Os Negreiros da Jamaica
Mayne Reid (1818-1883)
Tradução revista por Monteiro Lobato
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© 2003 — Mayne Reid
O Autor
Os Negreiros da Jamaica
Índice do Livro
Nota de Copyright
Mayne Reid nasceu em Abril de 1818, em Ballyroney, Irlanda, filho do ministro presbiteriano Reverendo Thomas Mayne Reid, que o educou para seguir seus passos. Mas Mayne se distingüia em matemática e atletismo... não em teologia, que simplesmente detestava.
Aos vinte anos, preferiu a liberdade. Em 1838, vamos encontrá-lo no México, de onde foi para New Orleans, embrenhando-se nas matas por alguns anos, vivendo com os índios. Excursionou pelo Red River, explorou o Missouri e as pradarias. Visitou todos os estados americanos. Ganhou seu pão como balconista, condutor de escravos, tutor escolar, até como artista mambembe. Em 1843, escreveu poesias para o Pittsburgh Chronicle, sob o pseudônimo de “The Poor Scholar”. Por uns tempos, estabeleceu-se na Filadélfia escrevendo para o “Godey’s Magazine” e escreveu uma tragédia entitulada “Loves Martyr”
Ficou amigo de Edgar A. Pöe, com quem freqüentemente jantava.
Em 1846, tornou-se correspondente do “The New York Herald”. Quando iniciou-se a guerra contra o México, Mayne Reid uniu-se ao exército americano, tendo participado da captura de Vera Cruz.
Quando a guerra terminou, em 1849, voltou à Inglaterra e à literatura, escrevendo “The Rifle Ranger” e “The Scalp Hunters”, provavelmente seu livro mais popular, traduzido em muitos idiomas, com milhões de cópias vendidas. Escreveu também para jornais dirigidos a jovens.
Em 1853, o Capitão Mayne Reid casou-se com Miss Elizabeth Hye “Zoe”, filha única de George William Hyde. Elizabeth, muito jovem, muito bela, freqüentemente era tida por sua filha. Ele mesmo a chamava de “Child Bride”. Mayne conheceu-a com 13 anos e desposou-a dois anos depois. Era vinte anos mais velho que ela.
Em 1867, Mayne voltou aos Estados Unidos e em Nova York escreveu “Child Wife”, dedicado a Elizabeth.
Em 1870 foi internado no St. Luke’s Hospital com infecção em uma perna em que fora ferido durante a guerra. Os médicos temeram por sua vida.
Voltou à Inglaterra em 1880, onde viveu os dois anos finais de sua vida em Ross, Hertfordshire.
O governo norte-americano concedeu-lhe uma pequena pensão em 1882 pelos seus serviços na Guerra Contra o México, aumentando-a um pouco antes de sua morte em 1883, aos 65 anos.
Sua viúva, Elizabeth Mayne Reid, dedicou-lhe um livro (“Memoir” — London, Ward & Downey, 1890; revisado e republicado em 1900 sob o título de “Captain Mayne Reid: His Life and Adventures” — London: Greening & Co., Ltd., 1900)
Nos Estados Unidos, influenciou as jovens mentes de Theodore Roosevelt, como este revela em sua Autobiografia. Arthur Conan Doyle leu-o quando jovem. Robert Louis Stevenson também reconheceu seu valor.
No Brasil, foi lido, entre outros, por Monteiro Lobato, que o editou pela Cia. Editora Nacional, por ele fundada.
Mayne Reid (1818-1883)
“The Jamaica Planters”
Tradução Revista por Monteiro Lobato
Numa formosíssima manhã de maio, o toque duma sineta anunciou o almoço aos
proprietários da fazenda de açúcar de Mount-Welcome, uma das mais belas
lavouras da Jamaica.
Situada
a duas milhas de Mantego-Bay, a mais importante cidade e o mais freqüentado
porto da parte ocidental da ilha, no meio dum vale espaçoso, ladeado de duas
montanhas cobertas de vegetação, a residência dos donos de Mount-Welcome tinha
um alegre aspecto, com os seus dois andares guarnecidos de venezianas verdes,
que amorteciam o brilho da luz exterior.
Eram
quase nove horas.
Cerca
de meia dúzia de escravos serviam em bandejas a refeição matutina no aposento
principal da casa, o qual, segundo o costume da ilha, era ao mesmo tempo sala
de visitas e sala de jantar.
Os
candelabros, os sofás, os pesados móveis de jacarandá ostentavam-se
conjuntamente com os étagères guarnecidos de baixela de prata e
cristais.
Assim
que as últimas vibrações da sineta se extinguiram, uma das pessoas para quem
aquilo significava sinal de chamada entrou na sala. Era um homem de cinqüenta
anos, de rosto queimado, ombros largos e fisionomia imperiosa. Vestia um trajo
folgado de nanquim, e pendia-lhe do bolso uma pesada corrente de ouro, da qual
estavam suspensos muitos berloques, sinetes e um molho de chaves.
Adiantou-se,
deitando em roda um olhar indagador, esse olhar que procura os defeitos do
serviço e a que La Fontaine chamou tão acertadamente “olhar do dono”.
Este
indivíduo chamava-se Loftus Vaughan, proprietário de Mount-Welcome e custos
rotulorum[1] do distrito.
Depois
de se dirigir a uma das janelas e relancear um olhar pela plantação, foi
sentar-se à mesa.
No momento em que se sentava à mesa, uma menina, fresca como rosa de maio,
apareceu na extremidade da sala. Os seus sapatinhos de cetim, que a orla da
saia de casimira branca deixava entrever, apareciam alternadamente, lembrando
dois ratinhos, quando ela caminhava ou antes deslizava sobre o brilhante
assoalho da casa.
Rodeava
o pescoço da formosa e delicada criatura um colar de âmbar. O cálice magnífico
duma flor vermelha dos trópicos expandia-se nas tranças dos seus formosos
cabelos castanhos.
Só
olhos experientes, familiarizados com os caracteres físicos das diversas raças
humanas, poderiam perceber que aquela formosa moça não era do mais puro sangue
caucásico. A ligeira ondulação dos cabelos, o oval do rosto, o estranho colorido
das faces denunciavam nela o cruzamento de duas raças.
Era
a filha única de Loftus Vaughan e compunha toda a sua família, porque o custos
era viúvo.
A
jovem parou diante do pai, que se sentara, e dirigiu-lhe, acompanhado dum
abraço, o cumprimento matutino.
Após
esta carícia, sentou-se e fez as honras da mesa, ao mesmo tempo que uma
escrava, destinada unicamente ao seu serviço, se conservava em pé atrás da
cadeira.
Era
frisante o contraste que formavam a ama e a escrava. Tinha esta as formas
esbeltas das estátuas antigas, ou melhor dizendo, das mulheres hindus, que os
ingleses chamam ayahs e tanto diferem do tipo negro. Também não se
aproximava, pela carnação, dos vários tipos de mulatas. A sua cor era um misto
das cores negras e vermelha, mas na qual principalmente se notava o tom moreno
próprio do jacarandá, o que, junto à frescura natural do rosto, produzia um
efeito agradável, embora estranho.
Tinha
lábios delgados, perfil oval, nariz aquilino, e reunia o tipo árabe ao tipo
egípcio.
O
cabelo, dum preto escuro, não era crespo como o dos negros, mas corredio.
Apesar de nunca lhe ter tocado a tesoura, desciam até aos ombros, e a jovem
trazia-os soltos, o que lhe aumentava o ar menineiro.
Envolvia-lhe
o corpo elegante um vestido sem mangas; ornava-lhe o alto da cabeça uma espécie
de touca formada com um lenço de cores; e fosse por estar unicamente ao serviço
da sua jovem ama, ou por sossegadamente esperar naquele momento uma ordem, os
olhos vivos de expressão altiva, a nacarada alvura dos dentes, as justas
proporções do corpo faziam dela uma escrava pouco vulgar. Chamava-se Yola.
A
mesa estava colocada perto da janela, cujas tabuinhas tinham sido levantadas
para que o ar fresco da manhã pudesse penetrar. Deste modo os convivas gozavam
a encantadora paisagem que se lhes desenrolava aos pés: a extensa avenida de
tamarindos, a linha prateada do rio Montego, e mais ao longe os telhados da
cidade, os mastros dos navios ancorados no porto e o próprio porto dominado
pelo azul Caribe.
E
era com efeito um panorama encantador, que recreava os olhos, deleitava o
espírito e como que enlevava a alma, despertando-lhe serenas aspirações.
Quando finalmente Mr Vaughan, até então ocupado em saborear os manjares que tinha
diante de si, se lembrou de levantar os olhos, foi para os fixar na multidão
dos seus negros que trabalhavam nos campos de açúcar, a fim de verificar se os
feitores os vigiavam como deviam.
Era
a hora em que um escravo devia voltar de Montego-Bay com a correspondência. Os
olhos de Miss Vaughan dirigiram-se muitas vezes para a estrada e lia-se neles o
interesse que as jovens de todos os países mostram pela chegada do correio, o
qual lhes pode trazer um pequeno envelope contendo duas folhas de papel
escritas de todos os lados e em todos os sentidos, folhas que, quando não
signifiquem uma lembrança querida, são pelo menos mensageiras de sempre
desejadas notícias.
Finalmente
um pretinho, montado num pônei de pêlo eriçado, apareceu a todo o galope na
alameda e veio parar diante da residência. Era Quashie, o rapaz do correio em
Mount-Welcome.
Miss
Vaughan passou por um desengano. O saco da correspondência só trazia duas
cartas e um jornal, os três objetos com a marca do correio inglês e dirigidos
para o custos.
A
letra dum dos envelopes foi logo reconhecida por Mr Vaughan, porque lhe assomou
ao rosto um sorriso de satisfação quando quebrava o sinete.
Depois
de ler a carta pôs-se a medir a sala a passos largos com um ar radiante, e
dando ao mesmo tempo estalos com os dedos, soltou algumas exclamações que
surpreenderam a jovem, porque em razão da índole do pai, sempre grave e muitas
vezes rude, aquela manifestação de extraordinária alegria era um fato fora do
comum.
— Boas notícias, meu pai? interrogou a donzela.
— Sim, muito boas, minha pequena curiosa.
— E pode dizer-me que notícias são?
— Sim... não!... não por ora, respondeu o custos hesitando. E acrescentou
alegre: — Eu sabia muito bem que ele havia de vir!
— Espera alguém, meu pai?
— Sim, Catarina; adivinha quem possa ser!
— Como quer que adivinhe, se não conheço os seus amigos ingleses? Será esse
senhor Smythje de quem fala tantas vezes? Smythje! Que nome tão engraçado! Por
coisa alguma no mundo eu quereria chamar-me Smythje...
— Mais devagar, Catarina; Smythje soa bem ao ouvido, principalmente precedido de
Montagu. Mr Smythje há de vir a possuir, mais tarde ou mais cedo, o castelo
deste nome.
— E quem meu pai espera é esse senhor?
— Sim, minha filha; participa-me que virá pelo navio Ninfa do Oceano, que
devia fazer-se de vela uma semana depois de partir esta carta. Há de portanto
aqui aparecer dum momento para outro. É preciso preparar tudo. Montagu-Castle
está em reparos; Smythje será, portanto, nosso hóspede. Catarina, faze toda a
diligência para recebermos perfeitamente este estrangeiro que é um cavalheiro
excelente, e, demais, muito rico. O meu interesse exige que sejamos amigos. Eu
te explicarei isto depois.
— Meu querido pai, hei de tratar de lhe obedecer o melhor que puder, mas
esqueceu-se de que está aqui outra carta.
— De quem demônio será? perguntou o custos. Não conheço a letra...
Se
o conteúdo da primeira carta teve por efeito alegrar o fazendeiro, a leitura da
segunda produziu efeito completamente diverso: a fronte de Loftus Vaughan
contraiu-se e tornou-se sombria.
— Que o demônio o leve! exclamou amarrotando a carta; meu irmão nasceu para ser,
morto ou vivo, a minha desgraça! Vivo, perseguia-me com pedidos; morto, lega-me
o filho, que há de prestar tanto como o pai, imagino...
— Querido pai, disse Catarina que não compreendera as últimas palavras do
plantador, mais resmungadas do que pronunciadas; essa carta traz-lhe algum
desgosto?
— Vê tu mesma.
Catarina
pegou na carta meio rasgada e percorreu-a com os olhos. Era breve.
“Londres, 6 de setembro de 18...
Meu querido tio.
Tenho a anunciar-lhe uma triste notícia: seu irmão e meu querido pai já não existe. Cumpro o seu último desejo, indo para junto de meu tio. Tomei passagem para a Jamaica no navio a Ninfa do Oceano. Tive de me resignar a ser do número dos passageiros de proa, porque não tenho dinheiro, e meu pai nada me deixou. Embarco, porém, cheio de confiança nos seus sentimentos de benevolência para comigo, e todos os meus desejos cifrar-se-ão em ser grato ao seu excelente acolhimento, do qual não me resta a mais pequena dúvida.
Seu respeitoso e afeiçoado sobrinho
Herberto Vaughan.
— Pobre rapaz! disse Catarina; está, portanto, sem recursos, enquanto que nós
somos tão ricos! Faz muito bem em vir! Podemos ajudá-lo, meu pai, e consolá-lo.
— Não sabes o que dizes! exclamou Mr Vaughan em tom colérico. Como podes ter dó
dum indivíduo que não se envergonha de vir de segunda classe? Que há de pensar
Smythje, que vem exatamente no mesmo navio, quando souber que esse rapaz é meu
sobrinho? O demônio leve essa gente sem-cerimônia que se mete na casa duma
pessoa, a comer e a beber, sob pretexto de que são parentes! Oh! é preciso que
Smythje não veja aqui esse “pobre rapaz”, como tu lhe chamas. É pobre, sim, mas
não da maneira que tu entendes, Catarina. É pobre porque é preguiçoso, inábil
como seu pai, e borrador de quadros, para que lhe chamem artista! Artista!...
De que serve isso de ser artista?
Catarina,
impressionada e perturbada com esta rude saída do pai, absteve-se de lhe
responder. Era porém fácil de ver que a censura paterna em nada alterara a sua
súbita simpatia pelo primo, o pobre órfão a quem não conhecia.
O sol ardente das Índias Ocidentais descia para o mar, como se pretendesse
banhar-se nas águas azuladas, quando um navio, que dera volta à ponta de terra
chamada Pedro, aproou para leste, em direção a Montego-Bay.
Era
um barco, que teria, a calcular pelas aparências, a lotação de trezentas ou
quatrocentas toneladas. Corria a todo o pano, impelido por um vento moderado. O
aspecto de muito uso que se lhe notava nas velas, a cor meio apagada do casco
eram outros tantos sinais que denunciavam uma viagem de longo curso.
Além da bandeira que flutuava no topo grande, pendia outra até ao tombadilho,
representando um campo azul matizado de estrelas e listrado de riscas vermelhas
e brancas. Bandeira dum país livre. Apesar disso, aquele navio trazia uma
carregação de escravos. Era um negreiro.
Depois de entrar na baía, virou repentinamente de bordo e aproou para o sul, na
direção dum ponto deserto da costa.
A uma milha da terra carregou as velas, e o sonoro ranger da corrente através do
anel de ferro dos escovéns indicou que fundeava.
Antes
de principiar a negociar a mercadoria viva, era preciso prepará-la para a
apresentar aos fregueses. Segundo a fraseologia do negreiro, o carregamento do
navio subia a duzentas cabeças d’alcatrão.
Era
um carregamento sortido de mercadorias colhidas em diversos pontos da costa
africana. Ao lado do inteligente mandinga de pele trigueira, via-se o jalofo
cor de ébano; o fero toramano acotovelava o submisso paupar; o
jovem ebo, de cara de macaco, via-se algemado pelos pulsos com o canibal
moco, ou com o indígena do Bango.
Os
pobres escravos espreitavam com terror aquela costa desconhecida que tomavam
pelo tão temido Cumi, país dos canibais.
Depois
de refletirem um pouco tinham-se tranqüilizado a respeito das intenções dos tobu-dou — os tiranos brancos que os haviam expatriado para além do oceano. Porque o
arroz coriáceo e o milho ressequido, que unicamente tinham tido por alimento
durante a viagem, não eram próprios para os engordar para banquetes de
antropófagos.
A
pele dos infelizes, dantes macia e lustrosa, perdera o brilho e tornara-se
áspera, e nos corpos viam-se os sinais das algemas e dos tormentos com que os tinham
torturado a bordo.
Assim que o navio deu fundo, os cabeças d’alcatrão foram trazidos para a tolda
aos lotes de três e quatro. No momento de aparecer à boca da escotilha, cada
pobre criatura era rudemente agarrada por um marinheiro que, munindo-se duma
escova, a untava com um líquido negro, composição formada de pólvora, sumo de
limão e óleo de palmeira. Outro marinheiro esfregava em seguida a untura para a
fazer penetrar na pele, até a epiderme ficar negra e luzidia como uma bota bem
lustrada.
Era
assim que se preparava a mercadoria para a venda.
O
proprietário do barco negreiro, postado no tombadilho da popa, presidia à
operação.
Logo
que o negreiro ancorou, largara de terra uma embarcação em sua direção. Vinham
aos remos dois pretos seminus; um homem de cor branca, ou melhor, amarelada,
sentado à popa, segurava nos gualdropes e governava a embarcação. Poderia ter
sessenta anos; o seu rosto enrugado e queimado do sol parecia-se com uma folha
de tabaco; tinha o rosto tão afilado que, visto de frente, mal se podia dizer
que tivesse face. O nariz de cavalete e o queixo muito comprido revirado, entre
os quais havia uma fenda que indicava o lugar dos lábios, davam idéia dum tipo
exagerado de judeu.
E
efetivamente, tal era a raça deste personagem. Quando entreabria a boca para
rir, acontecimento bastante raro, só se viam dois dentes, afastados um do
outro, como duas sentinelas que guardam a entrada duma caverna. Pupilas negras
e brilhantes, parecidas com as da lontra, cintilavam continuadamente naquele
rosto, porque o seu proprietário, segundo se dizia, raras vezes se entregava ao
sono.
Um
par de espessas sobrancelhas brancas juntavam-se sobre o estreito promontório
do nariz; os cabelos — provavelmente ausentes — estavam na aparência cobertos
com um barrete de algodão amarelo, sobre o qual se encaixava um chapéu de
feltro há muito rapado e com abas descaídas.
Uma
veste quase sórdida, calças de casimira no fio e botas acalcanhadas eram as
peças que compunham o digno trajo daquela estranha figura.
Nos
joelhos do judeu descansava um grande guarda-chuva, enquanto que as suas mãos
se ocupavam do governo do leme.
Este indivíduo não era outro senão Jacob Jessuron, mercador de escravos e judeu de
origem prussiana.
Os
dois negros manejavam os remos com destreza e atividade; contudo, o seu senhor
não cessava de os estimular a remarem cada vez com mais rapidez e olhava para o
lado da cidade com inquietação. Talvez receasse algum concorrente e desejasse
atracar ao navio sem ser visto.
Se
esse era o desejo, foi ele satisfeito.
— Ó do navio! bradou com toda a força, quando a embarcação se achou encostada ao
negreiro.
— Que é lá? perguntou uma voz do tombadilho.
No
mesmo instante a figura do capitão Aminadab Jowler apareceu na galeria, e sem
esperar pela resposta do judeu acrescentou logo:
— Ah! messire Jessuron, é para ser o primeiro a ver os meus pretinhos?
Muito bem; quem primeiro chega, primeiro apanha. É o meu sistema. Estimo muito
vê-lo. Como vai a saúde?
O judeu respondeu com uma pronúncia alemã muito carregada.
— Perfeitamente. A carga é boa?
— A boa mercadoria nunca precisa de ser encarecida. Suba e veja.
Jacob Jessuron deitou mão à corda que lhe atirara, trepou ágil como um macaco pelo
costado do navio e achou-se num relance em cima da tolda.
Após alguns cumprimentos que demonstravam a boa harmonia que entre ambos reinava — harmonia, ou antes amizade tão profunda e sincera como a que pode existir entre
dois velhacos — o judeu firmou melhor as cangalhas na aguda aresta do nariz e
começou a inspeção da mercadoria.
No tombadilho do negreiro, e próximo da boca da escotilha, estacionava um homem de
singular aspecto, tão diferente dos brancos da tripulação como dos negros que
constituíam a carga do navio. Participava, porém, tanto do tipo árabe como do
tipo africano, apesar de que pelas feições se aproximava do tipo europeu.
Tinha na pele o tom dum belo bronze florentino; sobrancelhas delicadamente delineadas
circundavam-lhe os olhos negros e arredondados; o nariz era aquilino, os lábios
delgados e o cabelo preto, e encaracolado mas não crespo.
A riqueza do trajo fazia realçar a beleza daquele homem, que poderia ter apenas
vinte anos.
Vestia
uma túnica de cetim amarelo, apertada na cintura por uma faixa de escumilha da
China, que lhe descia para baixo do joelho. Trazia a tiracolo outra faixa, mas
de cor azul. Meio oculta por entre as ondulações do vestuário entrevia-se-lhe
uma cimitarra com bainha de prata cinzelada. Cobria-lhe a cabeça um turbante de
casimira, e calçava sandálias de pele de Kordofu. Pernas, pescoço e braços,
trazia-os nus.
Apesar
deste vestuário asiático, o mancebo era africano, o que nem sempre quer dizer
negro. Pertencia à grande nação dos fulos, raça de pastores guerreiros
cujo país se estende desde os confins do Darfour até às costas do Atlântico.
Rodeavam-no
três ou quatro homens da sua tribo, cujos trajos, de estofos mais ordinários, e
cujas atitudes respeitosas denunciavam a sua inferioridade.
Pelo
contrário, o aspecto altivo do mancebo indicava que ele era um chefe de
categoria elevada.
Era,
com efeito, um príncipe fulo das margens do Senegal.
Em
que qualidade se achava ele no navio? tal foi a interrogação que fez a si mesmo
o mercador de escravos Jessuron quando os seus olhares convergiram para o fulo.
— Que gente tem aí, capitão? perguntou a Aminadab Jowler. Escravos?...
Impossível!
— Aquele que vê acolá, de cetim amarelo, é nem mais nem menos que sua alteza real
o príncipe Cingues, filho do sultão de Fouta-toro. Os mais são seus súditos,
seus cortesões, pessoas que o servem.
— Sultão de Fouta-toro! repetiu o judeu brandindo o guarda-chuva azul em sinal de
surpresa. Ah! que bom negócio! Mas por que os vestem assim? não valerão por
isso um soldo mais no mercado...
— Se fossem para vender, decerto; mas o príncipe é meu passageiro, nem mais nem
menos. É uma história curiosa.
— Conte-me lá isso, capitão.
— Aí vai: há um ano, um exército de mandingas atacou a capital de
Fouta-toro e pô-la a saque. Entre os prisioneiros que fizeram achava-se a irmã
do príncipe Cingues, que era a filha que o sultão mais amava. Os mandingas
venderam-na a um mercador das Índias Ocidentais, que a levou não se sabe para
qual dessas ilhas. O príncipe partiu por ordem de seu pai em busca da irmã. Agora
já sabe tanto como eu.
A expressão que assomou ao rosto do velho judeu durante esta narrativa mostrou o
interesse que ele tomava, embora se esforçasse por dissimular a sua comoção.
— E uma bela história, disse ele. Mas como espera ele encontrar a irmã? É
procurar agulha em palheiro...
— Isso não é comigo, redargüiu o capitão com indiferença; a minha obrigação era
trazê-lo até aqui, e consinto em tornar a levá-lo para o seu país nas mesmas
condições, se ele quiser.
— Então pagou-lhe bem?
— Vê aquela fileira de mandingas junto do cabrestante? Recebo pelo meu
trabalho vinte daqueles figurões.
— Ali estão quarenta, disse o judeu; e os outros?
— Dá-los-á em troca da irmã, quando a encontrar.
— Ora! exclamou o judeu encolhendo os ombros; isso não há de ser muito fácil.
— Com os demônios, meu amigo! disse o capitão, tomado de uma idéia súbita;
parece-me que pode ajudar o príncipe na empresa. Ninguém melhor o poderia guiar
aqui do que você, que conhece toda a população da ilha. Vamos lá, que lhe há de
pagar bem!
— Seja, capitão, não digo que não; mas há alguma coisa a esperar além dos vinte mandingas?
— Em dinheiro, nada. Homens, mulheres, eis a moeda daquela terra. Mas venha beber
uma gota de genebra ao meu camarote. Ultimaremos esse negócio depois de me
dizer o que quer da minha pretalhada.
O sol ia imergir nas ondas, quando a lancha e a iole do capitão foram arriadas.
Momentos depois os cabeças d’alcatrão eram postos na praia, e metidos no
pequeno telheiro que servia para abrigar o barquinho do judeu.
Este
comprara toda a carga.
A
embarcação de Jacob Jessuron seguia à distância duma amarra os barcos que
transportavam os escravos. O príncipe Cingues tomara lugar à popa, em frente do
judeu. As cores brilhantes do seu trajo refletiam-se na pardacenta superfície
das águas.
No
dia seguinte àquele em que o barco negreiro desembarcara a carga, Mr Vaughan,
duma das janelas da sala, avistou um cavaleiro que se dirigia para a plantação
pela rua dos tamarindos.
À
medida que se aproximava o cavaleiro, foi reconhecendo que o animal em que ele
vinha era um macho, e o próprio cavaleiro um homem alto e magro, de cara
antipática.
O inspetor do pen[2] de Jessuron! o confidente do velho judeu! murmurou Mr Vaughan. Que me pode ele
querer tão cedo?... Alguma partida de madeira que me quer vender? Ontem passou
um negreiro à vista da baía, e graças a Jessuron sou sempre dos primeiros a
quem ele avisa quando renova a sua mercadoria. Baixeza de judeu! É uma gente capaz
de fazer cortesia ao seu mais cruel inimigo se dele espera tirar algum
proveito!...
Este
monólogo foi interrompido pela entrada de master Ravener, que se desfez
em cumprimento junto do fazendeiro. A despeito da inimizade entre Loftus
Vaughan e Jessuron, os costumes hospitaleiros dos fazendeiros fizeram que o custos
principiasse logo por oferecer de beber ao enviado do negreiro.
Ravener,
depois de se fazer rogado, aceitou um copo de swizzle.
Uma
vasilha enorme, colocada em cima do étagère, tendo dentro uma colher de
prata, e rodeada de copos, continha o swizzle, mistura de rum, açúcar,
água e calda de limão. É uma bebida que sempre se encontra na residência dum
fazendeiro da Jamaica; sai duma fonte que nunca se esgota, porque a enche à
medida que se vai gastando.
O
inspetor de Jessuron tomou das mãos dum criado preto uma grande taça de swizzle
e tornou a entregá-la depois de dar um estalo com a língua, acompanhando-o com
a costumada observação: — Excelente! Em seguida sentou-se no móvel que estava
mais perto do seu hóspede.
Mr Vaughan, que sempre mostrava uma reserva um tanto altiva, esperou que Ravener
explicasse o motivo daquela visita.
— Ora bem, Mr Vaughan, disse Ravener afinal, venho falar-lhe em certo
negociozinho da parte de Mr Jessuron.
— Se se trata da venda de escravos, o seu patrão causou-lhe um incômodo baldado
mandando-o cá. O meu quadro está completo.
— Pelo contrário, Mr Vaughan; eu não venho para vender, venho para comprar, se o
senhor estiver por isso.
— Comprar o quê, se faz favor?
— Temos um cliente que precisa duma rapariga para servir à mesa, e no nosso
estoque não temos nada que lhe possa convir.
— Sim?
— Mas o senhor tem uma que lhe conviria, se nos fizesse a favor de a ceder.
— De quem está falando?
— Dessa pequena Yola, que Jessuron lhe vendeu no ano passado. Que diria ao preço
de dez libras?
— Qual! exclamou o fazendeiro encolhendo os ombros com ar de desdém; isso é muito
menos do que ela vale, supondo que eu quisesse vender essa rapariga.
— Pois ponhamos vinte libras, hein?
— Nem vinte, nem duzentas!
— Nem duzentas?! exclamou Ravener dando um pulo na cadeira. Na ilha não há
escrava nenhuma que valha tanto dinheiro!...
— Que valha ou não, que me importa isso, se prefiro conservá-la?
— Se assim é, daremos as duzentas libras; mas Jessuron ralhará comigo.
— Então não me entende? exclamou o custos. Não aceitarei nem as duzentas
libras, nem ainda o dobro. Yola pertence à minha filha, que não consentirá
nesta venda.
— Messire Vaughan, o senhor não há de perder um bom negócio. Ofereço-lhe as
quatrocentas libras para não descontentar o meu freguês.
— Pois bem, vou consultar Catarina, disse o plantador, tentado por este
oferecimento exorbitante. Não tenho, porém, a menor esperança de me sair bem.
Creio que ela é filha dum rei fulo. Miss Vaughan estima-a muito, prometi
nunca vendê-la sem seu consentimento e, faça o favor de o dizer a Mr Jessuron,
sou incapaz de faltar à minha palavra.
Depois
de dizer isto com afetação, o fazendeiro saiu da sala e voltou dali a pouco
para declarar a Ravener:
— Como eu já suspeitava, não posso ceder Yola, por qualquer preço que seja.
— Bem, nesse caso adeus, Mr Vaughan; não tenho mais nada a tratar com o senhor.
E
dizendo isto o inspetor retirou-se com uma amabilidade que disfarçava muito mal
o seu despeito.
— Jacob Jessuron está terrivelmente generoso esta manhã, disse o fazendeiro
consigo depois de fechar a porta. Trazia decerto algum mau projeto, e eu o
estraguei... Palavra! estou satisfeitíssimo de ter desgostado ao velho patife!
Já me tem pregado muito boas peças...
Quando
Ravener tomou a estrada, depois de sair da alameda de tamarindos, reuniu-se-lhe
um novo cavaleiro. Não era outro senão o mercador de escravos, impaciente por
conhecer o resultado da negociação do seu enviado.
Quando
Ravener lhe contou a derrota, o velho judeu teve um acesso de cólera.
— O inferno te consuma, Loftus Vaughan! bradou ele brandindo o guarda-chuva na
direção de Mount-Welcome. Tempo venha em que mendigues duzentas libras! E
aquela mulatinha da filha, aquela delambida? Talvez um dia seja vendida no
mercado e por menos de duzentas libras, porque não as vale. Dava de boa vontade
o dobro para ver isso, e talvez o veja sem gastar nada...
Ravener,
com toda a submissão dum inferior e todo o respeito que nutria por um velho
correligionário, porque também ele era judeu, deixou esbravejar a cólera de
Jacob Jessuron. Mas quando esta já se manifestava só por interjeições
entrecortadas, dirigiu num tom insinuante a palavra ao seu patrão:
— Rabi! disse, acaba então de perder um belo negócio?
— Oh! bem vê! O príncipe ter-me-ia dado vinte robustos mandingas em troca
de Yola. Não há que duvidar, é sua irmã. Vinte mandingas que valem cada
um cem libras! É uma fortuna!
— Pois bem, rabi, essa fortuna ficar-lhe-á pertencendo da mesma maneira!
— Como?
— O capitão Jowler lá tem as suas razões para não vir à terra... E a quem
responde meu amo pelo príncipe? A ele só, pois não é?
— Ó admirável Ravener! exclamou o judeu olhando para o seu confidente com pasmo.
Pelo Deus dos nossos maiores, não me lembrei de tal! É verdade, Jowler não se
atreve a aparecer na baía. Além disso, há uma convenção entre nós. Pouco lhe
importa o que possa suceder ao príncipe; o seu navio torna a partir dentro de
vinte e quatro horas.
— Então, Rabi, dentro de vinte e quatro horas, os mandingas e o príncipe,
que nós havemos de desembaraçar dos seus ouropéis, pertencer-lhe-ão!...
Já eram decorridos três dias depois que o negreiro havia deitado ferro em
Montego-Bay, quando um navio de velas redondas apareceu ao longe com todo o
pano e proa para terra.
Dali
a pouco entrava no ancoradouro. Por cima do tombadilho flutuava a bandeira do
Reino Unido.
O
que quer que era de sincero, no todo do barco e nos modos dos marinheiros, levava
a crer que estava ali um honrado navio mercante. Na popa liam-se estas
palavras: Ninfa do Oceano, de Liverpool.
Apesar
de trazer uma carga de mercadoria, a Ninfa do Oceano também transportava
passageiros, na maioria fazendeiros que voltavam duma visita à mãe pátria. Os
mais, ou fossem médicos ou comerciantes improvisados, eram todos aventureiros
que andavam a correr atrás da fortuna.
Entre
os passageiros de primeira classe, achava-se um indivíduo digno de reparo,
tanto procurava que o admirassem.
À
primeira vista conhecia-se que era um pelintra de Londres e um excêntrico de
primeira classe.
Apesar
dos seus vinte e um anos de idade, tinha o aspecto fatigado. Excessivamente
louro. Os fios do bigode e das suíças, tratados com todo o desvelo, davam a
conhecer a muita importância em que o dono tinha aqueles ornatos naturais. Os
olhos de cor parda eram encimados por sobrancelhas dum amarelo desbotado.
Trazia
um dos olhos constantemente fechado, e o outro sempre a pestanejar sob o
monóculo, encravado, como em caixilho natural, na arcada superciliar.
A
afetação do trajo estava em harmonia com as suas pretensões a dandismo, e era
solene a lentidão das suas palavras, quando condescendia em falar com alguém.
Em
todo o caso, salvo o riso zombeteiro que alguns a custo disfarçavam, era
tratado com deferência; porque Mr Montagu Smythje tivera o cuidado de explicar
às pessoas a quem honrava com a sua confiança, que ia à Jamaica tomar posse
duma grande propriedade de que Loftus Vaughan fora procurador durante a sua
menoridade.
Entre
os humildes viajantes que tomavam lugar na segunda classe, a bordo da Ninfa do
Oceano, achava~se outro mancebo, da idade de Mr Smythje, mas dum aspecto bem
diferente.
Moreno,
apesar da sua origem inglesa. Feições regulares, reserva e compostura de
maneira, das que atraem a atenção dum observador, porque, apesar do muito uso
do seu fato, coçado nas costuras, conservava um ar de distinção e de modesto
orgulho.
Sentado
junto do cabrestante, tinha um álbum em cima dos joelhos e fazia nele, com mão
hábil, o esboço do ancoradouro onde o navio ia fundear.
Não
era contudo um artista, mas um pobre mancebo sem profissão, inquieto acerca do
futuro, porque de quando em quando a sua fronte obscurecia.
Como
o navio se aproximava de terra, fechou o álbum e pôs-se a contemplar a
paisagem. Apesar das comoções que tão novo espetáculo nele devia causar,
tornou-se pensativo. Talvez meditasse na maneira por que ia ser recebido.
De
repente, uma voz desconhecida tirou-o da sua contemplação.
Foi a voz de Mr Smythje. Este cavalheiro tinha feito a viagem de Liverpool à
Jamaica sem transpor os sagrados limites do tombadilho. Mas como os passageiros
de todas as classes se haviam precipitado para a proa, logo que o navio entrara
no porto, a fim de gozarem o esplêndido panorama que se desenrolava, Mr Smythje
participara da curiosidade geral.
A
formosa natureza, que ele honrava com a sua contemplação, arrancou-lhe uma
exclamação.
— Palavra de honra, é um verdadeiro cenário de ópera! Não acha, meu amigo?
O
jovem contemplador, surpreendido pelo afetado tom de superioridade do
passageiro de primeira classe, absteve-se de responder.
— É ao senhor a quem falo, continuou o cockney [3].
Tenho-o observado muitas vezes do tombadilho. O senhor é um viajante da espécie
taciturna. Posso saber — perdoe a minha liberdade, posso saber como veio parar
à Jamaica?
— Na Ninfa do Oceano, como o senhor.
— Ah! ah!... não é má; é até muito bem respondido. E vem à Jamaica tratar de
comércio.
— Não, senhor.
— Então vem exercer alguma profissão liberal?
— Menos, respondeu o mancebo distraidamente. Venho ter com um tio meu, se ele
ainda aqui vive.
— É prodigioso! disse Smythje; pois o senhor não tem certeza desse importante
fato? Então não recebe há muito tempo notícias dele?
— Há anos, respondeu o mancebo; e por efeito da impressão de isolamento que
experimentava, acrescentou: — Não tenho recebido notícias nenhumas dele, apesar
de lhe mandar dizer que havia de aqui chegar neste navio.
— É singular! exclamou o dândi.
E passado um momento de reflexão prosseguiu.
— E como se chama seu tio? Tenho conhecimentos na Jamaica e poderia talvez
dar-lhe informações.
— É fazendeiro e chama-se Vaughan.
— Vaughan! volveu Smythje com extrema surpresa. O senhor não fala, suponho, de
Loftus Vaughan, esquire[4] de Mounty-Welcome?
— Desse mesmo. Loftus Vaughan era irmão de meu pai, que se chamava, assim como eu
me chamo, Herberto Vaughan.
— Singularmente incompreensível! Sabe, meu amigo, que trazemos ambos o mesmo
destino? Loftus Vaughan é o administrador da minha propriedade, e é para casa
dele que me dirijo. Não era coisa esquisita que ambos fôssemos recebidos sob o
mesmo teto, e por um mesmo hóspede?
Esta observação foi acompanhada dum olhar cuja insolência não passou despercebida ao
passageiro jovem e modesto. Dispunha-se ele a retorquir com severidade, quando
o pelintra, que lera no rosto do seu interlocutor, se apressou a afastar-se
balbuciando algumas palavras sobre a possibilidade de um próximo duelo.
Nos dias que se seguiram à recepção das duas cartas de Londres, ter-se-ia podido
ver Loftus Vaughan em uma das janelas de Mount-Welcome, observando com o seu
óculo-de-alcance o mar e o ancoradouro.
Naquele tempo os vapores não chegavam como hoje quase à hora designada, e o esperado
visitante podia aparecer quando menos o esperavam.
Este acontecimento não era misterioso para ninguém em Mount-Welcome. Todos os dias
ali se rezavam novos embelezamentos. Os aposentos da vasta habitação foram
novamente decorados, as criadas vestidas de novo, e os criados entrajados de
librés, luxo desconhecido até então na Jamaica.
Os motivos de todos estes preparativos eram secretos. Loftus Vaughan tinha uma
filha em idade casar, e Mr Smythje era um noivo rico; a propriedade Montagu-Castle
produzia rendimentos que o custos, que a administrava havia muitos anos,
podia avaliar com exatidão.
Esta fazenda, reunida à de Mount-Welcome, devia constituir a mais bela propriedade
do país. Era natural, portanto, que no fazendeiro a idéia de efetuar essa
reunião por meio de casamento se tornasse idéia fixa.
Outra razão lhe fazia desejar esta aliança; ninguém ignorava na Jamaica que Catarina
era filha de uma mulata, e por conseguinte de sangue impuro, e os conceitos de
raça impediam-lhe qualquer união conveniente no país. Loftus Vaughan sabia que
os ingleses observam menos esta lei de demarcação social, e esperava apagar a
nódoa original com um casamento que enobrecesse a filha.
Fora pois com verdadeiro pesar que recebera a carta em que o sobrinho lhe anunciava
a viagem efetuada em segunda classe na Ninfa do Oceano.
Receava que o seu parentesco com um moço tão pobre fosse descoberto por Mr Smythje e
despertasse no espírito deste personagem, dúvidas acerca da respeitabilidade da
pessoa que o hospedava.
Mas lembrando-se dos costumes aristocráticos do gentleman, alimentava a
esperança de que o reconhecimento não se tivesse dado a bordo, e tomara as
suas medidas para impedir que se entabulassem quaisquer relações entre os dois
mancebos, após o seu desembarque.
Havia traçado um plano antes da chegada da Ninfa do Oceano. Mr Smythje devia
ser esperado e imediatamente conduzido a Mount-Welcome.
Com Herberto proceder-se-ia de modo diferente. O mancebo iria residir na casa do
feitor, a qual, distante uma légua da residência dos plantadores, oferecia as
desejadas garantias de segurança. Ali permaneceria até que lhe achassem um
emprego, fosse em Montego-Bay, fosse em alguma fazenda afastada.
Três dias depois da recepção das duas cartas, o plantador, constante no seu posto de
observação, avistou na baía um navio. No mesmo instante soaram com toda a força
as sinetas da fazenda para que se reunissem os criados. A buzina de caça
avistou o inspetor, e em menos de meia hora a carruagem da casa — magnífico
veículo puxado por quatro cavalos ricamente arreados — tomou o caminho da baía.
Atrás rodava um carro puxado por oito bois. Ao mesmo tempo um pretinho, Quashie
em pessoa, partia encarregado duma missão delicada.
Enquanto isso a residência de Mount-Welcome ficava entregue à agitação dos últimos
preparativos. As negras tratavam de encerar os assoalhos, habitualmente
formados de madeiras dos trópicos de diversos tons, entre os quais o acaju, o
jacarandá, a artocarpo e o ébano.
O brilho do assoalho é uma questão de orgulho entre os plantadores da Jamaica,
como o luxo dos tapetes entre os habitantes do ocidente.
A cozinha era teatro duma atividade não menor; o interesse e afã com a que a
coorte de negras desempenhava as suas funções, mostrava que a habilidade delas
era estimulada pela solenidade do dia.
O amo não as abandonava às próprias inspirações. Durante as horas de espera
viram-no por toda a parte: na cavalariça, a vigiar os grooms[5] e os cocheiros; na cozinha, ensinando receitas aos cozinheiros; na sala, a
olhar pela disposição dos móveis; e finalmente à janela que deitava para a
alameda, para avistar o mais longe possível o hóspede a quem queria honrar.
Uma hora depois da conversa dos dois passageiros da Ninfa do Oceano, esta
dava fundo no porto de Montego-Bay. Deitaram para terra uma prancha, e fez-se a
desordem e confusão que caracterizam os desembarques.
Entre os diversos veículos enfileirados nos cais notava-se uma carruagem puxada por
quatro cavalos. Um cocheiro mulato, que brilhava como uma castanha com casca,
entrajado na sua libré verde e amarela ocupava o assento dianteiro; à
portinhola estava postado um criado grave ostentando cores iguais.
Este veículo suntuoso atraíra a atenção de Herberto Vaughan, que, em pé, na prancha,
parecia hesitar em descer. Viu então dois sujeitos dirigirem-se para o veículo
e reconheceu num deles Mr Montagu Smythje, que ali se instalou comodamente.
Quando a carruagem desapareceu, o mancebo baixou tristemente os olhos para a prancha.
A ele, ninguém vinha felicitar pela chegada!
— Senhor! disse-lhe um pretinho tocando-lhe no braço.
— Que é? retorquiu Herberto, repentinamente arrancado às suas reflexões. Que me
quer? Não tenho dinheiro.
— Dinheiro, senhor? Quashie não precisa; Quashie pronto seguir senhor, respondeu
o preto com a sua pronúncia e linguagem exóticas.
— E para onde? perguntou o mancebo.
— Para Mount-Welcome, casa de Mr Vaughan. Tenho um pônei para o senhor; as
bagagens vão no carro de boi.
— Bem, disse Herberto; que caminho devo tomar?
— Direito ao longo do rio; pára depois na encruzilhada, volta à direita, e
acha-se no mesmo instante em Mount-Welcome.
— Que caminho tenho que andar?
— Coisa de oito milhas, senhor; pode ir como um raio; sobretudo nada de tomar à
esquerda.
O moço estrangeiro largou do navio com estas instruções e achou-se no cais, com a
sua espingarda de caça ao ombro. Depois, desatando a rédea que prendia o pônei
à roda do carro, montou e tomou a direção indicada pelo preto, como se fosse a
única que o pudesse levar a Mount-Welcome.
A diversão produzida pelo desembarque, a carreira do cavalo, a animação das ruas
por onde passava fizeram-no a princípio esquecer as preocupações motivadas pela
sua situação. Pouco durou isto, porém, porque o caminho até ali ladeado de
casas, internou-se por baixo duma abóbada de folhagem, e o viajante achou-se de
repente numa completa solidão.
O terreno tornou-se lamacento; Herberto teve de afrouxar o passo do animal e
entregou-se a dolorosas reflexões.
Facilmente se adivinha o objeto dos seus pensamentos. Fizera reparo na distinção
estabelecida entre ele e o outro passageiro.
— Pela alma de meu pai, dizia consigo, é um insulto feito mais ainda à sua
memória do que a mim mesmo. Se não fosse o respeito que tenho pela sua última
vontade, não daria mais um passo. Aquele mancebo é rico e eu sou pobre; eis a
única razão de tão diferente acolhimento. Não importa! por menos recursos que
eu tenha, não curvarei a cabeça ante o desprezo do meu orgulhoso parente.
E, reanimado pelo sentimento da sua dignidade pessoal, o mancebo meteu as esporas
ao pônei, que partiu a galope, conservando aquela andadura por quase uma hora.
O caminho seguia em linha reta e estava cheio de sinais da passagem de carros.
O rio indicado pelo pretinho apareceu. Herberto diminuiu o passo do animal para
procurar o vau, porque não havia por ali indício de ponte. Como a água tinha
pouca altura, o pônei mergulhou sem hesitação e atravessou-o sem dificuldade.
O mancebo fez alto na margem oposta. Naquele ponto o caminho ramificava-se e
apresentava três direções. Qual delas tomar?
“Sempre para a esquerda”, dissera o preto. Mas era preciso escolher entre o da direita
e do meio. O viajante entendeu que seria prudente procurar os sinais da
carruagem que conduzira Mr Smythje.
Enquanto
deliberava consigo mesmo, as suas reflexões foram interrompidas por uma voz que
parecia soar-lhe próximo do ouvido.
Ficou
admirado quando, ao voltar-se deparou com o próprio Quashie.
— Quashie não disse ao seu senhor que tomasse para a esquerda, que é o caminho
para a casa do velho judeu; mas pelo do meio, que é para a casa de Mr Vaughan!
A presença do pretinho causava grande assombro a Herberto, porque o tinha deixado
no porto, de guarda às bagagens. Como explicar a aparição do rapaz?
— Quashie seguiu o seu senhor; Quashie veio nas pegadas do pônei, respondeu o
pretinho às perguntas de Herberto.
— Queres então dizer com isso que vieste sempre a correr desde o cais?
— Não é coisa difícil; Quashie pôs as bagagens no carro de boi, e o seu senhor
não veio a princípio muito depressa; Quashie alcançou-o e veio a correr atrás
do pônei. Que lhe parece?
— Então, maroto, digo que não há branco nem preto que te iguale na carreira. Mas,
espera: disseste que era o caminho do meio?
— Sim, senhor.
Herberto
partiu na direção indicada; passados alguns instantes voltou-se para ver o que
era feito do pretinho.
Quashie
havia desaparecido.
— Para onde demônio se meteu este garoto? disse Herberto a meia voz.
— Estou aqui! respondeu Quashie, e no mesmo instante um vulto escuro apareceu à
garupa do pônei.
Estava
explicado o processo daquele pajem singular. Quashie agarrava-se à cauda do
animal.
O moço inglês, esquecendo as suas preocupações, soltou uma gargalhada, a que
Quashie correspondeu com uma careta que lhe escancarou a boca até às orelhas.
Meia
milha adiante viram-se em frente da entrada principal de Mount-Welcome, dois
grandes pilares, entre os pilares uma pesada porta de dois batentes.
No
extremo da comprida alameda de tamarindos avistavam-se as paredes brancas e as
venezianas verdes da residência.
— Dize-me, Quashie, perguntou Herberto depois contemplar aquela aristocrata
residência, foi Mr Vaughan quem te deu instruções para me conduzires
Mount-Welcome?
— Não, meu senhor não me disse nada. Foi o feitor. “Quashie, disse ele, vais ao
navio grande, hás de ver um senhor muito moço; dá-lhe o Coco — é o nome do
pônei — e então trá-lo-ás para minha casa”.
— Para a casa do feitor? Queres dizer, Quashie, para Mount-Welcome!...
— Não, meu senhor, não! Por aqui! por aqui retorquiu o pretinho apontando para
outra alameda, ramificação da alameda principal que tomava a direção da
montanha.
Ouvindo
isto Herberto absorveu-se em profunda meditação. O peito começou a
arquejar-lhe, contraiu-se-lhe o rosto e principiou a compreender...
Mas
neste momento Quashie lançou mão à rédea do pônei para o fazer tomar pelo
caminho transversal.
— Deixa-me, rapaz, deixa-me! bradou o cavaleiro com voz irritada, ou vais travar
conhecimento com o chicote... Este é que é o meu caminho!
E arrancando as rédeas da mão do seu guia estupefato meteu a galope na direção de
Mount-Welcome.
A carruagem que havia transportado Mr Smithje a Mount-Welcome chegara uma hora
antes de fazer alto à porta do pavilhão.
Os
moradores de Mount-Welcome jantavam às quatro horas. O criado de quarto de Mr
Smythje apenas teve tempo de abrir as malas e de vestir o amo para o jantar.
Era
o momento que Mr Vaughan escolhera para apresentar o hóspede à filha. Porém um
desagradável contratempo transtornou a etiqueta da cerimônia.
O
assoalho escorregadio da sala deu origem a uma catástrofe; ao tentar uma
cerimoniosa mesura, o cockney caiu estatelado aos pés da jovem, que não
pôde conter a mais irresistível e mortificadora das gargalhadas. Felizmente, Mr
Smythje era dotado duma vaidade muito profunda para que qualquer acidente o
fizesse cair no ridículo.
— Safa! este assoalho é terrivelmente escorregadio! disse ele.
E
após esta observação, duma verdade que acabava de experimentar, sentou-se com
toda a gravidade à mesa.
Foi
um desses festins suntuosos, em uso nas Índias Ocidentais, que Loftus Vaughan
ofereceu ao seu hóspede inglês.
Uma
verdadeira multidão de pressurosos criados girava entre a sala e a cozinha,
transportando variadíssimos manjares. Outros despejavam vinhos gelados em
vasilhas de prata apropriadas àquele fim. Raparigas de cor agitavam em roda dos
convivas grandes leques de penas de pavão, estabelecendo na sala uma corrente
de ar de frescura deliciosa.
Apesar
de habituado às comodidades da vida inglesa, Mr Smythje não pôde deixar de
admirar tanto luxo; por isso Loftus Vaughan estava no cúmulo da alegria quando
uma nuvem veio escurecer o azul do seu céu.
Tinha
essa nuvem a forma humana e caminhava pela extensa avenida. Era um homem a
cavalo.
O custos entrou a mexer-se na cadeira com um modo tão contrafeito que
Smythje lhe disse:
— Valha-me Deus, é alguma contrariedade?
— Não, não é nada, balbuciou Loftus Vaughan... é apenas uma surpresa!
— Que é? que é, meu pai? perguntou Catarina. Vejo um homem montado num dos
nossos pôneis e Quashie correndo atrás dele. Quem será ele?
— Catarina, deixa-te estar sentada; não devemos perturbar o prazer da sobremesa,
observou o custos com um aspecto que amedrontou a jovem. Mr Smythje, um
copo de Madeira?
Vaughan
fingiu assim não se lembrar mais do cavaleiro; mas, a muito custo conservava o
sangue-frio, e tornou-se-lhe impossível sustentar a conversa.
O silêncio de mau agouro que se estabelecera na sala foi afinal interrompido por
um ruído de vozes e passos na escada. A porta abriu-se e apareceu o feitor.
— Ah! exclamou Loftus Vaúghan com desembaraço. Trusty quer falar-me. Há de
dispensar-me por um momento, Smythje.
E dirigiu-se apressadamente para a porta como para impedir que Trusty penetrasse
na sala. Infelizmente, Trusty não era diplomata; explicou a sua missão em voz
baixa, é verdade, mas não tão baixa que não se percebessem algumas palavras.
O ouvido apurado de Catarina apanhou este pedaço de frase no ar — “Seu sobrinho” —, e adivinhou em parte a resposta: “Diga-lhe que me espere no pavilhão do
jardim”.
Mr Vaughan voltou para seu lugar com um ar quase satisfeito, julgando ter evitado
o perigo: Mas, apenas se havia sentado, Catarina exclamou:
— Trusty não lhe falou de seu sobrinho, meu pai? Por acaso chegaria meu primo?
— Catarina, retorquiu o custos, de um modo desabrido, retira-te para os
teus aposentos. Eu e Mr Smythje vamos fumar um charuto.
A jovem levantou-se e dirigiu-se para o seu quarto protestando no fundo do
coração contra a diferença que estabeleciam entre seu primo e um estranho, na
maneira como os recebiam.
Mas o cavalheiro seria efetivamente aquele pobre Herberto por quem ela nutria na
alma a ternura duma irmã, só por lembrar-se de que era órfão privado de todo o
amparo e afeição?
Um jardim de plantas raras ocupava uma parte da esplanada sobre a qual se erguia a
casa de Mount-Welcome. No centro dum vasto arrelvado, a uma dúzia de passos da
residência, elevava-se um pequeno pavilhão construído de madeiras indígenas.
Compreendia um só aposento de janelas sem vidros, paredes guarnecidas de
venezianas, esteiras da China e mobília composta unicamente de mesa e algumas
cadeiras de bambu.
No momento em que a filha do fazendeiro saía da sala, era Herberto introduzido no
pavilhão pelo feitor. Ao chegar à residência de Mount-Welcome, Herberto achara
aquele serviçal de sentinela no princípio da escada: exigira-lhe em termos
simples, mas firmes, em nome do seu parentesco, uma entrevista com Mr Vaughan.
Mas Trusty não tivera remédio senão resolver-se a incomodar o fazendeiro, a fim
de evitar ao amo o escândalo de que Herberto, mostrando-se disposto a
dirigir-se para a sala, parecia ameaçá-lo.
— Paciência, meu caro senhor, dissera Trusty ao mancebo. Mr Vaughan recebe-o já,
mas tem visitas ao jantar.
— Visitas! dissera Herberto consigo mesmo. É o passageiro de primeira classe a
quem está banqueteando, enquanto me repele a mim que sou seu sobrinho!
Herberto era orgulhoso, e por isso desistiu de entrar à força. Uma tal estréia repugnava
aos seus princípios de educação. Naquele momento teria preferido retirar-se
sem ver o tio, e só não o fez em respeito à memória de seu pai...
Ficando só no pavilhão, começou a passear dum lado para outro entregue a violenta
agitação. Afinal, para sossegar um pouco, pegou num dos volumes espalhados por
cima da mesa. Era um resumo das leis da Jamaica relativas à escravatura; era o
famoso e abominável Código Negro.
Para um mancebo que chegava de país cristão não devia ser de grande conforto aquela
leitura, porque em cada linha a iniqüidade e a barbaria dos possuidores de
escravos se ostentava com imprudência.
Herberto sentiu o coração ainda mais amargurado, e atirou para longe o livro cruel. E
estava prestes a chegar ao cúmulo da irritação quando se abriu a porta.
O mancebo esperava que lhe aparecesse um velho de carrancudo aspecto; qual não
foi, porém, a sua surpresa quando viu dirigir-se para ele uma encantadora
menina em cujos olhos se revelava doce simpatia.
Tomando o caminho do pavilhão, Catarina não se deixava levar de mero sentimento de
curiosidade; mas sim do nobre instinto que arrasta as mulheres para junto dos
infelizes. Por isso, apesar da generosa inspiração que trazia, sentiu-se
enleada pela timidez própria do sexo e idade ao ver-se junto de Herberto. Mal
pôde perguntar-lhe em voz comovida:
— É o senhor o meu primo?
— Será a senhora por acaso a filha do Mr Vaughan? volveu o mancebo, admirado
daquela graça benévola que fazia contraste com o que ele esperava.
— Sim, sou sua filha e chamo-me Catarina.
— Então tenho orgulho em proclamar bem alto o nosso parentesco. Chamo-me Herberto
Vaughan; e chego da Inglaterra.
Notava-se nestas poucas palavras uma certa rigidez que penalizou a donzela, porque não
correspondia à intenção que ali a trouxera. Entretanto, acrescentou para acabar
com aquela situação:
— Meu pai recebeu a sua carta, mas parece-me que só amanhã o esperava. Permita,
primo, que lhe felicite pela sua chegada à Jamaica.
Sob a influência daquela meiga voz, Herberto teve vergonha do modo grave que
adotara, e volveu com cordialidade:
— Obrigado, prima. Causa-me satisfação saber que se chama Catarina. Era o nome de
minha avó. Seria também o de minha tia?
— Não; ela chamava-se Quasheba.
— Nome pouco vulgar.
— Em Londres, decerto... Por isso, os velhos servidores da fazenda têm por
costume dar-me o nome de Lilly Quasheba. Meu pai, porém, não gosta, e
proíbe-lhes esse tratamento.
— Era sua mãe inglesa?
— Não, era filha da Jamaica. Morreu nova, não cheguei a conhecê-la e nunca tive,
tampouco, irmãs nem irmãos. Sinto-me bem só às vezes.
— Mas daqui por diante terá companhia, replicou Herberto em tom pouco amargo.
Smythje parece-me criatura muito divertida.
— Conhece-o? perguntou Catarina. Ah! sim, chegaram ambos pelo mesmo navio. Que
idéia teve em não vir na carruagem com ele?... Mas, parece-me, primo, — desculpe a minha leviandade — parece-me que não jantou...
— Não, mas que importa? Ainda que estivesse a morrer de fome, recusaria sentar-me
a uma mesa onde não seria bem recebido.
— Oh! primo, aflige-me! Que está a dizer? Neste ponto abriu-se a porta
ruidosamente e no limiar apareceu Loftus Vaughan.
— Catarina, exclamou ele com voz encolerizada, que faz aqui? Tenho andado a
procurá-la por toda a casa. Smythje pede que lhe vá tocar alguma coisa na
harpa.
Estes modos violentos denotavam, além da cólera, uma excitação a que os vinhos
generosos do jantar não eram estranhos.
— Meu pai, não vê seu sobrinho?
— Venha, venha, volveu Loftus. E sem atender à única observação que a filha ia
fazer, Mr Vaughan fechou a porta do pavilhão e levou Kate para casa.
Depois de se retirar a crioula, Herberto ficou indeciso sobre o que deveria fazer. O
que acabava de passar confirmava-o na convicção de que o tio o considerava um
intruso. Não era pois duvidoso o resultado da sua entrevista com ele. Em vista
disso a primeira idéia foi afastar-se de morada tão inóspita e não esperar
novos dissabores. Porém o orgulho decidiu-o a ir até ao fim e observar quão
fracos podem ser os laços de família para aqueles que não vêem na vida senão
questões de interesse.
Em vez de lhe atenuarem a amargura de tão penosa expectativa, os sons da harpa,
que dali a pouco vibraram, fizeram nele efeito dum sarcasmo; mas, depois de por
alguns momentos escutar aquela música, reconheceu um motivo triste e suave, a
ária do Exilado de Erin, e uma voz melodiosa trouxe-lhe estas palavras
apropriadas à sua situação.
“É triste a minha sorte, diz o estrangeiro com o coração dilacerado. O gamo
selvagem, o lobo cruel têm na floresta a sua guarida; eu, porém, não tenho
abrigo nem refúgio onde me livre da fome e dos perigos. Já não tenho casa, nem
pátria sequer!”.
Reconheceu a voz de Catarina. Seria a ele que sua prima enviava aquele canto simpático?
Serenou-se-lhe o ânimo e sentiu vontade de perdoar. Mas não duraram muito tempo aquelas
disposições. Quando expiravam as últimas notas, abriu-se a porta do pavilhão e
Herberto achou-se em frente do tio.
Uma contração de sobrancelhas de mau agouro enrugava a fronte sombria de Mr
Vaughan. Sem cumprimentar o mancebo, nem estender a mão para ele, interpelou-o
rudemente nestes termos:
— É pois o filho de meu irmão?... Que motivo o traz à Jamaica?
— A minha carta deve tê-lo informado a respeito.
— E poderei perguntar-lhe se tem alguma profissão?
— Infelizmente nenhuma. Fui educado com esmero num bom colégio, mas...
— Percebo, não aprendeu lá senão bagatelas incapazes de lhe fazerem ganhar a
vida. E o senhor não tem fortuna, suponho.
— A sua suposição é tão justa como triste para mim, senhor.
— Então, como espera sair do apuro?
— O melhor e o mais honradamente que puder.
— Mendigando, vivendo decerto do que apanhas a seu tio, o fazendeiro...
— Senhor! disse Herberto tomando uma atitude em que revelou toda a sua dignidade
revoltada; agora que tenho o desgosto de o conhecer, será o último homem de
quem aceitarei um serviço.
— É um impertinente! exclamou Loftus Vaughan. Saia quanto antes.
— Se aqui me demorei, senhor, foi para que se dissesse que expulsou o filho de
seu próprio irmão.
— Ah! o senhor pretende dar-me lições?
Aos lábios do mancebo acudiram palavras de indignação, e ia deitá-las em rosto a
seu tio, quando descobriu, por trás duma gelosia a meio erguida, o meigo rosto
de Catarina.
— É seu pai, pensou consigo Herberto; por amor daquela formosa criatura
calar-me-ei.
E sem rebater o último insulto do tio, saiu do pavilhão.
— Espere, senhor, gritou-lhe Loftus, todo embaraçado com o caminho que tomavam as
coisas; mais uma palavra antes de se retirar, se é que efetivamente se retira.
Herberto parou e voltou-se para o escutar.
— Não se dirá, continuou o fazendeiro, que deixei ir um parente desprovido de
recursos. Nesta bolsa achará vinte libras; sirva-se delas enquanto não achar
ocupação; mas só lhas dou com condição de que não se gabará a ninguém de que é
meu sobrinho.
Herberto pegou na bolsa sem responder palavra; mas passado um momento as moedas de ouro
tiniam no empedrado da alameda e o mancebo atirava com bolsa vazia aos pés do
tio.
Deitando-lhe o último olhar de desdém, voltou-lhe as costas e afastou-se rapidamente.
Ia sair do jardim quando o seu nome, proferido a voz baixa, o fez novamente parar.
— Primo Herberto! dizia-lhe a voz. Aproximando-se do ângulo do edifício donde a
voz partia, avistou Catarina à janela.
— Não fique zangado, primo Herberto, disse-lhe ela; meu pai anda adoentado, e
depois tem gênio um pouco rude. Perdoe-lhe, meu querido primo.
O mancebo ia abrir a boca para responder, mas Catarina não lhe deu tempo.
— Recusou o dinheiro de meu pai, mas há de aceitar o meu; é pouco, mas aceite-o,
que é de coração. Brilhou um objeto nos ares e caiu soltando um som metálico.
Aos pés de Herberto jazia uma bolsa de seda atada com fita azul. Ele apanhou-a
e pareceu hesitar sobre se devia guardá-la ou não. Mas passado um momento
acrescentou:
— Obrigado, Catarina, tem sido muito bondosa para comigo... Talvez não nos
tornemos a ver, mas sempre me lembrarei de que não foi por culpa sua que o
filho de seu tio não encontrou nesta casa a acolhida que merecia. Não está no
caso, Catarina, de precisar da dedicação dum rapaz na situação em que eu
estou... Contudo, lembre-se de que sempre em mim encontrará um irmão.
E desatando a fita azul que fechava a bolsa, prendeu-a na lapela e atirou com
destreza a bolsa com o seu conteúdo para dentro da janela.
— Se meu triste destino, acrescentou, me obrigar muitas vezes a pensar que há
corações duros e maus, a vista desta pequena fita far-me-á refletir que os há
também nobres e generosos. Adeus, querida prima, que Deus vele por você.
E sem dar tempo a que a jovem crioula renovasse as suas instâncias e pudesse
acrescentar uma palavra de consolação e despedida, Herberto saiu do jardim e
afastou-se de Mount-Welcome.
Enquanto se davam estes acontecimentos em Mount-Welcome, outros não menos importantes se
passavam na plantação de Jacob Jessuron, o qual à ocupação de negreiro,
acumulava a de administrador. Além da casa à beira-mar, onde expunha os
escravos destinados à venda, o judeu possuía uma habitação ampla, embora
mobiliada sem o luxo de Mount-Welcome.
Desde que Jessuron a adquirira, a propriedade tornara ao seu estado selvagem, isto
é, ficara entregue à sua opulenta fecundidade. Árvores gigantescas bracejavam
para o céu cobrindo o solo de sombras espessas. Entre elas se viam
pau-campeche, a cabeceira e o artocarpo, ou fruta-pão.
As glaucianas de flores amarelas, as verbenas selvagens e as celidônias cresciam
nas clareiras, e pelos lanços dos muros arruinados os troncos, em meio ao
trêmulo amarelo, estendiam seus ramos emaranhados, que lembravam uma gigantesca
teia de aranha.
No centro da propriedade elevava-se a residência, a que pomposamente chamavam
magnífica, mas que já não merecia tal qualificativo. Era uma aglomeração de
edifícios entre os quais se viam os engenhos de açúcar, as senzalas dos negros,
as cavalariças, tudo rodeado por um muro que dava à residência mais ares duma
penitenciária que duma casa de campo.
Chamara-se esta fazenda em outros tempos “Vale Feliz”; mas desde que para ali viera
Jessuron, já não lhe chamavam senão “Sítio do Judeu”.
Com a velhice Jessuron tornara-se ambicioso de distinções sociais, fizera-se nomear
juiz de paz, honra que haviam concedido à sua fortuna e não à sua moralidade.
Além do comércio de escravos exercia o das especiarias. As florestas de pimenteiras
que cobriam a parte montanhosa da sua propriedade não exigiam nenhuma cultura,
e explorava ele próprio os seus canaviais.
No dia que se seguiu à missão infrutífera de Ravener a Mount-Welcome, o sítio
apresentava singular espetáculo.
Num cercado interior grupos de criaturas humanas de todas as cores, umas sentadas,
outras deitadas, e na maior parte unidas aos pares por meio de algemas, enchiam
aquela espécie de telheiro. Era o armazém do judeu.
Provinha aquele sortimento da carga do navio negreiro.
As cabaças vazias, as gamelas de madeira que jaziam no solo, nas quais não ficara
esquecida uma só isca, indicavam que o alimento fora parcimoniosamente
distribuído àqueles desgraçados.
No pátio existiam outros grupos formados de veteranos da escravidão; os
recém-vindos sabiam por eles o que os esperava naquela terra desconhecida. De
quando em quando olhavam para a varanda como na expectativa dum acontecimento.
Diante da varanda passeavam dois europeus de rosto trigueiro. Batia-lhes nas pernas um
comprido facão, e por meio duma trela, que vinha prender-se-lhes no cinto de
couro, conservavam seguros dois cães de feroz aspecto. Usavam bigode retorcido
e cabelo rente. Trajo e armas denotavam origem espanhola. Com efeito, eram
caçadores de negros da ilha de Cuba.
Ravener passeava também no pátio, mas sozinho, para não comprometer a sua dignidade de
feitor do pen. Como símbolo daquela dignidade, trazia debaixo do braço
um chicote que não largava nunca, porque não deixava perder ocasião de fazer
sentir aos seus escravos o peso do seu terrível cetro.
Seriam onze horas quando Jessuron apareceu debaixo da varanda e veio encostar-sé à
balaustrada dominante do pátio. Uma fornalha acesa foi para onde primeiramente
convergiram seus olhares. A fornalha estava colocada junto dos degraus da
escadaria.
Três ou quatro mulatos de fisionomia triste olhavam para um ferro já em brasa, que
um deles mantinha ao fogo.
Todos os negros, com exceção dos africanos recém-chegados, conheciam aquele
instrumento por terem já sentido sobre as carnes o seu contato abrasador.
— Vamos, Ravener! bradou o judeu assim que se sentou comodamente numa poltrona de
bambu; comece por estes.
Indicava um grupo de ibos que se conservavam a um canto do pátio.
A um sinal do inspetor, vários negros velhos apoderaram-se dos infelizes, que
tremiam à vista do ferro em brasa ao mesmo tempo que os mais novos pediam
comiseração em altas vozes.
Espalhou-se pelo pátio um cheiro de carne queimada; ouviram-se exclamações selvagens
arrancadas pela dor. Mas a operação prosseguiu desapiedadamente.
Os ibos foram marcados com iniciais J. J., letras que deviam levar para o
túmulo.
Sucedeu-lhes um bando de paupars, e diferente foi sua atitude. Sem terror, e também
sem arrogância, suportaram resignados o suplício.
Passou em seguida por diante do braseiro um grupo de coromantas. Estes feros
guerreiros africanos descobriram por suas próprias mãos o peito. E não foi só.
Um dos mais moços, arrancando o instrumento das mãos do operador, aplicou-o ele
mesmo no peito nu, e o cheiro das carnes queimadas mostrou que o ferro fora bem
aplicado.
Feito isto retirou-se com passo firme.
— Agora, quais? perguntou Ravener.
— Os mandingas, ou, antes, o príncipe! respondeu Jessuron com um sorriso
mau.
Ravener atravessou o pátio e foi abrir uma porta pertencente a um compartimento
separado do telheiro dos escravos. Tornou logo a aparecer com um indivíduo que
pelo trajar dificilmente se reconheceria pelo príncipe Cingues. O moço fulo
nada perdera ainda do seu orgulho; mas trazia o aspecto sombrio.
Ravener conduziu-o para junto da fornalha. O moço olhou em torno de si de um modo um
tanto alucinado, pressentindo um ultraje, mas sem adivinhar qual seria.
Decorreu um segundo; o operador levantou o ferro em brasa.
O príncipe Cingues era escravo de Jessuron.
Como se só então a verdade se lhe revelasse, o fulo soltou um grito agudo, e antes
que alguém tivesse tempo de se opor ao seu ímpeto, galgou a escada, alcançou a
varanda e lançou-se ao judeu. Caíram ambos por terra atracados em encarniçada
luta.
Ravener e os dois espanhóis acudiram em socorro do amo. Subjugaram Cingues e
conseguiram, não sem custo, arrancar-lhe das mãos o velho judeu, meio sufocado
pelo terrível ataque.
— Cem açoites nesse selvagem! bradou Jessuron assim que tornou a si do desmaio.
O príncipe Cingues foi amarrado a um poste cravado no meio do pátio. Um verdugo
de formas atléticas zurziu-o com a chibata, e à centésima pancada o pobre negro
caiu desmaiado de encontro ao poste tinto do seu próprio sangue.
E dizer-se que ainda hoje no seio de populações cristãs a escravidão tem
partidários!
Depois de deixar a inóspita casa do tio, Herberto dirigiu-se para o lado do bosque.
Atravessou-o e achou-se em seguida numa das faldas da montanha.
Em meio da tempestade de desencontrados pensamentos que se lhe debatiam no
espírito, acudira-lhe uma reflexão que o impedira de seguir ao longo da
alameda. Não quisera expor-se a ser visto pela gente da fazenda. Chegando ao
extremo da plataforma, saltou um muro bastante baixo que o separava dos campos
adjacentes, e começou a subir a encosta por baixo duma floresta de pimenteiras.
A princípio caminhou ao acaso, sem poder recuperar a serenidade suficiente para
formar um projeto: Finalmente parou, com a idéia de voltar, se fosse possível,
para Montego-Bay.
Porém a abóbada de espessa folhagem debaixo da qual caminhava não lhe permitia
orientar-se por meio da única baliza natural de que se podia valer, isto é, o
rio que atravessara. É verdade que quando teve de confessar a si mesmo que se
tinha perdido, consolou-se um pouco com a idéia de que na cidade nenhum abrigo
se proporcionava ao viajante totalmente desprovido de dinheiro.
Demais, o sol declinava. Era preferível parar debaixo dos ramos frondentes dum
algodoeiro, cujos braços se erguiam diante dele numa pequena clareira onde
entrara.
Por entre os ramos viam-se abertos alguns capulhos e por baixo o solo estava
coberto duma felpa que formava uma espécie de cama, como que preparada para o
primeiro que viesse.
Herberto perguntou a si mesmo se a questão da ceia seria tão fácil de resolver; estava
apenas com um pedaço de carne de porco salgada e um triste bocado da bolacha
que tinha comido ainda a bordo, e começava a sentir-se apertado pela fome.
Desde que entrara na floresta não vira passar nenhuma peça de caça, e entregava-se a
infrutíferas pesquisas quando lhe atraiu a atenção uma árvore que teria de
altura mais de cem pés. O tronco, liso como coluna de mármore, desatava-se no
alto em folhagem verde e brilhante, que pendia graciosamente lembrando um toucado
de finíssimas plumas.
Herberto, que estudara com muito gosto história natural, reconheceu naquele gigante da
floresta a areca oredoscia, a couve gigantesca da Jamaica, e lembrou-se
de que mais dum viajante encontrara nela remédio para a fome.
Ser-lhe-ia impossível trepar por aquela coluna lisa; mas por fortuna no tronco
enroscava-se um nodoso cipó. Graças a ele Herberto pôde tentar a conquista da
ceia.
Conseguiu com efeito chegar ao alto da árvore, e, afastando as folhas que ali se
desdobravam, descobriu os rebentos mais tenros, cortou-os, atirou-os para terra
e desceu.
Depois de cear agradavelmente comendo aqueles talos crus, macios e saborosos, juntou e
dispôs entre duas enormes raízes do algodoeiro a felpa que havia em grande
quantidade pela clareira, e estendeu-se naquela cama agreste, que a fadiga lhe
houvera feito achar excelente se fosse outra a disposição do seu espírito.
Apesar de agradável a cama, os acontecimentos daquele dia e as preocupações do futuro
causaram-lhe sonhos dolorosos.
Herberto despertou com os primeiros fulgores da manhã. Quando abriu os olhos, o topo das
árvores tinha um colorido rosado, mas por baixo da ramagem reinava uma forte
penumbra.
Herberto limpou-se da felpa que se lhe apegara ao fato e pensou em pôr-se a caminho; mas
a fome voltara-lhe mais exigente que na véspera, e só tinha para a satisfazer
os restos da ceia, com os quais se contentou.
Julgava que teriam termo aquelas imperiosas necessidades da vida material, mas veio a
sede atormentá-lo.
Depois de vaguear sem ver a mais pequena nascente, lembrou-se de que na sua ascensão
da véspera entrevira um veio d’água através dos ramos do algodoeiro que lhe
dera abrigo.
O tronco da ceiba (ou algodoeiro) estava revestido de um grande número de
parasitas: frésias, cactáceas, orquídeas e muitas outras. Entre os troncos das
árvores cresciam as tiliáceas, e era no côncavo dos cálices das suas flores
escarlates que Herberto supôs ter visto cintilar uma espécie de argênteo
líquido.
Resolveu verificar o que era aquilo e subiu à árvore principal. Não lhe falharam as
esperanças; bebeu nos frescos reservatórios a água que ali aglomeravam as
chuvas e o orvalho.
Cheio de gratidão para com a floresta que lhe dera hospitalidade, sentou-se entre os
ramos da ceiba e disse a meia voz:
— Obrigado, formosas árvores, que fostes para mim menos desumanas que os
habitantes desta ilha. Seria agradável viver aqui se...
Mas foi de pronto arrancado àquele sonho de vida livre que afagava no espírito.
— Que vejo? disse consigo. Um gamo? Não. Um porco-do-mato?... Orelhas curtas e
direitas, cabeça comprida, presas agudas... E se fosse um javali?
Era efetivamente um javali. À vista daquela formosa peça de caça, Herberto ficou
muito penalizado, porque antes de subir para o algodoeiro encostara a
espingarda ao tronco. Fosse porém qual fosse a sua decepção, viu que fazendo
algum movimento para descer e agarrar a arma despertaria a atenção da fera, e
resignou-se a ficar no seu poleiro contemplando os movimentos daquele selvagem
morador dos bosques.
O javali parou diante dos restos do almoço de Herberto e começou a roer alguns
pedaços da couve-palmeira, bulindo com a cauda e rosnando de prazer.
De súbito levantou a cabeça e soltou um grunhido de alarma; eriçaram-se-lhe as
sedas do lombo e os pêlos do pescoço tomaram o aspecto de espinhos.
Herberto procurou com os olhos o inimigo e não viu dele o menor indício. Mas era mais
seguro o instinto da fera, a qual se dispunha a fugir quando soou na floresta
uma forte detonação; sibilou uma bala e o animal caiu de costas soltando um
uivo.
Dum dos quartos começou logo a brotar um jato de sangue. Tornou a levantar-se e
apoiou-se entre duas enormes raízes da ceiba, exatamente no lugar onde Herberto
passara a noite. Ficava deste modo protegido dos dois lados e por trás. E
conservou-se imóvel; soltando grunhidos abafados.
Saiu então da mata um homem armado duma espécie de sabre curto. Atravessou a
clareira de corrida, em direção ao algodoeiro, e entre ele e o temível animal
empenhou-se uma luta encarniçada. Apesar do ferimento o javali nada perdera da
energia, e o caçador era obrigado a desenvolver a maior destreza para se subtrair
ao alcance das suas terríveis presas. Cada adversário investia para o outro
alternadamente; por fim o caçador empregou um ardil que lhe permitiu dar o
golpe decisivo.
O javali fora enganado por um falso movimento do caçador. Vendo este aventurar-se
a fera para fora do seu abrigo, deu um salto prodigioso, e veio cair exatamente
no ângulo formado pela sapopemba da ceiba. Depois, sem dar ao animal tempo de
se voltar, enterrou-lhe o ferro nas costelas até ao cabo.
O javali caiu, e desta vez para não mais levantar. O seu sangue inundava agora o
improvisado colchão sobre que dormira Herberto.
Dispunha-se este a descer, mas uma reflexão fê-lo conservar-se no seu esconderijo.
O caçador tinha uma fisionomia bastante estranha, o que o fez desconfiar.
O homem andaria pela idade de Herberto: a sua cor, um pouco trigueira, não tinha
ainda o tom escuro dos mulatos. Devia ser das raças atravessadas, africana e
caucásica, a avaliar pelas madeixas negras como azeviche que lhe ornavam a
cabeça, meio oculta por um toucado que Herberto tomou a princípio por um
turbante.
Examinando melhor o toucado, reconheceu que era um vistoso lenço de seda de cores
brilhantes, artisticamente disposto em volta da fronte, e preso ao lado por uma
laçada.
O resto do trajo deste explorador dos bosques compunha-se duma veste curta de
algodão azul, de finíssima camisa toda amarrotada, de calça semelhante à veste
e de botas de búfalo. Cruzavam-lhe o peito correias de couro; as extremidades
da correia, que pendiam para o lado direito, serviam-lhe para trazer suspenso
um polvarinho, uma bolsa de caçador e uma cabaça; debaixo do braço esquerdo
via-se um chifre recurvo e do mesmo lado, sobre o quadril, pendia a bainha do
ferro umedecido de sangue que ainda tinha na mão.
Esta arma era o machete, meio sabre e meio faca, que ainda se encontra na América,
como relíquia dos colonos conquistadores, em toda a parte por onde passaram os
espanhóis.
Depois de deitar um olhar ao cadáver do javali estendido a seus pés, o caçador
descobriu de repente a espingarda de Herberto ao lado dos restos da
couve-palmeira.
— Oh! exclamou consigo em voz alta, segundo o costume dos solitários; uma
espingarda! Algum escravo fugitivo roubou esta arma ao senhor... Mas por que a
deixou aqui?... Fugiu por certo à aproximação do javali... Espera! Que vejo? O
fugitivo que decerto vem buscar a espingarda... Hoje é que é estar de sorte! Esta
linda peça de caça e mais um prêmio por apanhar um escravo!...
Dizendo estas palavras o caçador ocultou-se no ângulo formado pelas duas raízes da
ceiba, e ali se conservou imóvel como à espera de alguém que via avançar em
direção à árvore.
Do lugar onde estava, Herberto pôde avistar o indivíduo que se aproximava. Era um
mancebo de cor acobreada que trazia o rosto arranhado e os cabelos emaranhados,
parecendo que alguém lhos agarrara para os arrancar. A sua camisa grosseira
estava manchada de sangue.
O seu modo de andar era tão extraordinário como o trajo; caminhava sobre os
joelhos e mãos com extraordinária rapidez, o que provava saber que o
perseguiam.
Assim que o fugitivo se achou na clareira, levantou-se e deitou a correr para o
algodoeiro. A suposição de Herberto foi que ele esperava ocultar-se nos ramos
enormes da árvore; quanto ao caçador, imaginou que o recém-chegado vinha buscar
a espingarda, porque estava bem longe de suspeitar que o proprietário dela se
achava aninhado no alto da ceiba.
— Alto! bradou o caçador ao fugitivo, quando este se achou próximo do tronco. O
escravo lançou-se-lhe aos pés, murmurando uma súplica, mais por gestos que pela
voz ofegante.
— Crambo! exclamou o caçador examinando as iniciais J. J. marcadas no
peito do fugitivo; não me admira que fugisses tendo semelhante marca no peito!
Descobriu as costas tapadas pela camisa do mísero; as carnes estavam sulcadas de golpes
que punham os músculos à vista, como se observa em algumas figuras de anatomia.
— Deus dos céus! exclamou o caçador com indignação; pois podem-se ver tais coisas
num país em que sois adorado?
O escravo abraçou os joelhos do explorador dos bosques e ergueu para ele os olhos
arrasados de lágrimas.
— Percebo, disse o caçador. Eles vêm em tua perseguição. Bem, deixa-os vir. O
prêmio é para mim e não para eles. Pobre diabo, não me apetece nada entregar-te
às mãos deles, e se não fosse a lei que a isso me obriga, desprezaria a indigna
recompensa. Ah! Eles aí vêm!... Ouço os latidos dos cães... Para aqui, meu
pobre companheiro.
O caçador fez que o fugitivo se colocasse entre as duas raízes da ceiba.
— Conserve-se agachado, disse-lhe; deixe por-me em frente. Aqui tem a espingarda.
Não atire, salvo quando tiver certeza de acertar. Precisamos de todas as nossas
armas para nos livrarmos destes cães espanhóis... Ei-los,
Crambo!
Efetivamente, os dois molossos saltaram dentre as sebes que fechavam a clareira. A cor
avermelhada que traziam no focinho mostrava terem sido engordados com sangue e
tornava mais horríveis as suas presas arreganhadas.
Precipitaram-se imediatamente para o algodoeiro. O primeiro foi espetar-se na faca estendida
pelo caçador; o segundo, que saltara sobre o fugitivo, recebeu à queima-roupa a
descarga da espingarda, e como o primeiro, rolou sem vida no solo.
Do alto da árvore, Herberto principiava a crer que sonhava.
O drama entretanto não estava ainda no fim. Como coisa alguma o provocava a sair
da rigorosa neutralidade em que se mantivera, Herberto resolveu limitar-se ao
papel de espectador.
Acabava de tomar esta resolução, quando apareceram três novos personagens.
Um deles, que parecia chefe, era homem de estatura elevada, vestido de um colete
de pelúcia vermelha, calçado de botas com esporas. Estava armado de espingarda
e pistolas. Os restantes, de tipo espanhol, não tinham outra arma senão o
machete.
Fizeram alto diante do algodoeiro. O indivíduo que parecia comandar o bando tomou a
palavra com arrogância.
— Que maneira de proceder é esta? Por que me matou os cães?
— Se não desse cabo deles, respondeu o caçador com um sangue-frio que lhe
granjeou a aprovação tácita de Herberto, não seriam eles que dariam cabo de
mim?
— Estavam muito bem ensinados para não o fazerem, retorquiu o outro. Era àquele
negro que perseguiam. Por que se meteu a protegê-lo?
— A minha obrigação é vigiá-lo, porque é meu prisioneiro. Morto, só receberia
duas libras de prêmio pela sua cabeça; vivo, rende-me o dobro. Que tem que
responder a isto, cavalheiro?
— Que não escutaremos por mais tempo semelhantes tolices. Este escravo pertence a
Jacob Jessuron, de quem sou servidor; foi apanhado nas terras de meu amo e você
não pode reclamar o prisioneiro e muito menos o prêmio. Portanto, avie-se e
entregue-o.
E os homens avançaram brandindo as facas, todos três prestes a fazer uso das
armas.
— Pois venham, vociferou o caçador; mas o primeiro que lhe puser a mão é um homem
morto. Covardes! Atacam-nos três e nós somos apenas um, porque esta criatura
está meio morta de maus tratos.
— Três contra dois, isso é que não há de ser! exclamou Herberto.
E saltando da árvore pôs-se do lado dos mais fracos, de pistola engatilhada.
— Quem é o senhor? perguntou Ravener com arrogância. Quem é este branco que se
põe em contravenção com as leis da ilha? Deve conhecer o código, senhor, e
responderá pelo que está fazendo.
— Se proceder contra a lei terei de responder por isso, redargüiu Herberto; mas
não me convém aceitar ao senhor como juiz.
Malgrado a sua insolência, o feitor sentiu esfriar o ardor belicoso, depois de ser
medido de alto a baixo pelo novo adversário. Intimou mais uma vez o caçador a
que restituísse o escravo, mas como ouvisse nova recusa, ameaçou o moço inglês
com a justiça da Jamaica e deu aos dois espanhóis sinal de retirada.
Partiram estes atrás do chefe, soltando imprecações contra o caçador que lhes tinha
assassinado os cães.
— Vão, gritou-lhes este, vão para o seu país perseguir os escravos fugitivos!
Aqui bem podem deixar o campo a quem lhes sabe fazer frente, aos quilombolas
como eu.
Depois de se retirarem os emissários de Jessuron, o caçador volveu para Herberto um
olhar de gratidão.
— Senhor, exclamou, não bastam palavras para demonstrar quanto estou reconhecido
pelo serviço que me acaba de prestar. Dê-me ao menos a conhecer o nome do
bondoso branco que arriscou a vida por Cubissa, o escravo fugido.
— Chamo-me Herberto Vaughan, respondeu o moço inglês, surpreendido pela
singularidade daquele nome, daquele título.
— Pelo que me diz concluo que tem parentes na ilha, o dono de Mount-Welcome...
— É meu tio.
— Não é coisa fácil atinar com o caminho através destes bosques. Desculpe a minha
curiosidade, senhor Herberto Vaughan; mas deve ter chegado de noite, porque
não há dez minutos que o sol assomou por cima das árvores, e a distância de
Mount-Welcome é pelo menos de três milhas.
— Passei a noite, respondeu o inglês, no lugar onde jaz o javali que você matou
com tanto denodo.
— Então a espingarda pertence-lhe, e não ao escravo, como eu supunha...
— Sim, é a minha espingarda, e estimo que estivesse carregada porque salvou esta
pobre criatura da fera que lhe haviam lançado. Serviu-se bem da arma. Quem é, e
o que queriam dele?
— Ah! meu senhor, essas perguntas provam que é novato nesta ilha. Vou responder a
ambas, apesar de ser a primeira vez que vejo este rapaz.
— Mas interroguemo-lo a ele próprio. Que te fizeram? perguntou Herberto ao
fugitivo, que olhava silenciosamente para os dois mancebos com um olhar de reconhecimento
em que ao mesmo tempo se notava receio.
Vendo que lhe dirigiam a palavra, o interrogado respondeu numa língua desconhecida
com a qual misturou as poucas palavras inglesas que sabia.
Os termos “eu, livre, príncipe, enganado, atraiçoado, fulo, nem escravo,
nem vendido” figuraram repetidas vezes no seu discurso.
— É escusado perguntar-lhe mais alguma coisa, Mr Vaughan, tornou o caçador,
esgotou todo o seu vocabulário inglês; mas é fácil ver que desembarcou há pouco
na Jamaica, porque tem a carne ainda inflamada com a marca que lhe puseram.
Veja como aquele abominável judeu o tratou!
E o escravo mostrou as costas do mísero cobertas de chagas.
Herberto arredou a vista estremecendo de horror.
— Donde pode vir este desgraçado? perguntou; não tem feições de preto.
— Da África, por certo; nem todas as tribos africanas são pretas. Proferiu uma
palavra que me impressionou. Ia apostar que é um fulo.
— Sim, fulo, fulo! exclamou o fugitivo ouvindo o nome da sua raça.
— Também pretende que o enganaram, que não é escravo. É um fato que eu desejaria
esclarecer, e agora me lembra, Mr Vaughan, que seu tio tem exatamente uma
escrava fula que poderia entender a linguagem deste infeliz, e fazer-nos
compreender a sua história. Se andasse nisto iniqüidade do velho Jessuron!...
Do contrário não terei remédio senão entregar esta pobre criatura a seu senhor.
— E por que a há de entregar? perguntou Herberto.
— Infelizmente, assim é preciso. Há uma lei que nos obriga a restituir aos donos
os escravos que apanhamos e se faltarmos a esta obrigação...
O caçador abanou a cabeça; e como se desejasse mudar de conversa acrescentou:
— Foi andando à caça que se perdeu esta noite? Eu me incumbo de o pôr a bom
caminho de Mount-Welcome.
— Não tenho pressa de voltar para a fazenda, e talvez nunca para lá volte,
redargüiu o inglês.
O caçador olhou para ele com admiração, mas absteve-se discretamente de qualquer
pergunta. Descobrindo no chão os restos da couve-palmeira disse com ar
folgazão:
— São os restos do seu almoço, Mr Vaughan?
— E da minha ceia de ontem à noite, respondeu o mancebo, cativado pelo tom cordial
de Cubissa.
— Então, se não tivesse repugnância em compartilhar a minha refeição,
atrever-me-ia a oferecer-lhe um almoço mais sério. Aceita?... Bem, vou chamar
os meus criados.
O caçador levou aos lábios o chifre que lhe pendia ao lado e tirou um toque
prolongado: Responderam-lhe vários sons de trompa, partidos de muitas direções.
Eram evidentemente respostas ao chamamento do chefe.
— Bem vê, meu senhor, disse Cubissa em tom orgulhoso, que estes abutres não
teriam podido seguir o seu capricho. Os meus falcões não estavam longe. Nem por
isso lhe fico menos agradecido; mas eu sabia que as ameaças daqueles covardes
eram puras fanfarronadas... Ah! eles aí vêm.
— Quem?
— Os meus companheiros.
Herberto sentiu o estalar de ramos nas moitas próximas, e no mesmo instante viu surgirem
delas uma dúzia de homens armados, que se dirigiram para o algodoeiro.
O moço inglês contemplou o bando com curiosidade, compreendendo que tinha diante
de si alguns dos quilombolas da Jamaica, cuja raça sustentava havia duzentos
anos a sua independência, apesar de todos os esforços da população branca da
ilha. Lembrou-se da narrativa das lutas heróicas de que foram teatro as
montanhas azuis, e dizia consigo que aquele pequeno povo podia ter orgulho de
trilhar um chão regado pelo seu sangue em contínuas guerras, nas quais os
adversários eram os mais bem armados e dez vezes mais numerosos.
Por isso Herberto contemplou os recém-vindos com extremo interesse.
Eram negros de elevada estatura, em cujo rosto se manifestava a saúde, e em cujos
olhos se revelava o sentimento da independência.
Na altivez do aspecto mostravam ser homens livres, caçadores ou guerreiros.
Estavam armados de espingardas, compridas facas e machetes, e traziam, como
Cubissa, um chifre e uma cabaça a tiracolo.
Alguns, em lugar da habitual bolsa de caça, estavam carregados de cuctacus,
cestos feitos de fibras de palmeira, nos quais transportavam as necessárias provisões
para a vida errante.
O seu trajo não deixava de ter originalidade. Servia-lhes de chapéus o lenço de
cores enrolado na fronte; muitos vestiam camisas sem mangas, outros tinham por
único vestuário o pedaço de estofo branco que lhes cingia os rins. Na
generalidade, porém, calçavam botas de esquisitos feitios. O couro de javali,
de que eram feitas, modelava-se ainda fresco e a verter sangue sobre a perna,
da qual, secando, tomava a forma exata, como se fora uma meia elástica.
— Este “senhor” branco não almoçou ainda, disse Cubissa aos seus camaradas; vamos
a saber, Quaco, a que há nos cuctacus.
O indivíduo interpelado era um rapaz de proporções colossais e fisionomia
benévola, que parecia ocupar um posto no bando.
— Parece-me, capitão, respondeu ele com jovialidade cômica, que uma coisa daqui,
outra d’acolá fará o negócio, isto se o cavaleiro não for muito difícil de
contentar-se a respeito da qualidade dos petiscos.
— Ora vejamos, tornou Cubissa correndo os olhos pelos cestos. Uma perna de
cabrito montês assada. É bom para fazer boca. Que mais? Um par de lagostas,
dois pombos trocazes e uma galinha-do-mato. Muito bem. Quem está encarregado do
café e do açúcar?
— Eu, capitão! exclamou um deles mostrando com ar vitorioso os utensílios
necessários para a preparação da bebida.
— Fogo, e depressa! ordenou Cubissa em tom de bom humor.
Juntaram-se
folhas e ramos secos, o isqueiro trabalhou e no mesmo momento vívidas chamas se
elevaram na lareira improvisada.
Um triângulo de ferro colocado sobre dois ramos em forma de forquilha serviu para
sustentar duas vasilhas de cobre por cima do braseiro. Os pombos e a galinha,
depenados e chamuscados, foram divididos em pedaços e deitados na vasilha
maior, onde lhe fizeram companhia as lagostas e também uma parte da perna de
cabrito. Um punhado de sal, um pouco de água, algumas fatias de arum e
de calalu, e um pouco de pimentão serviram de tempero.
Quaco, que fazia de cozinheiro-chefe, declarou ao fim de algum tempo que a gamelada a
ferver furiosamente estava no ponto.
Foi logo disposta sobre a relva uma baixela completa feita de casca de tartaruga e
cuias.
Herberto e o capitão serviram-se daquele guisado, que deitava um cheiro delicioso.
Seguindo o seu exemplo, os homens sentaram-se formando grupos e banquetearam-se
à parte.
O banquete não consistia só na panelada. Também lhe juntaram as costelas do
javali caçado havia pouco, e uma porção de bananas e coco assados sobre as
cinzas, que faziam as vezes do pão.
Nunca as mais belas chávenas de Sèvres contiveram mais delicioso café que o que
encheu as cuias dos quilombolas!
O fulo não ficou esquecido nesta festa ao ar livre dos bosques. Quaco
tomou cuidado para que ele não perdesse a sua parte de todos os manjares
servidos.
Concluído o almoço, os negros juntaram os seus utensílios e prepararam-se para a
retirada.
O javali foi dividido em pedaços que se distribuíram pelos cuctacus.
Quaco untou as costas feridas do escravo com um ungüento balsâmico e fez compreender
ao desgraçado Cingues que devia seguir o bando. Longe de desconfiar dos seus
novos protetores, o fulo deixou transparecer extrema alegria, não se
mostrando ingrato ao bom tratamento que lhe tinham dado.
Em respeito ao seu chefe, pelo qual manifestavam grande deferência, os quilombolas
conservaram-se à parte enquanto ele se despedia do jovem inglês.
— Visto que é estrangeiro na ilha, disse ele a Herberto, ofereço-lhe um dos meus
para lhe servir de guia.
— Agradecido; acertarei sozinho com o caminho, redargüiu Herberto.
— Seja qual for o lugar para onde se dirige, insistiu Cubissa, lembrando-se de
que Herberto não queria voltar para Mount-Welcome, vai correr o risco de se
perder; esta clareira é rodeada de bosques difíceis de atravessar.
— É muita a sua bondade, disse Herberto comovido pela delicada solicitude do
caçador. Desejo ir a Montego-Bay, e se um dos homens quiser ensinar-me o
caminho, ficar-lhe-ia muita obrigado. Mas devo declarar que em virtude de
certas circunstâncias, não o poderei recompensar do seu trabalho, e só lhe
poderei agradecer.
— Senhor Vaughan! disse Cubissa com um riso cordial, dar-me-ia por ofendido com
as suas palavras, se não soubesse que ignora os nossos costumes. Depois,
esquece-se de que há uma hora se pôs diante do cano duma pistola para proteger
a vida dum escravo fugido, dum pobre mulato proscrito...
— Desculpe-me, capitão, asseguro-lhe que...
— Basta, meu senhor. Compreendo perfeitamente que o seu coração generoso está
isento de preconceitos de casta e de cor. Enquanto for vivo Cubissa, lembre-se
de que para além das montanhas azuis fica a morada dum quilombola cujo coração
lhe é reconhecido. Se alguma vez lhe der o capricho de o honrar com uma visita,
ou se a necessidade a isso o obrigar, achará sob o seu humilde teto o bom
acolhimento dum amigo.
— Obrigado! exclamou Herberto, a quem esta expansão fez moralmente um grande bem.
Talvez me aproveite do seu oferecimento hospitaleiro. Até à vista!
— Pois até à vista! repetiu Cubissa, apertando a mão que para ele estendia o moço
inglês. Quaco! ensina a este senhor o caminho de Montego-Bay. Que a fortuna o
proteja, senhor!...
Como por índole fosse pouco conversador, Quaco não interrompeu as meditações de
Herberto, que pelo caminho ia refletindo na sua singular aventura.
Mas depois de andarem uma milha o guia sentiu uma espécie de escrúpulo que entendeu
dever submeter ao companheiro.
— Eis dois caminhos, disse ele; o da direita é o mais curto, o melhor e o mais
perigoso.
— Por quê?
— Vê aquela casa, exatamente por cima daquele tope? É o barracão do judeu, do
dono do escravo fulo...
— E então, que importa?
— Meu “senhor”, se tomarmos pela direita passaremos por diante da casa. A gente
do judeu pode ver-nos. Aquele demônio é juiz de Paz e pode fazer-nos mal.
— Por causa do negócio do fugitivo?
— O capitão tem o direito de reclamar o fugitivo, porque é presa sua, mas os
demônios dos espanhóis hão de
fazer barulho por causa dos cães; e nós, homens das montanhas, não queremos
dessas questões. Tudo isso é mau. E o senhor emprestou a espingarda, impediu os
espanhóis de apanharem o escravo...
— Não tenho medo de responder diante da justiça pelo que fiz, redargüiu Herberto
convencido de ter procedido eqüitativamente; mas se receia alguma coisa por
você e pelos seus, tome pelo caminho que quiser.
O caminho da esquerda, escolhido por Quaco, corria através do bosque; o solo
pedregoso era todo de subidas e descidas, o que tornava difícil a marcha. Finalmente chegaram ao planalto duma
montanha e meteram-se por entre bosquezinhos pouco cerrados de pimenteiras.
Deste ponto elevado Herberto avistou um casarão que alvejava em meio das verduras da
paisagem, e reconheceu Mount-Welcome.
Seguiam por um caminho que formava ângulo com a plantação e devia levá-los à alameda
dos tamarindos.
Quando Herberto notou esta particularidade, pediu ao escravo que tomasse um pouco para a direita a
fim de alcançar a estrada sem atravessar a propriedade de Loftus Vaughan.
O negro obedeceu, não sem pesar, porque murmurou ao tomar aquela direção algumas
palavras a respeito do sítio do judeu.
Pouco depois Herberto teve a satisfação de se achar no caminho de Montego-Bay.
Dispunha-se a mandar embora Quaco, de quem já não tinha precisão, quando
desembocou duma espessura um bando de homens a cavalo. Ao vê-los, Quaco correu
para o matagal gritando ao moço inglês que fizesse outro tanto.
Herberto desdenhou esconder-se e esperou impassível os seis ou sete homens, que
avançavam para ele com intenções ainda desconhecidas. Vendo a determinação do
seu protegido, o negro achou-se dum salto ao seu lado, não sem protestar contra
tal imprudência.
— Fomos apanhados, senhor! É a harpia[6] de Ravener, disse suspirando.
Mal proferia estas palavras e já a cavalgada os alcançou.
Apearam-se todos.
— Eis os nossos homens! exclamou Ravener, que o inglês reconheceu pela camisola
vermelha e a barba preta. Isto é que é descobrir a caça sem a procurar! Senhor
Tharpey, cumpra o seu dever!
— Está preso, senhor! disse o personagem a quem Ravener se dirigia. Sou chefe da
polícia municipal e prendo-o em nome da lei.
— Por que motivo? perguntou Herberto indignado.
— Aqui o senhor Ravener lhe dirá. Eu por mim não tenho que responder às suas
perguntas. Vai acompanhar-me à presença da justiça. O magistrado mais próximo
não é o custos Vaughan?
Apesar do homem da polícia ter feito em voz baixa esta pergunta a Ravener, Herberto
estremeceu como a lembrar-se de que, na qualidade de criminoso, tinha de tornar
a ver seu tio, e de passar pela humilhação de ser mirado pelo monóculo do seu
companheiro de viagem.
Ficou entretanto mais consolado quando Ravener lhe observou que seu tio, apesar de
ser o magistrado mais próximo, cedera seus direitos em favor de Jacob Jessuron.
Herberto e Quaco foram conduzidos à presença do juiz. O primeiro conservava-se
silencioso e digno. Quanto ao segundo, ameaçava Ravener e a polícia de que
haviam de arrepender-se do ultraje feito a um liberto.
Jessuron presidia ao julgamento na varanda da sua sombria residência. Estava sentado
numa pequena mesa, coberta dum pano verde, sobre a qual se achava o código da
Jamaica, entre um tinteiro e folhas de papel em branco.
Como assim o exigia o solene da ocasião, o juiz estava vestido com a sua melhor
sobrecasaca azul de botões amarelos, e tinha ao lado o seu gorro branco, pois
que o respeito da justiça exigia que quem a exercesse tivesse a cabeça
descoberta.
Com os óculos acavalados no nariz de papagaio, as chupadas faces intumescidas agora
pela importância, Jessuron esperava que os acusados fossem trazidos.
As atribuições de Jessuron apenas lhe davam o direito de ordenar a prisão
preventiva do culpado. O julgamento dum réu branco exigia a presença de três
magistrados e dum custos.
Herberto apareceu finalmente, conduzido por Tharpey e seus auxiliares; à sua direita
vinha Ravener, ladeado dos dois espanhóis. Quanto a Quaco, fora deixado no
pátio sem guardas, porque na realidade não existia nenhuma acusação contra ele.
Ravener formulou sua queixa, e Herberto teve de apresentar sua defesa.
— Moço! disse-lhe o juiz secamente, que responde à acusação? Mas primeiramente,
como se chama?
— Herberto Vaughan.
Jessuron deu um tal pulo na cadeira, que os óculos lhe subiram pela testa enrugada e
tornaram a cair no vinco que já tinham feito no nariz.
— Herberto Vaughan! repetiu ele esfregando as mãos. Será por acaso parente do
proprietário de Mount-Welcome?
— Sou seu próprio sobrinho, filho de seu irmão.
O juiz despediu um olhar de júbilo através dos óculos, e, curvando-se sobre a
mesa, ficou por algum tempo silencioso, calculando o que podia tirar de
desagradável para seu vizinho do incidente que levava à presença do juiz de paz
um seu parente.
— E chega da Inglaterra, suponho... Há quanto tempo está na Jamaica?
— Há vinte e quatro horas.
— Vinha, decerto, com a intenção de residir em Mount-Welcome?
Herberto absteve-se de responder.
— Em todo o caso, passou lá a noite? Perdoe-me esta pergunta, mas como
magistrado...
— “Vossa Honra”, replicou Herberto dando tom irônico a este tratamento, está no
seu direito; não pernoitei em Mount-Welcome, mas no bosque.
— No bosque? E o seu tio sabe isso?
— Suponho que o ignora; em todo o caso, porém, não se importa muito com o que eu
possa dizer ou fazer.
Estas palavras foram proferidas com um tom que não escapou ao astucioso Jessuron.
Começava ele a entrever que as relações do tio e do sobrinho não eram
amistosas, e interrompeu o interrogatório para conferenciar em voz baixa com
Ravener e Tharpey.
O resultado deste colóquio secreto foi tão agradável como inesperado. Em vez dum
juiz severo, o moço inglês passou a ver apenas um homem amável em Jessuron,
quando este lhe dirigiu novamente a palavra, erguendo-se do assento magistral.
— Herberto Vaughan, disse-lhe estendendo a mão, queira desculpar a vivacidade dos
meus servidores. É um grande crime neste país socorrer um escravo que foge; mas
como o senhor desembarcou há pouco e não conhece as nossas leis, a justiça será
indulgente. Demais, o fugitivo, que é um dos meus escravos, ser-me-á restituído
quando eu o quiser. A pena que ao senhor eu imponho, e sobre a qual insisto, é
que jante comigo.
Não sabendo como explicar a mudança de maneiras do juiz, Herberto imaginou que
Jessuron quisera poupar uma pessoa aparentada com um dos seus vizinhos, o qual
era talvez seu amigo, e a lealdade, portanto, prescrevia-lhe o dever de
informar o judeu acerca da natureza das suas relações com Loftus Vaughan. Mas
não fez esta confissão senão depois do jantar, quando já se haviam retirado
todos os escravos e os dois se acharam a sós.
— Sinto muito por sua causa, senhor Vaughan, disse Jessuron, o que acaba de me
declarar. Seu tio é muito orgulhoso; não me admira esse modo de proceder. Porém
uma pessoa tem deveres para com os seus parentes, e ainda que eu e ele não
sejamos grandes amigos apesar das muitas razões que tínhamos para o sermos,
ofereço-me como medianeiro entre o senhor e ele.
— Nunca me reconciliarei com meu tio depois do que se passou.
— Oh! isso é orgulho da mocidade! Nesse caso, que tenciona fazer? Suponho que
terá algum dinheiro?
— Nem um xelim, senhor Jessuron. Ia à cidade procurar alguma ocupação com que
pudesse subsistir, e se não fosse o seu convite, é provável que hoje passasse
sem jantar. Isto faz-me refletir que é tempo de me despedir e agradecer a sua
hospitalidade. Vejo pelo sol que são horas de me dirigir para Montego-Bay.
— Espere, espere! disse o judeu. Não me deixará assim. Sou melhor parente que o custos...
— Que quer dizer, senhor? perguntou-lhe Herberto admirado.
— Suponho, pelo que praticou esta manhã, que é homem despido de preconceitos e
que não repudiará a memória de Miss Ellen Vaughan, a tia do custos, por
ter ela desposado em mim um israelita. Loftus Vaughan nunca lhe perdoou esta união.
Queria que ficasse solteira para herdar dela, e apesar de vivermos como bons
vizinhos, de então para cá nunca me considerou aliado da sua família e nem ao
menos compareceu ao enterro de minha mulher. Mas não se dirá nunca que um
Vaughan se viu em embaraços e Jacob Jessuron o não ajudou. Vejamos, que posso
fazer em seu favor? Que sabe fazer?
— Agradeço-lhe a sua benevolência para comigo; disse Herberto, começando a crer
que o judeu tinha o coração melhor que a cara. Sei fazer tudo o que meu pai me
ensinou: pintar sofrivelmente um retrato ou uma paisagem. Quanto ao mais, fui
educado num colégio, e sabe o que aí se aprende.
— Oh! nada que sirva para a vida prática. Mas que diria da posição de
guarda-livros?
— Ai, ignoro até os primeiros elementos de contabilidade...
— Ah! ah! exclamou Jessuron soltando uma risada animadora. É o que se chama cá na
Jamaica estar um pouco verde nos negócios, quer dizer, inexperiente. Aqui um
guarda-livros não tem livros a escriturar.
— Então que faz?
— Eu me explico. Há uma lei na ilha que obriga os proprietários de escravos a ter
um homem branco para cada cinqüenta pretos da fazenda. É uma disposição
estúpida, mas não temos remédio senão nos submetermos a ela. Estes
supranumerários chamam-se guarda-livros, apesar de não terem de guardar livro
algum.
— Nesse caso que fazem?
— Conforme. Alguns vigiam os escravos outros têm ocupação diferente. Mas agora me
lembro que recebi um novo lote de negros e não quero deixar de cumprir a lei.
Dou aos meus guarda-livros cinqüenta libras por ano. Quer ficar comigo nesta
qualidade e nestas condições?
A situação de Herberto não lhe permitia recusar; aceitou o oferecimento de Jacob
Jessuron, protestando consigo mesmo não se eternizar na casa daquele estranho
aliado da sua família, se a natureza das funções que ia exercer lhe parecesse
incompatível cam os sentimentos dum cavalheiro.
No dia que se seguiu àquele em que Herberto encontrara asilo em casa de Jacob
Jessuron, o administrador da fazenda de Mount-Weicome causou grande espanto ao custos
dizendo-lhe, no fim do almoço, que um escravo fugido pedia para lhe ser
apresentado.
O custos estava ocupado em fazer algumas recomendações a Smythje, que
partia para a caça e fazia ostentação da sua pessoa na presença de Catarina,
entrajado com uma veste justa de seda verde, forrada de pele, e uma calça de
camurça, ligada por meio de polainas a umas botas de lustro irrepreensível.
Catarina não podia deixar de sorrir ao ver a esquisita figura de Smythje assim fardado,
mas disse-lhe de modo afável que desejava fosse feliz na caça; e depois que ele
saiu levando atrás de si Quashie como guia, foi sentar-se a uma janela da sala,
acompanhada de Yola, que se acocorou aos pés da sua senhora.
Como Loftus Vaughan concedesse audiência ao indivíduo que Trusty lhe anunciava,
Cubissa, pois era ele, entrou na sala a passos firmes e cumprimentou o custos
respeitosamente.
— Ora bem, rapaz, disse-lhe Vaughan dum modo que nada tinha de agradável, você,
segundo me parece, é um dos quilombolas de Trelawney?
— Saiba Vossa Honra que sim; chamo-me Cubissa.
— Cubissa? Não é capitão e chefe duma aldeia?
— Apenas de algumas famílias; formamos uma pequena colônia. Venho, se Vossa Honra
me dá licença, pedir-lhe conselho sobre uma questão que tenho com Jacob
Jessuron.
A fisionomia de Loftus Vaughan manifestou logo o mais vivo interesse, porque, à
semelhança do judeu, não procurava senão ocasiões de prejudicar o seu vizinho.
Além dos conflitos de interesses entre ele e Jessuron e do pesar que tinha por
causa da sua aliança de família com o judeu, o custos também lhe trazia
má vontade em conseqüência de algumas observações pérfidas que Jessuron lhe
fizera por motivo da execução dum feiticeiro chamado Chakra.
— De que se trata? perguntou ele.
— Duma história muito singular, respondeu Cubissa, e contou-lhe os pormenores da
captura do fugitivo.
Loftus Vaughan franziu os sobrolhos ao saber da parte que seu sobrinho tomara naquele
negócio. Soltou até algumas pragas violentas, quando Cubissa lhe participou que
Herberto encontrara asilo em casa do velho judeu.
Quanto a Catarina, essa escutava com o maior interesse o que diziam a respeito de
Herberto, e quando Cubissa declarou que o fugitivo era da raça fula, a
jovem escrava Yola, também muito comovida, dirigiu em voz baixa várias súplicas
à sua ama, as quais deram em resultado saírem as duas da sala.
O custos estava muito preocupado com a história que lhe contava Cubissa,
para se inquietar com os gestos e ações da filha, e depois de tudo ouvir disse
ao quilombola:
— É um verdadeiro drama a que só falta o desenlace. Palavra, que tenho desejos de
ser um dos atores! Ah! exclamou, acudindo-lhe uma idéia súbita, agora acho a
razão por que o patife me queria comprar Yola! Diz que o príncipe fulo
possuía vinte e quatro negros mandingas?
— Saiba Vossa Honra que sim; deu até outros vinte ao capitão do navio que o
trouxe.
— Que pena não ser válida uma testemunha negra contra o depoimento dum branco! Se
se pudesse tornar a encontrar esse capitão... O fugitivo conservou ao menos o
nome dele?
— Sim, é um certo capitão Jowler, que faz comércio com o Senegal; o príncipe
conhece-o muito bem.
— Não há dúvida alguma; Jowler e Jessuron são dois canalhas dignos de se
entenderem; são uma mesma alma em dois corpos diferentes. Como poderemos
arranjar uma testemunha branca? Não diz que Ravener assistiu ao desembarque da
carga?
— Saiba Vossa Honra que sim; foi ele mesmo que tirou ao príncipe as roupas e as
jóias. Algumas destas eram de grande valor.
— Foi um verdadeiro roubo! Pois, capitão Cubissa, prometo-lhe que isto não há de
passar assim! acrescentou o juiz em tom solene. Não sei ainda o que hei de
fazer; surgem grandes dificuldades, porque Jessuron também é juiz. Não importa,
há fazer-se justiça. Mas as audiências não se abrem senão daqui a um mês em Savanah,
e não poderemos fazer nada antes disso. Conserve o príncipe fulo onde o
escondeu e não o entregue sobre pretexto algum. O judeu não se atreverá a
recorrer aos últimos meios contra você. Quem tem telhados de vidro receia
atirar pedras nos do vizinho... Agora espere que eu o mande chamar. Amanhã hei
de falar com o meu advogado, e breve precisaremos do seu auxílio.
O custos despediu Cubissa com um gesto; o antigo escravo, porém,
cumprimentou-o com a dignidade de um homem livre.
No momento em que Cubissa ia sair do jardim de Mount-Welcome, avistou entre moitas
uma rapariga que lhe fazia sinal para que se aproximasse.
Obedeceu com tanta curiosidade como admiração, e achou-se diante dum caramanchel formado
de artolochias, de cleonias e de viburnos da América. Catarina estava sentada
sob aquele dossel de verdura esmaltado de flores. Sentou-se para vir dizer ao
escravo fugido:
— Entre depressa para não nos verem de casa. Tenho alguma coisa a pedir-lhe,
capitão.
— Estou às ordens, Miss! redargüiu Cubissa, muito mais dominado pela meiga
benevolência da jovem do que pelo tom imperioso do pai.
— Ouvi mal, capitão, ou disse efetivamente que o seu fugitivo era um fulo?
— Ele afirma que pertence a essa tribo, Miss, e quero acreditá-lo, porque tem a
mesma cor da rapariga que aí está. Até lhe acho parecenças.
— Escute, capitão. Sei que é um homem de bons sentimentos, em quem posso confiar.
Meu pai o aconselhou a que entregasse o escravo?
— Pelo contrário, Miss; seu pai espera obter-lhe a liberdade nas próximas
audiências, e há de trabalhar nesse sentido, creio que para aborrecer o judeu
Jessuron.
— Ora bem, Cubissa; sabe quanto vale a liberdade, pois que é livre. Aqui está
Yola, a quem estimo e que definha apesar dos meus desvelos; suplicou-me que a
deixasse ver o fulo para falar com ele na língua da sua pátria. Quer
levá-la consigo e tornar a trazê-la depois? Protegê-la-á como irmão através da
floresta?
— Juro-lhe; não terá precisão de ir muito longe. Eu esperava que o custos
quisesse ver o fulo, e para esse fim deixei-o a três milhas daqui, com
uma boa escolta por causa das ciladas de Ravener.
— E se o tribunal julgar que o fulo deve ser posto em liberdade,
encarregar-se-ia de outra missão secreta? disse Catarina. Não quis vender Yola
a Jessuron há dias atrás porque não tenciono vendê-la a pessoa alguma; mas
desejo ainda mais sua felicidade do que seus serviços. Se o fulo fica
livre, há de por certo voltar para o seu país, e será um bom companheiro para
Yola.
A jovem escrava, de joelhos diante da sua senhora, beijava-lhe as mãos, desfeita
em lágrimas.
— Ora, disse Catarina, meu pai havia de me proibir que desse a liberdade a Yola.
Tenho as minhas economias, dá-las-ei ao capitão, que as oferecerá a meu pai, e
dessa vez não recusarei concordar com o negócio. Tu, Yola, decerto não te
oporás também, não é verdade?
— Oh! Miss! disse a escrava, custar-me-á muito deixá-la, mas tornarei a ver meu
pai, minha mãe, minhas irmãs e principalmente meu irmão que me amava tanto!
Pergunta-me em que penso quando estou tanto tempo a olhar para o mar, do lado
da baía? É que me parece que está sempre a chegar o navio no qual vem Cingues à
minha procura. Perdoe-me a ingratidão, Miss, mas deixe-me quanto antes ir ver o
fulo e contemplar nele por momentos a minha pátria.
— Pois vá, disse Catarina; mas conte-me primeiramente, capitão, como é que
travou conhecimento com meu primo Herberto e se ele prometeu tornar a vê-lo.
Cubissa fez a Catarina uma narrativa menos abreviada que a que fizera ao custos.
A jovem comoveu-se quando ouviu contar o dramático desenlace em que Herberto
tomara parte, e no fim da narração disse a Cubissa:
— Se tornar a ver meu primo, diga-lhe que não foi bonito aceitar dum estranho o
que recusou de sua prima... Mas, não! é um mau impulso que me move a fazer-lhe
esta censura. Diga-lhe antes que desejo que seja feliz.
— Dir-lhe-ei principalmente, redargüiu Cubissa despedindo-se, que sua prima tem
um coração de ouro. Sim, Miss Vaughan, é o que direi, e nem ele nem ninguém se
lembrará de desmentir Cubissa.
A este tempo Smythje partira para a caça, ladeado de Quashie, que levava a
tiracolo uma enorme bolsa de caçador a lhe bater na barriga das pernas.
Era dupla a missão de Quashie: ia encarregado ao mesmo tempo de servir de guia e de
cão de caça, porque além de traçar o caminho pelos desfiladeiros tinha de
procurar e trazer as peças de caça abatidas por seu amo.
O discípulo de santo Huberto[7] caminhara a princípio uma milha sem descobrir caça alguma. Mais uma hora gastou
em andar outra milha sem melhor resultado, porque apenas avistou ao longe
alguns pombos trocazes. Mas as espessas penas com que aquelas bonitas aves
estavam revestidas pareciam torná-las impenetráveis ao chumbo, e nenhuma deu a
Quashie o incômodo de a ir apanhar.
Terceira hora, terceira milha, e sempre a mesma infelicidade. O caçador, a quem a pouca
fortuna não fizera perder o apetite, lembrou-se de que na bolsa de caça devia
haver um lanche preparado com mestria pelo cozinheiro de Mount-Welcome, e,
sentando-se à sombra duma grande árvore, ordenou a Quashie que o servisse.
Quashie tratou de abrir a bolsa, e tirou de dentro um capão assado, presunto e pão,
acompanhados de outros acessórios. No fundo da bolsa achou uma garrafa de vinho
e uma cabaça de aguardente, que Smythje pôs em cima da relva.
O caçador infeliz agarrou na faca e no garfo que Quashie lhe apresentava, e
mostrou que era mais hábil no manejo destas armas do que no da espingarda; num
abrir e fechar de olhos, o capão foi trinchado segundo as regras, e Smythje
começou a funcionar com uma veemência das mais inquietadoras para Quashie, que
dizia consigo:
— Ai que guloso! engole até à última migalha e bebe até à última gota...
Satisfeito afinal o apetite do “senhor”, Smythje abandonou os restos do banquete a
Quashie, com ordem de dar conta deles o mais depressa possível.
O elegante londrino, entretanto, lembrou-se de tentar uma excursão solitária,
porque a sua vaidade não tolerava a perspectiva do regresso a Mount-Welcome com
uma bolsa de caça vazia. Tornou a pegar no seu equipamento, e, cheio de novo
ardor, afastou-se, deixando o preto ocupado em esbrugar os ossos do capão e
esgotar a garrafa de vinho.
Smythje achava-se apenas a duzentos metros do local onde lanchara, quando os seus olhos
se regalaram com a perspectiva duma ave empoleirada no tronco duma árvore seca.
A princípio tomou-a por uma galinha-da-índia; mas a cor escura do volátil
fez-lhe reconhecer que tinha em sua presença um galo bravo.
O tronco achava-se na borda duma clareira, a uns cem passos dali. O caçador
pôs-se a andar de rastos naquela direção, porque convinha percorrer metade do
caminho sem ser pressentido e a espingarda lhe daria em seguida a vitória. O
primeiro plano foi realizado com grande prejuízo da sua calça de cor clara, é
verdade, mas em todo o caso a ave não deu por coisa alguma.
Engatilhou a espingarda, atirou; e o galo deu uma reviravolta e desapareceu.
No cúmulo da alegria, o caçador deitou a correr para apanhar a caça onde devia ter
caído, não achou. Procurou com todo o cuidado em roda da árvore e o resultado
foi também negativo.
Chamou então o seu cão de caça, mas os seus repetidos chamamentos não fizeram aparecer
o pretinho. Concluiu que o rapaz adormecera.
Smythje ia voltar para trás para o procurar, quando lhe ocorreu a causa da misteriosa
desaparição da ave. A árvore que lhe servia de poleiro tinha sido cortada a uma
altura de quinze ou vinte pés. Apesar de seca tinha o cume revestido das
parasitas que trepavam por ela.
O caçador refletiu que a caça podia ter ficado presa naquela rede vegetal. Quis
certificar-se da sua desconfiança e tentou sozinho a empresa.
Os robustos ramos de vinha silvestre que enlaçavam a árvore tornavam fácil a
subida, e apesar de que o elegante trepava com a agilidade com que poderia
trepar um gato-de-botas, chegou ao alto da árvore.
Ali soltou uma exclamação de alegria à vista da caça. Porém o galo não jazia no
alto da árvore; estava dentro do tronco, que era oco e profundo.
Ainda que estendesse o braço e se debruçasse, Smythje não podia chegar ao animal.
Contudo o tronco tinha interiormente suficiente diâmetro para dar passagem à
sua pessoa, e não hesitou em saltar para dentro.
Desgraçada inspiração! A superfície escura onde o galo estava estendido não passava dum
montão de folhas e galhos pobres, bastante rijos para agüentar o peso da ave,
mas não o do lorde de Montagu-Castle.
Smythje desapareceu tão rapidamente na cavidade como se tivesse saltado duma das vergas
da Ninfa do Oceano nas águas do Atlântico.
Apesar da rapidez do mergulho e da escuridão do abismo em que se precipitara, o
caçador não ficou ferido; os paus podres que tinham cedido ao seu peso
atenuaram-lhe a queda. Ficou por algum tempo sem sentidos, mas depressa tornou
a si e tratou de desdobrar as pernas, que estavam numa postura que só parece
cômoda aos alfaiates ou aos turcos.
A princípio a poeira não só o impediu de ver coisa alguma, como o fez espirrar
repetidas vezes, entrando-lhe pela boca e pelo nariz.
Afinal, a impalpável nuvem desfez-se, e Smythje pôde reconhecer a sua situação. Avistou
por cima da cabeça o azul do céu, enquanto que em roda dele se elevavam escuras
paredes, que o encerravam como num vasto cilindro cujo diâmetro excedia a
largura dos seus braços abertos.
A princípio considerou o seu acidente como uma extraordinária aventura, mas aos
primeiros esforços para dali sair encontrou dificuldades com que não contava. A
cada tentativa de ascensão tornava a cair sobre o solo. Finalmente descobriu
que três coisas lhe embaraçavam os movimentos: a calça justa, as botas e
principalmente as polainas.
Desembaraçar-se destes objetos parecia fácil. Mas a experiência demonstrou o contrário. Naquele
espaço, era-lhe difícil baixar-se o suficiente para poder efetuar o que queria.
Afinal ocorreu-lhe a idéia de abrir as calças por cima do joelho. Tinha um
canivete na algibeira do colete, e com ele procedeu à operação.
Calças, botas e polainas foram simultaneamente tiradas, e Smythje recomeçou os seus
assaltos. Conseguiu chegar a quatro pés de distância do orifício; mas nesta
altura estavam tão moles as paredes da árvore oca, por causa das últimas
chuvas, que lhe faltou completamente o ponto de apoio. De cada vez que deitava
a mão ao tronco a madeira se desfazia, e perdido o equilíbrio, tornava a cair
no fundo.
Estas quedas repetidas atordoaram-no, porque se despenhava de dez a doze pés de
altura, e se não fossem os detritos que lhe amorteciam o choque, aquela
ginástica não deixaria de ter seus perigos.
Só restava uma saída para Smythje: era que Quashie passasse por ali, e na
esperança de se fazer ouvido, pôs-se a gritar com toda a força. Debalde, porém,
passou do grito agudo ao gemido prolongado; não recebia outra resposta, senão
os ecos da sua própria voz que se repercutiam no antro como sons roucos e
fúnebres.
Não apareceu ninguém, e Smythje, que estava furioso contra Quashie, contra Loftus
Vaughan, que lhe dera tão mau guia, furioso contra os pombos trocazes, as
galinhas-da-índia e as árvores ocas, desfazia-se em imprecações contra a
Jamaica e o mau destino que por ali o levara.
Um novo acontecimento tornou a posição do cativo mais deplorável ainda. O céu
carregou-se de repente de nuvens negras e espessas, as quais começaram a
despejar uma chuva diluviana, uma verdadeira chuva dos trópicos.
Apesar de abrigado do vento, o pobre Smythje não tinha teto que o abrigasse daquela
tromba-d’água, que lhe fazia na cabeça o efeito do jato duma bomba despejando
para dentro do côncavo da árvore.
Como o orifício era em forma de funil, mais largo portanto que o resto da concavidade,
engolia uma enorme quantidade de água, uma parte da qual se infiltrava nos
detritos que estavam no fundo do tronco, o que era uma fortuna para o pobre
lorde que, se não fosse esta circunstância, teria achado uma morte mais rápida
que a da fome, porque estava ali como num verdadeiro poço.
O infeliz Smythje não tinha atingido o apogeu do seu infortúnio. Num dos momentos
em que se firmava no fundo do seu cárcere, começou a enrolar-se-lhe em volta da
meia de seda uma coisa fria e pegajosa, cujo viscoso contato o fez estremecer.
Qual não foi o seu horror quando conheceu que era uma serpente que lhe subia pela
perna! Deu um pulo e o réptil despegou-se, caindo ao solo.
Por algum tempo o lorde de Montagu entregou-se a uma série de saltos fatigantes.
Esbugalharam-se-lhe os olhos, e seu rosto tornara-se branco de terror. Afinal
lembrou-se de que as serpentes da Jamaica não são venenosas.
Sempre
era uma consolação mas, em todo o caso, se o réptil não podia inocular veneno,
era capaz de morder, e podiam aparecer muitos outros monstros de sua espécie em
auxílio do primeiro.
A idéia de tamanho perigo deu-lhe novas forças. Lembrou-se de se elevar o mais
perto possível do orifício e de ali se conservar suspenso, a fim de evitar o
chão perigoso que tão justos receios lhe causava.
Depois de muitos tombos acabou por alcançar uma elevação de oito a dez pés. Aí achou
uma pequena saliência, sobre a qual se sentou o melhor que pôde, e apoiando os
pés contra o lado oposto do tronco, procurou conservar-se nessa posição.
Não era coisa fácil; as pernas começavam a entorpecer-lhe. Faltavam-lhe as forças.
A idéia de que ia tornar a cair sobre os répteis fê-lo soltar um grito de
terrível angústia.
Este grito o salvou!
No momento em que ia deixar-se cair, apareceu uma cabeça enorme. Um rosto negro
debruçou-se sobre o buraco e o lorde viu brilhar uns dentes muito brancos entre
dois lábios grossos. Estendeu-se para ele um braço musculoso a que pertencia a
mão dum Titã; não hesitou em agarrar naquela mão e sentiu-se elevado com tanta
rapidez como um peixe que mordeu no anzol.
Executado este trabalho de acrobacia, achou-se no cume da árvore, sentado ao lado do seu
salvador, que não era outro senão Quaco, o subalterno de Cubissa.
O elegante nunca o vira. Começou por perguntar a si mesmo se o indivíduo que
tinha diante de si não seria um ladrão; mas tranqüilizado pelos amáveis
sorrisos do negro contou-lhe, quando ainda empoleirados ambos no alto da
árvore, toda a sua aventura por miúdo. Contudo voltaram-lhe as suas primeiras
suspeitas, quando viu, no fim da narrativa, saírem do matagal uns vinte negros,
entre os quais reconheceu Yola, a escrava de Miss Vaughan. Um moço da mesma
cor, com a mão afetuosamente apoiada ao ombro da escrava, parecia despedir-se
dela.
— Yola! gritou o elegante, foste tu que trouxeste estes homens? Pertencem a
Loftus Vaughan?
Cubissa afastou-se do bando e veio ao pé da árvore perguntar a Quaco a causa da
singular situação em que se achava, e o que ali fazia com aquele sujeito. Quaco
satisfez as perguntas do seu chefe, e Smythje dispunha-se a descer pelo
enredado de cipós, quando Cubissa gritou peremptoriamente a Quaco:
— Conserva esse senhor em cima da árvore.
As mãos de Quaco apoiaram-se na cintura de Smvthje.
— Nada receie, cavalheiro! gritou Cubissa. Mas visto que se aventurou nas nossas
florestas, é bom que conheça os costumes dos exploradores dos bosques. Quer
ver-se livre da sua pequena aventura? Dê-me a sua palavra de cavalheiro de que
não falará deste nosso encontro. Pareceu-lhe reconhecer Yola? Olhe para ela, e
concorde de bom grado em que não é a escrava que está ao serviço de quarto de
Miss Vaughan. O que se passa nas nossas florestas não deve ser observado e
muito menos repetido. Jura-me nada dizer? Fiar-me-ei na sua palavra; mas se recusa
a dar... um pequeno empurrão de Quaco pode fazer-lhe dar novo mergulho. Se pelo
contrário, promete o que peço, Quaco o guiará em direção de Mount-Welcome.
— Oh! juro, juro! disse Smythje com um tom de sinceridade que não tinha nada de
simulado; prometo-lhe além disso que não me tornarão a ver correr os bosques.
Que país este onde a caça não cai no solo como é o seu dever, e onde as árvores
ocas são precipícios em que existem ninhos de serpentes!...
— E, acrescentou Cubissa rindo, onde se é salvo por cavalheiros negros que pedem
juramentos. Mas o que lhe exigimos, sabia vossa honra que não compromete a
vida de ninguém, nem ainda a sua, e se lhe suceder ver-se outra vez perdido na
floresta, tomaremos como um prazer e um dever ensinar-lhe o caminho.
— Obrigado pela delicadeza, meu bom rapaz! disse Smythje em tom de deferência;
mas tenho muita esperança de não lhe dar segunda vez este incômodo: Adeus!...
Entretanto, que fora feito de Quashie?
Assim que viu que era conduzido a Mount-Welcome, Smythje não mais se importou com seu
cão de caça, apesar de ter toda a razão de lhe querer mal, já que não procurou
o amo, nem acudiu aos seus chamamentos repetidos.
O pretinho, deixado em companhia da garrafa de aguardente no sítio do lanche, tão
freqüentes libações fizera que depressa se sentira atordoado. Esquecendo-se de
Smythje e das funções que exercia junto dele, deixara-se dormir sobre a relva.
Era tão pesado o seu sono que uma descarga de mosquetaria não seria capaz de o
acordar, e teria ficado em torpor até à noite se o orvalho, caindo sobre os
seus membros nus, não lhe avivasse as idéias e restituísse o movimento.
Lembrou-se então de sua falta.
— Onde ir procurar o “senhor”, e como me atrever a aparecer-lhe?
Por outro lado, voltar à residência sem ele não seria provocar a cólera de Mr
Vaughan?
A alternativa era espinhosa. Quashie resolveu esperar o regresso do caçador, e
pôs-se a combinar a mentira mais verossímil possível a fim de explicar o seu
procedimento.
As nuvens foram-se espalhando, o sol tornou a aparecer, mas Smythje não voltava. O
negro principiou a achar este fato inquietador. Teria de voltar a Mount-Welcome
sem o precioso gentleman? Que faria Loftus Vaughan?
E Quashie esfregava as costas de encontro a uma árvore, parecendo já ouvir
estalar o imenso chicote que tantas vezes lhe punira as tolices. Afinal, farto
de esperar, decidiu-se a ir em busca do caçador. Vira-o dirigir-se para a
clareira, e até ali era fácil seguir-lhe o rastro. Porém, chegando ao extremo
da clareira tornou-se grande o embaraço do pretinho.
Dirigiu-se para o tronco da árvore seca, imaginando ouvir um vago som daquele lado. Quando
se aproximava dele, reparou num objeto que brilhava no chão e reconheceu a
espingarda de Smythje.
Exatamente naquele instante chegaram-lhe aos ouvidos gemidos lúgubres; dir-se-iam os
lamentos de homem saídos pelo respiradouro duma tumba.
O preto parou petrificado; a sua pele fez-se pardacenta de terror. O seu primeiro
desejo foi deitar a fugir; mas o sentimento do dever deteve-o.
— Se fosse o “senhor”, o preto seria punido por tê-lo abandonado em perigo.
A voz partia detrás da árvore. O caçador estava talvez de outro lado, ferido,
estendido por terra. O preto encheu-se de quanta coragem dispunha e deu uma
volta em torno da árvore, devagar e escrupulosamente. Ninguém!
Naquele momento novo queixume veio aumentar-lhe o terror. Era lúgubre o queixume e
partia do lugar que ele acabava de deixar.
Imaginando que o homem ferido caminhava por um lado enquanto ele caminhava pelo outro, Quashie
tornou a empreender o seu giro explorador em roda do imenso tronco da ceiba,
mas desta vez caminhando muita rapidamente.
Quando se achou no ponto de partida, ficou mais surpreendido do que nunca; não
encontrara nenhum ente humano e a espingarda continuava no mesmo ponto!
Mas os lamentos continuavam, com a diferença de serem agora mais penetrantes e
agoniados. Desta vez, Quashie, longe de se intimidar, teve um ímpeto de
valentia; imaginou que queriam zombar dele e recomeçou o seu giro em torno da
árvore, resolvido a não parar senão quando agarrasse o seu mistificador. Depois
de trotar um pedaço, tomou o galope, e continuou este exercício até que, tendo
dado muitas voltas em roda da árvore, ficou convencido de que nenhuma criatura
humana corria na frente dele.
Esta convicção fez que parasse repentinamente. De súbito um pensamento que ainda não
lhe ocorrera assaltou-lhe a imaginação. Estremeceu dos pés à cabeça, os dentes
entraram-lhe a bater, os olhos saíram-lhe das órbitas, e, num pulo prodigioso,
achou-se fora da clareira.
— Não é um homem, é o diabo, exclamou, o diabo do Jumbé-roc!
E partiu como um raio na direção de Mount-Welcome.
O Jumbé-roc é um pico notável pela regularidade geométrica dos seus contornos e a
forma singular do seu cume. Dá ares dum cone truncado, e apesar de seus
declives, cobertos de arvoredo, fornecerem a Mount-Welcome um fundo alegre e
verdejante, o seu cume é escalvado e faz lembrar o crânio dum velho. Os
frondosos gigantes que lhe sobem pelas encostas não puderam invadir a massa de
rochedo que lhe constitui o topo.
Somente uma palmeira de nobre aspecto, uma areca, pôde lançar raízes no seu cume árido.
Ergue-se altiva sobre o planalto do cone, que apresenta uma superfície de quase
cinqüenta pés de diâmetro. As suas grandes palmas agitam-se nos ares, quais
vitoriosas bandeiras no alto dum castelo conquistado.
As paredes do cone apresentam outra singularidade: têm uma cor luzente e sombria
que, ferida pelos raios do sol ou da lua, projeta um clarão vivo, que parece o
reflexo de armadura de aço.
Os quilombolas do vale chamam Jumbé-roc ao pico de Mount-Welcome, nome
característico em razão das idéias que a ele andam ligadas.
Nenhum negro das fazendas dos arredores se atreveria a visitá-lo, e o alto do cone é
tão desconhecido como os picos do Chimborazo, apesar de constantemente o terem
diante dos olhos e bastar uma hora para o galgarem.
Na época em que se passou a nossa história, o terror inspirado pelo Jumbé-roc não
tinha somente origem numa superstição; era também inspirado pela horrível
tragédia de que Mount-Welcome fora teatro um ano antes. Por isso Quashie, como
também sucederia a qualquer negro da fazenda que estivesse no seu lugar,
atribuiu ao diabo de Jumbé-roc os gritos misteriosos que partiam da ceiba, e
deitando a correr para a fazenda não se julgou medroso, mas simplesmente
cauteloso.
E enquanto o seu pajem batia em retirada, Smythje punha-se igualmente a caminho,
guiado pelo ajudante de Cubissa. O fiel Quaco desempenhou conscienciosamente a
sua missão junto de Smythje, e reconduziu-o à residência debaixo do sol ardente
que sucedera à chuva.
Smythje seguia-o de cabeça baixa. A idéia de voltar para Mount-Welcome no triste estado
em que o haviam posto as suas aventuras era dolorosa para ele.
Com efeito, o calor do sol atuando na molhada pele de gamo de que era feita sua
calça, encolhera-a de tal modo que ela já não passava do meio da perna,
deixando exposto à vista um par de cambitos de que o elegante não podia ter
orgulho.
Como entrar na residência e chegar ao seu quarto sem ser visto? Como todas as casas
da Jamaica, Mount-Welcome parecia uma gaiola aberta por todos os lados.
À vista da fazenda, Quaco despediu-se do gentleman, que lhe pagou os
serviços com generosidade. Ficando só, Smythje consultou o relógio e, vendo que
só restavam duas horas de dia, resolveu passá-las numa espessura próxima, a fim
de não dar aos moradores da fazenda o deplorável espetáculo dum dândi em tão
lastimoso estado.
No seu asilo Smythje contou as horas e até os minutos; ouviu a voz dos negros que
giravam pelos campos, contemplou as aves de esplêndidas penas que adejavam de
ramo em ramo por cima de sua cabeça, e invejou-lhes as asas, que lhe seriam tão
úteis como a elas mesmas.
Chegou por fim o momento de tomar uma resolução. Smythje contava introduzir-se na casa
favorecido pelo crepúsculo e antes de se acenderem as luzes. Pôs-se a caminho
com pés de lã, conservando-se na sombra produzida pelas moitas, e conseguiu por
esta forma chegar à esplanada.
Mas o momento do perigo não passara ainda, tinha de atravessar um espaço perigoso,
o jardim.
Transpusera os primeiros canteiros, quando um bando de homens com archotes saiu de casa. A
presença de Quashie, que vinha na vanguarda, indicava claramente ao pobre
Smythje qual era o fim daquele ajuntamento, cuja vista o fez deveras
desesperar.
A luz dos archotes tudo iluminava como se o sol surgisse repentinamente no céu.
Smythje de bom grado voltaria para trás a fim de se esconder em qualquer pequeno
bosque, mas receou que este movimento atraísse sobre ele a atenção. Por isso,
em lugar de bater em retirada, parou, como se ali tivesse tomado raízes.
Mr Vaughan e Catarina apareceram então à entrada do vestíbulo, alumiado pelos
archotes. Yola, que já voltara, vinha atrás da sua senhora. Reuniram-se todos
os bandos dos criados, entre aos quais se achava tristemente o desditoso lorde
de Montagu-Castle.
O fazendeiro ia abrir a boca para dar ordens a respeito da direção das pesquisas,
quando um grito de Yola, a que respondeu como um eco uma exclamação de Miss
Vaughan, pôs tudo em alvoroço.
Divisaram todos, ao clarão dos archotes, o rosto pálido e transtornado do formoso Smythje
e o seu vestuário grotesco.
Que catástrofe para o esplêndido lorde! Após a primeira comoção as raparigas não
puderam deixar de rir daquele novo cavaleiro da triste figura, e tal zombaria
doeu ao pobre lorde mais que tudo...
Desde o dia em que aceitara o emprego de guarda-livros em casa de Jacob Jessuron,
Herberto vivia tão rodeada de prazeres como de ocupações; muitas vezes, em
lugar de empregar laboriosamente o tempo, gastava-o em divertimentos.
Fosse qual fosse o seu pensamento reservado, o velho judeu fingia tratar o mancebo
como seu próprio filho e não como empregado; tinha posto à sua disposição cavalo,
carruagem e trem de caça; fizera-o receber na boa roda de Montego-Bay,
repetindo a quem queria ouvir que o tratava assim em lembrança da sua defunta e
querida mulher.
Apesar desta sensibilidade estar em oposição com o caráter de Jacob Jessuron, o moço
inglês acreditava ingenuamente nos bons sentimentos do seu hóspede. Justificava
deste modo aquele provérbio árabe: “Não está na natureza humana dizer mal dos
que nos tiram do perigo.”
Graças à generosidade do seu patrão, Herberto desempenhava tão importante papel no
sítio do judeu, como o seu companheiro de viagem em Mount-Welcome. E como não
havia grande diferença entre as relações sociais dos dois vizinhos, podia
suceder que os dois mancebos se vissem um dia ou outro em pé de perfeita
igualdade.
Esta perspectiva fazia sorrir a Herberto, que era ainda muito moço para não ligar
importância a estas pequenas vinganças da sorte.
É verdade que teria ligado ainda muito maior importância ao prazer de agradecer à
prima os bons sentimentos que manifestara em favor dele, agradecimento que já
lhe transmitira por intermédio de Cubissa.
Estas duas aspirações foram satisfeitas graças à idéia que Loftus Vaughan teve de dar
um grande baile em Mount-Welcome em honra do seu hóspede.
Apesar da reputação de provincianismo, Montego-Bay tornara-se célebre pelas suas
brilhantes reuniões, e Loftus Vaughan afagava a idéia de as ver excedidas pela
festa que ia dar a Mr Smythje, em cujo nome foram feitos os convites.
Era uma excelente ocasião para o custos apresentar o jovem lorde à sociedade
da Jamaica, e esperava também que este baile, em que Catarina havia de exceder
todas as damas em beleza, despertaria a Smythje as idéias que ele desejava ver
brotar no seu espírito.
Chegou a noite fixada para o “baile Smythje”. O salão de Mount-Welcome foi decorado
com esplendor e magnificência. Enfeitavam as paredes bandeiras, grinaldas e
divisas. Por cima da porta havia um grande e transparente ornado da bandeira de
S. Jorge, encimado pelas cores coloniais, tendo o seguinte letreiro em
caracteres enormes:
Bem-vindo seja Smythje!
À vista da luminosa tabuleta, o coração do elegante encheu-se de orgulho, e,
conduzido à sala no meio de frenéticas aclamações, o lorde de Montagu abriu o
baile acompanhado de Catarina, com grande satisfação do custos.
Smythje estava irresistível, o que não admira muito porque passara toda a noite ao
espelho. Trazia o cabelo cor de feno delicadamente encaracolado; as suíças
formavam espessa mata em cada uma das faces que um pouco de carmim coloria o
quanto convinha; as guias do bigode arrebitavam-se artisticamente.
Irresistível! fora o que ele dissera a si mesmo depois de deitar um último olhar ao espelho.
Por muito forte que fosse o despeito de Loftus Vaughan em ver-se obrigado a receber
o sobrinho, não pudera deixar de o convidar, porque também tivera de convidar
Jacob Jessuron. O judeu fazia muita ostentação do seu Herberto Vaughan, para
que o custos pudesse fechar-lhe a porta sem se expor às murmurações de
toda a cidade. Se o proprietário de Mount-Welcome receou algum proceder
inconveniente da parte do mancebo a quem expulsara de casa, enganou-se, porque
Herberto se limitou a fazer a seu tio a mais fria, a mais empertigada de todas
as mesuras.
Quando, porém, o mancebo foi cumprimentar a prima, abandonou a sua rigidez.
A jovem correspondeu-lhe com o mais afetuoso de todos os acolhimentos, e foi
preciso o olhar zangado de Loftus Vaughan para que ela ficasse sabendo ser
coisa repreensível a satisfação que revelava nas demonstrações de afeto para
com o primo.
Não escapara a Herberto o descontentamento do custos, e não querendo expor
Catarina ao mau humor de seu pai, despediu-se dela e foi encostar-se distraído
ao parapeito duma das janelas da sala.
Dois fazendeiros do seu conhecimento conversavam na varanda, e, sem querer, ouviu o
que eles diziam:
— É evidente que o custos quer casar Catarina com Smythje, dizia um deles.
É o único que pode contentar-se com uma rapariga de cor. Qual de nós a
quereria?
— Ah! com certeza nenhum; isso far-nos-ia rebaixar, respondeu o outro; mas o que
me admira é que Loftus Vaughan, que estima a filha, não se ponha em regra com o
que a lei determina para que ela possa ser sua herdeira. Porque, afinal de
contas, se ele morrer ab intestato[8], esse rapaz inglês, há pouco desembarcado, juntamente com Jacob Jessuron ficarão
sendo os seus herdeiros legais.
— Pois o custos não tem nenhuma amizade ao velho judeu!
— Ora! Se Jessuron fosse tão mau como dizem, não teria procurado fazer mal a
Loftus Vaughan há um ano, a propósito daquele julgamento sumário, por meio do
qual o custos condenou o velho Chakra a morrer de fome no cume do
Jumbé-roc?
— Sim, ouvi falar dessa história. Esse Chakra era um dos sacerdotes dessa
religião d’Obi, que tanta influência exerce no espírito dos negros. Pretendia,
como todos esses padres que eles chamam myal-man, ter o poder de
ressuscitar. O custos foi talvez bem severo para com ele, mas na verdade
não lhe atribuíam também o envenenamento de muitos dos seus camaradas?
— Era efetivamente um velhaco pouco digno de dó, mas seria mais humano
esclarecer, instruir, tratar com brandura esses desgraçados do que dar tão
terríveis exemplos. Pretendem daí que o custos tem remorsos, e que
depois dessa execução não se atreve a ir ao Jumbé-roc.
Neste momento os dois interlocutores deram com a presença de Herberto e mudaram de
conversa.
O jovem inglês, sem dar a perceber que os havia escutado, ficou a um tempo triste
e curioso.
Ao mesmo tempo que na imaginação se lhe representava o drama de Jumbé-roc, sobre
cujo cume escalvado, que se avistava da janela, só uma palmeira elevava a sua
coma verdejante, incomodava-o o desprezo que os fazendeiros tinham por
Catarina, em razão apenas de algumas gotas de sangue negro que lhe corriam nas
veias.
Agora, que sabia que as leis o designavam como herdeiro do custos na falta de
sua prima, sentiu-se mais disposto a perdoar ao tio a rudeza de sua primeira
acolhida.
Desde que via em si mesmo um perigo para Catarina, era natural que se sentisse pouco
satisfeito com a idéia que tivera de sair da Inglaterra.
— Por quem me toma ele, dizia consigo, se julga que o filho de seu irmão possa
aproveitar-se duma lei tão contrária aos direitos da natureza para despojar sua
própria prima?
Os dois fazendeiros falando do caso de Chakra tinham feito alusão a um fato
passado havia quase um ano, fato de que se ocupara não somente a sociedade de
Montego-Bay, mas toda a população negra da Jamaica.
Alguns anos antes da emancipação dos escravos reinava grande agitação nas Índias
Ocidentais por causa dos mistérios d’Obi. Em todas as grandes propriedades da
Jamaica havia algum negro iniciado no culto deste ídolo dos tártaros das
margens do Obi. Os mais velhos, os que mais horrendo aspecto tinham, excediam
em importância os outros adeptos destas práticas tenebrosas que, sob pretexto
de religião, só serviam para satisfazer os instintos de vingança dos negros
oprimidos. Sombrio e feroz desforço da ignorância escravizada!
Para impressionar os iniciados e aumentar ainda mais o seu número, muitos pretendiam
ter o maravilhoso poder de ressuscitar os mortos. Nisto acreditavam cegamente
os escravos, que ignoravam que o suposto ressuscitado fora unicamente
adormecido pelo próprio myal-man, por meio do calabre, espécie de
caladium.
O myal-man da Jamaica equivale ao médico dos índios da América
setentrional, ao pincho da América do Sul, ao fazedor de chuva do Cabo e
ao feiticeiro das costas da Guiné.
A fazenda de Mount-Welcome possuía como as mais o seu myal-man, o seu
feiticeiro, na pessoa dum velho negro coromano, chamado Chakra, a quem a
repugnante fealdade e o gênio astuto haviam tornado um dos iniciadas mais
populares.
Suspeitaram que tinha envenenado o último proprietário da fazenda, um dos senhores de
escravos mais cruéis do país. A morte repentina do proprietário despertara por
isso pouco interesse. Quanto ao herdeiro, era muito cobiçoso para se inquietar
com os motivos que o tinham posto de posse duma bela propriedade.
Dali por diante morreram muitos escravos dos mais úteis da fazenda — e em
circunstâncias obscuras. Chakra, o myal-man, foi acusado como o agente
daqueles crimes, e prenderam-no por esse motivo. Nomearam-se três juízes,
número suficiente para proferir uma sentença contra um escravo. O presidente
deste tribunal sumário era o próprio amo do preto, Loftus Vaughan, custos
rotulorum do distrito.
O processo pôs de lado a morte do antigo amo de Chakra, e só tratou do ensino
proibido das práticas d’Obi. As provas da culpabilidade do escravo não
atingiram a evidência, e demais o réu persistiu numa negativa enérgica; os
juízes, porém, acharam as provas suficientes para o condenarem.
O presidente pesou sobre eles com toda a influência da sua posição. Tendo-se
declarado um dos juízes a favor do réu, notou-se que ele se retrataria após uma
conferência com o presidente. A unanimidade dos sufrágios foi, portanto, contra
Chakra.
Entre o público elevaram-se rumores. Afirmou-se que Loftus Vaughan se deixara mover
de sentimentos inconfessáveis. Espalhou-se que Chakra conhecia segredos de
família, tomara parte em certas transações de que Loftus Vaughan não podia, sem
perigo próprio, deixar testemunhas. Era esse, dizia-se, o verdadeiro crime do myal-man.
Fossem ou não fundadas estas suposições, Chakra teve sentença de morte.
O modo de execução da pena foi tão extraordinário como o processo. O criminoso
devia ficar abandonado e preso no cume do Jumbé-roc, qual moderno Prometeu, em
vez de ser enforcado ou queimado, como era costume em casos idênticos.
Escolheu-se este modo extraordinário de expiação a fim de servir de exemplo, ferir a
imaginação dos negros e assustar os sectários da religião d’Obi.
O Jumbé-roc era próprio para o fim proposto; o terror que incutia aquele lugar,
junto com o que devia inspirar a execução de que ia ser teatro, podia produzir
uma impressão profunda na alma dos iniciados.
Não se colocaram guardas em roda do condenado sobre o pico fúnebre porque se
julgava absolutamente impossível qualquer tentativa para o salvar. Em poucos
dias a fome, a sede e os abutres atuariam nele com tanta eficácia como a corda
ou a fogueira.
Passou-se algum tempo antes que Loftus Vaughan empreendesse a ascensão do Jumbé-roc para
se certificar da morte do seu infeliz escravo. Quando para lá se dirigiu,
estimulado pela curiosidade ou talvez por outro motivo mais forte, não passou
por um desengano. Estava encostado ao tronco da única árvore do planalto, no
mesmo lugar onde tinham prendido o condenado, um esqueleto preso por uma
corrente enferrujada.
Depois de contemplar por um minuto apenas este lúgubre espetáculo, Loftus Vaughan
desceu a passos precipitados o Jumbé-roc. No momento porém de chegar à
espessura que cingia a escalvada montanha apoderou-se dele novo terror.
Seria ilusão dos olhos ou um fantasma evocado pela sua consciência? Pareceu-lhe ver passar
por baixo das árvores a sombra do myal-man, talvez o próprio myal-man
em carne e osso!
Na falda da montanha, não longe do Jumbé-roc, brotava um veio d’água que ia
engrossando e acabava por formar uma verdadeira torrente. A meio da encosta
havia uma escavação profunda que a detinha e na qual se precipitava. Dir-se-ia
a cratera dum vulcão extinto. A profundidade daquele sorvedouro era de duzentos
pés, e dava, na forma, ares dum navio. A água caía do lado da popa, e depois
saía por uma estreita fenda situada do lado oposto; como, porém, uma espécie de
barreira interceptava parte do canal, a torrente só inundava a proa, enquanto
que o meio do navio e o tombadilho se cobriam com uma espessa vegetação de
árvores indígenas.
No fundo do sorvedouro caía outra corrente que desaguava noutro precipício, para
ir em seguida perder-se no rio de Montego. A cascata precipitava-se sobre um
leito de seixos, por entre os quais a água espumava, correndo impetuosa para a
lagoa inferior.
Por cima da cascata flutuava habitualmente uma nuvem formada de vapores
esbranquiçados, e quando o sal dardejava daquele lado podia-se ver brilhar um
arco-íris no meio da nuvem.
Poucas pessoas, porém, contemplavam aquele fenômeno, porque a Cova do Espectro, como
lhe chamavam os negros, tinha tão má fama como a Jumbé-roc. Nenhum negro se
atreveria a aproximar-se dela; e ainda mais dificilmente haveria algum que se
arriscasse a lá descer.
Alguma coisa além de terror supersticioso teria impedido a execução dum tal projeto.
Parecia impossível a empresa. Entre os rochedos que a rodeavam não havia
caminho nem atalho que para ali conduzisse, exceto um estreito rebordo por onde
a descida se podia operar com o auxílio de algumas árvores enfezadas que,
arraigadas nas fendas dos rochedos, formavam um cortinado de verdura ao longo
da encosta. Talvez um indivíduo ágil pudesse descer, mas a água sombria e profunda
não o deixaria chegar ao tombadilho senão a nado, empresa perigosa, dada a
rapidez da corrente.
Parecia contudo que alguém tinha arrostado o perigo, porque, examinando as árvores
espalhadas pela montanha, podia-se distinguir uma espécie de escada em que
fariam de degraus raízes dispostas para esse fim.
Algumas vezes, por cima da Cova do Espectro, via-se uma tênue coluna de fumo. Qualquer
observador colocado no alto do pico julgaria a princípio ser aquilo uma nuvem;
mas depois de atento exame, a cor azulada da nuvem e a sua direção far-lhe-iam
atribuir outra causa ao fenômeno.
Teria por acaso estabelecido residência ali alguém que não participava do terror que
aquele lugar funesto incutia?
Explorando o vale, achar-se-iam outros indícios de que ele era ocupado. Na borda da lagoa
elevava-se uma árvore imensa, de cujos ramos pendia em festões sobre a água a tillantsina
prateada. Qualquer olhar penetrante avistaria por baixo dos ramos uma canoa de
grosseira construção, amarrada à árvore por meio duma corda feita de vimes
entrançados.
No lugar onde a cascata se precipitava dos rochedos elevava-se um algodoeiro de
dimensões enormes, cujo tronco, formando arcobotante, ocupava uma superfície de
cinqüenta pés de diâmetro onde quinhentos homens se podiam mover. O musgo que
revestia os ramos, cuja folhagem era rara, formava um dossel de verdura através
do qual o sol não podia penetrar.
Mas entre as raízes colossais da ceiba não se podia deixar de reconhecer o trabalho
do homem. Na cavidade do tronco havia uma espécie de reduto. Esta cavidade era
obstruída por uma estacada feita de bambus. Apenas ficara aberto um pequeno
espaço destinado a servir de entrada, a qual se podia fechar por meio duma
porta feita de bambus fendidos, e que girava em gonzos de vime.
Um tabuleiro destinado a servir de cama mostrava que só uma pessoa passava a noite
naquela espécie de choupana. O leito parecia também servir de mesa e de
cadeira.
Uma cafeteira velha, algumas gamelas e cuias compunham o resto da mobília.
Pelas paredes viam-se pendurados alguns objetos estranhos, tais como a pele da
terrível galliwasse, a serpente de duas cabeças, o crânio e as presas
dum javali, alguns exemplares dissecados do lagarto chamado gecko,
morcegos enormes de rosto quase humano, e outras horrendas criaturas.
Vários saquinhos pendentes do teto continham objetos mais misteriosos ainda: bolas de
argila amarelada, unhas de mocho, penas e bicos de papagaio, dentes de gato, de
lagarto e de cotia, e pedaços de vidro.
A um canto via-se uma cesta de vime, um cuctacu cheio de raízes e de
plantas de diversas espécies, entre as quais figuravam a venenosa dumbcane,
a flor peçonhenta da savana, e outros símplices da mesma perigosa família.
Um estrangeiro desconhecido da Jamaica que ali entrasse, com dificuldade acharia
explicação ao aspecto tão estranho da cabana, mas um indígena reconheceria logo
naqueles diversos objetos os símbolos do fetichismo africano.
Efetivamente, aquela cabana era um templo de Obi e a morada dum dos seus sacerdotes.
O sol mergulhava no azulado Caribe e tingia com rosado fulgor a superfície
brilhante do Jumbé-roc, quando uma forma humana se desenhou sobre a vereda da
montanha que ia ter àquele pico célebre.
O crepúsculo juntava as suas sombras à obscuridade habitualmente reinante sob a
ramagem da floresta. Não obstante, tornava-se possível conhecer que a criatura
que avançava era uma mulata.
Trajava um vestido de ramagem, aberto no seio, e um toucado formado por um lenço de
cores vistosas. No andar e no olhar revela firmeza de vontade, e, com efeito,
era precisa verdadeira coragem para alguém se aventurar a semelhante hora pelas
vizinhanças do Jumbé-roc.
As suas feições belas, apesar da expressão atrevida que tinham, denunciavam uma
ansiedade nervosa, proveniente do desejo de chegar ao termo da jornada.
Trazia uma cesta cuja tampa entreaberta deixava ver uma provisão de inhames e de
tomates, e os pés de uma galinha-da-guiné.
Chegando à vista do cume a mulher parou de repente, olhou em volta de si para se
orientar, e, voltando-se à esquerda, cortou diagonalmente a chapada da
montanha. A direção que acabava de tomar era a da Cova do Espectro, e pela
firmeza dos passos facilmente se via que tal caminho lhe era familiar.
Abrindo passagem através do mato chegou finalmente à beira do rochedo.
O ponto onde agora se achava era exatamente por cima do abismo, no lugar onde os
ramos das árvores, dispostos em maneira de degraus, conduziam à lagoa.
Tirando do seio um lencinho branco, estendeu-o por sobre os ramos da árvore mais
próxima do precipício; depois, apoiando-se ao tronco, debruçou-se atentamente
para a água.
Parecia esperar alguém, como se apesar da escuridão, sempre em aumento, não deixasse de
ser avistada pela pessoa a quem esperava e que devia estar à espreita dela e
disposta a obedecer-lhe.
Não se enganava.
Passados cinco minutos uma canoa largou do entre as ervas aquáticas que cresciam na
borda da lagoa, e deslizou em direção ao sítio onde estava a mulata.
Vinha no barquinho um só indivíduo. Era um negro de estatura gigantesca, a avaliar
pelos ombros largos e a enorme cabeça. Tinha as costas alquebradas e
corcovadas, e destas duas enfermidades uma devia ser de nascença e outra da
idade. Sentado e dobrado para diante, os seus compridos braços de macaco
permitiam-lhe remar sem se inclinar para os lados. Conservava o resto do corpo
em absoluta imobilidade.
Do trajo deste indivíduo grotesco e repugnante só pertenciam à civilização umas
calças, como as que os negros trazem quando trabalham nas roças de cana.
Uma espécie de kaross, ou manto feito de pele de utia, pendia-lhe dos
ombros, preso ao pescoço taurino por uma correia de couro. Não trazia calçado
de espécie alguma; uma pele extremamente calosa protegia-lhe a planta dos pés.
Não era menos esquisito o toucado, composto dum barrete de pele. Ajustava-se tão
perfeitamente ao seu crânio, que lhe modelava todas as protuberâncias.
Cingia-lhe o barrete a pele seca da grande serpente amarela, cujas extremidades retorcidas
lhe desciam sobre as fontes, e cuja cabeça, enfeitada no sítio dos olhos com
duas pedras brilhantes, tinha a aparência de coisa viva colocada na frente do
toucado.
Não precisava o negro deste ornamento para inspirar terror: o fulgor sombrio das
pupilas, as ventas em extremo dilatadas, os dentes aguçados que se lhe
divisavam entre os lábios grossos e avermelhados, a pintura também avermelhada
das faces e do peito tornavam-no horrendo.
Até os selváticos moradores daqueles sítios pareciam aterrados com a sua presença.
A garça, oculta nos alagadiços, fugia nas compridas pernas diante dele. Quando
o avistava, o flamingo abria as asas vermelhas e voava para os mais elevados
picos, soltando apavorados gritos.
A própria mulher que o esperava estremeceu ao percebê-lo, e pareceu hesitar em
confiar-se à sua guarda. Readquiriu porém ânimo quando o barco parou diante das
cerradas moitas que cresciam na base do rochedo.
Ao ouvir a voz que a convidava a descer, saltou por entre as altas ervas
aquáticas.
A canoa largou; a mulata sentou-se à proa e o homem pôs-se a manejar os remos,
fazendo todos os esforços para impedir que a frágil embarcação fosse levada
pela corrente, que se ouvia mugir mais abaixo, no sorvedouro.
Chegando à árvore da qual havia pouco desamarrara a canoa, o negro subiu pela margem, e
seguido da companheira dirigiu-se para o templo de Obi, de que era guarda e
sacerdote inspirado.
O myal-man entrou na cabana formada pelo algodoeiro, apesar de seus largos
ombros e enorme corcunda custarem a passar pela estreita porta. Em tom
imperativo disse à mulher que entrasse.
A mulata pareceu hesitar.
Era negro o interior da cabana. Por fora também reinava a escuridão: o espesso
lençol de musgo interceptava os raios da lua que deslizavam através da coma das
árvores.
O negro notou a irresolução da sua companheira.
— Entra, Cíntia! gritou-lhe com voz rude. Então, que receias?
— Não tenho medo, Chakra, disse a mulher, cuja voz trêmula desmentia esta
asserção; mas está tão escuro lá dentro!...
— Então fica aí; vou acender luz.
Ouviu-se o ruído da pedra e do fuzil e viram-se saltar faíscas. A chama foi comunicada à
lâmpada feita da casca de tartaruga cheia de gordura de javali, e cujo pavio
era feito com a felpa que cai do algodoeiro.
— Agora entra, Cíntia, exclamou o negra pondo a lâmpada no chão. O quê! pois
ainda tens medo? tu, a filha de Juno-Vagh’n! Tua mãe não tinha medo do velho
Chakra. Nem do diabo teria medo...
Assim interpelada, Cíntia podia entender que entre o receio de qualquer dos dois
personagens não havia muito que escolher, porque o diabo, tal qual a sua
imaginação viva o representava, não tomaria decerto mais horrenda forma que o
indivíduo que tinha diante de si.
Apontando para os estranhos objetos que enfeitavam as paredes, redargüiu:
— É um lugar muito próprio para aterrar uma mulher!
— Não tanto como o Jumbé-roc... retorquiu a myal-man num tom
significativo.
— Decerto Chakra tem motivos para assim pensar. Mas diga-me como é que pôde fugir
do Jumbé-roc. Essa gente diz que é sua a ossada que lá está presa à palmeira.
— E diz a verdade, volveu o myal-man.
— Quê?! Pois é com efeito o seu esqueleto?... exclamou a mulher tomada de terror.
— Os mesmos velhos ossos, a mesma pele, juntas, nervos e tudo. Ah, moça! causa-te
admiração, segundo parece; mas o que há nisto de extraordinário? Pois o Chakra
não é myal-man? De que lhe serviria o seu poder? Fica certa de que
Chakra não morrerá enquanto souber restituir a vida aos mortos. O velho Chakra
bem o sabe, e nem brancos, nem negros o conseguiriam matar. Podem dar-lhe um
tiro, enforcá-lo, cortar-lhe a cabeça: volverá sempre à vida, como o lagarto
azul e a serpente vermelha. Têm diligenciado matá-lo pela fome e pela sede. Os
corvos arrancaram os olhos e dilaceraram as carnes do velho negro.
Esbrugaram-lhe os ossos. Apesar disso Chakra readquiriu nova vida. Bem o vês na
tua presença, rapariga. Não o achas mais forte e passando melhor do que nunca?
E o horrendo negro levantou os braços e mirou-se de alto a baixo com ar de
satisfação e triunfo...
A mulata conservou-se silenciosa, petrificada por um terror supersticioso.
O myal-man notou o efeito que o seu discurso produzira e mudou de assunto.
— Trouxeste a cesta dos víveres, Cíntia? disse-lhe em tom mais meigo.
— Sim, Chakra, ei-la.
— Muito bem! Uma galinha-da-guiné e legumes para o pepper-pot[9]. Não vem nada para beber, rapariga? Era isso que me importava mais!
— Vem uma garrafa de rum, Chakra. Achá-la-á no fundo da cesta. Tive muita
dificuldade em obtê-la.
— Quem te impediu?
— O “senhor”, quem havia de ser? De tempos para cá tornou-se desconfiado; leva
todas as chaves e não deixa os pretos se aproximarem da despensa, como se eles
fossem uma espécie de gatos.
— Está bem, Cíntia. Também ele é vigiado. Chakra espreita-o. Vamos à garrafa!
Diz-se que uma coisa roubada ao inimigo é uma coisa doce. Espero que este rum
não deixará o provérbio mentiroso.
O negro fez saltar a rolha e meteu o gargalo na enorme boca; uma série de
grugulejos prolongados anunciaram a passagem do licor pelo vasto canal.
Chakra só parou depois de beber meia garrafa.
— Ui! exclamou resfolegando e afogando o abdômen com as mãos complacentes.
Fale-me do rum de Vaughan! És uma boa rapariga, Cíntia; estes víveres
agradam-me bastante. E agora, que me queres? Porque bem vejo que tens na
cabeça algum projeto.
A mulher pareceu hesitar na resposta.
— Não tens então confiança no velho Chakra? Não procures ocultas-lhe coisa
alguma. Tens inveja de Yola, que apanhou o teu lugar de criada de quarto de
Lilly Quasheba, a quem chamam Catarina Vaughan, e trazes ainda má vontade ao custos,
que te mandou açoitar quando fugiste no ano passado.
— Sim, Chakra. Desde que a maldita fula entrou em casa, Miss Catarina
deixou de me dirigir a palavra; já não me faz nenhum presente, tudo é para
Yola, que ainda é mais que serva, porque a “senhora” faz dela sua amiga. E eu
mordo-me por ver semelhante coisa, eu que tanta amizade tinha a Miss Vaughan...
— Sim, como os cães que têm amizade aos donos, murmurou o myal-man. Mas,
continuou ele em voz alta, visto que tens tanta amizade à filha, já não odeias
o pai?
— Oh! sim, exclamou Cíntia. Sei odiar como sei amar. E daria, Chakra, daria um
dedo para que Miss Vaughan vendesse Yola e me restituísse o lugar que me tirou.
Yola não passa duma vadia noturna. Observo-a, espreito-a; no espaço duma semana
já fez três excursões à floresta. Avisei disso Miss Vaughan, que me impôs
silêncio com aspereza. Não supõem nada naquela rapariga, e comigo ralham pela
menor coisa.
— E que desejas que eu faça? Queres vingar-te de Yola, que te suplantou? Queres
que lhe faça uma bruxaria?
— Não, Chakra, redargüiu a mulata, inspirada por um estranho sentimento de
justiça. Essa rapariga não é má para mim; até me desculpou um dia em que o custos
me apanhou em falta. Mas se me pudesse dar um feitiço para que Miss Vaughan
goste de mim como nos outros tempos, e tome antipatia bastante de Yola para a
despedir... Ah! se pudesse!...
— Pois é muito possível, retorquiu o myal-man; deves porém ajudar-me a
fazer o feitiço. Para o conseguir é preciso que ambos nos metamos à obra.
— Oh! receio...
— Que receias, rapariga?
— Que se engane, Chakra; que o malefício produza mais do que eu pretendo.
— Explica-te.
A rapariga hesitou.
— Explica-te, repetiu Chakra, carregando o rosto horrendo.
— Quem me assegura que Chakra não queira vingar-se da condenação de Loftus
Vaughan?
— Juro-te eu. Estás agora resolvida ao que te disse?
— É mandar que eu obedecerei, e além disso trar-lhe-ei rum e vinho. Todas as noites
aqui virei com boas provisões.
— Então escuta-me e senta-te, porque a coisa deve levar seu tempo a explicar.
A mulata encostou-se à cama de bambu e pôs-se atenta, observando todos os
movimentos do seu horrendo companheiro, não sem desconfiar da natureza do pacto
que lhe ia ser proposto.
O myal-man tomou um ar de solenidade que denunciava uma determinação muito
séria. A mulata adivinhava que lhe iam impor uma obrigação em troca do serviço
prometido.
Chakra pôs-se a andar em roda da choupana, parando diante dos objetos estranhos que a
guarneciam, e apalpando os sacos e as cestas como em busca de coisas de
importância. Da banda de fora só se ouvia o mugir sinistro da catarata. A
mulher sentiu-se dominada por um terror indefinível. O sacerdote de Obi, que parecera
consultar um a um cada feitiço, veio acabar as suas devoções com a garrafa de
rum, que era decerto o deus mais poderoso do seu templo.
Fez-lhe uma longa evocação, terminada pelo “ah!” habitual. Em seguida tornou ao seu
lugar, e, sentando-se num enorme murex que fazia parte da mobília,
começou a dar instruções à sua supersticiosa cliente:
— Em primeiro lugar, disse-lhe ele, para que o feitiço possa atuar sobre alguém,
homem ou mulher, é preciso lançar ao mesmo tempo um malefício mortal sobre
outra pessoa.
— Não sobre Yola, não consinto! exclamou a mulata.
— E de que te serve Yola? É preciso, digo-te eu, que o malefício seja lançado
sobre o teu maior inimigo. Quem é, Cíntia?
— Visto que Chakra sabe tudo, diga-o! respondeu a mulata com alguma hesitação.
— Obi acaba de mo declarar. Quem é que te tem mandado açoitar pela menor falta no
serviço? Quem é o grande inimigo do escravo?... O seu senhor. É sobre Loftus
Vaughan que devemos lançar o malefício. E ajudas-me, não é verdade, Cíntia?
— Mas como? perguntou a mulher com voz trêmula.
— Sabê-lo-ás quando for tempo oportuno. Obi não quer ainda fazer nada. Voltarás
quando vires o sinal na árvore. Até lá guarda bem o meu segredo. Poucas pessoas
sabem que Chakra existe.
— Sei calar-me, Chakra.
— Acredito; mas se faltares à tua palavra, hás de arrepender-te... Agora,
rapariga, deixa-me; espero alguém e não seria conveniente que fosses
surpreendida aqui.
Fora numa das correrias noturnas, em que os escravos acham uma compensação à sua
sujeição do dia, que Cíntia avistara diante de si o fantasma de Chakra. Quando
reunia todas as forças para fugir, os compridos braços da suposta aluna do
outro mundo agarraram-na, e fora vítima do conto que o sacerdote de Obi narrava
aos adeptos daquela superstição, com respeito ao seu poder sobre a vida e a
morte.
Não fora, porém, o acaso que os pusera em frente um do outro; havia muito tempo que
Chakra procurava Cíntia, que o podia ajudar nos seus projetos de vingança.
O ódio dele contra Loftus Vaughan era cego e implacável, como todos os maus
sentimentos que não são contrabalançados numa alma ignorante pelos princípios
duma moral esclarecida. Por isso Chakra persistiu nos seus projetos de
vingança, sem nenhum escrúpulo de consciência.
Quanto à sua estranha ressurreição, o deus que o ajudara fora simplesmente Jessuron.
Comiseração não influíra nem pouco nem muito no sentimento que levara o judeu
a salvar o criminoso. Em todo caso, os armazéns do mercador de escravos tinham
fornecido aquele corpo que, amarrado à palmeira, foi incumbido de representar
para toda a gente o esqueleto do myal-man.
Chakra não tardara em reunir, debaixo de outro nome, um certo número de adeptos a quem
não recebia senão de máscara.
Apesar de sua pretendida ressurreição datar já dum ano, poucas pessoas lhe conheciam a
existência. Demais, não se aventurava pelas florestas senão com extremas
precauções; mas, como os arvoredos de Jumbé-roc e da Cova do Espectro afastavam
os rondadores supersticiosos, era ali que o feiticeiro oficiava habitualmenta.
Depois de reconduzir Cíntia, o myal-man tornou a entrar na cabana. A visita da
mulata causara-lhe decerto extrema satisfação, porque esfregou as mãos fazendo
ouvir um riso sardônico, que foi repetido pelos ecos dos rochedos próximos.
Responderam-lhe os gritos selváticos dos grous e dos ibis.
Expiravam estes sons ao longe quando um agudo assobio veio do cume do rochedo, exatamente
por cima da cabana.
Sem demora o barqueiro, tão negro como o próprio Caronte[10], voltou para a canoa e conduziu-a através do lago.
Quando a embarcação chegou ao pé do rochedo, a lua que brilhava fez ver que era o
judeu Jessuron o homem que esperava Chakra.
Sem proferir uma palavra de saudação, o judeu meteu-se na canoa.
— Não faça tanto peso, tio Jacob, disse o negro; já me custa a conservar-nos fora da
corrente. Se nos deixamos descair, ai de nós!
— Há algum perigo? disse o judeu. Então vou-me fazer tão leve como uma pena.
A estas palavras o mercador de escravos depôs o guarda-chuva no fundo da canoa,
em cuja borda se sentou com tanta precaução como se fosse sobre um cesto de
ovos.
Efetuou-se a passagem em silêncio, e Jessuron entrou no templo de Obi, como em sítio que
lhe era familiar. Não manifestava porém nenhuma veneração por aquele santuário,
e sentou-se sem cerimônia no leito de bambus. Depois tirou da grande algibeira
da sabrecasaca uma garrafa de conhaque.
— Prova-me isso, disse ao myal-man; isso limpa a voz quando temos que
falar de negócios.
Um grunhido de alegria atestou que o negro aceitava a proposta e o presente, e um
“ah!” prolongado veio mostrar o grande apreço que testemunhava pelo líquido que
meteu no estômago sem mais cerimônia.
— Trago-te notícias, tornou o judeu. O juiz Bailey que ajudou Vaughan a te mandar
para o Jumbé-roc está morto e enterrado.
O myal-man sorriu.
— É singular, continuou Jessuron; há tão pouco tempo que o juiz Ridgely morreu...
Eis já no outro mundo dois homens que proferiram a tua condenação. Deus ou o
diabo mete-se nos teus negócios, Chakra. Quanto ao terceiro...
— Oh! esse não há de levar muito tempo! exclamou o negro.
— A rapariga veio?
— Acaba de sair daqui e fará tudo a que Obi lhe ordenar. Servir-se-á do meu
feitiço.
Os dois interlocutores trocaram um olhar de inteligência.
— E quanto tempo é preciso para que a... droga produza efeito? perguntou o judeu.
— É conforme; pode operar tão bem em três dias como em três horas. Três dias é
ainda um prazo muito curto, porque é precisa ser prudente. Vale mais levar três
semanas. O filtro atua tão suavemente como a febre e ninguém desconfia. Mas bem
sabe, tio Jessuron, que Obi não trabalha de graça...
— Sim, é justo... Vejamos, bom Chakra; que preço tem um serviço deste gênero?
— Se Obi não tivesse interesse na, coisa, exigiria cem libras; mas no caso
presente contentar-se-á com cinqüenta.
— É muito, Chakra; parece que Obi tem tanto interesse como outro qualquer.
— Não, tio Jessuron, volveu o negro com ironia; porque Obi não herdará.
— Não questionemos, exclamou Jessuron com fingida bonomia. Aí vai metade da
quantia nesta bolsa. O mais que desejo é que tenhas o direito de exigir dentro
de três semanas as outras vinte e cinco libras...
Na noite seguinte o myal-man só na sua cabana, entregava-se a uma operação
importante.
Numa fornalha grosseiramente construída ardia um fogo vivo. Estava colocada em cima
da fornalha uma pequena vasilha de ferro, e Chakra contemplava o fervente
conteúdo do vaso, que quando em quando remexia. No chão, um cuctacu
contendo plantas diversas entre as quais um botânico reconheceria o calalu,
o dumbcane e principalmente a flor da savana, com o seu tronco retorcido
e a sua corola dourada, verdadeiro arrebenta-cães e o mais ativo de todos os
venenos vegetais.
Ao lado desta flor estava o seu antídoto, as curiosas bagas do nhandiroba,
porque o myal-man tanto podia curar como matar.
— Podes ser muito forte, Mr. Vaughan, dizia o negro vigiando o preparado, mas
pelo poder de Obi não estás muito seguro... Obi!... Ah! os inocentes. Eis aqui
o que pode mais que todos os deuses. Pronto: cor, espessura, tudo. Agora a
minha garrafa!
E dizendo estas palavras deitou o líquido a ferver numa cabaça. Depois de o
deixar esfriar, passou-o para a garrafa de rum, há muito já viúva do seu
conteúdo.
Quando acabava, o grito agudo duma mulher dominou o ruído da catarata.
— É a rapariga! murmurou o myal-man afastando-se com o passo agitado dum
homem que vai realizar uma coisa há muito tempo desejada.
Logo que Cíntia entrou no templo de Obi, o myal-man entregou-lhe a garrafa,
dizendo:
— Eis o feitiço de Obi. Tens que fazê-lo beber ao custos.
A mulher meteu a garrafa na cesta, com a mão a tremer.
— Oh! Chakra, disse ela, se fosse veneno!
— Não, tola. O fazendeiro há de viver muito tempo depois de beber isto, com a
diferença apenas de que a sorte nos negócios o abandonará. Mas não recuses
dar-lho a beber; senão, será sobre ti que lançarei o feitiço. Agora ouve como é
preciso ministrar esta bebida. O fazendeiro não toma todos os dias, antes de se
deitar, um copo de ponche de rum?
— Sempre, e sou eu que preparo a bebida.
— Muito bem; ajuntar-lhe-ás a quantidade de líquido indicada pelos sinais que tem
a garrafa. Entendes?
A mulata respondeu com uma voz tão pouco firme, que Chakra julgou necessário
recorrer aos últimos meios.
— Se faltares ao que prometes, disse-lhe, o malefício voltar-se-á contra ti.
Agora vou invocar o deus Accompong, que vem todas as vezes que o chamo. Fica tu
aqui. O deus não vê mulheres, porque exige em sacrifício aquelas que lhe
aparecem. Hás de ouvir uma voz.
Levantando-se com ar de mistério, o myal-man saiu da cabana, fechando cautelosamente a
porta após si.
Cíntia não julgou suficiente esta precaução, por que apagou a lâmpada com receio de
ser vista pelo terrível deus Accompong, e acocorou-se toda trêmula.
Em seguida ouviu, senão a voz do deus, pelo menos sons dignos de saírem da
garganta da divindade etiópica. Dir-se-ia que o diálogo de Accompong e de
Chakra tinha lugar detrás da porta de bambus. Algumas frases do colóquio eram
proferidas numa língua desconhecida de Cíntia, mas outras, articuladas em
língua vulgar, não eram tranqüilizantes.
Chakra cantava dizendo pouco mais ou menos o seguinte:
“Abri a garrafa, trabalha o feitiço, o feitiço começa, o rico senhor deve morrer.”
— Deve morrer! repetiu Accompong com uma voz que parecia partir duma cova.
“A rapariga mulata far-lhe-á beber, e o rico morrerá, irá para a sepultura.”
— Para a sepultura! repetiu o deus africano, cuja voz ameaçadora anunciava que
não havia outra alternativa a esperar.
Estabeleceu-se o silêncio, e depois Cíntia ouviu um som agudo, seguido duma encantação
cavernosa.
Era o fim da invocação. Em seguida Chakra tornou a entrar na cabana e acendeu a
lâmpada.
— Cíntia, disse-lhe com voz grave, ouviste?
— Sim, Chakra.
— Então, se não obedeces, não dou pela tua vida um bagaço de cana. Todas as
noites no copo de rum deitarás a quantidade indicada. E agora, rapariga,
vamo-nos.
Ia adiantada a noite; a lua no apogeu enchia a clareira com o seu argênteo
esplendor, e a gigantesca ceiba, testemunha da luta do negro fugido com Ravener,
protegia uma cena de outro gênero.
Yola, sentada ao lado do príncipe Cingues, conversava com o querido e recuperado
irmão acerca das esperanças de liberdade próxima, inspiradas pela bondade de
Catarina Vaughan. O excelente Cubissa observava as doces expansões daqueles
dois entes, do qual um tinha perdido a liberdade vindo buscar o outro.
Levado de delicada discrição, colocara-se um pouco distante dos dois fulos, ao
lado do seu fiel Quaco; mas o príncipe Cingues, que tomara grande amizade ao
seu salvador, fez-lhe sinal de que voltasse para junto deles, e como não
soubesse bem exprimir-se em inglês, encarregou a irmã de ser sua intérprete.
Yola obedeceu gostosamente.
— Cubissa, disse ela, Cingues declara-me que depois da terrível traição que
acabaram de lhe fazer, não se atreve a confiar-se outra vez a nenhum capitão de
navio, e desejaria pedir-vos... mas não sei se será querer muito da sua
dedicação!... Escute, aqui não passamos de pobres escravos, mas nosso pai é
rei, governa um povo numeroso num rico país. Se consentisse... em nos
acompanhar até junto dele, receberia uma fortuna!
— Não seria pelo interesse, volveu Cubissa em tom jovial, mas pelo prazer de os
obsequiar e pelo gosto de correr mundo que eu aceitaria... e, refletindo,
aceito. Aqui só me prende o amor do país natal; sou moço e solteiro, e depois
não gostaria de os expor a ambos a novos perigos. Se derem resultado as
diligências que o custos está empregando em favor de seu irmão, fica
dito, serei seu companheiro de viagem.
Depois de Yola traduzir ao irmão a generosa resolução de Cubissa, o príncipe Cingues
apertou a mão ao escravo fugido, e pôs-se a falar por muito tempo em língua fula
à sua irmã, que recusou, toda confusa, fazer ouvir ao capitão esta nova
proposta.
Vendo baldadas as suas diligências, o príncipe Cingues juntou tudo quanto sabia em
língua inglesa para dizer a Cubissa:
— Quando nos acharmos na África, eu e meu pai dar-lhe-emos muitos bens e Yola por
mulher.
— Oh! não falemos em recompensa antes de eu ter feito alguma coisa!... disse
Cubissa com voz comovida. E no mesmo instante fez sinal aos dois irmãos para
que se escondessem entre as raízes do algodoeiro, porque acabava de ouvir ruído
de passos e vozes.
Fazia ali bastante escuridão para que fossem vistos dois recém-chegados, que não eram
outros senão Jessuron e Cíntia. A lua iluminava-os em cheio, e o negro pôs-se
a escutar o que eles diziam em voz alta, julgando a clareira solitária àquela
hora.
— Não me explicaste, Cíntia, porque é que ele te mandou vir ter comigo, disse
Jacob Jessuron.
— Para que saiba que o senhor Vaughan parte amanhã cedo para uma viagem. Fiz-lhe
a mala; vai à cidade espanhola do lado oposto da ilha.
— Ah! era o que eu receava!... exclamou Jessuron batendo o pé. Vem daí, rapariga;
se isso é verdade, não há um instante a perder.
Afastaram-se ambos a toda a pressa. Mal desapareceram; Cubissa disse a Yola:
— Aquele usurário traz idéias funestas contra Mr Vaughan. Onde diabo vão eles?
Por que se afastam do sítio de Jessuron? Vou segui-los para esclarecer este
mistério. Diga a seu irmão que me espere aqui, querida Yola.
Cubissa pôs-se em seguimento dos dois cúmplices. A sombra gigantesca das árvores
permitia-lhe caminhar sem grande perigo de ser descoberto. Podia quase ir nas pegadas
daqueles a quem espiava. Demais, o judeu estava muito preocupado para
desconfiar de qualquer coisa.
— Oh! oh! disse consigo o capitão; desviam-se do caminho do Jumbé-roc e
dirigem-se para a Cova do Espectro. Ora bem! Não compreendo o que vão fazer naquele
desfiladeiro sem saída; em todo o caso é preciso ver, a fim de lhes transtornar
os planos malévolos que acaso tenham.
Ficaram justificadas as conjecturas de Cubissa; o juiz e a mulata chegaram à borda do
precipício e ali pararam. Cubissa agachou-se na espessura. Apenas se havia
ocultado, chegou-lhe aos ouvidos um assobio; era decerto um sinal dos
conspiradores.
O capitão vigiava-lhes os movimentos e observava-lhes os vultos sombrios
recortados no céu claro, quando de repente se meteram pelo chão abaixo, como
por um alçapão que de súbito se abrisse.
Cubissa perguntou a si mesmo como é que eles tinham podido desaparecer. Tentou em todo
o caso o caminho e foi até à borda do precipício. Ali divisou a senda que
serpenteava por entre as moitas e ia ter ao fundo do desfiladeiro, mas de
repente a sua atenção foi desviada para o centro da lagoa. Em meio daquele
lençol argênteo, que lembrava um espelho em moldura de sombras, movia-se uma
canoa. Conduzia-a uma forma humana agachada na embarcação.
Cubissa havia já avistado aquele ente horrendo nas suas correrias noturnas através da
floresta; supersticioso como todos os homens de cor, tomara-o pelo espectro de
Chakra e fugira da aparição.
Agora, porém, que o via fazer coisas que não eram próprias de fantasmas recuou
horrorizado ao reconhecer que tinha diante de si Chakra bem vivo, ressuscitado
talvez pelo poder de Obi!
De que não seria capaz aquela criatura detestável, agora que além do instinto do
ódio e da vingança devia trazer a experiência do outro mundo?
Se não podia subtrair-se aos instintos supersticiosos da
sua raça, Cubissa era, apesar disso, muito inteligente para não os dominar com
a razão. No fim de alguns minutos, embora não pudesse explicar a si mesmo como
é que Chakra sobrevivera ao seu suplício, estava inteiramente convencido da
realidade da existência do myal-man, e a aliança deste com o judeu
guiou-o no descobrimento dos meios graças aos quais o escravo condenado não
perecera no Jumbé-roc.
O quilombola colocou-se em posição de poder vigiar os
movimentos da canoa, que passava naquele momento por entre as moitas e as altas
ervas que cobriam a parte inferior dos
rochedos de ambas as margens. Chegou-lhe dali a pouco aos ouvidos um ruído de
vozes; distinguiu a de Chakra, do judeu e da mulata, cada um dos quais tomava
alternadamente a palavra; mas apesar da delicadeza do seu ouvido não pôde
distinguir o que diziam.
Estabeleceu-se o silêncio; depois a embarcação tornou a
aparecer no meio do lago. Só duas pessoas a ocupavam: Chakra e Jessuron. A
mulher fora deixada na base do rochedo.
Cubissa notou esta circunstância, que o obrigava a
renunciar ao projeto que a princípio formara, de seguir o myal-man até
ao seu covil, atravessando a água a nado. Mas agora que Cíntia lhe impedia o
caminho, tornava-se-lhe impossível chegar à lagoa sem ser visto.
Só lhe restava esperar na montanha o regresso dos conspiradores; o judeu e Chakra
não deviam ter-se reunido senão para combinar algum atentado, e não perdia as
esperanças de o descobrir e talvez de lhes falhar os planos.
Refletia sobre o que fazer quando ouviu um ruído por baixo do lugar onde estava.
Pareceu-lhe que alguém abria caminho através das moitas que orlavam o
precipício. Apoiando-se num ramo o quilombola debruçou-se sobre o sorvedouro e
avistou o lenço de cores que servia de toucado a Cíntia. A mulata subia pela
escada de troncos de árvores que Cubissa já notara. Sem esperar que ela
acabasse de subir, meteu-se pelo mato, deitou-se no chão e tratou de observar a
direção que a mulata tomaria.
Assim que se achou no cume do rochedo, a mulata parou um momento para segurar no
braço uma cesta, cuja tampa entreaberta deixava passar o gargalo de uma
garrafa; e, depois de observar os arredores, meteu-se pela floresta.
Cubissa julgou inútil segui-la; Cíntia devia apenas ser uma comparsa no drama preparado
pelo judeu e por Chakra e era a estes que se tornava necessário espiar. Por
isso desceu rapidamente o caminho que a mulata acabava de trepar, e, dentro de
alguns segundos, se achou à borda da lagoa.
Seria para qualquer outro tarefa difícil passar a nado uma lagoa agitada por uma
corrente impetuosa; mas Cubissa tinha a agilidade e o sangue-frio necessários à
vida de caçador e depois de se haver certificado de que a margem oposta estava
deserta, deitou-se a nado, conservando-se na sombra projetada pelo rochedo,
não denunciando a sua presença por meio de ruído algum.
Chegou à margem oposta sem ser descoberto.
A metade superior da ribanceira era revestida de grandes árvores, debaixo das
quais reinava a escuridão; apenas num ou noutro ponto, através duma aberta,
alguns raios da lua conseguiam chegar ao solo.
Supôs Cubissa, com razão, que deveria haver um caminho que partisse do lugar onde era
amarrada a canoa, e seu primeiro cuidado foi procurá-lo. Depois de esquadrinhar
toda a margem; descobriu a embarcação amarrada a uma árvore. O luar, que batia
naquele sítio, iluminava um caminho que se perdia na espessura do mato.
Meteu-se por ele, mas com prudência; ia de rojo, tão cautelosamente como um tigre,
parando de quando em quando para se pôr à escuta; só ouvia porém o mugir da
cascata de que se aproximava.
Em frente da queda-d’água havia um espaço onde as árvores rareavam. Parou para
reconhecer o sítio, perguntando a si mesmo se não se enganara no caminho.
Não foi demorado o exame, porque avistou de repente alguns raios de luz que saíam
pelos interstícios duma espécie de grade. Era a porta de bambus da cabana do myal-man,
donde partiam as vozes daqueles que Cubissa vinha espiar.
O antigo escravo agachou-se silenciosamente debaixo do algodoeiro, muito chegado
ao umbral da porta. Os dois homens falavam em voz alta, sem lhes passar pela
idéia que tivessem precisão de cautela naquele lugar inacessível. Cubissa
via-os perfeitamente, porque os vãos dos bambus lhe deixavam mergulhar a vista
no interior da cabana.
Cansado da caminhada, o judeu sentara-se no móvel que servia de cama, e o negro
encostara-se às raízes da árvore que formavam uma das paredes da habitação. A
conversa principiara havia pouco, porque a lâmpada parecia acesa naquele mesmo
instante. Cubissa concebeu por isso esperanças de que ouviria o suficiente para
lhes ficar conhecendo os projetos.
O judeu acabava decerto de ter uma explosão de cólera. Os olhos chamejavam-lhe,
revolvendo-se nas órbitas, Os óculos tinham-lhe descaído para a extremidade
afilada do nariz de cavalete, e apertava na mão direita convulsivamente o
indispensável guarda-chuva.
Chakra, que dava dois tantos do mercador de escravos, apesar do seu aspecto terrível,
parecia tremer diante dele, e desculpava-se:
— Como poderia eu adivinhar, tio Jacob, dizia em tom submisso, que o custos
partiria tão cedo? Também o senhor não se lembrou de tal. O senhor não queria
que o feitiço de Obi operasse rapidamente com receio de despertar suspeitas...
Se eu houvesse previsto esta retirada do custos teria triplicado a dose.
— Ah! exclamou o judeu desesperado; vai escapar-nos, e escapar-nos exatamente
quando mais desejava ver-me livre dele! Cíntia denunciou-me uma conspiração que
ele formou contra mim e que por acaso descobriu.
— E que quer fazer contra o senhor? De quem se vale para o prejudicar?
— Dum velhaco das Montanhas Azuis, dum certo Cubissa que transgride a lei
guardando consigo escravos fugidos. É preciso fazer também um feitiço contra
esse Cubissa, entendes Chakra? porque se nos desembaraçássemos do custos,
iria ele caluniar-me perante algum magistrado, e bem sabes como aqui me invejam
todos, porque sei arranjar os meus negócios! Seria bonito um quilombola abjeto
vencer em justiça um rico proprietário como eu!
— Faz-se o que se pode, senhor Jessuron, mas todos sabem que não é fácil
enfeitiçar essa qualidade de gente. Além de que se ajudam uns aos outros,
desconfiam de todos.
— Mas eu o ajudarei contra ele com os meios de que disponho. Fui inimigo de seu
pai, e nunca gostei do filho, que traz sempre na boca tolas sentenças de
bondade e dá-se ares de cavalheiro de floresta. Sossegue! Se um dia eu o
encontrar, ficará aviado com ou sem ajuda da beberagem de Obi.
— Isso é o que havemos de ver! disse o que escutava de fora da porta, olhando
complacentemente para os seus braços robustos e seus punhos pesados como maças.
— Mas o outro primeiro, o outro primeiro que tudo! exclamou o judeu, de quem se
apossou novo acesso de raiva. O custos vai escapar-me por entre os
dedos... O diabo me leve, Chakra, se não me enganaste, se não zombaste de mim!
E manifestando esta desconfiança, o judeu pôs-se de repente em pé, lançou mão do
guarda-chuva e postou-se diante do seu cúmplice em atitude ameaçadora.
— Não, tio Jacob, retorquiu o myal-man sem abandonar o tom submisso. Bem
sabe que tenho tão boas razões como as suas para desejar que o encontro se
opere. Quero a vida do custos em troca da minha, que ele julgou haver-me
tirado. Quero também, depois de ter sido escravo ser servido por uma escrava.
Lilly Quasheba, que eles chamam Catarina Vaughan, fará o serviço da casa do myal-man,
varrer-lhe-á a cabana, e a minha vingança contra Vaughan prolongar-se-á assim
além da sua morte. Saboreá-la-ei por muito tempo!...
— Chakra, disse Jessuron, assustado diante da intensidade do ódio que se revelava
nos olhos do preto e no ríctus ameaçador que punha à vista os seus dentes
agudos, encravados em gengivas cor de sangue; Chakra, se te sais mal, treme!
Basta-me dizer uma palavra para que a gente da justiça invada a Cova do
Espectro. Não desejo chegar a tal extremo contra ti, mas estou resolvido a isso
se não me ajudas.
Lançado o ultimátum, Jessuron dirigiu-se para a porta da cabana.
Notando o movimento, Cubissa escondeu-se cautelosamente na sombra da ceiba.
Esta mudança de posição não lhe permitiu seguir uma troca de palavras muito
animadas, talvez de ameaças, entre os dois cúmplices.
Afinal o myal-man exclamou em voz forte e com solenidade:
— Afianço-lhe, senhor Jacob, que fiz toda a diligência. Juro-lhe pelo grande
Accompong! Se o velho custos lhe escapar, faça de Chakra o que lhe
aprouver. Ah! o fazendeiro é nosso! Cíntia leva na garrafa uma composição das
mais fortes. Opera em vinte e quatro horas!
— Tens a certeza disso?
— Como tenho a de que ambos estamos com vida, senhor Jacob!
Após estas palavras tranqüilizadoras os dois interlocutores dirigiram-se para a
lagoa. Depois de saltarem para dentro do barco, este deslizou com rapidez.
Cubissa esperou o regresso do myal-man, e assim que o viu entrar para a cabana
tornou a atravessar o lago, chegou à margem oposta, subiu outra vez pela escada
de árvores e novamente se achou no cume dos rochedos.
Ali parou a fim de refletir e recapitular o que se depreendia da conversa dos dois
celerados. Não havia dúvida de que Vaughan estava em perigo iminente, e o
veneno era a arma que tencionavam empregar contra ele.
E Cubissa pôs-se a cogitar nos meios de que devia lançar mão para evitar aquelas
negras maquinações.
Seu primeiro pensamento foi correr a Mount-Welcome e revelá-las ao custos.
Mas seria recebido pelo rico fazendeiro o pobre proscrito da montanha? Não se
veria obrigado a fazer dos servidores da fazenda confidentes dos fatos que o
obrigavam àquele passo insólito? Não desconfiariam dele?
No momento em que revolvia no espírito todas aquelas dificuldades, lembrou-se de
que seria fácil penetrar em Mount-Welcome auxiliado por Yola, a quem deixara
sob a vigilância da príncipe Cingues e de Quaco debaixo do algodoeiro da
clareira, e para ali correu como um raio.
Esperava-o uma decepção.
— Capitão, disse-lhe Quaco, que estava sentado junto da árvore, quanto tempo
esteve ausente!
— Então, que sucedeu? indagou Cubissa.
— Yola cansou de esperar; voltou para a fazenda e o irmão quis acompanhá-la. Nada
receie; prometeu ser prudente... Mas, perdão... saiu da água a estas horas da
noite? Tem a roupa a escorrer.
— E verdade, volveu Cubissa de um modo bastante preocupado; e como não podemos
voltar esta noite para casa, acende uma fogueira.
Graças às diligências do ativo Quaco, dali a pouco chamejava debaixo da ceiba uma
fogueira de ramos secos; e o capitão, como uma peça de caça que se pôs a assar
amarrada à extremidade de um cordel, começou, em pé diante dela, a girar sobre
si mesmo, expondo sucessivamente cada um dos lados das suas vestes ensopadas.
Dali a pouco Cubissa fumegava, e quando se sentiu bem enxuto e bem disposto, puxou
do seu cachimbo a fim de auxiliar o trabalho do espírito.
Quaco e o príncipe Cingues, que logo depois apareceu, não compreendiam nada da sua
agitação febril; mas abstiveram-se de perturbar o seu monólogo interior.
— Agora é impossível ir a Mount-Welcome, dizia ele consigo. Quem é que teria
importância suficiente para lá se apresentar em meu lugar, logo ao romper da
aurora e ir à presença do custos?... Ah! o seu sobrinho!... Mas andam
desavindos. O mancebo tem razão para querer mal ao tio... Sim, mas o senhor Herberto, embora seja orgulhoso, não deixa de ter um generoso
coração. Seria um bonito modo de vingar-se do desprezo do tio. Sim, o moço
ficar-me-á agradecido por eu lhe dar esta ocasião de se reconciliar com a sua
verdadeira família, porque parentes como o judeu são parentes que se devem
desprezar... Preciso falar com o senhor Herberto... Sim, mas o sítio do judeu é
lugar perigoso para um... Ora, também escapei há pouco da torrente e hei de
escapar do focinho de fuinha do Ravener.
E, voltando-se para o príncipe, disse-lhe:
— Cingues, ides voltar para a aldeia, e descansar depois de dizerdes aos meus
homens que estejam prontos a acudir assim que minha trombeta os chamar com
cinco toques. Tu, Quaco, vais explorar a estrada de Savannah, e virás ter
comigo depois dos três toques da trombeta, segundo o costume. Parto para uma
expedição e nada mais lhes posso dizer porque nada mais sei. Até à vista,
amigos!
E Cubissa afastou-se rapidamente pelo caminho que conduz a Mount-Welcome.
Da Cova do Espectro Jacob Jessuron dirigia-se para casa. Apesar de já muito adiantada
a noite, não parecia que o sono influísse na pressa com que se recolhia.
Levava os olhos muito abertos, e poder-se-ia notar nele uma expressão ansiosa e
refletida. As frases soltas que lhe escapavam à medida que ia caminhando por
baixo das árvores davam a conhecer que ainda durava o seu descontentamento.
As afirmativas de Chakra, que a princípio o tinham tranqüilizado, não lhe
inspiravam agora confiança alguma. Ele mesmo havia faltado tantas vezes às suas
promessas para com o myal-man, que receava que este não se vingasse
nesta ocasião. Ainda nos momentos em que lhe voltava a confiança no ódio de
Chakra contra o custos, punha-se a atormentar a imaginação em busca de
dificuldades que se levantassem contra a realização do atentado.
— O myal-man, dizia ele consigo, pode enganar-se quanto à eficácia da sua
droga. Será bastante forte a dose? Não recuará Cíntia ante o perigo a que se
expõe ministrando-a ao amo?... E se o custos suspeitar? se recusar
tomá-la? “Do prato para a boca se perde a sopa!” Mas também por que me hei de
fiar naquele velho negro exaltado, que à força de impor os seus sortilégios a
todos os estúpidos sectários de Obi, acabou por acreditar neles?... Não poderia
fazer as coisas com as minhas próprias mãos? Não tenho eu em minha casa... Sim,
os caçadores espanhóis... sim... é isso, achei. São exatamente os indivíduos de
que preciso, e valem cem filtros de Obi! Agora vejo que é o único plano que
tenho a seguir, não há outro mais seguro. Ah! custos, desta vez não me
escaparás!
O judeu apressou o passo, e, em vez de entrar em casa, atravessou o pátio, abriu
uma segunda porta e achou-se no campo. Parou um minuto para se certificar de
que não havia rondadores por ali. Tranqüilizado a este respeito, pôs-se outra
vez a caminho.
A trezentos ou quatrocentos metros do muro exterior elevava-se uma casinha
isolada, quase inteiramente oculta pelas árvores. Bastaram-lhe cinco minutos
para lá chegar e bater à porta com a extremidade do seu célebre
chapéu-de-chuva.
— Quem está aí? perguntou em língua espanhola uma voz que partia do interior da
casa.
— Sou eu, Manuel, é seu amo, respondeu Jacob Jessuron.
— É o patrão, disse o espanhol ao companheiro, porque a casinha era a morada dos
dois caçadores de pretos.
— Caramba! que nos quer este patife a semelhantes horas? perguntou o outro no seu
idioma nacional, que sabia não ser compreendido por Jessuron. Ah! maldito que
nos vens assim acordar de sobressalto! Estava a sonhar com o vagabundo que nos
matou os cães; parecia-me que lhe enterrava o machete até ao cabo! Que pena ser
apenas um sonho...
— Caluda! interrompeu Manuel, caluda, André! O judeu está impaciente. Aí vou,
senhor D. Jacob!
— Aviem-se, disse este. Vim falar-lhes de negócios importantes.
Neste momento o que se chamava Manuel abriu a porta e apareceu no limiar da casinha.
Jessuron travou-lhe do braço e entrou.
— Os seus negócios carecem de luz? Então vou acender uma, disse o espanhol.
— É\ inútil, redargüiu o judeu; só temos que conversar, e não precisamos para isso
de vermos a cara uns aos outros.
A conversa que se seguiu teve por fim regular o assassínio de Loftus Vaughan.
Segundo o plano traçado por Jessuron, os dois espanhóis deviam fazer uma
espera ao custos num ponto da floresta, não importa qual fosse, contanto
que bem desempenhassem a sua missão. Cinqüenta libras em boa moeda corrente,
tal foi a recompensa oferecida e aceita.
Ainda não tinham decorrido vinte minutos depois que o judeu entrara no cubículo dos
caçadores de gente, quando tornou a sair, tomando alegre e ligeiro o caminho
de casa, para ali encontrar afinal instantes dum repouso que decerto bem
ganhara.
Ao passar pela varanda viu Herberto deitado numa rede ao fresco da noite. O moço
inglês instalara-se ali para fugir à atmosfera sufocante do seu aposento.
— Dorme, tolo, que nada sabes fazer e te gabas de bons sentimentos! resmungou
Jacob Jessuron. Não é muito agradável partilhar contigo a herança de
Mount-Welcome; mas estou só no mundo e a tua presença distrai-me. Dorme, dorme!
Não suspeitas o que o teu bom tio acaba de fazer em teu favor...
Cubissa fazia um jogo arriscado dirigindo-se para o sítio do judeu. Sabia que recusar a
entrega do negro fugido ao mercador de escravos equivalia a uma declaração de
guerra, e o que ouvira contra ele na Cova do Espectro mostrava-lhe que não lhe
seria muito conveniente cair em poder de Jessuron.
Além deste perigo havia outro que não era para desprezar. O judeu mandava de noite
soltar ferozes cães de guarda, não só para impedir que a gado fugisse, como
também para vigiar os negros que lhe enchiam as senzalas.
Durante o tempo que levou a percorrer de corrida a distância que ia da ceiba ao “Vale
Feliz”, Cubissa veio encarando a sangue-frio todos estes perigos. Movido de
generoso impulso de humanidade, resolvera arrostá-los.
Contudo, a coragem nele não excluía a prudência. Formou por isso um plano que na sua
opinião evitava todos os perigos, dando-lhe ao mesmo tempo a certeza de que
falaria com Herberto.
Cubissa não podia pensar em penetrar de noite na residência do judeu, porque não sabia
onde ficava situado o aposento do moço inglês. O que resolveu foi fazer alto
num lugar donde podia observar a varanda, para a qual deitavam todos os
aposentos interiores.
A sua suposição era de que Herberto, assim que saísse do seu quarto, ao amanhecer,
viria à varanda; um sinal qualquer o advertiria então da presença do seu amigo
Cubissa.
Uma pequena elevação, formada pelas ruínas dum velho muro, proporcionou-lhe o
observatório que procurava. Daí os seus olhares podiam estender-se por todo o comprimento
da varanda.
Apesar de que a lua iluminava todo o edifício, a varanda permanecia na escuridão; o
velho e sombrio edifício projetava a sua sombra por cima dos muros que o
rodeavam. Mas depois de certo tempo os raios da lua em declínio inundaram o
interior da casa.
Havia apenas um quarto de hora que Cubissa principiara a sua sentinela, quando lhe
pareceu ver uma rede suspensa por cima da balaustrada da varanda.
— Quem será que teve a idéia de dormir ao fresco? Ah! se fosse o senhor
Vaughan!...
Cubissa notou que os raios da lua iam avançando para o lado da rede, e que dentro de
alguns instantes a iluminariam em cheio. Do seu posto, porém, não poderia
distinguir o rosto do personagem que dormia, e resolveu aproximar-se da casa e
fazer diligência para se colocar em ponto donde de mais perto visse a varanda.
Deitou um olhar indagador em volta. A coma dum coqueiro inclinava a folhagem sobre a
varanda. Chegar ao cimo da árvore foi uma espécie de brinquedo para o vagabundo
das Montanhas Azuis.
Quando se achou no centro da copada coma viu debaixo de si a varanda. A rede apenas
lhe ficava a dez passos de distância, e poderia muito bem deixar cair o seu
cachimbo em cima da cara do dorminhoco.
A lua iluminava-o em cheio; era com efeito Herberto Vaughan.
Refletia Cubissa no modo como havia de despertar o mancebo sem alvoroçar a casa, quando
ouviu o ruído da porta que girava nos gonzos. O ruído partia do pátio, e
olhando para aquele lado distinguiu um homem que acabava de entrar pela porta
do muro exterior e se dirigia para casa.
No momento em que o recém-chegado começava a subir a escada, a luz da lua
contornou sobre a parede o sinistro perfil do judeu.
— Devo por força ter-lhe passado adiante, disse consigo o quilombola; mas não
pode ser, porque veio sempre à minha frente por todo o caminho... É que chegou
e tornou a sair. Mas por quê?... Será acaso verdade que nunca dorme, como por
ali se diz? Os meus companheiros têm-no encontrado no bosque a todas as horas
da noite. Agora, que sei de quem é aliado, acho a explicação das suas idas e
vindas... Crambo! quando me lembra que Chakra ainda vive!
Ao mesmo tempo que fazia estas reflexões, Cubissa seguiu com o olhar o vulto
sombrio que, semelhante a um espírito das trevas, deslizava silenciosamente ao
longo da galeria. Enquanto o judeu ali se conservasse ser-lhe-ia impossível
falar com Herberto, e além disso, empoleirado como estava no coqueiro, correria
o risco de ser visto por Jessuron.
Era uma descoberta cujas conseqüências Cubissa evitava com razão, porque não somente
impediria a sua entrevista com Herberto, mas também daria em resultado fazê-lo
cair em poder do mercador de escravos, perspectiva decerto desagradável.
Entregue a esta apreensão, conservou-se em perfeita imobilidade. Quem o visse diria que
era uma estátua de bronze colocada no alto de uma coluna.
Cubissa não teve remédio senão permanecer na sua incômoda posição. O judeu não saia da
galeria; dava alguns passos, depois voltava para a escada de madeira e olhava
para o pátio como se esperasse alguém. Efetivamente, a porta rangeu outra vez e
dois homens, nos quais Cubissa reconheceu os dois caçadores de negros,
atravessaram o pátio.
Vendo-os chegar, Jessuron entrou num aposento que deitava para a varanda. Quando um dos
espanhóis chegou ao alto da escada, já o judeu estava de volta.
Entregou-lhe uma cabaça e disse-lhe com uma voz que vibrou no silêncio da noite:
— É rum excelente; não o poupem. E agora, rapaz, não tens um minuto a perder, se
não queres que ele te escape. A caminho!
— Não tenha receio, senhor D. Jacob, replicou o homem. Era preciso que ele
tivesse muito boas pernas para nos escapar; uma vez que nos pusermos em sua
perseguição...
Depois de dar esta segurança ao judeu, o espanhol desceu a escada e reuniu-se ao seu
camarada. Em seguida desapareceram ambos.
— Uma expedição contra algum triste escravo! disse Cubissa consigo. Estimarei que
o não apanhem; senão, coitado do pobre-diabo! Afinal, estes fanfarrões não são
tão hábeis no seu gênero de caça como querem inculcar.
Tornou a olhar para a varanda. Foi grande a sua alegria, porque Jessuron entrou
naquele momento no quarto cuja porta ficara aberta.
— Bem, disse Cubissa, agora que a coruja acabou a sua tarefa noturna, espero que
ficará recolhida ao ninho.
Esta exclamação foi interrompida pela reaparição do judeu, embuçado num amplo
chambre que lhe chegava aos pés; tinha tirado o chapéu, largado o teimoso
guarda-chuva e só conservava o sórdido e inamovível barrete de algodão.
Cubissa passou pelo desgosto de o ver puxar uma cadeira, como se sua intenção fosse
instalar-se na varanda. Era exatamente esse o seu capricho, porque, depois de
colocar a cadeira no meio da galeria, sentou-se.
Passado um momento, Cubissa sentiu cheiro de tabaco, e avistou um charuto aceso entre o
queixo saliente e o nariz de cavalete do israelita.
Chegou ao auge a consternação do observador. Agravava-se a sua situação; não só não
podia despertar Herberto, como também ficava impedido de fazer qualquer
movimento sobre a árvore enquanto o judeu não se retirasse.
Encheu-se de toda a paciência de que era capaz, conservou-se imóvel por espaço duma hora,
no fim da qual já tinha os membros tão entorpecidos que lhe causavam uma dor
quase intolerável.
Jessuron continuava pregado no seu lugar. Cubissa principiou a ver uma luz azulada sobre
o cimo das árvores, e voltando a cabeça distinguiu os tons rosados que já
começavam a tingir o alto do Jumbé-roc.
— Que hei de fazer? Se continuo mais tempo em cima da árvore, não serei
descoberto pela gente que vai partir para o trabalho?
E já se dava por feliz se conseguisse abandonar o seu posto sem ter realizado o
que ali o levava, porque depois inventaria outro meio de falar com Herberto
Vaughan.
Enquanto projetava deixar-se escorregar até ao solo sem despertar a atenção, tornou a
dirigir os seus olhares para a varanda; o dia que tanto receava e que já de
todo despontara, serviu-lhe para verificar que o judeu dormia finalmente.
A fadiga vencera Jessuron. A cabeça, caída sobre o espaldar da cadeira,
oscilava-lhe dum modo grotesco; os óculos tinham-lhe escorregado e deixavam-lhe
ver as enrugadas pálpebras, fechadas e sumidas sob a saliência das espessas
sobrancelhas.
O abandono da postura e os braços pendurados eram outras tantas provas da
realidade do seu sono.
Cubissa hesitou por instantes a respeito do que devia fazer. Receando ser surpreendido
dum momento para o outro, ter-se-ia resolvido a descer do coqueiro para correr
sozinho a Mount-Welcome, se não o detivesse a singular repugnância que sentem
todos os homens resolutos em se desviarem do plano que uma vez formaram.
Demais, Cubissa não julgava que o perigo que ameaçava o custos estivesse
tão iminente, porque, se suspeitasse que a expedição dos dois espanhóis tinha
por alvo a vingança de Jessuron, abandonaria toda a idéia de esperar o momento
favorável para falar com Herberto, e correria a avisar Loftus Vaughan da cilada
que lhe armavam.
Cubissa ainda hesitava quando o dorminhoco se voltou, bocejando.
— Vai acordar! pensou Cubissa.
Mas o judeu limitou-se a colocar a cabeça sobre o braço em posição mais propícia ao
sono.
— Que aborrecimento! murmurou Cubissa. Se ao menos o pudesse chamar... Mas o mais
certo era ser ouvido pelo velho bruxo, e não por ele. Vou atirar-lhe alguma
coisa à rede. Talvez o acorde.
E atirou com o único objeto disponível que tinha, com o cachimbo, depois de fazer
cuidadosa pontaria.
O cachimbo foi cair sobre o peito do mancebo, mas o choque foi muito ligeiro para
o despertar.
— Crambo! Tem um sono que nem o da morte! Que posso eu fazer? Se atiro o
machete privo-me dessa arma, e quem sabe se não terei precisão dela? Ah! um
destes cocos; isto é que faz conta. Tem bastante peso para o fazer sair do seu
entorpecimento.
Cubissa despegou um dos volumosos frutos. Depois de lhe tomar o peso, atirou com o
projétil.
Por fortuna, as bordas levantadas da rede impediram que o coco fosse rolar pelo
sobrado e com o estrondo da queda despertasse o judeu.
Herberto, por efeito da pancada, deu um pulo, mas o seu sangue-frio britânico
suspendeu-lhe nos lábios a exclamação prestes a escapar-lhe:
— Donde caiu este coco? murmurou levantando os olhos e procurando uma resposta à
sua pergunta.
A claridade ainda indecisa da madrugada avistou o coqueiro que majestosamente
bracejava por cima dele. Como conhecia a árvore e todo o seu contorno, atraiu-lhe
a atenção certo vulto sombrio que descobriu no cimo dela. Ia mostrar surpresa
quando Cuhissa lhe impôs silêncio com um gesto.
— Prudência, senhor Vaughan! disse-lhe em voz baixa; levante-se e siga-me à
floresta. Tenho a dar-lhe notícias de vida ou de morte. Avie-se, que “ele” o
não veja!
— Ele, quem? perguntou Herberto no mesmo tom discreto.
— Olhe, respondeu Cubissa indicando-lhe Jessuron, que continuava a dormir na sua
cadeira. Encontrar-me-á na clareira, debaixo do algodoeiro. Não perca um
minuto; pessoas que lhe devem ser queridas estão em perigo.
Depois de dizer isto, Cubissa deixou-se escorregar pela árvore, e deitando a correr
desapareceu por entre os canaviais.
Herberto não hesitou em seguir o conselho de seu amigo
Cubissa, sem contudo lhe compreender o sentido. Só uma pessoa o interessava na
Jamaica, porque só uma lhe mostrara simpatia, a sua prima Catarina. Que perigo
poderia correr Catarina que estivesse nas mãos dele evitar?
Só uma recomendação de Cubissa lograra compreender, e isso
mais por instinto do que pelo raciocínio: a desconfiança que Cubissa mostrava
ter de Jessuron.
Apesar de não poder formular nenhuma acusação positiva
contra o seu protetor, e de lhe dever reconhecimento pelos benefícios
recebidos, sentia, ao contrário cada vez maior prevenção contra aquele
hospitaleiro parente.
Era já tempo de achar pesado o fardo da gratidão e de procurar modo de vida que
nada devesse a Jessuron; por isso e para obedecer àquele urgente chamado,
tratou de fazer quanto antes o que lhe disse Cubissa.
Vestiu-se em dois segundos. Foi depois ao seu quarto buscar a espingarda, e demasiado
prudente para descer a escada diante da qual o protetor estava sentado, e
demasiado impaciente para dar um rodeio, saltou por cima da balaustrada da
varanda e meteu pelo caminho que Cubissa acabava de tomar.
Dez minutos depois Herberto não poderia partir, ou pelo menos seria interrogado
acerca da sua excursão matutina, e segundo todas as probabilidades, seguido e
espionado.
Assim que perdeu de vista a casa soou o agudo toque duma sineta no sereno ambiente da
manhã. Era o sinal que chamava os negros aos seus trabalhos de cada dia.
Suspeitando que a visita não deixasse de despertar o judeu, Herberto ficou satisfeito por
ter saído a tempo do sítio e encaminhou-se ainda mais depressa para o lugar do
encontro.
Cubissa, que já ia longe, também ouviu a sineta, e sentiu-se bastante inquieto, por não
saber se Herberto teria sido tão ligeiro nos seus preparativos que houvesse
conseguido escapar-se antes de Jessuron despertar.
Efetivamente, o judeu levantara-se ao ouvir o primeiro toque do costume.
— Ó demônio! disse atirando fora a ponta do charuto que os seus dedos teimosos
tinham conservado segura durante o sono; parece-me que dormi horas, e nestas
ocasiões é bom estar uma pessoa acordada... O custos está decerto a
caminho, e se os espanhóis desempenharem tão honradamente o seu encargo como me
prometeram, Loftus Vaughan dormirá na noite próxima mais profundamente do que
nunca lhe sucedeu... Mas se errarem o tiro!... qual será o resultado?... Há
perigo!... Os demônios me levem se me engano e não há perigo. Não tinha ainda
pensado nisso. Podem ser apanhados e denunciar-me... a mim, um juiz... Para se
salvarem são capazes de me acusar... Aquele André tem a língua tão comprida
como o machete... é um parvo que fala muito. Logo que puder eu terei cuidado de
os fazer sair da ilha.
O judeu não se lembrou de meter Chakra nas suas apreensões; não acreditava na
eficácia dos seus venenos e estava convencido de que os machetes dos espanhóis
dariam resultado mais seguro do que o filtro de Obi. Supondo que Cíntia tivesse
conseguido ministrar a droga mortal, o myal-man não era pessoa de que se
receasse. Um aliado daqueles tinha razões fortes para guardar silêncio.
Quanto à mulata, como não falara com ela a respeito do filtro de Obi, não podia
comprometê-lo com a sua denúncia.
— Preciso tomar algumas medidas, disse Jessuron consigo... Sim... posso mandar um
mensageiro a Mount-Welcome sob pretexto de negócios. Há de causar estranheza
isto, mas pouco importa. Venha cá, Ravener! gritou chamando o feitor que, com
o chicote debaixo do braço, atravessava o pátio naquele momento.
Ravener subiu a escada da varanda e esperou silenciosamente as ordens do amo.
— Tem algum negócio, perguntou-lhe este, por causa do qual se possa mandar um
recado a Mount-Welcome?
— Ah! com certeza! pode-se lá mandar falar no estrago que o gado do custos
fez no nosso trigo, estrago que o senhor há de sentir quando for tempo da
colheita.
— Pouco importa! Intentaremos um processo contra ele; em todo o caso mande alguém
a Trusty queixar-se, e tenha o cuidado de escolher pessoa discreta. Incumba-a
de saber se o custos está em casa, evitando ao mesmo tempo perguntas
muito positivas e diretas. Disseram-me que Loftus Vaughan ia fazer uma jornada,
e desejava saber se com efeito partiu. Compreende?
— Perfeitamente, respondeu Ravener fazendo sinal de que percebia. Blue Dick é o
único capaz de desempenhar esta missão de modo satisfatório.
— Recomendar-lhe-á, Ravener, que diga à mulata Cíntia que lhe desejo falar. Em
todo caso convém que ninguém o surpreenda em conversa com a rapariga.
— Bem; é preciso que Blue Dick se ponha a caminho já?
— Quanto antes e que volte depressa.
Passados poucos minutos o jovem mercúrio, conhecido pelo apelido de Blue Dick,
encaminhava-se para a fazenda de Mount-Welcome.
A conversa entre o judeu e o feitor fora em voz baixa, para que não pudesse ser
ouvida daquele que supunham adormecido na rede, a dez passos do lugar onde se
falavam.
Depois de Ravener se retirar, Jessuron dirigiu-se para o seu quarto a fim de aí fazer
a toalete.
Não foi longa a ausência. Passados dez minutos tornou a aparecer na galeria,
vestido com a sua eterna casaca azul e armado do seu guarda-chuva, porque vinha
preparado para sair.
Quando punha o pé no primeiro degrau da escada, pareceu assaltá-lo repentino
pensamento, e dirigiu-se cautelosamente para o lado da varanda onde estava a
rede.
— Suponho, murmurou por entre os dentes, que o jovem gentleman ainda
dorme. Gentleman, na verdade! porque se ainda o não é, sê-lo-á amanhã.
Vamos! não o acordarei. A gente rica não gosta de ser perturbada no seu sono...
Ah!
Esta exclamação saiu dos lábios do judeu quando, ao voltar o ângulo da varanda,
avistou a rede.
— Já levantando! disse consigo.
E indo abrir sem cerimônia a porta do quarto do inglês, achou-o tão vazio como a
rede.
— Saiu levando consigo a espingarda, continuou Jessuron estupefato. Como pôde
passar sem eu o sentir? Ordinariamente um gato que ande pela casa desperta-me.
Desceria pela escada?... Não, eis vestígios de passos no jardim. Parece que
saltou pela janela. Onde demônio foi ele tão cedo? Por que partiu manhosamente,
escondendo-se de mim? Haveria algum motivo grave para esta saída?
O judeu procurou tranqüilizar-se, dizendo consigo que Herberto saíra com idéias
de caçar; mas se assim fosse como é que tinha esquecido a bolsa de caça?
A inquietação de Jessuron aumentou quando a escrava de serviço, desprendendo a
rede, fez cair um cachimbo e um coco. O cachimbo não podia pertencer a Herberto
porque este não fumava cachimbo. Quanto ao coco, devia ter sido arrancado da
árvore que bracejava por cima da varanda. No tronco do coqueiro acharam-se
vestígios de que alguém ali trepara havia pouco. Além disso, no alto da árvore,
via-se muito claramente que tinha sido quebrado um pedúnculo.
Com certeza que Herberto não subira ao coqueiro para de lá atirar projéteis na sua
rede. Devia ter-se levantado e partido depois de receber aquele sinal; mas
então quem e com que fim lhe tinha mandado um emissário tão misterioso?
O judeu mandou explorar o campo em roda da casa, a fim de conhecer pelos
vestígios dos passos para que lada tinha Herberto dirigido o seu passeio.
Um dos negros incumbidos desta tarefa veio participar um fato importante. No
terreno pantanoso que ficava por fora do jardim descobrira pegadas do inglês em
direção das montanhas, e junto delas, pegadas duas vezes repetidas de outro
homem, o que provava ter feito duas vezes o mesmo caminho.
O negro era um caçador de pistas cuja habilidade ninguém podia pôr em dúvida. Ao
ouvir-lhe o relatório o judeu experimentou uma impressão das mais
desagradáveis. Jessuron inquietava-se sem saber por quê, como todas as
consciências agitadas pelo remorso. Era fora de dúvida que Herberto nada pudera
saber dos seus projetos contra o custos; mas como se explicava o fato de
haver o mancebo abandonado a casa exatamente quando se punham em campo os
caçadores espanhóis?
O regresso de Blue Dick desviou-o um tanto destes pensamentos. O emissário
participou ao amo que o custos saíra de Mount-Welcome logo ao romper do
dia.
— Bem, disse Jessuron; mas onde está o sobrinho? Blue Dick vira Cíntia e pudera
dizer-lhe ao ouvido que se dirigisse ao sítio assim que pudesse escapar da
fazenda.
— Bem! repetiu o judeu; mas onde se ocultou o senhor Herberto?
E quanto mais corria o tempo, mais as nuvens se amontoavam na fronte do mercador
de escravos.
Começava o sol a dourar as esplêndidas faldas do Jumbé-roc, e ainda os seus raios não
tinham chegado ao vale, quando através das gelosias de Mount-Welcome o brilho
das luzes anunciou que os moradores já estavam levantados. Só o quarto de
Smythje permanecia na escuridão. O elegante dormia ainda.
Apesar de não ser tão cedo, o fazendeiro e a filha estavam reunidos na sala onde o
almoço acabava de ser servido. Só Loftus Vaughan comia; Catarina assistia ao
almoço apenas para fazer companhia ao pai e lhe servir o café.
O custos vestia um trajo de pano grosso com grandes algibeiras, e calçava
botas de montar armadas de grandes esporas de prata. Tinha também um cinturão
com um par de pistolas, precaução excelente para o caso do funesto encontro com
algum negro vagabundo.
Ouvia-se no pátio o bufo de dois cavalos seguros pela rédea por um negro vestido de
casacão.
Como sabemos, Vaughan punha-se a caminho para realizar um projeto que sempre adiava,
para cumprir um dever que, desprezado, comprometia o futuro de sua filha.
Dirigia-se à capital da ilha para pedir à Assembléia a decisão especial que só
ela podia conceder e que devia anular os efeitos do código negro, em virtude do
qual Catarina se achava excluída da herança paterna.
Seis linhas da Assembléia, assinadas pelo governador, levantariam o obstáculo legal.
Se Loftus Vaughan fosse um simples guarda-livros, ou ainda um negociante de
medíocres haveres, o êxito das diligências apresentaria algumas dúvidas; porém
o proprietário de consideráveis domínios, o amigo duns vinte membros da
Assembléia, não tinha mais do que pedir para obter.
Apesar de tantos motivos de confiança no êxito da jornada, o custos estava
triste; contrariava-o a perspectiva duma viagem fatigante. Além de estar
habituado a uma vida de comodidades, havia dias que tinha a saúde alterada. Perdera
o apetite, e uma sede ardente, que não podia mitigar, consumia-o da manhã à
noite.
O médico da fazenda ficara admirado daqueles sintomas, aos quais os remédios que
receitara não tinham promovido nenhum alívio. Parecia tão obstinada a afecção
mórbida, que o doente teria desistido da viagem se não fosse a esperança de lá
achar um médica que entendesse daquela doença e o curasse.
Uma coisa havia ainda que o preocupava mais talvez que todas as outras. Desde a
morte de Chakra, ou desde que uma noite julgara ver-lhe o espectro numa senda
da floresta, apossara-se dele um medo supersticioso. Muitas vezes meditara
naquela sombria aparição, evitando sempre passar pelo Jumbé-roc ou seus arredores.
Esta impressão ter-se-ia talvez apagado com o tempo, se outro fato absolutamente do
mesmo gênero não fosse referido ao custos no dia do acidente de Smythje
na floresta.
Na tarde daquele dia Quashie declarou que, passando por pé dum lugar chamado
Duppy’s Hole, de volta para casa, vira o fantasma de Chakra. O pretinho, que
não tinha as razões de Loftus Vaughan para se arrecear da alma do outro mundo,
afirmou a coisa batendo-lhe os dentes e com os olhos revirados. Zombaram dele
os companheiros, mas a narrativa de Quashie, despertando em seu amo terrores
mal apagados, contribuía para aumentar a tristeza de Loftus Vaughan no momento
da partida.
Se o custos se mostrava abatido e preocupado, sua filha não parecia em
melhor disposição de espírito. Fora-lhe pela primeira vez revelada a posição
ínfima que ocupava na sociedade. Conhecia a vergonha do seu nascimento. O
fazendeiro dissera-lhe na véspera a verdade acerca dos motivos da sua jornada.
Catarina não era ingrata por índole; ficara comovida ao ver a solicitude com que seu
pai tratava de lhe deixar toda a fortuna; mas talvez lhe ficasse reconhecida se
ele não houvesse acrescentado que o desejo de assegurar o seu casamento com
Smythje era um dos motivos mais sérios que o faziam assim proceder.
Ora, quanto mais a jovem observava o elegante, menos descobria nele as qualidades
próprias do chefe de família, do homem cujo nome constitui o orgulho duma
mulher de juízo. Demais, Smythje não parecia suspeitar sequer as intenções
matrimoniais do seu hóspede, e os seus modos para com a noiva que lhe
destinavam em nada as justificavam. Passava os dias a preparar-se a cantar
trechos de ópera e a bocejar, jurando que a vida nas colônias era muito
inferior em prazeres às da mais pequena vila do Reino Unido.
Nos poucos minutos que durou o almoço, pai e filha não trocaram uma palavra. O
fazendeiro mal tocava nos manjares que lhe serviam. Depois do café, levantou-se
e vestiu o sobretudo.
Enquanto o custos fazia os últimos preparativos, a mulata Cíntia andava dum lado
para o outro entregue a uma agitação nervosa. Se reparassem nela ter-lhe-iam
notado o transtorno das feições; mas pai e filha estavam muito preocupados para
olharem sequer para a mulata.
Assim que o almoço principiara havia-se ela retirado para um compartimento contíguo à
sala e aí tratara de preparar o swizzle. Perguntando-lhe alguém por que
razão preparava tão cedo a bebida destinada às horas calmosas do dia,
respondera que o amo poderia apetecê-la antes de partir.
Realizaram-se as previsões de Cíntia. O custos, mal começava a descer a escada,
chamou-a e pediu de beber.
— O senhor quer talvez um copo de swizzle? disse Cíntia. Já o preparei.
— Tens razão, é a bebida mais refrigerante, disse o custos.
A mulata trouxe o swizzle; o custos pegou na taça de prata sem
notar o tremor nervoso das mãos que lha apresentavam e bebeu até à última gota.
— Erraste a preparação, rapariga, disse-lhe o custos, restituindo-lhe a
taça, acho-lhe um gosto amargo... mas não se deve ser muito exigente no momento
de pôr o pé no estribo.
Depois de proferir este melancólico gracejo, abraçou a filha, saltou para cima do
cavalo e partiu a galope.
Cubissa gastara pouco tempo para chegar à clareira; assim
que se achou junto da ceiba, sentou-se num tronco caído para esperar por
Herberto. Efetivamente esperou algum tempo, não sem impaciência, porque todos
os minutos eram preciosos; depois lembrou-se de que o mancebo poderia ter-se
perdido. Não tinha nada de fácil o caminho; era trilhado do gado e pouco
freqüentado dos peões. Além disso, iam ali dar outros caminhos, que seguiam
direções diferentes. Quando lhe acudiu esta reflexão, Cubissa arrependeu-se de
não ter esperado o seu novo amigo.
Depois do dia do seu primeiro encontro, Herberto nunca fora para os lados da ceiba, e
assim que entrou no bosque tomou caminho diferente do que devia seguir. No
momento em que Cubissa o esperava, vagueava ele em busca da clareira e do
gigantesco algodoeiro.
Cubissa lembrou-se de voltar para os lados do sítio a fim de procurar os vestígios dos
passos de Herberto e segui-los até onde lhe permitisse o conhecimento que tinha
na floresta.
Dali a pouco estava na antiga plantação de açúcar de Jessuron, e, quando avistou a
residência do judeu, teve o cuidado de se ocultar com o arvoredo, porque o dia
já rompera e o sol brilhava com vivo esplendor.
Cubissa teve a fortuna de descobrir no caminho lamacento, situado detrás do jardim,
vestígios de por ali haver passado recentemente Herberto. Seguiu os vestígios
enquanto os pôde distinguir, mas eles acabavam com o caminho lamacento.
Para além deste caminho a terra, coberta de espessa relva, não poderia conservar
sequer o sinal do casco dum cavalo. Da sua descoberta Cubissa concluiu que, se
o jovem inglês se tinha perdido, não devia estar muito longe da clareira,
porque por um grande espaço seguira o caminho conveniente.
— Talvez já tenha chegado ao algodoeiro e esteja à minha espera, pensou ele.
Animado por esta esperança, e também pela contrariedade que lhe causavam as suas más
disposições, tornou a partir para o posto do encontro.
Não achou ninguém.
Assim que retomou o fôlego pôs-se a gritar por Herberto, esperando que a sua voz
guiasse o mancebo, se ele não estivesse muito longe da clareira. Mas debalde se
esfalfou.
— Ora! disse consigo, tenho um meio melhor de lhe fazer saber a minha presença.
Esquecia-me da buzina. É um sinal que se pode ouvir a uma milha de distância.
E Cubissa tirou do instrumento um toque sonoro e prolongado. Responderam-lhe três
sons agudos.
— É Quaco, disse o capitão consigo; terá ele já alguma coisa a me dizer, para
voltar tão depressa da sua emboscada na estrada de Savannah? Mas Vaughan não
aparece!... É preciso recomeçar...
E Cubissa, levando outra vez a buzina aos lábios, tirou três notas duma entoação
diferente.
Quaco não respondeu a nenhuma, mas apareceu no fim de poucos minutos. As feições de
Quaco não traziam a expressão ordinária. O preto vinha com os olhos espantados
e seus modos denotavam grave acontecimento. A pele do colosso estava coberta de
suor, o qual parecia filtrar através de cada poro da negra epiderme, o que só
se podia explicar por uma grande jornada debaixo dum sol ardente.
— Trazes-me notícias, Quaco? Viste por acaso o inglês? Estou à espera dele, mas
receio se perdesse pela floresta.
— Nem sombra do inglês; mas o custos Vaughan!
— Crambo! Encontraste o custos fora de casa? onde e quando?
— Esta manhã, a quatro milhas de Carrion-Crow. Só tinha consigo o velho Pluto, o
peão de Mount-Welcome.
A ênfase com que Quaco proferiu a sua resposta fez pressentir a Cubissa que ele
tinha outra coisa a dizer-lhe.
— Mais nada? indagou.
— Ah! meu capitão, respondeu Quaco com gesto de horror e revolvendo os olhos que
lembravam duas grandes bolas de bilhar; encontrei uma alma do outro mundo!
— Uma alma do outro mundo? Histórias!
— A mesma que vi outro dia; sim, juro-o pelo grande Accompong, vi o fantasma do
velho Chakra!
O capitão fez um movimento repentino que o negro atribuiu à impressão produzida
por aquela notícia.
— E onde? perguntou Cubissa.
— Na estrada, a cem metros da encruzilhada. O velho celerado não pôde dormir
tranqüilo no seu túmulo... precisa vaguear pelos bosques!...
— A que distância te apareceu do lugar onde encontraste Loftus Vaughan?
— A um quarto de milha; não fez mais que aparecer e desaparecer por entre as
moitas. Porque era ao romper do dia; o galo começou a cantar e foi isso talvez
que mandou a alma do outro mundo dar um mergulho no rio.
— Não convém esperar mais tempo o senhor Herberto; vamos partir já, Quaco.
— Espere, capitão, não lhe disse ainda tudo. Duas milhas mais adiante, depois do
espectro, achei-me em frente desses dois demônios, desses malditos espanhóis do
judeu.
— Ah! os espanhóis! exclamou Cubissa, cujo espírito de repente se esclareceu. Vem
depressa, Quaco; tenho a minha espingarda, tu tens a tua; antes do cair da
noite havemos de ter precisão delas.
— Também eu tenho a minha! gritou uma voz que partia da mata. E no mesmo instante
Herberto apareceu e reuniu-se aos vagabundos da floresta.
— Então, de que se trata? perguntou. Sinto havê-los feito demorar, perdendo-me
na floresta; mas chego a tempo, porque ainda não partiram.
— Não temos tempo para contar-lhe agora o que se passa, senhor Vaughan; direi
pelo caminho, porque é preciso correr para os lados de Savannah!
— Vamos! disse o mancebo; sabem, porém, que o meu tempo não me pertence. Suponho
que o negócio de que se trata é negócio sério...
— Trata-se, respondeu ao mesmo tempo que media a passos largos a floresta, de
salvar o custos de perigo de morte. Porte-se ele bem ou mal com o
senhor, creio que o senhor Herberto conhece suficientemente os seus deveres de
cristão e de gentleman para socorrê-lo num perigo iminente.
— Agradeço-lhe, Cubissa, disse Herberto estendendo-lhe a mão, agradeço-lhe o não
haver duvidado dos meus sentimentos. Sim, estimarei, ainda com perigo da
própria vida, poder salvar o meu parente. O meu ressentimento contra ele
apagar-se-á depois de lhe pagar com um serviço o mau modo com que me recebeu...
Mas como é que custos, homem rico e considerado, pode correr um perigo
de que nós possamos salvá-lo?
Caminho andando, o capitão contou ao mancebo, por miúdo, a conjuração de Chakra e de
Jessuron. Herberto ficou indignado, principalmente contra o último porque, se o
escravo supliciado podia achar desculpa na sua ignorância e no seu
ressentimento, o judeu nada podia alegar que desculpasse a sua vil cobiça e a
sua hipocrisia homicida.
— Escute, capitão, disse ele a Cubissa, não sei que resultado terá a nossa
expedição, mas desde já espero não tornar a pôr os pés em casa desse homem
odioso. Se não achar coisa alguma em que me empregar honradamente em
Montego-Bay, quer me admitir entre os seus? Sei caçar, sou moço, forte e
sóbrio; prefiro a vida de vagabundo dos bosques, sob as ordens dum homem
honrado e bom como você, à vida de gentleman pelo preço duma aliança com
um infame...
— Se nos sairmos bem, senhor Vaughan, seu tio...
— Não, Cubissa, nada aceitarei dele. Apraz-me pensar que cumpro o meu dever
gratuitamente. Um serviço interessado deixa de ser um favor.
Enquanto Cubissa, Quaco e Herberto caminhavam pela estrada de Savannah com o fim de
transtornarem o infernal projeto de Jessuron, este esperava por Cíntia. Exercia
o judeu sobre ela uma influência menos misteriosa, mas tão eficaz como a do myal-man.
Pagava-lhe os serviços.
A mulata achou ensejo para se dirigir ao sítio. A ausência de seu senhor
deixava-lhe mais liberdade, mas, em caso de precisão, passaria sem desculpa,
sem licença.
Desde certo tempo a escravidão entrara em nova fase na Jamaica. Fora abolido o
tráfico, e pelas fazendas soprava uma aura de emancipação.
Como a esperança de liberdade animava os escravos, eles já não tinham a mesma tímida
submissão de outros tempos; as suas revoltas, severamente castigadas, acabavam
sempre por cenas de incêndio e morticínios. Muitos bandos de fugitivos,
estabelecidos nas montanhas, desafiavam as autoridades e se entregavam a
horrorosas represálias.
Em circunstâncias tais, a mulata pouco se preocupava com as recomendações do
senhor. Não se demorou em obedecer ao convite do judeu. Informou-o da partida
do custos, e gabou-se de ter achado maneiras de lhe fazer tomar o filtro
de Obi, exatamente no momento em que ele deixava Mount-Welcome.
Esta notícia encantou Jessuron, que tinha seus receios a respeito da missão confiada
aos seus servos. Se o filtro operasse depressa, tornar-se-ia inútil a sua
intervenção.
Cíntia informou-o em seguida de que, após a partida do custos, tinha falado
com o myal-man e que este aprazara com ela um encontro no sítio do
costume, a fim de ser informado do que se passasse na fazenda. Não podia
afirmar que Chakra tivesse seguido o custos, contudo, em vez de se
dirigir para o Jumbé-roc depois de a deixar, o preto tomara o caminho de
Savannah.
Apesar de tranqüilizado a respeito de alguns pontos, o judeu continuou inquieto acerca
de Herberto, e um pouco antes do pôr-do-sol ordenou novas pesquisas. O hábil
negro que pela manhã descobrira os primeiros vestígios, reconheceu uma das
pegadas, por muitas vezes a ter notado ao vaguear pelos caminhos da floresta
atrás do seu rebanho.
— É o pé de Cubissa, disse ele ao seu senhor.
Trouxeram ao judeu o cachimbo achado na rede de Herberto. A chaminé do cachimbo era de
ferro e o pipo de osso de íbis. Muitas e muitas vezes o preto o vira na boca de
Cubissa.
Longe de se tranqüilizar com esta certeza, Jessuron tornou a ficar ansioso ao
lembrar-se da insistência com que Herberto se informara da sorte do príncipe fulo.
Podia ter desagradáveis conseqüências a revelação da verdade. Era para recear que o
inglês abandonasse uma casa cuja hospitalidade se lhe tornava suspeita. Depois,
uma vez na pista das intrigas de Jessuron, não podia Herberto, levado das suas
desconfianças, promover um inquérito judicial acerca da morte de Loftus
Vaughan, e reivindicar só para si a herança que lhe pertencia?
Tais eram os receios de Jessuron que, incapaz de sentimentos retos e generosas,
facilmente atribuía a outrem vistas tão egoístas e ambiciosas como as suas.
Passou todo o dia e parte da noite entregue a estas reflexões. A inquietação acerca do
futuro, e não o remorso, fazia-lhe fugir o sono dos olhos infatigáveis.
Um pouco antes de romper o dia, resolveu sair em busca de informações. Segundo
todas as probabilidades, Chakra devia ter voltado à Cova do Espectro e o judeu
partiu para lá.
Depois de seguir por algum tempo um caminho transversal, Loftus Vaughan chegara à
estrada principal que vai de Montego-Bay a Savannah. Era nesta cidade que ele
esperava embarcar para um dos portos que tinham mais fáceis comunicações com a
capital. Além disso, em Savannah estavam estabelecidos os tribunais do distrito
ocidental da ilha, isto é, do condado de Cornwall, de que Montego-Bay dependia.
Era pois aos magistrados de Savannah que deviam ser entregues todos os pleitos
importantes.
O processo que o custos queria intentar contra Jessuron continha acusações
muito graves para não serem discutidas num tribunal criminal. Com efeito, não
se tratava de simples prevaricação, mas do roubo fraudulento de vinte e quatro
escravos.
Loftus não resolvera ainda em que termos faria a acusação, mas não ignorava que em
Savannah encontraria os melhores conselheiros do condado.
O dia estava sufocante. Já indisposto quando saíra de casa, o custos
sentia-se cada vez mais doente. Tinha calafrios seguidos de acessos de febre,
uma sede que não podia saciar e ânsias de estômago quase contínuas.
Se houvesse achado um teto para se abrigar, teria feito alto antes do anoitecer.
Durante a primeira parte do dia atravessara distritos populosos, mas como ainda
não se sentia muito doente, apenas parara para encher a cabaça que o criado
trazia.
Só de tarde se tornaram assustadores os sintomas, e Vaughan achava-se numa zona
desabitada da ilha. Mais algumas milhas e chegaria à plantação de Content. O
proprietário era seu amigo e um dos homens mais hospitaleiros da Jamaica.
Ao traçar o seu itinerário, escolhera aquele lugar para uma das paragens e contava
ali passar a noite. Animado desta esperança, continuava a avançar apesar de ir
em aumento a sua fraqueza.
Ocultava-se o sol quando chegou à vista de Content; avistou-a do alto duma colina que
acabava de alcançar no momento em que o orbe abrasado mergulhava no Caribe, por
cima do cabo de Point-Negrice.
No vale que se estendia a seus pés distinguia-se, através da neblina avermelhada
do crepúsculo, a habitação do fazendeiro rodeada das cubatas pitorescas dos
negros. Ouvia-se o alegre murmúrio das vozes. Homens e mulheres com vistosos
trajos agitavam-se em roda da habitação.
O custos contemplava aquele quadro com olhar esmorecido. Distinguia
confusamente os sons. Como o náufrago olha para a terra que jamais alcançará,
assim Loftus Vaughan contemplava a vale de Content, porque já não esperava
alcançá-lo naquela noite, salvo se para lá o transportassem. Era com
dificuldade que se agüentava na sela; tinha as forças esgotadas... De repente,
deixou-se escorregar e caiu nos braços do groom.
À beira da estrada e meio oculta pelas árvores elevava-se uma cabana erguida em
terreno inculto, e que decerto fora outrora a habitação de algum escravo. Foi
para ali que o velho Pluto transportou o custos.
Dentro da cabana havia uma tarimba de bambu, cama vulgar dos negros. O servidor ali
estendeu um pelego e depôs sobre ele o seu senhor.
Loftus Vaughan ficou só. E estava imerso em negros pensamentos quando apareceu à porta
da cabana um vulto humano.
Apesar dos seus padecimentos, que lhe arrancavam contínuos gemidos, o doente viu uma
sombra projetar-se sobre o solo e concluiu que alguém ia entrar.
Segundo todas as probabilidades, a presença dum ente humano ter-lhe-ia parecido um
socorro do céu na situação em que se achava, se não julgasse reconhecer
vagamente o perfil de certa criatura que já desaparecera do número dos vivos: o
myal-man Chakra.
A cabana estava voltada para o ocidente; em frente da porta não havia árvores,
nem qualquer coisa que interceptasse os raios do sol poente, a derramar sobre o
solo um clarão avermelhado.
A cabeça do reaparecido, iluminada de modo estranho, tomava proporções
gigantescas. A boca escancarada mostrava dentes formidáveis; dos ombros
carregados da corcova enorme, partiam braços compridos como os dum macaco...
Paralisado pelo terror, o doente não articulou uma palavra quando o fantasma, transpondo o
limiar da porta, avançou para ele.
Apesar de ter a vista muito perturbada e muito confusos os pensamentos, conheceu que
não era vítima duma alucinação, mas que uma criatura viva, o myal-man,
em carne e osso, se achava em frente dele.
Soltou um grito horrível. Fazendo um esforço supremo, procurou levantar-se, mas tornou
a cair sem forças.
O gesto ameaçador do negro fez-lhe compreender que era impossível toda a
tentativa de fuga.
— Ah! disse Chakra com ironia, é inútil procurares fugir, é inútil empregares as
forças que te restam! Um só passo que desses, e cairias como o vitelo que acaba
de nascer, entendes, velho louco?
A única resposta do doente foi um gemido.
— Ah! geme, geme, custos, esfalfa-te... Bebeste a morte, e quando os
últimos raios do sol abandonarem esta cabana, já terás ido reunir-te aos teus
dois confrades, os juízes. Já estarás no outro mundo, para onde vão os ricos
senhores e os escravos negros... Os teus dois amigos conheceram o meu poder há
tempo; mas a ti... Chakra guardou-te para o último lugar.
— Perdão! perdão! murmurou o moribundo.
— E tu perdoaste ao myal-man quando o mandaste algemar na palmeira da
montanha? Morrerás!
— Chakra, suplicou o agonizante; salva-me! Salva-me! e eu te darei liberdade,
fortuna, tudo quanto quiseres...
— Liberdade, bradou o negro em tom de triunfo, tenho-a!... Deste-me a liberdade
com a tua condenação. Dinheiro! não o tenho tanto quanto quero com os meus
filtros? O único dom que me poderia agradar, pertencer-me-á quando eu quiser.
— Qual? perguntou o moribundo maquinalmente, olhando para o seu inimigo.
— Agora que sou livre e rico, só me falta ser servido também por escravos, e
depois que morreres apoderar-me-ei de tua filha Lilly Quasheba, para me vingar
nela de todas as crueldades que tens exercido sobre os teus servidores, porque
ela, a filha de branco e de mulata, há de ser escrava do myal-man!
Chakra inclinou-se para o custos, que ficara imóvel.
— Parece-me que está morto! disse ele.
Ouvindo o nome da filha proferido por aquele demônio, o moribundo soltou um grito de
angústia. Cobrira o rosto com a capa, como para se subtrair a alguma horrível
visão e o veneno acabara de produzir todo o seu efeito.
Chakra estendeu os compridos braços, levantou a capa e contemplou com alegria
selvática as feições rígidas do seu inimigo.
De repente, como se o aspecto da morte lhe metesse medo, deixou cair a capa e
fugiu com toda a rapidez para fora da cabana.
O sol mergulhava no azulado Caribe, e o crepúsculo, que baixara havia tempo sobre
o vale, estendia o seu manto de púrpura sobre o cume da colina. As sombras
projetadas pelas grandes árvores da floresta perdiam-se nas trevas que
principiavam a assomar.
Ouviu-se fora o pio sinistro da coruja e o queixume do potus atravessando o céu
em procura da presa; a estes sons lúgubres juntava-se o ruído da cadeia de aço
que prendia o cavalo do custos a uma árvore próxima e das patadas que
dava, irritado pela mordedura dos mosquitos.
O corpo de Laftus Vaughan jazia sobre a cama de bambu, tal como Chakra o
deixara... O groom ainda não voltara. Apesar de Content estar apenas a
uma milha da cabana, precisava uma hora para vir, porque a montanha era muito
escarpada. Por muita pressa que tivesse, qualquer cavaleiro não podia tomar
andadura um tanto rápida sem correr perigo, e o negro Pluto não tinha propensão
alguma para a dedicação.
Se Chakra houvesse tomado a estrada principal no seu regresso a Montego-Bay, teria
encontrado dois indivíduos seus conhecidos, e cujo estranho aspecto era para
atrair a atenção de qualquer viajante. Porém o myal-man receava os
caminhos freqüentados; por isso, quando largou da choupana, meteu-se por um
atalho que seguia por entre as moitas.
Estes personagens eram os caçadores de homens, André e Manuel, pertencentes ao judeu.
Os dois sabujos de carne humana haviam-se conservado o dia todo sobre as pegadas
do fazendeiro, do qual andavam mais ou menos afastados segundo as paradas que
ele fazia.
Mais duma vez se tinham visto muito perto da vítima; mas a presença do groom
robusto e principalmente o fato de ser dia claro tinham-lhes feito adiar a
execução do crime para um momento mais oportuno.
Chegado finalmente esse momento, e enquanto o myal-man se
afastava da cabana, apressavam-se os homens em se dirigirem para ela.
— Caramba! disse Manuel, não me admirava se o custos
nos escapasse esta noite. Content fica muito perto, e o proprietário desta plantação é um dos seus amigos. Não
nos disse o senhor Jacob que ele queria fazer ali uma parada?
— Sim, respondeu André; até insistiu nessa circunstância.
— Se lá chegar antes de o apanharmos, não será possível o
negócio senão entre Content e Savannah.
— Irra! replicou André, se não fossem as malditas pistolas
que tem ao cinto e o figurão que leva atrás de si, não precisaríamos de tantas
precauções. Suponhamos que chega a Savannah sem nós podermos... conversar com
ele. Como havemos de arranjar a coisa?
— Não sei. Savannah é uma grande cidade, e não é tão fácil
matar um homem numa rua como por baixo destas árvores, que são a guarida de
animais que não falam. Cinqüenta libras em moeda da Jamaica não é muito para um
homem, e principalmente para um custos.
Devemos acautelar-nos, porque podemos muito bem ficar com o pescoço esganado. A
justiça aqui é tanto para brincadeira como na Espanha.
— Mas se não acharmos ocasião, mesmo em Savannah? perguntou
André.
— Nesse caso corremos o grande perigo de perder as
cinqüenta libras, porque em Savannah o custos embarca. Se assim for,
boas-noites; não faria segunda viagem por mar nem que me dessem cem mil libras!
Ainda me lembro da nossa viagem de Barbatana! Já julgava que tinha o vômito
preto!
— Bem, então, aviemo-nos, que talvez os apanhemos antes de chegarem a Content.
— Tens razão, aviemo-nos, e que a nossa divisa seja: Esta noite ou nunca!
E os assassinos dobraram o passo, estimulados pelo receio de verem escapar-se a
vítima.
Começava o crepúsculo quando os caçadores, depois de treparem pela montanha, se
aproximaram da cabana onde Loftus Vaughan tinha sido obrigado a fazer alto.
— Olha, Manuel, disse André, ao passar junto do cavalo amarrado à árvore, não
parece o cavalo do custos?
— É verdade; mas onde está o do preto?
— Talvez debaixo das árvores, do outro lado da cabana. Os cavaleiros devem estar
recolhidos.
— Supões isso, Manuel?
— Decerto, apesar de que ignoro onde prenderam o cavalo do preto. Mas, por que
diabo pararam aqui? É um rancho abandonado e a fazenda de Content fica tão
perto...
— Manuel, disse André olhando com ar significativo para os sacos pendurados de
ambos os lados da sela; nestes alforjes deve haver valores.
— Tens razão; mas não devemos por enquanto pensar nisso, meu amigo; depois o
faremos muito à vontade. Ainda estou sem saber se ambos se acham lá dentro. O
que me espanta é não descobrir o cavalo baio do preto.
— Ah! replicou André, a quem subitamente ocorrera uma idéia; não poderia ele ter
ido à fazenda levar algum aviso? É possível que sucedesse alguma coisa ao
animal em que montava o custos. Lembra-te de que o homem que encontramos
e nos falou nas grandes pistolas de Vaughan, nos disse que o custos ia
com cara de muito doente. Talvez fizesse aqui uma parada.
— Então é agora a ocasião, se o preto está ausente, porque este é mais de recear
numa luta de que o amo. Vejamos se o cavalo está detrás da cabana;
esquadrinhemos as moitas, e anda na pontinha dos pés, André.
Os dois caçadores deram volta pelos arredores e nada encontraram. O que de todo os
sossegou foram as pegadas do cavalo do preto, que seguiam a direção de Content.
Faltava-lhes saber se a cabana estava desocupada.
Aproximaram-se cautelosamente e olharam.
A escuridão que dentro reinava impediu-lhes a princípio de distinguir alguma
coisa. Mas, pouco a pouco os olhos habituaram-se, e avistaram a cama de bambu
sobre a qual estava estendido um homem. Uma capa escura, deitada por cima dele,
não deixava ver-Ihe o rosto. O homem conservava uma imobilidade absoluta; devia
dormir.
No chão, ao lado da cama, viram um par de pistolas e um chapéu. O viajante quisera
decerto desembaraçar-se das armas antes de entregar-se ao repouso.
Os assassinos trocaram um olhar de inteligência. Favorecia-os a sorte. Levados do
mesmo pensamento, puxaram dos machetes e precipitaram-se para a porta, que se
abriu ao seu impulso.
— Mata-o! Mata-o! gritaram os dois bandidos para mutuamente se animarem.
Ao mesmo tempo enterraram os machetes no corpo que permanecia imóvel.
Convencidos de que tinham concluído a sua tarefa sangrenta, os assassinos preparavam-se
para partir quando notaram a estranha tranqüilidade da vítima. O homem não
fizera um movimento nem soltara um suspiro! Talvez o golpe lhe houvesse
acertado no coração. Mas ainda nesse caso a morte não teria sido tão
instantânea. Além disso nas armas não se via nenhuma nódoa de sangue.
— É extraordinário, camarada,
disse Manuel. Estava quase a crer que... levanta a capa para lhe vermos o
rosto.
André aproximou-se da cama e fez o que lhe dizia o companheiro. O defunto tinha as
feições rígidas e os olhos envidrados, como criatura a quem a vida abandonara
havia pouco.
Soltando um grito de horror o espanhol deixou cair a capa e correu para a porta seguido
do companheiro.
— Atentamos contra um morto, exclamou ele cheio de terror.
Iam ambos fugir sem mais se lembrarem da mala do defunto, e André estava já no
limiar da porta, quando alguma coisa o fez recuar com tamanha precipitação que
pouco faltou para deitar o camarada por terra.
Três homens, postados em triângulo a cinco passos da porta, interceptavam o caminho,
apontando as espingardas.
Os espanhóis reconheceram neles Herberto Vaughan, Cubissa e Quaco.
Apesar de colocado mais inferiormente, sob o ponto de vista da hierarquia, o negro foi
o primeiro a falar.
— Alto! disse ele, não sairão enquanto não soubermos o que fizeram lá dentro.
Nem um gesto, ou meter-lhes-ei imediatamente uma onça de chumbo na cabeça!
Os espanhóis entreolharam-se.
— Rendam-se! bradou Cubissa com voz imperiosa. Metam os machetes no cinto e
obedeçam... ou pagam com a vida uma resistência inútil.
— Se não tiverem culpa nenhuma, acrescentou Herberto por seu turno, não se lhes
fará mal. Mas não se fiem nas pernas, observou ao notar que os dois celerados
se voltavam para o fundo da cabana, como se contassem fugir por ali. Não
esperem fugir. Por muito ágeis que sejam, sempre os apanharíamos. Tenho comigo
duas espingardas. Qualquer delas pode alcançar um pássaro no vôo. Voltem-nos as
costas, e eu lhes afianço que lhes ficam muito bem furadas.
— Com os demônios, que nos querem? bradou Manuel em tom insolente.
— Que crime cometemos nós para nos embaraçarem o caminho por tal modo?
acrescentou o outro caçador.
— É exatamente o que queremos saber, retorquiu o capitão.
— Nada mais simples, disse André, eu e o meu camarada nos dirigíamos para
Savannah.
— Cale-se, falador! gritou-lhe Quaco com impaciência, chegando o cano da
espingarda a uma polegada de distância do peito do espanhol. O capitão
disse-lhes que baixassem os machetes e se entregassem. Obedeçam quanto antes,
senão...
Os espanhóis assim ameaçados deixaram cair os machetes.
— Agora, meus rapazes, exclamou Quaco, preparem-se para serem amarrados e
estejam quietos enquanto vou buscar as cordas.
Os dois velhacos submeteram-se à ordem.
Quaco apanhou os machetes e levou-os para fora do alcance dos celerados. Em seguida,
dando a espingarda a Cubissa, que devia vigiar os prisioneiros conjuntamente
com Herberto, afastou-se e meteu-se pelas árvores.
Voltou dali a pouco trazendo a rastos um cipó. Enquanto isso Herberto e Cubissa
conservavam as armas apontadas para os espanhóis, porque era evidente que não
tinham renunciado à idéia de escapar. Era noite já, e a escuridão podia
favorecê-los.
Os sitiantes estavam decididos a não lhes deixar nenhuma probabilidade de evasão.
Apesar de ignorarem ainda o terrível espetáculo que os esperava no fundo da
cabana, tinham sérias razões para suspeitar algum crime, senão realizado, pelo
menos projetado.
O cavalo preso à porta, a pressa, o terror com que os caçadores fugiam da cabana,
eram indícios bastantes para a confirmação dos seus pressentimentos.
Quaco ligou os dois bandidos pulso com pulso, tornozelo com tornozelo, com uma
destreza que faria honra ao mais experimentado carcereiro. Longa prática o
tornara mestre na arte que todo o negro fugido deve conhecer.
Em seguida os três penetraram na cabana, e procurando ver no meio da escuridão
que ali reinava, pareceu-lhes distinguir um corpo estendido em cima da cama
rasteira.
Quaco aproximou-se da cama, não sem sentir-se um tanto comovido, e tocou
cautelosamente no corpo.
— Um homem! murmurou, morto ou adormecido? — Morto! exclamou, passado um segundo,
porque os seus dedos tinham encontrado a fronte do cadáver.
Herberto e Cubissa avançaram.
Quem seria? o fazendeiro, o groom ou algum outro viajante roubado pelos
espanhóis?
Tais eram as interrogações que se faziam. Bastava tocar-lhe nos cabelos para terem a
certeza de que era um branco.
— Traze-me um cocuyo! disse o capitão para Quaco. Quaco saiu. Pela beira
da floresta vagueavam certas luzinhas, formando uma espécie de via-láctea em
movimento. Eram vaga-lumes. A espaços passava uma chama mais viva dum tom verde
e dourado. Era o cocuyo.
Quaco tirou o chapéu e arremessou-o ao ar. Depois de se entregar por alguns instantes a esta
manobra, apanhou um, que trouxe para a cabana.
Mas o negro não se contentou com a luz que lançava o tórax
do animal. Graças à sua ciência das florestas, podia obter melhor. Afastou os
élitos com os dedos, e curvando o abdômen do inseto pôs a descoberto o disco
oval de luz esverdeada, visível somente quando as asas do cocuyo estão
abertas. Então a luz fosfórica iluminou maior espaço, e no corpo estendido
sobre a cama de bambu os espectadores reconheceram Loftus Vaughan.
Herberto caiu de joelhos diante da cama mortuária do tio,
e, esquecendo o passado, derramou lágrimas sinceras
sobre o triste fim do irmão de seu pai, e progenitor de Catarina.
Mas, por muito comovidos que se sentissem em presença do
espetáculo sensibilizador da morte, Cubissa e Quaco não se esqueceram do dever
a cumprir; descobriram e examinaram o cadáver, e à vista duma dúzia de
ferimentos feitos com instrumento cortante, ferimentos que, todavia, não tinham
deitado sangue, não puderam conter uma exclamação de horror que distraiu o
jovem inglês da sua silenciosa oração.
Herberto levantou-se e exclamou voltando-se para os espanhóis:
— Eis a sua obra, miseráveis! Mas responderão por ela perante a justiça.
— E por que havemos de responder? retorquiu André com insolência. Estava já
morto quando chegamos.
— Mentem! rugiu Quaco; têm os machetes umedecidos e os ferimentos apresentam a
largura dos mesmos. E atrevem-se a querer passar por inocentes!...
— Juro que não matamos o custos! disse Manuel.
— Crambo! Então por que o feriram? Não podem negar que foram vocês que
fizeram estes ferimentos.
— Senhor capitão, respondeu André, que parecia ser o orador nas ocasiões
difíceis, não negamos isso. É verdade, confesso, enterramos uma ou duas vezes
os machetes no corpo do defunto.
— Diga uma dúzia de vezes, patife! interrompeu Quaco.
— Como quiserem, não discuto a respeito de alguns golpes a mais ou a menos. Foi
uma aposta que fizemos, eu e Manuel.
— Uma aposta! Que profanação!
— Como lhes disse, meus senhores, íamos a Savannah. Ao descobrirmos este cavalo
ao pé da cabana, tivemos idéia de entrar para ver quem aqui tinha procurado
abrigo. Ao darmos com um morto, ficamos comovidos, quase fora de nós.
Um murmúrio de indignação abafou a voz do espanhol.
Não pareceu que isso lhe desse abalo, pois prosseguiu no mesmo tom velhaco e
cínico.
— Passados alguns momentos dominamos o medo e Manuel disse-me: — “Pensas,
camarada, que um corpo morto pode deitar sangue? — Penso que não, respondi eu. — Pois eu aposto que sim, retorquiu Manuel. — Quanto apostas? tornei-lhe eu. — Cinco pesos. Apostemos!” exclamei. E para realizarmos a aposta enterramos os
machetes no cadáver... Afinal de contas, nenhum mal lhe fizemos com isto.
— Essa história é tão odiosa como o próprio crime. Apesar de toda a esperteza,
vocês não escapam da corda.
— Ah! senhor, exclamou André com uma cara pesarosa, lastimamos no momento a nossa
leviandade, e para a repararmos, depois de orar por alma do morto, decentemente
o cobrimos com a capa antes de nos retirarmos.
— Mente! gritou Quaco. Veja os buracos de que está crivado o pano. Feriram o custos
através da capa.
— Ah! balbuciou André embaraçado; agora me lembro que...
Não teve tempo de concluir a sua justificação. Acabavam de
parar à porta da cabana vários cavalos, e no limiar apareceram dois homens, o
velho Pluto e o feitor da fazenda de Content. Vieram em seguida muitos negros
com uma rede, a qual, destinada a um doente, ia transportar um morto.
Dos três magistrados que tinham condenado o myal-man,
descansavam dois no túmulo havia três meses, e o terceiro acabava de sucumbir.
A morte dos dois primeiros não tinha despertado suspeitas; mas Chakra não se
atrevia a esperar que o mesmo sucedesse com o custos, porque Jessuron o
obrigara a precipitar o desfecho. Este fim súbito, que nenhuma causa natural
justificava, dava lugar a suposições que, segundo todas as probabilidades,
trariam consigo uma autópsia do cadáver.
O myal-man sabia que os peritos encontrariam nele a
seiva da flor da savana ou do ramo da calalu, e que a doença do custos
seria infalivelmente qualificada de envenenamento.
Chakra não estava por isso tranqüilo, principalmente pelo
que dizia respeito a Cíntia. Não que suspeitasse da sua aliada; do que apenas
duvidava era da sua inteligência e habilidade em responder às perguntas do coroner.
Assim que saiu da cabana principiou a cogitar de que modo
se havia de livrar da sua cúmplice. Jessuron não lhe causava os mesmos receios;
além de estar demasiado comprometido para guardar silêncio, o mercador de
escravos tinha grande prática de velhacadas para defender-se.
Quando a noite sucedeu o crepúsculo, o myal-man deixou os caminhos desviados
para tomar pela estrada principal. Caminhava com rapidez incrível; as suas
compridas pernas de macaco, escanchadas de modo que lembravam uma tenaz,
permitiam-lhe ir tão depressa como animal no trote.
Chegando ao caminho de Carrion Crow, e à vista do Jumbé-roc, Chakra tomou um atalho que
se internava no bosque e ia dar diagonalmente à montanha. Era o mesmo caminho
que Herberto e Cubissa tinham percorrido de manhã cedo.
Depois de terminar a sua ascensão, o myal-man parou e consultou o céu.
— Tenho duas horas, disse ele; não me chega o tempo para ir à Cova do Espectro e
dali voltar ao Jumbé-roc. É preciso a Adão e aos seus homens, que me devem
ajudar, uma hora pelo menos para descerem lá abaixo, e então o dia começará a
romper... Tenho de desistir... a coisa deve fazer-se de noite, senão seríamos
seguidos e descobrir-se-ia talvez o segredo da minha guarida.
E depois de refletir por um momento, murmurou:
— É pena não ter chegado duas horas mais cedo. Faria tudo esta noite... Mas,
pouco importa! A noite amanhã será tão boa como a de hoje e estará toda ao
nosso dispor. Provavelmente não trarão o corpo do custos senão daqui a
dois ou três dias, e ainda que descubram logo a sua morte, não me transtornará
isso os meus projetos... A casa deve ficar toda em alvoroço... Bem, tenho o
tempo exatamente suficiente para ir ao sítio do judeu e voltar para a Cova do
Espectro antes de romper o dia. Aquele pecador do Jessuron deve estar
impaciente por saber como tudo se passou, e não se me dava de receber as minhas
cinqüenta libras.
E o myal-man meteu-se por um ponto da floresta, onde ia ter encontros
inesperados.
Habitualmente Yola só via o irmão na clareira da ceiba duas
vezes por semana; mas tinha ficado na noite precedente tão inquieta com a
desaparição de Cubissa e com as suposições que Quaco fizera a respeito da sua
ausência que, levada de inquietação, arriscou-se a ir à floresta.
Nem por sombras ali encontrou o príncipe Cingues, que,
segundo as ordens do capitão estava longe, noutro ponto da floresta, à frente
de grande número de quilombolas, prontos a acudir ao apelo da buzina de
Cubissa.
Yola era animosa e resolveu esperar algumas horas na
clareira. Sem nada saber dos terríveis acontecimentos que se preparavam,
pressentia alguma coisa grave e preferia passar a noite, se tanto fosse
preciso, debaixo da ceiba, na esperança de ver Cubissa ou Cingues, a voltar à fazenda.
Não duvidava de que tinha sido seguida por aquela que lhe espiava os passos para prejudicá-la
junto da sua jovem ama. Cíntia mais duma vez prometera a si mesma observar as
digressões noturnas que Yola fazia pela floresta; mas, como também empregava a
maior parte das noites no caminho da Cova do Espectro, não pudera até então
executar o seu projeto.
Como estava agora livre, por ter cumprido todas as ordens
do myal-man, Cíntia saíra em seguimento da rival, e enquanto esta,
absorta ao pé da ceiba, passava o tempo pensando na sua terra natal, a mulata,
agachada entre as moitas, espiava cuidadosamente a jovem fula.
Muitas horas se passaram assim, e foi uma consolação para as duas mulheres, cansadas
desta vigília, o sentirem de repente um estalar de ramos, indício de que alguém
se aproximava. Mas com desgosto viram que a pessoa que avançava não era a que
esperavam. Quase ao mesmo tempo apareceu do lado oposto um outro indivíduo que
parou em frente do primeiro, a pequena distância da ceiba.
Achavam-se na clareira e a lua iluminava-os. Um era desconhecido de Yola e de aspecto
repugnante; quanto ao outro, a sua presença assustou-a de tal modo que passou
logo para trás da árvore, resolvida a voltar o mais depressa possível para
Mount-Welcome.
Cíntia não pôde fazer o mesmo. Os dois homens tinham parado rente do lugar onde ela
estava escondida. Era-lhe impossível sair do arvoredo que circundava a clareira
sem ser descoberta por eles.
A mulata estava aliada àqueles dois homens, mas nem por isso os temia menos, e
depois que eles principiaram a conversar teve um motivo mais para os recear;
teve medo de que não lhe perdoassem o havê-los ouvido.
Mais lhe teria valido aparecer resolutamente; porém, esperando não ser descoberta,
conservou-se imóvel no seu esconderijo.
Os dois indivíduos que acabavam de chegar eram Jessuron e o myal-man.
Aproximaram-se um do outro com tão pouca cerimônia como dois tigres que se
encontram num juncal.
— Ora bem, Chakra, disse o judeu, trazes-me notícias?
— Trago.
— Ia buscá-las ao teu esconderijo. Foste a Savannah? Correu tudo bem na estrada?
— Sim, respondeu o myal-man com um ar de cruel triunfo; neste momento o
seu corpo está tão frio como o miolo de qualquer melancia e tão rígido como o
esqueleto do velho Chakra. Ah! Obi!
— E Obi fez tudo?... Não houve precisão de...
O judeu estremeceu e calou-se; estivera a ponto de soltar palavras de que se
devia arrepender.
— Não houve precisão de te meteres na obra? acrescentou disfarçando.
— Disse-lhe que o filtro bastaria... foi com outro fim que o segui. Mas quem lhe
disse que eu tinha ido atrás dele?
— Não tinha a certeza disso, meu bom Chakra. Foi uma palavra de Cíntia que me fez
suspeitar.
— Hein? Essa rapariga fala muito. Temos de tapar-lhe a boca dentro em pouco,
senão pode causar-nos desgostos... Lá, iremos. O mais urgente, senhor Jacob, é
largar as suas cinqüenta libras; está feito o trabalho, é tempo de pagar.
— Trouxe o dinheiro, Chakra. E, em bom ouro amarelinho. Está nesta bolsa de
couro. Está certo, podes verificar. Ah! é muito, muito dinheiro!
Sem nada dizer a esta exclamação de pesar, o myal-man meteu a bolsa no seu kaross.
— És bem feliz! disse-lhe o judeu. Estás já livre dos teus inimigos. Eu fico
ainda desassossegado. O meu guarda-livros deixou esta manhã o sítio, e tenho
motivos para crer que anda em companhia desse capitão de quilombolas, de que
outro dia te falei. Não sei o que eles maquinam, mas receio alguma coisa contra
mim. Talvez tenha precisão de ti para este negócio, Chakra, porque eu daria,
sim, daria três vezes cinqüenta libras para que não houvesse questão alguma
entre mim e esse moço.
— Não importa, senhor Jacob; é preciso saber o que ele tenciona fazer, e se eu
puder ser-lhe útil... Mas faz-se tarde.
— Sim, não quero reter-te por mais tempo. Daqui a pouco é dia, e preciso ver se
durmo um pouco; mas, na verdade, não poderei dormir e descansar deveras senão
depois de me tornar a aparecer o rapaz.
E dizendo estas palavras Jacob Jessuron girou nos calcanhares e afastou-se sem se
despedir sequer do seu cúmplice.
— Hum! exclamou o myal-man assim que o judeu se retirou; atormenta-o seja
o que for. Quererá ele desembaraçar-se do rapaz inglês para ficar sendo o único
herdeiro, ou terá medo de que Herberto vingue a morte do custos... Hei
de saber isso... Mas é preciso dormir. Careço de forças para a noite próxima...
Naquele momento um espirro que parecia partir do arvoredo
próximo, fê-lo parar. Fora Cíntia. A mulata teria dado quanto possuísse para se achar sã e salva na cozinha de Mount-Welcome.
Muito antes de acabar a conversa dos dois cúmplices,
resolvera nunca mais tornar a ver o myal-man. Mas agora o encontro era
inevitável.
Chakra respondeu ao espirro com um grunhido de mau agouro e
dirigiu-se para a espessura donde o inesperado ruído partira.
— Por Obi! exclamou em voz alta, estará constipada alguma
destas árvores? Com certeza que também não foi nenhum pássaro que espirrou...
Ia apostar que foi alguma mulher de cor! Olá, quem quer que sejas, torna a
espirrar, para eu saber se és homem ou mulher!
Chakra prosseguiu após um momento de silêncio.
— Não queres? então, por Obi! já não te direi de que
espécie és, mas juro-te pelo grande Accompong que se ouviste o que dissemos não dou uma cachimbada pela
tua vida!
E proferindo esta ameaça, Chakra entrou na espessura e com
os compridos braços esquadrinhou por entre a vegetação.
— Ah! ah! exclamou, dando com a mulata agachada. E
agarrando-a pelos ombros conduziu-a para o meio da clareira.
— Cíntia! exclamou quando a luz do dia iluminou a escrava.
— Sim, murmurou ela consternada, sou eu, Chakra.
— E que fazias aqui? Por que escutavas?
— Oh! Chakra, não era de propósito. Eu vinha...
— Chegaste antes de nós? ouviste-nos?
— Ah! Chakra, não foi por minha culpa! Eu tive bastante
vontade de me ir embora...
— Então não ouvirás mais nada... Não irás daqui para
fora... Vieste aqui... aqui ficarás!
E o myal-man deitou as mãos à mulata, fazendo ouvir
um rugido de animal feroz que cai sobre a presa.
Não decorrera um minuto, caía a miserável criatura de
chofre em meio das moitas.
— Fica aí... disse o preto feroz. Agora já não há que ter
medo da tua língua.
O assassino embuçou-se na sua capa e afastou-se tão
sossegadamente como se não levasse na consciência o peso de um novo crime.
Rompia o dia quando Chakra entrou no seu antro. Era chegada para ele a hora de
repouso.
Não obstante, tinha fome, em conseqüência do muito que andara durante o dia e a
noite. Começou por tirar dum canto da cabana uma marmita contendo os restos dum
pepper-pot. Serviu-se duma porção que comeu fria e acompanhada de rum, e
depois atirou-se para cima da cama com tanta violência que os bambus rangeram
ao peso. Servia-lhe de travesseiro uma protuberância da árvore e fazia de
almofada um punhado de algodão.
O monstro adormeceu estendido de costas, com a boca escancarada e os braços
pendentes para o chão. Das ventas contraídas saía-lhe um sonoro roncar acompanhado
de formidáveis sopros. Dir-se-ia o respirar do hipopótamo.
Só despertou à noite. A cabana estava às escuras e Chakra reconheceu, através dos
interstícios da porta, que o crepúsculo invadia rapidamente o espaço. O grito
do alcaravão na lagoa e o queixume do potus, de envolta com o bramir da
catarata e o sibilar da brisa que refrescara, eram outros tantos avisos de que
tinha chegado a hora de trabalhar.
Acendeu lume, pôs a marmita a aquecer e comeu, três operações que não lhe levaram muito
tempo. Depois levantou-se e esquadrinhou a cabana em procura de alguma coisa.
— Preparemos o sinal, disse consigo. Por fortuna não fará luar antes da
meia-noite. Depois poderá a lua brilhar à vontade tanto como o sol. Faz
escuridão bastante para que Adão veja o meu sinal e a empresa do Mount-Welcome
há de sair às mil maravilhas. Ah! eis finalmente a lâmpada!
Falando deste modo, o negro tirou dum canto uma cabeça do
feitio dum ovo, mas do tamanho dum melão. Parecia-se muito com as lanternas que
só dão luz dum lado.
Após atento exame, Chakra pareceu satisfeito. Tratou em
seguida de reunir vários objetos necessários à sua expedição noturna: um pau
comprido, uma corda, uma grande faca e uma pistola que carregou com todo o
cuidado.
A faca e a pistola foram metidas num cinturão com que se
cingira por baixo da pele do seu kaross.
— Ora! disse consigo, isto são precauções escusadas; aquela
gente não é para lutas. Dizem que o senhor inglês,
que há pouco chegou a Mount-Welcome, tem
medo da própria sombra, e quanto aos negros basta a vista das armas para os
assustar. Depois se isto não
bastar, deixo-me de disfarces e a aparição de Chakra os fará correr até ao fim
do mundo.
A este tempo, o myal-man tinha puxado duma garrafa,
que pôs por algum tempo diante da luz.
— Guardei-a mesmo para esta ocasião, acrescentou metendo a
garrafa numa algibeira do kaross. É uma das minhas armas mais seguras.
Depois dos rapazes provarem deste rum, não há perigo de voltarem para trás. Por
Obi! faz muito escuro cá fora. É tempo de avisar Adão.
E o myal-man, depois de fechar a porta da cabana,
afastou-se rapidamente.
A noite cerrara-se. Cobria o céu espesso manto de nuvens. Mergulhavam na
escuridão vales e montanhas, e o próprio Jumbé-roc desapareceu na negra
imensidão da abóbada celeste.
Subia pelo caminho que ia terminar no alto do ominoso rochedo, um homem. Quem, senão
Chakra, poderia aventurar-se àquela hora pelo temível pico? Era ele com efeito.
Ao chegar à plataforma desatou o kaross dos ombros e atando-o à maneira de estandarte
no bordão que trouxera consigo, amarrou este solidamente à palmeira em sentido
transversal.
Como o kaross era destinado a servir de sinal, Chakra orientou-se de modo
que fazia face dum lado para o Mount-Welcome, e do outro para as “terras negras”
de Trelawnay, região selvagem onde não havia autoridade nem fazendas.
As colônias de negros que povoavam esta solidão pertenciam a diversas categorias.
Escravos fugidos, homens fora-da-lei, assassinos e ladrões refugiavam-se ali e
formavam naquelas montanhas bandos organizados que zombavam de toda a
perseguição.
Chakra conhecia muitos dos seus chefes, e era para se comunicar com eles que preparava
o seu sinal. Satisfeito com estas disposições, o negro pegou da lanterna, e,
pendurando-a de encontro ao kaross do lado das montanhas, acendeu-a.
A luz, refletida por pedaços de vidro metidos na cabeça, podia ser vista à
distância de muitas milhas, ao mesmo tempo que ficava oculta do lado das
plantações.
Só os negros das montanhas de Trelawnay deviam avistar o farol.
Passado um instante um vivo clarão iluminou o cume duma eminência afastada e
desapareceu depois de brilhar três vezes. Satisfeito com esta resposta, Chakra
sentou-se no rochedo, e assim esteve até que suas reflexões foram interrompidas
pelo grito dum pássaro, muito comum na Jamaica e a que chamam “solitário”.
Esta voz, doce e fraca, era simplesmente a imitação do grito do pássaro de que Adão
se servia para avisar o myal-man.
Chakra levou aos lábios um apito do qual tirou um som semelhante
ao silvo do alcaravão. Dali a nada assomavam seis homens na plataforma.
— Eis-nos prontos, bem armados e munidos das máscaras,
disse-lhe Adão. É para
esta noite a grande empresa?
— Justamente, respondeu, mas não temos tempo a perder.
Trata-se, camaradas, de dar assalto à prata de Mount-Welcome, e espero que
nenhum de vocês fará cara feia à empresa. Mas, esperem! Que diriam duma gota de
rum para os aquecer?
A garrafa que Chakra foi buscar passou de mão em mão, e em
seguida o sinistro bando desceu o Jumbé-roc atrás do myal-man.
Por volta das onze horas da noite estava ainda iluminada a
residência de Mount-Welcome, porque o custos deixara ordem para que na
sua ausência se conservassem os costumes da casa.
Mr Smythje, em trajo de cerimônia, porque todas as noites assim se vestia em
respeito aos seus hábitos de elegância,
bocejava desesperadamente numa poltrona, enquanto Catarina tocava harpa; ambos
estavam no salão em companhia de Yola e de Trusty, quando ouviram furiosas
vociferações nos andares inferiores. Quase no mesmo instante, uma dúzia de
homens armados, uns mascarados, outros com rosto descoberto, mas todos de
aspecto horrendo, precipitaram-se no salão.
Um deles, de estatura colossal, mascarado e embuçado numa
capa que imperfeitamente lhe disfarçava a giba das costas, correu para
Catarina, ligou-lhe os
punhos e levantou-a nos braças musculosos.
Smythje fez menção de que ia opor-lhe alguma resistência,
mas o mascarado, com um simples murro do seu punho robusto, fez rolar por terra
o pobre elegante.
Este esforço esgotou toda a coragem e dedicação de Smythje, que, sem esperar novo
murro, se levantou e fugiu por uma porta interior.
Pelo resto da casa sucediam-se os gritos de terror aos gritos de surpresa. Os
criados acudiram, mas bastou um tiro para os pôr em fuga.
Em poucos segundos os bandidos ficaram senhores de Mount-Welcome. Depois de
saquear os armários, amontoaram os móveis no salão e lançaram fogo aos quatro
cantos daquela pira improvisada.
Passados instantes, estava a casa em chamas. Um clarão avermelhado iluminou toda a
campina, enquanto os bandidos tomavam o caminho dos seus antros.
Haviam combinado que Adão levasse todos os despojos e que Chakra fosse buscar o seu
quinhão depois de levar Catarina para a Cova do Espectro. Por este motivo o myal-man
não esperou pelo final da empresa, que era o incêndio, a fim de realizar a
parte da sua vingança na qual tinha mais interesse. Ora levando-a nos braços,
ora arrastando a desventurada que desmaiara por efeito do terror, alcançou com
ela a sua toca no precipício, Catarina só despertou no leito de bambu da cabana
onde Chakra a depusera.
Apesar de não compreender ainda todo o horror da sua situação, percebeu contudo que
aquilo não era um pesadelo, mas a mais horrível das realidades, ao ver
debruçar-se sobre a cama o rosto de Chakra.
Dispunha-se ele a atormentá-la, insultando-a no meio da situação aflitiva em que se achava,
quando se ouviram dois assobios.
— Ah! resmungou Chakra de mau humor; que me quererá o judeu a estas horas?... Terceiro
assobio! Só me faz este sinal em ocasiões graves... Mas não convém que veja
aqui esta rapariga.
E metendo a mão num saco tirou uma garrafa comprida e estreita, cheia de um
líquido escuro.
— Vamos, Lilly Quasheba, disse com voz de trovão à pobre Catarina, vais tomar um
gole ou dois disto. Não tenhas medo; é muito bom!
Catarina recuou instintivamente, mas o monstro agarrou-a pelos cabelos, enleando-os em
volta dos dedos musculosos, e obrigou-a a deitar a cabeça para trás. Com a
outra mão introduziu-lhe entre os lábios o gargalo da garrafa, a fim de a
obrigar a beber o conteúdo.
Segundos depois, o rosto da jovem cobriu-se da palidez da morte. Agitou-a um ligeiro
tremor, pareceu perder as forças e caiu inerte na cama de bambu.
Chakra pegou dela com a mesma facilidade com que pegaria duma pena, e saindo da cabana
foi ocultá-la numa escavação que só ele conhecia, situada por cima da cascata.
Em seguida correu para o barco a fim de obedecer ao apelo de Jessuron, cujo
apito continuava a soar.
— Por que não me respondias? perguntou o judeu com impaciência.
— Desculpe-me; estava a dormir.
— Estavas a dormir, quando Mount-Welcome está em chamas! Não me digas isso a mim,
velho. Adivinhei a tua mão naquela proeza, mas com certeza não pudeste fazer a
coisa sozinho. Andariam metidos naquilo Adão e os pretos de Trelawnay?
Responde francamente. Tenho precisão de ti e deles.
— É verdade que sim, mas Adão vai longe, no caminho das suas montanhas.
— É necessário fazê-lo voltar quanto antes com os seus homens. Corro perigo. Blue
Dick, mandado como explorador pela estrada de Savannah, trouxe-me notícias
desagradáveis. Os meus espanhóis foram feitos prisioneiros de Cubissa e daquele
ingrato Herberto Vaughan. Acusam os meus caçadores de ter assassinado o custos.
Trata-se de libertar os espanhóis, armando uma cilada ao cortejo que está a
caminho. Trá-los-ás para aqui e ocultá-los-emos até que eu possa embarcá-los.
Virei esta noite falar-lhes a tal respeito. Pões-te a caminho? Haverá uma boa
recompensa.
— Tenho a certeza de encontrar Adão, respondeu Chakra, mas não volte esta noite
para casa, senhor Jessuron. Suba ao Jumbé-roc, donde poderá ver de longe tudo o
que se passar no vale, e quando souber que os seus homens estão livres e são
conduzidos para aqui, poderá então vir dar-lhes as suas instruções.
Naquela mesma noite dirigia-se para a fazenda de Mount-Welcome um lúgubre cortejo.
Compunha-se dumas dez pessoas, quatro das quais traziam numa padiola o corpo de
Loftus Vaughan. O pequeno bando achou-se em frente de Mount-Welcome por volta
da meia-noite, e Herberto, que o comandava, ordenou que fizessem alto, na idéia
de mandar um mensageiro adiante participar a triste nova a Trusty. Este
incumbir-se-ia de dispor Catarina para o infortúnio por que ia passar.
Levado dum impulso delicado, Herberto não quis ser portador daquela mensagem que fazia
órfã uma jovem, de cuja simpatia recebera provas. Mandou pois o velho Pluto,
que partiu a todo o galope.
Ao fim de meia hora o cortejo punha-se novamente a caminho, quando Pluto regressou
com uma terrível notícia. Um bando de assassinos apoderara-se de Mount-Welcome,
saqueando-a e incendiando-a.
Pluto nem sequer procurara Trusty. Soubera estas coisas pelos negros espalhados pela
campina, e pusera-se para trás a toda a brida, entendendo que o socorro mais
eficaz seria o que o pequeno bando levasse.
— Quaco, perguntou Cubissa, julgas que os nossos homens podem ouvir-nos daqui?
Tens melhor fôlego que eu.
Depressa, depressa, dá os cinco toques!
— Oh! respondeu Quaco, hão de ouvir-me ainda que estejam na outra extremidade da
ilha!...
E levando a buzina aos lábios, tirou um toque que justificava a pretensão. No
mesmo momento meia dúzia de sinais análogos responderam de diversas direções.
— Não estão longe, disse Cubissa. Espera-os tu aqui. Nós vamos adiante, e toma
cuidado em que esses patifes de espanhóis não fujam.
— Se lhes metêssemos uma bala no corpo a cada um, livrar-nos-íamos de embaraços.
Que pensa, capitão?
— Não; não temos o direito de os punir. Isso é com a justiça.
Antes de Quaco ter tempo de dar uma resposta ou propor novo alvitre, Cubissa e
Herberto afastavam-se a toda velocidade.
— Fogo! exclamou Cubissa quando chegaram à entrada do vale.
Efetivamente a residência de Mount-Welcome estava em chamas.
Os dois mancebos esporearam os cavalos e partiram a todo o galope pela avenida dos
tamarindos. Quando os animais, aterrados pelo incêndio, se empinaram,
desobedecendo ao freio, apearam-se e aproximaram-se do casarão a arder. Só as
paredes mestras estavam de pé, sustentando as vigas mais grossas por onde
corriam e sibilavam grandes labaredas.
O jardim com suas dependências parecia deserto. Herberto dirigiu-se com os
companheiros para as cubatas dos negros, supondo que nem todos tivessem fugido.
Efetivamente, daquele lado lhes saiu ao encontro uma criatura humana. Era o pequeno Quashie.
Contou, conforme pode, o assalto dos bandidos, a desaparição de Catarina, e
começava a fazer comentários a respeito da fuga do senhor Smythje, quando
interrompeu a narrativa brigando:
— Oh! não se retiraram ainda! Olhem para lá, próximo da casa incendiada!
Cubissa e Herberto voltaram-se e avistaram uma dúzia de vultos negros que se moviam
sobre o fundo iluminado pelas chamas.
Correram logo para aquele ponto, indiferentes ao perigo e resolvidos a salvar a todo o
transe as vítimas do desastre.
Quando se acharam perto do bando, tranqüilizou-os o som da trombeta. Eram os homens
comandados por Quaco. O subalterno de Cubissa deixara no caminho o corpo de
Loftus Vaughan guardado por alguns dos seus camaradas, que ao mesmo tempo
ficaram encarregados de vigiar os dois espanhóis.
Tinha querido vir em pessoa compartilhar os perigos e trabalhos do capitão.
Um tal reforço não seria para desprezar se o inimigo estivesse presente. Mas para
onde tinham fugido os incendiários? Que era feito de Catarina e de Yola?
Nem Herberto nem Cubissa se achavam com ânimo de comunicar um ao outro os seus
receios, tão horríveis eram eles. Não teriam as duas jovens perecido nas
chamas?
Quando tratavam, mergulhados em profundo silêncio, de formar um plano, sem saber sobre
que base o haviam de assentar, ouviram um gemer partido dos escombros, na parte
mais preservada do fogo.
Smythje, quando tentara proteger Catarina, mais para defender sua dignidade que para
salvar a moça, fora, como vimos, derrubado pelo murro do mascarado gigante.
Ao fugir pela porta interior, não pensava em nada. Um terror pânico tomara conta
de sua pessoa. Pulou por uma janela e se embrenhou na floresta. Correu durante
muito tempo como um alucinado. Seu cérebro não trabalhava.
De repente o seu pé tocou num tronco e ele esmagou o peito de encontro ao solo.
Permaneceu imóvel vários minutos. O terror não diminuíra, mas em compensação
seu cérebro voltou a funcionar. Com grande espanto verificou que a sua corrida
fora inútil, dera centenas de voltas e viera parar nas vizinhanças da fazenda.
Que fazer? O clarão de um incêndio chegava até ele. Podia ser visto e ser
assassinado por aqueles assaltantes misteriosos. Rastejou lentamente até
alcançar uma moita que o punha fora do clarão do incêndio. De seu esconderijo,
mais tranqüilizado, espiou o prédio da fazenda que ardia.
E com grande surpresa, e uma prodigiosa alegria, viu um cavalo sem arreios, mas de
cabresto, pastando tranqüilamente perto da moita. Com precauções infinitas
atingiu a ponta do cabresto, puxando o animal para o escuro.
Montou. Não era mau cavaleiro, mas nunca se arriscara a montar em um cavalo sem
arreios. Juntou os calcanhares na barriga do cavalo e partiu numa carreira
doida.
Durante quanto tempo correu? O fidalgo nunca o soube. Num determinado momento sentiu
uma vertigem e rodou abaixo do cavalo. Não se machucara, mas, com um desprazer
enorme e um medo maior, viu que o cavalo o trouxera de novo para a fazenda.
Ergueu-se cautelosamente, limpou a terra que lhe cobria o rosto e viu em sua frente
Herberto e um grupo de quilombolas.
— Depressa! Preciso saber o que se passou na fazenda, perguntou-lhe Herberto.
— Antes de tudo preciso tomar um banho e trocar a roupa, disse Smythje.
— Ora, senhor, não se trata agora dessas frioleiras. Fará favor de me dizer o que
é feito de minha prima? Não estava aqui para a proteger?
Smythje levava a religião de sua preciosa ao ponto de não ter vergonha dos seus atos e
gestos. Por isso confessou que desistira de defender Catarina, que fora raptada
por uma espécie de gigante.
— Tinha, disse o cockney, compridos braços e uma espécie de protuberância
nas costas como a giba dum camelo. Foi ele que se apoderou de Miss Vaughan, a
quem vi gritar enquanto era arrastada para a escada.
— E o senhor não a defendeu? exclamou Herberto fremente de cólera; o senhor é
indigno de ser inglês! Não sei o que me contém!...
Smythje não esperou pelo final da frase e desapareceu.
Cubissa, que escutara atentamente o que Smythje contara, disse:
— Conheço pelos sinais que deu o senhor Smythje quem é a
fera que fez tudo isto. Sei onde o monstro tem o covil. Daqui a uma hora
teremos em nosso poder o autor do rapto, e com o auxílio de Deus
arrancar-lhe-emos a vítima.
Suprema aflição oprimia o peito de Herberto; o sangue fervia-lhe nas veias só com
lembrar-se dos perigos que a sua vítima corria.
Pelas informações que tinha a respeito de Chakra, dizia consigo que se o monstro não
havia assassinado a jovem em Mount-Welcome era porque a reservava decerto para
tormentos piores que a morte, e pediu a Cubissa que lhe indicasse quanto antes
o caminho da Cova do Espectro.
— Vamos todos com o senhor, disse o capitão.
O plano delineado por Cubissa foi coberto pelas aclamações de todo o bando, que
partiu em seguida, sob sua orientação, em direção à cabana de Chakra.
No lugar em que abordou a canoa não havia caminho traçado. Os expedicionários
lutaram por algum tempo com uma espessura quase impenetrável. Não corriam porém
perigo de se perderem, porque Cubissa, como se lembrava de que a cabana de
Chakra era junto da cascata, tinha no ruído da água um guia infalível.
A espessura foi-se tornando pouco a pouco praticável e afinal descobriam o
algodoeiro.
Tinham na sua frente a cabana. Pela porta entreaberta via-se o brilho duma luz, a qual
se refletia sobre a terra coberta com a sombra da árvore imensa. Apesar de
fraca e vacilante, esta luz tranqüilizou os dois amigos. A cabana estava
decerto ocupada por Chakra e sua vítima.
Cubissa sentia-se acometido de negros pressentimentos. Herberto tinha a cabeça em
fogo. Ambos dificilmente conseguiram dominar a sua comoção para aproximarem-se
da cabana com as precauções exigidas pela prudência.
Fazendo sinal aos companheiros para que parassem debaixo das árvores, Herberto e o
capitão dirigiram-se de rojo para o algodoeiro. Chegados ao lugar onde a árvore
enorme projetava a sua sombra, puseram-se repentinamente de pé, e acharam-se
dum pulo no limiar da cabana.
Um brado de desânimo saiu ao mesmo tempo de todos os lábios: a cabana estava
vazia.
Contudo os dois mancebos entraram, a fim de ver se pela inspeção do lugar colhiam
alguns esclarecimentos. A lâmpada acesa, apenas com uma pequena porção do óleo
consumido, indicava uma retirada recente. Demais, nenhum indício havia de que a
jovem tivesse estado ali.
Cubissa tomou a palavra.
— Chakra deve achar-se por perto, disse ele. A minha suposição é esta: a canoa
deve ter servido aos cúmplices, que não hão de tardar; Chakra avistou-nos
certamente e tratou de se refugiar a toda a pressa nalgum esconderijo. Agora é
procurá-lo.
Esta conjectura oferecia probabilidades. O capitão chamou os seus homens e
ordenou-lhes que arranjassem fachos acesos e esquadrinhassem o bosque. Quaco
foi mandado para a canoa a fim de a vigiar e tirar a Chakra toda a
possibilidade de fuga da banda do lago.
Quando chegou junto à cascata, Herberto soltou um grito de surpresa à vista dum objeto
claro que estava em cima duma pedra, junto do lugar onde a torrente se
precipitava. Era um pedaço de estofo amarrotado e rasgado. Os dois amigos não
duvidaram de que aquele objeto houvesse pertencido a Catarina.
Cubissa prestou menos atenção ao objeto que ao lugar onde ele estava. Era na borda do
rochedo, ao longo do qual se precipitava a torrente.
Entre o lençol d’água e a rocha corria uma cornija que permitia a passagem por baixo
da cascata. Cubissa lembrou-se de que havia uma grande gruta aberta na rocha,
muitos pés acima da água.
Como o pedaço do estofo se achava na saliência do rochedo que conduzia à gruta,
Cubissa supôs que Chakra se refugiara ali. Como porém podia estar rodeado dos
seus cúmplices, o capitão chamou alguns dos seus homens, e deitando a mão a um
facho voltou a toda a pressa para a cascata.
Fazendo sinal a Herberto para que o seguisse, tomou o caminho da gruta, levando numa
das mãos o machete e o facho na outra. Herberto ia com a espingarda
engatilhada, pronto a fazer fogo à menor agressão.
Quando ali entraram, brilhantes estalactites refletiram a luz do archote a ponto de
deslumbrar por algum tempo os exploradores.
Não tardou porém que seus olhos se habituassem àquela luz diamantina. Soltaram
então um grito, ao mesmo tempo que deitavam um ao outro um olhar desesperado.
Entre duas grandes massas de estalagmites jazia uma mulher toda de branco, na
imobilidade da morte.
Não havia necessidade de chegar a luz àquele rosto pálido... Era Catarina Vaughan.
À vista de sua prima, que ele julgou privada de vida, Herberto sentiu o coração
dilacerado e rompeu em soluços. Largando a espingarda, ajoelhou-se diante da
jovem e entregou-se a um desespero que achou eco entre os rudes companheiros
dispostos em torno dele. Choravam todos sinceramente, e as suas exclamações de
dor confundiam-se com os monótonos gemidos da cascata.
Passou-se longo tempo antes que o inglês saísse da sua contemplação.
O archote de Cubissa só dava uma luz indecisa. Afinal Herberto levantou-se, e
recuou lentamente para a entrada da gruta, depois de fazer aos companheiros um
gesto que todos compreenderam perfeitamente.
Levantaram o corpo da jovem e transportaram-no silenciosamente para a cabana, guiados
pelos seus chefes. Catarina foi deposta no leito de bambu. Feito isto, os bons
dos negros, movidos dum instinto de delicadeza, retiraram-se, deixando a sós
Herberto e Cubissa.
Foi Cubissa quem primeiro tornou a palavra.
— Valha-me Nossa Senhora! disse ele com voz alterada; não sei de que ela poderia
morrer, salvo se foi a vista de Chakra que a matou.
Um gemido foi a única resposta de Herberto.
— Se o monstro procedeu com ela violentamente, não se vê disso vestígio algum,
prosseguiu Cubissa. Não há nem sangue, nem ferimento, nem aparência de acidente
que pudesse produzir a morte. Pobre criatura!
— Valha-me Deus! exclamou Herberto soluçando; dois cadáveres da mesma família,
pai e filha... no mesmo dia... à mesma hora...
Antes de Cubissa ter tempo de dizer alguma coisa, apareceu um vulto à entrada, que
interrompeu esta triste troca de lamentações. Era Quaco, que, sabendo pelos
seus homens da descoberta que acabavam de fazer na gruta, entrava ali sem ser
convidado. Aproximou-se do leito de bambu e contemplou o pálido e meigo rosto
da jovem. Pouco a pouco o rosto de Quaco foi perdendo a expressão dolorida, e
um sorriso de satisfação chegou a entreabrir-lhe os grossos lábios.
— Quaco, disse-lhe Cubissa em tom de censura , que significam tuas maneiras? Não
vejo o teu costumado respeito pela morte.
— Pela morte, diz o capitão? retorquiu tranqüilamente Quaco, que tornou a sorrir
depois de relancear segundo olhar para Catarina. Se é à senhorita que se
refere, não se me dava de estar tão morto como ela.
Herberto e Cubissa estremeceram e soltaram um grito de surpresa e esperança.
A um sinal de Quaco, um dos negros despendurou um espelhinho que havia, na
cabana.
— Bem, exclamou Quaco, era isto o que eu queria. Este vidro está límpido, não é
verdade, capitão? Vai ver agora...
Colocou o espelho diante dos lábios gelados de Catarina. Passado um momento afastou-o e
chegou-o à luz da lâmpada.
— Vejam, exclamou, o vidro está embaciado. Ela apenas bebeu o extrato de calalu,
a água que adormece... e olhem, aqui têm a vasilha que a conteve! acrescentou
apanhando uma garrafa que estava no chão. Sei doutra droga que a fará tornar a
si. Falta só achá-la. Deve estar por aqui nalgum canto. Se dou com ela, a jovem
falará em menos de dez minutos.
O colosso principiou a procurar pela cabana, sem se esquecer de nenhuma das covas
ou fendas que havia em abundância por ali.
Herberto e Cubissa, demasiado comovidos para falar, esperavam com ansiedade o resultado
prometido.
O subchefe dos fugidiços quilombolas entendia de drogas quase tanto como o myal-man.
Era o médico do bando. No exercício das suas funções de curandeiro adquirira
alguns conhecimentos a respeito do sistema de Obi e de certos segredos de que
os myal-man se julgavam únicos sabedores.
— Ah! eis o que eu pretendia! exclamou pegando numa garrafinha que destapou com cuidado
e chegou ao nariz. Senhor Vaughan, acrescentou, levante a cabeça de sua prima
enquanto eu lhe deito na boca algumas gotas deste líquido.
Herberto apressou-se em obedecer; Quaco entreabriu os lábios de Catarina, com toda a
delicadeza possível, e deitou-lhe na boca algumas gotas do líquido. Em seguida,
agarrando nas suas mãos calosas as franzinas mãos da jovem, procurou
restabelecer nelas a circulação do sangue por meio de fricções.
O coração de Herberto batia com violência. A despeito dos seus esforços não podia
dominar a ansiedade; nem ter confiança na afirmativa de Quaco.
Mas cinco minutos, que pareceram cinco séculos, tinham apenas decorrido depois da
ingestão do benéfico licor, quando principiou a agitar-se o peito da jovem, e
lhe saiu dos lábios um fraco suspiro.
Afinal a respiração tornou-se-lhe regular, o rosto reanimou-se-lhe; ela reconheceu o
primo e proferiu, com voz ainda pouco distinta, o nome de Herberto.
O mancebo ajoelhou diante do leito de bambu, sem poder com uma palavra sequer
responder àquele apelo da prima.
Foi Cubissa quem tranqüilizou Catarina, cujo terror ia volvendo à medida que se
recordava do passado.
— Fie-se em nós, que a defenderemos, disse-lhe ele. Seu primo dedicou a vida à
sua salvação, e nós juramos ajudá-lo com todo o nosso poder. Fie-se em nós.
— Oh! obrigado, Herberto! disse Catarina elevando as mãos para o primo. Quando
meu pai souber o que fez por mim, amá-lo-á como um filho, e pedir-lhe-ei que
esqueça... o que tanto me custou. Não perdoará a meu pai?
— Já lhe perdoei, respondeu o mancebo, não se atrevendo a revelar à jovem a morte
do custos.
Estas expansões do coração dos dois jovens duraram algum tempo. Entretanto Cubissa
combinava com Quaco a maneira como haviam de regressar. O capitão chamou
finalmente Herberto de parte e lhe submeteu o projeto que tinham formado, que
era conduzir Catarina para a casa de Trusty, o feitor de Mount-Welcome, dizendo
à jovem que ali esperasse pelo regresso de seu pai. Como sabia que tinham
deitado fogo à residência, que o teto que abrigara a sua infância era apenas
uma ruína, devia parecer-lhe natural o ir procurar um asilo temporário em casa
do administrador da fazenda.
Nem Herberto, nem Cubissa tinham a certeza de que o corpo do custos houvesse
já chegado a Mount-Welcome, e ademais, Quaco deixara os portadores do cadáver
sem lhes dar ordem alguma àquele respeito. Era possível que o cortejo fúnebre
ainda estivesse no caminho de Carrion-Crow, e portanto Catarina podia muito bem
chegar à casa do administrador sem saber da morte do pai.
Formando este plano, Herberto e Cubissa partiram na canoa com Catarina Vaughan, deixando
na Cova do Espectro Quaco e a sua gente, encarregados de esperar pelo regresso
de Chakra.
Tinham voltado as forças à jovem. Atravessou os atalhos da floresta encostada ao braço
de Herberto. Cubissa precedia-os para evitar surpresas. Mas não tiveram nenhum
mau encontro, e ao fim duma hora avistaram o que fora Mount-Welcome.
Alguns clarões avermelhados brilhavam através da folhagem que orlava o atalho, e
ouvia-se estalar o vigamento que desabava meio consumido pelo fogo.
De repente ouviram gritos de aflição do lado da residência.
— Que será? perguntou Herberto.
— Hão de ser os ladrões que voltaram. Não sei para quê, mas são eles com certeza.
Conheço a voz daquele celerado Adão... Ah! eis outro grito mais rude e mais
ameaçador... É, com certeza, a voz daquele demônio de Chakra. Ouça, senhor
Vaughan, são talvez os homens da minha escolta que vieram até Mount-Welcome e
que entraram em luta. Fiquem aí, vou com eles combater contra os bandidos.
— Espere, Cubissa, não posso deixá-lo ir só. Arriscou-se por causa dos meus e
tenho direito a uma desforra. Querida Catarina, oculte-se nesta espessura.
Daqui a um quarto de hora virei livrá-la.
— Oh! Herberto, não me deixe! exclamou Catarina, agarrando-se ao braço do primo.
— Catarina, disse-lhe ele em tom de meiga censura, quer que eu faça figura de
covarde e de ingrato?...
— Não, volveu ela em tom enérgico; vá, Herberto, faça o seu dever!
E meteu-se no esconderijo que o primo lhe indicava. Em pouco tempo os dois
mancebos costearam o muro da fazenda, franquearam a porta e atravessaram o
jardim. Mas, coisa estranha! os gritos dos homens, os gemidos das mulheres
tinham cessado tão repentinamente como se tinham feito ouvir. Tudo recaíra no
silêncio; dir-se-ia que a terra acabara de se abrir para tragar aqueles
uivadores.
Herberto e Cubissa passaram por diante das ruínas
fumegantes da habitação e chegaram à varanda que lhes ficava em frente.
Esperava-os ali um lúgubre espetáculo.
Era a espécie de padiola onde jazia o custos. Ao
lado dele estavam três cadáveres de negros. Eram os que Quaco tinha deixado de
guarda aos caçadores espanhóis. Estes bandidos haviam sido libertados. As
cordas e os paus de que Quaco se servira para lhes tolher os movimentos estavam
espalhados pelo solo.
Ficava explicado o regresso dos bandidos. Tinham vindo
libertar as seus cúmplices.
Um pouco tranqüilizados Herberto e Cubissa dispunham-se a
voltar para junto da jovem quando viram um vulto branco passar como um silfo
através das árvores do caminho que ia dar ao muro do jardim.
Era Catarina, que tinha querido compartilhar os perigos da
situação.
Antes de terem tempo de se opor ao seu desígnio, transpôs
ela a barreira, soltando uma exclamação alegre ao vê-los sãos e salvos.
Mas no mesmo instante ouviu-se um segundo grito, este,
porém, dilacerante e desesperado.
Catarina acabava de defrontar o cadáver do pai.
Caiu desvairada sobre ele e cobriu de beijos e de lágrimas
a fronte gelada de Loftus Vaughan.
Era inútil qualquer consolação. Herberto respeitou aquela dor suprema, e só quando
Catarina, esgotadas as forças, se curvou meio inanimada sobre o corpo do pai,
foi que ele a arrancou àquele triste espetáculo para a levar ao quiosque do
jardim, de conformidade com os conselhos de Trusty, que finalmente acudira.
Ali cuidou dela a escrava Yola, que se refugiara nas cubatas dos negros mal ouvira
os gritos da sua senhora. Enquanto Yola diligenciava por fazer recuperar os sentidos
à sua jovem ama, Trusty deplorava perante Herberto os acontecimentos da noite,
e notificava-o da impossibilidade em que se achara de levar socorros à
residência de Mount-Welcome.
— Senhor Vaughan, concluiu ele com uma voz embaraçada, todos os meus negros
fugiram como um bando de carneiros ao ataque daqueles bandidos. Nem com
súplicas, nem com ameaças, nem com promessas consegui que mostrassem um pouco
de coragem. Que poderia eu fazer sozinho contra um bando de selvagens? O inglês
Smythje foi o primeiro a fugir, e partiu para Montego-Bay no primeiro cavalo
que encontrou depois do incêndio. Espero, senhor Vaughan, que não tornará um só
homem responsável pela covardia de todos os mais, e que me conservará no
emprego de administrador da fazenda.
— Na verdade, senhor Trusty, respondeu-lhe Herberto com admiração, está a
falar-me como se eu fosse dono de Mount-Welcome. É a minha prima que deve pedir
desculpas.
Trusty abanou a cabeça.
— É o senhor, disse-lhe em tom de deferência, o herdeiro legal do custos, e
não Miss Catarina a quem as leis da Jamaica só concedem mil e quinhentas libras
do total da fortuna de seu pai.
— Isso é uma abominável iniqüidade! exclamou Herberto. Se é verdade que a lei me
concede a faculdade de tirar a uma órfã os seus bens, renuncio aos meus
direitos. Aceite quem quiser uma tal herança.
— E há de haver quem a queira, redargüiu Trusty. Na sua falta, senhor Herberto, é
o senhor Jacob Jessuron, cujos laços de parentesco com o custos vêm logo
depois dos seus...
Trusty não pode concluir. Foi interrompido por Catarina, que disse, dirigindo-se a
Herberto:
— Agradeço-lhe o interesse que toma pelo meu triste destino; mas seja qual for a
minha sorte, saberei suportá-la, meu primo.
— Querida Catarina, volveu Herberto, não sei se Trusty está certo do que afiança;
mas perante Deus, que lê no meu coração, perante Yola e Cubissa, que nos ouvem,
suplico-lhe que me escute. Somos ambos duas criaturas isoladas, únicos ramos
duma família extinta. Tenho, portanto, o dever de substituir junto de você os parentes
que lhe faltam. Ignoro se a lei de seu país nos faz ricos ou pobres, mas quer
eu seja proprietário de Mount-Welcome, quer eu seja obrigado a correr os
bosques na companhia dos fugidiços em busca de subsistência, disponha de mim.
Que de hoje em diante nada nos separe; riqueza ou pobreza, fortuna ou desgraça,
tudo seja comum entre nós.
— Herberto, disse Catarina, depois do que tentou para me salvar, até meu pai, se
o ouvisse, lhe concederia a minha mão! Mas Trusty disse a verdade, eu é que sou
a pobre, o senhor é o rico.
— Tem razão, prima, replicou Herberto com vivacidade, estreitando a jovem contra
o peito; sou efetivamente rico, porque um coração como o seu é o mais precioso
dos bens, e se bem a compreendi, esse tesouro pertence-me!...
Antes de deixar a Cova do Espectro, Cubissa tomou as suas medidas para que Chakra não
pudesse escapar.
O myal-man, ignorando que o seu antro tinha sido invadido aquela noite,
devia, mais tarde ou mais cedo reaparecer.
Quaco e seus homens entre os quais se achava o príncipe Cingues, agacharam-se à
sombra da árvore junto da qual o myal-man tinha por costume ocultar a
sua canoa, e tornaram a pô-la exatamente na posição em que ele a deixara, para
que não suspeitasse de coisa alguma.
Quando principiou a raiar a alvorada, divisaram-se quatro formas sombrias no cimo do
rochedo, mesmo na parte superior da escada rústica por onde principiaram a
descer com precaução.
A claridade não era ainda bastante para se reconhecerem os recém-chegados.
Quando o barco começou a afastar-se da margem, transportando dois vultos, é que Quaco
reconheceu Jacob Jessuron e Chakra.
Quaco perguntou a Cingues:
— Conhece o mercador de escravos?
O príncipe respondeu apenas com um gesto feroz e enérgico. E sem dar tempo a que
o quilombola dissesse mais, pôs a espingarda à cara e fez fogo.
Quaco não queria matar os dois bandidos, mas apanhá-los vivos, desviou o tiro, que
apesar disso não foi perdido. Em vez de acertar em Jacob Jessuron a bala cortou
o remo nas próprias mãos do barqueiro.
Chakra soltou um grito de desespero.
Compreendia o perigo a que os expunha aquela perda. A canoa, incapaz de lutar contra o
redemoinho; não podia deixar de ser engolida. Pôs-se de joelhos, deitou os
braços fora da canoa, e começou a remar com as mãos, diligenciando disputar o
barco à torrente que o arrastava.
Entretanto as forças do negro diminuíam a olhos vistos, e a corrente, no ponto em que
tinham chegado, aumentava de impetuosidade. Depois de lutar por alguns minutos,
Chakra, convencido da sua impotência, relanceou em volta de si olhares de
animal feroz caído numa armadilha.
Naquele momento os outros dois vultos que tinham ficado em terra soltaram um grito.
— Os caçadores espanhóis! disse Quaco; amigos, não os
deixemos escapar segunda vez!
Ouviu-se uma dupla detonação e os caçadores de homens
caíram fulminados sobre as ervas que cobriam a margem.
Esta peripécia, longe de abater Chakra, fê-lo recuperar
toda a energia. Cessando de agitar a água com as palmas das mãos, debruçou-se
para Jacob Jessuron, que parecia aterrado, e agarrando-o pelos ombros, como
gigantesca aranha que se apodera da presa, arremessou-o pela borda da canoa
para aliviar daquele peso a sobrecarregada embarcação.
A isto sucedeu um grito rouco seguido do ruído da água
engolindo a vítima.
Entretanto Chakra ia perdendo tempo. Antes de se equilibrar
de novo já a canoa havia sido arrastada para o meio do redemoinho.
Nem com o auxílio dos remos poderia salvar-se. Passados dez
minutos, precipitava-se na catarata com a rapidez da flecha. Fazendo um esforço
desesperado, o negro deitou a mão por um instante a uma árvore que saía
horizontalmente dentre os rochedos. Mas a árvore não era bastante sólida para
resistir. As raízes cederam. O homem e a canoa foram arrastados para o abismo.
Jessuron apenas o precedera por espaço de alguns segundos,
e os corpos dos dois criminosos flutuaram um após
outro, girando lentamente, impelidos pelo redemoinho.
Um ano depois dos tristes acontecimentos que acabamos de relatar, Mount-Welcome havia
já emergido das cinzas e brilhava com um novo esplendor.
Dir-se-ia que a antiga residência fora restaurada por algum encanto, tanto o novo
edifício se parecia com o primeiro.
Nos canaviais lidavam numerosos servidores negros; em vista do seu aspecto contente
e bem-disposto conhecia-se perfeitamente que pertenciam a senhores bondosos e
humanos. Um administrador, que não era Trusty, vigiava os trabalhos, e as
funções que ele desempenhava só se conheciam pelo trajo, que era quase o de um
cavalheiro, porque não o acompanhava o chicote, que é o cetro dos que dirigem
escravos.
Entre a criadagem de Mount-Welcome, reinava o mesmo ar de satisfação. As raparigas
punham a mesa do almoço cantando as árias crioulas, cuja melodia é tão ingênua,
e quase não se interromperam quando os donos da casa, Herberto Vaughan e a sua
jovem esposa, Catarina, apareceram na sala e se sentaram à mesa.
Como em outros tempos, o correio vinha à hora do almoço, mas nenhum dos esposos se
preocupava com a sua chegada. Que lhes importavam as notícias do exterior? O
seu horizonte não ultrapassava os limites do querido vale, onde as bênçãos dos
que os rodeavam lhes iam de dia a dia aumentando a felicidade.
Mas o correio não tem respeito nem pela ansiedade nem pela indiferença. Surpreende
indistintamente os que estão satisfeitos e os que estão tristes, e Quashie
entrou calçado com as suas grandes botas de viagem e depôs em cima da mesa, ao
lado de Herberto, uma carta que talvez não fosse aberta tão depressa se
casualmente os selos estrangeiros não dessem na vista do jovem fazendeiro.
— Catarina, minha querida Catarina, disse ele depois de percorrer as primeiras
linhas da carta, é o nosso amigo Cubissa que nos escreve.
— Quê! pois já virá de volta?
— Já. Bem sabia que não lhe era possível habituar-se a viver entre os selvagens,
apesar de o fazerem príncipe. Casou com Yola, que traz consigo, e pergunta-me
se lhe queremos vender esse pedaço de terra que se estende para além do
Jumbé-roc. O velho rei dos fulos deu-lhe em sinal de reconhecimento uma
importante quantia, e Cubissa deseja tornar-se fazendeiro.
— Que felicidade! Voltam para junto de nós os nossos amigos! exclamou Catarina.
— É da minha opinião, minha boa e querida Catarina, que não vendamos esta terra a
Cubissa, mas o obriguemos a aceitá-la como prova da nossa amizade. Consente,
querida Catarina?
— Ah! exclamou Catarina, bem sabe, Herberto, que lhe devo tudo o que possuo. E
também me glorio da minha dívida. Era pobre e órfã, deu-me como sua esposa uma
família, e só Herberto é o verdadeiro possuidor da fortuna de que me faz gozar.
— Oh! redargüiu Herberto num tom de meiga ironia; falta às nossas convenções não
querendo admitir que sou eu que lhe devo tudo! Vou já vìngar-me. Sabe que o
tribunal de Savannah acaba de me adjudicar os bens de Jacob Jessuron, em
conseqüência do nosso parentesco remoto. Ora, eu teria repugnância em
administrar esta propriedade que tão cruéis recordações desperta em mim. Logo
que Cubissa voltar dar-lha-ei. Aprova?
— Oh! querido Herberto, você é o melhor dos homens!... Mas o capitão não diz mais
nada na carta? Herberto tornou a pegar na missiva que pusera em cima da mesa
durante a conversação.
— Credo! que me diz ele aqui? exclamou Herberto depois de ler outra vez a carta.
O capitão do negreiro que trouxera o príncipe Cingues para a Jamaica teve a
audácia de voltar à costa africana, e os fulos tiraram dele terrível
vingança. Apesar da intervenção de Cubissa, foi morto.
— Oh! disse Catarina, compreendo a razão por que Cubissa não pôde permanecer numa
terra onde a justiça é tão sumária.
— Não se lembra, Catarina, de que muito há que dizer da maneira como às vezes é
feita a justiça na Jamaica? Aí está a nossa triste e lúgubre história para o
atestar. E aquele negreiro não tinha merecido uma mas cem mortes?
— Horroriza-me a violência, seja qual for o lugar onde ela se pratica.
— E tem muita razão, minha querida, porque uma violência traz sempre outra.
Permita Deus que um dia o abuso desapareça para sempre da terra. O nosso
Cubissa tem um dever sagrado a cumprir aqui; a sua fortuna não o fez esquecer
que é o capitão, o chefe dos pobres quilombolas. Tomou a peito melhorar a sorte
dos seus companheiros dos bosques, porque Cubissa tem os mesmos sentimentos que
nós, querida Catarina. Sabe que ninguém deve gozar dum modo egoístico a
felicidade que Deus lhe concedeu, e que todos nós temos a missão de fazer
refletir essa felicidade sobre tudo que nos rodeia. Que venha pois, Cubissa
servir-nos-á de grande ajuda. Aprovará todas as alterações que fizemos para
melhorar a sorte dos nossos pobres negros: a escola que fundamos para eles, o
amor, mais do que o temor de Deus em que os criamos, em suma, a dignidade e a
doçura com que os tratamos, dignidade e doçura com que devem ser tratadas todas
as criaturas humanas. Ele mesmo procederá desta maneira no sitio de Jessuron. O
nosso exemplo há de ter imitadores; o bem tem o seu contágio, como o mal. O
progresso é lento por toda a parte, não ignoro, mas embora avance cauteloso e
prudente, não recua jamais. A Jamaica há de ver dias prósperos, os crimes hão
de diminuir com a ignorância e tempo virá em que esta bela terra tenha o
direito de retomar o seu antigo nome e de se chamar o “Vale Feliz”. Se alguma
coisa houvermos feito para a sua transformação, querida Catarina, teremos pago
a dívida da nossa felicidade. A consciência satisfeita proporcionar-nos-á uma
velhice tranqüila.
Catarina, comovida, redargüiu:
— Quão bem me guiou o coração, querido Herberto, quando da primeira vez que o vi
me levou a amá-lo! Como é doce ouvir belas e nobres palavras proferidas por uma
boca amada, ter orgulho daquele a quem escolhemos! Oh! não estar meu pai junto
de nós! Ele nascera justo e bom, meu amigo, como o prova o que ele foi para
mim e minha mãe. Vivendo no meio dos maus, num país onde imperavam idéias
falsas, soubera reagir no que nos dizia respeito. Esclarecido, vencido por
Herberto, acabaria por tornar-se bom e viria a ter orgulho daquele a quem
desconheceu!
— Respeitemos a sua memória, disse Herberto; as
instituições são muitas vezes mais culpadas que os homens das faltas que eles
cometem.
Notas
[1] Custos rotulorum: autoridade que corresponde ao nosso juiz de paz.
[2] Pen: propriedade agrícola das Antilhas (N. da R.).
[3] Cockney: palavra inglesa que designa uma pessoa natural de Londres, especialmente uma pessoa do povo.
[4] Esquire: palavra inglesa que significa um grão-senhor, proprietário de fartas terras, sem correspondente em português.
[5] Groom: palavra inglesa, o mesmo que criado.
[6] Harpia: da mitologia grega, monstro fabuloso com rosto de mulher e corpo de abutre.
[7] Santo Huberto: padroeiro dos caçadores, festejado a 3 de novembro. (N. do R.)
[8] Ab intestato: expressão latina que significa sem deixar testamento.
[9] Pepper-pot: prato apimentado da Jamaica.
[10] Caronte: na mitologia grega, um gênio velho do mundo infernal que transporta, num barco, a sombra dos mortos através do pantanoso rio Aqueronte.
Capítulo 1
O Almoço do Fazendeiro
Capítulo 2
Ama e Escrava
Capítulo 3
O Correio
Capítulo 4
Más Novas
Capítulo 5
O Navio Negreiro
Capítulo 6
Mercadoria Humana
Capítulo 7
O Mercador de Gente
Capítulo 8
Um Príncipe Negro
Capítulo 9
Um Bom Negócio em Perspectiva
Capítulo 10
O Judeu em Atividade
Capítulo 11
Projetos de Vingança
Capítulo 12
Os Dois Viajantes
Capítulo 13
Extraordinário Encontro
Capítulo 14
Os Planos de Vaughan
Capítulo 15
O Desembarque
Capítulo 16
A Chegada do Pobre
Capítulo 17
A Recepção do Rico
Capítulo 18
Tio e Sobrinho
Capítulo 19
A Entrevista
Capítulo 20
O Sítio do Judeu
Capítulo 21
Os Escravos
Capítulo 22
Uma Noite na Floresta
Capítulo 23
Um Encontro
Capítulo 24
Os Senhores do Bosque
Capítulo 25
A Luta
Capítulo 26
Os Cuctacus
Capítulo 27
Despedida
Capítulo 28
Através da Mata
Capítulo 29
O Julgamento
Capítulo 30
O Protetor Inesperado
Capítulo 31
Novidades
Capítulo 32
A Conspiração
Capítulo 33
Proezas de Smythje
Capítulo 34
Supremas Desventuras
Capítulo 35
Um Anjo Negro
Capítulo 36
Terrores de Quashie
Capítulo 37
O Regresso do Lorde
Capítulo 38
O Sarau
Capítulo 39
O Passado
Capítulo 40
O Myal-Man
Capítulo 41
Remorsos
Capítulo 42
O Que Havia na Solidão
Capítulo 43
O Feiticeiro Negro
Capítulo 44
O Pacto
Capítulo 45
O Novo Pacto de Obi
Capítulo 46
Os Feitiços
Capítulo 47
Os Rondadores Noturnos
Capítulo 48
Descoberta Inesperada
Capítulo 49
Caçada Noturna
Capítulo 50
A Conspiração
Capítulo 51
O Que Ouviu Cubissa
Capítulo 52
Os Planos do Judeu
Capítulo 53
Cubissa em Atividade
Capítulo 54
A Ausência Misteriosa
Capítulo 55
Medidas Preventivas
Capítulo 56
Receios e Remorsos
Capítulo 57
Preocupação de Vaughan
Capítulo 58
Repetem-se as Aparições
Capítulo 59
Maus Indícios
Capítulo 60
A Jornada
Capítulo 61
A Aparição
Capítulo 62
Os Assassinos
Capítulo 63
Plano de Ataque
Capítulo 64
Crime Horrível
Capítulo 65
A Surpresa
Capítulo 66
O Que Viram
Capítulo 67
Juízes e Réus
Capítulo 68
O Inesperado
Capítulo 69
Novos Encontros
Capítulo 70
Sucedem-se as Conspirações
Capítulo 71
Mais um Crime
Capítulo 72
A Vingança de Chakra
Capítulo 73
Plano de Ataque
Capítulo 74
O Assalto
Capítulo 75
O Rapto
Capítulo 76
Um Triste Regresso
Capítulo 77
O Incêndio
Capítulo 78
Novas Aventuras de Smythje
Capítulo 79
Em Busca de Chakra
Capítulo 80
O Aparecimento da Vítima
Capítulo 81
Envenenada?
Capítulo 82
Contra-Veneno
Capítulo 83
Os Bandidos
Capítulo 84
Uma Fortuna Inesperada
Capítulo 85
O Castigo
Capítulo 86
O Vale Feliz
Notas
Nota de Copyright
Autor muito popular entre os jovens até os anos 50 do século passado, Mayne Reid foi sendo pouco a pouco esquecido. Mesmo em inglês, no Amazon.com, poucos títulos, de sua vasta obra, estão disponíveis. No Brasil, a busca pelo nome do autor só resultou em um título disponível, “O Caçador de Tigres” (Itatiaia, 1964).
A presente edição de “Os Negreiros da Jamaica” é feita em fair use, para benefício das jovens gerações que não tiveram oportunidade de conhecer a boa literatura juvenil que se publicava em nosso país “antigamente”.
Caso esta publicação fira algum direito patrimonial, o que não acreditamos, visto o título não estar disponível há muito e a presente edição ser feita em fair use, sem nenhum objetivo comercial, o detentor de tal direito, ou quem conheça algum, poderá entrar em contato com livros@ebooksbrasil.com ou a supervirtual para que o título seja imediatamente retirado da apreciação pública e possamos indicar aos usuários onde poderão encontrá-lo.
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