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A MULTIDÃO
CRIMINOSA
Ensaio de Psicologia Coletiva

Scipio Sighele

www.ebooksbrasil.org


A Multidão Criminosa — Ensaio de Psicologia Coletiva
Scipio Sighele (1868-1913)

Tradução
Adolfo Lima

Edição
eBooksBrasil

Fonte digital: digitalização da edição em papel
Organização Simões
Rio 1954
Os negritos foram eliminados, as itálicas foram mantidas, a ortografia atualizada, os nomes conservados em sua grafia original.

A tradução da fonte digitalizada foi compulsada, para dirimir dúvidas, com Scipio Sighele, La foulle criminelle - Essay de psychologie criminelle, traduit de l’Italien par Paul Vigny.
Disponível em: Les classiques des sciences sociales
classiques.uqac.ca/classiques
“Note: Cette édition numérique a été réalisée grâce à Mme Maristela Bleggi Tomasini, avocate, de Porto Alegre - Rio Grande do Sul, au Brésil, qui a eu la gentillesse de nous prêter gracieusement ce livre provenant de sa propre bibliothèque.”

Recomenda-se ao leitor a leitura da tradução francesa.
Há discrepâncias relevantes entre a presente edição e aquela.

Capa
Aufgebrachte Arbeiter werfen den Betriebsingenieur Watrin aus dem Fenster der Grubenverwaltung, Décazeville 1884.
Holzstich in: L’Illustration, 6. Februar 1886
Fonte:
DHM - Deutsches Historisches Museum
www.dhm.de

Copyright
©2006 Scipio Sighele


Índice

O Autor e a Obra
A MULTIDÃO CRIMINOSA
APÊNDICE
INTRODUÇÃO
A SOCIOLOGIA E A PSICOLOGIA COLETIVA

CAPÍTULO I
A PSICO-FISIOLOGIA DA MULTIDÃO

CAPÍTULO II
AS MULTIDÕES CRIMINOSAS

CAPÍTULO III
CONCLUSÕES JURÍDICAS

APÊNDICE
O despotismo da maioria e a psicologia coletiva

Notas


O Autor e a Obra

 

Scipio Sighele, natural de Brescia, nasceu em uma grande família de juristas italianos. Seu pai, magistrado, foi procurador do rei em Palermo nos anos seguintes á Unificação Italiana. Após os estudos secundários, prosseguiu, com o criminalista Enrico Ferri, estudos de direito em companhia de futuros membros da corrente lombrosiana: Guglielmo Ferrero e também Adolfo Zerboglio. Consagrou sua tese de láurea ao fenômeno da cumplicidade.

Mas foi por dois artigos sobre a multidão criminosa publicados em 1891, na revista de Lombroso, o Archivio di Psichiatria, que se tornou conhecido. Estes dois artigos reunidos formaram o núcleo de sua obra maior, La Folla delinquente, publicada a seguir e que se tornou logo best-seller mundial à época. O livro teve em seguida uma tradução francesa, sob o título de La Foule criminelle. A obra trata dos fenômenos da associação, do contágio e desmonta os mecanismo em jogo no seio de uma multidão.

Sighele demonstra o irremediável pendor criminal das associações coletivas. Gustave Le Bon inspirou-se em grande medida nestas idéias, sem mencioná-las, para seus próprios trabalhos. Sighele, já célebre, ampliou suas pesquisas no domínio da psicologia coletiva. Na França, Zola, Durkheim e Nordau utilizaram suas descobertas nos domínios das letras, da sociologia e da política. Sighele publicou na França La psychologie des sectes (1895) e novas edições de La Foule Criminelle em que tentou emendar sua leitura negativa da multidão.

Lecionou nas universidades de Bruxelas, Roma e Pisa.

Na virada do século, tornou-se militante ativo no Trentino, sua região de origem, então sob dominação austríaca. Pouco a pouco, foi deixando de lado os trabalhos sociológicos para se dedicar integralmente ao jornalismo e aos estudos políticos. Seus últimos trabalhos versaram sobre a questão nacional e o Irridentismo, do qual foi um dos teóricos. Expulso pelos austríacos do Trentino, em razão de seu ativismo, faleceu em Florença em 1913.

O presente título, há muito esgotado, disponível como “livro raro” em alguns sebos online, parece ter sido traduzido de uma das primeiras edições em italiano. Uma edição mais completa, e mais acurada, em francês, está disponível na web no site Les classiques des sciences sociales [classiques.uqac.ca].

Não é uma reprodução integral da edição digitalizada. Evidentes erros tipográficos e alguns outros foram corrigidos ou indicados. Serve como um primeiro contato com esta obra essencial, mas, para referências bibliográficas e uso acadêmico, é altamente recomendável a leitura da tradução francesa, disponível online no endereço acima. Muitos textos que aqui aparecem como notas foram incorporadas pelo autor ao corpo do livro.

Teotonio Simões
Outono de 2006


SCIPIO SIGHELE

A MULTIDÃO CRIMINOSA

Ensaio de Psicologia Coletiva


APÊNDICE

 

O estudo dos crimes da multidão é interessantíssimo, principalmente numa época em que — desde as greves dos operários até aos motins públicos, — as violências coletivas da plebe não faltam. Parece que quer de tempos a tempos aliviar-se, por um crime, de todos os ressentimentos que as dores e injúrias sofridas acumularam nela.

Acrescentemos que o assunto, ainda que de grande importância social e jurídica, é todavia, novo. A ciência, como os tribunais, nunca pensaram que, às vezes, em lugar de um só indivíduo, o criminoso pudesse ser uma multidão. Quando vemos aparecer perante os tribunais alguns indivíduos, que pôde prender no meio de um tumulto, os juízes crêem ter diante de si homens que, por si próprios, voluntariamente, vieram assentar-se nesses bancos infames; ao passo que não são mais do que alguns náufragos lançados ali pela tempestade psicológica, que os arrastara sem o saberem.

É portanto ainda mais necessário do que interessante estudar o problema da multidão criminosa.

Tentei fazê-lo, embora imperfeitamente. A psicologia coletiva é uma ciência ainda infantil; a psicologia da multidão de que ela é parte e representa o seu grau mais agudo, mal nasceu agora.

Preenchi, nesta edição, muitas lacunas e corrigi vários erros da primeira edição italiana. Sei, no entanto, que apenas lancei os fundamentos de um estudo longo e difícil. Mas ficarei satisfeito com a minha obra, se ela despertar em outros o desejo de fazer melhor e mais do que fiz; — feliz, principalmente, se as conclusões jurídicas, a que chego, forem acolhidas nos Tribunais.

S. S.


INTRODUÇÃO
A SOCIOLOGIA E A PSICOLOGIA COLETIVA

 

Nos fatos psicológicos, a reunião dos indivíduos não dá um resultado igual à soma de cada um deles.
ENRICO FERRI.

 

I

“Dêem a um pedreiro — escreve H. Spencer — tijolos bem cozidos, duros, de arestas vivas, e ele poderá construir sem argamassa uma parede bastante sólida, de grande altura. Se, pelo contrário, os tijolos são feitos de má argila, se a sua cozedura foi irregular, se são toscos, fendidos, quebrados, ser-lhe-á impossível construir sem argamassa uma parede igual à primeira em altura e estabilidade. Quando um operário trabalha num arsenal a empilhar balas de artilharia, essas massas esféricas não se acondicionam como se acondicionam tijolos. Há para as pilhas de balas formas definidas: o tetraedro, a pirâmide de base quadrada e o sólido de base retangular terminado por uma aresta. Cada uma destas formas permite obter a simetria e a estabilidade que são incompatíveis com todas as formas de faces verticais ou muito inclinadas. Se, ainda, em vez de balas esféricas do mesmo volume se tratasse de empilhar calhaus irregulares, meio arredondados e de diferente grossura, força seria renunciar às formas geométricas definidas. O operário só poderá obter um amontoado instável, sem ângulos e sem superfícies regulares.

Aproximando estes fatos e procurando deduzir deles uma verdade geral, vemos que o caráter do agregado está determinado pelos caracteres das unidades que o compõem.

Se passamos destas unidades visíveis e tangíveis às que consideram os físicos e os químicos e que constituem as massas materiais, nós verificamos o mesmo principio. Para cada um destes pseudo elementos, para cada um dos seus compostos, para cada nova combinação destes compostos, existe uma forma particular de cristalização. Ainda que estes cristais difiram de grandeza, ainda que possamos modificar desbastando os seus ângulos e as suas arestas. o seu tipo de estrutura fica constante, como a clivagem é a prova. Todas as espécies de moléculas têm formas cristalinas particulares, conforme as quais elas agregam. A relação entre a natureza das moléculas e o seu modo de cristalização é de tal modo constante, que, sendo dadas duas espécies de moléculas próximas uma da outra pelas suas reações químicas, podemos prever com certeza que os seus sistemas de cristalização serão muito aproximados. Em suma, estamos no direito de afirmar sem hesitação, como um resultado demonstrado pela física e pela química, que em todos os fenômenos que apresenta a matéria orgânica, a natureza dos elementos determina certos caracteres nos agregados.

Este princípio verifica-se igualmente nos agregados que encontramos na matéria viva. Na substância de cada espécie de planta ou de animal, há uma tendência para a estrutura dessa planta ou desse animal, tendência constatada até à evidência em que todos os casos em que as condições da persistência da vida são suficientemente simples, e em que os tecidos não têm adquirido uma estrutura muito delicada para se prestar a uma nova acomodação. Nos animais, o exemplo tanta vez citado do pólipo faz ressaltar a verdade. Quando o cortamos em pedaços, cada fragmento é um pólipo dotado da mesma organização e das mesmas faculdades que o animal inteiro. Nas plantas, o exemplo da begônia é também frisante: metendo em terra um pedaço de folha, vemos desenvolver-se uma planta completa.

A mesma verdade se manifesta nas sociedades mais ou menos definidas que formam os seres inferiores. Quer essas sociedades não se componham senão de uma reunião confusa, quer constituam uma espécie de organização com divisão de trabalho entre os seus membros, — casos que se dão freqüentemente — as propriedades dos elementos são ainda determinantes. Sendo dada a estrutura dos indivíduos com instintos que dela resultam, a comunidade formada por esses indivíduos apresentará forçosamente certas características e nenhuma comunidade que apresente as mesmas características poderá ser formada por indivíduos dotados doutra estrutura e de instintos diferentes(1).”

Ora, todo aquele que sacudiu o jugo dos preconceitos da teologia e da metafísica e que sabe só existir uma lei para a humanidade como para o universo; todo aquele que conhece, mesmo de um modo muito superficial, a teoria da evolução, não experimentará nenhuma dificuldade, para compreender os agregados de homens na fórmula de Spencer.

Dizer que as qualidades das partes determinam as qualidades do todo, é, com efeito, enunciar uma verdade que se aplica tanto à sociedade como ao mais. Foi sobre esta verdade que Spencer fundou a sua concepção da sociologia, pondo como axioma científico que os caracteres principais da sociedade humana correspondem aos caracteres principais do homem(2).

Ratificou assim a idéia de Augusto Comte, que resumindo o mesmo pensamento, disse: “que a sociedade humana deve ser considerada como um só homem que tenha existido sempre(3).

Schopenhauer também chegou à mesma conclusão: “Desde os tempos mais remotos, tem-se sempre considerado o homem como um microcosmo; inverti a proposição e provei que o mundo é um macantropo, neste sentido: que a vontade e a representação dão a definição da substância do mundo tão completa como a do homem”(4).

A concepção de Schopenhauer parte de um princípio inteiramente diferente daquele em que se fundam a concepção de Comte e a de Spencer. Com efeito, a filosofia de Schopenhauer, posto que encerre páginas esplêndidas, ditadas por um método positivo, é todavia teórica e a priori; ao passo que as de Spencer e Comte são baseadas na observação e na experiência. O ponto de partida é, portanto, diferente, mas o fim atingido é o mesmo. Schopenhauer afirma que o mundo é um macantropo, e por esta única palavra, derivada do grego, exprime o mesmo pensamento que Comte e Spencer.

E, pondo inteiramente de lado, por agora, a questão da analogia entre o homem e a sociedade humana, que pode levar ao ponto de fazer da sociedade um verdadeiro organismo(5) é possível negar que haja em toda a sociedade, fenômenos que são o resultado natural dos fenômenos dados pelos membros da dita sociedade; que, noutros termos, o agregado apresenta uma série de propriedades determinada pela série das propriedades das suas partes? Basta pensar o que aconteceria se o homem tivesse preferência por aquele que lhe tivesse feito mal, para compreender que as relações sociais seriam completamente opostas (se isso fosse possível) às relações sociais atuais, estabelecidas na tendência inerente ao homem de preferir quem lhe dá mais prazer. Basta pensar o que sucederia se, em vez de procurar os meios mais fáceis de alcançar um fim determinado, os homens procurassem os meios mais difíceis de chegar a esse fim, para compreender que a sociedade (admitindo que pudesse existir uma em tais condições) não se pareceria nada com a que conhecemos.

Esta analogia de estrutura e, por conseguinte, de funções que se mostra evidente e incontestável entre o homem e a sociedade, encontramo-la de novo, não só nos caracteres gerais mas também nalguns caracteres particulares, entre os indivíduos pertencentes a uma determinada classe e esta mesma classe considerada como um ser coletivo.

Sabemos que a sociedade não é um todo homogêneo e igual em cada uma das suas partes, mas antes uma rocha de barro, formada lentamente de despojos transportados por uma série infinita de seres(6), um organismo que tem, como o corpo animal, tecidos de diferente estrutura e de diferente sensibilidade. Ora. estes tecidos, ou camadas, ou grupos sociais, que se formaram pouco a pouco com o tempo, pela passagem contínua e progressiva do simples ao composto, do homogêneo ao heterogêneo, — no que consiste a lei de evolução(7), — estes tecidos têm, como os diversos tecidos das plantas e dos animais, caracteres orgânicos e psíquicos, próprios de cada um deles, e que reproduzem os caracteres especiais dos indivíduos que fazem parte de tais grupos.

A mais vulgar observação prova-nos isso largamente. Se lançamos um olhar pela história, vemos que as antigas separações entre vencedores e vencidos, entre senhores e escravos, entre nobres e plebeus, não eram somente divisões políticas e econômicas, mas também designavam realmente mundos diferentes. Educação, linguagem, costumes, trajos, maneiras de ser, tudo tinha uma caráter especial, regulado por severíssimos hábitos e, até, por fórmulas tradicionais escritas, às quais não era permitido a ninguém subtrair-se(8).

E quem não sabe que a aristocracia, — do talento, do dinheiro e do movimento — a magistratura, o clero, a milícia, o povo, enfim todas as classes sociais que representam na atualidade sob uma forma eletiva e espontânea, as antigas castas determinadas unicamente pela relação hereditária, traduzem exatamente no seu espírito e nas suas manifestações coletivas, não só os caracteres gerais do homem, mas também os caracteres do aristocrata, do magistrado, do padre, do soldado? Quem não sabe que os hábitos, as idéias, os sentimentos, as tendências, numa palavra, as funções próprias de cada uma destas classes, são diferentes das de todas as outras?(9).

Portanto, o axioma que — os caracteres do agregado são determinados pelos caracteres das unidades que o compõem — deve aplicar-se não só ao organismo coletivo da sociedade mas também aos organismos parciais que a compõem.

E não podia ser doutro modo, visto que, se na sociedade humana, que não é mais do que um fragmento do universo, ou, para melhor dizer, um episódio da evolução universal, se verificam necessariamente todas as leis naturais que dirigem o mundo orgânico — com mais forte razão, as leis gerais da sociedade devem verificar-se nos organismos parciais que a compõem, como — feliz e justa expressão de Enrico Ferri — os caracteres mineralógicos de um cristal se reproduzem inevitavelmente nos seus fragmentos.

Considerada sob este ponto de vista, a sociologia é uma reprodução fiel nas suas grandes linhas, mas imensamente mais complexa e mais vasta, da psicologia. — A psicologia estuda o homem, e a sociologia estuda o corpo social; mas sabemos que os caracteres de um podem ser determinados pelos caracteres do outro; é que as funções do organismo social são análogas às do organismo humano.

A individualidade social — dizia Espinas — é paralela à individualidade humana; a Sociologia não é, portanto, senão uma Psicologia aumentada, na qual as leis principais da psicologia individual se refletem desenvolvidas e completadas; é, como disse esplendidamente Tarde, “o microscópio solar da psicologia(10)”.

II

Mas até onde chega essa analogia entre as qualidades do agregado e as das unidades que o compõem? Essa relação entre as leis psicológicas que governam o indivíduo e as que governam um grupo de indivíduos é sempre constante? É sempre verdade que uma reunião de homens possui caracteres próprios, que resultam dos caracteres dos homens todos, separadamente? Numa palavra, não há nunca exceções ao princípio enunciado atrás?

Antes de responder a esta pergunta, quero lembrar aqui alguns fenômenos psicológicos muito comuns; ajudar-nos-ão a achar a resposta, ou melhor, serão eles próprios a resposta.

Ninguém ignora os erros que bastante freqüentemente cometem os jurados. Muitas vezes provêem da sua incapacidade individual ou da dificuldade particular das questões que lhes são submetidas; mas às vezes a decisão absurda e fora de propósito é dada por pessoas inteligentes e em questões que apenas requerem um pouco de bom senso para serem resolvidas.

Vi, por exemplo, absolver três rapazes confessos de terem praticado os mais vis ultrajes numa jovem e de terem-na, depois, martirizado da forma mais ignominiosa, deitando-lhe cal virgem nas partes mais delicadas, produzindo-lhe gra­ví­ssi­mas quei­ma­du­ras. Con­si­de­ra­do se­pa­ra­da­mente cada um, esses jurados teriam absolvido tais criminosos? É para duvidar.

Garofalo conta um ensaio realizado com um grupo de seis médicos distintos, entre os quais estavam professores ilustres, que, solicitados a dar a sua decisão acerca de um homem acusado de roubo, o declararam inocente, apesar das provas evidentes de culpabilidade, e reconheceram depois terem-se enganado(11).

O júri da Alta-Viena absolveu ultimamente três camponeses: o pai, Jean Pouzy, sua mulher e filho, que respondiam pelo crime de assassinato de um pobre rapaz, Pedro Grasset, seu antigo criado, estrangulado e espancado — “em família” — em repugnantes condições de ferocidade. Os pormenores do crime são horrorosos. Depois de ter asfixiado com o seu peso a vítima, Jean Pouzy, diz troçando: — “Creio bem que está morto!” — “Talvez, que não” — redargue a mulher, — e para mais segurança esmigalha-lhe o crânio com mais duas fortes pancadas do seu pesado bordão. “Desta vez, — prossegue o marido — creio que esticou! O lindo coelho que tínhamos para ali!”(12).

Quem podia acreditar que a covardia de toda essa família encarniçada sobre um homem sem defesa, viria a encontrar o perdão de um júri?

Pois bem, que provam todos estes fatos e tantos outros semelhantes que cada qual pode observar por si próprio?(13). Provam simplesmente isto: que doze homens de bom senso e inteligentes podem dar uma sentença estúpida e absurda. Uma reunião de indivíduos pode portanto dar uma resultante oposta à que teria dado cada um deles.

Verifica-se um fenômeno semelhante, em numerosas comissões — artísticas, científicas ou industriais, — que são uma das chagas mais dolorosas do nosso sistema de administração. Sucede muitas vezes que as suas decisões surpreendem, atordoam o público pela sua extravagância. Como é possível, diz-se, que tais homens que pertenciam à comissão, chegassem a semelhante conclusão? Como é fácil que dez ou vinte artistas, dez ou vinte homens de ciência, reunidos, dêem uma sentença que não é conforme nem com os princípios da arte, nem com os da ciência?

Aristides Gabelli tentou analisar as causas deste fenômeno.

“Diz-se, escreveu ele, que as comissões, os conselhos, numa palavra, todos aqueles que exercem conjuntamente um poder, são uma garantia contra os abusos. Mas devemos ver antes de tudo se são um auxílio aos usos. Com efeito, dá-se o poder para que se sirvam dele. Quando as garantias são tais que impedem o uso, é inútil dá-las. Ora, o número é justamente uma garantia deste gênero, pelo espírito de partido, pelas discórdias que dão origem ao interesse, às opiniões e aos estados diversos e porque um vem, outro não vem, um está doente, outro viajando; e freqüentemente tudo deve ser reposto com inestimável perda de tempo, e muitas vezes de oportunidade e de eficácia; porque, se é difícil encontrar talento em todos, é ainda bem mais difícil encontrar em todos resolução e firmeza; porque não tendo responsabilidade pessoal, cada qual procura abster-se; porque aquele que tem o poder, e não o exerce, é um obstáculo àquele que deveria exercê-lo; porque enfim — as forças dos homens reunidos suprimem-se e não se somam. — Isto é tão verdadeiro que muitas vezes saem de uma assembléia coisas medíocres que cada um dos que a compõe teria podido fazer melhor sozinho. “Os homens, disse Galileu, não são como os cavalos atrelados a um carro, que puxam todos ao mesmo tempo, mas como cavalos livres que correm e um dos quais ganha o prêmio”(14).

Este último pensamento — que as forças dos homens unidos suprimem-se e não se somam — que Gabelli enuncia apenas nalgumas palavras e que é para mim o mais profundo e o mais importante, foi desenvolvido largamente e com precisão e evidência matemática por Max Nordau, um homem de ciência que, na minha opinião, merece mais fama do que tem tido. — “Reunam-se vinte ou trinta Goëthe, Kant, Helmholtz, Shakespeare, Newton, etc. escreve ele, e submetam ao seu juízo e sufrágio as questões práticas: do momento. Os seus discursos serão talvez inteiramente diferentes dos que poderiam ser pronunciados por qualquer assembléia (se bem que eu não responda por isso); mas quanto às suas decisões estou certo que se não diferenciarão em coisa alguma das de uma assembléia qualquer. E isto, por que? Porque cada um dos vinte ou trinta eleitos, além da sua própria originalidade, que faz dele um excelente indivíduo, possui também o patrimônio de qualidades herdadas da espécie que o tornam semelhante não só ao seu vizinho na reunião, mas também a todos os indivíduos desconhecidos que passam na rua. Podemos dizer que todos os homens, no estado normal, têm certas qualidades que constituem um valor comum, idêntico, suponhamos igual a x — valor que é aumentado nos indivíduos superiores com outro valor diferente para cada indivíduo e que por isso deverá ser chamado diferentemente para cada um deles; seja, por exemplo, igual a b, c, d, etc. Admitido isto resulta daqui que numa reunião de vinte homens — todos, gênios do mais alto grau — ter-se-iam 20 x e somente 1b, 1c, 1d, etc. e necessariamente os 20x venceriam os b, c, d isolados; isto é, a essência humana venceria a personalidade individual e o boné do operário cobriria completamente o chapéu do médico e do filósofo(15)”.

Depois destas palavras, que constituem, na minha opinião, mais um axioma intuitivo do que uma demonstração, é fácil compreender como, não só o júri e as comissões, mas também as assembléias políticas praticam às vezes ato que contrastam de um modo absoluto com as opiniões e as tendências individuais da maior parte dos membros que as compõem. Para nos convencermos disso, basta que se ponha no exemplo dado por Nordau, o número cem ou duzentos no lugar de vinte. O bom senso público teve já, aliás, a intuição da observação patenteada pelo filósofo alemão. Um antigo provérbio dizia: — Senatores boni viri, senatus autem mala bestia. — E atualmente, o povo repete essa observação e confirma-a quando diz a propósito de certos grupos sociais, que, tomados separadamente, os indivíduos que os compõem são pessoas honestas, mas, no conjunto, são uns patifes(16).

Se, partindo destas reuniões, nas quais há, pelo menos, uma certa escolha dos indivíduos, descemos a outras reuniões formadas ao acaso, como por exemplo; o auditório de uma assembléia, os espectadores de um teatro, o povo nas aglomerações imprevistas que se formam nas praças e nas vias públicas, veremos que o fenômeno que nos ocupa se manifesta de novo e mais claramente. Estas reuniões de homens não reproduzem certamente, — todos nós o sabemos e é inútil prová-lo — a psicologia dos indivíduos que as compõem.

Não podemos, portanto, pôr em dúvida que muitíssimas vezes o resultado total, dado por uma reunião de homens, é bem diferente daquele que deveria resultar da simples soma de cada um deles, como seria lógico. Isto é, não há dúvida que muitas vezes vemos desmentir, em grande parte, o princípio de Spencer “que os caracteres do agregado são determinados pelo caráter das unidades que o compõem”.

Henrique Ferri sentiu esta verdade quando escreveu: “A reunião de pessoas capazes não é sempre garantia segura da capacidade total e definida: da reunião de indivíduos de bom senso pode obter-se uma assembléia que não tenha senso comum; como, na química, da união de dois gases se pode obter um líquido(17)”.

Foi por isso que ele notou que, entre a Psicologia, que estuda o indivíduo, e a Sociologia, que estuda uma sociedade inteira, há lugar para outro ramo de ciência, que se poderia chamar Psicologia coletiva. Esta deveria ocupar-se exclusivamente dessas reuniões de indivíduos — como os júris, as assembléias, os comícios, os teatros, etc., — que nas suas manifestações se afastam das leis da psicologia individual assim como das da Sociologia(18).

Mas qual é, portanto, independentemente do motivo já notado por Max Nordau, — a razão por que essas reuniões de homens são resultados que desmentem o axioma de Spencer? Os motivos são numerosos, porque as causas de um fenômeno são sempre numerosas; todavia, neste caso, poder-se-á resumi-los a duas causas principais, a saber: que essas reuniões não são homogêneas e são inorgânicas.

É evidente, e quase nem é necessário fazê-lo notar, que a analogia entre os caracteres do agregado e os das unidades que o compõem, só é possível quando essas unidades são iguais, ou, para falar mais exatamente, são muito semelhantes entre si. A reunião de unidades diferentes umas das outras, não só não poderá dar um agregado que reproduza os diversos caracteres dessas unidades, mas também não poderá dar um agregado qualquer. Um homem, um cavalo, um peixe e um inseto não podem formar entre si nenhum agregado.

Verifica-se nisto o que sucede em aritmética, onde para se poder fazer uma soma é necessário que as partes que as compõem sejam todas da mesma espécie. Não podemos adicionar livros com cadeiras, ou moedas com animais. Se mesmo quisessem fazê-los somar materialmente, o resultado seria um número sem significação.

Ora, se a analogia entre os caracteres das unidades e os do agregado só é possível quando essas unidades têm, pelo menos, um certo grau de semelhança entre si (seja, por exemplo, homens) é bem fácil tirar-lhe a conseqüência lógica, que tal analogia aumentará ou diminuirá, conforme aumenta ou diminui a semelhança, a homogeneidade, entre as unidades que compõem o agregado.

Uma reunião cosmopolita não pode evidentemente refletir no seu conjunto os diversos caracteres dos indivíduos que a compõem, com a mesma exatidão que uma reunião de indivíduos todos italianos, ou todos alemães, refletiria no seu conjunto os caracteres particulares desses italianos ou desses alemães. O mesmo se poderá dizer de um júri, no qual o acaso cego colocou um tendeiro junto de um homem de ciência, em comparação com uma assembléia de peritos. O mesmo se poderá dizer de um teatro, no qual há indivíduos de todas as condições e de todos os graus de cultura. O mesmo se poderá dizer de todas as numerosas e variadas reuniões de homens, comparadas com as que fossem compostas de uma só classe, de uma só categoria de pessoas. A heterogeneidade dos elementos psicológicos (idéias, interesses, gostos, hábitos) torna impossível, num caso, a relação entre os caracteres do agregado e os das unidades, relação que a homogeneidade dos elementos psicológicos torna possível, noutro caso.

Mas não basta que as unidades sejam muito semelhantes entre si, para estabelecer analogia entre os seus caracteres e os do agregado que compõem; é necessário ainda que essas unidades estejam unidas entre si por uma relação permanente e orgânica.

Spencer observou, no exemplo dado no princípio desta obra, como prova, que as qualidades de um todo são determinadas pelas qualidades das partes que o compõem, que com tijolos duros, bem cozidos e realmente retangulares, podemos construir sem argamassa uma parede de uma assaz elevada altura; ao passo que é impossível obter esse resultado com pedras irregulares.

Mas compreende-se facilmente que a possibilidade de construir a parede, dada no primeiro caso, não depende somente de nos servirmos de tijolos iguais, em vez de pedras informes, mas também e sobretudo do fato de que esses tijolos estão postos uns juntos dos outros e uns por cima dos outros, numa determinada ordem; isto é, estão unidos solidamente entre si. É claro, com efeito, que se eu amontoasse esses tijolos sem ordem, à toa, o agregado, que daí resultaria, diferençar-se-ia bem pouco ou quase nada daquele que eu poderia obter amontoando pedras de diferentes formas e tamanhos.

Transportemos esta observação para o campo sociológico e tiraremos dela a conclusão que as reuniões adventícias e inorgânicas de indivíduos, como as que temos num júri, num teatro, numa multidão — não podem reproduzir nas suas manifestações os caracteres das unidades que as compõem, do mesmo modo que o ajuntamento confuso e desordenado de uma determinada quantidade de tijolos não pode reproduzir a forma retangular de um só desses tijolos. Por conseguinte neste último caso, é necessário a disposição regular de todos os tijolos, para construir uma parede do mesmo modo, no primeiro caso, para que um agregado dê as qualidades dos indivíduos que o compõem, é necessário que esses indivíduos estejam unidos entre si por meio de relações permanentes e orgânicas, como, por exemplo, os membros de uma mesma família, os indivíduos que pertencem à mesma classe da sociedade(19).

Portanto, não só a homogeneidade, mas também a união orgânica é necessária entre as unidades, para que o agregado que formam reproduza os seus caracteres.

III

A conclusão simples e lógica que ressalta das observações que fizemos, pode resumir-se assim: O princípio de Spencer — que os caracteres do agregado são determinados pelos caracteres das unidades que o compõem — é perfeitamente exato e pode aplicar-se em toda a extensão, quando se trata de agregados compostos de unidades homogêneas e unidas organicamente entre si. Mas deixa de ser perfeitamente exato e não pode aplicar-se senão de um modo restrito, quando se trata de unidades pouco homogêneas e pouco orgânicas.

Enfim, torna-se absolutamente falso e inaplicável quando os agregados são formados de unidades heterogêneas e inorgânicas.

Esta evolução na aplicação do princípio de Spencer aos agregados de homens(20) nos indica claramente que onde esses agregados são homogêneos e orgânicos, estão sujeitos às leis da sociologia — que dissemos ser mais extensas, mas paralelas às da psicologia individual, — ao passo que, à medida que os agregados são menos homogêneos e menos orgânicos, a possibilidade de lhes aplicar as leis da sociologia, é sempre menor e as leis da psicologia coletiva as substituem — leis que dissemos ser em inteiramente diferentes das leis da psicologia individual.

A psicologia coletiva tem, pois, um campo diferente e segue no seu desenvolvimento um caminho diametralmente oposto ao da sociologia; estende-se onde esta se afasta, e as suas leis reinam onde as da sociologia perdem o seu império.

Quanto mais uma reunião de indivíduos é passageira, acidental, inorgânica, tanto mais se afasta do axioma de Spencer e na esfera de observação da psicologia coletiva.

Ora, se não nos enganamos, entre os agregados de homens mais ou menos heterogêneos e inorgânicos que indicamos, tais como o júri, os comícios, os teatros, os ajuntamentos passageiros que qualquer gênero que seja, aquele que mais do que os outros deve subtrair-se às leis da sociologia e ser submetido às leis da psicologia coletiva é, sem dúvida alguma, a multidão.

A multidão é, com efeito, um agregado de homens heterogêneo por excelência, visto que é composto de indivíduos de todas as idades, dos dois sexos, de todas as classes e de todas as condições sociais, de todos os graus de moralidade e de cultura; e inorgânico por excelência, visto que se forma sem acordo antecedente, repentinamente, de improviso.

O estudo da psicologia da multidão será portanto o estudo da psicologia coletiva no fenômeno que, mais do que outros, fará conhecer as leis e patenteará a sua maneira de atuar.

É o que nos propomos executar modestamente nesta obra, para podermos fazer uma idéia exata da natureza e do perigo social dos crimes cometidos pela multidão.


CAPÍTULO I
A PSICO-FISIOLOGIA DA MULTIDÃO

 

A questão da responsabilidade penal é relativamente simples, quando uma só pessoa é o autor do crime. É mais complicada, quando muitas pessoas tomam parte num mesmo crime, porquanto então devemos examinar a parte que cada uma delas teve na ação criminosa. Mas o problema torna-se de uma solução muito difícil, quando os autores do crime não são nem poucos nem muitos, mas em grandíssimo número, tal que nem se pode precisar; numa palavra, quando o crime é a obra de uma multidão.

A representação jurídica, fácil no primeiro caso, mais difícil no segundo, toma no último caso a aparência de uma impossibilidade quase absoluta, porquanto não sabemos como encontrar os verdadeiros culpados e não podemos puní-los.

Como proceder então?

Quer seguindo a estúpida lei militar da dizimação, isto é, ferindo alguns indivíduos que os agentes da força pública conseguem, muitas vezes sem razão, prender no meio do tumulto e do medo; quer seguindo o exemplo de Tarquínio — sentença mais lógica é verdade, mas todavia longe de ser perfeitamente justa, — e julgando, como ele, vencer os inimigos, abatendo as cabeças das mais altas papoilas, isto é, no nosso caso, os instigadores que nunca faltam numa multidão.

Colocados entre essas duas soluções ilógicas e insuficientes, acontece muitas vezes que os juízes populares põem todos em liberdade, aprovando assim as palavras de Tácito que “onde há muitos criminosos não se castiga ninguém”. E é isso um dos casos em que se chega à impunidade por meio de raciocínios absurdos, como diria Pellegrino Rossi.

Mas a impunidade é justa? E se o é, por que razão? Se não o é, qual será portanto o meio de reagir contra os crimes cometidos por uma multidão?

O fim desta obra é responder a estas perguntas.

I

A escola penal clássica nunca pensou se o crime de uma multidão devia ser punido do mesmo modo que o crime do indivíduo que procede só. É natural. Bastava-lhe estudar o crime como ser jurídico; o criminoso estava no segundo plano; era um X que não queria e que não sabia decifrar. Importava-lhe pouco que um criminoso tivesse nascido de pais epilépticos ou alcoólicos, em vez de seres sãos; que tivesse nascido de uma raça ou doutra, num clima tórrido ou um clima frio; que tivesse tido anteriormente uma boa ou má conduta. Devia importar-lhe portanto muito pouco conhecer em que condições o crime fora cometido. Que o argüido tivesse procedido só ou no meio de uma multidão que o excitava e o embriagava com os seus gritos, era sempre o seu livre arbítrio que o impelira ao crime. Nos dois casos, sendo a causa a mesma, a punição era também a mesma.

Admitido o princípio, o raciocínio não podia ser mais lógico; mas não admitindo já o princípio devia cair necessariamente por si próprio. Foi o que sucedeu.

A escola positivista provou que o livre arbítrio é uma ilusão da consciência, desvendou o mundo, desconhecido até então, dos fatores antropológicos físicos e sociais do crime, e elevou a princípio jurídico a idéia que já fora sentida inconscientemente por todos, mas que não podia encontrar cabimento nas fórmulas rígidas dos juristas, isto é, a idéia de que o crime cometido por uma multidão deve ser julgado diferentemente, e isto porque, num ou noutro caso, a parte que tomam o fator antropológico e o fator social é bem diferente.

Pugliese foi o primeiro a expor numa brochura(21) a doutrina da responsabilidade penal no crime coletivo. Concluía sustentando a semi-responsabilidade para todos aqueles que cometem um crime, arrastados pela corrente de uma multidão: “Quando é uma multidão, um povo que se insurge, escrevia, o indivíduo não atua como indivíduo, mas é como a gota de água de uma corrente que transborda, e o braço que lhe serve para ferir é apenas um instrumento inconsciente”(22).

Completei o pensamento de Pugliese tentando dar, por comparação, o motivo antropológico da sua teoria; comparei nas conseqüências(23), os crimes cometidos na impetuosidade de uma multidão, com o crime cometido por um indivíduo cego pela paixão.

Pugliese chamou crime coletivo a esse fenômeno estranho e complexo de uma multidão que comete um crime, quer arrastada pela palavra encantadora de um demagogo, quer exasperada por um fato que é ou que lhe parece ser, uma injustiça ou um insulto a ela. Preferi chamá-lo simplesmente crimes da multidão, porque, na minha opinião, há duas formas de crimes coletivos e é necessário distinguí-los hem: há o crime por tendência co-natural da coletividade, no qual entram o bandidismo, a camorra, a máfia, e há o crime por paixão da coletividade, representado perfeitamente pelos crimes cometidos por uma multidão.

Aquele é análogo ao crime premeditado; o segundo, nunca. No primeiro, o fator antropológico tem a primazia; no segundo, é o fator social que domina. Um excita contra os seus autores um receio constante e muito grave; o outro um receio passageiro e ligeiro.

A semi-responsabilidade, invocada por Pugliese, para os crimes cometidos pela multidão, era portanto justa, se não em si própria, seguramente como meio de chegar ao fim que se propunha.

Com o nosso Código(24) e num caso particular (tal como o que deu ocasião a Pugliese de formular a sua teoria)(25), não se pode chegar melhor ao fim desejado, de fazer punir os crimes de uma multidão com mais indulgência do que os de simples indivíduos, senão invocando a semi-responsabilidade.

Mas cientificamente falando, a semi-responsabilidade é um absurdo, particularmente para nós positivistas, que sustentamos que o homem é sempre inteiramente responsável por todas as suas ações(26).

A teoria positiva deve ser baseada diferentemente.

Não devemos procurar se os autores de um crime, cometido no furor de uma multidão, são responsáveis ou semi-responsáveis, — velhas fórmulas que exprimem idéias falsas; — devemos somente investigar qual é a maneira mais adaptada de reagir contra eles.

É esse o problema que devemos resolver.

II

É necessário fazer a diagnose de uma doença antes de poder defini-la bem e propor os seus remédios. Portanto, antes de discutir o que é o crime de uma multidão e de indicar os meios de reprimi-los, é necessário estudá-lo nas suas manifestações.

Examinaremos, portanto, antes de tudo, quais são os sentimentos que impelem uma multidão a atuar; em seguida tentaremos dar a explicação da sua estranha psicologia.

“Uma multidão — escreve Tarde — é um amontoado de elementos heterogêneos, desconhecidos uns dos outros; no entanto, logo que uma faísca de paixão cintila de um deles, eletriza essa amálgama, produz-se-lhe uma espécie de organização súbita, de geração espontânea. Essa incoerência torna-se coesão, esse ruído torna-se voz e esse milhar de homens apertados uns contra os outros não forma, em breve, senão um só e único animal, uma fera anônima e monstruosa, que caminha para o seu objetivo com uma irresistível finalidade.

“A maioria acorreu por pura curiosidade, mas a febre de alguns apoderou-se rapidamente dos corações de todos e em todos sobe ao delírio.

“Aquele que acorrera precisamente para se opor ao assassínio de um inocente é dos primeiros empolgados pelo contágio homicida, e, o que é mais, nem pensa em admirar-se por isso”(27).

O que há de incompreensível na multidão é a sua organização repentina. Não há nela a preexistência requerida de um objetivo comum: não é, portanto, possível — como faz observar um anônimo no jornal The Lancet — que tenha realmente uma vontade coletiva determinada pelas faculdades elementares mais elevadas de todos os cérebros que fazem parte dela. E no entanto vemos uma especialidade de ação e de objetivo na variedade infinita dos seus movimentos e não percebemos uma só nota, apesar da dissonância das suas mil vozes(28). O próprio nome coletivo de multidão indica que as personalidades particulares dos indivíduos que fazem parte dela, concentram-se e identificam-se numa só personalidade: devemos, portanto, reconhecer forçosamente na multidão, — ainda que não possamos verificá-lo — a ação de qualquer coisa que serve provisoriamente de pensamento comum. “Esta qualquer coisa não é a ostentação das mais baixas forças mentais, e não pode pretender a categoria de verdadeira faculdade intelectual: não podemos, portanto, encontrar outro nome para defini-la senão: alma da multidão (29)”.

Mas donde vem a alma da multidão? Surge por milagre? É um fenômeno de que devemos renunciar descobrir a causa? Ou é fundada nalguma faculdade primitiva do homem? Como se explica que um sinal, uma voz, um grito — lançado por um só indivíduo — arras­tem in­cons­cien­te­men­te um povo inteiro, muitas vezes, até aos mais horríveis excessos?

“É a faculdade da imitação — responde Bordier — que como a difusão num meio gasoso, tende a equilibrar o meio social em todas as suas partes, a destruir a originalidade, a uniformizar os caracteres de uma época, de um país, de uma cidade, de um pequeno grêmio de amigos. Todo o homem está individualmente disposto para a imitação, mas essa faculdade atinge o seu máximo nos homens reunidos; as salas de espetáculo e as reuniões públicas onde o menor bater de palmas, o menor assobio, bastam para erguer a assistência num ou noutro sentido, dão a prova disso(30)”.

E é verdade incontestável e incontestada que a tendência que tem o homem de imitar é uma das tendências mais fortes da sua natureza(31). Basta lançar um olhar em volta de nós para ver que o mundo social não passa de um tecido de similitudes; similitudes que são produzidas pela imitação sob todas as formas, imitação-moda ou imitação-hábito, imitação-simpatia ou imitação-obediência, imitação-instrução ou imitação-educação, imitação-espontânea ou imitação-reflexa(32).

A sociedade, sob um certo ponto de vista, poderá ser comparada a um lago tranqüilo no qual se lança de quando em quando uma pedra; as ondas dilatam-se, propagam-se sempre do ponto onde a pedra cai até à margem. Dá-se o mesmo com o gênio das sociedades: lança uma idéia no meio da calma estagnante das inteligências medíocres, e essa idéia, pouco apreciada a princípio e pouco seguida, alastra-se depois como a onda do lago.

Os homens, disse Tarde, são um rebanho de ovelhas, nas quais se vê às vezes aparecer uma ovelha louca — o gênio — que, pela força única do exemplo, constrange as demais a segui-la(33).

Com efeito, tudo que existe e que é a obra do homem — desde os objetos materiais até às idéias — nada é senão a imitação ou a repetição mais ou menos modificada de uma idéia outrora inventada por uma individualidade superior. Como todas as palavras do nosso vocabulário — que hoje são muito comuns — eram antigamente neologismo; — do mesmo modo que tudo que é vulgar era outrora único e original.

A originalidade — disse com muito espírito Max Nordau(34) — não é outra coisa que a primeira, representação da vulgaridade. Se essa originalidade não tem em si mesma as condições de vida, os imitadores faltam e perece no olvido, como recai no nada uma comédia assobiada na primeira audição; se, pelo contrário, possui um só germe bom e útil, os imitadores aumentam infinitamente, como as representações de um drama vital.

O fundo das idéias que hoje desprezamos como demasiado comuns, porque correm em todas as bocas, é, pois, formado das intuições — outrora miraculosas e agora envelhecidas — dos filósofos da antiguidade; e os lugares comuns dos discursos mais vulgares começaram a sua carreira com brilhantes centelhas de originalidade(35).

É o mesmo na história das coisas grandes e duradouras; é o mesmo na crônica das coisas pequenas da vida diária e modesta. Toda a gente, tanto as pessoas graves como as mais frívolas, tanto as mais idosas como as mais novas, tanto as mais instruídas como as ignorantes, ainda que num grau diferente, estão sujeitas ao instinto que lhes faz imitar o que vêem, o que ouvem, o que aprendem. As correntes de opinião pública — na política como nos negócios — são sempre determinadas por um instinto. — “Hoje encontramos a gente da bolsa, toda audácia, toda entusiasmo, cheia de vigor, pronta a comprar, pronta a dar ordens, uma semana depois veremos quase todo o bando abatido, inquieto, com dores de barriga. Se procuramos as razões desse ardor, dessa frouxidão, dessa mudança, mal as poderemos encontrar, e se somos capazes de as descobrir, só têm pouco valor. Na realidade, não é a razão, é o instinto de imitação que produziu essas correntes de opinião. Sucede não sei que, que parece bastante feliz; então, homens de espírito ardente, vaidosos, falam bem alto, e a multidão, na sua pegada, toma o mesmo tom. Alguns dias depois, quando começa a fatigar-se de falar nesse tom, alguma coisa sucede então que, desta vez, parece um pouco menos feliz; logo as pessoas de natureza triste, inquieta, põem-se a discorrer e o que diziam, todos os outros o repetiam(36).

E o que sucede na política e nos negócios, sucede em todas as formas da atividade humana. Da forma do fato à forma do governo, das ações honestas aos crimes, do suicídio à loucura, todas as manifestações da vida, — tanto as menores como as maiores em importância, tanto as mais dolorosas como as mais alegres, — são um produto da imitação(37).

É, portanto, bastante natural que essa faculdade — que é inata no homem(38) — não só aumente a sua eficácia, a duplique, mas também a torne cem vezes maior no meio de uma multidão, onde todas as imaginações são excitadas, e onde a unidade de tempo e de lugar apressa de um modo extraordinário, e quase fulminante, a alteração das impressões e dos sentimentos.

Mas dizer o homem imita é uma explicação insuficiente para o nosso caso. É necessário saber porque o homem imita; isto é, precisamos de uma explicação que não se detenha na causa superficial, mas que descubra a causa primária do fenômeno.

Muitos escritores, tendo observado que a imitação toma algumas vezes formas agudas, tanto pela intensidade como pela extensão que toma ao propagar-se, e vendo além disso que é menos voluntária que inconsciente em alguns casos, tentaram explicá-la, recorrendo à hipótese do contágio moral.

“Há nos fenômenos de imitação — disse o doutor Ebrard — alguma coisa de misterioso que só se pode comparar a esse instinto irrefletido e onipotente que nos inicia, quase sem querermos, a repetir os atos de que fomos testemunhas e que atuaram vivamente sobre os nossos sentidos e sobre a nossa imaginação. Esta ação é tão geral e tão verdadeira, que todos nós, mais ou menos sofremos o seu jugo. Há uma espécie de fascinação de que certos espíritos fracos não podem defender-se(39).

Jolly escreveu ainda mais claramente: “A imitação é um verdadeiro contágio que tem o seu princípio no exemplo, como a varíola tem o seu contágio no vírus que a transmite; e do mesmo modo que existem na nossa organização doenças que só esperam para se desenvolverem a mais ligeira causa, assim também há em nós paixões que permanecem mudas no exercício da razão e que podem despertar unicamente por efeito da imitação”(40).

Despine, Moureau de Tours, e posteriormente muitos outros vieram juntar-se a Ebrard e a Jolly(41) e todos concordemente afirmam que o contágio moral é tão certo como o de algumas doenças físicas.

“Do mesmo modo, — disse Despine — que a ressonância de uma nota musical faz vibrar a mesma nota em todas as tabelas de harmonia, que sendo suscetíveis de dar essa nota, se encontram sob a influência do som emitido, — assim também, a manifestação de um sentimento, de uma paixão excita o mesmo elemento instintivo, põe-no em atividade, fá-lo vibrar — por assim dizer — em todo o indivíduo suscetível pela sua constituição moral de experimentar mais ou menos vivamente esse mesmo elemento instintivo”(42).

Por esta metáfora — bem achada, senão profunda — e que esclarece a hipótese do contágio moral, um grande número de escritores julgou poder explicar não só os casos mais comuns, naturais e constantes da imitação, mas também e sobretudo os casos mais raros e os mais estranhos, essas verdadeiras epidemias que se propagam de quando em quando, a propósito de um ou de outro fenômeno.

É assim que atribuíam ao contágio moral, as epidemias de suicídio, que seguiam um suicídio célebre que interessara vivamente e comovera a opinião pública(43); — é assim que julgavam devidos ao contágio moral todos os crimes que seguiam um crime atroz, — de que todos os jornais falaram(44), e assim julgavam devidas ao contágio moral, essas epidemias políticas e religiosas que arrastam de repente os povos atrás da palavra inflamada de um tribuno entusiasta ou de um demagogo.

Não podemos portanto — e por maioria de razão — atribuir ao contágio geral as manifestações imprevistas e, ao primeiro aspecto, incompreensíveis, da multidão.

Mas esta explicação satisfaz-nos? O contágio moral difere da imitação verbal?

Vê-se facilmente que para tornar esta explicação suficiente é necessário saber como e por que meio esse contágio moral se propaga. Doutro modo não passaríamos do mesmo ponto.

Tarde compreendeu esta necessidade e aventou a hipótese, então nova e audaciosíssima, de que o contágio moral tem a sua causa no fenômeno da sugestão.

“Qualquer que seja a função celular que provoque o pensamento, — escreve ele — não pode duvidar-se que se reproduz, que se multiplica no interior do cérebro a cada instante da nossa vida mental, e que a cada percepção distinta, corresponde uma função celular distinta. É a continuação indefinida, perene, dessas irradiações entrecruzadas que constitui, ora a memória somente, ora o hábito, conforme a repetição multiplicadora de que se trata, continua encerrada no sistema nervoso, ou, excessiva, alcança o sistema muscular.

A memória é, se assim o querem, um hábito puramente nervoso: o hábito uma memória muscular”(45).

Ora, resumo aqui a teoria de Tarde, visto que cada idéia ou imagem, de que se tem recordação, foi depositada primitivamente no nosso cérebro por uma conversa ou por uma leitura; visto que cada ação habitual tira a sua origem da vista ou do conhecimento de uma ação análoga feita por outrem — é evidente que essa memória e esse hábito, antes de ser uma imitação involuntária de si próprio em si próprio, foi uma imitação mais ou menos voluntária do mundo exterior.

Portanto, considerada sob o ponto de vista psicológico, toda a vida intelectual é apenas uma sugestão de célula para célula no cérebro; considerada mais a fundo na sua causa primária, e sob o ponto de vista social é apenas uma sugestão de pessoa para pessoa.

Esta teoria, que recebeu a aprovação de um grande número de ilustres filósofos(46), e que me parece admirável na sua profunda simplicidade — não pôde fazer imediatamente muitos discípulos para a divulgarem; mas teve a honra de ver surgir após algum tempo, aqui e ali, outras teorias que a reproduzem na substância, ainda que os seus autores não a tenham certamente conhecido.

É o que se dá, por exemplo, com a teoria de Sergi que, no seu pequeno livro intitulado: Psicosi epidemica desenvolve espontaneamente idéias semelhantes às de Tarde, que lhe eram desconhecidas.

Sergi, reproduzindo Tarde por completo, tem, todavia, o mérito de não se ter limitado às generalidades e à indecisão do filósofo francês; expõe mais claramente e de uma maneira mais precisa o que se poderá chamar a base física da sugestão; é por isso que julgo útil apresentar aqui as suas próprias palavras.

“A Psique — diz Sergi — é uma maneira geral de atividade orgânica, sem nenhuma exceção. Quem tem algum conhecimento desse gênero de atividade sabe que cada tecido orgânico atua por meio de estimulantes; quando é aguilhoado por qualquer agente exterior, atua de um modo correspondente à natureza e à energia do aguilhão.

O tecido muscular pode fornecer-nos um exemplo: com efeito, vemos que os músculos só se contraem quando uma excitação exterior vem revelar a sua aptidão. É o que se dá com a psique, nos seus órgãos: não tem nada de espontâneo, nada de autônomo; entra em atividade quando é excitada e manifesta-se exteriormente conforme a natureza desse estimulante.

“Chamo receptividade à aptidão de receber as impressões do exterior; chamo reflexão à aptidão de manifestar a atividade excitada conforme as impressões recebidas. As duas condições podem compreender-se numa lei fundamental, receptividade reflexiva da psique.

“Os alienistas ocupam-se muito, há algum tempo, do fenômeno da sugestão no hipnotismo, e, em geral, julgam que este fato não se verifica senão no estado hipnótico dos seus pacientes. Não perceberam que a sua sugestão é um fenômeno mais agudo da condição fundamental da psique, a receptividade, conforme o que sucede no estado mórbido, no qual os fenômenos tomam uma forma exagerada, e tornam-se mais evidentes do que no estado normal. A sugestão hipnótica não manifesta senão a disposição, conforme as quais atua. A sugestão diz respeito à receptividade descrita, que diz respeito, por sua vez, à lei geral do organismo que não entra espontaneamente em atividade, mas conforme os estímulos recebidos”.

Portanto, segundo Sergi, como segundo Tarde, cada idéia, como cada comoção do indivíduo, é apenas um reflexo — por assim dizer — do impulso externo que sofreu. Por conseguinte, ninguém mexe, atua, pensa, senão graças a uma sugestão que pode vir da vista de um objeto ou de uma palavra ou de um som entendidos, de um movimento qualquer que se realiza fora do nosso organismo. E esta sugestão pode estender-se a um só indivíduo, a vários, a um grande número; pode propagar-se ao longe como verdadeira epidemia no mundo, deixando uns inteiramente isentos, outros atacados benignamente, e ainda outros atacados violentamente. Neste último caso, os fenômenos que faz nascer, tão estranhos e terríveis que sejam, são apenas o derradeiro grau, a expressão mais aguda do simples fenômeno despercebido da sugestão que é a causa primária de cada manifestação psicológica, qualquer que seja. Só a intensidade varia; a natureza do fenômeno permanece sempre a mesma.

Por esta feliz intuição, Tarde e Sergi consideram a imitação de um grande número de indivíduos um fenômeno igual, ainda que mais agudo, ao da imitação de um indivíduo, ligam a imitação epidêmica à imitação esporádica e explicam-na ambas pela sugestão, cujas causas e condições revelam.

E vemos essa teoria confirmada por todas as formas, por todas as espécies da atividade humana.

Quem poderá negar a concordância que se dá entre o mestre e o discípulo e a imitação de um pelo outro — imitação que vem da simpatia e da admiração involuntárias e instintivas — o caráter de uma verdadeira sugestão? E quem poderá negar que essa concordância, estabelecida primeiro entre duas pessoas, é a forma primitiva, o embrião — se me é lícito dizê-lo — dessa sugestão que se estabelece mais tarde entre um indivíduo e um grandíssimo número; entre o chefe de uma escola científica, ou política, ou religiosa e os seus discípulos, os seus adeptos, os seus correligionários? Quem não compreende que essa sugestão epidêmica é o mais alto grau da primeira sugestão isolada?

E quem não quererá confessar que essa sugestão epidêmica pode crescer em extensão e em intensidade, se é favorecida por condições particulares de lugar e pelos caracteres particulares daquele ou daqueles que a excitam e a fazem agir?

As seitas políticas e religiosas chegam às vezes ao ponto de se converterem em verdadeiras loucuras epidêmicas: — os derviches árabes e índios nas demonomanias da idade-média, de que se encontram, ultimamente na Itália, os derradeiros rebentos(47); — os gritadores, os perfeicionistas, os sacudidores, da América do Norte(48), nos stundistas, nos chulaputas e nos scopzios da Rússia(49) — multidões guiadas por Judas, o gaulonita e por Teuda que precederam a revolução de Cristo(50) — as que impelidas por um estranho e doentio feiticismo por Klopstok precederam a Renascença na Alemanha(51); temos uma variedade infinita de epidemias morais, de psicoses epidêmicas, que, à primeira vista, nos surpreendem pelas atrocidades e pelas infâmias que cometeram mas que, bem examinadas, são apenas, no fundo, a exageração patológica do fenômeno da sugestão, que é a lei mais universal do mundo social.

E, como ao falar da vida normal, podemos subir da sugestão de um só indivíduo sobre outro, de um mestre sobre um discípulo, de um forte sobre um fraco, à sugestão de um só sobre um grande número, de um gênio do pensamento ou do sentimento sobre todos os seus contemporâneos, de um chefe de seita sobre os seus filiados; assim, ao falar da patologia, podemos subir da sugestão de um só louco sobre um outro louco, à sugestão de um louco sobre todos os que o rodeiam.

Isto é uma prova, não só de que a patologia segue as mesmas leis que a fisiologia, mas também de que o fenômeno da sugestão é universal.

Legrand du Saulle descreveu maravilhosamente o delírio de dois(52), essa forma estranha de loucura que provém do ascendente que um louco tem sobre outro indivíduo predisposto naturalmente ao contágio, o qual pouco a pouco perde a razão e toma o mesmo gênero de loucura que o seu instigador.

Estabelece-se então um vínculo de dependência entre os dois seres: um domina o outro; este é apenas o eco do primeiro; faz o que faz o outro; e a força imitadora é tal que sucede às vezes fazer compartilhar um das mesmas alucinações do outro(53).

Partindo desta loucura de dois (que representa, na patologia, a sugestão do mestre ao discípulo, do amante à amante, que se realiza no campo normal), sobe-se à loucura de três, de quatro, de cinco(54), que se realiza do mesmo modo que a loucura de dois. É sempre um louco que influi sobre os seus pais, sobre os que vivem habitualmente com ele, e que, pelo seu exemplo, comunica a esses indivíduos as suas idéias doentias assim como a perturbação dos sentidos; faz com que a consciência se obscureça pouco a pouco e deixa o campo livre à loucura que se reproduz exatamente sob a mesma forma que a sua ou de um modo mais ligeiro, mais pálido(55).

E, além destes verdadeiros casos de loucura múltipla e simultânea produzidos pela sugestão, todos os alienistas, conformes, atribuem ao louco uma força de sugestão — menos intensa, mas mais geral — sobre todos os que o rodeiam. — “Vivendo habitualmente com pessoas que pensam erradamente, que raciocinam mal, que procedem também mal, o nosso cérebro recebendo sem cessar a repercussão desregrada dos deles, tende a deixar-se ir nesse mesmo movimento, que, pela sua influência sobre as nossas faculdades intelectuais, nos arrasta a proceder como eles(56).

O próprio aspeto do doente, escreve Seppilli, as idéias que manifesta, suscitam no cérebro dos que o rodeiam as mesmas imagens psicológicas, sensoriais e motoras que podem transformar mais ou menos os indivíduos, conforme a sua intensidade e a sua duração”(57).

Antes deles, Maudsley escrevera a propósito da vida em comum com os loucos, o seguinte: “Ninguém pode contrair o hábito de ser inconseqüente nos seus pensamentos, no sentimento, na ação, sem que a sinceridade e a integridade da sua natureza não sejam atingidas e sem que a lucidez e a força da sua inteligência não tenham diminuído”(58).

Enfim, além do contágio geral, mas lento, sem que nos acautelemos, pouco intenso, há o contágio imediato, fulminante, entre os loucos, especialmente entre os epiléticos. É um fenômeno diferente dos que contei até aqui, mas a origem e a causa são as mesmas: a sugestão.

San Swieten observa que os movimentos convulsivos, que certas crianças manifestam, são reproduzidos por todos aqueles que têm a infelicidade de ser suas testemunhas(59); e ninguém ignora o fato do hospital de Harlem, em que uma rapariga atacada de epilepsia sugestionou instantaneamente a mesma doença a todas as outras doentes.

Este desenvolvimento paralelo do fenômeno da sugestão, — de uma para uma, de uma para várias, de uma para um grande número de pessoas — que vimos na loucura, verifica-se também no suicídio e no crime.

Quanto ao suicídio há o par suicida, — dois amantes, dos quais um persuade, sugestiona o outro para morrer com ele; — forma que se tornou muito freqüente na nossa época(60). Há o suicídio de três, de quatro, de cinco — famílias inteiras que, quase sempre, por causa da miséria a que estão reduzidas, se decidem a acabar com a sua vida. É ordinariamente o pai que tem a idéia do suicídio; comunica-a e fá-la aceitar pela mulher e pelos filhos. Posso citar dois exemplos típicos desta sugestão de suicídio múltiplo: o da família Hayem (pai, mãe e quatro filhos) que se suicidou com carvão aceso, no inverno de 1790, em Paris; e o da família Paul (pai, mãe e três filhos) que se suicidou em 1885, na Bretanha, atirando-se ao mar(61). — Há, finalmente, o suicídio epidêmico do qual poderemos citar bastantes exemplos; segundo Ebrard, as mulheres de Lião, desgostosas da vida, atiravam-se ao Ródano às duas e às três. Em Marselha, as jovens uniam-se para se suicidarem por amor(62).

Quanto ao crime, podemos repetir exatamente o que dissemos para o suicídio: há o par criminoso — o delinqüente-nato que sugestiona e corrompe o delinqüente de ocasião, tornando-o seu escravo, (íncubo e sucubo) (63); há a associação criminosa em que o chefe arrasta ao crime os novéis delinqüentes de ocasião, só pela força dá sua vontade e pelo império moral que exerce sobre eles; — é o caso de Lacenaire com Avril e com todos os demais do bando(64). Há, finalmente, a epidemia criminosa que se desenvolve principalmente entre os bandos numerosos dos criminosos, e nos crimes contra o pudor(65). Quando uma pobre moça é vítima de vários malfeitores, esses infames não se limitam a violá-la; basta que um deles tenha a idéia de algum terrível ultraje para que todos os seus companheiros o imitem logo, tomados de um verdadeiro delírio.

Foi o que sucedeu a uma pobre mulher que, depois de ter sido seqüestrada e violada por um bando de quinze tarados, teve ainda de suportar as mais obscenas facécias. Introduziram-lhe nas partes genitais fósforos acesos e enterraram-lhe alfinetes por todo o corpo. Um só desses criminosos dera o exemplo; os outros imitaram-no, logo, à porfia, cantando e dançando em torno da desgraçada(66).

E, sem procurar outros exemplos, julgo poder concluir que o quadro que fizemos das formas sugestivas da loucura, do suicídio e do crime, corresponde exatamente ao quadro das formas de sugestão no estado normal. Em todos esses estados de degeneração, como no estado normal, a sugestão começa de imitação, e pouco a pouco se desenvolve e se estende e chega às formas coletivas e epidêmicas, às formas de verdadeiro delírio, nas quais os atos são involuntários, realizados — direi quase — por uma força irresistível.

Ora, não é, portanto, evidente que essa sugestão que quisemos descrever, talvez demasiadamente, para mostrarmos a sua universalidade — deve ser também a causa das manifestações da multidão? Não é evidente que mesmo no seio de uma multidão, o grito de um único indivíduo, a palavra de um orador, o ato de algum audacioso, exerce uma sugestão sobre todos os que ouviram esse grito ou essa palavra, ou que viram esse ato; e leva-os — qual rebanho dócil — até às más ações? Não é evidente que é na multidão que a sugestão há de produzir o seu efeito mais poderoso, e passará instantaneamente da forma de dois à forma epidêmica, visto que, na multidão, a unidade de tempo e de lugar e a relação imediata entre os indivíduos levam aos últimos limites do possível a velocidade do contágio das comoções?

Espero que ninguém me responderá negativamente a esta pergunta; todavia, para fazer compreender melhor como a sugestão atua na multidão, isto é, de que modo uma qualquer comoção de medo ou de cólera, manifestada por um só indivíduo, se propaga numa multidão, quero referir-me aqui a algumas páginas esplêndidas de Alfred Espinas.

Encontraremos nelas — de um modo claro e precioso — a explicação fisiológica da psicologia da multidão.

O ilustre naturalista francês, falando das sociedades domésticas maternais, e, em particular, da sociedade das vespas, conta que, nestes animais, a divisão do trabalho faz-se de um modo perfeito e que há mesmo vespas exclusivamente encarregadas de velar pela segurança comum. O ninho é, com efeito, guardado por sentinelas que vigiam as circunvizinhanças, entram por ocasião de perigo e advertem as outras vespas, que saem encolerizadas e picam os seus agressores. — “Mas — escreve Espinas — como as sentinelas podem advertir os seus companheiros da presença de um inimigo? Dispõem, então, de uma linguagem bastante precisa para fazer comunicações? Não se vêem as vespas servirem-se das suas antenas para comunicar as suas impressões de uma maneira tão delicada como as formigas; mas no caso presente, toda a linguagem é-lhes, como vamos ver, inútil. Basta, para explicação do fato, que concebamos como uma comoção de alarme e de cólera se comunica de um indivíduo para outro. Cada indivíduo, apaixonado de súbito por essa rápida impressão, se lançará para fora e seguirá o entusiasmo geral; precipitar-se-á sobre a primeira pessoa que aparecer, de preferência sobre a que foge. Todos os animais são arrastados pelo aspecto do movimento. Resta, portanto, apenas dizer como as comoções se comunicam a toda a massa. Só pelo aspecto de um indivíduo irritado — respondemos. É uma lei universal em todo o domínio da vida inteligente, que a representação de um estado emocional provoca o nascimento deste mesmo estado naquele que é sua testemunha(67). Abaixo das regiões em que começa a inteligência, é necessário que as circunstâncias exteriores atuem isoladamente sobre cada indivíduo de uma maneira simultânea, para que haja acordo nas impressões sentidas; mas desde que a representação é possível, basta que um só seja excitado pelas circunstâncias externas para que todos o sejam igualmente quase em seguida. Com efeito, o indivíduo alarmado manifesta exteriormente o seu estado de consciência de uma maneira enérgica; a vespa, por exemplo, zumbe de um modo significativo, correspondendo nela a um estado de cólera e de inquietação; as outras vespas percebem-no e comparecem a este ruído; mas não podem comparecer sem que as fibras nervosas que nelas o produzem ordinariamente não estejam mais ou menos excitadas. É um fato psicológico fácil de observar nos animais superiores que toda a representação de um ato arrasta um começo de execução desse ato; a cabra a quem se apresenta uma porção de açúcar, o cão a quem se apresenta um pedaço de carne, lambem os beiços e salivam tão abundantemente como se os tivesse na boca. A criança e o selvagem mimam a cena que contam. E Chevreul mostrou que no estado de repouso perfeito basta que um homem adulto, um sábio, de espírito sereno, tenha a idéia de um movimento possível do seu braço para que esse movimento comece a efetuar-se mesmo contra a vontade. Não pensamos somente com o nosso cérebro, mas com todo o nosso sistema nervoso, e a imagem, invasora ao mesmo tempo, com o sentido que percebe, os órgãos que correspondem de ordinário à percepção, provoca-lhe inevitavelmente movimentos apropriados que só uma contra-ordem enérgica pode conseguir suspender(68). Quanto mais a concentração do pensamento é fraca, tanto mais os movimentos, nascidos deste modo, seguem impetuosamente o seu curso. As nossas vespas, vendo uma das suas entrar no ninho, e depois sair com vôo rápido, serão também atraídas para o exterior e pelo ruído produzido por ela, o seu zumbido corresponderá ao acordo. Daí uma efervescência geral de todos os membros da sociedade(69)”.

Esta descrição magistral de Alfred Espinas, explica-nos suficientemente — julgo — a psicologia da multidão.

Como nas vespas, como nas aves, de que um bando — ao menor bater das asas — é tomado de um pânico invencível, também nos homens uma comoção se espalha sugestivamente, por meio da vista e do ouvido, antes mesmo que os motivos sejam conhecidos; e o impulso vem da própria representação do fato imitado, do mesmo modo que, não podemos lançar um olhar para o fundo de um precipício sem ter a vertigem que nos atrai(70).

III

Mas, dirão, que tudo que tenho escrito até ao presente, basta para dar a explicação de certos movimentos, de certos atos de uma multidão, não, porém, de todos. Isso explica-nos porque se um aplaude, todos aplaudem; se um foge, todos fogem; porque uma comoção de cólera, sentida por um só indivíduo, reflete-se imediatamente sobre todos os rostos. Mas isso não nos explica porque essa cólera arrasta à ação má, ao homicídio; não basta para explicar como uma multidão chega aos extremos do assassinato e do massacre, às atrocidades sem nome de que temos, talvez, o mais terrível exemplo na revolução francesa. Em semelhantes casos, a teoria — que uma comoção se transmite por sugestão a uma multidão inteira, só pela vista desta comoção num indivíduo e que o impulso só resulta da representação do ato imitado, — é insuficiente. Não podem pretender que se mate uma pessoa unicamente porque se vê alguém matá-la ou fazer menção de matá-la; é necessário mais alguma coisa para fazer de um homem, um assassino.

Esta objeção, (que contém um fundo de verdade e prová-lo-emos) ofereceu-se já espontaneamente ao espírito dos autores que tentaram analisar as causas dos crimes cometidos por uma multidão. Sentiam confusamente que um ato de crueldade e de ferocidade não pode ser apenas produzido por circunstâncias, mas que deve ter a sua causa na constituição particular do organismo daquele que o comete.

“Que se passa no coração dos homens quando são assim coletivamente arrastados para o assassínio, para a efusão de sangue? Donde nasce esse poder imitativo que os subjuga e que os leva a destruírem-se assim, uns aos outros? O ponto culminante da investigação atém-se a uma disposição homicida primordial, a uma espécie de furor instintivo, funestos atributos da humanidade, que acha um poderoso auxiliar na tendência imitativa. Circunstâncias externas de toda a casta, atuando sobre essas potências virtuais, põem-nas em movimento e fazem-nas surgir na sociedade.

“Umas vezes, é a vista do sangue que faz nascer a idéia de o derramar; outras, é o proselitismo, o espírito de corporação, o espírito de partido, que chamam para seu serviço as paixões malignas de todo o gênero, e que armam a mão do homem para derramar o sangue; outras ainda, é uma imaginação continuamente excitada pelas solicitações de um temperamento irritável, que se perturba com a narrativa dalgum acontecimento sinistro, que se enfurece quando a publicidade se esforça por persegui-lo e que transforma num instante o homem mais tímido num verdadeiro animal feroz”(71).

E mesmo antes de Barbaste, Lauvergue recorrera a essa disposição homicida primordial para explicar os crimes da multidão. — “O órgão da imitação, — escreveu ele — é um dos que se apresentam em primeiro plano com os da combatividade e da crueldade. Em épocas de desordem e de revolução, todos os crimes que se cometem são obra desse três pontos de cérebro que matam, como senhores, na razão e na inteligência que lhes estão subordinadas. Então o homem que nasceu cruel arregaça as mangas e faz-se fornecedor da guilhotina. Terá por imitadores a multidão daqueles que queriam um modelo, um ato de audácia de que se sentiam capazes de executar. As vítimas serão os homens fracos e os carneiros, aqueles que os bons modelos, os bons exemplos de prudência e de razão, tornaram humanos e piedosos, nos quais os órgãos da crueldade e da imitação, se existiram neles fortes e preponderantes, cederam ao labor improbus da inteligência e do sentimento”(72).

É certo que o que dizem Barbaste e Lauvergne é verdadeiro, profundamente verdadeiro. Precursores longínquos da nova ciência da antropologia criminal dão à constituição fisiológica do indivíduo uma parte das causas dos fenômenos humanos, em vez de darem todas, sem distinção, à sociedade como querem ainda alguns.

Mas, antes de ter recorrido ao fator antropológico, julgo conveniente dar atenção a algumas outras considerações que explicam, se não por si só, pelo menos, principalmente, de que modo uma multidão pode ser arrastada a atos de ferocidade e de crueldade.

Devemos notar antes de tudo que a multidão está em geral mais disposta para o mal do que para o bem.

O heroísmo, a virtude, a bondade podem ser as qualidades de um só indivíduo; mas não são nunca, ou quase nunca, as qualidades de uma grande reunião de indivíduos. A observação mais vulgar ensina-nos isso: receia-se sempre de uma multidão de indivíduos, bastante raramente se tem confiança nela. Toda a gente sente e sabe por experiência que o exemplo de um homem perverso ou de um louco pode arrastar a multidão ao crime; bem poucos julgam e o que, com efeito, sucede raramente, que a voz de um homem de bem ou de um homem corajoso pode persuadir a multidão a estar calma.

A psicologia coletiva, como dissemos na introdução, é fértil em surpresas: cem, mil homens reunidos podem cometer ações que nenhum dos cem ou dos mil teria cometido estando só, mas estas surpresas são quase sempre dolorosas. De uma reunião de homens bons, não se obterá quase nunca um resultado excelente; obter-se-á muitas vezes um resultado medíocre, algumas vezes, até, um resultado muito mau.

A multidão é um terreno em que o micróbio do mal se desenvolve facilmente, ao passo que o micróbio do bem morre quase sempre, à mingua de encontrar condições de vida.

E isto por que?

Sem falar aqui dos diferentes elementos que compõem uma multidão, em que, junto de homens de coração vêem-se indiferentes e cruéis, e junto das pessoas honestas, vêem-se, na maioria das vezes, vagabundos e criminosos, li­mi­tan­do-nos sim­ples­mente, por agora, a uma observação geral, poderíamos responder à pergunta que nos foi feita, dizendo que numa multidão as boas qualidades particulares, em vez de se unirem, se suprimem.

Suprimem-se, principalmente, por uma necessidade natural, e direi até, aritmética. Como a média de muitos números não pode evidentemente ser igual ao mais elevado desses números, do mesmo modo um agregado de homens não pode refletir nas suas manifestações as faculdades mais elevadas, próprias de alguns desses homens; refletirá apenas as faculdades que se encontram em todos ou no maior número dos indivíduos. As últimas e melhores estratificações do caráter, diria Sergi, as que a civilização e a educação conseguiram formar nalguns indivíduos privilegiados estão eclipsadas pelas estratificações médias que são o patrimônio de todos: na soma total estas prevalecem e as outras desaparecem.

Sucede, na multidão, no ponto de vista moral, o que já notamos suceder em todas as numerosas reuniões, no ponto de vista intelectual. A companhia enfraquece — em relação ao resultado total — tanto a força do talento como os sentimentos caritativos.

Não queremos dizer com isto que a multidão seja incapaz de qualquer manifestação nobre e grande, quer do lado do pensamento, quer do do sentimento(73). Numerosos fatos aí estão para nos desmentirem, principalmente todos os que têm a sua origem no amor da pátria e que — desde os 300 das Termópilas até aos últimos mártires da independência italiana — formam, por assim dizer, na história, uma via sacra que prova por si própria que uma multidão pode, como um indivíduo, subir às alturas sublimes da abnegação e do heroísmo.

Quis somente frisar que a multidão é predisposta por uma lei fatal de aritmética psicológica, mais para o mal do que para o bem — do mesmo modo que uma qualquer reunião de homens é predisposta a dar um resultado intelectual inferior ao que deveria dar a soma das suas componentes. Há na multidão uma tendência oculta para a ferocidade, que constitui — posso dizer assim — o fato orgânico, complexo das suas futuras manifestações; e esse fator (como o fator antropológico no indivíduo) pode seguir uma direção boa ou má, conforme a ocasião e conforme a sugestão que lhe é imposta pelas condições externas.

Do mesmo modo que uma assembléia, que representa um conjunto intelectualmente medíocre, pode chegar, em certos casos, a compreender uma idéia de gênio ou um sentimento nobre, se alguém o sabe expor(74), também uma multidão que representa um conjunto moralmente medíocre e mesmo baixo, pode chegar em certos casos a cometer ações heróicas se encontra o apóstolo ou o capitão que a saiba conduzir. A vulgaridade, no primeiro caso, e a crueldade, no segundo, podem, portanto, transformar-se em pensamentos e sentimentos melhores ou até excelentes, pela ação do orador ou do chefe — daquele enfim que é o árbitro do que fizer a multidão.

Esta condição da massa foi exposta por Pugliese numa magnífica comparação: “Uma multidão está excitada, mas a força que a agita qual mar revolto, não recebeu ainda o impulso do movimento; — uma caldeira está sob a pressão, mas não se abriu ainda a válvula que deve deixar passar o vapor; — uma porção de pólvora está exposta ao sol, mas ninguém lhe largou fogo para a fazer explodir. Surge um homem, manifesta-se uma idéia, dá-se um grito: — vamos matar fulano, inimigo do povo, ou: vamos libertar cicrano, amigo dos pobres — e o movimento fez-se, a válvula abriu-se, a pólvora explodiu. É a multidão”.

Spencer tem também uma frase em que podemos ver, se a aplicamos à multidão, a mesma idéia da comparação de Pugliese: “As palavras, diz o filósofo inglês, têm com o abalo moral que excitam, uma relação que se assemelha muito à que a pressão do gatilho de uma arma de fogo mantém com a explosão que a segue: não produzem a força, põem-na em liberdade”(75).

Portanto, na multidão — como no indivíduo — toda a manifestação é devida às duas ordens de fatores, antropológicos e social(76); — a multidão pode ser em potência, o que quiserem, mas é a ocasião, que há de fazer nascer tal ou tal acontecimento. Há todavia a seguinte particularidade: que a ocasião isto é, a palavra ou o grito de um homem, tem, perante a multidão, uma importância infinitamente superior à que ela tem perante um só homem. O indivíduo isolado — na sociedade, no estado normal — é sempre, mais ou menos, uma matéria pouco inflamável; aproximem dele uma mecha; arderá mais ou menos lentamente e talvez se extinga(77). A multidão, pelo contrário, está sempre como a pólvora seca: se aproximam a mecha, a explosão não pode deixar de dar-se. A ocasião tem, portanto, na multidão, o terrível do irreparável(78).

Após todas estas considerações, poder-se-á julgar prejudicado o princípio já exposto — que a multidão é um terreno no qual o micróbio do bem morre muitas vezes, e no qual, pelo contrário, o micróbio do mal brota facilmente. Visto que dirão, tudo depende da ocasião, e que ela pode ser boa ou má, as probabilidades para os resultados opostos são iguais.

Não é porém assim.

Se é verdade que tudo depende da ocasião, não é menos verdade que a ocasião é na maioria das vezes mais má do que boa.

E isto por esta grande razão: sendo dado na multidão um número igual de pessoas que quer conduzir-se para o bem, e outro que quer arrastar-se para o mal, as deste último terão, na maioria dos casos, a primazia. A perversidade é uma qualidade mais ativa do que a bondade; porquanto a classe dos maus é composta daqueles que querem fazer mal aos outros, ao passo que a classe dos bons é composta daqueles que não farão nunca mal a ninguém, (os passivos) e daqueles que não só não farão mal, mas que querem fazer bem e que o fazem. Ora, é fácil compreender que os bons passivos não podem influenciar uma multidão e dirigi-la; as suas qualidades negativas tornam-nos instrumentos cegos de quem souber tomar a primazia.

Quanto aos bons ativos (permitam-me estas expressões que tornam exato o meu pensamento) o seu poder encontra bastantes dificuldades porque se tentam impor-se, reagir contra os conselhos dos maus, se procuram restabelecer o sossego, verão muitas vezes as suas palavras mal interpretadas, e serão acusados de pusilanimidade e doutras coisas piores. É por isso que, se se atrevem a reagir uma primeira vez, não tentarão a segunda, e a sugestão daqueles que querem fazer nascer alguma coisa de sério, de grave, não encontrará mais nenhum obstáculo. Quantos não há que numa sublevação popular gritam viva ou morra, porque receiam que, se se calarem, os seus vizinhos os acusem de covardes e espiões! E quantos, pelas mesmas razões, passam dos gritos a atos! É necessário uma força de caráter pouco comum para reagir contra os excessos que comete a multidão de que fazemos parte; e bem poucos possuem esta força. A maior parte dos indivíduos compreende que procede mal, mas fá-lo porque a multidão impele e coage a isso. Sabem que se não seguirem a corrente chamá-los-ão vis e serão vítimas da cólera doutrem. E o medo material de ser maltratados ou feridos une-se ao medo moral de ser tratados por covardes.

Alexandre Manzoni, nos Noivos, tem uma esplêndida página que descreve essa impossibilidade moral e física, a que se acham reduzidos os bons na multidão, de reagir contra a maioria que corre loucamente a cometer ações criminosas:

”... era um movimento contínuo, impelia-nos, atraía-nos, havia como que uma sociedade, uma incerteza, uma irresolução, um zumbido contínuo de contraste e de conselhos. De repente, uma voz sai do meio da multidão, uma maldita voz que grita: “Há aqui perto a casa do vigário; vamos fazer justiça e saquear”. Pareceu que se reavivava de súbito a lembrança de uma convenção já feita, em vez da aceitação de uma proposta do momento. — “A casa do vigário, a casa do vigário”; não se ouvia outro grito. A multidão põe-se a caminho como um só homem e dirige-se à casa indicada numa tão má ocasião. — “Ao vigário! ao tirano! Queremo-lo vivo ou morto!” Renzo encontrava-se no centro do tumulto. Mal ouviu esta proposta sanguinária apoderou-se dele o terror; quanto à pilhagem não poderia dizer se era boa ou má neste caso, mas o pensamento do homicídio causava-lhe verdadeiro horror. E posto que por essa funesta docilidade dos espíritos apaixonados perante a paixão de um grande número, ficasse mais que persuadido que o vigário era a causa principal da fome, o inimigo dos pobres, todavia, tendo ouvido, por acaso, pouco antes na multidão, algumas palavras que indicavam o desejo de se fazer tudo que se pudesse para o salvar, prometera logo a si próprio ajudar a uma tal obra... Um velho, arregalando os olhos encovados e chamejantes, brandia no ar um martelo, uma corda e quatro grandes pregos, com que, dizia ele, queria pendurar o vigário à sua porta, logo que estivesse morto. — “Que ignomínia!” exclama Renzo aterrado por essas palavras e pelo aspecto de um certo número de votos que pareciam aprová-las, e animado por outros que se calavam, deixando simplesmente perceber o mesmo terror que ele tinha. — “Que ignomínia! queres então que nos tornemos carrascos? Assassinar um cristão! Como querem que Deus nos dê pão se cometemos destes horrores? Despedirá raios em vez de pão!” — “Ah cão! ah traidor da pátria!” exclamou, voltando-se para Renzo como um possesso, um dos que puderam ouvir, apesar do barulho, essas boas palavras. — “Olha! olha! É um servo do vigário mascarado de camponês; é um espião; agarrem-no!” Cem vozes prorrompem em torno dele: “Que é? Onde está? Quem é? Um servo do vigário. Um espião. O vigário mascarado de camponês, que foge. Onde está? Agarrem-no e cheguem-lhe!” Renzo cala-se, encolhe-se, bem quer desaparecer; alguns dos que o rodeiam escondem-no no grupo, e procuram confundir as vozes inimigas e homicidas com outros gritos mais fortes. Mas o que o salvou foi um “arreda! arreda!” que bradam perto dele...”

Há uma infinidade de pessoas que se encontram no caso de Renzo. E, se a comparação não parecesse um pouco ousada, diria que a maioria das pessoas honestas que se encontram no meio de uma multidão furibunda, deve quase fatalmente por uma lei de mimetismo psíquico, conduzir-se como os que a rodeiam.

Assim como há animais que para se apagarem aos olhos dos inimigos e melhor defenderem-se deles tomam a cor do meio em que vivem(79), assim também os homens que se encontram numa multidão, para evitar que os insultem e que lhes batam, tomam a cor moral daqueles que os rodeiam, isto é, gritam tudo que os outros querem e fingem seguir a corrente.

Se é realmente assim, não é difícil compreender porque as paixões más têm primazia na multidão e as boas intenções do menor número.

Mas, além das considerações que já vimos, há uma que explica melhor ainda a vitória dos instintos brutais.

Demonstramos, assim o julgo pelo menos, o modo por que uma comoção qualquer sentida e manifestada, por um só indivíduo, se propaga imediatamente a um grande número. Suponhamos que essa comoção é de furor ou de cólera; num instante, o rosto e as maneiras de cada indivíduo tomarão uma expressão de cólera que terá alguma coisa de intenso e de trágico.

Não devemos julgar que esta expressão é só aparente: a comoção real segue sempre os atos que a exprimem, mesmo quando esses atos não são, no começo, senão demonstrações aparentes. Não podemos fingir, somente por nossa vontade, uma comoção que não experimentamos; mas não podemos ficar indiferentes perante uma comoção que simulamos externamente.

Visto que todo o estado intelectual é acompanhado por manifestações físicas determinadas, que não são apenas os seus efeitos e os seus sinais, mas — como diz Ribot — as condições necessárias e os elementos constitutivos, e por conseqüência, entre um estado intelectual e as suas manifestações externas, neste sentido, que um não pode nascer sem produzir imediatamente os outros e vice-versa.

— “Quando de olhos fechados, diz Lange, pensamos num lápis, fazemos primeiro um pequeno movimento de olhos que corresponde à linha reta, e muitas vezes sentimos uma leve alteração nos movimentos da mão, como se tocássemos num lápis”(80).

__ “Para as expressões abstratas, Stricker demonstrou de um modo seguro a existência da palavra interior; e cada qual pode sentir ao examinar-se com atenção, que quando pensa nalguma coisa abstrata, pronuncia silenciosamente, para si própria, a palavra que a representa ou, pelo menos, sente-se levado a pronunciá-la”(81). — Bain dizia, de fato, resumindo numa só frase a idéia exposta por Lange e por Stricker que — pensar quer dizer parar de falar e de proceder(82).

Além disso, mais de mil experiências provam que o movimento é inerente à imagem. — “As pessoas que se deitam a um abismo, com medo de cair; as que se cortam com a navalha de barba com receio de cortar-se, e a célebre leitura dos pensamentos — que não é outra coisa senão a leitura de estados musculares, — parecem estranhas ao público, porque ignora este fenômeno psicológico elementar: — que cada imagem encerra uma tendência para movimento”(83).

Reciprocamente, cada movimento encerra uma tendência para uma imagem qualquer. Foi dito que o pensamento não é senão uma ação abortada. Julgo poder dizer analogamente que — o ato externo é um pensamento que nasce.

A especial ação muscular — diz esplendidamente Maudsley — não é somente o expoente da paixão, mas muito principalmente uma parte essencial de si própria. Exprimam pela fisionomia uma determinada comoção — a da cólera, do espanto, da malvadez — e a comoção assim imitada não deixará de despertar-se; e enquanto as feições do rosto exprimem uma determinada paixão, é inútil e vão procurar experimentar outra qualquer(84).

Espinas escreveu de um modo análogo: “Da mesma maneira que o homem que empunha um florete num assalto amigável se anima com o jogo e experimenta parte dos sentimentos que teria numa verdadeira luta, da mesma maneira o sujeito magnetizado passa por todos os estados correspondentes às posturas que o obrigam a tomar, ensoberbecendo-se quando o fazem erguer-se, humilhando-se quando o fazem baixar, assim também os animais experimentam rapidamente as comoções, cujos sinais externos reproduzem. O macaco, o gato, o cão, simulando-lhes à sua vista um combate, tornam-se, logo, verdadeiramente coléricos — tanto maior conexão há entre os atos e as atitudes que exprimem geralmente um estado de consciência, e esse próprio estado de consciência, quanto essas duas metades de um só e mesmo fenômeno se engendram facilmente uma pela outra”(85).

Ora, é claro que uma multidão, na qual se produz uma comoção de cólera ou de furor, será num instante, não só excitada externamente, mas também realmente irritada(86). É bem fácil compreender então como, antes mesmo de ter recorrido ao fator antropológico, pode chegar ao crime.

Todos os indivíduos, que fazem parte de uma multidão, estão numa condição psicológica análoga à de um indivíduo provocado e ofendido pessoalmente. É por isso que o crime que cometerem não será um ato selvagem incompreensível, mas antes uma reação (justa ou injusta, mas em todo o caso natural e humana) contra a causa, ou o que julgam ser a causa, dessa provocação que sentiram por contágio.

O fator antropológico terá certamente a sua parte nesse crime, mas o motivo principal não será menos o estado real de cólera e de irritação da multidão. Este estado de cólera torna os crimes da multidão semelhantes em tudo, aos dos delinqüentes de ocasião, que — como se sabe — não chegam ao crime senão quando são impelidos a isso pelas circunstâncias ou pelas provocações externas.

Levantamos, portanto, o primeiro véu do mistério dos crimes imprevistos da multidão: entrevemos agora as razões por que elas os cometem. Uma derradeira consideração nos ajudará a explicar ainda melhor esse fenômeno.

É uma lei psicológica de uma verdade incontestada que a intensidade de uma comoção cresce na proporção direta do número das pessoas que a compartilham no mesmo lugar e ao mesmo tempo.

É esse o motivo do alto grau de frenesi a que sobe às vezes o entusiasmo ou a desaprovação, num teatro ou numa assembléia.

Ter-se-á um exemplo e uma prova do que afirmamos, se quisermos examinar o que sucede numa sala em que fala um orador. — “Suponhamos que a comoção sentida por esse orador pode ser representada pelo número 10, e que às primeiras palavras, ao primeiro rasgo da sua eloqüência, comunica, pelo menos, a metade de cada um dos seus ouvintes, que serão 300, por exemplo. Cada qual reagirá por aplausos ou por redobramento de atenção; e isto produzirá o que se chama nas notícias um movimento (sensação). Mas esse movimento será sentido por todos ao mesmo tempo, porquanto o ouvinte não está menos preocupado com o auditório do que o orador, e a sua imaginação é repentinamente invadida pelo espetáculo dessas trezentas pessoas emocionadas, espetáculo que não pode deixar de produzir nele, segundo a lei enunciada há pouco, uma comoção, e vejamos o resultado. O choque sentido por ele será representado, não por 5, mas pela metade de 5 multiplicada por 300, isto é, 750. Se aplicarmos a mesma lei ao que está de pé e que fala no meio dessa multidão silenciosa, não será já o número 750 que exprimirá a sua agitação interior, mas 300 vezes 750 visto que é o foco em que todos esses indivíduos profundamente comovidos emitem as impressões que lhes comunica”(87).

É certo que, numa multidão, a comunicação das comoções não se realiza de todos para um só; não apresenta portanto esse caráter de concentração orgânica.

O concurso é tumultuoso e uma grande parte das comoções — devemos convir — não podendo ser sentidas por todos, não têm eco. A intensidade da comoção não oferece já então uma relação igual ao número dos indivíduos e a aceleração dos movimentos apaixonados é muito menos rápida. Mas a lei geral não é menos verdadeira.

Manifesta-se de um modo menos determinado, menos claro, mais incerto; mas esta incerteza mesmo, e essa confusão terão o seu efeito. Cada grito, cada murmuração, cada ato, justamente porque não é nem ouvido, nem interpretado exatamente, produzirá um efeito mais grave que talvez não deveria realmente produzir(88). Cada indivíduo sentirá exaltar-se a sua imaginação, tornar-se-á mais dócil a qualquer sugestão, e passará da idéia à ação com rapidez que é deveras para surpreender.

“Quanto mais superfície sobre que se estende uma influência se torna heterogênea — escreveu Spencer — tanto mais o número e a espécie dos resultados são multiplicados por um fator elevado”(89).

Estamos então na presença do fenômeno que Enrico Ferri chama fermentação psicológica: os fermentos de todas as paixões subirão das profundidades da alma; e, como reações químicas entre várias substâncias, obtêm-se substâncias novas e diferentes; assim, pois, das reações psicológicas, entre muitos sentimentos diferentes, nascerão comoções novas e terríveis, desconhecidas até então à alma humana(90).

Sendo impossível em semelhantes casos, não só raciocinar, mas ver e ouvir exatamente, os fatos mínimos tomam proporções enormes, e a menor provocação leva ao crime. É em tais casos que o inocente é condenado à morte pela multidão sem mesmo ser escutado, porque — como diz Maxime du Camp — “a suspeita basta, todo o protesto é inútil, a convicção é profunda(91).

É pois, natural concluir que a irritação e a cólera da multidão, — que demonstramos serem não só aparentes, mas sentidas realmente, — tornar-se-ão num curto espaço de tempo, só pela influência do número, um verdadeiro furor. Não se ficará, depois disto, admirado por ver a multidão cometer os crimes mais horríveis.

Esta terrível influência do número que é, julgo, intuitiva para todos(92) e que tentamos explicar, é sustentada pelas observações de todos os naturalistas. É uma coisa conhecida que a coragem de um animal aumenta na razão direta da quantidade de companheiros que sabe ter perto dele; e diminui na razão direta do isolamento maior ou menor em que encontra(93).

A sanção mais clara da lei — que a coragem dos combatentes é proporcional ao seu número — foi dada por Forel com uma experiência feita e contada por ele na sua magnífica obra sobre as formigas. Apartou sete indivíduos dos dois exércitos de formigas pratenses envolvidas em combate, das quais quatro eram de um campo e três doutro; pô-las em seguida numa mesma vasilha. As sete formigas, dantes irritadas e que combatiam umas contra as outras, tornaram-se amigas.

Que maior prova de que é o número que faz brotar na multidão os instintos de crueldade e de prazer pelo combate?


CAPÍTULO II
AS MULTIDÕES CRIMINOSAS

 

I

As observações gerais que até aqui temos feito eram necessárias para fazer compreender bem, que estranha e terrível força íntima tem uma multidão dentro de si.

Devemos examinar agora, segundo os fatos, não só como essa força íntima se manifesta, mas também se entram outros fatores na produção dos crimes de uma multidão, e quais são. É só depois desta pergunta que fizemos no começo desta obra, isto é: qual a forma de reação social que melhor convém a estes crimes?

Devemos, antes de tudo, abandonar por um instante o estudo psicológico da multidão que, reunida e fremente, só espera a faísca que deve fazer eclodir todas as energias que contêm em estado potencial. Devemos elevar-nos a consideração de natureza diferente e que pertencem mais à sociologia do que à ciência mais ligada à psicologia coletiva. Devemos examinar qual é, no presente, a condição normal do povo, quais são os seus sentimentos, as suas idéias, as suas necessidades. Do mesmo modo que se não pode julgar um criminoso, examinando somente a sua conduta em relação ao crime cometido, mas é necessário investigar quais eram as suas disposições de espírito, o seu caráter e as suas condições econômicas, — assim também não pode julgar-se o crime de uma multidão, se não se conhecem as aspirações e as tendências, numa palavra, o estado material e moral do povo, de que essa multidão é apenas uma parte.

É certo que esta análise, relativamente fácil de fazer sobre um indivíduo, oferece grandes dificuldades quando se trata de uma sociedade inteira. Há, entre os dois casos, a mesma diferença que entre escrever uma biografia ou uma história. Compreende-se bem que não se trata aqui de fazer um estudo minucioso e completo (e não teríamos, aliás, nem os conhecimentos nem o talento necessário para o conseguir), mas lançar um relance de olhos sobre os principais caracteres da época, para se fazer uma idéia, tão exata quanto possível, da condição psicológica permanente desse povo que amanhã, talvez, por um acaso qualquer, — reunir-se-á em multidão para cometer crimes.

O observador menos perspicaz não pode negar que há no presente como que um frêmito de revolta no povo. A consciência contemporânea dos operários, e aqui e ali, nos camponeses proletários, sente que surgiu uma nova classe; e visto que as liberdades políticas da época deram o poder absoluto ao número, substituindo o direito divino dos reis pelo da maioria(94), esta classe, vendo-se a mais numerosa, pede, com uma lógica que as outras classes lhe ensinaram, muito mais direitos e privilégios do que tem tido até ao presente(95).

É neste pedido, simples e humano — que foi na história a origem de todos os progressos e que correspondem socialmente ao instinto de conservação de todo o organismo individual, — que está a fonte primária, e mesmo única, de todas essas idéias políticas, mais ou menos exageradas, que se propagam cada vez mais e se insinuam na consciência e no cérebro dos camponeses e dos operários, os quais ignoravam até aqui os seus direitos, graças aos despotismos igualmente terríveis da religião e dos governos absolutos.

Um grande número de escritores atribue o descontentamento e a agitação do povo a essas idéias, — que vão por graus indistintos do radicalismo à anarquia — e julga que se não houvesse indivíduos que se fizeram e se fazem os apóstolos e os clamadores dessas idéias, o povo do campo e as classes operárias das cidades viveriam ainda tranqüilas e contentes da sua condição, sem pensarem numa melhor.

Não nego que estas idéias tenham feito crescer os seus desejos; nada é mais perigoso do que um grande pensamento num pequeno cérebro, disse Taine, e é certo que a grandeza das aspirações socialistas. pode ter contribuído para fazer perder o equilíbrio intelectual e moral a muitos daqueles que, tendo mui poucos conhecimentos ou nenhuns, e muita miséria, aceitam por necessidade com entusiasmo qualquer teoria que lhes promete mais do que outras, o bem-estar material(96). Admito também, ainda que muito relativamente, que essas idéias fizeram adquirir a alguns — como disse um conservador italiano — mais presunção do que convicção, mais tentações do que calma, mais cobiça do que fé(97).

Mas julgo que é um erro, e dos mais fatais, considerar que essas idéias são a causa única da fermentação que agita as classes inferiores. Depende de causas bem mais afastadas e profundas, e infelizmente, bem mais difíceis de destruir do que as teorias de um partido político ou de outro; depende da crise social que nos oprime e que é tanto mais dolorosa quanto a nossa sensibilidade é maior e quanto o progresso nos deu mais necessidades.

Falar contra o perigo de certas doutrinas políticas, atribuindo-lhes o suscitar no povo queixas que não teria feito, é a mesma coisa que falar contra a imoralidade de certas doutrinas científicas, acusando-as de perverter o público, ou contra a imoralidade da arte naturalista, acusando-a de tornar os costumes piores(98). Estas três formas de atividade intelectual não têm outro fim senão representar a verdade; mas visto que certas classes da sociedade egoísta e hipócrita não querem reconhecer a verdade, elas acusam aqueles que a revelam de a pintarem feia, em vez de admitirem que ela é tal na realidade. — “Ah! senhor, — dizia, em 1850, Beyle, que se ocupava deste mesmo assunto, no ponto de vista literário, — um livro é um espelho que se coloca diante de uma grande estrada. Ora reflete o azul do céu, ora a imundície do lodaçal da estrada. E o homem que traz o espelho no seu cesto poderá ser acusado de imoral? O seu espelho mostra a imundice e acusam a este de imoral? Acusem antes a estrada onde está o lodaçal, e mais ainda o inspetor das estradas que deixa estagnar a água e formar-se o lodaçal”(99).

Não repitamos, portanto, a tola acusação que se faz àqueles que levantam o véu das numerosas injustiças sociais; eles não fazem senão constatar a verdade; e se é dolorosa, quem tem culpa? Sthendal disse-o claramente: “Acusem a estrada e mais ainda o inspetor das estradas”.

É necessário, todavia, convir que não se limitam sempre a demonstrar o mal que existe e a propor corrigi-lo de uma maneira justa e gradual. Há indivíduos que aconselham os remédios violentos e criminosos e são esses, dizem, que excitam os proletários contra os ricos.

Evolucionista por alma, não posso aprovar os que querem fazer triunfar uma idéia pela violência: — a violência e a verdade, disse Pascal, são duas forças que não têm nenhum poder uma sobre a outra: a verdade não pode dirigir a violência, e esta nunca serviu ultimamente a verdade(100). “Julgo, todavia, que se exagera a influência de certas teorias perigosas, quando as expõem apenas em teoria(101). Podem escrever em todos os jornais do mundo que é necessário tirar o supérfluo àquele que o possui, mas essa palavras não convencerão senão o operário que estiver já antropologicamente disposto para o roubo; não exercerão nenhuma influência no homem honesto, porquanto “o homem atua conforme o que sente e não conforme o que pensa”(102).

Portanto, todas as teorias, mesmo as mais ferozes, valem bem pouca coisa na nossa dinâmica moral(103); o que vale alguma coisa, é o nosso sentimento. E é o sentimento que diz, não só aos proletários, mas a todos os homens, que sofremos todos, por causa de um ou de outro ou da fatalidade, das injustiças morais e materiais. Essas injustiças, é verdade, são maiores de indivíduos, mas se são diferentes objetivamente não são sempre subjetivamente. A delicadeza de sentimento varia conforme as classes de indivíduos; em geral, os indivíduos e as classes que têm a suportar males ligeiros, na realidade, têm uma sensibilidade muito mais sutil.

As dificuldades econômicas ferem tanto os ricos como os proletários; e com o mal-estar econômico surgem bastantes sofrimentos, bastantes desgraças que não poupam ninguém e dão a todos o direito de se queixarem.

Ora, se tudo isto é verdadeiro (e julgo não ser possível negá-lo), se são realmente os sofrimentos e as injustiças que descontentam o povo — e não as teorias deste ou daquele, que poderão, quando muito, irritá-lo — não deveremos ter um pouco de indulgência para as súbitas expansões do povo?

As plebes reclamantes, como as apelidou Ellero em pleno Senado, formam uma grande parte da multidão criminosa; e os seus sofrimentos são uma causa remota, mas que não devemos esquecer, dos excessos a que ela se entrega.

Sucede com as sublevações e tumultos o que sucede entre amigos, quando um deles habitualmente tranqüilo e silencioso faz uma cena por uma qualquer futilidade. — Mas por que se zanga? Não tinha realmente nenhum motivo para isso! — exclamam alguns. — Ah! não sabem! Tem tantos desgostos lá por casa! — respondem os mais íntimos.

O povo há de também sofrer muito em suas casas, e quando a ocasião se apresenta, o seu descontentamento estala.

Entre as causas que determinam os crimes de uma multidão, não devemos, portanto, esquecer essa predisposição permanente do povo, que desculpa pelo menos a intenção das suas expansões imprevistas.

II

Dissemos, no fim do capítulo precedente, que o número aumenta a intensidade de uma comoção, e, segundo Espinas, demos a prova matemática desse fenômeno, que é, aliás, intuitivo(104). Devemos acrescentar agora que o número não tem somente este efeito aritmético, mas que é, além disso, por si próprio, a fonte de novas comoções. O número dá, de fato, a todos os membros de uma multidão onipotência. Sabem que podem fazer valer a sua onipotência sem obstáculos, que se não poderá nem julgá-la, nem puni-la; e esta segurança anima-os a cometer as ações que eles próprios condenam, sentindo-as injustas.

Toda a ditadura deve ne­ces­sa­ria­mente chegar ao arbítrio e à injustiça, porquanto é uma lei psicológica que quem pode tudo a tudo se atreve(105).

Poter mal far, grande é al mal fare invito“, disse Alfieri.

É pois natural que cem mil, dois mil indivíduos reunidos por acaso, que conheçam a sua forca, que se vêem de repente senhores de uma situação, julguem ter o direito de serem juízes e, às vezes até, carrascos. “A onipotência súbita e a licença de matar — escreve Taine — são um vinho muito forte para a natureza humana; a vertigem aparece, o homem vê vermelho e o seu delírio acaba pela ferocidade”(106).

Em semelhantes momentos, as paixões mais brutais e mais ferozes tomam novas expansões; vê-se aparecer de repente o selvagem, sob as aparências do homem civilizado e para explicar este fenômeno, é-nos necessário recorrer quase forçadamente à hipótese já indicada por Barbaste e Lauvergne, de um despertar súbito desse instinto homicida primordial como o fogo assolapado sob a cinza, e que só espera a faísca para rebentar(107).

É certamente a isto, fora as outras cousas externas já assinaladas, que devemos atribuir os crimes de uma multidão. Porquanto, se a descrição do caráter, como fez Sergi(108), é positivamente verdadeira e não só uma bela comparação, é também lógico e natural supor que as camadas mais baixas do caráter saltem repentinamente, quando uma tempestade psicológica põe o nosso organismo fora dos eixos”(109).

“Não é todavia impunemente que um homem, sobretudo um homem do povo a que longos séculos de civilização ensinaram a compaixão, se torna de repente soberano e ao mesmo tempo carrasco. Por mais que seja impelido ao crime pelo seu instinto selvagem que despertou nele; por mais que se exalte contra as suas vítimas enchendo-as de ultrajes e de injúrias; sente, no entanto, vagamente, que comete uma enorme ação e a sua alma, como a de Macbeth, “está cheia de escorpiões”.

“Mas então, por uma terrível contradição ergue-se contra a humanidade hereditária que estremece nele; resiste, exaspera-se, e para abafá-la, não tem outros meios senão “saciar-se de horrores” acumulando os assassinatos. Porquanto o assassinato, sobretudo tal como o pratica, isto é, à arma branca em pessoas desarmadas, introduz na sua máquina animal e moral duas comoções extraordinárias e desproporcionadas que a alvoroçam, — de um lado a sensação da onipotência exercida sem exame, obstáculo ou perigo sobre a vida humana e sobre a carne sensível — de outro lado, a sensação da morte sangrenta e variada, como o seu acompanhamento sempre novo de contorsões e de gritos”(110).

É assim que escreve Taine, mas não é sempre verdade que o homem queira e sobretudo possa revoltar-se contra a voz interior que o aconselha a ser humano e compassivo; não é sempre verdade que o ceda ao instinto homicida.

Se é verdade que a multidão comete algumas vezes as atrocidades que a imaginação mais exaltada nunca pensou ou sonhou, é verdade também que às vezes não comete os crimes monstruosos que poderia cometer.

Junto da multidão cega, brutal, indomável, que perdeu o sentimento do justo e do injusto e que está possuída de loucura furiosa, há também a multidão que não passa de certos limites, que se arrepende depois de ter cometido um crime e que segue os conselhos daquele que a torna calma.

A história de todas as revoluções, pequenas ou grandes, políticas ou religiosas ou econômicas, dá-nos disso a prova. E essa diversidade de manifestações demonstra-nos implícita e claramente que os crimes de uma multidão não têm só por causas a sugestão, a influência do número e a embriaguez moral (tão magistralmente descrita por Taine) que resulta da vitória instantânea do ativismo sobre a obra lenta de uma educação secular.

Há outras causas e resultam da constituição particular das diferentes multidões; do caráter diferente dos indivíduos que as compõem, às vezes, profundamente honestos, outros arrastados pela sua própria natureza, ao crime.

É destas causas, da sua importância e da sua eficácia, que vamos ocupar-nos, examinando as diferentes manifestações criminosas que se dão na multidão, em diversos casos.

III

Falaremos antes de tudo da multidão, que com rapidez espantosa chega a cometer os mais atrozes atos da ferocidade e de crueldade. Exemplo algum há melhor do que os que dão alguns episódios da Revolução francesa.

O povo era então um animal feroz, insaciável, na sua sede de rapina e de sangue. Pessoa alguma, nada podia pôr um freio ao seu furor; depois de ter aliviado o seu instinto sanguinário e feroz, desencadeava-se mais terrível e mais horroroso do que nunca.

Mas era realmente só a influência do número e o despertar repentino do instituto homicida que o impeliam aos extremos, a ponto de fazer-lhe cometer semelhantes excessos? Era realmente um povo de operários e de camponeses honestos que se tornava repentinamente um monstro de perversidade? Ou não se teriam misturado nele, para o corromper, todos os indivíduos que constituem as baixas camadas sociais — o terceiro sub-solo, diria Victor Hugo — e que a cada sublevação e a cada revolta saem das tabernas e dos maus lugares onde se ocultam habitualmente, do mesmo modo que, quando se agita a água de um tanque, toda a lama que está no fundo sobe à superfície?

“Nas épocas de tranqüilidade, quando as paixões políticas apaziguadas não dão todos os dias assalto ao poder, a administração da política exerce sobre os rufiões, os vadios, os vagabundos, sobre toda essa gente ignóbil um império moral que os retém um pouco. Só vivem ocultando-se, a aproximação dos agentes fá-los fugir. Mas se sobrevém um despertar da opinião, se a imprensa quotidiana se torna agressiva contra a autoridade, se empreender uma campanha contra a legalidade dos atos do chefe de polícia, imediatamente essa gente torna-se-á arrogante e levantará a cabeça. Resistirá aos agentes e lutará contra eles; tomará parte em todas as sedições, e se a atinge uma nova lei, considerar-se-ão todos umas vítimas políticas. Sobrevém uma revolução, eles e as amantes que arrastam consigo tornar-se-ão os agentes mais cruéis e mais terríveis”(111).

— “A classe das pessoas sem profissão — acrescenta Gisquet — (classe numerosa, composta de homens quase sem asilo, cujas tendências viciosas sacudiram o peso das leis e da moral; numa palavra, o que Guizot chama com razão o caput mortuum da sociedade), — não apresenta, relativamente ao número, senão uma mínima fração da população; mas tendo em conta as predisposições que, principalmente, a mandrice e a miséria engendram, calculando as más paixões que elas fermentam, é nisso que jaz a força brutal que ameaça destruir tudo. Esta massa de indivíduos de má reputação recruta-se incessantemente e aumenta nas épocas de perturbações com aventureiros, homens tarados, perdidos de dívidas e de reputação nos departamentos e que vêm procurar um refúgio em Paris. Podemos ainda acrescentar, sem injustiça, alguns freqüentadores de tabagies, de maus lugares, numa palavra, os maus indivíduos de toda a casta; e quando a turba impura for posta em movimento pelas paixões políticas, vêm reunir-se-lhe os homens de imaginação desordenada, que sentem a necessidade de comoções fortes, e que as encontram nos dramas da rua, nas agitações populares”(112).

Todos sabem por experiência quanto isto é verdadeiro. Quando se vê alguma tempestade política despontar no horizonte, e uma animação extraordinária se manifestar nas ruas por ajuntamentos e rixas, surgem logo aqui e ali figuras sinistras que ninguém nunca viu. Todos fazem a mesma pergunta: donde saem então esses indivíduos? E todos pensam instintivamente nesses animais imundos que saem da sua caverna quando farejam de longe o cheiro de cadáver(113).

Em Paris, nos terríveis dias de 1793, todos esses indivíduos foram a alma dos crimes que se cometeram.

Uma testemunha ocular conta que “um grande número de vagabundos estrangeiros na cidade de Paris e que se tinham estabelecido logo depois dos primeiros sinais da revolução, percorriam os bairros da cidade e engrossavam o seu número unindo-se aos operários que saíam das oficinas. Tinham-se apoderado, ao acaso, de toda a espécie de armas e lançavam gritos de revolta. Os habitantes fugiam à aproximação desses grupos, todas as casas se fechavam, e onde não se encontravam essas hordas frenéticas, as ruas pareciam desertas e inabitadas. Quando cheguei a minha casa, no bairro Saint-Denis, um dos mais populosos de Paris, muitos desses bandidos deram tiros para o ar, para lançar o terror na população”(114).

Esses abomináveis seres não se limitavam a um pequeno número porquanto Droz(115) elevava o número a 40.000 indivíduos, os quais Bailly(116) e muitos outros depois julgaram alistados não se sabe por quem. Entravam nas casas particulares, nas repartições públicas e roubavam tudo que podiam levar consigo; devastavam o resto, muitas vezes lançavam-lhe fogo. A autoridade tentara dar trabalho a vinte mil desses indivíduos na colina de Montmartre; mas a maioria unia-se aos contrabandistas e percorria a cidade.

— “Entram no convento de Saint-Lazare — escreve Taine — e pilham-no. Penetram nos depósitos e devastam-nos. Vêem-se sair pessoas andrajosas, das quais, umas vinham cobertas de armaduras antigas, outras traziam armas preciosas pela sua riqueza ou pelas recordações históricas; um deles trazia a espada de Henrique IV”(117).

— E são estes criminosos por hábito — diz justamente Joly — os autores dos massacres; são os que constituem o cortejo da guilhotina, e que disputam a honra dos fuzilamentos“(118). E as suas mulheres não tardam a misturarem-se-lhes; porquanto os que sob um outro nome, vivem da prostituição, dispõem sempre de um grande número de indivíduos sempre prontos a pactuarem com a devassidão, o roubo e o assassinato.

Neste caso as mulheres não se contentam em acompanhar os homens, impelem-nos ao mal e animam-nos a isso, e muitas vezes ultrapassam em atrevimento e crueldade. “Em mais de um caso, exclama Maxime du Camp, a vítima teria podido ser salva, se a mulher não tivesse intervido, não tivesse dito aos homens hesitantes: São uns covardes! e muitas vezes não tivesse dado o primeiro golpe”(119).

Entre os degenerados, os criminosos não foram os únicos que tomaram parte na revolução; viram-se também os loucos. Saídos dos hospitais, — de que a multidão revolucionária lhes abria as portas — puderam melhor entregar-se livremente ao seu delírio nas praças e nas ruas, do que na célula solitária. Grande número desses desgraçados percorreram Paris, levando a toda a parte a desordem e o terror.

“O filho de uma louca — conta Tebaldi(120) — que alternava ha­bi­tual­mente a sua residência entre o hospital dos loucos e a prisão, foi um dos autores, mais desapiedados das buscas, dos massacres, dos incêndios. E a mais célebre entre todas foi Lambertine Theroigne, essa heroína do sangue, que guiou a multidão no assalto aos Inválidos e na tomada da Bastilha — e que morreu na Salpétrière, arrastando-se nua, de joelhos, e de gatas, esgravatando as imundícies do chão(121).

Criminosos, loucos, filhos de loucos, vítimas do álcool(122), a lama social, desprovida de todo o senso moral, habituada ao crime, — compunha pois a maior parte dos revoltados e dos revolucionários.

Misturem na multidão irrefletida, e, por sua natureza, dócil a todo o impulso, esses indivíduos; comunicar-lhe-ão a sua crueldade e a sua loucura. Como havemos de nos admirar então que os atos dessa multidão sejam cruéis?

Onde, por causa da confusão, ninguém ordena e ninguém obedece, as paixões selvagens são livres como as paixões generosas, e infelizmente, os heróis — que não faltam — são impotentes para reter os assassinos. Estes atuam; a maioria, composta de autômatos que se deixam arrastar, assiste sem saber e sem poder reagir.

Para aumentar a crueldade dos verdadeiros criminosos e a irritação de todos, além da embriaguez moral que dá o próprio número, acrescentem a embriaguez física, o vinho bebido em profusão, a orgia sobre os cadáveres e de repente “da criatura desnaturada ver-se-á sair o demônio de Dante, misto bestial e refinado, não só destruidor, mas ainda carrasco inventor e calculista, glorioso e alegre pelas dores que faz sofrer”(123).

“Durante as longas horas de fuzilaria — escreve Taine — o instinto homicida desperta-se, e a vontade de matar, mudada em idéia fixa, espalha-se ao longe na multidão que não atua. Só o seu clamor basta para persuadi-la; presentemente é suficiente para ela um grito de indignação; desde que um bate, todos querem bater. Os que não tinham armas — diz um oficial — atiravam pedras contra mim: as mulheres rangiam os dentes e ameaçavam-me com os seus punhos. Dois dos meus soldados já tinham sido assassinados... Cheguei enfim, debaixo de um clamor geral para ser enforcado, a algumas centenas de passos da Câmara Municipal, quando me apresentaram uma cabeça espetada numa lança, para eu ver, dizendo-me que era a de Launay, do governador. Este ao sair recebera uma espadeirada no ombro direito; chegado à rua Saint-Antoine, toda a gente lhe arrancava os cabelos e lhe dava pancadas. Na arcada de Saint-Jean, estava já muito ferido. Em volta dele, uns diziam: — cortem-lhe o pescoço; — outros: — enforquem-no! — outros: — prendam-no à cauda de um cavalo. — Então, desesperado, e querendo abreviar o seu suplício, exclama: matem-me! — e debatendo-se, dá um pontapé no baixo ventre de um dos homens que o agarravam. Num ápice, é furado pelas baionetas, arrastam-no para o rio, batem no cadáver, bradando: — É um sarnoso e um monstro que nos traiu! — A nação pede a sua cabeça para mostrá-la ao público e convida-se quem recebeu o pontapé a cortar-lha. Este, um cozinheiro desempregado, meio pateta, que fora até à Bastilha para ver o que se passava, julga, dada a generalidade de opinião, que a ação é patriótica, e crê, até, merecer uma medalha ao destruir um monstro. Com um sabre que lhe emprestam, bate no pescoço, nu; mas o sabre mal afiado não corta; tira então da sua algibeira uma pequena faca de cabo preto e — como na sua qualidade de cozinheiro sabe haver-se com carnes — termina facilmente a operação. Depois, espetando a cabeça num forcado tridente e acompanhado de mais duzentas pessoas armadas, fora a populaça, põe-se a caminho, e, na rua Saint-Honoré, manda pregar na cabeça duas inscrições para indicar bem de quem fora. — Aparecem os gracejos: depois de ter desfilado pelo Palais-Royal, o cortejo chega à Pont-Neuf; diante da estátua de Henrique IV, inclinam três vezes a cabeça, dizendo-lhe : — Cumprimenta o teu dono! — Foi a chalaça final. Há disto em todo o triunfo e, sob o magarefe, vê-se surgir o garoto”(124).

Quando a multidão chega a este estado em que não lhe basta já matar, mas quer que a morte seja acompanhada dos mais atrozes suplícios e dos mais terríveis ultrajes; quando o instinto sanguinário chegou a um tal ponto de frenesi, os instintos de luxúria não tardam também a despertar-se nela. Crueldade e