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PONCHE VERDE

Janer Cristaldo

eBooksBrasil


 

Ponche Verde (1980—1985)
Janer Cristaldo (1947—  )

Primeira Edição (em papel)
Editorial Nórdica, Rio, 1986

Edição em eBook
eBooksBrasil.org
www.eBooksBrasil.org

Capa
foto online de Poncho Verde C.T.G.
http://poncheverde.sma.zaz.com.br/fotos.htm

Copyright
©2000-2006 Janer Cristaldo
cristal@altavista.net


Nota do Editor

Poncho Verde foi o local, em D. Pedrito, cercanias de Santana do Livramento, nos pagos gaúchos, onde os farroupinhas de David Canabarro, após pelejas memoráveis, escrevendo páginas heróicas da lutas pelas liberdades no Brasil, exaustos, após 10 anos de resistência, renderam-se aos imperiais do áulico Barão de Caxias. Foram farroupilhas Osório, os Garibaldi, e o maior de todos os heróis: o povo gaúcho.

Mas o espírito libertário, a República e as liberdades não se renderam em Poncho Verde. E isto está mais do que provado neste livro de Janer Cristaldo, que a eBooksBrasil teve a honra de editorar.

A obra fala por si. Boa leitura!


 

ÍNDICE

O Autor

PONCHE VERDE
10 — Chalé 80
9 — Na ilha
8 — Chez Krk
7 — Au bord’elle
6 — No fio de prumo
5 — Al mar!
4 — Nos passos de Pessoa
3 — No paraíso
2 — Lá na Linha
1 — Chalé 70
0 — Ponche Verde


 

 

SOBRE O AUTOR

 

Nasceu em 1947, em Santana do Livramento, RS. Formou-se em Direito e Filosofia. Iniciou-se em jornalismo no extinto Diário de Notícias, Porto Alegre. Escreveu no Correio do Povo e Folha da Manhã. Nos anos 71 e 72, exilou-se voluntariamente em Estocolmo, onde estudou cinema e língua e literatura suecas.

De volta ao Brasil, publicou suas primeiras traduções: Kalocaína, de Karin Boye (do sueco), e Crônicas de Bustos Domecq, de Jorge Luís Borges e Adolfo Bioy Casares (do espanhol). Em 1973, publicou O Paraíso Sexual Democrata, que teve quatro edições no Brasil e uma em espanhol, em Buenos Aires, proibida na Argentina. Em 1975, passa a assinar coluna diária para a Folha da Manhã, Porto Alegre. Em 77, recebe bolsa do governo francês para um doutorado em Letras Francesas e Comparadas. De Paris, mantém correspondência diária para a Folha da Manhã. Em 1981, doutorou-se pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris III), com a tese La Révolte chez Ernesto Sábato et Albert Camus, traduzida ao brasileiro sob o título de Mensageiros das Fúrias, que tem uma edição eletrônica em eBooksBrasil.org. Ainda em Paris, iniciou a tradução da obra ficcional e ensaística de Ernesto Sábato, a pedido do próprio autor.

No Brasil, foi professor visitante de Literatura Brasileira e Comparada, na Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis, de 1982 a 1986. Neste período, traduziu vários outros romances, introduzindo no universo literário brasileiro autores como Roberto Arlt, Camilo José Cela, José Donoso, Michel Déon e Michel Tournier. Em 86, publica seu primeiro romance, Ponche Verde, que tem como fulcro a peregrinação dos exilados brasileiros por Estocolmo, Berlim, Paris e Lisboa.

Estudou Língua e Literatura Espanholas em Madri. Foi redator de Política Internacional da Folha de São Paulo e do Estado de São Paulo. Atualmente, assina crônica no jornal eletrônico baguete.com.br


 

 

PONCHE
VERDE

JANER CRISTALDO


 

Aos amigos e amigas,
autores e livros,
vivos e mortos,
cujos rostos e vozes,
fecundam esta viagem.

 

“Y mientras hacés gestiones para que la Embajada Francesa te dé una de esas bequitas que luego sirve para hablar mal de Francia...”
Ernesto Sábato, Abaddón, el Exterminador

 

“C’est le propre des grands voyages que d’en ramener autre chose que ce qu’on allait chercher.”
Nicolas Bouvier


 

 

10. CHALÉ 80

 

Absurda carcaça oca de gente, o Boeing estrugia rumo ao Sul. Tripulação e passageiros contados, não chegava a quinze o número de pessoas transportadas pelo mastodonte. A primeira constrição, ele a sentiu ao erguer-se o monstro no Charles de Gaulle. Gostaria de pensar em qualquer coisa, menos na volta e voltava em pensar em nada senão Brasil. Vôo noturno, um céu escondido na escuridão, passageiros distantes quilômetros uns dos outros, tudo o impelia a encerrar-s em si mesmo. Em Dakar, a segunda constrição subiu-lhe pela garganta. Desceu durante a escala, à uma da madrugada, e um bafo morno de quarenta graus o envolveu, o suor empapava camisa, calças, cuecas, encharcava o espírito. Há séculos não transpirava. Banhado pelo avaro sol parisiense, aquela sauna senegalesa recordava a seus poros os tórridos verões de Porto alegre. Meio caminho já fora feito e força alguma o faria voltar, o mínimo que lhe concederiam os deuses do Acaso, os únicos aos quais rendia culto, seria talvez não chegar. Curiosamente, medo algum.

Krk. Sljivovica. Neuschwanstein. Thazar. Catherine. Lena-Lena. Bergman. Stockholm. München. Paris. Sartre. Cannes. Prepecnica. Gamla Stan. Quartier Latin. Schwabing. Ludwig. Algumas haviam perdido a aura de mistério que as rodeava, outras ganho um particular significado. Viajara rumo a palavras, tinha de convir, em busca do fascínio e exotismo cujas pronúncias evocavam. Voltava agora rumo às velhas e fiéis palavras, das quais um dia fugira como diabo da cruz. Rio. Porto Alegre. Rua da Praia. Chalé. Ponche Verde. Canário.

Contados mortos e feridos, o saldo não era brilhante. De qualquer forma, positivo. No velho continente ficara o cadáver de Dalmácio de algumas crenças.

 

Voava por entre ruelas antigas, a uns dez metros do solo, jamais se sentira tão leve e jamais lhe parecera tão fácil voar, as ruelas às vezes se estreitavam de tal modo que os ombros roçavam janelas e paredes. Não era a primeira vez que voava assim tão suavemente, em outras viagens noturnas vivera a mesma experiência, mas geralmente voava sobre grandes extensões de campo. Parecia estar em Gamla Stan. Mas um sol mediterrâneo e um intenso alarido lá embaixo, nas ruas, lhe diziam estar em país latino. A ruela ia se estreitando cada vez mais. Apesar de seu corpo ter uma consistência de éter, se perguntava se a largura ao final da ruela lhe permitiria a passagem.

Permitiu. Uma paisagem longa e imensa se abriu ante seus olhos. Estava em Veneza, no Grande Canal. Por que Veneza, não tinha idéia alguma. Mas aquele era, indubitavelmente, o Grande Canal. Viu-se de repente no solo, e com humana consistência. Frente a uma casa, que sabia cheia de quartos e subterrâneos, pois nela já havias penetrado em passadas deambulações do espírito. Sabia que sairia por uma porta do lado oposto, e que naquela passagem perderia algo de si mesmo. Entrava ou não entrava? — se perguntava.

A primeira resposta tendia a ser negativa, já que uma vez ali estivera, não sabia quando nem como, mas o que a casa continha não lhe era estranho. Segunda hipótese, entrar, pois se não lembrava o que a antiga casa escondia, era como se lá não tivesse estado. Tinha de pagar para entrar, isso ele lembrava. Uma italiana esguia e de cabelos negros, um vestido escorrendo até os pés, oferecia aos transeuntes os bilhetes. Quanto? — quis saber Cristiano. Quinze cruzeiros. Ora, não custava nada rever o que não lembrava. A jovem, alta e adolescente, o fez entrar em um vestíbulo, passou-lhe um ingresso e cobrou: quinze francos. Puta que o pariu! — resmungou intimamente, não se viaja à Itália impunemente, nem mesmo em sonhos.

Já que era sonho, deixou-se esfaquear e passou à morena uma nota de cem francos, ela lhe devolveu vinte. Vinte mil liras. Mas não eram quinze? Quinze cruzeiros? Nada disso, são oitenta francos. Não se conteve. Não que o irritasse pagar aquela quantia por uma viagem que sabia vital. Pagaria até mais. Mas aquela vigarice lhe parecia excessiva, mesmo para um sonho. Queria seu dinheiro de volta. Não entraria naquela baiúca e dali não sairia sem seus francos. A menina, charmosa e cheia de carinho, bruscamente se transfigurou, tornou-se ríspida e o olhou como se olhasse ao último dos avarentos. Jogou-lhe no rosto a cédula de cem francos: “imbecil, te recusas a pagar centavos pelo que mais te vale na vida. Toma — e jogou-lhe um pequeno baú — é de graça, pobre coitado!”

Cristiano abriu o bauzinho e logo reconheceu o conteúdo: cadernos de deveres do primário, com exercícios de caligrafia, conjugações, seus primeiros bilhetes às namoradas, santinhos de primeira comunhão, fotos de Clotilde e Canário, esboços de rimas bobas, um bodoque, bolinhas de gude e, de repente, os objetos deixavam de ser objetos, da caixinha surgiam seres e paisagens, Canário e Clotilde em carne e osso, emanando do baú como de uma lâmpada de Aladim, um catavento, uma sanga exalando um cheiro de sanga ao entardecer, uma aranha atrelada a um tordilho, oceanos verdes de alhos bravos ondulando aos caprichos do minuano, uma perdiz enforcada em um mundéu, uma criança chorando ajoelhada em um barranco, pedindo perdão a um deus absurdo.

As lágrimas lhe rolavam aos solavancos, encharcando papéis, fotos, pessoas, paisagens. A italiana ria histericamente, qual bruxa divertida com seu sofrimento.

Acordou. Uma voz anunciava a aterrissagem e pedia para apertar cintos. Escala no Rio.

 

Porto Alegre havia mudado e no entanto permanecia a mesma. A Rua da Praia tivera seus bares e cafés tomados pelos bancos e financeiras. Nada melhor que estes templos do capital para assassinar uma rua. Seres tristes rumavam às mesmas horas, pelos mesmos itinerários, para os mesmos trabalhos, e nisso Porto Alegre não mudara, os prédios antigos haviam sido destruídos mas seus habitantes continuavam os mesmos. Toda vez que voltava, Cristiano cofiava a barba, incrédulo: como é que podem permanecer tanto tempo no mesmo lugar?

Oitenta por cento da humanidade, dissera alguém, jamais se distanciou vinte quilômetros além do local onde vivia. A estatística era mais jogo de números e palavras do que estatística, já que tal pesquisa era inviável. Mas à medida que observava os homens, sua tendência era concluir ser bem menor a proporção dos que iam além dos vinte quilômetros. Falta atroz de curiosidade! Invadia-lhe a sensação de jamais ter saído daquela rua, suas viagens teriam sido sonhos, sonhos bons ou pesadelos, mas certamente tecidas com a matéria inconsútil das viagens noturnas do espírito.

No centro, onde um dia houvera bares e cafés, só restava o Chalé, solenemente cravado há quase um século da Praça XV, et pour cause: a praça não estava à venda, ficava a salvo da sanha imobiliária. Ali estava sua pátria, a única paisagem imutável de Porto Alegre. Ao abrir a porta, sentiu estar pisando novamente a geografia de sua adolescência. Lá estavam, também imutáveis, os garçons que o receberiam como se tivesse tomado o último trago na noite anterior.

E também lá estava, junto ao P. O. — posto de observação, para os neófitos — o homenzinho abominável, o que ficara para resistir e conscientizar as massas, o que condenara como escapistas os que partiam, o que traíra a todos, vivos ou mortos, o que enriquecera ministrando doses diárias de ópio ao povo que pretendia defender, o renomado cronista ... de futebol. Gordo como um porco, estarrachado na mesa privilegiada do Chalé, mal o viu largou o jornal e abriu-lhe o abraço obeso e obsceno. Cristiano há muito se preparara para aquele encontro, isto é, preparar-se era força de expressão, só via uma saída ao remoer o problema, cuspir-lhe na cara. Flanando pelo Quartier Latin, ria sozinho antecipando a cena, Soderman, vulgo Deusa Shiva, lhe abria os múltiplos braços e em vez de um abraço recebia uma cusparada.

Mas à medida que se aproximava o dia de voltar, num movimento interior que não lhe era surpreendente, seus ímpetos de agressão se atenuavam, não sabia se era a alegria da volta, o nó na garganta cada vez mais tenso, enfim, toda uma gama de fatores emotivos o impelia a não agir como guri de ginásio. De que lhe serviria a cuspida? Só os dois, e mais ninguém, entenderiam o significado do gesto, e além do mais só existia um Chalé em Porto Alegre. Não iria criar tensões no bar que era ao mesmo tempo lar e escritório.

Abriu largamente as defesas, deixou-se abraçar pelas curtas patas do porco gordo, este demorou-se em ruidosas efusões, quem os visse entrelaçados imaginaria dois velhos amigos comemorando o reencontro após muitos anos de separação. Com o desagradável pressentimento de que Deusa Shiva tomara posse definitiva do P. O. e não poderia escapar àquele abraço adiposo se voltasse ao bar, aceitou estoicamente o tributo. Virou-se para o balcão, lá estava Speak Deutsche, sempre o mesmo rosto avermelhado de alemão da colônia, o garçom já o vira. Como se o tivesse visto pela última vez no dia anterior, perguntou:

— Caipira, Doutor?

— Urgente. Pouco açúcar, por favor!

Era sua marca registrada, se alguém ouvia tal pedido no balcão nem precisava perguntar por sua presença. Mas além de senha, a caipira-pouco-açúcar-por-favor tinha agora um sabor de volta aos pagos, às tertúlias de adolescência. Voltava àquela noite, uma década atrás, àquela mesma mesa, aos entusiastas brindes à Europa. Logo voltaria João, talvez com uma Karin à tiracolo, faltaria tão-só Dalmácio, mas sua ausência pouco importava, estaria ali sempre, mais presente que aquele monte de banha e gases.

— Então, de volta ao caos?

— De volta ao caos?

O monte de banha talvez não tivesse consciência, certamente não tinha consciência, da propriedade da pergunta. Fora na Suécia, em suas primeiras errâncias, que começara a sentir falta do caos latino, logo ele que fugira do caos em busca de um mundo ordenado. Olhava Deusa Shiva, tentava ver nos traços balofos de seu rosto se ainda restava algum resquício, uma fagulha que fosse, da antiga chama, das noites em que discutiam madrugada afora — sartreavam — sobre os destinos do homem e do mundo. Quem criara mesmo a palavra? Talvez João, com seu fascínio pelo mito Paris, Talvez Dalmácio em um daqueles poemas inéditos ad aeternum, sempre ambientados em cidades longínquas. Sartrear era ler e escrever nos bares, traçar mapas nas toalhas e percorrer com o palito da caipirinha o avanço vietcongue pelos pantanais da Ásia. Pois supunham — e quem duvidaria disso? — que aquele era o cotidiano de Sartre. Parecia um porco, Soderman.

— Quanto filé essa pança subtraiu às famosas criancinhas do Terceiro Mundo? — gozou Cristiano.

— A propósito, estás convidado para um churrasco em meu jardim, à beira da piscina. Vila Assunção. Já deves saber que tenho uma casinha lá.

Já. Já sabia. Jotagê lhe falara sobre a grave cisão ocorrida no PC gaúcho, havia o PCI e PCA, o PC de Ipanema e o PC de Assunção. Quanto a PCs em bairros operários, destes não se tinha notícia alguma.

Um ser magriço se aproxima, Soderman o apresenta, é seu jardineiro e sem sequer perguntar “como foram teus anos de Europa?”, pergunta que Cristiano faria a quem quer que estivesse voltando de lá, Soderman vai desfiando um rosário de considerações filosófico-ecológicas sobre a sabedoria da natureza. A primavera despontava e os ipês logo começariam a florir. Na semana anterior, em seu passeio matinal pelo seu jardim, suspeitara de fungos nas árvores, em verdade eram flores. As acácias, que haviam começado a florir em agosto, talvez por influência das quaresmeiras, que, como se sabe — dizia, sabendo muito bem que Cristiano ignorava tudo sobre as ditas cujas — florescem na quaresma, pois bem, as acácias, continuavam eternamente floridas. E seu gramado? Uma neurose, entrara inverno adentro como se fosse verão. Passou a lamentar o corte de um antigo salso-chorão, louvou seus álamos italianos, que jamais mudavam seus hábitos, floresciam como se estivessem na Europa e Cristiano, o ateu, se tornava subitamente místico, Deus, ó Deus, eu não mereço este cálice.

Exposta a luxúria de suas árvores, passou a debulhar-se em queixas, aliás seu jardineiro não o deixava mentir, o país continuava sendo caos, corrupção, ditadura. Vinha de uma audiência no Palácio de Justiça — “podes me imaginar junto a marginais, ladrões, assassinos algemados?” — e tudo por quê? Porque seu cãozinho mordera um transeunte, o jardineiro fora à audiência como testemunha do caráter bonachão de seu cachorrinho. Cristiano, que após Paris só queria ver cães de preferência na guilhotina, atalhou:

— Ah, o status de um morador em Assunção exige um cãozinho?

— Status, coisa nenhuma. Segurança. Aliás, tenho mais três, são três dobermans e um fila. Isto é, tinha. Com essa porra de processo, vendi os quatro. Estás vindo da Europa, meu caro. Não tens idéia de como aumentou o desnível social e a violência neste país nos últimos dezesseis anos. Tenho de proteger o que é meu. Tenho mulher e quatro filhos, não posso ficar sem segurança.

“Oigatelê, reprodutor!” — pensou Cristiano. Se bem o conhecia, a mulher devia estar esperando pela quinta foda.

— Com essa, vou eletrificar tudo em volta de minha casa.

Não queria ser profeta:

— Já imaginaste um de teus filhos pendurado na cerca?

Os olhos sumidos como que vieram à tona, não esperava tal estocada.

— Pô, não sê agourento, tche! Em todo caso, será uma voltagem leve. Só pra jogar longe o pé-de-chinelo.

Cristiano olhou-o nos olhos. Ele adivinhava a pergunta.

— E os ideais socialistas? A resistência?

— Que é que tem?

— Jardins, dobermans, cerca eletrificada, mansão em bairro burguês, como concilias tudo isso com a revolução?

— Não estou entendendo.

Cristiano repetiu lentamente, escandindo cada palavra.

— Não vejo nada de errado. Sou o mesmo homem de esquerda, contribuo para o Partido, e se tenho de me proteger é justamente porque ainda não chegamos a uma sociedade socialista. No regime ideal, dobermans não são necessários.

“A não ser para guardar dissidentes nos gulags”, ajuntou Cristiano, mentalmente. Não queria discussões.

— Inclusive, o Velho deve jantar lá em casa, na semana que vem.

Velho? Que Velho?

— Ora quem? O Cavaleiro da Esperança, meu caro, o velho Prestes que volta do exílio e vem ao Sul visitar as bases.

Ah, as bases...

Foi quando Speak Deutsche passou uma carta a Cristiano. Pelos garranchos largamente esparramados no envelope, nem precisava perguntar pelo remetente. Deusa Shiva mergulhou na crônica esportiva do jornal, enquanto Cristiano abria sôfrego a carta. O jardineiro, mudo como um poste, servia-se de cerveja olhando o vácuo.

Surpreendeu-o a fluência de João Geraldo, ele que sempre sofrera com frases duras e tortas. A Europa parecia ter-lhe feito bem, havia encontrado uma linguagem. O começo da carta era a continuação de um longo diálogo, tantas vezes retomado nas ruas e parques de tantas cidades, aquela memória de elefante certamente retivera uma última frase e agora a respondia:

Paris, Natal 79

Não, Cristiano, a Europa não nos traiu. Os europeus são o que são, tribos inteligentes e predatórias. Nós é que alimentávamos mitos. Na adolescência, nos louvaram a Revolução Francesa, sem nos darem notícia das quinhentas cabeças cortadas por dia, isso sem falar na convicção de nossos professores, a de que fora feita pelo povo. Jornalistas e turistas sempre nos cantaram a riqueza e o bem-estar das sociais-democracias, a perfeição do Estado-providência. Ninguém nos falou da mão-de-obra imigrante, jamais ouvimos falar do iugoslavo, português ou árabe que quebra pedras para edificar as sociais-democracias. Lembras de nossas deambulações pela Praça da Alfândega, quando discutíamos a transcendental questão, se mulher tinha ou não tinha cu. Eu não podia admitir a assertiva, ser tão sublime não poderia estar submetido a tal ônus. Lembro de teu sarcasmo: claro que têm, e por muito pouco, coisa de um centímetro, escaparam de uma cloaca. Pois tinhas razão. Descoberta semelhante fiz em relação à Europa. Dalmácio viu o poço. Desde o fundo. Talvez pudesse ter sido salvo. Estávamos longe, e talvez braceando desesperadamente para não naufragar.

Sabes muito bem que já tive minha concepção de sociedade ideal. Pois minha utopia era — fui ver agora — um imenso campo de prisioneiros. Já quis transformar o mundo. Hoje estou cansado, prefiro transformar-me eu mesmo. Tu também sonhavas com uma sociedade onde não houvesse sexo pago, não é verdade? Logo tu, o Casanova dos Pampas, como gostava de ironizar Dalmácio. Marxismo é como caxumba, tche! Pelo menos foi a conclusão a que cheguei, a duras penas. Ou dá na idade certa, ou provoca esterilidade.

Eu me sinto um pouco estéril. Quarenta anos é a metade de uma vida de homem, e minha metade joguei-a ao vento. Meu projeto de maior fôlego é hoje um filho. Sei, Cervantes escreveu El Quijote aos sessenta, pelo menos é o que diz todo escritor em fase de constipação metal. Escrever, não sei. Dalmácio confiava em ti. Em nossas peripatetices pela praça XV, me confiou certo: aquele ainda vai escrever, ele transpira revolta pelos poros. A ti, o bastão.

Acho que estou casando. Sei que a idéia te provoca alergia. Não consigo esquecer uma de tuas boutades, me asseguraste que um casal só está apto para o matrimônio quando um peida frente ao outro sem enrubescer. Em suma, conseguiram atingir a falta de respeito total intrínseca ao casamento. Aceito tuas razões. Como sei que aceitarás as minhas. Uma mulher linda, com emunctórios e tudo mais, se atravessou em minha vida. Nela vou embarcar e seja lá o que o Deus quiser. Em vez de torceres a boca apiedado, te peço que torças os dedos para que tudo dê certo.

Não ignoras como se chamava a Europa antes de chamar-se Europa. Aprendi nestas andanças que jamais são claros os motivos que nos impelem a partir e, no fundo, no fundo mesmo, não acredito que tenhas largado tudo para buscar um paraíso onde mulher alguma precisasse prostituir-se. Se bem te conheço, velho putanheiro, te entediarias em tal paraíso. Foste em busca da Res Publica Christiana, em teu sangue corria a ojeriza a teu nome, a recusa a teu passado, logo nós que mal controlamos o presente e do futuro nada sabemos. A Res Publica Christiana mudou de nome mas conservou a essência imperialista. Nos venderam uma religião cansada e querem agora nos contrabandear uma ideologia assassina, tudo em nome de grandes ideais. A nós cabe filtrar o legado europeu, separar a paranóia da saúde. Cá entre nós, me permito parafrasear Voltaire: só viveremos em paz no dia que o último padre for enforcado nas tripas do último marxista. Não passa adiante esta frase, não faltará quem me acuse de sanguinário. Sei que entendes minha metáfora.

Não quero passar por visionário, também isto fica entre nós: a nova Renascença, se futuro houver, será aqui, em solo latino-americano. Viste, e viste de perto, os europeus se entocando como ratos, com medo à guerra nuclear. Rato não se engana. Para a África não poderão fugir, já fizeram muito sangue rolar por lá. Sem falar que Alá é deus mais ciumento que Adonai. O crescente quase já expulsou a cruz da Europa, não será o Islã que acolherá os ratos em fuga. Os States, além de os americanos serem ciosos de seu território, constituem alvo nuclear. Só vai sobrar Austrália, Canadá, Nova Zelândia... e América Latina. Somos continuidade deles, aqui eles se sentem bem. Já imaginaste a Santa Sé instalada em torno ao Corcovado? Eh! Eh! Eh!... (e Cristiano, lendo a carta, ouvia o riso largo de galpão de Jotagê). Tenho lástima é de ti, só de asco és capaz de voltar à Suécia, se Suécia ainda houver.

Não estarei hoje, tche, presente à reunião há tanto tempo marcada. Poderia estar, como de certa forma estou. Doridos pêsames à Deusa Shiva, não sei se poderei ver-lhe a cara sem vomitar, depois que virou cronista de futebol. Abraço a nosso homem de Orion, que suas viagens cósmicas lhe sejam sempre ricas. Ergue tua caipira in memoriam de nosso querido e desesperado Dalmácio. Te escrevo neste Natal gelado de Paris. Em minha solidão, começo a te entender. Que os natais não te pesem tanto como já te pesaram. Soube que abandonas o jornalismo. Mês compliments, M. Cristianô, verdade não é para jornal. Sei que é mal visto entre nós, homens lá da Fronteira, tratamentos por demais melosos. Seja como for, recebe meu mais afetuoso abraço.

Um JG esparramado rubricava o final da página.

— Do João? — quis saber Soderman.

— É.

E mais não disse Cristiano. Uma paz inesperada lhe envolvia o espírito. A carta era de alguém ainda em luta consigo mesmo, não era mensagem de quem houvesse encontrado tranqüilidade. Nas entrelinhas havia um sabor de trégua. Raiva alguma, ódio algum, em relação ao pulha em frente. Apenas um desprezo vago. Ele fizera sua opção, era como se não mais pertencesse ao mundo dos vivos.

— O único descortês será Dalmácio. Não suporto gente que falta a encontros marcados. Poderia ter enviado um cartão! — disse Soderman.

Não entendia o que interiormente estava ocorrendo consigo mesmo. Aquela piada metida a besta, dadas as cordas emotivas que atingia, há uma uma semana atrás lhe teria feito virar a mesa e jogar Soderman porta afora.

E no entanto... Era como se não tivesse ouvido nada. Sentia-se emocionalmente anestesiado. Afirmasse Deusa Shiva que o sol girava em torno à terra, que as estrelas eram pontos fixos no firmamento, que o planeta estava apoiado numa tartaruga gigante que por sua vez se apoiava em quatro elefantes, ele concordaria imediatamente.

— Era um romântico — suspirou Soderman. E arrematou — um sonhador.

— Era — concordou Cristiano, ajuntando intimamente — mas tu também, filho da puta, tu também tiveste teus sonhos.

O cronista de esportes encarnou em Deusa Shiva, que começou com um longo discurso, a voz empostada como se estivesse analisando um pênalti à luz de Heidegger ou Hegel. Que de sonhos ninguém vive neste mundo, esta porca sociedade não dá a ninguém a chance que merece. Que Tolstoi era conde, que Shakespeare escrevia para o rei e suancorte, que Huxley era aristocrata, que Sartre, afinal de contas, vivia em Paris. Um homem, perorava o jornalista, precisa antes conquistar sua independência econômica. Depois então, só então, poderia pensar em poemas.

— Eu — e sua voz disciplinada sublinhava o pronome — eu ainda não cheguei lá. Um dia chego. E então me aposento, e vou poetar.

“Coitado” — ruminou Cristiano. Enquanto o defunto amigo continuava a justificar-se, sob pretexto de explicar Dalmácio, deu-se conta de que naqueles dez últimos anos nele se havia operado uma mudança terrível: mentia. Sim, mentia, era um quando falava e outro quando ouvia. Dez anos antes, cortaria Soderman a cada vírgula, dissecaria cada palavra, desmancharia os sofismas e lhe cobraria os projetos passados. Teria sido tal mania, certamente, que lhe granjeara tantos inimigos.

Mas inimigos do porte daquela coisa sentada à sua frente não valia mais à pena cultivar. Sentia certa nostalgia dos dias em que seu pensamento escorria instantaneamente dos neurônios para a língua. Lembrou uma frase de Francisco Franco: “o homem é escravo de suas palavras e senhor de seus silêncios”. Dissessem o que quisessem do caudilho, ninguém poderia negar-lhe sabedoria naquele aforismo.

— Porque Dalmácio — continuava Deusa Shiva — em sua ojeriza ao poder, só podia se destruir. O poder só faz mal a quem não o tem. Dinheiro é saúde, alegria, inteligência, sensibilidade. Era o Bernard Shaw quem dizia isso. Citei certa vez a frase a Dalmácio, no dia seguinte ele jogou no Guaíba todos os livros do gringo. Os vencedores são homens satisfeitos consigo mesmos, podem cultivar a auto-estima, aprimoram-se espiritual e fisicamente. Os derrotados não passam de uns maníaco-depressivos. Saúde mental é para quem está por cima. Eu — e nesse momento a voz empostada sublinhou mais discretamente o pronome — eu recém estou a caminho de conquistar esta auto-estima. Quem conhece Dalmácio, ou seus poemas sempre inéditos? Só nós. Mas Soderman é nome conhecido nos últimos rincões do Rio Grande do Sul, atinjo oito milhões de ouvintes. Dalmácio, se tivesse oito leitores, talvez não se enforcasse. Se faço um poema hoje, oito milhões de gaúchos saberão que Soderman é poeta. Primeiro é preciso conquistar o público, para depois lançar o poema.

— E para quando é o famoso poema?

— Ah! Para mais tarde. Sabes? — e sua voz se tornou de repente íntima, persusiva — eu até que nem gosto de futebol. Comentar futebol, qualquer analfabeto faz, taí o Santana, o Quadros. Tenho projetos maiores. No fundo, sou um homem de Estado. Em 82, daqui a dois anos, portanto, teremos eleições, se assim quiserem os militares. Ora, se tenho oito milhões de ouvintes, uma deputação, mesmo federal, está no papo. Povo é burro. O povão me vê no vídeo defendendo ou condenando um Pênalti e pensa: se ele é assim hábil para defender o time, saberá também defender nossos direitos. Cem mil votos é quota que faço sem campanha, sem precisar mexer um dedo. Rádio é poder, meu caro, televisão é poder, eu só leio jornal pra me informar um pouco melhor.

“Desinformado total” — ruminou Cristiano. Se João achava que verdade não era para jornal, ele, Cristiano, considerava que jornalismo era a morte de todo e qualquer conhecimento. Mas deixou o homem falar.

— Lembras de quando eu escrevia artiguinhos sobre Sartre? Sabes qual era minha paga? Enfim, neste país de inflação galopante de nada vale falar em números. Pois bem, escassamente pagava meia hora com uma prostituta de nível médio. Após quatro anos de curso superior, eu recebia, por uma pesquisa que às vezes me tomava uma semana, o mesmo que uma mulher sem instrução alguma pelo gesto de abrir as pernas. Lá no fundo, talvez inconscientemente, eu imaginava que um dia, a mim, cultor da literatura francesa, me dessem uma bolsa, uma viagem, sei lá o quê. Mas enfim um possibilidade de curtir aqueles bares que tanto amei em livros, La Coupole, Deux Magots, La Closerie de Lilas. Talvez eu até conseguisse essa bolsa. Para quê? Para viver como estudante fodido, tendo de contar os trocados para beber um vinho de quinta categoria, se bem que francês? Não sou besta, tche! Não preciso te evocar aquela febre de viajar do Dalmácio, o cara tinha um ar de quem estava partindo amanhã. Ingênuo! Se quisesse viajar, deveria dedicar-se ao futebol. Já virei o mundo todo. Quando passo em Paris não preciso me angustiar ante a perspectiva de encontrar vaga naqueles hoteizinhos na rue Cujas: a Caldas sempre me reserva uma suíte no Sheraton. Pena que Sartre morreu, bem que me agradaria oferecer-lhe um champanhe no La Coupole. E não seria inviável que conquistasse o velhote, bastava bolar uma teoria em torno do futebol como instrumento de libertação do Terceiro Mundo, enfim, neste mundo das comunicações, tudo é uma questão de linguagem.

Pois não é que tinha razão? O suíno retaco, patas cravadas na terra, entendia melhor a Europa que o viajado Dalmácio.

Cristiano girou o corpo à esquerda em busca de Speak Deutesche e, olhar eternamente oblíquo, ali estava, como que materializado no último centésimo de segundo, o Homem de Orion. Como se o houvesse visto no dia anterior, emitiu um tímido alô pela fenda afunilada que lhe servia de boca. Soderman levantou os olhos ao céu em gesto mudo de desagrado, a presença do hominídeo o desagradava. Atacou:

— E as mulheres, meu caro?

— Todas umas traidoras — suspirou o serzinho estranho.

E passou a debulhar-se em queixas. Que geralmente marcavam encontro e jamais a eles compareciam. Que outro dia ficara seis horas na chuva esperando por uma, tempo aquele roubado às suas meditações, pesquisas e viagens. Que... e Soderman, sabendo ter calcado o ponto sensível, continuou, com sarcasmo de homem superior:

— Como é, já conseguiste liberar um só espermatozóide? Se bem me lembro, era a única forma de amar sem desperdiçar energias...

Não, o Homem de Orion ainda não chegara lá. Havia tentado, continuamente, cotidianamente, só Deus sabia quantas vezes havia tentado.

— Acho que é impossível — suspirou.

Pelos nervos de Cristiano começou a subir um princípio de irritação, que direito tinha quem quer que fosse de pôr em xeque o viajante espacial? Como diria Dalmácio, acham absurdo que alguém pretenda viajar de um planeta a outro, mas acreditam em um deus nascido de uma pombinha e ai de quem disser que Maria era uma pobre prostituta judia que dava para os romanos. Cortando a Deusa Shiva, quis saber por quais planetas andara o homenzinho ultimamente.

— Por tantos... Não contei.

Enveredou por um longo solilóquio, expondo as razões de suas andanças. Andava em busca de Galactus, ser galático que odiava a vida e se alimentava de planetas. Galactus fora, inicialmente, uma ilação teórica. Com o correr do tempo, sua existência passou a ser um imperativo de ordem conceitual, única explicação plausível para o desaparecimento de civilizações cósmicas multimilenares. O jardineiro, que parecia não existir naquela roda, olhava o estranho ser com espanto. Mas suas preocupações não eram tão-somente cósmicas. Ao final de sua exposição, passou aos interlocutores várias páginas datilografadas com seus últimos projetos. O primeiro era o esquema de uma complexa máquina matapardais, o homenzinho julgava que os ditos predadores tinham qualquer ligação com os poderes do mal, sem falar que não lhes suportava o chilreado. E os bichinhos eram legião em torno ao Chalé, particularmente na primavera. A máquina consistia basicamente em uma metralhadora giratória acoplada a quatro canhões sonoros e a um computador com gravação dos sons de pardais em sua memória. Ao ouvi-los, os canhões direcionais apontavam a arma para a fonte de emissão de ruídos e a metralhadora era acionada automaticamente. Havia pensado em uma arma à base de raios laser, mas sua filosofia ecológica não permitia sacrificar árvores.

O segundo documento, uma proposição para viver com menos de um salário mínimo, com 33 itens, entre os quais se destacavam: não ter carro, televisão, aspirador, batedeira, etc., coisas perfeitamente dispensáveis; ser autodidata, evitar pagar cursos; acostumar o estômago a exigir pouco alimento; botar pouco açúcar no chá; fritar ovos com água; não seguir a moda, coisa irracional que nos impele a fazer compras; não fazer seguros, confiar no cósmico e na fraternidade; ir de preferência a espetáculos grátis; em caso de esgotamento nervoso, ir ao campo (as clínicas são caríssimas); não fumar; não comprar boné contra o sol — andar pela sombra ou proteger-se com um jornal; não estragar os tênis ou sapatos jogando futebol; não comprar quadros — pintá-los; ter letra pequena, afim de economizar papel. Etc.

O terceiro documento, uma crítica ao filme “Guerra nas Estrelas” a partir de suas experiências astrais. Vinte seriam as falhas do filme, entre elas o fato de todas as estrelas aparecerem iguais, desprezando-se as diferenças de tamanho, distância e cor; mesmo em satélites, a gravitação é igual à da Terra; entre os extra-terrestres há muitos tipos monstruosos, cerca de oitenta por cento, quando o normal seria quinze; a invisibilidade de naves e pessoas, recurso muito usado por seres evoluídos, jamais ocorre; pessoas supostamente evoluídas alimentando-se com pratos e talheres, quando seres adiantados ingerem só líquidos ou prana. Etc.

E finalmente o projeto UNAT — União das Nações da Terra — com sede em Brasília, para substituir a ineficiente ONU. Seu principal objetivo, a busca inteligente e objetiva das soluções para os problemas humanos, sendo uma das primeiras tarefas resolver a questão palestino-israelita.

— Nada menos do que isto — resmungou Soderman.

— E por que não? — objetou Cristiano. — Há uma década queríamos salvar o mundo, nada menos do que isso.

Lidos seus projetos, o hominídeo sumiu tão discretamente como surgira. O jardineiro, parecendo ter descoberto a palavra, emitiu seu juízo:

— Louco. Doido varrido.

Surpreso com o comentário incisivo surgido daquele ser mudo, Cristiano interrogou-o com o olhar.

— Imagine, Doutor, não ter televisão! Louco!

— Ah!

***


 

 

9. NA ILHA

 

“Im Kampf um Südamerika, ein Zukunftsbild” — intitulava-se o livro. Na capa, um condor carregando ao bico a bandeira ianque em farrapos, traspassada por uma lança, e o pseudônimo sob o qual se escondia o autor: Condor. João Geraldo contemplou longamente a brochura, nada menos que 262 páginas.

Ao alvorecer de 1920 estamos em vésperas do conflito máximo que vai decidir a sorte das duas Américas. O pensamento de uma liga ofensiva e defensiva dos maiores países latino-americanos, aventada já em começos do século XX pelo previdente estadista Barão de Rio Branco, e que então encontrava ainda forte e geral oposição, havia se materializado em 1918, numa aliança entre o Brasil, o Chile e a República Argentina, unidas para a defesa da independência continental.

A progressiva realização da política imperialista norte-americana já atingira então até a Colômbia, abrangendo o protetorado do México e de toda a América Central; o deslocamento do comércio mundial, determinado pela abertura do canal de Panamá, impusera ao Brasil a necessidade de dilatar o seu território até o Oceano Pacífico, anexando o Equador, vantagem esta logo neutralizada pela ocupação norte-americana do arquipélago fronteiriço dos Galápagos, temerosamente fortificado.

O Peru mantivera-se alheio à colisão, completamente entregue à influência ianque desde que, em 1910, tivera de ceder ao Chile as províncias de Tacna e de Arica, reavivando-se por isso os antigos ódios contra o rival triunfante.

A Bolívia continuava a progredir pacificamente como país mediterrâneo, oscilando entre a ação política da Europa e dos Estados Unidos, mas propendendo já para esta ao peso dos imensos capitais norte-americanos empregados na construção de sua rede ferroviária.

A imigração de pretos desta nacionalidade, inundando o Panamá e a Colômbia, derramara-se também pelos estados brasileiros do Equador, Acre, Mato Grosso e Amazonas, pelo norte do Grão Chaco, complicando lamentavelmente o grave problema da assimilação étnica de elementos raciais inferiores.

Interpretações sofísticas da famigerada doutrina Monroe determinavam contínuas intervenções da solerte diplomacia norte-americana na política internacional e na vida econômica das repúblicas menores, produzindo atritos e complicações internacionais e acirrando ódios crescentes contra a influência ianque.

A tensão chegara ao extremo de bastar uma fagulha para atear o pavoroso incêndio continental.

Em dias de fevereiro de 1920 ocorreria em Montevidéu o pleito presidencial e, segundo todas as aparências, a vitória deveria caber ao candidato patrocinado pelos agentes de Washington, quando súbita revolução veio anular todas as combinações eleitorais, elevando ao poder o chefe nacionalista general Galarza.

Aproveitando a confusão, a irrequieta população da capital uruguaia, no furor de represálias contra os odiados adventícios, atirou-se à legação norte-americana, saqueando e destruindo o respectivo edifício.

Refugiado a bordo de um dos cruzadores fundeados no porto, o ministro dos Estados Unidos exigiu pronta e incondicional reparação, sob ameaça de fazer bombardear a cidade.

Recusando-se os brios nacionais a curvar-se à humilhação imposta, perpetuou-se o crime monstruoso: em poucas horas de bombardeio, dirigido com habilidade sinistra, a magnífica capital foi transformada num imenso acervo de destroços fumegantes e sangrentos.

No dia seguinte à notícia do inaudito atentado levantava, em toda a América Latina, ruidosos protestos de indignação e os ânimos populares, superexcitados pela linguagem violenta da imprensa nacionalista, reclamavam dos governos imediata desafronta à mão armada: um grito unânime ecoava em todos os ângulos do continente — guerra!

E a guerra foi resolvida pelos delegados da Tríplice Aliança, reunidos em Buenos Aires.

Na mesma noite, uma divisão da esquadra argentina conseguia surpreender e meter a pique, no porto de Montevidéu, os cruzadores norte-americanos autores do bombardeio. Ao mesmo tempo, no Brasil, no Chile e no Prata, operava-se, com celeridade admirável, a mobilização e a concentração de tropas.

 

Não estava pior o ensaio — pensava João Geraldo — como tentativa de ficção política, considerando-se que Condor o publicara em 1908, edições Herman Paetel. Só que, um século antes do Barão de Rio Branco, Simon Bolívar sentira a necessidade de união dos latinos e sonhava com a Gran Colombia, a unificação das antigas colônias espanholas. Com o que não estavam de acordo os ingleses, que haviam dividido o continente para melhor reinar criando os estados-tampões do Paraguai e Bolívia, como aliás na mesma época utilizavam na Europa a mesma política criando artificialmente a Bélgica. Mas naquele ano de 80 o general-presidente brasileiro não fora visitar o general-presidente argentino? Só faltava o general-presidente chileno descer a cordilheira. Com a diferença de que a guerra, se guerra houvesse, seria declarada contra os próprios sul-americanos.

O capitalismo tinha suas próprias defesas, não era assim tão evidente sua auto-destruição, como pretendera Marx. Mas Condor tampouco havia previsto a fissão do átomo. E o foco da peleia no continente fora deslocado para Havana. Quanto a Montevidéu, os cruzadores argentinos podiam ficar tranqüilos, os militares uruguaios haviam-se encarregado com invulgar eficiência de afundar o país.

Os militares ou os tupamaros? A dúvida lhe roçou o espírito como uma lixa. Um homem em convalescença pela perda de uma fé necessita revisar todos os valores do passado — todos — antes de qualquer afirmativa mais genérica. Em sua última passagem pela ex-Suíça latina, mal saíra do ônibus fora tomar uma cerveja no El Metejón.

Vontade de chorar. À sua esquerda quatro mulheres, na mesa atrás cinco, a seu lado mais duas, ao fundo um grupo de sete ou oito. Não que lhe desagradasse a ambiência, muito antes pelo contrário. Mas era triste constatar que o país havia falido. Todo homem em força de trabalho havia emigrado, no país só haviam ficado velhos, mulheres e crianças. As meninas que não haviam conseguido fugir do barco reuniam-se no restaurante ao lado da rodoviária para contemplar aquele espécime cada vez mais raro no país, um homem jovem.

Flanara mais tarde pela 18 de Julio, e o cenário era o mesmo, desolador. Cá e lá, anciões de ternos elegantes, porém remendados, estendiam-lhe timidamente o chapéu, num gesto de quem sangra por dentro ao ter de pedir. Fora jantar no Payazo e pedira um filé, adorava os filés uruguaios, satisfaziam sobejamente duas pessoas. Isto em priscas eras, pois o bifinho que o garçom lhe trouxera mal dava para tapar a cárie de um dente. Não havia um almirante uruguaio declarado há pouco que a Europa nada tinha a ensinar ao Uruguai? Em compensação, muito tinham os militares uruguaios a ensinar à Europa, por exemplo como empobrecer em uma década um país outrora próspero.

— Pátria existe — resmungou com seus botões — quando meu país é o melhor país do mundo.

Ruhe! — sussurrou asperamente uma leitora ao lado. Merda! Há horas já não controlava aquela maldita mania de pensar em voz alta. Contraíra o hábito em Paris e sabia bem qual sua origem: solidão. Meio que envergonhado, mergulhou novamente no livro de Condor.

 

Enquanto as forças de terra eram assim organizadas para a resistência, as frotas aliadas seguiam rumo ao Norte, ao encontro da poderosa esquadra norte-americana, partida das Antilhas; em águas baianas travou-se a tremenda batalha naval, resultando em estrondosa vitória dos aliados.

Ao mesmo tempo largavam de Baltimore os transportes conduzindo o exército expedicionário, primitivamente computado em 200 mil homens, mas que não chegava a exceder 120 mil.

A fortificação sistemática de todo o litoral brasileiro determinou o generalísssimo brasileiro a operar o desembarque na costa da República Argentina.

Conforme conjeturavam os aliados, a invasão fez-se em solo platino, onde justamente estavam agrupados os mais poderosos elementos de repulsa.

Depois de ocuparem La Plata e Buenos Aires, evacuadas e desertas, os invasores marcharam ao assalto do acampamento entrincheirado no Rio de las Conchas, onde os aguardavam quatro corpos do exército argentino e um chileno. Nas margens daquele pequeno afluente do Prata decidiu-se o futuro da independência sul-americana, em uma encarniçadíssima batalha de quatro dias, em que os os contendores rivalizavam na perfeição dos armamentos e na perícia em utilizá-los.

Rechaçados com perdas enormes, perseguidos tenazmente pelas reservas aliadas, os norte-americanos recolheram os destroços de suas dizimadas colunas a La Plata, ao abrigo dos canhões da esquadra.

 

Um sonhador, nosso anônimo condor — refletiu. Afastou o livro dos olhos e mergulhou em divagações. Mas as coisas haviam-se acelerado de uma maneira espantosa neste século. Condor jamais suspeitaria que enquanto tentava um prognóstico para os próximos dez anos, Lênin passeava pelo parque Montsourris, em Paris, cofiando, cofiando seu bigodinho asiático e Santos Dumont já estaria sonhando com sua voltinha em torno à torre Eiffel, que fora erguida apenas vinte antes da publicação do ensaio. Com o avião, as esquadras de Condor se tornavam obsoletas. Em Montevidéu estaria fundeado o Midway, que aliás agora estava policiando o estreito de Ormuz, atento às aiatolices de Khomeiny.

Se bem que — continuava divagando, voando de uma imagem à outra — se bem que, com os mísseis intercontinentais e os submarinos nucleares, os porta-aviões só serviriam para almirantes saudosos da infância brincarem de guerra. Ganharia o prêmio quem mais alto deixasse subir a água pelo pescoço, enquanto sob seus pés soçobrava a absurda carcaça de seu barco. Decididamente, não mais era possível olhar a História rumo futuro, já que nem se sabia se futuro existiria.

Preferia uma tese insólita, tão insólita que Papini a pusera na boca de um louco. O método consistia em retroceder do presente ao passado, o único que tornaria possível uma interpretação dos fatos humanos, já que os acontecimentos só adquirem sua luz e importância uma vez transcorridos decênios ou séculos. O professor Killalloe — que assim se chamava o historiador — considerava que em 637 a entrada dos muçulmanos em Jerusalém seria vista apenas como um detalhe da expansão militar do Islã. Mas se partíssemos de 1095, por exemplo, o acontecimento tomava outras dimensões. Os cristãos do Ocidente passavam a tomar como ofensa intolerável que o sepulcro de Cristo estivesse em mãos de infiéis. Abria-se então o grande abismo entre Ocidente e Oriente e hoje lá estavam, em Teerã, os diplomatas americanos reféns do aiatolá.

Novo Sarajevo? Certamente não, apesar das frases de efeito da imprensa internacional. Mas, no ritmo em que marchavam as conversações, ao que tudo indicava os reféns teriam tempo de aprender a língua do profeta para ler o Corão no original. Ergo, o primeiro capítulo de toda História, segundo o professor Killalloe, deveria ser constituído pelas últimas notícias e o último capítulo de toda História Universal bem feita não poderia ser senão o Gênesis.

Com as pernas já túrgidas pelas horas sentadas, decidiu trechear mais algumas linhas. Depois pediria fotocópias.

 

Alcançada a preço de dolorosos sacrifícios, a vitória dos aliados assegura aos países latinos do continente o desenvolvimento normal de sua evolução agora desassombrada das ameaças ianques. Para os Estados Unidos, as conseqüências da derrota foram tremendas: em Cuba, em Porto Rico, no México e na Colômbia rebentavam movimentos nacionalistas e triunfantes; nos estados do Sul, a numerosa população negra, tiranizada até o desespero, agitava-se ameaçadora e os japoneses, aproveitando-se da emergência, lançavam-se sobre as Filipinas e dali expulsavam as guarnições norte-americanas.

A grandiosa esquadra enviada para a reconstrução do arquipélago é completamente destruída junto às ilhas Hawai, deixando o litoral do Pacífico aberto à invasão amarela; seguidos de 500 milhões de chineses, os nipões vão arrojar-se sobre a América. Prevendo a conflagração culminante da Humanidade e impelidos por um belo movimento de solidariedade étnica, todos os povos americanos e europeus, inclusive a Inglaterra, congraçam-se em auxílio do inimigo e rival da véspera. Vai travar-se o conflito supremo das duas raças em prol do domínio planetário.

 

— Um tantinho racista, Herr Condor!

Pediu fotocópias, enquanto as esperava foi ao guarda-roupa, apanhou o boné de bisão que Cristiano lhe emprestara em Paris, vestiu o velho gamulã comprado em Montevidéu, que até mesmo na prisão o acompanhara. Oficialmente era primavera, mas seu físico frágil suportava mal as primaveras do Norte. Precisaria ter vindo a Berlim para encontrar o relato de Condor?

Certamente não, devia existir na Bibliothèque Nationale. Mas queria mudar de ares, ver outras paisagens. Queria conhecer outra cidade antes de despedir-se da Europa. Que mais não fosse, mais dia menos dia, todo viajante que se prezasse teria de atravessar o Muro. Conhecia os que se recusavam terminantemente a fazê-lo, questão de não ver ruírem ideais de juventude. Mas da juventude pouco ou nenhum ideal lhe restava, sem falar que Cristiano lhe havia recomendado efusivamente aquela estranha ilha. A passos lentos, abandonou o Ibero-Amerikanisches Institut.

A temperatura havia baixado ainda mais, mas pelo menos não havia umidade. Preferia ter trazido o poncho, mas desistira há muito de usá-lo. Nos bistrôs de Paris, mas esparramava o pala, iam caindo copos pelo chão, a exiguidade dos bares quase o tornava claustrófobo. Gaúcho, sentia falta de espaço. Mal havia entrado na Hauptbanhof se surpreendeu alegremente com a cidade, imaginava que o fato de sentir-se cercado de arames farpados e campos minados o sufocaria.

Mas não! Ruas largas, abertas, bares que lhe permitiriam muito bem portar o poncho, lastimava não o ter trazido. E muito verde, sobre tudo. Preferiria ter vindo no inverno, o álgido lençol da neve o fascinava, lhe trazia a evocação da pampa distante. Mas a idade e a saúde não mais lhe permitiam arriscar o pelego por qualquer capricho.

Idade. Rumou ao Zoo, precisava espairecer. Enquanto caminhava entre elefantes e rinocerontes — estavam excitados os elefantes aquele dia, será que aquela valeta de menos de metro os separava mesmo dos visitantes? — ia fazendo um balanço de sua vida. Estava em meio à segunda crise, a dos quarenta, já que o bicho homem, com sua curiosa fixação em números redondos, parecia pôr em xeque a si mesmo uma vez aos trinta, outra aos quarenta. Jamais antes dos trinta, que aos vinte o futuro está em aberto. E aos cinqüenta já era por demais tarde, inútil então tentar dar de rédeas rumo a outro norte.

A primeira crise, tirara de letra, estava tão engajado na luta que lhe valera quatro anos de prisão e tais picuinhas — sorriu irônico — impedem qualquer homem de perguntas pelo sentido da existência. Mas fora afinal libertado, antes mesmo do fim da pena. Readquirira o direito de ir-e-vir, sem o qual não conseguiria manter-se vivo por muito tempo. Mas soube um dia que não tinha direito a passaporte, isto é, teoricamente tinha direito, mas na prática não o conseguiria. Até então, jamais havia pensado em fazer a viagem de Cristiano e Dalmácio. Mas quando soube que lhe proibiam a Europa, aí é que se decidiu: “pois agora eu vou, nem que tenha de morrer por lá”.

Entendia agora Stefan Zweig. Em sua adolescência, pensava ser o homem composto de dois elementos, corpo e alma. Com a idade e com as guerras, Zweig descobrira que um homem, em verdade, é corpo, alma e passaporte.

Conseguira afinal o terceiro requisito para sentir-se homem e agora ali estava, já havia chegado às jaulas dos símios, a criançada se divertia beijando pelo vidro a boca de uma orangotango barriguda.

— Bicho escroncho, benza Deus!

Contemplou por uma boa meia hora a macaca velha, sua expressão humana lhe prendia os passos, as crianças lhe faziam bilu-bilu e ela respondia com o mesmo gesto, passando pelos beiços o dedão enrugado e nodoso.

Mais alguns passos e parou frente à jaula do gorila.

 

Salvo a subespécie Milicus latinoamericanensis, jamais vira um gorila de perto. Sua majestade o fascinava. Nobre, mais solene do que um leão, a fera parecia olhar com desprezo para o orangotango que na jaula ao lado se permitia aquelas intimidades com os humanos. Mais dois passos e defrontou-se com o chimpanzé, o bicho lhe mostrou os dentes. Era irrequieto e nervoso, nada tinha daquela indiferença quase divina do gorila. João esboçou o gesto de um soco, melhor tivesse ficado imóvel. O animal passou a dar patadas no vidro que reboavam pelo recinto, as paredes tremiam e a jaula parecia vir abaixo.

— Índio de faca na bota. Não gosta que lhe pisem o poncho.

Quarenta anos, pois. Sem filho, sem livro, sem árvore. Bons propósitos os alimentara por quatro décadas, mas de bons propósitos Paris transbordava há séculos e era aquele bordel. Como um bordel também estava sua cabeça quando chegou au bord’elle, la Seine, que agora estaria correndo com tanta mansidão mas sempre debitando toneladas de sangue em seu curso. Agora, vendo seu passado do alto da alto da torre Eiffel, conseguira unificar algumas linhas. No direito buscara a justiça. Não a encontrando lá, fora perguntar à Filosofia. Os pensadores haviam permanecido silentes e tivera de estudar História para entender a Filosofia. Descobria agora que sem a Geografia jamais entenderia a História et le voilà, o erudito, careca e enregelado em meio à avara primavera berlinense, com ar mais abestalhado que aquele orangotango.

Mas alguma coisa havia restado de suas campereadas, um mito havia morrido. Pensava em voltar ao Sul e ao magistério, contar aos mais moços o que seus olhos e ouvidos haviam visto e ouvido. Não acreditava em ensino. Só existe aprendizado, ninguém ensina nada a ninguém. Mas excitar os sonhos de um adolescente, isto ele sabia, que adolescente já o fora, e dos mais ambiciosos, sim senhor!

O tempo passou sem sentir, os guardas já convidavam os passeantes a saírem. Tinha fome e no hotel lhe haviam recomendado o Hardtke, perto dali, cozinha alemã, boa cerveja e preços humanos.

Saiu pela Budapester Strasse em direção à Kudamm, logo avistou a Gedächtniskirche, o relógio marcava sete da tarde, notava que passara quatro horas no zoológico. Parado frente ao Zoo Palast, contemplou longamente a torre compacta e angulosa que ladeava o templo em ruínas. Duas épocas, duas misérias. Na igreja semi-destruída pela guerra, via o símbolo de um passado definitivamente passado, em que o tempo era lento e pelo menos permitia espaço ao requinte. Na torre e igrejas novas, cheias de arestas, via o sintoma de uma civilização em que a própria fé perdera a poesia.

No dia anterior, um homem havia tentado saltar da torre, João não sabia se teria ou não levado a cabo seu gesto. O que o surpreendera fora ver a multidão passando, dignando-se apenas a um rápido olhar, quando se sabe que todo candidato a suicida no fundo não quer ir até o fim, porque o suicida mesmo, este não acena com lenços para ninguém. Mas só lhe haviam dado atenção os bombeiros, e não é esta a atenção que pede um homem solitário, afinal de contas os bombeiros eram pagos por aquilo, seu humanismo era profissional.

Pensou entrar na igreja, estava ainda aberta e lhe incitava a curiosidade ver suas naves. Que naves poderia ter aquela caixa de fósforo estrambótica? Queria ver se permitiam ao crente pelo menos a suspeita de um deus. Visitara Notre Dame nos seus primeiros dias de Paris, e tentava imaginar-se lá dentro há seis séculos, quando a multinacional que construíra a catedral sequer sonhava que muito em breve teria de mandar à fogueira o homem que ousaria dizer que a terra não é imóvel. Tentara pôr-se na pele deste homem e não conseguia mensurar o peso que devia oprimir-lhe os ombros sob seus arcos. Mas tinha uma idéia muito precisa do senso de manipulação da mente humana por parte dos homens que a haviam erguido.

— Gigolôs do absoluto!

Mas não entrou. Lá dentro haveria homens de fé menos exigente, não pretendia desviá-los de suas preces com seus passos trôpegos de exausto turista do espírito. Continuava parado frente ao templo, contemplava-o, lembrava de repente que só o homem do templo contempla, não era por acaso que desde o Upamaruty a qualquer vilarejo na Europa os padres erguiam os templos na primeira elevação que encontravam. Gedächtniskirche só constituíria exceção por Berlim ser plana e sua única elevação, que datava da última guerra, era ironicamente a Teufelsberg, construída com o lixo bélico da convulsão que deixara em ruínas o antigo templo. Ora, os homens de Deus não iriam instalar sua butique na Montanha do Diabo.

Teria saltado o homem? Não duvidava que sim. Lembrava de um distante episódio em Porto Alegre, na praça da Alfândega, um homem subira em um dos jacarandás que começavam a florir para receber a Feira do Livro e uma multidão berrava: “como é que é? Não vai saltar? Pula logo, eu tenho de bater ponto. Ou então devolve meu dinheiro”. Mas paradoxalmente havia algo de humano naquele sadismo dos porto-alegrenses, era o fascínio ante a morte, o candidato a suicida se sentia o centro das atenções, fizera um pouco de teatro com os bombeiros e acabara descendo pela Magirus.

Já naquela fria Berlim, que havia sido o QG dos super-homens que da morte não tinham medo — e por isso mesmo não podiam entender porque a temiam os milhões de serezinhos enviados para as câmaras de gás como bois ao matadouro — a morte ou a eventualidade da morte de um homem não merecia mais que uma torcidela de pescoço, o que lhe fazia considerar que aquele candidato ao pulo talvez não tivesse ficado na intenção. Voltou o olhar ao templo em ruínas e um sorriso lhe aflorou aos lábios.

— Que cagaço deve ter levado o padre.

Atravessou a Hardenbergstrasse, abriu o mapinha que lhe dera o moço da portaria do hotel para achar o restaurante, quando se viu face a face com uma das filiais do império Beate Ushe, ex-piloto da Luftewaffe. Mulher de visão estava ali, Herr Condor era café pequeno em suas prospectivas diante da velhota que erguera uma das mais sólidas indústrias da Alemanha do pós-guerra.

 

Já ouvira falar da organização. Com o final da guerra, a moça ficara sem emprego. Como os nazistas estimulavam os nascimentos quando no poder, as alemãs não tinham conhecimento de praticamente nenhum método anticoncepcional. Beate Rotermund, viúva Ushe, vira nesta lacuna um mercado virgem, passara a editar o método Ogino e mais tarde livros de educação sexual. Hoje, no 1 da pornografia mundial, vendia imagens a quatro milhões e meio de clientes do mundo todo, uma modesta cifra de negócios de cem milhões de marcos ao ano. Solidão, o mercado por excelência do século. Afastou as cortinas vermelhas e entrou.

Um bem sortido supermercado do sexo! Ushe tinha extraordinário senso empresarial, mal os deputados discutiam a liberação da pornografia, já tinha em estoque toneladas de livros e filmes. “As bibliotecas — pensava — não deviam perder um só desses livrinhos. Se após a hecatombe algum eventual sobrevivente ou ser de outro planeta visitasse tais museus, teria um registro fantástico das doenças da época.”

Visitara não poucas sexshops em toda a Europa. Razões? Em um primeiro momento, a curiosidade de latino, já que a pornô ainda não descera ao Sul. Depois — e isto era o mais doloroso, mas tinha de admitir — a maldita solidão. Não tinha maiores dados sobre a freqüência a tais salas, mas via que em geral eram procuradas por homens sós. Cada país, um estilo. Na Itália, o sexo era cômico, literário na França, animalesco na Alemanha e Holanda. Quanto mais se avançava rumo ao norte, mais soturno e desesperado era o erotismo. Com o transcorrer do anos, nem mesmo as partouses, nem mesmo as introduções múltiplas, três homens penetrando ao mesmo tempo uma mulher, nem mesmo chicotes e gadgets mecânicos pareciam satisfazer o espectador médio, sempre desejoso de “algo mais forte”.

E a indústria dos prazeres solitários atendia a nova demanda, filmava em primeiro plano mulheres urinando no rosto do parceiro, e vice-versa, bocas bebendo urina, homens recebendo dejeções sobre o peito, e as imbecis das feministas continuavam sua algaravia falando em mulher objeto, como se o homem tivesse sua dignidade preservada naquela selva de lobos. Como o distinto público pedia ainda mais, entraram em cena os animais, mulher com cachorros, sexos penetrados pelo membro em saca-rolha de porcos, louras chupando garanhões e fora em Amsterdã que vira o que não imaginava seus olhos vissem um dia, uma mulher com elefante. Que mais pediria o insaciável e solitário público? Elefante com formiguinha?

Numa sala em Montparnasse, vira certa vez alguns segundos de dignidade, a reação de uma atriz que certamente não constava do roteiro. Chupava um anão preto e disforme, o serzinho todo dava a idéia de um batráquio e em meio à felação cruzou os braços sobre o ventre que o tornava um monstro. A mulher, sem cessar seu trabalho sob os refletroes, com as mãos descruzou-lhe os braços, na boca o pênis semiflácido e nos olhos um olhar de asco. Um detalhe a anotar em suas observações: jamais vira na pornô francesa mulher com cachorro. Et pourtant...

O douto humanista — ruminava — habitué de sexshops! Que pensariam os amigos se um dia o flagrassem? Pensassem o que quisessem, seriam senhores bem casados e de solidão pouco entenderiam. Mas estava cansado, cansado e com fome, queria apenas dar uma olhadela rápida na butique de Frau Ushe, ver que oferecia de novo a sofisticada indústria. O que o levava aos cinemas não era propriamente sexo, mas... enfim, o homem que viaja só tem de ter suas defesas para não enlouquecer ou pular fora do planeta, vide Dalmácio, que saíra mundo afora sem a precaução de portar pelo menos uma âncora. Nas primeiras vezes os filmes chegaram a excitá-lo, depois os via como sociólogo — e lá intervinha de novo seu maldito lado intelectual —, no comportamento dos atores tinha uma idéia das obsessões dos povos. Uma indústria que move bilhões de dólares no mundo todo, teria um imenso significado sociológico, ignorá-lo era recusar-se a aceitar que o homem urbano contemporâneo é um bicho pavorosamente só.

Mulheres em vinil com vagina térmica, falos revestidos de protuberâncias contundentes, vaginas apenas, em borracha, que afinal os consumidores pouco se importavam com o resto do corpo, ou mesmo cabeças infláveis, a boca aberta em esgar trágico, tudo isto já vira. Em Amsterdã, no bairro dos marinheiros, vira algo condizente ao ofício, um peixe em plástico, garganta acolchoada por um material resvaladiço. Mas não havia camponeses em certas regiões dos Andes que arrancavam o pescoço de uma galinha para que as contrações da cloaca os fizessem ejacular? Galinha degolada, peixe em plástico, a doença não tinha fronteiras. E Cristiano não deixava de ter razão quando afirmava que a culpa de tanta miséria devia ser tributada aos cristãos e a sua triste mensagem.

Mas que teria de novo Frau Ushe? Com seu faro comercial, estava importando gadgets do Japão, Taiwan, Hong Kong e Coréia. Mão-de-obra 50 por cento mais barata que a européia. Nem o mercado da solidão escapava à divisão internacional do trabalho. Percorria maquinalmente as mesas e estantes e de repente, olha lá, aquilo sim era absolutamente novo, um falo com uma bonequinha oriental esculpida na glande. Esse ainda não conhecia. Apanhou-o da estante, examinou-o intrigado. Nada do que o homem faz deixa de ter sentido — refletia. Mas qual seria o da bonequinha?

Uma balconista o aborda:

— É a última novidade, recebemos do Japão. Uma performance. Esta borracha se torna extremamente escorregadia com a umidade.

Viva o senso tecnológico-comercial nipônico, pensou. Mas e a bonequinha?

— É que os gadgets eróticos não podem ser fabricados legalmente no Jpaão. Então eles desenham a bonequinha e exportam comok brinquedo.

Pênis em punho, olhava incrédulo para a moça. Tinha de rir, mas o riso lhe veio até a boca e permaneceu como sorriso delicado sob o bigode. Malandros, os japas! E quando os via em bandos tirando fotos com a Notre Dame ao fundo pareciam uns bobocas deslumbrados com o Ocidente.

— O senhor quer levar?

Queria sim. Ninguém acreditaria lá em Porto Alegre, se não levasse. Esperava não fossem tão rigorosos na aduana, não ia ser fácil fazer crer ao policial que se tratava de um brinquedinho.

Já rumava ao restaurante, um luminoso intermitente lhe desviou o olhar. Peep-show. As mulheres que por um minuto e por um marco se exibem nuas ao cliente. Entrou. Minuto mais, minuto menos, seu estômago não reclamava.

Na entrada, foto das artistas, com o horário da exibição de cada uma. Havia uma crioula sensacional, há horas não via um daqueles produtos que só o Brasil sabe exportar. Ao que tudo indicava a mulata era patrícia, e João não se furtaria a mais uma piadinha em português, seria mais uma daquelas moças das quais se sabia lá no sul que fazia “sucesso” na Europa. Mas a mulata só se apresentava a partir da nove e meia, não ia esperar duas horas por uma bunda. Preferia jantar. Fez a volta do biombo onde cá e lá havia alguém preso a uma janelinha. Antes da saída, esbarrou em uma porta: Solo Cabine. Essa não conhecia. Entrou.

Uma saleta exígua, nua. Uma cadeira e um rolo de papel higiênico. Frente à cadeira, uma parede de vidro e atrás do vidro outra cadeira. à Esquerda da porta um aparelhinho com uma fenda e no chão gotas de esperma. Fechou a porta. Essa ele pagava pra ver! Pôs a moedinha — cinco marcos e sentou.

Uma lâmpada iluminou o outro lado da vitrine, uma loura envolta em toalha de perguntou-lhe algo.

— Ulla?

Was?

Ulla?

...

Karin? Monique? Brigitte?

Ah, podia escolher? Qualquer uma minha filha, ou todas. Todas, menos Karin. Como te chamas? Ulla? Então vem tu mesmo.

A menina deixou cair a tolha, surgiu um corpo frágil e branco, seios pequenos e flácidos, de Ulla não tinha nada. Ensaiou uns passos de dança ao som da música acionada pela moedinha, João olhava imóvel, ela acaricia os murchos mamilos, desce as mãos pelo ventre rumo ao sexo. Senta-se e abre os grandes lábios, com um gesto insinua que João abra a braguilha, em um inequívoco movimento de pulso mostra a seqüência. Mas não precisava insinuar, antes de entrar ele intuíra aquela relação fria, distante, asséptica e baratinha. Sentia-se um tanto velho para aquilo, além do mais o ridículo da cena o divertia. Levantou-se, atirou um beijo à menina, ela retirou as mãos do sexo e sorriu. Tomou o rumo da Meineckerstrasse.

 

No Hardtke, onde teve a sorte de encontrar uma última mesa vaga, enquanto esperava o garçom puxou da sacola uma carta, postada no rio. Queria relê-la com calma, degustar cada palavra, deliciar-se com as linhas e entrelinhas, principalmente com estas. Junto à carta vinha uma reportagem do “Estado de São Paulo” sobre o empobrecimento do Rio Grande do Sul. Então a imprensa começava a descobrir o que há vinte anos era evidente? Jornalista é como marido traído, pensava, sempre o último a saber das coisas. Mas o que lhe interessava mesmo era reler aquelas letras fugidias da carta, não propriamente pelo que elas diziam, já que ela dificilmente se abria, mas o simples fato de escrever-lhe, mesmo para o relato de banalidades, já lhe parecia um aceno.

João lhe escrevera há pouco, falando das conclusões a que chegara sobre “ser europeu” e “ser latino-americano”, a partir de sua experiência de dois anos em Paris. Citava como exemplo a literatura européia contemporânea, particularmente a francesa. O escritor francês apanhava um microscópio e analisava o mundinho psicológico dos personagens numa tentativa de couper les cheveux en quatre. Os latinos também faziam esta análise microscópica, mas depois apanhavam um avião e sobrevoavam o planetinha, colocando o homem em suas devidas proporções. Tinham uma visão de conjunto que há muito o francês havia perdido, o último a ver as coisas do alto parecia ter sido Proust. Os novos escritores latinos pariam novelas de quinhentas ou seiscentas páginas com uma aisance absoluta. O parisiense, quando conseguia uma novela de duzentas páginas, deixava entrever no texto o esgar de uma galinha que acabara de pôr um ovo. Parecia ter reduzido à fútil vida parisiense. Para os latinos, Paris era apenas passagem. Com um pé em cada continente, conseguiam ver as duas culturas com um olhar comparativo. O francês não conseguia dar esse passo. João Geraldo levara uns bons vinte anos para dar-se conta do fato. E não é que agora Karin linda o chamava de geógrafo?

 

Gostei muito de tuas filosofias. Isso de pegar um avião e olhar as coisas do alto é pura análise geográfica. O geógrafo francês, assim como o escritor, se preocupa em analisar o homem dentro do quartier em que vive. Encontrei muito pós-graduado que defendeu tese sobre as pequeninas relações de paisagem de uma única rua de Paris. Absurdo. O geógrafo brasileiro, que tem todo um embasamento teórico na escola francesa, vem procurando se libertar dessa mentalidade que não se aplica ao Brasil nem ao mundo de hoje. Não sabia que você levou quase vinte anos para sacar que o importante não são as fronteiras político-administrativas mas sim o conjunto de interrelações, físicas e humanas. Parabéns por ver isso, és um geógrafo.

 

Ímpetos de quebrar os ossinhos daquela guria num demorado abraço. Ao final, em PS, lhe contava: sabias que o João Paulo vai a Porto Alegre?

 

— Papa, go Rome! — exclamou. O polaco que fizera construir, por 550 milhões de liras e para seu lazer privado, uma piscina em Castelgandolfo, sem falar nos 800 milhões da instalação de ar condicionado nos apartamentos pontificais, levava da Europa hóstias a uma América que pedia pão. Sabia que João Paulo, em sua randonée místico-política mundo afora, iria ao Brasil após sua visita a Paris. (Não duvidaria que até o camarada Marchais fosse apertar a mão do pontífice da igreja rival). Mas a Porto Alegre, não sabia. Já imaginava a massa, informe como todas as massas, empurrando-se e pisoteando-se, erguendo os filhos nos braços para um dia pudessem dizer “eu vi o papa em Porto Alegre”. Na luta pelo continente, o marxismo marcara não pouco pontos. O polonês sabia disso e se deslocava ao Sul para fazer sua aposta. Ignorando — ou fingindo ignorar — que quem precisava mesmo ser evangelizado eram os ricos, os pobres do Sul já ficariam contentes se os europeus não mais roubassem suas matérias primas.

— Memória, memória, memória.

Was wollen Sie, bitte?

De novo o maldito cacoete. Desta vez em públcio, o garçom o flagrara pensando em voz alta. Pediu logo o Schlachtplatte e uma Weissbier e de novo mergulhou em si mesmo. Memória. Cultivassem as gentes a memória e o mundo seria menos infame. Em seu giro pela África, João Paulo não dissera uma só palavra em defesa das cinqüenta milhões de mulheres de clitóris cortados e vaginas costuradas, sequer dera um pio a respeito da prática do marido deflorar a mulher com uma faca e exibi-la ao ombro, sangrando, aos demais membros da tribo. Contentara-se em fazer uma defesa intransigente da família, logo ele, o representante máximo da religião que esfacelara a sólida família dos Antigos.

Gostava de falar a seus alunos dos Manes, Lares e Penates. Quando os ancestrais, uma vez mortos, passavam a ser adorados como deuses, cabia aos descendentes cultuar o novo deus, perpetuar a família para que o culto não se extinguisse. Cada homem tinha interesse em procriar para que os filhos lhe depositassem na tumba as oferendas que alegravam os Manes. Cada lar era um templo e cada família uma religião, extinta a família morriam os deuses. O celibato — e de repente pensava no seu — era danação em dose dupla: impiedade, porque punha em perigo a felicidade dos Manes de suas família, e maldição, porque o celibatário não teria, uma vez morto, quem o cultuasse. Com o mosaísmo se impusera o deus único, e Cristo viera para separar o filho do pai e o pai do filho.

Um outro deus, ciumento, possessivo, decretava oficialmente a morte da família. Agora vinha João Paulo, o maior traficante internacional de drogas, seguro de que da História os africanos só conheciam as conseqüências, vinha falar em família! Em nome do Cristo, filho de puta e cultor do gênero! Sem falar em Alexandre Vi, que entre uma suruba e outra com a Lucrécia traçava uma reta no papel determinando se a pampa pertencia à coroa de Espanha ou Portugal. De repente, se dera conta de que passara Tordesilhas, passara o Tratado de Madri e o de São Ildefonso, e Livramento pertencera sempre ao mundo hispânico, pelo menos até o Tratado de Badajós. Viria daí seu amor por Martín Fierro e sua relativa indiferença ao que ocorresse ao norte do rio Uruguai. Na Rua da Praia apresentar-se-ia o novo superstar, o esquiador, o lançador de bebês ao alto, o ator e cantor, e lá se iam os desmemoriados gaúchos ajoelhar-se ante o vice-deus, o representante-mor do obscurantismo medieval.

— Vade retro, Papanás!

A carta de Karin. Não era a primeira, e isto já era um sintoma. Por experiência sabia que as pessoas só escrevem quando se sentem sós e ao que tudo indicava, Karin... Mas preferia não pensar no assunto. Que tinha ele, já nos quarenta e talvez perto do fim, enfermiço, careca e nem um pouco atraente, que teria ele a oferecer a uma mulher linda — e como! — linda, jovem e esportiva< Um filho? Mas já era um pouco tarde para filhos. Se os tivesse, teria de fugir da cidade, não admitia que suas crias crescessem dentro de cubículos, expostos ao rádio e à televisão.

Por enquanto, da cidade não podia partir. A discussão era antiga, já nos Diálogos Sócrates se queixava de que a vida em Atenas era por demais agitada, que preferiria morar no campo. Acontece que os amigos estavam em Atenas. Ela, mulher urbana e cosmopolita, se submeteria a viver numa fazenda longe da capital? Mas quê? Já devaneava como se ela o houvesse eleito. O pior, o que não queria admitir mas tinha de admitir, era que Karin gostava dele. Já o ouvira encantada, durante horas, ele a encontrara na Bibliothèque Nationale, punha o queixo perfeito sobre suas mãos feitas para o carinho e o escutava estática, um sorriso de Górgone iluminando o rosto e o petrificando. Quando falava, pelo menos quando ele falava impessoalmente, quando digredia sobre história ou recitava poemas, sabia que fascinava. Mas, tímido atroz, chegava a sentir dores estomacais, suava e gaguejava apenas em pensar na hipótese de uma investida afetiva.

Nem sempre, é verdade. Quando o procuravam para uma relação que João sabia não ultrapassar o nível da aventura, conseguia vencer a timidez. Cá e lá tinha seus socorros que, se não chegavam a atenuar sua solidão, pelo menos o mantinham à tona. Mas Karin, aquela Karin linda cujo rosto lindo tinha vontade de esmagar, diante dela todo seu brilho intelectual restava inútil. Insegurança física total.

Mas também pressentia o perigo. Naquela idade, uma paixão gorada lhe serias mais fatal que todos os bacilos de Koch do mundo. Si buscás vivir tranquilo — dizia o velho Viscacha — dedicate a solteriar. Cavalo arisco, em um instinto de preservação prendia o freio nos dentes e fugia aos corcovos daquele abismo. A safada sabia como tocá-lo fundo, ainda mais agora que andava longe da querência. Ao final da reportagem sobre o Rio Grande do Sul, com um círculo vermelho destacara uma quadrinha.

Oh! dona, seu eu lhe contasse
você diria que eu minto:
as moças de Livramento
usam pistola no cinto.

Mário Quintana expulso do Majestic! O recorte da Folha da Tarde, datado de 23 de abril, ficara dentro do envelope, só agora João o percebia. A charge mostrava o poeta saindo do antigo hotel com suas posses: uma estrela na mão esquerda (Aldebarã?), sob o braço uma lua em quarto minguante, flocos de nuvens e arco-íris, na mão direita um sapato florido. Que estaria acontecendo? O poeta pertencia ao hotel ao mesmo título que seus móveis. Iriam derrubar o velho prédio? Não duvidava. A Rua da Praia ia perdendo, dia a dia, seus últimos encantos.

Hierático e ao mesmo tempo criança. Vinha de longe seu fascínio por Mário. Quando saíra de Livramento para fazer Direito em Porto Alegre, por várias vezes cruzara com o nefelibata, sempre flanando pela Rua da Praia. Mas os códigos lhe roubavam o tempo para ler poesia e além do mais um preconceito o afastava do poeta. Ele não escrevia no Correio do Povo? Por certo pertenceria à elite dos bem pensantes da capital. Foi quando lhe contaram a história do busto em Alegrete. A cidade queria homenagear o filho mais ilustre, erigiu-lhe um busto e perguntou ao poeta se não queria gravar uma frase no monumento. Quintana não se fizera de rogado:

UM ERRO EM BRONZE É UM ERRO ETERNO

Fora o coup de foudre. O homem estava ali, sob seu nariz, e ele não o vira até então. Aproximou-se do homem e da obra, desta com sofreguidão, do homem com timidez, tentava adivinhar qual seria seu lado melhor de montar. Chamá-lo de senhor? Se as cãs de Mário impunham distância, seu jeitão de menino grande eternamente deslumbrado com o mistério das coisas o impelia ao tu. Via-o todas as noites na livraria Coletânea, cumprindo o que chamava de ronda das lombadas. Dispôs-se um dia a abordá-lo. O tu se recusava a aflorar-lhe aos lábios, investiu com senhor, O poeta reagiu, ferido:

— Não me chama de senhor. Vão pensar que sou septuagenário.

Era típico de seu humor. O encontro ocorrera em 76, quando toda a imprensa gaúcha celebrava seus setenta anos. E agora o expulsavam de sua eterna trincheira. Porto Alegre se tornava cada dia mais triste. A charge da Folha ficara escondida no envelope, como se Karin assim a dispusesse para que a nota melancólica de sua carta só fosse percebida no final.

 

Jantara maquinalmente, como sempre, envolto em suas ruminações. Quinze para a meia-noite. Pediu a conta e saiu. Vinte marcos não era preço indigesto por aquele generoso Schlachtplatte, mais duas cervejas. Quarenta e quatro francos, o preço médio de uma refeição apenas razoável em Paris. De repente, lembrou que hago 528 cruzeiros, quando uma picanha no Chalé da Praça XV estaria custando uns 90, pelo menos é o que lhe contavam as cartas de Porto Alegre. Eta moeda vil! Merda de memória. Com a última desvalorização do cruzeiro decretada por M. Dix pour Cent, o ministro de Economia, tornava-se cada vez mais duro para um brasileiro viver na Europa.

Comprou alguns postais em quiosque ainda aberto na Kudamm. Passou os olhos nas manchetes dos jornais daquela segunda-feira. João Paulo continuava seu proseletismo pela África. Cinqüenta mil cubanos fugiam da ilha. Em Ljubljana, no dia anterior, morrera Tito.

— A humanidade ficou mais pobre — murmurou.

Tomou a direção da Kurfürstenstrasse, teria uns bons vinte minutos de caminhada até o Berlin Hotel. Ao passar novamente pelo largo da Gedächtniskirche, o relógio marcava meia-noite.

— Igreja da Memória. A estes, não voltam a enganar tão cedo.

 

Do mirador em meio à floresta, João Geraldo olhava o muro que se erguia trezentos metros adiante. Nas torres, entrevia vultos de soldados que se cruzavam, binóculos e metralhadoras em punho. Entre o mirador e as torres, Achtung, arame farpado, campos minados, cercas eletrificadas, os obstáculos de uma maratona suicida que poucos haviam conseguido vencer. Nascer em fronteira aberta, habituado a perambular por Livramento e Rivera como quem troca de bar, só agora tinha uma percepção concreta, concreta e brutal, do absurdo vírus que separava as duas Berlins. Sua fé, a perdera em Paris, na festa anual do Partido em La Courneuve, e de uma vez por todas. Muitas vezes tentara justificar o muro sem jamais tê-lo visto, e agora estava ali, frente àquele cartaz que anunciava morte a quem avançasse dez passos.

Já não acreditava em mais nada. Cá e lá, cruzes e flores marcavam as poças de sangue dos que haviam tombado. Desnecessário visitar qualquer país para saber se lá existe justiça — considerava, olhar fixo nas torres de vigilância — basta saber se seus cidadãos podem dele sair sem serem metralhados.

Desceu do mirador, fez o caminho de volta à cidade, respirando fundo o histérico verde estival que emanava do bosque. O outro lado, estava visto. Mesmo assim, insistia em perambular por Berlim Leste naquela manhã de sábado. Tinha além disso uma encomenda de seu coiffeur em Paris, um velhote bonachão que lhe contava histórias da Segunda Guerra enquanto lhe raspava a cabeça. Estivera há muito em Berlim, só lembrava da Stalinallee, e pedira a João um postal da avenida.

Ao descer no setor oriental, já na estação, teve uma primeira idéia das diferenças entre os dois mundos. Ao tomar o trem no Tiergarten, picotara o bilhete em uma máquina eletrônica, o aparelho lhe tomara das mãos o tíquete por uma fenda e o devolvera quase instantaneamente pela outra. Agora, fazia força para picotá-lo, em uma espécie rudimentar de alavanca, que não exigiria esforço algum se não estivesse enferrujada.

Enfim, não seriam as sofisticações eletrônicas que fariam a felicidade dos povos. Mas algo o intrigava. Descera junto com turistas e alemães ocidentais, o que era normal, compreensível. Mas também faziam fila ante o controle de passageiros uma estranha fauna de operários, turcos e árabes, ao que tudo indicava, mais outros que pela língua lhe pareceram iugoslavos. Seriam por certo gastarbeiter, e João Geraldo não entendia que estariam buscando do outro lado com suas parcas economias.

Meia hora na fila para entrar no paraíso socialista. A RDA cobrava cinco marcos pelo visto, se turista busca exotismo que deixe divisas fortes. Mais seis marcos de câmbio compulsório. Mais o policial que olha um minuto para a foto do passaporte e outro minuto para o rosto do portador — e como custa passar minuto de policial olhando! — como se alguém fosse se dar ao trabalho de falsificar um passaporte para entrar naquele paraíso do qual não se podia sair. Após uma caminhada por corredores e mais corredores de concreto, policiais armados em cada canto, João finalmente pisou no Leste.

Passeou sem rumo pela cidade, sentiu-se perdido no vazio da Alexanderplatz, havia espaço e espaço lhe fazia falta. Mas os imensos blocos de concreto davam uma impressão de deserto. Ao meio-dia assistiu uma troca de guarda ante um palácio, sempre a massa imbecil de turistas tirando fotos ante os soldados. Aos primeiros protestos do estômago, tratou de procurar restaurante. Mas antes tinha a encomenda de seu coiffeur, o postal da Stalinallee. Queria também enviar postais a amigos, ver como funcionavam os correios socialistas.

Ao sair do hotel, pusera na caixa uns sete ou oito, enviaria agora outros aos mesmos amigos. (Saberia mais tarde que os de Berlim Oeste haviam chegado em quatro dias, os do Leste em três meses). Nas cercanias da Alexanderplatz achou um quiosque. Procurava algum com a Stalinallee e já no primeiro olhar perdeu as esperanças, o quiosque só tinha seis tipos de postais a oferecer, e em papel vagabundo. Perguntou à menina se não haveria outros. Não. Podia levar cinqüenta de cada um, mas só existiam aquelas seis vistas. Vista por vista, apanhou oito cartões iguais. Onde é que poderia encontrar um da Stalinalleee?

A moça jamais ouvira falar da Stalinallee.

— Só se for na outra Berlim.

Não. Na outra, tinha certeza de que não era. Mas também tinha certeza de que seu barbeiro, homem de boa memória, não se enganara. Saiu perguntando, ao azar, pela avenida. Um porteiro de hotel, homem de idade, o esclareceu.

— O senhor está exatamente nela. Só que agora se chama Karl Marx Allee.

Ah bom? Estes senhores também tinham consciência da importância da memória, tanto que procuravam apagá-la. Mais alguns anos e ninguém saberia quem fora Stalin. Lembrou uma declaração de Milan Kundera, lida talvez no Monde, recortada e cortada em sua agenda: a luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento.

Com muita pesquisa, conseguiu situar um restaurante na Karl Marx Allee, o que lhe soava como ironia: em minutos situava um texto antigo em uma biblioteca e precisava de quase uma hora para achar um restaurante em uma capital, e isso que conhecia razoavelmente o alemão. O paradoxo o fazia evocar o outro lado, com seus quatro mil Kneipen de portas escancaradas e às vistas de todo transeunte. Cristiano o alertara: comer em restaurante socialista é tão sem graça como trepar com feminista.

Mesmo assim, entrou no Moskau. Mais uma hora de espera em uma fila. Se tivesse ao Oeste, já estaria na sobremesa. Mas insistia em tentar um restaurante daquele lado.

Especialidade da casa, frango à la Tabaka. Vamos então degustar o frango à la Tabaka, pensou. Pediu o prato, 4,75 marcos RDA, o que não era caro. Wir haben keinen mehr, nicht mehr da!, respondeu automaticamente o garçom. Foi passando em revista omcardápio, para sempre ouvir o mesmo refrão, nicht mehr da, nicht mehr da. Acabou comendo um filé com fritas por 7,50, que parecia ser o prato ao qual o garçom o conduzia com seus nicht mehr da.

— Só o que faltava — resmungou — sair de Paris para comer bife com fritas em Berlim.

Ao voltar, reencontrou na fila de controle alguns dos rostos que tanto o intrigavam. Na parte Leste não havia nada que o Oeste não oferecesse, fosse mercadorias, fosse lazeres. Entendia os turistas que tinham curiosidade em dar uma olhadela na parte comunista. Já não entendia os imigrantes. No hotel, o porteiro lhe explicou o fenômeno.

Do outro lado as mulheres eram muito mais fáceis, entregavam-se sem muita hesitação, na esperança de que algum eventual casamento com um operário europeu lhes desse direito ao terceiro atributo do ser humano, como dizia Zweig, um passaporte. Os imigrantes, e mesmo os alemães — salientou o porteiro — atravessavam o muro exibindo esperanças.

— Às vezes dá certo — concluiu.

 

Não tinha grandes vontades de contatar o pianista. Cristiano o recomendara com ressalvas. Defendia a tese de que não pode ter raízes quem nasce em cubículos elevados do solo. Se o Rio jamais dera um escritor profundo à literatura brasileira — e estava perfeitamente consciente do caráter herético do que afirmava — muito menos daria grandes musicistas. Preconceito de gaúcho contra carioca? Talvez. A verdade é que as intuições de Cristiano sempre acabavam se confirmando.

Mas seriam umas quatro horas da tarde. Detestava permanecer o dia todo sentado em uma biblioteca, precisava espairecer. No fundo alimentava certa curiosidade, desde que o escutara em um concerto no Instituto de Belas Artes, em Porto Alegre. Gostaria de ver como o tratavam os alemães. Segundo o jornalista, existiam não poucos vírus que atacavam o brasileiro culturalmente inseguro ao chegar na Europa. Conforme o país onde aportava, tinha a convicção de ter chegado ao melhor país do mundo.

Assim, a burguesia endinheirada mal chegava a Paris tentava provar urbi et orbi que França era sinônimo de civilização e o Brasil terra de botocudos, enfermidade que Cristiano batizara de galicite. Outros, ancorados naquela ilhota mais ao norte, consideravam existir a Inglaterra e depois... o resto do continente. Haviam sido contaminados pelo clima insular e padeciam de anglicite. Outros teimosos, estes mais raros, que haviam conseguido permissão de estada na Suécia por terem feito um filho a uma sueca, insistiam em provar a si mesmos que viviam no paraíso social por excelência. Ardiam na febre da escandinavite.

Para Cristiano, Artur estava desenganado, se consumia em uma germanite crônica. Mesmo assim, João iria visitá-lo. Se andava falando só pelas ruas nos últimos dias, não lhe custava continuar falando só frente a alguém. Telefonou ao pianista. Ele respondeu primeiro em alemão, a contragosto passou ao brasileiro. Pelo sotaque, João Geraldo começou a arrepender-se de seu gesto. Sabia de antemão que era carioca. Mas só agora se dava brutalmente conta de que o carioca irremediável se deixara germanizar. Falava com uma cortesia fria, era como se falasse brasileiro em alemão.

Morava na Bochumerstrasse, em um prédio antigo, quarto andar. Mal entrou, João foi tomado por uma agradável sensação de espaço, as peças lembravam galpões. Durante algum tempo conversaram sobre generalidades, quis saber quais os planos de Artur. Pretendia voltar? Não. Lecionava e tinha seus concertos cá e lá, em geral promovidos pela embaixada. “O que é zero à esquerda na carreira de um pianista”, pensou João. Casara com uma Deutsche e tinha passaporte alemão. Quis saber o que fazia João Geraldo.

Morava em Paris. Mas por pouco tempo. Já estava empacotando os livros para voltar ao Sul. O pianista começou a manifestar os primeiros sintomas da doença.

— Para viver entre índios?

— Graças a Deus, tche! Índio Jorge Amado traduzido em mais de quarenta idiomas, só este ano teve duas traduções na França. Índio Guimarães Rosa, vende em livro de bolso aqui na Alemanha, aliás índio João Cabral de Melo Netto vendeu nestes país seus poemas em tiragens que fazem poeta alemão sonhar.

Não que gostasse muito do escritor baiano. Mas para o xingar o carioca, até baiano vinha bem. Para cutucar a fera, rematou:

— Sem falar nos índios Szidon e Feliciatti, gravam para a Deutsche-Gramophone e dão concertos em tudo que é canto do mundo.

Havia cortado fundo.

— Fico com Borges. Esteve aqui e disse que se orgulhava de seu avô, grande matador de índios.

João ouvira falar daquela entrevista, havia causado alguma celeuma. Aventava três hipóteses:

a  Jorge Luís Borges se orgulhava da coragem física de seu avô, daquela coragem de Fierro lutando com o índio, o que nada tinha a ver com genocídio;

b  Borges dissera uma frase de feito para chocar as esquerdas européias, ou

c  com a idade, estava ficando caduco.

Mas o papo terminara ali. João já matara sua curiosidade: o carioca viera à Alemanha executar Bach e Beethoven para alemão ver.

“Veio ensinar o padre a rezar a missa”, resmungou com seus bigodes, enquanto apanhava casaco e chapéu. Ao sair, Artur pergunta se não podia lhe enviar de Paris a partitura de Bacchianas no 5.

— Posso sim. É do índio Villa-Lobos, não?

E como já havia declarado guerra, antes que o pianista fechasse a porta, alertou-o:

— Cuidado com esse passaporte alemão. Os índios andaram se organizando depois da chegada do Cabral, agora estão pedindo visto de entrada. Na hora da guerra nuclear, não esquece de dar uma passadinha no consulado antes de voar para lá.

 

Terzo Mondo, a meio caminho da Bochumerstrasse e do hotel. Encontrara o restaurante por acaso e gostara da ambiência, havia ruídos, canções, uma alegria latina. A cozinha em verdade era grega, como também o proprietário, que entre os posters de Che, Mao, Ho Chi Min, cantavam canções de Theodorakis, enquanto uma caixa registradora, em meio aos risos e prosits de jovens de esquerda, fazia tlim tlim tlim.

 

Quem seria Condor — perguntava-se João no trem Varsóvia-Paris — que ouvira o galo cantar mas não sabia onde? Diplomata, certamente. Ou militar. Em qualquer das hipóteses, não largava mão de suas noções de raças inferiores e superiores. A Europa unida “num belo movimento de solidariedade étnica”! Essa era boa. Não conseguiam sequer, naquele ano da graça de 1980, ampliar o Mercado Comum! O autor enfocava o imperialismo ianque em relação à América Latina e permanecia silente em relação ao europeu, que há muito, bem antes dos americanos, descobrira a mina. Com sua ampla visão, sobrevoando os Andes, não percebera o vírus que incubava sob seu nariz.

Quanto à América Central, meio século depois do informe, suas previsões se efetivaram. O que não lhe exigira certamente grande esforço de imaginação: com o fortalecimento progressivo dos exércitos das grandes potências, os fundadores de utopias navegariam naturalmente rumo a ilhas.

Se bem que a luta hoje era um pouco mais complexa — considerava. As nações não mais dominavam, mas sim empresas com tentáculos em todos os países. A América Latina, sugada pelos capitais europeus e americanos, se via disputada por duas igrejas, a católica e o PC. Que no fundo eram uma, a primeira brandindo Deus no céu e a outra o paraíso na terra. Fora sintomático aquele artigo de Ernesto Cardenal, publicado em cinco páginas de um jornal costarriquenho, um elogio desbragado a Khomeiny, o que lhe valera o apodo de aiatolá do Caribe. No fundo, a eterna luta pelo poder, e os latinos não tinham — ainda não tinham — um pensamento próprio para opor-se às duas religiões.

Chegou na Gare du Nord no horário, às 6hs24min, precisamente. Mal desceu ao metrô deu meia volta. Toneladas de lixo atulhavam os corredores, o mau cheiro e a poeira lhe irritavam os pulmões. Um acesso de tosse o deixou quase sem fôlego ao voltar a subir as escadarias para chegar ao ar livre. Procurou um táxi. Havia chegado no último dia da greve dos lixeiros, segundo o chofer. Concluía que o bravo povo francês seria absolutamente incapaz de um genocídio dos bons. No primeiro dia de cremação, os funcionários dos fornos cruzariam os braços, pedindo mais um salário e menos trabalho.

— O melhor da viagem é a volta — resmungou.

Pardon?

De novo, pego em flagrante. Disfarçou, comentou qualquer coisa com o chofer sobre o tempo. Mais uma semana e estaria tomando um cafezinho na Rua da praia. O sorriso imenso de Karin no Galeão, sorriso maior que a baía toda de Guanabara, o faziam suportar sem muito esforço os últimos dias em uma civilização em ritmo de entropia.

Huit — DH — mercredi 12 juillet 1978
Tué à Châteauroux pour avoir écrasé le “bâtard” de sa voisine

“Il avait déjà ‘eu’
mon premier chien”
a déclaré la meurtrière

De notre envoyé sp.
Guy DUPONT

CHATEAUROUX, 11 juillet.
Il a ecrasé de chien de sa voisine. Furieuse, elle l’a tué d’un coup de carabine. Il était père de treize enfants. Faut-il tant aimer son chien et hair son voisin pour en arriver à cette fin tragique?

 

Pária do século, uma sensação de corno da história, assim se sentia João Geraldo. Seus quarenta anos, os via jogados ao lixo, na famosa lata de lixo da História. Sentia-se qual cachorro vagabundo tentando encontrar algo a salvar naquele monturo.

Quando começara sua aposta? Não sabia precisar, pois a fizera não por opção puramente intelectual, mas por motivos vagos e indefiníveis, entre os quais um se sobressaía: a revolta. Revolta que só veio mesmo as tomar corpo quando se mudou para Porto Alegre. Na estância, ainda criança, notara que os homens não eram exatamente iguais. Dois ou três fazendeiros possuíam boas quadras de sesmaria em Livramento, enquanto a maioria dos que habitavam no campo possuía nada ou quase nada. A verdade é que ninguém passava fome, sempre havia changas nas fazendas da redondeza. Quem se dispusesse a trabalhar sempre teria o de comer e poderia até mesmo, com diplomacia e paciência, adquirir alguns hectares de terra e criar algum gado.

Foi na capital que, um belo dia, como quem se vê em meio a um pesadelo, descobriu que o suposto pesadelo era a realidade. E a realidade, pelo menos a que ele imaginava como tal, era sonho.

Não haviam sido as crianças famintas de Porto Alegre, enroladas em cartões nas noites de inverno, abrigadas do Minuano no vão da Borges de Medeiros, não, não foram aquelas crianças que o revoltaram. Frio, ele passara na pampa, a geada lhe cortara os pés nas manhãs de julho e, em seu íntimo, alojada em um canto qualquer, ficara adormecida a idéia de que afinal uma criança passando frio não é exatamente uma acusação a Deus ou à sociedade.

Mas um dia vira aquele velho engraxate, já trêmulo e sem forças para lustrar, debruçar-se na sarjeta da Borges e beber a água podre que corria pelo fio da calçada. Sua primeira reação fora, surpreendentemente, de raiva, teve vontade de esbofetear o velho, segurá-lo pelo pescoço e erguê-lo, gritando: “água é de graça, velho relaxado, em qualquer bar ninguém te negará um copo de água”. Mas o problema não era a água, boa ou podre. O que lhe acelerava o coração era ver um ser, não no começo, mas no crepúsculo da vida — quando tudo deveria ser paz e preparação para a morte — sem mais um pingo de dignidade.

As crianças que se aqueciam corpo a corpo na solidão das ruas batidas pelo minuano ainda tinham uma chance, chance vaga, é verdade, mas tinham, desde engraxar sapatos ou trabalhar em qualquer biscate, até ganhar o seu como ladrão ou assassino, era irônico chamar tais opções de chance, mas nada impedia que uma criança, mais dia menos dia, tivesse um ou mais dias que não fossem só de humilhação e fome. Mas aquele pobre diabo não tinha mais esperança alguma. Quando, ao entrar na Faculdade de Direito de Porto Alegre, um professor o cumprimentara pela brilhante opção, retrucou furioso:

— Grande bosta, o Direito.

Pois a lei era em si iníqua, impossível conceber uma ordenação jurídica que se pretendesse justa e que ignorasse aqueles pedaços de seres humanos curvados sobre latas de lixo. Como advogado, se conseguisse fazer cumprir a lei, estaria fazendo cumprir a ignomínia. Não. Direito não era o caminho. O caminho seria outro, se é que existia.

Quando ainda vivia em Livramento, recebera de Gérson como presente de aniversário aquele livrinho de Amado, uma denúncia candente da injustiça pátria e, ao mesmo tempo, anúncio de tempos novos, de uma sociedade onde não havia nem crianças encarangadas nas ruas nem velhice infamante nas cidades. Gérson, o funileiro do qual os santanenses fugiam como o diabo da cruz, o homem visto quase como leproso — “não fala com ele, meu filho, é um comunista” — o velho Gérson com sua bicicletinha ciando aos pedaços, apóstolo que não tinha domingo livre.

Estocava jornais, revistas e livros em Rivera e, nos fins de semana, fazia seu trabalho de formiga. Mas contrabandeava matéria nobre, o funileiro. Pouco lhe interessavam as variações do cruzeiro ou do peso, já que sua mercadoria não tinha preço. Eram idéias. Com seu sorriso amigo e desdentado enchia a boca com a fórmula célebre entre gaúchos:

— Idéias não são metais que se fundem.

“O Mundo da Paz”, seu presente de quinze anos. Baita 1o de abril! — dava-se conta agora. Mas corno é sempre o último a saber das coisas e, naqueles dias, o livro o inflamara e lhe dera esperanças: a utopia era factível!

Por muitas e muitas noites as frases apaixonadas do baiano lhe embalaram o sono. Não havia sentimento mais nobre no coração do homem que o amor pela União Soviética, onde a vida das crianças decorria como em um paraíso, onde não havia velhice desabrigada e infeliz, onde os salários subiam e os preços baixavam, onde se podia comprar tudo na quantidade em que se desejasse, onde os camponeses comiam caviar ou lagostas, não que João soubesse qual gosto teriam caviar e lagostas, mas devia ser algo muito especial. Tampouco lhe interessava comer caviar ou lagostas. Mas saber que naquela sociedade nenhum homem passava fome, já lhe bastava.

No entanto, o que mais lhe tocara fora aquele amor e sofrimento do homem soviético, das crianças soviéticas, em relação a seus irmãos brasileiros. Jorge Amado contava que criancinhas de uma escola primária em Moscou choravam ao ouvir como viviam as crianças no Brasil. E um camponês, em um kolkoze da distante Sibéria, chorava também ao saber como viviam os camponeses no Brasil. As mulheres também choravam.

E aquele ímpeto de transformar não só o homem, mas também o planeta! O Ob, o Ienessei e o Lena corriam para o Oceano Glacial Ártico? Pois aquela anomalia geográfica deveria ser corrigida, as águas dos rios de nada serviam correndo naquela direção, quando podiam muito bem irrigar as terras ávidas de água do Usbequistão e da Ásia Central. Enquanto os ianques pesquisavam a energia nuclear para espalhar destruição e morte — “ó, pensava João, a Santa Madre Rússia jamais pensaria na bomba atômica” — o novo homem soviético cindia o átomo para inverter cursos fluviais e espalhar vida. Era a energia atômica a serviço da vida.

 

Sem falar daqueles testemunhos colhidos por Amado, os gestos individuais de heróis só concebíveis em um mundo novo. O piloto que tivera seu avião atingido e, sem poder saltar, o jogara contra um tanque inimigo, servindo a pátria até o último segundo de sua vida. O outro que, após ter ambas pernas amputadas, voltara a voar e abatera ainda onze aviões. Schipachev, o mendigo que se tornara poeta. Se no Brasil, como reconhecimento de sua obra, Amado só recebera o cárcere, no mundo novo recebera um castelo para trabalhar.

Moscou era, decididamente, a nova Jerusalém para a qual os homens de voa vontade voltavam suas esperanças. E Stalin, o novo guia, o maior cientista do mundo, o maior estadista, o maior general, aquilo que de melhor a humanidade produzira. Gérson, ao empinar uma birita em fim de tarde na oficina, recitava com gestos largos aquela ode de Amado:

Seu nome tira o sono aos imperialistas, amarga os dias dos senhores feudais. Mas traz o riso à boca — e o funileiro gargalhava antevendo o dia da desforra — do negro de Madagascar a quem ele indica o caminho da liberdade, faz mais firme na pontaria a mão do soldado da República do Vietnã em luta contra o colonialismo francês. Seu nome é grito de águia contra os senhores das fábricas, é doce gorjeio de pássaro para os trabalhadores das fábricas. Sua presença está onde quer que o homem lute contra a opressão e a miséria. Onde quer que se eleve uma bandeira da liberdade, do socialismo e da paz, ali está Stalin comandante, guia, mestre, pai.”

Não que Gérson morresse de amores por Stalin. Mas aquela convicção dos stalinistas como Amado, de que o Paisinho dos Povos faria explodir as bases do capitalismo, só aquilo já o deixava feliz. Muito safado, o funileiro lhe havia remexido fundo. João passou então a freqüentar o apóstolo da bicicleta, que não se fazia de rogado em passar-lhe mais informações. Veio depois “Viagem”, do velho Graça. Mais cinco gordos volumes dos irmãos Webb. Mais um relato de viagem de Gide, com a prudente observação de Gérson:

— Esse aí, não sei não. Parece que é maricón.

Mais pilhas e pilhas de revistas, “China” e “Unión Sovietica”, onde camponeses aravam suas terras cantando. E mais outros livros que nada tinham a ver com o mundo da paz, mas o deixavam mais revoltado em relação à “sifilização” ocidental e cristã.

Assim que, por ocasião do XX Congresso, mesmo Kruschev sendo o autor das denúncias, ninguém conseguia convencê-lo de que tudo não passava de calúnias da imprensa podre capitalista. Uma fé não se derruba da noite para o dia, ainda mais quando a adotamos ontem. Em última hipótese, fossem verdadeiras as denúncias, restava-lhe a defesa: não se faz omelete sem quebrar ovos.

Puro conto de fadas. Custara-lhe sangue e luta interior chegar a tal conclusão. Isso que se considerava homem de sorte. Ou talvez mais sorte tivesse tido Gérson. Morrera sob tortura, mas não deixara de acreditar no sonho. Suspeitaria Amado quantos estudantes e operários haviam sido mortos e torturados em função do livro com que pagou suas mordomias no Leste? Talvez não, andaria agora muito preocupado em paparicar um Nobel, como aliás já o conseguira aquele seu outro compagnon de route. “Tarde se apaga a luz de seu gabinete” — dissera Neruda de Stalin. — “O mundo e sua pátria não lhe dão repouso”.

Enfim, pelo menos isso a Europa proporcionara àquele gaúcho de Livramento: acabara o mito. Mas o que os europeus já sabiam em 50, antes ainda, em 35, os brasileiros ainda ignoravam, ou fingiam ignorar, em 1950. Daí sua sensação de corno, de último a saber, e pouco ou nada saberia se não tivesse mergulhado nas bibliotecas de Paris. A inteligentsia tupiniquim se esmerava em esconder documentos sobre a história de ontem e os europeus que haviam ousado denunciar em primeira mão os crimes de Stalin haviam entrado no index proibitorum da imprensa ocidental. Enquanto ele levava pau por defender palavras de ordem vindas de Paris, louvando Moscou, os parisienses cavavam abrigos quais ratos, para si e para seus cães, com medo do vizinho russo, do novo regime que não poucos intelectuais europeus haviam saudado como a esperança da humanidade.

— Corno, mil vezes corno — se auto-recriminava. Mas o pior havia passado. Melhor voltar, reerguer a cabeça, esclarecer os novos candidatos a corno.

— Mas não fui corno sozinho — consolava-se, lendo uma edição do “Nouvelles Littéraires” sobre o centenário de nascimento do assassino. Nomes ilustres haviam caído no mesmo engodo. O trágico é que determinadas notícias divulgadas na Europa só chegavam ao outro lado do Atlântico — se é que chegavam — dez anos depois.

— Que barbaridade! — resmungou, enquanto lia e recortava o Nouvelles.

Era um 15 de dezembro, sábado sem luz e sem graça de 1979. Naquele entardecer fodido de Paris no inverno, regado por um chuvisco medíocre que umedecia sapatos e almas, João via mais uma década escoar-se, sombriamente, como soem escoar-se as décadas. Isto é, talvez as décadas não se escoassem assim melancolicamente, a melancolia estaria nele e não na data. O problema era que nascer em ano múltiplo de dez tornava mais difícil a passagem, com a mania que tem o bicho-homem ante os números exatos. A década de 70 só seria encerrada no último dia de 80, e não naquele dezembro. Mas tais nuanças pouco importavam, o fato era que ali adiante o esperava seu quadragésimo 1o de abril. Quem iria marcá-lo na paleta? Karin? Estremecia por dentro ante a lembrança daqueles dentes lindos...

 

Em nome do povo brasileiro, eu te saúdo, Joseph Vissarionovitch Stalin, chefe dos povos soviéticos, educador de todos os povos do vasto mundo. Nossos presentes para ti são as greves, as lutas camponesas, os comícios pela paz, nossa resistência encarniçada ao imperialismo ianque, o heroísmo de nossos camaradas em prisão, a progressão constante e segura do movimento de massa anti-imperialista e nossa luta difícil e vitoriosa pela paz. Eis aqui o que podemos te dar, a ti que nos deste a revolução de Outubro, a edificação do socialismo, a vitória sobre o fascismo, a marcha ao comunismo, a ti que aceleraste o curso do tempo e que fizeste do que nós sonhávamos para o futuro uma realidade de hoje.

(Jorge Amado, 21 de dezembro de 1949)

E milhares e milhares de irmãos portaram Karl Marx
E milhares e milhares de irmãos portaram Lenine
E Stalin para nós é presente para amanhã
E Stalin dissipa hoje a desgraça
A confiança é o fruto de seu cérebro amoroso
A colheita é razoável tanto ela é perfeita
Graças a ele vivemos sem conhecer outono
O horizonte de Stalin é sempre renascente
Nós vivemos sem dúvidas e mesmo no fundo da sombra
Nós produzimos a vida e regulamos o futuro
Não há para nós dia sem amanhã
Aurora sem meio-dia de frescor sem calor.

(Paul Eluard, dezembro, 1949)

Quantas centenas e centenas de milhões de meus camaradas têm pelo marechal Stalin o mesmo amor lúcido! Quantas centenas e centenas de meus camaradas sorriem da vaidade e da ignorância daqueles que criticam este amor lúcido! Lúcido, vocês ouviram, e isto não quer dizer que o coração esteja aí para nada, que nós somos — ou queremos ser — stalinistas à maneira como vocês são swedenborgianos ou existencialistas, isto não quer dizer que nós dedicamos à pessoa do marechal Stalin uma fria admiração. Um amor lúcido, isto quer dizer, um amor do qual nós nos orgulhamos.

(André Wurmser, 1949)

Existem hoje dois tipos de homens políticos. Churchill e Jules Moch de um lado, Stalin e Maurice Thorez do outro. De um lado, a armadilha; de outro, a clarividência. De um lado, a arte sutil e mentirosa das combinações falhas; de outro, a justa e larga consciência do movimento da história. De um lado, o mau humor de um cão de polícia; de outro, a firmeza clara e simples dos verdadeiros educadores.

(Jean T. Desanti, 1949)

Dois dias são passados após a morte de Stalin. Produziu-se uma espécie de torpor. Outra manhã, com a notícia em mim como uma faca, eu havia chegado a Gennevilliers, na sala de conferências nacionais do Partido Comunista, onde todos esperavam, quase mudos. Cada vez que um me apertava a mão, ele e eu, fosse Fernand ou François, ou Daniel, nós tínhamos como que medo dos olhos uns dos outros, de neles ver as lágrimas que tornariam impossível conter as nossas.

(Louis Aragon, 1953)

Quantos naquela manhã (a manhã de sua morte) fomos estas crianças. De repente, despojados, excessivamente órfãos para compreender, nós queríamos reencontrar sua voz. Pela primeira vez na história da humanidade um homem tinha um Estado de homens livres a conduzir. Marx e Engels haviam descoberto sua possibilidade e natureza. Lenine o havia parido. Ele precisava educar a criança. Ele ensinava aos criadores a criar homens livres.

(Pierre Daix, março, 1953)

Porque recortava aquilo tudo? Não sabia. Só sabia como era fácil enganar homens livres ou pelo menos homens que assim se pretendiam. Jogou os recortes em seu baú de assuntos caninos, memória nunca é demais preservar.


 

 

8. CHEZ KRK

 

No avião para Belgrado, Cristiano reconheceu vários rostos de outros eventos, onde há desgraça lá está um jornalista. Tinha um medo pânico de aviões e por longa que fosse a viagem não descolava do assento, salvo para alguma necessidade imperiosa. Caminhava então com prudência, sentia por dentro que qualquer movimento seu mais brusco poderia desestabilizar o aparelho. Quem não tem medo de avião — dissera um poeta — não tem imaginação. Mas isto era o que não lhe faltava, só ao imaginar-se com Krk uma ereção lhe estufava as calças.

Precisava investigar aquilo, não era a primeira vez que o fato ocorria quando voava. Desconforto duplo: a ereção provocava uma necessidade de urinar e para urinar tinha de desatar o cinto e, pior, caminhar pelo aparelho. Era jornalista e tinha medo de voar, o que no fundo lhe fazia crer ser homem dotado de uma coragem extraordinária, já que só um homem corajoso enfrenta seus medos mais profundos.

Palavras que consolavam. Mas não lhe atenuavam a tensão constante, que só o abandonava com aquela sensação maravilhosa de rodas tocando a pista. A cada vôo, sua vida passava em câmara lenta, por curta que fosse a viagem fazia obsessivamente a si mesmo a pergunta: se cair agora esta carroça voadora, minha vida terá valido a pena? Nisto residia, tinha certeza, as bases de seu medo.

Sem comiseração alguma, que teria todos os defeitos menos esse, Cristiano Moreira responderia pela afirmativa. Livros e mulheres, seus prazeres mais diletos, os tivera em profusão. Amigos, ave mais rara, que se os contasse nos dedos sobraria um monte de dedos, também os tinha. Inimigos, estímulo que precisa todo homem para superar a si mesmo, os alimentava aos lotes.

Adorava seus inimigos. Os amigos são perigosos, pensava, por amizade são capazes até de relevar nossas falhas. O inimigo, não. É fiel, constante, está sempre a nossos pés buscando a menor brecha para investir. Todo homem que se propõe algo, diria, devia cultivar um inimigo dos bons, desses obcecados que são capazes de ir a nosso enterro na esperança de constatar pouca gente. Seu consolo era que, se naquele o avião explodisse, só os inimigos desta fibra já lhe garantiam uma generosa multidão acompanhando o que dele restasse.

Não que os buscasse de propósito. Mas em uma época dominada por ideologias e religiões, ao grafar uma palavra todo livre-pensador cria um séquito de desafetos. Desconfiava inclusive que sua coluna era mais procurada por estes do que pelo leitor que o estimava.

Livros. As mulheres, não insistia em conhecê-las todas. Mas continuavam semivirgens em sua biblioteca algumas páginas às quais gostaria de um dia voltar. Garantissem-lhe uma prisão especial no Brasil, com livre entrada de todo e qualquer livro, pensaria até mesmo em cometer um desses crimes sem vítimas, algo que lhe permitisse um ano de isolamento. Poderia então retomar Proust, que abandonara em Côté de Guermantes. Concluir Casanova, que acompanhara até a prisão dos Chumbos, avançar nas “Mil e Uma Noites”, que dependesse dele Xerazade havia perdido a cabeça no centésimo relato. Não que suas histórias o entediassem, nada disso. Mas jornalista que não concluiu suas leituras antes de entrar no ofício, melhor deixar de lado a esperança de um dia chegar à página final. Pensava descansar na volta da Iugoslávia, mas logo havia a coroação de Trix em Amsterdã, mal teria tempo de apanhar roupas limpas em Paris.

As “Mil e Uma Noites” curiosamente evocavam o marechal, das cem noites que lera lhe restavam algumas chispas de poesia: loado sea el hombre que no tiene semejantes! Ao mesmo tempo lhe evocavam Krk: loado sea el hombre que te tiene por debajo! Mas viajava, pelo menos teoricamente, para cobrir Tito, não Krk. Os últimos dias do marechal o comoviam, a perspectiva de que o avião caísse não o assustava tanto quanto o destino destes preciosos utensílios do Estado, cuja vida era cruelmente espichada pelas sofisticações da medicina. Sentisse um dia que se aproximava sua hora, fugiria de cidades e hospitais, se imaginava sentado sob um umbu olhando o mar verde da pampa, esperando qual cavalo a visita da Moira Torta.

Enfim, tinha de tirar o chapéu aos iugoslavos. A agonia de Tito havia sido relativamente curta se comparada com a de Franco ou Boumedienne, e nenhum comunicado de Ljubljana falara em gripe. Pois quando se noticiava que um homem de Estado estava com gripe era porque uma metástase já era senhora de sua carcaça. A propósito, para quando seria a gripe de Brejnev? Não lhe desagradaria uma viagem a Moscou.

As hemorróidas de Carter. Ou a Casa Branca tinha um extraordinário senso de relações públicas, ou os americanos não eram dados a cultivar certos mitos. A intervenção cirúrgica fora anunciada ao mundo, os terminais de telex de todos os países haviam recebido notícias do ânus presidencial. O que dotava Carter de uma surpreendente humanidade, era um ser como os demais, capaz de ranger os dentes ao sentar, o rabo ardendo com a dilatação das veias.

Sobre os Alpes o avião cai alguns quilômetros e Cristiano se agarra instintivamente ao cinto. De onde viria aquele medo todo? Entrevistara certa vez um faixa preta em taikwondô, o homem com apenas um olhar punha a correr dez assaltantes. Mas ao voar sentia medo qual criança no escuro. Era um medo absolutamente idiota, sempre que o admitia publicamente não faltava quem lhe jogasse uma saraivada de estatísticas, que o automóvel matava mais, no que Cristiano estava absolutamente de acordo. Mas o que lhe fazia medo era estar com os pés longe da terra. Ou melhor, estar no ar. Adorava viajar de navio, mesmo tendo a consciência de que, para o homem solitário e desesperado, a travessia do Atlântico num barco de milhares de toneladas era risco maior do que varar os Alpes em asa delta. Lembrava Schneider. De onde saíra aquele militar que lhe estendera a mão em meio à pior tempestade?

 

A mi llegada de navegar recibo la invitación al diálogo más importante de mi vida, diez días de reflexión y de repente, las ganas de responder brotan casi sin sentirlas, creo que esta es la forma más honesta de responder a un amigo, dejando que corra la pluma, silenciosamente (en el fondo el diálogo epistolar lleva siempre el peso de la mudez) y agolpando las palabras contra la punta de la lapicera, unas veces ordenadamente, otras veces en tropel, otras veces perezozamente pero estableciendo una identidad entre la acción y la decisión de comunicarse, creo que en esto reside el secreto de la comunicación, en dos acciones o, para no confundir, hechos, o capacidades: la capacidad de decisión y la capacidad de acción.

Ambas están entremezcladas y ambas requieren el uso de la inteligencia y de la voluntad, si cualquiera de estas capacidades falta, el silencio se establece inmediatamente, así creo que debe comenzar esta respuesta, estableciendo racionalmente las bases sobre las cuales te escribo y debes interpretarme, despues podrá venir o no el toque mágico de artista; la entrega de Moisés a la humanidad por Miguel Angel puede ser un ejemplo de lo que te quiero decir, voy a intentarlo, tengo la decisión de hacerlo y la pluma está en mi mano. ¡Adelante!

 

Ao receber a carta, não acreditara muito no que lia, da mesma forma que até hoje se perguntara se o encontro no Eugenio C fora um fato ou não passara de um sonho. Tinha sido sua pior viagem, a estrutura cansada do barco rangia em seu avanço pelas ondas, mas pelo barco Cristiano não nutria temores. Tinha medo, isto sim, do Atlântico e de si mesmo, todas as noites suas águas o convidavam para o salto. Estava em Lisboa quando soube da morte de Canário e a impossibilidade de falar-lhe de suas andanças, a impossibilidade desta vez definitiva de um diálogo entre homens — desse diálogo que sempre vamos deixando para amanhã até o incerto amanhã em que não mais é possível — tudo aquilo o impelia a pular na noite e no infinito, ver as últimas luzes do navio se afastando enquanto o abismo o engolia. Aquele militar tão pouco militar, uma barriga imensa de civil resvalando das calças, fora o único a poder dizer-lhe algo. Cristina ao violão, um sorriso só, cantando canções que lhe afastavam do espírito as tentações de autodestruir-se, e de uma vez por todas.

— Las tempestades del oceano no són nada delante las del alma.

A frase soava a tango argentino, é verdade. Mas não tinha o tango uma metafísica profunda? As angústias de um cantor arrabalero — como se perguntava Sábato — não eram tão legítimas quanto as de um Kierkegaard?

 

Creo que Cristiano debe abandonar influencias y dedicarse a Cristiano, así cesarón sus preocupaciones y sus angustias, Cristiano debe apoyarse en Cristiano, el roble ya ha crecido, la fruta ha madurado, esta resplandece ante el sol, su misión es exibir su belleza hasta el momento en que muriendo deje fecunda la semiente, no puedo entremesclar entre mi pulpa la semilla de otra fruta, a lo sumo puedo decir que me estoy alimentando con la misma savia.

Asi como escribo en esta hoja rota, imperfecta, digo que esta hoja es mia y en ella van mis ideas, obscuras, insignificantes, ¡¡pero mías!! Ese otro yo que esta dentro nuestro espiritu se escapa a traves de la pluma y constitue la respuesta al interrogante que uno viene se haciendo sobre uno mismo. ¿Quien soy? Alguien que escribe, alguien que tiene deseos de trascender de uno mismo, alguien que puede darse el lujo de grabar para otros su experiencia.

Yo quiero que esto que digo ahora trascienda. ¿Que debo hacer? Continuar escribiendo en paz o no, en desesperación, en alegria, en abtimiento, en angustia, en euforia, transmitiendo todos los estados del alma con la misma y brutal intensidad. Desechar a esta altura la efectividad del pasionismo y transformarse en un rio plácido que va entregando sus aguas al mar. ¿Y por que al mar? Porque allí se encuentra la desesperación y la placidez, la calma, la tormenta, el miedo y el valor, es decir, la definición más humana de la humanidad.

 

La semilla de otra fruta. Aquela âncora surgira no momento exato, ou talvez o Eugênio C tivesse aportado no Rio com um passageiro a menos. Aquele encontro absurdo lhe insinuava que algum sentido havia nas viagens e na angústia do carbono vivo. Perguntava-se onde entraria Krk em sua vida e onde entrava ele na vida de Krk. Oficialmente, viajava para cobrir a morte do marechal. Mas, de fato, iria encontrar-se com Krk. A cobertura jornalística poderia fazê-la perfeitamente de Paris, era o que fazia a maioria de seus colegas, mesmo os que viajavam naquele avião acabariam lendo o Nouvel Obs ou o times para saber o que de fato acontecia em Ljubljana, já que das línguas iugoslavas não falavam bolhufas.

Viajavam para tomar trago, conhecer mais uma cidade e transmitir a famosa cor local. A partir da ótica dos jornais europeus, enviariam traduções de textos à América Latina, os jornais do Rio e São Paulo reproduziriam aquela ótica européia e, lá emPorto alegre, um monoglota atroz leria o Estadão ou o JB e faria “sua” crônica política, sem ter muita certeza se Tito era búlgaro ou albanês. Era isto que tornava os latino-americanos culturalmente tão inseguros — concluía Cristiano — ao analisarem qualquer acontecimento, pediam socorro a um modo de pensar europeu.

Mas não pretendia esquentar banco em Belgrado. Tomaria o primeiro trem rumo a Skopje. Sem esquinas e, conseqüentemente, sem botecos nas esquinas, a cidade lembrava Brasília, a mais feia cidade do mundo. Mas lá vivia a mais linda das iugoslavas e toda cidade é linda quando nela há alguém que nos ama. Onde lera isto? Não lembrava mais, mas fazia sua a frase. Krk lhe traduziria o que diziam os jornais do país, o que pelo menos o deixava mais próximo da realidade do que a imprensa latino-americana.

 

Es que tenemos de escribir siempre en tensión, alcoholizados, mutilados, lastimados, enfermos, o debemos tratar a la humanidad en forma humana, donde todo tiende siempre al equilibrio, donde siempre alguien encuentra su otro yo, la paz allí donde está la guerra, el amor donde está la lujuria, la sobriedad donde se debate la ebriedad, esta es tu responsabilidad, el roble ha crecido, ha comenzado a ver desde su altura el empequeñecimiento de este mundo que creyó haber descubierto y las sorpresas se suceden, hocanadas de aire puro le hacen por primera vez abandonar la atmosfera viciada de los bajo níveles y encuentra los otros robles que se levantan, lejanos, casí perdidos en la bruma, pero que los siente hermanos suyos, esta es la carta de Cristiano, el primer golpe de viento en altura lo confunde porque porque en el fondo quiere sostenerse en lo que hoy son solo estacas, benditas sean en valor relativo para ti, los libros que leíste y escribiste son ya estacas.

Yo aspiro a ser una de ellas porque creo que mi mayor mérito es haber llegado tarde y haber gritado al roble haciendo mover sus hojas, eso es suficiente, los hombres toman conciencia de su grandeza siempre comparando, no valor[andose, así debe ser, quizá esta carta te resulte de un nível inferior al que imaginaste, estoy seguro y esa será mi mayor felicidad!!

La fruta resplandece ante el sol, yo la contemplo como una bella obra de la creación, sé que guarda la semilla del mañana. Yo he ayudado a que madure, soy el viento, la ráfaga que llegado traída por el Eugenio C y que se ha transformado en una debil brisa que se mantiene constante sobre ti para quitarte el polvo que pueda cubrir tu perfección. Soy viento, estaca, agua, pero no sol...

 

A aeromoça pede que os passageiras mantenham os cintos atados, aviso redundante para Cristiano. Cretinas — pensava — têm um jeitão profissional, a nave pode estar vindo abaixo e elas sempre sorrindo, mulher alguma conseguiria dissimular melhor do que elas. Estava tenso, um desespero qualquer lhe invadia o corpo. Krk que se preparasse, iria inundá-la com aquela eletricidade que lhe eriçava pêlos e cabelos.

Conhecera Krk na Sorbonne. Ela intuíra algo, perguntara já no primeiro dia: “Tu escreves?”. Tento escrever, respondera, e agora lembrava que fora esta a mesma resposta que dera ao militar no convés do Eugenio C. Depois, aqueles quiproquós e confusões de duas pessoas que mal dominam uma terceira língua, queremos ser sutis e a precariedade de vocabulário acaba obrigando a menos sutilezas e mais concretude, o que afinal fora muito bom.

Lembrava de uma gaúcha, distante no tempo e no espaço, ela sofrera uma traqueotomia e não conseguia enunciar palavra alguma, fora este o período mais idílico de seus dias de Porto Alegre. Mas a medicina tinha suas performances, uma dia ela acabou tapando aquele buraquinho na garganta e readquiriu a fonação, com o dom da palavra foi ungida pela estupidez. Começara a discutir questões femininas e duas semanas de voz haviam sido suficientes para destruir uma relação de quase um ano. A palavra complica, pensava Cristiano.

 

¿Que respondo a lo que preguntas? ¡No bajes de nível! Wn ti, a esta altura en que puedes llamar el mundo y el responderte debes aceptar naturalmente la paz y la guerra, el sí y el no, es decir, ¡el hombre! Usa todo que viviste, usa a mí, usa a todos. Sácales su mensaje y transforma todo esto en algo tuyo, y ese es el tema de esta reflexión, escondida, dura, pero magnífica; aí como el concierto se juega sobre un tema en sus diversos movimientos, he tratado otra vez de retrotaerte a tí mismo, de ponerte en crisis, de hacerte ver que debes abandonar todo para gritar: ¿si yo no me he destruído, porque Ustedes?

¿Que hacer con esta humanidad? Creo que nuestras tarea es inventar nuevos métodos de comunicación, provocar una revolución intelectual que vaya más allá de escribir y soñar, sino que hable enseñando, esta es tu obra, en el fondo creo que recién hoy podias recibir el mensage que preparé para tí hace meses...

 

Os prepecnicos lábios de Krk. A aeromoça anunciava os procedimentos de aterrissagem e Cristiano já antegozava os dentes da iugoslava, ela tinha um jeitinho muito seu de secar os dentes ao ar, descobrira isto na ponte Saint Michel. Atravessavam rumo a Chatelet e justo em cima da ponte Krk começara a roçar-se nele como cadela no cio, me abraça e me lambe, ele a abraçou e lambeu-lhe o pescoço, via seus dentes cada vez mais secos e ao fundo Notre Dame, Krk estremece toda, coxas coladas às suas e surrura “J’y viens”. Vai ser de orgasmo fácil assim no inferno — pensara Cristiano — e mesmo sentindo as rodas do avião tocarem a pista não conseguia controlar sua ereção. Apelou a um velho macete, apanhou o Monde e cobriu seu sexo, não ficava bem a um correspondente internacional descer no país em momento tão grave, com tal disposição — como diria? — de espírito.

Em Belgrado, antes de tomar o trem, deu um giro pela Knez Mihajlova e degustou sua primeira Šljivovica na terra do marechal. O aeroporto da cidade abominável para onde ia estava interditado, o que lhe poupava bons quartos de hora de tortura. Alguns colegas haviam descido em Zagreb para rumar a Ljubljana, como se daquele hospital pudesse filtrar algo mais além dos comunicados de imprensa cuja redação dependia de Belgrado. Macaco velho, Cristiano considerava que a melhor cobertura nem sempre é feita no foco da notícia. Não lhe desagradaria uma subida até Ljubljana, em outras andanças descobrira um convento cistercense em Sticna, lá se encharcara em Krk e nos mais travosos vinhos. E depois há quem diga que os homens viajam para comer. Ele, se quisesse ser honesto consigo mesmo, viajava para beber e, no caso, rumo a duas magníficas filas de dentes.

Krk o esperava na estação, o prédio semidestruído pela última guerra e assim conservado para a memória das gentes. Sem palavras, tomaram às pressas o rumo do apartamento.

Sentia-se extremamente bem, uma alegria inusitada lhe invadia as células. Fugira dos fatos e se refugiara no cálido regaço de Krk. Tinha uma estranha sensibilidade, a de sentir na carne as surpresas — boas ou más — de sua vida. Lembrava Lisboa 75, todo seu lado esquerdo tremia, com a canhota mal conseguia segurar o bagacinho, só conseguira controlar-se quando soube o que de fato havia ocorrido. Vivia agora sensação contrária, uma felicidade animal, vegetal quase, lhe percorria os neurônios, o que não era exatamente normal, mesmo com Krk a seu lado. Algo estava por acontecer e até lá pretendia entregar-se àquela euforia somática.

— Estás excitado como nunca — se lambia Krk.

Tinha de convir que sim. Uma prosopopéia qualquer o dominava, era como se um outro, que ainda mal conhecia, lhe tomasse a palavra e falasse por sua boca. Pela primeira vez não o invadia aquela tensão intrínseca ao ofício, a de perder o registro dos fatos. Tomara intimamente a decisão de trabalhar com a mesma irresponsabilidade de seus colegas brasileiros, se Krk não lhe deixasse tempo para algumas laudas acabaria traduzindo e fundindo o noticiário francês. Mais algumas piadas cá e lá — e os iugoslavos eram pródigos na matéria — uma consulta ao Guide Bleu ou Michelin et voilà: dava um resumo da história do país e não faltaria, no Brasil, quem o imaginasse um especialista em assuntos iugoslavos.

— Acabaste por fazer concessões — objetava Krk —. Estás cedendo à irresponsabilidade do jornalista?

Sim e não. Correspondentes internacionais não eram oniscientes, a própria dinâmica da profissão os obrigava à superficialidade. Fossem citar todas as fontes, a bibliografia tomaria mais colunas do que o artigo. Estava em um pequeno país com dois alfabetos, três religiões, seis línguas e não seria em uma semana que iria aprender sua história. Preferia entregar-se ao sabor de álcoois e vinhos e com Krk degustou boas safras de Grk e Zilavka, sem falar de um antigo sonho, a Uzicka Šljivovica, desde Porto Alegre sonhara um degustar aquela cachacinha. Fora em “O Silêncio”, assistido no Ópera, que vira a garrafinha, e se perguntava como é que Bergman havia deixado passar aquele rótulo em seu filme. “Um dia irei a Estocolmo para beber uma Uzicka Šljivovica”, prometera a si mesmo. Ao chegar lá, descobrira que a bebida era iugoslava. Ciente de suas preferências em matéria de cultura cinematográfica, Krk lhe reservara uma Šljivovica prepecnica.

— Vocês parecem abutres. Onde há cadáver, lá estão em revoadas — comentou Krk.

Il faut nuancer, ma chère, só onde há cadáveres ilustres. Cadáveres anônimos só nos interessam quando em pilhas.

De repente percebia existir algo de necrófilo em seu ofício. Há poucos dias, enterrara Sartre em Paris. Enquanto o homem vivia ninguém lembrara — nem ele mesmo, tinha de convir — de entrevistá-lo. Vaselina lhe pedira, isto sim, uma entrevista com o Falcão, em Roma. Mas quem era Falcão — perguntara ao telefone — era algum pensador, terrorista, estadista? Para ouvir Vaselina esbravejar do outro lado do oceano: “vai te foder, Cristiano, piada via satélite custa caro e não tem graça”. Mas mal tivera Sartre a idéia de morrer e de repente, em Porto Alegre, as imprensa lembrava que ele havia existido. Agora esperava, impaciente, a passagem de Tito para correr ao posto mais próximo de telex e enviar sua matéria, a rigor já tinha tudo escrito, daria ao marechal a honra de apor-lhe o ponto final.

A morte transfigura os grandes, fossem heróis ou assassinos, cadáver de estadista que tivesse feito milhões de outros cadáveres sempre interessaria mais ao jornalista do que o cadáver de quem não tivesse feito nenhum outro, naquela sinistra bolsa de valores as carcaças de um Hitler ou Stalin ou Mao sempre estariam melhor cotadas que a de um Dag Hammarskjöld, por exemplo. Já pensara não poucas vezes, para apressar sua demissão, em cobrir o nascimento de um bebê qualquer em uma maternidade e correr ao telex:

PARIS URGENTE — HOJE NASCEU ALGUÉM. NÃO SE SABE BEM. MAS NASCEU. E PASSA BEM. AINDA NÃO MATOU NINGUÉM. MAIS NADA A DIZER SE TEM. E SE ISTO COMO NOTÍCIA NÃO VALE UM VINTÉM, VASELINA QUE A ENFIE ONDE ENTENDER BEM.

Não, não tinha por missão específica a cobertura de funerais de ilustres carcaças. Mas estes, caso ocorressem, se sobrepunham a qualquer outro acontecimento. Leitores pedem mortes — repetia o secretário Vaselina, com ares de arcano — depois tudo o mais é notícia, mas só depois. Tinha razão, Krk. Mas tomara intimamente a decisão de não permitir que nada empanasse sua euforia celular. Puxou-a contra si e deixou-se molhar pela prepecnica que lhe molhava os lábios. Mais um terremotozinho, de débil intensidade, fez tremer aquela terra de frágil equilíbrio sísmico.

 

Usava Krk como um espelho. Conseguia abrir-se, junto a ela, com facilidade, entregava-se sem reservas, se mostrava como jamais se mostrara a nenhum amigo ou conhecido. Seria certamente a distância o que os aproximava, já que sempre se sentia distante das pessoas que lhe eram próximas.

— Tuas tardes no Dragon? — perguntava Krk.

Le Dragon. Há tempos não freqüentava aquele cinema do Saint Germain. Promiscuidade excessiva. Três ou quatro orgasmos por tarde, sempre no escuro, até o dia em que se deu conta de que preferia talvez jamais ver o rosto dos parceiros. Krk não o entendia. Não conseguia concebê-lo homossexual.

— Tens razão, ma chérie. Sou apenas um ser sexual. Acontece que sexo não tem sexo.

As feministas, ou melhor, os católicos, sim, certamente os católicos, já que as feministas eram umas desmioladas que se deixavam utilizar por uma paranóia milenar, os católicos haviam colocado um impasse intransponível entre o homem e a mulher. Se o homem tomava a iniciativa, era machão, falocrata, porco-chauvinista. Se não tomava a iniciativa, não conseguia mulher alguma. Tinha desagradáveis lembranças de não poucas noites em Paris. Colegas e amigas o procuravam, conversavam até o amanhecer em seu apartamento. Se esboçava um gesto para tocá-las, lá vinha a objeção: machão latino. Se não esboçava, mais dia menos dia surgia a dúvida: será que ele gosta de mulher? Às vezes não sabia se devia chorar ou rir. “Tenho vontade de fazer amor contigo”, dissera uma permanente do PCF. Tentara abraçá-la entusiasmado, a menina prometia festa das boas, para ser repelido: “não me toca, eu me sinto violentada”. Ah, vão pra puta que as pariu!

— Toda mulher quer ser conquistada aos poucos — defendia-se Krk.

— Mas eu não tenho tempo para teatro — defendia-se Cristiano.

Fim de semana seguinte, teria de estar em Amsterdã, coroamento da rainha, pelo menos não era um cadáver que o chamava. Fim do mês, João Paulo estaria em Paris, já nem queria pensar na massa de pobres de espírito que iriam cercar o polaco. E o pior é que teria de mandar para o Brasil um texto edificante, na base do Sua Santidade e calhordices que tais. Precisava também de tempo para si mesmo. Sem falar que não conseguia conviver com uma só mulher. Preferia então pagar profissionais. Ou confraternizar com homens, eram mais objetivos e menos metafísicos. Além disso, não queria conquistar ninguém.

— Tu não entendes as mulheres.

Se para isso precisasse jogar o eterno jogo de caçador e caça, preferias morrer sem entendê-las do que participar daquela comédia. O que o atraíra em Krk — e não fosse isso não estaria ali — fora seu gesto espontâneo, sua decisão sem hesitações, numa distante, e tão próxima, noite em Paris. Suas orgias em cinemas e saunas às vezes lhe provocavam uma certa náusea, não física, mas mesmo assim náusea, ou talvez piedade, sentia profunda pena por aqueles seres que se ajoelhavam nas brumas como que em cachos diante de um pênis. Recordava certas colônias de minhocas de seus dias de guri, anelídeos violáceos que só podiam locomover-se uns por cima dos outros. Os de cima, após rastejar sobre os que ficavam em baixo, os ultrapassavam e faziam ponte para que de baixo continuassem a marcha. Rumo a quê? Mas naquelas colônias havia um instinto, um objetivo preciso, ou jamais andariam em cachos.

— São vocês que me empurram aos homens.

— Eu não — excluiu-se Krk, enroscando-se em Cristiano.

O Vardar rolava em silêncio rumo ao Egeu, cortando em dois a cidade silente e sem graça, a noite era fresca e imóvel, tensão alguma no ar confirmava as manchetes alarmistas da imprensa européia, “existirá uma Iugoslávia depois de Tito?” ou talvez tensão houvesse, mas lá nos centros nervosos do poder, de qualquer forma não chegava a invadir as quatro paredes daquele apartamentinho, atapetado de pequenos objetos comprados em Roma, Paris, Londres. Para uma mulher solteira em um país socialista, era uma conquista invejável, no carinho de Krk pelos souvenirs que a envolviam sentia-se que aquele diminuto território ela o defenderia com a vida se preciso fosse, era o seu espaço, área vital, onde podia isolar-se ou não, entregar-se à sensualidade que incendiava seu corpo frágil e esguio, frágil mas furioso quando excitado. Naquele território livre, cercado por países inimigos, Cristiano divagava, semibêbado, sobre sua concepção de sociedade sadia.

Sonhava — e recitava seu sonho — com uma sociedade onde as visitas, ao estender as mãos aos anfitriões, não lhes apertassem as mãos, mas acariciassem os sexos. À guisa de saudação, uma apalpadela nos genitais. Antes mesmo do aperitivo, ou à guisa de, uma cópula rápida entre visitantes e visitados, o que tornaria a conversa mais amena e isenta de tensões. Antes das despedidas, mais uma confraternização erótica, mais curtida desta vez. As vistas serias mais freqüentes, mais calorosa a amizade, os crimes sexuais inexistiriam, como também os ciúmes, as mentiras entre os cônjuges, a pornografia, o comércio sexual, as neuroses e a psicanálise.

— Isso não existe — atalhou Krk, com ar de quem repreende uma criança.

— Mas existiu. Ou deve ter existido. Ouves o Vardar?

— E daí?

— É só seguir o rio, a jusante. Alguns quilômetros e vais cair no país onde os homens viviam mais ou menos assim, antes que o cristianismo entristecesse a Europa.

Antes que ela objetasse, como fazia menção de, ajuntou:

— E a América Latina também.

— Reduzes tudo a sexo?

Não. Pensasse apenas em sexo, não teria enfrentado os horrores de uma viagem aérea. Sexo jamais lhe faltara. Mas quase sempre pago, e quando gratuito escondia, em geral, segundas ou piores intenções. Quando uma colega ou conhecida oferecia o calor daquela preciosa concha entre as pernas, via de regra cobrava, ou tentava cobrar, mil vezes mais caro do que uma profissional.

— Não. Só penso em sexo quando não estou exercitando o meu.

— E quando vais parar de me chamar de Krk?

— Provavelmente nunca.

Era fascinado por palavras longínquas, amontoados de consoantes sem vogais para suavizá-las. E não só ele. Lembrava as noitadas nos bares de Porto Alegre, quando ele, João e Dalmácio perturbavam os críticos de cinema, já que dos filmes só colhiam minúcias, detalhes imperceptíveis, nomes de bebidas, cidades, ilhas, desde que impronunciáveis. De Krk, ouvira falar na Suécia, serias uma ilha do Leste europeu. Quando a situou na Iugoslávia, só poderia chamar de Krk a primeira iugoslava a conhecer.

 

Voltou a Paris no domingo, 27 de abril. O marechal continuava lutando contra a morte. Talvez estivesse morrendo quando Cristiano aterrissava em Orly, quem sabe exalaria seu último suspiro quando a reportagem estivesse sendo composta em Porto Alegre. Mas não escrevera sobre morte, deixava isto para as agências de notícias. Traçara um perfil do homem sobre o qual Stalin dissera bastar um piparote para jogá-lo ao Adriático, da nação pequena mas cheia de brios que resistia à barbárie instalada mais ao Leste. E concluía com seus botões que, excetuando França e Inglaterra, nutria profundo carinho pelos pequenos países.

O avião chegou com atraso, só conseguiu táxi já passando de meia-noite. Como sempre, ao voltar de viagens, uma inquietação difusa o corroía por dentro, imaginava encontrar o edifício em chamas, o apartamento arrombado, os arquivos destruídos. Não era homem ameaçado, mas jamais conseguira libertar-se daquela síndrome.

 

Estava na ducha quando tilintou o telefone. Duas da madrugada, a chamada só poderia ser do Brasil. Era. Do Secretário Vaselina.

— Tudo bem, Cristiano?

— Tudo.

— Aqui são nove da noite, aí deve ser uma da madrugada, não?

Com água e sabão pingando na moquete, intuiu que saberia agora o que pressentira chez Krk.

— Não, meu caro. Estamos agora em horário de verão. São duas e cinco.

Conversa pra boi dormir. Que queria Vaselina?

— Escuta, Cristiano, estou telefonando para te dizer que a empresa dispensa teus serviços.

Ah! Gratíssimo, meu anjo, mas não era necessário esse intróito todo a respeito de fuso horário, tampouco precisavas falar assim impessoalmente em empresa, não é de hoje que te chamam Vaselina, o que enraba sem doer, só arde depois.

Mais cedo ou mais tarde aquilo teria de acontecer, Porto Alegre se tornara pequena demais para suas provocações. Vaselina não precisaria mais jogar suas matérias ao cesto e quanto ao material sobre Tito, Cristiano mesmo lhe pouparia o trabalho, havia greve de lixeiros em Paris e mais laudas menos laudas pouco influiriam naquela imensa poubelle.

— Obrigado, Vaselina. Um abraço.

— Abraço pra ti também, Cristiano. E bom dia.

Enfim, homem livre. Talvez pudesse agora concluir as “Mil e Uma Noites”, roubar ao rei Schrahriar a cabeça de Xerazade. Pôs no toca-fita um cassete, Makedonski Narodni Pesni i Ora, e terminou a ducha embalado pelas canções com cheiro de terra daquele povo estranho, nada entendia do que ouvia, mas sentia gente de campo dançando, comento e bebendo, cantando a vida.

Vontade de beijar Vaselina, pensava certamente que o estava enrabando, em verdade o libertava de um vício que o destruía mais que o álcool. Há séculos se propunha a largar o ofício, afinal muitas outras maneiras existiam de ganhar a vida, o fato é que aquela frase corrente nas redações era de uma verdade profunda: jornalismo é cachaça. E os donos dos jornais sabiam disso. Tentando forçar um desfecho, nos últimos despachos passara a hostilizar deliberadamente a filosofia do jornal e não errara o alvo de suas ironias, disto era prova aquela chamada noturna. Entre irritado pela deselegância do gesto de Vaselina e entusiasmado pela perspectiva de vida nova, sem viagens inesperadas nem a obrigação de análises feitas nas coxas de fatos do momento, tentou dormir.

Mas não dormiu.


 

 

7. AU BORD’ELLE

 

Se ser livre era bom, bem melhor era ser livre em Paris. João Geraldo conseguira uma bolsa através do Partido, em paga tinha de fazer palestras em sindicatos e universidades, mais a vaga obrigação de defender uma tese em torno a um tema que preferia não mexer, prisões políticas no Brasil. Um pudor íntimo, paralelo ao sexual, o fazia calar quando lhe perguntavam sobre seus dias de cárcere. Tortura era algo tão ou mais íntimo que o ato sexual, que dizia respeito apenas a duas pessoas: ele e o torturador. Conhecia brasileiros que adoravam exibir suas chagas aos espantados olhos europeus, mas ele não conseguia e se não podia escapar ao tema, falava impessoalmente, como se jamais tivesse visto de perto os horrores que descrevia.

A vida era uma caixinha de surpresas, sonhara um dia ir a Paris e fora parar na prisão. Quando já perdera as esperanças de dali sair vivo, saíra para Paris. Nos primeiros meses, fora palestras em uma cidade e outra, dedicou-se ao singelo e fundamental prazer de ser livre. Liberdade era como saúde, só a sentimos quando a perdemos. Degustava Paris com moderação, tinha medo de um choque anafilático psíquico, consumia a cidade com as precauções de alguém que, após uma longa greve de fome, é convidado para um banquete. Mas se havia algo que custava a morrer no bicho-homem eram as ilusões. Cristiano não lhe confessara ter necessitado de vários anos para entender seus dias de Suécia? “Vais assistir” — dizia — “e muito em breve, a um fenômeno curioso. Esses exilados, espalhados pela Europa toda, que dizem só voltar ao Brasil de metralha em punho, mal surja uma anistia vão voltar chorando. E sem metralha alguma.” Cristiano devia saber do que falava.

João se entregara a Paris com a inexperiência e sofreguidão de um seminarista que entra em um bordel, a mulher que lhe abre a porta é a eleita, seja anão ou corcunda. Nada mais lento que o desencanto. Via apenas o que queria ver, não via o que não queria ver mas via. Percebera este recurso de defesa só após um bom ano de Paris, e acidentalmente.

ELLE TUE LE MEURTRIER DE SON CHIEN

Un automobiliste qui avait accidentellement heurté un chien a été tué d’un coup de fusil par la propriétaire de l’animal, à Châteauroux (Indre). Czselaw Dymarkowski, 52 ans, regagnait son domicile en voiture, après une partie de péche, lorsqu’il heurta un jeune chien-loup appartenant à as voisine. Celle-ci, Françoise Montel, 42 ans, est aussitôt allée chercher une carabine et a abattu M. Dymarkowski à bout portant.

Numa roda de gaúchos, alguém manifestava seu espanto por ter visto um casalzinho se gratificando mutuamente nos corredores do metrô, o que o fez atalhar mecanicamente: “isso não é nada, tche!, já vi um negrão barranqueando uma estátua”. Mal havia concluído a frase, pensou em voltar atrás, certamente havia sido sonho, mesmo assim continuou. Fora durante suas primeiras semanas de Paris, quando se dedicava a explorar a cidade. Tomara o La Patache para até Montmartre pelas eclusas do San Martin. A manhã era gloriosa, Paris recém despertava, além dele o eautobus transportava algum turistas sonolentos fotografando o Pont des Arts, Notre Dame, Conciergerie quando, após a ilha Saint Louis, pouco antes de entrarem no San Martin, na pracinha frente a Jussieu, qualquer coisa se movia onde não devia existir movimento algum, uma escultura modernosa e cheia de curvas pareceu adquirir vida, o conjunto era todo cor de ébano e parte do ébano, também curva, parecia mover-se e contorcer-se e acariciar, os turistas todos olhavam perplexos numa tentativa de entender o que estava acontecendo naquele setor do universo quando, após um bom minuto de estupefação o episódio adquiriu — ou pareceu adquirir — sentido: um negro nu, lança em riste, confundia-se em formas e cor fazendo amor com o bronze. C’est drôle! — disse a guia, e mais não disse.

O fato era nada menos que insólito, mas insólito mesmo era não o ter guardado na memória, ou melhor, tê-lo colocado em um canto escuro das lembranças para só um ano depois nele tropeçar. Decididamente não fora sonho, o tíquete do La Patache, esquecido dentro de um Larousse, continuava lá como muda testemunha do evento, era algo assim como aquela reação típica de burocrata francês ao deparar-se com algo não encartável em seu espírito lógico: “je n’ai jamais vu ça!” e se não havia visto é porque certamente não existia no universo embora o estivesse vendo. Seu cérebro não conseguira classificar o fato e o jogara na pilha de lembranças sem registro, mal uma delas voltara à tona a pilha toda passava a adquirir um outro significado.

Havia um outro negro, bem mais recente e mais real, tão real a ponto de deixar uma mancha de sangue em seu sobretudo. Acontecera no 21, o ônibus mais latino de toda Paris, o corredor estava repleto de pessoas em pé, um africano imenso tentava aproximar-se da saída, João apenas ouviu uma frase mal-humorada de uma velhota, “ces noirs!” e ato contínuo um ruído surdo de soco e uma madame voando rumo ao fundo do corredor, o negro ainda a perseguiu e a brindou com dois violentos murros na nuca, a velhota lhe caiu nos braços, a boca sangrando e tremendo de medo, em meio ao silêncio indiferente e mesmo cúmplice dos demais passageiros, estrangeiros em sua maioria. Olhos injetados de sangue, o negrão desceu na parada seguinte, berrando qualquer coisa numa língua inidentificável. Teria suas razões. Como também teria aquele outro, na fila da padaria, de novo um confronto velhota versus negrão, madame lhe tomara a frente na fila e não contente passara a xingá-lo, “ces sales naoirs”. O africano, sem poder expressar-se em francês, tremia de ódio, prisioneiro de seu idioma, as mãos foram-se armando em bote e saltaram ao frágil pescoço de madame, salva pela gritaria toda em torno. O negro, assustado talvez com o próprio gesto, largou-a no chão como um saco de papel. Tais cenas, jamais as imaginara em Paris, pátria de homens livres, e sua memória parecia querer escondê-las em seus mais recônditos escaninhos, como para não perturbar suas palestras quando apresentava o Brasil como país onde o negro era visto como raça inferior.

CARESSEZ-LES
DANS
LE SENS DU POIL

Tous les chiens éprouvent le besoin de se sentir aimés, les chats plus discrets sont aussi avides de caresses.

Tudo era um complexo jogo de impressões que se superpunham em um negativo, resultando uma imagem final confusa e imprecisa, maniqueisticamente equacionada em dois termos: de um lado havia um sistema que o aprisionara e humilhara, ele identificava o sistema com o país e Brasil era sinônimo de obscurantismo, ditadura, barbárie, racismo, corrupção e de quantas mais ignomínias houvesse. De outro lado havia o país que o acolhera com carinho, pelo menos com uma atenção que jamais tivera em seu próprio país, a França surgira em sua trajetória como mãe amorosa que pensa as chagas de todos os torturados e ficava difícil, senão impossível, imputar defeitos àquela Madona impoluta. Era humano, ora bolas!

Mas os fatos se acumulavam como bostas nas ruas e o conduziam a dolorosas constatações que o assaltavam nas ocasiões mais inesperadas. Catherine. Fora sua enfermeira espiritual, poderia dizer assim, e guia nos primeiros meses, Cristiano podia ter as restrições que quisesse em relação à moça, mas ele gostava dela e fim de papo. Mas... Os fatos se mantinham à espreita. Catherine militava na universidade e no bairro, vendia l’Humanité nas esquinas e era solidária com os oprimidos do mundo todo, já cortara cana em Cuba, ambos combatiam o mesmo combate.

A dúvida surgiu quando, num fim de noite no Select, a permanente começou a falar de problemas de espaço, esses malditos studios parisienses, quando têm banheiro se o sabão cai é preciso abrir a porta para apanhá-lo, e descobrira — numa iluminação — que o corredor contíguo a seu studio era cego, se derrubasse uma parede e o anexasse a seu território em nada seria lesado o condomínio. E o anexou, para indignação do síndico e demais moradores do prédio, preocupados com a possibilidade de que o arranjo virasse moda, já que em todos os andares havia idêntico canto cego de corredor. Recebeu ordem formal de recuar sua parede à posição original.

650 BÊTES SAUVÉES
POUR NOËL

Ni le mauvais temps ni les emboutellaiges n’ont empêché les Parisiens de se rendre en masse au Noël des bêtes abandonnées à la porte de Versailles. 450 chiens et 200 chats ont ainsi trouvé un maître.

— Aí eu tive uma idéia — contava Catherine vitoriosa — insisti em minha necessidade de espaço, que se tivesse de recuar a parede teria de vender o studio, aliás um certo M. Mohamed já havia manifestado interesse em comprá-lo...

O que revelou ser um santo remédio: ante a perspectiva de um árabe habitar o prédio, em vez da parede recuou o condomínio. Seria o Brasil um modelo de país racista? Ganas não lhe faltavam de dizer a Catherine: “mas isso é racismo!” Mas não dizia. Dizê-lo significava renunciar à mulher em bloco, o que não estava dentro de seus projetos, o fato é que ela não era em nada original, nem constituía segredo em Paris que a presença de um árabe desvalorizava um imóvel, que mais não fosse lá estava a Goutte d’Or para confirmá-lo. Mas suas palestras começavam a ser pontilhadas por reticências, sim, havia racismo no Brasil, mas — sempre havia um mas — não em nível tão agudo como em outros países, por exemplo... os Estados Unidos, afinal não podia, não conseguia, dispor-se a ferir suscetibilidades dos companheiros que o recebiam.

Mas o alvo era outro e, lentamente, em seu espírito, um novo movimento começava a tomar corpo, as acusações ao Brasil passavam a ser entremeadas de “se bem que”, “não podemos generalizar”, “nem todos os militares serão corruptos”, como se a distância do país o fizesse considerá-lo com menos passionalismo. Simultaneamente, um outro movimento, paralelo e de repulsa, passava a exigir seu espaço e poderia ser resumido numa equação tipo “Paris é uma festa, mas...” Em suma, a maldita conjunçãozinha alternativa infestara sua alma como erva daninha e não via como podá-la.

Droit
de visite...
du chien

ANGERS — Un juge des affaires matrimoniales du tribunal d’Angers s’est donné quinze jours de réflexion avant d’accorder un droit de visite dans une procédure de divorce: il ne s’agit pas, comme c’est le cas habituellement, d’un ou de plusieurs enfants, mais d’un chien.

Si l’entente ne règne plus dans le couple, le mari et femme étaient egalement attachés à l’animal. Une demande officielle de droit de visites a donc été introduite par celui des époux qui n’a pas la garde du chien.

 

O fato é que, de repente, começou a abominar — gratuitamente — as pálidas velhotas parisienses e a vibrar com os pequenos pontos marcados pelos estrangeiros humilhados e ofendidos, uma de suas últimas alegrias lhe seria propiciada na agência de Correios da rue Cujas, a velharada estéril se aglomerava junto a um guichê para receber a pensão devida a seu ócio quando uma africana, enorme e parruda, saiu da fila para apanhar um formulário qualquer. As velhotas abomináveis não a deixaram voltar a seu lugar e a crioula, com uma nonchalance admirável, com um gesto de cotovelos empurrou a fila toda rumo ao fundo. João, que acabara de entrar na agência, não conseguiu impedir que lhe escapasse, alto e bom som, um entusiasta “bravo!”.

E os fatos teimavam em acumular-se. Morava também no 13o, Cristiano era o único gaúcho que ele conhecia em Paris. Como não gostava de chimarrear sozinho, buscara um studio nas proximidades de Montsouris. A vidinha de província da Amiral Mouchez constituía seu dia-a-dia, conseguia sentir-se quase como em Livramento, dissessem o que bem entendessem os amantes do Quartier Latin, ele preferia aquele universo onde dizia bom dia ao carteira, cavaqueava com o barbeiro, discutia o custo de vida com os feirantes da Tolbiac, tudo não passava de um relacionamento superficial, mas a verdade é que lhe propiciavam uma agradável sensação de estar chez soi. Só não conseguia entrar na mesma faixa de sintonia do açougueiro, o homem o olhava com certo estranhamento, logo ele que constituía um elemento essencial na vida de João Geraldo, pois se dava ao luxo, uma vez por semana, de comprar um mísero quilo de carne para um simulacro de churrasco entre amigos, M. Dupont sempre o olhava incrédulo até o dia em que, fugindo àquele modo de ser parisiense que veta em princípio qualquer pergunta pessoal, o açougueiro não se conteve e quis saber: Monsieur tem um hotel? Não entendeu o porquê da pergunta, talvez tivesse um sósia, isto sim. Mas a resposta à sua confusão não tardaria em se apresentar.

Pouco ou nenhum interesse suscitavam suas palestras quando falava do que conhecia, agricultura e pecuária gaúchas. Muito menos quando falava do que conhecia mais ou menos, parque industrial paulista, a construção de Brasília ou Itaipu. Estudantes e operários, argelinos ou franceses, gregos ou troianos, todos queriam informações sobre dois temas que ele ignorava completamente: Nordeste e favelas, ou ainda sobre a Amazônia. Era como se Brasil só despertasse interesse pelo seu lado avesso. Fazer fama na França era fácil, bastava falar de fome.

Havia ainda outro ponto de interesse, mas sobre esse se recusava a falar, embora o conhecesse mais do que ninguém: seus dias de cárcere. Era humano — ironizava João — eles só gostam do que não conhecem. Isso ele entendia. O que não entendia era a mensagem que Catherine tentava, meio sem jeito, comunicar-lhe nas últimas semanas. Não que suas palestras desagradassem, nada disso, mas seria preferível falar mais de Nordeste e menos de Sul, o francês entendia melhor miséria no Brasil do que fartura no Brasil, mas o problema era outro e devia ser muito delicado, pois a permanente gaguejara não poucas vezes antes de explodir:

— Le churrasco! — e pronunciou a palavra como quem pronuncia uma maldição, para espanto de João, que se considerava um churrasqueiro emérito.

Assava uma picanha como poucos, seu drama em Paris era o corte diferente do boi, gostava de brindar os companheiros que o hospedavam durante suas palestras com um churrasco de lei, era a forma de retribuir a hospitalidade francesa. Vegetariana Catherine não era, nada disso, já haviam percorrido não poucos restaurantes juntos, ela militava pela extinção da fome no mundo, mas nem por isso dispensava o culto à boa mesa e fora inclusive sua guide culinária pelo emaranhado da cozinha francesa. Não havia gostado do churrasco?

 

Il ne supportait plus l’absence de son maître

Sultan, le chien fidèle,
s’est jeté du 14e étage

Marc BRABONSKI

Sultan n’a pas supporté l’absence de son maître: il a préféré mourir. Sultan, c’est un magnifique colley, un berger d’Ecosse de 5 ans à la silhouette élégante, robe noire à longs poils bruns sur collerette blanche. Dimanche, vers 18 heures, ce chien de 35 kg s’est jeté dans le vide du 14e étage de la tour Mahnes, à Hagondange (Moselle).

Dimanche, on jouait aux cartes avec les gosses dans la salle à manger. Sultan était allongé sur le canapé, dans la pièce à côté. “Soudain, on a entendu comme um cri etouffé. Je me suis levé. J’ai cherché Sultan. La fenêtre était grande ouverte: l’animal a dû escalader son rebord avant de sauter...

Le chien c’est l’animal le plus proche de l’homme. Comme lui, il est en proie au cafard, il n’échappe pas à la déprime. Sous le ciel gris d’Hagondange, cette commune ouvrière entre Metz et Thionville, dans la tristesse des “cités-clapiers”, pourquoi Sultan le chien n’aurat-il envie de mourir? Cette solution n’est pas réservée qu’aux hommes.

 

Oh que si, mon cheri! — respondeu com uma entonação que ele já sabia anteceder uma censura —. Mas tu estás aqui para contar histórias tristes.

Começava a entender. Dele esperavam relatos de miséria, multidões ameaçadas pela fome, nordestinos saqueando supermercados, retirantes, greves, prisões, torturas, temas que ele jamais evitara, o fasto é que o churrasco, apresentado como um prato típico do sul do Brasil, se podia perfeitamente agradar a um pálato cartesiano, não era digerido com a mesma facilidade por um cérebro cartesiano.

C’est un scandale! — chiava Catherine, mais parecia Marchais xingando Giscard.

Entendia agora o espanto do açougueiro, acostumado a fornecer a cada cliente um bifinho transparente: pedir um quilo de carne era incidir no je n’ai jamais vu ça, e portanto ininteligível. Se o Brasil era um país de famintos, como assegurava a imprensa européia, feria os postulados da Razão, fosse Pura ou dialética, admitir que lá se comesse mais fartamente do que no país dos gastrônomos. Catherine não descria da existência do churrasco, mas sua existência palpável, tangível — e pior — degustável, a conduzia a uma aporia, exigia-lhe desconfortável remanejamento de conceitos. Mas alegava razões de outra ordem:

— É preciso comover o burguês — insistia — senão perdemos apoio e contribuições. Não pretendes que um burguês se comova com um país onde se come esse tal de churrasco.

Que não oferecesse mais churrascos, pelo menos após as palestras.

— Ainda te levo a um espeto corrido em Porto Alegre — resmungou João.

Queria saber o que era espeto corrido.

— Esquece. Uma espécie de, como direi, uma espécie de amuse-gueule de chez nous.

 

Uganda em agonia, titulava a capa daquele suplemento dominical. Sob a foto de um homem acocorado, o filho entre as pernas, ambos mais parecendo esqueletos animados com um fio de vida que propriamente seres humanos. “Este homem e seu filho — dizia um telegrama da AP, impresso também na capa — que tem o peito coberto de chagas, estão sentados dentro da missão católica Kaabong no nordeste de Uganda. A missão está em falta de alimentos e os membros da tribo Karamajong passam fome”. Nas páginas internas do suplemento, fotos ainda mais dramáticas, crianças sugando seios sem nenhum leite, caídos como orelhas de elefante, crianças subnutridas e descarnadas, mais pareciam fetos fora do útero, adolescentes em treinamento militar com arcos, flechas e fuzis de pau, crianças doentes e cheias de feridas esperando em fila, tigelas na mão, uma ração de sopa. “A fome — dizia uma legenda — faz todos os dias centenas de mortos. Hoje, quatro milhões de pessoas estão ameaçadas. A desordem e a insegurança política tornam a situação ainda mais dramática”. A reportagem era aberta com as declarações de uma religiosa italiana: “Não se consegue caminhar cinqüenta metros sem tropeçar em um cadáver”.

 

João lia o artigo com uma cava desconfiança, Catherine lhe passara o jornal para dar-lhe uma idéia do que se esperava de suas palestras. Parecia que francês gostava mais de falar de fome do que de comer. Ou talvez as digressões sobre a fome — alheia, bem entendido — tivessem por função excitar o apetite. A hipótese não deixava de ter seu fundamento pois logo adiante, no mesmo suplemento, na coluna dedicada semanalmente ao bem-estar físico e psicológico dos cães, João Geraldo leu uma inteligente approche da culinária canina.

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O artigo era ilustrado por um cardápio do transatlântico “France” e considerava que, sendo o cão um carnívoro e por isso mesmo guardando uma nítida preferência pela carne, mesmo assim havia adquirido o gosto de toda espécie de alimentos. Falava dos numerosos estudos dos fabricantes de patês para situar as opções gastronômicas dos cães. Segundo suas sondagens, o fígado vinha em primeiro lugar, seguido de carne de frango e das achuras. A pesquisa concluíra ainda que o cachorro detesta a monotonia culinária, daí a grande variedade de patês e croquetes postas no mercado, sendo que três quartos da cachorrada se alimentava de conservas, manifestando nítida preferência por determinadas marcas. A articulista aconselhava ainda alternar o regime do cão com alimentos frescos, para não submeter o animalzinho a uma nutrição a partir de conservas.

Em defesa da cozinha francesa, considerava ser ridículo compor pequenos pratos elaborados ao estilo dos menus gastronômicos dos restaurantes caninos em moda em Nova York ou Tóquio. As partes menos nobres do boi, de sabor mais intenso que o contrafilé, restos de arroz ou de massas, cenouras, feijões verdes, tudo isso temperado com um pouco de alho ou cebola, poderiam satisfazer até mesmo ao pálato de um Kador, o cão-filósofo das bandes dessinées francesas. Alertava os donos de cães para um perigo inerente a um bom regime alimentar, a obesidade. E os advertia para não se preocuparem excessivamente se o cãozinho se jogava com fúria (assim como as criancinhas do Terceiro Mundo? — se perguntou João?) em restos de carne ligeiramente putrefata encontrados em uma lata de lixo, afinal isto era normal, o cachorro não deveria ser considerado um depravado e além disso não corria maiores riscos de contaminação de parasitas. Certos pesquisadores haviam chegado à conclusão de que os cães buscavam no lixo vitamina B, encontradiças nesses restos de carne. Que também não fosse motivo de preocupação ao dono se seu cãozinho bebesse com delícia águas estagnadas (como abandonados seres do Terceiro Mundo — lembrou João), mas que sempre lhe deixassem à disposição um prato de água fresca e limpa — o que, segundo pesquisadores suecos, teria para o animal um sabor particular, desconhecido dos humanos. E se o cãozinho fosse dado a uma cerveja ou a um branco seco — atenção! — não era pequeno o número de cães alcoólatras vitimados pela cirrose hepática.

Certos alimentos deveriam ser banidos dos regimes: batatas, totalmente indigestas, os farináceos, o pão, a charcutaria, os peixes crus, os molhos. O açúcar, ao contrário do que se pensava — continuava a articulista — só agradava aos cães urbanos, atraídos mais pelo susucre-récompense que propriamente por seu gosto. Já o cão camponês, este era raramente atraído por tal alimento, aliás desaconselhado aos obesos e diabéticos. Um bom osso de terneiro fazia trabalhar os dentes e constituía um excelente derivativo para o cão com problemas de solidão. Concluindo, a moça alertava para certos problemas psicológicos do cão urbano: o cachorro que se tornava abúlico ou se recusava a comer, sofria de uma sede inextinguível e manifestava certas anomalias de comportamento — moía madeiras, comia panos ou mesmo os excrementos de seus congêneres — por meio de tal comportamento compensaria o tédio, a solidão e a frustração sexual à qual era condenado.

 

COLLISION EN CHAÎNE sur l’autoroute du Sud. Trois voitures y sont impliquées. De celle du millieu, la plus endommagée, sort le pilote qui se précipite aux places arrière où se trouve sa femme et leur petit Teckel: “Rita, Rita, tu n’as rien ma chérie?” La question angoissée ne s’adresse pas à l’épouse mais à l’animal. Et, tout en caressant la toutoune adorée qu’il a pris dans ses bras, il précise, sans la moindre gêne à toux ceux qui l’entourent: “Elle vaut 200.000 anciens francs et elle n’est pas assurée... elle!”

 

João lia perplexo aquele suplemento literário do “Matin”. Era demais para um gaúcho, considerando ainda que gostava de cachorros, tivera não poucos em sua adolescência. Agora começava a entender melhor aquele estranho relacionamento de Catherine e Balthazar, estranho pelo menos para ele, que pouco a pouco descobria os parâmetros afetivos da sociedade que desde o berço o fascinara.

Mas o que via em Paris ultrapassava sua capacidade imaginativa. Manifestara um dia suas observações a Stoyan e Maria, dois bons amigos da Costa Rica, e ambos o aconselharam a nada falar sobre o assunto em sua volta, os latinos que não conheciam a Europa jamais acreditariam no que explanava. Quanto aos franceses, estes se perguntariam perplexos: et pour quoi pas?

Um de seus objetivos na França, a elaboração de uma tese, bem logo se revelara inviável. Mal começara suas pesquisas, chegara a algumas conclusões que o afastaram definitivamente da defesa de qualquer tese:

1 — tese igual a crime ecológico. Derruba-se milhares de árvores para a publicação de baboseiras, o thèsard faz uma síntese destas e sacrifica outras mais para publicar suas próprias besteiras.

2 — submeter-se a um júri parisiense que dirá se é aceitável ou não o que um latino diz sobre a América Latina, mais que humilhação era complexo de inferioridade cultural.

3 — a exigência de um método não passava de um recurso editorial para desencalhar livros que, sem a cumplicidade de professores amigos dos autores, seriam irremediavelmente condenados ao pilon. “Pas de posterité sans un chouchou à la Sorbonne”.

E, em vez de eruditas análises em torno a um tema, João Geraldo resumiu-se a colecionar recortes que, juntos, revelavam uma França que entronizara o cão bem acima do ser humano. Seu dossiê em torno aos cães talvez nada dissesse a um europeu, mas para um latino constituía uma obra-prima surrealista. Às vezes, não fosse estar lendo o Monde, se julgaria vítima de alucinação ou trote. Mas era o Monde, ele o tinha nas mãos, não estava sonhando e lia uma reportagem de página inteira sobre uma psicanalista de cães, uma francesa com seis anos de especialização na Inglaterra — onde a psicanálise canina está um século à frente em relação à França — falavas dos traumas que poderiam acometer os animaizinhos. Um dos graves problemas do cão parisiense era a crise de identidade, de tanto andar entre humanos o cão acabava esquecendo que era um cão, assim — dizia a especialista — era bom que de vez em quando ele saísse com seus semelhantes. Um outro problema, e este dos mais graves, era o fato de que, sendo o cão muito sensível, seus problemas psíquicos muitas vezes não decorriam de seu próprio psiquismo, mas dos problemas vividos pelos proprietários. Se havia atritos no casal, estes eram imediatamente intuídos pelo cão, de modo que a psicanalista se via forçada a sugerir ao casal uma boa análise, pelo menos em nome da saúde psíquica do cão.

Era demais para um latino.

Droit de visite
à son chien

Un époux en instance de divorce a obtenu vendredi du juge des affaires matrimoniales du tribunal de Créteil (Val-de-Marne), un droit de visite pour son caniche tandis que sa femme se voyait confier la garde de l’animal.

Le couple ne s’entendait que sur deux points: la rupture et l’envie de voir régulièrement le petit animal. Le magistrat, après avoir officiellement constaté qu’il y avait convergence de vues de la part du mari et de la femme à propos de l’animal, a donné au mari le droit de rendre visite à son chien à raison de deux week-ends par mois et de le garder pendant une partie des grandes vacances.

 

Passou depois a colecionar livros em torno ao cão, se bem que colecionar era modo de dizer, se fosse juntar a bibliografia disponível não teria dinheiro sequer para transportar os livros ao Brasil. Não colecionava propriamente, apenas adquiria os mais buñuelescos, como aquele “Guide du Chien en Vacances”, mapeando a rede hoteleira destinada aos cães, com hotéis divididos em um, dois e três ossos, sendo que nesta última categoria os cuscos eram postos à mesa com guardanapos e servidos, na sobremesa, com crêpes au Grand Marnier. Sem falar no “Recettes pour Chiens et Chats”, best-seller que em seu prefácio oferecia às donas-de-casa a alternativa de, em vez de utilizar enlatados, cozinhar para o prazer de seus fiéis companheiros. O livro dava uma série de receitas à base de carnes e peixes, mais manteigas caninas, para animais carnívoros ou vegetarianos, mais bebidas e molhos, tudo aquilo como entrada para depois sugerir pratos de resistência, onde se previa também um regime sem ossos, mais bolos e doces, mais cosméticos e remédios, onde se especificava desde pastas dentifrícias com mel e óleos de massagem pós-banho.

 

ET VIVE LA FRANCE!

LE CHRIST EST
MORT AUSSI POUR
LES CHIENS

Un livre sobre et pénétrant sur un thème trop souvent traité avec une sensiblerie debridée et superficielle. Il arrive que l’on écrive sur l’animal pour le situer par rapport à l’homme, mais il est assez rare que les chrétiens dépassent le stade de la poésie franciscaine pour atteindre à une sorte de théologie de la nature animée.

Laissons de côté les efforts menés actuellement par une ligue internationale pour aboutir à l’élaboration d’une charte des droits de l’animal: l’ouvrage de Michel Damien déborde de toutes parts cette tentative. Il se situe sur un plan spécifiquement religieux et c’est ce qui fait son originalité.

La solidarité de l’homme avec l’animal n’est pas seulement biologique, naturelle, elle est ontologique, transcendantale, évangélique. Le Christ est mort aussi pour les chiens. L’Eglise catholique est malheuresement absente de ce débat. Les animaux n’ont reçu aucun statut de sa part. Et pourtant, si l’animal n’a pas la notion de Dieu il a en revanche celle de l’homme qui est à l’image de Dieu. D’ailleurs, les animaux nous ont précédés sur la Terre et nous en sommes, d’une manière ou de l’autre, tributaires.

“Il nous attendent sur le chemin du Christ”. Ils sont notre prochain. Leur souffrance mystérieuse est une “participation aux Béatitudes. Il y a un Evangile de l’animal, qui lui aussi meurt dans les bras de Dieu”. L’animal a ceci de commun avec le Christ qu’il meurt pour le monde et que son sacrifice est indispensable à l’équilibre de ce monde.

L’auteur n’a pas la naïveté de certains végétariens. Le sort de l’animal est attaché à un immense et nécessaire holocauste. La Bible affirme que les animaux seront livrés entre les mains de l’homme, qui les tuera, comme il l’a fait pour le Christ. L’Arche de Noé est l’image du navire (l’Eglise) où nous sommes tous embarqués.

Bref, l’animal est inseré dans un mouvement religieux universel qui est une montée vers Dieu. Un manuscript biblique copte — apocryphe — relate que le Christ a pris la défense d’un animal de trait frappé jusqu’au sang et qu’il a maudit ceux qui le frappaient.

Michel Damien conclut: “le temps de l’excommunication de la nature est passé. Nous sommes dans une ère où l’oecumenisme devient planétaire. L’unité des vivants se réalise avec le Christ”.

* L’ANIMAL, L’HOMME ET DIEU, de Michel
Damien. Editions du Cerf, 216p., 45 F.

 

A decepção de João Geraldo, em verdade, não se relacionava com a cidade, muito menos com os cães. Claro que o status canino o irritava e confundia, mas o problema era mais dos franceses que seu. Era maduro suficiente para saber que país algum é absolutamente inferno ou paraíso. Sua decepção tinha raízes lá em Porto Alegre, o que, de um modo ou outro, implicava Paris, já que como em toda capital brasileira seus intelectuais continuavam dançando ao ritmo dos prêt-à-pensers importados da Gália. Sua decepção, no fundo, era uma dura constatação de seu próprio fracasso, ou melhor, de seus erros. Um homem, se honesto, sempre tinha tempo de reerguer-se. Mas lhe custava sangue admitir o vazio de seu passado.

Fora torturado então por nada? Verdade que não o haviam testado ao extremo, seu organismo frágil o havia preservado do pior, já em 68 eram conhecidos na Europa os porões da ditadura e os militares não queriam mais cadáveres, pelo menos não os queriam expostos à curiosidade pública. Apesar dos suplícios e humilhações não chegou àquele extremo limite em que entregaria sua própria mãe. Mas foi duro e ainda hoje se perguntava, em meio aos pesadelos que o acometiam, como havia resistido e permanecido silente.

Porque homem algum conseguia manter a dignidade ante a tortura. Havia os que pouco ligavam à dor por mais intensa que fosse, desde o primeiro gesto haviam-se dispostos à morte e a aceitavam como o preço da revolta. Dor física é o de menos, pensava João, homem que aceita a morte não recusa a dor. Mas bastaria que o torturador ameaçasse valor mais alto que sua doentia carcaça, pusessem à sua frente a mãe ou o pai, um amigo ou amiga querida, sem hesitar ele diria tudo o que lhe pediam e mais um pouco.

A burguesia que havia financiado a luta continuava tomando cafezinho na Rua da Praia, intocável, bebericando um scotch à beira de suas piscinas em Ipanema e Assunção, escutando Chico Buarque e Neruda enquanto degustava castanhas, azeitonas e queijinhos. No pau-de-arara haviam entrado os estudantes que um dia acreditaram em um ideal maior e principalmente operários e filhos de operários. Pois filho de burguês, pelo menos de início, sempre tivera padrinho para salvá-lo da polícia política, como se naquela entre burgueses pelo poder o grande crime fosse, não a aspiração ao poder, mas o fato de um filho de operário ter conseguido furar as barreiras da universidade.

Ao evocar os “líderes” que, entra-general-sai-general-de-Brasília permaneciam incólumes, degustando um cafezinho no Rian e lendo as crônicas da Deusa Shiva — outro pulha, passava dinheiro aos militantes e usufruía as delícias do sistema — ao evocar estes senhores que continuavam, lá do outro lado do oceano, jogando jovens aos funcionários do poder para satisfazer suas ambições, lembrava os poemas de Silva Rillo, poeta gaúcho demais, que por tão gaúcho tinha audiência mínima nos salões da capital. Por muitos dias lhe minou o cérebro, numa dessas evocações repetitivas de música que não sai da cabeça, a saga de um seu xará, o João da Gaita:

Lá um dia percebeu
para o seu entendimento
de índio meio bagual,
que o que chamavam “ideal”
era apenas, bem pensando,
ambição pura de mando
dos chefões da capital,
daqueles que concitando
a gauchada ao combate
ficavam tomando mate
peleando só por jornal.

Peleando só por jornal... Não fosse o mate, e o Silva Rillo, lá no distante Nhú-Porã, teria definido com maestria os círculos parisienses.

— Cidade assassina — se repetia.

Porque as palavras de ordem vinham de lá, lá se haviam formado os intelectuais que o haviam levado à aposta. Não foram eles que o haviam amarrado ao pau-de-arara, é verdade, mas o que lhe revoltava o estômago era saber que os mentores do assalto ao poder continuavam usufruindo suas delícias. Se não detinham fisicamente o poder, continuavam enchendo a pança com as migalhas da classe dirigente. Em Paris também se haviam educado os khmers vermelhos, em Paris se abrigara Khomeiny, o aiatolá fanático de Qom.

Nos dias em que tentara inutilmente escapar à polícia, fora abrigado por Gérson, funileiro anarquista que o iniciara em teorias revolucionárias e dele recebera uma profunda lição de humanismo, bem mais marcante do que qualquer discussão sobre luta de classes. O funileiro era um desses homens sem pátria, sempre lutando quixotescamente por algo, e fora um dia consertar uma geladeira na casa de seus pais. Ao ver seus livros espalhados pela sala, livros a duras penas amealhados em viagens a Santa Maria e Porto Alegre, Montevidéu ou Buenos Aires, foi dizendo: “o senhor tem uma bela biblioteca”. João discordava, nem podia falar em biblioteca, seriam apenas uns trezentos volumes, mas aqueles trezentos os havia lido e sublinhado, eram livros que o haviam transformado e disse a Gérson que aquilo, afinal de contas, não podia ser considerado uma biblioteca.

— Não me refiro à quantidade — protestara o franzino Gérson — falei de qualidade.

Conteve sua surpresa e, tentando não parecer erudito, perguntou-lhe se era chegado a livros.

— Só leio os clássicos — respondera Gérson.

Nos dias que antecederam sua prisão, quando tentava chegar a Paris via a fronteira sempre aberta de Livramento/Rivera, ao sentir-se perseguido não buscou nenhum amigo, seria gesto suicida. Lembrou-se do anônimo funileiro e foi buscá-lo em sua oficina em Livramento, com ele estaria protegido, duvidava que os serviços de informação tivessem fichas do Gérson. O operário o acolheu com uma advertência:

— Te escondo hoje porque és perseguido. Se amanhã estiveres no poder, vou esconder os que fogem de ti.

Não conseguira entender a áspera advertência de Gérson, mas não tinha tempo para discutir. Seus dois rápidos anos de França pareciam agora esclarecer a frase do funileiro. Uma coisa era o revolucionário lutando contra o poder, outra o revolucionário instalado no poder. Havia uma distância profunda entre a mítica França defensora dos mais nobres ideais e a França real, avara e aguerrida defensora das mais vis necessidades. Os intelectuais franceses defendiam o socialismo na Ásia, União soviética, América Latina, jamais na França. Abriam o tarro quando Pinochet precisava fazer uma escala técnica numa ilhota francesa qualquer, pediam boicote à Copa do Mundo porque Videla era o presidente do país-sede. Mas Dassault vendia Mirages para Videla e Pinochet e, ao considerar as centenas de milhares de horas de trabalho que a indústria bélica significava para um país com problemas crônicos de desemprego, João Geraldo então entendia porque sindicato algum protestava contra tais vendas, afinal o bem-estar do cidadão francês dependia em boa parte de relações comerciais estáveis com tiranetes do Terceiro Mundo. Ridicularizavam em seus jornais o general-presidente brasileiro que declarava gostar mais do cheiro de cavalos que do cheiro de povo, chamavam o próximo general-candidato de dauphin, no que não ia impropriedade alguma.

Mas quando Chadli Bendjeid era “eleito” às pressas, seu nome sequer constando das cédulas impressas, enquanto Boumedienne agonizava, naquelas circunstâncias a grande imprensa parisiense não falava em ditadura, muito menos em farsas eleitorais, já que o contencioso franco-argelino era uma chaga ainda aberta. Se os regimes do assim chamado Cone Sul constituíam, ipso facto, ditaduras, a casta Argélia parecia viver o auge da democracia. Os universitários franceses faziam estudos profundos sobre a figura do ditador latino-americano, tanto que as duas palavras passaram a andar sempre juntas. Mas João jamais vira estudos sobre ditadores russos, árabes ou argelinos.

Falava-se em anistia no Brasil. Enquanto esperava os dias de voltar, João carregava seu desconforto pelas ruas de Paris, desviando-se das bostas de cães e discursando mentalmente. Perguntava-se:

— Por que Paris nos irrita tanto?

Era como se descobrisse um aleijão imperdoável em uma mulher que julgara perfeita. Mas a culpa não era de Paris. Percebia agora que a França que o fascinara era a França de Arleti, Piaf, Jean Gabin, Mistinguette. Ou ainda a França de Sue, Balzac, Rabelais. Chegara tarde. Havia desembarcado no país de Sartre e das lutas ideológicas. E dos cães.

Il tue son
fils, son chien
et se suicide

Technicien, domicilié à Bondy (Seine-Saint-Denis), Bernard Wullus (42 ans) a tué, mardi, son fils Marc, âgé de cinq ans, et son chien, avant de se donner la mort à Saint André-en-Morvan (Nièvre). Il a également mis le feu à as maison.

Dans un message adressé au juge d’instruction, M. Wultus indique qu’il était “incapable de vivre après un second divorce” et reproche à la justice “de ne pas l’avoir compris”. Dimanche soir dans la forêt de Senlis, il avait déjà tenté de tuer son épouse et l’ami de celle-ci, en tirant plusieurs coups de carabine contre leur voiture, sans les atteindre.

 

Chez Lipp, os deuses do Acaso colocam Cristiano ao lado de mais um — entre tantos — parisienses que a falar com seu próximo preferia falar com seus botões. Segundo uma tese de João Geraldo, o parisiense, ao falar sozinho, não falava exatamente consigo próprio, mas com seu cão. Como nem sempre podia andar com o animal, continuava a falar com ele mesmo em sua ausência. Mas aquele francês parecia querer sair de si mesmo, há muito o olhava como que esperando o bom momento de abordá-lo.

— Perdão, o senhor permite que eu interrompa meu monólogo? — ousou finalmente o rapaz.

— Mas claro, meu jovem, você é dono de seu monólog, nem precisava pedir.

O francês queria saber se Cristiano não era o diretor de “Apocalipse Now”. Era ator, tinha ambições cinematográficas e Cristiano (só agora o jornalista dava-se conta disto) parecia-se fisicamente com Coppola.

Desolé, jeune homme, não sou o Coppola, tampouco concebi ainda meu apocalipse.

Mas de onde viria então, já que não era o Coppola? — quer saber o conversador solitário. E convida Cristiano a um diálogo. Confessa que não sabia se estava ali ou lá, que discutia consigo mesmo para saber onde estaria, e o pior é que estava se confundindo, não conseguia concluir se estava ali — o que era evidente — mas interiormente se sentia lá. De onde vinha Cristiano? América Latina?

— Ah! Meu sonho é a América Latina, quero um dia conhecer esse país.

Cristiano, a irritação vagamente tomando corpo em seu íntimo, esclarece que a América Latina não é exatamente um país, há mais diferenças entre Quinto e Montevidéu do que sonha sua vã bebedeira, mas ao ator isto não importa, ele quer ser ator na América Latina, faria qualquer coisa para viver lá. Cristiano então informa que a América Latina é um país muito rico, cujos cidadãos vivem em tal fausto que podem dar-se ao luxo de dedicar-se exclusivamente às artes.

— Atores, temos para dar e vender. O que precisamos é de mão-de-obra, lá não temos árabes para erguer nos ombros nossa economia.

— Não interessa — insiste o ator — faço qualquer coisa para viver naquele país.

Cristiano insiste que apesar do alto nível de vida dos latino-americanos, lá-bas se vive em plena selva, os homens rodeados por índios e cobras.

— Cobras? Eu já ouvira falar...

— Algumas com mais de vinte metros.

Em sua última tentativa de desencorajá-lo, Cristiano fala de São Paulo, a maior cidade da América Latina, onde os paulistas convivem perigosamente com os ofídios.

— Você já ouviu falar do Bois de Butantã? Não? Pois é. Um Perigo. Naquele bosque você não dá um passo sem pisar em boas e cascavéis.

Mas o homem não desiste. Quer saber se a carta de estada é muito difícil de ser obtida naquele país.

— Nada disso, mon gars, chez nous todo mundo é bem-vindo. O que nos tem causado não poucas dores de cabeça. Se os índios tivessem uma rígida política de imigração, se exigissem visto de entrada e meios de manutenção a portugueses e espanhóis, bem outra seria nossa história.

Apesar das cobras, apesar dos índios — adoram matar os brancos com sarabatanas embebidas em curare, sabia? — o solitário cliente do Lipp continuava insistindo em ser ator na América Latina.

— E os bares de lá, como é que são?

— Tranqüilos — responde Cristiano —. Pelo menos não abrigam tantos chatos.

O francês volta a seu monólogo, enquanto Cristiano se pergunta que imagens teria reforçado em sua mente. Imagens... A um homem medianamente ilustrado não mais era permissível, na era do cinema e da televisão, certas concepções primárias de outros continentes. Et pourtant... Saïd, economista egípcio, lhe perguntara um dia se no Brasil se costumava comer cérebros de sábios. Surpreso, Cristiano apressou-se em responder que não. Os sábios, os militares simplesmente os expulsavam, aliás a Europa tinha uma grande dívida para com os militares latino-americanos: graças a estes, haviam tomado contato com a mais pujante literatura do século, trazida pelos escritores exilados. Sem falar nos cientistas e técnicos que agora enriqueciam as universidades e empresas européias, sem que estas gastassem um vintém na formação destes profissionais. “Não, meu caro Saïd, os sábios, pelo menos por enquanto, apenas os expulsamos, não me consta que já se comece a comer seus cérebros”.

Tudo não passara de um equívoco. Dada a escassez de sons vocálicos do árabe, ao falar francês Saïd não fazia maiores distinções entre sage e singe. Queria saber se na América Latina se comia cérebros de macacos. Mas se um parisiense imaginava que América Latina era um país, pouca era a distância em conceber seus habitantes comendo cérebros de sábios. Aliás, haviam chegado perto. Lembrava um programa dominical da TF3, ouvira os primeiros acordes das Bacchianas e interrompera o trabalho para ver o que acontecia no vídeo. Ao final da interpretação, em gordos títulos, viu:

LES BACCHANALES
No 5

Brasil: Pelê, cafê, sambá, mulatá, Riô, butebol, macumbá, donc, bacchanales. Seria insólito, para o apresentador parisiense, conceber que um brasileiro conhecesse Bach na primeira metade do século. Sem falar em certos intelectuais da Sorbonne, que quando viam em um romance a figura do “coroné” nordestino, pensavam logo tratar-se de um autor que atacava as Forças Armadas.

Imagens... Mas os brasileiros — refletia — também competiam firme neste campeonato. Lembrava a história da turista carioca que desceu no metrô Bastille e não conseguia encontrar a Bastilha, para o espanto de uma florista.

Mais nous l’avons tombée, Madame, depuis belle lurette!

 

Os franceses têm uma sensibilidade extraordinária para o cinema, pensava furioso Cristiano, lotam as salas mal entra filme inglês em cartaz. Decidira ver “La Vie de Brian”, se algo o interessava entre as centenas de filmes que Paris lhe oferecia era precisamente o dos Monty Python e mais nenhum e a cada cinema se deparava com filas imensas. Tentou o UGC Odeon, pela multidão intuiu que não conseguiria lugar. Baixou ao metrô, correu ao UGC Opera, a caixa anunciava complet. Tentou o Montparnasse Bienvenu, nada feito, e naquela altura não conseguiria pegar uma última sessão. Optou por uma esticada até o Select.

Raramente ia ao cinema, não por não gostar, sem falar que como jornalista não pagava entrada. Mas abominava uma instituição nacional, a ouvreuse, tinha vontade de cuspir naquela mão súplice que lhe pedia uma moedinha depois de conduzi-lo à sala, mesmo com as luzes acesas, como se o tomassem por cego. Pagaria o dobro da entrada, desde que não tivesse de pagar um só centavo àquele ser sem dignidade alguma. Poderia recusar-se. Mas seria insultado de volta, e esta não era a melhor disposição de ânimo para assistir um filme. Sem falar na mania infame das caixas, só vendiam entrada cinco minutos antes da sessão, caísse neve ou chovesse canivetes o espectador tinha de esperar em meio à lama e à intempérie, uma velhota tricotando e olhando o vácuo no guichê podia vender-lhe o bilhete mas não vendia, impossível entender de onde viria tal hábito, certamente reivindicação do Sindicat des Vieilles Gouinnes Tricoteuses.

O dia era 19 de abril, como esquecer aquele sábado? No Select e no La Coupole o ambiente era agitado, sentia-se no ar uma ausência, ou melhor, talvez presença, a fauna local portava nos lábios ou olhar a lembrança do homem que acabavam de acompanhar ao cemitério de Montparnasse. Sartre seria depois incinerado no Père Lachaise e nos grupúsculos intelectuais a pergunta era uma só: que restaria dele além de suas cinzas? A imprensa internacional saudava sua glória, com o que nem todos estavam de acordo, não faltava quem o reprovasse por ter namorado as ideologias mais mortíferas e ter pego sempre os últimos trens.

Queneau o considerava homem de coragem, afinal precisava de não pouca coragem para publicar, em 43, um livro de um quilo, se bem que todos os vendedores de farinha ou batata por quilo teriam de ter um exemplar à mão, já que o chumbo escasseava em função da guerra. De qualquer forma, se o pensador se enganara o mais das vezes, era comovente seu esforço em mudar de rumos, evocá-lo trazia à mente Camus: “um homem incapaz de mudar de idéia é um homem que faz medo”. Fora um confuso, pensava Cristiano, o que sempre era melhor que ser dogmático. Enfim, a vida era um pacote contínuo de ironias. No Chalé, em Porto Alegre, há coisa de uma década, seus companheiros de mesa sonhavam um dia tomar um calvá, ao lado de Sartre, em um bistrô de Paris. Agora lá estava ele, num dos bistrôs de Sartre, tomando um calvá, enquanto à sua volta todos evocavam o cadáver de Sartre, que há pouco passara ali ao lado. Desencontro de agendas...

Sorte tivera Roland Barthes, partira um mês antes. Tivesse o azar de morrer na mesma semana, mal lhe sobraria um pé de página num jornal menor. Em seu leito em Ljubljana, Tito parecia hesitar em partir, questão de esperar mais alguns dias, até que ficassem livres as primeiras páginas dos jornais.

Entra Catherine, a permanente atroz do Partido. Certamente teria assistido de camarote ao enterro, morava na Edgar Quinet, onde ele passara conduzindo de dentro de esquife sua última manif antes de ser enterrado. Mal sentou, antes mesmo de qualquer saudação, Catherine lhe passa o Monde, aponta um desenho de Konk, quatro senhores aos prantos carregando o caixão: Giscard, Mitterrand, Marchais e Chirac. É! O humorista havia captado com garra o clima pré-eleitoral, só fazia unanimidade naquela França de 80 o gesto que significasse votos aos eternos aspirantes do Elysée.

— Aposto que ganha em 81 quem disser que perdeu uma de suas maiores luzes — disse Catherine. Foste ao enterro?

— Não, meu anjo, só escrevi sobre.

— Um jornalista que não persegue os fatos?

Como explicar-lhe que correra o tempo todo atrás do filme dos Monty Python, que abominava a idéia de correr atrás dos fatos e particularmente dos cadáveres, que preferia esperá-los sentado para uma posterior reflexão? Mas ela tampouco se interessava pelo acontecimento. Le vieux con não havia declarado há pouco no Nouvel Obs que era o PC quem retardava a revolução? Ficasse calado por mais algumas semanas, considerava Catherine, e teria entrado com mais elegância na posteridade.

Mas era ele o único mito encarnado a morrer naquele abril. Do outro lado do Atlântico agonizava um outro, morte para Catherine bem mais dura de encarar, ainda não conseguia acreditar no que lhe traziam os jornais. O cadáver de seu vizinho da Edgar Quinet, isto é, seu caixão, ela o havia visto de sua janela, se não havia visto os despojos tudo indicava que estavam lá dentro daquele furgão sufocado de flores, lá estava Simone de Beauvoir, o Petit Castor de Sartre, apoiada por Lanzmann. Na turba conseguira identificar Simone Signoret, rosto quase escondido por um gordo par de óculos, de braços com Yves Montand e Costa-Gavras, vira também Françoise Sagan envolta em um impermeável bege, bolsa à tiracolo, não era possível que tanta gente ligada à ficção estivesse sendo cúmplice de uma outra, e esta fúnebre.

Sim, ele rumava ao Montparnasse naquele carro, isto era inegável. Já os dez mil cubanos abandonando a ilha, a foto dos primeiros a beijar o solo em Costa Rica gritando “Libertad!”, isto era bem mais difícil de engolir. Nos primeiros dias creditara os despachos à má fé da presse pourrie, não haviam até mesmo espalhado o boato que Raúl Castro tentara assassinar Fidel? Mas as imagens de TV, o número de vôos e travessias por mar confirmavam pouco a pouco a cifra dos dez mil, tudo indicava que lá no Caribe estertorava mais uma esperança. Ironicamente, o Matin daquele sábado trazia uma foto de Sartre com Castro, “a fascinação do intelectual pelo revolucionário”, dizia o texto-legenda, ele em gravata e mangas de camisa, sufocado pelo sol dos trópicos, Castro ainda jovem e em battle-dress. Em 69, ela abandonara Balthazar ainda criança e fora cortar cana na ilha, voltara com as mãos estropiadas pelo machete, quase esquecidas de como acariciar. Descobrira um mundo novo, um homem que como larva emergia de um ambiente antes podre, e apostara naquele homem novo. E agora...

Cristiano adorava aquela retórica parisiense, era próprio de Catherine enfeitar com palavras bem justapostas toda e qualquer realidade, mesmo a mais sórdida. Mas, certamente por deformação profissional, passara a ser dois ao falar com um terceiro. No plano do bate-papo era o interlocutor gentil que com diplomacia punha certas dúvidas que para ele há muito não constituíam dúvida. Na caixa de sua cabeça, mesmo falando com cordura, a mil por hora trabalhava o analista feroz. Catherine cortando cana em Cuba? Um fio de pentelho puxa mais que vinte juntas de boi — costumava dizer João Geraldo, com suas imagens de gaúcho fronteirista. Sem falar em algum cubano no meio da história, a coitada abandonara o triste universo parisiense, aportara em uma ilha tropical, onde apesar da penúria o povo mantinha seu bom humor. Entregara-se à revolução quando o que a havia fascinado era o lado latino da ilha, não a nova ideologia. Cortar cana ombro a ombro com um camponês, ou mesmo com um camarada de um outro país, era bem mais saudável que lidar com um burocrata parisiense com cara de computador, que só sorri quando sai sol, e isso se seus músculos faciais já não se haviam atrofiado pelo cinza cotidiano da vida urbana.

Não era exatamente ela quem Cristiano gostaria de encontrar naquele fim de noite. Vivia ao sabor de impulsos súbitos, e a não-satisfação destes lhe abalava o humor, só voltava à tona se compensado por uma gratificação maior. Perdido os Monty Python, só uma mulher lhe salvaria a noite, notava agora que inconscientemente deixara o Montparnasse Bienvenue como última opção, assim já estaria próximo ao Select onde sempre havia alguma esperança. Mas Catherine, como diria o monstro sagrado que acabara de ser enterrado, era uma paixão inútil. Já haviam tido boas horas de cama, ela se situava entre as que Cristiano denominava pornófonas, recheava o embate com as mais quentes palavras. Se bem que... tinha de admitir que putaria só o excitava na língua vernácula, tinha saudades de uma foda em bom português. Mas a barreira, no fundo, não era lingüística. Que mais não fosse, gemidos não tinham pátria.

Haviam-se encontrado pela última vez quando? Cannes 78? O ritmo absurdo de Paris o assustava, de repente se dava conta de que há quase dois anos não a via e parecia tê-la encontrado ontem. Ontem ou há dois anos, algo se havia quebrado em algum lugar e qualquer tentativa de conserto exigia um preço que nenhum dos dois estava disposto a pagar.

— Madame? — pergunta o garçom.

Catherine também tomaria um calvá, em homenagem à data. Não era a bebida predileta do vulto que partia?

— E partiu a tempo, não?

— Que queres dizer com isso? — reagiu a moça.

Decidiu colocar o único problema que não devia colocar. Mas estava vagamente irritado, sentia que naquela noite voltaria só para casa. Dividiria então com Catherine seu mau humor incipiente, assim seriam dois a deitarem-se mal-humorados.

— Morreu em boa hora. Com esses cubanos todos abandonando o barco, teria mais uma vez de mudar de rota.

Estava sendo propositadamente injusto. Sartre já condenara Castro por ocasião do encarceramento de Padilha. Se ela sabia do fato, podia sair-se com elegância. Se não, que se lixasse. Ele estava jogando e não pretendia mostrar as cartas ao parceiro.

— Dez mil! — admitiu a permanente do PC. — Mas se previa para hoje, sábado, um milhão de cubanos manifestando em Havana a favor de Castro.

— O que só confirma, meu anjo, que algo de errado está acontecendo por lá. Quem está firme no poder não precisa do aval de passeatas-monstros. Maior é a manifestação, mais fraco está o homem.

Voltava a lembrar o cadáver que há pouco passara por ali. Uma foto sua, não a do Matin com Fidel, mas uma outra, na capa de não lembrava qual revista portuguesa, ele quase cego, metralhadora em punho, derreado pelo peso da arma, apoiando em Lisboa um regime que julgava muito bom... para os portugueses.

— Desde quando ele sabe manejar uma metralha? Pelo que sei — insistia Cristiano — era um virtuose do megafone.

Em seu entusiasmo, se desviara da pergunta inicial. Mas naquela noite Catherine não estava preocupada com a marcha dialética da história e seus caprichos. Os fatos de Cuba a abalavam, é verdade, mas no fundo temia a segunda-feira, e até lá restavam no mínimo trinta e seis horas de angústia. Dominique entrara em juízo pedindo direito de visita a Balthazar, a decisão fora protelada para a semana seguinte, logo agora que Baltha começava a desligar-se afetivamente do ex-marido, na cama deitava no lugar do Ex sem manifestar preocupações com sua ausência, logo agora que vivia exclusivamente com ela, sem maiores traumas.

— E se Dominique tiver ganho de causa?

Baltha era extremamente intuitivo, apesar de sua pouca idade sentia o que acontecia em torno a si. Quando passara o féretro pela Edgar Quinet, da janela olhava inquieto a multidão, manifestava com latidos sua angústia, ele sabia lá no fundo — dizia Catherine — que presenciava um momento histórico. Permanecera excitado o dias todo, ela arriscara uma posologia dupla, dezesseis drágeas de Pils, quando o recomendável era oito, mas pelo menos agora estaria dormindo tranqüilo.

“Acreditas em calma química?”, ia perguntar Cristiano, mas não perguntou, seu propósito de partilhar seu mau humor rolava lentamente águas abaixo. Deixou Catherine em casa, pensou tomar o último metrô, desistiu. Naqueles dias, nem clochard se dignava a dormir nos subterrâneos, havia quem já falasse nas estações Bonne Poubelle e Champs de Merde por Bonne Nouvelle e Champs de Mars. Em verdade, a imundície do metrô não o preocupava, preferia pisar em papéis sujos do que em bostas de cachorro. Lembrava Hugo a respeito do trocadilho: c’est la fiente de l’esprit. Em todo caso, os franceses haviam chegado a um bom achado, não mais falavam em trottoir, mas em crottoir, e ele abominava mais as crottes da superfície do que o lixo dos subterrâneos.

Só vivendo em Paris, dizia para seus botões, para se ter uma idéia da tragédia de suas ruas. As cartilhas de língua francesa só falavam do amarelo outonal, jamais do amarelo excremental — e eterno — de sua geografia. O pior é que a merda chegara a inundar-lhe as mãos e justamente chez Catherine. Fora num 25 de novembro, tinha certeza da data por ser o onomástico daquela criaturinha tão sensual e ao mesmo tempo tão pudica, tão próxima e tão distante, que agora o convidava ao brinde. Levara um Saint Emillion, ao abrir a garrafa enchera as mãos de merda, o que é no mínimo desagradável quando se serve um vinho. Não entendia mais nada, comprara o vinho de seu fornecedor na Amiral Mouchez, não iriam lhe passar uma garrafa envolta em tão emético invólucro, além disso a levara debaixo do braço, no metrô, sem sentir odor algum. O incidente lhe soava como piada de mau gosto, houve quem pensasse em Balthazar, para escândalo de Catherine.

Mas não. Precisou de uns bons dez minutos para decifrar a charada. A rolha não cedia, apoiara a garrafa entre os pés para abri-la e, entre a sola e o salto do sapato se alojara uma crotte imensa, mole ao mesmo tempo suficientemente consistente para ficar aderida ao couro, caminhara o tempo todo sem senti-la e agora lhe assaltava uma triste certeza: se a bosta permanecera ali o tempo todo, o mau cheiro não viria só de seus sapatos ou da garrafa, mas a moquete devia estar toda manchada, como de fato estava. Tirou o sapato mas a festa continuou o tempo todo em meio a um clima escatológico, não entendia porque em cidade tão linda a merda tinha de ser tão onipresente.

Mas o que queria mesmo não era evitar o metrô, e sim dar uma olhadela na Gaité e adjacências, em uma última tentativa de mulher. Nem sombra de puta naquela noite. Um tanto givré pelos calvás, rumo ao 13o maldizendo “esta merda de país, vai ver que o Sindicat des Putains Respectueuses de Montparnasse havia decretado luto naquela noite em homenagem a Sartre, os sindicatos ainda vão levar a França à falência”. O inferno são os outros — dissera o ilustre cadáver. “Claro, ele vivia entre franceses”.

Rumava ao sul pelo Boulevard Raspail, não eram ainda duas horas da matina e a cidade estava morta, tão morta quanto o cemitério que agora margeava, onde fora enterrado o guerrilheiro do megafone, o conhaque começava a espalhar-se pelo corpo todo, levando a cada célula uma mensagem de mau humor. Cagões! Em matéria de crises estavam melhor informados do que os jornalistas. Estivera pela manhã no Commerce, o patron lhe pedira o Monde, o ouro vai subir, dizia excitado. Os jornais nem haviam noticiado o fiasco de Carter tentando roubar de Khomeiny os reféns americano, o aiatolá ainda nem fora informado da tentativa de assalto e o Dupont incrível já sabia de fonte segura que o ouro subiria em flecha, com medo da guerra investia em metal. Estava imerso no suplemento Dimanche, o patron apanhou o outro caderno e foi correndo às páginas econômicos, “voilà, subiu dez por cento”, e esfregava as mãos de contente, enquanto Cristiano se perguntava que restaria de seus lingotes em caso de guerra atômica. E mesmo que restasse uma pasta informe, onde iria enfiar aquela massa fundida o serzinho covarde a seu lado? — que se entusiasmava com o fracasso do comando americano no Irã e não ousava investir dois francos em um jornal para saber quanto por cento havia subido mesquinhez.

Que fazia em Paris? A pergunta várias vezes já lhe fora jogada ao rosto, principalmente quando um interlocutor se surpreendia com seu humor ácido. América Latina capital Paris, dissera Carlos Fuentes em uma entrevista para Antenne 2, o que muito teria lisonjeado os franceses. Preferia ficar com Alejo Carpentier — que aliás também estava por morrer, 80 entrava ceifando monstros sagrados, e teria mais um cadáver em sua agenda — que talvez Paris tivesse sido um dia a capital latina, mas hoje era apenas rendez-vous. Cristiano equacionava a coisa de maneira mais brasileira: pororoca de ideologias. Catherine detestava a expressão, pororoca dava a idéia de ponto onde as ideologias se chocam e morrem.

Que fazia mesmo em Paris? Já estava próximo a Denfert, o pensamento divagava em todas as direções, menos rumo à resposta. Tout le monde va à Paris, dissera Krk, com o que ele não concordava, embora a estivesse abraçando em plena Champs Elysées. Estava em Paris como estaria em qualquer outro lugar, já não começara suas errâncias por Estocolmo? Se olhasse mais detidamente no mapa, não deixava de lhe dar razão. Paris era meio caminho entre Oriente e Ocidente, Norte e Sul, recebia os ex-colonizados da África, dissidentes da URSS, fugitivos da Ásia, turistas dos States e Japão, curiosos e exilados latino-americanos. Encruzilhada do mundo. Que fazia em Paris? Viera dar uma olhadela na encruzilhada após sua decepção com a Suécia.

Sihanouk, o príncipe: se tivesse de mandar os cambojanos estudar no exterior, os mandaria a Moscou. De Paris, eles voltavam marxistas. Se se referia a décadas passadas, tinha razão. Pois agora, na pororoca parisiense, começavam a sossobrar as mais sólidas crenças. João Geraldo viera à França para aprofundar-se no marxismo, tinha quarenta anos e perdera a fé. “Que fazer agora? — se perguntava —. Acho que vou ler Guimarães Rosa”. Para Cristiano, Rosa era um tanto barroco, mas tinha de convir que era boa terapia para uma convalescença ideológica.

A brasileirada que passava em seu studio. A gaúcha que fora a Moscou, louca para conhecer o paraíso. (Mas ele também não saíra um dia em busca de um?). Pena que a gauchinha fizera uma escala naquela sucursal do inferno capitalista. Fora na época da inauguração do Forum des Halles, e antes de rumar a Nova Jerusalém a revolucionária tomou um banho fatal de consumo, lavou a alma comprando sac-à-dos, tênis coloridos, óculos, canetas, abrigos esportivos, foie gras, fines herbes. “Que vou fazer — se explicava — se a sociedade capitalista me condicionou assim desde o berço?” Em Moscou não encontrara nem OB de calibre conveniente, os disponíveis não conseguia abarcá-los em seu diâmetro com o polegar e o indicador em círculo — mas afinal, tudo não era grande na nova sociedade? O fato é que o poço de consumo do Halles, em uma tarde, a fizera renunciar definitivamente ao internacionalismo proletário.

Ou a carioquinha que viajara a Pouna em busca de um guru, Rajneesh ou coisa que o valha. Após três meses de meditação transcendental em um ashram terapêutico, sem álcool nem foda, aterrissara no Charles de Gaulle, seca por um bom cacete ocidental. “É — pensava Cristiano — Paris é sempre passagem”. A frase, a ouvira de João Geraldo. Mas era como se fosse sua, já que deveria ter nascido na cabeça de todo latino em Paris.

Mas naqueles dias seu studio andava vazio de gauchinhas, carioquinhas e no bulevar deserto não havia sombra de putinhas. Aquela atração imperiosa, de onde viria? Olhasse para trás, sua vida toda girava em torno a elas. Em função delas, havia sido expulso de sua primeira cidade. Através delas havia se encontrado consigo mesmo. Para não mais vê-las — sim, no fundo era isso o que o levara ao Paraíso, fora a Estocolmo, e lá estavam elas. E graças à existência delas, mantinha intacta sua revolta. Decididamente, as profissionais ocupavam um espaço inexpugnável em sua vida.

Fora conhecê-las na cidade, com a mente já torturada pela maquininha ali instalada por Doña Chichi e Padre Antônio. Agora, só agora, via brutalmente a violência cometida pelos padres em crianças sem defesa alguma, instalavam em seus cérebros uma maricota, a noção de pecado, a ser acionada pelo portador. Ao menor sinal de prazer, um orgasmo e um choque psíquico, outro orgasmo, outro choque e assim indefinidamente até a sexualidade virar doença e tristeza da carne tornar-se sinônimo de sanidade mental. Uma masturbação e passava a noite toda em atos de contrição para escapar ao fogo eterno. Se, após masturbar-se, por desgraça ocorria uma tempestade, antes de se ter confessado e voltado ao estado de graça, a tortura era múltipla, sentia que os raios tinham um só alvo, ele. Tremendo de frio, de joelhos no cimento áspero e úmido, encolhido qual verme, chorava confuso entre o remorso de ter ofendido a divindade e o medo da perdição eterna, esforçando-se por fazer prevalecer o primeiro, já que o segundo, sua salvação, lhe parecia de um egoísmo atroz. E não é que o demônio o assalta quando menos esperava? Por vários anos não esqueceria a sexta-feira fatídica.

Conseguira varar a quaresma toda sem uma punheta sequer, tentando matar o sexo com banhos frios e exercícios violentos que o levavam à exaustão física. Quarenta dias de castidade lhe parecia uma enorme conquista, talvez tivesse chegado ao domínio total de si mesmo, sentia-se leve e sem dívida alguma para com Deus. Iria nadar no Santa Maria, o que vinha fazendo há semanas, ao sair d’água mal tinha força para um aceno. O demônio atocaiou-o, então, antes mesmo de entrar no rio.

Praia deserta. Atravessou o rio a vau, deixaria as roupas em alguma árvore, ganharia a parte mais funda nadando contra a corrente. Quando cansava, passava a nadar de costas. Aproveitava a ocasião para um diálogo face a face com o criador de tudo aquilo, agradecer-lhe a magia daquela momentânea fusão com os elementos. Mas naquela tarde não teve tal chance.

Do mato explodiam gargalhadas, risos convulsos de quem não consegue parar de rir. Inexoravelmente, foi rumando ao ponto de onde emanavam aqueles sons histéricos de alegria, qual pássaro hipnotizado por serpente. Era quase uma clareira, duas mulheres e um homem, finando-se de rir, derrubavam um litro de cachaça. Um sexto sentido o alertara para voltar, mas alertou tarde. Uma negra imensa, as banhas caindo sobre a cintura da calcinha que lhe cingia o ventre, lambendo os lábios com a língua lhe passou a cachaça.

Balbuciou um não sem forças, isto é, parecia ter balbuciado algo, talvez a negativa não lhe tivesse atravessado a barreira dos lábios, quando se viu em seu regaço, mamando na garrafa que a mulher lhe oferecia por entre as tetas enormes, enquanto uma mão ávida lhe buscava o sexo que perfurava o calção qual estaca de ferro. Olhou ao lado, o casal já estava atracado como cão e cadela, ele se sentia cada vez mais mole, exceto em uma extremidade, era como se o pênis, rijo, sustentasse um corpo feito manteiga. A mulher carregou-o nos braços para um tapete de grama próximo, já não mamava na garrafa, mas um mamilo túrgido banhado de cachaça. A mulher deitou-se, pernas abertas, e o puxou contra o corpo.

Mas antes queria vê-la.

Tremia. Como seria? Tinha idéia de algo preto, cabeludo, mas que haveria sob os pelos? Rasgou as calças da mulher, uma racha descomunal se abria sob a pelaçama negra. Cristiano abriu os lábios da rachadura e uma buceta sangrenta, pulsante, lhe piscava em contrações que faziam escorrer sangue pelas coxas pretas.

Mergulhou. Ejaculou em segundos, limpou com capim o pênis envolto em uma baba vermelha, nas mãos um odor inominável. Fugiu correndo, a risada histérica da mulher sempre grudada a seus passos. Suas roupas ficaram esquecidas no mato, queria urgente quatro paredes para esconder-se e rezar. Mas não rezou. O tempo era firme, sinal algum de tempestade no ar. A ira divina ainda não se manifestara. Condenado, condenado e meio: masturbou-se com desespero, contou sete ejaculações na tarde (sempre as contava para sua contabilidade confessional), mais algumas à noite, que o estado entre a vigília e o sono não lhe permitiu registrar com precisão. Olheiras profundas, ressuscitou com o Cristo no dia seguinte, pela comunhão. Mas havia sido marcado na paleta.

Uma puta menstruada em uma sexta-feira santa. O remorso ante o pecado abominável, o saber que o mesmo ser que se purificava com o corpo e sangue de Cristo no dia anterior se conspurcara com o corpo e o sangue da negra, a sensação interior de ser um verme, o sangue escorrendo pelas coxas como uma antecipação dos horrores do inferno, tudo o levaria mais tarde a organizar uma campanha contra a prostituição naquela cidadezinha. Mas nem padre Antônio — que, entre sussurros, lhe recomendava castidade — aceitava a idéia de expulsá-las da comunidade, que será de nossas empregadinhas, das filhas de boa família? E preferira expulsar Cristiano, da escola e da cidade.

Lera mais tarde, em jornais e livros, relatos de viajantes que falavam de uma sociedade de homens livres, próxima ao Pólo Ártico, onde ninguém precisava vender ou comprar sexo. E fora até lá. E lá estavam elas, frias e impassíveis. E vira: mais frias e impassíveis do que qualquer puta endurecida pela vida nas cidades do Sul. E voltara: o cu do mundo é em toda a parte.

Nelas havia um mistério qualquer, que o fazia estremecer interiormente mal decidida procurá-las. Nelas residia a grande contradição, o nó górdio de toda civilização, nelas depositavam os homens suas angústias, doenças e neuroses. Conhecer a fundo uma prostituta — imaginava Cristiano — seria como ler Dostoievski, nela estaria depositada a experiência de milhares de homens. Assim pensou por vários anos, até concluir que o melhor mesmo era ler Dostoievski, era mais profundo e mais barato. E lá estava ele, naquela Paris deserta, empenhado na caça vã. Na capital das putas, conforme fama milenar, e nenhuma puta à vista. Sempre havia o Pigalle. Mas não se dispunha a atravessar o Sena por um capricho de fim de noite.

 

Sempre abominara o jornalismo. Em sua primeira crônica assinada, numa reação instintiva de defesa, citara Gide: “jornalismo é o que amanhã interessa menos do que hoje”. Lembrava um diálogo de Borges com Sábato, este defendia a idéia de que se deveria publicar um só jornal cada ano, ou talvez a cada século. Ou quando sucedesse algo verdadeiramente importante: “o senhor Cristóvão Colombo acaba de descobrir a América”. Borges, que confessava jamais ter lido um jornal, considerava que não sabemos quando um fato é transcendente ou não, a crucificação do Cristo só se tornaria importante mais tarde, não quando acontecera.

Chegou na esquina da Glacière com Tolbiac, carrefour des adieux, como dissera certa noite Catherine, quando diferenças ideológicas ainda não lhes perturbavam os embates, e percebeu que todas suas noites terminavam ali, pelo menos com as parisienses, que não eram de dormir empernadas, dia seguinte remoçava o metro-boulot-dodo, merda de cidade, pensou, está pronta para o socialismo. Em casa abriu um Beaujolais, ou não conseguiria dormir, a irritação o excitava e a excitação o irritava, e o rouge o fazia dormir. Abril, o Beaujolais já estava ácido, mas da bebida não pedia data, apenas que o anestesiasse.

Quanto tempo de Paris precisaria um latino para contagiar-se de mau humor? Chegara há três anos, com a experiência de Estocolmo nas costas, e sua natural disposição de espírito ia sendo aos poucos minada. J’en ai marre, j’en ai ras-le-bol, era o que mais ouvia em torno a si, e não há bom humor que resista a um bombardeio assim sistemático por muito tempo. Uma observação de Mme. Pund, da crêperie da Amiral Mouchez, o havia intrigado. Sempre sorridente, esbanjando bom humor, Mme. Pund participava de suas opiniões quanto à carranca cotidiana do parisiense, mas nada lhe abalava o brilho do olhar.

Um dia, o choque. Recebeu as palavras de Mme. Pund como um tapa na cara. Ela estava, como sempre, em animado papo com sua clientela, a exigüidade da crêperie tornava mais íntimo o ambiente, e mal entrara o apontou aos demais: “vejam Monsieur, passa todos os dia aqui, sempre sorridente e feliz com o mundo”. A frase lhe caiu como gelo pelo pescoço. Mme. Pund, sempre tão gentil, estaria agora sendo sarcástica? Mas antes que se desencadeasse uma reação interna, deu-se conta de que de fato sempre sorria ao passar pela crêperie, sorria porque gostava de ver o rosto cheio e sorridente de Mme. Pund, oásis de bonomia naquele deserto de caras fechadas.

Nas últimas semanas, entregar-se a um processo contínuo de balanço de vida. Chegara aos 33 anos, sentia estar vivendo um ponto de não-retorno: ou mudava de rumos, ou nunca mais. Os homens faziam e aconteciam, traçavam seus itinerários com sangue ou com obras e o jornalista, com seu caderninho em punho, lá ia correndo atrás dos homens que faziam e aconteciam, quando não de seus cadáveres. Era humilhante. A irritação que lhe singrava as veias passara a impregnar seus últimos despachos. Há duas semanas, mandara extensa reportagem sobre o Salão do Prêt-à-Porter. Os tempos eram de abertura política là-bas, fim de censura em jornais? Pois pagava para ver.

Comentou a greve dos “turcos sem papéis”, os imigrantes que aliás não eram só turcos, que na humanista Paris de 1980 trabalhavam até 17 horas por dia, em ateliês escuros, por um salário de fome, sem sequer poder reclamar: não tinha permissão de trabalho, muito menos de estada. Tinham medo até de sair às ruas, já que suas permanências eram ilegais na França. Escravos da alta costura, confeccionavam ao preço final de trinta francos os vestidos que eram vendido a mil e mais francos nas butiques do Saint Germain. Outros costureiros, mais diplomatas, instalavam suas indústrias em Hong Kong ou mesmo em Hanói, pagando centavos a uma mão-de-obra faminta. Comentara demoradamente o caso e, ao final do despacho, assinou seu epitáfio:

“Assim é a alta costura parisiense, tão revolucionária que até joga algumas migalhas aos famintos do Terceiro Mundo. O que talvez propicie um exótico prazer às editoras de páginas femininas de nossos jornais: ao louvar o último lançamento parisiense, estão sentando no esqueleto de um pobre coitada lá nas antípodas”.

Mexia com a editora de frescuras — como costumava chamar as meninas que editavam os suplementos femininos —, com costureiros locais e mais a burguesia deslumbrada, que saía de um país infestado de mendigos para comprar no Quartier Latin os “modelos exclusivos” confeccionados em massa por homens famintos.

O vinho já não o anestesiava. Precisava parar de beber. Entre um sorvo e outro, se pôs a preparar malas. Viajava no dia seguinte para a Iugoslávia, parecia que desta vez o marechal embarcava mesmo, e a perspectiva de rever Krk o fazia emergir daquele porre. Sentia o corpo como um pudim de álcool, exalava um odor acre até pelo dedão do pé.

Conhecera a iugoslava em Paris, com carinho lembrava seu gesto de recusa delicada quando, ao tentar despi-la, ela o afastara com as mãos e passara sozinha a desabotoar-se, tu sais, l’autogestion...” Embalado pela lembrança dos uivos da autogestionária, já quase ao amanhecer, conseguiu dormir. A noite era cálida, mas preferiu fechar a janela para não ser acordado pelo velhinho do realejo que aos domingos percorria a Amiral Mouchez.

 

Domingo, 9 de setembro de 1979, mais outra data a abalar João Geraldo. Há muito observara que os acontecimentos capitais de sua vida teimavam em ocorrer em datas marcadas, ou pela história ou por determinadas festas, o que no fundo era uma tremenda lapalissade, afinal não havia dia do ano que não estivesse ensangüentado por esta ou aquela revolução, e os vencedores só comemoravam o que lhes convinha. Fossem juntadas ao calendário oficial a lembrança dos vencidos, os eventos históricos seriam multiplicados por dois. Se bem que, pensando melhor, não é que os momentos decisivos de sua vida teimassem em cair em tais e tais datas: em verdade, era ele quem estabelecia tal relação, como professor de história, ao tentar um sistema mnemônico recorrendo a fatos históricos. Dia 9 de setembro, segundo fim de semana do mês, Fête de l’Humanité. A grande festa do PC francês caíra naquele ano dois dias após o famigerado 7 de setembro, que sempre acabava provocando as mais contraditórias reações em brasileiros no exílio. E se o 7 João o atravessara sem maiores comoções, o 9 fora a gota d’água. Pois uma coisa é recusar intelectualmente uma crença. Outra é extirpá-la definitivamente da alma, arrancar-lhe as raízes de uma vez por todas, para que não voltassem a vicejar em seu novo modo de ver o mundo.

Cristiano lhe recomendara a festa com um sorrisinho irônico aflorando em sua carranca sempre fechada. “Vai, vê e volta”, dissera, e de forma a insinuar que não seria o mesmo homem na volta.

Já no metrô sentiu uma atmosfera diferente na cidade, à medida que se aproximava da periferia norte de Paris o número de passageiros engrossava, M. Dupont ostentava um sorriso de festa, coisa rara naquelas plagas. Aliás, Cristiano sustentava mais uma de suas teses absurdas — ou talvez nem tão absurdas, afinal tinha mais anos de Paris nas costas — garantia que não era assim tão difícil encontrar um parisiense alegre, bastava observá-los nos dois únicos dias do ano em que sorriam, o primeiro fim de semana de setembro. Era quando a carneirada voltava de férias e naqueles dois dias inundavam bares e restaurantes com uma algaravia estridente e inusitada, contando as aventuras de là-bas, quem chegasse a Paris naqueles dois dias pensaria estar em Roma ou Barcelona. Uma vez esgotados os relatos de férias, as lembranças de Rodes, Mykonos ou Mallorca, o parisiense não via mais razões para rir e confraternizar — que mais não fosse já tivera tempo de ver os novos preços, sempre levantados na calada do verão — e enfiava estoicamente o pescoço na canga, mergulhando na rotina para voltar a rir dali a exatamente um ano.

João tivera ocasião de confirmar uma semana antes a tese de Cristiano. Mas naquele segundo fim de semana restava ainda nos rostos algo de alegria, o que não era assim tão surpreendente, afinal se dirigiam a uma festa, a confraternização dos que lutavam pelos oprimidos do mundo todo. Desceu em Porte de Clignancourt e entrou em uma das muitas filas que esperavam os ônibus para La Courneuve. Paris inteira se fazia presente e solidária aos famintos da Terra.

Os estandes se espalhavam por 24 quilômetros e seu físico lhe implorava breves pausas para repouso e restauração. E restaurantes era o que nãoltava naquele modesto encontro proletário, João sentia-se esnobando o que chamava de esquerdas do Pagoda, os intelectuais de Porto Alegre que faziam a revolução desde uma lauta mesa no chinês da Protásio Alves. Sempre escorados no poder, estivesse quem estivesse no poder — no fundo, não deixavam de ser coerentes — sempre imunes a qualquer perigo, de fome e torturas só de longe haviam ouvido falar. Estivessem em La Courneuve, naquele domingo sem sol de setembro, seriam amplamente reconfortados em seus ideais. Já na entrada do parque uma faixa em vermelho saudava os comensais, convidando-os a associar-se às lutas proletárias e a degustar ostras e mariscos,

RESTAUREZ-VOUS POUR
FAIRE
LA RÉVOLUTION!!!

Defensor incondicional dos oprimidos e dos frutos do mar, Monsieur Dupont começava a regar com limão suas ostrinhas, já era quase meio-dia e o estômago lhe exigia um mínimo de consciência cívica.

João acompanhava o fluxo da multidão. Tinha duas opções ao entrar no parque, e ambas à esquerda: cozinha francesa nos pavilhões erigidos pelos diversos setores provinciais e parisienses do PCF, ou cozinha do mundo todo na área internacional da feira.

Tenda da Argentina, las locas de Mayo, Villa Devoto, os desaparecidos, abajo Videla, churrasco, chorizos, vinos y canciones, olala, c’est magnifique le churrasco. Chile. Abaixo Pinochet, viva Allende, manifesto contra a visita de um ministro a Paris, pescado frito, empanadas, vino, pisco. Uruguai? Abaixo quem? O Uruguai parecia estar tão por baixo que já nem se sabia a quem gritar abaixo. Pastéis do Vietnam, patê imperial, abaixo o expansionismo chinês. Irã, manifesto contra Khomeiny, caviar do Cáspio, viva o partido Tudé, mais ao fundo tapetes persas — e um cartaz insistia — legítimos. Tudo pela revolução. E o problema curdo? É ali na tendinha ao lado, Monsieur, o senhor pode assinar um manifesto e tomar um chazinho do Curdistão.

Vive le Parti Communiste Brésilien!

Brasil. Barraca do “Voz Operária”. Samba e decalcos em verde-amarelo, manifesto ao embaixador brasileiro em Paris pela legalização do PC. João assinou sem hesitar e, logo acima da sua, está a assinatura de Cristaldo, o homem passara então por ali? Quanto ao de comer... nada. Só batidas de coco — cocô, como pronunciavam algumas francesas frente à barraca — e maracujá. “Desse jeito — pensou João — Prestes, o bravo Cavaleiro da Esperança, não dura muito na secretaria do Partido”.

Tendinha da Tunísia. Manifesto contra a prisão de sindicalistas, abaixo Bourguiba — que por sinal estava por vir abaixo sem que ninguém o empurrasse — castiras, briques e cuscuz. Argélia. Viva o mechuí, glória a Chadli. Mais mechuí na tendinha do Frente Polisário. O Marrocos não quer dar uma saída para o Atlântico? Pois abaixo o Marrocos.

Fila na barraca da União Soviética. E lá se vai Monsieur Dupont, sabe que em país socialista onde há fila há algo interessante. Qual é o manifesto? Mais non, Monsieur, na URSS não há problemas, os operários estão no poder, pas question de manifestes. Quinze dias de turismo aos camaradas franceses, basta acertar uma rifazinha, aceitamos dólares, marcos, iens — e cruzeiros, não? perguntava João — ou, non, non, mon cher, nos excuses — viva Lenine. E essa Moscovskaia? Pas mal comme vodka, n’est-ce pas? Que tal um caviarzinho de beluga? No Fauchon, não se compra por menos de 200 francos os cem gramas. Profitez-en, tovaritch!

Vagava incrédulo em meio àquele obsceno festival. Era então assim que que o PC se solidarizava com os proletários do mundo todo? Entendia agora o riso irônico de Cristiano. E não podia deixar de evocar Gérson. Mal entrara no Partido, a lembrança do velhote lhe invadira a mente, era como se não estivesse morto e sepultado, parecia senti-lo a seu lado, a boca aberta, pasma e sem dentes, maravilhado e perplexo com aquela confraternização dos revolucionários todos do planeta. Enquanto zanzava pelos meandros daquele parque invadido por centenas de milhares de comensais, falava mentalmente com o funileiro:

— Que baita trampa, tche! Morreste em vão.

Com fome — aqueles odores todos provocavam o pálato mais incorruptível — perambulou por entre as mais diversas opções, não diria ideológicas, mas gastronômicas, e dirigiu-se por fim ao setor francês.

Pantagruélico, nada menos. As cédulas de cada região da França ofereciam aos desprendidos simpatizantes das lutas proletárias os mais requintados pratos de suas cozinhas. Um cartaz ao lado de cada barraca — que já eram barracas, mas imensos restaurantes precariamente montados — um cartaz anunciava desde crêpes da Bretanha, saladas niçoises, bouillabaisses de Provence, os frutos do mar prometidos na faixa na entrada do parque, coquilles Saint-Jacques, haddok poché, filés de linguado, dourado ao forno ao Chablis, sole à la meunière, caranguejos gigantes à l’eau de mer, robalos au court-bouillon, mais carnes de todas aves e animais, blanquettes de veau, gigot à l’anglaise, poulet à l’estragon, petit-salé aux lentilles, canard rôti dans son jus, faisan truffé, lapin en crépine, rôti de porc aux pruneaux, pot-au-feu, daube à la provençale, mais as centenas de patês e queijos de França, não é fácil governar um país com mais de quatrocentos tipos de queijo — dizia de Gaulle — mais os vinhos e champanhes, mais delicadíssimas sobremesas, entre elas as profiterolles, como dizia Cristiano — e para isso devia ter suas razões —, la France n’est que des profiterolles, belas aparências, uma fina crosta de chocolate... e o vácuo.

Era assim então que os camaradas europeus manifestavam sua solidariedade aos torturados e famintos do Terceiro Mundo? Assinaria embaixo de todos os manifestos, apoiaria todas as lutas, mas lhe parecia obsceno, se não cruel, misturar a gravidade de uma luta política ao clima festivo de uma orgia culinária. Porque no fundo as centenas de milhares de Duponts que lá estavam não haviam deixado seus lares burgueses para apoiar esta ou aquela outra luta deflagrada nas antípodas. Estavam lá para comer, locupletar o estômago, embotar os sentidos e, ao mesmo tempo, preservar a consciência tranqüila, pois a orgia passava a ter um significado social.

Tinha vontade de entoar a Internacional. Como reagiriam aqueles pacatos burgueses ao ouvir o “levantai-vos vítimas da fome”? Preferiu ficar calado, mas não conseguiu evitar ouvir a si mesmo resmungando:

— Gastrônomos de todo mundo, uni-vos!

Já bastante cansado, conseguiu ainda dar um giro pelos estandes das multinacionais presentes na festa do proletariado. Barracas de acampar de alto luxo, modestas camas proletárias com caixas de som embutidas na cabeceira, complexos sistemas HF, Mercedes, BMWs, Porschs, botes infláveis, iates, videocassetes, enfim, toda a parafernália tão abominável quando objetos do desejo nas sociedades de consumo.

Enauseado, deu meia volta e buscou a saída do parque.

Não conseguia deixar de evocar Gérson. Estivesse vivo, trataria de pagar-lhe uma passagem para tê-lo presente ali, naquela festa em Paris, onde comiam à tripa forra os que lutavam ou pretendiam lutar para que nenhum homem no mundo passasse fome. Parecia ser algo muito francês — ou talvez europeu — aquela facilidade dialética com que eliminavam os opostos, a nenhuma daquelas centenas de milhares de pessoas pareceria contraditório chafurdar nas ofertas do mundo capitalista com o propósito de colher fundos para as lutas proletárias no mundo, ou melhor, no Terceiro Mundo, já que nenhum francês insistia em viver sob o socialismo. Enquanto caminhava por entre a multidão, talvez falando sozinho — nunca distinguia entre pensar e pensar em voz alta — voltava a uma outra data, distante dez mil quilômetros no espaço, treze anos no tempo. Mais um dos tantos primeiros de abril de sua vida. Aliás, caíra também num domingo.

 

João chimarreava na varanda da casa, contemplando aquela vida miúda que fluía entre Santana e Rivera, o peso uruguaio estava baixo e os santanenses atravessavam a fronteira até para tomar sorvetes, as famílias iam de bolsas vazias e voltavam carregadas quais formigas, de pão, carne, cobertores. Os comerciantes riverenses, cientes de que a sorte poderia em breve mudar de lado, abriam suas casas mesmo aos domingos e feriados, mais dia menos dia seria chegado aquele em que suas lojas ficariam às moscas e os comerciantes de Santana viriam à forra. Chimarreava sozinho, o que não lhe agradava muito, o chimarrão só tinha sentido em roda, quando mateava sem companheiros logo sentia o estômago verde por dentro e por fora. Mateava então despacito, o que o impelia a ruminar qual boi no pasto, remoer difusas sensações, observar aquele contrabando manso e a matutar sobre os obscuros destinos daquelas formigas laboriosas e sobre a incerteza de seus dias futuros.

Em suas primeiras viagens de trem a Porto Alegre, aboletado na traseira do último vagão, hipnotizado por aquelas paralelas que contra toda geometria acabavam se encontrando na distância, quedava-se a imaginar o que pensariam do mundo aqueles seres estáticos que habitavam toscos ranchos quinchados à beira das ferrovias. Saberiam que a terra era redonda? Que o mar existia? Que a terra girava em torno ao sol? Que, algumas horas adiante, havia uma grande cidade onde o tempo se escoava em ritmo mais rápido e tenso?

Em seu entusiasmo de guri fascinado ante o mundo, perguntava-se como podia alguém viver toda uma vida sem jamais ter saído do mesmo lugar. A vida era movimento. A velocidade do trem, a curiosidade ante a próxima cidade, por oposição àqueles seres imóveis e portanto mortos, lhe dava uma orgíaca sensação de vida. Pensava nestas e noutras coisas, quando Gérson silenciosamente boleou a perna da bicicleta velha e enferrujada. João chupou o último sorvo da cuia, deitou água de novo à erva e sem palavras estendeu-a ao operário-apóstolo, que também em silêncio lhe bateu afetuosamente as paletas com seu braço magro e rijo.

— Bom aniversário!

“Puta que o pariu!”, disse João para si mesmo, nem seus pais — aliás, nem ele mesmo — haviam lembrado a data e o velho Gérson não a esquecera. Mas havia uma certa secura na saudação, o que não era de espantar, Gérson andava de um mau humor atroz naqueles primeiros meses de 1956. Março lhe fora particularmente aziago, a imprensa burguesa fora açulada para uma campanha em massa contra Stalin, financiada no mínimo pelo Vaticano e Wall Street, segundo a ótica do funileiro. O Correio do Povo dava longas colunas a supostos crimes praticados pelo Pai dos Povos, e Gérson rangia os escassos dentes vomitando pragas:

— Oligarcas de merda! Têm os dias contados e reagem fazendo calúnias. Mas ri melhor quem ri por último — e sua boca, de dentes há muito tapera — se alargava antegozando o dia do levante dos povos contra o inimigo comum. Não era stalinista, mas tudo que contribuísse para destruir o mundo capitalista lhe parecia bom, digno e justo.

Mas naquele dia o funileiro não parecia estar disposto a mostrar as canjicas. João passou-lhe a cuia, Gérson a apanhou com sofreguidão, era como se não soubesse o que dizer e o chimarrão lhe permitisse o tempo necessário para pôr em ordem suas idéias. Após alguns sorvos, largou:

— Tá osca a situação, guri.

— Que situação, companheiro? — e João sentia-se bem, em seus dezesseis anos, chamando por companheiro o velho operário, que renunciava aos domingos e ao repouso para fazer seu particularíssimo contrabando de formiguinha.

— O camarada Stalin... essas calúnias todas...

— Não liga, tche! Que se pode esperar da imprensa burguesa? — e a tranqüilidade com que, do alto de sua adolescência, falava em imprensa burguesa, parecia torná-lo irmão de lutas daquele homenzinho franzino e seguro de si.

— Mas agora as calúnias estão até na nossa imprensa.

E puxou um jornal da maleta presa ao portacargas, dentro do qual existia de tudo, menos as ferramentas de seu ofício. Era um jornal de três dias atrás, de Porto Alegre.

— Segundo A Hora — continuou Gérson, com a voz embargada — agora é o Pravda que começou a atacar o Velho.

Gérson apanhou a garrafa térmica para servir-se de mais um mate, enquanto João lia, sem conseguir acreditar no que lia. A CIA teria se infiltrado no Kremlin? Ou na Hora? Claro, havia agente infiltrado no jornal gaúcho, não seria em Moscou que os ianques teriam fincado as patas. Mas assim sendo, que fazia o Partido que não tomava posição ante o fato? E Gérson, sempre tão seguro de si, sempre tendo na ponta da língua resposta para tudo, interrogava mudamente o adolescente que, por sua vez, estava mais confuso que o funileiro.

Enfim, Stalin passara e a ilusão persistira, e ali continuava ele perambulando em meio ao festival de consumo do mais burguês proletariado do mundo. Perdera completamente seu senso de orientação, não conseguia encontrar a saída, quando uma voz mais que conhecida gritou-lhe:

Soyez le bienvenu, jeune-homme de la pampa!

Era Catherine, o amor de Balthazar, o horror de Cristiano. Olhou para a faixa que encimava a entrada da barraca, estava frente à célula de Montparnasse. E lá estava a permanente incrível, eternamente colada ao Baltha, controlando o caixa, arrebanhando moeda vil capitalista para a saúde financeira do Partido. Era uma bela mulher, tinha de convir, mas tampouco podia discordar de Cristiano, impossível conviver com ela e mais aquele animal, aliás o imbecil já lhe saltara ao peito, queria lambê-lo no rosto. João, sem jeito, tentava afastar o cachorro sem ferir suscetibilidades.

— Thazar, aqui! — ordenava Catherine inutilmente. Acabou afastando o bicho com uns tapinhas carinhosos e abraçou João, pressionando-lhe o sexo com o regaço, tinha malandragem de latina a francesinha. Mas não seria João quem a disputaria com o Baltha. Se Cristiano, o putanheiro, não conseguira tomar o lugar do cachorro no leito da permanente, não seria, desajeitado atroz antes as mulheres, que chutaria o cusco da cama. Catherine serviu-lhe um kir. A bebida, suave e fresca, era o aperitivo que sua garganta pedia. Já seriam quatro da tarde, o movimento era mínimo no restaurante, Catherine abandonou o caixa e convidou João para almoçar. Lembrou de repente que estava com fome, não havia comido nada em suas deambulações, e não resistiu ao convite. Catherine cruzou rapidamente os braços sobre a grande mesa de madeira ao mesmo tempo que, em sincronia com os gestos dos braços, abria um largo sorriso e sacudia a cabeça revolvendo os cabelos, gesto tipicamente seu, uma espécie de travessão que sublinhava a pausa entre dois momentos distintos de seu dia.

Alors, jeune-homme, les nouvelles de là-bas?

João sentiu como que um balde de água gelada nas costas, desejava um diálogo manso e, inadvertidamente, Catherine mexia em suas feridas. Em sua adolescência, França era algo particularíssimo, o país talvez mais próximo do Brasil, pelo menos para ele era o mais próximo, pátria de Rousseau e Voltaire, a nação mais íntima e mais presente e, apesar das léguas de oceano que o separavam de Paris, ele desenhava de olhos fechados o mapa do país almejado, suas fronteiras e províncias, tinha até mesmo decorado o traçado das ruas de Paris, mesmo sem jamais tê-las visto as conhecia com mais intimidade que as ruas de Livramento. Em contrapartida, para o parisiense, a França tinha uma única e imensa fronteira: là-bas. O país todo era circundado pelos países de là-bas, fossem estes a Manchúria ou o Paraguai, era como se a França se situasse no mais elevado promontório do planeta e contemplasse do alto até mesmo o Himalaia. Mas, tinha de convir, a coitada da permanente não tinha consciência de tal presunção, nem a menor intenção de provocá-lo. Era francesa, simplesmente. João engoliu o là-bas e depôs as armas.

— A última é a anistia!

Olala! — explodiu Catherine. Explodiu em vão, já que seu interlocutor não correspondia à efusão do gesto. — Então, vais poder voltar?

“Santa desinformação!” — resmungava João, enquanto a fitava perplexo. Para todo francês um latino-americano de esquerda era, ipso facto, um exilado. Não voltaria não, pelo menos não voltaria tão cedo, para começar ele estava chegando, e já pagara até o último centavo, sem tugir nem mugir, o preço que os militares lhe haviam cobrado por seus ideais de juventude. Podia voltar a qualquer hora, era o que gostaria de dizer, mas teria tanta coisa a explicar àquele cerebrinho oco, que preferiu jogar o jogo.

— Posso voltar. Mas ainda não vou voltar.

— Em todo caso, uma bela notícia! — continuou a permanente, estalando os dedos e pedindo uma demi-pression a um colega, com aquele gesto tão parisiense de pedir chope, polegar distendido na vertical e voltando à horizontal em um movimento rápido —. O Partido vai ser legalizado, não?

Vontade de chorar. Ou de sumir. Como explicar Pindorama àquele serzinho cartesiano? — perguntava-se João. Que o partido talvez continuasse na ilegalidade, mas seus membros davam entrevistas a torto e a direito na condição de dirigentes do partido ilegal, discutiam linhas e disputavam cargos hierárquicos publicamente? Ou imaginaria Catherine que os militantes do Partido, naquele ano de 79, viveriam a condição de maquisards sob a ocupação alemã? Sentia-se mal, desagradavelmente cansado, quando, ao tentar responder uma pergunta rápida sobre o Brasil, tinha de introduzir a resposta com um ensaio sobre a idiossincrasia das gentes de là-bas.

Balthazar o lambia pelos pés e pernas, cheirava-lhe o sexo, e ai dele se desse um chute no animal. Afastava-o com certo nojo, o cachorro insistia, tentou lamber sua cerveja.

— Thazar, aqui! — ordena Catherine, e o cão abominável passou a beber no mesmo copo da dona. João sugere atá-lo fora da barraca.

— De jeito nenhum. Ele entra em crise.

Entenderia aquele cerebrinho parisiense que, fora os exilados com reais motivos para o exílio, uma massa considerável de brasileiros roía as unhas de apreensão com a perspectiva da anistia? Na Maison du Brésil o clima era de pânico, “não é possível, é jogada da direita, é armadilha do SNI”, etc. Toda uma malta de irresponsáveis que, sob pretexto de perseguição política, gigoleavam francesas e instituições francesas, não tinham agora pretexto algum para permanecer em Paris. Este fora um de seus primeiros choques, recebido já em sua chegada, e choque bem mais contundente que os elétricos. Se estes cicatrizavam mais cedo ou mais tarde na memória, aqueles outros significavam mais um pedaço de crença que desmoronava em sua carcaça já tão judiada. Lá estavam os militantes do Partido, MR-8, Var-Palmares, AP, JUC, enfim, das dezenas de organizações clandestinas que haviam proliferado após 64, mas o grande contingente militava mesmo no FMP, certamente a maior força política instalada às margens do Sena: Fodidos Mas em Paris.

Explicar à francesa que o FMP era contra a anistia? Que preferiam envelhecer lavando pratos ou trabalhando como garçons ou porteiros de hotel a voltar para o Brasil? A menos que fossem convidados para um ministério, é claro... Catherine não entenderia. Enquanto isso, Baltha enfiava o focinho molhado de cerveja por entre seus seios soltos e rijos e João considerava que, se reencarnação houvesse, pediria para ser cachorro em Paris, bem que não lhe desagradaria, mesmo na pele de Baltha, tirar uma cria com aquela potranca.

Catherine desculpou-se, precisava passear com Baltha, tu sais, il a ses besoins. Convidou-o a acompanhá-la, João recusou educadamente, horrorizado por dentro. Um ano de Paris já lhe fora suficiente para sentir arcadas de vômito quando via nas ruas um cão evacuando, ao lado de uma velhota, que virava as costas para o animal e olhava ao longe como se nada estivesse acontecendo. Não lhe era difícil entender as velhotas parisienses e suas solidões... Mas aquele espécime soberbo de mulher, jovem, esportiva, cosmopolita e ativista, que fazia com aquele cusco fedorento?

Como tampouco entendia os “militantes” do FMP. A caminhada de Catherine com Baltha o fazia evocar Zilá, gauchinha burguesa que decidira fazer Paris por conta própria. Conseguira uma boca como jeune-fille-au-pair, o que lhe garantia pelo menos cama e comida. Mas não durou muito no emprego, na ausência de Madame seu patrão interpretava sua função como jeune-fille-au-père, serviços que decididamente se negava a prestar, preferia jogar bolsinha no Pigalle. Logo após conseguira um trabalho de sonho, pelo menos para um latino, uma viúva milionária lhe pagava mil francos mais casa e petit déjeuner para passear com seu caniche duas horas por dia. Detestava cães, mas como Madame vivia peregrinando entre suas residências em Chamonix, Mallorca e Marrakesh, só tinha de assistir Loulou uma semana por mês, o que lhe permitia tentar um doutorado em Paris III.

Loulou era um chihuahua, mais parecia bibelô do que cão, acompanhá-lo não era tarefa irritante. O duro era enfrentar Madame, mal se atrasava cinco minutos lá vinha reclamação: Vous êtes en retard, Mademoiselle. Loulou il est nerveux. O pior era a volta: Il a bien fait son caca? Il a bien fait son pipi? Se as coisas ficassem por ali, até que os mil francos eram ganhos sem maiores sacrifícios. Mas Madame exigia outros detalhes de ordem escatológica: son caca, est-il de bonne couleur? Madame parecia insistir em que contemplasse as dejeções de seu cãozinho. O que também passava, além dos mil francos tinha cama e café da manhã. Mas Zilá deveria ter pecado muito em outras vidas, senão como explicar a insistência de Madame em apresentá-la a seu círculo de macróbias: Mademoiselle da Silva, elle fait un doctorat à la Sorbonne et se charge de mon chien.

Gaúcho, João não entendia como uma gaúcha podia submeter-se a tais humilhações. Mas o FMP gozava de um carisma poderoso, parecia ser mais prestigioso estar em Paris sem fazer nada do que estar em Porto Alegre fazendo um trabalho sério.

 

Catherine nadava rumo ao iate de Niarkos, da praia mal se via o ponto escuro de sua cabeça, boiava agora para descansar. No horizonte, onipresente, as silhuetas de um cruzador e a do barco do grego, este fundeado na baía de Cannes naqueles dias de festival talvez para insinuar a algum eventual idealista do Terceiro Mundo que entre um filme e a Croisette há mais coisa do que sonha a vã cinegrafia. Enquanto Catherine boiava ao largo, Cristiano meditava sobre as tortas trajetórias que os haviam juntado naquele mesmo ponto geográfico. Gostava de retraçar no mapa o itinerário dos reencontros e se pôs maquinalmente a marcar na areia as cidades pelas quais havia passado antes de aportar naquela praia.

Tudo começara — se é que não havia começado antes — naquele distante réveillon no Chalé, quando três universitários, a mente repleta de sonhos, haviam abandonado Porto Alegre para conquistar o mundo. Dalmácio, talvez em pânico, talvez por cansaço, abandonara o combate. João, que naquela noite já se imaginava em paris, estava na prisão. E ele, que toda a vida tentara fugir do Brasil e do jornalismo, que se refugiara em uma glacial capital nórdica por julgá-la — ó santa ingenuidade! — uma sucursal do paraíso, ele lá estava, espichado numa medíocre praia do Midi, cobrindo o festival de Cannes para a Folha. Não era fácil fugir do Brasil.

Ao longe, no mar, começava a bracear de volta a parisiense insólita, seus pulmões pareciam ter cansado, remava agora de costas, lentamente, rumo à areia, enquanto Cristiano ruminava sobre os estranhos e aparentemente casuais encontros e desvios de sua vida. Atingira a idade em que um homem descobre — se é que um dia se propôs a descobrir algo — que seus rumos, fracassos ou vitórias, em um momento qualquer dependeram de segundos ou metros, se tivesse apanhado esta rua em vez daquela, se tivesse saído de casa à tarde e não ao meio-dia, tudo poderia ter sido assim ou exatamente o inverso.

Via-se em Ponche Verde atrelando um cavalo a uma aranha, já descia a coxilha do Grupo Escolar, em seu último ano de curso primário, voltando definitivamente a seu universo rural, quando Dona Ivone pula a cerca de alambrado e grita: “pára, Clotilde, pára, teu filho tem de ir para a cidade”. Mais trinta segundos e o tordilho teria desaparecido no lançante da coxilha. O que o havia impelido a Suécia e, uma vez lá, que deuses o haviam apresentado a Lena-Lena? Que razões o haviam levado a tomar o Eugenio C em Lisboa? Voltasse de avião não teria encontrado Schneider, o marujo providencial que o apanhara pela gola enquanto namorava o mar qual um Hart Crane, e no momento crucial lhe jogara no rosto a mais dura das perguntas: “gostas de ti?”.

Voltasse de avião, mais cedo ou mais tarde talvez tivesse sucumbido ao naufrágio que engolira Dalmácio. Hesitara na resposta à pergunta de Schneider e a hesitação o tornara consciente do perigo que corria. Não fosse aquela viagem em meio ao álcool e ao desespero, partido em dois pela morte de Canário, talvez não estivesse agora deitado olhando Catherine que emergia do Mediterrâneo, os bicos dos seios agora eretos pelas águas frias de maio, eretos e salgadinhos.

Mas era por demais orgulhoso para arriscar-se a receber um não. Há mais de uma década não ouvia de mulher este advérbio e seu segredo não tinha mistério algum: salvo nos dias perturbados de adolescente, jamais pedira qualquer coisa a uma mulher. Talvez fosse aquele orgulho monstruoso, barreira que o isolava do outro sexo, o que o impelia a aproximar-se dos homens. Não que os preferisse às mulheres, elas eram sempre mais quentes, mais úmidas e funcionais, mas entre homens bastava um olhar e seria ridículo qualquer discussão ou confronto antes de se chegar às vias de fato. Os solitários que vagavam à noite pela Croisette, sem falar dos travestis soberbos da Antibes, com seios que nada ficavam a dever aos de Catherine, mais complementos outros que dispensavam largement a ausência de clitóris, enfim, aquelas opções que permaneciam sempre ao alcance de sua mão lhe davam uma larga vantagem sobre a francesinha a seu lado, seios pingando sal.

— Então?

— Cansei.

Cristiano também cansara. Mas outro era seu cansaço.

Sentia que se afastava cada vez mais das mulheres. Se olhasse para trás, tinha de admitir dever-lhes tudo. Deixando de lado o famoso amor materno, incondicional por definição, os anos o haviam feito concluir que mulher alguma investia um centavo em um homem sem esperar uma larga compensação de volta. A calculista incrível que arquejava ali a seu lado, pentelhos gotejantes, estava em vias de separar-se de um certo Dominique e já lhe exibia seus encantos, não que os quisesse ofertar pelo simples prazer da oferta, mas através deles estaria selecionando seu novo cônjuge, pois os marxistas apesar de se pretenderem materialistas não largavam mão do mais católico modelo de matrimônio.

Depois, a experiência com as amigas que haviam ficado em Porto Alegre. Nos primeiros meses, uma, duas ou mais cartas por semana, a amarga constatação de que todo gaúcho era um machão, “sabes, nunca imaginei que o Fulano, tão irreverente, era no fundo um moralista”, a descoberta — oh! — de que só ele, Cristiano, não era possessivo, que só ele as aceitava com suas aventuras e infidelidades. Com o passar dos dias as cartas começavam a rarear, o que não era imprevisível, afinal a vida continuava seu ritmo lá do outro lado do oceano. Até o dia em que recebia a fatídica cartinha “olha, meu marido (te contei que casei?) não está gostando de nossa correspondência, te peço que não escrevas mais”, ou ainda a variante “não manda mais carta para minha casa, te deixo o endereço do escritório”, em suma, as meninas haviam atingido a meta suprema, uma vez casadas repeliam qualquer ameaça ao mesquinho dia-a-dia de suas fortalezas de egoísmo.

Mas o tempo continuava implacavelmente a passar, e em toda mulher que tocara ele deixara uma marca difícil de apagar, a nostalgia da perversão. Tinha certeza de que, depois dele, não seria qualquer marido que abafaria os ocultos incêndios ativados. Mais alguns meses, mesmo anos, lá voltavam as cartinhas, “oi, como vais?, há tanto tempo a gente não se escreve”, e depois de banalidades várias, comentários inócuos em torno aos acontecimentos do país, à política kamikase de Monsieur Dix pour Cent, como era conhecido o Ministro da Economia, inflações, greves, lá no finalzinho vinha a frase decisiva, a que justificava toda a carta, a que dispensava qualquer intróito: “olha, estou tentando salvar meu casamento, consertar o que ainda pode ser consertado”. Mas elas pensavam o quê? Que casamento, uma vez quebrado, se conserta com cola-tudo?

Catherine o acusava de dogmatismo:

— Há pessoas para as quais o casamento é uma solução. Nem todos pensam como pensas.

Claro que não, não pedia isso a ninguém. Cada um com seu cada qual. Outra era sua queixa, não lamentava as mulheres em geral, apenas as que conhecera de perto, e não haviam sido poucas. Elas o admiravam por sua liberdade, jamais pedira fidelidade a ninguém, podiam falar-lhe de seus casos e fantasmas sem o temor de perdê-lo. Ele? Gostava delas não só por ter chegado a este relacionamento aberto, mas por sentir que encontrava a nova mulher, a que não se submetia a um macho, a que ganhava seu sustento e fazia de seu corpo o que bem entendia. A que, em vez do solene propósito de assumir seu lugar na História, assumia sua conta nos bares, o que era bem menos abstrato e mais necessário. E de repente, não mais que de repente, a mulher que um dia o julgara livre, lhe escrevia: “olha, meu marido não quer que eu continue a te escrever”. Já não bastava a censura estatal, mais a censura do jornal, tinha agora de submeter sua correspondência à censura marital. Era só o que faltava!

— Acontece que tu trocas de mulher como quem troca de camisa — objetou Catherine.

Cristiano gostou da imagem, gostaria de poder tratar as mulheres como cuidava de suas camisas, conservá-las todas, mesmo as mais surradas e poídas, com aquele carinho que nutrimos com relação às roupas que acabaram tomando a forma de nosso corpo. Mas a intenção da pergunta era outra, a permanente queria luta.

— Não, senhorita. As camisas, eu as conservo. Mulher, respeito muito: uso uma vez só.

Ria por dentro imaginando a tempestade que estaria se formando no cerebrinho a seu lado. De sua experiência dos últimos anos, extraíra uma leizinha, que não pretendia tivesse validade universal, mas lhe servia para consumo doméstico: mulher quando escreve é porque está só, quando deixa de escrever é porque encontrou homem, quando volta a escrever é porque voltou a ficar só. Era com ironia que abria as cartas das que voltavam a escrever, sempre a frase fatal na primeira linha, “oi, como vais?, faz tanto tempo...”, já pulava o entrecho todo noticiando o que se passava no país para chegar ao final, onde de uma maneira ou outra a missivista insinuava que agora não mais havia censor para uma eventual resposta. Ele respondia sempre, isto é, pelo menos até o dia em que se deu conta de sua abissal ingenuidade, de que elas queriam exercer sobre ele exatamente aquilo cuja ausência nele louvavam, o senso de exclusividade.

A horizontal daquela nesga do Mediterrâneo, o débil sol do Midi que começava a aquecer-lhe a pele mortalmente branca, tudo lhe incitava a baixar armas, sugerir armistício, sem falar que sua relação com Catherine nada mais tinha de amistoso. Por que a convidara para o Festival? A mulher o atraía, sem dúvida alguma, era um festival de curvas, uma promessa de êxtases inefáveis ao afortunado a quem ela houvesse por bem doar-se. E ali estavam, lado a lado na areia, ela seminua confundindo-se com as vedetinhas também nuas em busca de fotos, à noite estaria completamente nua a seu lado, como estivera na noite anterior, o púbis úmido e eriçado após a ducha, lendo compenetradamente Le Monde, enquanto Cristiano tentava apreender o sentido de pelo menos uma linha de um prospecto qualquer, ambos juntos, dia e noite, ao mútuo alcance das mãos, e ao mesmo tempo infinitamente, irremediavelmente distantes. Que praga os separava? E se esboçava um gesto de carinho, lá vinha pedrada: soit pas con, ne me touche pas!

Ao lado, uma malta de fotógrafos assalta um serzinho toda curvas e trejeitos que começa a despir-se.

— Pouca vergonha — comenta Catherine —. Um diretor se mata fazendo um filme e a imprensa se amontoa em torno a uma bunda.

— Bunda é mais vendável que inteligência — ponderou Cristiano, olhando para a militante e não propriamente para sua inteligência. — Ou imaginavas o contrário?

Catherine começou a vestir-se. Irritação? Despeito? Como saber o que se passa na cabeça de uma mulher, particularmente quando ela pertence a outra cultura, nutre outros fantasmas e mitos? Sugeriu uma cerveja na terrasse do Carlton. Cristiano topou.

— Então, te veste.

Vestir-se? Sentia-se bem de calção. Não entendia.

Vous êtes en France, Monsieur! Paganismo só é permissível cá deste lado da Croisette, na praia. Cem metros adiante, a civilização.

Vestiu-se. Il sont fous, ces Français!, pensou com seus botões. Mal haviam sentado, duas macróbias na mesa ao lado corroboraram as considerações de Catherine. Evocavam uma viagem à África. São uns primitivos, comenta excitada uma madame, vivem sempre à poil. Divertida, Catherine piscou-lhe um olho cúmplice.

 

O relacionamento entre ambos se deteriorava dia a dia. Cristiano concebia dormir ao lado de uma mulher nua, sem tocá-la, desde que pelo menos uma vez na vida já houvessem se relacionado fisicamente. O que o excitava em uma fêmea, fundamentalmente, era o desconhecido, o ardor com o qual reagiria a seus estímulos, os gemidos, a entrega, e ali estava a seu lado, intocada, desconhecida, nua e inacessível, aquela promessa de bacanal. E não contente de ler impassivelmente o jornal, ainda o desafiava:

Quoi, tu bandes?

E como poderia ser de outra forma? Mas Catherine parecia não se satisfazer com a mera provocação, parecia querer massacrá-lo:

Vas-y, branle-toi!

Não, tudo menos masturbar-se, especialmente quando tinha uma mulher a seu lado. Masturbação era como maconha, tornava-se ridículo a partir de uma certa idade. Como antídoto, antes de voltar para o hotel, servia-se dos travestis da Antibes. Mas a lembrança do travesti, mais Catherine nua, voltavam a torturá-lo. Não havia ainda terminado a primeira semana do festival, após alguns telefonemas misteriosos, a permanente decidiu voltar a Paris. Missão do Partido? Cristiano levou-a até a gare, agora pelo menos dormiria em paz. Catherine perdera o trem da manhã, tinham duas horas pela frente até a próxima partida. Amolecida por alguns chopes, abriu-se:

— Sei que não fui correta contigo.

Sabia? Mas soubera tarde.

— É que estou vivendo uma crise.

Crise de foi?

Mais non, le foie est OK.

Ah! o francês e seus homófonos. Cristiano não falava de fígado, falava de fé. Aliás, julgara ter-lhe tocado fundo no dia anterior. Haviam visto “Acidente de Caça”, de Lutianov. Catherine saltitava de contente ante a perspectiva de ver uma produção soviética, sem falar que era inspirada em um conto de Tchecov. Em meio ao telúrico casamento de Olenka — interpretada por Galina Belaieva, que fora aliás proibida de vir a Cannes, certamente para não se deixar tentar pelo charme capitalista da Croisette —, bodas luxuriantes em cores e sons, Cristiano olhou à sua esquerda e viu a militante chorando a cântaros, lágrimas rolando pescoço abaixo, rumo aos seios, ombros tremendo, convulsos. Não teve piedade:

— Te peguei, catolicona!

Foi como se duplicasse o efeito lacrimogêneo produzido pela cerimônia. Catherine grunhiu de ódio, deu-lhe um forte cotovelaço nas costelas, chorava agora de raiva e comoção. Cristiano, com o flanco dorido pela cotovelada, ria divertido. Todo marxista, no fundo, era um catolicão, onde se viu um materialista dialético chorar ante a mais hipócrita das celebrações cristãs? Mas não era esta a crise da moça. Seria Dominique?

— Não, nada disso. Dominique pertence ao passado.

Hesitava. Cristiano pediu mais dois demis, nada como o álcool para abrir corações magoados.

— Sabes, telefonei ontem para Paris...

Sim, ele sabia.

— Para Thazar.

Ah!

— Ficou no apartamento de minha irmã. Telefonei e Thazar estava angustiado. Ele está vivendo um momento muito delicado...

Sim...

— Ele era muito apegado a Dominique. E ainda não se recuperou do trauma de nossa separação. Recém agora estava se habituando a dormir em minha cama.

Cristiano olhava-a perplexo. Quem estaria bêbado, ele ou ela? “O pior de tudo, pensou, é que são apenas onze da matina, e ninguém está de porre”.

— E daí?

— Daí que não posso abandonar o Baltha em um momento destes. Ele precisa de mim, entendes? Estava desesperado quando ouviu minha voz. Il peut faire une crise...

Chorava. As lágrimas se misturavam à cerveja.

— Entendes agora porque eu não conseguia fazer amor contigo? Eu não podia. Thazar está só, terrivelmente só...

O trem partiu lentamente, como partem todos os trens. Da janela, chorosa, Catherine lhe acenava. Era a própria imagem da França, como diria João Geraldo: esquerdista e cachorreira.

 

É sábado e Paris parece morta, um sol débil de primavera aquece o parque Montsouris. Cá e lá, louras branquelas abrem os peitos àquele astro impotente, o que lembrou a Cristiano seus dias mais ao norte, quando ria das suecas que abriam blusas e saias mal aparecia uma nesga de luz, expondo suas carnes brancas à bolina dos raios. Não ri, lhe advertira um dia Lena-Lena, basta que passes um inverno aqui e vais te tornar um soldyrkare. Adorador do sol! Jamais se imaginaria prestando tal culto, e no entanto... Lena sabia do que falava.

Havia novas no universo do lago, pesava sobre a superfície das águas um clima de tragédia, apesar da alegria animal das carpas que adejavam se refestelando ao sol. Cristiano escolhera o Chalet du Parc como seu ponto privilegiado para observar os homens e o mundo, não só pelo nome que lhe evocava um outro Chalé, como também pelo lago à sua frente, o verde lânguido dos chorões, aquela vida mansa que fluía e o fazia sentir-se como que em uma cidadezinha de província, sem falar da proximidade de seu studio na Amiral Mouchez, em suma, se alguém conhecesse seus hábitos e soubesse que morava no 13, também saberia que ali iria encontrá-lo.

Mas havia novas no lago, e más novas. Desolado, encostado no muro que cercava a terrasse do Chalet, um dos guardas do parque interrompe sua leitura para contar que haviam roubado a mulher de Arthur, e os cisnes, insiste o guarda, são estritamente monógamos. A fêmea havia posto sete ovos, o máximo para sua espécie, ovos que agora haviam gorado. Arthur, pudico e humilhado, nem mais navegava pelo lago, preferia esconder do público o chagrin que dentro em pouco o iria matar. Cisne. Newschwanstein. Dalmácio.

Cristiano partilhava da desolação do guarda, mas não do chagrin de Arthur. Ou melhor, entendia sua tragédia, mas não aceitava sua filosofia. Preferia a nonchalance dos pombos, o macho estufava o peito e trepava qualquer fêmea em meio a um festival de arrulhos, se não acertava esta, mudava de rumos e montava em outra. Claro, Arthur teria sempre mais nobreza aos olhos daquela demoiselle que exibia coxas e peitos, perto do coreto, aos raios de um astro brocha. Arthur não veria como “objeto” a companheira que lhe haviam roubado — vandalisme des bougnoulles! dizia o guarda — enquanto aquele pombo era o próprio latino, encarnava o que doentias teorias haviam tido por bem batizar falocrata. E aquela algaravia feminista fazia com que ele, falo ambulante, preferisse as latinas.

Algum vírus, não sabia onde nem quando, havia-se infiltrado no cérebro das européias, e toda tentativa de aproximação ao estilo do pombo lhes soava como ofensa. Seriam capazes de infernizar a vida do monógamo Arthur com suas ofertas, desde que no íntimo se sentissem cortejadas. O objetivo era a cópula, claro. Mas Catherine, para não ir mais longe, se pretendia civilizada e portanto diferente das espécies animais, seres ditos inferiores — exceto Balthazar, bem entendido —, enquanto Cristiano era acometido por uma súbita vontade de inferiorizar-se, de arrastar as asas em torno àquelas branquelas com a mesma impunidade dos pombos. Gesto que as cretinas tomariam como ofensa, se queixariam talvez ao guarda, tão orgulhoso da fidelidade de Arthur, mas o fato era que o cisne estava morrendo a olhos vistos com toda sua monogamia, enquanto que os pombos, naquele mês de maio, viviam uma plena orgia primaveril.

O guarda foi embora, em busca talvez de outros ouvintes a quem narrar o drama de Arthur, Cristiano mergulhou em seus jornais. Não conseguia concentrar-se. Cisne lembrava Ludwig, Ludwig lembrava Newschwanstein e Neuschwanstein lembrava Dalmácio. E assim continuava, lendo sem ler, os olhos captando mecanicamente as palavras sem conseguir estabelecer entre elas um nexo, quando ouviu o que jamais imaginaria ouvir em um sábado em Montsouris:

— Buenas, Doutor!

Não se moveu. Seria alucinação. Mas a voz era inconfundível, aquele “buenas!” era lá da fronteira, o sotaque de Livramento, a entonação, a pronúncia clara, tudo indicava que o vulto a seu lado era João Geraldo. Ergueu lentamente, incrédulo, o olhar. Era João, mas ao mesmo tempo não era. O jeito de encarar alguém, o pescoço semi-curvo, a cabeça imóvel, o rosto que só ganhava vida após a resposta do interlocutor, tudo aquilo era João. Mas que fora feito das melenas hirsutas, da juba negra que não conseguia esconder-lhe o sorriso aberto? Restava um bigodinho fino semeado de fios brancos e a calvície conquistara um largo território de sua cabeça. Cristiano controlou-se para não demonstrar surpresa, mesmo sabendo que o amigo que há seis anos não via percebera interiormente seu pasmo. Não podia ser verdade. E no entanto era. Não sabia como reagir. Tratou-o impessoalmente, como às vezes fazia, quando queria gozá-lo:

— Mas o senhor não devia estar na cadeia?

— Dever, devia. Mas acontece que estou aqui.

Faltava ainda algo para que o universo retomasse seu sentido. Que estivesse em liberdade, entendia-se. Mas como chegara ao Chalet?

— Bueno, passei na tua casa, não estavas. A comadre concierge me falou que devias estar aqui.

Abraçaram-se. João sentou-se e começou a falar como se aquela noite, no outro Chalé, tivesse ocorrido na noite anterior. Ria de sua ingenuidade, reunira todo seu escasso francês para informar-se com a concierge, quando suspeitou que a dita era portuguesa. Cristiano esclareceu:

Concierge francesa, tche, só nos livrinhos da Aliança Francesa.

Tinha vontade de perguntar-lhe pelos anos de prisão. Como lhe haviam tratado os homens. A pergunta se impunha, mas interrogá-lo significava evocar tortura e Cristiano conhecia não poucos ex-torturados que alimentavam um pudor quase sagrado ao se tocar no assunto. Não perguntou. Preferiu notícias de Porto Alegre.

— O Homem de Orion?

— Sempre às voltas com os extra-terrestres. Encontrei o ser na Rua da Praia, os ouvidos protegidos por uma espécie de capacete. Cansado de ouvir besteiras dos terráqueos.

— Mário Quintana?

— Sempre nefelibata.

De repente, estavam na Rua da Praia. O lago, os pombos, Arthur, as carpas, as branquelas tomando sol, tudo desaparecera, não fosse o garçom falar francês jamais se dariam conta de estar em Paris. Por Soderman e Dalmácio, pergunta alguma. Havia tempo de sobra para assuntos delicados.

No studio, os regalos. João poderia esquecer o passaporte em uma viagem, jamais os presentes. Cachaça — e por mais que um brasileiro pretendesse não gostar da branquinha, em Paris uma cachaça era sempre bem-vinda, era uma espécie de reencontro com o passado. Limões galegos — “ouvi dizer que aqui não tem destes”, explicou João. Charque para o carreteiro ou feijoada. Mais erva mate.

— Só não trouxe cuia e bomba.

Cristiano as tinha. Tentara pôr as francesas no vício e a meninas não o aceitavam, não pelo amargo da bebida, mas não admitiam chupar na mesma bomba, era anti-higiênico, o normal seria — reclamavam — que cada um tivesse a sua. Logo as francesas: chupavam tanta coisa e alimentavam tais pudores! A única a aceitar uma roda de chimarrão fora Catherine, Cristiano lhe mostrara uma foto do Che amargueando. Se o Che chimarreava, chimarrear deveria ser bom. João habilitou-se a cevar o mate, vomitando as novidades, com seu vozeirão de estentor, à medida que lhe viam à lembrança.

A conversa fluía em meio ao chiado da cuia seca, Cristiano preparou uma salada de endívias mais dois filés, quando o telefone tilintou. Seriam já onze da noite, a chamada deveria ser do Brasil, ou eventualmente de latinos, que franceses jamais ousavam chamar alguém àquela hora. Não era. Era a vizinha do andar inferior, a parisiense começou se apresentando, não conseguiam dormir com a conversa dos dois. Merda! — exclamou interiormente Cristiano, não era a primeira vez que tinha problemas com aquelas paredinhas de estuque, tinha a impressão que se folheasse o jornal acordaria o vizinho ao lado. As brasileiras sofriam com o problema mas já haviam encontrado um jeitinho, não havia patrícia que não tivesse o seu radinho, ligavam-no a todo volume quando tinham de abafar outros sons menos ortodoxos. Mas considerava que a vizinha exagerava. João falava alto, é verdade, mas não a ponto de perturbar o sono de alguém. Seria uma crise de solidão, um pretexto da vizinha para ouvir alguém.

Desolé madame. Estou reencontrando um velho amigo, vamos conversar até amanhã de manhã. Sem falar que não tenho cachorro, sou obrigado a falar com meus semelhantes. Et bonne nuit.


 

 

6. NO FIO DE PRUMO

 

Naquele outono de 77, já tendo tomado pé como correspondente em Paris, Cristiano fez as malas e preparou-se intimamente para a viagem dolorosa e obrigatória. Dolorosa, pois por linda que fosse Munique, só lhe evocaria tristeza. Aliás, só lugares tristes constavam de seu itinerário, os castelos de Ludwig e os bares do Schwabing, não que fossem tristes em si, pelo contrário. Dalmácio fora incinerado. Mesmo que não o tivesse sido, não iria visitar seu cadáver. Querias rever os bares sobre os quais ele dissertara durante horas naquele encontro absurdo em Lisboa, ver os castelos do rei louco e particularmente aquele que, desde uma longínqua noite em Porto Alegre, os fascinara através do filme de Visconti, Newschwanstein. Queria imaginá-lo em sua eterna gabardina bege, gestos lentos e olhar duro, o também eterno cachimbo pendendo do queixo. Tinha certeza de que Dalmácio tinha certeza de que mais dia menos dia ele faria aquele percurso. Enquanto perambulava como fantasma em meio à alegria e efusão dos bávaros, as impressões exteriores lhe perpassando o espírito sem deixar marca alguma, tentava entender que razões teriam levado o bom parceiro de mesa — de cama e mesa, poderia dizer, já que partilhavam inclusive mulheres, sem atrito algum — àquele gesto estúpido.

Em sua angústia, Dalmácio pisava uma questão que deveria estar resolvida, para qualquer candidato a escritor, antes mesmo do primeiro rabisco: para que escrever, se tudo já foi dito? Centenas de vezes haviam retomado o assunto nas deambulações pela Rua da Praia ou tertúlias no Chalé e Oásis, Dalmácio se entusiasmava com belas estruturas de contos e novelas, trabalhava-as por alguns meses, para logo concluir, desolado: isso já foi escrito. Tinha especial carinho por um projeto de ficção, talvez escrito em forma de ensaio, “O Protocolo dos Sábios Anciões”, onde via em cada detalhe da cultura humana os traços de uma gigantesca conspiração secreta para impedir a emersão do novo na História. Os agentes maiores de tal complô seriam os dignitários de todas as nações, secretários de Estado, reitores de universidade, diretores de instituições culturais, escritores premiados, as igrejas e seitas, isso sem falar em um exército imenso de funcionários menores pagos para lutar contra o novo, sem sequer saber porque estavam lutando.

Como todos seus demais projetos, este também caíra no limbo das gavetas, não que já tivesse sido escrito — Dalmácio julgava-o originalíssimo — mas o fato é que a conspiração era tão vasta e tão complexos seus mecanismos, que não se sentia com braços para enfrentar um ensaio com tais ambições. Já havia mesmo anunciado a publicação de um outro, “A Célula-Mártir”, projeto que contava com a total simpatia de Cristiano, já que situava a prostituta como o nervo vivo e exposto de toda sociedade: também o jogara de lado ao final de poucas laudas. E muitos outros...

E mesmo que chegasse ao término de seus projetos, a luta para editá-lo — e pior, divulgá-lo — seria tão desesperadora, tão exaustiva, que o escrever se tornava café pequeno. Era curioso: ao caminhar pelos salões e corredores de Neuschwanstein, Cristiano permanecia cego às telas e móveis, às explicações do guia e ao burburinho de turistas, seu passeio era em verdade um silencioso diálogo com o distante companheiro, distante e ao mesmo tempo muito próximo, pois o sentia a seu lado, cachimbando ceticamente ante os sonhos e angústias do perturbado Ludwig.

E numa daquelas noites em que uma nevada extemporânea o fazia afundar cada vez mais em si mesmo — não dominava o alemão nem tinha conhecidos em Munique — para espairecer procurou algum espetáculo. Joan Baez visitava a cidade, ele gostava de sua voz e de suas canções, iria pois ver Joan Baez. Apresentava-se no Olympiahalle. Naquele baita galpão, como diria João Geraldo, construído para as Olimpíadas de 72, Cristiano só via ao longe uma mulher minúscula enfrentando dez mil bávaros com seu violão. Para ver seu rosto, teve de pedir binóculos a um vizinho. Gostava de ouvi-la, embora preferisse possuí-la pela voz entre as paredes de seu quarto. Pena que Joan Baez, em vez de cantar, decidiu falar.

Dedicou uma de suas canções aos prisioneiros políticos do Chile, e isso era bom, lembrava aos europeus que havia homens sofrendo no Chile por pensar diferente dos que os faziam sofrer. Dedicou outra aos dissidentes soviéticos, o que também era bom, por idênticas razões. Cantou ainda em homenagem a Bangladesh, lembrando aos alemães que havia homens sofrendo pelo simples fato de terem nascido em Bangladesh.

Dez mil bávaros haviam saído de seus quartos aquecidos para enfrentar a neve em seus Mercedes flamantes. Cristiano multiplicou dez mil por doze marcos, o preço da entrada, o que dava 120 mil marcos por hora da apresentação no Olympiahalle (onde havia ouvido aquele nome?), e lhe pareceu magnífico ganhar 120 mil marcos por hora para defender os oprimidos do mundo todo. Por um salarinho daqueles, até mesmo ele, o descrente de todas as lutas, seria bem capaz de empunhar uma bandeira qualquer. Ao mesmo tempo, pelo preço de duas ou três cervejas, os ricos e rotundos bávaros solidarizavam-se durante uma hora com os perseguidos do Leste e Oeste, Oriente e Ocidente. Assobios, urros histéricos, punhos erguidos, gestos de vitória: we shall overcome!

Baez atira beijos à multidão, acabara a grande psicanálise de grupo. Logo depois seria a volta ao lar aquecido, em um aconchegante útero metálico — e por que não, se a neve caía tão densa, apesar do outono? Quando Baez ou algum outro cantor da moda voltasse a cantar no Olympiahalle (que lhe dizia, afinal, aquele nome, evocando algo nada agradável?), os superdesenvolvidos europeus voltariam a lembrar Chile, URSS ou Bangladesh.

Antes que cessassem os urros daquela platéia que parecia estar partindo para combater em plagas longínquas, a idéia hedionda lhe veio à mente, Dalmácio pulando do centro da imensa cúpula com uma corda ao pescoço, balançando grotescamente em meio ao vazio, sob os aplausos ensandecidos dos corajosos social-democratas. Descobrira finalmente onde se localizava o mal-estar que lhe percorria o estômago: Olympiahalle, Dalmácio o ajudara a construir em seus primeiros meses de fome e humilhação no país em que um dia esperara ser recebido como poeta.

Alguma pedra, alguma parede, um pedaço qualquer de sua estrutura tinha o seu toque,

“era ele que erguia pedras,
onde antes só havia chão...”,

e se efetivamente se houvesse jogado ao vácuo, suspenso por uma corda, em meio àquelas manifestações de solidariedade universal, seria considerado apenas um gastarbeiter exibicionista, um louco reacionário, um estraga-prazeres, incapaz de entender qualquer coisa de revolução. Porque os alemães — como aliás os europeus em geral, descobria Cristiano — adoravam solidarizar-se com oprimidos de terras distantes, jamais com os que lhes limpavam as ruas ou lhes erguiam as casas.

Pela primeira vez, riu em Munique. Ria histericamente, às golfadas, em meio ao estrondo ensurdecedor dos aplausos. Fora falta de imaginação, ou talvez excesso de pudor, afastar-se da multidão para se enforcar discretamente em uma árvore hirta em meio ao bosque. Melhor teria feito se balançasse qual pêndulo sinistro por sobre as consciências social-democratas, extinguindo-se à medida que se extinguiam as ovações. Talvez seu gesto pudesse dizer algo de novo a alguém, ele que julgava que tudo o que tinha a dizer já fora dito.

 

Se até 74 os anos haviam sido relativamente gentis com Cristiano, 75 lhe dividiu a vida em dois e o espírito em pedaços. Três anos de paraíso haviam sido mais que suficientes para perceber que na terra não havia paraíso algum e este fora o menos contundente dos acontecimentos daquele ano, eixo sobre o qual girava toda a década. O mundo asséptico, organizado e frio dos Sveas não conseguira sensibilizar seu ser latino. Percebeu estar com saudades de tudo quanto abominara no distante Sul, ao sentir vontade de ver de perto, conversar, trocar considerações inócuas, não com aqueles seres angelicais, saudáveis e perfeitos, que mesmo vestidos de andrajos resplendiam beleza, falar não com aqueles arquétipos ambulantes do homem ideal, mas com uma negra velha e desdentada, quem sabe com uma trouxa na cabeça, ou vendendo acarajé ou jogo do bicho numa esquina, enfim, aquele mundo tão perfeito o entediara tanto a ponto de fazê-lo concluir que o homem perdia sua beleza ao perder sua imperfeição. Que mais não fosse pelo contraste...

Tudo começara com um desejo idiota de ver uma negrona balançando grotescamente as ancas, talvez o velhote que bebia água nas sarjetas de Porto Alegre, que tanto mexia com o espírito de Jotagê — e tanto mexera que ele continuava no cárcere — vontade de conversar com Soderman, Quintana, o Homem de Orion, enfim, sentia um vazio atroz, uma falta faminta — läntgan, como diziam os suecos — da Rua da Praia e seus habitantes.

Que fizera naquela terra de homens tristes? Um cursinho de cinema do qual saíra sem saber como abrir uma lata de negativos. O cinema fora a grande ilusão de sua geração, tanto dos que não se pretendiam mais do que espectadores quanto dos que se sonhavam cineastas. Nos dias de Brasil, via o mundo como uma projeção em uma tela, os países longínquos tão perfeitos quanto o desenrolar das histórias que neles se passavam. Não, decididamente era um absurdo. Sentia-se um latino miserável mendigando as sobras de seres ricos.

Com o espírito contaminado por uma amarga sensação de fracasso, começou a fazer as malas. Voltar ao Brasil, logo ele que, ao sair, pensara dizer aos botocudos adeus para nunca mais! Voltar era algo assim como descobrir que a vida não tinha sentido algum. E se isso já havia descoberto, num dia distante em Ponche Verde, redescobri-lo era pior ainda.

O homem que chegara a Estocolmo fugindo do Brasil e dos brasileiros fora soterrado pelos invernos boreais. Já não se recusava a uma feijoada com a colônia tupiniquim e notou que, com o correr dos meses, se punha a batucar com dedos ou pés quando ouvia um samba. Concedia até mesmo conversar sobre futebol. E aquele outro radical que nele coabitava, que fora em busca do país sem putas, fora também soterrado pelo peso da realidade: se elas se faziam presentes até mesmo nas terra do sexo livre, por certo desempenhavam um papel insubstituível na sociedade humana. As colegas de universidade, suecas ou estrangeiras, já lhe haviam aberto braços e pernas, não era mais o fugitivo desesperado que se jogara em uma mulher dormindo, bêbada, em seus primeiros dias de paraíso. Mesmo assim, vez que outra, buscava recurso junto às profissionais.

Mas a Suécia perdia seu sentido. Suas reservas haviam chegado a zero, ficar significava entregar-se à diska, lava pratos. Os austeros condôminos do paraíso jamais cogitariam aceitá-lo como um de seus pares. Aceitariam-no como diskare ou em função semelhante. E Cristiano não se sentia especialmente dotado para lavar louças, mesmo que fossem as louças dos deuses. A volta se impunha e a viagem perdera toda sua significação.

Era como se tivesse mentido a si mesmo: certo, a vida não tem sentido, mas finjo que tem e vou vivendo. Estava admitindo aquilo pela segunda vez, o que implicava admitir a mentira anterior: há tanto tempo sei que a vida não tem sentido, que estou então fazendo nela? Lembrava um dia, ou melhor, três dias que passara encerrado em seu quarto na casa hoje tapera. Se enfurnara com uma Bíblia e um monte de livros, desde o pensador positivista argentino José Ingenieros ao matemático Bertrand Russel e, ao final daqueles três dias e três noites, praticamente sem comer, recebendo apenas água por uma janelinha que dava para a cozinha, pelas mãos assustadas dos pais, após aquela passagem pelo deserto concluíra que a Bíblia era uma antologia fantasiosa muito mal costurada, as contradições não existiam apenas entre os seus diversos livros, mas dentro de um mesmo livro. Saíra daquele jejum com estômago e alma vazios, sua única fé desmoronara. Que lhe importava então morrer?

Foram dias de pavor para os camponeses. Nas noites de tempestade saía nu e a cavalo, sofrenava o animal frente aos ranchos e em meio aos raios berrava, olhos ao céu e punhos batendo no peito: “manda outro, grande Filho da Puta, manda outro e vê se melhora a pontaria, Ceguinho de Merda”. Os coitados se benziam entocados em seus casebres, as mulheres cobriam espelhos e tesouras e facas de ponta com lençóis e puxavam terços pedindo a Deus que perdoasse o herege. Se não se suicidara naqueles dias de desespero, não seria agora que partiria voluntariamente.

Os dias finais de Estocolmo lhe evocavam duramente as angústias de adolescente. Mas se Deus não existia, era lógico que tampouco existisse o paraíso. Com desolação tão intensa quanto o entusiasmo com que fizera as malas quando fugia do Brasil, fez as malas para voltar.

Mas 75 reservava outras surpresas. Há muito perdera contato com Dalmácio, sabia vagamente que trabalhava em um jornal, o que já não era mau, ambos haviam chegado à Europa sem lenço nem documento, nem ponto algum de encontro. Talvez sentissem bem lá no fundo, ingênuos atrozes, que em poucos anos dispensariam endereços, o celebrado poeta brasileiro na Alemanha não teria dificuldade alguma em contatar o celebrado cineasta brasileiro na Suécia, e vice-versa, claro que jamais haviam formulado, sequer para si mesmos, tal hipótese, mas talvez não a tivessem formulado porque a julgavam tácita. Acabaria encontrando Dalmácio ao sabor do acaso — acaso? — em Lisboa, voltando não da Alemanha para o Brasil, mas em sentido inverso, em sua segunda e última viagem, teimosia que lhe seria fatal.

Mal se despedira de Dalmácio, desesperado com seu próprio fracasso e temeroso pela volta sem sentido do amigo — voltas a quebrar pedras para a social-democracia?” — o corpo todo lhe anunciou o pior, a morte de Canário. A angústia foi se consolidando, como cimento fresco que aos poucos vai adquirindo peso e concretude, peso tal que quase o puxava ao fundo do mar e, quando tudo parecia perdido, quando se dilacerava intimamente por estar voltando ao país que lá no fundo — mas em um fundo muito raso — continuava a abominar, para encontrar o pai que até então não entendera, Canário morria. Tudo ia perdendo sentido, dia a dia, hora a hora, sistemática e inexoravelmente, quando surge um obeso exemplar do Milicus latinoamericanensis, como diria João, e o puxa pela gola e o confronta consigo mesmo, salvando-o da sinistra tentação das águas turvas das noites do Atlântico. Decididamente, a vida tinha tudo, menos lógica.

Natal 75. Lá estava ele novamente, no país que abandonara para não mais voltar, exercendo a profissão que pensara ter abandonado para sempre, sentado em uma redação semideserta, embalado pelo ritmo lento de um telex que parecia espreguiçar-se. Naquela manhã tórrida, quando de novo as formiguinhas apressadas consumiam desesperadas nas lojas da Rua da Praia e adjacências, como que se abastecendo ante a previsão de um temporal, ao entrar no Rian para seu cafezinho matinal, viu nitidamente Dalmácio nos traços de um indivíduo louro e magro encostado no balcão.

Evidentemente não era Dalmácio, deixara-o em Lisboa dois meses atrás, ele agora estaria em Munique, mas algo estava por acontecer. Tinha neve no meio, pois os cabelos daquele anônimo cliente do Rian estavam brancos de neve, pelo menos no átimo de segundo em que Cristiano viu em seu rosto um outro rosto. Sua certeza de que logo teria notícias de Dalmácio era absoluta, seu primeiro pensamento ao despertar fora para ele, e estes sinais não o enganavam. Tinha percepções insólitas ao acordar, se assustara um dia dizendo ao sair da cama: “merda, a vida é linda e um dia vou morrer”. Mas naquele Natal, seu pensamento primeiro fora bem outro.

Na noite em que se haviam despedido no Oásis — e lá já iam quatro anos — naquela noite em que expunham seus projetos de conquista, primeiro da Europa e depois do mundo, Dalmácio lhe depositara um voto de confiança, “tu tens sensibilidade e revolta, Cristiano, espero que um dia contes a história de nossas andanças”. Até ali Cristiano só conhecia, se quisesse ser franco consigo mesmo, a história de seu próprio fracasso. Acabara voltando ao jornalismo, via recomendações de Deusa Shiva, cujos ímpetos revolucionários haviam murchado na proporção inversa em que seu ventre inchara. O secretário Vaselina insistia em readmitir “os jovens valores que voltavam com experiência de Europa”, e a discreta tribuna já lhe satisfazia como trincheira. Se não podia falar de andanças, poderia pelo menos tentar expressar, na medida da autocensura do jornal, as angústias de sua geração.

Despertara com uma vontade premente de urinar e ao mesmo tempo de enviar um telegrama a Munique, “olha eu aqui, ó Dalmácio, temos de novo uma seteira de onde alvejar o mundo”, e não sabia como lhe invadira a cabeça a palavra seteira, que só empregara quando guri em palavras cruzadas. Mas não mandaria telegrama algum, o que gostaria mesmo era de ouvir a opinião de Dalmácio sobre seu trabalho.

Acordara pensando no homem e o vira, branco de neve, no Rian. Um medo qualquer lhe perpassava o espírito e fugia pelos dedos, tremera ao erguer a xícara e tivera de apoiá-la discretamente com a outra mão, ou não conseguiria beber o café. Apreensivo, rumara até a redação para sua leitura matutina de jornais. Era uma quinta-feira, mas Natal, e nos natais os terminais de telex desaceleravam seus ritmos, os homens haviam feito uma rápida pausa em suas matanças cotidianas. Nada de novo, pois.

Voltara novamente ao jornal às sete da noite, quando as formiguinhas consumistas já se haviam enfurnado em suas células, exibindo às formiguinhas outras as primícias de sua faina. Lembrava um outro Natal, o de Adriana, e com desalento levava sua coluna do dia seguinte, qual formiguinha carregando uma partícula de seu sustento (a imagem o irritava), quando Cappa, olhar esbugalhado, entrou correndo na redação, ele também formiga com uma folha nas mãos. Vinha da sala de telex. Pegou Cristiano pelos ombros:

— O homem se enforcou. Numa árvore. Em Munique.

Cristiano não se abalou. Tinha uma esperança:

— Deve ser mais uma piada dele.

Agarrou-se naquela esperança como um náufrago a uma tábua, embora saiba que em breve irá morrer de sede. Disse qualquer coisa ao Cappa e saiu, com ar de homem habituado a brincadeiras de mau gosto. Não se dispunha a ir ao Chalé. Subiu a Rua da Praia até o Oásis, onde haviam-se despedido, e pediu ao português um uísque, dose dupla para começar. Sentia que beberia não poucas naquela noite e, à medida que bebia, relembrava os dias que haviam vivido e bebido juntos. Aquela TNT atada ao sexo. Seria um blefe, ou ele se disporia mesmo a acender o pavio? No dia em que a haviam achado no morro Santana, no alto da pedreira, ele cavara uma cana entre os interstícios da rocha e pulara na cana, que se envergava perigosamente sobre um precipício de uns cinqüenta metros. Estaria fazendo uma aposta? O telex de Munique seria talvez mais uma piada ao estilo da TNT, se é que esta fora piada? Na terceira dose, tomou uma decisão: se o filho-da-puta voltasse, lhe quebraria a cara.

Alguém lhe bate ao ombro. Diúga, oftalmologista, velho companheiro de noitadas, quando coincidiam no mesmo ponto geográfico.

— Que olhar tétrico é esse?

Só o que faltava. Para Cristiano, oftalmologista não devia arriscar-se a ir além da córnea. Que necplusultrasse a íris, por favor. Não queria falar. Mas acabou falando.

— Um filho-da-puta. Amigo meu. Me despedi dele neste boteco, faz quatro anos. Pois mandou um telex da Alemanha anunciando que se enforcou.

— Quebra a cara dele, na volta.

Sensato, o oftalmologista.

— Exato, é isso que ele vai levar.

“Se voltar”, ajuntou mentalmente.

Não lembrava do que dizia o Diúga a um minuto de distância. Resistia bem ao uísque, mas uma tensão interior lhe diluía a resistência. Uma certeza se avolumava como bola de neve — neve? Vira neve nos cabelos de Dalmácio, no Rian, e era inverno na Europa! — e então teve certeza: o telex não era blefe. Um choro convulso lhe embargou a voz, jogou-se nos ombros de Diúga e chorou como uma vaca.

76, ano bissexto, era ano de Dalmácio sorrir. Mas não mais o veria sorrir. Nem teria a chance de quebrar-lhe a cara.

Diúga sumiu rumo a seus rumos na noite, o português do Oásis deixou-se contaminar por sua tristeza e com voz embargada evocava o suicida que há poucos meses estivera em seu bar, naquela mesma mesa, “pensei que tivesse voltado para ficar, estou quase a vê-lo cachimbando”. A madrugada já ia alta, o luso só não fechava o bar por solidariedade ao sofrimento de Cristiano, quando um pivete anunciou a Folha na Rua da Praia deserta. Vaselina teria feito uma nota sobre Dalmácio? Comprou o jornal, folheou-o às pressas. Nada. A empresa julgava ser gesto de extremo mau gosto tal tipo de protesto e não os noticiava. Apenas Cristaldo, em sua coluna, republicara discretamente o único texto édito de Dalmácio, publicado em uma obscura revista marginal, ainda em seus dias de Porto Alegre. Vinha de longe seu cansaço e sua febre de viagens e ele, cego atroz, não vira naquelas linhas o S.0.S. de um suicida potencial, e sim mera literatice. Ó Deus, escabelava-se Cristiano, quando vamos a aprender a acreditar nas palavras e propósitos dos que não são mais próximos?

 

Hoje estou cansado. Não que tenha feito um grande esforço para sobreviver, mas cansado de olhar a paisagem que se repete nesta viagem infinita. A tranqüilidade que o passageiro ocasional encontra em mim é apenas um equívoco seu: não sabe ver as coisas, como acontece com a maioria. Já pensei que um dia acabaria desembarcando numa pequena vila de um país desconhecido. No fundo, sou como os outros e gosto de acariciar ilusões, mas não me entrego totalmente a elas. Sei que o próximo lugar será como aquele em que vivi minha infância porque meus olhos sabem ver apenas através da memória. Sou cego a tudo que não vivi anteriormente. Meu olhar é equivocado como o do passageiro que desembarca na próxima gare. Mas eu sei que a memória das coisas é maior que meu olhar. Então abraço o próximo sonho nesta viagem conturbada e deixo-me ficar embalado pelo comboio que começa a desaparecer nas trevas. Mas o túnel não apaga a sede desta vida.

Velho-novo-velho. O primeiro livro que li foi uma estória das Mil e Uma Noites. Simbad, o marujo. Não sei se é de então esta minha ânsia pelo movimento, ou bem mais antigas são as raízes desta inquietação? Meu único desespero é permanecer. Penso que já em sangue ancestral corria mistério e novos mundos. E eu sou escravo de minha imaginação. Ir para: o objeto indireto carece de importância. Ir apenas. E não se diga depois que me encontrava fascinado por paisagens estranhas. Todas as paisagens são tristes se o homem é triste. Toda viagem é desesperada se o homem é desesperado!... E é preciso estar tranqüilo para descobrir que o mundo é diferente da inquietação humana.

Nunca tive permanecido... Sim, algumas vezes encalhado, mas o fascínio de ir nunca morreu em mim. Tudo era tão certo que estava destinado a ir! Mas a certeza do imensamente desejado destrói o fascínio da chegada. Nunca são definitivas as nossas “chegadas”. São apenas mais um ponto dentro da trajetória vital. E eu não alcancei ainda o “imóvel ponto onde tudo é dança”. Quando isto acontecer morrerei tranqüilamente desesperado só para não perder a graça das coisas. Burlar um pouco a vida, alegra. Ser continuamente sério, cansa. Palhaço e Monge. Eis duas coisas que junto têm sentido. Lá fora chove. Seria isto também uma trapaça?

O que eu não daria para estar um momento contigo!... Abraçar-te e sair pelos espaços míticos de nossa memória. Vencer o branco-cinzento do dia de hoje. Depois reviver a nossa solidão e a nossa infelicidade!... E partir para que o nosso desejo insatisfeito não torne pesada a nossa presença. Somos de uma raça que se sente de longe. A proximidade enfastia e oprime, e a nossa liberdade está nas paisagens inconcebidas. Pintar o real com o sangue de uma estirpe rara, e somos talvez os últimos, não loucos, mas obcecados por novas terras. Um lugar onde se possa aniquilar as carências do homem. E onde o vazio não é tão profundo.

Estou tranqüilo e minhas sensações gozam de uma harmonia estranha. Lá fora ainda chove. Uma chuvinha reticente, atmosfera gris, enfim, um lugar onde as coisas só podem reviver pelo pensamento. Sentir é pouco aqui, a não ser quando há sol. Então pensar não tem sentido, mas hoje é necessário imaginar o nosso universo interior. Cantar desvairadamente as fantasias eslavas. O fim está perto e a porta deve ser aberta.

Nenhum homem é tão sublime que não comporte o desespero.

Nenhum mundo é tão sublime que não contenha insatisfação.

Se tal mundo existir, lá não existe o homem. Apenas a rocha abrupta cresce. E também não existe Deus, porque somente o homem cria Deus. Deus é a insatisfação, a nossa imaginação desviada do real.

 

A carta, perdida entre uma pilha de festivos, esperançosos, alvissareiros cartões de Natal — sempre a maldita data envolvendo alguma coisa ruim — chegou alguns dias mais tarde. Mesmo que chegasse antes, já seria tarde — pensou Cristiano.

Munique, 15 dezembro 75

Cristiano:

realmente não tenho muita coisa para te escrever. Isto é, assim como me encontro, o nosso papo não seria dos mais interessantes. Claro que estou rebentado. Tinhas razão, eu não devia ter voltado à Alemanha, não havia perdido nada aqui. Mas sabes como é, enchemos o cérebro de ilusões e, de repente, o impossível nos parece tão ao alcance da mão... E deve ser assim mesmo, caso contrário ninguém ergueria um dedo tentando apanhar uma estrela. Deves ter vivido isso em tua adolescência, gostamos de uma menina, consideramos que basta um olhar para conquistá-la e durante a noite, quando tudo nos parece fácil, tomamos a decisão de abordá-la no dia seguinte. Amanhece, e com a luz nossa audácia e segurança desaparecem, quais morcegos tementes do dia. Vivi isso, depois de velho, meu caro. Minha disposição, naquelas nossas noites em Lisboa: era a coragem das trevas, a que some quando amanhece. Ao chegar aqui, despertei e despertei em meio às brumas do inverno, mal pus o pé na Hauptbanhof, percebi que jamais deveria ter voltado. Estava voltando, migrante fodido, à terra dos super-homens. Para quê? Talvez para morrer, respondia eu a mim mesmo, rindo por dentro.

Meus contatos haviam partido — todo mundo está de passagem nestas terras — e me senti velho demais para esmolar de bar em bar a chance de lavar pratos. Tive certeza de que o único lugar seguro para mim seria uma clínica. Resolvi então voltar para o Brasil, humilhação pro humilhação era preferível humilhar-me entre os meus. Saí por aí. Fui para a Itália, tentei achei um barco para voltar. Não havia mais passagens até janeiro. E em janeiro eu já não teria mais dinheiro para uma passagem. Para avião, no dia seguinte, muito menos. Fui então para Barcelona, a cidade que tanto te fascina, e que para mim foi um inferno. Acho que não sabes o que é se estar numa cidade de sonho sem um centavo no bolso, tendo de se buscar nos mictórios um almoço ou sanduíche para manter o esqueleto na vertical.

Mas minha vida não se normalizava. Então resolvi ir a Paris, lá sempre há lugar para mais um latino com fome. Ou havia. Fiquei lá apenas um dia e voltei novamente a Munique, com o resto de meus trocados. (Para quê? Acho que já sei para quê). Não agüentava mais. Quinze dias sem tomar banho, dormindo mal ou não dormindo e na cabeça crescendo apenas uma vontade de me aniquilar de uma vez por todas. Quando saí do Brasil não estava bem. Mas com a experiência que tenho de minha vida problematizada, as viagens sempre me fizeram bem, ou ao menos permitiram que eu retomasse o compromisso de continuar vivendo. Acho que foi por isso que voltei a viajar. Vim para cá cego a tudo e apenas buscando uma forma de liquidar com este desespero. Desci muito. Perdi o senso das coisas e acabei num estado a que antes nunca havia chegado.

Agora aqui outra vez. Não sei ainda o que vou fazer. Por outro lado, gastei quase todo o dinheiro de que dispunha. Não tenho vontade de fazer nada. Não me importa fazer nada. O que acontecer está bem. Se tu te encontras bem, acabas sempre achando um jeito e a vida continua. Quem não tem jeito sou eu e tudo vai mal.

Escreve-me logo, estou precisando disso. Conta como estão as coisas por aí.

Dalmácio

De Munique, Dalmácio desceu a Gênova, não tinha mais dinheiro para uma passagem aérea, mas os marcos que lhe restavam eram suficientes para turística B em navio de passageiros, se bem que, conforme a data de partida, necessidade de comer e dormir, sabia que acabaria viajando em um cargueiro, e quem sabe varrendo o convés. Não importava como, o que lhe importava era voltar. A Europa toda se lhe tornara um pesadelo, sentia-se só e com frio, não tinha mais nem mulher nem amigos nem dinheiro. Lembrava com ironia uma frase de Henry Miller, nos seus dias de Paris, falava dos tempos felizes em que não tinha nem amigos nem dinheiro, sentia-se livre, o que talvez fosse possível nos anos 30. Mas a Europa havia mudado, cada país praticamente fechara as fronteiras, no continente não havia mais lugar para poetas vagabundos, apenas para mão-de-obra, e olhe lá!

Nevava em Munique quando partira, um conjunto de bávaros tocava acordeão e cantava sob os flocos que caíam, bem nutridos e abrigados alemães compravam, passeavam e escutavam-nos, ingerindo de vez em quando uma taça de quentão. Dalmácio contou seus Pfenningen, bem que podia dar à sofrida carcaça o bálsamo de um vinho quente. Tudo era alegria naquele sábado que partia, mas apenas em torno a si, já que ele, no fundo, se sentia fracassado. O vinho desceu-lhe cálido pelas tripas, esquentou-o por dentro, mas por fora continuava gelado, a coriza lhe escorria pelos bigodes ruivos e a neve limpava um pouco a gabardina surrada e suja.

Tentaria chegar a Gênova sem comer, depois que entrasse num barco qualquer pensaria no assunto. Embarcar era sinônimo de salvar-se, nem que fosse como clandestino. Se se mantivesse oculto até o último porto europeu, podia considerar-se no Brasil. Gibraltar poderia ter sido símbolo de medo e incerteza para os primeiros navegadores, mas para ele era augúrio de bons dias futuros, assim que deixasse para trás as duas colunas estaria tecnicamente salvo.

Havia sempre a hipótese de pedir repatriamento. Ou alguns dólares a Cristiano, talvez lhe enviasse algo para resistir mais alguns dias, mas já não tinha seu endereço. Tinha o de João Geraldo, era fácil de guardar e sequer necessitava de grandes especificações: Presídio da Ilha, Porto Alegre, Brasil. Mas naquela altura aquele gaúcho de Livramento, última encarnação de uma raça extinta, estaria necessitando, bem mais do que ele, de uma mão estendida. E havia, é claro, velhos colegas, amigos ocasionais da Rua da Praia, tinha certeza de que algo lhe arranjariam caso enviasse uma mensagem dramática.

Mas detestava mensagens dramáticas. Sem falar que estava cansado, tanto de viagens quanto de humilhações. Um orgulho abissal o impedia de esboçar qualquer SOS. Certa vez, ainda guri, nadando contra a corrente estivera a ponto de afogar-se e tivera vergonha de pedir auxílio aos companheiros que estavam próximos em um bote, lhe soava como suprema humilhação admitir que estava em maus lençóis. Arriscara a pior saída, deixara-se levar pela correnteza e saíra na outra margem, distante, para espanto dos companheiros que lhe louvavam a proeza. Quando, em verdade, estivera a poucos minutos da morte. Não, não iria pedir coisa alguma a ninguém.

 

Mal entrou na Itália, a neve mansa transformou-se em chuva torrencial, com raros estios, da estação foi direto ao porto, entrou em um imenso hall pingando água nos tapetes, sentia-se encharcado até os ossos. Não, não havia barco algum de linha nas próximas duas semanas. Cargueiros? Vários, mas nenhum rumo ao Brasil. Se queria reservar passagem no Eugenio C para meados de dezembro? Não, não queria, seria tarde demais. E pingando água, qual náufrago desencantado com uma praia que não era praia mas miragem, abandonou o hall, percorreu o cais habitado pelos guindastes que também pingavam água, encontrou um nicho seco entre dois containers, encolheu-se qual cachorro com frio e dormiu, sem vontade alguma de acordar.

Mas acordou. Chovia sempre. Não imaginava quanto tempo havia passado, supunha que uma noite, mas o dia era sempre escuro. Tinha de agir rápido se quisesse sobreviver. Tinha ainda como chegar a Barcelona, sentia-se como um general que encontrara uma brecha para uma retirada segura. Uma vez lá, talvez caísse do céu algum cargueiro, em todo caso Lisboa estava mais perto, e lá estavam os brasileiros fugidos do Chile, apostando em mais uma revolução. O problema estômago estaria resolvido e depois... depois veremos. Com novo ânimo, rumou à estação pela Antonio Gramsci, em outras circunstâncias aquela via lhe evocaria toda uma gama de emoções, mas agora era apenas uma imensa avenida poluída de carros e lavada por aquela chuva demencial. E como mais tempo ou menos tempo, mais fome menos fome, mais chuva menos chuva, começavam a importar-lhe cada vez menos, perdeu-se pelas ruelas sombrias e aguacentas da parte velha da cidade.

As horas (ou dias?) que passara deitado entre os containers, mais o calor do corpo, haviam secado suas roupas, e a chuva de certa forma o purificara, a imundície se esvaíra pelo menos da gabardina, mas continuava a chover sempre, procurava agora abrigar-se sob as paredes úmidas e envelhecidas de Gênova. Em um dos bolsos o cachimbo inútil, que às vezes sugava hipoteticamente, já que há muitos dias não tinha mais fumo. E o estômago, que fora anestesiado pelo frio e pela exaustão, recomeçava a reclamar o seu. Perdido naquela cidade pluvial, pluvinhenta, pluvimedonha — recordar Bandeira naquelas circunstâncias não deixava de ter seu toque irônico — vagando como um sonâmbulo, sempre rumo à esquerda, que mais cedo ou mais tarde acabaria na estação ferroviária, descobriu-se de repente olhando a vitrine de um restaurante, a italianada se embriagava chupando macarrões e talharins, com aqueles gestos orgíacos de um italiano à mesa. Olhou para a tabuleta:

[imagem]

O acrílico, não, não era um acrílico, mas um anúncio em madeira, acima de sua cabeça, lhe soava como realidade distante e inatingível, enquanto que os suculentos fios de massa que babavam das bocas constituíam uma realidade próxima, embora onírica, já que entre ele e as massas havia a vitrine e sua indigência. Descobriu-se salivando intensamente, jamais imaginara que reagiria um dia assim ante a comida, quando um braço, cálido e afetuoso sobre seus ombros, ordenou em tom de convite:

Vieni!

Era Franco, soube depois, e pelo jeito e pelo gesto, sabia muito bem o que era fome. Fê-lo sentar, ofereceu uma grapa, o buquê já o entontecia, com o estômago sem nenhum lastro. E iniciou-se uma daquelas longas refeições à italiana, quando pensava ser hora de pedir o café recém começava o segundo momento da entrada. Dalmácio devorou pratos de sopa, de massa, de arroz, saladas, para depois chegar às carnes, continuando com queijos e frutas, mais sobremesa, mais um panetone, que diminuía magicamente de volume sob as estocadas rápidas de Franco. Com uma fome de semanas, sentiu-se absurdamente repleto, perguntava-se como podia um italiano bem nutrido ingerir tudo aquilo em uma refeição.

Franco era um desses operários anarquistas que tudo que se possa fazer com as mãos já havia feito, e nos intervalos andara lendo autores explosivos, de Nietzsche a Trotsky, citando idéias e livros com erudição desorganizada, é verdade, mas de botar muito universitário no bolso. Entre a sofreguidão com que comia e os vapores de álcool que começavam a invadir-lhe os miolos, Dalmácio gravou algumas frases, Franco falava de terremotos e de Deus, que Roma decretara a decadência do Ocidente ao optar pelo deus único dos judeus, que agora qualquer terremotozinho ocorria no sul da Itália e as comadres já se punham a acusar Deus, quando na época pagã, se havia um deus a quem culpar pelos estragos havia vinte a quem agradecer pelas vidas poupadas. Que um terremoto era algo providencial, a Itália toda ganhava, o Vaticano fazia seu proseletismo com esmolas, os comunistas faturavam eleitoralmente acusando a imprevidência da social-democracia e a Máfia embolsava os donativos enviados pelos generosos governos europeus.

Sem falar que resolvia muitos problemas de patrimônio, jovens recebiam heranças consideráveis, livravam-se comodamente dos velhos sem ter de assisti-los quando inúteis. E após um terremoto, dizia Franco, podemos chorar uma semana ou um mês, encharcar um lenço ou um lençol, mas ninguém vai chorar a vida toda, que os mortos enterrem seus mortos e a vida continua, melhor rir e continuar vivendo, salute!

Dalmácio, que minutos antes sentia-se um trapo, de repente recobrou um certo ânimo, sentiu-se como se estivesse discutindo sobre deus e o universo, no Chalé, com João e Cristiano, sem preocupação maior que a de saber se a vida tinha ou não um sentido. No entanto, quando a fome apertava, tal pergunta que tanto inquietava os homens era de uma importância ridícula, as razões do estômago manifestavam-se então imperiosas. Estômago saciado, até aventou com Franco algumas hipóteses suas em torno à divindade, e aquela pausa em meio à guerra, armistício inesperado sob a tempestade, o comoveu até as lágrimas, tinha uma vontade de abraçar e beijar aquele operário de idade indefinível, mas se conteve, foi ao banheiro e secou as lágrimas que se confundiam com as gotas que ainda lhe pingavam dos cabelos e — notaria bem mais cedo do que esperava — aquele otimismo pagão do amigo inesperado lhe seria paradoxalmente funesto. Pois afinal, se a vida continuava mesmo após os terremotos, que mudaria na face da terra após o passamento de mais um escritor fracassado? Tudo era importante e tudo não importava coisa alguma.

 

Entrou no Schwabinger Brett justo quando um cantor, barba e cabelos brancos, no rosto as rugas de muitos mares, cantava em sotaque carregado de charme olê mulê rrenderra, olê mulê rrendá. O bar estava repleto, conseguiu lugar em uma mesa tomada por bávaros. Dalmácio constatava, agradavelmente surpreso, que aos bávaros não era necessário muita coisa para que se alegrassem. Sentou-se e puxou o cachimbo. Como ambiência de sua última noite, o clima o satisfazia. Uma rara calma interior o invadia, aquela mesma calma que o fascinara certo dia ao assistir “Le Feu Follet”. O personagem de Louis Malle, com a mesma tranqüilidade de quem decide ir ao barbeiro na manhã seguinte, dizia para si mesmo ao espelho: “amanhã vou me matar”. Apesar de seus cabelos e traços germânicos, seus vizinhos de mesa o pressentiam estrangeiro e tentavam adivinhar sua nacionalidade:

Schwede?

Não, não era sueco.

Däne?

Não, muito menos dinamarquês.

Pole?

Não, não vinha da Polônia. Estavam perto da verdade, mas honestamente não podia se dizer polonês. Não conhecia a pátria de seus pais e dela só guardava algumas palavras ouvidas na infância. Os Deutschen foram descendo rumo ao Sul, aventaram França e Itália, tentaram até mesmo Nova Zelândia e Austrália — e de repente Dalmácio se dá conta de que não tinha idéia nenhuma, sequer uma imagem, da Nova Zelândia. Na era das comunicações tinha-se imagens da mais remota ilha do Pacífico, mas da Nova Zelândia, pelo menos ele não sabia o que pensar, o que aliás o fascinava, não dissera alguém que os povos felizes não têm história? Só então resvalaram para o continente sul-americano.

Brasilianer?

Brasileiro? Sim, havia nascido no Brasil, mas daí a dizer-se brasileiro ia uma longa distância. Gostava daquele cálido espírito de confraternização do brasileiro, das aproximações sem protocolo, ao mesmo tempo em que não suportava aquela fatalidade cabocla, o homem que aceitava condições indignas de existência desde que o time tal ganhasse um campeonato qualquer. Não podia nem mesmo, como Cristiano, dizer-se gaúcho, apesar de ter nascido em Erechim. Sentia mistérios correndo em seu sangue e a ânsia de novas paisagens. Tinha de admitir: era um deraciné. Mas como explicar aquilo tudo, aquela pergunta para a qual ele mesmo não tinha resposta, como explicá-la ao bávaro que afavelmente o interrogava? Preferia facilitar as coisas:

Jawohl. Brasilien.

Melhor permanecesse calado.

Brasilien? Já so, Pelê?

Já, Pelê.

— Chairssinho!

— Chairssinho!

— Garincha?

Sim, Garincha, e Dalmácio tinha vontade de chorar não fossem os ímpetos de rir ao ouvir a palavra Garincha, sem o erre gutural. Que maldição era aquela a persegui-lo por onde andasse? Nem na Alemanha conseguia livrar-se da imagem do país do futebol, fugia dos delírios coletivos tupiniquins e lá naquele bar perdido do Schwabing um bávaro o fazia voltar ao passado abominável. Não podia deixar de evocar Cristiano, que abandonara o Brasil mais por nojo de futebol e carnaval do que por qualquer outra razão. Mas em sua última noite não queria guerra, mas trégua, armistício, um pouco, que mais não fosse, um pouco de paz. Por curiosidade, quis saber que outras imagens ocorriam a seu vizinho de mesa ao ouvir Brasilien.

— Matança de índios.

— E depois?

— Energia nuclear.

“Da barbárie à decadência sem passar pela civilização”, pensou Dalmácio. Cristiano tinha razão: quem viaja leva a pátria nas costas e não havia como desembaraçar-se daquele fardo, nem mesmo ele que pensava não portar fardo algum. Mas não queria entrar em discussões nem em explicações, naquela noite tais problemas lhe pareciam pequenos, longínquos, mesquinhos. Se Erechim jamais lhe significara algo — saíra pequeno da cidade, rumo a Porto Alegre, porto ilusório de todo jovem inquieto do interior — agora mesmo Porto Alegre lhe parecia zero à esquerda, o próprio Brasil não era mais do que titica de mosca na unha de seu mindinho.

Chegara a um nível de higidez fronteiriço à loucura, tudo lhe parecia grande e ao mesmo tempo ínfimo, era como se a consciência se expandisse em ondas que rolavam sobre o universo conhecido e desconhecido, como se o cérebro latejasse chegando às raias de uma compreensão além de sua capacidade, jamais conseguiria pôr em palavras aquela embriaguez de uma sobriedade absoluta, tinha a impressão de que esferas de raio infinito rolavam num plano mais infinito ainda, como se infinito pudesse admitir gradações. Olhava o bávaro com um sorriso divertido, por certo ele o veria como o brasileiro sempre sorridente, feliz mesmo na miséria, e o alemão insistia em escalar a seleção toda, logo a ele, cuja erudição futebolística terminava no Garincha, imaginasse o Fritz a seu lado o que lhe passava nos escaninhos do cérebro por certo o olharia com medo e terror.

Curiosamente, naquela noite sem esperança, suas lembranças eram todas ternas. Vontade de beijar Cristiano, não queria feri-lo, mas a decisão estava tomada e voltar atrás seria ridículo. Gostaria de tê-lo ali naquela noite. O jornalista que não era jornalista e que se destruiria se continuasse a fingir que o era, bem que tentara dissuadi-lo de voltar naquelas noites tépidas de Lisboa, tão próximas e ao mesmo tempo tão irremediavelmente passadas, “já quebraste pedras uma vez na Alemanha, queres voltar para quebrar mais pedras?”

Cristiano o gozara afavelmente, lembrando os falanstérios de Fourier, onde este previa até mesmo um ofício para os jovens cujos ímpetos eram dirigidos à destruição da sociedade em suas próprias bases: trabalhariam em serviços de demolição. “Voltas para demolir o Olympiahalle?” Mas Cristiano havia voltado ao país de onde fugira amarrotado por dentro. Seria um gesto inteligente? Idiota ele não era — considerava Dalmácio, triste, atrozmente triste, em meio à euforia do vinho e das canções, o velho cantor de rosto com rugas de muitos mares agora cantava “vou-me emborra, vou-me emborra, prrenda minha, tenho muito o que fazerrr”, e ele, que de fato ia embora, ia exatamente por não ter mais nada a fazer — e sua atitude dava o que pensar.

Mas já não conseguia pensar, senão lembrar. Jotagê ainda estaria nas grades e sua libertação era tão incerta quanto os humores dos militares, o Brasil havia resvalado naquele perigoso declive onde as leis não passam de papéis pintados com tinta. Dalmácio até mesmo o invejava por estar atrás das grades, fora preso por crer em algo e era bem melhor estar no cárcere acreditando em qualquer coisa do que estar livre sem crer em nada. Generoso como era, mesmo na cadeia acabaria assumindo parte da culpa ao saber da notícia. Dalmácio esperava que amigos e conhecidos comuns tivessem o tato de lhe poupar a má nova.

— Mulatas?

Finalmente o Deutsche falava de algo sério. Sim, no Brasilien mulatas é o que não faltava, donde sabia Herr Fritz que mulatas era outra imagem de marca do Brasilien? Num português certamente aprendido na cama, seu vizinho tentava fazer-se poliglota:

— Eu gosta mulatas. Mulatas muito bom corrazón. Eu amo mulatas bom corrazón.

“E que coração!”, se dizia Dalmácio, tentando explicar ao Fritz que mulatas provocavam crises cardíacas ao desfilar nas ruas gingando o corrazón, o alemão não entendia patavinas de sua metáfora e ele se divertia interiormente com aquela carência absoluta de humor, vai ver que o Fritz gostava mesmo era do coração das mulatas. No fundo, estava tranqüilo, como é tranqüilo todo homem que sabe o que vai fazer.

 

Tudo quanto fosse bom ou belo parecia fazer-lhe mal. A generosidade e a bonomia de Franco em Gênova, seu amor facti, como diria Nietzsche, aquele festival de sensualidade e cores em Barcelona, aquela Paris de braços e pernas abertas, onde zanzou como um zumbi pelo espaço de um dia, como para despedir-se, cuidando de ficar com os vinténs suficientes para chegar ao término de seu desastrado itinerário — talvez entendesse agora porque gostava de hotéis chamados Terminus — toda aquela orgia oferta a quem tivesse um trabalho ou dinheiro o empurrava cada vez mais e mais ao “imóvel ponto onde tudo era dança”.

Difícil se fazer entender quando se vive e se pensa gangasrotogati — dizia Dalmácio a seus botões naquela glacial tarde de dezembro, enquanto subia o escorregadio aclive rumo ao castelo de Neuschwanstein. Principalmente quando se vive entre homens que vivem e pensam kurmagati, ou no máximo, madeikagati. Ao ler pela primeira vez este aforismo se perguntara se Nietzsche já não começava a mergulhar na grande noite da loucura. Ainda não. O homem não falara em sânscrito toda sua vida? De fato, não era fácil viver e pensar do tamanho do Ganges, entre homens que viviam e pensavam como tartarugas, quando não a saltos de rãs.

Quando imaginava aquela alma do tamanho do Ganges implorando uma migalha de afeto a Lou Salomé, propondo casamento a Mathilde Trampedach, apenas três dias após conhecê-la, Dalmácio sorria amargamente por dentro: “Senhorita, tomai vosso coração com as duas mãos para não vos espantar com a proposta que vos quero fazer: desejaríeis ser minha esposa?” Mas o mesmo não parecia a Mathilde. E a raça infame das feministas pretendia ver em Lou Salomé uma precursora, a mulher que exigia ser tratada pelo poeta como igual. Mas como poderia Nietzsche tratar alguém como igual?

Vinha-lhe à mente aquela introdução majestosa do livro que se apressara em acabar, prevendo a aproximação das trevas: “Ouvi-me! Eu sou alguém e sobretudo, não me confundais com qualquer um”. No entanto, haviam-no confundido. O homem mais sublime do século acabara contraindo sifílis em um prostíbulo, numa relação que para muitos de seus biógrafos fora a única de sua vida. Não era fácil ser gangasrotogati.

Ludwig o teria conhecido? Talvez Wagner lhe tivesse falado do obscuro professor de Bale. O rei louco, como diziam os bávaros, teria talvez entendido o poeta que rumava à loucura. Mas Nietzsche tivera um príncipe a protegê-lo, e ele não tinha sequer pai ou mãe ou amigo ou salvação à vista.

A altura e a neve lhe pesam nos pés e pulmões. O dia é luminoso, embora sem sol, em virtude do lençol branco que cobre os galhos despidos da floresta. Cá e lá, um ruído surdo de neve — o límpido instante da queda? — quebra o silêncio abissal da montanha. Após meia hora de lenta ascensão, encimando as copas encanecidas pelo inverno, emerge difuso o donjon de onde Ludwig contemplava o vale em que se refugiara. O momento era mágico, as linhas da torre pareciam partir dos galhos hirtos e se confundiam com o cinza do firmamento. “Chique — pensou — acabar em Neuschwanstein não é para qualquer pé-de-chinelo”.

O castelo o fazia evocar Porto alegre, o filme de Visconti no cine Vitória, e naquela noite tomara a decisão de não morrer sem antes visitá-lo. Lembrava uma discussão no Chalé com Soderman, que na época além de crítico literário se pretendia crítico cinematográfico — fora Cristiano quem o apelidara de deusa Shiva, tinha braços para tudo — e Soderman, apoiado no balcão, com a xícara de cafezinho imóvel ante a boca, fora definitivo: “obra menor, decadente”. Mas quem pensava ser aquele critiquinho, homenzinho de vida e hábitos regulares, que mais não lhe permitiam os magros centavos pagos pelo Suplemento Rural das Letras, quem julgava ser para, do alto da tribuna do Chalé, condenar peremptoriamente como decadente e obra menor a análise feita por um dos mais lúcidos cineastas da época, em torno à vida de um homem sensível, desesperado — e o pior — detentor do Poder? Imaginasse Visconti o ar superior e tranqüilo com que Soderman, entre um cafezinho e outro, condenava o seu filme, talvez nem ousasse distribuí-lo no Brasil, aquele país maravilhoso em que um intelectual que jamais abrira uma lata de negativos se arvorava — árvore? Onde uma árvore? — em juiz de Suprema Instância na condenação ou absolvição de uma obra de arte.

Entrou no castelo. Antes de começar o passeio, pensou em mandar um postal para Cristiano, aquele distante papo em Lisboa lhe trouxera paz. Mas agora postal algum, frase alguma teria sentido, só serviria para intensificar sua dor. Apalpou com carinho a sacola. Mais algumas horas de angústia, ainda.

Ao percorrer as salas de Neuschwanstein, não conseguia sair do filme de Visconti, há tanto tempo visto lá no Sul. Talvez seus pés estivessem pisando pela primeira aqueles tapetes, mas há muito seu espírito já adejara por entre aquelas paredes, caminhando ao lado do rei louco, consolando-o da incompreensão de seus ministros e de sua época. Ludwig se recusava aos prazeres oferecidos pelas damas da corte paras buscá-lo entre seus criados. O país estava em guerra e o rei ignorava solenemente o fato. “Diga aos generais que desconheço esta guerra”. Não havia anestésico nos campos de batalha por falta de dinheiro, enquanto o rei se preocupava com uma sala para os concertos de Wagner e com o pagamento das dívidas do compositor. Suspirou com alívio quando seu exército capitulou. Isola-se aos poucos da corte, encerrando-se com seus criados, solícitos a qualquer capricho seu.

Na sala de jantar, Dalmácio contempla a mesa que descia até a cozinha e depois voltava para que o rei não visse — ou se escondesse de — seus semelhantes. Desejava sumir da memória das homens, quisera inclusive evitar o assassinato, reis assassinados permaneciam sempre vivos na História. Quisera permanecer um enigma, para si e para outros. Parecia tê-lo conseguido. Ludwig recordava a Dalmácio aquele momento soberbo de Ney Messias, o Construtor de Mistérios, o genial e solitário pensador solenemente ignorado pelos donos da cultura gaúcha: “A identidade é um pélago, um abismo, uma verticalidade em que se cai continuamente, porque não tem fundo: o nome é um momento da queda, um limpo instante do despenhadeiro”.

O momento da queda. O limpo instante do despenhadeiro. Dalmácio entendia agora porque a frase o tocara tão fundo. Premonição? Desconhecia seu íntimo, mas às vezes recebia avisos, frases que lhe vinham ao cérebro não sabia de que abismos, como se um outro interferisse nele, Dalmácio, e o impelisse a desocupar a carcaça para deixar, ao outro, espaço. Porque a identidade, como dizia o Ney, não estava no nome, nem mesmo na pessoa: chorava e cantava na incógnita eterna do “quem é?”, a mais tremenda pergunta que um homem podia fazer a respeito de si próprio e a respeito dos outros.

Permaneceu longo tempo na sala destinada a Wagner. Ludwig não chegara a vê-la concluída, não tivera a ventura de nela ouvir seu protegido. Músicas estranhas começavam a invadir seus pensamentos, que em verdade nada tinham a ver com Ludwig ou Wagner, ou talvez tivessem, sim, certamente teriam, porque os homens que haviam ousado mergulhar no pélago da identidade eram no fundo todos iguais, não havia diferença alguma entre Swift ou Nietzsche, Wagner ou Pessoa.

Melodia vaga
para ti se eleva.
E, chorando, leva
o teu coração,

já de dor exausto,
e sonhando o afaga.
Os teus olhos, Fausto,
não mais chorarão.

Pessoa. Outro gangasrotogati. Arma escolhida: cirrose hepática. Apertou novamente a sacola contra o corpo, e o universo lhe pareceu uma obra prima de ironia. Homem algum conhece alguém, já que sequer conhece a si mesmo. Os raros turistas que visitavam o castelo naquele frio dezembro imaginariam estar roçando com um viajante que intimamente já dissera adeus à raça humana?

Ou vice-versa. Quem sabe aquela espanhola solitária que percorria as salas em ritmo vagabundo, uma sombra de tristeza nos olhos, daquelas tristezas que prometem uma ternura imensa, quem sabe ela não o estaria procurando, quem sabe ela não o traria de volta à vida? Como abordá-la, como dizer-lhe tudo em uma palavra? Deveria existir um código universal — padres e psicólogos, estes senhores tão preocupados em resgatar vidas, deveriam pensar mais no assunto — um código discreto de fácil interpretação que indicasse a qualquer cidadão que seu portador navega sem leme nem âncora e o barco já começa a fazer água.

Ele já tomara sua decisão. Uma espécie de preguiça mortal — e o mortal ali não era figura de estilo — o impedia de retomar a dolorosa escalada de retorno ao mundo dos vivos. Ela, a turista melancólica, talvez jamais tivesse pensado no assunto. Se a abordasse: “queres salvar um homem? Então fica comigo esta noite, uma noite me é suficiente para recobrar meu orgulho. Se ficas, não me enforco”. Se assim a abordasse, ela provavelmente chamaria a polícia ou, na melhor das hipóteses, lhe daria alguns marcos para comprar a corda, esmola que aliás já era desnecessária, sentia nos cotovelos, dentro da sacola, as rodilhas daquela víbora inerme que em breve seria fio de prumo, cortando verticalmente o silêncio glacial do vale.

Não, não valia a pena qualquer tentativa de abordá-la. A chance de um gesto de compreensão era de um em um milhão, e muito vasta, vasta demais, a possibilidade de mais humilhação e ridículo. O mesmo deve sentir, imaginava, um canceroso sem esperança alguma de cura: todo e qualquer diálogo com pessoas sadias era impossível, ele vivia numa outra dimensão, num universo paralelo que apenas por acaso interpenetrava o mundo dos vivos. Eram duas linguagens absolutamente intraduzíveis uma à outra...

Por experiência própria sabia que, quando desesperado, todas suas tentativas de aproximação redundavam em desastre, já que raramente o interlocutor seria um desesperado. Mesmo assim, um débil instinto de vida o impeliu a fazer uma aposta. Ainda na sala de Wagner, deu volta alguns passos, dirigiu-se a um quadro além da espanhola, queria cruzar com seus olhos. “Acho que acabo de inventar a roleta espanhola”, pensou, com um sorriso que lhe rasgou as entranhas e escorreu pela barba em duas lágrimas secas. Se ela o olhasse, talvez ele...

Ela não o olhou nos olhos. A aposta estava definitivamente perdida. Saiu do castelo. Não trazia sapatos adequados, a descida do declive foi feita em uma boa dezena de tombos, caía de bunda e levantava para cair de novo, de bunda, dez metros adiante, o que lhe dava vontade mais de chorar do que de rir, aquilo não era circunstância digna de qualquer suicida que se prezasse. Abandonou a trilha e embrenhou-se pela floresta, deserta e imóvel.


 

 

5. AL MAR!

 

O Eugênio C chegou a Lisboa com dois dias de atraso. Caindo de bêbado pelas tascas do Rossio, Cristiano temia por sua volta. As contrações musculares haviam cessado como por milagre após o telefonema, mas por outro lado triplicara sua cota habitual de álcool. Normalmente, mesmo bêbado, não perdia o controle do mundo que o cercava, seus instintos de preservação permaneciam sempre alertas, recuava intuitivamente ante o menor sinal de perigo. Mesmo assim chafurdava nas prostitutas de Lisboa, muitas vezes acordando no hotel sem saber o que fizera na noite anterior. Situação semelhante o obrigara a uma pausa na bebida, quando ainda em Porto Alegre. Acordara em seu apartamento, na cama havia uma mulher nua, ele também nu, mas não tinha a mínima idéia de quem se tratasse. O rosto não lhe dizia nada, os seios muito menos, o que o fez dar uma olhadela no sexo, detalhes dos lábios, clitóris ou pelos talvez lhe lembrassem alguém, mas tampouco reconheceu-a por tais sinais. Enfim, estava ali a seu dispor, lambeu-a e penetrou-a, aos poucos a mulher foi acordando, após o orgasmo ela perguntou: “e tu quem és?”

Foi necessário reconstituir pacientemente o itinerário da noite anterior para descobrir que se haviam encontrado em um bar da Salgado Filho, logo a moça deveria ser uma profissional. Vestiu-se e pagou-a, prometendo a si mesmo sequer cheirar álcool nos meses seguintes, o que aliás não lhe custara muito, o susto de ter dormido junto a alguém que nem imaginava quem fosse fizera bem a seu fígado.

Naqueles dias conturbados de Lisboa, nos quais vagava como um fantasma por entre passeatas e discursos, sempre rumo às putas, sentia-se em situação de perigo, só esperava que o navio chegasse antes de qualquer acidente. Enquanto os lisboetas vibravam com a Revolução dos Cravos, Cristiano se preocupava com sua salvação, chegava mesmo a pensar na idéia de enfrentar seu medo de aviões antes que fosse tarde.

Qualquer coisa obscura o impelia a ficar. Ao saber do atraso do navio, impôs-se um mínimo de disciplina, lia nos parques durante o dia (gostava de inebriar-se com o verde histérico da Estufa Fria), permitia-se apenas um bagacinho introdutório no almoço e só à noite, quando já com sono, fazia a ronda das tascas. Se não ultrapassasse sua dose diária habitual, não correria o risco de cometer besteiras.

Não que estivesse condicionado pela bebida. Mas a morte daquele camponês que jamais imaginara pudesse ocupar tal espaço em sua vida, diante daquele fato definitivo, irreversível, ele, o lógico, o seguro de si, o racional, não sabia o que fazer senão beber e dar rédeas soltas à sua luxúria. Acalmou-se nos últimos dias. O simples fato de não mais lhe tremer a mão esquerda já o tranqüilizava, mas sabia ser aparente aquela calma, era a calmaria anunciadora de tempestade e, por vezes, ao passear pela zona do porto, detinha-se perplexo ante a Torre de Belém, dali haviam partido os navegadores para viagem bem mais segura do que a sua. Temia o mar e seu chamado.

 

Malas postas no camarote, girou pelas pontes buscando rostos — qual seria, onde estaria, como gemeriam os lábios da companheira de viagem? — e entregou-se à beleza do Tejo.

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia.
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

Aquela partida evocava fortemente Dalmácio. Haviam partido um dia, cheios de esperanças, no mesmo navio, há quase quatro anos, rumo a uma Europa mítica onde todos os homens seriam felizes e inteligentes, onde o talento era valorizado e a mediocridade colocada no devido lugar. Quanto a Pessoa, aquele poema o haviam recitado juntos caminhando pelas ruas da Baixa, empinando um bagacinho em cada um dos botecos do poeta, numa espécie de via crucis etílica, que acabara no Martinho da Arcada.

Detestava os salões do barco. Na primeira classe imperava um fausto ao gosto de nouveau-riches e nas classes turísticas, salvo modestos imigrantes que iam ou viam de um país para outro, dominava a abominável classe média. Refugiava-se no convés, zanzava de uma ponte a outra, sempre marginal, sempre fora do mundo social, ali pelo menos havia pessoas contemplando a noite e o mar. Há séculos não via a luz das estrelas em sua plenitude, as luzes das cidades onde vivera ofuscavam aquelas noites límpidas de Ponche Verde. Cá e lá, grupinhos degustando uma canabis, casais se acarinhando, outros tocando violão. Aproximou-se destes. Eram latinos, cantavam canções da pampa e da cordilheira.

Para seu espanto, ela surgiu naquela primeira noite. “É esta — pensou —, é esta e mais nenhuma outra”. Enganara-se redondamente. Aquela mulher linda, olhos deslumbrados de camponesa que sonha com o vasto mundo, lábios fortes e túmidos, corpo cheio e bem modelado, de uma sensualidade que curiosamente lhe trazia paz, aquela mulher que reunia em si espírito e carne, era apenas uma isca.

 

Le gusta nuestra música, ¿verdad?

Desesperado e excitado pelo álcool, aquela voz que mais parecia música soou como bálsamo a seu espírito em frangalhos. Era como se de muito longe, de uma região remota de sua infância, uma mãe lhe falasse com carinho e ele, que sempre vivera em combate, quando não atacando pelo menos preparando suas defesas, ele como poucos sabia reconhecer o valor de uma abordagem desarmada. Virou-se para a mulher, dois olhos imensos e uma dentadura magnífica o desafiavam a uma reação. “Si, si, me gusta mucho”, conseguiu gaguejar.

Os ímpetos de puxá-la de lado brotaram em torrente, vontade de contar-lhe tudo, reconstituir sua trajetória. As ganas de confessar-se mais a euforia do final de um período em sua vida o impeliam a jogar tudo numa carta só. Mas se conteve. Sabia por sofrida experiência que um homem angustiado só assusta as mulheres, e discorreu sobre amenidades. As canções que conhecia, acompanhou-as com gosto. Mais tarde, aquela mulher surgida do país dos sonhos solaria algumas canções que o encheriam de uma paz interior que há muito seu ser não experimentava. Cerca de meia-noite, a roda já restrita a poucos noctâmbulos, ela levantou-se e sussurrou-lhe ao ouvido:

Muchos son los llamados, pocos los elegidos.

Pânico. Subitamente voltou a seus primeiros meses de Estocolmo, à sueca nua que lhe afirmava convictamente: o sexual é sagrado e pertence ao matrimônio. Até onde o perseguia a peste cristã? Conseguiu balbuciar:

Usted conoce la Bíblia, ¿no?

Si, mucho. Hasta mañana.

E se foi. Com medo, mas invadido por uma paradoxal esperança, dormiu bem aquela noite. Raio de mulher. Era linda, isto, embora os superlativos não lhe agradassem, tinha de admitir: era belíssima. E vinha recitando os evangelhos. Algo não fechava naquele episódio, mas pelo menos a insuportável tensão interior que o atormentava em Lisboa lhe dera finalmente uma trégua. Amanhã seria outro dia, o barco constituía um território limitado, encontrá-la não seria acaso, mas necessidade.

Sonhou estar em pleno deserto, viu-se dentro de uma espécie de fortificação circular, semi-soterrada pela areia. Ventos tórridos lhe queimavam a pele como fogo e descobriam aos poucos as ameias da fortaleza, logo adiante viu outra elevação em meio à tempestade. À medida que o vendaval soprava descobriu ser aquela elevação parte de um mesmo corpo. Amainada a tempestade, uma esfinge desmesurada emergiu das areias, o lugar onde estava e que supunha ser as ruínas de uma fortaleza era na verdade uma espécie de coroa da esfinge. Lá de baixo, de sua boca, uma voz terna lhe chamava imperativamente: “eu sou a única deusa, longe de mim não encontrarás porto”.

 

No dia seguinte, não a encontrou no restaurante. Estaria na primeira classe? O Eugênio era uma beleza de amostragem para um sociólogo. Na ponte mais alta, milionários que jantavam em black tie e comiam à la carte e, envoltos pelo tédio, acabavam descendo às classes turísticas para ver um pouco de vida. Na turística A, uma burguesia classe média que julgava estar vivendo vida de milionário pelo simples fato de estar atravessando o Atlântico, embora não tivessem sequer opção de cardápio e fossem regados com um vinho aguado de quinta categoria. Mais abaixo, viajando não mais de navio, mas em submarino, imigrantes e estudantes sem recursos em busca de sonho, uns abandonando um continente, outros voltando ao continente um dia abandonado, apertados em cabines de quatro ou seis pessoas, muitas vezes sem banho privado.

As piscinas também tinham seu status. Na ponte Lido, a melhor piscina, quase sem trepidação, para os eleitos da primeira classe. Mais abaixo, na ponte Sole, uma piscina razoável, mas entupida pela hedionda classe média. E bem mais abaixo, na ponte Soggiorno, a piscina habitada pelos que viajavam não por lazer, mas por necessidade econômica ou interior, a piscina de melhor fauna, mas perpassada por uma trepidação de rebentar tímpanos por sua proximidade das hélices.

Lá estavam as três classes eternas, a alta no alto, como sempre, a média no meio, como sempre, e a baixa embaixo, como sempre. Mas a peculiaridade do Eugenio C, o charme sociológico que fascinaria um ficcionista em busca de soluções fáceis, era a estrutura social interna do barco. Descer, todos podiam descer. Subir era proibido. Cristiano viajava em turística A, o reino viscoso da classe média. Se aquela mulher irreal surgida em meio ao mar estivesse na turística A ou B, poderia procurá-la. Estivesse no Olimpo dos black ties, teria de esperar por sua descida.

 

Por um desses acasos que de acaso nada têm, comprara num antiquário da Baixa o livro que poderia ter comprado em qualquer outra ocasião, menos aquela, “O Jardim dos Suplícios”, de Mirbeau. Escrito em estilo soberbo, de suas páginas exalava um odor lúgubre de flores podres. No fundo, o livro era uma ode à vida, mas isto só se revelava ao leitor após uma extensa apologia da morte e, para o espírito enfermo de Cristiano, apresentava-se como um desses medicamentos que eliminam não só a doença como também o paciente. Curiosamente, aquela viagem que acabava em um jardim oriental de torturas, começava em um navio.

“Chegar a qualquer sítio é morrer”, dizia um dos personagens, e Cristiano, lá no fundo, sem mesmo sequer ousar formular o pensamento, se deixava enamorar pela recíproca. Por outro lado, certas observações de Clara, o mais sinistro personagem feminino que jamais conhecera, acabavam lhe conferindo um mínimo de auto-estima, por si e pelos sentimentos que o minavam: “Quando se é alegre é porque não se ama... O amor é uma coisa grave, triste e profunda...” Clara, em meio a ratos podres, cães afogados, pedaços de bezerros e cavalos, passeando por um mercado chinês, “aspirava a podridão com avidez, como se fosse um perfume”.

Amor e morte, para aquele personagem que só na realidade mesmo poderia existir, já que dificilmente um cérebro humano, por enfermo que estivesse, o conceberia a partir do nada, amor e morte eram palavras sinônimas, e a podridão era a eterna ressurreição da vida. Outras opiniões de Clara, Cristiano as lia com uma piscadela cúmplice: era na luxúria que todas as faculdades cerebrais do homem se revelavam e se aguçavam. No entanto, desde que vira aquela argentina caída do céu, seu sexo cessara suas exigências. Espantava-se consigo mesmo ao descobrir que seu maior desejo era passear com ela pelas pontes, ouvi-la cantar, olhar peixinhos voadores.

Clara passeando excitada no jardim das torturas: “Na nossa sinistra Europa, que há tempo tempo ignora o que é a beleza, tortura-se secretamente no fundo das prisões ou nas praças públicas, entre uma multidão de ébrios ignóbeis... Aqui é no meio das flores que se erguem os instrumentos de tortura e morte, os cadafalsos, as forcas e as cruzes”. O carrasco explicando a Clara seu ofício: “A arte, milady, consiste em saber matar segundo ritos de beleza que nós, chineses, somos os únicos a conhecer o segredo divino. Saber matar! Nada é mais raro, e tudo reside nisso. Saber matar! Significa trabalhar a carne humana como um escultor a argila ou um bocado de marfim... Obter o máximo, todas as capacidades de sofrimento que ela encerra no fundo de suas trevas e mistérios... É preciso ciência, variedade, elegância, imaginação... Enfim, gênio!”

E o verdugo-esteta concluía que o esnobismo ocidental, com seus couraçados, canhões de tiro rápido e explosivos tornavam a morte coletiva, administrativa, burocrática... “Enfim, todas as sujeiras do vosso progresso destroem, pouco a pouco, as nossas belas tradições do passado”. O suplício do rato: um rato faminto que era posto em um vaso com um pequeno orifício, fixado às nádegas de um condenado. Com um ferro em brasa assustava-se o rato para que buscasse uma saída e o animal acaba por encontrá-la, abrindo passagem com unhas e dentes.

Clara excitada ante o relato do verdugo. O suplício do sino: em meio a um jardim paradisíaco, ornado de pavões, faisões, galos da Malásia, um sino imenso sob o qual era atado um homem, até morrer com suas vibrações. Clara radiante. De onde Mirbeau arrancara, de que inferno ainda não concebido pela mente humana, de onde saíra aquele relato infame? — perguntava-se Cristiano. E os miasmas daquele poema negro lhe inundavam o espírito já asfixiado por uma rarefeita vontade de viver.

 

Encontrou-a na piscina da ponte Sole, no dia seguinte, o segundo de navegação. Um sol dos bons — nada a ver com aquele simulacro de sol que avaramente iluminava os suecos — queimava-lhe a pele. A luminosidade do dia, a ausência de horizontes próximos, o sabor de sal, mais a perspectiva de reencontrá-la, todos estes fatores diurnos o afastavam dos pavores estimulados pela noite. Lia qualquer coisa em uma preguiçosa, mas Cristiano preferiu não abordá-la, não queria estragar tudo com precipitações. Cumprimentou-a com um gesto de cabeça e, antes de tirar os óculos para mergulhar ainda viu, a estibordo, aquela cortina de lábios carnudos se descerrando, expondo os dentes lindos ao sol e ao sal, num sorriso que fez Cristiano deixar-se envolver pela água em estado de graça, quase esquecendo de vir à tona.

Lindas, tus gafas. ¿Donde las comprastes?

A voz esperada acordou Cristiano, ou melhor, fê-lo abrir os olhos, em verdade não dormia, o sol que há quase quatro anos não sentia no corpo agora o deixara em uma espécie de nirvana, o cérebro agradavelmente vazio de pensamentos.

— Em Estocolmo.

Ah! ¿Usted viene entonces de Estocolmo?

Vinha. Ela sentou-se na cadeira ao lado.

Es que mi hijo es míope, y me gustó el molde de sus gafas.

Conversaram algum tempo sobre coisa alguma, comentando o dia e o mar, quando uma sombra corpulenta roubou o sol a ambos.

Mi marido — disse ela, e lembrou-se de repente — en verdad, nosotros tampoco nos conocimos.

Cristiano levantou-se, disse um muito prazer sem prazer algum, muito antes pelo contrário. Ela chamava-se Cristina — sempre o maldito nome! — ele, Schneider. Não sorria e seu olhar era duro, penetrante, o que em princípio não desagradava a Cristiano, não fosse aquele ser imenso, e com uma barriga razoável a transbordar do cinto, cortar-lhe as perspectivas de uma aventura. Quando já se rendia à fatalidade de mais uma conversa sobre tempo, o homem perguntou-lhe em tom não áspero, mas incisivo:

¿Que hace Usted?

O estraga-prazeres era então um homem objetivo? Pois Cristiano também. Mas... Precisamente naquele dia recebera em pleno rosto talvez a única pergunta a respeito de si próprio que não conseguiria de forma alguma responder com objetividade. Entendia a intenção do argentino. Um homem se define pelo que faz, e o brutamontes queria encurtar caminho. Como explicar-lhe que um dia pretenderia... e de repente se dava conta de que jamais pretendera algo definido, fora o vago desejo de fazer cinema, isto é, sua vida toda fora mais um não-fazer do que um fazer. Seu impulso mais forte havia sido fugir do inferno para o paraíso e agora, fodido e mal pago, voltava do paraíso para ver se ainda restava alguma vaguinha no inferno.

Projetos e desprojetos à parte, o fato era que não estava fazendo nada, nada mesmo, naqueles dias em que derivava sem leme ao sabor dos ventos e marés. Dizer-se jornalista era uma meia-verdade, por um lado detestava o ofício, por outro não estava ligado a empresa alguma. Sem falar que a pergunta do mastodonte era outra, pelo tom de voz e pelos olhinhos duros e escondidos no fundo do rosto gordo, o homem queria saber não o que ele fazia para comer, mas o que fazia fundamentalmente na vida. A pergunta era grave. E no momento não tinha resposta. Pretendendo encerrar o assunto, respondeu:

— Navego.

Os olhinhos duros e fixos pareceram se tornar ainda mais penetrantes, a cabeça pendeu num gesto de quem reprova silenciosamente uma criança.

No me vengas con cuentos, Cristiano. ¿Que haces?

O estraga-prazeres não se contentava com respostas vagas. Qual um interrogador ante sua vítima, fitava Cristiano do alto de seus quase dois metros. A cena deveria ser cômica vista de fora, pensou, dois barbados de braços cruzados sobre a barriga olhando nos olhos um do outro. Surpreendeu-se ao se ver dizendo o que até então não admitia sequer para si mesmo.

— Tento escrever.

¿Y como haces para vivir?

— Faço jornalismo.

O que não era exatamente verdade. Fizera jornalismo. Agora vivia de free-lancers, traduções. Mas não pretendia entrar em detalhes. Com um princípio de simpatia, percebeu no canto esquerdo dos lábios do gigante que lhe roubava o sol um esboço de sorriso interior, lhe agradara aquela distinção entre ser jornalista e tentar escrever. Parecia ser homem inteligente, o que afastava de seu espírito a sensação inicial de quase desagrado. Passou à ofensiva:

— E você, o que é que faz?

Com a tranqüilidade dos justos o homem respondeu, um forte acento de orgulho na voz:

Soy militar.

Puta que o pariu, se amaldiçoou Cristiano, bem que merecia, com sua mania infame de correr atrás de saias. Jamais os vira face a face. Imaginava-os seres de outra raça, animais de coluna sempre ereta quando sentados, que se identificavam por tapas automáticos na testa ao cruzarem uns pelos outros, que não freqüentavam bares e viviam em casernas, longe de mulheres e civis. Deles só tinha a lembrança de paradas e eventuais declarações, quase sempre iguais: reina a mais completa ordem no país, o perigo vermelho que ronda a nação, manteremos a legalidade a qualquer preço. No entanto, mal viam uma Constituição, não resistiam à tentação de cagar em cima.

Le voilà, como diria João, o Milicus latinoamericanensis, com sotaque e tudo, o espécime que roubava a luz aos seres pensantes. Dalmácio, em um de seus costumeiros contos inacabados, colocara quatro generais numa banheira brincando com barquinhos de papel, feito com as páginas da Constituição, fazendo-os naufragar com chumbinhos soprados por um canudo, tudo isso em meio a uma atmosfera de alegria infantil. Como metáfora, o conto era de uma indulgência extraordinária, se os homens se contentassem em afundar barcos, fossem de papel ou de aço, a humanidade até que poucas queixas teria da raça. Mas adoravam afundar nações, o que era mais delicado. Não contentes em afundar nações, nutriam especial vocação para torturar e exterminar seus melhores rebentos.

No ser disforme que lhe fazia sombra, Cristiano via a síntese dos carcereiros de João Geraldo, dos torturadores de uma geração, dos corruptos que torpedeavam um continente todo. Viva a América Latina! — disse para si mesmo — impossível dar-se um passo, mesmo em meio ao Atlântico, sem tropeçar com um gorila. E aquela mulher linda, na qual se dispunha a jogar até o último centavo, era então mulher de milico! Vivendo e aprendendo. Bem feito para não nutrir entusiasmos súbitos.

Mudou de tom, voltou a falar do belo tempo que fazia, que há muitos anos não via sol assim, que seus óculos... etc. Falaram inconseqüentemente sobre viagens e, de repente, impelido por um humor incontrolável — afinal, estava em águas internacionais — passou a discutir critérios de mensuração de inteligência. Disse não aceitar o Q.I., coisa de americanos que não conseguiam caminhar e mascar chicletes ao mesmo tempo, sem falar que já era sabido por todos que o método era muito relativo, no que o animal platino concordava. Preferia a descoberta de um cientista inglês, Lord Tarr — ele ainda não ouvira falar de Lord Tarr, um inovador? — que a partir de uma série de pesquisas, cujos critérios no momento não interessava explicar, havia elaborado uma nova escala e, fato surpreendente em um pesquisador inglês, baseada no sistema métrico-decimal.

¿Sí? — fez o gorila franzindo o cenho.

— Sim — continuou Cristiano —. E deu seu próprio nome à unidade de inteligência média, estabelecida após exaustiva amostragem. Assim, um homem de inteligência média teria um tarr.

¿Y qué? — quis saber o primata.

— Daí que um homem cuja inteligência é dez vezes superior à média, é um decatarr. Cem vezes, um hectotarr. E mil vezes a inteligência média, medida meramente teórica, sequer alcançada pelo gênio, um quilotarr.

Nada de nuevo — grunhiu o argentino.

— Acontece que a escala também desce. Temos então que — e uma ligeira taquicardia começou a acometê-lo — dez vezes menos a inteligência média, um decitarr. Cem vezes menos, um centitarr. E mil vezes menos...

Un militarr — concluiu Cristina, enrolando os erres na ponta da língua.

O gigante barrigudo olhou-o intensamente nos olhos, e Cristiano teve de convir que naquele olhar, se não havia senso de humor, pelo menos não havia animosidade alguma, como esperava. Qual ator que conclui um número, fez uma reverência ao casal, repôs os óculos que Cristina gostava tanto e que, por precaução, retirara do rosto, e saiu rindo por dentro rumo à proa. Navegava sob bandeira italiana, estava em águas internacionais e não iria se furtar a uma piada com a raça intocável.

 

Encontrou-o na manhã seguinte, apoiado sobre a barriga, lendo um pequeno livro na ponte Soggiorno. O barco, de estruturas já cansadas, rangia da proa à popa, em balanço regular e suave. Cristiano iniciara sua caminhada pela passeggiata e ele já o havia visto, voltar era inútil. O processo, afinal, já fora desfechado. Decidiu levá-lo até as últimas conseqüências, cumprimentou-o e sentou-se a seu lado.

Mira — começou Schneider sem mais nem menos — si me hubieras hablado ayer de la funcción social del arte y cosas por el estilo, no volveria a hablarte. Pero dijiste que intentas escribir, lo que es distinto. Yo soy un hombre preocupado y no tengo tiempo para personas despreocupadas.

Incisivo, o milico, pensou Cristiano. Que estaria pretendendo?

Oí lo que decias, ayer a la noche, a los jovenes. Ellos te escuchaban tensos, te buscabán. Es que tienes algo a decir.

Uma sensação desconfortável começou a corroer-lhe o estômago. Bêbado, com uma garrafa de uísque em punho, iniciara uma discussão no salão Opala, mais palestra que discussão e, finda a música, o grupo que se fora formando o acompanhara até a proa, falara o tempo todo sem permitir que alguém dissesse qualquer coisa, salvo rápidas perguntas, quando um sol violento tropical passou a queimar-lhe as costas, a garrafa estava vazia e uma dezena de jovens o contemplava como quem espera ouvir mais. Cristiano, que nada mais lembrava do que havia dito, nem podia entender como falara oito horas sem pausa, jogou a garrafa ao mar e foi dormir. Então o gorila havia escutado tudo? Teria como missão vigiá-lo? Seriam mesmo seguras as águas internacionais?

— Ah, sim? E que é que eu dizia? — quis saber Cristiano.

Schneider olhou-o sem espanto.

Hablaste mucho sobre sexo y muerte. ¿Que pasa contigo?

O tom com que lhe falava, quase fraterno, revelava um homem desarmado, sem animosidade alguma. Começou a sentir um vago remorso pela piada do dia anterior, afinal não deixava de ser um preconceito carimbar todo e qualquer militar com a pecha de imbecil. Como necessitava mesmo falar, vomitar pelo menos parte da angústia que o encharcava, impelido por um rosto duro e bonachão que o convidava a falar, falou.

— Meu pai... — e respirou fundo para para poder controlar a voz — morreu.

¿Y lo querias mucho?

— Pois parece que sim. Mas agora é tarde para tais descobertas.

Schneider o interrogava mansamente, dando-lhe tempo para formular uma frase, o que a ele, jornalista, não era lá muito fácil, já que não sabia muito bem o que ocorria consigo mesmo. Sim, de um lado aquele estado psíquico fora desfechado pela notícia, mas a morte de Canário não explicava tudo, afinal todo mundo tem pai e todos os pais acabam morrendo, sem falar que se julgava dono de uma forte personalidade e era avesso a lamentações. Não, aquele fato biológico não explicava tudo. Havia ainda, o que talvez fosse pior, aquela desilusão de tudo em que acreditara um dia, a sensação de uma viagem inútil e de uma volta rumo ao nada. Mas o insólito interlocutor, livro apoiado sobre a pança, insistia em voltar ao tema:

¿Hablabas mucho con tu padre?

Ali o militar tocara o ponto mais estranho e sensível do poder. Jamais falara com Canário, nos campos de Ponche Verde havia um silêncio abissal entre pai e filho, uma quase vergonha de falar um com o outro. O que não significava ausência de comunicação. Esta se efetuava mudamente, uma espécie de telepatia combinada a jeitos de olhar os tornava mutuamente cientes do que ia por dentro, em um e outro. Falar era visto mais ou menos como coisa de mulher. Mas nem todas as idéias e sensações eram passíveis de transmissão sem palavras, e justo naqueles dias em Cristiano voltava para tentar exorcizar o silêncio, contar a Canário, entre um chimarrão e outro, o que vira mundo afora, falar-lhe do sol da meia-noite e da neve, das cidades e do deserto, o homem partira.

Enquanto falava, interiormente evocava a última vez que o vira. Fizera uma visita rápida à Casa e, quando juntava os trapos para aquela viagem que julgava sem volta — e dela agora estava voltando — a figura retaca daquele gaúcho mudo lhe apareceu na soleira do rancho e falou, logo ele que raramente falava, “não vai hoje, meu filho, eu sinto que não vou te ver mais”. Cristiano notara o tremor na voz, virou-se e viu, pela primeira vez na vida, aquele rosto talhado em pedra chorando. Não conseguia concebê-lo chorando, onde se viu homem chorar? Rangendo os dentes, terminou de emalar as poucas coisas que trouxera e, silencioso, como todas as vezes que partia, lhe deu as costas e saiu rumo à porteira. Era-lhe duro lembrar tudo aquilo, parecia sentir um secreto prazer em autopunir-se, quando — enfim! — surgiu Cristina, luminosa, sorrindo na passegiata, sua alegria iluminando um pouco mais o Atlântico. Daquela mulher, de sua presença física, emanava um poder estranho que o acalmava. Saudou-o, cheia de dentes, como se há séculos o conhecesse.

Dime una cosa — continuou Schneider — ¿crees en Diós?

Não. Sua fé ficara jogada à poeira num canto qualquer da adolescência. Acreditasse em Deus, ou num outro mito qualquer, seria um homem tranqüilo, ora bolas.

Aquelas charlas no tombadilho ou nas pontes inferiores, com o passar dos dias, tornaram-se um encontro obrigatório ao qual ambos se entregavam com prazer, em geral após o café da manhã e ao entardecer. Para espanto de Cristiano, Schneider o procurava como se tivesse algo importante a ouvir, logo dele que, naquele atoz estado de espírito, sentia nada ter a dizer a ninguém. Mais espantado ficou ainda ao perceber que chegara até mesmo a abandonar a paquera matutina das fêmeas nas piscina, para longas caminhadas com aquele militar de barriga tão civil. “No doy importancia alguna a mi apariencia física”, dissera um dia.

Quando sentavam, Cristina descia (dos céus?) com um violão, como se esperasse uma pausa na discussão dos dois senhores preocupados com o universo e, com uma voz de mãe ninando filho, dois olhos negros imensos a subjugá-los, cantava antigas canções, que Cristiano jamais ouvira, mas que lhe soavam absurdamente familiares. Para ele, naqueles dias de travessia, a vida a bordo tinha duas faces, uma noturna, de álcool e sexo, e outra diurna, peripatética, de discussões filosóficas e canções, mais os dentes e os olhos de Cristina, mais a cálida amizade de Schneider. Não o entendia.

Para começar, Cristiano fugira de uma América Latina que se tornara o habitat ideal daquela raça que parecia emergir das trevas, o militar, aquele estranho funcionário do Estado que julgava ser a baioneta o instrumento mais adequado para combater uma idéia. Militar, para Cristiano, era palavra que se associava a três ou quatro outras, não mais que três ou quatro, mas suficientes: golpe de estado, tortura, queima de livros, corrupção. E o homem tivera a desfaçatez de afirmar-lhe, com a convicção dos justos:

El militar es el más puro entre los hombres: lucha por la más abstrata de las ideas.

Cristiano, sempre comedido, na manifestação de seus estados de espírito, caiu na gargalhada. Faria então parte dos currículos dos mais puros dos homens passar por cima da lei, prender na calada da noite quem pensasse direferente e jogá-lo em celas imundas, alquebrar-lhe o moral e depois pisar o rosto ou chutar os ovos com coturnos? Quem estaria delirando? Ele sonhando que ouvia aquilo em meio a um pesadelo de mau gosto? Ou o monstro, num ímpeto de humor negro? Faria parte do treinamento para o mais puro dos homens jogar de aviões civis em alto mar, sem experimentar a mais ligeira comoção ante o desespero do homem que via ante si o abismo? Perplexo, Cristiano surpreendeu-se ao notar que passara a tuteá-lo:

— Não entendo mais nada, tche! Qual é mesmo tua função neste bordel?

Soy militar. Mi oficio es matar...

Enfim, pelo menos um homem franco. E se aquele era seu ofício, ao pensar na América Latina Cristiano poderia negar-lhe tudo, menos eficácia. Mas a frase ficara no ar, tinha seqüência:

— ... rápido y con elegancia, si posible.

Agora a reconhecia. Estava em Mirbeau. Passara o livro a Schneider, e o monstro gostara da frase. Mas sua pergunta era outra. Por bordel entendia aquele barco cabotando toneladas de angústia, migrantes abandonando um passado, outros voltando a seus passados, com algum ou sem nenhum futuro pela frente, todos mergulhados em uma espécie de suspensão da História, pois ali os dias não corriam, nenhum fato ocorrido no planetinha afetaria a rotina de bordo. As notícias eram selecionadas, o telex só trazia eventos sublimes. Estourasse uma guerra nuclear, os incautos navegantes por certo manifestariam surpresa ao ver que onde havia um continente não havia mais continente. Sua pergunta era outra. Que fazia naquele barco aquele animal e por que fora procurá-lo?

Não era ingênuo a ponto de julgar possível a paz entre os homens e tinha de admitir que, no fundo, não podia negar certa admiração ao militar, era o homem que na hora da guerra fazia a guerra, enquanto os civis buscavam as tocas. Teoricamente, Schneider não deixava de ter razão, ele lutava pelo mais abstrato e vago dos ideais, a tal de pátria. Se homem honesto, era quase um sacerdote, com a diferença de que pagaria com a vida suas convicções, enquanto os padres, estes sempre levantavam a saia ao detentor do poder, e assim atravessara a Igreja os séculos. Mas no Brasil e América Latina só via militares usando suas divisas para aumentar fortunas familiares, perpetuando no poder castas que beliscavam caviar em cima da fome de multidões. Ao que Schneider objetava:

El ejército es un medio de muerte. Cuando se vuelve medio de vida, es que está corrupto. Y cuando el ejército está corrompido, la nación está pudrida.

Assim sendo, o diálogo era viável. O fato era que, se exército corrupto igual nação podre, seria melhor tapar o nariz à medida em que o Eugenio C se aproximava da América Latina.

Mira, te voy hablar de cosas que tal vez, en princípio, no te digan nada. Te voy a hablar de estrategia.

Falou de guerras, movimentos de tropa, teorias em torno à Terceira Guerra, troca de alvos, eu destruo uma cidade tua, te ofereço uma minha para que não percas a cara e depois tratamos de paz.

— Se tivesses de disparar teus canhões contra uma cidade de dois milhões de habitantes, dois milhões de civis...?

Como militar, desobediencia es palabras que no conozco.

— Uma rápida ordem, a morte impessoal e executada à distância, com vítimas sem rosto nem nome, se possível mortas rapidamente e com elegância.

Sí, sé lo que quieres decir... Pero si un dia te invito a mi casa de campo, o en alguna embajada en Paris, es porque no pudo obedecer.

Passou a desenvolver sua teoria da crise. Que o homem só surge na crise, sendo este o mais grave problema dos exércitos. A quem passar o comando, em tempos de paz, se o homem se reconhece na guerra? Uma das hipóteses era gerar uma crise dentro do próprio exército, para que então o homem emergisse.

Pero no es que te quiera hablar de estrategia. Quiero hablar de ti, de nosotros. En este buque, todos estamos en crisis. Y si es verdad que los hombres solo se manifiestan en las crisis, es por eso que estamos hablando.

Aquele messianismo inesperado, manifesto num barco rangente em meio ao oceano, mexia com um esquecido e profundo substrato de Cristiano, uma robusta confiança em si próprio. Em seus dias de cristão, e mesmo em seu rápido namoro com o marxismo, acreditava em si e na possibilidade de pôr uma pedra no edifício humano. Mas desmoronados os pressupostos do cristianismo e marxismo, se via só no deserto, e de mãos vazias. Há muito lhe perseguia a hipótese de que um homem, a partir de si mesmo, sempre podia dizer algo ao mundo. Mas estava voltando de um fracasso. Buscara uma sociedade onde imaginava que poderia expandir suas possibilidades criativas e nela só o viam como potencial lavador de pratos. Os anos de Suécia lhe haviam minado o moral — e talvez ali, certamente ali, residia seu desalento — e não é que agora surgia em meio ao mar aquela estranha mescla de guerreiro e sacerdote para lembrar que nele havia um resíduo, original e único, que talvez servisse para algo?

Naqueles dias de alta tensão, quando se perguntava se não teria como interlocutor um louco, Cristina os interrompia com suas canções e, enquanto afinava o violão, sorria com um gesto desanimado:

¡Los dos son locos!

Numa tarde abafada, em pleno Equador, Schneider passou-lhe o livrinho que nos primeiros dias Cristiano vira em sua mão. “Zen en el arte del tiro con arco”, de Eugen Herrigel.

No rias. Tal vez pueda tener alguna respuesta a tus preguntas.

Naquela noite, fugiu das Bovarys no cio que zanzavam pelos salões e corredores, cada vez mais angustiadas ante a perspectiva de chegada e de volta à monotonia do lar. Mergulhou naquele relato estranho, tão sereno e tão oposto ao sinistro livro de Mirbeau. Herrigel era um militar ocidental que durante um estágio no Japão se iniciara no tiro de arco e flecha. Já no primeiro capítulo advertia que tal esporte os japoneses não o consideravam como esporte, mas como ato ritual, não significando uma habilidade que exigisse domínio primordialmente físico, mas uma mestria cuja origem devia buscar em exercícios espirituais, “no fundo, o atirador aponta para si mesmo e talvez consiga acertar em si mesmo”.

Puta que o pariu — resmungou — o homem iria decepcioná-lo logo agora, quando começava a aceitar sua lógica? Seria mais um ocidental perdido no mar dos valores de cá que se refugiava no fascínio do Oriente? O livro era excepcionalmente bem escrito e o autor não se permitia piegas metáforas budistas em torno a um tema qualquer. Penetrando na obra, foi aos poucos concluindo que era um daqueles livros cuja leitura estava ao acesso de todos, mas a compreensão era privilégio de poucos.

O confronto consiste em o arqueiro para si mesmo — e no entanto não para si mesmo — de forma que será ao mesmo o que assesta e o que é assestado, o que acerta e o que é acertado. É preciso que ao atirador, apesar de todo seu fazer, se converta em centro imóvel. Então surge o último e mais excelso: a arte deixa de ser arte, o tiro deixa de ser tiro, será um tiro sem arco nem flecha; o mestre volta a ser discípulo; o hábil, principiante; o fim, começo; o começo, consumação”.

Herrigel, quando tentava concentrar-se para um disparo, tinha piores resultados quando tendias espontaneamente o arco, sentia-se então como uma centopéia que se punha a meditar para saber em que ordem devia mover as patas. Quanto mais se empenhava em aprender a atirar para acertar o alvo, menos conseguia o primeiro intento e mais se afastava do segundo. Que devo fazer? — perguntava o discípulo. Teria de aprender a esperar, como era devido, respondia o mestre, desprendendo-se de si mesmo, deixando para trás tão decididamente a si mesmo e a tudo que era seu, que dele não restasse outra coisa senão o estado de tensão, sem intenção alguma.

Ao ler aquelas reflexões, a princípio absurdas, em torno ao arqueiro que para acertar o alvo jamais devia mirá-lo, Cristiano foi aos poucos reconhecendo o espírito do que lhe dizia Schneider naquelas caminhadas pelo convés. Em um apólogo que datava do século XVII, transcrito por Herrigel, chegou ao que talvez o militar estivesse tentando transmitir-lhe.

Um grande mestre da espada ensinava sua arte ao xógum Tokugawa Jyemitsu. Certo dia, um dos guardiões do xógum aproximou-se do mestre e pediu que lhe ensinasse. “Segundo vejo — disse o mestre — já sois mestre da espada. Dize-me, te peço, a que escola pertences, antes que entremos numa relação de mestre e de discípulo.”

O guardião contesta:

“Envergonho-me em confessar que jamais aprendi tal arte.”

“Te divertes comigo? Sou o mestre do venerável xógum e sei que meu olho não me engana.”

“Lamento ofender vosso honor, mas a verdade é que não tenho nenhum conhecimento dessa arte.”

Frente a tal negativa, o mestre vacilou e disse: “Se assim afirmas, assim será. Mas certamente és mestre em alguma outra disciplina, embora eu não veja bem qual é”.

“Como insistis nisso, vos direi. Há uma única coisa da qual posso considerar-me mestre consumado. Quando ainda era moço, ocorreu-me que, sendo Samurai, não devia temer a morte em caso algum e desde então — já faz alguns anos — lutei continuamente com a questão da morte, até que deixei de me preocupar. Talvez seja isso que Vossa Mercê observa?”

“Exatamente — exclamou o mestre — é isso. Alegro-me que meu juízo tenha sido acertado, pois o último segredo da arte da espada reside também em estar liberado da idéia de morte. A centenas de alunos mostrei estas meta, mas até agora nenhum alcançou o grau supremo na arte da espada. Tu não necessitas nenhum exercício, já és mestre.”

Libertar-se da idéia de morte, sorriu com ironia Cristiano. Como se fosse fácil! Ainda mais quando a velha senhora lhe surgia de forma tão indelicada, estava tranqüilo em Lisboa esperando um navio e...

No dia seguinte, em meio às caminhadas matutinas, interpelou Schneider.

— Quem és, afinal de contas?

Schneider, capitán de fragata.

Isso ele sabia. Sua pergunta era outra. Filosoficamente, onde se situava?

Soy cristiano.

Não resistiu ao trocadilho:

— Cristiano sou eu.

O gigante barrigudo, que jamais sorria — no que lembrava Dalmácio — olhou-o com firmeza, com um humor de quem não está para piadas. Cristão, aquele sacerdote oficiante da morte?

Como si en la Bíblia solo hubiera vida.

Schneider, que abominava filosofias pouco concretas, concluía que um pequeno código, de no máximo dez linhas, era suficiente para mitigar as angústias humanas: os dez mandamentos. Cristiano olhou-o divertido e foi sua vez de devolver:

No me vengas con cuentos, hombre!

Schneider insistia em seus princípios. Se todos os homens do mundo...

— Se... — sublinhou ironicamente o jornalista —. Códigos existem aos milhares.

O milico não se deixou abalar. Reafirmava suas convicções cristãs, assinando embaixo do antigo e novo Testamentos, e Cristiano já não entendia mais nada, como podia um homem culto assumir ao pé da letra a transcrição de mitos? Via a Igreja como a institucionalização de uma paranóia, pregada por um fanático que tivera a sorte de ser crucificado. Os romanos, mais vivos que os judeus, haviam recuperado o esquecido mártir, dando-lhe como mãe uma virgem, afinal religião alguma se fundamenta na razão. E aquele desconhecido, já quase íntimo, ao qual Cristiano conferia inteligência — distinção que não conferia a qualquer um — acreditava naquelas patacoadas? Quem era, afinal, o louco?

Mira, Cristiano, no voy a darte razones de mi fé, para empezar que fé no tiene razones, como tambien es inutil que me expliques las razones de tu descrencia.

No que estava certo, mulher e religião não se discute, se abraça, pensou Cristiano. Pensou mas não disse. O homem não tinha lá muito senso de humor, falava o tempo todo com uma gravidade de quem suporta nos ombros o peso do mundo. Num daqueles diálogos que aos demais passageiros do Eugenio C passaria como paranóia total, Schneider lhe perguntara o porquê de sua obsessão sexual, o falo sempre à caça, pronto a disparar contra tudo o que se mexia, por que, afinal, aquela fúria erótica?

Ele não sabia como explicar. Tentou:

— Fazer a carne cantar.

— O monstrinho de olhos miúdos o repreendeu com asperidade:

No me vengas con frasis hechas.

Naquele dia em que enveredaram por discussões bizantinas, o militar dispôs-se a falar de si mesmo. Voltava da Europa de um seminário sobre estratégia e houvera uma confusão na reserva de camarote. Devia viajar em primeira classe, dada sua condição de oficial da Marinha, e o haviam posto na classe turística. Ao tomar conhecimento do equívoco, a companhia lhe oferecera um camarote de sonho na ponte Sole, e o capitão-de-fragata o recusara.

Pués si fué la voluntad de Diós que yo viajara en turística, que se haga la voluntad de Diós.

O jornalista o olhou como quem, acordado, tenta analisar um pesadelo.

Solo hay dos hombres en este buque, Cristiano. Y Diós me puso en la turística para que te encontrara.

O dilema era elementar: ou o Sumo Filho-da-Puta existia e lhe estava preparando uma peça, ou não existia, e um deles, talvez Cristiano, talvez Schneider, estava pronto para o manicômio.

O pior era que o homem o fascinava, nele se via como um espelho.

Mais o Eugenio se aproximava da costa brasileira, mais Cristiano bebia e com mais carinho namorava o mar. Sentia-se voltando rumo ao nada. Ninguém o chamava no Brasil, nenhuma carta, nenhum aceno, nenhuma insinuação lhe dizia: “volta, precisamos de ti”. Voltava com a mesma gratuidade com que partira, afinal ninguém o expulsara do país e muito menos alguém o chamara na Suécia e nisto parecia residir o perigo, para um homem solto no espaço não era fácil viver sem ser chamado a tanto.

De bêbado brilhante passou a bêbado chato, bebia a ponto de não mais controlar-se. Em uma noite de tempestade, viu-se caído na área de operações da proa, em meio a cordas e máquinas rastejava no chão buscando os óculos, o temporal que açoitava o navio não o deixava ver um palmo à frente, ou encontrava os óculos pelo tato ou não os encontrava nunca mais, logo os óculos que tanto agradavam a Cristina, que diria a portenha, que diria Schneider se o vissem naquele estado deplorável, bêbado de não poder erguer-se, rastejando qual verme sobre o convés alagado, quando um oficial de bordo, talvez providencial, lhe deu um chute nas costelas e o esbofeteou com energia, entregou-lhe os óculos — “ecco, disse ao italiano, era justo o que procurava!” — e o jogou aos empurrões nos corredores da ponte Passegiatta. Encharcado até os ossos, Cristiano desmoronou em uma cadeira de lona, em seu porre teve a impressão de ter visto um casal de noctâmbulos que o abordava, “por que não dormes?”, como também lhe restou a lembrança também vaga de ter respondido: “dormir é morrer um pouco”, tudo era muito vago, menos a resposta de um deles: “pobre coitado!”

Tudo, menos comiseração. Voltava desempregado e fodido, mas tinha suficientes reservas de orgulho para não aceitar piedade. Voltou à sobriedade num repente. O casal já sumia ao final do corredor, Cristiano não sabia se atribuía sua recuperação ao banho na proa ou à frase dos dois, sim, de ambos, pois se apenas um falara havia uma unanimidade entre os dois, não era apenas uma pessoa que dele se apiedava, mas duas, e provavelmente mais outras duas se o tivessem visto sendo chutado por um serviçal. Urgia reerguer-se.

Beber se tornava perigoso. No estado em que há pouco estava, que ou quem o teria impedido de dar mais alguns passos e cair na noite e na tempestade? Pingando água, calças e camisas coladas à pele, mas em pé e lúcido, “sou lúcido, merda!”, percorreu a solitária Passegiatta rumo ao camarote. Serias melhor cuidar um pouco mais de si próprio se quisesse voltar a charlar com Schneider na manhã seguinte, se quisesse voltar a ver os olhos negros e calmos de Cristina e tinha de convir que ambos constituíam uma boa razão para se viver mais um dia.

Acordou tarde, algo lhe dizia ser perto de meio-dia, mal abriu a porta de acesso à piscina foi golpeado por um sol equatorial implacável. Excitação a estibordo. Os passageiros aglomeravam-se nas passarelas em uma agitação inusual, ao longe branquejavam as praias de Recife. Um arrepio lhe percorreu os poros. Ali estava, ao alcance de seus olhos, deitado eternamente, o continente do qual fugira como diabo da cruz.

Um medo sub-reptício começou a perfurar-lhe o espírito como verruma. Lá estava, visível, a plataforma continental, a linha suave do litoral. Estaria salvo? Não sabia. Seria o supra-sumo da ironia se chegasse, náufrago, à praia, e o jogassem atrás das grades. Se há bem pouco sua tentação era jogar-se ao mar, o dilema agora era outro: descia ou não descia? Pois o Milicus latinoamericanensis continuava vigilante, coturnos sempre prontos a esmagar qualquer manifestação de pensamento, e seu passaporte tinha vistos de países por onde não era saudável passar.

Estivera na Argélia, onde fora conhecer o deserto, sugestão imperativa de uma amiga muito querida, Federica de Cesco, suissesse com a qual tropeçara em Estocolmo, mas até que explicasse ao torturador de plantão que fora ao Saara apenas para ver o Saara, até então já estaria morto ou mutilado. Tinha vistos ainda da Romênia, Bulgária, Alemanha Oriental, países por onde passara rapidamente e que lhe haviam banido do cérebro qualquer veleidade socialista, mas como convencer disto os homens?

Vivia um estranho paradoxo. Na Suécia, a polícia de imigração lhe oferecera asilo por julgá-lo militante de algum movimento de esquerda, apenas por ser jornalista e estar chegando do Brasil Já a colônia brasileira o julgava de direita, certamente agente do SNI ou DOPS, afinal não militara em grupo algum de esquerda. E ao voltar, vazio de seus sonhos, corria novamente o risco de ser confundido com um militante de esquerda. Os dias não eram definitivamente os melhores para um livre-pensador.

Mais dois dias de navegação e o Eugenio atracaria no Rio. Descer ou não descer? — estas era a questão. Tinha quarenta e oito horas para respondê-la, sempre havia a chance de desembarcar em Montevidéu ou Buenos Aires, tomar um ônibus até Rivera e atravessar — al pasito no más, como dissera um dia João Geraldo — a Calle Internacional, sem mostrar passaporte a milico algum. E foi pensar no burro, este apontou as orelhas. Uma sombra imensa mais uma vez roubou-lhe o sol, seria aquela forma de chegar uma espécie de estilo em Schneider?

¿Tuviste miedo, ayer?

Medo? Medo de quê?

La tempestad! Yo tenia miedo por ti.

O homem o desconcertava. Como entender aquilo tudo? As coisas pareciam desenvolver-se como em um romance, não conseguia conceber Schneider como um ente da vida real, aquele orangotango obeso só podia ser fruto da imaginação de algum ficcionista desvairado. Há muitos anos se perguntava, ao olhar-se ao espelho, se existiria um outro Cristiano, igual ao da imagem refletida. A resposta era sempre negativa, “sou um ser único, como únicos são todos os seres”, pensava. Mas ali estava, em carne e osso, o outro ser feito à sua imagem e semelhança. Não que fossem fisicamente iguais, Schneider teria uns bons vinte quilos a mais, sem falar em traços faciais, o que pouco importava, pois no fundo constituíam uma mesma pessoa.

— Não te entendo — dissera em uma de suas charlas no convés —. Estou perplexo. Somos iguais. Mas tu vais para o sul e eu continuo sem norte.

Los extremos se tocan — reagiu o militar, concluindo ante seu olhar de pasmo — pero hay que ser extremista.

Mas agora a pergunta do militar era outra. Sem muita convicção, respondeu:

— Não tenho medo de nada.

¡No es verdad!

Não era mesmo. O homem não se deixava enganar.

Siempre tenemos un miedo cualquiera. Yo tenia miedo a las tempestades...

E contou-lhe histórias do mar onde todos seus conhecimentos de navegação resultavam inúteis, seu cruzador dançava nas ondas como folha ao vento.

Pero siempre he tenido confianza en Diós, en este Diós que hizo que te encontrara!

Ali se estabelecia um nó górdio. Schneider apostava tudo em uma abstração de covardes, em um mito criado por homens com medo da morte. Não que ele, Cristiano, tivesse chegado ao grau de sabedoria do arqueiro do xógum. Não que ele não a temesse. Mas melhor morrer enfrentando seus medos do que viver com muletas metafísicas. Schneider não deixava de ter razão: ele tinha medo... e Deus nenhum!

 

Os dias até o Rio passaram como areia por ampulheta, em um fluir constante, sem horas nem datas. Cristiano já não conseguia distinguir com precisão o sono da vigília, tampouco a realidade da fantasia. Estaria enlouquecendo? Ou a vida era assim mesmo? Apoiada na amurada da ponte Sole, uma francesinha se perguntava:

Ce pays ne finit jamais?

Não, não acabaria tão cedo, do Rio de Janeiro a Rio Grande havia ainda boas léguas de litoral, mas se para ela, que ia rumo ao Chile, o Brasil acabaria acabando, o mesmo não ocorria a Cristiano, para quem o Brasil era fim de linha, fim de ilusões, fim de conversa.

Não desceu no Rio. Teve medo. Respirou fundo a baía da Guanabara, o navio atracou no porto mas do navio ele não saiu, do Brasil só sentiu o calor das coxas de uma mulata que tomara o Eugenio de assalto em busca de dólares. Mergulhou no regaço quente da carioca, seus chiados e gemidos pareciam enunciados em uma língua estranha, tão suave e acariciante que quase o fazia chorar. “Estou no Brasil”, concluiu, enquanto a cavalgava com a alegria de criança que ganhou doce.

O barco zarpou, voltou a atracar em Santos e Cristiano permaneceu a bordo. Mais dois dias e chegariam a Montevidéu, uma vez em terra queimaria o passaporte e entraria no Rio Grande do Sul com carteira de identidade, esta pelo menos não tinha visto de país algum. Temia voltar ao país para o qual queria voltar. O medo, ou melhor, talvez não fosse o medo, apenas um instinto de sobrevivência mais aguçado, enfim, fosse o que fosse, aquela apreensão lhe expulsara do espírito os pensamentos funestos que o faziam namorar o mar. E aquela mulata ciciante, era como se a própria pátria tivesse rompido a vigilância dos militares e tivesse ido recebê-lo a bordo, de braços e pernas abertas. A vida recuperava pouco a pouco seu sentido.

No porto de Montevidéu, quando já fazia fila para apanhar o passaporte, Cristina e Schneider foram abraçá-lo. O gigante barrigudo olhou-o com um olhar duro, olhar de chefe que transmite uma ordem vital a um soldado:

Una derradera pregunta, Cristiano...

— Sim?

¿Gustas de ti?

Foi como se recebesse uma paulada. Olhou-o nos olhos, em pânico, aquilo não era pergunta que se fizesse, Schneider poderia perguntar qualquer coisa, devassá-lo em seus recantos mais íntimos se quisesse, nada tinha a esconder — “solo tengo secretos militares”, como diria o argentino —. Perguntasse tudo, menos aquilo, não que tivesse qualquer em dizer sim ou não, o fato é que não sabia qual era a resposta. Permaneceu longos segundos perplexo, o policial já lhe entregava o passaporte, Schneider o abraçou fraternalmente, puxou-o contra o peito e segredou-lhe ao ouvido:

Porque si algun dia te asaltar la menor duda cuanto a esto, llamame. Si no estoy en guerra, te iré buscar donde esteas. Adiós, ¡hermano!

“Filho da puta”, pensou Cristiano, as lágrimas forçando as janelas dos olhos. “Que vão pensar estes policiais de fronteira se me ponho a chorar?” Rangeu os dentes, apanhou o passaporte de um safanão e virou rapidamente as costas ao militar, murmurando entre dentes um embargado adeus.


 

 

4. NOS PASSOS DE PESSOA

 

“Quantos anos são necessários para um homem derrubar, dentro de si, um mito?” — perguntava-se Cristiano. Deveria existir uma média como resposta, da qual ele não tinha a menor idéia, mas de algo estava certo: dependia da distância em relação ao mito. Poderia até mesmo esboçar uma lei:

 

a crença em uma utopia é inversamente proporcional à distância que dela mantemos

 

Por muitos anos, quando lhe jogavam à cara a pergunta primária e inevitável — Rússia ou Estados Unidos? — brandia a utopia ártica: é na Suécia que os homens são livres. No entanto, naquele 1875 sobre o qual girava toda a década, a miragem nórdica estava há muito enterrada, embora há uma semana estivesse perambulando pelas ruelas de Gamla Stan. A Suécia era maravilhosa... para os suecos. Jamais para um latino, por divinas que fosse as louras nórdicas. “Bort bra, hemma bäst”, costumavam dizer os Svenssons: no estrangeiro é bom, em casa melhor.

Outono 75, bateu o banzo. Quanto tempo duram as utopias, quando moramos nelas? Para ele, três anos e pouco. E isso porque era teimoso. Não iria negar, com um ano de Estocolmo, dez anos de aguerridos discursos, e nisso parecia residir algo de comovente no bicho-homem: quando põe uma idéia na cabeça, foda-se a realidade.

Desceu rumo ao Sul, sem muita pressa. Revisitaria Barcelona — que adorava, mais ou menos a contragosto, pois não conseguia entender, em sua fuga obstinada, como podia ter charme uma cidade latina — e em Lisboa tomaria o Eugenio C, a idéia de uma travessia aérea do Atlântico o apavorava, não entendia como podiam existir insensatos capazes de tal proeza. À medida que se aproximavam os dias de descida, começou a manifestar-se o fenômeno. Mal via um vulto magro e louro em gabardina, barba ruiva e óculos claros — tipos que abundavam em Estocolmo — corria quase a saudá-lo, só ao chegar perto via não ser Dalmácio o transeunte.

Ocorresse o equívoco apenas uma vez, tudo estaria dentro do cálculo das probabilidades. Mas o fenômeno teimava em repetir-se, algo estava por acontecer. Em Barcelona, flanando pelo Barrio Gótico, chegava quase a puxar turistas pelo braço para ver-lhes o rosto, a imagem do amigo se tornava quase uma obsessão. Considerava que, de transeuntes magros e louros com gabardinas e óculos claros as capitais européias deveriam ter alta incidência, o problema é que só naqueles dias passara a observá-los. Interiormente perturbado, procurava ignorar os turistas magros e louros e barbudos, mas o seguinte sempre parecia, mais que os anteriores, Dalmácio. Nem a embriaguez do flamenco, nem a alegria das catalãs que dançavam pelas ruas nas madrugadas, conseguiam desviá-lo do Poeta, como o chamavam, em um misto de carinho e ironia.

Nem mesmo a venda livre de bebida nos bares e supermercados. De repente, a iluminação: “meu Deus, vivi quase quatro anos em um país onde é proibido beber em bares”. O mito o havia anestesiado de tal forma que sequer se dera conta — repetia para si mesmo perplexo — que na Suécia era proibido beber em bares! Uma utopia em lei seca permanente! Qual cãozinho de Pavlov, só bebera em Barcelona em restaurantes. Iluminado, entregou-se de corpo e alma aos vinhos de Espanha, à alegria das gentes que buscavam os bares, antes de mais nada, para beber e cantar. Em uma tasca, um aviso em uma tabuleta de madeira:

¡ES TERMINANTEMENTE
PROHIBIDO CANTAR!

“Que bom!” — pensou com seus botões — “isto é sinal de que todo mundo vive cantando”.

Desceu a Lisboa. Tinha dez dias livres até a chegada do navio. Refestelar-se-ia — gostou da mesóclise e repetiu para si mesmo: — refestelar-se-ia nas tascas e casas de fados, peregrinaria pelos bares de Pessoa, bebendo quando e onde quisesse, sem o olhar da censura das velhotas dos systembolag. Só agora, na península ibérica, sentia nas veias o absurdo de um país onde as pessoas bebiam às escondidas. Largou âncoras em um pequeno hotel da Avenida da Liberdade, infestada pelas palavras de ordem da Revolução dos Cravos, das quais só guardou uma:

PENSA EM LIBERDADE
SEM SUJARES A CIDADE

Como QG escolheu a Brasileira do Chiado. Nada de saudades do Brasil, mas em homenagem ao Pessoa. E os versos daquele beberrão genial e obscuro lhe perpassavam os nervos.

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Dalmácio, Dalmácio, sempre Dalmácio. A “Tabacaria” era sua bíblia, conforto e alimento espiritual nas horas de descrença em si mesmo, o poema parecia insinuar-lhe que mesmo o mais miserável dos homens tinha acesso à grandeza se bem cantasse sua miséria:

E vou escrever estes versos
para provar que sou sublime.

O bagacinho mais o poema, mais aquela obsessiva evocação do amigo errante, perdido em alguma cidade alemã, o levaram aos poucos a uma dolorosa revisão de vida. Surpreendeu-se rabiscando um guardanapo e o resultado era sempre o mesmo. Por mais que somasse e diminuísse, dava 29. Vinte e nove anos e um vazio antes e outro vazio à frente. Jornalismo era um ofício que parecia rumar ao vazio, e rumo ao vazio teria de ir ao voltar ao Brasil, se quisesse comer e — mais que tudo — garantir o trago nosso de cada dia.

Uma frase que encimara um poema de juventude, publicada por Deusa Shiva no Suplemento Rural das Letras, como chamava Dalmácio (sempre Dalmácio) o caderno literário do Correio do Povo, aquela frase parecia projeto imbecil de adolescente sonhador: “Cristiano, conforme suas próprias palavras, valoriza tão-somente o labor artístico, considerando-o o único capaz de justificar uma existência”.

Labor artístico! Ridículo abrir a boca quando se é adolescente, pensava. Vinte e nove anos e só conseguira alguns contos e crônicas. Aos trinta, Napoleão já conquistara o Egito e ele sequer havia reunido seus exércitos. Foi então que, rabiscando sempre maquinalmente no guardanapo, descobriu o erro da subtração. 75 menos 47 era 28, não 29. Raras vezes se sentira tão eufórico. Tinha mais um ano para reunir seus exércitos. Quantos mortais teriam tido a felicidade de ganhar um ano em uma noite?

Em comemoração ao ganho inesperado, brindou com um Dão. Seriam talvez onze horas da noite quando deixou a Brasileira, rumo ao Rossio. Frente ao Pic-nic, parou. Transeuntes conversavam na noite cálida, havia algo de familiar na rua e no café, parecia estar na Rua da Praia. Se Dalmácio pensasse em degustar um cafezinho, por certo escolheria o Pic-nic. Entrou.

Levantava a bica aos lábios quando, sorridente e cachimbando, ele o olhou divertido. Virou as costas, já cometera não poucas gafes confundindo desconhecidos com o Poeta. Sentiu então um abraço afetuoso envolvendo-lhe os ombros. Não havia mais margem a erros. Abraçaram-se demoradamente, qual homem e mulher que há muito não se vêem, para espanto dos lisboetas que os cercavam, ambos com os dentes cerrados para não chorar.

 

Vinha do Brasil, Dalmácio. Cristiano o imaginava na Alemanha. Vinha do Brasil e voltava à Alemanha. Que fizera na terra dos Deutschen?

— Trabalhei em jornal.

E antes que Cristiano o gozasse, ajuntou:

— Eu entregava jornais, na madrugada.

No espírito de Cristiano saltara um tigre adormecido, aquele ímpeto que tão antipático o tornava, o de cair em cima de qualquer frase que soasse falsa. O tigre despertara e mal arreganhara as garras, ante a brutal confissão de fracasso, voltara a embainhá-las, envergonhado. Quando acabaria com aquela maldita mania de cobrar de todos toda a verdade?

Percorriam agora a rua da Baixa, repisavam os passos de Pessoa, silentes. Dalmácio, o lacônico, falava pelos cotovelos, as palavras lhe vinham aos chorros, nele se via o homem de muitas vivências que passara longo tempo sem falar com amigos. Foi vomitando. Em poucas semanas de Alemanha, seus míseros dólares haviam-se evolado. Fizera um curso intensivo de alemão, não encontrara um só estrangeiro com quem falar, os colegas eram todos imigrantes desesperados em busca de moeda mais forte. Pelo menos lhe haviam servido de ponte quando a fome começara a roer-lhe as entranhas. Um turco lhe indicara um bico, colher o lixo de um hospital, e durante meses subsistiu carregando fetos, tripas e cânceres.

Até o dia em que, sem poder conter-se, esperou em um corredor a chefe do serviço e lambuzou-lhe o rosto de placenta. “É bom pra pele”, dizia, enquanto lhe esfregava os restos sangrentos pelo pescoço e seios, a alemoa perplexa perdera a voz, “sirva-se, não precisa mais importar cosméticos”, por certo nenhum ser primitivo do Terceiro Mundo jamais ousara tratar assim sua cútis. Logo conseguiu emprego mais bem pago, lavar cadáveres em uma morgue. Do salário não podia se queixar, ganhava mil vezes mais por cadáver lavado do que por um poema entregue à Deusa Shiva, mas não era exatamente aquilo que fora buscar no país de Nietzsche, Hölderlin, Kleist.

Sempre através de contatos com imigrantes, encontrou algo mais limpo, se assim podia dizer, um bico como servente de obras na construção do Olympiahalle, a todo momento lembrava Vinicius de Morais empinando seu uísque e louvando a vida operária, “era ele que erguia casas, onde antes só havia chão”, e para espanto de turcos e iugoslavos e árabes, a cada vez que os encontrava, repetia monocordicamente o poema, em brasileiro, bem entendido, e os pobres diabos que erguiam as casas dos olímpicos europeus julgavam tratar-se de uma prece qualquer.

— Fomos enganados pelos poetas, Cristiano. Nos jogaram nos braços do operariado, mas iam dormir com a burguesia.

Mais tarde, conseguira algo pelo menos mais leve, entregava nas madrugadas brancas de neve o “Süddeutsche Zeitung”, o jornal fazia defesa incondicional dos pobres do Terceiro Mundo, a ponto de dar-se ao luxo de ter como entregador um intelectual brasileiro. Dalmácio falava com uma fúria contida, calmo e sem mudar de tom, as palavras pingando revolta.

O poeta quebrara pedras e comera fogo na terra dos poetas e para lá queria voltar. Cristiano não entendia. Dalmácio falava rápido e aos borbotões, parecia sentir o tempo curto e nele precisava encaixar o máximo de suas descobertas. Interrompendo a fala apenas para chupar o cachimbo, desembuchava:

— Não sei se te deste conta de uma coisa. Acho que não. Vivemos tão dentro de nós mesmos que não conseguimos nos ver. Percebeste algum dia que raramente entramos numa casa de família? E não é por falta de convite. E se entramos, ficar uma hora entre as pessoas ditas normais é paras nós uma tortura. Te perguntaste um dia qual é a nossa geografia? Nós vivemos em ruas, bares, trens, bibliotecas. Se temos quatro paredes, nelas só entramos para trepar ou dormir, tudo que se assemelha a um lar nos horripila. Já deves ter sentido isto.

Pretenderia o Poeta ensinar o padre a rezar missa?

— Até aí, nada de novo. Passo a uma segunda pergunta. Já imaginaste um psicólogo, psiquiatra ou psicanalista, enfim, um desses psicanalhas qualquer, nos interrogando? Clinicamente, somos loucos, não acreditamos em ficção nenhuma daquelas que fundamentam a sociedade. Não temos filhos, não temos esposas, nem casa própria nem cartão de crédito. Nem rádio, nem TV, nem automóvel. Nosso patrimônio é afetivo, dois ou três amigos, uma ou duas mulheres mais queridas, outras tantas nem tanto, livros e vivências, enfim, coisas sem valor algum em uma sociedade que cultua posses e aparências. Tampouco somos hippies ou clochards. Vivemos numa faixa de marginalidade própria, entre o stablishment e os marginais propriamente ditos. Somos embaraçosos ao Estado e sequer possuímos o charme dos mendigos. E se os mendigos, de um modo geral, perderam o senso de dignidade, nós ainda o conservamos, seja para não pedir pão ou sinecuras. Somos daquela estirpe que Platão expulsou de sua República. O Estado só nos dá colher de chá se renunciarmos ao que nos é mais caro, a revolta.

Caminhavam por ruelas sem nome, os passos chiavam na noite silente. Cristiano não queria olhar para Dalmácio, tinha a impressão de que ele chorava. Se a Alemanha o tratara tão mal, porque voltava?

Cristiano evitava a pergunta, seria mais ou menos como perguntar a um alcoólatra por suas razões de beber. Se perguntasse, talvez não ouvisse resposta. Dalmácio parecia padecer de um orgulho empedernido, talvez não fosse exagero formulá-lo mais ou menos assim: “se o Brasil não me quer, azar do Brasil”. Uma editora lhe oferecera eventuais traduções do alemão, pagas a preço humilhante, uma monoglota qualquer recebia cinco vezes mais para datilografar uma página. E sem que Cristiano cobrasse, o Poeta foi largando suas razões de revolta. Na Alemanha, as perspectivas não seriam melhor do que haviam sido, mas em sua mágoa havia um desejo de punir o país que não o respeitava.

Cristiano ponderava que afinal nem todas as portas haviam sido procuradas. Que autor inédito não podia esperar que o editor o fosse procurar em seu quarto pobre. Que tinha de pôr a cabeça para fora, para que o vissem. Mas o teimoso e esquálido interlocutor não se deixava convencer. Sentia-se por demais para mendigar eventuais publicações de poemas em suplementos e tinha vergonha de financiar uma edição. Emprego público? Teria de pedir, e detestava pedir, sem falar que abominava a raça dos funcionários, o avanço na carreira dependia da flexibilidade da espinha. Um ex-colega quisera contratá-lo como redator de publicidade, “tens um bom texto e senso da palavra, sem falar no curso de filosofia”. De novo, a humilhação. Solicitavam-no, nada mais nada menos, a utilizar seus conhecimentos de Platão ou Shakespeare para vender eletrodomésticos. Via-se em um beco sem saída.

— Conheces aquelas famílias que adoram educar os filhos lendo Shakespeare, ouvindo Mozart, Vivaldi? Claro que conheces. Pois bem, se um filho inventa de fazer teatro ou piano, os solenes imbecis arrancam os cabelos, as mães olham-se ao espelho e choram, que foi que eu fiz para ter um filho assim? E assim somos tratados. Poeta bom é poeta morto. Nosso amigo, o Pessoa, certamente sentiu até o fundo esta tragédia, não terá sido por acaso que morreu de cirrose. Hoje, morto e sepultado, é gênio. Vivo, era insuportável para sua época. Duvido que os lisboetas vissem nele algo mais do que um beberrão.

Cristiano aventou uma objeção. Dalmácio tinha consciência do tributo a ser pago. Ou não tinha?

— Tenho. Mas o problema é outro.

— Qual?

— Há países que apostam em seus criadores. Acho que os europeus alcançaram isto. Meu calvário em Munique não invalida isto, afinal cheguei lá pela porta dos fundos. Jamais publiquei algo, só tinha a oferecer meus braços, este foi meu erro. Mas reflete bem sobre nossa situação, gaúchos de Porto Alegre. Sequer somos considerados brasileiros. Se alguém escreve no Rio ou São Paulo, é escritor nacional. Se publicamos em Porto Alegre, somos escritores de província. Somos Terceiro Mundo de Terceiro Mundo. Vê o Mário Quintana. Só passaram a considerá-lo poeta após mais de meio século de poetar. Qual é o homem de trinta anos que faz projeto para os setenta?

Não seria Cristiano a negar-lhe razão.

— Tentei trabalhar por lá antes de voltar à Europa. A universidade me rechaçou. Conheces o lema atribuído à universidade da Basiléia? Tinha três vias de acesso: per bucam, per anum, per vaginam. As universidades brasileiras em nada diferem dela, pertencem a castas. Tentei jornalismo. Me cortaram, hoje só é jornalista o analfabeto egresso de um curso de jornalismo. Só no Brasil mesmo, essa exigência não existe em lugar nenhum do mundo. Sabes quem está bem de vida e famoso? Nosso amigo Deusa Shiva. De crítico de artes virou cronista de futebol.

A frase caiu pesada naquela noite quente em Lisboa. Soderman? O que nos acusava de fugir à luta?

— É! No fundo, não o condeno. Ganhava doze pilas para escrever um ensaio literário, hoje ganha milhões para escrever boçalidades em torno à unha quebrada de um analfabeto qualquer.

Soderman fizera ao poeta a proposta obscena, começar como redator de esportes, “tu tens curso de Filosofia, poderias dar um bom comentarista de futebol”. No fundo queria gabar a si mesmo, Soderman também passara, a vol d’oiseau, pela Filosofia, o que lhe permitira em uma locução falar em gol metapsíquico, o que não queria dizer nada, mas deixava o povão boquiaberto. Quanto ao registro como jornalista, dava-se um jeito, que se matriculasse em Comunicações, era pegar ou largar.

Dalmácio sequer se dignara à menor ironia, o diálogo fora definitivamente rompido. O convite o apavorava. Chegara-se a um ponto no Brasil em que fora impingida a idéia de que para comentar futebol era exigida cultura superior.

— Se mantivesse uma postura cínica, tipo “ganhando bem que mal tem?”, ele até contaria com meu apoio. Mas o pulha se pretende honesto.

O tempo definia os homens. Cristiano tentava imaginar o intelectual que tecia sutis considerações sobre “O Ser e o Nada”, tecendo vazios comentários sobre futebol, isto é, sobre nada.

— É um ganha-pão como qualquer outro — continuou Dalmácio —. Temos de convir que não é crime ser comentarista de futebol.

Crime não era, disso Cristiano estava consciente. Mas não o considerava ofício adequado a um homem que se pretendesse íntegro.

— É. Mas há piores. Há quem seja publicitário e continue se apresentando como homem de esquerda.

A frase encerrou por algum tempo a cadeia de reflexões. O que mais dissessem em torno ao assunto, seria tautológico. Sem saber como, encontraram-se de repente na Avenida da Liberdade, frente ao Paladium. Teriasm caminhado em círculos.

— Cafezinho, para encerrar? — sugeriu Dalmácio.

— Uma bica, queres dizer?

Haviam esquecido que estavam em Lisboa. Pois em verdade estavam em Porto Alegre, ou Porto Alegres estava neles. O fato de se descobrirem na Avenida da Liberdade parecia ser uma vulgar ilusão dos sentidos. Ao erguer a taça, Cristiano sentiu fixo em sua mão o olhar do Poeta. Que havia?

— Eu é que te pergunto — reagiu Dalmácio. — Te observo desde o Pic-nic. Tua mão está tremendo.

Estava mesmo. Desde o dia anterior, tentara ignorar o fato, mas não conseguia escondê-lo a si mesmo. O que era pior, um tique nervoso começara a invadir-lhe a pálpebra do olho esquerdo.

 

Mas os dias em Lisboa não eram exatamente propícios a angústias existenciais. As esquerdas portuguesas haviam descoberto os delírios da Revolução e tudo estava impregnado de nobres propósitos sociais. Foi ver um filme de Lelouch, “Toute une Vie”, e nas legendas finais anunciava-se: “Este filme acabou de ser rodado no dia 23 de abril de 1974, dois dias antes do movimento antifascista em Portugal”. Pensou rever Alexandre Nevski mas desistiu, o cineclube anunciava o grande cineasta antifascista Eisentein, quando o homem sequer tivera tempo de ser antifascista, morrera antes da emersão de Mussolini. Dalmácio tentar publicar alguns poemas elaborados sofridamente na Alemanha, talvez os portugueses lhe fossem mais propícios do que os brasileiros, mas já o primeiro editor consultado despiu-o de qualquer ilusão:

— Depois da Revolução dos Cravos, em Portugal só se publica P & P.

— P & P?

— Exato. Política & Putaria.

Nos quiosques, Cassandra Rios e Harold Robbins posavam orgulhosamente ao lado de Marx, Trotski ou Che Guevara. Mesmo nas tascas o clima era tenso, a costumeira bonomia dos lusos era substituída por duras lembranças de guerra. No Palladium, bêbado, um oficial berrava, as lágrimas lhe rolando sem muita cerimônia pela face:

— Combati na África. Combati e matei muitos gajos. Como soldado, obedecia ordens e defendia os interesses de Portugal. Matei muita gente, estava lá para isso. E agora, cá em Lisboa, gajos que nunca arriscaram a pele, me acusam de fascista. Se me recusasse a combater na África, teria de fugir do país. Ou ir para a prisão.

Os dias passavam e o que antes era um ligeiro tremor na mão esquerda de Cristiano passou a contaminar-lhe face, lábios, pernas, os próprios peitorais, mas sempre do lado esquerdo. Delirium tremens não podia ser, seria tudo menos delirium, que em estado de carência alcoólica não estava, muito antes pelo contrário.

Os fados haviam sido banidos de Lisboa, tanto Pessoa quanto Amália Rodrigues eram agora fascistas. (Lembrava Deusa Shiva, solene, acusando Visconti de decadente). Ouvia-se, mesmo sem se querer ouvir, as pérolas revolucionárias:

Operários, camponeses, hão-de um dia
arrebatar o poder à burguesia.
Abaixo a exploração!
Pelo pão de cada dia!
Pois claro!

Pela terra que nos rouba essa canalha
dos monopólios e grandes proprietários.
Camponeses, lutem pela reforma agrária
para dar a terra àquele que a trabalha.
Reforma agrária faremos!
A terra a quem trabalha!
Pois claro!

E tudo aquilo em sotaque luso! Cristiano ria sozinho pelas ruas de Lisboa. Dalmácio, por sua vez, partia. Não imaginava que o Poeta partia para nunca mais.

O hemisfério esquerdo todo tremendo. Dalmácio lhe sugerira uma boa massagem, serias talvez tensão nervosa. Cristiano procurou uma sauna, os deuses do Acaso o jogaram nas manoplas de Mão-de-Pilão, um gigante negro que não só vivera em Porto Alegre, como fora massagista de um time gaúcho. Evocações da Rua da Praia, que fazia aquele brilhante cronista de futebol, o Soderman?, enquanto dois bíceps descomunais lhe trituravam as costelas.

Ó Deus, Ó Deus, exclamava-se Cristiano, quando vou me libertar do país do futebol? Mas os tremores continuavam. Procurava esconder-se no hotel, passara a sair apenas à noite, pelo menos lhe restava a mão direita para erguer um copo sem dar vexame. Já pensava em procurar um médico, quando qualquer intuição lá no fundo de si mesmo o levou a telefonar para Clotilde. Do outro lado do oceano, duas palavras sem predicado algum lhe disseram tudo:

— Teu pai...

— Já sei — conta as outras novidades que dessa eu já sei.

Posto o fone no gancho, chorou convulsivamente alguns minutos. Não mais tremia.

No porto, atracara o Eugenio C.


 

 

3. NO PARAÍSO

 

No dia 7 de setembro de 1972, Cristiano jantava com Lena-Lena no Fem Sma Hus. Ela chamava-se apenas Lena, mas com sua mania de rebatizar as gentes, ele a chamava de Lena-Lena. Len, em sueco, era doce, adjetivo, e passara a chamá-la de min lena Lena, minha doce Lena. Passara não poucos meses desejando aquele momento, sentia-se finalmente aceito como ser humano. Recusara-se a pagar profissionais, logo ele, o putanheiro militante. Não queria comprar, queria ganhar, não se sentiria em casa enquanto não possuísse uma sueca.

Tivera, é verdade, algumas colegas de aula, entre as russas, polacas, gregas, iugoslavas e finlandesas que pediam entrada no paraíso, fascinava-o ouvir orgasmos nas mais diversas línguas, mas lhe faltava a única que desejava e que se lhe fugia, a sueca. Segundo outros latinos, na década de 60 a luta era menos árdua, estrangeiro era raridade no país e as adoráveis louras nórdicas os caçavam com gula. Com o aumento da imigração, estrangeiro não só passara a ser rotina como ainda constituía um peso morto à assistência social, sem falar nos que engravidavam as adoráveis louras apenas para conseguir cidadania no céu e fugir à miséria de seus países.

Na década dos 70, justo aquela em que lá chegara, estrangeiro já estava em baixa. Havia as adolescentes da T-Centralen, por alguns gramas de haxixe entregavam-se a quem os fornecesse, com a nonchalance de quem agradece uma gentileza. Mas ele buscava uma mulher que o aceitasse como igual, sem álcool, sem haxixe nem paga. Na universidade — onde fora estudar cinema, para de alguma forma justificar a si mesmo e ao serviço de imigração sua estada no país — lá encontrara Lena.

Uma certa decepção ao ouvir seu nome, Lena soava por demais latino, bem que preferiria uma Ingrid, Ulla ou Gudrun, mas naquela altura não podia mais dar-se ao luxo de escolher parceira em função do exotismo do nome. Rebatizou-a Lena-Lena, e ela agora ali estava, na atmosfera macia e aconchegante do Fem Sma Hus, olhos azuis imensos, cabelo louro e quase rente à cabeça, nuca nua pedindo afagos, o rosto todo transfigurado pela levande ljus, ela adorava luz viva e Cristiano passara até mesmo a perguntar-se se conseguiria um dia voltar a comer ou beber com luz elétrica. Lena-Lena, que por vezes ficava bons quartos de hora absorta em uma chama que se contorcia, tinha uma lareira em seu pequeno apartamento e muitas noites conversaram nus, aquecidos pelas chamas, pela carne e pela akvavit.

Mas naquele Sete de Setembro — e por isso lembrava a data — Lena-Lena trazia novas que o faziam retornar a um passado do qual fugia. Já haviam jantado, quando ela puxa da sacola um Expressen. Abriu as páginas centrais. À esquerda, em foto que ocupava uma página toda, uma mulher de rosto aterrorizado, língua de fora, nua, pendia de um pau-de-arara. À direita, a manchete:

DETTA ÄR TORTUR!

Cristiano não precisava daquelas garrafais nem daquele ponto de exclamação para saber que aquilo era tortura. Mas algo o intrigava. Foto daquelas, assim tão expressiva e teatral, por certo não teria saído dos porões de tortura. Vinha assinada por Günes Karaboudas.

— Claro que não! — disse Lena —. A foto é posada. Mas isso acontece lá no Brasil, não?

De fato, acontecia. Cristiano apanhou o jornal, passou a ler a reportagem de Hammarberg.

HOJE O BRASIL COMPLETA 150 ANOS
E GABA-SE DE SEU DESENVOLVIMENTO
— MAS SILENCIA SOBRE A TORTURA

Hammarberg fazia um paralelo entre o crescimento econômico do país nos últimos anos e o aumento das maiorias marginalizadas, concordava com a afirmação de que o Brasil estava por tornar-se o maior poder latino-americano e acusava o regime militar de suas pretensões de expansão econômica rumo ao Uruguai e Bolívia e de colocar na prisão doze mil pessoas, em nome da segurança nacional. Comentava ainda as famosas leis secretas. Que brasileiros podiam ser presos por crimes contra leis que, por definição, não podiam ser conhecidas: “nem mesmo Papadopoulos na Grécia ou Vorster na África do Sul chegaram a tais requintes”. Terminava o artigo mencionando aquele contributo brasileiro à técnica de torturas, den sa kallade papegojpinnen, o pau-de-arara. Descrevia a nova técnica tupiniquim, o que para Cristiano era redundância. Entregou o jornal a Lena.

Det är det! — exclamou, lacônico, tentando expressar em sueco o brasileiríssimo “é isso aí!” Não tinha procuração alguma para defender seu país, aliás saíra de lá para nunca mais voltar. Para nunca mais voltar? A verdade é que era duro não poder afirmar: “não é nada disso, não. Essas coisas são ficções de jornalistas”.

 

Não saberia precisamente quando começara sua desilusão com o paraíso. Relendo antigas cartas, Cristiano observava como, aos poucos, fora se desintegrando a imagem de país ideal. Primeiro, descobrira brutalmente a realidade do imigrante. Quase todos seus colegas de aulas de sueco aprendiam dois meses de idioma para depois trabalhar em cozinhas de hotéis ou restaurantes, quando não na construção civil ou limpeza de ruas. Aquele ar de eterna festa do paraíso dependia do suor e da humilhação de estrangeiros famintos. Por outro lado, ninguém os chamava à Suécia, todos vinham espontaneamente, chegavam mesmo a pagar somas consideráveis para atravessar ilegalmente a fronteira. Para depois viverem isolados em uma sociedade fria e hostil, prisioneiros do idioma e da cultura.

Um filme — sempre o cinema — jogou-lhe na cara, com brutalidade, o absurdo mundo em que vivia: “O Ônibus”, de Bay Okan. Lembrava “Eu me chamo Stellios”, de Bergenstrale, e o fazia voltar com amargura aos dias em que bastia pernas, só, mortalmente só, pela Sergeltorget.

Um grupo de operários turcos, guiados por um chofer de ônibus, também turco, são jogados na T-Centralen, sem dinheiro nem documentos. Amedrontados com o país estranho e hostil, os imigrantes fecham as cortinas do ônibus e se escondem. A vida continua em plena T-Centralen, o centro nervoso de Estocolmo, os suecos vão e vêm rumo a seus lazeres e trabalhos, os adolescentes filhos da sociedade do bem-estar curtem suas cervejas mornas e aguadas ou drogas, perambulando sem rumo pelos subterrâneos da central de metrô. Um policial, julgando insólito um ônibus estacionado naquele largo, cola uma multa no pára-brisa. Bay-Okan pusera parte de sua história em uma quarta-feira, dia em que os estocolmenses, na Sergel Torget, discutem acirradamente as injustiças cometidas em lugares longínquos do globo, já que na Suécia não ocorrem injustiças. A poucos metros das esquerdas preocupadas com a tortura no hemisfério sul, os turcos esperam, enregelados, o chofer que naquele momento gastava suas economias com duas prostitutas em Hamburgo.

O cineasta situara sua história no inverno, quando a noite desce fria e sepulcral em Estocolmo. T-Centralen está deserta e os turcos ousam sair do ônibus em busca de um mictório. Numa cabina telefônica um casal de adolescentes se trata, seus gemidos reboam pelas paredes desertas do subterrâneo. Na toalete, um dos turcos recebe um primeiro gesto de simpatia de um espécime do tunnelbanafolk, povo dos metrôs, é um dos párias das sociedade de abundância que lhe pede um pouco de haxixe.

Desfile sinistro dos imigrantes pela paisagem vítrea da Sergeltorget. Lojas de moda, agências de turismo, sexshops, manequins lúgubres que se oferecem estáticos ao espanto dos imigrantes. Um deles se perde do grupo, berrará em vão correndo pelos geométricos e frios desenhos de Sergeltorget. Não mais encontra o ônibus, que no entanto está ali, a poucos metros de seu desespero. Amanhece a quinta-feira, os estocolmenses dirigem-se tranqüilos a seus trabalhos, sem sequer dignar-se a olhar para aquela cariátide de carne enregelada a poucos centímetros de seus narizes. A carne enregelada desequilibra-se e cai num dos canais do arquipélago. A crosta hibernal abre-se para recebê-la e de novo se fecha. No ônibus, continuam os turcos esperando o guia, que nesta altura teve seus últimos roubados na espelunca de Hamburgo.

Na T-Centralen, que tantas vezes Cristiano atravessara em cusca de companhia na Kulturhuset, Maria Enmans Orchester, a Maria-orquestra-de-um-homem-só entretinha os bêbados com seus cânticos religiosos. No ônibus, ao lado de Maria, os imigrantes famintos continuam à espera. À noite, nova incursão aos mictórios, onde um turco recebe mais um gesto de solidariedade: um homossexual o convida para um sexparty. Enquanto um casal trepa num estrado, o turco, que não pode mais conter-se, passa a mão no filé de uma mesa próxima. É um bárbaro, um porco, não sabe comportar-se em sociedade. É enxotado e espancado até a morte.

O ônibus acaba por intrigar os policiais que rondam T-Centralen. Um guincho o reboca até uma delegacia, onde um policial descobre surpreso que dentro dele havia seres humanos, seres que se encolhem como bichos assustados quando a porta é aberta. Do ônibus são levados para o cárcere. Acabou a viagem e com ela o sonho.

Era um filme. Uma ficção. Mas não podia deixar de sentir-se mortalmente ridículo. Tudo agora se tornava claro. Todo aquele bem-estar, toda aquela assepsia, todo aquele standard, tudo dependia da exploração e humilhação dos pobres diabos do Terceiro Mundo. Julgava-se adulto em seus 25 anos e continuava sendo o mesmo ingênuo atroz dos dezessete ou dezoito.

Mas a gota d’água nada tivera a ver com os desníveis sociais do paraíso. Ao fugir do Brasil, estava fugindo da incultura, da mediocridade empoleirada em altos cargos, e sua primeira impressão da Suécia foi de que ali não havia lugar para picaretagens culturais. Lembrava de uma carta escrita a Soderman após uma visita ao Museu de Arte Moderna, observara que naquelas plagas até a empulhação de vanguarda mantinha um nível estético mínimo. Pouco durou seu otimismo. Ao chegar, alojara-se precisamente na residência da “artista” que lhe espanaria do cérebro os últimos mitos alimentados durante anos.

Fru K., uma senhora de meia-idade, que morava frente à Karlaplan, foi sua primeira logeuse. Madura e cheia de carnes, prometia belas fodas, mas Cristiano não queria envolvimentos com a hospedeira. Fora bailarina — “dancei nos palcos como tenho dançado na vida” —, atriz e agora se dedicava à pintura. Tão logo se quebrara aquela quase gélida cortesia com que os superiores seres do Norte tratam os inferiores homens do Sul, Fru K. começou a falar de sua vida e passou a mostrar-lhe sua produção, dezenas de quadros sempre em torno da praça, era Karlaplan no inverno, Karlaplan com neve, Karlaplan com flores, Karlaplan deserta, Karlaplan com gente e Cristiano achou-os todos lindos, não iria manifestar seu horror ante os quadros da anfitriã.

Para uma senhora na menopausa, nada melhor como laborterapia. Assim que não entendeu muito bem quando a casa começou a ser invadida por fotógrafos, jornalistas e cinematografistas. Alguns dias mais tarde, Fru K. o convidava para seu vernissage, iria finalmente estrear como pintora. Boquiaberto, Cristiano não sabia se ria ou agradecia. Aquilo tudo não era então mera laborterapia? Destinavam-se a uma exposição? E um mal-estar interior, cujas razões mal intuía, o invadiu irremediavelmente. Seria Estocolmo uma versão melhorada de Porto Alegre? Uma imensa tertúlia à la Eva Sopher? Pior ainda foi quando. Com ar misterioso, a coroa pediu-lhe que, ao voltar da universidade, lhe trouxesse um Dagens Nyheter. E lá estava, em rodapé de primeira página, em cinco colunas, a manchete:

K., KONSTNÄRINA MED MANGA TALANGER

Artista com muitos talentos, então? Mesmo naquele país, naquela capital aparentemente culta e cosmopolita, mediocridade era manchete? E no mais importante jornal do país? A estupidez era então universal?

 

— Profissão?

— Jornalista.

— Nacionalidade?

— Brasileira.

— Ah! Então o senhor quer asilo político?

Oh não, jag ska tacka nej, como pode muito bem ver Herr Konstapel, nesse formulário peço apenas uma permissão de estada, agradeço a generosa oferta, que aliás é pertinente. Meu país vive uma ditadura, sei disso, os dias não são os melhores para quem pensa e escreve o que pensa. Mas antes de fugir de ditaduras, Herr Konstapel, estou fugindo do país todo, fujo exatamente daquilo que para vossos patrícios é sinônimo de charme e exotismo, fujo do carnaval e do futebol, do samba e da miséria, da indigência mental e da corrupção, quero tirar umas férias do subdesenvolvimento, viver em um território onde o homem sofre os problemas da condição humana e não os da condição animal. Muito antes de os militares tomarem o poder, min Herr, eu já não suportava os civis.

Veja o Sr., meu povo morre de fome e todos sorriem felizes e desdentados quando um time de futebol bate outro, se bem que a coisa não é assim tão tétrica como a pinto, veja bem, lá também existe luxo, requinte, hotéis que talvez fizessem inveja aos de vosso rico país, mansões de sonho isoladas da miséria que as envolve por arames farpados, guardas e cães, há cronistas sociais que acendem charutos com notas de cem dólares e homens catando no lixo restos de podridão para comer. E não fujo só do Brasil, Sr. Policial Superdesenvolvido, fujo também de minha condição de jornalista, pertenço a uma classe que se pretende de esquerda e entorpece multidões com doses cavalares de ... futebol.

Em minha cidade — não sei se o chateio com estes dados — há questão de uma década um sociólogo calculou em trinta mil o número de prostitutas, só não sei se havia repertoriado em suas estatísticas meus colegas de ofício. Penso até mesmo que a profissional de calçada tem mais dignidade, ela aluga por instantes o corpo, mantendo o espírito livre, enquanto nós vendemos corpo, alma e opiniões, o mais livre dos jornalistas não é livre coisa alguma, o jornal pertence ao chefe, nossos pensamentos também, os mais nobres ele os joga na cesta de lixo, publica os lugares comuns humanísticos na página dos editoriais e posa de liberal. Sim, sei que isto não vem caso neste pedido de permissão de estada, bosätningstillstand como dizem os senhores, é que para expor minhas razões tenho de dar-lhe uma idéia do Brasil, pretensão aliás inviável, já que nem eu entendo aquele país.

Foi lá pelos amos 60, Herr Konstapel, nos carros e vitrines lia-se

AME-O OU DEIXE-O!

Love it or leave it?

Exato, isso mesmo, estávamos copiando vilmente os macartismos ianques, nem em matéria de totalitarismo somos originais. Tomei a coisa como indireta, fiz as malas e deixei-o. Nada nem ninguém me obrigava a sair, senão minha íntima disposição de trocar a barbárie pela civilização. Trouxe de meu apenas um livrinho, o Sr. quer ver?

Mão, não é nenhum tratado do Marighela, aliás o manual de guerrilha urbana dele está aí nas livrarias, em sueco mesmo, talvez como insinuação aos jovens Svenssons que um dia pretendam rebelar-se contra esta tirânica social-democracia que financia até mesmo sua própria contestação, não, não é nada disso, são os poemas de Fernando Pessoa, não sei se o conhece, em caso negativo é uma pena, Pessoa é um grande poeta, até mesmo Herr Konstapel há de convir. Sei, os senhores deixam bíblias nos quartos de hotel para homens solitários, mas bíblias me dizem cada vez menos, min Herr, e que mais não seja me reservo o direito de escolher as minhas. Zanzei de sul a norte por este continente, Sr. Policial Poliglota, já que não pretendia voltar a meus pagos queria saber onde seria melhor ficar. Talvez o paraíso não exista, li em algum lugar, mas a Suécia era sua mais perfeita aproximação. Vamos pois ficar perto do paraíso.

Não, Herr Konstapel, não quero asilo político. Saí de meu país pela porta da frente, jamais lutei contra o regime, pelo simples fato de jamais tê-lo aceito. Não pertenço nem pertenci a igrejas políticas ou ideológicas e como sozinho não poderia mudar regime algum, mudei de país. Concordo que se exige uma certa coragem para lutar contra um exército, mas mais coragem é preciso, e nisso Her Konstapel mais uma vez há de convir, para falar de si mesmo. Lutando contra o obscurantismo empunhamos um ideal nobre, em todo e qualquer lugar do mundo alguém nos dará apoio, o senhor mesmo não está sendo tão solícito em me oferecer asilo?

Falar de si mesmo não comove International Amnesty nenhuma, a menos que o assunto seja tortura. Angústias existenciais não catalisam movimentos de opinião, e ainda passamos por narcisos. Não quero, repito, asilo político. Sua Generosidade pode reservar esta cota do humanismo sueco ao que dela realmente precisam. Eu peço muito mais, quero asilo cultural e espiritual, não estou fugindo do DOPS ou SNI, quero é fugir de meu país e de meu passado, não consigo mais respirar em um território, ainda que imenso, onde um analfabeto que chuta uma bola ganha milhões e um pesquisador tem de fazer bicos para comprar livros, quero fugir dos jornais que fazem uma tragédia em torno à unha quebrada de não sei qual vedete de não sei qual time, enquanto clero e governo se locupletam às custas de uma massa faminta.

Quero fugir dos negros, Herr Konstapel, sim, dos negros, não é que tenha preconceitos, aliás fujo também dos brancos, refiro-me a pretos e brancos que passam fome o ano todo para comprar lantejoulas e paetês que ostentarão por alguns dias de carnaval onde cantam as saudades de um império que os escravizava, quero deixar para bem longe de mim, quero enterrar para sempre aquele imenso bordel gerido por canalhas, e se fossem apenas canalhas não era nada, é que além de canalhas são incompetentes, não sei se o Sr. entende as razões que me trouxeram a humildemente pedir acolhida em vosso paraíso.

If you have money, you are welcome!

Quanto a isto não se preocupe, Sr. Controlador do Frágil Equilíbrio do Mercado de Trabalho, essa frase já ouvi, se jamais lavei pratos para meus patrícios, se nem mesmo como em casa para não ter de lavar o que sujo, não serão os Svenssons que terão os seus pratos limpos por minhas mãos. Não pertenço à Confraria Internacional dos lavadores de pratos, e não por preconceitos quanto a trabalhar com as mãos, nada disso, em minha infância mãos sem calos sempre foi estigma de vergonha. Mão de vigarista, dizia Canário, quando via uma mão de pele fina e bem tratada, assim como as suas ou as minhas.

Herr Konstapel jamais ouviu falar de Canário? Claro que não. Pois é um homem admirável, lhe asseguro, ainda não disse isso a ele, mas um dia talvez volte à minha terra só para fazer isto. Mas, voltando aos pratos, penso que vosso reino, min Herr, tem algo melhor a oferecer-me do que o nobre ofício de diskare, e não vai nenhuma ironia neste nobre, todo trabalho dignifica, sei disso, e se os suecos se recusam a lavar o que sujam não será por preconceito, certamente, mas talvez porque iugoslavos e turcos e árabes e latinos têm vocação inata para o ofício, senão jamais viriam buscar vossas divisas.

Neste meu giro pela Europa, e nestes poucos meses que vivi em vosso país, fiz observações rápidas, é verdade, mas creio que pertinentes, sobre os grandes destinos das nações. Noto que os austeros e dignos homens do Norte são desde o berço inclinados às ciências e às artes. Já os homens do Sul parecem sentir-se mais à vontade empunhando uma britadeira ou limpando as ruas das bostas de vossos cães. Não poderíamos conceber, e nisto mais uma vez há de convir Herr Konstapel, um Svensson da gema lavando pratos para iugoslavos ou marroquinos, não que estes seres do Sul não mereçam comer em pratos limpos, nada disso, mas os homens do Norte são antes de tudo atraídos pelas preocupações maiores do espírito e como também desde o berço sou inclinado a tais abstrações, Herr Konstapel pode ficar tranqüilo, não estou aqui para perder meu tempo lavando vossa louças, nem clandestina nem legalmente, no dia em que sentir fome junto meus trapos e vou passar fome junto aos meus.

 

Estava já há cinco meses em Estocolmo. Se nos primeiros dias tivera a impressão de ter chegado em Plutão, aquela região do planeta parecia agora assemelhar-se à Terra, uma Terra inchada de cio e prestes a explodir em um orgamso estival. Havia deixado para trás, com um oceano de permeio, toda aquela fauna abjeta de mendigos, indigentes e aleijões que infestavam as ruas imundas das cidades que abandonara. Na capital européia de mais alto padrão de vida, seu único contato com a América Latina era alguma reportagem do Time ou L’Express, Nouvel Obs ou Monde. Via como algo distante, totalmente alheio a seu passado, os relatos irônicos dos comentaristas internacionais sobre os golpes e contragolpes, convulsões e fuzilamentos, carnaval e futebol, miséria e ostentação.

No Chile, generais haviam libertado a pátria dos tentáculos da hidra vermelha, a Bolívia estaria no 108º golpe. Ou 180º? A diferença não fazia diferença alguma. No Paraguai, mais um criminoso de guerra havia sido descoberto por um caçador de nazistas. Na Argentina, a nação toda chorava a morte de Perón, no Brasil um povo inteiro estava de luto por ter perdido uma partida de futebol para a Holanda. Perdera o título de campeão mundial de futebol, mas não havia há pouco conquistado o primeiro lugar no mundo em desastres de automóveis? Viadutos continuavam caindo regularmente no Rio, arranha-céus queimando em São Paulo, a seca matando no nordeste, as enchentes no sul. Em Recife, alguém descobrira um modo eficaz de ganhar seu pão: cortava o corpo com uma lâmina desde que lhe jogassem dinheiro. O corpo sangrava, as moedas choviam.

Nos ombros lhe pesava a vergonha de um continente inteiro.

Cinco meses de solidão quase total, numa cidade que parecia situar-se em outro planeta que não a Terra. Chegara em pleno inverno, de uma Porto Alegre de 40 graus, para aterrissar em Arlanda sob menos 20, o dia se resumia a um cinza-escuro carregado, das nove da manhã às quatro da tarde. Sol, só em cartazes de agências de turismo. O contraste brusco o fascinara, na primeira semana achara tudo lindo, o frio seco, a neve caindo em flocos, o céu plúmbeo oprimindo-lhe a cabeça. Já na segunda, o snösörja, aquela neve lamacenta que grudava nos sapatos, passou a irritá-lo, não sentia mais no rosto com o prazer dos primeiros dias as nevadas mais violentas.

Cinco meses sem mulheres nem amigos. Poderia tê-los buscado entre brasileiros, mas recusava-se ao recurso fácil. Estava lá para tomar um banho de civilização, repelia a idéia de conviver com a colônia latina. Fugira do samba, futebol e miséria, não iria aturá-los só por sentir-se solitário. Mas amigos não era a maior carência. Sempre vivera relativamente só, sua viagem fora em parte uma fuga da loquacidade estéril e do maldito espírito de camaradagem e calor humano de um país quente, onde o grande drama não era a solidão, mas sim a possibilidade cada vez mais rara de ficar-se só. Às favas os latinos e suas expansividades. Lembrava Pessoa:

Todo mal do mundo
vem de nos importarmos uns com os outros,
quer para fazer o bem, quer para fazer o mal.
A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos.
Querer mais é perder isto, e ser infeliz.

Os espécimes que encontrara! No primeiro dia, fazendo um reconhecimento na Sergeltorget, ouviu sons familiares em uma esquina. Abraçado em violão, alguém se esganiçava, enregelado, barbudo e com ar faminto. Eu tenho uma nêga chamada Teresa, cantava. Ou melhor, implorava. No chão, um chapéu esperando uma moedinha supérflua dos bolsos mais ricos da Europa. Enfim, não deixava de ser uma forma de difusão da cultura tupiniquim no exterior. Olhou-o de longe, não quis se aproximar temendo ser reconhecido pela roupa ou traços.

Uma semana depois, num supermercado, quando tentava descobrir o que seria leite em meio a pacotes com inscrições em sueco, ouviu duas mulatas do outro lado da gôndola planejando carreteiros e feijoadas. Abordou-as, pediu que lhe mostrassem o que era leite. Abraços, efusões afro-latinas, perguntas, convite para visitas, caipirinhas, trocas de endereços. E ele só queria uma informação. Mania insuportável do brasileiro de mostrar-se amigo quando em terra estranha. Apanhou os endereços, mais por cortesia, nem de longe pensava em visitá-las. Estavam há vários anos na Suécia. Ao chegar em casa, descobriu que lhe haviam indicado iogurte em vez de leite. Ao que tudo indicava, as moças não se haviam interessado muito em aprender o idioma do país onde viviam...

E os outros! Maconheiros que se achavam no paraíso por não existirem proibições ao haxixe, aventureiros (gostava de chamá-los de Lavadores Internacionais de Pratos) que haviam trabalhado nas cozinhas e latrinas de hotéis e restaurantes de todas as capitais da Europa, sempre carregando uma mochila e uma mentira: estou provisoriamente nisto, volto logo para meu curso em Roma, meu estágio na Patrice, para meu doutorado na Sorbonne. No entanto, lavariam pratos até o fim de seus dias, embalados pela ilusão de estar conhecendo a Europa, quando na verdade dela só conheciam os porões, o submundo latino, árabe ou eslavo, que implorava aos europeus as migalhas de suas farturas...

E mais os “revolucionários”. Os exilados de 64, gigolôs da ingenuidade da juventude européia, que planejavam a retomada do poder nos salões da ABF, no bar da Filmhuset, em aconchegantes restaurantes em Gamla Stan ou nos aposentos nada austeros do hotel Anglais.

Não. A tais amigos, preferia estar só. Disto não tinha queixas. Mas o sexo já lhe subia à cabeça. Cinco meses de jejum. Em Estocolmo. Não fosse estar vivendo o drama, não acreditaria. Para seu espanto, as prostitutas lá estavam, eternas e onipresentes. Mas não fugira do Brasil, entre outras coisas, para não ter de pagar mulheres?

Quando fora pedir algumas informações na embaixada, fizera um rápido contato com o porteiro. Esguio, moreno, elegante, físico diariamente exercitado, chamava-se Lira. Dele recebeu algumas informações que lhe economizaram um bom dinheiro e, ao sair, puxou-o à parte:

— E não esquece: órgão sem uso se atrofia. Não te constrange em apelar pra mão. Melhor que ficar brocha.

A frase o acompanhara a tarde toda. Não entendia. Piada? Lira não tinha senso de humor para tanto. Conselho de amigo? Absurdo, estamos na Suécia. Drama pessoal? Certamente. Que sensibilidade teria um boxeador (Lira lutara como peso leve), latino, preconceituoso e inculto, para enfrentar uma sueca, independente e cosmopolita? Coitado do Lira.

Lembrou o sorriso orgásmico de Soderman, o que ficara, enfrentando miséria, mortes e militares. “Ah! Conhecer as suecas... e depois morrer!” Pois cá estamos para conhecê-las.

Vieram-lhe ainda à memória as declarações de uma atriz nórdica, lidas em alguma revista qualquer: “Meu país é escuro e frio. Quando o sol, que raras vezes aparece, cai abruptamente por trás dos fiordes, só nos resta voltar para casa e fazer amor”.

Agora, entendia Lira.

Desistira inclusive de escrever a amigos. Não era dado a mentiras, mas tampouco lhe era fácil escrever que depois de cinco meses na Suécia... nada feito. Mesmo que não tocasse no assunto, as perguntas seriam inevitáveis.

 

Em seus primeiros dias, sentira-se finalmente entre seres humanos. Não mais a fauna caótica e miserável — que não pretendia mais rever — mais pessoas que mantinham a dignidade mesmo na velhice. Todos bem vestidos, sóbrios nas cores, taciturnos, superiores. Sem problemas materiais, seus únicos sofrimentos seriam os da condição humana, pelo menos era o que insinuavam os filmes de Bergman. Sofreriam como homens, não como animais. Policiais, funcionários, garçons, todos bilingües. Pela primeira vez na vida vira um policial sorrir e tratar pessoas com gentileza. Não lhe desagradou não ter encontrado carregador para a bagagem. Como tampouco engraxates. Nem mesmo considerou indelicadeza a insistência de um policial do Invandrareverket em examinar-lhe os cheques de viagem: “If you have money, you are wellcome”.

Pois bem-vindo sou.

Na Central Station, ao fundo do saguão, a palavra SEX, imensa e vermelha, lhe chamara a atenção. Sentiu-se vagamente ludibriado ao chegar mais perto e ler:

LUNCH
SEX
KRONOR

Seis coroas, o lanche. Matuto, caíra na arapuca. Fora sua primeira má impressão do país, logo diluída pelos ônibus que cumpriam horários com precisão de segundos, mulheres dirigindo metrôs, louras oníricas fazendo parte de seu dia-a-dia. O acesso a elas não estaria distante. Seu inglês era sofrível, melhor nada tentar antes de conseguir um domínio pelo menos operacional do sueco.

Em três meses, aprendera o suficiente para comunicar-se eficazmente. Conseguia entender o que ouvia e fazer-se entender. Mas todas suas tentativas de aproximação com mulheres haviam fracassado.

 

A primeira fê-lo sentir-se ridículo até os ossos. Lera em livros e reportagens sobre a Suécia — e não haviam sido poucos os que devorara — que bastava apanhar-se um jornal e procurar nas últimas páginas os classificados sexuais. Com duas semanas de aprendizado, dicionário em punho, deitou-se em cima do Expressen e Aftonbladet. De fato, lá estavam os anúncios:

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CLUBE SEXUAL DA ESCANDINÁVIA
ESPERAM POR VOCÊ.
REMETEMOS CATÁLOGOS COM ANÚNCIOS
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Ou ainda:

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CONTATOS HONESTOS.
CATÁLOGO COM CERCA DE 400 ANÚNCIOS
É REMETIDO POR 25 COROAS.

E vários outros. Uma cava desconfiança ante os que falavam em contatos honestos. Preferiu pagar mais e pediu a remessa do primeiro. Duas semanas transcorreram de olhadelas diárias à caixa de correspondência. Chegou enfim um gordo envelope.

Páginas e mais páginas em sueco. Na primeira, adivinhou uma carta comercial de cortesia, deixou de lado. Na segunda, um questionário onde deveria assinar com uma cruz suas preferências sexuais. Nenhuma dificuldade maior de tradução, as mais interessantes práticas tinham nomes universais, em geral de raízes gregas ou latinas. Foi anotando. Tribadismo, sexo grupal, oral, anal, etc. No fim do questionário, um item mais específico a ser preenchido: qual sua particular exigência que desejava ver satisfeita? Meticulosos, os suecos.

Nas páginas seguintes, o catálogo. Mulheres identificadas por números informavam suas práticas eróticas preferidas, como também pequenos interesses especiais. Mulheres solitárias buscavam parceiros de outro ou do mesmo sexo, ou de ambos, alternada ou simultaneamente. Uma gostava de espancar, outra de ser espancada. Esta insistia em alguém que lhe permitisse urinar sobre o corpo, outra queria apenas masturbar-se enquanto o parceiro a olhava. Algumas pediam dois homens e sugeriam posições que permitissem visão e ação simultâneas. Algumas interessavam-se por espelhos, outras por livros e filmes. Botas e roupas de couros eram bastante solicitadas, como também chicotes e aparelhos de massagem. Havia cardápios para os mais distintos paladares.

Escolheu as que por suas preferências mais o excitavam. No final do catálogo, era-lhe conferido seu número de sócio, ao mesmo tempo em que o lembravam de remeter mais 100 coroas para a identificação dos membros femininos cujos números escolhera. Trinta dias mais tarde, convenceu-se de ter sido ludibriado como o mais imbecil dos turistas. Caíra num conto do vigário nórdico: recebera respostas, é verdade, mas todas de prostíbulos ou de prostitutas, com uma tabela extremamente precisa de preços, sendo uma prosaica punheta o mais barato dos serviços oferecidos, enquanto sexo anal ficava lá no topo do cardápio. Enfim, em pelo menos uma coisa Brasil e Suécia se identificavam.

 

A segunda tentativa, desconcertante.

No subsolo da residência estudantil onde morava havia uma sauna. Na primeira visita, foi dominado por algo próximo ao temor. Sauna deserta. No vestiário, um cartaz alertava:

NINGUÉM O VIGIA.
VOCÊ É O ÚNICO RESPONSÁVEL
POR SUA VIDA.
SAUNA MISTA COM ÁLCOOL
PODE SER FATAL.

Não tinha problemas de saúde, mas sentiu-se um pouco nervoso. Lera certa vez no mural da residência o recorte de um jornal onde se noticiava a morte de um estudante. O cadáver só fora descoberto quatro semanas depois. Em uma república, em um apartamento onde viviam outros três. Encimando o recorte, um apelo:

QUE ISTO NÃO ACONTEÇA
NESTA CASA.
FALE COM SEU COLEGA.

Em certas circunstâncias, o maldito calor humano era até mesmo oportuno. Já cansado e descrendo de que chegasse mais alguém, dispunha-se a ir embora quando ouviu ruídos de chave na porta. Saiu do vestiário e voltou à sauna. Vai ver que era macho. Esperou por mais de dez minutos, a temperatura já próxima dos 90 graus, quando a porta abriu-se e entrou ela, a Sueca.

Nua.

Loura, alta, esguia, escultural, o protótipo nórdico tantas vezes visto em filmes ou fotos. Seu nome seria Ula, a loba. Ou talvez Gudrun, filha de deuses. Com a respiração já opressa, tentou suportar mais alguns minutos naquele forno, de repente mais sufocante com a proximidade daquele animal perfeito. Teria entre 25 3 30 anos, um ar tranqüilo de quem se sente à vontade junto ao outro sexo. Sentou-se à sua frente, os joelhos erguidos servindo de apoio aos cotovelos, pernas entreabertas. Desviou o olhar. Já no limite da exaustão, saiu.

Depois o sutil jogo de calcular o tempo para entrar e sair, de modo a demonstrar total indiferença. Perguntou-lhe a temperatura, alegando estar sem óculos. Trocou algumas palavras fúteis, tentando captar um olhar ou gesto que lhe permitisse um avanço. Não se comportaria como o macho latino que se aproxima da Sueca com a sutileza de um touro no cio. Embora, se quisesse ser honesto consigo mesmo, estivesse se sentindo exatamente assim.

Pensou em falar — ou fazê-la falar — em algo mais pessoal, mas a insegurança no domínio do idioma tornava-o hesitante. Era estrangeiro, podia permitir-se gaguejar e usar de circunlóquios. Mas temia a primeira frase. Balbuciasse nela, se reduziria à dolorosa condição de latino subdesenvolvido, flácido, carente e monoglota. Ante uma mulher perfeita, bela, esportiva, segura de si, expressando-se com desembaraço em vários idiomas.

Preferiu o silêncio.

O tempo passava, os banhos de ducha se sucediam e a possibilidade de um contato se tornava cada vez mais distante. Teria perdido mais de um quilo, resolveu desistir. Quando já se vestia, a mítica loura nórdica entrou na saleta, gotejante, sorriso afável:

— Queres tomar um café comigo?

Durante quase três horas mantivera, violentando-se a si próprio, um ar indiferente. Para perdê-lo em segundos. Balbuciando palavras atropeladas, aceitou. Ela sorriu e, de um salto, voltou à sala de banho para secar-se. Por sorte já estava vestido, uma ereção incontrolável talvez o tivesse feito sofrer um vexame. Ou não: quem sabe o que se passa na cabeça de uma sueca?

A Suécia começava a tomar sentido. Naquela época — seriam já três meses de jejum — sentia-se radicalmente estrangeiro no país. Diga-se o que se quiser, teçam-se considerações sociológicas ou metafísicas, mas não é o domínio do idioma, conhecimento da cultura nacional ou relações de camaradagem que fazem um homem integrar-se em um solo novo. Só uma mulher, só o conhecimento da mulher, velho e bom sentido bíblico da palavra — faz com que nos sintamos aceitos pelo novo país. A mulher não está aceitando então o amigo, o estrangeiro exótico, o conhecido de uma reunião — mas o homem todo. E o resto é poesia.

No elevador, sentindo-se obrigado a dizer algo, perguntou-lhe estupidamente se gostava muito de café, eu venho do Brasil, país do café — Ô, Brasilien, cafê, Pelê, sambá! —, embora os nacionais só tomem a borra, o melhor café é exportado, enfim, coisas de republiquetas latinas. No apartamento, ela levou-o para o quarto, perguntou-lhe se já queria o café, logo a ele, que mais que café só detestava o Pelé. Disse preferir antes algo para beber, os vapores do álcool aproximam, mais que os da sauna, as pessoas, pensou.

No quarto, algo estranho. Um terço pendia da parede, sobre a cama.

Resumindo: despira a sueca, estava também despido e quase próximo ao orgasmo para, após quatro horas de luta, ouvir:

Det sexuella är heligt och hör till äktenskapet.

Não acreditava no que ouvia. Disse que não dominava muito bem a língua, pediu para repetir lentamente. Ela repetiu várias vezes, havia algo errado, seria talvez a entonação, quantas vezes a entonação não dá um sentido exatamente contrário a uma frase? Só se convenceu do que ouviu quando ela escreveu em uma folha, com todas as letras, sem entonação alguma:

DET SEXUELLA ÄR HELIGT OCH HÖR TILL ÄKTENSKAPET.

Muito bem. O sexual é sagrado e pertence ao matrimônio! Atravessara um oceano para ouvir aquilo. De uma mulher com quem passara horas sem roupa alguma. Vestiu-se sem mais palavras. Quando a sueca lhe perguntou se ainda queria o café, quase explodiu em choro convulso. Procurou um restaurante e compensou-se sem medir gastos.

A solidão começava a pesar-lhe. Freqüentava diariamente a cinemateca, sinal inequívoco de que estava só e nada melhor tinha a fazer. Tentou alguma turista desgarrada em busca de aventuras nas pornoshops e sexklubbar. Santa ingenuidade. Quando iam, sempre levavam macho a tiracolo. Prostitutas lhe ofereciam all sexservice. Mas não lhe interessava comprar, tudo então seria muito fácil. Queria ganhar. E continuava recusando-se a buscar socorro na colônia latina. Que continuassem encerrados em seus sambas e reminiscências, porres de cachaça, a duras penas obtida, e imprecações contra a Suécia e os suecos.

Vagou noites pelas ruas cheias de neve. Em um cemitério, se sentiria mais acompanhado. Só nos subterrâneos do metrô existiam sinais de vida. Adolescentes esculturais, lindas, bêbadas e vomitando nas escadarias, se entregariam por alguns gramas de marijuana. O recurso lhe repugnava. Além do mais, nada tinha a dizer, tampouco a ouvir, daqueles párias da opulência.

Surpreendeu-se certa noite buscando o convívio da confraria universal dos mictórios públicos. Olhares gulosos de senhores respeitáveis, de chapéu, gravata e pasta executivo, lhe percorriam o membro enquanto urinava, os primeiros sinais de interesse que lhe demonstravam os suecos. Não foi fácil resistir à tentação. Calor humano não lhe interessava, queria agora calor animal, e de um animal de qualquer sexo.

Lembrou um conto de Dalmácio. Conto um tanto ingênuo, cheio de laivos românticos, não publicado como todos seus contos e poemas. Mas com uma imagem poderosa: um homem caminha só pela noite. Ouve passos e segue atrás. Os passos se apressam, o homem também se apressa. Vê um vulto. O vulto corre, o homem também corre. E passa a falar: pára, me espera, quero falar contigo, não quero te fazer mal, te quero bem. O vulto não se detém, se afasta cada vez mais, sobem por uma ladeira. O homem corre desesperado, grita, pára, eu te amo, e cai fulminado por uma síncope. O vulto era de um cavalo.

Havia ainda aquele seminarista que fora dilacerado por um touro, tema de tantas piadas no Chalé da Praça XV. Na época, considerava o episódio como apenas um caso de homossexualismo reprimido, um gesto temerário. Hoje, entendia a tragédia íntima do seminarista. No sexo havia algo além de puro sexo.

 

O inverno foi aos poucos passando, Estocolmo se transfigurava. A grama brotou milagrosamente de onde antes só havia neve, as árvores exibiam-se envoltas em folhas, o que lhe parecia difícil de crer. Homens e bichos ressuscitavam de suas tocas. Ao menor raio de sol, suecas sentavam-se em um banco ou no chão, abriam as blusas, saias ou pantalonas e, de olhos cerrados, adoravam-no. A atmosfera febril das ruas o contagiava.

Valborgsmässoafton, entrada oficial do verão para os suecos. Foi saudá-lo em torno a uma imensa fogueira em Skansen. A neve lhe caía no rosto, refrescando-o do calor do fogo. Num estrado, aqueles seres antes calados e taciturnos dançavam como loucos, como se vivessem a última noite de suas vidas. Enquanto os olhava, uma moça sem par convidou-o para o estrado. Tentou acompanhar o ritmo dos bailarinos, em meia hora estava destroçado. A sueca largou-o, agradeceu, disse qualquer coisa sobre sua forma física.

Os dias foram se alongando, o sol tornou-se paranóico, saía às duas da madrugada, deitava às 22. Uma claridade macia substituía a noite. Os suecos em delírio quase não dormiam, caminhavam dia e noite pelas ruas, florestas e ilhas. Tampouco Cristiano conseguia dormir. A luz lhe invadia o quarto, o verão duraria pouco, depois tudo seria neve e escuridão. Às quatro já estava em alguma piscina ou passeando pelos parques que circundam Estocolmo. A temperatura chegava a 28, 29 graus, manchetes anunciavam a “onda de calor”, os jornais noticiavam mortes por insolação. Um clima orgiástico pairava no ar.

Mas um homem só não faz uma orgia. Estava na Suécia há cinco meses. Já quase a ponto de fazer concessões. Buscar a profissional, o homossexual ou, na pior das hipóteses, a colônia brasileira. Num encontro casual, Lira lhe falara de uma crioula, quebra-galho dos patrícios. Lira tivera certa vez de recorrer a ela, não via mulher há séculos, a crioula fora mais solícita que uma mãe. Havia ainda aquele telefone, aquele número que lhe parecera ridículo quando o vira pela primeira vez — afinal quem iria sentir-se deprimido no paraíso? — transcrito em um discreto cartaz na sala de aula. “Se você se sente só e deprimido e deseja falar com alguém, telefone para o no tal”. O cartaz tornava-se agora compreensível.

Os suecos, que antes julgava conhecer por antecipação, lhe surgiam ininteligíveis. Haviam erguido uma sociedade que protegia o cidadão, qual placenta, do berço ao túmulo. Mendigos não existiam, ninguém passava frio ou fome, o Estado garantia saúde a todos. Para chegar aonde?

A uma sociedade onde as pessoas, sadias e bem alimentadas, apodreciam sozinhas em seus quartos, onde era necessário pôr um telefone à disposição dos suicidas potenciais. Confundia-se. Já não sabia se preferia morrer de doença e subnutrição, entre amigos, ou ser bem nutrido e saudável na sociedade perfeita, mas só, irremediavelmente só, até o último alento.

Mas nenhuma voz metálica de algum psicólogo ou padre teria algo a dizer-lhe. Não queria palavras. E sim carne, calor animal, festejar um outro corpo, perfurá-lo com amor e raiva. Ouvir gemidos, sentir nos dedos convulsões, ver olhos cerrados, lábios em espasmos, sorrisos, contorções.

Temia por sua sanidade mental.

 

Gostaria de escrever as Canário, mas não vias como. Nos anos em que vivera a seu lado se mantivera sempre silente. Andavam juntos pelo campo, trabalhavam a lavoura ombro a ombro, plantavam e colhiam, mas sempre mudos. Canário só se soltava quando voltava à meia-guampa do bolicho do Jacinto, mas então falava demais e Cristiano, que não bebia, continuasva mudo como um poste. Se jamais haviam falado, como falar-lhe agora?

Os silêncios e a vastidão da pampa — e isso só notava agora, em meio aos silêncios daquele mundo hirto e congelado — pareciam convidar o bicho-homem à introspeção, o que muitas vezes era confundido com tristeza. Contar alguma coisa ao pai lhe soava ainda como uma certa fraqueza. Mas a comunicação epistolar era silente. Começasse a primeira linha, talvez chegasse até o final. Sem falar que outras razões o impediam de abrir-se, as cartas da mãe. Eram cheias de carinho, como toda carta de mãe, mas eivadas de jaculatórias ao estilo de “que Deus te acompanhe sempre, Deus que sempre te ajudou, que Nosso Senhor Jesus Cristo esteja sempre conosco”, etc., e Cristiano — merda de nome! — que sempre se virava por si mesmo sem jamais virar a bunda para deus nenhum, irritava-se interiormente quando as mãe atribuía ao tal de Deus o mérito de suas magras vitórias.

Mas carta de mãe é carta de mãe. Acabava abstraindo os intróitos para deliciar-se com aquela ternura ingênua, “filho querido, te abriga bem ou vais pegar uma pneumonia nesses invernos terríveis, te cobre direitinho à noite”. Cristiano sorria comovido. Imaginasse ela o que era um inverno de 15 ou 20 graus negativos, um metro de neve nas ruas, por certo não teria mais sono em suas noites. Seguia uma lista dos parentes doentes e dos que haviam morrido, mais abraços de amigos que de repente se diziam amigos e votos que voltasse logo, logo ele que não mais pretendia voltar. O que mais o irritava naquelas cartas era o passado a persegui-lo. Fizera um esforço tremendo para cortar suas raízes, esquecer tudo, recomeçar de zero, e lá vinham aquelas linhas lembrá-lo do que não queria lembrar. Respondia então com frases curtas e impessoais, só para dizer-lhe que estava bem e que qualquer dia voltaria. Mentira piedosa, pois a Ponche Verde jamais voltariam seus pés, não fora por acaso que pusera mais de dez mil quilômetros entre sua infância e si próprio.

Mas nenhum destes era o motivo mais grave de seu silêncio. Logo na chegada, em pleno inverno, fizera uma viagem absurda a Kiruna, em época em que só subia ao norte quem tivesse motivos imperiosos paras ir até lá. Queria ver e viver o dia sem sol, a noite eterna. E a viu e a viveu, sob 30 graus negativos. Ao meio-dia, ou pelo menos quando deveria ser meio-dia, um vago palor no horizonte deixava adivinhar um sol com medo de mostrar-se. Ao chegar o verão, não satisfeito com a magia das noites brancas de Estocolmo, subiu de novo ao norte, não desacreditava do sol da meia-noite, mas queria vê-lo e senti-lo.

Foi, viu e sentiu. À meia-noite, o sol que girava quase horizontalmente fez menção de se pôr mas não se pôs, elevou-se imperceptivelmente mais um pouco e continuou seu giro paranóico em torno ao pólo. E ali residia o impasse: como contar a Canário, que jamais engolira aquela patacoada de que a Terra era redonda, como contar-lhe que do outro lado da dita Terra — mas que outro lado, se as Terra era plana? — do outro lado havia uma noite de seis meses e um dia igual? Falasse sobre o sol da meia-noite, só o deixarias angustiado, ficaria lastimando o filho que amava tanto e havia enlouquecido.

Preferia não escrever. Um postal impessoal, de mês em mês, para dizer que estava vivo, e só. Quanto às cartas da mãe, com medo das jaculatórias usuais, não tinha pressa em abri-las. Exceto aquela que chegou precisamente no primeiro verão que vivia em Estocolmo. A Karlaplan, que era apenas neve em sua chegada, enverdecera milagrosamente, de um verde pujante e histérico, a suecalhada zanzava embriagada de luz pelos bosques de uma cor macia, irreal. Cristiano tinha de render-se à magia daquelas noites e, justo naqueles dias — ou noites? — recebe a carta pressaga, a caligrafia rápida e inconfundível da mãe no envelope, selo desconhecido e carimbo de Rivera. Que foras fazer no Uruguai? Doença? Uma vaga apreensão começou a tomar corpo em seu corpo. Abriu-a com medo. João estava preso e incomunicável. Não chegaria tão cedo a Paris, se é que algum dia chegasse.

“Mais uma razão para não voltar” — disse a seus botões —. “Meu querido Ponche Verde, adeus para nunca mais”.

 

Pequenas coisas o faziam dizer para si mesmo, cada vez com mais convicção: nunca mais boto os pés no Brasil. Episódios banais, que talvez nada dissessem aos seres daquele planeta cinza, mas que o tocavam bem lá no fundo. Fora certa vez apanhar selos em um distribuidor automático, pusera duas coroas na máquina, puxara a gavetinha dos selos. E nada. Havia um telefone para reclamações e Cristiano pagou para ver, não conseguia acreditar que o Estado sueco se dispusesse a devolver-lhe duas coroas.

Com ceticismo latino, resolveu telefonar. Do outro lado da linha uma voz, paciente e pedagógica, o auxiliou a fornecer seu endereço. “Muito bem” — disse a voz — “o senhor receberá seus selos amanhã, às onze horas, em sua casa. Pode ser com a efígie do Rei ou o senhor prefere um selo com as pontes de Estocolmo?”

Era demais para um brasileiro, país assim só poderia existir no país da lenda. Teve de rir interiormente quando, no dia seguinte, às onze horas e dois minutos, recebeu do carteiro um envelope com duas coroas em selos mais um pedido de desculpas dos Correios. Depois daquilo. Como voltar a viver no Brasil? Impossível. O fato é que começava a miná-lo, subrepticiamente, o câncer da dúvida.

Mas as notícias do Sul lhe expulsavam do espírito qualquer veleidade de voltar. João Geraldo no cárcere, sem processo formado nem possibilidade alguma de defesa, sua libertação dependia do arbítrio de misteriosas instâncias. Os jornais submetidos a uma lei que enquadrava como crime contra a Segurança Nacional qualquer crítica ao governo, sem falar nas famosas leis secretas, o que não ocorrera nem mesmo a Kafka.

O Milicus latinoamericanensis — como dizia João — poderia ser acusado de tudo, menos de carente de imaginação. Jovens morrendo sob tortura e o bravo povo brasileiro vibrando em peso com a escalada de seus heróis rumo à Copa do Mundo. Voltar era uma impossibilidade. Sua solidão em terra estranha seria provisória, mais cedo ou mais tarde de algum lugar surgiria uma parceira, e com ela mais outras, os Svenssons não seriam assim tão impenetráveis como pareciam. Calma — pediu Cristiano a Cristiano.

Aos poucos foi descobrindo o que significava pátria. Mal declinava sua nacionalidade, logo queriam saber de Pelé, o que o deixava desarmado, abordavam-no com uma rara alegria para saber da Seleção, logo a ele que fugira do Brasil na tentativa de, entre outras coisas, nunca mais ter de ouvir falar sobre futebol. “Estou aqui para não ter de falar disso” — respondia. “Então não temos nada mais sobre que conversar” — lhe disse alguém.

A pátria aderia à pele, como lepra. Pátria é a cruz que carregamos ao fugir dela, pensou. Mais tarde modificaria seu ponto de vista. Nos primeiros meses de Suécia, tudo era novidade, mesmo as tribulações. Mas certas perguntas brutais se impunham, insolentes: como viver em um país onde é proibido beber nos bares? O Chalé passava a adquirir um outro significado.

Além disso, algo havia de errado naquela beleza insuportável dos suecos em geral, todos fisicamente bem construídos, saudáveis e bem vestidos, polidos e eficientes, faltava algo naquele universo, que mais não fosse por necessidade de contraste. Por exemplo, uma negras velha, gorda e desdentada com uma trouxa na cabeça, desdentada mas com um sorriso enorme a rasgar-lhe a face.

Pátria — concluiria mais tarde — é o que nos falta quando estamos longe dela.

 

Caminhava pela Vänsterlanggatan. Gostava da rua e de Gamla Stan, o casco velho da cidade. Quando se perguntou por quê, descobriu já não ser o mesmo homem que há cinco meses chegara na Suécia. A arquitetura asséptica e funcional de Farsta ou Hässelby lhe haviam fascinado, detestava cidades velhas e sujas. Começara agora a encontrar um certo encanto em Gamla Stan. Não na rua em si, mas nas pessoas que a percorriam. Ou nos sinais impregnados nos portais e escadarias de pessoas que ali haviam passado. A calçada estreita e íntima, os séculos incrustados nas fachadas, o ambiente cálido das caves do Fem Sma Hus, a efusão quase latina do Kaos (certa noite, o acordeonista do café começou o espetáculo com um “baião francês”, o Tico-tico no Fubá), a alegria coletiva do Ängelen, tudo o reconciliava mais e mais com a Cidade Velha.

Passava pelo Old Town, alguém o chamou de dentro. Arne, um de seus professores de sueco.

Entrou. Arne convidou-o a sentar-se. Apresentou-lhe uma colega, Gudrun. Mesmo bêbado, Arne continuava pedagógico, falava pausadamente, auxiliava-o a completar uma frase. À medida que os skal se sucediam, ele falava com mais fluência, dominava até mesmo certas nuanças do idioma. Gudrun, afável, falava-lhe carinhosamente, como a um bom amigo.

Se os suecos eram frios, o álcool os aquecia. Não bebiam para conversar, mas para cair. Acostumado a longas noitadas de trago, ele fraquejava ao enfrentar ao estilo nórdico de beber: iam da cerveja ao ponche, passando pelo uísque, conhaque e akvavit, com alguns cafezinhos de permeio. Quanto mais bebiam, mais Gudrun tornava-se meiga, passou a roçar-lhe a nuca com mão suave. Arne convidou-o para uma pequena festa em sua casa naquela noite. Como estaria envolvido com os convivas, em grande parte estrangeiros que mal arranhavam o sueco, lhe sugeria fazer companhia a Gudrun. Dois olhos verdes e uma boca cereja pediam que aceitasse.

Arne morava em Saltsjö-Duvnäs, a alguns quilômetros de Estocolmo, numa casa velha e simpática de dois andares, com piscina e muitas árvores. Apesar de seu status, só andava de metrô ou em uma bicicleta caindo aos pedaços. E de novo a pátria lhe pesou nos ombros. O Brasil começava a descobrir o automóvel, quando a Europa já o dispensava como meio preferencial de transporte.

Reunidos ao lado da piscina, os grupos se elegeram conforme idiomas. Ele afastou-se de eslavos, gregos e outros grupos, por instinto buscou Gudrun e outros suecos. Era ouvido com interesse, todos esperavam encontrar num brasileiro um homem extrovertido, cheio de sol e ritmos, viam um conhecedor de Swift, Nietzsche e Sterne. Não lhe foi fácil desmontar a imagem mítica de um Brasil grotesco, que Glauber Rocha exportara cabotinamente a um mercado sedento de coisas exóticas. Então não existiu um herói nacional, o Lampião? Como iria existir um herói nacional, se nem heróis estaduais ou municipais existiam na história toda do país?

Um grupo maior foi aos poucos se formando, alguém já havia caído vestido na piscina, uma loura fora buscá-lo com roupa e tudo, estava agora enrolada em uma toalha exígua, a noite que não era noite não escurecia nunca, as velas queimavam sem pressa, todos falavam alto, ninguém ouvia nada, todos se entendiam, a atmosfera — stämningen, pois não? — tornava-se mais e mais calorosa. Alguém apanhou um violão, as primeiras canções foram Cielito Lindo, Adelita, La Paloma. Todos as conheciam e as cantavam nos mais estranhos sotaques. Ele acompanhou-os com gosto. Lembrou então que fariam não cinco meses, mas cinco ou talvez mais anos que não cantava. A última e triste década que vivera em sua terra, marcada pela violência e barbárie escondidas em estatísticas lindas, onde pesadelo e realidade se confundiam, não lhe davam razões para cantar.

...ese lunar que tienes,
Cielito Lindo,
junto a la boca...

Passaram a uma sala. Gudrun arrastou pelo braço, queria dançar. Uma eletrola pulava ao ritmo de sambas. Não. Tudo, menos samba. Cielito Lindo, Adelita, passava. Nada tinha contra o México, pelo contrário. Mas samba! Aquela batucada trazida pelo negro escravo que nela se embriagava para afogar o cativeiro, a miséria, a humilhação? Não.

Além disso, jamais dançara samba em sua vida.

Concedeu em segurar Gudrun pela cintura, que se requebrava em passos de todas as danças do mundo, menos de samba. Ele movia lentamente os pés. Mas o ritmo ingênuo da sueca, os olhos que fechados o convidavam, o ventre que se oferecia e fugia, seios trêmulos, o álcool, o ruído, tudo fez com que, sem saber nem querer, acabasse sambando. Pela primeira vez na vida. Em Estocolmo.

Não via mais ninguém na sala, só os olhos, braços e boca daquele animal que debatia a seu lado, já quebrara um imenso vaso de porcelana, uma mesa ficara torta, teve de puxá-la com energia para salvar o toca-disco. De repente, desceu os olhos além da boca de Gudrun, sem crer viu-a nua, só de calcinhas. Olhou em roda, não poucos já estavam nus, um par de seios saltitava a sua frente, viva la Suecia, viva el paradiso del amor, lever Sverige, per omnia secula seculorum, amen!

Despiu-se pulando, já ia tirando as cuecas, lembrou-se que talvez não ficasse lá muito elegante pulando sem cuecas. Arne convidou para a sauna, da sauna pularam na piscina, ele sempre rente aos pés de Gudrun. Da piscina saiu a perseguí-la, ambos nus por entre as árvores, sob aquele sol irreal que jamais se escondia. Derrubava-a, apertava-a sobre a grama, Gudrun ria e fugia, escorregadia e molhada, ele fauno caçava Gudrun ninfa por bosques onde o sol jamais se escondia.

Perdeu-a não soube como, vagou sob o sol branco por entre as árvores, gritava Gudrun jag älskar dig, kom hit, var är du, eu te amo, vem cá onde estás? Volta, eu te quero, pára, me espera, não quero te fazer mal, te quero bem.

Ninguém voltou. Nu e já com frio, rumou para a casa.

Todos já haviam partido ou dormiam. Alguém saindo do banheiro perguntou-lhe se queria uma cama, disse não, continuou procurando. Numa peça dormia alguém, apertou-a, beijou-lhe o rosto, quem és tu, nenhuma resposta, não conseguiu reconhecê-la, pelo menos estava certo não era Gudrun, não eram seus seios.

Subiu ao primeiro andar. Tudo também deserto. A casa, onde há pouco tudo era vida, de vida nada mais tinha. Quando já desistia de encontrar alguém, quando lembrou-se de que estava nu e nem imaginava onde estariam suas roupas, num sofá, viu Gudrun.

Deitada de bruços, esperava.

Jogou-se nela como náufrago buscando tábua, qual criança encontrando outra que se escondera. Corpo perfeito e nu, aberto, sem defesas. Penetrou-a com amor e raiva, eu te adoro, te quero, vou te rasgar, não podes mais fugir, te peguei, toma todo eu, até o fim, até o fundo, imbecil querida, idiota amada, vingança.

Gudrun dormia. Bêbada, dormira sempre. Sua primeira sueca fora uma espécie de cadáver ainda quente.


 

 

2. LÁ NA LINHA

 

A cem metros, o Uruguai e a liberdade. Viva Santana do Livramento! Por aquela avenida que dividia dois países, centenas de perseguidos políticos haviam abandonado o Brasil. O suor frio lhe empapava a camisa naquela mormacenta madrugada de janeiro, as gotas lhe brotavam de repente e aos borbotões, rolavam em filetes do pescoço pelo peito e pelas costas, chegava quase a sentir pequenos córregos lhe descendo pelo corpo. Seria aquilo o medo? Talvez fosse, talvez inconscientemente seu organismo reagisse ante as suspeitas do que o esperava. O fato é que, pelo menos conscientemente, não sentia medo, mas sim o que seu cérebro qualificaria como uma apreensão. Temia, isto sim, tomar uma atitude estúpida, tentar vencer os cem metros que o separavam da Calle Internacional, enveredar pela Sarandi e só parar em Paris. Cem metros o separavam de Paris e, por cima da capota do fatídico Fusca sem placas, parecia divisar, no fim da Sarandi, inatingível, a Torre Eiffel. Estava perdido.

Nada mais temível naqueles dias do que um carro sem placas. E ali estava o dito a seu lado, como se tivessem marcado encontro. João tentava prender os pés ao chão, resistir à veleidade de correr, fugir ao tiro nas costas. Do inocente Fusca saiu um rapazote de jeans, tudo conferia, carro sem placas, policiais à paisana, o rapaz contornou o carro, ar despreocupado de quem olha os pneus, aproximou-se gingando, olhou-o profissionalmente, dos pés à cabeça. Era baixinho. Rosto erguido para João, mas olhar baixo, vigiando seu corpo, mão roçando a anca:

— O senhor está convidado a nos acompanhar.

Eram gentis, naquela época. Ou talvez aquilo fosse cortesia de cidade do interior, que nas capitais já chegavam encostando o revólver nos miolos. Com a mesma fidalguia, respondeu:

— Os senhores me desculpem, mas vou declinar do convite.

A Sarandi, a sua frente, longa e iluminada, parecia estar a léguas de distância. A camisa, colada ao corpo por uma sopa gelada. Mesmo que chegasse do outro lado da fronteira, eles não hesitariam em avançar Rivera adentro. Fronteira aberta poderia ter suas vantagens, mas também tinha seus inconvenientes.

— Acontece que não é exatamente um convite.

E o homem que descria do Direito, sentindo uma vaga cólica lhe percorrer os intestinos, tentou uma última cartada:

— Onde é que está a ordem judicial?

Como única resposta, o policial levantou a camisa e deu um tapinha na coronha do revólver.

 

Permaneceu na cela nua e escuras um tempo que não sabia precisar. Além do relógio, haviam-lhe tomado cinto, cadarços e tudo quanto havia nos bolsos. De que lhe valia agora o passaporte pelo qual tanto lutara? Espichou-se no catre sem colchão. Uma sensação de pânico que não chegava a ser pânico o impedia de raciocinar com clareza. Que saberiam dele? Os homens procuravam guerrilheiros. Salvo falsas denúncias, pouco ou nada saberiam, já que não participara de nenhum movimento armado. Mas até prová-lo, quanto pau ia levar?

Por pensamentos não era que o estavam prendendo. O pior é que conhecia gente armada. Conseguiria manter-se em silêncio? Pelo cérebro desgovernado passavam-lhe rostos e pedaços de conversas, não conseguia deter-se em nenhum, falhava mesmo a memória que lhe dava fama. Aquelas prisões na calada da noite, sem mandado nem flagrante de qualquer crime, lhe produziam um efeito inesperado: estava isento de qualquer culpa e quase se sentia réu.

Tenso, não conseguia dormir. Muito menos raciocinar. Tentou masturbar-se para relaxar, mas o parceiro não respondia aos estímulos. Ansiava pelo ruído de passos, levassem para onde o levassem, mas que o levassem logo. Ou seria aquela espera uma preliminar da tortura? Os homens por certo entenderiam do assunto. Se pudesse dormir...

O interrogatório ocorreu em uma madrugada, não saberia dizer se a segunda ou a terceira após a detenção. Nem fome, nem sono. A sede, a saciava num lavabo imundo, e agora chegava a invejar o velhote da Borges de Medeiros, a água da sarjeta podia ser mais suja, mas o velhote tinha total liberdade de escolher a sarjeta que mais lhe agradasse.

Seguro por dois policiais, estes fardados, foi conduzido a uma sala ampla. À frente, uma escrivaninha e o oficial que o interrogaria. À esquerda, atrás de uma pequena mesa que mal sustinha a máquina de escrever, um datilógrafo. Pensou em dizer boa noite, ou talvez bom dia, mas qualquer cortesia lhe pareceu inútil naquelas circunstâncias. Passaram-lhe uma cadeira. Ao sentar-se divisou, acima da cabeça do oficial, o rosto sorridente do presidente Médici, a faixa verde-amarela lhe cortando o peito. Era o único sorriso no ambiente.

— Nome?

— João Geraldo Garcia da Fontoura.

— Idade?

— Trinta e um.

— Data de nascimento?

— 1940.

— Dia, mês.

— No dia da Gloriosa Revolução.

O escrivão hesitava em como registrar. O oficial traduz:

— 31 de março de 1940.

— 1o de abril — corrigiu João.

O oficial não entendia. Ou começava a entender, pois erguera-se da cadeira. Não dissera ter nascido no dia da Revolução?

— Pelo que entendo de História — aventurou — as revoluções tomam a data do dia da tomada do poder. Eu nasci em 1940, nesse dia, 1o de abril.

A bofetada soou seca pela sala silenciosa, João Geraldo caiu ao chão com cadeira e tudo. O interrogador parecia não gostar de precisões históricas.

Quatro horas de interrogatório, perguntas ora precisas, ora idiotas. Que achava da filosofia católica? Não achava nada. Que filosofia era filosofia e religião era religião. Qual o regime ideal? Aquele onde crianças tivessem direito à infância, e por direito à infância entendia pão, brinquedo, escola, despreocupação com a comida do dia seguinte. Onde os homens envelhecessem com dignidade e onde os velhos não precisassem beber a água das sarjetas. Você quer um regime comunista? Não necessariamente, mas se nele as crianças tivessem direito à infância e os velhos a um envelhecer tranqüilo, por que não?

— Dia cinco do mês passado, em Porto Alegre, você lia uma revista de capa verde, sentado na Praça da Alfândega. Na capa dessa revista havia as iniciais CCCP. Que revista você estava lendo, naquele dia, às dez da manhã, ao lado da banca de revistas do Martins?

Sua vida — dava-se conta agora — fora vasculhada de alto a baixo, dia a dia, hora a hora. Que revista estaria lendo dia cinco de dezembro de 1971? Para revistas, sua memória era nula. Poderia lembrar de um artigo, jamais de uma capa. Sabia para onde o interrogador queria conduzi-lo. Quando em Livramento, Gérson costumava passar-lhe exemplares de “Unión Sovietica”, chegados via Montevidéu, mas o título era em garrafais que pareciam latinas, o oficial boçal confundia o S e o R cirílicos com o C e o P latinos. Jamais voltara a ler aquela revista em Porto Alegre, e tampouco o faria em uma praça pública. De fato, costumava ler na Praça da Alfândega, a República Popular e Democrática da Praça da Alfândega, como a chamavam, que tinha como Assessor de Assuntos Culturais o velho Martins, do quiosque de revistas. Com mais calma — a violência, pelo menos até ali, não passara de um tapa — reorganizou suas lembranças. Era uma revista paulista — Realidade —, tinha como matéria de capa uma reportagem sobre futebol ou olimpíadas ou algo do gênero e a ilustrava com a foto de um atleta russo, na camiseta a sigla CCCP. “Que barbaridade!”, pensou.

— Dia 31 do mesmo mês — réveillon passado, se isto lhe refresca a memória — no Chalé da Praça XV, após conversar com dois jornalistas notoriamente comunistas, com um indivíduo sem profissão e com um maluco, você abraçou numa mesa próxima um indivíduo também desocupado e subversivo, um tal de Janer Cristaldo. Quem é esse indivíduo?

Estouraria numa gargalhada, não fossem as circunstâncias. Colocar no rol dos subversivos o Cristaldo? Sua tese era de que a guerrilha estava fadada ao insucesso no país porque na selva não havia cerveja nem banho morno.

— Você também acha isto?

Recuou. No fundo, acreditava que aquela luta toda não seria inútil, mas tampouco sabia o que poderia acontecer no futuro. Preferiu recuar:

— Não acho nada.

— Domingo passado, na Rivadávia Correia, esquina com Uruguai, à tardinha, aqui em Livramento, o senhor discutia animadamente com Gérson Prabaldi, notório agitador comunista. Qual foi o teor da conversação?

Que Gérson era notório agitador, isso não havia como negar. Quanto a ser comunista, como explicar ao bronco o abismo que medeia entre um comunista e um anarquista? Pelo jeito não sabiam que Gérson o abrigara. Como achara que não havia muitas razões para esconder-se a não ser as ditadas por seu medo, haviam saído à rua, João queria respirar os ares da cidade que tão cedo não voltaria a ver, comer uma parrillada em Rivera, tomar um café cortado na Sarandi. E ali o haviam visto.

Em todo caso, não tinha inconveniente algum em narrar o “teor da conversação”, como dizia o oficial. Discutiam, lembrava agora, frente à casa de José Hernández, ou melhor, não discutiam. Gérson adorava ouvi-lo recitar o “Martín Fierro”, vibrava, com a boca escancarada com seus dentes podres, ao escutar o relato das lutas, fugas e sofrimentos daquele gaúcho perseguido. No fundo, apesar de vir de uma outra geografia e cultura, os penares de Fierro nada diferiam das atribulações do funileiro.

— Duas horas recitando um poema?

O oficial não era homem daqueles pagos. Aliás, notara isso desde o início, quando o homem começara tratando-o por você. Seria um daqueles animais urbanizados da capital, ou de mais longe. Pelo jeito, nem imaginava o que fosse Fierro. O que em nada lhe favorecia. Não respondeu.

— Você sabia estar frente a um perigoso subversivo?

Ah, o jargão! Subversivo vá lá, o funileiro queria um mundo novo. Orgulhava-se até mesmo de ter vindo cair em Livramento, cidade onde, em 1918, surgira a primeira célula comunista no Brasil. Mas perigoso, o humilde Gérson, o operário sonhador?

— Aliás, já foi preso. Por enquanto, teima em não falar. Mas acaba falando.

O calafrio e os suores que lhe haviam percorrido o corpo nos minutos que antecederam a prisão voltaram a descer-lhe pelos nervos e células. Gérson queria ganhar tempo, dar a si a chance de atravessar a fronteira, de chegar a Paris, ou de pelo menos decolar do Brasil.

O interrogatório terminou ali. Ao ser reconduzido à cela, sentiu no corpo um calor de sol alto. Pensava ter-se saído bem, quando o carcereiro deixou escapar que pouco tempo ficaria ali. Seria enviado a Porto Alegre, e de novo aquele suor gelado pareceu brotar-lhe dos poros. Em Livramento, sentia-se mais ou menos imune a maus tratos. As cidades pequenas tinham uma virtude especial, nelas as pessoas tinham nome, família, uma situação definida, não constituíam uma massa anônima. Era inviável que o filho do padeiro torturasse o filho do fazendeiro, ou vice-versa, que o compadre do fulano chutasse os bagos do filho do sicrano, o fato de ter sido preso, só este fato, já estaria provocando todo um mal-estar em Livramento e Rivera.

Na capital, era filho de ninguém, era tão anônimo quanto o torturador. Não seria mais um homem, de rosto e passado definidos, massacrando outro, também com rosto e passado. Seria um frio funcionário de uma idéia tentando obter informes do anônimo funcionário de outra idéia. Tremeu por dentro. Antes de despachá-lo, o oficial perguntara, tentando exibir conhecimentos gerais do vernáculo:

— Sabia que a sua estética externa suscita antipatias?

“Estética externa”, rosnava João por dentro, “ o filho da puta queria bancar o culto e dizia uma besteira daquelas”. Sentiu que a barba e cabelos hirsutos tinham seus dias contados. Os cubanos haviam tornado todo barbudo suspeito.

Em Porto Alegre, bofetada seria gesto de carinho.


 

 

1. CHALÉ 70

 

A década havia sido pobre e 72 se anunciava medíocre. Os americanos haviam chegado à lua e na terra haviam liquidado Che Guevara. Cristiano tentara publicar artigo onde dizia nada ver de heróico numa viagem de astronautas programados e guiados por computadores e mais uma vez Vaselina praticara basquete com suas laudas, “como ousar negar o evento do século?” Não queria negar coisa nenhuma, a chegada à lua o comovia, mas não tanto quanto a saga de Colombo ou Magalhães, quando o tempo era marcado por um grumete sonolento virando e revirando uma ampulheta.

Já Dalmácio tinha outro enfoque do fato, não conseguia admitir que Armstrong tivesse dormido ao tocar solo lunar, como estava previsto em seu programa. Só mesmo uma nação de bárbaros podia enviar um homem à lua e trazê-lo incólume. Estivesse Dalmácio naquela nave poetaria em delírio deixando de lado qualquer precaução necessária à sobrevivência. Quanto ao outro feito ianque, o fuzilamento do Che, a ironia residia no fato de o guerrilheiro ter recebido o tiro de misericórdia de um latino, de um irmão pelo qual lutara, e não de um ianque.

E no Brasil acontecera 64.

A época era de partir. Aquele último dia de 71 tinha um sabor de viagem rumo ao ignoto, os que partiam não pretendiam voltar e os que ficavam não sabiam até quando continuariam livres ou vivos. Cristiano, emergindo de seu último Natal, com a voz agoniada de Adriana ainda nos tímpanos, o que o afastara de toda e qualquer profissional naquela semana, não via a hora de sentir o oceano sob seus pés, e só acreditaria mesmo na existência do Velho Mundo quando o pisasse.

Pela janela do Chalé divisou o vulto magro de Dalmácio, eternamente envolto em uma gabardina bege, fizesse sol ou chuva, inverno ou verão. A noite era quente, mas o Poeta — mais por derrisão do que por reconhecimento, assim o chamavam — se queixava sempre em seus rabiscos de um frio ancestral e, a imagem impunha, talvez sentisse mesmo frio.

— Merda de país! — explodiu antes de sentar.

Cristiano quis saber das últimas, espantado ante sua fúria, logo Dalmácio que cultivava uma reputação de homem fleugmático.

— Cornos! Filhos da puta! Pregam por toda a parte “ame-o ou deixe-o”, não há carro de burguês que não seja uma insinuação ao exílio, e quando quero deixar esta bosta de país não querem deixar que a deixe.

— Calma — pediu Cristiano — primeiro um trago. Tão cedo não vais sentir cheiro de cachaça.

Speak Deutsche já o servia, mais fácil ruir o Chalé que trocarem de hábitos etílicos. Os passaportes não constituíam, naqueles dias, um direito de todo e qualquer cidadão. Dalmácio tivera de desembolsar uma grana que lhe faria falta na Europa, passara a grana num discreto envelope ao funcionário perguntando se aqueles papéis — e sublinhara o “papéis” — complementavam a documentação e o passaporte surgira como por magia.

— Então, à conquista da Europa.

Ergueram os copos, gesto raro entre ambos, só um fato excepcional explicaria aquele entusiasmo.

— Cornos! À Europa.

Cristiano optara por Estocolmo. Oficialmente, ia estudar cinema e para isso escolhera o país de Bergman, sequer imaginava que todo brasileiro que vai para qualquer cidade que não Paris acaba fatalmente caindo em Paris. Já se via degustando uma Uzicka Sljivovica, trocaria finalmente a cachaça por aquele néctar nórdico. Vira uma garrafa em “O Silêncio” e, mais que pela bebida, se fascinara pelo nome, as palavras longínquas o puxavam inexoravelmente.

Mas outros impulsos, vagamente intuídos, o levavam ao Norte. Lera certa vez entrevista de uma atriz nórdica, “em meu país os dias são curtos, o sol cai abruptamente atrás dos fiordes e nada mais resta senão refugiar-se em casa e fazer amor”. E na Suécia não existia amor pago, e mais que cinema, mais que Bergman, o excitava a perspectiva de no mês seguinte aterrissar naquela pátria de homens livres.

— À conquista do mundo! — repicou Dalmácio.

O Poeta elegera a Alemanha. Goethe, Rilke, Hölderlin, Nietzsche. Pouco falava de si e de seu passado, sabia-se que vinha de zona de colonização polonesa, Erechim ou adjacências, era mais um dos tantos desgarrados do interior que buscavam em Porto Alegre uma janela com vista para o mundo. Em seu currículo, como no de Cristiano, havia uma expulsão de sua cidade, por motivos que variavam segundo as fontes e sobre os quais ele preferia cultivar mistério, mas por certo seria algo em torno a sexo, escândalos em cidade interiorana sempre têm algo a ver com sexo. “Seres que não valem um peido” — costumava repetir em seus dias de mau humor — “não sabem se Kafka era açougueiro ou alfaiate e brigam há décadas querendo saber se o nome daquele anus mundi deve ser escrito com x ou com ch”.

Viera para a capital e a cidade também o rejeitava, nem a imprensa nem a universidade lhe abriam as portas. Soderman lhe dava às vezes colher de chá no Suplemento Rural das Letras, como ironizava Dalmácio. Segundo critérios que Deusa Shiva dizia serem da Casa, um ensaio valia doze cruzeiros, um conto dez e um poema oito. Em outras palavras, em dez minutos uma prostituta lhe tomava dez vezes o que lhe custara semanas, meses e mesmo anos de hesitação e sofrimento. Para viver, Dalmácio vendia livros abomináveis, enciclopédias para forrar paredes a metro, quase enrubescendo quando passava a menininhas desejosas de cultura, por um preço absurdo, quilos de estupidez.

Seus melhores trabalhos, Soderman os perdia em gavetas, ora alegando que o Big Boss não os permitiria em seus domínios, ora resmungando itens de uma apologética realista-socialista, tipo faslta de conteúdo social, ótica individualista burguesa, etc. Permaneciam inéditos seus berros de animal acuada, Soderman sepultara em suas gavetas, “Triste Porto sem Casais”, “Poema do Poeta Pobre na Rua dos Sete Momentos”, enfim, era o mais célebre poeta inédito gaúcho, se é que gaúcho era adjetivo que se poderia apor ao temperamento soturno de um deraciné jogado pelos ventos do acaso no Rio Grande do Sul.

“Individualismo exacerbado, não tem mensagem social”, era o comentário mais freqüente do editor do Suplemento Rural das Letras. Não eram tais críticas — as quais Dalmácio sequer refutava, refugiando-se em seu silêncio e, como pouco falava, o calar não era agressivo — não eram aqueles chavões o que o incitava a viajar, mas uma gota e outras e mais outra e o balde transborda. Sua angústia nada tinha de social? O que sofria por dentro era por acaso sensibilidade de marciano jogado em planeta estranho? O que um homem sensível sente é, por acaso, algo que nada tem a ver com o planeta social que o envolve? Pois iria então buscar outras terras onde pudesse dialogar com homens de sua estirpe, buscaria a pátria daquele individualista tremendo que enlouquecera na tentativa de lutar com Cristo.

Fugia do país do futebol, viveria agora em país onde um poeta não morria de fome. Mais respeito com quem sabe, dissera Nietzsche, escondendo naquela frase aparentemente trivial uma profundidade de louco. Fora um solitário, é verdade, só conseguira distribuir sete exemplares de Zaratustra. Mas fora gênio, e Dalmácio não se pretendia tanto. Sua magra renda, a investia em aulas de alemão no Goethe Institut, cujo patrono lhe comprava sobejamente ser a Alemanha um país amante das artes e de homens sensíveis. Goethe não fora conselheiro de Estado? Poeta mais, poeta menos, sua presença não iria pesar na economia dos Deutschen.

— À conquista de Paris!

A voz e cansada de Jotagê caiu sobre ambos com um duplo abraço. Mais do que as de ninguém, eram prementes suas razões de partir.

— A Paris, Monsieur! — brindaram, enquanto João puxava cadeira.

Seria certamente o único naquela mesa a não suscitar antipatias à primeira vista. Seu gesto largo e incondicionalmente amistoso, as melenas hirsutas cercando um rosto de alegria comedida, tudo era indício de um enigma que Cristiano não conseguia entender: havia os que dividiam águas, mal abriam a boca e tanto amigos como desafetos brotavam como cogumelos após a chuva. E havia os que, sem muito falar, apenas com um certo jeito de ser, afetividade emanando da epiderme, uniam as gentes. Não sabia, naquele fim de ano, que mais alguns dias e aquele gauchão universalmente generoso estaria, não no Quartier Latin, mas sofrendo na carne já frágil por natureza os tormentos de um profissional da tortura, frio e sem ódio, em busca de informações que ele, João, não tinha.

Rosto inundado por um sorriso raro, já que não era de mostrar os dentes, João parecia portar uma aura qualquer. Partiria na manhã seguinte, a única distância entre Porto Alegre e Paris era uma visita aos seus, em Livramento. Se lhe perguntassem de onde vinha seu fascínio por Paris, talvez não soubesse responder. De um lado havia antigos livros coloridos, que falavam das águas azuis do Sena, romances de e espada, Hugo, Sue, Dumas, fantasmagorias de criança. De outro, palavras como revolução, liberdade, igualdade, fraternidade, palavras que o chamavam, e não só a ele, como a qualquer homem que se pretendesse digno de tal nome. E se não soubesse responder que mais o impelia rumo à França, se as leituras da infância ou os ideais da juventude, sabia muito bem porque deixava o Brasil.

Os tempos eram duros, a imprensa se mantinha amordaçada, reivindicações operárias ou estudantis eram reprimidas a patas de cavalo e gás lacrimogêneo, sem falar na tortura, nas prisões arbitrárias e na extinção do habeas corpus para crimes políticos. Se um policial — que sequer se dignava a identificar-se como tal — lhe desse voz de prisão e se ele perguntasse pela ordem judicial, receberia como resposta um chute nos ovos. Ora, raciocinava João Geraldo, país onde um cidadão, ao exercer um direito seu, recebe de um agente da lei um chute nos bagos, tal país não era o seu, recusava-se a aceitá-lo como sua pátria. Dizer que se vivia em plena lei da selva era pretender enfeitar a realidade, afinal na selva os animais lutavam e matavam, mas jamais se tivera notícia de um animal torturando outro. O Milicus latinoamericanensis, como gostava de chamá-los, não se distanciara culturalmente, apesar dos milênios transcorridos, de seu primo, o Pitecantropus erectus. Ao brindar Paris, brindava a cidade onde policial algum espancava estudantes, onde jamais se imaginaria prisões por delitos de opinião, nem eliminação do habeas corpus para prisioneiros políticos, brindava a sociedade onde não havia racismo nem discriminação de classes, onde os homens eram iguais, independentemente de cor ou vestes, onde nenhum ancião precisaria debruçar-se nas calçadas para beber um lodo infecto.

— A nós! — voltou Cristiano a erguer o copo — já chamando Speak Deutsch para o reabastecimento. Era o garçom preferido do grupo. Se havia turistas no bar sequer precisavam puxar a carteira, “nada disso, Doutor, gringo tem moeda forte, sua despesa já tá na conta deles”.

— Teu passaporte? — quis saber Dalmácio.

Aquele documento, que jamais os preocupara, de repente assumia importância vital para quem apostava tudo na partida, sonhos e ambições, a vida mesmo.

— Tá aqui! — bateu Jotagê no bolso do casaco —. Mesmo com ele, levo medo.

Havia ainda o famoso visto de saída. Passaporte era o documento necessário para viajar, mas além disso havia a permissão para viajar, permissão dependente de imprecisas instâncias, algo assim como: primeiro tiras o passaporte, depois veremos se vais viajar. João iria a Paris via Livramento, era mais prudente.

— Tomo um trago em Livramento e, como quem não quer nada, al pasito, salgo a mirar las chicas por la Calle Internacional, mal boto o pé em Rivera mando os milicos à puta que os pariu.

Era um itinerário sensato, ninguém garantia que lhe dariam o visto de saída. E o Uruguai não o exigia. O passaporte, virgem de carimbos, passou pelas mãos de todos, naqueles dias valia mais do que qualquer diploma. Aquela carteirinha verde, apesar de um timbre transversal — não é válido para Cuba — era sinônimo de vida nova. Quanto a Cuba, uma vez na Europa, dar-se-ia um jeito. Os tempos eram duros, particularmente para João. Entusiasmara-se pelo estudo da Filosofia e tivera de assistir e sofrer o desmantelamento do curso da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. De uma só penada — o Ato Institucional no Caralho — o curso havia sido castrado de seus melhores cérebros, sendo promovidos ao mesmo tempo os delatores e incompetentes.

O clima geral era hostil a qualquer atividade pensante, louvavam-se Pelés e Copas do Mundo, o general-presidente de plantão insistia em prestigiar grandes prélios, quanto mais Fleury torturava mais prestigiado era, o momento era ideal para a ascensão de montanhas de músculos desprovidas de cérebro. Mais o medo, a insegurança gerada pelo arbítrio, quando o Milicus latinoamericanensis, julgando ser civilizado limpar a bunda, confundia Carta Magna com papel higiênico. Com o fim do habeas corpus para crimes políticos, só circulavam tranqüilas as meninas que giravam bolsinha nas calçada, quem quer que ousasse pensar podia ser premiado com o cárcere no seguinte pelo subversivo gesto de ter tido idéias.

Foi quando surgiu Soderman, o radical. Soderman não partia, intimamente julgava covardia partir. O momento era de resistência. O Partido conseguira introduzi-lo na Casa de Caldas, fora aos poucos galgando posições, dirigia agora o Suplemento Literário, uma das raras janelas abertas naqueles dias de escuridão. Com metáforas e um pouco de tato — considerava Soderman — sempre se conseguia dizer o essencial. Os censores eram obtusos por definição, nenhum homem culto se prestaria à tarefa vil. Prendiam-se a palavras. Proletariado, por exemplo, era sacrilégio. Mas se um copidesque riscava a palavra maldita e punha em seu lugar “o homem explorado em sua força de trabalho”, era capaz até mesmo de comover o censor, embora ferisse a métrica de muito poema. Soderman sabia disso e, apesar dos protestos de poetas e ensaístas que consideravam intocáveis suas obras-primas, ia tocando o barco, driblando a censura de Brasília e do próprio jornal, esta bem mais incisiva, que o Big Boss era vivo e não iria permitir na Casa a fundação de uma república socialista.

— Então? Partir é morrer um pouco? — interrogou a roda, ar agressivo de profissional dinâmico.

— Pode ser — atalhou Dalmácio, preparando com gesto grave o eterno cachimbo em pau-rosa —. Mas prefiro morrer viajando a morrer ficando.

Discordou violentamente, Soderman. Que havia sempre o risco de morrer, é verdade. Mas que morrer era às vezes mais digno do que continuar vivendo. Citou anedota — no sentido europeu da palavra, sublinhou — contada por Albert Camus quando estivera em Porto Alegre. Sob ameaça de morte de um policial alemão, um adolescente francês insistia que nenhuma idéia merecia que se morresse por ela, o que significava, ao mesmo tempo, que de fato havia idéias pelas quais podíamos consentir em dar a vida. Que fugir do combate naquela hora tão grave, perdoassem os espíritos mais susceptíveis ali presentes, fugir não era exatamente um gesto de coragem. Que lugar de brasileiro era no Brasil.

Chalé quase deserto, garçons bocejando, a data pairando densa sobre a mesa. Todos se recusavam a lembrá-la, mas junto com ela pairava a consciência de que mais alguns quartos de hora e um fragor hipócrita de foguetes bombardearia o âmago de cada um. Mais que o espoucar dos fogos se fariam ouvir, e fundo, o estouro surdo dos champanhes e os risos e votos pingando mentiras. Mal ouvia falar de Natal ou Ano Novo, Dalmácio saltava de Bierce em punho, “se elegemos viver entre bárbaros, devemos suportar os bárbaros ruídos de suas bárbaras superstições, mas o imbecil que se senta e espera até a meia-noite para tocar um sino ou disparar um fuzil porque a terra chegou a um determinado ponto de sua órbita, deve ser considerado um inimigo de sua raça”.

Mas ignorar o momento e as circunstâncias era tão impossível quanto pôr entre parênteses o clima que os envolvia e do qual fugiam como ratos de um incêndio. O silêncio espectante do momento abominável revelava mais que qualquer discurso, a meia-noite aproximava-se inexoravelmente, todos sabiam que palavra alguma pronunciariam. Dalmácio esboçaria um esgar com a boca já torta pelo cachimbo, não se dignaria nem mesmo a um sorriso irônico, não era seu ano de sorrir. Soderman permaneceria sisudo e indignado, invocando aquele santo dia entre os dias em que cada dia seria ano novo, para todos e não apenas para uma elite. João se perguntaria talvez o que significaria para um velho bebendo água podre nas sarjetas todo aquele foguetório, sem sequer suspeitar de que por muitos anos só saberia das datas por riscos na parede.

Cristiano, cujo nome lhe pesava mais que lepra, naquele distante e sempre presente 31 de dezembro se dividia entre a tristeza da data e a alegria da partida, entre o medo da mudança e o nojo de ficar. O pênis, há uma semana sem sinais de vida, ponte pela qual chegava aos demais seres, parecia recusar-se à ereção pelo resto de seus dias. Ou encontrava o éden onde Márcia nenhuma precisasse vender seu corpo, onde Adrianinha nenhuma exigisse presentes de Natal, ou estarias mutilado para a vida, logo ele, o falo ambulante, o que não sentia estar vivendo se seu sexo não lho confirmasse.

Foi quando surgiu o Homem de Orion, para desconforto de Soderman, que não o suportava, não entendia como os demais tinham paciência para ouvi-lo, seus delírios exigiam um escroto ecumênico. Eternos papéis sob o braço, olhar cobrindo o espaço todo à esquerda e à direita, jamais à frente, o serzinho incrível não tinha suas origens na Terra. Vinha de Orion, talvez via um buraco negro, quem sabe por deslocamento astral, isto ninguém sabia e ele pouco se importava em explicar, sempre se mantivera discreto quanto a seus meios de transporte intergalático.

Viajante dos bons estava ali. Enquanto uns marchavam rumo à Fronteira, outros rumo à Europa, ele provavelmente estava chegando de uma galáxia vizinha, coisa de poucos milênios-luz de distância, mera rotina em sua vida. Sempre que o via, Dalmácio lembrava uma novela de Vonnegut, a saga de um astronauta que vinha dos confins do universo e fora obrigado a uma pausa em sua viagem devido a uma pane em sua nave. Em meio ao pouso forçado em Titã, surgira vida na Terra, surgira o homem e o homem colonizara Marte, os colonos se rebelam, há uma guerra de libertação interplanetária e uma família terráquea se exila em Titã levando consigo uma criança que porta um estranho amuleto. O amuleto era a peça de reposição necessária ao astronauta. Sua galáxia distava a tantos anos-luz de nosso sistema, que fora preferível incentivar o surgimento de vida na Terra, esperar que surgisse a ameba e dela o homem, que os homens conquistassem o espaço próximo ao planeta e fizessem a guerra, e esperar pacientemente que as leis do acaso produzissem a peça necessária ao prosseguimento da viagem. Emigrada a família de terráqueos a Titã, cessa o sentido da vida na Terra.

A metáfora era vertiginosa, Dalmácio considerava que teólogo algum fora tão longe em suas ficções e cada vez que via o Homem de Orion, seu jeitão de jovem Hitler tentando vender seus quadros, olhar esquivo e lógica inabalável, não podia deixar o solitário mensageiro estacionado no satélite de Júpiter.

Soderman, o materialista, já o via como um misógino. O homúnculo incrível considerava que as mulheres roubam energias ao homem sábio. Mesmo assim, pedira a publicação no jornal de uma carta aberta, sentia-se incompreendido pelas mulheres deste planeta retrógrado e alertava a todas as terráqueas que, se dentro de um mês não se manifestasse uma que o entendesse, se uniria a uma prostituta. Mas como — perguntara então Soderman — mulheres não roubam energias?

Segundo Ducatti, havia uma só possibilidade de relacionamento homem/mulher sem perda de energias:

— Basta liberar um só espermatozóide.

Soderman, perplexo, quis saber como. Com uma esquiva piscadela do olho esquerdo, o Homem de Orion esnoba:

— Questão de prática, meu caro.

Uma de suas missões não-secretas na Terra é criar um espaçoporto para receber os Extras. Não havia coquetel ou tertúlia onde não estivesse com sua lista de adesões. Toda contribuição, por ínfima que fosse, sempre vinha a calhar. Fora objeto de não pouca discussão o poema que enviara ao Suplemento Literário, “Arte Apocalíptica” e fora chutado para o Bric-à-Brac do Correião, seção onde Soderman descarregava os escrevinhadores irrecuperáveis.

Quando tremem estruturas carcomidas
o comércio da antiarte continua
e conquista multidões seduzidas
pela Besta que campeia fria e nua!

Mercadores do infernal... como produzem!
Antiestético massacre musical,
nauseantes, pornográficas sessões,
monstruosas criaturas de metal,
decadência, bacanais, aberrações!

Literários achincalhes — artifício
para ao povo transmitir devassidão!
E os lixos teatrais? Merecem vaias
e recebem de fantoches, ovação!

Antiarte, violações, cataclismas...
e os anos vão correndo... que fazer?
Tudo é preciso acontecer.

A ruína do sistema condenado
é o princípio de uma Nova Sociedade
que teremos sobre as cinzas do passado.

Mais um revolucionário se unia ao grupo, pois. O Homem trazia novidades, havia conseguido estabelecer um contato de terceiro tipo com os Extras, no morro Santa Teresa, e exibia um croquis do encontro. Em primeiro plano, seus colegas de pesquisas navexológicas — neologismo que criou a partir de navex, nave extraterrestre — e ao fundo paira a nave, dela parte um feixe de luz incidindo sobre um minúsculo objeto. Cristiano está furioso com o orionino, sempre lhe apoio em sua campanha pelo espaçoporto, apoio não só financeiro como também em sua coluna, e o hominídeo não o avisava sobre aquele momento único na história gaúcha, pois não lhe constava que em Porto Alegre tivesse jamais ocorrido encontro similar.

— Poderíamos registrar fotograficamente o evento, não podes subtrair aos jornais este acontecimento capital na História dos terráqueos.

O orionino é curto e rasteiro:

— Vocês, jornalistas, são muito sensacionalistas.

No que ninguém poderia negar-lhe razão.

— O encontro — conta o ser de Orion, em voz baixa e pesquisando o espaço circunjacente com seu olhar oblíquo — foi preparado por uma equipe de mentalizadores e só foi possível quando assumimos o compromisso de nada deixar transpirar à imprensa.

— Sábia precaução dos Extras — comenta Dalmácio — e que já nos mostra que não nasceram ontem.

Soderman considera que alguma prova, algum documento, enfim, qualquer coisa material deveria existir como prova do encontro, um mero croquis não convenceria historiadores futuros. O hominídeo, com voz ainda menos perceptível, aponta a pedrinha ao final do feixe luminoso:

— Izinoviguala.

A pedrinha era a prova do contato. Mas não estava com ele no momento.

— Sem prova, não acredito.

O orionino contra-ataca com agilidade:

— A inexistência de prova não é prova da inexistência.

Mas o Homem tem algo mais a contar. Aproxima dos ouvidos terráqueos o orifício por onde fala e, em voz ainda mais apagada, confessa estar precisando de algo. Os amigos não teriam alguma quantia de dinheiro terráqueo para proceder a análise da izinoviguala?

Salvo Jotagê, o latifundiário da Fronteira — como carinhosamente o chamavam, afinal não tinha culpa de ser filho de estancieiro — todos tinham dinheiro contado para a partida, e pequena foi a coleta do hominídeo. O que nele os fascinava não seria apenas sua lógica implacável, nem mesmo sua indignação ante a ingenuidade dos terráqueos (“enviam as naves Pioneer ao espaço em busca de vida, como se há muito os Extras não estivessem aqui”), mas suas teses sobre a pobreza da literatura e demais artes contemporâneas. Para ele não havia dúvidas, tratava-se da interferência dos Trevosos no planeta, que agiam por influência áurica e telepática, sem que as vítimas o sentissem.

— Dessa maneira — explicava — promovem a criação de obras antiestéticas, oferecidas à população como geniais inovações. Quem não as aceita é considerado quadrado. Na pintura, por exemplo, temos as obra horrível de Chagall e Picasso. Na música erudita, composições desengonçadas e caotizantes. Na música popular, sons neuróticos e apocalípticos, adorados pela juventude incompreendida.

O ser se cala. A mesa volta ao clima de véspera de partida. Soderman se desculpa, a companheira conseguira extrair-lhe uma promessa de visitar a família à meia-noite e, “afinal de contas, a gente nunca escapa dessas pequenas concessões à burguesia”. João também saía, murmurou uma desculpa esfarrapada qualquer como fazer malas ou algo do gênero, em verdade todos sabiam que em algum quartinho qualquer de Porto Alegre uma crioula o esperava para uma despedida comme il faut, não era à-toa que também atendia por João Congo ou João Navio Negreiro. A criatura de Orion continuava sua coleta para a análise da izinoviguala em outras mesas, junto aos raros clientes daquele fim de noite de fim de ano.

Os garçons, inquietos ante a proximidade da maldita hora em que o planeta fechava a órbita. Cristiano e Dalmácio saíram, na Rua da Praia ainda restaria o Oásis.

— E a bomba, quem vai herdar?

— Que bomba?

Dalmácio parecia tentar recordar um fato distante. Cristiano falava de uma lata de TNT, achada em seus passeios pelos morros de Porto Alegre, esquecida e intacta numa pedreira.

— Achei melhor explodi-la eu mesmo. No mar. Fui a Torres e joguei-a dos penhascos. Aproveitei para chantagear uma menina da Filosofia, eu aproximava um fósforo do pavio, ameaça de suicidá-la junto se não baixasse as calças, ela pensava que não existia explosivo algum dentro daquela lata. Aí acendi o pavio, fiquei apreciando o estopim diminuindo, no último segundo joguei-a nas furnas. A coitadas tremia como vara verde, foi quase um estupro.

Onde o anarquista revoltado, o homem que queria explodir caminhões de soldados, palácios de governo?

— Olha, Cristiano, isso é inútil. Naqueles dias de 68, subi certa vez no Sulacap, caminhões de brigadianos subiam a Borges para espancar estudantes. Um daqueles caminhões eu podia fazer voar, pelo menos um cinqüenta eu tirava de combate. Para chegar onde? Os coitados eram míseros assalariados sem ideologia, eram brigadianos porque de alguma forma se precisa comer, o que eu faria era deixar cinqüenta famílias com fome. Se não consigo diminuir o sofrimento do mundo, para que aumentá-lo?

Espanto de Cristiano ante aquela confissão do amigo que se gabava de não ter ética alguma.

— Havia também — continuou Dalmácio — havia a hipótese de reservar aquela TNT para os responsáveis do regime, secretários de Estado, ministros, governadores, eventualmente o general-presidente de plantão. Para um homem que se dispõe a morrer, não é impossível acertar essa canalha. Mas o Estado tem milhares de peças de reserva para substituir as peças gastas ou destruídas. Não, o caminho não é esse. Isso de transformar o mundo com bombas é saudosismo de anarquista aposentado. Lembras “Pierrot, le Fou”, do Godard? Claro que sim! Bom, acho que um homem que está de mal com o universo e dispõe de vinte bananas de dinamite, o melhor que faz é atá-las em volta ao pescoço, acender o pavio e poupar o sofrimento de centenas de pessoas que da vida só querem pequenos anestésicos para suportá-la.

Após uma longa pausa que os levou ao alto da Rua da Praia, antes de entrarem no Oásis, Dalmácio arrematou:

— Eu renunciei à violência, e isso sem jamais tê-la usado. Se um dia optar pela violência, será contra mim mesmo. Nessa viagem não tenho o direito de convidar ninguém.

Entraram. O Oásis era reputado por seus pastéis de camarão e, sem que fossem dados aos prazeres da mesa, aquela partida merecia algo marcante, não tinham a idéia de quando se reveriam. No fundo do bar, enfurnado em seu silêncio, Mário Quintana comia um quindim. Cumprimentaram o poeta e sentaram um pouco à distância, em respeito à sua solidão.

Uma vez instalado, continuou Dalmácio:

— Por exemplo, o Homem de Orion, Não sei como o vês, aliás não sei como vês coisa nenhuma, às vezes penso que te conheço mas nunca sei, confesso, quando estás falando sério ou te divertindo com as gentes. Mas eu entendo o Ducatti. Nele está o gérmen do novo Cristo. A humanidade adora mentiras e as mentiras terrestres já estão um pouco gastas, não te parece?

Cristiano quis começar uma análise, Dalmácio o interrompeu com um gesto:

— Espera, me deixa concluir. Lembras o fascínio com que líamos Júlio Verne, Burroughs, Vonegut, Simmack? Pois bem, acontece que somos religiosos. Líamos aquelas ficções com uma terna ironia, como se, não sendo mais crianças, as ficções científicas fossem nossos únicos contos de fada permissíveis. No fundo, quando julgávamos aquela literatura digna de fins de noite ou derivativo para o vil momento da evacuação, estávamos tentando negar a eterna criança que sobrevive em nós, ou, usando uma expressão que talvez te desagrade, o espírito religioso incrustado no cerne do mais empedernido ateu. Aliás, é neste ateu empedernido que se manifesta mais profundamente o desejo de um deus. O ateísmo é uma doença intrínseca ao cristianismo. Não sei se nosso Homem tem consciência dessas coisas, mas ele intui o problema. É um médium. Talvez não entenda muito bem o que diz, mas seus dedos sentem uma tempestade qualquer no ar.

Cristiano se espantava ante aquela verve. Dalmácio era sempre circunspecto e de poucas palavras, manifestando quase sempre sua opinião sobre os homens e o mundo com um avaro sorriso de aprovação ou ironia. Seria talvez a psicologia de partida, quem sabe o pressentimento de homem que sabe que parte para não voltar.

— Continuando: em meio àquele monte de bobagens, viagens pelo astral, contados com Extras, enviados de Orion, em meio àquilo tudo, ele contrabandeia idéias terríveis, repletas de bom senso. O impasse dos literatos, meu caro, é que se algum escritor quiser vomitar o que julga ser a verdade, terá de colocá-la na boca de um louco. Notaste como pululam nos romances contemporâneos os personagens loucos, isto é, supostamente loucos? Quando um personagem sensato enuncia postulados lógicos, o leitor o julga inverossímil. O autor, se quiser convencer seu público, terá de colocar o melhor de si mesmo na boca de um louco. Tenho certeza de que o Homem de Orion não tem consciência disto. Mas ele sente, ele é sensível, tão sensível que se tornou louco.

Seria Ducatti mais um incompreendido, como o poeta que amassava em um pires o envoltório de seu quindim? Dalmácio exagerava.

— O novo deus virá do espaço, de galáxias distantes e inatingíveis. Um deus só pode vir do inacessível. Quando o crente chega até sua morada, o deus já pode tratar de seu testamento. Sabes muito bem o quanto fede o cadáver de um deus morto, sei que também és cultor de Nietzsche. Esses filmecos e livros idiotas de ficção científica estão preparando o espírito dos novos candidatos a crentes. Porque a massa precisa acreditar em algo que se lhe foge ao entendimento. Só nós, os desgraçados premiados pela dúvida, só nós continuamos a rir dessas mentiras que, afinal de contas, anestesiam uma dor da qual a inteligência nos proíbe fugir. A dor de viver.

Os dolorosos foguetes e ruídos de buzinas finalmente se anunciaram, espoucando primeiro isolados, crescendo logo depois em intensidade, como se milhares de canalhas estivesse de foguete em punho ou de mão sobre a buzina esperando o sinal de partidas do canalha mais entusiasta. Dalmácio respirou aliviado, aquela espera era tensa, algo assim como a angústia de alguém sentado na sala de estar de um gabinete odontológico. Um olhar diria mais que mil discursos, mas sequer se olharam. Serias redundante. Permaneceram estáticos, olhando o nada, e assim continuaram por longo tempo. As simbólicas manifestações de alegria começaram a amainar.

— Sem falar que todos o consideram louco porque ainda não construíram uma igreja em cima dele. Já imaginaste se o crucificam por sua mania de viagens intergaláticas? Na década seguinte já está criada a nova religião, os milagres programados, mais um século e a seita se orna de um papa. Soderman ri de nosso Homem de Orion. Mas jamais riria do Cristo, embora se pretenda ateu e materialista. Cá pra nós, quem era o Cristo? Um doido varrido, filho de uma prostituta judia com um soldado romano...

— Um momento — atalhou Cristiano — ser filho de puta não me parece constituir demérito. Aliás...

— Por favor, estou com a palavra. Dispenso tua louvação das putas, eu também gosto delas. O que me deixa perplexo é que conseguiram transformar o filho de uma delas em patrono da família. Mais ainda, em Deus e ao mesmo tempo em filho dele. Já imaginaste se saímos a berrar na Rua da Praia: “Deus é um só — e tem mais — eu sou filho dele”? Vão nos olhar com o mesmo ar de troça com que olham nosso orionino, com a mesma comiseração com que os romanos olhavam Cristo em sua época.

Foguetes tardios ainda se ouviam lá fora.

— E aí estão o Papa, os cardeais, bispos e clericama, todos jurando de pés juntos que o Cristo, além de deus, é filho de uma virgem. Tremenda aposta. Alguém ousa, já não digo chamá-los de loucos, mas imaginá-los loucos? Ninguém. Nesta hora, nesta hora precisa, tanto tua mãe como a minha devem estar implorando ao filho da Puta — ou da Virgem, conforme a ótica — que nos guie em nossas viagens. Somos filhos da loucura, tche! Muita gente já morreu por negar que Maria tenha parido o Cristo sem perder o cabaço. Hoje, a época me permite dizer que partenogênese, só a conheço em certos pulgões da lavoura. Mas Sua Eminência Reverendíssima Nosso Cardeal Don Vicente Scherer deve sentir saudades das fogueiras pedagógicas da Idade Média, se ouve isso. E o pior é que nem posso falar. Com todo seu marxismo, Soderman já jogou na cesta meus considerandos. No fundo é outro catolicão, só que não sabe disso.

 

Neste Natal de 1971, eu, Cristiano, me confesso:

Sou jornalista e vivo em Porto Alegre, cidade de um milhão de habitantes, com trinta mil prostitutas para atendê-los, segundo cautas estatísticas e tímidos conceitos de prostituição. Até hoje, por exemplo, não sei se os jornalistas fomos ou não incluídos nas trinta mil. Se não o fomos, urge uma atualização dos dados. Se a prostituta vende apenas o corpo, reservando-se o privilégio de manter o espírito livre durante o seu trabalho, o jornalista vende corpo e alma, e se é possível vender o corpo preservando a alma, até hoje não foi encontrada a fórmula de vender a alma sem ocupar o corpo. Assim sendo, não cause a ninguém espécie se adoro prostitutas e as respeito como irmãs.

Curiosa fama adquiriu o jornalista nesta Era das Comunicações. Sei lá por que razões, difundiu-se entre as mulheres o boato de que jornalista é bom de cama. No passado, tal prestígio pertenceu ao artista, fosse ele escritor, escultor, ator ou pintor. Onde eu andava, as bocetas me perseguiam, dizia Henry Miller. Enfim, hoje todo jornalista só porque lida com a palavra já quer seu texto publicado em livro, só porque escreve pensa que é escritor. Se é escritor é artista, se é artista é boa foda, suponho deva ser este o raciocínio das meninas.

Como jornalista, não me queixo de tal fama. Nem sequer de meu salário, dez vezes inferior ao de uma puta bem sucedida. Não ligo para dinheiro, desde que meu sexo esteja saciado. Em outras palavras, contento-me com o necessário para saciá-lo. Cientes de minhas agruras financeiras, minhas amigas profissionais sempre me cobram baratinho. Sabem que se um dia acertar na loteria, saberei pagar-lhes o que de fato merecem.

Mas como, dirá o leitor, tão denso e humano cronista falando em sexo pago? Como? Muito simples, meu caro. A mais honesta mulher do mundo é ainda a prostituta. Se algo me gratifica em meu trabalho, não é o salário que recebo nem a fatia de poder que manipulo, mas as mulheres que querem conhecer o “cronista”. Me atacam às vezes na rua, procuram-me na redação, as mais ousadas invadem minhas quatro paredes. Meus respeitos às raras leitoras que logo vão ao âmago da questão. Abro a porta e lhes baixo as calças, sem mais preâmbulos. Exceptus excipiendis, venham a mim as profissionais.

 

“Hoje não me contive, é hoje que te escrevo, te adoro, tuas crônicas são minha Bíblia, quero te conhecer, te beijar, sou bem diagramada por natureza, futura colega por vocação, livre e solteira por convicção”. Só esqueceste um pequeno detalhe, querida, não me contaste que pertencias à execranda classe média. Perdeste a simplicidade dos pobres e não ousas a imoralidade dos ricos. Me queres na cama, mas devo respeitar as famosas etapas do orgulho feminino. “Onde se viu, assim no primeiro encontro, que vais ficar pensando a meu respeito?”

Talvez pensasse até muito bem, tudo dependeria de teu empenho, já que pouco ligo ao desempenho, os kamasutra da vida tendem mais ao torcicolo que a um bom orgasmo. Esperavas uma ou duas semanas de assédio, não? A monótona representação desta farsa ancestral de caçador e caça. Mas sou péssimo ator, ó bem diagramada leitora.

Sem falar que és moça emancipada, lutas por assumir teu lugar na História. Assumisses tuas contas nos bares, eu já me dava por satisfeito. Sou mão-de-obra intelectual, vivo de salários, não posso permitir-me o risco de te pagar esticadas noturnas durante semanas para deparar-me, na cama, com uma amadora.

Não, nada disso, não penso só em cama. Mas antes dela não concebo amizade entre homem e mulher. Enquanto a coisa não acontece, sempre há algo tenso no ar, uma pedrinha que atrapalha um papo tranqüilo. Primeiro a gente trepa, depois conversa, este é meu modo de proceder. Eliminada aquela imperceptível tensão, a conversa é mais amena.

“Queres pôr todas as mulheres do mundo em tua cama”, objetas. Não procede. Tento deitar na cama de todas as mulheres, mas não permito que qualquer uma deite na minha. Os solteiros, não somos tão devassos como a época moderna insinua. Em nossas cópulas cotidianas gostaríamos de ter em uma só mulher a sensual e a inteligente, a amiga e a namorada, a espirituosa e a provocante, a companheira de trago e a esgrimista à altura. A gente o que tem à mão, dizia uma velha cozinheira. Se uma mulher não pode oferecer-me nada mais além de orgasmos, nela nada busco além de orgasmos. E os melhores não me foram dados por universitárias ou profissionais liberais, mas por animaizinhos incultos e cheios de vitalidade, ó Verinha-força-da-natureza, onde andas que não mais me buscas? Não, não estou sendo indiscreto, há tantas Veras no mundo, e toda Vera baixinha se chama Verinha, e as Veras altas Verão, em minha agenda tive dois Verões, cinco Veras — Vera I, Vera II, Vera III, Vera IV e Vera V — mas só uma Verinha, onde andas Verinha tu que sozinha era um bacanal?

Adejo portanto entre as leitoras — as objetivas, é claro, as que vão logo ao âmago — e as profissionais. Acho muito engraçado quando sociólogos de gabinete saem a campo, lápis em punho, perguntando por que a mulher se prostitui. A mulher vende seu corpo porque um homem o compra, oras bolas! Perguntassem estes doutos senhores porque os homens pagam, descobririam alguma coisa a respeito das mulheres e inclusive de si próprios. Neste mundinho onde preciso te comer para que não me comas, o homem só não vende seu corpo porque não há mercado. Ou melhor, não havia. Até os gaúchos, de legendária virilidade, já estão descobrindo que sexo não tem sexo, em falta de mulher vai homem mesmo, sem falar na excitação da novidade. Se os travestis hoje competem firme no mercado, superando em charme muita profissional competente, que resta então às pacatas esposas desprovidas de qualquer encanto ou saber-como?

Entre elas, sinto-me bem. “Eis as mulheres verdadeiramente amáveis — dizia Sade —, felizes e respeitáveis criaturas que a opinião infama e a volúpia coroa e que, muito mais necessárias à sociedade do que as recatadas, têm a coragem de sacrificar, para servi-la, a consideração que esta sociedade ousa negar-lhes injustamente”.

Que mais não seja, homem algum tem queixa de uma prostituta. Dela esperamos apenas o que ela tem a dar, enquanto das demais mulheres espera-se muito quando pouco ou nada têm a oferecer. “Estás me tratando como a uma puta”, reclamava-me uma amiga ocasional. Engano, minha cara. As profissionais, trato com mais carinho.

Jamais as espanquei, senão quando me pediam, em meio ao galope final, para fazê-lo. Sou gentil, isso sou, nestas ocasiões lamento tê-las decepcionado se não bati com a violência desejada. Só quem odeia bate bem e jamais odiei alguém. Como sou um tanto desajeitado para tais práticas, a estas não voltei a procurar.

As prostitutas entrarão antes de vós no Reino dos Céus, disse um moço mais conceituado que este obscuro cronista.

 

— Farol dos Náufragos da Noite.
— Iluminai-nos!

— Pastora dos Viajantes Cansados.
— Guiai-nos!

— Bainha dos Pênis Gonocócicos.
— Recebei-nos!

— Recipiente das Imundícies Coletivas.
— Sanai-nos!

— Vaso de Todos os Homens.
— Abri-nos as pernas!

— Zeladora da Honra das Matronas.
— Protegei nossas esposas e filhas.

— Guardiã dos Hímens do Ocidente.
— Velai por nossas castas filhas!

— Sustentáculo da Harmonia Familiar!
— Salvai-nos, que o barco afunda!

— Afrodisíaco dos Anciões já Flácidos.
— Erguei-o!

— Esperança dos Aleijões.
— Suportai-nos sem nojo!

— Bálsamo dos Homens Irados.
— Amansai-nos!

— Oásis no Deserto dos Desejos Insatisfeitos.
— Acolhei nossas neuroses!

— Repouso do Industrial Dinâmico.
— Aliviai-nos!

— Anus Mundi.
— Envolvei-nos!

— Vulgívaga Noctâmbula.
Eli Eli, lama sabachtani?

— Puta Maria, Mãe de Deus.
— Tende piedade de nós!

 

Para não dizer que não tenho queixa alguma em relação às profissionais — não como pessoas, é claro, mas como classe — devo confessar ter encontrado uma pequena falha em seu sistema de atendimento ao público. É o caso das magnas datas de confraternização universal, nas quais os espécimes se reúnem para uma pausa em suas calhordices. Algo assim como um acordo entre canalhas: hoje eu finjo que te amo, tu finges que me amas, todos fingimos que nos amamos e amanhã cedinho voltamos a odiar-nos. Falo do Natal. Ou ano Novo.

Sei, as prostitutas também são gente, têm pai, mãe, irmãos e irmãs, filhos e filhas. Mas é certamente nestas datas que se fazem mais necessárias. Pois não é pequeno o número de homens que se recusam a participar deste festival universal da hipocrisia. E é um tanto perigoso para um homem dessa estirpe desgarrada perambular sozinho pelas ruas enquanto a humanidade estoura champanhes.

Uma espécie de plantão, algo assim como um pronto-socorro sexo-afetivo, poderia talvez ser organizado, integrado por profissionais distantes da família, sem filhos, mais disponíveis para o trabalho nesses dias. Se a Nação mantém em funcionamento serviços de utilidade pública tais como comunicações e transportes, não consigo entender como permite feriado a uma classe da qual depende a salvação pública, o que evitaria certos natais embaraçantes, como o último natal de Adriana.

 

As ruas estão congestionadas, a psicose aquisitiva chega a seu auge. Os publicitários, estes profissionais que não têm sequer o pudor de usar um nome de guerra quando em serviço, fabricaram angústias durante meses. Os meios de comunicação apanham as angústias, quentinhas do forno, e as jogam dentro de tuas quatro paredes. Não tentes escapar, privilégio talvez possível a cegos-surdos-mudos. Tudo foi montado de forma que te sintas o mais miserável dos homens se não puderes comprar, comprar, comprar. Mesmo que não tenhas ninguém a presentear — oh!, deves ser um anti-social, as pessoas são tão amáveis e só pedem para ser amadas! —, presenteia a ti mesmo. Mas naquele exato dia daquele exato mês. Um imenso esquema foi armado para que tudo aconteça naquele dia, naquela hora, deixa de ser um estraga-prazeres, que mania é essa de querer bancar o original, presenteando fora de época?

Compra, compra, compra. Qualquer coisa, em qualquer lugar, a qualquer preço. Não te preocupes com o limite de teu dinheiro, sabemos muito bem que se dependêssemos de teu real potencial econômico não venderíamos bosta nenhuma. Prevendo isso, te concedemos crédito. Podes pagar ano que vem. Jesus nasceu, é preciso comprar.

Encontrei Márcia na Rua da Praia, em um desses natais em que as pessoas correm pelas ruas como formigas enlouquecidas ante a ameaça de um temporal. Ainda não a conhecia, no sentido exato em que fala, com muita propriedade, a Bíblia. Como toda mulher desconhecida me excita terrivelmente, abordei-a para combinar algo um dia qualquer. Juro, nem me passou pela cabeça encontrá-la naquela tarde, sei que Natal é dia morto, nem condenado à forca consegue uma profissional para seu último desejo. Mal ela insinuou que estava disponível, bastava concluir algumas comprinhas rápidas e poderia atender-me, uma importuna ereção estufou-me as calças. Às cinco, então? Perfeito, às cinco, lá em casa, topou Márcia.

Tinha um olhar quente e este é o critério pelo qual escolho uma mulher, para mim o mais importante órgão sexual sempre foi a vista. Márcia, profissional experiente, logo descobriu isso. Antes do tchau olhou para o volume das calças com um movimento de lábios — espontâneo, de quem realmente gosta do esporte, pareceu-me — que chegou a me provocar uma sensação de frio e desarranjo na barriga. Senti mais sangue afluindo ao pênis, comprei um jornal para disfarçar, não fica bem a um distinto espécime da raça humana andar desse jeito pelas ruas fervilhantes em uma data assim tão nobre. Tinha tempo para uma caipirinha, dei um pulo até o Chalé. Precisava tomar algo, até o bar o remédio foi pensar em contabilidade, dívidas, aluguel atrasado, coisas do gênero, que empanassem as promessas da língua de Márcia, atenuassem um pouco aquele priapismo natalino.

 

Seria a data? Acho que não, mas não é todos os dias que isto me ocorre. Seria Márcia? Ou Márcia, mais a data, mais minha angústia? O fato é que as primeira nem teve graça, um vermelhão inundou-me a pele do pescoço e peito. Márcia espantou-se, logo o vermelhão também a contagiou, foi um orgasmo-aperitivo daqueles que prometem um outro, apocalíptico, total.

Márcia pulou da cama, foi ao banheiro lavar-se. Pela porta entreaberta ouvi uma vozinha, “mãe, o que é que tá fazendo pelada com esse homem no quarto?”

Márcia disse qualquer coisa, ouvi o som de palmadas, um chorinho de menina, interrompido pela batida de uma porta. Tudo bem — disse Márcia ao voltar — ela nunca aparece por aqui, mas hoje eu queria ficar com ela, posso ser puta mas tenho esse direito, não tenho?

Justo na hora boa, Adriana começa a bater, desesperada, aos berros, na porta. “Mãe, o que é que esse homem tá fazendo, ele tá te machucando, eu tô ouvindo, que gemidos são esses, mãe?”

Calma, Adrianinha coisinha linda, a mamãe não está sofrendo, muito antes pelo contrário, além disso está pagando teu presentinho de Natal.


 

 

0. PONCHE VERDE

 

Entre los pastos tirada
como una prenda perdida
y en el silencio escondida
como caricia robada,
completamente rodeada
por el cardo y la flechilla
que como larga golilla
van bajando a la ladera
está una triste tapera
descansando en la cuchilla

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

donde palpitar sentí,
llenas de afecto profundo,
cosas chicas para el mundo
pero grandes para mí.


“Mi Tapera” — Elias Regules

 

Chovera no dia anterior e a terra ainda exalava um cheiro de grávida. Cristiano enchia os pulmões com embriaguez. À sua frente estava a capela das Três Vendas, modesto porém eficaz templo do obscurantismo, onde padres europeus lhe haviam inoculado no cérebro a noção de culpa. Descera do ônibus — se de ônibus podia se chamar aquela minúscula geringonça sacolejante — que fazia fim de linha sob a sombra de um eucaliptal, o resto do percurso teria de fazê-lo a cavalo. Arrancou algumas folhas de um eucalipto, triturou-as nas mãos e aspirou a essência desprendida como quem sorve a própria infância. Conseguir cavalo não foi problema. Mal se identificou, camponeses prestimosos passaram a cercá-lo, olhavam-no com pasmo e veneração. Já tinham ouvido falar dele, era o filho do Canário — e a garganta começou-lhe a atar-se em nós —, o que havia visto coisas nas quais era difícil acreditar, o que conhecia o mar e as terras que ficavam do outro lado do mar.

— Homem bom tava ali! — disse alguém referindo-se a Canário, e Cristiano teve de ranger os dentes para não chorar, não ficava bem um barbado chorando em meio àquela indiada rude e calejada pelas agruras de suas vidas. Para onde ia? Ia rumo a Ponche Verde. Sem que pedisse, ofereceram-lhe vinte cavalos, poderia dispor de uma manada, embora precisasse de apenas um. Eram todos bem mais jovens do que ele, não os reconhecia, mas conseguia vislumbrar em cada rosto os traços dos pais, eu sou filho do Nelson, não lembras de mim, Bagual? E eu sou filho da Siá Maria, a mãe quer te ver, vai matar um boi pra te festejar, e eu sou filho do Martim, lembras que me acertaste um bodocaço no olho quando fui te dar uma surra por andar de olho em minha prima, e eu sou filho do Raul...

No bolicho do Jacinto, frente à capelinha, ofereceram-lhe uma Tatuzinho, “a caninha do Canário”, e a forte cachaça escorreu-lhe por dentro, arranhando a garganta já contrita por tantas evocações. Não tivera ainda tempo de acreditar que estava ali, no bolicho do Jacinto, quando o convidaram para sair até a frente do rancho e alguém lhe passou as rédeas de uma garbosa égua tobiana, encilhada com arreios de domingo. Um piazote chegou a galope, pulou em um matungo baio e lhe passou um pacote, “a mãe soube que voltaste, te mandou estas bombachas”, um outro lhe perguntava que número calçava para encontrar-lhe botas, tudo insinuava que não seria correto voltar àqueles pagos de sapatos e calças de brim. Jacinto, comovido, vestiu-o com seu pala calamaco e alguém atou-lhe ao pescoço um lenço colorado exclamando: “filho do Canário, só pode ser maragato”.

Saiu a trote largo pela Linha Divisória, à sua esquerda o Brasil, à direita o Uruguai. Passou frente à tapera do finado Cristiano Fischer. Dali vinha seu nome, Canário assim o batizara em homenagem ao velho médico alemão que se isolara naqueles cafundós. Pensamentos sem nexo, sem nexo aparente, já que tudo que passa mesmo na mente de um louco não deixa de ter um nexo qualquer, ainda que insondável, lhe perpassavam o cérebro como chispas. Lembrava o centenário do velho Cristiano Fischer, fora seu primeiro choque com a civilização.

Havia churrasco, música, danças, balões, tudo era cores e alegria, quando lá pelas tantas um ruído infernal invadira o espaço, foguetes espoucavam de todos os lados. Teria então uns quatro ou cinco anos, e com os olhos esbugalhados de pânico berrava por Canário. Jamais tivera tanto medo em sua vida, se Canário não aparecesse correndo talvez tivesse enlouquecido de puro pânico. Era aquela a mais terna e distante imagem do pai: ele fugia desesperado pelo eucaliptal, com Cristiano nos braços, enfurnando-se num chircal vizinho para afastá-lo daquele caos de fogo e estampidos. Lembrava também aquele poema de von Heidenstam, que nada conhecia de sua infância e no entanto mexera no barro de seu passado. Recitou-o em alta voz, as palavras se perdiam na indiferença da pampa.

Jag längtar hem sem atta langa ar.
I själva sömnen har jag längtan känt.
Jag längtar hem.
Jag längtar var jag gar — men ej till människor!
Jag längtar marken,
Jag längtar stenarna där barn jag lekt!

(Tenho saudade de minha terra há oito longos anos.
Mesmo em sonhos saudades senti.
Tenho saudades por onde vou — mas não dos homens.
Tenho saudades do chão,
Tenho saudades das pedras onde criança brinquei).

Já perto do obelisco que marcava a assinatura da humilhação farroupilha nos campos de Ponche Verde, olhando ao longe o vulto da Casa, coração num ritmo esquisito, parou para conversar com o Hilário da Siá Cantilha, que há uns trinta ou mais anos estava doente e às portas da morte. Nos seus dias de colégio primário, as professoras lhe recomendavam passar de longe pelo rancho do Hilário e jamais beber água de seu poço, mesmo que a sede apertasse. Pois lá estava o Hilário, eterno, apoiado em um moirão, em carne e osso, mais osso do que carne, era verdade, mas mais rijo que o moirão.

Debruçou-se no alambrado e se dispôs a alguns dedos de prosa. Abandonara há cerca de trinta anos aqueles pagos e tinha a impressão que Hilário jamais se afastara daquele poste. Falou de sua doença. Que quase havia batido as botas no ano anterior, fora até mesmo levado para um hospital na cidade.

— Mas eu senti que iam me matá naquele hospital. Mal senti por perto a Moira Torta, peguei meus trapo e saí como quem roba daqueles quarto branco. Se não fujo, tava morto.

E estaria morto mesmo, pensou Cristiano. No entanto, ali estavam charlando, contando as novidades do Ponche Verde, quem havia casado ou morrido e Cristiano, que transportava consigo sua pressa urbana, sentiu-se definitivamente expulso daquele universo primitivo onde o tempo corria com o vagar de uma lesma, se é que corria. Hilário não entendia porque consultava tanto o relógio. Tentou explicar que estava voltando das Europas, onde tudo tinha horário. Hilário era homem informado:

— Já me falaro das Oropa. Fica meio pras banda de Passo Fundo, segundo me contaram.

E ficava mesmo naquele rumo. Deixou Hilário escorado no moirão e foi revisitar sua infância. Mas já era um intruso naquele mundo de tempo infinitamente lento, preguiçoso.

Retomou a Linha e deu de rédeas à égua tobiana, que largou em um galope suave. Logo surgiu o Marco Grande da Fronteira, monolito em cimento que, de seis em seis quilômetros, demarcava os limites entre Brasil e Uruguai. Visto do cavalo e da altura de um cavaleiro, não tinha maiores razões para ser chamado de grande. De seus dias de guri, lembrava de uma pirâmide colossal, onde se encarapitava no topo, após escalar pelos ombros do pai. Canário o mandava virar-se para o oriente e dizia: “Fala para os homens do Brasil, meu filho”. Ele gritava qualquer coisa, Canário o ordenava virar-se para o ocidente, naquela nesga de chão o Uruguai, por caprichos da política, ficava do lado onde nasce o sol: “E agora fala para os homens do Uruguai, meu guri”. Naquela geografia, qualquer criança já nascia comparando. Podia ser tudo no futuro, menos um nacionalista ferrenho.

Mais adiante, coisa de meia légua, erguia-se o Cerro da Tala, última coxilha entre ele e a tapera. A tala que encimava a elevação era agora árvore robusta, e Cristiano decidiu revisitá-la, mesmo que tivesse de fazer mais longa sua campereada. Sob suas ramadas cúmplices havia a Toca da Onça, evocação dos primeiros folguedos com primas e primos, num pan-sexualismo pagão. O pecado chegara bem mais tarde, importado da Europa por Doña Chichi, a catequista.

Não que fosse toca, nem que na pampa houvesse onças. Era apenas uma espécie de buraco formado pela justaposição de grandes pedras onde não cabia mais que umas quatro crianças, onde se escondiam para examinar mutuamente os genitais e deles extrair prazer. Toca da Onça era o código pelo qual se referiam ao esconderijo diante dos adultos, pois suspeitavam que estes não veriam com bons olhos seus brinquedos de mãos.

Ao começar a repechar a coxilha, a tobiana voltou a um trote manso. À medida que subia, divisou cercas e mais cercas, léguas de alambrado recortando anarquicamente a geografia de sua infância. Ao chegar à tala, sorriu divertido ante a Toca de Onça: era uma abertura em meio às pedras que só abrigaria um homem adulto se este se encurvasse qual um feto. No entanto, em sua memória havia ainda o espectro de algo enorme, de vasto templo onde se iniciara, em secreto cerimonial, nos mistérios da vida.

Apeou, atou as rédeas em um galho da tala. Sentado sob a árvore, contemplava a tapera sobressaindo de um capão de eucaliptos. A Casa continuava de pé, como também o Pau Vermelho. Por certo já estaria podre, mas continuava resistindo a chuvas, ventos e vermes, marco teimoso do pioneirismo de Canário. Quando fora erguido? Já não lembrava com precisão, mas fora nos anos 50. Canário ouvira falar no tal de rádio e tomara a decisão de ter o seu.

Em um raio de léguas em torno ao rancho, nos bolichos de Ponche Verde, Três Vendas, Villa Indarte, Upamaruty, Puntas de Jaguary, Cerrilhada, enfim, onde chegasse a notícia de seu projeto, era visto como louco ou mentiroso, onde se havia visto um pobre diabo com tais luxos da cidade? Mas o homem falava sério e fazia repetidas viagens a Livramento e a Dom Pedrito, de onde voltava sempre de mãos vazias, mas com um jeitão pensativo, de quem pesa as conveniências e inconveniências de um gasto absurdo.

Um belo dia, cortou o mais retilíneo e mais alto dos eucaliptos, despiu-lhe os galhos, falquejou-o de forma a deixá-lo quadrado e o pintou de vermelho, enquanto se avolumavam nas imediações o boato de que estava enlouquecendo. Não lhe foi fácil reunir vizinhos para erguê-lo, mediante um complexo sistema de máquinas de alambrar, e os que conseguiu reunir o ajudaram com certa piedade, o homem estava louco mesmo, seria pior contrariá-lo: onde se viu derrubar um eucalipto, pintá-lo de vermelho e tornar a plantá-lo na terra?

Cristiano tinha ainda viva a lembrança da operação, levara um dia todo, o poste colossal fora erguido com quatro fios de arame puxando de árvores próximas, e havia ainda o risco de que algum fio rebentasse, e adeus rancho! Erguido o poste erguido, Canário, contente, carneou uma ovelha e em meio ao churrasco e à cachaça a vizinhança até mesmo esqueceu aquela torre absurda.

Na semana seguinte, Canário atrelou um matungo tordilho a uma aranha e se tocou para Villa Indarte. Voltou tarde da noite e à meia-guampa, com um imenso volume quadrado no pescante. Mas ainda não era o rádio, apenas duas baterias e um aerodínamo. Instalado o catavento no poste, seu conceito mudou nos bolichos da região, parece que o homem vai mesmo trazer o tal de rádio, dizia-se. O que de fato ocorreu no domingo seguinte, quando Canário voltou mais uma vez da Villa Indarte, agora com um volume um pouco menor, um imenso Telefunken, e num porre federal. Descera a coxilha cantando, mal pulou da aranha gritou feliz: “agora não preciso cantar mais, tenho quem cante pra mim. E esses hijos de la gran puta china de mierda vão ver o que é rádio”.

A notícia correra como um raio na redondeza, e nos dias seguintes não houve tardinha em que não chegassem dois, três vizinhos a cavalo, com um ar meio sem jeito, com o pretexto esfarrapado de uma visita, “onde se viu visita em dia de semana, dia de trabalho”, resmungava feliz Canário. E judiava dos curiosos, lhes oferecia mate, perguntava sobre as novidades, sempre embaixo do cinamomo antiquíssimo, ao lado do catavento, cujas pás se moviam impelidas pela brisa do entardecer. O sol se escondia, as visitas hesitavam em dizer ao que vinham e Canário, num misto de desprendimento e vingança, convidava: “o compadre quer passar pra sala, escutar um pouco de rádio?”

Com o tempo atenuara-se aquele ímpeto de desforra, como também o complexo de culpa dos vizinhos — por vizinhos entendia-se pessoas que moravam a léguas de distância — e a cada noite Canário recebia gente vinda de longe para escutar rádio. Ao chegar, já iam desencilhando os cavalos, pois a sessão de escuta só terminava lá pela meia-noite. Canário, orgulhoso, não permitia a ninguém, nem mesmo a Cristiano, mexer nos botões do Telefunken e, qual sacerdote oficiando sua liturgia, solenemente ligava o rádio e girava o dial, perguntando à roda, com picardia, se queriam escutar brasileiro ou castelhano, tangos ou rancheiras, música ou notícias.

Tarde da noite, alegava ter de madrugar para o trabalho, a indiada se despedia, encilhava os cavalos e saía perfurando a noite na pampa com vozes que aos poucos morriam nas canhadas. Canário então chamava Cristiano, “vem cá, guri, o melhor vem agora”. E mudava de onda. E os dois ouviam, silentes, ruídos que pareciam vir de estrelas distantes, línguas estranhas que ouviam durante horas tentando entender ao menos uma palavra, notícias de outros povos e costumes, canções de outras gentes. Parecia-lhes impossível que um ser humano pudesse entender outra língua que não os dois idiomas existentes no mundo, o brasileiro e o castelhano. Com o tempo, quando o rádio instalado por Canário já não mais constituía milagre, os vizinhos, se passavam por Dom Pedrito, lhe enviavam um chasque pela rádio Ponche Verde, endereçado à Estância do Pau Vermelho, o que fazia Canário sorrir divertido, não pelo duplo sentido do nome, mas pelo fasto de chamarem de estância suas poucas braças de terra.

Embalado por tais lembranças, que lhe remexiam fundo no espírito, montou a tobiana e desceu o Cerro da Tala rumo à tapera. As flechilhas lhe grudavam nas bombachas e as coxilhas se assemelhavam a um mar verde, verde e revolto, os alhos-bravos oscilando em ondas ao sabor do vento.

Pampa semper virens. A expressão lhe surgiu não sabia de onde, por certo de alguma camada lá no fundo do inconsciente. Atravessou a sanga onde passava as tardes pescando joaninhas e lambaris. Do córrego, que agora parecia ser apenas um filete de água, evolava um cheiro forte de água fresca. Antes de repechar a colina da tapera, passou pela cacimba de água sempre gelada e cristalina, debruçou-se nas pedras, afastou com as mãos os insetos da superfície e sorveu o manancial como quem bebia vida. Guardara anos afora, no palato, o gosto salobre daquela água, e as águas cloradas que bebera de mil torneiras jamais o haviam anulado.

 

Primeiro domingo do mês, missa na capela das Três Vendas, quase em frente ao casarão do Dr. Cristiano Fischer, o velho imigrante que em vida fora o médico, farmacêutico, enfermeiro, parteiro, conselheiro de toda aquela região. Das bandas do Ponche Verde, charlando mais que caturrita em hora de siesta, vêm cortando campo as gurias do Candoca, pelo tempo que costumam fazer penitência devem trazer muito pecado no lombo. De Puntas de Jaguary, num colorado de touro pular sete fios, vienen las gurisas de Don Rocha, marido anda escasso em baile, hay que dar una mirada en la Santa Misa. De Upamaruty, pela Linha Divisória, costeando o Uruguai, num amarelo de doer os olhos, as Ursulinas, a mais bonita já caminha com jeito de mulher, segundo Canário já lhe andaram afrouxando terra na raiz, visto o viço com que a planta crescia.

A camioneta de Doña Chichi vai e volta de todos os lados, arrebanhando a gurizada de Uruguai e Brasil. Don Soilo tem estância dos dois lados, tem que se botar as crianças na religião, senão se criam sem Deus nem proteção contra o comunismo. A camioneta vem lotada, todos já sabem o que é Pecado, agora é só contar ao padre Antônio, fazer penitência e depois, de coração puro, comungar do cor e sangue de Nuestro Señor Jesú Cristo. Padre Antônio vinha da Alemanha, falava com Deus e arreglava tudo, era capaz de arreglar até os contrabandos de Don Soilo, dizia Canário, mas Doña Chichi diz que contrabando não é pecado, não fere a lei de Deus, fere só a lei dos homens y con los hombres los arreglos son otros, coitado do santo homem, viera da Europa para nos trazer as luzes do cristianismo, coitado dele se além de se ocupar das coisas do céu tivesse ainda de zelar pelas fronteiras da terra.

A gauchada também se aprochega, despacito, pingo aperado para o domingo, pelegão vermelho trespontando a badana, cola atada e passo de marcha, despontando pelas três estradas que se encontram frente à igrejinha. Não que a indiada vá nas conversas do vigário, mas missa é sempre uma festa, o mulherio se vem de cola alçada, e depois das rezas do padre sempre sai um carteado ou jogo de osso no bolicho do Jacinto. Se um anda em dia de sorte, quem sabe não sai um bate-coxa, gaiteiro e mulher é o que não falta quando se tem salão e boa vontade.

De Dom Pedrito chega padre Antônio, a Rural Willys tapada de barro, faz mais de mês que Doña Chichi reza pra que Deus ilumine o prefeiro e que o prefeito patrole a estrada, a época de safra está chegando e a estrada um atoleiro, há boatos de que o preço da lã vai baixar, vamos rezar, crianças, pra que nosso prefeito arrume nossas estradas, só assim padre Antônio pode nos trazer a Santa Comunhão e perdoar nossas ofensas a la sangre derramada por Nuesto Señor Jesú Cristo.

Doña Chichi quer saber se padre Antônio fez boa viagem, não tirou nenhum peludo, padre? Não? Graças a Deus, veja que rica safra de cristão novo, preparei todos para a Primeira Comunhão, sabem de cor os dez mandamentos, os sete pecados capitais, conhecem até o Salve Rainha, não foi fácil enfiar a Palavra Divina nestas cabeças duras, mas não há pagão que a gente não converta com esforço e com a graça de Deus.

 

Coisa feia, padre? — e Cristiano puxa do bolso das calças curtas uma listinha de papel enrolada —. Fiz, sim senhor, neste último mês matei 37 pombas, sendo duas rolinhas, 24 bem-te-vis, 17 tico-ticos, 15 corruíras, duas tesourinhas, um joão-de-barro e outros buchos que não sei o nome, sem falar nas perdizes, que nem me arrependo, Doña Chichi diz que perdiz se pode matar e comer, é bicho maldito que assustou o burrico de Nossa Senhora quando ela fugia para o Egito e por isso foi condenada a nunca mais pousar em árvore. Mas o que mais me arrependo mesmo é o joão-de-barro, o pai diz que joão-de-barro não se mata, é bicho honesto e trabalhador, deve ser por isso que Canário gosta dele, e pra canarinho eu nem aponto o bodoque, gostam de cantar que nem meu pai, e daí que lhe deram esse apelido.

Ah, matei também um amontoado de caturritas, mas caturrita, Doña Chichi diz que também não é pecado, caturrita é praga, come o trigo e o milho, tem que matar. Cá entre nós, acho que de algo elas têm de viver, e por que não de trigo ou de milho? Canário não planta trigo nem milho, mas também acha que caturrita é preciso matar, elas atacam as pereiras e as laranjeiras e tudo isso eu não entendo muito bem, porque lá em casa tem duas, vivem de asas cortadas para não voar, falam pelos cotovelos e até que Canário gosta delas, fica até com pena quando passa um bando pelo eucaliptal e as duas gritam desesperadas, pulam querendo voar e não voam.

Mas Doña Chichi diz que caturrita é inimiga da lavoura, destrói o trabalho de gente honesta, e ela fala também de um outro inimigo, o comunista, não explica muito bem o que seja, mas dá a entender que é verdadeira praga para a lavoura, eu nunca vi esse bicho, mas no que dependesse de meu bodoque, Don Soilo não precisa se preocupar com suas plantações. Mais coisa feia? Acho que não, se bem que Doña Chichi também nunca explicou muito bem o que fosse coisa feia.

Pecados contra a carne? Que eu me lembre, não. Pode ser que tenha comido carne nalguma sexta-feira, o senhor sabe que por aqui só se nota quando é domingo, os outros dias da semana passam sem sentir, mas dificilmente teria sido carne, Canário carneia só de vez em quando, se comi algo pecaminoso numa sexta-feira deve ter sido charque. Prazeres da carne? Ora, padre, sempre é um prazer quando se come carne, ou o senhor não gosta dos churrascos da estância de Don Soilo?

O padre podia achar graça no simplismo de contabilidade — pensava agora Cristiano — mas a lista não era de fácil elaboração. Pois a catequista jamais entrara em detalhes sobre a tal de coisa feia. Havia os pecados perfeitamente inteligíveis, como desonrar pai e mãe, matar, roubar, mentir, com que o que Canário concordava totalmente, dizia que mais que um pecado, era um crime. Mas quando chegava ao “não pecarás contra a carne”, Doña Chichi falava não fazer coisas feias e dizia aquilo de tal forma que qualquer criança julgaria estar fazendo algo feio ao perguntar o que era coisa feia.

Cristiano, por razões que até então ignorava, associara coisas feias a matar passarinhos e a cada bichinho morto fazia um risco na forquilha do bodoque, método que em poucos dias se revelou pouco prático, pois deixou toda áspera e riscada uma bela forquilha de coronilha. Quanto à matança de pássaros, complexos eram os critérios de Canário, havia os proibidos e os não-proibidos. João-de-barro estava na faixa do sacrilégio, o barreiro fazia seu rancho e cuidava da família, até mesmo da família dos outros, logo merecia viver.

Chupim, não, pois além de não fazer rancho botava ovo em ninho alheio. Pomba, podia, não fazia mal a ninguém mas era uma delícia com arroz. Carancho, matar era um dever, era bicho que comia pinto, logo os pintos que ele criava para depois comer, era um roubo. Águia, chimango, enfim, toda ave de rapina, Canário os catalogava na lista dos ladrões. Tesourinha não se matava, ela espantava a bicaços os caranchos. Sangue-de-boi muito menos, era bonito e cantava bonito. Canários, nem pensar, Canário os considerava irmãos. Muito menos araponga, que só cantava na primavera. Bem-te-vi tinha muito piolho, era bicho mugriento, podia matar. Alma-de-gato, não deixar escapar, era ave de mau agouro. Corruíra não se toca, era avezinha caseira, cuidava bem dos filhotes e alertava para a presença de cobras. Nem beija-flor, era ave linda, trabalhava o dia todo. Coruja também não, matava cobras. Quero-quero, nem em sonhos, era sentinela mais alerta que alerta que cachorro. Cristiano tentava situar-se naquele código — no fundo, dos mais antropomórficos, dava-se conta agora — preservando os pássaros úteis, bonitos ou cantores e abatendo os de garras ou de bicos aduncos.

Lembras, Clotilde, daquele guri boca suja e sem respeito que fugia para o chircal quando chegavam visitas? E que só voltava do mato para exibir aos visitantes — especialmente se eram moças — seu vasto repertório de nomes feios? Eu já não lembro muito dele. Entre aquela época e hoje se passaram mais de trinta anos, que dão a impressão de trezentos. Mas sei que lembras dele melhor do que eu.

Me dá teu braço. Vamos passear pelos campos de Ponche Verde e Upamaruty. Rever a sanga onde pesquei minhas primeiras joaninhas. Os mundéus para onde mangueei perdizes. A sombra da parreira onde me ensinaste as primeiras letras. A cacimba em que me debrucei para beber a água gelada do manancial. Vamos passear em silêncio, não sou de muito falar. Sabes que no campo não se admite intimidades entre pais e filhos. Se hoje tenho a coragem de te falar, decerto é porque estou longe.

Olhando paras trás, tudo me parece sonho. Lembras de quando escarafunchavas meus pés arrancando rosetas e espinhos de tala e coronilha? Sinto saudades daqueles espinhos. Aquele cascão grosso que protegia meus pés é hoje uma pele fina, sensível até mesmo a grãos de areia. Forçado pelas convenções, ao pôr sapatos me sinto um pouco como cavalo ferrado. Mas a cidade assim o exige.

Me passa um mate. Vamos sentar na frente da Casa, ao lado da pedra onde Canário afiava facas e tesouras. Enquanto o sol vai caindo e as sombras avançam, como fantasmas tristes coxilha arriba, vamos corujar a primeira estrela, ouvir a canção dos grilos, ver as ovelhas se aprochegando em fila para o abrigo de uma canhada.

Não sei se imaginaste alguma vez as andanças futuras daquele guri xucro. Eu jamais imaginaria. Se, naquela época, me dissessem que há um país onde o sol não se põe, eu insultaria o mentiroso. E não é que um dia fui parar lá? E à meia-noite o sol ameaçava esconder-se, mas era só ameaça, continuava rodando quase paralelo ao horizonte.

Lembro de ti muitas vezes atrelando o tordilho à aranha. Li há algumas semanas, num jornal, a queixa de umas professoras rurais que tinham de ir à escola a cavalo. Gente boba, não é? Durante trinta anos, alfabetizaste duas gerações, graças ao tordilho. E nunca ouvi de ti queixa alguma.

Devo ter sido bom aluno, não é verdade? Uma das coisas que lembro muito foi daquele quinto ano primário. Tirei o primeiro lugar da aula. Foi barbada. Pra começar, só tinha dois alunos, eu e a Chica. Como viriam fiscais da cidade para os exames, e a turma não estava bem preparada, as professoras nos deram a prova num domingo, para decorar em casa. Não sou ruim de memória, respondi tudo em dois minutos.

Lembras da professora que pulou o alambrado atrás de nós, quando a aranha já descia o lançante da coxilha? “Espera, pára, o teu filho é um gênio, tens de mandar esse guri pra cidade”. Pois é! Mandaste o geninho pra cidade. Lá já foi mais difícil continuar sendo o primeiro da classe. As professoras jamais deram a alguém as provas antes do dia do exame. Resultado: no fim do ano, um monte de reprovações. Por isso que o ensino moderno anda em crise.

Mais um chimarrão antes de a gente terminar este passeio! Já está ficando tarde, tenho de voltar ao presente. Só há um lugar no mundo para onde sempre volto com o coração aos pulos: Ponche Verde. Qualquer dia estarei de novo aí. Não é por meu gosto que vivo nos povoados. Sabes, já faz alguns anos que não dou uma boa galopada nem vejo um nascer de sol. Há muito não ouço um galo cantar nem vejo galinhas ciscando o pátio depois de uma chuva. Já nem sei se formigas de asa existem ou são lenda. Esqueci o gosto de um tatu assado na casca. Bebo um leite de sabor desagradável que nada mais tem a ver com um apojo quentinho.

Virei bicho da cidade, mãe. Mas qualquer dia desses, o diabo sai de trás da porta, ato a mala nos tentos e me mando à la cria!

 

Não me esperaste, Canário! E como eu tinha causos pra te contar depois desta última campereada. Andei por plagas onde a geada era grossa por mais de palmo e o pasto cresce só de teimoso. Montei nuns matungos de duas corcovas, de trote mais feito que potro redomão. Dancei com uma indiada de semblante maleva, cara embuçada, que reboleava os mosquetes por cima da cabeça e terminava cada marca com um tiroteio. Ouvi uns gringos falando uma língua que não era língua, mais parecia doença da garganta. Vi uns maulas tomando café com sal e comendo peixe podre, mais satisfeitos que guri roendo rapadura. Tirei até uns retratos desses causo mais difícil de dar crédito. No meu peito sentia uma vontade de sentar contigo no oitão da Casa e ir proseando entre um mate e outro. Não me esperaste.

Levei muito tombo nestes rodeios da vida, só depois fui te entender. Um dia abandonei teu rancho, fui pro povoado, me tornei letrado e não te entendia. Acordavas antes dos galos e ias buscar as vacas naquelas manhãs brancas de sereno. As vacas já na mangueira, me acordavas para o mate no galpão. Enquanto eu chorava com a fumaça da madeira verde, me contavas as peleias de Martín Fierro, histórias de contrabando, brigas de baile, intrigas de chinas. Eu só ouvia, era guri sem mundo. E agora que eu tinha uns causos pra te contar, não me esperaste.

Não te entendia. Eu, o letrado, o doutor, não entendia tuas lidas. Inverno e verão levantando cedo, apojando as vacas, tomando mate, rasgando a terra com o arado, largando a semente e cortando a aveia, colhendo o milho e fazendo a parva. Rasgaste tuas mãos alambrando, derrubaste cercas do Uruguai e Brasil fugindo de peleias que não eram tuas. Me ensinavas a encilhar um cavalo, clavar na volta-e-meia, manguear perdiz pro mundéu, tirar lonca e trançar laço. E tudo isto me parecia inútil. E eu não entendia teu lugar no universo. Um dia te entendi. Não me esperaste.

Te lembro já de noitinha, descendo o Cerro da Tala, voltando de um trago no bolicho do Jacinto. A cachorrada te saudava, eu corria até a sanga e voltava na garupa. (Onde andarão meus cachorros?). Voz já meio enrolada, um hálito de cachaça, apeavas contando as novas lá das Três Vendas. Eu desencilhava teu baio e voltava ligeirito para me acocorar na roda de chimarrão e ouvir as histórias que tu tinhas ouvido. A lua ia nascendo lá no Uruguai, do outro lado da Linha, e quem vai a bolicho não volta sem uma botellita debaixo do braço. E me falavas de causos de assombração que me gelavam o espinhaço e perturbavam meu sono. E agora eu tinha causos pra te contar. Não me esperaste.

A última vez que fui te ver... Sentias que era a última vez, eu não sentia. Vou pras Oropas e depois volto, pensei, pra mais um chimarrão. Tu sabias que aquele mate era o último. E quando juntei meus trapos pra voltar a Porto Alegre, choraste. Como não entrava em minha cabeça dura ver aquele gaúcho chorando, virei as costas e me vim. Ah, Canário! Nesta vida nada é mais sem volta que a morte. Mas esta lição sempre vem tarde.

Hoje te entendo em teu mundo, cumpriste teu ciclo no tempo e no espaço que te foi dado. E a dor que tua memória me traz, é dor que me revigora. Me dá até vontade de crer noutra vida depois desta, pra tomar mais uns mates e te contar aqueles causos que queria te contar.

Hasta luego, Canário!

Paris, primavera 1980 Florianópolis, verão 1985

 


 

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