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O MULATO
Aluísio Azevedo

O Mulato [1881]
Aluísio Azevedo [1857-1913]

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Departamento Nacional do Livro
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Capa:
Mercado de Escravos – Rugendas

Copyright:
© Domínio Público


Índice

Nota Informativa
Maria Cristina Gioseffi
O Autor
O MULATO
Capítulo   1
Capítulo   2
Capítulo   3
Capítulo   4
Capítulo   5
Capítulo   6
Capítulo   7
Capítulo   8
Capítulo   9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19


O MULATO
Aluísio de Azevedo

Nota Informativa

          Aluísio Tancredo Gonçalves de Azevedo nasceu no Maranhão a 14 de abril de 1857, vindo a demonstrar muito cedo a vocação para as letras. Ainda jovem, lê muito, colabora nos jornais com versos e desenhos, ensina português. Aos 19 anos transfere-se para o Rio de Janeiro, onde seu irmão, Artur Azevedo, encontrava-se já cercado de grande êxito.
          Aluísio Azevedo chega ao Rio com o propósito de se aperfeiçoar em desenho e pintura; trabalha como caricaturista para vários jornais; estuda durante um ano na Escola de Belas-Artes e luta com grande dificuldade na corte. Em 1879, com o falecimento do pai, retorna ao Maranhão. Entre 1880 e 1881, milita contra o clero e os jornais católicos na imprensa de São Luís – principalmente nos periódicos A Pacotilha e O Pensador. Esta militância de certa forma influenciará a escritura da obra O mulato.
          Em O mulato, publicado no ano de 1881, Aluísio Azevedo deixa marcado, pela ambiência e cenário da obra, o preconceito racial maranhense, além de demonstrar os abusos eclesiásticos que se escondiam, como por salvo-conduto, na batina e na suposta santidade de um homem por ter-se tornado um padre. O fato de retratar as contradições e intolerâncias maranhenses explica por que a obra foi recebida de maneira entusiástica pela crítica literária na corte e nas províncias e renegada no Maranhão.
          O mulato consagra também a escrita naturalista de Aluísio Azevedo, situando o autor como o maior representante deste estilo no Brasil. Pode-se dizer que a escrita naturalista impressa na obra inaugura uma nova fase para a literatura brasileira, libertando-a, como solução, dos impasses trazidos pelo Romantismo.
          Ao ler o livro de Azevedo, exuberante pela crueza naturalista, pode-se “sentir” a dor desesperada de um homem cujo único desvio de caráter foi ter nascido mulato. Raimundo, homem culto e rico, formado na Europa e acostumado às liberdades e refinamentos que somente a vida instruída pode trazer, descobre, ao retornar à pátria, a impossibilidade de realizar uma paixão pelas amarras irremediáveis que as correntes sociais criaram diante da comprovação de sua ascendência negra: ele era filho de uma escrava! Raimundo tem, então, que suportar o peso da intolerância de uma sociedade em que o valor maior do ser humano era nascer branco... E nada do que fizesse ou alegasse faria mudar o preconceito entranhado naquelas pessoas. Diante de tão “irremediável” destino, resta ao autor entregar “seu” protagonista aos desígnios deterministas da marca naturalista...
          O cotejo desta obra baseou-se nas edições de 1973, publicada pela Ediouro (Clássicos brasileiros) e de 1975, editada pela Livraria Martins Editora S. A., INL (Instituto Nacional do Livro).

Maria Cristina Gioseffi


O Autor

Aluísio Azevedo

NOME LITERÁRIO: AZEVEDO, Aluísio
NOME COMPLETO: AZEVEDO, A. Tancredo Gonçalves de
PSEUDÔNIMO: Pitribi; Luinho; Gerofle; Semicúpio dos Lampiões; Acropolio; Vitor Leal (assinava este junto com Olavo Bilac, Coelho Neto e Pardal Mallet); Rui Vaz; Aliz-Alaz; Asmodeu.
NASCIMENTO: São Luiz, MA, 14 de abril de 1857.
FALECIMENTO: Buenos Aires, Argentina, 21 de janeiro de 1913.

BIOGRAFIA:

          Em 1875, trabalha como caixeiro. Nesta época colabora em jornais com versos e desenhos e ensina português. A convite do irmão, o comediógrafo Artur Azevedo, embarca para o Rio de Janeiro, trabalhando como caricaturista nas redações de jornais políticos e humorísticos. Lá, cursa a Imperial Academia de Belas Artes. Com o falecimento do pai em 1878, retorna ao Maranhão, onde colabora na imprensa. Foi um dos fundadores do jornal O Pensador. Volta ao Rio de Janeiro em 1882, militando ativamente na imprensa. Em 1891, é nomeado Oficial-Maior da Secretaria de Negócios do Governo do Estado do Rio. Em 1895, fez concursos na Secretaria do Exterior para cônsul, sendo nomeado vice-cônsul, em Vigo, em 1895. Desde então, não mais publicou um livro, vendendo sua propriedade literária a H. Garnier. Em 1910, foi promovido a cônsul de primeira classe. Em 1911, sem prejuízo das funções consulares foi transferido para o posto de Adido Comercial junto às legações do Brasil na Argentina, Chile, Uruguai e Paraguai.


 

O Mulato

Aluísio Azevedo

 


1

          Era um dia abafadiço e aborrecido. A pobre cidade de São Luís do Maranhão parecia entorpecida pelo calor. Quase que se não podia sair à rua: as pedras escaldavam; as vidraças e os lampiões faiscavam ao sol como enormes diamantes, as paredes tinham reverberações de prata polida; as folhas das árvores nem se mexiam; as carroças d’água passavam ruidosamente a todo o instante, abalando os prédios; e os aguadeiros, em mangas de camisa e pernas arregaçadas, invadiam sem-cerimônia as casas para encher as banheiras e os potes. Em certos pontos não se encontrava viva alma na rua; tudo estava concentrado, adormecido; só os pretos faziam as compras para o jantar ou andavam no ganho.
          A Praça da Alegria apresentava um ar fúnebre. De um casebre miserável, de porta e janela, ouviam-se gemer os armadores enferrujados de uma rede e uma voz tísica e aflautada, de mulher, cantar em falsete a “gentil Carolina era bela”; do outro lado da praça, uma preta velha, vergada por imenso tabuleiro de madeira, sujo, seboso, cheio de sangue e coberto por uma nuvem de moscas, apregoava em tom muito arrastado e melancólico: “Fígado, rins e coração!”. Era uma vendedeira de fatos de boi. As crianças nuas, com as perninhas tortas pelo costume de cavalgar as ilhargas maternas, as cabeças avermelhadas pelo sol, a pele crestada os ventrezinhos amarelentos e crescidos, corriam e guinchavam, empinando papagaios de papel. Um ou outro branco, levado pela necessidade de sair, atravessava a rua, suado, vermelho, afogueado, à sombra de um enorme chapéu-de-sol. Os cães, estendidos pelas calçadas, tinham uivos que pareciam gemidos humanos, movimentos irascíveis, mordiam o ar querendo morder os mosquitos. Ao longe, para as bandas de São Pantaleão, ouvia-se apregoar: “Arroz de Veneza! Mangas! Mocajubas!” Às esquinas, nas quitandas vazias, fermentava um cheiro acre de sabão da terra e aguardente. O quitandeiro, assentado sobre o balcão, cochilava a sua preguiça morrinhenta, acariciando o seu imenso e espalmado pé descalço. Da Praia de Santo Antônio enchiam toda a cidade os sons invariáveis e monótonos de uma buzina, anunciando que os pescadores chegavam do mar; para lá convergiam, apressadas e cheias de interesse, as peixeiras, quase todas negras, muito gordas, o tabuleiro na cabeça, rebolando os grossos quadris trêmulos e as tetas opulentas.
          A Praia Grande e a Rua da Estrela contrastavam todavia com o resto da cidade, porque era aquela hora justamente a de maior movimento comercial. Em todas as direções cruzavam-se homens esbofados e rubros; cruzavam-se os negros no carreto e os caixeiros que estavam em serviço na rua; avultavam os paletós-sacos, de brim pardo, mosqueados nas espáduas e nos sovacos por grandes manchas de suor. Os corretores de escravos examinavam, à plena luz do sol, os negros e moleques que ali estavam para ser vendidos; revistavam-lhes os dentes, os pés e as virilhas; faziam-lhes perguntas sobre perguntas, batiam-lhes com a biqueira do chapéu nos ombros e nas coxas, experimentando-lhes o vigor da musculatura, como se estivessem a comprar cavalos. Na Casa da Praça, debaixo das amendoeiras, nas portadas dos armazéns, entre pilhas de caixões de cebolas e batatas portuguesas, discutiam-se o câmbio, o preço do algodão, a taxa do açúcar, a tarifa dos gêneros nacionais; volumosos comendadores resolviam negócios, faziam transações, perdiam, ganhavam, tratavam de embarrilar uns aos outros, com muita manha de gente de negócios, falando numa gíria só deles trocando chalaças pesadas, mas em plena confiança de amizade. Os leiloeiros cantavam em voz alta o preço das mercadorias, com um abrimento afetado de vogais; diziam: “Mal-rais” em vez de mil-réis. À porta dos leilões aglomeravam-se os que queriam comprar e os simples curiosos. Corria um quente e grosseiro zunzum de feira.
          O leiloeiro tinha piscos de olhos significativos; de martelo em punho, entusiasmado, o ar trágico, mostrava com o braço erguido um cálice de cachaça, ou, comicamente acocorado, esbrocava com o furador os paneiros de farinha e de milho. E, quando chegava a ocasião de ceder a fazenda, repetia o preço muitas vezes, gritando, e afinal batia o martelo com grande barulho, arrastando a voz em um tom cantado e estridente.
          Viam-se deslizar pela praça os imponentes e monstruosos abdomens dos capitalistas; viam-se cabeças escarlates e descabeladas, gotejando suor por debaixo do chapéu de pêlo; risinhos de proteção, bocas sem bigode dilatadas pelo calor, perninhas espertas e suadas na calça de brim de Hamburgo. E toda esta atividade, posto que um tanto fingida, era geral e comunicativa; até os ricos ociosos, que iam para ali encher o dia, e os caixeiros, que “faziam cera” e até os próprios vadios desempregados, aparentavam diligência e prontidão.
          A varanda do sobrado de Manuel Pescada, uma varanda larga e sem forro no teto, deixando ver as ripas e os caibros que sustentavam as telhas, tinha um aspecto mais ou menos pitoresco com a sua bela vista sobre o rio Bacanga e as suas rótulas pintadas de verde-paris. Toda ela abria para o quintal, estreito e longo, onde, à mingua de sol, se mirravam duas tristes pitangueiras e passeava solenemente um pavão da terra.
          As paredes, barradas de azulejos portugueses e, para o alto, cobertas de papel pintado, mostravam, nos seus desenhos repetidos de assuntos de caça, alguns lugares sem tinta, cujas manchas brancacentas traziam à idéia joelheiras de calças surradas. Ao lado, dominando a mesa de jantar, aprumava-se um velho armário de jacarandá polido, muito bem tratado, com as vidraças bem limpas, expondo as pratas e as porcelanas de gosto moderno; a um canto dormia, esquecida na sua caixa de pinho envernizado, uma máquina de costura de Wilson, das primeiras que chegaram ao Maranhão; nos intervalos das portas simetrizavam-se quatro estudos de Julien, representando em litografia as estações do ano; defronte do guarda-louça um relógio de corrente embalava melancolicamente a sua pêndula do tamanho de um prato e apontava para as duas horas. Duas horas da tarde.
          Não obstante, ainda permanecia sobre a mesa a louça que servira ao almoço. Uma garrafa branca, com uns restos de vinho de Lisboa cintilava à claridade reverberante que vinha do quintal. De uma gaiola, dependurada entre as janelas desse lado, chilreava um sabiá.
          Fazia preguiça estar ali. A viração do Bacanga refrescava o ar da varanda e dava ao ambiente um tom morno e aprazível. Havia a quietação dos dias inúteis, uma vontade lassa de fechar os olhos e esticar as pernas. Lá defronte, nas margens opostas do rio, a silenciosa vegetação do Anjo da Guarda estava a provocar boas sestas sobre o capim, debaixo das mangueiras; as árvores pareciam abrir de longe os braços, chamando a gente para a calma tepidez das suas sombras.
          — Então, Ana Rosa, que me respondes?... disse Manuel, esticando-se mais na cadeira em que se achava assentado, à cabeceira da mesa, em frente da filha. Bem sabes que te não contrario... desejo este casamento, desejo... mas, em primeiro lugar, convém saber se ele é do teu gosto... Vamos... fala!
          Ana Rosa não respondeu e continuou muito embebida, como estava, a rolar sob a ponta cor-de-rosa dos seus dedos as migalhas de pão que ia encontrando sobre a toalha.
          Manuel Pedro da Silva, mais conhecido por Manuel Pescada, era um português de uns cinqüenta anos, forte, vermelho e trabalhador. Diziam-no atilado para o comércio e amigo do Brasil. Gostava da sua leitura nas horas de descanso, assinava respeitosamente os jornais sérios da província e recebia alguns de Lisboa. Em pequeno meteram-lhe na cabeça vários trechos do Camões e não lhe esconderam de todo o nome de outros poetas. Prezava com fanatismo o Marquês de Pombal, de quem sabia muitas anedotas e tinha uma assinatura no Gabinete Português, a qual lhe aproveitava menos a ele do que à filha, que era perdida pelo romance.
          Manuel Pedro fora casado com uma senhora de Alcântara, chamada Mariana, muito virtuosa e, como a melhor parte das maranhenses, extremada em pontos de religião; quando morreu, deixou em legado seis escravos a Nossa Senhora do Carmo.
          Bem triste foi essa época, tanto para o viúvo como para a filha, orfanada; coitadinha, justamente quando mais precisava do amparo maternal. Nesse tempo moravam no Caminho Grande, numa casinha térrea, para onde a moléstia de Mariana os levara em busca de ares mais benignos; Manuel, porém, que era já então negociante e tinha o seu armazém na Praia Grande, mudou-se logo com a pequena para o sobrado da Rua da Estrela, em cujas lojas prosperava, havia dez anos, no comércio de fazendas por atacado.
          Para não ficar só com a filha “que se fazia uma mulher” convidou a sogra, D. Maria Bárbara, a abandonar o sítio em que vivia e ir morar com ele e mais a neta. “A menina precisava de alguém que a guiasse, que a conduzisse! Um homem nunca podia servir para essas coisas! E, se fosse a meter em casa uma preceptora – Meu bom Jesus! – que não diriam por ai?... No Maranhão falava-se de tudo! D. Maria Bárbara que se decidisse a deixar o mato e fosse de muda para a Rua da Estrela! Não teria que se arrepender... havia de estar como em sua própria casa – bom quarto, boa mesa, e plena liberdade!”
          A velha aceitou e lá foi, arrastando os seus cinqüenta e tantos anos, alojar-se em casa do genro, com um batalhão de moleques, suas crias, e com os cacaréus ainda do tempo do defunto marido. Em breve, porém, o bom português estava arrependido do passo que dera: D. Maria Bárbara, apesar de muito piedosa; apesar de não sair do quarto sem vir bem penteada, sem lhe faltar nenhum dos cachinhos de seda preta, com que ela emoldurava disparatadamente o rosto enrugado e macilento; apesar do seu grande fervor pela igreja e apesar das missas que papava por dia, D. Maria Bárbara, apesar de tudo isso, saíra-lhe “má dona de casa”.
          Era uma fúria! Uma víbora! Dava nos escravos por hábito e por gosto; só falava a gritar e, quando se punha a ralhar – Deus nos acuda! –, incomodava toda a vizinhança! Insuportável!
          Maria Bárbara tinha o verdadeiro tipo das velhas maranhenses criadas na fazenda. Tratava muito dos avós, quase todos portugueses; muito orgulhosa; muito cheia de escrúpulos de sangue. Quando falava nos pretos, dizia “Os sujos” e, quando se referia a um mulato dizia “O cabra”. Sempre fora assim e, como devota, não havia outra: Em Alcântara, tivera uma capela de Santa Bárbara e obrigava a sua escravatura a rezar aí todas as noites, em coro, de braços abertos, às vezes algemados. Lembrava-se com grandes suspiros do marido “do seu João Hipólito” um português fino, de olhos azuis e cabelos louros.
          Este João Hipólito foi brasileiro adotivo e chegou a fazer alguma posição oficial na secretaria do governo da província. Morreu com o posto de coronel.
          Maria Bárbara tinha grande admiração pelos portugueses, dedicava-lhes um entusiasmo sem limites, preferia-os em tudo aos brasileiros. Quando a filha foi pedida por Manuel Pedroso, então principiante no comércio da capital, ela dissera: “Bem! Ao menos tenho a certeza de que é branco!”

          Mas o Pescada não compreendeu a esposa, nem foi amado por ela; a virtude, ou talvez simplesmente a maternidade, apenas conseguiu fazer de Mariana uma companheira fiel; viveu exclusivamente para a filha. É que a desgraçada, desde os quinze anos, ainda no irresponsável arrebatamento do primeiro amor, havia eleito já o homem a quem sua alma teria de pertencer por toda a vida. Esse homem existe hoje na história do Maranhão, era o agitador José Cândido de Moraes e Silva conhecido popularmente pelo “Farol”. Fez todo o possível para casar com ele, mas foram baldados os seus esforços, nem só em virtude das perseguições políticas que, tão cedo, atribularam a curta existência daquela fenomenal criatura, como também pela inflexível oposição que tal idéia encontrou na própria família da rapariga.
          Entretanto, o destino dela se havia prendido à sorte do desventurado maranhense. Quem diria que aquela pobre moça, nascida e criada nos sertões do Norte, sentiria, como qualquer filha das grandes capitais, a mágica influência que os homens superiores exercem sobre o espírito feminino? Amou-o, sem saber por quê. Sentira-lhe a força dominadora do olhar, os ímpetos revolucionários do seu caráter americano, o heroísmo patriótico da sua individualidade tão superior ao meio em que floresceu; decorara-lhe as frases apaixonadas e vibrantes de indignação, com que ele fulminava os exploradores da sua pátria estremecida e os inimigos da integridade nacional; e tudo isso, sem que ela soubesse explicar, arrebatou-a para o belo e destemido moço com todo o ardor do seu primeiro desejo de mulher.
          Quando, na Rua dos Remédios, que nesse tempo era ainda um arrabalde, o desditoso herói, apenas com pouco mais de vinte e cinco anos de idade sucumbiu ao jugo do seu próprio talento e da sua honra política, oculto, foragido, cheio de miséria, odiado por uns como um assassino e adorado por outros como um deus, a pobre senhora deixou-se possuir de uma grande tristeza e foi enfraquecendo, e ficando doente, e ficando feia e cada vez mais triste, até morrer silenciosamente poucos anos depois do seu amado.
          Ana Rosa não chegou a conhecer o Farol; a mãe porém, muito em segredo, ensinara-lhe a compreender e respeitar a memória do talentoso revolucionário, cujo nome de guerra despertava ainda, entre os portugueses, a raiva antiga do motim de 7 de agosto de 1831. “Minha filha, disse-lhe a infeliz já nas vésperas da morte, não consintas nunca que te casem, sem que ames deveras o homem a ti destinado para marido. Não te cases no ar! Lembra-te que o casamento deve ser sempre a conseqüência de duas inclinações irresistíveis. A gente deve casar porque ama, e não ter de amar porque casou. Se fizeres o que te digo, serás feliz!” Concluiu pedindo-lhe que prometesse, caso algum dia viessem a constrangê-la a aceitar marido contra seu gosto, arrostar tudo, tudo, para evitar semelhante desgraça, principalmente se então Ana Rosa já gostasse de outro; e por este, sim, fosse quem fosse, cometesse os maiores sacrifícios, arriscasse a própria vida, porque era nisso que consistia a verdadeira honestidade de uma moça.
          E mais não foram os conselhos que Mariana deu à filha. Ana Rosa era criança, não os compreendeu logo, nem tão cedo procurou compreendê-los; mas, tão ligados estavam eles à morte da mãe, que a idéia desta não lhe acudia à memória sem as palavras da moribunda.
          Manuel Pedro, apesar de bom, era um desses homens mais que alheados às sutilezas do sentimento; para outra mulher daria talvez um excelente esposo, não para aquela, cuja sensibilidade romântica, longe de o comover, havia muita vez de importuná-lo. Quando se achou viúvo, não sentiu, a despeito da sua natural bondade, mais do que certo desgosto pela ausência de uma companheira com que já se tinha habituado; contudo, não pensou em tornar a casar, convencido de que o afeto da filha lhe chegaria de sobra para amenizar as canseiras do trabalho, e que o auxílio imediato da sogra bastaria para garantir a decência da sua casa e a boa regra das suas despesas domésticas.
          Ana Rosa cresceu pois, como se vê, entre os desvelos insuficientes do pai e o mau gênio da avó. Ainda assim aprendera de cor a gramática do Sotero dos Reis; lera alguma coisa; sabia rudimentos de francês e tocava modinhas sentimentais ao violão e ao piano. Não era estúpida; tinha a intuição perfeita da virtude, um modo bonito, e por vezes lamentara não ser mais instruída. Conhecia muitos trabalhos de agulha; bordava como poucas, e dispunha de uma gargantazinha de contralto que fazia gosto ouvir.
          Tanto assim que, em pequena, servira várias vezes de anjo da verônica nas procissões da quaresma. E os cônegos da Sé gabavam-lhe o metal da voz e davam-lhe grandes cartuchos de amêndoas de mendubim, muito enfeitados nas suas pinturas, toscas e características, feitas a goma-arábica e tintas de botica. Nessas ocasiões ela sentia-se radiante, com as faces carminadas, a cabeça coberta de cachos artificiais, grande roda no vestido curto, a jeito de dançarina. E, muito concha, ufana dos seus galões de prata e ouro e das suas trêmulas asas de papelão e escumillha, caminhava triunfante e feliz no meio do cordão das irmandades religiosas, segurando a extremidade de um lenço, do qual o pai segurava a outra. Isto eram promessas feitas pela mãe ou pela avó em dias de grande enfermidade na família.
          E crescera sempre bonita de formas. Tinha os olhos pretos e os cabelos castanhos de Mariana, e puxara ao pai as rijezas de corpo e os dentes fortes. Com a aproximação da puberdade apareceram-lhe caprichos românticos e fantasias poéticas: gostava dos passeios ao luar, das serenatas; arranjou ao lado do seu quarto um gabinete de estudo, uma bibliotecazinha de poetas e romancistas; tinha um Paulo e Virgínia de biscuit sobre a estante e, escondido por detrás de um espelho, o retrato do Farol, que herdara de Mariana.
          Lera com entusiasmo a Graziela de Lamartine. Chorou muito com essa leitura e, desde aí, todas as noites, antes de adormecer, procurava instintivamente imitar o sorriso de inocência que a procitana oferecia ao seu amante. Praticava bem com os pobres, adorava os passarinhos e não podia ver matar perto de si uma borboleta. Era um bocadinho supersticiosa: não queria as chinelas emborcadas debaixo da rede e só aparava os cabelos durante o quarto crescente da lua. “Não que acreditasse nessas coisas”, justificava-se ela, “mas fazia porque os outros faziam. “Sobre a cômoda, havia muito tempo, tinha uma estampa litográfica e colorida de Nossa Senhora dos Remédios e rezava-lhe todas as noites, antes de dormir. Nada conhecia melhor e mais agradável do que um passeio ao Cutim, e, quando soube que se projetava uma linha de bondes até lá, teve uma satisfação violenta e nervosa.
          Feitos os quinze anos, ela começou pouco a pouco a descobrir em si estranhas mudanças; percebeu, sentiu que uma transformação importante se operava no seu espírito e no seu corpo: sobressaltavam-na terrores infundados; acometiam-na tristezas sem motivo justificável. Um dia, afinal, acordou mais preocupada; assentou-se na rede, a cismar. E, com surpresa, reparou que seus membros ultimamente se tinham arredondado; notou que em todo seu corpo a linha curva suplantara a reta e que as suas formas eram já completamente de mulher.
          Veio-lhe então um sobressalto de contentamento mas logo depois caiu a entristecer: sentia-se muito só; não lhe bastava o amor do pai e da velha Barbara; queria uma afeição mais exclusiva, mais dela.
          Lembrou-se dos seus namoros. Riu-se “coisas de criança!...”

          Aos doze anos namorara um estudante do Liceu. Haviam conversado três ou quatro vezes na sala do pai e supunham-se deveras apaixonados um pelo outro; o estudante seguiu para a Escola Central da Corte, e ela nunca mais pensou nele. Depois foi um oficial de marinha; “Como lhe ficava bem a farda!... Que moço engraçado! bonito! e como sabia vestir-se!... Ana Rosa chegou a principiar a bordar um par de chinelas para lho oferecer; antes porém de terminado o primeiro pé, já o bandoleiro havia desaparecido com a corveta “Baiana”. Seguiu-se um empregado do comércio. “Muito bom rapaz! muito cuidadoso da roupa e das unhas!...” Parecia-lhe que ainda estava a vê-lo, todo metódico, escolhendo palavras para lhe pedir “a subida honra de dançar com ela uma quadrilha”.
          — Ah tempos! tempos!..
          E não queria pensar ainda em semelhantes tolices. “Coisas de criança! Coisas de criança!...” Agora, só o que lhe convinha era um marido! “O seu”, o verdadeiro, o lega!! O homem da sua casa, o dono do seu corpo, a quem ela pudesse amar abertamente como amante e obedecer em segredo como escrava. Precisava de dar-se e dedicar-se a alguém; sentia absoluta necessidade de pôr em ação a competência, que ela em si reconhecia, para tomar conta de uma casa e educar muitos filhos.
          Com estes devaneios, acudia-lhe sempre um arrepiozinho de febre; ficava excitada, idealizando um homem forte, corajoso, com um bonito talento, e capaz de matar-se por ela. E, nos seus sonhos agitados, debuxava-se um vulto confuso, mas encantador, que galgava precipícios, para chegar onde ela estava e merecer-lhe a ventura de um sorriso, uma doce esperança de casamento. E sonhava o noivado: um banquete esplêndido! e junto dela, ao alcance de seus lábios, um mancebo apaixonado e formoso, um conjunto de força, graça e ternura, que a seus pés ardia de impaciência e devorava-a com o olhar em fogo.
          Depois – via-se dona de casa; pensando muito nos filhos; sonhava-se feliz, muito dependente na prisão do ninho e no domínio carinhoso do marido. E sonhava umas criancinhas louras, ternas, balbuciando tolices engraçadas e comovedoras, chamando-lhe “mamã!”
          — Oh! Como devia ser bom!... E pensar que havia por aí mulheres que eram contra o casamento!...
          Não! Ela não podia admitir o celibato, principalmente para a mulher!... “Para o homem – ainda passava... viveria triste, só; mas em todo o caso – era um homem... teria outras distrações! Mas uma pobre mulher, que melhor futuro poderia ambicionar que o casamento?... que mais legítimo prazer do que a maternidade; que companhia mais alegre do que a dos filhos, esses diabinhos tão feiticeiros?..” Além de que, sempre gostara muito de crianças: muita vez pedira a quem as tinha que lhas mandasse a fazer-lhe companhia, e, enquanto as pilhava em casa, não consentia que mais ninguém se incomodasse com elas; queria ser a própria a dar-lhes a comida, a lavá-las, a vesti-las, e acalentá-las E estava constantemente a talhar camisinhas e fraldas, a fazer toucas e sapatinhos de lã, e tudo com muita paciência, com muito amor, justamente como, em pequenina, ela fazia com as suas bonecas. Quando alguma de suas amigas se casava, Ana Rosa exigia dela sempre um cravo do ramalhete ou um botão das flores de laranjeira da grinalda; este ou aquele, pregava-os religiosamente no seio com um dos alfinetes dourados da noiva, e quedava-se a fitá-los, cismando, até que dos lábios lhe partia um suspiro longo, muito longo, como o do viajante que em meio do caminho já se sente cansado e ainda não avista o lar.

          Mas o noivo por onde andava que não vinha? Esse belo mancebo, tão ardente e tão apaixonado, por que se não apresentava logo? Dos homens que Ana Rosa conhecia na província nenhum decerto podia ser!... E, no entanto, ela amava...
          A quem?
          Não sabia dizê-lo, mas amava. Sim! Fosse a quem fosse, ela amava; porque sentia vibrar-lhe todo o corpo, fibra por fibra, pensando nesse – Alguém – íntimo e desconhecido para ela; esse – Alguém – que não vinha e não lhe saía do pensamento; esse – Alguém – cuja ausência a fazia infeliz e lhe enchia a existência de lágrimas.
          Passaram-se meses – nada! Correram três anos. Ana Rosa principiou a emagrecer visivelmente. Agora dormia menos; estava pálida; à mesa mal tocava nos pratos.
          — Ó pequena, tu tens alguma coisa! disse-lhe um dia o pai, já incomodado com aquele ar doentio da filha. Não me pareces a mesma! Que é isso, Anica?
          Não era nada!...
          E Ana Rosa sobressaltava-se, como se tivera cometido uma falta. “Cansaço! Nervos! Não era coisa que valesse a pena!... ”
          Mas chorava.
          — Olha! Aí temos! Agora o choro! Nada! É preciso chamar o médico!
          — Chamar o médico?... Ora papai, não vale a pena!...
          E tossia. “Que a deixassem em paz! Que não a estivessem apoquentando com perguntas!...”
          E tossia mais, sufocada.
          — Vês?! Estás achacada! Levas nesse “Chrum, chrum! chrum chrum!” E é só: “Não vale a pena! Não precisa chamar o médico!...” Não senhora! com moléstias não se brinca!
          O médico receitou banhos de mar na Ponta d’Areia.
          Foi um tempo delicioso para ela os três meses que aí passou. Os ares da costa, os banhos de choque, os longos passeios a pé, restituíram-lhe o apetite e enriqueceram-lhe o sangue. Ficou mais forte; chegou a engordar.
          Na Ponta d’Areia travara uma nova amizade – D. Eufrasinha. Viúva de um oficial do quinto de infantaria, batalhão que morreu todo na Guerra do Paraguai. Muito romântica: falava do marido requebrando-se, e poetizava-lhe a curta história: “Dez dias depois de casados, seguira ele para o campo de batalha e, no denodo da sua coragem, fora atravessado por uma bala de artilharia, morrendo logo a balbuciar com o lábio ensangüentado o nome da esposa estremecida.”
          E com um suspiro, feito de desejos mal satisfeitos, a viúva concluía pesarosa que “prazeres nesta vida, conhecera apenas dez dias e dez noites...”
          Ana Rosa compadecia-se da amiga e escutava-lhe de boa-fé as frioleiras. Na sua ingênua e comovida sinceridade facilmente se identificava com a história singular daquele casamento tão infeliz e tão simpático. Por mais de uma vez chegou a chorar pela morte do pobre moço oficial de infantaria.
          D. Eufrasinha instruiu a sua nova amiga em muitas coisas que esta mal sonhava; ensinou-lhe certos mistérios da vida conjugal; pode dizer-se que lhe deu lições de amor: falou muito nos “homens”, disse-lhe como a mulher esperta devia lidar com eles; quais eram as manhas e os fracos dos maridos ou dos namorados; quais eram os tipos preferíveis; o que significava ter “olhos mortos, beiços grossos, nariz comprido”.
          A outra ria-se. “Não tomava a sério aquelas bobagens da Eufrasinha!”
          Mas intimamente ia, sem dar por isso, reconstruindo o seu ideal pelas instruções da viúva. Fê-lo menos espiritual, mais humano, mais verossímil, mais suscetível de ser descoberto; e, desde então, o tipo, apenas debuxado ao fundo dos seus sonhos, veio para a frente, acentuou-se como uma figura que recebesse os últimos toques do pintor; e, depois de vê-lo bem correto, bem emendado e pronto, amou-o ainda mais, muito mais, tanto quanto o amaria se ele fora com efeito uma realidade.
          A partir daí, era esse ideal, correto e emendado, a base das suas deliberações a respeito de casamento; era a bitola, por onde ela aferia todo aquele que a requestasse. Se o pretendente não tivesse o nariz, o olhar, o gesto, o conjunto enfim de que constava o padrão, podia, desde logo, perder a esperança de cair nas graças da filha de Manuel Pedro.
          Eufrasinha mudou-se para a cidade; Ana Rosa já lá estava. Visitaram-se.
          E estas visitas, que se tornaram muito íntimas e repetidas, serviram mutuamente de consolo, ao afincado celibato de uma e a precoce viuvez da outra.
          Havia, empregado no armazém do pai de Ana Rosa, um rapaz português, de nome Luís Dias; muito ativo, econômico, discreto, trabalhador, com uma bonita letra, e muito estimado na Praça. Contavam a seu favor invejáveis partidas de tino comercial, e ninguém seria capaz de dizer mal de tão excelente moço.
          Ao contrário, quase sempre que falavam dele, diziam “Coitado!” e este – coitado – era inteiramente sem razão de ser, porque ao Dias, graças a Deus, nada faltava: tinha casa, comida, roupa lavada e engomada, e, ainda por cima, os cobres do emprego. Mas a coisa era que o diabo do homem, apesar das suas prósperas circunstâncias, impunha certa lástima, impressionava com o seu eterno ar de piedade, de súplica, de resignação e humildade. Fazia pena, incutia dó em quem o visse, tão submisso, tão passivo, tão pobre rapaz – tão besta de carga. Ninguém, em caso algum, levantaria a mão sobre ele, sem experimentar a repugnância da covardia.
          Elogiavam-no entretanto: “Que não fossem atrás daquele ar modesto, porque ali estava um empregadão de truz!”
          Vários negociantes ofereceram-lhe boas vantagens para tomá-lo ao seu serviço; mas o Dias, sempre humilde e de cabeça baixa, resistia-lhes a pé firme. E, tal constância opôs as repetidas propostas, que todo o comércio, dando como certo o seu casamento com a filha do patrão, elogiou a escolha de Manuel Pedro e profetizou aos nubentes “um futuro muito bonito e muito rico”.
          — Foi acertado, foi! diziam com olhar fito.
          Manuel Pedro via, com efeito, naquela criatura, trabalhadora e passiva como um boi de carga e econômico como um usurário, o homem mais no caso de fazer a felicidade da filha. Queria-o para genro e para sócio; dizia a todos os colegas que o “seu Dias” apenas retirava por ano, para as suas despesas, a quarta parte do ordenado.
          — Tem já o seu pecúlio, tem! considerava ele. A mulher que o quisesse, levava um bom marido! Aquele virá a possuir alguma coisa... é moço de muito futuro!
          E, pouco a pouco foi-se habituando a julgá-lo já da família e a estimá-lo e distingüi-lo como tal; só faltava que a pequena se decidisse... Mas qual! ela nem queria vê-lo! Tinha-lhe birra; não podia sofrer aquele cabelo à escovinha, aquele cavanhaque sem bigode, aqueles dentes sujos, aquela economia torpe e aqueles movimentos de homem sem vontade própria.
          — Um somítico! classificava Ana Rosa, franzindo o nariz.
          Uma ocasião, o pai tocou-lhe no casamento.
          — Com o Dias?... perguntou espantada.
          — Sim.
          — Ora, papai!
          E soltou uma risada.
          Manuel não se animou a dizer mais palavra; à noite, porém, contou tudo em particular ao compadre, um amigo velho, íntimo da casa – o cônego Diogo.
          — Optima soepè despecta! sentenciou este. É preciso dar tempo ao tempo, seu compadre! A coisa há de ser... deixe correr o barco!
          No entanto, o Dias não se alterara; esperava calado, pacificamente, sem erguer os olhos, cheio sempre de humildade e resignação.


2

          Assim era, quando Manuel Pedro, na varanda de sua casa, pedia à filha uma resposta definitiva a respeito do casamento. Já lá se iam três meses depois da estada na Ponta d’Areia.
          Ana Rosa continuou muda no seu lugar, a fitar a toalha da mesa, como se procurasse aí uma resolução. O sabiá cantava na gaiola.
          — Então, minha filha, não dás sequer uma esperança?...
          — Pode ser...
          E ela ergueu-se...
          — Bom. Assim é que te quero ver...
          O negociante passou o braço em volta da cintura da rapariga, disposto a conversar ainda, mas foi interrompido por umas passadas no corredor.
          — Dá licença? disse o cônego, já na porta da varanda.
          — Vá entrando, compadre!
          O cônego entrou, devagar, com o seu sorriso discreto e amável.
          Era um velho bonito; teria quando menos sessenta anos, porém estava ainda forte e bem conservado; o olhar vivo, o corpo teso, mas ungido de brandura santarrona. Calçava-se com esmero, de polimento; mandava buscar da Europa, para seu uso, meias e colarinhos especiais, e, quando ria, mostrava dentes limpos, todos chumbados a ouro. Tinha os movimentos distintos; mãos brancas e cabelos alvos que fazia gosto.
          Diogo era o confidente e o conselheiro do bom e pesado Manuel; este não dava um passo sem consultar o compadre. Formara-se em Coimbra, donde contava maravilhas; um bocadinho rico, e não relaxava o seu passeio a Lisboa, de vez em quando, “para descarregar anos da costa...” explicava ele, a rir.
          Logo que entrou, deu a beijar a Ana Rosa o seu grande e trabalhado anel de ametista, obra do Porto, feita de encomenda. E batendo-lhe na face com a mão fina e impregnada de sabonete inglês:
          — Então, minha afilhada, como vai essa bizarria?
          Ia bem, agradecida. Sorriu.
          — Dindinho está bom?
          — Como sempre. Que notícias de D. Babita?
          Estava de passeio.
          — Pois não vê a casa sossegada? interrogou Manuel. Foi à missa e naturalmente almoçou por aí com alguma amiga. Deus a conserve por lá! Mas que milagre o trouxe a estas horas cá por casa, seu compadre?
          — Um negócio que lhe quero comunicar; particular, um bocado particular.
          Ana Rosa fez logo menção de afastar-se.
          — Deixa-te ficar, disse-lhe o pai. Nós vamos aqui para o escritório.
          E os dois compadres, conversando em voz baixa, encaminharam-se para uma saleta que havia na frente da casa.
          A saleta era pequenina, com duas janelas para a Rua da Estrela. Chão esteirado paredes forradas de papel e o teto de travessinhas de paparaúba pintadas de branco. Havia uma carteira de escrita, muito alta, com o seu mocho inclinado, um cofre de ferro, uma pilha de livros de escrituração mercantil, uma prensa, o copiador ao lado e mais um copo sujo de pó, em cujas bordas descansava um pincel chato de cabo largo; uma cadeira de palhinha, um caixão de papéis inúteis, um bico de gás e duas escarradeiras.
          Ah! ainda havia na parede, sobre a secretária, um calendário do ano e outro da semana, ambos com as algibeiras pejadas de notas e recibos.
          Era isto que Manuel Pedro chamava pamposamente “o seu escritório” e onde fazia a correspondência comercial. Aí, quando ele de corpo e alma se entregava aos interesses da sua vida, às suas especulações, ao seu trabalho enfim, podiam lá fora até morrer, que o bom homem não dava por isso. Amava deveras o trabalho e seria uma santa criatura se não fora certa maniazinha de querer especular com tudo, o que às vezes lhe desvirtuava as melhores intenções.
          Quando os dois entraram, ele foi logo fechando a porta, discretamente, enquanto o outro se esparralhava na cadeira, com um suspiro de cansaço, levantando até ao meio da canela a sua batina lustrosa e de bom talho. Manuel havia tomado um cigarro de papel amarelo de cima da carteira e acendia-o sofregamente; o cônego esperava por ele, com uma notícia suspensa dos lábios, como espantado; a boca meio aberta; o tronco inclinado para a frente, as mãos espalmadas nos joelhos, a cabeça erguida e um olhar de sobrancelhas arregaçadas através do cristal dos óculos.
          — Sabe quem está a chegar por aí?... perguntou afinal, quando viu Manuel já instalado no mocho da secretária.
          — Quem?
          — O Raimundo!
          E o cônego sorveu uma pitada.
          — Que Raimundo?
          — O Mundico! o filho do José, homem! teu sobrinho! aquela criança, que teu mano teve da Domingas...
          — Sim, sim, já sei, mas então?...
          — Está a chegar por dias... Ora espera...
          O padre tirou papéis da algibeira e rebuscou entre eles uma carta, que passou ao negociante.
          — É do Peixoto, o Peixoto de Lisboa.
          — De Lisboa, como?
          — Sim, homem! Do Peixoto de Lisboa, que está há três anos no Rio.
          — Ah!... isso sim, porque tinha idéia de que o pequeno deveria estar agora na Corte. Ah! chegou o vapor do Sul...
          — Pois é. Lê!
          Manuel armou os óculos no nariz e leu para si a seguinte carta datada do Rio de Janeiro: “Revmo. amigo e Sr. Cônego Diogo de Melo. Folgamos que esta vá encontrar V. Revma. no gozo da mais perfeita saúde. Temos por fim comunicar a V. Reverendíssima que, no paquete de 15 do corrente, segue para essa capital o Dr. Raimundo José da Silva, de quem nos encarregou V. Revma. e o Sr. Manuel Pedro da Silva quando ainda nos achávamos estabelecidos em Lisboa. Temos também a declarar, se bem que já em tempo competente o houvéssemos feito, que envidamos então os melhores esforços para conseguir do nosso recomendado ficasse empregado em nossa casa comercial e que, visto não o conseguirmos, tomamos logo a resolução de remetê-lo para Coimbra com o fim de formar-se ele em Teologia, o que igualmente não se realizou, porque, feito o curso preparatório, escolheu o nosso recomendado a carreira de Direito, na qual se acha formado com distinções e bonitas notas.
          Cumpre-nos ainda declarar com prazer a V. Revma. que o Dr. Raimundo foi sempre apreciado pelos seus lentes e condiscípulos e que tem feito boa figura, tanto em Portugal, como depois na Alemanha e na Suíça, e como ultimamente nesta Corte, onde, segundo diz ele, tencionava fundar uma empresa muito importante. Mas, antes de estabelecer-se aqui, deseja o Dr. Raimundo efetuar nessa província a venda de terras e outras propriedades de que aí dispõe, e com esse fim segue.
          Por esta mesma via escrevemos ao Sr. Manuel Pedro da Silva, a quem novamente prestamos contas das despesas que fizemos com o sobrinho.”
          Seguiam-se os cumprimentos do estilo.
          Manuel, terminada a leitura, chamou o Benedito, um moleque da casa, e ordenou-lhe que fosse ao armazém saber se havia já chegado a correspondência do Sul. O moleque voltou pouco depois, dizendo que “ainda não senhor, mas que seu Dias a fora buscar ao correio”.
          — Homem! ele é isso!... exclamou Pescada. O rapaz está bem encaminhado, quer liquidar o que tem por cá e estabelecer-se no Rio. Não! Sempre é outro futuro!.
          — Ora! ora! ora! soprou o cônego em três tempos. Nem falemos nisso! O Rio de Janeiro é o Brasil! Ele faria uma grandíssima asneira se ficasse aqui.
          — Se faria...
          — Até lhe digo mais.. nem precisava cá vir, porque... continuou Diogo, abaixando a voz, ninguém aqui lhe ignora a biografia; todos sabem de quem ele saiu!
          — Que não viesse, não digo, porque enfim.. “quem quer vai e quem não quer manda”, como lá diz o outro; mas é chegar, aviar o que tem a fazer e levantar de novo o ferro!
          — Ai, ai!
          — E demais, que diabo ficava ele fazendo aqui? Enchendo as ruas de pernas e gastando o pouco que tem... Sim! que ele tem alguma coisinha para roer... tem aquelas moradas de casa em São Pantaleão; tem o seu punhado de ações; tem o jimbo cá na casa, onde por bem dizer é sócio comanditário, e tem as fazendas do Rosário, isto é – a fazenda, porque uma é tapera...
          — Essa é que ninguém a quer!... observou o cônego, e ferrou o olhar num ponto, deixando perceber que alguma triste reminiscência o dominava.
          — Acreditam nas almas doutro mundo... prosseguiu Manuel. O caso é que nunca mais consegui dar-lhe destino. Pois olhe, seu compadre, aquelas terras são bem boas para a cana.
          O cônego permanecia preocupado pela lembrança da tapera.
          — Agora... acrescentou o outro, o melhor seria que ele se tivesse feito padre.
          O cônego despertou.
          — Padre?!
          — Era a vontade do José...
          — Ora, deixe-se disso! retrucou Diogo, levantando-se com ímpeto. Nós já temos por aí muito padre de cor!
          — Mas, compadre, venha cá, não é isso...
          — Ora o quê, homem de Deus! É só – ser padre! é só – ser padre! E no fim de contas estão se vendo, as duas por três, superiores mais negros que as nossas cozinheiras! Então isto tem jeito?... O governo – e o cônego inchava as palavras – o governo devia até tomar uma medida séria a este respeito! devia proibir aos cabras certos misteres!
          — Mas, compadre...
          — Que conheçam seu lugar!
          E o cônego transformava-se ao calor daquela indignação.
          — E então, parece já de pirraça, bradou, é nascer um moleque nas condições deste...
          E mostrava a carta, esmurrando-a – pode contar-se logo com um homem inteligente! Deviam ser burros! burros! que só prestassem mesmo para nos servir! Malditos!
          — Mas, compadre, você desta vez não tem razão...
          — Ora o quê, homem de Deus. Não diga asneiras! Pois você queria ver sua filha confessada, casada, por um negro? você queria seu Manuel que a Dona Anica beijasse a mão de um filho da Domingas? Se você viesse a ter netos queria que eles apanhassem palmatoadas de um professor mais negro que esta batina? Ora, seu compadre, você às vezes até me parece tolo!
          Manuel abaixou a cabeça, derrotado.
          — Ora, ora, ora! respingava o sacerdote, como as últimas gotas de um aguaceiro. E passeava vivamente em toda a extensão da saleta, atirando de uma para a outra mão o seu lenço fino de seda da Índia.- Ora! ora, deixe-se disso, seu compadre! Stultorum honor inglorius!...
          Nisto bateram à porta. Era o Dias com a correspondência do Sul.
          — Dê cá.
          A carta de Manuel pouco adiantava da outra.
          — Mas, afinal que acha você, compadre?... disse ele, passando a carta ao cônego, depois de a ler.
          — Que diabo posso achar?... A coisa está feita por si.. Deixe correr o barco! Você não disse uma vez que queria entrar em negócio com a fazenda do Cancela? Não há melhor ocasião – trate-a com o próprio dono... mesmo as casas de São Pantaleão convinham-lhe... olhe se ele as desse em conta, eu talvez ficasse com alguma.
          — Mas o que eu digo, compadre, é se devo recebê-lo na qualidade de meu sobrinho.
          — Sobrinho bastardo, está claro! Que diabo tem você com as cabeçadas de seu mano José?... Homessa!
          — Mas, compadre, você acha que não me fica mal? .
          — Mal por quê, homem de Deus? Isso nada tem que ver com você...
          — Lá isso é verdade. Ah! outra coisa! devo hospedá-lo aqui em casa?
          — É!... por um lado, devia ser assim... Todos sabem as obrigações que você deve ao defunto José e poderiam boquejar por aí, no caso que não lhe hospedasse o filho... mas, por outro lado, meu amigo, não sei o que lhe diga!...
          E depois de uma pausa em que o outro não falou:
          — Homem, seu compadre, isto de meter rapazes em casa... é o diabo!
          — De sorte que...
          — Omnem aditum malis prejudica!
          Manuel não compreendeu, porém acrescentou:
          — Mas eu hospedo constantemente os meus fregueses do interior...
          — Isso é muito diferente!
          — E meus caixeiros? não moram aqui comigo?...
          — Sim! disse o cônego, impacientando-se, mas os pobres dos caixeiros são todos uns moscas-mortas, e nós não sabemos a que nos saiu o tal doutor de Coimbra!... Homem, compadre, o melro vem de Paris, deve estar mitrado!...
          — Talvez não...
          — Sim, mas é mais natural que esteja!
          E o cônego intumescia a papada com certo ar experimentado.
          — Em todo caso... arriscou Manuel, é por pouco tempo... Talvez coisa de um mês...
          E, sopeando a voz, discretamente, com medo: Além disso... não me convinha desagradar o rapaz... Sim! tenho de entrar em negócio com ele, e... isto cá para nós... seria uma fineza, que me ficava a dever... porque enfim... você sabe que...
          — Ah! interrompeu o cônego, tomando uma nova atitude. Isso é outro cantar!... Por ai é que você devia ter principiado!
          — Sim, tornou Manuel, com mais ânimo. Você bem sabe que não tenho obrigação de estar a moer-me com o nhonhô Mundico... e, se bem que...
          — Pchio!... fez o padre, cortando a conversa, e disse: – Hospede o homem!
          E saiu da saleta, revestindo logo o seu pachorrento e estudado ar de santarrão.
          Ao chegarem à varanda Ana Rosa, já em trajes de passeio, os esperava para sair toda debruçada no parapeito da janela e derramando sobre o Bacanga um olhar mole e cheio de incertezas.
          — Então, sempre te resolveste, minha caprichosa?... disse o pai.
          E contemplava a filha, com um risinho de orgulho. Ela estava realmente boa com o seu vestido muito alvo de fustão, alegre, todo cheirando aos jasmins da gaveta; com o seu chapéu de palhinha de Itália, emoldurando o rosto oval, fresco e bem feito; com o seu cabelo castanho, farto e sedoso, que aparecia em bandós no alto da cabeça e reaparecia no pescoço enrodilhado despretensiosamente.
          — Tinhas dito que não ias...
          — Vá se vestir, papai.
          E assentou-se.
          — Lá vou! Lá vou!
          Manuel bateu no ombro do cônego:
          — Meto-lhe inveja, hein, compadre?... Olhe como o diacho da pequena está faceira, não é?
          — Ne insultes miseris!
          — Quê?... interjeicionou o negociante, olhando para o relógio da varanda. Quatro e meia! E eu que ainda tinha de ir hoje tratar do despacho de um açúcar!...
          E foi entrando apressado no quarto, a gritar para o Benedito “que lhe levasse água morna para banhar o rosto”.
          O cônego assentou-se defronte de Ana Rosa.
          — Então onde é hoje o passeio minha rica afilhada?
          — À casa do Freitas. Não se lembra? Lindoca faz anos hoje.
          — Cáspite! Temos então peru de forno!..
          — Papai fica para o jantar... vossemecê não vai, dindinho?
          — Talvez apareça à noite... Com certeza há dança...
          — Hum-hum... mas creio que o Freitas conta com uma surpresa da Filarmônica.. disse Ana Rosa, entretida a endireitar os folhos do seu vestido com a biqueira da sombrinha.
          Nisto, ouviram-se bater embaixo as portas do armazém, que se fechavam com grande ruído de fechaduras, e logo em seguida o som pesado de passos repetidos na escada. Eram os caixeiros que subiam para jantar.
          Entrou primeiro na varanda o Bento Cordeiro. Português dos seus trinta e tantos anos arruivado, feio, de bigode e barba e cavanhaque. Gabava-se de grande prática de balcão chamavam-lhe “Um alho”. Para aviar encomendas do interior não havia outro! Cordeiro “metia no bolso o capurreiro mais sabido”.
          Dos empregados da casa era o mais antigo; nunca, porém lograra ter interesse na sociedade; continuava sempre de fora e tinha por isso um ódio surdo ao patrão; ódio, que o patife disfarçava por um constante sorriso de boa vontade. Mas o seu maior defeito o que deveras depunha contra ele aos olhos das – raposas – do comércio; o que explicava na Praça a sua não entrada na sociedade da casa em que trabalhava havia tanto tempo, era sem dúvida a sua queda para o vinho. Aos domingos metia-se na tiorga e ficava de todo insuportável.
          Bento atravessou silencioso a varanda cortejando com afetada humildade o cônego e Ana Rosa, e seguiu logo para o mirante, onde moravam todos os caixeiros da casa.
          O segundo a passar foi Gustavo de Vila Rica; simpático e bonito mocetão de dezesseis anos, com as suas soberbas cores portuguesas, que o clima do Maranhão ainda não tinha conseguido destruir. Estava sempre de bom humor; lisonjeava-se de um apetite inquebrantável e de nunca haver ficado de cama no Brasil. Em casa todavia ganhara fama de extravagante; é que mandava fazer fatos de casimira à moda, para passear aos domingos e para ir aos bailes familiares de contribuição, e queimava charutos de dois vinténs. O grande defeito deste era uma assinatura no Gabinete Português, o que levava a boa gente do comércio a dizer “que ele era um grande biltre, um peralta, que estava sempre procurando o que ler!”
          O Bento Cordeiro bradava-lhe às vezes, furioso:
          — Com os diabos! o patrão já lhe tem dado a entender que não gosta de caixeiros amigos de gazeta?.. Se você quer ser letrado, vá pra Coimbra, seu burro!
          Gustavo ouvia constantemente destas e doutras amabilidades, mas, que fazer? precisava ganhar a vida!... O outro era caixeiro mais antigo na casa... Conformava-se, sem respingar, e em certas ocasiões até satisfeito, graças ao seu bom humor.
          Ao passar pela varanda foi menos brusco no seu cumprimento à filha do patrão; chegou mesmo a parar, sorrir, e dizer, inclinando a cabeça: “Minha senhora!...”
          O cônego teve uma risota.
          — Que mitra!... julgou com os seus botões.
          Em seguida, atravessou a varanda, muito apressado, com as mãos escondidas nas enormes mangas de um jaquetão, cuja gola lhe subia ate à nuca, uma criança de uns dez anos de idade. Tinha o cabelo à escovinha; os sapatos grandemente desproporcionados; calças de zuarte dobradas na bainha; olhos espantados; gestos desconfiados, e um certo movimento rápido de esconder a cabeça nos ombros, que lhe traía o hábito de levar pescoções.
          Este era em tudo mais novo que os outros – em idade, na casa, e no Brasil. Chegara havia coisa de seis meses da sua aldeia no Porto; dizia chamar-se Manuelzinho e tinha sempre os olhos vermelhos de chorar à noite com saudades da mãe e da terra.
          Por ser o mais novo na casa varria o armazém limpava as balanças e burnia os pesos de latão. Todos lhe batiam sem responsabilidade, não tinha a quem se queixar. Divertiam-se à custa dele; riam-se com repugnância das suas orelhas cheias de cera escura.
          Desfeava-lhe a testa uma grande cicatriz; foi um trambolhão que levou na primeira noite em que lhe deram uma rede para dormir. O pobre desterradozinho, que não sabia haver-se com semelhante engenhoca, caiu na asneira de meter primeiro os pés, e zás! lá foi por cima de uma caixa de pinho de um dos companheiros. Desde esse dia ficou conhecido em casa pela alcunha de “Salta-chão”. Punham-lhe nomes feios e chamavam-lhe “Ó coisa! – Ó maroto! – Ó bisca!” tudo servia para o chamarem, menos o seu verdadeiro nome.
          Ia atravessando a varanda, como um bicho assustado, quase a correr. O cônego gritou por ele:
          — Ó pequeno? anda cá!
          Manuelzinho voltou, confuso, coçando a nuca, muito contrariado sem levantar os olhos.
          Ana Rosa teve um olhar de piedade.
          — Então que e isso? disse o cônego. Pareces-me um bicho do mato! Fala direito com a gente, rapaz! Levanta essa cachimônia!
          E, com a sua mão branca e fina, suspendeu-lhe pelo queixo a cabeça, que Manuelzinho insistia em ter baixa.
          — Este ainda está muito peludo!... acrescentou. E perguntou-lhe depois uma porção de coisas: “Se tinha vontade de enriquecer, se não sonhava já com uma comenda; se tinha visto o pássaro guariba, se encontrara a árvore das patacas.” O pequeno mastigava respostas inarticuladas, com um sorriso aflito.
          — Como te chamas?
          Ele não respondeu.
          — Então não respondes?... Com certeza és Manuel!
          O portuguesinho meneou a cabeça afirmativamente, e apertou a boca, para conter o riso que procurava uma válvula.
          — Então é com a cabeça que se responde? Tu não sabes falar, mariola?
          E, voltando-se para Ana Rosa:
          — Isto é um sonso, minha afilhada! olhe em que estado ele traz as orelhas! Se tens a alma como tens o corpo, podes dá-la ao diabo! Tu já te confessaste aqui, maroto?
          Manuelzinho, não podendo já suster os beiços, abriu a boca e, com a força de uma caldeira, soprou o riso que a tanto custo refreava.
          — Olha que estás a cuspir-me, ó patife! gritou o cônego. Bom, bom! vai-te! vai-te!
          Repeliu-o e limpou a batina com o lenço.
          Ana Rosa então correu os dedos pela cabeça do menino e puxou-o para si. Arregaçou-lhe as mangas da jaqueta e revistou-lhe as unhas. Estavam crescidas e sujas.
          — Ah! censurou ela, você também não é tão pequeno, que se desculpe isto!...
          E, tirando do seu indispensável uma tesourinha, começou, com grande surpresa do caixeiro e até do cônego, a limpar as unhas da criança, dizendo ao outro, baixinho:
          — Não sei como há mães que se separam de filhos desta idade... Também, coitados! devem amargar muito!...
          A sua voz tinha já completa solicitude de amor materno.
          O cônego levantou-se e foi encostar-se ao parapeito da varanda, enquanto Ana Rosa, que continuava a cortar as unhas do menino, ia em segredo perguntando a este se não tinha saudades da sua terra e se não chorava ao lembrar-se da mãe.
          Manuelzinho estava pasmado. Era a primeira vez que no Brasil lhe falavam com aquela ternura. Levantou a cabeça e encarou Ana Rosa; ele, que tinha sempre o olhar baixo e terrestre, procurou, sem vacilar, os olhos da rapariga e fitou-os, cheio de confiança, sentindo por ela um súbito respeito, uma espécie de adoração inesperada. Afigurava-se extraordinário ao pobrezito desprezado de todos, que aquela senhora brasileira, tão limpa, tão bem vestida, tão perfumada e com as mãos tão macias, estivesse ali a cortar-lhe e assear-lhe as unhas.
          A princípio foi isto para ele um sacrifício horrível, um suplício insuportável. Desejava, de si para si, ver terminada aquela cena incômoda; queria fugir daquela posição difícil; resfolegava, sem ousar mexer com a cabeça, olhando para os lados, de esguelha, como a procura de uma saída, de algum lugar onde se escondesse ou de qualquer pretexto que o arrancasse dali.
          Sentia-se mal com aquilo, que dúvida! Não se animava a respirar livremente, receoso de fazer notar o seu hálito pela senhora; já lhe doíam as juntas do corpo, tal era a sua imobilidade contrafeita; não mexia sequer com um dedo. Depois do primeiro minuto de sacrifício, o suor começou logo a correr-lhe em bagas da cabeça pela gola do jaquetão, e o pequeno teve verdadeiros calafrios; mas quando Ana Rosa lhe falou da pátria e da mãe, com aquela penetrante meiguice que só as próprias mães sabem fazer, as lágrimas rebentaram-lhe dos olhos e desceram-lhe em silêncio pela cara.
          Pois se era a primeira vez que no Brasil lhe falavam dessas coisas!...
          O cônego assistia a tudo isto, calado, rufando sobre a sua tabaqueira de ouro as unhas burnidas a cinza de charuto e a sorrir como um bom velho. E, enquanto Ana Rosa, de cabeça baixa, toda desvelos, tratava do desgraçadinho, provocando-lhe as lágrimas e contendo as próprias, sabe Deus como! passava o Dias pelo fundo da varanda, sem ser sentido, o andar de gato, levando no coração uma grande raiva, só pelo fato de ver a filha do patrão acarinhando o outro.
          Ralava-o aquela caridade. “Ele nunca tivera quem lhe cortasse as unhas!...” Amofinava-o ver a Sra. D. Ana Rosa às voltas com semelhante bisca. “Punha a perder de todo a peste do pequeno! – Ora para que lhe havia de dar!... embonecar o súcio! Queria-o com certeza para seu chichisbéu! Contava já com ele para levar-lhe as cartas do desaforo e trazer-lhe os presentinhos de flores e os recados dos pelintras!... Ah! mas ele, o Dias, ali estava para lhes cortar as vazas!”
          O Dias, que completava o pessoal da casa de Manuel Pescada, era um tipo fechado como um ovo, um ovo choco que mal denuncia na casca a podridão interior. Todavia, nas cores biliosas do rosto, no desprezo do próprio corpo, na taciturnidade paciente daquela exagerada economia, adivinhava-se-lhe uma idéia fixa, um alvo, para o qual caminhava o acrobata, sem olhar dos lados, preocupado, nem que se equilibrasse sobre um corda tesa. Não desdenhava qualquer meio para chegar mais depressa aos fins; aceitava, sem examinar, qualquer caminho, desde que lhe parecesse mais curto; tudo servia, tudo era bom, contanto que o levasse mais rapidamente ao ponto desejado. Lama ou brasa – havia de passar por cima; havia de chegar ao alvo – enriquecer.
          Quanto à figura, repugnante: magro e macilento, um tanto baixo, um tanto curvado, pouca barba, testa curta e olhos fundos. O uso constante dos chinelos de trança fizera-lhe os pés monstruosos e chatos; quando ele andava, lançava-os desairosamente para os lados, como o movimento dos palmípedes nadando. Aborrecia-o o charuto, o passeio, o teatro e as reuniões em que fosse necessário despender alguma coisa; quando estava perto da gente sentia-se logo um cheiro azedo de roupas sujas.
          Ana Rosa não podia conceber como uma mulher de certa ordem pudesse suportar semelhante porco. “Enfim, resumia ela, quando, conversando com amigas, queria dar-lhes uma idéia justa do que era o Dias – sempre há um homem que não tem coragem de comprar uma escova de dentes!” As amigas respondiam “Iche!” mas em geral tinham-no na conta de moço benfazejo e de conduta exemplar.
          À noite só deixava a porta do patrão nos sábados, para ir ao peixe frito em casa de uma mulata gorda, que morava com duas filhas lá para os confins da Rua das Crioulas. Ia sempre sozinho. “Nada de troças!”
          — Não tenho amigos... dizia ele constantemente, tenho apenas alguns conhecidos...
          Nesses passeios levava às vezes uma garrafa de vinho do Porto ou uma lata de marmelada, e chamava a isso “fazer as suas extravagâncias”. A mulata votava-lhe grande admiração e punha nele muita confiança: dava-lhe a guardar “os seus ouros” e as suas economias. Além desta, ninguém lhe conhecia outra relação particular; uma bela manhã, porém, o “exemplar moço” aparecera incomodado e pedira ao patrão que lhe deixasse ficar aquele dia no quarto. Manuel, todo solícito pelo seu bom empregado, mandou-lhe lá o médico.
          — Então, que tinha o rapaz?
          — Aquilo é mais porcaria que outra coisa, respondeu o facultativo, franzindo o nariz; mas receitou, recomendando banhos mornos. “Banhos! de banhos principalmente é que ele precisava!”
          E, quando viu o doente pela segunda vez, não se pôde ter, que lhe não dissesse:
          — Olhe lá, meu amigo, que o asseio também faz parte do tratamento!
          E acabou provando que a limpeza não era menos necessária ao corpo do que a alimentação, principalmente em um clima daqueles em que um homem está sempre a transpirar.
          Manuel foi à noite ao quarto do caixeiro. Falou-lhe com brandura paternal; lamentou-o com palavras amigáveis, e desatou um protesto, em forma de sermão, contra o clima e os costumes do Brasil.
          — Uma terrinha com que é preciso cuidado! Perigosa! Perigosa! dizia ele. Aqui a gente tem a vida por um fio de cabelo!
          Tratou depois, com entusiasmo, de Portugal; lembrou as boas comezainas portuguesas: “As caldeiradas d’eirozes, a orelheira de porco com feijão branco, a açorda, o caldo gordo, o famoso bacalhau do Algarve!”
          — Ai! o pescado! suspirou o Dias, saudoso pela terra. Que rico pitéu!
          — E os nossos figos de comadre, e as nossas castanhas assadas, e o vinho verde?
          Dias escutava com água na boca.
          — Ai! a terra!...
          O patrão falou-lhe também das comodidades, dos ares, das frutas e por fim dos divertimentos de Lisboa, terminando por contar fatos de moléstia; casos idênticos ao do Dias; transportou-se rindo ao seu tempo de rapaz, e, já de pé, pronto para sair, bateu-lhe no ombro, carinhosamente:
          — Você, homem, o que devia era casar!...
          E jurou-lhe que o casamento lhe estava mesmo calhando. “O Dias, com aquele gênio e com aquele método, dava por força um bom marido!... Que se casasse, e havia de ver se não teria outra importância!...”
          — Olhe! concluiu, digo-lhe agora como o doutor “Banhos! banhos, meu amigo” mas que sejam de igreja, compreende?
          E, rindo com a própria pilhéria e todo cheio de sorrisos de boa intenção, saiu do quarto na ponta dos pés, cautelosamente, para que os outros caixeiros, a quem ele não dava a honra de uma visita daquelas, não lhe ouvissem as pisadas.
          Quando Ana Rosa acabou de cortar as unhas de Manuelzinho deu-lhe de conselho que estudasse alguma coisa; prometeu que arranjaria com o pai metê-lo em uma aula noturna de primeiras letras, e recomendou-lhe que todos os dias de manhã tomasse o seu banho debaixo da bomba do poço.
          — Faça isso, que serei por você, rematou a moça, afastando-o com uma ligeira palmada na cabeça.
          O menino retirou-se, muito comovido, para o andar de cima, mas o Dias, de pé, no tope da escada, esperava por ele, furioso.
          — Que estava fazendo, seu traste?
          — Nada, respondeu a criança, a tremer. Fora a senhora que o chamara!...
          Dias, com um murro, explicou que o maroto não podia pôr-se de palestra na varanda, em vez de cuidar das obrigações.
          — E se me constar, acrescentou, cada vez mais zangado, que você me torna a ir com lamúrias para o lado de D. Anica, comigo se tem de haver, seu mariola! Vai tudo aos ouvidos do patrão!
          Manuelzinho arredou-se dali, convencido de que havia praticado uma tremenda falta; no íntimo, porém, ia muito satisfeito com a idéia de que já não estava tão desamparado, e sentindo renascer-lhe, na obscura mágoa do seu desterro, um desejo alegre de continuar a viver.
          A reunião em casa do Freitas esteve animada. Houve violão, cantoria, muita dança. Chegaram a deitar chorado da Bahia.
          Mas, pela volta da meia-noite, Ana Rosa, depois de uma valsa, fora acometida de um ataque de nervos. Era o terceiro que lhe dava assim, sem mais nem menos.
          Felizmente o médico, chamado a toda a pressa afiançou que aquilo não valia nada. “Distrações e bom passadio!” receitou ele, e, ao despedir-se de Manuel, segredou-lhe sorrindo:
          — Se quiser dar saúde à sua filha, trate de casá-la...
          — Mas o que tem ela, doutor?...
          — Ora o que tem! Tem vinte anos! Está na idade de fazer o ninho! mas, enquanto não chega o casamento, ela que vá dando os seus passeios a pé. Banhos frios, exercícios, bom passadio e distrações! Percebe?
          Manuel, na sua ignorância, imaginou que a filha alimentava ocultamente algum amor mal correspondido. Sacudiu os ombros. “Não era então coisa de cuidado.” E, em cumprimento as ordens do médico, inaugurou com a enferma longos passeios pela fresca da madrugada.
          Daí a dias, o cônego Diogo, contra todos os seus hábitos, procurava o compadre às sete horas da manhã.
          Atravessou o armazém, apressado como quem traz grande novidade, e, mal chegou ao negociante, foi lhe dizendo em tom misterioso:
          — Sabe? Faz sinal de aparecer, e é o Cruzeiro...
          Manuel largou logo de mão o serviço que fazia, subiu à varanda, deu as suas providências para receber um hóspede, e em seguida ganhou a rua com o amigo.
          Eles a saírem de casa e a fortaleza de São Marcos a salvar, anunciando com um tiro, a entrada de paquete brasileiro.
          Os dois tomaram um escaler e foram a bordo.


3

          Daí a pouco, entre as vistas interrogadoras dos curiosos, atravessou a Praça do Comércio um rapaz bem parecido, que ia acompanhado pelo cônego Diogo e por Manuel.
          A novidade foi logo comentada. Os portugueses vinham, com as suas grandes barrigas, às portas dos armazéns de secos e molhados; os barraqueiros espiavam por cima dos óculos de tartaruga; os pretos cangueiros paravam para “mirar o cara-nova”. O Perua-gorda, em mangas de camisa, como quase todos os outros, acudiu logo à rua:
          — Quem será esse gajo, ó coisa? perguntou ele ruidosamente a um súcio que passava na ocasião.
          — Algum parente ou recomendado do Manuel Pescada. Veio do Sul.
          — Ó aquele! sabes quem é o lanceiro que vai com o Pescada?
          — Não sei, homem, mas é um rapagão!
          Manuel apresentou o sobrinho a vários grupos. Houve sorrisos de delicadezas e grandes apertos de mão.
          — É o filho de um mano do Pescada... diziam depois. Conhecemos-lhe muito a vida! Chama-se Raimundo. Estava nos estudos.
          — Vem estabelecer-se aqui? indagou o José Buxo.
          — Não, creio que vem montar uma companhia...
          Outros afiançavam que Raimundo era sócio capitalista da casa de Manuel. Discutiam-lhe a roupa, o modo de andar, a cor e os cabelos. O Luisinho Língua de Prata afirmava que ele “tinha casta”.
          Entretanto os três subiam a Rua da Estrela.
          Chegados a casa, onde já havia pronto um quarto para o Sr. Dr. Raimundo José da Silva, o cônego e Manuel desfizeram-se em delicadezas com o rapaz.
          — Benedito! vê cerveja! Ou prefere conhaque, doutor?... Olha moleque, prepara guaraná! Doutor, venha antes para este lado que está mais fresco... não faça cerimônias! Vá entrando! vá entrando para a varanda! O senhor está em sua casa!...
          Raimundo queixava-se do calor.
          — Está horrível! dizia ele, a limpar o rosto com o lenço. Nunca suei tanto!
          — O melhor então é recolher-se um pouco e ficar à vontade. Pode mudar de roupa, arejar-se. A bagagem não tarda aí. Olhe, doutor, entre, entre e veja se fica bem aqui!
          Os três penetraram no quarto destinado ao hóspede.
          — O senhor, disse Manuel, tem aqui janelas para a rua e para o quintal. Ponha-se a gosto. Se precisar qualquer coisa, é só chamar pelo Benedito. Nada de cerimônias!
          Raimundo agradeceu muito penhorado.
          — Mandei dar-lhe cama, acrescentou o negociante, porque o senhor naturalmente não está afeito à rede, no entanto se quiser...
          — Não, não, muito obrigado. Está tudo muito bom. O que desejo é repousar um pouco justamente. Ainda tenho a cabeça a andar à roda.
          — Pois então descanse, descanse, para depois almoçar com mais apetite… Até logo.
          E Manuel e mais o compadre afastaram-se, cheios de cortesia e sorrisos de afabilidade.
          Raimundo tinha vinte e seis anos e seria um tipo acabado de brasileiro se não foram os grandes olhos azuis, que puxara do pai. Cabelos muito pretos, lustrosos e crespos; tez morena e amulatada, mas fina; dentes claros que reluziam sob a negrura do bigode; estatura alta e elegante; pescoço largo, nariz direito e fronte espaçosa. A parte mais característica da sua fisionomia era os olhos – grandes, ramalhudos, cheios de sombras azuis; pestanas eriçadas e negras, pálpebras de um roxo vaporoso e úmido; as sobrancelhas, muito desenhadas no rosto, como a nanquim, faziam sobressair a frescura da epiderme, que, no lugar da barba raspada, lembrava os tons suaves e transparentes de uma aquarela sobre papel de arroz.
          Tinha os gestos bem educados, sóbrios, despidos de pretensão, falava em voz baixa, distintamente sem armar ao efeito; vestia-se com seriedade e bom gosto; amava as artes, as ciências, a literatura e, um pouco menos, a política.
          Em toda a sua vida, sempre longe da pátria, entre povos diversos, cheia de impressões diferentes, tomada de preocupações de estudos, jamais conseguira chegar a uma dedução lógica e satisfatória a respeito da sua procedência. Não sabia ao certo quais eram as circunstâncias em que viera ao mundo; não sabia a quem devia agradecer a vida e os bens de que dispunha. Lembrava-se, no entanto, de haver saído em pequeno do Brasil e podia jurar que nunca lhe faltara o necessário e até o supérfluo. Em Lisboa tinha ordem franca.
          Mas quem vinha a ser essa pessoa encarregada de acompanhá-lo de tão longe?... Seu tutor, com certeza, ou coisa que o valha, ou talvez seu próprio tio, pois, quanto ao pai, sabia Raimundo que já o não tinha quando foi para Lisboa. Não porque chegasse a conhecê-lo, nem porque se recordasse de ter ouvido de alguém o doce nome de filho, mas sabia-o por intermédio do seu correspondente e pelo que deduzia de algumas vagas reminiscências da meninice.
          “Sua mãe, porém, quem seria?...” Talvez alguma senhora culpada e receosa de patentear a sua vergonha!... “Seria boa? Seria virtuosa?...”
          Raimundo perdia-se em conjeturas e, malgrado o seu desprendimento pelo passado, sentia alguma coisa atraí-lo irresistivelmente para a pátria. “Quem sabia se aí não descobriria a ponta do enigma?... Ele, que sempre vivera órfão de afeições legítimas e duradouras, como então seria feliz!... Ah, se chegasse a saber quem era sua mãe, perdoar-lhe-ia tudo, tudo!”
          O quinhão de ternura, que a ela pertencia, estava intacto no coração do filho. Era preciso entregá-lo a alguém! Era preciso desvendar as circunstâncias que determinaram o seu nascimento!
          “Mas, no fim de contas, refletia Raimundo, em um retrocesso natural de impressões, que diabo tinha ele com tudo isso, se até aí, na ignorância desses fatos, vivera estimado e feliz!... Não foi decerto para semelhante coisa que viera à província! Por conseguinte, era liquidar os seus negócios, vender os seus bens e – por aqui é o caminho! O Rio de Janeiro lá estava a sua espera!
          “Abriria, ao chegar lá, o seu escritório, trabalharia, e, ao lado da mulher com quem casasse e dos filhos que viesse a ter, nem sequer havia de lembrar-se do passado!
          “Sim, que mais poderia desejar melhor?... Concluíra os estudos, viajara muito, tinha saúde, possuía alguns bens de fortuna. – Era caminhar pra frente e deixar em paz o tal – passado! – O passado, passado! Ora adeus!”
          E, chegando a esta conclusão, sentia-se feliz, independente, seguro contra as misérias da vida, cheio de confiança no futuro. “E por que não havia de fazer carreira? Ninguém podia ter melhores intenções do que ele?.. Não era um vadio, nem homem de maus instintos; aspirava ao casamento, à estabilidade; queria, no remanso de sua casa, entregar-se ao trabalho sério, tirar partido do que estudara, do que aprendera na Alemanha, na França, na Suíça e nos Estados Unidos. Faltava-lhe apenas vir ao Maranhão e liquidar os seus negócios. – Pois bem! cá estava – era aviar e pôr-se de novo a caminho!”
          Foi com estas idéias que ele chegou à cidade de São Luís. E agora, na restauradora liberdade do quarto, depois de um banho tépido, o corpo ainda meio quebrado da viagem, o charuto entre os dedos, sentia. Se perfeitamente feliz, satisfeito com a sua sorte e com a sua consciência.
          — Ah! bocejou fechando os olhos. É liquidar os negócios e pôr-me ao fresco!...
          E, com um novo bocejo, deixou cair ao chão o charuto, e adormeceu tranqüilamente.
          No entanto, a história de Raimundo, a história que ele ignorava, era sabida por quantos conheceram os seus parentes no Maranhão.
          Nasceu numa fazenda de escravos na Vila do Rosário, muitos anos depois que seu pai, José Pedro da Silva aí se refugiara, corrido do Pará ao grito de “Mata bicudo!” nas revoltas de 1831.
          José da Silva havia enriquecido no contrabando dos negros da África e fora sempre mais ou menos perseguido e malquisto pelo povo do Pará; até que, um belo dia, se levantou contra ele a própria escravatura, que o teria exterminado, se uma das suas escravas mais moças, por nome Domingas, não o prevenisse a tempo. Logrou passar incólume ao Maranhão, não sem pena de abandonar seus haveres e risco de cair em novos ódios, que esta província, como vizinha e tributária do comércio da outra, sustentava instigada pelo Farol, contra os brasileiros adotivos e contra os portugueses. Todavia, conseguiu sempre salvar algum ouro; metal que naquele bom tempo corria abundante por todo o Brasil e que mais tarde a Guerra do Paraguai tinha de transformar em condecorações e fumaça.
          A fuga fizeram eles, senhor e escrava, a pé, por maus caminhos, atravessando os sertões. Ainda não existia a companhia de vapores e os transportes marítimos dependiam então de vagarosas barcas, a vela e remo e, às vezes, puxadas a corda, nos igarapés. Foram dar com os ossos no Rosário. O contrabandista arranjou-se o melhor que pôde com a escrava que lhe restava, e, mais tarde, no lugar denominado São Brás, veio a comprar uma fazendola, onde cultivou café, algodão, tabaco e arroz.
          Depois de vários abortos, Domingas deu à luz um filho de José da Silva. Chamou-se o vigário da freguesia e, no ato do batismo da criança, esta, como a mãe, receberam solenemente a carta de alforria.
          Essa criança era Raimundo.
          Na capital, entretanto, acalmavam-se os ânimos. José prosperou rapidamente no Rosário; cercou a amante e o filho de cuidados; relacionou-se com a vizinhança, criou amizades, e, no fim de pouco tempo, recebia em casamento a Sra. D. Quitéria Inocência de Freitas Santiago, viúva, brasileira, rica, de muita religião e escrúpulos de sangue, e para quem um escravo não era um homem, e o fato de não ser branco, constituía só por si um crime.
          Foi uma fera! às suas mãos, ou por ordem dela, vários escravos sucumbiram ao relho, ao tronco, à fome, à sede, e ao ferro em brasa. Mas nunca deixou de ser devota, cheia de superstições; tinha uma capela na fazenda, onde a escravatura, todas as noites, com as mãos inchadas pelos bolos, ou as costas lanhadas pelo chicote, entoava súplicas à Virgem Santíssima, mãe dos infelizes.
          Ao lado da capela o cemitério das suas vítimas.
          Casara com José da Silva por dois motivos simplesmente: porque precisava de um homem, e ali não havia muito onde escolher, e porque lhe diziam que os portugueses são brancos de primeira água.
          Nunca tivera filhos. Um dia reparou que o marido, a título de padrinho, distinguia com certa ternura o crioulo da Domingas e declarou logo que não admitia, nem mais um instante, aquele moleque na fazenda.
          — Seu negreiro! gritava ela ao marido, fula de raiva. Você pensa que lhe deixarei criar, em minha companhia, os filhos que você tem das negras?... Era só também o que faltava! Não trate de despachar-me, quanto antes, o moleque, que serei eu quem o despacha, mas há de ser para ali, para junto da capela!
          José, que sabia perfeitamente de quanto ela era capaz, correu logo à vila para dar as providências necessárias à segurança do filho. Mas, ao voltar à fazenda, gritos horrorosos atraíram-no ao rancho dos pretos, entrou descoroçoado e viu o seguinte:
          Estendida por terra, com os pés no tronco, cabeça raspada e mãos amarradas para trás, permanecia Domingas, completamente nua e com as partes genitais queimadas a ferro em brasa. Ao lado, o filhinho de três anos, gritava como um possesso, tentando abraçá-la, e, de cada vez que ele se aproximava da mãe, dois negros, à ordem de Quitéria, desviavam o relho das costas da escrava para dardejá-lo contra a criança. A megera, de pé, horrível, bêbada de cólera, ria-se, praguejava obscenidades, uivando nos espasmos flagrantes da cólera. Domingas, quase morta, gemia, estorcendo-se no chão. O desarranjo de suas palavras e dos seus gestos denunciava já sintomas de loucura.
          O pai de Raimundo, no primeiro assomo de indignação, tão furioso acometeu sobre a esposa, que a fez cair. Em seguida, ordenou que recolhessem Domingas à casa dos brancos e que lhe prodigalizassem todos os cuidados.
          Quitéria, a conselho do vigário do lugar, um padre ainda moço, chamado Diogo, o mesmo que batizara Raimundo, fugiu essa noite para a fazenda de sua mãe, D. Úrsula Santiago, a meia légua dali.
          O vigário era muito da casa das Santiago; dizia-se até aparentado com elas. O caso é que foi na qualidade de confessor, parente e amigo, que ele acompanhou Quitéria.
          José da Silva, por esse tempo, chegava à cidade de São Luís com o filho. Procurou seu irmão mais moço, o Manuel Pedro, e entregou-lhe o pequeno, que ficaria sob as vistas do tio até ter idade para matricular-se num colégio de Lisboa.
          Feito isso, tornou de novo para a sua roça. “Agora contava viver mais descansado; era natural que a mulher se deixasse ficar em casa da mãe.” Ao chegar lá, sabendo que não o esperavam essa noite e como visse luz no quarto da esposa, apeou-se em distância e, para não se encontrar com ela, guardou o cavalo e entrou silenciosamente na fazenda.
          Os cães conheceram-no pelo faro e apenas rosnaram. Mas, na ocasião em que ele passava defronte do quarto de Quitéria, ouviu aí sussurros de vozes que conversavam. Aproximou-se levado pela curiosidade e encostou o ouvido à porta. Reconheceu logo a voz da mulher.
          “Mas, com quem, diabo, ela conversaria àquela hora?...”
          Conteve a impaciência e esperou de ouvido alerta.
          “Não havia dúvida! – a outra voz era de um homem!...”
          Sem esperar mais nada, meteu ombros à porta e, precipitou-se dentro do quarto, atirando-se com fúria sobre a esposa, que perdera logo os sentidos.
          O padre Diogo, pois era dele a outra voz, não tivera tempo de fugir e caíra, trêmulo, aos pés de José. Quando este largou das mãos a traidora, para se apossar do outro, reparou que a tinha estrangulado. Ficou perplexo e tolhido de assombro.
          Houve então um silêncio ansioso. Ouvia-se o resfolegar dos dois homens. A situação dificultava-se; mas o vigário, recuperando o sangue-frio, ergueu-se, consertou as roupas e, apontando para o corpo da amante, disse com firmeza:
          — Matou-a! Você é um criminoso!
          — Cachorro! E tu?! Tu serás porventura menos criminoso do que eu?
          — Perante as leis, decerto! porque você nunca poderá provar a minha suposta culpa e, se tentasse fazê-lo, a vergonha do fato recairia toda sobre a sua própria cabeça, ao passo que eu, além do crime de injúria consumado na minha sagrada pessoa, sou testemunha do assassínio desta minha infeliz e inocente confessada, assassínio que facilmente documentarei com o corpo de delito que aqui está!
          E mostrava a marca das mãos de José na garganta do cadáver.
          O assassino ficou aterrado e abaixou a cabeça.
          — Vamos lá!... disse o padre afinal, sorrindo e batendo no ombro do português. Tudo neste mundo se pode arranjar, com a divina ajuda de Deus... só para a morte não há remédio! Se quiser, a defunta será sepultada com todas as formalidades civis e religiosas...
          E, dando à voz um cunho particular de autoridade: – Apenas, pelo meu silêncio sobre o crime, exijo em troca o seu para a minha culpa... Aceita?
          José saiu do quarto, cego de cólera, de vergonha e de remorso.
          — Que vida a sua! exclamava. Que vida, santo Deus!
          O padre cumpriu a promessa: o cadáver enterrou-se na capela de São Brás, ao lado das suas vítimas; e todos os do lugar, até mesmo os de casa, atribuíram a morte de Quitéria ao espírito maligno que se lhe havia metido no corpo.
          O vigário confirmava esses boatos e continuava a pastorar tranqüilamente o seu rebanho, sempre tido por homem de muita santidade e de grandes virtudes teologais. Os devotos continuaram a trazer-lhe, de muitas léguas de distância, os melhores bácoros, galinhas e perus dos seus cercados.
          Em breve, as coisas voltavam todas aos eixos: José entregou a fazenda a Domingas e mais três pretos velhos, que alforriou logo, e, acompanhado pelo resto da escravatura, seguiu para a cidade de São Luís, no propósito de liquidar seus bens e recolher-se à pátria com o filho.
          A mãe de Raimundo conseguiu enfim descansar. São Brás criou a sua lenda e foi aos poucos ganhando fama de amaldiçoada. Entretanto, o pequeno, quando chegou à casa do tio na capital, estava, como facilmente se pode julgar, com a pele sobre os ossos. A falta de cuidados espalhara-lhe na carinha opada uma expressão triste de moléstia; quase que não conseguia abrir os olhos. Todo ele era mau trato e fraqueza; tinha o estômago muito sujo, a língua saburrenta, o corpo a finar-se de reumatismo e tosse convulsa, o sangue predisposto à anemia escrofulosa. Apesar do instinto materno, que a tudo resiste e vence, a pobre escrava não podia olhar nunca pelo filho: lá estava Quitéria para desviá-la dele, para cortar-lhe as carícias a chicote; tanto assim, que, quando José lhe anunciou que Raimundo ia para a casa do tio na cidade, a infeliz abençoou com lágrimas desesperadas aquela separação.
          Todavia, o desgraçadinho foi encontrar em Mariana, cunhada de seu pai, a mais carinhosa e terna das protetoras. A boa senhora, como sabia que o marido o pouco que tinha devia à generosidade do irmão, julgou-se logo obrigada a servir de mãe ao filho deste. Ana Rosa, único fruto do seu casamento, ainda não era nascida nesse tempo, de sorte que as premissas da sua maternidade pertenceram ao pupilo.
          Dentro em pouco, no agasalho carinhoso daquelas asas de mãe, Raimundo, de feio que era, tornou-se uma criança forte, sã e bonita.
          Foi então que Ana Rosa veio ao mundo; a princípio muito fraquinha e quase sem dar acordo de si. Manuel andava aflito, com medo de perdê-la. Que luta, os três primeiros meses de sua vida! Parecia morrer a todo instante, coitadinha! Ninguém dormia na casa; o negociante chorava como um perdido, enquanto a mulher fazia promessas aos santos da sua devoção.
          Era por isto que a menina, mais tarde, se recordava agradavelmente de ter feito o anjo da verônica nas procissões da quaresma.
          E ao lado de Mariana, que noite e dia velava o berço da filhinha enferma, estava o Mundico, o outro filho, que este também a chamava de mãe e já se não lembrava da verdadeira, da preta que o trouxera nas entranhas.
          A menina salvou-se, graças aos bons serviços de um médico, que chegara havia pouco da universidade de Montpellier, Dr. Jauffret, e, a partir daí Manuel não quis saber de outro facultativo em sua casa.
          Por essa época, mais ou menos, chegava do Rosário a notícia de haver D. Quitéria sucumbido a uma congestão cerebral.
          — Deu-lhe de repente! explicava o correio, com o seu saco de couro às costas. Foi obra do sujo, credo!
          E, pouco depois, José Pedro da Silva, todo coberto de luto, muito encanecido e desfeito, vinha liquidar os seus negócios e partir logo para Portugal. Manuel estimava-o deveras e sentia-se de vê-lo naquele estado.
          Aprontou-se tudo para a viagem e José recolheu-se a última noite em casa do irmão. Mas não pôde pregar olho, estava excitado, e a lembrança dos terríveis sucessos, que ultimamente se haviam dado com ele, nunca o apoquentara tanto. Levantou-se e começou a passear no quarto, a falar sozinho, nervoso, delirante, vendo surgir espectros de todos os lados.
          Pelas quatro horas da madrugada, Manuel, impressionado, porque, de todas as vezes que acordava, via luz no quarto do hóspede e ouvia-lhe o som dos passos trôpegos e vacilantes, e sentia-lhe os gemidos abafados e o vozear frouxo e doloroso, não se pôde ter e levantou-se. “Terá alguma coisa o José?...” pensou ele, embrulhando-se no lençol e tomando aquela direção. A porta achava-se apenas no trinco, abriu-a devagar e entrou. O viúvo, ao sentir alguém, voltou-se assombrado e, dando com o fantasma que lhe invadia a alcova, recuou de braços erguidos, entre gritos terror. Manuel correu sobre ele; mas antes que se desse a conhecer, já o assassino de Quitéria havia caído desamparadamente no chão.
          Fez-se logo um grande motim por toda a casa, que era nesse tempo no Caminho Grande, e na qual os caixeiros do negociante ainda não moravam com o patrão. A boa Mariana acudiu pronta, cheia de zelo. “Um escalda-pés! depressa!” dizia, apalpando os contraídos e volumosos pés do cunhado. Tisanas, mezinhas de toda a espécie, foram lembradas; pôs-se em campo a medicina doméstica, e, daí a uma hora o desfalecido voltava a si.
          Mas não pôde erguer-se: ficara muito prostrado. À síncope sobreveio-lhe uma febre violenta, que durou até à noite, quando chegou afinal o Jauffret.
          Era uma febre gástrica, explicou este. E mais: que a moléstia requeria certo cuidado – muito sossego de espírito! Nada de bulha, principalmente!
          José, malgrado a recomendação do médico, quis ver o filho. Abraçou-o soluçando, disse-lhe que estava para morrer. E no outro dia ainda de cama, perfilhou-o; pediu um tabelião, fez testamento e, chorando, chamou Manuel para seu lado.
          — Meu irmão, recomendou-lhe. Se eu for desta... o que é possível, remete-me logo o pequeno para a casa do Peixoto em Lisboa.
          Terminou dizendo “que o queria – com muito saber – que o metessem num colégio de primeira sorte. Ficava aí bastante dinheiro... não tivessem pena de gastar com o seu filho; que lhe dessem do melhor e do mais fino”. Estas coisas fizeram-no piorar; já todos os choravam como morto, e, pelos dias de mais risco, quando José delirava na sua febre, apareceu em casa do Manuel o pároco do Rosário; vinha muito solícito, saber do estado do seu amigo José “do seu irmão” dizia ele com uma grande piedade.
          E daí, não abandonava a casa. Prestava-se a um tudo, serviçal, discreto, às vezes choramingando porque lhe vedavam a entrada no quarto do enfermo. Manuel e Mariana não se furtavam de apreciar aquela solicitude do bom padre, o interesse com que ele chegava todos os dias para pedir notícias do amigo. Dispensavam-lhe um grande acolhimento; achavam-no meigo, jeitoso e simpático.
          — É um santo homem! dizia Manuel convencido.
          Mariana confirmava, acrescentando em voz baixa:
          — Por adulação não é, coitado! Todos sabem que o padre Diogo não precisa de migalhas!...
          — É remediado de fortuna, pois não! Mas, olhe, que sabe aplicar bem o que possui...
          Seguia-se uma longa resenha dos episódios louváveis da vida do santo vigário; citavam-se rasgos de abnegação, boas esmolas a criaturas desamparadas, perdões de ofensas graves, provas de amizade e provas de desinteresse. “Um santo! Um verdadeiro santo!”
          E assim foi o padre Diogo tomando pé em casa de Manuel e fazendo-se todo de lá. Já contavam com ele para padrinho de Ana Rosa; esperavam-no todas as tardes com café, e à noite, nos serões da família, marido e mulher não perdiam ocasião de contar as boas pilhérias do senhor vigário, glorificar-lhe as virtudes religiosas e recomendá-lo às visitas como um excelente amigo e magnífico protetor. Um dia, em que ele, como sempre, cheio de solicitude, perguntava pelo “seu doente” disseram-lhe que José estava livre de maior perigo e que o restabelecimento seria completo com a viagem à Europa. Diogo sorriu, aparentemente satisfeito; mas, se alguém lhe pudesse ouvir o que resmungava ao descer as escadas, ter-se-ia admirado de ouvir estas e outras frases:
          — Diabo!... Querem ver que ainda não se vai desta, o maldito?... E eu, que já o tinha por despachado!...
          No dia seguinte, dizia o velhaco ao futuro compadre: – Bom, agora que o nosso homem está livre de perigo, posso ir mais sossegado para a minha paróquia... Já não vou sem tempo!...
          E despediu-se, todo boas palavras e sorrisos angélicos, acompanhado pelas bênçãos da família.
          — Senhor vigário! gritou-lhe Mariana do patamar da escada. Não faça agora como os médicos, que só aparecem com as moléstias!... Seja cá de casa!
          —Venha de vez em quando, padre! acrescentou Manuel. Apareça!
          Diogo prometeu vagamente, e nesse mesmo dia atravessou o Boqueirão em demanda da sua freguesia.
          Essa noite, nas salas de Manuel, só se conversou sobre as boas qualidades e os bons precedentes do estimado cura do Rosário.
          José, com geral contentamento dos de casa, convalescia prodigiosamente. Manuel e Mariana cercavam-no de afagos, desejosos por fazê-lo esquecer a imprudência da madrugada fatal, o que supunham, fosse o único motivo da moléstia; daí a coisa de um mês, o convalescente resolveu tornar à fazenda, a despeito das instâncias contrárias da cunhada e dos conselhos do irmão.
          — Que vais lá fazer, homem de Deus? perguntava este. Se era por causa da Domingas, que diabo! fizesse-a vir! O melhor porém, segundo a sua fraca opinião, seria deixá-la lá onde estava. Uma preta da roça, que nunca saiu do mato!...
          Não! não era isso! respondia o outro. Mas não iria para a terra, sem ter dado uma vista d’olhos ao Rosário!
          — Ao menos não vai só, José. Eu posso acompanhar-te.
          José agradeceu. Que já estava perfeitamente bom. E, em caso de necessidade, podia contar com os canoeiros, que eram todos seus homens.
          E dizia as inúmeras viagens que tinha feito até ali; contava episódios a respeito do Boqueirão. “E que se deixassem disso! Não estivessem a fazer daquela viagem um bicho de sete cabeças!... Haviam de ver que, antes do fim do mês, estava ele de velas para Lisboa.”
          Partiu. A viagem correu-lhe estúpida, como de costume naquele tempo, em que o Maranhão ainda não tinha vapores. Demais, a sua fazenda era longe, muito dentro, a cinco léguas da vila. Urgia, por conseguinte, demorar-se aí algumas horas antes de internar-se no mato; comer, beber, tratar dos animais; arranjar condução e fazer a matalotagem.
          Os poucos familiarizados com tais caminhos tomam sempre, por precaução, um “pajem”, é este o nome que ali romanticamente se dá ao guia; e o pajem menos serve para guiar o viajante, que a estrada é boa, do que para lhe afugentar o terror dos mocambos, das onças e cobras de que falam com assombro os moradores do lugar.
          Não é tão infundado aquele terror: o sertão da província está cheio de mocambeiros, onde vivem os escravos fugidos com suas mulheres e seus filhos, formando uma grande família de malfeitores. Esses desgraçados, quando não podem ou não querem viver da caça, que é por lá muito abundante e de fácil venda na vila, lançam-se à rapinagem e atacam na estrada os viajantes; travando-se, às vezes, entre uns e outros, verdadeiras guerrilhas, em que ficam por terra muitas vítimas.
          José da Silva comprou na vila o que lhe convinha e seguiu, sem pajem para a fazenda.
          Ah! Ele conhecia perfeitamente essas paragens!...
          E quantas recordações não lhe despertavam aquelas carnaubeiras solitárias, aqueles pindovais ermos e silenciosos e aqueles trêmulos horizontes de verdura! Quantas vezes, perseguindo uma paca ou um veado, não atravessou ele, a galope, aqueles barrancos perigosos que se perdiam da estrada!
          Pungia-lhe agora deixar tudo isso; abandonar o encanto selvagem das florestas brasileiras. O europeu sentia-se americano, familiar às vozes misteriosas daqueles caités sempre verdejantes, habituado à companhia austera daquelas árvores seculares, às sestas preguiçosas da fazenda, ao viver amplo da roça, descalço, o peito nu, a rede embalada pela viração cheirosa das matas, o sono vigiado por escravos.
          E tinha de deixar tudo isso!
          “Para que negar? Havia de custar-lhe muito!” considerou ele, fazendo estacar o seu animal. Havia andado quatro léguas e precisava comer alguma coisa.
          No interior do Maranhão o viajante, de ordinário, “pousa” e come nas fazendas que vai encontrando pelo caminho, tanto que todas elas, contando já com isso, têm sempre cômodos especiais, destinados exclusivamente aos hóspedes adventícios; mas com José da Silva, que, aliás muitas e muitas vezes pernoitara em diversas e conhecia de perto a hospitalidade dos seus vizinhos, a coisa mudava agora de figura: não queria de forma alguma suportar a companhia de ninguém; receava que o interrogassem sobre a morte da mulher. Preferiu pois jantar mesmo ao relento, e seguir logo sua viagem.
          Não obstante, ia já escurecendo, as cigarras estridulavam em coro; ouvia-se o lamentoso piar das rolas que se aninhavam para dormir; toda a natureza se embuçava em sombras, bocejando.
          Anoitecia lentamente.
          Então, José da Silva sentiu mais negra por dentro a sua viuvez; sentiu um grande desejo de chegar a casa, mas queria encontrar uma boa mesa, onde comesse e bebesse à vontade, como dantes; queria a sua cama larga, de casados, o seu cachimbo, o seu trajo de casa.
          Ah! Nada disso encontraria!... O quarto, em que ele, durante tantos anos, dormira feliz, devia ser àquela hora um ermo pavoroso; a cozinha devia estar gelada, os armários vazios, a horta murcha, os potes secos, o leito sem mulher!
          Que desconsolo!
          Apesar de tudo, sentia fundas saudades da esposa.
          — Como o homem precisa de família!... lamentava ele no isolamento. Ah padre! Aquele maldito padre! E daí, quem sabe?... se eu perdoasse?... ela talvez se arrependesse e viesse ainda a dar uma boa companheira, virtuosa e dócil!... Mas... e ele?... Oh nunca! Ele existiria! A dúvida continuava na mesma! Ele, só ele é que eu devia ter matado!
          E depois de refletir um instante:
          — Não! antes assim! Assim foi melhor!
          Esta conclusão, arrancada só pelo seu espírito religioso, foi seguida de um movimento rápido de esporas. O cavalo disparou. Fez-se então um correr vertiginoso, em que José, todo vergado sobre a sela, parecia dormir na cadeia do galope. Mas, de súbito, contraiu as rédeas e o animal estacou.
          O cavaleiro torceu a cabeça, concheando a mão atrás da orelha. Vinha de longe uma toada estranha de vozes sussurrantes, e um confuso tropel de cavalgaduras.
          A noite exalava da floresta. Sentiam-se ainda as derradeiras clari­dades do dia e já também um crescente acumular de sombras. A lua erguia-se, brilhando com a altivez de um novo monarca que inspeciona os seus domínios, e o céu ainda estava todo ensangüentado da púrpura do último sol, que fugia no horizonte trêmulo, como um rei expulso e envergonhado.
          José da Silva, entregue todo aos seus tormentos, assistia, sem apreciar, ao espetáculo maravilhoso de um crepúsculo de verão no extremo norte do Brasil.
          O sol descambava no ocaso, retocando de tons quentes e vigorosos, com a minuciosidade de um pintor flamengo, tudo aquilo que o cercava. Desse lado, montes e vales tinham orlas de ouro; era tudo vermelho e esfogueado: ao passo que, do ponto contrário, lhe opunha o luar o doce contraste da sua luz argentina e fresca, debuxando contra o horizonte o trêmulo e duvidoso perfil das carnaubeiras e dos pindovais.
          Destas bandas, no conflito boreal daquelas duas luzes inimigas, um grupo mal-definido e rumoroso agitava-se e crescia progressivamente.
          Era uma caravana de ciganos que se aproximava.
          Vinha lentamente, com o passo frouxo de uma boiada. Na solidão tristonha e sombria da floresta iam-se pouco a pouco distinguindo vozes de tons diversos e acentuavam-se grupo de homens, mulheres e crianças, de todas as cores e de todas as idades, cavalgando magníficos animais. Uns cantavam ao embalo monótono da besta; outros tocavam viola; esta acalentava o filho, aquela repetia as modas que lhe ensinara a gajoa. Viam-se moços, de calça e quinzena, cabelos grandes, o ar indolente, o cachimbo ao canto da boca, o olhar vago e cheio de volúpia, ao lado de raparigas fortes, queimadas do sol, com as melenas muito negras e lisas escorrendo sobre a opulência das espáduas. Sentavam-se à moda de odaliscas em volumosas trouxas, que serviam, a um tempo, de alforje e de sela. Algumas delas traziam filhos ao colo ou na garupa do cavalo.
          E, lenta e pesadamente, a caravana dos ciganos se aproximava. José escondeu-se no mato, para a ver passar.
          Com certeza vinha enxotada de alguma fazenda, porque o chefe, um velho membrudo, de grandes barbas brancas, olhos cor de fumo, cavados e sombrios, mas irrequietos e vivos, erguia, de vez em quando, o braço e ameaçava o poente:
          — Jacarés te piquem diabo! Atravessado tu sejas na boca de um bacamarte!
          E a voz rouca e profunda do ancião perdia-se na floresta.
          Meio deitada nas pernas dele, cingindo-lhe a cintura, uma mulher bela, o colo nu e fresco, a garganta lisa e carnuda, procurava, com o olhar muito mole de uma ternura úmida e escrava, diminuir-lhe a cólera.
          E a caravana, iluminada pelos últimos raios da claridade poente, foi passando. E a pouco e pouco o sussurrar das vozes foi se perdendo no tristonho murmúrio das matas, como no horizonte se perdia a última réstia de luz vermelha.
          Em breve, tudo recaiu no silêncio primitivo, e a lua, do alto, baldeava com a sua luz misteriosa e triste a solidão das clareiras.
          José ficou imóvel, pensativo, perdido num desgosto invencível. O espetáculo daquele velho boêmio, abraçado a uma mulher bonita e sem dúvida fiel, mordia-o por dentro com o dente mais agudo da inveja. “Aquele, um vagabundo, um miserável, sem lar, sem dinheiro, sem mocidade ao menos, tinha contudo nesta vida uma fêmea que o acarinhava e seguia como escrava; ao passo que ele, ali, no meio do campo, desacompanhado, inteiramente esquecido, chorava, porque lhe arrancaram tudo, tudo – a casa, a mulher e a felicidade!” E depois pela associação natural das idéias, punha-se a lembrar do rosto pálido de Diogo. A despeito do ódio que lhe votava, achava-o bonito, com o seu cabelo todo anelado, o sorriso terno e piedoso, olhos e lábios de uma expressão sensual e ao mesmo tempo religiosa. Este contraste devia por força agradar às mulheres, vencê-las pelos mistérios, pelo incognoscível. E chorava, chorava cada vez mais.
          “Como eles não se amariam!... Quanto prazer não teriam desfrutado!... ”
          Instintivamente comparava-se ao padre e, cheio de raiva, de inveja, reconhecia-se inferior. De repente, veio-lhe esta idéia:
          “E se eu o matasse?...”
          Repeliu-a logo, sem querer nem ao menos escutá-la; mas a idéia não ia e agarrava-se-lhe ao cérebro, com uma obstinação de parasita.
          Então, vieram-lhe à lembrança, sob uma reminiscência lúcida e saudosa – o seu casamento, os sobressaltos felizes do noivado, o namoro de Quitéria. Tudo isso nunca lhe pareceu tão bom, tão apetecível como naquele momento. Agora, descobria na mulher virtudes e belas qualidades, para as quais nunca atentara dantes.
          “Seria eu o culpado de tudo?... Não teria cumprido com os meus deveres de bom esposo?.. Seriam insuficientes os meus carinhos?...” interrogava ele à própria consciência; esta respondia opondo-lhe dúvidas que valiam acusações. Ele defendia-se, explicava os fatos, citava provas em favor, lembrava a sua dedicação e a sua amizade pela defunta; mas a maldita rezingueira não se acomodava e não aceitava razões. E José abriu a chorar como um perdido.
          Surpreendeu-se neste estado; quis fugir de si mesmo, e cravou as esporas no cavalo. Correu muito, à rédea solta como se fugira perseguido pela própria sombra.
          “E se eu o matasse?...”
          Era a maldita idéia que vinha de novo à superfície dos seus pensamentos.
          “Não! Não!” E ele a repelia de novo empurrando-a para o fundo da sua imaginação, como o assassino que repele no mar o cadáver da sua vítima; ela mergulhava com o impulso, mas logo reaparecia, boiando. “E se eu o matasse?...”
          — Não! não! exclamou, desferindo um grito no silêncio da floresta. Já basta a outra!
          E assanhavam-se-lhe os remorsos.
          Nesse momento uma nuvem escondera a lua. Espectros surgiam no caminho; José suava e tremia sobre a sela; o mais leve mexer de galhos eriçava-lhe os cabelos.
          No entanto – corria.
          Pouco lhe faltava já para chegar à fazenda, muito pouco, uma miserável distância, e, contudo, mais lhe custava esse pouco do que todo o resto da viagem. Fechou os olhos e deixou que o cavalo corresse à toa, galopando ruidosamente na terra úmida de orvalho. Ele ofegava, acossado por fantasmas. Via a sua vítima, com a boca muito aberta, os olhos convulsos, a falar-lhe coisas estranhas numa voz de moribunda, a língua de fora, enorme e negra, entre gorgolhões de sangue. E via também surgir aquele padre infame, bater-lhe no ombro, apresentar-lhe, sorrindo, um alvitre, propor uma condição e passar logo à ameaça brutal: “Tenho-te na mão, assassino! Se quiseres punir-me, entrego-te à justiça!”
          E José gritou, como doido, soluçando:
          — E eu aceitei, diabo! Eu aceitei!
          Nisto, o cavalo acuou. Um vulto negro agitou-se por detrás do tronco de um ingazeiro, e uma bala, seguida pela detonação de um tiro, varou o peito de José da Silva.
          Os negros de São Brás viram aparecer lá o animal às soltas, e todo salpicado de sangue, tinham ouvido um tiro para as bandas da estrada, correram todos nessa direção à procura da vítima.
          Foi Domingas quem a descobriu, e, num delírio, precipitou-se contra o cadáver, a beijar-lhe as mãos e as faces.
          — Meu senhor! meu querido! meus amores! exclamava ela, a soluçar convulsivamente.
          Mas, tomada de uma idéia súbita, ergueu-se, e gritou, apontando vagamente para o lado da vila.
          — Foi ele! Não foi outro! Foi aquele malvado! Foi aquele padre do diabo!
          E pôs-se a rir e a dançar, batendo palmas e cantando. Era a loucura que voltava.
          O crime foi atribuído aos mocambeiros e o corpo de José da Silva enterrado junto à sepultura da mulher, ao lado da capela, que principiava a desmoronar com a míngua dos antigos cuidados.
          A fazenda aos poucos se converteu em tapera, e lendas e superstições de todo o gênero se inventaram para explicar-lhe o abandono. O vigário do lugar, pessoa insuspeita e criteriosa, nem só confirmava o que diziam, como aconselhava a que não fossem lá. “Aquilo eram terras amaldiçoadas!”
          Anos depois, contavam que nas ruínas de São Brás vivia uma preta feiticeira, que, por alta noite, saía pelos campos a imitar o canto da mãe-da-lua.
          Ninguém se animava a passar perto dali, e o caminheiro descuidado, que se perdesse em tais paragens, via percorrer o cemitério, a cantar e a rodar, um vulto alto e magro de mulher, coberto de andrajos.
          A morte inesperada de José causou grande abalo no irmão e ainda mais em Mariana. Raimundo era muito criança, não a compreendeu; por esse tempo teria ele cinco anos, se tanto. Vestiram-no de sarja preta e disseram-lhe que estava de luto pelo pai. Manuel tratou do inventário; recebeu o que lhe coube e mais a mulher na herança; depositou no recém-criado banco da província o que pertencia ao órfão e, apesar das vantagens que propôs para vender ou arrendar a fazenda de São Brás, ninguém a quis. Isto feito, escreveu logo para Lisboa, pedindo esclarecimentos à Casa Peixoto, Costa & Cia., e uma vez bem informado no que desejava, remeteu o sobrinho para um colégio daquela cidade.
          Muito custou à bondosa Mariana separar-se de Raimundo. Doía aquele coração amoroso ver expatriar-se, assim, tão sem mãe, uma pobre criança de cinco anos. O pequeno, todavia, depois de preparado com todo o desvelo, foi metido, a chorar, dentro de um navio, e partiu.
          Ia recomendado ao comandante e lamentava-se muito em viagem. Quando chegou a Lisboa teve horror de tudo que o cercava. Entretanto, foi sempre bem tratado: seu correspondente hospedou-o como a um parente, tratou-o como filho; depois, meteu-o num colégio dos melhores.
          Raimundo envergou o uniforme da casa, recebeu um número, e freqüentou as aulas. A princípio, logo que o deixavam sozinho, punha-se a chorar. Tinha muito medo do escuro; à noite, cosia-se contra a parede, abraçado aos travesseiros. Não gostava dos outros meninos, porque lhe chamavam “Macaquinho”. Era teimoso, cheio de caprichos, ressentia-se muito da má educação que os portugueses trouxeram para o Brasil.
          No colégio era o único estudante que se chamava Raimundo e os colegas ridicularizavam-lhe o nome, “Raimundo Mundico Nico!” diziam-lhe, puxando-lhe a blusa e batendo-lhe na cabeça tosquiada à escovinha; até que ele se retirava enfiado, sem querer tornar ao recreio, a chorar e a berrar que o mandassem para a sua terra. Mas, com o tempo, apareceram-lhe amigos e a vida então se lhe afigurou melhor. Já faziam as suas palestras; os companheiros não se cansavam de pedir-lhe informações sobre o Brasil. “Como eram os selvagens?... E se a gente encontrava, pelas ruas, mulheres despidas; e se Raimundo nunca fora varado por alguma flecha dos caboclos.”
          Um dia recebeu uma carta de Mariana e, pela primeira vez, deu-se ao cuidado de pensar em si. Mas as suas reminiscências não iam além da casa do tio; no entanto, queria parecer-lhe que a sua verdadeira mãe não era aquela senhora, aquela vinha a ser sua tia, porque era a mulher de seu tio Manuel; e até, se lhe não falhava a memória, por mais de uma vez ouvira dela própria falar na outra, na sua verdadeira mãe... “Mas quem seria a outra? Como se chamava?... Nunca lho disseram!...”
          Quanto a seu pai, devia ser aquele homem barbado que, uma noite, lhe apareceu, muito pálido e aflito, e por quem pouco depois o cobriram de luto. Da cena dessa noite lembrava-se perfeitamente! Já estava recolhido, foram buscá-lo à rede e trouxeram-no, estremunhado, para as pernas do tal sujeito, por sinal que as suas barbas tinham na ocasião certa umidade aborrecida, que Raimundo agora calculava ser produzida pelas lágrimas; depois foi se deitar e não pensou mais nisso. Recordava-se também, mas não com tamanha lucidez, do tempo em que aquele mesmo homem esteve doente, lembrava-se de ter recebido dele muitos beijos e abraços, e só agora notava que todos esses afagos eram sempre ocultos e assustados, feitos como que ilegalmente, às escondidas, e quase sempre acompanhados de choro.
          Depois destas e outras divagações pelo passado, Raimundo, se bem que muito novo ainda, punha-se a pensar e os véus misteriosos da sua infância assombravam-lhe já o coração com uma tristeza vaga e obscura, numa perplexidade cheia de desgosto. Todo o seu desejo era correr aos braços de Mariana e pedir-lhe que lhe dissesse, por amor de Deus, quem afinal vinha a ser seu pai e, principalmente, sua mãe.
          Passaram-se anos, e ele permaneceu enleado nas mesmas dúvidas. Concluiu os seus preparatórios, habilitou-se a entrar para a Academia. E sempre as mesmas incertezas a respeito da sua procedência.
          Matriculou-se em Coimbra. Desde então a sua vida mudou radicalmente; todo ele se transformou nos seus modos de ver e julgar. Principiou a ser alegre.
          Mas um golpe terrível veio de novo entristecê-lo – a morte da sua mãe adotiva. Chorou-a longa e amargamente; não só por ela, mas também muito por si próprio: perdendo Mariana, perdia tudo que o ligava ao passado e à pátria. Nunca se considerou tão órfão. Todavia, com o correr dos tempos, dispersaram-se-lhe as mágoas e a mocidade triunfou; a criança melancólica produziu um rapaz cheio de vida e bom humor; sentiu-se bem dentro da sua romântica batina de estudante; meteu-se em pândegas com os colegas; contraiu novos amigos, e afinal reparou que tinha talento e graça; escreveu sátiras, ridicularizando os professores antipatizados; ganhou ódios e admiradores; teve quem o temesse e teve quem o imitasse. No segundo ano deu para namorador: atirou-se aos versos líricos, cantou o amor em todos os metros depois vieram-lhe idéias revolucionárias, meteu-se em clubes incendiários, falou muito, e foi aplaudido pelos seus companheiros. No terceiro ano tornou-se janota, gastou mais do que nos outros, teve amantes, em compensação veio-lhe a febre dos jornais, escreveu com entusiasmo sobre todos os assuntos, desde o artigo de fundo até à crônica teatral. No quarto, porém, distinguiu-se na Academia, criou gosto pela ciência, e daí em diante fez-se homem, firmou a sua imputabilidade, tornou-se muito estudioso e sério. Seus discursos acadêmicos foram apreciados; elogiaram-lhe a tese. Formou-se.
          Veio-lhe então à idéia fazer uma viagem. Em Coimbra todos o diziam rico; tinha ordem franca. Preparou as malas. Sua principal ambição era instruir-se, instruir-se muito, abranger a maior quantidade de conhecimentos que pudesse; e sentia-se cheio de coragem para a luta e cheio de confiança no seu esforço.
          Às vezes, porém uma sombra de tristeza mesquinha toldava-lhe as aspirações – não sabia ao certo de quem descendia, e de que modo, e por quem, fora adquirido aquele dinheiro que lhe enchia as algibeiras. Procurou o seu correspondente em Lisboa, pediu-lhe esclarecimentos a esse respeito – Nada! O Peixoto dizia-lhe, em tom muito seco, “que o pai de Raimundo havia morrido antes da chegada deste a Portugal, e o tio, o tutor, esse estava no Maranhão, estabelecido na Rua da Estrela com um armazém de fazendas por atacado”. De sua mãe – nem uma palavra, nem uma atribuição!...
          Era para enlouquecer! “Mas, afinal, quem seria ela?... Talvez irmã daquela santa senhora que foi para ele uma segunda mãe... Mas então por que tanto mistério?... Seria alguma história, a tal ponto vergonhosa, que ninguém se atrevesse a revelar-lhe?... Seria ele enjeitado?... Não, decerto, porque era herdeiro de seu pai...” E Raimundo, quanto mais tentava pôr a limpo a sua existência, mais e mais se perdia no dédalo das conjeturas.
          Das cartas que recebia do Brasil, nem uma só lhe falava no passado, e todavia, era tanto o seu empenho em penetrá-lo, que às vezes, com muito esforço de memória, conseguia reconstruir e articular fragmentos dispersos de algumas reminiscências, incompletas e vagas, da sua infância. Lograva recordar-se da Aniquinha, que tantas noites, adormecera a seu lado, na mesma esteira, ouvindo cantar por D. Mariana o “Boizinho do curral, vem papar neném”; recordava-se também da Sra. D. Maria Bárbara, a sogra de Manuel, que ia, com muito aparato, visitar a neta; passar dias. Em geral, ela chegava à boca da noite, no seu palanquim carregado por dois escravos, vestida de enorme roda, cercada de crias e moleques, precedida por um preto encarregado de alumiar a rua com um lampião de folha, oitavado, duas velas no centro. E o demônio da mulher sempre a ralhar, sempre zangada, batendo nos negros e a implicar com ele, Raimundo, a quem, todas as vezes que lhe dava a mão a beijar, pespegava com as costas desta uma pancada na boca. E recordava-se bem do rosto macilento de Maria Bárbara, já então meio descaído; recordava-se dos seus olhos castanho-claros, de seus dentes triangulares, truncados a navalha, como barbaramente faziam dantes, por luxo, as senhoras do Maranhão, criadas em fazenda.
          Raimundo, uma vez, ainda em Coimbra, aspirando o cheiro de alfazema queimada, sentiu, como por encanto, surgirem-lhe à memória muitos fatos de que nunca se recordara até então. Lembrou-se logo do nascimento de Ana Rosa: A casa estava toda silenciosa e impregnada daquele odor; Mariana gemia no seu quarto; Manuel andava, de um para outro lado da varanda, inquieto e desorientado; mas, de repente, apareceu na porta do quarto uma mulata gorda, a quem davam o tratamento de “Inhá comadre”, e esta, que vinha alvoroçada, chamou de parte o dono da casa, disse-lhe alguma coisa em segredo, e daí a pouco estavam todos felizes e satisfeitos. E ouvia-se vir lá de dentro um grunhido fanhoso, que parecia uma gaita. Na ocasião, Raimundo nada compreendeu de tudo isto; disseram-lhe que Mariana recebera uma menina de França, e ele acreditou piamente.
          Assim lhe acudiam outras recordações; por exemplo a do macassar cheiroso, então muito em uso na província, com que D. Mariana lhe perfumava os cabelos todas as manhãs antes do café; mas, dentre tudo, do que melhor ele se recordava era dos lampiões com que iluminavam a cidade. Ainda lá não havia gás, nem querosene; ao bater d’Ave-Marias vinha o acendedor, desatava a corrente do lampião, descia-o, abria-o, despejava-lhe dentro aguarrás misturada com álcool, acendia-lhe o pavio, guindava-o novamente para o seu lugar, e seguia adiante. “E que mau cheiro em todas as esquinas em que havia iluminação!... Oh! a não ser que estivesse muito transformada a sua província devia ser simplesmente horrível!”
          Não obstante, queria lá ir. Sentia atrações por essa pátria, quase tão desconhecida para ele como o seu próprio nascimento misterioso. “Com a viagem descobriria tudo! Mas, primeiro, era preciso dar um passeio à Europa.”
          E, resolvido, foi ao escritório de Peixoto, Costa & Cia., sacou a quantia de que precisava, abraçou os amigos, e fez-se de vela para a França.
          Passou pela Espanha, visitou a Itália, foi à Suíça, esteve na Alemanha, percorreu a Inglaterra, e, no fim de três anos de viagem, chegou ao Rio de Janeiro, onde encontrou os seus antigos correspondentes de Lisboa. Demorou-se um ano na Corte, gostou da cidade, relacionou-se, fez projetos de vida e resolveu estabelecer aí a sua residência.
          “E o Maranhão?... Oh, que maçada! Mas não podia deixar de lá ir! Não podia instalar-se na Corte, sem ter ido primeiro à sua província! Era indispensável conhecer a família; liquidar os seus bens e...”
          — Verdade, verdade, dizia ele, conversando com um amigo, a quem confiara os seus projetos, a coisa não é tão feia como quer parecer, porque, no fim de contas, fico conhecendo todo o norte do Brasil, dou um pulo ao Pará e ao Amazonas, que desejo ver, e, afinal, volto descansado para cá com a vida em ordem, a consciência descarregada e o pouco que possuo reduzido a moeda. Não posso queixar-me da sorte!
          O passeio à Europa não só lhe beneficiara o espírito, como o corpo. Estava muito mais forte bem exercitado e com uma saúde invejável. Gabava-se de ter adquirido grande experiência do mundo; conversava à vontade sobre qualquer assunto tão bem sabia entrar numa sala de primeira ordem como dar uma palestra entre rapazes numa redação de jornal ou na caixa de um teatro. E em pontos de honra e lealdade, não admitia, com todo o direito, que houvesse alguém mais escrupuloso do que ele.
          Foi nessa bela disposição de espírito, feliz e cheio de esperanças no futuro que Raimundo tomou o “Cruzeiro” e partiu para a capital de São Luís do Maranhão.


4

          Entretanto, com a chegada de Raimundo, reuniram-se em casa de Manuel as velhas amizades da família. Vieram as Sarmentos com os seus enormes penteados; moças feias, mas de grandes cabelos, muito elogiados e conhecidos na província. “Tranças como as das Sarmentos!... Cabelo bonito como o das Sarmentos! Cachos como os das Sarmentos!...” Estas e outras tantas frases se haviam convertido em preceitos invariáveis. Fora das Sarmentos não conheciam termo de comparação para cabelos; e elas, cônscias daquela popularidade, ostentavam sempre o objeto de tais admirações em penteados assustadores, de tamanhos fantásticos.
          — Tenho pena, afetava às vezes D. Bibina Sarmento (esta era Bernardina) de ter tanto cabelo!... Para desembrulhá-lo é um martírio. E, quando depois do banho, não me penteio logo, ou quando passo um dia sem botar óleo... Ah, dona, nem lhe digo nada!...
          E arregalava os olhos e sacudia a juba, como se descrevesse uma caçada de leões.
          A família Sarmento compunha-se, além desta D. Bibina, de outra rapariga e de uma senhora de cinqüenta anos, muito nervosa, tia das duas moças. A velha só falava em moléstias e sabia remédios para tudo; tinha um grosso livro de receitas, que ela em geral trazia no bolso; em casa uma variadíssima coleção de vidros, garrafas e púcaros; guardava sempre as cascas de laranja, de romã e os caroços de tuturubá, os quais, dizia pateticamente “Abaixo de Deus, eram santo remédio para as dores de ouvido!” Chamava-se Maria do Carmo, e as sobrinhas tratavam-na por “Mamãe outrinha”. Era sumamente apreensiva e entendida de doces.
          Viúva. Passara a mocidade no Recolhimento de Nossa Senhora da Anunciação e Remédios, onde concebera o seu primeiro filho do homem com quem depois veio a casar – o tenente Espigão, tenente do exército, um espalhafateiro dos quatro costados, que andava sempre de farda e desembainhava a durindana por dá cá aquela palha. Contavam dele que, um dia, num jantar de festa, perdendo a paciência com o peru assado, que parecia disposto a resistir ao trinchante, arranca do chanfalho e esquarteja a golpes de espada o inocente animal.
          Gostava de fazer medo as crianças, fingindo que as prendia ou afiando a lâmina reluzente no tijolo do chão; e ficava muito lisonjeado quando lhe diziam que se parecia com o Pedro II. Tinha-se na conta de muito atilado e a todos contava que fora poeta em rapaz: referia-se a meia dúzia de acrósticos e recitativos, que lhe inspirava D. Maria do Carmo, no seu tempo de recolhida.
          Coitado! Morreu de uma tremenda indigestão no dia seguinte a uma ceia, ainda mais tremenda, na qual praticara a imprudência de comer uma salada inteira de pepinos, seu pratinho predileto. A viúva ficou inconsolável, e, em homenagem à memória do Espigão, nunca mais comeu daquele legume; seu ódio estendeu-se implacável por toda a família do maldito; não quis ouvir mais falar de maxixes, nem de abóboras, nem de jerimuns.
          — Ai o meu rico tenente! lamentava-se ela quando alguém lhe lembrava o esposo. Que maneiras de homem! que coração de pomba! aquilo é que era um marido como hoje em dia não se vê!...
          A outra sobrinha de D. Maria do Carmo, chamava-se Etelvina. Criaturinha sumamente magra, e tão nervosa como a tia; nariz muito fino grande e gelado, mãos ossudas e frias, olhos sensuais e dentes podres. Era detestável: os rapazes do comércio chamavam-lhe “Lagartixa”.
          Fazia-se muito romântica; prezava a sua cor horrivelmente pálida; suspirava de cinco em cinco minutos e sabia estropiar modinhas sentimentais ao violão. Diziam, em ar muito sério, que ela tivera aos dezesseis anos uma formidável paixão por um italiano, professor de canto, o qual fugira aos credores para o Pará e que, desde então, Etelvina nunca mais tomara corpo.
          Apresentou-se também em casa de Manuel a sra. D. Amância Sousellas, velha de grande memória para citar fatos, datas e nomes; lembrava-se sempre do aniversário natalício dos seus inúmeros conhecidos, e nesse dia filava-lhes impreterivelmente o jantar. Estava sempre a falar mal da vida alheia, à sombra da qual aliás, vivia; quinze dias em casa de uma amiga, outros quinze em casa de um parente, o mês seguinte em casa de um parente e amigo, e assim por diante; sempre, sempre de passeio. Ia a qualquer parte, fosse ou não fosse desejada, e, às duas por três, era da casa. Conhecia todo o Maranhão; contava, sem reservas, os escândalos que lhe caíam no bico, e andava sozinha na rua, passarinhando por toda a cidade, de xale, metendo o nariz em tudo. Se morria algum conhecido seu, lá estava ela, a vestir o cadáver, a cortar-lhe as unhas, a dizer os lugares-comuns da consolação, tida e citada por muito serviçal, ativa e prestimosa.
          Era cronicamente virgem, mas afirmava que em moça, rejeitara muito casamento bom. Dava-se a coisas de igreja; sabia vestir anjos de procissão e pintava os cabelos com cosmético preto.
          Detestava o progresso.
          — No seu tempo, dizia ela com azedume, as meninas tinham a sua tarefa de costura para tantas horas e haviam de pôr pr’ali o trabalho! se o acabavam mais cedo iam descansar?... Boas! desmanchavam minha senhora! desmanchavam para fazer de novo! E hoje?... perguntava, dando um pulinho, com as mãos nas ilhargas – hoje é o maquiavelismo da máquina de costura! Dá-se uma tarefa grande e é só “zuc-zuc-zuc!” e está pronto o serviço! E daí, vai a sirigaita pôr-se de leitura nos jornais, tomar conta do romance ou então vai para a indecência do piano!
          E jurava que filha sua não havia de aprender semelhante instrumento, porque as desavergonhadas só queriam aquilo para melhor conversar com os namorados, sem que os outros dessem pela patifaria!
          Também dizia mal da iluminação a gás:
          — Dantes os escravos tinham que fazer! Mal serviam a janta iam aprontar e acender os candeeiros, deitar-lhes novo azeite e colocá-los no seu lugar... E hoje? É só chegar o palitinho de fogo à bruxaria do bico de gás e... caia-se na pândega! Já não há tarefa! Já não há cativeiro! É por isso que eles andam tão descarados! Chicote! chicote, até dizer basta! que é do que eles precisam. Tivesse eu muitos, que lhes juro, pela bênção de minha madrinha, que lhes havia de tirar sangue do lombo!
          Mas a especialidade de D. Amância Sousellas, o que a tornava adorável para certos rapazes e detestada por muitos pais de família que iam de nariz torcido lhe recebendo visitas e obséquios de cortesia, era, sem dúvida, o seu antigo hábito de contar anedotas baixas e grosseiras. Sempre fora muito desbocada; no entanto alguns basbaques da sua roda, diziam dela, num frouxo de riso: “Com a D. Amância não pode a gente estar séria! – O diabo da velha tem uma graça!...”
          Lá estava também em casa de Manuel a Eufrasinha, viúva do oficial de infantaria. Toda enfeitada de lacinhos de fita roxa, moreninha apesar da superabundância do pó-de-arroz; as feições muito desenhadas à superfície do rosto e com um sinal de nitrato de prata ao lado esquerdo da boca, desastradamente imitado do de uma francesa ex-cantora com quem ela se dava. O sinal era para ficar do tamanho de uma pulga e saiu do tamanho e do feitio de um feijão-preto. Saracoteava-se, cheia de novidades, levantando-se de vez em quando, para ir dizer um segredinho ao ouvido de Ana Rosa, enquanto disfarçadamente lhe endireitava o penteado; nestes passeios olhava de esguelha para os quartos e para a varanda – dando fé – e voltava à sua cadeira, mirando-se a furto nos espelhos da sala, sempre muito curiosa, irrequieta, querendo achar em tudo que lhe diziam uma significação dupla, trejeitando sorrisos e momices expressivas quando não entendia, para fingir que compreendera perfeitamente. Tinha a voz sibilante e afetada, assoviava os SS, e dizia silabadas.
          O Freitas, em cuja casa Ana Rosa tivera o seu último histérico, também se achava presente, com a filha, a sua querida Lindoca.
          O Freitas era um homem desquitado da mulher “que se atirara aos cães”, explicava friamente, muito teso, magro, alto, com o pescocinho comprido no seu grande colarinho em pé. Não relaxava as calças brancas, e gabava-se do segredo de conservá-las limpas e engomadas durante uma semana; trazia sempre, apesar do calor da província, o colarinho duro e o peito da camisa irrepreensível; gravata preta – invariavelmente. Tratava uma enorme unha no dedo mínimo, com a qual costumava pentear o bigode, feito de longos fios, tingidos e lisos, que lhe velavam a boca. Jamais consentia que barbeiro algum “lhe encostasse a mão no rosto”; fazia ele mesmo a sua barba, um dia sim, outro não. Escondia a calva com as compridíssimas farripas do cabelo, muito espichadas, como que grudadas a goma-arábica sobre o crânio. Dispunha de uma memória prodigiosa, gabada por toda a cidade; fazia-se grande conhecedor da história antiga; quando falava escolhia termos, procurava fazer estilo, e, sempre que se referia ao Imperador dizia gravemente: “O nosso defensor perpétuo!” Afiançavam que era habilidoso; em tempo fizera, com muita paciência, uma árvore genealógica de sua família e mandara-a litografar no Rio de Janeiro. Este trabalho foi muito apreciado e comentado na província.
          Era empregado público havia vinte e cinco anos e só faltara à repartição três vezes – por uma queda, um antraz, e no dia do seu malfadado casamento; contava isto a todos, com glória. Quando temia constipar-se, aspirava cautelosamente o fartum do conhaque. “Isto e o bastante para me fazer ficar tonto!...” afirmava com uma repugnância virtuosa. Tinha honor às cartas e sabia tocar clarinete, mas nunca tocava, porque o médico lhe dissera “não achar prudente”. Fumara em tempo, mas o médico dissera do charuto o mesmo que do clarinete. – Nunca mais fumou. Não dançava, para não suar; falava com raiva das mulheres e, nem caindo de fome, seria capaz de comer à noite. “Além do chá, nada! nada!” protestava com firmeza; estivesse onde estivesse, havia de retirar-se impreterivelmente à meia-noite. Usava sapatos rasos, de polimento, e nunca se esquecia do chapéu-de-sol.
          Jamais arredara o pé da ilha de São Luís do Maranhão, tal era o medo que tinha do mar.
          — Nem para ir a Alcântara! jurava ele, conversando essa noite em casa do Manuel. Daqui – para o Gavião! Nada, meu caro senhor, quero morrer na minha caminha, sossegado, bem com Deus!
          — Com toda a comodidade, observou Raimundo, a rir.
          Era devoto: todos os anos carregava na procissão o andor do milagroso Senhor Bom Jesus dos Passos. E muito arranjadinho: “Em casa dele havia de tudo, como na botica.” Diziam os seus íntimos. “Só falta dinheiro...” completava o Freitas em ar discreto de pilhéria. No mais: – sempre o mesmo homem; nunca fora de estroinices; mesmo em rapaz, era já metido consigo; não gostava de dever a ninguém; colecionava selos velhos; dava homeopatia de graça, aos amigos, e tinha a fama do maior maçante do Maranhão.
          A tal “sua querida Lindoca” era uma menina de dezesseis anos, pequenina, extremamente gorda, quase redonda, bonitinha de feições, curta de idéias, bom coração e temperamento honesto. A Etelvina dissera uma vez que ela estava engordando até nos miolos.
          Lindoca Freitas não escondia o seu desejo de casar e amava extremosamente o pai, a quem só tratava por “Nhozinho”.
          — Tenho um desgosto desta gordura!... Lamentava-se ela às camaradas, que lhe elogiavam a exuberância adiposa. Se eu soubesse de um remédio para emagrecer... tomava!
          As amigas procuravam consolá-la: “Dá-me gordura que te darei formosura! – Gordura é saúde!”
          Mas a repolhuda moça não se conformava com aquela desgraça. Vivia triste. As banhas cresciam-lhe cada vez mais; estava vermelha; cansava por cinco passos. Era um desgosto sério! Recorria ao vinagre; dava-se a longos exercícios pela varanda; mas qual! – as enxúndias aumentavam sempre. Lindoca estava cada vez mais redonda, mais boleada; a casa estremecia cada vez mais com o seu peso; os olhos desapareciam-lhe na abundância das bochechas; o seu nariz parecia um lombinho; as suas costas uma almofada. Bufava.
          Dias, o piedoso, o doce Luís Dias, também comparecera aquela noite à sala do patrão. Lá estava, metido a um canto, roendo ferozmente as unhas, o olhar imóvel sobre Ana Rosa, que, ao piano, dispunha-se a tocar alguma coisa e experimentava as teclas.
          Em uma das janelas da frente, encostados contra a sacada, Manuel e o cônego Diogo ouviam de Raimundo a descrição em voz baixa de um passeio de Paris à Suíça. No resto da sala corria o sussurro das senhoras, que conversavam.
          — Então! Estamos passando o Boqueirão? exclamou o Freitas, erguendo-se do sofá, a sacudir as calças, para evitar as joelheiras. E, voltando-se para uma das sobrinhas de D. Maria do Carmo: – Diga alguma coisa, D. Etelvina!...
          Etelvina ergueu os olhos para o teto e soltou um suspiro.
          — Por quem suspiras? perguntou-lhe, em misterioso falsete, a velha Amância que lhe ficava ao lado.
          — Por ninguém... respondeu a Lagartixa, sorrindo melancolicamente com os caquinhos dos dentes.
          — Ele não é feio... a senhora não acha D. Bibina?... segredava Lindoca à outra sobrinha de D. Maria do Carmo, olhando furtivamente para o lado de Raimundo.
          — Quem? O primo d’Ana Rosa?
          — Primo? Eu creio que ele não é primo, dona!
          — É! sustentou Bibina quase com arrelia. É primo, sim, por parte de pai!... E olhe, ali está quem lhe sabe bem a história!...
          E indicava a tia com o beiço inferior.
          — An... resmungou a gorducha, passando a considerar da cabeça aos pés o objeto da discussão.
          Por outro lado, Maria do Carmo segredava a Amância Sousellas:
          — Pois é o que lhe digo, D. Amância: muito boa preta!... negra como este vestido! Cá está quem a conheceu!...
          E batia no seu peito sem seios. – Muita vez a vi no relho. Iche!
          — Ora quem houvera de dizer!... resmungou a outra, fingindo ignorar da existência de Domingas, para ouvir mais. Uma coisa assim só no Maranhão! Credo!
          — É como lhe digo, minha rica! O sujeitinho foi forro à pia, e hoje, olhe só pr’aquilo! está todo cheio de fumaças e de filáucias!... Pergunte ao cônego, que está ao lado dele!
          — Cruz! T’arrenego, pé-de-pato!
          E Amância bateu por hábito nas faces engelhadas.
          Nisto, ouviu-se um grande motim, que vinha da varanda.
          — Ó Benedito! Moleque! Ó peste! Está dormindo, sem-vergonha?!
          E logo o estalo de uma bofetada. – Arre! que até me fazes zangar com visitas na sala!...
          Era Maria Bárbara, que andava às voltas com o Benedito.
          — Vai deitar a mesa do chá moleque!
          Manuel correu logo à varanda, contrariado.
          — Ó senhora!... disse à sogra. Que inferneira! Olhe que está aí gente de fora!...
          Freitas passou-se à janela de Raimundo, e aproveitou a oportunidade para despejar contra este uma estopada a respeito do mau serviço doméstico feito pelos escravos.
          — Reconheço que nos são necessários, reconheço!... mas não podem ser mais imorais do que são!... As negras, principalmente as negras!... São umas muruxabas, que um pai de família tem em casa, e que dormem debaixo da rede das filhas e que lhes contam histórias indecentes! É uma imoralidade! Ainda outro dia, em certa casa, uma menina, coitada, apareceu coberta de piolhos indecorosos, que pegara da negra! Sei de outro caso de uma escrava que contagiou a uma família inteira de impigens e dartros de caráter feio! E note, doutor, que isto é o menos, o pior é que elas contam às suas sinhazinhas tudo o que praticam aí por essas ruas! Ficam as pobres moças sujas de corpo e alma na companhia de semelhante corja! Afianço-lhe, meu caro senhor doutor, que, se conservo pretos ao meu serviço, é porque não tenho outro remédio! Contudo...
          Foi interrompido por Benedito que, nu da cintura para cima e acossado pela velha Bárbara, atravessou a sala com agilidade de macaco. As senhoras espantaram-se, mas abriram logo em gargalhadas. O moleque alcançara a porta da escada e fugira. Então, o Dias, que até aí se conservara quieto no seu canto, ergueu-se de um pulo e deitou a correr atrás dele. Desapareceram ambos.
          Benedito era cria de Maria Bárbara; um pretinho seco, retinto, muito levado dos diabos; pernas compridas, beiços enormes, dentes branquíssimos. Quebrava muita louça e fugia de casa constantemente.
          A velha estacara no meio da sala furiosa.
          — Ai, gentes! não reparem!... bradou. Aquele não-sei-que-diga, aquele maldito moleque!... Pois o desavergonhado não queria vir trazer água na sala, sem pôr uma camisa?... Patife! Ah, se o pego!... Mas deixa estar, que não as perdes, malvado!
          E correndo à janela: – Se seu Dias não te alcançar, tens amanhã um campeche te seguindo a pista, sem-vergonha!
          E saiu de novo para a varanda, muito atarefada, gritando pela Brígida:
          — Ó Brígida! Também estás dormindo, seu diabo?!
          Na sala as visitas discutiam rindo a cena do moleque e o mau gênio de Maria Bárbara, mas tiveram de abafar a voz, porque Ana Rosa pôs-se a tocar uma polca ao piano.
          Pouco depois, ouviu-se um farfalhar de saias engomadas, e em seguida apresentou-se a Brígida, uma mulata corpulenta a carapinha muito trançada e cheia de flores, um vestido de chita com três palmos de cauda, recendendo a cumaru. Preparava-se daquele modo, para ir à sala, oferecer água. E, segurando com ambas as mãos uma enorme salva de prata, cheia de copos, dirigia-se a todos, um por um, a bambalear as ancas volumosas.
          A criadagem de Manuel e Maria Bárbara, contava, além de Brígida e Benedito, de uma cafuza já idosa, chamada Mônica, que amamentara Ana Rosa e lavava a roupa da casa, e mais de uma preta só para engomar, e outra só para cozinhar, e outra só para sacudir o pó dos trastes e levar recados à rua. Pois, apesar deste pessoal, o serviço era sempre tardio e malfeito.
          — Estas escravas de hoje têm luxos!... observou Amância em voz baixa a Maria do Carmo, apontando com o olhar para o vulto empantufado de Brígida.
          E entraram a conversar sobre o escândalo das mulatas se prepararem tão bem como as senhoras. “Já se não contentavam com a sua saia curta e cabeção de renda; queriam vestido de cauda; em vez das chinelas, queriam botinas! Uma patifaria!” Depois falaram nos caixeiros, que roubavam do patrão para enfeitar as suas pininchas; e, por uma transição natural, estenderam a crítica até aos passeios a carro, às festas de largo e os bailes dos pretos.
          — Os chinfrins, como lhes chamava o meu defunto Espigão, acudiu Maria do Carmo, conheço! ora se conheço!... Bastante quizília tivemos nós por amor deles!...
          — É uma sem-vergonheira! Ver as escravas todas de cambraia, laços de fita, água de cheiro no lenço, a requebrarem as chandangas na dança!...
          — Ah, um bom chicote!... disseram as duas velhas ao mesmo tempo.
          — E elas dançam direito?... perguntou a do Carmo,
          — Se dançam!... O serviço é que não sabem fazer a tempo e a horas! Lá para dançar estão sempre prontas! Nem o João Enxova!
          A indignação secava-lhe a voz.
          — Até parecem senhoras, Deus me perdoe! Todas a se fazerem de gente! os negros a darem-lhes excelência. “E porque minha senhora pra cá! Vossa Senhoria pra lá!” É uma pouca vergonha, a senhora não imagina!... Uma vez, em que fui espiar um chinfrim, porque me disseram que o meu defunto estava lá metido, fiquei pasma! E o melhor é que os descarados não se tratam pelo nome deles, tratam-se pelo nome dos seus senhores!... Não sabe Filomeno?... aquele mulato do presidente?... Pois a esse só davam “Sr. Presidente!”. Outros são “Srs. Desembargadores, Doutores, Majores e Coronéis!”. Um desaforo que deveria acabar na palmatória da polícia!
          Ana Rosa terminou a sua polca.
          — Bravo! Bravo!
          — Muito bem, D. Anica!
          E estalaram palmas.
          — Tocou às mil maravilhas!...
          — Não senhor, foi uma polca do Marinho.
          Correram a cumprimentar a pianista. O Freitas profetizou logo “que ali estava um segundo Lira!”
          Raimundo foi o único que não se abalou. Estava fumando à janela, e fumando deixou-se ficar. Ana Rosa, sem dar a perceber, sentiu por isso uma ligeira decepção. Esforçara-se por tocar bem e ele, nem assim! “Até parecia não ter notado nada!... É um malcriado!” concluiu ela, de si para si. E, com uma pontinha de mau humor, assentou-se ao lado de Lindoca. Eufrásia correu logo para junto da amiga.
          — Que tal o achas?... perguntou em segredo, assentando-se, com muito interesse.
          — Quem? disse Ana Rosa, fingindo distração e franzindo o nariz.
          A outra indicou misteriosamente a janela com um dos polegares.
          — Assim, assim...
          E a filha do negociante fez um bico de indiferença.
          — Nem por isso!...
          — Um peixão! opinou Eufrásia com entusiasmo.
          — Gentes!... Que é isto, Eufrasinha?...
          — É uma tetéia!
          E a viúva mordia os beiços.
          — Sim, ele não é feio... tornou Ana Rosa, impacientando-se. Mas também não é lá essas coisas!...
          — Que olhos! que cabelos! e que gestos!... olha, olha, menina! como ele brinca com o charuto!... olha como ele se encosta à grade da janela!... Parece um fidalgo, o diabo do homem!...
          Ana Rosa, sem desfranzir o nariz, enviesava os olhos contra o primo e sentia melhor do que a amiga, a evidência do que esta lhe dizia. “Raimundo era com efeito elegante e bem bonito, mas, que diabo, desde que chegara ainda lhe não tinha dispensado uma única palavra de distinção, um só gesto que a especializasse, quando ali, no entanto, era ela, incontestavelmente, a mais chique, a mais simpática, e, além disso – sua prima! (Ana Rosa pouco, ou nada, sabia ao certo do grau do seu parentesco com ele) Não! Não fora correto! Falara-lhe como às outras, igualmente frio e reservado; não fizera como os rapazes do Maranhão, que, mal se aproximavam dela estavam desfeitos em elogios e protestos de amor!” Aquela indiferença de Raimundo doía-lhe como uma injustiça: sentia-se lesada, roubada, nos seus direitos de moça irresistível. “Um pedante é o que ele é! Um enfatuado! Pensa que vale muito, porque se formou em Coimbra e correu a Europa! Um tolo!...”
          Nessa ocasião, entraram na sala, com ruídos, dois novos tipos – o José Roberto e o Sebastião Campos.
          Foram logo apresentados a Raimundo e seguiram a cumprimentar as senhoras, dando a cada qual uma frase ou uma palavra ou um gesto de galanteio familiar: “D. Eufrasinha sempre bela como os amores, que pena ser eu já papel queimado! – Então, D. Lindoca, onde vai com essa gordura? divida a metade comigo! – Quando se come doce desse casamento, D. Bibina?... E tinham sempre na ponta da língua uma pilhéria, um dito, para bulir com as moças; coisas desengraçadas e sediças, mas que as faziam rebentar de riso.
          — Deus os fez e o diabo os ajuntou! explodiu, com um estalo de boca, a velha Amância quando os dois passaram por ela.
          José Roberto, a quem só tratavam por “Seu Casusa”, era moço de vinte e tantos anos; magro, moreno, crivado de espinhas, olhos muito negros, boca em ruínas, uma enorme cabeleira, rica, toda encaracolada e reluzente de óleo cheiroso, preta, bem preta, dividida pacientemente ao meio da cabeça. Usava lunetas azuis e cantava ao violão modinhas da sua própria lavra e de outros, apimentadas à baiana com o travo sensual e árabe dos lundus africanos. Quando tocava, tinha o amaneirado voluptuoso do trovador de esquina; vergava-se todo sobre o instrumento, picando as notas com as unhas cujos dedos pareciam as pernas de um caranguejo doido, ou abafando com a palma da mão o som das cordas, que gemiam e choravam como gente.
          Tipo do Norte, perfeito, cheio de franquezas, com horror ao dinheiro, muito orgulhoso e prevenido contra os portugueses, a quem perseguia com as suas constantes chalaças, imitando-lhes o sotaque, o andar e os gestos. Tinha alguma coisinha de seu e passava por estróina. Gostava das serenatas, das pândegas com moças; pilhando dança – não perdia quadrilha nem pulada, mas no dia seguinte ficava de cama, estrompado.
          Havia muito que José Roberto procurava agradar a Ana Rosa; esta sempre o repelia, a rir. Também poucos o tomavam a sério: “Um pancada”, diziam; mas queriam-lhe bem.
          O Sebastião Campos, esse era viúvo da primeira filha de Maria Bárbara e, como aquele, um tipo legítimo do Maranhão; nada, porém, tinha do outro senão o orgulho e a birra aos portugueses, a quem na ausência só chamava “marinheiros – puças – galegos”.
          Senhor de engenho, de um engenho de cana, lá para as bandas do Munim, onde passava três meses no tempo da colheita; o resto do ano passava-o na cidade. Devia ter quase o duplo da idade de José Roberto, baixote, muito asseado, mas com a roupa sempre malfeita. Usava calças curtas, em geral brancas, deixando aparecer, desde o tornozelo, os seus pezinhos ridiculamente pequenos e mimosos; barba cerrada, ainda preta, e cabelo à escovinha; olhos de pássaro, vivos e lascivos, nariz de criança e testa enorme; uma grande cabeça, desproporcionada do corpo, beiços grossos e vermelhos, mostrando a dentadura miudinha e gasta, porém muito bem tratada, tratada a mel de fumo de corda, que era com que ele asseava a boca.
          Bairrista, isso ao último ponto: a tudo preferia o que fosse nacional. “Não trocava a sua boa cana-capim – e o seu vinho de caju por quantos cognacs e vinhos do Porto havia por aí! nem o seu gostoso e cheiroso fumo de molho, fabricado no Maranhão, pelo melhor tabaco estrangeiro, ou mesmo importado das outras províncias! Ou bem que se era maranhense ou bem que se não era!”
          Não cochilava com os seus escravos. Na roça era temido até pelo feitor, um pouco devoto e cheio de escrúpulos de raça. “Preto é preto; branco é branco! Moleque é moleque; menino é menino!” E estava sempre a repetir que o Brasil teria ganho muito, se perdesse a Guerra dos Guararapes.
          — A nossa desgraça, rezava ele, é termos caído nas mãos destas bestas! Uns lesmas! Uma gente sem progresso, que só cuida de encher o papo e aferrolhar dinheiro!
          Favores, de quem quer que fosse, não os aceitava “que não queria dever obrigações a nenhum filho da mãe!...” Mas também, quando dava para meter as botas em qualquer pessoa – era aquela desgraça! Não tinha papas na língua! Era nervoso e ativo; gostava todavia de ler ou conversar, escarranchado na rede durante horas esquecidas, em ceroulas, fumando o seu cachimbo de cabeça preta, fabricado na província. Na rua, encontravam-no de sobrecasaca aberta, coletinho de chamalote, camisa bordada, guarnecida por três brilhantes grandes; ao pescoço, prendendo o cebolão, um trancelim muito comprido, de ouro maciço, obra antiga, com passador. Adorava os perfumes ativos, as jóias e as cores vivas; para ele, nada havia, porém, como um passeio ao sítio embarcado, à fresca da madrugada, bebericando o seu trago de cachaça e pitando o seu fumo do Codó. Em casa muito obsequiador. Passava à farta.
          Com a vinda destes dois, a reunião tornou-se mais animada. Reclamou-se logo o violão, e seu Casusa, depois de muito rogado, afinou o instrumento e principiou a cantar Gonçalves Dias:

          “Se queres saber o meio
          Por que às vezes me arrebata
          Nas asas do pensamento
          A poesia tão grata;”

          Nisto, rebentou uma corda do violão.
          — Ora pistolas!... resmungou o trovador. E gritou: – Ó D. Anica! a senhora não terá uma prima?
          Ana Rosa foi ver se tinha, andou remexendo lá por dentro da casa, e voltou com uma segunda. “Era o que havia.” O Casusa arranjou-se com a segunda e prosseguiu, depois de repetir os versos já cantados; ao passo que o Freitas, na janela, importunava Raimundo, a propósito do autor daquela poesia e de outros vultos notáveis do Maranhão “da sua Atenas brasileira” como a denominava ele. O cônego fugiu logo para a varanda, covardemente, com medo à seca.
          — Não sou bairrista, não senhor... dizia o maçante, mas o nosso Maranhãozinho é um torrão privilegiado!...
          E citava, com orgulho, “os Cunha, os Odorico Mendes, os Pindaré e os Sotero et cetera! et cetera!” O seu modo de dizer et cetera era esplêndido!
          — Temos os nossos faustos, temos!
          Passou então a falar nas belezas da sua Atenas: no dique das Mercês, “estava em construção, mas havia de ficar obra muito de se ver e gostar...” afiançava ele cheio de gestos respeitosos. Falou do Cais da Sagração, “também não estava concluído”, dos Quartéis, “iam entrar em conserto”, na igreja de Santo Antônio, “nunca chegaram a terminá-la, mas se o conseguissem, seria um belo templo!” Elogiou muito o teatro São Luís. “Dizia o cônego que era o São Carlos de Lisboa, em ponto pequeno!” Lembrou respeitosamente a companhia lírica do Ramonda, o Remorini, o tenor “morrera de febre amarela, depois de ser muito aplaudido na Gemma de Vergi. Ah, como aquela, jurava não voltaria outra companhia ao Maranhão! Mas que, mesmo na província, havia moços de grande habilidade...” Referia-se a uma sociedade particular, de curiosos. “Tinham seu jeito, sim senhor!” E, engrossando a voz, com muita autoridade: “Representavam Os Sete Infantes de Lara! – Os Renegados! – O Homem da Máscara Negra, e outras peças de igual merecimento! Tinham a sua queda para a coisa, tinham!... Não se pode negar!...” E assoava-se, meneando a cabeça, convencido. “Principalmente a dama... sim! o moço que fazia de dama!... Não havia que desejar – o pegar do leque, o revirar dos olhos, certos requebros, certas faceirices!... Enfim, senhores, era perfeito, perfeito, perfeito!”
          Raimundo bocejava.
          E o Freitas nem cuspia. Acudiam-lhe fatos engraçados sobre o teatrinho; soltava as anedotas em rebanho, sem intervalos. Raimundo já não achava posição na janela; virava-se da esquerda, da direita, firmava-se ora numa perna, ora na outra deixando afinal pender a cabeça e olhando para os pés, entristecido pelo tédio. “Que maçante!...” pensava.
          Entretanto, o Freitas a sacudir-lhe a manga do fraque, que Raimundo sujara na caliça da janela, ia confessando que “estavam em vazante de divertimentos; que a sua distração única era cavaquear um bocado com os amigos...”
          — Ah! exclamou, minto! minto! Há uma festa nova! – a de Santa Filomena! Mas não será como a dos Remédios, isso, tenham paciência!...
          — Sim, decerto, balbuciou Raimundo, fingindo prestar atenção.
          E espreguiçou-se.
          — A festa dos Remédios!... repetiu o outro, estalando os dedos e assoviando prolongadamente, como quem diz: “Vai longe!”
          Raimundo estremeceu, ficou gelado até a raiz dos cabelos; percebeu aquela tremenda ameaça e mediu instintivamente a altura da janela, como se premeditasse uma fuga.
          — O nosso João Lisboa... disse o Freitas. E meteu profundamente as mãos nas algibeiras das calças. O nosso João Lisboa já, em um folhetim publicado no número... Ora qual é o número do Publicador Maranhense?... Espere!...
          E fitou o teto.
          — 1173 – Sim! 1173, de 15 de outubro de 1851. Pois nesse folhetim descreve ele, circunstanciadamente e com muito donaire e gentilezas de estilo, a nossa popular e pitoresca festa dos Remédios.
          Raimundo, aterrado, prometeu, sob palavra de honra, ler o tal folhetim na primeira ocasião.
          — Ah!... volveu terrível o Freitas, é que ela hoje é outra coisa!... Hoje não se compara! – há muito mais luxo, mas muito!
          E, segurando com ambas as mãos a gola do fraque de Raimundo e ferrando-lhe em cima dos olhos arregalados, acrescentou energicamente: – Creia, meu doutor, mete pena o dinheirão que se gasta naquela festa! faz dó ver as sedas, os veludos, as anáguas de renda, arrastarem-se pela terra vermelha dos Remédios!...
          Raimundo empenhou a cabeça como faria idéia aproximada.
          — Qual! Qual! Tenha paciência meu amigo, não é possível! E Freitas repeliu com força a vítima. Aquilo só vendo e sentindo, Sr. Dr. Raimundo José da Silva!
          E descreveu minuciosamente a cor, a sutileza da terra; como a maldita manchava o lugar em que caía; como se insinuava pelas costuras dos vestidos, das botas, nas abas dos chapéus, nas máquinas dos relógios; como se introduzia pelo nariz, pela boca, pelas unhas, por todos os poros!
          — Aquilo, meu caro amigo...
          Raimundo queixou-se inopinadamente de que tinha muito calor.
          Freitas levou-o pelo braço até a varanda; deu-lhe uma preguiçosa, passou-lhe uma ventarola de Bristol, preparou-lhe uma garapada, e, depois de havê-lo regalado bem, como antigamente se fazia com os sentenciados antes do suplício, de pé, implacável, verdadeiro carrasco em face do paciente, despejou inteira uma descrição do dia da festa dos Remédios, recorrendo a todos os mistérios da tortura, escolhendo palavras e gestos, repetindo as frases, frisando os termos, repisando o que lhe parecia de mais interesse, cheio de atitudes como se discursasse para um grande auditório.
          Principiou expondo minuciosamente o Largo dos Remédios, com a sua ermida toda branca, seus bancos em derredor; muitos ariris, muita bandeira, muito foguete, muito toque de sino. Descreveu com assombro o luxo exagerado em que se apresentavam todos, todos! para a missa das seis e para a missa das dez, nas quais, dizia ele circunspectamente, “reúne-se a nata da nossa judiciosa sociedade!...” Era tudo em folha, e do mais caro, e do mais fino. Nesse dia todos luxavam, desde o capitalista até o ralé caixeiro de balcão; velho ou moço, branco ou preto, ninguém lá ia, sem se haver preparado da cabeça aos pés; não se encontrava roupa velha, nem coração triste!
          — Às quatro horas da tarde, acrescentou o narrador, torna-se o largo a encher. Pensará talvez o meu amigo que tragam a mesma fatiota da manhã...
          — Naturalmente...
          — Pois engana-se! é tudo outra vez novo! são novos vestidos, novas calças, novas...
          — Etc., etc.! Vamos adiante.
          — Afirmam alguns estrangeiros... e dizendo isto tenho dito tudo!... que não há, em parte alguma do mundo festa de mais luxo!...
          E a voz do maçante tomava a solenidade de um juramento.
          — O que lhe posso afiançar, doutor, é que não há criança que, nessa tarde, não tenha a sua pratinha amarrada na ponta do lenço. Aparecem cédulas gordas, moedas amarelas; troca-se dinheiro; queimam-se charutos caros, no bazar (há um bazar) as prendas sobem a um preço escandaloso! Digo-lhe mais: nesse dia não há homem, por mais pichelingue, que não gaste seu bocado nos leilões, nas barracas, nos tabuleiros de doce ou nas casas de sorte; nem há mulher, senhora ou moça-dama, que não arrote grandeza, pelo menos seu vestidinho novo de popelina. Vêem-se enormes trouxas de doce seco, corações unidos de cocada, navios de massa com mastreação de alfenim, jurarás dourados, cutias enfeitadas dentro da gaiola, pombos cheios de fitas, frascos de compota de murici, bacuri, buriti, o diabo, meu caro senhor! As pretas-minas, cativas ou forras, surgem com os seus ouros, as suas ricas telhas de tartaruga, as suas ricas toalhas de rendas, suas belas saias de veludo, suas chinelas de polimento, seus anéis em todos os dedos, aos dois e aos três em cada um... E este povo mesclado, coberto de luxo, radiante, com a barriga confortada e o coração contente, passeia, exibe-se, ancho de si, pensando erradamente chamar a atenção de todos, quando aliás cada qual só pensa e repara em si próprio e na sua própria roupa!
          Raimundo ria-se por delicadeza, e espreguiçava-se na cadeira, bocejando.
          — À noite, continuou o Freitas, ilumina-se todo o largo. Armam-se grandes e deslumbrantes arcos transparentes, com a imagem da santa e os emblemas do Comércio e da Navegação, que Nossa Senhora dos Remédios é padroeira do Comércio, e é este que lhe dá a festa. Mas bem, faz-se a iluminação – armas brasileiras, estrelas, vasos caprichosos, o nome da santa, tudo a bico de gás, não contando uma infinidade de balõezinhos chineses, que brilham por entre as bandeiras, os florões os ariris, as casas de música; em uma palavra fica tudo, tudo, claro como o dia!
          Raimundo soltou um suspiro profundo e mudou de posição.
          — Há também, para os moleques, um pau-de-sebo, balanços e cavalinhos. É verdade! o doutor sabe o que e um pau-de-sebo?...
          — Perfeitamente. Tenha a bondade de não explicar.
          — Com franqueza! Se não sabe, diga, que eu posso...
          — Ora, por amor de Deus! faz-me o favor em não se incomodar, juro-lhe! Estou impaciente pelo resultado da festa. Continue!
          — Pois sim, senhor. Dão oito horas... Ah, meu caro amigo! então surge de todos os cantos da cidade uma aluvião interminável de famílias, de velhos, moços, meninos, mulatinhas e negrinhas, que enchem o largo que nem um ovo! Pretos de ambos os sexos e de todas as idades; desde o moleque até o tio velho, acodem, trazendo equilibradas nas cabeças imensas pilhas de cadeiras, e, com estas cadeiras, formam-se grandes rodas mesmo na praça, ao ar livre, e as famílias, ou ficam aí assentadas, ou, a título de passeio, acotovelam-se entre o povo. Fazem-se grupos, a gente ri, discute, critica, namora, zanga-se, ralha...
          — Ralha?
          — Ora! Já houve uma senhora que castigou um moleque a chicote, lá mesmo no largo!
          — A chicote?
          — Sim, a chicote! Aquilo, meu caro doutor, é uma espécie de romaria! As famílias levam consigo potes de água, cuscuz, castanhas assadas, biscoitos e o mais... E tudo isto ao som desordenado da pancadaria de três bandas de música, dos gritos do leiloeiro e da inqualificável algazarra do povo!
          Raimundo quis levantar-se; o outro obrigou-o a ficar sentado, pondo-lhe as mãos nos ombros.
          — Estamos no apogeu da festa! exclamou o maçante.
          — Ah! gemeu Raimundo.
          — Soltam-se balões de papel fino; cruzam-se moças aos pares; giram aos pares os janotas; vendem-se roletos de cana, sorvetes, garapa, cerveja, doces, pastéis, chupas de laranja; sentem-se arder charutos de canela; gastam-se os últimos cartuchos; esvaziam-se de todo as algibeiras e, finalmente, com grande júbilo geral arde o invariável fogo de artifício. Então rebentam todas as bandas de música a um só tempo, levanta-se uma fumarada capaz de sufocar um fole, e, no meio do estralejar das bombas e do infrene entusiasmo da multidão, aparece no castelo, deslumbrante de luzes, a imagem de Nossa Senhora dos Remédios. Foguetes de lágrimas voam aos milhares pelo espaço; o céu some-se. Todos se descobrem, em atenção à santa, e abrem o chapéu-de-sol com medo das tabocas. Há uma chuva de luzes multicores; tudo se ilumina fantasticamente; todos os grupos, todas as fisionomias, todas as casas, tomam sucessivamente as irradiações do prisma. Durante esta apoteose o povo se concentra numa contemplação mística, terminada a qual, está terminada a festa!
          E Freitas tomou fôlego. Raimundo ia falar, ele atalhou:
          — De repente, o povo acorda e quer sair! Corre, precipita-se em massa à Rua dos Remédios, aglomera-se, disputa os carros, pragueja, assanha-se! Cada um entende que deve chegar primeiro à casa; há trambolhões, descomposturas, gritos, gargalhadas, gemidos, rinchos de cavalos, tabuleiros de doce derramados, vestidos rotos, pés esmagados, crianças perdidas, homens bêbados; mas, de súbito, como por encanto, esvazia-se o largo e desaparece a multidão!
          — Como? por quê?
          — Daí a pouco estão todos recolhidos, sonhando já com a festa do ano seguinte, calculando economias, pensando em ganhar dinheiro, para na outra fazer ainda melhor figura!
          E o Freitas resfolegou prostrado, com a língua seca.
          — Mas por que diabo se retiram tão depressa?... perguntou Raimundo.
          Freitas engoliu sofregamente três goles de água e voltou-se logo.
          — É porque este povinho, por fogo de vista, é pior que macaco por banana! Tirem-lhe de lá o fogo que ninguém se abalará de casa!
          — Com efeito! E é muito antiga esta festa, sabe?
          — Bastante. Ela já tem seu tempo. Ora espere!
          E o memorião atirou logo o olhar para o teto.
          — No tempo dos governadores portugueses, disse, depois de uma pausa, era ali o convento de São Francisco; isso foi... poderia ser... em.. em mil, setecentos... e dezenove! Chamava-se então a ponta, que forma hoje o Largo dos Remédios, “Ponta do Romeu”. Ora, os frades cederam esse terreno a um tal Monteiro de Carvalho, que fez a ermida, como se pode calcular, no mato. Uma ocasião, porém, um preto fugido matou nesse lugar o seu senhor, e os romeiros, que lá iam constantemente, abandonaram receosos a devoção. Só depois de cinqüenta e seis anos, é que o governador Joaquim de Melo e Póvoas mandou abrir uma boa estrada, a qual vem a ser hoje a nossa pitoresca Rua dos Remédios. A ermida caiu em ruínas, mas o ermitão, Francisco Xavier, mandou, em 1818, construir a que lá está presentemente; e daí data a festa, que tive a honra e o gosto de descrever-lhe.
          — De tudo isso, aventurou Raimundo, o que mais me admira é a sua memória: o senhor com efeito tem uma memória de anjo.
          — Ora! O senhor ainda não viu nada! Vou contar-lhe...
          O outro ia disparatar sem mais considerações, quando, felizmente, acudiram todos à varanda. Criou alma nova.
          — Apre! disse Raimundo consigo, respirando. É de primeira força!...
          Serviu-se o chocolate.
          O cônego vinha a discretear para Manuel em voz soturna:
          — Pois é o que lhe digo, compadre, fique você com as casas e divida-as em meias-moradas, que rendem?...
          — Acha então que vou bem, dando quatro contos de réis por cada uma...
          — Decerto, são de graça!... Homem aquilo é pedra e cal – construção antiga! – deita séculos! Além disso, as casinhas têm bom quintal, bom poço e não são devassadas pela vizinhança... verdade é que não deixam de ser um bocadinho quentes, mas...
          — Abrem-se-lhe janelas para o nascente, concluiu o negociante.
          E, assim, conversando, chegaram à varanda, onde já estavam à mesa.
          José Roberto e Sebastião Campos serviam às senhoras, acompanhando com uma pilhéria cada prato que lhes ofereciam. Raimundo pediu dispensa do chá, com medo do Freitas que lhe abrira um lugar ao lado do seu.
          Ouviu-se mastigar as torradas e sorver, aos golinhos, o chocolate quente.
          — Doutor, exclamou o cônego, procurando espetar com o garfo uma fatia de um bolo de tapioca. Prove ao menos do nosso “Bolo do Maranhão”. Também o chamam por aí “Bolo podre”. Prove, que isto não há fora de cá... é uma especialidade da terra!
          — Não é mau... disse Raimundo, fazendo-lhe a vontade. Muito saboroso, mas parece-me um tanto pesado...
          — É de substância – acrescentou Maria Bárbara. Faz-se de tapioca de forno e ovos.
          — D. Bibina! chamou Ana Rosa, apontando para os beijus. São fresquinhos...
          Amância, com a boca cheia, dizia baixo a Maria do Carmo:
          — Pois, minha amiga, quando precisar de missa com cerimônia, não tem mais do que se entender com o padre que lhe digo... É muito pontual e contenta-se com o que a gente lhe dá! Est’r’o dia, apanhou-me dezoito mil-réis por uma missinha cantada, mas também podia se ver a obra que o homem apresentou!.. Pois então! Há de dar uma criatura seus cobrinhos, que tanto custam a juntar, a muito padre, como há por aí, desses que, mal chegam ao altar, estão pensando no almoço e na comadre?... Deus te livre, credo! Até pesa na consciência de um cristão!
          — Como o padre Murta!... lembrou a outra.
          — Oh! Esse, nem se fala! Às vezes, Deus me perdoe! nos enterros, até se apresenta bêbado!
          E Maria do Carmo bateu na boca – Cá está, acrescentou, quem já o viu a todo o pano encomendar o corpo de José Caroxo!...
          — Não! que hoj’em dia a gente perde a fé... isso está se metendo pelos olhos!... Mas é o que já não tem o outro... porta-se muito bem! muito bem procedido! muito cumpridor das suas obrigações! Zeloso da religião! Acredite, minha amiga, que faz gosto... Dizem até...
          E Amância segredou alguma coisa à vizinha. Maria do Carmo baixou os olhos, e resmungou beaticamente:
          — Deus lhe leve em conta, coitado!
          Houve um rumor de cadeiras que se arrastam. Os comensais afastaram-se dos seus lugares.
          — Mesa feita. companhia desfeita!...gritou logo José Roberto, chupando os restos dos dentes. E tratou de seguir as senhoras, que se encaminhavam silenciosas para a sala.
          Nisto, entrou o Dias, trazendo o Benedito pelo cós. Vinha a deitar os bofes pela boca e, quase sem poder falar, contou que “seguira o ladrão até o fim da Rua Grande, e que o ladrão quebrara para o Largo dos Quartéis e quase que alcança o mato da Camboa”. Dito isto, conduziu ele mesmo o moleque lá para dentro. “Anda, peste! Vai preparando o pêlo, que ainda hoje te metes em relho!”
          Apreciaram muito o serviço do Dias, e conversaram sobre aquele ato de dedicação, elogiando o zelo do bom amigo e caixeiro de Manuel. Daí a uma hora despediam-se as moças, entre grande barafunda de beijos e abraços.
          — Lindoca! gritava Ana Rosa, agora não arribe de novo, ouviu?...
          — Sim, minha vida, hei de aparecer... olha!
          E subiu dois degraus para lhe dizer um segredinho.
          — Sim, sim! Eufrasinha, adeus! D. Maria do Carmo, não deixe de levar essas meninas à quinta no dia de São João. Temos torta de caranguejos, olhe lá!
          — Adeus, coração!
          — Etelvina, não se esqueça daquilo!...
          — Bibina, despeça-se da gente!... guarde seus quatro vinténs!...
          — Olhe, observou o Sebastião Campos, que as tais moças, para se despedirem... são temíveis!
          — “Pudesse uma só nau contê-las todas...” recitou o Freitas, coçando o bigode com a sua unha de estimação, “e o piloto fosse eu... triunfo eterno!...” E, após uma gargalhada seca, voltou-se para Raimundo e ofereceu-lhe com ar pretensioso “um talher na sua parca mesa”.
          — Vá doutor, vá por aquela choupana, disse. Vá aborrecer-se um pouco...
          Raimundo prometeu distraidamente. Bocejava. Por mera delicadeza, perguntou se alguma das senhoras “queria um criado para acompanhá-las a casa”.
          As Sarmentos aceitaram logo, com muitos trejeitos de cortesia. Ele, interiormente contrariado, levou-as até às Mercês, onde moravam, ali mesmo, perto. Voltou pouco depois.
          — Recolha-se, doutor, trate de recolher-se... aconselhou-lhe Manuel, que o esperava de pé. O senhor deve estar com o corpo a pedir descanso...
          Raimundo confessou que sim, apertou-lhe a mão. “Boas noites, e obrigado”.
          — Até amanhã! Olhe! se precisar de qualquer coisa, chame pelo Benedito, ele dorme na varanda. Mas deve estar tudo lá; a Brígida é cuidadosa. Passe bem!
          Raimundo fechou-se no quarto; despiu-se, acendeu um cigarro e deitou-se. Abriu por hábito um livro; mas, no fim da primeira página, as pálpebras se lhe fechavam. Soprou a vela. Então sentiu um bem-estar infinito, profundamente agradável; abraçou-se aos travesseiros e, antes que algum dos acontecimentos desse dia lhe assaltasse o espírito, adormeceu.
          Todavia, a pouca distância dali, alguém velava, pensando nele.


5

          Era Ana Rosa. Logo que ela se recolhera ao quarto, gritara pela Mônica.
          — Mãe-pretinha!
          Assim tratava a cafuza que a criara e que dormia todas as noites debaixo da sua rede...
          — Mãe-pretinha! Ó senhores!
          — O que é, Iaiá? Não se agaste!
          — Você tem um sono de pedra! oh!
          Deu um estalo com a língua.
          — Dispa-me!
          E estendeu-se negligentemente em uma cadeira, entregando à criada os pés pequeninos e bem calçados.
          Mônica tomou-os, com amor, entre as suas mãos negras e calejadas; descalçou-lhe cuidadosamente as botinas, sacou-lhe fora as meias; depois, com um desvelo religioso, como um devoto a despir a imagem de Nossa Senhora, começou a tirar as roupas de Ana Rosa; desatou-lhe o cadarço das anáguas; desapertou-lhe o colete e, quando a deixou só em camisa, disse, apalpando-lhe as costas:
          — Iaiá? vossemecê está tão suada!...
          E correu logo ao baú.
          A senhora pusera-se a cismar, distraída, coçando de leve a cintura, o lugar das ligas e as outras partes do seu corpo que estiveram comprimidas por muito tempo. Mônica voltou com uma camisola toda cheirosa, impregnada de junco, a qual, abrindo-a com os braços, enfiou pela cabeça de Ana Rosa, esta ergueu-se e deixou cair a seus pés a camisa servida e conchegou a outra à pele, afagando os seus peitos virgens num estremecimento de rola. Depois suspirou baixinho e deu uma carreira para a rede, na pontinha dos pés, como se não quisesse tocar no chão.
          A cafuza ajuntou zelosamente a roupa dispersa pelo quarto e guardou as jóias.
          — Iaiá quer mais alguma coisa?
          — Água, disse a moça, aninhando-se já nos lençóis defumados de alfazema. Só se lhe via a graciosa cabeça, saindo despenteada dentre nuvens de pano branco.
          A cafuza trouxe-lhe uma bilha de água, e a senhora, depois de servida, beijou-lhe a mão.
          — Boas noites mãe-pretinha. Abaixe a luz e feche a porta.
          — Deus te faça uma santa! respondeu Mônica, traçando no ar uma cruz com a mão aberta.
          E retirou-se humildemente, toda bons modos e gestos carinhosos.
          Mônica orçava pelos cinqüenta anos; era gorda, sadia e muito asseada; tetas grandes e descaídas dentro do cabeção. Tinha ao pescoço um barbante, com um crucifixo de metal, uma pratinha de 200 réis, uma fava de cumaru, um dente de cão e um pedaço de lacre encastoado em ouro. Desde que amamentara Ana Rosa dedicara-lhe um amor maternalmente extremoso, uma dedicação desinteressada e passiva. Iaiá fora sempre o seu ídolo, o seu único “querer bem”, porque os próprios filhos, esses lhos arrancaram e venderam para o Sul. Dantes, nunca vinha da fonte, onde passava os dias a lavar, sem lhe trazer frutas e borboletas, o que, para a pequenita, constituía o melhor prazer desta vida. Chamava-lhe “sua filha, seu cativeiro” e todas as noites, e todas as manhãs, quando chegava ou quando saía para o trabalho, lançava-lhe a bênção, sempre com estas mesmas palavras: “Deus te faça uma santa! – Deus te ajude! Deus te abençoe!” Se Ana Rosa fazia em casa qualquer diabrura, que desagradasse a mãe-preta, esta a repreendia imediatamente, com autoridade; desde, porém, que a acusação ou a reprimenda partissem de outro, fosse embora do pai ou da avó, punia logo pela menina e voltava-se contra os mais.
          Havia seis anos que era forra. Manuel dera-lhe a carta a pedido da filha, o que muita gente desaprovou, “terás o pago!...” diziam-lhe. Mas a boa preta deixou-se ficar em casa dos seus senhores e continuou a desvelar-se pela Iaiá melhor que até então, mais cativa do que nunca.
          Ana Rosa, mal ficou sozinha, no aconchego confidencial da sua rede, íntima tranqüilidade do seu quarto, frouxamente iluminado à luz mortiça do candeeiro de azeite, principiou a passar em revista todos os acontecimentos desse dia. Raimundo avultava dentre a multidão dos fatos como uma letra maiúscula no meio de um período de Lucena; aquele rosto quente, de olhos sombrios, olhos feitos do azul do mar em dias de tempestade, aqueles lábios vermelhos e fortes, aqueles dentes mais brancos que as presas de uma fera, impressionavam-na profundamente. “Que espécie de homem estaria ali!...”
          Procurava com insistência recordar-se dele em algum dos episódios da sua infância – nada! Diziam-lhe, entretanto, que brincara com ela em pequenino, e que foram amigos, companheiros de berço, criados juntos, que nem irmãos. E todas estas coisas lhe produziam no espírito um efeito muito estranho e singular. As meias sombras, as reservas e as reticências, com que a medo lhe falavam dele, ainda mais interessante o tornavam aos olhos dela. “Mas, afinal, quem seria ao certo aquele belo moço?... Nunca lho explicaram; paravam em certos pontos, saltavam sobre outros como por cima de brasas; e tudo isto, todos estes claros, que deixavam abertos a respeito do passado de Raimundo, todos esses véus em que o envolviam como a uma estátua que se não pode ver, emprestavam-lhe atrações magnéticas, um encanto irresistível e perigoso de mistério, uma fascinação romântica de abismo.
          Entontecia de pensar nele. O hibridismo daquela figura, em que a distinção e a fidalguia do porte harmonizavam caprichosamente com a rude e orgulhosa franqueza de um selvagem, produzia-lhe na razão o efeito de um vinho forte, mas de uma doçura irresistível e traidora; ficava estonteada; perturbava-se toda com a lembrança do contraste daquela fisionomia, com a expressão contraditória daqueles olhos, suplicantes e dominadores a um tempo; sentia-se vencida, humilhada defronte daquele mito; reconhecia-lhe certo império, certa preponderância que jamais descobrira em ninguém; quanto mais o comparava aos outros, mais o achava superior, único, excepcional.
          E Ana Rosa deixava-se invadir lentamente por aquela embriaguez, esquecendo-se, alheando-se de tudo, sem querer pensar em outro objeto que não fosse Raimundo. De repente surpreendeu-se a dizer: “Como deve ser bom o seu amor!...” E ficou a cismar, a fazer conjeturas, a julgá-lo minuciosamente, da cabeça aos pés. Parou nos olhos: “Quantos tesouros de ternura não estariam neles escondidos? neles, do feitio de amêndoas, banhados de bondade e cercados de pestanas crespas e negras, como os pêlos de um bicho venenoso; aquelas pestanas lembravam-lhe as sedas de uma aranha caranguejera.” Estremeceu, porém, vieram-lhe desejos de os apalpar com os lábios. “Como devia ser bom ouvir dizer – Eu te amo! – por aquela boca e por aquela voz!...” E ficava assustada, como se de fato, no silêncio da alcova, uma voz de homem estivesse a segredar-lhe, junto ao rosto, palavras de amor.
          Mas logo tornava a si com a idéia do porte austero e frio de Raimundo. Esta indiferença, ao mesmo tempo que lhe pungia e atormentava o orgulho, levantava-lhe, na sua vaidade de mulher, um apetite nervoso de ver rendida a seus pés aquela misteriosa criatura, aquele espectro inalterável e sombrio, que a vira e contemplara sem o menor sobressalto.
          E, entre mil devaneios deste gênero, com o sangue a percorrer-lhe mais apressado as artérias, conseguiu afinal adormecer, vencida de cansaço. E, quem pudesse observá-la pela noite adiante, vê-la-ia de vez em quando abraçar-se aos travesseiros e, trêmula, estender os lábios, entreabertos e sôfregos, como quem procura um beijo no espaço.
          Na manhã seguinte acordara pálida e nervosa, à semelhança de uma noiva no dia imediato às núpcias. Faltava-lhe ânimo até para se preparar e sair do quarto: deixava-se ficar deitada na rede, a cismar, sem abrir de todo os olhos, cheia de fadiga.
          Parecia-lhe sentir ainda na face o calor do rosto de Raimundo.
          Decorreram duas horas e ela continuava na mesma irresolução; as pálpebras lânguidas; as narinas dilatadas pelo hálito quente e doentio; os beiços secos e ásperos; o corpo moído sob um fastio geral, que lhe dava espreguiçamentos de febre e má vontade. E, assim prostrada, deixava-se ficar entre os lençóis, tolhida de vexame e enleio, pelas loucuras da noite.
          A voz clara de Raimundo que conversava na varanda enquanto tomava café, despertou-a; Ana Rosa estremeceu, mas, num abrir e fechar de olhos, ergueu-se, lavou-se e vestiu-se. Ao fitar o espelho, achou-se feia e mal enjorcada, posto não estivesse pior que nos outros dias; endireitou-se toda, cobriu o rosto de pó-de-arroz, arranjou melhor os cabelos e escovou um sorriso.
          Apareceu lá fora com grande acanhamento; deu a Raimundo um “Bons dias” frio, de olhos baixos. Não podia encará-lo. Maria Bárbara já lá estava na labutação, a cuidar da casa, a dar voltas, a gritar com os escravos.
          — Olha esse bilhete da Eufrásia, disse ela, ao ver a neta. E passou-lhe uma tira de papel, engenhosamente dobrada em laço e com um galhinho de alecrim enfiado no centro.
          Ana Rosa teve um gesto involuntário de contrariedade. Aborrecia-lhe agora, sem saber por quê, a amizade da viúva, dela, que era até aí a sua íntima, a sua confidente, a sua melhor amiga; dos outros havia muito que se tinha enfastiado. O seu desejo, naquele instante, era ficar só, bem só, num lugar em que ninguém pudesse importuná-la.
          Serviu-se de uma xícara de café, deu-se por incomodada.
          — V. Ex.ª sente alguma coisa? perguntou Raimundo com delicadeza.
          Ana Rosa sobressaltou-se ligeiramente, ergueu os olhos, viu os do rapaz, abaixou logo os seus e entressorrindo, gaguejou:
          — Não é nada... Nervoso...
          — É isto! acudiu Maria Bárbara, que parara para ouvir a resposta da neta. Nervoso! Olhem que estas moças d’agora são tão cheias de tanta novidade e de tantas invenções!... É o nervoso! é a tal da enxaqueca! é o flato! é o faniquito! Ah, meu tempo, meu tempo!...
          Raimundo riu-se e Ana Rosa deu de ombros, simulando indiferença pelo que dizia a velha.
          — Não faça caso, moço! Esta menina está assim já de tempos, e ninguém me tira que foi quebranto que lhe botaram!...
          Raimundo tornou a rir, e Ana Rosa endireitou-se na cadeira em que acabava de assentar-se. “Esta vovó!... pensou ela envergonhada. Que idéia não ficará ele fazendo da gente!...”
          — Não se ria, nhô Mundico! não se ria, prosseguiu a sogra de Manuel, que aqui está – e bateu no peito – quem já andou de quebranto a dar-não-dá com os ossinhos no Gavião!
          E, tirando do seio um trancelim, com uma enorme figa de chifre encastoada em ouro:-Ai, minha rica figa, a ti o devo! a ti o devo, que me livraste do mau-olhado!
          — Mas, Sra. D. Maria Bárbara, conte-me como foi essa história do quebranto, pediu Raimundo.
          — Ora, o quê! Pois então o senhor não sabe que o mau-olhado, pegando uma criatura de Deus – está despachadinha?... Então, credo! que andou o senhor aprendendo lá por essas paragens que correu?!
          — V. Ex.ª, minha prima, também acredita no quebranto? interrogou o moço, voltando-se para Ana Rosa.
          — Bobagens... murmurou esta, afetando superioridade.
          — Ah, então não é supersticiosa?...
          — Não, felizmente. Além disso – e abaixou a voz, rindo-se mais – ainda que acreditasse, não corria risco... dizem que o quebranto só ataca em geral as pessoas bonitas...
          E sorriu para Raimundo.
          — Nesse caso, é prudente acautelar-se... volveu ele, galanteando.
          E, como se Ana Rosa lhe chamara a atenção para a própria beleza, passou a considerá-la melhor; enquanto a velha taramelava:
          — Meu caro senhor Mundico, hoj’em dia já não se acredita em coisa alguma!... por isso é que os tempos estão como estão – cheios de febres, de bexigas, de tísicas e de paralisias, que nem mesmo os doutores de carta sabem o que aquilo é! Diz que é “beribéri” ou não sei quê; o caso é que nunca vi, em dias de minha vida semelhante diabo de moléstia, e que o tal como-chama está matando de repente, que nem obra do sujo, credo! Até parece castigo! Deus me perdoe! Isto vai, mas é tudo caminhando para uma república! há de dar-lhes uma, que os faça ficar aí de dente arreganhado! Pois o que, senhor! se já não há tementes de Deus! já poucos são os que rezam!.. Hoje, com perdão da Virgem Santíssima – e bateu uma palmada na boca – até padres! até há padres que não prestam!
          Raimundo continuava a rir.
          — Quanto mais, observou ele, de bom humor, para a fazer falar, quanto mais se V. Ex.ª conhecesse certos povos da Europa meridional... Então é que ficaria pasma deveras!
          — Credo, minha Nossa Senhora! que inferno não irá por esse mundão de esconjurados! Por isso é que agora está se vendo o que se vê, benza-me Deus!
          E, benzendo-se ela própria com ambas as mãos, pediu que a deixassem ir dar uma vista de olhos pela cozinha.
          — É eu não estar lá e o serviço fica logo pra trás... Caem no remancho, diabo das pestes!
          Afastou-se, gritando, desde a varanda pela Brígida: “Que estavam a pingar as nove, e nem sinal de almoço!...”
          Raimundo e Ana Rosa ficaram a sós defronte um do outro, ela de olhos baixos, confusa, na aparência quase aborrecida; e ele, de cara alegre, a observá-la com interesse, gozando em contemplar, assim de perto, aquela provinciana simples e bem disposta, que se lhe afigurava agora uma irmã, de quem ele estivera ausente desde a infância. “Deve ser, com certeza, uma excelente moça... calculou de si para si. Pelo seu todo está a dizer que é boa de coração e honesta por natureza. Além do que, bonita...”
          Sim, que até aí Raimundo ainda não tinha reparado que sua prima era bonita. Notou-lhe então a frescura da pele, a pureza da boca, a abundância dos cabelos. Achou-a bem tratada; as mãos claras, os dentes asseados, a tez muito limpa, fina e lustrosa, na sua palidez simpática de flor do Norte.
          Principiaram a conversar, depois de algum silêncio, com muita cerimônia. Ele continuava a dar-lhe excelência, o que a constrangia um tanto, perguntou-lhe pelo pai.
          Que tinha ido para o armazém, como de costume, e só subiria para almoçar e para jantar. Daí, queixou-se da solidão em que vivia no aborrecimento daquela casa “Um cemitério de triste!...” Lamentou não ter um irmão e, em resposta a uma pergunta que lhe fez o rapaz, disse que lia para se distrair, mas que a leitura muitas vezes a fatigava também. O primo, se tinha um romance bom, que lho emprestasse.
          Raimundo prometeu ver entre os seus livros, logo que abrisse um caixão que ainda estava pregado.
          A propósito do romance, entrou a conversa pelas viagens. Ana Rosa lamentou não ter saído nunca do Maranhão. Tinha vontade de conhecer outros climas, outros costumes; entusiasmava-se com a descrição de certos lugares; falou, suspirando, da Itália. “Ah, Nápoles!...”
          — Não, não! objetou o rapaz. Não é o que V. Ex.ª supõe! Os poetas exageram muito! É bom não acreditar em tudo o que eles dizem, os mentirosos!
          E, depois de uma ligeira súmula das impressões recebidas na Itália, perguntou à prima se queria ver os seus desenhos. A menina disse que sim e Raimundo, muito solícito, correu a buscar o seu álbum.
          Logo que ele se levantou, Ana Rosa sentiu um grande alívio; respirou como se lhe houvessem tirado um peso das costas. Mas já não estava tão nervosa e até parecia disposta a rir e gracejar; é que Raimundo, no meio da conversa, dissera despretensiosamente que simpatizava muito com ela; que a achava interessante e bonita, e isto sem precisar de mais nada, tornou-a logo bem disposta e restituiu-lhe ao semblante a sua natural expressão de bom humor.
          Ele voltou com o álbum e abriu-o de par em par defronte da rapariga.
          Começaram a ver. Ana Rosa era toda atenção para os desenhos; enquanto Raimundo, ao seu lado, ia virando as folhas com os seus dedos morenos e roliços, e explicando as paisagens montanhosas da Suíça, os edifícios e os jardins de França, os arrabaldes de Itália. E contava os passeios que realizara, os almoços que tivera em viagem, as serenatas em gôndola; ia dizendo tudo o que aqueles desenhos lhe chamavam à memória: como chegara a certo lago; como passara tal ponte; como fora servido em tais e tais hotéis e o que sabia daquele chalezinho verde, que a aquarela representava escondido entre árvores sonolentas e misteriosas.
          Ana Rosa escutava com um silêncio de inveja.
          — Que é isto? perguntou ela, ao ver um esboço, que expunha dois bispos, já amortalhados dentro dos competentes caixões de defunto, como à espera do momento de baixarem a terra. Um estava imóvel, de mãos postas e olhos cerrados; o outro, porém, erguia-se a meio e parecia voltar à vida. Ao lado deles havia um frade.
          — Ah! fez ele rindo, e explicou: Isso é copiado de um quadro, que vi na sacristia do velho convento de São Francisco, da Paraíba do Norte. Não vale nada, como todos os quadros que lá estão, e não poucos, pintados sobre madeira; um colorido impossível; as figuras mal desenhadas, muito duras. Esse é um dos mais antigos; copiei-o por isso. Pura curiosidade cronológica. Vê esse escudo nas mãos do frade? Tenha a bondade de virar a página; que V. Ex.ª encontrará um soneto que aí estava escrito a pincel.
          Ana Rosa virou a folha e leu:

          “Este quadro, Leitor, onde a figura
          Vivo um Bispo te põe, que morto estava,
          Mostra quanto Francisco o estimava,
          Pois não quer vá com culpa à sepultura.

          Olha o outro defronte, em que a pintura
          Jugulado o expõe; este formava
          Contra a Ordem mil queixas, que esperava
          Fossem dos Frades trágico jatura.

          Tu agora, Leitor, que a diferente
          Sorte vês nestes dois acontecida
          Toma a ti a que for mais conducente:

          O primeiro ama a Ordem e torna à vida;
          O segundo a aborrece e o golpe sente.
          Ambos prêmios têm por igual medida.”

          — Quem há de gostar disto, é vovó... ela tem muita devoção com São Francisco!
          — Olhe! aí tem V. Ex.ª um dos pontos mais bonitos de Paris.- É desenho de um pintor meu amigo; muito forte! – Essas ruínas, que aparecem ao fundo, são das Tulherias.
          E passaram a conversar sobre a Guerra Franco-Prussiana, extinta pouco antes. Ana Rosa, sem desprender os olhos do álbum, via e ouvia tudo, com muito empenho; queria explicações; não lhe escapava nada. Raimundo, debruçado nas costas da cadeira em que ela estava, tinha às vezes de abaixar a cabeça para afirmar o desenho e roçava involuntariamente o rosto nos cabelos da rapariga.
          Ao virar de uma folha deram de súbito com um cartão fotográfico, que estava solto dentro do livro; um retrato de mulher sorrindo maliciosamente numa posição de teatro: com as suas saias de cambraia, curtíssimas, formando-lhe uma nuvem vaporosa em torno dos quadris; colo nu, pernas e braços de meia.
          — Oh! articulou a moça, espantando-se como se o retrato fosse uma pessoa estranha que viesse entremeter-se no seu colóquio.
          E, maquinalmente, desviou os olhos daquele rosto expressivo que lhe sorria do cartão com um descaramento muito real e uma ironia atrevida. Declarou-a logo detestável.
          — Ah, certamente!... É uma dançarina parisiense, explicou Raimundo, fingindo pouco caso. Tem algum merecimento artístico...
          E, tomando a fotografia com cuidado, para que Ana Rosa não percebesse a dedicatória nas costas do retrato, colocou-a entre as folhas já vistas do álbum.
          Ao terminarem, ele falou muito da Europa e, como a música viesse à conversa, pediu a Ana Rosa que tocasse alguma coisa antes do almoço. Passaram-se para a sala de visitas, e ela, com um grande acanhamento e um pouco de desafinação, executou vários trechos italianos.
          Benedito apareceu à porta de corpo nu.
          — Iaiá! Sinhô está chamando pra mesa.
          O almoço correu pilheriado e alegre. O cônego Diogo viera, a convite de Manuel, no propósito de saírem os dois, mais o Raimundo, para dar uma vista d’olhos pelas casinhas de São Pantaleão.
          Servida a segunda mesa, os caixeiros subiram com grande ruído de pés.
          Por esse tempo aqueles três surgiam na rua, formando cada qual mais vivo contraste com os outros: Manuel no seu tipo pesado e chato de negociante, calças de brim e paletó de alpaca; o cônego imponente na sua batina lustrosa, aristocrata, mostrando as meias de seda escarlate e o pé mimoso, apertadinho no sapato de polimento; Raimundo, todo europeu, elegante, com uma roupa de casimira leve, adequada ao clima do Maranhão, escandalizando o bairro comercial com o seu chapéu-de-sol coberto de linho claro e forrado de verde pela parte de dentro. “Formavam, dizia este último, chasqueando, sem tirar o charuto da boca uma respeitável trindade filosófica, na qual, ali, o Sr. Cônego representava a teologia, o Sr. Manuel a metafísica, e ele, Raimundo, a filosofia positiva, o que, aplicado à política, traduzia-se na prodigiosa aliança dos três governos – o do papado, o monárquico e o republicano!”
          Ana Rosa espreitava-os e seguia-os com a vista, curiosa, por entre as folhas semicerradas de uma janela.
          Por onde seguiam, Raimundo ia levantando a atenção de todos. As negrinhas corriam ao interior das casas, chamando em gritos a sinhá-moça para ver passar “Um moço bonito!” Na rua, os linguarudos paravam com ar estúpido, para examiná-lo bem; os olhares mediam-no grosseiramente da cabeça aos pés, como em desafio; interrompiam-se as conversas dos grupos que ele encontrava na calçada.
          — Quem é aquele sujeito, que ali vai de roupa clara e um chapéu de palha?
          — Or’essa! Pois ainda não sabes? respondia um Bento. É o hóspede de Manuel Pescada!
          — Ah! este é que é o tal doutor de Coimbra?
          — O cujo! afirmava o Bento.
          — Mas Brito, vem cá! disse o outro, com grande mistério, como quem faz uma revelação importante. – Ouvi dizer que é mulato!...
          E a voz do Brito tinha o assombro de uma denúncia de crime.
          — Que queres, meu Bento? São assim estes pomadas cá da terra dos papagaios! E ainda se zangam quando queremos limpar-lhes a raça, sem cobrar nada por isso!
          — Branquinho nacional! É gentinha com quem eu embirro, ó Bento, como com o vento, disse Brito com uma troca e baldroca de VV e BB, que denunciava a sua genealogia galega.
          Em outra parte, dizia-se:
          — Olé! Um cara nova? Que achado!
          — É o Dr. Raimundo da Silva...
          — Médico?
          — Não. Formado em Direito.
          — Ah! É advogado? Que faz ele? do que vive? o que possui?
          — Vem advogar a própria causa por cá! Está tratando do que lhe pertence e do que lhe não pertence!
          — O que me conta você, homem?...
          — Coisas da vida, meu amigo! Estes doutores pensam que aqui os casamentos ricos andam a ufa!...
          Em uma casa de família:
          — Sabem? passou por aí o Raimundo!
          — Que Raimundo? perguntam logo em coro.
          — Aquele mulato, que diz que é doutor, e está às sopas do Manuel Pescada!
          — Dizem que ele tem alguma coisa...
          — Pulha, minha rica, todos estes aventureiros, que arribam por cá, trazem o rei na barriga!
          — E o Pescada para que o quer em casa?
          — Qual quer o quê! O Manuel despachou-o bonito, porem o mitra deixou-se ficar!
          — Sempre há muita gente sem-vergonha!...
          Em outras partes, juraram que Raimundo era filho do cônego Diogo e que vinha dos estudos; ainda noutras, viam em Raimundo uma carta do Partido Conservador; o redator do “Maritacaca” dizia a um correligionário: “Espere um pouco! deixe chegarem as eleições e então você verá este sujeito de cama e mesa com o presidente. Olhe! eles hão de dar-se perfeitamente, porque, tanto cara de safado tem um, como o outro!”
          E assim ia Raimundo, sendo inconscientemente, objeto de mil comentários diversos e estúpidas conjeturas.
          À noite estava fechado o negócio das casas, e decidido que, mal fizesse bom tempo, iria ele ao Rosário com o Manuel, resolver o da fazenda.
          No dia imediato, Raimundo deu um passeio ao Alto da Carneira; no outro dia foi até São Tiago; no outro percorreu a praça do Mercado; foi três ou quatro vezes ao Remédios; repetiu a visita aos pontos citados e – não tinha mais onde ir. Meteu-se em casa, disposto a cultivar as relações familiares do tio e visitá-las de vez em quando, para se distrair; mas, posto lhe repetissem com insistência que o Maranhão era uma província muito hospitaleira, como é de fato, reparava despeitado, que, sempre e por toda a parte, o recebiam constrangidos. Não lhe chegava as mãos um só convite para baile ou para simples sarau; cortavam muita vez a conversação, quando ele se aproximava; tinham escrúpulo em falar na sua presença de assuntos, aliás, inocentes e comuns; enfim – isolavam-no, e o infeliz, convencido de que era gratuitamente antipatizado por toda a província, sepultou-se no seu quarto e só saía para fazer exercício, ir a uma reunião pública, ou então quando algum dos seus negócios o chamava à rua. Todavia, uma circunstância o intrigava, e era que, se os chefes de família lhe fechavam a casa, as moças não lhe fechavam o coração; em sociedade o repeliam todas, isso e exato, mas em particular o chamavam para a alcova. Raimundo via-se provocado por várias damas, solteiras, casadas e viúvas, cuja leviandade chegava ao ponto de mandarem-lhe flores e recados, que ele fingia não receber, porque, no seu caráter educado, achava coisa ridícula e tola. Muitos e muitos dias não se despregava do quarto, senão para comer ou, o que sucedia com freqüência, para ir à varanda dar dois dedos de palestra à prima.
          Estes cavacos faziam-se pelo alto dia, a horas de mais calor, e, muita vez, também à noite, das sete às nove, durante o serão. O rapaz, sempre respeitoso, assentava-se, defronte da máquina em que Ana Rosa cosia, e com um livro entre os dedos ou a rabiscar algum desenho, conversavam tranqüilamente, com grandes intervalos. Às vezes dava-lhe para pedir explicações sobre a costura; queria saber, com um interesse pueril e carinhoso, o modo de arrematar as bainhas, de tirar os alinhavos; outras vezes, distraídos, falavam de religião, política, literatura, e Raimundo, de bom humor, concordava em geral com tudo o que ela entendia, mas, quando lhe dava na cabeça, discordava, de manhoso, para que a menina se exaltasse, discorresse sobre o ponto, e ralhasse com ele, procurando, muito séria, chamá-lo a verdade religiosa, dizendo-lhe “que não fosse maçom e respeitasse a Deus!”
          Raimundo, que nunca, depois de homem, vivera na intimidade da família, dedicava-se com aquilo. D. Maria Bárbara, porém, vinha quase sempre quebrar com o seu mau gênio aquele remanso de felicidade. Era cada vez mais insuportável o diabo da velha! berrava horas inteiras; tinha ataques de cólera; não podia passar muito tempo sem dar pancadas nos escravos. O rapaz, por diversas vezes, enterrara o chapéu na cabeça e saíra protestando mudar-se.
          — Que carrasco! Dizia ele pela escada, a descer a quatro e quatro os degraus. Dá bordoada por gosto! Diverte-se em fazer cantar o relho e a palmatória!
          E aquele castigo bárbaro e covarde revoltava-o profundamente, punha-o triste, dava-lhe ímpetos de fazer um despropósito na casa alheia. “Estúpidos!” exclamava a sós, indignado. Mas, como a mudança não fosse tão fácil, contentava-se ele com o passar uma parte do dia no bilhar do único restaurante da província, não sem pena de abandonar as inocentes palestras da varanda.
          Em breve criou fama de jogador e bêbedo.
          O fato era que, por tudo isto, lhe minava o espírito uma surda repugnância pela província e contra aquela maldita velha. Quando o estalo do chicote ou dos bolos rebentava no quintal ou na cozinha, Raimundo repelia a pena com que trabalhava no quarto.
          — Lá está o diabo! Nem me deixa fazer nada! arre!
          E saía furioso para o bilhar.
          Ora, Ana Rosa, era também contra o castigo, e o procedimento da avó foi um pretexto para a sua primeira solidariedade de pontos de vista com o primo; os dois conversavam em voz baixa contra Maria Bárbara, e esta conspiração aproximava-os mais um do outro, unia-os. Mas um belo dia, em que o Benedito levou uma mela mais estirada, Raimundo chegou-se a Manuel e falou-lhe resolutamente em mudança. “Que sabia estava incomodando e não queria abusar. O Sr. Manuel que tivesse paciência e lhe arranjasse uma casinha mobiliada e um criado...”
          — O quê, homem!... protestou logo Manuel, a quem não convinha a mudança do seu hóspede antes de realizada a compra da fazenda. O doutor pensa que está na Europa ou no Rio?... Pois então casinhas mobiliadas e com criado, isto é lá coisa que se encontre por cá?... Ora deixe-se disso!
          E, como o sobrinho insistisse, continuou declarando que semelhante exigência, sobre ser quase inexeqüível, acarretava para ele, Manuel, certa odiosidade. “Que não diriam por aí?... Diriam que Raimundo fora tão maltratado pelos parentes de seu pai que preferira sepultar-se entre quatro paredes a ter de aturá-los!”
          — Não senhor! concluiu ele, afagando-lhe o ombro com uma palmada, deixe-se ficar cá em casa, pelo menos até o verão – em agosto, iremos juntos ver a fazenda – e, como por esse tempo já todos os seus negócios estarão liquidados, ou o senhor volta para a Corte, ou se instala aqui mesmo na província, porém com decência! Não lhe parece isto acertado? Para que fazer as coisas malfeitas?...
          Raimundo consentiu afinal, e, desde então, esperava o mês de agosto com uma impaciência de faminto. Não era tanto a vontade de fugir a Maria Bárbara o que lhe fazia desejar com tamanha febre aquela viagem ao Rosário, mas o empenho, a sede velha de tornar a ver o lugar, em que lhe diziam, tão secamente, ter ele nascido e vivido os seus primeiros anos. “E daí, quem sabe lá se não iria encontrar a decifração do mistério da sua vida?...”
          Esperou, e na espera entretinha-se todos os dias com Ana Rosa, tanto e com tal satisfação, que ainda nos princípios de junho, confessava já não lamentar a dificuldade da mudança. Ao contrário, pressentia até que já não podia realizá-la, sem sofrer pela falta daquele conchegozinho de família; sem curtir grandes saudades por aquela irmã, sua amiga, franca e delicada, que lhe dera a provar pela primeira vez o suavíssimo prazer da convivência em família.
          Efetivamente, a filha de Manuel já era muito chegada a Raimundo. O tratamento de excelência desaparecera como inútil entre parentes que se estimam; os sustos, os sobressaltas, as desconfianças, que dantes a acometiam na presença daquele moço austero e na aparência tão pouco comunicativo, foram substituídos, graças às providências do negociante sobre Maria Bárbara, por momentos agradáveis, cheios de doçura, em que o primo, ora contava com graça as peripécias de uma jornada; ora desenhava a lápis a caricatura dos conhecidos da casa; ora solfejava alguma melodia alemã ou algum romance italiano; ou, quando menos, lia versos e contos escolhidos.
          Ana Rosa sentia em tudo isso um grande encanto, mas incompleto: Raimundo, pelos modos, parecia que lhe não tributava mais do que respeitosa amizade de irmão; e isto, para ela, não bastava. Raro era o dia em que a moça sob qualquer pretexto, não lhe fazia uma carícia disfarçada; dizia por exemplo: “Esta varanda é muito fresca... Não acha primo? Olhe, veja como tenho as mãos frias...” E entregava-lhe as mãos, que ele tenteava frouxamente, com medo de ser indiscreto. Outras vezes fingia reparar que o rapaz tinha os dedos muito longos e vinha-lhe à fantasia medi-los com os seus, ou queixava-se de ameaças de febre e pedia-lhe que lhe tomasse o pulso. Mas, a todas estas dissimulações da ternura, a todas estas tímidas hipocrisias do amor, sujeitava-se ele frio, indiferente e por vezes distraído.
          Este pouco caso desesperava-a; doía-lhe aquela falta de entusiasmo, aquele nenhum carinho, por ela, que tanto se desvelava em merecê-lo. Certos dias a pobre moça aparecia sem querer dar-lhe palavra e com os olhos vermelhos e pisados; Raimundo atribuía tudo a qualquer indisposição nervosa e procurava distraí-la por meio da conversa, da música, sem nunca lhe falar do aspecto triste e abatido que lhe notava; tinha receio de impressioná-la e só conseguia afligi-la mais, porque Ana Rosa, quando, ao levantar-se da rede, se percebia pálida e triste, esforçava-se por conservar intacta na fisionomia a expressão da sua mágoa, na esperança de comovê-lo; de ser interrogada por ele, de ter enfim uma ocasião de confessar-lhe o seu amor. O ar friamente atencioso de Raimundo, as suas perguntas calmas, cristalizadas pela delicadeza, com que ele se informava da saúde da prima, a imperturbabilidade médica com que falava daquelas tristezas, daquela insônia e daquela falta de apetite, a formal condescendência que afetava, como por obséquio a uma pobre convalescente que se não deve contrariar, enchiam-na de raiva e despedaçavam-lhe a esperança de ser correspondida.
          Uma ocasião, em que ela se lhe apresentou muito mais desfeita e pálida, Raimundo chamou a atenção de Manuel para a saúde da filha:
          — Tenha cuidado! disse-lhe. Aquela idade é muito perigosa nas mulheres solteiras... Talvez fosse acertado uma viagem... Em todo o caso, não há efeito sem causa... É bom consultar o médico.
          Manuel coçou a cabeça, em silêncio; a verdadeira causa já o Jauffret lhe havia declarado; mas, como Raimundo voltasse à questão e pintasse o caso muito feio, insistindo em que era preciso fazer alguma coisa, teve o bom português, nessa mesma tarde, uma conferência com o compadre e com o seu caixeiro Dias a quem prometeu sociedade comercial, na hipótese de que se efetuasse para o seguinte mês, como ficava resolvido, o casamento dele com Ana Rosa.
          — Mas a D. Anica levará em gosto?... perguntou o Dias, abaixando os olhos, com o melhor sorriso hipócrita do seu repertório.
          — Naturalmente... respondeu Manuel, porque da última vez que lhe toquei nisso, ela deu-me esperança... agora é provável que dê certeza!
          — De não casar talvez! observou o cônego.
          — Como não casar?...
          — Como? Eu lho digo...
          E o cônego apresentou as suas razões, fez bons argumentos, estabeleceu premissas, tirou conclusões, citou máximas latinas, e declarou que aquela hospedagem do cabrocha, no seio da família, nunca fora do seu gosto; e que, para se tratar do casamento de Ana Rosa, a primeira coisa a fazer era afastá-lo da casa.
          Mas o negociante, que colocava os seus interesses pecuniários acima de tudo, abanou as orelhas às palavras do compadre, e descreveu a atitude respeitosa e desinteressada de Raimundo ao lado de Ana Rosa; falou no empenho com que o sobrinho quis mudar-se; no seu horror pela província; no seu entusiasmo pela Corte; e lembrou que fora ele próprio até, coitado! quem provocara aquela conferência dos três. Terminou dizendo que, por esse lado, nada temia. Além de que, depositava bastante confiança no bom senso de sua filha. “Não! por aí podiam estar descansados! Não havia perigo a recear!”
          — Veremos... veremos... Enquanto não assistir ao casamento deste aqui com a minha afilhada, estou no que disse!... Cui fidas vide!
          E o cônego assoou-se com estrondo.
          Nessa mesma noite, Manuel, aproveitando a ausência do hóspede, levou a filha ao quarto de Maria Bárbara. A velha embalava-se na rede, “bebendo” o seu fumo de corda no cachimbo e fitando um velho oratório de pau-santo. Ana Rosa, intrigada com a situação, encostou-se a uma cômoda, e o pai, depois de discorrer sobre várias coisas indiferentes, disse que, no dia seguinte, viriam as amostras da casa do Vilarinho, para a noiva escolher as fazendas do seu enxoval!
          — Quem vai casar?... perguntou a menina, num alvoroço.
          — Faze-te desentendida, minha sonsa!... Ora qual de nós aqui tem mais cara de noivo – eu ou tua avó?...
          E Manuel fez uma festinha no queixo da filha.
          — Casar! eu? mas com quem, papai?
          E Ana Rosa sorriu, porque calculou que Raimundo a pedira em casamento.
          — Ora com quem havia de ser, minha disfarçada?
          E desta vez foi Manuel que riu, iludido pelo bom acolhimento que a filha dera à notícia.
          — Não sei, não senhor... respondeu ela, com ar de quem sabe perfeitamente. Com quem é?...
          — Anda lá, sonsinha? Não sabes outra coisa!...
          E, enquanto Ana Rosa parecia muito ocupada em raspar com a unha uns pingos de cera velha, espalhados pela madeira da cômoda, continuou o negociante:
          — Mas por que não me falaste com franqueza há mais tempo, sua caprichosa, fazendo o pobre rapaz supor que o não querias?...
          Ana Rosa ficou séria.
          O pai acrescentou:
          — A fazê-lo, coitado! andar por aí tão derreado, que até metia dó!...
          — Como?!
          — Pois então não sabes como andava o nosso Dias?...
          — O Dias?! interrogou Ana Rosa empalidecendo.
          E fez-se muda, a cismar; só despertou, com estas palavras:
          — Ora senhores!... Tem graça!
          — Tem graça, não senhora! vossemecê disse que o aceitava para marido! Que diabo quer dizer agora esta mudança?... Ah, que temos mouros na costa!... Bem me dizia o compadre!...
          — Não sei o que lhe disse o padrinho, mas o que eu lhe digo, papai, é que definitivamente não me casarei com o Dias. Nunca, percebe?
          — Mas, Anica, tu, se já não o queres, é porque tens outro de olho!...
          — Não sei não senhor...
          E abaixou os olhos.
          — Bem! vê lá! Isto já me vai cheirando mal!... Ora dizes uma coisa; ora dizes outra!.. O mês passado respondeste-me na varanda: “Pode ser” e agora, às duas por três, dizes que não! Sabes que só quero a tua felicidade... não te contrario.. mas tu também não deves abusar!...
          — Mas, gentes, o que foi que eu fiz?...
          — Não estou dizendo que fizesses alguma coisa!... Só te aviso que prestes toda a atenção na tua escolha de noivo!.. Nem quero imaginar que seria capaz de escolher uma pessoa indigna de ti!...
          — Mas, como, papai?... Fale claro!
          — Isto vai a quem toca! Não sei se me entendes!...
          — Ora, seu Manuel! exclamou Maria Bárbara, levantando-se e pousando no chão o enorme cachimbo de taquari do Pará. Você às vezes tem lembranças que parecem esquecimento! Pois então, uma menina, que eu eduquei, ia olhar... – E gritou com mais força – para quem, seu Manuel!?
          — Bem, bem...
          — Vejam se não é mesmo vontade de provocar uma criatura!...
          — Bem, bem! Eu não digo isto para ofender!... desculpou-se o negociante. Mas é que temos cá um rapaz bem-aparecido, que...
          — Um cabra! berrou a sogra. E era muito bem feito que acontecesse qualquer coisa, para você ter mais cuidado no futuro com as suas hospedagens! Também só nessa cabeça entrava a maluqueira de andar metendo em casa crioulos cheios de fumaças! Hoje todos eles são assim! Súcia de apistolados! Dá-se-lhes o pé e tomam a mão! Corja! Julgue-se mas é muito feliz em não lhe ter recebido o coice! porém fique você sabendo que só a mim o deve!-sei a educação que dei a minha neta!... por esta respondo eu!.. E, quanto ao cabra... é tratar de despachá-lo já, e já, se não quiser ao depois ter de pegar-se com trapos quentes!...
          — Pois bem, pois bem, senhora! Amanhã mesmo tratarei disso! Oh!
          E Manuel pensou logo em aconselhar-se com o cônego.
          Ana Rosa continha o choro.
          — Vou para meu quarto! disse ela, com mau modo.
          — Ouça!... opôs-lhe o pai, detendo-a. A senhora...
          — Não diga asneiras!... atalhou a velha, empurrando a neta para fora. Vai-te! e reza à Virgem Santíssima para que te proteja e te dê juízo!
          Ana Rosa fechou-se, no seu quarto, rezou muito, não quis tomar chá, e soluçou até às quatro horas da manhã.
          No dia seguinte, Manuel, depois de entender-se com o compadre, preveniu a Raimundo que se preparasse para ir ao Rosário.
          — Estou às suas ordens, mas o senhor tinha dito que iríamos no mês de agosto.
          — É certo! porém o tempo está seco e para a semana temos lua cheia. Podemos ir no sábado Convém-lhe?
          — Como quiser... estou pronto.
          E, daí a pouco, Raimundo foi ao quarto verificar se os seus pertences de viagens, a borracha de aguardente, as botas de montar, as esporas e o chicote, achavam-se em bom estado de servir. Estranhou encontrar tudo isso mexido e remexido de muito fresco, como se alguém houvera se servido daqueles objetos. Já não era o primeiro reparo que fazia desse gênero; por outras vezes quis lhe parecer que alguém curioso de mau gosto se divertia a remexer-lhe os papéis e a roupa. “Talvez bisbilhotice do moleque!”
          Mas, no dia seguinte, por ocasião de deitar-se, achou sobre o travesseiro um atracador de tartaruga preso a um laço de veludo preto. Reconheceu logo estes objetos; pertenciam a Ana Rosa. “Mas, como diabo vieram eles, imoralmente, parar ali, na sua cama?... Havia nisso, com certeza, um mistério ridículo, que convinha pôr a limpo!...” Lembrou-se então de ter ficado uma vez muito intrigado por descobrir, na escova e no pente de seu uso, fios compridos de cabelo, cabelo de mulher, sem dúvida, e mulher branca.
          Já maçado, resolveu passar busca minuciosa em todo o quarto e encontrou os seguintes corpos de delito: dois ganchos de pentear, um jasmim seco, um botão de vestido e três pétalas de rosa. “Ora, estes objetos lhe pertenciam tanto quanto o pentinho de tartaruga e o laço de veludo.. Quem fazia a limpeza e arrumava o quarto era o Benedito; este também não usava laços nem ganchos na cabeça... Logo, como havia pensado, alguém se divertia em vir, na sua ausência, revistar o que era dele, e esse alguém só poderia ser Ana Rosa!... Mas, que diabo vinha ela fazer ali?... Como adivinhar o fim daquelas visitas extravagantes?... Seria simples curiosidade ou andaria naquilo a base de alguma intriga maranhense, tramada contra o morador do quarto, ou talvez, quem sabe? contra a pobre menina?... Fosse o que fosse, em todo o caso, era urgente pôr cobro a semelhante patacoada!”
          Desde esse dia, Raimundo prestou atenção a todos os objetos que deixava no quarto; marcou o ponto em que ficava o álbum, o despertador um livro, o estojo de barba ou qualquer coisa, que o moleque não precisasse tirar do lugar para fazer a limpeza. E com estas experiências, cada vez mais se convencia das visitas misteriosas; os corpos de delito reproduziam-se escandalosamente; uma vez encontrou toda riscada à unha a cara da dançarina, cuja fotografia ele, com tanto cuidado, escondera de sua prima, porque nas costas do cartão, havia a seguinte dedicatória: A mon brésilien bien-aimé, Raymond.
          Que dúvida! Todas as suspeitas recaíam sobre a bela filha do dono da casa! A graça, porém, é que Raimundo, apesar de não agradar à sua índole de homem sério e franco, tudo que cheirasse a subterfúgio e ilegalidade, sentia no entanto certo gosto vaidoso em preocupar tanto a imaginação de uma mulher bonita; lisonjeava-lhe aquele interesse, aquela espécie de revelação tímida e discreta; gostou de perceber que seu retrato era, de todos os objetos, o mais violado, e, como bom polícia chegou a descobrir-lhe manchas de saliva, que significavam beijos. Mas, ou fosse levado pela curiosidade, ou fosse na desconfiança de ser tudo aquilo obra de algum patife, ou fosse, enfim, porque o fato repugnasse ao seu caráter honesto, verdade é que deliberou aproveitar a primeira oportunidade para acabar com aquela mistificação.
          Poucos dias depois, saindo de casa e demorando-se defronte da porta a conversar com alguém, viu da rua fecharem cuidadosamente as rótulas do seu quarto. Não hesitou – subiu pé ante pé, atravessou a varanda deserta, e foi direito ao seu aposento.


6

          Ana Rosa, com efeito, de algum tempo a essa parte, fazia visitas ao quarto de Raimundo, durante a ausência do morador.
          Entrava disfarçadamente, fechava as rótulas da janela, e, como sabia que o morador não aparecia àquela hora, começava a bulir nos livros, a remexer nas gavetas abertas, a experimentar as fechadas, a ler os cartões de visita e todos os pedacinhos de papel escrito, que lhe caíam nas mãos. Sempre que encontrava um lenço já servido no chão ou atirado sobre a cômoda apoderava-se dele e cheirava-o sofregamente, como fazia também com os chapéus de cabeça e com a travesseirinha da cama.
          Estas bisbilhotices deixavam-na caída numa enervação voluptuosa e doentia, que lhe punha no corpo arrepios de febre. Uma vez encontrou uma banda de luva cor de cinza, esquecida atrás de uma das malas calçou-a logo, com avidez e facilidade, e pôs-se a fixá-la muito, a interrogá-la com os olhos, abrir e fechar a mão, distraída, acompanhando as rugas da pelica. E esta luva arrancava-lhe conjeturas sobre o passado de Raimundo; fazia-lhe imaginar os bailes ruidosos de Paris, as festas, os passeios, as estações dos caminhos de ferro, as manhãs frescas em viagem de mar, as ceias nos hotéis, as corridas a cavalo e toda uma vida de movimento, de gargalhadas, de almoços com mulheres; uma existência que se desenrolava defronte da sua imaginação, como um panorama feito com os desenhos do álbum de Raimundo, e em cujo primeiro plano atravessava este, rindo, fumando, braço dado à dançarina da fotografia, que lhe dizia, cheia de um amor teatral: “Raymond! mon bien-aimé!”
          Foi num desses sonhos que Ana Rosa, irrefletidamente, arranhou o rosto do retrato, com a mesma raiva com que no colégio fazia outro tanto aos judeus mal desenhados do seu compêndio de doutrina cristã.
          Aquelas visitas eram agora toda a sua preocupação; os seus melhores instantes eram os que passava ali, entregue de corpo e alma àquele segredo; o resto do tempo servia apenas para esperar a hora do prazer querido; e quando, por qualquer motivo, não podia realizá-lo ficava insuportavelmente frenética e nervosa. Até já nem queria saber das amigas; tomara-se de birra pela Eufrasinha e não pagava uma só das visitas que lhe faziam. E nem por sombras lhe falassem de festas e divertimentos – seu único divertimento, a sua única festa era estar lá, naquele quarto proibido, sozinha, à vontade, conversando intimamente com os objetos de Raimundo, lendo os seus papéis, mexendo em tudo a palpitar num gosto novo e desconhecido, secreto, cheio de sobressaltos, quase criminoso; saboreando aos poucos, em goles compassados, como um vinho bom, gozos extremamente fortes, violentos; sentindo-se embriagar, consumir, absorver por aquela loucura de perseguir um nada, uma esperança que lhe fugia, que a atormentava, porém melhor e mais deliciosa, para ela, que os melhores e mais brilhantes prazeres da sociedade.
          No dia em que Raimundo subira, pé ante pé, ao seu quarto, Ana Rosa tinha entrado havia pouco e, como de costume, fechara-se por dentro. O ambiente fizera-se de um tom morno e duvidoso, em que havia mescla de claridade e sombra. Ela, depois de varrer o olhar em torno de si, assentara-se na cama e tomara, distraidamente, de uma cadeira ao lado, no lugar do velador, um tratado de fisiologia que o rapaz estivera a ler na véspera, antes de dormir, e que havia deixado junto ao castiçal, marcado pela caixa de fósforos.
          Ao abrir o livro, Ana Rosa soltou logo uma envergonhada exclamação: dera com um desenho, em que o autor da obra, com a fria sem-cerimônia da ciência, expunha aos seus leitores uma mulher no momento de dar à luz o filho. A fidelidade, indecorosa e séria, da estampa, produziu no ânimo da moça uma impressão estranha de respeito e de vexame. Sem compreender cabalmente o que tinha diante dos olhos, fixava a página, voltando-a de um para outro lado, à procura de entender melhor. Virou algumas folhas e, com o pouco que sabia do francês, tentou apanhar o sentindo do que vinha escrito sobre os vários fenômenos da gestação e do parto; ao chegar, porém, a uma das gravuras, fechou o livro com ímpeto e olhou em torno, como para certificar-se de que estava completamente só. Tinha visto de surpresa um espetáculo, que os seus sentidos ainda mal formulavam por instinto – o ato da fecundação. Fizera-se cor de romã e repelira o indiscreto volume com um ligeiro e espontâneo movimento do seu pudor, mas, pouco depois, pensando bem no caso, convencendo-se de que tudo aquilo não era feito por malícia, mas, ao contrário, para estudo, muniu-se de coragem e afrontou a página.
          Aquele desenho abriu-se, defronte dela, como um postigo, para um mundo vasto e nebuloso, um mundo desconhecido, povoado de dores, mas ao mesmo tempo irresistível; estranho paraíso de lágrimas, que simultaneamente a intimidava e atraía. Observou-o com profunda atenção, enquanto dentro dela se travava a batalha dos desejos. Todo o ser se lhe revolucionou; o sangue gritava-lhe, reclamando o pão do amor; seu organismo inteiro protestava irritado contra a ociosidade. E ela então sentiu bem nítida a responsabilidade dos seus deveres de mulher perante a natureza, compreendeu o seu destino de ternura e de sacrifícios, percebeu que viera ao mundo para ser mãe; concluiu que a própria vida lhe impunha, como lei indefectível, a missão sagrada de procriar muitos filhos, sãos, bonitos, alimentados com seu leite, que seria bom e abundante, e que faria deles um punhado de homens inteligentes e fortes.
          E tinha já defronte dos seus olhos os seus queridos filhinhos, nus, muito tenros e roliços, com a moleira descascando, os pezinhos vermelhos, narizinhos quase imperceptíveis, pequeninas bocas desdentadas, a lhe chuparem os peitos, com a engraçada sofreguidão irracional das criancinhas. E, a pensar neles, enlanguescia toda, numa postura indolente e comovida – os braços estendidos sobre as coxas, a cabeça mole, pendida para o seio, o olhar quebrado, fito, com preguiça de mover-se, o livro descansado nos joelhos, entre os dedos insensibilizados. E cismava: “Sim, precisava casar, fazer família, ter um marido, um homem só dela, que a amasse vigorosamente!” E via-se dona-de-casa, com o molho das chaves na cintura – a ralhar, a zelar pelos interesses do casal, cheia de obrigações, a evitar o que contrariasse o esposo, a dar as suas ordens para que ele encontrasse o jantar pronto. E queria fazer-lhe todas as vontades, todos os caprichos – tornar-se passiva, servi-lo como uma escrava amorosa, dócil, fraca, que confessa sua fraqueza, seus medos, sua covardia, satisfeita de achar-se inferior ao seu homem, feliz por não poder dispensá-lo. E cismava, muito, muito, no marido, e esse marido aparecia-lhe na imaginação sob a esbelta figura de Raimundo.
          Nisto, abriu-se por detrás dela o cortinado da cama, com um leve rumor de rendas engomadas.
          Ana Rosa voltou-se em sobressalto e deu, cara a cara, com Raimundo, que a fitava repreensivo, soltou um grito e tentou fugir. O livro caiu ao chão, escancarando uma página, onde se via desenhado o interior de um ventre, cheio com o seu grande novelo de tripas amarelas e cor-de-rosa.
          O rapaz não lhe deu tempo para sair, colocando-se entre a cama e a parede.
          — Tenha a bondade de esperar... disse, muito sério.
          — Deixe-me por amor de Deus! suplicou ela, torcendo a cabeça, para evitar os olhos de Raimundo.
          — Não senhora, há de ouvir-me primeiro... respondeu este com delicada autoridade. E acrescentou, depois de uma pausa, pondo nas palavras certo cunho de superioridade paternal: Custa-me, mas é necessário repreendê-la... tanto mais, por me achar na casa de seu pai, que é também sua!... A senhora, porém, cometeu uma falta, e eu cometeria outra maior se me calasse.
          — Deixe-me!
          — A senhora sairá deste quarto prometendo que não tornará a fazer o que tem feito!... Se descobrissem as suas visitas clandestinas que não julgariam de mim?... de mim, e da sua pessoa, o que é muito mais grave!... Que não diriam?... E, vamos lá! – com direito!... Pois a reputação de uma senhora é coisa que se exponha deste modo?... Isto tem lugar?... Mas, quando assim fosse, quando, por uma aberração imperdoável, minha prima assim o entendesse, poderia barateá-la, sem enxovalhar sua família? Fique sabendo, minha senhora, que a obrigação que cada qual tem de zelar pelo seu nome, não se baseia só no amor-próprio, mas no respeito que devemos aos solidários do nosso crédito! Uma senhora nada tem que fazer no quarto de um rapaz!... É muito feio! Minha prima comete com isso uma ingratidão a quem deve tudo – a seu pai!
          O pranto nervoso da menina, sustido até ali com dificuldade, rebentou-lhe da garganta e dos olhos, como um regato que quebrasse as represas; as lágrimas corriam-lhe quentes pela face e pingavam-lhe grossas bagas nas carnes brancas e palpitantes do seio.
          Raimundo comoveu-se, mas procurou esconder a sua comoção. E desviando o corpo, para lhe dar passagem, acrescentou com a voz pouco alterada.
          — Peço-lhe que se retire e não volte em circunstâncias idênticas...
          Queria acusá-la ainda, repreendê-la mais, porém as sobrancelhas desfranziam-se-lhe defronte daquele vestidinho honesto de chita, daquelas singelas tranças castanhas, daquelas lágrimas inocentes.
          Ana Rosa ouviu-o de cabeça baixa, sem uma palavra, com o rosto escondido no lenço. Quando Raimundo acabou de falar, ela dava grandes soluços, muito suspirados, como de uma criança inconsolável.
          — Então que tolice é esta?... Agora está soluçando deste modo!... Vamos, não seja criança!..
          Ana Rosa chorava mais.
          — Olhe que, desse modo, podem ouvi-la da varanda!...
          E Raimundo atrapalhava-se de comoção e de medo; já não acertava com o que queria dizer; faltavam-lhe os termos; sentia-se estúpido. Começou a temer a situação.
          — Vamos, minha amiga... tartamudeou inquieto, se a ofendi, desculpe, perdoe-me, era para seu interesse...
          E chegou-se para ela, ameigou-a; estava arrependido de ter sido tão ríspido. “Fora grosseiro! No fim de contas, bem sabia que a pobre moça não era responsável por aquilo!...” Sentia remorsos. E tentou destruir o mau efeito das suas primeiras palavras:
          — Então, vamos... Eu sou seu amigo, diga-me por que chora...
          Ana Rosa não respondia, soluçava sempre. Raimundo não pôde conter um movimento de impaciência, e coçou a cabeça.
          — Ai, que vai mal a história!
          Estava já sinceramente arrependido de ter vindo surpreendê-la. “Que lhe valesse a paciência!” Todo o seu receio era que a ouvissem da varanda. “Descobriam tudo!... Com certeza que descobriam!”
          E, sem saber o que fazer, atarantado, foi à porta, voltou, tornou a ir, aflito, sobre brasas.
          — Então, minha prima tenciona ficar?... Não chore mais!... Que imprudência a sua!... Lembre-se que está no meu quarto... Tenha a bondade – retire-se. Não fique ressentida, mas vá, que podemos comprometer-nos muito seriamente!...
          Redobrou o pranto.
          — A senhora não tem motivo para chorar!...
          — Tenho sim! respondeu ela por detrás do lenço.
          — Ora essa! Então por que é?...
          — É porque o amo muito, muito, entende? declarou entre soluços, com os olhos fechados e gotejantes, e assoando-se devagarinho, sem afastar do nariz o lenço ensopado de lágrimas e entrouxado na mão. – Desde que o vi! Desde o primeiro instante! percebe? E no entanto meu primo nem...
          E desatou a chorar mais forte ainda, desorientada, apaixonadamente.
          Raimundo perdeu de todo a esperança de acabar com aquilo de um modo conveniente. Não obstante, sentia que gostava bastante de Ana Rosa, mais do que ela podia julgar talvez, mais do que ele mesmo podia esperar de si. “Mas, se assim era, que diabo! que se casassem como toda a gente! Era levá-la à igreja, em público, com decência, ao lado da família! e não tê-la ali, a lacrimejar no seu quarto às escondidas, romanticamente! Não! não admitia! Era simplesmente ridículo!” E disparatou:
          — De acordo minha senhora, mas eu não tenho o direito de detê-la no meu quarto. Queira retirar-se!... o lugar e a ocasião são os menos próprios para revelações tão delicadas!... Falaremos depois!
          Ana Rosa continuou a chorar, imóvel.
          Raimundo chegou a conceber a idéia de ir à varanda, chamar por alguém, fazer bulha, contar tudo! mas teve pena dela; “Iria prejudicá-la, ofendê-la, seria brutal; além disso escandaloso... oh! um formidável escândalo!... Que diabo então devia fazer?... Sim, no fim de contas, seria estúpido revoltar-se contra a rapariga!... ela o amava, tinha vinte anos, e queria casar nada mais justo!” E resolveu mudar de tática, empregar meios brandos e carinhosos para acabar com aquela situação. “Era o caminho mais curto e mais seguro!” Aproximou-se pois de Ana Rosa, muito terno, e disse-lhe afetuosamente, depois de enxugar-lhe o suor da testa e consertar-lhe o desalinho dos cabelos:
          — Mas, querida prima, o fato de amar-me não é motivo de choro!... ao contrário -devemos alegrar-nos! Veja como estou satisfeito, estou rindo! Siga o meu exemplo! E sabe o que nos compete fazer de melhor? – Não é chorar certamente! – é casar-nos! Não acha? Não lhe parece mais acertado? Não me aceita para seu esposo?...
          Ao ouvir isto, Ana Rosa tirou logo o lenço do rosto e, o que ainda não tinha feito, encarou Raimundo, desassombrada, feliz, rindo-se, com os olhos ainda vermelhos e molhados, a respiração soluçosa, sem poder articular palavra. E, em seguida, com um desembaraço, que abismou o primo e de que ela própria não se julgaria capaz, abraçou-o amplamente, com expansão, pousando-lhe a cabeça no ombro e estendendo-lhe os lábios numa ansiedade suplicante.
          O rapaz não teve remédio – deu-lhe na boca um beijo tímido. Ela respondeu logo com dois – ardentes. Então, o moço, a despeito de toda a sua energia moral, perturbou-se – esteve a desabar – um fogo subiu-lhe à cabeça; latejaram-lhe as fontes; e, no seu rosto congestionado e cálido, sentia respirar sofregamente o nariz frio de Ana Rosa. Porém teve mão em si: desprendeu-se dos braços dela com muita brandura, beijou-lhe respeitosamente as mãos e pediu-lhe que saísse.
          — Vá, sim? Podem vê-la!... Isto não é digno de qualquer de nós...
          — Você está maçado comigo, Raimundo?
          — Não, que lembrança! mas vai-te, sim?
          — Tens razão! mas, olha, quando me pedes a papai?
          — Na primeira ocasião, dou-te a minha palavra! mas não voltes aqui, hein?
          — Sim.
          E saiu.
          Raimundo fechou a porta e começou a passear pelo quarto, bastante agitado. Estava satisfeito consigo mesmo: apesar dos seus belos vinte e seis anos, tinha sido leal e generoso com uma pobre rapariga que o amava.
          E, de contente, cantarolou, com a voz ainda um pouco trêmula:
                    “Sento una forza indomita!”
          Mas bateram duas pancadas na porta.
          Era o Benedito.
          — Sinhô mandou dizer para vossemecê fazer o favor de chegar no quarto dele.
          — Vou já.
          A viagem ao Rosário ficou transferida para o outro mês, em razão de Manuel haver – caído – com uma tremenda papeira, justamente no dia em que Raimundo surpreendera Ana Rosa no seu quarto.
          Nessa noite encheu-se a casa de amigos; o Freitas apareceu logo, trazendo uma dose homeopática; discutiu-se a moléstia; contaram-se fatos adequados. Cada qual tivera um caso muito pior que o de Manuel!
          Choviam receitas de todos os lados.
          — Laranja-da-terra! laranja-da-terra! gritava D. Maria do Carmo. E afiançava que “abaixo de Deus, não havia remédio melhor para aquele mal!”
          — Não! olhe que as papas de linhaça têm provado muito bem... considerou Amância.
          — Pois eu me achei foi com a folha de tajá, observou a sobrinha mais velha de D. Maria do Carmo.
          — E eu, disse Etelvina com um suspiro, se quis dar cabo de uma que tive, recorri ao óleo de amêndoa doce!
          Ana Rosa acendera uma vela a São Manuel do Buraco e Maria Bárbara prometera uma bochecha de cera a Santa Rita dos Milagres.
          A Eufrasinha apareceu, e receitou logo – leite de janaúba.
          — Corta-se o cipó e escorre um leite branco, tão grosso que é um azeite! explicava ela com grande mímica. A gente apara numa xícara e depois ensopa algodão bem ensopado, e planta na cara do doente. É uma vez só, menina!
          Na varanda conversavam sobre o desânimo do doente.
          — É muito esmorecido!... protestava Maria Bárbara. Por qualquer coisa parece que está morrendo! Fica todo “Ai, ai, ai, eu morro desta!” Uma febrinha põe-no assim!
          E Maria Bárbara, para mostrar ao vivo como ficava o genro, puxou as faces com os dedos e arregalou disformemente os olhos.
          — Credo! exclamou Amância, e citou a morte de um conhecido seu.
          Maria do Carmo passou a contar, patética, o falecimento do Espigão. Aquilo é que era morte! Só vendo!...
          Seguiu-se uma enfiada de anedotas fúnebres.
          Freitas, na sala, examinava, com minuciosidade patriótica, umas litografias, que descansavam na pedra dos consolos. Eram episódios da Guerra do Paraguai – havia a tomada de Paissandu, a passagem de Humaitá, e outros, impressos no Rio e mal desenhados. Via-se o general Osório, a cavalo, sobressair com o seu bigode preto e a barba branca. E o pai de Lindoca despregava de vez em quando os olhos do quadro e passeava-os pela sala, à procura de uma vítima para a seca. Raimundo, logo que o bispou, escondera-se no quarto, com medo.
          Ana Rosa cumpriu o prometido de não voltar ao quarto de Raimundo, mas em compensação falava-lhe todos os dias no casamento. Depois do seu ajuste com o primo, andava escorreita, alegre, vivia a cantarolar, tanto na costura, como passarinhando pela varanda, a pretexto de ajudar a avó nos arranjos da casa, ao que ela agora ligava muito mais interesse. Maria Bárbara, por outro lado, dava aos diabos a papeira de Manuel e com esta a transferência da viagem ao Rosário. “Aquela demora do cabra em companhia de sua neta embrulhava-lhe o estômago! – Não sossegaria enquanto não o visse pelas costas!...”
          Entretanto, aproximava-se o dia de São João. Em casa do Freitas, em casa de Maria do Carmo, como em casa do Manuel, falava-se da festa. A pagodeira seria, como todos os anos, no sítio de Maria Bárbara. Era um antigo costume ainda do tempo do defunto coronel, avô materno de Ana Rosa. A velha não relaxava a ladainha de São João. “Tudo! menos deixar de fazer nesse dia a sua festa costumeira!” Aquela data representava para ela o aniversário dos acontecimentos mais notáveis da sua vida – nesse dia nascera o nunca assaz chorado coronel, o seu João Hipólito; também nesse dia fora pedida em casamento, e, um ano depois, justamente no dia de São João, casara; ainda nesse dia batizara a sua primeira filha – a defunta mulher de Sebastião Campos –, e nesse dia enfim – Mariana esposara Manuel.
          Fez-se uma congregação em casa do negociante, composta por Amância, Maria do Carmo, as sobrinhas desta, e presidida por Maria Bárbara. Falou-se muito em capados, carneiros e perus de forno; discutiu-se com o que se devia encher o papo do peru – se de farinha ou com os próprios intestinos do animal, decidiu a maioria que se encheria com farofa, “à moda de Pernambuco”, explicava Etelvina. Fizeram-se grandes encomendas de dúzias de ovos; lembraram-se os doces menos lembrados; receitaram-se processos dificultosíssimos da arte culinária: consultou-se o “Cozinheiro Imperial”, houve oferecimentos de louça, compoteiras, talheres, moleques e negrinhas, para ajudarem no serviço; citaram-se pessoas privilegiadas na confecção de tais e tais quitutes; falou-se em caruru da Bahia e presunto de fiambre.
          No dia seguinte encarregou-se a um pedreiro de correr uma caiação geral na casa do sítio; os escravos tiveram ordem de assear a quinta, limpar as estradas, os tanques, os pombais; e preveniu-se o padre Lamparinas, que era quem, todos os anos, cantava lá a ladainha de São João. Haveria dança e fogos. Seria um festão de arromba! “O diabo! pensava Maria Barbara, era que o – cabra – só se iria do Maranhão para o outro mês!...”
          No entanto, Raimundo aborrecia-se; a província parecia-lhe cada vez mais feia, mais acanhada, mais tola, mais intrigante e menos sociável. Por desfastio, escreveu e publicou alguns folhetins; não agradaram – falavam muito a sério; passou então a dar contos, em prosa e verso; eram observações do real, trabalhadas com estilo, pintaram espirituosamente os costumes e os tipos ridículos do Maranhão “de nossa Atenas” como dizia o Freitas.
          Houve um alvoroço! Gritaram que Raimundo atacava a moralidade pública e satirizava as pessoas mais respeitáveis da província.
          E foi o bastante: os atenienses saltaram logo, espinoteando com a novidade. Meteram-lhe as botas; chamaram-lhe por toda a parte: “besta! cabra atrevido!” Os lojistas, os amanuenses de secretaria, os caixeiros freqüentadores de clubes literários, em que se discutia, durante anos, a imortalidade da alma, e os inúmeros professores de gramática, incapazes de escrever um período original, declararam que era preciso – meter-lhe o pau! “Escová-lo, para se não fazer de atrevido e desrespeitador das coisas mais sagradas desta vida: – a inocência das donzelas, a virtude das casadas e a mágoa das viúvas maranhenses!” Nas portas de botica, nas esquinas do Largo do Carmo, no fundo das vendas em que se vendia vinho branco e no interior de todas as casas particulares, juravam nunca ter visto semelhante escândalo de linguagem pelas folhas. Falou-se muito nos jornais em Gonçalves Dias, Odorico Mendes, Sotero dos Reis e João Lisboa; apareceram descomposturas, anônimos, pasquins, contra Raimundo; escreveram-se obscenidades pelas paredes, a giz e blac-verniz, contra o “novo poeta d’água doce!” Ele foi a ordem do dia, de muitos dias; apontaram-no a dedo, boquejaram, por portas travessas, que ia sair um jornalzinho, intitulado “O Bode”, só para botar os podres do ordinário na rua! Os moleques cantavam, contra o perseguido, torpezas tais, que este nem sequer as compreendia.
          E, alheio ao verdadeiro sentido das descomposturas e das indiretas, jurou, pasmado, nunca mais publicar coisa alguma no Maranhão.
          — Apre! Com efeito! Dizia.
          E tomou deveras um invencível nojo por aquela província indigna dele; impacientou-se por consumar o seu casamento com Ana Rosa e retirar-se daquele chiqueiro de pretensiosos maus.
          — Safa! terrinha estúpida! resmungava sozinho, a fumar cigarros, de barriga para o ar, no seu quarto.
          Todavia, o pior lhe estava reservado para o mês de junho.


7

          Junho chegou, com as suas manhãs muito claras e muito brasileiras.
          É o mês mais bonito do Maranhão. Aparecem os primeiros ventos gerais, doidamente, que nem um bando solto de demônios travessos e brincalhões, que vão em troça percorrer a cidade, assoviando a quem passa, atirando ao ar o chapéu dos transeuntes, virando-lhes do avesso os guarda-sóis abertos, levantando as saias das mulheres e mostrando-lhes brejeiramente as pernas.
          Manhãs alegres! O céu varre-se nesse dia como para uma festa, fica limpo, todo azul, sem uma nuvem; a natureza prepara-se, enfeita-se; as árvores penteiam-se, os ventos gerais cantam-lhes as folhas secas e sacodem-lhes a frondosa cabeleira verdejante; asseiam-se as estradas, escova-se a grama dos prados e das campinas, bate-se a água, que fica mais clara e fresca. E o bando turbulento não pára nunca e, sempre remoinhando, zumbindo, cantando, lá vai por diante, dando piparotes em tudo que encontra, acordando as pequeninas plantas, rasteiras e preguiçosas, não deixando dormir uma só flor, enxotando dos ninhos toda a chilreadora república das asas. E as borboletas, em cardumes multicores, soltam-se por aqui e por ali, doidejando; e nuvens de abelhas revoam, peralteando, gazeando o trabalho, e as lavadeiras, que vadias! brincam ao sol, sobre os lagos, dançando ao som de uma orquestra de cigarras.
          A gente bem conformada, nessas manhãs, acorda lépida, depois de um sono bom, completo, bebido de uma vez, como um copo de água fresca. E não resiste ao convite do bando endemoninhado, que lhe salta pela janela e lhe invade o quarto, atirando ao chão os papéis da mesa, arrancando os quadros da parede e desfraldando as cortinas, que tremulam no ar em flutuações alegres de bandeira; não resiste – veste-se rindo, cantarolando, e vai para a rua, para o campo, mete uma flor na lapela do fraque, agita a bengala, fala muito, ri, tem vontade de correr e almoça nesse dia com apetite selvagem.
          A madrugada da véspera de São João era dessas. Raimundo, antes de raiar o dia, já se achava de pé e em caminho, junto com Maria Bárbara, Manuel e Ana Rosa, para o sítio, onde seria realizada a grande festa tradicional dos tempos do defunto coronel. A velha arrependia-se de não ter esperado pelo bonde das seis horas e, de cansada assentou-se com o genro no banco de uma das quintas do Caminho Grande; Raimundo continuou a andar distraidamente, de braço dado à rapariga.
          Clareava o tempo; a este o horizonte tingia-se de vermelho para o seu grande parto quotidiano e deslumbrante; ia nascer o sol. Houve uma grande alegria rubra em torno do ventre de ouro e púrpura, que se rasgou afinal, num turbilhão de fogo, jorrando luz pelo céu e pela terra. Um hino de gorjeios partiu dos bosques; a natureza inteira cantou, saudando o seu monarca!
          Raimundo, estático ao lado de Ana Rosa, não podia conter o seu entusiasmo.
          — Como é belo! como é belo! exclamava ele, apontando para o nascente.
          E, numa comoção de pintor, amarrotando entre os dedos o seu chapéu de feltro, parecia beber avidamente, pelos olhos deslumbrados, aquele maravilhoso nascimento do sol meridional de junho. Depois, sempre emocionado, segurava o braço da prima, chamando a atenção desta, sem despregar a vista da paisagem, para o lindo efeito da luz, filtrada por entre as folhas, na espessura das árvores; para as gotas de orvalho, que cintilavam como diamantes; para a esfogueada selagem dos planos afastados; para a luminosa cercadura dos casebres ao longe, em torno dos quais pasciam bois e acogulavam-se carroções com grandes feixes de capim novo.
          E vinham do campo para o mercado da cidade enormes tabuleiros de hortaliças, gotejantes da última rega, e pirâmides de ramalhetinhos de vintém, para se vender às mulatas; e cofos de frutas, que espalhavam no ar um perfume desenjoativo; e matutos traziam, dependuradas de um pau sobre o ombro, as pacas e as cutias, caçadas no mato; e os carros da roça passavam gemendo, com as suas imensas rodas inteiriças; e os caboclos, seguidos pelas mulheres e pelo bandão dos filhos, num passo sacudido e ligeiro, chegavam da Vila do Paço e de São José de Ribamar, muito carregados, depois de engolir léguas e léguas a pé descalço, para vir vender à boca do Caminho Grande o seu peixe, pescado e mosqueado na véspera, os seus beijus fresquinhos, o azeite de gergelim, a massa de água, a macaxeira e os bolos de mandioca.
          Ana Rosa não parecia a mesma daqueles últimos tempos: estava alegre, despreocupada; dir-se-ia ter voltado a um dos seus dias de colégio. Os ventos gerais como que lhe levantaram o véu das suas melancolias de donzela e arejaram-lhe o coração com uma rajada.
          — Deixe lá a paisagem, e dê-me o braço, primo! disse ela arquejante, tendo ido de carreira comprar tangerinas à mão de um roceiro. Ah!... cansada!
          E, sem poder falar, prendeu-se ao braço de Raimundo. Este vergou-se sobre ela, depois de contemplá-la muito.
          — Sabe? segredou-lhe, você hoje está bonita como nunca, minha prima! Suas faces são duas rosas!
          — É debique seu... Se me achasse bonita, já me teria pedido a papai...
          — Confesso que nunca a vi tão linda...
          — São os ventos gerais! Limparam-lhe os olhos!...
          — Não diga brincando! Quer que lhe confesse uma coisa?... Não sei que singular efeito me produz esta manhã... É esquisito, mas eu mesmo me desconheço! Sinto-me transformado! A idéia, por exemplo, da minha sisudez habitual, dessa gravidade exagerada, de que por mais de uma vez a prima se queixou a mim próprio, parece-me agora tão pueril e ridícula como o estilo do Freitinhas e o orgulho do Sebastião Campos! É exato! Creia que neste instante lamento não ser mais expansivo, mais alegre, mais rapaz! Deploro ter esperdiçado tantas madrugadas a estudar, a matar-me de trabalho; ter adormecido esfalfado ao raiar do dia, quando os outros se levantavam satisfeitos e confortados. Com franqueza toda a obra de uma geração inteira de investigadores da ciência; tudo quanto ensinam as melhores academias, não vale a boa lição que em algumas horas de passeio ao seu lado me dá a natureza, a grande mestra! Com esta única lição renasce-me a mocidade que eu estupidamente me empenhava em sufocar! Sinto-me disposto a ser feliz, sinto-me capaz de amá-la, minha querida amiga!
          Ana Rosa abaixou o rosto, afogada em pejo e contentamento, sem querer interrompê-lo, para não desperdiçar uma só daquelas palavras, que lhe faziam tanto bem. O que Raimundo lhe dizia dava-lhe vontade de chorar e cair-lhe agradecida nos braços, traduzindo em beijos todas as ternuras, que o pudor vedava aos lábios proferissem.
          Haviam parado, junto um do outro; batia-lhes em cheio no rosto o sol nascente. Emudeceram. O moço tomou-lhe as mãos, e os dois fitaram-se com um juramento nos olhos, e não falaram mais em amor, enquanto esperavam por Manuel e Mana Bárbara, que de novo se tinham posto a caminhar.
          Meia hora depois chegavam todos ao sítio. Raimundo fazia pasmar com o seu bom humor; confessava-se no momento mais feliz de sua vida; deu até para brincalhão e ferrou, ao entrar na casa, um abraço em D. Amância, que viera recebê-los à porta. A velha afastou-se, benzendo-se:
          — Credo! Pra lá mandado!
          Ela já lá se achava, desde a véspera, preparando tudo, arrumando, dando ordens, ralhando, prometendo castigos, como se estivesse em fazenda própria e cercada de escravos seus.
          A quinta de Maria Bárbara, como quase todas as quintas do Maranhão, era aprazível e rústica. Um velho portal de ferro, com o competente lampião de corrente, abria sobre duas longas filas de mangueiras seculares, que iam terminar defronte da casa, formando sombrosa e úmida galeria, onde o sol penetrava horizontalmente, por entre os grossos troncos nodosos e encascados. Por uma e outra banda sem ordem nem simetria, viam-se plantações, na maior parte úteis e bem tratadas; destacava-se o verde alegre dos canteiros de hortaliças donde voava um cheiro fresco de salsa e coentro. Mais para o interior do sítio encontravam-se tanques cheios, esverdeados de limo; sinuosas calhas esgalhavam, suspensas por estacas de acapu, levando água para todos os lados; extensas latadas vergavam ao peso das abóboras, dos jerimuns e dos maracujás de diversos tamanhos, desde o da laranja até ao da melancia. Ainda mais para o interior, destacavam-se, em qualquer dia do ano, o verde-escuro e lustroso das jaqueiras colossais e das árvores da fruta-pão, ambas com as suas folhas grandes e recortadas caprichosamente, contrastando com as massas fuscas da folhagem miudinha dos eternos tamarindeiros, com os tons dourados do pé de cajá e com os altivos jenipapeiros, as graciosas pitombeiras, cercados de goiabais floridos e cheirosos. Em outros pontos adivinhavam-se olhos-d’água pela abundância das juçareiras. Parasitas de mil espécies enfeitavam com as suas flores, extravagantes e admiráveis, as árvores e os pombais, numa variedade prodigiosa de cores. E por toda a parte doidejavam, cantando, os passarinhos e saltitavam rolas, a mariscar na relva.
          A habitação olhava de frente para os dois renques de mangueiras, franqueando as suas varandas sem parede; toda ela aberta, deixando-se invadir pelas plantas do jardim que a rodeava. Uma dessas pitorescas vivendas acaçapadas, muito comuns nos sertões da ilha de São Luís. Grande telheiro quadrado, telha vã, formando bico na cumeeira e sustentado nas quatro faces por moitões de piqui, pintados de verde, e firmados estes em anteparos de pedra e cal, que formavam uma espécie de amurada, alta pela parte de fora e rasa pela de dentro. No meio, distanciado da antepara uns vinte palmos seguros, estava a casa feita de paredes inteiriças, caiadas de cima a baixo. O chão era todo forrado de tijolos vermelhos. À entrada uma cancela, três degraus de cantaria, jasmins de Itália, bancos de pau e uma confusão de trepadeiras, que se enroscavam pelos moitões e galgavam o telhado, vitoriosamente, erguendo lá em cima os seus rebentões novos, ávidos de sol.
          Esta quinta fora a menina dos olhos de Maria Bárbara; aí passara ela grandes delícias no tempo do coronel. Ainda estava muito forte e bem conservada, mas, havia dez anos, desde que a velha foi fazer companhia à neta, achava-se entregue aos cuidados do português Antônio e ao trabalho de três pretos velhos, que iam diariamente à cidade vender hortaliças, flores e frutas.
          Às seis e meia da manhã chegou o bonde com os convidados.
          Trazia música. Era uma “surpresa” arranjada pelo Casusa. E este, encarrapitado na plataforma do carro, doido de entusiasmo, dava vivas a São João, vivas “ao belo madamismo maranhense!” e vivas à música.
          Os músicos romperam com o Hino Nacional.
          O Casusa, inteiramente fora de si, rouco já, um bocadinho picado pelo conhaque, cujo corpo de delito ele trazia a tiracolo enforcado num pedaço de cabinho, saltava, ia e vinha, singrando por entre todos, atravessando o bonde com as senhoras ainda assentadas, fazendo-as apear, assustando-as com os seus gritos, machucando nas costas dos bancos os dedos dos que desciam, provocando gemidos, protestos, e fazendo rir ao mesmo tempo. Deu um beijo em D. Amância que lhe chamou furiosa, “Cachaceiro! Pancada! Moleque!”; bateu na barriga de Manuel, que o exprobrava por se ter incomodado, feito despesas, contratado músico.
          — É gosto, é gosto, seu Manuel! Não faça caso! Hoje há de sair cinza nesta pândega!
          E os convidados saltavam do bonde. O primeiro a descer foi o Freitinhas, todo vestido de brim branco de Hamburgo, irrepreensível rodaque de botões de osso, uma enorme cadeia de cabelo prendendo o relógio e dependurado nela um anel de ouro, onde se lia esmaltado “Saudade”. Trazia, por causa do pó, umas lunetas azuis, grandes, verdadeiras vidraças, que lhe davam à grande fisionomia o tom pitoresco de uma casa de campo; um chapéu de feltro branco, peludo, alto, a que os gaiatos da província denominavam “Carneiro” e do qual o dono contava maravilhosas propriedades. “Era uma pena!... Podia a gente machucá-lo à vontade sem ofender o pêlo, de bom que era! Custara vinte mil-réis, mas valia cinqüenta, a olhos fechados!” E, com a bengala de unicorne debaixo do braço, ajudava a sua gorda Lindoca a descer do bonde com dificuldade. As meninas Sarmento, acompanhadas da tia, de Eufrasinha e um cachorrinho branco e felpudo, que esta trazia ao colo, saltaram, cheias de espalhafato, muitos risos, latidos, cores vivas nos chapéus e nas sombrinhas. O famoso cabelo ostentava-se, mais que nunca, em cachos acastelados e trescalantes de óleo de babosa. O cônego, discretamente risonho e sempre janota, vinha seguido por um padrezinho magricela, que desfrutava na província a especialidade de cantar ladainhas; alcunhavam-no de “Frei Lamparinas”. O Sebastião Campos, vestido de branco como o Freitas, porém de paletó e chapéu-do-chile, pulara em terra, abraçado a uma grande cesta de busca-pés, pistolas, carretilhas e bombas.
          — É o mantimento! respondia ele aos olhares curiosos.
          Tinha paixão pelos fogos.
          — Sou perdido por isto! dizia mostrando uma luva grosseira feita de sola, com que tocava os formidáveis busca-pés.
          Nos sábados de Aleluia era o seu luxo queimar um judas defronte da casa; não perdia fogo de vista nas festas de arraial e sabia fazer bichinhas, carretilhas e foguetes.
          Apresentaram-se também, fora da rodinha do costume, dois novos convidados; um levado por Manuel e o outro pelo Casusa. O primeiro era o Joaquim Furtado da Serra, bom homem, do comércio, muito amigo da família e tapado como um ovo, o que, aliás, não impedia que estivesse rico. Só entendia e só conversava sobre negócios, gostava de fazer bem e era membro de várias sociedades filantrópicas. Vivia contente da vida, cheio de amigos e obsequiados, estava sempre a rir e a falar das suas três filhas. “Não puderam ir à festa de Manuel, coitadinhas! porque ficaram à cabeceira de uma doente...” Não queria comendas nem grandezas; contava a todos como principiara no Brasil, descalço, com um barril às costas, e orgulhava-se, entre gargalhadas, da sua atual independência. O outro era um rapazola de vinte e dois anos, que, à primeira vista, parecia ter apenas dezesseis: magro, puxado, muito penteado e muito míope, com as unhas burnidas, o colarinho enorme e os pés apertadinhos em sapatos de polimento. Estudava no Liceu da província, usava uma cadeia de plaquê, brilhantes falsos no peito da camisa e uma bengalinha equilibrada entre o indicador e o índex da mão direita; tinha uma coleção de acrósticos e recitativos da própria lavra, uns inéditos e outros já publicados a dinheiro nos jornais, aos quais qualificava desvanecidamente de “seu tesouro!” Chamava-se Boaventura Rosa dos Santos; era conhecido por “Dr. Faísca” e gostava de fazer e adivinhar charadas.
          Entraram todos em casa, numa desordem, acossados pela música, que atropelava uma polca do Colás, e por uma intempestiva carretilha que soltara Sebastião. Houve sarilho. José Roberto, debaixo de tempestuosa descompostura, obrigava D. Amância a dar meia dúzia de voltas pela varanda, indo cair ambos, perseguidos pelo Joli, sobre um banco de paparaúba. Joli era o cãozinho da Eufrásia.
          No furor da terrível dança, desprendera-se o coque de Amância e fora parar no jardim. Joli saltara-lhe logo atrás e destripava-o freneticamente com os dentes.
          — Olhe, seu Casusa! Gritou a velha, quase sem fôlego, você não me perca o respeito, seu pica-fumo! Quando tomar suas monas, meta-se em casa com os diabos! Credo! Que cachaceiro acabado! Vá tomar liberdade com quem lhas dá! Diabo do sem brios!
          O coque foi arrancado das garras do Joli e restituído à dona.
          — Vejam! Vejam em que bonito gosto me puseram o meu coque de pita! Parece uma rodinha de limpar panelas! Diabo da brincadeira estúpida! Também, em vez de criar xirimbabos, seria melhor que cada um cuidasse de sua vida, que teria muito do que cuidar!
          E voltando-se para Sebastião:
          — Mas o culpado é você, seu Sebastião; com você e que me tenho de haver! Não posso perder o meu coque novo!
          — Novo quê! ... contestou Casusa. Eu vi pular de dentro dele uma aranha!
          — É novo, e quero outro p’r’aqui!
          — Está bom, meus senhores, deixem-se disso, interveio Manuel, e vamos ao café, que está esfriando!
          — Mas o meu coque? Isto não pode ficar assim!
          — A senhora terá outro, descanse!
          Mal se serviram de café com leite e bolo de tapioca com manteiga, formou-se uma quadrilha, na qual o Casusa, de par com Eufrasinha, fez o que ele chamava “pintar o padre!” Ditado este que sobremaneira escandalizava o especialista das ladainhas, de cujos olhos partiu, por cima dos óculos, chispas repreensivas sobre aquele.
          Este Frei Lamparinas era um homenzinho escorrido, feio, natural de Caxias. Não conseguira nunca ordenar-se em razão da sua extremada estupidez: soletrava ainda as ladainhas que havia vinte anos recitava; jamais entrara com o latim. Os rapazes do Liceu mexiam com ele e atiravam-lhe limões verdes por detrás do muro do convento do Carmo, quando o infeliz passava defronte. Tinha uma biografia engraçada, cheia de disparates, mas todos diziam que era bom de coração e não fazia mal a ninguém.
          — O chorado! Venha o chorado! gritavam do fundo da varanda batendo palmas.
          E a música, sem se fazer rogada, gemeu a lânguida e sensual dança brasileira.
          De pronto, Casusa e Sebastião pularam ao meio da sala e puseram-se a sapatear agilmente, com barulho, estalando os dedos e requebrando todo o corpo. Em breve arrastaram o Serra, o Faísca e o Freitas: e as moças, chamadas por aqueles, entraram na irresistível brincadeira. Elas rodavam na pontinha dos pés, o passo miudinho e ligeiro, os braços dobrados e a cabeça inclinada, ora para um lado, ora para outro, estalando a língua contra o céu da boca, numa volúpia original e graciosa.
          Os velhos babavam-se.
          — Quebra! berrava o Casusa entusiasmado. Quebra, meu bem! E regamboleava furiosamente a perna.
          O chorado atingira afinal a sua fase de loucura. Os que não podiam dançar espectavam, acompanhando a música com movimentos de corpo inteiro e palmas cadenciadas e espontâneas.
          — Bravo! Assim, seu Casusa!
          — Picadinho! Picadinho!
          De repente, ouviu-se um trambolhão e um grito: era o Faísca. que cedera a um “cambite” do Casusa, indo cair aos pés de Maria do Carmo. Todos riram.
          — Credo! gritou a velha. Pois este homem não me queria agarrar a perna?... Cruz, capeta!
          — Não aumente, minha senhora, foi no tornozelo...Este ossinho do pé!
          — Mas eu tenho muita cócega, e, depois do defunto Espigão, ninguém mais me tocou no corpo!
          Daí a pouco, chamavam para o almoço, e o divertimento continuou sem interrupção.
          No dia de São João nunca se abria o armazém de Manuel, e naquele ano a véspera caíra num domingo! “Eram dois dias cheios!” como dizia satisfeito o Vila-Rica.
          Desde a véspera que o Benedito, e mais uma preta, haviam seguido para o sítio, carregados de fogos e dos paramentos necessários para se armar o altar; na madrugada do dia foi a Brígida, em companhia de Mônica. Lá estava D. Amância para tomar conta de tudo. Os empregados iriam também todos; não havia, por conseguinte, necessidade de ficar escravo nenhum em casa.
          O quarto dos caixeiros tinha então um aspecto domingueiro: botas engraxadas sobre os baús; roupas de casimira cuidadosamente estendidas nas costas de cadeiras; camisas engomadas, por aqui e por ali, a espera da serventia, e um cheiro ativo de extratos para o lenço. Os rapazes vestiam-se. Seriam, quando muito, oito horas da manhã.
          Mas, apesar do aspecto festivo dos colegas, Dias conservava-se em trajos menores, a varrer o soalho.
          — Você não se apronta, seu Dias?... perguntou-lhe o Cordeiro, ocupado a enfiar um par de calças cor de alecrim. Você não vem conosco à quinta?
          — Vão andando, que eu já vou.
          Não trocaram mais palavra. Os três saíram, e o Dias, encostando no queixo o cabo da vassoura, ficou pensativo. Mal ouviu, porém, bater embaixo o trinco da porta da rua, atirou a vassoura para um canto e desceu cautelosamente à varanda.
          A casa tinha a tranqüilidade saudosa de um lugar abandonado. Só o sabiá chilreava na gaiola.
          O caixeiro predileto de Manuel fechou à chave a cancela de madeira polida, que separava a varanda do corredor, e, depois de olhar em torno, seguiu para o quarto de Raimundo, fariscando, nem ele sabia bem o quê. Pôs-se a esquadrinhar o que lá havia, não com a curiosidade amorosa da primitiva bisbilhoteira, porém frio, calculado, com a prudência de quem sabe que está cometendo uma baixeza. E abria gavetas, lia os manuscritos que encontrava, revistava as algibeiras da roupa estendida no cabide, folheava os livros, examinando tudo, escarafunchando todos os cantinhos. Em uma das malas encontrou um folheto de capa verde, guardou-o logo, depois de lhe ter lido o frontispício, e afinal, quando já nada mais tinha para dar fé, retirou-se, sem deixar o menor vestígio do que fez. Daí seguiu para o aposento de Ana Rosa, mas teve logo uma contrariedade: a porta estava fechada; rebuscou a chave na varanda, pelos cantos, não a encontrou, e subiu então rapidamente ao segundo andar, donde trouxe um pedaço de cera, com que modelou a fechadura. Em seguida atirou-se para o quarto de Maria Bárbara, experimentou a porta; estava também fechada. Mas havia um postigo; Dias espremeu-se por esse e conseguiu entrar.
          O aposento da velha condizia com a dona. Sobre uma cômoda antiga, de pau-santo, com puxadores de metal e coberta por um oleado já puído e gasto, equilibrava-se um oratório de madeira, caprichosamente trabalhado e cheio de uma porção variadíssima de santos, havia entre eles, feitos de casca de cajá, de gesso, de terra vermelha e de porcelana. O Santo Antônio de Lisboa, vindo de encomenda, com o pequeno ao colo, lá estava, muito rubicundo e lustroso; a Sant’Ana, ensinando a filha a ler; um São José de cores cruas, detestavelmente pintado; um São Benedito, vestido de frade, pretinho, de beiços encarnados e olhos de vidro; um São Pedro, cujas proporções o faziam criança ao lado dos outros; uma miuçalha de santinhos, pequenitos e caricatos, que a gente não podia ver sem rir e que se escondiam na peanha dos grandes; e, finalmente, um grande São Raimundo Nonato, calvíssimo, barbado, feio, e com um cálice na mão direita. Ao fundo do oratório litografias de carregação representavam Santa Filomena, a fugida de São José com a família, Cristo crucificado e outros assuntos religiosos. O grupo dos santos ressentia-se de uma falta, a de S. João Batista, que havia desertado para a quinta. Havia ainda sobre a cômoda dois castiçais de latão, guarnecidos de papel redondo, com as velas de cera meio gastas; um grupo de biscuit representando a Mater dolorosa e um menino Jesus, fechado numa manga de vidro, por causa das moscas. Encostada à parede, uma palma de pindoba benta a qual, segundo a voz do povo, tinha a virtuosa propriedade de apaziguar os elementos em dias de tempestade, duas outras palmas casquilhas, enfeitadas de pano e malacacheta, guarneciam os lados do oratório. Viam-se ainda, por toda a parte, quadrinhos de gravuras e cromos, onde se liam orações milagrosas, a do Monte Serrate, a do Parto, a da Virgem, e outras, sem desenho, com que os tipógrafos espertos da província exploravam a carolice das beatas.
          Contrastando com tudo isto, destacava-se, dependurada na parede, uma formidável palmatória de dar bolos, negra, terrível e muito lustrosa de uso.
          Defronte do oratório simetrizavam duas molduras envidraçadas, expondo cada qual uma talagarça cheia de amostras dos diversos bordados de lã, que as meninas aprendem no colégio. “Panos de tapete” como se diz no Maranhão. Em uma delas liam-se no centro as iniciais M. R. S. e “Colégio da Trindade em 1838”, e na outra, que estava em melhor estado de conservação “A. R. S. S.” e uma data muito mais recente. A julgar por estas letras, os dois quadros tinham sido bordados por Mariana e Ana Rosa, mãe e filha. Tudo isso foi minuciosamente esmerilhado pelo Dias; leu as Horas Marianas, apalpou as roupas de Maria Bárbara, provou a ponta do molho do fumo com que esta “espairecia os passados dissabores”, e, depois, quando nada mais tinha para esmiuçar, pôs-se a refletir, pensando, no que devia fazer. Afinal veio-lhe uma idéia, que lhe deu um sorriso de contentamento, acendeu logo uma das grossas velas de cera, tomou pelas pernas a imagem de São Raimundo e tisnou-lhe a cara e a careca de encontro à chama do pavio. Depois da operação, o pobre santo parecia um carvoeiro; ficara tão negro como o seu companheiro de oratório, o engraçado São Benedito.
          Dias contemplou a sua obra, riu de novo, calculando o bom efeito que ela produziria, colocou em seguida a imagem no seu lugar, e saiu apressado, por lhe parecer que ouvira rumor na porta da rua. Enganara-se.
          Daí a meia hora, vestido de pano preto, segundo o seu invariável costume, o acreditado caixeiro de Manuel Pescada, tomava o bonde do Cutim, com destino ao sítio da sogra do patrão.


8

          Eram cinco da tarde.
          A festa de Maria Bárbara continuara sempre muito animada; havia uma boa disposição geral. Os homens bebericaram durante o dia cálices de conhaque, e sopravam agora o fumo dos seus charutos domingueiros, com um grande ar de pessoas de importância; as senhoras melaram galantemente os beiços com licor de rosa e hortelã-pimenta. Dançara-se muito. Brincou-se o Padre-cura o Anel, o Peixinho de Muquém. Afinal, foram todos lá pra fora, apreciar a tarde, assentados nos bancos fronteiros à casa. A sociedade estava engrossada pelos quatro caixeiros de Manuel e por um sertanejo que a divertia com as suas cantigas. “Lamparinas” havia saído para ir ali perto, à quinta de um amigo, mas prometera não faltar à ladainha.
          O sol escondera-se. Uma tarde formosa, com o seu poente esfogueado, rubrava as caras suadas dos homens e os vestidos machucados das senhoras, que se arejavam debaixo das latadas de maracujás e jasmins da Itália. As damas, comodamente assentadas, tinham requebros de etiqueta, gestos cheios de conveniência, risos com a boca fechada, olhares por debaixo das pálpebras, o leque nos lábios e o dedo mínimo levantado com galanteria.
          Minava um apetite surdo pelo jantar; alguns estômagos resmungavam indiscretamente. Contudo, todos os olhares e todas as atenções convergiam, na aparência, para o sertanejo, que, a certa distância, de pé, isolado, a cabeça erguida com desembaraço mal-educado, o chapéu de couro atirado para a cerviz e preso ao pescoço por uma correia, a camisa de algodão cru por fora das calças de zuarte, arregaçadas no joelho, o pé descalço, curto e espalmado, pé de andarilho, o peito liso e cor de cedro à mostra, braço nu e sem cabelos – vibrava entusiasmado as cordas metálicas de uma viola ordinária, acompanhando, com um repinicado muito original, os versos que improvisava e outros que trazia de cor:

          “Lá vai a garça voando
          Para as bandas do sertão!
          Leva Maria no bico,
          Teresa no coração!”

          Ao terminar de cada estrofe, rebentava um coro de risadas, durante o qual se ouvia o sapatear surdo do sertanejo, socando a terra, a dançar.

          “Não tenho medo da onça,
           Que todos têm medo dela!..
           Não tenho medo de ti,
           Que fará de Micaela!”

          E o matuto, depois do sapateado, dirigiu-se a Ana Rosa:

          “Me diga, minha senhora:
          (Quem pergunta quer saber...)
           Se eu sair daqui agora,
           Onde vou amanhecer? ”

          — Este foi de sentimento!... considerou Etelvina com um gesto aprovativo.
          — Gostei, gostei... confirmava o Freitas, protetoramente.
          E o sertanejo ferrou o olhar em Ana Rosa:

          “Sinhá dona, se eu pedisse...
           Responda, mas não se ria...
           Uma flor do seu cabelo...
           Sinhá dona que diria?…”

          — Bravo!
          — Sim senhor!
          Houve um sussurro alegre
          — D. Anica, dê a flor!...
          Ana Rosa hesitava.
          — Então, menina... repreendeu Manuel em voz baixa.
          Ana Rosa tirou um bogari da cabeça e passou-o ao trovador, que versejou logo:

          “Ó minha senhora dona,
           Deus lhe pague, eu agradeço;
           Seus quindingues são dos ricos
           Eu sou pobre e não mereço!... ”

          E, colocando a flor atrás da orelha, continuou, depois de olhar intencionalmente para Raimundo:

          “Ó nhá dona feiticeira!
           Me cativa seu favor
           Mas não vá meter ciúmes
           Agora pro mode a flor!...”

          Em seguida, desprendeu o chapéu e estendeu-o a um por um.
          Consultaram-se as algibeiras do colete, pingaram os vinténs e as pratinhas de tostão. O menestrel, com a cabeça erguida em ar de exigência, dizia:

          “Vamos, vamos, pingue o cobre,
           Qu’eu não gosto de maçada!
           Dos homens aceito a paga,
           Das moças não quero nada!”

          E, quando se chegou a Manuel:

          “Manuelzinho cravo roxo,
           Me desculpe a impertinência;
           Se puder dar, eu aceito,
           Se não puder – paciência!...”

          Entre gargalhadas, enchiam-lhe o chapéu de moedas. Ao chegar a vez do Faísca, este, em vez de dinheiro, lançou-lhe a ponta do cigarro; o matuto, como de costume, cavaqueou com a pilhéria e gritou zangado:

          “Seu lanceiro da Bahia,
           Casaquinha do Pará
           A gente recebe o coice,
           Conforme a besta que o dá!”

          A hilaridade aumentou e o Faísca enfureceu-se, chegando a ameaçar o caboclo, que lhe sorria em ar de mofa.
          — Eu ainda atiro com alguma coisa à cara daquele diabo! resmungou o estudante, lívido.
          — Deixe-se disso!... aconselharam-lhe, você já sabe que esta gente é assim, para que se mete?...
          — Tome lá! disse Manuel ao sertanejo, beba e vá embora!
          E passou-lhe um copo de vinho, que ele emborcou, trovando, depois de estalar a língua:

          “O vinho é sangue de Cristo,
          É alma de Satanás.
          É sangue quando ele é pouco,
          É alma quando é demais!”

          E, fazendo um grande cumprimento com o chapéu:

          “Meus senhores nhás donas,
          Vou-me embora de partida.
          Deus lhes dê muita fortuna
          E muitos anos de vida!”

          E virou de costas e retirou-se, a dançar, cantando uma passagem do – Bumba-meu-boi:

          “Isto não, isto não pode sê.
          Isto não, isto não pode sê
          A filha de meu amo casar com você! ..
                    O caboclo me prendeu,
                    Meu amor!
          Foi tão certa da razão,
          Coração!
          Que o cabo... ”

          E perdeu-se nas fundas sombras do mangueiral a voz do sertanejo e o som da viola.
          Iam-lhe discutir o talento poético e a graça, quando, de cima, Manuel, Maria Bárbara e Amância, todos três a um tempo, chamaram para a mesa, com autoridade benfazeja.
          Houve um sussurro de prazer.
          — Olha, filha, que já tinha o estômago a dar horas!... cochichou D. Maria do Carmo, ao passar por Ana Rosa.
          Subiram todos para a varanda e foram tomando vivamente os seus lugares à mesa, entre uma confusão de vozes, a discutirem mil assuntos.
          — Homem! exclamou Sebastião Campos, parece que tomaram alma nova só com o cheiro!...
          O Freitas amolava Raimundo sobre poesia popular; falou, com assombro, de Juvenal Galeno.
          — Muito original! muito original!
          — Do Ceará, não?
          — Todo inteiro! Ah, o senhor não imagina o que é aquela provinciazinha para as trovas populares!
          E, antes que Raimundo desse alguma providência contra a maçada, já o Freitas lhe recitava junto ao ouvido:

          “Quando passares na rua,
          Escarra, cospe no chão!
          Qu’estou cosendo à candeia
          Não sei se passas ou não!...”

          — Pois não há como uma festa no sítio! dizia Sebastião por outro lado. Isto de pândegas, ou bem que é pândega ou bem que não é!
          O Freitas insistia:

          “Sinhá, me dê qualquer coisa,
          Inda que só uma banana,
          Que a barriga é bicho burro,
          Com qualquer coisa s’engana!”

          Raimundo já não o ouvia: prestava atenção a uma conversa entre Bibina, Lindoca e Eufrásia.
          — Vocês não tiraram a sorte esta noite? perguntou a última.
          — Como não? disse a gorda, porém não vi nada, ou pelo menos não acertei com o que apareceu ...
          — Não, pois eu, declarou a viúva, tirei uma sorte bem bonita...
          — Que foi? Que foi?
          — Um véu branco e uma grinalda!
          — Casamento! gritaram várias vozes.
          — Eu tirei um “túmulo”!... disse do canto da mesa a Lagartixa, suspirando funebremente.
          — Credo! exclamou Amância, passando com uma salada de agrião, que acabava de preparar.
          Raimundo, assentado, contra a vontade, ao lado do Freitas, falava com saudade nos costumes portugueses nas noites de São João e São Pedro; contou como era que as raparigas queimavam alcachofras e plantavam-nas em vasos à janela, para ver com elas grelar a sorte; citou o costume das favas sobre o travesseiro, os bochechos de água à meia-noite para se ouvir nome do namorado, as fogueiras de alecrim seco, e enfim aquele uso do copo de água, de que as moças ali falavam.
          — Um antigo uso! explicava o Freitas, a mastigar pedacinhos de pão. Consiste em deitar ao sereno, na noite de São João, um copo de água com a gema de um ovo...
          — E a clara! reclamou D. Maria do Carmo, que acompanhava a conversa com muito interesse.
          — Pois seja assim! a gema e a clara; e no outro dia, pela manhã, dizem que a sorte do indivíduo aparece representada no interior do copo. Patacoadas!
          — Patacoadas, não! retorquiu a velha, tomando lugar junto das sobrinhas. Cá está quem recebeu a notícia da morte do Espigão muito antes do dia fatal!
          E levou o guardanapo aos olhos num movimento patético.
          — Há outros usos, continuou Freitas, passando adiante um prato de sopa. O banho de São João, por exemplo!
          — Imitações de Portugal...
          — Quem não se banha amanhã de madrugada, fica com a alma suja! Dizem!
          — Então, seu Cordeiro! seu Dias! e você lá, menino! não tratam de se assentar? intimou Manuel.
          —Nós esperamos a outra mesa... respondeu modestamente o Dias. Não há mais lugares...
          — Qual outra mesa, o quê! Não, senhor! Sente-se cá, seu Dias!
          E o negociante abriu um lugar ao lado da filha.
          Luís Dias, todo vexado, foi assentar-se, sorrindo, ao lado de Ana Rosa, que fez logo um gesto de contrariedade e repugnância.
          — E lá os senhores? seu Cordeiro! seu Vila Rica! e esse menino! Venham se chegando!
          — Nós esperamos... Faz-se depois outra mesa!...
          — E a darem com a outra mesa! Não, senhor! e a senhora, minha sogra? D. Amância, onde ficam?
          — Tem aqui um lugar, minha senhora!... disse Raimundo levantando-se. E ofereceu a cadeira.
          — Meu amigo, censurou Manuel, deixe-se dessas coisas! Olhe que estamos no sítio! Isto cá não é cidade para se fazer cerimônias!
          — Pagode de sítio não presta, quando nada falta!... arriscou o Serra, mexendo e soprando uma colherada de sopa.
          — Não! contradisse o Freitas. Quero a minha comodidade até no inferno!
          — Ora está tudo arranjado! gritou Amância, que acabava de preparar outra mesa. Ficamos nós aqui! Somos poucos, porém bons!...
          — E eles lá?... interrogou Vila Rica, contando as pessoas da mesa grande, pela seguinte ordem, a partir da cabeceira: “O patrão – um, senhor cônego – dois, D. Maria do Carmo – três, as duas sobrinhas – cinco, o Dr. Raimundo – seis, seu Freitas e a filha – oito, D. Eufrasinha – nove, seu Serra e aquele moço – era o Faísca – onze, o Dias e D. Anica – treze ao todo!
          — Treze?! bradou D. Maria do Carmo, soprando o macarrão que tinha na boca. Treze!
          — Treze! repetiram todas as senhoras, assustadas.
          — Saia um! reclamaram.
          Ninguém se mexeu.
          — Ou venha outro... lembrou o cônego, largando a colher. Em treze não pode ficar!
          Suspendeu-se o jantar.
          O Freitas passou logo a dar explicações a Raimundo do que aquilo queria dizer, posto haver este declarado de pronto que já sabia perfeitamente.
          — Não há mais ninguém por aí?
          Maria Bárbara levantou-se e foi buscar lá dentro uma negrinha de três anos.
          — Aqui tem!
          — E verdade! E o Casusa?!...
          — É verdade, gente, seu Casusa!...
          — Venha o Casusa!
          Casusa dormia. Tinha tomado um banho e recolhera-se cansado. A pequena foi novamente levada para a cozinha.
          — Moleque! Chama seu Casusa aí no quarto!
          O Casusa veio bocejando e esticando os braços.
          — Para que jantar tão cedo?... Não tenho apetite algum!... resmungava ele, abrindo a boca.
          — Cedo!... Se lhe parece!... Já deram cinco horas!
          — Quase que ficavas a ver navios!... considerou Sebastião, rindo.
          — Olha o prejuízo!... desdenhou Amância, com um esgar de pouco caso.
          — Tu já queres inticar comigo, coração?... Depois te queixa!... Mas, enfim onde me assento? O que não vejo é lugar! Ah, exclamou, voltando-se para a mesa pequena. Tenho-o cá, e em boa companhia!
          — Pra lá, opôs-se Amância, escandalizada.
          —Venha pra cá, homem de Deus! Você é cá necessário!
          E com dificuldade arranjou-se uma cadeira ao lado de Sebastião.
          — Ora até que afinal! disse Manuel, assentando-se descansadamente.
          — Tollitur quaestio!
          E o cônego sorveu uma colherada de sopa.
          Fez-se silêncio por um instante; só se ouvia o arrastar das colheres no fundo do prato e os assovios dos que chuchurreavam o macarrão.
          O Cordeiro cercava Amância e Maria Bárbara de cuidados, cuja delicadeza procurava acentuar à força de diminutivos:
          — Uma coxinha de galinha, senhora D. Amancinha!...
          — É um perfeito cavalheiro!... segredava esta à outra velha. Compare-o só com a peste do Casusa!...
          — Não! que os rapazes de lá são mais aqueles... está provado!
          — Têm outro assento que não têm os de cá!
          — O senhor Serra, passa-me o pires das azeitonas?... É bondade.
          — Quer mais pirão, D. Lindoca?
          — Muito obrigada, assim! chega! Um tiquinho só!
          — Gentes?... você come essa pimenta toda, D. Etelvina?!...
          — Basta, oh! Não quero afogar-me em caldo!
          — Tenha o obséquio de encolher as asas, meu amigo!
          — Não enchas a boca desse modo!... dizia em segredo a velha Sarmento a uma das sobrinhas. Era o que tinha o Espigão! – comia como um danado, mas ninguém dava por isso!
          — Olhe que você me suja de gordura, seu Casusa! Que diabo de homem!...
          — Então! Quem mexe esta salada?!
          — A salada, sentenciou judiciosamente o Freitas com um sorriso, deve ser mexida por um doido!
          — Então, tome conta, seu Casusa!
          — Quanto quer o menino pela graça?... Se tivesse um vintém aqui, dava-lho, “seu poeta!”
          Isto era entre o Casusa e o Faísca.
          — Doutor, não deixe apagar a lanterna! recomendava Manuel a Raimundo.
          — Uma fatia de porco, D. Maria Bárbara.
          — Deite menos, minha vida! Assinzinho!
          — Dona Etelvina! a senhora está magra de não comer!...
          — Ai! suspirou ela, fitando o talher cruzado sobre o prato.
          — Não queres arroz, ó Sebastião?
          — Não! Vou à farinha-d’água.
          — Um brinde! gritou Casusa, levantando-se e suspendendo o copo à altura da cabeça. Ao belo madamismo maranhense, que hoje nos honra!
          — Hup! Hup! bangüê!
          —Aproveito a ocasião, meus senhores, para agradecer o obséquio que me fazem, e à minha sogra, comparecendo a esta nossa velha festa da família!
          Era Manuel que falava. Seguiu-se um inferno de vivas e hurras que se prolongaram em medonha berraria. Os caixeiros do autor do brinde, já um pouco eletrizados pelo vinho, gritaram familiarmente: “Viva o Manuel!”
          Houve uma voz indiscreta que gritou: – Manuel Pescada.
          Mas restabeleceu-se a ordem, e só se ouvia, além do rumor dos talheres e dos queixos, a voz avinhada do Cordeiro, que gritava para a sua vizinha da direita com uma solicitude exagerada:
          — Beba! beba, D. Amancinha! Ataque-lhe pra baixo, que é o que se leva desta vida!
          E batia-lhe no ombro, revirando os olhos, em que o álcool pusera faíscas.
          — Credo! O senhor quer m’embebedar?!...
          E, como o Cordeiro insistisse em servi-la de Lisboa, Amância retirou o copo e o vinho derramou-se-lhe no prato, pela mesa e sobre as pernas.
          — Ui! fez ela, arredando súbito a cadeira, e gritou: – Que selvageria, Virgem Santíssima!
          — Farinha! Farinha seca, D. Amância! Farinha seca! receitavam de todos os lados.
          O Cordeiro, já pronto, tomou a cuia da farinha e despejou-a em cheio sobre a pobre velha, que entrou a tossir muito sufocada. Foi um gargalhadão geral e prolongado.
          — Cruzes! Valha-me Deus, com os diabos! berrou Amância, quando pôde falar, e a sacudir-se toda, muito enfarinhada. Arre! Aqui mesmo não me sento mais!
          — Vem cá pro meu lado, perdição! dizia Casusa, convidando Amância entre o riso da mesa inteira.
          — Se a farinha é o antídoto cure-se agora com este! aconselhou Raimundo por pilhéria.
          — Até você?! esbravejou Amância, cega de raiva. Ora mire-se! Quer um espelho?!...
          — Preferia uma escova, minha senhora, para limpar-lhe a roupa.
          As gargalhadas repetiam-se já sem intervalo, contagiosamente, sem precisar de mais nada para as provocar.
          — Vinho derramado – sinal de alegria! decidiu Freitas, preocupado a esbrugar uma canela de frango, sem querer lambuzar os bigodes.
          Serviu-se a sobremesa e reformou-se a bebida. Veio Porto em cálices.
          — Uma saúde! exigiu Cordeiro, mal podendo ter-se nas pernas.
          Criou-se logo silêncio, em que se destacavam estas frases:
          — Mau!... Temos carraspana?...
          — Cabeça fraca de rapaz!...
          — Esse bruto a teima em beber! Forte birra!
          — Diabo do homem não pode ir a parte alguma!
          — Vai já tudo isto raso!
          — Pscio... pscio!...
          — Meus senhores... e minhas senhoras, de ambos os sexos! Eu vou beber à saúde do melhor... sim! do melhor, por que não?! do melhor patrão que todos nós temos tido, aquele que está me olhando, o Manuel Pescada!
          Houve um sussurro de repreensão.
          — Ou da Silva! emendou o orador. É um homem sem aquelas! É um mel!... para um serviço... quer dizer, quando a gente precisa dele, pode falar, que é o mesmo! Mas...
          O sussurro aumentou.
          — Cale-se! dizia baixo o Vila Rica, a puxar o paletó do Cordeiro. Cale-se com os diabos! Você está servindo de bobo!
          — Mas! berrou o espingardeiro, sem fazer caso das advertências do colega, o que não posso admitir, é a porção de picardias e desaforos, que ele me está a fazer constantemente!...
          O sussurro transformou-se em um coro de protestos, que apagava os berros do orador; as moças atiravam-lhe bolas de miolo de pão; Manuelzinho, muito vermelho, possuía-se de uma hilaridade excepcional; Vila Rica puxava com ambas as mãos o paletó do Cordeiro.
          — Solte-me! roncou este. Solte-me, com todos os diabos! ou vou-lhe aos queixos! Meta-se lá com a sua vida, e deixe-me! quero desabafar! Sebo! Não me calo, entende?! Não me calo, porque não quero! não me calo! não me calo! – Sim! continuou em tom de discurso, não admito os seus desaforos!... Ainda outro dia...
          — Viva o Manuel! gritou um.
          — Vivô! respondia o coro.
          — Seu Manuel! à sua!
          — À sua!
          — Hup! hup! hurra!
          — Bangüê! gritou Cordeiro, e quebrou o copo na mesa. É de quebrar.
          — Só se fosse a tua cabeça, grandíssimo borracho! resmungou o Serra, muito maçado.
          — Atenção! atenção, meus senhores!...
          Era a voz do Faísca, acompanhada de palmas.
          — Atenção!
          E tirou da algibeira uma folha de papel.
          Fez-se algum silêncio, e o Faísca, depois de puxar os punhos, começou a falar, com uma voz aflautada, cheia de afetações e com a minuciosa mímica dos míopes; a cabecinha inquieta muito arrebitada, os olhos esticados, procurando alcançar o vidro das lunetas; a boca aberta e as ventas distendidas.
          — Meus senhores!... Em tal dia... eu não podia deixar de fazer... uma poesia!...
          — É verso! É verso! declarou Bibina, a bater palmas, contente.
          — Eu creio também que sim... é uma poesia em verso!...
          — E por isso... continuou Faísca, calcando a luneta, que o suor fazia escorregar – recorrendo às musas, ouso erguer a minha débil voz, para oferecer, como penhor de estima e consideração, ao senhor Manuel, digno negociante matriculado da nossa Praça, este modesto soneto, que... se não prima... sim!... se não prima...
          — Primasse! gritou o Cordeiro.
          Faísca, todo atrapalhado, procurava uma palavra.
          — Venham os versos!
          — Venha a poesia! Reclamavam.
          “Filho da antiga terra de Camões!” principiou o Faísca a recitar, trêmulo.
          — Filho da antiga terra de Camões! repetiu o Cordeiro, arremedando-lhe a voz.
          — Homem! você não se calará? repreendeu Manuel.
          O recitador prosseguiu:

          “Filho da antiga terra de Camões!
          E nosso irmão de leite e companhia!...”

          — Leite e companhia?... considerou o Serra na sua seriedade, meditando. Não! me é estranha a firma!... Ora espere!... Será com o José e Cia., do Piauí?!...
          Faísca continuou, muito enfiado:

          “Eu quero vos saudar no augusto dia,
           Em que só juntos estão amigos bons!”

          — Bravo! Bravo!
          — Olha, gentes! – rimou!
          — Pscio!... Pscio!...
          — Diga outro, seu Rosinha?
          — Diga outro verso!
          — Diga um de transporte!... lembrou Etelvina com um suspiro.
          — Silêncio!
          Mas o poeta não pôde continuar, porque, em um movimento de atrapalhação, caíra-lhe o pince-nez dentro de uma compoteira de doce de calda.
          — Um brinde! pediu Casusa. Um brinde!
          — Silêncio!
          — Espere!
          — Ordem!
          — Ne quid nimis!
          E, depois destas palavras, ouviu-se a voz de Maria Bárbara, dizendo a D. Maria do Carmo:
          — Minha vida, coma uma naquinha de melão!
          Passou-lhe o prato.
          — Ai, filha! não sei se poderei entrar nele!... considerou lamentosa a viúva do Espigão, lembrando-se do protesto que fizera contra os pepinos e a sua competente família – senhor Doutor, inquiriu ela de Raimundo, o melão será da família dos pepinos?
          — Sim, minha senhora, pertencem ambos à dos cucurbitáceos.
          — Como? perguntou a velha com a boca cheia de arroz-doce.
          — Quer dizer, explicou logo o Freitas, radiante por pilhar uma ocasião de expor os seus conhecimentos, – quer dizer que é um fruto cucurbitáceo, da importante família dos dicotiledôneos, segundo Jussieu, ou das calicífloras, segundo De Candole.
          — Fiquei na mesma com a tal família dos califorchons!
          — Que família? que família? O que foi que fez ela?! Algum escândalo, aposto? fariscou Amância, pensando, assanhada já, a sentir o cheiro de uma intriga. Quando eu digo!... Não há em quem fiar hoje em dia! Mas quem são esses danados? qual é a família?
          — É a dos cucurbitáceos.
          — Ah! são estrangeiros!... Já sei, já sei! é uma família de bifes, que está morando no Hotel da Boavista! É certo, agora me lembro que ainda est’outr’dia uma sujeita ruiva... deve ser mulher ou filha do tal... como se chama mesmo?..
          — Quem, D. Amância? A senhora está fazendo uma embrulhada da nossa morte!...
          — O tal inglês!
          — Que inglês? Ninguém aqui falou em ingleses, nem franceses!
          E Maria do Carmo passou a explicar à amiga que se tratava de pepinos e melões.
          Casusa continuava a discursar num brinde feito ao Serra (a uma de cujas filhas pretendia); já lhe tinha chamado gênio e agora comparava-o a um lírio pendido na estrada; o bom homem escutava-o, sorrindo, sem compreender; enquanto Raimundo, com a cabeça quase dentro do prato, suportava o Freitas, suspirando pelo fim do jantar, para fugir-lhe. O maçante, elogiava a sua própria memória com a vaidade do costume:
          — O senhor ainda não viu nada... segredava ele ao outro. Sei discursos inteiros, longos, que ouvi há dez anos! sei de cor, meu caro doutor, extensas poesias que apenas li duas vezes! Não acha extraordinário?...
          — Decerto...
          E o desalmado, como prova, entrou a recitar “A Judia” de Tomás Ribeiro, que tinha nesse tempo no Maranhão um cheiro ativo de novidade:

          “Corria branda a noite. O Tejo era sereno!...”

          — Mais alto! reclamou, da mesa pequena, o Cordeiro, com um grito. Não chega até cá. Queremos ouvir o recitativo!...
          E, como Raimundo conseguisse fazer calar o Freitas, aquele levantou-se arrebatadamente e pôs-se a estropiar uma chula:

          “Carolina que horas são estas?...
           Nove horas no bronze da torre!”

          — Cante antes o “Não quero que ninguém me prenda!” aconselhou Eufrasinha, com uma risada.
          — Gentes! disseram outras moças, admiradas do desembaraço da viúva.
          Cordeiro obedeceu, e, trepando na cadeira, tomou uma garrafa pelo gargalo, ergueu-a e, berrou o que então representava na província o hino dos borrachos:

          “Eu não quero que ninguém de prenda;
                    Aihée!
          Debaixo do meu pifão!
          Quando fores de noite à rua,
                    Aihée!
          Leva cheio o garrafão!
           Seu soldado não me prenda,
           Não me leve pro quarté!
           Eu não vim fazer barulho,
           Vim buscar minha mulhé!
                     Aihée!
           Debaixo do meu pifão!
           Quando fores de noite à rua,
                     Aihée!
           Leva cheio o garrafão!

          A pouco e pouco, iam todos, menos o Dias, acompanhando em coro o terrível “Aihée!” e batendo, até algumas senhoras, com a faca nos pratos. Daí a nada, era uma algazarra em que ninguém já se entendia.
          A confusão tornou-se, afinal, completa; faziam-se brindes de braço entrançado, bebia-se de copos trocados; misturavam-se vinhos; soltavam-se gargalhadas estrepitosas; cruzavam-se projéteis de miolo de pão, quebravam-se copos e, dentro de todo esse tumulto, destacava-se a voz rouca do Casusa, que insistia no seu brinde ao Serra, a quem agora chamava berrando: “Poeta do Comércio! Colosso de negócios!”
          As senhoras tinham-se já levantado dos lugares e palitavam os dentes, encostadas às competentes cadeiras, meio entorpecidas na repleção do estômago. A noite fechava-se. Maria Bárbara afastara-se para dar providências sobre a luz. Ouvia-se uma voz a discutir gramática com o Faísca; Cordeiro, que se calara afinal, caíra em prostração, derreado na cadeira e com as pernas estendidas em cima da que Amância deixara vazia. Entretanto, o Freitas, sempre teso, sem alteração alguma na sua roupa de brim engomado, pediu “vênia” para erguer um modesto brinde...
          Limpou a superfície dos lábios com o guardanapo dobrado, que pousou depois vagarosamente sobre a mesa; passou a enorme unha do seu dedo mínimo no desfibrado bigode, e, fitando uma compoteira de doce de pacovas – erguida a mão direita, na atitude de quem mostra uma pitada -declamou com ênfase:
          — Meus ilustres senhores e respeitabilíssimas senhoras!...
          Houve uma pausa.
          Não poderíamos, pela ventura, terminar satisfatoriamente esta, tão pequena quão antiga e tradicional festa de família, sem brindarmos uma pessoa respeitável e digna de toda a consideração e respeito! Por isso... eu! eu, senhores, o mais insignificante, mais insuficiente de todos nós! ...
          — Não apoiado! Não apoiado!
          — Apoiado! dizia o Cordeiro com os olhos, vidrados.
          — Sim! – eu, cuja voz não foi bafejada pelo dom sagrado da eloqüência! Eu, que não possuo a palavra divina dos Cícero, dos Demóstenes, dos Mirabeau, dos José Estevão, et cetera, et cetera! eu, meus senhores! vou brindar... a quem?!.
          E desenrolou um repertório interminável de fórmulas misteriosas apropriadas à situação, exclamando no fim, cheio de sibilos:
          — Inútil é dizer o nome!...
          Todos perguntavam entre si com quem seria o brinde. Houve teimas, fizeram-se apostas.
          — Mais do que inútil é dizer o nome, prosseguiu o discursador, saboreando o efeito da sua impenetrável alusão, mais do que inútil é dizer o nome! porquanto já sabeis de sobra que falo com referência à Excelentíssima Sr.ª Dona... (nova pausa) Maria Bárbara Mendonça de Melo!...
          Fez-se uma balbúrdia de exclamações.
          — D. Maria Bárbara! D. Maria Bárbara! gritavam muitas vozes.
          E todos se voltavam para o interior da casa.
          — Minha sogra!
          — Minha sogra!
          — D. Babu!
          — D. Maria Bárbara!
          Ela apareceu afinal, trazendo na mão um candeeiro aceso.
          — Cá estou! cá estou!
          E, toda desfeita em risos, pôs o candeeiro sobre a mesa e bebeu do primeiro copo que lhe levaram à boca.
          Seguiu-se um formidável “hup! hup! hurra!”. E a música atacou o Hino Brasileiro.
          — O nosso hino! disse misteriosamente o Freitas a Raimundo, tocando-lhe no ombro. Um dos mais lindos que conheço!...
          — Chit! Com os diabos! resmungou o Dias, empalidecendo e levando as mãos à cabeça.
          — Que é? que é?
          Voltavam-se todos para ele.
          — Nada... nada... disfarçou, sem despregar mais os lábios.
          É que só agora, à vista da luz, se lembrara de não haver apagado a vela do quarto de Maria Bárbara.
          Serviu-se o café, vieram os licores, o conhaque e a cana-capim.
          O Dias sentia-se cada vez mais preocupado. Ora que ferro!... Esquecer-se de soprar aquela maldita vela!... Que diabo! podia haver um incêndio e lá ir tudo pelos ares!...
          Sebastião Campos desapareceu com o Casusa, levando a sua cesta de fogos, e todos os outros, mais ou menos excitados pelas libações, aproximaram-se das anteparas da varanda. Cerrara-se completamente a noite; viam-se já os pirilampos da quinta palpitando na sombra; punha-se nova mesa, para os músicos, que continuavam a tocar; o Cordeiro sapateava um fadinho ao som do Hino Nacional, mal podendo ter-se nas pernas; o Serra, boleando o seu respeitável ventre foi desafiado pela gorda Lindoca, e dançaram ambos; o Serra puxou Manuel, e, com o exemplo do patrão, atiraram-se também o Vila Rica e Manuelzinho, sem mais contemplações com a rigorosa pragmática comercial. O Faísca, que era fraco da cabeça e do estômago, dava para chorar espetaculosamente, lamentando-se com ânsias e suores frios; dizia sentir um desgosto tremendo da vida, uma inabalável resolução de suicidar-se e uma vontade estúpida de vomitar.
          Então um busca-pé, descrevendo no ar incendiados caracóis de grossas faíscas, foi cravar-se no rebordo da varanda, bem junto ao lugar em que estava Amância.
          — Credo!
          Fez-se um espalhafato. A velha pulou para trás, tossindo sufocada e o Cordeiro afiançava que, indo ela tomar fôlego, engolira um busca-pé aceso. Ana Rosa, com o susto, correu até ao lado oposto da varanda, onde não chegava claridade. e caiu trêmula nos braços de Raimundo, que, contra os seus hábitos de rapaz sério, ferrou-lhe dois beijos mestres.
          Os busca-pés repetiam-se lá fora sem interrupção. Acenderam-se afinal, os candeeiros e iluminou-se, a velas de cera, ao fundo do lado esquerdo da varanda, o vistoso altar, onde São João Batista, no meio de uma fulgência de luzes e flores de papel dourado, resplandeceu com o seu cordeirinho nos braços e segurando um cajado de prata.
          Ficou tudo claro e alegre. Os músicos foram para a mesa, e Manuel distribuiu fogos por todos os convidados. As moças queimavam pistolas; os homens carretilhas, foguetes e bombas. Levantou-se defronte da casa uma grande fogueira de barricas alcatroadas, depois outras; e a varanda, com os seus estampidos, afogueada pelo clarão vermelho, cuspindo balas brilhantes e multicores, parecia um baluarte em guerra.
          Dias, alheio a tudo isso, passeava de um para outro lado, embebido na sua preocupação. Aquelas pistolas, brancas e compridas, ainda mais o irritavam, porque pareciam velas de cera.
          Depois de jantar, a banda de música retirou-se, tocando uma coisa alegre.
          — Seu Freitas, dizia Bibina, me acenda esta rodinha!
          — Ui! gritava ao mesmo tempo a Eufrasinha, procurando queimar uma pistola, tenho medo disto que me pélo!
          — Pegue com o lenço, aconselhava a tia Sarmento.
          — Seu moço, me escorve isto, por seu favor...
          Sebastião e Casusa continuavam lá embaixo às voltas com os busca-pés, que se cruzavam no ar freneticamente.
          Raimundo, ao lado de Ana Rosa, acendia no seu charuto os fogos que ela tocava, e falava-lhe baixinho em casamento.
          — Na primeira ocasião falo a teu pai...
          — E por que não falas amanhã?... mamãe foi pedida justamente num dia de São João!
          — Pois bem, amanhã!. .
          — Não m’enganas?...
          — Não. E tu, dize, tu me estimas deveras?... Olha que o casamento é coisa muito séria!.
          — Eu adoro-te, meu amor!...
          — Está aí o padre! Gritou Sebastião lá de baixo.
          — Chegou o padre! Chegou o padre! repetiram muitas vozes.
          Frei Lamparinas, efetivamente, chegava para cantar a ladainha. Acompanhavam-no quatro sujeitos de ar farandulesco; caras avermelhadas pela cachaça, cabeleiras à nazarena, paletós insuficientes, olhares cansados; um todo cheio de insônia e movimentos reservados de quem não conhece o dono da casa em que se apresenta. Eram músicos de contrato, pândegos afeitos às serenatas, aos chinfrins de todo o gênero, estômagos vitimados às comezainas fora de horas, cujas digestões põem manchas biliosas na face. Um trazia um violão debaixo do braço, outro uma flauta, outro um pistão e outro uma rabeca. Entraram em rebanho, com os pés surdos e foram assentar-se, modestamente risonhos, na amurada varanda, a cochicharem entre si, olhando com tristeza gástrica para os destroços da mesa.
          Casusa, que os seguiu desde lá debaixo, foi o único a cumprimentá-los, a cada um de per si, dando-lhes o nome e recebendo o tratamento de tu. Fez logo vir uma garrafa e serviu com intimidade, a rir, lembrando-lhes outras patuscadas em que estiveram juntos. Manuel acudiu também, oferecendo-lhes de comer, e insistindo principalmente com Frei Lamparinas que ainda não tinha jantado, conforme ele próprio confessava. Recusaram-se todos, prometendo cear depois da ladainha. “Comeriam mais à vontade!”
          — Pois então vamos à ladainha!
          E dispuseram-se para a nova festa que ia principiar. Sebastião Campos continuava na quinta, a soltar os seus busca-pés e as suas formidáveis bombas, que estrondavam como canhões. “Ah! só tocava fogo fabricado por ele próprio! Não tinha confiança nesses fogueteiros de meia-tigela!...” As barricas estalavam em labaredas fiscalizadas por Benedito. Havia por toda a parte uma reverberação vermelha e um cheiro marcial de pólvora queimada. Defronte da casa as árvores erguiam-se, arremedando uma apoteose de inferno. As mãos encardiam-se, as roupas saraqueimavam-se com faíscas. Algumas pessoas saltavam as fogueiras; outras de mãos dadas e braços erguidos, passeavam em torno delas, com solenidade, arranjando compradescos.
          — Quer ser minha comadre, D. Anica? perguntou Casusa a Ana Rosa.
          — Vamos lá!
          E desceram à quinta. Aí, com a fogueira entre ambos, deram a mão um ao outro e passaram três voltas rápidas em torno das chamas, com os braços erguidos, a dizer de cada vez:
          — Por São João! Por São Pedro! Por São Paulo! E por toda a corte do céu!
          Na varanda, Lamparinas dava tranqüilamente, no meio de um grupo, a notícia de ter havido incêndio na cidade.
          — Onde? perguntaram assustados.
          — Na Praia Grande.
          Dias, sem dar uma palavra, atirou-se de carreira para a quinta e desapareceu logo na alameda de mangueiras.
          Freitas expôs a Raimundo o grande inconveniente daquele brinquedo bárbaro do fogo. “Quase sempre, nos dias de São João e São Pedro havia incêndios na cidade!... Os negociantes apertados aproveitavam a ocasião para liquidar a casa!...” Entretanto, o Serra apontando para o lugar onde desaparecera o caixeiro de Manuel, dizia ao ouvido deste: “Aquilo é que é um empregado de truz, seu colega! Tenho inveja de você, acredite! Vale quanto pesa!”
          Lamparinas procurava tranqüilizar o ânimo dos dois negociantes, declarando que o fogo era na Praça do Comércio e que não atingira grandes proporções. “Aquela hora talvez já não houvesse vestígio dele!...”
          Varreu-se a varanda em todos os seus quatro lados; estenderam-se esteiras de meaçaba sobre o tijolo, no lugar em que as devotas teriam de ajoelhar-se; acenderam-se mais algumas velas no altar, onde Frei Lamparinas ia recitar a sua “milésima ladainha”, segundo o que nesse momento acabava de dizer o Freitas.
          — Milésima?... perguntou Raimundo, pasmado.
          — Admira-se, hein?... volveu o homem da unha grande. Pois olhe, só neste sítio, a julgar de um pequeno cálculo, que me dei ao trabalho de fazer, tem ele engrolado nunca menos de 657 ladainhas!
          E, a propósito, Freitas contou minuciosamente o clássico costume daquela festa de São João.
          — Hoje não se faz nada, à vista do que já se fez!... dizia. Bons rega-bofes tivemos no tempo do coronel, em que se faziam novenas e trezenas de São João! E era dançar pra aí toda a noite, sem descansar! Meu amigo, era uma brincadeirazinha que rendia seguramente meio mês de verdadeira folia!
          E, com um ar misterioso, como quem vai fazer uma revelação de suma importância:
          — Quer que lhe diga, aqui entre nós?... As moças de hoje não valem as velhas daquele tempo!...
          E o maroto cascalhou uma risada, como se houvera dito alguma coisa com graça.
          Os fogos continuavam ainda e os ânimos persistiam quentes, quando, de improviso, se abriu a porta de um quarto, e o padre Lamparinas apareceu, todo aparamentado com a sua sobrepeliz nova; o livro da reza entre os dedos, os óculos montados no nariz adunco, os passos solenes, o ar cheio de religião. E arvorou-se nos degraus do altar, anunciando que ia dar começo à ladainha.
          Houve um prolongado rumor de saias, e as mulheres ajoelharam-se defronte do padre.
          Do alto, contra a luz da velas de cera, desenhava-se em sombrinha o vulto do Lamparinas, anguloso, com os braços levantados para o teto, num êxtase convencional. Os homens aproximaram-se todos, à exceção do Faísca, que dormia. Alguns ajoelharam-se também. Atiraram-se fora os charutos em meio; deixaram-se em paz os busca-pés e as bombas; correu silêncio. E a voz fúnebre do Lamparinas chiou confusamente a Tua Domine.
          — Então não temos jaculatória?... perguntou Amância, escandalizada.
          Lamparinas atirou-lhe uma olhadela repreensiva, e concentrou-se de novo em sua oração, concluindo:
          — Apresentamos, Senhor, estas ofertas, sobre os vossos altares, para celebrarmos esta festa, com a honra que é devida ao nascimento daquele santo, que, além de anunciar a vinda do Salvador ao mundo, nos mostrou também que era já nascido o mesmo Jesus Cristo nosso Senhor, que conosco vive e reina em unidade.
          — Apoiado! gritou o Cordeiro.
          Desencadeou-se um sussurro de indignação. Todavia, entre a tosse, os escarros secos e alguns espirros dispersos, que se acusavam daqui e dali, continuou fanhoso o Lamparinas:
          — Gratiam tuam, quoesumus, Domine, mentibus nostris infunde, ut qui Angelo nuntiante Christi Filii tui incamationem cognovimus, per passionem ejus et crucem ad ressurrectionis gloriam perducamus. Per eumdem Christum Dominum Nostrum. Amen!
          — Amen! disseram em coro.
          E a voz do Lamparina chilreava, acompanhada pela música:
          — Kyrie eleison!
          Os devotos e devotas respondiam cantando em todos os tons:
          — Ora... pro... nobis!
          E este bis final ia longe!
          — Christe eleison!
          — Ora pro nobis!
          Destacava-se a voz grossa e avinhada do Cordeiro, que sempre se demorava no canto e arrastava escandalosamente o bis.
          — Diabo do herege!... resmungou Amância, sem desfazer a sua atitude beata.
          — Pater de caelis, Deus, miserere nobis!...
          — Ora pro nobis!... insistia o coro
          — Fili Redemptor mundi, Deus, miserere nobis.
          — Ora pro nobis!
          E o pobre Lamparinas, no fim de um quarto de hora desta música, sentia-se plenamente no seu elemento, entusiasmava-se, cantava, marcando frenético o compasso com o pé, e quase dançando. Já não espera pelo “Ora pro nobis”, ia gritando:
          — Santa Maria!
          — Santa Dei genitrix!
          — Santa virgo Virginum!
          — Mater puríssima!
          E o coro, e a música, a correrem atrás dele, a toda a força.
          Mas o especialista das ladainhas teve de interromper o seu entusiasmo, porque, em torno de Maria do Carmo, levantava-se um zunzum.
          — Que terá minha tia?!... exclamou Etelvina alvoroçada.
          — Mamãe-outrinha! Jesus! Valha-me Deus!
          — O que é?
          — Que foi?
          — Que tem?
          — Que sucedeu?
          Ninguém sabia. Entretanto, Maria do Carmo, ajoelhada, hirta, com o queixo enterrado entre as clavículas, tinha uma imobilidade aterradora no olhar.
          — Credo! gritou Amância, benzendo-se.
          As sobrinhas puseram-se logo a chorar ruidosamente; Ana Rosa, Eufrásia e Lindoca imitaram-nas no mesmo instante.
          Correram todos para o lugar do sinistro; os músicos com os instrumentos debaixo do braço; Lamparinas com o manual de rezas marcado pelo indicador da mão direita.
          Ouvia-se roncar estranhamente o ventre de Maria do Carmo. Raimundo abriu caminho, chegou onde ela estava, suspendeu-lhe a cabeça e, ao soltá-la de novo, uma golfada de vômito podre jorrou pelo corpo da velha.
          — É um vólvulo! disse ele, voltando a cabeça.
          — Do latim – volvulus – segredou-lhe o Freitas, que o acompanhara até lá.
          Maria do Carmo foi carregada para o quarto. Estenderam-na em uma marquesa. Pingava-lhe de todo o corpo um suor copioso e frio; tinha o ventre duro como pedra. Raimundo fez darem-lhe azeite doce e aconselhou que mandassem comprar, quanto antes, eletuário de sena. Correu-se a chamar o médico na cidade.
          A doente voltou a si, mas sentia cólicas horríveis, comichão por todo o corpo; queixava-se de grande secura, e delirava de instante a instante. Daí a meia hora vieram de novo os vômitos; cresceram-lhe as agonias; aumentavam-lhe os rebates intestinais. A pobre velha estorcia-se, arranhava a palhinha da marquesa, cravando as unhas na madeira.
          Em torno dela fazia-se um silêncio aterrador. Afinal chegou-lhe a reação: deu um arranco dos pés à cabeça e ficou logo imóvel.
          Raimundo pediu um espelho; colocou-o defronte da boca de Maria do Carmo, observou-o depois e disse secamente:
          — Está morta.
          Foi um berreiro geral. Etelvina caiu para trás, estrebuchando num histérico; Manuel arredou a filha daquele lugar. Acudiram todos os de casa. Os ânimos que o vinho entorpecia, acordaram como por encanto. A situação incontinenti tornou-se lúgubre.
          O Cordeiro, já em seu juízo perfeito, ajudou a carregar o cadáver, afastou cadeiras, arrastou uma cômoda, e preparou a encenação da morte. Invadiram o quarto. Os pretos do sítio chegavam-se com medo, apavorados, resmungando monossílabos guturais; o olhar parvo, a boca aberta.
          Em menos de duas horas, Maria do Carmo estava estendida em um canapé, iluminada por velas de cera, lavada, vestida de novo e penteada. Sobre a cômoda, perto dela, a inalterável imagem de São João Batista, e, ajoelhado no tijolo, com o olhar fito no santo, o cônego, de braços abertos, balbuciava uma oração.
          Manuel expediu recados para a cidade; seus caixeiros partiram todos; Maria Bárbara fechara-se no quarto e pusera-se a rezar com desespero de beata velha. A agitação era comum. Só Amância conservava o sangue-frio; estava no seu elemento – ia e vinha, dava ordens, dispunha tudo, aconselhava, ralhava, chorando quando era preciso, consolando os desanimados, dizendo rezas, citando fatos, governando, repreendendo aos que não obedeciam, e pondo ela mesma em prática as suas prescrições.
          Às dez horas da noite, uma rede de algodão, enfiada numa taboca de muitas cores, cujas extremidades dois pretos vigorosos sustentavam no ombro, conduzia o cadáver de Maria do Carmo para o sobrado do Largo das Mercês, com grande acompanhamento de homens e mulheres. Benedito ia na frente, iluminando o fúnebre cortejo à luz ruiva de um enorme archote alcatroado que ele erguia sobre a cabeça.
          Lamparinas caminhava atrás, furioso, fazendo voar ante seus pés as pedrinhas soltas da estrada, e dando-se aos diabos pela má observância do antigo e confortador provérbio: “O padre onde canta lá janta!”


9

          Logo depois da partida do cadáver, Maria Bárbara e Ana Rosa desceram do sítio, em um carro que se mandou buscar; foram diretamente para o Largo das Mercês. Manuel e Raimundo vieram de bonde e seguiram para casa. Mas o rapaz, apesar de fatigado, não conseguiu repousar. Precisava de ar livre. Mudou de roupa e tornou a sair.
          Passava já de meia-noite. A cidade tinha o caráter especial das vésperas de São João: viam-se restos de fogueiras fulgurando ao longe, em diversos pontos; de quando em quando ouviam-se estalos destacados. Raimundo tomou a direção das Mercês. “Seria crível, pensava pelo caminho, que estivesse deveras enfeitiçado por sua prima?... ou seria tudo aquilo uma dessas impressões passageiras, que nos produz em dias de bom humor um rosto bonito de moça?... Verdade era que nunca se sentira tão preocupado por outra mulher.”
          — Em todo o caso, concluiu ele, convém dar tempo ao tempo!... Nada de precipitações!
          Assim raciocinando, no antegosto do seu casamento provável com Ana Rosa, chegou à casa das Sarmentos.
          Nessa ocasião reuniram-se aí as velhas amizades da defunta, prevenidas logo do triste acontecimento pelos empregados de Manuel. O enterro seria no dia seguinte à tarde. Os conhecidos do comércio mandaram lá os seus caixeiros para ajudarem a encher as cartas de convite e fazerem quarto. Chamou-se logo um armador, para preparar a casa, conforme o uso da província; falou-se a um desenhista para fazer o retrato do cadáver; tomou-se medida e encomendou-se o caixão; discutiu-se a vestimenta que devia levar Maria do Carmo, e resolveu-se que seria a de Nossa Senhora da Conceição, por ser a mais bonita e vistosa. Amância ofereceu-se prontamente para talhar a roupa. “Que não valia a pena encomendá-la ao armador, sobre vir malfeita e malcosida, sairia por um dinheirão!”
          — Não sei! dizia ela. Todas estas coisas pra enterro custam sempre quatro vezes mais do que podem valer! É uma ladroeira descarada! Por isso enriquecem tão depressa os armadores! diabo dos gatunos!
          Desta vez a velha tinha razão.
          Mandaram comprar cetim cor-de-rosa, azul e branco, sapatinhos de baile, escumilha e filó para o véu, que seria franjado de ouro. Uns teimavam que a morta devia levar um ramalhete de cravos na mão; outros negavam, considerando, nem só a idade da defunta, como o seu estado de viúva.
          E choviam exemplos de parte a parte:
          — Outro dia, D. Pulquéria das Dores apesar dos seus sessenta anos, levou na mão um enorme ramo de rosas vermelhas! E demais, era casada.
          — E o que tem isso?! D. Chiquinha Vasconcelos foi de caixão aberto, porém não levava ramalhete, e, até digo-lhe mais, nem palma nem capela! no entanto era solteira e tinha a metade da idade de D. Maria do Carmo.
          — Mas ia com as faces pintadas de carmim, que é muito pior! Ora aí está!... Além disso, dizia-se da Chiquinha o que todos nós sabemos. Deus me perdoe!
          Uma mulata obesa cortou o nó górdio da questão, declarando que o ramalhete bem podia ir escondido por debaixo do hábito. Todos concordaram logo.
          Deu uma hora. Vários caixeiros retiraram-se já com um maço de cartas, que entregariam pela manhã; algumas famílias, vestidas de preto, despediam-se com beijos, pedindo desculpa por não ficarem até à hora do enterro. O armador martelava na sala. A noite caía no silêncio; ouvia-se um ou outro busca-pé retardado. Na rua, grupos pândegos passavam em troça para o banho de São João; do Alto da Carneira vinha um sussurro longínquo de “Bumba-meu-boi”. Cantavam os primeiros galos; cães uivavam distante, prolongadamente; no céu, azul e tranqüilo, uma talhada de lua, triste, sonolenta, mostrava-se como por honra da firma, e, todavia, um homem, de escada ao ombro, ia apagando os lampiões da rua.
          Raimundo parara um instante, olhando o mar, defronte da casa das Sarmentos. À porta de entrada havia um grande reposteiro de veludo negro, com uma cruz de galões amarelos. Ele considerou o prédio: era um casarão velho, um desses antigos sobrados do Maranhão, que já se vão fazendo raros. Cinqüenta palmos de alto e outros tantos de largo, barra pintada de piche, mostrando a caliça em vários pontos, cinco janelas de peitoril, enfileiradas sobre quatro portas lisas, com um portão entre elas, pesado, batente de cantaria; cheirando tudo a construção dos tempos coloniais, quando a pedra e a madeira de lei estavam ali a dois passos e se levantavam, em terrenos aforados, paredes de uma braça de grossura e degrau de pau-santo.
          Entrou. O corredor transpirava um caráter sepulcral. Subia-se uma escada feia, acompanhada de um corrimão negro e lustrado pelo uso; nas paredes, via-se, à insuficiente claridade de uma lanterna suja, o sinal gorduroso das mãos dos escravos, e no teto havia lugares encarvoados de fumaça.
          A escada era dividida em dois lances, dispostos em sentido contrário um do outro; Raimundo chegou ao fim do primeiro lance sufocado, e galgou o segundo de carreira, dando aos diabos o maldito costume de fechar toda a casa, quando ela mais precisa de ar, porque tem dentro um cadáver. Numa das salas da frente, forrada então pelo tapete do armador, tapete velho e, tão crivado de pingos de cera, que o pé escorregava nele, estava um grande tabuleiro de paparaúba, cheio de tochas e enormes castiçais de madeira e folha-de-flandres, pintados de amarelo. Em uma das quatro paredes, cobertas de alto a baixo de veludo preto e orladas de galões de ouro, destacava-se um altar, ainda não aceso, todo estrelado de lantejoulas; carregado de adornos, com uma toalha de rendas no centro, sobre a qual pousavam dois castiçais de latão, pintalgados pelas moscas, tendo entre eles um crucifixo do mesmo metal, extremamente azinhavrado. Defronte estava a essa, enfeitada de acordo com o resto, à espera do caixão, que aquelas horas se preparava em casa do Manuel Serigueiro.
          Empoleirado numa escada e de martelo em punho, um homem, em mangas de camisa, pregava sobre as portas bambinelas bordadas.
          — A que horas é o enterro? perguntou-lhe Raimundo.
          — Às quatro e meia, disse o armador, sem voltar o rosto.
          Da varanda vinha um murmúrio de vozes. Raimundo seguiu para lá.
          Varanda larga e alta, caiada, toda aberta para o quintal; telha vã, mostrando os caibros irregulares, donde pendiam melancólicas teias de aranha. Num dos cantos um banco de pau roxo, muito escuro, sustentando, em buracos redondos, dois grandes potes bojudos de barro vermelho; sobre o parapeito da varanda, uma fila de quartinhas também de barro, esfriavam água. Aberto na parede um imenso armário tosco, e logo ao pé um alçapão no soalho, resguardado por uma grade, com a cancela despejada sobre uma escada tenebrosa.
          Encostado à grade – um sujeito gordo, sem bigode, de óculos e barba debaixo do queixo, dizia a outro do mesmo feitio, batendo com o pé nas largas tábuas do chão.
          — Hoje ninguém mais pilha deste madeiramento! Repare! É tudo pau-d’arco, pau-santo, pau-cetim, bacuri, jacarandá e pequi! Madeiras que valem o ferro e que nem o machado pode com elas!
          Em volta de uma mesa, dez homens, a título de fazer quarto à defunta, jogavam cartas, conversando em voz discreta, repetindo xícaras de café e cálices de conhaque, entre pilhérias segredadas, risos abafados e o fumo espesso dos cigarros.
          Quando Raimundo entrou, confidenciava um deles ao vizinho:
          — Já não sou homem para estas coisas!... Não posso perder uma noite!... Por mais que beba café, sinto sono!... Porém não podia deixar de vir, era uma ocasião de encontrar-me com a pequena... Não tenho entrada na casa dela...
          E bocejava.
          — Conhecias esta velha que morreu? interrogou-lhe o outro.
          — Não. Creio que a encontrei uma vez em casa do Manuel Pescada... Já estive a olhá-la – é horrível!
          — Pois aqui onde me vês, estou furioso! O patrão mandou-me para cá, mas com poucas arribo! Tenho um pagode no Cutim e não o perco!
          — Também porque a velha não escolheu melhor dia pra morrer!...
          — Logo na véspera de São João! Que espiga!
          E bocejavam ambos.
          — Quem é este tipo? perguntou um dos jogadores, vendo entrar Raimundo. Corte com o três de espadas!
          — É um tal Raimundo... um sujeito que o Pescada tem em casa por compaixão.
          — O que faz ele? – Dama!
          — Diz que é doutor. – É meu!
          — Não parece mau rapaz...
          — Fia-te!
          — Já te pregou alguma hein? conta-nos isso!
          —Não te digo mais nada... Fia-te na Virgem e não corras!...
          Fizeram uma pausa, em que se ouvia atirar cartas à mesa, com uma pancada de dedos no tapete.
          — Mas do que vive ele? perguntou o curioso que se informava de Raimundo. – Venha o ás!
          — Ora do que vive!... Você não tem copas?... Pergunte a toda essa gente sem emprego, de quem oficialmente se diz “vive de agências” e ficarás sabendo.
          — Ganhei!
          — Mas o que é ele do Manuel?
          — Diz que primo... respondeu o outro, baralhando as cartas.
          — Ah!...
          — Dê cartas.
          Raimundo cumprimentou-os e perguntou pela família da defunta.
          Estava fazendo quarto. Que entrasse por ali, responderam-lhe, indicando uma porta.
          Logo que o rapaz deu as costas, o maledicente levantou o braço e fez-lhe uma ação feia.
          — Gosto muito destes tipos, acrescentou, então em voz alta, para o grupo inteiro, depois de um silêncio, todos eles são uma coisa lá por fora “Porque eu fiz! e porque eu aconteci! Porque isto é uma aldeia! É um chiqueiro!” E no entanto metem-se no chiqueiro e daqui não saem!...
          — Meu amigo, não há Maranhão como este!...
          — Mas dizem que este cabra tem alguma coisa... arriscou um terceiro.
          — Qual nada!... Você ainda come araras! Todos eles dizem ter mundos e fundos!... Gosto deste Maranhãozinho, porque não perdoa os tipos que vêm pra cá com pomadas!... O sujeito aqui, que se quiser fazer mais sabichão do que os outros, há de levar na cuia dos quiabos, para não ser pedante! Diabo dos burros! Se sabe muita coisa, guarde pra si a sabedoria, que ninguém por cá precisa dela, nem lha pediu! E não se meta a escrevinhar livrinhos e artigos para os jornais, que isso é ridículo!... Lá o meu patrão é quem sabe haver-se com esses espoletas! Ainda há pouco tempo ele precisou aí não sei de que papel – para o sobrinho que tinha chegado do Porto – e vai – pede a um doutorzinho, muito nosso conhecido, que lhe arranjasse a história... Pois o que pensam vocês que respondeu o tal bisca ao patrão?...
          Não sabiam.
          — Pois mandou-o plantar batatas! Chamou-o de toleirão! “Que o que ele queria, era um absurdo!”
          — Sim, hein?...
          — Com estas palavras!... Estou lhe dizendo!... Ah, meu amigo, mas também o patrão pregou-lhe uma de respeito!... Você sabe que o Lopes, em questões de capricho, não se importa de gastar dois vinténs...
          — Sim, como naquela história da comenda...
          — Bom. Pois ele foi aí a um outro tipo e encomendou-lhe uma dessas descomposturas de criar bicho!
          — E então?
          — Ora! Se bem o patrão o disse, melhor o tipo o fez... Ora, espera! Como era mesmo o nome da coisa?... Era... Estou com o diabo na ponta da língua... Ah! Era um anônimo!
          — Ah! Um anônimo!
          — Uma descomponenga, que pôs o tal doutorzinho de borra mais raso que o chão!
          — Ah! Isso foi com o Melinho!...
          — Foi. Você leu, hein?
          — Ora, mas aquilo do Lopes foi demais. Desacreditou o pobre moço!...
          — Não sei! Bem feito!
          — E, segundo me consta, nem tudo era verdade no tal anônimo!
          — Não sei!... o caso é que esfregou o tipo!
          — Sim, mas o que não se pode negar é que o Melinho é um rapaz inteligente e honesto a toda a prova!...
          — Que lhe faça muito bom proveito! Coma agora da sua inteligência e beba da sua honestidade! Meu menino, deixemo-nos de patacoadas! O tempo hoje é de cobre! Honesto e inteligente é isto!...
          E com os dedos fazia sinal de dinheiro.
          — Tenha eu o jimbo seguro, acrescentou, e bem que me importa a boca do mundo! E senão – olhe aí para a nossa sociedade!...
          E citava nomes muito conhecidos, contava histórias medonhas de contrabandos, de grande ladroeiras, de notas falsas, do diabo!
          — Sim! sim, isso é velho; mas que fim levou o Melinho?
          — Sei cá! muscou-se para o Sul! Que o leve o diabo!
          — Pois olhe, gosto daquele moço!...
          — Não lhe gabo o gosto!
          Raimundo, depois de atravessar um quarto espaçoso, penetrou na sala de visitas e achou-se defronte de uma roda de senhoras de todas as idades, na maior parte vestidas de luto, e que, assentadas, fitavam, de cabeça à banda com o olhar cansado e sonolento, o corpo inanimado de Maria do Carmo. Numa rede, a um canto, soluçava Etelvina, escondendo a cabeça entre travesseiros; ao lado, uma mulata gorda e enfeitada de ouro – saia de chamalote preto e toalha de rendas sobre os ombros – dizia maquinalmente as frases da consolação. Assentada no sobrado, sobre uma esteira. Amância talhava o hábito de Nossa Senhora da Conceição, com que a defunta devia ir vestida à fantasia para a sepultura, como se fosse para um baile de máscaras. Nas paredes, os retratos de família estavam cobertos por um vasto crepe; o do tenente Espigão, horrorosamente pintado a óleo, com um colorido cru, tinha através do véu, um sorriso duro, de beiços vermelhos. No meio da sala, em um sofá de gosto antigo, com encosto de palhinha envernizada, decompunha-se o cadáver da velha Sarmento; tinha o rosto coberto por um lenço de labirinto encharcado de água-flórida; as mãos cruzadas sobre o peito e amarradas à força por uma fita de seda azul; as pernas esticadas, o cabelo muito puxado para trás, bem penteado, o corpo todo se mirrando, hirto um pouco empenado na tensão dos músculos. Em cima do ventre opado um prato cheio de sal.
          À cabeceira do canapé, numa mesinha coberta de rendas, um Cristo colorido, de braços abertos, pendia da cruz, e duas velas de cera derretiam-se no lugar do bom e do mau ladrão. Logo junto, uma vasilha de água benta, com um galinho de alecrim; mais para a frente, uma Nossa Senhora pequenina, de barro pintado.
          Ouviam-se soluços discretos e o crepitar seco das velas.
          Raimundo aproximou-se do cadáver e, por mera curiosidade descobriu-lhe o rosto – estava lívido, com os raros dentes à mostra, os olhos mal fechados, mostrando um branco baço, cor de sebo; dos queixos subia-lhe ao alto da cabeça um lenço, amarrado para segurar o queixo. Principiava a cheirar mal.
          Então, apareceu na sala uma negrinha com uma bandeja de xícaras de café.
          Serviram-se.
          Raimundo foi levar uma chávena a Ana Rosa, que se achava entre as senhoras.
          — Obrigada, disse ela, chorosa, eu já tomei ainda agorinha mesmo.
          De vez em quando ouvia-se um suspiro estalado e o froon nasal das moças que assoavam as lágrimas. Um grupo de mulheres, de saia e camisa, conversava soturnamente sobre as boas qualidades e as virtudes da defunta. Tinham a voz medrosa de quem receia acordar alguém ou ser ouvido pelo objeto de conversação.
          — Era pra um tudo!... afirmava uma delas, compungida. Devo-lhas muitas!... que lhas hei de pagar com padre-nossos! Inda s’tr’oudia, quando me atacou a pneumonia na pequena, com quem foi que me achei?!... Pois olhe que os doutores de carta não lhe souberam dar voltas! E hoje, minha rica?... Ela está aí fina e lampeira, que faz gosto, ao passo que a pobre da senhora D. Maria do Carmo... Deus me perdoe, até parece feitiçaria! – E apontou para o cadáver com um gesto desconsolado. – Ao menos descansou, coitada!
          — Não semos nada neste mundo!... suspirou, com a mão no queixo, uma mulherzinha magra e pisca-pisca, que até então se conservara numa imobilidade enternecida.
          E contou a história de uma sua camarada, que, havia trinta anos, morrera na flor da idade.
          Este caso puxou outros. Foi um cordão de anedotas fúnebres. A mulata obesa fechou a rosca, narrando, muito sentida, a história de um papagaio de grande estimação, que ela possuía, e que, um belo dia, cantando, coitado! a “Maria Cachucha”, caíra para trás – morto!
          — Credo! exclamou Amância. E, voltando-se para a mulata, com os óculos na ponta do nariz.
          — Nhá Maria! esta espiguilha é toda para o véu, ou tem de se tirar daqui também os laçarotes?...
          Depois do enterro, quando Maria Bárbara, de volta a casa entrou no seu quarto, dera logo com a vela de cera gasta até o fim e com a singular máscara do seu milagroso São Raimundo; ficou aterrada, sem saber o que pensar, e, na sua cegueira supersticiosa, atirou-se de joelhos defronte do oratório e pôs-se a rezar fervorosamente.
          Nessa noite, apesar da canseira em que vinha, não pôde dormir senão pela volta da madrugada; e, à força de meditar o caso, acabou por enxergar nele um milagre. Sim, um milagre, justamente como o explicam os catecismos que se dão na escola e como a sua própria mestra lhe ensinara – um mistério incompreensível. “Não havia que duvidar – Deus Nosso Senhor servira-se daquele engenhoso ardil para preveni-la de presentes e futuras calamidades!...”
          Entretanto, só ao cônego se animou de confiar o fato, e até lhe pediu segredo, que, se o genro viesse a conhecê-lo, havia de sair-se com alguma das suas. Já lhe estava a ouvir resmungar com o seu insuportável risinho de homem sem fé: “Pomadas de minha sogra!...” Além disso, se São Raimundo quisesse tornar público o seu sagrado aviso, não usaria dos meios que empregou!...
          — Agora, o que está entrando pelos olhos, senhor cônego, é que aquele maldito cabra do Mundico tem parte nisto! Deus queira que eu me engane, porém a coisa toca-lhe a ele por casa!
          — Pode ser, pode ser... Davus sum non Edipus!...
          — E o que devo fazer?...
          — Ofereça uma missa a São Raimundo. Cantada, não seria mau... Uma missinha cantada!
          Ficaram nisto; mas a velha não podia tranqüilizar-se assim só: afigurava-se-lhe que, em torno dela, grandes transformações se operavam. Verdade é que a morte de Maria do Carmo como que viera perturbar o ramerrão daquela panelinha de Manuel Pescada. Uma semana depois do passamento, chegara de Alcântara um irmão da defunta, e em seguida à missa do sétimo dia, carregou consigo as duas inconsoláveis sobrinhas. Etelvina, embrulhada no seu vestido preto, de lã, encarecera o costume de dar suspiros; Bibina, com grande abnegação, ocultara o cabelo numa coifa de retrós. D. Amância Sousellas, para carpir mais à vontade a perda da amiga, fora passar algumas semanas no recolhimento de Nossa Senhora da Anunciação e Remédios, ao calor confortável das rezas e do caldo forro do refeitório. Eufrasinha, percebendo frieza em Ana Rosa, dera-se por magoada e não lhe aparecia. “Que, de algum tempo àquela parte, notava-lhe certo arzinho de constrangimento e fastio, bem aborrecido! A Anica já não era a mesma! Não sabia quem lhe pisara o cachorrinho; tinha plena convicção de estar sendo intrigada por alguma insoneira, mas também tinha alma grande e deixava correr o barco pra Caxias!” A repolhuda Lindoca igualmente se retraíra, mas esta, coitada! por desgosto das suas banhas; já não queria aparecer a pessoa alguma, de vergonha. Entrara, por conselho do pai, a dar longos passeios de madrugada, enquanto houvesse pouca gente na rua, para ver se lhe descaíam as enxúndias, mas qual! a enchente de gordura continuava bolear-lhe cada vez mais os membros. A pobre moça já não tinha feitio; quando saía era obrigada a descansar de vez em quando, provocando olhares de admiração, que a irrintavam; já não podia usar botinas, ficara condenada ao sapato de pano, raso, quase redondo; as suas mãos perderam o direito de tocar nos seus quadris; trazia os braços sempre abertos; o pescoço apresentava roscas assustadoras; os olhos, o nariz e a boca ameaçavam desaparecer afogados nas bochechas. Entretanto, afeiçoava-se pela linha reta, tinha predileções por tudo que era seco e escorrido, olhava com inveja para as magricelas. Freitas gastava os lazeres a consultar tratados de medicina, a ver se descobria remédio contra aquele mal, o bom homem maçava-se; as cadeiras de sua casa estavam todas desconjuntadas: “Daquele modo, não lhe chegaria o ordenado só para mobília” e, como homem fino mandou fazer uma cadeira especial para Lindoca, com parafusos fortes, de madeira de lei. Viviam ambos tristes.
          E tudo isto, todo esse desgosto surdo que minava na panelinha, era atirado por Maria Bárbara à conta de Raimundo. Queixava-se dele a todos, amargamente; dizia que, depois da chegada de semelhante criatura, a casa parecia amaldiçoada “Tudo agora lhe saía torto!”. Chegou a pedir ao cônego que lhe benzesse o quarto e juntou à promessa da missa mais a de dez libras de cera virgem, que mandaria entregar ao cura da Sé no dia em que o cabra se pusesse ao fresco.
          Mas, pouco depois, a sogra de Manuel chamou o padre em particular, e disse-lhe radiante de vitória:
          — Sabe? Já descobri tudo!
          — Tudo, o quê?
          — O motivo de todas as desgraças, que nos têm acontecido ultimamente.
          — E qual é?
          — O cabra é “bode!...”
          — Bode?! Como?
          Maria Bárbara chegou a boca ao ouvido de Diogo e segredou-lhe horripilada:
          — É maçom!
          — Ora o que me conta a senhora!... exclamou Diogo, fingindo uma grande indignação.
          — É o que lhe digo, senhor cônego! O cabra é bode!
          — Mas isso é sério?... Como veio a senhora a saber?...
          — Se é sério... Veja isto!
          E, cheia de repugnância e trejeitos misteriosos, sacou da algibeira da saia o folhetinho de capa verde, que Dias subtraíra da gaveta de Raimundo.
          — Veja esta bruxaria, reverendo! Veja, e diga ao depois se o danado tem ou não parte com o cão tinhoso! Pois se eu cá sentia um palpite!...
          E apontava horrorizada para a brochura, em cujo frontispício havia desenhado um xadrez, duas colunas amparando dois globos terrestres, e outros emblemas. O cônego apoderou-se do folheto e leu na primeira página: “Lenda maçônica ou condutor das lojas regulares, segundo o rito francês, reformado.”
          — Sim senhora! tem toda a razão! Cá estão os três pontinhos da patifaria!... patifaria!...
          E leu na introdução da obra, possuindo-se de uma raiva de partido: “Maçons, penetremo-nos da nossa dignidade! A retidão de nossos votos, a união de nossos trabalhos, e a harmonia de nossos corações, alimentem sem cessar o fogo sagrado, cuja claridade resplandecente ilumina o interior de nossos templos!”
          — Sim senhora! Tem mais essa prenda... resmungou, entregando o folheto à velha; além de cabra, é bode!
          E sem transição, duro:
          — É preciso pôr esse homem fora de cá!
          — E quanto antes!...
          — O compadre está aí?
          — Creio que sim, no armazém.
          — Pois vou convencê-lo. Até logo.
          — Veja se consegue, reverendo! Olhe lembra-me até que seria melhor desistir de tal compra da fazenda... Esta gente, quando não tisna, suja! Não imagina a arrelia que me faz vê-lo todo o santo dia à mesa de janta ao lado de minha neta!... Também nunca esperei esta de meu genro! É preciso pôr o homem pra fora! Isto não tem jeito! As Limas já falaram muito; disse a Brígida que na quitanda do Zé Xorro lhe perguntaram se era certo que ele estava para casar com Anica... Ora isto não se atura! Cada um que ponha o caso em si!... Pois então aquele não-sei-que-diga precisa que lhe gritem aos ouvidos qual é o seu lugar?... No fim de contas quantos somos nós?!... Nada! Nada! é precioso pôr cobro a semelhante coisa. Fale a meu genro, senhor cônego, fale-lhe com franqueza! Olhe pode dizer-lhe até que, se ele não quiser tratar disto, eu m’encarrego de pôr a peste no olho da rua! A porta da rua é a serventia da casa! Não vê que entre paredes, onde cheira a Mendonça de Melo, se tem aquelas com um pedaço de negro! Iche cacá!
          — Está bom, está bom... Não se arrenegue, Dona Babu! Pode arranjar-se tudo, com a divina ajuda de Deus!...
          E o cônego foi entender-se com o negociante.
          — Homem... respondeu Manuel tendo ouvido as razões do compadre, lá de recambiá-lo para o diabo, convenho! porque enfim é um perigo que um pai de família tem dentro de casa!... mas essa agora de não negociar a fazenda, é pelo que não estou! Seria asnice de minha parte! É boa! Pois se o Cancela me escreveu; quer entrar em negócio, e eu posso meter para a algibeira uma comissãozinha menos má, sem empregar capital algum e quase sem trabalho – hei de agora meter os pés e deixar o pobre rapaz às tontas, em risco até de cair nas mãos de algum finório!... Porque, venha cá, seu compadre, mesmo deitando de parte o interesse, com quem, a não ser comigo, podia o Mundico, coitado! haver-se neste negócio? Também a gente deve olhar p’r’estas coisas!...
          Ficou resolvida a viagem para o sábado seguinte.
          Raimundo acolheu a notícia com uma satisfação que espantou a todos. “Até que afinal ia visitar o lugar em que lhe diziam ter nascido!...”
          — Olhe! disse ele a Manuel, tenho um importante pedido a fazer-lhe...
          — Se estiver em minhas mãos...
          — Está...
          — O que é?
          — Coisa muito séria... Em viagem para o Rosário conversaremos.
          Manuel coçou a nuca.


10

          No dia combinado, às seis horas da manhã, acharam-se Manuel e Raimundo a bordo do vaporzinho Pindaré, pertencente à então nova Companhia Maranhense de Navegação Costeira.
          Fazia um tempo abrasado, muito seco, cheio de luz. A viagem era incômoda, pela aglomeração dos passageiros, os quais, no dizer sediço de um de bordo, iam “como sardinhas em tigela”.
          Tudo aquilo, no entanto, estava muito melhor... considerava Manuel. Agora já se podia viajar facilmente pelo interior da província!... Dantes é que a navegação do Itapicuru tinha os seus quês!...
          E passou a narrar circunstanciadamente as dificuldades primitivas da ida ao Rosário. “Aquela companhia, assim mesmo, viera prestar grandes serviços à província!... Deixasse lá falar quem falava, o único inconveniente que ele via era a – baldeação no Codó! – Isso sim! Tinha o que se lhe dizer, e devia acabar quanto antes!”
          — Felizmente, concluiu, o Rosário é a primeira estação e não temos de sofrer a maldita maçada!
          Ao anoitecer saltaram na vila do Rosário, em companhia de um antigo conhecido de Manuel, ali residente havia um bom par de anos. Era um portuguesinho de meia-idade, falador, vivo, brasileiro nos costumes e trigueiro como um caboclo.
          — Venha cá pra casa e pela manhãzinha seguirá o seu caminho, oferecia ele ao negociante. Sempre lhe quero mostrar o meu palácio!
          Foi aceito o convite, e os três puseram-se a andar, de mala pendurada na mão.
          — Sabe você, ia dizendo o homenzinho, toda aquela baixa que pertencia ao Bento Moscoso? pois isso fica-me hoje no quintal! Arrecadei a fazenda da viúva por uma tuta e mea e hoje está produzindo, que é aquilo que você pode ver! O meu projeto é levantar uma engenhoca aí perto, onde fica o igarapé do Ribas; quero ver se aproveito as baixas para a cana, percebe?
          E dissertava largamente sobre a sua roça, sobre as suas esperanças de prosperidade, censurando medidas mal tomadas pelos vizinhos; afinal atirou a conversa sobre o Barroso. Barroso era a fazenda do Canela, para onde se dirigiam os outros dois.
          — São boas terras, são! Muito limpas, muito abençoadas! O que foi que levantou o Luís Cancela? E é verdade! se me não engano, creio que ele uma ocasião me disse que foi você quem lhas aforrou. Não é isso?
          — E exato, respondeu Manuel.
          — Ah! são suas?...
          — Não! São deste amigo.
          E Manuel indicou Raimundo, que nesse momento contratava, com um homem que se mandou chamar, os cavalos para a viagem no dia seguinte.
          — São muito boas terras!... insistia o outro. O Cancela já por várias vezes tem-nas querido comprar.
          — Compra-as agora.
          E chegaram a casa.
          —A minha gente está toda fora, declarou o roceiro. Mas não faz mal, temos aí de sobra com que passar. Ó Gregório!
          — Meu senhô!
          Veio logo um preto velho, a quem ele se dirigiu para dar as ordens em voz baixa.
          A noite, ao contrário do dia, fizera-se fresca. Depois da ceia, cada um se estendeu na sua rede, preguiçosamente. Raimundo queixava-se de pragas e maruins; Manuel meditava os seus negócios, toscanejando, e o portuguesinho não dava tréguas à língua: falava daquelas terras com um entusiasmo progressivo; contava maravilhas agrícolas; mostrava-se fanático pelo Rosário. E, no empenho da conversa, arrastado, chegava a mentir, exagerando tudo o que descrevia.
          Raimundo interrompeu-o, para saber se ele conhecia a antiga fazenda São Brás.
          — São Brás!...
          E o homenzinho levantou-se da rede com um espanto.
          — São Brás! Se conheço! E por aqui V.S.ª não encontra quem não saiba a história dela!...
          O outro ardia de curiosidade.
          — Tenha então a bondade de contar-ma, pediu, assentando-se. Como vou andar por essas bandas...
          Manuel adormeceu.
          — Pois V.S.ª não sabe a história de São Brás?... Valha-o Deus, meu caro senhor, quem podia cair em algum malfarrico; mas eu vou ensinar-lhe a reza que aprendemos com o nosso santo vigário. Olhe! quando V.S.ª topar uma cruz na estrada, apeie e reze, e ao depois siga o seu caminho por diante, repetindo sempre:

          “Por São Brás!
           Por São Jesus!
           Passo aqui,
           Sem levar cruz”

          Até avistar as mangueiras do Barroso: daí à riba pode seguir descansado, que lá não chega chamusco!
          — Mas por que toma a gente tais precauções?
          — Ora aí está onde a porca torce o rabo! É por causa do diabo de uma alma danada, que empesta essas paragens... Eu conto a V.S.ª!
          E o homenzinho, engolindo em seco, contou prolixamente que São Brás, ou Ponta do Fogo, como dantes lhe chamavam, fora noutro tempo lugar de terras boas e férteis, onde se podia plantar e colher muito, que abençoadas eram elas pelas mãos de Deus. Mas, que uma vez aparecera por lá o célebre assassino Bernardo, terror do Rosário e sobressalto dos fazendeiros, e, depois de uma vida errante pelo sertão, roubando e matando, meteu-se na Ponta do Fogo e aí estourou. E desde então nesse desgraçado lugar nunca mais vingara fruto que não tivesse ressaibo de veneno, nem medrara planta sem mitinza; as águas deixavam cinza na boca, a terra, se a gente a colhia na mão, virava-se em salitre, e as flores fediam a enxofre; mas, quem comesse desses frutos, se deitasse nesse chão, se banhasse nessas águas e cheirasse aquelas flores, ficava por tal modo enfeitiçado, que não havia meio de arrancá-lo dali, porque o diabo tinha untado o fruto de mel, e perfumado as flores e amaciado a relva, para engodar o caminheiro incauto.
          — Foi isso, continuou ele, o que sucedeu ao pobre José do Eito, quando se meteu por cá – enfeitiçou-se! Eu era muito novo nesse tempo, mas bem me lembro de o ter visto tantas vezes, coitado! todo amarelo, morrinhento e resmungão, que logo se adivinhava que o diabo lhe pregara alguma! E sempre andou assim!... um dia morreu-lhe a mulher de repente, e ele pouco depois foi varado por um tiro, que nunca ninguém soube donde veio. Daí em diante São Brás ficou tapera. No lugar em que morreu o José levantou-se uma cruz, e todos os que passam por lá rezam por alma do desventurado, até encher certa conta de orações, com que ela possa descansar!... Enquanto isso não chega, vaga pela tapera a pobre alma penada, de dia que nem um pássaro negro, enorme, que canta a finados, e de noite vira-se numa feiticeira, que dança e canta rindo como as raposas. Quando algum imprudente atravessa perto, a feiticeira o persegue de tal feitio, que o infeliz se não estiver montado, ela o pilha com certeza!
          — E se o pilha?
          — Se o pilha?... Ah, nem falar nisso é bom! Se o pilha, vira-se logo, toda em ossos e cai-lhe em riba, com tal fúria de pancadas, que o deixa morto!
          — E depois?
          — Depois, volta a alma para penitência, tendo perdido, por pancada que deu, vinte coroas de padre-nossos. Quando V.S.ª for amanhã é bom levar na sela do seu cavalo um galhinho de arruda, e, ao depois de rezar à cruz, vá sacudindo sempre até as mangueiras do Cancela, sem nunca parar com a reza que lhe ensinei!
          — Sim, sim, mas diga-me uma coisa: esse José do Eito não se chamava José Pedro da Silva?
          — Justo! V.S.ª o conheceu?
          — De nome.
          — Pois eu conheci, perfeitamente.
          E, a pedido de Raimundo, o portuguesinho descreveu o tipo de José, e contou o que sabia da vida dele. O rapaz escutava tudo com um interesse religioso; não queria perder uma só daquelas palavras; mas tinha, muitas vezes, que interromper o narrador, para lhe fazer perguntas, a que o outro respondia em parênteses rápidos.
          — Pois a D. Quitéria Santiago morreu pouco antes do marido; eu fui vê-la! e olhe V.S.ª que, de bonitona que era, ficou horrível. Estava mais roxa que uma berinjela!
          — Não tinha filhos?
          — Nunca os teve.
          — Nem o marido?... Sim... este podia ter algum filho natural...
          — Não, que eu saiba, não tinha.
          — Nem consta de alguma parenta, que vivesse na fazenda em companhia do José?...
          — Sei cá, mas...
          — Alguma irmã de D. Quitéria, ou talvez alguma amiga, hein? Veja se se lembra...
          — Qual o quê!... Viviam ao contrário muito sós! D. Quitéria a única parenta que tinha era a mãe; esta andava sempre de ponta com o genro e não saía da sua fazenda, que vem a ser aquela em que está hoje o Cancela – a fazenda do Barroso! É verdade! sabe quem pode informar bem estas coisas? é o Sr. Vigário! ele ainda vive na cidade; hoje é cônego. Pois era muito unha com carne do José do Eito.
          — O cônego Diogo?...
          — Justamente! Ele é que era o vigário desta freguesia. Ora quanto tempo já lá vai!...
          — Ah! O cônego Diogo era o vigário desta freguesia, e muito da casa das Santiagos?...
          — Sim senhor! E ele está aí, que conta a quem quiser ouvir as voltas que deu para desencantar São Brás! Coitado! nada conseguiu e quase que ia sendo vítima da sua boa vontade!
          — Ele também acreditava na feitiçaria?
          — Se acreditava! Pois se ele a viu, que o disse! E olhe V.S.ª que o cônego não é homem de mentiras! Afirmava que havia em São Brás uma alma danada, e não gostava até que lhe falassem muito nisso!... Proibia-o expressamente, sob pena de excomunhão! Se acreditava? É boa! Por que foi então que ele abandonou a paróquia, tendo aqui nascido, gozando da mais alta consideração e recebendo, como recebia, presentes e mais presentes de toda a freguesia?... Eram bois, carneiros, capados, muita criação. Ele está aí na cidade, que o diga!
          Raimundo caía de conjetura em conjetura.
          — Ele era então bastante amigo do José da Silva? o cônego?
          — Se era, coitado! Amigo e muito bom amigo!... Quando assassinaram o pobre homem, o senhor vigário nem quis espargir-lhe a água benta; mandou o sacristão! Não podia encarar com o corpo do José! E, veja V.S.ª , meteu-se em casa, e pouco nada apareceu, até que se retirou para sempre cá da vila! Todos nós sentimos deveras semelhante retirada; estávamos tão acostumados com ele!... Eu, nesse tempo, trabalhava nas terras do coronel Rosa; tinha os meus vinte anos e ainda estava solteiro; assisti a tudo, meu rico senhor! Lembra-me como se fosse ontem! A fazenda, essa foi logo abandonada; ninguém quis saber mais dela, pois, todas as noites, quem passasse por aí, ouvia gritos medonhos, de arrepiar o couro!
          — Mas, além do José e da mulher, quem mais morou nesse lugar?
          — Or’essa! a escravatura e o feitor.
          — Não. Digo senhores.
          — Ninguém mais.
          — Ah, é verdade! O José era feliz com a mulher? Viviam bem?...
          — Qual! Pois se lhe estou a dizer que aquelas terras são terras do diabo! Viviam que nem o cão com o gato! O cônego, ainda assim, era quem os acomodava, dando-lhes conselhos e pedindo a Deus por eles!
          E Raimundo perdia-se novamente em conjeturas. “Sempre sombras!... Sempre as mesmas dúvidas sobre o seu passado!...”
          A conversa afrouxou. O portuguesinho deitou-se, e depois de uns restos de palestra, vaga e bocejado, adormeceu. Raimundo sonhou toda a noite.
          Às quatro da madrugada estavam de pé, selados os cavalos, cheio o farnel para a viagem, e o guia montado.
          Partiram às cinco horas.
          Logo que os dois, e mais o guia, se acharam em caminho, Raimundo procurou entabular a mesma conversação que tivera na véspera com o roceiro; queria ver se conseguia arrancar de Manuel algum esclarecimento positivo sobre os seus antepassados. Nada obteve; as respostas do negociante eram, como sempre, que o sobrinho lhe tocava nisso, obscuras, difusas, entrecortadas de pausas e reticências. Manuel falou-lhe no cônego, na cunhada, no mano José, e em mais ninguém. A respeito da mãe de Raimundo – nem a mais ligeira referência. “Ora adeus!... Estou sempre na mesma!...” concluiu o moço de si para si e fez por pensar noutra coisa. O fato, porém, é que ele, apesar do seu temperamento de artista, não tinha uma frase para as belas paisagens que se desenrolavam diante de seus olhos. Ia cabisbaixo e preocupado.
          Jornadearam em silêncio horas e horas. De vez em quando, o guia, com o seu ar triste de sertanejo, levava-os a uma fazenda ou a um rancho, onde os três descansavam e comiam, para tornar logo a cavalgar por entre as melancólicas carnaubeiras e pindovais da estrada. Raimundo sentia-se aborrecido e impacientava-se pelo fim da viagem. Seu maior empenho era visitar São Brás; propôs até que se fosse lá primeiro, mas o negociante declarou que era impossível. “Não tinham tempo a perder!...”
          — Na volta, doutor, na volta, acrescentou, sairemos bem cedo e daremos um pulo até lá. Lembre-se de que nos esperam, e não seria razoável bater fora de hora em casa de uma família.
          O outro consentiu, praguejando entre dentes contrariado e cheio de tédio: “Que grandíssima estopada! O diabo da tal fazenda do inferno parecia fugir diante deles!...”
          — Não se rale, patrãozinho! É ali quase! disse compassadamente o guia, espichando o beiço inferior. Meta a espora no animal, que talvez chegaremos com dia!
          — Ah! suspirou Raimundo, desanimado por ver o Sol ainda alto e compreender que tinha de caminhar até à noite.
          E deixou-se cair numa prostração mofina, a fitar as orelhas do burro, que arfavam com a regularidade monótona das asas de um pássaro voando.
          — Cá está! exclamou Manuel, duas horas depois, chegando a um lugar mais sombrio do caminho.
          — Que é? ia perguntar o moço, quando deu por sua vez com uma cruz de madeira, muito tosca e arruinada. Ah!
          — Foi neste lugar assassinado o José!...
          Todos pararam, e o guia apeou-se e foi rezar de joelhos ao cruzeiro.
          — Reze pela alma de seu pai, meu amigo. Neste lugar foi ele varado por uma bala.
          — E o assassino? perguntou Raimundo depois de um silêncio.
          — Algum preto fugido!... até hoje nada se sabe ao certo... mas dizem que nisto andou unha política... outros atribuem o fato ao diabo. Bobagens! ...
          Raimundo apeou-se e indagou se o pai estava enterrado ali.
          Manuel, já de pé, respondeu que não. Enterrara-se no cemitério da fazenda, ao lado da mulher. Aquela cruz, explicou ele, era um antigo uso do sertão; servia para mostrar ao viajante o lugar onde fora alguém assassinado e fazê-lo rezar pela alma da vítima, como ali estava praticando aquele homem.
          E apontou para o guia, que, terminada a sua oração, levantou-se e foi colher um ramo de murta, que depôs aos pés da cruz.
          Raimundo sentia-se comovido. Manuel, de joelhos, cabeça baixa e chapéu pendurado das mãos postas, rezava convictamente. Ao terminar surpreendeu-se por saber que Raimundo não tencionava fazer o mesmo.
          — O quê? Pois então o senhor não reza?...
          — Não. Vamos?
          — Ora! essa cá me fica!... Então qual é a sua religião? Como adora o senhor a Deus?
          — Ora, senhor Manuel, deixemo-nos disso; conversemos sobre outra coisa...
          — Não! queria só que o senhor me dissesse como adora a Deus!
          — Deixe-se disso homem, deixe Deus em paz! Ora para que lhe havia de dar!...
          — Mas, nesse caso, o senhor não tem religião!
          — Tenho, tenho...
          — Pois não parece!... Pelo menos não devia fazer tão pouco caso das rezas, que nos foram ensinadas pelos apóstolos de Nosso Senhor Jesus Cristo!...
          Raimundo não pôde conter uma risada, e, como o outro se formalizara, acrescentou em tom sério “que não desdenhava da religião, que a julgava até indispensável como elemento regulador da sociedade. Afiançou que admirava a natureza e rendia-lhe o seu culto, procurando estudá-la e conhecê-la nas suas leis e nos seus fenômenos, acompanhando os homens de ciência nas suas investigações, fazendo, enfim, o possível para ser útil aos seus semelhantes, tendo sempre por base a honestidade dos próprios atos”.
          Montaram de novo e puseram-se a caminho. Uma cerrada conversa travou-se entre eles a respeito de crenças religiosas; Raimundo mostrava-se indulgente com o companheiro, mas aborrecia-se, intimamente revoltado por ter de aturá-lo. Da religião passaram a tratar de outras coisas, a que o moço ia respondendo por comprazer; afinal veio à baila a escravatura e Manuel tentou defendê-la; o outro perdeu a paciência, exaltou-se e apostrofou contra ela e contra os que a exerciam, com palavras tão duras e tão sinceras, que o negociante se calou, meio enfiado. Entretanto, o guia cavalgava na frente, distraído, cantando para matar o tempo:

          “Você diz que amor não dói
           No fundo do coração!...
           Queira bem e viva ausente...
           Me dirá se dói ou não!...”

          Caminharam meia hora em silêncio. O dia declinava, os primeiros sintomas da noite levantavam-se da terra, como um perfume negro; as aves refugiavam-se no seio embalsamado da floresta; a viração fresca da tarde eriçava os leques das palmeiras, enchendo os ares de um doce murmúrio voluptuoso.
          — Tenho palrado tanto, disse por fim Raimundo com certa perplexidade, e todavia não tratei do que mais me interessa...
          — Como assim?...
          — Lembra-se o senhor que, outro dia, pedi-lhe uma conferência em seu escritório, e, ou porque o meu amigo se esquecesse, ou porque mesmo não houvesse ocasião, o certo é que não chegamos a falar, e, no entanto, o assunto é de suma importância para ambos nós...
          — E o que vem a ser?
          — É um grande favor, que tenho a pedir-lhe...
          Manuel abaixou a cabeça, contrafazendo o embaraço em que se via.
          — Trata-se de alguma questão comercial?... perguntou.
          — Não senhor; trata-se de minha felicidade...
          — É a mão de minha filha que deseja pedir?
          — É...
          — Então... tenha a bondade de desistir do pedido...
          — Por quê?
          — Para poupar-me o desgosto de uma recusa...
          — Como?!...
          — É natural que o senhor se espante, concordo; dou-lhe toda a razão; está no seu direito! O senhor é um homem de bem, é inteligente, tem o seu saber, que ninguém lho tira, e virá sem dúvida a conquistar uma bonita posição, mas...
          — Mas... Mas, o quê?
          — Desculpe-me, se o ofende tal recusa de minha parte, mas creia, ainda mesmo que eu quisesse, não podia fazer-lhe a vontade...
          — Está já comprometida com outro, talvez... Bem! Nesse caso, esperarei... Resta-me ainda a esperança!...
          — Não é isso... E peço-lhe que não insista.
          — Não quer separar-se da menina?
          — Oh! O senhor martiriza-me!...
          — Também não é?... Então que diabo! Terei, sem saber alguma, dívida de meu pai, que haja de rebentar por aí, como uma bomba?...
          — Que lembrança! Se assim fosse eu seria um criminoso em não o ter nunca prevenido. O que o senhor possui está limpo e seguro! Presto contas quando quiser!...
          — Ah! já sei... tomou Raimundo com um vislumbre, rindo. Não quer dar sua filha a um homem de idéias tão revolucionárias?...
          — Não! não é isso! E fiquemos aqui! Sei que o senhor tem direito a uma explicação, mas acredite que, apesar da minha boa vontade, não a possa dar...
          — Ora esta! Mas então por que é?...
          — Não posso dizer nada, repito! E peço-lhe de novo que não insista... Esta posição é para mim um sacrifício penoso, creia!
          — De sorte que o senhor me recusa a mão de sua filha?... Definitivamente?!
          — Sinto muito, porém... definitivamente...
          Calaram-se ambos, e não trocaram mais palavra até à fazenda do Cancela.


11

          Quando chegaram ao portão da fazenda, já a Lua resplandecia, desenhando ao longo da eira a sombra espichada de enormes macajubeiras sussurrantes. Fazia um tempo magnífico, seco, fresco, transparente; podia ler-se ao luar.
          O guia sacudiu com vigor a campainha e gritou:
          — Ó de casa!
          Seguiu-se uma algazarra de cães. Veio abrir um preto, munido de um tição, que trazia sempre em movimento, para conservá-lo aceso.
          — Boa noite, tio velho! disse Manuel.
          — D’es-b’a-noite, branco! respondeu o negro.
          E, segurando a brida do cavalo, conduziu com este o cavaleiro até a casa.
          Raimundo e o guia seguiram atrás. De longe, avistaram logo uma parede rebocada, disforme, que ao luar se afigurava um lago entre árvores. Mais perto, o lago se transformou num sobrado e os viajantes descobriram uma porta, em cujo esvazamento se desenhara o vulto varonil do Cancela, que detinha dois formidáveis rafeiros.
          — Ora viva! gritou o dono da casa. E, voltando-se para os cães, que insistiam em ladrar: Safa, Rompe-Nuvens! Arreda, Quebra-Ferros!
          Os cães rosnaram amigavelmente, e o fazendeiro, com sua voz forte, de pulmões enxutos, gritou para Manuel:
          — Então sempre veio!.. Pois olhe, cuidei que desta vez fizesse como das outras!... Enfim, como vai essa católica?
          — Assim, assim, um pouco moído da viagem... disse Manuel, entregando o cavalo ao preto e apertando a mão do Cancela. Como lhe vão cá os seus?
          — Bons, louvado Deus. Ainda estão na Ave-Maria, mas não devem tardar.
          Efetivamente, vinha do interior da casa um coro abafado de vozes, que rezava cantando.
          Raimundo aproximou-se, depois de apear.
          — Este é o Mundico de que lhe falei! declarou Manuel, empurrando o sobrinho para a frente.
          O rapaz espantou-se com a rústica apresentação, e muito mais, quando o roceiro, em vez de cumprimentá-lo, pôs as mãos nas cadeiras e começou a passar-lhe uma revista de cima a baixo, como quem examina uma criança.
          — Com os diabos! exclamou, soltando uma risada. Você e seu compadre falaram-me em um menino!...
          — Há doze anos!
          — Olha o demo! Pois, seu Mundiquinho, aperte esta mão, que é de um antigo amigo de seu pai, e não repare se não encontrar por aqui o bom trato da cidade! Isto cá sempre é roça! mas vá como o outro, que diz: “Mais vai pouca de bom coração, que muito de sovina!...”
          E conduziu os hóspedes à varanda, menos o guia, que se tinha aboletado já pelos ranchos dos pretos.
          — Homem! vocês vão se assentando nessas redes! Ó Pedro! vê cachimbos! Traze a cana e o café. Ou querem antes vinho?
          — Qualquer coisa serve.
          — Temos aqui conhaque! ofereceu Raimundo, apresentando um frasco que trazia a tiracolo.
          — Pode fartar-se com ele! desdenhou Cancela. É coisinha que não me entra cá no bico!
          Encheram-se três copinhos de cana-capim.
          — Vá lá à nossa! E venham despir-se para cear!
          E conduziu-os a um quarto, destinado exclusivamente a hóspedes.
          A casa compreendia a antiga fazenda Barroso, onde noutro tempo morou e morreu a sogra de José da Silva, e uma parte nova, feita de pedra e cal, cujo cuidado de construção revelava a prosperidade do rendeiro.
          A “casa nova”, como chamavam a última parte, compunha-se de um grande avarandado, no qual, fazendo as vezes de cadeiras, viam-se redes armadas em todos os cantos. No centro, que é o lugar de honra nas fazendas do Maranhão, havia um quarto espaçoso e arejado, e o mais eram paredes sem pintura e tetos sem forro, potes de barro vermelho, vassouras de carnaúba encostadas por aqui e por ali, selins estendidos no parapeito da varanda; a respeito de mobília, nada mais do que uma mesa tosca e bancos compridos de pau. O paiol da farinha era por baixo do sobrado, onde se encontravam enormes baús, forrados de couro, com umas setenta redes destinadas aos hóspedes. A adega ao lado do paiol. De fora ouvia-se o grunhir preguiçoso dos porcos no chiqueiro, e do fundo do quintal, soprado pelos ventos da noite, vinha um cheiro bom de jasmins de Caiana, lírios do Peru, resedás e manjeronas.
          Quando os três voltaram do quarto, já a filha e a mulher do fazendeiro tinham vindo da reza. Manuel apareceu enfronhado comodamente num paletó de brim pardo e num par de tamancos. Raimundo não mudara de roupa, apenas banhara o rosto e as mãos e penteara os cabelos. A mulher do Cancela punha a mesa para a ceia; a filha correra a esconder-se no quarto, espiando as visitas por detrás da porta, com vergonha de aparecer.
          — Anda pra cá, Angelina! gritou o roceiro. Pareces um bicho do mato! Nunca viste gente, rapariga?!
          Foi ter com ela e obrigou-a a sair do esconderijo.
          — Ora vamos! Fala direito! Não estejas a esconder o rosto, que não tens de que o esconder!... Vamos!
          Angelina apareceu, com muito acanhamento, e foi cumprimentada.
          — Então! ralhou o pai. É com a cabeça que se responde?... Ah, que estás cada vez mais matuta!... Que mal te fez este pobre cabeção para o maltratares desse modo?... Olha que o rompes, estonteada!
          Angelina, muito contrafeita, abaixara o seu rosto moreno, agora mais corado sob o frouxo do riso da encalistração que a dominava.
          — Então, de que tanto ris, sua feiosa?...
          Esta última palavra era uma injustiça que o Cancela fazia à filha; Raimundo, ao apertar-lhe a mão, desenvolta e maltratada, compreendeu logo que estava defronte de uma bonita e toleirona sertaneja, inocente e forte como um animal do campo. Era mulher de dezoito anos; mulher, porque tinha já o corpo em plena formatura – ombros fartos, colo cheio e braços desenvolvidos no trabalho ao ar livre: “Boa mulher para procriar!...” pensou ele.
          — Isto que você está vendo aqui, meu amigo, é uma sonsa!... disse o Cancela, satisfeito com o ar lisonjeiro de Raimundo. Capaz é ela de virar esta casa de pernas pro ar! e parece que não quebra um prato! Olhe se a tonta já me tomou a bênção depois da reza!... Parece que empanemou com as visitas!... Anda daí, bicho brabo!
          A rapariga foi beijar-lhe a mão, e ele ferrou-lhe depois uma palmada na rija almofada do quadril. -Esta disfarçada! Vá lá! Deus te faça branca!
          Por esse tempo, Manuel conversava com a esposa do Cancela; brasileira pequenina, socada, cheia de vida, dentes magníficos, morena e de cabelos crespos. Respirava de toda ela um ar modesto de quem gosta de fazer o bem; estava sempre à procura de alguma coisa para arrumar, muito ativa, muito asseada e muito trabalhadeira. Na cozinha dava sota e ás à mais pintada; sabia lavar como ninguém e assistia à roça dos pretos sem cair doente. “Era p’r’um tudo!” diziam dela os escravos. Chamava-se Josefa, e só fora duas vezes à cidade.
          — Então! reclamou o fazendeiro, vem ou não vem essa merenda?... olhem que os homens devem trazer o estômago na espinha, e eu não lhes quero dar trela sem havermos manducado!
          A mulher ouviu o fim da reclamação já na cozinha.
          — Por que não despiu você essas tafularias? perguntou o dono da casa a Raimundo. Por cá ninguém olha para elas! Se quer, ponha-se a gosto!
          — Obrigado, bem sei, estou à vontade.
          E conversavam, enquanto Angelina punha a mesa. Cancela sentia-se satisfeito, loquaz; gostava de dar à língua e, quando pilhava hóspedes que o aturassem, ninguém podia com a vida dele.
          Entretanto, Josefa trazia já as iguarias e os homens dispunham-se a comer com apetite. À luz de um antigo candeeiro de querosene, reverberava uma toalha de linho claro, onde a louça reluzia escaldada de fresco; as garrafas brancas, cheias de vinho de caju, espalhavam em torno de si reflexos de ouro; uma torta de camarões estalava sua crosta de ovos; um frangão assado tinha a imobilidade resignada de um paciente; uma cuia de farinha seca simetrizava com outra de farinha d’água; no centro, o travessão do arroz, solto, alvo, erguia-se em pirâmide, enchendo o ar com o seu vapor cheiroso.
          Sentia-se a gente bem ali, com aquele asseio e com aquela franqueza rude do Cancela.
          — Olé! gritou este, destapando uma fumegante terrina de mundubés e fidalgos, temos peixe de escabeche?! Bravo! – E passando a examinar o que mais havia: – Bravo, bravo! moquecas de sururu! Peixe moqueado! Olhem que este não é do rio e por isso não se pilha por cá todos os dias! Tem escamas, seu Manuel!
          E enchiam-se os pratos.
          — Famoso! está famoso! repetia, levando à boca grandes colheradas.
          — Então as senhoras não nos fazem companhia?... disse Raimundo, voltando-se para as duas.
          — Qual! apressou-se o fazendeiro a responder. Não estão acostumadas com pessoas de fora... Deixe-as lá! deixe-as lá, que ao depois se arranjarão mais à vontade! Olhe, ali a minha Eva diz que não aprecia o seu peixinho, senão comido com a mão. Coisas de mulher! Deixe-as lá!
          Contudo, Josefa veio presidir à mesa, ao lado do marido, e informava-se do êxito dos seus quitutes.
          — Não os deixe sem provarem daquela torta de sururus, que está de encher o papo!
          — Lá chegaremos! lá chegaremos! Vai apanhar mais pimentas!
          — Ó amigo, entorne, sem receio! Não tenha medo que o vinhito é fraco! – Seu Manuel! seu Mundico! topemos à memória do velho amigo José da Silva!
          Os três beberam, e Cancela, depois de pousar o copo vazio, acrescentou com respeito, limpando a boca nas costas da mão:
          — Foi um meu segundo pai!... Quando arribei por estas terras, no tempo da minha defunta patroa, D. Úrsula Santiago, não tinha de meu mais do que saúde, força e boa vontade! Pois o José que então namoriscava a filha da patroa, a D. Quiterinha, meteu-me aqui, como feitor, e disse-me: “Olha lá, rapaz! encosta-te por aí, que, se souberes levar o gênio da velha e mais o do vigário, podes até fazer fortuna! Ela tem lá uma afilhada de muita estimação, bem prendada e de boa cabeça!...” Vou eu – fico a servir na casa e, graças a Deus, sempre mereci a confiança de D. Úrsula. De noite vinha para a varanda conversar com ela junto com a minha Josefa, que nesse tempo era uma tetéia que se podia ver! O certo é que, ao fim de dois anos, casava-nos o senhor padre Diogo e, em boa hora o diga! tenho sido feliz, louvado o Santíssimo! – Comeu e prosseguiu: – Já fiz esta casa em que estamos ceando, levantei o engenho, meti braços na roça, plantei algodão, que aqui não havia, e tenciono, se Deus quiser, fazer no seguinte ano muitas outras benfeitorias!
          — Eles já quererão o café?... perguntou Josefa, comovida com a narração do marido.
          Depois do café, serviram-se de restilo de ananás e acenderam-se os cachimbos de cabeça de barro preto e taquari de três palmos. Gasta meia hora de palestra, Manuel queixou-se de que já não era homem para grandes façanhas e precisava descansar o corpo.
          — Pois fica o resto para amanhã! Pedro!
          — Meu senhor!
          — Leva essa gente para a casa dos hóspedes e mostra-lhe o quarto que tua senhora preparou.
          — Já ouvi, sim senhor.
          — Então, muito boa noite!
          — Até amanhã!
          Manuel e Raimundo instalaram-se num quarto da casa velha, outrora morada da sogra de José da Silva; esta parte, ao contrário da outra era um sobrado silencioso e triste, que só respirava abandono e decrepitude.
          Em breve o negociante ressonava; ao passo que o rapaz, estendido numa rede, olhava pela janela o céu afogado em luar, passando mentalmente revista ao que fizera durante o dia. Os acontecimentos desfilaram no seu espírito em uma procissão vertiginosa e extravagante: vinha na frente o pedido da mão de Ana Rosa de braço dado à recusa; logo atrás o portuguesinho da vila passava cantando, com um galho de arruda na mão:

           Por São Brás!
           Por São Jesus!
           Passo aqui
           Sem levar cruz!

          E seguia-se uma infinidade de imagens fantásticas: o pássaro negro cantando a finados, a feiticeira que se transformava em ossos; e seguia-se o cônego Diogo, remoçado, cercando de desvelos a sogra de José da Silva, formada imaginariamente pelo tipo de Maria Bárbara.
          E Raimundo, sem poder conciliar o sono, demorava-se até a pensar em coisas de todo indiferentes: o guia, preguiçoso e tristonho, a cantar no seu falsete de mulher; uma fazenda que encontraram, em que havia um homem muito gordo e idiota; as ruínas de uma casa, que de longe lhe pareceu à primeira vista uma fortaleza bombardeada, e assim, mil outros assuntos vagos e sem interesse, vinham-lhe à memória com insistência aborrecida. Afinal, chegou a vontade de dormir; mas a recusa de Manuel! apresentou-se de novo e a vontade fugiu espantada. “Por que seria que aquele homem negou tão formalmente a mão da filha?... Ora! com certeza por qualquer tolice, e nem valia a pena preocupar-se com semelhante futilidade! Amanhã! amanhã! calculava ele, saberia tudo!. . E tinha até vontade de rir pelo ar grave com que o tio lhe respondera. Ora! no fim de contas não passava de alguma criancice do Manuel!... Ou, quem sabia lá? alguma intriga!... Sim! Bem podia ser!... No Maranhão o espírito de bisbilhotice ia muito longe! E não havia de ser outra coisa! Uma intriga! Mas que intriga? Ah! ele descobriria tudo! olá! Ficaria tudo em pratos limpos. Nada de desanimar!...” E, sem saber por quê, reconhecia-se muito mais empenhado naquele casamento; desejava-o muito mais depois da resistência oposta ao seu pe­dido; a recusa de Manuel vinha dar-lhe a medida do verdadeiro apreço em que tinha Ana Rosa. Até ali julgava que aquele casamento dependia dele somente, e preparava-se frio, sem entusiasmo, quase fazendo sacrifício; e agora, depois do insucesso do seu pedido, eis que o desejava com ardor. Aquela recusa inesperada era para Ana Rosa o que um fundo negro é para uma estátua de mármore, fazia destacar melhor a harmonia das linhas, a alvura da pedra e a perfeição do contorno. E Raimundo procurando medir a extensão do seu amor por ela, topava de surpresa em surpresa, de sobressalto em sobressalto, pasmado do que descobria em si mesmo, espantando-se com os próprios raciocínios, como se foram apresentados por um estranho, chegando às vezes a não compreendê-los bem e fugindo de esmerilhá-los, com medo de concluir que estava deveras apaixonado. Nesta duplicidade de sentimentos, seu espírito passeava-lhe no cérebro às apalpadelas, como quem anda às escuras num quarto alheio e desconhecido.
          — E que tal?... monologava. Não é que estou há duas horas a pensar nisto?...
          E não podia convencer-se de que ligava tão séria importância àquele casamento, procurando até capacitar-se de que tentara realizá-lo por uma espécie de compassiva indulgência para com Ana Rosa; entretanto, revolucionava-se todo só com a idéia de não levá-lo a efeito. “Ora adeus! também não morreria de desgosto por isso!... Não faltavam bons partidos para fazer família!... o caso era dispor-se a procurar noiva!... Sim, nem lhe ficava bem insistir no projeto de casar com a prima!... No fim de contas, aquela recusa grosseira, seca, o ofendia!... decerto que o ofendia!... Não! não devia pensar, nem por sombras, em semelhante asneira!... definitivamente não casaria com Ana Rosa!... Com qualquer, menos com ela! Nada! Como não, se aquilo já era uma questão de brios?...” Mas, com este propósito, voltava-lhe, de um modo mais claro e positivo, uma grande admiração pelos encantos da rapariga, e um surdo pesar dissimulado, um desgosto hipócrita, de não poder possuí-la.
          Manuel, a poucos passos, roncava com insistência incômoda; Raimundo, depois de virar-se muitas vezes na rede, ergueu-se fatigado, acendeu um charuto e saiu para a varanda. Um morcego, na curva do vôo, roçou-lhe, com a ponta da asa, pelo rosto.
          O luar entrava sem obstáculo até à porta do quarto e estendia no chão uma luz branca. Raimundo encostou-se ao parapeito da varanda e ficou a percorrer com o olhar cansado a funda paisagem que se esbatia nas meias-tintas do horizonte, como um desenho a pastel. O silêncio era completo; de repente, porém, a uma nota harmoniosa de contralto sucederam-se outras, prolongadas e tristes, terminando em gemidos.
          O rapaz impressionou-se; o canto parecia vir de uma árvore fronteira à casa. Dir-se-ia uma voz de mulher e tinha uma melodia esquisita e monótona.
          Era o canto da mãe-da-lua. O pássaro levantou vôo, e Raimundo o viu então perfeitamente, de asas brancas abertas, a distanciar seus gorjeios pelo espaço. Considerou de si para si que os sertanejos tinham toda a razão nos seus medos legendários e nas suas crenças fabulosas. Ele, se ouvisse aquilo em São Brás lembrar-se-ia logo, com certeza, do tal pássaro que canta a finados. “Segundo a indicação do guia, continuava a pensar, a tapera amaldiçoada ficava justamente para o lado que tomara a mãe-da-lua. Devia ser naquelas baixas, que dali se viam. Não podia ser muito longe, e ele seria capaz de ir lá sozinho...” Veio distraí-lo destas considerações um frouxo vozear misterioso, que lhe chegava aos ouvidos de um modo mal balbuciado e quase indistinguível. Prestou toda a atenção e convenceu-se de que alguém conversava ou monologava em voz baixa por ali perto. Quedou-se imóvel a escutar. “Não havia dúvida! Desta vez ouvira distintamente! Chegara a apanhar uma ou outra palavra! Mas, onde diabo seria aquilo?...”
          Foi ao quarto de Manuel, o bom homem dormia como uma criança; agora assoviava em vez de ressonar. Atravessou pé ante pé a varanda inteira – nada descobriu; voltou pelo lado oposto ao luar – ainda nada! “Seria lá embaixo?...” Desceu, mas deixou de ouvir o sussurro. “Ora esta!... A coisa era lá mesmo em cima!... Mas em cima não havia outros hóspedes, além dele e Manuel, dissera-lhe o Cancela!...” Tornou a subir, mas desta vez pela escada do fundo. “Oh! agora a coisa estava mais clara.” Raimundo ouviu frases inteiras, e queixas, lamentações, palavras soltas, ora de revolta, ora de ternura. “Era de enlouquecer!... Quem diabo estaria ali falando?...”
          — Quem está aí?! gritou ele, no último lance da varanda, com a voz um pouco alterada.
          Ninguém respondeu, e o murmúrio misterioso calou-se logo. Raimundo esperava todavia, possuído já de certa impaciência nervosa e com o ouvido ainda impressionado do estranho efeito da sua própria voz a perguntar no silêncio: “Quem está aí?” Decorreu um espaço que lhe pareceu infinito, e afinal reapareceu o vozear, agora porém muito mais afastado, vindo do lado contrário ao lado em que ele estava. Encaminhou-se, tão em silêncio lhe foi possível, na direção da voz misteriosa, e notou satisfeito que esta ia gradualmente se alteando.
          — Oh! fez Raimundo consigo, maravilhado. Tinha ouvido bem claro o seu nome, e o de seu pai “José do Eito”. Redobrou de atenção. “Estaria sonhando? Aquela voz infernal falava dubiamente de São Brás, do padre Diogo, de D. Quitéria e outras pessoas que ele não sabia quem eram. Com certeza ia ouvir alguma coisa a respeito de – sua mãe! – Seria a primeira vez! Oh! já não era sem tempo!...” Reprimiu a respiração; fez-se todo ouvidos; estava trêmulo, frio, nunca sentira comoção tamanha.
          Mas a voz falou, falou, referindo-se aos acontecimentos maiores de São Brás, fazendo revelações, citando, um por um, todos os personagens, menos a mãe de Raimundo. Este, na treva, com o coração oprimido, estendia a cabeça, arregalava os olhos, arfando-lhe o peito. Nada. “Que desespero!” Mas a voz prosseguia, e ele escutava. De súbito, porém, calou-se tudo e nada mais se ouviu que o piar longínquo das aves noturnas.
          Raimundo esperou, estático e sôfrego, dois minutos, quatro, cinco. Foi inútil-a voz não reapareceu. “De sua mãe – nem uma palavra!... Maldita conspiração!...” No fim de meia hora percorreu de novo a varanda; não sabia que julgar daquilo, nem o que devia fazer, mas jurava descobrir tudo. “Oh! quem quer que falara estava perfeitamente a par da história de São Brás e havia de saber alguma coisa de sua vida!...” Foi à alcova, tomou o candeeiro, deu-lhe luz, percorreu os vários lados da varanda, entrou nos aposentos abertos, desceu, andou lá por baixo, às tontas, porque estava tudo atravancado de coisas, tornou a subir, sem conseguir nada, e, aborrecido, frenético, tornou ao seu quarto, diminuiu a luz e deitou-se, sem descalçar as botas.
          Não fechara a porta, de propósito; estava alerta, ao primeiro rumor saltaria. Contudo cerrou as pálpebras; a fadiga da viagem pedia repouso; já era quase madrugada. Ia adormecer.
          Mas, um leve e surdo ruído despertara-o. Raimundo encolheu-se na rede e insensivelmente se lembrou do revólver que tinha a seu lado; na porta desenhava-se, contra a claridade exterior, a mais esquálida, andrajosa e esquelética figura de mulher, que é possível imaginar. Era uma preta alta, cadavérica, tragicamente feia, com os movimentos demorados e sinistros, os olhos cavos, os dentes escarnados.
          O rapaz, apesar da sua presença de espírito, teve um forte sobressalto de nervos; todavia, não se mexeu, na esperança de ouvir ainda alguma revelação; o espectro porém, olhou em torno de si, viu-o, sorriu, e tornou a sair silenciosamente.
          Raimundo levantou-se de um pulo e precipitou-se atrás dele que fugiu na sua frente, como uma sombra. Atravessaram o primeiro lance da varanda, o segundo e o terceiro.
          — Espera! Espera! gritou o moço, fora de si. Espera, ou eu te mato, diabo!
          O fantasma desapareceu pela porta do fundo, Raimundo acompanhou-o com dificuldade e, ao chegar lá embaixo, avistou-o já no pátio, a fugir-lhe sempre. O rapaz tinha contra si não conhecer o terreno; foi às apalpadelas e aos encontrões que conseguira atravessar a parte inferior da casa. Lá fora havia já perdido de vista a sombra fugitiva; olhou em torno de si, caminhou à toa, de um para outro lado, nervoso, irrequieto, voltando-se rápido ao menor mexer de galhos. Afinal, auxiliado pela Lua, divisou em distância o vulto sinistro, que se afastava, prestes a sumir-se nas meias-tintas da noite. Então, abriu contra ele numa vertiginosa carreira de boas pernas; mas o vulto embrenhando-se no mato, desapareceu totalmente.
          Entretanto, os primeiros sintomas do dia avermelhavam o horizonte e nos ranchos erguia-se já a escravatura para o trabalho das roças. As poucas horas em que Raimundo encostou a cabeça, para descansar um bocado, foram cheias de sonho.
          Ao levantar-se pelas sete da manhã, sentia-se aborrecido e quase em dúvida se sonhara toda a noite ou se, com efeito, vira e ouvira o singular espectro. Todavia, ao almoço conversou-se largamente sobre o fato, e o Cancela explicou que o fantasma devia ser alguma dessas muitas pretas velhas, agregadas aos ranchos das fazendas e que naturalmente estava bêbeda. E contou que, nas noites de – tambor – elas costumavam dormir por ali, no primeiro rancho encontrado em caminho. Ali mesmo havia sempre uma súcia dessas pestes; apareciam e desapareciam, sem ninguém lhes perguntar donde vinham, nem para onde iam.
          — São escravas fugidas? indagou Raimundo.
          O Cancela respondeu que não. Os mocambeiros formavam grupo à parte; nunca apareciam publicamente, viviam escondidos nos seus quilombos e só se mostravam na estrada real para atacar os viajantes. Os agregados eram pretos forros, forros em geral com a morte de seus senhores, e que habituados desde pequenos ao cativeiro não tendo já quem os obrigasse a trabalhar e não querendo sair do sertão, ficavam por aí ao Deus dará, pedinchando pelas fazendas um bocado de arroz para matar a fome, e um pedaço de chão coberto para dormir. Simples vagabundos, que não faziam mal a ninguém.
          — Olhe, continuou ele, de São Brás tínhamos aqui a princípio três que andavam p’r’aí sem fazer nada. Dois morreram e eu enterrei-os, o terceiro não sei se ainda existe, é uma preta idiota. Talvez a que o senhor doutor viu esta noite.
          E, como Raimundo pedisse mais informações, acrescentou que ela às vezes passava meses inteiros na fazenda; os pretos gostavam de ouvi-la cantar e vê-la dançar. Doida varrida! estava sempre resmungando consigo; mas que, de tempos àquela parte, não aparecia, e era bem possível que a pobre-diaba tivesse já esticado a canela aí pelo mato.
          Falou-se também na mãe-da-lua. Cancela contou velhas anedotas dos estrangeiros que se perderam nas matas, seguindo o canto original daquele pássaro. Depois trataram de interesses; e fechou-se o negócio da fazenda – Raimundo estava por tudo, contanto que lhe não demorassem a partida – ardia de impaciência por visitar São Brás.
          Não obstante, o Cancela instava com os dois hóspedes para que se demorassem uma semana, ou, pelo menos, alguns dias.
          Manuel disparatou: Que loucura! Pois ele podia lá passar dias longe do seu armazém?...
          Então que partissem pela manhã seguinte.
          Nada! Havia de ser naquela mesma noite! Para que diabo agüentar sol pelo caminho, quando tinham um luar, que nem dia?...
          O jantar demorava-se e Raimundo mal podia conter a sua contrariedade. Só às três horas da tarde conseguiram levantar acampamento.
          — Leve-nos a São Brás, disse ele ao guia, logo que se acharam fora do portão da fazenda.
          — A São Brás? Deus me livre!
          E o caboclo, depois de benzer-se, perguntou para que diabo iam a São Brás.
          — Ora essa! Não é de sua conta! Leve-nos!
          — A São Brás não vou!
          — Essa é melhor! Não vai! Então que veio você fazer conosco senão guiar-nos?
          — Sim senhor, mas é que a São Brás não vou, nem amarrado!
          — Vá para o inferno! Iremos nós! Ó se’or Manuel, o senhor não sabe o caminho?
          — Verdade, verdade, o homem não deixa de ter sua razão!... No fim de contas que diacho ai fazer o amigo àquela tapera?...
          — É boa! Ver o lugar em que nasci!...
          — Tem razão, mas...
          — Se não quiser ir, vou só!
          — Mas o senhor sabe que...
          — Contam bruxarias do lugar, e há quem acredite nelas... Faço-lhe, porém, a justiça de não supô-lo desses...
          Os cavalos ganhavam a Estrada Real.
          — Homem, disse Manuel, lá saber o caminho, eu sei, e o guia, se não quisesse vir, poderia esperar-nos ao pé da cruz, mas... confesso-lhe: tenho meu receio dos mocambeiros... além disso... quem, como eu, ouviu as últimas palavras de meu irmão...
          — De meu pai?! exclamou Raimundo vivamente. Oh! Conte-me isso!
          — O senhor há de rir-se... São coisas que parecem asneira... Hoje, os moços não acreditam em nada! Mas é que certas palavras, ouvidas da boca de quem vai morrer... mexem com a gente... não acha? fazem um homem ficar assim meio aquele! Olhe, meu amigo, eu digo-lhe aqui entre nós, e o senhor não se mace, seu pai não teve a vidinha lá muito sossegada, não! Depois que casou, não se dava com pessoa alguma, e nem a própria sogra queria saber dele... vivia como que abandonado! Eu era nesse tempo principiante no comércio e quase que não podia arredar pé do trabalho, contudo aqui vim três vezes; porém creia que não gostava de cá vir!... Era uma tal tristeza!... Doía-me de ver o José tão desprezado, tão triste, que parecia estar a cumprir uma sentença! Viajante nenhum aceitava o pouso em São Brás; preferiam dormir ao relento e às cobras! Contavam que alta noite ouviam-se constantemente gritos horríveis na fazenda, pancadas por espaço de muitas horas, correntes arrastadas; os escravos morriam sem saber de quê! Enfim, o cônego Diogo, que era o vigário desta freguesia, confessa que nunca lhe soube dar volta! E olhe, coitado! meteu-se-lhe em cabeça abençoar e proteger São Brás, e quase ia sendo vítima da sua dedicação! até ficou assim a modo de aluado! E, foi tão perseguido por cá, que o pobre homem viu-se obrigado a abandonar a paróquia! Ainda hoje, quando lhe toco nisso, benze-se todo! Pois pode crer o senhor que ele era o mais íntimo amigo de meu irmão e o único talvez que ultimamente lhe freqüentava a casa; entretanto, compreenda-se lá seu pai, já por último, não o queria ver nem pintado! e, nos delírios das suas febres, estava sempre a ver fantasmas e a gritar como um doido que queria dar cabo do padre! “Quero matar o padre! – Tragam-me o padre! – O padre é que é o culpado de tudo!” Este fulano padre era o cônego! Eu não quis nunca falar nestas coisas ao compadre, porque, cismático como é, podia agastar-se comigo!...
          E, depois de uma pausa:
          — Ora, já vê o meu amigo que, apesar de não acreditar em almas do outro mundo, tenho as minhas razões para...
          Raimundo procurava disfarçar a preocupação em que o punham as palavras de Manuel, e declarou que, se este não estava disposto a ir a São Brás, que se ficasse com o guia, ele iria só.
          — Mas saiba, disse, que ao caboclo perdôo o medo, porque enfim não está na altura de certas verdades, mas ao senhor...
          — Eu não tenho medo de coisa alguma, já disse!... Mas é que...
          — Receia sempre que o diabo lhe saia ao encontro, compreendo!
          E o rapaz fingiu uma gargalhada, para intimidar o companheiro.
          — Não, mas é que...
          — Ora deixe-se de histórias! O senhor não me parece um homem!...
          Manuel cedeu afinal, e os dois tomaram a direção da tapera.
          Fizeram em silêncio todo o caminho; Raimundo por muito comovido e Manuel por amedrontado.
          Instintivamente, pararam em respeitável distância.
          — Creio que chegamos! arriscou o moço.
          E, avançando alguns passos, disse ao outro:
          — Lá está ela!
          — Ó de casa! gritou Manuel.
          Só o eco respondeu.
          Adiantaram-se mais e Raimundo gritou por sua vez, com o mesmo resultado.
          — Ande, senhor Manuel! Estamos a quixotear... Aqui não há viva alma!...
          Mais alguns passos e estavam defronte da tapera.
          Eram os restos de uma casa térrea, sem reboque e cujo madeiramento de lei resistira ao seu completo abandono.
          Ia anoitecer. O Sol naufragava, soçobrando num oceano de fogo e sangue; o céu reverberava como a cúpula de uma fornalha; o campo parecia incendiado.
          Como era preciso aproveitar o dia, os dois viajantes apearam-se logo, cada qual prendeu o seu cavalo, e introduziram-se na varanda da casa por uma brecha que cortava de alto a baixo o primeiro pano de parede. Essa parte estava completamente arruinada e cheia de mato; os camaleões, as osgas e as mucuras fugiam espantados pelos pés de Raimundo, que ia galgando moitas de urtiga e capim-bravo.
          Lá dentro a tapera tinha um duro aspecto nauseabundo. Longas teias de aranha pendiam tristemente em todas as direções, como cortina de crepe esfacelado; a água da chuva, tingida de terra vermelha, deixara, pelas paredes, compridas lágrimas sangrentas que serpeavam entre ninhos de cobras e lagartos; a um canto descobria-se no chão ladrilhado um abominável instrumento de suplício, era um tronco de madeira preta, e os seus buracos redondos, que serviam para prender as pernas, os braços ou o pescoço dos escravos, mostravam ainda sinistras manchas arroxeadas.
          Os dois seguiram adiante, penetrando o interior da casa. Ao transporem cada porta fugia na frente deles uma nuvem negra de morcegos e andorinhas. O solo, empastado de excremento de pássaros e répteis era pegajoso e úmido; o telhado abria em vários pontos, chorando uma luz morna e triste; respirava-se uma atmosfera de calabouço. De um charco vizinho à casa palpitava, monótono como um relógio, o rouquenho coaxar das rãs. Os anuns passavam de uma para outra árvore, cortando o silêncio da tarde, com os seus gemidos prolongados e agudíssimos; do fundo tenebroso da floresta vinham de espaço a espaço o gargalhar das raposas e os gritos sensuais dos macacos e sagüis. Era já o concerto da noite.
          Manuel, um tanto comovido, contemplava demoradamente as ruínas que o cercavam, procurando descobrir naqueles restos mudos e emporcalhados, a antiga residência de seu irmão. Nada lhe trazia à lembrança uma nota ainda viva do passado.
          — Vejamos agora por aqui... disse ele, passando, seguido pelo sobrinho, a um quarto, cujas janelas tinham as folhas despregadas e prestes a desabar. Era este o quarto de José...
          E pôs-se a meditar.
          Raimundo olhava para tudo com uma grande tristeza, infinita, sem bordas, mas fechada que nem um horizonte de névoas. “Como seria seu pai?...” pensava ele, sem uma palavra, como seria esse bom homem, que nunca se descuidara da educação do pobre Raimundo?... Quantas vezes, naquele quarto, talvez junto a uma daquelas janelas, olhando para a quinta, não pensaria o infeliz no querido filho, que tinha tão longe dos seus afagos?... E sua mãe?... Sua pobre mãe desconhecida, estaria ali, ao lado dele, ou, quem o sabia? escondida, envergonhada, a chorar as faltas em algum desterro humilhante?...
          — Aqui, disse Manuel, batendo no ombro do companheiro, nasceu o senhor, meu amigo, e viveu os seus primeiros anos...
          Raimundo sentia um desejo doido de perguntar pela mãe, mas não se achava com ânimo; temia agora uma inesperada decepção, uma agonia inédita, que o esmagasse de todo; receava alguma verdade implacável e fria, rija, de aço, que o atravessasse de lado a lado, como uma espada. Até ali, ninguém lhe falara nela. “É que, sem dúvida, havia em tudo aquilo um segredo de família, alguma paixão vergonhosa, uma falta horrível, talvez um crime abominável, que ninguém ousava revelar! E, no entanto, Raimundo tinha plena certeza de que aquele homem, que ali estava em sua presença, ao alcance de suas palavras, sabia de tudo e poderia, se quisesse, arrancá-lo para sempre daquela maldita incerteza!.. Quem seria ela?... essa estranha mãe misteriosa, por quem ele sentia um amor desnorteado?... Alguma senhora, bonita sem dúvida, porque causava crimes; criminosa ela própria, por amor, a inspirar loucuras a seu pai, a acender-lhe uma paixão fatal e romanesca, cheia de sobressaltos e de remorsos! E desse amor secreto e criminoso, desse adultério, que sem dúvida causou a morte de seu pai, nascera ele!... Mas, por que não lhe contavam tudo com franqueza?... Por que não lhe diziam toda a verdade?... Oh! devia ser um segredo infernal, para o esconderem com tamanho empenho!...” E, acabrunhado por estes raciocínios, humilhado pela dúvida de si próprio, miserável e triste, Raimundo percorria a casa, em silêncio.
          Despertou-o de novo a voz de Manuel:
          — Vamos à capela, antes que anoiteça de todo.
          Entraram primeiro no cemitério. Estava arrasado. Manuel apontou para uma velha sepultura, e disse ao outro com respeito:
          — Ali está seu pai!
          Raimundo chegou-se para o túmulo, descobriu-se, e procurou ler na carneira alguma inscrição que lhe falasse do morto. Absolutamente nada! o tempo apagara da pedra o nome de seu pai. Ali só havia um pedaço de mármore carunchoso e negro. Deixara de ser uma tabuleta, era uma tampa. O rapaz sentiu então, mais do que nunca, pesar-lhe dentro d’alma, como uma barra de chumbo, todo o mistério da sua vida; compreendeu que sobre esta havia também uma pedra silenciosa e negra; compreendeu que o seu passado nada mais era do que outra sepultura sem epitáfio.
          Enovelou-se-lhe na garganta um godilhão de soluços e Raimundo sentiu a necessidade de ajoelhar-se defronte do silêncio daquele túmulo.
          Manuel afastara-se discretamente, tossindo, para disfarçar a sua comoção. O moço enxugava as lágrimas, agora abundantes e fartas; depois encaminhou-se para uma outra cova mais adiante, abrigada por uma frondosa mangueira. Estava já vazia e com a lousa fora do lugar. Naturalmente, os parentes do cadáver haviam retirado dali os ossos para alguma igreja da capital. A posição e a folhagem da lápida da árvore serviram de resguardo ao epitáfio; Raimundo passou o lenço por cima dele e conseguiu ler o seguinte: “Aqui jazem os restos mortais de Quitéria Inocência de Freitas Santiago, filha extremosa, esposa exemplar. Casou em 15 de dezembro de 1845 e faleceu em 1849. Orai por ela.”
          — Não há dúvida que, além de bastardo, descendi de uma tremenda vergonha! Meu nascimento combina aproximadamente com estes algarismos...
          E, tendo monologado estas palavras, chegou ao fundo do cemitério e achou-se defronte de uma capela. Entrou, galgando três degraus escalavrados. Uma coruja fugiu espavorida. A luz triste da lua filtrava-se já pelas aberturas do telhado, mas pelas janelas entrava de rojo o quente lusco-fusco do crepúsculo. Raimundo, ao chegar à sacristia, estacou e estremeceu todo: o vulto esquelético e andrajoso, que lhe aparecera à noite, como um fantasma, ali estava naquela meia escuridão, a dançar uns requebros estranhos, com os braços magros levantados sobre a cabeça. O rapaz sentiu gelar-lhe a testa um suor frio e conservou-se estático, quase duvidoso de que aquilo que tinha defronte de si fosse uma figura humana.
          Todavia, a múmia se aproximava dele, a dar saltos, estalando os dedos ossudos e compridos. Viam-se-lhe os dentes brancos e descarnados, os olhos a estorcerem-se-lhe convulsivamente nas órbitas profundas, e a caveira a desenhar-se em ângulos através das carnes. Ora erguia as mãos, descaindo a cabeça; ora fazia voltas, sapateando e dando pungas no ar.
          De repente deu com Raimundo e precipitou-se para ele de braços abertos. Na primeira impressão o rapaz recuava com repugnância, mas, caindo logo em si, aproximou-se da louca e perguntou-lhe se conhecia quem morara naquela fazenda.
          A idiota olhou para ele, e riu-se sem responder.
          — Não conheceste o José da Silva ou José do Eito?
          A preta continuou a rir. Raimundo insistiu no seu interrogatório mas sem obter resultado algum. A doida o considerava fixamente, como que procurando reconhecer-lhe as feições; de súbito, deu um salto sobre ele, tentando abraçá-lo; o rapaz não tivera tempo de fugir e sentiu-se em contacto com aquele corpo repugnante. Então num assomo nervoso repeliu-a bruscamente. Ela caiu para trás, estalando os ossos contra os tijolos do chão.
          Raimundo saiu de carreira para reunir-se a Manuel, porém a idiota alcançou-o, já no cemitério, e arremessou-se de novo contra ele.
          — Não me toques! gritava o moço, com raiva, levantando o chicote.
          Manuel acudiu correndo:
          — Não lhe bata, doutor! Não lhe bata, que é doida! Conheço-a!
          — Mas, se ela não me quer deixar!... Sai! Sai, diabo! Olha que te dou!
          Manuel mostrava-se agoniado e surpreso.
          — Já! disse ele, intimidando a louca. Já pra dentro!
          A preta retirou-se humildemente.
          — Quem é ela, perguntou Raimundo, lá fora, tratando de montar. O senhor disse que a conhecia.
          — Esta pobre negra... respondeu Manuel hesitante, foi escrava de seu pai. Vamos!
          E puseram-se a caminho.


12

          Voltaram ambos impressionados da tapera. Manuel tentara por duas vezes uma conversa que não vingara no ânimo acabrunhado do companheiro; Raimundo respondia maquinalmente às suas palavras, ia muito preocupado e aborrecido. Na dúvida da sua procedência e com a certeza do seu bastardismo, vinha-lhe agora uma estranha suscetibilidade; não sabia por que motivo, mas sentia que precisava, que tinha urgência, de uma explicação cabal do que levou Manuel a recusar-lhe a filha. “Com certeza estava aí a ponta do mistério!”
          Ele o que queria era penetrar no seu passado, percorrê-lo, estudá-lo, conhecê-lo a fundo; encontrara até então todas as portas fechadas e mudas, como a sepultura de seu pai; embalde bateu em todas elas; ninguém lhe respondera. Agora um alçapão se denunciava na recusa de Manuel; havia de abri-lo e entrar, custasse o que custasse, ainda que o alçapão despejasse sobre um abismo.
          E, tão dominado ia pela sua resolução que, ao passar pelo cruzeiro da Estrada Real, nem só não deu por ele, como pelo guia que logo se pusera a caminho.
          — Ó meu amigo! gritou-lhe o tio. Isto também não vai assim!... Despeça-se deste lugar!
          E apeou-se, para depor aos pés da cruz um galho de murta.
          Raimundo voltou atrás e, depois de um grande silêncio, fitou Manuel e perguntou-lhe, externando um retalho do pensamento que o dominava:
          — Ela será, porventura, minha irmã?...
          — Ela, quem?
          — Sua filha.
          O negociante compreendeu a preocupação do sobrinho.
          — Não.
          Raimundo tornou a mergulhar no paul da sua dúvida e das suas conjeturas, procurando de novo o motivo daquela recusa, como quem procura um objeto no fundo d’água; e a sua inteligência, de outras vezes tão lúcida e perspicaz, sentia-se agora impotente e cega, às apalpadelas, às tontas, desesperada, quase extinta, nas lamacentas e misteriosas trevas do pântano.
          E, de tudo isso, vinha-lhe um grande mal-estar. Depois da negativa de Manuel, Ana Rosa afigurava-se-lhe uma felicidade indispensável; já não podia compreender a existência, sem a doce companhia daquela mulher simples e bonita, que, no seu desejo estimulado, lhe aparecia agora sob mil novas formas de sedução. E, na sua fantasia enamorada, acariciava ainda a idéia de possuí-la, idéia que, só então o notava, dormira todas as noites com ele, e que agora, ingrata, queria escapar-lhe com as desculpas banais e comuns de uma amante enfastiada. Oh! sim! desejava Ana Rosa! habituara-se imperceptivelmente a julgá-la sua; ligara-a a pouco e pouco, sem dar por isso, a todas as aspirações da sua vida; sonhara-se junto dela, na intimidade feliz do lar, vendo-a governar uma casa que era de ambos, e que Ana Rosa povoava com alegria de um amor honesto e fecundo. E agora, desgraçado -olhava para toda essa felicidade, como o criminoso olha, através às grades do cárcere para os venturosos casais, que se vão lá pela nua, de braço dado, rindo e conversando ao lado dos filhos. E Raimundo antejulgava perfeitamente que aquele empenho de Manuel em negar-lhe a filha, longe de arredá-la do seu amor, mais e mais o empurrava para ela, ligando-a para sempre ao seu destino.
          — Terá sua filha alguma secreta enfermidade, que levasse o médico a proibir-lhe o casamento? Terá algum defeito orgânico?...
          — Oh! com efeito! O senhor tortura-me com as suas perguntas!... creia que, se eu pudesse dizer-lhe a causa de minha recusa, tê-lo-ia feito desde logo! Oh!
          Raimundo não pôde conter-se e disparatou, fazendo estacar o seu cavalo.
          — Mas o senhor deve compreender a minha insistência! Não se diz assim, sem mais nem menos, a um homem que vem, legítima e conscienciosamente, pedir a mão de uma senhora, que a isso o autorizou. “Não lha dou, porque não quero!” Por que não quer?! “Porque não! Não posso dizer o motivo!...” É boa! Tal recusa significa uma ofensa direta a quem faz o pedido! Foi uma afronta à minha dignidade. O senhor há de concordar que me deve uma resposta, seja qual for! uma desculpa! uma mentira, muito embora! mas, com todos os diabos! é necessária uma razão qualquer!
          — É justo, mas...
          — Se me dissesse: “Oponho-me ao casamento, porque antipatizo solenemente com o seu caráter”. Sim senhor! Não seria uma razão plausível, mas estaria no seu direito de pai, mas o senhor...
          — Perdão! eu não podia dizer semelhante coisa, depois de o haver elogiado por várias vezes, e ter-me declarado, como repito, seu amigo e seu apreciador...
          — Mas então?! Se é meu amigo, que diabo! diga-me a razão com franqueza! tire-me, por uma vez, deste maldito inferno da dúvida! declare-me o segredo da sua recusa, seja qual for, ainda que uma revelação esmagadora! Estou disposto a aceitar tudo, tudo! menos o mistério, que esse tem sido o tormento da minha vida! Vamos, fale! suplico-lhe por... aquele que caiu assassinado!-E apontou na direção da cruz. Era seu irmão e dizem que meu pai... Pois bem, peço-lhe por ele que me fale com franqueza! Se sabe alguma coisa dos meus antepassados e do meu nascimento, conte-me tudo! Juro-lhe que lhe ficarei reconhecido por isso! Ou, quem sabe? serei tão desprezível a seus olhos, que nem sequer lhe mereça tão miserável prova de confiança?...
          — Não! não! ao contrário, meu amigo! Eu até levaria muito em gosto o seu casamento com a minha filha, no caso de que isso tivesse lugar!... E só peço a Deus que lhe depare a ela um marido possuidor das suas boas qualidades e do seu saber; creia, porém, que eu, como bom pai, não devo, de forma alguma, consentir em semelhante união. Cometeria um crime se assim procedesse!...
          — Com certeza há parentesco de irmão entre ela e eu!
          — Repare que me está ofendendo...
          — Pois defenda-se, declarando tudo por uma vez!
          — E o senhor promete não se revoltar com o que eu disser?...
          — Juro. Fale!
          Manuel sacudiu os ombros e resmungou depois, em ar de confidência:
          — Recusei-lhe a mão de minha filha, porque o senhor é... é filho de uma escrava...
          — Eu?!
          — O senhor é um homem de cor!... Infelizmente esta é a verdade...
          Raimundo tornou-se lívido. Manuel prosseguiu, no fim de um silêncio:
          — Já vê o amigo que não é por mim que lhe recusei Ana Rosa mas é por tudo! A família de minha mulher sempre foi muito escrupulosa a esse respeito, e como ela é toda a sociedade do Maranhão! Concordo que seja uma asneira; concordo que seja um prejuízo tolo! o senhor porém não imagina o que é por cá a prevenção contra os mulatos!... Nunca me perdoariam um tal casamento; além do que, para realizá-lo, teria que quebrar a promessa que fiz a minha sogra, de não dar a neta senão a um branco de lei, português ou descendente direto de portugueses!... O senhor é um moço muito digno, muito merecedor de consideração, mas... foi forro à pia, e aqui ninguém o ignora.
          — Eu nasci escravo?!...
          — Sim, pesa-me dizê-lo e não o faria se a isso não fosse constrangido, mas o senhor é filho de uma escrava e nasceu também cativo.
          Raimundo abaixou a cabeça. Continuaram a viagem. E ali no campo, à sombra daquelas árvores colossais, por onde a espaços a Lua se filtrava tristemente, ia Manuel narrando a vida do irmão com a preta Domingas. Quando, em algum ponto hesitava por delicadeza em dizer toda a verdade, o outro pedia-lhe que prosseguisse francamente, guardando na aparência uma tranqüilidade fingida. O negociante contou tudo o que sabia.
          — Mas que fim levou minha mãe?... a minha verdadeira mãe? perguntou o rapaz, quando aquele terminou. Mataram-na? Venderam-na? O que fizeram dela?
          — Nada disso; soube ainda há pouco que está viva... É aquela pobre idiota de São Brás.
          — Meu Deus! exclamou Raimundo, querendo voltar à tapera.
          — Que é isso? Vamos! Nada de loucuras! Voltará noutra ocasião!
          Calaram-se ambos. Raimundo, pela primeira vez, sentiu-se infeliz; uma nascente má vontade contra os outros homens formava-se na sua alma até aí limpa e clara; na pureza do seu caráter o desgosto punha a primeira nódoa. E, querendo reagir, uma revolução operava-se dentro dele; idéias turvas, enlodadas de ódio e de vagos desejos de vingança, iam e vinham, atirando-se raivosos contra os sólidos princípios da sua moral e da sua honestidade, como num oceano a tempestade açula contra um rochedo os negros vagalhões encapelados. Uma só palavra boiava à superfície dos seus pensamentos: “Mulato”. E crescia, crescia, transformando-se em tenebrosa nuvem, que escondia todo o seu passado. Idéia parasita, que estrangulava todas as outras idéias.
          — Mulato!
          Esta só palavra explicava-lhe agora todos os mesquinhos escrúpulos, que a sociedade do Maranhão usara para com ele. Explicava tudo: a frieza de certas famílias a quem visitara; a conversa cortada no momento em que Raimundo se aproximava; as reticências dos que lhe falavam sobre os seus antepassados; a reserva e a cautela dos que, em sua presença, discutiam questões de raça e de sangue; a razão pela qual D. Amância lhe oferecera um espelho e lhe dissera: “Ora mire-se!” a razão pela qual, diante dele, chamavam de meninos aos moleques da rua. Aquela simples palavra dava-lhe tudo o que ele até aí desejara e negava-lhe tudo ao mesmo tempo, aquela palavra maldita dissolvia as suas dúvidas, justificava o seu passado; mas retirava-lhe a esperança de ser feliz, arrancava-lhe a pátria e a futura família; aquela palavra dizia-lhe brutalmente: “Aqui, desgraçado, nesta miserável terra em que nasceste, só poderás amar uma negra da tua laia! Tua mãe, lembra-te bem, foi escrava! E tu também o foste!”
          — Mas, replicava-lhe uma voz interior, que ele mal ouvia na tempestade do seu desespero; a natureza não criou cativos! Tu não tens a menor culpa do que fizeram os outros, e no entanto és castigado e amaldiçoado pelos irmãos daqueles justamente que inventaram a escravidão no Brasil!
          E na brancura daquele caráter imaculado brotou, esfervilhando logo, uma ninhada de vermes destruidores, onde vinham o ódio, a vingança, a vergonha, o ressentimento, a inveja, a tristeza e a maldade. E no círculo do seu nojo, implacável e extenso, entrava o seu país, e quem este primeiro povoou, e quem então e agora o governava, e seu pai, que o fizera nascer escravo, e sua mãe, que colaborara nesse crime. “Pois então de nada lhe valia ter sido bem educado e instruído; de nada lhe valia ser bom e honesto?... Pois naquela odiosa província, seus conterrâneos veriam nele, eternamente, uma criatura desprezível, a quem repelem todos do seu seio?...” E vinham-lhe então, nítidas à luz crua do seu desalento, as mais rasteiras perversidades do Maranhão; as conversas de porta de botica, as pequeninas intrigas que lhe chegavam aos ouvidos por intermédio de entes ociosos e abjetos, a que ele nunca olhara senão com desprezo. E toda essa miséria, toda essa imundícia, que até então se lhe revelara aos bocadinhos, fazia agora uma grande nuvem negra no seu espírito, porque, gota a gota, a tempestade se formara. E, no meio desse vendaval, um desejo crescia, um único, o desejo de ser amado, de formar uma família um abrigo legítimo, onde ele se escondesse para sempre de todos os homens.
          Mas o seu desejo só pedia, só queria, só aceitava Ana Rosa, como se o mundo inteiro houvera desaparecido de novo ao redor daquela Eva pálida e comovida, que lhe dera a provar, pela primeira vez, o delicioso veneno do fruto proibido.


13

          A volta pareceu-lhe mais longa do que a ida ao Rosário; quase que não falou por toda a viagem, estala