eBookLibris

A SOMBRA DE JÚLIO FRANK

Afonso Schmidt




A Sombra de Júlio Frank (1942)
Afonso Schmidt (29-06-1890 – 3-04-1964)

Fonte digital
Digitalização da edição em papel
Editora Anchieta Ltda. - 1942

Afonso Schmidt e sua palheta azul
©2008 Rosani Abou Adal

Edição eBooksBrasil

© 2008 Afonso Schmidt

USO NÃO COMERCIAL * VEDADO USO COMERCIAL



NOTA DE COPYRIGHT

Esta edição é feita em “fair use”, em benefício de um direito moral do autor infelizmente não contemplado pela Lei 9.610 de 19/02/1998 [Lei dos Direitos Autorais].

Ela não menciona, entre os Direitos Morais do Autor (Artigo 24) o mais importante dentre eles, como qualquer autor sabe: o de ter sua obra divulgada, em vida e, principalmente, após sua morte.

Caso haja, nesta publicação, a violação de qualquer direito patrimonial (o que não acreditamos, visto a obra não ter sido reeditada recentemente e a presente edição estar sendo disponibilizada com cessão pública, que aqui fica declarada, de todo e qualquer direito patrimonial sobre ela), os detentores legítimos de tal direito, caso se sentiam lesados, estão cordialmente convidados a enviar e-mail para livros@ebooksbrasil.org para que o presente título seja prontamente retirado da apreciação pública e possamos informar aos apreciadores da obra de Afonso Schmidt onde poderão adquiri-lo.



Índice

Afonso Schmidt e sua palheta azul — Rosani Abou Adal
A Sombra de Júlio Frank
I — Carlos Frederico e Carlota Frederica
II — A Infância de Frank
III — Estudante da Pá Virada
IV — Marinheiro de Primeira Viagem
V — Até as Pedras se Encontram
VI — Na Alta Roda
VII — Um Grito de Angústia
VIII — A Caminho do Brasil
IX — A Vida de Bordo
X — Ao Deus Dará
XI — O Caminho de São Paulo
XII — Em Ipanema
XIII — A Venda da Cobra
XIV — A Escolinha
XV — A Cidade da Garoa e das Mantilhas
XVI — O Segredo dos Estudantes
XVII — Professor de História
XVIII — Os Sinos
XIX — Morte de Frank
XX — Sob as Arcadas



Afonso Schmidt e sua palheta azul
Crônica de Rosani Abou Adal

 

Não tive a satisfação e o privilégio de conhecer o escritor, intelectual, teatrólogo e jornalista Afonso Schmidt, portanto, não posso dar meu depoimento sobre sua pessoa. Dizem sê-lo tímido e que só começava a falar após o quarto cigarro. Mas creio que um escritor dotado de tanta sensibilidade em suas criações deve ter sido um homem de notáveis qualidades.

Afonso Schmidt nasceu em Cubatão, Estado de São Paulo, a 29 de junho de 1890. Aos 74 anos, na capital paulista, aos três de abril de 1964, partiu com as folhas secas do outono para o outro lado da vida, rumo ao desconhecido.

Iniciou suas primeiras letras na cidade natal e depois veio para São Paulo estudar no Grupo Escolar do Brás e no Grupo Escolar do Oriente. Brás e Bresser foram os bairros da cidade de São Paulo aonde residiu grande parte de sua vida.

Iniciou na imprensa aos 12 anos e montou uma tipografia artesanal para imprimir seu primeiro jornal intitulado de O Janota. Em 1905 ingressou na Faculdade de Direito e abandonou os estudos porque o repórter e o escritor falavam mais alto em sua verve. Com Oduvaldo Viana e outros editou o semanário Zig Zag. Depois fundou e dirigiu no Rio de Janeiro a Voz do Povo, matutino da Federação Operária.

Colaborou em vários jornais da capital e do interior do Estado de São Paulo. Foi redator do Jornal do Comércio de São Paulo, Diário de Santos, A Tribuna, de Santos, Folha da Manhã e de O Estado de São Paulo onde trabalhou por muito tempo publicando grande parte da sua obra literária.

Schmidt fez duas viagens à Europa. Na primeira, em 1907, conheceu as Canárias, Vigo, Lisboa e depois Paris. Foi com poucos recursos, passou por fome e miséria, e sua experiência foi narrada no romance A Primeira Viagem, editado em 1947. A segunda feita nas mesmas condições da anterior foi em 1913, trabalhando em Milão até 1914 e ao ser transferido para a França ficou bloqueado no alto do Mont Cénis e graças ao apelo do Príncipe Dom Luís de Bragança conseguiu sair dali e retornou ao Brasil antes de estourar a Primeira Grande Guerra em 1914. Esta sua passagem é contada no livro Bom Tempo.

Iniciou na literatura em 1904 com o folheto de versos Lírios Roxos. Em 1905 estampou Miniaturas. A primeira obra, editada por sua conta, foi o livro de poemas Janelas Abertas, em 1911. Até os 30 anos de idade não teve editor e foi ele quem custeou os seus livros. Nesta época era comum os poetas e romancistas editarem seus livros e muitos se encarregavam de vendê-los. Brutalidade, livro de contos, foi o primeiro publicado pela Star, de propriedade do poeta Paulo Gonçalves, em 1922. O livro surpreendeu as expectativas e vendeu mais que o esperado.

Outra obra que obteve uma boa vendagem foi O Dragão e as Virgens, lançado em 1925. Schmidt se pronunciou com ironia a respeito do sucesso de vendas dessa obra, disse o seguinte: “Por uma série de circunstâncias imprevistas, apareceu nos mostruários quase um ano depois da crítica ter se pronunciado. Esse livro foi muito vendido: os açougues do Brás compraram-no sem regatear, para embrulhar filés e alcatras...”

Destaco uma passagem curiosa na vida literária de Schmidt sobre um livro clandestino editado pela Hélio, em Lisboa, em 1948. O livro foi Os Melhores Contos de Afonso Schmidt. Mas foi em 1951 que tomou conhecimento do fato quando um leitor lhe telefonou pedindo autógrafo do mesmo. Depois o leitor ofereceu-o ao Schmidt com a seguinte dedicatória: “ Ao autor agradecido oferece o leitor admirado.” O fato foi muito comentado pela imprensa.

Outro episódio que merece atenção é o romance histórico A Sombra de Júlio Frank, editado em 1926, que só foi colocado à venda na segunda edição.

Foi agraciado com vários prêmios literários e para não me estender não citarei todos. Em 1924 publicou Os Impunes, contos, que foi premiado por La Novela Semanal, de Buenos Aires. Neste mesmo ano recebeu três prêmios de uma só vez da Academia Brasileira de Letras, com os livros A Marcha, romance, O Tesouro de Cananéia, contos, e com O irmão sem nome, trabalho inédito que foi publicado com o título de Reino do Céu. A novela O Menino Felipe, em 1948, venceu em primeiro lugar o concurso da revista O Cruzeiro. Foi detentor do Prêmio Intelectual do Ano, de 1963, promovido pela União Brasileira de Escritores e patrocinado pelo jornal A Folha de S. Paulo, e recebeu a estatueta Juca Pato de San Tiago Dantas, detentor do prêmio no ano anterior.

Iniciou sua carreira como poeta, mas depois enveredou para a prosa e deixou uma vasta obra com muitos livros traduzidos. Ele foi um dos escritores brasileiros mais lidos no exterior. Schmidt afirmou que só escreveu versos enquanto sua vida despreocupada de moço permitiu.

Atuou em várias gestões de diretorias da União Brasileira de Escritores, foi membro da Academia Paulista de Letras, cadeira n.º 10, em substituição a Gustavo Teixeira.

Schmidt foi muito elogiado pela crítica e são muitas as referências sobre sua obra. Destaco as seguintes:

“Enquanto fez poesia Afonso Schmidt não só cultivou o parnasianismo dominante, como ressuscitou a nota social que dormia nos livros desde o advento desse mesmo parnasianismo, embora fosse muito ativa no decênio de 1870 e no início de 1880. Sua contribuição mais séria ao neoparnasianismo foi a retomada da poesia social.” Péricles Eugênio da Silva Ramos.

Sobre a obra O Canudo, novela baseada na biografia de Raul Pompéia, Herculano Pires afirmou que “Tanto mais que Schmidt, além da afinidade literária com o biografado, conta a vantagem de ser o romancista de São Paulo e o historiador que todos conhecem, dotado de todos os recursos para oferecer-nos, como realmente nos oferece em O Canudo, uma perfeita evocação da cidade que Pompéia conheceu, e na qual viveu os anos curtos e agitados de estudante de direito, abolicionista e republicano.”

“Mas... encontrar, como leitor, tal ficcionista, é uma coisa, e boa. Basta lê-lo, e sentir-lhe a personalidade e acompanhar a delicada urdidura das suas histórias, e aprender humanidade, e sentir emoção; e fechar enfim o livro, lida a última página, com todas as suas personagens e todos os seus ambientes nos cercando, não saindo da nossa vida espiritual”. – Antônio D’Ella.

Em nota explicativa da edição Tempo das Águas, Raimundo de Menezes, afirma que “Estes três belos episódios que ides ler, leitores amigos do Clube do Livro. Melhor recomendação não poderão ter: trazem a chancela de Afonso Schmidt, consagrado por algumas dezenas de obras de primeira grandeza e por quatro prêmios da Academia Brasileira de Letras. Esse é o autor que já vos acostumastes a admirar, há tantos anos.”

“Tem Afonso Schmidt o privilégio, que redobra a sua invulgar bagagem literária, de trabalhar pela dignificação do ser humano. A força de sua narrativa e o segredo de sua prosa estão a serviço desse objetivo superior e nobre.” – Mário Graciotti.

“Em verdade, através do conjunto de trabalhos literários desse autêntico ficcionista, que tanto sabe dar sangue e nervos a criaturas imaginárias, como sabe reviver os mortos em romances de fundo histórico, a constante presença que avulta e se impõe, sempre sugestiva e complexa, evocativa e agitada, hoje ou outrora, é a da Paulicéia da ternura e das lembranças de Afonso Schmidt.” – Maria de Lourdes Teixeira.

Afonso Schmidt, um dos maiores escritores deste século, não deveria jamais cair no esquecimento. No entanto existem poucas citações sobre sua obra em livros didáticos embora tenha sido importante sua presença na literatura brasileira. Sua obra tanto na área da poesia, contos ou romance é marcada pelo seu estilo rico em linguagens, metalinguagens, plasticidade poética, conciso, preciso e dotado de um ritmo cadenciado. Com total domínio da língua portuguesa narrou a cidade de São Paulo com perfeição e lapidou seus personagens de realismo. Schmidt é um escritor que expõe suas idéias de forma limpa e clara sem ser redundante ou repetitivo mesmo que o faça para dar ênfase. As imagens que ele descreve são tão realistas que levam o leitor a viajar e entrar na estória como se fosse mais um personagem. Tornam-se cúmplices da narração e se envolvem tanto que é impossível ler apenas um livro. É impossível parar de ler porque a leitura dá prazer e as palavras entram dentro da gente e alcançam o nosso espírito.

Concordo com Péricles Eugênio da Silva Ramos quanto a sua obra poética ser parnasiana e neoparnasiana, mas os seus romances, contos e novelas são modernistas e realistas.

Devido a importância de sua obra na história da literatura brasileira, deveria ela ser reeditada e indicada para leitura complementar nas escolas e fazer parte dos exames de vestibular. É inaceitável o fato de seus livros serem encontrados apenas em sebos.

Finalizo com as palavras de Schmidt: “Já se observou que na minha palheta há muito azul. Vá lá... Deve ser o coração do antigo poeta lírico que, tendo deixado de cantar, dissolveu-se nestas páginas com a fécula da anileira nas poças de chuva que se formam ao seu redor.”

Então vamos usar as suas palhetas e fazer com que o azul do seu coração venha se expandir em todos os cantos deste Brasil. Vamos nos banhar nas poças de chuvas para resgatar sua obra. Vamos por mais um pouco de azul para despertar a memória literária. É nossa obrigação pintar de azul todos os brasileiros para não deixar que a obra de Afonso Schmidt fique restrita apenas a intelectuais.

 

Rosani Abou Adal é escritora, jornalista, membro da Academia Piracicabana de Letras e da Academia de Letras de Campos do Jordão. Editora do jornal Linguagem Viva — www.linguagemviva.com.br.



Afonso Schmidt

A SOMBRA
DE
JÚLIO FRANK

1808-1941



Desde 1827, a Faculdade de Direito dá uma nota característica ao hoje largo de São Francisco. Instalada no mosteiro dos franciscanos, com salas, corredores e arcadas conventuais, ouvindo por matinas e vésperas o badalar dos sinos, sentindo o cheiro adocicado do incenso queimado nas caçoulas, embalando-se na melopéia das ladainhas, seria natural que a casa de estudos se misturasse um pouco com a das orações e sobre ambas pairasse aquela indizível tristeza que nimba os claustros.

No entanto, um século de experiência demonstrou que tal infiltração não é possível: os estudantes ainda não viraram franciscanos. Do outro lado, embora escasseiem documentos, presume-se que houve a mesma impermeabilidade, pois a crônica da última centúria não regista que os frades, vizinhos dos estudantes, tivessem sido tomados de bruscos arroubos juvenis, desses que outrora se manifestavam por serenatas nas ladeiras ermas e hoje espoucam algumas vezes em chopadas ou competições esportivas. Nada disso, que se saiba, veio obscurecer a serenidade dos venerandos religiosos.

Os anos foram passando. À volta do mosteiro, São Paulo cresceu, atingiu o primeiro milhão de habitantes, a vida acelerou prodigiosamente o seu ritmo. E, no coração da cidade de ferro e cimento armado, o casarão de taipa guarda a sua saudade e o seu mistério. Sim, o seu mistério.

Muitos estudantes que transitaram pela Faculdade, de 1841 para cá, trouxeram no âmago de si mesmos o espinho de uma curiosidade, uma pergunta a que só agora se começou a responder, com palavras ainda bem vagas. Refiro-me àquele túmulo que lá se encontra — como escreve Spencer Vampré — “no claustro mais íntimo da Faculdade” e que foi conservado com carinho nas reformas por que está passando a velha casa. Nesse monumento há uma inscrição com o nome de quem ali repousa, que é Júlio Frank, dando-o como nascido em Gotha no ano de 1809.

Como se averiguou mais tarde, há engano nessa lápide: Júlio Frank nasceu não em 1809, como lá se acha escrito em algarismos romanos, mas em 1808, como consta dos assentamentos da igreja em que foi batizado. Muitos sabem tratar-se de um erudito estrangeiro que durante anos desempenhou o cargo de professor de História no Curso Anexo, aceito apenas pelo seu grande saber, e que um dia saiu de São Paulo pela morte, como havia entrado pela estrada de Sorocaba, sem apresentar papéis nem falar de si. Na terra escura desse mistério floresceu, com o correr do tempo, um canteiro de lendas cujo perfume chegou até nossos dias.

Quando alguém procura dar idéia de que sabe guardar segredo, diz: “Eu sou um túmulo”. Pois aquele túmulo à sombra das arcadas guardou o seu mistério durante quase um século. As últimas testemunhas falaram de Júlio Frank como de um homem singular, aparecido em São Paulo ali por 1830, calando avaramente tudo quanto se referia ao seu passado.

Espicaçadas pelo mistério, ou mesmo com o nobre intuito de fazer luz sobre aquela figura que brilhou no São Paulo de outras eras, algumas pessoas têm procurado saber já não quem ali se encontra enterrado e porque ali e não no adro de uma igreja, como era costume do tempo, mas quem de fato teria sido esse fulgurante espírito que, inesperadamente, aqui apareceu, viveu no meio de estudantes, chegou a ser professor apesar da vida irregularíssima que levava, deslumbrou os contemporâneos com o saber e, sem deixar maior vestígio da sua passagem, extinguiu-se aos 33 anos de idade, em razão de uma conduta que valia por lento suicídio.

Apesar de tudo, seu nome já se ia alastrando pelos meios intelectuais do país e, se não fora a morte prematura, grande relevo poderia ter alcançado. Não foi sem justiça, portanto, que o dr. Tomaz José Pinto Serqueira, sócio efetivo do Instituto Histórico do Rio de Janeiro, lhe fez em sessão solene, poucos dias depois de sua morte, este elogio fúnebre:

“O nome que agora me resta é o de um mancebo morto na flor dos anos, mas cuja breve passagem por este mundo deixou para sempre recordações saudosas; quero falar do sr. Júlio Frank. Quem era ele? Eu e os que no Brasil o conheceram — o ignoramos. Era esse o seu verdadeiro nome? Cuidamos que não. Que terra o viu nascer? Parece que a Alemanha, mas não se sabe que parte dessa vasta região. A que família pertencia? Ignora-se. Que motivos o trouxeram ao Brasil? Ainda a mesma obscuridade. Sabemos apenas que chegou ao Rio de Janeiro sem o mais pequeno recurso; e que o primeiro carinho que recebeu nesta terra hospitaleira foi uma ordem de prisão e sua primeira morada a fortaleza da Lage; e isso por uma queixa que dele deu o comandante do navio que o havia conduzido. Também Epiteto encontrou um senhor que lhe quebrou as pernas. Tendo obtido sua soltura, foi servir em uma estalagem. Quem diria, srs., ao ver esse mancebo reduzido a tal penúria, que nele se escondia um homem do mais raro merecimento? Que conhecia a fundo as línguas vivas da Europa e mesmo o latim e o grego; que era hábil geômetra e metafísico, que não era hóspede nos princípios de Direito Público e nos do Romano e que tinha perfeito conhecimento da História antiga e moderna. Pois tudo isso era, e o homem que tudo isso sabia era caixeiro de uma estalagem!”

O elogio do sócio do Instituto Histórico do Rio de Janeiro prossegue com o mesmo entusiasmo. Reproduzindo o trecho acima, só o fizemos para demonstrar quanto Júlio Frank era admirado e ignorado ainda no ano em que morreu.

Quase um século depois, em 1935, um jornalista carioca escreveu em artigo de fundo, e assinou, que: “no saguão do antigo edifício da Faculdade de Direito de São Paulo existe um único túmulo, que é o do judeu alemão, professor contratado de História, organizador da “Burschenschaft” no Brasil. Durante a revolução de 1930, esse túmulo foi misteriosamente violado, ao que dizem, para retirarem de lá os primitivos estatutos e atas de organização, a fim de que tais documentos ultra-secretos escapassem ao conhecimento do público”.

Essa ignorância da vida de Frank e das coisas que a ele se referem originou deliciosas lendas; elas só por si dariam mais do que uma novela — dariam um poema.

Não tendo passado pela Faculdade de Direito, como por nenhuma outra, só me apercebi da existência dessa figura do passado através da tradição oral que transpôs os muros do claustro e ainda hoje exaspera muita fantasia de voo fácil. A princípio essa história não despertou em mim maior interesse que a da famosa Dama Branca que, noite velha, subia pelo chão empedrado da rua da Casa Santa e cujo aparecimento, segundo as crônicas de antanho, era nefasto para os estudantes, ou ainda que a superstição registrada e confirmada por Álvares de Azevedo de que, todos os anos, a Faculdade de Direito pagava à morte o tributo de um de seus mais esperançosos quintanistas. Foi agora, depois de criada a Universidade, neste período de reformas por que está passando o casarão do largo do Capim, que eu deveras me senti atraído pelo túmulo e pelo passado do sábio, cujos ossos, segundo parece, ali repousam.

Como tenho nas veias mais de uma gota de antigo sangue alemão, as características da raça agiram sobre mim e fui levado a procurar e conhecer as abnegadas pessoas que, mediante aturado esforço, colheram aqui e ali a tradição oral que nos chega das brumas, colecionaram vagas referências da época, ou ainda recorreram a informações e arquivos da própria Alemanha e conseguiram reunir em artigos de jornais e revistas preciosos dados sobre a misteriosa personalidade.

Tais achegas são pouca coisa para uma obra de biografia e crítica... mas são até demais para esta novela, ou melhor, esta reportagem histórica, classifique-a o leitor como melhor lhe aprouver. Com um ou outro nome, o presente trabalho virá fixar, embora pobremente acabado, uma das mais lindas páginas da tradição estudantina de São Paulo.

A matéria prima com que urdi esta prosa foi pedida a uns e outros, entre os quais quero citar os escritores Frederico Sommer e Alexandre Haas, a quem devemos as melhores e mais completas informações históricas sobre o assunto, e ainda outros, cujos nomes escaparam ao interesse deste trabalho. Todos foram de encantadora gentileza diante da curiosidade abelhuda do repórter; abriram-se e deram quanto em si cabia. Por isso, o ouro que aqui se encontrar não é meu; meu será apenas o vil estanho empregado para reunir e dar forma ao alheio material. Meu, apenas, o fio de sonho em que enfiei as camândulas do peditório. A própria suposição de uma grada estirpe ao protagonista não é minha, é da lenda, e já foi por vezes escrita, negada, discutida.

Esclarecido que não me propus escrever peça histórica digna de ser tomada como tal, porque trabalho organizado e de paciência não é do meu feitio, vou argumentar por hipótese, ou melhor, por exclusão; quem dispuser de melhores elementos, que me corrija; antecipo aos insigníssimos colaboradores a minha gratidão.

Dito isto, figuro-me no florido alpendre de uma daquelas nossas vivendas de outros tempos, com grandes bolas de vidro, coloridas, a brilharem no teto; reúno os escassos leitores e principio assim a narrativa:

Foi em Gotha, no palácio ducal, ali por 1808...



I
CARLOS FREDERICO E CARLOTA FREDERICA

Imagina-se facilmente o que seria Gotha, capital do ducado, nos primeiros anos do século XIX. Essa cidadezinha, mais conhecida pelas obras de seus filhos do que pela importância econômica, situada nas margens do Leina, mesmo no sopé das elevações cobertas pela floresta da Turíngia, ainda não contava muito mais de 15.000 habitantes.

Apesar disso, já mantinha bancos e escolas de comércio que lhe davam uma certa influência. Ilustravam-na também a bonita catedral do século XVI, o castelo de Friedinstein no alto do morro, o Friedrichstal, o museu de numismática, a biblioteca da corte, que era uma das mais ricas da Alemanha, e floridos jardins à beira da água, onde estudantes e costureiras deixavam as iniciais gravadas a canivete na casca dos velhos troncos de tília.

Todo esse quadro era dominado pelo grave castelo ducal, à sombra de cujas torres ameiadas se extinguia a dinastia Ernestina de landgraves louros, de cabeça quadrada, com finos bigodes merovíngios que desciam pelos cantos da boca e vinham enrolar-se à altura do queixo. No passado, tinham sido exaltados amigos da caça e, nas primaveras de antanho, quando as suas cavalgadas atravessavam as poucas ruas da cidade, na direção da floresta, tudo se alarmava ao trote das montarias, ao soar das trompas, à festiva algazarra das matilhas. À noite, depois daquelas famosas correrias, ceiava-se no castelo.

As imensas salas de teto esculpido, alumiadas a candelabros de cem velas das cores mais delicadas, onde se viam afrescos de caça nas paredes nuas e galharias de veados no alto das portas, assistiam a compridas reuniões que iam pela noite a dentro.

O landgrave daqueles tempos, grisalho e taciturno, mais por praxe de séculos do que certamente pelo gosto de tais recepções, sentava-se no lugar de honra, rodeado pelos barões de seus domínios. Enquanto os criados iam alinhando as peças a mil molhos, saturados de especiarias, e reenchendo os cangirões de porcelana com figuras madrigalescas no bojo, aquela gente comia, contava anedotas, cantava em coro e fumava grandes cachimbadas. Quando os galos amiudavam, os convivas se punham a caminho, pela noite, tropeçando nas negruscas escadinhas de Scholossberg, em demanda de suas propriedades.

Mas isso tinha ficado muito distante, Ernesto II vivia num tempo de insegurança e de transformações; a revolta havia acendido várias fogueiras na Europa e os reinos estremeciam ao trote dos cavalos de guerra. Era um bom homem, amigo das doçuras do lar, da velha esposa e do seu povo. Tinha, porém, alguns fracos, como toda a gente de carne e osso. A menina de seus olhos era a biblioteca do castelo, uma das maiores do tempo, e, o que não era comum, interessava-se pelos livros e pelo que eles diziam.

Havia um recanto no amplo salão da biblioteca, com mesas negras de pés torneados, onde se alinhavam alfarrábios encadernados em couro. Eram os filósofos proibidos. Ali se guardavam, entre manuscritos anônimos desentranhados de poentos processos de magia, o Evangelho dos 12 Apóstolos, a correspondência do português Martines de Pasqualis e de outros sujeitos de má nota.

Essas obras envelheciam sob os cuidados do mestre Luiz Júlio Herrlau. Criatura comum e apagada, o chefe dos encadernadores da corte, no dizer de muitos, só contava um mérito: era pai de Carlota Frederica, trigueira de olhos tão azuis que se diria liricamente recortados de um céu de primavera.

Ele, a mulher e a filha moravam numa casa situada nos confins do parque, onde em outros tempos se alojava o superintendente das florestas do castelo, cargo abolido anos antes.

Construção de um andar, tinha a parte térrea soalhada por grandes ladrilhos vermelhos e loja repartida em duas alcovas alumiadas por janelas baixas, que pareciam estar deitadas. O teto era de ardósia cor de chumbo e bem ao meio, oval, abria-se a locarna de uma trapeira.

Estavam num estado próximo da ruína; as árvores de em redor tinham crescido a ponto de escondê-la. Embora dentro do parque, era servida por um portão exterior, seguido de velho caminho que serpeava pelo pendor do morro e ia perder-se próximo do povoado, numas escadinhas cobertas de arcaria de pedra. Era a Klenie Erfuter Gasse.

Carlota Frederica teve diversos pretendentes, todos dispostos a trabalhar para a sua felicidade. Mas era u’a moça difícil. A vizinhança do castelo lhe havia dado fumaças de grande dama. Foi nesse pé que ela despediu o filho do fornecedor de aspargos, assim como o usurário que perdera as estribeiras ao vender-lhe um dia as argolas de ouro e, por fim, o Benner, sacristão da igreja de Santa Margarida, um ruivo que parecia equilibrar as lunetas na ponta do nariz. Mas, afinal, ela deveria casar com alguém.

Esse feliz alguém foi Carlos Frederico Frank, o mais modesto dos encadernadores que trabalhavam sob as ordens de seu pai na biblioteca da corte. Era um moço como outro qualquer e, até certo ponto, assegurava-lhe a permanência no castelo o que era tanto de seu gosto.

Casaram-se, pois, num pálido dia de Novembro de 1808 em que o vento do outono com suas mãos invisíveis ia despindo as faias do parque e as tílias da beira da água; em que as ruas se atapetavam de folhas amarelas e nas cornijas das velhas casas as aves arripiadas piavam doloridamente. Casados, foram morar em companhia dos sogros e tudo levava a crer que os seus nomes e as suas vidas se perdessem no mar das coisas como as folhas daquelas faias, daquelas tílias...

Mas isso não se deu.

A pessoa de confiança de landgrave era o conselheiro Weishaupt. Orçava nesse tempo pelos 58 anos: tinha os cabelos grisalhos e algumas rugas na testa ampla. No entanto, ainda via o mundo com olhos limpos e claros; a boca, de corte horizontal, ainda não se tinha amolgado no rictus que tende para a caveira; o corpo parecia ágil e o traje elegante e sóbrio. Não demonstrava nenhuma idade; tinha a que lhe quisessem dar.

Sua vida era rica de estudos, de lutas, de sonhos, de profundas meditações sobre o efêmero das coisas humanas. Mas a verdade é que ele, ele próprio, se mantivera como espectador de pensamentos e emoções, confiando a luta a um outro “eu”, sempre dócil à sua vontade, e a quem ele, lá consigo, dava o nome de — combatente. Cercava-o uma espécie de atmosfera de serenidade que penetrava e adoçava homens e elementos ao seu redor.

Nasceu em Ingolstadt; ali fez os estudos, formou-se na Universidade e, três anos depois, passou a ser professor de Direito Natural e Canônico. Em 1776, dando largas a um imenso sonho de harmonia que lhe iluminava a alma, pensou em reunir os mortais numa sociedade fraternal e fundou, na Baviera, a Ordem dos Perfectibilistas, que mais tarde passou a chamar-se dos Iluminados, na qual eram recebidas pessoas de todas as categorias e confissões dentro de um programa lindo: aperfeiçoar-se moralmente, destruir em cada um o egoísmo que separa os homens. Esse movimento espiritual espalhou-se pela Europa, então mais inquieta do que nunca, pois no seu subsolo já inchava a semente daquela planta que poucos anos depois deveria abrir na França uma flor vermelha — a Grande Revolução.

Antes disso, porém, em 13 de Abril de 1784, o governo da Baviera, amedrontado talvez pelas forças que se desenvolviam na sombra, dissolveu as ordens místicas, prendendo e deportando nada menos de 2.000 dos seus filiados de todas as categorias. Foi, pois, em conseqüência dessa perseguição que, numa noite de primavera, o landgrave de Gotha, protetor de maçons e espiritualistas, viu Adão Weishaupt chegar ao seu castelo em busca de pousada e segurança. O duque, alma generosa também nimbada de grandes sonhos, não só lhe deu o pão e o teto por aquela noite de angústia, mas por toda a vida, que devia durar ainda mais de meio século.

Entre esse homem e o landgrave, numa tarde em que a neve embranquecia os telhados e as ruas, passou-se curiosa cena ao pé do fogão da biblioteca, em cuja lareira o fogo crepitava alegremente. Weishaupt estava enterrado na sua poltrona (ele tinha uma poltrona naquele lugar) e se havia abstraído nos prazeres da leitura. O duque, visivelmente inquieto, aproximou-se e sem dizer palavra, ficou a olhar as chamas que dançavam. Vendo-o ali perto, o conselheiro áulico fechou o livro, tendo o cuidado de marcar a página com uma fitinha azul, ergueu-se e foi cumprimentá-lo. Apertaram-se as mãos, quase sem dar por isso.

— Parece preocupado... Ainda há algumas horas estava de tão belo humor!

— São coisas que só a mim sucedem. Imagine o que acaba de me acontecer...

Nesse momento, Herrlau, arrastando as chinelas de cânhamo que usava sob as sapatorras para não fazer ruido nem riscar o verniz espelhante do soalho, passou por eles com uma escadinha ao ombro e dois volumes na mão. Estava na faina de sempre. O landgrave interrompeu o que ia dizer e levou o conselheiro para uma das largas janelas que olhavam para os vales e o rio. Foi o próprio duque, num gesto distraído, quem correu o reposteiro escuro. Então a paisagem se estendeu diante de seus olhos, num quadro de meias tintas. A neve que caíra durante toda a tarde havia cessado. O céu pálido se arqueava sobre a encosta onde apareciam telhados brancos e torres deformadas. Um carrilhão rezava Angelus. Em seguida, na caserna próxima ouviu-se prolongado toque de clarim. Quando cessou ali, foi repetido no outro extremo da cidade. Depois no horizonte, depois na floresta, depois no fim do mundo. As luzes começaram a acender-se no casario subjacente. Em voz baixa, a conversa continuou:

— São coisas que só a mim acontecem... Não ouviu ainda há pouco a chegada de uma carruagem? Veio de... Trouxe-me uma pesada incumbência de nossos irmãos.

— Tais incumbências são felicidade e honra.

— Bem o sei.

O landgrave parecia hesitar em prosseguir, mas o conselheiro tomou-lhe as mãos finas, nas quais sobressaiam-lhe os nós dos dedos. E o velho, tocado por aquela espontaneidade, não mais procurou disfarçar a sua angústia, exclamando:

— Mandaram-me nada menos do que uma criança que não devia nascer, mas nasceu. É de nobre estirpe e precisa ter pais, sejam eles quais forem, até o dia em que os verdadeiros possam aparecer. Como vê, não é o caso comum de entregar-se a uma família de camponeses. Os que a trouxeram aí estão. Acomodei-os até encontrar as pessoas que possam servir de pais. Mas quem? E como?

Torcia as mãos. Tais pedidos dos Mestres, que valiam por ordem, naquele tempo não eram tão raros e o landgrave ficou na história das sociedades místicas como um de seus maiores filhos. Weishaupt, por seu lado, também esteve a ponto de perder a serenidade. Foi nesse momento que Herrlau, já tendo acomodado o último livro na estante, passou por eles, pronto para sair. O landgrave teve uma súbita inspiração e chamou-o:

— Herrlau!

O encadernador perfilou-se diante do duque.

— Há quanto tempo sua filha está casada?

Herrlau fez rapidamente as contas.

— Há um mês, senhor.

O duque coçou o queixo.

— É cedo para ter um filho.

Herrlau agitou-se dentro das chinelas de cânhamo.

— Quererá ela ser mãe de uma criança nascida longe daqui, em circunstâncias fora do comum?

O mestre encadernador esteve a pique de cair fulminado. Mas o landgrave tomou-o pelo braço, familiarmente, acompanhando-o até o fim do salão. Não se sabe o que lhe disse, mas o fato é que logo depois Herrlau voltou com o genro e a filha sendo que esta última, ao regressar à casa, levava consigo um ser pequenino, róseo e manhoso, nascido não se sabe onde nem de quem, mas em cujas veias devia correr sangue azul, daqueles grandes nomes em que se havia especializado o almanaque da cidade, isto é, o Almanaque de Gotha.

Quando o pequeno no dia seguinte, uma gelada sexta-feira, foi levado à pia batismal, disseram que ele se chamava João Júlio Godofredo Luiz Frank, que havia nascido no dia 8 daquele mesmo mês de Dezembro do ano da graça de 1808, filho mais velho do encadernador Carlos Frederico Frank e de Carlota Frederica Herrlau, todos eles ao serviço da corte de Gotha. Pôs-lhe o sal na boca o arcidiácono Buddeus.

Benner, o sacristão de Santa Margarida, que havia assistido no mês anterior, com grande despeito, ao casamento de Carlos Frederico e Carlota Frederica, e que ainda não se havia reposto da tábua que pouco antes recebera, ao saber que já se tratava do batismo do primeiro filho, desconcertou-se tanto que perdeu de todo o equilíbrio das lunetas; estas saltaram da ponta do nariz para as lajes da nave e se desfizeram em estilhas. Diz a crônica que desde aquele dia o sacristão não mais usou lunetas nem tão pouco pensou em casar-se...



II
A INFÂNCIA DE FRANK

Por instância do sogro, em cujo coração simplório se misturavam sentimentos de todo gênero, Carlos Frederico consentiu em perfilhar aquela criança que, na sua opinião, deveria ser, pelo menos, um príncipe. Imaginou lá com os botões que as mais risonhas conseqüências adviriam daquele gesto: gordas comissões, cargo no governo, a consideração na corte. E, desnorteado pela ambição, começou por deixar o casebre em que vivia com os pais de Carlota, alugando a parte superior de um sobradinho em Gerbegasse n. 2, próximo aos jardins que beiravam o rio. Instalou-se o melhor que pôde e esperou.

Gotha, na primeira década do século, desabrochava. A atividade moderna agitava aquele cenário quase medievo: era o Instituto Geográfico, fundado nos fins do século anterior por Justus Perthes, com a mais completa coleção de mapas e cujas edições cartográficas abasteciam as escolas e os ministérios do mundo inteiro. O seu almanaque havia tornado universal o nome da cidade. Também já contava grandes estabelecimentos siderúrgicos, fábricas de objetos de porcelana, de brinquedos e de artefatos de couro.

De manhã e de tarde, enxames de trabalhadores, vestidos de azul e de barrete redondo, animavam as ruas, os templos, as lojas e as cervejarias. Formavam-se grupos debaixo dos toldos coloridos ou nos bancos dos jardins, debaixo das venerandas tílias.

Carlos Frederico não queria misturar-se com essa gente. Vivia da casa para a casa. Esperava grandes coisas. Mas os dias foram passando e nada de repontarem benefícios. Apenas um pequeno aumento de salários, com a justificação expressa nos assentamentos do castelo de que tal soma lhe tinha sido acrescentada em virtude de haver contraído matrimônio. Nada mais. O landgrave não alterou a atitude com que sempre o havia tratado, e que era de perfeita indiferença. A corte, tão pobre de aparatos, quase familiar, continuava a ignorá-lo.

Dentro de pouco, essas e outras decepções entraram de amargar-lhe a existência. Não foi das menos cruas a maledicência do sacristão. Benner parecia encontrar-se sempre nos lugares por onde Carlos Frederico era obrigado a passar. Um dia era no latoeiro da esquina, outro dia no largo da igreja, à porta do estanco de tabaco, ponto sabido como o quartel-general do mexerico. Sempre que o encadernador o via era numa roda de vadios, referindo misteriosamente qualquer cousa de risível que acabava por uma contagem nos dedos. Devia ser a história do nascimento de Júlio. Uns riam, outros, pelas suas costas, lançavam-lhe olhadelas de inveja; julgavam-no, certamente, metido numa dessas intrigas da corte que, amiúde, dão com o protagonista no Senado ou na cadeia. Carlos Frederico, virada a primeira esquina, parava, limpava o suor e refletia. Afinal, aquele lorpa bem podia estar inocente; ele é que andava com a pulga atrás da orelha e, concluía lá consigo: quem anda aos porcos...

Depois, a inferná-lo ainda mais, vieram as dívidas, visto que seus ganhos eram parcos e em rigor mal dariam para o sustento do casal sob o teto dos sogros; estavam longe de permitir casa própria e uns vestidos de sarja verde-malva para Carlota Frederica que, de fantasia leve, se tinha na conta de mãe de príncipe. E para completar o rol dos padecimentos, o pequerrucho começava a crescer, a precisar de sapatinhos, de toucas, de trajes próprios para passear de tarde nas umbrosas vielas do jardim.

Por essa altura o encadernador já se supunha roubado e se não fora o temor de que o pusessem no olho da rua, sem mais aquela, teria comparecido à presença augusta do landgrave para reclamar-lhe, com uma pontinha de ameaça de escândalo, as liberalidades a que se cria com direito. Afinal, era portador de um segredo da corte e toda a gente sabe que silêncio vale ouro...

Só uma pessoa parecia não haver esquecido a criança repudiada pelos pais: era o conselheiro Adão Weishaupt. Todos os meses, subia as escadas da residência de Carlos Frederico, a casaca de briche cor de pinhão abotoada até o colarinho, onde mal se via a gravata de seda preta de três voltas; o antiquado tricórnio de veludo escuro, os estreitos calções da cor da casaca e as meias pretas que lhe chegavam aos joelhos. Galgando o primeiro andar, batia no chão com a ponta da comprida e fina bengala cujo castão era uma esfera de ouro, onde se via, à ponta de buril, o compasso oposto ao esquadro, com uma data na parte inferior.

Quando tardavam em atendê-lo, entrava pela sala e ia varando para os fundos, onde, não raro, encontrava a dona da casa de touca e avental, braços à mostra, ocupada em tostar costeletas num fogareiro a carvão. Aí, tirava o tricórnio e se punha a refrescar-se com ele. Parecia gostar daquilo; encostava-se à porta e um amplo sorriso fraternal lhe iluminava a fisionomia. Perto desse homem absolutamente simples, com muito de infantil, tudo estava bem, tudo corria bem, os próprios objetos pareciam sentir-se bem. Sua presença inesperada, por vezes até inoportuna, acabou por não vexar a Carlota Frederica; Weishaupt era da corte e da família.

O conselheiro passava ali alguns momentos vendo o pequeno Júlio fazer travessuras, visto que, em verdade, ele só travessuras fazia. Segundo a expressão da mulher, “o pequeno largava de uma malfeitoria para entregar-se a outra, e não parava, a não ser para dormir”. Uma verdadeira peste. Essas palavras, no entanto, não inquietavam o velho; antes, pareciam embevecê-lo.

Ao sair, sem grandes mesuras, Carlota acompanhava-o até a escada. Já com o sapato de fivela de ouro pousado no primeiro degrau, voltava-se e, como se a idéia só então lhe tivesse ocorrido, metia os dedos no colete, pela abertura da casaca, tirava uma moeda reluzente e lha entregava, sempre com a mesma frase:

— Tome lá, minha senhora: é para os alfinetes.

Tudo isso podia ser muito simpático, mas não sastifazia às ambições do pai, que tinha sonhado usar calções de ganga cor de canário e manter dares e tomares com os morigerados cortesãos do landgrave. Vivia de boca amarga, envenenado. E as coisas foram piorando ao lento escoar dos anos, com o aparecimento dos verdadeiros filhos do casal. Uma ninhada; três homens e duas mulheres.

Aquela moeda que, talvez às escondidas, por iniciativa toda sua, o conselheiro ia levar-lhes com regularidade, para os alfinetes, como repetia a cada passo, era uma insignificância, uma contribuição ridícula diante das despesas com que o pequeno Júlio, por essa altura já de oito anos, salgava o orçamento da casa.

Pouco a pouco o menino se tornara demais na família. Quando faltava qualquer coisa não era para os outros, era para ele. Sua presença, de ano para ano, se fazia mais incomodativa: ia para a cama ou para a mesa com pragas e das cabeludas. Por qualquer motivo, saía de trás da porta a vara de marmelo que tinha na ponta uma pelota de cera. Tudo quanto acontecia, a culpa era dele: se chovia ou fazia sol, se o dia santo caía no domingo, ou se o bife tinha virado sola, a responsabilidade era do pequeno e, por isso, levava tunda. Era, pois, um caixão de pancadas.

Verdade é que ele fugia de casa e passava dias inteiros pelas ruas, atiçando os cachorros nos transeuntes, furtando bolos das cozinhas, saltando muros para colher cerejas, apedrejando os guardas dos jardins, reduzindo a cacos as vidraças das lojas, incendiando as medas das hortas, atirando os baldes no fundo das cisternas, amarrando latas na cauda dos cavalos, pregando rabichos de papel na casaca dos senhores circunspectos, enfim, fazendo tudo o que uma criança deve fazer, quando lhe não faltam saúde e vivacidade. Mas as queixas chegavam de todos os lados e Carlos Frederico tinha verdadeiros acessos de fúria contra o pobre garoto esganifrado, de cabelo de estopa e olhos vivos. Chegara mesmo a hora de tomar uma resolução que acabasse com aquilo. Não podia mais.

Num desses momentos, como se estivesse escondido atrás da porta e pudesse ter ouvido as lamúrias do encadernador, Weishaupt fez a sua visita do costume, mas, ao sair não deu a esperada moeda; em compensação, informou à família de que havia matriculado o pequeno na escola primária mais próxima. Indicou depois uma loja onde poderiam escolher a roupa necessária, adiantando que não se preocupassem com o preço, porque tudo estaria pago. E saiu, como sempre, absorto num pensamento.

A nova atitude abrandou um pouco as cóleras paternas. Afinal, pensava ele, o menino não estava de todo abandonado e, atrás da figura chã daquele conselheiro, amigo particular do landgrave, havia alguém, certamente um príncipe de sangue, que acompanhava de longe o destino da criança.

Novas perspectivas se abriram em sua alma. À noite, na mesa de jantar, alumiada por um candieiro de três bicos, Carlos Frederico, ao fazer a partilha do pudim de creme, depôs uma grossa talhada no prato de Júlio. Este, desacostumado de tais blandícias, ficou a olhá-lo com olhos interrogativos. Então o pai ordenou-lhe:

— Coma isso, menino!

Júlio, amedrontado arriscou:

— Eu não fiz nada...

No entanto não foi sem resmungo que as coisas se consumaram de acordo com as determinações do conselheiro. O encadernador não se conformava com a idéia de encontrar tudo pago. Então, para todos os efeitos, não era ele o pai? Desconfiariam dele? Por que motivo os verdadeiros pais de Júlio não o clamavam em casa e não lhe entregavam uma respeitável soma para que ele tratasse como devia da educação do menino?

Mas, apesar das objeções paternas, Júlio começou a freqüentar a escola e, o que ninguém esperava naquela casa, a fazer progressos. Já entrou sabendo ler, escrever e as quatro operações aritméticas sem que ninguém lhas tivesse ensinado, a não ser, naturalmente, a calaçaria das ruas. E a vizinhança toda sorriu ao ver o garoto de pasta debaixo do braço e gorro de veludo, a freqüentar uma boa escola primária, muito acima das posses do encadernador.

Decorridos os primeiros meses, a família não sabia se havia de rir ou de chorar diante das informações do estabelecimento, que eram invariavelmente estas: Júlio é o menino mais inteligente da escola, posto que o aluno mais endiabrado da Europa.

Foi, pois, um curso acidentadíssimo. As horas de glória em que ele, com uma precocidade genial, demonstrava conhecimentos superiores à sua idade, alternavam com as reprimendas, os castigos e as contínuas ameaças de expulsão. Nos últimos meses do curso, que havia levado quatro longos anos, as suas qualidades começaram francamente a ser sobrepujadas pelos defeitos. Mas, apesar de tudo, chegou a concluir o estudo primário com distinção e louvor, seguidos desta ressalva do diretor da escola: se tivesse de estudar mais um ano na casa, não o aturaríamos até o fim.

Logo depois, uma de suas diabruras chegou a torcer-lhe o destino:

No mesmo andar em que morava, Carlos Frederico havia sublocado dois quartos a um militar reformado que ali vivia em companhia da velha esposa. Os inquilinos, gente morigerada e silenciosa, contribuíam com a metade da importância do aluguel da casa, o que representava alívio para as aperturas financeiras do encadernador. Todas as manhãs, a velha tomava da cesta e saía para as compras. A porta da sua habitação ficava apenas cerrada, pois ninguém se atreveria a penetrar naquele augusto recinto.

Certa vez, porém, o pequeno Júlio, a quem a chuva impedia de sair, não resistiu à tentação de saber o que ali se passava. Sondou o ambiente, empurrou a porta e entrou. Na alcova, o rude militar dormia. Estava deitado ao comprido do leito, com um braço esticado para fora. Ressonava a sono solto. Júlio observou-o durante um momento e depois sorriu.

Tomou do cinturão dobrado sobre a credência, tirou um fio de elástico e, depois de queimar uma ponta, para torná-lo pegajoso, foi à cama e grudou-o no rubincundo nariz do dorminhoco. Em seguida, calçou um sapato de biqueira para cima, naquela mão que saía para fora do leito e, para completar a facécia, acendeu a extremidade do elástico, como se fora estopim. Terminada a obra foi esconder-se, à espera do resultado, que não deveria tardar.

Quando o fogo atingiu a penca, o dorminhoco, instintivamente, acudiu o lugar da queimadura, mas como a mão estivesse calçada com o sapato, o gesto valeu por tremenda bofetada que lhe ia vazando um olho. O militar, ainda tonto de sono, soltou um uivo de dor e saiu de cuecas pela casa, inteiramente fora de si, disposto a matar o autor da brincadeira.

Carlos Frederico, que a essa hora ia entrando da rua, quase rebentou de ódio. Não teve dúvidas sobre o autor. Depois de muitas voltas, foi encontrar Júlio escondido na trapeira. Tomou-o pela gola e, a tapas e ponta-pés, atirou-o na rua, onde chovia a cântaros. Depois, disso, fechou-lhe a porta para sempre.

Júlio Frank tinha então doze anos de idade.



III
ESTUDANTE DA PÁ VIRADA

Durante muitos dias Júlio perambulou pelas poucas ruas da cidadezinha natal, ora dormindo em uma casa ora em outra. Só quando de todo não encontrava pouso, ia bater à porta da família; mas para isso esperava hora em que o pai lá não estivesse. Carlota já havia preparado para tais ocasiões um velho canapé no sótão, mesmo diante da janelinha que dava para a rua e pela qual o rapaz, no dia seguinte, observava a saída do pai que ia para o serviço. Então, descia para o primeiro andar, fazia as abluções e, depois de refeito, saía antes do encadernador voltar para o almoço.

Um domingo de Janeiro em que as ruas e as casas estavam brancas de neve, ele não teve a felicidade de encontrar nenhum dos amigos que procurou. Até mesmo a cavalariça, em cujas baias forrradas de feno cheiroso muita vez dormira, estava fechada e deserta. A tasca da beirada do rio, onde também conseguia cochilar nas noites em que não tinha teto, estava-lhe vedada, desde que ali ficou devendo broa e salsicha, crédito que não tinha podido saldar. Nessa noite, entanguido, gelado, com o estômago vazio, encostou-se à porta do estanco e ficou de olho alerta para a casa da família. Em certo momento, o pai saiu com um dos irmãozinhos pela mão e dirigiu-se para o lado da botica. Assim que ele virou as costas, Júlio entrou e grimpou pela escada acima, indo encontrar a mãe inesperadamente alegre.

— Corra lá para cima, que eu já vou levar-lhe o caldo quente e as boas novidades...

Não se fez de rogado. Também já era tempo porque dali a pouco o encadernador chegava com a criança, resmungando, como sempre. Logo em seguida, Carlota apareceu no sótão com uma bela malga de caldo, fumegante, dentro da qual se viam nacos de carne e folhas de alho.

A novidade era esta: Weishaupt lá tinha estado à sua procura dizendo que já o havia matriculado no Ginásio Ilustre, freqüentado pelos filhos das nobres famílias da cidade, e que havia aberto um crédito em determinada loja, para o que fosse necessário. Diante do caldo e da notícia, Júlio mergulhou no canapé e dormiu como um bemaventurado. No dia seguinte, ao abrir os olhos, espiou pela janelinha; o pai saía para o serviço pela rua clara, batida por um sol de inverno tão dourado e macio que parecia de lã.

No Ginásio, a luta do estudante foi com seus colegas que, à primeira vista, se sentiram vexados pela presença daquele rapazola das ruas, vestido com desleixo, em seu aristocrático convívio; mas, dentro de pouco tempo, o novo aluno conquistou-os a todos, principalmente aos mestres, mercê da sua rara inteligência. Lá pelo terceiro ano já era a glória do Ginásio. É verdade que tal admiração, como mais tarde ele próprio havia de confessar em carta, foi a sua temerosa inimiga durante toda a existência.

O estranho temperamento manifestado desde os primeiros anos acentuava-se cada vez mais. Era o que os colegas chamavam um urso. Taciturno, espinhento, amigo de grossas farsas, barriguento e volúvel nas amizades. Quando um companheiro começava a tornar-se amigo, afastava-o logo de si com uma sencerimônia que roçava pela brutalidade. Quando um dos numerosos inimigos morria ou retirava-se da cidade, ele fazia mentalmente as contas e exclamava: “Tenho uma vaga de inimigo”. E tratava logo de substituí-lo, custasse o que custasse. Por outro lado, enquanto alguém estava nas suas graças, era de um devotamento apaixonado, capaz dos maiores sacrifícios, como demonstrou em diversas circunstâncias da vida.

Sua mordacidade era proverbial. Os ditos cortantes saíam das rodas escolares e penetravam nos salões. Repetiam-se por toda parte suas sátiras aos burgueses de Gotha, contra quem ele vivia numa contínua irritação. Como se o verso e a prosa não bastassem, recorria ao lápis e era de ver nos pátios escolares, verdadeiros mostruários de raridades, aquelas figuras nas quais se reconheciam Fulano, Sicrano e Beltrano; uns pela batata nasal, rica de pêlos e verrugas; outros pelas rochonchudas barrigas das pernas a rebentarem a costura das meias; os restantes, por traços característicos sabiamente exagerados que não deixavam dúvida sobre a identidade do paciente. Em baixo, legendas que valiam por navalhadas.

Mas, fora das aulas, corrido pelo pai, continuava naquela vidinha de vagabundo pela qual mostrava certa simpatia. Almoçava no quarto de um, jantava no quarto de outro, dormia não se sabe onde. Com esse modo de vida, passou muita manhã sem almoço, muita tarde sem jantar e não se sabe quantas noites de verão pelos bancos do jardim, ou na beira do rio, junto a concorridas e alegres fogueiras com rodadas de vinho fervido e cantigas.

É verdade que naquele tempo ainda se guardavam certos hábitos dos séculos passados. Conservava-se viva entre os estudantes uma romântica tradição de miséria. Outrora tinha sido praxe, em quase toda a Europa, os escolares se misturarem um pouco aos valdevinos, chegando mesmo a esmolarem pelas herdades, pescando aqui e ali o com que custearem os estudos. Conta-se que algumas famílias abastadas submetiam os filhos a tal regime a fim de endurecer-lhes a fibra, adestrando-os para a luta cotidiana.

Foi, pois, nessa existência incerta, auxiliado amiúde pelas contribuições de Weishaupt, que ele cursou o Ginásio.

A inteligência e a extrema pobreza tinham-lhe grangeado o apoio daquela providência que os estudantes alemães conhecem através dos séculos: uma associação de escolares, ramificada por todos os estabelecimentos de ensino, cujo fim principal é fornecer livros, roupa e matrícula aos rapazes pobres levados ao estudo por irresistível vocação. Essa sociedade tinha existência secreta menos para encobrir fins políticos do que para não vexar os pupilos. Era a “Burschenschaft”.

Júlio tornou-se logo a menina-dos-olhos daquela instituição; daí a relativa facilidade que de um dia para outro começou a encontrar na sua aventurosa existência: as “repúblicas” disputavam-no para pensionista gratuito; os livros de que necessitava entraram de aparecer milagrosamente em sua carteira e, de quando em quando, roupa e calçado lhe vinham ter misteriosamente às mãos.

Mas o rapaz não era precisamente o tipo ideal do estudante em condições de ser protegido. Os livros caíam nos “sebos”, as roupas nos adelos e os sapatos nos remendões, a troco de minguados cobres que ele tratava de gastar o mais largamente que podia.

Quando já não conseguia manter-se, ia bater devagarinho à porta da casa da família, nas horas em que sabia o pai ausente, fazendo jus à tigela de caldo que Carlota Frederica tão bem sabia preparar, e ao canapé do sótão, onde dormia com tanto gosto.

Foi uma vida incrível para Júlio. Os mestres aclamavam o seu talento e ele, animado de nobre orgulho, esforçava-se por merecer e sobrepujar cada vez mais os elogios. Tinha sido tomado de verdadeira febre de estudo. Trabalhava furiosamente. Trazia sempre os alfarrábios no bolso da niza de droguete felpudo e onde quer que se encontrasse, surgindo a oportunidade, mergulhava na leitura. Era nos quartos dos amigos, nos bancos dos jardins, nas embarcações encalhadas à beira da água, nas tascas do rio e, não raro, no desvão da porta de um palácio.

Nos dias quentes, quando o sol fazia fumegar as hortas, ele saía para os arredores da cidade e por lá ficava, deitado sobre o feno, forçando inextricáveis páginas de matemática. Enquanto durava a broa, não voltava à cidade. Nas “repúblicas”, quando o seu hospedeiro lho permitia, atravessava uma noite a estudar, sem vestígio de fadiga, quase sem dar pelo que fazia.

Nas tascas ribeirinhas estudava conversando, às vezes altercando com os trabalhadores das barcaças. Ali, onde passava os dias de maior penúria, aprendeu a fumar valentes cachimbadas entre a gargalhada divertida dos circunstantes. Metia-se também entre os farsistas, que em toda terra os há, e com eles entornava bojudos copázios pela noite a dentro.

A bodega do “Saco de Areia” era durante semanas seu ponto de parada, e o grumete conhecido pela alcunha de Andorinha, seu melhor companheiro. Ambos contavam cerca de 16 anos, andavam maltrapilhos e encaravam a vida por um delicioso prisma. Júlio já estava certo de que viria a ser grande homem e que aqueles trabalhosos dias não passavam do prefácio da futura obra. O Andorinha, por seu lado, era candidato a almirante em dias muito afastados, mas que certamente haveriam de soar. Enquanto, porém, os louros da glória não chegavam para o primeiro nem as estrelas do almirantado para o segundo, eles, com suas correrias noturnas, alarmavam o sono dos pacatíssimos habitantes de Gotha.

Tais coisas faziam os dois rapazes, que os burgueses, alta noite, apareciam à janela, de roupão, carapuça e vela acesa espetada na palmatória de madeira. Numa dessas noites de desvario, os dois rapazes pararam diante de certa residência iluminada, em cujo interior se ouvia animado falatório.

Convencidos de que ali se realizava festa e na esperança de serem convidados pelos donos da casa, iniciaram a mais lírica das serenatas debaixo das janelas discretamente cerradas. O Andorinha, que era baixo-profundo, cantou a ária báquica dos “Alegres bebedores de Goettingue” e logo em seguida Júlio, na sua voz de falsete, entoou a canção de vindima “Meninas, façam como eu!”

Nesse ponto, surgiu uma calvície à janela e gritou-lhes:

— Onde se viu fazer serenatas diante de uma casa onde morreu alguém? Vão cantar na cadeia ou no diabo que os carregue! Se persistirem, solto-lhes os cachorros em cima...

Outra noite de fome, os dois rapazes seguiam pela beira do canal, sem destino. Queriam apenas sair da cidade. Em certo ponto, o Andorinha parou e mostrou ao companheiro uma cabra que espiava pelo vão da cerca, mordiscando ervas.

— Você sabe o que é aquilo?

— Se não me engano é uma cabra.

— Pois vai ver... Bit, bit, bit...

Chegou-se à cabra, na atitude de quem lhe ia dar qualquer coisa e, inesperadamente, segurando-a pelos chifres, afundou-lhe a lâmina do canivete no sangradouro. Ao mesmo tempo, apertou-lhe o focinho. A pobre não tugiu. Olhou-o tristemente, como a censurá-lo pela traição, e caiu para o lado; estava morta.

Ambos carregaram-na para longe e, chegando a um local onde havia árvores e galharia seca pelo chão, fizeram uma fogueira.

Outros vadios farejaram o bródio e foram se chegando. Um concorreu com o sal, outro com os demais condimentos e o terceiro declarou-se perito nas artes de cozinha. Dentro de pouco, amarrada a um grande espeto giratório, a cabrinha foi assada e o perfume que se desprendia atraiu ainda mais gente, entre homens e mulheres. Com o correr do tempo até vinho apareceu. E como a noite era de verão, com um luar claro que nem dia, a ceia acabou num baile campestre que se prolongou pelo alvorecer.

Foi assim que Júlio Frank terminou o curso do Ginásio Ilustre da muito ilustre cidade de Gotha.



IV
MARINHEIRO DE PRIMEIRA VIAGEM

Apenas diplomado pela mais conspícua escola da sua cidade natal, Júlio Frank como desapareceu. Nem a família, nem os amigos, durante muitos dias, souberam notícias suas. Uma tarde, passava ele diante da casa do encadernador, quando foi alcançado por Fred, aliás Frederico Augusto Guilherme, seu irmãozinho, figura cheia de sestros e cacoetes, que lhe deu uma carta confiada por Weishaupt a Carlota, a fim de fazê-la chegar-lhe às mãos.

O bom velho, tendo desesperado de encontrar o protegido, acabava por escrever-lhe, pedindo que o procurasse. Nessa folha de papel, com as armas do ducado, escrita numa letra redondinha, com pena bem aparada, o conselheiro felicitava-o pela bonita conclusão do curso intermediário e convidava-o a comparecer ao castelo, a fim de comunicar-lhe novidades agradáveis.

Essa oportunidade que lhe caíra do céu, tão fácil, era ambição de muita gente. Pensando nisso, tomou-se de vivo contentamento e sua primeira idéia foi dirigir-se para lá. Mas, ao longo do caminho, reparou que a roupa estava no fio, os sapatos cambados, os cabelos compridos e a gravata, para falar a verdade, não era gravata, mas um “cachecol” cor de lagartixa. Já diante da subida do castelo desistiu da visita e achando aberta a porta da casa de um colega que há muito não via entrou por ela dentro.

Aquela “república” onde tantas vezes encontrara cama e ceia, estava sensivelmente melhorada. Novos móveis, uma estante guarnecida de poetas e dramaturgos e um fogo a crepitar na lareira. “Sibarita!” — pensou ele. Depois, tomando um livro da fileira impecável, leu o nome do autor “Wolfango Goethe — Hermann e Dorotéa”. E comentou num solilóquio: “Este rapaz está trabalhando; vai longe”. Repôs o livro na estante e, vendo na mesa um cachimbo de porcelana, foi à lareira, tomou uma brasa com a tenaz e acendeu-o. Calmamente ajeitou-se numa poltrona, abriu o Virgílio que sempre o acompanhava, e embebeu-se nos versos do poeta latino.

Momentos depois, a porta da alcova contígua abriu-se de leve e u’a moça que devia ter-se fechado ali para vestir-se fez menção de entrar na sala. Mas, ao primeiro passo, notou que havia um intruso. Parou à porta e, pelas costas do desconhecido, fez rápido exame. Era bem um tipo suspeito, cabeludo, de roupas largas, um trapo no pescoço e o geito reles com que empunhava aquele soberbo cachimbo... Teve um arrepio de medo e, em silêncio, evitando até o roçagar do largo vestido de veludo que se elevava nos flancos em dois puffs, passou pelo fundo da sala, entrou na escadaria e desceu para a rua.

Pouco adiante acercou-se de um guarda que passava encapotado, com as mãos para as costas, e, toda trêmula, contou-lhe o que vira. O gendarme cofiou a bigodeira com as duas mãos e acompanhou-a, irrompendo ambos bruscamente no salão, justamente no momento em que Júlio Frank começava a embalar-se no ritmo daqueles versos.

— Olá!

Frank voltou-se na poltrona, viu as duas figuras e não compreendeu o porque da intromissão. O militar interrogou:

— Que faz aí?

— Estou esperando o meu amigo Ernst.

— Quem é esse Ernst?

— O dono da casa.

— Pois esta senhora é que é a dona da casa.

Nessa altura Frank compreendeu que estava metido numa enrascada.

— Desculpem então; houve engano.

Mas o guarda não se deu por satisfeito:

— Essa de engano não pega; é a desculpa de todos os que são apanhados com a boca na botija. Venha comigo.

E levou-o para o comissário. Cordélia — a moça chamava-se Cordélia e era uma atriz de segunda ordem numa companhia de segunda classe que fazia temporada em Gotha — ficando só, pensou melhor no ocorrido e, como era rapariga de bom coração, acreditou que tudo aquilo sobreviera em razão de um engano e acabou por sentir dó do rapaz. Era evidente que ele se havia equivocado na porta, ou então o tal Ernst seria de fato o inquilino anterior.

Movida por sentimento de justiça, correu ao comissariado a fim de retirar a queixa. Na rua, como o tempo estivesse mau e ela não conhecesse a cidade, esperou que passasse um fiacre. Mas o veículo não aparecia; cansada de esperar, pediu informações a um transeunte e foi mesmo a pé, quebrando com o fino tacão de suas botinas a neve envidrada que cobria o empedramento da rua.

O comissariado era num prédio mais velho do que os outros e se distinguia pela lanterna vermelha pendente da porta, na extremidade de um arabesco de ferro. A sentinela disse-lhe que subisse e ela barafustou pela escada escura que tresandava a chichi de gato. Mas, a meia-subida, encontrou Júlio que descia ao lado de um velho de casaca cor de pinhão e antigo tricórnio de feltro escuro. Nunca teria imaginado que aquele pandorgas fosse tão bem relacionado... E assim pensando, encostou-se à parede, para lhes dar passagem. O velho era o conselheiro Weishaupt e dizia ao rapaz, na sua voz suave:

— Alguns momentos depois da sua prisão fui informado dela e corri satisfeito por encontrá-lo. Estava com receio de que pretendesse interromper o curso tão bem iniciado. Trago-lhe carta para um professor de Goettingue e dinheiro para matrícula e primeiros tempos de universidade. Parta pela primeira diligência e, de futuro, quando for visitar amigos, não deixe de verificar melhor o número das portas, pois enganos desse gênero às vezes trazem aborrecimentos.

Já na rua, despediram-se como velhos amigos. O conselheiro tomou o carro; à frente, o sota muito empertigado dirigia as parelhas, e atrás, como pendurados no tejadilho, iam os dois taboas, vestidos com aparato, talvez mais bem parados que o amigo particular de Ernesto II.

Ficando só na rua gelada, diante da casa sombria, Júlio pareceu não saber que fazer. Virava nas mãos o envelope com a chancela do landgrave e uma bolsa de couro empanturrada de pequeninas moedas de ouro. A perplexidade era tão profunda que para cair em si foi preciso uma mãozinha enluvada de amarelo pousar-lhe ligeiramente sobre o ombro.

— Sou eu!

— Eu quem?

— Cordélia Heintz.

— Dá no mesmo.

— A pessoa que o fez prender há pouco mais de uma hora.

— Ah! Prazer em conhecê-la... Ou, para ser franco...

— Vim pedir perdão, retirar a queixa, tratar de sua liberdade.

— Obrigado.

— Mas cheguei tarde.

— Que pena...

Ela riu. Não era bonita, mas tinha certa graça. E seguiram pela velha rua calçada de pedras chatas, ouvindo o gelo moer debaixo dos pés. Viraram uma esquina, depois outra, ainda uma terceira...

Lá em baixo, ela parou. Era a porta da sua casa. Olharam-se novamente e sorriram, lembrando talvez o que havia ocorrido pouco antes. O mesmo gendarme que continuava a passear pela rua, de mão nas costas, ao vê-los assim, levou apressadamente as mãos à bigodeira e se pôs a torcer as guias, para não mostrar o sorriso. Alhures alguém cantava uma canção em voga, de músico desconhecido, um certo Schubert.

Subiram de mãos dadas.

O resto da tarde decorreu numa doce intimidade, ao pé do fogão acolhedor e amável. Quando chegou a hora de Cordélia ir para o teatro, Frank recebeu uma poltrona de favor, com direito a ir à caixa, nos intervalos. Não se lembrava de ter ido a um teatro, mas havia lido tantas peças e discorria tão facilmente sobre autores, que não ocorreu à atriz perguntar-lhe sobre o assunto. Quando, porém, entre o segundo e o terceiro ato, o rapaz conseguiu romper a chusma dos corredores e alcançar o camarim, ela disse-lhe a rir:

— É a primeira vez que você entra aqui!

Ele não respondeu, mas corou.

Findo o espetáculo, saíram juntos: um fiacre levou-os a certo restaurante fora da cidade, famoso pelo vinho que cheirava a pétalas de rosas. Ah! A vida deveria ser assim, eternamente assim — pensava o estudante. Mas esse sonho de felicidade durou apenas 123 thalers, isto é, pouco mais de uma semana. Gasto o dinheiro, a companhia continuou na sua excursão por outras cidades e Cordélia Heintz, como despedida, deixou-lhe um bilhete a lápis, entregue pela mulher que alugara o quarto. Partia sem vê-lo para poupar-se da cena pungente dos adeuses, que toda noite fazia no palco, mas que não gostava de representar na vida cotidiana. Levava como recordação as últimas moedas que ele havia esquecido ao pé da estante e o botão do casaco que Frank, na véspera, lhe havia pedido para repregar, e que ela não fizera, por falta de agulha, de linha, de tempo, de préstimo e de vontade.

Afinal, Cordélia partiu com saudades e ele ficou sem dinheiro.

Foi preciso uma ginástica tremenda, uma verdadeira subscrição entre antigos camaradas, para que certa manhã, diante da Hospedaria das Sete Noivas, pudesse tomar a diligência de Goettingue.

Durante o dia inteiro foi sacolejado por estradas desertas e intermináveis. Pela portinhola, a cortina corrida, via desfilarem os burgos parecidos uns com os outros. O cocheiro descia, entrava numa casa de vinhos e voltava enxugando os beiços na manga da blusa. As mudas eram lentas, em praças encardidas, onde havia sempre o mestre ferrador e a tasca de nome pomposo. Depois, eram os compridos muros das quintas, o cheiro acre que subia das medas fermentando ao sol, o gemido das noras, o mugido das vacas nos estábulos escuros, os castelos grudados nas encostas, os vinhedos secos esgalhando-se no chão empedrado, as pontes com guardas a quem os viajantes mostravam os papéis. O envelope com as armas do ducado produzia sempre o melhor efeito.

Durante a viagem, os passageiros se iam substituindo na diligência; rendeiros e pequenos proprietários subiam aqui para descer além. Era impossível conversar com essa gente que dava a impressão de viver outra vida em outro mundo e exprimir-se em outra língua sobre assuntos que absolutamente não poderiam interessá-lo.

No fim da viagem faltou-lhe dinheiro para as refeições. Era com inveja que via o cocheiro peludo e o ajudante ruivo amesendarem-se nas bodegas das mudas e pedirem grandes pratos de salsichas, que eram devorados à claridade de bojudos jarros de cerveja. Na manhã seguinte, para que não suspeitassem da causa do jejum, declarou-se doente e não almoçou; à tarde continuava indisposto e, à noite, não podia mais de fome.

Foi quando tomou assento a seu lado uma repolhuda dama com a sua cesta de vime em cujo interior os olhos experimentados do estudante descobriram frangos de forno, presunto, geléias, queijos, um baltazar para quem se encontra de forçado jejum havia muitas horas. Embalde ele lhe sorriu amavelmente, afastou-se para lhe ceder maior parte do banco, suspirou, esboçou um namoro... Nada. Aquela mulher era de pedra. Mas, em certa altura, Frank lobrigou a palavra Altona em um de seus papéis. Meia hora depois, compondo o sorriso mais triste que encontrou à mão, exclamou como para si mesmo:

— Ah! Como tudo isto é diferente da minha querida, da minha inesquecível Altona!

Na dama gorda houve mutação à vista. A máscara severa amoleceu, os olhos ríspidos adoçaram. Um sorriso promissor iluminou-lhe a fisionomia:

— Como? É de Altona?

— Sim. E a senhora?

— Também.

— Que feliz coincidência. E de que família, poderei saber?

— Hoffer.

— Ah! Mas nesse caso somos parentes!

Exclamou e teve medo às conseqüências. Felizmente foi a mulher a primeira a falar, levada por uma grande satisfação. Sabia de quem se tratava; antes mesmo já havia suspeitado. Era o Gerald, não era? E ele não teve mais do que aceitar o nome que lhe era dado, atrás do qual não sabia se estava um santo ou um bandido. Nada disso, felizmente: estava um primo que de lá havia partido muitos anos antes, sem mais falar de si. Era primo para cá, prima para lá. E uma hora depois, dentro daquela diligência, houve um verdadeiro banquete em que o estudante levantou várias vezes o copo em honra dos Hoffers, de Altona.

Logo depois o cocheiro voltou-se para os viajantes e informou-os de que estavam próximos de Goettingue; os muros, as casas de campo que iam passando já eram os arredores da cidade: dentro de vinte minutos estariam no ponto de desembarque. Então Frank, para evitar possíveis encontros com indesejáveis parentes da mulher, que para o caso seriam também seus, resolveu tomar medidas enérgicas. Mais adiante disse-lhe em tom misterioso:

— Não conte a ninguém que me encontrou.

— Já sei, quer fazer uma surpresa aos nossos.

— Não; tenho medo...

— Aposto que é um caso de amor...

— Não, minha prima, coisa de maior monta...

— Duelo?

— Upa!

— Jogo?

— Upa!

Ela não atinava.

Então ele, em voz cavernosa:

— Eu me fiz ladrão de galinhas...

Desde aquele momento a dama gorda não mais deu mostras de conhecê-lo. Assim, refeito e em boa paz, entrou na douta cidade universitária de Goettingue.



V
ATÉ AS PEDRAS SE ENCONTRAM

Desembarcou em Goettingue numa tarde de inverno e com as mãos abanando. Não trazia consigo peça de roupa, objeto de valor, uma moeda que fosse. Em compensação era um nababo de esperanças. Apenas pôs pé em terra, seguiu pela rua que estava na sua frente e, depois de muito caminhar, parou por hábito diante de um “sebo”. Também por hábito, meteu a mão no bolso e de lá tirou o compêndio de demonologia, matéria que no momento muito o interessava. Ainda não tinha lido esse livro. Pensou em vendê-lo e ao mesmo tempo teve desejo de conhecer-lhe o misterioso conteúdo. Dentro de Frank estabeleceu-se então a luta: ler ou comer? O pão do espírito ou o pão do estômago? Como acontece sempre, venceu o estômago, pois a carne é fraca e o estômago é um nobre órgão. Assim, vendeu o livro e comprou o pão...

A noite caía. As avenidas cobertas de uma fina camada de neve estendiam-se diante de seus olhos, frouxamente alumiadas pelos lampiões pendentes das esquinas e de algumas frontarias. As janelas estavam claras e amiúde ouviam-se músicas e cânticos. Os carros passavam apressados, ao trote dos cavalos, conduzindo uma sociedade brilhante; aristocratas, oficiais, artistas, mulheres do grande mundo, burgueses abastados, sacerdotes e figuras suspeitas.

Nas sarjetas amontoava-se aquele povo escuro, calado, que se comprime contra a parede das casas para fugir à lama que as rodas atiram na passagem. Eram homens, mulheres e crianças. Uns vinham do trabalho, outros iam não se sabe para aonde. Vendedores de ramalhetes, de jornais, de brinquedos, de quinquilharias de toucador; gente de grossos sapatos orlados de pregos e com largas fivelas de metal. Músicos ambulantes contavam moedas debaixo de um lampião.

As casas de comércio tinham fechado as portas de vidro e pelos cristais toldados entreviam-se os interiores festivos, com linhas de candeias. O vento agitava as tabuletas fixadas em ângulo reto sobre as frontarias. Quando alguém entrava ou saía das casas viam-se, pelo vão das portas que se abriam e fechavam, as mesas dos restaurantes e confeitarias, cercadas de fregueses alegres. Então, um hálito quente com o perfume das viandas e dos molhos finos, acariciava o rosto do estudante. Mais adiante, eram os teatros, alguns dos quais iluminados “a giorno”, com fieiras de tijelinhas iluminosas.

Que fome! Que frio!...

E os carros passando...

Chegou, sem saber, ao bairro universitário. Conheceu-o logo pela população vistosa e folgazã, em contraste com o velho casario escuro, lazarento, empilhado como para mudança. As cervejarias estavam repletas e de dentro delas chegavam aos seus ouvidos cânticos em coro e risadas. Nas ruas estreitas, rapazolas de boné característico alternavam-se com moçoilas estouvadas e segurando as mãos uns dos outros, formavam longas cadeias que, numa espécie de quadrilha, cortavam bulhentamente a multidão, afastando uns, derrubando outros.

Júlio chegou-se a um rapaz que fumava encostado à porta e deu-lhe, como a falar consigo mesmo, a senha da “Burschenschaft”. O rapaz olhou-o inexpressivamente. Mais adiante, repetiu a palavra de passe quase ao ouvido de um escolar que seguia de livros debaixo do braço. Nada. Aproximou-se de uma daquelas moças e proferiu o sézamo... Ela voltou-se para ele, examinou-o e concluiu que estava ao pé de um maluco. Decididamente os escolares de Goettingue eram diferentes dos de Gotha. Mas, à porta de uma escura vivenda coletiva, encontrou certa cara que lhe pareceu já ter visto algures. Então, de modo firme, deu-lhe a senha; o interrogado respondeu sem pestanejar. Era mais ou menos conhecido; tinha feito os preparatórios em Gotha e de lá viera sem meios de subsistência. Júlio, ao encontrar aquele rapaz teve um suspiro de alívio:

— Pois eu preciso da “Burschenschaft”...

— E eu também...

— Ainda não se ligou?

— Depois que há pena de morte, a cousa está difícil.

Desde aquele momento já não era apenas um à procura de socorro; eram dois. Passaram ainda algumas horas a caminhar pelas ruas que pouco a pouco se iam despovoando. Por fim, os pés já estavam duros de frio e começavam a inchar. Os teatros permaneceram abertos até mais tarde, mas antes da meia-noite começavam a apagar as lâmpadas de azeite das frontarias, a recolher os grandes cartazes; as avenidas ficaram animadas de carros e de pessoas que demandavam os lares. Esse movimento logo cessou e a cidade caiu no silêncio; apenas se encontravam varredores, bêbados, bandos de estudantes que recolhiam, mulherzinhas embuçadas e cães assustadiços.

Andaram, andaram...

Exaustos, entraram numa larga porta encimada por dúbia lanterna, em cujo vidro se lia um número, e sentaram no primeiro degrau da escadaria interior. Queriam apenas descansar os pés. Dali a meia hora encostaram-se no segundo degrau; logo depois ressonavam a sono solto. Lá pelo alvorecer o porteiro encontrou-os a dormir e despejou-os, a socos, no meio da rua. Para não cair, Júlio agarrou-se a qualquer cousa de escuro, mole e cheiroso que encontrou na frente.

Era uma mulher que voltava de qualquer cervejaria; estava bêbada como um odre. Segura assim por Júlio, pôs-se a rir de um modo irritante. Só então, à luz mortiça daquela lanterna, reconheceu Cordélia. Parecia ter-se plantado no seu destino. Ria ainda mais irritantemente e com a língua pegajosa ia inquirindo:

— De onde vem você a esta hora?

— De uma reunião, no clube...

— Que vai fazer agora?

— Vou para a Hospedaria do Grande Frederico, onde a Universidade me reservou aposentos...

— Quer vir comigo?

— Já que você exige, faço-lhe essa concessão.

Então segurou-a pelo braço, a fim de ampará-la, e desse modo levou-a para onde ela quis ir e que era a sua casa. Antes de partirem, porém, pediu-lhe uma moeda para dar ao seu secretário, visto não ter dinheiro trocado. Ela abriu a bolsa e deu-lhe duas. Júlio passou-as ao estudante desconhecido e disse-lhe:

— Visconde, vá à Hospedaria do Grande Frederico e informe à Sua Alteza que só voltarei pela manhã.

Abertas as matrículas, Júlio entrou para a Faculdade de Filosofia da Universidade de Goettingue. Aclimatara-se logo naquela cidade. Dentro de pouco já havia recomeçado a sua antiga existência de Gotha, morando e fazendo as refeições por toda parte. Tudo, porém, começou logo a melhorar. Sua inteligência breve conquistou a colegas e professores e a Universidade inteira pareceu tomar a peito a tarefa de encaminhá-lo na vida.

Chegou a conhecer dias de abundância. Logo no começo do ano, organizou um serviço de apostilas; ouvia com a atenção de sempre as preleções dos mestres e, chegando a casa, resumia-as, tirando cópias que eram fornecidas a estudantes ricos, amigos das chinelas ou incapazes de apreenderem até ao fundo as exposições da cadeira. Por outro lado, os lentes encarregavam-no de pequenas tarefas remuneradas, de modo que no segundo ano letivo, Júlio Frank se dava a um extraordinário luxo; quarto mobiliado, fatiota nova, estante com obras escolhidas e longas horas de sossego para o estudo.

Mas ele não nascera para viver a pequena velocidade...

Uma das praxes mais respeitáveis da vida universitária alemã era o duelo. Um estudante batia-se todas as semanas e por qualquer motivo. Geralmente não era preciso motivo. Esse heróico costume que proveio da Idade Média e ainda hoje subsiste, era, há um século, a própria segurança da “vita universitatis”. O código de honra dos estudantes ainda era o mesmo da Tavola Rotonda. Quando algum escolar era suspeitado de haver tomado parte em repreensível aventura, conduziam-no à presença do juiz universitário — o único capaz de julgá-lo — e se afirmava sob palavra de honra estar inocente, ficava isento de punição.

Há poucos exemplos de que se tenha faltado à palavra para eximir-se da responsabilidade. Mas quando isso acontecia, o que era raríssimo, uma vez cada dez anos, o faltoso era segredado pelos colegas e expulso da Universidade. Tal código permitia que universidades com milhares de alunos, entre os quais temperamentos indisciplinados, agressivos e turbulentos, fossem mantidas em rigorosa ordem pela direção, mediante o débil policiamento dos bedéis.

Logo à entrada, Júlio viu que a Universidade era espontaneamente dividida em corporações, mais por afinidade dos membros do que por outro motivo. Cada corpo tinha um presidente, em cuja eleição não prevalecia nada: talento, força, idade, comportamento, nome de família ou serenidade de espírito. Não se sabia precisamente o que levava um determinado rapaz à chefia do grupo a que estava filiado.

Cada semestre de estudos começava e terminava por uma reunião conjunta. Era o que eles chamavam de “commers”. Tais “commers” eram bem diferentes entre si: o da entrada começava por grandes libações, como também o “commertium abeundi” do fim do ano. Neste último cessavam os desafios, esqueciam-se as rixas; havia uma confraternização geral.

Mas no “commers” do início dos estudos, qualquer coisa era uma provocação: a gravata de Fulano, o sorriso de Beltrano ou o bigodinho implicante de Sicrano.

Ninguém suportava ojerizas; não se levava desaforo para casa. Quando tais susceptibilidades não bastavam para assegurar estocadas a todos, a um sinal do presidente de cada corpo os rapazes trocavam doestos. Por esse meio, faziam uma provisão de duelos para o semestre. Os membros de cada corporação provocavam um número ilimitado de estudantes de outras e isso era conscienciosamente registado, comunicado ao respectivo presidente; este informava protocolarmente aos senhores presidentes dos demais corpos. O programa dos dias de encontro era organizado de modo a que cada estudante tivesse pelo menos um duelozinho por semana...

Desde que Júlio Frank transpôs o limiar da Universidade tornou-se alvo de desafios: ele, por seu lado, se indispunha com quantos encontrava no caminho. Por dá-cá-aquela-palha, trocava estocadas, acutilava, recebia “schmissen”, que eram os lanhos nas bochechas. Por isso, mais de uma vez por semana, ele e outros estudantes se dirigiam para um famoso albergue fora de portas. Antes de chegar, desmanchavam o grupo e cada qual seguia sozinho para o aprazamento, a fim de não alarmar a curiosidade da polícia. Como se tal precaução fosse pouca para não serem colhidos de surpresa, colocavam sentinelas em redor da granja aonde se realizavam os encontros.

Os estudantes repartiam-se em grupos de oito: o juiz que presidia a luta, escolhido entre os seniors dos corpos não representados no duelo; o médico, que ficava pronto para socorrer o ferido; os dois combatentes; as duas “secundanten” cujo fim era segurar as armas antes de começar os encontros ou durante os repetidos “halts” determinados pelo juiz, e as duas testemunhas escolhidas entre os amigos dos espadachins.

Os combatentes eram resguardados por peitorais e braçadeiras de couro e agasalhados de modo a apresentarem apenas a cara. O juiz colocava-se ao centro, o pé numa cadeira, e ia marcando os golpes com um pedaço de carvão no espaldar a que se apoiava. Tinha na mão um relógio para contar os quinze minutos regulamentares da peleja. Diante dele, um defronte do outro, ficavam os combatentes que, por sua vez, tinham aos lados as “secundanten” que lhes amparavam os braços, pois o espadim e a braçadeira só por si fatigavam rapidamente os contendores. Ainda ao lado dos combatentes ficavam as testemunhas. Numerosos estudantes constituíam a galeria. No meio deles, o “pankdoctor”, antecipadamente preparava esparadrapos, agulhas, desinfetantes, parches, todo o material destinado a pensar as cutiladas. Quando tudo estava pronto, o juiz dava o grito:

— Silentium! Auf mensur, fertig, los!

Os secundantes largam os braços dos combatentes, as testemunhas se aproximam... O corpo inclinado, o braço estendido, os longos e finos espadins de ponta para baixo, avançam... Começam os golpes... Os metais relampejam... Há sobre as cabeças uma chuva de relâmpagos; os ferros cruzam com tinidos finos de lâminas compridas, flébeis e trêmulas. Vergam em pontaços ou silvam em chicotadas. Durante o encontro os seniors tomam nota dos golpes dados ou recebidos pelos seus homens. Quando a espada dobra ou quando o sangue espirra, o juiz grita “halt” e tudo pára. Nos casos de ferimento, o médico é quem diz se o encontro pode continuar ou não. E isso se prolonga por longos quinze minutos, em que não são contados os altos.

Terminado um duelo, começa outro: há dez, quinze encontros por dia. Os que chegam envergam as braçadeiras ainda fumegantes e as armas ainda vermelhas do último duelo. Mas se a polícia é assinalada nas imediações, há uma fuga geral, ocultando-se os petrechos bélicos na gateiras da granja e quando há tempo de sobra, aparece o homem da gaita campesina e começa a tocar uma ária providencial. Os milicianos então encontram um baile de estudantes, em que não raro os contrários de há pouco aparecem dançando vertiginosamente nos compassos malucos de uma polca...

Júlio Frank ficou encantado com esse regime. Gostou tanto dele que, com o decorrer do tempo, já não se contentava em lanhar bochechas de colegas; ia para as cervejarias elegantes e desafiava todo bicho-careta que lhe passasse pela mesa sem pedir desculpas. E como os seus golpes eram um tanto desastrados “teve de comparecer três vezes perante o Conselho Universitário, duas por duelo e uma por excessos praticados num campo de tiro”.



VI
NA ALTA RODA

Assim, pelo talento, dedicação ao estudo e galhardia de atitudes, Júlio Frank conquistou a Universidade. Os professores não lhe regateavam elogios e os colegas disputavam-lhe a amizade, embora nem sempre fossem acolhidos de boa sombra. Tudo lhe era desculpado de envolta com um sorriso de simpatia.

Quando no fim de 1827 chegou a Goettingue o jovem duque de Coburgo para matricular-se na classe de Filosofia, o dr. S., a quem sua alteza vinha recomendado, chamou a Frank, seu aluno de um curso gratuito de aperfeiçoamento, e convidou-o para repetidor das lições ao fidalgo, declarando-o naturalmente indicado para desempenhar tão insigne tarefa que lhe abriria as portas da popularidade. Por acréscimo, pingues proventos lhe adviriam do trabalho.

O estudante aceitou, agradeceu, mostrou-se sensibilizado pela lembrança do professor. Mas o forte de Júlio Frank não era, precisamente, um espírito prático. Sentiu-se ao primeiro sorriso da fortuna no dever de preparar-se para uma vida esplêndida. Faria isto e mais aquilo. Teria carro e criados de libré. Uma linda biblioteca e uma primorosa adega. E, descendo as escadas do dr. S., depois da aula em que foi feita a animadora oferta, ele esboçava projetos, urdia planos, falava sozinho...

Com o trabalho de quase três anos, havia amealhado pecúlio suficiente para levar a cabo o curso. Economizara cerca de 1.500 thalers, soma fabulosa para qualquer estudante, notadamente para ele, familiar das noites ao relento e das gélidas horas de jejum. Mas com o rumo que ora tomava a vida — novo mas não inesperado, que ele tinha cega confiança no destino — bem poderia dispor do pecúlio, melhorando a apagada apresentação social que, amanhã, já não condiria com a sua situação de quase preceptor de príncipes. Além disso, dispunha de crédito, amigos ricos e poderosos...

Caminhava satisfeito, sorria para todas as coisas, devia estar resplandecente. Ao quebrar a primeira esquina, um mendigo caiu-lhe nos braços. Nada mais nada menos que o Andorinha. Esteve a pique de não reconhecê-lo. Se o diacho do rapaz não tivesse lembrado a serenata aos mortos e o rapto da cabrinha, talvez nunca o identificasse naquele vadio.

— Como! Você por aqui?

— Em carne e osso. Há cerca de um ano deixei Gotha.

— Para a Escola Naval, na conquista das estrelinhas de almirante?

— Não. Fugido da polícia. Numa noite de chuva dei várias tesouradas na barriga de um indivíduo.

— Ah!

— Vim a pé. Não sei há quanto tempo não durmo nem sento à mesa para comer.

— Dou-lhe emprego; você vai ser meu mordomo, até poder continuar os estudos navais...

Nesse mesmo dia comprou libré para o Andorinha, alugou um apartamento mobiliado, encheu o guarda-roupa de bem talhadas casacas. Daí por diante, pela mãos dos admiradores, que tinham crescido muito em número, penetrou nos salões literários em voga e onde o brilho de sua inteligência alcançou êxito.

À noite, paravam ricas carruagens à sua porta; eram gentis-homens que iam buscá-lo para concertos, bailes, passeios. Chegou a receber em casa já não a sociedade, que essa era por demais exigente, mas um número escolhido de estudantes, artistas, moças cultas e lindas. Passou a ser disputado e, mais do que nunca, a fazer leilão de amizades. Foi em tal meio que um desmedido orgulho desabrochou em sua alma, tornando-o irreconhecível.

Por esse tempo, supondo-o rico, os pais, que pouco se haviam interessado por ele, começaram a escrever-lhe comovidas cartas. Júlio nem as lia; atirava-as com tédio para o fogão.

O mordomo andava numa dobadoura.

O dinheiro em sua mão escoava-se, como água em cesto.

Esvaziava-se as­sus­ta­do­ra­men­te o cofre.

Por outro lado, o dr. S. demorava-se em apresentar-lhe o jovem duque; nos últimos tempos, sem ao menos uma desculpa, havia suspendido o curso gratuito que lhe ministrava em sua residência. Limitava-se a mandar dizer pelos criados que não estava em casa.

Sobrevieram as dívidas.

Era, pois, necessário acabar com aquilo; chamou o Andorinha e, com a largueza que era muito sua, com o desamor pelo ouro que levava os colegas a chamá-lo de Anárgiro, à semelhança de conceituado santo, passou-lhe para as mãos furadas o que restava da abundância dizendo:

— Salde todas as dívidas; dentro de pouco seremos ricos e célebres.

O Andorinha, nessa mesma noite, fugiu com o dinheiro.

Soube depois que, antes de partir, fora à polícia denunciá-lo como autor de não se sabe quantos crimes; queria, certamente, vê-lo preso para fugir mais à vontade.

Frank só acreditou na infâmia do amigo depois de inutilmente esperá-lo durante três dias. E desde esse momento, a miséria de casaca entrou-lhe pela vida, de onde haviam fugido o tempo e o gosto pelo estudo.

Naquele cenário quase de luxo, passava dias sem almoço. Fazia, às vezes, complicada ginástica a fim de obter a moeda indispensável para tomar o fiacre e apresentar-se no salão onde era esperado. Não raro, era o criado do vizinho quem lhe emprestava vinténs, sob régias promessas.

Pela última vez quis falar ao dr. S. e saber, afinal, quando o pequeno duque iniciaria as lições. Estava cansado de respostas vagas que valiam por evasivas. Chegando à sua casa teve de entender-se com os criados, no patamar da escada. Quando a porta se abriu, lobrigou no cabide chapéus e capas do professor e do duque; naturalmente estavam lá dentro a assentar o horário e a retribuição do seu trabalho. Pensava nisso quando o criado voltou e disse:

— O professor saiu.

— Mas o chapéu e a capa estão lá dentro...

— Não é verdade, digo-lhe eu.

— Está bem...

Retirou-se com um nó na garganta, ao mesmo tempo com vontade de esbofeteá-lo. Na mesma noite veio a saber que o professor S., talvez esclarecido sobre a importância de alcançar a intimidade do duque pelo aparato com que Frank se havia preparado para isso, achou que devia guardar para si honras e proventos. A cólera do estudante subiu então ao auge e, munido de um compasso, ficou horas inteiras rondando a residência do mestre, disposto a vingar-se.

Os amigos começavam a afastar-se de Frank, a princípio discretamente, em seguida sem a menor reserva; seu lugar foi sendo tomado por interesseiros e bajuladores. Despeitado pela ausência de uns e exacerbado pela insistência de outros, descarregou sobre os últimos o mau humor, submetendo-os a descabeladas fantasias. O pior é que eles tudo aceitavam de boa sombra. Era de exasperar. Ao fim de cada ceia, após copiosas libações, tinham de sair para a rua com a roupa pelo avesso, ou com os sapatos trocados, pisando ovos. Prestavam-se de boa mente, achando graça no que lhes era imposto. E o estudante, no paroxismo do desgosto, mordia os pulsos para não gritar.

Os credores entravam de fazer cauda diante da porta. Começaram os pedidos de espera por mais alguns dias, os protestos dos recalcitrantes, as desculpas esfarrapadas, as fugas pela porta de serviço, todo o drama do homem endividado. Adeus estudos, amizades, relações sociais; já não tinha tempo para nada.

No meio da aflição, escreveu uma carta a Weishaupt, lembrando o passado e pedindo-lhe dinheiro. A resposta não se fez esperar; mandou 20 thalers, quantia insignificante para as suas aperturas. Necessitava de muito mais! A seguir, expediu-lhe outra carta, enérgica, desesperada, a que o velho achou prudente não responder. Logo depois, uma terceira, em que lhe atirava em rosto supostos compromissos, supostos crimes. Mas Weishaupt se manteve ainda dessa vez e para sempre numa imperturbável mudez.

Certa manhã, recebeu do porteiro uma carta de Gotha, com as armas do castelo. Abriu-a sofregamente, na esperança de que o conselheiro tivesse resolvido atendê-lo. Mas a carta era de Carlos Frederico, tomado de súbito entusiasmo, congratulando-se com o êxito do filho em Goettingue e pedindo-lhe que, na abastança em que se encontrava, não esquecesse os velhos pais. O estudante primeiro empalideceu, depois escangalhou-se de rir.

Ele, que era o dono da casa, entrava e saía pela escada de serviço e ao longo do caminho topava com os serviçais do prédio que lhe mostravam os dentes com escárnio, como satisfeitos com o desastre. Na Universidade, o seu prestígio havia baixado muito. O professor S. urdia contra ele um enredo de descrédito, sem lhe dar quartel. Amigos e inimigos pareciam eclipsar-se à sua presença. Um ambiente de chumbo esmagava-lhe o derradeiro entusiasmo.

Murmuravam-se intrigas pelos corredores. Adiantava-se que o Conselho Universitário ia reunir-se para expulsá-lo. Que rebentaria um pavoroso escândalo. E o autor de toda a trama de calúnias era o professor do duque. Voltou desesperado para casa, a fim de munir-se de uma arma e ir procurá-lo. Mas quando transpôs o portão, viu as poucas coisas que lhe restavam empilhadas no centro do pátio do prédio; tinha sido despejado. Alguns ociosos, parados diante dos objetos, faziam comentários jocosos.

Desde aquela hora, como desapareceu a noção de si mesmo; tornou-se uma coisa perdida, rolando sem destino pela sarjeta...

Certa noite, ao ser posto fora de uma cervejaria, encontrou o estudante desconhecido, aquele a quem se dirigira pouco depois da chegada a Goettingue. Reconheceu-o logo. Ele tomou-o pelo braço, levou-o para outro lugar e disse-lhe:

— Estou encarregado de comunicar-lhe que você vai ser expulso da Universidade. Seus inimigos trabalham para isso. Acho melhor, portanto, retirar-se de Goettingue por algum tempo, pelo menos até saldar as dívidas, e depois voltar para concluir o curso. Compreende?

Júlio repuxou a boca, num rictus de vencido. O outro, continuou:

— Hoje você dorme no meu quarto, pois eu já tenho quarto; amanhã cedo, embarcará para Berlim e levará com que viver nos primeiros dias... Depois, com vagar, tudo se arranjará...

— E quem faz essas coisas por mim?

— Não sei. Quem me incumbiu da tarefa foi o conselheiro da Universidade.

No dia seguinte, pela manhã, Júlio Frank tomava a diligência e seguia para Berlim. Na praça ainda deserta àquela hora, só ficou uma pessoa a agitar o lenço num adeus — o estudante desconhecido.



VII
UM GRITO DE ANGÚSTIA

Em Janeiro de 1828, Júlio Frank contava vinte anos de idade, encontrava-se em Berlim e morava num pobre quarto da Grosse Friedrichstrasse. Tinha a alma aniquilada de um velho, embora de quando em quando, mercê da primavera de seus anos, repontasse uma flor de sonho sobre as ruínas.

Só alimentava um desejo: entrar na Universidade de Berlim e ali completar os estudos. Mas a época não lhe era propícia. O ambiente social e político trepidava; o futuro bem próximo estava grávido de acontecimentos e os estudantes eram tidos quase como inimigos.

A direção da Universidade exigia papéis, documentos, provas de boa conduta... E ele não estava em condições de satisfazer a tais exigências.

Para ganhar o pão, trabalhava como revisor de provas numa pequena tipografia. Dava também lições particulares. Poderia ir assim através da existência. Mas, com o seu talento e o seu temperamento, assustava-o a idéia de gastar a vida inteira naquilo. Nos raros momentos de descanso, atirava-se ao comprido do catre e punha-se a fazer arrojados planos de futuro. Se não fosse um grande homem — era essa a sua obsessão — daria um golpe arriscado, que para tanto lhe não faleciam habilidade e audácia. Mas não faria semelhante coisa; preferia o pão negro da miséria, a que já se havia acostumado.

De quando em quando, passava uma noite de vigília, a escrever versos repassados de profundo misticismo. Bruscamente resolvia partir para a África ou para a Índia, Nova York ou Paris. Mas logo lhe voltava o desejo dominador de prosseguir os estudos universitários. Numa dessas horas de angústia, veio-lhe certa idéia que lhe pareceu assaz razoável: escrever ao conselheiro da Universidade, que mostrara por ele tanta simpatia. Quem sabe lá... Primeiro foi à gaveta e, tomando diversas poesias, escolheu a que melhor dissesse dos seus mais recentes estados de alma. Depois de a ler com vagar, corrigindo aqui e ali, foi para a mesa e copiou-a numa folha de papel. Feita a cópia, pôs-se a caminhar de um lado para outro, pelo quarto, como a conversar consigo mesmo. Em seguida, assentou-se à mesa, molhou no tinteiro a comprida pena de pato e sobre o papel branco traçou com mão febril as palavras que se seguem:

“Venerando sr. conselheiro da Universidade — Há já muito tempo que eu vos devia dizer algo da minha situação e da minha vida. Te-lo-ia feito antes, se o pudesse. Sem dinheiro e sem recomendações, cheguei a Berlim quase sem recursos. Felizmente encontrei logo amigos, uns da Universidade de Leipzigue e outros da de Goettingue, os quais me foram ajudando até que minha situação melhorasse. Neste momento há ainda muito a desejar para que ela seja excelente. As lições que dou garantem-me cama e mesa. Com escritos, trabalhos de revisão, etc., ganho algum dinheiro que, espero, dará, pelo menos, para todo o necessário. Há, porém, um fato que ainda me priva do gozo tranqüilo desta situação: a incerteza de poder ficar aqui. Noutros tempos, para serem acolhidos aqui, os estudantes não precisavam trazer atestados. Depois, porém, que em grande número começaram a vir para cá estudantes exilados ou egressos, a minha matrícula tem esbarrado com muitas dificuldades, acrescendo que, ao chegar, também não dispunha de dinheiro para isso. Animei-me, portanto, a vir à vossa presença para vos pedir me faculteis um meio de obter os recursos de que preciso para saldar o que já devo a meus credores, podendo garantir-vos que tais recursos são principalmente pedidos para esse fim; quanto ao mais, se não fosse o respeito ao que é dos outros e que os outros me merecem, há muito que eu teria tomado outro “caminho”, cujo termo facilmente adivinhais.

Dignai-vos, portanto, vir mais uma vez em meu auxílio, agora com um “atestado” que virá decerto consolidar a minha permanência aqui, fato que por sua vez garantirá o que devo a meus credores, os quais, inteligentes que são, deixarão de parte o lado judicial e o paterno da questão, cientes desde logo de que meu pai, que não me vê com bons olhos desde que nasci, e que jamais dispendeu um vintém comigo, não irá agora dispendê-los em meu favor. Ficareis decerto admirado de ter eu tido a coragem de vir perante vós com este pedido. Mas é que, para mim, a nobreza de vossos sentimentos é penhor da vossa benevolência, não somente com qualquer infeliz, mas também para comigo que, em verdade, sou um desgraçado. Não há dúvida de que só eu sou o culpado da desgraça em que me vejo; mas se conhecêsseis as cousas que levaram a ela, se o meu íntimo fosse visível ao vosso olhar, vós não me condenaríeis “in totum”.

Mui duramente estou eu pagando pelo que pequei; porque, se há uma “vingança terrível”, onde ela está é na consciência de que provocamos nos outros o próprio sofrimento que nos punge. Pudesse eu ter pressentido que iria atolar-me nesse tremedal, não no de maldade (comparativamente menos fundo) mas de baixeza e de desprezo — certo não teria conservado a minha vida até hoje, porque sempre me horripilaram as idéias de maldade e de baixeza, é verdade; mas ainda há em mim um certo pudor congênito — pois se não deixei de praticar atos de que me envergonho, mais desprezível ainda seria eu se tentasse agora fugir-lhes às conseqüências.

Voluntariamente calo a culpabilidade dos outros no meu infortúnio, cujas origens datam da aurora da minha infância, porque cedo tive de passar pelas mais tristes provações. Transbordando em sentimentos de amizade, expus-me ao maior perigo em prol de um amigo, e foi esse amigo quem me denunciou e perdeu. O dinheiro que, para custear os meus estudos, penosamente ganhei na Escola, me foi tirado pelas pessoas mais chegadas. Enfureci-me, não pela perda do dinheiro, mas pelo assassínio do meu ideal. E então, precocemente desenvolvido em todos os sentidos, atirei-me à libertinagem para me vingar do que eu chamava o “meu destino”, esse assassino do meu belíssimo ideal. Sem exceção eu era ilimitadamente louvado por todos os mestres, e da minha parte esforçava-me por pagar-lhes em moeda dobrada. Então, a um indomável orgulho veio associar-se uma enorme ambição de glória que me abriu um caminho completamente errado. Meus pais, porém, o viam com prazer porque, ao palmilhá-lo, eu freqüentava casas de famílias ricas — pois desde os 12 anos de idade que fiquei sem mesa para comer nem roupa para vestir, tendo que adquirir tudo isso à minha custa. Esse o motivo por que me acostumei a uma vida mais livre do que a permitida pelas minhas condições. A ninguém queria eu obedecer, que o meu maior empenho estava em libertar o próximo, no menor lapso de tempo possível, de suas atribulações — pois no tempo em que eu devia estar aprendendo a religião, já o mundo se me afigurava um ridículo teatro de bonecos e o que eu mais queria era “não ser joão-minhoca”, mas simplesmente um “espectador”.

Daí, vieram-me as sátiras que eu aplicava a tudo, principalmente ao burguesismo, ao qual nunca pude submeter-me. Por isso o espírito que me movia era um espírito instável, esquisito e que só encontrava sossego no seu próprio desassossego — também daí o enfado que produziam em mim as minhas relações de amizade quando começava a perdurar sem esperanças de perturbação. Nesses casos, as mais vantajosas dessas relações eram por mim postas em risco de se romperem, não por inúteis, mas porque, oferecidas, me eram incômodas. Era, portanto, fatal o soçobro, tanto mais que fui indo até à zona dos bajuladores, os quais, por um jantar, (e eu lhos pagava diversos) faziam tudo que eu quisesse e até podiam “dançar” a meu gosto. Assim, debaixo de tempestades torrenciais, fi-los sair a cavalo, e o meu ridículo orgulho ficava satisfeito quando, em cumprimento de ordens minhas, praticavam toda espécie de extravagâncias. Mui caro me custou tudo isso e o meu orgulho está hoje horrivelmente abatido.

Eu vos descrevi tais excentricidades para que pudésseis ver até certo ponto o que vai pelo meu íntimo, e que às vezes ainda me domina diabolicamente.

A vossa benevolência me perdoará a extensão desta carta, pois sei que vos interessais por alguém que deseja sinceramente reparar o mal que fez. É por isso que, mais uma vez, me animo e pedir-vos o favor já enunciado, que me trará o sossego de que aqui preciso, que me impedirá que eu seja de novo enxotado como há pouco fui de Goettingue, onde, fiado nas melhores promessas do dr. S., tudo perdi só para o servir. Fiquei sem as suas lições e ele me abandonou, tendo eu caído na triste vida que passei nos últimos dias de minha estada lá. Gratíssimo ser-vos-ei por tamanha bondade. Não a desejo, porém, se entenderdes que não a mereço.

Para obter esse sossego apelei para a Poesia, que é a grande consoladora, e como também rendeis preito às Musas animo-me a vos mandar alguns versos, para verdes que o meu espírito tomou pelo menos outro rumo. Decerto não têm esses versos a vibração que eu lhes daria em melhores tempos. Apesar disso, aí vão eles na falta de coisa melhor, para vos provar que sou grato à vossa indulgência. Escolhi um assunto religioso por ser o que mais corresponde à minha tendência atual. Mas se isso vos desagradar, então permaneça em vós ao menos a lembrança de que o meu pensamento já visa coisas diversas das que visava outrora. No mês vindouro poderei mandar algum dinheiro para Goettingue. Com devotamento. — J. Frank, da Classe de Filosofia — Berlim, 24 de Janeiro de 1828. — Grosse Friedrichstrasse, 174”.

 

Meteu carta e poesia num grande envelope e foi levá-las à estação da posta. E, desde esse momento, começou a sua dolorosa espera. Andava de um lado para outro, falava, gesticulava, sorria, ou ainda passava sarabandas em ignotos interlocutores.

Meses depois, recebeu uma carta que não o alegrou; dentro dela vinha outra, dirigida a um armador de Hamburgo, na qual se pedia que facilitasse o transporte do portador até o Rio de Janeiro. Junto, também vinha uma ordem de 70 thalers em seu nome.

Era o que o conselheiro da Universidade lhe podia fazer.

Pouco tempo depois, tomou a diligência e partiu para Hamburgo. Naquele tempo, quem procurava o Brasil era como quem metia uma só bala no revólver e depois de virar o tambor, até perdê-la de vista, disparava a arma no ouvido. Se a bala estivesse na agulha, era um homem morto; se não estivesse, tinha ainda cinco probabilidades a seu favor.



VIII
A CAMINHO DO BRASIL

Em 1828, ainda havia em Hamburgo, no bairro de Saint Pauli, de armadores e embarcadiços, uma esconsa viela que tinha o pitoresco nome de rua do Caçador de Patos. Era estreita, calçada de pedras, sem passeios laterais e descia dos arruinados bastiões para perder-se nos cais do Elba.

De lés a lés, esforçando-se por manter o alinhamento, uniam-se barrigudos sobrados de um andar, com a janela do sótão plantada a meio da platibanda. Nessas trapeiras, geralmente habitadas por trabalhadores do mar, viam-se roupas grosseiras estendidas pelas locarnas, na inútil espera de um raio de sol.

Aquelas casas não eram pintadas e o tempo se encarregava de lhes dar a patina verdoenga tão característica do velho bairro, entalado entre os bastiões e o porto. A rua, por seu lado, não figurava entre as mais freqüentadas. Durante o dia, os transeuntes eram quase sempre os mesmos e poderiam ser contados a dedo: a mulher de lenço na cabeça, xale escuro e cesta debaixo do braço; muitas vezes, um palmipede levantava a tampa da cesta e escancarando as colheres do bico soltava gritos agudos. A segunda figura indefectível dessa ruazinha era o camponês à cata de condução fluvial para o lugarejo ribeirinho; vestia roupa de veludo cosida ao corpo, chapéu enorme e suas pernas arqueadas terminavam em botas de couro, ainda sujas pelas relhas do arado. Mas ainda eram encontradiços por ali o gordo estalajadeiro, de avental e gorro, a espairecer na porta da locanda; o adelo, que costurava sentado numa banqueta defronte do negócio; o caldeireiro, que montava a minúscula oficina diante de cada freguês, soldando bules e frigideiras; o mendigo, sentado no frade-de-pedra, o amolador, postado na esquina, fazendo as lâminas faulharem e cantarem ao ser comidas pelo rebolo e, como encanto da vizinhança, a bonita senhora Helm, na florida varanda de sua casa, distribuindo migalhas de pão aos pássaros — diziam que para mostrar a alvura alpina dos braços.

À noite, porém, o movimento era mais animador. É que a ladeira contava numerosas tavernas em cujas insígnias de lata os mestres pintores se haviam apurado a ilustrar o nome do estabelecimento. Lá estavam “O Rei de Thule”, “A Bela Segadora”, “A Moça de Fukien”, tantas outras casas onde o patesca entrava, tomava uma fieira de copázios de cerveja e comia salsichas a discrição.

Nesses lugares, a “pilsen”, além de gostosa e substancial, era servida por moças de penteado alto, colete de veludo escuro muito justo, e vestidos claros e rodados que mal chegavam aos joelhos, deixando ver botinhas de camurça que se prolongavam perna-a-cima em fitas entrelaçadas. Tais caixeiras não eram absolutamente ferozes, principalmente para os marujos que chegavam do outro lado do mundo e traziam um punhado de moedinhas de ouro amarradas na ponta do lenço de ramagens.

Bebia-se e cantava-se. Da meia-noite para o dia, garganteava-se o coro do “Grumete que foi colher campânulas”. Quando Deus era servido e aparecia o velho do realejo, dançava-se também. Os embarcadiços eram grandes, pesados e lentos como ursos; as caixeiras, para disfarçar as pisadelas, riam como malucas. Uma patuscada de alto lá com ela! Mas à hora de fechar a casa, se o taverneiro encontrava um bêbado debaixo da mesa, tomava-o ao colo como se fora uma criança e, chegando à porta, atirava-o para a sarjeta. Depois, fechava a tasca, corria as tramelas, desligava o martelo da aldrava e ia dormir com Deus e a Virgem Santíssima.

Certa manhã de Outubro, um jovem de vinte e poucos anos, com cara de estudante, segundo a opinião da mulher da cesta que, àquela hora, conversava com o caldeireiro, subiu pela rua do Caçador de Patos, olhando freqüentemente para cima, a fim de ler as tabuletas. Deparando o estalajadeiro que, como de costume, parecia petrificado à porta do seu estabelecimento, desbarretou-se e aventurou um pedido de informação. O homenzarrão levantou o braço de presunto e indicou-lhe uma casa próxima:

— É ali, mas nos fundos.

O transeunte dirigiu-se para o local indicado, que era a “Vaca Lunada”, e viu-se diante de uma sala escura e deserta. Espiou para o interior. Não havia ninguém. As grandes mesas toscas e quadradas tomavam todo o recinto. Junto a elas, alinhavam-se os mochos. Atrás do balcão, erguiam-se os barris de vinho e cerveja. No fundo, em medalhão de terracota, uma cabeça de vaca tendo fino crescente de ouro a servir-lhe de aspas. Era aquela, certamente, a vaca lunada que dava o nome à casa.

— Que quer?

O intruso — que era Júlio Frank — estremeceu. Mas, como observou logo, a voz não saía da cabeça de vaca; quem o interrogava era um rapazelho encarapitado no alto duma pipa, como um gnomo, a trincar maçãs. Então Frank perguntou pela pessoa que procurava e o garoto, sem mesmo olhar para ele, tão habituado parecia a essa pergunta informou:

— No fundo; suba a escada.

O estudante obedeceu. Por cima da tasca havia um escritório. Subia-se pela escadaria de madeira, dum só lance, que começava no fundo da sala, com uma pinha azul na ponta do corrimão, e se esgueirava unida à parede em direção à frente do prédio.

A casa cheirava a cevada podre. O ambiente enjoava de escuro e úmido. Frank teve de parar um pouco diante do primeiro degrau para averiguar se havia ali uma escada ou um poço. Subiu por ela acima, fazendo-a estalar nas traves. Chegando ao patamar, estacou diante de uma porta cerrada sobre a qual se alinhavam os dizeres: “H. B. Schwartz — Agente e fornecedor de navios”. Depois de ligeira hesitação, empurrou a porta e espiou para dentro.

Na sua frente, sentado à mesa, de costas para a janela da rua e visivelmente à espera da pessoa cuja aproximação acompanhara pelo ouvido desde a porta da rua, estava Herr Schwartz. Não podia deixar de ser ele. Era um velho de cara redonda, cercada de um colar de barba grisalha; o cabelo, que começava depois da calva, erguia-se em famoso topete. Vestia rabona cor de rapé e tinha o pescoço envolto numa gravata de seda de três voltas. A pena de pato aparecia por trás da orelha, com a aguçada ponta para a frente. Enquanto esperava, ia calmamente limpando os óculos de aros de chumbo, grandes e redondos, no lenço tabaqueiro.

— Que quer?

— Trago-lhe esta carta da parte de...

— Ah! Sim... Como vai o conselheiro?

— Dando tratos às Musas.

— É o seu fraco — e riu, sem graça.

Schwartz recebeu a missiva, quebrou o sinete verde e leu-a pachorrentamente, até mesmo as saudações protocolares abreviadas. Depois, fincou os olhos em Frank e começou a fazer-lhe perguntas desnecessárias, naturalmente para assegurar-se de que não havia engano de pessoa:

— Como é mesmo seu nome?

— Júlio Frank.

— Judeu?

— Não; meus pais estão ao serviço da corte de Gotha.

— Estudante?

— Sim, senhor.

— Entrou em alguma sarrafuscada?

Frank sorriu discretamente.

— Agora quer mudar de clima, hein?

Novo sorriso.

O velho chamou por um nome qualquer. Um sujeito ruivo, comido pelas sardas, espiou detrás do monte de caixas. Então, recomendou-lhe que conduzisse a Frank e o apresentasse em seu nome ao comandante do barco que ia sair nessa mesma tarde, para transportá-lo até o Rio de Janeiro. O estudante estendeu-lhe a mão, mas Schwartz estava ocupado a cavar uma pitada esquiva no fundo da boceta de rapé.

E os dois jovens se perderam atrás da porta, na treva úmida, que era durante o dia o ambiente da “Vaca Lunada”.

Em St. Pauli o casario escuro se abria diante do rio coalhado de grandes e pequenas embarcações. O homem ruivo levou-o até a beira da água, onde se empilhavam mercadorias. Eram fardos de fazendas, caixas de ferragens, objetos de louça e de vidro, tabaco, bebidas e tudo quanto a longínqua América do Sul comprava aos mercadores da cidade livre de Hamburgo. Apresentou-o ao comandante. Chamava-se Keller, tinha a cabeça embrulhada num lenço de ramagens e quando falava parecia que a ponta do nariz ia tocar no queixo de rabeca. Diante das palavras do ruivo, Keller inspecionou-o de alto a baixo e como o resultado fosse favorável, deu-lhe uma palmada amistosa nas costas:

— Estudante?

— Sim.

— Comprometido?

— Um pouco.

— Em Jena?

— Não; em Goettingue.

— Está bem. Já viajou?

— Nunca.

— Vai gostar. Mas sabe o que o espera?

— Mais ou menos.

— Calor, mosquitos, febre, varíola, escarlatina, uma facada por causa de uma negra...

O estudante pareceu gostar do programa. Então, como um escaler estivesse lotado e pronto para desatracar, Keller mandou que ele embarcasse. Foi assim que Júlio Frank, numa tarde de Outubro, quando os ventos do Mar do Norte varriam as folhas que o outono espalhava à beira dos bastiões, embarcou para o Brasil.

O escaler penetrou na floresta de mastros e foi atracar junto ao costado dum velho lugre. À meia nau, havia uma escada de corda e um braço de verga que servia de guindaste. Enquanto a mercadoria era metida na lona e a lingada içada para o convés, Frank entreteve-se em examinar o navio em que devia seguir viagem. Chamava-se “Alsterbeck”, como, de passagem, vira na popa, em letras brancas. Veleiro de linhas pesadas, para correr à ventura nos mares do sul. Na proa, sob o gurupés, havia uma ondina branca, com as mãos postas na nuca. A seus pés, um tritão em forma de crescente. O casco do navio era coberto de grandes chapas de cobre, unidas por fileiras de rebites. Havia muitos anos fora pintado duma cor cinzenta, mas as junturas das placas estavam azinhavradas, formando listas verticais de cor escura, que morriam na água. No alto, sobre os bordos, apareciam punhos de vergas. E tudo isso balouçava docemente às aragens que enrugavam as águas do rio.

— Ó lá de baixo! Você sobe ou não sobe?

— Está à espera de que o vão buscar?

Ouviram-se grandes risadas. Eram uns homens que fumavam debruçados na amurada. Frank encalistrou com a risota e se pôs a subir canhestramente pela escadinha de cordas. A operação era mais difícil do que se lhe afigurava. Mas era moço. Tinha uns pulsos sólidos. Pôs toda sua força e subiu, chegando lá acima a botar a alma pela boca. Viu-se logo numa roda de marujos alegres e que lhe davam punhadas nas costas como se fossem velhos amigos. No mar, era assim: o convés irmanava os homens com maior facilidade que o leite materno. Deram-lhe logo a maca, o cangirão e o prato de folha. E ele se perdeu entre os moços de bordo.

À tarde estava de um azul pálido quando o comandante deu ordens para levantar as amarras. Os marinheiros subiram como gatos pelas escadinhas das vergas, até os joanetes, largando pano, e breve com um ruido de correntes que entram pelos escovens e se enrolam no paiol da amarra, o navio girou um pouco sobre si mesmo e foi descendo o rio. Das outras embarcações partiram gritos de boa viagem e o “Alsterbeck” desceu por entre as velhas construções ribeirinhas, oscilou às primeiras marolas e se perdeu em direção do Mar do Norte, cujas águas salobras deveria encontrar a uns vinte quilômetros. Depois anoiteceu. Uma lanterna subiu para o topo da mezena. E alta noite, quando Frank acordou, tinha sonhado que estava comendo toucinho cru. E quanto mais comia, mais enjoava. Foi o tempo de correr para a amurada e destripar conscienciosamente o seu mico.



IX
A VIDA DE BORDO

A longa viagem foi das melhores, cumprindo o veleiro a maior parte da derrota com ventos propícios e mar chão. Somente cá em baixo, depois da linha equatorial, sobrevieram ponteiros pela noite e o “Alsterbeck” teve de bordejar, de gávea-baixa e papa-figos. A água se encarneirou e nos movimentos de arfagem a crista dos banzeiros cobria de escuma o convés. Mas foi obra de poucas horas; com o amadurecer da manhã, os ventos amainaram, mudando-se em aragens de feição, e o lugre foi docemente conduzido por um mar plano como se sobre ele houvessem vazado pipas de azeite.

Júlio Frank, não obstante, fez má viagem. À partida de Hamburgo seguiram dias de torturante enjoo. Mal se havia reposto, começaram as exigências do mestre, que devendo transportá-lo ao Rio de Janeiro, por uma ordem recebida do capitão, subentendera pesadas condições, reservando ao passageiro duros trabalhos da faxina.

Ainda o sol andava pela casa de Deus e já o mestre ia acordá-lo com palavras que pareciam pedras, metendo-lhe nas mãos endurecidas pelo frio o cabo de uma vassoura, para que baldeasse o convés. Ele subia para a coberta, a tiritar, com as calças arregaçadas até os joelhos e sem camisa, que a sua estava em frangalhos. Ali, espalhava pelo chão punhados de areia grossa e, tomando de um balde, ia colher água salgada que jorrava das mangueiras, ao encontro da amurada, para despejá-la em todos os sentidos, no pavimento. Então, retomava a vassoura e punha-se a esfregar tábua por tábua, até que ficassem espelhantes como para uma festa.

As mãos se lhe empolaram de calos de água que, com o esforço, viraram outras tantas feridas. Passava todo o tempo de mãos fechadas, sem poder abrí-las, nem mesmo para pegar numa daquelas bolachas que mais pareciam rodelas de madeira. Chegou mesmo a hora em que mais doce lhe pareceu o castigo correspondente a uma recusa, do que a submissão a tal regime. Na manhã seguinte, quando o mestre lhe apareceu à beira da tarimba com a ordem e a vassoura, mostrou-lhe as mãos enclavinhadas e disse que não podia fazer a lavagem. A cólera daquele homem endurecido explodiu. O estudante não havia imaginado que à sua primeira recusa desabasse tamanha tempestade. Mas estava por tudo. E como continuasse a recalcitrar, mostrando as mãos deformadas, que sangravam a qualquer movimento, o mestre correu à cabina do capitão, e tais coisas certamente lhe disse que, à volta, trazia ordem de degradá-lo no porão.

— Menos mal... — pensou o estudante, descendo a escada escorregadia à frente do marinheiro.

Lá em baixo, quase às palpadelas, caminharam para a roda-de-proa e, chegando a uma porta baixa e estreita, abriu-a, atirou o rapaz para dentro e fechou-a novamente a chave. Frank deu dois passos e ficou em pé logo adiante, na esperança de acostumar-se à falta de luz para melhor se orientar. Foi bem difícil. Por pouco que o navio balouçasse, ali, à proa, se sentia mais do que em outro ponto.

Quase não se podia suster de pé e a cada balando era atirado para a frente, num chão que lhe fugia, cortado e recortado pelo madeiramente do cavername. Ao alto furava a treva o disco luminoso de uma vigia, mas essa claridade só servia para acentuar a treva da prisão. O ar que respirava era escasso, quente, envenenado de salsugem. Assim mesmo, procurou deitar-se o melhor que pôde, instando para reconciliar o sono tão abrutamente interrompido. Por mais que o cenário o tivesse impressionado, acabou por convir que ainda assim a vida ali era melhor do que passar horas esfregando a carne-viva das mãos no aro do balde e no cabo de vassoura. E nisso pensava quando os olhos se lhe cerraram e pouco a pouco se foi passando da vigília para o sono...

Ainda a dormir, deu um grito; sentira que dentes finos e aguçados tinham começado a comer-lhe a barriga de uma perna. Apalpou o lugar ofendido e sentiu nos dedos a umidade viscosa e quente do sangue. Percebeu ruidos leves, deslizantes, quase imperceptíveis que se perderam no extremo da proa. Ao mesmo tempo, no móvel disco de ouro que a espia atirava sobre o fundo do porão viu passar de fugida um animal escuro e rasteiro. Era uma ratazana que ali morava, talvez o único ser vivo daquela noite, que tinha sido criada juntamente com o navio, na mesma hora em que, no estaleiro de Hamburgo, bateram os últimos curvatões da proa.

Horas depois, já um tanto habituado à treva, observou que essa ratazana era alentada e magra a ponto de se tornar irreconhecível. Deslizava incessantemente pelos cantos, arrastando a cauda, que era do mesmo comprimento do corpo. De quando em quando sentava-se nas patas traseiras e punha-se a espreitá-lo, de olhar guloso. Era ele imobilizar-se um momento e ela se aproximava, esfregando o focinho gélido nas suas pernas nuas. Dava-lhe um ponta-pé, tirando-a para longe, e a cena se interrompia para recomeçar logo depois.

Tinha perdido a noção das horas. Não conseguia fazer cálculo aproximado do tempo que ali estava encerrado. Veio a sede. Veio a fome Sentia brasas na garganta e uma dor pesada no estômago, dor que ia e voltava, como a assinalar as horas das refeições que não fazia. Mais adiante, um suorzinho gelado umedeceu-lhe as fontes e entrou numa espécie de modorra de que só despertava para atirar ponta-pés à ratazana.

Numa hora dum dia qualquer, a porta abriu-se e o mestre apareceu; trazia-lhe a malfadada vassoura e ele a aceitou de boamente, sem tugir nem mugir. Subindo à coberta, viu que amanhecia. A caixa de areia tinha sido levada para o convés e as mangueiras jorravam água do mar. Então, com uma energia de que nunca se julgaria capaz, retomou o trabalho, com fúria, ensanguentando as mãos. Mas o ódio pelo mestre do barco, esse lhe ficara espetado no coração, como um espinho.

Foi aquela a sua vida durante cerca de dois meses, que tanto durou o resto da viagem. O mestre, que se tornara seu solerte inimigo, sem que para tal houvesse motivo, inventou novos trabalhos, reputados ligeiros, como besuntar de graxa os gualdropes, elo por elo, ou desfazer para refazer os rolos de viradores E nessa faina pesada, depois da qual só tinha fôlego para dormir, caindo no sono como pedra em poço, foi assistindo como único aprazimento daquela vida, à mutação rápida de cenário, das cinzas do Mar do Norte à palheta borrada do Equador, do frio anavalhante da Europa batida pelo inverno à torreira dos trópicos ignizados pelo sol.

Mas ainda assim surdiam rixas a bordo e quando o mestre surgia, topava Júlio engalfinhado com o cozinheiro na claridade encardida do paiol da bolacha. À fama de madraço acrescentava a de querençoso e brigão. E quando certa manhã de Janeiro, sob um céu pesado de cumulus, que semelhavam grandes massas arredondadas de algodão debruadas de ouro pelo sol, o navio entrou pela baía, ele julgou que havia chegado ao cabo de seus padecimentos. Teve um profundo suspiro. Mas nesse interim sentiu fundo a ponta daquele ódio do mestre, que lhe feria o coração. Foi procurar o perseguidor. Ele estava chefiando os homens que aparelhavam a verga grande em guindaste, para a descarga. Plantou-se diante do marujo e perguntou-lhe:

— Então, chegamos?

— Como vê...

— Pois então, tome lá!

E atirou naquelas bochechas polpudas uma tão famosa bofetada, que o mestre deu dois passos para trás e caiu sentado num monte de cordas. Foi uma bulha. Os seus homens se atiraram contra o estudante e moeram-no de socos, recolhendo-o novamente ao porão; dessa vez de pernas e braços amarrados, de modo a não poder mover-se. Dali a pouco, descida a tampa do tombadilho, fechada a porta da proa, começou a sua luta com a ratazana.

A princípio, o bicho fugia todas as vezes que ele, mesmo deitado e amarrado, fazia um brusco movimento com o corpo. Mas pouco a pouco deu mostras de compreender que tais movimentos não chegavam a ser uma defesa e se foi desacovardando, tornando-se mais agressiva, a ponto do estudante ter de defender-se com as mesmas armas, voltando-se para o animal e, dentes à mostra, procurar apanhá-lo pelas costas. A cada mordida, ele chiava, saltava, mas par