súbita e sob a forma de fatores vivos.

A necessidade de lutar coloca o indivíduo, na vida, em face de novas contingências e condiciona, assim, novos reflexos, novas atitudes e hábitos que têm por base a primeira pulsão. É o primeiro mecanismo do ser vivo que entra em ação ao contato com o mundo exterior, apresentando-se este, geralmente, sob a forma de obstáculo que o ser deve dominar. É a primeira reação da criança que deseja tudo ter, tocar, empurrar, acariciar, modelar, rasgar, enquanto os objetos de sua cobiça não se apresentem sob a forma de alguma coisa que a assuste. [213] Ela leva tudo à boca. Desejou-se identificar essa pulsão agressiva com um instinto especial de vitalidade [214] que teria como fim preservar a vida. Não podemos aceitar essa maneira de ver as coisas: para nós, todos os pulsões são mecanismos de conservação da vida, os de n°s 1 e 2, de conservação do indivíduo, e os 3° e 4°, da espécie. [215] A pulsão agressiva (n° 1) seria apenas um desses quatro meios de preservar a vida.

Ora, na prática da luta para conservar a existência, o homem primitivo, ainda aparentado aos macacos, deve ter-se apercebido das vantagens que lhe proporcionava a cooperação com seus semelhantes na caça; tornou-se gregário e formaram-se hábitos sociais. “Teria assim se tornado, a princípio, uma espécie de macaco-lobo. Isso ajudaria, aliás, a compreender porque o homem é ainda tão imperfeitamente sociável” (teoria de Carveth Read) (128). [216]

As necessidades da vida gregária conduziram, certamente, ao estabelecimento de senhas inibidos muito fortes, tabus, que contraporiam, no indivíduo, os excessos de manifestações da pulsão combativa, ao exemplo dos tabus sexuais, que regeriam o comportamento sexual entre indivíduos da mesma espécie. Assim, o instinto combativo da humanidade nascente deve ter sido, desde a origem, regulado e canalizado em certa medida. Segundo Adler (3a), [217] a inibição subconsciente de um instinto, seu recalque, pode traduzir-se, posteriormente, por fenômenos muito característicos, dentre os quais, na sua Psychologie individuelle, ressalta os seguintes:

1° – o instinto pode converter-se no seu contrário,

2° – desvia-se para um outro fim,

3° – dirige-se sobre a própria pessoa,

4° – a ênfase é dada a um instinto de força secundária.

Segundo Bovet (19), o instinto combativo pode sofrer, em casos semelhantes, as seguintes vicissitudes:

1° – pode continuar sem mudança aparente. A pressão do meio social não tem efeito. O indivíduo permanece, adulto, o que era em criança: o instinto, tendo criado o hábito, conserva o mesmo prazer de lutar e aproveita todas as ocasiões. Um adulto belicoso sucede a uma criança belicosa. Esse caso, o mais simples, psicologicamente, é menos satisfatório, socialmente. Essa permanência inalterada do instinto faz da criança normal um ser inadaptado.

2° – Em virtude das necessidades da vida social, o instinto combativo se mantém em certos limites: continua com um mínimo de alteração, canalizando-se nos jogos de luta dos adultos: boxe, luta suíça, esgrima, futebol. O último combina os instintos de caça e luta, podendo ocasionar certas regressões“.

3° – A agressividade continua, canaliza-se, mas, complica-se, sobretudo, aliando-se a todas as outras forças do indivíduo: a agilidade, o sangue frio, a calma e, enfim, todas as mais altas formas de inteligência. Os dois tipos principais dessa complexidade seriam: a intelectualização e a socialização do instinto combativo: um exemplo de realização, nesse sentido, seria o comportamento no trabalho.

É de grande interesse comparar a evolução social humana e a individual, no que toca à pulsão combativa, como faz Bovet (19) [218]: na evolução individual, pode-se enumerar os seguintes períodos:

1° – os primeiros jogos de luta aparecem durante o terceiro ano,(1)

2° – no período de 9 a 13 anos o instinto bruto explode com particular intensidade,

3° – em seguida, a fase em que se complica e se canaliza (sob forma, por exemplo, de competições esportivas etc.).

4° – platonização eventual (atividade social construtiva).

E, paralelamente, no desenvolvimento da humanidade:

1° – os homens primitivos não lutavam, ao que parece, sem ser atacados. No curso da evolução humana o instinto combativo deve ter aumentado muito de poder.

2° – o ponto máximo foi atingido, sem dúvida, numa época ainda bárbara.

3° – A canalização do instinto, na esfera social, tema o caráter das guerras da história.

4° – poder-se-ia ver uma platonização do instinto combativo na guerra fria de nosso tempo; é preciso esperar que essa platonização se expanda no futuro, quando se chegará a sublimar, totalmente, a pulsão sob a forma de trabalho pacífico e coletivo de toda a humanidade, em benefício da sociedade e da cultura.

Uma questão logo aparece quando se pensa nas manifestações da pulsão combativa: como se traduz na escolha das profissões? Quais as atividades profissionais que se impõem aos homens, em cujo comportamento essa pulsão tem primazia sobre as demais? Antes de tudo, pode-se verificar que, na juventude, nos menores de 10 anos aos de 15 ou 16, é sobretudo o gosto das profissões combativas – soldado, guarda, caçador – que se manifesta, segundo S. Maday. [219] Embora, na escolha das carreiras se observe, freqüentemente, que o filho abraça a profissão do pai, é possível afirmar que isso vem menos por herança de gostos, do que por influência do exemplo. A correlação entre a profissão e os gostos dos indivíduos, porém, não pode ser negada em numerosos casos. Bovet (19) dá exemplos pertinentes à incarnação de realizações dos desejos agressivos ou mesmo cruéis das profissões sociais: pelo instinto puro – soldado, guarda, caçador; pelo instinto desviado – carregador, guia de montanha, açougueiro, cocheiro, dentista, parteiro, cirurgião etc.; pelo instinto sublimado, objetivado e platonizado – professor. Mas, na verdade, encontra-se “por toda a parte”, na Bolsa como no Palácio da Justiça, nos mercados como nos mares, pessoas que abraçaram sua profissão por combatividade.

Reiwald (130) refere-se ao quadro de Szond [220] sobre a seleção profissional, que dá uma visão bem minuciosa da classificação de um grande número de atividades, baseada nos dados da sociopsicologia. Nós mesmo pensamos poder agrupá-las, segundo as quatro pulsões respectivas, como se pode ver do quadro abaixo:

Pulsões e respectivas profissões

1
soldado
político
diplomata
lutador
esportista
piloto
advogado
cirurgião
carrasco
motorista
marinheiro
detetive
policial
açougueiro
2
cozinheiro
hoteleiro
comerciante
engenheiro
sacerdote
trabalhador
funcionário
criado
agricultor
crítico
3
dançarino
artista
músico
pintor
cabeleireiro
cantor
escultor
arquiteto
manequim
4
sábio
sacerdote
professor
educador
doméstica
médico
enfermeiro
juiz
religioso
organizador

Hamon (74) [221] insiste em que, entre o instinto combativo e a escolha da carreira militar, haveria uma relação positiva e direta. De Maday, [222] que se coloca, portanto, sob o ponto de vista militarista, é de opinião que “a evolução humana parte da luta para chegar ao trabalho”. É o caso das profissões de advogado e comerciante, por exemplo, em que há componentes combativos, mas, a do trabalho domina. E não são raros os casos em que “certas pessoas tornam-se soldados para se livrar dos cuidados da luta pela vida”, de modo que, como diz Bovet (19), muito freqüentemente, em nossos dias, não há mais correlação entre o gosto instintivo da luta e a carreira militar, ao contrário do que ocorria antigamente.

Considerando que o comportamento do trabalhador industrial contém uma componente agressiva, Reiwald [223] adianta que uma das causas mais importantes da revolta das massas reside no sentimento da falta de satisfação que o moderno processo de produção cria. Para sentir a alegria do trabalho, é necessário que, ao lado da pulsão sexual (libido, amor pelo trabalho), esteja presente, ainda, outra pulsão elementar – a agressiva – que é tão irresistível como a fome ou a necessidade sexual. Cita exemplos: o de carregar um peso ou de derrubar uma árvore. E a mesma coisa é válida para as atividades intelectuais mais elevadas: fala-se, então, da “nitidez cortante de um pensamento”. Encontra-se a pulsão agressiva até nas profissões sublimadas: a de açougueiro é muito útil do ponto de vista social quando trava uma grande percentagem de assassinos; a de dentista ou de cirurgião é altamente sublimada, mas, têm, ambas, caracteres sádicos.

Vimos que, na vida, é muito raro encontrar pessoas entre as quais determinada pulsão se manifeste de forma pura, diz-se, geralmente, de tal pessoa que é um homem completo. Na maioria dos casos, encontram-se exemplos mais complexos, em que duas ou mesmo três pulsões se associam, se completam ou, também, em que uma delas perde certas características em proveito do outra. Assim, existe uma ligação entre a pulsão combativa e a sexual, entre o combate e o amor ou, em termos de sensações psicofisiológicas, entre a dor e a volúpia. Conhece-se, pela experiência psicanalítica, que o prazer da crueldade tem um ressaibo especificamente sensual. [224] Aliás, no reino animal e nas civilizações primitivas, o combate – como vimos – está estreitamente associado ao amor. Sabe-se também que os sádicos têm necessidade de fazer sofrer para estimular sua sensação erótica. Nas crianças, o prazer de assistir a chicotadas e de dar tem um lugar considerável no despertar de sua vida sexual. É mais uma razão para evitar o costume do castigo corporal, segundo Bovet, (9) que é psicólogo e educador. A volúpia está, freqüentemente, associada ao sofrimento de outrem e à dor experimentada pela própria pessoa. Chegou-se atualmente à conclusão de que o sadismo e o masoquismo não são antagônicos, mas, encontram-se na mesma pessoa e daí o motivo por que são agora designados por um mesmo nome – algolagnia. [225] A volúpia da dor é também, às vezes, uma característica da poesia romântica que se compraz com a descrição dos estados melancólicos.

Como existem freqüentes laços entre a pulsão combativa e a sexual, ocorrem igualmente entre a primeiro e a alimentar sublimada, que é o sentimento religioso, segundo nosso modo de ver. [226] Vimos mais acima que, nas manifestações da vida religiosa, se encontra, muitas vezes, o espírito combativo, que se traduz pelo emprego de expressões tomadas à vida militar. Aos exemplos antes [227] citados, juntemos o texto de um coral de Lutero, em que se nos deparam expressões como: “Nosso Deus é uma muralha, uma armadura invencível”. O mesmo se encontra entre os muçulmanos que se intitulam os guerreiros de Allah; aos salmos do Antigo Testamento não faltam, tampouco, expressões belicosas [228] Mas na história do próprio Cristianismo, aprende-se que Constantino empregava o labarum como insígnia do seu exército; que, nas Igrejas orientais, a proclamação da guerra santa servia à defesa do Deus nacional e do Estado, a Igreja divinizava a guerra; as guerras de Carlos Magno e as cruzadas eram um serviço religioso “por Cristo e pela Igreja” [229]. Mesmo nos nossos dias, vê-se, muitas vezes, em política, realizada a “aliança do sabre e do hissope, do exército e do clero.

Mas, ao contrário, o elemento religioso sofreu, também, influência sobre o comportamento fundado na combatividade, contribuindo para seu desvio e sublimação. Assim, para a Igreja, a idéia de exército ultrapassa a do soldado, a organização sobre a combatividade pura: todos os esforços são coordenados, a milícia cristã é hierarquizada. A qualidade principal do soldado torna-se a obediência, da mesma forma que a intrepidez. Exercita-se a obediência, como se treina a coragem. O exercício, a disciplina, a beleza dos planos combinados fazem perder de vista a luta em si mesma. O instrumento é tão perfeito que é admirado por ele próprio, sem mais sonhar-se com o fim para que foi formado. Esses fatores do espírito militar, a obediência, por exemplo, nada tem de agressiva por si só. E chega-se ao caso como o de Ernesto Psichari, neto de Renan, que veio ao Cristo pela Igreja, à Igreja pelo exército profano e ao exército pela necessidade de obedecer. [230] Mas, em numerosas almas religiosas, o instinto combativo, que lhe é inerente, pode aparecer sob forma primitiva e grosseira: na imagem das torturas do inferno prometidas aos pecadores ou, no fato de os religiosos assistirem, às vezes, com prazer, perseguir e torturar outros, como foi o caso da Inquisição, e o da caça e processo à feitiçaria. A crueldade não é estranha ao espírito religioso: vê-se no emprego de torturas contra a carne: flagelação e sevícias de toda natureza em certas seitas religiosas.

Enfim, a pulsão combativa, sendo um mecanismo fundamental do ser vivo e, como tal, não podendo ser extirpado ou suprimido, é suscetível de sofrer, contudo, certas transformações e atenuações. “Tudo o que podemos esperar é sublimá-lo”, diz Stanley Hall (73) [231] No caso da pulsão sexual, há um elemento que tem condições de desencadear um reflexo condicionado inibitivo, proveniente do interior, do segundo sistema de sinalização: é a reação que, em termos de introspecção, se designa como pudor. No domínio da pulsão agressiva, diz Bovet, (19), [232] nada existe de comparável e que permitiria uma repressão, diríamos, todavia, que, talvez um dia, com o advento do Homem Novo em um Mundo transformado, um equivalente do sentimento do pudor poderia surgir também na esfera da pulsão combativa, uma espécie de pudor altruísta“. Na velha civilização chinesa, por exemplo, a sociedade política não só conseguira canalizar o instinto combativo, mas, já entrevira a possibilidade de o sublimar totalmente: a profissão militar era considerada como a mais baixa e digna de ser repudiada.

As transformações ou alterações capazes de afetar a pulsão combativa podem apresentar as características de desvio, de objetivação, de subjetivação, de platonização e de sublimação. A noção de desvio é nítida nos casos dos casais sem filhos, que os substituem por cães ou gatos de estimação: a pulsão paternal é desviada, no caso. Para a pulsão combativa, há o desvio sob a forma de esportes de combate: natação, alpinismo, corridas a pé, futebol. Nos casos de esgrima, boxe e luta é preferível falar, antes, de canalização do instinto. Bovet (19) indica como forma de desvio do instinto combativo, particularmente engenhosa e fecunda, do ponto de vista social, a que substitui a luta pela competição. Continua a existir um adversário, a empregar-se a mesma energia, mas esta não se utiliza, de fato, contra o concorrente. Assim, todo o treinamento a que a luta visava é conservado, a competição continua a indicar os mais fortes à atenção dos espectadores, mas, a sociedade eliminou os efeitos perniciosos. Além disso, a competição alarga o campo da combatividade. É possível disputar o recorde dos ausentes e, sobretudo, concorrer consigo mesmo, ultrapassar-se e vencer-se.

Na objetivação da pulsão combativa, o homem, em vez de se lançar à luta, satisfaz-se olhando-a. Nos soldados de chumbo tem-se, também, a objetivação. Do mesmo gênero é o prazer que experimentam tantas pessoas em escrever, em ler, em ouvir contar histórias de batalhas, de aventuras de exploradores ou de índios, da literatura de crimes, de romances fantásticos como os de H. G. Wells ou de Júlio Verne. Também assistir às corridas, às lutas de boxe; no tempo de Roma, às lutas de gladiadores; atualmente, às corridas.

A subjetivação – é o prazer de receber golpes sem risco de ver alguém sofrer. Adler (3a.) põe a conversão do instinto combativo que toma por objeto a própria pessoa, entre os efeitos do recalque. Cita [233] a humildade, a submissão e o devotamento, a subordinação voluntária, a flagelação e o masoquismo como resultantes desse fenômeno. “A saída extrema dessa conversão do instinto é o suicídio”.

Platonização – termo criado por Bovet (19) para designar, por alusão ao amor platônico, a situação em que a luta empreendida contra um adversário nada tem de comum nas suas manifestações exteriores, com a batalha, na qual vai buscar suas metáforas. Na luta platônica são os fins meramente intelectuais que tomam todo lugar. O símbolo dessa etapa, na evolução da pulsão combativa, é o jogo de xadrez.

Enfim, na sublimação temos uma noção que implica, excetuada a transformação do instinto, uma apreciação moral, isto é, a adaptação do indivíduo ao mundo e à sociedade: é, por seus frutos, julgados quanto a seu valor social, que se reconhece a sublimação. Secrétan [234] já distinguiu três etapas na evolução do instinto sexual (amor, segundo ele) que se pode aplicar às etapas de sublimação de qualquer pulsão e, no nosso caso, à combativa:

1° – o domínio da pulsão primitiva e egoísta;

2° – a forma complexa e aureolada de preocupações altruístas;

3° – a forma platonizada, em que nada subsiste dos gestos materiais da primeira pulsão animal, mas, que os relembra, ainda, pelas ressonâncias orgânicas que a língua adivinha e exprime em suas metáforas.

No caso da pulsão combativa, há a primeira etapa que é a luta egoísta pela vida, englobando, também, a luta pelos meios de vida. Em seguida, vêm as mesmas lutas, mais altruístas, pela vida, saúde e prosperidade dos outros: da família, da cidade, da pátria, da humanidade. Enfim, as de ordem social por finalidades morais, isto é, as aquisições sublimes da cultura humana: beleza, verdade, justiça, liberdade.

Na vida individual, pode-se ver, às vezes, realizadas essas etapas: assim, Bovet (19) relata os episódios da vida de Santo Inácio de Loiola e, também, de Josephine Butler que empreendeu, no fim do século passado, uma luta épica, verdadeira cruzada, para a abolição da polícia de costumes e da prostituição regulamentada.

Recapitulemos, uma vez mais, para melhor fixá-las, as três etapas da sublimação do instinto combativo, sob o aspecto social:

1° – No passado remoto, tribos combatiam entre si movidas pela pulsão pura dos seus movimentos, pelo prazer de combater;

2° – Atualmente, os cidadãos também combatem, mas, põem ou acreditam pôr a brutalidade de seus atos a serviço de uma idéia: a pátria, a liberdade, o direito, a paz futura;

3° – A terceira fase, a que consistiria em fazer consumir toda sua combatividade instintiva num grande esforço humanitário coletivo, não foi ainda alcançada pela humanidade.

As reações biológicas que se observam numa luta, ressaltam sobretudo nas contrações musculares mais ou menos violentas, dirigidas por uma atividade do sistema nervoso; na luta encarada como fenômeno biológico, pode-se distinguir a forma agressiva e a defensiva. Na primeira, o indivíduo procura dominar, destruir outro, exercer a violência, de qualquer forma contra o adversário; na forma defensiva é o atacado que procura livrar-se da violência. O protótipo de toda violência é, naturalmente, a violência corporal que a vítima percebe pela sensação de dor que experimentam as partes de seu corpo machucadas pelos golpes desferidos pelo adversário. A dor é, então, um mecanismo de alarme de que cada indivíduo está provido. Desde as pesquisas de Goldscheider e de von Frey, sabe-se que receptores especiais, pontos de dor, existem na pele e, assim, a possibilidade da existência de um reflexo inato, desencadeado pelo processo nervoso que responde à sensação de dor e provoca contrações musculares, torna-se muito provável. Esse reflexo inato, na base da pulsão primordial de defesa, seria a trama biológica do primeiro sistema de que tratamos aqui.

Associado a outras excitações, sobretudo visuais, mas, também sonoras ou táteis, o reflexo toma uma forma que se traduz em palavras pela expressão de ameaça. Em primeiro lugar, a ameaça torna-se eficaz, isto é, apta a substituir a própria dor e a desencadear a reação ao pasmo, paralisia – se essas excitações suplementares podem evocar, facilmente, na vítima, sensações, ou melhor, processos nervosos equivalentes; isto é, se elas se compõem de elementos semelhantes, pelo menos em parte, aos originários do reflexo da dor. Por exemplo, se o agressor faz o mesmo gesto ou emite o mesmo grito ou toma uma atitude que teria empregado quando de um ataque real. A ameaça torna-se, nesse caso, eficaz: desencadeia a reação necessária ao agressor. É a forma mais simples, mais primitiva de uma violência psíquica. Mas, vimos, no capítulo sobre os reflexos condicionados, que é possível enxertar, sobre um dado reflexo, outro de grau superior. Torna-se, então, compreensível, que qualquer sinal ou excitante, agindo sobre os sentidos, possa fazer-se fator condicionante, desencadeando uma reação propícia ao agressor: uma palavra, uma imagem gráfica, por exemplo, um símbolo geométrico como a cruz gamada, uma melodia, um som qualquer, sobretudo se tem uma certa intensidade; um gesto, um movimento, como a saudação romana etc. É, precisamente, nesse mecanismo tão simples que se fundavam todas as práticas propagandísticas do fascismo hitlerista e mussolínico: ameaçar por meio de símbolos.

Falamos, pouco antes, da forma mais primitiva de ameaça; encontra-se esse princípio realizado bem claramente na observação das atitudes de certos animais: os fenômenos a elas relacionados são conhecidos em biologia sob o nome de fascinação e de mimetismo de terrificação. No primeiro caso, o agressor toma uma forma ou uma atitude que amedronta a vítima pela subitaneidade do aparecimento de certos caracteres, pelas suas dimensões ou pelo brilho de suas cores etc. e que causam, no animal atacado, uma espécie de amortecimento motor: ele é paralisado, perde a faculdade de fugir ou de se defender e torna-se uma presa fácil para o atacante. Esse fato tem sido observado, por exemplo, em certas serpentes: aparecendo, repentinamente, diante de um pássaro, fascinam-no a tal ponto que seus reflexos de fuga se inibem e ele chega a jogar-se na boca do réptil.

Da mesma forma, um inseto ortóptero, o louva-a-deus, separando as extremidades anteriores, toma uma aparência espectral e por sua bizarra forma e sua atitude rígida, fascina os pequenos animais atacados. Esses fatos são igualmente designados, em biologia, sob o nome de mimetismo ofensivo, indicando que sua função é a de surpreender a presa. Em contrapartida, conhece-se o mimetismo defensivo, por meio do qual a vítima tenta se furtar à visão do agressor – é o mimetismo de dissimulação; mas, ainda existe uma outra atitude não menos importante que permite à vítima tomar aparência de um animal perigoso aos olhos do atacante, procurando espantá-lo por um aspecto enganador: é o caso do mimetismo de terrificação. Nesse caso, é a vítima que exerce sobre o agressor uma espécie de violência psíquica, ameaça-o pela simples exibição de um sinal que lembra o verdadeiro perigo. Cuénot (34) cita o seguinte caso:

A lagarta da Choerocampa elpenor (uma borboleta) apresenta, em dois de seus segmentos, duas manchas oculiformes circuladas de negro; inquietada, ela retrai seus anéis anteriores; o quarto aumenta consideravelmente; o efeito obtido seria uma cabeça de serpente capaz de iludir os lagartos e os pequenos pássaros, amedrontados por essa súbita aparição. Um outro caso é o da borboleta Smerinthus ocellata que, “em repouso, esconde as asas inferiores, como todos os Sphinx, mas, se está em perigo, descobre-as, bruscamente, com seus dois grandes olhos azuis sobre fundo vermelho que espantam rapidamente o agressor. Esse gesto é acompanhado de uma espécie de transe. Quando descansa, o animal assemelha-se a folhas finas, ressequidas. Perturbado, agarra-se ao seu suporte, desdobra as antenas, enche o tórax, encolhe a cabeça, exagera a curva do abdome, enquanto todo seu corpo vibra e estremece. Passado o acesso, volta, lentamente, à imobilidade. Experiências de Standfuss mostraram a eficácia desse comportamento: pequenos pássaros, o melharuco, o pintarroxo, o rouxinol comum, ficam amedrontados. A borboleta, com asas distendidas, parece, com efeito, a cabeça de um enorme pássaro de presa”.

Caillois (23) cita, ainda, um exemplo desse gênero, o da borboleta Caligo, das florestas do Brasil, que Vignon assim descreve:

Há uma mancha brilhante, rodeada de um círculo palpebral, depois de fileiras circulares e imbricadas de pequenas plumas radiais matizadas, imitando, com perfeição, a plumagem de uma coruja, enquanto o corpo da borboleta corresponde ao bico do mesmo pássaro. A semelhança é tão surpreendente que os indígenas do Brasil pregam-na à porta de suas cabanas, em vez e no lugar do animal que ela imita. Certos pássaros geralmente amedrontados pelos ocelos da Caligo, devoram-na, sem hesitação, se suas asas são recortadas, como fez Fassl.

Os exemplos citados mostram reflexos tornados estáveis, absolutos, hereditários, pois, essas transformações terrificantes são automáticas. Existem, também, reflexos cutâneos dessa espécie [235] um gato, diante de um cão, eriça seus pelos, de modo que, sentindo-se ameaçado, torna-se ameaçador. Le Dantec explica, desse modo, no homem, o fenômeno conhecido sob o nome de arrepio que sobrevem, notadamente, em casos de grande pavor.

Reforçando esses exemplos extraídos da biologia, abordamos o problema do medo que, na vida das coletividades humanas, é um fator que precisa ser levado em consideração, mormente a propósito do comportamento no domínio político, orientado, como se sabe, para a luta. A emoção do medo, suscetível de ser muito bem definida do ponto de vista fisiológico, cujos caracteres podem ser objetivamente registrados e desencadeados à vontade, é um elemento necessário da luta e sobretudo da ameaça – Esta procura provocar o estado de medo, para inibir toda veleidade de resistência a quem ameaça. O medo está, portanto, estreitamente ligado às manifestações do instinto n° 1 ou combativo. Tem sido, desde muito tempo, objeto de estudos de fisiologistas e psicólogos. Uma de suas mais importantes características está no fato de que vem acompanhado de acentuadas perturbações fisiológicas: as batidas do coração tornam-se, geralmente, mais freqüentes, todo o corpo treme em virtude das contrações musculares, a garganta resseca-se e fecha-se e os membros, sobretudo os inferiores, ficam como paralisados: perturbações do sistema vasomotor manifestam-se na palidez que invade a face, as vísceras contraem-se e defecações ou perda de urina involuntárias podem seguir-se. A violência dessas manifestações fisiológicas prova que a reação do medo deve estar profundamente enraizada nos organismos e provir de um instinto extremamente poderoso. Isto é corroborado, ainda, pelo fato de que se observam, nos animais, formas de medo que devem ser inatas: pintos recém-nascidos, por exemplo, manifestam sintomas de medo se são colocados diante de um falcão. [236] Um pequeno cão, nascido nas ilhas Canárias, onde jamais teve ocasião de encontrar feras, trazido ao continente e passando atrás das barracas de uma coleção de animais, ao simples cheiro das feras, põe-se a tremer e apresenta todos os sintomas do medo.

Existe um medo passivo e outro ativo: os fenômenos que caracterizam o primeiro são os da inibição que chegam até à paralisia. No segundo, um reflexo motor associa-se a ele: o da fuga. A atividade motora pode, nesse caso, atingir um tal grau de intensidade e a excitação, tamanha duração que, como diz Mac Dougall, [237] as vísceras não têm condições de suportá-los e observa-se um desgaste do organismo capaz de levar até à morte. Quando o medo ativo é intenso, evidenciam-se, também, certos fenômenos fisiológicos, como no medo passivo, isto é, um estado de estupidez e perda de sensibilidade: além disso sobrevêm fenômenos de perturbação verbal ou motora, a pessoa faz movimentos desnorteados e, às vezes, tão pouco refletidos que podem acarretar sua perda.

Os efeitos do medo são muito grandes se o homem tem fome, se tem sede, se está doente ou fatigado, se já está deprimido por uma emoção anterior, o que explica que o resultado de uma propaganda, utilizando o medo como base de sua ação, tem sempre ascendência mais fácil sobre os que se encontram em precária situação econômica, esgotados ou amedrontados por outras influências. [238]

Para combater o medo o melhor meio (como decorre, aliás, da teoria dos reflexos condicionados) é inibi-lo, seja por uma nova excitação brusca (inibição interna) ou por uma inibição interna condicionada que corresponde ao que a psicologia introspectiva denomina esforço de vontade. A instrução militar, por exemplo, visa a substituir os reflexos defensivos, sobretudo o da fuga, por um automatismo criado pelo hábito, capaz de fazer executar, exatamente, os gestos e movimentos necessários ao combate. Conhece-se, também, o fato de continuarem os artilheiros, geralmente, a alimentar suas peças, sob o fogo, impassivelmente: é porque esse trabalho exige uma grande atividade física e esforços musculares. A atenção do artilheiro encontra-se, assim, absorvida e esquece o perigo. O medo aumenta na inatividade. Sabe-se, igualmente, que os soldados amedrontados, atirando, às vezes, sem cessar, às cegas, recobram, aos poucos, um estado de espírito mais calmo.

Como causas determinantes do estado de medo, indicaram-se, também, fenômenos ou excitações muito violentas, notadamente sonoras. Todos ainda se recordam da angústia que estreitava os corações por ocasião dos raids de aviões sobre Paris, durante a Segunda Guerra mundial, quando, sobretudo à noite, as sirenas começavam a tocar. Podiam-se observar, então, nos abrigos subterrâneos, todas as formas de estados d'alma, indo do medo animal à coragem, assim como claros sintomas de inibições e desinibições. E, naqueles dias, um toque súbito de sirena, em alguma fábrica ou uma buzina semelhante, causava um estado de inquietação instintiva altamente desagradável.

O desconhecido engendra, igualmente, o medo; a surpresa, o isolamento, o silêncio e a escuridão são também fatores que agravam este estado. [239] Mas, de acordo com G. Dumas, (50) é, sobretudo, um estado de tensão que determina o aparecimento do medo, a espera de uma sensação ou de uma emoção extraordinárias, de um abalo físico ou moral, de um choque nervoso. O pior infortúnio é mais tolerável do que a angústia prolongada. Se, ao contrário, a um moribundo angustiado, (em conseqüência de um recalque), e que não pode mais pensar no perigo, explica-se a proximidade da morte, disso resulta um incomparável alívio. [240]

Uma angústia desse tipo, bem conhecida, é o receio do orador antes do discurso ou o do ator nos momentos que precedem seu aparecimento em cena: esse estado cessa, geralmente, quando a ação começa. Na espera de um perigo, um nervosismo, um medo, apodera-se freqüentemente da pessoa que, na ocasião do perigo real, se recobra – é a inibição que atua nesse caso; mas, uma vez passado o perigo, vê-se alguns começarem a tremer e a ficar dominados por um medo intenso: uma desinibição se manifesta, então. Esse fenômeno e sua forma coletiva foram muito bem observados quando dos trágicos acontecimentos de setembro de 1938: o nervosismo, o medo, tinham invadido quase todo o mundo nos dias das conferências de Berchtesgaden e Godesberg: era a fase de intensa agitação; a 24 de setembro, quando a mobilização parcial foi decretada, uma calma impressionante, um sangue frio que causava admiração em toda a Europa, expandiu-se pela França: os mobilizados e os demais tornaram-se calmos, resignados, prontos a enfrentar o pior com coragem viril; era a fase da inibição do medo. Enfim, a 28 de setembro, às 16 horas, ao anunciar-se a conferência de Munich, uma vaga de emoção abalou o país, onde, de repente, uma violenta crise psicológica coletiva se espalhou com a rapidez do raio: foi, somente, então, que se observaram verdadeiras reações de medo – era a fase da desinibição.

O medo pode tomar o aspecto do pânico onde há uma multidão. Reações de medo coletivo cego, provocam fugas desvairadas e levam à perda da faculdade de resistência a um perigo mortal: produzem-se nos rebanhos de ovelhas, de bovinos, de elefantes etc. É fácil observar, ao microscópio, fenômenos análogos, nos agrupamentos de infusórios (Paramecium caudatum) que podem até ser filmados. [241] Segundo Brinknian, [242] um verdadeiro pânico produz-se, apenas, nos animais domésticos. Diz ele: “O animal doméstico goza de todas as vantagens que lhe proporciona uma existência em segurança – Mas, se as garantias dessa segurança, criadas pelo homem, desmoronam, repentinamente, o animal doméstico se sente, subitamente, numa situação de pânico que ele não pode dominar, como é o caso do próprio homem domesticado com sua existência assegurada”. O pânico pode transmitir-se, por imitação, do homem aos animais superiores e vice-versa, entre os primitivos. Assim, Alverdes (7) [243] cita um caso interessante, observado por Schillings: um velho macaco estava acorrentado em frente a um forte na África oriental. Como o rumor de um ataque súbito das tribos indígenas se espalhou entre os negros e toda a população se arrojou, em pânico, para o interior do forte, ele desprendeu-se da corrente e fugiu juntamente com a multidão.

E o mesmo fato pode ser visto numa aglomeração humana. Já falamos da grande catástrofe de Khodynka, em Moscou, durante as festas da coroação de Nicolau II, em 1894. Loucuras dessa espécie manifestam-se, freqüentemente, por ocasião dos cataclismas naturais: tremores de terra, incêndios, naufrágios; e sobretudo nos campos de batalha. Anotaram-se nada menos de trezentos casos de pânico durante os 24 anos de guerra que se estenderam de 1792 a 1815. [244] Nesses casos, basta que alguém dê um grito: “Estamos perdidos! Salve-se quem puder!” e faça meia volta; seu grito, seu movimento são imediatamente imitados e a tropa debanda, tornando-se impossível reuni-la. O pânico só cessa pelo esgotamento total das forças físicas dos que se deixaram arrastar.

Um exemplo recente de pânico foi dado pelo êxodo da população de Paris quando os exércitos de Hitler se aproximavam da capital em 1940. Tratava-se de um pânico de massas antes que de multidão. Essa perturbação foi criada pela ausência de propaganda que teria podido conter essa reação coletiva, irrefletida, nefasta e inteiramente em contradição com o caráter francês contemporâneo.

Na Revolução francesa houve toda uma fase, em 1789, conhecida como período de O grande medo nos campos. O historiador[245] conta que notícias, as mais inacreditáveis, circulavam no interior e que a credulidade causava pânico. “Assim espalhou-se o boato de que bandidos armados chegavam, pilhando tudo, incendiando casas; alguém os avistara, eles iam chegar. Uma nuvem de poeira, levantada na estrada pelo correio etc., fazia acreditar nos bandidos. Logo o sino tocava alarme, as crianças, as mulheres fugiam, apavoradas, os homens se armavam...

Um pânico, em escala universal, apoderou-se do mundo inteiro, no outono de 1938, durante a crise de Munich, quando a guerra parecia iminente.

Um caso de verdadeiro pânico que pôde ser estudado e analisado, em seguida, por uma instituição científica nos Estados Unidos, [246] teve destaque na crônica dos jornais, há anos, causando estupefação no mundo inteiro, ante conseqüências tão manifestas do desequilíbrio psíquico das massas americanas, provocado certamente, pela mecanização febril que caracteriza, cada vez mais, a grande República norte-americana. Esse caso é conhecido como a invasão dos marcianos. A 30 de outubro de 1938, a estação da Columbia Broadcasting System difundia um sketch de rádio, extraído de um conhecido e fantástico romance de H. G. Wells, A Guerra dos Mundos e representado pela companhia do célebre ator americano Orson Welles. Essa audição provocou estranhas cenas de emoção que se traduziam por atos irrefletidos de um grande número de ouvintes desprevenidos.

Clyde Miller (105) [247] cita o seguinte trecho de Hadley Cantril (24):

“Mesmo antes de finda a emissão, pôde-se ver, em toda a extensão dos Estados Unidos, pessoas rogando a Deus, a vociferar, a fugir desvairadamente para escapar à morte pelos marcianos. Uns precipitavam-se para arrancar seus parentes do suposto perigo; outros transmitiam, pelo telefone, suas despedidas ou avisos às pessoas queridas, apressavam-se em informar os vizinhos, ainda outros procuravam obter informações mais precisas das redações dos jornais ou de emissoras radiofônicas ou chamavam ambulâncias e carros da policia.”

Calculou-se o número de ouvintes entre 6 a 12 milhões, dos quais dois milhões aproximadamente tomaram os fatos por verdadeiros. Mais de 70% foram presa de emoção – A investigação posterior mostrou que, entre estes, 28% eram de pessoas que tinham tido uma educação superior (!), 36%, secundária e, 46% elementar. O contágio propagou-se, na persuasão de que todo o mundo tinha a mesma opinião. Os economicamente mais fracos, como os desempregados, deram um maior contingente de crédulos e amedrontados. O sentimento de insegurança geral, causado pela apreensão difundida de uma guerra iminente, aumentava a disposição de acreditar em toda espécie de perigo.

Foi possível constatar que a sugestionabilidade dependia de muitas condições psicológicas, de que a mais importante era a associação preexistente entre a excitação estimulante e as normas de julgamento firmada no psiquismo dos indivíduos; em nossas palavras, seria a facilitação para engramas conservados no segundo sistema de sinalização, de irromper na esfera consciente, de tornar-se refenações, reflexos condicionados, reaparecendo na superfície: assim, pessoas com mentalidade religiosa viram, imediatamente, o dedo do Senhor na suposta invasão dos marcianos.

A multidão é tomada de pânico quando verifica que um valor considerado seguro e imutável, se revela bruscamente ameaçado e não pode entrever, de pronto, como afastar o perigo. Cantril tira do seu estudo a seguinte conclusão: o melhor meio de prevenir contra o pânico estaria na educação.

O contágio recíproco no pânico que, segundo Freud, pode, por uma espécie de indução psíquica, crescer e assumir proporções colossais é, antes de tudo, a resultante de duas condições: que o perigo seja realmente muito grande e que as ligações, entre os presentes, sejam mínimas: assim, no caso de incêndio em um teatro. O aumento da emoção impede toda observação razoável e toda reflexão.

O pânico invade também uma multidão, se ela perde seu líder: ela desloca-se, nesse caso. Observa-se esse fenômeno nos animais. Um medo coletivo apodera-se do cortiço com a perda da rainha: traduz-se por formas típicas de inquietação. Um medo pânico atinge as pessoas por ocasião de um tremor de terra; é nesse caso, extremamente intensa pelo fato de a noção da casa, do refúgio, estar fixada, no subconsciente, como a própria segurança; a habitação representa, de uma certa forma, um líder secundário, um elemento de garantia indiscutível da existência; desaparecendo, inopinadamente, falta esse elo e o estado de completa desorientação, de pânico, aparece. Mas, não é apenas a multidão que está sujeita ao pânico; a massa, a multidão difusa, também, no caso do desaparecimento do líder, do chefe do partido, do governo, de um herói nacional etc. Esses casos mostram até que pouco a massa, mesmo organizada, pode conservar traços de uma multidão primitiva.

Baschwitz [248] formulou a noção do pânico mudo, caracterizada. sobretudo, na massa. Essa forma de pânico é causada pela dominação do terror através de uma excessiva influência de pequenas elites resolutas e sem escrúpulo. Nessas condições, vê-se cortes de justiça, conselhos municipais, assembléias tomarem decisões de qualquer importância e até de caráter ignóbil, sugeridas por algum arrivista, por baixa complacência com os poderosos do dia. Tem sido observada, freqüentemente, nos países totalitários. É por medo que os homens marcham, às vezes, com a multidão; tomam a cor moral de seu ambiente, para evitar injúrias e golpes.

O behaviorista Allport (6) [249] nega a imitação no pânico; a imitação, segundo ele, não atua senão onde há um interesse pessoal. Diz: “Um jovem tira seu chapéu diante das damas, não porque veja que os outros o fazem, mas, para aparecer como tendo recebido uma boa educação ou para causar uma impressão agradável à mulher que lhe interessa”. Allport explica o contágio no pânico pelo fato de vermos aparecer, nos outros indivíduos, na multidão, sinais corporais de emoção (expressões do rosto, gritos etc.) porque os conhecemos através de uma experiência pessoal anterior, em nós próprios, como índices de uma sensação de medo. R. Brun, [250] baseando-se na psicologia do medo, explica seu aparecimento por via hormonal: Cannon demonstrou que, nesse caso, há derramamento maciço de adrenalina no sangue pela ação reflexa do sistema nervoso simpático – Isso provoca um estado de aumento de acuidade de todos os órgãos dos sentidos, da motilidade do sistema nervoso reflexo, assim como o desaparecimento dos sintomas de fadiga; esses fatos criam um estado favorável à defesa contra o perigo, seja pela fuga, seja pelo ataque.

Um estado de pânico pode ser dominado, na multidão, por uma excitação vinda de fora, baseada também na pulsão n° 1, porém, ainda mais intensa.

No fenômeno do pânico conhecemos já fatos característicos, próprios, notadamente, de aglomerações humanas sob forma de multidão. Passamos, agora, aos casos de arrebatamentos gregários provocados propositadamente – Foram descritos e analisados por De Felice (37) em um livro notável pela riqueza dos exemplos relatados.

São observados, sob forma pura, principalmente nas tribos e bandos não civilizados da África, Austrália e Polinésia, mas, às vezes, também, nas populações de países altamente civilizados. As conseqüências desses arrebatamentos gregários manifestam-se sob forma de angústias e obsessões, de automatismo e dissociação mental, de crises histéricas, delírios de possessão, de monomanias depressivas, de loucura furiosa e mortífera. Nesses estágios sociais, os fenômenos psicológicos inerentes a cada multidão e tendo por base a pulsão agressiva, são exacerbados até apresentar todas as características dos estados mórbidos que levam ao deslocamento e à perda das coletividades atingidas. Esses arrebatamentos são freqüentemente associados a festas religiosas e começam pela execução de certos ritos, em que o simbolismo desempenha um papel significativo. Assim, na Nova Caledônia, os Canaques, que são uns dos mais antigos representantes da humanidade, mais primitivos que os australianos e, segundo parece, até o Neandertaliano celebram a festa noturna do pilou [251] a massa reúne-se em torno de um mastro, roda sempre no mesmo sentido, provocando a vertigem e canta uma melopéia gutural monótona; rodando, proferem palavras mágicas cuja repetição produz uma espécie de embriaguez. O pilou pode terminar em batalha sangrenta e em desvairada fuga. Na cerimônia em honra à serpente mítica Wollunqua, na Austrália Central, a festa da noite, acompanhada da violação das restrições sexuais, no meio de fogos, acaba por um frenesi coletivo e furor destrutivo. Os primitivos sentem emoções de uma violência incoercível em presença da morte, da penúria ou de uma epidemia – Assim, na Austrália, [252] a morte de um feiticeiro, que é o líder da tribo, desencadeia um estado de arrebatamento gregário em que uma extrema agitação acompanhada de choro e lamentações de toda a tribo, degenera em acesso de frenesi, durante os quais se cortam, se ferem, se mutilam.

Na tromba em Madagascar, [253] a música tem função excitante: rufar de tambores e batidas de mão. Observam-se perturbações de dança de São Guido que, quase sempre, degeneram em furiosa agitação e corridas alucinadas. A massa grita vocábulos bizarros, sem nenhum sentido, fenômeno da glossolalia que caracteriza freqüentemente os arrebatamentos gregários, mesmo na Europa. Na festa de que falamos, “o espetáculo de torturas infligidas aos bois sacrificados, cuja cernelha é serrada com velhas lanças estragadas e enferrujadas, a visão de sangue que corre e que se bebe, causa nos espectadores um choque emocional” – Na Insulândia, em Java, conhecem-se os acessos de demência mortífera – o amok – quando um homem, depois de um período de depressão, sai de sua casa e corre pelas ruas, apunhalando, ao acaso, as pessoas que encontra.

De Felice (37) afirma que um choque emotivo violento, sentido, simultaneamente, pelos membros de um grupo qualquer, submetidos à influência da mesma sugestão, basta para determinar neles um frenesi sanguinário, que se caracteriza, muitas vezes, por uma libertinagem sexual e uma raiva destruidora – Esse fenômeno atingiu, na Pérsia, uma excepcional amplitude, no Dia do Sangue, em Teerã [254] durante o qual centenas de milhares de homens, tomados de loucura coletiva, desfilam nas ruas, em procissão frenética, em que fanáticos se mutilam, banhando-se no sangue que jorra. Até crianças mutilam-se e seus pais as contemplam com alegria, encorajam-nas – Isso lembra o dies sanguinis nos cultos da Ásia Menor, na Antiguidade. No Dahomey, um luto provoca, nos parentes do defunto, um furor de destruição, as mulheres do morto se entrematam e destroem tudo; nesses lutos sangrentos, contam-se, às vezes, vítimas às centenas.

Todas essas desordens psíquicas são sintomáticas da estranha vertigem que resulta, para os homens e os povos, das loucuras coletivas em que são mergulhados.

Entre os fenômenos típicos que caracterizam esses arrebatamentos pôde-se observar reações motoras sob forma de epidemias dançantes: nesses casos, os indivíduos atingidos por uma excitação musical, ritmada, sobretudo o som do tambor, são incapazes de se dominar e executam movimentos bruscos, saltos, pulos. Era o caso do Tarantismo, nos meados do século XV, na Itália: a música impelia os obsedados a dançar até o completo esgotamento; o mesmo fato é conhecido nos acrobatas sagrados, na Abissínia, no Egito, na seita Jumpers, [255] na Inglaterra e nos Estados Unidos, no fim do século XVIII. Nesse frenesi gregário, os obsecados nus, jogavam-se n'água, corriam, uivando, rolavam na terra. Essas epidemias de danças, conhecidas como de São João ou de São Guido, eram bastante difundidas na Alemanha, na Idade Média: [256] a visão de objetos e vestimentas vermelhas redobravam sua excitação; esgotados, rolavam no solo, espumando – Essa efervescência popular com dança de São Guido coincidia, como sempre, na Alemanha, com medidas de violência dirigidas contra os judeus – No fim do século XVII, na Dauphine, na Vivarais e nas Cévennes uma epidemia de inspiração manifestou-se e foi perseguida: os obsedados marchavam inermes aos gritos de Tartara! e outras vociferações da glossolalia contra os soldados que os massacravam. Os acessos dessa inspiração eram precedidos de perturbações de funções orgânicas, como espasmos do diafragma, opressão, movimentos convulsivos, tremores nervosos, quedas de costas, uma sonolência incoercível etc. – Era um desencadeamento automático de um mecanismo cerebral, favorecidos por jejuns prolongados e astenia nervosa, resultante da vida anormal imposta pelas circunstâncias.

Na vida religiosa do Islão, conhece-se o caso de monges mendigos (dervixes), [257] que provocam êxtases coletivos através de práticas físicas e mentais apropriadas, precedidas de jejuns e mortificações da carne: sentados em círculo, pernas cruzadas, balançam-se ao ruído monótono dos tamborins e ao som lancinante das flautas, repetindo as mesmas notas arrastadas; tomam haxixe ou cânhamo da Índia e bradam fórmulas sagradas, repetidas milhares de vezes; uns (dervixes gritadores) acabam precipitando-se, em um acesso de frenesi, sobre as serpentes, os braseiros, as adagas etc., lambem, mordem, caem, com a boca espumante; outros (derviches rodopiantes) dançam em volta, giram, têm convulsões frenéticas e caem exaustos, em total inconsciência – No Oriente e entre os derviches negros do Saara, observa-se, nesses estados, uma insensibilidade surpreendente à dor e a faculdade de controlar certos automatismos fisiológicos: assim, furam sua carne com punhais sem que o sangue corra dos ferimentos.

Há arrebatamentos gregários em que a todas essas práticas se junta, ainda, a flagelação: assim, na Europa, na Idade Média, a seita dos Flageladores era bastante difundida: executavam movimentos bruscos, chicoteando-se e entregando-se a excessos eróticos. Entre esses, os mais conhecidos são os Khlystes [258] (chicotes) ou Skakounes (acrobatas) na Rússia, no século XVII e até fins do XIX. Em suas reuniões clandestinas, entregavam-se à embriaguez divina, tremendo convulsivamente, tagarelando, rindo, chorando, uivando; latiam, relinchavam, ganiam, açoitavam-se e terminavam por rolar na terra e, na escuridão, entregavam-se à união sexual (svalny grekh – pecado em comum) – Apresentavam uma extraordinária resistência com relação ao frio. Os êxtases coletivos reduziam-nos a um estado de passividade absoluta, ante seus chefes. Perseguidos, trancavam-se em suas capelas e cometiam o suicídio coletivo pelo fogo: durante um século verificaram-se cento e dezessete casos – “Uma seita similar, os Skopzy (castrados) persistiu até nossos dias: emasculavam-se deliberadamente. As coincidências que se observam entre os Khlystes, os Skopzes e certas práticas de arrebatamentos gregários nos antigos cultos orientais são devidas ao emprego de processos idênticos de excitação que conduzem, infalivelmente, aos mesmos resultados. “E o embrutecimento final dos estados de multidão, a supressão de todas as condições normais que permitem a conservação e a propagação da vida individual e social [259]”.

Já mencionamos a glossolalia que se encontra, freqüentemente, nos estados de arrebatamento gregários. São emissões de sons (murmúrios, grunhidos, gemidos), despidos de todo sentido, que parecem vagidos de recém-nascidos ou mesmo gritos inarticulados de animais ou lembram balbucios de crianças ou cantilenas:

“Am atram gram,
piké piké kolegram
bouré bouré ratatam
am stram gram”.

ou, ainda, articulações verbais mais fixadas, tendo alguma analogia com as gírias infantis em uso nas escolas.

“São perturbações dos centros verbomotores, no sentido da criação dos automatismos sensoriais e motores – Tendem a suprimir a consciência de si e mergulham o indivíduo num estado vizinho da hipnose e o abandonam a todos os automatismos” [260].

A todos esses fatos associam-se outros, como os fenômenos de possessão que são, na realidade, crises histéricas e que deram lugar, no passado (Idade Média) e ainda, atualmente (na África e na Austrália), a práticas de exorcismo gregário que, naturalmente, não fazem senão agravar e mesmo provocar a possessão. [261] Esses acessos são devidos a uma sugestão coletiva que se impõe, irresistivelmente, a seres de menor resistência e que neles determina uma alteração funcional dos mecanismos da vida psíquica, acompanhados de desordens orgânicas mais ou menos graves ou mais ou menos prolongadas.

Nos arrebatamentos gregários, uma ação agradável, embriagadora, se exerce, quase sempre por uma música selvagem, puramente rítmica: adormece o cérebro dos ouvintes e sujeita seus corpos aos mesmos movimentos mecânicos. De Felice assinala a extraordinária fascinação que podem exercer, sobre os ouvintes, os versos de Ibn el Faridh, um poeta árabe. Fala de uma magia do verbo. Já vimos a enorme importância que têm, na filosofia dos reflexos condicionados, os engramas verbais, fixados no segundo sistema de sinalização de Pavlov. Talvez, como diz De Felice (37), é nesse domínio que conviria procurar o segredo da verdadeira poesia, que encanta a sensibilidade profunda do homem por processos que a razão é incapaz de explicar. Aliás, o verbo charmer deriva do substantivo latino carmen que significa, a princípio, beleza mágica, forma de encantamento e, em seguida, canto, versos, poemas.

Em geral, pode-se dizer que “os livros e os libelos desempenham um grande papel na preparação e desenvolvimento dos arrebatamentos gregários. Esses livros são inspirados pela paixão e chegam a assertivas tendenciosas e a invectivas virulentas que acabam exercendo, sobre os atores ingênuos, uma verdadeira sugestão. Se se misturam a essa prosa fórmulas sonoras, que se destacam facilmente e que se retêm sem esforço, as massas farão logo refrãos, cuja repetição incessante lhes fornecerá ritmos por meio dos quais se renovará sua inconsciência”.

As perseguições e a ilegalidade de uma minoria religiosa levam-na, muitas vezes, a uma violenta explosão de mística gregária, como foi o caso dos convulsionários no cemitério de Saint-Medard [262] no século XVIII, em que se desenrolaram cenas histéricas, a glossolalia e outras perturbações psicofisiológicas: alucinações visuais e auditivas, anestesias, imunidade relativa contra os cortes, as queimaduras e os choques traumáticos – A miserável situação, como conseqüência das perseguições etc. favorecia sempre a eclosão de perturbações nos arrebatamentos gregários.

A Igreja romana tem freqüentemente recolhido a herança de religiões que precederam o Cristianismo; nesses lugares, elaborou-se, pouco a pouco, uma verdadeira técnica de estados de multidão [263]. Os processos são eficazes nas manifestações solenes que aí se desenrolam. Observa-se o mesmo resultado nos ajuntamentos de peregrinos, como na liturgia de um culto que procura menos convencer que emocionar e que, por conseguinte, está mais apto que nenhum outro a provocar acessos de fervor coletivo.

O exemplo mais surpreendente dessas peregrinações é o de Lourdes. Citamos textualmente a passagem correspondente de Huysmans (79), referida por De Felice (37).

Uma singular mistura de transbordante alegria e de ansiedade reina entre os peregrinos. Sem dúvida, há muitos cujas disposições conviriam melhor a uma feira que a uma cerimônia sagrada. Muitos fazem essas peregrinações mais por divertimento do que por devoção. Pois, como diz Huysmans, “Lourdes é um imenso hospital Saint-Louis colocado numa gigantesca festa de Neuilly. É uma essência de horror derramada num tonel de grande alegria; é, ao mesmo tempo, doloroso, ridículo e grosseiro. Em nenhuma parte faz-se sentir uma humilhação de semelhante piedade, um fetichismo que vai até a posta-restante da Virgem; em nenhuma parte, o satanismo da fealdade se impôs mais veemente e mais cínico”. “É a concorrência desenfreada, a disputa à porta das lojas de toda a cidade; vai-se, vem-se, volta-se, em meio a esse brouhaha...” Todas essas mostras de objetos de piedade não deixam de exercer sobre os fiéis uma verdadeira fascinação que não escapou a nosso autor: “As lojas de objetos religiosos, escreve ele, hipnotizam as mulheres e torna-se necessário puxá-las pelo braço, empurrá-las para fazê-las avançar.” “Lourdes é o modelo da ignóbil vulgaridade da arte e única no seu gênero; para que nada falte à obra perversa que o Maligno ali exerce nas tardes de grandes festas, ilumina-se a fachada e o campanário da basílica com lâmpadas elétricas tricolores e desenha-se a curva do rosário, em terços de fogo que parecem um círculo de pães de mel, anisados de grãos róseos... Vive-se em um meio sem proporções...” Mas há, aqui, também, muitos daqueles que têm a face extasiada e que murmuram, maquinalmente, suas orações costumeiras. As ações misteriosas que se sucedem na sombra das capelas, as ladainhas infinitamente repetidas, as procissões, em que os olhares são fascinados pelas vestes dos oficiantes, pelos estandartes de cores brilhantes, pelas imagens cobertas de dourados, os cantos em que retornam os mesmos refrãos, as mesmas entonações, todo esse aparato destinado a criar nos assistentes, uma obsessão comum, todos esses ritos tão fortemente sugestivos que fixam a atenção sobre o conjunto de uma massa humana em ação, não provocam, desde logo, uma espécie de exaltação, um estado de sonho em que serão libertadas as forças inconscientes que englobam as pessoas num êxtase geral? Assim, o caminho estará aberto às alucinações e às visões, às anestesias e às curas súbitas, em que as crises nervosas de natureza hipnótica ocorrem geralmente. A freqüência e a intensidade desses fenômenos, nos adultos e mesmo nas crianças, serão tanto maiores quanto toda a multidão houver sido melhor orientada para suplicar a aparição com um ardor frenético. Quem poderia dizer, com efeito, onde esbarra o poder da sugestão que emana da fé de uma coletividade? Que se sabe das energias que ela é capaz de realizar no domínio material? O que se pode afirmar é que, já num passado muito anterior ao Cristianismo, essas peregrinações e essas influências tinham sido objeto de exploração, mais ou menos metódica, nos lugares em que, por uma razão qualquer, se supunha haver a intervenção da divindade.

Lourdes é um exemplo dos mais típicos nesse domínio: “Aqui reina a obsessão do milagre que caracteriza as multidões católicas. [264] Esses brados ininterruptos de Ave, esses redemoinhos da multidão que se tem constantemente sob os olhos, essa visão permanente de pessoas que sofrem e de pessoas que se regozijam, comem e bebem sobre a grama... O extremo das dores e alegrias é Lourdes”. Tudo o que se passa no resto do universo não tem aqui interesse. Somente Lourdes existe; os jornais não têm mais razão de ser, ninguém mais os compra; um único que se vende na Esplanada substitui a todos, o Journal de la Grotte; trata-se de saber quantos milagres ocorreram ontem e afora essa questão nada mais tem valor. Uma nota do Bureau de Verificações, inserida no próprio Jornal, previne o público que esses anúncios de cura são prematuros e não controlados; essas reservas não são admitidas por nenhum leitor.. – os padres são ainda mais exagerados que os outros ao pretenderem enxergar milagres por toda parte; vi alguns que se precipitavam sobre as mulheres que eram carregadas da clínica médica e que se supunham estivessem curadas para lhes fazer tocar seus terços e eram simples histéricas! “Como se entender com pessoas de semelhante mentalidade – rumores correm, saídos não se sabe de onde, de prodígios extraordinários que não se teve tempo de verificar, pois, ocorreram no momento em que as peregrinações partiam; os detalhes tornam-se cada vez mais desconcertantes, à medida que são narrados por novas bocas; a barreira de bom senso que a clínica se esforça em opor a essas divagações é rapidamente rompida; eis uma verdadeira debacle da razão.”

Huysmans cita os estranhos propósitos de um padre que mostram até onde pode ir essa exigência do sobrenatural: “Ele não dizia a Deus “eu desejaria”, dizia “eu quero”. “É preciso comandar o bom Deus, acrescentava. O milagre não é mais difícil de ser obtido por um cristão do que um prato de ervilhas na mercearia da esquina; basta pedir”

E Huysmans descreve a procissão do Santíssimo Sacramento que se realiza, grandiosa, no meio dessa obsessão do milagre... sem provocar nenhuma cura:

“Milhares de eclesiásticos, milhares de fiéis, uma vela na mão, estendem-se da gruta à Esplanada... em duas alas, precedidas da cruz, crianças do coro, suíços da basilica, de galões prateados sobre fundo azul. A procissão põe-se em movimento. Canta-se uma mistura de latim e de francês, uma miscelânea composta do Magnificat, alternando, versículo por versículo, com esta estrofe:

Virgem, nossa esperança,
Estende teus braços para nós,
Salva, salva a França,
Não a abandones!

Avançamos lentamente, como num profundo corredor de gente e quando, depois de haver ladeado o rio, desembocamos na Esplanada é a multidão feita um muro, um mar de cabeças que se agitam tão longe quanto possamos vê-las; a rampa, as escadas, o terraço acima do Rosário, as alas, o adro da basílica fervilham de gente... Começamos a contornar a cerca dos doentes e já o coração Se aperta. Ah! essas faces que se alternam de aflição e de esperança, faces desordenadas, naquele momento!”

“O Santíssimo Sacramento passa... E nada se move, as macas permanecem estendidas.

“Canta-se três vezes a estrofe Monstra te esse Matrem que a multidão repete em um imenso eco...

“E ainda nada se move...

“O padre acelera as invocações; a multidão as repete em um longo clamor:

“Senhor, fazei que eu veja!
Senhor, fazei que eu ouça!
Senhor, fazei que eu ande!”

“E entoa-se o Adoremus In aeternum – e ainda nada acontece.

“Com uma voz rouca que se exaspera, o pregador clama: “De joelhos, todos de braços em cruz!”

“E a multidão obedece; as orações descem, precipitam-se e nenhum doente se levanta!...

“O invocador continua sem se cansar:

“Senhor, dizei somente uma palavra e estarei curado!”

“Canta-se o Parce Domini, três vezes e, com um grito desesperado, o padre, braços para o céu, vocifera:

“Senhor, salvai-nos, perecemos!”

“e o grito, repetido por milhares de vozes, rola pelo vale!

“O Santíssimo Sacramento passa sempre e nada se manifesta

“O pregador enerva-se e grita:

“Vós sois o Cristo, o filho de Deus vivo!”

“E gasta o que lhe resta de forças, lançando o grande brado depois do qual, muitas vezes, os milagres ocorrem:

“Hosanah! Ao Filho de David!”

“A multidão, os braços em cruz, lança furiosamente ao céu esse clamor de triunfo; ela sente que faz a última tentativa.

“E o Santíssimo Sacramento continua sua marcha, indiferente, insensível. Estou desencorajado; não tenho mais vontade de rezar...”

J. K. Huysmans indigna-se. “Não restaria, diz ele, em matéria de divertimento para vadios, senão soltar um fogo de artifício na montanha do caminho da cruz e pouco faltou para que essa última afronta fosse cometida.” Queixa-se da obsedante inoportunidade dessas Ave Maria, dessas Laudate Mariam, desses “Queremos Deus que é nosso Pai”, desses “No céu, nós a veremos um dia“, gritados a plenos pulmões em melodias vulgares, com acompanhamento de fanfarras da cobre, de pistões e trombones”.

E Huysmans oferece ainda uma última descrição que nada deixa a desejar às outras e que parece feita para evocar, no nosso pensamento, as evoluções a que se entregam, durante suas solenidades religiosas, certas tribos selvagens: é a da grande concentração noturna que Huysmans chama “a festa mágica do fogo”.

“Ao longe, diante de nós, a procissão se forma... a gruta sob a basílica flameja como uma fornalha... em uma indescritível cacofonia de Laudate Mariam, de Ao céu, ao céu! misturados a cânticos em línguas estrangeiras, todos esmagados, entretanto, pela massa pesada das Aves..

E isso gira, gira, sem parar, num alarido de Ave sustentado pelos instrumentos da fanfarra...”

Arrebatamentos gregários, nos meios protestantes, são muito mais raros e menos espetaculares. A ação hipnótica da música (órgãos, harmônios e cantos) é quase sempre neutralizada pelo elemento intelectual, a que está sempre associada. Mas, apesar disso, certos fatores intervêm nas assembléias religiosas protestantes, dando lugar, também, a arrebatamentos gregários; desses fatores, De Felice (37) menciona os seguintes: “a princípio, a assembléia dos fiéis que, como toda concentração de indivíduos num espaço limitado, pode ficar exposta a perturbações fisiológicas e psíquicas; em seguida, o poder da sugestão que emana, às vezes, de certos oradores; enfim, o emprego consciente ou não de diversos processos que tendem a provocar uma exaltação contagiosa.” Esses meios de criar e de propagar o entusiasmo são de uso freqüente em algumas seitas que acreditam dever opor-se à frieza das cerimônias eclesiásticas e que recrutam seus membros apelando para as emoções muito mais do que para a persuasão. Como exemplos, poder-se-iam citar o Exército da Salvação, o Metodismo do pregador Wesley, no século XVIII, o revivalismo no movimento do despertar, no País de Gales, em 1904-5. Também a seita, conhecida sob o nome de pentecostal, caracterizada por fenômenos de glossolalia: os efeitos desse movimento religioso, num campo de missão na África equatorial, mostram claramente as conseqüências extremas a que os arrebatamentos gregários são suscetíveis de chegar [265]

“Um traço característico da maior parte dos agrupamentos sectários é seu apego obstinado a um detalhe da Sagrada Escritura que logo se torna o ponto principal de seu programa. Nas reuniões, a espera febril dos prodígios anunciados superexcita os nativos: cânticos, danças, preces, brados, convidam o Senhor a derramar seu Espírito sobre os assistentes. Os profetas da seita circulam entre eles pondo-lhes as mãos em cima e tocando-lhes a cabeça com uma Bíblia. Como resultado dessas práticas, observam-se conversões em série e confissões em massa, assim como acidentes histéricos em que a sugestão e a imitação desempenham função capital. Os assistentes rolam no solo, tomados de tremores, de curvaturas, de paralisias. Isso se propaga, mesmo nas outras vilas e finalmente “em toda parte já se está pronto para cair e se cai”. Verifica-se o “acordar de todas as velhas lembranças da feitiçaria dos Ncomis, com sua adivinhação, suas sociedades secretas, em que se absorvem estupefacientes” para obter visões etc. No domínio moral, esse retorno não é menos acentuado que no domínio religioso. Todos esses fenômenos atingem sobretudo as mulheres: o missionário que descreve essas cenas, observa “vi mulheres adquirirem o hábito de cair por terra constantemente”.

G. Hardy [266] estudou o fenômeno do gregarismo nas tribos norte-africanas que, segundo ele, formam uma “população de imitadores” deixando-se arrastar facilmente na direção desejada. Mas, apesar disso, ela pode dominar a explosão de pulsões muito brutais e primitivas, contentando-se em apresentá-las simbolicamente; uma ação mortífera real é substituída por uma representação desse ato. O mesmo observa-se entre os negros australianos no rito de circuncisão dos jovens: o operador corre, desenfreado, aproxima-se, prende a barba na boca e morde-a com uma mímica feroz, revirando os olhos, fingindo estar em cólera; em seguida, tira sua pedra cortante e executa a operação.

Em tudo o que vimos, tratando do fenômeno dos arrebatamentos gregários e do estado da multidão, observamos que o comportamento dos indivíduos que deles participam é caracterizado por fenômenos de ordem psíquica que poderiam parecer irracionais, mas, cujo mecanismo fisiológico nos é atualmente familiar, graças ao progresso da psicologia objetiva. Eis ainda algumas observações que esclarecem muito bem esse fato – A primeira é relatada por De Felice (37), obtida de um missionário que passou longos anos na Nova Caledônia: “alguns canaques tiveram ocasião de assistir a uma cena de embriaguez nos brancos – Vivamente chocados com o que viram puseram-se a beber... água, juntos, imitando os gestos e os propósitos dos colonos. Ao fim de pouco tempo, ficaram, por sua vez, tão furiosamente embriagados que incendiaram uma choupana”.

Eis, ainda, dois fatos de contágio psíquico por sugestão coletiva, dos quais um ocorreu em uma tecelagem inglesa, em 1787: [267]

Uma moça teve uma crise de nervos porque uma de suas companheiras lhe introduz, no corpete, um rato vivo. Na manhã seguinte, três outras operárias tiveram a mesma crise; no outro dia, seis; alguns dias mais tarde, vinte e quatro. As pessoas se perdem em conjecturas sobre as causas dessas estranhar convulsões. O outro caso data da última guerra: “em seguida a um alerta, umas quarenta pessoas pensavam estar intoxicadas pelo gás de guerra e logo sentiram queimaduras nos olhos, pruridos na garganta, opressão, até desordens gastrintestinais a respeito das quais se tornou necessário – isso não foi fácil – tranqüilizá-las. Julgou-se aconselhável dar-lhes algumas atenções superficiais a fim de dissipar sua obsessão.”

Em conclusão, temos de nos associar às idéias de De Felice (37) [268] quando diz: “Nossa civilização atual, desenvolvendo desmedidamente as aglomerações urbanas, impondo a uniformidade de uma técnica que entra em toda parte e procurando não mais deixar aos homens qualquer possibilidade de isolamento e reflexão, submete-os a uma interação que acabará por tornar-se não menos coercitiva que aquela exercida entre os mais atrasados dos selvagens”.

E “quando esses fenômenos se desencadeiam no meio de um grupo organizado é para perturbá-lo e destrui-lo e não para transmitir-lhe já não se sabe que energia misteriosa capaz de conferir aos seus membros uma autoridade acentuada. Os acessos de febre gregária são doenças que ameaçam de decadência e morte o organismo que atacam. A multidão não é a forma elementar de sociedade, como alguns pretenderam, dizendo ainda que a sociedade, a ela retornando, renova sua coesão e retempera seu poder; essa idéia equivaleria a dar à saúde causas patológicas e a procurar na desordem os verdadeiros fundamentos de uma ordem superior”.

Também no domínio exclusivamente fisiológico do indivíduo, o arrebatamento gregário “retarda as funções orgânicas e paralisa os centros superiores do cérebro, de cujo controle o bulbo e a medula parecem ser momentaneamente retirados. A multidão age à maneira de um anestésico: o contato vital com a realidade ambiente é interrompido, a sensibilidade é suprimida e mesmo a catalepsia e o coma podem sobrevir”.

O que caracteriza antes de tudo o indivíduo é sua passividade pessoal absoluta: enquanto não retoma o domínio de si mesmo está entregue a seus reflexos automáticos e às sugestões do exterior, isto é, as inibições internas não funcionam, o caminho entre os engramas do segundo sistema de sinalização de Pavlov e os centros desencadeadores da ação dos efetivadores está bloqueado.

É certo que os fatores materiais, agindo sobre o indivíduo nas assembléias, por exemplo, uma sala superlotada, superaquecida, têm sobre ele uma influência nefasta: o ar está viciado, as reações vasomotoras desreguladas, o nervosismo se exaspera nos contatos muito prolongados. Aliás, nos insetos a irritabilidade cresce com e número e quando a aglomeração está muito compacta. [269] Também desordens das glândulas endócrinas podem sobrevir nessas condições anormais que provocam acessos de hiperemotividade, que conduzem a um contágio de desordens nervosas ocasionando rasgos de entusiasmo, loucuras, pânicos, grandes medos, fugas desordenadas. As vezes, como nota De Felice (37), [270] esses acessos causam um agravamento brusco de afecções latentes, que então se traduzem por lesões reais, afetando o coração, o estômago, os pulmões, os órgãos sexuais. A princípio, esses traumatismos psíquicos afetam o sistema cérebro-espinhal, depois daí se irradiam, por fenômenos vasomotores, para outros lugares, o que causa estados de angústia, levando às neuroses emocionais, à ciclotimia, à psicastenia e às crises histéricas. Essas perturbações são acompanhadas de instabilidade, automatismo, inibições psicorgânicas, fobias, obsessões, pulsões perversos, etc.

Esses estados podem chegar a “verdadeiras psicoses com alucinações, pesadelos, pavores, loucura furiosa, suicídios, mitomania demente: as vítimas dessas comoções acreditam-se predestinadas a regenerar seu povo e a salvar o mundo (no caso Hitler). Sua fé na missão sobrenatural que se atribuíram, suscita uma raiva implacável contra os que suspeitam em oposição aos seus desígnios (judeus, comunistas). Sonham exterminá-los por qualquer meio e disso se ocupam, por sua própria iniciativa ou propagando, em torno, seu frenesi destruidor.

De Felice relata observações do Dr. Leconte e do Dr. Delmas-Marsalet (42), [271] da Faculdade de Medicina de Bordéus que, em 1937, tiveram oportunidade de seguir, na clínica, os efeitos mórbidos das perturbações sociais de 1936; as manifestações doentias não diferem das verificadas em outros alienados: delírios de perseguição, alucinações, vontade de suicídio, atitudes paranóicas, megalomania, agressividade, estupor confuso, obsessões místicas, tudo sempre com uma coloração especial, devido à influência das tendências dominantes que, do exterior, eram impostas ao doente.

Essas ocorrências ilustram muito bem o fato, conhecido há muito tempo, de verdadeiras epidemias psicopáticas que eclodem sempre durante e depois dos períodos revolucionários, das grandes crises religiosas e, sobretudo, das guerras, em que mesmo as pessoas privilegiadas não estão imunes de sucumbir: tal o caso recente de Forrestal, ministro da guerra dos Estados Unidos, que foi encontrado, um dia, escondido debaixo da cama, gritando em altos brados: “os russos, os russos desembarcaram!” e, internado numa casa de saúde, suicidou-se, jogando-se pela janela. A imprensa e o rádio, notadamente no período da atual guerra fria, contribuem eficazmente para criar, nas massas, estados psíquicos, lembrando as crises dos arrebatamentos gregários.

Pode-se afirmar, com De Felice, (37) que tais fenômenos coincidem com a intervenção de certas forças dissolventes: são encontradas, sempre, na origem das crises que ameaçam a existência de uma sociedade. “Entre esses agentes de decomposição é preciso citar, inicialmente, o ridículo que, direta ou indiretamente, lança o descrédito sobre as instituições, em seguida a licenciosidade que tende a prevalecer contra a disciplina dos costumes, enfim, as lutas e violências que não se sabe mais se são reais ou simuladas e que substituem as relações normais que a manutenção da coletividade exige”.

Para criar o medo no adversário, para ameaçá-lo, os selvagens e as tribos primitivas já recorriam aos adornos, que transformam o guerreiro, dando-lhe um aspecto terrificante – É o mesmo princípio usado pela natureza na fascinação e no mimetismo ofensivo entre os animais que estudamos mais acima. O homem tenta, nesses casos, impressionar o adversário através de artifícios que o fazem parecer maior: cobre-se de plumas, penachos e de toda espécie de objetos volumosos; pinta e tatua o corpo, torna-o, às vezes, rajado como o da zebra; veste roupas de cores brilhantes, salpicadas de objetos luzentes e cintilantes, põe máscaras assustadoras, máscaras de combate: encontram-se exemplos surpreendentes entre os orientais – na China, no Japão, na Melanésia; as plumagens dos peles vermelhas são da mesma categoria. Às vezes, estes enfeitam-se de cabeças de animais e vestem até sua pele.

Os uniformes dos militares de nosso tempo – são heranças, antes de mais nada, dessas máscaras de combate; a seguir, é um meio de compor uma massa uniforme, de impressionar pelo número e pelo ritmo – fator muito importante na eficácia do trabalho humano. Por outro lado, a monotonia que causa a visão de um conjunto de pessoas do mesmo aspecto é um elemento propício à criação e à conservação da disciplina, uma das colunas principais da força militar moderna. Daí porque os uniformes propriamente ditos são de origem relativamente recente. Na Antigüidade, os guerreiros, em geral, não se vestiam do mesmo modo; os espartanos usavam, para o combate, clâmides vermelhas, mas, isso parece ter sido antes uma medida para dissimular o sangue dos ferimentos, para combater o medo causado pela sua visão.

Os Romanos davam às suas tropas signos distintivos, mas, ainda não tinham verdadeiros uniformes. Ao que parece, um dos primeiros casos de seu emprego numa tropa é o de um corpo de sete mil ingleses que tomaram parte na batalha de Saint-Quentin em 1557 (65) – Os primeiros uniformes franceses datam da época de Luís XIII. Em geral, os regimentos levavam as cores de seus coronéis que deviam prover o vestuário de suas tropas – O uniforme tornou-se obrigatório em 1670. Na Revolução, os fardamentos, que eram até então muito complicados e variados, foram simplificados e unificados, mas, no Primeiro Império, houve uma verdadeira eclosão de uniformes, cada um mais brilhante que os outros: Napoleão, com efeito, entendia que essa questão era inteiramente primordial, para manter uma disciplina severa nos seus exércitos.

Bovet (19) [272] relata uma observação de Dix a Meissen: quando da guerra de 1914, as crianças cansaram-se rapidamente de brinquedos de guerra. Mas, depois do Natal, em que lhes foram dados presentes de uniformes, de capacetes e de objetos de equipamento, os jogos de combate, que são jogos de imitação em primeiro lugar, recomeçaram. O uniforme faz o guerreiro pelo desencadeamento de um reflexo condicionado correspondente.

A primeira idéia da disciplina é, naturalmente, a da organização física: onde se deseja conseguir um efeito maciço, proveniente do emprego da força de uma multidão, a primeira tarefa dos que a pretendem guiar, será o de uniformizar os seus movimentos, de ordená-la do ponto de vista do esforço muscular. Pode-se perceber, facilmente, quando das paradas militares ou de exercícios coletivos, esportivos, sob forma de ginástica, como os dos sokols tcheco-eslovacos, a fascinação que emana de uma multidão ordenada, executando os mesmos movimentos dirigidos. É, também, o melhor meio de privar essa multidão de toda vontade própria, de hipnotizá-la, por assim dizer, de guiá-la. É a razão por que, num exército, as marchas, em formação cerrada, a passo, têm uma tão grande importância. Os alemães, partidários de uma racionalização das coisas materiais e técnicas exageradas e que caem, às vezes, no erro de uma super organização, quando o cuidado pela disciplina se torna um fim em si, praticaram sempre, com obstinação, esses exercícios; já no tempo de Frederico, o Grande, inventaram o passo, que caracterizava suas tropas nas grandes paradas e que lhes dava o aspecto, ao mesmo tempo formidável e cômico, para um espectador capaz de fugir à sua fascinação: é o famoso passo de ganso, em que os soldados, marchando em filas, dão a impressão de máquinas ou de autômatos perfeitos. Esperando poder criar, com a mecanização e a motorização dos engenhos de guerra, soldados autômatos, robots, o pensamento guerreiro alemão esforçava-se para completá-los, transformando homens vivos em máquinas de destruição sem alma. É preciso dizer, naturalmente, que essa manobra militar, de inspiração mais medieval que moderna, tem pouco valor real atualmente, para a manutenção das tropas em campanha, mas, é certo que tem um valor psicológico em tempo de paz, servindo para impressionar as multidões de espectadores através de uma exibição de força bruta: conhecemos bem, aqui, a significação de todos esses mecanismos de violação psíquica, que são o verdadeiro objetivo dos ditadores e que os adestram contra todos os princípios da liberdade e da dignidade humanas, do progresso intelectual e social.

A propósito do passo de ganso que submete e degrada o homem, suscitando a indignação dos que desejariam levá-lo a refletir, é reconfortante assinalar a nota cômica, oferecida pelo êmulo de Hitler, Mussolini; o ditador italiano, fascinado pelo prestígio crescente de Hitler, esforçava-se para alcançá-lo, senão ultrapassá-lo: fez o exército italiano aprender o passo de ganso, declarando que era o passo romano. Ah! os italianos, povo vivo e ágil, habituado mais a dançar e a cantar, acomodavam-se mal com a lentidão germânica e quem viu os filmes das paradas de novo estilo, executadas em Roma, não pôde deixar de sorrir do ridículo desse espetáculo.

A idéia que os alemães perseguiam, portanto, já antes de Hitler, era a da disciplina; a idéia de violentar as massas psiquicamente pelo aspecto mecanizado das tropas, empregadas como meio de propaganda, foi uma invenção de Hitler e de seus acólitos. A necessidade da disciplina no exército não poderia ser posta em questão. As seguintes expressões, conhecidas de todo o mundo, dizem, com efeito: “a disciplina é a força principal dos exércitos” ou, ainda, “a disciplina é o cimento dos exércitos”. Em geral, pensa-se que a disciplina, sobretudo se se examinam os regulamentos oficiais, (129) “consiste unicamente no respeito às regras de subordinação e na realização minuciosa de gestos ditados pelos sinais exteriores em obediência aos instrutores”. Se fosse somente isso, um adestramento bem simples, tendo como fator absoluto o receio único das sanções, alcançaria perfeitamente o fim, seria um caso muito simples de um reflexo condicionado primitivo, construído sobre a base da primeira pulsão – É, com efeito, o que pensam sempre os ditadores que exigem de seus homens uma obediência cega e que a inculcam, por métodos, às vezes, de uma brutalidade inaudita. Na Itália, por exemplo, a regra principal da disciplina, muito difundida, era a seguinte frase: “Mussolini sempre tem razão”.

Mas, na realidade, a coisa é mais complexa. O capitão Reguert no seu livro Les Forces Morales (129) diz, muito justamente: “Quando o corpo está gelado até a medula pelo frio e pela chuva, quando está esgotado pelas fadigas e privações, quando o ferro e o fogo espalham a morte e a mutilação no país, é preciso ainda conseguir obediência: só as forças morais e a disciplina obtêm-na e é em razão de circunstâncias dessa gravidade que a educação do soldado deve ser estabelecida. Quanto mais uma tropa é disciplinada, mais sua moral fica melhor temperada, menos sacrifícios terá de fazer para triunfar”.

Essa educação militar tem por objetivo principal, ao lado dos exercícios físicos (estímulo da força muscular) e da instrução técnica de combate, o fortalecimento da força de resistência, sobretudo nervosa, portanto, a disciplina. Endurecer, acostumar-se aos perigos – isto é, imunizar contra a tendência de evitar e de fugir à dor; procura-se fazer ceder lugar a um outro instinto: o prazer de mostrar sua força. Na educação militar, canaliza-se, desta maneira, a pulsão combativa, trata-se de não esvaziá-la, mas, de estimulá-la e colocá-la na estreita dependência da vontade coletiva.

De fato, a disciplina presume a existência de chefes e deve ser o resultado de uma convergência de todas as vontades para o fim visado por eles; os soldados devem agir no sentido por eles desejado; mesmo na sua ausência. Mas, nesse caso, vê-se que uma disciplina cega não é mais suficiente; é preciso, como diz Reguert (129) “que se juntem o ardente desejo da vitória, a tensão de todas as energias, o emprego da inteligência, tão bem como da força física. No combate, o homem treme sempre em face do perigo. A disciplina tem por fim reprimir esse medo”.

Quando se fala em disciplina, pensa-se comumente nas punições, por meio das quais se consegue obtê-la (129). A ameaça de punição vale-se do medo, portanto, do lado negativo da primeira pulsão. Platão já falava “desses homens corajosos que só o são por covardia” [273]. Disciplina de ferro, obediência absoluta também é exigida na milícia de Santo Inácio de Loiola, o exército sem armas“ [274]. Mas, “não se deixou de considerar que as morais religiosas, na medida em que fazem do medo do inferno o móvel das boas ações, retiravam a estas todo seu mérito moral e as levavam a um cálculo sem grandeza” [275].

A punição deve ser considerada, nos exércitos modernos, não como expiação, mas, como uma advertência salutar e um exemplo. O chefe deve saber que a punição gera o medo que não é propício à criação do devotamento; deve esforçar-se por criar, naqueles que comanda, a convicção de que toda a organização está subordinada ao senso do dever, reflexo condicionado de grau elevado e que ele próprio está submetido às mesmas obrigações que seus homens.

Em suma, a finalidade da disciplina, como bem diz Reguert, “não é ensinar papagaios, mas, formar homens” e é justamente essa tendência que distingue de uma maneira magnífica a concepção francesa da alemã. De fato, a aprendizagem a que se submete o soldado para criar o reflexo de obediência não é fácil, mas, após esse período, o indivíduo percebe que “a disciplina racional não visa a matar a personalidade e sim, regular e coordenar seus esforços”. Se se começa a sufocar, no homem, toda veleidade de reflexão, estanca-se o desenvolvimento da iniciativa indispensável ao combate – Em compensação, “a disciplina consciente substitui a coerção, a iniciativa inteligente à obediência passiva. O soldado deixa, então, de ser uma máquina de executar ordens; torna-se um colaborador do oficial”.

Na vida das organizações militares, a música, o ritmo, têm grande importância, por sua ação sugestiva sobre o inconsciente. É evidente que um trabalho ritmado é muito mais fácil de realizar: o canto dos barqueiros do Volga é um exemplo bem conhecido. Também a repetição de certos sons, a monotonia que dela resulta, são propícias à generalização da inibição interna de Pavlov, a um estado que se assemelha ao sonambulismo e à hipnose; é a tarefa que em geral, a organização militar, nos países totalitários realiza. Mas, a música, notadamente a instrumental, pode também agir de maneira enervante, excitante, exaltadora da coragem e isso pela acentuação do ritmo. Um exemplo muito conhecido é o do naufrágio do transatlântico Titanic, em 1912: a orquestra que se encontrava a bordo tocou trechos de música durante o afundamento do navio, para manter a moral dos náufragos e evitar o pânico. Sabe-se, também, que as tropas se lançam, às vezes, ao ataque ao som de clarins e tambores. Domenach (45) fala de tóxicos sonoros, como ingredientes essenciais do delírio da multidão: fanfarras, hinos, cânticos, gritos destacados. Encontraram-se, entre os vestígios de utensílios dos homens pré-históricos, nas cavernas, pedras que esses primitivos entrechocavam para destacar os passos ou cantos, quando iam combater. [276] Os gritos de guerra dos Gregos (alalà!), o clamor dos Romanos, o barditu dos Germanos, são desse tipo. Uma forte impressão é causada pelos, ritmos obsedantes e atordoadores dos instrumentos semelhantes aos tambores usados por certas tribos africanas e que exaltam a massa de guerreiros que se arroja à batalha. Quem quer que tenha tido oportunidade de ouvir esse alarido, que possui, aliás, certos elementos de uma melodia selvagem e angustiante, jamais a esquecerá. É muito curioso, mas, perfeitamente lógico, que a propaganda de um Goebbels tenha recorrido a processos análogos. Todos os que, a 15 de setembro de 1938, escutaram, no rádio, o discurso de Hitler em Nuremberg, lembram-se que sua entrada na sala do congresso, era precedida de uma manifestação sonora – antes que musical – fora do comum. Sobre o fundo de uma música wagneriana, ouvia-se um rufar assustador, pesado, lento, de tambores e um passo duro, martelando o solo, não se sabe com que tinidos e com que respiração ofegante de corpos de tropa em marcha. Esse ruído ora aumentava, ora se afastava e devia provocar, nos milhões de ouvintes, com o coração angustiado pela espera da suprema catástrofe, um sentimento de fascinação e medo, desejado pelos encenadores. Parecia (num grau mais forte) o efeito da música das tribos selvagens de que há pouco falamos – Era a propaganda hitlerista cem por cento, uma tentativa de intimidar, de violentar psiquicamente os milhões de ouvintes, em todos os países do mundo: devia-se imaginar vivamente a pesada máquina de guerra alemã em marcha, pisando tudo, destruindo, ameaçando, devia-se imaginar bem concretamente e... não se mexer.

Já dissemos que o instinto de luta, posto em movimento, pode manifestar-se de duas maneiras antagônicas: uma negativa ou passiva que se exterioriza pelo medo e atitudes de depressão, de inibição, a outra, positiva, que leva à exaltação, a um estado de excitação e agressividade – É essa segunda forma que desejamos examinar aqui. A superexcitação pode levar ao êxtase, um estado que, como seu nome indica, conduz a uma saída fora de si, fora de sua raiz, a um arroubo. É um estado mental associado, às vezes, aos casos patológicos de psicoses; caracteriza-se pela fixidez do olhar, pela imobilidade e perda da sensibilidade. Os histéricos e os paranóicos místicos dão exemplos frisantes: P. Janet (81) descreveu esse estado de uma maneira excelente em seu livro De l'Angoisse à l'Extase, onde se vêem claramente os laços existentes entre esses dois estados antagônicos que ocorrem, às vezes, na mesma pessoa. Mas, um estado vizinho, nada patológico, pode provir também de uma grande excitação marcada por uma alegria ou admiração causada por uma pessoa, uma coisa, uma idéia e acompanhada de uma intensa sensação de bem-estar.

O estado que se observa mais freqüentemente na vida, determinado pelos acontecimentos e ações políticas é o de entusiasmo. Embora derivando do mesmo instinto fundamental, distingue-se do estado estático por seu caráter ativo, ao passo que o êxtase implica sempre a passividade, a imobilidade, a contemplação – O entusiasmo é, antes de tudo, função da saúde, da alegria e da juventude. A parada dos esportes na Praça Vermelha, em Moscou, fornece disso um testemunho eloqüente, como se pode observar contemplando os rostos da juventude nos filmes em que aparecem. [277]

Eis por que, quando se deseja criar e conservar esse estado d'alma, seja no combate ou na luta política, é preciso, antes de tudo, tomar em consideração esses fatores e assegurá-los. O entusiasmo se apodera de uma tropa ou de uma coletividade que dirige uma ação de propaganda política, quando a esperança de êxito e de vitória é alimentada pela evidência de um sucesso ou por uma ação propagandística, que estimula a atividade e a esperança. Uma música alegre pode ser um estimulante racional. “Esse entusiasmo se produz, ainda, à vista de um inimigo indeciso, hesitante e a ponto de bater em retirada” [278].

Enfim, a coragem é uma manifestação da pulsão combativa, sobre o qual enxertaram inibições condicionadas da reação do medo. Um esforço constante, um verdadeiro adestramento, associado a excitações condicionadas de ordem mais elevada, aos raciocínios, cria a coragem.

A coragem é o que determina, na maior parte dos casos, o resultado do combate, uma vez que este é, ante forças materiais equivalentes, um conflito de forças psíquicas. O vencedor – diz Reguert (129) – é aquele que pode e quer ainda combater, ao passo que o adversário não deseja, nem pode mais lutar. E von der Goltz frisa que, num combate, “não se trata tanto de aniquilar os combatentes inimigos, mas, sua coragem”. Daí por que os grandes chefes têm tido sempre o cuidado primordial de exaltar, por todos os meios e antes de tudo, através de uma propaganda apropriada, dirigida à pulsão combativa, a coragem de suas tropas e de impedir seu desânimo. A esse respeito, as proclamações de Napoleão a seus soldados, antes das batalhas decisivas, são um modelo no gênero.

As relações entre a coragem e a disciplina são muito estreitas: a coragem mantém esta nos piores momentos do combate, mas, a disciplina, por sua vez, pode engendrar a coragem. Um belo exemp1o foi dado pela equipagem do cruzador russo Variag que saía, todo embandeirado, só, contra uma esquadra japonesa, numerosa e potente, em Tchemulpo, quando da guerra russo-japonesa, em 1905 e foi naturalmente afundado. A proeza era tão surpreendente que as equipagens de navios de guerra de outras nações, ancorados no mesmo porto, embandeiraram e aclamaram o Variag na sua saída.

Para criar no soldado disposição a tal comportamento corajoso, isto é, a faculdade de frear, de inibir o reflexo do medo, “não é preciso esconder qualquer perigo a que será exposto no campo de batalha; antes de tudo devem ser feitos esforços para obter sua confiança; a subordinação voluntária resulta dessa confiança. É, pois, dessa maneira, que se lhe pode inculcar o espírito guerreiro [279]”. espírito de ataque que, segundo Napoleão e Frederico II, é a melhor forma de obter sucesso na luta – o mesmo da pulsão combativa.

Para ter uma idéia da importância do fator moral numa guerra moderna, para conceber de que intensidade devem ser os excitantes condicionados inibitivos, a fim de dominar o reflexo do medo, julgamos útil dar aqui trechos do impressionante relato de um combatente da primeira conflagração mundial, que pinta os horrores da guerra de trincheiras de uma maneira muito viva. Eis aqui um extrato, tirado do livro de Reguert (129):

A infantaria, sobretudo, sofreu as piores provas. Em certos setores, a luta foi tão atroz que os cadáveres amontoados misturavam-se na terra e as trincheiras e os fossos de ligação pareciam talhados na própria carne humana. Milhares de homens gelaram os pés nas noites de inverno e custaram a ser evacuados, às vezes, já amputados. A lama atingia, em certos lugares, uma tal espessura que atolava, de modo que, ao sair das trincheiras, os infantes pareciam transformados em blocos de barro. Aprisionados e, de fato, enterrados vivos em suas trincheiras, não tendo mais, freqüentemente, que um buraco com um pouco de palha apodrecida para se abrigar e dormir, separados do mundo, obrigados a estar alerta dia e noite, expostos à morte sob formas as mais horrendas, os soldados desse terrível conflito, não obstante guerreiros, parecem ter aumentado os limites da resistência humana“.

E eis um trecho de Reguert (129) sobre o “inferno de Verdun”:

Nesse horizonte terrível, a perder de vista, vales e colinas são devastados, fendidos, retalhados, fibra por fibra, sulcados de enormes cicatrizes, cavados ao vivo em sua carne, saturados de poças de sangue... Restos de terra, restos de buracos, restos de homens; um amontoado de seres e coisas em farrapos, um oceano de lodo, de onde emerge uma mistura de equipamentos, de armas enferrujadas, de soldados, de cadáveres e de animais. Os bosques estão destruídos, como os prados; um a um seus braços foram arrancados, os troncos quebrados, torcidos, ceifados. E o ferro mortífero se abate sobre essas ruínas, com o ódio do assassino que atinge, sem cessar, sua vítima, já crivada de golpes. A morte está em sua casa, o cemitério é seu reino. Os vivos, intrépidos, apesar de seus furores, estão destinados a ser sua presa. Ela passa e repassa uivando sobre suas cabeças, com um estrondo que jamais se interrompe. No ar, chocam-se todos os ruídos da metralha: assovios, rufos, miados, grunhidos, depois, subitamente, o trovão, enormes explosões que cobrem com seu brado ensurdecedor o tumulto desses sons misturados.

Centenas de peças, no paroxismo do furor, concentraram sobre o mesmo ponto seu fogo implacável. E o braseiro ardente, o vulcão infernal em plena erupção. O furacão revira tudo, quebra tudo, tudo esmaga: os montes de argila, os parapeitos de pedra, as abóbadas de cimento armado, os peitos humanos. A terra treme e rompe-se. A trincheira oscila, sacudida a cada comoção, por um sobressalto de terror. Os blocos dos redutos deslocam-se, levantam-se e tombam esmagando seus defensores. Pedaços de muros ruem nos fossos do forte desmoronado, em meio dessas fúrias de ferro e fogo!...

E mais que angústia, pior talvez que essa sensação de isolamento no fundo de barrancos selvagens, a frente de Verdun. Cada tropa está abandonada a si mesma, à sua coragem, ao seu destino. Nenhuma ligação com a retaguarda; nem fios telefônicos, nem sinais ópticos. A única via de comunicação que liga com o resto do mundo é um estreito caminho danificado, em todo o percurso, leito de torrente, quase impraticável. Os ousados estafetas, entretanto, empenham-se sob o fogo das metralhadoras e dos obuses, transpondo os corpos dos doentes para transmitir, sem demora, sua mensagem. No fundo do abismo, meio enterrados nos seus estreitos fossos ou agachados nos funis de obuses, alguns homens vivem colados à lama. A angústia das horas parece-lhes deixar no coração um sentimento de pavor, no rosto uma expressão de estupor. Suspensos nessa colina, que não têm o direito de abandonar, são deixados sem defesa às possantes máquinas de massacre. Sua senha é resistir. Eles o sabem – e resistem!

Assim, os elementos psíquicos são da maior importância onde existe luta material, sobretudo hoje, quando a técnica aumentou consideravelmente a intensidade das excitações a que os sentidos são submetidos numa batalha; o fogo contínuo, o tiro de barragem, os bombardeios aéreos, a guerra de gás, os foguetes – tudo isso exige do combatente um domínio de si muito maior que outrora. “O combate é sobretudo uma luta moral; em igualdade de força, de valor técnico e de organização material, a vitória pertence, em definitivo, àquele adversário que conservou a moral mais elevada [280]”.

Não é, portanto, de espantar que, nos exércitos modernos, haja sempre cada vez mais interesse pela psicologia – Já antes da Primeira Guerra mundial, tinha inaugurado, na Escola Superior de Guerra, em Paris, um curso sobre a Psicologia das multidões, inspirado nos escritos de Gustave Le Bon e, depois da guerra, foi o próprio Marechal Foch (55) que publicou um Essai de Psychologie Militaire. Nos nossos dias, no Ministério da Guerra alemão, de Hitler, era organizado um bureau especial de estudo e preparação psicológica de ações, sob o nome de Laboratório Psicológico.

O problema do chefe e de sua ascendência sobre um grupo é de importância primordial no domínio militar, como em toda parte em que se lida com coletividades. Aliás, já tivemos muitas ocasiões de falar do papel desempenhado pelo chefe, o líder, o dirigente, nas multidões, junto às massas, nos arrebatamentos gregários, nas instituições organizadas das sociedades humanas. Desejamos considerar, aqui, mais de perto, esse importante fator.

Alverdes (7) [281] observa que, nas sociedades de insetos, tidas como as mais evoluídas do ponto de vista da organização coletiva, não existe líderes: a abelha-mestra ou rainha não é mais do que “uma máquina de pôr ovos”. O rei, termitas, só tem uma função: fecundar a fêmea. Num Estado de insetos, todos os membros são, do ponto de vista das reações psíquicas, de tal maneira condicionados pelos automatismos que basta um indivíduo qualquer dar um sinal determinado, para que a mesma ação se desencadeie imediatamente em todos os seus companheiros. Não há nenhum vestígio de ordem vinda do alto da escala social, nem de uma atividade raciocinante, ou melhor, baseada sobre reflexos condicionados intelectivos.

Em todos os grupos de animais superiores, encontra-se efetivada, às vezes, a função do líder: nos elefantes, o chefe da manada é uma fêmea; nos macacos, à frente de todo um harém, um macho (pacha) – Nos rebanhos de ovelhas, na América do Sul, vê-se todo ele, de três a quatro mil cabeças, seguir um carneiro com um chocalho; retirado o chocalho, o rebanho desagrega-se em pequenos grupos de 6 a 12 ovelhas, cada grupo tendo à sua frente um líder. Pequenas hordas de macacos têm, cada uma, um líder; os líderes de muitas hordas se juntam para guardar a defender toda a massa.

Nas hordas de gorilas, o pai esbofeteia suas fêmeas e seus filhos, se não lhe trazem, rapidamente, os frutos. Entre os macacos, o pacha (macho) é cercado de dez a quinze fêmeas (harém) e expulsa todos os outros para longe de sua horda; entre os macacos gritadores, o macaco-líder é o chefe da orquestra: dirige os gritos da horda. Um fato estudado por Katz e Toll e referido por Alverdes (7) é bem curioso; existe, nas galinhas, uma hierarquia para se bicarem umas as outras, sem ser bicada pela adversária; essa ordem se estabelece por uma única batalha: observa-se uma espécie de inibição psíquica na galinha que ocupa o último degrau da escala: ela não pode revidar a nenhuma outra. Uma galinha que se encontra no nível mais baixo da escala é geralmente mais feroz para o pequeno número daquelas que têm o direito de bicar do que uma outra em grau mais alto – A galinha que pode bicar todas as outras aparece como a mais indulgente.

Entre os homens primitivos, o líder é, a princípio, um chefe religioso que a multidão acompanha cegamente. Mesmo os chefes militares se apoiam na autoridade do sacerdote. Os homens e não somente os povos primitivos, procuram no chefe o herói, outorgado pelo destino, para livrá-los do mal. Assim, a multidão e o líder são duas noções complementares: não há multidão sem líder.

“Os líderes se deixam acompanhar de um grupo coerente de seus acólitos mais fiéis, de fanáticos, previamente superexcitados, que formarão como que o núcleo em torno do qual as multidões que eles despertam virão naturalmente condensar-se. Esses grupos de exaltados propagam seu entusiasmo ou seu nervosismo. A embriaguez desses intoxicados psíquicos ganha os mais próximos e se estende como o incêndio na floresta [282]”. “O líder consegue impor-se inteiramente e recruta, com rapidez, seguidores cada vez mais numerosos. Desde que ele aparece, uma aragem de loucura sopra sobre a assistência: os braços levantam-se automaticamente, um brado de entusiasmo estende-se sobre a multidão... O que diz o líder importa pouco; tomam suas palavras, fazem vibrar e estremecer seus corpos. Sua voz se eleva, vocifera, os gestos tornam-se frenéticos. A assembléia se associa a seus transportes; dobra-se a suas atitudes, imita seus movimentos. Com ele se curva, com ele se levanta, com ele agita-se numa ginástica desenfreada. Enfim, aclama-o com um grito trovejante que se prolonga, repete-se e repercute, como se jamais fosse parar”. [283]

Já falamos da teoria de Freud sobre a origem da primeira Sociedade – totêmica – e sobre o papel do pai-líder da horda. [284] Essa reação é o protótipo da relação multidão-líder. A criança está fortemente ligada ao pai, do ponto de vista afetivo, ama-o, teme-o, pois ele é tão poderoso que a defende e a pune. Desse modo, o homem procura no chefe, no líder, alguém que possa substituir o pai morto ou envelhecido. O líder exerce sobre o indivíduo, na multidão ou na massa, uma ação semelhante à de um hipnotizador; o indivíduo procura identificar-se com ele, segui-lo cegamente. O ponto de apoio moral é, nesse caso, transferido para fora de sua própria personalidade: Goering dizia: “Eu não tenho consciência, minha consciência é meu Führer (Hitler)” [285].

“Cada um de nós que segue líderes – diz Cl. Miller (105), deseja identificar-se com eles. O caráter dessa identificação revela os diversos aspectos de nossa natureza: a capacidade de sacrifício, a generosidade, o sentimento de fraternidade ou a inclinação para a ambição e a vaidade”.

O número de pessoas que dirige o mundo é pequeno. Walter Rathenau calculava em 300.

De Felice (37) faz uma análise da função do líder que acreditamos útil transcrever aqui – “O líder se caracteriza por uma predisposição singular para reunir e condensar em si o que permanece latente e difuso nos outros, torna-se a encarnação viva de seus instintos brutais, tendências atávicas, paixões comprimidas, desejos insatisfeitos. Ele foi possuído pelos que o cercam, antes de possuí-los por sua vez. É o joguete dos arrebatamentos gregários de que vai ser a causa”. O próprio Lênin dizia que, na Revolução Russa, as massas eram, às vezes, mais radicais do que aqueles que as dirigiam e lhes impunham diretamente a ação. Reiwald fala do líder dirigido ou impelido e cita um interessante episódio contado por Milioukov. [286] “um operário de estatura gigantesca agitava violentamente seu punho diante do nariz do ministro Tchernov e gritava obsedado: ”toma, então, filho de cadela, o poder que te dão”.

De Felice diz ainda que “o possesso, como o líder, é atormentado por uma receptividade mórbida a despeito de todas as pressões que provêm de sua entourage. Acumula-as em si e lhe serve de exultório. Como o líder, ainda, obedece, quando aparece em público, às sugestões que lhe prodigalizam, sem seu conhecimento, as testemunhas de suas crises e extrai, sem descanso, os elementos do papel que desempenha na sua presença. O que o possesso é para os selvagens, é o indivíduo a que se chama médium para os civilizados... O comportamento de Hitler ante as suas multidões eletrizadas constitui uma ilustração”.

A aptidão dos líderes para provocar embriaguez de massa, coroada de sucesso, às vezes, surpreendente, tem, talvez, julga De Felice (37), causas cuja verdadeira natureza nos escapa ainda: é que os homens dotados de qualidades de agitador possuiriam dons especiais, ditos parapsíquicos ou magnéticos, que os tornariam capazes de enlouquecer seus auditórios e pô-los em transe. E compara o poder de penetração dessas ações com a ação física emitida das irradiações por certos corpos. Observou-se, por exemplo, que a influência de um líder não se estendia à totalidade da sala em que se realizava uma reunião e que certas condições de tempo ou de lugar lhe eram desfavoráveis.

De Felice (37) nota, enfim, que os líderes parecem “absolutamente incapazes de conceber a possibilidade, entre seres humanos, de uma vida pessoal independente e só as percebem em bloco, sempre aglomeradas em coletividades ou partidos. Apenas a massa e o número existem a seus olhos. Empolgam-se com as cifras que alinham e experimentam, ao aumentá-las desmesuradamente um vertiginoso entusiasmo que propagam em torno de si. Outro traço que os caracteriza é sua obstinação para impor aos outros o que os obseda”. O que impressiona, também, é a coexistência, num mesmo ser, de um fanatismo que toca à demência e de uma sagacidade calculada que nada abandona ao acaso“ na organização de suas campanhas políticas que realizam com uma engenhosidade muitas vezes desconcertante para preparar o triunfo da causa de que se proclamam defensores.

É interessante conhecer as idéias de um behaviorista como Allport (6) sobre o problema do líder ou diretor psíquico. Segundo ele, [287] essa questão não se coloca em função do problema das massas, mas, antes, em conexão com a continuidade e as mudanças que se observam na sociedade. A função de um tal diretor de consciências é um processo de sugestão que procura ultrapassar os obstáculos que se apresentam à realização de suas idéias. Considera o fato social da relação massa-líder como um instrumento de valor inferior, mas, inevitável em nossa época para alcançar certos fins sociais; a fim de poder chegar aos mesmos objetivos, por um outro caminho, seriam precisos esforços consideráveis e duráveis de educação.

O líder age através de uma acumulação do prestígio de sua personalidade e vê a fonte desse prestígio no comportamento dos outros a seu respeito, comportamento que tem sua base psíquica na necessidade das massas de serem dirigidas. Mas, convém que uma certa superioridade, real ou aparente, seja indispensável para assumir a função de líder: porque é a condição inelutável da submissão das massas. Um chefe ideal é aquele em que o interesse social e a compreensão das aspirações e da psicologia dos indivíduos que compõem as massas se associam. Mas, um fator não negligenciável para seu sucesso junto às massas é também seu porte físico: sua ascendência será mais eficaz se é grande e vigoroso. Uma beleza masculina (Lassalle, Lord Balfour que, aliás, era um mau orador) [288] lhe é também proveitosa, mormente junto a um auditório com forte participação feminina, particularmente sensível a uma argumentação à base da afetividade. Na Itália é notadamente a beleza do tipo Apolíneo que tem sucesso. O líder deve ter, naturalmente, um dom oratório, e ali aprecia-se mesmo uma voz harmoniosa: os oradores que possuem esse dom são chamados de rouxinóis. Honestidade pessoal e nível moral, impostos pela sociedade burguesa, são também qualidades necessárias.

Em geral, os lideres são intolerantes em relação à crítica que os fere e que temem como suscetíveis de atingir seu prestígio. O exemplo inverso de Lênin é bastante raro. Infelizmente, é muito freqüente o fato de que, entre os líderes, se encontram homens que se distinguem por uma forte vontade associada a uma inteligência bem medíocre; é uma das razões por que seus empreendimentos acabam muitas vezes mal para eles e para as coletividades humanas.

Tem-se perguntado freqüentemente por que o exército e o povo alemão resistiram até o fim, nas duas guerras mundiais, apesar das derrotas sangrentas e a despeito de que não tinham qualquer esperança de vencer. É essa resistência, como nota Reiwald (130), [289] foi, em 1945, mais pronunciada do que em 1918. Procurou-se resposta para esse fenômeno em muitas direções: atribuiu-se à disciplina implacável instaurada pelo regime hitlerista, ao terror exercido pelos corpos de SS, finalmente, à propaganda falsa e astuciosa de Goebbels.

Essas explicações não bastam para a compreensão do fato: sabe-se que os alemães combateram com um fanatismo apaixonado. E Reiwald, como Freud, são de opinião que a razão está na força dos laços que os uniam a seu líder, a Hitler. Em 1918, a união das massas ao Kaiser e a seus generais era menos forte, em grande parte por efeito de um tratamento pouco psicológico e também porque seu prestígio era menor. Hitler, Goebbels e os nazistas em geral, pela sua propaganda, pelo que chamamos de violação psíquica, criaram laços afetivos mais sólidos e, além disso, porque realizavam, numa medida muito maior, os desejos subconsciente das massas alemãs: certamente, os arquétipos, esses engramas ancestrais como elementos dos reflexos do tipo das refenações, [290] determinado o comportamento dos indivíduos desempenhavam aí uma grande função. Como arquétipo característico do subconsciente alemão, Jung (48) considera [291] aquele a que designa por Wotan o deus da tempestade da mitologia germânica. Diz que é um fator psíquico inerente à alma alemã, de caráter irracional, segundo Jung, “um ciclone que ataca e destrói toda alta pressão cultural”.

Jung vê, no hitlerismo, indícios da reaparição do arquétipo coletivo de Wotan: eram certas formas que tomavam os ritos nas exibições coletivas nazistas e também as expressões características do III Reich, tomadas por empréstimo à linguagem militar, como as S.A., que significa seções de assalto (Sturmabteilungen) e outras. O próprio nome de III Reich leva, em si, alguma coisa de místico. O arquétipo Wotan seria, de acordo com Jung, um fator psíquico autônomo que desencadeia ações coletivas e projeta, assim, externamente, uma imagem de sua própria natureza. Como as impressões da primeira infância repousam, segundo a expressão de Tarde, enterradas na profundeza do psiquismo individual para aí exercer uma ação secreta e reaparecer, quando as ocasiões se apresentam, do mesmo modo vê-se um fenômeno análogo manifestar-se também nas coletividades. Onde há movimento de massa, a norma individual se apaga e são os arquétipos que começam a exercer sua ação, como acontece freqüentemente na vida do indivíduo quando não consegue dominar os fatores ambientes pelos meios que conhece. O fenômeno Wotan poderia ser, a nosso ver, a forma de um protesto contra a civilização mecânica e embrutecedora de nosso tempo.

As notícias que nos chegam da Alemanha, após a última guerra, mostram que o apego à lembrança de Hitler não desapareceu ainda, o que é causado, em grande parte, pela existência de uma política totalmente errônea, do ponto de vista psicológico, adotada pelos ocupantes que, por si mesmo, restabelecem as idéias de Hitler, falando em democracia e imaginando poder democratizar a Alemanha através de seus métodos, que têm de comum com a democracia apenas o nome que se lhes prega sem razão suficiente.

De resto que as populações alemãs tenham uma predileção especial para ser guiadas por Führers, líderes e se submetam facilmente, viu-se na história dos arrebatamentos gregários e movimentos populares, freqüentes nesse país. A submissão absoluta à disciplina, característica dos alemães e especialmente dos prussianos, ressalta, claramente, desse famoso episódio de Kopenick ,nas proximidades de Berlim, no começo de nosso século, em que um sapateiro, tendo vestido um uniforme de capitão e imitando as atitudes típicas dos oficiais prussianos, ordenou a um pelotão de soldados que encontrou na rua a segui-lo e a ocupar a prefeitura, enquanto ele roubava a caixa: executaram todas as suas ordens, sem titubear e deixaram-no partir apresentando-lhe armas.

A censura é um dos meios mais importantes que um líder emprega para controlar as massas e conservar seu poder sobre elas. Assim, como diz Walter Lippmann, (96) [292] o Presidente dos Estados Unidos dispõe de uma enorme quantidade de escritórios e de agentes, de modo que, nas suas mensagens ao Congresso, pode comunicar-lhe o que não lhe agrada. Os membros do Congresso ficam, em razão dessa censura presidencial, na realidade, cegos em meio a um mundo vasto e desconhecido. Um representante, mesmo se é capaz e esforçado ao máximo, pode estar familiarizado, apenas, com uma pequena parte das leis que ele é chamado a votar. O mais que pode empreender é especializar-se em algumas leis, apenas e, para as outras, confiar nos demais colegas. Na hierarquia, que tem uma extensa base nas massas e se estreita para o alto, é fácil conceber que estas permanecem, necessariamente, privadas de informações suficientes. O resultado desse estado de coisas é que, onde as massas podem enredar-se na política e influenciá-la, fazem-no de acordo com sua afetividade e não firmadas em conhecimentos e raciocínios.

Compreende-se, então, que os líderes, os chefes, para se manter no favor das massas, procurem satisfazê-las nos seus gostos, hábitos e afeições. Devem mostrar submissão, pelo menos exterior, às exigências de seus ouvintes, lisonjeá-los, comportar-se como seus servidores. Grabovsky [293] dá um exemplo significativo: “Bismarck, que usava um bigode espesso, resolveu um dia deixar crescer uma barba completa, mas, a opinião pública acolheu tão mal essa mudança de sua aparência que ele precisou sacrificar imediatamente sua barba e voltar diante das massas no seu aspecto habitual”.

Entre os autores e políticos socialistas (mais precisamente, socialdemocratas), admite-se certa influência dos líderes sobre as multidões e as associações, mas, se costuma negar uma ação qualquer sobre o povo e a opinião pública, portanto sobre o que chamamos a massa. Geiger (62) [294], por exemplo, é de parecer que a massa não sofre pulsões volitivas e não aceita os objetivos a atingir, partidos de um chefe, mas, é somente estimulada por ele para uma ação efetiva. É o contrário da opinião de Gustave Le Bon que opõe a noção do líder volitivo à massa abúlica e inerte. Max Adler e Engels [295] recusam-se a encarar o líder em função da tendência da massa de procurar um chefe. Entretanto como diz Henri de Man (43), [296] apoiando-se em fatos conhecidos, “o Socialismo tem também seus apóstolos, seus profetas, seus santos, seus mártires e isso em razão da mesma disposição de espírito de psicologia das massas que a Igreja Católica possui”. Michels (104) [297] insiste mesmo que o comportamento de adulação e de submissão aos chefes constituiu um dos fatores decisivos que causou a estagnação fatal da social-democracia alemã e determinou a sua derrota na luta contra Hitler. [298] E o mesmo fenômeno verificou-se nos partidos socialistas de outros países. Como ilustração da validade dessa afirmação desejamos citar aqui a descrição da imagem surpreendente de uma reunião de massa social-democrata na Alemanha do tempo de Bebel [299]

Bebel fala. O que ele diz, não sei e jamais soube. O mesmo é verdadeiro para a maior parte dos assistentes da reunião. Estávamos entregues a um estado quase hipnótico. Viam-se os cabelos brancos do orador, os movimentos de seus braços, ouviam-se explosões de cólera, de ironia... percebiam-se os olhos inflamados, brilhantes... Se Bebel tivesse dito que 2 e 2 são 5, cada um acreditaria e se teria deixado matar para defender essa asserção... E eis aqui o fim: uma ordem breve, cortante, que não se podia mais mudar, desviar, interpretar em minúcias, era uma ordem sem apelação que cada um tinha que entender: “todos às urnas pela social-democracia”. Cada um experimentava, no seu foro íntimo, a muda inclinação diante desses cabelos brancos, a submissão ante a expressão desses olhos.

A essa divinização efetiva, na prática, dos líderes corresponde, nos meios avançados da esquerda, uma divinização, em teoria, das massas. Michels (104) [300] diz: “O intelectual marxista identifica o proletariado.., com a imagem que faz de si nas reuniões políticas, como se a seleção ínfima que existe nesses casos (nossos 10%) fosse idêntica à massa real (nossos 90%). Na verdade, trata-se de um fenômeno de culto de herói: eleva-se ao pedestal a massa que se considera como heroína; atribuem-se-lhe virtudes místicas e vê-se, na ação das massas, uma panacéia. ”É interessante terem sido sobretudo as mulheres que propagavam esse culto: Rosa Luxemburg, Kiara Zetkin, Henriette Roland Hoist. Os funcionários dos sindicatos operários que lidam diariamente com a massa, são mais céticos a esse respeito“ [301].

A propósito da relação entre a multidão e o líder sou de opinião que o último desempenha a função de um estimulante que desencadeia os reflexos condicionados da massa, mas, às vezes, também, a de um treinador, de um fator absoluto, daquele que inculca esse reflexo; é evidente sobretudo no caso de um líder, como Hitler, que falava à multidão, proferindo ameaças, apelando para a violência amedrontando ou provocando o entusiasmo, o delírio da multidão. A multidão, assim como a massa, sem o líder, é um ajuntamento amorfo. Não compreendo, nesse caso, a censura de Reiwald (130) [302] de não haver relacionado a atividade da massa com a teoria dos reflexos condicionados.

Um livro muito curioso de Kurt Hesse (76) que apareceu na Alemanha em 1922 e que tem o significativo título de Feldherr Psychologos (Marechal Psicólogo), atrai nossa atenção porque nele a idéia de Führer – diretor ou, a nosso ver, violentador das almas, é expresso com veemência e de maneira profética. É surpreendente verificar com que avidez a alma alemã já buscava, então, alguém que a dominasse, que a dirigisse, que pensasse por ela. O autor, um militar, um admirador das teorias do grande estrategista prussiano do século passado, von Clausewitz, analisa, do ponto de vista psicológico, os ensinamentos da guerra de 1914-18 e sobretudo a derrota alemã em Gumbinnen, na Prússia Oriental, a 20 de agosto de 1914, que ele julga decisiva para a evolução posterior e o resultado da guerra; tira conclusões, insistindo para que se estudem, em toda a sua amplitude, os fatores psíquicos da arte da guerra e finalmente exprime a esperança, muito difundida na Alemanha, em seguida à derrota, do advento do Salvador. As idéias emitidas pelo autor são tão características, sobretudo à luz dos fatos vividos entre as duas guerras, quando a Alemanha encontrou seu Führer, seu grande mestre psicológico, na pessoa de Hitler, que é interessante citar aqui algumas passagens tiradas desse livro:

Assim, um dia virá em que se anunciará Aquele que todos nós aguardamos cheios de esperança: centenas de milhares de cérebros carregam sua imagem no seu âmago, milhões de vozes invocam-no incessantemente, toda a alma alemã o procura.

De onde virá? Ninguém sabe. Talvez de um palácio de príncipes, talvez de uma cabana de operário. Mas, cada um sabe: é Ele, o Führer: cada um o aclamará: cada um lhe obedecerá. E por quê? Porque um poder extraordinário emana de sua pessoa: é o diretor das almas. Daí porque seu nome será: o Marechal Psicólogo.

Ele chamará o povo às armas – ou talvez deixará destruir os canhões e os navios: ordenará “trabalhai, trabalhai” e sempre “trabalhai” – ou desejará talvez a greve de todos contra todos; convidará a desfrutar a vida – ou imporá a todos sacrifícios e privações; será um profeta de Deus – ou talvez, demolirá as Igrejas – ninguém sabe. Mas, cada um sente: o que virá, marchará entre precipícios... Um bruto, mas, ao mesmo tempo, um bom... que despreza o prazer, mas, que se alegra com o belo... O melhor de seu ser é sua palavra (sic); ela tem um som cheio e puro, como um sino e chegará ao coração de cada um.

Freqüentemente, ele lança as cartas como um jogador e os homens dizem então dele que é um político autêntico. Mas, somente ele sabe que são as almas humanas, nas quais toca como nas cordas de um piano.

A profecia, à luz do que vivemos em seguida, na realidade, era verdadeiramente surpreendente.


Capítulo VI
O simbolismo e a Propaganda Política

O simbolismo, característica de nossa época – As insígnias – A social-democracia na Alemanha – O fascismo de Mussolini – Tática de Hitler – Gleichschaltung (uniformização ou acertar o passo) – Propaganda de intimidação por símbolos – Os símbolos políticos – O fáscio – A cruz gamada – As três flechas – Os símbolos gráficos – As saudações e os gestos simbólicos – Os símbolos sonoros – A guerrilha dos símbolos – O mito – Os ritos e a magia – O culto religioso – O jornalismo e a imprensa – A propaganda política, seus princípios – A crítica da função propaganda – Planos de campanha – Traços característicos da propaganda hitlerista – Diferenciação da propaganda – Controle de execução e efeitos – Centralização da direção – Os quadros de propagandistas – Os meios financeiros – A experiência de Hesse em 1932 A proteção psíquica das massas.

 

O simbolismo sempre existiu, desde que o homem encontrou o meio de comunicar a outro seus pensamentos e sentimentos, estes mesmo antes daqueles, porque a afetividade é uma função psíquica mais primitiva, tendo suas raízes nos mecanismos não iluminados pela consciência. Pode-se, então, distinguir os símbolos mais rudimentares, concretos, pré-lógicos, de origem inconsciente que serviam aos homens primitivos para transmitir, com a ajuda de reações a princípio quase automáticas, sinais de seus estados psíquicos, causados por estados fisiológicos. Eram expressões de angústia, de triunfo, de fome, de saciedade, de cólera, etc.

Mais tarde, vieram os nomes de pessoas mais próximas, as designações de objetos e de atos que executavam. A expressão simbólica, na sua origem, era característica da psicologia primitiva, pois esta não conhecia ainda as abstrações: os adjetivos, por exemplo, faltam em certas línguas primitivas.

Pouco a pouco, aprenderam a generalizar as denominações das coisas e dos atos, porque existia, originariamente, uma palavra especial para cada uma das variedades de um dado ato, sem que houvesse termo genérico para designar o próprio ato, na síntese de suas aplicações particulares: é assim que certas tribos primitivas possuem, por exemplo, nas suas línguas, muitas palavras (até trinta) para designar o ato de lavar, nas suas aplicações às diferentes partes do corpo, mas, não possuem vocábulo para designar o ato de lavar, em geral[303].

Enfim, vem, no pensamento humano, a abstração através de símbolos abstratos, servindo à lógica. O símbolo torna-se, então, para a inteligência, um meio de se educar e de condicionar o progresso da sociedade humana. Os símbolos são, assim, engramas que, no segundo sistema de sinalização, desempenham o papel de crivos, que selecionam, combinam, formam as excitações que chegam de fora e são exteriorizadas, em seguida, sob essa ou aquela forma determinada. O símbolo permite, como diz Allendy, (4) [304], exatamente como na álgebra, jogar facilmente com os conceitos que o espírito teria muita dificuldade em abordar na sua totalidade, sem esse artifício.

Mas, além disso, a simbolização é a língua do inconsciente, por excelência. É a grande descoberta de Freud (58) [305], a interpretação simbólica: “a chave que permite decifrar as manifestações do inconsciente, o alfabeto indispensável à sua leitura, o traço essencial e absolutamente original da psicanálise: o fato capital é que a tendência inconsciente provoca para se exprimir, representações simbólicas...” “A necessidade de transcrever, em imagens concretas, estados afetivos, explica, naturalmente, todo o emprego do símbolo na linguagem... Fazemos uso constante do simbolismo na linguagem, tanto nas metáforas poéticas, como na fala do povo. Por exemplo, onde uma célebre canção picante diz “Quando a desgraça nos bateu”, o poeta exclamaria: “quando sofremos os golpes do destino”.

Os símbolos transmitem os pensamentos e os sentimentos não somente de uma maneira fugaz e imediata, mas, também, de forma mais extensa no tempo e no espaço. Com efeito, a escrita não é mais que uma espécie de meio de comunicação por símbolos. É verdade que, sob esse aspecto, a humanidade seguiu um caminho: originariamente, a escrita era composta de caracteres relativamente simples e cada um deles representava um conjunto de noções mais ou menos aperfeiçoado, o que se ajustava, exatamente, ao modo de raciocinar e aos sentimentos dos primitivos. Mais tarde, vem a se destacar, a individualizar as unidades da escrita, a harmonizá-la a certos sons de caracteres determinados e a combinar, partindo de sua variedade, as diversas palavras – as expressões de idéias.

As enormes possibilidades de combinações, criadas dessa maneira, eram extremamente úteis à evolução intelectual da humanidade. Graças ao aperfeiçoamento técnico, o ritmo de nossa época torna-se, entrementes, mais e mais rápido e o homem de hoje tem cada vez menos tempo e necessidade de usar longas séries de caracteres – prefere o estilo telegráfico, a estenografia, diversos sistemas de sinais. Assistimos a esse espetáculo singular, a que nos aplicamos, de criar, novamente, maneiras mais simples e mais concretas de exprimir os pensamentos e sentimentos. Essa tendência insinua-se, sobretudo, no campo da técnica, da produção e da ciência, onde sinais de sintetização até internacionais, fórmulas que lembram a álgebra, abreviações convencionais, difundem-se cada vez mais e necessitam mesmo de um trabalho de coordenação através de comissões especiais, instituídas para esse fim, em todos os países.

Acrescentemos que, a partir dos últimos vinte anos, observa-se um curioso fenômeno, particularmente sensível nas ruas; consiste na necessidade que muitas pessoas atualmente têm de conduzir insígnias, de manifestar, de alguma maneira, exteriormente, um pouco de sua vida interior, de sua orientação. Vêem-se pessoas com insígnias as mais variadas, esportivas ou políticas, indicando que são membros dessa ou daquela associação ou sociedade, até mesmo de determinados clubes de xadrez, de filatelistas, de jogadores de boliche, etc.; vêem-se, enfim, insígnias que não possuem qualquer significação particular, mas, que são exibidas, em decorrência de alguma pulsão surgida de maneira intuitiva. Encontram-se formas as mais inesperadas. Assim é que as mulheres conduzem, de bom grado, um pequeno emblema representando o popular Mickey Mouse, ou (o que é pouco compreensível) um basset bem feio, em metal; entre os homens, o distintivo das bananas Fyffes não é coisa rara, por exemplo, na Dinamarca. Esse fenômeno tem uma razão biológica mais profunda: como todo ser vivo, o homem tem necessidade de sondar, de explorar o que o aproxima do exterior; por exemplo, um estrangeiro, relativamente às suas intenções, para reconhecer o inimigo ou o amigo ou ainda uma pessoa neutra, portanto, inofensiva, a fim de modelar, em tempo útil, sua atitude. Entre os seres humanos, é sobretudo a expressão do rosto e os gestos, a maneira de falar, que ouvimos, que observamos e que servem de base ao julgamento que deles formamos. Ora, em nossa época, em que os meios de comunicação impõem à nossa vida um ritmo tão veloz, em que um grande número de acontecimentos sobrevem com a rapidez do raio, a necessidade de uma orientação imediata, a ser tomada em menos de um segundo, faz-se sentir imperiosamente. Eis porque os símbolos exteriores obtiveram, em nossos dias, uma tal popularidade.

Na política, essa evolução, essa tendência para o uso de símbolos, tem um grande valor. Aqui tratamos dos movimentos de massas. É evidente que um movimento político de nossos dias só tem possibilidade de sucesso se suas idéias são adotadas por um número considerável de pessoas que delas se apoderem por um processo de assimilação e, além disso, quando são compreendidas e sustentadas, de maneira unânime, pela grande maioria dos adeptos desse movimento. Se essas condições estão presentes ao espírito, logo se compreende que um tal movimento político só pode obter rápido sucesso se tem uma maneira – por assim dizer estenográfica – de exprimir suas idéias, um simbolismo próprio; poderá, então, ser aceito, de forma rápida e uniforme, por um grande número de pessoas.

O emprego de símbolos é um dos estratagemas mais eficazes preferidos pelo líderes para dirigir as massas, para aspirar e inspirar as emoções das multidões (to siphon emotion), segundo a expressão de Walter Lippmann (96) [306]. “É um truque para criar o sentimento da solidariedade e, ao mesmo tempo, explorar a excitação das massas”. “O símbolo é tabu. A sociedade toda e particularmente os líderes zelam para que esses símbolos, sob os quais agem, não sejam tocados pela crítica, conservem sua função, que é a de traduzir a vontade coletiva. Cada líder consciente de sua responsabilidade desconfia de que a crítica possa entravar a comunicação do espírito de cada um com o símbolo”. [307]

A explicação do fato de que os movimentos políticas atuais se servem particularmente dos símbolos para seu recrutamento e sua ação, não apresenta dificuldades. A história nos fornece, aliás, exemplos magníficos do seu emprego eficaz: a progressão triunfal do símbolo cristão – a Cruz; as letras S.P.Q.R., velho emblema do poder de Roma, o Crescente do Islã, etc. Um exemplo de luta política, por meio de símbolos, nos dá o passado: a luta entre a Cruz e o Crescente.

Entre os partidos políticos contemporâneos, os socialistas e notadamente o social-democrata na Alemanha, sobretudo nos seus primórdios e por volta do fim do século passado, serviram-se largamente de símbolos como de um meio de recrutamento, de exortação à ação de seus adeptos – a bandeira vermelha, o cravo encarnado na lapela, bem como a forma alocutiva “camarada”, não são mais que símbolos determinados, que desempenharam importante papel na história do movimento socialista. É verdade que, no decorrer do tempo, o partido social-democrata – mormente nos seus meios dirigentes – tornou-se progressivamente mais razoável a seus próprios olhos; com o amadurecimento começou a ter, de certa forma, vergonha de suas próprias explosões sentimentais, parecendo-lhe o simbolismo um divertimento pueril; seus chefes não se preocupavam mais, daí em diante, senão com cifras, quadros ou estatísticas, só lidavam com formas lógicas, interpretações econômicas, comparações históricas, etc.; e se, vez por outra, ainda recorriam aos lamentáveis restos de seus antigos métodos de propaganda à base de emoções, utilizados, outrora, com tanta perfeição, serviam-se de maneira tão indecisa e desajeitada, que produziam, freqüentemente, o inverso do efeito desejado. É verdade que a nova orientação era mais cômoda e correspondia à teoria em vigor; com efeito, acreditava-se, cada vez com maior convicção, que todo o mecanismo mundial era uma série de operações econômicas e que os homens não eram mais que peças de um jogo de xadrez, constituídos de forma idêntica, autômatos, munidos principalmente de aparelhos digestivos e não reagindo senão à influência de fatores econômicos. Dizia-se: tudo segue seu curso natural – o mundo se industrializa, as conseqüências inevitáveis do caos capitalista – a superprodução e o desemprego – conduzem à crise, o combustível falta para alimentar os autômatos, estes se rebelam e, cada quatro anos, quando se aperta o botão, isto é, quando são enviados às urnas eleitorais – votam pelos partidos de vanguarda, numa proporção sempre maior. E, então, o objetivo que se desejou com tanta paciência – os famosos 51% – será atingido – é a era do socialismo que começa – tempo em que os malabaristas de cifras e os adoradores de estatística terão completado todas as formalidades democráticas e legais e poderão dedicar-se, daí por diante, a fazer os autômatos felizes.

A conclusão, em política prática, a tirar dessa teoria, era a seguinte: “calma! disciplina! responderemos aos adversários com a cédula eleitoral, dez dias depois de receber a bofetada!” Era a resposta clássica dos dirigentes do partido social-democrata alemão, em Berlim, a 20 de julho de 1932, dia fatal em que, diante da impostura de von Papen, assinou sua própria condenação à morte.

Essa ignorância de dados fisiológicos modernos, ligando-se à ciência da vida, ao homem, o hábito de considerá-lo um autômato, reagindo apenas às ações dos fatores econômicos, essa persistência em não considerar sua verdadeira natureza, munida de mecanismos nervosos, essa fidelidade renitente a dogmas manifestamente insuficientes, tudo isso foi amargamente pago: apesar de todas as profecias a respeito de obtenção dos famosos 51 %, profecias que não estavam tão longe de serem realizadas, os partidos socialistas de todo o mundo se bem que tendo em mãos trunfos consideráveis, sofreram derrota sobre derrota.

Seus adversários fascistas, últimos descendentes do capitalismo em desespero, sem ideais humanos, sem programa econômico bem definido, encontram meios de sublevar e conduzir as massas, de abalar as grandes democracias e de arrancar-lhes, muitas vezes, diretamente, o poder.

Como semelhante coisa se tornou possível?

A resposta é evidente: os adversários dos governos democráticos não estavam presos a dogmas errôneos e rígidos; compreendiam, intuitivamente, a verdadeira natureza do homem e disso tiravam conclusões políticas práticas. É certo que seus objetivos políticos são absolutos e hostis à própria idéia da humanidade; mas, triunfaram porque o socialismo não soube lançar mão da única arma eficaz na oportunidade, a propaganda; ou, então, usou-a contra a vontade e sem energia.

O fascismo adotara plenamente a linguagem simbólica como instrumento de combate. Conhece-se o papel considerável desempenhado pela difusão da cruz gamada na ascensão de Hitler ao poder. Na Itália, Mussolini utilizou, igualmente, em vasta escala, a luta dos símbolos. É interessante seguir a evolução dos métodos de propaganda, durante os anos cruciais que precederam a II Guerra Mundial. Logo no início, era o partido social-democrata que dela fazia uso mais intenso. Os sociais-democratas russos inspiraram-se muito bem em seus métodos, sobretudo os bolcheviques, que os exploraram habilmente e em vasta escala. A guerra civil e a execução do plano qüinqüenal forneceram-lhes, especialmente, oportunidade para tanto. Mais tarde, foram intensamente imitados pelos comunistas alemães que se contentaram, no mais das vezes, em copiá-los servilmente; foi por isso, aliás, que a aplicação desses métodos permaneceu freqüentemente ineficaz. Mussolini copiou muito dos russos; observou, atentamente, seus métodos e introduziu, na Itália, muitos processos bastante úteis para si.

Hitler não se deu mal com a aplicação de sua linguagem simbólica; inspirou-se, diretamente, em Mussolini e nos comunistas. Serviu-se dela de maneira lógica e conseqüente e obteve tanto mais vantagem quanto seus adversários não tinham a menor compreensão do que se passava; deixaram-no agir, tranqüilamente.

Que fazia então Hitler?

Por meio de discursos inflamados, despidos de todo entrave, atraía sobre si a atenção; atacava violentamente o governo republicano, criticava, injuriava, proferia ameaças inauditas: “As cabeças vão rolar”, “a noite das longas facas”, o documento de Boxheim [308] tais eram as ameaças da propaganda nazista que tinha e que devia ter uma enorme influência sobre as massas; isso, por duas razões: em primeiro lugar, essas massas, tornadas facilmente excitáveis pela miséria material, prestavam atenção a todas as críticas; em segundo lugar, o fato de que a propaganda se fazia impunemente, despertava a convicção de que os poderes repressivos e os meios de defesa do Estado estavam inteiramente paralisados e que não se podia esperar, daquele lado, o feliz desfecho para uma situação insuportável. Hitler e seus adeptos, reunidos ao som do tambor, faziam ainda uma coisa que devia reforçar enormemente o efeito de suas palavras. Serviam-se da propaganda simbólica e empregavam, com esse fim, um símbolo muito simples do ponto de vista gráfico, a cruz gamada, que desenhavam por toda parte e em grande quantidade. Exatamente porque era de tão fácil reprodução, foi copiada aos milhões e serviu de sinal excitante, fazendo nascer nas massas uma certa reação nervosa, que nos é familiar, agora que conhecemos as experiências e as conclusões de Pavlov, a respeito da criação dos reflexos condicionados.

A palavra de ordem de Gleichschaltung (uniformização ou acertar o passo) tornada particularmente célebre nesse período, é uma expressão desse fenômeno sob o aspecto político social. O mecanismo é o seguinte: toda palavra violenta de Hitler, falada ou escrita, toda ameaça, associava-se, no espírito de seus ouvintes, a seus símbolos, que se tornavam, pouco a pouco, os sinais evocadores de suas expressões, de suas ameaças; encontrados, por toda parte, agiam constantemente sobre as massas, reanimavam, sem cessar, a inclinação favorável a Hitler, mantinham o efeito da Gleichschaltung, produzido por seus discursos exasperados, da mesma maneira que se reforça o reflexo condicionado de Pavlov, repetindo, continuadamente, o estímulo absoluto. O governo alemão tinha duas possibilidades de reduzir a nada essa reação associativa. Podia ou combater os símbolos, enfraquecê-los, torná-los ridículos, através de certas ações e contramedidas, ou interditá-los, impedir o Tambor, as injúrias, os gritos e as ameaças. Não se fez uma coisa nem outra, deixou-se o inimigo dar, tranqüilamente, a seus símbolos, um vigor sempre renovado.

Se alguém se coloca do ponto de vista político, pergunta a si mesmo em que repousa, então, a possibilidade de obter um bom resultado na luta por meio de símbolos? A exposição dos seguintes fatos serviria de resposta: do ponto de vista da fisiologia dos nervos, podem-se distinguir dois tipos de homem: os que reagem rapidamente, os ativos e os que reagem mais lentamente e que compõem a categoria dos elementos passivos. Em geral, os mais ativos são também os mais conscientes. É fácil verificar que existem muito mais elementos passivos do que ativos. O número dos assistentes nas assembléias é um bom critério. As cifras fornecem ao problema uma solução clara. Pode-se, por exemplo, evidenciar, facilmente, que, numa cidade de 60.000 eleitores, só existem cerca de 4 a 5.000 pessoas aproximadamente capazes de ser consideradas como elementos ativos e isso tendo em conta todos os partidos políticos. Entretanto, as 55.000 pessoas passivas têm o mesmo direito de voto que os outros. É deles, portanto, que, no fundo, depende o resultado das eleições.

A propaganda dos partidos tem como tarefa influenciar e ganhar para sua causa os 55.000 passivos, que não vão às assembléias, nem lêem os jornais políticos de combate; os partidos operários não dispõem de meios para distribuir panfletos em número suficiente e seus jornais, em geral longos, enfadonhos e doutrinários, não são lidos por ninguém. Não é também de espantar que essa propaganda tenha pouco ou nenhum atrativo.

Em compensação, a propaganda fascista alemã, muito dinamizada no sentido emocional, apoderando-se das ruas, atingiu seu fim, pois alcançava a massa dos “55.000”. Entre as emoções que tinham mais influência sobre esses elementos passivos, deve-se mencionar, inicialmente, o temor: é que essa propaganda, através de símbolos populares, operava principalmente por intimidação. Foi com essa intenção que Hitler utilizou a cruz gamada com que obteve a vitória. Seus adversários não perceberam o princípio decisivo dessa luta; não tinham símbolo, acreditavam poder atuar com provas lógicas e quando, finalmente, apelavam para os sentimentos, era sempre tentando levar o adversário ao ridículo, o menos eficaz dos métodos, expresso, com freqüência, sob formas totalmente ineptas e inábeis. Sua propaganda girava num círculo vicioso e, assim, foram vencidos.

O símbolo pode desempenhar, na formação de reflexos condicionados (como decorre de todo nosso raciocínio) o papel de fator condicionante, que, enxertando-se sobre um reflexo preexistente, absoluto, ou sob um reflexo condicionado constituído anteriormente, adquire, por sua vez, a possibilidade de tornar-se um excitante, determinando essa ou aquela reação desejada por quem faz esse símbolo sobre a afetividade de outros indivíduos.

A palavra, falada ou escrita, pode ser utilizada para representar um fato concreto, único e simples, ou um conjunto de fatos, mais ou menos complexos, assim como uma abstração ou todo um feixe de idéias abstratas, científicas ou filosóficas. Da mesma forma, um símbolo pode ser concreto ou abstrato. Em política entende-se, geralmente, por símbolos formas simples que representam idéias, até mesmo de sistemas ou doutrinas muito complexas e abstratas. O esquema seguinte ilustra as relações existentes entre um símbolo político e seu conteúdo, sua significação.

A base da pirâmide é formada pela doutrina, por exemplo, a marxista. O estágio seguinte é um extrato dessa doutrina, tendo em vista uma ação: o programa; digamos, o do partido socialista; o terceiro degrau é constituído por uma concentração ainda maior: as idéias gerais e essenciais do programa ou os objetivos a atingir são expressos em palavras de ordem, por exemplo, “Terra e Paz” (na Revolução Russa) ou “Canhões para a Espanha” (na guerra civil espanhola) ou em slogans que apelam para as paixões políticas, o entusiasmo ou o ódio, por exemplo “Os Soviets em toda parte” ou “guerra suja”! É claro que toda palavra de ordem, para ser aplicada, deve corresponder não somente à situação política, mas, também, ao nível de consciência das massas.

Enfim, no ápice da pirâmide, encontra-se o símbolo: por exemplo, o das três flechas, ou o da foice e do martelo que, num golpe de vista, resume, lembra, a idéia socialista ou comunista e procura determinar uma ação favorável ao partido, como a adesão; é, de certa forma, um sinal estenográfico do slogan, do programa, da doutrina. Tem a vantagem, sendo curto e simples de atuar rapidamente; a formação do reflexo condicionado procurado produz-se de maneira fácil. É tanto mais eficaz quanto mais sugestivo, isto é, transmite, facilmente, sobretudo a idéia de ação, associada ao movimento que representa, especialmente, a base emotiva, a que esse movimento recorre: a ameaça, a compaixão, o interesse material, etc. É assim que os símbolos podem tornar-se instrumentos extremamente ativos para reunir ou para uniformizar as multidões. O in hoc Signo Vinces [309] era muito característico do cristianismo com seu símbolo – a Cruz. Se se analisa a forma de diversos símbolos gráficos, empregados pelos homens, nos grandes movimentos da história, constata-se que os movimentos por eles representados surgem sobretudo de um arcaísmo bizarro: vê-se que uns derivam de armas ou de instrumentos de um caráter geralmente antigo ou primitivo, outros exprimem por si mesmos a idéia do movimento a que estão ligados, como a Cruz, evocando o sacrifício de Cristo pela humanidade e procurando reunir os homens em nome da misericórdia e do amor ao próximo; como um outro exemplo – a foice e o martelo do comunismo – símbolo marxista – que evoca a idéia da edificação social, do trabalho, fonte do bem-estar.

O símbolo fascista, o fáscio ou feixe de lictor, tinha um sentido: era um instrumento de punição, portanto de violência, que servia para fazer valer o direito; em Roma, pelo menos, não estava fora de propósito, relacionava-se com um período da história romana e, por conseguinte, italiana. Tinha a grande desvantagem de ser muito complicado, dificilmente reproduzível, pois é a simplicidade que faz a força prática dos símbolos gráficos, no que respeita à sua difusão. Era o caso, exatamente, da cruz gamada de Hitler que, nos nossos dias, não tem sentido intrínseco: trata-se de um velho signo hindu (chinês também), a svastika que se encontra reproduzida em vestígios de muitas civilizações na Ásia, na África e na América (falta na Austrália) mas, também na Europa, desde idades pré-históricas. Parece que devia representar a roda e sugerir a rotação, até dar vertigem: representava também o sol. Sua forma gráfica, a partir da imagem da roda é a seguinte (fig. 8)

Fig. 8
Esquemas que ilustram a gênese da cruz gamada, partindo da imagem da roda.

Alguns pensam que é um arquétipo.

Em todo caso, esse símbolo não tem qualquer relação com o nacional-socialismo; vendo-o, pela primeira vez, nada se compreende; salta aos olhos, talvez, graças à sua forma extravagante e causa antes um sentimento desagradável, lembrando o que se experimenta à vista de uma aranha ou de um percevejo. Os hitleristas esforçaram-se para demonstrar que era um velho signo ariano e até nórdico. Na verdade, foi adotado por Hitler, exclusivamente por sua forma simples e surpreendente, como uma boa marca de fábrica. Aliás, não foi sequer ele que teve a idéia de aplicá-lo a seu movimento e diz, no seu livro, que adotou a sugestão de um dentista bávaro. Quando Hitler (77) afirma que a cruz gamada deve inspirar a idéia do triunfo do trabalho produtivo, “idéia que foi e permanecerá eternamente anti-semita”, não se pode levá-lo a sério: parece-nos que mesmo “explicada”, essa “verdade” é difícil de aceitar. Mas, quando diz que uma “insígnia impressionante pode, em centenas de milhões de casos, acordar o interesse inicial a respeito de um novo movimento”, estamos perfeitamente de acordo com ele.

A propósito de símbolos, existe uma opinião segundo a qual alguns, dentre eles, estariam fixados ancestralmente no subconsciente dos homens e agiriam por si mesmo, à maneira de reflexos inatos ou automatismos, sem que haja necessidade de formar reflexos condicionados para torná-los atuantes. Fala-se, então, de arquétipos. Assim, quis-se ver, na cruz gamada, um símbolo dessa categoria. Parece-nos que não há dados suficientes para essa afirmação, tanto mais quanto os períodos de tempo desde que o homem e sua cultura (e mesmo a pré-cultura) existem, não parece ter sido, do ponto de vista biológico, bastante prolongados para que caracteres adquiridos possam fixar-se hereditariamente, mesmo se, em geral, a transmissão desses caracteres fosse um fato comprovado.

A propósito do símbolo socialista antifascista das três flechas, não é inútil fazer conhecer aqui sua história.

Por volta do fim do ano de 1931, toda a Alemanha estremeceu em seguida à descoberta, nas cercanias de Darmstadt, de um documento que passou à história sob o nome de documento de Boxheim. Era um programa que os nazistas tinham a intenção de aplicar quando seu partido subisse ao poder. Um documento sangrento, cheio de ódio, de sentimentos de vingança e ameaças. Previa uma única medida de repressão: o cepo de execução. Citamos aqui alguns artigos:

1 – “Todo decreto das S.A., [310] do exército territorial... será objeto de obediência imediata, sem discutir a seção da qual provém. Toda oposição será, em princípio, punida com a morte.

2 – Toda arma de fogo deverá ser entregue às S.A., em 24 horas. Todo indivíduo que, expirado esse prazo, for encontrado na posse de uma arma de fogo, será considerado como inimigo do povo alemão e das S.A. e fuzilado, imediatamente, sem julgamento.

3 – Todo funcionário e operário a serviço das autoridades ou adidos aos transportes públicos deverá, a seguir, sem interrupção, retomar seu trabalho. Toda obstinação e toda sabotagem será punida com a morte.

A administração das S.A. representada por mim, [311] substituirá as autoridades superiores (os ministérios).

4 – As medidas de emergência, tomadas pela direção das S.A., têm força de lei, a contar do dia de sua publicação em cartazes. Toda violação dessas medidas será, nos casos particularmente graves, punida com a morte, além das outras penas fixadas, etc. etc.”

Uma enorme agitação apoderou-se de toda a Alemanha; a imprensa dos partidos de esquerda e os operários estavam especialmente revoltados, ouviam-se, por toda parte, protestos furiosos.

Cinco dias mais tarde, atravessando um cruzamento em Heidelberg, fui, de repente, como que atingido por um raio. Na esquina do muro, estava pintada uma cruz gamada, cortada por um grosso traço de giz branco. Um pensamento atravessou-me como um clarão: eis a solução que havia procurado para o problema de um símbolo de luta que nos seria adequado! é precisamente o que nos falta.

Expliquei, a mim mesmo, imediatamente, o fato psicológico: um operário impulsivo, excitado pelo caso de Boxheim, não podendo mais conter sua emoção, impelido a reagir violentamente, tinha apanhado um pedaço de giz ou uma pedra e cortado o signo odioso da cruz gamada; destruindo-a, desse modo, dava livre curso à sua raiva acumulada. Quem era ele? Não saberemos jamais. A imagem de um soldado desconhecido de nosso grande exército operário apareceu, subitamente, a meus olhos. Preso de grande emoção, tracei um plano, simples e claro: devia ser, assim, por toda parte; não poupar, em toda a Alemanha, nenhuma cruz gamada, dali por diante; o símbolo hitlerista que atuava como um meio de desencadeamento de um reflexo condicionado, favorável a Hitler, devia servir-nos para obter o efeito contrário: era preciso mostrar o espírito agressivo, indomável, de seus adversários: todas as cruzes gamadas, cortadas por mãos invisíveis, quebradas – um novo reflexo condicionado cravado, a grandes golpes, no espírito das massas – a vontade de uma nova força, a da classe operária, enfim acordada e surgindo em toda parte!

Tinha achado a solução, mas era aplicável? Podia esperar pô-la em prática em toda a Alemanha? Era a grande e emocionante questão. No dia seguinte, à tarde, convoquei alguns jovens operários, todos companheiros da Bandeira do Reich. Falei-lhes de nossa luta, expliquei a significação do símbolo, inflamei-os, pondo na mão de todos um pedaço de giz: “Ao combate, rapazes, disse-lhes, cortai o monstro de garras com uma flecha, com um raio!” O traço tornou-se flecha, o caráter dinâmico de nossa luta era assim melhor expresso.

Vibrando de alegria, lançaram-se na noite; o desejo de ação, contido contra a vontade, inibido pelos apelos à ordem, à disciplina, partindo dos chefes, encontrava finalmente livre curso. As noites seguintes passaram num verdadeiro delírio. Os adversários sentiram, imediatamente, que alguma coisa ocorria na cidade, abriram os olhos; novas cruzes gamadas apareceram, logo em seguida riscadas por nós. Os hitleristas estavam furiosos: não podiam senão fazer novas cruzes. Uma curiosa guerrilha explodiu na cidade.

Em minha qualidade de homem de ciência, habituado a traduzir em números a intensidade de um fenômeno, muni-me de um bloco de notas e percorri, cada manhã, uma determinada rua. Contava as cruzes gamadas riscadas e as novas, recentemente pintadas. Verifiquei uma certa proporção. Os dias passaram. A guerrilha enfurecia-se, a proporção continuava, mais ou menos, a mesma. Após uma semana de luta de símbolos, sobre os muros da cidade, o momento esperado chegou: a proporção entre os dois números cresceu a nosso favor, A princípio lentamente, de uma maneira oscilante, depois, sempre mais rapidamente, até que não houvesse mais, por toda parte, senão cruzes gamadas riscadas. Três semanas haviam decorrido. A batalha estava ganha! Os hitleristas estavam esgotados, compreenderam que não tinham outra coisa a fazer e abandonaram a partida. Eu encontrava, agora, muitos de nossos militantes que, os olhos brilhantes de entusiasmo, me confiavam: “É extraordinário! Cada vez que se vê na rua um signo inimigo riscado, aniquilado, sente-se como um choque interior: nossos homens passaram ali, estão ativos, lutam de fato”.

A tarefa era, portanto, realizável, eu podia acreditar que essa luta seria coroada de sucesso; sê-lo-ia certamente, se apenas se pudesse provocá-la em toda parte. O segundo passo devia, então, ser tentado: devia-se ganhar para essa causa nossas organizações, nossos chefes. Seria possível? A idéia era simples e, posta em prática, tinha dado resultados positivos. Trabalhadores comuns compreendiam-na rapidamente e aceitavam-na; porque os chefes não o fariam? Tínhamos organizações poderosas; essa rede podia dar-nos, em pouco tempo, novas armas populares e eficazes. Cheio de confiança, lancei-me à luta.

Comecei falando a meus melhores amigos socialistas, de minhas tentativas e de minhas experiências: decidiu-se adotar a flecha como símbolo da Frente de Bronze; nesse entretempo, eu o transformara, em uma flecha tríplice, antes de tudo para alcançar, pela repetição do signo, um fortalecimento de sua eficácia, em seguida, para acentuar a idéia coletiva do movimento. Além disso, o símbolo das três flechas exprimia muito bem a tríplice aliança entre as organizações operárias reunidas na Frente de Bronze: o partido, as corporações sindicais e a Bandeira do Reich, com as organizações esportivas de trabalhadores; assim, as três flechas simbolizavam, também, os três fatores do movimento: poder político e intelectual, força econômica e força física. Além disso, o símbolo era dinâmico, ofensivo e lembrava, ainda, as três qualidades que se exigiam dos combatentes: a atividade, a disciplina e a União. As idéias libertadoras da Revolução Francesa estavam igualmente expressas: liberdade, igualdade, fraternidade.

E, mais ainda: o paralelismo das três flechas exprimia, de forma tangível, o pensamento da frente unida: tudo devia ser mobilizado contra o inimigo comum, o fascismo.

Enfim, o número três aparece tão freqüentemente na vida humana, nos pensamentos, na vida íntima, na história, que se tornou, de certa forma, um número sagrado. O fato de que ele se enraizou no domínio do subconsciente, tem considerável importância para sua eficácia psicológica.

Esse símbolo, tão fácil de reproduzir que toda criança podia desenhá-lo, tinha mais a vantagem de não poder ser destruído: Os adversários não conseguiam sobrepor seu símbolo ao nosso, como fazíamos com o deles, pois, nesse caso, ter-se-ia a impressão de que era a cruz gamada que estava cortada por nossas três flechas.

A superioridade desse símbolo de luta política sobre todos os demais reside também no fato de que é, depois da cruz cristã, o mais simples. Se se colocam os símbolos gráficos mais conhecidos numa ordem de complexidade crescente, obtém-se a seguinte relação: (fig. 9): a Cruz, a mais simples de todas, em seguida o V da Segunda Guerra Mundial, a cruz de Lorena dos degaullistas, as três flechas, a cruz gamada, depois o crescente do Islam, a insígnia soviética – a foice e o martelo – e, enfim, os símbolos sempre mais complexos: o feixe fascista e as insígnias dos Impérios: as águias, os leões, etc.

Como símbolo para a campanha do New Deal em 1933, serviu a Roosevelt a águia azul; os símbolos respectivos dos dois partidos políticos, nos Estados Unidos, são, respectivamente: o dos democratas – o burro, o dos republicanos – o elefante.

Ao lado dos símbolos por imagem, há outros por letras, de que os mais conhecidos, na história, são o S. P. Q. R. – (Senatus Populusque Romanus) que, na antigüidade, colocado em muitos lugares, proclamava, por toda parte, o poder conquistador de Roma; o R. F. (Republique Française) da Revolução Francesa, insígnia oficial ainda de nossos dias. Esses símbolos por letras são, entretanto, símbolos de Estados em função dos quais está sua força sugestiva; são muito abstratos para prender as massas; e a imaginação, sozinha, muito freqüentemente, não basta para criar emoção.

Inscrições e divisas são também empregadas, muitas vezes, na propaganda política escrita, sobretudo nos cartazes, nos desfiles, ou em muros e fachadas de edifícios. Sua utilização inspira-se no exemplo da publicidade comercial e tem por objetivo menos convencer a inteligência do que desencadear, por fórmulas precisas e surpreendentes, as paixões e acordar também as ambições. Nas inscrições, o excitante visual combina-se com o sonoro, pois evoca as palavras que têm um forte valor emotivo.

Fig. 9
Símbolos gráficos que desempenharam função política, por ordem de complexidade dos desenhos.

Na luta política, conduzida na Alemanha em 1932, lidou-se não com um símbolo, mas, com todo um sistema de símbolos, geradores de comportamentos e de estados d'alma ou, em terminologia científica, que aprendemos nos capítulos precedentes, como excitantes condicionais de reflexos, derivando de diversos sistemas de pulsões. Dois princípios, referindo-se sobretudo às pulsões 1 e 3, eram realizados nos sistemas de símbolos empregados na luta pelos dois grandes grupamentos: os hitleristas e os socialistas. Esses dois princípios eram o da intimidação e o do ridículo. As formas eram: gráfica, plástica e sonora. Os dois princípios podiam manifestar-se, em cada uma dessas formas.

Assim, o símbolo gráfico de intimidação dos hitleristas era a cruz gamada; o dos socialistas – as três flechas. Eram reproduzidos em toda parte, a giz, lápis, carvão, ou em cores, nos muros e paliçadas, nas ruas, nos veículos, etc.; figuravam nas bandeiras, bandeirolas de papel, nas vidraças e cartazes, sendo conduzidos também como insígnias; apareciam, constantemente, na primeira página dos principais jornais e no texto de periódicos, expunham-se nos anúncios, panfletos e boletins, nos volantes, eram traçados no chão com uma vara, pintados no asfalto; eram até desenhados nos vidros embaçados e partes empoeiradas dos automóveis, dos bondes e vagões de estrada de ferro, com os três dedos abertos. Criaram uma verdadeira obsessão coletiva e figuravam em toda parte, lembrando, sem cessar, à população, a existência da Frente de Bronze, como fazia Hitler em seu movimento, falando às massas do ardor combativo e do poder da grande organização operária.

Uma prova da eficácia desse gênero de propaganda, como meio de intimidação através da criação de uma obsessão por símbolos gráficos é oferecida pelo fato seguinte: quando o símbolo das Três Flechas penetrou na França e, adotado pela Juventude Socialista, em Paris, espalhou-se uma noite pelos muros da capital, os jornais de direita comentaram o caso nos dias seguintes, perguntando que significação podiam ter esses “sinais misteriosos”, indo ao ponto de supor que “certamente, por meio dessas flechas, eram indicados, nas ruas, os lugares de metralhadoras que os partidos operários subversivos tinham a intenção de utilizar, no caso de um motim”. (!!).

Os símbolos gráficos de sarcasmo tinham por fim criar, na propaganda de rua, um tom irônico, partindo do fato de que, na luta política, o ridículo mata. Esse signo era a caricatura de Hitler, desenhada, com alguns traços, sobre uma cruz gamada, encontrada ao acaso e riscada com três flechas (fig. 11) [312]

Como símbolo plástico de intimidação, equivalente à saudação romana de Hitler e Mussolini, os antifascistas adotaram o gesto do braço direito energicamente estendido para cima e o punho cerrado. Esse gesto simbolizava o espírito combativo, exprimia a ameaça e devia servir, também, como saudação coletiva, saudação individual, saudação nas ruas, como gesto de juramento e nos desfiles em colunas. Estes, como as cerimônias em público, igualmente, são meios de propaganda muito poderosos para exaltar paixões, sobretudo do tipo agressivo, (pulsão n.° 1) por uma exibição de símbolos gráficos, de cartazes com slogans, uniformes, bandeiras, pelas exclamações, os cantos, a música, etc. De fato, são imitações desmesuradas das exibições ambulantes, atuando sobre a vista, os ouvidos e os nervos, em geral, dos assistentes tanto atores, como espectadores. Na luta dos símbolos na Alemanha, em 1932, usou-se muito esse tipo de propaganda, como veremos em seguida.

O correlativo do punho estendido, o símbolo plástico de mofa, era o antigo gesto romano, através do qual a multidão de Roma expressava o desejo de morte ao vencido, nos combates de gladiadores: o punho com o polegar voltado para baixo. Devia dizer aos adversários: “Estais perdidos, estais fracos, ai de vós!” A cada encontro nas ruas com os nazistas, esse gesto devia responder à saudação hitlerista de provocação. Usava-se nos desfiles, nos corais falados e em toda oportunidade onde se impunha a agressão irônica contra os adversários.

Como símbolo sonoro de ameaça e como réplica ao grito nazista de “Heil Hitler” (viva Hitler), os socialistas empregavam “Freiheit” (Liberdade), lembrando o ideal socialista mais elevado; a liberdade política e moral, a libertação do jugo capitalista. O grito era combinado com o gesto de combate, o punho levantado. Usava-se, com a maior freqüência possível, nas ruas; todo homem, toda mulher, conduzindo a insígnia das três flechas, saudavam-se com o grito de guerra da liberdade. Para assegurar aos símbolos uma propagação e um efeito tão rápido quanto possível, os membros dos partidos passeavam regularmente, a uma hora determinada, nas ruas e nos lugares mais freqüentados – a palavra técnica desse gênero de propaganda era passeio de símbolos. [313]

Eis uma prova manifesta da eficácia da propaganda dinâmica por símbolos. (Fig. 10).

Um domingo, em Copenhague, os jovens socialistas percorreram as ruas da cidade em bicicletas, em fila indiana; conduziam pequenas bandeiras vermelhas com as três flechas, que flutuavam ao vento; o primeiro da fila tinha, além disso, fixado no guidon um estandarte do mesmo tipo e uma corneta na mão; o corneteiro dava um sinal estridente e todos os demais que o seguiam erguiam simultaneamente o punho e gritavam “Kamplar”! (pronto para o combate) – o grito de guerra dos jovens. Os transeuntes, atônitos, paravam e olhavam a fila passar, rápida e surpreendentemente. No dia seguinte, os jornais registravam: “Ontem, a cidade foi invadida por equipes de jovens socialistas que faziam uma propaganda de novo tipo.” etc. “A direção da juventude, desejando controlar o efeito, tinha enviado às ruas, agentes que deviam interrogar os transeuntes sobre suas impressões, especialmente, sobre o número dessas equipes que circulavam na via pública e sobre a quantidade de participantes. As cifras indicadas variavam entre 200 e 300. Na realidade, não houve mais que duas equipes com doze jovens, ao todo, e em todos os lugares!

Como símbolos sonoros, para criar o entusiasmo, empregam-se hinos ou cantos. Conhece-se o Horst Wessel Lied dos hitleristas ou a Giovinezza de Mussolini e a Internacional, dos socialistas. Como hino, na Revolução Russa, foi empregada, muitas vezes, a Marselhesa. A Frente de Bronze tinha, também, um hino muito harmonioso e de ritmo arrebatador, cujo estribilho dizia:

“Ouve a marcha das colunas
Ouve o troar dos nossos passos
Cedo a liberdade será ganha
Vem, irmão, marcha conosco”.

Como símbolo sonoro irônico, espalhava-se uma exclamação que tornava ridículo o grito nazista “Heil Hitler”. Baseava-se num jogo de palavras: transformava-se “Heil” (viva) em “Heilt” (curai) e, quando os adversários gritavam “Heil Hitler”, retrucava-se: “Com efeito, é necessário curar Hitler de sua mania de grandeza!”. Ou, então “ele ficará logo curado”, ou, ainda, “A Frente de Bronze o curará rapidamente”! Da mesma forma, quando se encontravam escritas num muro as palavras “Heil Hitler”, acrescentava-se um “t” a palavra “Heil”, de maneira que a inscrição tornava-se “Heilt Hitler” (curai Hitler); assim, a saudação hitlerista era tornada ridícula e perdia sua eficácia de símbolo ameaçador.

Enfim, pode-se ainda acrescer, enormemente, a eficácia psicológica de um símbolo, combinando os dois princípios; por exemplo, um pequeno desenho simbólico da Frente de Bronze teve um grande sucesso, na Alemanha, nessa época e foi reproduzido em milhões de exemplares. Apresentava a cruz gamada de botas, com a cabeça de Hitler apavorada, fugindo diante das três flechas. [314]

A guerrilha de símbolos toma, às vezes, formas muito curiosas: os adversários deformam reciprocamente os símbolos; os nazistas, por exemplo, transformavam as três flechas em três guarda-chuvas (fig. 16) , [315] os socialistas, por sua vez, ridicularizavam a cruz gamada e a cabeça de Hitler, como vemos abaixo (fig. 11), etc. À mesma categoria pertence a deformação, muito difundida em Paris, da inscrição dos realistas “Vive le roi” (viva o rei) em ”Vive le rôti” (viva a carne assada).

Fig. 11
Símbolos gráficos na guerrilha entre a cruz gamada de Hitler e as três flechas da Frente de Bronze na Alemanha.
a. imagem da cruz gamada riscada pelas três flechas.
b. imagem da cruz gamada, transformada em cara de Hitler, riscada pelas três flechas.

Durante a ocupação da França, a milícia de Pétain desenhava nos muros de Paris seu símbolo, a gama. Seus adversários os combatiam, apondo sobre esse signo a cruz de Lorena, degaullista, de modo que se obtinha uma imagem de inseto ou completava-se o desenho de forma que o transformasse numa cara de idiota (fig. 12).

Fig. 12
Símbolos gráficos transformados em imagens ridicularizadas pelos adversários. A gama da Milícia de Pétain (De acordo com Domenach, 45).

A maior parte das formas utilizadas pela propaganda política é, afinal, veículo para os símbolos. Vimos, nas páginas precedentes, que os símbolos gráficos, de certo modo, sinais estenográficos da propaganda moderna, exploram as excitações visuais, tornadas assim uniformes para as massas. Mas, o mesmo sentido visual e também o auditivo são ainda utilizados para impressões mais complexas, prendendo a atenção durante um tempo mais prolongado e procurando, desse modo, obter eficácia através de excitações mais profundas e duráveis. Também o elemento persuasivo, o raciocínio, é misturado às impressões que recorrem à afetividade; os símbolos, para se exteriorizarem, empregam até formas mais complexas, valendo-se, muitas vezes, de vários sentidos, ao mesmo tempo. Essas formas de propaganda são as do rádio, agindo, então, pela palavra, pelo cinema, pelo teatro.

Na parte teórica de nossa exposição vimos que Pavlov atribuía extrema importância à palavra, como excitante condicionante para a formação de reflexos condicionados, mormente para aqueles que povoam o segundo sistema de sinalização. Em nossos dias, o rádio tornou-se o principal veículo de propaganda sonora. As informações, a música, as canções, o sketch falado, são outros tantos caminhos de que se serve a propaganda. Vimos sua enorme influência nos métodos da última guerra, em que a resistência psíquica das populações, nos dois campos, era fator primordial na luta. Nos últimos tempos é a televisão, associada ao rádio, que começa a tornar-se um meio universal de transmissão do pensamento e das emoções humanas: nos Estados Unidos, os receptores de televisão já se contam aos milhões. A propaganda sonora utiliza, ainda, discos que, com o emprego de alto-falantes, instalados nas reuniões públicas e em veículos, servem nas campanhas eleitorais e até na frente de guerra; em 1918, em 1939-45, na guerra civil espanhola e chinesa e, ultimamente, na guerra da Coréia e no Vietnã.

Fig. 10
Um grupo de jovens socialistas dinamarqueses realizando, em Copenhage, um ato de propaganda emotiva em fila indiana.

A propaganda visual pelo teatro e pelo cinema é também importante na vida política. Na Revolução Russa e no front das duas guerras, o teatro ambulante na Rússia gozava de grande popularidade: os melhores artistas não se cansavam de contribuir para trazer alto o moral dos combatentes. Teremos, mais adiante, oportunidade de nos ocupar de grandes festas públicas espetaculares, organizadas durante a Revolução Francesa e, na nossa época, na Alemanha hitlerista e na Rússia soviética. A propaganda pelo cinema é sobretudo característica deste último país, onde os filmes, admiravelmente montados e encenados pelos melhores artistas, têm quase sempre um gosto de tendência, isto é, fazem propaganda, seja para facilitar as tarefas construtivas da vida na Rússia, seja para difundir as idéias nascidas da Revolução de 1917.

O símbolo é concebido geralmente como uma representação que evoca, instantaneamente, uma idéia ou uma doutrina, o sinal quase mecânico, ou melhor, automático, que sugestiona os homens, que os reúne em torno dessa idéia. Mas, a idéia ou doutrina é uma criação dos homens, destinada a estimular sua atividade, polarizando-a num determinado sentido; contém sempre elementos do que Pavlov chamou de reflexo de fim. Ora, se um homem tende para um objetivo é que ele não se contenta com aquilo de que vive atualmente, procura alguma coisa de melhor, de mais atraente e, vendo a impossibilidade de atingir esse fim, na sua época, cria o ideal, o Pássaro azul. É a origem dos mitos. A política e os mitos têm pontos de contato muito nítidos.

Basta lembrar a eclosão do mito revolucionário, no fim do século XVIII, na França; depois, nos meados do século XIX, a cristalização mais lenta, contudo perturbadora, do mito socialista e proletário. [316] Nos nossos dias, a reanimação dos mitos do passado e a criação dos mitos do futuro, caracteriza, de ora em diante, as propagandas fascistas, tanto as de Hitler e Mussolini, como a de Franco.

O que caracteriza o mito é principalmente sua tendência coletiva, social, existente “a favor da sociedade e em seu favor”, segundo feliz expressão de Roger Caillois, no seu livro Le Mythe et l'Homme (23). As fórmulas que apresenta sobre o problema são tão claras que considero útil citar aqui essas passagens: “A enervação, por assim dizer, do mito é de essência afetiva e repercute nos conflitos primordiais suscitados, aqui e ali, pelas leis da vida elementar. O mito representa, na consciência, a imagem de uma conduta cuja solicitação ela sente... O mito pertence ao coletivo; justifica, mantém e inspira a existência e a ação de uma comunidade, de um povo, de um corpo profissional ou de uma sociedade secreta” e, sobretudo, diremos nós, de um movimento popular, religioso ou político, a que a história e a vida social fornecem as fontes da criação dos mitos, encontram neles invólucros que os caracterizam.

Mas, nesse caso, surge a questão principal: quais são as necessidades afetivas que impelem os homens a criar mitos?

Ainda aqui a resposta que nos dá Caillois é bastante sugestiva.

O indivíduo está preso a conflitos psicológicos com a civilização. Esses conflitos são os fatos da própria estrutura social e o resultado do constrangimento que ela faz pesar sobre seus desejos elementares. O indivíduo só poderia sair desses conflitos por um ato condenado pela sociedade. O resultado é que fica paralisado diante do ato tabu e vai confiar a execução ao herói. Este é, por definição, o que encontra solução para as situações míticas, uma saída feliz ou infeliz. O indivíduo que sofre o conflito e que não pode sair dele, em virtude das proibições sociais, entrega seu lugar ao herói: este é, então, quem viola as proibições. Mas, o indivíduo não saberia ater-se eternamente a uma identificação virtual com o herói, a uma satisfação ideal, falta-lhe o ato, exige ainda a identificação real, a satisfação de fato. O próprio mito não é mais que o equivalente de um ato.

Observa-se, atualmente, uma revivescência dos mitos. Isso é devido a que o mundo está atormentado por uma vida cheia de dificuldades, de sofrimentos, de desilusões, de inquietudes. Em suma, está “privado de alegria” e, por essa razão, “entregue ao domínio dos mitos”. [317] Sua função é unir o desejo obscuro informulado de sua satisfação... O mito é uma participação antecipada que preenche e reaviva o desejo de felicidade e o instinto de poder; o mito é indissoluvelmente promessa e comunhão.

Reiwald, (130) [318] em sua crítica, espanta-se que eu cite Caillois (23) e supõe que é a falta da possibilidade de explicação dos mitos pela psicologia objetiva. Faço-o, precisamente, porque a interpretação de Caillois, que acho pertinente, não contradiz os dados da teoria dos reflexos condicionados e não é, no meu entender, uma interpretação puramente psicanalítica. Aliás, certos fatos da psicanálise não são necessariamente incompatíveis com as idéias de Pavlov e as minhas de violação psíquica. Somente a explicação desses fatos, que é dada pela psicanálise clássica, parece-me muito simplista e não assentada suficientemente sobre os dados científicos atuais: por exemplo, o subconsciente da psicanálise parece-me coincidir, em muitos pontos, com a noção do segundo sistema de sinalização de Pavlov. O que rejeito, ainda, é a tendência de ver, na forma de qualquer símbolo, uma força intrínseca misteriosa, um arquétipo que pode desencadear reflexos absolutos, isto é, de origem subconsciente. Pensar que o povo alemão era, antes de tudo, influenciado pelo símbolo da cruz gamada mais do que por outros, eqüivale, segundo penso, a entregar-se a um misticismo que não tem qualquer razão científica, como, afinal, a tendência para falar de uma alma ou consciência de multidão.

É precisamente porque vemos que o mito emprega sempre símbolos que fazem reviver, sem dificuldade, estados de alma que sustentam nos desfalecimentos. Esses símbolos tomam, às vezes, a forma de ritos, de ações reais simbólicas, que dão aos indivíduos a sensação, mais ou menos falaciosa, de realizar, não obstante, suas aspirações. “O rito introduz, na atmosfera mítica, o próprio indivíduo”.

Enquanto o rito subsiste na vida social, o mito tem também a possibilidade de durar e de exercer seu poder sobre os homens, mas, cai em desuso, se o rito é abandonado. Torna-se, então, como diz Caillois (23) objeto de literatura; é o que chegou a nossos dias da antiga mitologia.

Veremos, mais adiante que, na antigüidade, os ritos, desempenhavam, na vida, uma função extraordinária, não somente nas práticas religiosas, mas, também, na vida privada e política. Dava-se-lhes, muitas vezes, o caráter de festas públicas, que retornavam periodicamente e ofereciam aos homens a oportunidade de deixar manifestar-se livremente sua afetividade, mais ou menos inibida há longo tempo fora das festas, pelas necessidades sociais ou leis que restringiam a liberdade de comportamento. Eram verdadeiras manifestações de desinibição coletiva, de excessos autorizados, pelos quais o indivíduo se integrava no drama e tornava-se, ele próprio, o herói do mito, o rito realizando o mito e permitindo vivê-lo. A propósito da festa, Freud [319] diz que se trata de “uma violação solene de uma proibição”.

De Felice (37) nota que os ritos são mais tenazes que os próprios mitos e guardam um caráter estranhamente primitivo, como era o caso, por exemplo, nas celebrações dos mistérios de Eleusis. “Permanecem, muitas vezes, em um nível tão baixo que sua significação escapa aos que os executam e que se esforçam, em vão, para explicá-los. Quanto às práticas da mística, cuja eficácia repousa no emprego de processos mais ou menos imutáveis, continuam a subsistir em sua violência original, a despeito dos esforços que os pensadores tentam no sentido de substituir os arrebatamentos dos êxtases que transtornam o organismo, as inspirações poéticas ou proféticas que entusiasmam a alma e de guiar as ambições de seus contemporâneos para a serenidade de uma sabedoria fundada na razão”.

Atualmente, pode-se ainda observar que os movimentos políticos que exploram, conscientemente, a afetividade das massas, a necessidade que elas experimentam de exteriorizar suas esperanças ou aspirações, de vivê-las simbolicamente, pelo menos, esforçam-se para criar mitos e fazem grande uso de festas espetaculares que tomam, às vezes, todas as características dos ritos. É assim, por exemplo, que o culto do Soldado Desconhecido, criado depois da guerra de 1914-18, e que se propagou por toda parte, suscitou ritos de peregrinações ao Arco do Triunfo em Paris, a cerimônia da flama, a maratona de Rothondes em Paris, etc. Mas, foram especialmente os movimentos fascistas italiano e hitlerista que recorreram a esses métodos e que, nas exibições em Nuremberg e em outros lugares, de sua força guerreira ofereciam exemplos desse gênero, aproximando-se, pela exaltação dos participantes, das festas das tribos selvagens; com a única diferença de que a organização moderna e a disciplina de cadáver desempenhavam um importante papel, deixando inalterada a mentalidade bárbara. Moffat, citado por Caillois (23) traça um paralelo entre essas festas hitleristas e as das seitas políticas semifascistas nos Estados Unidos, a Ku-Klux-Klan. Diz que “os ritos de punição estão aí nitidamente destinados a dar aos membros essa embriaguez breve que um homem inferior não pode dissimular quando se sente, por alguns instantes, detentor do poder e criador do medo”. Vê-se aqui, ainda, que a primeira pulsão principalmente é explorada nesses casos. Além dessa pulsão e ainda a segunda ou nutritiva, encontrando-se na base do culto religioso, como já vimos, que geralmente constitui o substratum sobre o qual crescem e se desenvolvem os mitos. Mas, como no mito, podem-se distinguir dois aspectos, o elemento místico e o da magia, é possível afirmar que, nas religiões, são os elementos de mística que predominam, enquanto os ritos dos mitos, tendo em sua base veleidades de violência, ressaltam, de preferência, da magia, que guarda a atitude de conquista, a vontade de poder. Os símbolos gráficos, como, por exemplo, a cruz gamada, ou os símbolos sonoros e plásticos, que lembram as fórmulas e os gestos de encantamento, de feitiçaria, são formas sem dúvida aparentadas com a magia que, “em razão de sua própria natureza”, como nota De Felice, (37) “é um dissolvente do espírito e um narcótico da consciência”.

A magia surge, então, de técnicas mais mecânicas, poder-se-ia dizer, que se valem, conscientemente, dos automatismos ocultos no inconsciente. A mística, em compensação, sendo da mesma forma uma técnica de ultrapassar a si mesma, como diz De Felice, (37), mas já em vias de sublimação religiosa, emprega processos que se podem agrupar em formas inferiores e superiores. No primeiro grupo, De Felice distingue processos de dietética: para chegar ao êxtase, recorre-se a jejuns, a regimes alimentares especiais e sobretudo à ingestão de substâncias tóxicas que levam à embriaguez que parecem abrir acesso a um mundo sobrenatural (38). O segundo método é a aglomeração em multidões, por exemplo, nos templos, procissões, etc., nas quais a individualidade se perde em proveito da união com a multidão. O terceiro é o dos exercícios físicos especiais, acompanhados, às vezes, de macerações, de atitudes deliberadamente forçadas, de paralisias voluntárias de certos órgãos; a pessoa provoca em si mesma perturbações fisiológicas e psíquicas, como pelas intoxicações se criam vertigens.

O segundo grupo de formas místicas, os de métodos de ordem superior, é caracterizado por uma concentração mental por meio da meditação, contemplação ou especulação para um certo ideal. Enfim, o segundo processo superior de ultrapassar-se a si mesmo culmina na prática de um ascetismo puramente moral, finalizando na abnegação.

Poder-se-ia, talvez, objetar que, em nossos tempos, em que o racionalismo procura penetrar em tudo, em que as ciências positivas oferecem uma visão sempre mais nítida da natureza e das leis que regem as coisas, seria estranho falar de mística, de magia, de influência dos mitos. Seríamos tentados a acreditar que os perigos que entrevemos atualmente para a humanidade e a cultura são imaginários ou, pelo menos, exagerados. À parte tudo o que dissemos anteriormente, a propósito das leis do comportamento humano baseadas em dados da psicologia biológica objetiva, acreditamos poder responder a essa eventual objeção, com as seguintes palavras de Roger Caillois (23) que, pelo estudo da filosofia dos mitos, não acredita afastado o perigo em questão. “As virtualidades instintivas – diz ele – não pereceram. Perseguidas, despojadas, enchem ainda de conseqüências, tímidas, incompletas e rebeldes, as imaginações dos sonhadores, os pretórios dos tribunais e as celas dos asilos. Podem, quando se sonha, apresentar ainda sua candidatura ao poder supremo. Podem até obtê-lo, pois a época a isso se presta. Dos mitos humilhados aos mitos triunfantes, a estrada é, sem dúvida, mais curta do que se imagina. Bastaria sua socialização. No momento em que se vê a política falar tão facilmente de experiência vivida e essa concepção do mundo pôr em dificuldades e em brios as violências afetivas fundamentais, recorrer finalmente aos símbolos e aos ritos, quem o julgará impossível?

É precisamente desse perigo de socialização dos mitos e dos ritos em questão, surgindo da violência, da idéia anti-social e do processo de sua socialização, já em curso, que desejamos falar mais abaixo, dando exemplos e provas irrefutáveis. Pretendemos tratar, também, da possibilidade de ação que, opondo às armas reais de violação psíquica outras não menos reais e eficazes, poderão vencer as forças obscuras que conduzem a humanidade para a beira do abismo. Uma vez que um princípio deve guiar-nos nessa luta, em que se joga nosso destino: querer opor aos gases asfixiantes imagens santas e ladainhas é uma forma de suicídio coletivo.

O mito e o emprego dos símbolos nos levam a falar de uma forma de movimento popular em que esses métodos são evidentes; usados há séculos, fornecem oportunidade de analisar sua eficácia, baseando-se na sua duração. São os movimentos religiosos e seus cultos. Sua comparação com os problemas da propaganda política é tanto mais justificável quando se trata de movimentos de grande envergadura que se preocupam em atrair adeptos sempre mais numerosos, de prepará-los e quando têm as mesmas finalidades de qualquer movimento político, desde que tentam também resolver as questões do comportamento com vistas à salvação do homem e de sua comunidade. Sabe-se que tiveram às vezes na história papel eminentemente político e ainda têm em determinados países. A única coisa que os diferencia dos movimentos baseados nas pulsões e instintos alimentar e combativo, é que podem firmar-se em outros fundamentos: a moral cristã, por exemplo, tem a da pulsão paternal, pois é a compaixão, a misericórdia que a guiam; do ponto de vista do culto, como vimos mais acima, muitas religiões se apoiam, a nosso ver, na pulsão alimentar, como base biológica.

Certos usos, nas sociedades primitivas, são comparáveis, como modo de formação, aos sintomas obsessivos, com raízes nos automatismos da esfera do inconsciente. Theodor Reik [320] levou muito longe o paralelo entre a formação de dogmas em matéria religiosa e a das obsessões, como meio de resistir a um conflito inconsciente e buscar uma solução. É evidente que a história das religiões pode encontrar-se, assim, singularmente, esclarecida. Desse modo, o mito quase universal do deus nascido de uma virgem não aparece mais como o produto de uma revelação primitiva e comum, mas, como resultado de um conflito inconsciente de toda a humanidade: o desejo que tem a criança de suprimir o pai.

Entre os primitivos da Austrália, [321] as cerimônias mágico-religiosas não comportam, as mais das vezes, nenhuma excitação e os observadores concordam em reconhecer o caráter disciplinado e solene que ordinariamente guardam. São representações de lendas totêmicas. No espírito dos indígenas, têm uma importância capital do ponto de vista econômico: estão, com efeito, estreitamente associadas à produção de alimentos que asseguram a subsistência da tribo – fato que corrobora, mais uma vez, nossa asserção de que a base biológica das práticas religiosas reside na pulsão n° 2.

As formas adotadas pelas Igrejas para sua propaganda emotiva, são, em princípio, absolutamente as mesmas que as dos movimentos políticos. Vejamos, por exemplo, os símbolos: a cruz, como símbolo gráfico, age, em princípio, da mesma forma que a cruz gamada dos hitleristas ou a foice e o martelo dos comunistas; tem, unicamente, a grande vantagem de ser muito simples e facilmente reprodutível; depois, permite apreender, com rapidez, sua significação, o que não é o caso da cruz gamada, a suástica, nada tendo esta a ver com o nacional-socialismo e as teorias de um Hitler que, propagandista esperto, simplesmente a adotou para seu movimento, devido à sua simplicidade, à sua fácil reprodução. Era, para ele, uma marca de fábrica, como tinha sido, aliás, muito tempo antes de Hitler e ainda é a marca da renomada cervejaria dinamarquesa Carlsberg. Ele explicou em vão, com profusão de palavras, no seu Mein Kampf, como e por que veio a adotar a suástica; suas construções ad hoc não enganam ninguém. O símbolo comunista, a foice e o martelo, é muito mais bonito, do ponto de vista humano; e, sendo compreensível por si mesmo – utensílios de trabalho – exprime, com exatidão, a idéia construtiva do Estado proletário. Tem a desvantagem, em relação à cruz cristã, de ser muito mais difícil de desenhar, o que entrava sua difusão.

Outro símbolo religioso Cristão, do tipo plástico, correspondendo à saudação romana de Mussolini e de Hitler (o último aproveitando-se sempre das idéias e fórmulas empregadas por outros) ou ao punho distendido dos socialistas, é o sinal da cruz que os fiéis fazem levando a mão à fronte e aos ombros.

A Igreja emprega, também, símbolos auditivos, equivalentes aos gritos Heil Hitler, Duce, dos fascistas, ao Freiheit! dos socialistas alemães; entre outros: Amém, Aleluia, Kyrie Eleison da Igreja grega ou as exclamações Christosso voskress (Cristo ressuscitou) da Igreja russa.

Como símbolos, poder-se-iam citar, ainda, os totens das diversas tribos pré-históricas ou das tribos selvagens dos nossos dias, que eram os atributos constantes de suas crenças religiosas e a respeito das quais Freud e outros fizeram estudos tão profundos quanto interessantes. Bastará indicar que, nos ritos dos cultos religiosos, mesmo atuais, como o cristão, encontra-se uma multidão de símbolos, tanto gráficos, como plásticos ou sonoros, assim como ritos, que tomam a forma de preces coletivas, de cantos, de liturgias e sacramentos; procissões, prédicas e mil outras maneiras de influenciar os diversos estados d'alma, a fim de canalizá-los numa direção de comportamento desejada pelos diretores – os padres. As práticas são, na realidade, absolutamente as mesmas que as da propaganda em geral e, sobretudo, da política. É supérfluo insistir, pois é evidente a analogia. Faltaria ainda mencionar um movimento que emprega, para sua difusão, métodos de propaganda baseada no mesmo princípio, mas, que oferece essa particularidade: sendo um movimento construído ideologicamente de modo claro sobre a pulsão n° 4 (paternal) utiliza, contudo, como base, na sua organização e formas de propaganda, a pulsão n° 1 (combativa). Esse movimento é o do Exército da Salvação, em que a organização de cargos é fielmente copiada do modelo militar: encontram-se generais, coronéis, etc. O uniforme, as bandeiras, os tambores, as fanfarras, as paradas desempenham nisso um importante papel. Sua divisa é Sangue e Fogo, suas cores: vermelho e ouro, seus jornais intitulam-se Grito de Guerra e Pequeno Soldado. O fundador desse movimento, criado em 1865, William Booth, era um homem que reunia três temperamentos: o de chefe de organização, o de apóstolo e de batalhador. Uma carta escrita por ele, aos vinte anos, a um amigo, serve para a compreensão da gênese dessa organização: ela é cheia de imagens e expressões guerreiras. [322]

Outra organização religiosa que tirou do sistema militar muitos princípios para sua organização, a disciplina, a hierarquia, o próprio espírito, foi a ordem dos jesuítas, criada por Santo Inácio de Loiola.

Antes de tratar da propaganda política moderna, propriamente dita, não é demais dizer algumas palavras sobre uma atividade que está em estreita ligação com a primeira: a profissão de jornalista. Um jornalista é também um engenheiro de almas, deve conhecer, perfeitamente o instrumento – em que toca – todo o teclado das pulsões e instintos humanos, seus bas-fonds, suas sublimações; deve poder provocar propositadamente, nas multidões, os reflexos condicionados adquiridos, inibir uns, desinibir outros, criar novos, desencadear ações.

Tem, para atingir esses fins, um instrumento prodigioso, a imprensa. Mas, embora ela disponha hoje de meios técnicos extraordinários e muito mais eficazes que outrora, é preciso acentuar que sua influência diminui. Durante a Revolução Francesa, seu papel, como órgão de propaganda política, foi muito grande; no curso do século XIX e começo do nosso, atingiu seu apogeu, mas, desde a Primeira Guerra Mundial, graças a uma democratização sempre crescente da política, o emprego de métodos populares, sugestivos, como arma de propaganda, devido também à difusão do rádio, a função da imprensa passou a segundo plano; basta lembrar a crise de 1938 ou durante a Segunda Guerra Mundial, em que milhões de pessoas estavam, dia e noite, suspensas, à escuta, nos postos do T.S.F. que lhes informavam, é claro, muito mais rapidamente que os jornais. Por outro lado, a multiplicidade dos Jornais, sua concorrência abertamente comercial, seu volume – freqüentemente de 20 e mais páginas – que embaraça a possibilidade de uma orientação rápida, coisa que o homem atual mais aprecia, tudo isso é causa de um certo declínio de influência da imprensa moderna. Contudo, o papel que tem é ainda muito importante para assinalá-lo aqui falando dos meios de propaganda política.

Embora um jornal político seja, em geral, um convite ao raciocínio, uma vez que fornece ao leitor, antes de tudo, as informações sobre os acontecimentos que lhe interessam ou, sob forma de artigos, comentários que esclarecem o conjunto de fenômenos políticos em relação mais ou menos estreita, tem a possibilidade (e dela se serve comumente) de apelar para a emotividade do leitor. Chega, por uma informação mais ou menos tendenciosa, que cria determinado estado afetivo, ou ainda pelo emprego de palavras ou de ritmos apropriados, toca certas cordas da alma humana, evocando reflexos condicionados que o jornal se propõe guiar para atingir seus próprios fins ou os da coletividade que representa; pode também criar um estado emotivo, dispondo o material numa ordem preconcebida e dando-lhe títulos sob forma de slogans, de símbolos. Atualmente, os homens são sempre tão apressados que não chegam a ler o jornal no começo do dia, contentam-se em lançar a vista sobre os títulos dos artigos e das notícias, antes de tudo sobre os títulos gerais de uma rubrica ou sobre a manchete que. em poucas palavras (como um diapasão) cria uma orientação, um estado de espírito, uma tendência. É óbvio que os diários políticos, notadamente os dos partidos, atuam com base na pulsão combativa. Os artigos polêmicos com os adversários fornecem as oportunidades.

As possibilidades de ação de que tratamos podem ser secundadas por imagens que transmitem idéias e sentimentos com extrema rapidez e que são muito úteis como meios de evocação dos estados d'alma desejados – Uma organização racional da redação de um jornal visa a criar, junto a ele, arquivos de informações e de imagens e classificá-los de modo que os elementos indispensáveis possam ser consultados em pouco tempo, o que contribui, naturalmente, para as necessidades do combate político por meio da imprensa.

Na URSS, ao lado de jornais, vendidos ou distribuídos, é muito difundida uma forma especial e gratuita de informações das massas e de meio de propaganda: o jornal mural, feito pelos próprios membros de uma coletividade a que se destina; é afixado nos lugares de trabalho habitual dessa coletividade. Esta forma de propaganda encontra-se espalhada nas usinas, clubes, escolas, utiliza a caricatura, a sátira, mas, também, a expressão poética – Este meio democrático de propaganda pela palavra escrita é um viveiro para revelar os talentos jornalísticos entre as grandes massas populares; é também um caminho para atingir com mais eficácia a sensibilidade dessas últimas que, de melhor boa vontade e com maior confiança, prestam atenção à palavra dos que pelos contatos diários estão mais próximos delas. Essa forma de jornal mural espalha-se igualmente por milhões de operários e estudantes no Ocidente.

Antes de abordar a exposição de alguns exemplos, extraídos da história política da humanidade e que ilustram o que acabamos de afirmar, parece-nos interessante falar dos princípios da propaganda política moderna, tais como resultam de considerações teóricas de que tratamos nos capítulos precedentes e que se fundam em dados das ciências biológicas de nossos dias. Essa análise será útil para melhor compreender os exemplos históricos. Baseia-se nos seguintes fatos capitais:

Os grandes movimentos de massa que caracterizam nossa época e que se exteriorizam no ato de votar (eleições, plebiscito) ou em certas ações de rua (manifestações, motins revolucionários) não são o resultado de deliberações conscientes dos indivíduos que compõem a massa, mas, o efeito de processos nervosos fisiológicos, chamados na linguagem clássica volitivos, desencadeados conscientemente por energias vindas do exterior, por meios de propaganda, demagogia, ou melhor ainda, psicagogia. [323]

Isso vale para as verdadeiras democracias que, como afirmam, se inspiram nas teses da Declaração dos Direitos do Homem, bem como para as ditaduras modernas que, na verdade, não são verdadeiras ditaduras, mas, ditaduras com aspecto pseudodemocratas. Estas últimas são também sustentadas pelas massas, manobradas, porém, sabiamente e enganadas nos seus interesses vitais – violadas psiquicamente.

As teorias biológicas modernas, como as experiências e as estatísticas, dão, para a relação entre os elementos mais ou menos conscientes e ativos, nas massas e os outros – os passivos, vulneráveis à sugestão sensorial – a proporção de cerca de um décimo, como já vimos mais acima – A derrota dos movimentos democráticos na Alemanha e na Itália pelo fascismo repousava no desconhecimento desse fato capital. Ora, dai decorre, logicamente, a idéia de que esses dois grupos devem, do ponto de vista da propaganda, ser tratados diferentemente: os primeiros podem e devem ser persuadidos, os outros harmonizados, ajustados, tendo em vista sua receptividade específica – E isso precisa ser estudado a fundo. Há a tendência, entre os políticos democráticos, de subestimar esse problema; ouve-se dizer, muitas vezes que, na propaganda, é suficiente seguir o “bom senso”. Nada mais errado e mais nefasto para a eficiência da luta política que essa afirmação: a propaganda política é uma verdadeira ciência, pertence ao domínio da psicologia coletiva aplicada. Trataremos, nos capítulos seguintes, das formas que a propaganda, persuasiva ou emocional, pode tomar e veremos como isso se verificou, no curso da história, limitar-nos-emos aqui a salientar algumas regras gerais teóricas que a condicionam.

É, sem dúvida, proveitoso, para melhor compreender essas regras, começar por uma crítica dos métodos de propaganda, base de ação política da maioria dos partidos nos regimes democráticos, especialmente dos partidos socialistas; esses métodos clássicos estão em evidente contradição com os dados científicos – Sua propaganda toma, freqüentemente, formas entristecedoras; ela lamenta-se, acusa o adversário de atrocidade, de espírito de agressão, ressalta em outros termos, sua audácia e sua força (fig. 13) – É uma tática negativa, pois, presta, assim, sem perceber, um serviço à propaganda adversária. É o princípio que chamaremos de intimidação retroativa ou às avessas. Abusa, freqüentemente, da ironia, não faz senão zombar do adversário, mesmo onde uma ação de luta, uma demonstração de sua própria força se impõem. É muito doutrinária, abstrata e emprega formas que as massas consideram fastidiosas e insípidas. Suas ações são fortuitas e dirigidas somente por intuição, quase sempre enganosa; faltam-lhe sistema e coordenação, daí porque a um grande esforço corresponde, às vezes, um resultado bem medíocre – Finalmente, o que é grave, está, freqüentemente, atrasada em relação aos acontecimentos e à necessidade de a eles reagir com presteza.

Fig. 13
Exemplo de propaganda errônea: um cartaz dos socialistas alemães simbolizando o destino do operário no III Reich hitlerista: princípio da intimidação às avessas.

Comete-se, constantemente o erro, mesmo na propaganda que tem por base o princípio da sugestão, de pensar e agir como se cada pessoa reagisse da mesma maneira mas, na verdade, a mentalidade dos diversos grupos da população é bem diferente e a propaganda racional tem de ser diversificada – Acredita-se que basta achar uma fórmula feliz, um símbolo ou um slogan, para se ter assegurado o sucesso, como se fosse uma questão de publicidade comercial de um artigo qualquer. Esquece-se que o essencial, na propaganda racional, é o plano de campanha. Tal plano comporta:

a) – a diferenciação dos grupos de indivíduos a influenciar;

b) – o estabelecimento dos objetivos psicológicos a atingir nos elementos de cada grupo;

c) – a criação de órgãos para realizar a ação no sentido desses fins;

d) – a criação, por esses órgãos, de formas de ação de propaganda.

e) – a distribuição das ações no espaço e no tempo (estabelecimento de um plano de campanha);

f) – a coordenação dessas ações;

g) – o controle da campanha, especialmente da preparação das ações e de seus efeitos.

Domenach (45) [324] dá um conjunto de regras segundo as quais deve ser construída a contrapropaganda – Enumera-as como se segue:

1° – descobrir os temas do adversário, isolá-los e classificá-los por ordem de importância; depois, combatê-los separadamente;

2° – atacar os pontos fracos;

3° – nunca atacar frontalmente a propaganda adversária, enquanto poderosa, mas, para combater uma opinião. é preciso tomá-la como ponto de partida, encontrar um terreno comum;

4° – atacar e desconsiderar o adversário;

5° – pôr a propaganda do adversário em contradição com os fatos;

6° – ridicularizar o adversário;

7° – fazer predominar seu clima de força.

A política, em razão da importância que adquiriu, em nossos dias, a propaganda afetiva, tornou-se quase uma religião: tem, como diz De Felice, (37) suas pompas e ritos, seus dogmas e sua fé, seus visionários e seus fanáticos. O primeiro cuidado de quem se propõe conduzir uma propaganda política de massa é o de saber como poder juntá-las, efetivamente, jogando com o emprego de estratagemas apropriados, sobre todos os mecanismos psíquicos capazes de terem uma ação sobre os indivíduos que a compõem: esses mecanismos são as disposições afetivas de salvaguarda dos interesses econômicos, políticos, sociais e religiosos dessa massa exigidos por suas pulsões, visando à defesa de sua existência pessoal e à dos grupos ou classes a que pertencem. Desejo acentuar, mais uma vez, aqui, esse fato, em vista da crítica de Reiwald (130) [325] que me censura por considerar a possibilidade de dirigir a massa simplesmente como uma função da atividade do líder. Jamais afirmei tal coisa, pois é claro que o estado psíquico das massas, que é função da constelação social e dos caracteres fisiológicos que lhe são inerentes, é também um fator determinante para o sucesso do trabalho do líder sobre essas massas, que não pode ter eficácia por si mesma, fora do tempo e do lugar.

Uma vez atingida essa tarefa de congregar (em multidão e em massa) o líder deve lançar nas massas, diz Clyde Miller, (105) as palavras de ordem do tipo palavras-veneno ou palavras-virtudes ou ainda palavras-testemunhas, autoritárias, verdadeiras alavancas, a fim de chegar à organização das massas ordenadas em grupos, caracterizadas por um mesmo espírito e prontas a cooperar para atingir os objetivos que as ligam ao líder.

A primeira lei da propaganda – diz ainda Clyde Miller, (165) é a da conservação do indivíduo. E, para fazê-la atuante, no seu comportamento, o líder deve empregar o estratagema psicológico seguinte: sugerir o medo e fazer entrever, em seguida, a saída da situação perigosa, a possibilidade de obter a segurança pelas ações que sugere.

Para fazer adotar pelas massas – e também pelos indivíduos isolados – uma atitude ou uma idéia nova, geralmente é mister torná-las mais facilmente aceitáveis, pondo-as em relação com as idéias que lhe são costumeiras: a oposição psicológica a tudo o que é inesperado, que rompera os laços estabelecidos, enfraquece então mais facilmente.

Toda propaganda racional repousa sobre um número relativamente restrito de fórmulas decisivas e concisas que devem ser cravadas a grandes golpes no psiquismo das massas, postas de antemão em estado de impressionabilidade mais acentuada. É o princípio da criação dos reflexos condicionados de Pavlov.

Para evitar o perigo de fadiga pela repetição é aconselhável variar os aspectos do tema central. Um exemplo dessa regra é oferecido pela publicidade que, anunciando um artigo em cartazes, emprega a imagem da mesma pessoa, mas, em atitudes diferentes: o homem risonho, em pijama, do sal Kruschen. Também nas gravuras dos jornais infantis ilustrados, em que, numa série de números consecutivos, o mesmo personagem (Pif, o cão ou Placide e Muso), [326] reaparecem em diversas situações, o que mantém desperto o interesse do leitor. Assim, realiza-se a permanência do tema que continua ligado à variedade de sua apresentação [327] A utilização de uma fórmula invariável condensada, como conclusão repetida em cada discurso ou em cada texto de propaganda, é igualmente eficaz: a conclusão de cada discurso de Catão no Senado romano é um exemplo conhecido: Ceterum censeo, Carthago delenda esse [328] ou a fórmula repetida de Clemenceau: “Eu faço a guerra”. [329]

Uma condição importante a preencher para o sucesso de uma propaganda maciça é a uniformidade e a simultaneidade da ação de propaganda em muitos lugares do país, de que resulta a necessidade de uma direção central para cada ação de grande envergadura – Deve-se exigir igualmente de uma boa propaganda que ela se manifeste sob formas realmente artísticas; a palavra de ordem de luta contra a vulgaridade deve ser rigorosa. Infelizmente, a opinião errônea de que se pode oferecer às massas coisas elementares, medíocres e sem valor estético é muito difundida. Não é preciso igualmente abandonar, na propaganda, a base moral; nesse domínio, do mesmo modo, a alma do povo é muitas vezes mais sensível que a de certos propagandistas confusos e embotados.

Como diz com justeza Domenach, (45) [340] “sem atos de apoio, uma propaganda não passa de um verbalismo que cria ilusões perigosas” e volta-se, no fim de contas, contra si própria, pois as pessoas, assim logradas, afastam-se e tornam-se seus adversários às vezes encarniçados. Depois do que dissemos sobre reflexos condicionados, sobre suas relações com os reflexos absolutos (nossos automatismos) e sobre a necessidade de reavivamento do reflexo condicionado – isto é facilmente compreensível. Mas, ainda uma vez, é preciso insistir sobre o fato de que o sucesso da criação do reflexo condicionado e seu reavivamento só é possível se o líder que o empreende leva em consideração a disposição psicológica efetiva das massas, função dos fatores sociais presentes.

A luta política não pára jamais e a propaganda não pode descansar. É o que Hitler compreendeu muito bem; não se limitava a fazer propaganda para as eleições; fazia-a, continuamente, seguindo a regra: não deixar tempo para refletirem aqueles a quem se dirigia; seus adversários, ao contrário, somente atuavam em determinadas épocas e, mesmo nos períodos eleitorais, acolhiam, freqüentemente com alegria, os dias feriados para interromper a agitação e repousar – era a fórmula preferida. Na verdade, era antes para evitar a luta, que os perturbava e não sacrificar seus hábitos burgueses.

Já vimos e mais adiante veremos melhor, que Hitler, colocando sua propaganda sugestiva popular no plano do instinto combativo, apelava para a violência psíquica, apoiando-se na violência real. Diz no seu livro Mein Kampf: “um bandido resoluto tem sempre a possibilidade de impedir um homem de bem de exercer sua atividade política” e ele próprio aplicava essa regra na prática: em 1931-32, suas tropas de propaganda (as S.A.) impediam seus adversários, pela violência, de realizar reuniões nos distritos rurais. Uma vez nesse caminho – diz ele – é preciso ficar coerente e jamais vacilar entre a violência e a indulgência.

Outra regra da propaganda hitlerista e mussolínica era o emprego do exagero; Goebbels, por exemplo, proclamava que a quantidade de tropas de choque de Hitler, em Berlim, era de 10.000 homens, quando só havia 3.000. [341] Hadomovsky, seu íntimo colaborador, recomenda abertamente esse método, dizendo: “é preciso mostrar sua própria força e até mais do que se tem; a propaganda, pela força, se é bem calculada, impressiona e dá resultados decisivos, especialmente no exterior” [342] Aliás, essa regra de exagero não é um apanágio exclusivo da propaganda hitlerista; é atualmente usada também por outros partidos. Por exemplo, os comunistas não desdenham de aumentar o número de seus manifestantes e, ao publicar resoluções, tomadas nas suas assembléias de massa, no Vel d'Hiv especialmente, as fazem preceder da seguinte fórmula:

“O povo de Paris, reunido no Velódromo d'Hiver”... [343]

Já acentuamos que a propaganda não deve ser feita com a cega adoção de um esquema, mas, que ela deve diferenciar-se, de acordo com o meio a que se dirige. Hitler tinha empregado, para a propaganda, tropas de choque especialmente organizadas que lhe permitiram penetrar facilmente nos campos e ganhar para sua causa os camponeses, de um lado, aterrorizando-os e, de outro, porque sua propaganda atuava sozinha, estando os demais partidos quase que inteiramente desinteressados da população rural. Num artigo do jornal Deustsche Republik, em 1932, Siegfried Höxter, analisava o problema da propaganda para os distritos rurais e distinguia duas zonas principais: uma cortada pelas grandes vias de comunicação, a que chama de zona mista e a outra, onde os camponeses formam uma camada mais uniforme da população e onde as idéias de Hitler puderam penetrar mais facilmente – Em conseqüência, era de opinião que os métodos de propaganda popular agressivos, baseados no instinto combativo, como os iniciados pelos socialistas em 1932, sob o signo das Três Flechas e que se mostraram eficazes contra a propaganda de Hitler, deviam ser empregados na primeira zona, enquanto que, na segunda, precisavam ser modificados e adaptados ao ambiente e à mentalidade rural, isto é, tomar o caráter de uma propaganda minuciosa, muitas vezes individual, lembrando os métodos dos viajantes comerciais ou dos agentes de seguro.

Um outro exemplo de propaganda política diferenciada é fornecido pela tentativa feita na Alemanha, pela Frente de Bronze, de dividir, para as necessidades de sua propaganda, o país em três zonas: a oeste, com uma população em que os sentimentos republicanos prevaleciam; a nordeste, em que os reacionários prussianos impunham suas idéias e a sudeste, onde as tendências socialistas-comunistas manifestavam-se mais fortemente. Em face disso, o plano de propaganda era concebido da seguinte maneira: os elementos das quatro pulsões de base deviam manifestar-se, naturalmente, em toda parte e a propaganda dirigir-se a interesses econômicos, combativos, de previdência, assim como as tendências para a alegria e para uma concepção mais leve da vida. Mas, além disso, na zona nordeste, mais reacionária, onde os grandes senhores de terra da Prússia exerciam ainda uma enorme influência, o caráter que convinha dar à propaganda devia conter sobretudo elementos combativos ou de intimidação; no sudeste – a zona industrial por excelência – elementos e razões econômicas; no oeste – acentuá-la no estímulo ao desejo de defender as garantias existentes e a vontade de segurança, além da previdência. Os pulsões 3 e 4 deviam prevalecer nas zonas sul e oeste, os pulsões 1 e 2, no norte e este.

Já mencionamos que uma propaganda racional supõe uma organização propulsora dos serviços que devem executá-la; conhecem-se, na história dos últimos tempos, três exemplos de formidável organização material de propaganda: o escritório de Lord Northcliff, na Inglaterra, durante a Grande Guerra, as instituições de propaganda da guerra civil russa e o ministério de propaganda do III Reich. Disso falaremos com mais detalhes, porém, aqui, acentuaremos algumas regras gerais, relacionadas com o problema da organização de uma propaganda afetiva moderna.

A primeira regra consiste em um controle exato da execução e do alcance das medidas adotadas pela propaganda; nada mais importante que esse cuidado freqüentemente negligenciado atualmente. Ao contrário, é necessário verificar constantemente o efeito produzido, estabelecê-lo com a maior objetividade, representá-lo por meios tão demonstrativos quanto possível e tirar conclusões práticas para ações ulteriores; isso aplica-se igualmente ao conteúdo da propaganda. Para esse fim, o trabalho executado e os resultados obtidos devem ser controlados segundo método modernos: mapas, planos esquemáticos e quadros sinóticos, gênero meteorologia política do tempo da guerra civil russa, em que eram usadas cartas político-geográficas especiais para facilitar a rápida verificação dos acontecimentos e estabelecer suas relações funcionais.

Uma organização racional da propaganda exige também a centralização da direção e sobretudo serviço de informações, imprensa, etc., de vez que, para dar os resultados que dela se esperam, deve basear-se numa visão completa da situação. Um estado-maior que estabelece e dirige as campanhas políticas é um órgão sem o qual não pode haver qualquer garantia efetiva de êxito; e freqüentemente a razão do insucesso de uma campanha, como se observa onde tudo é deixado ao acaso, provém da ausência desse estado-maior: quantas vezes não se vê improvisar uma campanha de propaganda, constituir uma comissão ad hoc, confiar a tarefa a uma pessoa, a um ministro, que é sobrecarregado de trabalho.

Para dirigir a propaganda é preciso dispor de quadros: equipes de especialistas, de agitadores, etc. e mesmo instruí-los, instituir cursos de propaganda. Hitler apreendera bem essa regra, formando todo um corpo, as S.A. – como verdadeiras brigadas de choque de propaganda: foram essas tropas que, de fato, o levaram ao poder. Mas, para mobilizar militantes propagandistas, para lançá-los ao combate no momento desejado, é preciso dar instruções concretas e inflamá-los: é o que uma propaganda racional realiza por meio de reuniões ditas de esclarecimento e feitas para animar os militantes. A prática da luta na Alemanha mostrou que era o melhor meio de organizar rapidamente as campanhas políticas.

Finalmente, os meios financeiros desempenham, naturalmente, um papel muito importante na propaganda, mas, ao contrário da idéia muito difundida segundo a qual não se saberia fazê-la eficazmente sem a mobilização de grandes recursos pecuniários, afirmamos que há nisso um enorme exagero: viram-se eficientes campanhas políticas conduzidas com meios irrisórios – o segredo está na racionalização das ações e na possibilidade de mobilizar psiquicamente, de entusiasmar as grandes massas. Em geral, pode-se mesmo dizer que o dinheiro para uma propaganda popular por meio de símbolos, encontra-se na rua, bastando somente procurá-lo e obtê-lo: em Hesse, por exemplo, a Frente de Bronze financiou, em 1932, toda sua propaganda vitoriosa contra Hitler com o dinheiro recolhido através da venda de insígnias. Um bom princípio é o de que a propaganda deve poder nutrir-se por si mesma.

Que a propaganda, tal como á analisada e descrita aqui, assegura um sucesso quase certo é demonstrado pelos formidáveis resultados da hitlerista, mas, também e sobretudo, por uma experiência política feita em Hesse, em 1932, a qual foi conduzida com o rigor de um teste científico de laboratório. Nas eleições, em Hesse, que descreveremos, minuciosamente, mais adiante, em cinco cidades (Offenbach, Darmstadt, Mogúncia, Worms e Giessen) os novos métodos de propaganda da Frente de Bronze foram empregados nas quatro primeiras, ficando a quinta abandonada aos velhos métodos social-democratas; servia, a última, desse modo, de cobaia-testemunha. Nas quatro cidades, Hitler foi derrotado, vencendo em Giessen. Mais ainda: eis o quadro que dá os surpreendentes resultados dessa experiência:
 

CidadesData do início da propagandaLapso de tempo em dias até as eleiçõesVantagem em votos
Offenbach25/5253.300
Darmstadt27/5231.500
Morgúncia30/5201.300
Worms6/613 600

As eleições realizaram-se em 19/6.

Vê-se, por esse quadro, que as vantagens estavam em função da duração da propaganda. Esse exemplo mostra, claramente, que se tem à mão a possibilidade de dirigir as reações das massas e era esse, precisamente, o segredo de Hitler.

Sendo assim, é preciso precaução com as idéias preconcebidas sobre a suposta liberdade de imprensa e propaganda; é mister lembrar que foi exatamente jogando com essa liberdade que lhe outorgavam as leis da República alemã de Weimar que Hitler conseguiu aniquilá-la.

Domenach, no seu pequeno livro sobre propaganda política (25) muito bom aliás, comentando minha experiência em Hesse, espantou-se com a conclusão que se impõe, ou seja, “que, se essa conclusão prevalece, não se vê que possa restar qualquer justificação para os regimes parlamentares, porque, como diz muito justamente, esta experiência prova que a opinião pública, nas “democracias” (as aspas são minhas) é tão superficial e mutável como o sentimento que impele um cliente a abandonar uma marca de dentifrício por uma outra mais perfumada ou melhor apresentada“. E ele se declara contra o relativismo total da opinião política, demonstrado por essa experiência, porque isso abriria um “horizonte terrificante”: derrocada da idéia democrática parlamentar. Espera que estudos mais precisos da conjuntura econômica, social e política das cidades em questão, poderiam talvez apagar minhas conclusões pessimistas. A contragosto, devo dizer que a validade desses resultados está demonstrada pelo seguinte fato: após a grande passeata au flambeau, em Darmstadt, adiante descrita [344] empreendi um estudo da vantagem de votos nas sessões eleitorais da cidade pelas quais passou o desfile: o resultado foi expressivo: eram precisamente os bairros onde a votação aumentou sensivelmente.

O envenenamento é um crime punido pelas leis da coletividade humana. É tempo de compreender que surgem situações em que as grandes massas, cujo voto tudo determina no Estado democrático, podem sucumbir a um verdadeiro envenenamento psíquico, no sentido mais real, mais fisiológico. Se alguém imagina que bastará recorrer à razão, tentar combater esse envenenamento, a violação psíquica, através de uma propaganda de persuasão, deverá convir que, depois de tudo o que dissemos, estará acreditando numa perigosa ilusão. O único meio, se não se deseja golpear a liberdade de palavra, tão cara, com razão, às democracias sinceras, é saber garantir-se por aparelhos de imunização psíquica, por órgãos de propaganda, que devem cuidar para que toda vontade de violar a alma coletiva, através de práticas psicofisiológicas uma vez demonstrado, de hoje em diante, que são verdadeiros instrumentos de intoxicação seja frustrada e encontre, imediatamente, uma resposta eficaz de proteção psíquica.

A prática da propaganda, adotada por Hitler, deu em resultado uma certa animosidade contra a propaganda em geral que se manifesta, depois da Segunda Guerra, nas camadas intelectuais, notadamente entre as que designamos como pertencentes ao grupo dos “5.000”, mas, igualmente, entre os hesitantes, os “55.000”. Surge a desconfiança e toda propaganda é tida como inverídica, como um veneno secreto, como uma atividade cujo nome não se ousa proferir. [345] O abstencionismo, que se observa, às vezes, nas eleições, é quase sempre causado por uma aversão às propagandas. E transfere-se essa opinião à informação que, é verdade, não se distingue, muitas vezes, da propaganda maléfica, da lavagem de cérebro, assumindo ela, também, um caráter tendencioso. Isso não é certo, evidentemente, pois, uma informação verídica é precisamente uma das melhores armas contra a violação psíquica e pode constituir-se numa poderosa arma de propaganda bem intencionada, útil, portanto.

É certo que uma propaganda astuciosa emprega, muitas vezes, métodos, truques que, descobertos, a tornam particularmente odiosa à opinião pública: lança, por exemplo balões de ensaio, balelas no rádio e na imprensa; instila, nas massas, rumores e boatos, notícias falsas e até falsas notícias; dá senhas de silêncio para afogar a verdade ou empreende ofensivas diversionistas. Como se pode verificar, facilmente, é sobretudo a imprensa vespertina, nos países democráticos, que apresenta freqüentemente espécimens desse gênero de propaganda e de informação.

Mas, um desmentido dos fatos, narrados pela propaganda adversa, especialmente se formulado em termos bem nítidos e sucintos, pode, às vezes, aniquilar a primeira, contanto que esse desmentido seja imediato.

A desconfiança contra toda propaganda, de que falamos acima, não se justifica, ainda porque “a propaganda verídica não é nada mais que a explicação e a justificação de uma política”. [346] Tem, nesse caso, uma caráter informativo. [347]


Capítulo VII
A Propaganda Política do passado

Os tempos antigos – Ásia Menor – Grécia – Roma – Bizâncio – O Cristianismo – O Islão – A Alemanha na Idade Média – A Revolução Francesa – Os métodos socialistas – A guerra de 1914-18 – Os segredos da casa Crewe – Os ministérios da propaganda – A Revolução Russa – A meteorologia política – Osvag – A guerra civil russa – Lênin – A propaganda bolchevique.

 

Na verdade, a idéia da propaganda política é tão velha quanto a própria política. Nos tempos mais remotos, quando os chefes de tribos impunham sua vontade a seus súditos, transmitiam-lhes sinais, ordens, por meio de palavras ou gestos que tinham uma determinada significação e que eram acompanhadas, ora de encorajamento, ora de ameaça de sanções, em caso de desobediência: faziam política. As alocuções ao povo reunido, as discussões nas ruas ou nos edifícios públicos, as inscrições em muros, as letras e as fórmulas gravadas na frente dos templos ou dos palácios, os ritos e as cerimônias, as procissões em que se conduziam emblemas, estandartes, flores, símbolos de toda espécie; a música acompanhando essas procissões ou os desfiles guerreiros, os uniformes e adornos militares – tudo isso existia há séculos, senão há milhares de anos e era propaganda política, na sua maior parte. Encontram-se também manifestações desse gênero entre as tribos mais selvagens, mais primitivas.

É óbvio que os povos da Antigüidade, mais evoluídos, nos deixaram vestígios bastante numerosos que esclarecem esse ponto e cujo aspecto confirma, perfeitamente, a aplicação dos princípios que enunciamos como constituindo a base da propaganda política. Limitar-nos-emos, aqui, a citar alguns exemplos colhidos da história do Egito, da Grécia e de Roma. É assim que as inscrições e as imagens de que estão cheios os túmulos dos Faraós, no Egito, fazem reviver os detalhes da vida privada e política desse país milenar, notadamente seus ritos religiosos e funerários, que provam a que ponto o simbolismo e a mitologia (portanto os meios de influenciar a imaginação das massas e de determinar seu comportamento) eram difundidos já naquelas longínquas épocas.

Mas, antes de citar esses exemplos que testemunham um estado bem avançado de cultura política, acentuemos que essa cultura, sendo função de certas condições realizadas na parte oriental da bacia do Mediterrâneo, pelas populações ali estabelecidas, apresenta traços comuns nas formas de atividade social que ressaltam da religião, da arte e da política, estreitamente ligadas a essa época. É claro, depois do que vimos nos capítulos precedentes relativos às bases psicológicas e sociológicas dessas atividades, que as aglomerações sob forma de multidões, sociedades e confrarias, apresentavam o meio propício para essas manifestações coletivas, em que a relação multidão-líder já desempenhava papel decisivo. É na Palestina e na Síria, na Ásia Menor, que se encontram os focos de um fervor particularmente intenso, cuja irradiação se estendeu a todo o mundo antigo. Recorria-se a métodos destinados a provocar acessos de frenesi coletivo, a fim de obter os transes e os êxtases que se pediam, algures, à ingestão de drogas e bebidas fermentadas [348].

Os primeiros documentos a respeito já se encontram no Antigo Testamento. Uma das características das religiões sírio-fenícias era a existência de grupos especializados que se chamavam profetas, em que a inspiração coletiva era provocada, constantemente aprimorada, graças a um arrebatamento regular: os membros dessas associações agrupavam-se em torno de um mestre. Eram consultados como adivinhos e também como curandeiros. Viviam, muitas vezes, reunidos em confrarias, tomavam refeições em comum e entregavam-se juntos a práticas destinadas a criar em todos, simultaneamente, um mesmo êxtase. Para consegui-lo, empregavam processos que consistiam sobretudo em uma música barulhenta, ritmada pelo rufar dos tamborins, além de cantos, gritos, saltos e danças. Também embriagavam-se e participavam dos ritos sangrentos do culto, que levavam sua excitação até ao paroxismo: nesse estado, se flagelavam, retalhavam o corpo, emasculavam-se e, em geral, se mutilavam.

Nos cultos religiosos dessas regiões orientais, a satisfação da pulsão agressiva era associada à erótica e os eunucos, que se emasculavam em estado de demência, as inumeráveis prostitutas, agrupadas, às vezes, às centenas e aos milhares em torno dos santuários, entregavam-se a crises de histeria coletiva.

Entre esses elementos exaltados, recrutavam-se líderes das multidões. Estas não eram raras na vida pública desses povos orientais: forneciam o contingente dos espectadores das procissões religiosas; essas multidões eram arrebatadas por esses espetáculos e, por sua vez, exaltavam-se, sofrendo com freqüência uma modelagem uniforme de sua mentalidade e agindo de conformidade com ela, nos momentos decisivos da vida nacional.

Apresenta um interesse especial saber que essas cerimônias com procissões celebradas pelas multidões tinham por fim a morte do deus, seguida de sua ressurreição. Essas festas realizavam-se na primavera, desencadeando, na população, expressões de dor alternadas com a de exuberante alegria: eram as “orgias de Adonis”. “A alegria que sucedia à desolação geral parecia um brusco descanso dos nervos superexcitados, como o ataque do riso histérico em que culmina um acesso de desespero”. [349] Nessas festas, a imagem do deus ornada como um cadáver, era exposta nos santuários e conduzida em procissão. É surpreendente ver até que ponto a religião cristã seguiu, nos seus ritos, as formas já existentes nas religiões do Oriente chamadas pagãs, para simbolizar os dogmas, na essência, os mesmos. A influência dos cultos fenícios se impôs a todo o mundo mediterrâneo e acabou por instalar uma verdadeira unidade religiosa, em que o cristianismo, por sua vez, tinha apenas que se introduzir para conquistá-la em seu proveito.

Mas, o principal lugar desse culto foi Creta, onde uma brilhante civilização dominou, por muito tempo, todo o mundo Egeu. [350] Também lá, havia confrarias de entusiastas, que provocavam a exaltação coletiva por meio de exercícios violentos executados ao som da cítara e da flauta e que eles destacavam entrechocando suas armas e gritando. Organizavam também procissões em que dirigiam a marcha e o canto agitando os sistros. Os membros dessas confrarias eram recrutados entre os jovens que se preparavam para a carreira das armas. “Esse fato – diz De Felipe (37) [351] – que basta, sem dúvida, para explicar a instabilidade, ao mesmo tempo fisiológica e psicológica que acompanha e que segue a crise de puberdade, foi sempre objeto de uma exploração mais ou menos consciente nas sociedade antigas e modernas, selvagens ou civilizadas. As instituições de nosso tempo não perdem, nesse ponto, nem para as que vigoram atualmente nas tribos atrasadas, cuja organização é considerada, com razão, haver permanecido inteiramente primitiva. É de se pensar que alguns dos regimes atuais têm levado a extrema sensibilidade dos jovens às sugestões e às excitações coletivas até a um grau nunca antes atingindo”.

Como já acentuamos, os cultos do Oriente Próximo exerceram uma forte influência sobre a Grécia e sobre Roma. A religião grega era, desde seus primórdios, a combinação de dois acervos: o mais importante, o do Egeu, tributário do Oriente, o outro, mais selvagem, o dos invasores vindos do Norte; seus componentes, bárbaros em comparação com a civilização refinada das populações autóctones, cederam, pouco a pouco, a predominância às formas mais evoluídas e melhor adaptadas ao meio e ao clima das regiões mediterrâneas que caracterizavam as civilizações aí estabelecidas há séculos. “É o que ocorre também com as diferentes divindades e mesmo com Dionísios – que, quando penetra na Grécia, muito tempo depois dos outros, já estava influenciado, na sua pátria, a Trácia, por numerosos elementos trazidos da Frígia – cuja personalidade poderosa, associada a toda embriaguez do corpo e da alma, se impregna progressivamente do gênio mediterrâneo”. Dessa fecundação da cultura refinada do mediterrâneo pelo espírito guerreiro, pleno de vigor, dos invasores bárbaros, nasceu, na Grécia, uma civilização que atingiu o mais alto grau de evolução que se conhece.

Baseando-se nesse princípio, enunciado mais acima, da diferenciação das formas de comportamento de acordo com as pulsões elementares que lhes servem da infra-estrutura, poder-se-ia afirmar que, na Grécia, país do sol e de belezas naturais, onde a arte atingiu sua expressão mais harmoniosa, era sobretudo o desenvolvimento da pulsão sexual, ou n° 3, que dominava as referidas manifestações. É assim que, as formas afetivas da vida coletiva e pública, tais como as procissões e cerimônias religiosas, intimamente ligadas, na época, à vida política, revestem o caráter de manifestações orgíacas: as festas do culto dionisíaco, as faloforias e outras procissões, nas quais os símbolos, as expressões extáticas e os elementos burlescos desempenham grande papel, são exemplos convincentes.

Aqui, ainda, como no Oriente, a exaltação comum, fator indispensável a essas manifestações, era conservada outrora por grupos excitados, semelhantes aos coribantes da Ásia Menor e aos Courètes cretenses que praticavam exercícios violentos, danças armadas, caças demoníacas através das florestas. Esparta se sobressaía nesse gênero de manifestações, entre as quais se podem notar ainda estranhas mascaradas, originárias dos costumes dos invasores dóricos.

Mesmo na época mais brilhante da civilização grega, esses grupos de entusiastas que se entregavam ao furor das orgias no alarido dos tímpanos, címbalos e sistros, sempre recrutaram adeptos e as seitas místicas, abertas às influências orientais, multiplicaram-se em toda parte e exerceram uma ação tão profunda sobre a filosofia que esta terminou por se tornar uma escola de arrebatamento místico [352].

Os Mistérios de Eleusis eram grandes manifestações populares, cuja significação exata ainda não se conhece bem, mas que influenciavam profundamente a alma popular e tinham relações com a política.

Dessas grandes manifestações de natureza mais nitidamente política e que têm traços comuns com as exibições espetaculares, tão caras aos ditadores modernos, chegou-nos a descrição, através dos historiadores, [353] de uma grande festa, organizada em Suze, na Ásia Menor, por Alexandre, o Grande, em que se ergueram altares aos deuses olímpicos e às divindades bárbaras do Oriente e em que, diante de enorme multidão de espectadores, celebrou-se um rito com que se pretendia simbolizar a reconciliação do Oriente e do Ocidente: casais de jovens das duas raças foram unidos em matrimônio com pompa espetacular.

No que concerne à vida política propriamente dita, isto é, às formas que tomavam os atos públicos pertinentes à coletividade, sabe-se que as assembléias, a ágora, sobretudo, tinham características muito evoluídas; reconhecem-se, também, tentativas de influenciar, mais ou menos racionalmente, o comportamento dos cidadãos nas eleições. Sabe-se o gosto dos atenienses pelas paródias que zombavam dos políticos e de seus atos.

Mas, sobretudo, a propaganda de persuasão, a arte oratória, eram cultivadas; havia mesmo escolas de oradores. Assim, o grande tribuno Demóstenes ia para a praia, a fim de exercitar sua voz e tentar ultrapassar o ruído das vagas nas tempestades, o que lhe seria útil nas assembléias populares tumultuosas. Suas lutas oratórias contra Filipe (As Filípicas) deram-lhe um renome que até hoje se mantém.

A utilização da primeira pulsão (combativa) como fator de propaganda política era relativamente pouca por hora da Grécia e encontrava antes sua expressão na atividade guerreira. Embora o grito de guerra – alala! tenha sido empregado como estimulante psicológico na batalha, exaltando o desejo de ataque, a coragem das tropas e amedrontando os inimigos, as outras manifestações desse gênero (uniformes, estandartes, disciplina exterior nas demonstrações militares) não eram tão desenvolvidas quanto em Roma, por exemplo, onde o cuidado dominante era fazer a exibição da força, fator psicológico destinado a intervir na política externa e interna. É aqui que a apreciação do fator psicológico nos assuntos militares pode exercer-se plenamente: os romanos davam a maior importância ao brilho dos uniformes, às bandeiras, águias e estandartes, à música militar, etc. O que oferece uma nota característica à direção dos exércitos romanos é o cuidado de apresentar suas legiões com o aspecto de temíveis máquinas coletivas de guerra, pesadas, até sinistras, esmagando tudo na sua marcha destruidora. Pode-se encontrar, na Roma antiga, especialmente na Roma imperial, um certo ressaibo das doutrinas de Ludendorff, tão caras ao militarismo alemão e que Mussolini, desesperada e inutilmente, procurou inculcar nos italianos. Um medo salutar para os adversários, uma ameaça em cada movimento – eis a idéia central da força romana.

O emprego do clamor ou grito de guerra era muito difundido entre os romanos que o lançavam no momento do ataque, acompanhado de toques de trombetas. E os chefes avaliavam as possibilidades de vitória, de acordo com a intensidade e o caráter do clamor, emitido por suas tropas: hesitação e dissonância indicavam uma emoção de mau augúrio. Mais tarde, os romanos, adotaram até o grito de guerra dos germanos – “barditus” – e que Tácito caracteriza como uma explosão de sons roucos que se tornam mais prolongados e mais retumbantes, apertando o escudo contra a boca. Ammien Marcellin descreve-o da seguinte maneira: “Esse terrível grito começava por um sussurro quase inaudível, aumentava progressivamente e terminava por explodir em um rugido Semelhante aos das vagas que se quebram contra os rochedos. Esse brado superexcitava os soldados [354]”.

A expressão mais forte da ação psicológica sobre as massas, considerada como função primordial do exército romano e realizada nas cerimônias ou paradas que eram efetuadas após uma grande vitória, é o triunfo de que se beneficia um grande chefe. É interessante verificar que a estrutura de um cortejo formado nessa ocasião é muito racional do ponto de vista psicológico sobre a massa de espectadores, muitas vezes até superior ao que se vê em nossos dias. Uma vez que, num capítulo posterior, a propósito da luta conduzida contra Hitler, na Alemanha, em 1932, encontramos a descrição de um desfile moderno desse gênero, [355] não é inútil dar aqui, a título de comparação, a idéia de uma parada triunfal em Roma (36). O triunfo era a mais alta recompensa para um general vitorioso. Nessa ocasião, as ruas e as praças, em que passava o cortejo, eram decoradas de guirlandas, os templos no percurso eram abertos e queimado incenso em todos os altares. A frente, vinham os senadores e os altos dignitários; os trombeteiros, criando uma atmosfera propícia ao desencadeamento do entusiasmo, os seguiam. Depois, vinham os despojos dos povos vencidos, carregados em padiolas; viam-se, então, coroas de ouro, diversas espécies de símbolos da ação bélica e da vitória que se celebrava: a enumeração dos rios transpostos, das cidades conquistadas, etc., podiam freqüentemente figurar sob forma de imagens plásticas. Num triunfo de César, pôde-se ver uma espécie de cartaz com as célebres palavras em que anunciara sua vitória ao Senado: “Vini, vidi, vici”. Depois, o desfile das vítimas destinadas ao sacrifício: ora animais, como touros brancos com chifres dourados, guarnecidos de flores e faixas, ora prisioneiros importantes, acorrentados ou de corda ao pescoço; chegados ao pé do Capitólio, eram executados. Em seguida, vinha a multidão dos cativos prisioneiros e dos reféns, depois os lictores do general, revestidos de túnicas de púrpura, assim como os homens que levavam vasos em que se queimavam perfumes; ao som dos cânticos e dos instrumentos musicais marchavam, mais ao longe músicos, tocadores de cítara e de flauta. A parte carnavalesca, destinada a fazer rir a multidão, era, às vezes, também incluída: Appio nota que, quando do cortejo triunfal de Cipião, era visto, entre os músicos, um palhaço, coberto de uma túnica talar, ornado de colares e braceletes de ouro, o qual se agitava, gesticulava e insultava os inimigos vencidos. Enfim, vinha o carro do triunfador que vestia uma túnica e uma toga preciosamente bordadas e que estava coroado de louros; o carro, currus, era puxado por quatro cavalos brancos, ornados de coroas. Conduzia os ornamentos do deus Júpiter Capitolinus. Atrás, vinham seus filhos e seus principais lugares-tenentes. Os soldados marchavam na retaguarda, na ordem habitual, também coroados de louros, levando condecorações, cantando suas proezas e fazendo reflexões satíricas, para grande alegria dos espectadores. Tudo terminava num banquete.

Vê-se que semelhante espetáculo oferecia à multidão romana a possibilidade de viver diversas emoções, entre as quais se destacavam naturalmente as ligadas à satisfação da pulsão n° 1. Era, nesse caso, um meio de propaganda política, feita pelo Estado e de maneira eficaz. Outro meio de agir sobre a multidão, explorando a mesma pulsão, era oferecer-lhe espetáculos no circo. Conhece-se a fórmula para governar as massas populares, a plebe: o “panem et circenses”, que permitia, em linguagem científica, apelar para os pulsões n° 2 e 1. As tentativas para implantar, em Roma, procissões e festas, atuando sobre a pulsão sexual, tão difundidas na Grécia (como o culto dionisíaco) não tiveram sucesso; são conhecidas sob a forma de bacanais, que degeneraram rapidamente, na Etrúria e em Roma, em desregramentos orgíacos da pior espécie e foram proibidas pelo Estado. Persistiram, contudo, transformando-se em sociedades secretas e foram perseguidas.

Roma sofreu, como a Grécia, uma forte influência da cultura religiosa dos povos do Oriente Próximo, subjugados pelos romanos. Assim, as festas do país dos hititas foram propagadas em Roma, onde o culto da deusa Frígia foi introduzido em 204 antes de Cristo, no templo da Grande Mãe, no Palatino [356]. Essas festas primaveris realizavam-se sob a forma de procissões particulares, de que o povo participava. A festa começava a 15 de março por um desfile, durante o qual se levavam ao templo rosas recém-colhidas (isso não lembra o domingo de ramos da religião cristã?). Sete dias mais tarde, uma procissão transportando um pinheiro, evocava a lembrança da morte do jovem deus Attis (Golgotha). Seguiam-se dois dias de luto e jejum que terminavam a 24 de março, no dia do sangue (dies sanguinis). No meio de uma agitação cada vez mais frenética, um sacerdote (archigallus) abria as veias do braço e aspergia com seu sangue o simulacro do deus, o que desencadeava cenas de frenesi coletivo; fanáticos, na multidão, apoderavam-se de gládios e se emasculavam. Outros ritos eram celebrados, conhecidos sob os nomes de taurobólio e criobólio: degolavam-se touros e carneiros selvagens, capturados com laço, por cima de um fosso. ficando embaixo o caçador que era, assim, inundado de sangue: sua aparição (simbolizando a ressurreição do deus) tinto da cabeça aos pés pela aspersão sangrenta que acabava de receber, criava uma efervescência na multidão. De Felice (37) [357] chama a atenção para esse fato, dizendo que “pode-se evidenciar aqui, mais uma vez, o papel que o sangue é chamado a desempenhar na explosão das perturbações psíquicas que conduzem aos êxtases individuais ou coletivos”.

Na noite de 25 de março, o deus retornava à vida e, no dia seguinte, era realizada a festa de Hilaria (a alegria lembra nossa festa de Páscoa). As celebrações eram feitas com alegria desenfreada; as pândegas eram a regra (do mesmo modo como nas Páscoas ortodoxas) e todas as liberdades eram permitidas (na noite de Páscoa, na Rússia, na Igreja e, também, no dia seguinte, todos se abraçam, mesmo que não se conheçam). “A causa dessa completa reviravolta deve ser buscada, diz De Felice, (37) numa reação nervosa inconsciente que conduzia os fiéis de um extremo a outro, o que denota que, sob o domínio dos arrebatamentos gregários, a que deviam ter cedido, perderam todo o controle de si mesmos”. As festas terminavam em 27 de março, por uma procissão que conduzia a estátua da Mãe e o material de seu culto à margem de um riacho, onde o Arquigalo os lavava numa cerimônia, reconduzindo-os, em seguida, ao interior do santuário. Tanto na ida como na volta, esse desfile era acompanhado de manifestações ruidosas, de batalhas de flores e de canções obscenas.

As aclamações da multidão constituíam outra forma de propaganda emotiva, regulada pelos órgãos do Estado e largamente difundidas em Roma: foram organizadas e disciplinadas no Império. As palavras usadas para esse fim e seu ritmo eram regulados. [358] Tornaram-se, mais tarde, obrigatórias e privilégio exclusivo do Imperador, de sua família e de seus favoritos. Na Roma republicana, as aclamações eram ainda a expressão espontânea do entusiasmo dos cidadãos. Nero mandou formar um grupo de 5.000 jovens, os augustais: reunidos, aprendiam a variar e a modular os aplausos, desencadeados mediante um sinal, no momento desejado: todos os assistentes deviam, então, repetir o que os augustais tinham cantado. Todas as fórmulas eram determinadas e reguladas por meio de música. Esse uso propagou-se também na corte de Bizâncio e até a Idade Média, encontrando-se traços na liturgia eclesiástica. Em Roma, as aclamações eram igualmente usadas no teatro e no circo, onde se exacerbava artificialmente a multidão, no momento das perseguições aos cristãos, incitando-a a proferir contra eles gritos de morte. É curioso que, depois da morte de Cômodo, se tenha deixado repetir as mesmas aclamações por zombaria e para insultar sua memória. O Senado tinha mesmo ordenado o emprego de fórmulas precisas de imprecações públicas depois da morte desse imperador.

Um símbolo plástico como meio de propaganda da idéia romana é muito conhecido: a saudação romana de braço estendido para a frente, que Mussolini ressuscitou para seu movimento fascista e que foi copiado por Hitler, sem que se compreenda por que razão, se não é simplesmente para utilizá-la como um sinal de ligação de adeptos e atrair sobre eles a atenção dos transeuntes. Numa palavra, fazê-lo agir como excitante condicional na formação do reflexo propício a Hitler. Os romanos empregavam esse gesto teatral nos casos de alocuções solenes, especialmente nos países conquistados.

No que concerne à propaganda de persuasão, por ocasião das assembléias, dos comícios eleitorais, etc., revestia-se, entre os romanos, das formas clássicas que chegaram até nós: a arte oratória era bem desenvolvida, encontram-se as normas em Quintiliano, havia cursos de oradores e de tribunos populares, etc. Cícero, célebre por sua campanha oratória no Senado contra o conspirador Catilina, fala também, nas suas Cartas, da técnica a empregar nas eleições.

Adotava-se para a propaganda escrita ou sob forma de símbolos gráficos uma espécie de cartaz (titulus) que aparecia nos desfiles: ou, ainda, inscrições nos muros (grafitos eleitorais em Pompéia), às vezes até caricaturas e injúrias, como se vê, atualmente, nos muros de nossas cidades, Finalmente, panfletos tinham a função dos nossos boletins e cartazes. Até mesmo o princípio dos jornais encontrava-se no diarium. Naturalmente, tudo isso era ainda bem primitivo, especialmente em virtude da impossibilidade técnica que se tinha para reproduzir um texto em grande número de exemplares.

Mencionemos ainda que, em Bizâncio, tinha-se compreendido – parece – a necessidade e a possibilidade de guiar as massas populares, oferecendo-lhes oportunidades de exteriorizar suas emoções e de utilizá-las para fins políticos. É assim que concentrações gigantescas eram organizadas no hipódromo e uma cena, relatada por Teófanes, nas suas Crônicas, [359] dá-nos a idéia dos métodos empregados para atuar sobre as pulsões coletivas, para fazer propaganda emocional maciça. As multidões reunidas cantavam salmos, que lembram o combate de São Jorge com o dragão, enquanto Justiniano II esmagava, publicamente, com seus próprios pés, seu adversário vencido, Leôncio. Outro fato desse gênero, ocorrido no mesmo hipódromo, é conhecido: o diálogo ritmado entre a multidão rebelde dos adeptos do partido verde, contrários ao Imperador Justiniano, o Grande, e seu emissário Callopodius, quando da revolta Nika.

A história dos primeiros tempos cristãos está cheia de exemplos de propaganda – poder-se-ia afirmar que – depois disso, a propaganda sob forma de símbolos jamais tomou uma tal amplitude, senão nos últimos tempos. É possível quase afirmar que, então, a “propaganda moderna”, como é atualmente chamada, era empregada da maneira mais exuberante. Sua extensão e eficácia são devidas, em grande parte, a que o símbolo dessa propaganda, a Cruz, era uma forma perfeitamente indicada para permitir um maravilhoso sucesso: altamente emocional, evocando a idéia do sacrifício, muito fácil de reproduzir. O mais simples de todos os símbolos conhecidos, esse signo podia espalhar-se por toda parte e agir como fator condicionante do reflexo de reunião, com a maior facilidade. Sabe-se a importância que tomou esse símbolo, no início das perseguições, nas catacumbas. Outras formas simbólicas – a magnificência das liturgias, a música e também a organização racional que foi dada quase que desde os primeiros tempos de difusão da idéia cristã, com a criação dos quadros eclesiásticos e missionários são a origem do poder da Igreja, sobretudo a Católica, na Idade Média e até os tempos atuais.

O próprio nome de propaganda foi empregado, pela primeira vez, pela Igreja, na expressão latina “de propaganda fide” (a fé a propagar). Mas, ao recorrer à propaganda emotiva, a Igreja católica não descuida de firmar suas concepções teóricas sob forma de um manifesto ou profissão de fé: o Credo ou Símbolo de Nicéia que, em termos concisos, condensa o essencial da fé católica. Vemos, aí, pela primeira vez, aparecer um documento de propaganda pela persuasão, como a definimos, para diferenciar da propaganda emotiva. Contudo, no Oriente Próximo, berço das religiões da Antigüidade, assim como do Cristianismo, persiste nas tendências emotivas, determinantes do comportamento das massas populares, que toma, com freqüência, o caráter de ação de multidões, sob forma de cerimônias religiosas, de festas, de procissões, onde estados de arrebatamentos gregários se manifestam, como de costume. As formas de propaganda afetiva são as mais difundidas nas relações entre as massas e os que dirigem sua existência. Na base desses fatos, surgem os movimentos populares que, aparentemente espontâneos, procuram reunir os velhos costumes e hábitos com a nova fé, provocando seguidos conflitos que abalam a vida religiosa e social. Assim, no século II de nossa era, vê-se um movimento religioso surgir nas Igrejas da Ásia Menor, conhecido sob o nome de Montanismo, tirado do nome de seu animador, Montan, um exaltado que se dizia Deus e cujos adeptos seguiam as regras de uma dietética especial, ritual. [360] Montan soube erguer a organização material de sua comunidade que prosperou durante alguns séculos e estendeu-se ao Oriente e ao Ocidente até que o imperador Justiniano, em Bizâncio, veio a suprimi-la impiedosamente. Nesses movimentos, os fiéis praticavam os êxtases coletivos, durante os quais os fanáticos “profetizavam”, isto é, entregavam-se a glossolalia. Houve comunidades de possessos com um clero feminino. Os adeptos desse movimento tinham também tendências ascéticas e eram perseguidos, por pretenderem restaurar o direito à livre inspiração profética, que a hierarquia sacerdotal reprimia. “Os suicídios em grupo, nas suas Igrejas, denotam, como diz De Felice (37) [361], o poder dos arrebatamentos gregários, habituais entre os seguidores da “nova profecia e que lhes proporcionavam êxtases coletivos”. Apesar dos esforços da Igreja para destruí-la, a religião da Grande Mãe mantinha-se no seio das massas populares e, “em 431, o Conselho da Igreja, na mesma cidade onde a deusa tinha possuído um dos seus templos mais famosos, sob a pressão da multidão e dos monges, teve que se curvar condenando Nestorius [362] e concedendo a Maria o título de Theotokos que ela traria, desde então, e que a fazia Mãe de Deus”.

O entusiasmo de outrora, cujo último vestígio era o montanismo, teve seu renascimento no Islã. É a origem das ordens de derviches e das confrarias de extáticos no mundo muçulmano que tiveram uma grande pulsão. As cerimônias, quando das peregrinações ao lugar santo, Meca, em cujo centro se erguia o fetiche Ka'ba, um bloco de rocha negra, compreendiam purificações, sacrifícios sangrentos, seguidos de repastos rituais (mais uma prova para nosso ponto de vista sobre a relação entre os ritos religiosos e a pulsão alimentar) [363] e de uma procissão, chamada tawâf que circulava sete vezes seguidas em torno da pedra santa. A marcha do cortejo era marcada por gritos, cantos e pelo ruído dos címbalos, o que contribuía para provar uma efervescência coletiva [364]. A multidão é, às vezes, tomada de pânico e foge desabaladamente. Essa corrida louca de peregrinos que se empurravam, em desordem e se esmagavam, custa a vida a muitos dentre eles. “Essas cenas de violência acabam pela degola de muitos animais que são oferecidos em sacrifício e cuja carne é imediatamente consumida, no solo inundado de sangue e juncado de detritos.

Na Europa, durante a Idade Média o cristianismo é, sem cessar, agitado por perturbações nascidas no seu seio, notadamente nos países germânicos. No século XII, um exaltado de nome Tanchelm [365] se impõe, em Antuérpia, como ditador místico e propaga um delírio coletivo. Pretendeu ser esposo da Virgem Maria, construiu para si um templo e fazia cantar hinos em seu louvor. ”Tancheim tomara o cuidado de apoiar sua tirania em medidas as mais adequadas para impressionar as multidões e sufocar a menor veleidade de insubordinação. Quando aparecia em público cercava-se de um grande fausto. Suas vestes resplandeciam de ouro e sua cabeleira era ornada de uma coifa extraordinária. Organizava grandes banquetes para sua comunidade, nos quais pronunciava discursos apocalípticos. Doze “apóstolos”, dirigidos pelo ferreiro Manassé formavam seu conselho e três mil soldados compunham sua guarda. Entregava-se a orgias com as mulheres dos seus devotos que eram tomados de um frenesi de submissão: repartia-se até a água de seus banhos, a fim de conservar como relíquia. O exemplo de Tanchelm mostra com que rapidez o emprego de certos métodos pode reduzir uma população a uma completa passividade diante de pretensões as mais estranhas”.

Uma das épocas em que o fervor religioso esteve estreitamente combinado com as reivindicações sociais e materiais foi a das cruzadas, em que os arrebatamentos gregários místico-políticos foram difundidos na Europa: assim, em 1145, um monge, Raul, pregou, por meio de exortações veementes em latim, a guerra santa e o massacre dos judeus; foi seguido com tanto maior satisfação quanto suas palavras, não compreendidas, pareciam maravilhosas. Os movimentos populares, saídos da efervescência causada pelas cruzadas, eram, sobretudo na Alemanha, sempre seguidos de massacres dos judeus. No fim do século XV, a mania de peregrinações tomou o caráter de uma psicose [366], estendendo-se sobre a Alemanha que parecia predisposta a epidemias desse gênero. Nesses movimentos, um fervor ingênuo aliava-se a uma impiedosa ferocidade e eram dirigidos contra os ricos, os judeus e os sacerdotes.

O movimento de Tancheim foi causado pela miséria social e é conhecido, na história, como uma manifestação de “socialismo teocrático”, do mesmo modo que o de Hans Böheim [367], no fim do século XV, particularmente hostil aos padres. Böheim era um jovem iluminado, pastor e músico. Era “o profeta e o reformador que toda a Alemanha esperava”. Munidos de velas e cantando hinos, milhares de fanáticos acorriam de toda parte, a fim de ver e ouvir aquele a quem saudavam como a um semideus. Foi preso pelo Bispo de Wurzbourg e queimado vivo.

De Felice (37) informa que “apesar da impiedosa repressão, persistiam, no meio das massas alemãs, três tendências que davam lugar a novas revoltas: primeiro, uma predisposição natural para os arrebatamentos gregários, em seguida uma tendência irresistível para ver sempre, nas reivindicações de ordem terrena e material, a própria expressão de vontade divina, enfim uma propensão acentuada para se entregar, cegamente, às sugestões dos líderes. Esses três fatores contribuíram, poderosamente, para provocar, durante a primeira metade do século XVI, dois grandes movimentos místicos-políticos, o designado sob o nome de Guerra dos camponeses e o dos anabatistas em Munster.”

Na primeira, cem mil pessoas morreram, em conseqüência das represálias dos nobres. Castelos e mosteiros foram pilhados e destruídos às centenas. Entre os líderes, houve aventureiros como Gütz von Berlichingen, “o homem da mão de ferro” e Florian Geyer, chefe do “bando negro”. Este era, para Hitler, um precursor e um herói, pois ele pretendia mostrar que sua organização se ligava à lembrança do movimento revolucionário que foi a guerra dos camponeses [368]: durante a ocupação de Paris, na Segunda Guerra mundial, os nazistas apoderaram-se do Liceu Montaigne, transformaram-no em caserna e batizaram-no de Florian Geyer Burg. A alma da guerra dos camponeses era Thomas Munzen, um iluminado, que fanatizava as massas por meio de métodos de propaganda, lançando-as num tal estado de demência que, armadas sumariamente e cercadas pelas tropas da nobreza de Schlachtberg, nas proximidades de Frankenhausen, esperavam um auxílio miraculoso do céu e foram massacradas.

Alguns anos depois da derrocada dos camponeses e da morte de Münzen, uma grande epidemia de frenesi gregário, conhecida sob o nome de movimento dos anabatistas, explodia em Munster. “Velhas heresias místicas e anárquicas de Idade Média [369] encontraram, na crise da Reforma, uma ocasião propícia para dilatar sua influência. ”As perseguições provocaram uma intensa exaltação que tocava ao delírio. Na Holanda, por exemplo, houve pessoas a que a anunciada iminência da catástrofe final terrificou a tal ponto que se escondiam nos campos e trepavam nas árvores “para esperar a vinda de Jesus Cristo”. Em Amsterdam, homens e mulheres, depois de ter queimado suas roupas, corriam despidos nas ruas, gritando “Desgraça! A vingança de Deus!” Recusavam vestes, dizendo ser preciso que a verdade fosse completamente nua [370]. Os anabatistas Jean Matthys e Jean de Leyde, um belo jovem e outros fanáticos conseguiram arrastar a Munster, a princípio, as mulheres e depois os homens para um motim que pôs a cidade em seu poder. Durante o cerco que se seguiu, Jean de Leyde, sucedeu a Matthys, então morto, proclamou-se rei de Munster, instituiu a poligamia e manteve a multidão em exaltação por meio de festas e espetáculos sangrentos. Certa vez, Jean de Leyde arrastou, diante da assembléia dos fiéis, uma de suas mulheres, de que possuía uma dúzia, acusando-a de propósitos de desobediência contra ele. Forçou-a a pôr-se de joelhos, cortou-lhe a cabeça e pisoteou seu cadáver. Durante esse tempo, seus companheiros entoavam um cântico. Todo mundo, em seguida, começou a dançar. A fome e a demência coletiva agravaram-se. A libertinagem frenética, que não poupava sequer as meninas de doze anos, atingiu seu paroxismo: os sitiados comiam coisas imundas e carne humana. Finalmente, a cidade foi tomada e um massacre geral concluiu a história dessa epopéia de loucura coletiva.

Sempre em relação com a vida religiosa da Idade Média e primeiros séculos seguintes, ocorriam arrebatamentos gregários que terminavam em epidemias de possessão e de feitiçaria. Espalharam-se até nos conventos de freiras e coincidiram, muitas vezes, com períodos de guerra e de pilhagem, de peste e penúria, quando as populações estavam esgotadas. Eram psiconeuroses coletivas, nas quais os possessos tomavam posturas anormais e até indecentes, contorciam-se e proferiam blasfêmias. Como nota De Felice (37) [371] “o romantismo alemão encontrou um gosto doentio pelo maravilhoso diabólico na obsessão pela magia, nas nostalgias noturnas e nos sonhos de sabás cósmicos, onde os espíritos elementares dançam ao luar”.

O fundador do metodismo, no século XVII, Wesley, consigna no seu jornal [372] os efeitos extraordinários de seus sermões: os ouvintes eram sacudidos por tremores e convulsões, soltavam gritos inarticulados – Glossolalia – tombavam ao solo, “como atingidos por um raio”. O próprio Wesley considerava esses efeitos como possessão demoníaca, exortava os assistentes a guardar seu sangue frio e impunha a seus discípulos uma organização que os devia premunir contra a volta de semelhantes perturbações.

Casos de arrebatamentos gregários de base religiosa chegaram até nossos dias: vimo-los, no que concerne aos meios católicos, nas peregrinações, como a de Lourdes. Entre os protestantes, os mais conhecidos são o do “despertar”, no País de Gales em 1904-5. Esses movimentos de entusiasmo produziram-se, ao mesmo tempo, no domínio religioso e no plano nacional. A poesia e a música desempenham um grande papel na sua existência [373]. Como acentua De Felice (27) [374], há diferenças de efeitos desses fenômenos nos meios católicos e protestantes: nos primeiros, originam perturbações físicas, nos segundos, causam, sobretudo, mudanças de ordem moral. O revivalismo é uma técnica para “acordar as almas”. Quando o auditório começava a reunir-se, um dos fiéis entoava um cântico e a assembléia logo se unia a ele; terminavam por se exaltar com o próprio canto: certos refrões eram repetidos 10 a 20 vezes: uma “verdadeira onda que passa e repassa sobre a assembléia. [375] A embriaguez, provocada por uma música persistente, produzia gesticulações bizarras, crises de lágrimas e acessos de entusiasmo frenético. Os discursos transformavam-se em uma melopéia lamentosa, lembrando a Glossolalia: esse fenômeno, que é contagioso, se conhece sob o nome de hwyl. Um jovem líder gaulês, Evan Roberts, era um apóstolo conceituado nesse movimento: “sua simples aparição produzia uma impressão profunda”, provocava avalanchas de preces nas assembléias e conversões em massa. É interessante consignar, como fez H. Bois [376], que “sua influência, quase como a atração de um corpo, se irradiava em torno dele, mas, com uma intensidade que se enfraquecia, à medida que aumentava a distância dos homens tocados pelo seu contágio”. Outro pregador revivalista reconheceu, na sua autobiografia, que não tinha conseguido emocionar as pessoas além de uma certa distância e que, numa sala onde presidia a uma reunião, uma linha diagonal, atravessando seu auditório, separava os que se tinham deixado convencer dos refratários a seus apelos“. E concluiu sobre a possibilidade de explicar esses fenômenos, “pela propagação de ondas ainda misteriosas, que o poder de sugestão, emanando de certas assembléias, tenha difundido fora das capelas e agido à distância, sobre numerosas pessoas, com efeitos atrativos ou repulsivos, até provocar, em uma localidade, um ”pânico emotivo“, durante o qual pessoas saltaram do seu leito e se precipitaram, mal vestidas, para a sala onde se realizava a reunião...”

Detivemos-nos, longamente, sobre os arrebatamentos gregários, tão bem ilustrados por De Felice (37) e que dão a chave para a compreensão da influência do meio no desencadeamento dos fenômenos psíquicos a que chamamos de efeitos da violação psíquica das massas humanas. Vimos, ao mesmo tempo, desse sumário histórico, que a Alemanha apareceu como um país onde, no curso dos séculos, esses fenômenos encontraram ambiente psíquico, favorecendo sua eclosão numa vasta escala, como no movimento nazista, em nossos dias.

Na Idade Média, na Renascença e na época dos Enciclopedistas e do Humanismo, viu-se declinarem, pouco a pouco, as tendências para a propaganda emocional e popular e surgir o racionalismo, movimento que se manteve até a Revolução Francesa, onde se verificou uma verdadeira explosão de agitação e de propaganda, que toma um aspecto tão intenso quanto violento e cujo princípio de luta ou da pulsão número 1, como o denominamos, se torna a mola mais íntima e eficaz. A partir de então, é sobretudo a idéia do progresso, emancipadora da humanidade, que se apodera desses meios de propaganda popular e os manobra com maior ou menor sucesso. Se examinarmos ligeiramente os métodos da Revolução é sobretudo o amplo uso dos símbolos que nos impressiona: a bandeira tricolor, como símbolo visual, os acordes da Marselhesa, como símbolo oral e auditivo, bem como a palavra “cidadão”, empregada no lugar de “Senhor” e que data de outubro de 1792.

O efeito desses símbolos sobre a massa foi tão grande que sua influência persiste até nossos dias na alma do povo francês, propagaram-se até fora de suas fronteiras e é assim que a Marselhesa se tornou, para muitos povos, o hino da Liberdade, por excelência. Mas, a Revolução empregou outros símbolos que tiveram grande importância nos movimentos populares dessa época. Por exemplo, a fita tricolor dos revolucionários, a fita branca ou o tufo vermelho dos aristocratas eram signos distintivos que, erguidos, desencadeavam determinadas emoções e incitavam a certas ações. É interessante relatar aqui o seguinte episódio que mostra o jogo combinado das pulsões determinando a criação dos símbolos: no Castelo de Versalhes, as damas da corte distribuíam fitas brancas, dizendo aos oficiais: “Conserve-a bem, é a única legítima, a triunfante” e, aos que as aceitavam, davam sua mão e beijar. É um bom exemplo da associação da pulsão combativa à sexual. Os vendeanos penduravam seus terços no pescoço, na lapela em cruz, associando, assim, a pulsão combativa às emoções religiosas. O barrete de lã vermelha dos sans-coulottes, símbolo popular da Revolução, tem uma ação tão poderosa, quase mágica, a ponto de a multidão que fremia de ódio, pouco antes, contra “Monsieur Veto”, o Rei, extasiar-se a aclamá-lo, aos gritos de “Viva o Rei”, quando ele, amedrontado diante do povo, que invadira seu palácio, a 20 de junho de 1792, se cobre com um barrete vermelho [377].

É interessante acentuar que, nessa época, os símbolos que se empregavam tendiam sempre a revelar, à primeira vista, sua significação, a evocar, imediatamente, a emoção geradora: por exemplo, os Jacobinos adotam o símbolo característico do “olho vigilante”, lembrando que consideram seu clube como um órgão de controle público, desconfiando com razão e vigiando para que os direitos do povo revoltado não sejam menosprezados, nem frustradas suas esperanças. Num cortejo, conduz-se, na ponta de uma lança, um velho culote com essa inscrição “Vivam os sans-culotes”. Quando os católicos, tendo arrendado uma igreja, em 1791, queriam celebrar a missa de domingo, os revolucionários penduraram na porta um feixe de varas, com esse cartaz: “Aviso aos devotos aristocratas, medicamento purgativo, distribuído gratuitamente, no domingo, 17 de abril”.

Esse exemplo mostra que a ameaça da força física é, no decorrer da Grande Revolução, o primum movens da ação de propaganda; ela se manifesta, aliás, em proporção crescente, durante toda a marcha dos acontecimentos. As lanças são verdadeiros signos, sob os quais a Revolução se desenrola. Figuram em toda parte: nas caricaturas, nos cartazes, nos cortejos. Uma estampa dessa época, mostra Luís XVI, coroa na cabeça, sentado numa mesa, com um sans coulotte de barrete vermelho, jogando uma partida de cartas; o rei pronuncia as seguintes palavras: “descartei as copas, ele tem as espadas [378]”. Os clubes revolucionários fabricam lanças em 1791-92 e distribuem ao povo, realizando, assim, a união desse símbolo com sua objetivação, orientando então deliberadamente a propaganda pelo caminho da violência psíquica. O historiador [379] descreve as formas simbólicas que tomam essas lanças: “...lanças de 8 a 10 pés, de aspecto formidável e de toda espécie, lanças em forma de folha de louro, de trevo, de espeto, de coração, de língua de serpente, de garfo, de estilete, de chifres, etc. Num cortejo via-se um coração de vitelo sangrando, conduzido na ponta de uma lança, com esta inscrição: “coração de aristrocata”.

O elemento “ação de massa”, associado ao da combatividade, da violência, domina toda a Revolução Francesa: manifestações turbulentas contra as Assembléias, a “marcha sobre Versalhes”, a construção de cadafalso nas praças comprovam-no.

Todavia, essas tendências violentas, sanguinárias, acomodam-se com a bonomia do povo parisiense: no mesmo cortejo, acima citado, executam-se danças patrióticas, sarabandas, cantam, abraçam-se, conduzem a árvore da Liberdade, que é plantada em triunfo e no meio da alegria geral. Eis um exemplo em que os dois derivados da mesma pulsão – a ameaça desencadeando o medo e o entusiasmo a desencadear o êxtase – são explorados pela propaganda.

Mas, é sobretudo o Canto de Guerra para o Exército do Reno, composto por Rouget de Lisle, em Strasbourg, conhecido como Marselhesa, o stimulus principal que desencadeia o êxtase patriótico e combativo. Foram Federados de Marselha que a levaram, através da França, em 1792, durante sua marcha para a Capital. O historiador [380] descreve a emoção que invade todos os corações, quando o “batalhão de Marselheses desemboca, a 30 de julho, no ”bairro da glória“, de Saint Antoine, na Praça da Bastilha, rufando os tambores, a bandeiras tricolor desfraldada, com porte marcial, cantando o hino, ainda desconhecido em Paris, do exército do Reno. No bairro revolucionário, o grito “As armas!”, “Cidadãos, formai vossos batalhões”, a invocação gloriosa “Amor sagrado da Pátria, conduz, sustém nossos braços vingadores”, esses apelos à vingança, ao combate contra “essa horda de escravos, de traidores, de reis conjurados” tudo fez vibrar violentamente as almas. “As lágrimas, diz o jornal de Herbert, Le Pére Duchesne, rolavam de todos os olhos; o ar retumbava de gritos de “Viva a Nação! Viva a Liberdade”.

Não é sem interesse saber que os adversários da revolução, os vendeanos, por exemplo, se batiam em 1793, contra as forças republicanas, cantando, também eles a Marselhesa, mas, com outras palavras: Às armas, Poitevins! Formai vossos batalhões! Marchemos! O sangue dos azuis avermelhará vossos campos“. Esse fenômeno não é raro na história da propaganda; em nossos dias, o movimento nazista adotava também certos cânticos revolucionários, sobretudo russos, adaptando os textos a seus próprios fins – até os acordes da Internacional foram plagiados por Hitler, que era, como veremos mais adiante, um eclético: nada de original na sua propaganda, mas, uma acumulação racional de princípios e de fórmulas esparsos aqui e ali.

Um outro canto da Grande Revolução, que teve sua história, é o Ça ira, também conhecido como Carmagnole. Foi cantado pelos Federados e pelo povo de Paris, quando se reunia, às pressas, no Campo de Marte, para a grande festa da Federação de 14 de Julho de 1790; traduz bem a idéia central da Revolução e um certo otimismo popular: “celui qui s'eleve, on l'abaissera. Et qui s'abaisse, on l'élèvera. Ah! Ça ira, ça ira, ça ira!” Ao fim do dia, reunidas, as equipes populares, retornando do Campo de Marte, desfilavam em Paris, precedidas por um tambor e um pífaro, saudados pelos aplausos e pelos gritos de “Viva a Nação! Viva a Liberdade!” Os elementos de violência também se mostram, pouco a pouco, nesse cântico que é um exemplo comprobatório da facilidade do contágio psíquico, que se apoia nessa pulsão, pois acrescenta-se: “Os aristocratas ao poste! Os aristocratas, enforcaremos! Depois da vitória de 9 Termidor, jovens, hostis à Revolução Jacobina, os Muscadins que ostentavam uma grande elegância e combatiam os símbolos dos Jacobinos, atacavam mesmo os costumes revolucionários: enfureciam-se sobretudo contra o barrete vermelho, molestavam os vendedores de jornais jacobinos e seu canto de união foi o Despertar do Povo (1795). Houve, então, uma espécie de guerra de palavras, gritando os muscadins, à vista dos revolucionários, “Viva a Convenção”, e eles respondendo “Vivam os Jacobinos”.

Ao lado da guerra de símbolos, descrita acima, que lembra a luta pelo Poder na Alemanha, em 1932, os três métodos de propaganda que dominam a Grande Revolução Francesa, são os jornais, os Clubes e as festas públicas; pode-se dizer que nem antes, nem depois dessa época, os jornais e a literatura panfletária tiveram a importância que adquiriram durante esse período de lutas políticas. Os jornais, especialmente o Amigo do Povo, de Marat, ídolo de Paris, os libelos, os cartazes dos clubes afixados nos muros da capital e de outras cidades, mantinham o povo em alerta. “Toda a indignação, as cóleras e os levantes do povo estouram, a princípio, nos jornais. E uma força revolucionária sempre vigilante e em ação: propaga o espírito patriótico até os campos”. [381] Os métodos são os que empregava Hitler em 1932, quando proferia suas ameaças: “Köpfe werden rollen!“ (As cabeças rolarão). Marat não acreditava na sabedoria popular, via, em sonho, um César um “tribuno militar... marcando as cabeças a rolar”. Marat dizia: “Eu sou o olho do povo... atacarei os ladrões, desmascararei os hipócritas, denunciarei os traidores.” E Hitler: “Eu sou vosso porta-voz, o Trommier (o Tambor)... Fuzilarei os recalcitrantes, quando chegar ao poder...” (Documento de Boxheim em 1931).

Marat incita, em seus artigos, a revolta violenta e escreve, num panfleto, em 1790: “Ai de vós, se não recorrerdes às armas”. Um cartaz de 23 de junho de 1792 diz: “Se recusais nossos conselhos, nossos braços se erguerão e punirão os traidores, em toda parte onde se encontrarem, mesmo entre nós”. Mais tarde, no declínio dos Jacobinos, seus adversários fazem uma campanha panfletária de igual violência e baseada nas mesmas pulsões escreve-se “bebedores de sangue” slogan muito popular na revolução russa, 120 anos, mais tarde. “Barrere usaria botas de couro humano”, “os massacradores de setembro comeriam os corações de suas vítimas”, “uma mulher abortaria vendo a carranca de Danton”... etc. (37). Gracejos, invectivas, calúnias, epigramas e pilhérias, abundam na imprensa da época do Diretório.

A outra forma de propaganda característica da Revolução Francesa é a eclosão de discursos de agitação, mantida nos Clubes o por eles, sobretudo os jacobinos. E, na verdade, ali que se gera e “Se faz” a Revolução. Robespierre é dos seus. Esforçam-se por fazer propaganda baseada na razão, na persuasão, para formar no país um espírito público uniforme, para criar a unidade moral da nação. “O clube é o fermento da Revolução – diz Lavisse (90) – e o espírito jacobino é o patriotismo, a fé na revolução, cada dia acrescido pela obrigação de lutar contra a aristocracia dos nobres, a eclesiástica, a militar e a judiciária”. Quanto mais se acumulam as dificuldades, mais os jacobinos são levados a explorar a emotividade popular; são eles que, formando líderes, fomentam a agitação nas ruas, que organizam a pressão das galerias sobre as assembléias, que proferem ameaças e instigam as pulsões primitivas de multidões; íntroduzem a prática das injúrias no combate político, são fomentadores da exaltação, mais ou menos sabiamente dirigida. O vocabulário de sua propaganda se restringe cada vez mais, o aspecto de suas sessões torna-se sempre mais tumultuoso. A propaganda, os métodos de excitação dos jacobinos, são descritos por Taine (150), na seguinte passagem: “Tudo é recitado, declamado ou melhor gritado, publicamente, em pleno dia, diante das janelas do rei, pelos tribunos populares, trepados em cadeiras... a seguir nos cartazes que se afixam nos bairros, depois nas proposições anunciadas nas sessões e nos clubes, depois nas moções que se levantam nos grupos das Tulherias...”

Ao lado do Clube dos Jacobinos, um outro, mais democrático, e dos Cordeliers é composto dos melhores oradores, condutores de homens mais ativos, como Danton, Hebert, Marat, Camille Desmoulins. São tão revolucionários e violentos quanto os jacobinos, mas, na sua propaganda, adotam a intimidade; tratam-se por “irmãos” e “irmãs”, são mais flexíveis, menos teóricos, mais homens de ação.

Como efeito de toda essa propaganda furiosa da violência, a vida política é dominada, cada vez mais, pelo Terror que engendra o medo. Já no começo da Revolução, em 1789, o medo se propaga, sobretudo nos campos: falamos, no capítulo quinto, dos pânicos dessa época, conhecidos como o Grande Medo. Em fins de 1792, o medo invade até os deputados da Convenção. Taine (150) diz: “Robespierre advertiu que o partido mais forte é também o mais certo. Repete-se que é prudente e mesmo necessário, não contrariar o povo emocionado. Entre os 500 deputados da Planície há muitos desse tipo; são chamados os sapos do Marais”; tornam-se rapidamente figurantes mudos ou, antes, manequins homicidas. Sob o olhar de Robespierre, “o coração, transido de espanto, sobe-lhes à garganta”, no seu rosto está estampada “a palidez do temor ou o abandono do desespero”.

É fácil compreender que, tendo construído toda propaganda da Revolução sobre a base da pulsão combativa, o espírito militar se manifeste, desde que aparece a ameaça de complicações externas, de guerra. Nessa época, o canto da Revolução, Ça ira! termina numa explosão guerreira; [382]

“... La Fayette diz: venha quem quiser,
o patriotismo lhes responderá“.
Sem temer nem fogo, nem flama,
O francês sempre vencerá.
Ah! Ça ira, ça ira, ça ira”.

O entusiasmo dos exércitos da Revolução que se manifestou então e que permitiu as campanhas vitoriosas que se conhecem é compreensível. Enfim, o método de propaganda, talvez o mais característico da Revolução Francesa, é o das festas públicas, que tomam um brilho e uma importância excepcionais nessa época. Robespierre pede, em 1792, que se fortifique “o espírito público pela educação, cujos maiores instrumentos são os espetáculos e as festas públicas”.

A primeira grande festa da Revolução foi a da Federação, em 14 de julho de 1790. Desenrolou-se debaixo de grande entusiasmo espontâneo do povo que tomou parte ativa na preparação da festa. Uma nova mística “um novo culto, diz o historiador, [383] estava para nascer: com seus dogmas, suas palavras litúrgicas, seu altar, seu canto, sua música, suas insígnias. As federações foram uma explosão de amor, de concórdia e de unidade nacional”.

Ergueu-se, no centro do Campo de Marte, o altar da Pátria, onde se depositavam os pedidos, faziam-se juramentos. Diante desse altar, de seis metros de altura, executavam-se danças, alegres farândolas, cantava-se, organizavam-se banquetes. A essa festa assistiram 160.000 pessoas sentadas e 150.000 de pé, as quais traziam fitas tricolores. Mil e duzentos músicos foram reunidos. Uma passeata de 50.000 pessoas desembocou no Campo de Marte, constituída de eleitores, administradores, deputados à Assembléia Constituinte, de um batalhão de crianças e outro de velhos. Vieram, em seguida, os federados dos departamentos, conduzindo, como bandeiras, quadriláteros brancos, ornados de laços tricolores.

Reinava um entusiasmo delirante. Essa festa foi seguida, na província, por muitas outras campestres, que criaram um movimento geral de alegria, de confiança e de esperança. Altares da Nação foram erguidos em toda parte, celebravam-se neles casamentos, colocava-se ali uma criança, às vezes recém-nascida, que se cumulava de dons e de votos; o simbolismo mais patético estava na ordem do dia. Essas festas eram quase sempre presididas pelos velhos, cercados de crianças e de jovens em vestes brancas, tendo à cintura uma fita tricolor. Via-se que eram sobretudo às pulsões 3 e 4 (sexual sublimada e paternal) que se dirigia, mais ou menos conscientemente, toda essa propaganda. Mas, já em certas províncias, encontravam-se, nessas festas, mulheres armadas, bandeira à frente, manejando a espada nua – uma curiosa combinação de emoções, ressaindo da pulsão combativa, associada à sexual.

Gradativamente, à medida que a Revolução evoluía para um caráter cada vez mais grave e trágico, suas passeatas e festas tornavam-se mais agitadas, mais violentas e também mais austeras. Assim, na festa fúnebre de 26 de agosto de 1792, em honra aos mortos de 10 de agosto, conduzem-se estandartes comemorativos, com a lista de massacres perpetrados pela Corte e seus agentes; massacres de Nancy, de Nimes, etc. Guardas nacionais em uniforme, cidadãos armados de lanças, mulheres de vestido branco e cinto preto formam o cortejo que avança acompanhado pela música de Gossec, em acordes de marcha fúnebre. A festa foi organizada por Sergent e, segundo a expressão de Taine, (150) devia conscientemente “inspirar, alternadamente, o recolhimento e a indignação”. Vêem-se já elementos de uma direção consciente das emoções das massas, germens, por conseguinte, de uma propaganda metódica.

No decorrer do ano de 1793, assiste-se ao desenvolvimento de uma verdadeira religião patriótica, “a montanhesa”, de um culto revolucionário. Batismos leigos sobre o altar da Pátria, a cerimônia na catedral, em honra de Brutus, outras manifestações se sucedem. O cerimonial patriótico, com fins de propaganda, forma suas tradições, seus símbolos, seus ritos e seus cânticos. Além do altar da Pátria, a que se dá, nessa época, a forma de um rochedo que representa a Montanha, a insígnia tricolor, a árvore da Liberdade, que é plantada nas ocasiões solenes, pode-se citar: a mesa da Constituição, a Coluna dos Direitos do Homem, a miniatura da Bastilha, o barrete da Liberdade, o feixe da Unidade, o nível e a balança da Igualdade, as duas mãos unidas, figurando a Fraternidade, as palavras “Liberdade, Igualdade, Fraternidade” que se inscrevem em todos os edifícios públicos – são exemplos da pulsão que tomou, na época, essa propaganda emotiva por meio de símbolos. O emprego da pulsão n° 1, como base psicológica para os símbolos, representando o povo francês, é bem evidente: o leão, o galo em cima de um canhão, Hércules com sua clava. Em julho de 1793, o grão-mestre das festas da Revolução, o pintor David, organizou uma festa leiga, em honra à Constituição, e à Unidade da República, que custou perto de dois milhões e durou de quatro horas da manhã até meia noite, na praça da Bastilha. É interessante assinalar que carros simbólicos desfilam no cortejo, nessa ocasião; erigem-se estátuas – a da Liberdade, ou a do povo francês, personificado por Hércules abatendo o dragão do federalismo, saído do pântano, bandeiras com o símbolo jacobino “olho vigilante”, fitas tricolores, cartazes carregados pelo povo, no desfile.

David dirige, também, as exéquias solenes de Marat assassinado: o cadáver é carregado descoberto, sobre um leito, por dez homens nus até a cintura. Uma festa expiatória, celebrada em Lion, em memória de um mártir montanhês, Charlier, toma mesmo um caráter carnavalesco: vestiu-se um asno de bispo, incensou-se e levou-se ao túmulo de Charlier, onde foram quebrados os vasos da igreja, para enviá-los, em seguida, à fundição; [384] por iniciativa dos Hebestistas, paródias sacrílegas, homenagens públicas à razão se tornam comuns. Uma festa desse gênero, que caracteriza bem o método de ação sobre os espíritos, em voga nesse período da Revolução, é a de novembro de 1793, em Notre-Dame, transformada em templo da Razão [385] Uma cena lírica, A oferenda à Liberdade, ali foi realizada, acompanhada do hino de Chernier. Erigiu-se uma Montanha e sobre ela um templo antigo, com a inscrição. “À Filosofia” e duas alas de moças do corpo de balé vestidas de branco, escalaram a Montanha. A Liberdade (representada por uma dançarina, Mlle. Aubry) sai de seu templo, senta-se numa cadeira ornada de folhagem e recebe as homenagens dos cidadãos e cidadãs.

Enfim, essa tendência atinge seu apogeu com a festa do Ser Supremo, no domingo de Pentecostes de 1794. Essa exibição de propaganda de novas idéias e de emoções cívicas que Robespierre, eleito presidente da Convenção, desejou incorporar, definitivamente, à alma francesa, foi dirigida por David e explicada, minuciosamente, ao povo, antes da festa [386]. O povo devia ser, aí, ator e espectador, ao mesmo tempo. Uma ordem perfeita reinava nessa manifestação. As massas de cidadãos marchavam em filas, os homens conduzindo espadas e ramos de carvalho, as mulheres, flores, os jovens, fuzis e bandeiras. Vê-se que o apelo à pulsão n° 1 reaparecia, muito claramente, apesar da tendência teórica, que estava voltada para a Razão e a Humanidade: os deputados carregavam feixes de trigo, flores e frutos e, no centro do cortejo, touros ornados de grinaldas, puxavam um carro, representando as Artes e as Profissões. Robespierre era, de alguma forma, pontifex maximus, invocando o Ser Supremo e pondo simbolicamente o fogo na imagem do Ateísmo, erguida na tribuna e circundada de figuras, representando a Ambição, o Egoísmo e a Discórdia. Do fogo apagado surgiu, então, a estátua da Sabedoria.

No declínio da Revolução, depois da queda da Montanha, um novo culto surgiu, associando as idéias de uma religião “razoável e natural”; é o movimento teo-filantrópico. A moral social é fundada, segundo as idéias de seus adeptos, na solidariedade e o bem se identifica com o útil. Praticam-se cerimônias do nascimento, do casamento, diante do altar ornado de folhas, flores e frutos. O orador ou leitor sobe à tribuna, veste uma roupa de linho branco que é, em seguida, trocada por uma toga azul, com um cinto rosicler e túnica branca. Os cânticos que acompanham o ritual são escolhidos entre as obras de J. J. Rousseau. O historiador designa esse culto como “religião amável”: todo apelo à pulsão combativa é, de ora em diante, abolido.

Terminando o resumo histórico das formas de propaganda empregadas na Revolução Francesa, é interessante consignar um fato que ressalta o que anteriormente dissemos a respeito da proporção do décimo entre os elementos ativos e passivos da vida política moderna, os “5.000” e os “55.000”, estatística que estabelecemos em 1932, quando da luta anti-hitlerista na Alemanha. Lavisse (90), falando da atividade dos elementos do início da Convenção, dá os seguintes números para a assistência aos meetings (sessões): havia, em Paris, 150.000 cidadãos, isto é, 150.000 pessoas que tinham direito de voto; repartiam-se em 38 sessões, cerca de 3.000 para cada uma delas; mas as sessões não eram freqüentadas por mais de 200 ou 300 cidadãos. A proporção é, então, segundo ele, de 1/10 ou mesmo de 1/20. É surpreendente reencontrar hoje, 150 anos mais tarde, os mesmos quocientes.

Napoleão e o Império não tinham uma grande compreensão da agitação popular; ao contrário, Bonaparte tende para a ordem, para a “dignidade”, a organização. Entretanto, antes do golpe de Estado, quando não era mais que general da República, Bonaparte sabia muito bem utilizar os jornais para sua publicidade, verdadeiro preconício de seus próprios méritos. Gostava, sobretudo, de dirigir proclamações aos soldados, onde o falso e o verdadeiro se mesclavam num estilo imaginoso, vibrante, heróico. Eis aqui um exemplo (1796) [387]

“Soldados, precipitaste-vos, como uma torrente, do alto dos Apeninos; derrotastes, dispersastes, dissipastes, tudo o que se opunha a vossa marcha... Partamos! Temos ainda marchas forçadas a fazer, inimigos a submeter, louros a colher, injurias a vingar... Tereis a glória imortal de mudar a face da mais bela parte da Europa... voltareis, então, aos vossos lares e vossos concidadãos dirão mostrando-vos: este era do Exército da Itália!”

Durante o Império, dir-se-ia que o próprio caráter francês mudou: é verdade que as conquistas militares e as vitórias quase ininterruptas estavam na ordem do dia, ao passo que a agitação e a propaganda se desenvolvem sobretudo nas épocas instáveis e cheias de perturbações internas.

Mas, a democratização da vida social, a importância das massas, aumenta sensivelmente no decorrer do século XIX: era a decorrência das guerras napoleônicas e especialmente da revolução industrial que se realizou durante os últimos cem anos. O movimento demográfico a secundava: basta lembrar que a população da Europa deu um vertiginoso pulo de 178 milhões em 1800 para 5 3 1, em 1941 [388] A emigração, para o Novo Mundo, que ultrapassou 30 milhões de pessoas no curso de um século, a migração dos campos para as cidades, com as conseqüências de criação de enormes aglomerações urbanas, da produção em massa, da procura de maiores prazeres, mudaram inteiramente a fisionomia da civilização em que vivemos. O marxismo forneceu às massas a consciência de sua força e de seu valor social.

O ano de 1848 e depois a Comuna permitiram à propaganda tomar uma nova pulsão e, em seguida, tornou-se uma prerrogativa quase exclusiva do movimento operário, dos partidos socialistas. E sobretudo na Alemanha, onde, com a industrialização, um partido operário, cada vez mais poderoso, o social-democrata, surgiu e se desenvolveu, que a propaganda socialista se torna mais ativa e, ao lado de uma propaganda de persuasão, que reclama, por meio de argumentos lógicos, a adesão ao programa do partido, emprega também a sugestiva, apelando para a emotividade: a bandeira vermelha, o cravo vermelho na lapela, os cantos revolucionários, o termo “camarada”, são seus símbolos. Mais ainda: modas socialistas penetram nesses meios; a barbicha a Bebel – o grande tribuno alemão – o chapéu mole, a gravata vermelha, são símbolos de unidade que atraem mais facilmente as massas para o grande partido operário. Daí as formas de propaganda socialista se espalham através do universo: o 1° de maio torna-se a oportunidade de os exteriorizar, ao máximo, de jogar o trunfo da ameaça contra o mundo burguês, empregando como base, aliás inconscientemente, por intuição, a pulsão combativa. Os partidos burgueses, descairados, vêem subir a maré obreira, a maré sindical e socialista e, por intermédio de seus governantes, só sabem responder pela coerção, por medidas policiais, criando mártires, lançando óleo no fogo, aumentando, assim, o papel dos fatores emotivos na luta política que se trava.

Mas, é precisamente nas massas alemãs que o sentido de organização e, portanto, a necessidade de serem guiadas, degenera, muitas vezes, em submissão sem limites, em adoração de personalidade, de líderes, firma-se irresistivelmente e torna-se o fator predominante do comportamento das massas, como constata Michels [389] um dos melhores sociólogos alemães e profundo conhecedor do partido social-democrata. O culto do herói é expandido em alta escala e encontra guarida mesmo nas massas operárias: elas desejam também ver encarnado em alguém o tipo ideal de seu poder coletivo e de sua aspiração a um novo estilo de vida. Nesse sentido, Bebel correspondia para a social-democracia ao monarca que Guilherme II era para a burguesia alemã. [390] Mas, não é só na Alemanha que um tal estado de espírito caracteriza as massas: constata-se o mesmo fenômeno nos Estados Unidos, na Inglaterra, até na Suíça, para não falar da URSS, onde a personalidade de Stalin é levada às nuvens. Bernard Shaw [391] diz, num de seus aforismos tão maldosos quão pertinentes: “A aristocracia é um agregado de ídolos e a democracia, um agregado de adoradores de ídolos”.

Durante a guerra de 1914-18, naturalmente, todas as tendências internacionalistas acabaram, graças a uma explosão, nos diversos países, de sentimentos patrióticos e até chauvinistas, inteiramente espontâneos e sem qualquer direção, salvo na Alemanha, onde o Estado-Maior do Exército, inspirando a imprensa, procura criar, conscientemente, um movimento de loucura patriótica, uma verdadeira obsessão de espiões, para obter um melhor rendimento da mobilização. Tudo isso conduzido, é verdade, de maneira bastante primitiva. Todavia um exemplo do emprego muito eficaz de um slogan, na propaganda antiinglesa, nessa época, merece ser mencionado: a frase – Gott strafe England (Senhor, puni a Inglaterra!) que os alemães empregavam a cada instante, como inscrição, alocução, ao se saudarem, etc. Mas, eis que no decorrer da própria guerra, as duas partes fazem, pouco a pouco, observações, adquirem experiência e começam enfim a entrever a importância do fator psicológico, tanto sobre a frente quanto sobre a retaguarda e a possibilidade de dirigi-la à vontade. Já vimos, no capítulo precedente que a idéia do Marechal Psicólogo, do Führer Propagandista abre caminho durante a guerra e depois desta. Como se sabe, os ingleses, melhor do que os outros, apropriaram-se dessa idéia e criaram todo um ministério especial da Propaganda, à frente do qual foi colocado Lord Northcliff.

Pode-se ter uma noção de sua atividade por um livro de Campbell Stuart: Les Secrets de La Maison Crewe (148) (Os Segredos da Casa Crewe) – o nome do imóvel onde se achava o Ministério, em Londres.

Essa organização foi criada relativamente tarde, em fevereiro de 1918, possuindo sobretudo o objetivo de fazer propaganda nos países inimigos, esforçava-se para lançar confusão nas linhas combatentes adversárias e na população da retaguarda. Para isso, era preciso, antes de tudo, criar, por todos os meios, uma “atmosfera” favorável a essa ação. O estudo dos fatores que podem determinar essa atmosfera era bem organizada; homens de grande valor político, como W. Steed e Seton Watson, ou literário, como o célebre romancista inglês H. G. Wells, dirigiam esse trabalho. Como base de toda a propaganda, estabeleceram-se os seguintes postulados:

1° – as operações de propaganda não devem ser empreendidas senão após o estabelecimento de uma linha de conduta política geral muito clara;
2.° – a propaganda jamais deve recorrer a mentiras;
3° – evitar cair em contradições e equívocos. Essa propaganda inglesa, que rapidamente se espalhou em todas as frentes ocidentais e balcânicas, explorava principalmente a afirmação de que a causa dos inimigos estava perdida, que não podiam mais conservar qualquer esperança de vitória, que as forças Aliadas estavam aumentando, sem cessar; essas afirmações eram apoiadas em números, mapas e outros meios persuasivos, que desmoralizavam o adversário. Essa propaganda servia-se sobretudo de panfletos que eram lançados aos milhões em cima das trincheiras alemãs, por aviões aliados ou balões que transportavam o material para o próprio país. Colocavam-se, também, entre as trincheiras, no no man's land, alto-falantes, que divulgavam alocuções e canções populares eslavas, impregnadas de nostalgia, onde havia tropas tchecas ou iugoslavas. Para o fim, começou-se a empregar também a T.S.F., embora ainda muito rudimentar nessa época. A ação dessa propaganda foi tão eficaz que as deserções aumentaram na frente alemã e sobretudo na austro-húngara. O Estado Maior alemão, na pessoa do general Lundendorff, mostrava-se inquieto. Declara ele, notadamente: “A propaganda inimiga trabalhava tão metodicamente e em tão vasta escala, que muitos dos nossos acabavam por não mais poder distinguir suas próprias idéias das que lhes eram inculcadas pelo adversário”. E Hindenburg registra, melancolicamente, na sua biografia: “Essa propaganda intensificou, no mais alto grau, a desmoralização da força alemã.”

A monarquia austro-húngara era o calcanhar de Aquiles do bloco de Impérios centrais e foi principalmente nesse ponto que Lord Northcliff concentrou o fogo de sua ação de propaganda. A batalha de Piave, onde os italianos obtiveram um grande sucesso sobre os austríacos, foi ganha, como se sabe atualmente, graças especialmente a uma ação desmoralizante daquela propaganda sobre as tropas austro-alemâs. O desmoronamento posterior da força austríaca nessa frente e na balcânica, conduzindo à derrocada geral, resultaram dessas ações sobre o moral inimigo.

Assim, a estratégia dessa propaganda consistia num deslocamento da coesão entre os adversários aliados, no enfraquecimento da resistência psíquica da retaguarda e na desmoralização dos exércitos adversários. Empregava a tática de procurar os pontos fracos dos adversários e de utilizá-los como objetivo de seu ataque. Desse modo, os Aliados concentraram seu fogo de propaganda sobre a Áustria e seu exército, os alemães, sobre o exército tzarista russo. [392]

Como se vê, a característica dessa propaganda era uma sábia combinação do raciocínio e do medo, atuando sobre a pulsão n° 1. É verdade que, no clima de uma guerra, o jogo desses fatores é simplificado. Além disso, as modalidades de uma ação sobre os fatores psíquicos evoluíram no sentido que indicamos nos capítulos precedentes e no fim deste, onde se podem encontrar os exemplos mais expressivos na própria existência da Revolução Russa e do hitlerismo que chegaram até a criação de Ministérios de Propaganda.

A propaganda tomou uma amplitude extraordinária na Revolução Russa e especialmente durante a guerra civil. Já no verão de 1915 era formada, na Rússia, uma organização que tomava o nome de Comitê do Fator Moral e fazia parte do Comitê de Ajuda Técnica Militar, englobando todas as organizações técnicas e científicas do país; tinha por fim levantar e dirigir o moral da população e do exército para conduzir a bom termo a guerra. Após a Revolução, em que esse Comitê tomou parte muito ativa, como já vimos no capítulo IV deste livro, citando exemplo de sua atividade, foi transformado em Comitê de Educação Político-Social junto ao Governo de Kerensky e mais tarde, em Comitê de Propaganda, junto ao Soviet (Conselho) dos trabalhadores intelectuais. Desapareceu depois da Revolução de outubro. Seu trabalho era, sobretudo, caracterizado pela aplicação, nova nesse domínio, dos princípios da organização racional (sistema Taylor) à administração de um organismo concebido para a mobilização do fator moral humano, para a propaganda.

Sabe-se que, do lado dos bolcheviques, a propaganda teve uma grande importância; os célebres slogans da Revolução de outubro “Abaixo a Guerra”, “Paz e Terra”, “Sem Anexações nem Contribuições”, foram divulgados por todos os meios e obtiveram uma enorme difusão que teve a ressonância que se conhece. Mas, eram, nessa época, sobretudo, os comícios e as passeatas que estavam em voga. com seus estandartes vermelhos, seus cartazes e multidões entusiastas, mas, pouco ordenadas, que a eles assistiam. Um novo alento nasceu com a guerra civil; os dois partidos organizaram, então, verdadeiros ministérios de propaganda como organismos de Estado. Os métodos mais modernos foram empregados no combate: boletins aos milhões, jornais ilustrados, fotografias, cartazes, vitrinas, equipes de agitadores inundando os mercados, os trens e lugares públicos, até ao cinema e às caravanas de propaganda: Trotsky viajava, por exemplo, num trem especial, organizado como um escritório de propaganda, com vagão impressor, outro com exposição dos modelos do material de divulgação, etc. Quando os oficiais ingleses, depois de forçados os Dardanelos, vieram ao Ministério de Propaganda de Denikine e viram o que se fazia e em que escala, declararam, espantados: “Vocês ultrapassaram nosso Northcliff”.

Para dar uma idéia da amplitude que tomou então a organização de propaganda, diremos que esse Ministério, conhecido na história como Osvag (Osv – recursos de informação, em russo, e ag – agitação), subdividia-se como se segue: a) secção de informações; b) secção de agitação; c) direção de filiais; d) secção de organização; e) administração geral. O serviço de informação tinha por tarefa fornecer boletins diários, sobre a situação política e econômica aos membros do Governo, assim como um resumo dos jornais: O Osvag publicava uma meia dúzia de jornais e tinha seu próprio aparelhamento de distribuição, mantinha, finalmente, um escritório que dava informações à imprensa. Nessa secção, havia, além do mais, um serviço de agência telegráfica, outro de publicação de cartazes diários que eram pregados nos muros e expostos nas vitrinas; projetavam-se, também, fotos numa tela; enfim, um trabalho original e muito importante, os mapas de meteorologia política. Eram cartas geográficas do país, nas quais todos os acontecimentos de importância, referentes à situação econômica e política (como transporte, perturbações rurais, agitações antigovernamentais ou anti-semitas, etc.) eram marcados em cores, o que dava uma rápida orientação topográfica e sobretudo revelava, claramente, uma interdependência de certos fatores econômicos, políticos e sociais. É, pelo que sabemos, o primeiro e único exemplo de aplicação de métodos científicos na vida política, num objetivo prático de luta e não apenas para as necessidades de uma análise histórica posterior. A propósito, é interessante citar aqui o seguinte fato: um serviço dessa espécie já existia, no verão de 1917, em Petrogrado, junto ao Governo de Kerensky. Esses mapas, que chegavam todos os dias, eram, desde sua entrada nos Ministérios, cuidadosamente guardados nos dossiês dos arquivos, sem que os ministros ou outros funcionários tivessem o trabalho de estudá-los: não sabiam mesmo o que fazer com eles. Os mapas eram enviados, regularmente, também, ao Soviet Central com sede em Smolny; se o mapa atrasava uma hora, um ciclista do Soviet chegava para levá-lo e indagar a razão da demora: os bolcheviques, homens ativos e mais perspicazes que seus adversários, indo com tenacidade aos fins a que se tinham proposto, compreendiam a utilidade desse instrumento moderno e dele sabiam servir-se bem.

Para voltar ao Osvag, mencionaremos, ainda, que ele mantinha, no país, algumas centenas de salas de leitura e de bibliotecas populares gratuitas, através das quais a propaganda se infiltrava na população das cidades e especialmente nas vilas. A secção de agitação tinha muitos serviços: editava boletins, brochuras, manuais de agitação, cartazes ilustrados, caricaturas, um jornal artístico, organizava conferências e comícios, enviando ao interior do país oradores que tinha sempre à sua disposição, mantinha um curso em que instruía os futuros agitadores, enviados por todo o país, nos lugares públicos, nos bondes e estradas de ferro, diante das vitrinas na rua, nas vilas, nos mercados. Esses agitadores formavam equipes que utilizavam como unidades táticas, verdadeiros comandos, como se diria atualmente, nessa luta psicológica, que é uma campanha de propaganda. Enfim, um serviço musical e artístico tinha por missão organizar festas populares. concertos, sketchs, etc. Um outro serviço editava filmes políticos, fotografias: mantinha uma exposição permanente de exemplares de propaganda, etc. Se existisse então a T.S.F., teria certamente desempenhado uma importante função no conjunto desse grande instrumento de propaganda que era o Osvag. Enfim, esse ministério organizava agências em todos os grandes centros do país, cobrindo-o de uma rede de propaganda. É preciso dizer, todavia, que a propaganda popular maciça, de que falamos nos capítulos precedentes e que é tão característica da luta política dos últimos tempos, não era ainda usada; empregando formas emotivas, a atitude do Osvag era antes orientada para uma propaganda baseada sobre a reflexão e a persuasão. É a razão pela qual, agindo sobre os intelectuais, ela não chegava a impressionar as massas populares e devia, em conseqüência, resultar num insucesso, mesmo sem levar em consideração que o governo que ela representava não tinha base política sólida e devia sucumbir ante a onda revolucionária triunfante.

No Ocidente, nos meios hostis às idéias da Revolução soviética, como entre os emigrados russos, que fugiram desnorteados diante da grande desordem, que abria caminho na sua Pátria, procurou-se explicar os acontecimentos como conseqüência da agitação revolucionária, conduzida pelos bolcheviques e pelas camadas intelectuais avançadas. Essa explicação é simplista e, como tal, fundamentalmente errônea; reúne, às vezes, a tendência oficial de atribuir post factum uma importância exagerada à atividade dos elementos que foram conduzidos pelos acontecimentos à direção da Revolução e que acabaram efetivamente por comandá-la e canalizá-la. Essa tendência não se mantém diante da verdade histórica, como bem sabem os que tomaram parte nos acontecimentos não somente como espectadores, mas, também na qualidade de atores, como o autor dessas linhas, que foi convidado para o cargo de Secretário-geral da grande organização dos intelectuais russos, acima descrita (o Comitê de ajuda técnica e militar) assim como do Soviet dos Trabalhadores Intelectuais e, mais tarde, na guerra civil, como criador e diretor do Osvag, o primeiro ministério de propaganda da Europa.

Sabe-se, com efeito, que a Revolução, tornada inevitável pelas vicissitudes da guerra, a situação econômica e social catastrófica do país e a decomposição do governo tzarista, explodiu como um acontecimento telúrico natural, como “um tremor de terra social”. que levava, no seu arrebatamento torrencial, toda a estrutura estática e social do grande Império, com seu governo, parlamento, instituições e partidos políticos. Para dizer a verdade, os líderes de todas as agremiações faziam figura apagada e basta ler as notas históricas, sobre a Revolução, de Lênin e Trotsky para se verificar que os bolcheviques não eram exceção. Assim testemunha Molotov: “Nosso partido sentiu terreno sólido sob os pés, somente depois da chegada de Lênin na Rússia, em abril de 1917... Até lá, o partido não fazia mais que procurar seu caminho com todos os sinais de fraqueza e de dúvida”. [393] E Lênin diz: “Os operários e os camponeses eram cem vezes mais revolucionários que nosso partido...

Em julho de 1917, a direção do partido, longe de se pôr decididamente à frente do movimento insurrecional, procurava deter as massas, fervilhantes de espírito revolucionário, de descer às ruas para realizar uma manifestação armada, que marcou, efetivamente, a ruptura entre a Revolução de fevereiro, que levou Kerensky ao poder e a verdadeira revolução, que se preparava na mentalidade das massas, para explodir em outubro e dar o poder a Lênin. Vê-se desses fatos que os líderes de partido, os dirigentes é que eram conduzidos ou, mais exatamente, impelidos pelas massas. É verdade, contudo, que a propaganda bolchevique atuava no front, no exército que, apresentando uma certa estrutura, facilitava seus efeitos; e esse fato trouxe seus frutos no outono de 1917, quando dos acontecimentos decisivos.

Os dias de julho mostraram a força elementar do movimento espontâneo das massas; em agosto e setembro, a importância total do governo de Kerensky tornava-se evidente; em outubro, a situação estava madura para a ação.

Naturalmente, após o triunfo da Revolução de Outubro a propaganda do partido bolchevique pôde lançar-se totalmente no sentido de reter e consolidar o poder e já aplicar, aí, com plena eficiência, como sua base de ação, a pulsão n° 1, a pulsão agressiva: o terror funcionava como elemento “restaurador” dos reflexos condicionados formados. E então foram os três fatores capitais cujas relações determinaram o desenvolvimento posterior dos acontecimentos: a direção, o partido e as massas. A propaganda devia, em conseqüência, dividir-se nesses dois tipos que já vimos, em teoria, anteriormente [394] 1° – a propaganda do tipo persuasivo, atuando entre a direção e o partido, a primeira inspirando sua elite e o partido, fornecendo-lhe a argumentação; e o 2° – a propaganda de tipo emocional, principalmente, entre o partido e a direção, de um lado e as massas, de outro; esse último influenciava, inflamava e impelia as massas à ação para defender e consolidar o novo regime. Na Revolução Francesa de 1789, o papel de intermediário, correspondendo de certa forma ao partido, era desempenhado pelos clubes de jacobinos e outros.

Na guerra civil, que se seguiu à Revolução de outubro, a propaganda pôde exercer, de dois lados, a função de que falamos acima. No curso da própria Revolução, a propaganda do partido bolchevique, no dizer de seus historiadores, como Trotsky, (159) era insuficiente [395] os meios e instrumentos a seu alcance eram praticamente irrisórios: por exemplo, nos primeiros dias de outubro, o numerário na caixa central do partido era apenas de 30.000 rublos-papel, então muito depreciados. Do lado das camadas intelectuais, as adesões eram quase nulas, o partido não tinha líderes nem mesmo agentes politicamente instruídos que pudessem expor às massas populares os objetivos a alcançar; no campo, não havia quase nenhuma organização, as comunicações estavam completamente desorganizadas. E, se apesar de todos esses tropeços, o partido bolchevique pôde impor-se e ganhar a partida, é que, do lado de seus adversários, a organização material era ainda mais precária. Além disso, a atmosfera revolucionária, superaquecida pela guerra, a miséria e a efervescência espontânea das massas, afirmam-se como um excelente condutor de idéias... os slogans que correspondem às necessidades agudas da classe e da época, criam milhões de canais para sua difusão. Os jornais bolcheviques eram lidos em voz alta, lidos e relidos, até se rasgarem, os principais artigos foram decorados, divulgados, copiados e impressos em toda parte onde isso era possível... Ao mesmo tempo, a imprensa burguesa distribuía gratuitamente milhões de exemplares no front e não encontrava leitores.

Mas, sabe-se que o governo soviético atribuiu a maior importância à propaganda, depois da vitória, na obra de edificação da URSS. Os métodos mais variados e mais sugestivos foram empregados, quando das grandes campanhas para a realização dos planos qüinqüenais, para o rearmamento e a difusão do Ossoviachim, a grande organização popular para a aviação e a preparação da guerra química, etc. É curioso consignar que os bolcheviques, antigos social-democratas, adotaram os métodos de propaganda do partido social-democrata alemão e, enquanto este cada vez mais deixou de utilizá-los, com ímpeto e eficácia, os bolcheviques russos transplantaram os métodos socialistas clássicos, emotivos, para seu país. Mais tarde, Mussolini observou e estudou os métodos russos (1) e os copiou, às vezes mesmo, servilmente, na Itália fascista; de lá, foram retomados por Hitler, que os empregou em grande escala e com uma inaudita violência, para chegar ao poder na Alemanha.

Personalidade completamente diversa da de Hitler, Lênin foi um gênio da propaganda soube conduzi-la a todas as camadas da população, conseguiu que as massas marchassem com firmeza, mas, sem brutalidade. Já sua personalidade, sua maneira de se portar em público, simples e modesta, seus discursos objetivos, proporcionavam-lhe a simpatia e a confiança das massas. Não gostava de gracejos, nem utilizava jogos de palavras. Mas, às vezes, uma fina ironia marcava sua exposição. Não apreciava a retórica no fim dos seus discursos que terminavam, freqüentemente, pela frase: “É tudo o que eu queria dizer, nada mais”. Não temia confessar-se diante dos ouvintes, de proclamar seus erros. Atribuía as derrotas sofridas sempre à direção.

Naturalmente, tanto baseou sua propaganda sobre a pulsão combativa, como se valia dos dados da reflexão, da persuasão. Não havia contradição entre o que dizia e fazia. Distinguia claramente duas funções diferentes na propaganda, levadas a efeito por esses dois tipos de agentes: o propagandista que atinge sempre menor número de pessoas (centenas, diz ele) porque, segundo pensamos, é a ele que cabe persuadir, ganhar futuros militantes; e o agitador, que trata com dezenas de milhares, que deve procurar movimentá-los (para nós, a propaganda emotiva), sensibilizando-os e arrastando-os. Assim, criam-se milhares de canais, pelo quais se espalham facilmente as palavras de ordem, lançadas dos centros, se elas correspondem às necessidades agudas de uma classe e de uma época, o que era o caso na fase da Revolução de outubro. [396] Lênin tinha encontrado as duas palavras fatídicas que exprimiam as duas reivindicações fundamentais de milhões de soldados camponeses do exército russo : “Terra e Paz!”(1)

As células de propaganda que correspondiam à idéia de Lênin, acima exposta e que receberam o nome de Agitprop, foram criadas por toda parte, em cada fábrica, escritório, escola, etc.

O ponto de partida da propaganda bolchevique na URSS, foi, naturalmente, o Credo na forma do Manifesto comunista, redigido por Marx e Engels, em 1848, no qual entretanto, Lênin fez as correções essenciais, de modo que atualmente a linha de conduta comunista ortodoxa é designada como “marxismo-leninismo” e difundida como norma de um “realismo socialista”, que Stalin gostava de acentuar nos seus discursos e seus escritos, menos numerosos, aliás, que os de Lênin, onde expõe as principais idéias do leninismo que adotou como diretivas principais de sua política.

Esse realismo é concebido como uma campanha permanente de propaganda, revelando o antagonismo de interesses das classes dominantes dos exploradores burgueses e a dos proletários explorados. Essas revelações devem ser conduzidas pelos Agitprop, “em todas as questões, da aparência à realidade, que se encontra no nível de luta de classe e não devem deixar desviar os espíritos ou se enlear em explicações superficiais e falsas” [397] “A contribuição fundamental de Lênin – diz ainda Domenach (45) – foi que, segundo ele, a consciência de classe abandonada a si mesma, restringe-se à luta econômica, isto é, limita-se a uma atividade puramente sindical e não se transforma em consciência política”. Assim, a propaganda do tipo bolchevique pode resumir-se em duas expressões essenciais: a revelação política e a palavra de ordem. [398] Para a primeira, “a propaganda não vê, no parlamento, mais que uma tribuna de onde é possível fazer ”as denúncias“ com um ruído retumbante” [399]

Domenach (45), falando de palavras de ordem, distingue dois tipos que são bem claros na propaganda soviética: de um lado, as palavras de ordem combativas (estágio preparatório) como, por exemplo, “Todo o poder aos Soviets”! e “Terra e Paz”!; de outro, palavras de ordem construtivas, empregadas nas campanhas, nos planos qüinqüenais (estágio de realização); por exemplo, “cumprir o plano de cinco anos em quatro”, ou da “emulação socialista”.

A propaganda comunista compreendeu muito bem, mas somente pela intuição, a necessidade de unir os ideais aos fatos concretos, através de realizações (vimos que o princípio da “restauração” de um reflexo condicionado por um reflexo absoluto, encontra aqui sua expressão real). No que concerne às palavras de ordem construtivas, a propaganda leninista, como acentua Domenach (45), põe sua atenção especialmente sobre o desenvolvimento da produção. Uma verdadeira mística do plano é criada: discursos, filmes, cantos, emissões radiofônicas, cartazes, gráficos em relevo, condecorações de operários destacados (oudarnik), proclamações de metas atingidas ou ultrapassadas, tudo concorre para isso.

Atualmente, quando o período de lutas está, desde muito tempo, terminado, e findo o intervalo da última guerra, a propaganda se exerce quase exclusivamente no domínio da construção do Estado e da consolidação da nova vida a que as massas aderiram. Entre as ocasiões que se prestam, além das campanhas especiais para os planos qüinqüenais, os empréstimos, as necessidades culturais, é preciso mencionar as eleições, em que a propaganda desempenha uma atividade extraordinariamente ampla. Criticaram, no Ocidente, as eleições nos Estados totalitários, as quais são representadas, na URSS, atualmente, sem nenhuma dúvida, como uma comédia, falseando a idéia democrática. O dia das eleições é apresentado pela propaganda como uma festa popular, os eleitores seguem, freqüentemente, em passeata, com flores, cantando, em vestes nacionais de diversas regiões, os locais de votação ornados de flores, de cortinas, etc. E, naturalmente, o resultado é sempre o mesmo: quase 99% dos eleitores votam nos candidatos da lista governamental e, em muitos colégios eleitorais, a unanimidade de votos recai nos dignitários do Estado, sobretudo no grande chefe, Stalin.

Evidentemente, essa prática não pode ser designada, se queremos ser objetivos, senão como a que chamamos, neste livro, de violação psíquica das massas. Claro que isso tem pouca semelhança com os costumes da “democracia” habitual do Ocidente. Mas, por outro lado, é legítimo indagar: nas “democracias”, as eleições são verdadeiramente democráticas? Não é o mesmo princípio de violação psíquica que se exerce aqui ainda, embora sob outro aspecto? A propaganda afetiva, que está na origem dessa violação psíquica, não é que determina também o resultado das eleições? Toda diferença está somente em que lá se faz pelo Estado em seu proveito e aqui por grupos poderosos, que despendem somas enormes, mas, também no seu interesse exclusivo.

Censura-se que esses métodos russos são os mesmos empregados por Hitler. Sim e não. Sim, do ponto de vista técnico. Sim, no que toca à base fisiológica da propaganda que, nos dois casos, é a mesma – a pulsão n° 1 ou agressiva – Não, porque Hitler usava sobretudo o medo que servia para fazer marchar as massas na direção desejada pelo Estado, ao passo que, na URSS, a força propulsora está do outro lado da pulsão combativa – o entusiasmo. Na verdade, o que se chama “eleições” na URSS, não é mais que uma manifestação do que se chama, habitualmente, hoje “cultura popular”, empregada para ensinar um povo que virá, talvez, um dia, a instaurar uma verdadeira democracia. É essa a razão pela qual as “eleições”, na URSS, não são, apesar de tudo, uma comédia, “uma violação psíquica” clássica da demagogia, mas, uma preparação, um prelúdio para uma psicagogia coletiva.

Na conjuntura atual, em que assistimos ao advento de gigantescos Estados, a possibilidade de uma verdadeira democracia, como é postulada pela lógica e como foi sempre o ideal a que tendiam as idéias e as esperanças das grandes e verdadeiras democracias do passado, está excluída. A verdadeira democracia não será realizável senão num futuro, provavelmente longínquo, onde a solução microssociológica se imporá aos homens, isto é, a vida em sociedades de pequena envergadura, mas, ligadas entre si, naturalmente, coordenadas, federadas.

Já vimos [400] que a idéia de Freud talvez seja verdadeira: a sociedade humana tem sua origem na sociedade primitiva totêmica, resultante da revolta dos filhos adultos contra o pai-chefe da horda, que acabaria pelo assassínio do pai. Mas, a imagem do pai – o totem – persiste na sociedade primitiva e é em torno dela que se criam as leis e a moral social. A criança, tornada adulto, não pode viver sem a autoridade do pai, busca-a no líder da coletividade, no chefe de Estado. Reiwald [401] (130) diz, a nosso ver muito justamente, que Lênin, como todo revolucionário sincero, aspirava a fazer declinar o poder do pai, para instaurar a coletividade fraternal, a verdadeira democracia. Lênin era um verdadeiro democrata. Mas, para poder realizar essa aspiração, era obrigado a valer-se de uma disciplina de ferro, a instaurar a ditadura. Assim, a dominação da ditadura se fez na vida política e econômica e a democracia se afirmava na vida cultural. Observa-se então que, apesar das enormes comoções que sofreu a Rússia, em decorrência da Revolução, as profundas raízes da afetividade, exteriorizando-se na vida social, não foram atingidas: as relações entre as massas e o líder não parecem ter sido sensivelmente afetadas. O complexo do pai domina ainda hoje a Rússia comunista: a posição de Stalin é um testemunho eloqüente disso. Aliás, o conhecido jornalista americano Walter Lippmann, defende também a idéia da impossibilidade de realização da democracia direta ou imediata e tira seus exemplos na vida política dos Estados Unidos.

Mas, entrevemos, apesar de tudo, uma luz, que nos enche de esperanças, no fato de que a evolução, na Rússia, se verifica no sentido de um enorme crescimento das novas camadas intelectuais: o conceito político é, atualmente, na Rússia, o de que as massas devem ser dirigidas por uma elite. [402] O Estado considera, ainda, como elites, o partido. Mas, dia virá em que a massa dessas elites ultrapassará os quadros de um partido.

Voltando ao tema da propaganda soviética, teríamos que indicar o advento, na esfera política mundial dos últimos anos, do fenômeno da “guerra fria” entre os dois gigantes, a URSS e os EEUU, de que ainda nos ocuparemos no Capítulo X.


Capítulo VIII
O segredo do sucesso de Hitler

O fenômeno Hitler e a configuração política na Alemanha após a Primeira Guerra mundial – A distinção entre os “5.000” e os “55.000” – A propaganda emocional popular e a propaganda da persuasão – Rex na Bélgica e Franco na Espanha – instruções para a propaganda da Frente de Bronze – Criação do entusiasmo – Mein Kampf – Tática hitlerista – Propaganda anti-semita – Demagogia social – Apelo aos fatores emotivos – Técnica da propaganda de Hitler – Mussolini.

 

Eis-nos, agora, em face de casos recentes, tornados clássicos, de Hitler e Mussolini, onde o valor real dos princípios, cujo estudo é objeto deste livro, se encontra demonstrado inequivocamente. Tentemos, então, esboçar as etapas e delas retirar os ensinamentos. No campo dos acontecimentos internacionais, começou pelo ato de pilhagem levado a efeito, na Etiópia, pelo satélite italiano que, isolado, pobre, submetido às sanções de cinqüenta e duas nações, só pôde concluir seu assalto graças à ajuda política e efetiva da Alemanha hitlerista que jogava a chantagem da guerra. O ultraje que a França tinha experimentado no Reno não estava ainda esquecido, sem ter havido as conseqüências lógicas e legais que o mundo esperava, enquanto os diversos países da Europa central e balcânica, bem como a Bélgica, outrora amiga da França, caíam, mais ou menos abertamente, na órbita daquele que se tinha declarado seu “inimigo mortal”, os japoneses se apressavam a vir “salvar”, com ele, a civilização européia; desprezando todos os seus pronunciamentos e todos os tratados, Hitler invadiu a Áustria, anexou-a à Alemanha e lá instaurou seus meios selvagens de terror e brutalidade; enfim, chegando ao cúmulo, organizou a matança na Espanha, fez permanecer nas portas da França essa ameaça constante e, valendo-se da desorientação mental dos dirigentes das democracias, perturbados, desconcertados pela passagem vertiginosa dos acontecimentos, preparou o golpe fatal, a agressão à Tcheco-Eslováquia; por uma manobra hábil de intimidação, paralisou seus fiadores, conseguiu que ela fosse abandonada e a golpeou, aniquilando todo o sistema de defesa da França, a Leste – A hegemonia alemã na Europa estava instaurada, a etapa seguinte – sua hegemonia no mundo – passou à ordem do dia. Isso continuava, progredia, desenvolvia-se: a arrogância, a audácia não tinham mais limites. O sucesso de suas primeiras investidas não diminuíra sua audácia temerária. Como foi isso possível? Onde estava o segredo desse prodígio? “Desejava-se evitar a guerra” – diz-se. Mas, como se chegou a acreditar realmente nessa guerra, em sua possibilidade? Não era bastante evidente que uma tal guerra, se viesse a ocorrer, seria, antes de tudo, uma completa derrocada para o regime de Hitler e para a própria Alemanha e que, colocada diante da ameaça de uma guerra imediata, ela, mesmo hitlerista, pensaria mais de uma vez antes de iniciá-la? Tudo era um logro um imenso blefe, cuja origem provinha do fato de que a Alemanha, naquele tempo, aparecia aos olhos do mundo, como um bloco unido. Isso era o que impressionava os que estavam habituados às divisões e às lutas de opiniões no seu próprio país. Ouvia-se sempre repetir: “mas, a política de Hitler foi submetida a plebiscito na Alemanha, obtendo 99% dos votos” – Era verdade, não se podia negar. Seria falso pretender que ele conseguiu isso pelo terror físico. Sabia-se que ele conquistara o poder na Alemanha sem sangue, sem um golpe.

Era um fato que ele se impôs ao povo alemão e que este o levou ao poder. Não dizemos “em plena consciência”, deliberadamente. Isso é outra coisa. É exatamente disso que iremos falar aqui. Nossa tese é de que ele venceu pela “Violência Psíquica”.

A própria uniformidade dos plebiscitos hitleristas, nesse tempo, não causava mais emoção. Esperava-se, estava-se habituado. Mas, o que é espantoso é que Hitler podia ainda especular sobre essa aparência, que continuava a desafiar o mundo inteiro, a proclamar que não era com ele apenas que se teriam que haver, mas, com todo o povo alemão, com 75 milhões de pessoas, que agiam no mesmo sentido e que, de acordo com o senso comum, demonstravam, ipso facto, que raciocinavam, analisavam os acontecimentos e os aprovavam.

O surpreendente, em todo esse assunto, não é o próprio fato de que um grande povo o seguia e, quando interrogado, lhe devolvia, sem faltar nenhum, milhões de cédulas com uma cruz no lugar indicado pelo Führer; incompreensível, espantoso, era que as pessoas de fora, os governantes estrangeiros, os políticos experimentados, ficassem como que hipnotizados pela suposição dessa coerência, da existência desse bloco de 75 milhões de pessoas, aprovando com votos. E essa hipnose do mundo do exterior que dava a Hitler a audácia de perseverar no mesmo caminho; sua força, na realidade fictícia, provinha da fraqueza decorrente da auto-sugestão dos seus adversários. Aqui, ainda se repetia, em escala internacional, o fenômeno que permitira a Hitler subir ao poder na Alemanha. Vimos acima: nada de místico, nada de extraordinário na uniformidade verificada na Alemanha, o assunto é da alçada da ciência positiva moderna que o explica, sem dificuldade. Para os que puderam seguir a evolução do movimento nazista, os métodos de sua propaganda e seus efeitos e que estão igualmente informados da doutrina de Pavlov, não resta dúvida: estamos em presença de fatos que se baseiam precisamente nas leis, que governam as atividades superiores do homem, os reflexos condicionados. É claro, não é preciso acreditar que Hitler ou seu agente Goebbels tenham estudado essa doutrina, que aplicaram sem conhecimento de causa para alcançar seus objetivos. Longe de nós essa idéia. O que é verdade, é que Hitler, empírico, sem o peso de um conjunto de doutrinas sociológicas e econômicas, que oprimem, que complicam, que desorientam o pensamento da maioria dos homens de Estado, tenha. por intuição, inconscientemente, aplicado na manipulação das multidões, na batalha política, as leis descobertas por Pavlov. E, como seus adversários na Alemanha, desprezando essas teorias ridicularizavam. também sua tática, permanecendo fiéis às velhas doutrinas ultrapassadas de luta política, seguiu-se que ele teve, que devia inelutavelmente ter sucesso, sendo o único a empregar, na ação, métodos eficazes, uma vez que eram racionais. Desconcertante, incompreensível – após tantas demonstrações práticas da justeza de nossa concepção, demonstrações feitas no curso dos anos, por Hitler, de um lado, e depois da vitória da doutrina de Pavlov na ciência, de outro – é que não se tenha imaginado estabelecer, entre esses dois fatos, uma correlação, que não se tenha ainda visto claro e que Hitler pudesse, assim, continuar zombando do mundo inteiro. É extremamente curioso e inquietante verificar que a tática da violência psíquica que tão bem serviu a Hitler e a outros ditadores no interior de seus países e que foi o prelúdio da violência real, exercida, por eles, em seguida, que essa mesma tática seja depois aplicada, no plano das relações internacionais e dê os mesmos frutos aos que dela se servem. É uma lei inelutável e todas as palavras sensatas, todas as manobras, todas as combinações não são senão utopia, tanto mais deplorável quanto encerra um perigo efetivo.

Mas, verificando que no fato histórico da aventura hitlerista, o princípio da violação psíquica das massas desempenhou um papel de primeira importância e que as leis biológicas descobertas por Pavlov, acerca do psiquismo animal, tinham aí sua aplicação incontestável, não desejamos afirmar haverem sido apenas esses fatores que determinaram tais fatos. É óbvio que outros fatores sociológicos deviam ter concorrido também para que tais fatos se verificassem. Nas experiências de Pavlov, no laboratório, para que os reflexos condicionados possam formar-se nos cães e causar os efeitos de que temos atualmente exato conhecimento, era preciso, igualmente, que certas condições se realizassem: o meio biológico, as condições de lugar, de tempo, os caracteres hereditários dos indivíduos sujeitos às experiências – todos esses fatores não podiam deixar de ser levados em consideração.

Do mesmo modo, no fenômeno Hitler é preciso ter presente a configuração de diversos fatores que nele atuaram. Assim, como diz muito bem Reiwald (130), [403] para compreender a influência de Hitler, como escritor político, propagandista e psicólogo de massas, é necessário ter em conta as particularidades do substratum, onde essa influência devia exercer-se, isto é, os elementos psico-étnicos do povo alemão. Hitler corporificava certos complexos profundos desse povo. Levava consigo os caracteres típicos da classe média alemã que se identificava com ele. O que caracteriza essa camada das massas alemãs, encontrou sua expressão num provérbio popular que diz de um ciclista: “Do alto, curva sua espinha, debaixo, pisoteia mais embaixo;” [404] é a imagem da submissão aos que estão acima e da brutalidade com os que estão mais abaixo.

O sustentáculo do movimento de Hitler vinha dessa pequena burguesia e não das massas proletárias, que se submeteram depois de haver perdido a batalha. É também a razão por que o movimento nazista conseguiu instalar-se e consolidar-se rapidamente: a capacidade de adaptação a uma organização é característica do alemão médio. E daí decorre igualmente o fato de que as massas organizadas se mostram superiores às massas caóticas no que toca à selvageria e à bestialidade na ação: a organização pode fazer crescerem as explosões de energia acumuladas em excesso.

Por outro lado, a História mostrou que precisamente as camadas médias na Alemanha têm sido sempre suporte de místicos e “há semelhanças impressionantes” – diz De Felice (37) [405] – “entre os movimentos místicos e políticos e as grandes convulsões da atualidade: de um lado e de outro, as mesmas origens na exaltação mórbida de alguns indivíduos que se estimulam mutuamente e que se acreditam predestinados a renovar o mundo; de um lado e do outro, o mesmo desenvolvimento irresistível de um contágio de fanatismo, que se propaga nas multidões cujo frenesi se exaspera, à medida que satisfações são oferecidas aos seus instintos mais brutais; de um lado e de outro, finalmente, as mesmas conseqüências desastrosas que se estendem a todos os domínios”.

Em seguida, o nazismo e o fascismo tiveram sua preparação, eclosão e rápida difusão facilitadas pelo clima intelectual, criado nas primeiras décadas do século XX, por escritores e sociólogos como Georges Sorel, na França, Pareto, na Itália, Michels, na Alemanha. [406]

Da difusão desse espírito entre a juventude data, por exemplo, a mentalidade que presidiu à fundação da sociedade para a cultura física, na Alemanha: do jornal Jungdeustschlandbund, uma organização desse tipo, criada em 1911, em decorrência de uma iniciativa do Feld-Marechal von der Goltz, o conhecido pedagogo alemão, Wyneken retirou frases como estas: [407]

Para nós também a hora alegre e gloriosa da luta soará... Sim, será uma hora alegre, uma hora grandiosa que temos o direito de pedir no segredo de nossos votos. Desejar a guerra em altas vozes, transforma-se, muitas vezes, num orgulho vão ou num ridículo tinir de sabres. Mas, é preciso que, em silêncio, no fundo dos corações alemães, viva o gosto da guerra e uma aspiração para ela.

Ou, ainda, um texto do conde Bothmer, um dos fundadores de uma dessas sociedades federadas:

O instinto guerreiro está atualmente ameaçado em toda parte. Um período de paz prolongada, o crescimento de um bem-estar geral trazem efeitos debilitantes; junte-se a influência muito perigosa que os apóstolos da paz internacional exercem – menos, graças a Deus, sobre as massas sãs que sobre uma parte da sociedade “culta”. A maneira de damas sensíveis; só nos pintam os horrores da carnificina, sem nada dizer do poder ideal que se manifesta na morte heróica do homem, grande ou pequeno; enfraquecem-nos impedindo uma geração debilitada de olhar uma guerra que virá, que deve vir e que será mais terrível que todas as que a precederam.

Para a Itália, basta citar as palavras que o grande poeta italiano Gabriel D'Annunzio gostava de repetir, o qual rivalizava, durante a guerra, com Mussolini, nos excessos de uma linguagem belicosa; aos rumores de conferências para um armistício, dizia: “Isso fede a paz.”

Mas, apesar de tudo o que foi dito a propósito das circunstâncias que determinaram a submissão da Alemanha à loucura hitlerista, desejar acusar todo o povo alemão como culpado do desencadeamento da Segunda Guerra mundial e de atrocidades que foram cometidas, por ele, nessa guerra, seria injusto: a bomba atômica de Hiroshima e os horríveis bombardeios das cidades germânicas pela aviação anglo-saxônica, por “Tapetes de bombas” e bombas incendiárias, eqüivalem aos atos dos primeiros e, além disso, insistimos em que o emprego metódico da violação psíquica das massas teria certamente dado, em qualquer parte, os mesmos resultados que na Alemanha e que toda diferença reside em que os dirigentes alemães, como bons organizadores, souberam ordenar essa aplicação onde os outros se mostraram incapazes.

Reiwald (130), [408] na sua crítica, reprovou-me por não haver tentado pesquisar se a faculdade de sofrer a violação psíquica era uma característica dos alemães, ao contrário dos outros povos. Na realidade, eu disse que as leis do funcionamento do sistema nervoso, existindo em todos os homens, as reações não podem deixar de ser as mesmas em todos os povos; contudo, é bem provável que uma certa diferença quantitativa na proporção dos violáveis e dos resistentes se verifica, mas, não pode ser tão grande que permita reprovar ao povo alemão sua atitude ou considerá-lo o único responsável pela deflagração da Segunda Guerra mundial.

Preocupemo-nos em bem analisar o mecanismo histórico dos sucessos temporários dos ditadores, obtidos por meio de armas psíquicas, pela propaganda. O ponto de partida, como já vimos, era a circunstância de que os homens não têm, de forma alguma, a mesma reação diante das tentativas de sugestão que lhes queiram impor. Alguns sucumbem e outros resistem. A proporção entre esses dois grupos é de cerca de 90 para 10. Foi estabelecida, como se vê a seguir, por meio de estudos estatísticos na Alemanha. Como critério de resistência ou de uma certa atividade política à base de raciocínio ou, em termos fisiológicos, como critério da presença dos processos de inibição condicionada, tomei as cifras do comparecimento aos comícios políticos em Heidelberg, em 1932. Nessa cidade de 60.000 eleitores – confrontações posteriores estabeleceram que as proporções eram aproximadamente as mesmas em outros lugares – as concentrações do partido social-democrático, o mais ativo e o melhor organizado, eram freqüentadas por 600 a 800 pessoas, no máximo 2.000. O número era o mesmo para os nazistas, não dando os outros partidos – centro católico, comunistas, liberais – juntos, mais que cerca de 1.000. Adicionando esses números, obtém-se o total de 5.000. Mas, sendo o número de eleitores de 60.000, podia-se perguntar onde estavam os outros 55.000. Ora, eram precisamente esses elementos passivos ou hesitantes que, tendo os mesmos direitos eleitorais que os 5.000 ativos, determinavam, evidentemente, o resultado de uma campanha eleitoral e o objetivo da propaganda de todos os partidos era ganhá-los, fazê-los votar em sua legenda. A chave da propaganda política está aí.

Os dois grandes propagandistas de nossos tempos, Lênin e Hitler, já suspeitavam dessa verdade. O primeiro diz, nos seus trabalhos: “O propagandista revolucionário deve pensar numa escala de centenas, o agitador, em dezenas de milhares e o organizador, o que guia a revolução – em milhões”.

Plekhanov, adversário doutrinário de Lênin, a quem este considerava seu mestre, encontrou uma fórmula feliz para essa distinção; diz ele: “O propagandista inculca muitas idéias em uma só pessoa ou em um pequeno número de pessoas; o agitador, uma só idéia ou um pequeno número de idéias; em troca, inculca-as em toda uma massa de pessoas”. E Lênin completa: “O propagandista age principalmente por escrito, o agitador, de viva voz”. [409] E Hitler, no seu Mein Kampf (77) pensa da mesma forma, quando escreve: “a tarefa da propaganda é a de atrair adeptos, a da organização, a de captar seguidores, de filiá-los ao partido.”

Essas duas funções da atividade do propagandista político visam então a duas categorias diferentes de indivíduos. Quais são suas características? De onde provêm? Vimos que o grande contingente dos “55.000” é formado pelos indiferentes, hesitantes ou também preguiçosos, fatigados, desgastados, deprimidos pelas dificuldades da vida quotidiana. Adler considera nossos contemporâneos como nevrosados. Todas essas pessoas são, como já vimos, seres cujo sistema nervoso é instável, que se deixam facilmente impressionar pela sugestão imperativa, que são facilmente tomados pelo medo e que, muitas vezes, se alegram de poder ser dominadas e guiadas. E a grande massa dos pequenos burgueses, dos médios, mas, também dos camponeses e até dos operários cuja consciência de classe não foi ainda despertada. Finalmente, uma grande massa de mulheres entra, também, nessa categoria, do mesmo modo que os jovens. A propaganda hitlerista, sobretudo, não se limitava a apelar para os adultos, para os eleitores, mas também para os jovens dos dois sexos e mesmo para as crianças. Hitler dizia aos recalcitrantes: “Se não vindes para nossas fileiras, não faz diferença, mas, vossos filhos, nós os teremos, apesar de tudo!”. E Mussolini, com seus Balilas não desejava ficar atrás: não havia espetáculo tão revoltante como a visão de filas de crianças, com luvas brancas, marchando nos domingos pelas ruas das cidades italianas, ao som de tambores. Explorando a sensibilidade infantil, o gosto de aventuras, o sentimento de inferioridade natural, os ditadores instilavam, impunemente, o veneno nos mecanismos psíquicos das futuras gerações. A que resultados nefastos isso levava, vê-se pelo culto da morte, que se desenvolveu na juventude alemã; slogans anormais eram espalhados: “morreremos por Hitler; nascemos para morrer pela Alemanha, pelo Führer, etc.”. A propaganda de sugestão achava, naturalmente, um campo fértil entre as mulheres; aderiam, apesar das idéias antifeministas do movimento nazista, que procurava encerrá-las novamente numa escravidão medieval.

Sauvy (142) [410] fala de “zonas móveis” da opinião e distingue cinco variedades possíveis entre o derrotismo e a coragem, tomados como critério para a diferenciação dessas zonas: são, a princípio, os que trabalham ativamente pela derrota – chama-los-emos de pessimistas ativos; depois, são os que esperam a derrota e se alegram, antecipadamente, sem trabalhar por ela – os pessimistas passivos; em seguida, os que temem a derrota, mas não resistem a esse sentimento e nada fazem para evitá-lo – são os passivos absolutos: é o grupo que melhor corresponde ao nosso grupo V (violáveis – 90%); a seguir, os que resistem ao temor da derrota e alimentam a esperança de poder evitá-la – os otimistas passivos; e, finalmente, os que não encaram qualquer possibilidade de derrota e se levantam ativamente para combatê-la – são os otimistas ativos.

Se analisarmos agora a outra categoria de pessoas, a que se dirige a propaganda, a dos “5.000”, os resistentes ou grupo R, veremos que são recrutados sobretudo nas camadas intelectuais ou entre os operários mais conscientes, com instrução e atuantes. É interessante ver como e porque importantes camadas de operários se passaram para as fileiras de Hitler. Munzenberg (108) dá, no seu livro, um curioso testemunho: operários que pertenciam antes a organizações social-democráticas e passaram-se para as S.A. diziam em 1932: “Continuamos os mesmos. Mas, com os socialdemocratas tudo marcha muito lentamente – Adolfo (Hitler) trabalha mais rápido. E, se ele nos trair, nós o enforcaremos”. Por ocasião do massacre de 30 de junho de 1934, quando Hitler deixou executar seus amigos de outrora, os chefes da oposição, que acreditavam em suas intenções socialistas, viu-se o resultado desse raciocínio.

Como dissemos antes, Hitler distinguia a função da propaganda daquela que cabe à organização, dizendo que, antes de tudo, era preciso criar organizadores que fizessem propaganda para atrair as massas. E, com esse objetivo, realizava enormes esforços para instruir seus militantes (na nossa terminologia os “5.000”). Sua “Frente de trabalho” instituiu escolas especiais, onde se educavam, cada ano, 5.000 funcionários do partido que deviam aprender a guiar e a dominar as massas. Na verdade, os princípios em que se firmava eram bem simples, como já vimos: era necessário que os chefes soubessem onde e como fazer agir sobre as massas os símbolos e os slogans, determinando à vontade seu comportamento propício ao regime. A intimidação, a violência psíquica, era sempre o regulador supremo. A massa dos “55.000” devia sentir-se sempre cercada pelos signos do poder de Hitler e pelo aparelho coercitivo do Estado: cada símbolo, cada cruz gamada tornava-se então um momento da ameaça, provocando o seguinte raciocínio: “Hitler é a força, a única força real e, como todo mundo está com Hitler, é preciso que eu, homem da rua, faça o mesmo, se não quero ser esmagado.”

A diferença entre os “5.000” e os 55.000“ não é devida exclusivamente aos fatores fisiológicos intrínsecos ou raciais; os elementos de educação, da cultura, da formação dos fenômenos de inibição interna condicionada desempenham também um papel importante; por isso é possível consignar que, nos povos democráticos, politicamente mais avançados, a proporção é pouco diferente daquela que indicamos para os alemães. Mas, convém evitar a suposição de que essas diferenças sejam muito grandes e decisivas: afinal, os mecanismos do sistema nervoso são os mesmos em todos os seres humanos. É necessário esclarecer que a distinção numérica entre os dois grupos que designaremos como os “R” (resistentes, os “5.000”) e os “V” (violáveis, os “55.000”), isto é, entre os 10% e os 90%, é aproximada e relativamente grosseira, senão eufemística: na realidade para determinadas situações, ela poderia não ser mais de 1% contra 99% e até menos: 0,1% e 99,9%, etc. – e, naturalmente com toda a escala intermediária.

Não afirmei, como me condena Reiwald [411] em sua crítica, que somente 10% reagem com consciência: na verdade, disse antes que 10% são fisiologicamente capazes de resistir à influência de outrem sobre seu psiquismo: a consciência não passa de uma “tomada de consciência”, um epifenômeno. Não faz mais do que acompanhar certos processos nervosos superiores, chamados psíquicos, mas, ela mesma nada determina.

E isso explica porque Hitler, tendo submetido a Alemanha por seus métodos, preparava uma grande campanha de propaganda no mundo inteiro. Seus emissários trabalhavam, em princípio, com os mesmos métodos em diversos países e registravam sucessos.

Quais eram, então, os meios de influenciar as massas? Dissemos que havia dois grupos de pessoas: por conseguinte, deviam existir duas formas de propaganda: uma dirigindo-se aos 10%, as pessoas bastante seguras de si para resistir à sugestão brutal, a outra, aos 90%, aos passivos ou hesitantes, que tinham seus mecanismos psíquicos acessíveis à sugestão emocional e marcadamente edificada sobre a pulsão n° 1, combativa: a ameaça, proferida de tempo em tempo, como fator absoluto, reevocada por sinais ou símbolos difundidos a granel e atuando como fator condicionante, desencadeava reação de medo, que se materializava sob forma de votos favoráveis aos que pronunciavam essa ameaça e a espalhavam por toda parte, por meio de seus signos.

Essas duas formas de propaganda, que se dirigiam a esses dois grupos de pessoas, diferiam então em princípio: a primeira agia por persuasão, por raciocínio; a segunda por sugestão e deflagrava ora o medo, ora seu complemento positivo – o entusiasmo, o delírio, tanto estático, como furioso; essas reações provinham também da pulsão combativa. Chamamos essas duas formas de propaganda, a primeira, racio-propaganda e a segunda, senso-propaganda. A primeira é a instrução política e não precisa ser demoradamente explicada; é aliás aquela de que se servem, comumente, os partidos políticos, especialmente nos países democráticos. Suas modalidades são conhecidas: jornais, discursos pelo rádio, reuniões com debates, brochuras e boletins, enfim a propaganda pessoal ou de porta em porta, quando os propagandistas vão às casas das pessoas que lhes interessam para tentar demonstrar-lhes os fundamentos de seus programas e persuadi-las a se inscrever no partido que representam, a votar nele, etc. (canvassing, dos ingleses). As demonstrações lógicas, embora utilizando, às vezes, diversas pulsões de base, ligam-se, de maneira preponderante, à segunda pulsão, fazendo ressaltar sobretudo os interesses econômicos.

Na senso-propaganda, em compensação, é sobretudo a pulsão n° 1 ou combativa que prepondera. Por meio de símbolos e ações que atuam sobre os sentidos, que causam emoções, procura-se impressionar as massas, aterrorizar os inimigos, despertar a agressividade de seus próprios partidários. Além dos símbolos gráficos, plásticos e sonoros de que já tratamos, são especialmente o emprego de bandeiras, uniformes, grandes manifestações, desfiles estrepitosos que caracterizam a propaganda desse tipo, empregada pelos ditadores.

Fatores visuais empregados, bandeiras e estandartes, são freqüentemente de cor vermelha nos movimentos de caráter revolucionário. Isso se explica pela ação fisiológica excitante dessa cor que atua mesmo sobre certos animais, os touros, por exemplo. De Felice (37) cita um caso ocorrido em uma fábrica de produtos fotográficos, onde os operários que trabalhavam constantemente com luz vermelha eram excitados, facilmente incolerizáveis; mudou-se a luz para verde e a irritação desapareceu. É também possível que “a visão do sangue seja evocada em alguns pela cor vermelha intensa e desperte neles pulsões bestiais que a censura social tinha recalcado e que os predispõem a entregar-se a atos de violência”.

No que concerne aos trajes militares, o uniforme, especialmente os de cores brilhantes, sua atração exerce grande influência nas vocações infantis. A batalha primitiva é psiquicamente destinada a pôr em brio o indivíduo, não tanto aos olhos de seu adversário, quanto aos dos espectadores e espectadoras do combate. [412] É a razão principal por que a “grande gala”, com seus penachos, suas dragonas e os botões que brilham ao sol, mantém-se ao lado do cáqui ou do cinza racional de campanha. “As mulheres sobretudo perdem freqüentemente toda moderação em presença de um uniforme e chegam, muitas vezes, a se atirar, literalmente, à frente dos soldados. Não se trata de naturezas desavergonhadas, mas, de mulheres que não julgariam dignos de um olhar, se vissem, em trajes civis, esses mesmos homens em cujos braços caem porque estão vestidos de uniforme.” [413]

A propaganda do tipo emocional, que visa a excitar, ao máximo, as multidões, não é uma prerrogativa das ditaduras. Nos Estados Unidos, o emprego do princípio da violação psíquica das massas e mesmo das multidões, quando das eleições presidenciais, atinge um grau de extraordinária intensidade; os métodos são simplesmente retirados da publicidade e os cortejos tomam um caráter exclusivamente carnavalesco: cartazes, carros, os símbolos vivos – elefante e asno (republicanos e democratas) moças, confetes, um turbilhão de folhas de papel lançado do alto dos edifícios, tudo em meio a um barulho ensurdecedor das orquestras, dos gritos, das buzinas.

Para se ter uma idéia da amplitude de uma campanha de propaganda nos Estados Unidos, bastará dizer que, por ocasião da de Roosevelt, pelo New Deal, em 1932, o cortejo, que desfilou nas ruas de Nova Iorque, contava 255.000 participantes com 200 orquestras; para lançar essa propaganda, Roosevelt apelou para 1.500.000 agitadores voluntários.

Hitler soube, especialmente, combinar essas demonstrações de força com o interesse esportivo das massas pela aviação: organizava suas manifestações ao mesmo tempo que demonstrações aéreas e a elas chegava de avião, com grande pompa, e mandava espalhar, por toda parte, o slogan: “Hitler acima da Alemanha”!, distribuía insígnias a seus adeptos, em que a cruz gamada era combinada com a imagem das asas de um avião, etc. O público, sobretudo a juventude, entusiasmava-se, ao saber que ele devia falar, às vezes, no mesmo dia, em 3 ou 4 cidades, distantes uma da outra, a que chegava e de onde saía de avião.

Esse entusiasmo juvenil, desencadeado pela propaganda, é compreensível se consideramos, como fez Domenach (45), [414] que “a propaganda toma da poesia a sedução do ritmo, o prestígio da palavra e até a violência das imagens. Faz o povo sonhar com as grandezas passadas e com dias melhores”. A juventude é particularmente sensível a esses ímpetos, mormente se levamos em conta que a poesia popular Se aproxima de perto dos encantamentos mágicos e da liturgia.

As formas que emprega a senso-propaganda são conhecidas – são, em suma, as mais utilizadas até agora. A novidade que entrava na propaganda emocional de Hitler e de seu adversário, a Frente de Bronze, na Alemanha, decorria da associação das formas de propaganda aos métodos que tocam particularmente à alma humana: por exemplo, a publicação do programa econômico ao mesmo tempo em que se ressaltava a fraqueza dos adversários era feita por meio da imprensa, da T.S.F, de volantes, de reuniões e de propaganda individual. Quando se tratava de intimidar os adversários e os passivos e de encorajar os próprios partidários, devia-se sobretudo, recorrer à guerrilha de símbolos, à guerra de bandeiras, aos cartazes, às manifestações, aos desfiles, com carros simbólicos, setores uniformizados que marchavam em passo cadenciado, etc. Para despertar sentimentos de cólera, de piedade, o cuidado pelo destino do próximo, os meios empregados, nesse caso, eram os cartazes, panfletos em tom violento e assembléias, onde se deixava os assistentes fremir de indignação, gritar seu ódio ou vibrar de entusiasmo. Para levar os adversários ao ridículo, os meios a empregar eram os préstitos carnavalescos, nos quais se podiam mostrar figuras e grupos de caricaturas ou, ainda, canções de rua, volantes contendo versos satíricos, cartazes e caricaturas, cantores nos cabarés e teatros populares.

Damos mais adiante (capítulo IX) exemplos de ridículo político empregados pela Frente de Bronze em sua campanha contra Hitler. Aqui, desejamos mencionar o emprego desses métodos fora das fronteiras da Alemanha, na luta eleitoral de 1937, na Bélgica, em que se defrontaram o êmulo belga de Hitler, Degrelle, com seu Rex e os partidos anti-rexistas que seguiram a tática da Frente de Bronze – Esses partidos responderam aos métodos de Hitler, empregados pelos rexistas, com as mesmas armas: uma violenta propaganda emotiva foi utilizada e Degrelle, derrotado. E eis algumas amostras dos métodos empregados: em toda parte, onde os oradores rexistas arengavam à multidão, coros falados da juventude socialista e católica escandiam: “A Berlim, a Berlim!” slogans: Rex a guerra eram espalhados em todos os lugares; uma nota irônica acompanhava Degrelle onde sua propaganda se fazia visível; lia-se em cima: “Dou o voto a Degrelle, porque sou burro”, “todos os camelos votam em Degrelle”, as cabras levavam inscrições “meek, meek, meek, Degrelle”. No dia das eleições, féretros foram carregados nas ruas com a inscrição Rex, o que contribuía para criar nas massas a fé na vitória dos adversários do rexismo.

Fig. 14
Um comício da Frente de Bronze, em Darmstadt em 1932, no qual é praticada a “ginástica revolucionária.” Note-se a expressão empolgada dos rostos na multidão, transformados pelo entusiasmo.

Outro exemplo comprobatório foi a Espanha: uma propaganda altamente emotiva e habilmente manobrada pelos governantes que, estando em difícil situação do ponto de vista material, mantinham, durante longo tempo, todo um povo em ação, exaltavam sua coragem, aumentavam sua resistência às piores provas, provocavam explosões de entusiasmo, forjavam atos de heroísmo. Que, finalmente, a Espanha republicana traída escandalosamente pelas democracias, privada de armas, bloqueada pela proclamada “não intervenção”, tenha afinal sucumbido, em nada diminui o valor da tentativa de soerguimento psicológico de uma parcela de elementos democráticos nesse recanto da Europa.

Durante a Segunda Guerra mundial, exibiu-se um filme de Charlie Chaplin, O Ditador, em que o genial ator faz aparecer os dois comparsas, Hitler e Mussolini, sobretudo o primeiro, sob um aspecto acentuadamente grotesco. Como se concebe, facilmente, o filme representou um grande sucesso de propaganda, especialmente nos países anglo-saxões.

Para manobrar os sentimentos de amor e de alegria, isto é, com elementos eróticos sublimados, é preciso utilizar as danças públicas, as árias populares, canções em voga, cujo texto era adaptado às circunstâncias, imagens estéticas – especialmente de mulheres – grupos nos desfiles, flores, etc.

Finalmente, em qualquer parte onde se tratava de apelar para os sentimentos sociais, como, por exemplo, a amizade, os sacrifícios e a compreensão do dever, as formas de propaganda, que se mostravam a esse respeito mais apropriadas, eram os volantes, as assembléias e os cartazes-imagens.

Hitler copiou bastante, nesse aspecto de sua propaganda, os métodos da Igreja católica, [415] onde o incenso, a semi-obscuridade, as velas acesas, criam um estado de receptividade emocional todo particular. Nos desfiles, fazia marchar belos homens musculosos, com ar marcial, sabendo muito bem que esse espetáculo emocionava as mulheres. Ele mesmo empregava, na tribuna, durante seus discursos, efeitos luminosos de diversas cores, tendo junto a si comutadores elétricos. Essas manifestações eram, às vezes, acompanhadas pelo toque de sinos de igreja. [416] Sabia perfeitamente que o mesmo orador, falando sobre o mesmo assunto, na mesma sala, pode obter efeitos inteiramente diversos às dez horas da manhã, às três da tarde e à noite.

O delírio da multidão é essencialmente um estado rítmico, que compreende períodos de tensão, a que se sucedem bruscos relaxamentos. A realização de um desfile ou de uma reunião deve levar em conta esse ritmo. E os oradores precisam ter o cuidado de entrecortar seus discursos com gracejos, frases irônicas, que detenham bruscamente o auditório e provoquem o riso, que é o melhor meio de unir uma multidão, dando-lhe uma espécie de cumplicidade alegre. [417]

Eis um espécime da instrução de propaganda desse gênero, expedidas por um movimento anti-nazista, a Frente de Bronze, sob o significativo título Criação do entusiasmo numa reunião:

1 – Quando se dispõe de música, alto-falantes, pick-up, distrair os ouvintes, enquanto se aglomeram antes da reunião, tocando sobretudo canções que exaltem a bravura popular.

2 – Manter a agitação e o dinamismo do auditório num crescendo até o fim da reunião.

3 – De tempo em tempo, entabular um diálogo entre o orador ou um locutor e a massa na sala, fazendo-lhe perguntas e provocando respostas coletivas: “Sim” ou “Não”, etc. Uma afirmação maciça desse tipo atua sobre a massa como um choque elétrico, estimulando seu ardor.

4 – Alternar cantos antes e após os discursos dos oradores (cantar sempre de pé, nunca sentados!).

5 – Os discursos não devem jamais exceder de 30 minutos.

6 – Sair da reunião cantando um hino combativo popular.

7 – Se possível, apresentar um pequeno sketch divertido ou um coro falado, um coral, ou fazer declamar versos apropriados à reunião.

8 – Um quadro vivo simbólico ou um cartaz luminoso de caráter dinâmico e alegre ou sarcástico, acompanhados de música, pode ser útil para descanso dos nervos.

9 – Incitar a massa de ouvintes a fazer, de tempo em tempo, a “ginástica revolucionária”: proferir o grito de reunião Freiheit, levantando, ao mesmo tempo, o punho cerrado.

10 – Decorar a sala de slogans e símbolos, em faixas, estandartes, bandeiras, folhagem, etc.; colocar na sala um serviço de orientação, composto de jovens militantes, uniformizados e trazendo braçadeiras com emblema.

A propósito dessa ginástica revolucionária, caberia dizer que ela tem uma razão de ser fisiológica: onde se trata de manter uma certa tensão nervosa dos ouvintes de uma reunião, que persegue fins emotivos, corre-se o risco de que ela se esboroe, que um cansaço nervoso invada a multidão – a palavra, se ela é usada durante muito tempo e numa cadência monótona, fatiga e inibe as massas, especialmente se a assistência tem um nível intelectual relativamente baixo e o tema do discurso é muito abstrato ou ilustrado por números, estatísticas, etc. Dai porque um apelo repetido ao movimento, uma provocação de gestos no auditório, ativa a circulação do sangue e mantém desperta a emotividade. Veremos, mais adiante, [418] que Hitler empregava, seguidamente, uma tática contrária: entorpecia a massa com um longo discurso, punha-a num estado quase do sonambulismo e isso apesar de uma arenga feita num tom veemente e atordoador, do ponto de vista sonoro: vimos que uma inibição generalizada, uma sonolência pode ser atingida por uma repetição monótona das excitações verbais; mais, igualmente, por excitações de alta intensidade, esta última hipótese na base do mimetismo terrificante.

Pelas fotografias dos meetings nazistas, pode-se ver o aspecto aparvalhado que tomavam os ouvintes durante um discurso de Hitler: estavam parados na atitude abstrata e rígida do sonâmbulo. Era interessante comparar esse aspecto com o ar desembaraçado, entusiasta dos assistentes de um comício da Frente de Bronze (fig. 14). [419]

Depois de haver provocado na massa esse entorpecimento, esse silêncio religioso, Hitler a despertava por uma brusca parada de suas diatribes e ela caía então num estado de exaltação quase furioso. Por outro lado, De Felice (37) fala, a propósito de uma gesticulação, provocada nas multidões, comparando-a com os métodos empregados pelo profetas orientais como os derviches gritadores.

Vê-se dessas “diretivas para a criação do entusiasmo na multidão” relatados acima, que as excitações acústicas ou os tóxicos sonoros, como os chama De Felice (37), nisso desempenham papel preponderante. “Os gritos prestam-se especialmente para excitar os que os proferem e os que os escutam. Têm mais efeito se são ritmados e cadenciados, isto é, se contêm sons que, mais fortemente acentuados que os outros, ecoam a intervalos regulares. O ritmo é acompanhado, fatalmente, de um entorpecimento da consciência. Facilita a execução das tarefas mais penosas, determinando, nos que as cumprem, um estado de natureza hipnótica, que suprime ou diminui, pelo menos temporariamente, a sensibilidade, a fadiga. O Canto dos barqueiros do Volga, que rebocavam, antigamente, barcos cheios de mercadorias, subindo o grande rio, é universalmente conhecido. Os trabalhos gigantescos da antigüidade, à qual faltavam os meios mecânicos, devem ter sido executados também ao som de cânticos ritmados. Serviram, também, sempre “nos exércitos para incitar os soldados e se arrojarem contra o inimigo, para eliminar neles toda reação individual face ao perigo e produzir uma espécie de anestesia, destinada a dar-lhes ferocidade mais natural e coragem mais livre”.

Entre os tóxicos sonoros, é a música, especialmente a instrumental, o mais eficaz. É “um apelo à inconsciência ou, pelo menos, um convite a um sonho a que o ouvinte se abandona, permanecendo acordado. Enquanto a poesia é inseparável do pensamento de que sofre as exigências, a música, a menos intelectual das artes, escapa a essa tutela, porque não se dirige diretamente ao espírito. Seu poder sugestivo se exerce sobre a via psíquica latente, isto é, sobre um conjunto de instintos e de tendências comuns a todos os homens. E especialmente apta a criar neles, acima de suas divergências intelectuais, estados coletivos, em que se misturam e confundem as propensões idênticas que neles dormem”.

A música dispõe de dois meios de expressão, quando a ela se recorre para submeter as pessoas: são o canto, especialmente os hinos, e os instrumentos orquestrais. Estribilhos cativantes se impõem às pessoas, que os repetem, maquinalmente, até experimentar um estranho enlevo. “É o método mais seguro para dirigir um público, para fundi-lo numa massa homogênea e para levá-lo a uma maleabilidade que permite obter tudo o que se deseja”.

No que concerne à música instrumental [420], é preciso saber que “os trechos tocados têm tanto mais efeito quanto a melodia é mais cantante e o ritmo mais acentuado. Os instrumentos de percussão: tambores, bombos, címbalos, etc., têm nisso a primazia, porque são aqueles cuja função é destacar o ritmo”. Em certas peças musicais modernas, esses elementos sonoros, conhecidos como bateria, têm recebido uma crescente importância: basta citar a música de Wagner, de Debussy e todas as obras recentes dos compositores russos, sobretudo depois da Revolução: Chostakovitch, Khatchatourian e outros. Imitando o ruído das máquinas, em nossa era industrializada e mecanizada, retorna-se ao que é mais elementar no fundo do psiquismo e, através disso, ao que ocupa um lugar preponderante e quase exclusivo nas manifestações ruidosas com que se embriagam os povos selvagens.

“O timbre dos instrumentos, nota De Felice (37), tem também uma grande eficácia. Já os antigos sabiam que a trombeta e a flauta frígia tinham a propriedade de causar uma exaltação geral. Nada como uma fanfarra para arrebatar as pessoas”, como se sabe na prática, no exército francês. Os instrumentos de corda têm uma ação mais íntima e desempenham, por isso, um papel secundário na formação dos estados de multidão.

Assim, pode-se dizer que, fazendo agir, deliberadamente, certas ações tóxicas sobre o sistema cérebro-espinal dos indivíduos, chega-se a provocar estados de arrebatamentos gregários, por meios artificiais. Desses fatores, os principais são: a sugestão que age por impressões sobre os sentidos, em seguida a prática que designamos por Ginástica revolucionária e que consiste na repetição de certos movimentos musculares próprios para mergulhar na vertigem e num estado mais ou menos inconsciente aqueles que os praticam; enfim as forças psíquicas, chamadas ocultas, ainda desconhecidas, misteriosas comparáveis à emissão de ondas e que pareceriam poder penetrar diretamente, até os centros nervosos. [421]

Um traço característico da propaganda hitlerista consistia em que se criava, em torno de seu nome, uma espécie de legenda de herói nacional; é óbvio que se tratava de um emaranhado de exageros e freqüentemente de inverdades, mas, aqui, ainda uma vez, o caráter da senso-propaganda torna-se manifesto como meio de dominar as massas psiquicamente, de mantê-las num estado de escravidão mental.

Na verdade, a personalidade de Hitler, tomada objetivamente, não serve, de forma alguma, para exaltá-lo como grande homem de Estado, como chefe militar, ou como reformador de grande estilo. Ao contrário, o que se sabe de sua biografia fá-lo aparecer como uma figura bastante medíocre, embora caracterizada por um sistema nervoso extremamente sensível, indo até quase a morbidez. Apesar dessa sensibilidade, Hitler, movido por uma sede desmesurada de poder, não hesitou em afogar o mundo inteiro em sangue. Desse lado, seu caráter lembra muito o de Mary Baker-Eddy, a fundadora de Christian Science, de que Stefan Zweig dá uma descrição impressionante. O demônio de sua atividade surpreendente, que não a deixava mesmo no leito da morte, com a idade de 80 anos, abatida pela velhice e pela doença, era também o da sede de poder, associada à do dinheiro. Ambos mostraram uma energia desenfreada, que surgia repentinamente de longos períodos de um estado de depressão letárgica pelo efeito do contato com as multidões; ambos eram extremamente egoístas, mas, ao mesmo tempo, capazes de agradar à multidão; e ambos “exerciam uma atração sobre os homens, que lembrava a da luz sobre as mariposas.” [422]

No livro de Hitler, Mein Kampf, (Minha Luta) (77), em torno de que se fez uma enorme publicidade e que, do ponto de vista filosófico, sociológico e mesmo político, não tem mérito algum, mas, que, sob o aspecto da técnica da propaganda hitlerista, tem certo valor, o autor expõe alguns princípios simples e métodos de propaganda empregados na sua luta.

Nesse livro Hitler, em 700 páginas, conta sua própria história bastante pálida, aliás, reduzida e velada para os anos de guerra e se estende, em seguida, com complacência sobre os mínimos pormenores da organização e peripécias de seu movimento. Há exageros: ninguém acreditará, por exemplo, que quarenta de seus rapazes (os S.A.) tenham expulsado e batido, até sangrar, em 700 operários, militantes comunistas e socialistas.

Os capítulos de Mein Kampf, em que Hitler (77) descreve os princípios de propaganda que empregou e sua tática, têm um certo interesse. As páginas em que fala da França, desse “principal inimigo” da Alemanha, seu “inimigo mortal”, o país dos “bastardos negróides” e assim por diante, são muito instrutivas para os franceses, especialmente quando conclui: “esses resultados (o aniquilamento da França) não serão atingidos nem por preces ao Senhor, nem com discursos, nem por negociações em Genebra, mas por uma guerra sangrenta, pelo gládio alemão”. Para isso, queremos retomar nossas armas!“.(77). “Mas então é preciso que todo impresso, desde o alfabeto em que as crianças aprendem a ler, até o último jornal, que todo teatro e todo cinema, toda coluna de anúncios e toda paliçada livre sejam postos a serviço dessa única e grande missão, até que a invocação pusilânime que nossas associações patrióticas dirigem atualmente ao céu: “Senhor, tornai-nos livres” se transforme no cérebro da menor das crianças nessa ardente prece: “Deus Todo Poderoso, abençoa um dia nossas armas: sê tão justo como sempre foste; decide agora se merecemos a liberdade, Senhor, abençoa nosso combate!”

Seu outro inimigo era a União Soviética: ele a temia e odiava-a com um ódio tão intenso quanto cego. Lendo o que diz no seu livro, fica-se pasmado de seus propósitos. Eis um exemplo: “Nós, os Alemães, fomos eleitos pelo destino para assistir a uma catástrofe que será a prova mais sólida da procedência das teorias racistas a respeito das raças humanas”. Não havia, com efeito, para Hitler, nenhuma dúvida de que os Russos eram uma “raça de segunda ordem” e destinada a ser dominada e guiada pelos Alemães. A história dos anos que se seguiram mostrou o valor dessa afirmação gratuita de Hitler.

Passemos, agora, à parte mais interessante do livro de Hitler, em que ele fala da propaganda política. Deve-se notar, antes de tudo, a importância que Hitler lhe dava; de fato, diz, a esse respeito: é a arte, por excelência, de guiar politicamente as grandes massas”; em 1932, durante as conferências com o Chanceler Brüning, declara: “considero essa questão, antes de tudo, como agitador”; no congresso de Nuremberg, em 1936, exclama: “a propaganda nos conduziu ao poder, a propaganda permitiu-nos conservar depois o poder, a propaganda, ainda, nos dará a possibilidade de conquistar o mundo”.

Eis como ele concebe a tática da propaganda [423] a tarefa da propaganda não é a educação científica de cada um, mas, a indicação à massa dos fatos, acontecimentos, necessidades, etc... cuja significação e ensinamentos entram no seu raio de interesses“. E para que esses ensinamentos não desapareçam, para que os reflexos condicionados, assim inculcados, não se extingam, como diz Pavlov, é preciso “reavivá-los”, consolidá-los e o melhor método é o ensinamento pelo fato concreto, a “ação direta”: “greves, ocupação de fábricas, pilhagens organizadas, combates de rua, se se trata de reivindicações sociais, agressões contra os Estados vizinhos e guerras de conquista, se as pretensões que foram anunciadas visam a uma perturbação de ordem internacional” [424]

Assim, vemos que Hitler apreendeu muito bem a regra geral, que domina tudo, se desejamos colocar-nos num plano de ação da propaganda sem escrúpulo, basear-nos sobre o princípio da violação psíquica nas massas. É doloroso e abominável, mas, no momento em que um dos lutadores ultrapassou a fronteira da lealdade, seu adversário não tem mais escolha, deve resignar-se a utilizar as mesmas armas... ou perecer; o próprio Hitler diz da propaganda: “é uma arma terrível na mão de quem a conhece.” [425]

Na verdade, Hitler não emitiu qualquer idéia original na sua propaganda; todas as fórmulas são retiradas de fora, especialmente dos movimentos socialistas e do fascismo italiano. Aliás, ele próprio diz no seu livro (77): “aprendemos muito da tática dos nossos inimigos”, considera a “propaganda das atrocidades”, e, em geral, a de Northcliff, durante a guerra de 1914-18, como uma obra de inspiração genial. O que caracteriza portanto, Hitler, é a aplicação conseqüente e em enorme escala das regras dessa propaganda. Mas, nesse caso surge o problema dos recursos para empreender essa publicidade em tão grande e tão vasta escala. Esse problema não oferecia dificuldades a Hitler, pois, ele afirma numa assembléia nazista em Berlim: “faremos nossa propaganda às expensas de outros, chegaremos enfim às fontes financeiras que até aqui correram somente para os nacionais alemães”; (o grande partido reacionário) [426] Essas fontes são bem conhecidas: os grandes magnatas da indústria. Chegado ao poder, Hitler atribuiu ao seu Ministério de Propaganda enormes somas: em 1934, o orçamento desse Ministério se elevava a 170 milhões de francos e nos anos seguintes, as despesas totais com propaganda, no interior e no estrangeiro, atingiram 500 milhões de marcos, o que eqüivale a 400 bilhões de francos atualmente.

O outro meio de que se servia Hitler para fazer penetrar sua propaganda em todos os lugares, desde que subiu ao poder, era a obrigação, para todos os alemães, nos dias em que pronunciava seus discursos, de escutá-los pelo rádio; as janelas dos que possuíam aparelhos receptores deviam ficar abertas, a fim de que os vizinhos e transeuntes pudessem ouvir as suas palavras [427]

Quais são as idéias políticas de que se nutria sua propaganda? Sabe-se que ela era bastante elementar e as idéias que expunha só podiam atuar sobre as grandes massas amorfas dos “55.000”, como as chamamos e, ainda, em virtude do caráter emocional dessa propaganda, do apelo contínuo à pulsão n° 1, a que domina nas reações de medo e entusiasmo guerreiro. Goebbels [428] declara, com efeito: “a propaganda deve procurar simplificar as idéias complicadas” e Hitler acentua no seu livro (77): “para ganhar as massas, é preciso, em proporções iguais, contar com sua fraqueza e sua bestialidade”; e mais: “é necessário baixar o nível intelectual da propaganda, tanto mais quanto maior for a massa dos homens que se deseja atingir”. Sabe-se que a propaganda hitlerista explorava o sentimento nacional do povo alemão, ou melhor, usava uma fraseologia nacionalista e chauvinista: a legenda “punhalada nas costas do exército”, durante a guerra; “a paz ignominiosa de Versalhes”, o “restabelecimento da honra nacional”, os “criminosos de novembro” – tais eram os slogans da propaganda a esse respeito. Que não eram sinceros, vê-se do fato de que, onde não havia interesse político de provocar uma agitação, acomodava-se muito bem a “opressão dos irmãos alemães”. – a sorte do Tirol do Sul, das minorias alemãs na Polônia, eram exemplos comprobatórios. Afirmou-se, freqüentemente, nos países democráticos, que Hitler conseguiu impor-se ao povo alemão, graças à derrocada da Alemanha na guerra, uma vez que uma derrota engendra sempre a reação. “Essa asserção, como muito bem diz Münzenberg, no seu livro Propaganda als Waffe (A Arma da Propaganda) (108), é falsa, porque a história nos mostra muitos exemplos em que uma derrota militar provocou revolução popular no sentido do progresso social”.

Outra “idéia” da propaganda hitlerista, que emocionou o mundo inteiro, era a das perseguições anti-semitas conseqüência lógica das “teorias racistas”, professadas pelos ignorantes da ciência biológica moderna, que estavam à frente da Alemanha de então. Um exemplo dessa propaganda, que explorava, ao mesmo tempo, as idéias racistas e a demagogia social, era o cartaz nazista que representava um judeu gordo, fumando um charuto e segurando os cordões de um grupo de marionetes: banqueiros da City, bolchevistas, homens de negócio americanos, padres católicos, etc. A brutalidade dessa propaganda com esses caracteres era tal que a tornava odiosa e facilitava a tarefa de mobilização, no exterior, das forças anti-hitleristas. Era o calcanhar de Aquiles da propaganda de Hitler, que não soube manobrar com habilidade e que, por seus efeitos negativos, destruía, por si mesmo, as vantagens que obtinha pelos outros métodos. Um exemplo particularmente odioso dessa propaganda anti-semita, que emocionou os intelectuais de todos os países, era o filme nazista O Judeu Süss.

Outra característica da propaganda hitlerista no que respeita a seu conteúdo ideológico, para uso interior, era a desenfreada demagogia social que ele empregava. Hitler teve a intuição de que, para conquistar as massas, não devia chocá-las desde o princípio: e, seguindo as idéias medievais, nacionalistas, deu-lhes um fundo social, chegou à concepção e à forma híbrida de um nacional-socialismo. O socialismo era, nesse caso, um engodo, que dava a Hitler a esperança de atrair as massas operárias e camponesas, sem ferir as classes médias, que eram seu principal suporte. Não hesitou em prometer a todas as camadas sociais a realização integral de suas aspirações integrais: aumento de salários para os operários, garantia de lucro para os patrões, elevação de preços para os produtos dos componeses, barateamento dos gêneros alimentícios para os citadinos, e assim por diante. Jogou na circunstância de que os homens, presos entre o medo das sanções e o atordoamento estático, criado artificialmente pelo tam-tam guerreiro, pela atuação da propaganda sobre sua sensibilidade, não veriam as contradições de suas promessas e se deixariam prender – o que foi, aliás, o caso. Como bem diz Münzenberg (108), entre os extremos da idéia socialista “tudo pertence a todos” e a capitalista “tudo pertence a um só“, ele lançou o slogan que não deseja dizer coisa alguma “a cada um o seu”. Envolvida por todos os fogos de artifício da propaganda, essa demagogia, apesar de tudo, teve sucesso. Seus dois slogans, que desempenhavam o papel de armadilha para os operários e que deviam justificar, de alguma forma, a parte socialista de sua marca de fábrica, seu pseudo-anticapitalismo, eram (Gemeinnutz vor Eigennutz (A utilidade comum antes da utilidade privada) e Brechung der Zinsknechtschaft (o aniquilamento da servidão do interesse capitalista); é inútil adiantar que, chegando ao poder, não cumpriu suas promessas.

Em geral, pode-se dizer com Domenach [429] (45) que a propaganda de Hitler, encarada sob esse ponto de vista, deve ser caracterizada como uma “verdadeira artilharia psicológica, onde tudo que tem valor de choque é empregado, onde, finalmente, a idéia não prevalece, contanto que a palavra o faça”!

Essa propaganda não indica mais objetivos concretos; ela se expande em gritos de guerra, em imprecações, em ameaças, em profecias vagas e, se é preciso fazer promessas, são de tal forma excessivas que não podem alcançar o ser humano senão em um estado de exaltação em que responde sem refletir.

Quanto às idéias que dominavam sua propaganda no exterior, eram duas principais: o pacto antikomitern, o ataque desenfreado contra o comunismo e sobretudo contra a União Soviética e a crítica ou antes, os vitupérios contra as democracias. Para atingir o primeiro objetivo, aquilo com que sonhava Hitler era uma cruzada contra o rival do Este, cuja força aumentava, sem cessar e que lhe barrava o caminho; nessa cruzada, sua propaganda empregava o slogan “Europa, desperta!”, uma ampliação do outro, que lhe foi útil, a seu tempo, no próprio país: “Alemanha, desperta!” Contra as democracias, em geral, a propaganda se fazia cada vez mais intensa nos anos que precederam a Segunda Guerra Mundial. Naturalmente, para tornar a imprensa servil, o Ministério de Propaganda de Hitler alimentava uma grande parte, especialmente no estrangeiro, com os recursos do “fundo dos reptis”, a exemplo de Bismarck.

Para incutir nas massas as idéias de que tratamos acima e que, segundo a expressão do próprio Hitler, eram despojadas de todas as controvérsias e complicações, de todos “ mas, só havia uma possibilidade: a “Persuasão pela força”, a violação psíquica por uma propaganda emotiva baseada no medo. É Hitler, aliás, quem diz (77): “é apenas na aplicação permanentemente uniforme da violência que consiste a primeira des condições de sucesso. E, em conseqüência, não havia um só discurso de Hitler que não contivesse o apelo à violência, uma ameaça, a apologia da força militar, etc. No Congresso de Nuremberg, em 1935, exclama: (77)“Se algum dia me decidir a atacar um inimigo, não o farei como Mussolini: não entrarei em entendimentos e não me prepararei durante meses, mas farei o que sempre fiz na minha vida: precipitar-me-ei sobre o adversário, como o raio na noite”. É uma linguagem de intimidação, que atinge seu paroxismo! Seus adeptos compreenderam-lhe bem o método: vê-se na prece de um pastor evangélico, que diz: “creio que a liberdade virá do Pai celeste, se acreditarmos na nossa própria força” (77). Raramente a propaganda ousa empregar injúrias, expressões como a de Hitler: “gentalha, patifes, perjuros, proxenetas, assassinos, prostitutas intelectuais, etc.”. Afinal, Hitler dá a seus adversários a fórmula de que se serviu e que, segundo ele, condiciona o sucesso: “Essa tática que se baseia na justa avaliação das fraquezas humanas, deve conduzir quase automaticamente ao sucesso, se o partido adversário não aprende a combater o gás asfixiante com gás asfixiante. O terror no estaleiro, na fábrica, terá sempre pleno êxito, até que um terror igual não lhe barre o caminho”. [430]

Falando das regras da tática geral a empregar, entende que a unidade do comando é a base de todo sucesso também na propaganda política e preconiza “o forte é mais forte quando permanece só”. Outra regra é de jamais falar no condicional: “só a afirmação indicativa ou imperativa conserva a psicose do poder nos amigos, a psicose do terror nos inimigos”. [431] Aconselha “jamais pedir ou esperar, mas, sempre prometer e afirmar.” E, mais ainda: a propaganda deve sempre repetir que os nazistas são os vencedores, que vencerão; cada tumulto é sempre apresentado como uma vitória. E isso, como diz Hitler, para “provocar a força sugestiva, que deriva da confiança em si”. Esse preceito está estreitamente ligado a outra característica da propaganda hitlerista, o emprego da velhacaria. A história do incêndio do Reichstag e a maneira como foi explorado é um exemplo flagrante e bem conhecido. Entre os oficiais do exército, na imprensa, na escola, nas canções e no cinema festejavam-se os agentes secretos, os assassinos políticos, como heróis.

O que era mais característico da propaganda hitlerista é que ela se propunha deliberadamente alcançar a totalidade da população do país e de não se restringir a influenciar os eleitores, partindo do fato de que a ambiência psicológica devia, por sua vez, agir sobre estes. Daí porque fundava toda sua ação no apelo aos fatores emotivos. Hitler (77) diz no seu livro: “na sua grande maioria, o povo se encontra numa disposição e num estado de espírito a tal ponto femininos, que suas opiniões e atos são determinados muito mais pela impressão produzida sobre os sentidos que pela pura reflexão”. E, para atingir esses fins, tudo é bom: assim, Hitler declara num discurso, dirigindo-se às mulheres: “quando chegarmos ao poder, cada mulher alemã terá um marido”. [432] Concebe-se facilmente que o chefe da imprensa do movimento nazista acentue que foram sobretudo as mulheres que muitas vezes salvaram o movimento nos momentos precários de sua existência.

É principalmente a juventude a que Hitler visa como elemento sensível e que sua propaganda pode utilizar facilmente como veículo de suas idéias e de suas ações. Ela se deixa facilmente fanatizar pelas excitações repetidas e, arrastada numa psicose coletiva, correspondente à sua sede de aventuras românticas, é muito bem capaz de se entregar a violências que “nada têm a invejar às ações brutais das sociedades secretas de selva africana ou à crueldade dos efebos lacedemônios que se acreditavam metamorfoseados em lobos, leões e outros animais ferozes e, vestidos de pele de urso ou lobo, cometiam as piores maldades, aterrorizando tanto os membros de sua tribo como seus inimigos, [433] O Estado espartano os utilizava para tarefas policiais, destinadas a manter, num temor servil, aqueles sobre quem pesava sua impiedosa opressão”. Esses adeptos da licantropia [434] da antigüidade encontravam seus imitadores no mundo germânico da Idade Média – uma organização de jovens do tempo de Hitler adotou mesmo o nome de Werwolf, lobisomem do folclore.

“O hitlerismo corrompeu a concepção leninista da propaganda: fez dela uma arma em si mesma, de que se serve, indiferentemente, para todos os fins. As palavras de ordem leninistas têm uma base racional, mesmo se se ligam terminantemente a instintos e a mitos fundamentais. Mas, quando Hitler lançava suas invocações sobre o sangue e a raça a uma multidão fanatizada, que lhe respondia pelos “Sieg Heil”, só cuidava de superexcitar, no mais profundo dela própria, o ódio e o desejo de poder. Essa propaganda não designa mais objetivos concretos; ela se expande em gritos de guerra, em imprecações, em ameaças, em profecias vagas e, se é preciso fazer promessas, são de tal forma excessivas que só podem alcançar o ser humano num estado de exaltação em que responde sem refletir“. [435]

Em nossa exposição sobre as relações existentes entre o fenômeno da inibição interna generalizada, que pode ser provocada por certos métodos de formação de reflexos condicionados e o sonambulismo, vimos que esse estado (no qual a sugestionabilidade aumenta a tal ponto que o indivíduo se torna um objeto maleável nas mãos de outrem e obedece facilmente às suas ordens) pode ser determinado por excitações repetidas durante um tempo mais ou menos longo e caracterizadas pela sua monotonia. Era um método aplicado comumente por Hitler; diz ele, a propósito de sua primeira grande reunião, no circo Krone, em Munich (77): “desde a primeira meia hora, aclamações espontâneas, explodindo cada vez mais abundantes, começaram a interromper-me; ao fim de duas horas, deram lugar a esse silêncio religioso que, muitas vezes, desde então me penetrava e que permanecerá inolvidável para todos aqueles que o viveram. Ouvia-se quase um sopro nessa multidão imensa e quando pronunciei minhas últimas palavras, uma onda de aclamações rebentou e depois a multidão entoou, com fervor, o canto redentor: Deutchland über alles. Assim, o fenômeno do despertar, da desinibição, está aqui também muito claro. [436]

Mas, eram sobretudo as excitações sonoras a que recorria a propaganda hitlerista, utilizando o fato bem conhecido de que o ritmo da música vocal e instrumental leva facilmente os indivíduos a movimentos de conjunto, a que obedecem quase sem saber e que podem atingir uma extrema violência. “Os efeitos fisiológicos e psicológicos de uma gesticulação impelida assim até quase o frenesi, são comparáveis às de uma intoxicação. A repetição constante de certos gestos impõe aos assistentes atitudes de constrangimento, que trazem o risco de lhes causar perturbações circulatórias e que não deixam de manter e aumentar seu nervosismo. Além disso, como se trata de exercícios coletivos, o contágio se mistura e determina logo uma superexcitação cada vez mais intensa, para a qual cada um contribui com sua parte. Não se sabe, pergunta De Felice [437] (37) como é difícil nos contermos para não nos associarmos aos aplausos de comando que saúdam alguma vedete da política ou do teatro? “E como, uma vez dada a pulsão, uma espécie de entusiasmo se apodera das pessoas, forçando-as a bater palmas?” E acentua que “manifestações que dão a impressão de uma força brutal, livremente desencadeadas, têm um papel ainda mais decisivo na aparição de fenômenos gregários”. O exemplo da excitação dos espectadores nos hipódromos, nos estádios de futebol, nos ringues de lutas de boxe ou nas pistas de corridas, é convincente: um entusiasmo delirante apodera-se da multidão e a exaltação geral degenera, muitas vezes, em crise de histeria coletiva. Se os espectadores são incitados a se envolver em atos de violência perpetrados diante deles, por exemplo, num programa antijudaico, essa histeria coletiva transforma-se freqüentemente em loucura furiosa, em que a multidão, cada vez mais numerosa, embriaga-se pela atração da pilhagem e pela visão do sangue. “O sangue, por sua cor, seu cheiro e pelas reações instintivas que provoca, atua sobre o ser humano como excitante. A obsessão do sangue, que caracteriza sobretudo as tradições e os ritos das religiões orientais, tem sido, ao mesmo tempo, uma das causas e uma das conseqüências de grandes excitações coletivas que se manifestaram, vivamente, entre seus adeptos, favorecendo assim, a explosão de perturbações gregárias”.

Na perseverança, na paciência de que dava mostra a propaganda hitlerista, não está a menor razão do seu sucesso. Hitler diz: (77): “Adotei então a seguinte atitude: pouco importa que os adversários zombam de nós ou que nos injuriem; que nos apresentem como polichinelos ou criminosos; o essencial é que falem de nós, que se ocupem de nós...”

No que concerne à própria técnica de propaganda assim concebida, há, no livro de Hitler, indicações bastantes preciosas que seus adversários teriam todo interesse em conhecer e aproveitar, o que não fizeram em tempo, ah! Os métodos utilizados para chegar às formas inferiores da mística sempre existiram: são encontrados nas práticas religiosas dos selvagens e também nas dos povos mais evoluídos, quando sua mística permanece ou cai a um nível baixo (1)

Hitler, que tinha necessidade das massas nesse nível inferior, em escala regressiva, atentava especialmente para a criação de condições fisiológicas, a fim de mergulhar as multidões nesses estados. Assim, dá preferência à palavra falada sobre a escrita, pois, diz ele, “o orador, em estreito contato com seu auditório, recebe dele o reflexo de suas palavras. Anuncia, em conseqüência, as explicações mais apropriadas para conduzir os sentimentos necessários aos fins desejados... O jogo de fisionomia de seus ouvintes, mostra-lhe se é compreendido, se o seguem e se os convenceu”.

“Hitler e Goebbels, nesse domínio, nada deixavam ao acaso. Toda manifestação era cuidadosamente preparada. Hitler acentuava mesmo que as horas da tarde eram mais favoráveis que as outras à influência sobre a vontade alheia. [438]

A técnica de reuniões é também tratada com cuidado. Insiste especialmente nessas duas coisas: a necessidade de ter de fato um policiamento, homens vigorosos que impeçam as discussões, expulsando os interpeladores e a necessidade de fazer uma prévia e exagerada publicidade do meeting. Ele relata seus começos: “Alugava dois caminhões que, muito enfeitados de vermelho e levando de quinze a vinte membros do partido, deviam percorrer a cidade em todos os sentidos, distribuindo boletins... À noite, o circo estava superlotado”. Sabia também que as dimensões do local em que se realiza a reunião têm importância: uma sala muito grande faz nascer o sentimento de insegurança, que pode invadir os oradores e os ouvintes. “Quando o homem se sente oprimido pelo espaço, sua vontade fica paralisada&lrdquo; [439]

A canção desempenhava um grande papel na propaganda política, mas, do ponto de vista musical, era, em geral, muito pobre, como diz muito bem Paul Levy (94): eram sobretudo paródias e adaptações que predominavam.

Mas, o que Hitler, sem conhecer a teoria dos reflexos condicionados, compreendeu muito bem, no que concerne à propaganda e às condições de seu sucesso, foi a regra da repetição. Diz ele (77): “Todo o gênio empregado na organização de uma propaganda, não conduziria a nenhum sucesso, se não se considerasse, de maneira sempre uniforme e rigorosa, um princípio fundamental: ela deve limitar-se a um pequeno número de motivos e repeti-los constantemente. A perseverança... é a primeira e a mais importante condição do sucesso”. Daí porque ele martelava, sem cessar, nas massas, seus slogans ou “devises-microbes”, como os designa Paul Levy (94), seus símbolos sonoros e escritos; daí porque mandava desenhar e espalhar, por toda parte, em milhões de exemplares, seu símbolo gráfico – a cruz gamada, que era também conduzida como insígnia por todos os adeptos; daí porque dava uma tão grande importância às bandeiras e estandartes; e, sabendo que a cor vermelha é a que mais atrai a atenção, que é, ao mesmo tempo, a preferida do movimento obreiro (é a mesma idéia que preside a enganadora denominação de nacional-socialismo) que lembra o sangue, portanto a luta e a violência, escolheu-a para suas bandeiras e seus cartazes – É curioso ler, em seu livro: “escolhemos a cor vermelha para nossos cartazes depois de madura e sólida reflexão, para enraivecer a esquerda, para provocar sua indignação e para trazê-la a nossas reuniões, mesmo com o fim de as sabotar, porque era a única maneira de nos fazer ouvir por essa gente”.

Vimos, assim, que a propaganda de Hitler, a propaganda que perturbou o mundo e que era a pedra angular de sua ação e de seu sucesso, caracteriza-se principalmente por três elementos: renúncia às considerações morais, apelo à emotividade das massas pela utilização da primeira pulsão, (combativa) como base e emprego de regras racionais para a formação de reflexos condicionados conformistas nas massas. Enfim, como diz Domenach (45) [440], “é inegável que um certo número de mitos hitleristas correspondia seja a uma constante da alma germânica, seja a uma situação criada pela derrota, o desemprego e uma crise financeira sem precedentes”.

Os adversários de Hitler deixaram-no agir, pois, não se inspiravam nos mesmos métodos e nos mesmos princípios e tudo perderam, porque, na realidade, como ele próprio diz, “a propaganda é uma arma terrível nas mãos de um homem que dela sabe servir-se”. É obra pessoal de Hitler e ele o confirma, declarando ao Reischtag, em 30 de janeiro de 1936: “A Alemanha é o partido nacional-socialista e o partido... sou eu”. O poder absoluto embriaga os homens e os leva a menosprezar os outros: Napoleão dizia, em 1813, ao chanceler austríaco Metternich [441]: “um milhão de homens é, para um homem como eu, m...” Da mesma forma Hitler, nos seus discursos, falava sempre de si mesmo, de sua história, de seus méritos; a 14 de março de 1936, disse ele: “realizei o movimento mais formidável que um homem de Estado jamais fez, desde o começo da história mundial”.

A propaganda apaixonada emprega também slogans que procuram concentrar o ódio ou a simpatia sobre uma só pessoa, que aparece então às massas como responsável por essa ou aquela política. Assim, no ano que precedeu a chegada de Mussolini ao poder, lia-se, com freqüência, nos muros das cidades italianas inscrições “W – il Duce” e “M” Lênin“ e vice-versa (W querendo dizer “Viva” e M-“Morte a ou “Abaixo”. Por essa tática diversionista pessoal, muitas vezes empregada na tribuna do Parlamento, procura-se dividir o campo adversário e dele destacar certos elementos. O partido comunista gosta de utilizar esse método.

Por outro lado, na propaganda promovem-se pessoas eminentes que pertencem ao próprio agrupamento: são personalidades piloto. Assim, os comunistas gostam de mencionar, em todas as ocasiões, Juliot-Curie ou Picasso como membros do Partido. Isso lembra o método empregado na publicidade, quando se faz recomendar tal ou qual produto, uma marca de sabão, por exemplo, por uma estrela de cinema.

Enfim, o fator pessoal é ainda por vezes posto em evidência através de processos líricos: assim, nas publicações de toda natureza e no rádio, na URSS, encontra-se mencionado a todo momento, o nome de Stalin. Nos antípodas políticos, no Ocidente é o charuto de Churchill que, freqüentemente citado, deve atrair as simpatias, ou as “conversas ao pé da lareira”, pelo rádio, de Roosevelt, feitas num tom familiar. Na época de Pétain, na França uma propaganda paternalista devia reunir os franceses em torno de sua pessoa. Recorda-se, ainda, suas proclamações e arengas, nas quais afirmava, incontáveis vezes, que “oferecia sua pessoa à Pátria”.

O ditador italiano, Benito Mussolini, o “brilhante segundo” de Hitler, que não podia perdoar a este o ultrapassá-lo sempre, mas, que era fatalmente forçado, em virtude de sua importância evidente, a seguir o mestre, empregava os mesmos métodos, embora com menos habilidade, não tendo à sua disposição um Goebbels, mas, apenas, um Ciano.

Era sempre o mesmo princípio: o exagero, a ameaça, a injeção do medo nas massas e a deflagração de êxtases, de delírios. nas multidões. É interessante citar aqui, como exemplo, um símbolo gráfico, baseado na ameaça, empregado durante as semanas que precederam a “marcha sobre Roma” e a tomada do poder por Mussolini. Os que viajaram pela Itália, nesse época, lembram-se de que, nas ruas, nos muros das casas, nas paliçadas, etc. havia uma cabeça de Mussolini com traços ameaçadores e lúgubres, pintada em preto, numa folha recortada: abaixo dessa efígie, destinada a provocar o medo, havia sempre uma inscrição guai a chi tocca (desgraça a quem tocar!)

Em todos os seus discursos, Mussolini, como Hitler, recorria a ameaças e tinha sempre cuidado de marcar suas palavras pela evocação de ações brutais e de penas corporais em termos francos. Diz claramente, por exemplo, num discurso: “quem quer que procure atacar a milícia nacional, será fuzilado” (140); falava sempre em punhais, fuzis, canhões e seu método de violência específico, de que era o inventor incontestável e que marca todo o ridículo e o charlatanesco de sua figura de opereta... o óleo de rícino.

O símbolo gráfico do fascismo era o da violência o fascio, do latim fasces, feixe de varas que, segundo a crônica histórica, provém do primeiro cônsul de Roma, Brutus, no VI século antes de Jesus Cristo, que mandou açoitar seus filhos publicamente e executá-los a machado, por haverem conspirado contra o Estado (140). Esse instrumento de punição, inspirando o terror, tornou-se o símbolo do poder em Roma: era um feixe, cujas varas são mantidas por uma corda em torno de um machado. Os lictores, ao lado do cônsul, conduziam esse emblema para executar, no mesmo lugar, as suas sentenças: flagelar, enforcar ou decapitar. Esse símbolo, tornado divisa do fascismo, tinha, em comparação com a cruz gamada de Hitler, a desvantagem de ser muito complicado e não podia ser desenhado por toda parte e por qualquer pessoa. como era o caso para a marca de fábrica de Hitler, a svastika, as três flechas socialistas ou a Cruz.

Mas, o que caracterizava principalmente Mussolini eram as suas bravatas. que lançava a torto e a direito, sem se dar conta do efeito ridículo que provocavam, com muita freqüência. no exterior, devido aos exageros que lhe eram tão peculiares. Eis um exemplo: (1) em julho de 1935, em Éboni, ele se envaidece: “Aos que pretendem nos deter com frases e palavras, responderemos com a força das primeiras esquadras de ação! Me ne frego! (Não me incomodo) ”. Eis um outro cujo sabor está no fato de que Mussolini declarou, em 3 de maio de 1927, que um conflito mundial eclodiria em 1935, o que lhe deu oportunidade de celebrar a necessidade da guerra. Afirma [442] que, em 1935, “a Itália terá quatro milhões de homens em armas! Disporá da mais formidável marinha do mundo e de uma aviação tão poderosa que o ronco de seus motores abafará todos os ruídos na Península e que as asas dos aviões obscurecerão os céus da Itália”.

O blefe sempre e em toda parte – eis o essencial da propaganda mussoliniana, como a de Hitler: blefavam sem limite e chegavam até a culpar os adversários de seus próprios erros e violências. Na sua paixão blefe, Mussolini ia tão longe que, certo dia, evocando a lembrança dolorosa do desastre italiano em Caporetto, exclamou que “se fosse ministro naquela ocasião, teria anunciado o desastre como uma grande vitória” [443]

No seu orgulho e na sua jactância é compreensível que Musolini tivesse desprezo pelos homens. E. Ludwig (97) que o entrevistou, relata suas palavras sobre as massas: “A massa é um rebanho de carneiros, quando não está organizada. Não pode governar-se por si mesma. É preciso guiá-la pelas rédeas: pelo entusiasmo e pelo interesse. Se alguém utiliza apenas uma das rédeas, estará exposto a riscos”.

É edificante ver como Hitler e Mussolini, os dois pólos do eixo Berlim-Roma, atraíam, cada um para si, o eixo: durante a agressão da Etiópia, Mussolini quer forçar Hitler a ajudá-lo na deflagração da guerra mundial, mas, ele, fiel à sua tática de ameaça sem risco real, se esquiva (1): “uma política firme, mas, prudente, um rearmamento progressivo, mas, metódico, permitir-nos-ão, com a ajuda da diplomacia, obter, sem declarar a guerra, a satisfação essencial das reivindicações alemãs”. Em setembro de 1938, quando Hitler se impacienta e o pressiona para decretar a mobilização do exército italiano, em resposta à mobilização francesa, é a vez de Mussolini tergiversar, esquivar-se, arrastar-se: sabia muito bem que a população italiana não “marchará”.

Mas, a despeito dessas tendências para o exagero, de sua loquacidade e de suas precipitações, que freqüentemente destruíam o efeito de sua propaganda, Mussolini era perigoso, porque, velho socialista e revolucionário, conhecia muito bem os métodos necessários, tinha, como diz muito justamente Louis Roya, (140) o senso de organização das massas, era mais inteligente que Hitler. Jung [444], que teve ocasião de vê-los juntos, quando da visita de Mussolini a Hitler, conta a Knickerbocker a impressão que teve dos dois: pinta o retrato de Mussolini antes com simpatia, mas, repele Hitler. Diz: “Mussolini dava a impressão de ser alegre, em carne e sangue, Hitler, ao contrário, enchia de espanto quem o olhava, aniquilava. Não podia desfazer-me da impressão de que tinha diante de mim um autômato, um robô. Hitler era o tipo de feiticeiro das bordas primitivas e, como tal, tinha também sacrificado sua vida sexual à sua missão. Deve ser escravo de um terrível complexo maternal. Seu sacrifício da vida sexual não pode ser compreendido senão por uma idealização extravagante da idéia de Mãe. Hitler e seu nacional-socialismo permanecem sem explicação, se não levamos em consideração a influência do seu demônio interior, como era o caso também de Napoleão na campanha da Rússia”.

Mussolini tinha também um culto ilimitado da violência. Sabia, por exemplo que, numa revolução, “o desmonte da enorme máquina governamental deve ser rápida, tanto no centro, como na periferia”. Não tinha escrúpulos e não hesitava, servindo aos interesses capitalistas, em iludir as massas com falsas imitações dos ideais socialistas. Ao escutá-lo, era a Itália fascista a “verdadeira democracia”. Ouvia-se dizer, muitas vezes, naquele ocasião que Mussolini e o fascismo eram, apesar de tudo, um fenômeno de soerguimento, de revolta das classes médias, que representavam um acontecimento lógico da evolução materialista de nossa história. É um erro: Roya tem razão, ao afirmar que “Mussolini sustenta também a ação sindicalista, quando lhe apraz” e que Mussolini “não é o resultado do movimento fascista, mas sua causa e seu animador” [445] (140). Isso se torna ainda mais evidente à luz de sua propaganda, onde a ameaça, o recurso à violência e à mentira têm papel preponderante, senão exclusivo.

A propaganda custa caro e Mussolini, como Hitler, não tinha escrúpulos de tomar dinheiro para esse fim, aos que tinham um interesse no seu regime – os capitalistas: um conhecido industrial contribuiu com um milhão e meio de liras para organizar a famosa “marcha sobre Roma”, ação propagandística de ameaça. (140) A propaganda fascista, como a de Hitler, não tinha programa, nem social, nem econômico: desejava, custasse o que custasse, “dominar a princípio, esperando que as idéias venham, que os projetos se afirmem, que o ideal do partido saia lentamente do caos onde ferve e se funde”.

Todos esses traços tornam-se comprensíveis, quando se conhece a história de Mussolini. Leva ele, desde a juventude, uma vida difícil e aventurosa (140): passa noites seguidas ao relento, é até obrigado a mendigar, um dia, um pedaço de pão; seu temperamento meridional o lança na luta social: torna-se socialista, revolucionário e mesmo extremista e antimilitarista; conhece a prisão; não abomina o regicídio, é hostil à religião e ao clericalismo e até blasfemador. Lutador político nato, teve êxito em penetrar no movimento socialista e subir a um posto destacado: torna-se redator chefe do Avanti, jornal oficial do partido. Mas, vem a guerra e o ativismo de Mussolini se opõe à tendência oportunista, não intervencionista e fraca dos dirigentes do partido. Sua arrebatada propaganda pela participação da Itália na Guerra, ao lado dos Aliados, provoca ataques dos seus companheiros, que acabam por acusá-lo de venalidade e o expulsam do partido (140). Ferido no seu orgulho, estimulado pela sede de vingança, declara uma guerra impiedosa aos antigos camaradas. Num artigo do Popolo d'Italia, em 25 de novembro de 1914, lança-lhes o desafio: “estou precisamente aqui para estragar a festa. O caso Mussolini não está encerrado, como pensais. Começa. Complica-se. Toma vastas proporções. E age em conseqüência. Arroja-se na luta com uma veemência inaudita; o que o caracteriza, principalmente, é ”a ausência completa de embaraço na expressão de seu pensamento, o desencadeamento de imagens e da linguagem na polêmica“. Por exemplo, não hesita em escrever: ”esse homem não me agrada; mas, antes que a náusea me abata, quero chicoteá-lo até sangrar“ (140). “Espancar” é uma de suas palavras favoritas. Tornando-se chefe do governo, diz, referindo-se a seus adversários: “espancá-los sem misericórdia”. [446]

Esses apelos contínuos à violência, essas ameaças ampliadas por uma propaganda técnica hábil, criavam um estado de espírito tenso que levava ao crime; de que o mais chocante é o do líder socialista, a quem Mussolini mais temia, Matteoti. Cesari Rossi, íntimo de Mussolini, propagandista que ocupava um posto de responsabilidade foi o seu autor; foge e faz no estrangeiro revelações, denunciando-o como pai espiritual desse crime revoltante. Pinta-o (140) como um homem dúplice, superficial e improvisador, “alternadamente cético e sentimental, generoso e cruel, resoluto e hesitante, intransigente e moderado”. Sua principal preocupação seria a de mistificar todo mundo para se manter no poder.

Estamos perfeitamente de acordo com Roya quando diz que “o fascismo é o jogo de um diletante do capricho, um jogo conduzido por mão de mestre, por um homem que se vinga de haver sofrido muito, de haver sido desprezado, renegado por aqueles por quem lutou. É um jogo de Mussolini que se embriaga com o sucesso, pois bebe a volúpia da força, de seu desdém pelos outros, da autoridade que espalha o sorriso e que faz verter lágrimas...” (140).

Com ele, o jogo caiu. Aliás, Mussolini sabia-o e dizia-o. Geneviève Tabouis (149) relata que Ernst Ludwig reproduziu, no seu livro sobre Mussolini, uma conversa que teve com o Duce. Num momento de sinceridade, raro nele, disse-lhe que o fascismo devia, necessariamente, terminar com ele. “Depois de mim, o dilúvio!” Na edição italiana, essa declaração, é claro, foi pudicamente suprimida.


Capítulo IX
Resistência ao Hitlerismo

O primeiro golpe em Heidelberg – A luta contra a incompreensão e a rotina – “A cabeça está... podre” – As eleições em Hamburgo, no Wurtemberg e na Prússia – O triunfo em Hesse – Uma nova esperança e a decepção – O plano de “agarrar o dedo” – A grande maré – O golpe de Estado de von Papen – O 20 de Julho, o Sedan dos Chefes – A meia vitória – As conseqüências – A débâcle.

 

Acabamos de examinar os acontecimentos do ano de 1932, na Alemanha; fornecem uma boa ilustração experimental, porque realmente vivida, do valor da análise científica dos princípios que abordamos nos capítulos precedentes.

Quis o destino que, embora homem de ciência, fazendo pesquisas biológicas no Kaiser Wilhelm Institut für Medizinische Forschung, em Heidelberg, tenha eu sido envolvido nos acontecimentos desse ano fatídico, em que se jogava a sorte da Alemanha e da Europa e que me tornasse o chefe de propaganda da Frente de Bronze (Eiserne Front) – a grande organização de defesa anti-hitlerista, criada então pelo partido social-democrata alemão.

Depois que os novos métodos de combate – os símbolos (três flechas, punho levantado, o grito Freiheit) foram adotadas e sofreram a primeira prova nas ruas de Heidelberg, [447] dando-nos resultados encorajadores, tratava-se de empreender a luta efetiva: a primeira campanha eleitoral de Hindenburg se aproximava. O partido social-democrata tinha lançado a famosa palavra de ordem de apoio à candidatura do velho marechal – Era duro e doloroso para esse partido, mas, não tinha outra saída: qualquer outra candidatura teria, sem dúvida, levado Hitler, imediatamente, ao poder e era preciso evitar isso, a todo preço; era preciso ganhar tempo para organizar a Frente de Bronze, para fazê-la tomar boas posições estratégicas, tendo em vista o combate definitivo, que já se desenhava como inevitável. Era preciso também assegurar a disciplina – a palavra de ordem estava dada, não havia mais tempo para discussões teóricas. Era preciso atacar.

Enviei um plano de propaganda a Berlim. Esperei, em vão, a resposta. Fiz imagem simbólica da luta, uma combinação de dois princípios: combativo e irônico, imagem que, espalhada, mais tarde, em milhões de exemplares (fig. 15), teve, em toda Alemanha, uma popularidade surpreendente. Depois de duas semanas de espera, alguns dias antes das eleições, recebi de Berlim a resposta de que “o utilizariam eventualmente” para o segundo escrutínio. Enviei todo o sistema de símbolos, de projetos concretos e minuciosos de propaganda e organizações. Berlim permaneceu muda. Além disso. a propaganda do partido, por ocasião dessa campanha, não se desenvolveu senão muito tardiamente e não pôde pretender medir-se com a dos adversários, nem em quantidade, nem em qualidade. Uma vez mais, nossos boletins eram muito longos, muito doutrinários; ao lê-los, bocejava-se. Dois ou três cartazes inábeis, sem imaginação nem força persuasiva, eram pregados nos muros; as figuras neles pintadas lamentavam-se, gemiam, retratavam o diabo nos muros e falavam com angústia da aproximação do III Reich. Agir assim, não era completa loucura, não era a prova clara de uma incapacidade total de intuição psicológica? Não se estava servindo assim à causa de Hitler? Com efeito, ele ameaçava e nossos cartazes davam uma forma concreta ou figurada a suas ameaças – faziam uma propaganda de intimidação às avessas. Nossos comícios eram freqüentados mas, que se poderia ouvir ali? Intermináveis discursos, citações históricas, cifras, estatísticas, provas do apoio, etc., etc., tudo entremeado, de tempo em tempo, de piadas e palavras espirituosas bastante vulgares – Os mais ativos de nossos companheiros perdiam seu tempo em reuniões insignificantes, que se realizavam em todas as pequenas localidades. A um secretário de nosso partido que se esfalfava numa “atividade” desse gênero, submeti, um dia, o seguinte cálculo: no momento mais ardente da campanha eleitoral, quando a propaganda dos nazistas fazia furor, quando eram senhores da rua, colocando, por toda parte, seus símbolos, arrojando-se sobre nossa gente, provocando rixas, nosso chefe tinha desaparecido da cidade e falava num buraco, a uma centena de pessoas das quais cerca de oitenta já eram nossas e teriam votado conosco, em qualquer hipótese. Das vinte que restavam, ele não poderia esperar atrair mais do que a metade para nossa causa. Tratava-se de ganhar, no máximo, dez votos! Para isso, tinha abandonado seu gabinete no partido, a juventude, ansiosa por atuar, permanecia ociosa em casa, os camaradas da Bandeira do Reich erravam pelas ruas sem objetivo e sem orientação, pois ele tinha enviado os chefes locais da Bandeira do Reich e da Juventude para recantos semelhantes, fora da cidade. O mesmo espetáculo se oferecia por toda parte.

Fig. 15
Cartaz anti-hitlerista da Frente de Bronze difundido em milhões de exemplares na Alemanha quando da luta de 1932. Sua eficácia repousa na combinação de dois princípios realizados: ridículo do adversário (Hitler) e a própria força do ataque. (Três Flechas)

A todos os meus projetos para ativar e modernizar a luta, os secretários e outros funcionários do partido respondiam invariavelmente: “Nada podemos fazer sem instruções do comitê central de Berlim!” Desesperado, decidi, então, agir por minha própria conta. Quem podia impedir-me de desdobrar minha atividade como membro do partido?

Em dois dias, visitei os centros mais importantes do Sul e do Oeste da Alemanha; falei a nossos dirigentes, expus os novos métodos, mandei convocar jovens camaradas da Bandeira do Reich e os iniciei nas formas de combate por símbolos. Tive a sorte de ganhar para essas idéias alguns homens ativos, entre os chefes de segundo plano; era sobretudo a juventude que adotava com entusiasmo os novos métodos e que os aplicava, em seguida, com afinco. Os muros dessas cidades foram, rapidamente, cobertos por nossos símbolos, a saudação Freiheit ecoou nas ruas e nos comícios. A imagem simbólica das três flechas, perseguindo a cruz hitlerista, apareceu nos jornais locais do partido, assim como os dísticos curtos e incisivos que se colocavam ainda nos pequenos cartazes. Os secretários do partido e os chefes da Bandeira do Reich dessas cidades, falaram-me do alegre entusiasmo que se apossava das equipes móveis dos nossos jovens militantes, do ardor com que se lançavam na luta de propaganda. Melhor ainda, eis um relato de um dos nossos agentes: “Desde que a campanha de giz (nome que se havia dado à ação) foi deflagrada, todo mundo se transfigurou. Antigamente tínhamos, para a distribuição de boletins, somente alguns camaradas à nossa disposição, era sempre um problema difícil, estava-se sobrecarregado; agora, há sempre mais voluntários do que os necessários para a colagem dos cartazes, para as flechas, até mesmo para a distribuição dos boletins. No momento, estão todos com o diabo no corpo”. Isso não era de espantar: o novo método tinha a enorme vantagem de entusiasmar os que tomavam parte na sua aplicação; um pequeno risco pessoal dava um gosto um pouco romanesco de aventura e correspondia a uma necessidade profunda de atividade, especialmente na juventude. Um certo número de militantes, apanhados em flagrante delito, foi preso pela polícia; tornaram-se mais prudentes, mas, o entusiasmo transbordava.

Em Heidelberg, tudo estava em ebulição, a cidade inteira se achava sob o signo das três flechas e, no próprio dia das eleições, todos os cartazes do inimigo estavam recobertos pelos nossos, que impressionavam, ameaçavam e zombavam. Eis aqui alguns exemplos:

“Hitler kommt nicht an die Macht,
die Eiserne Front steht au! der Wacht!”
(Hitler não chegará ao poder:
a Frente de Bronze monta guarda.)

ou:

“Sollt das Putschen ihr nur wagen –
die Eiserne Front holt aus zum Schlagen”.
(Evitai o golpe, a Frente de Bronze está
pronta a atacar!)

O tom irônico:

“Wer Goebbels hört und Hitler kennt,
sagt: Hindenburg wird Präsident”.
(Quem ouve Goebbels e quem conhece Hitler,
dirá: Hindenburg será eleito presidente).

Pouco antes dos dias das eleições, cartazes nazistas espalharam-se em todas as colunas; representavam uma enorme cabeça de Hitler abaixo da qual figurava a inscrição: “Hitler será eleito presidente.” No dia seguinte, pela manhã, sobre todos esses cartazes, estava desenhado com carvão um grande ponto de interrogação, na cara de Hitler – Sábado, véspera das eleições, os muros estavam cobertos de um dos nossos cartazes que ironizavam:

“Adolf, mach dir keine Sorgen,
Bist erledigt Montag Morgen!”
(Adolfo, não tenhas ilusões,
tua conta será acertada segunda pela manhã).

Esse dístico teve pleno sucesso: a multidão lia-o e ria. Mas, o melhor é que as, crianças se apoderaram também desses versos e espalharam-no por toda a cidade, cantarolando o refrão: sem suspeitar, faziam nossa propaganda. A eleição estava terminada. Nossa palavra de ordem tinha sido cumprida – as massas de nosso partido deram prova de uma disciplina dura. A alegria atingiu o auge na sede sindical de Heidelberg, na própria noite das eleições. As salas, cheias de gente, cobertas de nuvens de fumo e exalando o cheiro acre da cerveja que corria em abundância, ecoavam de risos, de gritos felizes de Freiheit e de canções acompanhadas, como estribilhos, dos dísticos de nossos cartazes, tornados tão populares. A todo momento, viam-se pessoas erguer o punho, abraçar-se e felicitar-se, mutuamente, pela vitória.

A nota final, inesperada, coroou esses dias: às três horas da manhã quando toda cidade dormia e todo mundo acreditava que o combate tivesse terminado, nossas equipes partiram em campanha para colar cartazes com um novo dístico:

“Durchgefallen, durchgefallen
ist der Adolf bel den Wahien!”
(Desprezado, derrotado, está Adolfo nas eleições).

No dia seguinte, em toda a cidade, despertava, triunfante, a atenção, e sua aparição inesperada provocava alegria e um riso galhofeiro na população; a pronta resposta da Frente de Bronze causou nas massas uma impressão profunda.

Eu estava satisfeito: o novo método de propaganda tinha suportado a prova de fogo; é o que me foi relatado de todas as partes do sul da Alemanha. Dois dias depois das eleições, recebi um telegrama de Berlim: “Venha imediatamente, o segundo escrutínio se fará utilizando seus métodos.” Cheio de esperança, parti para Berlim. Por minha iniciativa, representantes de todas as regiões do Reich foram convocados por telegrama, uma seção de nossos novos militantes foi instruída para fazer uma demonstração dos novos métodos – A conferência que fiz para os nossos, os mais ativos de toda Alemanha, e a quem esclareci o valor e as formas de nossos novos meios de combate, encontrou um terreno favorável. “É uma saída” – eis o que diziam todos; cheios de confiança e de ardor, voltaram e puseram mãos à obra. E eu, que ia dirigir a campanha de propaganda no comitê central, pus-me igualmente a trabalhar Não se devia perder um dia, uma hora. A imagem simbólica, sob a qual a luta devia ser travada, foi, em seguida, impressa e enviada a todo o Reich: apareceu nos jornais com a explicação dos novos símbolos e, ao mesmo tempo, foi espalhada em cartazes, em muitos milhões de exemplares. Toneladas de giz foram compradas e distribuídas entre as organizações através do Reich. Os muros das cidades cobriram-se das três flechas. O efeito foi fulminante, inaudito. De uma só vez, respirou-se livremente por toda parte, via-se, enfim, uma saída, uma possibilidade decisiva de combate. Relatórios sobre os resultados da nova propaganda, sobre o entusiasmo de nossos combatentes, chegavam em grande número ao Comitê Central. O relato sobre o efeito causado sobre os adversários era sempre o mesmo – “desconcertados”, “surpreendidos”, “perplexos”. Os jornais da burguesia falavam da atividade que invadia bruscamente as massas organizadas da Frente de Bronze. Entretanto, viu-se logo chegarem informes sobre as dificuldades e os conflitos inesperados no próprio seio de nossas organizações. Surgiram divergências de opinião entre a direção da Bandeira do Reich e a da Frente de Bronze, de uma parte, e os escritórios do partido social democrata, de outra. Eu havia previsto o perigo e, depois da conferência de Berlim, tinha-me logo esforçado para manter contato com os principais chefes do partido, para despertar seu interesse e sua simpatia compreensiva para as novas idéias, a fim de conquistá-los. Procurei um caminho de colaboração com o escritório central de recrutamento do partido. Desejava chegar a um plano de campanha coordenado e comum. Mas, todas as minhas tentativas foram infrutíferas: a direção do partido recusava organizar uma conferência em que eu teria podido esclarecer nossos objetivos; os altos funcionários do partido permaneciam invisíveis estavam sempre em viagens de conferência através do Reich: para dizer a verdade, não existia nenhuma direção metodicamente organizada; de plano de campanha, nem se falava. No pretenso escritório central de recrutamento, encarregado de toda propaganda e da distribuição de cartazes e boletins, encontravam-se homens sem experiência e sem a menor compreensão de propaganda política. Tentar falar com eles, estabelecer contato – era trabalho perdido: não passavam de simples burocratas e conheciam apenas uma coisa: a caixa do partido lhes fornecia uma grande soma que deviam empregar na impressão de tantos milhões de boletins – como sempre antiquados, pálidos, cheios de lamentações, fastidiosos até a morte – e de tantas centenas de milhares de cartazes ilustrados – mal feitos, ineficazes e sem talento, que faziam erguer os ombros e pareciam freqüentemente ridículos. Uma vez impressos, deviam ser enviados aos secretários do partido nas províncias. Tendo cumprido essa tarefa, estavam satisfeitos. Isso não era um estado-maior adequado para a luta por meio de armas intelectuais, era apenas um escritório de expedição de impressos em grande quantidade. Tinham, aliás, ouvido falar de minha conferência, mas, alimentavam certos escrúpulos de princípio: a psicologia e, em suma, a ciência e a política, não se ajustavam a seu espírito. Para meu grande espanto, vi, naquela ocasião, pela primeira vez, de maneira clara, que nada tinha a fazer ali.

Restava apenas uma coisa: trabalhar com todas as nossas forças e tentar, por nossa própria conta, instruir os quadros do partido. Para a frente, sempre para a frente! Trabalhávamos, sem descanso, no nosso escritório central de propaganda. Mas, logo observei um certo relaxamento que, como sempre, vinha de cima; manobras de bastidores e intrigas apareceram. As festas de Páscoa se aproximavam e todo trabalho cessou, de repente. Ia tudo embora, aos pedaços, mas, não se queria ouvir falar em luta. Corri de um lado para o outro, falei da loucura que era perder três dias inteiros em pleno combate; comparei a situação a uma grande batalha, em que o estado-maior é obrigado a trabalhar à noite e também no domingo; podia mostrar que os adversários não dormiam – era tudo em vão – abriam-se grandes olhos, zombava-se de mim com bonomia, festejava-se, dançava-se, jogavam-se cartas. Corri à sede sindical: encontrei-me em plena festa burguesa. Damas enfeitadas passeavam nas salas, nossos chefes, em sobrecasaca preta, um grande charuto na boca, riam e se divertiam, dizendo trocadilhos. Precipitei-me para a casa de um de nossos “marechais” – encontrei-o no jardim, começando a estrumar canteiros de rosas. Tinha um ar muito estupefato ao me ver surgir, a 200 quilômetros de Berlim e falou dos assuntos mais prementes sem entusiasmo e sem ardor combativo. Rangendo os dentes, voltei a Berlim. Tentava trabalhar, mas, estava manietado: o mecanismo da organização estava parado. Somente três dias depois, tudo se poria em marcha.

Nesses intervalos, vieram as intrigas. Na direção da Bandeira do Reich reapareceu, de repente, o “chefe” Otto Horsing, que se tinha eclipsado havia algum tempo – voltou para trabalhar contra as novas idéias – declarou que elas eram muito modernas, “muito perigosas”, que feriam os regulamentos da polícia (sic!) e que, além disso, lhes pareciam ridículas: corria-se o risco de surgir, sob falsa aparência, aos olhos do público. Exigiu que todo desenvolvimento da nova propaganda fosse suspenso. Ameaçou o Comitê Central que, repentinamente, admirado com sua própria coragem, se submeteu. Tudo o que tinha sido posto em marcha parou bruscamente, todas as ordens relativas à propaganda de que fomos encarregados por parte dos nossos escritórios do interior que se impacientavam, deviam ser anuladas, excelentes cartazes de um novo gênero e de execução artística, ao mesmo tempo que eficazes, no mais alto grau, prometidos a províncias, e reclamados por elas, foram subitamente interditados por nossos próprios chefes. Argumentou-se que não havia mais dinheiro – eu era o chefe da propaganda, mas, tinha sido gasta sem meu conhecimento, uma grande importância: centenas de milhares de marcos, quase todos os meios disponíveis; despenderam-se para imprimir brochuras escandalosas, contendo anedotas sobre a vida íntima dos chefes nazistas. Desejava-se enviar aos professores das escolas, aos sacerdotes e aos oficiais; era um trabalho enorme, uma empresa custosa, que exigia muito tempo, dando muito trabalho a nossos agentes mais ativos, ocasionando grande perda de dinheiro e, no meu entender, de efeito muito duvidoso e de valor moral absolutamente negativo. Sustentei, sempre, que só devíamos lutar com armas honestas, somente a atividade podia nos salvar. Ora, atividade e necessidade de escândalo nada têm de comum e sua confusão só viria nos prejudicar. Minhas advertências de nada serviram. Tinham encomendado as brochuras, esfregavam as mãos e prometiam um “sucesso estrondoso”.

Cheio de indignação, de amargura e de cólera, renunciei a meu trabalho e voltei para casa – dava-me conta perfeitamente de que a campanha estava com certeza, perdida; contara com um sucesso absoluto da vaga de entusiasmo desencadeada por nossas novas armas; a meu ver, devíamos obter um novo aumento de votos de 4 a 5 milhões. Era, evidentemente, impossível, agora; nossa campanha, semidesbaratada, por nós próprios, não poderia – segundo pensava – dar-nos mais de um acréscimo de um milhão de votos, no máximo. Mas, isso não era suficiente. Com efeito, todo o piano devia ter por objetivo assegurar uma enorme vitória, estrondosa, confundir os adversários, lançar os republicanos numa embriaguez de triunfo, que lhes permitiria utilizar o ímpeto e o espírito agressivo na futura batalha – as eleições prussianas – travar essa batalha decisiva na Prússia e aniquilar os adversários por uma série de combates de propaganda de uma envergadura gigantesca. Tinha submetido o plano dessa campanha à nossa direção suprema e também à direção do partido – a Otto Wells em pessoa.

O plano abrangia os escalões progressivos seguintes: uma vez vitoriosos na prussiana, as etapas seguintes deviam ser: concessão de liberdade de propaganda para a Frente de Bronze, a supressão da interdição do uso de uniforme e das manifestações, a exploração ao máximo dessa liberdade com o objetivo de educar as massas; em seguida, com a ajuda de novas campanhas de propaganda, obter a proibição das formações de assalto nazistas, as S.A. (somente então e não antes!) a campanha posterior devia concentrar-se sobre a depuração das administrações públicas – nada de inimigos da República no corpo de funcionários!

Todas as campanhas e vitórias, que uma atividade metódica e construtiva devia assegurar, levantariam bem alto o prestígio da democracia – também no exterior – o que, por sua vez, teria influenciado sensivelmente as próximas eleições na França e levado à vitória os partidos de esquerda. Nada entravaria, então, a entente com a França; uma nova campanha nesse sentido podia ser realizada. O problema posterior seria o desarmamento e o soerguimento econômico.

Meu plano ficou sem continuação; a direção do partido não tinha projeto algum, só pensava em viver o dia-a-dia; não tinha confiança em si mesma, nem nas forças que dirigia; de fato, perdera todo contato direto com essas forças, não as conhecia mais e abandonava tudo ao destino.

Minha predição se realizou; nossos ganhos não atingiram sequer o milhão de votos, mas, cerca de seiscentos mil. Não podia ser motivo de regozijo, de uma embriaguez de triunfo; ao contrário, os adversários que já se consideravam derrotados, retomaram coragem e se davam por “vencedores”. É verdade que a “vitória” dos nazistas foi relativa, mas, isso bastava. A ironia do destino quis, entretanto, que nosso estado-maior se curasse, de repente, dois dias antes das eleições, da angústia que lhe havia causado a intervenção de Horsing e desejasse continuar nosso plano – mas, o mecanismo estava destruído; só nos restou recolher os frutos de nossas próprias fraquezas e de nossos erros.

Meus amigos e eu contemplávamos a situação com inquietação. Era, apesar de tudo, nosso dever continuar a luta. Mas a tarefa a cumprir era enorme, tínhamos perdido muito terreno, os adversários iriam tirar proveito do seu avanço. Era véspera das eleições das assembléias das províncias numa série de estados. Hitler se preparava para se apoderar da posição chave da Alemanha – a Prússia. Seu empresário, Goebbels, proclamava – urbi et orbi – que os nazistas iam recorrer a métodos de propaganda “americanos”; isso devia ser uma resposta ao nosso ímpeto ofensivo: veiculava-se, com efeito, em toda a imprensa, que a Frente de Bronze orientava a propaganda segundo métodos americanos Goebbels declarava também que somas enormes à “americana” ainda iam ser empregadas em sua propaganda: por esse meio, esperava ultrapassar o adversário, aos olhos da massa burguesa estupefata. Era o método conhecido como “surpreender os burgueses épater le bourgeois”.

O trágico de nossa situação, entretanto, consistia no seguinte fato: se era claro que tínhamos obtido um certo sucesso moral na luta psicológica, não havíamos conseguido qualquer vantagem concreta: faltava a possibilidade de consolidar nossa força ofensiva, nossos dirigentes não tinham nenhuma compreensão para isso, eram surdos e cegos, sempre prontos a contrariar, a entravar tudo o que lhes parecia muito audacioso e fora da rotina. Mas, a condição essencial do sucesso, o poder real de dispor da rede das organizações operárias e dos meios financeiros, estava, entretanto, em suas mãos.

Que era preciso então fazer? Não havia um dia a perder na luta contra o perigo hitlerista, mas, era preciso recomeçar tudo do alicerce! Diante de mim erguia-se a tarefa de fazer, antes de tudo, nas nossas fileiras, a propaganda em favor da propaganda. A campanha eleitoral de Hindenburg tinha sido uma terrível prova da insuficiência da propaganda oficial do nosso partido. Era infinitamente humilhante ver que o maior partido político da Alemanha, o melhor organizado e que, na realidade, poderia ter decidido sobre o desfecho do combate, permanecia incapaz de se servir das armas espirituais e desenvolvia uma propaganda tão pouco eficaz: atrasada, ultrapassada, enfadonha, doutrinária, desprovida de toda imaginação, mesquinha, inadequada ao espírito e ao ritmo da vida moderna. Em suma, toda a mentalidade do fim do século passado estava ali em vigor.

Entretanto, em decorrência dos acontecimentos, tudo levava a crer que a eventualidade de novas eleições para o Reichstag não estava completamente afastada; em caso de vitória hitlerista, nas eleições prussianas, pareciam inevitáveis. Na verdade, olhada do ponto de vista da propaganda, a situação não nos era desfavorável; teríamos tido então, de novo, oportunidade de medir forças com o adversário: era tempo ganho. Quem sabe? talvez conseguíssemos então que nossas idéias fossem adotadas? Tinha certeza disso: uma vez donos da máquina, da rede de nossas organizações, saberíamos desencadear, em algumas semanas, um grandioso movimento, todo nosso programa se desenrolaria então sem dificuldades. Mas, como evitar o maior tropeço, a rotina, a incompreensão dos chefes responsáveis? Poder-se-ia talvez esperar afastar, no curso de um congresso, os elementos passivos, que se encontravam à frente do partido: havia muitos descontentes com a política errônea dos chefes e facilmente inflamáveis – mas, era, precisamente, a razão pela qual fugia a possibilidade de a direção do partido convocar um congresso, enquanto a campanha política estivesse no auge. Havia apenas um meio: tentar convencer os chefes.

Escolhi os três caminhos seguintes: artigos instrutivos nos jornais, a persuasão pessoal e a exibição de provas práticas dos resultados eleitorais no decorrer das eleições seguintes para as dietas provinciais. Publiquei uma série de artigo sobre a nova propaganda, sobre as experiências feitas no curso das lutas eleitorais e sobre a “ativação” do movimento operário. Tentei convencer, pessoalmente, cada um destes em particular: Vogel, Breitscheid. Hilferding, Hertz, Grassmann, Kunstler, Heilmann, Löbe, Stampfer e outros – ia procurá-los, falava horas inteiras, esforçando-me por persuadi-los, baseando-me em números, quadros e mapas. Quando lhes falava, separadamente, cada um concordava em admitir que muitas coisas estavam erradas em cima, prometiam combater a inércia e a rotina e ajudar-me a introduzir novos métodos. Mas, reunidos em comitê, rejeitavam todas as novas idéias. Reenviavam-me a “Júpiter”, na pessoa de Otto Wels, o grande chefe do partido e todas as conversas terminavam com essas palavras: “Se ele não quer, é trabalho perdido”.

Precisava então abordá-lo. Era uma tarefa que ia me criar embaraços. De fato, conhecia, antecipadamente, sua atitude hostil a respeito de nossa nova propaganda. A princípio, não queria compreender um combate por símbolos. Seus argumentos eram inteiramente inacreditáveis, na boca de um chefe revolucionário: “Tornar-nos-emos ridículos com essas ninharias” e: “Teremos aborrecimentos com a polícia!” (lembremos que se tratava de um socialdemocrata!) Um dos camaradas dirigentes da Frente de Bronze passou cinco horas com ele para persuadi-lo a dar aprovação aos novos símbolos que já tinham sido experimentados na luta. Consentiu, enfim, quando lhe foi apresentado, da parte da chefia de polícia berlinense, um documento especial redigido pelos jurisconsultos, assinado pelas autoridades policiais e carimbado de acordo com o regulamento. Esse documento dizia que a polícia nada tinha a objetar, que não interviria, se os operários socialistas desenhassem as três flechas nos muros!

Decidi-me, mesmo assim, a falar-lhe. Encontrei-o nos corredores do Reichstag, a 13 de abril, dia do congresso sindical. Abordou-me de forma abrupta: “Qual é então vossa experiência de luta entre nós?” Respondi: “Camarada Wels, devo dizer a verdade. Três fatores atuam no nosso partido, a saber: as massas, as organizações do partido e sindicatos e a direção; o primeiro é excelente: as massas são inteligentes, disciplinadas, prontas para o combate, entusiastas. O segundo fator, o mecanismo das organizações, é também excelente. É natural: uma organização que existe há 70 anos deve ser boa. O aparelho do partido está à altura de toda situação, e capaz de assumir qualquer tarefa; na realidade, a organização poderia produzir muito mais do que lhe é exigido atualmente. Quanto ao terceiro fator, a direção, devo confessar francamente: a cabeça ... está podre. É aí que reside nossa fraqueza, a direção freia tudo, toda ação, todo ardor de combate, está desencorajada, não tem confiança nas massas, nem nas organizações, nem em si própria.

O rosto de Wels enrubesceu, os espectadores dessa cena abriram os olhos espantados – a tempestade ia explodir. No entanto, não era de minha parte mais que um ardil psicológico, pois, prossegui imediatamente: “Mas, você, camarada Wels, você pode remediar tudo, pode desempenhar o papel de um Lênin alemão – afaste o mais rapidamente possível os entraves, apague os erros acumulados pelos chefes incapazes; suprima-os!”. A expressão de Wels alegrou-se, um sorriso cheio de bonomia apareceu em seus lábios e, com olhar malicioso, disse: “Muito bem, falaremos, venha amanhã ao secretariado do Partido; você terá uma hora inteira”.

A esperança surgia. Camaradas me felicitaram, dizendo: “Metade do assunto está ganho. Talvez consigamos vencer, apesar de tudo.” No dia seguinte, fui ter com Wels. Encontrei-o cercado de velhos burocratas do partido. Pus na obra toda minha eloqüência, tentei conquistá-los, ele e os outros; em vão, era trabalho perdido. No fim de meia hora, ele foi chamado para fora, os demais caíram sobre mim: “Que é que você quer? perguntaram eles, trabalhamos com todas as nossas forças, cuidamos de tudo, nada temos a aprender de você, não precisamos de nada, de coisa nenhuma”.

Compreendi que a batalha estava perdida.

Restava-me ainda a terceira e última possibilidade – a de persuadir a direção através dos próprios fatos. Era véspera de quatro eleições das dietas regionais: Hamburgo, Wurtemberg, Baviera e Prússia. Eu estava certo da vitória em Hamburgo – já havia falado sobre ela quando do segundo escrutínio das eleições de Hindenburg, diante de uma grande assembléia de “esclarecimento”, composta de 2.000 funcionários do partido, obtivera um sucesso espantoso, encontrara uma absoluta compreensão e verdadeiros homens, mesmo entre os chefes. Ali os novos métodos tinham penetrado e sabia que tudo marcharia a contento. Mas, a jogada era muito pequena. A Baviera estava localizada à parte e, lá, as circunstâncias eram muito especiais.

Escolhi Wurtemberg, onde havia feito algum trabalho preparatório, por ocasião do primeiro turno eleitoral para Hindenburg. Após longa discussão com os chefes, meu plano foi aceito, a mais ampla aplicação dos novos métodos foi decidida. Depois de haver dado uma série de diretivas técnicas, parti para Berlim, com o coração aliviado. Wurtemberg, parecia igualmente ganha para a causa da razão. A grande questão era, agora, a Prússia. Berlim apresentava-se sob um aspecto desolador: as grandes frases não faltavam na imprensa do partido e nas assembléias públicas, mas, atrás dos bastidores, percebia-se logo que a maior confusão reinava por toda parte – Não existia verdadeira direção política. Os chefes estavam todos nas províncias, onde falavam freqüentemente em pequenas e insignificantes reuniões, o escritório do partido inundava, como sempre, as organizações com sua literatura ineficaz e muitas vezes francamente ridícula. A organização da Frente de Bronze, onde parte das novas idéias penetrara, não tinha trabalho; o partido a havia paralisado sob o pretexto de que as eleições para as dietas provinciais eram políticas em que todos os partidos cruzavam suas armas e, uma vez que na Frente de Bronze, além dos social-democratas, havia também elementos dos partidos democratas e do centro (1 para 100), não se podia, em princípio, pôr em funcionamento essa organização pelo partido socialista apenas! O partido era encarregado de toda “direção” da luta, mas, como eu viria a saber, uma verdadeira direção não existia. Procurava-a por toda parte. Ia de uma organização a outra. Não a encontrava, simplesmente porque não existia. A direção da Frente de Bronze tinha outros cuidados – as altercações com o general Grõner, da Reichswehr, a respeito da dissolução das S.A., intrigas em torno de Hindenburg, etc.

Nossas melhores forças estavam fora da luta decisiva; faziam, aqui e ali, alguma coisa de sua própria iniciativa, na província, mas, tudo sem coordenação, ao acaso e, além disso, sempre paralisados pelos conflitos com as secretarias locais do partido. Todas as minhas tentativas de reparar, de persuadir, em benefício de uma ação real, eram infrutíferas. Percebia que a batalha da Prússia estava perdida. Minha profecia se realizou. Em Wurtemberg sofremos igualmente uma derrota. Desalentado, fui a Stuttgart. E que verifiquei? Nenhuma das decisões da Conferência do Plano tinha sido executada. O escritório do partido em Berlim tinha inundado Wurtemberg também de sua papelada; segundo o velho costume, todos os esforços tinham sido empregados em coisas inúteis. Lá também, a Frente de Bronze estava paralisada; reconhecia-se, mais uma vez, que os novos métodos eram os únicos eficazes, mas, a antiga rotina tinha vencido e perdêramos, assim, uma posição importante.

Somente um lugar não falhara -- Hamburgo. Tinha-se, ali, lutado de fato e obtido a brilhante vitória que eu previra. Os novos métodos obtiveram sucesso e todo mundo falava em seu favor; o combate por símbolos tornou-se popular no seio do partido, sobretudo no interior; conduzia-se enfim a insígnia das três flechas na lapela, as bandeiras vermelhas com três flechas surgiam por toda parte, muitas pessoas saudavam-se nas ruas com o grito de Freiheit e um grande número de jornais do partido colocara, afinal, o símbolo das três flechas no alto de sua primeira página. Um dos raros jornais que não o fazia, que se obstinava na recusa, era o órgão principal do partido, o Vorwärts.

A vitória na Prússia fez com que os nazistas levantassem a cabeça, agora falavam alto, exigiam a reconstituição das S.A., interditadas depois da segunda eleição de Hindenburg e se conduziam inteiramente como donos do futuro. O poder do Estado estava cada vez mais paralisado. Sentia-se, no ar, a aproximação da reviravolta. A direção da propaganda nazista compreendia perfeitamente que era preciso tomar, mais uma vez, a ofensiva psicológica para abrir caminho à reviravolta. Necessitava de uma eleição suplementar favorável.

Com a ajuda do partido populista alemão, completamente desmoralizado, Hitler impôs novas eleições em Hesse. Estávamos, então, às vésperas de um novo combate. Respirei livremente enfim, uma ocasião favorável apresentava-se para nós; em Hesse, nós, os adeptos das novas idéias, contávamos com as melhores forças e as posições chaves estavam ocupadas por homens ativos. Um telegrama arrancou-me, novamente, ao meu trabalho científico em Heidelberg; corri e lancei-me à luta com alegria e confiança. Nós e os adversários compreendíamos a sua importância, era a batalha psicológica decisiva. Se vencêssemos, o caminho talvez estivesse livre para fazer valer a única arma segura, a nova propaganda; se o acesso ao poder fosse novamente barrado a Hitler, despontaria uma nova vaga de confiança em nossas forças e muitas oportunidades surgiriam para a luta futura. Se Hitler ganhasse a batalha de Hesse, provaria que sua chegada ao poder estava assegurada, poria fim ao começo de dissolução, que se verificava nas fileiras das S.A., fatigadas de esperar sempre por suas promessas. O combate de Hesse deveria ser uma luta de morte com armas do espírito. Todos os partidos mobilizaram suas forças, essa pequena área foi inundada de oradores, de cartazes e boletins. Quase todos os membros do Reichstag estavam ali reunidos. Percorriam a região em todos os sentidos. Hitler se esmerava; Goebbels punha-o a falar, a céu aberto, em todos os distritos de Hesse, diante de enormes multidões, reunidas ao som de tambores e constituídas sobretudo de camponeses; o maior tam-tam foi encenado: flores, bandeiras, rufar de tambores, desfiles, archotes – tudo foi usado.

Mas, desta vez, não dormimos. Já desde a primeira noite, um plano de campanha foi traçado segundo todas as regras da arte da organização racional, discutido a fundo e lançado através da rede de nossas fileiras. Um controle moderno dos resultados, com a ajuda de mapas que permitiam seguir toda a marcha do combate: um pequeno boletim redigido em termos enérgicos foi espalhado – como a golpes de martelo metia na cabeça das massas a fé no poder de nossos símbolos, despertava o ardor do ataque e a confiança em suas próprias forças e, sobretudo, lançava os três principais slogans sob os quais pretendíamos conduzir a luta: Atividade ressuscitada, Disciplina de ferro, Solidariedade operária. Toda a campanha estava dividida em semanas, de maneira a obter, em cada uma delas, tensão sempre crescente. Graças a certos ardis, mantínhamos as massas atentas, prometendo a próxima vinda de “Schorsch”, figura popular das massas de Hesse – falava-se com curiosidade do “Schorsch de ferro”, que surgiria, em Hesse, no decorrer das últimas semanas, cochichava-se o que isso deveria significar e ria-se de boa vontade, quando apareceu, por toda parte, nos jardins, nas praças públicas, etc., sob a forma de uma grande vassoura de ferro varrendo os nazistas para fora de Hesse. O símbolo plástico foi sustentado por um cartaz-imagem espalhado em grande número de exemplares e que representava, em estilo moderno, um trabalhador vigoroso, varrendo um montão de detritos no qual turbilhonava uma mistura de cruzes gamadas quebradas. Bandeiras vermelhas com três flechas eram expostas nas janelas, todo mundo conduzia a insígnia; em duas semanas, foram vendidas 50.000 insígnias, embora o número de social-democratas em Hesse não fosse senão de 10.000; nas ruas, os ciclistas desfilavam com suas bandeirolas de três flechas flutuando ao vento, por toda parte havia a saudação com o punho levantado e ouvia-se o grito Freiheit! Agora, que tinham obtido uma tal popularidade, o efeito dos símbolos era extraordinário e sempre o mesmo: despertavam a alegria das nossas fileiras, o estupor e a cólera impotente do inimigo, a maior perplexidade e surpresa nas massas dos burgueses e dos indiferentes. Símbolos das três pequenas flechas em papel rolavam, por toda parte, nas ruas; todos os muros, todas as paliçadas e até o asfalto estavam ornados em nosso símbolo de combate vencendo a cruz gamada; pequenos cartazes de todas as cores, contendo dísticos, que falavam de nosso poder ou zombavam dos adversários, eram colados por toda parte; seus versos fixavam-se facilmente na memória e os popularizavam rapidamente. Nossas colunas marchavam nas ruas com um passo retumbante, com bandeiras a flutuar, assumindo ares de bravura e nossas canções eram saudadas pelos gritos de alegria e de triunfo da multidão.

Enfim, via-se, em tudo, o nosso poder. Trabalhávamos agora, também, criando, em torno de nós, um “clima de força”, como diz Domenach: nossos símbolos, nossas insígnias, bandeiras, uniformes, cânticos, tudo estava impregnado da vontade de lutar e de vencer, tudo exalava confiança em nossas hostes. E, finalmente, todo mundo tinha compreendido que a melhor demonstração de sua força era a unanimidade ostentada em toda parte.

Num abrir e fechar de olhos, nossas possibilidades aumentaram. As reuniões públicas, que nunca tinham sido como agora, podiam regozijar-se da afluência; faziam-se poucos discursos teóricos, nas reuniões, mas a confiança e o ardor agressivo foram um tanto melhor incutidos aos militantes pelos métodos de propaganda que atuavam sobre o subconsciente, ao mesmo tempo em que o juramento da fidelidade apelava para sua consciência. A ginástica revolucionária, como a chamávamos, foi utilizada: diálogos entre o orador e a multidão, que a incitavam a gritar, a curtos intervalos, Freiheit! e a erguer o punho, em forma de saudação [448] A finalidade era injetar mais energicamente, por meio de atos de vontade coletivos, o ardor combativo no espírito de cada um, a fim de facilitar a explosão no futuro. Em todos os lugares, sentia-se o calor das massas populares, a animação, o poderio, o espírito de luta.

A guerrilha dos símbolos-imagens fazia furor em Hesse e tomava as formas mais singulares. Somente então, os adversários começaram a procurar meios para combater nosso símbolo, para destruí-lo, para dele zombar. Respondemos prontamente. Em muitos lugares, tentaram mudar nossas três flechas em três guarda-chuvas. Barramo-lhes uma segunda vez! Os guarda-chuvas eram considerados como um emblema burguês. Nosso símbolo era restaurado (fig. 16). Destruíam o efeito das flechas desenhando pontas, do lado oposto; mudávamos logo em flechas quebradas e uma cruz gamada triunfante em cima – alterávamos a imagem em uma chuva de flechas atingindo a cruz gamada – e tínhamos novamente a última palavra. Desenhavam uma mão parando as três flechas e escreviam: “Alto lá.” Alongávamos as flechas, fazendo-as traspassar a mão e escrevíamos: “Assim mesmo, ai de vós!”

Fig. 16
Guerrilha de símbolos: deformação de três flechas da Frente de Bronze pelos hitleristas e a resposta reparadora do símbolo dos socialistas.

Veio então a mais alta expressão do dinamismo político das massas – as manifestações. Nesse meio tempo, o governo de von Papen chegara ao poder, com a ajuda de Hitler e, para recompensá-lo, concedeu-lhe o que era da maior importância para sua propaganda: o restabelecimento das S.A. A interdição do uso de uniformes foi suprimida e todos os partidos tiveram permissão de marchar em colunas. Nos nossos jornais e também na imprensa burguesa moderada, dessa época, atacou-se fortemente Hitler e von Papen por essa medida: zombava-se deles, dizendo que nada tinham podido encontrar de mais útil. Gracejava-se erradamente: Hitler do ponto de vista de sua tática, tinha jogado um lance de xadrez inteiramente justo. Com uma coisa apenas ele não havia contado: acreditava-se na posse de um monopólio, baseava-se no fato de que, até então, a imprevidência psicológica e a imperícia da técnica de propaganda de seu principal adversário, o partido social-democrata, se haviam revelado constantemente.

Então, Hitler marchava e nós marchávamos também: em grande pompa e esplendor, música na frente, saudados pelos gritos de alegria da multidão; nossas formações, bandeiras flutuando na dianteira, novamente munidos de uniforme, foram buscar, na estação de Darmstadt, a bandeira das três flechas, vitoriosa em Hamburgo. Esse ato simbólico marcava a vontade de atacar, de aumentar nossas forças em Hesse. Depois desse começo, organizei as manifestações segundo princípios novos. Parti da seguinte idéia: numa manifestação pública, tinha-se ao vivo, na rua, por assim dizer, os dois grupos de homens de que falamos: os ativos (os “5.000”, segundo nossa terminologia) marchavam no desfile; os hesitantes ou passivos (os “55.000”) formavam, na calçada, uma cerca de espectadores, de curiosos. O fim da manifestação, assim como de toda a propaganda desse novo gênero, era captar os passivos, estimulá-los e arrastá-los conosco. Para isso, era preciso fazer crescer, ao máximo, a curiosidade que se manifestava nesse grupo de homens, despertar suas simpatias para nossas idéias e objetivos, incutir-lhes a fé em nossa força e incitá-los a se associarem à nossa ação, a fazer causa comum conosco. Para esse fim, um desfile devia representar, de uma certa maneira, um livro de muitas páginas ilustradas, reunidas de maneira lógica, que produzisse um efeito sempre crescente, a fim de arrastar, mesmo involuntariamente, os espectadores numa torrente de idéias determinadas e impressioná-los pelo arremate final: votem conosco! O livro era dividido em capítulos, por sua vez subdivididos em grupos simbólicos que se seguiam em intervalos preestabelecidos, constituídos de formações da Bandeira do Reich, de formações dos sindicatos, de nossos desportistas, etc.: era racional; assim, após cada grupo, o espectador podia respirar, para se deixar melhor impressionar pelo grupo seguinte. Os quatro capítulos característicos eram: a) a tristeza da atualidade; b) a luta de nossas forças contra ela; c) a ironia contra o inimigo; d) nossos objetivos e nossos ideais. Enumerados na mesma ordem, os quatro sentimentos fundamentais para que se apelava, sendo: a) a compaixão; b) o medo (nos adversários) e a coragem (nossa); c) o riso; d) a alegria. Os espectadores expunham-se, assim, a percorrer toda uma gama de sentimentos.

O público foi a princípio submetido ao sentimento depressivo, a angústia; inspirei-me, para esse fim, numa cena de Opéra de Quat' Sous, do cortejo de infelizes; sem música, num silêncio sinistro, marchavam as vítimas da guerra, os órfãos, as viúvas e os inválidos; os mutilados eram transportados em viaturas; as vítimas da crise capitalista, os desempregados, os sem asilo e os famintos, seguindo-se, enfim, as vítimas do nazismo – os espancados, os feridos, que marchavam com muletas e com os membros pensados. A multidão estava impressionada, emocionada, suspirava, cheia de angústia e de revolta, sofria visivelmente.

E eis, de repente, uma saída, um raio de luz, uma esperança – eram os libertadores, que simbolizavam nosso poder e nosso ardor combativo pela liberdade do povo, pela abolição de todas as injustiças sociais: com música na frente, ao som de marchas militares e com passo cadenciado, desfilavam as formações em uniforme, tendo, entre eles, grupos simbólicos representando a força e a capacidade combativa de nossos camaradas – na vanguarda uma dúzia de jovens fortes, uniformizados, levando, acima de suas cabeças, três flechas enormes de metal brilhante, luzindo ao sol. Ao ritmo da música, executava-se, sob comando, um movimento na frente das flechas, ao grito simultâneo de Freiheit! Cada trinta segundos, esse movimento era repetido. Isso produzia, sobre todos, um efeito dinâmico enorme, os espectadores se alegravam, eram arrastados, gritavam Freiheit e vibravam de emoção. De um só golpe, o “clima de força”, como o chama Domenach (45), foi criado.

Seguia-se um caminhão, carregando um bonito jovem da Bandeira do Reich, com um estandarte vermelho das três flechas na mão, e o braço direito levantado para a saudação Freiheit. Estava cercado de clarins, ornados de bandeirolas vermelhas com as três flechas. Um outro caminhão apresentava uma evocação emocionante, “a sombra de Bebel”: numa tela, estava pintada uma silhueta negra, representando a cabeça do grande tribuno em perfil iluminado por um projetor colocado no caminhão. Na carroçaria de uma outra viatura, ornada de ramos verdes e de faixas vermelhas, vinha a Deusa da Liberdade – uma moça alta e bonita, vestida de vermelho e com um barrete frígio na cabeça, o olhar para frente, tendo na mão esquerda uma grande bandeira vermelha com as três flechas e, na direita, uma espada apontada para frente. Simbolizava a figura da Marselhesa, de Rude, do Arco do Triunfo, em Paris. Clarins soavam em torno dela e atrás se erguia toda uma floresta de bandeiras vermelhas, flutuando ao vento, levadas pelos jovens socialistas (a cor vermelha dá um efeito fisiológico intenso). A seguir, um grupo de bonitas jovens, vestidas de bandeiras vermelhas com três flechas, tendo a espádua direita descoberta; agitavam bandeiras vermelhas e carregavam archotes – eram as “Tochas vivas da Liberdade”. Vinham depois muitos grupos, provocando a alegria e o entusiasmo dos espectadores, que chegavam ao delírio. Para dar ao espírito, tenso até o extremo mister mudar a qualidade das emoções: era o objetivo do terceiro “capítulo” do desfile. Continha grupos que zombavam do inimigo: a emoção da multidão era, agora, orientada em outra direção. A princípio, um rocim puxando uma carroça de carrasco, em cuja borda se balançava uma boneca derribada com uniforme das S.A. e com traços de Hitler; a carroça era seguida de um grupo de homens que cantavam alternadamente canções populares Muss'i denn et Adolf, ade, Secheiden tut weh (Adolfo, adeus, a separação é cruel) e executavam gestos de adeus infantis. Depois, vinham os camponeses em trajes nacionais, que traziam em seus forcados grandes cruzes gamadas traspassadas; um automóvel de cor malva trazia adolescentes efeminados com uniforme das S.A. – alusão às tendências especiais do capitão Röhm, chefe do Estado-Maior das S.A. Em seguida, grupos que cantavam árias em voga do filme O congresso se diverte, com palavras adaptadas, naturalmente, tais como:

“Den gab's nur einmal,
der kommt nicht wieder...”
(Um tipo como ele (Hitler) só existe uma vez,
um tipo como ele não virá jamais).

Os espectadores torciam-se de rir. O riso relaxa, desinibe um estado de tensão. Entre esses grupos, marchavam as organizações esportivas, diversas associações, a juventude, etc., gritando, sem cessar, Freiheit, levantando o punho cerrado em sinal de saudação. Entusiasmada, a multidão compacta, nas ruas, soltava também o mesmo grito Freiheit, que se misturava ao clamor das colunas em marcha.

O quarto “capítulo” do desfile representava os ideais e as reivindicações socialistas. Tambor rufando e bandeiras vermelhas desfraldadas, toques atordoadores de fanfarras, desfilavam colunas da juventude socialista, trazendo, na frente, uma faixa com a inscrição: A juventude – esperança do povo. Vinha, a seguir, um grupo A fraternidade dos povos: num caminhão, homens e mulheres, trajando diferentes trajes nacionais apertavam as mãos. Outro grupo intitulava-se: O reinado do trabalho. Era um caminhão com uma bigorna. Dois vigorosos trabalhadores batiam, Cadenciadamente, na bigorna, com pesados martelos, ao ritmo da música. Em torno, marchavam operários de macacão, carregando instrumentos de trabalho. Em seguida, um grupo União dos operários e camponeses: homens com traços rudes de lavradores, montados em pesados cavalos de tiro avançavam, cercados de artesãos; trazendo suas insígnias profissionais, guiando os cavalos pelas rédeas e estendendo a mão aos camponeses. Muitos grupos do mesmo gênero se seguiam. Um dos últimos era das Três flechas vitoriosas: duas filas de moças com vestidos claros, conduzindo coroas de flores, cercando três bonitas jovens que, no centro, conduziam três flechas douradas, ornadas de flores, com a ponta para o céu, simbolizando a palavra de ordem socialista “Para a luz”!, enquanto uma banda de música tocava, alternadamente, a canção Brüder, zur Sonne, zur Freiheit! (Irmãos, avante, para o sol, para a liberdade!) canções populares melodiosas, e valsas vienenses de Johann Strauss.

Era a apoteose. A multidão delirava, alegre e emocionada, aos gritos de Freiheit, soltados, sem cessar, pelas colunas em marcha e o público, na calçada, se misturava à música e aos passos cadenciados das massas trabalhadoras, e produziam, pela união, uma impressão inapagável. E eis o acorde final – a exortação à ação. Era um grande caminhão, em que ressaltava um grande número I, recoberto de tecido vermelho, com a inscrição Vote na lista I. Em cima do caminhão, em torno de uma urna eleitoral, estavam quatro personagens com trajes característicos: um camponês, um operário, uma mulher e um intelectual. Colocavam, ininterruptamente, envelopes brancos dentro da urna, representando as cédulas eleitorais. Eis o que devia também fazer, no dia das eleições, o espectador persuadido, conquistado pelo “livro”, que acabava de “folhear”, olhando o desfile.

Para tornar a multidão de espectadores ainda mais sensível ao espetáculo, para excitá-la pelos ruídos (“tóxicos sonoros”), como diz De Felice (37), fez-se circular, em torno do desfile, motocicletas cujo ruído ensurdecedor dava a impressão de velocidade, de importância, de perigo.

Enfim, o máximo de intensidade de impressões era obtido pelos desfiles noturnos, em meio de tochas flamejantes, soltando rolos de fumaça. O espetáculo tornava-se alucinante. Bachelard (12) [449] “mostrou que o fogo impele o homem para diversos e profundos devaneios. O fogo produz um efeito ao mesmo tempo exaltante e terrificante”. De Felice (37) fala da verdadeira magia do fogo. O fogo mergulha sobretudo os primitivos numa louca excitação. Somos levados a pensar no “furioso entusiasmo das bacantes e mênades, quando corriam pelas florestas da Trácia e da Grécia, brandindo tirsos e archotes de resina. Mesmo atualmente, o fogo da lareira engendra sonhos e fantasmagorias [450]” E são os fogos de artifício que encerram, muitas vezes, as festas populares noturnas e fascinam as multidões.

Tivemos, então, uma surpresa que mostrava o resultado palpável da manifestação: atrás do desfile propriamente dito, via-se formar um novo e longo desfile, sem bandeiras, nem música. Eram os “ativos”, os espectadores hesitantes conquistados que, não podendo mais guardar uma atitude passiva, se lançavam também na passeata e faziam causa comum conosco – estavam ganhos. Era uma prova clara, incontestável da ativação, um triunfo da eficácia dos novos métodos de propaganda.

Uma imagem da última grande parada das tochas, antes do dia das eleições em Darmstadt, gravou-se profundamente na minha memória. Vinte mil homens marchavam na noite, iluminados pelos archotes e envolvidos por espessas nuvens de fumaça; entre as massas, grupos simbólicos surgiam, a cada instante, com aspecto fantástico, pitoresco, pelas cores gritantes, aclarados por uma luz crua e fremindo de vida; o vermelho vivo das bandeiras, a música, os gritos Freiheit, o troar de milhões de passos, batendo com ritmo no solo, fundiam-se numa sinfonia estranha; um êxtase apoderava-se da multidão em delírio. Achava-me ao lado de uma viatura de imprensa e dos membros do Reichstag reunidos na cidade. Observei Löbe, o presidente do Reichstag. Estava de pé, apertando, com as duas mãos, sobre o coração, um ramalhete de flores que uma criança lhe tinha oferecido. Fixava os olhos na massa que o aclamava, desfilando diante dele; o homem político, calmo e ponderado, era bruscamente transportado para um outro mundo, quase imaginário; via-se que estava perturbado, emocionado, comovido até o fundo da alma. Passado o desfile, Löbe veio a mim e tomou-me as duas mãos dizendo: “De fato, vi hoje que você tinha razão”. Despedimo-nos. Retomei confiança: iria ele ao fim da resistência, ousaria?

Em Hesse, ninguém duvidava mais do efeito de nosso novo meio de combate; de todos os lados, ouvia-se dizer: “Enfim, a classe operária começa a tomar consciência de sua força! Os nazistas estão acuados na defensiva!” (fig. 17) As manifestações de entusiasmo provocadas pelos nossos desfiles na população e que vibrava nas nossas assembléias eram indescritíveis e produziam uma impressão indelével em todos os assistentes. A fé coletiva nas próprias forças, a confiança na vitória, sentimentos de uma ordem talvez mais elevada, puramente humana, tudo isso surgira como por encantamento no meio das massas.

Tinha-se uma prova incontestável, examinando-se as fotografias dos rostos dos manifestantes (fig. 14) [451] Não mais se viam faces contraídas pela cólera ou pelo ódio, mas, homens em êxtase, em estado de feliz libertação. Isso impressionava se confrontadas as expressões dos rostos em nossos comícios com as dos ouvintes dos discursos hitleristas.

Aos olhos de todos, operava-se um milagre: a transformação em dinamismo ativo da enorme energia latente, acumulada na classe operária. A vitória iminente e certa brilhava nos olhos de todos em Hesse. E ela veio, efetivamente, a 19 de julho. O partido social-democrata, a despeito de todas as previsões dos inimigos, seguros da vitória, e de homens políticos profissionais, tinha ganho duas cadeiras: o governo socialista permanecia no poder. Em decorrência das eleições de Hesse, o círculo mágico que mantinha alerta todos os espíritos e que produzia um efeito paralisante sobre toda iniciativa, sobre toda tentativa de parar a vaga transbordante da loucura política das massas – o hitlerismo – estava enfim quebrado. Agora, sabia-se finalmente que era de fato possível vencer o movimento da cruz gamada. Aí residia a enorme importância das eleições em Hesse. Era o soerguimento psicológico das massas. Desde muitos meses, mesmo nas rodas republicanas mais ativas, a opinião dominante era que, a longo prazo, a luta permanecia sem esperança, que se podia, no máximo, conseguir um certo retardamento na subida de Hitler ao poder, que o sentido real da luta devia ser fatigar o inimigo e preparar uma reabilitação mais fácil depois da catástrofe. A esperança de que Hitler não chegaria ao poder parecia inteiramente abandonada. Ora, sabíamos agora que, apesar de tudo, isso era possível e sabíamos também os meios através dos quais se podia vencer. Os fatos e os números seguintes mostravam claramente: Darmstadt era, para nós, o último lugar em que poderíamos triunfar – um centro administrativo, quase desprovido de indústria, uma antiga cidade de residência e de quartéis, habitada por funcionários e aposentados. Seguro da vitória, o movimento hitlerista fazia furor em Darmstad, verdadeira fortaleza do nazismo. Em Darmstadt, o próprio Hitler tomou parte na luta eleitoral: uma propaganda formidável com paradas de archotes devia persuadir definitivamente a população de que o “sistema socialista” estava no fim, de que o III Reich se aproximava.

Fig. 17
Cartaz anti-hitlerista da Frente de Bronze baseado no mesmo princípio que a figura 15.

Ora, tudo isso de nada serviu, os números são convincentes: todos os partidos, mesmo os do centro católico, perderam votos. Os nazistas perderam cerca de 600. O único partido vitorioso foi o nosso, o social-democrata. Contra toda expectativa, sua votação cresceu, em Darmstadt, de 1.500 votos.

Tínhamos uma prova verdadeiramente irrefutável de que nossa vitória era, de fato, o resultado da aplicação judiciosa de medidas de propaganda rigorosamente calculadas. Os números seguintes no-lo indicavam em cinco cidades de Hesse: Offenbach, Darmstadt, Mogúncia, Worms e Giessen. A conferência de “esclarecimento” dos militantes do partido, o funcionamento de todo o novo aparelho de propaganda, foi realizada nas quatro primeiras, mas, não em Giessen – escolhi expressamente essa cidade como uma espécie de cobaia-testemunha – e aconteceu que Giessen foi a única cidade em que o partido social-democrata teve uma derrota, enquanto nas demais, conseguimos um aumento bem sensível de votos. Podíamos concluir que a vitória era função de medidas organizadas de maneira bem determinada. Além disso: o começo da propaganda, nas quatro primeiras cidades, ocorreu na ordem seguinte: Offenbach – 25 de maio; Darmstadt – 27 de maio; Mogúncia – 30 de maio; Worms – 6 de junho.

Os votos ganhos nessas cidades estão na mesma ordem: Offenbach – 3.300 votos; Darmstadt – 1.500; Mogúncia – 1.300; Worms – 600. Devíamos concluir que, com esses métodos, o resultado era questão de tempo.

Assim, a experiência de Hesse vencera de maneira absoluta. Finalmente tínhamos nas mãos meios seguros para resolver o problema: derrotar Hitler.

Enquanto a luta eleitoral em Hesse atingia o auge, a situação política revestira-se, subitamente, de um novo aspecto em todo o Reich: von Papen, tendo dissolvido o Reichstag, convocou o povo para novas eleições em 31 de julho. A direção do nosso partido encontrava-se diante de problema da preparação, no mais breve prazo possível, de nova campanha eleitoral. O resultado positivo de Hamburgo e os sucessos, agora geralmente visíveis, que havíamos obtido em Hesse, graças aos novos métodos, pareciam suficientes para tirar os chefes do partido de seu sono.

Agora, que a imprensa hostil e burguesa da Alemanha e os grandes jornais estrangeiros, especialmente o Manchester Guardian, chamavam a atenção para a ressurreição da social-democracia em Hesse e atribuíam, sem rodeios, à luta por símbolos e aos novos métodos de propaganda empregados pela Frente de Bronze, agora, enfim, os chefes do partido em Berlim esfregavam os olhos, abriam os ouvidos e pareciam inclinados a também aderir; dignavam-se agora, a interessar-se por novas idéias. Meu amigo, o eminente deputado socialista de Hesse, Dr. Carl Mierendorff e eu próprio, fomos chamados a Berlim para entendimentos – pediam-nos que mantivéssemos conversações com o comitê supremo do partido, a respeito dos novos métodos de combate. Mais uma vez a esperança retornava: íamos, enfim, talvez, alcançar nossos objetivos. Trabalhamos com todo afinco, todas as experiências da luta eleitoral em Hesse foram levadas em consideração, um plano de organização foi elaborado para a campanha eleitoral do Reichstag, todas as ações, todas as palavras de ordem e todo progresso técnico foram examinados a fundo e esclarecidos. Apresentamo-nos diante do comitê do partido. Trabalho perdido. Vi, desde logo, que não podíamos contar com sua compreensão. O comitê aceitou, é verdade, os novos símbolos e ordenou a luta, mas, sua vontade combativa não passava de um blefe. Ah, não se podia misturar vinho novo com o velho! Não tinham mais a coragem de confiar às forças jovens, vigorosas e descompromissadas, a direção da luta e de lhes dar assim a responsabilidade de se habilitar para dirigir os assuntos. A velha corja queria fazer tudo, esperava tirar proveito pessoal das novas idéias. Pela aplicação de métodos cuja eficácia era agora incontestável, desejava restabelecer, nas massas, sua autoridade abalada. Adotou as formas, revestiu-se da roupagem dos novos símbolos, mas, seu espírito permanecia o mesmo: mesquinho, tímido, incapaz de se pôr à altura da situação, das exigências da época e do combate. Não tinha qualquer plano, não compreendia mesmo a necessidade de tê-lo, e, quando se servia dos novos métodos, misturava-os aos velhos processos ineficazes, de maneira a enfraquecer o entusiasmo e a eficiência das forças jovens.

Uma comissão foi constituída para deliberar sobre tudo. Em vez de examinar logo o plano já pronto, que lhe fora submetido e ganhar tempo, desejou primeiro reunir-se, alguns dias mais tarde e recomeçar a discutir os “novos pontos de vista”. Era completa loucura e uma perda de tempo ruinosa. A pergunta de um de seus “chefes” caracterizava a mentalidade desses homens: indagou a meu amigo: “No fundo, por que emprega ele (isto é, eu) uma tal atividade? Deseja obter um posto entre nós?” Toda esperança de captar, de persuadir esses elementos era vã, só nos restava uma oportunidade: tentar através de nossa própria atividade, por nossa própria atuação, mais intensificada, tomar-lhes a iniciativa. Era muito difícil e complicava a situação; de fato, estávamos em plena luta contra o poderoso adversário e era preciso ainda travá-la nas nossas próprias fileiras, contra nossos próprios chefes incapazes. Desencorajado, regressei a Hesse.

Embaixo, na luta sublime, na efervescência do espírito desperto das massas, curei-me rapidamente do desgosto, de meu abatimento momentâneo, causados pelo insucesso em Berlim. Tratava, agora, de levar a luta a bom termo, a luta em Hesse e de tirar as conclusões. Continuamos a luta e saímos vencedores.

Os primeiros dias depois da vitória passaram-se como num delírio. Mas, todos os preparativos foram imediatamente feitos a fim de triunfar na nova luta eleitoral para o Reichstag, que devia travar-se igualmente em Hesse, seis semanas mais tarde. É óbvio que tudo se passava de acordo com os novos métodos e sem atenção à pretensa atividade do escritório central do partido em Berlim, que continuava a fabricar papelada e a inundar com ela o país. Ele desejava também centralizar a luta por símbolos, a fabricação e a distribuição de insígnias, de bandeiras, etc. Dessa maneira, tudo foi naturalmente retardado. Eis aqui um exemplo: para 10.000 membros organizados do partido, tínhamos distribuído, em duas semanas, mais de 50.000 insígnias em Hesse; aplicada a mesma proporção ao Reich, significava pelo menos cinco milhões de insígnias. Mas, “por prudência”, o escritório central encomendara apenas cerca de um milhão; deveria ter encomendado em dez estabelecimentos, mas, para ganhar um vintém em cada insígnia e fazer um bom negócio, a fabricação foi confiada a um só – que não pôde naturalmente se desincumbir bem em tão pouco tempo e os pedidos de insígnias das três flechas, que chegavam então de todos os pontos do país, não puderam ser atendidos, de tal modo que alguns distritos foram obrigados a fabricá-las, no último momento. Acontecia o mesmo com as bandeiras, flâmulas e todo o resto. Novamente, Berlim abarrotava todo o país de papel – muitos milhões de boletins mal feitos e inúteis foram distribuídos; depois das eleições, amontoavam-se às dezenas de milhares por toda parte, nas secretarias do partido, que se recusavam freqüentemente a distribuir esse refugo, julgando-o sem efeito e mesmo prejudicial. Todos os partidos trabalhavam por meio de cartazes ilustrados, exceto o nosso que se contentava em distribuir os que restavam das eleições prussianas. A única coisa positiva era que os símbolos tinham sido, enfim, oficialmente reconhecidos e empregados na luta e que a Frente de Bronze tomava parte, novamente, nesse combate. Mas, sempre e por toda parte o conflito entre as organizações do partido e as da Frente se alastrava. Era evidente que isso precisava acabar. No curso da campanha, falei nas grandes conferências de “esclarecimento”, organizadas pela Frente de Bronze nas diversas cidades da Alemanha. Devia também falar em Berlim, a organização berlinense tinha preparado tudo, mas a conferência foi interditada pela direção do partido.

O comando da Frente de Bronze compreendeu enfim que as coisas não podiam continuar como estavam, era preciso encontrar nina saída para assumir a liderança efetiva da luta nas mãos. Foi então que amadureceu, entre nós, o plano chamado de “agarrar pelo dedo”: a direção do partido devia encarregar-nos da organização, em quatro lugares do país, de grandes desfiles-modelo semelhantes ao de Darmstadt. Os delegados das circunscrições vizinhas deviam seguir para esses locais, a fim de ver como as passeatas simbólicas eram preparadas. Toda a luta por símbolos estava estreitamente ligada às passeatas. Nós só seguramos, por assim dizer, um único dedo. Por uma atividade intensificada ao máximo, e por meio de uma série de estratagemas, prometemos, a nós mesmos, atrair, em pouco tempo, todo o braço e, depois, todo o corpo, todo o aparelho de propaganda e, finalmente, de nos apossarmos dele. Estava seguro do sucesso. Depois de uma luta encarniçada, no escritório central do partido, e graças a um estratagema, o chefe da Frente de Bronze obteve, enfim, que esse assunto passasse para suas mãos.

Tínhamos então “agarrado o dedo”. Tratava-se, agora, de não perder tempo. Logo que possível, todo o Reich devia estar informado das diretivas técnicas da luta por símbolo. Eu trabalhava dia e noite e, no fim de quarenta e oito horas, tinha preparado a brochura de propaganda, intitulada Princípios de propaganda moderna, ilustrada com desenhos e fotografias; quatro dias depois, estava impressa e pronta para distribuição. Mas, a direção do partido tinha percebido o assunto e interditou, de repente, o folheto, cuja elaboração ela própria havia solicitado anteriormente. Recusei então, não vendo qualquer sentido em redigir instruções para um plano que fora rejeitado. Ora, a direção do partido decidiu destruir a brochura já feita, impressa e reclamada de toda parte, com o ridículo argumento de que os nazistas poderiam aprender com ela alguma coisa. Não foi senão após longos entendimentos que nossa direção conseguiu retirar o veto e distribuir a brochura.

Munidos da autorização para organizar os desfiles-modelo, com a firme vontade de nos servir dela no sentido de encaminhar, ao mesmo tempo, toda a luta por símbolos para uma crescente atividade, partimos em campanha. Logo em seguida, tropeçamos em obstáculos tramados pelo partido. Por toda parte, seus escritórios entravavam o trabalho da Frente de Bronze: não queriam deixar escapar de suas mãos o direito de iniciativa que não exerciam de forma alguma e de que, aliás, não sabiam mesmo como servir-se. Além disso, opuseram-se, de repente, ao emprego dos pequenos cartazes, meio de propaganda notoriamente eficaz e barato, que pode ser reproduzido rapidamente em milhões de exemplares; vimo-nos obrigados, muitas vezes, a mandar imprimi-los no interior, por nossa própria iniciativa e sem o conhecimento do partido, o que era muito difícil, pois, os fundos especiais para esse fim nos faltavam. As dificuldades, os obstáculos e os entraves estavam sempre em nosso encalço: precisavam ser, assim mesmo, evitados.

Dessa vez ainda, as maravilhosas massas operárias alemãs souberam remediar a situação. Graças a seu sadio julgamento, compreenderam um grande número de erros cometidos pelos chefes; num passo marcial, suas colunas desfilavam através das cidades alemãs, fazendo vibrar o ar de brados Freiheit. Trabalhava-se sem descanso, voava-se de avião de uma cidade a outra, incitava-se a massa. Todos usavam agora nossa insígnia, a imagem simbólica das três flechas brilhava e luzia em toda parte; nos desfiles, era conduzida em formas variadas; centenas de meios diferentes de combate foram inventados sob o novo signo, as massas estavam, enfim, em plena efervescência. A noite, três flechas enormes, feitas de lâmpadas elétricas, brilhavam, por exemplo, nas paredes das sedes sindicais, as ruas estavam magnificamente enfeitadas de bandeiras vermelhas com as três flechas, confetes de papel, imitando-as, juncavam o chão. Por volta da primeira semana de julho, tornou-se raro encontrar, nos dias de nossos desfiles, nas ruas das grandes cidades, hitleristas com a cruz gamada na lapela; as insígnias inimigas e as camisas pardas desapareciam. Em Berlim, por exemplo, um certo número de homens das S.A. foi arrastado nos pátios das casas pela multidão que lhes tirou as calças pardas e os deixou, assim, na rua; em Francfort-sur-le-Mein, a polícia teve que levar em casa os homens das S.A. em automóvel. A vaga popular subia – subia apesar de tudo, prodigiosa, irresistível como uma maré encapelada.

Nos meados do mês de julho, verifiquei que os nazistas estavam em pleno recuo, mantinham-se na defensiva em toda parte, a iniciativa do ataque estava em nossas mãos, do lado da Frente de Bronze. Um documento secreto, assinado por Goebbels, enviado a todas as organizações e chefes de propaganda nazistas de todo o Reich, estava assim redigido: “... Os chefes de nossa imprensa e de nossa propaganda devem conseguir, no mais breve espaço de tempo possível, que o partido saia da defensiva e tome a ofensiva contra os partidos marxistas e do centro”.

Tiro de meu fichário um comentário de um jornal de Baden. com data desses dias, e eis o que se lê:

“... Todas essas ações foram executadas com um entusiasmo desconhecido durante muito tempo no seio de nosso partido. Existem camaradas desempregados que, sem um vintém no bolso, fazem a pé as viagens de ida e volta em muitas horas, para tomar parte nessas manifestações. Com suas crianças, as mulheres se postam, por todos os lugares, como espectadoras, e aumentam, pelos brados de Freiheit, o entusiasmo dos desfilantes. Contrariados, os burgueses vêm essa agitação; não conseguem compreender como essa reviravolta se produziu. Para eles, a cessação das manifestações hitleristas, impostas pela Frente de Bronze, é um enigma”.

Eis ainda algumas citações:

“A impressão geral de que o fascismo domina a vida oficial de Karlsruhe e seus arredores está completamente dissipada, depois da enorme ostentação de força da Frente de Bronze nessa cidade, a 9 de julho...

Sexta-feira, a Frente de Bronze organizou, em Offenburg, uma manifestação, a que compareceram também os comunistas... etc.”

Provas evidentes de nossa vitória, que, a cada dia, mais se projetava, acumulavam-se em minhas mãos. A 12 de julho, o jornal de Goebbels, Der Angriff, trazia na primeira página, em grandes caracteres, enquadrado de vermelho, o seguinte trecho lamuriento: “Os assassinos vermelhos querem fazer perecer 20.000 homens nas chamas!” Em boa hora! Enfim os famosos heróis tinham agora outra linguagem, era a sua vez de conduzir a “propaganda de intimidação às avessas”. Éramos nós agora que atingíamos seus nervos, queixavam-se à população, designando-nos como os mais poderosos. Muito bem! Era um sinal evidente da confusão nascente que eu esperava. Tratava-se então de avançar, de lutar sem descanso, de não conceder ao inimigo um único segundo de repouso para se refazer!

Numa rua de Berlim, um boletim nazista caiu nas minhas mãos. Em cima, figuravam, em grossos traços, as três flechas e a palavra Freiheit. Vejam, vejam, agora estavam mesmo recorrendo a nossas idéias, a nossos símbolos! Todos os seus órgãos, seus jornais e revistas recreativas ilustradas estavam cheias de ataques contra as “três flechas”, contorciam-se, como vermes, sob o golpe das flechas, tentavam por todos os meios possíveis parar nosso símbolo na sua marcha triunfal.

Provas desse gênero se multiplicaram dai em diante: em Mannheim, por exemplo, percebi, a 17 de julho, um grande cartaz nazista, cujo tom era absolutamente defensivo, choramingas; não eram mais os donos absolutos, seguros de sua vitória, agora era a vez de se lamentarem, de pintar o diabo nos muros e suplicar à população que “pensasse” em tudo o que acarretaria nossa vitória. Eram, agora, inocentes ovelhas e nós os lobos maus! Eles próprios diziam! Era perfeito! Era extraordinário! A confiança nas nossas fileiras aumentava incessantemente, todo mundo se rejubilava, falando com ímpeto, com emoção, ouvia-se, a voz do povo vibrando numa tonalidade diferente.

Mesmo o Vorwürst conduzia, enfim, a insígnia das três flechas na primeira página e lançava com paixão: “Ataquemos!” É verdade que uma outra comunicação figurava ao lado, em grossos caracteres: “proibido manifestar-se” com um subtítulo traindo sua verdadeira orientação psicológica: “No caminho da razão?”

A coisa inaudita e inexplicável era que os melhores dirigentes do partido social-democrata, viviam em um estado de angústia contínuo e singular, numa atmosfera de pânico, decorrente da efervescência popular que se manifestava a cada passo. Nem sempre compreendiam a importância do que se passava diante dos seus olhos; com efeito, não se achando em contato com as massas, ficavam estupefatos com o fato de a propaganda ociosa e temível dos nazistas, com seus uniformes e manifestações, voltar-se de repente contra eles próprios e que esse fato se revelava subitamente como nosso próprio trunfo. Os nazistas, então, com Hitler à frente, começaram a assediar Hindenburg e von Papen com telegramas e reivindicações histéricas: “Proibi imediatamente e a todo preço as manifestações!” Era preciso, custasse o que custasse, deter nosso avanço, que se tornava irresistível. Os “heróis pardos” perderam subitamente a coragem, enganaram-se nos seus cálculos, pensavam que possuíam o monopólio.

Soubemos então de uma notícia estarrecedora: nossos próprios círculos dirigentes estavam de acordo com os nazistas, exigiam a mesma coisa. A 18 de julho, o Conselho de Estado prussiano adotou, com os votos do centro católico e dos social-democratas, um projeto assim concebido: “O Conselho de Estado considera indispensável revigorar, além da restrição decretada sobre liberdade de manifestação, a interdição do uso de uniformes”. A 17 de julho, a direção do nosso partido tinha, de fato, num telegrama assinado por Wels e Breitscheid, pedido a Hindemberg que declarasse a proibição das manifestações.

Dois dias depois, percebi perfeitamente que a situação evoluía para dois pontos essenciais: em primeiro lugar, a direção dos nazistas tinha sido efetivamente jogada na defensiva – a ofensiva estava, daí por diante, em nossas mãos – em segundo lugar, os chefes do partido social-democrata sofriam de uma psicose de angústia. Para responder a esse estado de coisas, era preciso tomar imediatamente as seguintes medidas: divulgar, por toda parte, a ascensão da nossa vitória, providência capital para nossa propaganda – toda a imprensa estrangeira devia ser informada, sem demora; dever-se-ia fornecer-lhe fatos, documentos e provas em abono dessa notícia, a fim de impressionar o mundo inteiro; teria sido, do ponto de vista psicológico, um golpe muito eficaz, contra o movimento hitlerista; além disso, nosso ritmo de ataque devia aumentar progressivamente – os desfiles, mais intensificados e levantado seu espírito agressivo, aproximávamo-nos, a largos passos, do ponto culminante da campanha. A idéia de que não teríamos talvez mais necessidade de eleições, que a sorte poderia ser decidida antes, impunha-se cada vez mais. Nossa grande recepção à imprensa devia ocorrer a 18 de julho, tudo estava previamente preparado para esse fim: uma exposição ilustrativa de nossas manifestações, toda nossa coleção de símbolos, as formas características de nossa nova propaganda e da de Hitler estavam ordenadas sistematicamente; provas autênticas de que Hitler tinha sido jogado por nós na defensiva, figuravam entre os documentos. A 17, eu devia assistir ao desfile de Magdeburg, segui para lá a fim de organizá-lo; a 18 pela manhã, estava em Mannheim, para preparar a grande marcha dos archotes. A noite do mesmo dia, devia ser dado, em Berlim, através da imprensa, o golpe decisivo contra Hitler. Tomei o avião para Berlim. Ao descer no campo de Tempethof, recebi a notícia da interdição das manifestações.

Foi um grave revés para nós – e Hitler aproveitou-se disso. Não havia tempo a perder; apesar de tudo, a luta na imprensa devia ser conduzida até o fim. Encontrei, no escritório, os nossos homens presos de viva emoção – a direção estava desencorajada e não queria mais prosseguir, a fundo, na ação pela imprensa. Tudo foi em vão; ameaçavam-me, se começasse esta ação sob minha responsabilidade. Verifiquei, finalmente, que, naquela hora, não se poderia permitir que a imprensa olhasse por trás dos nossos bastidores; nessa situação, toda providência era inútil. Trincando os dentes, vi-me obrigado a renunciar à campanha. Não restava mais nenhuma esperança: tudo estava perdido.

E, entretanto, não estava tudo perdido, a sorte nos dava ainda um prazo, o instinto prodigioso da classe operária deixava entrever uma saída; havia, assim mesmo, uma possibilidade de agir. A interdição das manifestações públicas foi um terrível golpe para nós: os nazistas recobraram o ânimo; começaram a atacar-nos na sua imprensa com a antiga veemência; podiam realizar suas manifestações nos parques e estádios, permitidos pelo governo, tendo os meios para alugar esses locais custosos, graças a seus financiadores – os barões e magnatas da indústria. Só a classe trabalhadora ficava paralisada pelo decreto.

Tomei, imediatamente, contramedidas. Devíamos poder contornar a interdição, para fazer valer, nas ruas, nosso espírito combativo: nossos homens receberam, então, ordem para efetuar, ininterruptamente, manifestações dispersas, chamadas “passeios dos símbolos”; nas ruas principais, nossos correligionários circulavam, em grande número, em suas bicicletas enfeitadas de flâmulas com as três flechas; nas calçadas, conduzindo insígnias das três flechas, passeavam só ou dois a dois, saudando-se e saudando os ciclistas com o brado de Freiheit. Os transeuntes podiam, assim, ver que estávamos sempre presentes e que não nos deixávamos intimidar.

Apesar de tudo, a efervescência nas nossas fileiras continuava e os espíritos estavam muito agitados. Em Berlim, tinha-se projetado, para 19 de julho, um grande desfile da Frente de Bronze, partindo de cinco quarteirões para o centro da cidade; nessa ocasião, Berlim devia perceber, pela primeira vez, a força integral de nossas manifestações; contava eu com um milhão de espectadores e de participantes – esse desfile podia, ou melhor, devia ser o prelúdio do grande desfecho. Com a interdição das manifestações, tal plano foi superado. Para contrabalançar o efeito, a Frente de Bronze convocou o povo para uma gigantesca reunião nas salas e jardins de Hasenheide. Já às sete horas, enorme multidão lotava tudo. Os oradores falavam de diferentes tribunas. O ponto culminante foi atingido, quando a camarada inglesa, Ellen Wilkinson, deputada trabalhista, entregou aos berlinenses a bandeira vermelha das três flechas que os trabalhadores ingleses nos tinham enviado, em sinal de solidariedade fraternal. Uma grande agitação reinava entre as 30.000 pessoas que enchiam os jardins. Os brados Freiheit ressoavam, sem cessar, e as canções revolucionárias levavam os espíritos ao ponto de ebulição. Terminada a reunião, as multidões se derramaram nas ruas, gritando Freiheit, assim como os slogans “Hitler-Judas” e “Hitler deve rebentar”, que um orador sem escrúpulos, pertencente à direção do partido, lhes tinha lançado no espírito e exortado a que repetissem. A agitação que se apoderou da multidão era tão grande que, se atingisse Berlim inteira, evidentemente todos os espíritos estariam inflamados em alguns dias e a revolução explodiria. Uma idéia me perseguia, sem parar: “Von Papen intervirá, von Papen deve agir com rigor, senão está perdido.”

Na mesma noite, Hindenburg outorgou plenos poderes a von Papen para dar seu golpe de Estado na Prússia e liquidar o movimento.

Na manhã seguinte, o Rubicon era atravessado. Nosso escritório foi alarmado às nove e meia da manhã; chegou-nos a notícia da prisão do ministro do Interior, Severing e do chefe de polícia Grzezinsky. Devia-se esperar, a todo momento, que a ação contra nós e o partido fosse desencadeada. Se as intenções de von Papen fossem sérias, todos os nossos órgãos centrais seriam ocupados em menos de meia hora e postos fora de ação.

A hora da ação revolucionária soara para os dois partidos. A situação equilibrava-se agora, no gume de uma faca. A direção do partido, os chefes dos sindicatos e os dirigentes da Frente de Bronze reuniram-se no escritório da Lindenstrasse, (3). “Agora ou nunca”! disse eu ao chefe da Frente de Bronze, no último momento, “leve quatro homens armados, apresente-se diante dos bonzos do partido e formule o seguinte ultimatum: ”Nada de discussão, a ação passa a nossas organizações de defesa.“ Se os dirigentes do partido se opuserem, prenda-os e aja você mesmo – rápido para fora de Berlim, decretado o estado de sítio, e de outra cidade ordene a mobilização de toda nossa rede; lance, ao mesmo tempo, o ultimatum a von Papen: retirada imediata de seu decreto!” minhas palavras não foram ouvidas.

Mas, uma coisa inesperada ocorreu, uma última oportunidade, von Papen hesitava, von Papen tinha medo – tinha ameaçado, mas nada fazia – deixava passar sete horas inteiras! No fim de meia hora, soube-se que a primeira notícia era falsa, nada tinha acontecido a Severing, nem a Grzezinsky, estavam em liberdade e em segurança nos seus escritórios; ninguém nos inquietou mais; o prédio em que os representantes de nossas organizações discutiam a situação não estava cercado pela polícia. Era evidente que von Papen hesitava, tinha medo, medo de nós, medo do Conselho, cuja sede era na Lindenstrasse (3); esperava, para ver o que faria o poderoso partido dos trabalhadores. Duvidava: não seria muito perigoso dar o primeiro passo e desencadear a tempestade? Hesitava, nesse caso, esperando sete horas inteiras.

Mas, os chefes do “poderoso partido” parlamentavam e parlamentavam sem fim, raciocinavam interminavelmente e discutiam; por volta de três horas da tarde, chegaram enfim a uma conclusão e a transmitiram ao povo: “Calma, disciplina! Não provoquemos, pois, a 30 de julho, nossa resposta será fulminante... com a cédula eleitoral.”

Os dados estavam lançados. Toda Berlim gargalhou, os operários cerravam os punhos, muitos dentre eles tinham lágrimas nos olhos. O medo de von Papen desapareceu. Ele se decidiu a agir: um oficial da Reichswer e dois soldados apresentaram-se na casa do ministro, chefe de polícia, membro de um poderoso partido operário, que contava com vários milhões de aderentes, que possuía armas para sua defesa – a Bandeira do Reich – dispondo, além disso, de uma polícia disciplinada, perfeitamente equipada de metralhadoras, de armas automáticas, de automóveis blindados, etc. Chegaram, ordenaram: “Fora daqui”! e o Senhor Ministro, membro, etc., etc., declarou num tom dramático: “Cedo à violência!” e... entrou em casa. Isso ocorreu a 20 de julho de 1932, às 5 horas da tarde, em Berlim; a hora oficialmente registrada da morte do partido social-democrata alemão, o formidável partido de Bebel, e Liebknecht, a obra genial de Lassalle.

Desde então, toda esperança de escapar ao destino estava morta. A Alemanha não podia mais ser salva, toda possibilidade de luta sem enormes sacrifícios, somente pelo caminho da propaganda, estava definitivamente perdida. O espectro da guerra civil, com todas as suas conseqüências, levantava-se agora. Seriam os chefes, enfim, capazes de abandonar sua passividade, de se dominar; decidir-se-iam a dar maior liberdade às novas forças? Chegariam as massas operárias a forçá-los a isso? A organização permanecia intacta, tudo podia ser salvo, se bem que fosse evidente que somente a força bruta poderia vencer o inimigo. Era a grande questão para o movimento operário alemão, inclusive os sindicatos. Depois de tudo o que se tinha desenrolado sob meus olhos, duvidava eu dessas possibilidades; a meu ver, os “chefes” não seriam jamais capazes de ser chefes, de agir, de dirigir: agora, pensei, eles vão realmente perder a coragem e a cabeça.

Toda a esperança se prendia então aos elementos imponderáveis, ao espírito que guia cada movimento revolucionário; talvez a energia, sistematizada e acumulada durante dezenas de anos, nas organizações operárias, explodisse com uma força elementar; quem sabe se possivelmente as energias liberadas não abririam como ocorreu muitas vezes na história, o bom caminho, mesmo se isso exigisse sacrifícios.

O que se via, agora, por toda parte, depois do 20 de julho, era (embora compreensível) muito lamentável: a depressão castigava as organizações obreiras, todos pareciam imobilizados; essa paralisia, que tinha invadido sobretudo os meios dirigentes, era nefasta à agitação das massas trabalhadoras de todo o país, agitação que continuava ainda a se desdobrar. Em lugar de excitar energicamente o ardor combativo das massas, em lugar de organizar imediatamente a luta extraparlamentar e iniciar o povo na compreensão da revolução inevitável – a revolução que exige sacrifícios, mas, que está também segura da vitória – os “chefes” e sua imprensa gesticulavam, ridiculamente, lançando, sem cessar, velhas frases triviais que ninguém podia levar a sério, como, por exemplo: “E agora, com mais forte razão, iremos!” “Avante”! “Atravessemos as fileiras inimigas”! “Ao assalto!”, etc.

A depressão manifestava-se de maneira tão intensa que se observavam os efeitos psicofisiológicos imediatos. Assim é que o número dos que se saudavam Freiheit tinha diminuído, sensivelmente, a saudação não era mais, freqüentemente, executada com energia, mas, de uma maneira frouxa. O número das insígnias das três flechas, conduzidas na lapela, também se reduzia.

Só podendo ser realizadas em recintos fechados, as manifestações eram apenas uma tênue sombra da força que, ainda recentemente, triunfava em toda parte; além disso, tinham perdido todo sentido, uma vez que, não podendo mais ser contempladas nas ruas pelas multidões, ficavam sem receber sua influência.

O caos e o pânico reinavam em todas as organizações centrais, cada uma se encolhia, não se falava mais de projetos de ação, contentavam-se em trocar notícias, opiniões e hipóteses. Em todos os lugares, o assunto favorito era: “Claro, o partido católico do centro não aceitará esse estado de coisas; os chefes do partido operário não contavam com a massa obreira, com suas próprias forças, mas, com os padres.

Era evidente que tudo estava perdido.

E, entretanto, as vagas da grande agitação popular de julho, as conseqüências da efervescência que a luta por símbolos causara, não tinham ainda sido amortecidas. Elas rebentavam e rugiam. Apesar de todas as esperanças de Hitler e de von Papen, o 31 de julho não lhes trouxe a vitória sonhada. Eu tinha em mãos números e esclarecimentos interessantes sobre a luta de junho e julho, informações que me forneciam nossos agentes e que provinham dos círculos dirigentes de nossos adversários. Em meados de junho, Hitler contava obter 54% da totalidade dos votos. Depois, esses números esperados pelos próprios adversários, vinham, durante a campanha, decrescendo rapidamente; a princípio, 51%, depois 47%, depois 44%, e, no mês de julho, estavam já reduzidos a 37% Era uma prova clara da depressão causada pelos bons resultados de nossos novos métodos de combate. Depois de 20 de julho, eu sabia que a proporção aumentaria rapidamente e foi o que se passou: obtiveram, com seus aliados, os nacionais-alemães, 44%, mas, a despeito de tudo, somente, 44%! Ainda uma vez Hitler tinha sido derrotado e a realização do seu sonho escapava. E isso não obstante ter conseguido que, no último momento, von Papen desferisse o golpe decisivo contra nós. Era, entretanto, muito tarde – a efervescência, que criáramos, tinha penetrado muito profundamente no povo, a agitação dos espíritos era tão grande que não podia domá-la em dez dias...

Ora, Hitler não era o único vencido. Nossos chefes partilhavam também a derrota, uma vez que nosso objetivo – o aniquilamento total de Hitler, tornado possível pelo emprego de novos métodos de combate – não tinha sido atingido. A reviravolta psicológica, ocorrida em 20 de julho, tornou-se novamente favorável a Hitler. Como era de esperar, nossa derrota exercia uma influência moral particularmente sensível em Berlim, teatro dos últimos acontecimentos. Sinal de revolta das massas, o número de nossos votos diminuíra consideravelmente, fato de que se beneficiaram os comunistas. No interior, a onda negativa não tivera ainda tempo de se propagar, razão por que nossas perdas ali não eram tão grandes quanto na capital.

Como os resultados imediatos das eleições de 30 de julho eram uma meia vitória para nós – Hitler fora detido, ainda uma vez. no caminho do poder. Mas, na realidade, essa falta de clareza na política continha os maiores perigos para nós e todos os que conheciam as causas e viam clara a situação, criada após o 20 de julho, sabiam muito bem que as conseqüências não tardariam a se fazer sentir. Agora, devia-se esperar um retrocesso evidente de nossas possibilidades, nossas massas deviam desencorajar-se, os elementos mais arrebatados passariam, em número sempre crescente, para os comunistas. Aos olhos da classe trabalhadora, a autoridade de nossos chefes fora consideravelmente enfraquecida pela derrota de 20 de julho – a juventude zombava abertamente deles, os velhos encaravam, com cuidado, o futuro. Todos gostavam de acreditar, todavia, que o milagre se produziria, que a grande batalha, a ultima ratio da classe operária, se aproximava. Compreendeu-se, enfim, que a luta não podia mais ser conduzida sem sacrifícios, uma corrida para nossas organizações de defesa armadas se verificava, os homens procuravam armas, esperava-se tudo e estava-se pronto. No lado de Hitler, alguma coisa também se passava: a demora interminável da solução desmoralizava suas fileiras, o golpe que Hindenburg assentou no seu movimento, a 13 de agosto, abalara-o igualmente. Von Papen separou-se dele – os dirigentes nazistas explodiam agora contra von Papen, os dois irmãos de armas pareciam lutar entre si. Por sua vez, von Papen tentava golpear Hitler – acreditava, enfim, ter encontrado a chave do sucesso de Hitler – proclamou, aos quatro ventos, o início imediato da propaganda oficial do governo que ele também desejava, agora, conduzir numa grande escala; esperava obter, com a ajuda do partido nacional-alemão e dos Capacetes de Aço, resultados semelhantes aos de Hitler. Um congresso dos Capacetes de Aço com paradas, bandeiras e outros artifícios de propaganda, foi organizado com grande estrépito. A situação parecia favorecer von Papen: graças à sua tática, o partido social-democrata, durante o golpe de Estado de 20 de julho, estava moralmente desacreditado, a propaganda comunista caía sobre ele com toda veemência; por outro lado, no partido de Hitler, manifestavam-se sintomas de decomposição. Von Papen acreditava, agora, poder agir sozinho. Tendo, no espírito, a idéia fixa da importância decisiva da propaganda, copiava Hitler em tudo. Monopolizou o rádio para seus discursos, o que lhe dava um trunfo sobre Hitler, acreditou também fazer agir a alavanca que Hitler tinha sempre desejado, até aquele momento, como um meio decisivo: a convocação do povo para novas eleições, em cuja realização empregaria, ao máximo, sua própria propaganda. Tratava-se de obter uma maioria pessoal à que esperava juntar o centro católico. Então ele, von Papen e não Hitler, criando uma base “parlamentar”, poderia investir-se de plenos poderes, modificar a constituição (falava nisso sem cessar), dissolver o parlamento e estabelecer sua própria ditadura. Era um sonho presunçoso, mas von Papen conseguiu, em todo caso, dissolver outra vez o Reichstag e fixar novas eleições para seis de novembro.

Ora, a propaganda de von Papen não teve qualquer efeito. Nem o fato de dispor dos meios do Estado, nem as grandes somas investidas em sua propaganda serviram para coisa alguma. Uma vez mais, estava demonstrado que a propaganda isolada, sem qualquer base política, não é suficiente: a propaganda política e a publicidade comercial não são, apesar de tudo, a mesma coisa.

Von Papen ganhara votos às expensas dos hitleristas, mas, numa proporção muito pequena; em compensação, Hitler foi, desta vez, incontestavelmente derrotado – perdeu mais de dois milhões de votos e 34 cadeiras no Reichstag. Não era, todavia, uma vitória de von Papen, mas, simplesmente o resultado das tendências de dissolução que se manifestavam nas fileiras hitleristas e que eram provocadas, por sua vez, pela derrota de 31 de julho e por seu erro político de 13 de agosto, quando Hindenburg tentou conquistá-lo para sua causa e quando ele deixou escapar essa ocasião “de agarrar um dedo”.

O grande vencedor de seis de novembro era o partido comunista que tomara votos dos social-democratas e dos nazistas. Era um sintoma claro, se bem que sem a menor importância prática. Os verdadeiros vencidos eram novamente nossos chefes – pela primeira vez perdemos quase um milhão de votos – é então que a desmoralização nascida do 20 de julho ganhou as massas – um grande número de nossos partidários passou para os adversários e outros se desinteressaram. Ainda desta vez a propaganda do partido não tinha progredido. Na luta política, usavam-se símbolos, é verdade, que desde então, eram oficiais, mas, não havia qualquer entusiasmo, nenhum élan, não se acreditava mais nas palavras de ordem do partido, nem que ele fosse capaz de lutar; o fato de que não tivesse se desagregado era devido unicamente à força de coesão, que tinha cimentado as organizações durante dezenas de anos, à tenacidade e à enorme resistência das massas, bem como a crença de que, apesar de tudo, um milagre poderia, assim mesmo, acontecer. Via-se chegar, inexoravelmente, a última luta sem limite, nem trégua, e cada um se preparava para cumprir seu dever; era preciso então unificar forças.

Desde fim de julho, eu me retirara da política, reconhecendo, perfeitamente, que todo trabalho útil era perdido. Só havia uma coisa a fazer, procurar salvar o movimento operário, antes de tudo. Os antigos chefes faliram, era preciso afastá-los. Enquanto estivessem à frente do movimento, tudo seria inútil. Era nessa direção que eu, agora, trabalhava. Falava nisso aos operários em todos os locais onde podia. Ah! não era mais possível contar com a difusão, em quantidade bastante, das minhas idéias: nossas assembléias eram freqüentadas por um número de pessoas sempre decrescente, poucos assistiam a elas, além dos funcionários bem pagos do partido e dos sindicatos que estavam prontos para absolver os verdadeiros culpados de nossa derrota, se alguém tentasse dizer-lhes a verdade e levá-los a tomar partido contra os chefes; de seu lado, só havia recusa, ódio e suspeita. De resto, dependiam economicamente dos chefes. Mesmo depois da derrota de novembro, permaneciam incorrigíveis, continuavam recusando-se a pensar com independência e só tinham uma esperança: poder ficar vegetando.

Nessa época, no jornal Das Tagebuch, apareceu um artigo Abaixo Wels & Cia., onde idéias muito justas eram expostas sobre os chefes do partido social-democrata, sobre a causa de sua fraqueza e de suas faltas. O clã que gravitava em torno dos dirigentes do partido logo suspeitou que fosse eu o autor desse artigo, o que não era verdade, se bem que aprovasse inteiramente essas idéias. Seguiram-se ataques contra mim.

Quando em outubro perguntaram-me, na qualidade de especialista em propaganda, que possibilidades eficazes haveria para as eleições de 6 novembro, não podia eu propor senão uma medida, a única capaz de, talvez, revigorar, no último momento, a coragem e a esperança das massas: os dirigentes do partido deviam mostrar coragem revolucionária, apelando para os militantes através de uma proclamação cujo teor seria “Pater, peccavi”, isto é, deviam confessar suas faltas e declarar que estavam prontos a transferir a responsabilidade da luta para novas forças ainda não utilizadas. Era um meio heróico, mas, também, o único, que tinha a possibilidade de produzir um efeito psicológico. Essa maneira de agir, empregada como meio de propaganda, chama-se catártica, resgatadora, purificadora. Lênin aplicava esse método repetidamente, quando confessava publicamente as faltas cometidas, dizendo: “Cometi erros, sou culpado, confesso minha falta, não os cometerei mais.” Do ponto de vista da propaganda, isso produzia um efeito comovedor, a depressão mudava então quase sempre em emoção e num estado d'alma de onde podiam jorrar uma nova coragem e novas forças. Mas, não havia Lênin entre os chefes social-democratas, minha proposta não podia ser levada a sério.

Daí em diante, os acontecimentos se precipitaram: era a derrocada. A princípio, veio a queda de von Papen – todos os seus projetos a nada conduziram, a situação permaneceu indecisa, nos meios que cercavam Hindenburg pensava-se que, de uma parte, era preciso fazer certas concessões à opinião pública, mas, de outra, também procurar o apoio dos militares – não se podia jamais saber como iriam terminar as coisas. Na pessoa do general von Scheleicher tinha-se um homem que parecia reunir as duas características. tanto mais que o hábito de destruir seus antigos companheiros e chefes – Hermann Müller, Gröner, Brüning – era-lhe, por assim dizer, familiar. Von Schleicher, então, derrubou von Papen e não tardou a instalar-se em seu lugar. Cortejava a direita, olhava para a esquerda, parlamentava com Hitler, dirigia-se também aos sindicatos operários, balançava-se entre uns e outros, até que Goebbels, impressionado pela derrota de 6 de novembro, tentou consertar a situação, organizando um grande tam-tam de propaganda, por ocasião das eleições parciais para a assembléia de Lippe-Detmold (150.000 habitantes ao todo). Os nazistas tiveram sua pequena vitória nessas “eleições-piloto”, o que tinha um sentido meramente psicológico. Mas, acreditou-se, na Alemanha, que as possibilidades de Hitler aumentavam e Hindenburg, cansado de tantas flutuações, veio a negociar novamente com Hitler. Este aproveitava a lição de 13 de agosto; desta vez, não deixou escapar a oportunidade. Sabia muito bem que seu destino estava por um fio – a derrota de 6 de novembro proporcionava cada vez mais a dissolução de suas hostes, o rompimento com Gregor Strasser era um sintoma ameaçador, as intrigas nos seus círculos imediatos fervilhavam. Não tinha um segundo a perder. Aceitou a oferta e tornou-se chanceler do Reich.

Desta vez, não se enganara nos seus cálculos – aos olhos das S.A. e para os milhões de seus partidários na burguesia, sua resolução, do ponto de vista psicológico, era uma vitória. Graças a uma nova onda de propaganda, habilmente encenada por Goebbels, as massas foram lançadas num delírio extremo, rejubilavam-se, acreditando que a hora da prosperidade tinha chegado.

As perseguições aos adversários detestados começaram, como conseqüência desses acontecimentos. Golpe sobre golpe se sucederam: a dissolução do Reichstag, seu incêndio como meio de propaganda e como desculpa para provocar o terror, por ocasião das eleições, o fechamento do partido comunista, as prisões, as perseguições de judeus, a famosa “campanha contra a corrupção” a “festa do trabalho” a 1° de maio, o aniquilamento dos sindicatos operários, a dissolução e a destruição total do partido social-democrata. E, finalmente, os assaltos contra os próprios aliados – os Capacetes de Aço e o partido nacional-alemão, a queda de Hugenberg e, por fim, a do partido católico do centro, do partido populista bávaro e do partido democrata.

Os acontecimentos se desenrolavam, sob nossos olhos, como numa tela de cinema. Sua evolução adquirira um aspecto singular, que não tivera equivalente, nem na Rússia, nem na Itália. Era uma galopada louca em que a burguesia alemã perdia completamente o rumo. Os pobres “chefes” social-democratas deixaram-se levar ao chefe nazista – completamente abatidos, atordoados, deslumbrados. Como um miserável rebanho de carneiros, deram-lhe seus votos, dívida que ele pagou com um ponta-pé: apesar do fato de que seus sentimentos se revelaram subitamente “perfeitamente nacionais”, ele os enxotou. Um ministro nazista deu-lhe esse epitáfio: “que se calem e que tenham vergonha”. A Némésis da história disse a última palavra. Colheram o que semearam. Nenhum verdadeiro socialista se compadeceu do seu destino.

Mas, os socialistas oficiais dos outros países deveriam ter tirado uma conclusão dessa derrocada inaudita do seu partido irmão da Alemanha: é que a social-democracia alemã subestimara erradamente a psicologia; a causa desse erro fatal reside no medo que ela tinha de consignar o desaparecimento do dogma da imutabilidade das leis sociais e econômicas, da fatalidade de seu desenvolvimento segundo a ordem rígida, indicada por Marx, o profeta, cujo O Capital se tornou uma espécie de bíblia nesses meios. Para os social-democratas, toda a ciência e toda a prática limitavam-se ao estudo e à solução das questões de classe e das condições econômicas. [452]


Capítulo X
A violência psíquica na política mundial

Os primórdios – O plebiscito do Sarre – A reocupação da Renânia – A guerra da Etiópia – A chantagem da guerra – A guerra da Espanha – A idéia da “guerra total” – O Anschluss – A Tcheco-Eslováquia – A crise de setembro de 1938 – A capitulação de Munich – A II guerra mundial – A bomba atômica de Hiroshima – O plano Marshall e o pacto do Atlântico – A “guerra fria” – A guerra civil na China e a vitória da China popular – A guerra da Coréia.

 

Hitler era o vencedor da luta na Alemanha. Sua ascensão ao poder supremo, corno Führer-Chanceler, depois da morte de Hindenburg, efetuou-se logicamente. Sua tática se mostrou justa, seus adversários lhe tinham deixado o monopólio da “violência psíquica”, exercida sobre as massas e não tinham sabido ou desejado impedi-lo, opondo-lhe as mesmas armas.

O primeiro ato de Hitler, uma vez no poder, foi a criação de um ministério de propaganda, à frente do qual colocou Goebbels. A violência psíquica devia irradiar-se, agora, para o exterior. Os fins políticos a atingir – a hegemonia da Europa – estavam formulados no Mein Kampf, onde as etapas estavam antecipadamente indicadas.

O primeiro golpe desferido fora das fronteiras do Reich, devia ser no Sarre. A ocasião prestava-se bem: um plebiscito, ação em que Goebbels e Hitler entreviam a possibilidade de empregar largamente os seus métodos. Acreditou-se, num momento, que seus adversários social-democratas alemães, em grande parte refugiados nesse país, alertados por sua derrota na Alemanha, se refariam e oporiam a Hitler a eficácia dos seus próprios métodos. Seu chefe, Max Braun, veio a Paris; falou-se de um projeto de campanha plebiscitária, conduzida por meios modernos, mas, foi tudo: uma espécie de paralisia, de abulia, tinha invadido os dirigentes e seus amigos franceses. É interessante, todavia, dar aqui alguns elementos desse plano, porque revela uma tática de propaganda de acordo com as idéias que expusemos nos capítulos precedentes. Para esse empreendimento, a idéia central a ser inculcada nas massas, teria sido a seguinte: “É insensato sustentar a política de Hitler, seu regime não poderá durar, sua força diminui, a situação econômica e política piora, nada poderá salvá-lo – em compensação seus adversários estão cada vez mais poderosos – ligai-vos então a eles”. É a única linguagem que os nove décimos da multidão podem compreender, mas, isso devia estar presente de uma forma sugestiva. Os sentimentos religiosos, muito difundidos no Sarre, precisavam ser também habilmente explorados. O plano de campanha, com uma duração de três meses, devia dividir-se como segue: 1) – outubro – mobilização da propaganda: instalação de rede de pontos de agitação, preparação dos agitadores, esclarecimento técnico da campanha; 2) – novembro – o desdobramento – manobras de propaganda, trabalho de informação e de controle, acumulação de estoques de propaganda; 3) – dezembro – a batalha: a ação se intensifica, gradualmente, cada semana, para atingir seu ponto culminante de 1° a 13 de janeiro – dia do plebiscito. Depois desse plano, a última quinzena devia ser destinada a uma espécie de fogo de barragem de propaganda, deflagrada no último momento, para não dar ao adversário tempo de tomar contramedidas. O objetivo era, segundo a expressão do plano “empurrar o adversário para o imprevisto”.

Precisava prever – o que aliás ocorreu – que os hitleristas, fiéis à sua tática habitual, depois de ter inundado a região de símbolos, empregavam meios de intimidação: nos últimos dias antes do plebiscito, ameaçavam fazer um putch no Sarre e enviar tropas “para garantir a ordem”. Com efeito, essa ameaça desempenhou papel decisivo e levou Hitler a ganhar a partida, o que era tanto mais fácil, quando o plano anunciado acima não foi posto em prática.

A primeira batalha de propaganda com aspecto internacional, pois, tratava-se de derrotar a França no Sarre, favoreceu Hitler. O golpe seguinte foi a reocupação da Renânia, em março de 1936. Valendo-se da indecisão que se apoderara dos países democráticos quanto às sanções, cada vez mais ineficazes, contra a Itália, a confusão em Gênova, e as dissenções entre a França e a Inglaterra, Hitler desfere o grande golpe, assume o primeiro grande risco. Mas, já está de tal forma convencido da eficácia de seu método de blefe e de intimidação, que se arrisca a ordenar às suas tropas que penetrassem na Renânia quase sem munição. Genevieve Tabouis, no seu livro Chantage à la guerre (149), relata, de uma maneira pitoresca, os entendimentos entre Hitler e seus generais, na véspera da ocupação. As objeções de um general que chama sua atenção para o risco que corre a Alemanha, responde: “Eu sei que a França não se mexerá e que podemos agir com toda tranqüilidade. É até inútil distribuição de munição aos soldados, pois, não terão que dar um tiro”. O oficial, que não estava completamente convencido, disse ainda: “E se a França atacar?” – “Se a França reagir na tarde em que entrarmos na Renânia, responde Hitler, suicidar-me-ei e você poderá dar ordem de retirada”. Com efeito. a entrada das tropas alemãs na Renânia ocorreu sem incidentes. Um francês que morava em Cologne, conta Genevieve Tabouis, pôde verificar pessoalmente que nem um cartucho tinha sido dado à infantaria, nenhum obus à artilharia! Os aviões estavam munidos de metralhadoras, mas, nenhuma munição existia a bordo.

O blefe triunfou mais uma vez e agora no cenário internacional. Desde esse instante, podia-se estar certo de que seria sempre a mesma coisa para o futuro; somente os dirigentes dos países democráticos se obstinavam em não compreender os princípios de ação de Hitler. Esperavam sempre ganhar a partida através de pequenos meios, de expedientes, de recurso aos velhos métodos superados da tradição diplomática. A tragédia, vivida na Alemanha, repetia-se, em todos os seus pormenores, em escala européia: o blefe, a violação psíquica, triunfavam sobre a razão, paralisando a resposta do taco-a-taco, único capaz de destruir o círculo vicioso ressaltando quase da feitiçaria.

Assim, a ofensiva da violência continua: o apetite vem aos ditadores com o sucesso, Mussolini acredita chegada sua hora: no momento escolhido, investe onde pode esperar vencer sem muitos riscos – viola a Etiópia. Com grande aparato e usando o máximo de gestos teatrais, de discursos explosivos, de ameaças de incendiar o mundo e de todo o arsenal de meios guerreiros modernos, tropas motorizadas, bombardeiros, armas automáticas, gás asfixiante e last not least – cineastas e jornalistas – entra em guerra contra o velho povo africano, que começa a assimilar a cultura ocidental, que põe toda sua esperança na justiça da SDN, que nada tem para se defender além de velhos fuzis em desuso e de lanças.

Nem sequer suspeita que desempenha o papel de uma cobaia: é preciso demonstrar ad oculos a força do fascismo na Europa, intimidar os diplomatas, reavivar o reflexo condicionado de submissão, pela execução do reflexo absoluto do medo, pela efusão de sangue; é preciso, também, experimentar as novas armas, de fato, in vivo – poder-se-ia dizer em linguagem de laboratório. Que massa humana se prestará a isso? A cobaia é encontrada, o cinismo proverbial do ditador italiano não pára diante dessas “bagatelas” que só impressionam “velhas damas inglesas e arcebispos puritanos”. A Etiópia é sacrificada, vencida e o prestígio de Mussolini, que já estava em plena decadência na própria Itália, ressurgiu. O pior é que ele estava prestes a deixar seu cetro: apesar de tudo, a resistência etíope revelou-se maior do que se podia acreditar – o fator humano tem ainda importância, a despeito da “motorizacão” – no inverno de 1935-1936 a situação militar italiana era muito precária, a revolta rugia surdamente na Itália, manifestações ocorriam, aqui e ali, no decorrer de fevereiro. É então que a ação equívoca de Lavai envenena as relações franco-inglesas, houve um recuo em Gênova, Hitler aproveitou-se disso, desferiu seu golpe na Renânia e a situação de Mussolini na Itália foi “desinibida” – estava salvo.

Via-se, bem claramente, por esse exemplo, o jogo coordenado do blefe, da violência psíquica e da política real. E ainda dessa vez a lição não serviu às democracias: perseveraram, teimosamente, na sua política de wait and see, [453]. desprezaram o valor das armas psíquicas que atuavam agora contra elas.

Mas, eis que um sobressalto ocorreu na França – a vitória das forças populares antifascistas nas eleições de maio de 1936 e a ascensão da Frente Popular ao poder. Novas esperanças espalharam-se por todo o universo, parecia estar formada uma barragem contra os ditadores entre os quais se manifestou a princípio. um descontentamento, mesmo uma certa perturbação. O capital psicológico, reunido em poucas semanas, pela França e pelas democracias, era imenso. Ah! não se sabia como empregá-lo! Esgotou-se, pouco a pouco, em palavrório, em discórdias internas, nesse jogo habitual de bastidores. Acreditou-se, por um momento, que as lições da Rússia-Soviética, da Alemanha, da Itália, utilizando ao máximo os fenômenos psíquicos coletivos, não seriam perdidas, que seriam aproveitadas em benefício da idéia “grande e humana”, da idéia de democracia, da idéia da Paz. Eis uma reportagem do Jérôme e Jean Tharaud, no Paris Soir, dessa época, intitulada A força desconhecida. Dela extraímos uma passagem:

...Acabamos de entrar, nestes dias, na escola da Rússia, da Alemanha e da Itália. Um dos convivas que assistira, na semana anterior, à famosa reunião da Frente Popular, no, Velódromo d'Hiver, nos pintou um quadro em que se viam muito bem os diferentes métodos utilizados, naquele dia, para produzir essa força de que, há pouco, falava. A princípio, a grandiosidade do lugar escolhido para a concentração; o volume da multidão no interior do local e a outra multidão, também considerável, que escutava, do lado de fora, os alto-falantes; os jogos de luz, que clareavam subitamente na sala mergulhada repentinamente na penumbra, os imensos retratos de Guesde e de Jaurès; o impressionante efeito desse disco em que um morto, Pierre Renauldel, contava à multidão, agitada como se ele estivesse na tribuna, o fim de um outro morto, Jaurês, a que ele havia assistido; e, por fim, o canto da Internacional, murmurado em surdina, na penumbra, por todos esses milhares de homens reunidos e explodindo com o retorno da luz... Ao escutar tudo isso, supus estar em Berlim, quando assistia às grandes concentrações organizadas por Hitler ou Goebbels, ou ainda em Roma, na praça de Veneza, quando Mussolini aparecia no balcão“.

Um outro exemplo surpreendente é oferecido pelo desfile da Frente Popular em Paris, em 1936, por ocasião do suicídio do ministro socialista Roger Salengro, quando uma enorme multidão marchava num silêncio impressionante: tinha-se o sentimento de uma força extraordinária que emanava dessas multidões.

Mas, nelas imiscuíram-se homens que foram educados na fé em certos dogmas, que digeriram volumes de teorias econômicas, políticas e sociológicas, manuseando algarismos e estatísticas, munidos de todos os sacramentos escolásticos; emocionaram-se ante a simples idéia de que sua bíblia poderia não estar mais em moda, que a ciência progrediu, a verdadeira ciência biológica, a do homem, e que ela rejeita o que para eles é sagrado; amedrontaram-se com a amplitude que tomava aquilo a que chamavam de loucura “coletiva”, de “métodos indignos”, etc., e eis que a reação salutar de um povo, procurando opor às armas venenosas armas equivalentes, as únicas eficazes, foi combatida, seu ímpeto quebrado, voltaram para os processos miúdos, para a rotina, suprimiram-se as possibilidades que se ofereciam, para grande alegria dos adversários. Readquiriram a confiança e, novamente, a ofensiva, suspensa, por algum tempo, era retomada. Desta vez, foi uma verdadeira chantagem da guerra que começou. Era preciso ameaçar a Inglaterra no Mediterrâneo e criar uma terceira fronteira para a França – os Pirineus. Escolheu-se a Espanha: era lógico e podia-se esperar isso. Era o lugar de menor resistência, naquele momento. A Áustria – o Anschluss – uma etapa prevista no Mein Kampf – o momento ainda não chegara; a Itália ainda estava muito agarrada à política de proteção a esse país – a história de Brenner, muito viva ainda, na memória de todos – era preciso manobrar e saber esperar; a Tcheco-Eslováquia, ainda muito perigosa: a Rússia Soviética estava aí e, com ela, não se podia saber se o blefe teria sucesso – esse país compreendera, dispunha das mesmas armas e, além disso, possuía uma força real: convinha ser prudente. Mas, a Espanha – eis uma ocasião! A República recém-nascida, portanto fraca, minada pelas divergências partidárias, o exército trabalhado, desde muito tempo, pelos emissários fascistas, afastada da Rússia, que não teria podido, senão com dificuldade, fornecer uma ajuda eficaz à República Espanhola, foco de desordem, às portas da França, imbuída de pacifismo e contida pela Inglaterra; enfim, a Espanha estava ao alcance dos aviões italianos – tudo convidava à agressão. E isso se deu, desde que se viu o potencial de resistência popular na França enfraquecer-se. Desferido o golpe, a intimidação deu resultado integral, chegou-se à famosa “não intervenção”, conseguiu-se modificá-la completamente, por um ardil meramente psicológico essa “não intervenção” tornou-se unilateral: a França fechou suas fronteiras, enquanto os países fascistas continuavam a levar todo o seu apoio a Franco: material de guerra, tropas, técnicos. A inaudita resistência em Madrid que durou – coisa quase inconcebível – mais de dois anos, foi um fator psíquico extraordinário, alimentando a força que resistiu muito tempo aos agressores e a seus cúmplices, mais ou menos confessos. Estes especulavam com a tendência que comumente há aceitação dos fatos e com o argumento de que a vontade dos agressores não encontrará mais obstáculos, se a resistência espanhola desmorona. É verdade que a aplicação, na guerra espanhola, dos princípios da propaganda moderna, baseando-se na teoria dos reflexos condicionados, tais como expusemos nos capítulos precedentes, tornou-se mais fácil, pois a guerra é um campo em que domina, sobretudo, a ação das massas e das multidões e em que a emotividade tem papel preponderante, uma vez que é ela – a emotividade que ressalta aquilo a que chamamos de pulsão n° 1 ou combativa. Na guerra, o medo ou, ao contrário, o entusiasmo, podem ser dirigidos e provocados à vontade e atingir seu grau máximo. Assim, os dirigentes que, nos países democráticos, os últimos a compreender as verdades novas, são conduzidos, de boa ou má vontade, em face dos fatos brutais da guerra, a deixar de lado seus dogmas e a erudição que os cega, e a se conformar com as lições brutais da realidade e da vida: estas estão evidentemente de acordo com o que dizíamos a respeito das pulsões. Caso contrário, é preciso que eles cedam o lugar a outros homens, mais atualizados e mais inclinados a ver as coisas de outra forma e não através das lentes de uma vida pacífica.

Já mencionamos, a propósito da guerra da Espanha, a eficácia dos métodos de propaganda na deflagração do entusiasmo da bravura e da resistência; as formas são, geralmente, as mesmas que encontramos nos exemplos recolhidos da luta na Alemanha, em 1932. É interessante, todavia, sublinhar que o desencadeamento do reflexo condicionado, que se baseia no medo, o outro aspecto da “primeira” pulsão, tão empregada na propaganda hitlerista no interior e no exterior antes do conflito real, antes de uma guerra, esse desencadeamento é menos eficaz, quando a guerra já foi deflagrada. Viu-se, é verdade, por ocasião da retumbante derrota das divisões italianas na batalha de Guadalajara, que os métodos de propaganda, então empregados, pelos republicanos, originaram o pânico, que se apoderou dos italianos e que os fez fugir desnorteadamente diante de um fantasma: o aviso, pelos alto-falantes, instalados em frente às linhas inimigas, da chegada de aviões russos. Mas, em geral, o emprego do princípio da intimidação é menos eficaz, certamente, quando o perigo já tenha chegado: o melhor exemplo é o da população de Madrid ou de Barcelona que já não experimentavam o menor pânico, quando os aviões voavam acima de suas cabeças: a vida continuava, estava-se acostumado. O valor da propaganda do medo é especialmente real onde (fato paradoxal) não existe ameaça imediata; daí porque era o instrumento da predileção da propaganda de Hitler. É por isso que a idéia principal de Ludendorff, a da guerra total, não passa de um fator psicológico bastante restrito e que só age na preparação da guerra; Hitler que, no começo, era muito ligado a Ludendorff, parece ter compreendido muito melhor essa verdade do que seu velho professor militar. Tornou-se a idéia mestra de toda sua atividade.

Mas, voltemos às cenas dos acontecimentos. Enquanto as peripécias da guerra na Espanha faziam oscilar as possibilidades de sucesso, tanto de um lado, como do outro, três novos fatores se inseriram na trama da guerra internacional que, na verdade, não passava de uma guerra psicológica em surdina. Esses três novos elementos eram: a agressão japonesa contra a China, obra do militarismo fascista japonês, a assinatura solene do Eixo Roma-Berlim, estendido a Tóquio, e a situação interior na Rússia Soviética. Esses três elementos tinham, cada um, um papel psicológico considerável, nessa guerra latente e valem a pena ser acentuados, na análise da situação. Todos três atuavam em favor do Eixo fascista, incitando-o a uma atitude cada vez mais agressiva, sempre orientada, bem entendido, no sentido da chantagem da guerra. Mas, a vantagem desses elementos para os fascismos reduziu-se relativamente com rapidez. A resistência inesperada da China esgotava as forças do Japão e a tentativa que este fazia para medir a força de resistência da Rússia Soviética mostrou-lhe que nada tinha a esperar daquele lado; em poucos dias, no lago Khassan – nesse recanto mais sensível do imenso país soviético, porque o mais distante dos centros e o mais propício ao Japão, por ser próximo de suas bases – a reação da URSS, necessariamente lenta nos primeiros dias, tomava, com a concentração progressiva das forças, um tal amplitude que o agressor japonês se retirou, invocando a cessação das hostilidades. A situação psicológica, em favor dos adversários dos regimes totalitários, estava completamente restaurada. O segundo elemento também se esvaiu, porque não tinha chegado a um resultado: a Espanha continuava resistindo e Hitler, diante dos urgentes pedidos de Mussolini de ajuda efetiva, respondia evasivamente, porquanto seus lugares-tenentes lhe pintavam, nessa época, a situação como precária. O antagonismo, entre alemães e italianos, na Espanha, crescia, o comando italiano e o espírito de seus combatentes eram acremente criticados e desprezados pelos especialistas alemães, tudo provava que a famosa proclamação da força do eixo não passava de um formidável blefe: no Extremo-Oriente, viu-se que, apesar do Eixo, a Alemanha fornecia à China armas contra o Japão – negócios são negócios – de outro lado, o Japão embora condenando o comunismo, deixava entender que sua adesão ao Eixo era de natureza antes platônica: a campanha da China exigia prudência. O terceiro elemento – os processos na URSS e a depuração nas fileiras do Exército Vermelho, de que a Alemanha, logicamente, aliás, tentou solapar a coerência, produziram, sem dúvida, o efeito de um choque psicológico na Europa. Uma propaganda fascista e pró-fascista hábil esforçou-se em explorar esse fato, insinuando que o poder do instrumento de guerra soviético estava quebrado, que o valor do pacto franco-soviético era duvidoso, etc. Não foram poucas as pessoas que se deixaram impressionar, mas, o incidente do lago Khassan e análises mais sérias, provindas de fontes militares, reduziram a importância do fato e mostraram que o exército russo continuava intacto e capaz de enfrentar o fascismo: toda a campanha não passava de um blefe, cuja importância psicológica desapareceu, pouco a pouco.

Mas, enquanto esperava, Hitler passou a uma nova etapa de seu plano, o Anschluss, considerando, de um lado, que a Itália estava bastante comprometida na Espanha e não se mexeria e, de outro, beneficiando-se de uma aguda crise ministerial na França. O momento era propício, tanto mais que, com a retirada de Éden do ministério dos Negócios Estrangeiros, na Inglaterra, a política de firmeza do Eixo Paris-Londres, que se esboçara no fim do ano de 1937, enfraquecia-se e Chamberlain parecia ter abandonado, novamente, a idéia de resistência à chantagem. A Alemanha fez, subitamente, pressão sobre a Áustria e provocou a conhecida reação do chanceler Schuschningg: a proclamação do plebiscito imediato. Ainda aqui o método de Hitler e a decisiva importância que ele lhe atribuía, são claramente ressaltados: desejava dispor de um certo lapso de tempo para fazer preceder, segundo seu hábito, o plebiscito de uma propaganda maciça, a seu gosto. Schuschnigg não podia fazer-lhe concorrência neste ponto, nada entendendo, por assim dizer, e não dispondo de força bastante poderosa para despertar o medo, elemento decisivo de uma tal propaganda; sentindo vagamente que, sem essa propaganda de Hitler. as massas votariam contra este, decidiu o plebiscito sem preparação, de forma imediata. Para quem conhecia Hitler e seus métodos, estava claro que jamais ele renunciaria a essa arma tão segura, e que impediria, custasse o que custasse, esse plebiscito. Foi o que aconteceu: a 13 de março, as tropas alemãs entraram na Áustria, apoderaram-se de Viena, sem resistência, prenderam Schuschnigg e confraternizaram, no Brenner, com os italianos. Alarmadas, as democracias nem sonharam em pronunciar palavras de condenação.

Para bater o ferro enquanto quente, uma ação militar e de propaganda contra a Tcheco-Eslováquia foi anunciada imediatamente depois do Anschluss. Esse pais estava cercado militarmente, uma campanha de imprensa, de injúrias, de reivindicações, de ameaças foi deflagrada e se abateu sobre a última muralha das democracias na Europa Central. Acreditou-se ter chegado a véspera do pior. A França reiterou suas afirmações de ajuda eventual ao seu pequeno aliado. Mas, nesse ínterim, uma parte da imprensa francesa, notoriamente pró-fascista, baralhava as cartas, destruía no exterior impressão produzida pela advertência francesa e Hitler continuou a afirmar, à sua entourage, que a França só fazia blefar. A mobilização tcheca de 21 de maio pôs fim, provisoriamente, a essa situação insustentável e eis que a ameaça se dissipou imediatamente: dentes cerrados, proferindo maldições, Hitler hesitou, recuou diante da audácia e da resistência de um pequeno povo! Que lição para os grandes! Ah! mas, ainda desta vez, não houve conseqüências. Em lugar de impor, segundo a proposta da URSS, a ordem e a cessação das provocações por uma ação conjunta de todas as potências, cansadas de toda essa agitação, fez-se pressão sobre a Tcheco-Eslováquia e, diante da propaganda habitual de intimidação no país dos Sudetos, tergiversou-se, reanimaram-se as esperanças e a arrogância de Hitler, terminando-se por jogar óleo no fogo, ao enviar Lord Runciman em missão a Praga. E com que incumbência! A de enfraquecer a resistência ao blefe, de provar, ainda uma vez, por essa ação incoerente, toda a incapacidade das democracias para compreender o verdadeiro mecanismo do que se passava. Depois de tantos exemplos, de tantas demonstrações convincentes! Seria de espantar a marcha que, desde então, tomaram os acontecimentos, nessa corrida para a guerra, que se tornou cada vez mais inevitável?

As peripécias dessa grande crise européia que disso resultou em setembro e cujo desenlace provisório foi a capitulação de Munich, são uma excelente ilustração do valor dos princípios enunciados neste livro, a respeito da vida política: se revermos a seqüência desses dias trágicos, verificamos que, na realidade, as conferências entre as quatro grandes potências, das quais tudo dependia, não eram mais do que uma negociata destinada a autorizar ou a impedir os ditadores, os fascismos hitlerista e mussolínico, a tirar, ainda uma vez, sua força de propaganda da renovação do reflexo condicionado que lhes era propício e que determinava a violação psíquica pela ação da violência real, pelo recurso ao reflexo absoluto. Estava aí todo o sentido da partida de pôquer que foi jogada diante de toda a humanidade. O que importava a Hitler era dar ao mundo uma demonstração de sua força aumentada, para aterrorizá-lo e quebrar, para o futuro, toda veleidade de resistência. Por outro lado, era-lhe ainda uma vez necessário impressionar seu próprio povo, que começava a manifestar, novamente, sintomas de lassitude, renovar seu domínio sobre o comportamento das massas alemãs. É a razão por que, sem confessar, naturalmente, insiste em que, custe o que custar, lhe seja oferecida oportunidade de fazer uma grande exibição guerreira, entrar com grande estrépito na Tcheco-Eslováquia, se possível, com o ruído do canhão e coberto de aviões violando os céus da pequena república. Quando em Godesberg, Chamberlain faz-lhe ver que suas exigências na Tcheco-Eslováquia eram aceitáveis, em princípio, que a Inglaterra e a França se fazem fiadoras de sua execução, emprega um ardil: diz que desconfia e quer, de qualquer forma, fazer marchar suas tropas, ocupar as fortificações, fixa o prazo, como um verdadeiro ultimatum, não consente que seja prorrogado.

Mas, ao mesmo tempo, ele próprio tem medo: não desejaria, de forma alguma, que o assunto se tornasse sério, sabe bem que uma guerra generalizada conduzi-lo-ia a seu fim, seus generais fazem-lhe compreender que não se prestarão a essa tarefa. Daí, suas hesitações; mas, compreendeu que Chamberlain era muito velho, que queria a paz a todo preço, que seus compromissos com a França o embaraçavam, que seu ódio à União Soviética era mais forte que sua apreensão com a Alemanha ou que sua repugnância pela mentalidade totalitária; e Hitler jogou sua cartada com uma tenacidade que acabou por vencer a resistência de Chamberlain que, não obstante, devia contar com a opinião pública e a força crescente da oposição no seu próprio país. Pouco preocupadas em compreender o motivo real da obstinação de Hitler e mesmo incapazes de compreendê-la, em razão de sua mentalidade, as duas democracias cederam a suas exigências, mesmo antes de Munich: tendo ficado acertadas, na noite de 27 para 28 de setembro, ajustaram com Hitler, por ocasião da visita do embaixador francês em Berlim na manhã do dia 28, a imediata ocupação, pelo exército alemão, dos territórios e fortificações, e o plebiscito nas outras regiões. Ao mesmo tempo, Hitler era posto a par de que, na noite de 28, o general Gamelin, numa visita a M. Osusky, ministro da Tcheco-Eslováquia em Paris, foi obrigado a aconselhar o Estado-Maior do seu país a evacuar a linha Maginot tcheca antes do prazo fixado por Hitler. Assim, sem derramamento de sangue, Hitler realizava seu plano de propaganda: reflexo absoluto (ocupação militar) mais reflexo condicionado (plebiscito, em que sua propaganda podia atuar apoiando-se no primeiro reflexo).

Fabre-Luce (52) diz, muito justamente: “A posição de Hitler em setembro de 1938 é análoga à de Mussolini em setembro de 1935. Se lhe fosse então oferecida a Etiópia numa salva de prata, ele não a teria... recebido, pois, seu primeiro objetivo de guerra não era a conquista, mas, a vitória: a revanche d'Adoua. Semelhantes concepções ferem de tal forma a psicologia dos homens de Estado democratas que não chegam mesmo a entrar nos seus cálculos.” Os Sudetos foram apenas um pretexto de Hitler para sua ação. Todas as grandes frases sobre “os martírios dos irmãos alemães”, sobre “a conduta sangüinária e sádica de Benes”, etc., eram retórica.

O pretexto dos Sudetos calhava bem no plano de Hitler, o qual consistia em afastar o pacto franco-soviético, porque era precisamente esse pacto que o atemorizava sem descanso. Daí também porque, depois de Munich, seu primeiro cuidado foi levantar um pretenso plano de “apaziguamento europeu”, cujas pedras angulares deveriam ser a promessa da Alemanha, da França, da Itália e da Inglaterra de não firmarem acordos com a Rússia Soviética, bem como o consentimento da Inglaterra e da França para que a Alemanha tivesse liberdade de ação na Europa Oriental; na verdade, é a hegemonia clara a que Hitler acreditou poder aspirar, depois do seu estrondoso sucesso. Em troca, estaria inclinado a “garantir as fronteiras da França e a declarar que o Império britânico, constituído sobre suas bases territoriais de agora está de acordo com os interesses da Alemanha”.

Vejamos agora de mais perto o plano de Hitler por ocasião da crise dos Sudetos e a tática de que se serviu. Fazendo Henlein, seu lugar-tenente no país dos Sudetos, negociar com o governo tchecoeslovaco, criava um estado de espírito na Europa, que levava pouco a pouco a admitir a justa razão de suas reivindicações e a familiarizar-se à idéia de que Praga devia fazer alguma coisa para apaziguar a agitação dos Sudetos, mantida, na verdade, artificialmente, pelos clássicos métodos hitleristas. Uma propaganda apropriada, visando à opinião pública inglesa, devia paralisar toda ação eficaz das democracias para pôr um termo a esse comportamento. Todas as propostas de Praga eram consideradas como “insuficientes” e quanto mais conciliadoras, mais a agitação aumentava. Uma mediação internacional, a missão Runciman, saída dos círculos conservadores ingleses, trabalhados pela propaganda hitlerista, afastou cada vez mais a coerência psicológica da Tcheco-Eslováquia; beneficiando-se da crescente confusão, eis que a agitação dos Sudetos tomava a forma de uma guerra civil, mais ou menos alastrada, que se tornou evidente depois do discurso de Nuremberg, em que Hitler proclamou sua vontade de ir com seu exército, em socorro dos “irmãos” da região dos Sudetos. Esse discurso foi compreendido pelos Sudetos como uma incitação direta à revolta. Agiram em conseqüência. Enquanto isso, Hitler fazia todos os seus preparativos bélicos e mobilizava, sob pretexto de manobrar, um milhão e meio de homens. Os democratas deixaram-no fazer. Desta vez, ainda, foi ele que as antecedeu sabendo que, conscientes desse fato, elas não se mexeriam. Poderia ignorar as “advertências&srdquo;. Aliás, tinham sido tão freqüentemente repetidas, sem que fossem seguidas de atos, que era de esperar não teriam mais nenhuma ação sobre Hitler: o fenômeno análogo ao da “extinção” do reflexo condicionado, não mantido por um reflexo absoluto, se verificava muito claramente. É, então, que o golpe decisivo poderia ser desferido: a agressão real à pequena república, a lição sangrenta, que deveria ficar localizada, mas, que bastaria para fazer reviver o medo coletivo no mundo inteiro e preparar o terreno para o passo seguinte no sentido da hegemonia. Na pior hipótese, se lhe ofereciam a Tcheco-Eslováquia sem “vitória militar”, teria, assim mesmo, feito entrar suas tropas em formações de combate, com todo o estrondoso aparato de uma máquina de guerra, ocuparia as fortificações, teria criado a impressão de sua força, inculcado o medo da violência; em outros termos, a violação psíquica seria consumada, o reflexo condicionado, que lhe era necessário, seria “reavivado”.

Era o plano de Hitler e saiu-lhe às maravilhas, mais uma vez. Podia perfeitamente não ser bem sucedido, se as democracias tivessem mostrado mais sagacidade, mais compreensão do mecanismo de pressão que se exercia sobre elas; se tivessem dito, firmemente, “alto lá! Para se desculpar, os que capitularam gostavam de repetir, mais tarde, que, se não tivessem cedido, teria havido a guerra e agarravam-se mesmo às fanfarronadas posteriores de Hitler que, num discurso em Cheb, a 3 de outubro, exaltando a força, dizia a seus novos súditos: “Estávamos dispostos a desembainhar a espada por vós”.

Os responsáveis pela capitulação de Munich e seus defensores agastam-se quando se chamam as coisas pelo nome, mas, basta ler os discursos pronunciados no Parlamento inglês por homens cuja reserva se conhece, para ver que não há nenhum exagero na palavra capitulação. O chefe da oposição inglesa, o major Attlee, diz, por exemplo: “Os acontecimentos desses últimos dias constituem uma das maiores derrotas diplomáticas que a Inglaterra e a França jamais sofreram. É, certamente, uma formidável vitória para Mr. Hitler”. E o deputado conservador Amery diz, por sua vez: “Os historiadores do futuro descreverão, sem dúvida, esses acontecimentos como o triunfo da força nua, da maneira mais brutal”.

Fabre-Luce (52) diz muito bem: “Porque se terminou por obter uma conferência, considera-se que os governos aliados tiveram uma vitória, mesmo se a conferência consistiu, essencialmente, em aceitar as propostas do adversário.” Mas, que isso tenha sido, na realidade, uma derrota total, retumbante, é comprovado ainda pelo fato do desmoronamento completo de tudo o que se estipulou no acordo de Munich: por exemplo: da garantia da nova Tcheco-Eslováquia, pelas democracias, não se falou mais; e isso poucas semanas já depois de Munich; é a Alemanha quem a protege agora, para tragá-la melhor, mais tarde; os dois interessados concordaram também que os plebiscitos eram, agora, inúteis, e a comissão de embaixadores para a delimitação das fronteiras deu à Alemanha, diante do mundo estupefato, em certos pontos, até mais do que ela havia pedido.

Essa capitulação torna-se compreensível, se se aceita a hipótese de que foi, mais ou menos conscientemente, admitida, desde o começo da crise. Psicologicamente, estava-se pronto a ceder ante a intimidação pela força. Se, às vezes, diante da ameaça aos interesses do Império Britânico, Neville Chamberlain se rebelava, suas apreensões eram rapidamente sossegadas, sucumbia facilmente a um otimismo passivo, à sugestão da força, dominado, antes de tudo, pela aspiração à calma, à tranqüilidade. Repetia de bom grado os argumentos que o mantinham nessa atitude, que era seu estado de espírito predileto: assim, quando seu emissário em Praga, Lord Runciman, afirmava que os alemães dos Sudetos e os tchecos não podiam viver sob o mesmo teto; assim, a 26 de setembro, depois da mobilização francesa e da firme declaração do Presidente do Conselho Francês de que a França julgava inaceitável o memorandum de Godesberg e mesmo depois da visita do generalíssimo francês, obstinava-se em seguir sua idéia pessoal de paz a todo preço; sem informar a ninguém, ele envia Sir Horace Wilson, seu conselheiro, a Berlim, junto ao Führer, para tentar negociar, mais uma vez. Se em Godesberg teve uma súbita reação de firmeza, trancou-se no hotel e, para surpresa do mundo inteiro, não quis mais reencontrar Hitler e enviou-lhe suas idéias por escrito, é que temia, ao mesmo tempo, a oposição na Inglaterra, que ganhava terreno visivelmente. Espíritos conquistados pela propaganda de Hitler, insinuaram que houve, nessa época, na França como na Inglaterra, o partido da guerra e o da paz; que a crise européia era dominada pela luta desses dois grupos: era precisamente a tese de Mussolini e de Hitler trabalhando a seu favor. De fato, havia homens que tinham sucumbido à fascinação da força; e também os que faziam causa comum com as ditaduras, sem nenhum rodeio (telegrama de M. Flandin a Hitler); por outro lado, havia outros, mais perspicazes, que viram claramente aonde levavam as contínuas concessões e que desejavam, não a guerra (quem a poderia desejar?), mas, sabendo que Hitler não a faria jamais e conhecendo as molas íntimas do seu comportamento, exigiam uma política de firmeza. A melhor prova é que essa diferenciação psicológica se manifestou em todos os partidos políticos: na França, por exemplo, via-se, de um lado, M. de Kerelis ficar de acordo com os comunistas, de outro, M. Flandin esposar a tese de certos intelectuais notoriamente pacifistas e até então radicalmente anti-hitleristas. Na verdade, a grande responsável pela capitulação de Munich é e permanece sendo a maioria conservadora de M. Chamberlain.

M. Duff Cooper, Primeiro Lord do Almirantado, no seu discurso de demissão que abalou a Câmara dos Comuns, depois da capitulação de Munich, enunciou, em linguagem clara e corajosa, esses erros. Atacou o comportamento hesitante e portanto perigoso: “Diziam-nos sempre que não devíamos, a nenhum preço, irritar M. Hitler; era particularmente perigoso fazê-lo, antes que ele fizesse um discurso público, porque, se fosse a tal ponto irritado, poderia dizer coisas terríveis, tornando impossível todo recuo posterior. Parece-me que M. Hitler jamais fez discursos sem que estivesse sob a influência de uma considerável irritação e o acréscimo de uma nova irritação não faria, a meu ver, grande diferença, enquanto a comunicação de um fato solene teria produzido um efeito calmante. O primeiro-ministro acreditou que era necessário falar, com Hitler, uma linguagem mansamente razoável. Acreditei que ele é mais sensível à linguagem do punho fechado. Há dias, exigi a mobilização da frota britânica. Pensei que aí estava a espécie de linguagem que M. Hitler compreenderia mais facilmente, do que a cheia de mesuras da diplomacia ou frases no condicional, de funcionários. Solicitara que alguma coisa fosse feita, nesse sentido, no fim de agosto. Fizera antes que o Primeiro Ministro fosse a Berchtesgaden...”

Assim, compreende-se, facilmente, que todos os protestos, avisos, démarches das democracias, aos olhos de Hitler, não passavam de ostentação, que a fachada de toda essa política era, como diz Fabre-Luce (52), de cartolina. Duas vezes, esboçou Hitler um movimento de recuo, de hesitação, durante a crise. A primeira vez, quando, na noite de 26 de setembro, a URSS ameaçou a Polônia, que se preparava para invadir a Tcheco-Eslováquia; Hitler não ousou aconselhar a Polônia a prosseguir e desencadear a guerra. A segunda, a 28, quando soube da mobilização da frota inglesa. M. Duff Cooper disse, no seu discurso: “Quarta-feira, pela manhã, Hitler estava, enfim, disposto a recuar uma polegada, ante as representações da Grã-Bretanha sobre o último apelo do Primeiro-Ministro. Mas, desejaria relembrar à Câmara que essa mensagem não era a primeira notícia que ele recebera nessa manhã. De madrugada, se inteirara da mobilização da frota britânica”.

Assim, todo o desenvolvimento dessa formidável crise nos comprova a justeza dos princípios aqui enunciados, como fatores determinantes do jogo dos ditadores. É interessante acentuar, ainda, alguns fatos psicológicos, observados durante a crise e que completam o quadro. Antes de tudo, a rapidez com que, graças à técnica da publicidade e ao TSF, se formavam os reflexos e se manifestavam as reações, se determinava o comportamento. A propaganda hitlerista e pró-Hitler, nos países democráticos, utilizou essas novas possibilidades com pleno rendimento, sobretudo difundindo notícias falsas e declarando falsos certos fatos verdadeiros e autênticos; é esse um novo aspecto da luta nos momentos de crise aguda da política internacional que se precisa considerar daqui por diante: efeitos inteiramente inesperados podem ocorrer.

Muito interessantes são as observações sobre o comportamento das massas e das multidões. A excitação, a ansiedade estavam espalhadas por toda parte durante as duas últimas semanas de setembro, que precederam ao desenrolar da crise; e essa excitação vinha crescendo com a psicose causada pelos discursos irradiados de Hitler. Vem então a mobilização: imediatamente, como desencadeada por um gesto, uma calma impressionante reinou; uma inibição coletiva espalhou-se, em poucas horas e durou alguns dias, até às 16 horas da tarde de 28. Então, um “degelo” geral se seguiu, uma onda de alegria, uma nova excitação abriu-se e foi só nesse momento que muitos se aperceberam de todo o perigo pessoal por que tinham passado e também os sintomas de um verdadeiro medo se manifestaram. Foi o fenômeno da desinibição dos reflexos condicionados, anteriormente inibidos. Muitas dessas pessoas que, durante a mobilização estavam calmas, raciocinavam assim: “Não é possível, se o país deseja conservar sua independência, suportar a atitude dos estados totalitários; e se o pior nos é imposto, melhor seria lutar do que ser escravizado”, essas mesmas pessoas tornaram-se, muito tarde, pacifistas ferrenhas, levadas pela vaga de otimismo sem limites e condenavam os que, mais senhores de si, procuravam resguardá-las do excesso de alegria; os acontecimentos que sobrevieram, a partir de então, lançaram uma ducha de água fria: a necessidade de se armar a todo transe, proclamada por toda parte, desde aquela ocasião, a destruição total da independência da Tcheco-Eslováquia por Hitler, os pogroms contra os judeus na Alemanha, as veleidades de ataques irredentistas dos fascistas italianos contra a França, comandados pelo ditador de Roma e que se revelaram em cenas escandalosas do Parlamento italiano, tudo isso provava que a agressão contra a humanidade continuava e que, bem ou mal, cedo ou tarde, seria preciso tomar posição no choque que permanecia inevitável.

É interessante notar que as reações das massas, na Alemanha, não tinham um caráter tão nítido quanto nos países democráticos. Isso é compreensível, quando se considera que as autoridades hitleristas mantiveram o povo na ignorância dos acontecimentos: ele não era informado, senão de maneira muito incompleta e quase sempre deformada; assim, esconderam-lhe a notícia da mobilização da frota inglesa: a propósito da mobilização francesa, espalhou-se o boato de que tinha por fim contrabalançar as “astúcias comunistas que forçaram a guerra”; a primeira nota de Roosevelt só foi publicada, na Alemanha, vinte e quatro horas depois de recebida, ao mesmo tempo que a resposta de Hitler e a publicação do segundo despacho foram retardadas até depois da convocação da conferência de Munich.

As conseqüências de Munich eram graves: podiam resumir-se em três fatos principais: a hegemonia da Alemanha na Europa central era obtida, a França estava isolada e a posição de Mussolini consolidada. Era bem claro que o apelo das democracias à sua “mediação” foi recebida por Mussolini com alegria, como um meio de se recuperar.

No que concerne ao isolamento da França, tornou-se evidente, se levados em consideração os ruídos que circulavam com insistência a propósito das reivindicações coloniais de Hitler: Genevieve Tabouis, geralmente bem informada, relatou-as no seu artigo de L'Oeuvre, de 20 de outubro: “repete-se muito que ele (Chamberlain) pensa que, nesse caso, seria talvez a França que, com a restituição das antigas colônias alemãs, poderia apaziguar o Reich!” Depois de inquirições rigorosas a todos os parlamentares da Inglaterra, sem distinção de partido, a respeito das colônias inglesas, alguns evitavam considerar pequenos presentes para o insaciável Mr. Hitler daquele lado, pois, o mais simples e mais lógico era olhar de soslaio para o lado dos “amigos”.

Nos círculos que se extasiavam com o acordo de Munich, procurava-se, ainda, com freqüência, desculpar os que capitularam, invocando a idéia de que a coexistência num mundo de estados fascistas e democráticos seria possível, que todo conflito de ideologia devia ser afastado. Sem acentuar o fato de que os próprios ditadores negavam essa possibilidade, em todas as ocasiões, é interessante ver que o conservador inglês muito conhecido, Mr. Winston Churchill, no seu discurso irradiado, endereçado aos americanos em 16 de outubro, afirmava: “Diz-se que não devemos deixar-nos arrastar a um antagonismo teórico entre ditaduras e democracias, mas, esse antagonismo não é mais teórico: é, agora, um fato. Será isso um apelo à guerra?, perguntava Churchill. Não, digo que, ao contrário, é a única garantia da paz.” Quiseram, inutilmente, negligenciar a moral, inclinando-se diante da força (na verdade, somente uma ameaça), o comportamento humano – em que o fator “moral” entra atualmente, à luz da ciência biológica, do mesmo modo que .os fatores “materiais” – não pode ser abstraído, sendo ele também um fator material. E, a esse respeito, o acordo de Munich não poderá jamais ser considerado como um fato moral. Consagrou a violação psíquica, foi feito em detrimento de um pequeno povo que sempre cumpriu conscientemente seus deveres humanos e sociais: a Tcheco-Eslováquia não foi sequer admitida na discussão do seu destino, notificaram-na da sentença.

Mas, como disse Churchill, no discurso que mencionamos acima: “A liberdade, ideal das democracias, contém forças morais de tal intensidade que os homens que conduzem este ideal no seu coração, saberão tirar do infortúnio uma nova confiança em si e uma nova esperança.”

Essa nova esperança começava a renascer. E foram os próprios ditadores que se encarregaram disso: pelos golpes brutais reiterados desde Munich, a invasão de Praga, as famosas reivindicações italianas sobre Nice, a Tunísia, a Córsega, Djibouti, a agressão contra a Albânia, Memel – foram de tal sorte que até os homens mais pacíficos começaram a compreender a necessidade da resistência.

E, quando a grande tempestade – a II Guerra Mundial – explodiu, a 1° de setembro de 1939, essa resistência ocorreu: as duas velhas democracias da Europa, a França e a Inglaterra, ergueram-se, unânimes, contra a invasão da Polônia por Hitler: a taça da paciência transbordou. A Rússia Soviética, ainda não preparada para tomar parte na luta e desconfiando dos Estados ocidentais a seu respeito (Munich, a imolação da Tcheco-Eslováquia, a marcada hostilidade durante a guerra russo-finlandesa, indo até a preparação de um corpo expedicionário para a Finlândia contra a URSS), mantinha-se fora do conflito, mas, preparava-se febrilmente para a guerra, estando persuadida de que, depois da Polônia e do Ocidente, Hitler se precipitaria sobre a fronteira russa, o que aconteceu, de fato, em 22 de junho de 1941.

É curioso notar que o grande escritor inglês M. G. Wells, profeticamente, anteviu as coisas tal como aconteceram. No seu apaixonado romance, The shape of things to come (163), escrito em 1933, descreve a guerra mundial (deflagrada em 1939!), com uma extraordinária clarividência: situa seu desencadeamento por Hitler em janeiro de 1940 (enganou-se de quatro meses apenas e isso sete anos antes da guerra!). Fala de um súbito ataque de Hitler contra a Polônia, por causa da questão de Dantzig, prevê que a França e a Inglaterra, aceitando o desafio, nela se envolverão, que a Rússia se absterá a princípio, que ocupará uma parte da Polônia e dos países bálticos, o que foi feito de surpresa e causou estupefação no mundo inteiro, sete anos mais tarde; predisse que uma guerra sino-japonesa precederia o conflito mundial, que a guerra se generalizaria e que a Rússia Soviética e os Estados Unidos tomariam, em seguida, parte ativa na guerra contra Hitler.

Cinco anos terríveis mantiveram o mundo inteiro sem respirar! Que horrores, sofrimentos, loucuras coletivas e individuais!

Não era mais questão de propaganda, da violência psíquica, a violência nua e crua agia em sua plenitude. A primeira “guerra fria” da história – entre o advento de Hitler ao poder na Alemanha e a II Guerra Mundial – caracterizada pelo emprego, por Hitler, de seu arsenal de propaganda, como preparativo para sua agressão – acabou dando seus frutos: a verdadeira guerra começou. Essa primeira “guerra fria” foi perdida pelas democracias, não puderam evitar a verdadeira guerra, em virtude da falta de energia dos seus dirigentes, de sua incompreensão dos verdadeiros fatores que atuam na luta política e de sua política interior equívoca, (acentuada hostilidade contra os movimentos socialistas e populares e posição favorável ao capitalismo). E tudo isso apesar das advertências que lhes foram feitas: a luta da Frente de Bronze contra Hitler na Alemanha, a luta armada das organizações operárias, em Viena, contra Dolfuss em 1934, o 6 de fevereiro de 1934, na França, são testemunhos disso.

Não temos muita coisa a dizer relativamente à função da propaganda no período da guerra. É claro, na própria luta, as duas partes desenvolveram também atividades de propaganda, antes como arma tática do que como estratégica, mas, em todo caso, a envergadura das ações desse gênero não era muito grande e não desempenhou papel decisivo, como foi o caso no fim da primeira guerra mundial. É verdade que, desta vez, o rádio teve grande importância, entre todos os beligerantes, atingindo milhões de ouvintes e dando informações, ah!, freqüentemente mentirosas, mas, que mantinham, assim mesmo, esperanças nas grandes massas. Em comparação com o rádio, a influência da imprensa recuava para segundo plano e a imagística era inteiramente medíocre: isso saltava aos olhos sobretudo nos países ocupados pelos hitleristas, que não haviam manifestado a menor sensibilidade nos métodos de tratamento psicológico das populações: seus cartazes e seus boletins eram espantosamente grosseiros e ineficazes.

Na luta de símbolos, os Aliados opuseram a Hitler, no fim da guerra, a imagem de um V que devia figurar a palavra Victory e Churchill tornou também plástico esse símbolo originariamente gráfico: levantava o braço, fazendo, com os dois dedos separados, a forma de um V. Os alemães tinham tão pouca imaginação que tomaram simplesmente aos ingleses o mesmo símbolo e tentaram utilizá-lo em sua propaganda: pintaram o V nos seus tanques, aviões, automóveis, etc., rodeando-o de uma coroa de louros. Era muito inábil, porque, pelo rádio, todo o mundo sabia que se tratava de um símbolo dos aliados e então zombava-se dos nazistas, dizendo-se que destinavam, antecipadamente, seus engenhos de guerra aos Aliados, sabendo que a guerra acabaria pela vitória deles.

Nos países da coalizão anti-nazista, procurou-se reeducar os prisioneiros de guerra, submetendo-os a uma propaganda do tipo persuasivo nos campos. Assim, os prisioneiros japoneses, que regressavam do cativeiro na Rússia, ao desembarcarem no Japão, entoaram canções comunistas, aprendidas nos campos da URSS, mas, elementos anti-soviéticos já os esperavam no desembarque, com a Bíblia na mão, fornecida pela propaganda americana, para “reeducá-los” no sentido “democrático”.

Se, como dizíamos mais acima, essa segunda guerra mundial não revelou atividades de propaganda de grande envergadura, de modo a não se poder afirmar que as possibilidades que se ofereciam, em face do progresso da teoria científica da propaganda, tenham sido utilizadas a fundo, pode-se assinalar, todavia, dois fatos característicos que atraem nossa atenção: é que Churchill mantinha elevado o moral dos ingleses por meio de uma tática audaciosa: tomamos de Domenach (45) as linhas seguintes: [454] “Em lugar de opor, aos exageros hitleristas, anúncios de vitórias imaginárias, apresentou, sempre, diante dos Comuns, um relato perfeitamente objetivo da situação, nada escondendo dos duros golpes suportados pelas cidades inglesas, nem as primeiras derrotas dos exércitos britânicos repelidos na Egito.” Em lugar da “guerra saudável e alegre”, prometeu aos ingleses “sangue, suor e lágrimas”. Mas, essa franqueza foi mais vantajosa que as fanfarronadas“.

O outro fato é ainda a audácia da propaganda, desta vez dos russos: anunciavam, às vezes, na frente, pelos alto-falantes, que atacariam os alemães uma certa data. E atacavam, efetivamente, no dia fixado. “Na verdade, diz ainda Domenach (45), [455] ”esse gênero de propaganda nada tem de bizarra, foi mesmo habitualmente usado, no começo, pelos bolcheviques que, como constata Ludovic Naudeau, no seu jornal L'Entente agem despreocupada, aberta e audaciosamente, falando cruamente, sem dissimular suas intenções, indo sua propaganda ao ponto de fixar, antecipadamente, o dia em que empunharão as armas, o dia em que tomarão o poder“. Predizer o que se fará e fazer realmente é, sem dúvida, a suprema habilidade de tática política; deixa uma impressão de segurança, de força irresistível, que chega a paralisar o adversário. Poder-se-ia quase afirmar que isso se assemelha ao princípio biológico do mimetismo de terrificação ou de fascinação, de que falamos anteriormente, [456] mas, nesse caso, aplicado ao domínio do psiquismo coletivo.

Outra característica dessa guerra foi o emprego, sobretudo na frente russa, de guerrilheiros surgindo de modo imprevisto, que fustigavam o inimigo na retaguarda; nesses movimentos, tomavam parte homens, mulheres e até crianças: faziam emboscadas, espionavam, sabotavam. Conheciam-se inumeráveis casos de heroísmo, criaram-se lendas, que, em seguida, eram utilizadas, pela propaganda, sobre as mais diversas formas: rádio, cinema, etc.

Mas, no fim da guerra, um acontecimento de enorme importância para a propaganda – e precisamente do tipo da violação psíquica – abalou o mundo inteiro: foi a bomba atômica sobre Hiroshima! Ela engendrou o Grande Medo dos nossos dias. Sua própria essência é a de um espantalho: a guerra contra o Japão estava quase terminada, todas as principais resistências japonesas quebradas, não havia razão plausível para se recorrer a essa arma terrível e desumana – mas, quis-se dar um exemplo, mostrar, diante do mundo espantado, o poderio dos Estados Unidos e a bomba foi lançada, massacrando, em alguns segundos, mutilando e torturando horrivelmente, quase 10.000 pessoas não combatentes: civis, mulheres, crianças e velhos.

Essa bomba desempenhou o papel de fator condicionante, com base na pulsão n° 1, por excelência. Desde então, tudo ficou transtornado na terra. Em 1945, a guerra aproximava-se do seu término, o mundo inteiro começava a entrever uma luz, o fim do pesadelo da guerra, esperanças brotavam em toda parte, simpatias crescentes espalhavam-se entre os povos, acreditava-se estarmos na véspera da grande Renovação, sem a qual a guerra vivida não tinha sentido algum. Mas, eis que a bomba atômica explodiu e todas as esperanças rebentaram também, e se desvaneceram, em todas as direções: a humanidade entendeu, tremeu, teve medo – medo do futuro!

Depois tudo foi piorando, uns – os Estados Unidos – querendo guardar o segredo da fabricação da bomba para fazer dele um fator político de pressão sobre outras nações e sonhando com uma hegemonia mundial: gostam de falar por aí de “um século americano”. Outros – a URSS – desconfiando, revoltando-se contra tais desígnios do Ocidente. Quase sem se aperceber, o mundo deslizou para uma atmosfera de suspeitas, de ações subterrâneas recíprocas, de crescente hostilidade entre os dois gigantes saídos da guerra – os EEUU e a URSS – e seus satélites. A instituição de um organismo mundial – a ONU – com o Conselho de Segurança e seus propósitos teóricos de preservação da Paz, afirmou-se logo inoperante, caindo, sob a influência econômica e política dos Estados Unidos, a grande maioria dos Estados ali representados, devastados e empobrecidos pela guerra, através da ajuda financeira a essas Nações, sob a forma do Plano Marshall.

Na ONU, o grupo soviético ficou sempre em minoria: 5 votos contra 50, em quase todas as questões. A resposta da URSS foi o reiterado recurso (57 vezes!) ao direito de veto que irritava e exasperava, naturalmente, e cada vez mais, a maioria estabelecida na ONU. A outra resposta da URSS foi a “cortina de ferro”. As relações se envenenaram progressivamente, os militares dos dois lados, encontrando-se face uns aos outros nos limites de ocupação da Alemanha, na Áustria, lançaram óleo ao fogo, em razão do seu zelo profissional. Os adversários espreitaram-se reciprocamente, a espionagem apoderou-se de ambos, em todos os escalões, a imprensa e o rádio aproveitaram-se, com empenho, das possibilidades de desenvolvimento sensacional da situação que lhes ofereciam material profissional; os processos políticos contra os simpatizantes dos regimes adversários, no seu próprio país (os chamados “quinta-colunas”) ou os agentes secretos dos Estados de agora em diante inimigos, contribuíram também para o aumento do ódio. Vieram, ao mesmo tempo, os malabarismos, com as cifras astronômicas do rearmamento, as tendências para atrair os inimigos de outrora à sua órbita de influência – a Alemanha, a Itália, o Japão – o malogro regular e inevitável de todas as conferências internacionais de conciliação, enfim, as propagandas antagônicas, atingindo o auge e indo até a interferência nas emissões radiofônicas do adversário.

A segunda guerra fria – anunciadora da terceira guerra mundial – instalou-se, definitivamente, entre o Leste e o Oeste. O conflito de Berlim, em 1949, com sua “ponte aérea” – arma antes política e de propaganda do que real – foi o ponto culminante dessa guerra fria, a primeira grande crise em que o perigo de guerra apareceu em toda sua horrível realidade. O Plano Marshall conduziu, logicamente, ao Pacto do Atlântico e a tentativa dos Estados Unidos de criar um exército anti-soviético na Europa Ocidental e de rearmar a Alemanha – e é assim que uma nova crise aguda abalou o mundo, nestes últimos meses.

De um lado, os Estados Unidos, temendo a força sempre crescente da URSS, que se apoiava nas fontes inesgotáveis da riqueza do solo, explorada metodicamente desde então, de suas imensas regiões, em seguida na juventude de um povo que, trabalhado por uma propaganda eficaz, associava-se com ardor ao progresso, afrontando os sacrifícios e as dificuldades e, finalmente, na simpatia das massas laboriosas do mundo inteiro, proclamando, abertamente, sua intenção de erguer uma barreira a esses acontecimentos e de se opor, no caso em questão, pela força. Por outro lado, a URSS, consciente dos perigos de um cerco militar, em vias de ser efetivado pelo mundo Ocidental, resultando numa camisa de força para seu natural desenvolvimento, responde com a intensificação de sua propaganda nos países de seu bloco na Europa e na Ásia e, também, nos próprios países do Ocidente hostil, e aproveita a oportunidade da guerra revolucionária da Coréia para sustentar a revolta dos povos orientais contra o caos de uma Coréia do Sul, patrocinada pelos Estados Unidos que, proclamando-se campeão da causa da “democracia”, nesse país, cujo regime eles mesmos designaram como podre e decadente, procuram utilizam essa ocasião como um trampolim para a reconquista de seus interesses econômicos e estratégicos, ameaçados irrevogavelmente pelo despertar do Extremo Oriente. Um ano de vicissitudes da guerra na Coréia, com os repetidos fluxos e refluxos das duas partes, não levou a qualquer solução, devastando terrivelmente o país e acabando em conferências de paz, sugeridas pela URSS, no quadro de sua “ofensiva de Paz”, que, à parte o seu valor real, é também um ato de propaganda que a beneficia diante das massas populares dos países de todo o mundo.

Ali também vemos que é sempre a pulsão n° 1 que está em causa, como também no caso do general Mac Arthur, nos Estados Unidos, que é típico: esse provocador que quase incendiou o mundo, atuando intensamente sobre a pulsão n° 1 das massas americanas, condicionadas, nos últimos anos, pela violação psíquica, exercida por uma imprensa chauvinista, que, exacerbando-as contra a URSS e o comunismo, a ponto de criar uma verdadeira psicose coletiva – foi afastado pelo Presidente Trumann, por sentir este, no último momento, os perigos a que se expunha, mas, levando em consideração o estado de espírito criado pela propaganda do partido republicano, nas massas americanas, teve ele que restabelecer a essência da política de Mac Arthur, por sua própria conta.

Assim, vemos, mais uma vez, que a pulsão n° 1, fonte de todas as violências como base da propaganda, continua a prevalecer, nas relações entre Estados nacionais e é a causa essencial da espada de Dâmocles. sob a qual o mundo atual continua a viver.


Capítulo XI
As ameaças da situação atual

O recuo das democracias – O processo da ficção da “democracia direta” – As verdadeiras culpabilidades – A situação real – Fascismo e Socialismo – Luta ideológica – O problema do Socialismo – O problema da liberdade – A agonia do capitalismo – O declínio do marxismo – A Tecnocracia de Burnham – Este e Oeste – O despertar da China e da Índia – A ascensão da Rússia Soviética – A criação de uma intelligentsia nova – A propaganda na URSS – A Parada dos Esportes – A “guerra fria” – A ficção do “perigo russo” – O desmoronamento da SDN – A fraqueza da ONU – A loucura dos armamentos – Os dois fatores principais de nosso tempo: a bomba atômica e a violação psíquica – O espectro da Terceira Guerra Mundial – O pseudo-pacifismo e as pseudo-democracias – A fome do mundo.

 

A história dos acontecimentos que se desenrolaram, no mundo, nesses últimos anos – analisamo-los nos dois capítulos precedentes – podem ser considerados como o recuo das democracias. Mostrou-nos o mecanismo íntimo desses fatos: podemos observar que essa evolução não foi causada exclusivamente pelo efeito de fatores econômicos e sociais, por uma espécie de “lei de bronze” econômica, engendrando uma situação social insustentável, como gostam de proclamar certos teóricos do marxismo clássico. Pode-se, à luz de fatos positivos que nos oferece, atualmente, a ciência do Homem, compreender, perfeitamente, o como e o porquê desse trágico encadeamento. Parece encaminhar a humanidade para sua perdição, ou, pelos menos, fazê-la recuar para a idade média, com esse corretivo cruel que seria uma idade média de novo tipo; alguma coisa como a que fazia, outrora, o escritor russo Alexandre Herzen assim definir o tzarismo: “Genghis-Khan armado do telégrafo”. O que espera a humanidade, se o perigo de uma nova guerra não for afastado e se o gênero humano sobreviver a essa catástrofe, é pior ainda: a degradação do homem ao nível do autômato, em que todas as reações, todos os reflexos seriam antecipadamente determinados, regidos pelo querer de uma pequena pseudoelite, imbuída de idéias criminosas de dominação; o aviltamento do pensamento humano ao nível de um instrumento de opressão psíquica, uma permanente violação intelectual, o abastardamento da arte à glorificação da violência e da absurda idéia da predestinação dos “chefes”. Quanto mais se pensa na “lógica” dos acontecimentos a que conduzem as idéias que dominam atualmente os Estados, mesmo os que se dizem “democráticos”, mais se vê toda a fraqueza desse amontoado fortuito, em gritante contradição com uma evolução salutar e possível da humanidade. Essas idéias só poderiam constituir o ponto de partida de uma evolução negativa para o nada, para a destruição total de nossa civilização: não seria a primeira vez que uma civilização teria sido destruída – a história nos fornece múltiplos exemplos: o Egito, a Babilônia, os Incas, a Atlântida. O grande perigo real consistiria em que, antes que os povos se restabelecessem, antes que por meio de terríveis revoluções não se libertassem do jugo, poderiam ser arrastados a guerras destruidoras em que pereceriam. As tendências nacionalistas dos Estados atuais os levam, necessariamente, ao isolamento sempre mais pronunciado, à concorrência, à rivalidade, conduzindo fatalmente à luta e à destruição recíprocas, em que tudo soçobraria.

O mais estranho é que nossa civilização se deixe conduzir para sua perdição, apesar de nessa evolução nefasta para o crepúsculo da humanidade nada haver de místico, de misterioso, de incompreensível; todo o mecanismo é simples e claro e, por conseguinte, não é uma utopia procurar o remédio, a possibilidade de resistir à evolução e de orientá-la no sentido oposto: da salvação. A ciência do homem e de suas reações nos fornece hoje os meios – é preciso apenas aprender a utilizar, judiciosamente, essas armas, com tenacidade e lógica.

O recuo das idéias especificamente humanas, das idéias democráticas, que observamos no mundo, não é um fenômeno natural, mas totalmente artificial. Deve-se a que os homens de Estado, que atualmente dirigem os destinos das comunidades, não estão à altura de sua tarefa, que estão em atraso em relação ao progresso da ciência, que se firmam, e meus julgamentos, sobre o que se denomina de “ciências” humanistas e econômicas; enquanto as atividades humanas, que lhes dizem respeito, são, antes de tudo, da alçada das ciências biológicas, das ciências da natureza humana. Tudo o que constitui a base das noções sociológicas, econômicas, filosóficas contemporâneas deve sofrer uma reforma, uma completa revisão. Todas essas noções surgiram na metade do último século, em que a teoria darwinista e um materialismo primitivo tinham a primazia. Foram essas doutrinas que fizeram eclodir, no domínio econômico e sociológico, por exemplo, as idéias de Karl Marx, que estão, hoje, na base de toda a política. Nesse ponto, não desagradam aos antimarxistas as idéias econômicas, de que se servem, na prática, que têm sua fonte, também, nas teorias “marxistas”. Ora, o darwinismo como tal não se sustém atualmente diante da crítica e arrasta, na sua queda, tudo o que havia engendrado: uma revisão completa se impõe e essa revisão deve ser condicionada pelas descobertas biológicas contemporâneas, sobretudo no que concerne à natureza das leis que determinam o comportamento humano.

Sem essa revisão completa de nossas noções sociológicas, com base nos dados científicos modernos, a humanidade corre o risco de que a perturbação mental de hoje não somente se perpetuaria, mas, acabaria por conduzir a uma gigantesca catástrofe de toda nossa civilização. De Felice (37) [457] oferece uma visão que corresponde, perfeitamente, à situação real em que o mundo atualmente se encontra, graças aos erros daqueles que, estando à frente dos agrupamentos humanos, deveriam pesquisar e combater, com êxito, os males que atingem nossa civilização: “Deslocamento progressivo de antigos grupos familiares, sociais e religiosos, cujas tradições atuavam como sedativos sobre os caracteres e os costumes; a agitação cada vez mais febricitante de uma civilização em que tudo está subordinado ao desenvolvimento da máquina, à difusão pela imprensa e pelo telégrafo sem fio, de informações sensacionais, superexcitam um público incapaz de reagir; a perpétua inquietude que crises econômicas e políticas mantêm nos espíritos, enfim, os perigos bem evidentes que conflitos claros e latentes fazem correr os homens e as nações e que os ameaçam de aniquilamento. Essas são as causas e também os sistemas de um estado patológico, que se agrava por si mesmo, à medida que se prolonga e que parece envolver a humanidade num círculo infernal, de cuja tirania certos indivíduos, semelhantes ao lucros, movidos por uma furiosa vontade de escapar, a todo preço, das alucinações que os obsedam, acabaram por imaginar que somente uma guerra de extermínio total poderia nos arrasar”.

“Nosso tempo – diz De Felice (37) – em razão das perturbações que o agitam, é particularmente propício à eclosão de fenômenos de arrebatamentos gregários. E isso tanto mais quanto nos defrontamos com o deliberado emprego de certos métodos destinados a provocar, nas massas, uma efervescência contagiosa”.

E constata-se, como característica de nossa época, “a deificacão da raça, do Estado, do partido, até mesmo de certas personalidades que encarnam os sonhos de hegemonia, o reaparecimento, sob designações cristãs, de divindades cruéis, adoradas outra pelas tribos bárbaras, a restauração do culto de velhos símbolos mágicos...” E tudo isso, apesar dos progressos da ciência, apesar da vitória do pensamento “democrático”. Digamos antes, não “apesar de”, mas, “por causa de”. Por causa do triunfo da idéia pseudodemocrática.

O escritor e publicista norte-americano Walter Lippmann, no seu livro Public Opinion (96) [458], faz o processo da democracia, analisando suas faltas que, segundo ele, são inerentes à sua própria natureza, como é admitida em toda parte e que não seria, na verdade, mais do que uma ficção. Diz que, a despeito da idéia geralmente difundida de que a autoridade e a democracia estariam em contradição, encontra-se a primeira também na segunda. Sua fonte é de ordem biológica: sua raiz está na relação entre o pai e o filho [459]. Nisso, a opinião de Lippmann vai ao encontro da psicanálise. Assim, o mundo é dirigido pelos sacerdotes, os senhores, os oficiais, os reis, os líderes de partido, os chefes que, como vimos, encarnam a idéia do pai. Em cada instituição social existe a hierarquia (na América denomina-se “máquina” ou também “organização”). A “máquina” se mantém em conjunto por um sistema de privilégio que cria uma escola de interdependência material. Essa base brutal e implacável é comum à democracia e ao poder absoluto. A única diferença entre os dois sistemas reside em que, na primeira, a tradição tem uma certa influência, Os insucessos da democracia no continente europeu seriam ocasionados por um excessivo desenvolvimento do individualismo, com sua falta de confiança na comunidade. Segundo Lippmann, três fatores são responsáveis pela organização: a dependência da autoridade de terceiros, de quem obtemos nossos conhecimentos do mundo (unseen environment) o que já ocorre na infância; em seguida, a dependência material num sistema de privilégios e a necessidade de grandes modelos, de estereótipos, da tradição. Os meios pelos quais uma coletividade humana pode agir diretamente sobre uma situação externa são limitados. Os elementos atingidos por esses meios podem deslocar-se, podem fazer greve, boicotar ou festejar. Mas, as massas nada podem construir, inventar, negociar ou administrar. São incapazes de ações numa grande parte da vida social. A ficção da “democracia total” que não se realiza em parte alguma e que não pode ser realizada, é, segundo Lippmann (96), o inimigo perigoso da verdade democracia e essa ficção deveria ser eliminada. Refere-se às palavras de Anatole France, no Le mannequin d'osier: “A moral não tem sua origem na religião ou na filosofia, mas no hábito, a única força que pode manter os homens animados dos mesmos sentimentos comuns. Pois, tudo o que é objeto de discussão divide os homens e a humanidade não pode existir sob a condição de não refletir sobre o que constitui a própria base de sua existência”.

É sobretudo Reiwald (130) [460] que nos fornece uma pertinente análise do que representa a democracia do nosso tempo. Diz que, para a democracia, as relações entre o líder e a multidão são de importância capital. A social-democracia e a democracia, em geral, são hostis a essa noções. Outrora, compreendia-se como líder (Carlyle, Nietzsche) exclusivamente uma grande personalidade. Foram os ditadores do século XX que colocaram o problema em primeiro plano, mas, no sentido pejorativo, de modo que, nos meios democráticos, as próprias noções de líder e também da multidão, são consideradas como saídas de uma mentalidade reacionária e fascista. E, no entanto, o velho modelo democrático de 1789 desmoronou-se na prática política na França, na Itália, na Alemanha. Nos Estados Unidos, observa-se que o poder político deslizou do Congresso para o Presidente. Lênin reclamava, com veemência, a instauração do poder total e direito do povo, mas, a democracia direta só pôde ser realizada nas pequenas nacionalidades, como a Suíça e os países escandinavos.

No Ocidente, a democracia é admitida, em princípio, mas, na realidade, os regimes de partidos conferem aos líderes um poder que tem pouco a ver com o princípio democrático e, nesses países, vemos que a burocracia assegurou, para si, uma existência própria e incontestável. Assim, vê-se que o ideal da democracia – a comunidade fraternal dos cidadãos com direitos iguais – não está realizada e não é mesmo realizável. Reiwald indaga das razões que impedem sua realização e as vê, sobretudo, em três direções: são, a princípio, as diferenças biológicas dos homens, em seguida as dos domínios econômico, político, social e cultural e, enfim a tendência entre eles a renunciar a decisões próprias, a deixar a responsabilidade e o trabalho a um terceiro e a colocar-se na dependência deste. As raízes dessas tendências devem ser procuradas na afetividade, que já se delineia na criança entre um e cinco anos: é então que se forma o sentimento da dependência do pai que lhe concede sua proteção, seus cuidados e que a pune. Na família, tudo se faz no sentido de que a vontade da criança seja quebrada, para que se torne dócil e submissa. A escola continua a “educação” na mesma direção. Reflexos condicionados apropriados se formam, de modo que o homem maduro cai, a cada passo, numa situação de dependência em relação a quem tem mais experiência, que é mais poderoso, mais velho, em relação ao superior, ao chefe. Tornam-se todos, no seu inconsciente, os sucessores e substitutos ao pai e ele os segue, em plena consciência ou inconscientemente.

A relação “líder-multidão”, estabelecida no sentido indicado, é, segundo Reiwald (130) [461], a maior inimiga da idéia democrática. Mesmo depois de cada revolução, essa relação é reimplantada sob nova forma e solapa os mais seguros diques da democracia. Espalha-se a crença de que a democracia começa fora dos campos de concentração. Mas, não passa de uma ilusão: encontram-se, a cada passo, nos países “democráticos”, instituições que concorrem para esvaziar o ideal de uma verdadeira comunidade. O ideal realizado é o do pai onipotente em relação ao filho que dele depende, do único responsável em relação ao irresponsável, do líder em relação ao liderado. É a verdadeira razão de se encontrar tão raramente realizado o princípio democ