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O
B E S T I Á R I O


Mauro Gonçalves Rueda


O Bestiário
Mauro Gonçalves Rueda

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eBooksBrasil.com

Fonte Digital
Documento do Autor
maurorueda5@hotmail.com
maurorueda@uchoanet.com

Capa:
Diane chasseresse
Escola de Fontainebleau
Meados do século XVI
Fonte Digital:
Museu do Louvre

© 2003 — Mauro Gonçalves Rueda


 

Índice

              Prefácio
  1 — O Capeta Com Todo o Prazer.
  2 — O Homenzinho Que Não Era Deus.
  3 — A Consciência. Malaquias! A Consciência!
  4 — A Rita.
  5 — Sebastian: A Lenda.
  6 — Narciso No Espelho.
  7 — Um Bagulho Bota Pra Derreter.
  8 — Na Corda Bamba.
  9 — O Diário.
10 — Wall & Delbut.
11 — Os Sócios São Ratos.
12 — Asas Partidas.
13 — O Fugitivo.
14 — Humilhação.
15 — Phelóphidas.
16 — Fragmentos Cotidianos.
17 — Mero Acaso?
18 — Aversão.
19 — Góia.
20 — Metrópoles.


 

O B E S T I Á R I O

(Diário De Uma Besta)

—Contos—

MAURO GONÇALVES RUEDA

São José do Rio Preto — 1.998


 

 

Para Joyce e Maricy
Julio Cortazár pelo seu livro de Contos “Bestiário”
Meus irmãos, Moisés e Maurício

 

 


 

PREFÁCIO

 

          Qualquer metrópole que se preze, apesar de suas anomalias e visível decadência, tende a ser uma loucura em todos os sentidos. A violência, o medo, o exagero, as novidades, o velho, o novo e a miscelânea inenarrável. Assim é e assim retratam as paisagens em concreto, asfalto, espigões de cimento, favelas, viadutos e passarelas. O luxo e a miséria se contrastam no mesmo quadro quase fantasmagórico em sombras mal delineadas. É o fantástico engendrado na realidade. A necessidade do surrealismo superando a fragilidade das Instituições. A nostalgia e as tendências evolutivas. O dia, a noite, a sempiterna valsa dos loucos corações e mentes que jamais encontraram limites para suas realizações. A fumaça estagnada no ar, os cafés e casas noturnas com músicas ao vivo. O som do tráfego que rima com o tráfico e os disparos de armas com projéteis perdidos, incrustados nalguma parede ou em algum corpo estirado na calçada e coberto por manchetes de jornais. Contudo, ainda brotam flores em meio ao concreto e náusea, como diria Drummond.
          Na calada da noite, madrugada formada e encorpada, rolam as maiores aventuras. Como o corpo que despenca do décimo andar para pairar — por um átimo —, sair na foto, e espatifar-se no cimento rústico. Da mesma forma que o corpo que vai perdendo suas fibras e os músculos se degenerando. E apesar do silicone e das cirurgias, os jovens também acabam se mumificando um dia. Nas mãos calejadas do operário; nas bagas de suor que encardem os colarinhos dos engravatados; na maquilagem das pequenas prostitutas de agências de modelos; dos jovens acompanhantes com seus corpos másculos; dos casais que saem a procura de um travesti; dos punks e suas tribos; das bichas velhas desencantadas a mirarem-se no espelho da decadência; do engraxate que sonha vencer (n) a vida; do trombadinha cheirando cola e fumando crack; das ratazanas correndo pelos becos ensujecidos da existência; dos humilhados dormindo nas filas da previdência e os corpos largados pelos bancos das praças.
          Em meio a todo esse festival retratado em mural antigo, o contemporâneo rasga o pano do palco e ganha o seu espaço na eternidade do ontem. A poesia também se constitui de deformações e anomalias. Aberrações da natureza destes seres e suas mentes caóticas. A grande poesia costuma se refazer nas dores e nas tragédias. A poesia concreta, crua, dura e real da metrópole muito doida que não respira, arfa asmaticamente. Se lhe devemos uma Ode? Na realidade, o fadário quase nos obriga. Devemos muito mais. Por sua frieza e seu sarcasmo. Por sua indiferença e melancolia. Por sua prole de desesperados e angustiados. Por seus malucos e loucos. Enfim, por tudo o que se encolhe e se esconde nas sombras e porões. Nos esgotos e bolsões de lixo e miséria. Nós devemos mais que uma simples ode à essa deusa denominada metrópole. Palco do último espetáculo. Onde todos são atores, atrizes e diretores. Onde todos são autores e artistas anônimos. Onde todos são doentiamente pirados! Ou não! Afinal, “de perto” nem todos são normais.


 

O CAPETA COM TODO O PRAZER

 

          Sentado na praça, matava o tempo e se deixava enfarado a coçar o saco e olhando para “porranenhuma”. A cidade era assim: cocozinho de mosca. Havia um surto epidêmico de raiva. Cães e gatos malucos, às centenas. As pessoas cagavam-se com medo de serem atacadas. Trancafiavam-se dentro de casa. “Ele” ria e tomava conta da cidade vazia. Que se fodessem os cães, gatos e os habitantes! Aliás, os habitantes eram mais nocivos do que qualquer epidemia de raiva ou loucura. Era o que pensava.
          Quando anoitecia, ficava contando as crianças que brotavam dos canteiros da praça. De quando em vez, algum falecido saía de seu túmulo para passear pelas ruas vazias da cidadezinha decadente. Certa noite, apanhara um velho touro que passava sobrevoando muito baixo, pachorrento e descuidado. Segurando pelo rabo, rodopiou o pobre animal por sobre a cabeça dando-lhe piparotes no meio dos cornos e enfiando-lhe o dedo no cu. Logo, cansado daquela brincadeira tola, apiedou-se do indefeso ruminante e acabou liberando-o. O bicho saiu manso, pairando por sobre a torre da matriz local indo desaparecer na linha do horizonte, para lá de onde as vistas podiam alcançar. Não tinha certeza se a população conhecia ou fingia desconhecer tais fatos. Era-lhe indiferente.
          Em outra ocasião, apanhara uma mula sem cabeça pastando no jardim da praça. Não havia nada de anormal com o bicho. Exceto a cabeça. Ou melhor, a falta dela. No mais, ao seu ver, não passava de uma simples mula que, havia perdido a porra da cabeça, sabia-se lá o motivo!
          De um “nadaquefazer”, no inspecionar as qualidades do quadrúpede, pensou em traçar a mula. Não havia barranco por perto e, “comer mula sem encostá-la em barranco não era “quenêm...”. De forma que, o ruminante acabou escafedendo-se da situação “vexante” ileso. Sua vida era mais ou menos essa repetitividade, o enfaro, o desconexo...Vivia por ali, criando calos nas popas, sentado pelos bancos, numa pasmaceira sem tino. Com isso, acabara se aborrecendo.
          Tanto se aborrecera que, emputecido da vida, juntou uma jararaca pelo rabo e deu-lhe uma porrada de nós. Passou o resto da noite lá, naquela peleja. Cada vez que a tinhosa conseguia livrar-se dos nós, apanhava a vítima e tornava a aplicar-lhe vários outros nós: cego, de marinheiro, boiadeiro e alguns que acabara inventando na hora. Cansado, meteu um bicudo no rabo da cobra e voltou para casa andando e mijando. Mijando e andando pela Avenida Pedro de Toledo.
          Mês de agosto sempre fora mês de cachorro louco. Já, na quaresma, era mês de lobisomem. Havia dito para o senhor Desidério, que a cidade estava empestada de lobisomens desmunhecados. Que não passavam de umas bichonas que adoravam piroca. O homem não gostou da brincadeira. Era sério, sisudo. Cerrou os cenhos e com a carantonha fechada, deixou-o falando com a própria sombra. A cidade o considerava impertinente, débil mental, cria perdida em beira de estrada. Apesar dessas e outras, nem se dava ao trabalho de argumentar. No mais, infernizava a quem pudesse. Comentavam-se à socapa que, o pároco da cidade, não se sabia ao certo, mas costumava deitar olhos perniciosos sobre seus fiéis..
          Padreco miúdo, italiano e espaventado. Santíssima castidade! Durante os sermões e serviços clericais aos domingos, sujeito enrolava sua litania em linguajar que findava numa mistureba que somente ele entendia. Os fiéis ouviam bocejando, enfarados, fingindo entender tudo. Quem deseja passar por burro? Mas ele, o desgrenhado não:
          — Vai entender que porra esse padreco discorreu. Vai ver, mandou todo o mundo tomarnocu e os palhaços: “Amém!”.
          Comentava com os poucos fiéis que ainda fomentavam a coragem em saírem para as ruas. Parolava e esbodegava-se de rir. Ria, gargalhava e mijava-se todo. Tinha bexiga solta. Aliás, diziam que ele tinha era tudo solto. A bexiga, os intestinos, a língua e, sobretudo, os parafusos e porcas das moleiras.
          Zanzava pelas ruas espiando pelos buracos das fechaduras; pelas gretas das portas e janelas. Arisco, ligeiro, de natureza rapace e desconjuntado das cadeiras e colunas ‘causo da capoeira’ que lutava e gingava girando feito carrapeta, metia medo em todos. Dava pulo do macaco que traumatizava o adversário e currupiava emitindo uns gritinhos feito Bruce Lee. Cismarenta, a polícia deixava de lado. Bicho doido que carecia de internação em hospício. Pegar que jeito? Se se fosse parar para analisar, a população bem que agradecia à Deus aquelas pestes de gatos e cachorros babando e escumando pelos cantos da boca. Pelo menos, tinham lá seus motivos para manterem-se trancafiados e trancafiar os filhos e as filhas donzelas. Mesmo porque, o tal não era de pouco bico e já lá estava convencendo que era gostoso e coisa e tal, puxando pelo braço, metendo os cinco dedos, alisando, desviando pralguma moita ou lugarzinho ermo e no mais, lá se ia uma virgindade para o beleléu.
          — Frente e verso que é prámode a bichinha viciá e procurá de retro! — destrambelhava a falar sem papas naquelas conversas indelicadas e depreciativas das honras alheias.
          Coisa besta! Satanás é quem vai de retro escarvando o chão, quando acoitado nos conformes das mandingas e conhecimento de que, os cornos nem sempre significam que o bicho é a besta. Haja vista que, até clube dos que ostentavam cornos, já por aquelas paragens, havia sido fundado e registrado nos livros como entidade prestadora de serviços públicos. Pareciam sentir orgulho em serem mansos, conformados, ufanos e dadivosos das galhadas sem dor. Mesmo porque, brotavam e nem se tinha tento. Era-se o último a saber mesmo e, quando se descobria, já estava com ninho de passarinhada chocando. O lesado lá, algures, deveras, mais do que sorridente e feliz — feito um corno mesmo. Quem ousaria dizer que um sujeito alimentando tais pensamentos tão análogos com a filosofia, era maluco de babar-se e comer a merda que acabara de fazer? Louco era o cacete!
          Que nem cacete aquilo já nem era mais. Não é que égua no cio, recostada em porteira, trancava o fiofó e saía escoiceando e bufando feito o demo, possessa! E não?! O danado do malquisto, para espalhar-se ainda mais os “tereretetês”, era dos bem servidos. Que o dissesse a bicha velha, a “titia” da cidade, que teve que costurar o canal do esgoto. Quis, a corajosa da bichona e foi toda-toda. Berrou, bufou, escarvou o chão e naquele “vem cá neguinha maluca”, empurrou. No que voltou, parecia saca-rolhas: trouxe hemorróidas e pregas e varizes e se não acodem em tempo, hemorragia na certa.
          — Ô Bicho dos infernos! — imprecavam os pais e maridos, mais atormentados e torturados que condenados nos umbrais, divisando padecimentos futuros.
          Mas quem poderia dizer? Desgosto? Cansaço? Tédio? Desaparecera do dia para a noite. A cidade suspirou aliviada. Algumas pessoas, no entanto, quedavam saudosas. A população pagou novena, trezena e despacho em encruzilhada, num fuzuê descomedido que, só se presenciando a barafunda para contar nos pormenores e somenos. O filhodaputa desaparecera, afinal! Foi então que, não se sabe que pacto ou desarranjo, os gatos e cães voltaram ao normal. E a população resolveu sair para as ruas “desaflita”, tentando esquecer tantos estragos, reconstituir-se e restabelecer os bons costumes e a moral. Como se tais princípios realmente fincara raízes algum dia, por aquelas paragens.
          Mas fora um verdadeiro inferno: todos sentiam-se coniventes, desconfiados e com a cabeça abarrotada de caraminholas, pesando mais do que deveria.
          — O filhodaputa! — rezingavam estapafúrdios, cara no chão tanto vexame e, sequer sabiam o nome do capeta, filho do cão! Tinhoso e debochado no que concerne às tradições da família e às coisas do Alto, lá de Deus que, no mínimo, diziam, deveria ter tirado férias por aquelas ocasiões sinistras e tempos idos, imemoráveis!...


 

O HOMENZINHO QUE NÃO ERA DEUS

 

          Somente observando atentamente o cara, poder-se-ia chegar a conclusão que, seguramente, havia ultrapassado o limite delineador entre a sanidade e a loucura. Por um segundo, o investigador tivera uma estranha sensação desconfortável: “aquele homenzinho algemado, cabelos emplastados, os olhos vazados pela insônia, a tez pálida e inconfundível dos noctívagos, ainda que parecesse um farrapo humano, à qualquer momento, poderia realmente transformar-se nalgum tipo de psicótico — maníaco – homicida” — Sentiu o calafrio percorrendo-lhe as entranhas quando seus olhos mergulharam naquele olhar abissal, de gente desvariada. Então pensou ainda: “creio que deveríamos tê-lo algemado com as mãos para trás, às costas. E não daquela forma: com as duas mãos à frente do corpo, prontas para uma bordoada no primeiro ao seu alcance” — concluiu cismando de si para consigo, bastante preocupado por não ter tomado maiores precauções.
          O homenzinho foi literalmente atarracado por dois fortes policiais visivelmente nervosos e conduzido ao gabinete do delegado. As instalações eram acanhadas. Tratava-se de uma saleta abafada, recendendo à catinga de suor e fumaça de cigarros. Havia um ventilador agarrado ao teto girando moroso, meio que a contragosto. A poeira e o mofo haviam-se tornado visíveis sobre os livros inúteis na estante de madeira, atrás da mesa do delegado que parecia absorto com aquele monturo de papéis encardidos. Fora empurrado para uma cadeira frente à mesinha. Acomodou-se mal, como pôde e permaneceu à espera.
          Sentado frente daquele homem gordo, de terno surrado e gravata com bolinhas ridículas, seu olhar ultrapassava os limites e linhas de tempo e espaço para ir se distanciar, buscando milhares de anos luz do local onde se encontrava à mercê daqueles que o haviam feito prisioneiro sem qualquer reação da sua parte. Era contra o uso da violência. Sempre fora, conforme seus princípios.
          — Podem se retirar — disse o delegado aos investigadores.
          — Mas, doutor... — ensaiou o investigador baixinho, de bigodinhos de pó de café encimando os finos lábios.
          — Eu disse que está tudo bem. — assegurou o delegado com extremada frieza e indiferença para com o “maluco” cabisbaixo na sua frente.
          Os investigadores se entreolharam incrédulos, matutando sobre qual dos dois seria o mais demente? O homenzinho ou o balofo do superior a apaticamente emitir-lhes aquelas ordens que deixavam margens à questão em voga. Finalmente saíram sem mais. Haviam cumprido com seus deveres. Se o homem dava uma ordem, então?
          O delegado esperou que os dois se retirassem. Somente então, passou a mão pelo queixo redondo, sentindo a pele oleosa. Em seguida, cravou um olhar penetrante no homenzinho ali, inerte, com seu jeito insosso e amorfo. O outro permaneceu deliberada e vagamente mirando através do que não existia. O barulho estridente de uma sirene cortou os ares. “O parvo sequer piscara. Teria mesmo ficado biruta?”. Pensava o delegado, absorto em acender um cigarro. Aspirou profundamente a fumaça, mexeu-se incomodado na cadeira. A modorra e o calor daquele dia pareciam acentuar-se à cada segundo. Finalmente o delegado dirigiu-se ao sujeito passivo e entranhado em seu mundo.
          — Ei cara!, você saberia, por acaso, me explicar como se faz para torturar uma formiga? Era uma pergunta absurda, sem qualquer propósito. Esperou a reação do outro que havia captado a questão e notadamente, esboçava um sorriso sádico, porém abatido e visivelmente enfarado. O silêncio tomou conta da saleta. A mosca zumbiu pelo ar emitindo aquele som irritante.
          — Muito bem, pode me explicar, hã? — voltou à carga o delegado, a acompanhar o vôo do inseto com seu olhar mórbido. O homenzinho penetrou-lhe as retinas e respondeu:
          — O senhor deve saber, doutor. É especialista, estudado... — retrucou o algemado.
          O gordo pensou com seus botões que, “aquele tipinho não passava de uma besta”. Concluíra que adorava um desafio. Às vezes, um bastardo daqueles era uma boa oportunidade de se livrar da monotonia do expediente. Permaneceu calmo, fincou os cotovelos no tampo da mesa e expeliu a fumaça em direção ao desafiante enquanto emitia a frase com denodo:
          — Uma barata, digamos?. Se você estivesse sozinho num quarto com uma barata, o que faria? Aquela era outra pergunta aparentemente sem propósito. O homenzinho percebeu a filosofia da acareação e respondeu apático:
          — Eu jamais gostei delas. — Uma resposta evasiva com pitada de escárnio. Um interessante jogo psicológico.
          — Muito bem! Muito bem! — Concordou o delegado emprestando ênfase à voz forjada. Bateu a cinza do cigarro e em seguida bufou:
          — E um rato?
          — O quê? — perguntou o outro.
          — Um rato, cacete!. Faria o quê com um rato? — rosnou o delegado querendo impor sua autoridade através da voz que, levemente alterada, subira alguns decibéis no volume.
          — Sei não, doutor. Os ratos são nocivos, acho...
          — O.k. Nocivos, não é? — O sorriso brotou dos lábios da autoridade com ares de perceptível malícia. Talvez houvesse chegado à conclusão, naquele instante, que havia faturado um ponto em sua guerrilha psicológica. Aparentava uns cinqüenta anos, pouco mais com seus cabelos nevados, olhar inquiridor e a paciência adquirida com o tempo de serviço. O homenzinho o achara interessante. Parecia bastante inteligente e, à princípio, polido. Divagava com seus pensamentos quando foi abalroado pela nova pergunta desconexa:
          — O ser humano?
          — Hã? — indagou numa espécie de muxoxo, o homenzinho que acabara de regressar de sua viagem de divagações.
          — Você acredita que o ser humano seja nocivo... às vezes? — ironizou, acrescentando o “às vezes”. Em seguida, acendeu outro cigarro. O cinzeiro encontrava-se abarrotado. Havia uma garrafa térmica com café sobre a mesa. Papéis e canetas. Um copo descartável ainda intato. O delegado apanhou o copo, derramou café o suficiente para o “bico de pito”, sem oferecer para o depoente. Apenas aguardava em silêncio, do alto de sua mal disfarçada empáfia.
          — Nocivo?.. — O homenzinho havia perdido o fio da meada. Não sabia o que responder. Permaneceu em silêncio, aquiescendo sem resposta. O delegado sorveu o café, observando atenta e profundamente o meliante para enfatizar em seguida:
          — Digamos que você seja um traste, entende?
          O outro anuiu com um gesto de cabeça e o delegado continuou:
          — Um traste, um pária, um monte de bosta, como dizemos por aqui!...
          — O que tem? — Retalhou o outro.
          — O que têm, porra!? — Explodiu o delegado, voltando ao embate:
          — Você é um pária, um monte de bosta e por isso, acredita que o resto da humanidade, seja igualzinha a você. O que faria? — Finalizou a questão enfático.
          — Bem doutor, eu não sou Deus, sabe?
          — Não? Você acredita mesmo que não seja Deus? — atacou o delegado com ironia e perspicácia. A coisa ia começar a esquentar, pensava.
          — Acredito sim, doutor. Não sou Deus. — respondeu.
          — E porquê tanta convicção?
          — Bem, é que às vezes, eu nem sei responder a uma perguntazinha simples ou, o que fazer mediante determinadas situações constrangedoras.. — respondeu com propriedade o algemado a estampar ar de cansaço. Para ele havia uma eternidade que encontrava-se ali, sentado frente àquele sujeito “meio goiaba, obtuso”. O joguinho já não parecia tão interessante. As peças do quebra — cabeças eram inconsistentes. Cartas marcadas sobre o fundo falso. O delegado também parecia sentir o fastio. Era como se ambos já houvessem vivido aquela cena patética.
          — As pessoas pensam que você é louco, sabia? — advertiu a autoridade com a pergunta maçante.
          — Às vezes. — confirmou o outro, desinteressado do papo.
          — Às vezes o quê?! — explodiu o gordo, quase perdendo o controle da situação, sem atinar-se que já havia perdido a parada há algumas perguntas atrás. Ocorreu-lhe que aquela espécie de gente, por incrível que pudesse parecer, era astuta, perspicaz e com um nível elevado de capacidade mental. O abatido homenzinho, desta vez não perdera o fio da meada e respondeu sem afetações:
          — Às vezes, eu até acredito no que dizem por aí... Essas coisas de eu ser louco, perigoso, doente mental.. Umas conclusões difíceis de serem concebidas. — Aquilo sim, era resposta, pensou o suarento delegado. Mais um arrocho e o sujeito entregava-se de bandeja. Gato acuado. Afinal, a psicologia jamais falhara, enquanto tortura.
          — Então, se você não é louco, homicida, doente mental, pária, bosta e o que dizem por aí, o que é então? — arrematou o delegado como quem houvesse bradado o velho jargão, “Heureca!”. Havia pego seu oponente com as calças nas mãos. Colocara-o, com destreza, em cheque. O suor brotava-lhe em bagas junto às banhas do pescoço apertado pelo nó da gravata e o colarinho sebentos.
          O detido permaneceu em silêncio, refletindo. Parecia fechado, na defensiva ante o “xeque” do seu verdugo. Na realidade, tratava-se de uma única questão: “ficar respondendo essas baboseiras para quê? Nem conheço essa besta, metido a espertinho”. A conclusão do homenzinho acorrera-lhe à mente de forma inapelável, decisiva e concludente. Seus olhos pareciam vidrados; os músculos das faces deixaram-se trair pelo ríctus perceptível e seus lábios fremiam levemente quando respondeu:
          — Sabe, doutor?.. — indagou, realizando uma pausa proposital, estratégica, para continuar em seguida:
          — Eu sempre tive muita paciência com baratas, ratos, loucos, homicidas, doentes mentais, párias e até mesmo bosta. (Acentuara a palavra que o próprio delegado havia usado para denegrir sua imagem. Julgara justo, afinal).... É, sempre tive. — Continuou como se estivesse muito distante, discorrendo sobre outra pessoa que não ele, o assassino —. Por isso, eu acho que já deu para perceber que não sou louco e muito menos, fraco das moleiras. Deu sim! O senhor também não é nada burro e sabe muito bem porque matei aquela gente.. — deixou no ar. Pausa longa. O delegado que concluísse.
          — Eu gostaria de saber, realmente... — resmungou o delegado como quem não conseguisse compreender o que estava se passando.
          O homenzinho levantou-se lentamente, deixando o incrédulo delegado boquiaberto, observando e sentindo a urina escorrer-lhe pelas pernas. O outro sorriu para ele e enfatizou:
          — Sabe sim, doutor. O senhor sabe muito bem que não sou Deus.
          Não, aquele homenzinho que havia assassinado quatro pessoas da própria família, não era Deus. Não poderia. Contudo, também não era louco. Apenas um homenzinho. Uma porra de um homenzinho! Uma titica! Um monte de bos...
          O delegado pensava e sentia a bexiga se afrouxando, aliviando-se sem nenhum controle. O homenzinho deu a volta em torno da mesa, encaixou os braços pelo pescoço empapado de suor do representante da Lei e passou a apertar, sufocando-o lentamente. As únicas reações foram aqueles sons repugnantes, um leve esbater-se para, ato contínuo, o corpo todo tremer e relaxar. Com as duas mãos, embora algemado, aparou a cabeça grisalha do gordo e torceu. Como se destroncasse uma ave indefesa. procurou as chaves, retirou as algemas e, em seguida, saiu caminhando para a porta e ganhou a rua. O sol bufava furioso e derretia o asfalto. Não deveria ser mais que duas horas da tarde. É, não passavam das duas...
          — Ah, se eu fosse Deus!... — rezingou o homenzinho para si próprio e, alçou vôo por sobre os prédios, desaparecendo em meio às nuvens claras e sem nenhum presságio de chuva.


 

A CONSCIÊNCIA. MALAQUIAS! A CONSCIÊNCIA

 

          Saco cheio, Malaquias? Estressado, hã?! O lotação sacolejando e esse maldito fedor de suor infestando o ar! Comprimido entre dois sovacos, Malaquias sentia-se muito “junkie”. Ou seria “Punk”? Vontade de dar um vomitão. A mulher engravidara: trigêmeos! Falta de porra, não fora. Também, mandou “amarrar as trompas da égua velha”. Putaquepariu! Morava num barraco e o governo dizia que era casa. C.D.H.U. Um ano após o casamento, Deus mandou logo três. Tudo menina. Uma mais linda que a outra. Bem, não dava para diferençar muito não. Justiça seja feita: cara de uma, o “cú” da outra. Lembrou-se que Cu não tinha acento. Ou melhor, não levava acento. Sabia disso porque era meio poeta, meio boêmio, meio compositor e filhodaputa por inteiro, além de odiar o patrão. Odiava, mas, cobiçava a gostosa que ele, o patrão desalmado, traçava após o expediente. Cara cuzudo! Nasceu virado pra lua!
          Malaquias?.. Quem era Malaquias, mesmo? Um bosta com três garotinhas para criar e uma porcona pesando quase duzentos quilos para suportar. Sim, quase duzentos após a droga da cirurgia. Castrada. Tão bonitinha no altar. Tinha o álbum do casamento: a mulher, um verdadeiro monumento escultural, torneado e lapidado por mãos angelicais. Ultimamente? Velha pachorrenta, fedendo à perfume barato. De puta, aliás. Com toda aquela banha esparramada sobre a cama e, ainda tinha a arrogância de manter uma empregadinha que, nem mesmo os cachorros teriam coragem de acasalar.
          Embriagado, Malaquias? Embriagado, o caralho! Só umas no bar da esquina para suportar o segundo tempo dessa contenda. “Ondejáseviu?”. Levantar às cinco, enfrentar a burocracia de um escritório de merda; voltar para casa às sete e ter saco para desviar de merda, brinquedos, roupas, sapatos, choros, ranho, banha e reclamações?! Não paciência que agüente! Eu já estou “porraqui”! Estafa não dá somente em rico fresco. Pobre também sofre, desgasta. Acha que não?
          Dizem as más línguas que Malaquias tá broxado. Logo, logo, tá queimando o anel de couro. Malaquias está com umas olheiras profundas que fazem dó! Deu de rezingar feito velho de uns tempos para cá. Falar sozinho feito uma mula, sabe? Anda que é só trapo, o infeliz! Vai saber se não, doença ruim? Levou duas advertências em uma semana. Um pé na firma, outro na fila do desemprego. No olho da rua. Já imaginou? Com três pequerruchas para criar! Deve ser a merda da cachaça! Acaba com o cara de um dia para o outro. Também, chegar em casa e ter que trepar numa jararaca daquelas! Jararaca? Aquilo parece um hipopótamo! Eu, hein!...
          — Licença? — pediu educadamente Malaquias para o sovaco sobre seu nariz. Saiu espremido, comprimindo-se sob sovacos e saltou na primeira parada do bairro. Frente ao boteco. Como resistir? Não era de ferro.
          A mesinha no canto, vazia. Sentou-se aliviado.
          — O de sempre! — pediu para o homem atrás do balcão. Quebra gelo e, uma loiríssima, estupidamente. O primeiro trago é sempre uma foda com ph! Desce arranhando, rasgando, embucetando. Malaquias um “beise” de marijuana? Mas a maconha para Malaquias era uma merda: “Fico xarope, saca? Viajando mais que o presidente da República”. E ficava mesmo. Quem o conhecia sabia disso. Um homem aos quarenta anos fumando maconha é... É o que, Malaquias? Contracultura, porra!
          — A montanha deve estar me esperando. Se a montanha pudesse vir à Maomé, eu tava fudido! Graças às banhas e pelancas, ela não se move nem para peidar, a ingrata.
          — Quéisso, Malaquias?! Só mais umazinha, bem gelada, hã? A saideira nunca fez mal `a ninguém, pelo que eu saiba.
          — À ninguém que leve uma vida normal. A minha saideira é pior que sentença de morte. Cada minuto de atraso, é um trauma psicológico. E já meio que recomposto, de pé recostado ao balcão, acabava tomando a saideira.
          Malaquias caminhando em direção à sua casa. Financiada em vinte e cinco anos. Na cabeça uma parafernália de pensamentos intrínsecos. Cara vivido, casar chegando aos quarenta. Titubeio irreversível! Mais uns três, quatro anos, arrumava uma puta e amigava sem compromissos.
          A consciência: Malaquias bundão! Filosofia diarreica. Fazer o quê, agora? Mato a baleia com o machado? Picoto a bicha e salgo feito carne de sol. Daria para alimentar as três princezinhas durante uns dois anos, no mínimo! Emitiu uma risadinha amorfa com a idéia. Achava-se genial. Empanturrava as meninas com toucinho. Ou seria toicinho? Não, era toucinho mesmo. Daria uma olhada no dicionário. Antes, lia jornal, ouvia música, tocava bandolim.. E agora? Aquele banheirico de nada. Nem cocô se podia fazer em paz e lá vinha uma: “vai pai, tá na portinha!”. Não, não era bem assim porque, nem falar as meninas sabiam, direito. Pobrezinhas! E dormir? Dormir, era um inferno. A bicha roncava, peidava, bufava e, qualquer dia, Malaquias ia amanhecer achatado feito uma lagartixa que um caminhão passara por cima. Aquele mastodonte dos infernos! Era vida para um homem decente?
          Vai, Malaquias! Mete uma bala no cocuruto! Faz as malas e desaparece no mundo. Vai dar a bunda. Tomar porres monumentais! Tantas xoxotas no planeta e você aí, na mão?! Trepar com aquele trambolho que jeito? Aquilo nem tem buceta mais. Além disso, o cheiro de mijo.. Vai pelo cheirinho, Malaquias. Quando pensa que tá dentro, falta metro e meio para chegar na portinha. Goza como se cagasse, filhodaputa! Mata a vaca e presenteia o cunhado com as três gatinhas! Vai, Malaquias. Seu bunda — mole!
          — Acho que tô variando! — resmungou Malaquias em seu caminhar trôpego, a passos comedidos, indecisos, com medo de chegar à reta final. O sol havia-se deitado há muito. Demorara mais do que costumava e aquilo seria, com toda a certeza, garantia de disparatada discussão infindável com a mulher. Além do mais, teria que preparar, ele mesmo, sua própria janta. Sem contar que, as três meninas já ensaiando as primeiras palavras, enrolando, tropeçando no linguajar, mal pisasse porta adentro, viriam pedindo, implorando coisas que ele, com aquele salário de proletário, jamais teria condições de. Pior do que falar era entender e pressentir que algo não estava certo. Vida fora dos eixos!
          — Que merda! — choramingou Malaquias mirando as estrelas que despontavam no céu. E chorou. É, Malaquias chorando pela primeira vez após o casamento. Após o quebra gelo, após as lourinhas geladas, após o cheiro de sovacos no lotação, após o porra do patrão o ter advertido verbal e pessoalmente, após ponderações, considerações, aquele sentimento de impotência e perdição. Somou uns etecéteras e tais que seus sentimentos resolveram escarafunchar no coração passarinho ferido e magoado; asinha quebrada, sem poder voar. Um dó sem tamanho. Autocomiseração do catso! Último dos que esperam a vida inteira no final da fila e, chegada a vez, descobre que já não há mais nada. Levaram tudo. Nem migalhas. Malaquias enxugou com o braço o risco de lágrimas doridas. Vontade de morrer. De morrer ou matar que, tanto fazia àquela altura do campeonato.
          — To ficando troncho! Deve ser isso... — murmurava aporrinhado e espezinhado pela consciência. Acinte. Aviltante situação. Acabar num hospício. “Vai virar pra sentir a sensação de estar cagando para dentro. Vai virar assassino e parar na cadeira elétrica. Vai virar o caralho! Vai se foder!”.
          — Vou, vou mesmo! — concluiu, desta vez berrando para a sua própria consciência.
          Avistou o portão. Madeira mesmo. Faltava recurso orçamentário para a compra de tijolos e portão decente. Adentrou o quintal após um safanão no velho portão emperrado e um bicudo no cachorro viralata. “Meu Deus, para que cachorro se mal conseguia sustentar a própria família?!”. A porta somente encostada. Algazarra das meninas e o barulho do aparelho de TV. misturando-se pelos ares. Entrou murcho. As três interromperam a balbúrdia e correram ao seu encontro como se ele, Malaquias, fosse o Deus delas. O Deus dos abandonados e aflitos. Correram e foram se aninhando em seu colo, após acirrada disputa pelo melhor espaço. Disputavam o primeiro beijo e os primeiros afagos. Ele se entregava, tentando disfarçar o efeito do álcool ingerido. Na sala, a mulher dava início à intolerável ladainha:
          — São horas, seu merda?!
          — Problemas com condução, benzinho. Muita gente. Perdi os dois primeiros....
          Espalhou as três pequenas pelo chão, dirigindo-se para a sala. Abaixou-se e beijou a bochecha da mulher gorda e suarenta que, sequer desviou o olhar da tela do televisor. Novela interminável. Insuportável. Clonando sonhos de graça para a desgraça da família desunida. Gorda, beliscando doces com avareza de esfomeada. Indiferente para com o mundo ao seu redor. Ele esperou pelo esporro que não aconteceu. Restou meio perdido.
          — Foi a droga do lotação. — murmurou baixinho, resignado. Muito mais para a sua consciência do que para a mulher e, com o olhar marejado, dirigiu-se para a cozinha onde as três pequenas esperavam por ele para, de forma resoluta, saciarem a fome que começava a incomodar suas barriguinhas estufadas pelas flora e fauna intestinais...


 

A RITA

 

          Modorrento domingo estampado na camiseta e no calção com o sol “frigindo” a tarde. Transpirando a cervejinha super gelada, consumida aos tragos comedidos. Dera Deus fosse poeta maior: caderno e caneta sobre a mesa. Cigarros, isqueiro e moscas. O olhar de soslaio, miramirando enternecido o vai e vêm dos anjinhos. Cigarro aceso entrededos e o estômago fraquinho, enjoado, a forçar o que tragado para fora. Segurava-se, não dar vexame.
          Na mesa em frente, quatro papoulas desabrochando em flor. Mais chamava a atenção, já no pilequinho da cerveja, o frutinho amadurecendo temporão. O olhinho vesgo beliscava coxinhas cruzadas; tostadinhas pelo iluminado sol. JesusCristinho, nada tinha a ver com tanta carência e desafeto. Desafeto de poeta não poder sugar mamãozinhos adocicados, em calda postos. Dois gominhos de tangerina, azedinhos na ponta da língua indomável.
          — Porção filezinho? — O garção solícito, indagando.
          — Hunhum! — Lambia os beiços que, lábios nem eram mais.
          Na dobra do papel, letrinhas miúdas:

Ana Rita, laços de fita
Tranças nos cabelos
Corpinho coberto de chita.

          Amor à primeira fisgadela. Paixão imberbe, adolescente. No encontro dos olhares, Rita sorria. Relia os versinhos, airosa. Ele, confuso, já não sabia se, fumava a porção, derramava o sal na cerveja ou se usava o cigarro aceso e no cinzeiro esquecido, para escrever. Tanta aflição!
          O contorno do quadril e as perninhas cruzadas. Coxa sobre coxa. Oferenda em dádivas doidivanas sob a mini-saia. Cabelos encaracolados. Em meio ao desatino, perdeu conta das cervejas. No cruza, descruza, tantos pelinhos doirados! Oxigenados? Treze, quinze aninhos? A safadinha flertando, no pressuposto das entrelinhas, o que tinha para oferecer. Descruzou, abriu um tiquinho assim, ó! Somente por maldade. Judiação!
          Diamante bruto. Lapidamento moroso com arestazinhas aqui e acolá. Mais de quinze? Nem isso! Tão rolinha! Viçosa! Mais um tiquinho e o olhar fingido da ingrata no olhar cobiçoso do tarado. Filezinho acebolado, sal e limão derretendo na ponta da língua tresvariada. Oh, perdição! Pecado necessário e cometido visando o reino do céu. Na brancura, guardando o Éden suplicado! Suplício dos sentimentos e padecimentos. Desejos gozosos:
          — Abre mais um pouquinho, anjo!
          Lia os pensamentos clamorosos, ardentes, febris, tostando o coração dentro do peito lacerado. Tanto sorria, quanto abria outro tantico. Assim, como quem nem...
          — Ai, que morro! — Sussurrou não, pensou com a dor lancinante magoando-lhe tanto e a bandidinha sorria. Estratégia milimetricamente planejada. A perninha esquerda mais acima da direita. De forma que...
          — Te pego, parto ao meio! Ai quem dera! — Nas faces, misto de dor e prazer contorcendo-se a rogar:
          — Ai, seu louco! Ingrato! Me esgana, esfola todinha!
          E a língua procurando, garimpando rubi escondido nas grutinhas. As duas mãozinhas delicadas, empurrando a cabeça em desassossego encosta abaixo:
          — Mais! Desce mais, meu colibri! Assimmmm!.
          Mergulhado no fundo do poço, morrendo afogado, esbaforido tanto líquido ingerido, o puto afoito, desesperado.
          Necessário tanta tortura? Bendita adolescência de anjo safado a provar-lhe que o mapa verdadeiro. Porém, dúvida crudelíssima: teria acesso ao tesouro?! Maldita depressão, insegurança. Começara a sentir-se um rato. Ratinho indefeso no destino fadado à prisão da ratoeira mortal. Tudo por causa daquele naco de queijo!
          Todos os sábados e domingos, a mesmíssima coisa: bulindo sem bulir. Matando sem querer matar. Descobrindo que o que conta nesse tipo de dor, é a própria dor martirizante das flechas no corpo em chagas. Ela tão criança ainda e, já tão abusadamente mulher?!... Ah!, ingrata! Onde fostes perder a inocência ainda estampada? Não sabias que eu viria resgatar-te?
          De forma que, sentia-se não somente um tarado mas, lobo faminto, feroz, atroz, diante da caça acuada, fragilzinha, entregue às delícias das torturas. O prazer da dor no gozo urgente. Paixão não escolhe suas vítimas. Nem idade. Arde em chamas e pronto. E as olheiras do sono perdido, naquela servidão? Homem amanhecido, vira besta — fera! Azedume no trato com o próximo. Efêmero sentimento da cobiça impossível e inarredável. Espicaçara mil vezes aquele desejo e a sanha do colibri envelhecendo, carente do néctar, do pólen, da seiva, do mel... Derrotado, entregara-se de vez!
          No baile do clube, as primeiras frases redescobertas. Primeiros toques tímidos na premência de encontrar a mina, olho d'água brotando. Ternura soterrada em desejos reprimidos. Um mês depois, cupim roendo as bordas, já não suportava mais. Bicho, animal sedento, atacou a presa. Vítima indefesa. Mergulhara até o fundo do lago sereno, buscar pedrinhas coloridas. Menino sem saber nadar, braçadas à esmo, em busca da margem do outro lado.
          — Quem me salva?! Amparai-me que cometo loucura!
          O anjinho fechava os olhinhos contritos, sempre esganada, pedindo mais. Necessário escafandro para chegar até o fundo. Em busca de pérola na conchinha aberta, vertendo seiva e sussurros na sangria desatada dos sentidos.
          — Dói!
          Na dor, o prazer. Pensou, voltando a mergulhar. Desta feita, mais fundo. Quase rancoroso, tanta espera para chegar ali. Quantas vezes? Até esvair-se, sem forças, sem fôlego para voltar à tona. Bandida!
          — Ai, violência!. — Os lábios entreabertos, a saliva na pontinha da língua, no céu da boca. Louca. Vadia. Safada. Cadelinha! Emendava o vocabulário farto, tanta sede.
          Liqüidificador em alta rotação, a gostosinha. Mais chamas, labaredas, fogo que o próprio inferno! Derretia chumbo, alianças de ouro, estanho, cobre e ferro maciço em busca da pedra filosofal. Bruxa escandalosa!
          Enfeitiçado, babava-se todo. Ela fez xixizinho?! Fez sim que, ele sentiu a vagabunda forçando a bexiga e gozando delírio de tara inconcebível para florinha tão delicada e mimosa. Gata no cio, dragava-lhe as entranhas. Ela: cravava-lhe as unhas nas costas de lobo peludo, nas nádegas de escafandrista. Todo marcado, ferido de tirar sangue. Uma marca escandalosamente roxa no pescoço, onde ela sugara, a vampira! Sanguessuga ferina! Insaciável. Ele quarenta e quatro. Ela, somente muito tempo revelara os dezesseis, a vampira debochada!.
          Dera para debochar dele que já não agüentava mais de quatro, cinco, seis... Queria vinte vezes numa única noite? Decerto! Até sangrar. Até restar poça de suor e gozo sobre o linho branco do lençol. Ah, bandidinha safada! Muito amor requentado no fogo brando dos quarenta passados. Ela, doidivanas.
          Tirou-lhe tudo. Fugiu com outro. Ele descobriu, sem graça. Desejo de morte. Passarinho sem ninho. Aflito. Mortinho de saudade da pombinha branca da paz perdida. Porquê fora confiar em colibri sem asas?! Pombinha sem alma!
          Sábado e domingo no mesmo bar. Desesperançado. Bêbado, caindo pelas sarjetas, destronado o rei sem reino. Chorinho miúdo por nada. Nem lhe toque naquele nome, já rolam lágrimas. Nunca mais que ela apareceu? Não. Nem vai. E a saudade que nunca desfeita? As cicatrizes tantas. Noites que se transformaram em eternidades! Definhando, definhando e, solto, cambaleante pelas ruas, cantarolando a canção do Chico:
          — “A Rita levou meu sorriso. No sorriso dela o meu assunto ....A Rita matou nosso amor de vingança...”.
          Da herança não poderia reclamar que, isso ela deixara. Ah, Ana Rita! Ajoelhado frente à imagem de São Francisco, ouvindo disco de Noel, meteu uma bala na cabeça e, saiu por aí, em busca da Rita:
          — Anjinho de Deus!...


 

SEBASTIAN: A LENDA

 

          Apontara a arma sim, mas não para matar. Acidente. Fora um fatídico acidente. Contratempo. A bala ricocheteara e, por infelicidade, descaso do destino, alojara-se na nuca do homem, penetrando-lhe a caixa craniana. Sebastian desejava apenas provisões: arroz, feijão, enlatados, cigarros.. Talvez, um litro de uísque. Nada saíra como planejado. Nada. De forma que, acabou realizando um verdadeiro assalto. Caixas e caixas foram carregadas das prateleiras do supermercado. Aí sim, encontrava-se naquela situação inusitada. Como não ir até o fim? Mesmo porque, sabia que em breve, estariam atrás dele. Não havia outro sujeito na ação. Sebastian era o sujeito e encontrava-se atolado até o pescoço.
          — Porra!, não pretendia ferir ninguém. Somente umas coisinhas para uma semana, no máximo, duas. Merda! — Sussurrava, carregando o furgão pela traseira. Era uma droga de um furgão que não poderia levá-lo tão distante dali que, a polícia, em breve não o encontrasse e fizesse dele, uma “peneira”. Atira-se primeiro para ler os direitos em seguida. Nada mais que fazer!
          Sobrecarregou o furgão, principalmente ou, prioritariamente, com enlatados, cigarros, fósforos, pilhas para lanterna, lampião, enquanto sua mente turbilhonava, doía-lhe a cabeça latejando-lhe as têmporas. Apanhou a doze com a caixa de balas. Talvez necessitasse. Possuía um trinta e oito e duas caixas de munição. Duas facas para caça, uma velha mochila, um cobertor surrado e uma manta de couro.
          Dinheiro não lhe serviria para nada. Não a partir daquele trágico momento. Preferiu caixas com flocos, cevada, café, açúcar, sal, cerveja, álcool, querosene em lata, outras miudezas e porcarias com as quais ia entulhando o velho e decrépito furgão. Observou o homem caído atrás do balcão, já sem vida e sentiu as lágrimas brotarem. Saiu dali cantando os pneus bastante surrados.
          Por sorte, não havia alarme no supermercado. Percorreu vias secundárias, tomou a interestadual e, chegando a altura da região desértica, saiu pelas trilhas. Havia um abismo e pretendia atirar o furgão pela encosta abaixo. Talvez o dessem por morto. Dirigia em velocidade frenética. Contou quase trinta horas sem parar, sem pregar olhos e chegou ao “Vale das Sombras”. Estranho nome para um local deserto, sol causticante e com temperatura elevadíssima. Encontrava-se fatigado, mais morto do que vivo. Lá embaixo, um precipício e à sua direita, montanhas, cavernas e locais onde bem poderia esconder-se.
          Parou para meditar, tomando generosos tragos de uísque. Era tudo que necessitava naquele momento. Parar. Dar um tempo. Pensar. Havia levado consigo o rádio e pilhas. Farolete? Sim. Eram algumas de suas esperanças. Começou, ou melhor, deu início a uma busca que terminaria quando o sol estivesse se pondo. Encontrara uma caverna incrustada em meio às rochas. Era profunda, não muito larga, escura, não perceptível — quase — e, por algum milagre da natureza e reparo de um destino tão desastrado, havia uma pequena, diminuta bica de água interna que brotava em meio à duas rochas e mal corria, morrendo a poucos metros após a nascente.
          — Deus! Oh, Deus!, era tudo de que eu necessitava! — exclamou euforicamente, descarregando as mercadorias para dentro da caverna. E tanto trabalhou que, suas pernas pareciam de borracha e seus membros endureceram já não mais comandados por sua vontade leonina. Caiu exausto ao lado do furgão. Permaneceu longo tempo aspirando e expirando o ar febricitante dos moribundos sob o sol escaldante do deserto.
          Não havia sol e as estrelas brilhavam no céu quando despertou. Apanhou o galão de combustível e dirigiu quatro quilômetros em linha reta, afastando-se do local. Era necessário o sacrifício. Não conseguia manter-se sobre as pernas, mas o fez.
          — Tudo certo! Tudo! Agora falta muito pouco. — disse à si próprio e parou à beira do precipício. Espargiu gasolina por várias partes do furgão, desengatou-o e o forçou a rolar precipício abaixo. Pensou que, talvez, houvesse necessidade de usar a arma para causar o incêndio e a explosão. Contudo, não fora necessário. O furgão mergulhou no espaço e passou a ricochetear pelas arestas do rochedo em seu caminho e, antes mesmo de chegar ao seu destino explodiu em chamas. Sebastian sentiu-se aliviado. Ou quase.
          Teria que retornar. Era uma longa caminhada e o frio e o vento sibilante roubavam-lhe as forças em sua exaustão. Passou a caminhar feito um moribundo embriagado. Havia uma galhada em meio ao caminho. A partir dali, pretendia revolver as areias com a galhada ressequida e apagar os rastros do furgão, além de suas próprias pegadas que pareciam afundar cada vez mais, à cada passo arrastado com sacrifício e suor.
          Amanheceu febril, à boca da caverna e com a galhada fortemente presa em uma das mãos. Sentia-se doentio e incapaz de sussurrar uma única palavra. Sua garganta encontrava-se ressequida e o corpo estilhaçado pelos tombos que havia levado durante a noite. Um helicóptero podia ser ouvido ao longe.
          Uniu o que lhe restava de forças e arrastou-se, carregando atrás de si, os galhos ressequidos. Enfiou-se caverna adentro e, a galhada, como que providencial, tapou a entrada, enroscada em meio à greta das duas rochas. Caiu e deixou-se rolar até a bica de água. Era pouca. Por horas permaneceu ali, buscando saciar a sede imensurável que o fustigava. Ouviu, mais uma vez, o ronco do helicóptero passeando lá fora, no alto e, desmaiou.
          Recobrou a consciência muito tempo depois, com as gotas de água respingando-lhe pelo rosto. Por alguns segundos teve a sensação de que havia sonhado. Contudo, o ronco de um monomotor, o ladrar de cães e o vozerio de homens fizeram-no recobrar a consciência de vez.
          — Tô ferrado. — pensou. Sentiu na boca, o gosto amargo dos derrotados e tomou uma decisão radical.
          Preferia morrer a ser conduzido a um tribunal. Então saltou, apanhou o revólver, a doze e as caixas de munição. Arrastou-se lentamente até a entrada e pode observar os homens afastando-se. Havia pelo menos uma dúzia deles, com cães e fortemente armados. Uma verdadeira caçada.
          O próprio vento havia incumbido-se de apagar as pegadas e soprara os resquícios do olor humano. Por isso, talvez, os cães não houvesse conseguido farejá-lo. O monomotor voltou a roncar em altitude baixa e desapareceu. Os homens caminhavam lentamente com seus cães farejadores. Sebastian sentia as mãos trêmulas apertando a doze. Teria realmente a coragem para atirar em algum daqueles homens? Pensava nisso naquele momento e não havia resposta de imediato. Apenas que, sentia-se aliviado. Talvez voltassem. Não uma ou duas. Mas várias vezes. Novas buscas. Até...
          Retornou para seu vezo arrastando-se, apanhou um litro de uísque e serviu-se demoradamente no gargalo. Em seguida, com a faca de caça, abriu seis latas de cerveja e, estrategicamente, colocou-as de forma que, cada gota de água não fosse perdida. Em breve sentiria sede.
          O tempo parecia deslizar moroso. Arriscou: apanhou o rádio, conectou o fone de ouvidos e passou a girar o dial lentamente, em busca de notícias. Conseguiu sintonizar uma boa estação, abriu uma lata de feijão e passou a se alimentar, mastigando com prazer e sofreguidão. Uma hora depois, ouviu um boletim informativo. O xerife do condado declarara à imprensa que as pistas tornavam-se evidentes e que o assassino (aquela palavra chocou-o), seguramente teria morrido carbonizado.
          — Está blefando, o filho da mãe! Não há indícios ou corpos que provem que havia alguém dentro do furgão. É um jogo, eu sei! — concluiu irritado, Sebastian.
          Lá fora, anoitecera. Encontrava-se abalado e precisava repousar. Esfriava consideravelmente. Se a temperatura despencava ao longo da madrugada, durante o dia, seria capaz de fritar um ovo sobre alguma pedra. De forma que, ajeitou-se como pode. Não acenderia nada: nem fogo, lampião ou lanterna. Não por enquanto. Havia o perigo de cobras e outros animais peçonhentos mas teria que correr o risco. Adormeceu rapidamente e sonhou.
          Sonhou com a mãe que jamais conhecera. O pai que o açoitava com cordas molhadas e vivia embriagado. Sonhou com o homem e seu olhar vazio, absurdo, quando a bala estourou-lhe a nuca. Então passou a caminhar pelo longo corredor da morte. Havia um soldado de cada lado e um padre que não parava de rezar e quanto mais rezava, mais Sebastian se deixava convencer que aquele era o destino de todos: a morte. De uma forma ou de outra, todos têm o seu dia. Era estranho o capacete na cabeça, pés e mãos imobilizados. Iriam ligar aquela “porra” e ele iria se debater por alguns segundos e tudo estaria terminado. Não era tão ruim, afinal...
          Sebastian era um osso duro de roer. Sua aparência era selvagem e zombeteira. Contudo, seu coração se esvaia em prantos. Com isso, .passou a noite rolando de um lado para outro e, por um momento, pensou haver emitido um berro descomunal que espalhou-se por toda a planície e pelo deserto. Apesar do frio, estava transpirando em bagas. Consultou o relógio de pulso com ponteiros fluorescentes. Marcavam cinco horas.
          Seu primeiro pensamento fora que, poderia estar em sua casa, ou melhor “naquele buraco”. Sem ter o que comer, o que fumar; sendo escorraçado de um lado para outro. No entanto livre. Sem a alma de um infeliz a lhe atormentar todo o tempo. É, poderia...
          Permaneceu quieto. Ouvia os pingos em ritmo metódico da água caindo dentro de uma das latas, o vento sibilante soprando lá fora as areias finas. Não havia ladrar de cães, ronco de motor ou vozerio. Somente o sussurro intermitente da solidão. Arrastou-se, até a boca da caverna. Somente então, percebera que as duas enormes rochas quase impediam que um homem pudesse passar por ali. Afastou um pouco os galhos e viu a imensidão do deserto e sentiu-se ainda mais solitário e vazio.
          Passou a anotar em uma caixa de flocos, os dias do mês e da semana. Talvez houvesse uma margem de erro de dois ou três dias, mas acertaria com o rádio. Começou a trabalhar de forma a racionar alimentos e água. Distribuiu enlatados e perecíveis. Acabou descobrindo que, com a faca, conseguira algo maravilhosamente necessário: abrir um pouco mais a bica no grotão e, ao invés de gotas metódicas, um pequeno veio brotou manso e límpido. Festejou aquilo com meia lata de água fresca. Em outra lata, colocou café solúvel, água e açúcar. No entanto, não ousava arriscar a acender o fogo. Tomou alguns tragos e percebeu o quanto era terrivelmente ruim. Fumou dois cigarros e voltou a rastejar até a boca da caverna. Parecia mais uma fenda em meio às rochas. Passou longo tempo observando o vazio e o vento carregando o que conseguia arrastar. Seus olhos começaram a arder e então, resolveu tomar um trago e ligar o rádio em busca de novas notícias sobre o caso. Passou a tarde ouvindo músicas e embriagando-se. Nada de notícias. Retirou o fone dos ouvidos, desligou o aparelho porque, considerou que, necessitava economizar pilhas e resolveu comer alguma coisa. Feijão e ervilhas.
          No décimo quinto dia, não suportava mais aquela maldita rotina e, além disso, suas juntas, pareciam pesar feito chumbo. Precisava sair dali e caminhar um pouco. Então o faria pelas cinco horas da manhã ou, ao anoitecer. É, seria melhor ao anoitecer. Correria menos riscos e não iria distante para não se perder e para que, no dia seguinte, o vento houvesse apagado suas pegadas nas areias. Quinze dias e nenhuma notícia. Teriam dado por encerrado? E suas provisões?
          No décimo sétimo dia, chegara à conclusão que se pegava muito mais arrastando o corpo exaurido do que propriamente caminhando. Até onde era possível divisar somente areia, dunas delas, rochedos e uma ou outra touceira de uma espécie de sarça, mato ressequido que insistia em lutar contra o sol e a falta de água, feito os cactos. Não havia conseguido encetar mais que dez passos. Voltou para seu recôndito quase que de quatro, feito um animal. Suas barbas e cabelos começavam a se emaranhar e crescer de forma desmesurada. Havia perdido vários quilos e nas últimas noites, já não conseguia pregar olhos. Tomou a resolução de praticar alguns pequenos exercícios todos os dias. Não o fez.
          Vigésimo primeiro dia e dentro da caverna havia um amontoado de caixas, latas vazias, um engradado que servia de mesinha, além de seis ou sete latas contendo almôndegas e feijão. Um pacote de biscoitos e mais nada. A solidão e o medo tomaram proporções alarmantes.
          No trigésimo dia, atirou em pequenos camundongos e lagartos. Acendeu uma pequena e discreta fogueira e deliciou-se com uma comedida refeição para uma fome sem tamanho. Não havia outro jeito. Tivera que arriscar quanto ao tiro. Conseguiu fazer um arco e algumas flechas não muito eficazes para caçar lagartos e cobras. Talvez houvesse algum animal de maior porte do outro lado daquela vastidão. Seu estômago doía e ele próprio sabia sobre suas condições frágeis e seu corpo cada vez mais debilitado e caquético.
          No trigésimo oitavo dia, sentia os efeitos de um jejum forçado. Três dias sem ter com o que se alimentar. Havia tentado uma espécie de verme parecido com minhoca, mas sinceramente, o estômago não aceitara. Água. Havia percebido quando o pássaro pousara sobre uma enorme rocha a pouca distância dali. Resolvera não arriscar e saiu arrastando-se em direção a ave e quase fraturou a clavícula com o coice da doze. Contudo acertara, o que fora de suma importância. Sentiu os olhos marejarem. Será que alguém ouvira o tiro? A carne não era tão ruim. Não de todo. Mesmo com aquela aparência asquerosa. Provavelmente um terrível e repugnante abutre devorador de carniça. Vomitou os primeiros pedaços, em seguida, forçou-se a devorar aquela coisa e mantê-la em seu organismo. Havia salgado-a o bastante para sentir aquele horrível gosto adocicado que o fizera colocar para fora os pedaços ingeridos.
          Pelas anotações efetuadas, havia chegado ao quadragésimo quinto dia. Havia passado três noites espreitando o pequeno bando. Ou melhor, matilha. Seriam cães? Coiotes? Hienas? Já não conseguia discernir. Na quarta noite, finalmente, abatera um deles. Achou que deveria ser algum cão selvagem. Cortou em tiras, salgou a carne e racionou de forma metódica, minuciosa, enquanto caçava ratos e lagartos com flechas e sua pontaria que melhorara em muito nas últimas semanas.
          No final do terceiro mês, conseguira devorar um cacto. Por sorte não era venenoso. E sequer havia pensado em tal questão. A polpa não tinha gosto algum. Talvez servisse para saciar a sede. O efeito foi terrível porque o estômago permanecera em chamas por vários dias, apesar da água ingerida a cada meia hora, bem marcada.
          Parou de anotar os dias. Com certeza passara dos cem. Sentia-se macilento. Os lábios gretados sob os bigodes. Sua aparência retratava as penúrias pelas quais vinha passando. Deixara o rádio de lado. Resoluto passou a caminhar à esmo, percorrendo quilômetros com o revólver, a doze e a faca. Não havia nada mais do que deserto. Quilômetros e quilômetros de areia e rochas e pedras e arbustos ressequidos. Seu aspecto animalesco impregnado pela paisagem rústica o aprisionava feito uma pintura nalgum quadro de parede. Um animal doentio. Desses que, às vezes, o próprio veterinário resolve sacrificar para colocar termo aos sofrimentos incompreensíveis e enlouquecedores. Sebastian, por fim, passara a variar. A ter visões anômalas e patéticas.
          Havia perdido a conta dos dias. Sua memória falhava ou resolvera traí-lo. Restara-lhe uma bala. Uma única bala no tambor do revólver. Seus pés arrastavam-se desgovernados sobre as areias escaldantes. Se conseguisse chegar a algum lugar, um vilarejo qualquer, talvez pudesse voltar a ser um homem novamente. Simples e esquecido. Talvez. Delirava. Caso não conseguisse, bem, ainda havia uma bala no revólver.....


 

NARCISO NO ESPELHO

 

          Invocar a loucura. Ou, mais precisamente, fazê-la explodir. Diante do espelho. Os olhos congestionados e o rosto por completo, sendo redesenhado. Não um bosquejo à lápis. Ou uma pintura a óleo, através de finos pincéis. Mas sim, à forma dos que, por hábito, já não conseguem evitar as avarias do álcool e do sono. E, consequentemente, parecem estar inchados todo o tempo.
          Hábito ou vício, não importa! Quando os tanques de guerra começaram a tomar as ruas e as pessoas debandaram apavoradas ele avaliou, ponderou e acabou dando de ombros.. Bem, o exército realizava manobras e acrobacias com seus mananciais bélicos. Um cachorro aproximou-se de um enorme tanque com suas lagartas, a fumaça do óleo expulsa de suas entranhas, bufando feito um hipopótamo e o cachorro cheirou-o de forma indiferente, ergueu a pata traseira e urinou naquele monte de ferro e engrenagens ameaçadores.
          Do outro lado da rua, a garota de jeans e tênis, cabelos soltos e longos, levou a lata de refrigerante aos lábios e sorveu, tranqüila. Fazia calor. Sempre fizera calor. Jamais percebera. E apesar do sol escaldante, do mormaço, a praça e lanchonetes foram ficando vazias. Feito o próprio domingo dentro da alma. Dia sem pé nem cabeça.
          Outro tanque surgiu no fim da rua, ferruginoso, bufando e estacou, girando aquele cano de descarga no alto e apontando para um ponto qualquer que não dava para precisar muito bem. Talvez a manobra fosse somente para impressionar. Os militares sempre foram exibicionistas, meio palhaços...
          Então, eles perfilaram-se ao longo da rua junto à praça da matriz. Como se fosse uma parada militar e, em seguida, silenciaram. Eram muitos. Toda aquela movimentação demonstrativa do poderio de força, já não se parecia ou, em nada lembrava uma parada militar. Muito pelo contrário. Na realidade, não dava para se chegar à conclusão alguma. Essa era a realidade.
          Logo em seguida, se assentaram as tropas com seus carros blindados, canhões, bazucas, lançadores de morteiros, metralhadoras, fuzis, barracas e, de repente, a praça foi transformada em um verdadeiro quartel do exército com sua cavalaria blindada. O sol esturricava a merda dos cavalos que pastavam receosos.
          Havia ou fez-se, um silêncio espectral que tomou conta de tudo. Não se ouvia uma única palavra. O próprio vento negava-se a passar por aquele quadro patético e bizarro. Somente uma mosca ousou zumbir de forma zombeteira e desapareceu ao longe.
          O homem que tinha o rosto inchado e os olhos congestionados e que, mirava-se no espelho todos os dias, despertara de ressaca. Ele apanhou um litro de uísque, tragou no gargalo, abriu um pouco — quase nada — sua janela que dava para a praça e ficou observando aquele cenário inaudito e achando hilário. Feito invocar a loucura e fazê-la explodir em mil estilhaços de granadas.
          Não havia tumulto, constatou. Nem greve, atentado ou outro perigo eminente de invasões ou revolução. Não havia sequer, possíveis inimigos. Não que soubesse. Contudo, quatro caças da força aérea efetuaram vôos rascantes, quase acrobáticos. Dois helicópteros munidos de metralhadoras, sobrevoaram a praça. Ninguém conseguia entender o que estava ocorrendo. Não havia guerrilhas ou levantes.
          A praça tomada e sitiada preocupava o povo que, de paz com a vida, começou a questionar se, por acaso haviam-se cometido alguma infração para que fossem tomadas medidas tão drásticas. Ás quatorze horas, do outro lado da rua, uma mulher emitiu uns gritinhos de êxtase e prazer. Acabara de atingir o orgasmo. O marido, após baixar as portas do estabelecimento comercial, resolvera matar o tempo ao invés de ficar observando aquela “palhaçada inexplicável”, por uma fresta da janela. Dissera à mulher:
          — Vão se fodeire! — com seu sotaque aportuguesado.
          Por volta das quatorze e vinte, três garotos se armaram em trincheira numa água-furtada de uma das residências e prepararam suas munições: bolas de saibro, bolinhas de aço, e estilingues com borracha de câmara de ar de bicicleta. Para eles, que o exército desse o primeiro tiro. Então, teriam motivos o suficiente para responderem ao fogo.
          Um velho senhor já meio aborrecido, apanhou sua espingarda e o que restara da munição para caça, indo prostrar-se junto à janela, alerta, na tocaia. Sua arma era apenas uma “pica-pau”, de carregar pelo cano.
          Às quinze horas precisamente, quando o relógio da matriz começou a badalar, por pouco um soldado não apertou um botão. A situação tornara-se tensa e, parecia inevitável que não viesse ocorrer uma catástrofe incompreensível, transformando-se numa verdadeira carnificina.
          Nas emissoras de rádio e TV, a programação era normal. O homem da cara inchada acabara de descobrir que seus pés também haviam inchado consideravelmente. Deu de ombros e voltou a deitar-se. Em poucos segundos estava sonhando com um alambique.
          A situação era inusitada. O cachorro urinou em mais um dos tanques e em meio aquele campo de batalha psicológico, encontrou-se, por acaso, com uma cadelinha no cio. Os dois se cheiraram; deram umas lambidas e em acordo mútuo, transaram ali mesmo, até que, cada um resolveu sair para o seu lado. Era tarde e necessariamente, permaneceram dando voltas, esperando impacientes que o processo ocorresse e eles pudessem desvencilhar-se da famigerada engatada.
          Ninguém ria ou enxotava os animais. Somente um soldado pensou na namorado e recostou-se no companheiro da frente. Era a tensão. A solidão. A carência afetiva. Ou talvez, fosse segundas intenções mesmo. Não importava, afinal. Poderiam morrer à qualquer momento.
          As beatas que limpavam o interior da matriz, se ajoelharam diante do altar e puseram-se a rezar de forma contrita. Os helicópteros saíram de cena. Um bando de abutres entrou em cena. Sobrevoava em círculos concêntricos e largos sobre a praça. A situação tornara-se insuportável.
          Eram o silêncio, a expectativa, o tiquetaquear das horas nos relógios de pulsos e até mesmo as batidas cardíacas arritmicas. Tensão intolerável. Aos poucos os cães, pássaros, borboletas e até mesmo os abutres haviam desaparecido. E o quartel general ali, desconexo, silencioso, sem um piscar de olhos. Bagas de suor brotando à socapa e molhando as fardas. Respirar era o limite.
          A noite descerrou seu manto de forma morosa, apática, inconvincente. Como quem protestasse contra os abusos do poder. As pessoas, animais de terra e ar, haviam deixado o fato hediondo de lado. Porque alguém considerara tudo aquilo como um fato hediondo. Embora, não soubessem dizer o que significasse “hediondo”.
          Finalmente a noite fez-se clara. A lua alvíssima. Um manto sarapintado pelas estrelas luzidias. Eram tantas quantas as que o general usava. Ou mais. Fora o mesmo general do Comando Maior quem ordenara para que toda a energia elétrica fosse suprimida e sobretudo, que nenhuma besta, quadrúpede, ousasse ligar uma lanterna, um farolete, lampião ou mesmo, palito de fósforo.
          Os grilos calaram-se, amiúde. Sapos não coaxavam mais. De somenos importância. Tudo aquilo era ridículo, mas ninguém dizia. Ninguém ousava. A lenta agonia das horas. Às vinte e duas, o homem inchado que invocava a loucura e mirava-se no espelho, bocejou. Houve uma certa expectativa lá fora.
          O Narciso tinha os olhos congestionados e encontrava-se convicto de que tudo era uma merda. Suas roupas puídas e amarrotadas. As botas rotas até que lhe caíam bem. Achava. Necessitava sim, de uma bebida forte. Estava com problemas de gases. Sorriu frente ao espelho já com aquela decisão resoluta, inadiável. Por fim, saiu para a rua e viu o exército inteiro à postos. Não havia armas ensarilhadas. Todas encontravam-se em guarda, devidamente municiadas nas mãos trêmulas dos atiradores. Por algum tempo ficou observando o quadro. Não sabia se emitia uma gargalhada ou se tornava para dentro da casa. Pensou: “posso sair do meu quarto e caminhar. Afinal, sou um cidadão livre”.
          E, acreditou em seus próprios pensamentos e deu os primeiros passos. Em algum lugar do mundo, deveria haver pelo menos um barzinho aberto.
          Saiu caminhando meio hesitante. Passou pelos primeiros tanques, as primeiras metralhadoras, trincheiras, baterias antiaéreas. Olhares acompanhavam seus passos de forma irritadiça; nervosos, tensos. No entanto, ele já havia alcançado metade do percurso quando, de rosto e pés inchados, sem alguma perspectiva de vida, foi sutilmente traído.
          As veias do pescoço saltaram num esforço vão de conter o inevitável. Então ele pensou: “Foda-se!”, emitindo sonoro peido. Foi o mesmo que lançar uma granada em meio àquele formigueiro bélico. A primeira rajada, cortou-o pela metade, junto ao ventre e a saraivada continuou a pipocar de forma furiosa, ininterrupta. Ninguém sabia mais em quem atirar, mas todos atiravam. Nas casas, para o alto, nos vultos, sombras, escombros, nos próprios companheiros e aquilo durou toda a noite, até que, finalmente, amanhecera.
          O Narciso já não necessitaria de seu velho espelho.
          Um projétil de canhão havia mandado pelos ares, o seu quarto. Estilhaços do que fora o espelho, jaziam espalhados. Contudo, em algum pedaço minúsculo do vidro espelhado, alguém poderia jurar que um olho inchado e entristecido, vertia sangue. Como se chorasse. Como se, simplesmente, chorasse sua lágrima de sangue.


 

UM BAGULHO BOTA PARA DERRETER

 

          O sol ardia febril, derretendo o asfalto e o homem sobre o andaime da construção pensava que a continuar daquele jeito, acabaria com os miolos cozidos. Há mais de um mês, todas a noites, sentia uma terrível e implacável dor. Dissera à mulher que ia acabar nalgum hospício. Começou a sentir vertigens e transpirava aos cântaros, deveras. Por isso, parou por alguns instantes.
          — Mão na massa aí, negrão! — berrou o engenheiro de obras, fiscalizando tudo.
          — À putaqueopariu! — sussurrou o negrão, vendo aquela meleca preta, encardida, escorrendo pelo furo da botina. Estava derretendo.
          Lá embaixo (olhava para baixo e sentia-se despencando), as moças que passavam do outro lado da calçada também começavam a derreter. Então ele viu os seios enormes da mulher murchando, as pelancas do ventre, coxas e a gostosona caminhava e ia se desmanchando toda sob o sol escaldante. Ficava aquele rasto decomposto, sapatos, saia, sutiã, calcinha.
          Uns pêlos misturados com cabelos e dentes espalhados pela calçada. Um executivo passara com uma pastinha sob o braço e a pasta permaneceu grudada no chão. O negrão ria e achava tudo aquilo muitíssimo engraçado. Acontecia, às vezes, nos últimos tempos. É, vinha acontecendo coisas estranhas e ele somente fazia por emitir aquela gargalhada estrondosamente debochada.
          O fiscal da obra tirara o capacete para enxugar a testa e quando passou o lenço, as peles soltaram-se e ao invés de suor, havia sangue no lenço empapado.
          — Bem feito, filhodaputa! — pensou o negrão, sentindo a orelha pingando feito uma bica. Piche escorrendo. Caiu sobre a tábua do andaime e permaneceu ali. Era engraçado. Mas também, era nojento.
          O sol não dava tréguas. Queria que uma nuvem permanecesse por alguns minutos a escondê-lo. Contudo, o céu encontrava-se límpido, muito claro. Por um momento, o operário pensou que tudo não passasse de imaginação, devaneio, delírio. Havia tomado umas a mais na noite anterior, durante a partida de futebol. Era um clássico: Fla X Flu, no Maracanã. De forma que. Inevitável...
          — O desgrenhado do Romário me perde um pênalti, o bunda-mole! Até eu convertia! Continuava “pensamentando” com a caçamba ao lado e a colher de pedreiro na mão. A unha de um dos dedões da mão esquerda havia caído. O dedão começara a derreter. Lembrou-se do que dissera à mulher de que estaria ficando troncho das moleiras. E estava mesmo. Agora dera de ver coisas!
          Emitiu um risinho sacana. Meio insano. E quando riu, sua dentadura despencou lá do alto. Mas nem se deu conta de que seu lábio inferior havia derretido. Dizia à si próprio:
          — Quem precisa de uma merda daquelas? Toda frouxa, ferindo a gengiva. Ora, foda-se! — disse de uma forma estranha, sibilante. Contudo, não estava importando-se com nada daquilo porque tinha certeza de que havia ficado lelé da cuca.
          — Tô matusquelo! Eu disse à porra da minha nega que eu ia acabar ficando groselha. Ela disse que eu estava ficando frouxo. Nem agüentava dar umazinha direito. Tentei explicar mas ela nem deu pelota. Ficou zoando com a minha broxada. Tô acabado e xarope da cabeça. Eu sei porque dói pra cacete aqui dentro. Dói tudo. Fico cego na hora. Não vejo mais nada na frente. Ou melhor, começo a ver coisas. Como pessoas derretendo, virando uma meleca pegajosa e nojenta. Tem hora que meu pinto parece um pedaço de chouriço todo flácido... (flácido é uma palavra e tanto. legal mesmo!).. Então, eu pego nele e parece que vai derreter entre os meus dedos. Tento enfiá-lo na boceta da nega, mas aquilo lá é chavasca, por acaso? Aquela beiçada mole, morta, começando a derreter também!...
          Acabara esquecendo-se do trabalho. Divagava sem remorsos. Não queria matar o tempo ou cozinhar o galo como a maioria dos funcionários da obra fazia, não. Era uma coisa lá, muito particular. Somente dele. Não se importava em ter que trabalhar. Mas, também não dava a mínima em ficar à sombra, coçando o saco. Continuou:
          — Queria ver aquele veado do departamento de pessoal com aquela putinha que passa todo o tempo rebolando de um lado para outro...Ah, ia ser o maior barato! Os dois atarracados feito cachorros no cio e derretendo. Ele dentro dela. Ela engolindo ele e o chefão, o bonzão da boca, chegando sorrateiro. Putz!
          No que emitiu aquele “Putz”, o queixo do negrão derreteu até às orelhas e ficou parecendo que ele estava rindo o tempo todo e para tudo e todos. Mas voltou a pensar:
          — É só fruto da imaginação! — tirara de letra aquela frase concludente que ouvira não sabia muito bem onde e quando. Mas era “ducacete”. Se era! E nem percebera que suas orelhas escorriam morosas, como se fossem apenas suor.
          Não conseguia lembrar se havia ou não, dado um tapa numa mufa e por isso, estava viajando no efeito. Achava graça um cara fumar um “beise” e ficar vendo aquelas coisas todas. Mas, sinceramente, não conseguia se lembrar.
          Talvez tivesse até fumado. Às vezes, dava uns tapas e metia na cabeça que ia botar pra ferrar no trampo. Depois, passado o efeito, vinha aquela maldita depressão. Vontade de comer doce. Deitar e dormir até o próximo século. Efeitos colaterais. Alguém dissera isso também, de efeitos colaterais e nunca mais esquecera daquelas palavras. Gostava de frases bem feitas, diferentes e as ouvia procurando decorar de forma que, na primeira oportunidade, fazia uso das mesmas de forma acentuada, sentindo-se o bamba. Contudo, não passava mesmo, era de um pé sujo. Contudo, se conseguia lembrar de palavras e frases, presumira que estava legal dos miolos. Ou pirado de vez porque, já estava meio confuso e parecia uma porra de uma salada tudo o que pensava e ficava chamuscando-lhe a cachola e os miolos.
          A mão esquerda, a que segurava o tijolo, foi junto com a argamassa. Ficou uma coisa estranha. Parecia que ele havia massacrado um gato preto com o tijolo e a massa e então, começava a ficar vermelho, brotando sangue. Feito a virgem que chorava sangue. Pensou o quanto seria complexo uma virgem chorando sangue. No entanto, preferiu deixar de lado que, nesse tipo de assunto não era de bulir. De forma que, passara a trabalhar somente com a mão direita e, sem as duas orelhas e os lábios.
          Os dedos dos pés também haviam derretido e pingava aquele treco escuro lá embaixo. “O palhaço que olhar para cima, vai levar colírio no zóião!”. Pensou. Pensou e, quando olhou para baixo, viu somente o capacete do mestre de obras e um amontoado encardido num macacão azul de brim.
          — Um fresco a menos para torrar a paciência! — concluiu satisfeito com o resultado. O sol desceu mais um pouco e o próprio edifício parecia um pudim. Um amontoado de porra ou manteiga.
          Isso era uma coisa que o negrão não conseguira definir de forma exata. Sabia que estava derretendo. Sentiu que não tinha mais os pés, nem as mãos e parou de trabalhar em definitivo.
          Afinal, como poderia trabalhar, assentar tijolos sem as mãos? Sentou-se no andaime e ficou observando as coisas derretendo: carros, mulheres, homens, edifícios, caralhos, pererecas, asfalto, tijolos, operários, lotações, o morro lá distante, muito distante....
          — Será que a minha nega também tá virando papa?
          Emitiu uma gargalhada sonora e gostosa. Foi então que, as duas pernas soltaram-se frouxamente. Ficou somente com a bunda preta se equilibrando no andaime porque os dois braços, também começavam a virar manteiga, derretendo lentamente. Sabão preto. Ria feito um palhaço. Riu tanto, mas tanto que, acabou despencando lá do alto.
          Desceu os andares ainda rindo. Esborrachou-se no meio dos entulhos e restos da obra. Permaneceu ali: mortinho da silva. Chamaram ambulância, a mulher do cara, os parentes.
          — Falei pro desgraçado não fumar aquela porra! — choramingava um mulatinho com dois olhos esbugalhados e vermelhos feito tição de fogo, rindo de se cagar e rolando pelo chão.
          Ninguém conseguia entender patavina. Uma tragédia daquelas e o cara lá, falando merda e rindo feito uma besta, sem nenhuma consideração pelo falecido e os parentes ali à sua volta. O mulato continuava a gargalhar, rolando sobre a areia misturada com cimento e cal. Então percebeu que todas as atenções encontravam-se voltadas para ele. Olhou para aquele ajuntamento de gente e para o companheiro morto e disse:
          — Eu falei! Avisei que ia dar merda, mas ele quis!
          E, em seguida, começou a derreter, com o sol trincando, às duas e meia de uma tarde de segunda-feira.....


 

NA CORDA BAMBA

 

          Contou os dez andares do edifício, calculou, realizou contas e projeções mentais um tanto complexas. Não que estivesse ou pretendesse subir ao décimo andar. Encontrava-se num pequeno apartamento do décimo e, enquanto deliciava-se com um copo de uísque puro, sem gelo — noite fria — observava junto ao parapeito, a rua lá embaixo. Caía uma garoa fina e o vento soprava, conforme sua concepção, “insinuante e sibilinamente”.
          Talvez fosse o tédio da metrópole, a pressão, a insegurança, o estresse... Do outro lado da rua, o edifício em frente. Subiu contando os andares com o olhar e parou no décimo. Havia uma luz tênue por detrás das cortinas e pode perceber uma silhueta que passara várias vezes de um lado para outro do que deveria ser a sala. Ou seria o quarto?
          Poderia ser tanto um, quanto outro. Pensava, retornando ao barzinho da estante onde serviu-se generosamente. Sem gelo. Permaneceu debruçado ao parapeito, a mente divagando. Pensamentos inconclusos, atabalhoados.
          — Ei, você aí! — gritou para a silhueta do décimo, do outro lado da rua. Poderia gritar porque ninguém ouviria mesmo. Então, continuou:
          — Sabia que esta cidade encontra-se infestada, empestada de gente maluca? Isso aqui parece uma manicômio! — Berrou e em seguida sorveu mais um trago do uísque e acendeu um cigarro. Voltou a concentrar-se em seu objetivo.:
          — Às vezes, as pessoas atiram-se de seus apartamentos e espatifam-se no asfalto lá embaixo! Depressão. Acho que deve ser isso. Brigam com namorados, com a esposa, o patrão. São maníacas, suicidas. Elas acham, ou acreditam que, essa loucura possa ser a solução para os problemas: a morte....
          Caminhou pela sala pensando, meditando.. Havia uma trena, arco e flecha em um armário. Não conseguia lembrar-se da corda. Disporia de uma corda resistente? Um cabo de aço? Calculou quantos metros do seu apartamento ao outro, do lado de lá da rua. Tornou ao parapeito. Não havia sacada. Não gostava. Uma criança brincando, correndo... Essas coisas ocorrem, às vezes. Preferia os parapeitos. Eram mais seguros. Mentalmente esticou a corda da sua janela até a janela do outro prédio. Quem poderia morar num lugar daqueles? As pessoas estão se tornando cada vez mais estranhas.
          Não queria pensar. Contudo, pensava. Não queria sentir a solidão. Contudo, sentia. Talvez um filme? Música? Era um sujeito de bem com a vida. No mais possuía seu próprio apartamento e a firma de corretora. Um bom carro. Poderia apanhar o carro e procurar uma mulher se desejasse. Ou dar umas voltas. Tinha cartão de crédito, dinheiro na conta bancária, algumas ações e não era feio ou complexado. O que mais poderia desejar?
          Chegara à conclusão (um tanto confusa àquela altura. Não do andar do edifício, mas sim, de seus próprios pensamentos), que talvez não tivesse o direito de desejar coisíssima alguma. Tratava-se de justiça. Não desejava autoprivilégio. Da mesma forma, não possuía nenhum sentimento de autocomiseração. Era um homem como qualquer outro em meio àquele amontoado de espigões, antenas, paranóicos, pirados, pingentes, infelizes, atabalhoados. Era um qualquer e pronto. Era o que era.
          De forma que, após estirada a corda (em pensamento), caminharia sobre ela. Na corda bamba. Feito nos circos quando em criança no Interior. Alguns detalhes: sem a rede lá embaixo e a altura. Era um risco. Garoava e ventava de forma ininterrupta. Ao invés de guarda-chuva, para o eventual equilíbrio, usaria o copo até à borda. Iria tomando aos goles, até chegar do outro lado. Mas, e se falhasse?
          Bem, bem.. Se falhasse, seria somente mais um doido espatifado no asfalto. Um rosto (se é que sobrasse um), ou melhor, um corpo anônimatologicamente sem vida. Existe tal palavra? Anonimatologicamente.. Pronunciou de forma lenta, compassada. Não sabia e nem iria procurar no dicionário. Detalhe de somenos importância para os fatos. Então, a idéia tomara forma, contornos delineados, corpo, vida própria.
          Rebuscou no armário. Arco, flecha, a trena forte com suas garras precisas. A corda? Poderia jurar que havia uma. Sempre há uma corda para uma hora de necessidade. Enforcar-se no banheiro, por exemplo. Riu da idéia. No entanto, sabia que não estava tão errado assim e a corda existia, realmente.
          — Há sempre uma corda quando se é precavido. — observou já um tanto quanto “alto”. Voltou ao parapeito. A silhueta do outro lado caminhou: “Continua viva. Talvez a minha espera”. Voltou a rir e o copo escapou-lhe por entre os dedos estilhaçando-se no chão. Apanhou outro, deixou a bebida transbordar, mas não bebeu. Colocou os objetos na sacola, abriu a porta e desceu pelo elevador de serviço.
          Já na calçada, lembrou-se de que havia esquecido da blusa. Fazia um frio enjoado, penetrante. Atravessou a rua e preparou-se, psicologicamente, para colocar em prática o seu plano. O porteiro do prédio cochilava com uma revista nas mãos, de forma que, fora mais fácil do que esperava. Subiu pelas escadas. No quinto andar, sentiu o quanto encontrava-se fora de forma. Parou para respirar, tomar fôlego. Transpirava. Voltou a subir. Chegou ao décimo andar cansado. Deu um tempo. Não seria fácil convencer fosse lá quem fosse, a colaborar com o seu projeto. Apertou a cigarra e esperou.
          — Quem é? — perguntou uma voz suavemente delicada do outro lado.
          Seu coração disparou. Pensou consigo “a mulher deve ser graciosamente bela com esta voz dócil, sussurrada e insinuante.”. E era, constataria em seguida.
          — Por favor.. Eu preciso conversar com a senhorita. Eu resido do outro lado da rua, eis o meu cartão. — Enfiou o cartão por baixo da folha da porta.
          — O que o Sr. deseja e como posso ter certeza de que o Sr. é realmente quem diz ser?
          — Sou proprietário de corretora como a senhorita leu aí no cartão e eu gostaria de dar uma olhada no edifício em frente ao seu. Sabe como são os negócios.. Visto por outro ângulo. Fregueses exigentes...
          — Não sei.. — respondeu a moça do outro lado da porta.
          — Olha, vou enfiar a minha carteira de identidade. A senhorita poderá constatar através do “olho mágico”. Às vezes, costumo sair num ou outro jornal. Coluna social. — corrigiu, abaixando-se e passando a identidade por baixo. A moça apanhou, conferiu.
          — Prometo não demorar mais que alguns segundos. É importante. — disse o homem de fora. Era ele mesmo. Cartão, identidade. Não havia dúvida, já o havia visto, talvez...
          Abriu lentamente a porta, espiando desconfiada pelo vão, com o trinco de segurança. Ele sorriu e disse boa noite. Pediu mil desculpas pela inconveniência do horário e, foi entrando. A moça era, realmente, um “bom pedaço”. Pelo jeito, morava só. Dissera que era funcionária da agência perto da Cásper Líbero. Ah, Caixa Econômica Federal. Tocou de leve a mão dela. Sentiu uma certa atração.
          — Permite-me? — perguntou apontando para a janela.
          —Ah, sim! — respondeu a moça de forma polida. Chamava-se Lígia. Ele Dagoberto. Haviam apresentado-se um ao outro? Não conseguia lembrar-se. Dali, observou a sua sala no edifício em frente, décimo andar. Perfeito.
          — Perfeito! Excelente! — disse ele com satisfação acentuada.
          — Então tá. — respondeu a moça sem nenhuma ênfase, indiferente.
          Chegara à parte mais complexa do plano. Mil invencionices. Talvez não, seguramente ela não consentiria. Começou a explicar-se. Mentia. Dizia que era para a cena de um filme publicitário. Na realidade, estaria preso por um cabo invisível. Chegou até a porta e apanhou a sacola, retirou seus apetrechos.
          — Está vendo? Esta parte eu afixo aqui, no parapeito. É seguro e não há com o que se preocupar. Em seguida, atiro “ armou a flecha no arco com a corda atada — a flecha ao meu apartamento. Largo! Acertou na primeira tentativa.
          — Meu senhor, não posso concordar com uma loucura dessas! O senhor há de convir comigo que se, digamos, venha ocorrer uma fatalidade? Eu serei cúmplice. Serei presa por partilhar, consentir, ser conivente. O senhor entende?
          Ele sentiu a firmeza da trena e voltou-se para Lígia:
          — Sei, sei! A senhorita tem toda razão em demonstrar preocupação. Todavia, posso afirmar-lhe que é mais seguro do que se possa imaginar e, no momento exato em que os holofotes estrategicamente forem ligados e o helicóptero pairar sobre os dois prédios, a senhorita poderá sentir-se completamente aliviada e isenta de qualquer preocupação. Eu lhe asseguro de forma veemente. — disse Dagoberto como se estivesse discursando para uma platéia lá embaixo.
          — Moço, por favor! — tentou em vão, Lígia.
          — Não se preocupe. Basta não tocar na trena, por favor. — respondeu saindo apressadamente. A moça permaneceu estática, petrificada. Não sabia o que fazer. O cara não parecia louco. Ou parecia? Às vezes, os malucos enganam a gente e são muito, terrivelmente inteligentes. Arquitetam planos com minúcias e nuanças que, nenhum outro ser comum o faria. Pensou em discar para a polícia. O corpo de bombeiros. O resgate. Aquele homem estava tentando suicidar-se. Sequer havia levado sua carteira de identidade. Era mais uma prova de sua conivência para com o ato suicida.
          — O que faço, Deus?! — perqueriu caminhando de um lado para outro e estacou perplexa. Pasmada de horror. Sentiu que iria vomitar. O homem estava de pé, do outro lado, com um copo — sim era um copo e, acenava para ela.
          Talvez fosse tarde. E, se ele estivesse contando a verdade? As pessoas fazem de tudo para venderem uma boa imagem aos telespectadores. Era um homem bem sucedido. Ele havia dado três ou quatro passos, equilibrando-se precariamente. Parecia embriagado. Levemente bêbedo. Sorria com o copo na mão. Tomou um trago rapidamente e, voltou a equilibrar-se. Ela fechou os olhos.
          O homem havia dado mais três passos curtos e arrastados, equilibrando-se na corda. O vento não era forte, mas poderia fazê-lo perder o equilíbrio. Além disso, chuviscava. Ou melhor, garoava. Não havia porra de holofote algum. Sequer helicóptero. O sujeito era maluco mesmo. Com o copo na mão..
          Quase perdeu o equilíbrio e por pouco, não despencou lá do alto. Uma rajada mais consistente daquele vento gélido e adeus comercial. Ela correu para o telefone e discou para a polícia que acionou o corpo de bombeiros que, acionou o Destacamento de resgates, a Defesa Civil, o Hospital mais próximo que acionou a sirene e a imprensa e dezenas, centenas de pessoas, se acotovelando lá embaixo, apreciando o espetáculo.
          Holofotes, sirenas, helicópteros, escada “magirus”... O homem havia chegado quase que na metade do percurso e continuava rindo, gargalhando, firme em seu propósito quando, o tempo parou: estaca fincada no coração do vampiro desgraçado. Eles pensam que são imortais. Os vampiros e alguns malucos das grandes metrópoles. Eles sempre pensam que são imortais, concluiu Lígia, tentando conter as lágrimas e a histeria...
          — Pensam que são imortais!...


 

O DIÁRIO

 

          Eu havia adquirido o hábito de escrever da mesma forma que o havia feito quanto ao hábito de ler. Das longas noites insones, em conseqüência das violentas crises asmáticas, muita coisa eu havia adquirido. Em contrapartida, outras, havia irrecuperavelmente perdido. A poeira adentrando o velho casarão, penetrando pelos poros, refocilando os vezos das memórias encafuadas por tantos quartos e cômodos meus conhecimentos numéricos pudessem contar. Na realidade, “O Diário” passara a ser escrito por essa época remota e recendendo a mofo e poeira ancestral. Mesmo porque, após quase meia centena de anos, lá estava eu, escarafunchando baús antigos abarrotados de roupas, pérolas, jóias, chapéus, calçados, em antiquados guarda-roupas e outros móveis empilhados pelos cantos da estranha casa.
          Nos primeiros dias, eu apenas reportava-me a contar algumas reminiscências nostálgicas de uma infância remotamente amarfanhada pelo tempo. Anotava à guisa de não perder de todo, em meio a tantos lapsos, os encantos do menino mirrado e doentio que eu fora — primogênito dos nove irmãos. Juntava cacos. Colava fatos. Recortes. Feito minha mãe, minhas tias e sobretudo minha avó, costurava com a mesma paciência, os retalhos da existência já corroída pelas traças e sofrimentos. Não que tudo houvesse saído às avessas, contudo, não era bem o que eu esperava ou sonhara um dia. Encontrava-me casado, tinha uma filha, uma casa que ia pagando com dificuldade e exercia a profissão de jornalista. Muito mais pela subsistência do que por amor à profissão. Gostaria de poder viver da literatura. Escrever. Compor canções e não mais que isso.
          (Desperto porque acabo de fugir de um pesadelo antigo. A sinfonia de violinos adentra-me os ouvidos e espalha-se pelo enorme salão em que o corpo jaz dentro de um caixão de segunda. Apenas os violinos e o corpo dentro do ataúde. Penso em quem estará dentro daquela coisa de madeira no meio do salão que foi meticulosamente encerado e logrado daquela poeira fina de eras que havia pelos cantos e paredes recobertas pelas teias das aranhas. Tenho medo, confesso. Talvez, ao me aproximar o suficiente, eu consiga ver o meu próprio corpo. Além disso, odeio esse olor nauseabundo de flores. Não vou mergulhar no poço. Permaneço intato, parado junto ao umbral, observando de soslaio a cena.).
          Então, vieram-me casos. Narrava-os em estilo simples, feito uma “besta” porque, saudosista como todo descendente de espanhóis, em minhas veias o sangue cigano empurrava-me de volta pelo mesmo caminho traçado. Em incontáveis noites, despertava desesperadamente atônito e alarmado com a realidade dos sonhos. De forma que, corria a escrever para apascentar os fantasmas antigos que me acompanhavam desde a infância.
          Julguei por bem que “O Diário de Uma Besta”, viria a calhar quanto às anotações por sua natureza e conteúdo, embora outros contos fizessem parte do conjunto. Mesmo porque o escritor argentino Cortazár havia escrito o seu “Bestiário”, se não me falha a memória, editado como livro de estréia. Eu não havia estreado aos 43 anos e já começara a tornar-me impaciente. Talvez, um tanto quanto enfarado com tanto escrever e meter pelas gavetas. Aliás, como o fizera com todos e tantos sonhos ao longo dos anos vividos. Até que, de alguma forma, descobri que já não havia necessidade de deitar-me para sonhar e despertar com algum novo fato na memória. Eu estava vivendo entre o “Diário” e a realidade do cotidiano no qual sentia-me cativo e desgostoso dado o relacionamento com a sociedade. Sobretudo em função de ter que, necessariamente, reportar todas as áreas dentro do jornalismo. A política me fascinava e ao mesmo tempo punha-me asco nas entranhas. Viscerais eram minhas batalhas internas contra o regime vigente. Distante da cidade da minha infância. Dos meus mortos e das minhas saudades e lembranças.
          (Não consigo criar coragem para ultrapassar os liames do que me resta ao nível consciente. Por isso, permaneço macambúzio frente ao caixão sobre os cavaletes no meio do salão. O enorme cristo, a cabeça pendente de lado, com sua dor inenarrável parece ofuscar o meu medo. Talvez desejasse dizer-me que todos sofremos. Inevitavelmente, a vida é somente uma passagem pela qual, sofremos muito mais do que possamos aquilatar. Mesmo quando idealizamos uma existência fornida por momentos de felicidade e contentamento. Nunca fui contente. Não há necessidade de dizer porque Ele sabe; está sentindo com sua dor e seus espinhos. Contudo, permaneço empacado feito uma velha mula. Não arredo pé.).
          Então passei a conviver com eles: os fantasmas. Passeavam pela casa com a naturalidade daqueles que, com o passar dos anos, adquiriram seus direitos inalienáveis. Eram parte de meus sonhos e realidade. Vivíamos bem e, não obstante tais visões e fatos mudarem gradativamente minha rotina, talvez eu houvesse vivido com eles para sempre, como uma velha família de ciganos: peregrinando de um cômodo para outro; de uma cidade à outra; de um sonho de somenos importância para as vicissitudes da realidade.
          Às vezes pegava-me a palrar longamente com os velhos mortos sentados em suas cadeiras de palhinha a tricotar; a mascar nacos de fumo para cusparar na areia vermelha do terreiro ou, a ouvir-lhes as infindas histórias de tempos ignotos e rebuscados com uma riqueza em detalhes e nuanças que, eu mesmo acabava confuso quando interrompido por alguém, enquanto respondia a algum ausente de corpo, mas presente em espírito.
          Em uma noite abafada, estressado e acossado por problemas financeiros — dívidas que me fustigavam e desafiavam a capacidade há doze anos, aproximadamente —, deitei-me com dez edições de jornais mal iniciadas e encalhadas no winchester do computador. Eu já não suportava mais escrever crônicas, editoriais, mentiras político-administrativas e publicá-las sabendo que o povo conhecia e aquilatava o volume de mentiras e verdades em cada lauda ou cada página do periódico do qual eu era editor e uma espécie de “faz de tudo”, que acabava nada fazendo tanto nojo causava-me então o jornal.
          (Às vezes, me sinto confuso com tudo isso. Estou diante do teclado e ao mesmo tempo, junto ao batente da enorme porta de gonzos rangentes. Então, sei que algo vai acontecer. Mesmo porque, é necessário — mister que algo ocorra de forma urgente. Caso contrário, talvez eu jamais volte a recuperar a sanidade. Ou o muito pouco que ainda me resta do que julgo ser sanidade. O Cristo sorri um sorriso triste, melancólico. Uma baga de suor escorre-lhe pela fronte ferida e cai-lhe no olho, está ardendo porque ele o fecha e é como se chorasse por um único olho. O olho da dor e do medo em segredos guardados. Acho que nos conhecemos. Ainda assim, não ouso arredar pé de onde me encontro e penso estar seguro de não sofrer um colapso fatal..).
          Deitei-me e já lá estava à caminho da velha casa. Era sempre o mesmo caminho ao longo dos anos e jamais mudara. Percorria-o a passos arrastados, inseguro, com medo de perder-me e não conseguir encontrar meus fantasmas. Quando menos esperava quedava-me diante deles, a discutir problemas corriqueiros. De terno, gravata e sapatos brilhantes. Enfim, impecavelmente vestido, discutia com meu falecido pai uma nova distribuição dos aposentos. Não que houvesse algo errado com eles, mas o salão, o enorme salão que mais parecia ter sido projetado para conferências, poderia muito bem ter sido dividido em dois ou três quartos. Afinal, a família é consideravelmente numerosa e estamos um tanto quanto apertados pelos quartos minúsculos e mal distribuídos.
          Minhas irmãs — estas vivas e morando a alguns quilômetros de onde eu resido atualmente — participavam do sonho com a velha e acirrada baderna da infância que sempre acabavam nos causando problemas. Desandavam os fatos em verdadeira parafernália de tempos idos e soterrados pelos anos com os problemas do ontem ou que eu teria que enfrentar no dia seguinte. Despertava frente ao teclado já com boa parte de um texto digitado, bastando tão somente salvá-lo em “meus documentos” ou em disquete, como se fora um sonâmbulo que desperta no alto do telhado quando o perigo parece eminente e a situação torna-se preocupante e assustadora.
          Lia, relia. De forma que, com o passar dos dias — ou das madrugadas —, já não havia necessidade de uma revisão quanto à fidelidade dos fatos sonhados com o que encontrava escrito no micro. Tudo isso, começou a causar-me problemas seríssimos e relevantes quanto ao relacionamento com minha esposa e filha e, mesmo com as pessoas pelas ruas ou, em algum departamento público. Mesmo porque, às vezes, sem que eu percebesse, estava a discutir com o meu avô e, quando dava por mim, as pessoas pareciam atônitas, abismadas a perscrutarem-me com seus olhares inquiridores de lunáticos. Não poderiam entender. Eu não conseguia compreender o que se passava, portanto, não poderia esperar que eles compreendessem ou viessem a entender.
          (Fico observando o quadro e já não me importo com as flores e as velas. O morto talvez, este sim causa-me um certo repúdio. Mesmo que aquele corpo lá, um dia, tenha me pertencido e doravante, seu destino seja o mesmo reservado para todos nós, simples mortais enquanto encarnados. Ora, que se dane! Ninguém aparece para velar o morto. Nem mesmo os velhos fantasmas que eu tanto esperava encontrar tão logo deixasse esta existência e o corpo físico. Nem mesmo meu avô com quem tudo aprendi sobre reencarnação!).
          Há alguns anos atrás, eu passara por graves problemas espirituais, avaliados como caso para psiquiatria. Os pesadelos, a insônia, as visões, ouvia e sentia a presença dos mortos com o pavor do garotinho que buscava no colo do avô, a segurança para seus pesadelos e medos daqueles estranhos seres que assombravam a casa em que morávamos então. Da mesma forma que me acostumara com os mortos que caminhavam pela casa; sobre o telhado; batiam nas paredes ou apareciam onde menos eu esperava, acostumei “após a idade madura”, a dividir meu espaço com eles, a tratá-los como meus iguais e, as coisas melhoraram, de forma que, se não nos entendíamos plenamente, dava para que nos suportássemos de um jeito ou de outro.
          Nos últimos três ou quatro anos, não posso afirmar com precisão, senti que algo rompia-se aqui dentro, em meu cérebro, quase me levando às raias da insanidade. Sem que eu percebesse, caía em depressão; sentia-me estressado; com a patética síndrome do medo; a paranóia tão comentada nos últimos tempos; o pânico das ruas; das pessoas. Pegava-me com tremores nas mãos; perdendo a coordenação motora; a mente embotada; a insegurança; o medo de tudo – agorafobia? — o que me causava crises horríveis; suores e calafrios. A hipersensibilidade auditiva e até mesmo o olfato se me haviam sido alterados então. Acontecera de repente, em uma tarde de julho ou agosto, quando eu me sentara ao meio-fio para chorar de forma copiosa sem saber o que fazer da vida e o que vinha ocorrendo comigo e à minha volta. Sentia-me excluído do processo social; marginalizado pelos próprios companheiros; encarcerado numa espécie de trama maquiavélica que armavam para acabar de vez com todos os meus sonhos e esperanças. A minha vida havia sido transformado em um verdadeiro caos.
          Nascia então, a idéia do diário com datas e nuanças, o que eu sempre considerara como coisa de adolescente. Deixei de lado e passei a escrever alguns contos de forma aleatória, pensando em como escrever “O Diário de Uma Besta”. Não o animal, mas o bobo da corte. O “Bestiário”, as aberrações, o surrealismo, o realismo fantástico, qualquer coisa parecida ou que se acercasse disso. Saiu-me um livro impressionante: “A Cidade Morta das Varejeiras”. Talvez o melhor livro que eu já havia escrito. De forma que este “O Diário de Uma Besta”, acabou sendo relegado a segundo plano, embora não descartasse a idéia de escrevê-lo. Sobretudo nos últimos meses em que, por mais que eu tente evitá-lo, os meus fantasmas me impedem de fazê-lo com meus sonhos, aparições, sugestões e outras tentativas — que acabam funcionando —, em chamar a minha atenção.
          (De repente sinto que algo tenta empurrar-me em direção ao caixão. Concentro minhas parcas energias em evitar que tal fato ocorra. O medo começa a dominar minha capacidade de raciocínio e autodomínio. Sei que o corpo dentro do ataúde não é outro senão o meu próprio corpo e a última coisa que desejo neste momento é ver o que restou do que um dia eu fora. Não vou. Ainda não me sinto preparado para a fatalidade. Começo a sentir o pânico tomando conta de todo o meu ser).
          Quando passei a ver os urubus carregando os bois macérrimos pelo céu em busca das nuvens; crianças criando asas e sobrevoando por sobre os telhados das casas; legiões de mortos em procissão pelas ruas nas madrugadas; vermes brotando das paredes; uma enorme varejeira copulando com seres humanos e a reunião do prefeito (encarnado) com os desencarnados, na praça matriz, em muitas madrugadas, então deixei com que as coisas fruíssem de forma natural, como se tudo fosse algo que realmente fizesse parte deste quadro bizarro que meus olhos fitam no escuro de minha mente embotada e entregue às ruminações das parvoíces dos seres humanos desta cidadezinha de merda.
          A maioria dos fatos são reais, diga-se de passagem. O teor de muitas recordações daria para colocar qualquer semovente preocupado com as conseqüências em deixar acontecer à sorrelfa, tantos embaraços e entrelaçamentos sem procurar um modo — ainda que através da medicina —, de evitar possíveis danos mentais. Contudo, agrilhoado, observo alguns algozes — atrozes; outros bons e luminescentes desencarnados que acompanham meus passos ou descansam ao meu lado na modorra das madrugadas abafadas deste verão incandescente.
          (Quando a mulher suicidou-se dentro da banheira do casarão eu ainda não morava nesta cidade. Foi por isso que em muitas noites eu podia ouvi-la ou visualizar seu espectro sombrio, quase macabro, em agonia pelos cômodos do casario da praça onde morei por alguns anos. Da mesma forma que, em criança, vinham sentar-se ao pé da cama, sussurrando coisas que me atormentavam e me apavoravam de tal forma que, jamais pude esquecê-los. Deste fadário de excentricidades — não direi anomalias —, é que refaço; colo cacos; vou cerzindo estas linhas ancestrais e que me põem as paredes da alma a criar musgos, ranhuras, poeira e bolor).
          Esta madrugada, após conturbadas horas de sono, despertei disposto a colocar termo nesta narrativa. Mesmo porque, sinto que ela possa trazer engendrada em seu âmago, muito pouco de literatura. Há em sua constituição, algo que desaprovo em se tratando de classificá-la como um conto ou algo no gênero literário. Não obstante tais considerações, o desejo de terminar o livro, é o que me impulsiona. Além disso, sinto que venho perdendo o controle sobre “O Diário”, com sua forma excêntrica e desigual. Outros contos são fragmentos do cotidiano que, uma vez retocados, podem buscar salvação na literatura. Entretanto, em nada me agradam esses estilhaços mal delineados e inconjuntos do diário. Por mais que eu tente dar sentido ou melhorá-los emprestando-lhes forma conjunta, literariamente passível de alguma espécie de classificação, não consigo sequer conceber tais escritas como sendo de minha autoria. Isso também me põe deveras intrigado e, amiúde, estudo-lhes as formas, o conteúdo e busco razões para levar a termo e mantê-lo em meio aos contos como parte do conjunto da obra. Nada consegue convencer-me. Tenho me sentido um mero objeto em mãos hábeis que, brincam em fazer aparecer e desaparecer moedas e bolas das mangas de um paletó velho, surrado e puído. Começo a ficar enfarado e aborrecido com o que venho escrevendo. Sinto ímpetos de selecionar todo o texto e “deletá-lo”, varrendo-o da memória e da tela. Não sei também, mas o considero o pior de todos. O menos aceitável, não chegando sequer a ser razoável como a maioria dos outros contos que também não considero grande coisa. Contudo, permaneço como que atado frente ao inusitado. Como a esperar o desfecho de toda essa acrobacia mental que os dedos digitam nervosos e impacientes tanto quanto minha própria mente consciente.
          (Por incrível que possa parecer, embora de forma inusitada, de repente, sinto-me compelido a observar o repugnante e assustador ataúde que se mantêm passivamente à espera. Permaneço aterrado ante a possibilidade daquilo com que terei que me confrontar se deixar que esse impulso me leve a dar os primeiros passos em direção aos arranjos mortuários. O enorme salão impregnado pelo olor de flores e velas, acaba me deixando ainda mais apreensivo e melancólico. Sinto que sou compelido a ceder a essa tentação maluca de seguir em frente — passo-à-passo —, até tocar a madeira e olhar as faces; os olhos semicerrados; os lábios e a tez amarelada e sem vida que ali jaz..).
          Quando fui internado pela primeira vez, somente tomei ciência de que me encontrava em uma casa de cuidados destinada à doentes mentais, duas semanas após a crise pela qual fui acometido tornando-me violento e auto-destrutivo, conforme comentavam-se então. Não eram os fantasmas o que me levavam à loucura, mas sim, os vivos. Os calhordas e biltres com os quais eu vinha convivendo diariamente em meu trabalho jornalístico. Contudo, me fora impossível explicar aos médicos e à sociedade. Muito menos convencê-los de que meus sonhos, muito provavelmente, fossem minha única salvação. O único antídoto contra a loucura real.
          Somente senti que havia algo de terrivelmente grave em toda aquela desfaçatez ao perceber que, vinham me dopando de forma violenta e metódica, como se procurassem me roubar as réstias de lucidez que teimavam em vicejar entre a realidade e o fantástico mundo no qual não conseguiam penetrar com suas terapias e investidas atrozes. Sentia-me uma verdadeira cobaia e, em dados momentos, zombava não somente deles, mas de minha própria sorte ou falta desta. Mesmo porque, eu sempre tivera em mente escrever um projeto para cinema intitulado “O Poeta Na Porta do Hospício”. Eu que sempre mantivera-me estritamente ligado à loucura através da imaginação um tanto conturbada, à cada ano sentia que esses laços estreitavam-se cada vez mais e, absurdamente me encontrava a perambular em meio a quadros mal delineados de dois mundos que se entrelaçavam e se rompiam a todo momento, o que, seguramente, metia-me um pavor a corroer-me as entranhas da alma. A loucura que tanto me fascinara, vivia a aterrar-me de forma sagaz e metódica. Por isso arquitetei minha fuga. Por isso, recusava-me a aceitar as visitas de consolo, piedade e compaixão que não me devolveriam o que eu poderia ter perdido ou estava por perder.
          Na realidade, não sei determinar ao certo há quanto era cativo e o que planejavam quanto a minha “interessante maluquice”. Minha insanidade que eu jamais considerara senão, uma forma de defesa contra a insanidade deles. Afinal, vivemos circundados por “malucos de pedra” (e este não é um termo que se faça uso porque é incorreto), o tempo todo e em todos os lugares. É o que se costumam dizer por aí. E eu, simplesmente concordo com essa quase teoria. Somos todos malucos em derradeira instância. E, em muitas e nas mais variadas situações, tal diagnóstico poupou a vida de muita gente ou tirou, o que dá no mesmo.
          Esta noite tive outro sonho, apesar da alta dosagem de drogas as mais variadas e de cunho e sais específicos da psiquiatria. À bem da verdade, em momento algum trataram-me com seus antiquados métodos deploráveis que acabam levando o paciente a uma espécie de vida vegetal. Não obstante, acredito que tenham exagerado todo o tempo nas doses e nos sais medicados. São fortes o suficiente para levarem à lona o mais feroz dos animais irracionais. O sonho veio, como sempre: me acorrentando e me tragando para as profundezas de seus abissais segredos e horrores.
          (Enquanto volvia à velha casa de fazenda, sempre pelo mesmo caminho — já me referi a tal fato —, sentia que aos poucos ia perdendo algo de meu ser de forma lenta e inevitável. Eu sempre tive medo de perder tudo o que amei na vida. Por isso, o que parecia que eu sempre estivera a perder, era justamente o que eu mais amava. Minha companheira, minha filha, meus irmãos, pais, amigos... Jesus!, mesmo em sonhos, uma presa medíocre e amedrontada! Acabei perdendo a direção, o rumo. Caminhei a esmo o tempo todo, talvez em sentido contrário ao que deveria. No entanto, sabia que, naturalmente, havia deixado o hospício para trás. Eu simplesmente caminhara o tempo todo para distante daquela casa de malucos e, quando dei por mim, estava aqui, à porta do salão, envolto pelo quadro dos portais de duas folhas da entrada, observando aquele ataúde e esperando os serviços de exéquias. Por isso também, observo demoradamente o rosto envolto pela dor e perdão do Cristo. Enquanto meus pés deslizam pelo salão. Finalmente transponho a barreira do medo. Não há nada à perder. Às vezes, não temos mais nada que perder e somente nos resta o último e desesperado ato. A meio trajeto volto a pensar nas circunstâncias. Tudo não passa de um pesadelo. Sobremaneira, no entanto, sinto a realidade com todo o seu fascínio aterrador. Acerco-me finalmente do caixão. Conquanto não consiga fitar o que há dentro dele, penso em meu corpo estirado. Mórbido. Horripilante e doentio!)..
          Quando finalmente crio coragem e volvo meu olhar moroso em direção ao interior daquela derradeira morada, sobressaltado constato que não há nada ali dentro. Ninguém. Nenhum corpo. Atônito e aliviado ergo o olhar ao Cristo que me fita com sua imensurável complacência. Ele me sorri e, lentamente, sinto que todo seu corpo começa a criar vida. Suas mãos feridas soltam os cravos que o mantinham preso. Não quebraram-lhe os joelhos e os pés que se apoiavam na cravelha do madeiro, assentam-se com graça e naturalidade, sem ferimento algum. As lágrimas são quentes, posso senti-las brotando e correndo-me pelas faces. Ele desce da cruz e caminha para a saída com sua cintura cingida pelo manto branco que lhe cobre as partes pudendas. Meu Cristo! Sinto ímpeto de seguí-lo e adorá-lo. Perco o medo da perda de repente. Sei que já não há mais necessidade daquele medo constante de perder tudo o que mais amo na vida porque acabo de ganhar, de encontrar. Sorrio.
          Observo o caixão vazio e sei porque ele ainda continua vazio. A cruz de madeira rústica vazia à cabeceira. Sei porque o caixão está vazio. Digo:
          — É