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Homero
Tradução de
Manoel Odorico Mendes (1799-1864)
Prefácios de
Henrique Alves de Carvalho
(Editor e Revisor da 1ª Edição, de 1874)
João Francisco Lisboa
A. R. Saraiva
à edição de 1874
Pe. Augusto Magne
à edição de 1950
Fontes digitais
Digitalização do Vol. XXI dos Clássicos Jackson
1950
Edição de 1874
Typographia Guttemberg, Praça da Constituição n. 47
Exemplar da Harvard College Library digitalizado por Google
disponível no Google Books
Texto integral da Ilíada, na tradução de Odorico Mendes, revisado e digitalizado por Sálvio Nienkötter, e disponibilizado na web pelo grupo Quatro Contra Tróia
iliadadeodorico.wordpress.com
Versão para eBook
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© 2009 Homero
USO NÃO COMERCIAL * VEDADO USO COMERCIAL
ÍNDICE
eBooksBrasil:
Nota Editorial
Henrique Alves de Carvalho:
Ao Leitor
Assunto da Ilíada
Análise de Cada um dos Livros da Ilíada
João Francisco Lisboa:
Biografia do Autor
A. R. Saraiva:
Sobre a Morte de Odorico
Inocêncio Francisco da Silva:
Manoel Odorico Mendes — Verbete do Dicionário Bibliográfico Português
Pe. Augusto Magne:
Prefácio
Homero traduzido por Odorico Mendes:
ILÍADA
Livro I
Livro II
Livro III
Livro IV
Livro V
Livro VI
Livro VII
Livro VIII
Livro IX
Livro X
Livro XI
Livro XII
Livro XIII
Livro XIV
Livro XV
Livro XVI
Livro XVII
Livro XVIII
Livro XIX
Livro XX
Livro XXI
Livro XXII
Livro XXIII
Livro XXIV* * *
Nota Editorial
“Por mais que nos esforçássemos para escoimar a presente impressão de erros tipográficos não nos foi possível isto obter. O leitor inteligente, porém, facilmente os corrigirá.” — Estas palavras finais que Odorico Mendes (ou o Editor) fez colocar nas Observações com que termina a 1ª Edição, faço-as minhas sobre a presente edição digital.
Para esta edição, como se pode ver nos créditos, vali-me da digitalização da edição de 1950 dos Clássicos Jackson. Infelizmente, nela, foram omitidas as preciosas notas do Autor, aqui recuperadas graças à digitalização feita por Google de um exemplar da Harvard University, doado por Edwin Vernon Morgan (Class of 1890), embaixador americano no Brasil. Lamentavelmente, muitas partes estão ilegíveis. O que mais lamentei é que isso acontece em algumas notas. Nestas, interpolei o que me foi possível deduzir. As interpolações estão indicadas, como de costume, por [ ].
As menções a autores franceses que eram precedidas por Mr. foram corrigidas para M., v.g. M. Giguet (Pierre Giguet, 1794-1883). Nas notas ao Livro XXIV aparece grafado M. Giguet, apesar de, nas anteriores, insistir o tipógrafo em grafar Mr.
As notas da Biografia, desloquei-as para o fim e foram renumeradas. No resumo do Livro XIV, substitui “Aquiles promete a Aquiles” por “Aquiles promete a Príamo”.
A propósito dos resumos, note-se que na edição da Jackson — acredito que também em outras — foram incorporadas ao corpo do livro. Tripla injustiça: com o editor, Henrique Alves de Carvalho, deputado pelo Maranhão à Constituinte em 1891, que gastou bom tempo neles, para comodidade dos leitores; com o Autor da tradução, pois se lhe atribui o que seu não era e não é; e com o leitor que é induzido a erro, podendo até, eventualmente, por desavisado e/ou desinformado, chegar a acreditar que foram redigidos por Homero.
Nas notas, onde aparecem citações da tradução de Monti (Alfonsine Vincenzo Monti 1754–1828), foram confrontadas com a edição digital da LiberLiber (www.liberliber.it) e eventualmente retificadas. Não me foi possível fazer o mesmo com a tradução de Giguet a que não tive acesso. Para o eventual leitor estudioso, sei que está prometida em http://homere.iliadeodyssee.free.fr, endereço altamente recomendado por seu conteúdo. Recomendável também é uma visita ao Google Books, com direito a textos gregos e a uma preciosa edição bilingüe francês/grego, tradução do Príncipe Le Brun, edição de 1841.
Partindo de fontes diferentes, cumpria uniformizar a grafia dos heróis e deuses, para não criar confusão aos leitores, mormente aos estudantes.
Esta uniformização procurei fazê-la a partir da relação disponível na Wikipédia no verbete Ilíada e do texto completo “revisado e digitalizado por Sálvio Nienkötter, e disponibilizado na web pelo grupo quatro contra tróia”, que merece todas as loas pelo Projeto Homero nas Bibliotecas [http://iliadahomero.wordpress.com]. E também da magistral edição da Ilíada feita pela Ateliê/Unicamp, em cola e papel, que recomendo aos leitores.
Outras notas sobre esta edição: substitui « e » por “ e ”; substitui postoque por posto que; cavaleria, mantive, não substitui por cavalaria; proferiu, mantive, mas poderia ser um erro tipográfico: preferiu. Ájax ou Ajax (conservei Ájax no prefácio do Pe. Augusto Magne, como conservei Posídon, quando Odorico o substitui, como a outros deuses, pelos equivalentes latinos. No caso, Netuno.
Agamemnon, Agamêmnon, Agamémnon ou Agamenon? Em grego, Αγαμε´μνων, o que, transliterado, seria Agamémnon, como consta na edição da Jackson. Na primeira edição, aparece Agamemnon. Já no texto revisado e digitalizado por Sálvio Nienkötter, mencionado acima, grafa-se Agamêmnon. Aparece, em não poucos sites, como Agamenon. Irresoluto, fiquei com a primeira edição e com a relação dos personagens da Ilíada da Wikipedia: Agamemnon. Mas fica aqui a ressalva.
Egifero — no texto egífero; na nota, como Odorico menciona o latim, deveria grafar egifero, mas por facilidade de busca, grafo egífero. E arreiar, mantive-o, em vez de arrear, por relacionar-se a arreio, guarnecer de arreios. Não passaria pela mente de ninguém, espero, guarnecer de arreo. Essas reformas ortográficas!
Nas notas ao Livro XXII, egli che dianzi d’eletti cibi si nudrìa em lugar de egli che dianzi d’eletti cibi si medrìa; Palmeirim ou Palmerim, ambas as formas aparecem.
Falhas tipográficas evidentes detectadas foram corrigidas. Nas notas ao Livro XXII, por exemplo, aparece antigamante; um óbvio erro tipográfico. Mas, com certeza, haverá outros que me passaram desapercebidos, sem contar os que eu próprio possa ter cometido.
É isso. Boa leitura!
Teotonio Simões
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AO LEITOR
A presente obra, que hoje pela primeira vez aparece vertida para o português, é de um mérito tão reconhecido, que, apesar de ser só apreciada devidamente por aqueles que sabem o Grego, todos lhe rendem preito por sua alta nomeada. Muitas versões têm sido feitas para outras línguas e muitas só em francês, mas poucos se gloriam de haver interpretado o texto e nenhum já chegou a causar aquela admiração, que surpreende a todos, que lêem e entendem o original grego.
Ninguém desconhece a dificuldade da língua grega, e traduzir-se as obras de Homero, escritas em tão distante antiguidade sob a inspiração de outros costumes, de civilização mui diferente da de hoje, móveis que tanto falam à imaginação e a predispõe; parece um trabalho muito além do que podem fazer os nossos contemporâneos. As palavras, os sinais pelos quais se exprimia o pensamento nesses tempos encontram tradução na atualidade, em que tão rica cada vez se orna mais a linguagem falada, porém o pensamento que as determinava não pode hoje ser reproduzido fielmente.
Entretanto, tem sido a tradução de Homero o trabalho preferido por distintos literatos helenistas e até por quem, como o distintíssimo Monti nada entendia do Grego, cousa que já não é de admirar entre nós porque já o mesmo fez o ilustre Visconde de Castilho.
Monti, é fama, de entre os que traduzido têm a Ilíada, é um dos mais felizes, e a tradução francesa de Mme. Dacier passa como sendo de superior mérito.
A tradução, que ora se oferece neste livro à pública curiosidade, talvez que principie logo por ocupar o primeiro lugar entre os que melhor têm vertido a Ilíada. O nome de seu autor já tão festejado como o intérprete verdadeiro do grande épico latino, é o penhor mais sagrado para os bons créditos de uma tradução. Publicando o aeu Virgílio Brasileiro, os ousados criticos, que tentaram empanar-lhe o mérito, não serviram senão para dar-lhe maior realce; aturdidos e confusos perante a verdade nem mais têm bocejado.
Usa, em verdade, Odorico Mendes de uma frase muito apurada, as mais das vezes de palavras que já não correm na vulgaridade e que de muito bom português passaram para o esquecimento, dando lugar à francesia e a magros vocábulos preferidos pelos que pouco zelam da beleza da língua, e a isto é que chamam de defeito, o que quiçá quereriam todos que se lhes notasse, se os pudessem possuir.
E que assuntos traduziu Odorico para que se lhe dispensasse a escolha de termos?
A Ilíada, principalmente, que tem seus cheiros de divino no original grego, que sobreleva o homem às regiões do sublime; para o português só requeria que lhe traduzisse quem, como Odorico, já houvesse tão bem interpretado e tão sem par escrito em sua língua a Epopéia de Virgílio. A linguagem vulgar é imprópria para externar as concepções do gênio tais como as teve Homero.
Nesta tradução terão os censores um vasto campo para os seus manejos e os sábios sobeja oportunidade para admirarem não só quanto pode produzir o gênio, como quanto é bela a nossa língua sempre que, se afastando do lugar comum dos galicismos, deixa a impropriedade dos termos mais usuais e socorre-se do rico manancial, que nos oferece o latim, infelizmente tão esquecido e tão pouco cuidado por nossos literatos, que, parece, o vão desusando.
Odorico, só porque não escreveu para quem não sabe o bom português, tem tido poucos leitores no meio de milhões de povos que falam esta língua, mas, entre os que o sabem apreciar, o sábio poeta brasileiro é dignamente honrado. E quanto não lucraria a literatura portuguesa se o Virgílio Brasileiro chegasse a ser lido e estudado por todos? Clássico, como o que melhor assim é considerado, elegante e rico de termos novos para o uso comum, porém bom português traria esta classe de estudos conhecimento do gosto apurado, tão notável no poeta brasileiro, e da língua tão ignorada por muitos que a julgam saber.
E o que empreendemos, publicando a presente versão da Ilíada de Homero, é tornar fácil a posse de um tesouro a quem o queira possuir, deixando de imprimir o texto grego por causa da despesa que acresceria, ao mesmo tempo que prestamos um serviço à nossa pátria, e especialmente à nossa província o Maranhão, que se orgulha de ser o berço do Homero Brasileiro.
E para tornar mais fácil à inteligência o interesse da Epopéia Grega habilmente vertida por Odorico, julgamos oportuno oferecer ao leitor um resumo do objeto de cada um dos seus respectivos cantos:
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ASSUNTO DA ILÍADA
O rapto de Helena, mulher de Menelau, feito por Páris, um dos filhos de Príamo, rei de Tróia, fez com que os Gregos confederados declarassem guerra e sitiassem esta cidade, que foi por eles tomada e destruída depois de um cerco de dez anos (1720 A.C.)
O objeto da Ilíada é um episódio do nono ano deste cerco, quando Agamemnon, chefe do exército, ultrajou a Aquiles, o mais valente dos Gregos.
Irritado, o herói retirou-se à sua tenda sem pretender mais combater. Os Troianos, notando a sua ausência, tomaram coragem, atacaram o campo dos Gregos ficando os navios destes em risco de serem queimados. Aquiles, apesar da inação a que votou-se, consentiu que Pátroclo, seu amigo, se revestisse de suas armas e guiasse suas tropas contra os Troianos.
Pátroclo tendo sido morto por Heitor, o implacável filho de Peleu jurou vingar a morte de seu amigo, e combatendo de novo ornado de novas armas, que a pedido de sua mãe Vulcano havia preparado, investiu contra Heitor, e imolou-o, aos manes de Pátroclo. E depois de haver insultado os restos mortais de seu inimigo, entregou-os a Príamo, pai de Heitor que os pedira ao herói.
Análise de cada um dos livros da Ilíada
Exposição do assunto. — Crises, sacerdote de Apolo, vem ao campo dos Gregos para resgatar sua filha. — Repelido e ultrajado por Agamemnon, invoca a proteção de Apolo. — A peste, como um castigo divino, lavra pelo exército Grego e mata muitos de seus heróis. — Aquiles convoca a reunião dos chefes, promete sua proteção ao adivinho Calcas, e lhe pergunta a causa da cólera de Apolo. — O adivinho a revela e indica como único meio de afastar o flagelo a restituição de Criseida. — Cólera de Agamemnon contra Calcas: suas ameaças contra Aquiles. — Este lança mão da espada, Minerva lhe aconselha, e dócil à voz da deusa limita-se a responder apenas com insulto o recebido ultraje. — Agamemnon forçado a restituir Criseida a seu pai, toma de Aquiles a cativa Briseida. — Aquiles, indignado, não quer mais combater pelos Gregos; invoca sua mãe Tétis, que o consola e lhe promete vingança. — Volta de Criseida à sua pátria; sacrifício em honra de Apolo. — Entrevista de Tétis e de Júpiter consentindo em dar a vitória aos Troianos. — Queixas de Juno e ameaças de Júpiter em presença dos habitantes do Olimpo. — Graças à intervenção de Vulcano, restabelece-se a paz na assembléia dos imortais.
II
Júpiter envia um sonho a Agamemnon, mandando armar os Gregos, e prometendo-lhe a vitória antes do fim do dia. — Discurso de Agamemnon na reunião dos chefes. — Nestor toma a palavra e confirma o discurso de Agamemnon. — Os Gregos se reúnem. — Agamemnon lhes propõe voltar à pátria. — Os Gregos aceitam a proposta. — Intervenção de Juno. — Seu discurso a Minerva. — Discurso de Minerva a Ulisses. — Palavras de Ulisses aos diferentes guerreiros que encontra. — Tersites e sua intervenção contra os diferentes chefes do exército. — Resposta de Ulisses que castiga o insolente. — Aplauso dos Gregos. — Discurso de Ulisses a Agamemnon e aos Gregos. — Prodígio explicado por Calcas. — Exortação e conselhos de Nestor. — Elogio de Nestor por Agamemnon. — Agamemnon faz sacrifícios a Júpiter com os principais chefes. — Nestor dá o sinal e os chefes põem em ordem os seus guerreiros, a quem Minerva inspira o ardor dos combates. — Aspecto do exército. — Invocação às Musas. — Classificação dos navios.
III
Os dois exércitos avançam um contra o outro. — Páris à frente dos Troianos provoca os mais bravos dos Gregos ao combate. — Menelau vai ao seu encontro, mas Páris amedrontado busca refúgio entre os Troianos. — Exprobracões de Heitor. — Resposta de Páris; propõe sustentar um combate com Menelau do qual Helena será o prêmio. — Heitor, contente leva o desafio de seu irmão ao herói Grego. — Discurso de Menelau. — Preparam-se sacrifícios. — Entretanto Íris, tomando a forma de Laodice, vai ter com Helena, e lhe anuncia as disposições dos dois exércitos — Helena vai às portas Ceias, onde ela acha a assembléia dos velhos Troianos, que fazem o elogio de sua beleza. — Ela designa a Príamo os principais chefes Gregos. — Retrato de Agamemnon, de Ulisses, de Menelau e de Ajax, entre os quais Helena sente não ver Castor e Pólux, seus irmãos. — Por conselho de Ideu, Príamo vai com Antenor ao meio dos dois exércitos. — Agamemnon levanta-se, chama a cólera dos deuses sobre os perjuros e sacrifica. — Discurso de Príamo, que volta a Ílio para não testemunhar uma luta em que um de seus filhos pode ser vítima. — Aprestos e fases diversas do combate. — Páris vai sucumbir quando Vênus o livra dos golpes de Menelau, o transporta ao leito nupcial, e lhe faz esquecer a derrota nos braços de Helena, que resiste a princípio e cede enfim. — Menelau procura em vão seu rival; e Agamemnon reclama para seu irmão o prêmio da vitória.
IV
Os deuses reúnem-se no Olimpo. — Júpiter propõe restabelecer-se a paz entre os dois povos. — Indignação de Juno. — Resposta de Júpiter que entrega Tróia à sua cólera com a condição dele poder destruir a capricho qualquer cidade fosse ou não estimada por Juno. — A deusa combina, e, a seu pedido, Júpiter envia Minerva às fileiras troianas para o fim de os fazer violar os tratados. — Chega-se ao Troianno Pândaro, em figura de Laodoco, filho de Antenor, e lhe persuade de atirar uma flecha contra Menelau. — O filho de Atreo protegido por Minerva apenas foi ligeiramente ferido. — Dor e discursos de Agamemnon à vista do sangue de seu irmão. — Menelau o tranqüiliza e entrega-se aos cuidados do sábio Macaon. — Entretanto o exército dos Troianos move-se, e não respira senão guerra. — Agamemnon longe de perturbar-se, prepara-se para o combate; percorre as fileiras dos Gregos, felicitando os bravos, e exprobrando os cobardes. — Aspecto doa dois exércitos. — Descrição da peleja. — Gritos triufantes dos Gregos. — Apolo reanima os Troianos, lembrando-lhes o repouso de Aquiles. — Os mortos espalhados no campo atestam a coragem dos combatentes.
V
Minerva precipita Diomedes ao combate. — Descrição deste herói.— Sua vitória sobre os dois filhos do velho Dares. — Vulcano salva a Ideu dos golpes de Diomedes. — Minerva induz Marte a deixar o campo da batalha, e o conduz às margens do Escamandro. — Descrição da peleja. — Diomedes ferido por Pândaro, pede a Estênelo para tirar o ferro da ferida e implora o auxílio de Minerva. — A deusa acede. — Eneias influi a Pândaro contra Diomedes. — Pândaro sente a ausência de seus corcéis e maldiz de seu arco inútil. — Sobe ao carro de Eneias para dar combate a Diomedes. — Estênelo, apercebendo-o de longe, aconselha ao filho de Tideu que fuja, mas este espera o inimigo de pé firme, mata Pândaro, e fere Eneias, que escapou à morte por causa do socorro de Vênus. — Entretanto Estênelo se apodera dos corcéis de Eneias e os confia a Deipilo. — Diomedes vai em perseguição de Vênus, fere-a na mão, e Apolo se encarrega de salvar a Eneias. — Vênus, fora dos perigos do combate, pede a Marte seus rápidos corcéis e foge para o Olimpo. — Palas e Juno procuram prevenir Júpiter contra Vênus. — Diomedes ousa atacar a Apolo, que o põe em retirada e convida Marte para socorrer os Troianos. — O deus da guerra, sob os golpes de Acamas, chama os filhos de Príamo em defesa do povo Troiano. — Discurso de Sarpédon a Heitor. — Este responde pronto para o combate. — Reaparece Eneias. — Atitude dos Gregos. — Discurso de Agamemnon, que é o primeiro a atacar. — Descrição do combate. — Façanhas de Ulisses. — Heitor, indo salvar a Sarpédon, leva a mortandade às fileiras dos Gregos. — Aparato de Juno e Minerva e sua partida do Olimpo. — Fala de Juno a Júpiter. — Exortação que ela dirige aos Gregos sob a forma de Estentor. — Minerva anima a Diomedes contra Marte. — Marte ferido por Diomedes vai queixar-se a Júpiter, que depois de lhe haver exprobrado a inconstância e seus furores, o faz curar por Péon. — Volta de Juno e de Minerva ao palácio de Júpiter.
VI
Retiram-se os deuses do campo da batalha, e os Gregos se avantajam. — Suas proezas. — Heitor e Eneias detêm a fuga dos Troianos. — Helena aconselha a Heitor para ir a Tróia pedir a Hécuba para oferecer um sacrifício a Minerva. — Encontro do filho de Tideu com Glauco. — Heitor põe em prática o conselho de Heleno; depois vai ter com Páris e o encontra junto a Helena. — Admoestações que ele lhe dirige. — Entrevista de Heitor e de Andrômaca. — Páris, tomando suas armas, junta-se a Heitor, e todos dois correm para o combate.
VII
Heitor e Páris saem da cidade. — São vencedores: Páris, Heitor e Glauco. — Intervenção de Apolo e de Minerva. — Apolo propõe suspender o combate. — Minerva consente. — Por instigação de Heleno, inspirado por estas duas divindades, Heitor chama o mais bravo dos Gregos a combate. — Silêncio entre os Gregos. — Menelau estranha o receio e responde ao desafio de Heitor e Agamemnon o detém. — Nestor lamenta a sua velhice. — Nove guerreiros se apresentam e todos almejam combater com Heitor. — Ajax, filho de Telamon, é designado pela sorte. — Pedem os Gregos a Júpiter lhes conceda a vitória ou a deixe indecisa. — Ajax toma suas armas. — Heitor e Ajax se desafiam. — Combate. — Os dois Arautos Ideu e Taltíbio intervêm. — Ideu, ao aproximar-se a noite, induz os dois guerreiros a se retirarem. — Heitor consente. — Festa no campo dos Gregos. — Nestor propõe suspender a guerra para enterrar os mortos. — Pretende Antenor pôr fim à guerra e propõe a entrega de Helena e de suas riquezas. — Páris repele a proposta. — Príamo manda ao acampamento Grego arautos comunicar as concessões de Páris, e pedir uma suspensão de armas para as honras fúnebres. — Ideu junto a Agamemnon expõe o objeto de sua mensagem. — O filho de Tideu quer que se rejeite as proposições de Páris. — Agamemnon julga conceder tréguas. — Ideu volta aos Troianos. — Funerais. — Os Gregos constroem trincheiras para protegê-los e aos seus navios. — Netuno na Assembléia dos deuses. — Após a ceia, os Gregos e os Troianos se entregam ao sono.
VIII
Júpiter reúne os deuses. — Proibe-lhes auxiliarem aos Gregos e aos Troianos. — Minerva implora a permissão de aconselhar aos Gregos. — Júpiter vai ao monte Ida. — Encontro dos dois exércitos: combate. — Júpiter pesa os destinos dos dois povos em suas balanças de ouro. — Atemoriza os Gregos. — Nestor perseguido por Heitor e salvo por Diomedes. — Júpiter auxilia os Troianos e lança um raio que cai junto aos cavalos de Diomedes. — Diomedes a princípio hesita fugir. — Heitor anima os Troianos. — Juno induz Netuno a intervir em favor dos Gregos. — Netuno recusa. — Discurso de Agamemnon aos Gregos repelidos além do seu entrincheiramento. — Sua súplica a Júpiter. — Prodígio. — Façanhas de Diomedes e de Teucro. — Teucro ferido por Heitor. — Queixas de Minerva e de Juno. — As duas deusas vão em socorro dos Gregos. — Júpiter manda Íris as deter. — Íris lhes refere as ameaças de Júpiter. — Volta de Minerva e de Juno. — Júpiter deixa o Ida e volta ao Olimpo. — Prediz a glória de Heitor até que Aquiles volte ao combate. — Heitor fala aos Troianos e lhes dá suas instruções para a noite. — Sacrifícios aos deuses, que não os recebem. — Aspecto do campo dos Troianos.
IX
Desânimo dos Gregos. — Discurso de Diomedes. — Conselhos de Nestor. — Setecentos guerreiros vão postar-se entre a muralha e o fosso para velar na salvação do exército. — Agamemnon oferece uma refeição aos principais chefes. — Nestor toma a palavra e propõe abrandar a ira de Aquiles por meio de dádivas. — Agamemnon fica de acordo. — Enumeração das riquezas que lhe são oferecidas. — Nestor aprova esta deliberação e designa os chefes que devem ir à tenda de Aquiles. — Partida dos emissários. — Aquiles, vendo-os, recebe-os com agrado. — Discurso de Ulisses, em que expõe o objeto de sua missão e convida a Aquiles para ir em socorro dos Gregos. — Recriminação de Aquiles. — Discurso de Ajax, filho de Telamon. — Afinal Aquiles declara que não combaterá contra Heitor e despede os enviados. — Volta dos emissários à tenda de Agamemnon. — O filho de Atreu interroga a Ulisses. — Ulisses refere a resposta de Aquiles. — Fala de Diomedes. — Os guerreiros fazem libações aos deuses.
X
Agamemnon vela enquanto os Gregos dormem — Menelau vem ter com ele e oferece seus serviços. — Agamemnon dá suas instruções a seu irmão, e os dois Atridas vão acordar os principais chefes. — Conversação entre Nestor e Agamemnon. — Despertados os chefes, reúnem-se em conselho. — Nestor propõe mandar um espião ao campo inimigo. — Vão Diomedes e Ulisses. — De sua parte Heitor reúne os chefes Troianos e promete um esplêndido prêmio a quem vá espiar o campo dos Gregos. — Vai Dólon. — Ulisses e Diomedes, vendo-o, o prendem. — Dólon explica a situação respectiva dos diferentes povos do exército Troiano, e é morto por Diomedes. — Chegados às tendas dos Traças, Diomedes mata doze guerreiros e seu rei Reso, que dormiam, enquanto que Ulisses apodera-se dos cavalos. — A conselho de Minerva, Diomedes e Ulisses se retiram. — Despertados por Apolo, os Troianos correm ao lugar da mortandade. — Chegam Diomedes e Ulisses ao campo dos Gregos. — Nestor é o primeiro que os apercebe. — Os Gregos os acolhem com alegria. — Fala de Nestor. — Resposta de Ulisses. — Depois de haverem descansado, Ulisses e Diomedes fazem libações a Minerva.
XI
Júpiter manda a Discórdia à frota dos Gregos para os excitar ao combate. — Agamemnon orna-se de suas armas. — Conduz suas tropas ao campo da batalha. — Júpiter interessa-se pelos Troianos. — Heitor prepara-se para não recuar ante os Gregos. — Temível combate entre os Gregos e Troianos. — Agamemnon admira o valor dos Troianos. — Derrota dos Troianos. — Júpiter salva a Heitor, quando os Troianos em fuga. — Manda Júpiter que Íris leve uma mensagem a Heitor. — Heitor percorre as fileiras e inspira seus soldados com um novo ardor. — Recomeça o combate. — Novos feitos de Agamemnon, que se retira do combate ferido. — Esta circunstância reanima o exército Troiano. — Feitos de Heitor. — Vantagem dos Troianos. — Ulisses e Diomedes restabelecem por sua coragem a dúvida sobre o êxito do combate. — Júpiter deixa a vitória indecisa. — Os Troianos e os Gregos se degolam sem embaraço. — Diomedes repele a Heitor, que vai misturar-se com a multidão dos guerreiros e é ferido por Páris. — Ulisses vai em socorro de Diomedes, que é conduzido para junto dos navios. — Ulisses fica só no meio dos Troianos, põe por terra muitos combatentes, e é ferido por Soco. — Soco ia fugir quando Ulisses o traspassa com a lança. — Quase morto no meio dos inimigos, Ajax e Menelau correm e o tiram do combate. — Páris fere a Macaon. — Consternação dos Gregos. — Ajax põe o exército Troiano em fuga. — Heitor, que estava em outro lado, vem e fere a Ajax. — Aquiles chama seu amigo Pátroclo, e o manda saber de Nestor novas do combate. — Nestor lhe pinta a triste imagem das desgraças dos Gregos. — Pátroclo volta a Aquiles para pedir-lhe que socorra aos Gregos, ou que lhe empreste suas vestimentas e armas a fim de que os inimigos se iludam e tenham medo. — No caminho encontra Eurípilo ferido; o conduz à sua tenda, onde tem com ele todos os cuidados.
XII
Combate geral. — Os Gregos, repelidos aos seus entrincheiramentos temem a presença de Heitor. — Heitor, à frente de suas tropas, quer passar à muralha dos Gregos. — Polidamas lhes aconselha descerem dos carros e darem o combate a pé. — Os Troianos aceitam o conselho e marcham ao assalto, divididos em cinco falanges, sob as ordens de seus chefes. — Asio, que não obedece o conselho, foi morto por Idomeneu. — Defesa das portas. — Heitor teima destruir os obstáculos. — A aparição de uma águia. — Polidamas atemorizado quer fazer cessar o combate. — Heitor repele os temores. — Os Gregos, firmes em seus postos, fazem grande mortandade entre os Troianos. — A coragem dos dois Ajax. — Valor de Sarpédon e de Glauco. — Este ferido foge. — Os Lícios, comandados por Sarpédon são repelidos pelos Gregos, quando próximos a escalarem a muralha. — Júpiter interessa-se pelos Troianos. — Heitor lança uma enorme pedra contra uma das portas, quebra-a, entra no campo dos Gregos com todo o seu exército, e os obriga a fugir para os seus navios.
XIII
Grande mortandade feita pelos Troianos entre os Gregos. — Netuno comovido por este triste espetáculo vem em socorro dos navios Gregos. — O deus do mar desperta a coragem dos dois Ajax e dos outros combatentes. — Heitor por sua vez encoraja as suas falanges. — Teucro imola o Troiano Ímbrio — Feitos dos dois Ajax, que ferem a Heitor e o repelem para longe. — Netuno irritado pela morte de Anfimaco prepara aos Troianos novas calamidades. — O deus excita Idomeneu ao combate. — Idomeneu vai buscar em sua tenda Merion, seu fiel escudeiro, e com ele se dirige para a esquerda do exército. — Terrível peleja entre os Gregos e os Troianos. — Júpiter favorece aos Troianos, e Netuno protege os Gregos. — Idomeneu faz prodígios de valor. — Pende a vitória para o lado dos Gregos. — Heitor fica em seu posto inabalável. — Os dois Ajax avançam com seu exército ao encontro do herói Troiano. — A conselho de Polidamas, Heitor reúne todos os guerreiros, e dirige a Páris amargas censuras. — Páris defende-se das acusaçôes. — Os dois irmãos lançam-se à peleja e pretendem levar a perturbação ao centro dos Gregos. — Ajax, certo por um feliz presságio, recomeça o combate. — Horríveis clamores que se elevam de todas as partes.
XIV
Nestor, espantado pelos clamores dos combatentes, sai de sua tenda. — Observa um horrível espetáculo. — Diomedes, Ulisses, Agamemnon, posto que feridos, vão ao encontro de Nestor para salvar o exército. — Agamemnon vendo a ira de Júpiter e inquieto sobre a sorte do combate propõe a fuga. — Ulisses rejeita a proposta. — Diomedes lhe persuade para voltar ao campo de batalha e com sua presença reanimar os guerreiros. — Nestor, disfarçado em um velho guerreiro, anima a Agamemnon e o exército dos Gregos. — Juno quer prestar o seu apoio aos Gregos e prepara-se para seduzir o pai dos deuses no monte Ida. — Vai a Lemnos e pede ao Sono, irmão da morte, para adormecer Júpiter. — O Sono atende os votos da deusa. — Netuno aproveita-se do repouso de Júpiter, anima os Gregos e segue à sua frente. — Combate. — Heitor é ferido por Ajax. — Os Gregos têm a vitória.
XV
Júpiter, ao acordar, vê os Gregos vencedores e os Troianos dispersos. — Reconhece ser obra de Juno e dirige-lhe exprobações. — Juno diz que Netuno é o único culpado. — Juno, por ordem de Júpiter, vai ter com Íris e Apolo para que reanimem os Troianos. — Juno anuncia aos imortais a morte de Ascálafo, filho de Marte. — Quer este deus vingar a morte de seu filho. — Minerva o retém. — Íris força Netuno a deixar o combate. — Apolo anima a Heitor. — Feitos de Heitor. — À vista deste herói, Pátroclo aconselha Aquiles para ir ao combate. — Os Gregos lutam com valor. — Os Troianos se precipitam sobre os navios. — Os Gregos resistem, e depois fogem. — Ajax volta ao combate e a luta recomeça. — Horrível mortandade. — Ajax armado de uma lança repele os Troianos de junto dos navios.
XVI
Pátroclo vai ter com Aquiles, e depois de lhe haver pintado as desgraças dos Gregos, pede-lhe suas armas para combater com os Troianos. — Aquiles concede-lhas. — Ajax enfraquece. — Aquiles apressa o seu companheiro a partir, ordena os Tessálios e faz libações a Júpiter. — Atemorizam-se os Troianos à vista de Pátroclo. — Dá-se um combate junto aos navios, fogem os Troianos e são perseguidos. — Só Sarpédon resiste. — A Glauco é reservado o cuidado de vingar a morte de Sarpédon. — Os Troianos dão ataque. — Feitos de Pátroclo. — Valor de Glauco. — Os Gregos não se deixam abater; despojam o corpo de Sarpédon. — Pátroclo esquece as recomendações de Aquiles e avança aos muros de Tróia. — Luta de Pátroclo com Heitor. — É aquele morto por Euforbo e Heitor. Heitor persegue a Automedon.
XVII
Sentimento de Menelau quando soube da morte de Pátroclo. Avança para proteger os restos inanimados do seu amigo. — Mata a Euforbo mas é repelido por Heitor. — Menelau e Ajax vão em defesa dos restos de Pátroclo. — Recua Heitor ante Ajax. — Exprobrações de Glauco. — Heitor toma as armas de Aquiles e anima seus companheiros a combate. — Combate e mortandade de parte a parte. — Os corcéis de Aquiles são levados a combate por Automedon. — É o carro atacado por Heitor, Eneias, e por outros guerreiros. — Os cavalos, graças à sua velocidade, escapam à perseguição dos Troianos. — Minerva inspira a Menelau um generoso ardor. — Apolo reanima a Heitor. — Temor de Ajax. — Por ordem deste herói, Menelau manda anunciar a Aquiles a morte de Pátroclo e a derrota dos Gregos.
XVIII
Antíloco dá a Aquiles a notícia da morte de Pátroclo. — Dor profunda de Aquiles. — Tétis com as Nereidas vem consolar seu filho. — Vendo-o animado do desejo de vingança, ela promete-lhe para o dia seguinte uma nova armadura fabricada por Vulcano. — Despede as Nereidas e dirige-se para o Olimpo. — Durante este tempo o combate se reanima em redor dos restos de Pátroclo. — Heitor se apoderaria do cadáver, se, impelido por Juno, Aquiles não houvesse lançado o terror entre os Troianos. — Ao anoitecer os Gregos tomam o cadáver e o levam para a tenda de Aquiles. — Os Troianos reúnem-se para deliberar. — Heitor repele os prudentes conselhos de Polidamas. — Os Gregos lamentam a morte de Pátroclo e lhe fazem as honras fúnebres. — Tétis vai ter com Vulcano. — Benévolo acolhimento que teve a deusa. — Vulcano fabrica para Aquiles as melhores armas, cuja descrição vai no fim deste canto.
XIX
Ao amanhecer Tétis traz a seu filho Aquiles as armas fabricadas por Vulcano e o induz a reconciliar-se com Agamemnon. — Aquiles reúne os Gregos o vai ao campo de batalha. — Agamemnon reconhece os seus direitos. — Impetuoso a princípio, cede afinal aos conselhos de Ulisses. — Briseida é restituída a Aquiles. — Agamemnon jura que jamais tocara na cativa. — Lamentaçoes pela morte de Pátroclo. — Aquiles mesmo entrega-se à dor e anseia pela hora do combate. — Os Tessálios se formam em falanges. — Aquiles sobe a seu carro e surdo a uma voz que pressagia-lhe morto próximo, lança-se furioso no meio dos inimigos.
XX
Júpiter convoca os deuses. — Segundo as ordens de Júpiter, Juno, Mercúrio, Netuno, Minerva, e Vulcano colocam-se ao lado dos Gregos; Marte, Apolo, Diana, Latona, o Xanto, Vênus, do lado dos Troianos. — Apolo excita Eneias contra Aquiles. — Resposta de Eneias. — Eneias e Aquiles provocam-se e avançam um sobre o outro. — Eneias quase a morrer é salvo por Netuno. — Novo ardor de Aquiles. — Heitor anima os Troianos. — No momento em que ele vai atacar a Aquiles, é chamado por Apolo. — Heitor vai misturar-se com a multidão. — Aquiles mata Polidoro, filho de Príamo. — Heitor quer vingar a morte de seu irmão. — Apolo oculta o herói Troiano. — Aquiles, irritado por não poder encontrar o seu inimigo, ataca o grosso dos Troianos e faz grande mortandade.
XXI
Derrota dos Troianos à margem do Xanto. — Aquiles, já aborrecido de tantas mortes prende doze guerreiros Troianos, que devem morrer em memória da morte de Pátroclo. — Súplica de Licaon. — Morte de Licaon. — Luta de Aquiles e de Asteropeu. — Aquiles triunfa. — Indignação de Xanto. — Combate de Aquiles e do Rio. — Diversos episódios produzidos por esta luta. — Combate dos deuses. — Furor de Aquiles, depois da intervenção de Apolo em favor de Ílio, e da volta dos deuses para o Olimpo. — Apolo inspira ao divino Agenor a resolução de esperar Aquiles a pé firme. — Aquiles é ameaçado por Agenor, mas Apolo intervindo salvou-o dos golpes de Aquiles. — Por um disfarce de Apolo Aquiles afasta-se dos muros de Tróia.
XXII
Aquiles reconhece seu erro. — Volta aos muros onde Heitor ousa esperá-lo. — Súplica de Príamo a seu filho. — Hécuba exorta-o a ter prudência e lhe previne a sorte que o espera. — Resolução de Heitor. — Aparece Aquiles. — Heitor atemoriza-se. — Júpiter consulta aos deuses e lhes propõe o salvar a Heitor. — Minerva opõe-se. — Febo abandona. — Minerva encoraja a Aquiles. — A deusa disfarçada em Deifobo, induz Heitor a esperar o seu inimigo. — Heitor agradece a seu irmão ter vindo em seu socorro. — Resposta de Minerva. — Heitor promete, no caso de vencer, não profanar o corpo de Aquiles. — Este recusa fazer tratados e desafia. — Heitor evita a azagaia de seu inimigo e lança a sua que inutilizou-se contra o escudo de Aquiles. — Continuação do combate. — Aquiles triunfa. — Súplica de Heitor. — Aquiles é inflexível. — Fala dos Gregos, que vêm contemplar o cadáver de Heitor. — Insulto ao cadáver. — Dor dos Troianos. — Desespero de Príamo. — Lamentações de Hécuba. — Andrômaca ao saber da morte de seu marido.
XXIII
Aquiles faz os funerais de Pátroclo. — Seu juramento. — Seu sono. — A visão de Pátroclo. — Vênus e Apolo protegem os restos de Heitor. — Aquiles prepara jogos fúnebres e deposita na arena os prêmios aos vencedores. — Jogos.
XXIV
Aquiles transido de mágoa faz passar o cadáver de Heitor três vezes em redor do túmulo de Pátroclo. — Os deuses propõem a Mercúrio arrebatar o cadáver de Heitor. — Juno e Netuno se opõem. — Apolo censura a crueldade de Aquiles. — Resposta de Juno, que lembra a origem divina de Aquiles. — Juno é convidada a ir ao Olimpo, onde Júpiter a consola por haver resolvido que o cadáver fosse entregue a Príamo. — Tétis vai ter com Aquiles e lhe comunica a vontade de Júpiter. — Preparativos feitos por Príamo para ir pedir o cadáver de seu filho. — Príamo chega ao acampamento dos Gregos. — Descrição da tenda de Aquiles. — Príamo lança-se aos pés de Aquiles, e lhe implora em nome de seu pai. — Ao lembrar-se de seu pai chora o Pelides. — Episódios de tão triste encontro de Príamo e de Aquiles. — Aquiles promete a Príamo entregar-lhe o cadáver de Heitor e concede-lhe doze dias de tréguas para as honras fúnebres. — Saída de Príamo d’entre o exército Grego. — Cassandra apercebeu de longe o velho Príamo. — O povo vai às portas da cidade. — Funerais de Heitor.
O EDITOR
* * *
Biografia do Autor
escrita e publicada em 1862 por João Francisco Lisboa
A literatura brasileira contemporânea é quase geralmente desconhecida em Portugal. Ou seja desdém proveniente de uma superioridade incontestável neste ramo dos conhecimentos humanos; ou a língua portuguesa, transformando-se no Brasil, e afetando novos meneios, em que o desalinho, as incorreções, e os modernos galicismos se aliam sem graça e com um gosto impuro, ao falar obsoleto do século de quinhentos, se afigure por isso estranha e degenerada aos descendentes diretos de Camões e de Vieira, o fato que assinalamos não é nem menos para sentir-se, posto que por outro lado não deva causar surpresa em uma época em que aqui as formas mais que as idéias atraem a atenção, e o culto da frase e do estilo se converte não raro em cega e viciosa idolatria.
Contra a exatidão deste reparo não concluem de modo algum certas eloqüentes exceções, Alexandre Herculano e Castilho, por exemplo, revelando aos seus compatriotas surpreendidos da novidade a existência de poetas e oradores brasileiros de tal preço como Montalverne e Gonçalves Dias; nem, por excesso contrário, uma ou outra recomendação e elogio, arrancado à condescendência, e malbaratado de ordinário a produções indignas da pública atenção, e que se chegam a alcançá-la, conceituadas como merecem, só servem a generalizar e a perpetuar um descrédito pouco merecido.
O mais é que o que acabamos de observar acerca desta ignorância da literatura brasileira, ou desta indiferença para com ela, nota-se igualmente em quase tudo o mais que se diz respeito ao império americano. Quem sabe ou quem lhe importa nas regiões políticas de Lisboa do que se passa no Brasil? Excetuai umas tantas notícias sobre câmbios, preço das mercadorias, e movimento marítimo, copiadas verbum ad verbum, e algarismo por algarismo, dos jornais dos grandes empórios comerciais, e uma ou outra magra correspondência, serzida de retalhos das folhas publicadas durante a quinzena, nas horas vagas de algum curioso, e suceder-se-ão os paquetes sem que os jornalistas de Lisboa nos comuniquem o que vai por aquelas plagas ignotas quase fabulosas que é fama os seus antepassados outrora descobriram, e a que houveram por bem pôr o nome de Terra de Santa Cruz. Mudem-se ali muito embora os ministérios, dissolvam-se as câmaras, operem-se profundas modificações no sistema político e econômico do império; se o oficioso correspondente do Jornal do Commercio (única folha de Lisboa que a espaços, e por intermitências nos dá destas notícias) se esquece ou se enfada da voluntária tarefa, os Brasileiros que aqui habitamos, somos irremessivelmente condenados ao pão quotidiano das expedições do México e Cochinchina, e das interessantes e intermináveis questões do Holstein e do Montenegro.
Verdade é que outra cousa se observa no jornalismo do Porto, que neste particular, como em diversos outros, já leva conhecida vantagem ao de Lisboa; mas o Porto não é quem dá o tom ao reino todo: e o fato de resto explica-se pela circunstância de que aquela capital do norte, invertidos os antigos papéis, é hoje em dia uma espécie de colônia do Brasil, a quem apenas fornece os braços que lhe sobejam, e o seu solo mal pode sustentar, em troco dos capitais que dali recebe em grande parte, e que o fecundam, enriquecem, e aformoseiam com um incremento tão rápido como maravilhoso.
As causas da anomalia observada em Lisboa são simples e manifestas, nem seria difícil consigná-las aqui; mas adiado esse exame mal cabido neste lugar, basta dizer-se que o Brasil valia bem a pena de ser mais bem conhecido, e neste país muito mais do que em qualquer outro. A maior de todas as grandes obras que prefez Portugal nos dias da sua glória e poderio, é também a única de todas elas que sobrevive à geral ruína e decadência. Sob a proteção das suas leis, e no seio da sua benéfica e fecunda hospitalidade, abrigam-se milhares de portugueses, cujo número avulta de ano para ano em progressão sempre ascendente, sem embargo de estudadas declamações contra a insalubridade do clima, e os pretendidos horrores da denominada escravatura branca.
A constituição política do império, coeva da independência, perdura há quase quarenta anos; e arreigada nos costumes e no amor dos povos, já não está a mercê dos partidos impacientes, nem de alguns batalhões insubordinados. que à voz do primeiro general ambicioso e descontente, se encarreguem de reformar as instituições. As guerras civis que por vezes nos afligiram, ora extintas de si mesmas, ora reprimidas com vigor, e sempre localizadas, nunca ameaçaram envolver no seu incêndio o país inteiro, de uma a outra extremidade; e de há tantos anos que as não conhecemos, pode-se dizer que apenas constituem hoje um simples elemento histórico.
À sombra da diuturna paz, aperfeiçoa-se a polícia civil e social, prospera o comércio, toma rápido incremento a pública riqueza, e apesar dos incômodos e dificuldades das longas viagens, o trato e corrente da comunicação com os grandes centros de civilização é no Brasil muito mais freqüente, numeroso, e importante que em Portugal. E fenômeno sobretudo digno de atenção, o quase recente Rio de Janeiro, pelo movimento do seu magnífico porto, atividade de sua vida interna, riqueza e graça das suas lojas, armazéns, e casas de campo; afluência e variedade de população estrangeira, gozos e confortos que proporciona, oferece à atenção do viajante uma fisionomia muito mais pronunciada de cidade européia que a própria vetusta Lisboa, sua antiga metrópole.
A vastidão dos espaços e distâncias, a correspondente escassez de braços, certas dificuldades econômicas e financeiras, aliás hoje comuns a todas as nações grandes e pequenas, e sobretudo o formidável problema da escravidão, vício que nos inoculou e legou o sistema colonial são-nos ocasião de graves embaraços; mas sem embargo deles ninguém no Brasil se assusta do presente, ou desespera do futuro. Falta-nos, é certo, o passado que só a sucessão dos tempos nos poderá dar; mas se com ele nos faltam o assento e solidez das velhas nações, não sofremos como algumas delas, os pesares de uma grandeza desvanecida, nem buscamos disfarçá-los com os artifícios e prestígios de uma literatura exuberante.
Mas um povo recente, que mesmo no domínio especial das letras, e das ciências que com ela tem mais íntima conexão, conta já tão crescido número de poetas, oradores, jurisconsultos, estadistas, e economistas; enquanto ensaia os tenros passos mal seguros até que atinja à perfeita madurez e virilidade, pode ir suportando sem amofinar-se essa indiferença afetada ou sincera; que temos fé não retardará um só dia a marcha progressiva com que caminha aos seus altos destinos.
Entre todos esses homens eminentes que deste lado do Atlântico apenas mal se conhecem pelos nomes, Odorico Mendes ocupa um dos lugares mais distintos. Cultor apurado e assíduo da língua que falamos os dous povos irmãos, e um dos primeiros entre os mais abalizados dos seus mestres; defensor entusiasta da antiga glória lusitana: e admirador ardente e apaixonado de Camões, Ferreira, Moraes, e Nascimento, quem mais que ele merecia lembrado e preconizado? O seguinte fato, entretanto, mostrará a consideração que, com todos esses títulos, ele mereceu neste país à literatura militante.
Contestava-se a Portugal a glória do haver sido a pátria do autor do Palmerim de Inglaterra. Francisco de Moraes, dizia-se, não fizera mais do que traduzir ou imitar o romance originalmente escrito em espanhol. A princípio ainda se fazia tal qual resistência à estranha e injusta pretenção, mas a final cedia-se já, e por tal modo, aos especiosos argumentos de Salvá e outros, que um escritor de tanta consciência, gravidade, e erudição, como o autor do novíssimo Dicionário Bibliográfico, chegou a sancionar com a autoridade do seu voto a usurpação espanhola. Assim, o afamado Palmeirim de Inglaterra estava já definitivamente desnaturalizado de português, e Luiz Hurtado, e não Francisco de Moraes, era o seu legítimo e verdadeiro autor.
Indignado contra esta espoliação, Odorico Mendes escreveu um opúsculo, simples, conciso, substancial, e com argumentos irrefragáveis e concludentíssimos, não só reivindicou para a literatura portuguesa este malbaratado fruto do engenho de Francisco de Moraes, mas suscitou à memória obliterada dos contemporâneos a fábula do poema, os seus mais imaginosos episódios, e as graças do estilo e locução que tanto o recomendaram sempre à admiração dos homens de gosto apurado, desde Cervantes até Walter Scott e Southey. Esse opúsculo, fê-lo imprimir aqui, vai em dous anos, sem outro estímulo e interesse mais que o de servir à glória da língua em que fala e escreve.
Acreditá-lo-eis? Nem um só jornal, político ou literário, fez a mais simples menção deste acuradíssimo trabalho, ou anunciou sequer a sua publicação! E ainda não há muitos meses, discutindo incidentemente o assunto, afiançavam algumas folhas diárias de Lisboa que a origem portuguesa do célebre romance de cavaleria nunca fora objeto de dúvida! Deus sabe entretanto se os poucos argumentos e datas que invocaram concluíam a favor de Portugal ou da Espanha. Mas o que ainda desta feita certamente não fariam, era citar o nome e a obrinha de Odorico Mendes, se já depois de encerrado o curto debate, em que chistosa e reciprocamente se motejaram, alguma alma perdida não fizesse a um deles a revelação daquele profundo e impenetrável segredo.
Não permita Deus que ao censurarmos esta incrível ignorância das cousas que respeitam o Brasil, deixemos de fazer justiça aos homens sérios e aplicados que se têm subtraído à sem razão comum. Pouco há mencionamos duas grandes exceções; a continuação deste trabalho nos proporcionará ocasião de registrar brevemente outras não menos honrosas.
II
Manoel Odorico Mendes nasceu na cidade de S. Luís, cabeça da antigo capitania, hoje província do Maranhão, aos 24 de janeiro de 1799. Oriundo das famílias mais antigas e distintas do país, descende pelo lado paterno e materno do heróico restaurador do Maranhão, o capitão-mor Antônio Teixeira de Mello, natural da mesma ilha feliz em que nascera também o restaurador de Pernambuco; e pelo materno, do desditoso Bekman, cuja memória já em outro estudo tivemos ocasião de reabilitar, vingando-a das injúrias da sorte e de baixos detratores contemporâneos.
Mas de homens tais como Odorico é que se pode com fundamento dizer que transmitem a nobreza própria à terra em que nascem, e a todos os que lhes pertencem, sem a receberem de ninguém. O vivo e talentoso menino começou bem depressa a exibir os títulos valiosos que lhe davam direito a ela, nos estudos elementares e preparatórios que lhe foi possível fazer nas escolas de S. Luís: e tais foram os passos com que encetou a carreira, e os aplausos dos mestres e entendidos, que seu pai, a quem não faleciam os dons da fortuna, assentou para logo de enviá-lo a Coimbra, naquele tempo objeto das preocupações e alvoroços da mocidade estudiosa, onde todos os talentos iam buscar a sua consagração, e sem cujos pergaminhos a nenhum era dado aspirar às honras e grandezas, a que então podia chegar um natural do Brasil.
As felizes disposições daquele novel engenho eram principalmente para a poesia e para as letras; foi todavia na faculdade de medicina que o matricularam. Naquela universidade completou Odorico os preparatórios, e fez inteiro o curso de filosofia natural. Mas os estudos severos e obrigados não lhe impediam de modo algum o trato ameno das musas, muito mais grato ao seu espírito; e foi à volta deles que além de outros cantos, entre os quais sobressaía uma ode à independência da província natal, compôs esse famoso hino à tarde, tantas vezes reproduzido pela imprensa, no qual, em versos repassados de ternura e sentimento, cantou as saudades da pátria ausente e as doces recordações da primeira infância.
Entretanto, falecendo seu pai, e faltando-lhe de repente, por motivos que não importa referir aqui, os suprimentos indispensáveis para poder subsistir em terra estranha, voltou Odorico ao Maranhão no propósito de obviar aos embaraços que obstavam à continuação dos seus estudos; mas restituído à pátria, outros destinos o aguardavam.
III
O Brasil chegara enfim à idade viril, e não era possível que continuasse por mais tempo sob a tutela da antiga metrópole. As circunstâncias apressaram apenas o desfecho, aliás inevitável. O príncipe real se havia posto à frente do movimento de separação com um ardor por tal modo revolucionário e violento, qual se mostrou claramente na divisa adotada de independência ou morte, e daí os atos e proclamações em que nenhum gênero de excitação era poupado para estimular os brasileiros contra o predomínio português, então representado e concentrado na onipotência das cortes de Lisboa, e na cega obstinação dos seus aderentes no Brasil.
Mas vencido Portugal quase sem esforço e pela simples natureza das cousas, começaram logo as dissidências entre o príncipe e os seus novos súditos, e pouco tardou que, arrebatado pelo seu caráter, e por circunstâncias fatais, D. Pedro se não lançasse nos braços dos portugueses e reacionários, e não rompesse no excesso de dissolver a constituinte, deportando e perseguindo os Andradas e outros notáveis cidadãos, que de seus recentes cooperadores na grande obra da emancipação se haviam convertido em declarados adversários. Este golpe de estado e os mais atos de violência, que o acompanharam e seguiram, irritaram de tal modo o partido brasileiro que, sem embargo da promulgação da nova constituição, desde logo solenemente prometida como um calmante, Pernambuco e outras províncias do norte se sublevaram, e proclamaram a chamada confederação do equador.
O movimento republicano foi sopeado; mas, cousa triste de recordar-se, D. Pedro, não satisfeito de o ter vencido pelas armas, inspirado por uma política de rancor e de vingança, recorreu ao expediente vulgar e funesto dos cadafalsos. Ele que se havia rebelado contra a própria pátria e contra a autoridade do rei, ao mesmo tempo seu pai e seu soberano; e que na dissolução da assembléia, violando o dogma da soberania nacional, invocado pouco antes, e em virtude do qual reinava, se constituíra em estado de flagrante ilegalidade; este príncipe, grande e ilustre revolucionário, se jamais o houve, fez enforcar e fuzilar a outros revolucionários, pelo crime de haverem reagido contra o golpe de estado: — vítimas obscuras, cujo perdão mal bastaria a honrar a sua clemência, e cujo sacrifício foi assaz poderoso para perpetuar o horror de uma tirania odiosa, posto que passageira.
O vulto sinistro dos supliciados expostos aos olhos da multidão consternada nas primeiras cidades do Brasil; a malfadada guerra do rio da Prata, a impolítica ingerência nos negócios e contendas dinásticas de Portugal, a incapacidade, ou antes inexperiência dos seus ministros, e favor decidido à facção reacionária, dita portuguesa ou recolonizadora, ajudado tudo das indiscretas veleidades despóticas do príncipe, o despenharam no último abismo da impopularidade, que ainda vieram agravar a viagem de Minas e as assuadas de março — tentativas tão desastradas e ineptas para reabilitar uma situação exausta, como odiosas ao sentimento da nacionalidade, exasperado então no último grau. Assim D. Pedro I, saudado por aclamações unânimes e entusiásticas nos dias felizes da independência, desamparado então do último dos seus cortesãos, desceu tristemente do trono, e por entre os clamores de uma população animada de sentimentos hostis, encaminhou-se solitário a buscar abrigo em uma nau estrangeira. Severa mas justa lição aos príncipes que esquecem a origem popular da autoridade de que abusam, e nos seus desvaneios presumem de poder impunemente ofender as susceptibilidades de um povo brioso.
Mas a justiça para ser completa, há de juntar à punição das faltas o galardão do mérito e dos serviços. Foi por isso que o Brasil, trinta anos depois e sob o reinado pacífico e benéfico do herdeiro deste trono abandonado, erigiu um soberbo monumento ao primeiro imperador.
Os erros de D. Pedro I têm a sua explicação como a sua desculpa em uma educação incompleta e mal dirigida, na inexperiência da mocidade, nas circunstâncias extraordinárias e difíceis em que ele sempre se achou, e nas tradições e práticas inveteradas do antigo regime, com as quais nunca pôde romper abertamenta e de todo, apesar das transformações externas e superficiais operadas pela revolução, e das suas tendências pessoais para as idéias liberais. O sangue vertido nos cadafalsos não era mais que o fruto amargo dessa abominável justiça política, tão antiga como o mundo, e que o passado lhe legara. Por justas que fossem as queixas da nação, a confederação do equador, proclamando a república, despojava o imperador de um trono que ele sem dúvida entendia dever mais à herança dos seus maiores, que ao voto unânime dos povos, dado que o último título fosse o único que reconhecesse a própria constituição por ele promulgada. Daí a sua cólera e os atos de vingança que dela nasceram; que em verdade, e como bem o dizia o Pe. Antônio Vieira — “não há ciúmes mais impacientes, mais precipitados e mais vingativos, que os que tocam no cetro e na coroa; e apenas terá havido púrpura antiga nem moderna que por leves suspeitas neste gênero se não tingisse em sangue.”
Por outro lado, os serviços que o imperador prestou ao Brasil são imensos e gloriosos, e contrabalançam, se é que não superam, os erros que os acompanharam; porque estes afetaram apenas os seus contemporâneos, e como eles desapareceram; e os resultados daqueles perduram ainda, e se hão de fazer sentir até à mais remota posteridade. Fundador do império, D. Pedro associou o seu nome à independência de um modo irrevogável; e se por um ato de arbitrária impaciência violou a representação nacional, para logo fez elaborar e promulgou uma constituição libérrima, a cuja sombra temos atravessado quarenta anos de uma existência comparativamente normal, no meio das vicissitudes e catástrofes em que no antigo e novo mundo se têm subvertido tantos artefatos da política — tronos e repúblicas.
Coração generoso e heróico, sem embargo de umas tantas veleidades despóticas, e de certa inconstância natural que uma morte prematura não permitiu à idade o corrigir, ele amou à liberdade sinceramente, e sempre inclinou o ânimo a ações grandes e lustrosas. Foi sem dúvida a impulsos desse grande coração que, depois de haver fundado a independência e o império, recuou diante da luta suprema, na qual para suster o trono, teria de comprometer a sua obra; e regressando à primeira pátria, coroou nobremente uma vida tão agitada, despendendo-a e exaurindo-a até o último alento na restauração da liberdade que lhe legou como sobeja compensação de antigos e juvenis agravos.
Mas a justiça feita ao príncipe, por nenhum caso se há de negar aos cidadãos generosos que até a última extremidade resistiram corajosamente aos seus erros. Não falta presentemente quem injurie e renegue a revolução de sete de abril, e a difame e responsabilize por todos os movimentos anárquicos, calamidades e transtornos que se lhe seguiram. Do que porém se guardam bem todos esses fiéis adoradores da fortuna e dos poderes em florescência, é de nos expor qual teria sido a sorte do Brasil, se D. Pedro, abandonado na desgraça pelos cortesãos, não tivesse apenas o seu grande coração para o aconselhar, e em vez do ceder, preferisse lançar-se em todas as aventuras da contra-revolução. Os vencedores ao menos souberam usar da vitória com moderação. Desviado o perigo que ameaçava a liberdade, rodearam o berço do menino imperador, e sob a égide da constituição, conseguiram reprimir e desarmar as facções furiosas que com encontrados pretextos e diversas bandeiras a assaltavam por todos os lados. Durante esse primeiro e agitado período da menoridade, inaugurou-se a política de brandura, legalidade e constitucionalismo que arreigou as instituições, e dispensou o emprego do cadafalso político, por uma vez extirpado; — política sábia e fecunda que o tempo foi consolidando, e hoje faz a honra e o lustre do segundo reinado. Esta só consideração bastaria à justificação e ao elogio desses beneméritos cidadãos; D. Pedro retirando-se, deixou entregue à revolução vitoriosa o infante herdeiro do trono, sem outra garantia além da confiança que punha no patriotismo e moderação dos seus autores; e estes, guardando fielmente o depósito sagrado, finda a sua missão, desceram do poder com as mãos e a consciência igualmente puras.
IV
O Maranhão não havia escapado à sorte comum na crise da independência; e ainda que as perturbações que o afligiram então não chegassem a tomar o caráter duma revolta declarada contra a autoridade do soberano, cuja voz, ao contrário, invocam todos os bandos opostos, não é menos certo que a guerra civil assolou a província durante dous anos, sem mais causa que as ambições pessoais e de família que aspiravam a uma influência exclusiva. À chegada de Odorico Mendes acabava de operar-se a pacificação material, mas a dos ânimos, profundamente irritados, era menos que aparente, e para recomeçar a luta, bem que em outro terreno, e sob outro aspecto, só se aguardava a ocasião, que se não fez esperar. Existiam em gérmen os elementos de que em breve se haviam de organizar por todo o império os dous grandes partidos antagonistas. Solicitado pelos amigos, e ainda mais pelo seu próprio patriotismo, Odorico Mendes não hesitou um momento, arremessou-se na arena com todo o ardor e impetuosidade de uma alma juvenil, e escreveu o Argos da Lei em oposição ao partido representado na imprensa pelo Amigo do Homem, e pelo Censor ambos redigidos por escritores nascidos em Portugal, como também o eram a maior parte dos seus aderentes. Esta circunstância, e a doutrina do predomínio exclusivo da autoridade que pregavam sem rebuço, deu ao partido feições tão características, que em breve se ficou conhecendo pelo nome de partido português ou absolutista. Fruto da inexperiência do tirocínio político, e das ilusões de um espírito novel, mas escrito em bom e vigoroso estilo, com raro talento, e com todo o fogo de uma paixão sincera e fé ardente, o Argos era um jornal evidentemente fadado ao triunfo. Assim, nas eleições feitas poucos meses depois da sua aparição, o seu redator era eleito deputado à primeira legislatura. O pensamenio de voltar a Coimbra a concluir os estudos desvaneceu-se, como era natural, no meio destes sucessos.
Chegado ao Rio, Odorico alistou-se na falange liberal, e inscreveu o seu nome a par dos nomes ilustres de Evaristo, Paula Souza, Vergueiro, Feijó, Vasconcelos, Carneiro Leão, Limpo, Costa Carvalho, e tantos outros, que na tribuna como no jornalismo começaram desde então aquela oposição vigorosa e incessante que só devia ter fim com a revolução de sete de abril.
Sem ser orador de primeira ordem, no sentido de fazer longas e bem ordenadas orações, nos curtos improvisos Odorico Mendes era sempre feliz; e se a ocasião e o assunto o inspiravam, não raro atingia à mais alta eloqüência.
Nas diversas legislaturas, de que fez parte, foi por muitos anos secretário da câmara dos deputados, iniciou algumas leis importantes como a abolição dos morgados, e a da primeira reforma eleitoral, e cooperou em muitas outras, discutindo-as ou emendando-as; colaborando igualmente na redação de diferentes jornais durante as sessões, e nos seus intervalos.
Da Astréa foi fundador com Vergueiro, Feijó, Costa Carvalho e outros. Costa Carvalho, que faleceu marquês de Monte-Alegre, então simples deputado e chefe preeminente da oposição, depois membro da regência e presidente do conselho em diversos ministérios, havia introduzido a primeira tipografia em S. Paulo, onde era um dos mais opulentos proprietários, e onde fundou o Farol Paulistano. Odorico que no fim de uma das sessões, e a convite dele o acompanhara àquela província, não só escreveu para o jornal oposicionista grande quantidade de artigos, senão que, à míngua de operários, ajudava a composição como tipógrafo. É de todos sabida a decisiva influência que estes dous jornais exerceram na corte, e nas províncias do Sul.
Colaborou depois sucessivamente no Sete de Abril, escrevendo para ele a maior parte dos versos satíricos que tamanha voga lhe deram na corte; na Aurora, no Jornal do Commercio, e finalmente na Liga Americana, onde de companhia com o senador Aureliano, depois visconde de Sepetiba, combateu as injustas pretenções da França ao nosso território do Oiapoc. Os artigos que escreveu a tal respeito foram, não há muito, honrosamente comemorados na notável obra do Sr. doutor Joaquim Caetano da Silva — outro precioso livro brasileiro, seja dito de passagem, quase senão completamente desconhecido em Portugal(1).
A popularidade sempre crescente de Odorico valeu-lhe nova eleição para a segunda legislatura, ainda mais honrosa que a primeira. Nesta ao menos tivera por si o favor da autoridade; na seguinte teve a sua oposição. O marechal Costa Pinto, presidente do Maranhão esposando todas as mesquinhas paixões do partido dominante, tinha feito arbitrariamente recrutar o redator do Farol Maranhense, e acumulando desacerto a desacerto, proibira sob fúteis pretextos a publicação de um novo jornal com que Odorico Mandes quis substituir o que fora suprimido. Os Maranhenses responderam a um e outro atentado elegendo-o pela segunda vez com grande maioria, ficando completamente derrotado o marechal-presidente, seu competidor.
A mesma ruim fortuna teve o governo geral por quase todo o império; e como se lhe ela não bastara, agravou-a ele mesmo, pois obedecendo ao mau vezo antigo, suspendeu as garantias, e criou comissões militares, a pretexto de um insignificante motim em uma obscura vila de Pernambuco, o qual por si mesmo se desvaneceu, desfechando assim em vão o golpe do governo. Crime inútil, e inabilidade insigne, em presença de uma oposição triunfante, alternativamente irritada e acoroçoada pelas provocações e irresoluções de ministros simplesmente ineptos, numa situação em que toda a destreza e prudência de estadistas consumados não seriam de sobejo.
O ministério foi acusado na câmara dos deputados, e Odorico Mendes, com o denodo e galhardia de costume, foi o primeiro a ferir a batalha; e de maneira se houve nesta memorável discussão que mereceu a honra duma interpelação direta do monarca. A anedota merece ser referida, que, sobre curiosa em si, pinta bem a têmpera dos caracteres, e os meneios e costumes políticos do tempo. Finda a sessão, foi Odorico despedir-se do imperador, que em pública audiência, e na presença das deputações das câmaras e de toda a corte, lhe disse inesperadamente, aludindo sem dúvida à parte vigorosa que ele tomara na acusação: “Senhor Odorico, não seja tão inimigo dos meus ministros.” “Senhor, respondeu-lhe incontinente o deputado liberal, eu lhe sou um súdito muito fiel, mas quanto às minhas opiniões, hei-de sempre exprimi-las segundo a minha consciência e para isso é que me cá mandaram.” O imperador, com todos os seus defeitos, tinha rasgos generosos, e amava a franqueza; e é fama que a do corajoso representante do Maranhão lhe não desagradara.
O ministério todavia conseguiu escapar à acusação por poucos votos; mas a vitória moral da oposição foi tão completa, que o governo imperial ficou de todo arruinado na opinião pública. Isto se passava em 1829. No ano seguinte a revolução de Julho na França veio precipitar a crise, que fez a sua explosão final em 7 de abril de 1831.
Odorico Mendes tomou parte mui principal nesta revolução, já entendendo-se pessoal e diretamente com os chefes da força militar já convocando por circulares de sua letra os deputados e senadores presentes na corte, que foi mister reunir à pressa para proverem o governo do estado em abandono; já finalmente exercendo decidida influência na escolha dos membros da regência provisória, e da permanente que se lhe seguiu com pouco intervalo.
A questão da abdicação, prevista por todos, foi agitada nos clubs que a precederam. Odorico Mendes, em todo o tempo conhecido pela isenção e ousadia de suas opiniões, nunca fizera mistério algum dos seus princípios democráticos e quase republicanos; mas tão pouco cuidou jamais de os alardear com vã e estéril ostentação, nem de impor às repugnâncias dos seus concidadãos formas políticas que eles têm por impossíveis. Foi sob a influência destas idéias que com Evaristo e outros opinou pela conservação da monarquia, salvo que a ocasião e a menoridade se deviam aproveitar para fazer na constituição as reformas indispensáveis, mormente as que tendessem a alargar as franquezas provinciais. A idéia da república, sustentada por poucos, foi sem custo repelida.
Preservados os princípios, cumpria acudir pelas pessoas, cujo perigo era iminente, pois a multidão, exasperada ainda com os recentes atentados de março, em que tanto haviam sobressaído os portugueses e adotivos, e excitada pelo próprio triunfo, ameaçava demasiar-se em excessos contra os mais comprometidos dentre eles. Odorico alçou então a voz, e fez esse discurso memorável em que, comovido e derramando lágrimas, pediu o perdão dos que chamou iludidos, seus inimigos da véspera, mas, dizia ele, enlaçados conosco em próximo parentesco, maridos de nossas mães e de nossas irmãs. O efeito destas palavras foi imediato e prodigioso; e tudo nelas honrou não menos o orador, que a multidão que o atendeu e vitoriou.
Contudo destas divergências resultou em breve a cisão do partido vencedor em moderados e exaltados. Odorico declarou-se pelos primeiros, e daí começou a declinar a sua popularidade, porquanto comparada a guerra que fizera ao partido português em sua força e poderio, com a proteção que ora dava e pedia para os vencidos, encabeçava-se a aparente contradição, não já em simples volubilidade ou incoerência de princípios, senão em formal infidelidade e apostasia. Assim pelo menos raciocinavam os do Maranhão que querendo levar a revolução às suas últimas conseqüências, expulsando dos empregos todos os parciais do regime decaído, se empenharam em movimentos sediciosos, e foram vencidos pela autoridade. Odorico Mendes, chegando então à província, escreveu no Constitucional contra esses movimentos ilegais. Este procedimento que mais tinha de franco que de prudente e refletido, acarreou-lhe imediatamente o apoio dos adversários, mas irritando em alto grau os antigos partidistas, acabou de alienar-lhe a opinião da província. Em vão procurou ele congraçar os ânimos, promovendo a anistia para os comprometidos. Os seus esforços foram paralisados diante das exagerações inconciliáveis dos partidos, e nas primeiras eleições que se seguiram em março de 1833, não só deixou de ser reeleito, como mal pôde conseguir a quinta parte dos votos que obteve a lista contrária.
É certo que logo no segundo ano da legislatura foi chamado a suprir a vaga que deixara na respectiva câmara o deputado Costa Ferreira, depois barão de Pindaré, então nomeado senador; e que ainda em 1845 foi eleito para a mesma câmara pela província de Minas; mas a carreira política de Odorico como que dera fim com a primeira exclusão que sofreu, o com o desgosto que lhe ela trouxe.
V
Absorvido no tumulto das lides parlamentares e políticas, e nos incessantes deveres de um cargo superior de fazenda que exerceu por muitos anos, mal lhe sobejava o tempo para o dedicar ao culto da poesia e das letras, seu primeiro amor, jamais totalmente abandonado, mas tão pouco entretido com a assiduidade e fervor que cumpria. Assim mesmo, não pouco fazia ele, no meio de tais vicissitudes, alimentando sempre o fogo sagrado, que nunca de todo se extinguisse.
Ao primeiro e agitado período da existência de Odorico Mendes pertencem pela maior parte as suas composições originais, cuja coleção poderia ser numerosa, se ele se tivesse dado ao trabalho de a coordenar. Poucas contudo chegaram a ser impressas em jornais e folhas avulsas, e muitas se perderam manuscritas na Bahia, em uma das freqüentes viagens que fazia entre o Maranhão e o Rio, sem que o poeta procurasse, enquanto era tempo, remir a perda, restaurando-as com a memória ainda fresca.
E todavia, pelas que alcançámos conhecer, essas poesias deviam de ser de grande merecimento, e dignas em tudo de um engenho filho da mesma terra privilegiada e feliz que deu o berço a Gonçalves Dias, a Sotero dos Reis, a Trajano Galvão, a Pereira da Silva, a Franco de Sá, o moço, e a tantos outros favorecidos do dom divino.
A pátria, a sua glória, independência e liberdade, a virtude, a família, os castos amores, os pesares e amarguras da vida, são o assunto predileto desses cânticos, onde reina um tom de candura e melancolia serena e resignada, cheios de suavíssimos enlevos. Linguagem correta, pura, e portuguesa de lei; estilo simples, mas não sem elevação e decoro; a versificação fácil, branda e harmoniosa, são dotes que os caracterizam em sumo grau.
Pelos seguintes extratos poder-se-á formar idéia do merecimento dessas composições.
O furacão da morte
Varre medonho os campos da existência,
Perdoa a secos troncos.
Leva consigo florescentes plantas,
Cuidados do colono esperançoso.
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Quão triste a final cena!
Mas o quadro da vida inda é mais triste.
As breves alegrias
Num só ponto aparecem mal distintas,
E sombreiam-lhe o fundo os infortúnios.
Que bens há cá na terra?
O crime estende o formidável cetro,
Raro fulge a virtude;
Em torno ao coração o prazer voa,
A dor penetra e vai sentar-se no âmago.
(O sonho, Ode.)
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Tarde serena e pura, que lembranças
Não nos vens despertar no seio d’alma?
Amiga tenra, dize-me, onde colhes
O bálsamo que esparges nas feridas
Do coração? que apenas dás rebate
Cala-se a dor; só geras no imo peito
Mansa melancolia, qual ressumbra
Em quem sob os seus pés tem visto as flores
Irem murchando, e a treva do infortúnio
Pouco a pouco ante os olhos condensar-se.
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Mas da puerícia o gênio prazenteiro
Já transpôs a montanha, e com seus risos
Recentes gerações vai bafejando:
Aquém ficou a angústia que moderas
Ó compassiva tarde! Olha-te o escravo,
Sopeia em si os agros pesadumes;
Ao som dos ferros o instrumento rude
Tange, bem como em África adorada,
Quando, tão livre! o filho do deserto
Lá te aguardava; e o eco da floresta,
Da ave o gorjeio, o trépido regato,
Zunindo o vento, murmurando as sombras,
Tudo em cadência harmônica lhe rouba
A alma em mágico sonho embevecida.
(Hino à Tarde)Entretanto Odorico Mendes, em sua modéstia, nunca fez grande cabedal dessas composições originais; e daí sem dúvida resultou o pouco cuidado a que se deve o andarem dispersas, ignoradas ou perdidas. “Não possuindo (escreveu ele mesmo no prólogo da primeira edição da sua Eneida) o engenho indispensável para empreender uma obra original ao menos de segunda ordem, persuadi-me todavia de que o estudo da língua e a freqüente lição da poesia me habilitavam para verter em português a epopéia mais do meu gosto... ” “ .... só abrigado sob as asas de tão sublime escritor durarei na memória dos nossos concidadãos, ainda uns anos depois da sepultura.”
Sendo este o conceito que fazia do próprio talento, tinha necessariamente de dar ao emprego dele uma direção particular. Foi assim que já desde 1831 havia publicado uma tradução da Merope de Voltaire, e em 1839 outra de Tancredo do mesmo autor. Ambas mereceram os elogios dos entendidos, e a segunda especialmente uma douta e bem elaborada análise do Sr. Francisco Sotero dos Reis, abalizado filólogo e latinista maranhense que a publicou na Revista, jornal que redigia então.
Mas foi só depois de finda em 1847 a última legislatura a que pertenceu, que Odorico Mendes, passando-se para a França, se consagrou inteiramente ao trabalho das suas versões, em que contudo anos havia já se ocupava, conforme lho permitiam as outras obrigações a que estava sujeito. À primeira edição da Eneida publicada em Paris em 1854, seguiu-se outra em 1858, compreendendo todas as obras do grande épico latino(2).
Em assunto já devidamente discutido e sentenciado, a nossa voz, por incompetente, deve calar-se. Ouçamos porém a dos grandes mestres.
“Nesta aprazível tradução (escreveu o sr. Antônio Cardoso Borges de Figueredo, distinto professor de poética e literatura clássica no liceu de Coimbra) achei fielmente transladados em a nossa língua os conceitos, as paixões e os sentimentos do épico latino, e sem diminuição nem acréscimo, repostas as suas mesmas imagens, e ainda muitas das suas figuras. Bem sabia o sr. Mendes que o verdadeiro tradutor não deve ser parafrasta senão fiel copiador e retratista, fidus interpres. Ali aparecem postos em luz clara vários passos da Eneida, onde ilustres comentadores não haviam atinado com o genuíno sentido, mas que o exímio tradutor pôde alcançar. Isto ficará evidente a quem consultar as excelentes notas, que seguem cada um dos cantos do poema, e em que o mesmo ostenta vasta erudição e crítica judiciosa e esclarecida.
“Elegante, limada e polida é a sua frase, e seus versos correm quase sempre com facilidade, são de ordinário cadentes e numerosos. A perspicuidade, a precisão, e ainda a concisão bem entendida, a propriedade dos termos, o gosto delicado; todas estas virtudes lá oferecem o seu agradável donaire. Esse grande segredo dos mestres, a harmonia imitativa, que ora pinta pela onomatopéia as qualidades sensíveis dos objetos, ora emprega a analogia dos números ou ritmos com as idéias ou com os sentimentos; essa bela harmonia, a que nenhuma das línguas modernas se presta por ventura tanto como a nossa, em inumeráveis frases e versos a descobrirá o leitor de tato fino .....................
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.............. “Em forjar palavras novas alguém quisera que tão bom tradutor fosse mais sóbrio: Dabitur licentia sumpta pudenter. Quem souber todavia que, só nos Lusíadas, Camões introduzira duzentas palavras latinas, e que depois dele em todas as eras quase todos os bons poetas as foram inovando, não estranhará tanto a sobejidão dos neologismos em todas as páginas desta tradução. Para estas inovações tinha o tradutor podido vênia, e tem a sua principal descarga na necessidade; sendo que, como ele em suas notas mostra, só por aquel’arte podia guardar a precisão, que tão justamente ama, e copiar a justeza das idéias e forças do pensamento do seu prototipo.
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“.................. Eu antevejo que a autoridade de tão grande filólogo, que já estimo, amo e respeito, há de achar quem abrace os seus neologismos; ver-se-ão eles, correndo o tempo, entrar no domínio do uso. Assim se há seguido o exemplo de outros; assim se tem enriquecido e hão de enriquecer as línguas. Puristas haverá de sentir menos conforme ao meu: embora: outros sentirão comigo. Grande é o serviço que à nossa literatura fez o tradutor. Longe de mim o rebaixar as traduções que já possuímos das obras de Virgílio, inteiras, e em fragmentos, como a do canto quarto da Eneida, admiravelmente traduzido por Manuel Mathias; mas das traduções completas é opinião minha, e não só minha, senão de dous respeitáveis literatos, que esta tradução a todos leva a palma.”
“Um comprovinciano nosso (fala agora o já citado Sr. Sotero dos Reis) o Sr. Odorico Mendes, atualmente em França, tem feito da língua de Camões, de Ferreira, de Garção, e de Francisco Manoel, ou da linguagem poética do idioma português, um estudo tão aprofundado, que neste conhecimento, e nos que com ele têm estreita relação, como o da linguagem poética dos idiomas estranhos, não encontra rival no Brasil, e não sabemos que haja quem o exceda em Portugal nestes últimos tempos.
“Desde a mais tenra mocidade cultivamos a preciosa amizade do Sr. Odorico Mendes, e sempre o conhecemos dedicado a este gênero de estudos, que hoje tem levado a grande apuro e perfeição, como o atestam as suas obras, e com especialidade a tradução da Eneida, com que enriqueceu a nossa literatura, e em que a língua portuguesa aposta com a latina primores de concisão, clareza, flexibilidade, graça, galhardia, força, riqueza e pompa, senão pela ventura de harmonia e majestade.
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“A tradução da Eneida pelo Sr. Odorico Mendes é indubitavelmente superior a quantas do mesmo poema se tem até hoje publicado em português, as quais são rasteiras em comparação dela e pode correr parelhas com as mais gabadas feitas em outras línguas. Nem a de João Franco Barreto, que é uma paráfrase não poucas vezes feliz, nem as de Lima Leitão e de Barreto Feio, nos dão uma idéa tão ajustada o exata das belezas do original, porque nenhuma soube como ela reproduzir ao vivo as suas imagens, figuras, perfeição do estilo..........
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“Com ser tão primorosa, não deixa esta tradução, assim como tudo o que nos vem dos homens, de ter defeitos; e esses nascem pela maior parte de uma de suas principais virtudes, ou da concisão levada ao extremo. O nosso poeta traduziu cada um dos livros da Eneida em número de versos portugueses, que pouco excede aos hexâmetros latinos; o que, sendo estes de mais extensão que aqueles, é em verdade um grande mérito; mas o desejo de ser conciso foi por outro lado parte para que alatinasse algumas vezes a frase portuguesa...................
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“Mas, estes raros, e aliás desculpáveis defeitos, em trabalho de tão difícil execução, qual é a versão do poeta mais perfeito da antiguidade, são compensados por tanta fantasia e vigor de imagens, tanto arrojo e felicidade de figuras, tanta viveza e verdade de colorido, tanta riqueza e propriedade de linguagem, tanta poesia imitativa e onomatópica, tanta e tão sustentada harmonia métrica, ou por tantas belezas de todo o gênero, em suma, que o Sr. Odorico Mendes, depois de haver produzido uma tal obra, pode com razão dizer: Non ego paucis offendar maculis.
“Quanto à adoção de termos latinos, reabilitação de antiquados e criação de novos, entendem alguns que o poeta abusou da permissão de o fazer, mas não têm razão; porque se não houvesse recorrido a esse meio indispensável para ser bem sucedido, teria, como seus predecessores, naufragado na empresa de dar-nos o transumpto de um poema do cunho da epopéia de Virgílio, trajado com todas as galas de uma língua tão cadente, opulenta e majestosa como é o latim, que, desacompanhado do cortejo de certas partículas que tornam arrastrados e prosaicos os idiomas que hoje falamos, caminha sempre desembaraçado, sempre livre.”(3)
“De quantas versões poéticas eu conheço (diz finalmente em documento que temos à vista do Sr. Antônio José Viale, o ilustre professor de literatura, e exímio poeta e tradutor ele mesmo) nenhuma faz vantagem a esta em fidelidade, e nenhuma talvez (a não serem as de Solari) a iguala em concisão. Verdade é que a severíssima adstrição a competir em brevidade com o original (e com original latino) não pode deixar de quando em quando de empocer algum tanto à perspicuidade do estilo, e à melodia do verso (risco de que se preservam cautelosos os parafrastas). Contudo nesta novíssima e ótima das traduções de Virgílio o mais rígido Aristarco raríssimos versos achará que mereçam a censura de pouco claros ou de menos cadentes.
“Que direi da pureza, propriedade e cópia da dicção da Bucólica, Geórgica, e Eneida Portuguesa do sábio poeta brasileiro, e das excelentes notas de que são seguidas? Estou persuadido de que na sua leitura muito aprenderão os mais eruditos filólogos das duas nações que falam a mesma língua com pouca corrupção quase latina. Pela minha parte, em benefício dos meus alunos no Curso superior de Letras, nas minhas preleções associarei freqüentes vezes ao nome imortal do grande vate romano o ilustre nome do exímio tradutor brasileiro, ponderando-lhes o muito que lhe devem os cultores das musas, e os estudiosos amadores da literatura nacional.”
Estes votos tão autorizados, e cuja imparcialidade é atestada pelas suas mesmas divergências em pontos secundários, bastariam só de per si a qualificar o elevado merecimento de Odorico Mendes como tradutor; mas os nimiamente escrupulosos, que se não pagam de juízos alheios, não têm mais que examinar a tradução, e as copiosas notas que a acompanham, e onde o poeta, fazendo a apologia dos notados defeitos de sobejidão de neologismos, de obscuridades, e durezas da versificação, demonstra vitoriosamente já a necessidade da adoção dos termos novos que introduziu, já que os mais dos vocábulos de origem latina, que se lhe argúem como inovações, de há muito tinham foro de nacionais, introduzidos e naturalizados por outros grandes mestres; já finalmente que em certos lugares, a aparente dureza da metrificação, aliás fácil de tornear em cadência especiosa, era mui de indústria procurada para verter com toda a energia e propriedade as belezas do original. Nem há aí duvidar da exatidão desta última asserção, se atendermos aos inumeráveis versos de uma melodia irrepreensivel que no próprio Virgílio Brasileiro deleitam o ouvido a cada passo, e que são contínuos e quase sem exceção na tradução das duas tragédias de Voltaire, onde o poeta não tinha que lutar com a concisão do latim, tão difícil de atingir.
Essas notas porém não são meramente apologéticas. Escritas com sobriedade e temperança, em estilo chão e natural, em que se reflete, como em fiel espelho, a alma singela e pura do autor, são um riquíssimo tesouro de variedade e escolhida erudição, e constituem uma maneira de cursos de literatura, em que abundam os exemplos e conselhos judiciosos, e onde muito acharão que aproveitar quantos se dedicam a este gênero de estudos.
Sem conservar-se encerrados nos limites da poesia, faz também o autor freqüentes digressões nos domínios da história e da política; e remontando-se às mais elevadas considerações da moral pública e privada, ora o veremos exprimir votos calorosos pela abolição da escravidão na sua pátria, ora confundir na mesma severa reprovação os excessos da tirania e da anarquia, ora enfim tomar a defesa do deprimido e desdenhado Portugal, como quem sente e conhece que a solidariedade dos dous povos irmãos, sem embargo de revolução que os separou politicamente, subsiste ainda a muitos respeitos, e há de perdurar por tempos infinitos. Mal podemos vencer-nos que não reproduzamos neste lugar o que sobre o último assunto escreveu este digno brasileiro, contraditoriamente acusado, em diferentes épocas, ora de parcial, ora de antagonista dos portugueses.
“Delille é quase sempre infeliz quando cita a Camões (lê-se em uma das referidas notas ao Virgílio Brasileiro) — O painel da grandeza de Roma na revista da posteridade de Enéias, diz ele, é sublime criação do poeta latino: imitaram-no Tasso, Camões, Milton e Voltaire. Na Jerusalém libertada os destinos da casa d’Est, preditos a Reinaldo, não têm historicamente assaz importância para autorizar o maravilhoso; o mesmo, a glória de Portugal, encerrada em pequeníssimo quadro, esplendor do pouca duração... De todos os imitadores, Voltaire foi sem dúvida o mais feliz, com a vantagem de pintar a época mais memorável do espírito humano, e seu estilo tem muitas vezes o brilho da corte de Luiz XIV. — Um francês, M. Villenave, assim impugna estes palavrões — O século de Luiz XIV foi de certo uma época memorável, não a mais memorável do espírito humano. E o que é um estilo que tem todo o brilho da corte de um rei?
“Cada um busca celebrar as suas cousas; pequenas aos estrangeiros, são grandes aos nacionais: o italiano Tasso não devia omitir um príncipe e uma casa real de Itália para cantar, por exemplo, a de França. Delille, não contente de afrancesar a antiguidade, na sua paráfrase da Eneida, folgara de que o Tasso estrangeirasse a Jerusalém, ou pusesse de parte um meio bem cabido na sua epopéia, em comparação da qual a Henriada, cumpre confessar, não tem sobejo valor. Se todavia a pequenez da casa d’Est escusa um tanto o mau juízo do crítico, a apreciação dos Lusíadas é miserabilíssima. A época de que trata Camões principalmente (digo principalmente, porque ele canta os portugueses em geral) é a mais importante na história da navegação, vale mais que o século de Luiz XIV; o descobrimento da nova rota das Índias por Vasco da Gama, como o da América por Colombo, e o do Brasil por Cabral, mudou a face do mundo, ao comércio deu extensão prodigiosa, aumentou os gozos da vida por toda a parte; derribou, levantou nações; é o acontecimento que marca os tempos modernos. Quanto à duração da glória portuguesa, distingo: se Delille chama glória só a conquista das Índias, é exato que oitenta anos depois caiu a nação pelo dominio castelhano, mas se a palavra compreende, como deve compreender, a honra que resulta de todas as suas façanhas, essa glória já durava seis séculos não interrompidos ao cantá-la o seu imortal poeta. A história de França não apresentava uma tão longa série de sucessos gloriosos até aquela época.
“Insisto da digressão, porque não só Delille, os franchinotes viajantes por moda menosprezam a nossa raça. Uma nação da qual nasceu a brasileira, hoje de quase nove milhões de homens, terceira em população na América, segunda em importância política, tem a sua glória indelevemente escrita nos anais do mundo; e ninguém abrirá um mapa do nosso globo, sem nele encontrar muitos nomes de países de África e Ásia atestando a parte que o reinozinho do ocidente da Europa tem tido no movimento geral da civilização. Pena é que Delille não marcasse as léguas quadradas, a população, e os anos de celebridade que deve ter qualquer nação para poder um poeta cantar os seus feitos heróicos. Da pequenez do seu país Camões tirou motivo para o louvar na sua magnífica oitava XIV do canto VII e em mais algumas.
“Perdão, se ainda continuo e me extravio. Tenho ouvido já, quase sempre a descendentes de outros europeus, que nós seríamos felicíssimos, se tivéssemos sido colonos do outra nação. Antes de tudo este nós é um disparate: se o Brasil fosse diversamente colonizado, não seríamos nós os seus habitantes; e devemos aos compatriotas sobejo amor para querermos que eles sejam outros, e não eles mesmos. Portugal produziu um império de nove milhões de habitantes; digam-me qual é o que proporcionalmente fez tanto? Apesar das injustiças que dos maus governos sofríamos, apesar de mesquinhos ciúmes da metrópole, nossos pais nos transmitiram: 1º a religião mais civilizadora; 2º franqueza e hospitalidade à nossa custa, não de palavras e cortesias; 3º uma legislação civil melhor que a de nações muito mais presunçosas; 4º uma língua sonora a mais opulenta, senão para as cousas da indústria moderníssima, para a história, para a navegação, para a poesia, com todos os matizes, variedade e graça. Qual é a colônia francesa emancipada? qual é a holandesa? Tiradas as de Espanha, mais as de Inglaterra, que produziu a soberba e livre república norte-americana, as restantes estão ainda debaixo da tutela. Nós já vamos forçando o orgulho a nos ter em consideração, e mais seremos se desprezarmos os medos de conquista no nosso território, e opusermos energias a vãs ameaças.”
VI
Vamos concluir, consignando aqui as últimas noticias e ponderações que nos ocorrem acerca da nobre existência que temos esboçado. Odorico Mendes teve assento no antigo conselho geral do Maranhão; e, em várias legislaturas, na assembléia provincial do Rio de Janeiro. É membro efetivo do instituto histórico e geográfico do Brasil; da sociedade amante da instrução, da de instrução elementar, e sócio honorário da academia das belas artes no Rio de Janeiro; e aqui em Lisboa acaba de ser nomeado sócio correspondente estrangeiro da academia real das ciencias(4). Só uma condecoração obteve, sem todavia a solicitar — a comenda da ordem de Cristo, que deve à espontânea munificência do Sr. D. Pedro II.
Os companheiros de Odorico nas lutas do primeiro reinado chegaram todos ou quase todos às maiores honras; e às mais elevadas posições políticas e sociais. Alguns as deveram sem dúvida aos seus talentos fora do comum; outros à destreza e agilidade com que souberam manobrar no mar incerto em que navegavam. Mais inflexível ou menos hábil no caminho que proferiu, Odorico Mendes tem visto sem pesar todas essas grandezas, que lhe não couberam em sorte, pago e satisfeito de haver atravessado a vida conservando-a imaculada até da menor suspeita que lhe pudessem levemente marear o lustre.
Tendo saído do Rio em 1847, viveu quatorze anos em Paris, da aposentadoria do seu emprego, e das minguadas sobras que pudera acumular anteriormente, subtraindo-as às necessidades quotidianas. A verdadeiros milagres de economia deveu não somente a subsistir tão longo espaço em honrada mediania naquela opulenta capital, foco de tentações de todo o gênero, mas ainda o poder dar uma boa educação aos filhos, dois dos quais alcançaram logo vantajosos lugares de fazenda, graças aos estudos que haviam feito, aos bons ofícios de um velho amigo nunca deslembrado, e sobretudo à política esclarecida do imperador, que a nenhum merecimento deixa sem emprego, e nenhum antigo serviço sem galardão.
O ano passado empreendeu Odorico uma viagem à Itália — sonho dourado de toda a imaginação de artista e de poeta, que enfim lhe concedeu o céu realizar após tantos anos de expectação. Dir-se-ia que a fábula de mãos dadas com a antiga e moderna história apraz-se de fazer as honras da hospedagem aos que visitam aquela terra portentosa com o espírito preparado para compreender e admirar as maravilhas que povoam as suas cidades e ruínas. Por entre essas alas esplêndidas e fantásticas de quadros, estátuas e monumentos de todo gênero, deles orgulhosos de pé, outros prostrados pelo tempo e humilhados na poeira; e no meio do arruído e alvoroço da ressurreição de um grande povo, atravessou-a Odorico Mendes, e como verdadeiro peregrino da religião das musas, foi junto ao Pausilippo, em cumprimento de voto antigo, depor uma capela de flores sobre o túmulo do poeta amado.
Agora impossibilitado de voltar à pátria, cujo clima se não compadece com o estado de sua saúde, cuida em passar da Itália a Portugal, onde acabe os dias, e onde logre, diz ele, o inefável prazer de ouvir a sua língua falada pelo povo, e sinta ainda alguns toques de que a alma se comprazia na mocidade
Homem moldado à antiga, a sua velhice sossegada e digna passa-se na prática de todas as virtudes, e na efusão dos sentimentos de amizade, indulgência, e brandura que sempre caracterizaram a sua alma afetuosa. Essa placidez porém nem é inerte e egoísta, nem estéril. Se a ocasião se depara, e as idéias, as palavras, e os sucessos vibram as cordas que tocam no amor da pátria e da liberdade, ou no ódio do crime e do vício, vê-lo-eis inflamar-se como nos dias da primeira mocidade e das grandes lutas, com que poderia repetir-se, e aplícar-se-lhe o dito da rainha, cujo lastimoso fim cantou na sua versão:
Sente os vestígios da primeira chama.
É assim também que, quase aos sessenta anos de idade, para coroar dignamente uma carreira tão honrosa, empreendeu com juvenil ardor a tradução completa dos poemas de Homero — tarefa colossal que leva já em mais de meio, pois finda a da Ilíada, deu já princípio à da Odisséia.
O célebre filósofo e escritor estóico exclamava transportado — que não havia espetáculo mais digno dos deuses, que o do homem justo lutando com a adversidade. Se não tão grandioso, não é certo menos meritório o do homem de bem contente da medíocre fortuna, enchendo a vida tranqüila e proficuamante enquanto lhe ela dura, prestes a deixá-la sem pesar quando aproximar-se o derradeiro dia.
Este espetáculo consolador e cheio de ensino nos apresenta Odorico Mendes. Feliz o escritor a quem coube traçar as linhas singelas que servem de moldura à sua nobre imagem, se elas conseguirem fortalecer os sentimentos de estima e veneração de que sempre foi objeto entre os seus este homem distinto, cuja preciosa amizade faz o orgulho dos que a possuem, como a sua vida toda inteira honra a terra que lhe deu o berço.”
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Notas
(1) Foi publicado em francês sob o titulo: — L’Oyapoc et l’Amazone. Question bresilienne et française. — 2 vol, Paris, 1861.
(2) Sobre as diferentes produções de Odorico Mendes e as edições que têm tido, veja-se no Dicionário Bibliógrafo do sr. Inocêncio Francisco da Silva, T. 6, pag. 72, o artigo respectivo, onde também o sábio e erudito escritor português em traços concisos e substanciais faz justiça ao elevado merecimento do brasileiro, e confessa nobremente o erro a que foi induzido acerca da verdadeira originalidade do Palmeirim de Inglaterra.
(3) Ambos estes juízos que extratamos se encontram em sua íntegra na edição do Virgílio Brasileiro de 1856, pag 2. e 797.
(4) Foi admitido por votação unânime, e sob proposta do sr. Antônio José Viale, em sessão de 23 de Outubro deste ano.
* * *
Sobre a Morte de Odorico
O Sr. A. R. Saraiva Escreveu o Seguinte na “Nação”:
Londres, 23 de Janeiro de 1865.
“Vejo na correspondência do Rio de Janeiro, ultimamente publicada pela Nação, comemorada a perda que teve o Maranhão, de três de seus ilustres filhos, sendo um deles o meu amigo, já do tempo de Coimbra, Manoel Odorico Mendes, homem de não vulgar merecimento, e a quem a literatura portuguesa da América, — irmã ou antes filha da nossa literatura pátria, — deve mui valiosos serviços. Parece-me pois não deixarão de ler-se com seu interesse os seguintes particulares das últimas três ou quatro semanas da sua vida, e alguns outros que lhe tocam.
“Escreveu-me de Paris, onde tinha vindo residir há 16 anos (e onde se deu a sérios e assíduos estudos e trabalhos de literatura clássica) dizendo-me nos fins de Julho próximo passado, que antes de voltar ao seu país natal, para onde tencionava partir sem demora, desejava visitar Londres; e, sendo possível, alojar-se, pelos 15 dias que estaria aqui, na mesma casa onde eu moro, apetecendo que eu pudesse em parte servir-lhe de língua e direção (entendendo ele a língua inglesa escrita, mas não falava). Respondi-lhe afirmativamente, e com efeito aqui chegou em 7 de Agosto, acompanhado de sua irmã, que há muitos anos estava sempre com ele. Abracei-o com o prazer com que se abraça um amigo sócio da mocidade ao encontrá-lo na idade madura; recordamos coisas e pessoas da sociedade dos Amigos das Letras, de que ambos fomos sócios em Coimbra nos anos de 1822 e 1823, e outros fatos e circunstâncias do mesmo tempo, cujas lembranças tinha ainda muito mais frescas e exatas do que eu. Conversamos sobre a sua boa tradução de todo o Virgílio, a que deu o título de Virgílio Brasileiro; e por sinal que, com franqueza e docilidade característica, ele mesmo acusou e admitiu a razão, com que eu amigavelmente lhe criticara duas passagens na tradução das Bucólicas. Deu-me conta da viagem que fizera ultimamente à Itália em razão principalmente do culto quase religioso, que consagrava ao cantor da Æneas, cujo túmulo fora visitar em Pausilippo, com veneração e parcialidade não menores que as de Sílio Itálico. Referiu-me como fora presenciar em Petola (a antiga Andes, a aldeia perto do Mântua, onde nascera Virgílio) os mesmíssimos lugares, o mesmíssimo aspecto do país, em que se inspirava o gênio campestre do grande poeta latino. Falou-me de Roma, de Florença, de Nápoles, de Leorne, de Pisa; tendo residido principalmente nesta última sossegada cidade; por sua facilidade para estudos, e por sua posição central, havendo feito dela sua residência principal na Itália, e dali fazendo excursões a outros lugares de interesse. Facilmente se compreenderá como a conversação de homem tão clássico sobre coisas de tais lugares não podia deixar de possuir considerável interesse.
“Com justo sentimento de merecido triunfo, me disse ter concluído e aperfeiçoado, pronto para impressão o manuscrito da sua tradução de Homero — a que dava o título de Homero Brasileiro — e que ia fazer imprimir e publicar assim que regressasse ao Brasil; tendo a assembléia provincial do Maranhão, justamente reconhecida e obsequiosa ao mérito de seu compatriota, votado, e ele recebido uma soma suficiente, para a impressão da obra.
“Durante sua estada aqui visitou os objetos mais notáveis da cidade, e não com o frívolo e superficial espírito com que a maior parte dos visitadores hoje de Paris e Londres, etc., correm à pressa do hotel para o palácio de Cristal, ao jardim dos bichos, deste para as casas do parlamento, e abadia de Westminster, dali para o túnel, à noite para as figuras de cera, ou alguma sala dançante, e na manhã seguinte para o caminho de ferro e barco para Paris.
“Odorico quis observar primeiro o aspecto geral da cidade, em suas principais feições, tomando uma carruagem descoberta, e pedindo-me dirigisse eu a excursão; o que fiz, segundo seus expressados desejos; guiando-o às mais belas e notáveis partes da capital; ruas, praças, terraços, parques, pontes, etc., entrando mesmo, bem que de corrida, em alguns edifícios, como na bela e grande catedral católica de S. Jorge, e no Museu das Artes Kensington. Viu depois em detalhe as coisas mais interessantes, comigo, quando podia acompanhá-lo, ou com outros guias.
“Tinha finalmente determinado, com a precisão que punha em todas as suas coisas, partir de novo para França no dia 19 de Agosto, e a isso se preparara. Foi convidado a jantar, em Norwood, perto do palácio de Cristal, no dia 17, por Sir Alexandre Reid, seu amigo e muito conhecido já do Brasil, que também me fez o favor de convidar-me ao mesmo tempo. Fomos, com efeito, Odorico, sua irmã e eu às horas competentes; ali passamos agradavelmente a melhor parte do dia, estando Odorico, no mais alegre humor e disposição aparente, durante o jantar e todo o mais tempo. Pelas 7 da tarde (ainda claro dia) partimos para voltar à cidade, pela ferrovia de Croydon que tinha uma estação ali perto. Teríamos andado um terço da distância (que toda ela não chegaria a duzentos passos) quando Odorico, que ia um pouco adiante com Sir A. Reid, seguindo logo eu e a irmã, de repente começou a gemer e queixar-se, dolorosamente, de sufocação e dor no peito, podendo apenas ter-se de pé. Demos-lhe os braços eu e Sir A. Reid, e o fomos ajudando a chegar lentamente ao fundo de uma escada por onde ali se sobe ao plano da estação: parou um instante ao fundo da mesma escada, enquanto se lhe oferecia descanso, ou voltar à casa de sir A. Reid; mas, depois de curta hesitação, animou-se a subir a escada com certa precipitação, sustentando-lhe nós os braços. Ao chegar ao cimo mal podia ter-se, e se encostou por um pouco, gemendo, à grade de pau que guarnece o caminho até à estação, que está dez ou doze passos adiante. Aí se assentou, esperando o trem, sempre sofrendo e gemendo; mas como outra vez lhe tinha já sucedido nos mesmíssimos lugares acidente e sofrimentos semelhantes, que logo depois passaram, julgámos e julgou ele também, que assim agora sucederia, e que, entrado na carruagem agasalhada, voltaria como da outra vez à casa sem maior inconveniente. Nisto chegou o trem, e bem que o nosso amigo se achasse muito sofrendo, e lhe propuséssemos de descansar mais, e esperar outro trem que mui breve passaria, insistiu em partir sem detença; lavantou-se e entrou na primeira carruagem que se achava na frente, e que era da terceira classe; não atendendo ao dizermos-lhe, que os nossos bilhetes de retorno eram de classe melhor, e respondendo “não importa”, porque o sofrimento o apertava muito. Moveu-se o trem, e como aquela classe não tivesse vidros nas portinholas, era mui forte e incômodo para um doente assim a corrente do ar frio que o rápido movimento do trem produzia. Aproveitei, pois, a primeira paragem, que era de coisa da dous ou três minutos depois, para chamar um dos guardas, e transferir-nos a uma carruagem de primeira classe, mui cômoda e abrigada. Nesta continuamos a jornada por coisa de um quarto de hora mais, até à estação final — que bem final foi para o meu pobre amigo, o qual foi até ali sempre sofrendo, expectorando, e gemendo. Perguntando-lhe sua irmã, já perto do termo da jornada, se lhe doía o peito? respondeu, com certa impaciência — Doi-me tudo — e foram as últimas palavras que neste mundo proferiu.
“Dous minutos depois, e passadas as oito da noite, parou o trem na estação de Londres, e D. Melitina (a irmã) me disse ansiosa — “Veja se chama um dos guardas, que nos ajude a levar meu irmão a uma sala quente, a ver se lhe passa este mal.” — Saltei da carruagem; chamei o primeiro guarda que apareceu; voltei a entrar, tudo em menos de um minuto, e achei Odorico morto, bem que encostado, como se dormisse, ao canto da carruagem! Não sabendo porém ainda se com efeito era morto, tomei-lhe o pulso, e achei que todo o movimento do sangue tinha cessado. A irmã que estava de pé na maior ânsia me disse com hesitação — “Estará morto?” — Ao que respondi: — “Infelizmente creio que sim”.
“Pronto chegou médico ou cirurgião, que os empregados da Ferrovia mandaram à pressa vir; entrou na carruagem, tomou o pulso a Odorico, e sem dizer uma palavra desatou-lhe o lenço de seda preta do pescoço, e lhe atou com ele o queixo, pondo-se também a fechar-lhe os olhos. Esta linguagem de ação do facultativo era assaz expressiva; e a pobre D. Melitina a entendeu bem, ficando como fora de si, não querendo consentir que o cadáver se removesse da carruagem, e entregando-se pelo momento àquela intensa dor em que não tem poder a razão.
“Os empregados da estação foram os mais atenciosos, e pacientes que se pode imaginar; eu persuadi, e representei o melhor que pude; e finalmente, depois de considerável demora, tirou-se o corpo do veículo, e transferindo-se a uma espécie de leito portátil, levou-se a um lugar próprio; onde a polícia tinha de se encarregar do cadáver até se fazer o exame (inquest); depositando-se no entanto na casa dos mortos da paróquia.
“Aqui foi a grande dificuldade; pois os homens não podiam deixar sair o cadáver senão levado pela polícia; e D. Melitina não queria, no excesso de sua dor, separar-se de modo algum do corpo de seu irmão.
“Passaram boas duas horas antes que afinal a razão recobrasse na triste senhora o seu império. Fui no entanto comunicar da sua parte a Paris e a Narwood a triste notícia pelo telégrafo; e finalmente, perto das onze da noite, consentiu em deixar a estação, quis ir levar a funesta nova ao digno secretário aqui da missão do Brasil, o cavalheiro Aguiar de Andrade, chegando à casa dele bem depois das onze. Ele e sua amável esposa, convidaram, com a maior simpatia e bondade a D. Melitina a ficar com eles ao menos aquela noite, antes que voltar para uma casa inglesa, donde pela manhã tinha saído alegre com seu irmão. Assim se fez, e eu voltei à minha casa, passada meia noite, como se pode supor, depois desta singular partida de prazer e de luto!
“No dia seguinte (18 de Agosto) fui indagar onde estava o corpo; e tive dificuldade em descobrir o sítio, daqui mais de uma légua e meia, num lugar e beco o mais escuso e retirado, onde, junto de um cemitério, estava a casa dos mortos daquela remota freguesia. A 19 fomos, eu e D. Melitina, assistir ao inquérito diante do magistrado competente (o Coroner) e seu jury; e depor, como testemunhas presenciais, das circunstâncias da morte. Estavam presentes igualmente os oficiais da Ferrovia que tinham removido o cadáver, e também o doutor que lhe atara o queixo.
“Do que eu disse, e do que disse o mesmo doutor, concluiu-se, que fora morte natural, por moléstia asmática do coração.
“Quis D. Melitina ir ver o corpo de seu irmão à casa dos mortos que ficava a considerável distância do lugar do inquérito; e ali com toda a cortesia nos conduziu o competente empregado da paróquia. Era este depósito dos mortos uma pequena casinha térrea, de telha vã, junto ao cemitério, com uma pequena porta velha. Dentro toda a mobília era um caixão de pau sobre uma mesa ou bancos de má-morte, e, se bem me lembro, um banquinho ou cadeira sobre que estava, mui bem dobrado, o fato exterior de Odorico. No caixão, sem tampa, estava em roupa branca o corpo, tão plácido o rosto, e sem mudança que mais parecia dormindo que morto. Este espetáculo renovou naturalmente a dor de D. Melitina, que ali se deteve ajoelhada junto ao caixão por algum tempo meditando; enquanto eu rapidamente comparava no meu espírito, o Odorico de Coimbra, de Lisboa, de posições importantes e influentes na sua sua terra, nas câmaras do Brasil; o literato de Paris, de Itália, o de anteontem de manhã, ao jantar, à tarde com aquela massa inanimada e inerte, que ia logo apodrecer e dissolver-se, para não tornar a aparecer até ao dia de juizo? Sic transit, eu dizia!
“Nesse mesmo dia fizemos vir o cadáver para a competente casa funerária, de um dos principais armadores, que se encarregou do funeral; e no dia imediato, 20, fomos fazer o enterro ao cemitério católico de Kensal Green; acompanhando e oficiando o excelente e reverendo padre Tourget, da capela francesa, fazendo a missão do Brasil as despesas do funeral.
“O Dr. Cros, genro de Odorico, e hábil médico em Paris, donde chegou na manhã do mesmo dia 20, assistiu com D. Melitina, com o cavalheiro Aguiar d’Andrada, e comigo, ao enterro de seu sogro, num dos melhores lugares do cemitério sobredito.
“Tanto D. Melitina como o Dr. Cros, pediram-me muito se pusesse alguma inscrição e memória sobre a sepultura de Odorico; e a missão do Brasil generosamente se prestou a pagar a despesa.
“Fiz, pois, que se pusessem à cabeceira e aos pés do jazigo lápidas tumulárias, com esta inscrição, em que me pareceu satisfazer aos desejos dos parentes do ilustre defunto:
MANOEL ODORICO MENDES
NASCEU EM
S. LUIZ DO MARANHÃO,
A
24 DE JANEIRO DE 1799:
MORREU EM LONDRES
A
17 DE AGOSTO DE 1864.
SOB OS TITULOS DE
VIRGILIO BRAZILEIRO
E
HOMERO BRAZILEIRO
TRADUZIO EM VERSO PORTUGUEZ
OS DOUS GRANDES POETAS.“Dizem-me ser muito provável que os seus compatriotas mandem trasladar para o Maranhão os ossos de Manoel Odorico Mendes; e também me afirmam, que S. M. o Imperador do Brasil vai mandar imprimir à sua custa a tradução de Homero que o mesmo Odorico acabava de concluir e aperfeiçoar.
“Creio que a Nação dará gosto aos nossos amigos brusileiros, publicando estes autênticos particulares acerca de um homem que ao Brasil faz honra.
A. R. Saraiva.”
___________
* * *
[MANOEL ODORICO MENDES]
No Dicionário Bibliográfico Português diz o Sr. Inocêncio Francisco da Silva o seguinte:
“Manoel Odorico Mendes, comendador da ordem de Cristo no Brasil, Inspetor aposentado da Tesouraria da província do Rio de Janeiro; Deputado que foi à Assembléia Geral Legislativa do Império em 1824 a 1847; Membro efetivo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro; da Sociedade Amante da Instrução, e da Sociedade Instrução elementar; Sócio honorário da Academia Imperial das Belas Artes do Rio de Janeiro; etc. Nasceu na cidade de S. Luís do Maranhão a 24 de Janeiro de 1799, e foram seus pais o capitão-mor Francisco Raimundo da Cunha, fazendeiro de Itapicuru, e sua mulher D. Maria Raimunda Corrêa de Faria. Tomou porém o apelido de Mendes de seu tio, padrinho e pai adotivo Manoel Mendes da Silva.
“Concluídos na pátria os primeiros estudos, veio para Portugal com o desígnio de graduar-se na faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra; e aí fez inteiro o curso de Filosofia natural depois de ter estudado a Filosofia racional e moral, e língua grega. Não pôde porém, lograr o seu intento, em razão de inconvenientes que lhe sobrevieram, e que o obrigaram a voltar ao Maranhão em 1824. O aspecto que então apresentavam os negócios politicos do país, o determinou a tomar neles parte ativa, redigindo por algum tempo o Argus da Lei, periódico que lhe adquiriu a confiança dos seus comprovincianos, e a nomeação de Deputado à primeira Assembléia Geral Legislativa do Brasil. Em 1826 foi no Rio de Janeiro colaborador de uma folha liberal, escrita pelo francês Pedro Chapuis, até que este houve de sair violentamente do Brasil por ordem do Sr. D. Pedro I. Associado aos deputados Vergueiro, Costa Carvalho e Feijó, que foram depois regentes do império, entrou na criação do jornal Astréa: e passando depois com o segundo dos nomeados para a província de S. Paulo, onde se introduzia pela primeira vez a tipografia, foi redator do Farol Paulistano, que obteve grande influência nas províncias do norte. Como não houvesse ali de princípio senão um único compositor, e esse de nação espanhola, viu-se até obrigado a trabalhar ele próprio como compositor, para vencer a publicação regular daquela folha! Mais tarde em 1839, redigiu conjuntamente com o falecido Aureliano de Souza Oliveira Coutinho, depois visconde de Sepetiba outro jornal político, a Liga Americana.
As demais particularidades que dizem respeito a estes trabalhos, e ainda mais a intervenção que durante alguns anos exerceu nos sucessos e crises políticas do Brasil em suas diversas fases, até retirar-se para a Europa em 1847, devem aparecer expostas à luz pública em um estudo biográfico, que se espera sairá na Revista Contemporânea de Portugal e Brasil, preparado (a pedido da redação) pela hábil pena do seu patrício e amigo o Sr. comendador J. F. Lisboa, residente há anos nesta cidade em comissão do governo imperial.
Além das folhas periódicas supra-indicadas e de artigos em prosa e verso, insertos em outros jornais políticos, tem publicado pela imprensa as seguintes composições:
MEROPE, tragédia de Voltaire traduzida em Português. Rio de Janeiro. Typ, Nac. 1831, 8º de 86 pags. — Saiu com as iniciais de seu nome M. O. M.
TANCREDO, tragédia de Voltaire traduzida em português. Rio de Janeiro. Typ. de Laemmert 1839. 8º de XVI—169 pags. (com texto em frente). — Saiu com as ditas iniciais.
Estas versões são feitos em versos hendecassílabos. Consta que uma e outra foram reproduzidas no Arquivo Teatral do Rio de Janeiro, porém não me foi possível ver até agora os números respectivos.
HINO À TARDE. Rio de Janeiro, 1832. Esta muito elogiada peça foi depois reimpressa na Minerva Brasiliense, tomo I, pag. 367, e ultimamente inserta juntamente com uma ode e um soneto do autor, na coleção de poesias, que sob o título de Parnaso Maranhense se publicou em 1861 no Maranhão, volume de VI—285 pags. nitidamente impresso de que obtive há pouco um exemplar por favor de meu amigo o Sr. M. de S. Melo Guimarães. Acham-se as ditas peças de pags. 210 a 216.
Eneida Brasileira, ou tradução poética da epopéia de P. Virgílio Maro, Paris na Typ. de Rignoux 1854, 8º gr. de 392 pags. — A cada um dos livros do poema seguem-se anotações criticas e filológicas do tradutor.
A propósito desta tradução, disse o secretário do Instituto Histórico do Brasil, no seu relatório inserto na Revista trimensal suplemento do tomo XVIII, pag. 31: “A Eneida Brasileira tem já merecido e conquistado altos louvores dos mais imparciais e habilitados juízes: a unha do crítico severo poderá marcar uma frase menos bem interpretada, um pensamento que a alguns pareça obscuro; poderá fazer sobressair as imperfeições que inevitavelmente selam sempre a obra do homem; acreditamos porém que não haverá quem se lembre de disputar ao nosso compatriota a glória de ter enriquecido a nossa literatura com a melhor tradução da Eneida que se tem feito em português.”
Passados quatro anos o autor publicou-a de novo, aumentada com o das obras restantes do épico latino, e sob o título seguinte:
VIRGILO BRASILEIRO, ou tradução do poeta latino. Paris na Typ. de W. Remquet & C. 1858, 8º gr. de 800 pags. — Compreende este grosso e compacto volume (do qual possuo um exemplar, que seu autor se dignou de ofertar-me por intervenção do já citado Sr. J. F. Lisboa) depois de uma breve advertência ao leitor, um juízo crítico sobre a versão da Eneida, assinado pelo nosso distinto latinista o Sr. A. C. Borges de Figueiredo, e concebido nos termos mais lisonjeiros para a obra, concluindo o ilustre professor “ser opinião não só sua, senão de outros respeitáveis literatos, que esta tradução leva a palma a todas as traduções completas que do poeta latino até agora possuímos.” Segue-se uma notícia acerca de Virgílio e de suas obras. Vem depois a Bucólica, seguida de notas a cada uma das éclogas; os quatro livros das Geórgicas com notas a cada um deles; e finalmente a Eneida que difere algum tanto da edição precedente, em razão das correções e aperfeiçoamentos que o autor lhe introduziu; ampliando igualmente as anotações respectivas, que repletas de erudição de toda a espécie, manifestam não só a sua vasta instrução, e o profundo conhecimento do idioma vernáculo, mas justificam o conceito que dele formam os que o reputam como escritor mais conciso entre os seus atuais contemporâneos de Portugal e do Brasil.
Para dar uma prova dessa concisão, e o exemplo da prudente sobriedade com que dispõe dos recursos da linguagem quem dela possui um riquíssimo tesouro, acumulado à custa de talento e estudo, apresentarei o seguinte quadro comparativo do número de versos hendecassílabos portugueses, que na tradução de cada um dos livros da Eneida correspondem aos hexâmetros do original latino, tanto na primeira edição de 1854, como na segunda de 1858.
N. dos versos no latim
N. dos versos na tradução
(edição de 1858)Idem na primeira
(edição de 1854)Livro 1º
760
790
791
Livro 2º
804
830
840
Livro 3º
718
723
750
Livro 4º
705
740
765
Livro 5º
871
877
896
Livro 6º
902
936
939
Livro 7º
817
818
825
Livro 8º
731
728
730
Livro 9º
818
798
800
Livro 10º
908
894
894
Livro 11º
915
885
886
Livro 12º
952
925
926
Seriam aqui supérfluos todos os comentários para o leitor inteligente na matéria. 9901 hexâmetros latinos convertidos em 9944 hendecassílabos portugueses!!! E note-se, que nos últimos cantos a versão é por tal modo cerrada que compreende cada um menor número de versos que o respectivo original virgiliano!
Levei adiante a minha curiosidade, e comparei entre as duas versões da Eneida, pelo Sr. Odorico Mendes e pelo Dr. Lima Leitão. Eis o resultado:
Versão do Sr. Odorico
Versão de Lima Leitão
Livro
1º
790
856
”
2º
830
919
”
3º
723
816
”
4º
740
876
”
5º
877
980
”
6º
936
1082
”
7º
818
988
”
8º
728
905
”
9º
798
1016
”
10º
894
1153
”
11º
885
1132
”
12º
925
1134
Total
9.844
11.857
Tem pois a primeira menos que a segunda 1918 versos!!!
* * *
Quantos versos tem o original e quantos a tradução
O original
A tradução
Livro I.
601
Livro I.
532
Livro II.
877
Livro II.
776
Livro III.
461
Livro III.
394
Livro IV.
544
Livro IV.
458
Livro V.
909
Livro V.
772
Livro VI.
529
Livro VI.
468
Livro VII.
483
Livro VII.
389
Livro VIII.
561
Livro VIII.
455
Livro IX.
709
Livro IX.
583
Livro X.
579
Livro X.
472
Livro XI.
849
Livro XI.
719
Livro XII.
471
Livro XII.
370
Livro XIII.
837
Livro XIII.
678
Livro XIV.
522
Livro XIV.
441
Livro XV.
746
Livro XV.
628
Livro XVI.
867
Livro XVI.
737
Livro XVII.
761
Livro XVII.
635
Livro XVIII.
616
Livro XVIII.
526
Livro XIX.
424
Livro XIX.
336
Livro XX.
503
Livro XX.
408
Livro XXI.
611
Livro XXI.
512
Livro XXII.
515
Livro XXII.
434
Livro XXIII.
897
Livro XXIII.
741
Livro XXIV.
804
Livro XXIV.
652
Soma
15674
Soma
13116
* * *
Prefácio
Pe. Auguso Magne
A pessoa de Homero está para sempre imersa nas trevas impenetráveis da lenda. Ignoramos quando viveu; não sabemos que terra privilegiada lhe ouviu os primeiros vagidos. Apenas nos conta que várias cidades da Iônia — e outras ainda — disputavam entre si honra tão subida. Uma tradição mais persistente e quiçá menos remota da verdade o dava como natural de Esmirna, onde teria nascido por volta do século IX ou VIII antes de Cristo; dizia mais que, embora natural de Esmirna, exercera a maior parte de sua atividade na ilha próxima de Quios, onde, efetivamente, em tempos históricos, lhe era prestado culto, e que mantinha uma escola de rapsodos chamados Homéridas, ou seja “descendentes de Homero”. Venerandas tradições representavam-no como um velho cantor, pobre e cego que, peregrinando de terra em terra, recompensava a quem o agasalhava com a declamação dos seus poemas. Mas este quadro é pura fantasia a que não corresponde personalidade individual. É apenas a figura idealizada dos rapsodos perambulantes, de que Homero era tido como protótipo.
Se da pessoa do poeta nada sabemos, não é menos impenetrável o véu que encobre a composição dos poemas e sua autoria. Com efeito, já entre os antigos havia profundo desacordo no tocante às obras de que Homero teria sido autor; duvidavam se eram dele tanto a Ilíada como a Odisséia, ou apenas um destes dois poemas; e bem assim se lhe pertenciam ou eram de outros poetas as epopéias que integram o chamado ciclo épico — a Tebaida, os Epígonos, os Cantos Cíprios.
Tudo isto deu origem a um grave problema, a que se costuma dar o nome de “questão homérica”, problema que deita as suas raízes já na própria antiguidade e que tem por objeto delimitar a produção genuína de Homero. A princípio, além dos Hinos e de poemas menores como o Margites e a Batracomiomaquia, eram, sem discriminação alguma, atribuídos a Homero quase todos os poemas do ciclo épico. Assim, por exemplo, o poeta elegíaco Calino, que viveu no século VII antes de Cristo, dava Homero como autor da Tebaida. Mas com o despertar da crítica entre os próprios Gregos, aos poucos o cenário se foi modificando, devido, em especial, à influência dos sofistas e dos historiadores iônio-áticos no século V A.C., e ao ensino dos gramáticos alexandrinos. Heródoto, por exemplo, atribuía ainda a Homero a Tebaida, mas hesitava quanto aos Epígonos e aos Cantos Cíprios.
Só no século IV, em princípio do período alexandrino, o patrimônio de Homero ficou geralmente restringido à Ilíada e à Odisséia, não tanto por motivos históricos quanto em virtude de considerações estéticas: os poemas do Ciclo eram apreendidos como obra de arte inferior e produto de inspiração diferente. Mas, dentre os gramáticos alexandrinos, alguns, como Zenão e Helânico — impugnados, a este respeito, por seu ilustre contemporâneo Aristarco de Samotrácia — foram mais longe e chegaram a negar a Homero a própria Odisséia, por este poema lhes parecer mais recente que a Ilíada; separavam, pois, uma da outra as duas grandes epopéias, sendo, por isso, alcunhados de “separatistas”, k horizontes. A maior parte dos outros gramáticos, seguindo na esteira do celebérrimo Aristarco, julgaram poder joeirar os poemas homéricos, e do elemento fundamental, genuíno, separavam acréscimos adventícios e partes de autenticidade controvertida, sem falar em interpolações de versos ou grupos de versos.
Reacesa nos tempos modernos, a questão homérica tomou novo aspecto, muito mais sério, em conseqüência de pungente dúvida que fugira aos antigos — a dúvida relativa à própria existência pessoal de Homero. O primeiro em levantar a suspeita foi o abade francês Fr. Hedelin d’Aubignac em suas Conjectures académiques ou dissertation sur l’lliade, publicadas em 1715, mais de meio século após a morte do autor, e que, naquela época, passaram quase por completo despercebidas. Seguiu-se-lhe o italiano G. B. Vico em Scienza Nuova (1725) e finalmente, com mais apreciável resultado, Frederico Augusto Wolf, cujos Prolegomena ad Homerum são de 1795. Todos eles, baseados em razões históricas, filológicas ou estéticas, sustentaram e tentaram demonstrar, por processos embora diferentes, que os chamados poemas homéricos não constituem obra pessoal de determinado poeta, mas enfeixam numerosas composições de aedos anônimos e até mesmo do próprio povo grego em seu período lendário de gestas e heroísmo. Assim Homero foi reduzido a mero símbolo e seu nome foi considerado seja como simplesmente alegórico, seja, quando muito, como o nome de um dos supostos autores primitivos, quiçá de todos o principal, seja, por fim, como o nome do compilador definitivo de rapsódias tradicionais.
A teoria era destinada a encontrar favorável acolhida nesse primeiro despertar do romanticismo, que, na poesia de épocas obscuras e barbáricas, descobria as manifestações da índole dos povos, a emancipação do estro popular, a geração espontânea das grandes epopéias nacionais.
Dos ensinamentos de Wolf surgiu toda uma escola de filólogos que desfrutaram incontestável predomínio no século XIX. Estes desagregaram em mil maneiras a unidade quer da Ilíada, quer da Odisséia, dominados pela obsessão de discriminar a contribuição parcial de cada um desses inumeráveis cantores e reconstituir os poemas primitivos — esses poemas que, segundo o conceito predominante na corrente filológica do tempo, um compilador qualquer, talvez chamado Homero, teria simplesmente amalgamado em um todo artificial.
Hoje, vão-se desvanecendo aos poucos as teorias de Wolf; em geral, não por acrisia, mas por nova atitude crítica, refletida e consciente, volta-se a admitir a unidade fundamental dos dois poemas que, vistos à luz de sua inspiração poética e em sua coerência artística e espiritual, não podem resultar da fusão mais ou menos feliz de poemas diversos. Que nos poemas homéricos como em todos os poemas hajam confluído materiais preexistentes, que neles, por exemplo, estejam elaboradas as breves e vetustas canções eólicas que se nos deparam na fase evolutiva inicial da epopéia, a ninguém deverá fazer estranheza; mas este material pressuposto nada tira ao valor criativo daquele que efetivamente compôs quer a Ilíada, quer a Odisséia em sua forma atual. Em obra de arte, fator essencial é a “forma”, cunho privativo e insubstituível do gênio. A pesquisa das fontes, se é legítima e até mesmo oportuna, não deve exorbitar da própria esfera.
Igualmente, torna-se a acreditar na existência de Homero considerado não já como simples rapsodo, como cantor apenas de um episódio, como autor do núcleo originário de uma das epopéias ou de ambas, senão como o poeta genial que criou aquele todo unitário. Está hoje em plena decadência o conceito romântico da poesia nascida do povo — conceito de que, ou consciente ou inconscientemente, manava toda a crítica desagregadora de Homero. Já não se admite que uma obra de arte possa ser criação coletiva de um povo e possa derivar de outra fonte que não seja uma determinada individualidade artística. Ora esta individualidade se manifesta sem dúvida alguma tanto na Ilíada como na Odisséia. Questão diferente — secundária — é a de saber se é um e o mesmo o autor de ambos os poemas. Nem tão pouco nos assiste direito algum de lhe tirarmos o nome de Homero, que lhe atribui a antiguidade. De sua pessoa, nada nos refere a história, que em seu tempo não existia; nada nos diz o próprio poeta, todo absorto na contemplação mística que ele reanima ante nossos olhos com objetividade perfeita. Sua existência, em todo caso, não será anterior ao século IX-VIII A.C.. É autor da Ilíada, e talvez da Odisséia que, no caso negativo, deverá ser considerada a mais feliz criação da escola fundada pelo sumo poeta, cujos discípulos, os Homéridas, seguindo-lhe as pegadas imortais, urdiram a rede complexa do ciclo épico da Iônia antiga.
Tanto a Ilíada como a Odisséia constam de vinte e quatro livros ou cantos. Esta divisão, conquanto não primitiva, talvez seja anterior aos gramáticos alexandrinos, a que se costuma atribuir.
* * *
A Ilíada é a epopéia da conquista de Ílio, nome com que, na mais remota antiguidade, era designada a cidade de Tróia.
Em poucas linhas, é o seguinte seu entrecho.
Causa da guerra foi, segundo a lenda, o fato de Páris, filho de Príamo, rei de Tróia, haver raptado a jovem Helena, esposa do príncipe grego Menelau. Já corria o décimo ano da guerra, quando se produz violento dissídio, nos arraiais helênicos, entre o jovem chefe tessálico Aquiles e o poderoso rei de Argos, Agamemnon, comandante supremo de todos os Helenos ou Aqueus confederados para conquistar Ílio. Agamemnon rapta a Aquiles a jovem cativa Briseida, que lhe fora dada em prêmio de seu valor e à qual dedicava profundo afeto. Aquiles, dominado da mais violenta indignação, declara que, dora em diante, tanto ele como seus valentes guerreiros Mirmidões hão-de desistir da luta, enquanto a mãe dele, a deusa marinha Tétis, consegue de Zeus, supremo regedor dos homens e dos numes, a promessa de que fará pagar caro a afronta feita ao herói. Com efeito, Agamemnon, enganado por sonho falaz de Zeus, se apronta para desfechar sem Aquiles o ataque decisivo. Antes de tudo, tenta, pouco oportunamente, as disposições do exército, onde, por pouco, alastra a revolta, sofreada graças a Ulisses, que fustiga o insolente e rebelde Tersites e lembra o oráculo dado por Calcas em Áulis, segundo o qual Tróia devia cair após dez anos de sítio. Abalando os dois exércitos adversos para o campo da luta, Heitor, herói principal dos Troianos, propõe que a sorte da guerra seja decidida mediante um duelo entre seu irmão, o formoso Páris, raptor de Helena, e o rei de Esparta e irmão de Agamemnon, Menelau, que, para reaver a esposa, coligara contra a Ásia todas as forças da Grécia. Neste imponente cenário, aparece o venerando rei de Tróia, Príamo que, ladeado dos filhos Heitor e Páris e da própria Helena, contempla do alto de uma torre o exército grego e cada um de seus chefes, apontados por Helena. O duelo, no entanto, não leva ao desempate operado porque Páris, no momento de sucumbir, é arrebatado, envolto em nuvem, por sua protetora Afrodite e um frecheiro aliado dos Troianos, Pândaro, fere traiçoeiro a Menelau com uma frecha. Então se desencadeia furiosa batalha (cantos V-VII). Sente-se que os Troianos, culpados de traição, devem levar a pior. Estão para vencer os Aqueus, dentre os quais especialmente Diomedes, amparado por Atena, faz prodígios, chegando mesmo a ferir Afrodite e Ares, protetora de Tróia. Heitor corre por um instante à cidade para ordenar à sua mãe Hécuba e às demais mulheres que tentem com preces aplacar a adversa Atena, e, junto às portas Ceias, se encontra com sua mulher Andrômaca e o filhinho Astianax — encontro comovedor todo impregnado de trágicos presságios: sente-se que o herói deve sucumbir, que a sorte de Tróia está selada. Voltando ao campo da luta, Heitor suspende as hostilidades, desafiando a combate singular os heróis gregos. Ajax é escolhido. Mas tão pouco este duelo é decisivo, porque, antes de ele terminar, sobrevém a noite e é concluído um armistício. Os Aqueus aproveitam-se dele para sepultar os seus mortos e erguer um baluarte ao redor das tendas. E logo, de súbito, ao romper da aurora, reacende-se nova batalha, que dura o dia todo (canto VIII) e termina desastradamente para os Aqueus, pois, desamparados de suas divindades, têm que acolher-se ao baluarte. Os Troianos, de tarde, acampam, ameaçadores, a pouca distância na planura. Assim, por entre vicissitudes, vem-se cumprindo a promessa de Zeus; os Aqueus são castigados da ofensa feita a Aquiles.
E assim termina o que se pode considerar a primeira parte do poema, que abrange os cantos I-VIII, ou seja exatamente um terço da epopéia.
Durante a noite, Agamemnon é tomado de remorso e, sem esperar pela aurora, a conselho de Nestor, manda a Aquiles uma embaixada composta de Ulisses, Ájax e o velho Fênix. Mas Aquiles é inexorável. Durante a noite ainda, dois dos principais guerreiros gregos, Diomedes e Ulisses, para mostrar que a coragem não desapareceu nos arraiais helênicos, tentam uma incursão no acampamento troiano. Em seguida, pela manhã, reacende-se a batalha mais longa e furiosa do que nunca. É a terceira batalha da Ilíada que, através muitas peripécias, enche os cantos XI-XVIII. Os Aqueus, postos em fuga e perdido seu baluarte, recebem inesperado auxílio do deus marinho Posídon e da consorte de Zeus, Hera, que, com astúcia feminina, consegue adormentar no monte Ida, o divino esposo. Mas logo este, acordando, restitui a vitória aos Troianos, que já se precipitam para os navios inimigos, a atear-lhes fogo. Na iminência do perigo, Aquiles, implorado, entrega as próprias armas ao amigo Pátroclo, permitindo-lhe que, revestido com elas, desça ao campo á testa dos Mirmidões. E Pátroclo acorre e acossa os Troianos, perseguindo-os — contra a proibição de Aquiles — até às muralhas de Tróia, onde é morto de uma lançada desferida por Heitor. Em torno do cadáver, acende-se viva luta; as armas invencíveis são conquistadas por Heitor, mas Ájax arranca o cadáver aos inimigos e o leva às tendas. Então solta terríveis bramidos o desespero de Aquiles, que, sem armas, ao cair da noite, com seu grito possante, afugenta os Troianos.
E aqui termina a segunda parte do poema, de extensão pouco mais ou menos igual à primeira, e que abrange os cantos IX-XVIII.
Na terceira e última parte (cantos XIX-XXIV), narra-se a volta de Aquiles ao combate e a vingança que ele toma do matador de seu amigo Pátroclo. Provido de novas armas, fabricadas por Hefesto a pedido de Tétis, reconciliado com Agamemnon, que lhe restitui Briseida, o valoroso guerreiro se atira à frente dos mais. Fere-se a quarta e definitiva batalha do poema (cantos XX-XXII), na qual, por expresso consentimento de Zeus, tomam livremente parte céu e terra, homens e deuses. Aquiles vence a Eneias, trucida muitos dos inimigos, aferrolha a fúria do rio Escamandro e chega às portas de Ílio, onde o próprio Heitor, tomado de terror invencível, deita a fugir em corrida desabalada, acossado por Aquiles. No encalço, os dois guerreiros dão várias vezes a volta da cidade e por fim Heitor, condenado pela Fatalidade, pára, e, em combate singular, é morto ante os olhos dos seus. Do alto das muralhas de Ílio, Andrômaca vê o cadáver do marido atrozmente arrastado pelo carro do vencedor, que, inteiramente tresloucado pela sede de vingar a morte do amigo, celebra com jogos solenes os funerais de Pátroclo. Mas no fim do poema, ao encerrar-se o último canto da Ilíada — de todos o mais humano, porque, na visão lastimosa das tristes vítimas da sanha guerreira, purifica as atrocidades das paixões belicosas — o velho Príamo vem, de noite, pedir o cadáver do filho em termos tão comovedores que suas palavras constituem uma obra-prima da arte oratória. Aquiles, comovido, atende à prece do venerando ancião, e o poema termina com a narrativa confortante e pacificadora das honras fúnebres prestadas ao herói inimigo que caiu gloriosamente em defesa da pátria.
* * *
Por fim, algo deveríamos dizer no tocante à versão portuguesa da Íliada. Preferimos, no entanto, furtar-nos ao difícil encargo. Toda obra-prima de qualquer literatura é constituída pelo consórcio indissolúvel da idéia com a expressão verbal que a reveste. Não se traduz. Quando muito, será possível substituir uma obra-prima por outra de valor idêntico ou, quiçá, mesmo superior, No caso de Homero mais que em qualquer, traduttore há-de ser, fatalmente, traditore. Por isso contentamo-nos com augurar que a presente tradução portuguesa da Ilíada desperte ca espíritos de escol o desejo de se habilitarem a apreciar no próprio texto os versos intraduzíveis do imortal cantor da Hélade.
Augusto Magne
* * *
HOMERO
ILÍADAEm Verso Português
por
MANOEL ODORICO MENDES* * *
LIVRO I.
Canta-me, ó deusa, do Peleio Aquiles
A ira tenaz, que, lutuosa aos Gregos,
Verdes no Orco lançou mil fortes almas,
Corpos de heróis a cães e abutres pasto:
Lei foi de Jove, em rixa ao discordarem
O de homens chefe e o Mirmidon divino.
Nume há que os malquistasse? O que o Supremo
Teve em Latona. Infenso um letal morbo
No campo ateia; o povo perecia,
Só porque o rei desacatara a Crises.
Com ricos dons remir viera a filha
Aos alados baixéis, nas mãos o cetro
E a do certeiro Apolo ínfula sacra.
Ora e aos irmãos potentes mais se humilha:
“Atridas, vós Aqueus de fina greva,
Raso o muro Priâmeo, assim regresso
Vos dêem feliz do Olimpo os moradores!
Peço a minha Criseida, eis seu resgate;
Reverentes à prole do Tonante,
Ao Longe-vibrador, soltai-me a filha.”
Que, aceito o preço esplêndido, se acate
O sacerdote murmuraram todos;
Mas desprouve a Agamemnon, que o doesta
E expele duro: “Em cerco às naus bojudas
Não me apareças mais, quer ouses, velho,
Deter-te ou retornar; nem áureo cetro,
Nem ínfula do deus quiçá te valha.
Nunca a libertarei, té que envelheça
Fora da pátria, em meu palácio de Argos
A urdir-me teias e a compor meu leito.
Sai, não me irrites, se te queres salvo.”
Taciturno o ancião treme e obedece,
Busca as do mar flutissonantes praias.
Ao que pariu pulcrícoma Latona
Afastando-se impreca: “Arcitenente,
Ouve, Esminteu, que Tênedos enfreias,
Crisa proteges e a divina Cila,
Se de festões colguei teu santuário,
Se de cabras e touros coxas pingues
Te hei queimado, compraze-me os desejos,
A tiros teus meu choro os Dânaos paguem.”
Febo, a tais preces, arco e aljava cruza,
Do vértice do céu baixa iracundo;
Vem semelhante à noite, e a cada passo
Tinem-lhe ao ombro as frechas. Ante a frota
Suspenso, a farpa do carcás descaixa,
Terrível o arco argênteo estala e zune:
Moles primeiramente a cães e a mulos,
Depois com vira acerba ataca os homens,
De cadáveres sempre a arder fogueiras.
As tropas dias nove asseteadas,
Ao décimo as convida e ajunta Aquiles;
Inspiração da bracinívea Juno,
Que seus Dânaos morrer cuidosa via.
Ele, em pinha o congresso, velocípede
Se alça e diz: “A escaparmos, julgo, Atrida,
Retrocedermos errabundos cabe:
Peste os nossos consome e os ceifa a guerra.
Eia, adivinho, arúspice, ou de sonhos
(Jove os envia) conjector se inquira,
Que explique a ofensa do agastado Febo:
Se a votos e hecatombes lhe faltamos;
Se, para desarmar-se, olor de assados
Cordeiros nos reclama e nédias cabras.”
A seu lugar tornou. De áugures mestre,
No passado e presente e porvir sábio,
Surgiu Calcas Testórides, que a Tróia
Por influxos de Apolo as naus guiara,
E concionando exordiou prudente:
“Mandas-me, ó caro a Júpiter, o agravo
Do grã frecheiro expor. Aqui prometas
Com braço e voz cobrir-me: o fel eu temo
Do amplo-reinante que domina os Graios;
E ao fraco se um monarca ódio concebe,
Cose-o e concentra, enquanto o não sacia.
Tu me assegura.” — “Afouto, brada Aquiles,
Vaticina. Por Febo, a Jove grato,
A quem rogas e oráculos te ensina,
Nenhum, desfrute eu vivo o térreo aspecto,
Nenhum violentas mãos te porá, Calcas;
Nem que seja Agamemnon, que entre Aquivos
De mais prestante e augusto se ufaneia.”
Anima-se o bom velho: “Sacrifícios
Nem votos pede Apolo; em nós o ultraje
Punindo vai do Atrida, que ao ministro
O livramento rejeitou da filha;
Nem grave a destra poupará castigos,
Se não reverte a jovem de olhos pretos,
Sem resgate ou presente, ao pai querido,
Remetendo-se a Crisa uma hecatombe.
Com isto por ventura o deus se aplaque.”
O áugur mal se abancava, o rei soberbo,
Senhor pujante, merencório ergueu-se:
Raiva as entranhas lhe intumesce e afuma,
Cintila a vista em brasa; esguelha a Calcas
Tétrico cenho: “Desastroso vate,
Nunca essa boca aprouve-me: o teu ponto
É pregoar desditas; nem palavra
Nem obra tens que preste. Agora os Dânaos,
Pena-os Febo em vingança da retida
Criseida em quem me inflamo, a quem pospunha
Clitemnestra gentil que esposei virgem,
Que não lhe cede em garbo, engenho e prendas.
Pois mais convém, liberta a restituo;
Sadio o anseio, não padeça o povo.
Mas preparai-me um prêmio; eu só dos Gregos
Dele excluído ser não me é decente;
O meu, testemunhais, me foi roubado.”
Controverte o Peleio: “Vanglorioso
Avidíssimo Atrida, que outra paga
Exiges dos magnânimos Aquivos?
Por dividir ignoro onde haja espólio;
Partiu-se o das cidades saqueadas;
Hoje um novo sorteio é repugnante.
Ao deus concede-a; recompensa triple,
E quádrupla terás, quando o Satúrnio
Derrocar nos outorgue a excelsa Tróia.”
Retorque o rei: “Se és bravo ó divo Aquiles,
Com dolo e subterfúgios não me enganes:
Possuis tua cativa, eu perco a minha;
E impões que de perdê-la me contente?
Meu peito satisfaçam de igual prenda
Os liberais Aqueus; senão, teu prêmio,
De Ulisses ou de Ajax, trarei comigo:
Amargará quem for. Sobrestejamos
Nisto por ora. Ao pélago deitemos
Negra nau bem remada, que transporte
A hecatombe e Criseida esbelta e linda.
Um dos cabos, Ajax, o egrégio Ulisses,
Idomeneu comande-a, ou tu Pelides,
Tremendíssimo herói, para que Apolo
Nos tentes granjear com sacrifícios.”
“Ah! como, o vulto fecha e estronda Aquiles,
Vulpina alma sem pejo, a teus acenos
Há quem marche a conflitos e emboscadas?
Não vim bater os valorosos Teucros
Por queixa pessoal: corcéis nem reses
Me furtaram, nem agros destruíram
Da altriz guerreira Ftia; entre nós muita
Serra medeia opaca e o mar sonoro.
Viemos, cão protervo, para em Tróia
A Menelau e a ti lavar a nódoa.
Alardeias, ingrato, e nos desprezas;
Audaz cominas arrancar-me a escrava,
A dádiva de Aqueus por tantas lidas.
Caia Ílion famosa: embora o peso
Da guerra em mim carregue, o mais opimo
Quinhão terás; com pouco eu volte a bordo
Sem boquejar, de choques fatigado.
A Ftia me recolho e os meus navios,
Já que aviltas a mão que de tesouros
A fome te fartava: eu te abandono.”
“Foge, Agamemnon replicou-lhe, foge,
Se é teu prazer; que fiques não te imploro:
Honram-me outros, e em Júpiter confio.
Dos reis alunos dele és quem detesto;
Só respiras discórdias, rixas, pugnas.
Tens valor? agradece-lho. Os navios
Recolhe e os teus; nos Mirmidões impera:
Não te demoro; esse rancor desdenho.
Priva-me de Criseida Febo Apolo:
Em nau minha esquipada vou mandá-la.
À tenda hei de ir-te mesmo, eu to previno,
Tomar-te a elegantíssima Briseida;
Sentirás em poder como te excedo,
E outrem se me antepor e ombrear trema.”
Chameja o herói, no hirsuto peito volve
Se de ante o fêmur desbainhe o estoque
E por entre os Aqueus lho embeba todo,
Ou se o furor no coração reprima.
Já meia espada a cogitar sacava:
Eis da alva Juno, que os escuda e preza,
Por ordem Palas desce, e aos mais invisa,
Atrás o aferra pela flava coma.
Volta-se ele espantado e a reconhece
Pelo medonho olhar, e sem demora:
“A que vens ó do Egífero progênie?
A assistir aos convícios de Agamemnon?
Pois to declaro, e conto já fazê-lo,
Tem de acabar a vida esse orgulhoso.”
E a déia olhicerúlea: “Vim, de acordo
Com Juno albinitente, amiga de ambos,
Comedir-te e amansar. Anda, em palavras
Tu desabafa, a lâmina embainha.
Por esta injúria, to predigo certo,
Inda haverás em triplo insignes prêmios.
Sê-nos pois dócil, a paixão modera.”
“Cumpre, o fogoso torna-lhe, é cordura
Mesmo irado curvar-me a tais preceitos:
Quem se submete, os deuses mais o escutam.”
Logo a pesada mão no argênteo punho
Conteve, encasa e esconde o gládio horrendo.
Ela a Júpiter se ala e às mais deidades.
Não deposto o furor, contra Agamemnon:
“Ébrio, acérrimo Aquiles vocifera,
Cara de perro e coração de cervo,
Nunca te armas e à liça te abalanças,
Nunca às ciladas os homens acompanhas:
Isto te é morte. Em vasto acampamento,
Sim, mais vale esbulhar os que te arrostam:
Cobardes reges, vorador do povo;
Senão, tanta insolência aqui findara.
Por este cetro juro, que estroncado
Jamais rebentará, pois na montanha
Folhas e casca cerceou-lhe o gume;
Por este, que os Grajúgenas arvoram
Do justo guarda e das leis divinas,
Juro, Atrida, é solene o juramento,
Suspirarão sem falta por Aquiles;
Nem lhes serás de auxílio, quando em barda
Esse Heitor homicida os vá segando.
Então de raiva e nojo hás de comer-te,
Porque o maior dos Gregos rebaixaste.”
Nisto, arrojando o cetro auricravado,
Sentou-se. O Atrida em cólera abafava.
Nestor Pílio intervém, de cuja língua
Doce eloqüência mais que o mel fluía.
Dos falantes que, nados na alma Pilos,
Criaram-se com ele, idade duas
Decorridas, reinava na terceira.
Discreto e afável, o discurso tece:
“Numes eternos, oh! que luto à Grécia!
Oh, que júbilo a Príamo e seus filhos!
Folgue Ílio à nova de que assim litigam
Os de mor pulso e tino. Obedecei-me,
Sou velho, ó moços. Tido em boa conta
Com melhor que vós me dava outrora.
Varões vi nunca, nem verei, qual Drias
Das gentes regedor, Ceneu e Exádio,
Um Pirítoo, um divo Polifemo,
Teseu Egides a imortais parelho.
Outros como estes não nutria a terra:
Feros pugnaram trucidando a feros
Montícolas Centauros. Lá de Pilos,
Da Ápia eu vinha rogado; conversava-os,
Quanto era em mim nas lutas me exercia.
Ninguém dos vivos de hoje os contrastara;
Atendiam contudo os meus conselhos:
Atendê-los vos praza. Ao mais estrênuo
Tu não tomes dos nossos a só paga;
Nem de ao rei contravir, Pelides, cures;
Dos eleitos que Júpiter estima,
Cetrígero nenhum se lhe equipara:
Mãe deusa te gerou, valor te sobra;
Tem ele mais poder, que impera em muitos.
Eu to suplico, Atrida, a fúria amaina,
Sê brando para quem nesta árdua empresa
É baluarte e escudo aos Gregos todos.”
E Agamemnon: “Com tento nos falaste,
Reto ancião. Primar quer sempre esse homem,
Poderio se arroga, e eu não lho sofro.
Se os imortais invicto o constituíram,
Permitem-lhe por isso os impropérios?”
“Fraco eu seria e vil, o atalha Aquiles,
Se inda me sujeitasse: os mais o aturem;
Cesse em mim teu domínio, eu to recuso.
Digo, e na mente o grava: ao retomardes
Meu galardão, contigo nem com outrem
Pendência travarei; mas não me toques
Al do que encerro em leve bojo escuro.
Ousa-o; que saberão como o defendo
Como em teu sangue impuro ensopo a lança.”
Finda a rixa, o congresso Aqueu dissolvem.
O herói para seu bordo retirou-se,
A escolta e o seu Menécio. Ao mar o Atrida
Baixel deita, e remeiros vinte elege;
Conduz no embarque a nítida Criseida,
Mais a hecatombe: sob o cauto Ulisses
Fendem rápido as úmidas campinas.
Com lustrações o exército Agamemnon
Expurga e n’água a lavadura atiram;
Cabras e touros cento a Febo ao longo
Do inesgotável pego sacrificam:
Monta ao céu pingue cheiro envolto em fumo.
Ali mesmo efeitua o chefe Argivo
Sua ameaça; dous arautos chama,
Taltíbio e Euríbate, expeditos servos:
“Ide ao Pelides e agarrai-me a escrava;
Aliás, mais agro transe, à força aberta
A formosa Briseida eu vou tirar-lha.”
E com ríspidas ordens os despede.
O infrugífero mar cercando invitos,
Junto ao real e à capitânia quedo,
Entre os seus Mirmidões na praia o acharam:
Por certo não gostou de os ver Aquiles.
De assombro estacam, nem tugir se atrevem
Ante o herói formidável, que o percebe:
“Salve, núncios de Jove e dos guerreiros;
Sus, não vos culpo, arautos. Agamemnon
Vo-lo ordenou. Vai tu, celeste aluno,
Vai por ela, Pátroclo, e a moça levem.
Aos mortais, ao rei sevo, às divindades,
Vós mo atesteis, se for mister meu braço
A desviar dos outros a vergonha...
Que furor cego! alheio do presente,
O porvir não prevê, nem como os Dânaos
Das naus sem risco em derredor pelejem.”
Da tenda, à voz do amigo, traz Pátroclo
E entrega-lhes Briseida fresca e bela,
Que os seguiu pesarosa à esquadra Argiva.
Só, carpindo-se, Aquiles na espumante
Beira ficou-se; o ponto azul esguarda,
As palmas tende e à boa mãe recorre:
“De curta vida, ó Tétis, me pariste;
Sequer me engrandecesse o Altipotente;
Mas ele não me outorga a menor glória.
Em meu despeito o soberano Atrida
Arrebatou-me o prêmio e dele goza.”
Ao pé do anoso pai, lá no áqueo fundo
Sentiu-lhe o pranto a veneranda ninfa:
Da salsa espuma, como névoa, surde;
Conchegada ao Pelides lamentoso,
Com mão fagueira consolando o anima:
“Choras? que ânsia te aflige? Nada encubras,
Comunica-me, filho, as penas tuas.”
Do íntimo o celerípede suspira:
“Sabes; que val dizer-to? A sacra Tebas
De Eetion depredada, o espólio todo
Arrecadou-se, e em regra o dividimos:
Teve o Atrida a pulquérrima Criseida.
Remir a filha com riqueza imensa
Do Longe-vibrador veio o ministro
Às lestes naus de cobre encouraçadas;
Nas mãos faixa Apolínea e o cetro de ouro,
Roga e aos dous potentados mais se abate:
Que, em reverência ao cargo, se receba
O esplêndido resgate, áfio aprovam;
Menos o Atrida, que o repulsa e afronta.
Parte o velho indignado; e o deus que o ama,
Dele a instâncias, vibrou feral contágio,
De que a gente em cardumes fenecia,
Pestíferas as setas rechinando
Por todo o exército. Eminente vate
O oráculo solveu-nos; e eu primeiro
A apaziguar o nume exorto os sócios.
Furente ergue-se o rei, minaz fulmina,
E não debalde; que olhi-espertos Gregos
Em ágil nau Criseida reconduzem
Com pios dons, e arautos mesmo agora
Do pavilhão transferem-me a donzela
Que os Dânaos me doaram. Tu, que o podes,
Socorre o filho, ao grã Tonante ascende;
Se o já serviste com palavras e obras,
Hoje o depreca. A mim no pátrio alvergue,
De única blasonavas que entre os deuses
Preservaste o nubícogo Satúrnio
Do feio opróbrio, quando, à frente a esposa
E Minerva e Netuno, o encadearam:
Mas tu, madre, lhe acorres e o desprendes,
Convocas em auxílio o Centimano,
Que é nos céus Briareu, na terra Egéon.
Mais robusto que o pai, da honra altivo,
De Jove a par se teve, e de assustados
Os imortais do empenho desistiram.
Recorda-lhe isto, abraça-lhe os joelhos:
Que ajudar queira os Troas; que os Aquivos,
Té às popas e ao mar cerrados, paguem
Por seu tirano e a maldizê-lo expirem.
O amplo-dominador confesse a culpa
De insultar o fortíssimo dos Gregos.”
E em lágrimas a déia: “Ai! Filho, como
Te amamentei gerado em hora infausta?
Oh! se de mágoa ileso a bordo fosses!
Urge-te a Parca, e mais que todos penas:
Malfadado nasceste em régios paços.
Em paz, nas prestes naus, teu ódio ceves;
Que hei-de ao nevoso Olimpo ir ver se dobro
Quem se deleita com trovões e raios.
Ele e sua corte, às abas do Oceano,
De inocentes Etíopes desd’ontem
A mesa logram. No dozeno dia,
Ao voltar à mansão de aênea base,
Revolvida a seus pés tocá-lo espero.”
Nisto, sumiu-se-lhe e o deixou raivando
De o desfalcarem da mulher garbosa.
De Crisa em funda barra entrava Ulisses.
Ferram-se as velas, no atro bojo as metem;
Enxárcias afrouxando, o mastro arreiam;
A remo aportam, a âncora seguram,
E atadas as rajeiras, desembarcam;
Pós a hecatombe do arci-argênteo Febo,
Da sulcadora nau saiu Criseida.
No altar o sábio Ulisses a apresenta,
Vira-se ao pai querido: “Aqui mandou-me,
Crises, o rei dos reis trazer-te a virgem
E estas cem reses com que o deus mitigues
Que em dores nos soçobra.” Alvoroçado
O velho ao peito ansioso aperta a filha.
A perfeita hecatombe então colocam
Em torno da ara; e, os dedos já lavados,
Pegam do salso bolo. O sacerdote
Orando eleva as palmas: “Se a meus rogos,
De Tênedos Senhor, ó tu que amparas
Crisa e a divina Cila, em desagravo
O campo Argeu feriste, hoje me escuta,
Remove a peste que devora os Dânaos.”
Febo o escutou. Completa a rogativa,
Esparso o farro, à vítima o pescoço
Vergam atrás, e degolada a esfolam;
Cérceas as coxas, no redenho envoltas,
Cobrem-nas vivas postas. Ao tostá-las
Crises na lenha tinto baco asperge:
Qüinqüedentado espeto lhe sustinha
Cada servente. Provam-se as fressuras,
Já combustas as coxas, e em tassalhos
A mais carne enroscada assam peritos,
E a obra é feita. Apronta-se o convívio:
Ninguém do seu quinhão queixar-se pôde.
Exausta a sede e a fome, das crateras
Coroadas almo vinho os moços vertem;
Cada qual auspicando os copos liba.
Por captarem favor, o dia inteiro
Jovens Dânaos entoam ledo péan,
E seus cantos o deus regozijavam.
Cedendo o sol à treva, ao pé repousam
Do amarrado navio, e assim que alveja
A aurora dedirrósea, o porto largam.
Ereto o mastro, as pandas brancas velas
A brisa enfuna que o certeiro Apolo
Bafeja, e a ressoar cerúlea vaga
Do buco em derredor, cortava a quilha
O páramo salobre. No abordarem
O arraial dos Aqueus, varado em seco
Sobre longos rolhões o bruno casco,
Por tendas e outras naus se repartiram.
Sempre enfadado nos baixéis, o ardente
Generoso Pelides na assembléia
De heróis não comparece ou nas batalhas;
Do ócio porém seu coração ralado,
Almeja o alarma e pela guerra brame.
Ao duodécimo dia, à casa etérea,
Em testa Jove, os numes se encaminham.
Dos mares Tétis, sem que olvide o filho,
Surgindo matutina, ali se alteia;
Semoto encontra o providente Padre
No fastígio do Olimpo cumioso;
Pára, da sestra prende-lhe os joelhos,
Da destra o mento afaga, e assim lhe implora:
“Se entre imortais, senhor, te fui profícua
Por dito e ação, preenche-me este voto:
Orna a meu filho a vida, já que é breve;
Que o rei possante o assoberbou de insultos
E retém-lhe o só prêmio. Glorifica-o,
Ó pai celeste; aos Frígios dá vitória,
Té que de honras os Dânaos o acumulem.”
O anuviador calou-se, e ela mais insta:
“Pois que receias? ou concede ou nega;
Que a deusa ínfima sou prove-se agora.”
Do imo geme o Tonante: “É mau que incites
A com seus ralhos molestar-me Juno,
Que, assídua em me aturdir perante os numes,
Desses Troianos parcial me acusa.
Vai-te, ela não te enxergue. A mim o tomo:
Do certíssimo aceno entre as deidades,
Selo à minha promessa irrevogável.”
Então franze as cerúleas sobrancelhas,
da cabeça imortal sacode a coma,
E estremece abalado o imenso Olimpo.
Obtido o fim, do éter puro Tétis
Pula ao mar, e o Satúrnio à régia passa.
Nenhum dos deuses o esperou sentado;
Vão respeitosos cortejá-lo todos.
Ele entronou-se; e Juno, que aventara
Da Nereida argentípede o segredo,
Assaltando o invectiva: “Quem, doloso,
Fora de mim se conluiou contigo?
Sempre agradam-te ajustes clandestinos;
Nunca um só pensamento me descobres.”
E o rei supremo: “Em penetrar não cuides
Arcanos meus; esposa embora sejas,
Penosos te serão. Nem deus nem homem
Quanto ouvir devas me ouvirá primeiro:
Mas o que a parte no ânimo concebo,
Não mo perguntes, nem mo inquiras, Juno.”
A augusta irmã contesta: “Que proferes?
Jamais pergunto nem te inquiro nada;
A teu sabor tranqüilo deliberas.
Mas temo te seduza, ó cru Satúrnio,
A branca filha do marinho velho:
Madrugou-te abraçando-te os joelhos;
E suspeito anuíste a que ante a frota
Sucumbam Dânaos por amor de Aquiles.”
Redargúi o que as nuvens amontoa:
“Ruim maliciosa, eu não te escapo;
No desagrado meu com isso incorres.
Trago pior terás; que lucro esperas?
Se é verdade o que dizes, foi meu gosto.
Não mais, submissa em teu lugar sossega:
Se as mãos te calmo invictas, pouco importa
Que te acudam do pólo os moradores.”
A olhitáurea, tremente e silenciosa,
Volve a seu posto, na alma a dor sopeia;
Os demais carregaram-se tristonhos.
Por consolar a bracinívea madre,
Vulcano ínclito fabro assim começa:
“É praga intolerável que aos Supremos
Questões humanas alvoroto excitem;
Se o mal grassa, os festins seu preço perdem.
À mãe discreta aviso a que amacie
Meu pai dileto; a repreensão de novo
Não nos turbe as delícias do banquete:
Pois, se tal se lhe antoja, o Onipotente
Destes assentos nos derriba a todos.
Sim, com ternos obséquios o acarinhes:
Plácido ele nos seja.” E em tom mais baixo;
Duplicôncava taça, erguido, oferta:
“Paciente, cara mãe, sufoca o anojo;
Estes olhos batida ah! não te vejam.
Meu zelo e meu pesar que prestariam?
Contra o fulminador árduo é lutarmos.
No acorrer-te uma vez, do pé travado,
Precipitou-me do limiar divino.
Toda a noite rolei na imensidade;
A Lemnos, posto o Sol, fui ter exânime,
E os Síntios ao cair me agasalharam.”
Sorrindo, a clara déia o copo aceita.
Pela destra, em redor, seu filho aos numes
Da cratera entornava o doce néctar.
Os beatos celícolas romperam
Numa infinita cachinada, quando
Vulcano a escancear se azafamava.
É já tarde, e regalam-se os convivas
De iguais porções de opíparos manjares.
Tange na lira Apolo, e as Musas cantam
Com suave cadência e melodia.
Dês que a diurna luz desaparece,
Desencostados, cada qual procura
Seu domicílio no esplendente alcáçar,
Do coxo mestre fábrica estupenda.
O fulgurante Olímpio ao toro sobe,
Onde usa o meigo sono acometê-lo;
Dorme-lhe em braços a auritrônia Juno.* * *
NOTAS AO LIVRO I
As repetições de Homero se reduzem a duas classes: ora, por exemplo, manda Júpiter um recado, que o messageiro dá pelos mesmos ou quase pelos mesmos termos; ora, juntam-se epítetos, que por continuados às vezes podem enfastiar. Conservo as primeiras como próprias da singeleza do autor, e porque nelas se assemelha aos antigos da Bíblia. Quanto às segundas, procedo assim: trato do verter os epítetos com exatidão e nos lugares mais apropriados; isto feito, omito as repetições onde seriam enfadonhas. Ainda mais: vario a forma de cada epíteto, ou me sirvo de um equivalente: em vez de Aquiles velocípede, digo também impetuoso, rápido, fogoso; e assim no demais. Note-se que os adjetivos gregos, terminando em casos diversos, não têm a monotonia dos nossos, que só variam nos dois gêneros e nos dois números. — Rochefort apoda do pueril o empenho de variar: não sei como quem andava sempre agarrado ao rabicho da cabeleira de Boileau e de Racine, se levantou contra a variedade no estilo, que um recomenda e pratica o outro. Se vertêssemos servilmente as repetições de Homero, deixava a obra de ser aprazível como é a dele; a pior das infidelidades. Com isto não quero fazer a apologia das paráfrases: aspiro a ser tradutor.
1—2. Falando de Aquiles, ou de Enéias, ou de Heitor, indiferentemente uso de Pelides ou Peleio, de Anchisiada ou Anchiseo; de Priamides ou Priameo ou Priameio: a razão é que Pelides, por exemplo, significando o filho de Peleu, e Peleio o que pertence a Peleu, segue-se que Aquiles é Pelides por ser filho de Peleu, e é Peleio, por ser pertencente a Peleu; segue-se mais que o Pelides é sempre Peleio, porém não vice-versa. O mesmo raciocínio se aplica exatamente aos mais nomes semelhantes, inumeráveis em Homero. — Menin, por onde principia o poema, é ira tenaz, ira não passageira; o nosso termo desacompanhado não o verte cabalmente. Rancor é ódio encoberto, que não vai bem com a franqueza de Aquiles. Cólera é ira súbita com amarelidão no rosto; não indica a permanência da paixão do herói. Ressentimento, além de poder ser oculto, não exprime a constante irritação. Despeito, que em certo modo se lhe aproxima, tendo contraído uma acepção mais usual, carece da energia do grego. Furor, ou fúria, por impetuoso não é durável. Raiva é mais dos outros animais e pareceria dizer que estava como um cão danado. Sanha, segundo Fr. Francisco de S. Luiz, é ira que se mostra nos gestos e nas contorções do rosto. Assim, posto que em dados casos qualquer destes vocábulos se possa aplicar a Aquiles, não o pode ser à paixão que nutriu longamente e às claras, Foi-me pois necessário ajuntar o objetivo tenaz.
Não creiam porém que as principais línguas da Europa (não falo da alemã, da qual nada pesco) possuem um termo que salve a dificuldade: o correaux dos franceses é por ventura o que mais se lhe chega; mas como dele não se tem servido os seus tradutores, temo que lhe falte alguma coisa imprecetível a um estrangeiro. — O mais notável é que nisto falha o mesmo latim: Virgílio, devendo enunciar a idéia, criou o seu memorem Junonis ob iram; de sorte que a pobreza da sua língua neste ponto o fez inventar uma expressão admirável, como o são a maior parte das que se encontram neste mestre incomparável do estilo.
30—48. A’ntioõsan tem o ambíguo sentido de participar ou de tratar do leito; o nosso compor, igualmente. — A’rgoùs traduzo por moles, contra os que enxergam aqui uma antífrase e o tomam por ligeiros. Não vejo precisão de antífrase; pois, sendo a moleza o primeiro sinal da peste nos animais, o adjetivo, não de simples ornato, exprime a observação de Homero. Veja-se a pintura da peste do 3º das Geórgicas.
196. — Verteu Rochefort: “Rei embriagado de orgulho, cuja audácia pérfida junta aos olhos de um leão o coração de um cervo tímido.” A mudança de cão em leão, como o disfarce do verso correspondente ao 159 do original, vem do decoro de convenção, que às vezes esfriava os melhores engenhos do século de Luiz XIV, exceto Moliére e Lafontaine. O poeta não dissimulava que a ira, mesmo nos heróis, quebra todas as barreiras; não compassava as paixões pelo tom adotado nas cortes e salões modernos; via com olho igual veados, leões e cães, nem chamava o porco animal que se nutre de bolotas. M. Giguet, Monti e poucos mais, não se deixaram levar deste fútil escrúpulo.
287. — Salve, do verbo salveo, nós o adotamos nas saudações, mas invariável para o singular e para o plural. Os Latinos diziam salve, salvete, solveto, salvetote; conforme o número e a pessoa; nós usamos da fórmula salve em todos os casos, tomando-o como se fosse uma interjeição: desagradáveis seriam em nossa língua as outras vozes, nem há exemplo do seu uso.
494. — Boõpis, mui repetido, significa de olhos grandes ou de olhos bovinos, bem que a última acepção falte em vários lexicógrafos. A segunda refere-se à primeira: Juno é de olhos bovinos, por tê-los bonitos e rasgados; pois tais são os da novilha. Olhitáurea ou olhitoura chama Filinto a Juno, à imitação do poeta Grego. Sirvo-me do epíteto em todos os sentidos, por variedade.
* * *
LIVRO II
Deuses e campeões a noite os lia;
Só vela o Padre, a ruminar de que arte
Levante Aquiles e escarmente os Gregos.
A Agamemnon soltar por fim resolve
Um maléfico Sonho, e o chama e apressa:
“Voa, Sonho falaz, do Atrida às popas;
Quanto prescrevo, exato lho anuncia:
Que arme os crinitos Graios e as falanges,
De extensas ruas a cidade expugne;
Que, intercedendo Juno, o Céu concorde
Ameaça de ruína a excelsa Tróia.”
De cor este recado, o Sonho parte
Às naus ligeiras, e acha o Atrida preso
Do sono, que lhe cerca e embebe a tenda.
À cabeceira, os traços do Nelides
Nestor vestindo, a quem o Argeu potente
Mais do que a todos venerava, o argúi:
“Dormes, de Atreu guerreiro ó nobre filho?
E dorme em cheio o próprio em quem descansa,
A quem do exército o cuidado incumbe?
Escuta; mensageiro eu sou de Jove,
Que de longe em ti pensa e te lastima:
Arma os crinitos Graios e as falanges,
De extensas ruas a cidade expugna;
Por Juno o Céu concorde, a mão suprema
De iminente ruína ameaça Tróia.
Estas expressas ordens não te esqueçam,
Do melífico sono ao despertares.”
Eis some-se, e o rei fica em devaneios
De ir assolar de Príamo a cidade;
Ignora o que o Satúrnio lhe maquina,
Suspiros e aflições que em duros transes
A Troianos e Aquivos se aparelham.
Acorda, e em torno inda a visão lhe soa:
Sentado, a nova túnica luzente
Mórbida enfia, embrulha-se no manto,
Liga as sandálias que nos pés lhe fulgem,
Do ombro suspende a claviargêntea espada,
Cetro paterno empunha incorruptível;
Passa da tenda aos bronzeados bucos.
Do Sol embaixatriz à corte Olímpia,
A Aurora abria; com pregões o Atrida
Os comados Grajúgenas convoca,
E à voz canora dos arautos correm.
Primeiro, ante o baixel do rei de Pilos,
Os príncipes longânimos consulta:
“Sócios, visão divina eu tive à noite;
Era Nestor em talhe, em gesto e porte.
À minha cabeceira, assim me increpa:
— Dormes, de Atreu guerreiro ó nobre filho?
E dorme em cheio o próprio em quem descansa,
A quem do exército o cuidado incumbe?
Escuta; mensageiro eu sou de Jove,
Que de longe em ti pensa e te lastima:
Arma os crinitos Graios e as falanges,
De extensas ruas a cidade expugna;
Por Juno o Céu concorde, a mão suprema
Em Tróia pesa. O mando não deslembres. —
E evolou-se a visão, deixou-me o sono.
De armar a gente o meio imaginemos.
Quero apalpá-la, intimarei que fujam
Nossas naus; de propósito espalhadas,
Persuadi vós outros o contrário.”
Ei-lo assentou-se, e da arenosa Pilos
O cordato reinante em pé discorre:
” Da Grécia esteios, príncipes e amigos.
Se outrem, que não do exército o cabeça,
Tal sonho referisse, de mentira
O tacháramos todos impugnando:
Grave é seu testemunho e irresistível.
Arme-se a gente; examinemos como.”
Larga o velho o conselho, e o mesmo fazem,
Obsequiando ao maioral dos povos,
Cetrados reis. A multidão fervia:
Quais de oca pedra, em sucessivos bandos,
Brotam nações de abelhas, pressurosas
No multíplice adejo, e em cachos pousam
Do verão sobre as flores; tais, brotando
De naus e tendas, sobre a vasta praia
Grupos e grupos à assembléia afluem.
Pica-os a Fama, que enviara Jove;
Cresce a balbúrdia, arengam, tumultuam.
Do tropel freme a terra, o estrondo ecoa.
De arautos nove a brados, o alarido
Lá cede à voz dos reis, do Olimpo alunos.
Cala a turba e se abanca; alçou-se o Atrida.
O seu cetro esculpiu Vulcano a Jove,
Que ao de Argos matador brindou com ele,
E ao cavaleiro Pélope Mercúrio;
Atreu régio pastor houve-o de herança:
Depois coube a Tiestes pecoroso;
A Agamemnon Tiestes o transmite,
Com a Argólida inteira e bastas ilhas.
Neste se apóia, e rápido se explica:
“Ó fâmulos de Marte, amigos Dânaos,
Enreda-me o Satúrnio em lance infesto:
Selou que, Ílio extirpada, eu regressasse;
Hoje enganoso, tanta vida extinta,
À pátria exige que eu reverta inglório.
Do prepotente é gosto, cujo braço
Pujante há mil cidades derrocado,
E mil derrocará. Mancha indelével!
Ressoe no porvir que inumeráveis,
Sem êxito nenhum, travamos guerra
Com tão poucos varões; pois, lealmente
Ferida a paz, e os Troas computados
E em decúrias os Gregos, vinho um Troa
Vertesse a cada Grego, faltariam
Escanções a muitas decúrias:
Tanto julgo aos de Tróia sobejamos.
Porém grandes cidades a auxiliam,
Bravas lanças brandindo, que, mau grado,
Reparos seus desmoronar me tolhem.
De Júpiter nove anos decorreram,
Lenhos já podres, cabos já delidos;
E em casa à espera esposas e filhinhos
Talvez estão. Da empresa desistimos;
Assim nos é forçoso: velas dadas,
Volte-se ao ninho pátrio; não podemos
Ílio soberba conquistar; fujamos.”
Isto comove os corações estranhos
Ao privado conselho, e se afervoram,
Quais do Icário as maretas que Euro e Noto,
Fendendo a Jove as nuvens, encapelam.
Como ao volúvel Zéfiro a seara
Cicia em ondas, a assembléia toda
Se atira às naus com militar celeuma,
E à marcha o pó se enrola e o céu remuge.
Da volta ansiosos, em limpar caneiros
E em deitá-las ao pélago porfiam.
As quilhas, dos rolhões desimpedidas,
Iam partir, contra a fatal vontade
Se não se dirigisse a Palas Juno:
“Quê! do Egíaco prole, em fuga os nossos
Traçam por entre o equóreo dorso imano
Rever a pátria, a Príamo o triunfo
E aos dele abandonando Helena Argiva,
Por quem tantos em Tróia hão perecido
Longe da mesma pátria? Ah! com doçura
Os Dânaos suadindo eriarnesados,
Coíbe homem por homem, que não desçam
Ao mar nenhum baixel que a remo vogue.”
A olhigázea Minerva incontinente
Lá do pino do Olimpo se despenha;
Baixa à frota veloz, de Ulisses perto:
Sisudo como Jove, em dor imerso,
Na embarcação, de apelamento pronta,
Pausado nem tocava; e a deusa o aborda:
“Generoso Laércio, astuto Ulisses,
Em bem providas naus fugis, a palma
A Príamo deixando e em Tróia Helena,
Por quem já pereceram tantos Gregos
Longe da pátria? Sem tecer demoras,
Revista o exército, e com brandas vozes
Coíbe homem por homem, que não desçam
Ao mar nenhum baixel que a remo vogue.”
Ele a compreende, e arremessando a capa,
Que, Ítaco e arauto seu, lhe apanha Euríbate,
Ao quartel se encaminha de Agamemnon;
Toma-lhe o cetro avito. As naus perlustra
E Aqueus de ênea loriga; e, se encontrava
Magnata ou rei, dulcíloquo o detinha:
“Quê! Trepidas, varão? Teu posto guarda,
Sossega as tropas. O ânimo do Atrida
Sondaste acaso? Agora os Gregos tenta,
E breve os punirá. Nem tudo ouvimos
Do que expôs no conselho. Contra os nossos
A cólera do rei quiçá dispare.
Jove ao trono o moldou, Jove o protege.”
Mas, se topa um plebeu vociferando,
Lhe imprime o cetro e grita: “Ímprobo, cal-te;
Atende aos superiores. Néscio e ignavo,
No alvitre és nulo, és nulo nas pelejas.
Pois tantos reinaremos? Dana e empece
De muitos o primado: um rei domine,
Que houve este cetro e o jus do deus supremo.”
E assim refreia a chusma. A congregar-se
De naus e tendas outra vez ruíam
Estrepitosos, qual batendo as praias
Muge horríssima vaga e o mar reboa.
Quietos já, Tersites inda gane,
Petulante motino que, de inépcias
Pleno o bestunto, contra os reis verboso
Alterca e à soldadesca excita o riso:
Dos cercantes feiíssimo, era manco,
Vesgo e giboso, e tinha o peito arcado
E em pontuda cabeça umas falripas;
Mordia sempre a Ulisses e o Pelides,
Cego de inveja; estruge então com ladros
O rei dos reis e a todos afeleia,
E quanto mais se indignam mais braveja:
“Atrida, que te falta? A rodo os bronzes,
Tens contigo mulheres que, ao rendermos
Qualquer cidade, escolhes o primeiro.
Que inda cobiças? ouro que te oferte
Éqüite Frígio em remissão do filho,
Quer o eu traga em prisões, quer outro Grego?
Ou moça que se mescle em teus amores
E apartada retenhas? É miséria
Ser escândalo aos súditos. Voguemos,
Gregas, não Gregos, raça mole e inerte:
Cá permaneça e o que tragou digira;
Aprenda se de ajuda ou não lhe somos
Quem, de baldões coberto o mais valente,
A escrava arrebatou-lhe. Ah! se o Pelides
Não remitisse a cólera e afrouxasse,
O teu descoco, Atrida, último fora.”
Assim contra Agamemnon blasfemava.
Carregado no vulto, o assalta Ulisses:
“Pare a cantiga, charlator Tersites,
Abarbar-te com reis tu só não queiras:
Escória dos sectários dos Atridas,
Na língua os teus balofa e audaz censuras?
Vil pela fuga opinas: duvidamos
Se é bem, se é mal, que efeito isso produza;
Mas porque vituperas Agamemnon,
O maior potentado, nos é claro:
De heróis te pesa dádivas receba.
Guar-te que eu te inda veja em tais loucuras:
Fora mesmo a cabeça tenha Ulisses,
Nem pai do meu Telêmaco me chamem,
Se não te agarro e dispo-te os vestidos,
Capa, túnica e o mais que o pudor vela,
Se, da assembléia expulso e azurragado,
Choramingando às naus te não remeto.”
Na espádua eis o fustiga: ele se encolhe
E lagrimeja à dor; sangrento as costas
Lhe incha o vergão do cetro; indo sentar-se,
Pávido e oblíquo olhando, enxuga as faces;
Do afogo em meio espraia-se a risada.
Um virou-se ao vizinho: “À fé, que o douto
Conselheiro sagaz, na guerra instruto,
Nunca entre Aqueus obrou com tanto acerto,
Como açaimando agora esse palreiro,
Que os reis há-de poupar de escarmentado.”
Sussurra o vulgo, e em pé de cetro acena
O de cidades vastador Ulisses;
De arauto em forma a deusa olhicerúlea
Impõe silêncio nas fileiras todas,
Para que simultâneo o sábio aviso
Do eloqüente orador nos Dânaos cale:
“Querem-te, ó rei dos reis, que o labéu sejas
Dos falantes mortais, os que a ti mesmo
Juraram não rever da Grécia os campos,
Sem que de Ílio as muralhas destruíssem:
Qual ou pobre viúva ou criancinha,
Da casa estão chorando com saudades.
Após fadigas tais, regresso triste!
Longe um mês da mulher definha o esposo
Em nau remeira, de invernais marulhos
Retardada: nove anos devolvidos,
Como estranhar ao povo a impaciência?
Porém se é torpe, amigos, a demora,
Não o é menos tornarmos de vazio.
Constância um pouco mais, e averigüemos
As predições de Calcas: bem nos lembram;
Testemunhai-me, todos vós da Parca
Redimidos fatal. Inda ontem, Gregos,
Não foi que em Áulis congregou-se a frota
Contra Príamo e Tróia? Ante uma fonte,
No imolarmos completas hecatombes,
De um plátano frondoso, donde mana
Límpida veia, surge grã prodígio:
Drago horrendo, malhado em sangue o lombo,
(À luz o Olímpio sumo o expediu mesmo)
Do supedâneo da ara deslizando,
Ao plátano rojou. Nele acoutadas
Sob a rama oito implumes avezinhas,
Novena a mãe fagueira as aninhava.
Pipitando era dó se debaterem,
Quando ele as engolia, e a mãe carpindo
Em torno revoar; última o drago
Da asa lhe trava e súbito a devora.
Mas, durante o holocausto, em pedra o muda
Quem o mandara; e a nós, emudecidos
E extáticos do horrífico portento,
Calcas vaticinou: — Comantes Graios,
Estupefatos sois? Previsto Jove
Daqui nos prognostica um tardo evento,
Se bem de glória eterna. As oito implumes,
E nona a mãe, tragou-as a serpente:
Forçoso é pelejar por tantos anos,
Mas ao dezeno cairá Dardânia. —
A profecia é tal, cumprir-se deve.
Eia, grevados sócios, persistamos,
Té sucumbir a soberana Tróia.”
Um geral grito, horrendo retumbando
Pelas côncavas naus divino o aclama.
Presto o Gerênio: “Discursais, oh! pejo,
Fracos meninos da milícia alheios.
Onde a jurada fé? Tem gasto o fogo
Viris projetos e consultas, pactos
Que as libações e as destras consagraram?
Disputas vãs! o tempo aqui perdemos.
Cessem palavras: como sempre, Atrida,
Rege firme os combates. Apodreçam
Em ócio os raros díscolos; mas nunca
Tornar conseguirão, sem deslindarmos
Se nos falseia o egífero Satúrnio:
Ele anuiu, no dia em que embarcamos
De Ílio trazendo o fado em naus veleiras,
E à destra fulgurou, propício agouro.
Com a esposa de um Teucro antes que durma,
Rapto e mágoas de Helena assim vingando,
Nenhum se apresse; e quem, da fuga amigo,
De crenado baixel tocar nos bancos,
O mortal trago provará primeiro.
Agamemnon, reflete e os bons escuta,
Nem este meu alvitre, ó rei, desdenhes:
Divisa em tribos toda a gente e em cúrias,
Socorra cúria a cúria e tribo a tribo.
Coadjuvem-te os Dânaos; que, seu braço
Na ação mostrando cada qual, o esforço
Distinguirás do chefe ou do soldado;
Se obstam os deuses a que expugnes Tróia,
Ou dos teus a imperícia e cobardia.”
Respondeu-lhe Agamemnon: “Consumado
Na eloqüência, ó Nestor, superas todos.
Júpiter, Palas, Febo, quem me dera
Dez conselheiros tais! Breve arrasadas
As muralhas de Príamo seriam.
De pesares transbordo! Em lide amarga
Pelo Satúrnio imersos eu e Aquiles,
Acres sobre a donzela contendemos;
Primeiro eu me irritei. Se inda o congraço,
Num só momento acabará Dardânia.
Ide comer, que pelejar nos cumpre:
Afilem-se hastas, lustrem-se rodelas;
Bem fartos os sonípedes, os coches
Bem revistados, cuide-se na guerra;
É sacro o dia todo a Marte sevo.
Depois, nem trégua nem repouso, enquanto
A noite resfriar o ardor não venha:
Quente o suor do escudo a soga banhe,
Pulsos fatigue o menear da lança,
Ao carro terso o corredor espume.
Porém se algum, para fugir à pugna,
Eu souber se desleixa em nau rostrada,
Aos abutres e cães fugir não conte.”
Alteia-se um clamor, qual de onda equórea
Que arroja Noto sobre aguda penha,
Sempre de opostos ventos combatida:
Já se levantam; pelas tendas lume
Acendem logo, a refeição preparam;
Cada Argivo a seu nume ofrenda, roga
Livre-o da morte e bélicos perigos.
Ao pai sumo Agamemnon sacrifica
Pingue touro qüinqüene; os mais conspícuos,
Nestor em frente e Idomeneu, convida;
Um e outro Ajax, Diomedes; sexto Ulisses,
No siso igual a Jove: per si mesmo
Vem Menelau guerreador, ciente
Dos generosos fraternais cuidados.
Com seus bolos nas mãos, a rês circundam,
E ora o chefe de heróis: “Senhor etéreo
Das cerrações, glorioso onipotente,
Antes que o sol transmonte e assome a treva,
Dá-me o esplêndido paço, em brasa as portas,
A Príamo assolar; de Heitor ao seio
Romper a brônzea túnica, e de rastos
Os seus em torno dele a terra mordam.”
Sem que anua, lhe aceita a oferta Jove,
E aumenta o afã. Perfeita a rogativa,
Esparso o farro, à vítima o pescoço
Vergam atrás, e degolada a esfolam;
Cérceas as coxas, no redenho envoltas,
Vivas postas em cima, esgalhos secos
As vão tostando. As vísceras ao fogo
No espeto enroscam; mas, provadas estas,
Já combustas as coxas, em tassalhos
A mais carne enfiada assam peritos.
Finda a obra, adereça-se o banquete,
E das iguais porções nenhum se queixa.
Exausta a sede e a fome, assim perora
O picador Gerênio: “Ó rei sublime,
Augustíssimo Atrida, ócios quebremos,
Urge a façanha que nos fia o Padre:
Os arautos na praia, eia, arrebanhem
Emalhados Aqueus; pelo amplo exército
Vamos nós despertar mavórcios brios.”
Agamemnon concorda, e arautos manda
O assalto apregoar: crinita gente
Convocada referve; os circunstantes
Reis da escolha de Jove as linhas formam;
A gázea Palas a imortal embraça
Égide incorruptível, donde pendem
Cem franjas de áurea tela, cada franja
Do preço de cem bois: de fila em fila
A vibrá-la, os Aquivos apressura
A pugnar valorosos e incessantes;
E combater então lhes foi mais doce
Que à pátria regressar. Como edaz fogo,
Selva imensa abrasando em serranias,
Longe fulgura; a hoste assim marchava
Entre aêneo esplendor, que inflama os ares.
Como, aleando em batalhões volúveis,
Por Ásio pasto, em cerco do Caístro,
Ora uns, ora outros a avançar, exultam
Gansos ou grous ou colilongos cisnes,
E o grasnido confuso atroa o prado;
Assim da frota e pavilhões as turbas
Ali se esparzem, do tropel medonho
De homens e de corcéis rebrama a terra;
Tantos as veigas do Escamandro pisam.
Quantas folhas vernais ou flores brotam.
Quais erram moscas pelo estio, quando
Nos tarros do pastor esguicha o leite;
É tal no plaino a soma desses Dânaos,
Do sanguíneo triunfo ambiciosos.
Mas, de inúmeros fatos nos pastios
Se o cabreiro separa as notas crias,
Seus soldados na ação discerne e alinha
Cada chefe. Exalçava-se Agamemnon:
O Tonante emprestou-lhe o porte e os olhos,
Netuno os peitos, a cintura Marte.
Entre novilhas armental o touro
A fronte eleva: Júpiter não menos
Fez que o primaz Atrida aquele dia
Entre celsos varões se abalizasse.
Oh! Celícolas Musas, inspirai-me;
Sois deusas e na mente abrangeis tudo:
Roçou-nos único o rumor da fama.
Nem que dez bocas, línguas dez houvesse,
Voz infrangível, coração de bronze,
Pudera eu memorar quantia e nomes
Dos que às plagas Ilíacas vieram:
Isso às filhas do Egífero compete.
Vou pois enumerar as naus e os cabos.
Os Beócios governa Peneleu,
Protenor, Clônio, Leuto e Arcesilau:
De Aulide pétrea, Esqueno, Téspia, Escolo,
Da Serrana Eteone íncolas eram,
De Híria, Graia e espaçosa Micalesso;
Ou de Hile, Harma, Elíola, Hésio, Eritas,
Péteon, Ocaleia, Eutresis, Copas,
Da columbosa Tisbe e torreada
Medeona; ou de Glissa e Coroneia,
Da virente Haliarto e de Plateias,
Ou de Hipotebas de edifícios nobres;
Mais do aprazível Netunino luco,
Ou de Mideia e de Arne pampinosa,
Da augusta Nissa, Antédona postrema.
Cada Beócia nau, de umas cinqüenta,
Guerreiros tripulavam cento e vinte.
Os da Minieia Orcómeno e de Asplédon
São com Iálmeno e Ascálafo, que a Marte
Pariu de Actor Azida em casa Astíoque:
À interna alcova da pudica virgem
O deus subiu furtivo e entrou com ela.
Naus destes filhos abordaram trinta.
Sob Epístrofo e Esquédio, nado insigne
De Ífito Naubolides, os Focenses,
Quer de Píton fragosa e augusta Crissa,
Daulida, Ciparisso e Panopeia,
De arredores de Hiâmpole e Anemória,
Quer do ilustre Cefisso, ou de Lilaia
Dele matriz, em galeões quarenta,
Dos Beócios à esquerda os colocaram.
Não como o Telamônio alto e membrudo,
Pequeno em corpo e o seu jubão de linho,
Mas no dardo excedendo Aqueus e Helenos,
O lesto Ajax de Oileu movia os Lócrios,
De Cino, Escarfe, Opóente e Calíaro,
De Bessa a Angeia amena habitadores,
De Tarfe e Trônio, às abas do Boágrio:
Dos que d’além da sacra Eubéia moram,
Seguem-lhe a voz quarenta escuros vasos.
Eubéia expede Abantes alentados:
São de Estira e Caristo, Erétria e Cálcis,
De Histieia racimosa, Dio alpestre
E litoral Cerinto. O Calcodôncio
Príncipe Elefenor, de Márcia estirpe,
Em quarenta galés os petrechara;
Ágeis, forçosos, de comada nuca,
Destros na hasta fraxínea e aos tresdobrados
Peitos hostis em desfazer couraças.
Os da orgulhosa Atenas (corte egrégia
De Erecteu magno, da alma Télus parto,
A quem Palas Dial, que o educara,
Deu sede em ricas aras, onde o povo
De lustro em lustro imola e de ano em ano
Cordeirinhos e bois que a deusa abrandem)
Capitaneia-os Menesteu Petides.
Homem nenhum como ele ordenar soube
Jungidos carros e adargadas hostes,
Salvo o experto Nestor por mais longevo.
Cinqüenta embarcações lhe obedeciam.
De Salamina as doze, reuniu-as
O Telamônio às Áticas falanges.
De Tirinto munida, Argos, Trezene,
Lá do golfo de Hermíone e de Asine,
De Eiona e da vitífera Epidauro,
E de Egina e Masete a flor guerreira,
Tidides fero, Estênelo do exímio
Capaneu filho amado, os reprimiam;
Mais o divino Euríalo, do régio
Talaionides Mecisteu progênie:
Diomedes belicoso o máximo era.
Bojos negros oitenta os encerravam.
Os de Órnias, da magnífica Micenas,
Da altaneira Cleona, áurea Corinto,
Sicíone em que reinou primeiro Adrasto;
Os da fresca Aretírea, os que Hiperésia,
Agros de Hélice extensa e a costa habitam,
E Gonoessa altiva, Égion, Pelena:
Todos em cascos cem trouxe Agamemnon.
Tropa extremada e imensa o rei mantinha;
Em bronze reluzindo, galhardeia
De ser entre os Aqueus o assinalado,
Em forças o maior e o mais possante.
Os do vale da grã Lacedemônia,
Fáris e Esparta, Messa altriz de pombas,
De Amiclas, Lãa, Brísea e leda Augia;
De Helos marinha, de Étilo e contornos:
O estrênuo Menelau, segundo Atrida,
A parte armou-os em galés sessenta.
Afouto os acorçoa, ardido anela
Desagravar o rapto e ais da esposa.
Nestor o velho de Gerena, em cavos
Baixéis noventa, presidia os Pílios,
Os de Épi encastelada e Arena aprica,
De Trio vau do Alfeu, Ciparessenta,
Ptéleon e Anfigênia, de Helos, Dórion,
Onde ufanoso, ao vir de Eurito e Ecália,
A cantar provocou Tamires Trácio
As do Egíaco filhas doutas Musas,
Que o tino e a vista irosas lhe apagaram:
Da alma a poesia lhe fugiu celeste,
Nem na cítara mais dedilhar soube.
Os de perto pugnazes, das da Arcádia
Cilênias faldas, junto à Epítia campa,
De Feneu, Ripe e Orcômeno armentosa,
Tégea, Estrátia e risonha Mantineia,
Ventosa Enispe, Estínfalo e Parrásia,
Práticos na milícia, os acaudilha
Em naus sessenta, cada qual mais cheia,
O Anceides Agapénor. Para o ponto
Cérulo transfretano atravessarem,
Pois que eles da marinha careciam,
Deu-lhas aparelhadas Agamemnon.
Os de Hirmine e Buprásio, Elide santa,
Mírcino extrema, Alísio, Olénia sáxea,
Em dez quadripartida ocupam frota
Que Epeus esquipam. De Cteato filho,
Os manda Anfímaco; após ele Tálpio,
Do Actoriônio Eurito; o Amarineides
Belaz Diores é terceiro; é quarto
O divinal formoso Polixino,
Do Augeiada Agastenes procriado.
Os Dulíquios e os mais das ilhas sacras
Equínades, ao mar de Elide sitas,
Em quarenta baixéis com Márcio arrojo
Meges dirige: a vida a Fileu deve,
Équite a Jove grato, que em Dulíquio
Emigrando esquivou paternas iras.
Os Cefalenses e Ítacos briosos,
Os da áspera Egilipe e de Crocílio,
Zacinto, Samos, Nérito sombria,
E os do Epiro e fronteiro continente,
Ao divo prudentíssimo Laércio
Em doze rubros galeões seguiam.
Em quarenta os Etólios velejaram,
De Olenos, de Pleurona e de Pilene,
Cálcis marinha e Cálidon fragosa,
Sob o Andremônio Toas, que imperava;
Eneu já sendo e a boa prole extintos,
Pois nem restava o louro Meleagro.
Fuscos oitenta cascos, das famosas
Licto, Mileto, Rício, Festo e Cnosso,
Da murada Gortina, alva Licasto,
Na hecatômpola Creta abastecidos,
Anima Idomeneu de invicta lança,
E o de Belona Merion querido.
Nove outros forneceu dos Ródios feros,
Entre Jalisso, Linde e a branquejante
Camiro tripartidos, grande e forte
O hábil hasteiro Tlepolemo, estirpe
De Astioqueia e de Hércules, que a trouxe
De Efírio e do Seleis, cidades várias
Tendo a alunos de Jove derruído.
Crescendo em casa, ele matou Licinos,
Idoso de seu pai materno tio,
Renovo do Gradivo. Esquadra a furto
Forma e guarnece, e escapa-se dos netos
E outros filhos de Alcides à vingança.
Flutua e a Rodes, pesaroso, arriba:
Em tribos três seu povo ali segrega,
Povo benquisto ao nume soberano,
Que largueou-lhe pródigas riquezas.
Nireu três naus irmãs de Sine ostende,
Nireu do rei Caropo e Aglaia prole,
O Grego mais gentil que veio a Tróia,
Depois do em tudo sem senão Pelides;
Mas, pusilânime, arrebanha poucos.
Fidipo e Antifos trinta bucos enchem
(Tessalo Heráclida é seu pai) de quantos
Cultivam Cason, Crápato e Nisiro,
E Cós ilha de Eurípilo e as Calidnas.
De Álope, Argos Pelasga, Álon, Trequina,
De Ftia e de Hélade em beldades fértil,
Os Mirmidões e Aqueus e Helenos ditos,
Aquiles em cinqüenta os refreava.
De horríssonas contendas se deslembram,
Falta-lhes capitão; que, ausente a jovem
Crinipulcra Briseida, o herói a bordo
Irado jaz. Tomou-a de Lirnesso,
Que ele a bem custo soverteu com Tebas,
Mortos Mínete e Epístrofo belazes,
De Eveno Selepíada nascidos.
Mas do ócio ainda surgirá terrível.
Os de Fílace e Itone mãe de ovelhas,
Do Pirrásio de Ceres flóreo parque,
De Ptélon pascigosa e Ântron costeira,
Denodado os juntara em naus quarenta
Protesilau, que a terra já cobria:
Primeiro no saltar, um Teucro o mata;
No inacabado alvergue as faces rasga
Em Fílace a mulher. Saudosos dele,
Do em rebanhos ali possante Ificlo
Nado menor, Podarces ordenava-os;
Tão prestante não era e apessoado,
Mas dignamente pelo irmão supria.
Dos de Glafire e altíssima Iaolcos,
Beba e Feres ao pé do lago Bébis,
Tem galés onze Eumelo, prenda cara
De Admeto e Alceste, exemplo de matronas,
Das que Pélias gerara a mais formosa.
Das sete em que os Metónios e os Taumácios,
Os da tosca Olizona e Melibeia,
Continha o magno archeiro Filoctetes,
Remavam sagitíferos cinqüenta
Cada bélica popa. Em Lemnos sacra
Dos seus desamparado, ele agras dores
Da úlcera de tetra e feroz hidra
Mestíssimo curtia. Os próprios Gregos
Se hão-de amiúde lembrar de Filoctetes;
Mas, bem que tarde por seu rei suspirem,
Submetem-se a Medon, que em Rena espúrio
Houve o urbífrago Oileu. — Tem Podalírio
E Macaon, herdeiros de Esculápio,
Trinta vasos de Trica e bronca Itone,
Também de Ecália capital de Eurito.
De Evemon garfo ilustre, manda Eurípilo,
Da alva serra Titane, Hipéria fonte,
Ormênio e Astério, embarcações quarenta.
Noutras tantas os de Orte, Elon, Gírtone,
Da branca Oloossona e Argissa, o firme
Campeador Polipetes sujeitava-os.
Do rebentão de Jove Pirítoo
Bela Hipodame o concebeu, do Pélion
Nesse dia em que às Étices montanhas
Ultriz lançara os híspidos Centauros.
Leonteu se lhe agregou de Márcio esforço,
Digna vergôntea de Coron Cenides.
Em vinte duas traz Guneu de Cifo
Aguerridos Perebus e Enienes,
Os da fria Dodona, os que residem
Nas lavras do suave Titarésio,
Que sem mesclar-se no Peneu deságua
De vórtices de argento e pulcra a veia
Como óleo sobrenada; pois da Estige,
Grave para jurar-se, ele dimana.
Em quarenta os Magnetes, do frondoso
Pélion e margens de Peneu, vogaram
Sob o veloz Protôo Tentredônio.
Tais são da Grécia os cabos. Lembra, ó Musa,
Qual o mais forte assecla dos Atridas,
Quais dos ginetes os melhores eram.
De um livel, pêlo e dorso, equevas ambas,
Éguas de Feres que maneja Eumelo,
Alípedes que Apolo arco-de-prata
Na Piéria nutrira, muito excelem,
Fêmeas de ímpeto e fogo e as mais tremendas.
O Telamônio Ajax vencia a todos,
Enquanto Aquiles, que sem par sofreia
Os mais guapos frisões, raivoso estava
Nos bicudos baixéis contra Agamemnon.
Nas tendas a coberto, junto aos carros,
Aipo os corcéis palustre e loto pascem.
Pela praia os soldados se divertem
Ao disco, ao dardo e seta; ou, desgostosos
Da inação, na peleja o herói ver querem,
Nos arraiais aqui e ali vagueiam.
Os demais Graios fervem, qual se a flama
Vorasse a terra; e a terra do estrupido
Muge e calcada geme, como quando
Em cólera o Tonante o chão verbera
De Arima, em que Tifeu se diz repousa.
Eles transpunham rápido a campina.
Mais que o vento ligeira, aos Teucros Íris
Do Egífero desceu com triste anúncio:
Mistos velhos e moços discutiam
Aos pórticos reais; com rosto e fala
Do Priâmeo Polites, sentinela
De Esiete no túmulo vetusto,
Que, em pés fiado, a ponto vigiava
Se do recinto os Gregos se buliam,
Acomete a celeste mensageira:
“Como em dias de paz, senhor, debates,
E a guerra hoje rebenta inelutável.
Afeito a pugnas, tropas tais e tantas
Nunca vi: da cidade assaltadores
Iguais às folhas e às areias marcham.
Heitor, ouve-me agora. Auxiliares
De vária casta e língua em Tróia abundam.
Cada príncipe os seus, tu firma os nossos;
Mas a suma ordenança a ti pertença.”
Heitor, apenas reconhece a deusa,
Despede o parlamento; o al’arma soa.
Abertas, precipitam-se das portas
Em burburinho equestres e pedestres.
Ante Ílio na planície avulta um cole,
De caminhos cercado, que os humanos
Batícia, imortais sepulcro chamam
De Mirina agilíssima: distintos
Aí perfilam Teucros e aliados.
Dos Troianos à testa, o Priamides
Cristado exímio Heitor em cópia armara
Seletos belacíssimos hastatos.
Os Dardânios alenta o grande Eneias:
A deusa Vênus do mortal Anquises
Teve-o no cume Ideu. Com ele Acamas
E Arquíloco Antenóridas comandam,
Em omnígeno prélio examinados.
Aos que às raízes do Ida em Zélia bebem
Água do fundo Esepo, venturosos,
De Licaon precede o claro filho
Pândaro, a quem doou seu arco Apolo.
Nos de Pitieia, Adéstria, Apeso e Téries,
Alto monte, imperava Adrasto e Ânfio
De couraça de linho; irmãos que o padre
Percóssio Méropo, adivinho e cauto,
Vedou que entrassem na homicida guerra:
Surdos a nera Parca os atraía.
Os varões de Percote, Sesto e Abido,
Prátio e Arisba divina, desta o Hirtácio
Príncipe Ásio os viera estimulando;
Ásio que doma férvidos cavalos,
Das ribas do Seleis famosas crias.
Das Larisseias glebas os Pelasgos
Lanceiros com Pileu manda de Hipotoo,
Do Teutamides Lito márcios filhos.
Do estuoso Helesponto rege Acamas
E herói Piroo os Traces. — Rege Eufemo
Sagitários Cicones, de Trezênio
Ceades geração, dileta a Jove.
Tem Pirecme os Peônios de arco e amentos,
Lá de Amídone, do Áxio largo à margem,
Do Áxio que inunda límpido a campanha.
Pilemeneu veloso os Paflagônios
De Enete move, altriz de agrestes mulas,
Os que o Citoro e Sésamo possuem,
As lindas várzeas do Partênio rio,
Comna e Egíalo e os celsos Eritinos.
Da longe Aliba vêm de argênteas minas,
Sob Epistrofo e Hódio, os Halisones.
Os Mísios Crómis guia, e o vate Enono,
A quem da morte agouros não livraram:
Furente o Eácida o prostou no rio,
Que rubro intumesceu de humano sangue.
Acesos Fórcis e o deiforme Ascânio
Da Ascânia os Frígios à batalha impelem.
Das Tmólias faldas os Meônios seguem
A Antifo e Mestles, Pilemênios ambos,
Da Gigeia lagoa produzidos.
Os Cares de Mileto e Ftiro umbroso,
Do Meandro e Micale de árduos picos,
De linguagem barbárica, os sopeiam
Os filhos dois de Nómion preclaro,
Nastes e Anfímaco. Este, qual donzela
De ouro enfeitado, insano floreava:
O enfeite o não salvou; que às mãos de Aquiles
Tem de haurir no Escamandro o gole amaro,
Será do vencedor esse ouro presa.
Os Lícios lá do Xanto vorticoso
Conduz Sarpédon, e o sem mancha Glauco.* * *
NOTAS AO LIVRO II
148. Na Eneida quis servir-me de abordar no figurado, mas receei que cheirasse a galicismo: aqui aventurei-me. Este verbo significa em português por a borda de uma embarcação contígua à de outra, ou abalroar, e figuradamente acometer: Barros e outros clássicos o trazem a miúdo. Será galicismo na significação de chegar, se quem chega não vem com ânimo de hostilizar ou de repreender; mas se vem com esse ânimo, então o figurado facilmente corre do sentido próprio, e é admissível. Não sou dos que fogem do verbo exigir, que é do latim e tem um sentido muito especial, só porque os Franceses dele usaram primeiro. Em semelhantes palavras, o essencial é lançar mão delas discretamente: exigir, em vez de pedir, em vez de requerer é abusivo; garantia (para darmos outro exemplo) é indispensável no sentido das constituições modernas, e é insuportável na significação de abono ou fiança ou segurança; e assim por diante. Aspiro a ser puro e não a ser purista.
170. Minerva manda Ulisses impedir a partida, e recomenda-lhe bons termos e doçura; mas o sábio entendeu que isso era para os magnatas, e levou o povo a golpes de cetro. É antiquíssimo haver duas justiças, uma para os figurões e outra para os pequenos. É aqui Homero fiel historiador.
238—246. Glaukópis é quem tem olhos verdemares ou cor de azeitona. Os nossos o vertem por de olhos gázeos ou garços ou zarcos: deixo-me ir com a maior parte, posto que tenha por mais exato o primeiro sentido. Crêem outros, não sei com que fundamento, que o adjetivo quer dizer cor de olhos de coruja. — Qual no singular torna-se invariável nas comparações; vem em Moraes, que cita a Camões: — Qual para a cova as próvidas formigas. — Não o traz Constâncio, sem embargo de ser útil por abreviado e elegante.
262—273. Francisco Manuel, em nota aos Mártires, verteu esta passagem admiravelmente. Adotei-lhe os versos com leve diferença; e fi-la, porque ele omitiu alguma cousa que se refere aos antecedentes, e eu nada podia omitir.
319. Alguns tradutores não se lembraram de que em Homero, se às vezes podemos sem inconveniente alterar a ordem em que vêm os nomes próprios, nem sempre é isso permitido. Aqui não se poderia pôr Febo em primeiro lugar que Palas, porque esta ocupava as honras depois logo de Júpiter, e só lhas disputava Juno. Diz Horácio: Proximos illi (Jovi) tamen occupavit Pallas honores.
429. Começa a enumeração das naus, difícil de verter pelos muitos nomes próprios de homens e terras. Os Italianos ordinariamente não omitem os epítetos; o que lhes levou a mal Rochefort, afirmando que sendo a passagem excelente em grego, é impossível trasladá-la em francês em muitas particularidades, e ralha com eles por ousarem fazê-lo: ao mesmo tempo tachou a língua toscana de inconsistente e não sei de que mais, quando na verdade é sonora, doce, poética e locupletíssima. Para o francês mostrou M. Giguet, na sua tradução em prosa, que se podiam traspassar os epítetos gregos. Se idéias há que mais sobressaem numa língua do que em outra, não é menos certo que o belo o é em todas e em todos os séculos: quando uma boa obra no original torna-se má na versão, culpa é do tradutor. — Este lugar, cheio de adjetivos compostos e de nomes individuais, para agradar aos modernos deve ser sustentado com harmoniosa versificação ou com prosa à Chateaubriand. Outros constam de miudezas, interessantes aos antigos e fora do gosto presente; outros parecem vulgares ou baixos. O meio de acabar o tradutor com essa vulgaridade ou baixeza, é exprimir-se em termos precisos e frisantes; por exemplo, quando se fala da matança ou talho das reses, dos golpes em certos membros ou partes do corpo. Que há de mais comum e simples que preparar um chá e convidar para ele um amigo? Porém Garção pintou com tão vivas cores todos os pratos, que é esse um dos seus admiráveis sonetos: o espírito, ocupado em confrontar a expressão com os objetos, sente um grandíssimo prazer; não nos deleitamos somente com o sublime e com o patético, e no mundo de pensamentos e imagens que se chama epopéia bom é haver de tudo. — Não sou pois daqueles que desprezam formosos pedaços de Homero sob o pretexto de serem contra o paladar moderno. Cumpre lutar com o original, temperando a iguaria com os adubos que nos ministra cada língua, ou pedindo-os às estranhas em caso de necessidade: o mais não é traduzir; é emendar ou corrigir o que não há mister emenda nem correção; é tirar aos leitores o gosto de penetrar na antiguidade.
571. O epíteto hecatômpola, que ouso introduzir, quer dizer de cem cidades: não se confunda com hecatômpila, isto é de cem portas, introduzido por Francisco Manuel; do qual me servirei também nesta versão.
* * *
LIVRO III
Os Teucros em batalha, após seus cabos,
Gritando avançam: tal se eleva às nuvens
Dos grous o grasno, que em aéreas turmas,
Da invernada e friagens desertores,
Contra o povo Pigmeu com ruína e morte,
O Oceano transvoam. Desejosos
De entreajudar-se, tácitos os Gregos,
Força e coragem respirando, marcham.
Qual se, ingrato ao pastor, Noto enche os cumes
De névoa, mais que a noite ao furto asada,
Pois que a tiro de pedra mal se enxerga;
Aos pés túrbido pó não menos surge
Dos que iam pelo campo acelerados.
Perto eles já, da prima Tróica fila
Páris nítido sai: com arco e espada,
Pele de um pardo enverga; de ênea ponta
A vibrar dois hastis, os mais valentes
Um por um desafia. Em grave passo
Vendo-o vir Menelau, como esfaimado
Leão exulta que, ao topar fornido
Galheiro cervo ou corpulenta corça,
Ferra-o voraz, embora em cerco o apertem
Viçosos moços, vívidos sabujos.
Do coche em armas vingativo salta;
Mas Alexandre, que na frente o avista,
Para os seus retraiu-se estremecendo.
Se alguém no serro ou brenha encontra serpe,
Trépido recuando empalidece:
O deiforme elegante assim do Atrida
Aos soberbos Troianos retrocede.
Agro o invectiva Heitor: “Funesto Páris,
Mulherengo falaz, nunca nasceras;
Ou solteiro acabar melhor te fora
Que escárnio a todos ser. És sim bonito;
O Argeu comado, que pugnaz te cria,
Ri de que alma tão vil teu corpo aloje.
A navegar, poltrão, forçaste amigos,
Da Ápia ousando a beleza peregrina,
Consorte e irmã de heróis, trazer contigo?
E és a teu pai flagelo, aos teus e à pátria,
Mofa de estranhos, de ti mesmo opróbrio?
Fugiste a Menelau? provaras que homem
Houve as primícias da mulher que usurpas:
Cítara, nem madeixas, nem beldade,
Nem Vênus com seus mimos te valera,
No pó submerso. Por devida paga,
Se os nossos Teucros tímidos não fossem,
Tu já vestiras túnica de seixos.”
E o formoso Alexandre: “Essa fraterna
Mereço, Heitor; mas no âmago tens rijo
Coração, qual secure que, aumentando
Ao pulso a robustez, penetra o lenho,
Talha e em navais aprestos o afeiçoa.
Da áurea Vênus os prêmios não me exprobres;
Nem são de recusar os dons celestes,
Nem alvedrio é nosso o consegui-los.
Se me queres na liça, Aqueus e Troas
Sossega: eu só com Menelau a braços
Dispute Helena; o vencedor aceite
E reconduza a dama e os seus tesouros.
Ferido o pacto, em sólida amizade
Neste pingue torrão fiquem-se os nossos;
De cavalos fecunda aqueles Argos
E Acaia busquem de gentis mulheres.”
Folga Heitor, e hasta em punho, os seus retendo,
Se adianta; mas alvo era de pedras,
Frechas e lanças, té bradar o Atrida:
“Basta, Aquivos, cessai, crinita gente;
Que acena o galeato herói Priâmeo.”
Ei-los subitamente se aquietam,
E chama Heitor: “Sabei de mim, Dardânios
E Aqueus de fina greva, o que Alexandre
Propõe, da guerra autor. De parte a parte
Largadas no almo chão fulgúreas armas,
Menelau marcial a sós com ele
Dispute Helena; o vencedor aceite
E reconduza a dama e os seus tesouros;
Nós outros aliança e paz firamos.”
Calam-se, e Menelau sonoro troa:
“Sede-me atentos; esta angústia é minha.
Atormenta-me a guerra: Aqueus e Troas
Por mim, por Alexandre origem dela,
Nímio têm padecido! Os mais pactuem;
Morra qualquer um dos dous que a Parca assine.
Preta imole-se à Terra uma cordeira,
Cordeiro branco ao sol, branco ao Satúrnio.
Mas Príamo o tratado ratifique;
Seus filhos com perfídia os juramentos
Podem quebrar, sem pejo do Supremo.
Dos mancebos a mente é sempre instável:
O ancião, reportando-se ao passado,
Olha ao futuro, concilia todos.”
Alegram-se os Trojúgenas e Aquivos,
Terminar concebendo a luta infausta.
Dos coches apeando, os enfileiram;
As armas despem, que ante si descansam:
Breve espaço medeia. Dois arautos
Expede logo Heitor, que as reses tragam,
E a Príamo convida. A rês terceira
Manda vir Agamemnon por Taltíbio,
Que ao rei submisso para as naus caminha.
A Helena bracicândida vem Íris,
Nas feições de Laódice, do Antenório
Príncipe Helicaon dileta esposa,
E a mais bela de Príamo gerada.
Acha-a tecendo em casa dupla trama,
Luzida e larga, onde as ações bordava
Que arnesados Aqueus e éqüites Frígios
Sustentavam por ela encruecidos.
Chega a núncia veloz: “Sus, ninfa amada,
Contempla e admira os Graios e os Troianos:
Não há muito, em combates lagrimosos
Ardiam por matanças; quedos ora,
Sem contenda, arrimados aos escudos,
Os longos piques junto a si pregaram.
Só lança a lança Menelau com Páris
Vai duelar: do que vencer o nome
Terás de queridíssima consorte.”
Assim na alma a saudade se lhe estampa
Do marido e dos lares e parentes.
De véu cândido ao rosto, água nos olhos,
Saiu do gineceu; não vai sozinha,
Vai com fâmulas duas, a Pitéia
Etra e Climene de bovinos lumes.
Às portas Ceias já de assento encontra
A Príamo na torre, e Panto e Clício,
Hiceteon belaz, Timetes, Lampo,
Mais Antenor e Ucalegon sisudos,
Que por velhos abstinham-se da guerra;
Porém, bons oradores, semelhavam
A cigarras que, n’árvore pousadas,
A selva adoçam com suave canto.
À torre vendo aproximar-se Helena,
Dizem baixo entre si: “Não sem motivo
Povos rivais aturam tantos males!
Que porte e garbo! efígie é das deidades.
Mas, tal qual seja, embarque; a nós de exício
Não continue a ser e a nossos filhos.”
Então chamou-a Príamo: “Anda, ó cara,
Teu cônjuge primeiro e afins e amigos
Atenta ao pé de mim. Não és culpada;
Guerra tão crua, os deuses ma enviaram.
Aquele Argeu quem é, bizarro e esbelto?
Outros se lhe avantajam na estatura;
Mas nunca os olhos meus tamanho viram
Decoro e majestade: um rei parece.”
Respondeu-lhe a mais nobre das mulheres:
“Amado sogro, temo-te e venero;
Oh! morte eu padecera, antes que o toro
Por teu Páris tivesse abandonado,
E os irmãos e a só filha e as companheiras!
Eu vivo e em mesto pranto me definho.
Mas vou satisfazer-te: o herói que apontas
É rei sublime e campeão tremendo,
O pujante Agamemnon; que vergonha!
Se um dia o mereci, foi meu cunhado.”
Pasma e exclama o ancião: “Feliz Atrida!
Mimoso da fortuna, que em florentes
Graios dominas! Muitos vi peritos
Cavaleiros da Frígia pampinosa,
E as de Migdon divino e Otreu falanges,
Que do Sangário às bordas acampavam;
Lá como auxiliar no ataque estive
Das viris Amazonas: mor quantia
De olhi-negros Aquivos se apresentam.”
Prossegue a interrogá-la: “A quem do Atrida
Sobrepuja a cabeça, dize ó filha,
E é dos peitos mais largo e das espáduas?
Em terra as armas, as fileiras corre:
De espessa lã guieiro se me antolha
Que entre infindo passeia alvo rebanho.”
Torna a Dial vergôntea: “Esse o prudente
Laércio Ulisses é, de Ítaca rude,
Em todo estratagema e ardis sabido.”
E Antenor: “A verdade, ó mulher, falas.
Por teu respeito aqui já veio Ulisses
De embaixador com Menelau: prestei-lhes
Uma franca e amigável hospedagem.
Discerni a cordura e o gênio de ambos.
Eles em pé, dos Teucros no conselho,
Menelau sobranceiros tinha os ombros;
Sentados, o Laércio mais nobreza.
Não multíloquo e vago, embora jovem,
Sim conciso os discursos bem tecendo,
Razões argutas Menelau volvia.
Mas, se o Ítaco a orar se levantava,
No chão pregada a vista, o cetro imóvel,
Direito e sem pender, o creras homem
Inexperto, iracundo, ou quase louco;
Do imo ao soltar a voz, qual neve hiberna
As palavras em flocos lhe choviam:
Com ele então ninguém se comparasse;
Na facúndia e no gesto era um portento.”
“Quem é, pergunta Príamo, o guerreiro
Que, espadaúdo e grande, a fronte acima
Dos Dânaos assoberba?” — “É, disse a nora,
Ajax, dos Gregos fortaleza e muro.
Idomeneu Cretense ali dos cabos,
Como um deus, se rodeia: ao vir de Creta,
De Menelau nos paços o acolhíamos.
Outros vejo daqui de negros olhos,
Que eu fácil nomeara; mas não vejo
Castor na picaria, insigne Pólux
No pugilato, príncipes das gentes,
Maternos meus irmãos: ou não largaram
Da leda Esparta, ou nos baixéis detidos,
Pejam-se de empenhar-se nas pelejas
Que, por meu vitupério, se prolongam.”
Oculto lhe era que ambos já na doce
Pátria Lacedemônia descansavam.
Traziam da cidade os mensageiros
As hóstias e odre cheio de jucundo
Bom licor de natio; Ideu cratera
Também traz luzidia e copos de ouro,
E assim convida o rei: “Sus, Laomedôncio;
Magnatas Frígios e emalhados Gregos
Rogam desças e o pacto nos confirmes.
De hastas com Menelau contenda Páris:
Quem vencer haja Helena e seus tesouros.
Ferida a paz, em Tróia ficaremos;
De cavalos fecunda aqueles Argos
E Acaia busquem de gentis mulheres.”
Manda o coche arrear trêmulo o velho:
Obedecem-lhe; sobe e os loros tira;
Sobe Antenor com ele; os corredores,
Das portas Ceias despedidos, param.
Já do assento vistoso desmontados,
Entre Aqueus e Troianos caminhavam;
Ergue-se o mor Atrida e o cauto Ulisses.
Prestes as reses, na cratera o vinho
Os arautos resplêndidos misturam,
Água às mãos régias cristalina vertem.
Puxa Agamemnon do cutelo, apenso
Da bainha da espada formidável,
Raspa a moleira às vítimas, e o pêlo
Os arautos aos próceres dividem;
Ele alça deprecando a voz e as palmas:
“Do Ida augusto senhor, máximo padre,
Sol que vês e ouves tudo, rios, Terra,
Vós que no inferno castigais perjuros,
Desta aliança fiadores sede.
Se Páris vence a Menelau, conserve
Toda a riqueza e a dama, e nós voguemos;
Se o vence o louro Atrida, aqui nos rendam
Helena e o seu tesouro, e por memória
Multa condigna paguem: morto Páris,
Se Príamo e seus filhos ma refusam,
Té que os force ao dever, não largo as armas.”
Nisto, as gargantas aos cordeiros sangra:
Exânimes no solo e palpitantes,
Do éreo instrumento ao gume a vida perdem.
Rasos os copos, a cratera esgotam,
E ao Supremo libando o voto expressam,
Ou cada Argivo ou Teucro: “Jove eterno
E mais deuses, no chão, como este vinho,
Dos que primeiro o pacto violarem
Esparjam-se os miolos e os dos filhos,
Sejam dos outros as mulheres suas.”
Nada firma o Satúrnio, e o rei Dardânio:
“Ó Troas, balbucia, Aqueus, ouvi-me:
Volto a Ílion ventosa; que estes olhos
Entre o rival belígero e o meu Páris
O duelo cruel suster não podem.
Júpiter sabe e os imortais qual deles
Chamam seus fados.” — O varão divino
Monta, no coche as vítimas coloca;
Tem consigo Antenor, e as rédeas bate:
Ambos à desfilada se recolhem.
Eis Ulisses e Heitor o espaço medem,
Eis num elmo sorteiam quem da lança
Aênea encete o bote. Frígio ou Graio,
Súplice as mãos estende e aos céus implora:
“Do Ida augusto senhor, máximo padre,
Quem quer que o mal causasse, a Dite o entregues;
Nós de amizade o pacto mantenhamos.”
Sacode o elmo Heitor, e o rosto vira;
Sai o nome de Páris. Em fieira,
Têm seus donos ao pé cavalos e armas.
Arnesa-se Alexandre, o pulcro esposo
Da emadeixada Helena: as caneleiras
Com prata afivelando, ao peito a coura
Do irmão seu Licaon, que bem lhe quadra,
Lâmina aênea claviargêntea ombreia,
De grande escudo sólido se adarga;
Flutua-lhe à cabeça o capacete,
De crina e hórrida crista, primoroso;
Pique válido empunha. De iguais armas
Galhardo Menelau se adorna e veste.
De ponto em branco, ao meio avançam torvos:
Frio estupor, a tal conspecto, assalta
Bem grevados Aqueus e éqüites Frígios.
Sanhudos no recinto se acometem,
Hastas brandindo. A sua arroja Páris;
Rasca o broquel do Atrida sem rompê-lo,
Na brônzea rigidez se amolga a ponta.
Menelau, por seu turno, impreca: “Ó Jove,
Dá-me a injúria anular que hauri primeira;
No sacrílego autor meu braço a puna.
De atraiçoar vindouros estremeçam
O hóspede lhano que os receba amigo.”
A lança aqui desfere, que no instante
Ao Priâmeo entra aguda o reforçado
Fúlgido escudo, rasga-lhe a excelente
Loriga e malha, a túnica penetra
No quadril: curva-se ele e a morte esquiva.
De argênteos cravos puxa o Atrida o gládio,
Que na cimeira voa-lhe em pedaços;
Fitando os céus então, suspira e geme:
“És o mais sevo nume, ó tu Satúrnio,
Cuidei nesse traidor vingar a afronta:
Estalou-me nas mãos, oh! raiva, a espada,
E arremessei frustrâneo um tiro cego.”
Nisto, pelo cocar o aferra e empuxa
Para os Aqueus: o pespontado loro
Que ao mento o elmo liga, a mole goela
Cerra e o sufoca; eterna glória obtendo,
Firme o arrastara, se a Dial Ciprina
Rapidamente não quebrasse o atilho,
De hóstia bovina espólio. O herói, sacado
O elmo vazio, a revoltões remete-o
Aos contentes consócios, que o recadam.
Por matá-lo inda enrista acesa lança;
Mas fácil, como deusa, em névoa grossa
Vênus o leva ao tálamo fragrante.
À torre mesma corre, onde acha Helena
Entre as Dardânias: unectário peplo
Abanando-lhe, o vulto imita e as rugas
Da fiel cardadeira que na Esparta
As lãs curava e as boas lhe escolhia;
Disfarçada comete-a: “Vem, que Páris
No toro conjugal te aguarda, filha:
Enfeitado e gentil, não de um combate
Livre o julgaras, sim que a dança o espera,
E que já de um folguedo refocila.”
A Helena isto comove; mas, donoso
Vendo-lhe o seio, o colo de alabastro,
Dos olhos o fulgor, pávida exclama:
“Bárbara, em fascinar-me assim prossegues?
Rojar-me intentas à Meônia ou Frígia?
Lá tens algum mimoso entre esses povos?
Quando, o guapo Alexandre hoje abatido,
Ré Menelau me aceita e me perdoa,
Traças com teus enganos empecer-nos?
Vai tu própria; não ponhas pés no Olimpo.
Esquece os deuses, dele sempre ao lado,
Suporta-lhe o desdém, até que esposa
Tu sejas de um mortal, ou sua escrava.
Não mais, desse cobarde o leito ornando
Quero a fábula ser das Teucras damas,
Curtir nova desonra e mágoas novas.”
E a deusa irada: “Não me apures, teme
Que eu te persiga, mísera, e aborreça
Quanto hoje te amo: excitarei discórdia,
Que os Dardânios e os Gregos exaspere,
E vítima serás de horrendos fados.”
Estremece a Ledéia, e silenciosa,
Do peplo candidíssimo velada,
Às Troadas se furta, e a guia Vênus.
No palácio elegante apenas entram,
As servas todas no lavor se apressam;
Monta à câmara sua Helena bela.
Numa sede a coloca a mãe dos risos
Em face de Alexandre; aversa olhando
A do Egífero neta o argúi severa:
“Pois te salvaste? aos golpes sucumbisses
Do meu primeiro esposo! Em destra lança
E em força te gabavas de excedê-lo:
Anda, provoca a Menelau brioso,
Torna ao duelo agora. Estulto, crê-me,
O louro Menelau nem mais encares,
Que da hasta e forte mão serás prostrado.”
Brando se escusa Páris: “Doce Helena,
Com essas lancetadas não me punjas:
Venceu-me o Atrida por favor de Palas;
Deuses mais faustos me farão vencê-lo.
Vamos em nossa cama congraçar-nos:
Tal ardor nunca tive e tais desejos;
Nem quando, arrebatada à meiga Esparta,
Velejava contigo, e a vez primeira
Na ilha Cranaé do amor gozamos;
Hoje mais te apeteço e mais te anelo.”
Então sobe adiante, e o segue a esposa;
No entalhado seu leito adormeceram.
Menelau, como fera, escuma e vaga
Em busca do formoso e divo Páris:
Nem Troa algum, nem ínclito aliado
Ao valente rival mostrá-lo pôde;
Que nenhum o escondera, a todos sendo
Ódio mortal. — Bradou-lhes Agamemnon:
“Teucros e auxiliares, atendei-me:
Claro a vitória a Menelau pertence;
Rendei pois a riqueza e Helena Argiva,
Multa pagai-nos que o porvir memore.”
Dos seus o aplauso unânime retumba.* * *
NOTAS AO LIVRO III
16—18. Pardo por leopardo é de Sá de Menezes. — Láinon esso chitóna não diz foras sepultado, sim apedrejado: o vocábulo seixos aclara o pensamento.
125—127. À pg. 299 do meu Virgílio Brasileiro, edição de 1858, falando eu da torre que Eneias fez desabar sobre os Gregos, aprovei a opinião de Delille de ser dali que Helena a Príamo nomeava os capitães inimigos: hoje, refletindo nesta passagem de Homero, vejo que é falsíssima aquela opinião. O palácio era dentro da cidade, longe do teatro das batalhas; tanto assim que, vindo firmar a convenção, num carro com Antenor desceu o velho às portas Ceias, e à torre que ali formava uma das defensas é que o veio encontrar a nora, e foi donde ela nomeou os Gregos. É claro pois, a quem estudar os lugares de Homero e de Virgílio, que trata cada um de uma torre diferente. — À vista do que, injusta é a censura de M. Bignan, concebida assim: “Comment se fait-il qu’aprés un siège de dix ans, Priam, au troisième chant, soit obligé de demander les noms des heros grecs, et qu'Helene ne sache pas si ses deux fréres Castor e Pollux sont venus combattre devant Troie?” — Examinemos. O decrépito Príamo nunca assistia às batalhas, e os Gregos nunca se aproximavam senão para atacar: abrigado o velho no seu palácio não os podia ver senão de longe, isto é da torre que Eneas fez desabar, a qual dominava toda a cidade e o acampamento, e dali não se distinguiam as pessoas, mas somente o todo do exército. A vez primeira que esteve perto dos inimigos, foi esta em que as tréguas lhe permitiram vir com segurança. — Quanto a não ter Helena alguma notícia dos irmãos, com Mme. Dacier e com o marquês de Fortia d’Urban, membro do Instituto de França, respondo que Páris sem dúvida lhe tinha ocultado a morte dos irmãos para não magoá-la.
130—138. Homero tem por suave a estrídula voz da cigarra, e lhe compara os bons discursos. Rochefort, que certamente não gostava de tal canto, opina que o poeta assemelha a monotonia das arengas dos velhos à monotonia das cigarras: se assim fosse, a comparação tivera sido em desabono da eloqüência de Antenor e dos demais, quando é evidente que os louva. Ora, posto que aspérrimo o tal ruído, ao longe todavia, sendo menos áspero, pode alguma vez agradar a um viandante depois de longo e fastidioso caminho por solidões silenciosas; o que teria experimentado Homero nas suas peregrinações. — É sabido que este elogio a Helena, de velhos que reprovavam o rapto e a insistência de Príamo, é talvez o maior que se tem feito à formosura; elogio tanto mais admirável, quanto mais simples é nas expressões e palavras.
216. Contra o parecer de alguns, uso de Frígios por Troianos. Sendo a cidade na Troada e a Troada na Frígia, podemos chamar Frígios ou Troas os que pelejavam contra os Gregos, assim como chamamos Europeu ou Italiano a qualquer Genovês. Em certos casos porém cumpre fazer a diferença; v. g. quando, ao enumerarem-se os capitães de Príamo, assinam-se a cada um as tropas do seu comando. Quanto aos nomes Aquivo ou Aqueu, Argivo, ou Argeu, Tessalo, Mirmidon, Heleno e outros, milita a mesma razão: ora podem-se tomar uns pelos outros, ora devem-se especificar. Obrando assim, vou com Virgílio, que só por só, no meu conceito, entendia melhor a Homero que os modernos críticos e tradutores: sem escrúpulo o sigo às mais das vezes, preferindo o seu juizo ao dos sábios dos nossos tempos.
364. Egífero, adjetivo latino, corresponde a egiacho adotado por Monti no italiano: sirvo-me de ambos, segundo o pede a eufonia: egíaco no grego é o que traz escudo de pele de cabra ou égide. Nos livros antecedentes já tenho usado deste epíteto.
* * *
LIVRO IV
Em consulta com Jove recostados,
Néctar Hebe louçã tempera aos deuses
Na régia de áureo solho, e de áureas taças
Mutuam brindes a atentar em Tróia.
Eis, com mordaz cotejo, a irmã Satúrnio
Remoca: “A Menelau protegem duas,
Juno Argiva e Minerva Alalcomênia,
Que de olhá-lo tranqüilas se comprazem;
De Páris guarda assídua, a mãe dos risos
Da Parca o subtraiu, tem-no em seguro.
Ao bravo Menelau coube a vitória.
Deliberemos se é melhor de novo
Encarniçar a guerra, ou congraçá-los.
A ser a paz jucunda às partes ambas,
Habite-se de Príamo a cidade,
O Atrida reconduza a Grega Helena.”
Contíguas, gemem comprimindo os lábios
Juno e Minerva, e dano aos Teucros urdem.
Cala e a seu pai Minerva oculta a raiva;
Mas Juno estoura: “Atroz Satúrnio, como!
Corcéis tenho estafado em colher tropas
Contra Príamo e os seus; e frustrar queres
Meu suor, meu trabalho? Embora o faças;
Nunca os deuses porém to aprovaremos.”
O anuviador se indigna: “Endiabrada,
Em que Príamo e os filhos te pecaram,
Para afanares sempre arrasar Tróia?
Só fartarás esse ódio quando, as portas
E os muros conquistados, cru devores
Príamo e os Priamidas e o seu povo.
Bem; não seja entre nós de briga acerba
Este o motivo. Mas na mente o grava:
Se extirpar me aprouver cidade que ames,
Não me embargues a cólera; que à tua,
A meu pesar, entrego Ílio sagrada;
Que eu, sob o pólo e o sol, nenhuma honrava
Tanto como essa, nem terrestres homens
Como ao bélico Príamo e os Troianos:
Recendiam-me sempre as aras pingues,
Nunca a nós outros libações faltavam.”
E a de olhos majestosa: “Três cidades
Às mais prefiro, Esparta, Argos, Micenas
De amplas ruas: soverte-as, se as odeias,
Que não to levo a mal: e, se o levasse,
Que lucrava em me opor, se és mais potente?
Convém não malograres meus desígnios,
Nasci também do perspicaz Saturno,
E às deidades precedo, irmã e esposa
Do rei dos imortais: guardemos ambos
Mútuo respeito para exemplo deles.
Manda já Palas excitar a pugna;
Trace o como Trojúgenas infrinjam,
Não triunfantes Gregos, a aliança.”
Concorda o pai supremo, e volto a Palas:
“Já, passa aos dois exércitos, sem mora
Traça o como Trojúgenas infrinjam,
Não triunfantes Gregos, a aliança.”
Propensa a deusa, incontinente voa
Lá do empinado Olimpo. Qual estrela,
Se, ao nauta e às hostes portentosa, a envia
O alto Satúrnio, fulgurante brilha;
Tal desliza na arena e ali se ostende.
Pasmam da aparição e entre si rosnam
Grevados Gregos, picadores Teucros:
“Quer o árbitro da guerra a paz firmar-nos,
Ou da matança renovar as cenas.”
Ei-la, entre a chusma Teucra, simulada
No Antenórida impávido Laodoco,
Pós o robusto Pândaro deiforme,
Que em meio estava das do rio Esepo
Tropas abroqueladas que o seguiram.
Chega e de golpe: “Queres-me um conselho,
Ínclito Licaônio? Expedir ousas
Ligeira seta a Menelau? Ganharas
Honra e o Teucro louvor, e o régio Páris
De bens te enriquecera, ao ver domado
Por ti, na triste pira, o márcio Atrida.
Eia, abaixa-lhe o entono; ao de arco exímio
Lício Apolo hecatombe de cordeiros
Primogênitos vota que lhe imoles,
Teu palácio ao rever na santa Zélia.”
Néscio desta arte o suadiu Minerva,
E ele o seu arco destojou brunido.
Espreitando a lascivo agreste capro
Ao pular de um rochedo, roto o peito,
O estirava supino: artífice hábil
De palmos dezesseis lhe engenha os cornos,
E lhos alisa e de ouro os encastoa.
Apóia em terra este arco, e o tende e ajusta;
Escudam-se os intrépidos consócios,
Temendo o assaltem marciais Aquivos,
Primeiro que seu rei ferido seja.
Destapando o carcás, tira empenada
Intacta frecha, de atras dores fonte,
Que ao nervo adapta: e a Febo arcipotente
Cem anhos primogênitos promete,
Para quando voltar a santa Zélia.
Puxa o extremo chanfrado e a táurea corda;
A corda à mama encosta e o ferro ao arco;
O arco arredonda-se e desarma o estalo;
O estalo zune, e voa a seta aguda,
De abrevar-se no sangue impaciente.
Houve o Céu, Menelau, de ti cuidado:
Palas depredadora ocorre e a frecha
Desvia-te empezada, qual de leve
A mosca enxota a mãe da criancinha
Sopita em meigo sono; a ponta mesma
Dirige aonde fechos de ouro atacam
Talim que ao peitoral duplica a força.
Pelos dedáleos cinturão e coura,
Ela perfura a malha tão provada,
Reparo derradeiro, e a pele esflora:
Cruor escuro da ferida mana.
Quando o marfim mulher Meônia ou Cária
Para cãibas eqüinas purpureia,
Na casa exposto, o invejam cavaleiros;
Mas tem só de arrear ginete régio:
Tal, Menelau, tingiram-se-te as rijas
Coxas, pernas, luzidos tornozelos.
Ao roxear do sangue, o rei dos homens
Horrorizou-se, e Menelau com ele;
Mas, fora vendo a seta e o nervo e as barbas,
Alento cobra o generoso peito.
Com mágoas dos consócios, Agamemnon
Tem-no e grave suspira: “Irmão dest’alma,
Sagrei-te à morte com selar por todos
Pugnasses tu. Feriram-te e calcaram
Os Troianos a fé; mas vãs não foram
Hóstias, nem libações, nem destras dadas:
Se do Olimpo o senhor hoje os não pune,
Há-de os punir; com suas vidas próprias,
De esposas, filhos, pagarão de sobra.
Cuido próximo o dia em que Ílio sacra
E o rei beloso e o povo seu pereçam:
Lá das alturas, da perfídia em ódio,
A égide horrenda agitará Satúrnio;
Nem fútil é seu ódio. Mas, se a Parca
Tronca-te a vida, ó Menelau, que luto!
A Argos sequiosa voltarei, de infame
Labéu marcado; que, na pátria os Graios
Só tendo a mente, a Príamo e aos Priâmeos
Deixaremos a palma e Helena Argiva.
Podres em Tróia jazerão teus ossos,
Sem concluir-se a empresa; e um desses feros,
Do claro Menelau sobre o sepulcro
Motejará: — Sacie o rancor sempre
Deste modo Agamemnon, que infinitas
Falanges trouxe embalde às nossas plagas:
Abandonando a Menelau valente,
Já vogou sem despojo ao doce ninho. —
Antes que eu ouça tal, me engula a terra!”
O herói flavo o assegura: “Nem te assustes,
Nem aterres o exército; que a seta
Letal não foi: meu boldrié salvou-me,
E o cinturão e a malha, obra de mestre.”
E inda Agamemnon: “Oxalá, dileto;
Mas adestrada mão tenteie o golpe,
Com bálsamos te aplaque as tetras dores.”
Nisto, virando-se ao divino arauto:
“Já já, Taltíbio, a Macaon procures,
Peritíssimo filho de Esculápio;
Que presto acuda a Menelau, que um Lício
Ou Tróico archeiro de frechá-lo acaba,
Por glória sua e pesadume nosso.”
O arauto logo, às lorigadas linhas
Lustrando, o heróico Macaon procura:
No meio estava de escudadas hostes,
Que o seguiram de Trica em poldros fértil.
Aproxima-se, e rápido: “Agamemnon
Chama-te, Esculapíada; não tardes,
Acode, acode a Menelau, que um Lício
Ou Tróico archeiro de frechá-lo acaba,
Por glória sua e pesadume nosso.”
Sobressalta-se o médico; atravessam
O exército, e em redor acham do louro
Maioral vulnerado os chefes Dânaos.
Extrai da parte Macaon a seta,
E no extrair as farpas reviraram:
Saca o bálteo listado, a cinta, a malha
De primor, e à ferida já patente
Chupa o sangue, e lhe asperge os linimentos
Que ensinara a seu pai Quiron amigo.
De Menelau enquanto se ocupavam,
Rompe arnesada e em forma a Teucra gente;
Lembra aos Gregos a lide, as armas vestem.
Dormir, tremer, não viras Agamemnon,
Ou recusar peleja, sim o honroso
Conflito apressurando. O eri-incrustrado
Coche e os cavalos anelantes larga:
Tem-nos o auriga Eurímedon, rebento
De Ptolomeu Piraide, a quem prescreve
Atrás venha de passo, a fim que o tome,
Quando o girar os membros lhe afadigue.
O Atrida a pé de fila em fila ordena,
Os mais zelosos eloqüente inflama:
“Nada afrouxeis, que Júpiter, Aquivos,
Traidores não defende: os que infringiram
O pacto e a fé, serão de abutres cevo;
Ílio assolada, filhos seus e esposas
Breve em nossos baixéis transportaremos.”
E os que titubam repreende amargo:
“Valentões de balhesta, oh! pejo e opróbrio!
Sois corçozinhos tímidos, que lassos
De correr a campina, esmorecidos
Param sem ânimo? Aguardais que altivas
Popas abordem na alva praia os Teucros,
Para saber se a mão vos dá Satúrnio?”
Por entre a chusma, em tudo pondo cobro,
Chega-se aos Créssios, que na frente armados
O militar Idomeneu já tinham,
Em vigor javali; na retaguarda
Os incitava Merion. De vê-los
Exulta o rei dos reis, contente e afável:
“Nos feitos, Créssio herói, prezo-te acima
Dos crinitos varões, té quando à mesa
Misturam na cratera o vinho de honra:
Bebem regrado os mais; teu copo sempre,
Qual o meu transbordando, a gosto empinas.
Vai combater, e teu renome iguala.”
Idomeneu responde: “Camarada
Jurei ser-te leal; não falto. Inspira
Denodo aos outros, acelera a pugna:
Infratores do pacto, a morte, o exício
Recairá sobre infiéis Troianos.”
Alegre o Atrida progredindo, encontra
Os dois Ajax de ponto em branco, e em torno
Um negrume de espessa infantaria.
Do oeste às vezes bruna pícea nuvem
Traz pelas vagas túrbida procela;
O pastor, que a divisa do penedo,
Freme e à gruta recolhe a grei balante:
Assim um e outro Ajax movia ao prélio
Aguerridas intrépidas falanges,
De enfuscados broquéis e horrentes piques.
Gostoso o Atrida, rápido lhes fala:
“Ajax, cabos de Argivos lorigados,
Fora ultraje animar-vos; que vós mesmos
Forte a bater-se estimulais o povo.
Oh! Jove, Palas, Febo, em todo peito
Soprassem vosso ardor! Presto, às mãos nossas,
Desabaria a Priameia Tróia.”
Prossegue, e topa o arguto orador Pílio,
Que os seus alinha, férvido acorçoa
O grande Pelagon, Alastor, Crômio,
E Hémon e Bias príncipes das gentes;
Atrás bastos peões, da guerra esteios,
E na vanguarda os éqüites e os carros,
Entremete os poltrões, que à força pugnem.
A conter seus corcéis avisa os donos,
Por que as alas não turbem: “Confiado
No manejo e valor, sôfregos Teucros
Ninguém ataque só, nem retroceda;
Que mais débeis sereis. Do próprio carro
Quando alguém desça e a carro hostil afronte,
Enreste a lança, que é melhor partido.
Assim nossos avós, com força e manha,
Derrocavam muralhas e castelos.”
Tal o decano tático procede;
O grã rei jubiloso o exalta e gaba:
“Conforme o coração, robustos fossem
Teus joelhos, teu corpo! Inexorável
Te consome velhice: oh! se ela em outrem
Já carregasse, e remoçar pudesses!”
E Nestor: “Não ser eu como antes era,
Quando Ereutalion matei famoso!
O Céu nunca aos mortais confere tudo,
Moço então, hoje a idade me acabrunha.
Mas, tal qual sou, no prélio os cavaleiros
Ajudarei de alvitres e conselhos,
Dos provectos ofício: os que eu mais ágeis
Dardem, gladeiem, no verdor fiados.”
Avante, passa ao campeão Petides,
A quem Cecrópios adestrados cercam;
Sem lhes dar inda o al’arma, o fino Ulisses
Perto forma os não lerdos Cefalenses;
Pois, começando apenas o alvoroto,
Aguardam que remeta aos inimigos
Outra falange Aquiva e estréie a pugna.
Olha-os o rei dos reis acrimonioso:
“Menesteu cujo pai Jove alentava,
E tu poço de ardis e estratagemas,
Tardios trepidais? Com ígnea força
Combater vos cumpria antessignanos;
Que sois nos meus convites os primeiros,
Quando os chefes Aqueus se banqueteiam:
Regalai-vos de assados saborosos,
E dulcíssimos copos vos saciam;
E ora esperais que em menear o bronze
Dez Graios batalhões vos antecedam?”
Rude Ulisses contesta: “Que te escapa
Do encerro destes dentes? Nós remissos!
Nós que atroz morte aos picadores Teucros
Já movemos? Se o tens a peito e o queres,
De Telêmaco o pai ante as bandeiras
Verás, Atrida, e vãos discursos bastem.”
O rei sente-lhe o enfado, e a sorrir torna:
“Sublime solertíssimo Laércio,
Não te arguo excessivo. Sim, de acordo
Comigo sempre vai tua alma grande.
Eia, rompe a tardança: eu me retrato;
E o Céu risque a lembrança desta ofensa.”
Finda a revista no pugnaz Tidides,
Que entre os corcéis estava e unidos carros,
Mais a de Capaneu briosa estirpe.
Tal observa Agamemnon e o censura:
“Tremes, Diomedes, o êxito receias?
Ah! teu pai de tremer não se aprazia;
Sempre entre os seus maior se abalizava:
Nunca vi, mas o afirmam testemunhas.
A Micenas contudo hóspede veio,
Quando, com Polinice igual aos deuses,
De Tebas sitiava os sacros muros,
E ambos gente e socorro nos pediram.
Quisemo-lo servir, porém vedou-nos
Dial prodígio infausto; e na tornada,
Ao juncoso arribaram verde Asopo.
De Etéocles no paço, num convívio
Tideu, como legado, imensos topa:
Sozinho entre os Cadmeios, destemido
Muitos então a duelo desafia,
E de Palas por graça a todos vence.
De emboscada, ao regresso, despeitosos
O acometem cinqüenta cavaleiros,
Com chefes dois, Meon divo Hemonides,
O inconcusso Antofônio Licofonte.
Ele os castiga, e por celeste auspício
Poupa a Meon, que núncio envia a Tebas.
Tal foi Tideu Etólio, pai de um filho
Melhor de língua e de valor somenos.”
Sofre-o Diomedes respeitoso e mudo,
E Estênelo é quem fala: “Atrida, mentes;
Sabe que de mais fortes blasonamos
Que nossos pais: com Jove e o Céu propício,
Bem poucos, derruindo-lhe as muralhas,
Tomamos Tebas a de sete portas;
Eles, ímpios e insanos, pereceram.
Nossos avós conosco não compares.”
Sério o encarou Tidides: “Cala e atende.
Fogoso o grande rei não culpo, amigo,
De grevados Aqueus urgir ao prélio:
Se destrói Ílio santa, a glória é sua,
E ingente o luto, se nos falha a empresa.
No ímpeto nosso intrepidez provemos.”
Do carro em armas salta; o bronze aos peitos
Do furibundo campeão remuge,
Pondo nos corações gelado medo.
Antes que rolem na sonora praia,
No alto encapela Zéfiro as maretas,
Que na terra a fremir túmidas quebram,
Té que no promontório em cerco espumam:
Tais, sob os cabos seus, vão-se adensando
Graias falanges em fervor contínuo.
Tácito ia o soldado e atento às ordens;
Creras a turba toda emudecida:
Na marcha o vário arnês lampeja e fulge.
Qual a miúdo inúmeras ovelhas,
Ao mungi-las do leite o rico dono,
Balam, gemer ouvindo os cordeirinhos;
Assim clamava o exército contrário:
Misto confuso de nações remotas,
Não tinha o mesmo grito, acento ou língua.
Uns Gradivo, outros insta a gázea Palas,
Fuga, Terror, Discórdia sitibunda,
Parenta e amiga do sanguíneo Marte;
Que, tímida ao princípio, aos Céus remonta,
No chão caminha e a fronte enubla e esconde.
Esta, ao passar, aqui e ali semeia
Raiva homicida, mestos ais dobrando.
Juntos os campos, já de escudos e hastas
E de éreas malhas chocam-se os guerreiros;
Os copados broquéis do embate rugem;
Gloria o vencedor; soluça arcando
O moribundo; o sangue alaga a terra.
Qual, inchados jorrando estrepitosos
Do monte ao vale, rios dois volteiam
Num mesmo abismo, e longe o estrondo escuta
Espantado o pastor: assim, por todos
Lavra o susto, baralha-se o estampido.
Antíloco encetou num da vanguarda,
No Teucro Talisíada Ecepolo,
A quem fura o morrião de basta coma,
E brônzea cúspide o frontal penetra:
Enoita-se-lhe a vista, e como torre
Baqueou. Por despi-lo, o Calcodôncio
Digno rei dos Abantes, pretendendo
Isentar-se dos tiros, debruçado
Agarrando-lhe os pés, desvia a tarja:
Magnânimo Agenor com ênea ponta
Lhe vulnera o vazio e os órgãos laxa;
A alma o corpo deserta, e em acre pugna
Sobre ele Argeus e Troas rosto a rosto,
Quais lobos carniceiros, se abalroam.
Lanceia o Telamônio a Simoésio,
Filho de Antemion, solteiro e imberbe:
No Ida, os gados a ver baixando às margens
Do Símois com seus pais, a mãe o teve;
Donde vinha-lhe o nome. Aos que o geraram
Em frutos não pagou ternura tanta,
Pelo bronze de Ajax em flor cortado:
A destra mama atinge e lhe atravessa
O ombro a lançada, que o rebolca e estende.
Ao pé de úmido lago o choupo liso,
Que a rama e o cimo exalta, o carpinteiro
Talha a ferro aceirado, por que em rodas
Curve-o de belo coche, e à beira o tronco
Jaz do rio a secar; destarte o jovem,
A quem despoja o herói, murchece e tomba.
A Ajax, na chusma, o Priameio Antifo
De arnês betado aponta: a Leuco, assecla
De Ulisses, na virilha o dardo alcança;
E Leuco, indo arrastando a Simoésio,
Larga-o das mãos e dele a par descamba.
Raivoso pelo amigo, em brilho aêneo,
Se envia Ulisses às primeiras filas;
Tem-se, os lumes rodeia, a lança brande.
Afastaram-se os Teucros; mas o tiro
Não se esgarrou, que a Democoonte fere,
De Príamo bastardo, o qual de Abido
Frisões árdegos trouxe: a letal choupa
As fontes passa; a vista se lhe entreva,
Soam-lhe com fragor na terra as armas.
A vanguarda, Heitor mesmo é rechaçado.
Recolhendo os cadáveres e em grita,
Com mor ímpeto os Gregos acometem.
De Pérgamo olha Febo e iroso brama:
“Constância, forte gente, ânimo, Teucros.
Não têm corpos de pedra ou ferro os Dânaos,
Que brônzeo gume expilam; nem de Tétis
Crinipulcra os protege agora o filho,
Que mesto em seus baixéis recoze a bílis.”
De alto assim troa o deus; mas a Tritônia,
De Jove augusta prole, de ala em ala,
Onde os vê tíbios, acalora os Dânaos.
Diores de Amarinceu do fado é preia:
Um calhau de enche-mão, que joga o de Enos
Dos Traces condutor Piso Imbrasides,
No tornozelo destro o aleija; o canto
Os tendões ambos e ossos lhe esmigalha:
A alma exalando, a bracejar aos Gregos,
De costas cai; no umbigo a lança Piso
Mete-lhe; os intestinos se derramam,
Eterna escuridão lhe cobre os olhos.
Toas Etólio ao matador se atira,
Pela mama ao pulmão lhe enterra o bronze;
Aproxima-se dele, e a válida hasta
Lhe extrai dos peitos, puxa logo a espada,
Que lhe traspassa o ventre e a vida rouba.
Desarmá-lo não pôde, que em redondo
Hastatos sócios de topete hirsuto,
Beloso embora, a Toas repeliram.
Assim, dois capitães ali ficaram,
Um Trácio, um dos Epeus eriarnesados,
E outros bravos com eles pereceram.
Quem, de golpes ileso ao longe e ao perto,
Guiando-o Palas, pelo campo andasse,
A nenhum dos guerreiros acusara.
Muitos naquele dia Aqueus e Frígios,
Em pó submersos, prosternados foram.* * *
NOTAS AO LIVRO IV
7. Alalcomênia, epíteto de Minerva, ou porque venha de àlátó ajudar e de menos força, significando ajudadora poderosa; ou porque se refira ao herói Alalcomeneo, que na Beócia ergueu à deusa um templo e uma estátua. Monti adotou a palavra.
25. Por Endiabrada verto o grego Daimonin, que o intérprete latino mal traspassou por Improba; e nenhum dos tradutores quis ir com o original: Monti mesmo, que acerta quase sempre, deu por equivalente Feroce Diva, crendo ser indigno do senhor dos trovões chamar diabo à sua esposa. Mas o Júpiter de Homero, se é grandioso e terrível nas cenas em que ostenta seu poder, é familiar e caseiro com sua mulher; e tal contraste, muito agradável ao meu gosto, caracteriza o de Homero e o do seu tempo.
83. Destojar é tirar do estojo ou da caixa: vem nos dicionários o simples estojar, não o composto, que é verbo excelente.
105—115. Echepeykes diz untada de pez ou resina, em português empezada: vertem a palavra por funesta, quando Homero a toma no sentido próprio. Na seta enrolavam-se as penas com um cordel enresinado para maior segurança. Os selvagens da América, que têm muitos costumes dos tempos Homéricos, hoje em dia fazem a mesma cousa. — Cãibas (paréion) são peças do freio: Moraes adverte que não confundamos o termo com cãibras de sentido mui diferente.
134—202. Príamo às vezes é dito beloso ou bélico, por tê-lo sido em moço e pela coragem com que ainda se portava. — O intérprete latino faz corresponder a iomoroi o seu sagittes addicti, adotado geralmente; não por Monti, que aclara o sentido vertendo: “O guerrier da balestra”. E acertou, como de ordinário, pois o grego diz guerreiros que só usam de besta, arma que atira de longe; e assim Agamemnon de fracos opoda os Aquivos, por não se atreverem a pelejar de perto. Sirvo-me de balhesta e não de besta, por que, menos vulgar, mais enobrece a expressão; e de valentões, porque encerra uma ironia, bem assente no lugar.
404. Uso de ferro para sidéros, nunca para verter chalkos, que é ou cobre ou uma composição de cobre de que faziam armas defensivas e ofensivas. Possuíam já ferro; mas sendo pouco, empregavam-no só em alguns instrumentos de artífice ou de agricultura, e raramente em pontas de setas e em maças. Uso de aceirado, que julgo ser o correspondente ao adjetivo grego: tanto sobre isto, como sobre o emprego do cobre em vez de ferro entre os antigos, remeto o leitor à curiosíssima obra respectiva de M. Mauduit, extraída da que sobre a Troada publicou em 1840. Quanto à sua opinião de nunca se empregar bronze, mas sempre airin, será isso bom em francês, não em português, onde arame tem contraído uma acepção especial: ninguém ousaria dizer que a lança de Aquiles era de arame, nem que ele com seu arame feria os inimigos. Traduzo pois chalkos por cobre, quando a cousa pode ser de cobre sem mistura, v. g. o forro dos navios; traduzo por bronze a composição antiga, reconhecendo que não era como a do bronze moderno. Sempre que vir esta palavra, entenda-se do cobre temperado com mais ou menos liga de que fala Homero. Tendo a nossa língua felizmente os adjetivos éreo, êneo e aêneo, da nossa mãe latina, deles me sirvo para evitar o vocábulo bronze em certas ocasiões e deste contudo lançarei mão sem escrúpulo, quando houver de significar alguma obra artificiosa. — Afirma-se, e com argumentos não despiciendos, que sidéros nunca é tomado por ferro nos poemas de Homero; que era uma composição, metálica semelhante ao bronze dos nossos dias, ou um produto mineral em que entrava também ferro em pequena quantidade: como porém tudo são conjecturas, e os Gregos ao depois tomaram sidéros por ferro contento-me com a distinção que fiz.
* * *
LIVRO V
A Diomedes robora e esforça Palas,
Para que ele se exalce e em fama cresça.
Indefesso arde-lhe o elmo, arde-lhe o escudo:
Como a estrela outonal que mais cintila
Banhada no Oceano, áscuas de fogo
Da cabeça e dos ombros lhe flamejam.
Ao denso do tumulto o impele a deusa.
Vulcâneo antiste, o probo e rico Dares
Com filhos dois, Fegeu e Ideu, vivia,
Teucros pujantes, que das linhas partem
Em seus ginetes; mas a pé, Tidides.
Propínquos já, Fegeu primeiro atira;
Por sobre o esquerdo braço a tremente hasta
Roça apenas o herói, que a sua esgrime,
Nem a desprega em vão: rasga-lhe os peitos,
Rola-o do carro, donde o irmão saltando,
Sem defendê-lo, a nera morte evita
Num nevoeiro, em que do luto parte
Forrou Vulcano ao velho. O nado egrégio
De Tideu belacíssimo os cavalos
Empolga e entrega aos seus, que a bordo os ponham.
A Dares morto um filho, um subtraído,
Turbam-se os Teucros. E a de garços olhos,
A mão tomando a Marte: “Ó Marte, exclama,
Flagelo de homens e eversor de muros,
A quem quer que a vitória assine Jove,
Teucros e Aqueus não deixaremos livres,
Para de Jove a cólera atalharmos?”
Assim Palas arreda o sevo nume,
E a ir o induz às veigas do Escamandro.
Cada Argeu cabo, os Frígios em destroço,
Prostra um fugido. O rei dos reis precede:
Às costas entre as pás, de um bote, enfia
O celso Hódio Halison, da biga o deita;
Rumor na queda horrendo as armas deram.
Festo, renovo do Meônio Boros,
Da pingue Tarne vindo, ao montar, presto
Lanceiro Idomeneu famigerado
A destra espádua lhe varou: do carro
Veio abaixo, e o toldou feral caligem;
Dos fâmulos do herói foi despojado.
Ao bom monteiro Estrófida Escamândrio
Não valeu sagitícola Diana,
Que de longe a tirar e a caçar feras,
Quantas geram-se em brenhas, o ensinara:
O pique Menelau do tergo aos peitos
Lhe enterra, e ao baquear as armas toam.
Fereclo tomba, do Harmonides garfo,
Do Harmonides prendado por Minerva,
Que tudo com mão prima fabricava;
Que autor foi, dos oráculos ignaro,
Das naus irmãs em que Alexandre a ruína
Trouxe de Ílio e do artífice a tristeza:
Merion, após o filho seu, na destra
Nádega o fere, e a ponta por debaixo
Do osso alcança a bexiga; os joelhos frouxam,
Cai lamentoso, e véu letal o cobre.
Meges mata a Pedeu, bastarda prole
De Antenor, que entre os seus criou Teano,
Comprazendo ao marido e compassiva:
Destro o Filides no toutiço a lança
Prega, os dentes lhe passa e a língua tronca;
De rijo o metal frio agudo morde.
Hipsenor, divo ramo do veemente
Dolópion, do Escamandro sacerdote,
Por nume venerado, ao gládio escoa-se
De Eurípilo Evemônides preclaro:
Este, à carreira, de um fendente no ombro,
Cerce cortou-lhe o braço, que de chofre
Sanguíneo jaz no campo; urgente fado
Lhe ocupa os olhos de purpúrea morte.
Enquanto acres pelejam, mal discernes
Se é dos Graios Diomedes, se é dos Frígios:
Sanhoso andava, qual voraz corrente
Por chuveiros de Jove intumescida,
Que inunda e as pontes arrebata, e os valos
Dos vergéis, esperança dos colonos;
Ia arrasando os batalhões Troianos,
À vastadora fúria não bastantes.
O Licaônio, que na arena o adverte
A derrotar falanges, o arco atesa;
O armo direito, no ímpeto, lhe frecha
Pelo cavo da coura, do volúvel
Passador cruentada, e ledo grita:
“Eia, avante os corcéis, bizarros Troas;
Que o mais tremendo Aquivo está frechado,
Nem longo a dor suportará violenta,
Se da Lícia em verdade urgiu-me Febo.”
Foi jactância: Diomedes não sucumbe;
Recua até seu coche, e ao Capaneio:
“Desce, a vira cruel me arranca, amigo.”
Pula Estênelo, e do ombro a extrai ligeiro;
Pelas orlas da malha o sangue bolha.
Diomedes ora então: “Meu voto acolhe,
Palas, filha do Egífero indomada:
Se hás a mim e a meu pai na acesa pugna
Favorecido, assiste-me de novo;
A meu dardo se afronte, e eu puna aquele
Que asseteou-me, e gaba-se que em breve
Nem mais verei do Sol a claridade.”
A preces tais, Minerva o enrija e alesta,
Reforçando-lhe o braço, e perto fala:
“Peleja afouto; que te pus, Diomedes,
No peito o coração do vibra-escudo
Bravo Tideu. Rasguei-te a venda e névoa,
Para os mortais e os numes distinguires:
A qualquer deus respeita e não resistas;
Mas, se Vênus Dial sair a campo,
Com érea choupa vulnerá-la podes.”
E aqui desaparece a gázea Palas.
Torna ao conflito o herói; se à frente há pouco
Era atroz, o furor se lhe triplica.
Quando o leão, que assalta agreste bardo,
Sem rendê-lo o pastor golpeia e assanha,
Foge e a grei desampara; a pulo a fera
Trepa, amedronta o ermo, umas sobre outras
Atropela as lanígeras ovelhas,
Do redil sai ovante e ensangüentado:
Anda assim na baralha o cru Tidides.
Na mama, de ênea ponta, encrava Astino;
Do caudilho Hipenor descose à espada
Pelo úmero a clavícula, e o despega
Do pescoço e da pá. Deixa-os morrendo,
E atrás corre de Abante e Polieido,
Filhos do antigo intérprete Euridamas,
Que os despediu sem consultar os sonhos;
Derriba-os Diomedes e os despoja.
Envia-se a Foon e a Xanto, arrimos
De Fenopo dos anos consumido:
As almas lhes arranca, e ao pai coitado,
Órfão de prole, afunde em nojo e penas;
Que os não recebe incólumes, e é força
Com outros partilhar a sua herança.
Dois Priamidas num só carro topa,
Crômio e Equemon: do assento os precipita,
Ao teor do leão que, em prado ou monte,
Da novilha ou do touro a cerviz quebra;
Desarma-os, e a parelha os seus transportam.
Da derrota cuidoso, busca Eneias
A Pândaro entre o estrépido dos dardos,
E acha e instiga o divino Licaônio:
“Que é do teu arco, singular frecheiro?
A glória esqueces? Há na Lícia acaso
Quem ta pleiteie? Erguendo a Jove as palmas,
Seta joga ao varão que, em mal dos Frígios,
Rompe, ajoelha, esmorece a tantos fortes.
Será deus que furente exija ofertas,
E de um deus o furor é pernicioso.”
E o Licaônio: “Em tudo se me antolha,
Ó conselheiro de arnesados povos,
Tidides coraçudo; seus ginetes
E a rodela conheço e o casco oblongo.
Se um deus será, não sei; mas, se é quem digo,
Não guerreia sem nume: algum de perto,
Cosido em névoa, lhe desvia os tiros.
Entre a coura frechado no ombro destro,
Cuidei mandá-lo a Dite, e vivo surde:
Certo é-me hostil um deus. Nem biga tenho;
Em casa novos, de louçãs cortinas,
Onze carros deixei, parelhas onze,
A quem limpo centeio e espelta nutrem.
Veterano meu pai, no alcáçar nosso
Ao partir instruindo-me, insistia
Que do meu coche estimulasse os Frígios:
O sábio aviso desprezei, temendo
Que, afeitos a bom pasto, os corredores
No estreito assédio padecessem míngua.
A pé vim, no arco afouto, que a Tidides
E a Menelau já disparei sem fruto;
Ensangüentados, lhes irrito a sanha.
Desprendi-o em má hora do cabide,
No momento em que chefe a Ílio amena,
Por agradar ao divo Heitor, marchava;
Mas, a rever a pátria, o lar, a esposa,
O excelso meu palácio, destra infensa
A cabeça me corte, se em migalhas
Não queimo a fogo ardente os arcos todos,
Meus desleais e inúteis companheiros.”
“De arengas basta, replicou-lhe Eneias;
Anda, varão, tentemos a fortuna.
Sobe-te ao coche, por que saibas como
Dos cavalos de Troe os meus provindos,
Pelo campo trotando, acossam, fogem:
Hão de aceleradíssimos salvar-nos,
Se a Tidides reserva a palma Jove.
Sus, toma o látego e as brunidas rédeas,
E apeado contendo; ou, se o preferes,
A arrostá-lo te apresta, e eu reja a biga.”
E Pândaro: “Os cavalos com mor tino,
Auriga tu, governarás, Eneias,
Se à retirada nos forçar Diomedes:
Estranhando-me a voz, da liça podem
Não se apartar vagantes e espantados;
E ele talvez, no alcance impetuoso,
Nos prosterne e os solípedes te roube.
Tu pois menea-os, que de lança invisto.”
Ao coche então variegado ascendem;
E o claro Capaneio, que os divisa
Na desfilada, pressuroso amoesta:
“A ti vejo, amicíssimo Tidides,
Vir dois varões de pulso, o grande archeiro
Que Licaônio se intitula e aquele
Que de Vênus se abona e Anquises nado.
Retrocedamos nós; se a vida prezas,
Com fúria tanta avante não discorras.”
O sócio o mira: “À fuga em vão suades;
Não sou dos que trepidam nem recuam.
Tenho inda o meu vigor: montar me peja,
Remeto a pé; que eu trema o veda Palas.
Quando um na veloz biga nos escape,
Os dois por certo não. Se a douta deusa,
N’alma te fique, me outorgar matá-los,
Contém, das pinas suspendendo as rédeas,
Esses corcéis, atira-te aos de Eneias,
Leva-os dos Teucros aos grevados Gregos.
São raça dos que ao pai de Ganimedes
Em troco dera o Altíssono, os melhores
Que o Sol viu respirar e a ruiva Aurora:
De Laomedonte a furto, o régio Anquises
Lhes submeteu seis éguas; dos que obteve,
Quatro poldros cevando à manjedoura,
Árdegos dois belazes doa ao filho.
Preá-los nos será de ingente glória.”
Entanto, aqueles o ágil tiro incitam,
E apropinquados, Pândaro começa:
“Ó do márcio Tideu vergôntea nobre,
Da seta escarneceste; ora experimenta
Se mais serve esta lança.” E a lança expede:
A érea ponta, acertando-lhe no escudo,
Penetra a coura, e troa o Licaônio:
“Traspassado na ilharga, em breve expiras;
Penso ter conseguido honra perene.”
Imperturbado o herói: “Falhou-te o bote;
Se repousardes, um de vós ao menos
Saciará com seu sangue o fero Marte.”
Ei-lo dardeja, e ao rés das sobrancelhas
De Pândaro ao nariz dirige Palas
O êneo farpão, que os alvos dentes parte,
A língua fende e a barba lhe atravessa:
Do assento cai, e estruge o arnês lustroso:
Os sonípedes fogem de assustados;
Ele, exangue e esvaído, arqueja e morre.
Protegendo o cadáver, insta Eneias,
Que em derredor como um leão peleja;
De hasta longa e rodela, a quem se oponha
A imolar decidido, horrendo ruge.
A dois varões dagora pedra enorme,
Que Tidides agarra e só maneja,
Dá na perna ao Troiano, onde encaixado
O fêmur gira, e a pele e os tendões ambos
Lacerando, o acetábulo fratura:
De joelhos tomba, a forte mão se estriba,
Enoita-se-lhe a vista; e fenecera
O de homens regedor, se não lhe acode
Vênus, que o teve do boieiro Anquises.
Trêmula a déia o cinge ao branco seio,
E as dobras lhe antepõe de níveo peplo,
A resguardá-lo de inimigo dardo,
Que nos peitos profunde e à morte o envie;
Safa à pressa do campo o seu querido.
A Estênelo do amigo as ordens lembram:
Contém, das pinas suspendendo as rédeas,
Os seus corcéis, que do tumulto afasta;
Corre aos de Eneias de vistosas crinas,
Leva-os dos Teucros aos grevados Gregos;
Entrega-os a Deipilo, que os embarque,
Seu camarada com quem mais conforma.
O Capaneio das nitentes bridas
Pega e os seus afervora unguissonantes;
Vai com Diomedes encontrar-se alegre.
De atroz bronze este segue a inerme Cípria,
Que os prélios não domina, qual Minerva
Ou de muros Belona assoladora;
Sacrílego, entre a chusma, de hasta aguda
Num salto esflora a tenra mão celeste,
Roto o fragrante véu lavor das Graças:
Pela palma lhe escorre o ambrósio fluido,
O icor dos imortais: que nem pão comem,
Nem bebem roxo vinho, e assim beatos
Sangue não têm. Em gritos larga o filho;
Febo o arrebata e esconde em atra nuvem,
Que de hostis remessões o ampare e salve.
“Cede, o audaz vozeou, de Jove ó garfo;
Não te basta embair mulheres frágeis?
Provaste a guerra; eu fio que ao diante
Só deste nome guerra te horrorizes.”
Mesta a afligida, lívida a mimosa
Cútis, sai do bulício pela destra
Da acrípede núncia; dos Troianos
Acha à esquerda sentado o feroz Marte,
E em negrume os frisões e a lança ocultos.
Aos pés do irmão suplica: “Irmão! socorro;
De áureo jaez empresta-me o teu carro,
Que aos celícolas pronto me conduza:
Dói-me este golpe do mortal Diomedes,
Que ao pai Júpiter mesmo arremetera.”
Ele sentido o empresta; ela magoada
Monta com Íris, que laxando as bridas,
Estende o açoite, e os corredores voam.
Já no escarpado Olimpo, a guia etérea
Pára e os desjunge, e ambrósio pasto os nutre.
A Dial ajoelhou-se à mãe Dione,
Que terna a beija e abraça e acaricia:
“Que nume tanto ousou, como se, ó cara,
Um erro escandaloso cometeras?”
E a dos risos amante: “Não foi nume,
Foi Diomedes soberbo, quando a Eneias,
Por quem mais estremeço, ao perigoso
Combate eu subtraía. A grega audácia,
Não somente a mortais, ataca os deuses.”
“Filha, torna a santíssima Dione,
Devora a dor. Gravíssimos pesares
Têm dado os homens ao discorde Olimpo.
Meses treze Efialtos e Oto Aloidas,
Ligaram Marte a rígidas cadeias:
No éreo cárcere o sôfrego de lides
Morrera das prisões extenuado,
Se, advertido Mercúrio da madrasta
Linda Eribeia, a furto o não livrasse.
Com tricúspide vira o Anfitriônio
A destra mama retalhando a Juno,
Causou-lhe agro tormento. A Plutão mesmo
Do Egíaco esse filho destemido
Com seta alada, à porta dos infernos
Sobejo molestou: martirizado
N’alma e no corpo, aos astros ele alçou-se,
Do ombro robusto a farpa inda pendente;
Mas, pois o Estígio rei mortal não era,
Péon com bálsamo o curou suave.
Ímpio o herói façanhudo, arcipotente
Violava assim do Olimpo os moradores.
Por Minerva açulado, ora Tidides
Néscio atreveu-se a ti, não cogitando
Que pouco dura quem se atreve aos numes,
Nem da guerra tornado, em seus joelhos
Meigos filhos papai lhe balbuciam.
Tidides guarde-se hoje de que o dome
Quem te exceda em valor; que o sono quebre
Sua Adastrina Egíale à família,
Casta chorando o Grego mais galhardo,
Que lhe colheu mancebo a flor virgínea.”
Aqui da filha à palma o icor enxuga;
Sara a ferida, acalmam-se-lhe as dores.
Mordentes Juno Palas, que isto observam,
Tentam Jove, e começa a de olhos garços:
“Padre, irritar-te irei? Se não me iludo,
Vênus estimulando alguma Argiva
Seus Teucros a seguir, por quem se fina,
Indo animar a dama bem velada,
N’áurea fivela a mão rascou mimosa.”
Ele sorrindo a loura Vênus chama:
“Não te compete, filha, deixa a guerra
Entregue a Palas e ao fogoso Marte;
Cuida no doce amor, nas doces bodas.”
Enquanto assim discursam, contra Eneias
Insiste o grã Diomedes, conhecendo
Que o protegia Apolo, e sem respeito
Quer prostrá-lo e despir de insignes armas.
Febo, em três investidas, repulsou-lhe
O escudo refulgente; mas à quarta,
Quando igual a um demônio arremetia,
O Longe-vibrador minaz troveja:
“Tem-te, mortal, aos deuses não te afoutes;
Sidérea é nossa raça, e humano rojas.”
Lento recua o herói ao bote certo.
Pôs fora o Délio, em Pérgamo sagrada,
Num seu delubro a Eneias, de quem tratam
No ádito vasto com decoro e zelo
Diana sagitária e a mãe Latona.
Forma o deus arci-argênteo uma figura,
Do Teucro simulando o arnês e o vulto;
E em torno mutuamente os contendores
Aos peitos frangem de bovino espólio
Ou redondos broquéis ou leves tarjas.
Depois a Marte: “Ó Marte, exício de homens,
De muros destrutor, sangrento Marte,
Não lançarás do prélio esse atrevido,
Capaz de acometer ao padre sumo?
Feriu de perto a Vênus junto ao carpo,
E a mim qual nume de arrojar-se acaba.”
Disse, e na celsa Pérgamo assentou-se.
Marte no ardente Acamas se disfarça,
Dos Traces capitão; de fila em fila,
Excita os Priamidas: “Até quando,
Vós príncipes, de Júpiter alunos,
Consentireis aos Gregos a matança?
As vossas portas esperais que assaltem?
Jaz por terra o Anquisíada famoso,
Que ao mesmo Heitor em honras igualamos:
Eia, salvemos o guerreiro sócio.”
E um por um ele anima e os fortalece.
Já Sarpédon severo: “Onde os teus brios?
Defender a cidade, Heitor, contavas
Com teus irmãos e afins, sem outro auxílio:
Nenhum vejo daqui, nenhum descubro;
Ante o leão sabujos tremebundos;
E os aliados combatendo estamos.
Lá da Lícia e do Xanto vorticoso,
Deixando um filho tenro e a mulher cara
E cobiçados bens, venho ajudar-vos;
Nada que perca tendo ou que me tirem,
A arrostá-lo comigo os meus exorto:
Em ócio, os teus acorçoar olvidas
A resistir e a proteger seus lares.
Olha não sejam do inimigo preia,
Todos em ampla rede emaranhados,
Nem chegue o fim da populosa Tróia.
Cumpre que veles de dia e noite, e implores
Aos convocados chefes que, depondo
Agravos seus, de pelejar não cessem.”
Mordido n’alma, Heitor pula do carro,
Hastis sopesa, o exército perlustra,
E aviva e alenta a horrífica batalha.
Os Teucros volvem da fugida, e os Gregos
Cerram-se e aguardam com denodo o embate.
Quando padejam trigo em eira sacra,
E ao vento os grãos ciranda a flava Ceres,
A moinha branqueja amontoada:
Cobre os Dânaos assim o pó que alteia
Dos corcéis o estrupido aos céus de bronze.
Novamente ao combate os coches rodam,
As hostes já se travam, já se investem.
Marte, enublado, proceloso o campo
Lustra e anda em auxílio dos Troianos,
Dócil à voz do irmão de alfanje de ouro,
Que espertá-los mandou, vendo ausentar-se
A ajudadora dos Aqueus Minerva.
Febo do ádito pingue esforça e expede
O Anquíseo cabo; de revê-lo folgam
Vivo e incólume e ardente, e nada inquirem;
Urge o afã que suscita o argenti-archeiro,
Marte homicida, Erinis sitibunda.
Instam os Ajax e Ulisses e Diomedes,
Bem que os Dânaos de si desprezem gritos
E as forças do inimigo, e estejam firmes.
Por Satúrnio amarrada a pico aéreo,
Em calma estaca a nuvem, se dormitam
Bóreas e os mais que estrídulos espancam
Turbos vapores: a pé quedo os Graios
Destarte o choque impávidos esperam.
Agamemnon ordena e ativa as alas:
“Amigos, homens sede; no discrime
Vos sustente a vergonha. A morte poupa,
Mais do que ceifa, os que a desonra temem;
Os fujões desampara ajuda e glória.”
Eis fere a Deicoon, de Eneias sócio,
Pergásides que, sempre antessignano,
Era aos filhos de Príamo igualado:
Não basta o escudo à furibunda lança,
Que lho fura o talim e o baixo ventre;
Com fracasso baqueia, o arnês ressoa.
Dois rende Eneias da soberba Feres,
Onde opulento o genitor morava,
Ramo do Alfeu, que à larga os Pílios banha:
Do rio prole, Orsíloco imperante
A Diocleu gerou; do herói nasceram
Gêmeos Créton e Orsíloco. Estes, hábeis
Em todo o prélio, púberes navegam
A Ílio em poldros fecunda, e então querendo
Os Atridas vingar, seu termo encontram:
Quais em montanha ou selva amamentados,
Cachorros de leoa a bois e ovelhas
Depredam gordas e os currais devastam,
Até que êneos zargunchos os castigam;
Tais o indômito Anquísio aterra-os ambos,
Semelhantes a abetos espigados.
O fero Menelau doeu-se deles;
Na frente erilustroso, a lança brande:
Marte a cair o induz às mãos de Eneias.
Sai o Nestório Antíloco: receia
Faleça o cabo Argivo e balde a empresa.
Os rivais de haste em reste, se ameaçam:
Antíloco aproxima-se do Atrida;
Bem que animoso, Eneias retrocede
Ao ver os dois varões que investem juntos.
Estes, os mortos míseros ao meio
Dos sócios arrastando, ao rijo tornam
Da batalha, onde imolam Filemene,
De peltados altivos Paflagônios
Mavórcio maioral: o bom lanceiro
Menelau a clavícula partiu-lhe.
Joga Antíloco um seixo ao cotovelo
De Midon Atimníade, que os brutos
Solípedes desvia: o ebúrneo freio
Do punho escapa ao forte auriga e pajem;
Logo o Nestório as fontes lhe estoqueia;
Ele, entre vascas, do artefato coche
De ombros revira e testa, e ali se afunda
Na basta areia, até que seus cavalos
Às patadas o enrolam na poeira.
Chicoteia-os Antíloco e os retira.
Lobriga-os na revolta e a gritos rompe
Heitor, com Teucras hostes, que afogueia
Marte e a grave Belona: ela consigo
Traz o imano Tumulto; ele hasta enorme
Após Heitor floreia, ou já precede-o.
Tidides mesmo ao conhecê-lo treme;
Retém-se como ignaro viandante,
Ao cabo de extensíssima campina,
Ante rápido rio, que espumoso
Ronca e ao mar se despenha. Ei-lo turvado:
“O nobre Heitor, amigos, admiramos
Guapo na lança e audaz; mas sempre um nume
O resguarda, e hoje é Marte em vulto humano.
Com firmeza os Troianos arrostemos;
Só não queiramos resistir a deuses.”
Apropínqua-se Heitor; num carro mata
Guerreiros dois, Anquíalo e Menestes.
Comiserado Ajax, de perto e quedo
Corre a fúlgida lança ao Selagides
Ânfio potente em Peso e pecoroso,
Que os Teucros por mofina ajudar veio;
Entra a choupa o talim, penetra o lado;
Ânfio baqueia; o Telamônio acode
Para despi-lo; tolhe-o de arremessos
Luzente nuvem, que no escudo apara;
Desprende o hastil pisando-lhe o cadáver;
Dos rojões oprimido, o herói não pôde
Dos ombros lhe sacar as pulcras armas:
Temeu cercado ser pelos Troianos,
Que em pinha e hastatos com furor instavam,
E inda que altipujante o rechaçaram.
Do conflito no ardor, violento fado
A Tlepolemo, Heráclida bizarro,
Contra Sarpédon concitou divino;
E estando fronte a fronte o filho e o neto
Do anuviador, começa Tlepolemo:
“Dos Lícios capitão, por que estremeces,
Imperito guerreiro? Quem te aclama
Raça de Jove, mente; és mui somenos
Dos que o Egífero teve em prisca idade.
Olha Alcides meu pai, Leonino peito,
Que, os frisões reclamando a Laomedonte,
Vindo em navios seis com poucos sócios,
Ermou de Ílio assolada as vastas ruas.
Teus soldados, cobarde, vais perdendo;
Nem, fosses bravo, aos Teucros valerias,
Que do Orco às portas baixarás agora.”
“Sim, Tlepolemo, respondeu Sarpédon,
Ílio santa pagou maldade e ultrajes
Desse ingrato que os brutos recusou-lhe,
De tão longe arribando o herói Tiríntio;
Mas a ti minha lança, eu to predigo,
Dar-te-á morte escura e a mim renome,
Tua alma ao rei da lúgubre quadriga.”
Arvorou Tlepolemo hástia fraxínea,
E ao mesmo tempo tiros dois voaram:
Sarpédon na cerviz lhe embebe a sua,
De atra caligem lhe enoitece os lumes;
De Tlepolemo a cúspide ligeira
O osso da coxa esquerda ao Lício encrava,
A quem seu pai livrou da Parca acerba.
Tiram da liça o divinal Sarpédon,
Que em dor grave labora, e a ninguém lembra,
No subi-lo a seu carro e em tanto aperto,
A crua ponta lhe extrair da coxa.
Indo em braços Gregos Tlepolemo,
A tal conspecto Ulisses comovido,
Na grande alma revolve se atrás corra
De Sarpédon valente, ou se prossiga
No horrendo morticínio. Obstando o fado
A que pereça o filho do Tonante
Por seu bronze afinado, contra a chusma
O excitou Palas: ele ceifa a Crômio,
Hálio, Pritânis, Alastor, Cereno,
E Noemon e Alcandro; e mais fizera,
Se o galeato celso Heitor em frente
Não marchasse adargado e coruscante,
Susto incutindo. Folga de enxergá-lo
E com doente voz lhe diz Sarpédon:
“Socorro, ilustre amigo; dos contrários
Não seja eu presa: em vosso muro ao menos
Me fuja a vida já que aos pátrios lares
Não me cabe voltar, nem ser de alívio
À prezada consorte e a meu filhinho.”
Nada o Priâmeo no ímpeto responde,
Que ardente almeja repelir os Dânaos
E muitos conculcar; mas nobres Lícios
O capitão sob a ramosa faia
Do genitor Egíaco asilaram,
E o forte Pelagon, seu predileto,
O freixo lhe extraiu. Desfalecido
Ofuscaram-se-lhe os olhos; mas de Bóreas
Fresco hálito aspirando, o alento cobra.
A Heitor e a Marte os Graios não dão costas,
Nem avançam; mas cedem pouco a pouco,
Sabendo o nume nas hostis fileiras.
Quem sob o herói e o brônzeo atroz Gradivo
Caiu primeiro? Quem postremo? Têutras
Deiforme, Orestes picador, o Etólio
Treco hastato, Enomao, o Enópio Heleno,
E Orésbio de turbante variegado,
Que tesouros em Hila acumulava
Junto ao Cefísio lago, onde os Beócios
Viviam felizmente em grossas lavras.
Em mísera derrota observa os Gregos
Satúrnia bracicândida: “Hui, Minerva,
Dial prole indomada, a tolerarmos
O Atroz Mavorte, a Menelau faltamos:
Nem Ílio destruir, nem voltar pode:
Sus, nossa intrepidez manifestemos.”
A olhicerúlea deusa não se escusa.
Mesmo Juno augustíssima os cavalos
Do metal fulvo arreia. Hebe se apressa
No carro de eixo férreo a pôr os curvos
Orbes de oito êneos raios, cujas cambas,
De ouro incorrupto, os chaços têm munidos
De lâminas de bronze: oh maravilha!
Roda em meiões de prata, e prata e ouro
Compõem da caixa os correões; a caixa
Por dois tornéis da frente as bridas lançam,
E um temão corre argênteo: Hebe no extremo
Auripulcros lhe prende jugo e loros;
E ávida Juno de contenda e estragos,
Ata ao jugo os alípedes cavalos.
Solta Minerva no paterno solho
Bordado véu que esplêndido lavrara;
Do nubícogo deus veste a loriga,
Veste o arnês dos combates lagrimosos.
Fimbriado seu broquel medonho embraça,
A que o Terror circunda: nele a Força,
Nele a Perseguição, nele a Discórdia,
Nele vê-se a cabeça de Medusa,
Do Egífero portento, aborto horrível.
De quádruplo cocar cinge áureo casco,
De sobejo aos peões de cem cidades.
Monta ao fúlgido coche, enorme libra
Válida lança, com que inteiras hostes,
Do Prepotente filha, irada prostra.
Juno os tiros verbera: eis por si rangem
Portões que as Horas guardam, sentinelas
Da suma casa etérea, a cuja entrada
Fechar e abrir lhes toca a nuvem densa.
Fácil transpõe o carro, e Jove as deusas
No tope acham do Olimpo cumioso.
Fez alto Juno, e a seu marido sonda:
“Quê! não refreias, soberano padre,
Marte cruel, que a tais e tantos Gregos,
Ímpio e sem pejo, temerário abate?
Choro n’alma, e tranqüilos folgam Vênus
E Apolo arco-de-prata que instigaram
O demente e sem lei. Tu não te agastas
Se da batalha vulnerado o afasto?”
Concedeu-lho o supremo: “Afila a Palas;
É quem sói acossá-lo e confrangi-lo.”
Leda o látego estala e acena a déia;
Espontâneo os ginetes pelo espaço,
Entre o pólo estrelado e a terra voam.
Quanto alguém, de alta penha, ao longe avista,
Se olha amplo roxo mar, tanto os celestes
Atroantes corcéis de um pulo alcançam.
A Ílio chegadas, onde mescla a veia
Ao Símois o Escamandro, desjungidos
Larga-os Juno, e em neblina cega envoltos,
Ambrósio pasto lhes ministra o Símois.
Como tímidas pombas volteando,
A auxiliar os Dânaos se apressuram.
Já num grupo de fortes, que a Tidides
Em pinha rodeavam, quais javardos
E leões carniceiros nada imbeles,
A de alvos braços grita, sob a forma
Do famoso Estentor, cujo éreo brado
A guerreiros cinqüenta a voz cobria:
“Que opróbrio! Ó Dânaos de gentil presença!
Enquanto era convosco o divo Aquiles,
Nunca as Dardânias portas o inimigo,
Da ardida lança com terror, transpunha;
Hoje ante as curvas naus brigar se atreve!”
Isto os aviva e alenta. A olhicerúlea
A Diomedes se vai, que ao pé do coche
De Pândaro a frechada refrigera,
Aflito e lasso, da rodela a soga
Inundada em suor; e, ao levantá-la
Para a chaga absterger do negro sangue,
Pegando-lhe do jugo, o punge a deusa:
“Não semelhas Tideu: pequeno em corpo,
Grande na ação, conter-lhe eu quis o fogo,
E ao vir único a Tebas de enviado
Junto a muitos Cadmeios, prescrevi-lhe
Que aos banquetes pacífico assistisse;
Mas ele alfim, seu ânimo escutando,
Por mim sempre ajudado e protegido,
Os Tebanos provoca e vence a todos.
Ora eu também te ajudo e te protejo,
Contra os Frígios te inflamo e te afervoro;
E essa fadiga te amolece os membros,
Ou torpe vil temor te esfria e enerva.
Não, do filho de Eneu tu não procedes.”
E ele: “Egíoca deusa, eu te conheço:
Falar-te vou sincero e sem rebuço.
Nem temor, nem moleza me acobarda;
Lembra-me o teu preceito; a brônzeo gume
Na ação ferisse eu Vênus; mas que os outros
Imortais respeitasse. Retirei-me
E aqui reúno os meus, porque estou vendo
Marte mesmo a reger a Teucra gente.”
Palas inda: “Mortal que n’alma prezo,
Marte e a qualquer não temas, que em ti velo:
Arremessa os corcéis e a Marte fere;
Um perverso inconstante não respeites,
Que a mim e a Juno os Teucros prometera
Em pró dos Gregos molestar, e insano
Ei-lo os Teucros defende e esquece os Gregos.”
Disse, e Estênelo empurra, que do carro
Saltou mais lesto, e irosa com Diomedes
Monta a par; de uma deusa e herói tamanho
Do eixo a faia carregado geme.
De bridas e chicote, ela os cornípedes
Deita a Marte, que sujo da carnagem
Ao grã Perifas, dos Etólios honra,
Filho do magno Oquésio, despojava.
De Plutão põe Minerva o capacete,
Para encobrir-se ao nume furibundo.
Vendo a Tidides, o homicida o corpo
Deixa disforme, exânime e estirado,
E endireita ao galhardo cavaleiro.
Já fronte a fronte, suspirando Marte
Por desalmá-lo, sobre o jugo e as rédeas
Atesa o braço e esgrime; a lança aênea
Da olhicerúlea a destra arreda e frustra.
O herói despede a sua, que ao vazio
Dirige Palas, onde o cinto morde:
Rasga-se a branda pele, e o brônzeo nume
Urra, ao sacar-se a ponta, qual de nove
Ou dez mil combatentes o alarido
Em prélio aceso; aterra Argeus e Troas
Do formidando Marte o grito horrendo.
Como negreja no ar bulcão, tocado
Por terral estuoso, olha-o Tidides
No ir-se por esse espaço em grossa nuvem.
Chega à sublime estância; ao pé de Jove
Senta-se consternado, e imortal sangue
Mostrando que manava da ferida,
Lamentoso bramou: “Com tais façanhas
Não te enfadas, meu pai? Discórdia mútua,
Por comprazer a homens, nos flagela,
E a causa és tu: geraste uma insensata,
Em flagícios fecunda e iníqua sempre.
Sujeitos os do Olimpo habitadores,
Te obedecemos todos; mas a peste
Que produziste só, condescendente
Nem a castigas, nem sequer censuras.
Acaba de inflamar contra nós outros
Do soberbo Diomedes a arrogância:
Ele o carpo feriu primeiro a Vênus,
E a mim se me arrojou, nem que um deus fosse.
Se estes ligeiros pés não me valessem,
Longas dores no fero morticínio
Estivera curtindo, ou vivo embora,
De éreos golpes cruéis desfalecera.”
O nubícogo padre averso o encara:
“Cessem, versátil, importunas queixas.
O celícola és tu mais detestando:
A rixa amas e a guerra; herdaste o gênio
Da indócil mãe, que sopear me custa:
O mal creio te vem dos seus conselhos.
Porém não sofro mais que assim padeças;
És meu filho, e pariu-te a esposa minha.
A seres de outro leito, ímprobo, há muito
Dos Uranidas o somenos foras.”
Manda a Péon então que dele trate:
Péon lhe untou na chaga linimentos;
E, não sendo um mortal, foi pronta a cura.
Como o líquido leite, em que alvo suco
Verteu-se de figueira, de contínuo
Rapidamente remexido coalha;
Tão breve sara o proceloso Marte.
Hebe o lava, o perfuma e o paramenta;
Ele ao pé de seu pai de glória exulta.
Já remoto o verdugo, o exício de homens,
Alam-se do supremo ao claro assento
Juno Argiva e Minerva Alalcomênia.* * *
NOTAS AO LIVRO V
82. Os nossos dicionários mal explicam o que é armo: Constâncio o dá por antiquado e como sinônimo de ombro e de braço. Armo é a juntura do braço com a espádua, e portanto é termo especial e necessário: veja-se Noel.
113-151. Bardo é curral mudável para ovelhas. — Alguém estranhou-me ginete para verter ippos: convenho que cavalo é mais genérico, bem que derive de um termo latino mais restrito; porém como tratamos do cavalo de guerra, ginete é propriíssimo, para significar o de casta fina e brioso.
162. Também me advertiram quo alcáçar, do árabe, não era para traduzir o que em Homero corresponde a palácio. Não aceitei a advertência; porque, a proceder-se conforme a esta crítica, fora mister evitar mesmo palácio, visto que naquele tempo não conheciam os Gregos o monte Palatino, ou pelo menos este nome, donde veio o das nossas casas nobres; e até fora impossível traduzir os antigos nas línguas de hoje, cujos vocábulos não existiam. Servirmo-nos das línguas atuais é cousa diversa de atribuirmos aos antepassados idéias que eles não tinham.
336. Pappasonsin não se pode exprimir sem o nosso papai: dir-me-ão que é baixo; direi que é familiar, como o verbo grego.
483. Quase nunca uso das licenças poéticas: aqui usei, por causa da brevidade e energia, da figura ectlipse, que se acha muito em Camões e amiúde em Sá de Miranda e em Ferreira, e que no verso latino é como de rigor. — Por esta ocasião, permita-se-me defender os nossos bons quinhentistas, e principalmente a Ferreira, das durezas que lhes notam; defesa esta que devo ao poeta, cujas obras, caindo-me nas mãos quando eu apenas contava treze anos, foram as primeiras que me fizeram amar a alta poesia, e tiveram tanta parte na minha educação moral. Ferreira, depois de Miranda e mais amplamente, foi quem em português propagou os hendecassílabos (a opinião de que poetas anteriores deles tivessem usado, é pelo menos duvidosa), tendo que se modelar pelos Italianos, cujas liberdades adotou. As palavras rio, boa, húa, méa e várias outras, contraídas numa sílaba, — a sinalefa com a primeira vogal acentuada, — são imitações de Dante, Petrarca e Ariosto. Camões ao princípio igualmente os seguiu; mas seu delicado ouvido sentiu ao depois a desarmonia, e fugiu do escolho mormente nos Lusíadas. E porque, fazendo assim Camões, o Tasso, como ele excelente metrificador, continuou com o exemplo dos seus três grandes antecessores? A razão nasce da índole dos dous idiomas: o italiano, ainda mais doce que o português, toca de efeminado e mole; o português, mais enérgico e presso, torna-se áspero às vezes nas bocas de má pronúncia ou debaixo de penas mal aparadas. O verso italiano há mister certas contracões para se fortalecer, o que otimamente conheceu o praticou Alfieri em nossos dias; e Ferreira ficava escabroso, quando assim fazia em assuntos que requerem estilo suave. Daqui podemos tirar esta ilação: que nem sempre se hão de reprovar tais liberdades; as quais até podem vir a propósito em algumas ocasiões, como ao pintarmos um combate, ao descrevermos o ruído de uma tempestade ou de uma catarata, e em muitos outros casos. E observe-se que as contrações ou sinalefas duras, o são menos vindo nas primeiras sílabas, e o são mais vindo depois da sexta: o que tudo se deve considerar, porque o poeta precisa de todas as tintas e matizes, à maneira do pintor, para quem não há cor desprezível; o ponto é sabê-las misturar. — Se Camões fosse quem entre nós, como Sá de Miranda, introduzisse os hendecassílabos, é provável que imitasse muitas formas duras no português; mais felizmente veio para os aperfeiçoar. Fernão Surrupita, crítico sem critério, — seguido pelo parcial e voluntário Manuel de Faria, com quem fez coro o padre Thomaz de Aquino e outros —, escolheu de pensado em Ferreira alguns versos mal soantes, e ainda os estropeou, para estabelecer uma comparação entre ele e Camões; como se não se pudesse respeitar a imunidade do nosso épico, sem se deprimir a justa fama do autor da Castro e de outras obras seletas. Acrescentarei que num homem do cunho de Ferreira ou do Dante ou de Young, autores em quem se notam algumas durezas, não se hão de catar pequeninos defeitos, sumidos na multidão de belezas de primeira ordem: guarde-se tão miúda censura para aqueles que, não sabendo jamais elevar-se ao grandioso ou ao sublime, só poderiam agradar pela doçura e melodia. — Sem embargo de reconhecer em Ferreira esses defeitozinhos, o falecido Garret disse que, mesmo na sua versificação muito havia que aprender: juízo precioso, por ser de outro poeta exímio, dos melhores que têm metrificado em nossa língua.
545. — Klytopõlõs, célebre em cavalos foi omitido por Monti, e M. Giguet o traduziu pelo adjetivo ilustre; os demais tradutores que consultei não se explicam melhor: Homero alude ao carro de Plutão com seus dous tiros negros e medonhos; o que busquei exprimir claramente.
606—611. — Posto quo Moraes e Constâncio tenham confundido cambas com cãibas, estas, como já disse atrás, são peças de freio, e cambas são peças das rodas do coche que ficam junto aos chaços. Estes fazem parte da roda e fecham o círcalo. — Meião é o aro por onde entra a mecha do eixo. Correões são os sustentáculos da caixa. Tornéis aqui são argolas por onde saem as bridas.
769. — Uranidas, segundo Monti, que do termo se serviu, e segundo M. Giguet e outros, são os habitantes do céu, não os Titães, como quer o intérprete latino.
* * *
LIVRO VI
Sós na lide os mortais, de parte a parte
Ígneo furor aqui e ali se ateia;
Nos dois campos graniza, arremessada
Entre o Símois e o Xanto, ênea procela.
Ajax, da Grécia muro, escala a Tróica
Falange, e livra os seus do Eussório Acamas,
Dos Traces o maior, mais formidável:
Dardo pelo cocar de espessa crina
O osso varou da testa, e em feral treva
Os lumes lhe apagou. — Diomedes rende
O Teutrânida Axilo, que opulento
Na grandiosa Arisba, humano em casa,
Da estrada à beira agasalhava a todos:
Mas nenhum lhe acorreu no transe amaro,
Nem ao pajem Calésio, então cocheiro;
Que ao reino de Sumano ambos desceram.
Prostra Euríalo a Dreso e Oféltio; assalta
Pédaso com Esepo, que houve gêmeos
Bucolion da náiada Abarbárea:
Vero Bucolion de Laomedonte
Primogênito filho, inda que espúrio,
Ovelhas pastorava, e em doce amplexo
Concebeu-os a ninfa: os pulcros membros
Lhes dissolve e os despoja o Mecisteide.
A Astíalo o aguerrido Polipetes,
A Pedites Percósio enfia Ulisses;
Teucro ao divo Etaon, a Ablero Antíloco;
O rei dos reis a Elato, que da altiva
Pédaso o puro Satnióis gozava.
A Fílaco fuginte o heróico Leuto
Veloz suplanta; Eurípilo a Melântio.
Partindo-se o temão desembestados
A Adresto os brutos, pávidos num ramo
De tamargueira se enlearam, quando
Para a cidade em fuga os mais seguia:
Testa no pó, revira junto à roda;
Menelau toma-o vivo e a lança aponta;
Adresto ajoelha e implora: “Sê piedoso,
Por mim resgate esplêndido recebe:
Cobre, ouro, ferro variamente obrado,
Entesourou meu pai; com mão profusa
Dará, se a bordo me souber cativo.”
Já, de compadecido, ia entregá-lo
A um servo que o levasse à Grega frota;
Minaz bramindo acorre-lhe Agamemnon:
“Débil a Teucros, Menelau, perdoas?
De certo agradeceram-te a hospedagem.
Nem mesmo o infante no materno ventre
Escape à nossa fúria; em cinzas Tróia,
Inglórios todos insepultos jazam.”
Com tais razões mudado, o irmão lhe empurra
O nobre Adresto; a quem na ilharga fere,
Supino estende, e a retrair o freixo,
O pé finca-lhe aos peitos Agamemnon.
Nestor a gritos: “Eia, amigos Dânaos;
Nenhum, de Marte ó fâmulos, se atrase
Para às naus se tornar com pingue espólio:
Matai, matai; que os mortos pelo campo
Devagar ao depois saquearemos.”
Isto os atiça e alenta. E em Ílio os Teucros
Talvez de acobardados se acoutassem
Lá se não fosse Heleno Priamides,
Augur sem par: “Em vós, Heitor e Eneias,
Que sois no pulso e aviso os mais prestantes,
Lícios e Troas a esperança libram:
De ala em ala, ide já deter os nossos,
Que em destroço nos braços das consortes
Não se salvem, com riso dos contrários.
Mas, assim que exortardes as falanges,
Nós, do cansaço opressos, neste aperto
Combateremos firmes, para aos muros
Ires, Heitor. A nossa mãe requeiras
Que as matronas congregue, e de Minerva
Subindo ao sumo alcáçar, os batentes
Ao sacrário descerre; oferte às plantas
Da olhicerúlea crinipulcra déia
De quantos peplos guarda o que mais preza
Por grande e por donoso, e doze intactas
Anejas indomadas lhe prometa
Sacrificar, se houver dos nossos filhos
E das esposas dó, longe da santa
Ílio apartando o campeão Tidides,
Formidoloso artífice da fuga.
Dos Gregos valentíssimo o reputo;
Nem de Aquiles, que prole crêem divina,
Nos temíamos tanto: agora aquele
Mais sanhudo se mostra e inelutável!”
Concorde o irmão, do carro em armas salta,
Hastas pontudas brande, e por onde ia
Inflama os seus, que revertendo arrostam.
Vão-se escoando os Gregos da matança,
E o rumor se espalhou que em pró dos Frígios
Do estelífero pólo um deus baixara.
Clama a todos Heitor: “Ânimo, Teucros,
Vós longínquos amigos e aliados,
Sede homens, vosso ardor não se arrefeça,
Enquanto vou-me a idosos conselheiros
E às consortes propor que o Céu demovam
Com preces e hecatombes.” Nisto ombreia
O galeato herói de copa o escudo,
E ao marchar o debrum de couro negro
A cerviz lhe batia e os calcanhares.
Na ânsia de pelejar, da liça em meio
Glauco de Hipóloco e o Tidides perto
Já se afrontavam; mas falou Diomedes:
“Quem és, homem bravíssimo, a quem nunca
Vi no conflito, que os varões afama?
Tu na afouteza a todos longe excedes,
Expondo-te ao rigor da lança minha;
Só filhos malfadados se me atrevem.
Do céu vens? Com celestes não contendo:
Viveu pouco o Driâncio atroz Licurgo
Que a tal se abalançou. De Baco as amas
Pelo sacro Nisseio perseguidas,
Picou-as de aguilhada, e elas no afogo
Deixam cair os tirsos; Baco mesmo,
De susto de um mortal, se atira às ondas,
E trêmulo em seu seio o abriga Tétis.
Os de perene vida enraiveceram,
E o Satúrnio o cegou: de curto alento
Sepultou-se aborrido pelos deuses.
Com bem-aventurados não me avenho.
Mas, se a terra te nutre com seus frutos,
Chega-te, e as raias tocarás da morte.”
Então Glauco: “Magnânimo Tidides,
Quem sou perguntas? Como as folhas somos;
Que umas o vento as leva emurchecidas,
Outras brotam vernais e as cria a selva:
Tal nasce e tal acaba a gente humana.
Pois o queres, conhece-me a linhagem;
É bem sabida. — Num recesso de Argos,
A corcéis pacigosa, avulta Efira,
Onde Sísifo Eólides, o astuto
Mais cadimo reinou; seu filho Glauco
Teve a Belerofonte, a quem prendaram
Os Céus de esforço e garbo e gênio afável.
Mas de Preto a mulher, a diva Anteia,
Louca de amores, desejou furtiva
Misturar-se com ele, e despeitosa
De não ter seduzido o casto peito
Pérfida ao rei mentiu: — Belerofonte
Intentou-me forçar; ou morre ou mata-o —,
Em sanha Preto, a cujo prepotente
Cetro os Aquivos sujeitara Jove,
O exilou da cidade; e, religioso
Temendo assassiná-lo, urdiu na mente
Feia vingança: de funestas cifras
Ao sogro o envia com fechado rolo,
Onde a sentença lhe traçou de morte.
Por numes escoltado, ao Xanto e à Lícia
Plaga admitido, em novenal hospício
Lhe imolou touros nove o rei benigno;
Mas na décima aurora dedirrósea
O interrogou, pedindo-lhe a tabela
Que lhe fiara Preto. Os caracteres
Fatais lendo, a Quimera inexpugnável
Mandou-lhe exterminar: tinha esse monstro,
De raça divinal que não terrestre,
A cara de leão, de serpe a cauda,
Caprino ventre, ignívoma a garganta;
E ele extinguiu-a por celeste influxo.
Logo os Solimos debelou, façanha
Que julgava a maior; e enfim deu cabo
Das Amazonas varonis. De volta,
Os mais guapos da Lícia e destemidos,
Juntos numa cilada, o herói desfê-los,
Nenhum restando que levasse a nova.
Nele então vendo o rei divino garfo,
O aquinhoou no império e aceitou genro;
Em patrimônio os povos lhe escolheram
Amplo vinhedo e lavras. Da princesa
Houve Hipóloco e Isandro e Laodâmia.
Esta no toro do prudente Jove
O deiforme gerou pugnaz Sarpédon.
Belerofonte, já dos Céus malquisto,
Na alma comendo-se e evitando os homens,
Sozinho errava pelo campo Aleio.
A Isandro, que os Solimos opugnava,
Trucidou Marte; à Laodâmia Febe,
Que áureas bridas meneia em carro argênteo.
Hipóloco é meu pai, que, no expedir-me
De Ílio em socorro, superior coragem
Me encomendou; que nunca desmentisse
De meus nobres avós, não só de Efira,
Da Lícia em peso altíssimos guerreiros.
Deste preclaro sangue eu me glorio.”
Ledo no chão Diomedes prega a lança,
E diz brandíloquo ao pastor de povos:
“Certo hóspede paterno me és antigo;
Por Eneu dias vinte agasalhado
Belerofonte, mútuos se brindaram:
Coube-lhe um bálteo fúlgido e puníceo;
Coube a Eneu duplicôncova áurea taça,
Prenda que tenho em casa. Não me lembro
De Tideu, que deixou-me em tenra infância,
Indo à facção Tebana, infausta aos Gregos.
Sou teu hóspede em Argos; sê na Lícia
O meu também. Reciprocar os tiros
Mesmo evitemos na refrega: Teucros
Nem outros faltam que eu persiga ou renda,
E Aqueus te sobram, se os depare a sorte.
Patenteemos, permutando as armas,
Que dos avós o hospício respeitamos.”
Nisto, apeiam-se os dois, as destras cerram,
Penhor de fé. Na troca dos arneses
Ofusca Jove a Glauco: pois demente
Com Diomedes cambeia ouro por cobre,
A valia de cem por nove touros.
Vizinho à faia Heitor e às portas Ceias,
Cercam-no e indagam donas e donzelas
Por amigos e irmãos, filhos e esposos.
“Em regra aos numes obsecrai, responde;
Ide, urge a muitas iminente luto.”
Os pórticos reais polidos passa:
Dentro, em lapídeas câmaras contíguas,
Noras cinqüenta e os Priameus dormiam;
E no alto, além do pátio, numas doze,
Também contíguas e também lapídeas,
Os genros e as castíssimas consortes.
A carinhosa mãe, que no aposento
Visitava a pulquérrima Laódice,
O encontra e a mão lhe prende: “O duro prélio
Deixaste, filho? Ah! próximo lutando,
O odioso inimigo assédio estreita;
E desejaste as palmas vir do alcáçar
Para Jove estender. Fica-te um pouco,
Vinho te quero ministrar melífluo,
Com que libes ao Padre e às mais deidades:
Restaurarás bebendo as lassas forças;
Que o vinho as corrobora, e as esgotaste
Por defender os cidadãos lidando.”
“Não, venerável mãe, torna o guerreiro,
Do suave licor não me ofereças,
Que me enerve e do brio me deslembre:
E ao das nuvens Senhor com mãos impuras
Temo libar, e infando é suplicá-lo
De sangueira poluto. Mas ao templo
Da predadora Palas com perfumes
Vai-te asinha, e as matronas congregando,
Oferta aos pés da crinipulcra déia
De quantos peplos guardas o que prezas
Por grande e por donoso; e doze intactas
Anejas indomadas lhe prometas
Sacrificar, se houver dos nossos filhos
E das esposas dó, longe da santa
Ílio apartando o campeão Tidides,
Incutidor feroz de espanto e medo.
Ao templo sobe; eu vou, se me ouvir Páris,
Do ócio espertá-lo. Aberta, o sorva a terra!
O Olímpio o fez medrar, funesto à pátria,
Funesto ao rei. No inferno se afundisse,
Cuido que olvidaria os meus pesares.”
Disse; a mãe volve ao quarto, e pelas servas
De Ílio convoca as donas. Desce mesma
À fragrante recâmara, onde os peplos
Vários tinha e gentis, lavor das moças
Que trouxe da Sidônia o divo Páris,
Da vez que o largo pélago sulcava
Com sua Helena excelsa. Hécuba escolhe
Um que último encontrou, mais recamado
Grande e loução, fulgente como um astro.
Põe-se a caminho; as damas a acompanham.
Ei-las no sumo templo, que a Cisseide
Fresca Teano, de Antenor esposa,
Dali sacerdotisa instituída,
Lhes escancara. As palmas logo todas
Com pranto e grita para o altar ergueram;
E, aceito o peplo, o colocou Teano
Aos pés de Palas, deprecando à filha
Pulcrícoma de Jove: “Honra das deusas,
De Ílio apoio, a Diomedes quebra a lança:
O pó morda, ó Minerva, às portas Ceias;
Doze intactas indômitas anejas
Te imolaremos já, se houveres mágoa
Destes muros, de nós, de nossos filhos.”
Renui Tritônia a rogos tais; e enquanto
As mães votavam, ganha Heitor o alvergue,
Primor que engenhou Páris e os mais destros
Operários de Tróia executaram,
De átrios, salões e camarins soberbos,
Junto a Príamo e Heitor na cidadela.
Entra o herói caro a Jove, sustentando
De onze cúbitos haste, onde encavada
Fulge ênea choupa, que aro de ouro aperta.
Na câmara acha o irmão lustrando a malha,
Curvos arcos, loriga e fino escudo;
E, entre as criadas suas, a Lacena
Às servas repartindo insignes obras.
“Páris, disse agro Heitor, ó desastrado,
Ódio vão cevas, e por ti pugnando
Perecem tantos! Ruge em torno a guerra,
Arde o clamor; e a ti mormente os frouxos
Competia aguçar. Vem, vem, desperta,
Antes que lavre o incêndio em nossos lares.”
E o deiforme Alexandre: “Eu não to nego,
Justo me argúis. Atende-me contudo:
Não por despeito aos nossos, mas por folga
À dor pungente, em ócio me encerrava.
E brando agora mesmo Helena ao prélio
Me compelia; abraço-lhe o conselho,
Porque alterna a vitória os seus favores.
Que eu vista as armas deixa, ou me antecede;
Lá sem demora, irmão, serei contigo.”
Calou-se Heitor, e meiga Helena fala:
“Oxalá, bom cunhado, eu fenecera
Nas entranhas maternas, ou que a brenhas
Um tufão me arrojara, ou me afundira
No flutíssono mar, de horríveis danos
Para não ser a abominanda causa,
Nem perpetrar sem pejo infâmias tantas!
Mas, já que o fado o quis, eu fosse ao menos
Mulher de um bravo, a quem doesse o opróbrio
E o motejar dos homens: sem firmeza,
Nunca a terá por certo, e o fruto espere.
Agora neste escano, irmão, descansa
Do afã que te salteia o peito e a mente,
Por imprudência minha e culpa dele.
Ah! cruel condição! de Jove opressos,
Fábula às gentes no porvir seremos.”
E o cristado varão: “Cortês e afável,
Não me contes reter: esta alma ferve
Por ajudar os que por mim suspiram.
Ativa a Páris, que dos muros dentro
Se me reúna: a despedir-me corro
Da família, da esposa e meu filhinho;
Ignoro se me outorgue o céu revê-los,
Ou se domar-me ordene às mãos dos Gregos.”
Nem mais; segue, e acha fora de seu paço
Andrômaca gentil, que albinitente,
Com o infante e uma serva bem velada,
A gemer e a chorar na torre estava.
Desencontrando a cônjuge incorrupta,
Já da soleira, às fâmulas virou-se:
“Que é da senhora? declarai sinceras:
A uma de longo peplo ou minha ou sua
Cunhada iria, ou agregar-se as damas
Que a Palas crinipulcra infensa aplacam ?”
Respondeu-lhe a zelosa despenseira:
“Pois o queres a flórida princesa
Com nenhuma cunhada ou tua ou dela
De longo peplo está, nem entre as donas
Que a Palas crinipulcra infensa aplacam;
Sim na grã torre de Ílio: ouviu que os nossos
Eram da força Graia assoberbados;
E, levando o menino em braços da ama,
Como doida partiu para as trincheiras.”
Ei-lo as praças desanda e extensas ruas;
E às portas Ceias, no sair ao campo,
Ocorre a esposa, de Eetion nascida,
Que os Cilícios, de Hipóplaco selvosa,
Rei dominava na Hipoplácia Tebas;
De Eetion, que a dotou grandiosamente
Para dá-la ao Priâmeo eriarnesado.
O tenro único Hectóreo, astro em beleza,
A ama o afagava: o nome de Escamândrio
Seu pai lhe impôs, de Astianax o povo,
Por herdeiro do herói de Tróia apoio.
Tácito ele sorriu no filho absorto;
A lagrimar Andrômaca nas suas
A mão lhe aperta e clama: “Temerário!
Perde-te esse valor, nem te amiseras
Desta criança, nem de mim coitada
Cedo viúva; que da Grega fúria
O alvo serás. A terra me sepulte,
Se me faltares tu: só pesadumes
Hão-de cercar-me, sem nenhum conforto.
Pai nem mãe tenho: rasa a de altas portas
Cilícia Tebas, o tremendo Aquiles
A Eetion matou; com seu dedáleo
Arnês, sem despojá-lo, o queimou pio,
E térreo ergueu-lhe um túmulo, que de olmos
Em redor as Oréadas plantaram,
Do Egífero almas filhas. De irmãos sete,
Num dia o Celeríssimo no inferno
Todos mos despenhou, quando pasciam
Bois flexípedes, cândidas ovelhas.
A augusta mãe de Hipóplaco rainha,
Trouxe-a com basta presa; ao depois solta
Por um preço infinito, em seu palácio
Vítima foi de Artemide frecheira.
Tu me és, Heitor, mãe, pai, irmão, florente
Consorte e amigo: tem de mim piedade;
Cá te fiques na torre; órfão não deixes
O infante e a mulher tua. A gente postes
Cerca da baforeira, onde acessíveis
Prestam-se os muros nossos à escalada.
Vezes três os melhores a empreenderam,
Os dois Ajax, Idomeneu, Diomedes,
E os Atridas; ou fosse de agoureiros,
Ou de seus próprios ânimos impulso.”
E Heitor: “São meus, esposa, os teus cuidados;
Mas dos Frígios me temo e das matronas
De roçagantes opas, se em muralhas
Qual fraco a luta evado; e hei-de mim pejo,
Que tenho à frente combatido sempre,
Vindicando a paterna e a glória minha.
Prevejo n’alma o fim da sacra Tróia,
Do corajoso Príamo e seu povo;
Ah! da pátria o porvir me aflige menos,
Da mãe, do rei, de tanto irmão valente
Estendido no pó, que de um soldado
Brutal cativa e em pranto imaginar-te,
E em Argos a tecer, e da estrangeira
Por duro império, atroz necessidade!
À fonte ir de Hipereia ou de Messeide.
E dir-te-ão, do choro teu movidos:
— Pobre mulher de Heitor, o herói que de Ílio
Com mais denodo propugnava em torno! —
De teu marido gemerás saudosa
Para te libertar. Cubra-me a terra,
Antes que os ais te escute e a rastos veja.”
Eis lança ao filho as mãos, que averso e em gritos,
No seio da ama de elegante cinto,
Espantado se encolhe ao pátrio aspecto;
A armadura o apavora, a juba eqüina
Que da cimeira aênea hórrido nuta:
Sorriu-se Heitor, a augusta mãe sorriu-se.
Despe o guerreiro o fulgurante casco,
Pousa-o no pavimento; a seu querido
Em braços leve embala e o beija e ameiga:
“Ó Júpiter, perora, ó deuses todos,
Como eu dai que este seja aos Teucros honra;
Potente o cetro empunhe; ao vir do prélio,
— Inda é que o pai mais forte —, alguém lhe exclame;
Morto o inimigo, no cruento espólio
Volte, e a mãe leda folgue.” À doce esposa
O entrega então, que entre chorando e rindo
No fragrante regaço o filho acolhe.
Terno olhando o consorte, a acaricia:
“Por mim tanto, anjo meu, não te consternes:
Contra o fado abismar-me ninguém pode,
Nem há nascido quem se furte ao fado,
Por estrênuo ou medroso. A casa busca;
No tear, no lavor, na roca entende,
E as servas atarefa: aos homens de Ílio,
E a mim principalmente, a guerra incumbe.”
Do chão leva o emplumado capacete,
E retirou-se Andrômaca, amiúde
Atrás volvendo os olhos gotejantes.
Na cômoda mansão de Heitor sangrento
Em luto encontra as servas, que o pranteiam
Vivo, por crerem que do urgente risco
Nem dos feros Aqueus se escaparia.
Não langue Páris na orgulhosa estância;
De brônzeo arnês vistoso revestido,
Com pé ligeiro atravessava as ruas.
De centeio cevado à manjedoura,
Do amor pungido, a claro banho afeito,
Roto o cabresto, unguíssono cavalo
Pulsa o campo; a cabeça engala e emproa,
A crina a flutuar pelas espáduas;
Da bizarria ufano, ágil galopa
Ao rio ameno e aonde as éguas pastam:
Assim de Pérgamo o Priâmeo em armas
Desce, luz como o Sol, exulta e marcha;
De pronto e lesto alcança a Heitor, que vinha
Da prática de Andrômaca, e lhe fala
Pressuroso: “Eu talvez, remisso às ordens,
Te hei, venerando irmão, contido o fogo.”
E alegre Heitor: “Quem saiba avaliar-te
Far-te-á justiça, ó caro; és denodado,
Mas tíbio e inerte e mole; é-me penoso
Exprobrarem-te os sócios, que padecem
Pelo erro teu. Avante; comporemos
Estas questões, quando aprouver a Jove
Que, expulsos os Grajúgenas grevados,
Em nosso lar brindemos e erijamos
Livre cratera aos sempiternos deuses.”* * *
NOTAS AO LIVRO VI
30, Tomei a liberdade, aqui e já no segundo livro, de usar do nome Leuto, e não Leito, cujo som traz à memória uma cama.
147—156. Esta passagem, mostrando que antes da guerra de Tróia já se comunicavam por cifras e sinais, parece opor-se aos que afirmam que no tempo de Homero ainda não se conhecia a escritura. Note-se que as tais cifras iam num rolo, como ao depois se fazia com as letras.
205—208. Tenho por um pouco fora de propósito este cálculo comercial de Homero, de que a troca era contra Glauco.
356. A Escamândrio, o filho de Heitor, o povo chamava Astianax, porque seu pai era ãsteos anax, isto é defensor de Tróia.
376—378. Flexípede, do latim, responde ao grego no verso 424. — Artemide, outro nome de Diana, adotado por Monti. — Ajaces, no plural, é precedido quase sempre do artigo os, juntam-se muitos sons sibilantes, cousa desagradável quando não serve à harmonia imitativa; assim, gosto mais do plural Ajax, como em francês. Temos outros nomes próprios que não mudam; e, se muitos dizem cálices, a maior parte usa de calis em ambos os números.
385. Digo baforeira e não figueira brava, porque é o vocábulo português mais próprio e que melhor traduz éphineós ou o latim caprificus: figueira brava é mais genérico. Veja-se a este respeito o dicionário de Moraes.
413—427. Euzoncio, de belo cinto, é epíteto que se não pode omitir; mostra que naqueles tempos, como nestes nossos, as mães traziam as amas enfeitadas; e o mesmo consta do epíteto bem velado, correspondente ao do verso grego 330, que vem acima. — Juba comumente se aplica ás guedelhas do leão; mas com o adjetivo eqüina pode aplicar-se às crinas do cavalo, como em latim. — A interpretação do verso 484 do original, no meu 427, é que Heitor pôs o menino entre os braços da mulher, a qual no meio das lágrimas sorriu; e não que chorava o menino, cousa que na passagem nada acrescentava: do meu parecer foram o intérprete latino, Monti e outros mais.
439—440. Daimonin é tanto o mau como o bom espírito; em português demônio só significa o mau, chamando-se anjo ao bom. Sei que anjo tem uma aceitação particular entre cristãos e muçulmanos; mas aqui o tomo no sentido genérico, bem que figuradamente, de bom espírito ou gênio tutelar. — Homero, no verso 497 correspondente ao meu 410, chama cômoda a morada de Heitor, e assim contrasta os gostos modestos do protetor de Tróia com o luxo de Páris, cujo palácio era custoso e magnífico. Este epíteto está bem longe de ser supérfluo, posto que tenha sido omitido pela maior parte dos tradutores.
* * *
LIVRO VII
Assim, das portas rui Heitor mais Páris,
Ambos a respirar bélico incêndio:
Com tanto anelo festejados foram,
Como o vento que um deus bafeja amigo
Do afã do remo a nautas quebrantados.
Páris mata a Menéstio, que olhipulcra
Pariu Filomedusa em Arna ao régio
Areito porta-clava; o irmão, de um bote,
Sob o elmo o colo talha e estira Eione.
Ao Dexíada Ifino, que montava,
Glauco dos Lícios de azagaia a espádua
Fere, e do coche o atira agonizando.
Vendo a cerúlea déia o Graio estrago,
Lá do Olimpo frechou para Ílion santa;
Febo, o triunfo aos Troas desejando,
No enxergá-la de Pérgamo, apressou-se;
Topam-se ao pé da faia; o Délio enceta:
“Por que fúria e paixão voltaste, ó Palas?
A indecisa vitória aos Gregos trazes?
Não tens dos Frígios dó; mas, se me atendes,
Suste-se o morticínio; ao depois, guerra,
Té que Dardânia acabe; já que n’alma
Vos compraz sovertê-la, ó cruas deusas.”
“Para isso cá desci, Tritônia acode;
Porém como aplacá-los?” — Segundou-lhe
O Dial Febo: “O ânimo exaltemos
De Heitor doma-corcéis, que desafie
A duelo mortal qualquer dos Dânaos;
E os de fúlgida greva, de indignados,
Algum excitarão que a briga aceite.”
Ela consente. Ao genitor benquisto
Heleno, este aventando arbítrio e acordo,
Apresenta-se a Heitor: “Ó tu Priâmeo,
Como Jove sensato, o aviso queres
Seguir fraterno? Aquieta Aqueus e Troas:
A duelar provoca os mais famosos;
Inda não te é chegada a hora extrema;
Isto mesmo colhi da boca a numes.”
Regozijou-se Heitor com tal conselho:
A haste ao meio pegando, avança, e as hostes
Retém, sossega. O Atrida os seus refreia.
N’alta faia de Jove Apolo e Palas,
De abutres sob a forma, alegres pousam,
Vigiando os guerreiros que descansam,
De elmos, broquéis, de lanças eriçados.
Qual, de Zéfiro à súbita refega,
Negreja o ponto e freme, as densas turmas
Acaica e Frígia na campanha ondeiam.
Eis de permeio Heitor: “Aquivos, Teucros,
O que encerro no peito ouvi-me atentos.
Não manteve o Satúrnio os pactos nossos;
Mil desastres medita e nos reserva,
Té que ajoelhe a turrígera cidade,
Ou em destroço as naus vogando fujam.
Cavaleiros de prol na Grécia há tantos:
Um de mor brio, em singular certame,
Se atreva ao divo Heitor, medir-se venha.
Proponho, e o testemunhe o padre sumo:
Se do herói caio ao bronze, leve as armas,
Deixe porém que Ilíacas matronas
Em piedosa fogueira me consumam;
Se a cruenta vantagem dá-me Apolo,
O arnês lhe tirarei, que em Ílio sacra
Do Longe-vibrador pendure ao templo,
E rendido seu corpo à instruta armada
E exéquias feitas, os crinitos sócios
Do amplo Helesponto às abas o tumulem.
Em remeira galé do pego bradem:
— Um valente ali jaz de antigas eras,
Que arrostando-se a Heitor morreu com honra. —
E eterno passarei de boca em boca.”
Entre o pejo e o temor, tudo é silêncio.
Menelau mesto surge e exprobra e geme:
“Que! Jactantes Aqueus, antes Aquivas,
A Heitor nenhum se afouta? Oh negra infâmia!
Quedos, em água e pó sejais desfeitos,
Cobardes sem pudor. À liça eu parto;
Que afinal o vencer do Céu depende.”
Loução já se arreiava; e ao Teucro braço,
Que o seu muito mais forte, a luz perdera,
Se, em pé da Grécia os reis, o irmão potente
Não lhe aferrasse a destra: “Enlouqueceste?
Siso, aluno de Jove, a dor sopeia;
De afrontar ao Priâmeo não capriches
Terror dos campeões: o próprio Aquiles
Teme encontrá-lo e ter na glória quebra.
Entre os sócios te assenta: os Gregos outrem
Suscitarão. Pugnaz e insaciável
Seja Heitor, eu presumo que de veras,
A salvar-se do lance e ardente lide,
Os joelhos curve e refocile os membros.”
Da razão convencido e mitigado,
Os servos seus com júbilo o desarmam.
Então Nestor: “Que luto invade a Grécia!
Que ais soltará Peleu, facundo e sábio,
Équite aos Mirmidões antigo espelho,
Que alvoraçado em casa me inquiria
De Aqueus filhos e pais, se ora abatidos
O saiba todos e de Heitor medrosos!
Alçando as palmas, rogará que a Dite
A alma se vá dos órgãos desatada.
Fosse eu qual era, oh! Jove, Palas, Febo,
Quando os hastatos Árcades e os Pílios
Ante o rápido Céladon pugnavam,
De Feia aos muros, do Jardano às ribas!
Divo Ereutalion, na frente as armas,
Tinha de Areito. Areito rei, que as damas
E os varões Corinete apelidavam,
Pois, de arco e pique não, de férrea maça
Hostes batia. Num carreiro, estorvo
A manejá-la, por traição Licurgo
De hasta o salteia, ressupino o calca,
Despe-lhe o arnês, do brônzeo Marte prenda:
Sempre ao depois o trouxe nas batalhas,
Té que envelhece e o doa ao companheiro
Fido Ereutalion. Com tal socorro
Esse atrevido provocava a todos,
E todos de encará-lo estremeciam;
Mas eu, do exército o menor, seguro
Na força e ardência, me travei com ele:
De Minerva por graça, obtive os gabos
De conculcar o aspérrimo gigante,
Que na arena vastíssimo estendeu-se-me.
Tivesse o meu vigor e aquela idade,
Que não me aguardaria o herói Troiano;
Mas, da Grécia ó fortíssimos guerreiros,
Nenhum de vós se move a combatê-lo!”
A repreensão do velho incitou nove:
O mor cabo se ergueu, Diomedes logo;
Os robustos Ajax de ardor vestidos;
Idomeneu e Merion seu pajem,
Do homicida Eniálio êmulo digno;
Eurípilo Evemônides preclaro,
E Toas de Andremon e o grande Ulisses:
Cada qual ser primeiro ambicionava.
O Gerênio tornou: “Decida a sorte;
O que for designado a Grécia o aprove:
Ele na alma terá do esforço o prêmio,
A livrar-se da luta e afronta grave.”
Nisto, um por um, a cédula marcada
No capacete a lançam de Agamemnon;
Mãos e olhos para os céus, a turba orava:
“Padre, caia em Ajax, caia em Tidides,
Caia a sorte no rei da áurea Micenas.”
O elmo agita Nestor: sai um que espalha
Geral contento: a cifra à destra e em roda
Ia o arauto mostrando, e a recusavam;
Té que Ajax, que a traçou, de um só relance
A reconhece, imerso em gozo a toma,
Larga-a no chão gritando: “É minha, ó sócios,
Oh! que prazer! de Heitor vitória espero.
Sus, enquanto me arneso, ao bom Satúrnio
Convosco deprecai, não o ouçam eles;
Ou seja em alta voz, ninguém tememos.
Na pátria Salamina exercitado,
Força ou perícia alheia não me abala.”
Fitando o azul convexo, entoam preces;
E um do povo: “Triunfe o Telamônio,
Do Ida augusto senhor, máximo e eterno!
Mas, se amas o Troiano e dele curas,
Equilibra o valor e a glória de ambos.”
Arma-se Ajax, de ponto em branco fulge.
Qual Marte Giganteu marcha entre humanos,
Por Jove expostos à roaz discórdia
E guerra atroz; com vulto assim medonho
Sorrindo o herói, muralha dos Aquivos,
Alarga os passos, a hasta ingente libra:
Do aspecto os seus com regozijo fremem;
Aos Troas frio susto os ossos corre;
Mesmo de Heitor o coração palpita:
Mas não pôde evadir-se e entrar na chusma,
Sendo quem promovera o desafio.
Vinha Ajax de pavês como érea torre,
Que em Hila o exímio correeiro Tíquio,
Seu apaniguado, lhe muniu de sete
Couros de nédios bois, e em cima de ênea
Lâmina oitavo o reforçou; com ele
Dos peitos resguardado, perto e firme
Troveja: “Agora provarás, Dardânio,
Quão lesto os Graios príncipes duelam.
Bem que o rompe-esquadrões Peleio Aquiles,
Animoso leão, curta a seu bordo
Ira e despeito contra o sumo Atrida,
Restam muitos e tais que barba a barba
Te resistamos. O combate enceta.”
E o magno Heitor: “Ó maioral divino,
Grã Telamônio, imbele não me julgues
Ou menino ou mulher: eu sei batalhas
E matanças dispor, zombar de ataques;
Mover sei na direita, sei na esquerda
O ardente escudo; em prélio sei pedestre
Do sevo Marte ao som medir meus passos,
Montar de salto, afoguear as éguas.
Mas homem tal ferir não quero a furto;
Aguarda o bote, que oxalá te alcance!”
E o longo arremessão da enorme adarga
Seis couros entra, ao sétimo se apega;
Da lança indômita o reparo extremo,
Que era oitavo e de bronze, intacto fica.
Veio o turno de Ajax, cuja hasta horrenda
Na hostil profunda lúcida rodela,
Finca-se entre a couraça artificiosa,
Junto ao vazio a túnica espedaça;
Heitor se torce e a feia morte ilude.
Seu pique um do outro saca, investem-se ambos,
Crus famintos leões ou renitentes,
Híspidos javalis. No escudo amolga,
Sem penetrá-lo, a cúspide Priâmea.
A rodela, num pulo, Ajax perfura,
Sangra o pescoço ao dono arremetente;
O cruor mana escuro. Mas não cessa
O galeato herói: retrocedendo
No campo agarra válido um penedo
Áspero e denegrido; o centro abola
Ao dobrado broquel de tergos sete;
Circunsoa o metal. Mor pedra erguida,
Ajax com fúria imensa a expede e roda:
O molar seixo quebra a Heitor a tarja,
Que, aos joelhos magoado e a tarja aos peitos,
Cai de espinhaço; mas levanta-o Febo.
Já se iam vulnerar de espadas, quando
Núncios de Jove e dos mortais, o Acaico
Taltíbio e Ideu Troiano, cautelosos
Os cetros seus na briga interpuseram.
E Ideu falou perito nos conselhos:
“Não mais, diletos filhos: do Tonante
Ambos amados sois, terríveis ambos,
Confessamo-lo todos; mas é noite,
Cumpre à noite ceder.”— E o Telamônio:
“Ideu, pronto obedeço; Heitor comece,
Que os Dânaos provocou mais destemidos.”
Acode o bravo Teucro: “Ajax, dos Gregos
És lanceiro o mais guapo; o Céu doou-te
A grandeza, a prudência, a valentia:
Suspendamos, até que noutro encontro
A um de nós a fortuna entregue a palma.
Noite é, ceda-se à noite: às naus Aquivas
A alegrar volve amigos e consócios;
Volvo de Príamo à cidade vasta
A consolar os meus e as pias donas
De roçagantes vestes, que suplicam
Por mim no santuário. Mutuemos
Comemoráveis dons; e os nossos digam:
— Eles em voraz sanha combateram,
Mas com sinais de estima se apartaram.”
Nisto, ofertou-lhe a espada claviargêntea,
De primor a bainha e fino bálteo;
Purpúreo cinto recebeu lustroso.
Aos Aqueus um regressa e o outro aos Frígios;
Que, em susto há pouco, ao vê-lo exultam salvo
Do invicto braço, e às portas o acompanham.
Ovante Ajax, à tenda Agamenônia
Seus grevados Grajúgenas o escoltam.
O amplo-reinante ali sacrificava
Qüinqüene touro ao padre onipotente:
Esfolam-no, retalham-no, espostejam,
De espeto as carnes cuidadosos assam.
Pronto o festim, regalam-se os convivas
De iguais porções; a Ajax embora desse
O rei dos reis em honra o dorso inteiro.
Exausta a fome e a sede, abre a consulta
O facundo Nestor, cordato sempre:
“Atridas e mais chefes, confundido
O atro sangue no límpido Escamandro,
Muitos crinitos Graios Marte acerbo
Tem mandado a Plutão; na aurora, tréguas.
De mus e bois em carroções colhidos,
Queimem-se os mortos junto à frota; as cinzas,
De volta à pátria, aos filhos seus rendamos.
Todos numa fogueira e num sepulcro,
Das naus e deles em defesa, torres
Com portões para carros perto alcemos;
Cave-se em roda um fosso, que proíba
De équites e peões o ardido assalto.”
O ancião termina, os príncipes aplaudem.
Na cidadela, ao pórtico Priâmeo
Tumultuava trépida assembléia;
Sábio Antenor discorre: “O que em mim sinto
Ei-lo, Dardanos, Teucros e aliados.
Perjúrio é contender contra os Atridas:
Restitua-se Helena e seus tesouros;
Senão, vos digo, triste fim teremos.”
Mal acabava, arrebatado surge
Páris, da loura bela Argiva esposo:
“Agravas-me, Antenor; al tu podias
Excogitar: se falas sério, os deuses
Roubaram-te o juízo. A minha Helena!
Ah! não, declaro à face dos Troianos;
Sim de Argos restituo o espólio todo,
Mais do meu lhe acrescento.” E foi sentar-se.
Então Príamo, igual no siso aos numes,
Ergueu-se: “Ouvi, Dardânios e aliados,
O que hei no peito. O exército se esparza,
Depois da ceia, em rondas e atalaias;
Vá-se Ideu na alvorada à grega frota,
E anuncie aos Atridas a promessa
Do autor desta pendência. Em tal ensejo,
Para os mortos queimarmos tréguas peça;
E findas, só da guerra o estrondo pare
Ao dispor a fortuna da vitória.”
Todos, com mais respeito, lhe obedecem;
Em ranchos vão cear. N’alva Ideu parte;
Em parlamento, à popa Agamenônia,
Achando os Graios servos de Mavorte,
No meio anunciou com voz canora:
“Atridas, vós aqueus de fina greva!
Príamo e outros senhores me ordenaram,
Grato vos seja! que a promessa exponha
Do autor desta pendência: os bens que trouxe
(Ele antes acabara!) em cavos bojos,
Dar-vos quer todos, e acrescenta muitos;
Mas, apesar da instância dos Troianos,
Vos denega a mulher que em virgem teve
Menelau generoso. E também tréguas
Pedem, para os cadáveres queimarmos;
E findas, só da guerra o estrondo pare
Ao dispor a fortuna da vitória.”
Silêncio em torno reina, até que o márcio
Diomedes o quebrou: “Ninguém receba
Riquezas de Alexandre, ou mesmo Helena:
A quem não for criança é manifesto
Que iminente ruína os Teucros urge.”
A aclamação geral seu dito aprova.
E Agamemnon a Ideu: “Já tens, arauto,
A unânime resposta, e eu dela folgo.
Quanto à queima dos mortos, consentimos;
Dilatar não se deve a cerimônia
Jucunda aos manes: este pacto assele
De Juno o excelso troador marido.”
E aos imortais aqui seu cetro eleva.
Dardanos e Troianos congregados
O núncio aguardam, que, de volta a Ílio,
A resulta expendeu no ajuntamento.
Uns a lenhar, a carrear os corpos
Aprestam-se outros: por igual motivo,
Das instrutas galés desembarcavam.
Tanto que o sol, ferindo monte e vale,
Do manso undoso pélago arraiava,
Topam-se todos. Cada um seus mortos
Só distingue ao lavá-los da sangueira,
E lamentando os metem nas carroças.
Do grã Príamo aos seus vedado o choro,
Tácitos os cadáveres cumulam,
E celebrada a queima, se recolhem.
Reprimindo igualmente a pena e o pranto
Combustos numa pira os tristes restos,
Volvem-se às naus os de elegante greva.
Antes d’alva, ao crepúsculo, operários
Um túmulo comum, junto à fogueira,
Aos finados erigem: muro e torres,
Das naus e deles em defesa, perto
Com portões para carros edificam;
Fosso profundo e largo externo cavam,
De paliçada em roda guarnecido.
A arte e perícia dos comantes Gregos,
Do senhor dos trovões a par, os deuses
Olham com pasmo. O Enosigeu Netuno:
“Júpiter, vozeou, quem há no mundo
Que de ora avante nos consulte e implore?
Não vês como os Aqueus de ênea loriga,
Sem preces nem solenes sacrifícios,
Trincheira e fosso e torreões fabricam?
Por onde a luz se expande, irá seu brado
Calar o das muralhas que eu e Apolo
A Laomedonte a custo levantamos.”
Carrega-se o Nubícogo enfadado:
“Poderoso Netuno, hui! que proferes?
A deidade inferior fique esse medo:
Por onde a luz se alargue, a tua glória
Se alargará. Tolera, e assim que os Dânaos
Do caro ninho em busca se embarcarem,
Para que de obras tais o rasto apagues,
Desmorona, submerge, arrasa tudo.
Cobre e de areia inunda a vasta praia.”
Cai, nisto, o Sol: do afã cessando, matam
Nas tendas reses e da ceia cuidam.
Em baixéis remetera Euneu de Lemnos,
Prole de Hipsípile e Jason monarca,
Medidas mil de vinho aos dois Atridas;
O exército o comprava a bronze, a ferro
Assacalado, a peles, bois e escravos:
O festim se adereça. Inteira a noite,
No campo os Dânaos, na cidade os Frígios,
Ledos se deleitavam, quando alerta
Aziago toa o próvido Satúrnio.
Pálido lavra o susto; o vinho entorna
Dos copos cada qual, nenhum bebia
Sem prelibar ao prepotente Jove.
Deitam-se alfim, no brando sono pegam.* * *
NOTAS AO LIVRO VII
79—132. Certo crítico do meu amigo Lopes de Moura, não há muito falecido, em minha presença lhe censurou o verbo arreiar na acepção do enfeitar, ornar, ou adereçar; e, como aqui sou réu da mesma culpa, advogarei a nossa causa. Arreiar por guarnecer de arnês as bestas é em sentido restrito, sendo o mais antigo e genérico o de que ambos nos servimos. Constâncio, uma das boas autoridades para os afrancesados que desamam a genuína língua portuguesa, diz que arreio é verdadeiro sinônimo de adereço, por vir este de um radical arábico de significação idêntica à do verbo arreiar, o qual deriva do grego aro, isto é ornar. Escreveu Barros: “Jóias de que se eles (os Mouros) arreiam”. Escreveu Camões: “Mombaça que se arreia de casas suntuosas; — Escandinávia ilha que se arreia das vitórias.” Escreveu Diniz: “De preciosos rubins a fronte arreia.” Além destes exemplos, acham-se outros em Castanheda, em Fernão Alves do Oriente, em Fr. Luiz de Souza, em Vieira, em Pinto Ribeiro, em Elpino Duriense, em Filinto Elísio. Logo, apesar da crítica, posso eu usar aqui do verbo, e não fez mal o Dr. Lopes de Moura,
Corinete, adotado por Monti e por M. Giguet, é o que se arma de clava ou maça. — Eniálio, também adotado por Monti, é sobrenome de Marte, ou de qualquer deus da guerra; quer dizer batalhador.
255—257. Qüinqüene quer dizer cinco anos, e foi adotado por Monti e outros Italianos. — Note-se que, assim neste como em outros livros, quando fala Homero dos assados, ajunta um advérbio ou cousa que recorde quão difícil é consegui-los bons. Em nossos dias, Brillart-Savarin na sua Physiologie du Goût, escrevia que os cozinheiros fazem-se, mas que os assadores nascem; o que vai com o pensamento do poeta. Posto que os Ingleses na Europa são os que melhor sabem apreciar a iguaria preferida pelos heróis da Ilíada, é nos sertões do nosso Brasil, principalmente nos do Ceará e do Rio Grande do Sul, que os assados formam a comida principal. Não é só nisto que os sertanejos têm semelhança com os tais heróis; têm-na em muitos pontos: na simplicidade e singeleza, na hospitalidade, no amor da vingança bem como no costume de discursarem antes de se travarem em duelo; costume que há também entre os selvagens de toda a América, ainda mais parecidos com os homens de Homero.
357. Enosigeu, isto é abalador da terra, epíteto de Netuno, está admitido no italiano; e em nossa língua ainda mais afeita às palavras compostas e ainda mais ousada, cabe ele otimamente.
* * *
LIVRO VIII
Ao desdobrar seu manto a crócea Aurora,
No vértice do Olimpo cumioso
Junta o Fulminador a etérea corte;
Acena, e escutam-no: “O que em mim resolvo,
Celícolas, sabei; nem deus, nem deusa
Renua, mas unânimes concorram
Para os projetos meus cumpridos serem.
Se algum for socorrer Aqueus ou Frígios,
Cá voltará golpeado e vergonhoso;
Ou no Tártaro eu próprio hei-de afundi-lo,
Gólfão de érea soleira e férreas portas,
Do Orco distante como o céu da terra:
Quem sou conheça. Duvidais? Suspensa
Da abóboda estrelada áurea cadeia,
Deuses e deusas, pendurai-vos dela
E juntos forcejai, que a Jove sumo
Nem mesmo abalareis; mas, se aprover-me,
Puxar-vos-ei de cima e a terra e os mares,
E enrolada a cadeia ao tope Olímpio,
Penderá das alturas o orbe inteiro:
Tanto os numes supero e tanto os homens.”
Esta ameaça espanta-os e emudece,
Menos a de olhos garços: “Pai Satúrnio,
Senhor te confessamos e invencível.
Se combater porém nos é vedado,
Permite aconselhemos os briosos
Lamentáveis Aqueus, para que ao sopro
Da ira tua não pereçam todos.”
E a sorrir o Nubícogo: “Tritônia,
Descansa: austero fui, mas condescendo
Contigo, ó filha amada.” — Aqui, jungindo
Erípedes corcéis de crina de ouro,
Monta cosido em ouro, em ouro o açoute
Lavrado agita: a rápida parelha
Entre o sidéreo pólo e a terra voa.
No Ida, que em fontes brota e abunda em feras,
Junto ao Gárgaro o autor de homens e deuses,
Onde ara tem fragrante e umbroso luco,
Solta os frisões do coche e os enevoa;
De glória a comprazer-se, está no pino
Contemplando a cidade e a frota Argiva.
Depressa almoça a guedelhuda gente,
Arma-se. Em menor cópia armam-se os Teucros;
Insta a lei de amparar filhos e esposas.
Francas as portas, com fragor borbotam
Équites e peões. Já face a face,
De érea malha os guerreiros se rechaçam,
Cruzam-se hastas, embatem-se rodelas,
Com tumulto e alarido: um cai gemendo,
Este urra, outro alardeia; o sangue jorra.
Cresce a luz matutina, o estrago é dúbio;
Mas, quando o sol medeia, áurea balança
Libra o Supremo, e dos partidos ambos
De sonífera morte os fados pesa:
A concha dos Aqueus se inclina e abate;
Sobe a dos Frígios e se eleva aos astros.
Contra os Aqueus fulgura e do Ida toa;
Eles de frio susto e assombro enfiam:
Idomeneu retira-se e Agamemnon,
E os fulmíneos Ajax. Mau grado, resta
Nestor só, dos Grajúgenas custódio;
Que Alexandre frechou-lhe um dos cavalos
Nos testos e onde vem primeiro a crina,
Sítio letal. Varado o cerebelo,
Dorido e em gêmeas, conturbando os outros,
Ao pé da roda o bruto se debate:
E, enquanto a gládio o velho corta os loros,
De Heitor as éguas buscam-no fogosas,
E audaz cocheiro as guia, o mesmo Heitor.
Morto o Gerênio fora, se advertido
Horrendo não bramasse o herói Diomedes:
“Cauto Laércio, no tropel te ocultas?
Vil por detrás um dardo não receias?
Pára, afastemos o feroz contrário
Do venerando amigo.” — Surdo Ulisses,
Paciente e apressado, às naus caminha.
Antessignano, bem que só, Tidides
Chega-se ao bom Neleio, e sem demora:
“Bravo ancião, mancebos te perseguem:
Torpe enerva-te as forças a velhice;
Fraco é teu pajem, teus cavalos débeis:
Monta, e prova os de Troe, pouco há tomados
Ao nobre Anquíseo artífice da fuga,
No encalço ardentes, no evadir-se lestos.
Esses aos nossos confia; o meu dos Frígios
Contra os carros desfeche; a Heitor mostremos
Se a lança em minhas mãos desvaira insana.”
A Eurímedon e Estênelo animosos
Deixa os corcéis Nestor, ascende e agita
Logo o flagelo e as artefatas rédeas
Ao coche de Tidides; que já perto
A Heitor esgrime a lança; a lança errada
Ao do grã Tebeu filho espeta a mama,
A Eniópeo fiel, que, em punho as bridas,
Cai do assento, e os ginetes retrocedem.
O arcar do sócio ao bravo Heitor consterna,
Que mesto e aflito, em busca de outro auriga,
Expirante o abandona. Os corredores
Não lhe tardou quem reja; encontra prestes
Arqueptolemo Ifítides galhardo,
Fá-lo subir e entrega-lhe os tirantes.
Em derrota sanguenta, encurralados
Seriam dentro os Frígios como ovelhas,
Se ante o coche Diomédeo o pai dos deuses,
Com medonho estampido, não vibrasse
Candente raio de sulfúrea chama:
Os solípedes fremem de assustados;
Perde as bridas Nestor: “Hui! não retardes,
Rege, Tidides, aos corcéis a fuga:
Do infesto Jove o desfavor não sentes?
Hoje é pelo inimigo, e se lhe agrade,
A nós depois concederá vitória.
De Jove ninguém há, por mais pujante,
Que à vontade resista onipotente.”
Responde ele: “Ancião, tu bem ponderas;
Mas dói n’alma que Heitor jacte-se um dia:
— De mim fugindo se embarcou Tidides. —
Antes fenda-se a terra e em si me engula.”
E o Gerênio: “Tidides, que proferes?
Heitor chame-te embora ignavo e imbele,
Certo o não crêem Dardânidas e Frígios,
Nem as mulheres de adargados jovens
Que arrojaste no pó.” — Nisto, à carreira
Os ungüíssonos toca; Heitor e os Troas
Bramando chovem gemebundos tiros.
E o Priâmeo a zombar: “Tidides fera,
No assento os Graios campeões te honravam,
Das viandas na escolha e em cheias taças;
Desprezam-te hoje, ó coração de fêmea.
Foge, estes muros não transpões, donzela;
Sou quem to impede: acabarás primeiro
Que arrastes a teu bordo as caras Teucras.”
Pugnaz Diomedes quis voltar seu coche;
Cuida e o pensa três vezes, três vitória
Sinalando aos Trojúgenas, murmura
Dos serros do Ida o próvido Satúrnio.
Então vozeia Heitor: “Sede homens, Lícios;
Dardanos, Troas, afrontai perigos;
Seu denodado esforço a todos lembre.
Acena-me o Tonante; a glória é nossa,
Ai deles! A meu braço empeço frágil,
Essa trincheira estultos construíram.
Lestos cavalos saltarão seu fosso.
Tratai próximo às naus de acender fachos,
Com que eu mesmo as abrase e imole nelas
Os Aquivos no fumo estonteados.”
E afalando os corcéis: “Pagai-me agora,
Xanto, Lampo divino, Eton, Podargo,
Da nobre Andrômaca Etiônia o penso,
O doce farro, o prodigado vinho
A vós primeiro do que a mim, que jovem
Marido seu me ufano: eia, alcancemos
De etérea fama áureo broquel Nestório
De áureas embraçadeiras, e dos ombros
Desse Diomedes o gibão dispamos,
Primor Vulcâneo. Se os consigo, espero
Que os Aqueus esta noite às naus se acolham.”
Deste orgulho indignada, Juno augusta
No trono agita-se e estremece o Olimpo;
Olha a Netuno: “Enosigeu potente,
Que! dó não tens dos miserandos Gregos?
Enchem-te eles contudo em Hélice e Egas
De guapos dons. Se os amas, seus fautores
Unamo-nos, e os Troas rechaçados,
A assentar-se no Gárgaro obriguemos
O Amplo-fremente solitário e triste.”
“Cala-te, ousada, lhe gritou Netuno;
Com todos resistir eu não quisera
A quem único a todos nos supera.”
Entanto, coches e peões se apinham
Desde a praia à trincheira e desta ao fosso;
Que, a Marte igual, os atropela e cerra
De glória Heitor por Jove cumulado.
E ardera a frota, se, de Juno a impulsos,
Por navios e tendas Agamemnon,
Na mão purpúreo manto, não parasse
De Ulisses no baixel, que era no centro,
A fim de ouvido ser nos dois extremos,
Onde o arraial, em seu valor afoutos,
O Telamônio e Aquiles assentaram.
Alto vociferou: “Que infâmia, ó Dânaos,
Pasmosos em beleza, em obras torpes!
Que é dos brios que em Lemnos blasonáveis,
De cornígeros bois gostando as carnes,
Das crateras bebendo engrinaldadas?
Cem ou duzentos cada qual prostrava;
Hoje Heitor só nos vence, e as naus em chamas
Vai devorar!... Ó Padre, um potentado
Hás por bem afligi-lo e desonrá-lo?
Teu culto preteri na instruta popa?
Tua ara não brilhou? Por toda a parte
Gordura e coxas te queimei taurinas,
Cobiçando assolar aqueles muros.
Escaparmos, senhor, permite ao menos,
Não consintas que os Teucros nos destruam.”
Anui, das queixas condoído o nume,
A que salve-se o campo; envia uma águia,
Infalível augúrio, a qual das unhas
Roubado o gamozinho à mãe ligeira
Junto larga do altar, onde os Aquivos
A Jove Panonfeu sacrificavam.
Da ave Dial à vista, eles furentes
A peleja precípites renovam.
De tantos só Diomedes a carnagem,
Transpondo o fosso em vívidos ginetes,
Se gabou de estrear: muito antes de outrem.
Mata o varão, que elmado ia fugindo,
Fradmonide Agelau; entre as espáduas
Enterra o dardo, que lhe sai aos peitos;
Ao cair do seu coche, o arnês ressoa.
Logo os Atridas, os Ajax forrados
De intrepidez; Idomeneu seguiu-se
Com Merion, rival do cru Mavorte;
Mais o famoso Eurípilo Evemônio;
O arco elástico atesa e é nono Teucro.
Este ao pavês do grande irmão se abriga:
Seguro em torno esguarda, e assim que frecha
E derriba um na chusma, qual menino
Da mãe ao seio, para Ajax reverte,
Que sob o escudo esplêndido o protege.
A quem o exímio herói prostrou primeiro?
A Orsíloco e Detor, Crômio, Ofelestes,
O Poliemônio Hamópaon e Órmeno,
Menalipo e o disforme Licofonte;
O almo chão de cadáveres juncando.
Do arco letal, que batalhões descose
Contente o rei dos reis chegou-se a Teucro:
“De povos chefe amado, eia, sê brilho
À Grécia e a Telamon, que a ti bastardo
Criou-te em casa com paterno afeto;
Honra-o de longe e paga-lhe a ternura.
Se o Egíaco e Palas me consentem
Soverter a cidade majestosa,
Prometo-te após mim do prêmio a escolha,
Uma trípode, ou carro e dois cavalos,
Ou moça esbelta que te suba ao leito.”
E Teucro: “Incitas-me, ínclito Agamemnon?
Como! do ardor não vês que nada afrouxo?
Deste que repelimos o inimigo,
A dignos campeões disparo setas;
Oito farpadas já vararam todas
Corpos de oito mancebos valorosos;
Mas o rábide cão tocar não posso.”
Do nervo aqui desprega uma ansiosa
De embeber-se em Heitor; mas deste a berra,
Na polpa entrando peitoral do insigne
Gorgition, que a Príamo parira
Gentil consorte e airosa como as deusas,
Castianira, de Ésima roubada:
Qual dormideira em horto ao peso dobra
Do fruto e verno humor, a testa o jovem
Do elmo agravada inclina. — Eis outra em busca
Zune de Heitor; mas, desviando-a Febo,
De Arqueptolemo audaz, que em sanha ataca,
Prega-se à mama; ao revirar do auriga
Moribundo os solípedes recuam.
O herói, pungido n’alma, o deixa; as bridas
Comete a Cebrion, que ali presente,
Monta ao coche do irmão; de um pulo, em terra
O galeato sevo Heitor se apeia;
Bramindo horrendamente, um seixo aferra,
Ávido corre a Teucro, ao passo que este
Seta amarga destoja e ao nervo adapta,
E o puxa e ombreia já: mas o Priâmeo
Joga a pedra à clavícula, onde os peitos
Separa da cerviz, lugar funesto:
Rota a corda, a munheca amortecida,
Nos joelhos se escora, e foge-lhe o arco.
Do irmão sem descuidar-se, à pressa o cobre
Ajax com seu pavês, té que dois sócios,
Divo Alastor e Mecisteu de Équio,
Egro e gemente em braços o transportam.
O Olímpio inflama os Troas, que em seu fosso
Acuam o inimigo; Heitor à testa
Gira medonho os lumes: qual sabujo
Pós javardo ou leão, nos pés fiado,
Ancas mordeu-lhe ou coxas; tal, no alcance,
Mata o mais atrasado. Assim que os Dânaos,
Depois de horrível perda, se entrincheiram
E vão às naus, aos céus em altas vozes
Alçam palmas; Heitor passeia em torno
Bem-crinitos frisões, e uns olhos vibra
Como a Górgona ou Marte sanguinário.
A bracinívea Juno aguça a Palas:
“Ah! do Egífero prole, aos Gregos nossos
Nem valemos no lance derradeiro!
Por fúria intolerável de um Priâmeo,
Que de mortes! que males! que desastres!”
“Na pátria ele acabara às mãos dos Gregos,
Diz Minerva, se iníquo, insano e duro,
Os ímpetos meu pai não me impedisse;
Esquece que do céu baixei freqüente
Para ao filho acudir que ao céu mandava
De opressões de Euristeu carpidas queixas!
Previsse eu tal, que nunca o mesmo Alcides,
Do Orco às validas portas enviado
A prender o atro cão do rei das sombras,
Desse Estígio escapara abismo fundo.
Hoje pospõe-me a Tétis, que os joelhos
Beija-lhe e afaga o mento, para que honre
O urbífrago Pelides; mas ainda
A Glaucopide sua há-de chamar-me
Aparelha os corcéis enquanto à régia
Vou me arnesar, a ver se o nosso aspecto
Alegra o herói famoso: a cães e abutres
Cuido satisfará de zerbo e carnes,
Junto às naus estirado, algum Troiano.”
Presto a real Satúrnia arreia de ouro
E orna a fronte aos cornípedes comados.
Solta Minerva no paterno solho
Bordado véu que nítido lavrara;
Do nubícogo deus veste a loriga,
Veste o arnês dos combates lagrimosos;
Monta ao fulgente coche, enorme libra
Hasta pesada, com que inteiras hostes,
Do prepotente filha, irada prostra.
Juno os tiros verbera: eis por si rangem
Portões que as Horas guardam, sentinelas
Da suma casa etérea, a cuja entrada
Fechar e abrir lhes toca a nuvem densa;
Dóceis transpassam-na os corcéis divinos.
Do Gárgaro as vê torvo, expede o Padre
Íris ali-dourada: “Eia, a caminho,
Voa e volta, e nos poupa ímpia contenda;
Hei-de ao jugo, assevero, os corredores
Estropear, e derribadas elas,
O carro esmigalhar: do raio as chagas
Nem em dez nos sararão; Minerva
Saiba quem é seu pai. Vezeira Juno
Sempre a contrariar, me irrita menos.”
Procelípede a núncia, do Ideu cimo
Ao de altibaixos grande Olimpo adeja;
Topa-as na falda: “Suspendei; mensagem
Trago de Jove. Que furor vos cega?
Ele vos tolhe auxiliar os Dânaos.
Sob o jugo assevera os corredores
Estropear, e derribadas ambas,
O carro esmigalhar. Do raio as marcas
Mais de anos dez comprovarão, Minerva,
Quem é teu celso pai. Vezeira Juno
Sempre a contrariá-lo, o irrita menos:
Ousarás, insolente ladradora,
Enristar contra Jove a enorme lança?”
Íris foi-se, e virou-se a Palas Juno:
“Ó do Egífero prole, eu já não quero
Que por mortais com ele contendamos.
Vivam, pereçam, como ordene a sorte;
Reto o Supremo a seu prazer decida.”
E os comantes sonípedes revira,
Que as Horas desjungidos ao presepe
Ligam suave, e às lúcidas paredes
O carro inclinam: mestas, entre os numes,
Em selas de ouro as duas se recostam.
Do Ida ao céu roda o Padre em coche airoso;
Que dos corcéis desprende, em linho o envolve
Junto às aras Netuno. Do entronado
Altissonante aos pés o Olimpo treme.
Sós de parte, assentadas, Juno e Palas
Nem boquejavam; mas percebe-as Jove:
“Tristonha estás, Satúrnia, e tu Minerva?
Quão lassas da batalha gloriosa
Em que aborridos Teucros derrotastes!
Esqueceu-vos que os íncolas do Olimpo
Ao poder do meu braço não resistem?
Antes mesmo das bélicas proezas,
Os melindrosos membros vos tremiam.
Fulminadas, por certo, em vosso coche
Às mansões imortais não voltaríeis.”
Contíguas, gemem comprimindo os lábios
Juno e Minerva, e dano aos Teucros urdem.
Cala e a seu pai Minerva oculta a raiva;
Mas Juno estoura: “Cru minaz Satúrnio!
Senhor te confessamos e invencível.
Se combater porém nos é vedado,
Permite aconselhemos os briosos
Lamentáveis Aqueus, para que ao sopro
Da ira tua não pereçam todos.”
E o tonante: “Olhitáurea augusta Juno,
Quem sou te mostrarei; verás, se o queres,
N’alva os teus feros Gregos em derrota.
Heitor há de acossá-los, té que esperte
Um dia o ágil Pelides, ante as popas
No estreitar-se ao cadáver de Pátroclo
Sevíssimo conflito: é lei do fado.
Que presta vão rancor? Nem que te sumas
Da terra e mares nos confins, abismos
Do Tártaro onde Iápeto e Saturno
De aura jacunda e claro sol não logram;
Nem que erres tão remota, iguais furores,
Ó poço de impudência, em pouco tenho.”
Não tuge a bracinívea. No Oceano
Cai o Sol, e após ele na alma terra
Se espalha a noite, com pesar dos Teucros;
Mas aos Dânaos foi grata a espessa treva.
Das naus longe, ante o rio vorticoso,
Do morticínio fora, a Heitor atentos,
Caro a Jove, os Troianos se apeavam,
E em lança de onze cúbitos, luzida
Com ênea cúspide e áureo anel em torno,
Ele se apóia, e rápido perora:
“Ouvi, Dardanos, Troas e aliados.
Pouco há pensáveis, destruída a frota,
Em Ílio entrar ovantes; mas na praia
Salvou denso negrume as naus e os Gregos.
Ceda-se à noite, e a ceia preparemos.
Ao pasto soltos os frisões crinitos,
Vinho comprai suave, e o pão das casas
E bois trazei da praça e ovelhas gordas.
Lenhai com que entreter noturnos fogos,
Até que a filha da manhã resplenda:
Pelo amplo dorso equóreo a gente Aquiva
Não cometa às escuras escapar-nos;
Nem se embarquem sem risco, mas na praia
Cure-se algum dos tiros e lançadas
Que o firam no trepar; temam vindouros
Guerra mover chorosa a heróis Troianos.
Apregoai, de Jove amados núncios,
Que os de alvas cãs e os púberes em rondas
Nos muros velem que imortais ergueram;
Cada mulher seu fogaréu acenda;
N’ausência nossa advirtam sentinelas
De ataque súbito a cidade inerme.
Isto se cumpra; de manhã, guerreiros,
Mais vos direi. No Olimpo e em Jove espero
Esses cães enxotar, que em fuscos vasos
Trouxe destino infausto, e infausto os leve.
De noite alerta, na arraiada prontos
Junto às naus excitemos o acre Marte.
Verei se o Grã Tidides me repele
Das popas à muralha, ou de hasta aênea
Se o prostro e arranco-lhe o sangüento espólio.
Seu valor provará, se deste braço
O embate sustiver, mas conto em frente
Caia no albor do Sol, com muitos sócios.
Isento eu seja da velhice e morte,
E honre-me qual Minerva ou qual Apolo,
Como o dia aos Aqueus será funesto.”
O aplauso ecoa. Desjungidos foram
Os suados ginetes, e a seu coche
O tiro se encabresta. Ovelhas gordas
E bois trazem da praça e o pão das casas,
Vinho compram suave e lenha empilham;
Fumo e cheiro do campo ao céu remontam;
Em ordem bélica, ufanosos todos
Ante os fogos pernoitam, quando no éter
Sereno, em cerco da fulgente Lua,
As formosas estrelas aparecem,
Grutas, serros e brenhas aclarando:
Abre-se imensa a região sidérea,
E o pastor em si folga: de Ílio em face
Iam-se tantos lumes acendendo
Entre o Xanto e os baixéis. De mil fogueiras
Homens cinqüenta a cada uma assistem.
Farro e espelta os corcéis comendo, esperam
A Aurora apoltronada em pulcro sólio.* * *
NOTAS AO LIVRO VIII
201. Panonfeu, epíteto de Júpiter, quer dizer o que ouve todos os votos, ou aquele a quem todos invocam.
302. Glaucopide, epíteto de Minerva, muito repetido nas obras de Homero, tenho-o traspassado pela frase de olhos garços, ou gázeos, ou zarcos; se é que não deva antes verter-se por de olhos verdemares ou cor de azeitona, como eu já disse em outro lugar; mas aqui parece-me, com Monti, que o bom gosto manda que se adote o adjetivo grego.
306. Zerbo ou zirbo é o redenho ou teagem celular dos animais: veja-se Moraes ou Constâncio.
331. Procelípede, epíteto imitado a Homero, mas de cunho latino, quer dizer de pés tão rápidos como a procela.
* * *
LIVRO IX
Ronda-se a praça. Os Dânaos sobre-humano
Abalo invade, irmão de frio medo;
Agro luto os fortíssimos domina.
Qual da Trácia a roncar Zéfiro e Bóreas,
Incha a piscoso ponto, e escarcéu turvo
Em monte arqueia e de alga inunda as praias;
Tal borrasca aos Aqueus revolve o seio.
Chagado n’alma o Atrida, arautos manda
Convocar em segredo a flor dos sócios,
E ele alguns sem estrépito procura.
Mal abanca o tristonho juntamento,
Ergue-se, e como de árdua penha brota
Negro olho d’água, em fio lagrimando,
Fundo suspira: “Príncipes e amigos,
Enredou-me o Satúrnio em lance infesto!
Para a Grécia anuiu que eu só voltasse
Depois de Ílio assolada, e quer arteiro
Que, perdido o meu povo, inglório volte?
Pois vença o prepotente, que há prostrado
Muitas, e muitas prostrará cidades:
Ele extirpar nos veda a excelsa Tróia;
Naveguemos à pátria, eia, fujamos.”
Silêncio em todos concentrou-se mudo,
Que Diomedes quebranta belicoso:
“A tal delírio oponho-me, Agamemnon.
É jus deste conselho, e não te agraves.
Perante jovens e anciãos, primeiro
Tu de ignavo e cobarde me argüiste:
O cetro e mando sumo deu-te o filho
Do cálido Saturno, mas negou-te
O maior dos poderes, a coragem.
Louco? E esperas dos Graios a fraqueza
De que os apodas? Se fugir cobiças,
Foge; tens franco o mar, tens perto os vasos
Que alterosos da Argólida esquipaste.
Para exício de Tróia os mais cá ficam,
E caso os Dânaos contamine o exemplo,
Sós Diomedes e Estênelo bastamos
A destruí-la: um nume nos protege.”
O entusiasmo estronda, e Nestor surge:
“És, Tidides, sem-par no márcio jogo,
E entre os eqüevos ótimo discorres:
Aqueu não há quem impugne e te conteste,
Mas nem tudo previste. Bem puderas
Ser meu filho menor, e a reis comados
Falastes sério. Destas cãs blasono,
E opinarei do mais: nenhum rejeite,
Nem o máximo Atrida, meu conselho;
Só deseja a intestina horrenda guerra
Homem sem lar, sem teto, sem família.
Mas ao repasto obriga a opaca sombra;
Fora, esperta vigia e sentinelas:
Isto encomendo aos jovens, que ordená-lo
Toca-te, ó rei dos reis. É bom convides
Os mais provectos: vinhos te sobejam,
Que à Trácia em gregas naus contínuo exporta;
O necessário tens, em cópia servos.
Então se delibere, e o melhor colhas:
Pouca é toda a prudência, que as fogueiras
Dos inimigos junto às naus flamejam.
Ah! quem se alegrará, quando esta noite
Vai ressalvar o exército ou perdê-lo.”
Ouvem-no, a guarda aprestam: sete cabos,
O maioral Nestório Trasimedes,
Os mavórcios Ascálafo e Jalmeno,
Afareu, Merion, Deipiro, o nobre
Licomedes Creôncio, rege hastatos
Cada qual cem guerreiros; que, de vela
Por entre o muro e o fosso iluminados,
Curam da ceia. Aos próceres o Atrida
Abre a tenda e os regala; os convidados
Apegam-se às gostosas iguarias.
Cheio o apetite, enceta o que antes sábio
Tanto agradara, e seu discurso trama:
“Dos varões glorioso augusto chefe,
Por ti começo e acabo em ti: que Jove
Dos povos concedeu-te a monarquia:
Cabe-te expor aos príncipes teu voto,
E o deles atender, se um mais discreto
Se te inspirasse. Escuta-me e decide.
Não pode haver mais salutar aviso
Que este que em mim pondero, não só de hoje,
Mas dês que, ó divo garfo, em sanha Aquiles,
Da tenda arrebataste-lhe Briseida,
Contra o nosso querer e meus esforços:
Tu seu prêmio reténs; com dons e os obséquios
De amaciá-lo o meio excogitemos.”
“Sim, prudente ancião, responde o Atrida,
Errei, confesso: o herói de Jove amado
Batalhões equivale, e em honra sua
Jove doma os Aqueus; mas, em desconto,
Meus presentes magníficos o amolguem,
E enumerá-los vou: trípodes sete
Puras da chama, de ouro dez talentos,
Caldeirões vinte esplêndidos, com doze
Ungüíssonos que ao páreo vencedores,
Me hão tais prêmios ganhado, que seu dono
Do precioso metal não terá míngua.
Sete acrescentarei prendadas moças,
Que ele apresou na populosa Lesbos
E entre as escravas elegi mais guapas.
Irá Briseida mesma; e nunca, eu juro,
Fui com ela varão, toquei seu leito.
Isto já já; mas, quando apraza aos deuses
Demolir as Priâmeas fortalezas,
O espólio ao dividirmos, de ouro e bronze
As naus cumule, e Teucras vinte escolha
As mais belas depois de Argiva Helena.
Se Argos Acaica ubérrima atingirmos,
Seja meu genro, e igual ao próprio Orestes,
Que, único herdeiro, na abundância medra.
Hei filhas três no vasto meu palácio,
Crisotêmis, Laódice e Ifianassa:
A de seu gosto, sem que a dote, leve
À casa de Peleu; cá me encarrego
De a dotar, como nunca o foi donzela:
Célebres lhe darei cidades sete,
Cardâmile, Enope, Hira verdejante,
Risonha Epéia, pascigosa Anteia,
Pédaso uvífera, a sagrada Feres;
Todas não longe da arenosa Pilos
E à beira-mar, em gado e armento opimas,
Têm gentes que o honorem como a nume,
E amplos tributos a seu cetro paguem.
Isto lhe oferto, se remite as iras:
Ceda exorável, que Plutão por duro
O deus é que os humanos mais odeiam;
Ceda, que sou do que ele mais potente;
Ceda, que sou do que ele mais idoso.”
Inda o Gerênio: “Soberano egrégio,
Dons não despiciendos lhe destinas.
Legados, sus, ao pavilhão de Aquiles;
Aqui mesmo os nomeio, e não recusem:
Fênix guie, de Júpiter privado,
O magno Ajax, o sapiente Ulisses,
E arautos Hódio e Euríbates com eles.
Águas às mãos, freio às línguas, deprequemos;
De nós se comisere o deus supremo.”
O aviltre aceitam: linfa arautos vertem,
E de urnas coroadas vertem servos
Dos auspicantes pelos copos vinho.
Fartos de libações, iam saindo;
Nestor a cada um lançando os olhos
E ao Laértides mais, no empenho os firma
De abrandar o magnânimo Pelides.
Pelas do mar flutissonantes praias
Ao padre Enosigeu vão suplicando
Que as entranhas do Eácida comova.
Já no arraial dos Mirmidões o encontram
A recrear-se na artefata lira,
Que travessa une argêntea, insigne presa
Dos raros muros d’Etion: façanhas
De valentes cantava, e só Pátroclo
Tácito à espera está que finde o canto.
Chegam-se, à testa Ulisses; e o Peleio
Em pé, na sestra a lira, estupefato,
Com seu fido consócio, as destras cerra:
“Que urge? A que vindes? Bem que irado, amigos,
Exulto ao ver os Dânaos que mais prezo.”
À tenda eis se encaminha; sobre escanos
De purpúreo tapete os acomoda,
E ao seu dileto: “Na maior cratera
Tu mescles do mais puro e aprontes copos;
Caríssimos varões meu teto acolhe.”
O camarada obedeceu contente.
Ele, ante o lar, em cúpreo largo disco
Dorso depôs de ovelha e gorda cabra
E de um cevado os suculentos lombos:
Automedon segura, o herói perito
Em pessoa esposteja, enrosca e espeta;
O Menécio deiforme atiça o fogo:
Lânguida a flama, ao rúbido brasido
Sobre as lareiras os espetos vira,
De sal tempera-os sacro; todo assado
Põe da cozinha à mesa, e o pão ministra
Em lindos canistréis. Do Ítaco em face
Toma a parede e as carnes trincha Aquiles;
O sacrifício incumbe ao companheiro,
Que ao fogo atira as divinais primícias.
Deitam mãos dos manjares os convivas.
Já satisfeitos, cabeceia a Fênix
Ajax; Ulisses que o sinal percebe,
Rasa o copo e alça o brinde: “Aquiles salve!
Ou do Atrida na tenda, ou nesta agora,
Semelhantes festins nos não falecem,
Onde pratos gratíssimos abundam;
Mas os dissaboreia o extremo risco
Da instruta armada, se ó de Jove aluno,
Da tua intrepidez te não revestes.
Já da trincheira à vista acampam feros
Os Teucros e os longínquos aliados,
Que, acesas mil fogueiras, se gloriam
De entrar sem resistência em nossos vasos.
O Satúrnio propício lhes troveja:
Nele estribado e em si, terrível senho
Rola Heitor, e sanhudo não faz caso
De homens nem de outros numes; freme e invoca
O lento albor; às naus jura os aplustres
Mesmo romper, despedaçar no incêndio
Em cinza e fumo atônitos Aquivos.
Tremo que se efetue essa ameaça;
Que, longe das fecundas pátrias veigas,
O céu nos fade a perecer em Tróia.
Sus, bem que tarde, acode a aflita Grécia;
Dor sentirás depois se a desamparas,
Pois o mal consumado é sem remédio:
Salva a tempo os Aqueus da fatal hora.
Peleu de Ftia, amigo ao despedir-te,
Para Agamemnon: — Filho meu, bradou-te,
Minerva e Juno, se o quiserem, força
Dêem-te e valor; sopeia tu no peito
O orgulho e humano sê, de rixas foge,
Por que moços e velhos te honrem sempre. —
De tal pai tais conselhos esqueceste:
Lembrem-te, enfreia as iras; se o fizeres
Provarás as larguezas de Agamemnon.
Ouve os dons que, em presença da Assembléia,
O rei te destinou: trípodes sete
Puras da chama, de ouro dez talentos,
Caldeirões vinte esplêndidos, com doze
Ungüíssonos que, ao páreo vencedores,
Lhe hão tais prêmios ganhado, que seu dono
Do precioso metal não terá míngua.
Sete acrescentará prendadas moças
Que em Lesbos apresaste populosa,
E entre as escravas elegeu mais guapas.
Virá Briseida mesma; e, jura, nunca
Foi com ela varão, tocou seu leito.
Isto já já; mas, quando apraza aos deuses
Demolir as Priâmeas fortalezas
O espólio ao dividirmos, de ouro e bronze
As naus cumules, Teucras vinte escolha
As mais belas depois de Argiva Helena.
Se Argos Acaica ubérrima atingirmos,
Serás seu genro e igual ao próprio Orestes,
Que, único herdeiro, na abundância medra.
Há filhas três no vasto seu palácio,
Crisotêmis, Laódice e Ifianassa:
A do teu gosto, sem que a dotes, leves
À casa de Peleu; fica-lhe o encargo
De a dotar, como nunca o foi donzela:
Célebres haverás cidades sete,
Cardâmile, Enope, Hira verdejante,
Risonha Epéia, pascigosa Anteia,
Pédaso uvífera, a sagrada Feres;
Todas não longe da arenosa Pilos
E à beira-mar, em gado e armento opimas,
Têm gentes que te honorem como a nume,
E amplos tributos a teu cetro paguem.
Tanto promete, as iras se te aplaquem.
Mas, se aborreces com seus dons o Atrida,
Os consternados arraiais te movam,
Que hão de às estrelas elevar teu nome.
Anda, imola esse Heitor, que ousa afrontar-te.
Raiva e alardeia que nenhum o iguala
De quantos Gregos nossas naus trouxeram.”
E o fogoso Pelides: “Sem rebuço,
Dial sangue e astutíssimo Laércio,
Declaro-te o que sinto, em que hei sentado;
Nem mais teimem comigo, nem me azoinem.
Qual do Orco as portas, abomino aquele
Que de boca desmente o oculto n’alma.
Descubro a minha: o Atrida não me dobra,
Nem outro Grego, a tanto esforço ingratos
O acre ou forte em conflito, o imbele ou frouxo
Quinhão parelho têm e as mesmas honras;
Têm o enérgico e o mole igual sepulcro.
Que tirei de cruéis padecimentos,
De infindos prélios, de hórridos perigos?
Ave sou, que afamada olvida as penas,
Pesquisando o cibato a implumes filhos.
Noites insones, sanguinários dias
Curti sem conto a contrastar guerreiros
Pelas mulheres vossas. Praças doze
Eu devastei por mar, onze por terra
Nessas veigas Troianas. Vim de alfaias
E espólios carregado, e à vista os punha
De Agamemnon; que a bordo os ferrolhava,
E poucos repartia a reis e a cabos.
Estes os têm consigo: eu só dos Gregos,
Fui da querida minha defraudado...
Pois que durma e deleite-se com ela.
Por que esta guerra? O exército Agamemnon
Por causa não chamou da pulcra Helena?
Atridas sós entre os falantes amam?
Ama a consorte sua o reto e probo;
Eu muito amava aquela, embora serva.
Arrancou-ma falaz: pois basta, cesse
De me tentar em vão. Contigo e os outros
Busque, Ulisses, as naus livrar do incêndio.
Sem mim já fez milagres, celsas torres,
Profundo e largo fosso e paliçadas:
Nem pode assim de Heitor suster o choque!
Do fero Heitor, que nunca, eu posto em campo,
Quis longe pelejar das portas Ceias,
Nem da faia passar! um dia apenas
Meu ímpeto arrostou; salvou-se a custo.
O herói não mais profligo; e na alvorada,
Assim que imole à corte e ao rei celeste,
Meus baixéis bem providos se o desejas,
Verás em nado, e ao som da ardente voga
O piscoso Helesponto irem sulcando.
Com favor de Netuno, à luz terceira
Seremos nas de Ftia amigas várzeas.
Riquezas lá deixei, partida infausta!
Bronze e ouro, do sorteio, airosas moças,
Ferro polido ajunto-lhes; que o dado
O magnânimo Atrida retomou-me.
Repete-lhe isto às claras ante os Gregos,
Por que todos se indignem, se impudente
Conta iludir algum. Protervo e ousado,
O descoco não teve de encarar-me.
Nem mais consulto, nem com ele trato:
Enganou-me, ofendeu-me; é de sobejo.
De mim descanse; ao precipício corra,
Que o privou da razão previsto Jove.
Como a escravo o desprezo e os dons lhe odeio:
Nem que o décuplo e em dobro me ofertasse
Do que amontoa e cobiçoso espera,
Quanto Orcómeno importa, quanto a Egípcia
Hecatômpila Tebas entesoura,
Que, duzentos campeões de cada porta
Vazando, carros vinte mil despede;
Nem que prometa os mares e as areias,
Me há de acalmar, sem que me pague o insulto
Gota por gota. A filha, não lha quero,
Vênus fosse em beleza, em lavor Palas:
Aspire a genro de mais polpa e vulto.
A preservar-me o Céu, de Hélade e Ftia
Peleu me escolha algumas dentre as virgens
De príncipes colunas dos Estados,
E a que eu prefira me será consorte:
O coração me pede grata esposa,
Que se afeiçoe aos prédios meus paternos.
São à vida inferiores os tesouros
Que, antes do cerco, a populosa Tróia
Em si continha, e as do vibrante Febo
Da sáxea Pito do marmóreo templo:
Reconquistar podemos bois e ovelhas,
Trípodes e frisões de ruiva crina:
Mas do encerro dos dentes a alma nossa
Fora uma vez, não se recobra nunca,
A mãe déia argentípede o meu duplo
Fado abriu: se debelo a grã cidade,
Não regresso, mas compro glória eterna;
Se torno ao doce ninho, murcha a glória,
Terei velhice longa e fim tardio.
Os mais que voguem: não vereis o termo
De Ílio escarpada; o mesmo Altitonante
A mão lhe estende e exalta-lhe a coragem.
Ide anunciar aos próceres, Aquivos,
É dever de legados, que outro plano
Tracem de proteger as naus e as tropas:
Este falhou, persisto incontrastável.
Pernoite Fênix, e amanhã me siga,
Por gosto e não forçado, aos pátrios lares.”
Tal dureza os contrista, e calam todos;
Mas geme e chora o venerando Fênix,
De mágoa e susto pela frota Argiva:
“Se furente ir cogitas, sem livrares
De ígnea peste os baixéis, como aqui, filho,
Me abandonas? Contigo, estranho jovem
À guerra e discussões que heróis afamam,
Longevo o bom Peleu para Agamemnon
De Ftia me expediu, que na loqüela
Te amestrasse e no obrar: de ti repugno
Desunir-me, ó querido, nem que um nume
Conceba remoçar-me e enverdecer-me,
Qual saí de Hélade em beldades fértil,
Do Ormenida Amintor pai meu fugindo.
Por flava pelice este a esposa ultraja;
Para ter a comborça em asco o Velho,
A mãe súplice instou-me a conhecê-la,
E fi-lo assim; mas Amintor o aventa,
Ruge e impreca às Eumênides que nunca
Um nado meu nos joelhos se lhe pouse:
Maldição tal os Céus, o inferno, Jove,
A tremenda Prosérpina, escutaram.
Então (quanto o furor nos cega e arrasta!)
Pérfido eu quis... O braço um deus reteve,
E me salvou de horrendo parricídio.
Para ficar no antigo irado alvergue
Faltou-me coração. Parentes obstam
E amigos a rogar; degolam pretos
Bífidos bois e ovelhas vicejantes,
Ao fogo pelam saginados porcos,
Os cangirões paternos se esvaziam.
Dormindo ao pé de mim com luz constante,
Por turno, um vela ao pórtico do pátio,
Outro ao vestíbulo ante a minha alcova.
Décima noite negrejando, alerta
Forço e desfecho a porta o claustro pulo,
Sem que o percebam guardas, nem mulheres,
Corro a Hélade; em Ftia pecorosa
Tratou-me o rei bem como único herdeiro
Que em vastas possessões tardio houvesse;
Nos confins de Ftiótide, opulentas
Lavras doou-me; os Dólopes governo.
Eu te criei com mimo e igual aos deuses;
Nem com outro ir querias a banquetes,
Ou em casa comer, sem que a meu colo
Te saciasse partindo as iguarias,
Regrando o vinho, que em vestido e seio
Me arremessavas, caprichoso infante.
Por ti que sofrimentos, que fadigas!
Eu sem prole em ti via, ó alma grande,
Filho que me valesse em dúbio transe.
“Doma-te, essa aspereza mal te assenta:
Rendem-se os deuses de maior virtude,
Glória e poder; acalma-os o culpado
Com libações e votos e holocaustos.
Gérmen do Eterno, as enrugadas Preces,
Coxas, vesgas, pós Ate se apressuram;
Ate incansável, de robustas plantas,
Remexe a terra e a vexa; atrás, as Preces
A quem quer que as invoca o mal temperam:
Ai do que as repelir! Subindo ao padre
Exoram que Ate mesmo o fira e puna.
Curva-te, Aquiles, do Satúrnio às filhas,
Como os demais heróis também se curvam.
Se, obstinado, o Atrida nem presentes
Fizesse ou dons futuros, que amainasses
Não te pedira, posto que de auxílio
Precisamos os Gregos; mas dá muito,
Muito promete, envia a suplicar-te
Os do exército eleitos que mais amas;
Nossos passos respeita e nosso empenho.
A pertinácia tua era escusável;
Mas de priscos varões nos conta a fama
Que, se os picava a cólera, exoráveis,
A brindes e razões eram sensíveis.”
“Ora, amigos, me ocorre um velho exemplo.
Na amena Calidona, encarniçados
Batiam-se os Curetes e os Etólios,
Estes por defender, ardendo aqueles
Com fúria marcial por devastá-la.
Da auritrônia Diana foi castigo,
Porque Eneu, por olvido ou negligência
Lhe falhou com primícias de agros férteis,
Nem de outros imortais nas hecatombes
A aquinhou: dorida a casta Febe
De alvos colmilhos despediu javardo,
Que o régio campo estraga, árvores prostra,
Fruto e raízes confundindo e flores.
Das vizinhanças, Meleagro Enides
Chusmas de cães reúne e caçadores
Para o poder matar; tamanha fera
Muitos mandou primeiro à triste pira.
A deusa entre os Etólios e os Curetes,
Pela cabeça horrenda e hirsuta pele,
Move guerra e tumulto. Enquanto o Marte
Enides combatia, inda que imensos,
O arraial os Curetes não largavam;
Mas, de ira, que incha o peito aos mesmos sábios,
Contra a mãe sua Alteia, em ócio esteve
Junto à mulher Cleópatra, progênie
Da Evemina Marpissa, cujo esposo
Idas, então neste orbe o mais valente,
Pela de pé mimoso casta ninfa
De arco arrojou-se a Febo: Alcion em casa
A apelidaram, pois da mãe saudosa,
Que roubado lhe tinha o altifrecheiro:
Como Alcion gemente suspirava.
Ele nutria a sanha, porque Alteia
Rogava aos numes, e das mãos ferindo
A alma terra e de lágrimas lavada,
Posta em joelhos, imprecava a Dite
E à medonha Prosérpina que a vinguem
Da morte dos irmãos no próprio filho:
Do Erebo fundo Erínis despiedosa,
Pelas trevas errando, ouviu-lhe as pragas.
Às portas rui o estrondo e abala as torres:
Disputam-lhe anciãos e sacerdotes
A implorar que rechace os inimigos,
Que no melhor da Calidona escolha
Cinqüenta jeiras de fecundo prédio,
Metade em vinhas e metade em lavras.
Monta-lhe ao quarto o grave Eneu, cerrados
Os batentes sacode e observa o filho;
Arrependida a madre e irmãs suplicam,
E companheiros e íntimos amigos:
Ele tenaz renui, até que soube,
No quarto os gritos a dobrar e os golpes,
Dos muros a escalada e dentro o fogo.
Aqui chorando o exora a bela esposa,
Da cativa cidade os males pinta,
Arquejando os varões, em cinza as casas,
Presas virgens de rojo e as mães e os filhos.
Tanto horror o comove; corre, veste
Brilhantes armas, os Etólios salva
Por ti, que à vista pulcros dons não tinha.
Nenhum demônio, amigo, assim te influa;
É pior socorrer as naus combustas:
As dádivas recebe e vem conosco,
Um deus serás aos Dânaos; se as recusas,
Mas te demoras, menos honras alcanças,
Bem que essa invicta mão remova a guerra.”
Ei-lo então: “Fênix pai, dos Céus benquisto,
Honras escuso; espero-as só de Jove,
Que há de abordo reter-me, enquanto alento
Haja o peito e sustentem-se os joelhos.
No imo isto agora imprime: não me turbes
Com mesto choro por amor do Atrida;
Quero-te muito, em ódio não me sejas;
A ti cabe agravar a quem me agrave.
Estes que voltem, reina tu comigo.
Meiado o meu poder, meiada a glória:
Terás mórbida cama, e à luz da aurora,
Se ficamos ou não, consultaremos.”
A Pátroclo eis acena estenda o leito,
A fim que os dois mais cedo se retirem.
“Sábio Ulisses, rebenta Ajax divino,
Laércio nobilíssimo, a caminho;
Do bárbaro orgulhoso nada obtemos.
Cumpre ao congresso, que por nós aguarda,
Levar a atroz resposta, aos mesmos dada
Que sem igual na frota o veneramos.
Do irmão, do morto filho aceita a paga,
Numa cidade congraçados vivem
Ofendido e ofensor. No âmago alojas,
Pelides sevo, um coração de bronze,
Por conta de uma escrava, e te ofertamos
Hoje beldades sete e mil presentes!
Bane o despeito, reverente aos lares;
Escolha dos Aquivos, tens em casa
Amicíssimos teus que mais estimas.”
“Bem dizes, torna Aquiles, generoso
Príncipe Telamônio; mas a bílis
Se me intumesce ao recordar a afronta
Que em público me fez o audaz Atrida
Como se eu fora ignóbil vagabundo.
Porém desempenhar ide a mensagem:
A sanguinosa guerra não me importa,
Antes que aos Mirmidões o herói Priâmeo
Com incêndio e matança o campo ataque;
Da tenda e negra popa aqui pretendo
Para sempre extinguir-lhe o márcio fogo.”
Duplicôncova taça os dois empunham,
Libam, vão-se, e o Laércio precedia.
Servos e servas, de Pátroclo ao mando,
Alastram cama de ovelhumes peles,
Fina alva tela e tinta cobertura;
Té que raie a manhã, deitou-se Fênix.
Dorme Aquiles no fundo com Diomeda,
Filha de Forbas de rosadas faces,
Cativa em Lesbos. Dorme além Pátroclo
E Ífis airosa, que lha trouxe o amigo
Do íngrime Ciros, de Enieu cidade.
Chegando aqueles ao real, os Dânaos
Recebem-nos em pé com áureas taças,
E Agamemnon primeiro os interroga:
“Fala, adorno da Grécia, ó nobre Ulisses,
Quer das naus afastar o hostil incêndio,
Ou teimoso na cólera persiste?”
“Na cólera persiste, e inda mais agora,
O paciente Ulisses respondeu-lhe;
Teus dons e a ti, chefe de heróis, desdenha:
Diz que resolvas tu, com outros Graios,
Como o Exército nosso e a frota escudes.
Vogar ameaça no luzir da Aurora,
E aconselha aos demais também naveguem
À pátria cara: o termo não veremos
De Ílio escarpada: o mesmo Altitonante
A mão lhe presta e exalta-lhe a coragem.
Ajax o testemunha e os dois arautos,
Prudentes ambos. Lá pernoita Fênix,
E Aquiles, sem forçá-lo, prescreveu-lhe
Que em remeiros baixéis com ele parta.”
Consterna-os a repulsa e calam todos;
Mas Diomedes belaz: “Com dons infindos,
Oh! nunca, rei sublime, o suplicaras!
Era insolente, e refinou soberbo.
Ou fique ou vá, nossa missão cumpramos:
Peleje quanto queira e um deus lho inspire.
Nisto ora concordar: refeitos vamos
De Baco a Ceres, de homens força e brio,
Nos recostar; e, assim que a dedirrósea
Aurora brilhe, eqüestre e pedestre
Ante a frota os perfiles e acorçoes,
E tu mesmo combatas na vanguarda.”
O équite exímio em roda excita aplausos:
Fazem-se as libações; na tenda sua
Cada qual em descanso adormecia.* * *
NOTAS AO LIVRO IX
181—198. Cabecear, no sentido de acenar com a cabeça, como o tomou Pereira na Elegíada. — Aplustres, ornamento nas proas, corresponde a horumba do original: Monti usou desta palavra, tirando-a do latim, e enriqueceu com ela o italiano, se é que não seja mais antiga nesta língua.
257—266. Este discurso de Aquiles é longo, por ser a primeira ocasião em que desabafa as iras tanto tempo recozidas. Note-se que principia exprobrando a Ulisses a usual velhacaria, sendo que este, no fim da sua arenga, afirma que Heitor gabava-se de que nenhum Grego, e portanto nem mesmo Aquiles, era capaz de lhe resistir; ardil para excitar o herói, o que, não obstante o reparo, foi a cousa que mais o abalou, como se colige do seu terceiro discurso em resposta ao de Ajax. — No Verso 266, aparto-me de M. Giguet, e vou com Monti: Aquiles não pode queixar-se dos Gregos por morrer de igual maneira o fraco e o forte, pois que na morte os Gregos não tinham poder; mas queixa-se de que o fraco e o forte honrados fossem com iguais exéquias.
318-324. Em quase toda essa passagem, tomei a Francisco Manuel uns versos que traz em nota aos Mártires. Quanto ao epíteto Hecatômpila, veja-se a 571 do livro II. O verso 324 é quase um de Ferreira, na tradução belíssima do Amor fugido de Moscho, elegia em que vem o mesmo pensamento de Homero; e, posto que não seja uma versão literal, adotei a fórmula consagrada no português por um dos sábios que melhor o têm falado.
333-334. Diz M. Giguet: “Ah! oui, mon cœur généreux m’inspire de borner lá mes souhaits, de m’unir à une femme gracieuse, et de jouir des possessions que Pélée a acquises”. Creio que os versos de Homero contêm uma observação própria de quem havia tanto visto e peregrinado, como diz a interpretação latina:
“Illic autem mihi plurimum appetit animus generosus,
Ducta legitima uxore, apta conjuge,
Possessionibus delectari quas semex quosivit Peleus.”[N.E. Parece que aqui há alguns deslizes tipográficos. Abaixo, referência em latim, em que delectari é substituído por frui:
“Illic autem mihi plurimum appetit animus generosus,
Ducta legitima uxore, apta conjuge,
Possessionibus frui quae senex conquisivit Peleus.”]Assim, põe Homero na boca do herói o desejo de casar com uma que se acomode (apta) que se deleite (delectari) nas possessões de Peleu, e não com senhora de corte pomposa, como então era Argos e Micenas, a qual não se habituasse a uma vida simples e caseira. Na verdade, quem mora no campo, e mesmo em pequena povoação, faz mal em casar em grande cidade, e pior em corte: a boa da consorte nunca está satisfeita em casa; suspira pelos teatros, bailes mascarados, passeios e carruagens de luxo, pelas bonitas lojas, pelo tumulto das ruas, e não cessa de inspirar ao marido a idéia de ir gastar em seis meses o poupado em dez anos. — Tenho, cá na Europa, notado que os nossos Brasileiros ou Portugueses, casados com Francesas ou Inglesas, e mesmo com Alemãs ou Italianas, não podem mais viver no Brasil e em Portugal, em razão das instâncias de suas mulheres, que desfazem de tudo que há nas terras dos maridos, e choram pela sua Londres, Viena, Milão, Florença, e principalmente por Paris; e, o que é mais de lamentar, inspiram aos filhos a repugnância ao ninho paterno. Uma tal é que não desejava encontrar Aquiles.
399—404. Este excelentíssimo conceito foi censurado por vários; e o mesmo Pope, tão judicioso ordinariamente, nesta passagem se extraviou, dizendo que a tinha por grosseira e indigna de Homero: é tributo pago aos refinamentos e delicadezas dos Ingleses. Como Pope não pensava Chateaubriand, que nos Martyres imitou este lugar do poeta Grego. Que ternura e singeleza nas palavras de Fênix! Seu discurso, primor de eloqüência, é sim longo, porque devia conter as recordações da meninice de Aquiles, dos trabalhos e paciência do aio, exemplos e preces. Tem redundâncias e repetições, que os seus não sentiam envoltas nos sons harmoniosos da língua. Servi-me também nesta fala de alguns versos de Francisco Manuel.
* * *
LIVRO X
Liga os demais a noite em mole sono;
Em claro a passa o rei de tantas gentes,
Gravíssimos cuidados ruminando:
Qual de Juno pulcrícoma o consorte
Lampeja crebro, se aguaceiro ajunta,
Granizo ou neve que embranqueça as lavras,
Ou se abre à guerra amarga as fauces negras;
Tal suspira, e as entranhas lhe estremecem.
Turbado considera em cerco de Ílio
Os muitos fogos, o rumor dos homens,
Das tíbias e trombetas; mas, se atenta
O Aquivo exército e as silentes praias,
Aos Céus queixando-se os cabelos carpe,
No íntimo geme o coração brioso.
Melhor enfim parece-lhe ao Nelides
Ir consultivo e combinar com ele
Como os Dânaos defenda. Ergue-se, os peitos
Reveste, calça fúlgidas sandálias,
De um leão fulvo com sanguíneos laivos
Pele talar enverga, apunha a lança.
De Menelau às pálpebras o sono
Também não pousa; pelos Dânaos treme,
Que em seu favor sulcando a azul campina,
Audazes debelar vieram Tróia.
De um pardo forra com manchado espólio
O dorso largo, aêneo casco mete,
E hasta na mão robusta, o irmão procura,
Supremo regedor que o povo adora.
À popa ainda se armava, e ledo encontra
Ao pugnaz Menelau, que assim lhe fala:
“Armas-te, augusto irmão? Noturno espia
Mandar intentas? Que nos falte hei medo
Quem sozinho se arrisque pelo escuro:
Requer nímia ousadia empresa tanta.”
A quem o régio irmão: “Celeste aluno,
Precisamos conselho em tal perigo,
Pois, mudado o Satúrnio, hoje prefere
De Heitor os sacrifícios. Nem vi nunca,
Nem de algum filho ouvi de deus ou deusa,
Que num só dia como Heitor obrasse!
Mortal sim, mas de Júpiter valido,
Executou façanhas extremadas,
Que longo viverão na mente Argiva.
Tu corre, a Ajax e Idomeneu convoca;
Vou Nestor acordar, que incite os guardas,
Cuja coorte sacra, entregue ao filho
Mormente e a Merion, de grado o atende.”
Submisso Menelau: “De mim que ordenas?
Ficar à tua espera, ou, convocados,
Vir ter contigo?” — O rei tornou-lhe: “fica;
Receio um desencontro em desvairados
Caminhos do arraial. Por onde fores,
Grita e alerta, nomeia em honra a todos
Seus pais e estirpe; o tom de orgulho evita.
Participemos das comuns fadigas:
Desde o berço a lidar nos fadou Jove.”
Com estas precauções o irmão despede.
Acha na tenda o maioral Nelides
Em brando leito, ao pé luzentes armas,
O escudo, o capacete e lanças duas,
O bem lavrado boldrié, que o cinge
Ao comandar cruíssimas batalhas,
Pois dos anos ao peso inda reluta.
No cúbito arrimado, alça a cabeça,
A perguntar: “Quem ronda o campo e a frota
Por treva espessa, quando os mais repousam?
Buscas um guarda ou companheiro? Fala;
Que hás mister? Sem falar não te apropínqües.”
“Nestor, glória da Grécia, o Atrida acode,
Sou Agamemnon. Mais que a todos Jove
Me oprime, e cessará quando este alento
Em mim cesse, e os joelhos não se dobrem.
Vagueio, por fugir-me o grato sono:
A guerra, o dano dos Aqueus me pesa;
Por eles desfaleço esmorecido;
O coração tituba e sai do peito,
Convulsos tenho os membros. Já que velas
A meditar, à guarda me acompanhes;
Vejamos se em descuido as sentinelas
Dormem cansadas: próximo o inimigo,
Empreenderá talvez noturno assalto.”
E o de Gerena: “O providente Padre
Nem tudo acabará que Heitor cogita;
Creio, alto rei, que amargo lance o espera,
Se Aquiles bane a cólera funesta.
Já já te sigo. Despertemos outros,
Diomedes grã lanceiro; ínclito Ulisses,
O ágil filho de Oileu, valente Meges.
Ao divo Telamônio alguém se expeça
E ao régio Idomeneu, que as naus tem longe,
E um do outro não perto. Embora o estranhes,
O honrado amigo Menelau censuro:
Dorme, e tu só te afanas? Não devera
Contigo os chefes deprecar afável,
Quando urge uma cruel necessidade?”
Replica o Atrida: “Às vezes a espertá-lo
Eu te exorto, ancião, porque amiúde
Hesita e se retém, não por incúria,
Não por moleza, sim por ter os olhos
Fitos no meu exemplo: a mim contudo
Hoje ele antecipou-se, e os que desejas
Foi convocar. Às portas e entre os guardas
Vamos, que juntos acharemos todos.”
E Nestor: “Nenhum Grego há jus agora
De argüi-lo e impugnar seu mando e aviso.”
Então se arnesa, as nítidas sandálias
Ata aos pés, amplidúplice e punícea
Clâmide abrocha de lustrosa felpa,
Rijo eriagudo pique hasteia, e parte.
Ao gritar junto às naus dos lorigados,
O cauto Ulisses lhe surgiu da tenda:
“Porque sós percorreis na opaca noite
O campo e a frota? ameaça algum desastre?”
E o Gerênio: “Prudente como Jove,
Longânimo Laércio, não te agastes:
Dor crua agrava os Dânaos; vem conosco,
Outro invitemos que da fuga ou prélio
Deve deliberar. “Ulisses pronto
À tenda volta, embraça o escudo e segue-os.
Dão com Diomedes fora, e em torno os sócios,
Por travesseiro a adarga, a ressonarem,
Fixas de conto as lanças, o êneo lume
O do raio imitando: o herói dormia
De um boi selvagem no estirado couro,
Com purpúreo tapete à cabeceira.
O idoso Pilo ao calcanhar o toca,
E o repreende e admoesta: “Sus, Tidides;
Inteira a noite logras? Nem te acorda
O fragor dos Troianos, que se acampam
Na colina e das naus mui pouco distam?”
O herói sacode o sono e clama: “É nímio
O ardor e zelo teu; falecem moços
Que pelo acampamento aos reis despaches?
És, magnânimo velho, és incansável.”
E ele: “Amigo, assim é, galhardos filhos
Tenho e outros muitos que chamar-vos possam;
Mas risco atroz nos preme: vida ou morte
Pende aos Gregos do gume de um cutelo.
Tu, que és moço e de mim te compadeces,
Ajax de Oileu convoques e o Filides.”
Leonina talar pele ombreia fulva
Logo Diomedes, pega a lança e corre,
Volve aqueles guerreiros conduzindo.
Juntam-se à guarda, e alerta em armas todos
Estão seus cabos. Se em vigia assídua
O redil ovelhum molossos rodam
E o lobo sentem vir do monte à selva,
Mesclam ladros às vozes dos pastores,
A quem morreu nas pálpebras o sono:
Destarte, morto o seu na infausta noite
O campo Teucro olhando os atalaias,
Ao mais leve rumor atentos eram.
O ancião folga e os louva: “Assim! meus filhos,
Nenhum se renda ao pérfido repouso,
Por não sermos escárnio do inimigo.”
Eis salta o fosso, e vão-lhe após os Dânaos
Reis congregados; à consulta acrescem
Merion e o Nestório Trasimedes.
Num sítio pousam da sangueira puro,
Entre o espaço onde, envolto em sombra densa,
Heitor pôs termo à Grega mortandade.
Quando uns e outros vários debatiam,
Fere o ponto Nestor: “Acaso, amigos,
Há quem, no braço afouto; ao campo extremo
Dos bravos Teucros vá, para que apanhe
Desgraçado inimigo, ou mesmo indague
Se eles ali permanecer tencionam,
Ou recolher-se ufanos da vitória?
Incólume e informado nos regresse,
Que terá fama eterna e insigne prêmio:
De cada capitão que em nau comanda
Preta ovelha e de mama um cordeirinho
Alcançará, presente incomparável,
E sempre no banquete um posto honroso.”
Disse; todos em roda emudeceram,
Falou porém Diomedes valoroso:
“O coração, Nestor, a entrar me impele
No próximo arraial; mas outro sócio
Me dará mor denodo e mor firmeza:
Dois entre si advertem-se, combinam;
Um, se concebe, é lento e menos ousa.”
Querem-no já seguir de Marte servos
Os Ajax, Merion; com ânsia o filho
De Nestor; Menelau de ardida lança:
Anela penetrar no campo Ulisses,
Que tem sempre na mente empresas grandes.
E o rei dos reis: “Amigo predileto,
Prestam-se muitos, à vontade escolhe;
Nem por algum respeito ou má vergonha,
Considerando o sangue e a realeza,
Um inferior guerreiro tu prefiras
Ao que julgues mais apto.” — Assim discursa
Pelo seu louro Menelau temendo.
Porém Diomedes: “Se me dás a escolha,
Posso o Laércio preterir divino,
Paciente, animoso, caro a Palas?
Com tão completo herói, constante e sábio,
Ileso hei-de sair de ardentes chamas.”
E Ulisses: “Nem me gabes, nem rebaixes,
Que os Dânaos do que valho estão cientes.
Vamos, Diomedes; as estrelas caem,
Acena o albor, a noite já descamba,
Resta apenas um terço.” — Vestem-se ambos
De hórridas armas. Do belaz Nestório
Tidides, que deixara a bordo a sua,
Recebe adaga ancípite e a rodela,
E sem crista e cimeira elmo taurino,
Simples galero, defensão de imberbes.
Cede Merion a Ulisses o terçado,
Coldre e arco, e de pele um capacete
Que, de rígidos loros dentro o forro,
De javali tem fora os brancos dentes,
Em reforço com arte à roda apostos,
E feltro espesso o fundo lhe guarnece.
De Eliona as casas de Amintor Ormênio
Antólico arrombando, ali furtado
A Anfidamas, Citério o deu na Escândia;
Em penhor Anfidamas da hospedagem,
A Molo; Molo, a Merion seu filho,
Que ao Laércio cobriu com ele a fronte.
De ponto em branco, dos consócios partem.
Pela estrada Minerva à destra envia
Garça que, invisa em feia baça treva,
Grasnar ouviam. Ledo Ulisses ora:
“Filha do Egífero, a quem nada oculto,
Neste aperto me assiste, ó protetora,
Mais do que nunca; dá que às naus voltemos,
Findas árduas ações que aos Teucros doam.”
Tidides segue: “Ajuda-me e acompanha,
Indomável Tritônia, como a Tebas
A meu pai, dos Aqueus eriarnesados
Legado, que os largou do Asopo às ribas.
Aos cadmeios a paz Tideu levava;
Mas de volta acabou gentis façanhas,
Graças a ti, benévola deidade.
Preserva-me igualmente; em honra tua
Aneja imolarei do jugo intacta,
Larga de fronte, com dourados cornos.”
Encomendando-se à fautora Palas,
Deitam-se os dois leões por noite escura:
Por montes de cadáveres, por armas
Da carnagem recente ensangüentadas.
Também não dorme Heitor, excita os cabos
E com eles concerta: “Há quem se atreva,
Por obter alto nome e digno prêmio,
O inimigo espreitar? Prometo um carro
E de cerviz altiva os dois mais finos
Corcéis de junto a frota, a quem me explore
Se inda a velam de noite, ou se aterrados
E lassos de destroço, os Dânaos tratam
Só da fuga, e não mais guardá-la querem.”
Disse, e em redondo foi silêncio tudo.
Mas um Dólon, do arauto Eumedes filho,
Irmão de cinco irmãs, torpe de facha,
Leve de pés, em ouro e bronze rico,
A Heitor voltou-se: “Heitor, o ânimo forte
A perscrutar me instiga as naus veleiras;
Arvora o cetro, o coche eri-esplendente
Jura dar-me e os frisões do exímio Aquiles.
Explorador não sou que iluda e falhe:
Entrado no arraial, me acerco à popa
Agamenônia; ali talvez da fuga
Ou da peleja os príncipes debatam.”
O cetro pega Heitor: “Fico ao de Juno
Altitonante esposo que essa biga
Outro nenhum transportará dos nossos;
Nela só brilharás.” Foi jura falsa;
Mas Dólon inflamado encruza a arco,
De lobo enfronha-se em fouveira pele,
De pele de fuinha um gorro encacha,
Toma dardo pontudo, e às naus caminha,
Donde por ele Heitor não terá novas.
Já, fora do tropel, cortava a trilha,
O Ítaco, ao lobrigá-lo: “Alguém, Diomedes,
Sai da parte contrária, acaso espia,
Ou despir os cadáveres pretende?
Passe por nós um pouco, e dele à pista,
O agarremos depois. Se em pés nos vence,
Para as naus, de hasta em reste, o impele sempre,
A fim de que não se esgueire e não se acolha.”
Desviam-se e agachados entre os mortos
Os deixa o incauto. Longe quanto os sulcos
De mulas distam, mais que bois aptadas
A charrua a tirar por denso alqueive,
Encalçam-no; ao rumor se tem, supondo
Ser o do sócio que avocá-lo vinham;
De lança a tiro, ou menos, reconhece-os,
Rápido move os joelhos fugitivo,
Mas eles apressados o perseguem:
Qual dois sabujos de raivosos dentes
Mais e mais lebre ou corça em brenha apertam,
Que cisca-se a guinchar, assim Diomedes
E Ulisses vastador o acossam lestos,
Impedindo a escapula. À guarda e à frota
Próximo o espia, a vulnerá-lo Palas,
Por que nenhum blasone de primeiro,
A Tidides influi, que bradou: “Pára,
Ou desta lança ao bote a vida rendes.”
Aqui, de jeito a vibra que lhe esflore
O úmero destro e finque-se na terra:
Dólon, quedo e medroso, os queixos bate,
Soa da boca pálida o rangido,
Aferram-no açodados, e ele chora:
“Vivo deixai-me redimir, que tenho
Bronze, ouro, ferro de lavor difícil,
E vos dará meu pai riqueza infinda,
Se preso me souber na Grega armada.”
Logo o matreiro: “Eu te afianço a vida,
Conta a verdade sem temor. No escuro
Às naus caminhas, quando os mais repousam!
Despir tentas os mortos? Vens mandado,
Ou por teu mesmo impulso nos espias?”
O mísero a tremer: “Num laço infesto
Caí de Heitor, o coche eri-esplendente
Prometeu-me e os frisões do exímio Aquiles,
Em prêmio de ir pela sombria treva
Explorar diligente, ao pé da frota,
Se inda a velam de noite, ou se aterrados
E lassos do destroço, os Dânaos tratam
Só da fuga e não mais guardá-la querem.”
Sorriu-se o astuto: “Apetecias muito,
Frisões que homem nenhum sofreia e doma,
Exceto o Eácio que gerou mãe deusa.
Mas tu sê franco: Heitor onde é que estava?
Onde o seu márcio arnês, onde os cavalos?
Onde o grosso da tropa, onde os vigias?
Eles ali permanecer intentam,
Ou recolher-se alegres da vitória?”
Volve o de Eumedes: “A verdade exponho.
De Ilo ao túmulo sacro, Heitor e os chefes,
Livres do burburinho, deliberam;
Certos não há vigias e atalaias;
Os Troianos, senhor, todos alertas,
Exortam-se ao luzir de acesos fogos;
A multidão porém de auxiliares,
Sem mulheres nem filhos, nos da terra
Descansa e dorme.” — “E dormem, torna Ulisses,
Mistos mais os Troianos cavaleiros,
Ou com longo intervalo? Nada encubras.”
E Dólon: “Nada encubro. Ao mar vizinham
Cares, Caucomes, Lelagas, Peones
Arci-recurvos, ínclitos Pelasgos
A Fimbra, Lícios e arrogantes Mísios,
Eqüestres Frígios, campeões Meônios,
Para que mais! se o campo entrar desejas.
Sentou na extrema os Traces recem-vindos
Reso Eiônides rei com seus cavalos,
Quais nunca vi grandíssimos e belos,
Auras na rapidez, no candor neve:
O coche é de relevos de ouro e prata;
Áureo o arnês de admirável artifício,
Não próprio de mortais, mais sim de numes.
Às alígeras naus levai-me agora,
Ou de rijo amarrai-me, até que à volta
Verifiqueis se falo ou não sincero.”
Minaz Tidides: “Certo embora informes,
De nossas mãos não contes evadir-te:
Se te soltarmos ora, ou te remires,
Virás espia ou combatendo às claras,
Em torno as mesmas naus; se aqui te mato,
Cessas por uma vez de ser danoso.”
Súplice a forte mão do Grego ao mento
Lança o infeliz; a adaga os tendões ambos
Da garganta lhe tronca; inda falava,
E rodou-lhe a cabeça na poeira.
De lobo a pele, de fuinha o gorro,
O extenso dardo e o arco renitente
Sacam-lhe os dois, e à predadora Palas
Oferta-os o Laércio deprecando:
“Aceita-os, alma deusa, a quem no Olimpo
Invocamos primeira; tu nos guia
Dos Traces ao quartel e aos seus cavalos.”
Disse, eleva o despojo, e a tamargueira
Folhuda em que o suspende esgalha, canas
Lhe enfeixa à roda, que tornando enxerguem
Na incerta pressurosa escuridade.
Entre armas e sangueira, enfim chegaram
Dos Traces ao quartel, que de fadiga
Ressonavam, dispostos em três filas.
Ao lado arneses belos, a parelha
Ao pé de cada um. No centro o Eiônides
A dormir, tinha atrás do coche atados
Em loros os sonípides ginetes.
Ulisses, que os descobre: “Ei-lo, Diomedes,
O guerreiro, os frisões que assinalou-nos
O morto espia. Tens a espada em ócio?
Desprega o teu valor; solta os cavalos,
Ou deixa-os ao meu cargo e imola os homens.”
A olhicerúlea então lhe dobra o esforço;
Aqui e ali talhava, os ais restrugem,
Roxa de sangue a terra: qual salteia
Truculento leão rebanho ou fato
Não vigiado; assim cai Diomedes
Sobre os Traces, e a doze arranca a vida,
Quantos ele estoqueia. Ulisses cauto
Pelos pés arredava, por que andando
Os novos crinipulcros não se espantem,
Pouco avezados a pisar cadáveres.
O herói vai ao trezeno, ao triste Reso,
Que expira ao despertar de um pesadelo,
Onde Minerva toda a noite a imagem
Lhe pôs daquela morte à cabeceira.
O Ítaco, desprendendo os corredores,
Pelos freios da chusma a subtraí-los,
De arco os fustiga, havendo-lhe esquecido
No vário assento o esplêndido chicote,
E a Diomedes adverte assobiando.
Este, se audaz insista na matança,
Pelo temão se o coche de áureas armas
Tire cheio, ou se o leve aos próprios ombros,
Dúbio examina; mas ali Minerva:
“Já, regressa aos baixéis; não te afugentem,
Ó filho de Tideu, caso outro nume
Alerte os Frígios.” Ele a voz divina
Sente e monta um cavalo: o seu verbera
De arco o Laércio; à desfilada arrancam.
O argenti-archeiro deus não cego espreita,
Vê com Tidides Palas; desce e grita
Furioso pelo Trácio Hipocoonte,
Bravo primo de Reso e conselheiro.
Este salta, examina o sítio vácuo
Dos corcéis e os guerreiros palpitantes
E o cruor fresco e negro; urrando geme,
Chama o parente. Num ruído imenso,
Tumultua-se o campo: o feito o assombra;
Salvarem-se os varões foi pasmo aos Teucros.
Junto ao corpo do espia Ulisses pára;
O sócio apeia-se, o cruento espólio
Toma e entrega ao de Júpiter valido,
E torna a cavalgar. Tocados voam
Para a frota os ungüíssonos contentes.
O Pílio o seu trotar sentiu primeiro:
“Se não desvairo, príncipes e amigos,
De cavalos o estrépito me soa.
Oh! se Diomedes e o Laércio fossem,
Com Troianos solípedes roubados!
Mas receio que à turba sucumbissem
Tão bizarros Aqueus.” — Mal acabava,
Desmontam-se eles: de alegria todos,
Estreitadas as destras, o saúdam.
Interroga Nestor: “Esses cavalos,
Nobre Ulisses, da Grécia adorno e brilho,
Donde os houvestes? Penetrando o campo,
Ou de um deus recebendo-os no caminho?
Radeiam como o Sol. Não fico ocioso,
Bem que velho, e combato sempre os Teucros;
Mas nunca tais corcéis meus olhos viram:
De encontradiço deus julgo um presente;
Sois ambos do Nubícogo mimosos,
Da Glaucopide sua amados ambos.”
E Ulisses: “Ó Neleio, ó glória nossa,
Com tamanho poder, um deus querendo,
Fácil nos doaria outros melhores;
Mas recém vindos estes são dos Traces.
Diomedes chefes doze e o rei matou-lhes;
Próximo às naus, do espia demos cabo
Que explorá-la Heitor e os seus mandaram.”
Disse, e fez os corcéis pular o fosso,
E iam com eles os Dânaos jubilosos.
Ao Diomedes presepe os ata em loros
Bem recortados, onde os mais comiam
Suave trigo, e à popa sua Ulisses
O de Dólon depõe sangüento espólio,
Enquanto a Palas sacrifício apontam.
N’aba do mar cervizes, coxas, pernas,
Do suor que lhes mana, os dois expurgam:
Depois que a sordidez mais crassa escorrem
N’água salgada e o coração confortam,
Em tinas polidíssimas se banham,
Untam-se de óleo, com prazer almoçam,
E de plena cratera entornam vinho,
Que a Minerva melífico libavam.* * *
NOTAS AO LIVRO X
53—54. Os selvagens do nosso Brasil e da América toda, à maneira dos tempos heróicos, honram-se de ser chamados pelos nomes de seus pais: Chateaubriand amiúde lembra este costume na Atalá e nos Natchez. Agravam-se quando se lhes falta com semelhante cortesia, e perguntam se os crêem filhos das ervas.
90—91. Neste lugar diz a interpetração latina: “Horum enium naves absunt longissime, nec valde prope”. Os tradutores desatendem esta última circunstância: os navios de Idomeneu e de Ajax não só ficavam longe do pavilhão do Nestor, mas não perto um do outro. A ser como dizem os tradutores, fora de uma redundância viciosa o segundo hemistíquio de Homero.
203. Phasganon significa uma espécie de punhal, e era de dois gumes. Alguns o vertem por espada; mas Diomedes esqueceu a bordo, não a espada, sim o punhal, e deu-lhe um Trasimedes. Com ele mata a Dólon, que estava entre suas mãos, e com a espada mata a Reso e seus companheiros. Esse punhal traziam-no à direita. Servi-me de adaga, porque a adaga talhante ou de dois gumes assemelha-se ao phasganon. Veja-se em Moraes e Constâncio.
294. Escapula, de uso comum no Brasil tem o acento na penúltima, ainda que na antepenúltima o ponha Constâncio: não é a primeira vez que lhe noto erro no lugar do acento. Moraes, que não acentua a palavra, traz em exemplo de Jorge Ferreira, no qual, pelo toante, conhece-se que o acento é onde o pomos nós os Brasileiros; é o seguinte: Aos mortos sepultura, aos vivos escapúla.
390—402. É incrível que ninguém despertasse no meio desta matança. Virgílio, que a imitou no episódio de Euríalo e Niso, para torná-la verosímil, faz um dos mortos vomitar sangue e vinho, mostrando que os inimigos dormiam embriagados; mas, não obstante a cautela, tem sofrido censuras, da parte de muitos que nada boquejam contra Homero. Pode-se dizer que tudo foi obra de Palas, que assistia a Diomedes e Ulisses; mas, além de que, a ser assim, era cousa que devera expressar-se, muito perderia de valor a façanha dos dois heróis. Injustíssimo é louvar-se no poeta Grego o mesmo que se repreende no Latino.
462. Censuram dar Homero trigo por sustento a cavalos, porque trigo lhes é danoso. Não admira que assim fizessem naqueles tempos, quando eu vi os arrieiros, d’entre Coimbra e Lisboa, darem aos seus pão branco e vinho, mal os sentiam estafados ou frouxos de caminho.
469. Riches baignoires, como traduzem alguns Franceses, assim como lavacri de Monti, pela sua generalidade, não traspassam o asaminthores de Homero. Esta palavra indica bem que as tais banheiras eram cubas ou tinas, como as que em meu tempo serviam no Maranhão para o mesmo fim: serravam pelo meio uma pipa, às vezes de vinho ou de aguardente, e depois de a rasparem por dentro e por fora, dela formavam duas tinas ou duas banheiras. O adjetivo enxestes acaso se [referiria a] semelhante operação? Seria um belo estudo aquele que nos [desse a] conhecer como os usos e arte dos Gregos e dos Romanos, [os mesmos] ou quase os mesmos, foram passando principalmente para [as cidades] Grego-latinas.
* * *
LIVRO XI
Surgindo a Aurora do Titônio leito,
O globo e os céus alumiava, quando
Jove a nera Discórdia às naus despede;
A qual da guerra sacudindo o facho,
Parou no centro, na de Ulisses, donde
Em tendas e baixéis ouvida fosse
De Aquiles e de Ajax, que aos dois extremos,
No seu valor seguros, alojavam.
Brame horrentíssimo, e retine o grito
Ao coração dos Dânaos, que incessantes
Anseiam batalhar, e então mais doce
Lhes era a pugna que a tornada à pátria.
Clama e intima Agamemnon que se aprestem,
E aêneo luz. Com prata finas grevas
Primeiro às pernas afivela; aos peitos
Loriga veste, que hóspede Ciniras
Mandou-lhe em dádiva, ao troar em Chipre
A nova de ir a Tróia a Grega armada:
Compunha esmalte escuro dez estrias,
Doze ouro, estanho vinte; azuis ao colo
Três serpes iriando lhe trepavam,
Como o curvo sinal que o Padre em nuvens
Aos falantes gravou. De áurea tauxia
E de áureo boldrié, fulgura a espada
Em argêntea bainha. Adarga-o todo
Estupendo pavês, maneiro e ingente,
Com dez êneos debruns, com vinte umbigos
Branquíssimos de estanho, e de aço bruno
Disparava o do meio ameaçadora
A feia Górgona e o Terror e a Fuga;
De argêntea faixa ao longo se torcia
Vivo dragão cerúleo, que recurvas
Tinha cabeças três num só pescoço.
Do elmo de quatro cones tachonado
Crista lhe nuta horrenda e eqüina coma.
Válidas eriagudas lanças duas
Toma, cujo fulgor fere as estrelas.
Palas de cima e Juno, em honra toam
Do opulento senhor da grã Micenas.
Prescrito a cada auriga ter em ordem
Junto ao fosso os corcéis, ruidoso e imenso
Antes d’alva o alarido, a pé remete
Armados campeões, e atrás em fila
Vêm vindo os carros. Do éter o Satúrnio
Rumoreja, e de sangue orvalho chove,
Presságio de que ao Orco iam ser muitas
Almas de altos varões precipitadas.
Além, num teso, o reto Polidamas
Alinha os seus, e Eneias nume ao povo,
Mais os três Antenóridas, Polibo,
Nobre Agenor, inda solteiro Acamas
A imortais parecido; à frente a enorme
Rodela vibra Heitor: qual dentre as nuvens
Sem véu nenhum reluz funesto Sírio,
E alguma vez se ofusca; assim na prima
Ala aparece o herói, percorre a extrema,
Prevê, dispõe, comanda, em bronze esplende,
Como o tonante Egíoco lampeja.
Quando centeio ou trigo os segadores
Em farta messe opostos vão ceifando,
O agro juncam de espigas: tais se prostram,
Com mútua horrenda clade, Argeus e Teucros;
A desastrada fuga a nenhum lembra;
Barba a barba, acometem como lobos.
Lutuosa a Discórdia olhando exulta,
Único deus que assiste: os mais, por cumes
Do Olimpo, quedos em mansões formosas,
O Anuviador acusam, que aos Troianos
Destinava o triunfo; mas o Padre,
Sem lhe importar, a parte e ledo mira
Naus e cidade, os fulgurantes bronzes,
O ferir e o morrer dos combatentes.
Enquanto ia crescendo a manhã sacra,
A turba tiros cai; mas, quando em vales
De árvores decotar a mão sacia
Lânguido o lenhador, e ávido anela
Almo sustento e seu jantar prepara,
Uns então pelos outros animados,
Rompem com brio os Dânaos as falanges.
Agamemnon precede, e abate o régio
Maioral Bianor e Oileu cocheiro.
Oileu se apeia e investe; mas na fronte,
Sem que êneo casco o embargue, entrada lança
Pelo osso, dentro o cérebro deturpa:
Doma-lhe a audácia o rei. Nus amo e pajem
Da túnica e loriga, os abandona.
Foi-se a Ísios e Antifo Priameios,
Legítimo e bastardo, ambos num coche:
Era o bastardo auriga, Antifo ilustre
Pelejador, os quais, pascendo ovelhas
Em fraga Idea, atara em fléxeis vimes
E o seu resgate recebera Aquiles:
De hasta a Ísios o Atrida a mama fere,
A Antifo de um fendente ao pé da orelha
Derriba; eis despede-os das brilhantes armas,
Reconhecendo-os, pois a bordo os vira,
De quando o velocípede os prendera.
Leão, que em toca assalta a corçozinhos,
Fácil com dente rábido os lacera
E as tenras almas tira; a mãe coitada,
Perto embora, não cuida em protegê-los,
Trêmula em denso carvalhal se acouta,
Suando evade-se à cruenta fera:
Assim, nenhum Troiano ousa acudir-lhes,
Do Ímpeto Graio trépidos fugiam.
O argólico leão corre a Pisandro
E ao firme estrênuo Hipóloco, dois ramos
De Antímaco valente, o qual, peitado
Pelo esplêndido Páris, mais se opunha
A ser entregue Helena ao flavo esposo;
Toma-os num ponto e seus corcéis retidos,
Pois largaram de susto insignes rédeas,
No carro de joelhos implorando:
“Vivos nos leva, Atrida, e aceita o preço
Da remissão; que Antímaco, pai nosso,
Cobre e ouro encerra e trabalhado ferro,
E te há de encher de dádivas infindas,
Se presos nos souber na Argiva armada.”
Falam chorando ao rei com meigas vozes,
E ele não meigas volve: “Que! sois filhos
De Antímaco belaz, que em Tróica junta
Votou morte a Grajúgenas legados,
A Ulisses divinal e a Menelau?
Ora pagai-nos a paterna injúria.”
Disse, e um bote a Pisandro, pelos peitos,
Lança do coche, ressupino o estira;
Salta Hipóloco em terra, e a gládio o Aquivo
Os braços e o pescoço lhe decepa,
E como um tronco arbóreo à chusma o atira.
Dali desfaz, com outros bem grevados,
Hostes inteiras: a pedestre imola
Pedestre, cavaleiro a cavaleiro;
Pulvéreas nuvens ergue ericalçado
O ruidoso tropel quadrupedante.
O rei vai na carnagem prosseguindo
E acorçoando os seus: como edaz fogo
Em virgem mata, ao vário Eólio sopro,
Árvores turbinoso extirpa e fende;
Ele assim talha e estronca os fugitivos,
E a nitrir, entre as filas derrotadas,
Rojam árduos corcéis vazios carros,
Tristes por seus cocheiros, que ali jazem
Mais gratos aos abutres que às esposas.
A Heitor fora do pó, dos tiros fora,
Da carnívora ação, da gritaria,
Jove entanto conduz: na ânsia de abrigo,
Já de Ilo o prisco túmulo trasposto,
À baforeira os Teucros se aproximam;
Rugindo os segue o Atrida, e vai manchando
Em cruor polvorento as mãos invictas;
Retêm-se eles às portas junto à faia,
Uns a espera dos outros. Qual em noite
Borrascosa o leão pela campina
Pávidos bois acossa, e ao mais tardonho
Rasga a cerviz com navalhadas presas,
Sangue lhe chupa e entranhas; Agamemnon
Tal os encalça e o derradeiro prostra:
Quem de costas caía, quem de bruços,
Da régia lança aos furibundos golpes.
O herói tocava os muros; e eis baixando,
Na destra o raio, o pai de homens e numes
No pino do Ida em fontes abundante
Senta-se, a núncia ali-dourada chama:
“Rápido, Iris: Heitor que o pé reprima,
Enquanto à frente o maioral dos Gregos
Cortar nos batalhões, mas sempre alente
Os seus a resistir o embate horrível.
Assim que o vulnerar ou dardo ou seta,
Ao carro monte; eu lhe darei vitória:
Há-de às instrutas naus levar o estrago,
Té que o sol tombe e venha a sacra noite.”
Aerípede a núncia do Ideu cume
À santa Ílio descendo, o Priamides
Encontra em pé no aparelhado coche:
“Guerreiro na prudência igual a Jove,
Isto ele aqui te ordena: o pé reprimas,
Enquanto à frente o maioral dos Gregos
Cortar nos batalhões, mas sempre alentes
Os teus a resistir o embate horrível.
Assim que o vulnerar ou dardo ou seta,
Montes ao carro, e te dará vitória:
Hás-de às instrutas naus levar o estrago,
Té que o sol tombe e venha a sacra noite.”
Some-se Íris. Heitor pula do coche,
Dardos brande erifúlgidos, alas corre,
Provocando a conflito: voltam face
Os Teucros logo; intrépidos os Dânaos
Cerram-se firmes, a peleja instauram;
De encetá-la ansioso, rui o Atrida.
Celestes musas, declarai-me agora,
Que ilustre auxiliar ou que Troiano
Com Agamemnon se arrostou primeiro?
Alto e audaz o Antenórida Ifidamas,
Na altriz criado pecorosa Trácia.
De pequeno o educara o avô materno
Cisseu, pai da pulquérrima Teano;
O qual vendo-o na ovante puberdade,
Para tê-lo consigo, deu-lhe a filha.
Noivo, ao soar a empresa, vasos doze
Tripulando, ancorou-os em Percope,
Veio por terra socorrer a Tróia.
De perto, fronte a fronte, já se investem:
Agamemnon desfecha, e o dardo aberra;
Ele por sob a coira à cinta o apanha,
Com rijo pulso e esforço enterra a ponta,
Que o bom talim não fura, mas qual chumbo
Topando amolga em lâmina de prata.
Com garras de leão, furioso o Atrida
A haste a si puxa, arranca-lha, de um talho
Cerceia-lhe o pescoço e os membros solve.
Por seus concidadãos sono éreo dorme,
Ah! longe da mulher que em flor obteve,
Da qual nem se logrou nem prole havia,
À qual cem bois doara e prometera
Cabras e ovelhas mil dos seus pastios.
Despiu-lhe as pulcras armas Agamemnon,
Entrou com elas pela Argiva turba.
Coon, claro Antenórida e o mais velho,
Defunto o irmão, toldados sente os lumes;
De esguelha sorrateiro escorregando,
Além do cotovelo, no antebraço
De Agamemnon a choupa enfia aênea:
Ao golpe freme o rei, mas não desiste;
Hasta em punho dos ventos roborada,
Acomete a Coon, que de Ifidamas,
Do mesmo pai gerado, ia o cadáver
Arrastando e a gritar que o socorressem:
Nisto, abaixo do escudo um bote acerta,
Sob o fraterno corpo é degolado.
Cheio o destino, ao Orco assim o Atrida
Estes dois Antenóridas remete.
Enquanto o sangue da ferida mana,
A gládio alas descose, a dardo, a pedras;
Assim que estanca e esfria, eis lancetadas
Lhe vêm, não menos cruas que as da frecha
Que despedem no parto as Ilitias,
Filhas de Juno e mães de cruas dores.
Monta, e magoado a seu cocheiro ordena
Que aos baixéis o transporte, e vocifera
Com voz tonante: “Príncipes e amigos,
Toca-vos repelir das naus o assalto;
Veda o padre bater-me o dia inteiro.”
O auriga para a frota os crinipulcros
Frisões verbera, que espontâneos voam;
Sob os pés a poeira, a escuma aos peitos,
O atribulado rei do prélio afastam.
Ausente o Aquivo chefe, trovejando
Heitor instiga os seus: “Troianos, Lícios,
De perto exímios Dardanos, sede homens,
A vossa intrepidez vos lembre, amigos:
Foi-se o herói, e o Satúrnio dá-me a glória;
Maior a alcançareis, aos feros Dânaos
Remessai-me os solípedes ginetes.”
Com isto inflama e os corações esforça.
Como açula o monteiro a cães de fila
Contra leão ou javali sanhudo,
O atroz Marte Priâmeo contra os Graios
Os Magnânimos Teucros açulava:
Ao conflito se arroja impetuoso,
Qual sibilante furacão das nuvens
Salta e encapela o ferrugíneo pego.
Que heróis de Heitor a cólera provaram,
Ao cingi-lo o Supremo da vitória?
Osseu logo, Agelau, Autono, Opites,
Com Dolope de Clício, Oféltio, Esimno,
Oros, e enfim o acérrimo Hiponoo:
Passa ao depois às turmas. Quando em luta
Zéfiro exasperado açouta as nuvens,
Que vivo Noto imbrífero ajuntara,
Ao multívago sopro incha a mareta,
Remoinha e salpica a espuma os ares:
Tantas vidas à plebe Heitor segava.
Fora total o exício e irreparável,
A fugida mortífera, a Tidides
Se não clamasse Ulisses: “Que! Diomedes,
Nosso brio esquecemos? oh! que opróbrio,
Se o belígero Heitor nos toma a frota!
Põe-te ao meu lado, amigo.” — “Sim, responde,
Eu te sustentarei; mas pouco importa,
Que Jove aos Teucros o triunfo apresta.”
Disse, e a lançada à sestra mama expele
Do assento ao rei Timbreu; no entanto Ulisses
Lhe mata o pajem Molion deiforme.
Da batalha estes fora à chusma investem,
Como a lebréus dois javalis bravosos:
O ímpeto e assalto novo a desbarata,
E os de Heitor perseguidos já respiram.
Num coche os nados brilham do adivinho
Meropo de Percote; irmãos que o padre
Vedou que entrassem na homicida guerra,
E a quem surdos as Parcas atraíram:
Priva-os Diomedes ínclito lanceiro
Do alento e belo arnês, enquanto Ulisses
Mata Hipódomo e Hipíroco e os despoja.
Do Ida olhando o Satúrnio, iguala a pugna,
E as mortes fervem. Lanceou Diomedes
Na coxa o herói Agástrofo Peônio:
Doeu-lhe dos corcéis faltar-lhe o efúgio;
Que o pajem longe os tinha, e ele pedestre
Acre avançava, até que a vida perde.
Heitor o adverte, e às hostes brame e acorre;
Diomedes mesmo enfia: “Ulisses, olha,
Um turbilhão nos volve Heitor furente;
Constância, amigo, o embate rechacemos.”
Nisto, o pique despede, e não baldio,
Bate-lhe na cabeça; mas do bronze
Repulso o bronze, a cútis nem lhe esflora;
Tríplice o tolhe o elmo, dom de Febo.
Desaparece Heitor, e a poucos passos
Cai ajoelhado, à forte mão sustido;
Um tenebroso véu lhe enfusca os olhos:
Pela Teucra vanguarda ia Diomedes
Seu pique recobrar no chão pregado,
Quando em si torna Heitor e ao carro pula,
No tropel se confunde e o transe evita.
E o Grego, em reste a lança: “Inda escapaste,
Cão, do corte letal salvou-te Apolo,
Que entre o fragor das armas sempre invocas.
Hás-de, ajude-me um deus, comigo haver-te;
Outros por ti mo pagarão agora.”
Ao Peônio deitava-se, eis que o tiro
Arma o taful da emadeixada Helena,
Atrás do cipo tumular do antigo
Ilo, Dardânio padre: o herói despia
Do hasteiro extinto Agástrofo a couraça
Vária e o broquel e o grave capacete;
O arco dispara, a vira não desmente,
Que ao pé destro as falanges atravessa
E enterra-se no chão. Rindo ufanoso
Páris sai da emboscada: “Estás ferido,
Nem me falhou a seta: oh! se te houvera
Profundado as entranhas! De ti, monstro,
Respiravam Troianos, que te hão medo,
Assim como a leão berrantes cabras.”
E Diomedes impávido: “Insolente,
Só bom no corno e rufião de moças,
Vem cara a cara, e o arco e pleno coldre
Verás se te aproveitam: vanglorias
De arranhares-me um pé? não me inquieta,
Foi de fêmea ou criança espinho leve;
Mossa não faz o golpe de um cobarde.
Meu dardo, sim, é ruína do em que toca,
É pranto e mágoa da carpida esposa,
De filhos desamparo; em sangue a terra
Avermelha e apodrece; em torno ao morto
Mais que a mulheres os abutres chama.”
Põe-se Ulisses diante; ele se encosta
No amigo e extrai a farpa: em todo o corpo
Sofre agras dores; monta, e angustiado
Manda ao cocheiro que o transporte a bordo.
Dos seus abandonado Ulisses resta;
Suspira e fala com sua alma grande:
“Ai! que farei? Se à multidão por medo
Me esquivo, é mau; pior, se aqui me apanham,
Pois Jove há dispersado os outros Graios.
Mas que indago, minha alma? Eu sei que é torpe
O combate largar; deve um guerreiro
Com firmeza ou ferir ou ser ferido.”
Enquanto em si discursa, as Tróicas turmas
Sobrevêm adargadas e o torneiam,
Dentro a peste acolhendo. Se em balbúrdia
Flóreos moços e cães javali caçam,
Da mata surde a fera, os alvos dentes
Nas recurvas queixadas amolando;
Apesar do rangido e aspecto horrendo,
Férvida a chusma o ataca: assim, de Ulisses
Divino em cerco, os Troas o acometem.
Ei-lo de hasta, ao famoso Deiopite
O ombro fisga, a Toon e Enono estende,
E a Cersidamas, ao pular da sela,
Por debaixo do escudo o umbigo ofende;
No pó tomba o infeliz, de palma em terra.
Deixa-os, e agride o Hipásida Caropo,
De Soco generoso irmão germano;
Soco deiforme a socorrê-lo avança,
Perto brama: “Doloso e infatigável,
Filhos ambos de Hipaso, ou tens a glória
De mortos hoje nos despir as armas,
Ou desta minha ao bote a vida exalas.”
Esgrime, e a choupa a lúcida rodela
Fura e a mesma couraça artificiosa,
Rasga-lhe as carnes das costelas: Palas
As vísceras preserva. O golpe Ulisses
Mortal não o sentiu; recua um pouco:
“Ah! fraco, diz, soou-te a hora extrema:
De progredir no prélio me tolheste;
Mas desta lança o gume, hoje to afirmo,
Dar-te-á morte escura e a mim triunfo,
Tua alma ao rei da lúgubre quadriga.”
Soco retrocedia, quando a ponta
Finca-se atrás na espádua e sai aos peitos;
Rui com fracasso; o vencedor o insulta:
“Soco Hipasíada egrégio cavaleiro,
Do fim letal, ah! vil, não te evadiste;
Pai nem piedosa mãe te cerra os olhos;
De asas batendo-te, aves de rapina
Te-hão de cruas tragar: morto eu, de Aquivos
Respeitosos terei funéreas honras.”
Aqui, da pele e do copado escudo
O dardo extrai que lhe vibrara Soco:
Dor curte acerba e lhe borbota o sangue;
Ao vê-lo, os Teucros a exortar-se acodem;
Retrograda e alça a voz; o grito ouviu-lhe
O belicoso Menelau três vezes,
E volto a Ajax: “Ó Telamônio excelso,
Do Laércio me soa o aflito brado,
Como de quem labora em grande afronta:
Rompamos pela turba a defendê-lo.
Temo que só, por tantos apertado,
Pereça o herói, com mágoa dos Aquivos.”
Marcha, e após ele o divinal guerreiro;
Acham de Jove o aluno entre os contrários.
Já frechado, fugaz galhudo cervo
Ao caçador se esquiva, enquanto o sangue
Tépido escorre e movem-se-lhe as pernas,
Té que o doma a ferida, e em monte umbroso
Crus ávidos chacais vão lacerá-lo;
Nisto, um leão rebenta formidável,
Que derrama os chacais e a presa toma:
Assim bravo tropel cercava o astuto
Herói, que de hasta em punho o amargo dia
Repulsa audaz; mas rui o Telamônio
De pavês torreante, e foge a turba.
A Ulisses Menelau sustém nos braços,
E o coche entanto o pajem lhe aproxima.
Remete Ajax ao Priameio espúrio
Dóriclo e o mata; a Pândaco vulnera,
Mais a Lisandro e Píraso e Pilarte.
Quando o imbrífero nume das montanhas
Torrentes rola, a cheia o campo inunda,
Secos leva lariços e carvalhos,
E o lodo arroja ao mar: Ajax destarte
Vai cavalos talhando e cavaleiros.
Isto ignorava Heitor, à esquerda e às ribas
Do Escamandro a pugnar, onde as cabeças
Bastas caindo, há grita imensa em torno
Do grande Pílio e Idomeneu mavórcio.
Lá, de hasta e carro, Heitor passeia ardido,
E hostes brilhantes façanhoso arrasa;
Mas brecha entre esses bravos não se abrira,
Se o raptor da pulcrícoma não fere
Com trifarpada seta no ombro destro
Ao belaz Macaon pastor de povos.
Desanimam-se os Dânaos, receando,
Inclinado o conflito, ali perdê-lo;
E à pressa Idomeneu: “Monta, Nelides,
Honra da Grécia; a Macaon recolhe,
Para a frota os ungüíssonos dirige:
Por muitos vale um médico; ele os dardos
Extrai, unge a ferida e acalma as dores.”
Sem demora Nestor sobe a seu carro,
E do exímio Esculápio o digno filho;
Toca os ginetes, que de grado arrancam,
De voltar para as naus contentes voam.
Do coche Hectóreo, Cebrion dispersos
Avista os seus e clama: “Aqui num cabo
De horríssona batalha combatemos,
E os mais Teucros, Heitor, baralha e espanca-os
O Telamônio Ajax, que reconheço
Pelo imenso pavês. Lá galopemos
Onde o estrondo é maior, onde a carnagem
De équites e peões é mais ferina.”
Ei-lo estala o chicote, e os crinipulcros,
Sentindo o açoute, a Gregos e a Troianos
Corpos e escudos rápido calcavam:
Eixo e caixa de sangue afeiam gotas
Que das patas e rodas se espargiam.
Heitor como arde por cortar na turba!
Derrota, esgrime, nem descansa o braço,
A gládio e lança e pedra assola e estraga;
Porém do Telamônio o encontro evita.
A Ajax do Olimpo Jove incutiu medo:
De setêmplice tarja às costas fica;
Atento à chusma, atônito se aparta,
Feroz volta-se, e lento o passo alterna.
Cães e campinos, em noturna vela,
Famélico leão do cerco expedem,
Vedando-lhe o cevar-se em pingues reses;
Em vão remete, que, de audazes pulsos
Dardos voando e fachos, ruge iroso
Recua, e n’alva se retira mesto:
Assim, tristonho e invito, Ajax temendo
Pelas Aquivas naus, deixava os Teucros.
Apesar dos meninos que o fustigam,
Dentro a seara tosa asno tardio;
Sem que fracas pauladas o inquietem,
Só deixa o pasto quando a fome extingue:
Tal, dos golpes zombava o Telamônio
Dos valorosos Teucros e aliados;
Lembra-lhe o brio próprio, encara ou foge
Contendo as hostes de assaltarem juntas
A Grega frota. Em meio ele só brame
Dos exércitos ambos; chovem tiros,
Fincam-se no pavês, muitos na areia,
De embeber-se nas carnes desejosos.
Eurípilo Evemônio, ao vê-lo opresso,
Corre com brava ardente lança ao cabo
Apisaon Fausiade, por baixo
Do diafragma o fígado lhe vara
E afrouxa-lhe os joelhos. A apear-se
Vai por despi-lo, e o arco atesa Páris;
Na destra coxa, a Eurípilo vibrada,
Quebra-se a frecha e cruas dores causa.
Ele aos seus revertendo ilude os fados,
E forte vocifera: “Aqueus e amigos,
Alto! afastai de Ajax o escuro dia;
Duvido escape da tormenta horríssona,
Mas socorrei de Telamon o filho.”
De escudo aos ombros e hasta em reste, os sócios
Junto ao ferido apinham-se; a encontrá-los
De fronte Ajax reverte; em mó carregam,
Pelo tropel qual fogo iam lavrando.
Suadas ao levar Neleias éguas
A Macaon e o dono, o Velocípede
Reconhece-os da popa, donde a lide
E a fuga lagrimosa contemplava;
Grita ao Menécio, que parelho a Marte,
Princípio do seu mal, da tenda assoma:
“Que me queres, Aquiles, que me ordenas?”
O amigo então: “Pátroclo da minh’alma,
Intolerável peso oprime os Dânaos,
E ante mim os figuro suplicantes.
Presto, a Nestor pergunta, ó caro a Jove,
Qual dos chefes transporta golpeado;
Pelo talhe o Asclepíade parece;
Rápida biga seu semblante encobre.”
Dócil o bom Menécio ao companheiro,
Entre o campo corria e as naus Aquivas.
Nestor e Macaon já n’alma terra
Apeiam-se, e desjunge antigo pajem
Eurímedon o carro; as vestes ambos
Na praia do suor ao vento enxugam:
Vão-se à tenda, em camilhas se recostam.
Bebida apresta a nítida Hecamede,
Filha do grande Arsímoe, que o Gerênio
Por exceder a todos nos conselhos,
Houve em Tênedos, presa do Pelides.
Põe de azulados pés à lisa mesa
Flor de sacra farinha em disco aêneo,
Recente mel e um pico de cebola;
Põe copa linda, que trouxera o velho,
De cravos de ouro, e de ouro um par de pombos
Em torno a cada uma de asas quatro,
Com dois no fundo, ali se apascentavam:
Movê-la outrem sem custo não pudera,
E cheia o velho facilmente a erguia.
A divinal donzela Prânio vinho
Dentro mescla, e raspado em êneo ralo
Queijo caprino e uns pós de branco trigo;
E os conforta com isto e os dessedenta.
Já se recreiam conversando, e à porta
A um nume igual apareceu Pátroclo:
Em pé Nestor, condu-lo pela destra
Ao resplêndido escano; mas o núncio
Renui dizendo: “Ancião de Jove aluno,
Não me assento; é terrível quem me envia
Para saber qual fosse o vulnerado;
Vejo que é Macaon, a Aquiles torno.
Tão colérico humor tu bem conheces:
Em seus furores o inocente culpa.”
“Ah! clama o velho, sente Aquiles hoje
Dos vulnerados pena? O luto ignora
Do campo inteiro? A bordo os mais estrênuos
À mão tente ou de longe estão feridos:
A pique o Atrida e Ulisses, mas frechados
Na coxa Eurípilo e no pé Tidides;
Arco a farpa enviou contra este amigo.
Forte em vão, sem piedade espera Aquiles
Que hostil fogo, apesar do esforço nosso,
Consuma as naus, e pereçamos todos?
“Oh! pubente fosse eu robusto e ágil,
Qual dos Epeus e Pílios na discórdia
Pelo armento roubado em represália,
Quando o Hipiróquio Itimoneu, que em Élis
Habitava, abati! sob o meu dardo,
Ao defender seus bois, caiu na frente;
Bravia a tropa, derrotada, aos nossos
Tudo largou: de ovelhas greis cinqüenta,
Iguais vacuns manadas, e não menos
Varas de porcos e de cabras fatos;
De éguas baias o triplo e seus mamotes.
Folgou Neleu de noite à nossa entrada,
Porque estreei novel com tais proezas.
Pregões chamaram n’alva a quem devia
Elide gado, e os príncipes a presa
Pelos muitos queixosos dividiram.
Como Hércules, talando as nossas terras,
Os melhores matara, e eu só restasse
Dos filhos doze de Neleu valentes,
Da míngua nossa e dano os lorigados
Ultrajantes Epeus escarneciam:
Meu pai quatro frisões mandara aos jogos
Disputar uma trípode, e os reteve
O rei de Elide Augeias; triste o auriga
Veio contá-lo. Então Neleu, da afronta
Picado, reservou com seus pastores
Em boiadas e greis trezentas reses,
Justa porção distribuindo ao povo;
Mas ao terceiro dia, ao celebrarmos
Pela cidade aos numes sacrifícios,
Tropa eqüestre e pedestre eis nos assalta,
E ambos os Moliões, inda mocinhos,
Pouco versados em Mavórcias lides.
A íngreme Trioessa à margem fica
Do Alfeu, na extrema da arenosa Pilos:
Na ânsia de sovertê-la, a sitiavam;
Mas de noite, a campina ao traspassarem,
Desce a Pilos Minerva, incita e ajunta
Ávida gente a pelejar disposta.
Neleu me crê bisonho e o coche oculta;
E a pé mesmo, entre os nossos cavaleiros,
Me assinalei, guiado por Tritônia.
Deságua o Minieio e banha Arena,
Onde a Aurora esperávamos celeste
E afluíam peões. O dia em meio,
Ante o Alfeu todo o exército, ao Supremo
Feitas gratas ofrendas, imolamos
Um touro ao santo rio, outro a Netuno,
Juvenca indômita à cerúlea Palas,
E ceiamos em ranchos e dormimos
A borda armados sempre. Aquele assédio
Vastadores Epeus mais estreitavam;
Porém com Márcio arrojo os prevenimos:
Mal assomava o Sol, a Jove e a Palas
A suplicar, travamos a batalha.
Eu por Múlio a encetei, genro de Augeias,
Que a filha primogênita esposara
Flava Agamede, a qual da terra inteira
As salutares plantas conhecia:
De um bote, ao me encarar, na areia o estiro;
Salto-lhe ao coche, e o troto antessignano.
Vendo os Epeus dos équites caído
O chefe mais belaz, sem ordem fogem.
Qual furacão ruí de lança em punho;
Coches tomei cinqüenta, e a cada coche
Derribei dois varões que o pó morderam.
De Actor e Molion prostara os filhos,
Se, envoltos em negrume, o avô Netuno
Amplo-dominador os não salvasse.
Deu-nos vitória o Céu: matando fomos
E armas colhendo no alastrado campo;
À cereal Buprásio, à pétrea Olênia,
E Alésio até Colona, os perseguimos,
Donde gente e corcéis retirou Palas;
E um lá inda imolei. De volta a Pilos,
A Jove entre imortais rendiam graças,
Entre homens a Nestor. Fui tal no esforço.
“Mas para si guarda o valor Aquiles;
Há de pesar-lhe o exército perder-se.
Quando, amigo, eu e Ulisses pela Acaia
Levantávamos tropas, no agasalho
Das casas de Peleu, de Aquiles junto
Nós te encontramos e a teu pai Menetes:
Num claustro o ancião Peleu bovinas coxas
Ao tonante queimava, de áurea taça
Roxo vinho entornado em rubras chamas;
Vós preparáveis suculentas carnes.
Alvoroçado Aquiles, pela destra
Nos trouxe do vestíbulo, e assentados
Nos regalou com pródiga hospedagem.
Repleta a fome e a sede, a minha arenga
O ardor vos avivou. Peleu de acordo,
Vimo-lo ao filho prescrever que fosse
Pugnaz, constante, superior a todos.
O Actórides Menetes, a Agamemnon
Ao te expedir, clamava aos olhos nossos:
— Meu filho, em geração te excede Aquiles,
Sem par na valentia; és mais idoso,
Mais prudente: amoesta-o, e será dócil. —
Tu paternos preceitos olvidaste;
Ora, adverte esse herói: quem sabe se hoje
Um nume há de ajudar-te a comovê-lo?
Fazem muito os conselhos da amizade.
E se um presságio o espanta, e à mãe augusta
Jove algum declarou, mande-te ao menos
Dos Mirmidões à testa a esperançar-nos.
Seu belo arnês te empreste; que, os Troianos
Contendo a semelhança, da fadiga
Os mavórcios Aqueus talvez respirem,
E um respiro aproveita. A frescas tropas,
No primo choque, os inimigos lassos
Fácil é rechaçar das naus e tendas.”
Disse; ao longo da praia, comovido,
Corre em busca do Eácida Pátroclo.
À nau se apropinquou do sábio Ulisses,
Onde era a cúria e o foro e as santas aras:
Ia ali da frechada coxeando
O destemido Eurípilo Evemônio,
Em suor testa e espádua, negro o sangue
A merejar, mas inconcusso o peito.
Exclamou condoído o herói Menécio:
“Ai! tristes nossos príncipes e cabos,
Que assim, longe da pátria e amigos lares,
Cães cevareis em Tróia! inda os Aquivos,
Dize, aluno de Jove, inda resistem,
Ou da lança de Heitor serão domados?”
E ele: “Excelso Pátroclo, é sem refúgio,
Vão cair ante a frota os Gregos todos.
Quantos bravos havia estão feridos;
Cresce a força Troiana e cresce a fúria.
Mas tu salva-me e leva ao meu navio;
Tira-me a seta, em banho morno a chaga,
Asperge os lenimentos que de Aquiles
Aprendeste, e que afirmam lhe ensinara
Quiron dentre os Centauros o mais justo:
Pois dos médicos dois, se não me engano,
Na tenda sua Macaon de auxílio
De mão hábil carece, e Podalírio
O atroz Marte sustém no campo Teucro.”
“Herói, torna o Menécio, que nos cumpre?
Que será? Com recado para Aquiles
Vou do Gerênio, dos Argeus custódio;
Mas deixar-te não quero ao desamparo.”
Ei-lo, ao colo o transporta e o põe na tenda,
Onde em couro taurino o deita o pajem;
Sacando-lhe a punhal a acerba farpa,
O cruor tetro lava, e machucada
Amargosa raiz à coxa aplica;
Veda o sangue, a dor calma, o golpe seca.* * *
NOTAS AO LIVRO XI
195—211. Em Tróia era permitido o casamento do sobrinho com a irmã de sua mãe: omitindo vários tradutores que Cisseu era o avô materno de Ifidamas, desaparece a indicação daquele costume. — Dizemos hoje férreo sono por morte; Homero dizia sono éreo ou brônzeo: a diferença vem de que os instrumentos de morte eram de bronze ou de certa liga de bronze, e posteriormente foram de ferro; sendo mui natural ser tirada a metáfora do metal dominante na guerra. M. Giguet nesta passagem trocou de metáfora; e Monti, pondo férreo sono, cometeu um repreensivel anacronismo.
224. Diz M. Giguet: armé d’une javeline impetueuse comme la tempête; porém Monti: Colla salda dagli Euri asta nudrida. Sigo a Monti, ou antes o original, cujo verdadeiro sentido está nestas palavras da interpretação latina: tenens ventis auctam et firmatam hastam.
261. Ioeidéa significa roxo ou escuro ou também cor de ferrugem: a interpretação latina o tomou no último, e otimamente a meu ver; porque o mar, quando a atmosfera se carrega de eletricidade, fica às vezes ferrugíneo. Não se deve perder esta observação de Homero; o qual não era somente um assombroso poeta, mas um sábio conhecedor dos fenômenos da natureza, quanto se podia ser em seu tempo.
336. O arco era às vezes de corno, e daqui vem que Homero e Virgílio amiúde ao arco chamam corno. Neste lugar deve-se conservar a palavra; porque, pretendendo-se meter a ridículo a Páris, isto melhor se consegue lembrando-lhe a vil matéria de que se servia na guerra. E parthenopipa creio que fica bem traduzido por rufião de moças; frase própria da ira de Diomedes.
413—495. Nem me agrada a comparação do valentíssimo Ulisses com um cervo tímido; nem ao depois, a do grande Ajax com um burro tardio, nem dos valorosos Troianos com fracos meninos: parecem-me não ser de bom gosto, por não se ajustarem com o objeto. Mas é admirável a pintura, que segue imediatamente à última comparação, de Ajax posto só entre os dois campos a aparar no seu largo pavês os tiros de todo o exército inimigo, desejosos de se lhe embeber nas carnes.
* * *
LIVRO XII
Enquanto cura a Eurípilo o Menécio,
Renhia-se o conflito; nem já fosso
Nem já larga trincheira às naus valia.
Feita sem hecatombes tal defensa
Da frota e presa opima, em ódio aos numes,
Longa dura não teve. Irado Aquiles,
Vivo Heitor, inda assente a régia Tróia,
Era em pé dos Aqueus o ingente muro;
Dos Frígios morta a flor, ao décimo ano
Destruída a cidade, e retirados
Os restantes Grajúgenas, as obras
Tratou com Febo de assolar Netuno.
O Careso, o Heptaporo, o Esepo, o Ródio,
O Reso, o Grânico, o divino Xanto,
O Símois, que revolto escudos e elmos
E heróis muitos rolara, quantos rios
Prorrompe do Ida ao mar, Apolo a todos
As fozes convertendo, nove dias
Juntos os remessou contra as muralhas;
Jove a chover mais presto as aluía;
De tridente Netuno os alicerces
De pedra e estacas de labor tamanho
Para o pego empuxava, até que ao longo
Do rápido Helesponto aplanou tudo:
Na areia litoral submerso o muro,
No álveo entrou cada rio, como dantes
Formoso a deslizar. Netuno e Apolo
Tinham de assim fazer: mas ígneo prélio
Então zurrava em torno dos reparos,
Traves das torres a soar batidas.
Flagelados por Jove se metiam
Nas cavas naus os Dânaos, receosos
Do artífice da fuga Heitor violento,
Que inda era um furacão. Se os lumes sevos
Leão vibra ou javardo a cães e à turba,
Amiudam-lhe em quadrado os caçadores
Tiros e tiros; bem que o mate o brio,
Não treme ou retrocede, gira e tenta,
E por onde assalteia as linhas cedem:
Assim desfecha Heitor, que anima os sócios
A transcursar o fosso. À borda hesitam
A nitrir os corcéis, que, largo e fundo,
Árduo era de saltar-se e intransitável:
Com precipícios em redor, por cima
Hirtos estrepes, do inimigo empeços,
Volúvel carro a custo o passaria;
Mas passá-lo os pedestres almejavam.
A Heitor avizinhou-se Polidamas:
“Temerário, e vós Teucros e aliados,
Impelirmos ao fosso os corredores!
Vendo não estais o perigoso passo,
Pontudos paus e por detrás o muro?
A cavalo vencê-lo é-nos defeso,
E naquela estreitura o dano é certo.
Se nos ama o Tonante e quer perdê-los,
Sem glória acabem já, da pátria longe;
Porém, se em novo ataque nos repelem,
Seremos nesse fosso despenhados,
Sem nos restar quem leve o anúncio a Tróia.
Ouvi-me pois: à borda os pajens fiquem
Os ginetes contendo, e a pé densados
Sigamos nós a Heitor; se é vinda aos Gregos
A luz funesta, relutar não podem.”
Aceito o justo aviso, Heitor em armas
Logo se apeia, e o mesmo os outros fazem;
Cada auriga os frisões retém mandado.
Formam-se em corpos cinco: ao de mais gente,
Mais duro e ansioso de romper os valos,
Heitor comanda e o celso Polidamas,
E também Cebrion, que Heitor escolhe
E a outrem menos bravo o coche entrega;
Ao segundo Alcatôo, Agenor, Páris;
Ao terceiro, os Priâmeos sábio Heleno
E divinal Deifobo, mais de Arisba
Ásio Hirtácio, que em nítidos cavalos
Das margens do Seleis ali viera;
Ao quarto, o egrégio Anquíseo, e os Antenórios
Hábil Arquéloco e pugnaz Acamas;
Ao quinto enfim, de ilustres coligados
Sarpédon, Glauco e Asteropeu mavórcio.
Eis os fortes que Heitor mais tinha em preço
Depois de si, fortíssimo de todos.
Num grupo, à sombra de bovinas tarjas,
Dão sobre os Dânaos, que encerrados criam,
Sem resistirem, nos escuros bojos.
A Polidamas Teucros e os mais chefes,
Menos o príncipe Ásio, obedeceram:
Insensato! Os corcéis (ruim fado o empuxa)
Não larga e às naus se envia; mas ovante
Não voltará seu coche a Ílion soberba;
Infensa o enreda a Parca e o vota à lança
De Idomeneu Deucálida. À sinistra,
Por onde à frota os équites Aquivos
Voltavam, trota, e abertas inda as portas
Acha de par em par e destrancadas,
Para Aqueus fugitivos recolherem.
Altivo o carro expede, e os seus dementes
Seguem-no a gritos, crendo abordo os Gregos;
Mas dois robustos Lápitas o empecem,
De Peritôo o filho Polipetes
O homicida Leonteu parelho a Marte:
Quais em montes carvalhos corpulentos,
Que, a chuvas renitindo e a ventanias,
Têm-se às grossas raízes penetrantes;
Eles, no braço e no valor fiados,
Às portas o grande Ásio esperam quedos.
Contra o muro a fremir, de escudos no alto,
Na trilha de Ásio vão, do filho Acamas,
De Enomao e Toom, Jameno e Orestes:
À exortação dos Lápitas acodem
Grevados Gregos, mas do assalto a vista
Fuga e alarido gera. Os dois rompentes
São feros javalis que, em brenha ouvindo
Bulha de gente e cães, de esguelha investem,
Quebram da selva e desarreigam troncos,
E até que um dardo os mate os queixos rangem:
Aos peitos seus, daqui dali ferido,
Ronca o fulgente bronze; afoutos pugnam
Em si, nas tropas que das torres chovem,
De naus e tendas em defesa, pedras.
Qual tufão, sacudindo opacas nuvens,
Lança em flocos a neve n’alma terra;
Assim das mãos Aquivas e Troianas
Manavam tiros, os calhaus zuniam,
Broquéis e elmos do choque estrepitavam.
Gemendo o Hirtácio rei, nas ancas bate,
A blasfemar: “Ó Júpiter, mentiste!
Não pensava que Dânaos todo o esforço
Das nossas mãos invictas sustentassem.
Quando em áspera toca nidificam
Fuscas vespas e abelhas, nunca deixam,
Porém tenazes em favor do enxame
Ferram-se aos crestadores: tais à entrada
Aqueles, bem que dois, só prisioneiros
Hão-de render-se ou mortos.” Surdo Jove
No ânimo guarda para Heitor a glória.
Nas outras portas outras pugnas fervem;
Mas narrar tudo, como um deus, não posso.
Em fogo rochas contra os muros voam:
Mestos é força que os Aqueus propugnem,
Mestos estão seus protetores numes.
Os Lápitas carregam. Polipetes,
Atalhando-lhe o ardor, pela viseira,
Cujo metal não veda a cúspide érea
De esmiolá-lo, a Dâmaso lanceia;
Pilon de igual maneira e Ormeno caem.
Furioso Leonteu, Mavórcio ramo,
Filho de Antímaco, ao talim de um bote
A Hipómaco traspassa; o gládio puxa,
Rábido pela turba, e ressupino
Deita por terra Antífate; uns sobre outros,
Vai prostrando a Menon, Jameno e Orestes.
Enquanto eles cadáveres desarmam,
Polidamas e Heitor mor cópia guiam
De ousados campeões, que anelam brecha
Abrir no muro e incendiar a frota.
Indo o fosso a transpor, à borda hesitam;
Porque à sestra águia altívola pairando,
Nas unhas traz cruento e palpitante
Vivo enorme dragão, não descuidoso
De morder contorcido o peito e o colo
Da ave roubaz, que em agra dor e aos guinchos
O larga em terra, e d’aura ao sopro adeja.
Do Egíaco o portento, o maculado
Réptil, assombra e assusta; e Polidamas
Vira-se para Heitor: “Heitor, meu voto
Costumas reprovar; mas é desdouro
De um cidadão, no campo ou na assembléia,
Servir o teu poder contra a verdade.
Franco serei: do assalto às naus cessemos.
Do ávido arrojo à esquerda a revocar-nos
Águia altaneira vivo e ensangüentado
Esse dragão deixou cair das unhas,
Sem levá-lo por cevo ao caro ninho:
Assim, bem que, envidando o extremo esforço,
Portas e muros aos Gregos arrombemos,
Pelo mesmo caminho à retirada
Nos forçarão das naus os defensores,
Com perda imensa. É como o interpretara
Áugur perito, e o povo obedecera.”
Minaz Heitor: “Pungente és, Polidamas;
Sabes tu que opinar melhor podias:
Se falas sério, a mente o Céu turvou-te.
Do Altitonante o aceno e mando esqueces,
E por aves guiar-me ali-espalmadas
Queres, das quais nem curo nem me importa,
Voem da destra para o sol e aurora,
Ou da sinistra para o ocaso e trevas.
Ouvir cumpre o senhor de homens e deuses:
Combater pela pátria, ótimo agouro!
Temes pugnar? Em torno à frota Argiva
Outros acabarão, não tu, covarde
Sem ímpeto e firmeza. Mas, se fora
Da ação te vejo, ou seduzindo a outrem,
Ao gume desta lança a vida expiras.”
Disse, e acomete; voz em grita, o seguem.
Do Ida o Fulminador, por dar-lhe a glória,
Tufão manda, que em nuvens de poeira
Afoga os vasos e amolenta os Gregos.
No esforço e no sinal firmes os Teucros,
Toda a muralha derrocar tentavam:
Os parapeitos e merlões demolem,
De alavancas pilares desmantelam,
Os principais das torres fundamentos,
Brecha esperando abrir. Mas não recuam
Inda os Aqueus; de tarjas premunidos,
Vão da ameia frechando os que a subiam.
De torre a torre os dois Ajax correndo,
Aos frouxos brando animam, duro increpam:
“Amigos, do mais fraco ao mais valente
Necessitamos na aflição que vedes;
Não cabe a todos ser no prélio exímios:
Sem temor de alaridos, exortai-vos;
Avante, a fuga é vil. Talvez o Olímpio
Rechaçá-los nos faça até seus muros.”
Isto excita e afervora. Em dia hiberno,
Quando aos homens despede o Fulgurante
Bastas lanças de gelo, eis calam ventos,
Constante em flocos neva, dealbando
Vértices, cumes, hortos, veigas, prados;
Mesmo encanece o mar no porto e praia,
Mas vaga assídua o branco véu desmancha
Com que Júpiter cobre a natureza:
De parte a parte, assim granizam pedras;
Burburinho e fragor no campo ecoam.
Mas não quebrara Heitor com seus Troianos
Portas e barras, se o prudente Padre
O seu bravo Sarpédon aos Grajúgenas,
Como um leão a touros, não lançasse.
Ao peito ênea rodela, onde hábil fabro
Dúcteis lâminas pulcras adaptara
De bois a denso espólio e de ouro as orlas,
Brande hastas duas. Quando o rei dos bosques
Faminto vaga em busca de carniça,
O guardado curral tenta animoso
Contra zagais alerta e bons rafeiros,
Nem sofre ser da empresa repelido,
Sem que roube carneiro ou dardo o fira:
É como o herói divino audaz empreende
Romper o muro e derribar trincheiras.
Eis de Hipóloco o filho assim perora:
“Glauco, por que na Lícia o primo assento,
Carnes e pleno o copo e as honras temos
De numes, e do Xanto à riba herdades,
Vasto ameno pomar, vinhedo e lavras?
É para hoje ocuparmos a vanguarda
Na ardente luta, a fim que um Lício diga:
— Nossos reis não debalde ovelhas gordas
Ou doce vinho logram; pois valentes
À testa nossa gloriosos marcham. —
Amigo, se esquivando ora esta guerra,
À velhice escapássemos e à morte,
Nem combatera eu mesmo, nem te instara
Pela fama a pugnar; mas dos mil transes
Letais ninguém se exime: eia, ganhemos
Ou demos a ganhar embora a palma.”
Glauco não se escusou. Da gente Lícia
À frente ao vê-los Menesteu Petides
A torre que defende ameaçando,
Estremeceu: procura alguém de roda
Que o auxilie, e os dois Ajax, no posto,
Avista insaciáveis de pelejas,
Com Teucro ao pé, da tenda há pouco vindo.
Era em vão seu bradar, que os céus troavam
De escudos e comados capacetes
Ao choque e estrépido, ao rumor das portas
Que batidas a um tempo restrugiam;
Logo a Toon: “Vai, nobre arauto, parte,
Chama, chama os Ajax, e acudam ambos;
Fero aqui tem de ser em breve o estrago;
Os Lícios cabos de furor provado
Em tanto encontro, sobre nós desfecham.
Se márcia lida o embarga, o Telamônio
Venha ao menos com Teucro arciperito.”
O arauto ao longo da muralha corre:
“A vós, Ajax, dos Gregos lorigados
Chefes de prol, Vos pede ajuda o filho
De Peteu o caro a Jove, ambos segui-me
Um momento sequer; em breve o estrago
Tem lá de ser maior, por onde assaltam
Os Lícios cabos de furor provado.
Se márcia lida o embarga, o Telamônio
Venha ao menos com Teucro arciperito.”
Ao de Oileu presto fala o companheiro:
“Ajax, tu e o robusto Licomedes
Excitai com firmeza o ardor Aquivo;
Vou socorrê-lo, e cá serei de volta,
Removido o perigo.” Disse, e marcha
Mais Teucro irmão paterno, e vai com ele
Pandion que de Teucro os arcos leva.
Na torre já, do muro atrás se postam
No instante em que da Lícia os reis e os cabos
A ameia em negro turbilhão trepavam:
Foi rijo o encontro, horríssono o tumulto.
No ardido Epicles, de Sarpédon sócio,
Estréia Ajax, lascando enorme cimo
De um dos merlões, que o jovem mais florente
Hoje com duas mãos nem levantara;
Alça o braço o mais alto, e o canto o elmo
De quatro cones fende e o crânio racha:
Da torre Epicles de mergulho tomba,
E a vida os ossos deixa. Teucro o pulso,
Onde o viu nu, frechou do Hipoloquides
Que o muro ia subindo: ele, cessando,
Saltou furtivo, aos olhos subtraiu-se
E às vaias dos Aqueus. Ausente Glauco,
Dói a Sarpédon, que não larga a pugna;
Segue e ao Testórida Alacmaon vulnera,
Despega a lança, e o triste cai de bruços;
Toa êneo vário arnês. Nervudos punhos
Deita aos merlões, e inteiro um traz consigo:
O muro é descoberto, é feita a brecha.
Eis Teucro e Ajax. De frecha em torno aos peitos
Alcança Teucro a lúcida correia
Do vasto escudo: ao filho ampara Jove;
Que ante as popas acabe não permite.
De um bote ao mesmo escudo Ajax repele-o:
Susta-se um pouco, mas não perde o fogo
O Lício herói, na glória esperançado;
Vira-se e clama: “Ó sócios, esquecei-vos
Da honra e intrepidez? Posso eu valente
Rasgar sozinho a brecha e abrir a estrada?
Vamos, das naus o ataque a todos cumpre.”
De pejo então os Lícios mais refervem
Rodeando o seu rei; dentro os Aquivos,
Na urgente pressa, as hostes corroboram:
Nem pode o esforço de uns ir mais avante,
Nem o de outros vedar o acesso ao muro.
Quando em campo comum seus marcos fixam,
De medida nas mãos, dois litigantes
O terreno disputam palmo a palmo:
Tal a ameia os separa. Aos peitos roncam
Harto o pavês, a tarja, a leve adarga:
Feridos pela frente, expiram muitos;
Ai do que mostra as costas e as desnuda!
Sevo bronze as traspassa e ao próprio escudo.
Torres e parapeito escorrem sangue,
Sem que ou Dânao repeda ou Lício avance.
Qual de honesta mulher, para que aos filhos,
Traga o duro salário, as conchas libram
O peso e as lãs, iguala-se a peleja,
Até que Jove a Heitor conceda a glória
De entrar primeiro o muro. A voz tonante
Ei-lo esforça: “Investi, briosos Teucros,
Muro em terra, e na frota a voraz chama.”
Na orelha a todos retiniu seu brado:
Remetem logo, ao parapeito sobem,
Lança nas mãos. Heitor pontuda e grossa
Pedra arrancou da verga de uma porta,
Que ora nem dois forçudos camponeses
Poderiam mover, sem carreá-la:
Por Jove aligeirada, ele a maneja,
Como simples tosão que em sua esquerda
Mal o ovelheiro sente; vai direito
Ao biforme portão de bastas pranchas,
Que muniam por dentro encruzilhadas
Barras duas e enorme fechadura;
Por não falhar o tiro, o herói de perto,
Alarga as pernas e nos pés se estriba;
Rechina o grave seixo; os gonzos parte;
Batentes e portais horrendo estralam;
Cedem barras, pranchões uns contra os outros
Se despedaçam. Pula Heitor, medonho
Como escuro bulcão; brande hastas duas,
Fulgura em bronze, os lumes lhe chamejam;
No ímpeto um deus somente o suspendera.
A transpor a trincheira instiga os Troas:
Quais a ameia superam, quais transcendem
As broncas portas. Em tropel os Gregos
Às naus se acolhem, num ruído imenso.* * *
NOTAS AO LIVRO XII
22. Lavor ou labor vem do latim labor; mas em português [há] diferença: lavor significa as mais das vezes uma obra artif[icial], é sempre trabalho penoso.
37. Digo eu — bem que o mate o brio —, tomando o dé do[?] Homero no sentido de posto que, como o fez Monti: no sen[?] ou porem, que é o usual, fica o lugar ininteligível. Creio [que] quer dizer que o leão ou o javali, ainda que morra ou se exp[?]te, não recua nem foge mas acomete com brio.
134—135. Prin g’n’è kataktamen né álónai, é interpreta[?] vis Homerica: “Antequam vel interficiantur vel capiantur[]raquo; [?]pretação latina diz assim; “Antequam vel interficiant alios [?]piantur.” A última explicação, adotada por M. Giguet, [?]pire a ser mais literal, não apresenta um sentido claro e n[?] a primeira com Monti. Rochefort, por fugir à dificuldade [?] passagem.
290. Homero, mais Virgilo, usam arcos no plural por [sin]gular, elegância própria do grego e do latim; mas aqui pa[rece] se deve conservar o plural; o pajem Pandion leva mais de um [?] possível de quebrar-se o que Teucro trazia nas mãos. Quant[?] não se importaram desta miudeza.
359. Alguns, não Monti que foi exatíssimo, omitiram [?]dade exprimida no texto pelas palavras Eu diabas com as p[?] e separadas, firmiter divaricatis cruribus stans, como diz o [?] latino; não refletiram que era uma circunstância muito [?] Heitor alargou as pernas para melhor firmar-se; ação nat[ural entre] os lutadores, para não serem facilmente derribados, costu[?] mesmo. Pode bem um tradutor, e até creio que é seu de[ver como] opinei em outro lugar, passar em silêncio epítetos em deu[?] dos, contanto que saiba escolher as ocasiões em que tais epí[tetos] acrescentem à situação; mas nunca deve pôr de parte a mai[?] [?]vacão do autor, se aspira à honra de ser fiel.
* * *
LIVRO XIII
Jove, Heitor já na praia, deixa aos Teucros
A angústia e o peso; aos Traces cavaleiros
Fúlgidos olhos volve, aos Hipomolgos
Glatófagos longevos, aos rompentes
Mísios, Ábios justíssimos dos homens;
Nem pensou que imortal algum viesse
Favorecer a Gregos ou Troianos.
Em não cega atalaia, do alto cume
Da Samotrácia umbrosa, contemplando
A guerra o Enosigeu, todo o Ida avista,
A Priâmea cidade e as naus atenta:
Ali do mar saíra, e dos vencidos
Graios com dó, se inflama contra Jove.
Desse alcantil baixando, o monte e a selva
Sob seus pés retremem; dá três passos,
E ao quarto Eges alcança, em cujos mares
Tem fundo áureo palácio indestrutível.
Entra, junge os erípedes fogosos
De crinas de ouro, de ouro o corpo arnesa,
De ouro o chicote apunha artificioso,
E monta ao coche, pelas ondas voa:
Conhecendo a seu rei, surdindo exultam
Cetáceos mil; a vaga alegre amaina;
A rapidez é tal que, sem molhar-se
O eixo de bronze, à frota em breve chegam.
Entre Imbro áspera e Tênedos, Netuno
Em ampla equórea gruta os brutos larga,
Para de ambrósio pasto alimentá-los,
E em peias insolúveis e inquebráveis
Áureas os prende, a fim que esperem quedos
Que do exército Aqueu seu dono torne.
Como incêndio ou procela, em sanha e urrando
A Heitor seguem os Troas, na esperança
De em suas naus exterminar os Gregos.
Mas o que abarca a terra, do áqueo pego
Estes veio animar; o vulto a Calcas
Toma e a voz indefessa, e mais abrasa
Os ardentes Ajax: “Ajax, mantende
O Aquivo alento, longe o frio medo.
Não temo alhures o inimigo ousado,
Bem que o muro passasse; hão-de contê-lo
Nossos heróis: de cá receio a fúria
De Heitor, que marcha como horrível chama,
E de filho de Júpiter blasona.
Um deus vos dê firmeza, e ânimo aos outros
Inspirai; que há de ser das naus repulso,
Embora o excite o mesmo Onipotente.”
Aqui toca-os Netuno com seu cetro,
E os fortalece e alesta-lhes os membros,
A mão lhes faz robusta e o pé ligeiro;
E abalou como açor, que as asas bate
E se despenha sobre fraca pomba.
Ajax de Oileu persente e ao sócio fala:
“Não é Calcas aquele, ó Telamônio,
Mas íncola do Olimpo que, do vate
Sob o semblante, propugnar nos manda:
É por detrás diverso e na pegada:
Fácil no andar se reconhece um nume.
Por combates meu peito mais palpita,
Pulsa-me o braço e o pé.” — Responde o amigo:
“Ora espontâneo a mão da lança ferra,
O ânimo cresce, à luta os pés me impelem
Só por só com o indômito Priâmeo.”
Enquanto alegres da peleja tratam,
O deus que os acendera, anima a outros,
Que extremos ante as naus do afã respiram;
Dor íntima os trabalha e os esmorece,
E ao ver que o muro escala a Teucra gente,
Lágrimas das pestanas lhes borbulham,
Crêem o exício infalível. Mas Netuno
Concita as Graias hostes; vem primeiro
Aos heróis Teucro e Antíloco e Deipiro,
Merion e Leuto, Peneleu e Toas,
E exclamou: “Que vergonha, ó flor dos jovens!
Em vós eu punha a salvação da armada:
Cessais de combater, e eis luz agora
Nosso dia supremo. Oh! Céus, com pasmo
Vejo incrível milagre, às naus chegarem
Fugazes Troas como fracos cervos,
Que errantes na floresta, são de pardos
Chacais e lobos, cevo: à força Aquiva
Dantes nem a arrostar se abalançavam;
Hoje em face das naus feros pelejam!
Do soberano é culpa, é dos soldados
Que, a despeito das ordens, refusando
O assalto repelir, matar se deixam.
Mas, se obrou mal no insulto ao grande Aquiles,
Toca-nos ao conflito nos furtarmos?
Sus, não persistem no erro as almas nobres:
Bravos dos bravos, onde o brio vosso?
Desculpo o imbele que recua e afrouxa;
Mas arde-me no peito essa moleza.
O pejo e a repreensão vos falem n’alma:
Cumulais nosso dano; o risco aumenta;
Ante as naus já corusca o herói Priâmeo;
Barras quebrou, despedaçou trincheiras.”
Assim Netuno. Aos dois Ajax rodeiam
Falanges tais, que Marte as aplaudira,
E a belígera Palas. Gente egrégia
A Heitor e os seus espera, escudo a escudo,
Lança a lança, elmo a elmo, rosto a rosto;
Flamejam confundidas as cimeiras
E undantes crinas, tão cerrados eram;
Vibram-se audazes freixos, vai travar-se
O acérrimo conflito. — Heitor o enceta,
Com densos batalhões acre rompendo.
Se, túrgida por chuvas, a torrente
Arruinador penedo arranca e rola
De pedregoso vértice, ele aos tombos
Com ímpeto incessante o bosque atroa,
Té que em planície estaca e desfalece:
Tal Heitor, que estender ao mar o estrago
Ia e destruir tudo, à vista acalma
De unidos batalhões; a dardo e espada
Contêm-lhe os Dânaos o furor pujante.
Rebatido repeda, e horrendo grita:
“Pugnazes Lícios, Dárdanos, Troianos,
Constância! não é longa a resistência:
De lança espero aos Gregos esse basto
Quadrado penetrar, se é que me inspira
De Juno o altíssono e potente esposo.”
Isto os robora. De rodela alçada,
O Priâmeo Deifobo ardido avança
Hasta fulgente Merion certeiro
Vibra, e Deifobo receando o bote,
No táureo escudo o apara, e ao pé da choupa
Rebenta o cabo; aos seus reverte iroso
O Grego herói, por ter falhado o golpe
E quebrar-se o arremesso; em busca de outro,
Que deixara na tenda, além do campo,
Corre; e crescendo fica o estrondo e a guerra.
Teucro o primeiro prostra bélico Ímbrio,
Geração de Mentor em corcéis rico:
Habitava em Pedeu, por mulher tendo
Medesicasta, Priameia espúria;
Mas, à nova da Grega instruta armada,
Ínclito em armas veio, e em casa o sogro
O honrava como a filho: o Telamônio
Júnior de pique sob a orelha o fere;
Sacado o pique, tomba como um freixo
Que, vistoso de longe em pino excelso,
Ao corte aêneo abate as folhas tenras;
Na queda as armas soam. Teucro ansioso
Quer despi-las, e Heitor um dardo esgrime,
Que ele esquiva, e aos peitos vai de Anfímaco,
Do Netúnio Cteato insigne prole,
De fresco vindo; ao baque o arnês murmura.
O elmo a desenlaçar-lhe Heitor se apressa;
De lança o impede Ajax, que não lhe ofende
O corpo horrente em bronze, mas do escudo
Passa-lhe a copa e intrépido o repulsa.
Heitor cede os cadáveres: de Atenas
Os divos chefes Menesteu e Estíquio
Vão carregando Anfímaco; impacientes
Os fogosos Ajax de Ímbrio se apossam:
Qual dois leões, que à densa moita levam
Alta do chão nos queixos uma cabra,
De cães de fila aos dentes arrancada,
Sustêm-no os dois guerreiros e o despojam.
Pela morte de Anfímaco irritado
O Oilíades o estronca, e em ar de bola
Joga à turba a cabeça, que rodando
Aos pés do mesmo Heitor cai na poeira.
Defunto o neto no hórrido conflito,
Parte Netuno irado ao campo Grego,
A maquinar dos Teucros a ruína;
Encontra o hasteiro Idomeneu, que, entregue
Aos médicos um sócio, no jarrete
Pouco há ferido e em braços carregado,
Vem da tenda saciar-se na batalha;
O Enosigeu lhe fala, na figura
De Toas Andremônio, que imperava
Toda a Pleurona e a celsa Calidona,
Do povo Etólio como um deus honrado:
“Príncipe dos Cretenses, onde os feros
E orgulhosa ameaça dos Aquivos?”
O conselheiro Idomeneu responde:
“Toas, nenhum varão, julgo eu, tem culpa,
Pois todos hoje denodados fomos:
Não há terror, desânimo ou frouxeza;
Capricho é do Supremo que os Aquivos
Longe da comum pátria inglórios morram.
Toas belaz, os tíbios sempre exortas;
Ora prossigas, e um por um despertes.”
Mas o que abala a terra: “Nem de Tróia
Saia mais, sim de cães ludíbrio seja,
Quem neste dia abandonar o prélio,
Anda; bem que só dois, já já, tardamos:
Presta dos fracos mesmo unida a força;
Mas nós com fortes pelejar sabemos.”
Torna à peleja o deus, e o rei na tenda
Se arma e hastis dois meneia: qual, vibrado
Pelo Satúrnio do fulgente Olimpo,
Lampeja o raio com que assusta os homens;
Tal no peito ao marchar o arnês brilhava.
Sai-lhe Merion seu pajem, que ia à tenda
Buscar um pique, e Idomeneu lhe fala:
“Veloz Merion Molides, caro amigo,
Por que deixaste o prélio? Estás ferido
E afligi-te algum dardo, ou vens por núncio?
Languir não quero aqui, pelejar quero.”
E o prudente Merion: “Se o hás, pedir-te,
Príncipe dos de Creta eriarnesados,
Venho um pique: no escudo o meu quebrou-se
Do cru Deifobo.” — Idomeneu replica:
“Se hastas queres, não uma, acharás vinte
Sacadas a vencidos: eu me gabo
De bater-me de perto; assim, da tenda
Luzem-me nas paredes piques, dardos,
E copados broquéis, lorigas, elmos.”
Então Merion: “Despojos tenho muitos
Na tenda e fusca nau, mas ficam longe.
Também no marte e ação, que ilustra os homens,
Sempre adiante, não deslembro a honra:
Talvez o ignore algum, mas julgo o sabes.”
“Sim, continua o herói, sei quanto vales;
Mas por que mo recordas? Por escolha,
Se estivéssemos ora de emboscada
(Onde o medo aparece, onde a coragem;
Onde o poltrão se encolhe, e gela e embaça,
E titubam-lhe os pés e os dentes fremem,
E pressago do mal dentro em seu peito
Descompassado o coração lateja;
Onde o forte nem treme nem descora,
Arde pelo combate e quedo o espera),
Quem teu vigor tachara ou tua audácia?
Talvez serás ferido na refrega,
Na nuca e dorso não, mas na arca e ventre,
E sempre entre os primeiros. Basta, e cessem
Estas jactâncias, que estranhar-nos podem;
Da minha tenda uma hasta rija toma.”
Celeríssimo o herói traz éreo pique,
E segue o rei por se bater bramindo.
Contra os Efiros ou briosos Flégias,
Quando Marte homicida vem da Trácia
Com seu filho o Terror, válido e ousado,
Que os mais firmes assusta, inexoráveis
A um dos partidos a vitória inclinam:
Em bronze coruscante assim procedem
Os cabos dois, e Merion começa:
“Deucálide, à sinistra investir queres,
Ou queres à direita, ou pelo centro?
Geral contenda, creio avexa os Dânaos.”
E Idomeneu: “No centro há defensores,
Os dois Ajax e o nosso archeiro
Teucro, inda a pé galhardo; e, bem que estrênuo
Seja Heitor, formidando e impetuoso,
Muito árduo lhe será vencer tais braços
E as naus incendiar, salvo se às popas
Darde o mesmo Satúrnio ardente facho:
Não temas que se dobre o Telamônio
A mortal que de Ceres coma os frutos,
A bronze violável e a penedos:
Nem ao rompe esquadrões sem-par Aquiles,
Com quem se mede, exceto na carreira.
Marchemos à sinistra, a ver em breve
Se a glória será nossa ou do inimigo.”
Disse e o márcio Merion põe-se a caminho,
De ponto em branco assoma; o rei seu fogo
Na turba acende, e junto às naus se travam.
Se em dia seco sibilantes ventos
Sublevam temporal, pulvérea nuvem
Levanta-se em remoinhos das estradas:
Assim mescla-se a lide; anseiam mútuos
Enterrar no contrário ou dardo ou seta.
Mortais farpas zunindo as carnes rasgam;
Deslumbra e olhos comprime o fulgor d’elmos,
De encontrados broquéis, de corsoletes
Recém-polidos: fora despiedoso
Quem não se entristecesse e ali folgasse.
Os de Saturno poderosos filhos
Discordes aos varões dor grave urdiam:
Júpiter, que o triunfo a Heitor prepara,
Não quer o Graio exício, quer de Tétis
Honrar a prole, o glorioso Aquiles;
Magoado, a furto o rei da salsa espuma
Surge a bem dos Grajúgenas vencidos,
E ira veemente contra o irmão concebe.
São ambos de um só sangue, mas primeiro
Foi Júpiter nascido e há mais ciência:
Às claras pois Netuno os não socorre,
Mas sob alheia forma os esporeia.
Os dois corda insolúvel e infrangível
Da atroz pendência pelos cabos tiram,
Que os joelhos enlaça e a muitos prostra.
Grisalho embora, inflama os companheiros
Idomeneu, que aterra e dá nos Teucros.
De Cabeso Otrioneu, da guerra à fama,
De fresco vindo, a Príamo pedia,
Sem dotá-la, a belíssima Cassandra,
Prometendo expulsar de Tróia os Gregos:
Sob a fé régia, a combater valente
Arrogante marchava, quando a lança
Reluz de Idomeneu, que ao ventre o encrava
Pela aênea loriga; ele baqueia,
E o Cresso ali blasona: “Se a palavra
Ao de Dardânia, Otrioneu, cumprires,
Dos mortais rei te aclamo: a filha sua
Te afiançou; nós chamaremos de Argos
Ao teu dispor do Atrida a mais formosa,
A expugnares conosco Ílion soberba.
Vem às naus assentar nos desposórios:
Sogros também iliberais não somos.”
Pela perna ei-lo o puxa; ultriz lhe ocorre
Ásio a pé, cujo tiro em mãos do auriga
Segue atrás respirando: ávido busca
Ferir a Idomeneu, que sob o mento
Lesto lhe embebe na garganta a choupa:
Qual, para náutico uso, cai no monte,
Por secure de artífice amolada,
Robre duro, alto pinho ou branco choupo;
Tal jaz ante seu coche, e estruge os dentes,
E de punhos agarra o pó sanguíneo.
O auriga de terror nem retrocede
Para escapar: o infatigável pique
De Antíloco lhe passa e a coira e o ventre:
Ele em vascas do assento precioso
Tomba e expira, e o magnânimo Nestório
Toca os ginetes para as Gregas filas.
De Asio em vingança a Idomeneu Deifobo
Dorido esgrime: Idomeneu previsto
Sob a rodela táurea e de êneas orlas,
De aptos manúbrios dois, se agacha todo;
A hasta por cima voa, e roça o escudo
Que árido ronca; não frustrâneo o bote
Pesado, por debaixo do diafragma
Do Hipáside Hipsenor de povos cabo,
Talha o fígado, os órgãos lhe descose.
Troa Deifobo sobremodo ovante:
“Asio inulto não morre: às portas mesmas
Do atro Plutão regozijar-se deve,
Pois lhe dei companheiro da jornada.”
A Antíloco mormente o gabo aflige;
Que, inda assim, do consócio não se olvida,
Mas acorrendo sob o escudo o ampara,
Té que em pranto Alastor e o de Équio filho
Mecisteu morto o amigo às naus carregam.
Sempre agro Idomeneu, cobrir deseja
De tenebrosa noite algum Troiano,
Ou de chofre acabar salvando os Gregos.
Vai-se a Alcatôo, de Esietes prole,
De Jove aluno, herói que na ampla Tróia
Para Hipodame Anquises escolhera,
Primogênita sua e mui prezada,
Prazer da augusta mãe, exemplo em casa
De préstimo e prudência e formosura:
Tendo-o Netuno a Idomeneu votado,
Lumes lhe ofusca, as plantas lhe ata e impede,
Que nem fugir nem declinar pudesse;
Qual coluna ou folhuda árvore esbelta
Recebe o golpe, que éreo arnês lhe frange,
Do gentil corpo seu defesa outrora;
Muge a couraça, estrepitoso tomba;
No coração tremente é fixa a lança,
E o palpitar extremo o conto vibra,
Té que o desarma o truculento Marte.
Sem termo altivo, Idomeneu troveja:
“Pouco há por um, Deifobo, te jactavas;
Por três, cuido, me cabe o gloriar-me.
Chega-te perto, provarás, demônio,
Como é de Jove a estirpe: o deus a Minos
Gerou de Creta abrigo; este, ao famoso
Deucalion; Deucalion gerou-me,
E à larga impero nos Minônios reinos.
Vim por teu mal, de Príamo e seu povo.”
Cala, e Deifobo ansioso cogitava
Se vá pedir auxílio a heróis Troianos,
Ou se acometa só; creu mais cordato
A Eneias ir, postado na ala extrema,
Desgostoso do rei, que o não tratava
Conforme a seu valor: “Príncipe Eneias,
Se te move o cadáver de um cunhado,
Que te criou menino, a defendê-lo
Vamos; do hasteiro Idomeneu foi morto.”
Comoto e em brasa, a Idomeneu procura,
Que não como criança a fuga toma;
É montês javali, que em ermo sítio
Audaz aguarda a gente e ouriça as cerdas,
E contra cães e caçadores pronto,
Os colmilhos aguça, em fogo os olhos.
Firme o real Cretense o ataque espera
Do Anquíseo impetuoso, e olhando em roda,
Chama Ascálafo, Antíloco, Deipiro,
Afareu, Merion, raios da guerra,
E presto brada: “Amigos, socorrei-me;
Temo o expedito herói na flor dos anos,
De extrema robustez, belaz, cruento.
Fosse eu, qual sou no brio, igual na idade,
Que um de nós ganharia ingente glória.”
Todos então num ânimo o rodeiam,
De escudo no ombro. Os seus concita Eneias,
Fitando a Páris, Agenor, Deifobo,
Chefes também; atrás marchava a tropa,
Qual anda após o aríete o rebanho,
Do pastor com prazer, do prado à fonte:
Ao séquito brilhante o herói jubila.
Ruem por Alcatôo e enrestam lanças;
Áspero o arnês ressoa aos fortes peitos,
Buscando-se entre as alas: mais se estremam
Os dois rivais de Marte, o Cresso e Eneias,
No afogo de embeber um no outro o bronze.
Primeiro a Idomeneu dardeja o Anquíseo:
O rei furta-se e balda o enorme golpe;
Tremula a cúspide érea, o chão profunda.
Salvo ele, de Enomau nos intestinos
Mete pelo vazio a letal farpa;
No pó resvala o triste e o solo aferra:
Idomeneu tirou-lhe o pique longo,
Não a armadura; os remessões lhe chovem.
Já frouxo, ir pelo seu nem mais podendo,
Nem lestes evadir-se a qualquer outro,
Fixo e tenaz peleja e a morte arreda,
Lento recua. Ao tardo herói Deifobo
Rancoroso desfecha hasta fulmínea,
Que se esgarra, e em Ascálafo, renovo
Do Eniálio, pelo úmero penetra;
Ele de palmas deu consigo em terra.
Do filho a queda ignora o deus violento;
Pois lá no Olimpo, numa nuvem de ouro,
Jove o retinha, e aos imortais vedava
Participar do acérrimo conflito.
Por Ascálafo o prélio se encruece.
O lúcido elmo rouba-lhe Deifobo:
Pula o márcio Merion, no punho o espeta;
Pontudo esse elmo escapa-lhe estrondando;
Qual abutre Merion de novo pula,
Saca e recobra o dardo e aos seus reverte.
Da horríssona tormenta o irmão Polites
Em braços leva aonde o coche belo
Atrás o pajem tem; gemente à casa
Transportam-no, e do punho escorre o sangue.
A ação prossegue, em tétrica alarida.
De Afareu Caletóride arrostante
Lanceia a gola Eneias: ele inclina
Da outra parte a cabeça, o escudo e o casco;
Cerca-o morte voraz, Toon dá costas;
Ao percebê-lo, Antíloco lhe fende
Veia que a nuca pelo dorso corre;
Toon supino aos Teucros tende as palmas:
O Nestório, esguardando-se, o desarma,
Bem que a tropa lhe bata o vário escudo;
Mas não lhe ofende a carne éreo chuveiro,
Que o salva o Enosigeu de irosos tiros.
Nem larga o posto; inquieto brande a lança,
Ou de longe ou de perto a ferir prestes.
Adamas, filho de Asio, que o pressente,
Prega-lhe a sua no broquel em cheio;
O mesmo azul Netuno o golpe esfria;
Qual se fosse combusta, a frágil haste
Meia fica pregada e meia em terra.
Aos seus vai-se acolher: veloz, de encontro,
Fisga-o Merion por entre o umbigo e o púbis,
Ferida a mais fatal que inflige Marte;
Segue do bote o impulso, a contorcer-se
Bem como o boi laçado que os vaqueiros
Trazem do monte à força; estrebuchando
Breve palpita, que do corpo o Dânao
Saca-lhe a ponta, em sono o imerge eterno.
Com seu Trácio espadão talha a Deipiro
Heleno a fonte, e roto o casco rola
Aos pés dos Gregos, um dos quais o apanha;
Nos olhos se lhe espalha escura noite.
Magoado assalta Menelau valente
O heróico Heleno, que seu arco atesa;
Um de lança, um de seta, ambos remetem.
Aos peitos voa a seta, e é repulsada
Pela couraça: qual na eira ervanços
E negras favas, que estridentes sopros
Ao ventejar atiram pelos ares,
A acerba frecha da armadura salta.
O bravo Atrida à mão que o arco tinha
Sacode a lança, e a lança a mão lhe crava
No arco brunido: à sombra dos seus Teucros
Volta, e na mão pendente arrasta o freixo;
Que Agenor bom despega, e a chaga envolve
Na atadura de lã que havia o pajem.
Direito ao vencedor marcha Pisandro;
Funesta sorte o leva a ser domado
Por ti, sublime rei. Já cara a cara,
Do Atrida a lança aberra; a de Pisandro
Se lhe fixa ao broquel, e estrala a ponta
Nas lâminas de bronze. O Teucro ovante
N’alma se rega; mas de espada o Grego
Claviargêntea acomete; sob o escudo
O outro secure primorosa toma
De oliagíneo cabo e terso e longo:
Mais se encarniçam. No cocar eqüino
Bate a secure; corta a espada a fronte
Sobre o nariz e os ossos lhe espedaça:
Em sangue aos pés derramam-se-lhe os olhos,
Cumbo cai; Menelau lhe calca os peitos,
Despe as armas ao morto, a gloriar-se:
“Sereis assim repulsos com pujança,
Sequiosos fedífragos Troianos.
Não basta, cães, o agravo e a nódoa minha;
Do hospitaleiro Jove altitonante,
Que Tróia há-de assolar-vos, sem receio,
Por mim não provocados, me roubastes
Riquezas e a mulher que esposei virgem,
Por quem, traidores, acolhidos fostes!
Não contentes, às naus quereis pôr fogo.
Matar Gregos heróis! Pois incitados
Inda havemos no marte escarmentar-vos.
Tudo isto vem de ti, que em siso, dizem,
Vences, padre supremo, homens e deuses;
Pois ora galardoas a aleivosos
Troianos, que só folgam de injustiças,
De prélios e ímpia guerra insaciáveis.
Do sono todos e do amor se fartam,
Como de airosa dança e canto ameno,
Mais suaves prazeres que as batalhas:
Eles nunca de estragos se aborrecem.”
Nisto, o cruento espólio entrega aos sócios,
Entre os chefes primeiros se mistura.
Sai-lhe o filho do régio Pilemenes
Harpelion, que o pai seguira a Tróia,
E à pátria não tornou: do Atrida o escudo
Fere de hasta, que amolga em êneas chapas,
Vai recolher-se, em torno olhando cauto;
Merion de frecha a nádega direita
Lhe alcança, e a frecha por debaixo do osso
Lhe atravessa a bexiga: em mãos dos sócios
A alma exalando, pelo pó se torce
Como um verme, e atro sangue a terra banha.
Curam dele os briosos Paflagônios,
Levam-no em carro a Ílio; o pai com estes
Ia chorando o filho não vingado.
Furente Páris, que hospedava o morto
E a muitos Paflagônios, seta expede
Ao Coríntio Euquenor possante e forte,
Que embarcou já ciente do seu fado:
Políido pai lhe disse, vate egrégio,
Que de mal grave em casa morreria,
Ou junto à Graia frota a mãos Troianas.
Veio, por evitar castigo e opróbrio,
Do tetro morbo a dor; mas sob a orelha
Dá-lhe a seta no queixo, os laxos membros
Desata, e o cerca de hórrida caligem.
Em fogo arde o conflito; e Heitor ignora
Que à sestra os seus perecem, que a vitória
Os Dânaos vão ganhar: tanto os abrasa,
Tanto os protege o Enosigeu Netuno.
Persiste às portas, que assaltou por entre
Eriadargadas hostes, e onde em seco
Protesilau e Ajax as popas tinham;
Lá se abaixava o muro, e mais renhido
Peões e cavaleiros combatiam:
Jônios de longas túnicas, Beócios,
Lócrios, Ftios, Epeus, das naus propugnam;
Mas rebater o flâmeo Heitor não podem.
Na ala primeira Menesteu Petides
A flor de Atenas rege; a outros Fidas
E Estíquio e Bias forte; os Epeus claros
Manda o Filides Meges, e Ânfio e Drácio;
Medon e o pé-veloz Meneptolemo,
Os Ftios: é Medon bastardo filho
De Oileu e irmão de Ajax, e o da madrasta
Eriópide havendo assassinado,
Longe da pátria em Fílace habitava;
Do Filácide Ificlo o outro é prole.
À frente ambos dos Ftios belicosos,
As naus entre