Testamento Político
Cardeal Duque de Richelieu (1585-1642)
Tradução: Davi Carneiro
Edição
Ridendo Castigat Mores
Versão para eBook
eBooksBrasil.com
Fonte Digital
www.ngarcia.org
“Todas as obras são de acesso gratuito. Estudei sempre por conta do Estado, ou melhor, da Sociedade que paga impostos; tenho a obrigação de retribuir ao menos uma gota do que ela me proporcionou.”
Nélson Jahr Garcia (1947-2002)
© 2002 — Cardeal Duque de Richelieu
ÍNDICE
Apresentação
Biografia do autor
Aviso do Editor (de 1709)
Testamento Político do Cardeal Duque de Richelieu ao rei
PRIMEIRA PARTE
CAPÍTULO I
Sucinta narração de todas as grandes ações do Rei até a paz, feita no ano de...
CAPÍTULO II
Das reformas da ordem eclesiástica
Seção I
Seção II
Seção III
Seção IV
Seção V
Seção VI
Seção VII
Seção VIII
Seção IX
Seção X
Seção XI
Seção XII
CAPÍTULO III
Da nobreza
Seção I
Seção II
CAPÍTULO IV
Da terceira ordem do reino
Seção I
Seção II
Seção III
Seção IV
Seção V
CAPÍTULO V
Que considera o Estado em si mesmo
Seção I
Seção II
Seção III
CAPÍTULO VI
Que representa ao rei o que se estima como devendo considerar em relação à sua pessoa
CAPÍTULO VII
Que faz ver o estado presente da casa do rei e declara o que parece necessário para pô-la no estado em que deve estar
CAPÍTULO VIII
Do conselho do príncipe
Seção I
Seção II
Seção III
Seção IV
Seção V
Seção VI
Seção VII
SEGUNDA PARTE
CAPÍTULO I
O primeiro fundamento de um Estado é o estabelecimento do reino de Deus
CAPÍTULO II
A razão deve ser a regra e a diretriz de um Estado
CAPÍTULO III
Que mostra que os interesses públicos devem ser o único fim daqueles que governam os Estados, ou que pelo menos devem ser preferidos aos particulares
CAPÍTULO IV
Quanto a previdência é necessária ao Governo de um Estado
CAPÍTULO V
A pena e a recompensa são dois pontos completamente necessários à direção dos Estados
CAPÍTULO VI
Um tratar contínuo não contribui pouco ao bom sucesso dos negócios
CAPÍTULO VII
Uma das maiores vantagens que se possam conseguir para um Estado é destinar cada um ao emprego para o qual é mais próprio
CAPÍTULO VIII
Do mal que os aduladores e intrigantes causam aos Estados, e quanto é importante afastá-los de junto dos reis, banindo-os da sua corte
CAPÍTULO IX
Que trata do poder do príncipe; e que se divide em oito seções
Seção I
Seção II
Seção III
Seção IV
Seção V
Seção VI
Seção VII
Seção VIII
CAPÍTULO X
Que conclui esta obra, fazendo conhecer que todo o conteúdo dela será inútil se os príncipes e seus ministros não são tão apegados ao governo do Estado, que, nada omitindo daquilo que é adstrito ao seu cargo, não abusem nunca do seu poder
POSTFÁCIO DO TRADUTOR
NOTAS
TESTAMENTO POLÍTICO
“Richelieu em comando.
Batalha de La Rochelle”Cardeal Duque de
Richelieu
APRESENTAÇÃO
Nélson Jahr Garcia
Richelieu tornou-se um personagem histórico bastante conhecido. Essa popularidade se deve, em grande parte, a Alexandre Dumas, especialmente por sua obra “Os três mosqueteiros”, que virou filme, até chegou aos quadrinhos.
Há algumas distorções, contudo. A história que permanece fala de um cardeal arbitrário, arrogante, ambicioso, cruel e devasso. Essa visão, se não é falsa, é parcial.
Richelieu foi um grande estrategista militar, promoveu, enfrentou e venceu inúmeras guerras e batalhas. Como estadista não merece críticas, sua hábil genialidade na condução dos negócios públicos foi impecável. O “Testamento Político”, obra que aqui divulgamos é uma prova dessa afirmação. Como fez Maquiavel, em “O Príncipe”, o Cardeal aconselha e orienta o governante sobre a arte de bem administrar o Estado. Ensina como promover a igualdade, justeza das leis, importância da religião, papel da educação, uso da violência, tudo enfim que importa ao líder de uma grande nação.
Não se sabe quantas mulheres Richelieu possuiu, mas amante teve uma só, a quem foi fiel até a morte: “La France”.
BIOGRAFIA DO AUTOR
Richelieu era um menino doentio e triste. Armand Jean du Plessis (o seu nome verdadeiro antes de ser, simplesmente, Richelieu) nasceu em 1585 de uma família pobre da pequena nobreza. O pai descendia dos Du Plessis Richelieu, aristocratas provincianos, avarentos e brigões. O avô foi pajem do rei Carlos IX e casou com a pobre e orgulhosa Françoise de Rochechouart, um dos nomes mais antigos da França (madame de Montespan, a favorita de Luís XIV, era também uma Rochechouart). O velho ficou indignado quando um dos seus filhos, François du Plessis, protegido do rei Henrique III, casou com a filha de um advogado de Paris, uma burguesa: Suzanne de la Porte. Mas Suzanne era rica e os Richelieu tinham grande necessidade de dinheiro. A altiva Rochechouart, apesar da fortuna da nora, tratou-a sempre com pouco caso. E o pequeno Armand teve uma mãe resignada, abatida, humilde e doce. Amou-a de todo o coração e este foi, acredita-se, o seu único amor. Ele era o terceiro de cinco filhos — três homens e duas mulheres — e deveria, como mandava o costume naquele tempo, deixar os títulos, honras e glórias ao irmão mais velho. O pequeno Richelieu não pensou em rebelar-se contra essa desvantagem mas, em seus silêncios prolongados, nos freqüentes acessos de febre, remoeu com certeza pensamentos amargos. Era muito inteligente e, mandado pela família para Paris, onde deveria estudar num dos colégios mais qualificados, o de Navarre, logo destacou-se pela rapidez no aprender e pelo instinto de liderança. Tinha nove anos. “Havia nele — escreveu um colega — o desejo constante de ser elogiado e, ao mesmo tempo, o medo da reprovação”.
Com 16 anos saiu do colégio e escolheu a carreira das armas, matriculando-se na escola militar dirigida por Antoine de Pulvinci, ex-embaixador, cortesão requintado, grande cavaleiro. Armand du Plessis teve então que submeter seu físico franzino a dura disciplina. Brilhou nos exercícios de equitação e nos de tiro, tal como se havia distinguido nos estudos do colégio de Navarre. Muitas vezes, tiritando de febre, obrigava seu corpo a resistir — e conseguia.
A vida militar agradava ao jovem Richelieu e ele teria continuado nela se uma necessidade familiar não o tivesse afastado das armas. Morre um tio seu, que recebia os benefícios financeiros do arcebispado de Luçon, doado aos Richelieu por Henrique III. E o irmão de Armand, que deveria ser o herdeiro, não quis saber do título, porque havia escolhido a humildade e a pobreza, tornando-se monge. Perder o bispado de Luçon significava, para a família, perder rendas indispensáveis. Armand Jean sacrificou-se e tomou o lugar do irmão, revelando submissão que surpreende, quando se pensa na satisfação que lhe dava a carreira militar. Mas sua ambição já era grande, e ele pensou certamente que o título de bispo seria mais convidativo do que o de general, tanto mais que poderia consegui-lo rapidamente.
Ei-lo, com apenas 16 anos, no bispado de Luçon, curvado sobre textos eclesiásticos. Estudou com tanto afinco que o rei Henrique IV solicitou ao seu embaixador no Vaticano uma dispensa papal para o jovem bispo. Armand viajou então para Roma, a fim de completar seus estudos religiosos. Lá permaneceu durante dois anos, conseguindo penetrar nos meios vaticanos e fazer-se notar pelo papa Paulo V. Parece que o pontífice, tendo ouvido um sermão daquele estudioso tão aplicado, elogiou-o com estas palavras: “Dotado de uma sabedoria acima de tua idade, mereces ser consagrado antes do tempo prescrito”. Armand Jean tinha na época 22 anos, mas disse ao papa ser mais velho. Tallemant des Réaux conta: “Foi para Roma e consagrado bispo. O papa perguntou-lhe se tinha a idade necessária para a nomeação: ele respondeu que sim e, depois, pediu absolvição por ter dito uma mentira. E o papa respondeu: Questo giovane sara un gran turbo’ (Este moço será um homem muito astucioso)”.
Armand du Plessis foi consagrado bispo em 1607, com a idade de 22 anos. Regressou então a Paris para defender tese de teologia e, levado pelo irmão mais velho, freqüentou a corte. Logo percebeu as intrigas, as baixezas dos cortesãos. Nenhum dos segredos daquele meio corrompido lhe escapou. Foi tão hábil que conseguiu conquistar Henrique IX, que o chamava “mon éveque” (o meu bispo). Richelieu, contudo, era inteligente demais para não compreender que a sua presença na corte, naquele momento, não tinha maior sentido. Melhor voltar a Luçon, ser simplesmente bispo.
O bispado de Luçon era um dos mais pobres da França. Graças à proteção do soberano, Richelieu conseguiu torná-lo próspero, criando até uma biblioteca. Naqueles anos — que podem ser definidos como de voluntário exílio — travou conhecimento com François Le Clerc du Tremblay, que passou para a história sob o simples nome de “padre José”. Foi esse o início de uma amizade que se tornaria preciosa para Richelieu, pois o padre José, que será mais tarde, chamado a “Eminência Parda”, tornou-se indispensável a Richelieu, durante os 18 anos de poder do futuro cardeal. Por outro lado, o padre José, tendo compreendido a inteligência do jovem bispo e desejando permanecer um simples capuchinho, transferiu para ele ambições e desígnios.
Em 1610 o rei Henrique IV morreu, assassinado por Ravaillac. Sua esposa, Maria de Médicis, tornou-se regente, sendo seu filho, o futuro Luís XIII, ainda menor. O bispo de Luçon considerou que uma mulher poderia ser conquistada mais facilmente do que um homem. Voltou para a corte, em Paris, com intenções bem definidas. Conseguiu desde logo agradar a Maria de Médicis. A rainha, porém, tinha junto de si duas pessoas poderosas e temíveis: Concini, marechal de Ancre, e sua esposa, Leonora Galigai. Eram, ambos, florentinos como Maria, e haviam acompanhado a soberana até o dia de seu casamento com Henrique IV. Leonora Galigai, inteligente e astuciosa, após ter sido companheira de infância de Maria de Médicis, tinha-se transformado na sua conselheira principal. Concini era o favorito da coroa. Um casal hábil e ávido: haviam conseguido poder e acumulado títulos e riquezas. Mas toda a corte e toda Paris os detestavam. Armand du Plessis não hesitou em curvar-se perante Concini, ao qual ofereceu, por carta, os seus serviços. Foi mal sucedido: o marechal era um vaidoso que se acreditava invulnerável. Parece estranho que um homem inteligente como Richelieu não tivesse compreendido que seria mais fácil aproximar-se do jovem rei. Luís XIII era menosprezado pela mãe e pelos dois Concini, que haviam prejudicado sua formação, tirando-lhe a oportunidade de instruir-se e de entrar em contato com pessoas influentes e cultas. O pequeno Luís vivia isolado, mal nutrido, mal vestido: seus passatempos eram a mecânica e a caça. Sua timidez natural, aumentada pela consciência de ser propositalmente ignorado, chegava às raias da hipocondria. Amava a mãe, mas nunca a teve. E isso o marcou profundamente.
Richelieu compreendeu que adular Concini era tempo perdido. Abandonou a corte e voltou a Luçon: outro exílio voluntário que padeceu cerrando os dentes, assaltado por depressões terríveis e acessos de febre. Em 1615, porém, após o casamento do rei de 14 anos com Ana da Áustria, foi chamado novamente à corte, na qualidade de confessor da jovem rainha. E em 1616 recebeu o primeiro cargo político: foi nomeado secretário de Estado para os negócios exteriores. Era o início da escalada.
Sua vida na corte não foi fácil. Apesar de toda sua habilidade, não conseguia agradar Ana da Áustria. E continuava a adular Maria de Médicis e a confidente Leonora Galigai. Estava na flor da idade: alto, elegante, o rosto triangular iluminado por belos olhos negros. Com seu longo hábito roxo, suas maneiras decididas, mais de soldado que de bispo, agradava às mulheres. E não era, com certeza, uma época em que a condição de religioso impedisse relações amorosas. Muitos historiadores afirmam que Armand du Plessis foi amante tanto de Maria de Médicis, quanto de Leonora Galigai. A acusação é plausível. Richelieu sabia aproveitar as oportunidades. E quando o seu interesse assim o aconselhou, abandonou a menos importante das duas mulheres, embora ela fosse, devido à sua inteligência, a mais perigosa: Leonora Galigai. Maria de Médicis era inconstante, teimosa e violenta. Mas era a rainha-mãe. Richelieu não a deixou nem no momento mais difícil da sua vida, quando o marechal de Ancre foi condenado à morte por ordem de Luís XIII. n O jovem rei sofria vendo que ninguém lhe dava importância. O favorito da mãe governava com arrogância; os cortesãos, odiando-o, obedeciam, pois não tinham o menor respeito pelo rei de 16 anos. Em abril de 1617, Luís XIII tornou uma decisão: se queria ser o rei, devia derrubar Concini. Mas como? Não tinha ao seu lado homens de confiança: seu conselheiro e favorito, o homem do qual gostava mais do que de sua jovem a esposa, o duque de Luynes — belo, efeminado, fraco e sem idéias — não seria capaz de grandes gestos. O rei teve uma crise atormentada de dúvidas, mas depois, como todos os tímidos, tomou a atitude mais drástica: matar Concini, pois nem o exílio, nem o cárcere, seriam suficientes para torná-lo inofensivo. Chamou o comandante da sua guarda, Vitry, e deu-lhe ordem de prender o marechal. Vitry odiava Concini. Perguntou: “E se ele o se rebelar?” Luís XIII respondeu: “Capitão, não conheceis vosso dever?”
No dia estabelecido para a operação, Vitry, com uma escolta de oficiais armados, esperou que Concini o atravessasse, como era seu costume, a ponte do palácio do Louvre que levava aos aposentos de Maria de Médicis. Aproximou-se então dele. O marechal, atrevido, elegante, coberto de jóias, vinha lendo uma carta. Levantou os olhos e observou distraidamente Vitry. Este, agarrando-o pelo braço, falou: “Em nome do rei, devo prendê-lo”. Concini, espantado, esqueceu o francês e exclamou em italiano: “A me?”
Mal tinha terminado quando os oficiais sacaram suas pistolas e atiraram a queima-roupa no rosto do favorito, atravessando-o depois com suas espadas.
Luís XIII havia acompanhado a cena de uma janela. Virou-se para os presentes e bradou: “Agora sou o rei de verdade!...” Uma aclamação explodiu: “Viva o rei!” A multidão que se formara perto das portas do Louvre entrou, apoderou-se do corpo de Concini e arrastou-o pelas ruas de Paris, despedaçando-o.
Leonora Galigai foi surpreendida em seus aposentos pelos homens armados. Compreendendo o que se passava, teve um ataque histérico. Os olhos revirados, a boca espumando, contorcia-se na cama, debaixo da qual escondia suas jóias, muitas delas pertencentes à coroa. As contorções, os gritos, confirmaram a suspeita de que fosse bruxa. E como bruxa foi processada e queimada em praça pública.
Maria de Médicis viu-se exilada pelo filho. Richelieu seguiu-a. Por conselho do duque de Luynes, recebeu esta missão de Luís XIII, que pouco o apreciava, mas conhecia seu talento. Em Blois, o castelo em que Maria foi presa, Richelieu fez duplo jogo: espionava a rainha e mantinha Luynes a par de todos os seus movimentos. Na sombra, o padre José tramava para desfazer as desconfianças de Luís XIII que, embora apegado à mãe, temia-a e queria mantê-la afastada do trono. Richelieu deveria ser o seu agente. Maria de Médicis já próxima da idade crítica, ainda bela, gorducha e corada, não era insensível aos encantos do bispo, mas não esquecia que era uma Médicis. Ao seu lado, amargando frustrações, pois devia tratar com uma mulher teimosa e violenta, Richelieu procurava ganhar os ouvidos de Luís XIII, denunciando os complôs da rainha-mãe. Não conseguia vencer as resistências nem a antipatia do rei porque Luynes, que ambicionava ser o homem mais poderoso da França, tornou-se seu inimigo. Apesar de sua pouca inteligência, Luynes havia avaliado a força intelectual e a ambição de Richelieu.
Combateu-o e, de acordo com o rei, impediu que, a pedido de Maria de Médicis, fosse nomeado cardeal. Richelieu, de fato, só conseguiu vestir a púrpura cardinalícia após o falecimento de Luynes, em 1621.
Luís XIII achou-se então sozinho. Olhando à volta, só via cortesãos ávidos de poder, senhores de renome que o desprezavam e, através de inúmeras intrigas, procuravam tomar o seu lugar. Tinha no íntimo uma força secreta: a consciência da própria posição. Compreendeu que devia ter perto do trono um homem decidido, inteligente, audacioso: Richelieu. Vencendo sua antipatia — que se transformou depois cio sincera afeição — nomeou-o ministro. Corria o ano 1624. Somente em 1629, porém, Richelieu conseguiu ser primeiro-ministro. Começou então seu verdadeiro poder e a longa colaboração com Luís XIII, essa extraordinária amizade que uniu durante 8 anos dois homens igualmente doentios, recalcados, misteriosos, mas animados por uma paixão: realizar a unidade da França. O historiador Philippe Erlanger escreve: “Os dois homens custaram a unir-se. Luís, adolescente, feminino, detestava o padre político, o conselheiro demasiadamente íntimo da mãe. Mas afinal reconheceu aquela inteligência dominadora. Não foi para ganhar o coração da mãe, nem devido às condições deploráveis dos negócios do Estado, que convidou o cardeal. Foi porque compreendeu que Richelieu era homem de ampla visão e, também, de ação. Os ministros anteriores acreditavam chegar ao poder explorando as conhecidas fraquezas do rei. O cardeal, ao contrário, resolveu encorajar a atracão do enigmático Luís XIII pela grandeur, a grandeza. E foi bem sucedido. O rei convenceu-se de que contava com um homem de gênio.
O resto tornou-se secundário. Agora o rei não podia mais dispensar o “maior servidor que a França teve”. E isto é verdade. Richelieu foi um grande servidor da França e encontrou, como ele próprio escreveu, “ o melhor senhor do mundo”. Desde o momento em que subiu ao poder não teve mais maneiras hipócritas, objetivos dissimulados, nem foi mais o grande premiado pelo papa. Foi um homem decidido, muitas vezes cruel, de vistas abertas e voltadas para tornar absoluto o poder do soberano.
AVISO DO EDITOR (de 1709)
Seria surpreendente que este Testamento Político do Cardeal de Richelieu tivesse podido ficar escondido durante tanto tempo, se sua importância e o uso a que ele o havia destinado não dessem a conhecer que não tinha a intenção de torná-lo manifesto.
Mas como os Mistérios não vivem ordinariamente senão período curto, e como não é possível que escritos dessa natureza não cheguem às mãos de gente pouco discreta, não há de que se espantar se caem enfim em mãos liberais que de boa mente transmitem a todo o mundo.
Seria fazer mau juízo do julgamento público, pensar que pudesse desconhecer esta obra e que não se pudesse ser circunspecto para prevenir-se contra falsidades: É impossível depois da leitura deste livro que não se percebam todas as características espirituais desse Grande Homem. A elevação e a beleza do seu gênio, o mais extenso que se viu desde longo tempo, juntas à nobreza de suas expressões encontram-se inteiramente aqui; mas além disso, que diversidade de assuntos não encontramos? Eles são todos tratados com tanta solidez que se vê bem que os conhecia por uma profunda meditação e por experiência consumada, sendo só ele capaz de os esclarecer.
Se temos prazer lendo nos melhores autores as Reflexões e os preceitos políticos que exornam sobre os principais acontecimentos que relatam, o prazer diminui quando se considera que a maior parte só raciocina depois do feito e no gabinete e que teria dificuldade de desvencilhar-se de negociações insignificantes ou da menor intriga espinhosa.
Mas isso não aconteceu com este Testamento Político.
É um favorito e um primeiro-ministro de Estado que governou mais de 25 anos um dos mais consideráveis remos da Europa; que o guiou e por assim dizer teve-o na mão nos primeiros passos do seu desenvolvimento; que não prescreve nenhum conselho sem tê-lo posto em prática várias vezes e que enfim, por sua firmeza e sua coragem venceu uma infinidade de obstáculos e intrigas que teriam acabrunhado outro que não ele.
Não houve pois, jamais, obra mais útil aos que são chamados para o manejo dos grandes negócios. Os reis, os príncipes, os favoritos, os ministros, os conselheiros de Estado, os eclesiásticos, os nobres, os magistrados, os cortesãos, enfim todas as espécies de pessoas acham aqui uma quantidade de instruções de valor inestimável.
Esta obra não está como estaria sem dúvida se ele tivesse tido tempo de revê-la com descanso; mas embora se encontrem algumas negligências e expressões menos felizes que outras, todas as partes compõem um tão belo corpo que os pequenos defeitos não devem ser considerados senão como passagens dos lindos quadros que embora descuidados fazem conhecer a habilidade do artista.
Seria temeridade extraordinária, querer por palavras exaltar a excelência de uma obra que se sustenta por si própria, e que está muitíssimo acima de todos os elogios que se lhe quisesse dar. A leitura de um único capítulo dará melhor idéia dessa verdade, do que tudo o que se pudesse dizer.
A primeira edição deste livro e as que lhe seguiram de perto, foram todas calcadas sobre um manuscrito, que terá pelo menos trinta anos, escrito por duas pessoas e com muita precipitação; sem rasuras mas com muitos erros. Os mais essenciais foram corrigidos nesta 6a. reimpressão, mas os erros secundários ficaram, pelo receio de se modificar o sentido.
Como não é possível que a cópia de que nos servimos seja única que exista, suplicamos àqueles que tenham outra melhor e que perceberem erros capitais, que nos avisem para correção, na próxima edição.
Até mesmo o quadro parece ter sido feito pelo próprio Cardeal de Richelieu. Como ele era extremamente metódico talvez tivesse começado a sua obra por esse quadro, a fim de que o que tinha a dizer não se embrulhasse quanto aos tempos.
Talvez cause surpresa o título do primeiro capítulo, que fala da Paz Geral, e da qual ele queria marcar o ano que deixou em branco porque até então não houve paz geral. Mas também nisso quis seguir o manuscrito e era aparentemente seu desejo obtê-la; concluindo então com a descrição das grandes ações do rei a que servia.
Para o tempo em que esta obra foi feita, presume-se que ele tivesse trabalhado em diversas ocasiões. No primeiro capítulo ele conduz a descrição das ações do rei até 1638.
Entretanto, em outros lugares parece que ele descreve as coisas estando em 1635, pois que dá ao rei 25 anos de reinado. Pode-se duvidar também se o que escreveu sobre os jesuítas, diga respeito a tempo anterior ou posterior às intrigas que o padre Caussin, confessor do rei, e o padre Manod, confessor da duquesa de Savóia, armaram para afastá-lo da Corte, pensando conseguir. Se escreveu o capítulo após haver dissipado a intriga, é admirável a moderação que teve falando com tanta sobriedade; e se escreveu antes, ainda mais louvável o ter legado a obra no estado primitivo, sem deixar transparecer novas marcas de ressentimento.
O que parecerá mais surpreendente é que todo o Testamento Político não fale do nascimento do rei que hoje reina; donde se infere que o livro estivesse escrito antes desse acontecimento, demasiado notável para ser esquecido.
É preciso considerar também, que muito antes da sua morte o Cardeal não escrevia mais por causa do incômodo que tinha no braço, sendo obrigado a ditar todos os despachos e como aparentemente não quis escrever o Testamento Político por outra mão, encontrou-se impossibilitado de escrevê-lo ele mesmo, e daí a omissão.
Todas as notas que se encontram nas primeiras edições são do manuscrito; mas as observações históricas sobre o capítulo I do primeiro livro, foram-me comunicadas há pouco e são das últimas edições. Se há obra que mereça ser enriquecida de notas, pode-se dizer que é esta.
A História e as Memórias deste Grande Homem forneceriam em quantidade; mas isso não é ainda tudo; seria necessário algo mais particular e que revelasse várias intrigas dessa corte, que não foram divulgadas, e que constituiriam esclarecimentos preciosos para a História. Também seriam muito úteis as notas sobre o estado da França no seu tempo e aquele a que chegou: Em que seguiram as Máximas e Conselhos do Grande Ministro e em que se separaram e nesse gênero as notas seriam não somente curiosas, mas importantes.
Se alguém se der ao trabalho de fazer essas notas, mais tarde, de bom grado as traremos ao público.
TESTAMENTO POLÍTICO DO CARDEAL DUQUE DE RICHELIEU AO REI
Senhor:
Assim que aprouve a Vossa Majestade dar-me parte no manejo dos seus negócios, propus-me não esquecer nada que de minha sagacidade pudesse depender, para facilitar os seus grandes desígnios, tão úteis ao Estado, quanto gloriosos à sua Pessoa.
Deus, tendo abençoado minhas intenções a tal ponto que a virtude e a felicidade de V. M. espantaram o presente século e serão admiradas pelos futuros, achei que os gloriosos sucessos me obrigavam a fazer deles à História, tanto para impedir que muitas circunstâncias, dignas da imortalidade, caíssem no olvido, pela ignorância daqueles que não as podem saber como eu, quanto para que o passado servisse de lição ao futuro. Pouco tempo depois de ter tido esse pensamento, pus-me a trabalhar, acreditando não dever começar demasiado cedo o que só com a minha vida terminaria.
Acumulei com cuidado a matéria de tal obra, e pus em ordem uma parte, deixando ao curso de alguns anos quase em estado de publicação.
Confesso que mais prazer existe em se fornecer os elementos para a História, do que dar-lhes forma, e isso me não dava pouco prazer, de representar o que se não havia feito senão com esforço.
Gostando das doces satisfações provindas deste trabalho, as enfermidades e os contínuos incômodos a que estava sujeita a fraqueza da minha compleição, junta aos encargos dos negócios, constrangeram-me a abandoná-lo por ser de muito fôlego.
Reduzido à extremidade de não poder fazer nesse sentido, o que desejava com paixão para a glória de vossa Pessoa e para vantagem do vosso Estado; acreditei que, ao menos não podia dispensar-me de deixar a V. M. algumas memórias, daquilo que julgo mais importante para o Governo deste Reino, sem responsabilidade perante Deus.
Duas coisas me obrigam a empreender esta obra: primeira é o temor e o desejo que tenho de terminar meus dias antes que o curso dos de V. M. chegue ao seu fim. Segunda é a fiel paixão que tenho pelos interesses de V. M. o que me faz desejar não somente vê-la cumulada de prosperidade durante minha vida, mas faz-me ainda desejar ardentemente suprir meios para poder ver-lhe a continuação, quando o tributo inevitável que cada um deve pagar à Natureza, impedir-me de poder ser testemunha.
Esta peça verá a luz sob o título de meu Testamento Político; porque é feita para servir depois da minha morte à defesa (Polícia) e à conduta do vosso Reino, se V. M. julgá-la digna disso. Ela conterá meus últimos desejos relativos ao assunto, e deixando-a, consigno a V. M. tudo o que posso legar de melhor, quando Deus quiser chamar-me desta vida.
Ela será concebida em termos curtos e precisos, tanto quando me seja possível, seguindo a minha maneira ordinária, e para estar de acordo com o humor de V. M. que sempre gostou de saber as coisas em poucas palavras, e que mede com precisão tanto a substância das coisas como os longos discursos que a maioria dos homens usa para exprimi-la.
Se minha Sombra que aparecerá nestas Memórias pode, após minha morte contribuir em algo para Regular este grande Estado, do qual V. M. me deu mais parte do que merecia, estimar-me-ei extremamente feliz.
Para atingir esse fim, julgando com razão, que o sucesso que aprouve a Deus, no passado dar às resoluções que V. M. tomou com suas mais fiéis criaturas, é poderoso motivo para convidá-la a seguir os conselhos que quero dar-lhe para o futuro. Começarei esta obra, pondo-lhe diante dos olhos um quadro sucinto de suas Grandes Ações passadas, que lhe dão tanta glória e podem ser chamadas a justo título o Fundamento sólido da felicidade futura do Seu Reino.
Este relato será feito com tanta sinceridade, ao julgamento daqueles que são fiéis testemunhas da História do tempo de V. M., que ele dará a que todo o mundo acredite que os conselhos que ministro a V. M. não terão outro objetivo que não sejam os interesses do Estado e o lucro de vossa Pessoa, da qual serei eternamente,
Senhor,
Muito humilde, muito fiel, muito obediente, muito apaixonado, muito obrigado, súdito e servidor.
Armand Du Plessis.
PRIMEIRA PARTE
CAPÍTULO I
Sucinta narração de todas as grandes ações do Rei, até a paz, feita no ano de...
Quando Vossa Majestade se resolveu a dar-me ao mesmo tempo a entrada em seus conselhos e grande dose de sua confiança para a direção de seus negócios, posso dizer com verdade que os huguenotes partilhavam o Estado; que os grandes se conduziam como se não fossem súditos, e os mais poderosos governadores das Províncias, como se fossem soberanos nos seus cargos.
Posso dizer que o mau exemplo de uns e outros era tão prejudicial a este Reino, que as Companhias melhor reguladas sentiam-se do seu desregramento e diminuíam em certos casos a legítima autoridade, tanto quanto lhes era possível, para levar a sua além dos termos da razão.
Posso dizer que cada um media seu mérito pela sua audácia; que em lugar de reconhecer os benefícios que recebiam de V. M. pelo correspondente aos seus serviços, só faziam caso quando eles eram proporcionados segundo o desregramento de sua fantasia, e os mais empreendedores eram julgados mais sabidos e se achavam os mais felizes.
Posso ainda dizer que as Alianças Estrangeiras eram desprezadas; os interesses particulares preferidos aos públicos; em uma palavra, a dignidade da Real Majestade por tal forma rebaixada e tão diferente do que devia ser, por deficiência daqueles que tinham então a principal responsabilidade nos negócios Reais, que era quase impossível reconhecê-la.
Não se podia tolerar por mais tempo o procedimento daqueles aos quais V. M. confiou o timão do seu Estado, sem tudo perder; e de outra parte não se podia também mudar de repente sem violar as leis da prudência, que não permite a passagem de uma extremidade à outra sem passar-se pelo meio.
O mau estado dos negócios públicos parecia constranger a V. M. a resoluções precipitadas, sem tempo e sem meio de escolha, e entretanto seria preciso escolher com ambos para tirar proveito da mudança que a necessidade exigia da prudência de V. M..
Os melhores espíritos não achavam que se pudesse passar sem naufrágio todos os escolhos que apareciam em tempo tão pouco seguro. A corte estava cheia de gente que tachava de temeridade aqueles que quisessem empreender, e todos sabendo que os príncipes são fáceis em atribuir aos que lhes estão próximos, os maus sucessos das coisas que lhes foram bem aconselhadas; tão pouca gente julgava possível um feliz resultado da mudança que se publicava desejar eu fazer, que muitos tinham minha queda por segura, antes mesmo que V. M. me tivesse elevado.
Não obstante todas estas dificuldades, que representei a V. M. conhecendo o que podem os reis quando usam bem do seu poderio, ousei prometer-lhe sem temeridade, segundo penso, que V. M. encontraria o bem do Estado e que dentro de pouco tempo a prudência e a força de V. M. e as bênçãos de Deus dariam essa nova feição a este Reino.
Prometi-lhe empregar toda minha indústria e toda a autoridade que lhe aprouvesse dar-me, para arruinar o partido huguenote, rebaixar o orgulho dos grandes, reduzir todos os súditos ao seu dever e exaltar o Seu nome nas Nações Estrangeiras, ao ponto que devia ser.
Fiz-lhe ver que para atingir a um tal desiderato, confiança me era imprescindível; e embora todos os que lhe serviram tivessem julgado o meio melhor e mais seguro de adquiri-la e conservá-la, o afastarem a Rainha Mãe, eu tomava um caminho completamente contrário, não omitindo esforços para unir-vos, sendo essa união importante para vossa reputação e vantajosa para o bem do Reino.
Assim como o Sucesso que seguiu as boas intenções que aprouve a Deus dar-me para Regulamento deste Estado, justificará pelos séculos afora a firmeza com que constantemente persegui esse desígnio; também V. M. será fiel testemunha de que nada esqueci do que me foi possível para impedir que o artifício de muitos espíritos malévolos se tornasse poderoso suficientemente para dividir o que estando unido por natureza, devia também sê-lo pela graça. Se após ter felizmente resistido durante vários anos aos seus esforços, sua malícia enfim prevaleceu; é-me consolo que se tenha ouvido da boca de V. M. que enquanto eu mais trabalhava para grandeza da Rainha Mãe, ela trabalhava pela minha ruína.
Deixo o esclarecimento deste assunto para outro lugar, a fim de não abandonar o meu fio e não romper a ordem que devo guardar nesta obra.
Os huguenotes que não perderam nunca, ocasião de aumentarem o seu partido, tendo surpreendido em 1624 certos navios que o Duque de Nevers preparava contra o turco, fizeram em seguida um armamento poderoso contra Vossa Majestade.
Embora o cuidado com a Marinha estivesse, até esse tempo, tão relegado que não possuía ela um só navio, conduziu-se V. M. com tanta destreza e coragem, que com os que pode obter de seus súditos, 20 da Holanda e 7 patachos da Inglaterra, desafiou a armada que os de La Rochelle puseram no mar. Isso se deu com tão maravilhosa felicidade que houve vantagem do socorro que não lhe havia sido dado senão para serviço aparente.
V. M. tomou, da mesma forma a ilha de Ré, da qual os huguenotes se haviam apossado. Foram derrotados 4 a 5 mil homens que lá estavam para defender a praça e foi constrangido Soubize, que estava feito chefe, a fugir para Oleron; daí seus amigos não somente o tocaram para fora da ilha senão também para fora do reino.
Esses felizes sucessos reduziram essas almas rebeldes a uma paz tão gloriosa, que os mais difíceis de contentar ficaram satisfeitos e todos confessaram que nada se havia feito de semelhante.
Os reis, de V. M. predecessores, tinham, pelo passado, mais recebido do que dado aos seus súditos. Embora não tivessem feito nenhuma guerra, perdiam em todos os tratados que com eles faziam; e embora V. M. tivesse nesse tempo muitas outras ocupações, deu a paz, então, reservando-se o Forte Luís com uma cidadela em La Rochelle, e as ilhas de Ré e Oleron, com duas outras praças que formavam uma boa circunvalação.
Ao mesmo tempo V. M. garantiu o Duque de Savóia contra a opressão dos espanhóis que o atacaram abertamente, e embora tivessem eles um dos maiores exércitos que desde muito tempo não se via na Itália, comandado pelo Duque de Féria, homem de cabeça, impediu de tomar Verna, que nossas armas, juntamente com aquelas do Duque de Savóia sustentaram cercadas, com tanta glória, que eles foram enfim obrigados a levantar o cerco vergonhosamente.
Os espanhóis, tendo-se tornado senhores em pouco tempo de todas as passagens dos Grisões e tendo fortificado os melhores postos de todos os seus vales, V. M. não pode, por uma simples negociação, livrar seus antigos aliados dessa invasão na qual os injustos usurpadores se fixavam com meios tanto mais fáceis quanto era o Papa que os favorecia sob a vã esperança que lhe deram de algumas vantagens para a religião, e assim, pela força das suas armas se fez o que não se havia podido obter pela razão. Por esse meio se libertaria para sempre essa nação, da tirania da casa d’Áustria, se Fargis, seu embaixador na Espanha, não tivesse à solicitação do cardeal de Berula feito (como confessou mais tarde) sem conhecimento e contra ordens expressas de V. M., um tratado muito desvantajoso, ao qual aderiu-se, enfim, para comprazer ao Papa que pretendia estar demasiado interessado nesse negócio.
O falecido rei, de imortal memória, desejando casar uma das senhoras irmãs de V. M. na Inglaterra, os espanhóis acharam bom atrapalhar tal projeto e levaram a peito casar uma das suas infantas.
O tratado estando concluído, o príncipe de Gales foi tão mal aconselhado que se pôs à discrição de um príncipe que, sendo senhor da sua pessoa, lhe podia ditar leis a seu talante, e passou incógnito pela França para ir casar-se na Espanha.
Assim que se teve notícia negociou-se de tal sorte, que não obstante as honras indizíveis que lhe foram prestadas nessa corte, onde o rei lhe deu sempre mão direita, embora não tivesse a coroa sobre a cabeça, o casamento se rompeu e pouco depois o de França se tratou, se concluiu e se realizou em condições três vezes mais vantajosas para a religião do que aquelas que se tinha projetado propor ao tempo do falecido rei.
Pouco tempo depois cabalas fortes se formaram na corte. Os que conduziam o senhor irmão de V. M., puseram-no dentro dela tanto quanto sua idade o permitia.
Sou obrigado a dizer muito a contragosto que uma pessoa da maior consideração aí se achou insensivelmente embaraçada, com muitas outras que fomentavam e seguiam suas próprias paixões. Não posso calar sobre o mérito que adquiriu V. M. diante de Deus e diante dos homens, aplacando o brilho das suas imprudências se não se tivesse sabiamente dissimulado aquilo que se podia reprimir com tanta segurança quanta razão.
Os ingleses se jogaram cegamente nessas cabalas. Muitos dos grandes do reino também se meteram. O duque de Rohan e o partido huguenote deviam fazer a guerra interna ao mesmo tempo que os ingleses atacariam com uma poderosa armada as ilhas e a costa deste Estado.
A partida parecia tão bem feita que poucos acreditavam possível resistir-se à força dos conjurados. Entretanto a prisão do coronel Dornano, do duque de Vendôme e do grande Prior; o castigo de Chalais e o afastamento de algumas princesas dissiparam de alguma forma essa cabala, cujos desígnios na corte contra V. M. ficaram dissipados e sem efeito.
Como não foi sem grande bondade e sem prudência, tudo em conjunto, que V. M. consentiu em Nantes no casamento do senhor seu irmão; a sinceridade com a qual seus verdadeiros servidores apresentaram os inconvenientes que daí podiam advir foi uma prova bem leal de sua fidelidade e um testemunho seguro de que nada tinham em mente para surpreender a V. M.
Em todos esses embaraços que pareciam enfraquecer o poder nada conseguiu impedir a continuação dos duelos senão o castigo dos senhores Boutteville e des Chapelles. Confesso que meu espírito ficou tão combalido nessa ocasião que apenas pude impedir-me de ceder à compaixão universal que a desgraça e o valor desses dois jovens gentis-homens imprimiam no coração de todo o mundo, à pressão das pessoas as mais qualificadas da corte e às importunações dos meus mais próximos parentes.
As lágrimas de suas mulheres me tocavam muito sensivelmente; mas os rios de sangue da nobreza que não podiam ser secados senão pela efusão do seu sangue deram-me a força para resistir a mim mesmo, firmando V. M. no dever de executar para o bem do seu Estado aquilo que era quase contra o sentir de todo o mundo e contra os meus sentimentos particulares.
Tendo sido impossível impedir o curso e o efeito dos grandes preparativos que os ingleses tinham feito para a guerra, V. M. foi obrigada a opor-se-lhes pela força. Estes inimigos do Estado desceram em Ré e aí sitiaram o Forte de S. Martin ao mesmo tempo que Deus quis afligir a França com a moléstia que a V. M. apareceu em Villeroi.
Este desagradável acidente e a má conduta que o Coigneux e Puy Laurens quiseram de novo fazer tomar ao senhor Príncipe, não impediram que se resistisse sob sua sombra a todos os esforços desta nação belicosa. E V. M. assim que sarou, socorreu a praça que eles tinham sitiado, desfazendo os seus exércitos num combate assinalado por terra; e afastando as suas forças navais da costa, fê-los retornar aos seus portos.
V. M. atacou em seguida La Rochelle e a tornou depois de um cerco de um ano de duração. E V. M. se conduziu com tanta prudência que embora soubesse que os espanhóis não desejavam nem a tomada dessa praça nem a prosperidade em conjunto dos seus negócios julgando que a aparência da sua união lhes pudesse favorecer na reputação do mundo, e que com ela não faria pouco se por um tratado os impedisse de unirem-se aos ingleses, que eram então seus inimigos declarados, fez V. M. com eles um tratado que produziu o efeito que se havia proposto.
Os espanhóis que não tinham outro desígnio, senão aparentar, à sombra de cujas aparências pudessem obter os desígnios de V. M. e a tomada dessa cidade, animaram tanto quanto lhes foi possível aos ingleses a socorrê-la. E o cardeal de Cuéva prometeu em termos expressos que seu senhor não enviaria nenhum socorro a V. M. enquanto V. M. tivesse necessidade e que o retiraria antes que pudessem perturbá-lo. Isto foi religiosamente cumprido, tanto que D. Frederico, almirante de Espanha que tinha partido de La Corunha com 14 navios depois de ter sabido da derrota dos ingleses em Ré, não quis ficar nem um dia mais em La Rochelle sabendo da notícia que corria que uma nova frota vinha socorrer essa praça.
Essa segurança deu audácia aos ingleses fazendo com que tentassem por duas vezes o socorro e houve glória para V. M. em tomá-la com suas forças somente à vista de uma poderosa armada, que depois de dois combates inúteis viu-se inteiramente impossibilitada de cumprir os seus destinos.
Assim, ao mesmo tempo a infidelidade e as trapaças da Espanha ficaram sem efeito e a dos ingleses foi sobrepujada com um golpe único.
Durante este cerco os espanhóis atacaram o duque de Mântua na Itália, certos de que V. M. não o poderia socorrer.
O cardeal de Berula e o guarda dos selos de Marillac aconselharam V. M. a abandonar o pobre príncipe à injustiça e à avidez insaciável, daquela nação inimiga do repouso da cristandade, a fim de impedir que ela o atormentasse. O resto do conselho foi de parecer contrário, tanto porque a Espanha não ousaria tomar resolução imediatamente após ter feito um tratado de união com os ingleses, quanto porque mesmo que V. M. aceitasse o mau conselho este não poderia impedir o desenvolvimento dos seus desígnios.
Foi-nos representado que seria suficiente declarar-se pelo senhor duque de Mântua, enquanto V. M. continuava o grande cerco não podendo fazer nada mais sem cometer uma baixeza indigna de um grande príncipe que nisso não deveria consentir ainda mesmo auferindo vantagens.
Eu cometeria um crime se não fizesse notar neste lugar que V. M. seguindo os sentimentos do seu coração e sua prática ordinária, tomou nessa ocasião o melhor e o mais honroso partido, seguido de um sucesso tão feliz que pouco tempo depois La Rochelle foi tomada e seus exércitos ficaram capazes de socorrer o príncipe injustamente atacado.
Embora o senhor seu irmão, ficando viúvo um ano depois do seu casamento, tivesse desejos de casar com a princesa Maria, foi tão mal aconselhado, que em lugar de favorecer ao duque de Mântua, seu pai, ele o perturbou mais do que os próprios inimigos, separando-se de V. M. e retirando-se para Lorena, quando devia unir-se estreitamente a V. M. para tornar o seu poderio mais considerável.
Esta má conduta não impediu que V. M. continuasse a viagem que tinha começado com propósito tão generoso, e Deus a bendisse tão visivelmente que, assim que chegou aos Alpes as passagens foram forçadas em pleno inverno e o duque de Savóia auxiliado pelos espanhóis foi batido, sendo levantado o cerco de Cazal e obrigados todos os inimigos a um acomodo.
Esta gloriosa ação que trouxe a paz à Itália, imediatamente depois de ter sido feita, V. M., cujo espírito e coração nunca acharam repouso senão no trabalho, passou, sem descansar, ao Langledoc, onde, depois de ter tomado as cidades de Privas e de Alez pela força, reduziu por sua perseverança o resto do partido huguenote e todo o seu reino à obediência, dando pela sua demência a paz àqueles que tinham ousado fazer-lhe guerra; não concedendo-lhes vantagens prejudiciais ao Estado como tinha acontecido anteriormente, mas pondo fora do reino aquele que era o único chefe de um tão desgraçado partido e que o tinha sempre fomentado.
O que é de maior consideração nesta ação tão gloriosa é que V. M. arruinou absolutamente esse partido, enquanto o rei da Espanha se encarregava de o aumentar e de firmá-lo cada vez mais.
Ele acabava de fazer um tratado com o duque de Rohan para formar neste Reino um corpo de estado rebelde a Deus e a V. M. recebendo um milhão que todos os anos lhe devia ser pago, tornando as Índias, dessa maneira, tributárias do inferno. Mas esses projetos foram ser consequência e ao mesmo tempo que teve o desprazer de saber que aquele que ia de sua parte realizar um tão glorioso negócio tinha sido morto na forca por um mandato do parlamento de Toulouse. V. M. teve o contentamento de perdoar aqueles que não se podiam mais defender, subordinando sua facção e bem tratando suas pessoas, quando esperavam o castigo dos crimes que tinham cometido.
Sei bem que a Espanha pensou lavar-se de uma ação tão negra alegando o socorro que V. M. dava aos holandeses, mas essa escusa é tão má quanto a sua causa.
O sentido comum faz conhecer a todo o mundo que é bem diferente a continuação de um socorro estabelecido legitimamente, segundo a defesa natural e outro qualquer estabelecido manifestamente contrário à religião e à legítima autoridade que os reis receberam do céu sobre os seus súditos.
E o rei, pai de V. M., nunca tratou com os holandeses senão depois que o rei da Espanha formou uma liga neste reino para usurpar-lhe a coroa.
Esta verdade é muito evidente para poder ser posta em dúvida e não há teologia no mundo que não possa dizer, sem ir contra os princípios da luz natural que, assim como a necessidade obriga aqueles a quem se quer tirar a vida a se servirem de qualquer socorro para se garantir, também um príncipe tem o direito de fazer o mesmo para evitar a perda do seu Estado.
O que é contingente, no seu começo, torna-se algumas vezes necessário em seguida. Neste caso está a ligação que V. M. mantém com esses povos, não somente em conseqüência dos tratados do falecido rei, mas porque a Espanha não pode deixar de ser inimiga deste Estado enquanto retém uma parte dos seus antigos domínios. É claro que a causa que deu lugar a este tratado não tendo cessado, a continuação do efeito é tão legítima quanto necessária.
Os desígnios dos espanhóis são cada vez mais injustos em lugar de reparar as primeiras injúrias que eles fizeram a este reino, aumentam-nas todos os dias.
Além disso o falecido rei não se uniu aos holandeses senão depois de terem formado um corpo de Estado, constrangidos pela opressão contra a qual não se podiam garantir inteiramente. Não foi o causador nem da sua revolta nem da união de suas províncias.
Não foi bastante a Espanha favorecer várias vezes aos revoltados huguenotes contra os seus predecessores. Ela quis uni-los em corpo de Estado dentro da França.
Um santo zelo fê-los querer ser autores de um tal estabelecimento e, o que é notável, sem necessidade e sem razão, a não ser a continuação das suas antigas usurpações além das novas que desejam fazer e que ratificam de tal forma que o que é proibido a todo o mundo, lhes-é permitido em vista de suas boas intenções.
Tendo tratado longamente deste assunto em outra obra, abandono-o para dar seguimento ao que diz respeito às ações de V. M.
A má fé dos espanhóis os tendo levado a atacar de novo o duque de Mântua, em prejuízo do tratado que tinham feito com V. M., levou pela segunda vez nossos exércitos à Itália, onde foram de tal forma benditos por Deus, que após terem gloriosamente passado um rio guarnecido pelo duque de Savóia com 14.000 infantes e 4.000 cavaleiros contra a fé do tratado que haviam assinado com V. M. no ano precedente, Pignerol em presença das forças do imperador, foi tomada; também à vista das forças do rei de Espanha, e mais da pessoa e de toda a força do duque de Savóia, tudo tornando a ação de V. M. mais gloriosa, e o marquês de Espínola um dos maiores capitães do seu tempo.
Dessa maneira tomou-se Susa dominando-se ao mesmo tempo os três mais consideráveis poderes da Europa: a peste, a fome, e a impaciência dos franceses, coisas de que se acharão poucos exemplos na história.
Em seguida conquistou-se a Savóia expulsando um exército de 10.000 infantes e 2.000 cavaleiros que tinham mais facilidades de defender-se num país de montanhas como aquele em que estavam, mais do que seria fácil a 30.000 homens atacá-los.
Os combates de Veillane e de Coriane assinalaram pouco tempo depois o nosso exército em Piemonte; e a tomada de Valença fortificada pelo duque de Savóia para opor-se aos desígnios de V. M., fez conhecer que nada pode resistir às armas justas de um rei tão feliz quanto poderoso.
Cazal foi socorrida não somente contra a opinião comum da maior parte, mas ainda contra o próprio pensamento do duque de Montmorency, que tinha sido empregado neste esforço e contra o de Marillac que o substituíra, ambos dizendo que a empresa era impossível.
O socorro dessa praça de guerra foi tanto mais glorioso quanto um exército mais forte do que o seu estava à frente dos milaneses que lhe forneciam toda a sorte de comodidades ao abrigo das muralhas de Cazal, posta às suas mãos e obrigada a consentir nisso da mesma sorte que as cinco outras praças que os espanhóis tinham nos arredores de Monte Ferrat.
Se se sabe que no mais forte desta luta V. M. estava esgotada e sua pessoa perigosamente enferma e ainda mais o seu coração; se se considera que a rainha mãe, ludibriada por alguns espíritos envenenados, formou um poderoso partido que enfraquecendo ao de V. M. fortificou muito os inimigos; se se representar ainda que ela recebia todos os dias diversos avisos secretos; os mais fiéis servidores de V. M. que odiavam e temiam estando logo em situação de não poder-lhes fazer mal; seria impossível não se reconhecer a bondade de Deus como tendo contribuído para tais bons sucessos, mais do que a prudência e a força dos homens.
Foi então que a rainha mãe fez toda a sorte de esforços imagináveis para destruir o conselho de V. M. estabelecendo um outro segundo a sua fantasia.
Foi então que os maus espíritos que dominavam o do senhor príncipe e trabalhavam sob o seu nome fizeram tudo o que puderam para perder-me.
A mãe e o filho fizeram um acordo mais contrário ao Estado do que àquelas pessoas que queriam arruinar, pois que no estado presente dos negócios era impossível qualquer mudança sem a perda comum.
O filho tinha prometido não desposar a princesa Maria, o que a mãe temia de tal sorte que para, impedi-lo, ela o tinha feito prender, na sua ausência, no castelo de Vincennes, de onde não saiu senão após a convenção; e a mãe se havia obrigado em compensação a me fazer cair em desgraça junto de V. M. de quem se me afastaria.
Para tornar as suas promessas mais invioláveis elas foram escritas e o duque de Bellegarde trouxe-as durante muito tempo entre a pele a camisa como sinal de que lhe tocava ao coração e como meio de assegurar àqueles que a haviam assinado, de que só as perderia com a própria vida.
Jamais facção foi mais forte num Estado. Seria mais fácil encontrar gente que fizesse parte dela do que não participantes.
O que aumentou a maravilha da conduta de V. M. nessa ocasião foi que procurando eu o meu afastamento para agradar à rainha que o desejava apaixonadamente, V. M. sem outro conselho, salvo o seu próprio, e sendo só a opor-se à autoridade de uma mãe e aos artifícios de todos os seus aderentes aos pedidos que eu mesmo fazia contra mim, soube resistir.
Fala assim porque o marechal de Schomberg que era fiel não estava então perto de V. M. e o guarda dos selos, de Marillac, que era um dos que secundavam a rainha nos seus desígnios, agia contra V. M. e ela própria.
A prudência de V. M. foi tal, que afastando o guarda dos selos de moto próprio, se liberou de um homem de tal forma cheio de si mesmo que não achava nada bem feito que não o fosse por sua ordem, e acreditava que muitos maus meios lhe eram lícitos desde que capazes de o fazerem atingir aos fins que eram sugeridos por um zelo que se pode chamar indiscreto.
Enfim, o procedimento de V. M. foi tão sábio que nada deu à rainha, que fosse contra o Estado e nada lhe foi recusado salvo aquilo que poderia ser feito sem ferir sua consciência, e agir tanto contra ela quanto a V. M. mesmo.
Eu poderia isentar-me de falar da paz que foi concluída em Ratisbonne entre V. M. e a casa d’Áustria, porque tendo sido assinada pelo embaixador em condições que o próprio imperador reconheceu estarem acima dos seus poderes, ela não pode por esta razão ser posta no numero das ações de V. M.; mas se se considera que a falta do embaixador não lhe possa ser imputada, como era necessária muita bondade para suportá-la, não foi necessária, também, pouca destreza para repará-la de alguma sorte sem se privar da paz necessária a este Estado em um tempo em que V. M. tinha tantos atrapalhos.
Esta ação será julgada das maiores realizadas por V. M. e de conseqüência que não pode ser omitida neste lugar.
A razão e a conduta dos Estados requeria um castigo exemplar naquele que tinha ultrapassado as ordens em matéria tão delicada e numa ocasião tão importante; mas a bondade atou as mãos à justiça de V. M., porque, embora ele fosse o único embaixador, não agiu só nesse negócio, mas com um adjunto de tal condição, que o respeito fez considerá-lo antes o motivo da falta, do que a falta mesma.
Eles foram de tal sorte surpreendidos, um e outro, com a grave enfermidade que V. M. sofreu em Lion, que agiram em face do estado em que este reino poderia estar com a desgraça da sua perda, mais do que como estava efetivamente, e segundo as ordens que haviam recebido.
Não obstante a má condição do seus tratados, os imperiais foram obrigados a restituir logo Mântua. O temor dos nossos exércitos os obrigou a devolver o que haviam usurpado aos venezianos e aos Grisons; e depois que V. M. deixou entrar as tropas do duque de Savóia no Pignerol, no forte e no vale de Perusa para satisfazer ao tratado de Querasco, V. M. estava tão de acordo com ele que em virtude de um novo tratado, essas praças ficaram pertencendo a V. M., segundo as vantagens e a contento de toda a Itália que terá menos razão de temer para o futuro uma injusta opressão, existindo uma porta aberta para ser socorrida.
Neste tempo, os descontentamentos que o duque da Baviera tivera com o imperador e os espanhóis, e o temor que todos os outros eleitores católicos e protestantes tinham de ser despojados dos seus Estados, como muitos outros príncipes já haviam sido por solicitação, tendo levado a desejar secretamente o apoio de V. M. Ela tratou com eles com tal intrepidez e tanto sucesso, que eles impediram na própria presença do imperador a eleição do rei dos romanos, embora a dieta de Ratisbonne fosse convocada para esse único fim.
Em seguida, para contentar o ávido duque da Baviera, satisfazer os eleitores e vários outros príncipes e para os firmar a todos na resolução que tinham tomado, de tornar a liga Católica independente, não do império mas da Espanha que usurpava a sua direção, seus embaixadores se governaram com tal correspondência, com estes príncipes que eles lhes facilitaram os meios de fazer depor Walstein do comando dos exércitos do império, o que ocasionou um retardo nos negócios do seu senhor.
O crédito de V. M. não foi menor no Norte pois que o barão de Charnacé sem titulo de embaixador, procurou quase ao mesmo tempo a paz entre os reis da Polônia e da Suíça, paz que havia sido inutilmente tentada por vários outros potentados.
Essa paz deu lugar à empresa que o rei da Suécia fez pouco depois para impedir a opressão dos príncipes do império, na Alemanha, e esse desígnio, assim que foi do nosso conhecimento, procurou-se prevenir o prejuízo que a religião católica poderia ter; V. M. fez um tratado com ele em que o obrigava a não perturbar o exercício religioso em todos os lugares de sua conquista.
Eu bem sei que os inimigos, que pensam justificar as suas ações desacreditando as de V. M., nada esqueceram do que puderam, para tornar essa convenção odiosa; mas seu desígnio não produziu outro efeito senão o de patentear a sua malícia.
A inocência de V. M. é tanto mais clara quanto o embaixador não entrou jamais em nenhum tratado com este conquistador (Gustavo Adolfo), senão seis meses depois de ter ele entrado na Alemanha, o que justifica evidentemente que as convenções que foram feitas com este príncipe foram o remédio do mal, cuja causa não pode ser avaliada.
Os tratados passados não somente com este grande rei, mas também com muitos outros príncipes da Alemanha, são tanto mais justos quanto foram absolutamente necessários para a salvação do duque de Mântua, injustamente atacado e para a salvação de toda a Itália, sobre a qual os espanhóis não tinham menos direito do que sobre o Estados deste pobre príncipe, pois que estimavam que a sua comodidade era direito suficiente e legítimo.
As perturbações produzidas neste reino pela divisão que os espanhóis abertamente suscitaram em sua casa real, obrigava V. M. a recorrer a expedientes que lhe pudessem tornar mais seguro.
O senhor príncipe tendo saído da corte e da França, pela terceira vez, por diversos artifícios dos quais os espanhóis foram os principais autores, e o cardeal infante, tendo retirado a rainha mãe para Flandres é fácil de julgar que se esses bons vizinhos não tivessem tido alguma notável ocupação interna, teria levado os negócios muito adiante, para prejudicar V. M. neste reino.
Era preciso necessariamente afastar a tempestade e se preparar para manter o esforço, caso não fosse possível evitá-la.
Nesta consideração, depois que V. M. ficou segura daquele poderoso auxílio, fez como aqueles que, para prevenirem o contágio com que o ar os ameaça, purgam-se com tanto mais cuidado quanto a limpeza interna é, a seu critério, o melhor e o mais seguro meio que têm de se garantirem contra as injúrias externas.
A providência de Deus lhe foi tão favorável nesta circunstância, que, aqueles que, animando a rainha e o senhor príncipe contra a França, pensavam fazer a V. M. muito mal, não conseguiram senão mostrar-se incapazes; e sua conduta pareceu tanto mais maravilhosa nesta ocasião, quanto chamando um e desejando a volta da outra, sua bondade a seu respeito foi reconhecida por toda a gente, ao mesmo tempo que os efeitos da sua justiça caíram sobre aqueles que o tinham ajudado a tomar maus conselhos.
O duque de Bellegarde ficou privado do governo da Borgonha e por conseqüência as chaves das portas que ele tinha aberto ao senhor príncipe, para fazê-lo sair do reino.
O duque d’Elboeuf foi igualmente despojado do governo da Picardia que V. M. lhe havia dado pouco tempo antes.
O duque de Guise premido pelos temores da sua consciência, tendo-se retirado para a Itália quando V. M. o chamou à corte para prestar conta das suas ações, essa retirada criminosa fê-lo perder o governo com que o falecido rei, pai de V. M., o tinha honrado.
Assim se livrou V. M. de governadores ingratos e infiéis e a Borgonha, a Picardia e a Provença, províncias de grande consideração, ficaram nas suas mãos, livres desses espíritos perigosos.
V. M. colocou na primeira o primeiro príncipe de sangue, que a desejava ardentemente, e por esse meio V. M. o interessou prudentemente nos negócios do tempo, dando muito em que pensar ao senhor príncipe, que, com razão nada no mundo temia tanto, quanto o estabelecimento de pessoa que de perto o seguisse.
Estabeleceu na segunda o duque de Chevreuse, príncipe da Lorena, para testemunhar que as faltas são pessoais e que sua indignação não se estendia senão aos dessa casa que se haviam tornado culpados por sua má conduta.
Foi gratificado o marechal de Vitri com a terceira, tanto por causa da sua fidelidade quanto porque, sendo mantido por autoridade, ele era de seu natural capaz de fazer frente àquele que dela tinha saído.
Entretanto as declarações que V. M. fez, nestas ocasiões, registar no parlamento, foram tanto mais aprovadas por todo o mundo, quanto condenados os culpados e os sectários da rainha e do senhor príncipe, elas escusavam estas duas pessoas que são tão caras quanto próximas de V. M., embora no passado, usassem do parentesco de maneira completamente contrária ao exemplo presente.
Vossa majestade com muita vigilância pode impedir desígnios e muitas empresas meditadas e tentadas sob o nome da rainha e do senhor príncipe sobre diversas praças do reino; sua paciência foi tal nestes desgraçados encontros, que posso quase dizer que V. M. fez conhecer apenas o que não era possível dissimular de sua má conduta.
Entretanto, para evitar o curso e contrariar a licença com a qual parecia que lhes fosse permitido tudo empreender à sua sombra, V. M. fez cortar a cabeça ao marechal de Marillac, com tanta mais razão quanta, tendo sido condenado com justiça, a constituição presente do Estado requeria um grande exemplo.
Estes grandes e aborrecidos negócios não lhe impediram de reprimir, com tanta autoridade quanta razão, certas ações do parlamento de Paris, que tinha suportado em muitas outras ocasiões, o que é mais notável por ter sido feito no calor dos descontentamentos da rainha, do senhor príncipe e de todos os seus partidários do que é pela ação mesma. Em seguida, o senhor príncipe entrou à mão armada em França, à solicitação dos espanhóis, e do duque de Lorena, com tropas que esses bons vizinhos forneceram em grande parte.
Parecia que o conhecimento que V. M. teve em seguida de que ele era esperado no Languedoc pelo duque de Montmorency muito autorizado nessa província, de que era governador, lhe devesse desviar do desígnio que lhe havia conduzido à Lorena, para livrar este duque do mau partido em que se havia posto; mas acabando aquilo que se havia começado com tão bons propósitos, V. M. fez seguir ao senhor seu irmão de perto pelo marechal de Schomberg e tão prontamente avançou após haver recebido três praças do duque de Lorena como garantia de sua fé, que todos os esforços daqueles que se haviam ligado contra El Rei tornaram-se vãos.
A vitória que as armas de V. M., comandadas por este marechal, conseguiram em Castelnaudari foi um argumento tão seguro da bênção de Deus sobre V. M. como as graças que V. M. concedeu em seguida ao senhor príncipe e aos seus, desde que o mau estado dos negócios lhe deu meios de agir dessa forma, foram um testemunho evidente de bondade.
A sinceridade, com a qual quis observar todas as promessas que foram feitas em Beziers, embora V. M. soubesse seguramente que Puy Laurens não tinha outro desígnio senão evitar a sombra de um arrependimento, o perigo em que ele se achava, contra o qual não se podia garantir por outra via, foi uma prova tão autêntica do grande coração de V. M., quanto de sua fé inviolável.
O castigo do duque de Montmorency, que não podia ser dispensado sem abrir a porta a toda sorte de rebeliões perigosas em todos os tempos e particularmente naquele em que um herdeiro presuntivo da coroa se tornará, por mau conselho, chefe daqueles que se separavam do seu dever, fez ver a todo o mundo que a firmeza igualava em V. M. a prudência.
Essa punição fez ver também que os servidores de V. M. preferiam os interesses públicos aos seus particulares, pois que resistiam nessa ocasião à solicitação de várias pessoas que lhes deviam ser de grande consideração, e às ameaças do senhor príncipe, que Puy Laurens levava até esse ponto, fazendo dizer que se Montmorency morresse, o senhor príncipe fá-los-ia morrer também.
A paciência com a qual V. M. sofreu os novos monopólios que Puy Laurens estabeleceu em Flandres sob o nome do senhor príncipe, para onde se retirara pela terceira vez é semelhante àquela que leva um pai a desculpar os desregramentos cometidos por um dos seus filhos saído da obediência.
Aquela que lhe fez sofrer por tão longo tempo, quanto o bem do Estado e sua consciência puderam permitir, a malícia e leviandade que levaram várias vezes o duque de Lorena a armar-se contra V. M., é uma virtude que encontrará na história poucos exemplos semelhantes.
A bondade com a qual V. M. se portou, para segurar-se das suas segundas faltas, do penhor de algumas de suas praças, capaz de contê-lo no seu dever se a loucura não tivesse igualado a sua falta de palavra, achar-se-á tanto mais incomparável quanto há poucos príncipes que perdem ocasião de se tornarem senhores de um Estado vizinho quando têm muitos motivos legítimos para o fazerem e também o poder.
Após tantas recaídas cometidas pelo duque seu vassalo, depois de lhe ter, contra a sua fé, contra o direito divino e o da constituição, feita pelos homens, retirado um penhor quase tão precioso quanto o próprio Estado; a prudência com a qual V. M. o despojou, quando a sua malícia e a sua inconstância não podiam mais ter outros remédios além daqueles, extremos, é muito mais notável do que se antes o fizesse; poder-se-ia pôr em dúvida a sua justiça. Também não se poderia esperar mais sem V. M. parecer insensível, cometendo por omissão uma falta igual àquela que cometeria um príncipe que por uma pura violência despojasse a um outro sem razão.
Que não se deve dizer da boa natureza de que V. M. é dotado, que o levou a provocar a volta do senhor príncipe à França pela terceira vez; quando parecia que não se poderia mais falar da sua fé em vista das diversas recaídas e da extraordinária má fé dos seus partidários?
Muitos achavam, com razão, que ele não poderia voltar sem comprometer a segurança dos mais fiéis servidores; e no entretanto eles eram sós em solicitar a sua retirada do perigo em que se havia posto.
Esta ação encontrará poucos exemplos na antigüidade se se consideram as circunstâncias; e provavelmente terá poucas imitações para o futuro.
Como não era possível sem uma extrema ousadia aconselhar V. M. a dar ao senhor príncipe, contra seus próprios sentimentos, um notável aumento de apanágio, um governo de província e uma praça, quando foi questão de retirá-lo de Lorena na primeira vez que ele saiu do reino; não foi possível sem grande firmeza resistir durante um ano às suas instâncias para ter uma na fronteira, para onde ele quis retirar-se saindo de Flandres.
Não foi pouca felicidade terem estes dois conselhos dado tão bom resultado, que a concessão da primeira praça foi causa da sua primeira volta; e causa tão inocente que sendo útil nessa ocasião, não se pode depois abusar, quando os seus quiseram fazer.
A recusa da segunda, impedi-lo-ia de voltar ao seu dever, e ao seu país natal, único lugar de sua salvação; ao contrário, a sua aquiescência obrigou-o a voltar enfim com uma intenção tão reta, que ele e os seus depois confessaram que a sua fé era má quando sob pretexto de assegurar a sua pessoa, pedia um lugar de retiro a fim de perturbar de novo a paz da França.
Os favores extraordinários que V. M. concedeu a Puy Laurens para obrigá-lo a inspirar uma boa conduta ao seu senhor, são dignos de memória, e não devem ser esquecidos neste lugar.
O castigo que recebeu logo que V. M. reconheceu continuava a abusar das graças, era demasiado justo e necessário, conforme o reconheceu V. M. em seguida.
A posteridade notará, estou seguro, três coisas bem consideráveis a estes respeito: um inteiro desligamento de todos os outros interesses além dos públicos, em criaturas que tendo recebido por expresso comando na sua aliança não deixaram de aconselhar V. M. a prendê-lo, porque o bem do Estado assim requeria; uma grande prudência por ter executado esta ação em presença do senhor príncipe, que não podia senão aprovar de perto um conselho que de longe apreenderia por si mesmo, se a experiência não o fizesse conhecer, que não era a ele que tudo se dirigia. Uma grande audácia em dar-lhe ao mesmo tempo tanta liberdade, quanta tinha ele antes; com o único fundamento de que, tendo-se conduzido por mais conselhos, o efeito cessaria quando a causa cessasse, e logo que ele fosse destituído dos mesmos seguiria, por seus próprios sentimentos, um caminho contrário àquele a que o haviam levado os de outrem.
Esta ação e várias outras que tiveram lugar durante o reinado de V. M. farão, estou seguro, ter por máxima certa, que é preciso em certas ocasiões, para o bem do Estado, uma virtude máscula que passa algumas vezes por cima das regras da prudência ordinária e que é outras vezes impossível garantir-se de alguns males, se não se deixar alguma coisa à fortuna, ou, melhor dito, à providência de Deus que não recusa o seu socorro quando a nossa sabedoria, esgotada, nenhum pode dar-nos.
De resto, a conduta de V. M. será reconhecida como tanto mais justa, quanto, aqueles que lerem a história verão que V. M. não faz punir ninguém senão depois de ter, por notáveis graças tentado manter os súditos no seu dever.
O marechal d’Ornano foi feito marechal com esse propósito.
O grande Prior teve o comando do mar, quando, tendo pervertido o espírito do seu irmão, deram ambos motivo a que vossa majestade lhes tirasse a liberdade.
O marechal de Bossompierre não subsistiu senão pelos reais benefícios quando sua maneira de falar e de agir na corte obrigou V. M. a encerrá-lo na Bastilha.
O guarda dos selos de Marillac estava tanto mais obrigado a conduzir-se bem, quanto a posição a que a sua boa fortuna o tinha elevado não lhe deixava lugar a desejar mais, por maior que fosse a sua ambição.
O marechal seu irmão, estabelecido em Verdun e elevado a um ofício da coroa, tinha todas as ocasiões por essas graças de evitar o suplício que mereceu pela sua ingratidão e pelos seus excessos.
Os diversos comandos que o duque de Montmorency teve no exército embora ele fosse ainda moço para merecê-los, o cargo de Marechal de França, o livre acesso que V. M. lhe deu junto a sua pessoa, e a familiaridade que tinha com suas criaturas, eram graças e privilégios suficientemente grandes para o impedirem de correr imprudentemente em busca de sua ruína.
Havia pouco que Chateauneuf tinha sido honrado com os selos, quando se começou a descobrir seu procedimento mau, dando lugar a desconfiar que no começo da sua magistratura, tivesse quase as mesmas intenções que quando a terminou.
Entretanto, esse primeiro cargo da justiça ao qual V. M. o chamou, além dos dez mil escudos que recebeu da real liberalidade, em um ano, o governo de uma das províncias, graças extraordinárias para um homem da sua profissão, não foram considerações suficientemente poderosas para impedi-lo de ser o autor da sua própria ruína.
As diversas e grandes graças que Puy Laurens recebeu em pouco tempo da bondade de V. M. foram tão extraordinárias que aqueles que delas souberem ficarão espantados, e talvez mais do que do seu mau procedimento, comum àqueles que a fortuna eleva num instante e sem mérito.
O perdão dos crimes que V. M. lhe deu por ocasião de sua volta de Flandres não será estimada coisa medíocre pela posteridade.
As somas imensas que recebeu das reais liberalidades, o governo do Bourbonnais, a qualidade de duque e par, e a minha aliança, eram ligações suficientemente fortes para conter em seu dever, qualquer outra pessoa que não fosse ele, incapaz de manter-se dentro de justos limites.
Quando o conde de Cramail foi posto na Bastilha, acabava de receber, por chamada à corte, demonstração do esquecimento das suas primeiras faltas. Mas esse favorável tratamento não o impediu de voltar ao seu primitivo trilho, desservindo o estado presente dos negócios, e procurando desviar V. M. da sua antiga conduta, que os acontecimentos justificavam como feliz, e a bênção de Deus, como justa.
A escolha que se havia feito do marechal de Vitri para a Provença o obrigava viver com muito comedimento num grande emprego que sua coragem e sua fidelidade lhe haviam outorgado. Mas sua excessiva avidez e seu humor insolente e altaneiro não contribuíram pouco a privá-lo do mesmo, para pô-lo num governo de menor extensão.
Se devemos falar daqueles que foram simplesmente afastados da corte, que obrigações não recebeu o duque de Bellegarde de V. M. e dos seus servidores?
A bondade de um e a clarividência dos outros tiraram-no de certos embaraços de gabinete; nos quais sua extrema vaidade e os desregramentos de suas paixões o tinham jogado. Ele era duque pela Real graça e tanto mais obrigado a bem conduzir-se junto do senhor príncipe, quando ele o ajudou a sair do reino, quanto V. M. o estabeleceu nos primeiros cargos da sua casa, dos quais não recebeu pouca remuneração.
De pobre e simples gentil-homem que era Thoiras, foi visto num instante marechal de França e tão carregado de benefícios, que recebeu não somente os melhores empregos e os maiores governos do reino mas mais de seiscentos mil escudos de gratificação.
La Fargis estava tanto mais obrigado a bem conduzir-se quanto V. M. pondo-o junto da rainha sua mulher, tinha-o posto acima dos dichotes a seu respeito.
Os duques de Guise e d’Elboeuf receberam à vista de todo o mundo, graças indizíveis de V. M.
Ao mesmo tempo que a princesa de Conty formava cabalas calorosas na corte, tirava muito da real bolsa pela venda de Chateaurenault; mas isso não era suficiente para mantê-la no seu dever.
O afastamento do duque de La Vallette, embora voluntário, e não forçado, dando-me lugar a pô-lo nesta classe, não posso deixar de representar que pouco tempo antes que solicitasse ao senhor seu irmão e ao conde de Soissons de voltarem suas armas, das quais eles tinham então o comando, contra a pessoa de V. M. o honrou com a qualidade de duque e par, não posso dispensar-me de ajuntar, em seguida, que para firmá-lo mais no real serviço, V. M. achou bom que ele se ligasse com aqueles, aos quais prendiam laços inquebráveis e que em consideração da minha aliança, lhes fosse acordada a superintendência do governo de Guienne, aumentada a sua posição, com o posto de coronel de infantaria, com trinta mil libras de benefício. Posso dizer, além disso, que o perdão que V. M. lhe outorgou com uma bondade extraordinária, por um crime tão sujo e tão vergonhoso, averiguado por dois príncipes irreprocháveis nessa ocasião, não pode impedir que a sua fraqueza e o seu ciúme contra o príncipe de Condé, e o arcebispo Bourdeaux, ou a intenção que ele tinha de interpor-se nos reais negócios, lhe fizessem perder muita honra fugindo a ocasião de tomar Fontarabia quando os inimigos não podiam mais defendê-la.
Se é um efeito de prudência singular ter ocupado por dez anos todas as forças dos inimigos do Estado, por aquelas dos aliados, pondo a mão na bolsa e não nas armas; entrar em guerra aberta quando os aliados não podiam ficar sós, é outra sabedoria e coragem conjuntamente, que justificam bem a maneira de arranjar o repouso do reino; V. M. fez como os economistas que, cuidadosos de aumentar a sua fortuna, sabem despendê-la a propósito, a fim de se garantirem contra maior perda.
Depois de atacar ao mesmo tempo e em diversos lugares, o que não fizeram nunca os romanos nem os otomanos, parecerá sem dúvida, a muita gente, uma imprudência e uma temeridade bem grandes. Entretanto, é uma prova de força e é também de sabedoria, pois que era necessário ocupar os inimigos de V. M. de todas as partes, a fim de que não pudessem ser invencíveis em nenhuma.
A guerra da Alemanha era um pouco forçada, pois que essa parte da Europa era teatro no qual ela começara havia muito.
Embora a guerra de Flandres não tivesse tido o sucesso que se esperava, era impossível projetá-la melhor.
A dos Grisons era necessária para forçar os príncipes da Itália a tomar armas, tirando-lhes a apreensão dos alemães; e para dar coragem àqueles que os mantinham na Alemanha, fazendo-os ver que a Itália não podia socorrer os inimigos aos quais faziam frente no seu país.
A da Itália não era menos importante; tanto porque era o verdadeiro meio de instigar o duque de Savóia, quanto porque, também o Milanês sendo o coração dos Estados que a Espanha possui, era essa parte que se devia atacar.
De resto se se considera que V. M. tinha aliados de todos os lados, que deviam unir suas forças às nossas armas achar-se-á, e a razão assim o mostra, que por uma tal união, os espanhóis atacados em diversos lugares, deveriam sucumbir sob o peso das nossas forças.
Não é que durante o curso desta guerra que durou cinco anos, não tivesse acontecido nenhum acidente, que não pareceria ser senão para glória de V. M.
Em 1635 o exército que V. M. mandou para os Países Baixos ganhou à sua entrada uma célebre batalha, antes de juntar-se ao exércitos dos Estados Gerais. E se o príncipe de Orange comandando a ambos, não obteve nenhum sucesso digno da sua grande força e do que se esperava de um capitão da sua reputação, a falta não pode ser imputada a V. M.
Tendo submetido o exército ao comando deste príncipe, dele se devia exigir continuação de vitórias para o exército que recebeu vitorioso. Mas a lentidão de uma nação naturalmente morosa, não soube aproveitar do ardor de V. M. que pedia mais execução do que conselho; e que não tendo batalhas imediatamente, perdeu a vantagem que o fogo de sua natureza lhe dava sobre todas as outras nações do mundo.
Nesse mesmo ano as forças do império tendo passado o Rheno em Brisac, chegaram tão perto de nossas fronteiras, que se V. M. não pode isentá-las de temores, soube bem garanti-las do mal, do qual os inimigos não ficaram isentos.
Viu-se perecer na Lorena um dos mais poderosos exércitos que o império pôs em pé de guerra; e sua perda é tanto mais considerável, quanto a paciência daquele que comandava as nossas forças nesse ponto foi a causa.
Ao mesmo tempo o duque de Rohan favorecido com as principais influências dos Grisons, que desejavam sua liberdade, entrou com felicidade no seu país, sem impedimento, apoderou-se da passagem e dos postos mais importantes; e fortificou-os não obstante as oposições que a vizinhança do Milanês facilitava aos espanhóis a levarem a termo comodamente.
Os duques de Savóia e de Crequi que comandavam os exércitos de V. M. na Itália, tomaram um forte no Milanês e construíram um outro no Pó, que foi perturbador espinho nos pés dos nossos inimigos.
Em 1936, a covardia de três governadores das praças fronteiriças, tendo dado lugar aos espanhóis, a que tomassem pé neste reino, adquirindo barato uma vantagem notável, não abateu a coragem de V. M. Quando mesmo todos pareciam perdidos, V. M. colocou em seis semanas um tão poderoso exército em pé de guerra, que de antemão se poderia prever a derrota inteira dos inimigos, se aqueles a quem V. M. deu o comando o tivessem bem empregado. Seus defeitos obrigaram V. M. a tomar o comando; e Deus lhe assistiu de tal sorte, que no mesmo ano foram retomadas à vista daqueles que haviam vencido essas praças, porque delas V. M. se havia afastado, salvo a única que importava ao Estado.
Sobrepujou V. M. nessa execução a muitos empecilhos que foram postos pelos mesmos auxiliares de V. M., que cheios de ignorância ou de malícia, desaprovavam francamente um desígnio tão alto.
Se o cerco de Dôle não foi um sucesso, a razão que obriga cada um a correr ao que mais importa foi a única causa. V. M. providenciou forças com tanta mais prudência, quanto era mais importante retomar Corbia do que tomar Dôle.
Ao mesmo tempo Galas tendo entrado neste reino à cabeça das principais forças do império, às quais o duque de Lorena se tinha juntado com a sua, ambos foram expulsos da Borgonha com a vergonha de levantarem o cerco de São João de Laune, má praça; e o desgosto de perder uma parte de seus canhões, e tão grande número de seus soldados, que de trinta mil homens com os quais eles entraram neste reino saíram com menos de dez.
O Tecino foi neste ano testemunha de uma ação não menos feliz na Itália, onde os nossos ganharam um célebre e sangrento combate. E teve V. M. em Walteline vantagem tanto mais considerável, quanto os inimigos tendo-se várias vezes resolvido ao combate com nossas tropas, para expulsá-las à força, jamais conseguiram os seus desígnios; combaterem e serem batidos foi-lhes a mesma coisa sempre.
Em 1637 V. M. tomou duas praças aos inimigos em Flandres, e foi retomada uma daquelas que no ano precedente tinham sido entregues pela covardia dos governadores.
Uma terceira situada no Luxemburgo foi tomada logo depois, e os inimigos sofreram tanto pela entrada dos nossos exércitos no seu país quanto eles desejariam fazer V. M. sofrer pelo mesmo efeito.
Se um terror pânico daquele que comandava as nossas forças em Walteline e a infidelidade de alguns daqueles, para cuja liberdade V. M. moveu a campanha, fizeram perder por covardia e por traição conjuntas a vantagem que V. M. adquiriu pela força e pela razão, este ano foi felizmente coroado com a retomada das ilhas de Santa Margarida e de Santo Honorato e pelo socorro de Leucare sitiado pelos espanhóis.
Pela primeira destas ações, dois mil e quinhentos franceses desceram em pleno dia numa ilha guarnecida por outros tantos espanhóis e italianos; ilha fortificada por cinco fortes regulares, ligados por linhas de comunicação, que as fechavam quase todas com um bom parapeito. Nossa gente desde que desceu, entrou em combate, e depois de ter obrigado a maior parte a retirar-se para trás dos parapeitos, em seis semanas forçaram-nos a ceder por tantos cercos quantos fortes havia; embora houvesse uma fortaleza de cinco bastiões reais, como canhões e com tal guarnição e tudo que era necessário, que parecia desafiar os nossos ataques. Pela segunda — um exército poderoso, tão bem entrincheirado, que não havia senão uma frente de mil toesas pela qual pudesse ser abordado, frente tão bem fortificada que de duzentos em duzentos passos havia fortes e redutos guarnecidos de canhões e de infantaria, foi atacado de noite e forçado por um exército que por menos numeroso não deixou de vencer o adversário inteiramente, depois de vários combates.
Estas duas ações são tão extraordinárias que não se pode dizer que sejam efeito assinalado da coragem dos homens, sem ajuntar que eram secundados pela providência e mão de Deus que combate visivelmente por nós.
Em 1638, embora o começo do ano fosse infeliz na Itália, Saint Omer, e em Fontarabia pela má sorte dos exércitos e pela imprudência, covardia, ou malícia de alguns daqueles que comandavam os nossos, o fim coroou a obra pela tomada de Brissac após um longo cerco, duas batalhas e diversos combates tentados para socorrê-los.
De resto não teve V. M. ciência do acontecimento mau relativo ao cerco de Saint Omer sem ir imediatamente e em pessoa ao lugar onde parecia que se poderia temer desgraçados acontecimentos: V. M. cortou o curso de desgraças dos seus exércitos, fazendo tomar e arrasar Renty, forte grandemente incômodo na fronteira.
Em seguida ao que o Castelet, a única praça que estava entre as mãos de inimigos, foi tomada a força à sua vista, sem que eles ousassem opor-se aos efeitos das nossas armas.
A batalha naval, na qual catorze galeras e quatro navios dunquerque todos retirados na enseada de Gattary sob cinco baterias de terra, por não ousarem afrontar o mar diante de dezenove dos de V. M., foram todos queimados ou postos a pique, com perdas de quatro a cinco mil homens, de quinhentos canhões e de uma grande quantidade de munições de guerra para socorro de Fontarabia, constitui um bom contrapeso não das perdas que se teve em Saint Omer e Fontarabia que não foram grandes, mas da vitória que falhou pela tomada de tais praças.
Se se adicionar a tal vantagem aquela que V. M. teve antes quando os reais exércitos fizeram perder aos inimigos no porto de Passagem catorze grandes navios, grande número de canhões, bandeiras e toda a sorte de munições, achar-se-á que se os espanhóis julgam este ano favorável, eles se estimam felizes quando a sua desgraça é menor do que o seu temor.
Enfim, o combate das galeras pode ser considerado o mais célebre que se tenha dado no mar, onde quinze das de V. M. atacaram outras tantas dos espanhóis e as combateram com tal vantagem, que os inimigos perderam quatro a cinco mil homens e seis galeras, entre as quais uma capitânia e duas “patronas”, não assinalando pouco uma ação tão gloriosa.
Este combate, digo eu, fez ver que a prudência da real conduta não foi somente acompanhada de felicidade; mas que a audácia daqueles que comandaram os exércitos de V. M. foi seguida.
Várias coisas são notáveis nesta guerra.
A primeira é: Que V. M. não entrou nela senão depois de ver a impossibilidade de evitá-la, e dela não saiu senão no momento em que devia.
Esta nota é tanto mais gloriosa a V. M. quanto, estando em paz, foi por várias vezes convidada pelos aliados a tomar armas sem querer fazê-lo; e que, durante a guerra, seus inimigos lhe propuseram constantemente uma paz particular, sem que tivesse nunca querido ouvir, porque não devia separar-se dos interesses dos aliados.
Aqueles que souberem que V. M. foi abandonada por diversos príncipes, que tinham aliança com ela, sem ter querido abandonar a nenhum e ainda que alguns daqueles que ficaram firmes no seu partido, lhe tenham faltado em diversas coisas importantes; receberam sempre de V. M. efeitos conformes às suas promessas; esses reconhecerão que se a felicidade de V. M. pareceu grande nos bons sucessos de seus negócios, sua virtude não é menor do que a sua felicidade.
Sei bem que se V. M. houvesse faltado à sua palavra, teria muito perdido da sua reputação, e que a menor perda deste gênero faz que um grande príncipe nada mais tenha a perder. Mas não é pouco ter satisfeito no seu dever em diversas ocasiões em que a vingança e o repouso naturalmente desejado depois da guerra davam lugar a fazer justamente o contrário.
Não foi preciso menos prudência do que força, nem menos esforço de espírito do que de armas para persistir quase só, no mesmo projeto para cuja realização se contava a colaboração de muitos.
Entretanto, é verdade que a defecção de vários príncipes da Alemanha (1); a retirada que o duque de Parma foi obrigado a fazer do real partido, por necessidade dos seus negócios; a morte do duque de Mântua, e a leviandade da mãe adotiva do jovem duque, que não foi em seguida amante, senão esquecendo as obrigações que devia à França, voltando-se contra ela abertamente; a falta do duque de Savóia e a imprudência de sua viúva, que se perdeu por não querer suportar que se salvasse: é verdade, digo eu, que todos estes acidentes não abalaram a firmeza de V. M. e embora tivessem alterado seus negócios não conseguiram jamais mudar os seus desígnios.
A segunda nota digna de grande consideração neste assunto é que V. M. jamais quis para garantir-se do perigo da guerra, expor a cristandade ao das armas otomanas, que lhe foram por mais de uma vez oferecidas.
V. M. não ignorava poder aceitar um tal socorro com justiça, e entretanto o conhecimento desse fato não foi suficientemente forte para lhe fazer tomar uma resolução problemática para a religião, embora vantajosa para obter a paz.
O exemplo de alguns de seus predecessores e de diversos príncipes da casa d’Áustria, que afeta particularmente parecer religiosa diante de Deus tanto quanto ela é devota, com efeito, dos seus próprios interesses, foi muito fraca para levar V. M. a praticar o que a história nos ensina como praticado várias vezes por outros.
A terceira circunstância que causou espanto nesta guerra foi o grande número de exércitos e de cabedais com que foi sustentada.
Os maiores príncipes da terra tiveram sempre dificuldade em empreender duas guerras ao mesmo tempo; a posteridade terá dificuldade em acreditar que este reino tenha sido capaz de manter separadamente, às suas expensas, três exércitos de terra e duas armadas, sem contar aquelas dos seus aliados para as quais não pouco contribuiu.
Entretanto é verdade que, além de um poderoso exército de vinte mil homens a pé e dezessete mil cavaleiros que V. M. teve sempre na Picardia para atacar seus inimigos, manteve na mesma província um outro composto de dez mil infantes e quatro mil cavaleiros, para impedir a entrada por essa fronteira.
É verdade além disso, que V. M. teve sempre em campanha um outro de número igual ao acima citado.
Em Borgonha um exército de igual força.
Na Alemanha outro não menos poderoso.
Outro igualmente considerável na Itália, e ainda um na Walteline durante algum tempo. E o que é digno de admiração, a maior parte dos exércitos estava antes destinada a atacar do que a defender-se.
Embora seus predecessores tenham desprezado o mar até o ponto de o falecido rei seu pai não ter um só navio, V. M., não deixou de ter no mar Mediterrâneo, durante o curso desta guerra, vinte galeras, vinte navios redondos e mais de sessenta bem equipados no Oceano. Com isto não somente evitou a realização dos desígnios dos seus inimigos, nas costas de França, como lhes causou o mesmo mal que eles nos pensavam fazer.
Além disso socorreu, durante todos os anos os holandeses com um milhão e duzentas mil libras, e as vezes mais, e ao duque de Savóia com mais de um milhão.
A coroa da Suécia foi auxiliada com igual soma.
O Landgrave de Hesse com duzentos mil “Risdalles”, e vários outros príncipes com outras somas, segundo as ocasiões o requeriam.
Cargas tão excessivas fizeram que a despesa de cada um dos cinco anos de guerra que a França suportou se elevasse a mais de sessenta milhões, o que é tanto mais admirável quanto ela se mantinha sem suspender pagamento de ordenados dos oficiais, sem tocar na renda dos particulares, e mesmo sem pedir nenhuma alienação dos fundos do clero, meios todos extraordinários aos quais seus predecessores foram comumente obrigados a recorrer em guerras menores.
Assim sessenta milhões de despesa para cada um dos cinco anos; cento e cinqüenta mil infantes; tanto para os exércitos quanto para as guarnições das nossas praças, e mais de trinta mil cavaleiros, serão para a posteridade um argumento imortal do poderio desta coroa.
Se acrescento que essas diversas ocupações não impediram a fortificação ao mesmo tempo, e de forma perfeita, de todas as fronteiras, em lugares que estavam abertas antes aos inimigos, estes não as podendo ver agora senão com espanto, terei tocado um ponto não menos considerável para a posteridade, pois que, pondo para sempre este reino em segurança, V. M. recebeu do passado apenas trabalhos e aflições.
Aqueles aos quais a história há de ensinar os obstáculos que V. M. encontrou para a realização de todos os seus desígnios, pela inveja que a prosperidade e o temor do seu poderio atraíram dos diversos príncipes estrangeiros, pela debilidade de alguns de seus aliados, pelas perfídias dos seus maus súditos, por um irmão mal aconselhado durante algum tempo, por uma mãe sempre possuída de maus espíritos, desde que se tendo querido privar dos conselhos V. M. ela distinguiu os seus interesses dos do seu Estado, reconhecendo que tais obstáculos não elevam pouco a real glória, reconhecendo também que os grandes corações tendo formado grandes projetos não podem ser desviados pelas dificuldades que encontram; se consideram além disso a leviandade natural desta nação, a impaciência dos militares pouco acostumados às fadigas inevitáveis na vida das armas, e enfim a fraqueza dos instrumentos que a necessidade obriga a serem usados nessas ocasiões, entre os quais tomo Eu o primeiro lugar, serão obrigados a confessar que nada sobrepujou a falta de utensílios, senão a excelência de V. M. como artífice.
Enfim se se representarem que sobrepujando a todos os obstáculos V. M. conseguiu a conclusão de uma paz na qual a falta de alguns aliados e a afeição que V. M. lhes deu fizeram relaxar em parte aquilo que se havia conquistado unicamente pelas forças de V. M., impossível será que não reconheçam que sua bondade é igual ao seu poder, e que na real conduta a prudência e a bênção de Deus marcham parelhas.
Eis aí senhor, até agora, quais foram as ações de V. M. que estimarei felizmente terminadas; se são seguidas de um repouso que lhe dê meios de cumular seu Estado de toda a sorte de benefícios.
Para isto fazer é preciso considerar as diversas ordens do reino, o Estado que elas compõe; sua pessoa que é encarregada de tal conduta; coisa que não requer em geral, senão um bom e fiel conselho; fazer caso das advertências, e seguir a razão nos princípios que prescreve para o governo dos seus Estados; eis ao que se reduzirá o centro desta obra, tratando distintamente tais materiais em vários capítulos subdivididos em diversas seções para os esclarecer mais metodicamente.
REFORMA DAS DIVERSAS ORDENS DO ESTADO
Poder-se-iam fazer volumes inteiros sobre o assunto das diversas ordens deste reino; mas não sendo o meu objetivo tal, senão esse que o trato de muitas coisas mais que concernem a bem discorrer sobre todas as partes de um Estado, sem considerar se o público tira ou não utilidade do respectivo raciocínio; restringir-me-ei a representar em poucas palavras a V. M. o que é mais importante para conseguir a vantagem de todos os súditos nas suas diversas condições.
CAPÍTULO II
DAS REFORMAS DA ORDEM ECLESIÁSTICA
SEÇÃO I
Que representa o mau estado em que a igreja estava no começo do reinado; estado em que está agora; e o que é preciso fazer para pô-la no estado em que deve estar.
Quando eu me lembro que vi, na minha mocidade, gentis-homens e outras pessoas laicas possuir por legado, não somente a maior parte dos prioratos e abadias, mas também os curatos e bispados, e quando considero que nos meus primeiros anos, a licença era tão grande nos mosteiros de homens e de mulheres que neles não se achava nesse tempo senão escândalo, e maus exemplos, na maior parte dos lugares onde justamente se devia procurar edificação, confesso que não tenho pouco consolo vendo que tais desordens foram tão absolutamente banidas durante o reinado de V. M., que agora os legados e os desregramentos dos mosteiros são mais raros que as possessões legítimas, e as religiões mais vivas do que não estavam naquele tempo.
Para continuar e aumentar esta bênção, V. M. não tem outra coisa a fazer, a meu ver, senão tomar um cuidado particular preenchendo os bispados com pessoas de mérito e de vida exemplar; não dar abadias e outros benefícios simples, de sua nomeação, senão a pessoas de probidade, privando da sua vista e de sua graça aqueles que tenham uma vida livre, em tão santa condição; como é aquela que liga particularmente os homens a Deus, castigando ainda exemplarmente aos escandalosos.
Poder-se-ia propor muitos outros expedientes para a reforma do clero; mas desde que V. M. queira observar essas quatro condições e tratar favoravelmente as pessoas de bem dessa profissão, satisfará ao seu dever e tornará os eclesiásticos ao seu estado, ou tais quais devem ser, ou quando menos, tão prudentes como com esforço podem tornar-se.
Devo a propósito representar a V. M. que é preciso ter cuidado em não se enganar quanto à capacidade dos bispos.
Um pode ser sábio, pode ser capaz e no entanto achar-se mal no cargo, porque, além da ciência se requer zelo, coragem, vigilância, caridade, atividade, tudo em conjunto.
Não é suficiente ser honesto e homem de bem para ser um bom bispo, mas sendo bom para si próprio é preciso, sobretudo, ser bom para os outros.
Com facilidade aprendi que as pessoas de boa estirpe se contêm mais dificilmente no seu dever, e são menos regulares na sua vida do que outras: muitos tocados por este temor, estimam que os doutores de tão boa vida quanto baixo nascimento, são mais próprios a tais empregos, do que os que são de extração mais alta; entretanto, várias coisas sobre este assunto há a considerar.
Para ter um bispo a contento, era preciso que fosse sábio, cheio de piedade, de zelo, de boa estirpe; porque de ordinário a autoridade requerida em tais cargos não se encontra senão em pessoas de qualidade. Mas sendo difícil de encontrar todas estas condições numa mesma pessoa; direi sem temor que os bons costumes, que sem contradição devem ser considerados mais que outras coisas, como necessários; a qualidade e autoridade que de ordinário são companhia, devem ser preferidos à maior ciência: Tendo freqüentemente visto pessoas doutas como péssimos bispos, ou impróprios a governar em vista da baixeza da sua extração, ou porque vivessem em concubinato, tudo tendo relação com o seu nascimento próprio a desenvolver a avareza; em lugar disso a nobreza que tem virtudes tem um particular desejo de honras e de glórias, que produz o mesmo efeito que o zelo causado pelo puro amor de Deus; que vem, de ordinário, com lustre e liberalidade conforme a tal cargo; e sabe melhor a maneira de agir e de tratar com o mundo.
É preciso sobretudo que um bispo seja humilde e caridoso, que tenha sabedoria, piedade, coragem firme, e um zelo ardente para a igreja e para a salvação das almas a seu cargo.
Aqueles que procuram os bispados por ambição e por interesse, para fazerem com eles fortuna, são de ordinário os que fazem corte, a fim de obterem por importunação o que não poderiam obter pelo mérito; também não devem ser escolhidos, senão quando previamente indicados por Deus; o que se conhece pela sua maneira de vida diferente, conforme com a função eclesiástica que praticam nos seminários; e seria muito útil que V. M. declarasse que não escolheria senão aqueles que tivessem passado um tempo considerável depois dos seus estudos trabalhando na dita função nos seminários que são os lugares estabelecidos para aprendê-la; não sendo razoável que o mais difícil, e o mais importante ofício do mundo, se exerça sem que tenha aprendido, quando não é permitido exercer as menores e as mais vis funções, sem vários anos de aprendizado.
Depois de tudo, a melhor regra que se deve ter para esta escolha é não ter nenhuma regra geral, mas escolher algumas vezes gente sábia, outras vezes pessoas menos letradas e mais nobres, gente moça em algumas ocasiões, gente velha em outras, segundo tiverem os vários pretendentes condições consideradas próprias ao governo.
Sempre pensei assim, mas por mais que me quisesse servir de tais preceitos, confesso que várias vezes me enganei; também é muito difícil que a gente não se engane em tais julgamentos pois que é difícil senão quase impossível penetrar no interior dos homens ou fazer parar neles a sua inconstância.
Os homens, em geral, mudando de condição mudam de humor, ou, por assim dizer, descobrem aquilo que durante muito tempo tinham dissimulado a fim de obterem o que tinham em vista.
Durante o tempo em que tal gente vive na miséria tem cuidado de aparentar boas qualidades que não possui; mas logo que chegam àquilo que desejam não se constrangem mais, escondendo o que têm de mau e que foi seu natural sempre.
Entretanto se se tomam precauções tais quais proponho, embora elas não satisfaçam sempre, não se terá culpa diante de Deus e com audácia o digo, que V. M. não terá nada a temer, desde que escolhendo com esta circunspeção obrigue os escolhidos a residir nas suas dioceses, estabelecer seminários para a instrução dos seus eclesiásticos, fazer com que visitem seus rebanhos, como a isso os obrigam os cânones. Assim V. M. lhes dará todos os meios de cumprir com os seus deveres com fruto.
Falo assim, senhor, porque agora isso lhes é completamente impossível com as empresas que os oficiais de V. M. têm feito todos os dias sobre a sua jurisdição.
Seis coisas são igualmente a desejar, para que as almas que lhes são entregues, deles recebam toda a assistência que devem esperar.
Três dependem da vossa própria autoridade; uma de Roma simplesmente; e as duas outras de Roma e de vossa autoridade conjuntamente.
As três primeiras são os regulamentos das apelações e abusos, o dos casos privilegiados, e a supressão da “regale” (imposto de clero) pretendida pela Santa Capela de Paris, sobre a maior parte dos bispados deste reino; até que aqueles que V. M. nomear tenham feito o seu juramento de fidelidade.
A quarta é um regulamento para a maior parte das sentenças requeridas pelos cânones para punição de um crime cometido por um eclesiástico, a fim de que os culpados não possam, de futuro, isentar-se dos castigos que merecem, pelos retardamentos das formalidades que se praticam.
E as duas outras, que dependem da autoridade soberana da igreja e da de V. M. em conjunto, são as isenções dos capítulos e o direito de apresentar os curas que têm diversos abades sob suas ordens e diversos seculares.
É preciso examinar distintamente todos estes pontos, um após outro.
SEÇÃO II
Das apelações como dos abusos e dos meios de regulamentá-los
Não empreendo neste lugar a tarefa de esclarecer a origem das apelações e dos abusos, em vista de serem coisas cujo conhecimento não é absolutamente necessário, desde que se saiba dar remédio ao mal, pouco importando saber quando ele começou.
Sei bem quanto é difícil descobrir a verdadeira fonte desta prática; o advogado geral Servien costumava dizer que se ele conhecesse o autor de um regulamento tão bom, ter-lhe-ia erigido uma estátua.
Entretanto podemos acreditar que o primeiro fundamento deste costume vem da confiança que os eclesiásticos tiveram sempre na autoridade real quando maltratados pelos antipapas Clemente VII, Benedito XIII e João XXIII. Refugiados em Avinhão recorreram ao rei Carlos VI que então reinava, para se descarregarem das anuidades, das pensões e dos subsídios extraordinários que eles lhes impunham comumente.
As reclamações do clero de França levaram este rei a fazer uma ordenança que proibia a execução de ordens, mandatos e bulas que os papas pudessem dar daí por diante, com prejuízos das franquias e liberdades que a igreja galicana gozava.
Esta ordem deu lugar à primeira empresa dos oficiais do rei sobre a jurisdição eclesiástica.
Entretanto não foi isto feito sem que o temor com que ficaram de ser prejudicados em lugar das vantagens que esperavam levasse o rei a sustar a execução durante alguns anos. Em seguida, a continuação dos vexames produzidos pelos benefícios fê-los executar durante alguns anos, depois dos quais a ordenação foi suspensa pelo rei Carlos VII no começo do seu reinado, por causa dos diversos abusos que eram cometidos na sua prática.
A experiência do mau uso de uma tal ordem obrigou o clero a suportar com paciência por algum tempo os maus tratos que recebia dos oficiais da corte de Roma.
Mas enfim o redobramento das exações que se faziam sobre eles os constrangeu a se unirem em Bourges em 1438 para combinarem os meios de se libertarem desse mal.
Esta assembléia, célebre pelo número e o mérito dos prelados que aí se achavam, eliminou cuidadosamente os diversos males pelos quais a igreja andava aflita, e julgou que o melhor remédio que se poderia dar era o de receber os decretos do conselho da Basiléia que reduzindo quase todas as causas a condição do direito comum e canônico tirava todos os meios aos oficiais da corte de Roma de algo empreender contra o clero.
Em seguida formou uma pragmática dos decretos desse conselho resolvendo a execução sob a sanção do rei que ficou como o protetor. O rei aderente à suplicação do seu clero determinou por ordenança, expressa aos seus juizes reais (2) de fazer observar religiosamente a pragmática que tinha resolvido; e é daí que a igreja sofre o mal neste reino; por intromissão dos oficiais do rei, retomou nova força depois do começo que tinha tido sob o reino de Carlos VI. E é daí que os parlamentos têm ocasião de tomar a si a maior parte dos assuntos que não pertencem senão ao tribunal da igreja de Deus.
Foi-lhes muito fácil atribuírem-se exclusões dos juizes subalternos, o que antes tinha sido encargo somente deles, estendendo sob tal pretexto seu poder além dos justos limites, visto que neste ponto não tinham a combater senão inferiores.
Nos estabelecimentos de primeira ordem, feitos para remediar as infrações da pragmática sanção, as apelações (3) não tinham lugar. Castigavam-se somente aqueles que obtinham rescritos ou mandatos da corte de Roma, contra o direito comum, sobre a sua queixa que era feita e averiguada no sentido de ser tomado conhecimento do fundo da causa.
Depois, o tempo que muda todas as coisas, junto ao poderio, que como o fogo chama tudo a si, fez que de uma tal ordem estabelecida para a conservação do direito comum, e das franquezas da igreja galicana, contra as empresas de Roma, se passassem às apelações como de abusos, cujo desregramento anulou completamente a jurisdição dos prelados franceses e também a da Santa Sé.
Sei bem que os mais sutis partidários dos parlamentos, para autorizar a sua prática podem dizer que os prelados reunidos em Bourges, tendo suplicado ao rei que impedisse por seus oficiais que a Santa Sé não contraviesse à pragmática, deram-lhe tacitamente direito a se oporem às contravenções que poderiam aí ser feitas por eles mesmos. Isto dá lugar a tomar conhecimento das sentenças que se dão todos os dias no seu tribunal.
Mas neste lugar se pode alegar o provérbio verdadeiro, que não há no mercado senão aquilo que no mercado se põe, e é uma coisa tão certa quanto evidente que a igreja galicana reunida em Bourges nunca pensou, no que pretendem esses senhores, e nunca teve ocasião de o fazer.
Recorreu ao rei contra a empresa de Roma porque a Santa Sé não tinha tribunal superior na terra; os príncipes temporais como protetores da igreja podem fazer parar o curso dos desregramentos dos oficiais de Roma, enquanto que as ações dos bispos podem ser reprimidas por seus superiores aos quais se deve recorrer.
Enfim, aquele que dá armas ao seu amigo para defendê-lo não deve nunca ser acusado de dar-lhe armas se ele se matar. Os parlamentos não poderiam pretender que a proteção que prelados reunidos em Bourges pediram ao rei, desse direito aos seus oficiais a oprimirem a sua jurisdição.
Entretanto, como os males são maiores no seu progresso e nos seus períodos, do que no seu começo, o desígnio do parlamento coberto por diversos véus, em certo tempo, começou a aparecer sem máscara no século procedente (4) sob o rei Francisco I, que foi aquele que primeiro se serviu do nome de apelação (5) contra abusos nessas ordenações.
Vários conhecendo o mau fundamento deste uso, do qual a igreja se queixa agora, pensarão, talvez, que podendo ser abolida com justiça seria a propósito fazê-lo assim; mas estimo que uma tal mudança faria mais mal do que aquele que se quer evitar, e que não há senão o abuso de uma tal ordem que seja maléfico.
Qualquer fundamento que possa ter o uso que está agora em prática, é certo que, quando se quis estabelecer abertamente, não se pretendeu que ele servisse senão para parar o curso das empresas que os juizes eclesiásticos poderiam levar a efeito contra a jurisdição real.
Depois não se contentaram em servir-se dela contra as contravenções feitas nas ordenanças do reino, que abraçam muitas matérias além das que dizem respeito à jurisdição, mas ainda se estendeu àquelas dos santos cânones e dos decretos da igreja e da Santa Sé, e enfim por excesso de abusos a toda a sorte de matérias, em que os laicos pretendem lesão de polícia que sustentam pertencer aos oficiais do príncipe.
Poder-se-ia pedir com razão que o efeito desse remédio se restringisse nestes primeiros termos, que não tinham outra extensão senão a empresa da jurisdição real, suficientemente regulada pelo artigo primeiro da ordenança de 1539. Mas para tirar todo pretexto de lesão aos oficiais do príncipe, e fazer que eles não possam com aparência pretender que lhes é impossível fazer observar a ordenança por causa da empresa da igreja; estimo que ela pode consentir que haja lugar para apelações como de abusos, quando os juizes pronunciarem diretamente contra a ordenança como é o caso em que Carlos IX e Henrique III pelo artigo 59 da ordenança de Blois querem que sejam admitidos. Contanto que sob este pretexto não sejam estendidas às contravenções feitas aos cânones e aos decretos, embora muitas ordenanças, particularmente as capitulares de Carlos Magno, repitam constantemente o mesmo teor daquelas da igreja.
Sei bem que será incômodo fazer a indicação tão exata das ordenações para os fins que pretendo, a fim de que não aconteça, como algumas vezes, surgir-nos embaraço nas próprias regras que se quer fazer; mas é verdade que se não se achar dificuldade na vontade dos oficiais do rei, que estão encarregados de executar as suas, a ordem que o rei lhes der servirá de regra.
A pretensão que têm os parlamentos de, quando os juizes eclesiásticos julgam contra os cânones e os decretos, dos quais os reis são executores e protetores, de corrigirem os abusos de suas sentenças; é com efeito uma empresa tão destituída de toda a esperança de justiça que por si mesma ela se faz insuportável.
Se toda a igreja julgasse contra cânones e decretos poder-se-ia dizer que o rei, que delas é protetor, poderia e deveria sustentá-las por uma via extraordinária emanada da sua autoridade; mas posto que quando um juiz pronuncia contra o seu teor, a sentença pode ser reformada e corrigida por seu superior; os oficiais do príncipe não podem, sem pôr a mão no turíbulo, e sem um abuso manifesto, querer fazer o que não pertence senão àqueles que são particularmente consagrados a Deus. E quando eles usam assim, antes que a última sentença da igreja seja dada, sua ação não é somente destituída de justiça, mas mesmo destituída de toda a aparência dela.
São desígnios que têm ainda os parlamentos de trazer toda a jurisdição espiritual e eclesiástica ao tribunal dos príncipes, sob pretexto de que a justiça temporal não é menos destituída de fundamento e de aparência; entretanto não há juiz ordinário nem juiz real, que não queira ordenar ao tempo das procissões a hora das grandes missas e várias outras cerimônias, sob pretexto de comodidade pública; assim o acessório prejudica o principal, e no lugar que o culto de Deus deve marchar primeiro e dar as regras a todas as ações civis, ele não tem lugar senão depois que os oficiais temporais dos príncipes dão permissão.
Sei bem que a má justiça que se distribui algumas vezes, por aqueles que exercem a jurisdição eclesiástica, o tempo gasto e as formalidades prescritas pelos cânones, dão pretextos especiosos às tentativas dos oficiais do rei, mas isto não é com razão, visto que um inconveniente não estabelece outro, mas obriga a corrigi-los ambos, coisa que pretendo agora fazer.
Passaria em silêncio a pretensão que têm ainda os parlamentos de tornar abusivo tudo aquilo que se julgar contra os seus editais, aos quais por esse meio querem dar a mesma força que às ordenanças, se não estivesse obrigado a fazer ver que este abuso é tanto menos suportável quanto por um tal meio eles querem igualar sua autoridade àquela de seu senhor e do seu rei.
O mal que a igreja recebe de tais tentativas é tanto mais insuportável, quanto impede absolutamente os prelados de atenderem a seus cargos. Se um bispo quer punir um eclesiástico, ele se subtrai imediatamente à sua jurisdição por uma apelação contra abuso; se fazendo uma visita ele determina uma ordenança o efeito é imediatamente impedido, porque embora em matéria de disciplina os apelos sejam somente devolutivos, os parlamentos os tornam suspensivos contra toda a razão.
Enfim pode-se dizer com verdade que a igreja está sob ferros, e que se seus ministros têm os olhos abertos, têm as mãos ligadas, de sorte que conhecendo os males não está em seu poder dar-lhes remédio.
O que me consola nesta extremidade é que isto que a respeito é impossível à igreja, será fácil a V. M. de cuja vontade depende o remédio a tais desregramentos.
A primeira coisa que é preciso fazer para garantir-se é ordenar que, de futuro, as apelações como de abusos, não sejam mais admitidas senão em caso de uma manifesta empresa sobre a jurisdição real, e de uma evidente contravenção às ordenanças puramente emanadas da autoridade temporal dos reis, e não da experiência da igreja.
Essa ordenança pressuposta, para fazê-la religiosamente observar, V. M. a regulamentará de sorte que contenha seis pontos principais. O primeiro ponto desse regulamento deve obrigar a fazer que de futuro todas as apelações de abusos sejam seladas do grande selo pelo parlamento de Paris, e em todos os outros que o afastamento da corte obriga, sirvam-se dos pequenos selos, não podendo ser seladas senão depois da selagem prévia dos três antigos advogados com seus selos especiais, porque aí há lugar a abusos; submetendo-se à multa se for de outra forma.
O segundo deve declarar que todos os apelos lançados em matéria de disciplina serão somente (6) devolutivos e não suspensivos.
O terceiro ponto deve fazer que o abuso do qual alguém se queixar, seja especificado na razão de apelação e na sentença que cair sobre ele: o que é tanto mais necessário, quanto foi freqüente acontecer em casos do passado; embora não houvesse abuso senão por falta de formalidade, ou em um só ponto da sentença, que contaria vários, — quando o parlamento julgou ter havido abuso, a sentença seria desprezada em todos os pontos, embora ela não devesse ser senão em uma só das circunstâncias que de ordinário não era importante.
O quarto, deve adstringir os parlamentos a porem a causa das apelações como dos abusos, as primeiras no rol, fazendo-as chamar e julgar preferencialmente a todas as outras sem especificá-las, para evitar demora; que é freqüentemente desejada por aqueles que não tendo outro fim senão iludir a punição dos seus crimes, não têm outro fito senão cansar, seus juizes ordinários, aos quais apelam: não sendo razoável privar o público da administração da justiça eclesiástica, tornando aqueles que são principais oficiais, simples solicitadores ante um tribunal inferior ao seu.
O quinto, imporá a necessidade, aos parlamentos, de condenar sempre a multa e a custas aqueles que mal apelaram, sem possibilidade de dispensa por causa alguma e pretexto algum, voltando aos mesmos juizes aos quais apelaram sem razão. Isto é tanto mais necessário quanto sem este remédio haveria liberdade a todos os criminosos de se subtraírem à jurisdição ordinária interpondo um apelo por abuso, sem razão.
Ora; porque as melhores ordenanças e os mais justos regulamentos são em geral desprezados por aqueles que os devem mais religiosamente observar, com a licença das cortes soberanas fazem freqüentemente até este ponto, violando ou reformando as ordens de V. M., como bem lhes parece; para tornar efetiva a real vontade, fazendo que V. M. seja obedecido em ponto tão importante, a razão quer que a estes cinco primeiros pontos, se junte um sexto, que será remédio tão poderoso para constranger seus oficiais a cumprirem o seu dever a este respeito, como o das apelações de abusos é excelente para impedir os juizes eclesiásticos a faltarem ao seu, no exercício da sua jurisdição.
Este remédio não requer outra coisa senão a permissão que lhe pede todo o clero de apelar da justiça a V. M. mesma, valendo-se do conselho quando os parlamentos faltam às observações da real ordem e dos reais regulamentos.
Isto é tanto mais razoável quanto em lugar de reprimir as empreitadas da igreja, valendo-se diante dos juizes como se se valessem de um tribunal de ordem diferente e inferior, por sua natureza, — recorrerão ao real conselho para impedir o curso da ordem dos parlamentos, valendo-se de premonição de uma ordem da mesma espécie. E sem contradição aqueles mesmos que enviam franquias da igreja não poderiam achar do que criticar, pois que em lugar de torná-la independente da jurisdição temporal, aumentam de um grau a sua sujeição.
Enfim será tanto mais vantajoso para V. M. quanto contendo o poder da igreja nos seus próprios limites, restringirá também o poder dos parlamentos em extensão justa que lhes é prescrita pela razão e pelas leis.
Além disso, o comando de V. M. em relação ao seu conselho, usando nesse sentido do poder que tem de impedir pela real autoridade as ações de todos os reais súditos e particularmente as dos oficiais que exercem justiça nesse reino; ela toma um cuidado particular preenchendo não com gente cuja pretensão e importunação sejam os principais títulos a apresentar para obter seus fins, mas pessoas escolhidas pelo seu puro mérito em toda a extensão do reino; terá o contentamento de ver que aqueles que não quiserem conter-se nos limites do seu dever pela razão, seriam obrigados pela força da justiça e isso não durará muito tempo sem que se veja claramente que aquilo que foi forçado de começo se tornará enfim voluntário.
SEÇÃO III
Dos casos privilegiados e dos meios de os regular
As pessoas que se consagram a Deus, ligando-se à sua igreja são tão absolutamente isentas da jurisdição temporal dos príncipes, que elas não podem ser julgadas senão pelos seus superiores eclesiásticos.
O direito divino e o das gentes estabelecem claramente esta imunidade. O direito das gentes no que ele tem de reconhecido por todas as nações. O de Deus pela confissão de todos os autores que escreveram antes e a jurisprudência moderna do último século.
A igreja ficou nesta posse até que a má ordem produzida na administração da justiça eclesiástica deu lugar à ambição dos oficiais dos príncipes temporais, de tomarem a si tal assunto.
Ela mesma reconhecendo que a desgraça dos tempos a impediu pudesse reprimir por sua própria força, muitas desordens que haviam tido lugar entre os que estavam submetidos à sua jurisdição, resolveu-se, para tirar todo o motivo de queixa, e em razão da impunidade dos crimes que se cometiam à sombra da sua autoridade, dar poder aos juizes seculares de tomar conhecimento do assunto em alguns casos chamados privilegiados (7) porque eles não podiam tomar conhecimento senão em virtude do privilégio que lhes era particularmente concedido para tal efeito.
É preciso notar a este respeito que outros são os casos julgados privilegiados em todos os Estados, e aqueles julgados tais particularmente em França.
Os primeiros se podem reduzir a dois, que são os de homicídio voluntário, cometido com propósito deliberado, e a apostasia manifesta, como induzir os padres a desprezar e abandonar a vida eclesiástica, abandonar a batina, vivendo em vida escandalosa no mundo; seja levando armas, seja fazendo alguma outra ação contrária à sua profissão.
Os segundos eram de começo em pequeno número. Quando a pragmática foi estabelecida não havia senão dois: o porte de armas e a infração da salvaguarda do rei, mas, pouco a pouco sua extensão se tornou maior.
Toda a contravenção da pragmática foi julgada caso privilegiado.
A de concordatas foi posta em seguida na mesma categoria.
O reconhecimento de cédula ante o juiz real, também se julgou do mesmo gênero.
Os raptos, os roubos feitos nos caminhos, o falso testemunho, a moeda falsa, o crime de lesa-majestade, e todos os casos enormes foram julgados da mesma natureza pelos parlamentos.
Enfim, a dar-se-lhes crédito, todas as faltas dos eclesiásticos; mesmo as simples injúrias, se encontrarão como casos privilegiados, não havendo mais delito comum.
Os crimes reconhecidos privilegiados em todos os Estados são pelo consentimento e por opinião comum de toda a igreja, e muitos daqueles assim julgados neste reino, são por abuso ou por decisão dos oficiais reais.
Eles se atribuíram tanto mais audaciosamente o direito de intervenção em todos os casos dos clérigos, segundo a ordem dos cânones, que requer três sentenças conformes para condenação de seus delitos; é muito difícil punir mesmo os mais notáveis e impossível fazê-lo em pouco tempo. (8) Embora este pretexto seja plausível, e obrigue à reforma das formalidades observadas na administração da justiça da igreja; os antigos jurisconsultos não puderam ver tal empreitada sem jogar-se contra ela abertamente.
De nada serve dizer que esses crimes tornam os eclesiásticos indignos da sua imunidade, pois que por semelhante raciocínio se infeririam muitas conclusões tão falsas quanto prejudiciais àqueles mesmos que tiram tais conseqüências.
A única conseqüência que se pode inferir da demora e dos desregramentos que se notam na administração da justiça da igreja, é que é preciso levar aí a ordem requerida, e assim como os eclesiásticos são obrigados a ela os reis também são a mantê-la na imunidade que Deus deu à sua igreja.
Para satisfazer a estas duas obrigações a igreja deve remediar pelos meios que proporemos aqui, as insuportáveis demoras das três sentenças requeridas pelos antigos cânones, tornando-se tão exata na punição dos crimes cometidos por aqueles submetidos ao seu poder, que ninguém se aperceba de um escândalo sem que veja ao mesmo tempo uma punição exemplar.
E o rei fazendo uma declaração que compreenda todos os casos privilegiados, que podem ser reduzidos àqueles que podem ser cometidos por tais, em todos os Estados, e em toda a ordem, e além disso o porte de armas; a infração da salvaguarda do rei, o reconhecimento das cédulas, a apostasia manifesta, assim como acima foi explicado, o roubo nos caminhos, a moeda falsa, e todos os outros crimes de lesa-majestade, deve-se absolutamente proibir a seus oficiais tomar conhecimento de todos os outros casos, até que os acusados lhes sejam enviados pelos juizes da igreja; pois que se eles contravêm a esta ordem é preciso que se saiba, quase ao mesmo tempo, da sua punição e do seu delito.
Ora, porque a justiça quer que se tome um exato conhecimento de uma falta antes que se pense no seu castigo, e que ao rei não é possível distribuir justiça a todos os seus súditos, S. M. satisfará à sua obrigação se ela ordenar ao seu conselho privado de receber a queixa das contravenções que seus oficiais de quaisquer qualidades fizerem a um tal regulamento, punindo severamente a tais ações. Nesse caso a igreja ficará contente com tal ordem e se tornará tão cuidadosa em distribuir a justiça, quanto ficará com recebê-la do seu príncipe.
SEÇÃO IV
Que faz ver de que conseqüência é a “regale” pretendida pela Santa Capela de Paris sobre os bispos de França mostrando os meios de as suprimir.
Ainda que os cônegos da Santa Capela de Paris (9) sustentem que a "regale" lhes foi dada por São Luís, seu fundador, é verdadeiro que a primeira cessão que se encontra é de Carlos VII que lhes dá por três anos somente e direito de gozar da renda temporal dos bispados vagos aos quais a regale se liga. O termo desta graça tendo expirado,