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PARAÍSO
PERDIDO
John Milton


Tradução
António José de Lima Leitão

www.eBooksBrasil.org


Paraíso Perdido
John Milton (1608-1674)

Tradução
António José de Lima Leitão
(1787-1856)

Versão para eBook
eBooksBrasil

Fonte Digital
Digitalização do livro em papel
Volume XIII
Clássicos Jackson
W. M. Jackson Inc.,Rio, 1956
[Ortografia atualizada para o português do Brasil-Conservou-se a métrica-Manteve-se o diacrítico do pretérito]

Capa
Satan before the Lord
Corrado Giaquinto (1703-1766)
Musei Vaticani, Vatican
fonte: Web Gallery of Art
www.wga.hu

© 2006 — John Milton


Índice

O Autor
O Tradutor
O PARAÍSO PERDIDO
Canto I
Canto II
Canto III
Canto IV
Canto V
Canto VI
Canto VII
Canto VIII
Canto IX
Canto X
Canto XI
Canto XII
Índice Remissivo


O Autor

 

John Milton nasceu em Londres em 1608. De 1620 a 1625, freqüentou a Saint Paul’s School, depois o Christ’s College de Cambridge, laureando-se em 1632.

Tendo desistido de tomar votos, foi viver com seu abastado pai em Horton, Buckinghamshire, período em que a leitura de Dante, Petrarca, Tasso e outros clássicos foi de notável importância para seu crescimento cultural.

Mais ainda porque à leitura dos clássicos acrescentou o estudo de matemática, de música e de composição poética.

Entre 1638 e 1639, viajou pela Itália, França e Suíça. Voltou à Inglaterra frente à ameaça da guerra civil.

Dedicou-se ao ensino. Em 1642, aos 34 anos, casou-se com Mary Powell, de 17 anos. Ela o abandonou em um mês, retornando dois anos depois. Após a morte da esposa, com 27 anos, em 1652, Milton voltou a contrair núpcias duas outras vezes. Destas uniões nasceram 7 filhos. Apesar de tudo (ou por isso mesmo) o poeta inglês tornou-se um convicto defensor do divórcio, chegando a escrever uma apologia a ele em 1643.

Seu relacionamento com Hartlib e Comenius levou-o a escrever, em 1644, um pequeno tratado sobre Educação, pugnando por uma reforma nas universidades nacionais.

No mesmo ano lançou o mais popular de seus escritos em prosa, Areopagitica, um Discurso pela Liberdade da Imprensa não Licenciada. Ou, para dizer mais modernamente, contra o copyright.

Com a morte paterna, em 1646, tendo melhorado de condição econômica, Milton abandonou o ensino.

Em 1649, apesar sério distúrbio visual que em três anos o levaria à completa cegueira, Milton aceitou encargos públicos. Dedicou-se à defesa de Cromwell e do puritanismo, compondo diversos escritos polêmicos.

Em 1658, iniciou a composição de seu Paraíso Perdido e dois anos mais tarde, com a restauração, perseguido e tendo perdido boa parte de sua fortuna, retirou-se à vida privada, dedicando-se à compilação de sua obra.

Morreu em Londres, em 1674.

Seu Paraíso Perdido (Lost Paradise), de 1667, é um dos clássicos da literatura mundial. Inspirada na peça teatral Adamo Caduto, composta em 1647 pelo padre Serafino della Salandra, foi retomada pelo autor em Paraíso Reconquistado (Paradise Regained).

Cego e empobrecido, o autor do Areopagitica, por uma destas inexplicáveis ironias da vida, vendeu o copyright do Paraíso Perdido, em 27 de Abril de 1667, por £10.

O Paraíso Perdido foi originalmente publicado em dez partes. A obra é redigida em versos não rimados. Uma segunda edição, de 1674, foi reorganizada em doze partes para assemelhar-se à Eneida de Virgílio e com revisões menores. É a que ficou como padrão para as edições e traduções posteriores, inclusive esta de Antônio José de Lima Leitão (na fonte digitalizada estava apenas António José Lima Leitão, sem o de...), que preservou os decassílabos e os versos brancos.

O poema trata da visão cristã da origem do homem. Da rebelião e queda dos anjos. Da criação de Adão e Eva. Da tentação por Satã. Da expulsão do Paraíso. Da promessa da Redenção futura.


O Tradutor

 

Antônio José de Lima Leitão nasceu em Lagos, em 17.11.1787.

Em 1808, aos 21 anos, foi nomeado Cirurgião ajudante do regimento de Infantaria de Faro. Transferiu-se depois para a Legião Portuguesa organizada por Junot, tornando-se Chefe Cirurgião no Alto Comando Imperial de Napoleão.

Aperfeiçoou-se como médico na Escola de Medicina de Paris.

Quando foi declarada a paz em 1814, viajou para o Rio de Janeiro, onde a Corte o nomeou cirurgião chefe em Moçambique, em 1816 e inspetor agrícola na Índia Portuguesa em 1819.

Depois, ensinou cirurgia em Lisboa, exerceu o cargo de Presidente do Conselho para a Saúde Pública. Foi deputado nas Cortes de Lisboa, membro de várias academias científicas e literárias, tendo sido o introdutor da homeopatia em Portugal.

Nas letras, traduziu Virgílio, Lucrécio, Boileau, Milton e de outros poetas antigos e seus contemporâneos.

De sua tradução do Efigênia, de Racine, temos a seguinte notícia: “Traduzida em verso portuguez, e offerecida como uma prova da mais sincera gratidão. Ao Ill.mo e Ex.mo Senhor Cypriano Freire, do Consêlho de S.M. o Rey Nosso Senhor, seu Ministro Plenipotenciario em Londres.”. Impressão Régia, Rio de Janeiro, 1816.

Em 1818, publicou na Bahia o Arte Poética, de Horácio, traduzida em versos, que foi reedita em Lisboa em 1827, na Typ. de Manuel José da Cruz (31 pp).

Faleceu em 1856, aos 69 anos.

O que acima está são apenas traços de sua profícua vida, como médico, servidor público, político e escritor.

Sobre ele, José Salgado Abílio escreveu António José de Lima Leitão (1787-1856): sua obra e seu posicionamento político, Lisboa, Centro de História da Cultura, 1986, 32 pp., infelizmente, pelo que eu saiba, só disponível em cola e papel.

Teotonio Simões
inverno de 2006


PARAÍSO
PERDIDO
John Milton


ARGUMENTO DO CANTO I

Proposição do assunto do poema: a desobediência do homem, resultando-lhe daqui a perda do Paraíso em que fora colocado; a Serpente, ou antes Satã dentro da Serpente, motivou esta desgraça, depois que ele, revoltando-se contra Deus, e metendo em seu partido muitas legiões de anjos, foi expulso do Céu e arrojado ao Inferno com toda essa multidão por ordem de Deus. Depois lança-se logo o poema para o meio do assunto, e mostra Satã com seus anjos dentro do Inferno, descrito não no centro da criação (porque Céu e Terra devem então supor-se ainda não feitos), mas nas trevas exteriores mais propriamente chamadas Caos. Ali Satã, boiando com seu exército num mar de fogo, crestados todos pelos raios e perdido o tino, afinal torna a si como de um letargo, chama pelo que era o seu imediato em dignidade e poder, e que ali perto jazia; conferem ambos acerca de sua miserável queda. Satã brada por todas as suas legiões que até então se conservavam na mesma confusão e letargo: levantam-se elas; mostra-se o seu número e ordem de batalha; dizem-se os nomes de seus principais chefes que correspondem aos ídolos conhecidos depois em Canaã e países adjacentes. Satã dirige-lhes a palavra, anima-os com a esperança de ainda reconquistarem o Céu, e ultimamente noticia-lhes que vão ser criados um novo mundo e nova qualidade de criaturas, atendendo a uma antiga profecia ou rumor em voga pelo Céu (pois que, segundo a opinião de muitos antigos Padres, existiam os anjos muito antes da criação visível). Para achar a verdade desta profecia e o que se há de fazer depois, ele convoca uma plena assembléia. Procedimento de seus sócios. O Pandemônio, palácio de Satã, ergue-se subitamente construído no Inferno; os pares infernais ali se assentam em conselho.

 

CANTO I

 

Do homem primeiro canta, empírea Musa,
A rebeldia — e o fruto, que, vedado,
Com seu mortal sabor nos trouxe ao Mundo
A morte e todo o mal na perda do Éden,
Até que Homem maior pôde remir-nos
E a dita celestial dar-nos de novo.

Do Orebe ou do Sinai no oculto cimo
Estarás tu, que ali auxílios deste
Ao pastor que primeiro aos escolhidos
Ensinou como do confuso Caos
Se ergueram no princípio o Céu e a Terra?
Ou mais te agrada Sião e a clara Síloe
Que mana ao pé do oráculo do Eterno?
Lá donde estás, invoco o teu socorro
Para este canto meu que hoje aventuro,
Decidido a galgar com vôo inteiro
Muito por cima da montanha Aônia,
De assuntos ocupado que inda o Mundo
Tratados não ouviu em prosa ou verso.

E tu mais que ela, Espírito inefável,
Que aos templos mais magníficos preferes
Morar num coração singelo e justo,
Instrui-me porque nada se te encobre.
Desde o princípio a tudo estás presente:
Qual pomba, abrindo as asas poderosas,
Pairaste sobre a vastidão do Abismo
E com almo portento o fecundaste:
Da minha mente a escuridão dissipa,
Minha fraqueza eleva, ampara, esteia,
Para eu poder, de tal assunto ao nível,
Justificar o proceder do Eterno
E demonstrar a Providência aos homens.

Dize primeiro, tu que observas tudo
No Céu sublime, no profundo Inferno,
Dize primeiro a causa irresistível
Que mover pôde os pais da prole humana,
Em tão próspera sina, ao Céu tão caros,
A apostatar de Deus que o ser lhes dera
E a transgredir a lei que lhes ditara,
Sendo só num objeto restringidos,
No mais senhores do universo Mundo:
Quem lhes urdiu a sedução malvada
Que os lançou em tão feia rebeldia?
O Dragão infernal. Com torpe engano,
Por inveja e vinganças instigado,
Ele iludiu a mãe da humana prole,
Lá depois que seu ímpeto soberbo
O expulsara dos Céus coa imensa turba
Dos rebelados anjos, seus consócios.

Confiado num exército tamanho,
Aspirando no Empíreo a ter assento
De seus iguais acima, destinara
Ombrear com Deus, se Deus se lhe opusesse,
E com tal ambição, com tal insânia,
Do Onipotente contra o Império e trono
Fez audaz e ímpio guerra, deu batalhas.
Mas da altura da abóbada celeste
Deus, coa mão cheia de fulmíneos dardos,
O arrojou de cabeça ao fundo Abismo,
Mar lúgubre de ruínas insondável,
A fim que atormentado ali vivesse
Com grilhões de diamante e intenso fogo
O que ousou desafiar em campo o Eterno.

Pelo espaço que abrange no orbe humano
Nove vezes o dia e nove a noite,
Ele com sua multidão horrenda,
A cair estiveram derrotados
Apesar de imortais, e confundidos
Rolaram nos cachões de um mar de fogo.
Sua condenação, porém, o guarda
Para mais fero horror: e vendo agora
Perdida a glória, perenal a pena,
Este duplo prospecto na alma o punge.

Lança em roda ele então os tristes olhos
Que imensa dor e desalento atestam,
Soberba empedernida, ódio constante:
Eis quando de improviso vê, contempla,
Tão longe como os anjos ver costumam,
A terrível mansão, torva, espantosa,
Prisão de horror que imensa se arredonda
Ardendo como amplíssima fornalha.
Mas luz nenhuma dessas flamas se ergue;
Vertem somente escuridão visível
Que baste a pôr patente o hórrido quadro
Destas regiões de dor, medonhas trevas
Onde o repouso e a paz morar não podem,
Onde a esperança, que preside a tudo,
Nem sequer se lobriga: os desgraçados
Interminável aflição lacera
E de fogo um dilúvio alimentado
De enxofre abrasador, inconsumptível.

A justiça eternal tinha disposto
Para aqueles rebeldes este sítio:
Ali foram nas trevas exteriores
Seu cárcere e recinto colocados,
Longe do excelso Deus, da luz empírea,
Distância tripla da que os homens julgam
Do centro do orbe à abóbada estrelada.
Oh! como esse lugar, onde ora penam,
É diverso do Céu donde caíram!

Logo o monstro descobre a turba vasta
Dos tristes que na queda tem por sócios
Arfando em tempestuosos torvelinos
Do undoso lume que hórrido os flagela.
Próximo dele ali coas vagas luta
O anjo, imediato seu em mando e crimes,
Que foi chamado nas vindouras eras
Belzebu, nome à Palestina grato.

Então o arqu’inimigo, que no Empíreo
Foi chamado Satã desde esse tempo,
O silêncio horroroso enfim quebrando,
Nesta frase arrogante assim lhe fala:

“És tu, arcanjo herói! Mas em que abismo
Te puderam lançar! Como diferes
Do que eras lá da luz nos faustos reinos,
Onde, sobre miríades brilhantes,
Em posto tão subido fulguravas!
Mútua liga, conselhos, planos mútuos,
Esperanças iguais, iguais perigos
Uniram-nos na empresa de alta glória;
Mas agora a desgraça nos ajunta
Deste horrível estrago nos tormentos!
Caídos de que altura e em qual abismo
Nos achamos aqui tão derrotados!
Co’os raios tanto pôde o que é mais forte.
Té’gora quem sabia ou suspeitava
Dessas armas cruéis a valentia?
Mas nem por elas, nem por quanta raiva
Possa infligir-me o Vencedor potente,
Não me arrependo, de tenção não mudo,
Posto mudado estar meu brilho externo.
Rancor extremo tenho imerso n’alma
Pela alta injúria feita a meu heroísmo:
Ele impeliu-me a combater o Eterno,
E trouxe logo às férvidas batalhas
Inúmera aluvião de armados Gênios
Que dele o império aborrecer ousaram,
E, a mim me preferindo, opor quiseram
Nas planícies do Céu, em prélio dúbio,
As forças próprias às opostas forças
Fazendo-lhe tremer o empíreo sólio.
Que tem perder-se da batalha o campo?
Tudo não se perdeu; muito inda resta:
Indômita vontade, ódio constante,
De atras vinganças decidido estudo,
Valor que nunca se submete ou rende
(Nobre incentivo para obter vitória),
Honras são que jamais há-de extorquir-me
Do Eterno a ingente força e inteira raiva.
Perdão de joelhos suplicar-lhe humilde,
Acatar-lhe o poder, cujo alto império
No âmbito inteiro vacilou há pouco
Pelo impulso e terror das minhas armas,
Fora abjecta baixeza, infâmia fora,
Muito piores que este infando estrago.
Já que, segundo ordenam os destinos,
Não pode ser em nós aniquilada
Esta empírea substância e empírea força,
Já que pela experiência desta ruína
Muito ganhado em previsão nós temos,
Condição que na guerra é de alta monta,
Tentar podemos com mais fausto agouro,
Por força ou por ardis, sem fim, sem pausa,
Contra o excelso Inimigo eterna guerra,
Ele agora que, em júbilos nadando,
Nímio se ufana, vencedor soberbo,
Porque dos Céus no sublimado trono
Administra absoluto a tirania!”

Deste modo o anjo apóstata se expressa;
Alta jactância as penas lhe não tolhem:
Mas atroz desespero o rala e punge.
Logo assim lhe responde o ousado sócio:

“Príncipe, chefe dos imensos tronos
Que às batalhas trouxeste em teu comando,
Tu que, por feitos da mais nobre audácia,
Querendo conhecer a quanto avonda
Do Rei dos Céus a grã supremacia,
Em p’rigo lhe puseste o império e a glória,
Vejo, e punge-me assaz, o atroz sucesso
Com que o Céu (seja força, acaso, ou sorte)
Em tão pesada perdição nos lança
Com tamanha vergonha e tanto estrago;
Vejo, e punge-me assaz, que a tal baixeza
Chegasse nosso exército tão forte,
A ponto de sofrer quanto é possível
Que substâncias do Céu e Deuses sofram.
Porém, quanto ao valor e aos brios d’alma,
Invencíveis nós somos; dentro em breve
Recobraremos o vigor antigo,
Inda que extinta jaz a nossa glória,
E aqui a nossa dita se sepulte
Nesta horrível miséria interminável.
Mas, se o Conquistador (que hoje não posso
Deixar de reputá-lo Onipotente,
Pois que com força pôs em plena ruína
Nossas forças, que invictas eu julgava),
Se ele, digo, nos quis deixar quais eram
Nossos grandes espíritos e forças
Para podermos suportar o peso
Dos flagícios cruéis com que nos punge,
Para podermos a medida toda
Encher-lhe da vingança em que se abrasa,
Ou fazer-lhe um serviço mais penoso
Como cativos seus por jus de guerra
(Seja aqui trabalhar em vivo fogo
No doloroso coração do Inferno,
Seja levar-lhe as hórridas mensagens
Pelas mansões do tenebroso Abismo),
Então... aproveitar-nos como podem
Nossos grandes espíritos e forças,
Posto que tais quais eram as sintamos,
Eternas só para castigo eterno?”

O arqu’inimigo prontamente o atalha:
“Degenerado querubim! Faz pejo
Não ter constância na paciência e lidas.
Podes seguro estar que jamais, nunca,
Fazer um bem qualquer nos é possível;
Mas que sempre será da essência nossa
Fazer todos os males que atormentam
A alta vontade do Opressor ovante.
Se acaso intenta a Providência sua
Algum bem extrair dos males nossos,
Busquemos perverter-lhe o fim proposto
Fazendo de tal bem fonte de males.
Muitas empresas destas são possíveis
Que hão de por certo o coração ralar-lhe,
E muitas vezes no estudado plano
Hão de turbar-lhe o entendimento irado.

No entanto vê que o Vencedor lá chama
Para as portas do Céu esses ministros
De seus furores, da vingança sua:
A sulfúrea saraiva que impelida,
Qual tufão torvo, atrás de nós correra,
Acalma-se e minora os ígneos jorros
Que desde os altos Céus nos flagelavam;
O alado raio rubro, ardente, iroso,
Talvez que exausto tendo agora as farpas,
Suspende o seu horríssono estampido
Que através troa do infinito vácuo.
Seja desprezo do Inimigo nosso,
Seja que de furor se creia farto,
Não deixemos fugir tão fausto ensejo.

Vês além essa tétrica planície,
Mansão de ruína e dor, só manifesta
Pelo fusco clarão que hórrido exalam
Estas lívidas chamas truculentas?
Vamo-nos para ali, saíamos fora
Do furor destas ondas abrasadas;
Descansemos ali, se ali descanso
Pode encontrar-se algum: eia! tornemos
A juntar nossas forças profligadas;
Busquemos modo como de hoje em diante
Faremos ao tremendo Imigo nosso
O maior mal que esteja ao nosso alcance,
Como repararemos nossas perdas,
Como suplantaremos nossos danos;
Indaguemos que auxílios nos compete
Ganhar pela esperança, — e, em caso oposto,
Qual a resolução que achar podemos
Do desespero nos terríveis lances.”

Assim falou Satã ao companheiro
Que ali mais perto estava. Sobre as ondas
Alevantava então a fronte enorme,
E dos olhos vertia horrendo lume:
O mais corpo, boiando ao longo, ao largo,
Por essas ígneas águas se estendia
Muitos estádios, sendo no volume
O que a Fábula diz das vastas moles
De Briareu e de Tifon (que ocupa
Junto da antiga Társea um antro ingente),
Filhos da terra que investiram Jove;
Ou como o Leviatã, marinho monstro,
Que Deus fez o maior dos entes vivos
(O qual, dormindo da Noruega em mares,
Ilha o crê o piloto de chalupa
Colhida em vendaval noturno, — e lança,
Como é dos nautas voz, no escâmeo dorso
Da âncora o dente, e a sotavento escapa
Enquanto é noite e pelo dia almeja).

Tão vasto assim, o arqu’inimigo alonga
Seus membros encadeado ao lago ardente,
Donde nunca teria erguido a fronte
Se do grão Deus a permissão suprema
Lhe não desse azo aos infernais desígnios
Para que, à força de contínuas culpas,
Toda a condenação a si chamasse
Enquanto males para os outros busca;
Para que, ardendo em raiva, percebesse
Como sua malícia inteira e astuta
Servia só a patentear do Eterno
A bondade, o favor, o amparo imensos,
Vistos no homem que pérfida enganara,
E no seu próprio coração maldito
Ira, vingança, confusão tresdobres.

Logo a monstruosa corpulência eleva
Vertical sobre o lago; as fluidas chamas,
Lançadas para trás, eis que se inclinam
Em agudos debruns de novo ao centro,
E desabando encapeladas formam
Um vale, todo horror. Abrindo as asas
Dirige para cima um leve vôo,
Equilibrado em ferrugíneos ares
Que sob o peso não usual gemeram;
Depois se foi pousar na seca terra,
Se era terra o que ardia em duro fogo
Como ardia a lagoa em fogo fluido.

Neste comenos se afigura o monstro
Penedo enorme que tufões subtérreos
Expelem do Peloro derrocado
Ou do horríssono bojo do Etna em fúrias,
Cujas entranhas, que abrasadas dentro
Té’li ferviam em cachões de fogo,
Erguem-se agora de tufões pungidas
Furibunda explosão jogando aos ares,
Crestando largo espaço que povoam
De mefítico cheiro e negro fumo;
Tais os malditos pés ali pousaram!

Seu imediato sócio logo o segue,
Gloriando-se ambos por se verem salvos
Do lago Estígio, como deuses que eram,
Sem permissão do onipotente Nume,
Mas pela própria força recobrada.

“Eis a região, o solo, a estância, o clima,
E o lúgubre crepúsculo por que hoje
Os Céus, a empírea luz, trocado havemos!
(O perdido anjo diz). Troque-se embora,
Já que esse, que ficou dos Céus monarca,
O que bem lhe aprouver mandar-nos pode.
É-nos melhor estar mui longe dele:
Se a sublime razão a nós o iguala,
Suprema força o põe de nós acima.

Adeus, felizes campos, onde mora
Nunca interrupta paz, júbilo eterno!
Salve, perene horror! Inferno, salve!
Recebe o novo rei cujo intelecto
Mudar não podem tempos, nem lugares;
Nesse intelecto seu, todo ele existe;
Nesse intelecto seu, ele até pode
Do Inferno Céu fazer, do Céu Inferno.

Que importa onde eu esteja, se eu o mesmo
Sempre serei, — e quanto posso, tudo?...
Tudo... menos o que é esse que os raios
Mais poderoso do que nós fizeram!
Nós ao menos aqui seremos livres,
Deus o Inferno não fez para invejá-lo;
Não quererá daqui lançar-nos fora:
Poderemos aqui reinar seguros.
Reinar é o alvo da ambição mais nobre,
Inda que seja no profundo Inferno:
Reinar no Inferno preferir nos cumpre
À vileza de ser no Céu escravos.

Mas os amigos nossos, que tão fidos
Nosso hórrido infortúnio partilharam,
Não deixemos assim jazer às tontas
No olvido destas ondas inflamadas;
Chamemo-los dali, não para serem
Nesta mansão conosco desditosos,
Mas para uma vez mais, todos reunidos,
Ver o que recobrar no Céu podemos,
Ou minorar de horror nestes abismos.”

Assim falou Satã. E assim lhe torna
O fero Belzebu: “Augusto chefe
Destes vastos exércitos brilhantes
(Que só Deus, mais ninguém prostrar podia!)
Assim que tua voz eles ouvirem,
(A tua voz que, nas batalhas todas,
Nos mais feridos e arriscados lances,
A seu valor marcou da glória a estrada,
Foi de sua esperança o firme esteio),
Assumirão de pronto um novo brio,
À vida voltarão, posto que jazam
Neste ígneo lago, como nós há pouco,
Atônitos, estáticos, imersos,
Baqueado havendo de tão grande altura.”

Disse; e já para a margem segue altivo
O monarca infernal. Do ombro lhe pende
O escudo que enrijou têmpera etérea.
Largo, pesado, orbicular, maciço,
E que assemelha a lua (quando a encara
Pelo óptico instrumento, à prima noite,
Do Fésolo no tope ou no Valdarno,
O hábil Toscano para ver se pode
No maculado globo descobrir-lhe
Novos rios, mais terras, mais montanhas).
Empunha a lança (junto à qual seria
Tênue vara o pinheiro o mais gigante
Que da Noruega em montes é cortado
Para mastro de altiva capitânia),
E nela os passos trabalhosos firma
Por tão ardente chão, mui diferentes
Do que eram percorrendo os Céus cerúleos:
Para abatê-lo mais, concorre o clima
Sobrepondo-lhe abóbada de fogo.

Contudo ele os suporta e às praias chega
Do ígneo mar. Seus angélicos guerreiros
Chama então, que sem tino ali jaziam,
Bastos como do outono as folhas juncam
De Valumbrosa as plácidas ribeiras
(Sobre as quais densa arcada sempre enramam
Da bela Etrúria os altos arvoredos),
Ou qual no Rubro-Mar bóia o carriço
Quando Órion lhe fustiga iroso as margens,
Capitaneando os ventos iracundos
(No Rubro-Mar que em si tragou inteira
De Busíris a audaz cavalaria,
Indo com atraiçoado e ardente impulso
De Gássen sobre os fidos viajantes,
Que salvos viram da fronteira praia
Flutuar, presa das ondas, morto o imigo
E os carros todos seus desmantelados):
Tão bastos por ali jazendo abjectos
Cobriam esse mar, cheios de espanto,
Vendo a mudança hedionda a que chegaram.

Quando soltou a voz, fez tal estrondo
Que do Orco retumbou no inteiro espaço:
“Ó príncipes! ó tronos! ó guerreiros!
Vós, flor do Céu — já nosso, e hoje perdido
Se de eternos espíritos se apossa
Tão horrível terror! — acaso tendes,
Depois de tão aspérrimas batalhas,
Escolhido este mar para repouso
De vosso lasso brio, dormitando
Aqui tão ledos, quais dos Céus nos vales?
Ou tendes em postura tão abjecta
Resolvido adorar vosso Tirano
Que, rindo-se, contempla nestas vagas
Querubins, serafins rolando às tontas
De envolta com troféus e inúteis armas,
Té que vos vejam dos celestes muros
Os satélites seus aqui prostrados,
E ousem, descendo, vir de vós zombando,
Mais para dentro vos calcar do Abismo,
Ou c’os buídos farpões de presos raios,
Deste ígneo golfo vos cravar no fundo?
Despertai, levantai-vos, companheiros,
Ou ficai para sempre aqui submersos!

Ouvem-no e coram: logo sobre as asas
Vai-se erguendo cada um, qual sentinela
Que apanhada a dormir por duro cabo
Logo insta pressurosa em pôr-se alerta.
Conhecedores de seu triste estado,
Em que as mais sevas penas têm curtido,
Cumprem do chefe o mando inumeráveis.
Quando no dia mau da Egípcia terra
De Arão o filho, em torno às ímpias praias,
Vibrou a vara portentosa e trouxe
Dos gafanhotos a terrível nuvem
Que, sobre os ventos orientais arfando,
A pairar veio, semelhante à noite,
Do tredo Faraó sobre os domínios,
E do Nilo as regiões cobriu de trevas, —
Tão sem conto os maus anjos eram vistos
Sob a cúpula do Orco arfar pairando;
Fogo os abrange nos sentidos todos.

Eis que o sultão do Inferno lhes indica,
Por um sinal de lança, o trilho próprio,
Pelo qual em tranqüilo vôo descem,
E sobre o chão de enxofre ardente pousam
Cobrindo essa planície em tal quantia,
Qual nunca deu o populoso Norte
Quando seus filhos bárbaros, transpondo
Do Danúbio e do Reno as níveas águas,
Todo o Sul inundaram, qual dilúvio,
Do Calpe além, do Atlante até às faldas.

Dos bandos, das legiões cabos e chefes
Vêm receber do general as ordens;
Semelhantes a deuses na figura,
Muito excediam a estatura humana;
No Céu primeiras dignidades foram,
Ali em tronos nítidos sentadas,
Posto que hoje o registro de seus nomes
Nos celestes arquivos se não ache,
Que dos livros da vida a traição negra
Fez que apagados para sempre fossem.

Inda entre os filhos de Eva eles não tinham
Novos nomes obtido, até que no orbe,
Por concessão de Deus, vagando infrenes
Para tentar os míseros humanos,
Puderam com mentiras, com embustes,
Corromper deles a maior quantia
Para deixarem Deus (que o ser lhes dera)
Tachando de não vista a sua glória,
E para preferir-lhe imagens brutas
Que de púrpura e de ouro se adornaram.
No gentilismo assim se conheceram
Por vários nomes e ídolos diversos
Os anjos maus; e assim os mesmos homens
Lhes deram culto que a seu Deus negaram.

Como então se chamavam dize, ó Musa;
Por que ordem, do grão rei ao fero brado,
Se ergueram do torpor desse ígneo leito;
Quais os de mais valor que prontos logo,
Um após outro, vieram onde o chefe,
Na praia nua estava, enquanto ao longe
Inda confusa a multidão boiava.

Eram tais cabos os que, do imo inferno
Indo de sua presa em busca no orbe,
Se atreveram fixar por soma de evos
Os templos seus do Eterno junto aos templos,
Suas aras contíguas dele às aras,
Sendo adorados como grandes numes
Por imensas nações, e mesmo ousaram
Raios lançar de Sião, quais Deus soía
De querubins cercando-se no trono.
No divinal santuário, muitas vezes,
Suas relíquias torpes colocaram:
Com ímpias cerimônias poluíram
Os sacros ritos, as solenes pompas,
E conseguiram insultar malignos
A luz empírea com as trevas do Orco.

Moloch adiante vem, monarca fero,
Tinto de humanas vítimas no sangue,
Nunca farto de lágrimas maternas,
Posto que — dos tambores, dos adufes
C’o turbulento estrondo, — não se ouvissem
Os gritos das misérrimas crianças
Arrojadas (oh! dor!) às labaredas
Em honra do seu ídolo iracundo!
O Amonita cruel o adora em Raba
E em seu longo distrito aquoso e plano.
Em Basã, em Argobe, até às fontes
Donde o longínquo Árnon se forma e mana.
Cioso por ver de Deus o altar vizinho,
Com fraudulenta sedução pôde ele
De Salomão levar o peito egrégio
(Salomão o mais sábio dentre os homens)
A edificar-lhe um majestoso templo
Na montanha do Opróbrio, bem defronte
Do Templo do grão Deus, e a consagrar-lhe,
Como parque, de Hinon o vale ameno
Que ficou desde então, sob o atro nome
De Tofet e Geena, emblema do Orco.

Segue-o Camos: de Moab a impura estirpe
Obsceno acatamento lhe tributa
Desde Aroar até Nebo, e mesmo alcança
Do distante Abarim o austral deserto:
Em Hesebon e Horonaím sujeitos
De Seon às leis, jazendo além das várzeas
Da florescente, pampinosa Sibma;
De Eléale até às águas do Asfaltite.
Pelo nome de Pior foi adorado
Quando, em Sitim, de Deus o povo eleito,
Que das margens do Nilo se afastava,
Instiga a dar-lhe desonestos cultos
E o mete assim num pélago de males.
Suas lascivas orgias inda estende
Té ao monte do Escândalo que fica
De Moloch homicida junto ao parque;
Eis da fereza próxima a luxúria!
Vagou assim até que no atro Inferno
O virtuoso Josias o sepulta.

Com estes vêm os que por nome tinham
Baalim e Astarote: o seu império
Era dos lagos junto ao velho Eufrates
Té ao rio que é meta à Síria e Egito.
Estes têm fêmeo o sexo, aqueles o outro:
Os espíritos podem, quando querem,
Um dos sexos tomar, e ambos num tempo;
A essência que os compõe presta-se a tudo,
Tão pura e simples é, tão branda e dócil!
Qual do gênero humano a inerte carne,
Não a estorvam nem membros, nem junturas,
Nem dos ossos o esteio quebradiço;
Mas para a forma, que a seu gosto escolhem,
Crescem, minguam, fulguram, escurecem,
Seus rápidos desígnios executam,
Já de ódio ultimam, já de amor os atos.
Por estes de Israel a miúdo a prole
Do seu altar sagrado se deslembra,
Curvando-se humilhada a deuses brutos;
Nas batalhas assim suas cabeças,
Como vis, se abateram derrotadas
Por lanças de inimigos vergonhosos.

Com estes, tendo em torno larga turma,
Vem Astorete a que os Fenícios chamam
Astarte, que se diz do Céu rainha,
Toucada de hástias lúcidas, curvadas,
A cuja imagem as sidônias virgens
Cantos e votos dão no albor da lua;
Em Sião também se acata, onde alto templo
Na montanha do Escândalo possui
Edificado pelo rei lascivo
Que, ilustre em tudo o mais, só nisto falho,
Por idólatras belas iludido
Prostrou-se diante de ídolos imundos.

Chega Tamuz depois: anual ferida
Em Lebanon ostenta, e assim atrai
As virgens sírias a chorar-lhe a morte
Em cantigas de amor um dia estivo,
Enquanto as águas do tranqüilo Adônis
De seu natal rochedo ao mar purpúreas
Vão correndo, tingidas (como é crença)
Pelo sangue que verte da ferida
Todos os anos o ídolo falsário;
Este amoroso canto o ardor ateia
De Sião nas filhas (cujos vícios torpes
Viu Ezequiel dos templos nos alpendres,
Quando, pela visão de todo abertos,
Seus castos olhos de Judá insana
Presenciaram a negra idolatria).

Segue-se outro, que em lágrimas se banha
Quando a arca prisioneira lhe espedaça
A imagem bruta do seu próprio templo:
Por terra ei-la de bruços, mãos e fronte
Rolando para longe decepadas!
Os seus adoradores envergonha:
Dagon por nome tem; monstro marinho,
Homem do cinto acima, o resto é peixe.
Possui inda em Azoth um templo altivo;
Gath e Ascalon, da Palestina as praias,
Acaron e de Gaza os fins fronteiros,
A tímida cerviz ante ele curvam.

Após este, Rimon se lhe apresenta:
Ofertou-lhe morada deliciosa
Damasco bela, que orna as férteis margens
Onde as límpidas ondas se espreguiçam
Que do Abana e Farfar vertem as urnas.
Muito insultou de Deus os templos sacros;
Uma vez perde um servidor leproso
Que recupera c’um monarca bronco,
Aaz, que há pouco conquistado o havia,
E faz que ele derroque o altar do Eterno
E outro construa ali de sírio modo,
Onde queimou ofertas execrandas,
E deuses adorou que escravizara.

Logo aparece a multidão imensa
Que ao fanático Egito ilude tanto
Com feias caras, com feitiços rudes,
E induz seus sacerdotes a buscarem
Seus vagabundos deuses revestidos
De forma bruta e não de humana forma:
Osíris, Ísis, e Hórus a precedem,
Nomes que muito entoa a prisca fama.
Não se isenta Israel do influxo deles,
Quando o ouro seu franqueou para fundir-se
No alto do Orebe o estúpido bezerro;
E o monarca rebelde inda duplica
Em Betel, logo em Dã, esse atentado.
Cultos negando ao Criador do Empíreo
Para dá-los ao boi que pasta e muge:
Mas Jeová, o Egito atravessando,
Matou, numa só noite e num só golpe,
Todos os primogênitos viventes
E todos esses deuses mugidores.

De todos foi Belial o derradeiro:
Espírito nenhum mais torpe que ele
Dos altos Céus caiu no fundo do Orco,
Nem mais grosseiro para amar o vício
Só por ser vício. Em honra desse monstro
Não se erguem templos, nem altares fumam;
Porém, com refinada hipocrisia,
É quem templos e altares mais freqüenta
Chegando a ser ateus os sacerdotes,
Bem como de Heli sucedeu aos filhos
Que de Deus os alcáçares encheram
De atroz fereza, de brutal lascívia!
Reina ele pelas cortes, nos palácios,
E nas cidades onde os vícios moram.
Onde a devassidão, a infâmia, o ultraje,
Sobem por cima das mais altas torres.
Ali, assim que tolda a noite as ruas,
Os filhos de Belial nelas divagam
Pela insolência e pelo vinho insanos:
Testemunhas as ruas de Sodoma
E a noite em Gabaá quando a virtude,
Por amparar os hóspedes, decide
Dar às torpezas a infeliz matrona,
Para evitar mais feios atentados!

Eis, na apresentação do poderio,
Os primeiros de todos. Quanto ao resto,
Tão noto no orbe, a história extensa fora,
Qual a dos jônios numes — confessados,
Como tais, de Javã pela progênie,
Posto que mais recentes os aclama
Que Céu e Terra de que os crê nascidos.
Foi Titã que do Céu nasceu primeiro,
E descendência enorme dele parte;
Porém Saturno, seu irmão mais novo,
Da primogenitura o desapossa;
E Jove, de Saturno e Réia filho,
Fez-lhe violência tal por ser mais forte.
É como usurpador que Jove impera.
(Foi conhecido e sua imensa prole
Primeiro em Creta e no Ida, e logo invade
Os frios cumes do nivoso Olimpo,
O délfico rochedo a ampla Dodona
E da dórica terra o longo espaço,
Donde a média região, partilha sua,
Que encerra os altos Céus, rege e domina).
O ancião Saturno e os seus fugiram todos,
Atravessando do Ádria as torvas ondas,
Para os campos da Hespéria, e se espalharam
Na plaga Celta e nas remotas ilhas.

Já toda a multidão as praias enche:
Nos macerados, abatidos olhos
Inda mostram uns longes de alegria,
Vendo que o chefe seu não desespera,
E que eles mesmos não estão perdidos
Dentro da própria perdição imersos.

Em seu porte Satã descobre indícios
De dúvida e receio, mas ostenta
Sua soberba usual; e, em frase altiva,
De brio tendo a cor e não a essência,
Com garbo ateia seu valor mortiço,
E os temores dos sócios afugenta.
Ordena logo que ao guerreiro toque
De ruidosos clarins, de feras tubas,
Seja erguido seu válido estandarte:
Por jus antigo tão soberbas honras
Azael pede, serafim gigante,
Que pronto da hástia refulgente solta,
Ao mavórcio clangor do cavo bronze,
A bandeira imperial que no ar subida,
Qual meteoro que os ventos arrebatam,
Brilhou co’o lustre do ouro e ínclitas gemas,
Com troféus, com seráficas divisas.

E ao mesmo passo o exército levanta
Um aplauso estrondoso que enche os ares,
Penetra o fundo Inferno, e vai dar sustos
Ao Caos tenebroso, à Noite antiga.
Num momento, através dos fuscos ares,
Dez mil bandeiras tremular se viram
Fazendo fulgurar do oriente as cores;
E floresta vastíssima de lanças,
Bastos escudos, apinhados elmos
Apareceram num maciço corpo
Que ostenta profundez imensurável.

Em perfeita falange lá se move,
Ao dório som dos pífanos, das flautas,
O exército infernal. (Assim se ergueram
Às alturas do brio o mais ilustre
Os antigos heróis, indo às pelejas;
Assumiam assim, em vez de raiva,
Meditado valor, firme, inconcusso,
Que por igual detesta e repudia
Da morte o medo, a vergonhosa fuga.
Tinha este som, por variações solenes,
O poder de induzir serenidade
Nas torrentes de idéias impetuosas,
E de expulsar a dor, tristeza e medo,
A aflição torva, a dúvida terrível,
Dos corações dos homens e dos Numes).
Deste modo os espíritos do Averno,
Possuindo força, união e plano fixo,
Marcham em ordem no maior silêncio,
Ao som das brandas flautas que mitigam
No chão ardente os passos dolorosos.

Eis fazem alto: o exército apresenta
Hórrida frente de extensão medonha,
E despede das armas luz maligna;
Tais os guerreiros dos antigos tempos,
Tendo em ordem as lanças e os escudos,
Aguardavam a voz do ínclito chefe.

Satã, pelas fileiras em parada,
Lança os previstos olhos; logo abrange
Os batalhões do exército quais eram,
Disposição, fisionomias, portes,
Estaturas parelhas coas dos Numes;
E por fim todo o número lhes conta.
Então, enchendo o coração de orgulho,
Por ser tão poderoso se gloria;
E por certo, depois de feito o Mundo,
Nenhum corpo se uniu que merecesse
Com este comparar-se, nem juntando
Todos os que houve nos diversos tempos.

A infantaria dos Pigmeus que em Trácia
Com os grous sustentou renhida guerra;
A inumerável prole dos Gigantes
Que em Flegra aos altos Numes se arrojaram;
Os ilustres heróis que pró e contra
Em Tebas e em Dardânia combateram,
Juntos os Deuses partidários de ambos;
De Bretanha e de Armórica os valentes
Que no conto de Artur figuram tanto;
Os campeões, quer infiéis, quer batizados,
Que talaram os campos de Aspramonte,
De Trebisonda, Montalbã, Marrocos;
Os que do afro país mandou Bizerta,
Lá quando Carlos Magno e os pares todos
Em Fontarábia a perdição acharam:
Desses todos, num corpo assim reunidos,
Fora o cêntuplo o exército infernal.

Em muito maior grau sendo esforçados
Do que quantos mortais podem supor-se,
Obedecem contudo ao torvo chefe
Que acima deles todos se sublima,
Soberbo em forma, em atitude, em porte,
Igual de torre às casas iminente.

Do brilho original inda conserva
Boa porção, — nem menos parecia
Do que um arcanjo a que somente falta
De sua glória o resplendor mais vivo
(Tal é o sol nascente, quando surge
Por cima do horizonte nebuloso,
De sua coma fúlgido privado;
Ou quando posto por detrás da lua,
E envolto no pavor de escuro eclipse,
Desastroso crepúsculo derrama
Pela metade do orbe, e os reis consterna
Em seu poder temendo algum desfalque).
Obscurecido, mesmo assim fulgura
Mais que os outros arcanjos, seus consócios;
Mas dos raios profundas cicatrizes
Aram-lhe o rosto macerado, aonde
Mil cuidados contínuos se aposentam
Sob o ouropel de intrépida coragem,
De ultriz tenção, de refletido orgulho.

Tem os olhos cruéis; mas dão indícios
De paixão, de remorso, quando observam
Os seus sectários (de seu crime os sócios,
Vistos no Empíreo tantas vezes antes,
Agora para sempre condenados
A ter quinhão na decretada pena),
Quando observam do Céu, do eterno gozo,
Tanto milhão de espíritos expulsos
Pela revolta em que os meteu insano,
E que inda assim fidelidade ostentam
Vendo-lhe a glória murcha, — quais se mostram
Na selva o roble, na montanha o pinho,
Depois que os estragou do Céu o lume,
Crestada a rama inteira, mas erguidos
Com toda a corpulência nua e enorme
Muito por cima das queimadas urzes!

Eis se apresta a falar: em roda dele
Ladeado de seus pares, se recurvam
Do exército, em fileiras dobres posto,
As alas ambas que a atenção faz mudas.
Tenta o discurso começar três vezes;
Três vezes, todo irado de vergonha,
Pára, — e em torrentes lhe rebenta o pranto
(Mas do que os anjos derramar costumam),
Té que por fim, cortadas de suspiros,
Podem romper caminho estas palavras:

“Coluna imensa de imortais poderes!
Espíritos, que sois incomparáveis
Menos a par do Altíssimo! A batalha
Que lhe hemos dado não nos foi inglória,
Inda que perda horrível nos arrasa,
Como estes sítios lúgubres atestam
E esta mudança que só dita enraiva.
Mas... que mental vigor, que altiva ciência,
O presente e o passado combinando
Co’os presságios incertos do futuro,
Temer podia que tamanha força
De Numes imortais composta e unida,
Como a que estamos vendo aqui agora,
Havia ser de estragos susceptível?
E quem pode inda crer que estas falanges,
De valentia tal, de tanto vulto
Que sua falta fez no Céu vazios,
Recusaram, depois mesmo da queda,
Subir de novo e conquistar a posse
Dos pátrios reinos, doação dos fados?
Quanto a mim, digam as celestes hostes
Se riscos, se outras táticas mostraram
Que jamais eu perdesse esta esperança.
O monarca dos Céus té’li sentado
No trono seu, unicamente firme
Por consenso, por fama, por costume,
Sim nos mostrava sua imensa pompa,
Mas suas forças ocultou-nos sempre:
Deste modo incitou a empresa nossa
E a queda nos urdiu. De agora em diante
A sua e a nossa força conhecemos;
Que provocar a guerra nos não cumpre,
Nem temê-la, uma vez que a provocarmos.
Nosso melhor recurso hoje consiste
Em formar, no segredo o mais severo,
De enganos e de ardis um firme plano,
Já que efeituá-lo não é dado à força.
O tirano por fim de nós aprenda
Que vencer só por força um inimigo
É somente vencê-lo por metade.
Podem nascer no espaço novos mundos;
E corria nos Céus notória fama
Que ele um ia criar ali em breve,
Onde poria geração ditosa,
A quem daria, com prazer ingente,
Favor qual o que obtêm do Céu os filhos.
Sobre esse Mundo, para vê-lo ao menos,
A primeira irrupção julgo precisa,
Ou noutro rumo; o tudo é pô-la em obra,
Que aos infernais abismos não é dado
Deter na escravidão entes celestes,
Nem muito tempo em trevas obumbrá-los.
Mas estes ponderosos pensamentos
Numa plena assembléia se discutam,
Nada de paz! e quem se atreveria
Pensar em submeter-se? Guerra, guerra,
Seja por força aberta ou trama oculta!”

Disse. Em apoio do que ao chefe ouviram,
Todos os querubins rápido arrancam
Das bainhas milhões de ígneas espadas,
Que iluminam do Inferno ao largo os reinos
Co’o súbito fulgor delas partido:
Altas imprecações vibram raivosos
Contra Deus; e, coas armas empunhadas
Batendo feros nos escudos, tocam
O rebate estrondoso das batalhas,
E impelem insolente desafio
Do Céu contra as abóbadas brilhantes.

Perto dali se erguia uma alta serra,
Cujo medonho tope vomitava
Rolos de fumo e borbotões de fogo;
Luzente crusta revestia o resto,
Firme sinal de que no bojo tinha
Virgens metais que produzira o enxofre.

Eis dela em direção voa ligeira
Uma brigada forte; guarnecidos
De pás, de picaretas, de machados,
Tais o grosso do exército precedem
Os corpos de pioneiros, tendo a cargo
Campos fortificar, erguer redutos.

Tem por chefe a Mamon: de quantos anjos
Expele o Céu, o menos nobre é este,
Porque seus olhos sempre e a mente sua,
No chão atentos, mais prazer achavam
Dos Céus no pavimento todo de ouro
(Porém aos pés dos querubins pisado),
Do que no mais augusto dos mistérios
Pela visão beatífica provados.
(Por seu ensino e sugestão foi ele
O que primeiro habilitou os homens
A esquadrinharem da mãe Terra o centro.
E a lhe rasgarem ímpios as entranhas,
Por obterem tesouros que a virtude
Quisera que inda ali ocultos fossem.)

Em breve tantas mãos aberto haviam
Com ferida espaçosa a grande serra
E de ouro rudes massas extraído.

Ninguém admire que as riquezas nasçam
No Orco profundo: só podiam no Orco
Brotar venenos que fingissem néctar!
Os que das obras dos mortais se espantam,
E de Babel as maravilhas narram
Ou as empresas reais da Egípcia terra,
Aprendam, observando o Inferno agora,
Que todos os mundanos monumentos
(De força e de arte célebres prodígios,
Em que empregaram séculos os homens,
Inumeráveis mãos, perene lida)
Pelos demônios excedidos foram,
Mui facilmente, num espaço de hora.

Logo ali na planície outra falange,
vários cadinhos preparado havendo
Sobre torrentes ígneas que do lago
Encaminhara ali, perita funde
As brutas massas dos metais, e logo
De todas as escórias os apura,
E também uns dos outros os separa.

De terceira falange o tino, há pouco,
Vários moldes no chão formado havia,
E dos rubros cadinhos vaza agora
Os luzentes metais que vão correndo
De teor estranho, até que se insinuam
Nos vácuos todos e ângulos mais tênues:
Pelo fole impelidas vão dest’arte
As ondas do ar, que elásticas penetram
Num órgão toda a sorte de canudos.

Logo a compasso de um concerto insigne
De suave instrumental, de magas vozes,
Uma fábrica imensa sobre a terra,
Em ar de exalação, eis vai surgindo;
E fica em breve um templo majestoso
Rodeado de pilastras, que sustentam
Vasta série de dóricas colunas
Com arquitrave de ouro guarnecidas;
De relevos magníficos se adorna
Da cornija e do friso o brilho ingente;
É todo o teto de ouro cinzelado;
E o suntuoso edifício, altivo, imenso,
Tem fixa a base em rocha de diamante.
(Nunca o Grão-Cairo, Babilônia nunca
Tal riqueza, tal pompa, tal grandeza
Puderam igualar nos altos templos
Dos pátrios deuses seus, Belo e Serápis,
Nem de seus reis nos paços estupendos
Quando um mais que outro na riqueza e luxo
A Assíria, o Egito, se julgavam ambos.)

Eis se abrem, par em par, as brônzeas portas:
Lá dentro espaço amplíssimo se avista
Sobre o polido e plano pavimento.
Da cúpula lustrosa penduradas
Por magia sutil descem brilhantes
Em fileiras diversas, como estrelas,
Candelabros e lâmpadas fornidas
De asfalto e nafta que de si produzem
Luz semelhante à que dos Céus se espalha.

Rápida a multidão entra e se espanta:
Estes aplaudem os primores da obra;
Aqueles, a perícia do arquiteto,
Conhecido nos Céus por ter formado
Torreadas construções, altas, diversas,
Onde arcanjos ceptrígeros residem
Sentados como príncipes em tronos,
Tão exaltados pelo Rei supremo
A fim de seus distritos governarem,
Cada um conforme a jerarquia sua.

Muito falado foi e teve altares
Na Grécia antiga, pela inteira Ausônia:
Múlciber se chamou. E dele narram
As fábulas que foi dos Céus expulso,
Sendo atirado pelo iroso Jove
Por cima das muralhas cristalinas
De um remessão, — e que a cair esteve
De um dia estivo pelo inteiro espaço.
Té que ao sol posto, despenhado a prumo
Como vagante estrela, em Lemnos pára.
Mas foi tal crença errônea, que muito antes
Com seus sócios revéis fora ele expulso,
Sem que lhe aproveitasse haver no Empíreo
Soberbíssimas torres fabricado,
E no infortúnio nem valer-lhe pôde
Tudo que tinha em si de engenho e de arte.
Lá foi arremessado de cabeça
Com todo o bando seu, fértil de indústrias,
Para erguer torres no profundo Inferno.

Os arautos alígeros no entanto,
Cumprindo as ordens do infernal monarca,
Ao som pregoam de canoras tubas,
E em préstito pomposo, um grão conselho
Que logo deve em Pandemônio unir-se,
Paços imensos do tirano do Orco.
De cada jerarquia os mais distintos,
Ou por seus graus ou porque o rei os ama,
O chamamento designava, e logo
De numerosas turbas vêm ladeados.
Estão cheias de todo as avenidas,
Os átrios cheios; mas a régia sala
(Inda que em vastidão qual campo aberto
Onde os campeões valentes, cavalgando
Corcéis airosos, desafiar costumam,
Do Soldão junto ao trono, os mais nomeados
Dos cavaleiros que Mafoma adoram,
A mortais golpes, ou quebrar as lanças),
A régia sala espessamente ferve
Dos querubins co’os réprobos enxames
Que, pelo solo e no âmbito esparzidos,
Das asas co’o estridor no éter sussurram.

As abelhas assim na primavera,
Quando em Tauro entra o Sol, tanto se agitam,
Das colmeias lançando fora aos bandos
Inteira a populosa juventude:
Em diversos sentidos ora voam
Entre flores que enfeita o fresco orvalho;
Ora passeiam na polida prancha,
Subúrbio da colmada cidadela,
Perfumada de fresca mangerona,
De seu governo os planos conferindo.
Exatamente assim tão bastos eram
Os espíritos maus na sala voando.

Eis ao dado sinal (que maravilha!)
Eles, — que até então no vulto excedem
Os enormes Titãs, da Terra filhos, —
Agora decrescendo se reduzem
Ao só tamanho dos anões mais tênues,
Cabendo deste modo inumeráveis
Em pouco amplo circuito: tão pequenos
Se dizem os Pigmeus na plaga Indiana,
Ou os duendes que o crédulo campônio,
Por fora na alta noite demorado,
Vê ou crê ver à beira do caminho,
Em selva umbrosa ou junto à fresca fonte,
Retouçar em galhofas prazenteiras,
Enquanto a Lua, próximo da Terra
Levando o coche seu de albor macio,
Eminente preside a seus folguedos
Compassados por música mimosa
Que, ao campônio os ouvidos encantando,
De gosto e susto o coração lhe abala.

Deste modo os espíritos do Averno
Sua imensa estatura reduziram
A tênue vulto, — e à larga se acomodam,
Sendo sem conto, no salão da cúria.

Mais além, alta câmara formando,
Da multidão por teia separados,
Os pares infernais, subidos tronos,
Em número de mil, no teor de numes,
Conservando dos vultos a grandeza,
Ali se assentam em cadeiras de ouro.

Depois de algum silêncio, houve a leitura
Do decreto que ali ajunta as cortes;
E logo o alto conselho principia.


ARGUMENTO DO CANTO II

Começa o conselho. Satã propõe que se questione como se há de combater para recobrar o Céu. Uns querem guerra, outros a dissuadem. Prefere-se terceira proposta, mencionada antes por Satã, consistindo em indagar se era verdadeira a profecia ou tradição do Céu que se referia a um novo mundo e a uma nova sorte de criaturas (iguais ou não muito inferiores aos anjos e que por esse tempo já deviam ter sido criadas). Duvidam sobre quem seria mandado a tão árdua empresa. Satã, chefe dos demônios, toma sobre si só a viagem, e recebe por isso honras e aplausos. O conselho finda assim: cada qual segue o caminho ou se emprega conforme sua particular inclinação para entreter-se até à volta de Satã. Prossegue ele a sua viagem em direção às portas do Inferno que acha fechadas e guardadas por dois fantasmas (que eram o Pecado e a Morte), os quais finalmente lhas abrem e mostram o grande abismo posto entre o Inferno e o Céu. Dificuldades que vence dirigido pelo Caos (que reina sobre estas regiões), até que dá vista do novo mundo que procura.

 

CANTO II

 

NUM alto sólio que em fulgor excede
Do Ganges, do Indo, as pedrarias, o ouro,
Com que o faustoso Oriente, em luxo altivo,
Adorna seus esplêndidos monarcas,
Com toda a pompa real Satã se assenta,
Por sua criminosa heroicidade
Colocado em tão hórrida eminência.
Por desesperação tendo subido
Muito inda além das metas da esperança,
Muito inda além por ambição se arroja
Contra os Céus prosseguindo a inútil guerra;
E, nada lhe ensinando os seus desastres,
Ostenta assim da fantasia o orgulho.

“Potestades do Céu, domínios, tronos,
Se em seu golfo sem fundo o mesmo Abismo
Nosso imortal vigor, posto que opresso,
Segundo vedes embargar não pode,
Não julgo para nós o Céu perdido,
Virtudes celestiais que se alevantam
De queda tão tremenda mais gloriosas,
Mais fortes, mais terríveis que antes dela,
Não mais têm que tremer de outra derrota
Confiando em sua inata valentia.
Eu que por fixas leis, justiça eterna,
O vosso chefe sou dês que existimos,
Também me honro do jus a tal grandeza
Por vossa livre escolha conferido,
E do que nos conselhos, nas batalhas,
Meu mérito prestante me granjeia.
Até por fim os infortúnios nossos,
Em grande parte reparados hoje,
Nesta suprema altura mais me firmam
Pois que num sólio estou da inveja a salvo.
Possuindo alto poder, honras, delícias,
Pode invejado ser dos Céus o trono;
Mas quem no Inferno invejará tal sítio
Que mais erguido, qual baluarte vosso,
Mais do Deus vingador se expõe aos raios
E a ter maior quinhão na infinda pena?
Onde bens faltam, que ambição provoquem,
Não há de que temer a rebeldia:
Ninguém põe mira na realeza do Orco,
Nem ambicioso quer que mais avulte
A pena atual que diminuta sofre.
Fortes desta vantagem, procuremos
Com mais acordo e união, com mais lealdade
Do que vimos no Céu, ganhar de novo
De nossa herança justa o ancião domínio,
Mais certos do sucesso afortunado
Do que se ele viesse da fortuna.
Versa o debate sobre qual dos modos
Convém, se guerra aberta ou trama oculta.
Falai, exponde os pareceres vossos.”

Disse. Moloch se ergueu logo após ele.
Este ígneo serafim, que um cetro empunha,
É de quantos no Empíreo combateram
O de maior fereza e valentia;
A desesperação mais fero o torna.
Com terrível jactância presumira
Ser tido em forças por igual do Eterno,
E, a ser-lhe menos, antepunha a morte;
Mas formal desengano agora o livra
Da colisão que assim o amedrontara.

Despreza os raios, o Orco, o Abismo, o Eterno,
E rompe em tais palavras furibundo:

“Meu parecer consiste em guerra aberta.
Eu não blasono de perito em tramas:
Quem delas precisar, embora as urda;
Sempre as detesto e muito mais agora.
Que? milhões de anjos, empunhando as armas,
Esperar deverão, do Céu os trânsfugas,
Que em vil descanso as tramas se combinem
E que a seu tempo se efetue o assalto?
Que?! Deverão sofrer o encerro infame
Desta hórrida masmorra tenebrosa,
Onde os retém soberbo o seu tirano
Que reina em paz por nossa cobardia?
Não, não! Brandindo fogo e fúrias do Orco,
De uma vez atiremo-nos em massa
A derrocar do Empíreo as altas torres,
E, abrindo larga estrada irresistíveis,
Fazer ousemos dos tormentos nossos
Contra seu fero autor terríveis armas!
Quando de seu alcáçar prepotente
Trovões dispare, simultâneo escute
Dos trovões infernais o rudo estrondo,
E veja, dos relâmpagos em frente,
Com raiva igual lançando entre seus anjos
De negras flamas hórrido dilúvio,
E até seu estranho trono imerso
Em fogo e fumo de tartáreo enxofre:
Dest’arte restituamos-lhe os tormentos
Que o gênio seu nos inventou sublime.
Crer-se-á talvez difícil a escalada,
Com perpendicular férvido vôo,
De altura tanta, alcantilada a prumo,
Guarnecida por válido inimigo:
Mas atentemos, — se as bebidas águas
No turvo lago do torpente olvido
Nosso imortal vigor inda não tolhem, —
Que devemos subir com próprio impulso
Para nosso natal etéreo assento;
Descer, cair, repugna à essência nossa.
Quando o fero inimigo, debruçado
Da alta margem do Céu sobre o amplo Abismo,
Nosso exército imenso fulminava
Do Caos através té do Orco às portas,
Qual de nós não sentiu que, indo descendo
Por impulsões violentas compelido,
Natural resistência lhes opunha?
Para nós logo eis fácil a subida.
Também talvez se tema êxito infausto:
Mas... demos que por nossa valentia
O atroz imigo, que nos vence em forças,
Outra vez altamente provocado,
Achava em seu furor pior astúcia
Para levar a extremo o nosso estrago,
Se a pode haver pior que as penas do Orco;
Que estrago mais violento do que, expulsos
Do Céu, votados a total desdita,
Habitar nesta lúgubre masmorra,
Sem esperança tendo e sem recurso
De inextinguível fogo a pena infinda,
E ouvir, de seu feroz capricho escravos,
Assim que troam do tormento as horas,
O doloroso látego implacável
Chamar-nos à terrível penitência?!
Se passa o estrago a mais, certo de todo
Seremos consumidos, morreremos.
Então que mais receamos? quem nos obsta
Seu furor compelir ao grau mais alto?
Da raiva ardendo nas mais fortes chamas,
Se conseguir a todos arrasar-nos
A nada reduzindo a essência nossa,
Condição mais feliz alcançaremos
Do que eterno viver à dor votado:
E, se esta nossa divinal substância
Não é decerto súdita da morte,
Atuais sentimos as maiores penas
Que possíveis estão aquém do nada.
Bem entendestes que asselei com provas
Termos forças por cálculo, bastantes
Para o Céu perturbar com dura guerra,
E com perpétuas incursões dar sustos
De Deus ao trono, posto que inacesso:
E, se não conseguirmos a vitória,
Pelo menos vingança tomaremos.”

Disse; e de todo a catadura franze.
Seu porte e olhar ameaçam furibundos
Cega vingança, guerra de extermínio
A qualquer outro que não fosse o Eterno.

Eis Belial do outro lado se levanta,
O anjo mais belo que perdeu o Empíreo;
Todo era graças, era grados todo.
Tal dignidade ostenta no semblante
Que só rasgos de heroísmo em si inculca;
Era em tudo porém frívolo e falso.
A sua voz, de que o maná goteja,
Tantos encantos tem, tanto arrebata
Que mostra puras as razões mais torpes,
E torna embaraçados e perplexos
Os mais previstos e maduros planos:
Com perspicácia suma induz ao vício,
Ante as altas ações afrouxa e treme;
Aos ouvidos apraz quanto ele exprime;
Cobre alma vil com porte de grandeza.

Em persuasivo tom falou dest’arte:

“Muito instaria pela guerra aberta
(Que em ódio, em sanha, vos não cedo, ó pares!)
Se as mais fortes razões, em que a sustentam,
Eu não as visse por extremo próprias
A provar dessa guerra o desacerto,
E se a conjecturar não conduzissem
Êxito infausto no total da empresa.
O que entre nós mais pode em feitos de armas,
De seus conselhos e valor duvida,
Pois que, contente de vingança inútil,
Seu brio assesta ao desespero, à morte,
Como ao só alvo de tamanho empenho.
Vingança inútil, sim! que armadas hostes
Sempre atalaiam nos celestes muros
E todo o assalto impraticável tornam;
Que em limites do Caos, à voz de Deus,
Inúmeras legiões freqüente acampam,
Ou com vôo sagaz, imperceptível,
Exploram, batem nos sentidos todos
Da umbrosa noite os espaçosos reinos,
Escarnecendo das surpresas nossas
Mesmo quando pudéssemos à força
Passo abrir, indo do Orco inteiro à testa
Com explosão furiosa sublevado,
E a puríssima luz turvar do Empíreo, —
Inda assim, nosso imigo onipotente
Assentado em seu trono ficaria
Inabalável, inacesso, intacto,
E, nosso assalto repelindo em breve,
Desnevoaria, vencedor prestante,
De tão grosseiros, desprezíveis fogos,
Sua etérea substância imaculada.
Com tal repulsa as nossas esperanças
Em desespero vão por fim se fundam:
Exasperar nos cumpre um Deus ovante
Que, dos furores seus largando as rédeas,
Nossa existência rábido termine,
Para nós sendo a morte o único anelo.
Que triste anelo! Quem, mesmo pungido
De cruas aflições pelo árduo acúleo,
A vida intelectual perder deseja
E os pensamentos que sublimes voam
Por toda a vastidão da Eternidade?
Quem deseja que morto o engula e esconda
Da incriada Noite o seio imenso, escuro,
E estar latente ali sem fim, sem termo,
Imprestável, imóvel, insensível?
Quem sabe, mesmo a ser um bem a morte,
Se nosso grã contrário enraivecido
Com ela nos brindar ou possa ou queira?
Que possa... é dúbio! que não queira... é certo!
Quer ele, sendo tão previsto e sábio,
Terminar de uma vez sua vingança,
E de inépcia ou fraqueza dando visos,
Aos inimigos seus cumprir o gosto,
Em seu furor com eles acabando,
Se pode em seu furor puni-los sempre?!
Da guerra aberta os partidários clamam
Que aguardar é fraqueza, — e que, votados
Sem dó, sem remissão, à pena eterna,
Impossível será que mais soframos,
Quaisquer que sejam os distúrbios nossos,
Porque quanto há de pior hoje sofremos.
Sofrer o pior consiste em, muito a salvo,
De armas na mão tramar quais ora estamos?
O pior isto é — quando arrancado vôo,
Do Céu fugidos, pávido trouxemos,
E, por dilúvio de fulmíneas farpas
Transpassados, envoltos, perseguidos,
Suplicámos do Inferno o abrigo escuro,
O Inferno parecendo-nos nessa hora
De tão cruéis feridas o refúgio? —
Ou quando nos conteve submergidos
De estuosas flamas o profundo lago?
Então quanto há de pior (certo é) sofremos!
Fora isto o pior, se o sopro, que aturado
Estes horrendos fogos cria e nutre,
Com setêmplice raiva os agitasse
E em seus feros cachões nos imergisse?
Se do Eterno a vingança, hoje interrupta,
Alçasse, novamente armada, acesa,
A mão fúlmine-rubra em nosso alcance?
Se, a seus inteiros arsenais dando uso,
Abrisse deste firmamento do Orco
Os profundos, flamívomos algares
(Horrores que iminentes nos assustam
Coa torva imagem de propínqua queda),
E, enquanto nós aqui nos exortamos
De tão ilustre guerra ao brio, à glória,
Com rápido tufão nos impelisse
Cravando-nos cada um em rocha aguda,
Onde o furor dos desbridados ventos
Ousasse divertir-se em flagelar-nos, —
Ou para sempre em nosso ardente oceano
Sumindo-nos, de algemas carregados,
Onde, sem dó mover, sem pausa ou trégua,
Vivêssemos em ais, sempre pungidos
Por nova dor, por desespero eterno?
Então quando há de pior nos avexara!
Assim, por voto meu e igual motivo,
Dissuado a guerra aberta e a trama oculta.
Que força ouse arrostar de Deus a força?
Que astúcia ouse iludir sua prudência,
Ele que em toda a direção abrange
Co’um lanço de olhos o Universo inteiro?
Quantos projetos vãos aqui urdimos
Vê, rindo-se de nós, no Empíreo excelso,
Tão forte em rebater nossos assaltos
Quão sábio em nos baldar ardis e tramas.
Porém (perguntam) nós no Céu nascidos
Viver devemos nesta hedionda furna,
Assim expulsos, vis, atropelados,
Debaixo de grilhões, entre tormentos?
É tudo isto melhor (conforme eu julgo),
Que esses horrores em que o pior consiste:
O destino infalível nos subjuga,
Suprema lei do Vencedor potente.
Para sofrer e combater possuímos
O mesmo brio e valentia a mesma:
Nem semelhante lei tacho de injusta,
Que fixa estava, dês que os tempos correm,
A nossa queda se com dúbia audácia
(Oxalá que então fôssemos previstos!)
O poder investíssemos do Eterno.
Move-me a riso ver os valerosos,
Que tão ardidos foram nas batalhas,
Tremerem de pavor, tendo-as perdido,
E com tal cobardia deplorarem
O exílio, o cativeiro, a dor, o opróbrio,
Do vencedor disposições sabidas,
Nossa condenação inevitável.
Talvez, se ousarmos suportá-la humildes,
Nosso inimigo, pelo andar dos tempos,
Seu supremo furor minore, abrande:
Talvez, longe de nós, de nós se esqueça
Se com ofensa nova o não pungirmos,
E, satisfeito das sofridas penas,
Mais não sopre estas flamas irritadas,
Que assim afrouxarão sua fereza.
A essência nossa então, porque é mais pura,
Triunfará de incêndio tão danoso,
E incombustível não terá mais penas;
Ou, gradualmente ao sítio acomodada
Por natureza e têmpera factícias,
Há de habituar-se a clima tão urente,
E hão de nos parecer, coa dor mais branda,
Claras as trevas, suportável o Orco.
Inda mais: na esperança nos alenta
O giro eterno dos futuros dias,
Que nos pode talvez trazer mudança,
Mudança em que mais meiga aponte a sorte
Dando ares de feliz a nosso estado,
Que certo o pior não é, posto que horrível.
Mas desgraça maior não provoquemos.”

Não paz, mas quietação indecorosa,
Aconselha Belial desta maneira:
O ouropel da razão corou-lhe as falas.

Depois dele Mamon assim se exprime:
“Se o partido melhor temos na guerra,
Cremos ou destronar o rei do Empíreo,
Ou recobrar o jus que ele nos rouba.
Esperar destroná-lo poderemos,
Quando o destino indômito, imutável,
Sob o acaso inconstante a fronte curve
Ou for juiz desta luta o antigo Caos.
Fútil dos dois projetos o primeiro
De fútil o segundo denuncia.
Ser-nos grato, dos Céus dentro no espaço,
Que sítio pode, se do altivo trono
O tirano dos Céus não derribamos?
Supondo que ele mitigasse a fúria,
E perdão compassivo a todos desse
Sobre protesto de obediência nova, —
Diante dele com que olhos estaremos
O orgulho seu humildes acatando,
Rígidas leis impostas recebendo,
Hinos trinando de seu sólio em torno,
E à sua vangloriosa Divindade
Descantando forçados aleluias
Enquanto ele, rei nosso aborrecido,
Com soberana pompa está sentado,
Enquanto seu altar recende, brilha,
Da empírea ambrosia co’o perfume e esmalte,
Ofertas vis do servilismo nosso?
Tais devem ser as que no Céu teremos.
Honrosa ocupação, brilhante glória.
Quão tediosa reputo a eternidade
Gasta em dar culto ao ser que se aborrece!
De mão sim demos pois, não prossigamos,
Inacessa à violência, essa alta pompa,
(Essa alta pompa — escravidão contudo
Que nem nos Céus a quer uma alma nobre):
Antes o nosso bem de nós tiremos,
Do que for nosso, para nós vivamos,
Mesmo nesta prisão sejamos livres
Recusando qualquer alheio mando,
E ao fácil jugo de servil grandeza
Prefiramos custosa liberdade.
A mais fulgente glória alcançaremos
Se com tenaz denodo conseguirmos
De poucos meios extrair portentos,
Do mal o bem, da desventura a dita,
Medrar em qualquer parte ao dano expostos,
Maciar as penas com paciência e lida,
Temeis do Abismo a escuridão profunda?
Por que a miúdo o Senhor, que os mundos rege,
Está, sem que se ofusque a sua glória,
Dentro de espessas, tenebrosas nuvens,
E, o trono seu em derredor cobrindo,
Com majestosa escuridão se adorna,
Donde trovões profundos rugem, bramam
Parecendo no Céu do Inferno a imagem?
Se pode ele imitar as trevas nossas,
Imitar sua luz nós não podemos?!
Deste deserto nas caudais entranhas
Se esconde o lustre dos diamantes, do ouro;
Nem carecemos nós de indústria e de arte
Para os erguer em máxima opulência:
E que pode ostentar de mais o Empíreo?
Co’o andar dos tempos os tormentos nossos
Decerto hão de servir-nos de elemento;
Há de ficar este pungente fogo
Tão manso, como agora está ferino;
Na sua a nossa essência temperada,
A têmpera há de ser a mesma de ambos;
Então prazer assim na dor teremos.
A conselhos de paz tudo convida
E de ordem fixa ao venturoso estado:
Eis pois a salvação mais ponderosa
Em que estes males serenar nos cumpre,
Visto o que somos e o local que temos.
Não mais façamos guerra: este o meu voto.”

Disse. Eis rumor sussurra no congresso
Como quando um minado promontório
Represa o som dos tempestuosos ventos,
Que, em toda a noite o mar tendo empolado,
Por fim embalam com cadência rouca
Dos tresnoitados nautas a pinaça
Na íngreme enseada que lhe deu guarida;
Tal prestado a Mamon se ouviu o aplauso.

Foi grato a todos pela paz votando,
Porque temiam mais que o mesmo Inferno
O renovado estrago das batalhas, —
Com tanto medo os avexavam inda
O alfanje de Miguel, do Eterno os raios!
Também não menos os pungia o anelo
De um grande império levantar no Abismo,
Que, por ótimas leis e em prazo justo,
Émulo fosse do invejoso Empíreo.

Ouvindo-o, Belzebu então ergueu-se.
É, depois de Satã, o anjo mais nobre;
Seu grave porte, seu altivo aspecto
Nele anunciam um pilar do Estado;
Profundamente impressas no semblante
Decisões refletidas se lhe notam
E do público bem tenção sisuda.
Majestoso, inda mesmo na desgraça,
Brilham nele de um príncipe famoso
Os vastos planos, o sublime gênio.

Ei-lo a pé firme, — e ostenta denodado
Os largos ombros que invejara Atlante
(Parecem feitos para dar apoio
Dos impérios mais válidos ao peso);
Ganha os ouvidos e atenção de todos:
Como de noite ou no estival mei’-dia,
Reina o silêncio. E assim o arcanjo fala:

“Tronos, domínios, celestiais virtudes,
Do Empíreo prole real, banis tais nomes,
E tolerais que em transformado estilo
Por príncipes do Inferno se vos trate?
Sim, que a ficar aqui se inclinam todos
E aqui fundar esclarecido império.
Vós decerto ignorais, perdeis de vista
Que o Rei dos Céus nos destinou este antro, —
Não para de seu braço poderoso
Pôr-nos fora do alcance em salvo abrigo,
Não para isentos do poder celeste
Vivermos livres e traições armar-lhe, —
Mas para calabouço em que nos prende
Longe de si na escravidão mais dura,
Nunca largando as invencíveis rédeas
Que nos subjugam, multidão cativa!
Sempre o primeiro em tudo, o último sempre.
Sempre o só Rei no Céu, no Caos, no Orco,
Jamais míngua terá (crede-me), nunca,
No império seu coa rebeldia nossa:
Sobre os Infernos seu domínio estende
E com cetro de ferro os tiraniza,
Bem como adita os Céus com cetro de ouro.
Que estamos projetando? paz ou guerra?
A guerra nos fadou este infortúnio
E abismou-nos em perda irreparável:
Da paz nem mesmo as condições prevejo
Que paz alcançaremos nós escravos
Senão grilhões, flagelos, tiranias?
Que paz também retribuir podemos
Senão traições, ardis, vinganças, ódios,
Intermináveis sempre, inda que tardos?
Conjuração contínua trabalhemos
E, quanto mais pudermos, desluzamos
Ao Vencedor os frutos da vitória,
E o bárbaro prazer que goza ufano
Em nos fazer tragar tão crus tormentos.
Estai seguros; ocasiões não faltam,
Sem precisarmos da arriscada empresa
De arremeter do Empíreo aos altos muros
Que não receiam do profundo Averno
Os assaltos, os cercos, as ciladas.
Mais fáceis meios socorrer-nos podem:
Um lugar, outro mundo (se no Empíreo
Anciã fama profética não falha)
Deve agora existir, próspera estância
De novos entes nominados “Homens”,
Semelhantes a nós, posto nos cedam
Em poder, em fulgor, mas favoritos
O mais possível do Tonante excelso
Que às jerarquias a vontade sua
Exprimiu, confirmou, jurou grandioso,
Com tanta intimativa que abalado
Tremeu e retremeu inteiro o Empíreo.
A ele assestemos os tentames todos,
Saibamos que habitantes o possuem,
Seus dotes, seu poder, substância, forma,
Qual é seu fraco, se melhor contra eles
Guerra aberta utilize ou trama oculta.
Posto se nos fechar o Céu radiante,
E assentar-se do Céu o Árbitro altivo
De todo firme em sua própria força,
Pode expor-se essa plaga ao nosso alcance
Como de seu império estando na orla,
Guardada por seus próprios habitantes,
Talvez que alguma empresa vantajosa
Com súbita incursão conseguiremos, —
Ou do Inferno co’o fogo devastando
Toda a recente máquina do Mundo,
Ou toda conquistando-a, e seus senhores
(Quais nós fomos do Céu) dela expelindo:
E, a não podermos aspirar a tanto,
Ao menos obteremos seduzi-los
À traição nossa; por tamanha ofensa
Seu Deus há de tornar-se em seu contrário,
E, arrependido da bondade sua,
As próprias obras destruirá furioso.
De muito este sucesso sobrepuja
Toda a vingança que até’gora urdimos:
Quando seus filhos, que extremoso amara,
Amaldiçoassem sua fraca origem
E murcha glória (tão depressa murcha!)
Precipitados nos tormentos nossos, —
Quanto do Eterno a bárbara alegria
Que sente em nosso mal, se desfizera!
E quanto, contemplando o seu desgosto,
Se exaltará nossa alegria ufana!
Pesai portanto o que melhor nos cumpre,
Se acometer ou se neste atro Abismo
Ficar de vãos impérios cogitando.”

Dest’arte Belzebu explana e firma
Seu conselho infernal que fora dantes
Achado por Satã e exposto em parte.

De quem senão do autor dos males todos
Malignidade tal nascer pudera
Para na origem arruinar os homens,
Misturar, envolver co’o Inferno o Mundo,
E o mais possível irritar o Eterno?!

Dos perversos, porém, sempre a maldade
Fez mais sobressair de Deus a glória.

Altamente agradou o audaz desígnio
Aos membros todos do infernal congresso:
Nos olhos todos a alegria fulge;
Todos com pleno assentimento votam.

Belzebu, satisfeito, assim prossegue:
“Foi sustentado bem, bem terminado
Nosso debate extenso, ó corte de anjos!
E grandes como vós, já decidistes
Projetos que, dos fados em despeito,
Muito nos hão de erguer do imenso Abismo
E à nossa antiga estância aproximar-nos.
Talvez, seus muros fulgurantes vendo,
Nós possamos de novo entrar no Empíreo
Dobrando o esforço, aproveitando o ensejo, —
Ou, senão, habitar em doce clima
Acessível do Céu à luz formosa,
E a salvo desprender-nos destas trevas
Pelo brilho do Oriente fulgurante:
Então mimosa a viração do ar puro,
Aromas deliciosos exalando,
Nossas feridas fechará profundas
Por este fogo corrosivo abertas.
Porém, antes de tudo, quem nomeamos
Para ir em busca do recente globo?
Quem cremos digno de tamanha empresa?
Quem se atreva tentear com passo às cegas
O insondável Abismo, imenso, escuro,
E. esta palpável noite atravessando,
Coa estrada virgem deparar ditoso?
Quem se atreva com vôo infatigável,
Na direção de alcantilada enorme,
Sempre subir, subir, a prumo sempre,
Até que encontre essa ilha afortunada?
De que força e de que arte então carece?
Ou como a salvo possa subtrair-se
Às colunas alerta, aos densos postos
Dos anjos que patrulham de contínuo?
Toda a circunspecção lhe é necessária,
E a nós não menos nesta digna escolha:
No eleito pomos e confiamos dele
Nossa única esperança, o bem de todos.”

Disse e assentou-se. Atento em torno olhando,
Espera a ver se alguém tão árdua empresa
Ou sustente, ou impugne, ou tome em braços:
Mas todos silenciosos se conservam
Em profundo pensar pesando o p’rigo, —
E cada qual. atônito, perplexo,
Dos outros vê no rosto o próprio susto.

Entre os heróis que mais se distinguiram
Do Empíreo nas batalhas truculentas,
Nenhum há tão audaz que peça ou queira
Arrostar só por si a hórrida viagem!
Té que afinal Satã, cuja alta glória
Muito dos sócios seus acima o eleva,
Entendedor do verdadeiro heroísmo,
Com orgulho monárquico se expressa:

“Dos Céus prole sublime, empíreos tronos,
Sois intrépidos, sim! mas não estranho
Que hoje o silêncio e hesitação vos prendam.
É dilatado e aspérrimo o caminho
Que à luz do Empíreo vai das trevas do Orco:
Estas de fogo ardente amplas muralhas,
Prisão insuportável, invencível,
Dentro de nove círculos nos cerram;
E de diamante em brasa horríveis portas
Sair nos vedam sobre nós trancadas.
Além destas, se alguém passá-las pode,
As temerosas fauces abre, ostenta,
Da inabitável noite o imenso vácuo
Que ameaça aniquilar o caminhante
Em seu golfo, onde tudo se aniquila!
Se dele escapa, o que lhe resta menos
Do que ignotas regiões, estranho mundo,
Trabalhosa evasão, medonhos p’rigos?
Mas muito mal me conviria, ó pares,
Este cetro, este sólio, este diadema,
Tão luzente esplendor, poder tão grande,
Se à vista de qualquer proposta empresa,
Reputada de pública importância,
Dela eu me eximo trépido e cobarde
Porque de custo e p’rigo o aspecto mostra.
Como? Não recusando a c’roa, o cetro,
E poder majestático assumindo,
Tomar Satã dos p’rigos recusara
A mais alta porção que aos reis incumbe,
Os reis que tanto mais expor-se devem,
Quanto mais gozam de grandeza e de honras?
Ora sus! prole excelsa, heróis valentes,
Que medo ao Céu meteis mesmo vencidos,
Na pátria tende conta; — e, enquanto a pátria
Consistir nesta lúgubre caverna,
Lidai por seu horror tornar mais brando
Fazendo menos dura a pena do Orco,
Se pode haver aqui remédio, encanto
Que tais tormentos suste, engane, afrouxe!
Contra inimigo que vigia sempre,
Não cesseis de vigiar enquanto rompo
Da negra destruição por entre os riscos,
De todos nós buscando a liberdade.
Ninguém de tal empresa admito à glória.”

Falando assim, levanta-se o monarca,
E cauto toda a réplica previne,
Obstando que entre os chefes apareçam
Alguns que, em seu desígnio vendo-o imóvel,
E certos da repulsa, peçam, instem
Entrar na empresa que temiam antes,
E ousem aparentar que o rivalizam
Comprando tão barato a ingente glória
Que ele adquirir somente poderia
Por entre os riscos do medonho acaso.

Mas por igual receando os chefes todos
Da empresa os p’rigos, do monarca a fúria,
Simultâneos com ele se levantam
Fazendo na abalada estrondo surdo
(Qual tempestade trovejando ao longe),
Para Satã, com reverência humilde,
Curvam-se logo os infernais poderes,
E igual do Eterno como Deus o aclamam:
Tendo inda no Orco uns restos de virtude
Não deixam de exprimir quanto eles prezam
O heroísmo generoso com que arrisca
Por bem de todos a existência própria.

E como ousam os réprobos no Mundo
Sem pejo blasonar seu vão heroísmo,
Ou da soberba ou da ambição produto
Arrebicado co’o verniz do zelo?
A consulta arriscada, tenebrosa,
Cheios de tanto júbilo terminam
Glorificando o chefe incomparável
(Assim, — depois que, erguendo-se das serras,
Cobrem, no entanto que adormece o norte,
Do Céu a face linda as pardas nuvens,
O tristonho elemento derramando
Sobre as escuras lavas neve e chuva, —
Se o Sol brilhante ao despedir-se estende
Seus vespertinos, deleitosos raios,
Pelos campos de novo fulge a vida,
As aves sua música prosseguem,
E o balido das greis contente se ouve
Pelos montes e vales repetido).

Oh! que vergonha para a estirpe humana!
Firme concórdia reina entre os demônios:
E os homens, na esperança de alcançarem
A ventura do Céu, vivem discordes,
A racional essência desmentindo!
Em vez de fortemente se ligarem
Contra seus figadais imigos do Orco
Que em perdê-los trabalham noite e dia,
Entre si o rancor, a intriga afagam,
O orbe devastam com ferina guerra,
E mutuamente brindam-se coa morte,
Quando um Deus bondadoso a paz proclama!

Do Orco assim o congresso dissolveu-se.
Saem por ordem os Estígios pares:
Entre eles o seu chefe tanto avulta
Na condição de autócrata do Inferno,
Co’o brilho e pompa que de Deus imita,
Que em si aos Céus parece, inculca, ostenta,
O só rival a que atender lhes cumpre:
Ardentes serafins em globo ingente
Por toda a parte o cercam embraçando
Refulgentes brasões, hórridas armas.

Logo da real trombeta o eco estrondoso
Pregoou da sessão o arbítrio excelso,
Soprando prontos o metal sonoro,
Dos ventos quatro em rumo, arcanjos quatro.
Dos arautos assim que a voz se escuta,
Em todo o Abismo côncavo rebrama;
E as legiões infernais, todas de acordo,
Aplaudem-na com hórrido alarido.

De ânimo mais tranqüilo e erguido um tanto
Pela esperança que lhes presta o orgulho,
Os anjos congregados se debandam.
Diversos vagam: cada qual prossegue
Conforme o gênio o guia ou dura escolha,
Buscando incerto alguma trégua ou pausa
De seus remorsos ao contínuo acúleo,
E divertir as enfadonhas horas
Té que ovante regresse o chefe augusto.

Parte nos plainos com veloz carreira,
Ou no ar sublime voando, aposta lides
Qual Pítico certâmen e Olímpios jogos.
Parte ignitos cavalos doma e guia,
Ou foge as metas coas fulmíneas rodas.

Formam-se outros em hostes defrontadas:
Tais se arrojam exércitos nas nuvens,
Quando a guerra perturba o firmamento,
Admoestando cidades criminosas;
Lá se destacam das vanguardas ambas
Campeões aéreos que no entanto esgrimem,
Té que as densas legiões unidas pugnam,
Com fero estrago ardendo inteiro o pólo.

Outros, coa raiva de Tifeu munidos,
Serras e vales num momento arrancam
E em remoinho pelo ar os arremessam,
Estremecendo o Inferno ao rude estrondo
(Assim Alcides, vencedor de Ecália,
Coa envenenada túnica oprimido,
Dilacerou, da dor na atroz violência,
Os profundos pinheiros da Tessália
E rábido atirou co’o infausto Licas
Do crespo cimo do Eta ao mar Eubóico).

Outros, dotados de índole mais branda,
Em retirado vale silencioso
Cantam, de harpas ao som, com vozes de anjos,
Seus feitos d’armas dignos de alta glória,
E queda infausta por vencidos serem,
Maldizendo a fortuna que escraviza
A virtude e valor à força e acaso.
A vaidade orgulhosa enchia o canto;
Contudo (e que menor seria o efeito,
Quando imortais espíritos cantavam?!)
A harmonia deixou suspenso o Inferno
E extasiou do concurso a mó imensa.

Outros, pela eloqüência mais brilhantes
(Eloqüência sublime, encanto da alma,
Se és dos sentidos, harmonia, o encanto!),
Num outeiro se assentam afastado
E se engolfam em grandes pensamentos.
Raciocinar da Providência buscam,
Do livre arbítrio, do absoluto fado,
Da ciência infusa, da presciência eterna;
Porém nestas questões não têm saída,
Em labirintos vãos sem tino vagam:
Entram também no férvido argumento
O bem, o mal, a desventura e a dita,
A paixão, a virtude, a infâmia, a glória.
Inda que em tais debates só figuram
Falsa filosofia, estéril ciência,
Contudo esses precitos miserandos
Conseguem por magia deleitosa
Algum tempo abrandar a dor, a angústia;
Embalam-se em falazes esperanças
E, como de aço tríplice, guarnecem
De inflexível paciência os peitos duros.

Em grandes batalhões parte se forma
E com famosa intrepidez se arrisca
A longe entrar por esse horrível mundo,
Vendo se acha talvez mais grato clima,
Habitação que mais benigna a trate.
Por quatro rumos vão. Alados seguem
Dos quatro rios infernais ao longo,
Cujas ígneas correntes aflitivas
No mar de fogo lúgubres deságuam:
Ódios mortais ali o Estígio rola;
O atro Aqueronte de pesar se impregna;
Em seu álveo choroso ouve o Cocito
Alto clamor, e dele assim se chama;
O Flegetonte em si feroz impele
Raiva enrolada em borbotões de flamas.
Destes mui longe, silencioso e tardo,
Seus fluidos labirintos vai volvendo
O Letes, rio do torpente olvido:
Quem dele bebe, logo esquece tudo,
Tudo, té mesmo a si; nem mais lhe lembram
Dores, prazeres, alegrias, mágoas.

Mais lá se alonga, horrendo e desabrido,
Terreno vasto de híspido regelo
Por furacões perpétuos açoitado
E por granizo que, empedrado sempre
Em horríveis montões, bem afigura
Extensa ruína de edifício anoso;
De neve — é tudo o mais — golfo profundo;.
Assim entre Damieta e o velho Cásio
O horror se avista do paul Serbônio,
Que exércitos em si sumiu inteiros:
Efeito tendo o frio ali do fogo,
Do ar a secura enregelada queima.
A sítios tais os condenados todos
Trazidos são em estações prefixas,
Por harpípedes Fúrias arrastados:
Pungente alternação de crus extremos,
Extremos que alternados mais se avivam,
Então sofrem os réprobos passando
De ignitos leitos a empedrada neve:
Ali presos, imóveis, congelados,
Jazem por certo tempo, e sem demora
São outra vez no fogo submergidos.
Por mais penas sentir, passam, repassam
Do Letes sonolento as tardas ondas,
Com ânsia ardente trabalhando os tristes
A ver se obtêm, tão perto de tocá-la,
Da tentadora veia uma só gota
Que no suave olvido lhes consuma
Todas as dores, as desgraças todas,
Todas de uma só vez... mas obsta o fado:
Medusa, armada do terror Gorgônio
O rio guarda, — e faz que as doces águas
Dos lábios desses míseros recuem
Como já dos de Tântalo fugiram.
Vagando assim confusos, enraivados,
Os tristes bandos, pálidos de susto,
Vão com olhos atônitos notando
Seu mal horrendo, e alívio não lhe encontram:
Regiões passam de dor, vales de pranto,
Alpes de cru regelo, Alpes de fogo,
Rochas, lagos, pauis, cavernas, matos,
Da negra Morte pavoroso mundo.
Lá pervertida cria a Natureza
Só prodígios, só monstros mais terríveis
Que os Dragos, Hidras, Górgones, Cerastes,
Sonhos dos vates, ilusões do medo:
Lá do Eterno a justiça vingadora
Fez para bem o mal que os maus castiga, —
E (que horror!) morre a vida, e vive a morte!

No entanto, aceso em transcendente arbítrio,
O inimigo tenaz de Deus e do homem,
Satã, levando-se em ligeiras asas,
Solitário procura as portas do Orco:
Ora à destra, ora à sestra, solta o rumo;
Com asas planas eis que o Abismo roça,
Eis que a perder de vista se remonta
Às inflamadas côncavas alturas.

Como longe nos mares se descobre
Alada frota, — que das nuvens pende
Quando, pelos gerais unida, voga,
De Ternate e Tidor, do álveo do Ganges
A mercancia trazendo dos aromas,
Da Etiópia vai cortando o vasto pego,
Té que monta atrevida o grande Cabo
Co’os polares negrumes arrostando, —
Tal nos ares Satã parece ao longe.

Por fim do Inferno os términos avista
Altos, a ardente abóbada tocando.
Ali avulta a colossal portada,
Tendo ordens nove de portões que ostentam
Três, ferro; bronze, três; e três, diamante,
Com paliçada de inextinto fogo.

Aos lados da portada lá se assentam,
De par a par, dois hórridos fantasmas.
Um até à cintura mostra visos
De formosa mulher, — mas finda enorme
Em serpe escâmea que se enrosca imensa.
E com mortal farpão guarnece a cauda;
De negros antros, na cintura abertos,
Ladra-lhe com perene e rudo estrondo
De mastins infernais ampla matilha
Abrindo as vastas cerberinas bocas:
Se fora a seu latido estorvos acham,
A seu prazer introduzir-se podem
Na ventral amplidão e ali seguros
Ladrar e uivar da vista além do alcance
(Menos raivosos os mastins marinhos
Cila assaltaram no funesto banho
Do mar que entre a Calábria espúmeo troa
E as praias de Trinácria enrouquecida!
Menos hediondos a noturna maga
Seguem os cães, quando ela voando oculta
Vem, de sangue infantil dando-lhe o faro,
Dançar coas feiticeiras da Lapônia
Que, à força de terríficos encantos,
Eclipsam fatigada a irmã de Febo!).

O outro fantasma, em que não é possível
Distinguir as feições, julgar dos membros,
Substância informe, escurecida sombra,
Tem o aspecto da Noite, o horror do Inferno,
De Fúrias dez ostenta a feridade,
Pronto para o brandir um dardo empunha,
E na altura maior, que inculca fronte,
De c’roa real cingido se afigura.
Eis o monstro, que vê Satã já perto,
De seu assento se ergue e firme avança:
Cada passada sua o Inferno abala.

Satã que, exceto Deus e o Nume-Filho,
Nada lhe importa, em nada obstac’lo encontra,
O intrépido Satã (quem crê-lo ousara?!)
O monstro admira, mas em nada o teme.
Com modos de desdém assim se exprime:

“Donde é que vens? Quem és, ímpio fantasma,
Que monstruoso te atreves, feio, horrível,
Para essas portas impedir meus passos?
Sem dar-se-me de ti, fica seguro,
Pô-las-ei francas, passarei por elas.
Vai-te, foge, ou da insânia o prêmio toma:
Tu, filho do Orco, aprende exp’rimentado
Que espíritos do Céu ombrear não podes.”

Cheio de ira, retruca-lhe o fantasma:
“És tu, anjo traidor, tu, que o primeiro
Te atreveste a violar, no excelso Empíreo,
Fidelidade e paz té’li sem quebra,
Que, em rebeldes falanges orgulhosas,
Contra Deus arrastaste a teu partido
O terço dos espíritos celestes,
Por cujo crime tu e os teus consócios
Aqui votados são, do Céu expulsos,
A tragar dor infinda, eterna mágoa?
Tu, com que jus, habitador do Inferno,
Do Céu entre os espíritos te contas,
E respiras aqui desprezo e zelos
Onde eu sou rei, onde eu (freme de raiva!)
Sou teu rei, teu senhor?... Volta aos tormentos,
Volta depressa, desertor falsário,
Senão... já vou pungir tua demora
Co’um látego de serpes assanhadas,
Ou deste dardo co’o estranhado golpe
A par do qual é nada o horror do Inferno!”

O medonho fantasma assim replica;
E, à medida que a voz e ameaços solta,
Dez tantos cresce na hórrida estatura,
No atroz furor, na feia enormidade.

Do outro lado Satã, em raiva ardendo,
Impavidez inabalável mostra;
Tal de Ofiúco os sidéreos campos vastos
No ártico pólo inflama ígneo cometa
Que, as crinas espantosas sacudindo,
Com peste e guerra fere o aflito Mundo.

Cada um coa fatal destra, à frente do outro,
Golpe mortal aponta decisivo,
E catadura tal mútuo se ostentam
Que duas negras nuvens pareciam,
Quando fronteiras troam sobre o Cáspio
Dos Céus a artilharia disparando,
Suspensas ambas té que as lance o vento
Uma sobre outra, do ar na área espaçosa.
Tanto os dois combatentes afamados
De raiva a catadura escureceram,
Que mais medonha noite o Inferno envolve.
Em tudo iguais, só desta vez lhes cumpre
Achar a seu valor tão alto emprego;
E proezas fariam estrondosas
Nos tartáreos espaços retumbando,
Se o serpentino monstro, que se assenta
Às portas infernais feroz e firme
Nas mãos guardando a temerosa chave,
Se não erguesse! E entre eles se arrojando,
Assim lhes brada com fremente grito:

“Ó pai, como investir tão fero podes
O filho único teu?! Que fúria, ó filho,
Teu mortal dardo a desfechar te impele
Contra teu pai?! Por quem? por um tirano
Que se assenta orgulhoso no alto Empíreo,
Da vossa escravidão escarnecendo, —
Que seu furor qualquer cumprir nos manda,
Ímpio furor que de justiça alcunha,
E com que de ambos vós medita o estrago?!”
Disse. E, à voz sua, do Orco a fera estaca.

Satã à mediadora assim se expressa:
“Sustas meu braço, ó tu, que pronta acodes
Com tão estranho grito e estranhos termos,
E impedes que por fatos te demonstre
O que intento, de ti enquanto indago
Quem és, donde te vem forma tão dupla,
E por que, sendo a vez primeira agora
Que nestes vales infernais te encontro,
Me chamas pai, e àquele atroz fantasma
Chamas meu filho. Não, não te conheço:
Nunca se me antolhou (digo-to), nunca
Tão feio monstro como tu, como ele!”

Do Orco a porteira ousada lhe replica:
“De mim te esqueces? Hoje é que espantado
Encontras tu em mim tão feio monstro?
Formosa outrora me julgou o Empíreo
Quando, em presença dos valentes anjos
Que dos Céus contra o déspota se armaram,
Súbita dor te decepou terrível,
E, teus lânguidos olhos deslumbrados
Nadando às tontas pelo horror das trevas,
Tua cabeça espadanou ao largo
De labaredas turbilhão furioso;
Depois, do lado esquerdo um vácuo abrindo,
À luz sair me fez, deidade armada,
Toda a ti semelhante em vulto, em porte,
De formosura celestial brilhando.
Eis medrosos de mim logo recuam
Tomados os celícolas de espanto, —
E, presságio fatal então colhendo,
Deram-me de Pecado o triste nome:
Habituados porém a ouvir-me, a ver-me,
De mim gostaram; conquistei ovante
Com minhas graças os contrários todos,
Principalmente a ti que, olhando a miúdo
A tua imagem própria em meu semblante,
Possuíste-te por mim de amor violento,
Que, em oculto prazer à larga solto,
Entranhou no meu seio hórrida estirpe.
No entanto ateou-se a guerra que estrondosa
Enfureceu dos Céus pelas campinas;
Colheu nosso inimigo ilustres palmas;
E as nossas perdas, os desastres nossos,
Foram completos pelo Empíreo inteiro
(Quem outros fados esperar devia?!).
Lá caem os espíritos rebeldes
Das alturas do Céu precipitados
De envolta co’eles neste abismo caí.
Deu-se-me logo esta tremenda chave;
Guarda destes portões cerrados sempre,
Sem que eu os queira abrir... ninguém os passa.
Solitária sentei-me e pensativa
Por tempo curto aqui; meu seio em breve,
Mui grande já, por ti grávido, sofre
Abalo enorme, lúgubre agonia.
Por fim, essa progênie truculenta
Que ali notando estás, teu próprio filho,
Com fúria ardente rompe-me as entranhas
Já de hórridos tormentos retorcidas, —
E, dando-me esta mísera figura,
Nasceu, por dano meu, de mim tal monstro,
Brandindo o dardo seu, de tudo estrago.
Assim que o vejo, grito “Morte!” e fujo:
A tão horrível nome o Orco estremece
E, por suas cavernas ribombando,
Pavoroso repete “Morte! Morte!”
Fujo, mas para mim corre o fantasma
(Creio que mais lascivo do que iroso);
Veloz me apanha, — e sem horror, sem pejo,
A mim, própria mãe sua, espavorida,
Em torpe abraço cinge-me por força:
Gerei do feio rapto estes, que observas,
Tétricos monstros que incessantes uivam
De mim em torno, — e dor contínua, imensa,
Aferram-me nas íntimas medulas.
De mim saindo e entrando de contínuo,
Devorando-me as vísceras trementes,
Seu pasto interminável, pululante:
Dest’arte seu prazer sem freio cumprem;
Nem pausa ou trégua a meu tormento encontro.
Senta-se o Monstro-Morte a mim fronteiro:
Dali, vendo meu filho e meu contrário,
Dos feros cães açula-me a matilha;
Mesmo a mim, de outras vítimas em falta,
Inda não devorou — porque harto entende
Que ambos os nossos fins mútuo se envolvem,
E que eu bocado amargo, atroz veneno,
Ser-lhe-ia sempre: assim decreta o fado.
Mas... ó pai! vigilância! Não provoques
(Aviso-te eu) do monstro o hórrido dardo:
Não podem tuas armas fulgurantes,
Mesmo feitas com têmpera celeste,
Para ele constituir-te invulnerável:
De fúteis esperanças não te iludas;
A seu golpe mortal ninguém resiste,
Ninguém... só lá do Empíreo o Árbitro excelso!”

Disse. O sutil Satã o aviso aceita,
E com fagueiro modo lhe responde:

“Cara filha, que em mim teu pai reclamas
Que meu valente filho me apresentas,
Dulcíssimo penhor de doce laço
Que nos uniu nos Céus, — então delícias,
Transformadas de horror agora em mágoas
Por nossa inopinada desventura, —
Não venho (digo-to eu) como inimigo,
Mas para libertar desta caverna,
Tenebrosa mansão de dor terrível,
Ele, a ti, e a celeste imensa turba,
Que, do jus nosso por defesa armados,
Do Céu comigo despenhados foram:
Venho por eles a tamanha empresa;
Exponho-me a mim mesmo, um só por todos,
A percorrer com solitária planta
O não sondado Abismo, o horror do vácuo,
Buscando em vagabunda descoberta
A profética plaga, ingente globo,
Que hoje, pela ocorrência dos sucessos,
Criado deve estar, sítio ditoso,
Dos Céus nas vizinhanças colocado,
Formosa habitação dos novos entes
Que no Empíreo talvez nos substituam:
Contudo, o Onipotente os pôs mais longe,
Receoso de que o Céu movesse acaso
Outras desordens, outra rebeldia,
De multidão tamanha carregado.
Seja este ou outro oculto o seu desígnio,
Vou já sabê-lo, — e, tão depressa o saiba,
Aqui volto, e comigo ireis vós ambos
A ditoso lugar viver contentes,
Onde encobertos, sem que alguém vos sinta,
Há de afagar-vos o ar cheio de aromas.
Franqueio-vos ali manjar sem termo;
Ali poder fatal tereis em tudo.”

Muito ambos, filho e mãe, folgar parecem.
Terrível arreganha o Monstro-Morte
Um sorriso medonho, assim que aventa
Que vai saciar devoradora fome;
E dá mil parabéns de tanta dita
Ao ventre sepulcral com gozo horrendo.

Não menos folga e exulta a mãe perversa,
E complacente fala ao pai maldito:

“Desta infernal caverna eu tenho a chave;
Como jus meu, confiou-ma o Rei do Empíreo:
Estes vastos portões abrir me veda.
O Monstro-Morte, que os viventes traga.
Funesto o dardo seu tem pronto alerta
Contra os furores de agressivo impulso.
Mas eu... por que obedeço ao Rei do Empíreo,
Que me aborrece atroz, e aqui me prende
Na eterna escuridão do Orco profundo,
Para ter este ofício abominável
Em perpétua agonia, em dor perpétua,
Em roda ouvindo os uivos temerosos
Da minha própria prole furibunda
Que as entranhas contínuo me devora,
Habitante eu do Céu, no Céu nascida?
Tu, meu pai, meu autor, que o ser me deste,
Que ordens hei de cumprir, de ti ou de outrem?
De ti, de ti que em breve hás de levar-me
Ao novo orbe de luz, de paz ditosa,
Onde entre deuses, que contentes vivem,
À destra tua reinarei sentada,
Novas delícias respirando sempre
Qual cumpre à tua filha e doce amante.”

Disse. Eis tira do cinto a infesta chave,
Dos nossos males hórrido instrumento;
E, revolvendo a serpentina cauda,
Roja-se pronto em direção às portas.

Logo levanta a imensa levadiça
Que deixaria vão o inteiro esforço
Dos poderes do Estígio coligados;
Depois na fechadura mete e volve
Da chave ingente as misteriosas guardas.

Lá saltam com impulso repentino
Todas as trancas, os ferrolhos todos,
Que de ferro e diamante se alardeiam, —
E, voando para trás, abrem-se horrendos
Os Tartáreos portões com rudo estrondo
Que, qual trovão que os vales repercutem,
A funda escuridão do Érebo abala.
Essa medonha fúria abri-los pôde;
Mas fechá-los é mais, não tem no alcance;
Ficaram pois de par em par abertos.
Tão vastos eram que passagem franca
A numeroso exército dariam
Marchando em linha, soltas as bandeiras,
De artilharia e de corcéis flanqueado;
E, iguais à boca de fornalha ardendo,
Vomitam, longe a negridão rasgando,
Flamas e fumo em furibundos rolos.

Então Satã encara de repente
Os virgens penetrais do imenso Abismo,
De trevas mar sem fim, onde se perdem
Tempo, espaço, extensão, largueza, altura.

Ali a negra Noite, o torvo Caos,
Da Natureza antigos ascendentes,
Eternal anarquia geram, guardam:
Ali, rodeados do confuso estrondo,
O fogo, ar, água e terra, em pugnas sempre,
Ao cru certâmen, generais forçosos,
Arremessam com fera valentia
Dos at’mos seus as fervidas falanges,
E honrosa primazia se disputam:
Lisos, agudos, rápidos, tardonhos,
Com leves ou pesadas armaduras
De cada uma facção junto à bandeira
Esses at’mos em densas pinhas surgem,
Tão bastos como a areia que levantam
Da tórrida Cirene e adusta Barca
Os belígeros ventos, por seguros
Com tal pendor firmar o nímio vôo:
E o chefe que de si em torno agrega
Por qualquer tempo mais quantia de átomos,
Nesses instantes absoluto reina.
Ali o Caos, um árbitro do Abismo,
Dita sentado leis, que mais baralham
As desordens que o trono lhe sustentam:
Dele após, tudo rege o cego Acaso.
Nesta insondável confusão medonha
(Ventre que deu à luz a Natureza,
E que talvez se torne em seu jazigo)
Não há fogo, nem ar, nem mar, nem terras;
Mas os princípios genitais de tudo
Em tumulto e mistão ali existem
E ficarão destarte em guerra sempre
A não querer o Criador sublime
Desses negros embriões fazer mais mundos.

Então Satã aqui na orla do Inferno
Com cautela sagaz pára, — e medita
A viagem sua, não de estreito breve
Mas de incógnito Abismo imensurável:
O estrondo que ouve turbulento e fero
Não era menos (se contudo grandes
Bem se comparam coas pequenas coisas)
Do que troveja quando em bateria
Dispara a um tempo mil canhões Belona
Sobre cidade altiva que se arrasa, —
Ou do que se ouviria sendo expulso,
Pelos amotinados elementos,
Dos seus eixos o térreo, firme globo.
E se em pedaços mesmo o Céu caísse!

Dispõe-se logo a voar: perito estende
Asas vogantes que alta nau figuram, —
E, nos pés contra a terra balançando,
Joga-se a léguas mil subindo sempre
Como num trono de enroladas nuvens.
Porém, pronto faltando o raro apoio,
Ei-lo solto no vácuo ilimitado;
E, sem valer-lhe o multiforme adejo,
Logo léguas dez mil caiu a prumo:
Estaria a cair mesmo até’gora,
Se uma nuvem, mistão de fogo e nitro,
Rompendo o fermentado, enorme bojo,
E abalroando, por nossa desventura,
O alado monstro, o não jogasse acima
Distância igual à que hórrida descera!

Depois deste tufão, acha uma sirte
(Nem mar, nem terra, lodaçal imenso!)
E, por tal sorvedouro atravessando,
Anda ou voa conforme a urgência exige,
Ou vela e remo simultâneos usa.
Como por serras e pauis o grifo
Com alada carreira dilatada
Vai do Arimaspo após, — que, indo-se a furto,
O ouro lhe leva das guardadas minas, —
Assim o ígneo Satã seu rumo segue
Por mares, por pauis, pelo ar, por montes,
Variadas consistências arrostando:
Transpõe estorvos; sem descanso lida
Com cabeça, com pés, com mãos, com asas;
Anda, nada, mergulha, trepa, voa.

Eis lhe assalta os ouvidos estranhados
Universal, fremente gritaria,
De sons e vozes hórrida mistura,
Desse negrume côncavo nascida:
Atento busca ver se audaz encontra,
No meio de tão férvido tumulto,
Do baixo Abismo o rei ou potestade,
A quem pergunte de que parte as trevas
Em distância menor coa luz confinem.

Súbito então o sólio vê do Caos:
Sobre ele um pavilhão escuro, imenso
Na destrutiva profundez tremula:
A seu lado se assenta entronizada
Trajando negro manto a antiga Noite,
De seu longo reinado companheira:
Demogórgon junto aos degraus, terrível,
Ades, e Pluto, o trono lhe circundam;
Seguem-se-lhes o Acaso, o Estrondo, as Iras,
A atroz Discórdia que confunde tudo,
A Confusão que tudo desordena.

Dest’arte o audaz Satã se lhes exprime:
“Vós, ó Caos confuso e antiga Noite,
Grandes deidades deste baixo Abismo...
Não venho como espião no vil intento
De explorar ou turbar do império vosso
Os espaços e as leis té hoje ocultos:
Transviou-me aqui a escuridão deste ermo.
Dirijo-me da luz ao doce clima:
Corro esta profundez co’o fim de achá-lo.
Só, sem guia, perdido quase, eu busco
A direção que se conduz mais breve
Onde co’os Céus confina o reino vosso,
Ou deste alguma parte das que obteve
O etéreo Rei nas últimas conquistas.
O rumo me ensinai: nem menos útil
Redunda para vós a audácia minha,
Que, se de vossos términos roubados
For toda a usurpação por mim expulsa,
Repô-los-ei na escuridão primeva;
Restituídos a vós, da antiga Noite
Hão de o estandarte ver de novo erguido.
Tendes na empresa minha imenso ganho:
Quanto a mim, coa vingança me contento.”

Disse. Então lhe responde o velho anarca,
Trêmula a fala, descomposto o vulto:

“Bem te conheço, ó tu, que o nome encobres:
Dos anjos és o chefe destemido
Que (pouco há) contra o Rei dos Céus alçaste,
Apesar de vencida, a frente nobre.
Vi tudo, tudo ouvi, que às escondidas
Fugir não pôde exército tão vasto
Atravessando o amedrontado Abismo:
Fulminou-vos estrago sobre estrago.
Dobrando a confusão o horror da ruína;
E o Céu por seus portões, em vosso alcance
Milhões de ovantes turmas despedia.
Nestes confins por ora me mantenho,
Cuidando em conservar o espaço exíguo
Que inda se me consente, e que me usurpam
De mais a mais as vossas desavenças
Diminuindo o poder da Noite antiga.
Primeiro o Inferno, calabouço vosso,
Profundando horroroso ao longo, ao largo,
O desfalque encetou de meus domínios:
Seguiu-se o Céu; depois seguiu-se a Terra
(Mundo recente), que suspensa fica
Sobre meu sólio por cadeia de ouro,
Presa à margem do Céu donde caíste.
Se é teu destino lá, dele estás perto;
Mas, se mais perto estás, mais p’rigos corres.
Dá-te pressa em partir: nem te deslembres
Que amo destroços, confusões, estragos.”

Satã, sem demorar-se em responder-lhe,
E alegre vendo que em tão vasto oceano
Praia acharia, logo afoito se ergue,
De fogo afigurando alta coluna,
Todo cercado, no tumulto imenso,
De horríveis danos, através dos choques
Dos elementos que contínuo pugnam!
(Exposta menos, entre as cruas penhas
Que erriçam longe o Bósforo medonho,
A nau Argos vogou! Com menos p’rigos
O cauto Ulisses, evitar tentando
Os vórtices vorazes de Caríbdis,
Ia de Cila submeter-se às fúrias!)

Com trabalho difícil, duro, insano,
Rompeu, ele o primeiro, esta árdua estrada.
Mas, — logo que, a Satã seguindo o exemplo,
O homem pecou, — do rei do Inferno à pista,
Com força ingente, por querer do Eterno,
Foram os monstros dois, Pecado e Morte;
E sobre o Abismo, que a sofreu cobarde,
Lançaram ponte de extensão pasmosa,
Sólido, amplo caminho, e sempre franco,
Às portas presa do nefando Inferno
E à baixa margem deste frágil Mundo:
Por ali os espíritos perversos
Passam (como lhes praz) de um lado e de outro,
Para tentar ou corrigir os homens,
Exceto os que por graça privativa
Deus e os bons anjos com esmero guardam.

Eis da luz finalmente o sacro influxo,
Das muralhas do Céu, vem assomando,
E com mui frouxo albor ao longe raia
Pela amplidão da tenebrosa noite.
Principiam ali da Natureza
Os lúcidos limites mais remotos;
Ali começa a retirar-se o Caos,
Qual inimigo que batido deixa,
Com menos ruído, com menor alarma,
Os redutos que mais ao longe tinha.

Satã, menos opresso e logo às soltas,
Da dúbia luz co’o poderoso auxílio,
Em ondas voga então mais sossegadas, —
Assemelhando o destroçado lenho,
Que, mesmo rotas tendo enxárcias, velas,
Contente junto ao porto os mares sulca.

Nesse vazio páramo aeriforme
Estende as asas, paira o rei das trevas,
E ao longe vê com atenção pausada
O Empíreo Céu, que nos sentidos todos
Vai a perder de vista e excelso encobre
A sua forma na grandeza sua:
Observa-lhe, com hórrida saudade,
De opala as torres, de safira os muros,
Sua (noutrora) deleitosa pátria!
E neles firme por cadeia de ouro
Descobre logo pendurada, a Terra,
Vizinha à Lua e igual na redondeza
Aos mais pequenos dos celestes orbes.

Então, recheado de vingança eterna,
Da maldição na detestável hora,
O réprobo maldito voa ao Mundo.


ARGUMENTO DO CANTO III

Deus, assentado em seu trono, vê Satã que voa em direção ao Mundo (então criado havia pouco); mostra-o ao Filho que se assenta à sua mão direita; prediz-lhe como Satã há de perverter o gênero humano; purifica de toda a imputação a sua própria justiça e sabedoria, mostrando haver criado livre o homem e suficientemente apto para resistir ao seu tentador: contudo declara o seu propósito de graça em favor do homem, atendendo a que ele não caiu por malícia própria, como sucedeu a Satã, mas seduzido por este. O Filho de Deus agradece ao Pai a manifestação do seu propósito de graça em favor do homem; porém Deus declara então que a graça não pode valer ao homem sem a satisfação da justiça divina, — e que o homem, tendo ofendido a majestade de Deus por querer aspirar à divindade, e por isso votado à morte com toda a sua descendência, deve morrer caso não haja alguém suficiente para responder por sua ofensa e suportar o seu castigo. O Filho de Deus oferece-se espontaneamente como resgate do homem. O Pai o aceita; ordena sua encarnação; pronuncia-lhe a exaltação acima de todos os poderes do Céu e da Terra: — manda a todos os anjos que o adorem; eles obedecem e, cantando ao som de harpas em coro pleno, celebram o Pai e o Filho. No entanto Satã desce sobre a descoberta convexidade do orbe exterior que inclui a criação; por ali vagando, acha ele primeiramente um lugar chamado no futuro “Limbo de Vaidade”, e onde nada existia ainda; de lá dirige-se para as portas do Céu. Descreve-se a escada que para elas sobe e o mar que a cerca ficando sobre o firmamento. Passagem de Satã até o orbe do Sol, junto ao qual encontra Uriel, o guarda daquele astro; mas primeiro toma ele a figura de um anjo de segunda ordem, — e, pretextando um fervoroso desejo de ver a nova criação e o homem que Deus ali havia colocado, inquire do arcanjo o lugar onde ele habita; Uriel o dirige; ele prossegue e vai primeiramente pousar no monte Nifate.

 

CANTO III

 

SALVE, ó luz, primogênita do Empíreo,
Ou coeterno fulgor do eterno Nume!
Como te hei de nomear sem que te ofenda?
É Deus a luz, — e, em luz inacessível
Tendo estado por toda a Eternidade,
Esteve em ti, emanação brilhante
Da brilhante incriada essência pura.
Mais por ventura folgarás ouvindo
Chamar-te rio fúlgido, inexausto,
Manando imenso de escondida fonte?
Antes que o Sol e os Céus fossem formados,
Já existias tu; — e à voz do Eterno
Cobriste, como de um solene manto,
O Mundo, assim que apareceu erguido
Sobre as profundas, tenebrosas águas,
Conquistado aos domínios infinitos
Desse confuso, turbulento Caos.

Com vôo mais audaz hoje a ti volvo
Já livre do tremendo estígio lago:
Campeando nesses páramos de trevas,
Deles no centro e pelas orlas deles,
Por muito tempo divaguei cantando,
Em sons que nunca obteve Orfeu na lira,
O tumulto do Caos, a noite eterna.
Aventurei-me a profundar nas sombras
Pela celeste Musa doutrinado:
Co’o mesmo auxílio subo aos campos do éter,
Custosa e rara empresa entre os humanos.

Já livre hoje a ti volvo, e já me anima
De tua essência o sacrossanto influxo:
Mas tu não entras mais nestes meus olhos:
Por invencível sufusão tapados
Rolam ansiosos com baldado anelo
Procurando teus raios penetrantes,
E nem sequer lhes acham o vislumbre!

Mesmo inda assim de percorrer não cesso,
Movido pelo amor dos cantos sacros,
Dos arvoredos a frescura umbrosa
Pelas sapientes Musas freqüentados:
Porém a todas, Sião, eu te prefiro
Quando visito, na mudez da noite,
Os flóridos ribeiros murmurantes
Que a teus sagrados pés manso deslizam.
Não me escapando nunca da memória
Tamires e o Meônide afamados,
O áugur’ Tirésias, e Fíneo vidente,
Cegos, — iguais a mim neste infortúnio,
Mas que eu (oh! dor!) na glória não igualo, —
Nutro-me ali de altivos pensamentos,
Donde como espontâneos, nascem, correm
(Quais o mel do Hibla) deliciosos versos:
Assim pousada em resguardado ramo,
Cerrando-a da alta noite o manto escuro,
A ave sonora cantilenas trina.

Tornam as estações girando os anos,
Mas para mim não torna a luz do dia.
Já não me encantam da manhã e da tarde
As suaves, pinturescas perspectivas,
Da primavera e do verão as flores,
Nem mansas greis, nem gordos armentios,
Nem o ar divino do semblante humano;
E, em vez de tais belezas, me circunda
Nuvem cerrada, escuridão perene
Que as avenidas do saber me entupe,
Mostrando-me somente, em tábua rasa,
Um vácuo universal, sem cor, sem formas,
Donde, para jamais me aparecerem,
Da Natureza as cenas se apagaram:

Adeus, ó livros, da sapiência fontes!
Adeus, ó grande livro do Universo!
Mas tu, eterna luz, porção divina,
Com tanta mais razão me acode e vale:
Brilha em minha alma, nela olhos acende
As faculdades todas lhe ilumina,
E de nuvens quaisquer a desassombra,
A fim que eu livremente veja e narre
Cenas que à vista dos mortais se escondem.

No entanto o Onipotente, — que, assentado
Do puro Empíreo no fulgente sólio,
Mais alto está que todas as alturas, —
Baixa os olhos ao Mundo e vê de um golpe
Inteira a criação e efeitos dela.
Postas de pé, tão juntas como estrelas,
Rodeiam-no as celestes jerarquias,
E à destra se lhe assenta o Filho excelso,
De sua glória imagem fulgurante.

Nossos primeiros pais observa logo,
Inda os únicos dois da espécie humana,
Colhendo num jardim, delícias todo,
De alegria e de amor imortais frutos,
Inexausta alegria, amor sem zelos,
Possíveis só nesse ermo abendiçoado.
Depois avista o Inferno e o golfo imenso
Que dele vem da criação às orlas,
Perto das quais, em ar já não tão negro,
Paira Satã, do Céu costeando os muros,
Dispondo-se a pousar, cansado, ansioso,
Deste orbe na aparente superfície
Que terra-firme então se lhe afigura,
Do firmamento diferindo toda,
Erguida ou sobre o oceano ou sobre os ares,
Problema em que lhe nuta a fantasia.
Vendo-o Deus de seu trono sublimado,
Donde co’os olhos imortais alcança
O que é, foi e será, tudo num tempo,
Assim presciente diz ao Filho amado:

“Unigênito meu, olha em que fúria
Nosso inimigo férvido se exalta:
Nada o pôde suster, nem muros do Orco,
Nem todas as cadeias com que o cinjo,
Nem do atro Abismo a vastidão enorme.
Desesperado arroja-se à vingança,
Insano! sem prever que ela redunda
Sobre sua danada rebeldia.
Dos obstáculos todos triunfante,
Lá voa junto aos Céus, da luz nas orlas;
E para o Mundo, que formei há pouco,
Vai agora partir em busca do homem,
Tencionando ensaiar a ver se alcança
Coas forças todas infernais destruí-lo,
Ou pervertê-lo, por traidora astúcia.
Conseguirá Satã a queda do homem,
Que, a suas vãs lisonjas dando ouvidos,
Transgredirá com prontidão ruinosa
O só preceito que lhe impus benigno,
O só penhor da submissão humana.
Lá se vai despenhar o homem no crime
E sua prole infiel consigo arrasta!
Formei-o judicioso, justo e livre;
Quanto ele ter podia, eu dei-lhe tudo:
Estava em seu poder, co’o mesmo arbítrio,
Cair no crime ou ter-se na virtude.
De quem, senão de si, queixar-se deve?
Ingrato! Fi-lo igual dos Céus aos anjos,
Dos quais uns na virtude se firmaram,
À rebeldia se arrojaram outros,
Ambos obrando em liberdade plena.
E como de obediência voluntária,
De verdadeiro amor, de fé constante,
Fariam prova se não fossem livres?
Por coação fora assim, não por vontade,
Quanto de bom ou mau neles se visse:
Mereceria o bom assim louvores?
Assim mereceria o mau castigos?
Se a vontade e a razão, que tem na escolha
Dos atributos seus o mais sublime,
Fossem privadas de tão nobre prenda,
Ambas sem liberdade, ambas passivas,
Sendo a necessidade que as movesse
E não o livre amor que me votassem, —
Que prazer neste caso eu tiraria
De obediência tão cega e tão forçada?
Logo, segundo as leis da sã justiça,
Livres foram por Deus assim criados,
Tendo em si perfeição a mais excelsa,
A mais que em criaturas é possível.
Nem seus desastres imputar-me podem,
Nem sua construção, nem seu destino;
Mesmo eles, e não eu, determinaram
Todo o furor da rebeldia sua.
Minha presciência vê como presentes
Quantos sucessos no porvir se envolvem:
Deles porém nenhum dela depende:
De maneira que, se eu a não possuísse,
Sempre tais quais existiriam eles.
Sem coação pois, sem sombras de destino.
Sem força alguma que de mim emane,
Transgrediram, motores de si próprios,
Sua obediência os anjos rebelados.
Homens e anjos formei de todo livres, —
E livres serão sempre, inda que insanos
Queiram na escravidão envilecer-se:
De outra sorte, mudar-lhes eu devia
A natureza unida à liberdade,
A irrevogável ordem revogando
Que as criou para sempre inseparáveis.
Os anjos, que a si mesmos se impeliram
Para a depravação, votados se acham
A irremissível punição eterna:
O homem, que sendo deles iludido
Pecou, refúgio em minha graça encontra.
A justiça e bondade no orbe e Empíreo
Assim hão de exaltar a minha glória;
Mas no princípio e fim sempre a bondade
Ver-se-á em mim brilhar mais refulgente.”

Disse. Eis da ambrosia o deleitoso cheiro
Inunda os Céus e nos empíreos coros
Difunde novo júbilo inefável.

Então o Nume-Filho, imerso em glória,
Esplêndido fulgia em grau sem termo:
Nele seu Pai coa divindade toda,
Substancialmente expresso, se ostentava;
Via-se-Ihe no rosto a graça infinda,
Divina compaixão, amor sem metas.
Assim ao Pai falou o Nume-Filho:

“Onipotente Pai, quanto é grandioso
Teu decreto, do qual pela virtude
O homem refúgio em tua graça encontra!
Assim levantarão os Céus e a Terra
À mais sublime altura os teus louvores
Com sacrossantos sons de imensos hinos,
Que, de teu sólio em derredor trinando,
Eternamente aplaudirão este ato
Da suprema bondade com que brilhas.
Deveria afinal o homem perder-se,
O homem, tua recente criatura,
O teu mais jovem filho tanto amado,
Se a mais negra traição com vis astúcias
Pôde iludir seu ânimo inatento?!
Longe de ti, meu Pai, de ti, oh! longe
Dureza tal! a retidão, teu timbre,
Preside, eterno juiz, aos teus julgados.
Consentirias que o falsário imigo
Obtivesse o seu fim e o teu frustrasse?!
Perpetraria o mal que urdiu na mente,
Ficando inútil a bondade tua?!
Inda que de mais penas carregado,
Contudo cheio de feroz vingança,
Voltaria arrogante ao torvo Inferno
Arrastando consigo a humana prole
Por seus ardis malvados corrompida?!
Arruinarias tu, por causa dele,
Da criação o primoroso ornato
Que para tua glória só fizeste?!
Se o conseguisse, incertas ficariam
Tua bondade, a majestade tua,
E mesmo sem defesa blasfemadas!”

Assim lhe torna o Criador eterno:
“Ó Filho meu, delícias de minha a