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A DIVINA COMÉDIA
— PARAÍSO —
Dante Alighieri


Tradução
José Pedro Xavier Pinheiro


A DIVINA COMÉDIA
— PARAÍSO —
DANTE ALIGHIERI

Tradução
José Pedro Xavier Pinheiro
1822-1882
Ilustrações de Gustave Doré
1832-1883

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Digitalização do livro em papel
COMPOSTO E IMPRESSO
NAS OFICINAS DE
D. GIOSA - INDÚSTRIAS GRÁFICAS S/A
SEÇÃO: ATENA EDITORA
RUA JAVAÉS, 465 - SÃO PAULO
MARÇO - 1955


© 2003 — Dante Alighieri


A DIVINA
COMÉDIA

Dante Alighieri

—PARAÍSO—


Índice

Canto I
Canto II
Canto III
Canto IV
Canto V
Canto VI
Canto VII
Canto VIII
Canto IX
Canto X
Canto XI
Canto XII
Canto XIII
Canto XIV
Canto XV
Canto XVI
Canto XVII
Canto XVIII
Canto XIX
Canto XX
Canto XXI
Canto XXII
Canto XXIII
Canto XXIV
Canto XXV
Canto XXVI
Canto XXVII
Canto XXVIII
Canto XXIX
Canto XXX
Canto XXXI
Canto XXXII
Canto XXXIII


PARAÍSO

CANTO I

 

Invocando Apolo, o Poeta conta como do Paraíso Terrestre ele e Beatriz se alçaram ao Céu, atravessando a esfera do fogo. Beatriz explica-lhe como possa vencer o próprio peso e subir. É atraído pelo invencível amor.

Seguindo as teorias de Ptolomeu, Dante põe a terra imóvel no centro do Universo e, em redor dela, em órbitas concêntricas, os céus da Lua, de Mercúrio, de Vênus, do Sol, de Marte, de Júpiter, de Saturno, a oitava esfera, que é a das estrelas fixas, a nona, ou primeiro móvel, e finalmente o Empíreo, que é imóvel. Transportado pela força que faz rodar os céus e pela luz sempre crescente de Beatriz, Dante eleva-se de um céu para outro, e em cada um deles aparecem-lhe os espíritos bem-aventurados que, quando vivos, possuíram a virtude própria do respectivo planeta.

 

À GLÓRIA de quem tudo, aos seus acenos,
Move, o mundo penetra e resplandece,
3 Em umas partes mais em outras menos.

No céu onde sua luz mais aparece,
Portentos vi que referir, tornando,
6 Não sabe ou pode quem à terra desce;

Pois, ao excelso desejo se acercando,
A mente humana se aprofunda tanto
9 Que a memória se esvai, lembrar tentando.

Os tesouros, porém, do reino santo,
Que arrecadar-me pôde o entendimento,
12 Serão matéria agora de meu canto.

Faz-me neste final cometimento,
Bom Febo, do teu estro eleito vaso,
15 Que tenha ao louro amado valimento.

Fora-me assaz um cimo do Parnaso;
Daquele e do outro necessito agora
18 Para vencer na liça a que me emprazo.

Cala em meu peito, alenta o que te exora!
Sê como quando a Marsias arrancado
21 Hás do corpo a bainha protetora!

Se, divinal virtude, eu for entrado
Tanto de ti, que a sombra represente
24 Do reino que em minha alma está gravado,

Ao teu querido lenho eu, diligente,
Irei, por ter a c’roa merecida
27 De ti e deste assunto preminente.

Tão rara vez é, Padre, igual colhida
Quando triunfa César ou poeta
30 (Culpa e vergonha do querer nascida)

Que à Délfica Deidade a predileta
Fronde excitar devera alta alegria,
33 Se um coração por tê-la se inquieta.

Grande incêndio em centelha principia;
Voz, após mim, talvez, mais eloqüente
36 Mais graça em Cirra alcance e mais valia!

Por várias portas surge refulgente
A lâmpada do mundo; mas daquela,
39 Onde orbes quatro brilham juntamente

Com três cruzes, caminha sob estrela
Melhor, em modo que a mundana cera
42 Mais ao seu jeito retempera e assela.

Dali nascia a luz; daqui viera
A noite; e um hemisfério branquejava
45 Enquanto ao outro a treva enegrecera,

Eis vi que à esquerda Beatriz fitava
Olhos no sol: jamais águia afrontara
48 Tanto desse astro o lume, que ofuscava.

Como o raio, que a luz de si despara,
Reflete outro, que preito retrocede,
51 Qual romeiro, que à volta se prepara,

Esse ato, com que assim Beatriz procede,
Meu se tornou nos olhos infundido,
54 E o fitei mais que a um homem se concede.

Muito do que é na terra defendido,
No Paraíso é dado à humana gente,
57 A quem fora por dote prometido.

Fitar o sol não pude longamente.
Mas assaz para o ver fulgir no espaço,
60 Qual ferro, que do fogo sai candente.

Eis cuidei ver um dia, ao mesmo passo,
Luzir com outro, qual se Deus fizera
63 Do céu um sol segundo no regaço.

Sorvidos Beatriz na eterna esfera
Os olhos tinha; os meus que eu desviara
66 Dali no seu semblante embevecera.

Contemplando-a, o meu ser se transformara;
Tal Glauco, portentosa erva comendo,
69 Igual do mar aos Deuses se tornara.

Significar per verba não podendo
O que é transumanar o exemplo baste
72 Ao que o exp’rimente, a graça recebendo.

De ti, que por teu lume me exaltaste,
Amor do meu Senhor é conhecido,
75 Se em mim somente havia o que criaste.

Quando as Sferas, no giro, conduzido
Por ti no eterno anelo, me enlevaram
78 Com hino ao teu compasso dirigido,

Tantos etéreos plainos se mostraram
Inflamados do sol, que nunca os rios,
81 Nem as chuvas um lago igual formaram.

Essa luz, esses sons (jamais ouvi-os)
De saber tais desejos me acenderam
84 Que tão pungentes de antes não senti-os.

Ela em meu coração os viu como eram:
Por serenar-me o ânimo agitado,
87 Sem me escutar, seus lábios se moveram,

E disse: — “O teu espírito anda errado
Com falso imaginar: ’starias vendo
90 O que não vês, se houveras afastado.

“Te enganas, sobre a terra achar-te crendo:
O raio tão veloz do céu não desce,
93 Como tu que p’ra o céu vais ascendendo.” —

Se a dúvida primeira desaparece,
À voz que o riso segue, lhe escutando,
96 Inda mais outra a mente me escurece.

— “Modera-se o meu pasmo” — lhe tornando
Falei — “mas ora muito mais me admira
99 Como estes corpos leves vou passando.” —

Ouvindo, Beatriz terna suspira
E me encara piedosa, com semblante
102 De mãe que fala ao filho que delira.

— “Conservam” — respondeu-me — “ordem constante
As cousas entre si: esta é a figura
105 Que o universo ao Senhor faz semelhante.

“Ali vê cada uma alta criatura
Do Poder Sumo, bem ao claro, o selo,
108 Alvo sublime, que essa lei procura.

“Cada um entre na ordem, que eu revelo,
Se vai por modos vários inclinando,
111 Mais ou menos, ao seu princípio belo.

“Para portos dif’rentes navegando
No vasto mar do ser, cada qual segue
114 Os instintos que Deus lhe deu, criando.

“Por Ele a flama à lua alar consegue,
Por Ele o coração mortal se agita
117 E a terra em sua contração prossegue.

“Seu poder não somente se exercita,
Qual arco em seta, em bruto inconsciente,
120 Mas nos entes, que amor, razão concita.

“Tudo ordenando, o Autor Onipotente
Com sua luz tem o céu sempre aquietado,
123 Em que gira o que vai mais velozmente.

“Até lá, como a um alvo decretado,
Desse arco impele a força poderosa,
126 Quem conduz tudo a venturoso estado.

“Mas, como, às mais das vezes, revoltosa
A forma não responde ao intento da arte,
129 Porque a matéria é na surdez teimosa,

“Assim desta vereda se desparte
A criatura, para o bem guiada,
132 Que pode propender para outra parte,

“Se, de falso prazer sendo arrastada,
Baixa à terra, qual fogo desprendido,
135 De súbito, da nuvem carregada.

“Não seja mais de espanto possuído:
Como ao val rio cai de monte altivo,
138 Para a esfera estelífera és erguido.

“De maravilha fora em ti motivo
Não subindo; pois stás de estorvo isento;
Não fica imoto em terra o fogo vivo.” —

142 Disse e os olhos fitou no firmamento.

 

14. Febo, Apolo. — 16. Parnaso, o monte Parnaso tinha dois cimos; num moravam as Musas com Baco, no outro (Elicão ou Cirra) morava Apolo. — 20 Marsias, o sátiro Marsias desafiou Apolo e foi esfolado pelo deus. — 31. Délfica deidade, Apolo. — 36. Cirra, parte do Parnaso consagrada a Apolo. — 38. A lâmpada do mundo, o sol, 38-41. Daquela onde orbes quatro, etc. o ponto do céu no qual se conjuntam quatro círculos celestes, os quais entrecortando-se formam três cruzes. Caminha sob estrela melhor, a constelação do Áries. — 41. Mundana cera, a matéria terrestre. — 43-45. Dali nascia a luz; daqui viera a noite, no hemisfério do Purgatório amanhecia; no nosso hemisfério caía a noite. — 68. Glauco, pescador mitológico, ao comer uma erva marinha transformou-se em deus do mar. — 122-23. O Céu sempre aquietado, em que gira o que vai mais velozmente, o Empíreo imóvel, dentro ou embaixo do qual gira o primeiro móvel, que é o mais veloz dos céus.

 


CANTO II

 

Sobem à lua. Exortação aos leitores. Dante pergunta a Beatriz se as manchas da lua dependem da maior ou menor densidade do astro. Beatriz confuta o erro. Todos os astros são iluminados pela virtude que do primeiro móvel se difunde aos céus sotopostos. Na lua a virtude é menor que nos outros céus.

 

VÓS, que em frágil barquinha navegando,
Desejosos de ouvir, haveis seguido
3 Meu baixel, que proeja e vai cantando,

Volvei à plaga, donde haveis partido,
O pélago evitai; que, em me perdendo,
6 Vosso rumo talvez tereis perdido.

Ondas ninguém cortou, que vou correndo,
Sopra Minerva e me conduz Apolo
9 E o Norte as Musas mostram-me, a que eu tendo.

Vós, que, raros, a tempo haveis o colo
Erguido ao pão dos anjos, que alimenta,
12 Mas não sacia, no terráqueo solo,

A vossa nau guiai, de medo isenta,
No salso argento, após a minha esteira,
15 Enquanto água o seu sulco inda apresenta.

A que em Colcos surgiu gente guerreira,
Menos que vós, atônita ficara
18 Jasão vendo aplicado à sementeira.

Perpétua, inata sede nos tomara
Do império deiforme e nos levava
21 Quase bem como o céu, que jamais pára.

Olhava o céu Beatriz, eu a encarava.
Tão depressa talvez, quanto arrojada
24 Ao ar, a seta do arco se destrava,

Cousa vi, que prendeu maravilhada
A vista minha súbito; e então ela,
27 Que do meu cogitar stava inteirada,

Voltou-se e disse leda, quanto bela:
“A Deus eleva a mente, agradecido,
30 Chegados somos à primeira estrela.”

Lúcido, espesso, sólido e polido
Vulto, qual nuvem, nos cobrir parece,
33 Quase diamante pelo sol ferido.

Na per’la eterna entramos: assim desce
Raio de luz pela água, que recebe
36 No seio, mas unida permanece.

Se eu era corpo, e aqui se não percebe
Como uma dimensão outra compreende,
39 Senão se um corpo em outro corpo embebe,

Com mais razão desejo em nós se acende
De ver aquela essência, que é patente
42 Como a nossa natura a Deus se prende.

Ali o que por fé se crê somente
Sem provas por si mesmo será noto,
45 Como a verdade prima o que o home’ assente.

— “Ante o Senhor com ânimo devoto
Humilho-me” — tornei-lhe — “enternecido,
48 Pois do mundo mortal me tem remoto.

“Mas dizei: neste corpo o que tem sido
As manchas negras, com que lá na terra
51 Sobre Caim se hão fábulas urdido.” —

Sorriu-se e respondeu: — “Se assim tanto erra
Dos mortais o juízo no que a chave
54 Dos sentidos verdade não descerra,

“Não mais depois o espanto em ti se agrave;
Pois vês como, aos sentidos se rendendo,
57 Nos curtos vôos a razão se trave.

“Mas fala, idéias tuas me dizendo.” —
— “O que parece aqui ser diferente
60 De corpo raro e denso vir stou crendo.” —

— “Tu verás” — replicou — “bem claramente
Ser falsa a crença tua, se escutares
63 Os argumentos, que lhe oponho em frente.

— “Na oitava esfera há muitos luminares,
Nos quais, por qualidade e por grandeza,
66 Notam-se aspetos vários, singulares.

“Se o denso e o raro atua, com certeza
Virtude única em todos tem regência,
69 Influindo com mais, menos graveza:

“São as virtudes várias conseqüência
Dos princípios formais que destruídos
72 Seriam, exceto esse: é de evidência.

“Se são por corpo raro produzidos
Tais sinais, ou neste astro muitos postos
75 De matéria estão destituídos,

“Ou, como o gordo e o magro sobrepostos
No corpo vês, quadernos diferentes
78 Este astro em seu volume tem dispostos.

“Nesse caso estariam bem patentes
Nos eclipses do sol da luz efeitos,
81 Que são, nos corpos raros, transparentes.

“Assim não é. No outro, se desfeitos
Forem seus fundamentos, demonstrado
84 Terei teu erro em ambos os respeitos.

“Não indo o raro de um ao outro lado
Limite deve haver onde, já denso,
87 Não possa o corpo ser atravessado;

“E sobre si o lume torne intenso,
Bem como a cor, por vidro refletida,
90 Ao qual o chumbo é por detrás apenso.

“Dirás que a luz se mostra escurecida
Aí, mais do que outra e em qualquer parte,
93 Por ser de mais distância refrangida.

“Desta instância consegue libertar-te
Experiência, se dela te ajudares,
96 Por ser sói a fonte de toda arte.

“De espelhos três se a dois tu colocares
Com igual intervalo, e o derradeiro
99 Mais longe, entre os primeiros encarares;

“Se houveres pelas costas um luzeiro,
Que os espelhos já ditos esclareça,
102 Dos dois repercutido e do terceiro:

Conquanto uma extensão menor pareça
No espelho que se avista mais distante,
105 Verás como igual luz o resplandeça.

“Como aquecida do astro rutilante,
A neve se derrete e se esvaece,
108 A frigidez perdendo e a cor brilhante,

“Assim, pois que o teu erro desparece,
Mostra-te clarão vou tão refulgente,
111 Que cintila qual luz que do céu desce.

“No céu da paz divina um corpo ingente
Gira: em sua virtude está guardado
114 O ser de quanto é ele o continente.

“O céu seguinte, de astros marchetado,
Aquele ser reparte por essências
117 Distintas, mas que tem nele encerrado.

“Os outros céus, por várias influências,
Distinções que contêm, dispõe, lhes dando
120 Quanto serve aos seus fins e conseqüências.

“Esses órgãos do mundo (estás notando)
Seguem, pois, gradação, que não varia;
123 Vêm de cima os que abaixo vão passando.

“Comprendes já como é segura a via,
Por onde ir à verdade desejada:
126 Depois o vau tu passarás sem guia.

“Deve aos santos motores imputada
Ser, como ao fabro o efeito do martelo,
129 Dos céus a ação, desta arte revelada.

“E o céu, que tantos lumes fazem belo,
Do Ser Supremo, que no espaço o agita.
132 A imagem toma e a insculpe como selo.

“E como alma, que a humana argila habita,
Por diferentes membros atuando,
135 Faculdades diversas exercita,

“A Inteligência assim multiplicando
Dos astros nos milhões sua bondade,
138 Sobre a Unidade sua vês girando.

“Cada virtude, em sua variedade,
A cada precioso corpo é unida
141 A que dá, como em vós vitalidade.

“A virtude, em tais corpos infundida
Refulge, de um ser ledo procedente
144 Qual ledice em pupila refletida.

“Daí vem que uma luz de outra é dif’rente,
Não por efeito do que é denso e raro:
Esse é formal princípio eficiente

148 Conforme a sua ação o turvo e o claro.” —

 

11. Pão dos anjos, teologia. — 14. Salso argento, o mar. — 16. A que em Colcos surgiu gente guerreira, os Argonautas que se espantaram quando Jasão arou o campo com dois touros que expeliam flamas pelas narinas e semeou os dentes do monstro que havia matado, do que surgiram guerreiros (Ovídio, Met. VII). — 34. Per’la eterna, a lua. — 51. Sobre Caim se hão fábulas urdido, segundo uma crendice popular, as manchas da lua representavam Caim carregando um feixe de espinhos. — 60. De corpo raro e denso, Dante havia escrito no Convívio que as manchas lunares eram partes rarefeitas do astro. — 73-90. Se a lua tivesse algumas partes transparentes não haveria possibilidade de verificar-se o eclipse do sol. Se as partes rarefeitas não são transparantes deveria haver ao oposto delas, como num espelho, partes densas que impediriam a transparência. Nesse último caso, porém, os raios externos, como no espelho, deveriam refletir-se. — 112. No céu da paz, o Empíreo. — 112-13. Um corpo ingente gira, o primeiro móvel, que influencia os outros céus. — 127. Santos motores, os anjos que agem em cada um dos céus. — 130-132. E o céu, que tantos lumes fazem belo etc., aquele Céu que tantas estrelas fazem belo, recebe da divina inteligência a virtude e a imprime nos outros céus.

 


CANTO III

 

Na lua estão as almas daqueles que não cumpriram plenamente seus votos religiosos. Aparece ao Poeta a alma de Picarda Donati, que resolve uma sua dúvida sobre o contentamento dos espíritos bem-aventurados. Narra-lhe como foi violentamente tirada do mosteiro. Indica-lhe a alma da imperatriz Constança.

 

O SOL por quem primeiro ardeu meu peito,
Provando e refutando, me mostrara
3 Da formosa verdade o doce aspeito.

Por confessar-me do erro, em que vagara,
Quanto possível fosse, convencido,
6 Mais alto a fronte para a sua alçara.

Eis fui de uma visão tal possuído,
Que olvidei meu desejo inteiramente,
9 Ficando em contemplá-la submergido.

Bem como em cristal puro e transparente,
Ou nágua clara, límpida e tranqüila,
12 Que deixa à vista o fundo seu patente,

A imagem nossa quase se aniquila,
Em modo, que uma per’la em nívea fronte
15 Se faz mais perceptível à pupila,

Assim, dispostas a falar defronte
Várias figuras vi: eu no erro oposto
18 De Narciso caí amando a fonte.

Eu, cuidando as feições do seu composto
Ver num espelho, súbito volvia,
21 Por bem saber quem fosse, atrás o rosto.

Ninguém vi. Logo o gesto me atraía
Da doce guia, que, a sorir-me estando,
24 Dos santos olhos no esplendor ardia.

— “No sorriso, não pasmes, reparando,
A causa é” — diz — “teu pueril engano,
27 À verdade caminhas vacilando.

“Andas em falso, como sóis, de plano:
Verdadeiras substâncias estás vendo;
30 Trouxe-as aqui dos votos seus o dano.

“Interroga, o que ouvires crer devendo;
Pois da verdade a luz, que as esclarece,
33 As conduz, de todo erro as defendendo.” —

Volto-me então à sombra, que parece
Mais desejosa de falar: torvado
36 Começo, e a voz impaciência empece.

— “Tu, espírito eleito, que, enlevado,
Da vida eterna aqui fruis a doçura,
39 Que entende só quem tem expr’imentado,

“Grã mercê me farás, se porventura
Disseres o teu nome e a sorte vossa.” —
42 A responder-me leda se apressura.

— “Ao bom desejo a caridade nossa,
Como a que manda a corte sua inteira
45 Imitá-la, defere quanto possa.

“Eu era lá no mundo virgem freira:
Diz-te a memória, se as feições me guarda,
48 Que sou, posto mais bela, e verdadeira.

“Atenta bem: verás que sou Picarda:
Estou nesta bendita companhia,
51 Venturosa na esfera, que é mais tarda.

“As nossas afeições que inflama e guia
Somente a inspiração do Esp’rito Santo,
54 Enlevam-se em cumprir ordens que envia.

“A sorte, ao parecer somenos tanto,
Nos coube, por ter sido descurado
57 O sacro voto e em parte posto a um canto.” —

Respondi-lhe: — “No aspeito sublimado
Vosso rebrilha um não sei que divino,
60 Que o tem do que foi de antes transmutado.

“Não fui, pois, em lembrar-me repentino;
Porém, do que disseste me ajudando,
63 Eu do que hás sido em recordar-me atino.

“Mas vós que estais aqui dita logrando
Não sentis de outro céu desejo ardente
66 Por ver mais alto mais amor gozando?” —

Sorriu-se a sombra e as outras docemente;
E disse da alegria radiante,
69 O seu primeiro amor como quem sente:

“Rege o nosso querer, em paz constante,
A caridade, irmão: só desejamos
72 O que ora temos e não mais avante.

“Anelando ir mais alto do que estamos,
Seríamos rebeldes à vontade,
75 A que aprouve esta estância, que habitamos.

“Pois nos cumpre existir na caridade,
Surgir não pode em nós tal pensamento,
78 Dessa virtude oposto à santidade.

“Condição de eternal contentamento
É preceito cumprir do Onipotente:
81 Um só com ele é logo o nosso intento.

“Do reino em cada plaga refulgente
Somos, do reino todo muito ao grado
84 E do Rei, que à sua lei nos molda a mente.

“Seu preceito a paz nossa se há tomado:
Ele é mar a que tudo precipita,
87 Que cria, ou faz natura ao seu mandado.” —

Conheço então que o Paraíso habita
Quem stá do céu em qualquer parte, e vejo
90 Não chover de um só modo a suma dita.

Mas, se um manjar sacia, dado o ensejo,
E de outro resta o apetite vivo,
93 Um se agradece, expondo-se o desejo.

Por gesto e voz assim fiz-me expressivo
Para a tela saber que a lançadeira
96 Não rematara com lavor ativo.

— “Perfeita em vida, em mérito altaneira
Acima santa está, que há regulado
99 Vestes e véus, com que professa freira,

“Até finar-se, vele ou durma ao lado
Desse esposo, que todo voto aceita,
102 Se lhe é por caridade consagrado.

“Menina e moça, à sua regra estreita
Submeti-me, e do mundo me apartando
105 Jurei aos seus preceitos ser sujeita.

“Roubou-me à paz do claustro iníquo bando,
Mais à maldade do que ao bem afeito:
108 Qual foi Deus sabe o meu viver, penando!

“Este fúlgido esp’rito, em cujo aspeito
(À direita demora-me) se acende
111 Quanto lume o céu nosso tem perfeito,

“O que digo de mim de si o entende;
Sendo freira, como eu foi-lhe arrancado
114 O santo véu, que o voto à fronte prende.

“Mas, ao mundo tornando de mau grado,
Que os seus piedosos usos ofendia,
117 Guardou fiel seu peito ao sacro estado.

“É a excelsa Constância a que radia:
Deu de Suábia ao Imperador segundo
120 Herdeiro, em que extinguiu-se a dinastia.” —

Calou-se; e logo do Ave o hino jucundo
Cantou: cantando aos olhos desparece,
123 Qual peso, que mergulha em mar profundo.

Segui-la a vista quis quanto pudesse;
De desejo invencível atraída,
126 Voltou-se, quando em todo se esvaece,

E em Beatriz fitou-se embevecida.
Mas era o rosto seu tão fulgurante,
Que ante o lume sentiu-se esmorecida.

130 Pelo efeito atalhei-me titubante.

 

1. Sol da beleza, Beatriz — 17-18. No erro oposto de Narciso, Narciso se enamorou da sua imagem na fonte, tomando-a por pessoa verdadeira. Dante caiu no erro oposto. — 49. Picarda Donati, irmã de Forese e de Corso, freira de Santa Clara, foi obrigada pela sua família a casar-se com Rossellino della Tosa. — 95-96. A tela a saber que a lançadeira etc., o motivo pelo qual faltou aos votos que tomara — 98. Acima Santa está, Santa Clara. — 118. Constância, filha de Rogério, rei das Apúlias e de Sicília, casada com Henrique VI e mãe de Frederico II.


CANTO IV

 

Duas dúvidas agitam o espírito do Poeta. A primeira é relativa à doutrina platônica, segundo a qual todas as almas voltam para as estrelas donde saíram. A outra, se a violência tolhe a liberdade, como pode ser justo que as almas forçadas a romper os votos tenham desconto de glória? Beatriz responde à primeira dúvida restringindo o sentido da doutrina platônica. Relativamente à segunda diz que aquelas almas não consentiram no mal, mas não o repararam, voltando ao claustro, quando tiveram possibilidade de fazê-lo.

 

DE igual modo distantes e atraentes,
Homem livre entre cibos dois morrera
3 De fome, antes que num metesse os dentes.

Cordeiro assim, sem se mover, temera
No meio de dois lobos truculentos;
6 Um galgo entre dois gamos não correra.

Calando-me entre opostos pensamentos,
Louvor não merecia, nem censura;
9 Necessário era então nos meus intentos,

Mas no semblante o anelo se afigura;
Constrangido silêncio o denuncia
12 Melhor que a voz, quando expressão apura.

Fez Beatriz, qual Daniel fazia
Para os assomos moderar da ira,
15 Que ao mal Nabucodonosor movia.

— “Dos desejos cada um tua alma tira”
— Disse — “e estando em tais laços enleada,
18 Tolhido o raciocínio, não respira.

“Discorres: se a vontade contrastada
No bem persiste, pode porventura
21 Em méritos julgar-se amesquinhada?

“Turbar-te inda outra dúvida procura:
Se das estrelas a alma torna ao meio,
24 Como Platão filósofo assegura.

“Destes problemas dois te nasce o enleio.
No derradeiro o exame principia
27 Porque do erro mais fel há no seu seio.

“Não têm anjo, que em Deus mais se extasia
Moisés e Samuel, João Batista,
30 O Evangelista, nem também Maria,

“Lugar em céu dif’rente do que a vista
De espíritos te deu que hão se mostrado:
33 Num só têm todos a eternal conquista.

“O Empíreo é por todos adornado,
Hão todos doce vida variamente,
36 Conforme o eterno sopro é facultado.

“Se nesta esfera os viste, certamente,
Não foi por destinada lhes ter sido,
39 Grau só denota menos eminente.

“Assim por mente humana comprendido
Será, pois se eleva ao entendimento
42 Do que é pelos sentidos percebido.

“Por ter do que sois vós conhecimento
A Escritura atribui, mas al entende,
45 Pés e mãos ao Senhor do firmamento.

“Em figurar a Igreja condescende
Gabriel e Miguel e o que a Tobia
48 Curou, sob a feição, que à humana tende.

“Timeu esta verdade contraria
No que acerca das almas argumenta;
51 Parece crer à letra o que anuncia.

“Ao seu astro voltar a alma sustenta,
Supondo que ela à terra descendera,
54 Quando, por forma ao corpo unida, o alenta.

“Talvez diversa idéia concebera
Do que nas vozes suas emitira,
57 Escarnecida ser não merecera.

“Se a honra ou vitupério atribuíra
Aos astros de influir na vida humana,
60 Na verdade talvez firmasse a mira.

“Mal entendido, o seu princípio dana
O mundo quase inteiro, que prestara
63 A Jove e a Marte adoração insana.

“A dúvida segunda te depara
Menos veneno, pois o mal, que encerra
66 Para longe de mim não te afastara.

“Que a Justiça Divina lá na terra
Pareça injusta é, de péssima heresia,
69 Argumento de fé, que jamais erra.

“Mas, como a humana mente poderia
Às alturas alar-se da verdade,
72 Vou dar-te, o que o desejo te sacia.

“Constrangimento havendo, se, à maldade
A vítima se opondo, em luta insiste,
75 Desculpa elas não têm, sem dubiedade.

“Não se abate a vontade, se persiste;
Sempre se ergue, qual flama cintilante:
78 A força a estorce, vezes mil resiste.

“Por menos que se dobre vacilante,
Cede à força: voltar ao santo abrigo
81 Puderam, tendo o ânimo constante.

“Se o querer fosse inteiro no perigo,
Como Lourenço no braseiro ardente,
84 Ou Múcio, que à mão sua deu castigo,

“Em livres sendo, a estrada incontinênti
Do dever seguiriam pressurosas;
87 Mas raro é tal valor na humana gente.

“Se atendeste, razões dei poderosas
Para ficar tua dúvida solvida:
90 Causa te fora a angústias afanosas.

“Mas ante os olhos ora vês erguida
Outra ainda mais grave, que, por certo,
93 Não fora por ti só desvanecida.

“Já te hei bem claramente descoberto
Que não pôde mentir alma ditosa
96 Pois da Suma Verdade é sempre perto.

“Narrou depois Picarda que extremosa
No seu amor ao véu fora Constância,
99 Ao revés do que eu disse cautelosa.

“Na existência há mais de uma circunstância,
Em que se faz, perigos receando,
102 O que é vedado ou move repugnância.

“Do pai ardentes rogos respeitando,
A sua mãe Alcmeon cortava a vida,
105 Por piedade impiedoso se tornando.

“Fique, pois, a tua mente convencida
De que ao querer se a força anda ajustada,
108 Não há desculpa à falta cometida.

“A vontade absoluta é declarada
Inimiga do mal: cede temendo
111 Ser, pela oposição, mais lastimada.

“A verdade absoluta em mira tendo,
Picarda discorreu: de outra eu falava.
114 Verdade ambas estamos defendendo.” —

Do santo rio a luz assim manava,
Da Fonte da verdade é derivada:
117 Cada um dos meus desejos contentava.

— “Ó do Primeiro Amante excelsa amada!
Ó santa” — eu disse — “cuja voz me anima,
120 Me inunda e a força aviva à alma abrasada!

“Afeto meu que ao extremo se sublima,
Não basta por tornar graça por graça:
123 Que o Senhor minha dívida redima!

“Não há, bem sei, não há quem satisfaça
A mente, se a Verdade não comprende
126 Fora da qual outra nenhuma passa.

“A mente ali se refocila e prende,
Qual fera, que em seu antro empolga a presa:
129 De outra sorte o desejo em vão se acende.

“E por isso ao pé nasce da certeza,
Como vergôntea, a dúvida e nos leva
132 De cimo em cimo até sublime alteza.

“Com toda a reverência que vos deva,
Ouso pedir-vos me expliques, Senhora,
135 Outra verdade, que me está na treva:

“Os rotos votos, que homem sente e chora,
Pode suprir com mérito dif’rente,
138 Que iguale em peso o que perdera outrora?” —

Beatriz me encarou: tão refulgente
Lhe rebrilhava o olhar e tão divino,
Que me volto, sentindo a força ausente,

142 E, quase aniquilado, a fronte inclino.

 

13. Qual Daniel etc., Beatriz interpretou o pensamento de Dante, como Daniel o sonho de Nabucodonosor, que queria mandar matar os seus sábios por não terem podido interpretá-lo. — 24. Como Platão filósofo assegura, segundo a teoria platônica as almas são criadas antes dos corpos e habitam as estrelas, a elas voltando, depois da morte do corpo. — 28-32. Não tem anjo etc., todos os anjos e santos não têm, no céu, lugar diferente daquele dos espíritos que agora apareceram. — 47. O que a Tobia curou, o Arcanjo Gabriel que curou a cegueira de Tobias. — 49 Timeu, diálogo de Platão no qual se fala da imortalidade da alma. — 61-63. Mal entendido, o seu princípio dana, etc., a opinião, mal entendida, da ação das estrelas sobre a alma, talvez, leva ao erro, e, por isso, deram-se aos planetas os nomes de Jove e Marte e foram eles adorados. — 83. Lourenço, condenado a morrer queimado vivo. — 84. Muzio, Scevola, para punir-se, fez queimar sua mão sobre um braseiro. — 104. Alcmeon, filho de Anfiarau, matou a mãe Erifiles, v. Purgatório, XII, 50.

 


CANTO V

 

Continuando no discurso do canto anterior, Beatriz explica a Dante que o voto é um pacto entre o homem e Deus. Pode mudar-se a matéria do voto, mas deve ser substituída com oferecimentos de maior mérito. Beatriz lamenta a leviandade dos cristãos.

Beatriz e Dante voam depois para a esfera de Mercúrio, onde estão as almas dos homens que viveram uma vida digna, adquirindo fama no mundo. Um espírito fala ao Poeta.

 

SE no fogo do amor te resplandeço
Em modo, que o terreno amor precede;
3 Se aos olhos teus a força desfaleço;

“Não te espantes: efeito é que procede
Desse perfeito ver, que o bem compreende,
6 E, o compreendendo, em se apurar progrede.

“Já patente me está quanto resplende
Na inteligência tua a Luz eterna,
9 Que, apenas vista, sempre amor acende;

“E, se outro objeto humano amor governa,
Vestígio dela é só mal percebido,
12 Só transluzindo em sua forma externa.

“Saber queres se um voto não cumprido
É de outras obras resgatado, e tanto,
15 Que em juízo de Deus fique absolvido.” —

Começou Beatriz desta arte o canto;
E, como quem no discorrer não pára,
18 Seguiu assim no seu elóquio santo:

“O mor bem que ao universo Deus doara,
O que indicara mais sua bondade
21 O que em preço mais alto avaliara,

“Foi do querer, por certo, a liberdade,
Que a toda criatura inteligente
24 Há dado em privativa faculdade.

“Daqui, por dedução, fica evidente
Do voto a alta valia, quando é feito
27 Por acordo entre Deus e a humana mente.

“Por contrato, entre Deus e o home’ aceito,
Esse tesouro é vítima imolada,
30 Que ao sacrifício vai com ledo aspeito.

“Pode ser porventura compensada?
Se cuidas usar bem do que ofertaste,
33 Crês fazer bem com prata mal ganhada.

“Certo do ponto capital ficaste;
Com a dispensa a Igreja, parecendo
36 Em tal caso contrário ao que escutaste,

“Convém, que um pouco à mesa te detendo,
Para o rijo manjar, que hás ingerido,
39 Socorro aguardes, que te dar pretendo.

“Ao que te explico atento presta ouvido
E guarda-o na alma; pois não dá ciência
42 Ouvir o que depois fica no olvido.

“Exige do sagrado voto a essência
Aquele objeto em sacrifício dado
45 E do próprio contrato a consistência.

“Jamais pode ser este obliterado,
Ainda que infringido: já bem clara
48 Demonstração sobre este ponto hei dado.

“Lei rigorosa a Hebreus determinara
Fazer pia oblação; mas concedida
51 A permuta da oferta lhes ficara.

“Da matéria do voto é permitida
Conversão quando ensejo se oferece,
54 Sem ser por isso falta cometida.

“Mas não se muda, quando bem parece,
O fardo; só se a Igreja, tendo usado
57 Das chaves de ouro e prata, o concedesse.

“Crê que toda permuta é passo errado,
Quando o antigo no novo não se inclua,
60 Bem como quatro em seis vês encerrado.

“Se o voto é tal na gravidade sua,
Que obrigue a se inclinar toda balança,
63 Outro voto não há, que o substitua.

“Não contraí, mortais, votos por chança!
Cumpri-os, mas não Jefté imitando,
66 A quem deu louco voto a desesp’rança.

“— Fiz mal! — dissesse ao voto seu faltando,
Por não fazer pior cumprindo-o. Estulto
69 Foi o potente Rei dos gregos, quando

“À filha fez chorar seu belo vulto
E à piedade moveu quantos ouviram
72 Falar daquele abominável culto.

“A razões pesai bem, que vos inspiram,
Cristãos! não sêde pluma a qualquer vento!
75 As nódoas com toda a água se não tiram!

“Tendes o Velho e o Novo Testamento
E da Igreja o pastor, que os passos guia:
78 Que mais quereis por vosso salvamento?

“Se má cobiça o peito vos vicia,
Homens sêde e não brutos animais:
81 Que entre vós o Judeu de vós não ria.

“Como o cordeiro simples não façais,
Que contra si combate petulante,
84 Da mãe o leite não querendo mais.” —

Beatriz assim disse. Eis anelante
E arrebatada em êxtase voltou-se
87 À parte, onde o universo é mais brilhante.

Ante o enlevo em que o gesto transmutou-se,
Calou-se o meu desejo impaciente:
90 De outras questões, já prestes, refreou-se.

Como a seta, que o alvo de repente
Atinge antes que a corda esteja quieta,
93 No céu segundo entramos velozmente.

Tão leda eu via Beatriz dileta,
Daquele céu nas luzes penetrando,
96 Que mais vivo esplendor mostra o planeta.

E se a estrela sorriu, se transformando,
Como não fiquei eu, que fez natura
99 Mudável, impressões todas tomando?

Como viveiro de água mansa e pura,
Pela esp’rança, de pasto, que se of’reça,
102 Sofregamente o peixe o anzol procura,

Mais de mil esplendores vindo à pressa,
— “Eis aí quem nos traz de amor aumento!” —
105 A voz de cada qual nos endereça.

De cada sombra o alegre sentimento,
Em se acercando a nós, se denuncia
108 No fulgor do seu claro luzimento.

Quão sôfrego o desejo não seria
Em ti leitor, se acaso interrompesse
111 A narração de quanto então se via?

Imaginas, portanto, o que eu tivesse
De conhecer aquela grei formosa,
114 Tanto que ante os meus olhos aparece.

— “Ó criatura, que assim vês ditosa
Os tronos do eternal triunfo, inda antes
117 De finda a terreal guerra afanosa,

“Nos lumes, que no céu há mais brilhantes,
Ardemos: te darei, se as pretenderes,
120 Ao teu desejo informações bastantes.” —

Assim falou. — “Responde que assim queres.” —
A Beatriz ouvi — “diz com franqueza,
123 E crê como divino o que entenderes.”

— “O ninho tens, já vejo com certeza,
Na luz eterna: o seu fulgor revela
126 Dos olhos teus, sorrindo-te a viveza.

“Mas não sei quem tu és, ó alma bela,
Nem por que por degraus tens esta esfera,
129 Que aos mortais nos clarões de outra se vela.”

Assim disse, voltado à luz que houvera
Primeira a voz alçado: refulgindo,
132 Mais coruscante a vi ao que antes era.

Bem como o sol os lumes encobrindo
No seu próprio esplendor quando esvaece
135 As cortinas que estavam-nos cingindo,

Da alegria no excesso desparece
Nos próprios raios a figura santa.
Na sua luz envolta que recresce,

139 Disse o que o canto que se segue canta.

 

56-57. Só se a Igreja etc., só se a Igreja, que possui a chave de prata (da ciência) e de ouro (da autoridade) o permitir. — 65. Jefté, juiz de Israel, fez o voto, se vencesse os Amonitas, de sacrificar a primeira pessoa que encontrasse no caminho; e esta foi a sua filha. — 69. O potente rei dos Gregos, Agamenon prometeu aos deuses o que possuía de mais belo. Chorou depois a beleza da sua filha Ifigênia.


CANTO VI

 

A alma do imperador Justiniano fala ao Poeta. Narra-lhe a história do Império, de Enéias a César, a Tibério, a Tito, a Carlos Magno, para mostrar-lhe a santidade da autoridade imperial. Diz-lhe que no Céu de Mercúrio estão os espíritos daqueles que se esforçaram para conseguir fama imortal. Discorre-lhe acerca de Romeu, que administrou a corte de Raimundo Beranguer, conde de Provença.

 

“DEPOIS que Constatino a Águia voltara
Contra o curso do céu, que ela seguira
3 Pós o herói, que Lavínia conquistara,

“Duzentos anos já passados vira
Da Europa em confins de Deus essa ave,
6 Vizinha aos montes, donde se partira;

“Das plumas sob a sombra ampla e suave,
De mão em mão o mundo há dominado,
9 Té comigo reger do Império a nave.

“César, Justiniano fui chamado.
Do Amor, que sinto, por querer movido,
12 O supérfluo das leis hei cerceado.

“Antes de ter a empresa cometido,
Uma só natureza acreditava
15 Ter Cristo e andava nessa fé perdido.

“Mas de Agapeto santo que mandava
De Roma Santa Igreja, a voz potente
18 Levou-me à crença pura, que eu deixava.

“O que então disse, eu vejo claramente,
Pois, como vês, contradição implica
21 Uma falsa asserção e outra evidente.

“Quando eu cri no que a Igreja certifica,
Minha mente, de Deus por alta graça,
24 Logo à sublime empresa se dedica.

“Belisário a reger as armas passa;
No favor, que lhe deu poder divino
27 Sinal vi que me ordena a paz se faça. —

“A responder-te, o que ouves tem destino;
Mais o que hei dito agora a tanto obriga,
30 Que a mor explicação dar-te me inclino.

“Verás que sem razão vontade imiga
Move-se contra esse estardarte santo,
33 Quando o tenta usurpar, quando o profliga.

“Pelos fatos verás respeito quanto
Mereceu desde a honra em que Palante
36 Morreu por dar-lhe de sob’rano o manto.

“Em Alba sabes como foi constante
Por mais de anos trezentos té lutarem
39 Três contra três por que ele fosse avante.

“Sabes quanto ele fez por se curvarem
Vizinhos desde o roubo das Sabinas
42 Té Lucrécia expirar e os Reis findarem.

“Sabes que glória teve nas mãos di’nas
De heróis, que Breno e Pirro combateram,
45 E de outros reis coligações mali’nas;

“Décios, Fábios, Torquatos lhe deveram
E Quíncio Cincinato, que amo e louvo
48 A fama das vitórias, que tiveram;

“Calcou o orgulho do Africano povo,
Que por fraguras, donde, o Pó, te envias,
51 Sob Aníbal, abriu caminho novo.

“Fez triunfar da juventude em dias
Cipião e Pompeu, e assaz desgosto
54 Causou às tuas pátrias serranias.

“Perto dos tempos, em que o céu disposto
Havia, por seus fins, dar paz ao mundo.
57 Em mãos de César Roma o teve posto.

“O que ele fez do Var ao Rin profundo
Isara há visto e o Era, há o Sena
60 E esse vale, onde o Rone é sem segundo.

“Passando o Rubicon, após Ravena,
Com César a Águia tanto em vôo alçou-se,
63 Que o não pôde seguir nem voz, nem pena.

“Depois que para a Espanha remontou-se,
A Durazzo e a Farsália acometia:
66 Do efeito o ardente Nilo perturbou-se.

“O Simoente e Antandro então revia,
Seu berço, em que a de Heitor cinza descansa;
69 E sem detença a Ptolomeu se envia.

“Dali, qual raio, logo Juba alcança;
Depois volve-se às terras do Ocidente,
72 Onde os sons de Pompeu a tuba lança.

“Nas mãos de outro o que fez essa ave ingente
No inferno Bruto e Cássio estão sentindo,
75 Sofrem Perúgia e Módena tremente.

“Cleópatra inda vai triste carpindo
Atroce morte, que da serpe toma,
78 Da Águia os assaltos pávida fugindo.

“Até o Roxo mar tudo a Águia toma,
E ao mundo tão serena a paz se inclina,
81 Que em fim de Jano as portas fecha Roma.

“O que fez e faria a ave divina
Para trazer à fama sua aumento
84 Nesse império mortal, em que domina,

“Parece escasso em seu merecimento,
Quando em mãos de Tibério a contemplamos
87 Com puro afeto e claro entendimento;

“Pois que a viva justiça, que adoramos
Lhe há nessas mãos a glória concedido
90 De dar vingança às iras, que incitamos.

“Sê, me ouvindo, de espanto possuído:
Águia a vingança do pecado antigo
93 Depois com Tito há por tornar corrido.

“Quando, mordida por lombardo imigo,
Gemia a Santa Igreja, à sombra da ave
96 Salvou-a Carlos Magno do perigo.

“Podes julgar, portanto, do erro grave
Daqueles, cujas faltas hei notado,
99 Causa do mal que vês quanto se agrave.

“Contra o sacro estandarte um tem hasteado
Áureo lírio, outro o quer por seu partido:
102 Custa dizer qual seja o mais culpado.

“Gibelinos, no iníquo andar sabido
Outra bandeira sigam; que à justiça
105 Culto esta exige nunca interrompido.

“Carlos novo a batê-la em vão cobiça
Com Guelfos; temas as garras, que arrancaram
108 A mais forte leão juba inteiriça.

“Mais de uma vez os filhos já choraram
Pelas culpas do pai: é louca a esp’rança, —
111 De que de Deus favor lírios ganharam.

“O planeta, em que habito agora, estança
É de almas generosas que honra e fama
114 Aspiraram do mundo na lembrança.

“Quando os desejos deste modo inflama
O incentivo da glória, aos céus ascende
117 Do vero amor menos ativa a chama.

“Mas nossa dita em parte compreende
Dos méritos e prêmio no confronto:
120 Nem menor, nem maior nenhum se entende

“Pois da viva justiça o feito pronto
Tanto os afetos nos ameiga e apura,
123 Que nequícia os não torce em nenhum ponto.

“Vozes várias de sons formam doçura:
Assim os vários graus na eterna vida
126 Doce harmonia fazem nesta altura.

“Nesta per’la, em que estás, bela e polida,
Rebrilha de Romeu claro luzeiro,
129 Virtude ínclita e mal agradecida.

“Os provençais, pelo ato traiçoeiro,
Não se riram; caminho segue errado
132 Quem o bem de outro inveja sobranceiro.

“Às filhas grato de rainha o estado
Conseguiu Beranguer: tal bem devia
135 A Romeu, nome humilde e não falado.

“Preso na trama que a calúnia urdia,
Que aumentado no quinto o erário havia;
138 Do erário contas exigiu do justo,

“Romeu partiu-se então pobre e vetusto:
Se o mundo o coração lhe aquilatara,
Quando, mendigo, se mantinha a custo,

142 Louvor muito maior lhe dispensara.” —

 

1-3. Depois que Constantino a Águia voltara etc., depois que Constantino transferiu o Império de Roma para Bizâncio. — 10. Justiniano, imperador romano e grande legislador, que reinou duzentos anos depois de Constantino, pois começou o seu reinado em 527. — 14. Uma só natureza etc., a doutrina de Eutíquio segundo a qual Cristo tinha só a natureza humana. — 16. Agapeto, o papa Agabito. — 25. Belisário, grande capitão que combateu na Itália contra os Godos. — 32. Esse estandarte sacro, o emblema do Império, que representava a águia. — 35. Palante, companheiro de Enéias, morreu combatendo contra Turno. — 37. Alba, cidade fundada por Ascânio, filho de Enéias. — 39. Três contra três, combatimento dos Horácios contra os Curiácios. — 41. O roubo das Sabinas, o rapto das mulheres dos Sabinos, efetuado pelos Romanos. — 42. Lucrécia, mulher de Colatino, foi violentada por Tarquinio, daí resultando a rebelião dos Romanos contra a monarquia. — 44. Breno e Pirro, o primeiro general dos Galos, o segundo rei do Épiro, que invadiram a Itália. — 46-47. Décios, pai, filho e neto morreram pela pátria; Fábios, ilustre família romana; Torquatos, T. Manlio Torquato; Quíncio, Q. Lúcio Cincinato. — 51. Aníbal, general cartaginês que invadiu a Itália. — 67. Simoente, rio perto de Tróia; Antadro, cidade da Frísia. — 73. Nas mãos do outro o que fez César, Augusto vingou a morte de César. — 76. Cleópatra, rainha do Egito, suicidou-se. — 93. Tito, destruiu Jerusalém, cujos habitantes tinham crucificado a Jesus Cristo. — 94. Lombardo imigo, Desidério, último rei longobardo que foi derrotado por Carlos Magno. — 101. Áureo lírio, as armas da Casa de França. — 106. Carlos novo, Carlos II de Anjou, chefe do partido guelfo. — 128. Romeu, segundo conta G. Villani, foi administrador de Raimundo Beranguer, conde de Provença, aumentando-lhe o patrimônio e conseguindo casar as filhas de Raimundo com quatro reis. Caluniado, não quis mais ficar na corte de Provença e, velho e pobre, desapareceu.

 


CANTO VII

 

Desaparecem os bem-aventurados cantando. Beatriz explica como a crucificação de Cristo restituiu ao homem a dignidade perdida, a liberdade que lhe foi conferida por Deus. Os anjos e os homens por sua natureza são livres e imortais. O homem porém, pecando, abusou da sua liberdade, e deformou a imagem de Deus que tinha em si. Não podia reparar a falta por si mesmo, pois não podia humilhar-se tanto quanto Adão, em seu orgulho, quis subir. A Deus convinha ou perdoar ou punir. Na sua sabedoria infinita, Deus perdoou e puniu no mesmo tempo. Puniu a humanidade em Jesus Cristo e nele a fez novamente livre.

 

“HOSANNAH Sanctus Deus Sabaoth,
Superillustrans daritate tua

3 Felices ignes horum malacòth!

Assim, voltando à melodia sua,
Cantar ouvi essa alma venturosa
6 Em quem dúplice lume se acentua.

Tornam todas à dança jubilosa,
E súbito da vista se apartaram
9 Velozes, como flama fulgurosa.

Disse entre mim, pois dúvidas me entraram:
“Fala à senhora tua, fala; à sede
12 Rocio as palavras suas te deparam.”

Torvação me assenhora e a voz me impede,
Que apenas B com I C E conjugava:
15 Acurvei, como quem ao sono cede.

Mas Beatriz do enleio me tirava,
Com sorriso, que a mente me ilumina
18 E aditara entre as chamas começava:

— “Como bem vejo, dúvida domina
A tua alma: — a vingança, que foi justa,
21 Punição teve, da justiça di’na?

“Esclarecer-te o espírito não custa.
Atende bem: verdade preminente
24 Das vozes minhas co’a expressão se ajusta.

“Aceitar não querendo, obediente,
Saudável freio, o homem, sem mãe nado,
27 Perdeu-se a si, perdeu a humana gente.

“Muitos séc’los enferma do pecado,
Jazeu ela não erro engrandecido
30 Té que o Verbo de Deus fosse encarnado.

“Por ato só do Eterno Amor, unido
À natureza se há, que ao mal se dera,
33 Depois de esquiva ao Criador ter sido.

“No que vou te dizer bem considera.
A natureza, a que se uniu beni’no
36 Em pessoa, nasceu boa e sincera.

“Por si mesma, fugindo em desatino
Da vereda da vida e da verdade,
39 Do Paraíso se exilou divino.

“Da Cruz a pena, em face da maldade
Da natureza, a que Jesus baixara,
42 Foi a mais justa em sua gravidade.

“Nunca injustiça igual se praticara,
Atenta essa Pessoa, que há sofrido,
45 Que à natureza humana se ajuntara.

“Contrastes, pois, de um ato hão procedido:
Folgam Judeus da morte a Deus jucunda,
48 Foi ledo o céu e o mundo espavorido.

“E não te mova sensação profunda
Ouvir que uma vingança, que foi justa,
51 Vingada ser devia por segunda.

“Vejo-te a mente por vereda angusta
Levada a estreito nó de dubiedade,
54 Que solver mor esforço ora te custa.

“Dirás: — discerne o que ouço, na verdade;
Mas porque Deus nos desse está-me oculto,
57 Remindo-nos tal prova de bondade. —

“Este decreto irmão, está sepulto
Aos olhos do que ainda o entendimento
60 Não tem de Amor na flama ainda adulto.

“É mistério em que luta o pensamento
Sem fruto conseguir de tal porfia,
63 Mas foi o melhor modo. Ouve-me atento!

“A Divina Bondade que desvia
De si o desamor, arde e flameja,
66 Por eternais primores se anuncia.

“Diretamente o que emanado seja
Dela é sem fim; eterna impressão fica
69 Do que no seu querer supremo esteja.

“O que assim nasce, não sujeito fica
Das causas secundárias à influência
72 E liberdade plena significa.

“Mais lhe apraz, se é conforme à sua essência:
Que o santo Amor que em toda cousa brilha,
75 Mais vivo é no que encerra esta excelência.

“Aos homens de tais bens cabe a partilha:
De tais predicados se um falece,
78 Sua nobreza já decai, se humilha.

“Só por pecado dessa altura desce;
Do Sumo Bem não mais reflete o lume,
81 Semelhança não mais dele oferece.

“E o grau sublime seu não mais assume,
Se não contrapuser ao do pecado
84 Deleite mau das penas o azedume.

“Quando o gênero humano, infeccionado
Todo no germe seu, foi dessa alteza
87 E do seu Paraíso deserdado,

“Reaver só pudera (com certeza
Verás, se bem cogitas), intervindo
90 Um dos meios, que aponto por clareza:

“Ou Deus, por graça infinda, remitindo;
Ou — porque, de si mesmo, se convença —
93 Das culpas suas o homem se remindo.

“Para sondar a profundeza imensa
Dos eternos conselhos, prende à mente
96 As razões que o discurso meu dispensa.

“O homem não podia, de indigente,
As dívidas solver: nunca pudera
99 Curvar-se tanto, humilde e reverente,

“Quanto, rebelde, se elevar quisera.
Eis por que redimir-se do pecado
102 Só por si mesmo ao homem não coubera.

“E, pois há sido do divino agrado,
Por clemência ou justiça e ambas juntando,
105 Ser ele à vida eterna aparelhado.

“A feitura do Autor ao gosto estando
Inda mais, quando a imagem nos of’rece
108 Do peito, de quem vem piedoso e brando,

“A Bondade que em tudo transparece,
Em prol vosso os dois modos reunia:
111 Um somente bastar-lhe não parece.

“Entre a noite final e o primo dia
Ato igual não se fez alto e formoso
114 Desse modo por um, nem se faria.

“Dando-se, há sido Deus mais generoso,
Por que o home’ a se erguer se habilitasse,
117 Do que só perdoando carinhoso.

“Outro meio qualquer, que se empregasse
Não bastara à Justiça, se humilhando
120 De Deus o Filho à carne não baixasse.

“Para de todo seres doutrinado
Eu torno a um ponto, por que vejas claro,
123 Como eu, o que zelosa hei te explicado.

“Dizes: — no fogo e no ar, se bem reparo
Na terra e nágua vejo e em seus compostos
126 Corrupção que destrói sem anteparo.

“Na criação por Deus foram dispostos:
De corrupção isentos ser deveram,
129 Certos sendo os princípios por ti postos. —

“Criados, meu irmão, se consideram
Os anjos e dos céus o que há no espaço,
132 Inteiros, puros sempre quais nasceram.

“Elementos e quanto no regaço
Da natura por eles se combina
135 De virtude criada of’recem traço.

“Criou-lhes a matéria a lei divina,
Criando logo a força informativa,
138 Que nos astros, que os cercam, predomina.

“Dos lumes santos moto e luz deriva
Dos brutos alma, e plantas igualmente,
141 Por compleição potencial passiva.

“A vida nossa vem diretamente
De Deus, Supremo Bem, que em nós acende
144 Amor tal, que o deseja eternamente:

“Daí, por dedução, também descende
Vossa ressurreição, se ao ser e à essência
Da humana carne o teu esp’rito atende,

148 Quando o primeiro par teve existência.” —

 

1-3. Hosannah, sanctus Deus Sabaoth, expressão constituída por palavras latinas e hebraicas: “Salve, Deus dos exércitos, que iluminas com a tua luz os felizes lumes deste reino.” — 18. E aditara, do verbo aditar, tornar feliz. — 26. O homem sem mãe nado, Adão. — 46-48. Contrastes, pois, de um ato procedido etc., a morte de Jesus Cristo deu satisfação a Deus, porque reparava a ofensa de Adão e deu satisfação aos Judeus pela raiva deles contra Jesus; a terra ficou espavorida pela crucificação de Deus e o Céu alegre porque se abria novamente à humanidade.

 


CANTO VIII

 

Dante e Beatriz elevam-se à estrela de Vênus, onde estão os espíritos daqueles que outrora foram propensos às paixões amorosas. Encontro com Carlos Martelo, o qual referindo-se à índole mesquinha de seu irmão Roberto, explica-lhe como se dá que de um bom pai possa nascer um filho mau e, enfim, quanto providencial é a Natureza nos seus decretos e quão vaidosos são os homens que não lhe seguem as indicações.

 

O MUNDO com perigo verdadeiro
Creu que Ciprina bela dardejava
3 Louco amor do epiciclo que é terceiro.

Sacrifícios não só lhe consagrava,
Preces e votos essa antiga gente
6 No erro antigo fatal, que a transviava,

Mãe e filho adoravam juntamente,
Dione e o seu Cupido, que fingiram
9 De Dido reclinado ao seio ardente;

Dessa falsa deidade o nome uniram
Ao planeta, que o sol sempre namora,
12 Quando raiam seus lumes, quando expiram.

Como ao astro eu me alcei, a mente ignora,
Mas certo fui de haver lá penetrado,
15 Mais formosa por ver minha senhora.

Como se vê fagulha em fogo ateado,
Como uma voz é de outra discernida,
18 Firme o som de uma, o de outra variado,

Outros clarões notei na luz subida,
Mais ou menos velozes se volvendo,
21 Lá da eterna visão, creio, à medida.

Ou visíveis ou não, ventos rompendo,
Em rápida invasão, de nuve’ escura,
24 Demorados stariam parecendo,

A quem pudesse ver cada luz pura,
Que ao nosso encontro vem deixando a dança
27 Que marcam serafins dos céus na altura.

Trás a grei, que primeiro nos alcança.
Tão doce hosana soa, que, incessante,
30 De inda ouvi-lo o desejo jamais cansa.

Dos espíritos um, que vem diante
Só principia: — “Todos nós queremos
33 Quanto para aprazer-te for prestante.

“Num só ardor e giro nos movemos
Cos Príncipes, celestes esplendores
36 De quem no mundo hás dito (bem sabemos):

— “Vós, do terceiro céu sábios motores!” —
Por te agradar nos é doce o repouso
39 Tão vivos são do nosso amor fervores!” —

De Beatriz ao gesto luminoso
Depois que alcei os olhos reverente
42 E certo fui do seu querer donoso,

À luz, que se mostrou condescendente
Em tanto grau — “Quem és” — falei, de afeito
45 Estremecido possuída a mente.

Ó das palavras minhas raro efeito!
Maior a vi brilhar; nova delice
48 A alegria aumentou do claro aspeito.

— “Bem pouco o mundo” — a refulgir-me, disse —
“Me teve; se algum tempo mais vivesse,
51 Mal, que há de vir, por certo ninguém visse.

“O júbilo que em torno me esclarece,
Aos teus olhos me encobre, como inseto,
54 Que dos seus véus de seda se guarnece.

“Com razão me votaste o extremo afeto;
Pois, em mais longa vida, eu te mostrava
57 Por ações quanto me eras tu dileto.

“Aquela região, que o Rone lava
À sestra, quando ao Sorga corre unido,
60 Por senhor seu um dia me esperava.

“Como da Ausônia o litoral partido
Por Bari, por Gaeta e por Crotona.
63 Onde é do Tronto e Verde o mar nutrido.

“Da c’roa a fronte minha já se entona
Do vasto reino, que o Danúbio rega,
66 Quando as plagas tudescas abandona.

“Trinácria, a cujos céus névoa carrega
Sobre o golfo, em que mais Euro embravece,
69 De Paquino a Peloro, em mor refega,

“Que não Tifeu, mas súlfur escurece,
O trono guardaria à prole minha,
72 Que de Carlo e Rodolfo antigos desce,

“Se o mau jugo, que os povos amesquinha,
A gritar — morra! morra! — não movesse
75 Palermo, a quem temor não mais continha.

“Se mais prudência meu irmão tivesse,
Dos Catalanos a indigência avara
78 Fugira, por que o mal seu não crescesse.

“Urgente, na verdade, se tomara
Que, por si ou por outrem, não deixasse
81 Mais onerar a barca, que adernara.

“Quando a índole nobre transtornasse
Avareza, milícia ter devia,
84 Que só de encher seus cofres não curasse.” —

— “Como creio” — tornei-lhe — “a essa alegria,
Que me infundes, Senhor, a origem tira
87 De Deus que todo bem finda e inicia.

“Comigo a sentes: mor prazer me inspira.
Quanto me hás dito, me é no extremo caro,
90 Pois vês, de Deus no espelho tendo a mira.

“Ledo me hás feito; assim tornar-me claro
O que por teu dizer stá duvidoso:
93 Semente doce brota fruto amaro?” —

— “Vendo a verdade” — disse — “pressuroso
Darás o dorso ao que ora dás o rosto,
96 Verás claro o que julgas tenebroso.

“O Bem, que os céus, que sobes, há disposto,
Os move e alegra, sem pôr providência
99 Nestes corpos que vês virtude posto.

“E não só com perfeita previdência
Cousas terrestres acham-se ordenadas,
102 Mas as preserva a sua onipotência;

“Porque as setas, deste arco arremassadas,
Predestinadas são a um ponto certo,
105 Infalíveis ao alvo enderaçadas.

“O céu aliás, aos olhos teus aberto,
Só feituras sem arte produzidas
108 Abrangera e ruínas no deserto.

“Foram então de perfeição despidas
As Substâncias, que regem as estrelas
111 E a mão, que as fez assim destituídas.

“Verdades são: mais claras queres vê-las?” —
— “Não” — repliquei — “supor não poderia
114 Natura escassa em suas obras belas.” —

— “Um mal, dize-me, fora” — prosseguia —
“Não ser o homem cidadão na terra?” —
117 — “Por certo; e a razão sei” — lhe respondia.

— “Sociedade haverá, se não encerra
Misteres vários, que cada um pratica?
120 Não, se o teu Mestre em seu pensar não erra.” —

Deduzindo, a evidência significa,
E logo concluiu: — “Causa dif’rente
123 Efeito diferente sempre indica.

“Nasce um Sólon, e Xerxe outro é furente,
Melquisedeque ou Dédalo perito,
126 Que no ar perdeu o filho seu demente.

“Perfeito é o giro pelos céus descrito;
Na cera humano o seu sinal fazendo,
129 Mas solar não distingue, nem distrito.

“Daí vem que Esaú, logo em nascendo,
Difere de Jacó; toma Quirino
132 Marte por genitor, seu pai vil sendo.

“Natureza gerada, em seu destino
Seria sempre igual à que a fizera,
135 Se não vencesse o decretar divino.

“O rosto ora diriges à luz vera;
Mas inda um corolário te ofereço,
138 Pois de agradar-te em mim desejo impera.

“Sempre natura, se da sorte excesso
A contraste, produz fruto danado,
141 Como semente posta em solo avesso.

“Se meditasse o mundo, desvelado,
Nos fundamentos, que natura lança,
144 De melhor gente fora povoado.

“Mas quem próprio seria à militança
Na soledade monacal definha,
Bem pregara quem, Rei, em vão se cansa.

148 E fora assim da estrada se caminha.” —

 

2. Ciprina bela, Vênus. — 8. Dione, filha de Oceano e de Tétis, mãe de Vênus. — 9. De Dido reclinado ao seio ardente, no I Livro da Eneida, Cupido, sob a aparência de Ascânio, leva a Dido os presentes de Enéias. — 58 e seg. quem fala é Carlos Martelo, filho de Carlos II de Anjou e que Dante conheceu em Florença em 1294. — 61. Ausônia, a Itália. — 67. Trinácria, a Sicília. — 70. Tifeu, segundo a lenda o gigante Tifeu, sepultado na Sicília, expele fumo e caligem. — 72. De Carlo e Rodolfo, Carlos de Anjou e Rodolfo de Habsburgo. 74. A gritar — morra! morra! — não movesse Palermo, alusão às Vésperas Sicilianas. - 76. Meu irmão, Roberto de Anjou. — 120. O teu mestre, Aristóteles. — 131. Quirino Rómulo, fundador de Roma.


CANTO IX

 

Depois de Carlos Martelo, fala a Dante, Cunizza de Romano, irmã do tirano Ezzelino. Prediz-lhe iminentes desventuras na Marca de Treviso e de Pádua, e uma negra traição do bispo de Feltre. Folco de Marselha manifesta-se a Dante e lhe indica a alma resplendecente de Raab, que favoreceu os hebreus na conquista da Terra Santa. Invectiva contra Florença e contra a Cúria Romana.

 

DEPOIS que Carlos teu, bela Clemência
Instruiu-me, narrou traições e enganos,
3 Que ter devia a sua descendência;

Mas disse: — “Cal’-te! Deixa o curso aos anos!” —
Dizer só posso, pois, que justo pranto
6 Há de vir por vingança aos vossos danos.

E voltou-se de novo o lume santo
Para o Sol que de júbilos o enchia,
9 Sendo ele o Bem que para tudo, e tanto.

Ah! mortais iludidos! raça impia,
Que, em pensamentos fátuos se engolfando,
12 Do Bem Supremo os corações desvia!

Eis outro vi pra mim se encaminhando:
De aprazer-me a vontade anunciava,
15 O brilho da luz sua acrescentando.

Os olhos Beatriz em mim fitava,
Bem como de antes: grandioso assenso,
18 Ao meu desejo claramente dava.

— “Ó ser bendito, ao meu querer intenso
Defere logo” — exclamo — “ e dá-me a prova
21 De que em ti se reflete o que ora penso.” —

A luz então, inda aos meus olhos nova,
Dês que a vi lá na altura onde cantava
24 Diz como quem cortês rogos aprova:

— “Nessa parte da Itália opressa e escrava,
Que situada entre o Rialto
27 E as nascentes do Brenta e do Piava,

“Colina vê-se que, não surge ao alto:
Lá centelha, depois ígnea procela,
30 Que a toda a região deu grande assalto.

“De um só tronco brotamos eu com ela.
Cunizza me chamei: aqui resplendo,
33 Porque venceu-me a flama desta estrela.

“Da sorte minha a causa não me sendo
Desgosto, eu ma perdôo alegremente
36 Talvez estranhe o vulgo o como entendo.

“Da luz, que me está perto, refulgente,
Amada jóia desta nossa esfera,
39 Revive grande a fama, e permanente

“De séc’los cinco mais será na era.
Vê se homem com razão à glória aspira,
42 Se extinta a vida, outra no mundo o espera!

“A este alvo, porém, não levam mira
Os que o Ádige cerca e o Tagliamento:
45 Nem dos seus erros o infortúnio os tira.

“Punido em breve, o povo truculento
De Pádua o lago tingirá, que banha
48 Co’as águas, de Vicência o fundamento;

“Onde o Cagnan do Sile se acompanha
Se trama o laço que fará cativo
51 Quem mostra no perder soberba estranha.

“Do ímpio Pastor procedimento esquivo
Há-de Feltro chorar, tal ribaldia
54 A Malta não levou nunca homem vivo.

“De enormes dimensões tonel seria,
Que o sangue recebesse de Ferrara,
57 Pesá-lo o esforço humano esgotaria,

“Em tal cópia o bom Padre o derramara
Em preito ao seu partido! Os dons malvados
60 Da terra sua a índole explicara.

“Espelhos no alto (Tronos são chamados)
A nós refletem quanto Deus indica:
63 Crê, pois, ora nos fatos revelados.” —

Calando-se Cunizza significa,
Ao giro seu anterior voltando,
66 Que em diverso cuidado imersa fica:

Aquele, a que aludira, rebrilhando,
Com preclaro esplendor, mostrou-se à vista.
69 Como ao sol rubi fino flamejando.

Alegria no céu fulgor aquista,
Como a nossa no riso se declara;
72 Mas os gestos no inferno a dor contrista.

“Deus vê tudo, e o teu ver nele se aclara” —
Falei — “ditoso espírito: patente
75 Te é sempre quanto o seu querer depara.

“Porque a voz tua, enlevo permanente
Do céu, de anjos no canto a sócia sendo,
78 Que em seis asas têm veste resplendente,

“Não satisfaz desejos, em que ardendo
Estou? Falara, sem mais ser rogado,
81 Se eu visse em ti bem como em mim stás vendo.” —

— “O maior vale de águas inundado”
— Desta arte a responder-me começava —
84 “Do mar, em torno à terra derramando,

“Opostas plagas, se estendendo, lava
Contra o sol, e assim faz meridiano
87 Esse horizonte, em que primeiro estava.

“Nessa parte do val mediterrano
Nasci, entre Ebro e Macra, que separa
90 Do domínio de Gênova o Toscano.

“Quase um meridiano se depara
Para Bugia e o ninho meu querido:
93 Sangue dos seus seu porto avermelhara.

“Chamei-me Folco e assim fui conhecido:
Este céu da luz minha é penetrado
96 Como eu fora da sua possuído;

“Pois Dido, que ciúmes há causado
A Creusa e a Siquei, não mais ardera
99 Do que eu, enquanto à idade me foi dado;

“Nem Rodópea infeliz, a quem perdera
Demofonte; nem Hércules outrora,
102 Que o coração a Iole oferecera.

“Não há remorso aqui; folga-se agora,
Não pela culpa, já no esquecimento,
105 Pela Virtude, cuja lei se adora.

“Arte aqui se contempla, em que portento
Tão alto brilha; e o Bem se patenteia,
108 Que influir faz na terra o firmamento.

“Para ser a medida toda cheia
Dos teus desejos, nados nesta esfera,
111 Do meu discurso inda prossegue a teia.

“Ora queres saber a luz quem era,
Que aí perto de mim tanto cintila,
114 Como o sol, que na linfa reverbera.

“Sabe, pois, que ali vês leda e tranqüila
Raab: à nossa ordem reunida
117 Em grau superior clara rutila.

“Foi neste céu, que a sombra procedida
Da terra não alcança, em triunfando
120 Jesus Cristo, a primeira recebida.

“Devia dar-lhe um céu por palma, quando
Assinalar lhe aprouve a alta vitória,
123 Que na Cruz teve, as palmas entregando;

“Pois que por ela começara a glória,
Que colheu Josué na Terra Santa,
126 Que se apagou do Papa na memória.

“A tua pátria, que foi daquele a planta,
Que ao Criador revel primeiro há sido
129 E causou pela inveja aflição tanta,

“Tem flor maldiçoada produzido,
Que, ovelhas e cordeiros transviando,
132 Traz o pastor em lobo convertido.

“O Evangelho, por ela, abandonado
E os Doutores, às páginas usadas
135 Das Decretais stão muitos se aplicando.

“O Papa e os Cardeais, nisto engolfadas
Tendo as idéias, Nazaré esquecem,
138 Que viu do Arcanjo as asas desdobradas.

“Mas Vaticano e os sítios que enobrecem
A Roma e têm sido o cemitério
Dos que, fiéis a Pedro, lhe obedecem,

142 Livres serão em breve do adultério.” —

 

25-28. Nessa parte, etc., a Marca Trevisana. — 26. Rialto, Veneza — 28. Colina, onde está situado o castelo da família de Ezzelino de Romano. — 32. Cunizza, irmã de Ezzelino III, mulher de fama duvidosa pela sua vida livre, morta em Florença, onde talvez se penitenciou. — 37. Da luz etc., é a alma de Folco de Marselha, trovador e poeta. — 44. Os que etc., os habitantes da Marca Trevisana. — 51. Quem mostra no perder etc., Ricardo de Camino, senhor de Treviso, que foi morto traiçoeiramente pelos seus inimigos. — 52-54. Do ímpio Pastor etc., Alexandre Novello, bispo de Feltre entregou ao Papa, em 1314, vários gibelinos de Ferrara, que foram condenados à morte. — 67. Aquele, Folco. — 88-89. Nessa parte etc., Marselha onde Folco morou. — 97. Dido, rainha de Cartago, amando Enéias, ofendeu a Creusa, mulher de Enéias e ao seu marido Siqueu. — 100. Rodópea, matou-se ao ser abandonada por Demofonte. — 102. Iole, amante de Hércules, que, por ciúme, foi morto, por Dejanira. — 116. Raab, meretriz de Jericó, escondeu os espiões que Josué havia mandado a Jericó, facilitando a queda da cidade e, por isso, foi salva da morte, depois da vitória dos hebreus. — 118. Neste céu etc., segundo Tolomeu a sombra da Terra se projetava até o limite de Vênus. — 126. Que se apagou do Papa na memória, o Papa não se interessa pela Terra Santa, que está sob o domínio dos Sarracenos. — 127. A tua pátria etc., Florença teve origem demoníaca. — 130. Flor maldiçoada, o dinheiro, o florim de ouro de Florença. — 135. Decretais, os livros das leis canônicas, que asseguravam vantagens aos eclesiásticos.

 


CANTO X

 

Depois de admirar a infinita sabedoria de Deus na criação do Universo, narra o Poeta como sem aperceber-se achou-se elevado ao Sol, em que estão as almas dos doutos na teologia. Doze espíritos mais reluzentes o circundam e um deles, S. Tomás de Aquino, revela o nome dos seus companheiros.

 

O PODER inefável e primeiro,
O Filho a contemplar co’ Amor sublime,
3 De um e outro, eternal, vindo o terceiro,

Quanto à vista e à razão nossa se exprime
Com tal ordem criou, que, o efeito vendo,
6 De adorar seu Autor ninguém se exime.

As esferas, leitor, olhos erguendo
Nota a parte, onde estão dois movimentos
9 Um para o outro oposição fazendo.

E começa a mirar de arte os portentos,
Que tanto dentro em si o senhor ama,
12 Que lhes tem sempre os olhos seus atentos.

Vê como desse ponto se derrama
Em linha oblíqua, o círc’lo, que transporta
15 Os planetas que o mundo aguarda e chama.

Se lhes assim, não fosse a estrada torta,
Muita força no céu fora perdida
18 E aqui potência quase toda morta.

Se fora essa vereda preterida
Mais ou menos, ficara transtornada
21 A ordem no universo estatuída.

Ora leitor, meditação pausada
Faz de quanto comigo prelibaste:
24 Leda a mente hás de ter, não saciada.

Dou-te iguaria: come, pois, se praz-te.
A matéria, em que escrevo, não consente,
27 Nem por instantes, que a atenção se afaste.

Da natura o ministro mais potente
Que a influência do céu na terra imprime
30 E o tempo mede com sua luz fulgente,

À parte, que outro verso acima exprime,
Se unindo, para o ponto se volvia,
33 Onde mais cedo as trevas nos dirime.

Já no seu seio estava e o não sabia,
Como não pode alguém seu pensamento
36 Saber, quando inda à mente não surgia.

E Beatriz, em quem notava aumento
De bem para melhor, tão de repente,
39 Que o tempo fora ante o seu ato lento,

De si mesma quanto era refulgente!
O que era lá no sol onde eu me entrara,
42 Não por cor, por seu brilho mais nitente,

Posto que arte, uso, engenho me ajudara
Descrever por imagens não pudera;
45 Mas crer se pode e ver-se desejara.

Não se estranhe, se baixa parecera,
Querendo a tanto alar-se, a fantasia;
48 Além do sol ninguém olhos erguera.

Quarta família aqui resplandecia
Do Sumo Pai, que sempre da Trindade
51 No inefável spetáculo a sacia.

E disse Beatriz: — “Tanta Bondade
Humilde ao Sol dos anjos agradece,
54 Que ao sol sensível te alça à claridade.” —

Peito mortal jamais ardor aquece
De sentir tão devoto e tão piedoso,
57 Que a Deus a gratidão inteira expresse,

Quanto é meu ao convite carinhoso.
E em tanto enlevo o coração se acende,
60 Que a Beatriz olvida, fervoroso.

Não lhe despraz, e no seu riso esplende
Tanto brilho dos olhos expressivos,
63 Que do êxtase profundo me desprende.

Fulgores então vi claros e vivos,
De nós centro de si c’roa fazendo,
66 Mais suaves em voz que em luz ativos.

A filha de Latona se movendo
Vemos assim de um cinto rodeada,
69 No ar úmido as cores, se mantendo.

Dos céus a corte, donde volto, ornada
De jóias stá sublimes e formosas:
72 Só nos céus pode a estima lhes ser dada.

As vozes eram tais, que ouvi donosas.
Quem não tem plumas para ir lá voando
75 Pergunte a um mudo cousas portentosas.

Aqueles sóis, em torno a nós cantando,
Volveram-se três vezes: semelharam
78 Astros em roda aos pólos circulando.

Damas imitam, que no baile param,
Em silêncio outras notas esperando
81 Para seguir na dança que encetaram.

E uma voz do seu seio disse: — “Quando
Da Graça o raio em que o amor se acende
84 Sublime, pelo amor se acrescentando,

“Multiplicado em ti tanto resplende,
Que te conduz pela celeste escada,
87 Que a subir torna quem de lá descende,

“O que à sede em que tens a alma abrasada
Vinho negasse, irmão, livre não fora,
90 Qual linfa de correr embaraçada.

“Saber desejas como a c’roa enflora,
Que cinge, contemplando-a a pulcra Dama,
93 Que para o céu te guia protetora.

“Um anho fui da santa grei que chama
De Domingos a voz pelo caminho,
96 Onde prospera só quem mal não trama.

“Tomás de Aquino sou; me está vizinho,
À destra de Colônia o grande Alberto
99 A quem de aluno e irmão devo o carinho.

“Se dos mais todos ser desejas certo,
Na santa c’roa atenta cuidadoso,
102 A tua vista a voz siga-me perto.

“Nesse esplendor sorri-se jubiloso
Graciano que num e noutro foro
105 Di’no se fez de ser no céu ditoso.

“Aquele outro ornamento deste coro
Foi Pedro: como a pobre a of’renda escassa,
108 À Santa Igreja deu rico tesouro.

“A quinta luz, que as mais em lustro passa
Se acende em tanta luz, que anela o mundo
111 Saber se goza da celeste Graça.

“O alto esp’rito encerra, tão profundo,
Que se o Verbo de Deus é verdadeiro,
114 De saber tanto não se alçou segundo.

“Ao lado seu lampeja esse luzeiro,
Que os anjos, seu mister, sua natura
117 Em conhecer na terra foi primeiro.

“Sorri na luz menor, serena e pura,
Dos séculos cristãos esse advogado
120 De Agostinho tão útil à escritura.

“Se os olhos da tua mente acompanhado
De luz em luz me tens nestes louvores
123 Saber já tens da oitava desejado.

“Do Sumo Bem se enleva nos fulgores
Essa alma santa, havendo demonstrado
126 As mentiras do mundo e os seus rigores;

“Jaz daquela alma o corpo despojado
Em Cieldauro; e ela veio à paz divina
129 Após martírio e exílio amargurado.

“Mais longe, em cada flama purpurina,
Beda, Isidoro estão, Ricardo esplende,
132 Que além do humano o pensamento afina.

“Esse, de quem tua vista se desprende
A mim tornando, achou, grave e prudente,
135 Que morte pronta um grande bem compreende:

“É Siger, que assim luz eternamente.
Na rua de Fouare lera outrora
138 Verdades, que ódio hão provocado ingente.” —

E qual relógio, que nos chama em hora,
Em que, desperta, do Senhor a Esposa
141 Matinas canta e o seu amor implora;

Que, no girar das rodas, tão donosa
Nota faz retinir, de amor enchendo
144 Devota alma, que o escuta fervorosa;

O glorioso círc’lo, se movendo,
Assim vi eu, com tal suavidade
E doçura de vozes, que comprendo

148 Só haja iguais do céu na eternidade.

 

49. Quarta família, as almas que estão no Sol, que é o quarto Céu. — 67. A filha de Latona, Diana ou a lua. — 97. Tomás de Aquino, Santo teólogo (1225-1274). — 98. De Colônia o grande Alberto, o célebre teólogo Alberto Magno. — 104. Graciano, de Chiusi, em Toscana, escreveu no século XII um volume de Cânones eclesiásticos, que foi chamado o Decreto de Graciano. — 107. Pedro, Pedro Lombardo, bispo de Paris, morto em 1164 que, ao oferecer à Igreja o seu livro “Sentenciaram” comparava-se à viúva do Evangelho de S. Lucas, XXI. — 109. A quinta luz, o sapiente rei Salomão, filho de Davi. — 115-117. Esse luzeiro etc. Dionísio Aereopagita, que escreveu uma obra “De Coelesti Hierarchia.” — 119-120. Esse advogado etc., Paulo Orósio, que, aconselhado por Santo Agostinho, escreveu a História, em defesa da religião cristã. — 125-128. Essa alma santa etc. Severino Boécio, autor do livro “De consolatione philosophiae”, aprisionado e, depois, morto por Teodorico em 524. — 131. Beda, bispo inglês, Ricardo, padre de Escócia, Isidoro, S. Isidoro de Sevilha, os três doutos teólogos. — 136. Siger de Brabante, professor de teologia na Universidade de Paris no século XIII, a qual tinha a sua sede na Rua Fouare.

 


CANTO XI

 

Dante elogia a vida contemplativa.As palavras proferidas no canto anterior por S. Tomás criam duas dúvidas no ânimo do poeta. O santo, tratando de resolver a primeira, esboça a vida de S. Francisco de Assis.

 

Ó DOS mortais aspirações erradas!
Em que falsas razões vos enlevando
3 Tendes à terra as asas cativadas!

Qual seguia o direito; qual buscando
Já aforismos; qual o sacerdócio;
6 Qual reinava, sofisma ou força usando;

Qual roubo amava, qual civil negócio;
Qual, a salaz deleite entregue a vida,
9 Afanava-se; qual passava no ócio;

Enquanto eu, livre da terrena lida,
Ao céu com Beatriz me alevantava,
12 Aceito lá com glória tão subida.

Cada alma santa ao ponto já tornava
Do círculo em que de antes demorara;
15 E como círio em candelabro estava.

Então da luz, que de antes me falara
Voz suave escutei; e assim dizendo
18 Do seu brilho a pureza se aumentara:

— “O lume eterno, em que me inspiro e acendo,
Eu, contemplando, claramente leio
21 Teu pensamento e a origem lhe compreendo.

“Desejas tu, da dúvida no enleio,
Que eu aproprie da tua mente à esfera
24 O que dizer-te, há pouco, me conveio.

“Eu te disse — caminho onde prospera —
— De saber tanto não se alçou segundo: —
27 Aqui é, pois, que a explicação te espera.

“A Providência, que governa o mundo
Com tão sábio conselho, que, torvada
30 Sente a vista quem quer sondar-lhe o fundo.

“Por ser ao seu dileto encaminhada
Casta Esposa daquele, que alto grito,
33 Desposando-a, soltou na Cruz Sagrada,

“Com ânimo mais forte e à fé restrito,
Dois príncipes, lhe deu, que, em seu desvelo,
36 O caminho mostrassem-lhe bendito.

“Um seráfico foi no ardor do zelo,
Outro ostentou, por seu saber na terra,
39 De querúbica luz esplendor belo.

“De um só te falarei; pois num se encerra
O que de outros aos louvores mais se estende:
42 Quem der aos dois o mesmo fim não erra.

“Entre Tupino e o rio, que descende
Do outeiro, que escolhera santo Ubaldo,
45 Fértil encosta de alto monte pende.

“Dali baixa a Perúgia o frio e o caldo
Pela porta do Sol; atrás padece
48 Em duro jugo Nócera com Gualdo.

“Onde o declive menos agro desce
Nasceu ao mundo um sol tão luminoso,
51 Como o que ao Gange às vezes esclarece.

“Desse lugar quem fale portentoso
Não diga Assis, que pouco declarara:
54 Chame Oriente o berço glorioso.

“Do nascente este sol pouco distara,
Quando o conforto a receber a terra
57 Já das virtudes suas começara.

“Contra seu pai, adolescente, em guerra
Entrou por dama, a quem bem como à morte,
60 Ninguém a porta com prazer descerra.

“Então da Igreja a recebeu na corte,
E coram patre, por esposa amada
63 E amor votou-lhe cada vez mais forte.

“Vivera ela viúva e desprezada
Séculos onze e mais, e de outro amante,
66 Senão deste, não fora requestada;

“Em vão se disse que no lar, constante,
De Amiclas a encontrou esse guerreiro,
69 De quem tremera o mundo titubante;

“Em vão fiel, de coração inteiro,
Quando Maria ao pé da Cruz ficara,
72 Com Cristo ela subira-se ao madeiro.

“Para fazer minha linguagem clara,
Em suma, o nome sabe dos amantes:
75 Com pobreza Francisco se casara.

“Dos dois santa união, ledos semblantes,
Seu terno olhar e afeito milagroso
78 Dão a todos lições edificantes.

“Aquela paz anela cobiçoso
Venerável Bernardo que, primeiro,
81 Descalço corre e crê ser vagaroso.

“Riqueza inota! Ó Bem só verdadeiro!
Descalço vai Egídio, vai Silvestre,
84 Porque amam-na, do esposo no carreiro.

“Dali se parte aquele pai e mestre
Com terna esposa e com família santa
87 Que de corda o burel cinge campestre.

“Não baixa os olhos, nem se torna e espanta
Por filho ser de Bernardone obscuro,
90 Nem por sofrer desdém em cópia tanta.

“Mas afouto mostrou o intento duro
A Inocêncio de quem primeiro obteve
93 Assenso ao regimento austero e puro.

“E quando a pobre grei progresso teve,
Após aquele, a cuja heróica vida
96 Melhor no céu louvor de anjos se deve,

“Foi a c’roa segunda concedida
Por Honório, que o Santo Espírito alenta
99 Daquele arquimandrita a santa lida.

“Em breve a sede do martírio o tenta,
E do Soldão soberbo na presença
102 Cristo anuncia e a lei que o representa.

“Vendo rebelde o povo à nova crença.
Por não ficar seu zelo sem proveito
105 Da Itália volta para a messe extensa.

“Na dura penha, que se interpõe ao leito
Do Tibre e do Arno, o derradeiro selo
108 Cristo lhe pôs: dois anos dura o efeito.

Quando a Deus, que a bem tanto quis movê-lo,
O prêmio prouve dar-lhe merecido,
111 Na humildade cristã por seu desvelo,

“Essa esposa, que amara estremecido,
Aos irmãos confiou por justa herança,
114 Para afeto lhe terem sempre fido.

“Do seio da pobreza então se lança,
Tornando ao reino seu, a alma preclara:
117 Nesse jazigo o corpo seu descansa.

“Pensa, pois, o que foi quem Deus julgara
Di’no após ele, de reger a barca
120 Que Pedro, no alto mar encaminhara.

“Coube a tarefa ao nosso patriarca:
Quem, fiel, aos preceitos lhe obedece,
123 Sabe tesouros arrecadar na arca.

“Sua grei novo pascigo apetece,
E tanto é dos desejos impelida,
126 Que em diferentes campos aparece.

“Quanto mais cada ovelha é seduzida
Do mundo pelo pérfido atrativo,
129 Tanto mais ao redil volta inanida.

“Poucas temendo o lance decisivo,
Acolhem-se ao pastor: escasso pano
132 É já para vesti-las excessivo.

“Se claro te falei, livre de engano,
Se tens estado ao que te digo atento,
135 Se da memória não receias dano,

“Ao teu desejo, em parte, dei contento,
Pois da planta bem vês qual seja a rama;
E o corretivo está neste argumento:

139 Onde prospera só quem mal não trama.”

 

25. Eu te disse etc. V. Canto X, v. 95-96 e 114. — 37. Um seráfico etc., S. Francisco de Assis. — 38. Outro ostentou etc., São Domingos. — 43-48. Entre Tupino etc., descreve a situação geográfica da cidade de Assis, na qual S. Francisco nasceu. — 59. Dama a quem etc., a pobreza. — 64-66. Viúva e desprezada etc., o primeiro esposo da Pobreza foi Jesus e, por isso, ficou viúva mais de onze séculos. — 68. Amiclas, Júlio César ficou admirado pela alegre pobreza do pescador Amiclas (V. Lucano, Farsálias V, 519). — 80. Bernardo, primeiro companheiro de S. Francisco. — 83. Egídio e Silvestre, companheiros de S. Francisco. — 89. Bernardone, Pietro Bernardone, pai de S. Francisco. — 92. Inocêncio III, papa que deu autorização à Ordem Franciscana, em 1214. — 98. Honório III, que em 1223, pela segunda vez, aprovou a Ordem de S. Francisco. — 99. Arquimandrita, pastor. — 100-105. Em breve etc., S. Francisco em 1219 esteve no Egito tentando converter os infiéis, mas voltou logo para a Itália. — 106-108. Na dura penha etc., no monte Alvérnia, no Casentino, S. Francisco recebeu os estigmas de Jesus crucificado e os manteve dois anos, pois depois de dois anos morreu.

 


CANTO XII

 

Acabando S. Tomás de falar, ajunta-se à primeira coroa de doze espíritos resplendentes, mais uma coroa de igual número de espíritos. Um destes, S. Boaventura, franciscano, tece louvores a S. Domingos. Depois dá notícia acerca dos seus companheiros.

 

QUANDO o lume bendito proferira
Do discurso a palavra derradeira,
3 A coréia, como eu já a vira,

Inda uma volta não fizera inteira,
Logo outra turma em círculo a encerrava
6 Em voz acordes ambas e em carreira.

Essa harmonia tanto superava
Das Musas e sereias a cadência,
9 Quanto ao reflexo a luz que rutilava.

Como arcos dois das nuvens na aparência
Curvam-se iguais na cor e equidistantes,
12 Se de Íris Juno exige diligência,

Nascendo um do outro, em forma semelhantes,
Qual voz da que de amor foi consumida
15 Como do sol as névoas alvejantes,

E crer fazendo que há de ser mantida
A promessa, a Noé por Deus firmada,
18 De não ser mais a terra submergida:

Assim de nós em torno ia agitada
Cada grinalda das perpétuas rosas,
21 Uma com outra em tudo conformada.

Tanto que a dança e festa jubilosas,
Por cantos e esplendores flamejantes
24 Dessas luzes suaves e amorosas,

Quedar eu vi nas rotações brilhantes,
Quais olhos, juntamente ao nosso grado,
27 Se abrindo e se fechando vigilantes,

De um dos novos clarões voz, que, enlevado,
Volver-me para si fez de repente,
30 Qual à estrela polar ímã voltado:

— “Amor” — diz — “que a beleza dá-me ingente
Me induz a te falar do Mestre Santo,
33 Que ao meu foi de louvor causa eminente.

“Um se memore onde outro bilha tanto:
Sob a mesma bandeira hão militado;
36 Brilha a glória dos dois também no canto.

De Cristo, a tanto custo restaurado,
O exército o estandarte seu seguia,
39 Já raro, lento, de temor tomado,

“Quando à milícia, que o valor perdia
O Eterno Imperador deu provimento,
42 Só por Graça: esse bem não merecia;

“E da Esposa enviou por salvamento
Dois campeões, de cuja voz movida,
45 A transviada gente cobra o alento.

“Na terra, em que, ao seu hábito, convida
O Zéfiro a se abrirem novas flores,
48 De que se vê a Europa revestida,

“Em plaga, onde se embate em seus furores
O mar, em que, o seu curso terminado,
51 O sol esconde às vezes seus ardores,

“Jaz Calaroga em solo afortunado,
Que o poderoso escudo protegera,
54 No qual leão subjuga e é subjugado.

“Ali o atleta heróico à luz viera,
Da fé cristã esse indefesso amante,
57 Que, aos seus beni’no, aos maus guerra fizera.

“Foi virtude em sua alma tão possante,
Que, ainda estando no materno seio,
60 Do porvir fez a mãe vaticinante.

“Quando a firmar-se o desposório veio
Entre ele e a Fé, na fonte consagrada,
63 De muita salvação seguro meio,

“De dar pôr ele o assento a encarregada
A messe viu em sonhos milagrosa,
66 Que dele e herdeiros seus era esparada.

“Do seu destino em prova portentosa,
Anjo baixou ao fim só de chamá-lo
69 Do Senhor de quem era a alma piedosa.

“Domínico foi dito e eu dele falo,
Como o operário, que elegera Cristo,
72 Da vinha no lavor para ajudá-lo.

“Servo e enviado mostrou ser de Cristo
Por quanto o amor primeiro, que há mostrado,
75 Foi a primeira lei que nos deu Cristo.

“Muitas vezes a mãe o achou prostrado,
Em profundo silêncio e bem desperto,
78 Como a dizer: — A isto eu fui mandado.

“Oh! foi seu genitor feliz por certo!
Oh! sua mãe realmente foi Joana
81 Se há no sentido que lhe dão, acerto!

“Não pelo amor do mundo, que se engana,
Do Ostiense e Tadeu nos livros lendo,
84 Mas de Jesus pelo maná se afana,

“Sapiente doutor em breve sendo,
Da santa vinha guarda vigilante,
87 Que presto seca, pouco zelo havendo.

“De Roma à sede quando foi perante,
Que aos justos era compassiva outrora,
90 Hoje, por culpa do que a rege, errante,

“Onzenárias dispensas não lhe implora,
Nem primeira prebenda, que vagasse,
93 Nem dízimas, que são do pobre, exora.

“Mas contra o mundo, que no qual compraz-se,
Pede o favor de defender a planta,
96 Da qual tens flores vinte e quatro em face.

“Com seu querer e com doutrina santa,
Como a torrente, que da altura desce,
99 De apóstolo por zelo o mundo espanta.

“Dos hereges se arroja à infanda messe,
E onde a resistência mais porfia
102 Das forças suas o ímpeto recresce.

Dele brotaram rios, que hoje em dia
Têm o jardim católico regado
105 E aos seus arbustos dão viço e valia.

“Se tal foi uma roda do afamado
Carro, em que defendeu-se a Santa Igreja,
108 E a civil guerra em campo há superado,

“Da outra o alto mérito qual seja
Já te disse Tomás, eu stando ausente:
111 Dele nas vozes seu louvor lampeja.

“Porém daquela roda o sulco ingente
Ficou em desamparo tal, que o lodo
114 Onde era a flor domina tristemente.

“Vê-se a família sua por tal modo
Da vereda de outrora transviada,
117 Que esqueceu-lhe as pegadas já de todo.

“Logo a cultura má será provada
Na seara, zizânia sendo ao vento,
120 Em vez de ir ao celeiro, arremessada.

“Que nosso livro folheasse atento
Veria, creio, página, em que lesse:
123 — Sou, como sempre, de impureza isento. —

“Em Casal e Água-Sparta igual não vê-se:
Lá de tal jeito entende-se a Escritura,
126 Que um tíbio a foge, outro excessivo a empece.

“De Bargnoregio eu sou Boaventura,
Que, exercendo altos cargos, repelia
129 Dos interesses temporais a cura.

“Vê, dos irmãos descalços primazia,
Iluminato, de Agostinho ao lado:
132 Cada qual no burel por Deus ardia.

“Hugo vê de S. Vítor premiado
Como Pedro Mangiadore e Pedro Hispano
135 Pelos seus doze livros celebrado.

“Natã Profeta e o Metropolitano
João Crisóstomo, Anselmo e o afamado
138 Donato, na primeira arte sob’rano.

“Vê Rabano, a brilhar vê ao meu lado
O calabrês Abade Giovachino,
141 De espírito profético dotado.

“Aos louvores do excelso paladino
Moveu-me a caridosa cortesia,
O dizer sábio de Tomás de Aquino,

145 E comigo a esta santa companhia.”

 

12. Íris, personificação mitológica do arco-íris. — 14. Qual voz do que de amor foi consumida, como voz da ninfa Eco que se consumiu pelo amor por Narciso. — 28. Um dos novos clarões, a alma de S. Boaventura. — 46. Na terra etc., na Espanha. — 53-54. Escudo etc., o escudo dos reis da Castela representava dois leões, um debaixo e outro em cima de um castelo. — 64-66. A encarregada etc., quando do batismo de S. Domingos, a madrinha o viu com uma estrela na testa. — 80. Sua mãe realmente foi Joana. Joana em hebraico tem o significado de “portadora de graças.” — 83. Ostiense, o cardeal Henrique de Susa, que comentou os “Decretais”; Tadeu Aldreotti, florentino, médico; ou, segundo outros comentadores, Tadeu dei Pepoli, jurista bolonhês. — 90. Por culpa etc., de Bonifácio VIII. — 95-96. A planta etc., a fé, de que se alimentaram os espíritos dos vinte e quatro teólogos que estão na presença de Dante. — 124-126. Em Casal e Agua-Sparta, alude à divisão dos franciscanos em dois partidos, um chefiado por libertino de Casale e outro por Mateus d’Acquesparta. — 131. Iluminato e Agostinho, dois companheiros de S. Francisco. — 133-135. Hugo de S. Vitore, Pedro Mangiatore e Pedro Hispano, egrégios teólogos. — 136-139. Natã, o profeta que repreendeu Davi; S. João Crisóstomo, patriarca da Igreja; Donato, gramático latino; S. Anselmo, bispo de Canterbury. — 139-140. Rabano e o abade Giovachino, escritores sacros.


CANTO XIII

 

O Poeta descreve a dança das duas coroas de espíritos celestes. S. Tomás resolve a segunda dúvida de Dante. Adão e Jesus Cristo são seres perfeitíssimos, por serem obra imediata de Deus. Mas ele não pode ser comparado nem a Adão nem a Jesus Cristo. Conclui o Santo advertindo do perigo dos juízos precipitados, e de quanto é sujeito a enganar-se quem julga das coisas pelas aparências.

 

O QUE hei visto e refiro quem deseja
Entender, imagine, (e bem sculpida,
3 Como em rocha, na mente a imagem seja)

Quinze estrelas, que luz tanta espargida
Tem por celestes regiões dif’rentes,
6 Que é do ar a espessura esclarecida,

Da carroça imagine as refulgentes
Rodas, sempre girando, noite e dia,
9 Pelos espaços do céu nosso ingentes;

Da trompa a boca mostre a fantasia,
Que lá no extremo do axe, ao qual a esfera
12 Primeira contorneia, principia.

Se em signos dois tais astros considera,
Iguais à c’roa que no céu fulgura,
15 Dês que Ariadne à morte se rendera;

E, os raios misturando da luz pura,
Para lados contrários se movendo
18 Aqueles círc’los dois na etérea altura:

Imagine, mas quase a sombra tendo
Dos versos astros, dessa dupla dança,
21 Que em torno a nós estava se volvendo.

Que a verdade essa imagem tanto alcança,
Quanto a Chiana a rapidez imita
24 Do céu, que a todos os mais céus se avança.

Nem Pean cantam, nem de Baco a grita;
Mas Três Pessoas com divina essência
27 E numa o humano ser, que a Deus se adita.

Os hinos tendo e a dança intermitência
Em nós os santos lumes se fitaram;
30 Compraz-lhes dos cuidados a seqüência.

O silêncio que os coros dois formaram,
As vozes rompem, que a espantosa vida
33 Do mendigo de Deus me recontaram.

— “Quando a palha é do trigo dividida,
Quando a colheita fica enceleirada,
36 A bater outra doce Amor convida.

“Crês que ao peito onde a costa foi tirada
Para a boca gentil formar motivo
39 Da pena ao mundo inteiro fulminada,

“E ao da aguda lança o golpe esquivo
Padeceu e a balança, em morte e vida,
42 Da culpa alçou com peso decisivo,

“Quanta ciência aos homens permitida
Ser poderia pela mão divina,
45 Que um e outro criou, fora infundida.

“Tua mente, pois, a dúvidas se inclina
Me ouvindo que em ciência sem segundo
48 Subira quem a luz quinta domina.

“Olhos abre à razão, em que me fundo:
Como teu crer confundida tens de vê-la
51 Na verdade, qual centro num rotundo.

“O que não morre, o que por morte gela
É só splendor da Idéia, que, nascendo
54 Do Senhor nosso, o seu amor revela;

“Por quanto essa luz viva, procedendo
Do foco seu, do qual se não desune,
57 Nem do Amor, que o terceiro fica sendo,

“Só por Bondade sua, o fulgor une,
Como em spêlho, em céus nove, e o concentrando,
60 Tem a unidade eternalmente imune.

“As últimas potências se abaixando,
Já de ato em ato enfraquecida fica,
63 As breves contigências vai formando.

Contigências palavra é que te indica
Essas cousas, que o céu, no movimento,
66