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A Máscara do Tempo

Lira Vargas


 

A Máscara do Tempo
Lira Vargas

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© 2001 Lira Vargas
liravargas@email.com.br


 

A MÁSCARA DO TEMPO

 

Todos os sábados o casal de velhinhos, atravessava a rua e iam para o bar da esquina. Ele de nome Silvio, tinha um semblante sério, mal humorado, ela, bem cansada pela idade, tinha feições meigas, as rugas profundas, pareciam marcar a história de sua vida.

Sentavam no bar e o Silvio pedia cerveja, e conversavam banalidades, mas lá pelas tantas da tarde, Silvio começava a ofender a parceira de bar, que só bebia refrigerantes, talvez a maneira discreta de acompanha-lo na bebida. Silvio começava a ofende-la, culpava-a de sua infelicidade, ela o olhava, num olhar vago e meigo, Silvio dizia de sua solidão, que marcava a história de sua vida, culpava-a de não Ter filhos, dizia que odiava seus olhos azuis, suas rugas e seu silencio, e quando as acusações ficavam sem fundamento, Silvio tirava a blusa de seu time e a vestia na parceira de mesa, ela passivamente permitia que a camisa cobrisse seu rosto, sem desce-la até o pescoço, e sem um só movimento, ficava naquela posição um tanto débil, a escuta das acusações do Silvio. Ele pagava a conta sob os olhares de reprovação, e num gesto meio cômico, carregava a companheira no colo, pois ela permanecia com a camisa sobre os olhos, carregava-a até a rua, parava perto da porta do sobrado, colocava-a no chão, abria a porta, voltava e a carregava até as escadas.

Foi num sábado de outono, o sol disputava com a brisa fresca que envolvia a cidade. O casal chegou no bar. Todos sabiam que a cena se repetiria como todos os sábados. Alguém, pilhareou que não permitiria que o Silvio cometesse a mesma covardia de todos os sábados. Silvio chegou, ainda alegre com a companheira silenciosa, pediu cervejas e bolinhas de queijos, sentaram na mesa e o dialogo começou sem problemas, na rua o vento soprava a poeira, ela, tentou se defender da poeira e Silvio ajudou-a a limpar o braço enrugado, os dedos compridos sobre a mesa, o corpo frágil. Nesse instante alguém ligou o rádio e a música de xitãozinho e xororó ecoou pelo bar “quando a gente ama qualquer coisa serve pra lembrar, um vestido velho da mulher amada tem muito valor...” ela tentou cantarolar, batendo levemente os dedos sobre a mesa. Silvio empolgado com a música, acompanha os cantores, e com a cerveja no copo, faz um brinde no ar, a companheira levante seu copo de guaraná, respondendo num gesto meigo o brinde, sabe-se lá porque.

Quando termina a música, Silvio sugere que repitam a fita, e paga para tal musica permanecer, e a essas alturas a cerveja já começara seus efeitos e Silvio, cantando, dá uma parada e olha nos olhos meigos da companheira de bar e faz as acusações de sua infelicidade, ela o olha, balbucia algo, mas Silvio não permite que ela diga algo, diz que odeia sua voz, seus olhos e seu silencio. Tira a blusa e cobre seu rosto, pede a conta e a carrega de maneira patética. As pessoas do bar fazem os mesmos comentários de recriminação, mas ninguém impede Silvio a carregar a companheira pela pequena rua, pela pequena distancia. Ao atravessar a rua, Silvio para e olha para trás, olha para o bar e grita para que desliguem a música. Chega perto da porta do pequeno sobrado e deita a companheira no chão, o sol já desistira de lutar com o vento, folhas de jornais rolavam pela rua. Silvio abre a porta e se abaixa para carregar a companheira, que não reage, Silvio a sacode e tira a camisa de seu rosto. Percebe nesse instante que a companheira de bar, não respondia aos seus chamados. Silvio dá um grito de pavor.

— Carmelia, Carmélia, eu te amo, não faça isso comigo, não me deixe, Carmélia, eu te amo.

E sacode seu corpo inerte no chão, nesse instante ambos cercados pôr pessoas. E no desespero da morte, Silvio sofre um enfarte fulminante caindo sobre o corpo de Carmélia, que nesse instante, acorda do desmaio, ajudada pelas pessoas, Carmélia, num gesto meigo, e sofrido, senta no chão, segura a metade do corpo de Silvio sobre seu colo, e num gesto maternal, permite as lágrimas rolarem em seu rosto marcado pelo tempo:

— Meu filho, eu te amo, não me deixe.

E durante o outono, quando chegava os sábados, a mesa do bar, era uma lembrança do casal.

Foi num Sábado, de inverno, o bar estava com seus fregueses de sempre, as conversas confundiam o ambiente, quando de repente todos olharam para a mesa, lá estava uma velhinha de costas, encapotada. Fez um sinal para o garçom e pediu um guaraná, quando o garçom foi atende-la, deu um sorriso assustado, era Carmélia com a camisa do time sobre o rosto, no local dos olhos estava molhado de lágrimas.

E quase todos os sábados, Carmélia sentava naquela mesa do bar com a máscara do tempo. A camisa do time de seu filho solteirão.


 

© 2001 Lira Vargas
liravargas@email.com.br

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Junho 2001

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