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SHAKESPEARE:
A ARTE DA PERSUASÃO


Nélson Jahr Garcia

—Ridendo Castigat Mores—

in memoriam*


 

Shakespeare: A Arte da Persuasão
Nélson Jahr Garcia (1947-2002)

Edição
Ridendo Castigat Mores
in memoriam

Fonte Digital
www.jahr.org
“Todas as obras são de acesso gratuito. Estudei sempre por conta do Estado, ou melhor, da Sociedade que paga impostos; tenho a obrigação de retribuir ao menos uma gota do que ela me proporcionou.” — Nélson Jahr Garcia

Capa (disponível em pdf):
“Shakespeare and His Contemporaries” – 1851
John Faed (1819-1902)

Nélson Jahr Garcia – Caricatura (disponível em pdf) por Garnel

Versão para eBook
eBooksBrasil.com


Copyleft:
Ridendo Castigat Mores


Apresentação

 

O texto deste livro é o que Nélson Jahr Garcia colocara em seu site, Ridendo Castigat Mores*, como apresentação das obras de Shakespeare que, pa­ci­en­te­men­te, escaneou, formatou, revisou e colocou para o mundo pela www. Colocava em html. E, sempre que adicionava um novo livro, orgulhoso me comunicava para que convertesse nos formatos de eBooks que disponibilizava no eBooksBrasil.com. Em Ro­cket­Edi­tions, foram colocadas todas as obras de Shakespeare enviadas pelo Nélson. Em outros formatos, que foram sendo adicionados, outras. Agora, também em pdf e eBookLibris.

Do seu site, as obras que Shakespeare, e ou­tras**, que pa­ci­en­te­men­te­mente colocou na web, foram cap­tu­ra­das por muitos sites e, infelizmente, tiveram uso comercial por alguns, foram copiados em CDs piratas, colocados à venda... Tudo o que o Nélson não queria. Sua intenção era espalhar as luzes e a cultura, de forma desinteressada e gratuita. E mais chateado ainda ficou quando passaram a lhe pedir resumos, receber críticas quanto à formatação. Reconhecimentos, poucos.

Ficou tão chateado que, em um momento, até resolveu retirar o site da web. Saiu em 22.04.2002. Noticiei no eBooksBrasil.com: “O website Ridendo Castigat Mores, mantido por Nélson Jahr Garcia, que tanto contribuiu para enriquecer a internet brasileira, está sendo descontinuado. Mais detalhes no site ou reproduzidos aqui.” Reproduzi:

“SINTO MUITO

Abri este site pensando em divulgar minha experiência, teórica e prática, com a propaganda ideológica, a comunicação persuasiva de forma geral. A idéia se ampliou e passei a reproduzir textos clássicos que se caracterizassem por, de alguma forma, conter elementos de persuasão. Daí Shakespeare, Voltaire, Maquiavel e tantos outros. Nunca cobrei nada por isso, os textos podiam ser lidos, gravados ou impressos. Nem era necessário dar o nome, email, nada. Mas eu pago, pago em dólares o direito a ter o site (para a Yahoo-Simplenet) e o nome de domínio (para a Internic). Esperava retorno? Claro. Interesse, colaborações, apoio (não financeiro). Vieram uns poucos cumprimentos e muitas críticas. Essa história de ser D.Quixote incomoda (nem Sancho Pança tenho para ajudar). Por isso encerro meu trabalho aqui, vou procurar contribuir para a cultura da minha comunidade de outras formas. Abraços e forte aperto de mão — Nélson Jahr Garcia

Voltou em 20.05.2002, a pedidos... e porque, no fundo, tinha, embora negando, vocação para Quixote. Noticiei no eBooksBrasil.com: “A Ridendo Castigat Mores está de volta à web, em novo endereço, sob a mesma direção: www.ngarcia.org. Legal, Nélson!”

Colocou ainda em seu site: Marketing Eleitoral, de Marcelo O. Coutinho de Lima; Pensamentos, de Blaise Pascal; Caracteres, de La Bruyère; O Estado Autoritário e a Realidade Nacional, de Azevedo Amaral; O Estado Nacional, de Francisco Campos; Leis de Murphy, Autor desconhecido; O Fascismo Italiano e o Estado Novo Brasileiro, de G. de Almeida Moura. Trabalhadores do Brasil!, de Alexandre Marcondes Filho, foi o último, em outubro de 2002.

Em 07.11.2002, noticei: “Nosso amigo e companheiro Nélson Jahr Garcia faleceu ontem, às 10:45 hs. e foi sepultado hoje, às 9:00 hs. no Cemitério Gethsêmani. Para ter uma leve idéia do maravilhoso ser humano que nos deixou, visite o website Ridendo Castigat Mores.”

Seu site foi descontinuado, mas todo o conteúdo (com exceção da página de charges e a de links) foi recuperado e transformado em eBooks, disponíveis na estantes virtuais do eBooksBrasil.com.

A contribuição que Nélson Jahr Garcia fez à internet e à cultura brasileira está espalhada por ai, de muitas formas.

Tenho certeza de que gostaria das linhas abaixo, referentes ao quadro da “capa” (disponível em pdf):

“Nesta pintura, também conhecida como Shakespeare and His Friends at the Mermaid Tavern, Faed coloca Sha­kes­peare no centro do grupo, que inclui Sir Francis Bacon, John Donne, Ben Jonson, and Sir Walter Raleigh. O Friday Street Club, um agrupamento de homens de letras que se encontravam na Mermaid Tavern, foi criado por Sir Walter Raleigh e seu nome vinha do endereço da taverna: Friday Street. Seu proprietário, William Johnson, era um negociante associado de Sha­kes­pea­re, mas não sabemos se, realmente, Shakespeare comparecia aos encontros.”

— Fonte: Shakespeare Ilustrated —
[www.english.emory.edu/]

Eu teria enviado para ele por e-mail, com a seguinte observação: “Neste quadro só falta você!”

Não falta mais.

Sei que ele não acreditava nisso, mas, sin­ce­ra­men­te, acho que ele agora está na companhia de todos eles.

Teotonio Simões
eBooksBrasil.com


SHAKESPEARE: A ARTE DA PERSUASÃO

Nélson Jahr Garcia

 

“Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que sonha a tua filosofia”
(“There are more things in heaven and earth, Horatio, that are dreamt of than in your philosophy”)

 

Muito já se discutiu e se escreveu sobre per­sua­são.

J.A.C. Brown, psicólogo, escreveu “Técnicas de Persuasão”. William Sargant, psiquiatra, produziu a obra “Battle for the Mind”, sobre conversão religiosa e la­va­gem cerebral. Serguei Tchakhotine escreveu “Le viol des foules par la propagande politique.”

Os estudiosos da Escola de Frankfurt produziram várias obras que envolviam o assunto, principalmente Max Horkheimer, Theodor Adorno e Jürgen Habermas.

Infelizmente nenhuma dessas obras trouxe uma explicação sa­tis­fa­tó­ria sobre o processo da comunicação persuasiva.

É que às vezes as respostas não se encontram em cientistas, pes­qui­sa­do­res e doutores, mas com literatos, poetas, dramaturgos; aqueles que observam, sentem e escrevem.

Interessante, percebem as coisas da vida sem utilizar metodologias científicas e que tais. Aprende-se Psicologia com Machado de Assis, melhor que em Freud; Sociologia, com Gilberto Freire, se conhece melhor do que em Durkheim.

William Shakespeare produziu uma teoria sobre a persuasão que cientista nenhum desvendou, basta ler com atenção devida.

Iago, com argumentos e artimanhas, convenceu Otelo de que sua esposa, Desdêmona, era infiel. Lady Macbeth persuadiu Lorde Macbeth a matar o rei para tomar-lhe o trono. Próspero, dominou espíritos para que o ajudassem em sua vingança. Cássio convenceu Bruto a matar Júlio César. O fantasma do rei da Dinamarca convenceu Hamlet, o filho, a vingar sua morte. Romeu seduziu Julieta e foi seduzido por ela, a ponto de se suicidarem ambos. Petrucchio domou a megera Catarina, transformando-a em mulher dócil e submissa.

Em todas essas obras, e em outras que não mencionei, há uma idéia recorrente: a comunicação persuasiva, para ser eficiente, pressupõe um fator: as fraquezas humanas. As pessoas são mais facilmente persuadidas quando se apela para o egoísmo, ambições, invejas, ciúmes, paixões, dores, arrependimentos.

Esse foi um dos legados que William Shakespeare nos deixou, há quatrocentos anos. Entender o ser humano em suas fraquezas, suas forças, suas felicidades, seus gozos e angústias.

Mas não se trata apenas de entender o outro, a nós mesmos também.

Somos todos guerreiros, às vezes, políticos, no sentido grego, cons­tan­te­mente. Também somos incapazes. Romeu não conseguiu ser bem sucedido com Julieta, não lhe deram tempo nem oportunidade. Macbeth não pode obter as van­tagens do trono, sanguinariamente conquistado.

Quanto ao ser humano, Shakespeare nos ensina algo importante, senão fundamental: o homem não é bom ou mau, apenas homem. Um famoso humorista contestava a história do Chapeuzinho Vermelho. Perguntava: “por que lobo mau, acaso existe lobo congregado mariano ou coroinha de igreja? Lobo é lobo, nem mau nem bom, só lobo”. Pois é, o homem é homem, nem bom nem mau, apenas homem.

Shakespeare percebeu, o que os chineses já sabiam há séculos e Marx viria a descobrir mais tarde: o homem é uma unidade de contradições, maldade e bondade as carrega no peito, ao mesmo tempo e em todas as horas.

Frei Lourenço (Romeu e Julieta) em um breve monólogo disse o seguinte:

“A terra é a mãe e a tumba da natura; ministra a morte e, assim, apresta a cura. Filhos de vária espécie, no seu seio a mamar encontramos, sem receio; uns por por várias virtudes, excelentes; cada um com a sua, todos diferentes. Oh! é admirável a potente graça que há nas ervas, na flora, na pedra crassa, pois até mesmo o que há de vil na terra algo de bom, influência dela, encerra; nem nada bom existe, que, torcido do uso normal, não se revele infiel à própria natureza e nascimento. Até mesmo a alta virtude, num momento mal aplicada, em vício se transforma, e este, por vezes, ao dever dá a norma. Na corola infantil desta florzinha veneno mora que dá morte asinha, Cheirado, ao corpo todo dá alegria; mas pára o coração no mesmo dia, quando dado a beber. Dois reis potentes nas plantas e nos homens oponentes acampamento têm: a atroz cobiça e a graça benfazeja. Se insubmissa se mostra a pior, então vem logo o verme da morte e rói essa plantinha inerme.”

O arrependimento é de constante frequência na obra do dramaturgo, os personagens perpetram as piores crueldades imagináveis, mas acabam sofrendo dores de consciência. Macbeth mandou matar o rei para obter a coroa, mas passou a sofrer amarguras internas. Hamlet estava decidido a vingar o pai assassinado, mas era angustiado pela dúvida: “ser ou não ser, eis a questão”.

Os chefes das famílias rivais, Capuleto e Montecchio, após a morte dos filhos, concluem:

“CAPULETO: Dá-me tua mão irmão Montecchio; é o dote de minha filha. Mais pedir não posso.

MONTECCHIO: Mas eu posso dar mais, pois hei de a estátua dela fazer do mais puro ouro. Enquanto for Verona conhecida, nenhuma imagem terá tanto preço como a da fiel e mui veraz Julieta.

CAPULETO: Romeu fama também dará à cidade; vítimas são de nossa ini­mi­za­de.”

Próspero (A Tempestade) depois de dominar espíritos para que o auxiliassem em sua vingança, termina concluindo: “Restou-me o temor escuro; por isso, o auxílio procuro, de vossa prece que assalta até mesmo a Graça mais alta, apagando facilmente as faltas de toda gente. Como quereis ser perdoados de todos vossos pecados, permiti que sem violência me solte vossa indulgência.”

Voltemos à teoria da persuasão.

A credibilidade de quem assegura a veracidade da afirmação é importante.

Como duvidar da palavra de uma feiticeira. Macbeth ouviu, não de uma, mas de três feiticeiras: “Primeira bruxa: Viva, viva Macbeth! Nós te saudamos, thane de Glamis. Segunda bruxa: Viva, viva Macbeth! Nós te saudamos, thane de Cawdor. Terceira bruxa: Viva Macbeth, que há de ser rei mais tarde!”. Realmente Macbeth se tornou thane de Glamis, depois de Cawdor e afinal rei. Tornou-se thane por merecimento, mas foi induzido pela ambição, que Lady Macbeth soube explorar, a ponto de convencê-lo a matar o rei para tomar-lhe o trono.

A força de um bom argumento, preferencialmente mesclado com sentimento, é decisivo para a persuasão.

Julieta, na cena em que está na sacada (antigamente se dizia balcão), pronunciou uma das frases mais célebres da literatura universal: “Meu inimigo é apenas o teu nome. Continuaria sendo o que és, se acaso Montecchio tu não fosses. Que é Montecchio? Não será mão, nem pé, nem braço ou rosto, nem parte alguma que pertença ao corpo. Sê outro nome. Que há num simples nome? O que chamamos rosa, sob uma outra designação teria igual perfume. Assim Romeu, se não tivesse o nome de Romeu, conservara a tão preciosa perfeição que dele é sem esse título. Romeu risca teu nome e, em troca dele, que não é parte alguma de ti mesmo, fica comigo inteiro.”

A argumentação, acompanhada de um fato adrede preparado, por menor que seja, tem um incrível poder persuasivo, principalmente quando se explora uma fraqueza como o ciúme. Iago furtou a Desdêmona, um lenço que lhe havia dado Otelo e o deixou às mãos de Cássio. Daí o seguinte diálogo:

“IAGO — Sede cauto; ainda não vimos nada; é bem possível que seja honesta. Ora dizei-me apenas o seguinte: não vistes porventura nas mãos de vossa esposa, algumas vezes, um lenço com bordados de morangos?

OTELO — Dei-lhe um assim; foi meu primeiro mimo.

IAGO — Ignorava esse fato; porém tenho certeza plena de ter hoje visto Cássio passar na barba um lenço desses, que foi de vossa esposa.

OTELO — Se era o mesmo...

IAGO — O mesmo, ou outro qualquer dos lenços dela, é prova muito forte, ao lado de outras.”

Incrível, o patriotismo, o amor à cidade onde se vive podem gerar sus­cep­ti­bi­li­da­de à persuasão, Vejam em Júlio César; Bruto orientado pelo patriotismo, e um pouco de ambição, aceita a influência de Cássio; e diz: “Preciso é que ele morra. Eu, por meu lado, razão pessoal não tenho para odiá-lo, afora a do bem público.” Matou Júlio César.

Fator importante de convencimento é a cobrança por um favor prestado.

Próspero (A Tempestade) libertou Ariel do domínio da bruxa Sicorax e, em troca, exigiu apoio para seu desejo de vingança. O diálogo é assim:

“PRÓSPERO: Quê! Zangado? Que podes desejar?

ARIEL: Lembra-te que te prestei serviços importantes nunca menti, nem descuidei de nada, nem me mostrei queixoso ou rabugento. Prometeste abater-me um ano inteiro.

PRÓSPERO: Pareces esquecido do tormento de que te libertei.”

O cansaço e o desgaste físico, geralmente, são fatores que aumentam a sugestionabildade em muitas pessoas.

Nas forças armadas a leitura da ordem do dia é realizada depois que os soldados foram submetidos a pesados exercícios e longas marchas. Nas academias de artes marciais, os princípios morais e filosóficos são discutidos ao final do treinamento, quando os alunos já se encontram exauridos. Petrucchio (A Megera Domada) forçou Catarina, imediatamente após o casamento, a viajar sob um inverno rigoroso, ocasião em que ela caiu do cavalo sobre a lama. Já em casa, ralhando com o empregado, alegou que a comida estava ruim jogando-a fora. Com isso deixou Catarina faminta por logo tempo, levando-a quase ao desespero. Não a deixava dormir à noite, fazendo muito barulho e gritando com os empregados. Não a deixava fazer nenhuma afirmação sem contestá-la. Ao cabo de algum tempo a megera hostil transformou-se em mulher gentil, delicada e obediente.

Recurso persuasivo muito utilizado, o apelo à indignação e ao sentimento de revolta, foi empregado por Marx, Lenin, Hitler e tantos outros. Cláudio envenenou seu irmão, rei da Dinamarca, tomou o trono e casou-se com a rainha. O fantasma do rei assassinado apareceu perante seu filho, Hamlet, convencendo-o a vingar-lhe a morte. Seu apelo dizia o seguinte:

“Sou a alma de teu pai, por algum tempo condenada a vagar durante a noite, e de dia a jejuar na chama ardente, até que as culpas todas praticadas em meus dias mortais sejam nas chamas, ao fim, purificadas. Se eu pudesse revelar-te os segredos do meu cárcere, as menores palavras dessa história te rasgariam a alma; tornar-te-iam, gelado o sangue juvenil; das órbitas fariam que saltassem, como estrelas, teus olhos; o penteado desfar-te-iam, pondo eriçados, hirtos os cabelos, como cerdas de iroso porco-espinho. Mas essa descrição da eternidade para ouvidos não é de carne e sangue. Escuta, Hamlet. Se algum dia amaste teu carinhoso pai... Vinga o seu assassínio estranho e torpe.”

A Shakespare não passou despercebido que os seres humanos muitas vezes, tentam convencer não outros, mas a si próprios, especialmente quando precisam justicar suas atitudes e ações. Edmundo (Rei Lear) registra bem esse aspecto:

“Essa é a maravilhosa tolice do mundo: quando as coisas não nos correm bem — muitas vezes por culpa de nossos próprios excessos — pomos a culpa de nossos desastres no sol, na lua e nas estrelas, como se fôssemos celerados por necessidade, tolos por compulsão celeste, velhacos, ladrões e traidores pelo predomínio das esferas; bêbedos, mentirosos e adúlteros, pela obediência forçosa a influências planetárias, sendo toda nossa ruindade atribuída à influência divina... Ótima escapatória para o homem, esse mestre da devassidão, responsabilizar as estrelas por sua natureza de bode. Meu pai se juntou a minha mãe sob a cauda do Dragão e minha natividade se deu sob a Grande Ursa: de onde se segue que eu tenho de ser violento e lascivo. Pelo pé de Deus! Eu teria sido o que sou, ainda que a mais virginal estrela do firmamento houvesse piscado por ocasião de minha bastardização.”

As citações mostram que Shakespeare, sem pesquisas e fundamentos científicos, mas com intuição e sensibilidade, percebeu como é frágil a mente humana. Alguns recursos de comunicação podem induzir pessoas a agirem de maneira que elas não fariam em outras condições.

Desconheço o que ocorre no céu, mas na terra há fatos e atos humanos que, com nossos conhecimentos e concepções filosóficas, mal sonhamos explicar.

 

Nélson Jahr Garcia


Notas

(*) — Abaixo, reprodução da home page do site que era mantido por Nélson Jahr Garcia: Ridendo Castigat Mores. Inicialmente, no endereço www.jahr.org e, depois, em www.ngarcia.org. Retirei os banners e links para o eBooksBrasil.com e para a Phoenix-Library.org, que o Nélson colocara.

[imagem de Voltaire]

Crítica e ironia: armas que ainda nos restam.

 

A expressão latina do “banner” acima significa: "com o riso se castigam os costumes". O que fazer quando certos valores impostos à nossa observância não fazem sentido? Como enfrentar leis que nos prejudicam injustamente? De que forma enfrentar pais, professores e sacerdotes a nos impingir comportamentos ultrapassados, posturas antiquadas, padrões morais superados de muito? Como responder a teses acadêmicas, princípios filosóficos tão voláteis como nuvens de verão? Com humor, riso, sátira.

Não me refiro aos chistes grosseiros e óbvios, às longas e gongóricas anedotas, ao pastelão. Penso na ironia fina, sarcástica, percuciente. Aquela observação rápida, uma palavra ou frase que desmonta a falsa imponência, a solenidade superficial, a seriedade hipócrita.

Novidade? Não, não há.

Grécia antiga, guerra com os persas, trezentos espartanos enfrentavam milhares. Xerxes, o comandante persa, tentando impressionar o general espartano, disse-lhe que suas flechas obscureceriam o sol . Leônidas simplesmente respondeu: “Melhor, lutaremos à sombra ”.

Roma clássica. Dizia-se dos gauleses serem terríveis; guerreiros cruéis, enormes e fortes, manipulando armas pesadíssimas. Júlio César partiu para enfrentá-los, saiu vitorioso. Sua frase tornou-se célebre: “vini, vidi, vici ” (vim, vi, venci).

A Cristo também desafiaram, queriam indispô-lo com o Império Romano: “É lícito pagar tributo a César, ou não? ” Jesus, indicando uma moeda, perguntou : “De quem é esta imagem e inscrição?” À resposta que era de César, humildemente respondeu: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. ”

Voltaire, um dos maiores pensadores da história, também insistia em escrever com inteligente sarcasmo. Ironizou a Igreja, os nobres, as autoridades em geral. Chegou a escrever um romance inteiro (Cândido ou O Otimismo) escarnecendo as idéias otimistas de Leibnitz. Foi criticado, preso e perseguido, jamais esmoreceu. Essa a razão pela qual Voltaire (François-Marie Arouet) é o patrono deste site.

 


 

(**) — Relação das obras colocadas por Nélson Jahr Garcia no Ridendo Castigat Mores. Algumas podem ser identificadas pelo prefácio ou apresentação que assinava:

Shakespeare: As Alegres Senhoras de Windsor – Ricardo III – Tudo Bem Quando Termina Bem – Antônio e Cleópatra – Romeu e Julieta – Rei Lear – Júlio César – Macbeth – A Megera Domada – Hamlet – A Tempestade – Otelo, O Mouro de Veneza – A Comédia dos Erros – Sonho de Uma Noite de Verão – O Mercador de Veneza – Os Dois Cavalheiros de Verona – Trabalhos de Amor Perdidos – Medida por Medida – Conto de Inverno – Coriolano – Muito Barulho Por Nada – Tito Andrônico – Henrique VIII – Vida e Morte do Rei João – A Tragédia do Rei Ricardo II – Henrique IV ( partes I e II ).

Voltaire: A Princesa de Babilônia – Breves Contos (I, II e III) – As Cartas de Amabed – Cândido – Dicionário Filosófico – O Homem dos Quarenta Escudos – História de Jenni – O Ingênuo – Micrômegas – O Mundo Como Está – Os Ouvidos do Conde de Chesterfield e o Capelão Goudman – O Touro Branco – Zadig.

Nélson Jahr Garcia: Estado Novo, Ideologia e Propaganda Política – Propaganda: Ideologia e Manipulação – Sedução, Sadismo, Silêncio.

Outras: Trabalhadores do Brasil, de Alexandre Marcondes Filho – Discurso Preliminar Sobre o Espírito Positivo, de Augusto Comte – Leis de Murphy, Autor desconhecido – O Estado Autoritário e a Realidade Nacional, de Azevedo Amaral – La Propaganda Politica, de F. C. Bartlett – História das Lendas, de Jean-Pierre Bayeard – Dos Delitos e das Penas, de Cesare Beccaria – O Estado Corporativo, de Benito Mussolini – Da República, de Cicero – Como Mentir con Estadísticas, de Darrell Huff & Irving Geis – Assistência ao Trabalhador Intelectual, do D.E.I.P-SP – Quem foi que disse? Quem foi que fez?, do DIP - Departamento de Imprensa e Propaganda – Lei do Inquilinato, Documento Público – Anti-Dühring, de F. Engels – Fala Fidel - “Ninguno de los actuales problemas del mundo se puede resolver por la fuerza”, de Fidel Castro – O Estado Nacional, de Francisco Campos – O Fascismo Italiano e o Estado Novo Brasileiro, de G. de Almeida Moura – Réquiem Para Um Rio Morto e Barzac, de Galileu Garcia – A Revolução dos Bichos, de G. Orwell – As Opiniões e as Crenças, de Gustave Le Bon – Caracteres, de Jean de la Bruyère – Do Contrato Social, Discurso sobre As Ciências e As Artes e Discurso Sobre A Origem da Desigualdade, de Jean-Jacques Rousseau – A Propaganda Política, de Jean-Marie Domenach – A Rebelião das Massas, de José Ortega y Gasset – Segredos da Guerra Psicológica - Reminiscências da Segunda Guerra Mundial, de Joseph E. Brant – Fábulas - imitadas de Esopo e La Fontaine, de Justiniano José da Rocha – O 18 Brumário de Luís Bonaparte, de Karl Marx – Instituição Militar e Estado Brasileiro, de Leonardo Trevisan – O Príncipe, de Maquiavel – Marketing Eleitoral, de Marcelo O. Coutinho de Lima – O Livro Verde, de Muammar Al Qathafi – Pensamentos, de Pascal – Testamento Político, de Richelieu – Oração aos Moços, de Rui Barbosa – Brasil, País do Futuro, de Stefan Zweig – Utopia, de Thomas Morus – A Cidade do Sol, de Tommaso Capanella – Miminha e o Cururu e Aventura no Reino Verde, de Vera Siqueira – Pensamento e Linguagem, de Lev Semenovich Vygotsky – A Literatura da Cultura de Massa (Uma análise sociológica), de Waldenyr Caldas – Luta Pela Mente, de William Sargant, entre outras.

As crônicas que publicava na imprensa local de Atibaia e reproduzia em seu site foram reunidas em volumes: Comunicando Comunicação - Crônicas e Críticas e Comunicando Comunicação - Crônicas e Críticas - Vol. II. Edições póstumas: Comunicando Comunicação. Últimos Escritos e Shakespeare: A Arte da Sedução.

 

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© copyleft 2005 — Ridendo Castigat Mores

 

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Janeiro 2005

 

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