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Mera Carta
Jacinto Luigi de Morais Nogueira

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© 2001 Jacinto Luigi de Morais Nogueira


 

Mera Carta

 

Fortaleza, 07 de novembro de 2000.

 

Caro amigo,

 

          Aureliano fico feliz de saber sobre você, é sempre bom descobrir que ainda tem alguém que critica o óbvio, que reflete sobre a realidade e procura soluções para assuntos realmente importantes. Bom, pensar, refletir e buscar soluções todo o mundo está fazendo o tempo todo, mas é bom que se enfatize que se pensa banalidades, refletem-se futilidades e buscam-se soluções para problemas materiais. Você então é uma nova semente, e espero que esta sociedade superficial, que se enquadra no segundo caso a deixe crescer e florescer. É bom saber que outras pessoas percebem mais do que efeitos especiais no Matrix, um filme inteligentíssimo, com uma filosofia maravilhosa...
          Desde o dia que se nasce até a morte estamos em contato com o inevitável, isto é, com o que podemos perceber com nossos sentidos, e esses sentidos são o meio de contato que temos com o mundo em nossa volta. No início há determinados estímulos que nos agradam, outros não, como você falou. Já refleti sobre a etiologia disto e me chateia nossa limitação genética com relação à capacidade de perceber um estímulo de uma maneira agradável ou não. Deve haver também uma influência social, cultural que somadas ao fator genético moldam o que somos e seremos diante das várias realidades. Está confuso?
          Ok, além disso, nós desenvolvemos, como você falou, a capacidade crítica de raciocínio. No começo o raciocínio é do tipo: tenho que me arrastar para pegar aquele objeto colorido, ou, o que que esse cara está fazendo na minha frente (quando alguém está fazendo peripécias frente ao berço)? Que língua é essa?
          E assim vai evoluindo até uma época em que solucionamos problemas mais “complexos”. A filosofia diz que começamos a filosofar quando estamos em crise. Claro que a essência da crise é relativa, I.E., varia de pessoa para pessoa e que a criança desde o momento que começa a receber estímulos também está em crise. Nesse ponto não sei se o raciocínio é voluntário ou involuntário, mas que ela raciocina, raciocina. Acho que já tá bom de hipóteses. Vou pular logo para o que quero realmente falar.
          Não sei qual a origem, nem o fim disso tudo, mas o que se vê hoje é uma multidão de corpos que nascem, crescem se reproduzem e morrem. E só. A humanidade é muito pobre intelectual e emocionalmente. Vejo pessoas que fazem mas não sabem porquê. Vejo pessoas que lutam e não sabem por quem. Vejo pessoas que choram e não sabem sorrir. Normóticos. Pior, quando essas pessoas sabem o motivo, o motivo não justifica. É que esses motivos nos foram impostos por uma ideologia que idolatra ouro, dólar, aparência, moda, superficialidades... E infelizmente nossos valores passam a ser esses ditados por essa ideologia que não sei de onde vem. Somos originais??? E se formos??? A maioria vai querer te destruir. É a lei de sobrevivência da maioria, e você sabe que mecanismos são usados.
          Aureliano, gostei da parte em que você assume que é egoísta. Acho que realmente não se pode ajudar uma pessoa quando esta não quer, ou acha que não precisa de ajuda. Infelizmente a maioria, pelo menos no âmbito espiritual, emocional e intelectual. Nós ainda somos muito pré-potentes e auto-suficientes, isso determina nossa ignorância. E o que se vê são pessoas que nascem e passam a vida sendo arrastadas pela correnteza do rio, quando o rio está perto de desembocar no mar, analisamos se o que fizemos realmente valeu a pena, e acabamos morrendo sem resposta e com um nó na garganta. Poucos percebem que estão numa correnteza, a tempo, e nadam para a margem. Perceber é difícil, nadar é mais ainda.
          Se a gente já acredita que o que realmente importa é moda, aparência e dinheiro, para quê se preocupar com carpe diem espiritual, ou emocional, ou social? A verdade é que se vê morte todo dia, mas não paramos para pensar que somos passíveis dela também.
          O tempo que temos é o agora!!! Temos que fazer algo que valha a pena AGORA!!! Nem que seja só para a gente ou quem gostamos. Fugir, ser acrítico, ser alienado, ser cópia e ser normótico são muito fáceis. Todos nós somos dignos de questões mais nobres. Enfim, o que realmente conta na vida??? O que podemos fazer para aproveitá-la realmente AGORA? Qual a graça de repetir o que todo mundo faz? Qual a graça de sermos cópias? Qual o sentido de ser melhor que os outros? Por que a maioria quer ser impressionada por alguém? Sente até necessidade.. é impotência eu acho. Qual o sentido de impressionar alguém e aparecer? Ser aplaudido? Constranger? hoje em dia a diversão é constranger as pessoas. Humilhar? Saiba que tudo isso é mais fácil que se conhecer. Que perceber o óbvio. Que se deslumbrar com o simples. Que, talvez, até amar. Que quebrar a rotina. Quebrar o gelo. Enfim se despir desta inércia... O que fazer para mudar? Crise???
          Bom, já é o suficiente por hoje. É muito raro achar alguém para discutir isso. Valeu Aureliano.


          Do amigo, José Afonso.

 

Jacinto Luigi de Morais Nogueira.
luigi_morais@yahoo.com.br


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Maio 2001

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