A DIVINA COMÉDIA
— PURGATÓRIO —
DANTE ALIGHIERI
Tradução
José Pedro Xavier Pinheiro
1822-1882
Ilustrações de Gustave Doré
1832-1883
Versão para eBook
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Fonte Digital
Digitalização do livro em papel
COMPOSTO E IMPRESSO
NAS OFICINAS DE
D. GIOSA - INDÚSTRIAS GRÁFICAS S/A
SEÇÃO: ATENA EDITORA
RUA JAVAÉS, 465 - SÃO PAULO
MARÇO - 1955
© 2003 — Dante Alighieri
A DIVINA
COMÉDIA
Dante Alighieri—PURGATÓRIO—
Índice
Canto I
Canto II
Canto III
Canto IV
Canto V
Canto VI
Canto VII
Canto VIII
Canto IX
Canto X
Canto XI
Canto XII
Canto XIII
Canto XIV
Canto XV
Canto XVI
Canto XVII
Canto XVIII
Canto XIX
Canto XX
Canto XXI
Canto XXII
Canto XXIII
Canto XXIV
Canto XXV
Canto XXVI
Canto XXVII
Canto XXVIII
Canto XXIX
Canto XXX
Canto XXXI
Canto XXXII
Canto XXXIII
PURGATÓRIO
CANTO I
Saindo do Inferno, Dante respira novamente o ar puro e vê fulgentíssimas estrelas. Encontra-se na ilha do Purgatório.O guardião da ilha, Catão Uticense, pergunta aos dois Poetas qual é o motivo da sua jornada. Ele os instrui, depois, relativamente ao que devem fazer, antes de iniciar a subida do monte.
DO engenho meu a barca as velas solta
Para correr agora em mar jucundo,
3 E ao despiedoso pego a popa volta.
Aquele reino cantarei segundo,
Onde pela alma a dita é merecida
6 De ir ao céu livre do pecado imundo.
Ressurja ora a poesia amortecida,
Ó Santas Musas, a quem sou votado;
9 Unir ao canto meu seja servida
Calíope o som alto e sublimado,
Que às Pegas esperar não permitira
12 Lhes fosse o atrevimento perdoado.
Suave cor de oriental safira,
Que se esparzia no sereno aspeito
15 Do ar até onde o céu primeiro gira,
Recreia a vista; e eu ledo me deleito
Em surdindo da estância tenebrosa,
18 Que tanto os olhos contristara e o peito.
A bela estrela, a amor auspiciosa
Sorrir alegre faz todo o Oriente,
21 Vela os Peixes, que a seguem, luminosa.
Ao outro pólo endereçando a mente,
Volto-me à destra, e os astros quatro vejo,
24 Que vira só a primitiva gente.
Folgar o céu parece ao seu lampejo.
Do Norte, ó região, viúva hás sido,
27 De os contemplar te não foi dado ensejo.
Depois de os remirar, já dirigido
Olhos havia para o pólo oposto,
30 Donde a Carroça havia-se partido,
Eis noto um velho, perto de mim posto,
Que reverência tanta merecia,
33 Que mais do pai não deve o filho ao rosto.
Nas longas barbas nívea cor saía,
Sendo na coma sua semelhante,
36 Que em dupla trança ao peito lhe caía.
A luz dos santos astros rutilante
De fulgor tanto lhe aclarava o gesto,
39 Que o vi, como se o sol lhe fosse adiante.
— “Quem sois que em contra o rio escuro e mesto
Do eterno cárcere heis fugido os laços?” —
42 Movendo as nobres plumas, disse presto.
“Quem vos guiou alumiando os passos
Para a profunda noite haver deixado,
45 Que enluta sempre os infernais espaços?
“As leis do abismo acaso se hão quebrado?
O céu dá, seus decretos revogando,
48 Que dos maus seja o meu domínio entrado?” —
Travou de mim Virgílio, me exortando
Por voz, aceno e mãos: como queria
51 Os joelhos curvei, olhos baixando.
— “De motu meu não vim” — lhe respondia —
De Dama aos rogos, que do céu descera
54 Socorro este homem, sirvo-lhe de guia.
Pois que é desejo teu que a nossa vera
Condição definida mais te seja,
57 Prestar me cumpro explicação sincera.
“Aura da vida este home’inda bafeja,
Mas tanto, de imprudente, se arriscara,
60 Que é maravilha vivo ainda esteja.
“Disse como a salvá-lo me apressara:
Por onde os passos dirigir pudesse
63 Essa vereda só se deparara.
“Mostrei-lhe a gente, que por má padece;
Mostrar-lhe intento os que ora estão purgando
66 Pecados no lugar, que te obedece.
“Longo seria como o vou guiando
Dizer-te: é força do alto a que me impele,
69 Para te ver e ouvir o encaminhando,
Digna-te, pois, bení’no ser com ele:
A liberdade anela, que é tão cara:
72 Sabe-o bem quem por ela a vida expele.
“Por ela a morte não te há sido amara
Em Útica, onde a veste foi deixada,
75 Que em Juízo há de ser de luz tão clara.
“Por nós eterna lei não é violada:
Ele inda vive; Minos não me empece;
78 No círc’lo estou, onde acha-se encerrada
“Tua Márcia, que em casto olhar parece
Rogar-te ainda que por tua a tenhas:
81 Lembrando-a em favor nosso te enternece.
“Ir deixa aos reinos teus, não nos retenhas;
Hei de a Márcia dizê-lo agradecido,
84 Se lá de ti falar-se não desdenhas.” —
— “Márcia, a meus olhos tão jucunda há sido
Que — tornou-lhe Catão — eu de bom grado
87 No mundo quanto quis lhe hei concedido.
“Estando além do rio detestado,
Mover-me ora não pode: este preceito
90 Me foi, deixando o Limbo, decretado.
“Se por dama celeste hás sido eleito,
Como disseste, é vã lisonja agora;
93 O que requeres em seu nome aceito.
“Vai, pois: cingindo este homem sem demora
De liso junco, lava-lhe o semblante;
96 Toda a impureza seja posta fora.
“Cumpre que, quando ele estiver perante
O anjo, que do céu vier primeiro,
99 Névoa nenhuma os olhos lhe quebrante.
“Lá onde baixa o ponto derradeiro
Do mar batido, esta ilha tem viçoso
102 Juncal que alastra todo o seu nateiro.
“Não pode vegetal rijo ou frondoso
Ter vida ali; porque não dobraria
105 Ao embate das ondas caprichoso.
“Aqui tornar inútil vos seria.
Vereis ao sol, que surge, o melhor passo
108 Para subir do monte à penedia.” —
Sumiu-se. Ergui-me, então, sem mais espaço,
E em silêncio; olhos fitos no semblante
111 De Virgílio, amparei-me com seu braço.
— “Comigo, ó filho” — diz-me — “segue avante.
Atrás voltemos; pois daqui se inclina
114 O plano para o mar, que jaz distante.” —
Fugia ante a alva a sombra matutina;
Já nos ficava aos olhos descoberta,
117 Posto remota, a oscilação marina.
Pela planície andávamos deserta,
Como quem trilha a estrada, que perdera,
120 E teme não achar vereda certa.
Chegando à parte, onde não pudera
Do rocio triunfar o sol nascente,
123 Porque à sombra o frescor pouco modera,
Sobre a relva meu Mestre brandamente
As mãos ambas abriu: o movimento
126 Lhe noto e, o compreendo, diligente,
As lacrimosas faces lhe apresento.
Virgílio as cores restaurou-me ao gesto,
129 Que desbotara o inferno nevoento.
Vimos à erma praia a passo lesto:
Nunca sobre águas suas navegara
132 Homem que o mundo torne a ver molesto.
Cingido fui, como Catão mandara.
Portento! A humilde planta renascida,
Qual antes vi no solo, onde a arrancara,
136 Sem diferença, de súbito crescida.
10. Calíope — Musa da epopéia. — 11. Pegas, as filhas de Pierio, desafiaram as Musas para cantarem com elas e, vencidas, foram transformadas em pegas. — 19. A bela estrela, Vênus. — 21. Os Peixes, a constelação dos Peixes. — 31. Um velho etc., Catão Uticense, que, para não entregar-se a Júlio César, suicidou-se em Útica. — 40. Rio escuro e mesto, o Aqueronte. — 79. Márcia, esposa de Catão.
CANTO II
Estão os Poetas ainda na praia, incertos em relação ao caminho, quando chega uma barca, guiada por um Anjo, da qual saem almas destinadas ao Purgatório. Uma delas, o músico Casella, amigo de Dante, a convite do Poeta, começa a cantar uma sua canção. Os dois Poetas e as almas ficam a ouvir o canto harmonioso. Sobrevém. porém, o severo Catão, que as repreende, e as almas fogem para o monte.
RESPLENDECIA o sol já no horizonte
Que tem meridiano, onde iminente
3 O zênite fica de Solima ao monte.
Na parte oposta a noite diligente
Do Ganges co’as Balanças se elevava,
6 Que lhe caem da mão, quando é excedente.
Já nesse tempo a idade transformava
A branca e rósea cor da bela Aurora
9 Noutra, que a de áureos pomos simulava.
Do mar ao longo inda éramos nessa hora,
Como quem, na jornada embevecido,
12 Se apressa em mente, os pés, porém, demora:
Eis, qual sobre manhã, enrubescido,
Das névoas através, Marte chameja
15 No ponente das ondas refletido,
Uma luz (praza a Deus de novo a veja!)
Tão veloz pelo mar vi deslizando,
18 Que não há vôo de ave, que igual seja.
Maior mostrou-se e mais fulgente, quando,
Depois de ter-me ao Guia meu voltado,
21 De novo olhei o seu brilho contemplando.
Nívea forma também, a cada lado,
Lhe divisei; abaixo aparecia
24 De igual cor outro vulto assinalado.
Té asas discernir permanecia
O sábio Mestre meu silencioso.
27 Mas então, como o nauta conhecia,
Bradou: “Curva os joelhos respeitoso,
Junta as mãos: eis de Deus um mensageiro!
30 De ora avante hás de ver outros ditoso.
“Vê que, aos humanos meios sobranceiro,
Para vir de tão longe velas, remos
33 Possui das asas no volver ligeiro.
“Como ele as alça para o céu já vemos,
Eternas plumas suas agitando;
36 Não mudam como dos mortais sabemos.” —
Em tanto, mais e mais se apropinquando,
Mais clara sobressai a ave divina:
39 Olhos abaixo à luz me deslumbrando.
O anjo logo à riba a nave inclina,
Tão rápida, tão leve, que parece
42 Voar somente na amplidão marina.
Na popa erguido o nauta resplendece:
Feliz quanto é lhe está na fronte escrito;
45 Das almas turba ao mando lhe obedece.
In exitu Israel de Egypto
A uma voz cantavam juntamente
48 E o mais, que foi no santo salmo dito.
Sinal da Cruz lhes fez devotamente:
Todos então à riba se lançaram
51 E tornou, como veio, incontinente.
Em volta remirando, os que ficaram
Pareciam de espanto apoderados,
54 Como quem a estranheza se acercaram.
O sol frechava os lumes seus dourados,
Lá do meio do céu tendo expelido
57 O Capricórnio a tiros reiterados,
Quando as almas, que haviam descendido,
Perguntam-nos: — “Sabeis, para indicar-nos,
60 Por onde o monte pode ser subido?”
Tornou Virgílio: — “Vos apraz julgar-nos
Do lugar sabedores; mas viandantes,
63 Como sois vós, deveis considerar-nos.
Chegáramos aqui, de vós, pouco antes,
Por estrada tão árdua e temerosa,
66 Que esta subida a par, jogo é de infantes.” —
Notando aquela turba, curiosa,
Que eu, pelo respirar, era homem vivo,
69 Enfiou ante a vista portentosa.
E como, a quem da paz ramo expressivo
Presenta, o povo acerca-se cuidoso
72 Em tropel de notícias por motivo:
O bando assim das almas venturoso
Em meu rosto atentava alvoroçado,
75 Quase esquecido de ir a ser formoso.
Uma, tendo-se às mais adiantado
A me abraçar correu com tanto afeito,
78 Que fui de impulso igual arrebatado.
Sombras vãs, verdadeiras só no aspeito!
Três vezes quis nos braços estreitá-la,
81 Só as três vezes estreitei ao peito.
Ante o espanto, que o gesto me assinala,
Sorriu-se; e, como já se retirasse,
84 Avançando, eu tentei acompanhá-la.
Suavemente disse que eu parasse,
Pedi-lhe, com certeza a conhecendo,
87 Que um pouco a praticar se demorasse:
— “Como te amei” — me respondeu — “vivendo
No mortal corpo, assim eu te amo agora.
90 Por que vais? Dize: ao teu desejo atendo.” —
“Caro Casella” — disse-lhe — “hei de embora
Tornar, ao fim desta jornada, à vida.
93 Por que de vir hás delongado a hora?” —
“Se a passagem negou-me requerida
Anjo, que as almas, quando apraz-lhe, guia,
96 Ofensa não me fez imerecida;
“Pois a justo querer obedecia.
Na barca em paz, três meses há somente,
99 A todos dá a entrada apetecida.
“Eu, que na plaga então era presente,
Onde no mar o Tibre as águas deita
102 Por ele aceito fui benignamente,
“A essa foz seus vôos endireita;
Pois sempre ali a grei stá reunida,
105 Às penas do Aqueronte não sujeita.” —
— “Se não é por lei nova proibida
Memória e usança do amoroso canto,
108 Que as mágoas todas me adoçou da vida,
“Praza-te amigo, confortar um tanto
Minha alma, que molesta, que amofina
111 Star envolta no corpóreo manto.” —
— “Amor que em minha mente raciocina” —
Entoou ele então com tal doçura,
114 Que o som donoso inda alma me domina.
Ao Mestre, a mim, a todos a brandura
Do saudoso cantar tanto elevava,
117 Que de ai a mente nossa então não cura.
Na toada, absorvida, se engolfava,
Eis de repente o velho venerando:
120 — “Que fazeis, descuidosos?” — nos bradava.
“Pois estais na indolência assim ficando?
Ide ao monte, a despir essa impureza,
123 Que a vista vos está de Deus vedando!” —
Quais pombos, que dos agros na largueza,
Em desejado pascigo embebidos,
126 Como olvidada a natural braveza,
Súbito arrancaram, de temor pungidos,
Se algum mal iminente lhes parece,
129 De cuidados maiores possuídos:
Tal a recente grei o canto esquece,
E, como homem, que vai sem ter roteiro,
Corre à costa, que aos olhos se oferece:
133 Não foi nosso partir menos ligeiro.
1-3. Resplendecia etc., colocando o Purgatório num hemisfério antípoda àquele da terra, o Poeta nota que onde ele estava o sol despontava e na mesma hora em Jerusalém (Solima) descia a noite. — 46. In exitu, etc., primeiro verso do Salmo 114. — 91. Casella, músico florentino amigo de Dante e que havia musicado algumas canções dele. — 119. O Velho, Catão.
CANTO III
Os dois Poetas se aprestam a subir o monte. Enquanto estão procurando o lugar onde a subida seja mais fácil, vêem um grupo de almas que lhes vêm ao encontro. Perguntam a elas onde seja a subida. Uma das almas se dá a conhecer a Dante. É Manfredo, rei de Nápoles e da Sicília. Ele narra como morreu, pedindo a Deus, na hora extrema. Estão juntas com ele, as almas dos que foram inimigos da Santa Igreja.
ENQUANTO aquela fuga repentina
Pela planície as sombras impelia
3 Ao monte, que a razão a amar ensina,
Ao sócio meu fiel eu me cingia:
Como sem ele houvera prosseguido?
6 Quem para alçar-me esforço me daria?
De remorsos parece possuído.
Ó consciência pura e sublimada,
9 Leve falta pesar te dá subido!
Quando atalhava a pressa, que é vedada
A quem dos atos no decoro atente,
12 Eu, que sentira a mente angustiada,
Tornando ao meu intento afoutamente
Os olhos à eminência levantava,
15 Que para o céu mais alto eleva a frente.
Nas espaldas o sol nos dardejava
Rubra luz, que o meu corpo interrompia,
18 Pois aos seus raios óbice formava.
Escuro ante mim só aparecia
O solo: eu, de abandono receoso,
21 Voltei-me ao lado onde era o sábio Guia.
Virgílio então me encara. — “Suspeitoso
Te mostras?” — diz — “Cuidavas, porventura,
24 Que eu não mais te acompanhe cuidadoso?
“Surge Vésper lá onde a sepultura
Guarda o corpo em que sombra já fizera
27 Tomando-o a Brindes, Nápole o assegura.
“Se ante mim não a vês, não te devera
Dar pasmo como lá no firmamento
30 Se a luz a luz não tolhe e não movera.
“Para calma sentir, frio ou tormento
Dispôs-nos corpo a suma Potestade.
33 Como o fez? Não nos deu conhecimento.
“Fátuo é quem julga à humana faculdade
Franco o infindo caminho e sempiterno,
36 Por onde segue o Ente Uno em Trindade.
“Homem, vos baste o quia: se ao superno
Saber alevantar-vos fosse dado,
39 Da Virgem ao seio não baixara o Eterno.
“Já viste porfiar sem resultado
Os que, cevar podendo seu desejo,
42 Em perpétua aflição o têm tornado.
“De Aristóteles falo neste ensejo,
De Platão, de outros mais.” — Baixando a fronte,
45 Calou; mostrava torvação e pejo.
Chegamos nós em tanto ao pé do monte
Onde era a rocha de tal modo erguida,
48 Que de subir capaz ninguém se conte.
A vereda mais erma e desabrida,
Que de Léria a Túrbia se encaminha,
51 Dá, confrontada, cômoda subida.
E o Mestre, assim falando, os pés detinha:
“Quem sabe onde a este monte o passo ascende?
54 Como aqui sem ter asas se caminha?”
Enquanto, baixo o rosto, o Mestre entende
Na jornada, em sua mente interrogando,
57 E pela altura a vista se me estende,
Divisei turba a nós endireitando
Da mão destra; o seu passo era tão lento,
60 Que não me parecia estar andando.
— “Aos que vêm” — disse ao Mestre — “mira atento;
Por eles pode ser conselho dado,
63 Se o não te of’rece o próprio pensamento...” —
Olhou-me, e com semblante asserenado
— “À turba vagarosa” — tornou — “vamos,
66 E a esperança te esforce, ó filho amado!” —
Passos mil para a grei nos caminhamos
E de tiro de pedra inda à distância,
69 Por mão destra arrojada, nos chamamos
Quando aqueles espíritos estância
Junto aos penhascos vi fazer, cerrados,
72 Qual transviado da incerteza em ânsia.
“Vós, eleitos ao bem, no bem finados” —
Disse Virgílio — “pela paz ditosa,
75 Em que sois todos, creio, esperançados,
“Dizei-me onde a montanha alta e fragosa
Subir permite, um pouco se inclinando:
78 Do tempo a perda ao sábio é desgostosa.” —
Como as ovelhas o redil deixando
A uma, duas, três e a cerviz tendo
81 Baixa as outras vão tímidas ficando;
Todas como a primeira, se movendo,
Conchegam-se-lhe ao dorso, se ela pára,
84 O porque, simples, quietas não sabendo:
Assim a demandar-nos se apressara
A venturosa grei, que no meneio
87 Traz a moléstia e o pudor na cara.
Tomada foi, porém, de tanto enleio,
Por minha sombra em vendo a luz cortada
90 A destra, em direção da rocha ao seio,
Que a vanguarda parou, como torvada:
Pelos mais sem detença foi seguida,
93 Mas sem lhes star a causa revelada.
— “A explicação previno apetecida:
Que um vivo corpo vedes confesso
96 E a luz do sol por este interrompida.
“Não haja em vós de maravilha excesso;
Do céu pela virtude socorrido,
99 Da montanha atingir quer o cabeço.” —
Disse Virgílio. — E foi-lhe respondido:
— “Voltai-vos; caminhai de nós diante.” —
102 E o lugar indicavam referido.
— “Sem que um momento deixes ir avante,
Quem quer que sejas, olha-me e declara”, —
105 Disse um deles, — “se hás visto o meu semblante.” —
Volvi-me, olhos fitando em quem falara.
Formoso e louro, tinha heróico aspeito;
108 Um golpe o seu sobrolho separara.
Tornei-lhe — “não” — tomado de respeito.
— “Olha!” — falou a sombra me indicando
111 Larga ferida no alto do seu peito.
“Vês Manfredo — sorriu-se me falando —
Que neto foi da Imperatriz Constança.
114 A minha bela filha diz, voltando,
(Mãe daqueles por quem tanta honra alcança
Aragão com Sicília) o que hás sabido,
117 Qual a verdade seja lhe afiança.
“Depois que foi o corpo meu ferido
De golpes dois mortais, a Deus piedoso
120 Alma entreguei, chorando arrependido.
“Fui de horrendos pecados criminoso,
Mas a Bondade Infinda acolhe e abraça
123 Quem perdão lhe suplica pesaroso.
“Se o Bispo que enviou Clemente à caça
Do meu cadáver, respeitado houvesse
126 Esse preceito da Divina Graça,
“Do corpo meu os ossos me parece,
Que em frente à ponte, ao pé de Benevento,
129 Em guarda o grave acervo inda tivesse.
“Agora os banha a chuva e açouta o vento,
Do reino meu distantes, junto ao Verde,
132 Onde os lançou sem luz, sem saimento.
“Mas anátema tanto alma não perde
Que, quando verde a esp’rança lhe floresce,
135 Do eterno amor do Criador deserde.
“Por certo, em contumácia o que fenece
Contra a Igreja, ainda quando se arrependa
138 Na hora extrema sua, aqui padece
“Tempo, que trinta vezes compreenda
Da impenitência o espaço, se ao decreto
141 Preces não trazem benfazeja emenda.
“Vês, pois, que podes me tornar quieto:
Revelando à piedade de Constança
Que interdito me hás visto ainda exceto
145 Pelas preces de lá muito se alcança.” —
25. Surge Vésper etc., o cadáver de Virgílio de Brindes foi transportado para Nápoles, onde, neste momento, descia a noite. — 37. Vos baste o guia, chega saber o que é, sem procurar a razão. — 50. De Léria a Túrbia, o caminho entre estas duas aldeias da Ligúria. — 112. Manfredo, filho do imperador Frederico II e neto da imperatriz Constança. — 114-16. Minha bela filha, Constança, esposa de Pedro III de Aragão teve dois filhos: Jaime que sucedeu ao pai em Aragão e Frederico, rei de Sicília. — 124. Se o bispo etc., Bartolomeu Pignatelli, bispo de Cosenza, por ordem do papa Clemente IV, desenterrou o corpo de Manfredo, que era excomungado, e o mandou jogar no Rio Verde. — 133. Anátema, excomunhão dos papas.
CANTO IV
Seguindo os conselhos recebidos, os Poetas, através de um caminho apertado e difícil, sobem ao primeiro salto. Virgílio explica a Dante que, encontrando-se em hemisfério antípoda àquela terra, o Sol gira em direção contrária. Vendo muitas almas recolhidas à sombra de um rochedo, e aproximando-se a elas, Dante reconhece o seu amigo Belacqua. Ai estão os espíritos preguiçosos dos que esperaram para arrepender-se o termo da vida.
QUANDO ou pelo prazer ou por desgosto
Das faculdades uma é possuída,
3 Concentrando-se, o espírito indisposto
Se mostra à ação, de outra qualquer nascida;
Verdade, que refuta a crença errada
6 — Quem em nós uma alma está noutra acendida.
E, pois, se vendo, ouvindo, alma engolfada,
Lia-se à cousa, que a atenção cativa,
9 Sem sentir vai-lhe o tempo à desfilada.
Pois faculdade só no ouvir ativa
Difere dessa, em que alma se domina:
12 Uma presa, outra a vínculos se esquiva.
Experiência ao claro isto me ensina.
Aquela sombra atônito escutando,
15 Já com cinqüenta graus o sol se empina,
Sem que eu me apercebido houvesse, quando
Ao ponto fomos, onde a turba, unida,
18 — “Haveis o que anelais!” — disse, bradando.
Estando a vinha já madurecida,
Pelo aldeão de espinhos com braçada
21 Da sebe a estreita aberta é defendida.
Mais larga é que a vereda alcantilada
Por onde fui subindo após meu Guia,
24 Quando a grei nos deixou abençoada.
A Noli e a San-Leo por árdua via
Com pés se vai, Bismântua assim se alcança;
27 Ter asas de ave aqui mister seria;
Ou asas de um desejo, que não cansa,
Para o vate seguir que, desvelado,
30 Me servia de luz, me dava esp’rança.
Por carreiro entre penhas escavado,
Sempre de agudas pontas empecido,
33 Pelas mãos cada passo era ajudado.
Chegados da alta escarpa ao topo erguido
Da eminência no dorso descoberto,
36 — “Por onde ir”— disse então —“Mestre querido?”
— “Eia!” — tornou — “não dês um passo incerto!
Vai subindo após mim pela montanha;
39 Guia acharemos no caminho esperto.” —
Não mede a vista elevação tamanha:
Linha que o centro corte de um quadrante,
42 Por certo a ingrimidez não lhe acompanha.
Sem forças já, falei-lhe titubante:
— “Volve a face, pai meu: olha piedoso
45 Que só me deixas, indo por diante” —
— “Para ali, filho” — diz — “te alça animoso!” —
E o seu braço indicava uma planura,
48 Que torneia o declive temeroso.
Dessas vozes esforça-me a doçura
Tanto, que a rastos lhe seguia o passo
51 Até meus pés tocarem nessa altura.
Sentamo-nos a par, então, de espaço
Ao nascente voltados, qual viageiro
54 A estrada olhando, que calcara lasso;
Abaixo os olhos dirigi primeiro,
Ao sol voltei depois; notei pasmado
57 Da esquerda o lume vir desse luzeiro.
Disse Virgílio ao ver quanto enleado
Stava, o carro da luz considerando
60 Que era entre nós e o Aquilão entrado:
— “Se um e outro hemisfério alumiando,
Castor e Pólux junto a si tivera
63 O vasto espelho, que ora está brilhando,
“Da Ursa ainda mais propínqua à esfera,
A roda do Zodíaco observaras,
66 Se a costumada estrela não perdera.
“Meditando, a verdade logo acharas,
Se colocados de Sião o monte,
69 E este outro na terra imaginaras,
“Ambos guardando idêntico horizonte
E hemisférios diversos, onde passa
72 Estrada, em que tão mal correu Fetonte,
“E se a razão em ti não for escassa,
Verás que, enquanto a um vai por um lado,
75 Ao outro pelo oposto o sol perpassa.” —
— “Tanto ao claro jamais, ó Mestre amado,
Como ora, o meu esp’rito compreendera,
78 Quando estava por dúvida nublado.
“Que o círc’lo médio da mais alta esfera,
Que sempre Equador chama-se em certa arte
81 Entre o inverno e o sol se considera,
“Deve (se pude a mente penetrar-te)
Para o norte volver-se, e, no entretanto,
84 Viam-no Hebreus de Áustro pela parte.
“Agora, se te apraz, dize-me quanto
Hemos de andar; que os olhos, da eminência
87 Não atingindo o fim, se enchem de espanto.” —
— “Da montanha” — responde — “é a excelência
Fadiga no começo causar grave;
90 Quem mais sobe acha menos resistência.
“Ao tempo, em que te parecer suave
Tanto, que a subas ágil e ligeiro,
93 Como descendo da água o curso a nave,
“No termo te acharás deste carreiro:
Após afã desfrutarás repouso:
96 Quanto digo hás de ver que é verdadeiro” —
Mal acabando o Mestre carinhoso,
Perto soa uma voz: — “Talvez te seja,
99 Antes de lá chegar, preciso um pouso.” —
Volveu-se cada qual para que veja
Quem falara; alta penha deparamos;
102 Então só vemos que à mão sestra esteja.
Multidão, cercando-nos, achamos
Que à sombra demorava quietamente;
105 Por desídia detidos os julgamos.
Mostra-se um mais que os outros negligente:
Sentado abraça as pernas, tendo o rosto
108 Recostado aos joelhos, qual dormente.
Disse então: — “Vê senhor, quanto disposto
É à inércia o que ali stá parecendo:
111 Como irmão da preguiça fica posto.” —
Ele um pouco voltou-se olhos movendo
Para o meu lado, sem mudar postura,
114 — “Pois vai tu, que és valente!” — me dizendo.
Reconheci quem era. Inda me dura
Da agra ascensão em parte o grande ofêgo;
117 Mas endereço os passos à figura.
A fronte mal ergueu, quando me achego.
— “Como conduz o sol carro à esquerda
120 Tens reparado?” — disse com sossego.
Por meneio tão lento e voz tão lerda
Fui algum tanto a riso provocado.
123 — “Belacqua” — disse eu — “mas a tua perda
Não choro. Por que estás aqui sentado?
Esperas guia? Acaso, como outrora,
126 Da preguiça te sentes cativado?” —
Tornou-me: — “Irmão, subir que importa agora?
De Deus o anjo, que defende a entrada,
129 Me deixaria dos martírios fora.
“Tanto a porta me tem de ser vedada,
Quanto no mundo me durara a vida:
132 Pesei-me só a morte ao ver chegada.
“Mas antes ser me pode permitida
Pela oração de quem da Graça goza;
135 Que vai outra, do céu desatendida?” —
Mas o Vate seguia na penosa
Jornada. — “Vem!” — dizia — “Resplandece
O sol no meio-dia; e tenebrosa
139 Sobre Marrocos ora a Noite desce.” —
5. A crença errada etc., de atribuir ao homem diversas almas, crença dos platônicos e dos maniqueus. — 15. Já com cinqüenta graus etc., o Sol percorre 15 graus por hora; portanto haviam passado quase 3 horas e meia. — 25-26. Noli, na Ligúria; São Leo, perto de Urbino; Bismântua, perto de Urbino. — 57. Da esquerda etc., o Purgatório se encontra num hemisfério antípoda, e portanto o sol aparecia a Dante pela esquerda quando no nosso hemisfério parece levantar-se à direita e caminhar à esquerda. — 68. Sião, Jerusalém, que é o lugar antípoda ao Purgatório. — 123. Belacqua, florentino, fabricante de instrumentos musicais, amigo de Dante. — 139. Sobre Marrocos, sendo meio-dia no Purgatório, em Jerusalém, no hemisfério oposto, era meia-noite, e a noite começava em Marrocos.
CANTO V
Prosseguindo os dois Poetas a sua viagem, encontram uma multidão de almas que se aproximam deles, depois de ter percebido que Dante é vivo. São espíritos de pessoas que saíram da vida por morte violenta, mas no fim se arrependeram e perdoaram a seus inimigos.
OS passos do meu Guia acompanhando,
Dessas almas um pouco era distante,
3 Quando uma, atrás de nós, o dedo alçando,
— “Vede! A luz” — exclamou — “não é brilhante
À sestra do que vai mais demorado;
6 Pelo meneio a um vivo é semelhante.”
Olhos volvi daquela voz ao brado,
E as vi notar, de maravilha cheias,
9 Como eu, andando, a sombra tinha ao lado.
— “Por que tanto, ó meu filho, assim te enleias?”
Disse o Mestre. — “Por que deténs o passo?
12 Acaso o murmurar daqui receias?
“Segue-me: a vozes vãs ouvido escasso!
Qual torre, inabalável sê, dos ventos
15 À fúria opondo válido embaraço;
“Quem firmeza não tem nos pensamentos,
Do fim se aparta, a que alma se endereça
18 E, assim, malogra, instável, seus intentos.
— “Sigo-te!” — ao Mestre meu tornei depressa.
Cumpria assim falar; meu voto incende
21 O rubor, que ao perdão a falta apressa.
Entanto por atalho a costa ascende
Adiante de nós turba cantando
24 Devota Miserere, e ao cimo tende.
Ao ver que estava o corpo meu vedando
Dos luminosos raios a passagem
27 O canto suspendeu, rouco “oh!” soltando
E dois dos seus em forma de mensagem
Correndo contra nós assim falaram:
30 “Quem sois, que assim fazeis esta viagem?”
Disse Virgílio: — “Aos que vos enviaram
Tornai que ao corpo do homem que estais vendo
33 Vitais alentos inda não deixaram.
“Se os passos, como cuido, estão detendo,
Por ver-lhe a sombra, a causa é conhecida;
36 Terão proveito, as honras lhe fazendo.” —
Mais prontos que os vapores à descida
Da noite, o ar sereno aluminando,
39 Ou névoa, ao pôr do sol, do céu varrida,
Partem, à grei de novo se ajuntando;
Como esquadrão, que corre à desfilada,
42 Voltam todos, a nós se arremessando.
“Ao nosso encontro vem turba avultada;
Pretensões todos têm” — disse-me o Guia
45 — “Andando, os ouve; não convém parada.”
— “Ó alma, que do céu vais à alegria
No próprio corpo, em que feliz nasceste,
48 Demora o passo um pouco” — a grei dizia,
“De entre nós vê se alguém reconheceste
Para ao mundo levares a notícia;
51 Por que deter-te ainda não quiseste?
“Morte a todos causou cruel nequícia;
Pecamos sempre até que à final hora
54 Do céu a luz se nos mostrou propícia.
“Assim, contritos, perdoando, fora
Fomos da vida, a paz com Deus já feita;
57 De o ver desejo nos acende agora.”
— “A feição vossa” — eu disse — “é tão desfeita,
Que nenhum reconheço; mas, se acaso
60 Ser útil posso no que a vós respeita,
“Pela paz, a servir-vos já me emprazo,
Que busco, deste sábio acompanhado,
63 De mundo em mundo, no mais breve prazo.”
“Cada qual” — me tornou — “está confiado
Em ti, mister não há teu juramento,
66 Se não faltar poder ao teu bom grado.
“Aos outros me antecipo: ao rogo atento,
Tu se fores à terra que demora
69 Entre a Romanha e a que é de Carlo assento,
“Aos meus em Fano compassivo exora
Que com preces sufraguem-me piedosos
72 Para o mal expurgar que fiz outrora.
“Nasci lá, sofri golpes espantosos,
Que a existência cortaram-me tão cara,
75 De Antenórios nos planos pantanosos,
“Onde o funesto fim nunca esperara.
Assim o quis do Marquês d’Este a ira,
78 Que o exício meu injusto aparelhara.
“Ah! se, fugindo, me acolhesse a Mira
Quando alcançou-me de Oriais perto,
81 Eu fora inda hoje aonde se respira.
“Mas, correndo ao paul, sem rumo certo,
Caí, no ceno e juncos enleado:
84 De sangue um lago fez meu peito aberto.”
“Se for” — outro então disse — “executado
Desejo que te impele ao alto monte,
87 Sê por mim de piedade impressionado.
“De Montefeltro fui e fui Buonconte;
De mim Joana, e ninguém mais, não cura;
90 Entre todos por isso abaixo a fronte.”
— “Que força — que má ventura
Tão longe te arrastou de Campaldino,
93 Que se ignora onde tens a sepultura?”
— “Oh!” — replicou-me — “Ao pé de Casentino
Um rio passa que se chama Arquiano,
96 Nascido lá sobre o Ermo, no Apenino.
“De dor lá onde o perde o nome, insano,
Cheguei: ao pé fugia, e, traspassado,
99 O colo meu ensangüentava o plano.
“Da vista e fala ao ser desamparado,
No suspiro final bradei — Maria! —
102 E o corpo meu tombou, da alma deixado.
“Direi verdade: aos vivos o anuncia.
De Deus anjo tomando-me, o do inferno
105 — “Servo do Céu, mo tomas?” lhe bramia.
“Dele me usurpas o princípio eterno
Por uma tênue lágrima fingida;
108 Mas do seu corpo cabe-me o governo.
“Bem sabes que nos ares recolhida
Vaporosa umidade em chuva desce,
111 Quando é do frio às regiões subida
“Como quem com maldade o engenho tece,
Névoas e vento acumulava, usando
114 Da pujança infernal que lhe obedece.
“Depois, o dia terminado estando,
Do Pratomagno à serra, o vale envolve
117 Em treva, ao céu a abóbada enlutando.
“Túmido o ar, em catadupas volve,
E a água que na terra não se entranha,
120 Espumosa em torrentes se revolve.
“Veloz os álveos aos arroios ganha,
E para o régio rio se arrojando,
123 Os óbices abate, que se assanha.
“Junto à foz meu cadáver encontrando
Levanta-o Arquiano impetuoso
126 Ao Arno o impele, os braços desligando
“Da cruz que fiz no transe doloroso.
Por fundo e margens rola-o, sepultado
129 Na areia o deixa, que arrastara iroso.” —
— “Ah! quando à luz do mundo hajas tornado,
Quando repouses da jornada extensa” —
132 Foi por terceiro espírito impetrado:
“De Pia recordando-te, em mim pensa;
Siena fizera o que desfez Marema.
Sabe-o quem me esposara e em recompensa
136 No dedo pôs-me anel com rica gema.” —
24. Miserere, o salmo que começa com essa palavra. — 68-69. A terra que demora etc., a Marca de Ancona. — 73. Nasci lá etc. Quem fala é Jacopo de Cassero, de Fano, que foi assassinado pelos sicários do Marquês Azzo III d’Este, quando se dirigia a Milão, em 1298. — 75. De Antenórios etc. no território de Pádua (cidade que se diz fundada por Antenor). — 88. Buonconte de Montefeltro, filho de Guido (Inf. XXVII), capitão gibelino, morreu na batalha de Campaldino. — 89. Joana, sua esposa. — 96. Ermo de Camaldoli. — 122. Regio rio, o Arno. — 133. Pia del Guastelloni. Casada com um gentil-homem da família Tolomei, ficou viúva e casou novamente com Nello Pannocchieschi, que a fez matar, talvez desconfiado da sua fidelidade, num castelo da Marema, em 1295.
CANTO VI
Dante promete às almas que a eles se recomendaram que não se esquecerá delas quando voltar ao mundo dos vivos. Os dois Poetas encontram o poeta Sordello, o qual, ao ouvir o nome da sua pátria, Mântua, abraça o mantuano Virgílio. Esse espisódio move Dante a uma violenta invectiva contra as divisões e as guerras internas que devastam a Itália.
QUANDO o jogo da zara é terminado,
Na amargura, o que perde, só ficando,
3 Os bons lances ensaia contristado.
A turba o vencedor acompanhando,
Qual vai diante qual por trás o prende,
6 Ao lado qual se está recomendando:
A este e àquele sem deter-se atende;
O que lhe alcança a mão parte se apressa;
9 De importunos desta arte se defende.
Cerca-me assim a multidão espessa,
Ora a uns ora a outros me volvendo,
12 De cada qual me livro por promessa.
O Aretino aqui stava: golpe horrendo,
De Ghin Tacco por mau, cortou-lhe a vida,
15 E o que na fuga se afogou, horrendo.
Aqui rogou-me em súplica sentida,
Frederico Novello e esse Pisano
18 Por quem Mazucco ação fez tão subida.
Vi o Conde Orso e aquele que o seu dano
Mortal, pelo ódio e inveja, recebera,
21 Como dizia, não por feito insano.
Aludo a Pedro Brosse. A que ora impera,
Do Brabante, se apressa a ter cautela,
24 Se não, da grei maldita a estância a espera.
Quando enfim, pude me esquivar àquela
Turba, que preces sôfrega pedia
27 Para a entrada apressar na mansão bela,
— “Em texto expresso” — eu disse — “ó douto Guia,
Do teu livro afirmaste que a vontade
30 Do céu por orações não se movia.
“Mas pede-as essa grei com ansiedade:
Seria acaso vã sua esperança?
33 Ou compreender não pude essa verdade?” —
— “Seu sentido a tua mente” — disse — “alcança;
Por vã essa esperança não falece;
36 Quanto é certa a razão nô-lo afiança:
“A Justiça do céu não desfalece,
Porque flama de amor num só momento
39 O devedor redime, que padece.
“Lá onde expus aquele pensamento
Não podia oração solver pecado,
42 Pois distante de Deus estava o intento.
“Porém neste problema sublimado
À mente por que há suma ciência
45 Te será puro lume revelado.
“Por quem? Por Beatriz. A continência
Feliz ridente lhe verás, ao viso
48 Quando houveres subido da eminência.” —
Tornei: — “Andar mais presto ora é preciso;
Como de antes, não sinto mor fadiga,
51 E da montanha a sombra já diviso.” —
— “Como podemos, é mister prossiga
O passo, enquanto o dia não se finda;
54 Mas te engana o desejo que te instiga.
“Antes do cimo aguardarás a vinda
Desse astro oculto agora pela encosta;
57 Não refranges os raios seus ainda.
“Aquela sombra vê, de parte posta,
Que, em soledade, atenta nos esguarda:
60 A vereda dirá melhor disposta.” —
Chegamo-nos. Ó nobre alma lombarda,
Como estavas altiva e desdenhosa.
63 Dos olhos no meneio grave e tarda!
Ela em nós encarou silenciosa,
Mas deixava-nos vir, nos observando,
66 Qual leão no repouso, majestosa.
Virgílio apropinquou-se, lhe rogando
Nos mostrasse a mais cômoda subida:
69 Respondeu-lhe, somente perguntando
Qual fora a pátria nossa e a nossa vida.
A falar o meu Guia começava:
72 “Em Mântua...” quando a sombra, comovida,
A ele se enviou donde se achava,
“Sordello sou” — dizendo — “em Mântua amada
75 Nasci também.” — E amplexo os estreitava.
Ah! serva Itália, da aflição morada!
Nau sem piloto em pego tormentoso!
78 Rainha outrora em lupanar tornada!
Esse espírito nobre e deleitoso
Nome escutando só da doce terra,
81 Logo o patrício acolhe carinhoso:
Os vivos raivam no teu solo em guerra;
Se encarniça um no outro ferozmente
84 Os que um só muro, uma só cava encerra.
Busca, ó mísera Itália, diligente
No mantimo teu, busca em teu seio:
87 Onde acha paz a tua infausta gente?
Justiniano em vão te ajeitar veio
A brida; a sela fica abandonada:
90 Maior vergonha te há causado o freio.
Ah! Cúria! Aos teus deveres dedicada
Deixar-te cumpre a César todo o mundo,
93 Como a lei quer por Cristo decretada!
Vê como, aos maus instintos se entregando
Ira-se a fera por faltar-lhe espora,
96 Depois que inábil mão stá governando.
Alberto de Germânia! Atente agora
Que é tornada indômita e bravia:
99 Cavalgado a deveras ter outrora!
Do céu justo castigo deveria
Os teus ferir — tão novo e tão sabido,
102 Que espante o sucessor da monarquia!
Tu e o teu genitor heis consentido,
Distantes, por cobiça, em terra estranha,
105 Que do Império o jardim steja esquecido.
Vê, descuidoso, na aflição tamanha,
Capelletti e Montecchi entristecidos.
108 Monaldi e Filippeschi, alvo de sanha.
Vem, cruel, ver fiéis teus suprimidos:
De tanto opróbrio seu toma vingança.
111 Vê como em Santaflor estão regidos!
Vem ver tua Roma! De carpir não cansa!
Viúva e só a todo o instante clama:
114 Vem, César! Vem! Não mates minha esp’rança!
Vem ver como a si próprio o povo se ama!
E se por nós piedade não te move,
117 Mova-te o zelo pela tua fama!
Se me é dado dizer, Supremo Jove,
Dos homens por amor sacrificado,
120 Mal tanto a nos olhar não te comove?
Ou tens ao nosso mal aparelhado,
Lá dos conselhos teus no abismo imenso,
123 Algum bem, ao saber nosso vedado?
As cidades de Itália um tropel denso
De tiranos subjuga e, qual Marcelo
126 Se aclama o faccioso, à pátria infenso.
Hás de, Florença minha, haver por belo
Este episódio a ti não referente,
129 Mercê do povo teu, de outros modelo.
Muitos, justiça tendo em peito e mente,
Por desfechar seu arco ensejo aguardam:
132 Teu povo a tem nos lábios permanente.
Muitos de encargos públicos se guardam;
Mas teu povo solícito se of’rece,
135 Gritando: — ”Pronto estou! em darmos tardam!” —
Exulta! A causa o mundo bem conhece:
Tens prudência, tens paz, possuis riqueza.
138 Falo a verdade, e o efeito transparece.
Atenas, Sparta, que a tão suma alteza
Por leis e instituições se sublimaram,
141 Sem governo viveram na incerteza,
Se, Florença, contigo se comparam,
Que em novembro tens visto revogadas
144 Leis sutis, que em outubro se forjaram.
Quantas vezes hão sido transformadas,
Em breve tempo, lei, moeda, usança?
147 Quantas índoles e forma renovadas?
Se vês ao claro e tens viva a lembrança,
Ao enfermo hás de achar que és semelhante,
Que, no leito jazendo, não descansa;
151 Em vão se agita, a dor vai por diante.
1. Jogo da zara — jogo de dados. — 13. O Aretino etc., o juiz Benincasa de Laterina, que foi assassinado pelo famoso bandoleiro Ghino del Tacco. — 15. E o que etc., Guccio Tarlati, de Pietramala, morreu afogado no Arno, perseguindo os inimigos derrotados numa batalha. — 17. Frederico Novello, morto ao socorrer os Tarlati de Pietramala. — Esse Pisano, Farinata degli Scornegiani, morto a traição. Seu pai Mazucco, que se fizera frade, perdoou ao assassino do filho. — 19. Conde Orso degli Alberti, assassinado por um seu primo. — E aquele, Pedro Brosse, médico de Filipe III de França, enforcado sob falsas acusações. — 28-30. Em texto expresso etc. Virgílio na “Eneida” (livro VI) negou que pudessem modificar-se os decretos do Céu. — 42. Pois distante etc., a prece só foi aceita depois do advento do Cristianismo. — 74. Sordello de’ Visconti de Mântua, poeta, jurisconsulto e guerreiro do século XIII. — 88. Justiniano, que consolidou a legislação romana. — 97. Alberto de Germânia, Alberto I, filho do imperador Rodolfo, eleito em 1296. — 107-8. Cappelletti e Montecchi, famílias de Verona. Monaldi e Filippeschi, famílias de Orvieto. — 111. Santaflor, feudo imperial nas vizinhanças de Siena. — 118. Supremo Jove, Jesus Cristo. — 125. Qual Marcelo, Cláudio Marcelo, adversário de Júlio César.
CANTO VII
Sordello, ao saber que aquele que abraçou é Virgílio, lhe faz novas e ainda maiores demonstrações de afeto. O Sol está próximo ao ocaso e ao Purgatório não se pode subir à noite. Guiados por Sordello, os dois Poetas param num vale, onde residem os espíritos de personagens que no mundo desfrutaram de grande consideração e que somente no fim da vida elevaram o seu pensamento a Deus.
DE doce afeto as mútuas mostras sendo
Por três ou quatro vezes reiterado
3 — “Quem sois?” — se retraiu Sordel dizendo.
— “Tinha Otávio os meus ossos sepultado
Já quando a este monte se elevaram
6 Almas que ao bem havia Deus chamado.
Virgílio sou: do céu não me afastaram
Pecados; me faltava a fé somente.” —
9 Do meu Guia estas vozes lhe tornaram.
Como quem ante si vê de repente
Maravilha: ora crê, ora duvida,
12 E diz: — É certo ou minha vista mente? —
Assim essa alma. Dobra a frente erguida
Humildemente, ao Vate se avizinha
15 E lhe abraça os joelhos comovida.
— “Ó glória dos Latinos!” — disse asinha —
Que ergueste a língua nossa a tanta altura!
18 Honra eterna da amada pátria minha!
“De ver-te o que me dá graça e ventura?
Dize, se di’no de te ouvir hei sido,
21 De qual círculo vens da estância escura.”
— “Tenho aqui” — Virgílio diz — “subido,
Do triste reino os círc’los visitando,
24 Sou do céu por virtude conduzido.
“Não por fazer, mas de fazer deixando,
Ver o sol, que desejas, me é vedado:
27 Conheci-o já tarde — ai miserando!
“Lá embaixo um lugar foi destinado
Não a martírio, à treva onde há somente
30 Suspiros, não gemer de angustiado.
“Ali stou eu, no meio da inocente
Grei, que a morte cruel mordeu, enquanto
33 Da culpa humana inda era dependente.
“Com aqueles stou eu, em quem seu manto
Três celestes virtudes não lançaram,
36 Lhes dando à vista o mais suave encanto.
“Mas sabes se veredas se deparam
Que ao Purgatório a entrada facilitem?
39 Os indícios nos diz, se te constaram.” —
Tornou: — “Lugar não há, que almas habitem
Aqui; na direção vou, que me agrada;
42 Guiarei quanto os passos me permitem.
“Mas vê: declina o dia; na jornada,
Que fazeis, caminhar a noite veda:
45 Busquemos sítio a cômoda pousada.
“À destra e à parte multidão stá queda:
Iremos até lá, se acaso o queres,
48 Talvez te seja a sua vida leda.” —
E o Mestre: — “Como? Pelo que proferes,
Impossível será subir sem dia?
51 Ou a alguém, que o proíba, te referes?” —
Com seu dedo Sordel linha fazia
No chão e disse: — “Além ninguém passara
54 Se, ausente o sol, a noite principia.
“Mas óbice qualquer não deparara
Quem caminhar, subindo, pretendesse:
57 Para tolhê-lo a noite já bastara.
“Bem pudera baixar, se lhe aprouvesse,
Pelo declive em volta da montanha:
60 Enquanto o sol sob o horizonte desce.” —
Torna Virgílio, então, que ouvindo estranha:
— “Ao lugar, que nos dizes, pois, nos guia,
63 Onde a demora o júbilo acompanha.” —
Pouco longe dali notei que havia
Depressão na montanha, semelhante
66 À que na terra um vale formaria.
— “Iremos” — disse a sombra — “um pouco avante
Té onde a encosta encurva, se escavando:
69 De lá voltar vereis a luz brilhante.” —
Entre a escarpa e o plano se inclinando
Trilha ao vale conduz obliquamente,
72 O pendor mais que ao meio, se adoçando.
Prata, alvaiade, grão, ouro fulgente,
Índico lenho límpido e lustroso,
75 Pura esmeralda, ao lapidar, luzente,
Por flores e ervas desse val formoso
Se achariam na cor escurecidos
78 Como cede o mais fraco ao mais forçoso.
Aos donosos males espargidos
Mil suaves aromas se ajuntavam,
81 Em peregrino muito reunidos.
Sobre a relva entre as flores entoavam
Salve Regina, as almas, que da vista
84 Externa no recinto se ocultavam.
“Do sol enquanto a luz inda persista” —
O Mantuano disse, que nos guia,
87 “Ir não queiras à grei que de nós dista.
“Gestos e vultos seus conheceria
Qualquer de vós daqui mais claramente
90 Do que, de perto os vendo, o poderia.
“O que parece, aos outros, eminente.
Da quebra em seus deveres pesaroso
93 E a geral melodia ouve silente,
“É Rodolfo que fora poderoso.
Conta o mal que já tem a Itália morta:
96 Quem lhe dará porvir esperançoso?
“O que com seu semblante ora o conforta
Governava esse reino onde a água brota,
99 Que o Molta ao Álbia, o Álbia ao mar transporta.
“É Otocar: na infância melhor nota
Teve que o filho, Venceslau barbudo,
102 Na luxúria e preguiça a vida esgota.
“Morrendo, o que não tem nariz agudo
E fala a esse outro de benino aspeito,
105 Deixou dos lizes deslustrado o escudo.
“Atentai: como bate ele no peito!
Vede aquele que ao ar suspiros lança
108 Da mão fazendo à sua face um leito.
“Sogro e pai do flagelo são da França;
Cientes do viver seu vergonhoso,
111 Dor stão sentindo, que ora não descansa.
“Esse membrudo, que o cantar piedoso
Segue do que nariz tem desmarcado,
114 Das virtudes no culto foi zeloso.
“Se o mancebo, ora atrás dele assentado,
Ao trono sucedera-lhe, subira
117 Valor de um Rei por outro fora herdado.
“Dos maus herdeiros qual pôs nisso a mira?
Jaime Fred’rico havendo o reino tido,
120 Nenhum a melhor parte possuíra.
“Rara vez tem nas ramas ressurgido
Primor alto da estirpe; assim o ordena
123 Aquele, a quem ser deve o bem pedido.
“Ao narigudo aplicação tem plena
Meu dito e a Pedro, que ao seu lado canta:
126 Apúlia com Provença, geme e pena.
“Tanto ao seu fruto excede em preço a planta,
Quanto, mais que Beatriz e Margarida,
129 Constança ações do esposo seu decanta.
“Ali vedes o Rei de simples vida
Sentado à parte, Henrique de Inglaterra:
132 Teve este em ramos seus melhor saída.
“Mais abaixo notai sentado em terra
Marquês Guilherme e para o alto olhando,
Por quem, sofrendo Alexandria guerra,
136 Montferrat, Canavese estão chorando.” —
4. Otávio, o imperador Augusto. — 94. Rodolfo, de Habsburgo, imperador de 1273 a 1291. — 96. Quem etc., o imperador Henrique VII, que tentou pôr ordem na Itália. — 98. Esse reino etc., a Boêmia, onde nasce o rio Moldava (Molta), que desemboca no Elba (Albia). — 100. Otocar II, adversário de Rodolfo, foi de melhor índole que seu filho Venceslau. — 103. O que não tem nariz agudo, Filipe III de França, pai de Filipe o Belo e de Carlos de Valois. — 104. Esse outro, Henrique I de Navarra, sogro de Filipe o Belo e pai de Joana I. — 109. Do flagelo da França, Filipe o Belo. — 112. Esse membrudo, Pedro III de Aragão, que, depois da revolução das Vésperas, conquistou a Sicília. — 113. Ao que nariz tem desmarcado, Carlos I de Ànjou que, vencendo Manfredo, conquistou a Sicília. — 115-20. Se o mancebo, Afonso III, primogênito de Pedro de Aragão, que morreu moço, foi melhor príncipe do que os seus sucessores, Jaime II no reino de Aragão e Frederico na Sicília. — 126. Apúlia etc., os reinos de Provença e de Nápoles lamentam a morte de Carlos I, pois são mal governados pelo seu sucessor Carlos II. — 127-29. O fruto etc., tão inferior é Carlo II de Anjou a Carlos I, quanto este foi inferior a Pedro III. — 131. Henrique III, da Inglaterra, o qual teve um bom sucessor na pessoa de Eduardo I. — 134. Marquês Guilherme, senhor de Monferrato, cuja morte originou uma guerra desastrosa para os seus súditos.
CANTO VIII
No começo da noite dois anjos descem do Céu para expelir a serpe maligna que quer entrar no vale. Entre as sombras que se aproximam dos Poetas, Dante reconhece Nino Visconti, de Pisa. Conrado Malaspina pede a Dante notícias de Lunigiana, sua pátria; Dante responde elogiando a sua família.
ERA o tempo, em que mais saudade sente
Do navegante o coração no dia
3 Do adeus a amigos, que relembra ausente;
E ao novel peregrino amor crucia,
Distante a voz do campanário ouvindo,
6 Que ao dia a morte, flébil, denuncia.
Não mais ouvia os olhos dirigindo
Perto um espírito vi que levantado,
9 Acenava, que ouvissem-no pedindo.
E, havendo as duas mãos juntas alçado,
Parecia, olhos fitos no Oriente,
12 A Deus dizer: És todo o meu cuidado!
Te lucis entoou devotamente
Com tão suave, tão piedoso canto,
15 Que me enlevava em êxtase a mente.
Com igual devoção e igual encanto,
Nas supernas esferas engolfados,
18 Repetiram os outros o hino santo.
Leitor, tem da alma os olhos afiados
Para os véus da verdade penetrares:
21 Fácil é, tão sutis são, tão delgados.
A nobre turba, após os seus cantares,
Calou-se; então notei que, como à espera,
24 Pálida e humilde a vista erguia aos ares.
E vi sair descendo, da alta esfera
Anjos dois, empunhando flamejantes
27 Gládios a que truncada a ponta era.
Verdes quais folhas novas vicejantes
As vestes suas são, as agitando
30 As plumas das suas asas viridantes.
Um acima de nós se colocando,
Baixara o outro sobre o lado oposto,
33 Desta arte as almas de permeio estando.
A flava coma via-lhes: seu rosto
Contemplar impossível me seria:
36 Confunde a vista o lúcido composto.
“Do sólio ambos descendem de Maria”
Sordelo diz — “a do vale por amparo,
39 Onde a serpente vai chegar ímpia.”
Por onde ela viesse estando ignaro
Em torno olhei e, do terror tomado,
42 Busquei refúgio ao pé do amigo caro.
Sordel prossegue: — “É de falar chegado
Àqueles grandes spíritos o instante:
45 Ledos serão de ver-vos ao seu lado.” —
Para baixar ao val me foi bastante
Três passos dar: um spírito fitava
48 Perscrutadora vista em meu semblante.
Já de sombras o ar se carregava;
Mas aos seus e aos meus olhos embaraço
51 Não era para ver-se o que ali stava.
A mim vem, eu para ele aperto o passo:
— “Nino exímio juiz quanto me agrada
54 Ver-te liberto do infernal regaço!”
De afeto após a mostra reiterada,
Inquiriu: — “Por longínquas águas quando
57 Chegaste ao pé da altura alcantilada?”
— “Oh!” — lhe tornei — “esta manhã, passando
Pela triste mansão: ainda a vida
60 Primeiro gozo e a outra vou buscando.” —
Mal fora esta resposta proferida,
Nino e Sordel, de pasmo, recuaram;
63 Como se fora maravilha ouvida.
Ao Vate este volveu-se; e se escutaram
Vozes de Nino a outro: — “Vem, Conrado, —
66 De Deus ver o que as leis determinaram!”
— “Por essa gratidão” — a mim voltado
Disse — “que ao Ente deves invisível,
69 Cuja ação compreender nos é vedado.
“Te imploro que, em passando o mar temível,
Digas à filha minha que suplique
72 Por mim: Deus à inocência é tão sensível!
“Não creio que em prol meu a mãe se aplique
Depois que os brancos véus trocou demente:
75 Dor terá infeliz! — que mortifique.
“Se conhece, por ela, facilmente
Quanto em mulher de amor fogo perdura
78 Se o caminho falece e o olhar freqüente.
“Não lhe fará tão bela sepultura
A víbora com que Milão se ostenta,
81 Como a fizera o galo de Galura.” —
Assim dizia Nino. Ainda o alenta
O justo zelo, que traduz no rosto,
84 Que brando ardendo, o ânimo aviventa.
Ávido os olhos tinha eu no céu posto,
À parte em que os luzeiros são mais lentos,
87 Qual roda onde o seu eixo está disposto.
E o Mestre: — “Os olhos ao que tens atentos?” —
Respondi-lhe: — “Aos três astros luminosos,
90 Que o pólo acendem, célicos portentos.” —
— “As quatro estrelas” — me tornou — “formosas,
Que por manhã já vimos, se ocultaram.
93 Aí mesmo estas surgem fulgurosas.” —
Sordel, quando estas vozes me voaram,
O tira a si dizendo: — “eis o inimigo!” —
96 Os olhos o seu dedo acompanharam.
Do val na parte exposta ver consigo
Uma serpe, que a rastos coleava:
99 Talvez o pomo deu, de Eva perigo.
Entre as ervas e flores avançava,
A um lado e a outro a fronte volteando;
102 Lambendo o dorso, a língua dilatava.
Não pude ver como ao réptil nefando
Os celestes açores se enviaram;
105 Mas atônito os vi ambos pairando.
O sussurro que as asas no ar formaram,
Em sentido, fugiu presto a serpente:
108 Os anjos logo aos postos seus tornaram.
A sombra, que viera incontinênti
Do juizo ao chamado enquanto o assalto
111 Durou, me estava olhando atentamente
— “Tenha o fanal, que te conduz ao alto
No teu desejo válido alimento!
114 De luz para subir não sejas falto!
“Mas se houveste” — me diz — “conhecimento
De Valdimagra ou terra que confina,
117 Declara: eu de poder lá tive aumento.
“Chamado fui Conrado Malaspina;
Não o antigo, porém seu descendente:
120 Amor, que tive aos meus aqui se afina.” —
— “Lá não fui” — respondi-lhe reverente —
“Mas da Europa em que parte a excelsa fama
123 Dos feitos vossos não tem eco ingente?
“A glória que o solar vosso proclama,
Honra o domínio, honra os seus senhores
126 Quem nunca os viu louvores seus aclama.
“Juro, e tão certo eu veja os esplendores
Do céu, que a vossa raça guarda intatos
129 Da opulência e bravura altos primores.
“Por sua índole egrégia, por seus atos,
Enquanto ao mundo um chefe mau transvia,
132 Só ela segue o bem e o prova em fatos.” —
— “Vai!” — disse — “Antes que o belo astro do dia
Sete vezes penetre nesse espaço,
135 Que o Áries cobre na celeste via,
“Tão boa opinião com fundo traço
Melhor será na tua fronte impressa
Do que de outro por voz a cada passo,
139 Se do Sumo Querer ordem não cessa.” —
1. Era o tempo etc., começava a cair a noite. — 13. Te lucis etc., começo de um hino da Igreja. — 19-21. Leitor etc., o Poeta adverte que além do sentido literal o que vai dizer tem um sentido alegórico. — 53. Nino exímio juiz, Ugolino Visconti, juiz de Galura, na Sardenha. — 65. Conrado, Conrado Malaspina, marquês de Lunigiana. — 71. À filha minha, Joana, filha de Nino. — 73. A mãe, Beatriz d’Este, viúva de Nino, desposara em segundas núpcias a Galeazzo Visconti. — 80. A víbora, brasão da família Visconti. — 119. O antigo, o avô de Conrado Malaspina, do mesmo nome. — 136. Tão boa opinião etc., em 1306 Dante teve boa acolhida nos Castelos dos Malaspina, em Lunigiana.
CANTO IX
Ao despontar do novo dia Dante adormece e, no sono é transportado por Luzia até a Porta do Purgatório. Aproximam-se da entrada e aqui um anjo abre-lhes a porta, depois de ter gravado na testa de Dante sete PP.
JÁ clareava de Titão antigo
A concubina as fímbrias do oriente,
3 Deixando os braços do seu doce amigo;
Era-lhe a fronte de astros refulgente,
Figura do animal frio formando,
6 Que vibra a cauda contra a humana gente.
No lugar, em que estávamos, se alçando
Dos passos seus havia a Noite andado,
9 E o terceiro ia as asas inclinando,
Quando eu, tendo o que Adam nos há legado,
De sono sobre a relva fui vencido,
12 Lá onde junto aos quatro era sentado.
Ante-manhã, na hora, em que gemido
Triste a andorinha a soluçar começa,
15 Talvez na antiga dor pondo o sentido;
Já não stando da carne mais opressa
A mente e livre do pensar terreno,
18 Quase divina por visões pareça,
Pairar sonhei que via no ar sereno
De áureas plumas uma águia, que mostrava
21 Querer baixar, das asas pelo aceno.
Estar eu na montanha imaginava,
Onde os seus Ganimede abandonara
24 Alado à corte excelsa, que o esperava.
E eu pensava: talvez esta ave rara,
Caçar aqui soindo, a nédia preia
27 Fazer noutros lugares desdenhara;
A traçar giros vários avistei-a:
Eis, terrível, qual raio, a mim se envia,
30 E lá do fogo à região me alteia.
Esta águia, então julguei, comigo ardia
Tanto, que foi o sonho meu quebrado
33 Pelo fingido incêndio, que eu sentia.
Como, acordando, Aquiles espantado
Ficou por não saber onde se achava
36 No lugar aos seus olhos devassado,
Quando a mãe que a Quíron o arrebatava,
O transportou a Sciro adormecido,
39 Donde astúcia depois lho retirava:
Assim fiquei ao ser desvanecido
Das pálpebras o sono, semelhante
42 A quem desmaia em cor de horror transido.
Junto a mim eu só vi naquele instante
Virgílio; o sol duas horas já media;
45 Ao mar tinha eu voltado inda o semblante.
— “Não teme!” — estas palavras proferia —
“Sê tranqüilo, o bom porto não mais dista,
48 Alarga o coração, não entibia;
“O Purgatório já daqui se avista.
Onde a rocha é fendida está a entrada,
51 A rocha o cinge e tolhe o aspeto à vista.
“Ao romper da alva ao dia antecipada,
Quando no vale em sono eras jazendo
54 Sobre a ervinha de flores esmaltada,
“Eis mostrou-se uma Dama nos dizendo:
Sou Luzia; pois dorme, vou trazê-lo,
57 Leve assim a jornada lhe fazendo —
“Ficando as nobres almas com Sordelo,
Tomou-te; e como já raiasse o dia
60 Subiu: seguiu seus passos, com desvelo
“Depôs-te; e por seus olhos me dizia
Que próxima ali stava a entrada aberta.
63 Ela se foi e o sono te fugia.” —
Como quem stando em dúvida, se acerta,
Converte o seu temor em confiança,
66 Logo em sendo a verdade descoberta:
Assim me achei mudado. Ele que alcança
Que esforçado já stou, vai por diante
69 Pela altura; o meu passo após avança.
Vês, leitor, que assunto altissonante
Se faz; e não estranhes se mais arte
72 Mor lustre lhe acrescenta de ora avante.
Acercamo-nos, pois, da rocha à parte,
Onde eu antes rotura divisava
75 Como em muralha fenda que reparte;
Ora uma porta e degraus três notava
Para entrar, cada qual de cor dif’rente,
78 E um porteiro que tácito ficava.
E, de mais perto olhando, claramente
No mais alto degrau o vi sentado:
81 Ofuscava-me a face refulgente.
Na destra um gládio eu tinha empunhado,
que tão vivos lampejos refletia,
84 Que em vão fitava os olhos deslumbrado.
— “Parai e respondei-me” — principia —
“Que intentais? Quem vos guia na jornada?
87 Efeitos não temeis dessa ousadia?” —
— “Dama do céu, de tudo isso inteirada”
— Falou Virgílio — “disse-nos: — Avante!
90 Não longe fica a porta desejada.” —
— “Seja ela aos vossos passos luz brilhante”
— Logo beni’no o anjo nos tornava —
93 “Aos degraus nossos vinde por diante.” —
Chegamos: o degrau primeiro estava
De alvo mármor tão terso, tão polido,
96 Que a minha imagem nele se espelhava.
Era escuro o segundo e não brunido,
Tosca pedra o formava e calcinada;
99 Ao longo a via e de través fendido.
De pórfiro o terceiro e carregada
Tinha a cor de vermelho flamejante,
102 Qual sangue, que da veia flui rasgada.
Neste firmava o anjo rutilante
Os pés, ao limiar sentado estando,
105 Que ser me pareceu de um só diamante.
Tirado por Virgílio vou-me alçando
Jubiloso. Ele disse — “Humildemente
108 Requer, que te abra a porta deprecando.” —
Aos sacros pés dobrei devoto a frente;
Misericórdia, vezes três batendo
111 Nos peitos, para abrir pedi fervente.
Da espada a ponta sete PP me havendo
Na testa aberto, disse o anjo: — “Lava
114 Lá dentro estes sinais te arrependendo.” —
Chaves duas tomou quando acabava,
De sob as vestes, onde a cor, atento
117 De terra seca eu cinzas observava.
Uma era de ouro, a outra era de argento.
Primeiro a branca, após a flava aplica
120 À porta: foi completo o meu contento.
— “Se emperrada das duas uma fica
E não dá volta” — disse — “à fechadura,
123 Isto entrada defesa significa.
“Se mais preço um tem, noutra se apura
Mais arte para abrir e mais engenho,
126 Das molas cede-lhe a prisão mais dura.
“Mandou Pedro de quem as chaves tenho
Que em abri-la antes erre que em cerrá-la
129 Aos que a exoram com ardente empenho.” —
Tocando a santa entrada, ainda nos fala:
— “Penetrai; mas, de agora, vos previno,
132 Quem olha para trás pra fora abala.” —
Os portões já se movem do divino
Recinto, e os espigões, rangendo, giram
135 Nos gonzos de metal sonoro e fino:
Quando, vãos de Metelo os esforços, viram
Roubado o erário, com estrondo tanto
138 As portas de Tarpéia não se abriram.
Aos rumores atento, doce canto —
Te Deum laudamus escutar julgava,
141 De conceitos unido ao meigo encanto.
Ouvindo, em mim a sensação calava,
Que a voz bem modulada nos motiva,
Quando com ternos sons de órgão se trava;
145 Que uma voz emudece, outra se esquiva.
1. De Titão antigo etc., a concubina do velho Titão é a aurora. — 5-6. Animal frio etc., talvez a constelação dos Peixes ou do Escorpião. — 23. Onde os seus Ganimede abandonara, quando Júpiter o fez raptar para servir de copeiro aos deuses, no Olimpo. — 34. Aquiles espantado etc., Tétis, mãe de Aquiles, o transportou para a ilha de Sciro, de onde os gregos Ulisses e Diômedes o conduziram à guerra de Tróia. — 56. Luzia, Santa Luzia. — 112. Sete PP, os sete pecados mortais. — 136. Quando vãos de Metelo os esforços etc., as portas do Purgatório se abriram com maior estrondo do que se abriram as portas da rocha Tarpéia, quando, apesar da resistência de Cecílio Metelo, Júlio César as abriu para apossar-se do dinheiro público.
CANTO X
Os dois Poetas sobem ao primeiro compartimento do Purgatório, cuja escarpa é de mármore, no qual estão esculpidos vários espisódios de humildade. Eles os observam e no entanto vêem em sua direção várias almas curvadas sob o peso de grandes pedras. São as almas dos que no mundo foram soberbos.
PASSADO estando o limiar da porta,
Das paixões pelo excesso desusada,
3 Que reta faz supor a estrada torta,
Pelo estrondo senti que era cerrada.
Se atrás volvesse os olhos, qual seria
6 A desculpa da falta perpetrada?
Subíamos por fenda que se abria
Na rocha, a um lado e ao outro serpeando,
9 Qual onda, que ora acerca, ora desvia.
“Aqui ser destro cumpre, acompanhando” —
Disse o Mestre — “o caminho árduo, fragoso,
12 Que as sinuosas voltas vai formando.” —
A passo íamos, pois, tão vagaroso,
Que a lua o crescente reclinado
15 Era já no seu leito de repouso,
Quando aquela estreiteza hemos deixado
Espaços livres alcançando e abertos,
18 Onde o monte pra trás era inclinado;
Eu inanido e ambos nós incertos
Da vereda, em planura enfim paramos,
21 Mais solitária que áridos desertos.
Do precipício a borda calculamos
Distar da oposta, em que o rochedo alteia,
24 Comprimento que em homens três achamos.
Na extensão, que ante mim se patenteia,
Da direita ou da esquerda igual largura
27 Nessa cornija aos olhos se franqueia.
Não déramos um passo na planura,
Quando notei que a escarpa sobranceira,
30 Que ascender não permite a sua altura,
Era alvo mármor, tendo a face inteira
Talhada com primor, que a Policleto
33 Tomara e à natureza a dianteira.
O anjo, que da paz trouxe o decreto,
Tantos séc’los com lágrimas pedido,
36 Que o céu abriu, donde o homem stava exceto,
Ao vivo ali mostrava-se insculpido,
No gesto e no meneio tão suave,
39 Que em pedra não parece estar fingido.
Quem não jurara que profere o Ave,
Pois juntamente figurada estava
42 Quem do supremo amor volvera a chave?
Seu semblante estas vozes expressava
Ecce ancilla tão propriamente,
45 Como na cera imagem, que se grava.
— “Num ponto só não prendas tanto a mente” —
Virgílio me falou, tendo-me ao lado,
48 Aonde o coração bater se sente.
Para mais longe olhei: maravilhado
Após Maria então vi que disposta,
51 Da parte, em que era o Mestre colocado,
Fora outra história em mármore composta.
Ao sábio adiantei-me: de mais perto
54 Aos meus olhos melhor ficara exposta.
O carro com seus bois na rocha aberto
E a Arca santa que conduz, mirava:
57 Lembra aos profanos o castigo certo.
Em coros sete o povo ali cantava:
Do olhar em mim o ouvido dissentia,
60 Pois se um dizia sim, outro negava;
De igual modo na pedra percebia
Ao ar o fumo se elevar do incenso:
63 Da vista o asserto o olfato desmentia.
Da Arca adiante, com fervor imenso,
Dançando humilde via-se o salmista,
66 Mais e menos que um Rei no zelo intenso.
Mícol, do régio paço, em frente, a vista
No Rei fitava, o ato lhe estranhando,
69 Que lhe move desgosto e que a contrista.
Desse lugar depois eu me afastando,
De perto contemplar fui outra história,
72 Que além um pouco, estava branquejando.
Aqui brilhava a preminente glória
Desse famoso Imperador romano,
75 Por quem Gregório obteve alta vitória.
Ao natural tirado era Trajano:
Do freio do corcel mulher tratava;
78 Dizia o pranto sua dor, seu dano.
De cavalheiros tropa se apinhava,
E nas bandeiras a águia de ouro alçada
81 Acima dele aos ventos tremulava.
A infeliz, dos guerreiros rodeada,
Parecia dizer: — “Senhor, vingança!
84 Morto é meu filho e eu gemo atribulada.”
E Trajano tornar: — “Toma esperança
Até que eu volte.” — E a mísera pungida
87 Da dor que, em mãe, a tudo se abalança:
— “Senhor, se não voltares?” — “Deferida
Serás de herdeiro meu.” — “Bem que outro faça
90 Que val’, se a obrigação tens esquecida?” —
E ele: — “Ânimo esforça na desgraça.
Meu dever cumprirei sem mais espera,
93 Justiça o exige, compaixão me enlaça.” —
Quem novas cousas nunca vê, fizera
Visível sobre a pedra esta linguagem:
96 Arte não sobe a tão sublime esfera.
Enquanto me enleava em cada imagem,
Em que há dado aos extremos da humildade
99 De operário a perícia mor vantagem,
— “Eis almas lentamente em quantidade
Acercam-se; a mais alta” — disse o Guia —
102 “Nos pode encaminhar sua bondade.” —
A vista, que em portentos se embebia,
De olhar outros já sôfrega, volvendo,
105 Atentei no que o Mestre me advertia.
Mas, leitor, que esmoreças não pretendo,
Nem que os bons pensamentos te faleçam,
108 Como os pecados pune Deus sabendo.
Nem os martírios nímios te pareçam;
Pensa bem no porvir; pois, em chegando,
111 O grão Juízo, em caso extremo, cessam.
E eu disse: — “O que ora a nós vem caminhando
Não creio sombras ser: o que é portanto?
114 Não sei, a percepção turbada estando.” —
— “Do seu tormento, que te movo espanto
É condição à terra irem curvados:
117 Também a vista duvidou-me um tanto.
“Olhos fita; imagina levantados
Os que vêm dessas pedras oprimidos:
120 Já vês quanto eles são atormentados.”
Cristãos soberbos, míseros, perdidos,
Cegos da alma, que haveis pra trás andado,
123 De tanta confiança possuídos,
Que vermes somos não vos stá provado,
De que surge a celeste borboleta,
126 Que incerta voa ao tribunal sagrado?
Por que do orgulho assim passais a meta,
Se sois insetos no embrião somente,
129 Vermes de formação inda incompleta?
A modo de pilar ver-se é freqüente,
Joelhos, peito unindo, uma figura
132 Cornija ou teto a sustentar ingente.
Da dor mera ficção move tristura
Em quem olha: senti então notando
135 Das almas penitentes a postura.
Mais umas, outras menos, se dobrando
Iam, segundo o fardo, que traziam;
E as que eram mais sofridas, pranteando,
139 Não posso mais! — dizer me pareciam.
32. Policleto, célebre escultor grego. — 34. O anjo, Gabriel. — 42. Quem, etc., a virgem Maria. — 57. Lembra aos profanos o castigo certo, Oza caiu fulminado por ter-se aproximado da Arca, que ameaçava cair (Samuel II-6). — 65-66. Dançando humilde via-se o salmista, Davi dançava precedendo a Arca. — 67. Mícol, esposa de Davi manifestava censura pelo ato humilde do esposo. — 74-75. Desse famoso imperador, Trajano, que, segundo uma lenda, o papa Gregório I conseguiu, com suas preces, voltasse à vida terrena e, batizado, fosse para o Céu. — 124-126. Que vermes somos etc., como do verme nasce a borboleta, assim nós homens outra coisa não somos senão vermes dos quais devem surgir as borboletas dignas de subir ao Céu.
CANTO XI
Virgílio pergunta às almas que purgam o pecado da soberbia qual é o caminho para subir ao segundo compartimento, e uma delas dá a indicação requerida. Umberto Aldobrandeschi dá-se a conhecer e fala com Dante, que, depois, reconhece Oderisi de Gubbio, pintor e gravador. Oderisi dá-lhe notícia de Provenzano Salvani, que está junto com eles.
VÓS, que nos céus estais, ó Padre nosso,
Não circunscrito, mas porque haveis dado
3 Mais aos primeiros seres o amor vosso,
“Vosso nome e poder seja louvado!
Graças à criatura jubilosa
6 Ao saber vosso renda sublimado!
“Do reino vosso a paz venha ditosa!
Que vão de havê-la o empenho nos seria,
9 Se não vier da vossa mão piedosa.
“Como a vós a vontade se humilia
Dos vossos anjos, entoando hosana,
12 Façam assim os homens cada dia!
“A substância nos dai quotidiana
Hoje: sem ela em áspero deserto
15 Se atrasa quem por ir além se afana!
“E como a quem nos faz mal descoberto
Damos perdão, nos perdoai clemente,
18 Indi’nos sendo nós, Senhor, por certo.
“Oh! não deixeis cair a defidente
Virtude nossa em tentação do imigo!
21 Livrai-nos dele, em nos pungir ardente!
“Não mais somos, Senhor, nesse perigo,
Em que precisa esta oração nos seja;
24 Mas não os que hão mister na terra abrigo.” —
Ao céu rogando que ao seu bem proveja
E ao nosso, as almas sob o peso andavam,
27 Como o que oprime a quem sonhando esteja.
Com desigual gravame se arrastavam
Ofegantes no círculo primeiro,
30 E do pecado as névoas expurgavam,
Se em bem nosso com zelo verdadeiro,
Oram, como em seu prol fará no mundo
33 Quem tem no bem querer seu peito useiro?
Ajudemo-las, pois, vestígio imundo
A lavar, por que leves, puras sejam,
36 Do céu se alando ao brilho sem segundo.
“Ah! compaixão, justiça vos consigam
Presto alívio, e possais, o vôo erguendo,
39 Ir até onde os desejos vos instigam!
“Valei-nos a vereda nos dizendo
Mais curta ou a que é menos escarpada,
42 Mais de um caminho a se ascender havendo.
“Ao companheiro meu assaz pesada
É a carne de Adam, que inda o reveste:
45 Por mais que esforce, o afana esta jornada.” —
A voz, que respondeu ao Mestre a este
Dizer, não sei a que alma pertencia
48 Por indício qualquer, que o manifeste:
— “Vinde à direita em nossa companhia
Pela encosta, e vereis o passo estreito,
51 Que uma pessoa viva subiria.
“Se este penedo não tolhesse o jeito,
A cerviz orgulhosa me domando
54 E obrigando a juntar o rosto ao peito,
“Deste homem para a face, atento olhando,
(Não sei quem é) talvez o conhecera,
57 E assim me fora compassivo e brando.
“Toscano fui, ilustre pai tivera.
Guilherme Aldobrandeschi se chamava:
60 O nome seu algum de vós soubera?
“Tanta arrogância a glória me inspirava
Do meu solar e os feitos valorosos,
63 Que a nossa mãe comum não mais pensava,
“Olhos volvendo a todos desdenhosos.
Perdi-me assim; os atos meus em Siena
66 Foram em Campagnatico famosos.
“Chamei-me Umberto; da soberba a pena
A mim não coube só: de igual desgraça
69 Vem a causa que aos meus todos condena.
“Este fardo, que os passos me embaraça
Mereço, por cumprir-se a lei divina:
72 Vivo o não fiz, é justo que ora o faça.” —
Enquanto, ouvindo, a fronte se me inclina,
Uma das almas (não a que falava)
75 Sob o peso se torce, que a amofina.
E viu-me e, conhecendo-me, chamava,
Os olhos seus fitando esbaforida
78 Em mim, que, recurvado a acompanhava.
— “Oderisi não foste” — eu disse — “em vida,
Honra de Agubbio, honra daquela arte
81 Que iluminar Paris ora apelida?” —
— Tornou-me: — “Hoje o pincel (cumpre informar-te)
De Franco de Bolonha mais agrada:
84 A honra é toda sua, minha em parte.
“Por mim não fora em vida proclamada
Esta verdade, quando esta alma ardia
87 Na ambição de primar nessa arte amada.
“Aqui de tal soberba o mal se expia;
Staria alhures; mas a Deus eu pude
90 Mostrar que de pecar me arrependia.
“Quanto a vaidade o peito humano ilude!
Dessa flor como esvai-se a formosura,
93 Se não seguir-se um séc’lo inculto e rude!
Cimabue cuidou ter na pintura
A liça dominado: mas vencido
96 Ficou: a glória Giotto fez-lhe escura.
Assim de estilo na arte cede um Guido,
A palma a outro: agora é bem provável
99 Seja de ambos o mestre já nascido.
“Rumor mundano é como vento instável
Que a direção varia de repente:
102 Conforme o lado, o nome tem mudável.
“De ti que fama ficará manente,
Se da velhice cais no extremo passo,
105 Ou se findas na infância inconsciente,
“De hoje a mil anos, tempo mais escasso,
Da eternidade em face, que um momento
108 Ante a esfera a mais tarda lá no espaço?
“Quem me precede e vai assim tão lento
Na Toscana entre todos foi famoso:
111 Apenas salvo está do esquecimento.
“Em Siena, que há regido poderoso,
Quando perdeu-se a raiva florentina.
114 Soberba então, objeto hoje asqueroso.
“A fama vossa iguala-se à bonina,
Que flore e morre: o sol, por quem nascera
117 Na terra a prostra e a cor cresta à mofina.” —
Respondi-lhe: — “O dizer teu em mim gera
Saudável humildade e o orgulho mata.
120 Esse, que apontas, conta-me quem era.” —
“De Provenzan Salvani” — diz — “se trata:
Aqui stá, porque Siena ele cuidara
123 Ter nas mãos — presunção de alma insensata!
“Caminha assim curvado, e nunca pára
Dês que a vida perdeu eis o castigo
126 De quem tanto à soberba se entregara!” —
— “Se o que demora até final perigo
A penitência” — eu disse — “e errado corre,
129 Subir não pode e aqui não acha abrigo,
“Se uma oração piedosa o não socorre,
Durante prazo igual ao da existência,
132 Como ao martírio Provenzan concorre?” —
— “Quando era” — torna — “no auge da influência,
Sobre a praça de Siena, suplicando,
135 Ter ante o povo humilde continência,
“De um amigo o resgate procurando,
Que era por Carlos em prisão detido,
138 Tremeu angustiado e miserando.
“Não mais: não sou, de obscuro, compreendido,
Mas te há de ser em breve isto explicado
Por filhos dessa terra em que hás nascido. —
142 “Por tão bom feito o ingresso lhe foi dado.”
59. Guilherme Aldobrandeschi, senhor de Grosseto. Quem fala é o filho Umberto, que guerreou contra Pisa. — 79. Oderisi de Gubbio, excelente pintor e miniaturista. — 83. Franco de Bolonha, célebre miniaturista. — 94-96. Giotto e Cimabue, célebres pintores. Giotto, discípulo de Cimabue, superou o mestre na sua arte. — 97-98. Um Guido e outro, Guido Cavalcanti superou a Guido Guinicelli na arte da poesia. — 121. Provenzano Salvani, de Siena, senhor muito poderoso, morto na batalha de Colle em 1269. — 133-138. Quando era etc., para obter a libertação de um amigo prisioneiro de Carlos d’Anjou, ele se humilhou a pedir a esmola aos seus concidadãos.
CANTO XII
Os dois Poetas continuam a viagem. No pavimento do círculo estão pintados vários exemplos de soberbia castigada. Um anjo vem junto dos Poetas e os guia até a escada que sobe ao compartimento sucessivo. Com a asa, depois, apaga da testa de Dante um dos PP.
A PAR, como dois bois, que o jugo unira,
Eu com essa alma opressa e titubeante
3 Ia, enquanto Virgílio permitira.
Eis disse-me: — “Deixando-a, segue avante:
Deve fazer de vela e remos força
6 Quem quer à parca impulso dar constante.” —
A caminhar dispus-me à voz, que esforça,
Erguendo logo o corpo, inda que a mente
9 Na humildade a modéstia acurve e estorça.
Já os pés acelero e facilmente
A Virgílio acompanho: de porfia,
12 Se mostra cada qual mais diligente.
— “À terra olhos inclina” — então dizia —
“Para a jornada aligeirar atenta
15 No solo, onde o meu passo aos teus é guia.”
Assim como na campa se aviventa
A memória dos mortos, insculpindo
18 Imagem, que a existência representa,
Que de saudade os corações ferindo,
À piedade propensos e à ternura,
21 Os vai ao pranto muita vez pungindo:
Assim, com perfeição sublime e pura,
Figuras via sobre aquela estrada,
24 Que sobe, serpeando, pela altura.
Via, a um lado, dos céus precipitada
Das criaturas a mais bela e nobre,
27 Qual raio, pelo espaço arremessada.
A vista, o outro, Briaréu descobre
De projétil celeste transpassado:
30 Gélido a terra desmedido cobre.
Com Marte e Palas stava figurado
Timbreu, em torno ao pai de armas fornidos,
33 Vendo o campo de imigos alastrado.
Nemrod olhos volvia espavoridos,
Junto à feitura imensa, aos companheiros,
36 Que a Sanaar seguiram-no, descridos.
Ó Níobe, com braços verdadeiros
Que dor nos olhos teus aparecia,
39 Os filhos mortos vendo, quais cordeiros!
Saul, a própria espada te extinguia
Sobre a montanha Gelboé — maldita,
42 Orvalho ou chuva ali não mais caía.
Ó louca Aracne, tua face aflita,
De aranha parte entre os destroços stava
45 Da teia, origem da fatal desdita.
Não mais a tua imagem cominava;
Num carro foges, Roboam cruento,
48 À fúria popular, que te assombrava.
Amostrava ainda o duro pavimento
Como fez Alcmeon pagar tão caro
51 À mãe o funestíssimo ornamento.
Mostrava mais como flagício raro
Senaqueribe no templo assassinado
54 Por filhos, que deveram ser-lhe amparo.
Mostrava também Ciro degolado
E Tamíris dizendo acesa em ira
57 — Sede tinhas de sangue, sê saciado! —
A multidão de Assírios que fugira,
Mostrava ao verem de Holoferne a morte,
60 E o castigo que os passos lhes seguira.
Via no pó, nas cinzas Tróia forte:
Ó soberba Ílion, a pedra dura
63 Mostrava a tua lamentável sorte!
Que mestre no pincel ou na escultura
Posturas, sombras tais traçar pudera,
66 Pasmo ao gênio, que atinja a suma altura?
Real ou morte ou vida aos olhos era:
A verdade não viu na própria cena
69 Melhor que eu quando a efígie a olhar stivera.
A fronte entonai, pois, de orgulho plena,
Ó filhos de Eva, os olhos não baixando
72 Ao caminho, onde achais devida pena!
Mais íamos no monte caminhando
E no seu giro o Sol mais avançara
75 Do que eu cuidava, absorto contemplando,
Quando aquele, que sempre me guiara
Desvelado, me disse: — “Alça a cabeça!
78 Não te engolfes! atento sê! repara!
“Olha aquele anjo que caminha à pressa
Ao nosso encontro: acaba a terra sexta
81 Do dia o lavor certo e outra começa.
“Reverência em teu gesto manifesta
Para o anjo à viagem ser propício,
84 Não volta o dia de que pouco resta.” —
Aproveitar do tempo o benefício
Era do Mestre a regra; e, pois, naquela
87 Matéria não lhe achei de obscuro o indício.
Já nos demanda a criatura bela:
Trajava branco, a face resplendia,
90 Qual, tremulando, matutina estrela.
Braços abria e asas estendia,
Dizendo: — “Vinde! que os degraus stão perto:
93 A jornada já fácil se anuncia.” —
Raros escutam essa voz, por certo:
Ó gente humana, para o céu nascida,
96 Por que decaís do vento a um sopro incerto?
Imos à rocha, por degraus partida:
De uma das asas me roçou na fronte,
99 Prometendo-me próspera subida.
Como à direita quem se erguer ao monte,
Donde se avista a igreja que domina
102 A bem regida ao pé de Rubaconte,
Sente que aos pés a ingremidade inclina
Pela escada talhada antes que houvesse
105 Em livros e medidas a rapina:
Adoça-se o pendor assim; pois desce
De um círc’lo a outro a rocha que alterosa
108 A um lado e ao outro augusto passo of’rece.
Subindo em melodia tão donosa
Beati pauperes spiritu escutamos,
111 Que a voz, que o diga é pouco vigorosa
Quão dif’rentes os áditos que entramos,
Dos infernais! Aqui suave canto,
114 Lá gritos de ira ouvindo caminhamos.
Vencendo esses degraus do monte santo
Mais ágil me sentia: lá no plano
117 Fácil nunca a jornada fora tanto.
Eu disse: — “Ó Mestre, de que peso insano
Sinto-me livre, pois no estreito passo,
120 Como de antes agora não afano!” —
— “Quando os PP que inda tens em vivo traço
Sobre a fronte” — tornou-me — “se apagarem,
123 Como não hás de ter mais embaraço,
“Segundo o teu desejo os pés andarem
Sentirás sem fadiga, e até gozando
126 Deleite, para a altura ao caminharem.”
Como o que traz, na praça passeando,
Cousa, que ignora, na cabeça posta,
129 E, por ver sinais de outrem, suspeitando,
À mão pede socorro; ela, em resposta,
Procura, acha, um serviço assim rendendo,
132 A que a vista não pode ser disposta:
Assim, da destra os dedos estendendo,
Conheci que das letras, que o anjo abrira,
Stavam somente seis remanescendo.
136 Sorriu-se o Mestre, que o meu gesto vira.
25-27. Via, a um lado etc., Lúcifer, o anjo que se rebelou contra Deus. — 28. Briareu, gigante que se rebelou contra Júpiter e foi fulminado. — 31. Marte, Palas e Timbreu (Apolo), que dominaram os gigantes rebeldes. — 34-35. Nemrod etc., que na planície de Senaar, começou a construção da torre de Babel. — 37. Níobe, desprezando Latona por ter esta somente dois filhos, quando ela tinha doze, por castigo foram todos mortos por Apolo e Diana. — 40-41. Saul, rei de Israel, derrotado em Gelboé, suicidou-se. — 43-45. Aracne, tendo desafiado Minerva para saber quem melhor tecia, foi por esta transformada em aranha. — 47. Roboam, filho de Salomão, oprimiu o povo de Israel no seu reinado e foi obrigado a fugir em conseqüência de revolta popular. — 50. Alcmeon, matou a própria mãe Erifiles, pois esta, para ganhar um colar de ouro, havia revelado o esconderijo do seu marido Anfiarau aos inimigos. — 53. Senaqueribe, rei dos Assírios, foi morto pelos filhos. — 55-57. Tamíris, rainha dos Massagetas, tendo vencido Ciro, o mandou matar num odre cheio de sangue, dizendo: Sacia-te de sangue, monstro. — 59-60. Holofernes, general assírio, morto por Judite durante o sítio da cidade de Betúlia. — 61-63. Tróia ou Ílion, destruída pelos gregos. — 80. A terra sexta, a hora sexta, meio-dia. — 102. Rubaconte, ponte de Florença.
CANTO XIII
Chegam os Poetas ao segundo compartimento, no qual estão os pecadores que expiam o pecado da inveja. Os invejosos têm os olhos cosidos com fio de arame. Entre eles está Sápia, senhora de Siena, com a qual Dante fala.
DA escada ao topo havíamos chegado,
Onde, outra vez cortado, o monte estreita,
3 Que alma sobe, expiando o seu pecado.
Como a primeira, outra cornija feita
Circundava a colina, só dif’rente
6 Em que a um arco menor ela se ajeita.
Relevo, formas, como a precedente,
Não mostra: e, lisa sobre a escarpa a entrada,
9 Lívida cor a pedra tem somente.
— “Se a presença de alguém fosse esperada,
Que nos preste conselho” — diz meu Guia —
12 “Temo que fique a escolha retardada.” —
Os olhos para o sol depois erguia,
E, sobre o pé direito se firmando,
15 Para a esquerda girava e se volvia.
— “Tu, de quem tudo fio, ó lume brando
No caminho conduz-nos que se of’rece
18 Como o exige o lugar” — disse — “guiando!
“Raiando, o teu calor o mundo aquece:
Se motivo não surge de embaraço,
21 De conduzir-nos teu fulgor não cesse!”
Vencido em breve tínhamos espaço,
Que por milha na terra calculamos,
24 Porque o desejo estimulava o passo:
Em direitura a nós voar julgamos
Invisíveis espíritos, chamando
27 De amor à mesa em lépidos reclamos.
A voz primeira que passou voando,
Vinum non habent proferiu sonora
30 E ainda muito além foi reiterando.
Mas antes de perder-se pelo ar fora,
Outra acercou-se. — “Orestes sou!” — dizia;
33 E apartou-se igualmente sem demora.
— “Que vozes estas são, Mestre?” — inquiria.
Mas, apenas falara, eis vem terceira.
36 — “Amai imigos vossos!” — eu lhe ouvia.
— “Pune este círc’lo a culpa traiçoeira” —
O Mestre diz — “da inveja; o açoite aplica
39 O amor, que os rigores lhe aligeira.
“Contrário som, porém, o freio indica.
Antes que atinjas do perdão a entrada,
42 Terás de ouvi-lo; e disto certo fica.
“Tem ora a vista para além fitada;
De espíritos, ao longo do alto muro,
45 Assentados verás soma avultada.” —
Mais que de antes então a vista apuro;
Almas distingo, que envolviam mantos,
48 Que a cor imitam do penhasco duro.
Um pouco avante ouvi de esp’ritos tantos
A voz bradar: — “Por nós orai, Maria,
51 Pedro, Miguel e todos os mais Santos!”
Na terra homem tão fero não seria,
Que não sentisse o coração pungido
54 Em vendo o que aos meus olhos se of’recia.
Acerquei-me por ser mais distinguido
De cada sombra o menear e o gesto:
57 Pelos olhos à dor alívio hei tido.
Então foi claramente manifesto
Que entre si, uns aos outros se arrimavam,
60 Todos à pedra, em seu cilício mesto.
Assim os pobres cegos mendigavam
Nos dias de Perdão da igreja à porta,
63 Mutuamente as cabeças encostavam;
Pois a piedade o coração nos corta,
Quando ao som das palavras se acrescenta
66 Da vista a ação que o peito desconforta
E como o sol aos cegos não se ostenta,
Assim também às sombras que alivia,
69 Não mais do céu a luz olhos alenta.
Fio de ferro as pálpebras prendia
A todas, como ao gavião selvage
72 Para domar-lhe a condição bravia.
Cuidei, se andasse, lhes fazer ultraje,
Lhes vendo as faces e ocultando a minha:
75 E o Mestre olhei em tácita linguage.
E o Mestre, bem sabendo o que convinha,
Antecipou-se logo ao meu desejo
78 E disse: — “Arguto sê, e fala asinha.” —
Virgílio caminhava neste ensejo
Do lado, onde à cornija falta amparo;
81 Dali cair se pode e o risco eu vejo.
As almas do outro lado eram; reparo
Que dos olhos a hórrida costura
84 Provoca pranto copioso e amaro.
Voltei-me e disse: — “Ó almas, que a ventura
De ver tereis ao certo o excelso Lume;
87 De que somente o vosso anelo cura,
“Dissolva a Graça em vós todo o negrume
Da consciência e nela manar faça
90 Da mente o rio em límpido corrume!
“Concedei-me o que mais me satisfaça:
Dizei-me qual de vós latina há sido;
93 De eu sabê-lo algum bem talvez lhe nasça.” —
— “Por pátria, irmão, só hemos conhecido
A cidade de Deus: dizer quiseste
96 Peregrina na Itália haja vivido.” —
De mim remota a voz parece deste,
Que assim disse; e portanto, passo avante
99 Por saber certo a quem atenção preste.
E uma senhora entre as mais vi, que, distante,
Aguardava-me. E como eu a distinguia?
102 Qual cego, alçava o mento pra diante.
— “Tu, que para subir penas” — dizia —
“Quem foste, onde nasceste diz: te imploro,
105 Se é tua voz que, há pouco, respondia.”
— “Fui de Siena” — tornou — “com este choro
Os graves erros de perversa vida,
108 E a Deus que se nos dê, clemente, exoro.
“Chamei-me Sápia, mas não fui sabida.
Mais deleite me deu o alheio dano
111 Do que a dita a mim própria concedida.
“E por que não presumas que te engano,
Se fui louca verás pelo que digo.
114 Já no declínio do viver humano
“Eu era, quando a rebater o inimigo
Em Colle os meus patrícios campearam;
117 A Deus roguei que lhes não fosse amigo.
“Destroçados, à fuga se lançaram,
E a mim, que estava aquele transe vendo,
120 Indizíveis prazeres me tornaram,
“Em modo, que atrevida, olhos erguendo,
— “Não mais Deus tenho!” — contra o céu gritava
123 Qual melro, instantes de bonança tendo.
“Com Deus quis paz, mas quando já tocava
Da vida o termo; e ainda não pudera
126 A dívida solver, que me onerava,
“Se Pedro Pettinanho não se houvera,
Nas santas operações de mim lembrado:
129 Em prol meu, caridade o comovera.
“Mas quem és, que nos tens interrogado,
Que estando, creio, de olhos não tolhidos
132 E respirando indagas nosso estado?” —
— “Olhos” — disse — “terei também cerzidos,
Porém por pouco tempo; que da inveja
135 No mundo hão sido rara vez torcidos,
“Maior receio o peito me dardeja
De outro tormento; e tanto me angustia,
138 Que o seu fardo a sentir cuido já steja.” —
— “Mas quem ao monte” — me tornou — “te guia,
Pois de voltar ao mundo tens certeza?” —
141 — “Quem tenho ao lado e voz não pronuncia.
“Inda vivo; e, pois fala com franqueza,
Alma eleita, se queres que os pés mova
14