eBookLibris

COMO LER JORNAIS

Janer Cristaldo

www.ebooksbrasil.org


Como Ler Jornais
Janer Cristaldo

Edição
eBooksBrasil
Fonte digital: Documento do Autor

Copyright
©2006 Janer Cristaldo


Como ler jornais

Janer Cristaldo


Quem acredita em tudo que lê, melhor não tivesse aprendido a ler.
(provérbio oriental)


Para Tania Koetz,
mulher e amante,
irmã e amiga,
mãe e filha,
primeira e única.


Índice

Sobre o autor
Animais midiáticos
Dos bastidores
Premissas safadas
NYT na berlinda
Escritores descobrem América
Sobre Bíblia, fome, éguas e amantes
Visionários e vigaristas
Cristo em meio ao tiroteio
Dois mitos espanhóis
Como fabricar racismo
Armadilha para negros
Nobel e vigarices
Mídia e mística
Leste vira Europa
Fotografia engana leitores
Mentiras e censura
Catita e Teresa
Cinema e crítica
Males Gálicos
Deus com grife
Doña Manolita e as pesquisas
Coisas Nossas
Esprit du siècle
Lá onde tudo é lucro
O terror segundo as viúvas
Nós, os pedófilos
A mula de Maomé e outras questões de fé
A indústria textil
O visionário de Taubaté
Paris homenageia a grande prostituta
Como um vigarista constrói seu pedestal
A difícil travessia do Uruguai
Ianoblefe
Quando piada vira fato


 

Sobre o Autor

 

Janer Cristaldo nasceu em 1947, em Santana do Livramento (RS). Formou-se em Direito e Filosofia no Rio Grande do Sul e doutorou-se em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris III). Morou na Suécia, França e Espanha. Lecionou Literatura Comparada e Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina. Publicou vários livros em papel, entre estes a antologia Assim Escrevem os Gaúchos, o romance Ponche Verde e o ensaio Mensageiros das Fúrias (tese de doutorado). Traduziu cerca de 20 títulos, do espanhol, francês e sueco, entre estes obras de Ernesto Sábato, Camilo José Cela, Jorge Luís Borges, José Donoso e Michel Deon. Trabalhou como redator de Internacional na Folha de S. Paulo e no Estado de São Paulo. Atualmente, reside em São Paulo e assina crônica semanal em vários jornais eletrônicos. Como ler jornais é uma reorganização de textos críticos (crônicas e ensaios), que analisam os bastidores e entrelinhas da imprensa nacional e internacional nos últimos vinte anos, como também fatos do mundo das Letras. Assim, para quem acompanha a atividade jornalística do autor, este ensaio poderá ter um ar de déjà-vu.

E-books editados pela eBooksBrasil:
Romances
Ponche Verde
Laputa

Ensaios
Mensageiros das Fúrias
Engenheiros de Almas
Qorpo Santo de Corpo Inteiro
Ianoblefe
A Indústria Têxtil
Crônicas da Guerra Fria
EleCrônicas
Flechas Contra o Tempo
Ressentidos do Mundo Todo, Uni-vos
A Vitória dos Intelectuais


E-mail: janercr@terra.com.br
Blog: http://cristaldo.blogspot.com
Homepage: http://www.janercristaldo.tk


 

Animais Midiáticos

 

O homem é um animal político – dizia Aristóteles. Isso no tempo da ágora e do areópago. Aristóteles também desenvolveu uma lógica, cujas premissas determinam até hoje qualquer discurso que se pretenda racional. Mas vivemos dias televisivos, de apelo ao irracional, em que a boa lógica não vale um vintém. A ágora virou telinha em tubo catódico. O homem contemporâneo tornou-se um animal midiático, que aceita sem titubear nem pensar qualquer despautério que emane do vídeo ou que esteja impresso. O que a imprensa afirma ou reproduz, o animal midiático engole e digere.

Em sua campanha eleitoral, para justificar sua incultura, Lula declarou que Machado de Assis não tinha curso superior. Não houve uma santa alma, em toda a mídia nacional, que comentasse este despropósito. É como se os jornalistas do país todo desconhecessem a história nossa. Para começar, a comparação carece de qualquer sentido: Machado jamais se candidatou à Presidência da República. Continuando, os dois únicos cursos de Direito existentes no Brasil funcionavam em Olinda e São Paulo, longe do alcance do filho da lavadeira. No Rio de Janeiro, só surge um curso de Direito em 1935, 27 anos após a morte de Machado. Mas os militantes não se cansam de repetir: Machado não tinha curso superior. Portanto, Lula para presidente.

Ainda tentando justificar a incultura do candidato do PT, alegou-se que inclusive um membro da Academia de Letras, como Sarney, havia sido eleito presidente da República, sem que isso representasse qualquer solução para o país. Para começar, Sarney não foi eleito presidente, mas vice. Sua fortuna dependeu da morte do titular do cargo. Continuando, não era acadêmico quando se tornou presidente. Mas se tornou acadêmico por ser presidente. Com seu poder de barganha, comprou uma vaga na academia com a mesma nonchalance que comprou uma senatoria no Amapá. Concluindo, pertencer hoje a Academia Brasileira de Letras nada tem a ver com cultura ou talento. Depende de poder, salamaleques e ideologia. Mas muita gente continuará repetindo, como um mantra, que o país em nada melhorou com a eleição do acadêmico Sarney. É como se a história fosse um lago raso, sem a profundidade do passado, sem antes nem depois. Tudo é um imenso hoje. Como já disse um professor de história moderninho, toda cronologia é reacionária. Se o lago tivesse a profundidade de um século, poder-se-ia entender a amnésia do animal midiático. Mas mesmo que o lago tenha apenas uma década de espessura, ele já não consegue vislumbrar o fundo.

Ou a pedofilia. Basta um crime entrar em moda no Primeiro Mundo, dia seguinte vira epidemia no Brasil. Rádio, televisão e jornais falam em pedofilia, padres pedófilos e o animal midiático toma ares de santa indignação contra o crime de pedofilia. Mas que crime? Não existe crime sem lei que o defina, e não existe lei no Brasil que defina o crime de pedofilia. Temos abuso sexual, estupro, sedução de menor. Mas pedofilia, não. Em sua insciência, o animal midiático não faz distinção entre ética e direito. Se considera algum gesto imoral, conclui que esse gesto deve ser criminoso. Incesto é imoral? Então é crime. Fica desbussolado se alguém lhe diz que, no Brasil, incesto não constitui crime. Qualquer pai ou mãe pode ter relações sexuais com o filho ou filha, ou um irmão com uma irmã. Desde que o filho ou filha, irmão ou irmã não sejam menores ou não sejam forçados, a Justiça nada tem a ver com isso e só pode desejar bom proveito às partes. Recentemente, no Nordeste, um pai foi preso por ter relações com a filha. O coitado, em sua ignorância da lei, talvez tenha até assumido a idéia de que estava cometendo um crime.

Que o homem comum ignore tais distinções, entende-se. Surpreendente é ver um Karol Wojtyla contaminado pela incultura ambiente, confundindo preceito religioso com lei penal. Em abril passado, Sua Santidade afirmava que se a prática do homossexualismo “é justamente considerada como um crime na sociedade civil, não deve haver lugar para ela na Igreja”. Ora, homossexualismo há muito deixou de ser crime no Ocidente. Se formos seguir a lógica vaticana, homossexualismo não sendo crime na sociedade civil, então há lugar para esta prática na Igreja. O Papa ainda reafirma: a pederastia é um crime e um pecado. Que a defina como pecado, é seu sumo direito. O cristianismo introduziu no Ocidente a idéia de pecado e o define como bem entende. O copyright é do Vaticano. Mas quem define o que é crime não é o animal midiático que impera em Roma. E sim o legislador. Em verdade, um homem culto e versado em teologia como Wojtyla não padece propriamente de incultura. É seu vezo teocrático, esse ancestral vício da Igreja Católica de manter o Estado sob seu jugo, que se manifesta em suas palavras. Se o Papa diz que pederastia é crime, não ocorre ao leitor que Sua Santidade proferiu uma solene impropriedade.

Sinal dos tempos, os animais midiáticos estão proliferando mais que coelhos no cio. Uma nuvem de incultura está descendo sobre as cidades e contaminando as conversações cotidianas. Já tive de ouvir considerações sobre a história do Brasil... a partir da novela Quintos dos Infernos. Há quem discorra com propriedade sobre o Islã só porque assistiu ao tal de Clone. Pior ainda, há quem pretenda entender de clonagem porque viu a tal novela. Há ainda os que citam o Fantástico como fonte de seus conhecimentos. Há milhares de pessoas no mundo todo, discutindo seriamente, como se história fosse, uma ficção intitulada Código da Vinci. Não falta quem pretenda discutir a história recente do Brasil, a partir de um filme sobre Lamarca. Os jornais, em suas chamadas, noticiam os eventos fictícios de uma novela ao lado dos fatos do mundo real. É como se a leitura tivesse sido jogada a um museu de curiosidades históricas e a única fonte de informação contemporânea fosse a telinha da TV. Ou a tela maior do cinema.

A antigüidade clássica nos legou as figuras do herói e do sábio. A Idade Média, santos e mártires. Com o Renascimento surge o gênio. Nossos dias são os das celebridades gratuitas. Uma pessoa não mais é célebre por seu saber ou por seus feitos. Mas simplesmente porque é célebre. Porque sua imagem é repetida à exaustão na mídia impressa e televisiva. O herói, hoje, saiu da História e passa a freqüentar as páginas esportivas. Ora é um jogador de futebol muitas vezes analfabeto, um tenista ou piloto de Fórmula 1. O sábio é algum guru expulso da Índia ou Estados Unidos por fraude ao fisco. Santos são personalidades de grande tráfego na imprensa, mesmo que tenham prestado e recebido homenagens de tiranos e milhões de dólares de vigaristas de alto bordo. Prêmios Nobéis são concedidos a escroques. Estes novos heróis, sábios, santos e nobéis assumem seus postos na mídia e qualquer crítico mais lúcido que ouse contestá-los passa a ser um inimigo do que de melhor a humanidade produz. Ninguém traduziu melhor que Discépolo, no tango Cambalache, esta idiossincrasia do século passado:

Hoy resulta que es lo mismo
ser derecho que traidor,
ignorante, sabio, chorro,
generoso, estafador.
Todo es igual; nada es mejor;
lo mismo un burro que un gran profesor

Os animais midiáticos tendem a se tornar legião. Detestam ouvir falar sobre essa coisa inconveniente chamada História. Para a grande massa, Pablo Picasso se referia ao bombardeio de Guernica quando pintou Guernica. Até hoje, há quem cite o filósofo antifranquista Miguel de Unamuno defendendo a universidade de Salamanca. Salvador Allende, obviamente, foi assassinado pela ditadura de Pinochet. Madre Teresa de Calcutá é um poço de virtudes. Nas últimas eleições francesas, atribuiu-se a Le Pen, que nunca foi nazista, todo o currículo de Mitterrand, que foi condecorado pelos nazistas. Durante o cerco da Igreja da Natividade pelo Exército de Israel, toda a imprensa internacional – e a nossa atrás – vendeu como fato histórico a lenda de que Cristo nasceu em Belém.

Para um intelecto pouco ágil, se um mortal mereceu o prêmio Nobel, situa-se, ipso facto, além do bem e do mal. Para este cérebro, não é admissível que a santa Madre Teresa recebesse propinas de grandes vigaristas. É mais confortável aceitar o suposto humanismo do pintor malaguenho do que ver no sucesso de sua obra um hábil recurso de marketing. Se Unamuno defendia a universidade em seu confronto com o general Millán Astray em Salamanca, obviamente era antifranquista. Vê-lo como representante de Franco confunde a suposta lógica do leitor médio. Um herói libertário como Salvador Allende, evidentemente, jamais se suicidaria. Depois de décadas de mídia martelando o socialismo de François Mitterrand, não é fácil concebê-lo como agraciado com uma medalha pelo governo de Vichy, por bons serviços prestados ao nazismo. Mais difícil ainda imaginar o reputado humanista como responsável pelas torturas na Argélia. Se os palestinos se refugiaram na Igreja da Natividade em Belém, a lenda de que Cristo lá nasceu toma foros de verdade histórica, já que o nazareno também era uma vítima dos poderosos de sua época, como estes santos mártires do Oriente Médio que não hesitam em explodir-se a si mesmos desde que levem outros juntos. Se o leitor contemporâneo não lembra o que ocorreu há dez anos na história de seu país, não se pode esperar que saiba o que aconteceu há dois mil anos na história do Ocidente.

A imprensa é uma faca de dois gumes, dizia Noam Chomski. Hábil manipulador dos dois gumes desta arma, o lingüista americano dizia ser necessário ensinar a lidar com ela. Estas reflexões sobre a imprensa brasileira e internacional visão mostrar ao leitor descuidado a manipulação que se esconde atrás de textos e fotos. De passagem, visitaremos alguns mitos recorrentes, repetidos ad aeternum por jornalistas novatos e outros nem tão novatos.


 

Dos Bastidores

 

Em maio de 2004, uma investigação interna do The New York Times concluiu que um de seus repórteres cometeu diversas fraudes durante a cobertura de eventos jornalísticos nos últimos meses. Casos freqüentes de plágio e notícias fabricadas representaram uma profunda quebra de confiança e um ponto baixo na história de 152 anos do jornal. Jayson Blair, de 27 anos, enganou leitores e colegas com textos supostamente enviados de Maryland, Texas e outros Estados, quando estava a quilômetros de distância, em Nova York. Fabricou comentários de "entrevistados", inventou situações e roubou material de outros jornais e de agências de notícias. Pinçou detalhes de fotografias para passar a falsa impressão de que tinha estado em determinados lugares e visto certas pessoas. É o que nos dizem as agências internacionais.

Jayson trabalhou também para o The Boston Globe, que identificou “um número limitado de textos com problemas” escritos pelo repórter. “Vamos continuar a investigação e checar procedimentos internos de modo que esta infração à ética jornalística não ocorra no futuro”, disse o diretor do jornal, Martin Baron. Professores de jornalismo e especialistas em imprensa manifestaram ontem preocupação com a repercussão do escândalo. Para Joseph Campbell, professor da Escola de Comunicação da American University, em Washington, “o caso de Blair é excepcionalmente perturbador”. O escândalo invadiu a primeira página dos jornais no mundo todo e Jayson Blair teve sua carreira destruída. No Brasil, poderia continuar enganando à vontade.

Guerra da Iugoslávia, nos dias de independência da Croácia. Eu trabalhava na editoria de Internacional, da Folha de S. Paulo. Nosso correspondente responsável pelo Leste europeu mandava suas matérias de Berlim, que isso de cobrir guerras no front é muito arriscado. Por volta das três horas da tarde, começava a enviar seus despachos, a partir do noticiário dos jornais da manhã. Isto é, os jornais haviam sido redigidos ontem, os fatos ocorridos anteontem e o leitor brasileiro os leria amanhã, com pelo menos três dias de atraso. As agências noticiosas, mais ágeis, nos enviavam notícias fresquinhas.

A nós, redatores, cabia substituir o lead da reportagem por material mais quente. Lá pelas cinco da tarde, o despacho enviado caíra para o pé do texto. Quando o correspondente informava que os iugoslavos planejavam um ataque, nós já tínhamos os alvos destruídos e os aviões de volta às bases. A cobertura da guerra, em verdade, era feita da redação na alameda Barão de Limeira, em São Paulo. Que, de certa forma, estava mais próxima dos fatos que o correspondente na Alemanha. Muitas vezes não sobrava sequer uma linha do despacho original. O texto todo era redigido na redação. Mas a matéria saía assinada por Fernando Gabeira, "enviado especial". Que deveria sentir-se muito surpreso se lesse sua matéria publicada, falando de fatos dos quais ele, o suposto autor do texto, nunca ouvira falar.

Como era feita esta cobertura? O redator recebia um punhado de despachos, que iam sendo renovados a toda hora pelo boy que os retirava do telex. (Eram ainda os dias do telex). Havia matérias quentes das agências, que tinham seus correspondentes no campo de batalha, reportagens frias que davam o clima local, análises de especialistas e informes sobre a repercussão dos fatos nas diferentes capitais do mundo. Cabia ao redator juntar todos esses relatos e criar uma história coerente. Fossem os textos assinados ou não, os fragmentos aproveitados pelo redator eram todos atribuídos ao “correspondente de guerra”, comodamente instalado em Berlim. Por vezes, a matéria toda ou parte dela era atribuída aos redatores. Neste caso, era assinada como “da redação com agências internacionais”. Ora, da redação não havia nada, senão a montagem do texto final. O trabalho de correspondentes estrangeiros e articulistas de outros jornais era apropriado, sem cerimônia alguma, pelo editor da Barão de Limeira

Por vezes, o correspondente assumia essa característica que, até agora, só a Deus foi conferida: a onipresença. O redator ia costurando os comunicados sobre a repercussão nas capitais de cada país e os inseria no corpo da notícia. O efeito era no mínimo curioso: o correspondente estava não só no campo de batalha mas, ao mesmo tempo, em Washington, Paris, Londres e Moscou.

Em dezembro de 91, o jornal tinha mais uma correspondente em Berlim. Lá pelas tantas, ela envia um relato excitado do bombardeio de Dubrovnik pela marinha croata. As bombas caíram em minhas mãos. Telefonei para Berlim e pedi à moça para checar melhor os dados. A Croácia não dispunha de frota, nem teria razões para bombardear sua cidade mais linda.

"Mas eu estou vendo aqui na minha frente, com meus olhos, na televisão, a marinha croata bombardeando o litoral". Pedi que conferisse melhor os dados, ainda faltava uma hora para o fechamento do caderno. Vinte minutos depois, recebo uma chamada encabulada. "É, de fato, é a marinha iugoslava". Os olhos da brava correspondente de guerra se enganavam. Esta mesma moça, que coincidentemente era professora de literatura, fez certa vez a cobertura de um encontro de estadistas em Den Haag. Após enviar sua matéria, pediu por telefone: “Vocês me traduzam, por favor, Den Haag, que eu não sei como é em português. A professora de literatura desconhecia o nome português da cidade holandesa que dera o indefectível aposto explicativo a Rui Barbosa, o Águia de Haia.

Segundo as agências, a investigação em curso mostrou que Blair violou repetidamente o dogma básico do jornalismo, que é simplesmente a verdade. Este tipo de fraude não é novo na imprensa americana. O caso mais famoso, até agora, era o da repórter Janet Cooke, do Washington Post, que criou um personagem fictício, um menino viciado em drogas. Seu trabalho foi escolhido para receber o prêmio Pulitzer de 1981.

Quando recebi, pela primeira vez, a incumbência de reformular o texto do correspondente, ingênuo, objetei: “mas isso é um artigo assinado”. “Aqui não tem disso. Vai cortando pelo lead” – respondeu o editor. Fui cortando, era pago para isso. Boa parte da cobertura da guerra na Iugoslávia foi feita por mim e por meus colegas, na redação da Barão de Limeira. Jayson Blair foi demitido e está morto para o jornalismo. Sua fraude coloca em cheque a nata do jornalismo americano. Fernando Gabeira voltou de Berlim com todas as glórias de correspondente de guerra e foi eleito deputado. Para quem não conhece uma redação por dentro, passou a imagem de um heróico profissional que enfrentou o inferno dos Balcãs para bem informar o leitor. O New York Times se desmancha em desculpas ao leitor, tentando salvar a credibilidade abalada. Na Barão de Limeira, abalo algum. A guerra na Iugoslávia já vai longe e leitor algum percebeu o embuste.

Miséria vernacular — Ainda em meus dias de Folha, escrevendo sobre uma escaramuça qualquer no planeta, fiz uma manchetinha mais ou menos assim: OBUS MATA UM E FERE TRÊS. Mal viu o título na rede, um jovem editor reclamou:

— Obus? O que é isso?

Obus, expliquei pacientemente, é uma peça pequena de artilharia, um tipo de morteiro. Também chama-se obus a granada ou bala lançada por esse morteiro.

— Ah, mas o leitor não vai entender. Ninguém sabe o que é obus.

De minha parte, eu desconhecia palavra mais concisa que obus para dizer tiro de morteiro. Para minha sorte, um dos editores fizera serviço militar. Sim, é isso mesmo, é obus. "Mas vocês fizeram serviço militar, disse o primeiro. O leitor, nem sempre". O que, pelo menos no que a mim dizia respeito, era falso. Nunca fiz serviço militar. Quando menino eu fazia, isto sim, palavras cruzadas. Projétil de morteiro, quatro letras? Obus.

Meses mais tarde, novo conflito com os redatores hostis ao vernáculo. Me caíra nas mãos um TL (texto-legenda) para titular. Na foto, uma mulher de mãos postas e cabeça inclinada manifestava sua adoração por algo ou alguém. Nem hesitei: EM SINAL DE PREITO. Mal o texto chegou em sua tela, o editor, sempre alerta, gritou de sua baia:

— Preito? O que é isso?

Juntei minhas mãos, inclinei a cabeça e disse:

— Preito é isto.

— Ah, mas então deve ser uma palavra muito antiga.

De fato, era bem mais antiga que eu. Como aliás a maioria das palavras que eu ou você usamos. Lembrei-me do obus e fui tomado de súbita iluminação. Para aquele menino, formado na reputadíssima ECA, palavra que ele não conhecia certamente o leitor também não a conhecia. Os leitores do jornal eram nivelados pelo padrão do que ele ignorava.

O inimigo suez e a República dos Camarões — Quem passou por jornais nas últimas décadas, terá dezenas destas histórias para contar. No dia 03 de outubro de 2001, a Folha superou todos seus feitos. A entrevista com Fernando Henrique Cardoso versava sobre o abate de aviões clandestinos sobre o território nacional. “Precisamos fazer um esforço grande para controlar o terrorismo, que é um inimigo suez” — assim redigiu a repórter a declaração do presidente. A moça, que desconhecia o adjetivo soez, escreveu como pensou ter ouvido e resolveu esclarecer o leitor, que talvez não soubesse o que significava suez: "FHC se referia aos combatentes egípcios que lutaram contra os israelenses na região de Suez, em 1973, e atacavam seus oponentes por meio de túneis subterrâneos abandonados, de surpresa: ninguém sabe de onde vem". Explicação mais que oportuna, já que nem mesmo eu saberia dizer o que significa suez como adjetivo.

Ora, diria o jovem editor, o presidente se permite tais palavras porque é um erudito. Acontece que não se exige erudição de ninguém para falar em soez. As gerações novas, hostis à leitura e viciadas pelo parco vocabulário televisivo, não mais conhecem palavras elementares do vernáculo e ainda se julgam no dever de elucidar para o leitor vocábulos de cujo significado apenas suspeitam. Com este material humano, que sequer conhece a própria língua, faz-se jornalismo. Pois jornalismo, hoje, só pode exercer quem faz curso de jornalismo.

Melhor mesmo, só a história dos perdigotos, já incluída no ror dos clássicos da Folha. A notícia era sobre a epidemia de uma gripe, que se disseminava por perdigotos. O repórter, ciente de sua ignorância, fez o que deveria fazer: consultou o dicionário. Só que ficou na primeira acepção da palavra. Os leitores foram então informados que a gripe era transmitida por filhotes de perdiz. O cidadão urbano foi tranqüilizado. Como nas urbes não existem perdizes, muitos menos filhotes das ditas, não havia porque temer a gripe.

A Folha tem a preocupação de ser sempre didática, para atingir a compreensão da grande massa. Assim, quando grafa o marxismo, o redator muitas vezes põe entre parênteses: doutrina do filósofo alemão Karl Marx, século 18. A própósito, os séculos são sempre grafados em arábicos. Nestes dias de incultura generalizada, se alguém falar a um paulistano do ônibus Pio XII, talvez não se faça entender: ele só conhece o pióxii. Tampouco entenderá Praça Quinze ao ler Praça XV. Ele conhece a praça Xivi. A precaução, em verdade, não deixa de ter sentido. Ocorre que o jornal subestima a inteligência de seus próprios leitores. Se um leitor de tablóides sensacionalistas têm dificuldade em ler algarismos romanos, o mesmo não se deveria supor de um leitor da Folha.

Mas se supõe. O jornal determinou a supressão de todos algarismos romanos. O que originou outro episódio, não menos emblemático, no bestialógico do jornal. Ao deparar-se com o nome do terrorista americano Malcolm X, uma redatora não teve dúvidas: grafou Malcolm 10.

Fora outras mancadas correntes na imprensa cotidiana. Por exemplo, aquele monumento em Paris construído em La Défense pelo Mitterrand, l'Arche. Os jornalistas, talvez por terem visto sua aparente forma de arco, e talvez por associação ao Arco do Triunfo, grafam o tempo todo "o Arco de La Défense". Ora, arche é arca. A tradução correta seria Arca de la Défense.

Ou ainda os Camarões, republica africana. Em verdade se chama Cameroun, em homenagem a um certo Lord Cameroun. A origem do nome comporta discussões, mas uma coisa é certa: em língua nenhuma do mundo cameroun é camarão. Se fosse, a República do Cameroun seria traduzida em inglês como Republic of Shrimps, em francês como République des Crevettes, em espanhol como República de las Gambas. Já vi carta de um diplomata do Cameroun reclamando dos jornais a tradução errada. Em vão. Na Folha, sugeri a um dos responsáveis pela unificação ortográfica do jornal a correção. 'Agora é tarde', me respondeu.

As aspas — Outro sinal de tráfego são as aspas. Têm múltiplas funções. Servem geralmente para marcar uma citação. Mas também para deixar clara a posição do editor. Os acontecimentos pós-queda do Muro geraram uma intensa batalha de aspas nas redações. Certa vez, na Folha de S. Paulo, recebi um despacho que falava dos crimes do comunismo durante o regime dos Ceaucescu, na Romênia. Traduzi o texto, coloquei-o no bom tamanho e dei meu trabalho por feito. Dia seguinte, lá estava a notícia. Mas falava de "crimes" do comunismo. Com crimes entre aspas, para deixar bem claro que a redação não assumia a idéia de que comunistas pudessem cometer crimes.

Trabalhei mais tarde no Estadão. Um belo dia, recebo um telefonema de um colega da Folha:

— Janer, aquela nota sobre a Finlândia, foste tu que a redigiste, não foi?

De fato, fora eu. Mas como é que ele sabia?

— Pelas aspas. Puseste entre aspas "política de neutralidade". Só podiam ser tuas.

Me senti lisonjeado. Já era reconhecido até pelas aspas.

Outro recurso do redator, para bem definir sua postura, é a bendita palavrinha suposto. Se nas editorias de Nacional o adjetivo é uma prudente salvaguarda para evitar processos por parte de um suspeito ou indiciado em qualquer crime, no noticiário internacional é um recurso para preservar antigas crenças. E já li no Estadão, juro que li, esta frase: supostos terroristas explodem carro-bomba no Peru.

Uma ressalva é sempre oportuna. Poderia ocorrer que o carro-bomba tivesse sido montado por uma equipe de carmelitas descalças. Perguntei ao redator: supostos terroristas, companheiro? Ele releu o texto e justificou: força de hábito. Claro que ninguém vai grafar "suposto nazista". Quando se trata de nazistas, não há aspas nem supostos.

O pão que Marx amassou — Texto-legenda, em jornalismo, é aquele texto curto e ágil que acompanha uma foto ou ilustração. Segundo o manual de redação da Folha de S. Paulo, seu título pode recorrer a trocadilho ou outras formas de humor.

Foi no século passado, lá por 93. A União Soviética, seguindo a insuspeita previsão de Marx, tomara os rumos anunciados no Manifesto: tudo que é sólido se desmancha no ar. Das agências, recebemos em fim de tarde uma charge de alguma revista internacional: em Moscou, uma velhota russa, com uma cesta vazia no braço, procurava abastecer-se no mercado. No balcão de pães, não havia pães, apenas bombas atômicas em formato de pães. Dei vazão a todo meu talento. Titulei com gosto:

O PÃO QUE MARX AMASSOU

Não é todo o dia que a musa desce num fechamento de jornal. Me pareceu ter ganho com verve meu pão naquele dia. No entanto, estávamos no deadline e o caderno não fora fechado. No computador ao lado, o editor suava a cântaros e gemia como em trabalhos de parto. Pousei em seus ombros como um papagaio e notei que tentava um novo título.

— Mas o meu não está ótimo? — quis saber.

Me olhou indignado:

— Não é hora de piada.

Os minutos corriam e o novo título não dava os ares da graça. Desesperado, o editor retomou o antigo e substituiu uma palavra:

O PÃO QUE STALIN AMASSOU

Assim não vale, protestei. Xingar o Stalin é chutar cachorro morto. Entre nós, só o Niemeyer e o Prestes ainda o cultuavam. Que mais não fosse, não tinha aquele efeito aliterativo, Marx amassou. O Velho, não! — insistia o editor. Para não atrasar o fechamento, optou pela média:

O PÃO QUE LÊNIN AMASSOU

O jornal quase atrasou. Mas o Velho foi salvo.


 

Premissas safadas

 

São Paulo é uma cidade rica, não é verdade? Há uma ínfima minoria de pobres em São Paulo. Pelo menos é o que se deduz do que a imprensa paulistana afirmou após as eleições municipais de 2004. Eu, se pertencesse à raça daqueles que confundem o universo com o círculo-de-dois-metros-quadrados-em-torno-a-seu-nariz, como diria Ernesto Sábato, estaria de pleno acordo com esta afirmação. Vivo em um bairro judeu, de alta classe média, alto nível de consumo, bons restaurantes, shopping ao lado de casa. Há alguns mendigos na calçada, cá e lá, e antes de mais nada já vou me desculpando por usar a palavra mendigo. Segundo os senhores defensores dos Direitos Humanos, é palavra que deve ser eliminada dos dicionários. É humilhante. A nova e correta terminologia seria povos da rua. Ou ainda, excluídos. A nova palavrinha não é inocente como parece: se há excluídos, é porque há excludentes. Mendigo virou palavrão e mais dia menos dia vai gerar processo por racismo. Em todo caso, enquanto não revisam os dicionários, não me eximo de usá-la. E no dia em que os fanáticos do politicamente correto tiverem poder para revisar dicionários, nem valerá mais a pena escrever.

Logo após o primeiro turno, a Folha de S. Paulo publicou, com todas as letras: "O levantamento confirma o que a divisão geográfica dos votos já indicava: Serra recebe os votos dos mais ricos e instruídos e Marta se sai menos mal entre os eleitores mais pobres e com menos anos de estudo". Ora, no primeiro turno destas eleições, Serra venceu com uma diferença de 8% de votos. Conclusão que se impõe: há muito mais ricos em São Paulo do que pobres.

Ao lado desta brilhante dedução do repórter Pedro Dias Leite, a Folha, em sua edição de 10 de outubro passado, publicava um gráfico, intitulado “Voto por Categoria”.

RENDA FAMILIAR
em salários mínimos/mês
 até 5mais de 5 a 10mais de 10
José Serra495261
Marta Suplicy413933

Ora, ninguém pretende que uma renda até cinco salários mínimos mensais – ou mesmo até dez – caracterize riqueza. Serra venceu nestas duas primeiras faixas e também na outra, a de mais de dez salários mínimos, que tampouco significa riqueza, se ficarmos próximos dos dez. O repórter, impávido, em coluna ao lado da coluna dos gráficos, afirma o contrário do que os gráficos confirmam. O jornalismo impresso está se aproximando celeremente da televisão, que mostra as imagens de um fato, a locução afirma o contrário do que o fato expressa, e o carneirinho passivo diante da telinha engole o que locutor diz, negando o que ele, telespectador, vê.

No segundo turno, a diferença aproximou-se dos 11%. Dedução óbvia para um certo tipo de jornalista: em trinta dias aumentou o número de ricos em São Paulo. É a conclusão à qual eu chegaria se fosse tão curto a ponto de confundir meu bairro com a cidade toda.

Apesar de ser a metrópole mais rica do País, salta aos olhos de qualquer não-míope, que São Paulo é uma cidade majoritariamente pobre, com ilhas de riqueza e mesmo de muito luxo. Basta um passeio pelo centro, cartão postal de qualquer cidade, para se ter uma idéia da miséria que inunda e polui São Paulo. Nunca vi algo tão sujo e deprimente em minha vida, e isso que conheço não poucas capitais no planetinha, da Europa, África e mundo socialista. Em rápidas incursões ao que aqui se chama de periferia, a miséria é ainda mais gritante. Isso sem falar nas 612 favelas que enfeiam a cidade, cujos habitantes constituem mais de 20% da população.

José Serra venceu Marta Suplicy com uma diferença de 600 mil votos. E alguns jornalistas querem nos fazer crer que Serra foi eleito pelos ricos. Ou seja, neste caos de 15 milhões de habitantes, há no mínimo 600 mil ricos a mais que os pobres. Eu vivia numa cidade rica e não sabia.

Por trás deste raciocínio fanático, repousa a idéia de que o PT, e só o PT, é o partido dos pobres. Se o partido dos pobres perdeu, é porque os ricos votaram em sua maioria no adversário. Logo, a maioria dos paulistanos são ricos. Do ponto de visto lógico, o silogismo é impecável. Suas premissas é que são safadas.

Logo após a derrota no primeiro turno, Dona Marta, com a arrogância que sempre lhe foi peculiar, afirmou: “Eu não vou perder essas eleições”. Que Fidel Castro, Muammar Kadafi ou Kim Il Sung tenham tal convicção, isto não surpreende. Mas não é permissível a um candidato, em eleições democráticas, julgar que sua vontade vale mais que a vontade do povo. Com a dança implacável dos números, a alcaidessa espremeu os olhos e brindou a imprensa com algumas lágrimas de crocrodila. Que seus adversários exploravam preconceitos contra sua candidatura. A coitadinha era mulher. Sem lembrar – isto é, lembrando mas fazendo questão de não lembrar – que, na condição de mulher, foi deputada, prefeita e de novo candidata a prefeita, nesta cidade que já havia eleito outra mulher e até mesmo um negro para a prefeitura. Ambos com resultados desastrosos para a cidade, é verdade, mas isto nada tem a ver com o sexo ou cor, veja-se a presente gestão da loiríssima Marta Teresa Smith de Vasconcellos Suplicy.

Desesperada, apelou ao último recurso que poderia apelar: passou a acusar os eleitores que nela não votassem. São injustos, ingratos. Só são justos os que votam em Marta Teresa. Só faltou dizer que dos justos é o reino dos CEUs. (Para não-paulistanos, cabe explicar o que é um CEU, literalmente centros de ensino unificados, que Marta Teresa insiste em pronunciar céus. São em verdade centros comunitários instalados nas favelas e periferias, com piscinas e quadras de esporte. A alcaidessa insere então três escolas nesses centros de lazer, o que lhe permite desviar verbas da educação para captar o voto dos favelados). Não votar em Marta seria, segundo ela própria, uma flagrante demonstração de mau caráter.

Perdeu, é claro. Perdeu apesar do apoio obsceno do presidente da República, perdeu apesar do uso da máquina municipal, perdeu apesar dos quatro mil visitadores – cabos eleitorais contratados a mais de 700 reais por mês, visitando 25 portas por dia – para cooptar eleitores. Mas justiça seja feita: não se atribua somente a esta dama a rotunda derrota. Em menos de dois anos de governo federal, o PT, de defensor intransigente da ética, transformou-se em santuário de corruptos amigos. Há males necessários, como diria – e disse – há pouco Sua Santidade o papa João Paulo II, a respeito do comunismo. O PT foi um destes. Há mais de década, afirmava Delfim Netto que Lula deveria ter vencido em sua primeira candidatura. Assim, já teríamos sido vacinados contra o PT e poderíamos tratar de coisas sérias.

O país já cansou do PT. A vacina começa a reagir.


 

NYT na berlinda

 

Em maio de 2004, o New York Times foi certamente o jornal estrangeiro mais comentado em terras brasílicas. Larry Rhoter, seu correspondente no Brasil, ousou escrever o que há muito se sabia entre nós: que o presidente da nação era chegado ao álcool. Escândalo nacional, protestos furiosos do Planalto, ameaça de expulsão do jornalista.

Consta que o general Ulysses Grant, herói da Guerra de Secessão e vitorioso em muitas batalhas, era um beberrão contumaz. Quando o presidente Lincoln foi informado de sua devoção pelo uísque, não teve maiores dúvidas: “digam-me qual o uísque preferido de Grant, para recomendá-lo aos outros generais”. A história homenageou o general bebum, mas competente, com a marca de um uísque.

Não interessa o que um homem beba. O que interessa é sua obra. Beber faz parte da idiossincrasia de cada um, da mesma forma que a vida sexual. Uma onda de puritanismo parece estar tomando conta da mentalidade dos americanos e particularmente da imprensa americana, que nas últimas décadas tem se imiscuído na vida pessoal de seus líderes. A denúncia de Larry Rohter, a respeito do consumo etílico do presidente brasileiro, é decorrência daquele jornalismo que viu nas práticas sexuais de Bill Clinton motivos para um impeachment. Cá entre nós, nossos presidentes sempre beberam e fornicaram à vontade, sem que cidadão algum se preocupasse com tais peculiaridades.

Esta onda de puritanismo e invasão da privacidade é recente, nem sempre existiu. Era folclórico o apetite sexual de John Kennedy, e em sua época ninguém o reprovou. Pelo contrário, fazia parte de seu charme. Além de avançar sobre secretárias, estagiárias e mesmo visitantes da Casa Branca, tinha ainda algumas profissionais de plantão para os momentos de urgência. Entre nós, ninguém ignorava o gosto de João Goulart pelas prostitutas nem o apego de Jânio Quadros ao uísque. Tivemos também um ministro, o economista Mário Simonsen, cujo apreço aos bons álcoois era tão notório quanto seus conhecimentos de ópera.

Hábitos personalíssimos de cada um, ninguém tinha nada a ver com isso. Mesmo assim, a imprensa foi pródiga em piadas em relação tanto a Jânio como a Simonsen, e a nenhum dos dois jamais ocorreu processar ou expulsar jornalistas. Boris Ieltsin fez fama na imprensa internacional como alcoólatra inveterado e nem por isso expulsou algum jornalista de Moscou. Consta inclusive que aquele canhonaço na Duma, que fez a velha guarda do PC soviético desistir de qualquer veleidade de resistência, não teria ocorrido não fosse um alto teor de vodca nas veias.

Ainda no final de seu governo, Fernando Henrique Cardoso foi acusado ter um filho com uma jornalista da rede Globo, que residiria no Exterior. A revista que o acusou enviou um correspondente a Barcelona para desvendar o mistério. O jornalista trouxe uma prova cabal da existência do filho: ao telefonar para a suposta mãe, ouviu uma voz de criança ao fundo. Estava provado o que o presidente queria esconder. A prova era a voz de criança ao fundo, ouvida por telefone. Para decepção dos argutos jornalistas, Fernando Henrique fez o que deveria ser feito: nada. A denúncia, com ou sem fundamento, caiu no vazio.

Pisado em um calo que parece machucá-lo muito, Lula deu repercussão internacional ao que teria passado despercebido, não fosse sua reação de Besta Fera. Retoma uma lei caduca da ditadura que diz ter combatido e expulsa o correspondente do país. Ironicamente, empunhou a mesma lei que os militares usaram para expulsar em 1980 do Brasil um apparatchik italiano, o padre Vito Miracapillo. Se sua fama de beberrão contumaz era conhecida apenas no Brasil, Lula divulgou-a urbi et orbi. O fato foi noticiado em cerca de quarenta jornais do Ocidente e inclusive na China e no mundo árabe. De tal performance, nem Duda Mendonça seria capaz.

Internamente, o escândalo veio a calhar. Em meio ao total desgoverno do governo, a imprensa deixou de falar por uma semana dos desmandos dos sem-terra e dos sem-teto, dos bantustões do Rio onde o Estado não manda mais, dos índios que massacram brancos às dezenas e permanecem impunes e do mísero aumento do salário mínimo, para dedicar-se aos pileques presidenciais.

A primeira defesa do presidente ofendido foi identificar-se à nação. Em sua tosca visão de mundo, o ofendido foi o país, não ele. Le Brésil c’est moi – foi o que disse, em outras palavras. Ora, o país da cachaça jamais se ofenderia com tal constatação. E aqui vai um primeiro equívoco do jornalista americano, julgar que o país se preocupa com os hábitos etílicos presidenciais. Estes hábitos são conhecidos desde suas candidaturas anteriores à Presidência. Sua eleição é a prova definitiva que brasileiro nunca ligou para isto. Outro equívoco foi julgar que as gafes cometidas por Lula são efeito do álcool. Lula deveria agradecer tal afirmação, ela só o beneficia. Pela primeira vez, suas estultices são atribuídas não à sua atroz incultura, mas a um fator ocasional, os eflúvios etílicos.

Tampouco procede a insinuação de Rohter de que a predileção do presidente por bebidas fortes esteja afetando sua performance no cargo. O governo Lula nada tem dos passos erráticos de um bêbado. Para garantir a perpetuidade da Nomenklatura petista, tem avançado com muita lógica e coerência no bolso do contribuinte. Começou tungando 30% dos pensionistas, está tentando tungar mais 11% dos aposentados em geral e já pensa em aumentar para 35% o imposto de renda. Isto não é porre. É lúcida determinação de quem quer se manter no poder às custas do empobrecimento da classe média. Não estamos diante de um bateau ivre à deriva, mas diante de uma nau com rota muito precisa.

Lula diz ter ficado particularmente ofendido com a alusão de Rohter aos problemas etílicos de seu pai. Melhor não falasse. No domingo seguinte à denúncia de Rohter, Veja e Folha de S. Paulo publicaram artigos demolidores, que fazem avançar o alcoolismo dos da Silva duas gerações para trás. "Meu pai bebia sempre – diz um dos irmãos do presidente –. Tomava pinga. Depois passou para o conhaque, que era melhor. Depois passou para a cerveja, que era melhor. Se ele pudesse beber cinqüenta pingas, ele bebia. Ele não tinha controle. Chegava em casa de fogo".

De sua avó materna, diz o próprio Lula: "Minha vó, coitada, bebia uma cachaça!", lamenta Lula. "Quantas vezes meus irmãos tiveram que pegar ela dormindo no meio do mato, na estrada, na beira do asfalto. [...] Ela bebia muito, muito". Estas declarações estão no livro Lula – O Filho do Brasil, da jornalista Denise Paraná, elaborado a partir de depoimentos de Lula e de seus familiares.

Choveram ainda na imprensa enfáticas declarações de amor de Lula pelo álcool. Há quem diga que a reportagem de Rohter é inconsistente no que se refere ao alcoolismo do presidente. É que Rohter não pesquisou a fundo. Entre as dezenas de declarações publicadas, pinço apenas duas. Em 1978, interrogado pelo Pasquim sobre sua recente preferência pelo uísque, diz: “Olha, se você tivesse aqui uma garrafa de 51 eu tomaria o dobro desse uísque. Bebo o que tiver, né, mas na minha sala do sindicato a gente abre garrafa de 51”.

E esta outra, definitiva, extraída do depoimento a Denise Paraná: “A verdade é o seguinte: política é como uma boa cachaça. Você toma a primeira dose e não tem mais como parar, só quando termina a garrafa”.

Confissão cabal de bebedor bruto, capaz de emborcar de uma só vez uma garrafa de cachaça. Irá Lula banir Lula do Brasil?

A trapalhada toda terminou pior do que começara, com uma farsa deslavada. Por razões de ordem jurídica, o governo não podia manter sua decisão. Pela obstinação de Lula , estava impossibilitado de voltar atrás. Para salvar a cara, viu uma retratação do correspondente do NYT em uma carta em que o jornalista não se retratava de modo algum. Tanto que seu jornal reiterou que não se desculpava nem se retratava.

O episódio foi salutar. O projeto de tiranete que se escondia sob a capa de democrata mostrou suas garras ao mundo todo. Curiosamente, dois meses antes do artigo de Rohter, o jornal argentino La Capital mancheteava com todas as letras uma declaração do cineasta Héctor Babenco:

Lula está deprimido y bebiendo cada vez más

Reação nenhuma do Planalto. Alusões desairosas em jornais dos arrabaldes, pode. O que não pode é ter a imagem empanada na matriz.


 

Escritores descobrem América

 

O Código Da Vinci, romance de Dan Brown, é a mais recente nutrição dos pobres de espírito do mundo todo. Espécie de Harry Potter para adultos, está vendendo como pão quente nos Estados Unidos, Europa e América Latina. E no Brasil também, é claro. Afinal se o mundo todo cultua besteiras, não será este grandioso país o único a bancar o original. Sobre o livro, diz a Folha de S. Paulo: "é uma vertiginosa descida aos maiores segredos da história ocidental, que, tirando o fôlego do leitor, desvenda o que o autor se refere como a maior conspiração dos últimos 2.000 anos – que Jesus Cristo era um mero mortal e que sua santidade foi construída através dos tempos, para justificar o poder da Igreja Católica”.

Até parece que Dan Brown descobriu a América. Que Cristo seja Deus, isto é crença compartilhada apenas por cristãos. Para quem não o é, sempre foi óbvio que a biografia do nazareno, conforme consta nos Evangelhos, é criação de construtores de religiões. Cristo, em verdade, foi criado por Paulo. Não fossem o ímpeto propagandístico deste antigo perseguidor de cristãos, e a mão dada pelo imperador Constantino, Cristo seria apenas mais um dos tantos crucificados perdidos na geografia e na história. Nisto não vai novidade alguma. São as viagens de Paulo que trazem a nova doutrina para o Ocidente e é Constantino quem a consagra como religião de Estado. Já por volta de 1500, circulava na Europa um best-seller, jamais traduzido por aqui: De tribus impostoribus. Os três impostores a que se refere o anônimo autor são Moisés, Jesus e Maomé. Em 1537, uma outra obra anônima, mas da qual logo se descobriu o autor, sacudiu o universo medieval. Trata-se de Cymbalum mundi, de Bonaventure des Périers. Segundo o autor, o homem, incapaz de atingir a verdade, perde estupidamente o tempo de sua curta vida perseguindo quimeras. Centenas de outros autores, ao longo da história, recusaram-se a aceitar o caráter divino de Cristo, que mais não seja porque não admitiam a idéia de um deus.

Para o redator da Folha, Brown está contestando uma verdade histórica. A verdade é bem outra. O autor contesta apenas uma crença. Mas não é a repetição de verdades óbvias o que mais me espanta na difusão do Código, e sim o gênero a que pertence. Há milhões de leitores comprando como discussão histórica o que não passa de ficção. A própria Igreja não se conteve e considera o livro blasfemo. Na esteira do livro, vários outros títulos surgiram no mercado para contestá-lo. Ora, ficção é ficção. O autor a desenvolve como bem entender e em relação a ela não cabe contestação alguma. Ninguém vai, em sã consciência, contestar a história da Branca de Neve. Que se leia o Código por mero entretenimento, como uma espécie de conto de fadas sem compromisso algum com a história, vá lá! Mas a bobagem foi levada a sério, para felicidade dos editores de Brown.

Na mesma Folha, outro repórter exaltado ousa: “A ciência acaba de invadir um dos últimos territórios livres da poesia. Um livro recém-lançado no Brasil afirma que os sentimentos não passam de noções que o cérebro cria sobre o estado do corpo. Longe de serem abstrações, são fenômenos fisiológicos bem definidos – e fundamentais tanto à sobrevivência quanto à construção da razão”. O repórter refere-se ao livro Em Busca de Espinosa, do pesquisador português António Damásio, cujo argumento central é que os sentimentos são apenas a maneira como o cérebro percebe o estado do corpo. Segundo o autor, estados de espírito como tristeza, orgulho, empatia e amor são manifestações de um mecanismo biológico responsável pelo equilíbrio geral do organismo. O último item é que intriga o repórter: seria o amor uma construção cultural, uma máscara para a atração sexual?

— Sim – diz Damásio – pode-se construir dessa maneira. Eu acho que há um elemento básico, que é a atração sexual, que é totalmente corporal, como é fácil perceber. (...) E depois há toda uma construção cultural, que vem juntar muitas outras dimensões intelectuais àquilo que começa como uma variação emocional relativamente simples.

Mais um descobridor da América. Basta dar-se uma olhadela rápida na história da literatura para se perceber que amor é uma mera construção cultural, elaborada e polida através dos séculos, até chegarmos a essa absurda concepção do amor cristão que – como perceberam Kierkegaard e Nietzsche – anula o nobre sentimento da amizade.

A Grécia nos legou palavras lindas. Uma delas é eros, traduzida ao latim por amor, que surgiu na ilha de Lesbos. Pois os historiadores situam, de um modo geral, nos poemas de Safo de Lesbos, a primeira ocorrência na literatura da palavra amor. Safo descreveu, inclusive, uma série de sintomas físicos que diagnosticariam o amor. Os médicos da época apoiavam-se em Safo para definir a doença. Assim narra Plutarco o caso de um jovem enfermo:

— Erasístrato percebeu que a presença de outras mulheres não produzia efeito algum nele; mas quando Estratonice aparecia, só ou em companhia de Seleuco, para vê-lo, Erasístrato observava no jovem todos os sintomas famosos de Safo: sua voz mal se articulava; seu rosto se ruborizava; seus olhos olhavam furtivamente; um suor súbito irrompia através de sua pele; os batimentos de seu coração se faziam irregulares e violentos; e, incapaz de tolerar o excesso de sua própria paixão, ele tombava em estado de desmaio, de prostração, de palidez.

Quando Antíoco – pois assim se chamava o enfermo – recebeu Estratonice como presente de Seleuco, seu pai, desapareceram os sintomas da doença. Que talvez tenha contagiado Seleuco, pois afinal era o marido de Estratonice. Mas isto já é outra história.

Assim era o amor, em suas origens. A palavra fez carreira, foi louvada e caluniada, definida e estudada. Hoje, é enunciada tanto por João Paulo II como por adolescentes em transportes de ternura. Como também por publicitários em campanhas de Natal.

Estes dados sobre a origem do tal de amor, estão em um desses livros raros, que surgem no mercado e passam despercebidos, já que seu autor não se filia a nenhuma filosofia ou escola prestigiosa: A História Natural do Amor, de Morton Hunt, Ibrasa, 1963. Mas tampouco Hunt pretendia descobrir a América. Seu estudo se reportava a fontes milenares. Da antiga Grécia para cá, a palavrinha virou mito, o mito fez carreira e rendeu milhões de dólares, particularmente para Hollywood. E não é que de repente surge um gajo, pretendendo descobrir o que há muito se sabia!


 

Sobre Bíblia, fome, éguas e amantes

 

Fome e Bíblia – “Ora, havia fome naquela terra”, já diz o primeiro livro da Bíblia, quando Abrão desceu ao Egito, “para peregrinar ali, porquanto era grande a fome na terra”. Ainda no Gênesis, temos notícia que sobreveio outra fome na terra, “além da primeira, que ocorreu nos dias de Abraão”. Sete anos de grande fartura houve em toda a terra do Egito. A estes se seguiram sete anos de fome, e toda aquela fartura foi esquecida e a fome consumiu a terra. “Não será conhecida a abundância na terra, por causa daquela fome que seguirá; porquanto será gravíssima”.

Havendo fome sobre toda a terra, José abriu todos os depósitos de alimentos e os vendeu aos egípcios, porque a fome prevalecia nas terras do Egito. Também havia fome na terra de Canaã. “A fome era gravíssima na terra. Disseram os judeus a Faraó: “Viemos para peregrinar nesta terra; porque não há pasto para os rebanhos de teus servos, porquanto a fome é grave na terra de Canaã”. A terra do Egito e a terra de Canaã desfaleciam por causa da fome.

A fome era extrema em Samária, diz-nos o I Reis. Já no II Reis, Eliseu nos conta que a fome é vontade do Senhor: “Levanta-te e vai, tu e a tua família, e peregrina onde puderes peregrinar; porque o Senhor chamou a fome, e ela virá sobre a terra por sete anos”. Nos Salmos, o Senhor livra da morte os famintos e os conserva vivos: “Eis que os olhos do Senhor estão sobre os que o temem, sobre os que esperam na sua benignidade, para os livrar da morte, e para os conservar vivos na fome”.

Ainda nos Salmos, mais uma vez a fome atende aos desígnios divinos: “Chamou a fome sobre a terra; retirou-lhes todo o sustento do pão”. Este mesmo deus, em Isaías, faz da fome seu instrumento de governo: “E os primogênitos dos pobres serão apascentados, e os necessitados se deitarão seguros; mas farei morrer de fome a tua raiz, e será destruído o teu restante”. Ainda em Isaías, sabe-se o que esperam os que se afastam do senhor: “Pelo que assim diz o Senhor Deus: eis que os meus servos comerão, mas vós padecereis fome”. Também em Jeremias, a fome é instrumento da justiça divina: “por isso assim diz o Senhor dos exércitos: eis que eu os punirei; os mancebos morrerão à espada, os seus filhos e as suas filhas morrerão de fome”.

A fome é flagelo recorrente na Bíblia. Citar todas as vezes que o fenômeno ocorre seria exaustivo e redundante. Eis que neste ano da graça de 2003, surge no Brasil um novo intérprete da Bíblia, que nos afirma com segurança que a fome não está na Bíblia. O novel exegeta chama-se Luís Inácio Lula da Silva, e não esperou dez dias para deitar cátedra. Já no nono dia de governo, pontificou: “Não está escrito em lugar algum, nem mesmo na Bíblia, que alguém precisa ficar dias sem comer”. É normal que o homem inculto ache que entende da Bíblia, por ter ouvido ou lido trechos dela Bíblia várias vezes no decorrer de sua vida. Já em um presidente, tal declaração depõe contra a cultura toda do país. A afirmação absurda desceu tranqüila goela abaixo dos animais midiáticos. Não houve, em toda a imprensa nacional, um único jornalista que denunciasse a impropriedade da fala presidencial.

A fome permeia a Bíblia. Não é sequer preciso lê-la para saber disto. Sendo os povos bíblicos povos do deserto, não é preciso ser gênio para intuir que a fome acompanhou estes homens em seus trajetos. Mas se na Bíblia existe fome, nela não encontramos um Estado dando de comer aos famintos. Do suor do teu rosto comerás o teu pão, diz também no Gênesis o Senhor a Adão, após este ter provado o fruto da árvore proibida. Quando havia fome no Egito, Josué não doa alimentos aos egípcios. Josué os vende.

Mas isso já faz tempo. Nos dias que passam, o preceito é outro. Com o cupom de teu governo comerás o teu pão – esta é a nova lei. Não precisa mais suar. Pelo menos é o que se depreende da pedra toque do novo governo petista, que pretende matar a fome do país dando comida aos famintos. Trabalho, que é o melhor antídoto contra a fome, que permite comer sem estender a mão, parece não ser prioritário. A realizar-se plenamente o programa de Lula, ao final de seu governo teremos uma multidão de mendigos bem-alimentados, todos em fila e de mãos estendidas implorando esmolas do Estado. Fome zero? Dignidade idem.

Éguas e mulheres – Por falar em Bíblia, surgiu no início do ano, na televisão nacional, uma nova febre, a tal de egüinha pocotó. Em um programa direcionado ao público infantil, mulheres são comparadas a éguas. Não poucos pais, em vez de tomar a salutar providência de afastar os filhos de frente da telinha, clamam por censura: "Eu sou pai. E assisto, consciente de minha impotência diante da máquina da TV, minha filha de 12 anos se divertindo, cantando e dançando o pocotó. Por sorte ela não entende as letras paupérrimas, chulas, apelando para o sexo e tratando as mulheres de éguas e cadelas."

Ora, se a televisão apela para sexo, trata as mulheres de éguas e cadelas e com isto ganha audiência, o problema não é da televisão, mas da audiência. Os leitores indignados parecem não ter ainda percebido que os aparelhos de TV têm botões, que servem para ligar, desligar ou mudar de canal. Outra opção, que a ninguém está proibida, é jogar a televisão no lixo. Mas nisto ninguém pensa. O telespectador, em seu espírito ditatorial, quer uma televisão adequada a seus padrões éticos. Que, evidentemente, não são os mesmos da imensa maioria que se delicia ao ver mulheres comparadas a éguas e cadelas.

São curiosas, as palavras. Seus significados dependem de por quem e quando são proferidas. No Cantar dos Cantares, diz Salomão: "A uma égua dos carros de Faraó eu te comparo, ó amada minha". O texto anda rolando por aí há bem mais de dois mil anos, e até hoje não soube de alguém que reclamasse da eqüina comparação. Pelo contrário, é tido como um dos momentos de grande poesia do Livro. É a única ocorrência da palavra égua em toda a Bíblia. E só ocorre quando o sábio rei busca uma imagem para definir a sua amada. Talvez por isso a morena sulamita, formosa como as tendas de Quedar, tenha preferido ficar com seu humilde pastor a gozar do fausto de Salomão.

Marido vira noivo — Se égua hoje não é exatamente elogio que se faça a uma mulher, uma outra palavrinha passou a provocar resmungos nos jornais do Rio e São Paulo.

"Ela irá atrás de seus amantes, mas não os alcançará" – lemos em Oséias – "e busca-los-á, mas não os achará; então dirá: Ir-me-ei, e tornar-me-ei a meu primeiro marido, porque melhor me ia então do que agora". Se a palavra égua só ocorre uma única vez na Bíblia, a palavra amante é bem mais freqüente. Tem sentido geralmente pejorativo, mas nem por isso o hagiógrafo tem pudores em registrá-la. Pudor que parece ter contaminado nossa imprensa, que procura evitar a palavrinha como pode.

Barbara Gancia, da Folha de S. Paulo, se espanta com "a desenvoltura da mídia e dos envolvidos no caso dos grampos telefônicos na Bahia em tratar a senhora Adriana Barreto como ex-namorada de ACM. "Vem cá: o senador não é um homem casado? Então que história é essa de "ex-namorada"? Até prova em contrário, Adriana foi ou voltará a ser (se depender da vontade dos pais) a amante de ACM"

Roberto Pompeu Toledo, colunista de Veja, aproveita o ensejo e faz ironias dizendo que ficou feio falar em amante. "A palavra invoca trampolinagem de mau gosto, libertinagem de subúrbio. Só não é mais brega que “amásia”. Então, usa-se "namorada", ou "ex-namorada", para qualificar a mulher que incorreu na fúria do poderoso senador. Pelos padrões atuais de bom gosto, a língua talvez não ofereça mesmo melhor alternativa. Mas surge um problema. Namorar, pelo que sempre se entendeu, e ainda em geral se entende, é para pessoas livres e desimpedidas. Ora, o personagem em questão é homem casado, pai de filhos e avô de netos. Pode-se falar com tanta naturalidade que tem, ou tinha, namorada? Se se pode, é porque estamos no Islã e não sabíamos. Caiu mais um tabu, e está liberada a poligamia".

A primeira vista, temos dois íntegros profissionais da palavra denunciando a hipocrisia com que as palavras são usadas. Mas só à primeira vista. Ocorre que o senador baiano, apesar de seu apoio ao novel presidente, não é um esquerdista de souche. É homem de direita e uma espécie de símbolo do mal. Tem amantes, portanto. Como um reles Fernandinho Beira-Mar. Quem não lembra de Zélia Cardoso de Mello, a amante de Bernardo Cabral? Ou de Suzana Marcolino, a amante de PC Farias? Sei, são personagens do século passado. Mas o século passado recém passou. Zélia, para quem não mais lembra, era ministra de Fernando Collor de Mello. PC Farias era o caixa dois de Collor. Não tinham namorado ou namorada, mas amantes.

Já a prefeita do PT, dona Marta Suplicy, esta tem namorado. Na grande imprensa, redator algum ousa falar em amante da prefeita. Fala-se da prefeita e seu namorado, como se dona Marta já não fosse suficientemente grandinha para ter algo mais que um namorado. Ou da prefeita e seu companheiro. Ou ainda, a prefeita e seu consorte. Ou marido, mesmo que marido não seja.

Para o Estado de São Paulo, Dona Marta vai casar. "Marta Suplicy (PT) anunciou que pretende oficializar a relação com o franco-argentino Luís Favre ainda este ano, assim que for concluído o processo de separação dela com o ex, o senador Eduardo Suplicy" – é o que nos diz reportagem de Deborah Bresser. Já a Folha de S. Paulo, sempre hesitante entre o politicamente correto e o desejo de bem informar, ou talvez por achar o namoro demasiadamente longo, promoveu o compadrito portenho da alcaidessa a marido. É curioso que Barbara Gancia, colega de empresa de Mônica Bergamo, não tenha reclamado quando esta colunista fala em Marta Suplicy e "seu marido, Luis Favre".

Em seu desejo de ser elegante com a prefeita, o jornal acaba promovendo dona Marta a bígama. Oficialmente, a prefeita ainda não se divorciou de seu ex. Se Dona Flor e seus dois maridos pertencia ao mundo da ficção, a Folha oferece a seus leitores uma fatia da vida real, Dona Marta e seus dois maridos. Para não confundir a prefeita com essas vulgares amantes, típicas da direita reacionária, promoveu-a a marida. Como diria sem querer dizer – mas disse – Roberto Pompeu de Toledo, "Caiu mais um tabu, e está liberada a poligamia".

Na coluna de César Giobbi, no Estado de São Paulo, lemos que no dia 18 de fevereiro passado, uma mesa de mulheres que se reúne semanalmente no Kosushi recebeu a visita-surpresa da prefeita. "Um dos temas foram os grampos baianos e as acusações da advogada Adriana Barreto. Marta estava indignada porque até então ninguém tinha mencionado a questão moral, já que ACM é casado". Parece que a alcaidessa, de tanto a imprensa falar em seu marido Luis Favre, convenceu-se de sua condição de marida. E até mesmo esqueceu que, para casar de novo, precisa primeiro divorciar-se de seu ex, o que ainda não ocorreu. E se ainda não ocorreu, perdoe a prefeita, mas segundo nossa legislação ainda é casada com o senador Suplicy.

Segundo dona Marta, "se a situação a envolvesse ou a governadora Rosinha Matheus ou Benedita da Silva, por exemplo, aí, sim, fariam muito barulho em torno dessa questão". Ledo engano da alcaidessa. Ela milita na esquerda e sobre sua honra caem todas as benevolências da imprensa.

Nossos bravos colunistas parecem ser acometidos, quando menos se espera, de reflexos da Guerra Fria. Por questão de ofício, têm uma convivência quase diária com a prefeita e sua trajetória, mas vão procurar amantes na biografia ... do baiano. Pois amante é atributo do mal, da direitona clássica. A casta esquerda tem maridos.

Deus não joga mas fiscaliza. Ao aproximar-se setembro, mês do casamento da alcaidessa, a imprensa muda de tom:

"A uma semana de seu casamento, a prefeita Marta Suplicy (PT) levou ontem o noivo, Luis Favre, e dois filhos dele à inauguração do CEU (Centro Educacional Unificado) Veredas, no Itaim Paulista (zona leste de São Paulo). Marta visitou as salas de aula e chegou a ensaiar uns passos de break". É o que diziam os jornais, em meados de setembro, sobre as atividades da prefeita petista.

Lemos no Estadão, no dia seguinte ao casamento: “Ao som da marcha nupcial e canções judaicas medievais executadas por um quarteto de cordas e pela cantora Fortuna, ela disse o sim a Favre. Como testemunhas da noiva, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a primeira-dama, Marisa; os donos da estância, Raul e Yeda Saigh; Sylvia Monteiro e Adolfo Alberto Leirner. Do lado do noivo, o presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Mattoso, e a mulher, Suely Muniz; o empresário Ivo Rosset e a mulher, Eleonora Mendes Caldeira, e Margareth Palocci".

De Itupeva, nos noticia Marcus Lopes: “Até terça-feira, o tabelião Luiz Roberto Raymundo aguardava apenas a confirmação dos nomes dos padrinhos. "Marta é a pessoa mais ilustre que eu já casei", diz Raymundo, que há 26 anos realiza casamentos em Itupeva. Segundo ele, o noivo levou os papéis no começo de agosto. Eles vão se casar em regime de separação de bens e a prefeita vai conservar o seu nome: Marta Teresa Suplicy".

César Giobbi não deixa por menos: “Só pode ter sido uma homenagem ao noivo, o fato de a prefeita Marta Suplicy ter preferido comprar seu vestido de casamento em Buenos Aires, preterindo o imenso batalhão de estilistas paulistas. Seus padrinhos, no entanto, serão todos brasileiros".

Na Folha de S. Paulo, Fernando de Barros e Silva insiste: “A prefeita vai casar. Assim a revista do jornal Diário de S. Paulo anunciava em sua capa uma reportagem de 14 páginas sobre a vida privada de Marta Suplicy, metade das quais ocupadas por uma entrevista de cabeleireiro, na qual a prefeita se demorava em elogios ao noivo, Luis Favre, e confidenciava em detalhes como será a cerimônia de casamento, no próximo sábado”.

Ainda na Folha lemos: “O noivo da prefeita Marta Suplicy (PT), o franco-argentino Luis Favre, chegou às 10h30 na Estância Santa Rita de Cássia, na divisa de entre Jundiaí e Itupeva. Chegou sozinho e entrou rapidamente no sítio. Cerca de 20 minutos antes, o bolo do casamento foi entregue, de táxi”.

Para o leitor incauto, cuja memória não ultrapassa uma semana, nada demais. Os jornais estão apenas noticiando as segundas bodas da prefeita. Mas para aqueles raros leitores que ainda cultivam essa faculdade tão pouco prestigiada nos dias que passam, algo estranho ocorreu. Há poucos meses, para todos os jornais, Luis Favre era o marido de Marta Suplicy. Talvez os cautos redatores não tenham notado que, por certo período, promoveram a prefeita à condição de bígama. Pois sequer tinha se divorciado de Eduardo Suplicy e Favre já era visto como marido.

Se nossos bravos redatores tinham pruridos em pronunciar a palavra adequada – ou seja, amante – não tiveram suspicácia suficiente para prever o futuro próximo. Desde há muito, os pombinhos noticiavam o próximo casamento. Iria então a prefeita casar com o marido? Do dia para a noite, nossos bravos jornalistas jogaram no lixo a palavra marido ao referir-se a Favre e passaram a tratá-lo como noivo. E viva a independência da grande imprensa paulistana!


 

Visionários e vigaristas

 

Em março de 2003, na livraria Siciliano, do shopping Higienópolis de São Paulo, Claude Varilhon e sua fiel sub-vigarista, Brigitte Boissellier, autografaram suas mistificações. Os jornais e o mundo editorial brasileiros foram sempre generosos com vigaristas estrangeiros. Desde que oriundos do Primeiro Mundo. Fosse Rael boliviano ou colombiano — ou mesmo brasileiro — seria visto como um reles cucaracha. O guru francês, que já é motivo de piadas na televisão americana, está planejando produzir seu próximo clone — sem que tenha mostrado evidência alguma dos primeiros — no Brasil. Sabe que somos uma das últimas reservas de credulidade deste mundo moderno e cético, e joga suas fichas em Pindorama.

Ao tomar contato com a pintura de Hieronymus Bosch, fiquei perplexo e deliciado. Deliciado com a composição daquele universo aparentemente harmônico de anjos e demônios. Perplexo com a imaginação do autor: de que desvão de sua mente teria ele extraído aqueles monstros e seres etéreos? Ora, aquele primeiro contato ocorreu em meus dias de guri, quando ainda não descobrira a inconveniência de ver um pintor antigo com olhos de hoje. Foi lendo Tomás de Aquino que descobri o óbvio. Bosch representava nada mais nada menos que o imaginário de sua época. A Idade Média, por obra da Igreja, foi infestada de alto a baixo por íncubos e súcubos, monstros e quimeras. Se eles já estavam latentes na Bíblia, foram os teólogos que lhes deram forma mais precisa. Bosch, sensível como todo criador, era apenas um médium daquele universo irreal. Não constitui nenhuma impropriedade afirmar que sua pintura já está nas páginas da Suma Teológica. Verdade seja dita, ciclopes, monstros e bruxas não são invenção do cristianismo. Na literatura, já os encontramos em Homero, na Odisséia, oito séculos A.C.

Tampouco deixa de perturbar as mentes de nossos dias. Se você se der ao trabalho de assistir um culto dos tais de pastores televisivos, lá estão eles expulsando aqueles mesmos demônios que um dia atormentaram os contemporâneos do pintor holandês. Sem falar que o próprio vice-deus católico costuma reafirmar a existência do Tentador. Afinal, quem crê em deus tem de crer no diabo, que mais não seja para delegar funções quando se trata de justificar o mal no mundo. Mas os demônios hoje são meras abstrações, não têm mais o visual dos dias de Bosch. A não ser nesses filmes ditos de terror, produzidos pela indústria ianque do ócio, que só servem para fazer crianças rir.

Numa época de viagens espaciais, ainda que apenas na periferia vizinha ao planetinha, o imaginário teria de ser outro. Viagens à lua desde há muito vinham rondando a imaginação dos escritores, tanto que já aparecem em Vera Historia, de Luciano de Samosato, no século II da era cristã. O protagonista de sua história se vê arrastado à lua por uma tromba marinha e lá encontra os mais estrambóticos monstros. Quinze séculos depois, o astrônomo alemão Johanes Kepler escreve Somnium. Desta vez o protagonista é levado pelos espíritos e lá também vai encontrar monstros e estranhas formas de vida. Quando Jules Verne escreve, no século XIX, Da Terra à Lua, já não está sendo nada original.

Quando surgem os primeiros satélites, a viagem espacial sai do campo da ficção e passa para a primeira página dos jornais. Fazemos um tímido turismo, pelos arrabaldes do planetinha, é verdade. Mas, para quem não tem noções de astronomia, isto soa como grande viagem. Surge, no rol das profissões, um novo personagem, o astronauta. A ficção científica insistiu tanto nestas viagens, que quando Armstrong chegou à lua, sua alunissagem tinha um ar de déjà-vu. O que os escritores – de Luciano e Jules Verne a Arthur Clark e Clifford Simack – não previram foi que esta nova era geraria uma nova espécie de deuses. Esta mística espacial tomou tais proporções que, no Brasil, chegou a introduzir até mesmo na música caipira uma espécie de messianismo extra-terrestre:

Tomara que seja verdade
que exista mesmo
disco voador.
Que seja um povo inteligente
pra trazer pra gente
a paz e o amor.

Como se paz e amor fossem inerentes à inteligência. Woodstock, misticismo, era espacial: a imprensa, esse cadinho colossal que tudo mescla, deixou de tratar os ETs como hipótese e passou a tomá-los como seres reais. As associações de abduzidos e viajantes espaciais proliferaram mundo afora, cidades começaram a construir espaçoportos para receber os extras e a televisão deu a estes alucinados o mesmo tratamento que se concede a um personagem da política ou da ciência. Em Rosswel, um deputado propõe que seu estado, o Novo México, crie um dia do extraterrestre "para homenagear todos os visitantes do passado, do presente e do futuro". Se você acompanha a programação da Discovery ou GNT, já deve ter visto repórteres entrevistando com total seriedade pessoas que juram ter feito viagens espaciais e inclusive ter mantido relações sexuais com os extras. O telespectador médio, que engole tudo que a telinha vomita, ainda acentua a excelência de sua fonte: “vi na TV a cabo”.

Crer na existência de ETs? Por que não? Não saímos ainda do mundo mágico de Bosch ou de Tomás de Aquino. Os jornais do mundo todo, concedem um tratamento extremamente respeitoso a um senhor que se pretende vice-Deus. Este vice-Deus, diga-se de passagem, tem repetidas vezes manifestado sua crença no Opositor, aquele mesmo demônio que impera na pintura do holandês. Milhões de pessoas no mundo todo se ajoelham ante a imagem de uma mãe-virgem, representação histórica criada pela Igreja a partir de antigos mitos pagãos. São os mesmos que crêem que o filho desta senhora, além de ser deus, foi morto, ressuscitou e subiu aos céus. E ai de quem considera tudo isto uma grossa patacoada: nestes dias politicamente corretos, é logo pichado como intolerante. Criar uma nova religião é apenas uma questão de audácia e trabalho. Fiéis é o que não falta. Os tempos estão – como sempre estiveram – propícios a vigaristas. Ainda mais quanto contam com o apoio cúmplice da mídia. Mas se os ETs são personagens mais ou menos contemporâneos, é curioso observar que sua representação mais freqüente não é de hoje. Se o leitor tiver em mente as imagens mais recorrentes dos extras, verá que em sua maior parte elas foram inspiradas em O Grito, do pintor norueguês do século XIX Edvard Munch.Alguém ainda lembra de quem foi Erich von Däniken? Em 1968, quando a Apolo 8 circundava a lua, este senhor suíço, ex-gerente de hotel, demonstrando um extraordinário senso de oportunidade, lançou o livro Eram os deuses astronautas?, no qual defendia a exótica tese de que astronautas alienígenas teriam visitado a Terra antes mesmo dos tempos bíblicos. Segundo o autor, a espécie humana seria fruto do cruzamento entre ETs do sexo masculino e fêmeas de um certo tipo de primatas. O desenho sobre pedra de um sacerdote maia, com um gorro de lã na cabeça, em Palenque, México, não representaria um sacerdote maia, mas um um astronauta na cabine de sua nave. As pirâmides do Egito, as marcas de Nazca nos Andes peruanos, como também as cabeças colossais da ilha da Páscoa seriam presentes dos ETs deixados aos humanos. Os profetas bíblicos Noé e Moisés não seriam apenas profetas, mas astronautas. Em uma época em que o velho Deus judaico-cristão mostrava sinais de exaustão, o livro foi traduzido em várias línguas e fez uma carreira fulminante. Num piscar de olhos, o ex-hoteleiro ficou milionário. Mesmo nos meios universitários, onde a preocupação metodológica deveria imperar, tornou-se difícil chamar o vigarista de vigarista.

A crença nos extraterrestres derivaria naturalmente para o misticismo. Pior ainda, para um misticismo tingido de sangue. Lá pelos anos 70, um casal, conhecido apenas como os dois, percorreu os Estados Unidos, afirmando existir um reino superior que só podia ser alcançado por discos voadores. Os dois conseguiram arrebanhar um número considerável de adeptos e, há coisa de uns cinco anos, tivemos o desfecho da doutrina, o suicídio coletivo dos líderes e alguns de seus seguidores. A fé no reino superior era tamanha que os suicidas não se esqueceram de munir-se de passaporte antes de morrer.

Nada mais fácil que reunir crentes, neste mundinho onde as pessoas parecem ter abdicado à capacidade de raciocinar logicamente. Mas a “boa nova” não pode vir de qualquer cafundó do Terceiro Mundo. Ou vem do tal de Oriente profundo, bafejado pela fama de uma suposta sabedoria imemorial. Ou vem do Primeiro Mundo mesmo, consagrada por uma imprensa irresponsável, senão venal. Na América Latina, por exemplo, vigarices têm pernas curtas. Na Europa ou Estados Unidos, gozam de boa saúde e longa vida.

Em 1983, a Veja endossou como verdade científica uma brincadeira de 1º de abril, lançada pela revista inglesa New Science. Tratava-se de uma nova conquista científica, um fruto de carne, derivado da fusão da carne do boi e do tomate, que recebeu o nome de boimate. Se a editoria de ciências de Veja visse esta notícia num jornal brasileiro, evidentemente ficaria com um pé atrás. Para a revista, a experiência dos pesquisadores alemães permitia “sonhar com um tomate do qual já se colha algo parecido com um filé ao molho de tomate. E abre uma nova fronteira científica". Isso que a New Science dava uma série de pistas para evidenciar a piada: os biólogos Barry McDonald e William Wimpey tinham esses nomes para lembrar as cadeias internacionais de alimentação McDonald´s e Wimpy´s. A Universidade de Hamburgo, palco do "grande fato", foi citada para que pudesse ser cotejada com hambúrguer. Os alertas de nada adiantaram. Como se tratava de uma prestigiosa publicação européia, a Veja embarcou com entusiasmo na piada.

Em 1988, foi a vez de uma prestigiosa revista científica de língua inglesa, a Nature, cair em barriga semelhante. Desta vez, a barriga não decorria de uma piada, mas de um embuste mesmo. Jacques Benveniste, doutor em medicina e diretor de pesquisas do Inserm, na França, criou a exótica teoria da memória da água. Isto é, a água conservaria na memória as moléculas de base com as quais havia sido colocada anteriormente em contato. A quem interessava o crime? Aos homeopatas, que se regozijaram ao supor que finalmente tinham a prova indiscutível de que a homeopatia era ciência. A memória da água fez longa carreira, mobilizou prêmios Nobel e laboratórios na Europa toda. O sóbrio Le Monde caiu como um patinho recém-emplumado, concedendo várias páginas à falcatrua.

Não há quem desconheça estas histórias nas redações de jornais. Mas parece ser curta a memória dos redatores. Os últimos dias do ano passado foram marcados por embuste dos bons. Claude Varilhon, cantor e jornalista francês, que escrevia para revistas automobilísticas de seu país, resolveu um dia mudar de vida e aumentar seus ganhos. Trocou de nome, virou Rael e fundou uma seita, o Movimento Raeliano, que teria 55 mil seguidores em 84 países. Rael, que se considera o último dos profetas e meio-irmão de Jesus, fundou sua seita após o encontro com um extraterrestre de 1,2 metro de altura no topo de um vulcão, na França, em 1973. Segundo os raelianos, a humanidade teria sido criada em laboratório, através de clonagem, e trazida para a Terra há 25 mil anos por extraterrestres. Ao misticismo sideral junta-se uma pitada de ciência, a clonagem. Temos um von Däniken de roupa nova. Com a diferença de que o ex-hoteleiro suíço não ousou anunciar entrevistas com alienígenas no topo de vulcões. Rael foi encarregado de uma dupla missão: difundir as mensagens dos Elohim – aqueles que vieram dos céus – e reunir fundos para a construção de uma embaixada, destinada a recebê-los aqui em 2035, se possível perto de Jerusalém.

Pois este senhor, com todo este currículo, afirmou nos estertores do ano passado ter produzido o primeiro clone humano, uma menina que foi batizada como Eva. A menina teria nascido na quinta-feira, dia 26 de dezembro, por meio de uma cesariana, num lugar mantido secreto. Brigitte Boisselier, diretora da Clonaid – empresa de engenharia genética criada pelo Movimento dos Raelianos – e "bispa" da seita, prometeu realizar testes para comprovar que o nascimento foi produto de clonagem. Os resultados deveriam estar disponíveis "dentro de oito a nove dias", precisou Brigitte na ocasião. Cá entre nós, um clone é algo bem mais factível que uma mãe-virgem. O problema reside em tal fato ser anunciado por membros de uma seita sem qualificação científica alguma.

Sem prova alguma da clonagem, os jornais do mundo todo colocaram Rael em suas primeiras páginas. George Bush e Jacques Chirac, sem preocupação alguma em verificar a veracidade do fato anunciado, caíram no ridículo de contestar o interlocutor dos ETs. Até mesmo o Vaticano e a Food and Drug Administration (FDA) levaram a sério a vigarice.

Em seu livro Yes to Human Cloning, publicado pela Fundação Raeliana em 2001, o ex-jornalista esportivo que conversa com ETs no topo de vulcões vangloria-se da publicidade gratuita gerada pela formação da Clonaid, em 1997. "Para um investimento mínimo de 3.000 dólares, isso resultou na cobertura da mídia no valor de mais de 15 milhões de dólares... Ainda estou dando risadas", afirmou Vorilhon.


 

Cristo em Meio ao Tiroteio

 

É curioso observar, na cobertura da imprensa internacional dos conflitos no Oriente, a seleção de fotos feita pelos editores. Quando se trata de ataques ao Exército israelita, temos sempre adolescentes armados de fundas jogando pedras. Quando ocorre um funeral de criança ou terrorista palestino, temos centenas de homens atirando para o alto com fuzis automáticos. Perguntava-se um leitor da Folha de S. Paulo: "Será possível que querem nos passar que a realidade no Oriente Médio é que os palestinos usam pedras para combater o Exército judeu e fuzis para acompanhar enterros?”

A manipulação é tamanha, a ponto de os jornais terem feito Cristo nascer em Belém. Em toda grande imprensa brasileira, lemos que atiradores palestinos estão refugiados na Basílica da Natividade, em Belém, “onde segundo a tradição cristã, Cristo teria nascido”. E não só na imprensa nacional. Se você pegar o Aftonbladet ou o Dagens Nyheter suecos, o Corriere della Sera italiano, o Monde ou o Libération franceses, o El País espanhol, enfim, qualquer jornal do norte ao sul da Europa, lerá que a igreja da Natividade assim se chama porque lá nasceu o Cristo. Uma estrela de prata com 14 pontas foi assentada no chão da basílica pelos franciscanos em 1717, com a inscrição: “Aqui nasceu Jesus Cristo, da Virgem Maria”. Já não basta fazer o nazareno nascer de uma virgem. Pretende-se agora que tenha nascido em Belém.

É uma inverdade muito conveniente nos dias que correm. Aqueles santos mártires palestinos, que não hesitam em explodir-se a si mesmos em defesa de seus nobres ideais — desde que levem outros juntos —, refugiam-se da sanha do Exército de Israel no mesmo local onde nasceu o Deus-menino, perseguido pelos esbirros de Herodes. Ao buscar refúgio no local onde nasceu a criança perseguida, os palestinos introduzem na dança macabra uma terceira parte, a Igreja de Roma, que até agora nada tinha a ver com o baile. O Vaticano já solicitou inclusive que Israel "respeite os acordos para proteger os lugares santos", anunciou o porta-voz do papa, Joaquín Navarro Valls.

Que a Igreja considere santo um lugar onde plantou um templo, entende-se. Para reforçar a lenda, criou até mesmo uma Praça da Manjedoura. O que não se entende é que a grande imprensa afirme que Cristo nasceu em Belém. Não é concebível que jornalistas de todo o Ocidente jamais tenham ouvido falar dos Evangelhos, onde Cristo é chamado o tempo todo de nazareno. Só nos resta atribuir a mudança de local a um evidente propósito de manipular emoções.

Evangelhos quer dizer boas novas, boas notícias. Os evangelistas são os primeiros jornalistas da era cristã. Se é ofício dos profetas fazer profecias, o do jornalista é relatar fatos. O fato inconteste, aceito pelos historiadores, é que Jesus nasceu na obscura Nazaré, pequena e desconhecida cidade da Galiléia. Nos Evangelhos, é chamado o tempo todo de nazareno. Em sua cruz, Pilatos manda inscrever: “Jesus nazareno, rei dos judeus”.

Verdade que Mateus escreve: “Tendo, pois, nascido Jesus em Belém da Judéia, no tempo do rei Herodes ....” E acrescenta: “Ouvindo, porém, que Arquelau reinava na Judéia em lugar de seu pai Herodes, temeu ir para lá; mas avisado em sonho por divina revelação, retirou-se para as regiões da Galiléia, e foi habitar numa cidade chamada Nazaré; para que se cumprisse o que fora dito pelos profetas: Ele será chamado nazareno”. Pois dissera Miquéias: “Mas tu, Belém Efrata, posto que pequena para estar entre os milhares de Judá, de ti é que me sairá aquele que há de reinar em Israel”. No fundo, Mateus trazia no sangue esta tendência do jornalismo contemporâneo, de adaptar os fatos à visão que se tem do mundo. Quis adaptar o nascimento a antigas profecias. A realidade que se lixasse.

Escreve Renan, em A Vida de Jesus: "Cristo nasceu em Nazaré, pequena cidade da Galiléia, desconhecida até então. Toda sua vida foi designado pelo nome de Nazareno e só por um esforço que não se compreende é que se poderia, segundo a lenda, dá-lo como nascido em Belém. Veremos adiante o motivo dessa suposição, e como ela era conseqüência necessária do papel messiânico que se deu a Jesus".

Segundo Renan, Nazaré não é citada nem no Antigo Testamento, nem por Josefo, nem no Talmude. Enquanto Nazaré da Galiléia era um vilarejo anônimo, Belém da Judéia portava o prestígio de antigas profecias. Que nascesse em Belém, portanto. Mas por mais pontas que tenha a estrela de prata dos franciscanos, nazarenos nascem em Nazaré.

Lucas também adere à lenda do nascimento em Belém: “Naqueles dias saiu um decreto da parte de César Augusto, para que todo o mundo fosse recenseado. Este primeiro recenseamento foi feito quando Cirino era governador da Síria. E todos iam alistar-se, cada um à sua própria cidade. Subiu também José, da Galiléia, da cidade de Nazaré, à cidade de Davi, chamada Belém, porque era da casa e família de Davi, a fim de alistar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida. Enquanto estavam ali, chegou o tempo em que ela havia de dar à luz, e teve a seu filho primogênito; envolveu-o em faixas e o deitou em uma manjedoura, porque não havia lugar para eles na estalagem”.

Os evangelistas, ao situarem o nascimento de Cristo no reinado de Herodes e evocarem o recenseamento de Cirino, desmontam a própria tese. Diz Renan:

"O recenseamento feito por Cirino, do qual se fez depender a lenda que ajunta a jornada a Belém, é posterior, pelo menos dez anos, ao ano em que, segundo Lucas e Mateus, nascera Jesus. Com efeito, os dois Evangelhos põem o nascimento de Jesus no reinado de Herodes (Mateus,II, 1,19,22; Lucas, I, 5). Ora, o recenseamento de Cirino foi feito só depois da deposição de Arquelau, isto é, dez anos depois da morte de Herodes, no ano 37 da era de Ácio. A inscrição pela qual se pretendia outrora estabelecer que Cirino fizera dois recenseamentos é reconhecida como falsa. O recenseamento em todo caso não teria sido aplicado senão às partes reduzidas à província romana, e não às tetrarquias. Os textos pelos quais se pretende provar que algumas das operações de estatística e registro público, ordenadas por Augusto, chegaram até o reinado de Herodes, ou não têm o alcance que se lhes quer dar, ou são de autores cristãos que colheram esse dado no Evangelho de Lucas".

Se a Igreja romana instalou por conta própria a manjedoura em Belém, uma imprensa laica não tem razão alguma para assumir as lendas vaticanas. Outra é a razão de aderir a esta falsificação: é conveniente que Cristo tenha nascido lá, para que se estabeleça a analogia entre a criança perseguida e os terroristas palestinos.

Se há horas em que convém atribuir a Cristo o que dele não é, surge também aquela em que convém retirar de Cristo o que a ele pertence. Após os ataques do 11 de setembro, disse George W. Bush no Congresso americano: “Todas as nações, em todas as regiões, agora têm uma decisão a tomar: ou estão conosco ou estão com os terroristas”. Traduzindo: ou estão conosco ou estão contra nós. Bush foi imediatamente taxado de arrogante, nazista, fascista e outras tantas daquelas gentilezas em que os jornalistas são pródigos quando querem satanizar alguém. Zbigniew Brzezinski, ex-assessor de Jimmy Carter, vai mais longe: “Isto é leninismo”. Segundo Brzezinski, Vladimir Lênin teria usado uma frase semelhante nos seus escritos: “Quem não está conosco está contra nós”.

Ocorre que aquela frase não é fascista nem leninista. É cristianíssima. Está naquelas reportagens que embasam a cristandade, os Evangelhos. “Quem não é comigo, é contra mim; e quem comigo não ajunta, espalha”, diz Cristo em Mateus. A mesma frase é repetida em Lucas. Cristo está no meio do tiroteio. Quando convém esquecer uma frase sua, esquece-se a frase ou se a atribui a Lênin. O que não se pode é atribuir a Bush sentimentos cristãos, por mais fanatismo que tais sentimentos impliquem. Quando é conveniente que nasça em Belém, a imprensa fá-lo nascer em Belém. Se os guerrilheiros palestinos estivessem refugiados em uma igreja em Nazaré, Cristo teria nascido lá, disto não tenhamos dúvidas.


 

Dois mitos espanhóis

 

Que os jornalistas criem mitos não é de surpreender. Os animais midiáticos adoram mitos. É mais fácil crer num mito que na realidade nua e crua. O pior é que os próprios criadores de mitos passam a neles acreditar. Guernica, por exemplo, este golpe dos mais bem-sucedidos. Toda vez que um redator se refere a este quadro, quase que automaticamente ajunta o aposto explicativo: “obra de Pablo Picasso em homenagem às vítimas da cidade basca de Guernica, bombardeada por Franco”. Ora, os fatos são bem outros.

Picasso havia pintado uma tela de oito metros de largura por três e meio de altura, intitulada La Muerte del Torero Joselito, plena de cores fúnebres, que iam do preto ao branco, em homenagem a um amigo seu, o toureiro Joselito, morto em uma lídia. O quadro ficara esquecido em algum canto de seu ateliê. Ao receber uma encomenda para o pavilhão republicano da Exposição Universal de Paris de 1937, Picasso lembrou do quadro. Foi quando, para fortuna do malaguenho, a cidade de Guernica foi bombardeada pela aviação alemã. Ali estava o título e a glória, urbi et orbi. Uns retoques daqui e dali, e Picasso deu nova função ao quadro. No entanto, até hoje multidões hipnotizadas pela propaganda vêem em uma cena de arena, com cavalo, touro e picador, uma homenagem aos mortos de Guernica. Esta lenda até hoje é repetida, tanto por focas novatos numa redação, como por escritores de renome nacional. De um só golpe de pincel, o pintor malaguenho traiu a memória do amigo e mentiu para a História.

Picasso, evidentemente, alimentou a farsa. Consta que certo dia recebeu a visita de um oficial alemão em seu ateliê em Paris. Ao ver a reprodução de Guernica em uma parede, o oficial teria perguntado:

— Ah, foi você que fez isso, não?

Picasso teria respondido:

— Não, vocês é que fizeram isso.

O pintor bem poderia ter batizado sua obra de Paracuellos del Jarama. Mas aí seria expulso do mundo dos vivos, como o foram todos os que ousaram denunciar os crimes dos republicanos. Pois em 1936, em Paracuellos del Jarama, sítio que ninguém gosta de lembrar, foram fuzilados pelo Partido Comunista nada menos que dois mil e quatrocentos espanhóis que se opunham à Frente Popular. A História é uma disciplina indelicada.

A Guerra Civil Espanhola, fracassada tentativa de Stalin de pôr os pés na península ibérica e controlar o continente europeu, foi pródiga em mitos. Um outro, alimentado e realimentado pela imprensa durante décadas, é o famoso episódio de Miguel de Unamuno, reitor da Universidade de Salamanca, sendo desafiado pelo general “franquista” Millán Astray, com a frase não menos famosa: Viva la muerte! Muera la inteligencia! Ponho franquista entre aspas, pois se havia algum naquela cerimônia, realizada no dia 12 de outubro de 1936 — Día de la Raza — este era Unamuno, que naquele momento representava oficialmente o general Franco. O reitor foi salvo da ira de Astray e da vaia de muitos dos presentes por Doña Carmen Pollo, mulher de Franco, que o conduziu pelo braço até uma viatura do Quartel General. No entanto, ao referir-se ao episódio, não há redator que não se refira ao “intelectual anti-franquista Miguel de Unamuno”.

Em História Ilustrada de la Guerra Civil, Ricardo de Cierva considera o episódio maltratado pela propaganda, silenciado pelos testemunhas autênticos e tergiversado por comentaristas empenhados em com ele demonstrar uma ou várias teses preconcebidas.

“Celebrava-se no Paraninfo da Universidade de Salamanca a Fiesta de la Raza. Assistia o ato a esposa do recém nomeado chefe de Estado, Dona Carmen Polo de Franco. Presidia a cerimônia o reitor da Universidade, don Miguel de Unamuno. Também estavam presentes, entre outras personalidades, José María Pemán e o general Millán Astray. Este último, em um breve discurso, intercalou um inciso inoportuno no qual confundiu regionalismo com separatismo. Invocou logo a Morte, noiva de sua Legião. Feito o silêncio, todos os olhares convergiram para don Miguel de Unamuno”.

Millán Astray era um general de Infantaria, que havia participado das campanhas das Filipinas e Marrocos. Nesta última, perdera um olho e um braço. Julián Zugazagoitia o descreve como um “general recomposto com garfos, madeiras, cordas e vidros”. Em sua alocução, falara dos dois cânceres que corroem a Espanha: País Basco e Catalunha. Unamuno, basco e iracundo, tomou a palavra.

— Calar, às vezes, significa mentir — disse o reitor com voz firme – porque o silêncio pode ser interpretado como aquiescência. Eu não poderia sobreviver a um divórcio entre minha consciência e minha palavra, que sempre formaram um excelente par. Serei breve. A verdade é mais verdade quando se manifesta desnuda, livre de adornos e palavrório. Gostaria de comentar o discurso – para chamá-lo de alguma forma – do general Millán Astray, que se encontra entre nós.

Segundo o relato de Luis Portillo, em Vida y martírio de don Miguel de Unamuno, o general tornou-se rígido.

— Deixemos de lado – continuou Unamuno – o insulto pessoal que supõe a repentina explosão de ofensas contra bascos e catalães. Eu nasci em Bilbao, em meio aos bombardeios da segunda guerra carlista. Mais adiante, me casei com esta cidade de Salamanca, tão querida, mas sem esquecer jamais minha cidade natal. O bispo, queira ou não, é catalão, nascido em Barcelona.

Após uma pausa em meio ao silêncio tenso, continuou:

-Acabo de ouvir o grito necrófilo e sem sentido de Viva a Morte! Isto me soa o mesmo que Morra a Vida! E eu, que passei toda minha vida criando paradoxos que provocaram o enfado dos que não os compreenderam, tenho de dizer-lhes, como autoridade na matéria, que este ridículo paradoxo me parece repelente. Posto que foi proclamado em homenagem ao último orador, entendo que foi dirigida a ele, se bem que de uma forma excessiva e tortuosa, como testemunho de que ele mesmo é o símbolo da morte. E outra coisa! O general Millán Astray é um inválido. Não é preciso dizê-lo em tom mais baixo. É um inválido de guerra. Também o foi Cervantes. Mas os extremos não servem como norma. Desgraçadamente, há hoje em dia inválidos demais na Espanha e logo haverá mais, se Deus não nos ajuda. Um inválido que careça da grandeza espiritual de Cervantes, que era um homem – não um superhomem – viril e completo apesar de suas mutilações, um inválido, como disse, que careça dessa superioridade do espírito, costuma sentir-se aliviado vendo como aumenta o número de mutilados em torno a si. O general Millán Astray gostaria de criar uma Espanha nova – criação negativa, sem dúvida – segundo sua própria imagem. E por isso desejaria ver uma Espanha mutilada, como inconscientemente deu a entender.

Astray não consegue conter-se e grita:

— Morra a inteligência!

José María Pemán corrige:

— Não! Viva a inteligência! Morram os maus intelectuais!

Há um alvoroço no Paraninfo, professores togados cercam Unamuno, os camisas azuis se juntam em torno a Astray. Unamuno retoma a palavra:

— Este é o templo da inteligência. E eu sou seu sumo sacerdote. Vós estais profanando seu recinto sagrado. Eu sempre fui, diga o que diga o provérbio, um profeta em meu próprio país. Vencereis mas não convencereis. Vencereis porque tendes sobrada força bruta. Mas não convencereis, porque convencer significa persuadir. E para persuadir, necessitais algo que vos falta: razão e direito de luta. Me parece inútil pedir-vos que penseis na Espanha. Tenho dito...

A esposa do general Franco, rodeada por sua escolta, toma Unamuno pelo braço e o conduz até a porta da Universidade, onde o esperava um carro do Quartel General. Mas a narração soa melhor aos ouvidos do animal midiático mostrando Astray como franquista, afinal era general. Unamuno — basco, filósofo e reitor de uma universidade — só poderia ser anti-franquista. Para vender, os jornais transmitem ao leitor o que o leitor gosta de comprar. A mentira impressa passa então a fundamentar teses e tende a fixar-se como História. Mas os fatos são teimosos e, mais dia menos dia, mostram sua verdadeira face.


 

Como fabricar racismo

 

Se racismo não existe, urge fabricá-lo. Nos anos 90, os jornais publicavam, toda segunda ou terça-feira, o balanço de chacinas na África do Sul. A cada final de semana, tínhamos vinte ou trinta negros mortos. De tão rotineiras, as mortes já nem mereciam destaque. Uma pequena nota, em geral de nove linhas, em pé de página. Sem informação alguma sobre os autores do massacre. Muitas vezes, logo após a primeira frase, vinha outra: "o líder racista Eugene Terreblanche declarou que...". O leitor recebia trinta cadáveres de negros na cara, mais a notícia de que um líder branco, que teve o azar de ser batizado como Terreblanche, declarara qualquer coisa.

Para o leitor, ficava claro que os brancos, liderados por um certo Terreblanche, estavam massacrando os negros sul-africanos. Ocorre que as chacinas de negros eram cometidas por negros, em função de rivalidades tribais, açuladas pelo álcool nos fins-de-semana. Este detalhe era omitido ao leitor. Se na África do Sul são trucidados negros, os assassinos só podem ser os brancos. Brancos europeus e, portanto, racistas. Pois africano racista, por definição, não existe.

Um dos casos mais perturbadores de manipulação dos fatos ocorreu no verão europeu de 93, na Holanda. A reunião de pauta da Folha de S. Paulo foi excitada naquele dia. Uma menina marroquina, Naima Quaghmiri, nove anos, morrera ao cair em um lago em Roterdã. Duzentas pessoas teriam assistido seu afogamento, sem prestar-lhe socorro. O pauteiro brandia o telex com fúria. A idéia era produzir uma manchete como RACISTAS HOLANDESES DEIXAM MORRER FILHA DE IMIGRANTES.

A notícia era absurda. Duas centenas de pessoas não observam, passivamente, uma criança se afogando. O lago, uma espécie de açude, como mostrava a foto, era raso. No meio dele, havia um bombeiro com água pela cintura. Dois dias depois, novo despacho retificava o anterior. Não havia uma menina se afogando e duzentos holandeses assistindo. Naima se afogara horas antes. Policiais e bombeiros haviam pedido aos veranistas que formassem um semicírculo, de mãos dadas, e percorressem o lago em busca do cadáver. Os veranistas se recusaram.

Perguntei ao editor se a reportagem seria retificada. "Não precisa" — disse — “Amanhã ninguém mais lembra disso”. Mas jornalismo é o registro da história, é nos arquivos do passado que os pesquisadores do alegado amanhã buscam dados para seus ensaios, aleguei. "O que de fato acontece" — disse o editor — "só vamos saber meses depois. Jornalismo é assim mesmo".

Ao remexer os arquivos de jornais, os pesquisadores do futuro ficarão sabendo que a Holanda era um pequeno país europeu, habitado no século passado por cruéis racistas brancos, capazes de negar auxílio a uma criança marroquina que se afogava. Isto foi confirmado pela própria Folha. Em 94, um de seus redatores, em artigo sobre racismo, retoma o fato como verdadeiro.

O fantasma do neonazi — O jornalismo contemporâneo, para atingir o maior número de leitores, baliza o texto com fotos ou grafismos de modo a tornar o mais esquemática possível a mais complexa das realidades. Como a mente do leitor já vem alimentada por um imaginário do cinema e da TV, os ícones do século são preciosos sinais de tráfego para orientação da leitura. As reportagens assumem a estrutura romanesca e os personagens são apresentados de forma que o leitor perceba onde está o bem e o mal, quem é herói e quem é vilão, vítima ou algoz.

De uns tempos para cá, a mídia foi invadida pela figura do neonazi. Se um grupo de jovens, brancos e preferentemente europeus ou de origem européia, sai a fazer balbúrdias e agride imigrantes, negros ou árabes, está configurado o neonazismo. Podem até mesmo jamais ter ouvido falar de nazismo, Hitler ou Segunda Guerra. Mas são evidentes neonazis. Se o grupo de agressores é composto por negros, não são neonazis. Negro, por definição, não pode ser nazista.

Se não há agressão alguma, cria-se pelo menos atos criminosos por omissão. Foi o que aconteceu em Sebnitz, na Alemanha, em dezembro de 2000. O Estadão titulou com gosto:

MORTE DE CRIANÇA POR NEONAZISTAS ENVERGONHA ALEMANHA

Vamos à notícia:

Berlim — No dia seguinte à revelação do assassinato do garoto Joseph, de seis anos, do qual um grupo neonazista é o principal suspeito, surgiram vozes em toda a Alemanha pedindo justiça. Enquanto isso, no local do crime, o povoado de Sebnitz, na Saxônia, vivem-se momentos de vergonha após a cumplicidade silenciosa de seus habitantes. O jornal Bild denunciou a história de Joseph, filho de pai iraquiano e mãe alemã, que, perante a indiferença de 300 banhistas, foi espancado, torturado e afogado por um grupo de neonazistas em uma piscina pública. Na época, o caso foi encerrado como um acidente normal e, graças apenas à tenacidade da mãe da criança, a promotoria reabriu agora o caso. A história da morte do menino ocupou, hoje, a capa de todos os principais jornais do país e o Bild reproduziu, também na primeira página, uma fotografia do garoto morto, junto com a mãe.

Esta é a notícia. Mesmo fractal do episódio em Roterdã: filho de imigrante se afogando, uma multidão de banhistas assistindo. Se a notícia sai no ano 2000, é bom lembrar que o fato teria ocorrido em 1997. Detalhes novos: criança espancada, torturada e assassinada. Os banhistas, desta vez são trezentos. Este tipo de notícia tende a aumentar nos próximos anos. É fácil acusar uma multidão. Como ninguém é acusado individualmente, ninguém reclama. Mais difícil é acusar uma ou duas pessoas. Pode dar processo.

Vamos aos fatos, em tudo semelhantes ao episódio de Roterdã. No dia 13 de Junho de 1997, uma criança de 6 anos, Joseph Abdulla, morrera afogada numa piscina pública cheia de gente. Quando bombeiros e médicos chegaram, era tarde demais: o corpo boiava há dez minutos sem vida. A polícia fez um inquérito e concluiu que tudo foi um lamentável acidente. O caso foi arquivado e esquecido. Ocorre que a mãe, a farmacêutica Renate Kantelberg-Abdulla, se convenceu de que Joseph fora morto por neonazis por ser filho de um iraquiano. Os assassinos tê-lo-iam previamente drogado e depois lançado à água. Para comprovar esta tese, foi contratado um dos advogados mais conhecido da Alemanha, Rolf Bossi. Renate conseguiu também o testemunho de 23 pessoas, adultos e crianças, cujas versões levavam a pensar que poderia não se ter tratado de um acidente. O Bild do dia 23 de novembro recoseu a matéria com o título Neonazis afogam criança. Sebnitz passou para a primeira página da imprensa internacional e foi invadida pela televisão. A família teve de fugir para a Baviera e trancou-se em casa de familiares. Kurt Biedenkopf, o ministro presidente da Saxónia, foi a Sebnitz participar numa cerimônia religiosa em memória da «vítima». Edmund Stoiber; ministro presidente da Baviera, se disse horrorizados. «Não apetece viver num país onde uma criança de seis anos é assassinada por criminosos, por causa de motivos políticos, e onde ninguém mexe um dedo para impedir o crime», escreveu o jornal Tagesspiegel, de Berlim.

Soube-se depois que Renate dera dinheiro às 23 testemunhas para influenciar as suas versões. Uma das crianças interrogadas confessou ter dito “aquilo que a senhora queria ouvir, para ela me deixar voltar para casa». Tampouco foram confirmadas as ligações com grupos neonazis. O próprio Bossi, advogado de Renate, escrevera uma carta à sua cliente, duvidando da tese de uma conspiração racista e dizendo-lhe que ela «insistia em travar uma luta contra o resto do mundo».

O desmentido no Estadão veio alguns dias depois:

NEONAZISMO É DESCARTADO EM MORTE DE MENINO

Berlim — Autoridades da província alemã da Saxônia descartaram nesta quarta-feira a hipótese de um garoto de seis anos de idade, encontrado morto em uma piscina, em 1997, ter sido vítima de violência neonazista. (...) O chefe de gabinete civil da Saxônia informava nesta quarta-feira sobre a inexistência de evidências convincentes de que neonazistas foram responsáveis pela morte do garoto. (...)Promotores informaram ontem que nenhuma das testemunhas viu realmente como Joseph morreu. A principal testemunha tinha apenas 12 anos quando ocorreu o incidente, em junho de 1997.

Ou seja: não havia criança alguma sendo morta por neonazistas, nem a Alemanha tinha porque se envergonhar de coisa alguma. Enquanto isso, Sebnitz, mais a Alemanha toda — e por extensão a Europa — foram difamadas, como geografias onde grupos neonazistas afogam filhos de imigrantes, como lazer.

Imprensa importa neonazis — Se há neonazistas na Europa, tem de existir também no Brasil. Assim, quando ocorre qualquer incidente nalgum país europeu, preferentemente em países germânicos ou nórdicos, os editores saem a catar nos arquivos grupos equivalentes no Brasil. Basta achar um careca, branco e preferentemente parrudo, vestido com couro e correntes, e lá está a ameaça nazista.

Ocorreu na década dos 90. Locais de reunião de nordestinos em São Paulo foram pichados com frases agressivas, tipo "nordestinos go home" e outras que tais. A polícia conseguiu identificar o líder dos pichadores: era um baixinho retaco, por sorte branco, halterofilista. E careca, para alegria dos editores. Estava configurado o neonazista tupiniquim. Nós também temos neonazis. O inimigo está entre nós. Durante alguns dias, foi feita a farra do neonazi. Que durou até sua volta... para o Ceará. O neonazi era nordestino. Para não atrapalhar o delicado trabalho feito durante décadas no cérebro do leitor, o personagem foi expulso das manchetes. E não mais se falou naquele paradoxo ambulante, que só servia para confundir as mentes. Mas era preciso criar neonazistas. A tarefa foi assumida por um militante da Anistia Internacional. No dia 06 de setembro de 2000, a Folha de S. Paulo mancheteava:

ANISTIA SOFRE NOVO ATENTADO A BOMBA EM SP

Uma bomba de fabricação caseira foi entregue pelo correio na casa de um funcionário da Anistia Internacional em São Paulo. O alvo era o apartamento do professor de educação física José Eduardo Bernardes da Silva, 40, militante da entidade e que vinha recebendo ameaças pelo telefone. É o segundo atentado em menos de um ano contra a Anistia no Estado, que fechou sua sede na capital, em março passado, em razão de sucessivos incidentes com grupos neonazistas.

Neonazis atentam contra um funcionário da Anistia. Se em países desenvolvidos há neonazistas, o Brasil tem de ter os seus. Se não existe, se fabrica. Ainda segundo a Folha, Bernardes da Silva, professor de educação física com mais de 130 quilos de massa, é o mesmo funcionário que encontrara, em setembro de 99, uma bomba de fabricação caseira no escritório da Anistia em São Paulo. Na época, a entidade recebera uma carta com a foto de um travesti nu com a mensagem: Vocês defendem homossexuais e negros, nós os matamos. Vocês são nossos inimigos. Morte a vocês.

O jornal registra depoimento do rabino Henry Sobel: "A covardia demonstrada pelo remetente que se manteve anônimo, e se escondeu indicando um endereço fictício, é tão deplorável quanto o ódio e o preconceito que motivaram o ato".

No dia seguinte, lemos que a Justiça Global Ação e Capacitação em Direitos Humanos irá levar o caso das ameaças à ONU. Em Londres, a Anistia Internacional anuncia que há quase um ano a polícia de São Paulo sabe das ameaças contra Bernardes da Silva, mas não resolveram o problema.

Uma outra carta de ameaça foi entregue no escritório da Anistia em Porto Alegre, onde Silva refugiou-se, depois de ser ameaçado em São Paulo. Poucas pessoas sabiam de sua transferência, uma tentativa de escapar da perseguição dos neonazistas. Vemos então que os neonazistas têm uma organização de âmbito nacional, muito bem informada, que persegue suas vítimas onde quer que elas se escondam.

Ainda no dia 07, os neonazis continuam agindo. Diz a Folha:

GRUPO GAY RECEBE PACOTE-BOMBA EM SP

O artefato, similar ao enviado dois dias antes à Anistia, poderia matar; diz o jornal. Bernardes da Silva, que diz ter escapado de três emboscadas nos últimos doze meses, descreve os agressores: bem arianos, pele e olhos claros, andam em carros bons e têm conhecimento de tecnologia.

Fazem as ameaças por telefone e desligam antes de o número de origem ser rastreado. O grupo que faz ameaças por telefone também fala inglês, alemão e francês, além do português. Eles afirmam que têm ligações internacionais muito fortes e que, aqui no Brasil, têm gente muito poderosa que os patrocina, afirmou Silva.

Os neonazistas são poliglotas e falam línguas européias. Sob o título "Ameaças Covardes", a Folha faz incisivo editorial contra o perigo neonazista:

Não poderia ser mais trágica a aplicação da tese das idéias fora de lugar a que tem sido levada a termo por autoproclamados grupos neonazistas na cidade de São Paulo. Anteontem, José Eduardo Bernardes da Silva, da Anistia Internacional, recebeu em sua casa uma carta-bomba, que só não lhe causou danos porque, calejado por outras ameaças inclusive de mesmo porte, Silva teve o cuidado de não destampar o pacote e de chamar a polícia.

O professor de educação física manifesta medo: Eu ando nas ruas olhando para os lados, não faço o mesmo caminho para chegar em casa, evito freqüentar os mesmos lugares e sair com minha família. O medo me faz ser mais cauteloso.

Dia 09 de setembro, o atentado assume proporções internacionais:

ANISTIA FAZ CAMPANHA MUNDIAL CONTRA ATENTADOS DE SKINHEADS EM SÃO PAULO

A Anistia Internacional deu início ontem a uma campanha mundial contra os atentados de grupos que se autodenominam skinheads em São Paulo. Um comunicado do secretariado da entidade, em Londres, foi enviado às sedes nacionais da Anistia, espalhadas pelo mundo, onde as mensagens serão traduzidas e redistribuídas.

Dia 10, a Folha faz uma sinopse sobre

A ESCALADA DO RACISMO

Ainda no mesmo dia:

PARA O MINISTÉRIO PÚBLICO DE SÃO PAULO, CRIMES DE GRUPOS NEONAZISTAS ERAM TRATADOS DE FORMA BUROCRÁTICA

O cientista político Paulo Sérgio Pinheiro, da USP, é taxativo: as duas bombas deveriam ser interpretadas como atentados à democracia. A Alemanha só conseguiu desbaratar os grupos neonazistas nos últimos dez anos quando começou a ter uma coordenação nacional. Enquanto cada Estado agia por conta, foi um fracasso.

Dia 15, a aposta aumenta:

ENTIDADES VÃO À ONU CONTRA ATENTADOS

Nove entidades de defesa dos direitos humanos e de minorias encaminharam ontem um documento a Asma Jahangir, relatora especial da ONU (Organização das Nações Unidas), pedindo que a entidade pressione o governo brasileiro a esclarecer os atentados a bomba em São Paulo.

Para fugir aos atentados neonazis, o professor Bernardes da Silva refugiou-se na Espanha. Desde então, os movimentos negros ou gays não receberam mais bombas. Fevereiro de 2001: a caligrafia de Bernardes da Silva bate com a dos bilhetes enviados para entidades de direitos humanos na primeira semana de setembro. O professor, funcionário da Anistia, é indiciado pelos atentados ocorridos no ano passado. E desaparece, providencialmente, do noticiário.

A affaire austríaca — O mesmo ocorreu no início de 1999 com a Áustria, quando o Partido da Liberdade, liderado por Jörg Haider, fez uma coalizão para participar do governo. O país foi denunciado no mundo todo como nazista. Quatorze dirigentes da União Européia acusaram Haider de direitista e xenófobo e ameaçaram cortar relações com a Áustria. Mais tarde, os dirigentes europeus tiveram de pedir desculpas aos austríacos. (A imprensa, imune a críticas, não pediu desculpa alguma). Mas o país já estava universalmente conhecido como semental de nazistas.

Outros fatos, bem mais óbvios e mais persistentes no tempo, são tratados com extrema reserva pelos jornais. De 1954 a 1962, os franceses desfecharam uma cruenta luta contra a Argélia, que tentava separar-se da França. Só em um episódio desta guerra, a batalha de Argel, foram executados nas prisões 3.024 fellaghas, os combatentes argelinos. Quase a mesma cifra de chilenos mortos durante todo o regime de Pinochet.

Quem era o ministro do Interior nessa época? François Mitterrand, em 54 e 55. Que depois foi ministro da Justiça, em 56 e 57. Tortura foi moeda corrente naqueles dias em que, segundo De Gaulle, a França ia de Paris a Tamanrasset. Tudo isto sob a batuta de Mitterrand. Quando perguntava a algum jornalista francês o que ele achava de ver como presidente o homem que havia sido conivente com a tortura — e mesmo responsável — eu recebia de volta um olhar de perplexidade. O mesmo que meus coleguinhas tupiniquins me dirigem quando digo que não existem ianomâmis no Brasil. Estaria por acaso acusando de torturador o prestigioso líder social democrata?

Quarenta anos depois, a tortura na Argélia está voltando aos debates parisienses. Dois generais, Massu e Aussaresses, resolveram confessar seus assassinatos e torturas. No que pouco há de novo. Nos anos 70, Massu admitira tranqüilamente ter torturado e assassinado na Argélia. Os mesmos jornalistas que não hesitam um segundo em acusar de neonazistas países inteiros, tratam o assunto com discrição. Não espere o leitor ver manchetes como Mitterrand torturou na Argélia. O fato é que homem algum bem informado sobre a história contemporânea da França podia ignorar a responsabilidade do futuro presidente francês nas matanças e torturas dos fellaghas. Muito menos comunicadores. Mas Mitterrand era o líder das esquerdas.

Jogar Mitterrand na mesma vala comum de um Pinochet ou Fidel Castro? Depois de anos e anos construindo o monumento? Jamais. Mais fácil fabricar racismo acusando multidões e países de neonazistas.

Frieza francesa – Em 02/06/2001, a Folha de S. Paulo trazia uma curiosa manchete: Garota é estuprada em vagão de trem cheio na França. O texto é da Redação com Agências Internacionais. Estima-se que cerca de 60 pessoas tenham testemunhado passivamente o ataque de seis adolescentes, segundo investigações – diz a linha fina. Vamos à notícia:

“Uma universitária de 21 anos foi estuprada duas vezes num trem em que, supostamente, viajam cerca de 200 pessoas, que iam de Dunquerque a Lille (norte da França), mas nenhum dos passageiros tentou defendê-la, episódio que gerou indignação no país.

“Em 24 de maio, a estudante voltava a Lille após ter passado um dia na casa de seus pais, em Dunquerque, pois tinha aula na manhã seguinte. Na primeira parte da viagem, tudo transcorreu sem problemas. Mas, quando o trem parou em Bailleul, seis adolescentes entraram em seu vagão. Eles começaram a importunar os passageiros e, em seguida, a escolheram como vítima. Os seis começaram a ofendê-la e a tocá-la. Sem poder defender-se, ela tentou gritar, mas não conseguiu. Os adolescentes, todos entre 14 e 17 anos, conseguiram tirar suas roupas. Enquanto alguns dos jovens a seguravam, dois deles a estupraram.

“Seu calvário durou mais de meia hora e só acabou quando o trem chegou à estação ferroviária de Lille. Segundo a empresa responsável pelo trajeto, cerca de 200 pessoas deviam estar a bordo do trem, que tem apenas três vagões, mas ninguém reagiu — nem mesmo para acionar o alarme. Quando o trem chegou a Lille, os agressores fugiram. A universitária conseguiu ir até sua casa e ligou para seus pais. Eles a aconselharam a voltar para Dunquerque, onde, no dia seguinte, ela prestou queixa e foi hospitalizada.

“Os policiais de Dunquerque acionaram seus colegas de Lille. Após alguns dias de investigação, os policiais de Lille detiveram seis suspeitos, que moram na periferia da cidade. Quatro deles foram entregues ao Juizado de Menores de Lille anteontem, e os outros dois foram libertados. Uma investigação foi aberta para descobrir o que ocorreu no trem, e dois dos adolescentes foram acusados pelo estupro”.

Assim como foi redigida a notícia, resta ao leitor a impressão de que os franceses são seres absolutamente insensíveis ao sofrimento alheio, capazes de continuar lendo seu jornal enquanto uma menina é estuprada à sua frente. Ora, a maioria dos trens europeus têm cabinas isoladas para seis pessoas, com portas e cortinas que podem ser fechadas. À noite, quando teria ocorrido o episódio, normalmente as portas são fechadas e as cortinas corridas pelos passageiros, que não querem ter o sono perturbado pela luz do corredor ou pela passagem de pessoas. Um outro fator, um tanto mesquinho, é verdade, também contribui para o cerramento das cortinas. Se um casal, por exemplo, está sozinho na cabina, pode transformar os seis assentos em duas camas. Se fecham as cortinas, têm boas chances de não serem perturbados por novos passageiros, que lhes roubariam o relativo conforto. Ora, nestas circunstâncias, até um massacre pode ocorrer em uma dessas cabinas fechadas, sem que nenhum passageiro tenha conhecimento do mesmo.

A notícia não teve seguimento. Nada mais se soube dos suspeitos ou do julgamento destes. Muito menos da investigação. Foi como se o fato se esgotasse na notícia. Mas nos milhares de leitores que leram a Folha naquele dia, ficou a convicção de que os franceses são monstros frios e insensíveis.

A farsa de Marie — Dia 10 de julho de 2004, a máquina de produzir racismo voltou a funcionar. Uma jovem de 23 anos, Marie L., que viajava com seu bebê de 13 meses no metrô de Paris, apresentou queixa à polícia de ter sido agredida por um grupo de jovens desconhecidos com idades entre 15 e 20 anos. Os agressores seriam negros e africanos do norte. Rasgaram sua roupa, cortaram seus cabelos, atiraram seu bebê no chão e pintaram suásticas em sua barriga por acreditar que ela fosse judia. Ainda segundo Marie, cerca de vinte pessoas assistiram à agressão passivamente, sem sequer prestar-lhe auxílio.

Escândalo na França, horror na Europa. Os jornais do continente deram suas primeiras páginas ao fato abominável. Jacques Chirac manifestou seu susto ao tomar conhecimento "desta odiosa agressão" e pediu que seus autores fossem "julgados e condenados com severidade e responsabilidade". Organizações religiosas e de direitos humanos condenaram com veemência não tanto a agressão dos árabes e negros, mas principalmente a omissão e passividade dos demais passageiros. Um clima de progrom perpassou a Europa. Neste domingo passado, o primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon, exortou os judeus da França a viajar imediatamente a Israel. "Proponho a todos os judeus que venham a Israel, mas para os judeus da França é absolutamente necessário, e eles devem partir imediatamente", disse Sharon. Como se a França tivesse declarado guerra a Israel.

Por 48 horas, o país foi tido como uma reencarnação da Alemanha nazista. Logo se descobriu que a denunciante era uma moça com problemas mentais, que já apresentara queixas semelhantes no passado. Um exame das imagens das câmeras de segurança da estação de metrô não mostraram agressão alguma. Eventuais testemunhas foram chamadas a depor e nenhuma se apresentou. Diante das evidências, a moça acabou “quebrando” e admitiu a farsa.

Jornal algum, nem mesmo o sisudo Le Monde, teve a preocupação de checar a notícia, que tinha todos os componentes para ser um blefe. E blefe dos mais perigosos, pois joga com ressentimentos de duas comunidades que nutrem ódios milenares. A prefeitura de Lyon chegou a programar uma passeata contra o anti-semitismo, cancelada após a confissão de Marie L. Os muçulmanos, por sua vez, tiraram sua casquinha, denunciando uma "islamofobia reinante, acentuada pelos meios de comunicação e as autoridades, que se lançaram a denunciar os fatos sem esperar para verificá-los".

É fácil acusar uma multidão. Os fabricantes de racismo desde há muito intuíram isto. Como ninguém é acusado individualmente, ninguém reclama. Mais difícil é acusar uma ou duas pessoas. O acusado se vê forçado a defender-se e o acusador arrisca um processo. Como a luta de classes está fora de moda, o racismo tornou-se o novo motor da história. Multidões serão novamente denunciadas por crimes que não foram cometidos nem podem ser provados. Mesmo desmentidos, comunidades e países inteiros herdarão a pecha de racistas. O alvo é a Europa. Como o fantasma do comunismo não conseguiu dobrá-la, como previa Marx já no Manifesto, suas viúvas brandem um outro, o da luta racial.


 

Armadilha para negros*

 

Ainda há pouco, os movimentos negros brasileiros reivindicavam a eliminação do item cor nos documentos de identidade. Com a malsinada lei de cotas que hoje assola o ensino superior, os negros insistem em declarar a cor na inscrição no vestibular. Estes mesmos movimentos negros sempre consideraram que qualquer critério supostamente científico para determinar a cor de alguém é racista. Quem então é negro para efeitos legais? No caso da lei estadual no Rio e do projeto de lei federal, o critério é o da auto-declaração. Pardo ou negro é quem se considera pardo ou negro, mesmo que branco seja. Ora, neste país em que impera a chamada lei de Gérson, não poucos brancos se declararam negros no último vestibular da UERJ, a primeira universidade pública brasileira a estabelecer o sistema de cotas. Grita dos líderes negros: vamos determinar cientificamente quem é branco e quem é negro e processar os brancos que se declaram negros. Ou seja, as palavras de ordem da afrodescendentada são mais cambiantes que as nuvens. Mas mudam num só sentido, na direção de obter vantagens para os negros, não só dispensando méritos como também passando por cima dos eventuais méritos de quem se declara branco.

O atual presidente da República está longe de ser o primeiro apedeuta a assumir o poder neste país. Câmara e Senado estão repletos de analfabetos jurídicos, que nada entendem da confecção de leis nem sabem sequer distinguir lei maior de lei menor. Embalados por palavras de ordem estúpidas, em geral oriundas dos Estados Unidos, criam leis irresponsáveis, com a tranqüilidade de quem não precisa prestar contas a ninguém. É o caso da lei de cotas. Só agora, após o vestibular da UERJ e de uma enxurrada de ações judiciais, argutos analistas descobriram que a famigerada lei fere o artigo 5º da Constituição: "todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza."

Não bastasse esta tremenda mancada jurídica, que daqui para frente só servirá para entupir ainda mais os já entupidos tribunais — gerando grandes lucros aos advogados, os reais beneficiados pela lei de cotas — o presidente da República, mal assumiu o poder, sancionou lei que obriga a inclusão da temática História e Cultura Afro-brasileira no currículo oficial da rede de ensino Fundamental e Médio. As aulas abordarão desde a história da África e dos africanos até a luta dos negros no Brasil. A medida é de um racismo evidente. E por que não a História de Portugal e a luta dos portugueses no Brasil? Ou a história da Itália e as lutas dos italianos? Ou a história do Japão e a luta dos japoneses? O Brasil é um cadinho de culturas e a contribuição africana a seu desenvolvimento está longe de ser a única ou a mais importante. O estudo da história afro-brasileira tem no entanto suas complicações.

Para os próceres do movimento negro, não basta historiar a cultura afro-brasileira. É preciso embelezá-la. É o que se deduz da proibição do livro Banzo, Tronco e Senzala,