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História
Heródoto (484 A.C. - 425 A.C.)

Traduzido do grego por
Pierre Henri Larcher (1726–1812)

Fontes digitais desta edição
Digitalização do livro em papel
Volumes XXIII e XXIV
Clássicos Jackson
W. M. Jackson Inc.,Rio, 1950
Versão para o português de
J. Brito Broca

Les Deux Terres
2terres.hautesavoie.net
site consacré à l'ÉGYPTOLOGIE
com o texto integral de Larcher: Hérodote Histoire tome I et II, Charpentier, Paris, 1850.

L'Antiquité Grecque et Latine
de Philippe Remacle, François-Dominique Fournier, J. P. Murcia e Thierry Vebr
[Texte Numérisé et mis en page para François-Dominique Fournier]
remacle.org

Perseus Digital Library - Tufts University
www.perseus.tufts.edu

Los Nueve Libros de la Historia
Tradução do Pe. Bartolomé Pou, S. J. (1727-1802)
Ed. eBooksBrasil - Agosto 2006

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eBooksBrasil

Trechos colocados entre [ ] correpondem a trechos ininteligíveis na fonte digitalizada completados com a tradução em espanhol

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Léonidas aux Thermopyles
Jacques-Louis David (1748-1825)
Musée du Louvre, Paris

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eBooksBrasil
USO NÃO COMERCIAL * VEDADO USO COMERCIAL
© 2006 — Heródoto


 

ÍNDICE

Nota Editorial — eBooksBrasil
Nota do Editor Francês
Vida de Heródoto — Larcher
Plano da História de Heródoto — Larcher
Sobre Larcher

História — Heródoto

LIVRO I — CLIO

Os Persas — Os Medos — Babilônia — Creso — Candolo e Gigés — Semíramis — Tómiris

LIVRO II - EUTERPE

Egito — Ísis — O Oráculo de Dodona — Sesóstris — Rampsinito — Heliópolis — Elefantina — O Nilo — Embalsamamentos — Sepulturas — Os doze reis — Psamético — Vegos — Psámis — Ápries — Amásis

LIVRO III - TÁLIA

Egito — A Pérsia — Cambises — Mênfis — O boi Ápis — A Etiópia — Polícrates — Amásis — O falso Esmérdis — Dario — O cerco de Babilônia — Zópiro

LIVRO IV - MELPÔMENE

A Cítia — Hércules — Os Grifãos — Os Hiperbóreos — Descrição da Terra — O povo de Cílax — Costumes dos Citas — Anacársis — A expedição de Dario — O Ponto Euxino — As Amazonas — Os Trácios — Os Getas — A Líbia — O culto do Sol

LIVRO V - TERPSÍCORE

Continuação da história de Dario — Atenas e Esparta — Os Pisistrátidas — Cleómenes — As Estátuas de Egina — Origem da inimizade entre os Atenienses e os Eginetas — Cípselo, tirano de Corinto — Hípias — Tomada de Sardes pelos Iônios e pelos Atenienses — Dario lança uma flecha contra o céu, pedindo aos deuses que o vinguem dos Atenienses — Todas as cidades do Helesponto, da Iônia e da Eólia submetidas pelos Persas, etc.

LIVRO VI - ÉRATO

Dario apodera-se de Mileto — O poeta Frinico — Dario manda pedir terra e água aos povos da Grécia — Prerrogativas dos reis de Esparta — Tomada de Erétria pelos Persas — Cleómenes — Sua morte — Os Persas atacam Atenas — A batalha de Maratona — Milcíades — Os Espartanos só chegam depois da vitória — Milcíades diante de Paros — O malogro de sua expedição — Condenado a uma multa — Os Pelasgos — Lemnos

LIVRO VII - POLÍMNIA

A morte de Dario — Xerxes sucede-o no trono — Submete o Egito — Quer vingar-se dos Gregos e fazer da terra um só império — Reúne um conselho — Resolvida a guerra contra a Grécia — Manda perfurar o monte Atos — Pítio — Uma ponte lançada sobre o mar — O exército desfila diante de Xerxes durante sete dias e sete noites sem intervalo — Enumeração à maneira de Homero — Passando em revista a frota — Xerxes consulta Demarato — O arauto de Esparta diante de Xerxes — Temístocles — Embaixada a Gélon — As Termópilas — Leônidas — Dieneces — Inscrição nas Termópilas

LIVRO VIII - URÂNIA

Temístocles — Combate naval perto de Artemísio — Os gregos se retiram — Os persas atingidos por um raio perto do templo de Delfos — A batalha naval de Salamina — Xerxes assiste à batalha — Aristides na frota — A coragem de Artemisa — Discurso de Mardônio a Xerxes — Desastre dos persas — Temístocles detém-se na perseguição ao inimigo — Xerxes ganha o Helesponto e retira-se para a Ásia — Mardônio permanece à frente de trezentos mil homens — Atenas e Esparta repelem as propostas de paz

LIVRO IX - CALÍOPE

Mardônio apodera-se de Atenas pela segunda vez — Os Atenienses enviam embaixadores a Esparta — Lícidas é torturado — Morte de Masístio, general persa — Tisâmeno torna-se cidadão de Esparta — Batalha de Plateia — Morte de Mardônio — Saque do acampamento — Os gregos marcham contra Tebas para vingar-se da traição dos seus habitantes — Batalha naval de Mícale, ganha no mesmo dia da batalha de Plateia — Cerco de Sesto — Fuga dos persas — Artaíctes condenado à morte

Notas


 

Nota Editorial

Começo com uma advertência, dirigida principalmente aos estudandes de História: esta edição não passa de um aperitivo. O verdadeiro repasto está na edição francesa, integral, que pode ser encontrada na web. Lá, sim, estão todas as notas da edição original de Larcher, não incluídas nem aqui, nem na edição digitalizada, base desta — naquela, com certeza, por economia de papel; nesta, por preguiça mesmo.

Para me redimir um pouco deste pecado capital, cá foram inclusos a Nota do Editor de 1842, a “A Vida de Heródoto” e o “Plano da História de Heródoto” com que Lacher iniciava sua tradução.

Algumas discrepâncias entre a edição de Lacher e a versão para o português da fonte digitalizada foram dirimidas com a consulta ao texto original da tradução de Lacher “en ligne” e com o original, original mesmo, disponível em Perseus. Bons tempos em que, no antigo Clássico, em colégios selecionados (no Culto à Ciência em Campinas, p.ex.) se podia ter umas tinturas de grego! Mas agora, os que virão, terão Filosofia e Ciências Sociais. Pelo que vale...

Sobre a importância de se beber nas fontes, remeto o eventual leitor à discussão, sobre as traduções, travada na Conferência de Levi Carneiro, em 1938, que pode ser encontrada nas estantes virtuais: “O Problema do Livro Nacional - Levi Carneiro”.

Este livro, como outros recém colocados na web, faz parte de uma fornada de eBooks feitos para gáudio próprio, como parte de merecidas releituras. Vai-se lendo, estudando, consultando... e formatando. Rende! Mas é provável que tenham passados muitos gatos; perdoem-lhes os miados.

Boa leitura!

Teotonio Simões
eBooksBrasil


 

HISTÓRIA

[imagem]

HERÓDOTO

(484 A.C. - 425 A.C.)
Traduzido do grego por
Pierre Henri Larcher
(1726 D.C. - 1812 D.C.)


 

Nota do Editor

Mais de meio século escoou desde a publicação do Heródoto de Larcher, e durante este meio século o sucesso desta obra não cessou de crescer. É hoje um livro clássico, e os próprios sábios lhe deram o justo lugar, assinalando-o como o monumento durável de um grande trabalho que absorveu a vida inteira de seu autor.

Quando Larcher publicou esta tradução, creu necessário juntar-lhe um grande número de notas tiradas das fontes as mais sábias, e úteis seja para o estabelecimento do texto, seja para a inteligência dos fatos. Estas notas encheram quatro volumes de sua primeira edição, e seis de sua segunda. Era muito, era demais, sem dúvida; e entretanto Larcher preparava uma terceira edição, que vimos, à qual juntara um bom número de novas notas.

Acusaram-no com razão deste luxo desenfreado de erudição; e Volney, sábio notável, e ademais homem de gosto, expressou o desejo que uma mão amiga se encarregasse de desbastar este cipoal da ciência, sob o qual a árvore vigorosa de Heródoto ficava como que embalsamada. O objetivo seria eclarar e não sufocar o historiador.

É este trabalho que oferecemos hoje ao público; tentámos realizar o voto de Volney, de suprimir a erudição inútil, acolher os esclarecimentos indispensáveis, e reunir em um muito pequeno número de notas, emprestadas de outros comentadores, tudo o que pudesse facilitar o estudo do pai da história, ou, como o chamava o douto Sainte-Croix, do grande rival de Homero.

L. AIMÉ-MARTIN.
26 de maio de 1842


 

Vida de Heródoto

por Larcher

 

Heródoto, nascido em Halicarnasso no ano de 4230 do período juliano, 484 anos antes de nossa era, era Dório de extração, ilustre de nascimento. Teve por pai Lixas e por mãe Drio, que tinham um lugar de destaque entre seus concidadãos. Paniasis, poeta célebre, ao qual alguns escritores adjudicam o primeiro posto após Homero, embora outros o coloquem após Hesíodo e Antímaco, era seu tio por parte de pai ou de mãe; nada há de certo a respeito.

Paniasis nasceu, se déssemos crédito a Suidas, na 78a. olimpíada, isto é, no ano 4247 do período juliano, 407 anos antes da era vulgar. Não posso compartilhar esta opinião, porque se seguiria que Heródoto, seu sobrinho, seria 17 anos mais velho do que ele. Não ignoro que há tios mais jovens que seus sobrinhos: tenho exemplos.

Também insisto menos nesta razão do que sobre o tempo em que faleceu Paniasis, embora não possa ser fixada de maneira certa. Mas sabemos que Ligdamis, tirano de Halicarnasso, foi derrubado no anos 4257 do período juliano, 457 anos antes de nossa era. Ter-se-ia pois que fazer morrer este poeta no mais tardar em 4.256 do período juliano, 458 anos antes da era vulgar.

Se a asserção de Suidas fosse verdadeira, Paniasis teria no máximo 9 anos quando faleceu. Como, com esta idade, poderia ter feito sombra ao tirano? como poderia ter composto estas obras que lhe deram tão grande reputação? Prefiro, por esta razão, colocar seu nascimento na 68a. olimpíada. Teria pois 50 anos quando Ligdamis o mandou matar, e teria tido tempo para compor este grande número de obras que o imortalizaram. Ademais, o próprio Suidas admite que há autores que o fazem mais velho. Paniasis era conhecido pelo Heracleiade e pelo Iônicos. O Heracleiade era um poema heróico em honra a Hércules; nele o poeta celebrava as conquistas deste herói, em catorze livros contendo nove mil versos.

Diversos escritores o mencionam com distinção. Isaac Tzetzès em seus Prolegômenos sobre a Cassanda de Licofron, Proclus em seu Chrestomatia, Suidas na palavra Paniasis, Pausanias, que até lhe cita dois versos, e o escoliasta de Píndaro, que menciona um do terceiro livro. Quintiliano, bom juiz nestas questões, nos diz que ele não igualava em eloqüência nem Hesíodo nem Antimaco, mas que ultrapassava o primeiro pela riqueza de seu tema, e o segundo pela disposição que lhe dera. Denis de Halicarnado, que não se destacava menos na crítica do que na história, nos traz também o mesmo juízo. Atenho-me a estas autoridades, às quais poderia juntar as de diversos outros autores, tais como Apolodoro, santo Clemente de Alexandria, Ateneu, etc.

O mesmo Paniasis tinha escrito em versos pentâmetros um poema sobre Codrus, Neleu e a colônia iônia, que se chamava Os Iônicos. Este curioso poema, do qual nunca seria demais lamentar a perda, porque entrava em uma infinidade de detalhes históricos sobre esta colônia, compreendia sete mil versos. Só nos restou deste poeta dois pequenos pedaços de versos com um fragmento, em que Paniasis celebra o vinho e os prazeres da mesa tomados com moderação. Stobeu e Ateneu os conservaram para nós. Podemos encontrá-los em diversas coletâneas, e muito mais corretamente na dos poetas gnômicos, publicada em 1784 em Strasburgo por Brunck, crítico cheio de gosto e de sagacidade. Há ainda cinco versos deste poeta que se podem ler em Étienne de Bizâncio, na palavra TremÛlh. Suspeito que são do Heracleida. Brunck não julgou apropriado lhes dar um lugar em sua coletânea.

Nestes belos séculos da Grécia, tomava-se um cuidado particular na educação da juventude, formando-lhes o coração, cultivando-lhes o espírito. É de se presumir que a educação de Heródoto não tenha sido negligenciada, embora ignoremos quais foram seus mestres. Não podemos sequer duvidar, quando o vemos empreender em uma idade pouco avançada longas e penosas viagens, para aperfeiçoar seus conhecimentos e para adquirir novos.

A descrição da Ásia por Decideu, a história de Lídia, de Xantus, as da Pérsia de Helanicos de Lesbos e Charon de Lampsaco, gozavam então a mais alta reputação. Estas obras agradáveis, interessantes, foram sem dúvida devoradas por Heródoto nesta idade em que se é ávido por conhecimentos, e lhe inspiraram o vívido desejo de percorrer os países cujas descrições o haviam encantado. Não era contudo uma vaga curiosidade que o levava a viajar; ele se propunha uma finalidade mais nobre, a de escrever história. O sucesso dos historiadores que o haviam precedido não o amedrontou; pelo contrário, serviu para inflamá-lo; e embora Helanico de Lesbos e Charon de Lampsaco tivessem tratado em parte do mesmo assunto, longe de ser desencorajado, ele ousou lutar contra eles, e não se esforçou em vão em superá-los. Ele se propunha escrever, não a história da Pérsia, mas somente a da guerra que os Gregos tiveram que sustentar contra os Persas. Este assunto, simples na aparência, lhe forneceu a ocasião de fazer entrar no mesmo quadro a história da maioria dos povos com que os Gregos tinham relações íntimas, ou que lhes importava conhecer. Sentia que, para executar este plano, deveria recolher materiais, e adquirir um exato conhecimento dos países dos quais se propunha fazer a descrição. Foi com isto em vista que empreendeu suas viagens, que percorreu a Grécia inteira, o Épiro, a Macedônia, a Trácia; e, segundo seu próprio testemunho, não se pode duvidar que tenha passado da Trácia aos Citas, para além de Íster e do Boristeno. Por toda parte, observou com olhar curioso os sítios, as distâncias dos lugares, as produções dos países, os usos, os costumes, a religião dos povos; fuçou em seus arquivos e em suas inscrições os fatos importantes, a seqüência dos reis, as genealogias dos personagens ilustres; e por toda parte ligou-se aos homens mais instruídos, e dedicou-se a consultá-los em todas as ocasiões. Talvez tenha se contentado nesta primeira viagem em visitar a Grécia, e que, em seguida rumou para o Egito, passando daí para a Ásia na Cólcida, à Cítia, à Trácia, à Macedônia, retornando a Grécia pelo Épiro. Seja como for, o Egito, que mesmo hoje em dia ainda desperta o espanto e a admiração dos viajantes inteligentes, não poderia deixar de entrar no plano de Heródoto. Hecateu já havia viajado para ali antes dele e, por todas as aparências, tinha feito uma descrição do Egito. Porfírio pretende que este historiador tenha se apropriado, do Viagem da Ásia deste escritor, da descrição da fênix e do hipopótamo, com a caça do crocodilo, e que apenas fez algumas mudanças; mas o testemunho de Porfírio é mais que suspeito, pois Calímaco atribui esta Viagem da Ásia a um escritor obscuro. Acrescento, com Walckenaër, que se o historiador tivesse sido culpado deste plágio, Plutarco, que compôs um tratado contra ele, não teria deixado de denunciá-lo. Não temos nenhum escritor, seja antigo, seja moderno, que tenha dado deste país uma descrição tão exata e também curiosa. Ele nos faz conhecer sua geografia com uma exatidão que nem sempre tiveram geógrafos de profissão, as produções do país, os costumes, os usos e a religião de seus habitantes, e a história dos últimos príncipes antes da conquista dos Persas, com particuliaridades interessantes sobre esta conquista, que teriam sido para sempre perdidas que ele não as tivesse transmitido à posteridade.

Se crêssemos que nosso autor nada mais fez que recolher rumores populares, erraríamos grosseiramente. Não saberíamos imaginar os cuidados e as penas que tomou para se instruir, e para não apresentar a seus leitores nada além do certo. Suas conferências com os padres do Egito, a familiaridade que desfrutou entre eles, as precauções que tomou para que não lhe impusessem nada, são garantias seguras do que ele afirma. Um viajante menos circunspecto teria se contentado com o testemunho dos sacerdotes estabelecidos em Mênfis. Mas este testemunho, respeitável sem dúvida, não lhe pareceu suficiente. Foi a Heliópolis, e daí para Tebas, a fim de assegurar-se, por conta própria, da veracidade do que lhe haviam dito os sacerdotes de Mênfis. Consultou os colégios de sacerdotes estabelecidos nestas duas grandes cidades, que eram os depositários de todos os conhecimentos; e só depois de achá-los perfeitamente conformes com os sacerdotes de Mênfis acreditou-se autorizado a dar os resultados de seus encontros.

A viagem que Heródoto fez a Tiro nos oferece outro exemplo não menos patente da exatidão de suas pesquisas. Soubera no Egito que Hércules era um dos doze deuses nascidos dos oito mais antigos, e que estes doze deuses tinham reinado no Egito 17.000 anos antes do reino de Amasis. Tal assertiva seria bem capaz de confundir todas as idéias de um Grego que não conhecesse outro Hércules que o de sua nação, cujo nascimento não datava senão do ano 1.384 antes de nossa era, como o provei em meu Essai de chronologie, capítulo XIII. Como esta assertiva estava abalizada pelos livros sagrados e pelo testemunho unânime dos sacerdotes, ele não podia ou não ousava contestá-la. Entretanto, como queria conseguir a propósito uma certeza maior, se fosse possível, foi a Tiro para ver aí um templo de Hércules que se dizia ser muito antigo. Contaram-lhe nesta cidade que este templo fora erigido há 2.300 anos. Viu também em Tiro um templo de Hércules sobrenomeado Tasiano. A curiosidade o levou a Thasos, onde encontrou um templo deste deus, construído pelos Fenícios que, correndo os mares sob o pretexto de procurar Europa, fundaram uma colônia nesta ilha, cinco gerações antes do nascimento do filho de Alcmene. Ficou então convencido que o Hércules egípcio erá muito diferente do filho de Anfitrião; e ficou tão persuadido que o primeiro era um deus e o outro um herói, que diz lhe parecerem agir sabiamente os Gregos que ofereciam a um Hércules, que chamavam de Olímpico, sacrifícios como a um imortal, e que faziam ao outro oferendas como a um herói.

Suas excursões na Líbia e na Cirenaica precedem a viagem a Tiro. A descrição exata da Líbia, desde as fronteiras do Egito até o promontório Soloeis, hoje cabo Spartel, conforma-se em tudo ao que nos dizem os viajantes mais estimados, e o doutor Shaw em particular, não permitindo dúvida de que tenha visto este país por si mesmo. Somos ainda tentados a crer que tenha estado em Cartago; seus encontros com um grande número de cartaginenses autorizam esta opinião. Ele voltou sem dúvida pela mesma rota ao Egito, e daí enfim passou a Tiro, como já disse.

Após alguma estada nesta soberba cidade, visitou a Palestina, onde viu as colônias que Sesostris aí tinha feito edificar; e sobre estas colônias salientou o emblema que caracterizava a lassidão de seus habitantes. Daí foi à Babilônia, que era então a cidade mais magnífica e a mais opulenta que existia no mundo. Sei que muitas pessoas esclarecidas, e des Vignoles entre outras, duvidam que Heródoto tenha viajado à Assíria. Não posso responder melhor a este respeitável sábio que me servindo dos próprios termos de um outro sábio que não o é menos do que aquele, isto é, o presidente Boudhier. Eis como ele se exprime: “Embora as passagens de Heródoto que fizeram muitos crerem que ele tenha realmente estado na Babilônia não sejam muito claras, é quase impossível duvidar que ele não a tenha visto, se nos dermos ao trabalho de examinar a descrição exata que faz nestas passagens de todas as singularidades desta grande cidade e de seus habitantes. Só mesmo um testemunho ocular poderia falar com tanta precisão sobretudo em um tempo em que nenhum outro grego havia escrito a respeito. E mais, atente-se à maneira pela qual fala de uma estátua de ouro maciço de Júpiter Belus, que estava na Babilônia, e que tinha doze côvados de altura. Ao se dizer que ele não a viu, porque o rei Xerxes a havia feito transportar, não é insinuar tacitamente que ele teria visto todas as outras coisas que disse ter visto nesta grande cidade? É forçoso também reconhecer por diversas outras passagens de sua obra, que ele tinha conferenciado nestes lugares com Babilônios e Persas sobre o que dizia respeito a sua religião e sua história. Além do mais, não é admissível que um homem que tinha percorrido tantos países diferentes para se instruir de tudo o que pudesse lhes concernir, tivesse negligenciado de ir ver uma cidade que passava por ser então a mais bela do mundo, e onde poderia recolher as memórias mais seguras para a história que preparava da alta Ásia, sobretudo tendo estado tão perto dela.“

A Cólcida foi o último país da Ásia que percorreu. Queria assegurar-se pessoalmente se os Cólcidos eram de origem egípcia, como lhe tinham dito no Egito, e se eram descendentes de uma parte do exército de Sesostris que tinha se estabelecido neste país. Da Cólcida passou pelos Citas e os Getos, daí à Trácia, da Trácia à Macedônia; e enfim voltou à Grécia pelo Épiro. Se não tivesse conhecido tão bem todos estes diferentes países, como poderia ter dado uma descrição exata, falar com clareza da expedição de Dario entre os Citas, e da de Xerxes à Grécia?

De volta à sua pátria, aí não se demorou. Ligdamis, filho de Pisindelis, e neto de Artemisa, que tinha se distinguido na jornada de Salamina, era o tirano. E havia mandado matar Paniasis, tio de nosso historiador. Heródoto, não crendo sua vida em segurança sob um governo suspeitoso e cruel, buscou asilo em Samos. Foi neste doce retiro que colocou em ordem o material que tinha trazido, que fez o plano de sua historia e compôs os primeiros livros. A tranqüilidade e os desvelos de que desfrutava não extinguiram contudo nele o gosto da liberdade. Este gosto, inato por assim dizer nos Gregos, unido ao poderoso desejo de vingança, inspirou-lhe o desejo de combater Ligdamis. Com isso em vista ligou-se aos descontentes, e sobretudo com os amigos da liberdade. Quando sentiu a hora azada, reapareceu de súbito em Halicarnasso; e, colocando-se à frente dos conjurados, bateu o tirano. Esta ação generosa não teve outra recompensa que a mais negra ingratidão. Era preciso estabelecer uma forma de governo que conservasse a igualdade de todos os cidadãos, este direito precioso que todos os homens trazem de nascença. Mas isso não era possível em uma cidade dividida em facções, onde os cidadãos imaginavam ter, por seu nascimento e por suas riquezas, o privilégio de governar, e excluir de honras a classe média, ou mesmo de vexá-la. A aristocracia, a pior espécie de todos os governos, era seu ídolo favorito. Não fora o amor pela liberdade que os havia armado contra o tirano, mas o desejo de se atribuir sua autoridade e de reinar com o mesmo despotismo. A classe média e o povo, que tinham tido pouca coisa a reclamar do tirano, acreditaram ter perdido com a troca, vendo o governo nas mãos de um pequeno número de cidadãos dos quais era preciso absorver a avidez, temer os caprichos e mesmo as suspeitas. Heródoto tornou-se odioso a uns e a outros: a uns porque o viam como o autor de uma revolução que se mostrara desvantajosa para eles; a outros porque o viam como um ardente defensor da democracia.

Espremido entre as duas facções que partilhavam o Estado, disse um eterno adeus à sua pátria, e partiu para Grécia. Celebrava-se então a 81a. olimpíada. Heródoto se apresentou aos jogos olimpicos: querendo se imortalizar, e ao mesmo tempo fazer sentir aos seus cidadãos quem era o homem que tinham forçado a se expatriar, leu nesta assembléia, a mais ilustre da nação, a mais esclarecida de houve, o começo de sua História ou, talvez, os trechos mais apropriados para inflar o orgulho de um povo que tinha tantos motivos para se crer superior aos demais. Tucídides, que não tinha então senão quinze anos, mas no qual já despontava o brilho de seu belo gênio, que foi um dos mais brilhantes ornamentos do século de Péricles, não pôde conter as lágrimas à leitura desta História. Heródoto, que o percebeu, disse ao pai do jovem: Olurus, vosso filho queima de desejo por conhecimentos.

Detenho-me um momento para provar foi na 81a. olimpíado que Heródoto leu uma parte de sua Historia à Grécia reunida. É certo que Heródoto, tendo abandonado Halicarnasso e desejando fazer seu nome, foi a Olímpia, e que leu uma parte de sua História, que foi de tal modo apreciada, que se deu aos nove livros que a compunham o nome de Musas. Luciano o diz da maneira mais clara e mais formal. De outro lado, Marcelino nos informa que Tucídides verteu lágrimas ao ouvir esta leitura, e que Heródoto, testemunha da sensibilidade deste rapaz, endereçou a seu pai as palavras que mencionei. Tucídides nasceu no primeiro ano da 77a. olimpíada, na primavera, e por conseqüência no ano 4.243 do período juliano, 471 antes da nossa era. Tinha pois quinze anos e alguns meses quando assistiu a esta leitura. Poderia já ser sensível às delícias do estilo: mas esta sensibilidade não era menos surpreendente em uma idade tão tenra, e fazia conceber grandes esperanças. Se supusermos que este acontecimento pertence à olimpíada precedente, torna-se ainda mais maravilhoso, para não dizer inacreditável. Se, ao contrário, recuarmos à 82a. olimpíada, Tucídides tendo então 19 anos e alguns meses, sua sensibilidade não teria tido nada de surpreendente, e não se teria feito notar. É preciso pois constar, com Dodwell, que este historiador tinha então quinze anos. O padre Corsini, clérigo regular de Escolas pias, é também deste parecer em seus Fastes Attiques, e cita, para prová-lo, Luciano no tratado sur la Manière d’écrire l’histoire, embora não fosse questionado nesta obra. Este sábio, contudo, não tinha sobre o fato idéias bem definidas, uma vez que, na página 213 do mesmo trabalho, recua esta leitura ao primeiro ano da 84a. olimpíada, quer dizer doze anos, o que me faz crer que ele confunde aí a leitura feita nos jogos olímpicos com a que fez o mesmo historiador nas Panatenéias, embora esta festa preceda a 84a. olimpíada em mais de 15 dias.

Voltemos ao nosso assunto. Encorajado pelos aplausos que recebera, Heródoto emprega os doze anos seguintes a continuar sua História e em aperfeiçoá-la. Foi então que viajou por toda a Grécia, que até então só tinha percorrido, que examina com a mais escrupulosa atenção os arquivos de seus diferentes povos, e que se assegura dos principais trechos de sua história, bem como as genealogias das mais ilustres casas da Grécia, não apenas percorrendo seus arquivos, mas lendo suas inscrições. Porque nestes tempos antigos transmitia-se à posteridade os acontecimentos mais interessantes, como os mais remarcáveis, por meio de inscrições gravadas sobre monumentos duráveis, ou sobre tripés que eram conservados com o maior zelo nos templos. Estas inscrições continham os nomes dos que tinham tomado parte nestes acontecimentos, com os de seus pais e de suas tribos; de modo que vários séculos após era impossivel se equivocar, malgrado a identidade dos nomes que se notavam às vezes nestes monumentos.

Em uma destas excursões foi a Corinto, onde recitou, se dermos fé a Dion Crisóstomo, a descrição da batalha de Salamina, com as circunstâncias honoráveis para os Coríntios, e sobretudo para Adimanto que os comandava. “Mas, continua o sofista no discurso que endereça aos Coríntios, Heródoto tendo vos pedido uma recompensa, e não a tendo obtido, porque vossos ancestrais desdenhavam colocar preço na glória, mudou as circunstâncias desta batalha, e as conta de maneira que vos é desfavorável.” Um fato de tal natureza, se fosse provado, revelaria uma alma vil; e, longe de procurar justificar Heródoto, contentando-me em admirar o escritor, abandonaria o homem ao justo desprezo que mereceria. Mas a resposta me parece muito fácil. 1.º Se não tivesse tido duas opiniões muito constantes sobre a conduta que os Coríntios tiveram na jornada de Salamina, Heródoto não teria se exposto narrando-as, com o risco de ser desmentido pela maior parte da Grécia, de que procurava captar a benevolência, e que era então aliada e amiga dos Coríntios; 2.º Dion Crisóstomo viveu mais de cinco séculos depois desta batalha, enquanto que nosso historiador nascera quatro anos antes que ela se desse. O primeiro não poderia conhecer as particuliaridades senão pela história e pelos monumentos, enquanto que o outro estava instruído não só pelos monumentos, mas também pelo testemunho de uma infinidade de pessoais que ali estiveram. 3.º A autoridade destes monumentos não é tão grande nesta ocasião quanto é na maioria das outras; porque o próprio Heródoto conta que muitos povos, ao se mostrar a sepultura em Plateia, vergonhosos de não terem ido a combate, tinham erigido cenotáfios com terra amontoada, a fim de se fazerem honrar na posteridade. Os Coríntios podem ter feito o mesmo após a jornada de Salamina. 4.º Os versos que Simonides fez em honra aos Coríntios e Adimanto, seu general, não parecerão jamais uma prova conclusiva aos que conhecerem a cupidez deste poeta, e a que ponto prostituía sua pena à melhor oferta. 5.º Se o fato relatado por Dion Crisóstomo tivesse sido verdadeiro, Plutarco, que não deixou escapar ocasião alguma para mostrar sua animosidade contra Heródoto, não teria deixado de fazer a respeito as mais cruéis críticas, porque confessadamente o detestava, porque este historiador tinha dito verdades sobre seus compatriotas que não lhes eram vantajosas. Ele pretende, é verdade, que os Coríntios comportaram-se valentemente na jornada de Salamina e que Heródoto suprimiu seus elogios por malignidade. Entretanto, longe de as suprimir, ele relatou o que os Gregos contavam de mais ufanosos para este povo; mas, como fazia profissão de imparcialidade, não acreditou dever passar em silêncio o que diziam também os Atenienses. Aqui seria o lugar para refutar o que diz Plutarco para provar que os Coríntios se cobriram de glória nesta batalha; mas como isso me levaria muito longe, e que provavelmente muitos poucos leitores teriam interesse nesta discussão, creio dever deixá-la de lado inclusive porque esta digressão já está um pouco longa.

Doze anos após ter lido uma parte de sua História nos jogos olímpicos, Heródoto leu outra em Atenas, na festa das Panatenéias, que se celebravam em 28 de hecatombaeon, isto é em 10 de agosto. A leitura aconteceu no ano 4.270 do período juliano, 444 anos antes de nossa era, e no primeiro ano da 84a. olimpíada. Os Atenienses não se limitaram a elogios estéreis: fizeram-lhe presente de 10 talentos, por um decreto proposto por Aninto e ratificado pelo povo em assembléia, como o atesta Diilo, historiador muito estimado. É sem dúvida desta recompensa que é preciso entender o que disse Eusébio, no lugar que citei, que Heródoto foi honrado pelos Atenienses.

Parece que esta acolhida teria devido fixá-lo em Atenas. Entretanto ele se juntou à colônia que os Atenienses enviaram a Thurium no começo da olimpíada seguinte. O gosto que tinha pelas viagens foi superior, talvez, ao reconhecimento que deveria aos Atenienses; mas talvez também não cresse ele que abandonasse Atenas ao acompanhar um tão número de Atenienses, entre os quais havia muitos distinguidos. Lísias, então com somente 15 anos, que se tornaria depois um grande orador, estava entre os colonos. Heródoto tinha então quarenta anos; porque havia nascido no ano 484 antes de nossa era, e no primeiro ano da 74a. olimpíada. O autor anônimo da Vida de Tucídides coloca também este historiador no número dos colonos. Mas como é o único escritor que o menciona, é permitido duvidar-se.

Ele fixa seu domicílio em Thurium; ou, se daí saiu, foi só para fazer algumas excursões pela grande Grécia, quero dizer nesta parte da Itália que estava povoada por colônias gregas, e que foi assim nomeada, não porque fosse mais considerável que o resto da Grécia, mas porque Pitágoras e os pitagóricos lhe deram uma grande celebridade. Há muita aparência que ele passou o resto de seus dias nesta cidade, e parece certo que foi por esta razão que se lhe dá às vezes o sobrenome de Heródoto de Thurium. Strabrão o diz positivamente. Eis como se exprime este sábio geógrafo ao falar da cidade de Halicarnasso: “O historiador Heródoto era desta cidade. Chamaram-no depois Thurien, porque estava entre os que foram enviados em colônia a Thurium.” O imperador Juliano não o chama de outra forma no fragmento de uma carta que Suidas nos conservou: Se o Turiano parece a qualquer um digno de fé, etc. A coisa foi mesmo levada tão longe, que Heródoto tendo começado sua História com estas palavras: Publicando suas pesquisas, Heródo de Halicarnasso, etc.; Aristóteles, que cita este começo, mudou esta expressão pela de Herodoto de Thurium. Este sábio não é o único a fazê-lo; porque Plutarco obsera que muitas pessoas haviam feito a mesma mudança.

O lazer que gozou nesta cidade lhe permitiu retocar sua História, e fazer algumas adições consideráveis. É assim que é preciso entender esta passagem de Plínio: Urbis nostrae trecentesimo anno.... auctor ille (Herodotus) Historiam condidit Thuriis in Italia; porque é certo que ele havia lido uma parte de sua História em Atenas antes de partir para Thurium, e que doze anos antes havia lido outra nos jogos olímpicos. Esta passagem de Plínio induziu em erro o sábio des Vignoles. Não vou me dar o trabalho de refutá-lo, o presidente Bouhier já o fez com sucesso no capítulo primeiro de seu Recherches et Dissertations sur Hérodote.

Não se pode duvidar que ele tenha acrescido muitas coisas durante sua estadia em Thurium, pois relata fatos que são posteriores à sua viagem à grande Grécia. Alguns sábios notaram antes de mim, e sobretudo Bouhier e Wesseling. Entre eles: 1.º a invasão que os Lacedemônios fizeram na Ática no primeiro ano da guerra do Peloponeso, invasão na qual este país foi devastado, exceto Deceléia, que pouparam por reconhecimento a uma boa ação dos Decélienses; 2.º a sorte funesta dos embaixadores que os Lacedemônios enviaram à Ásia no segundo ano da guerra do Peloponeso, e no ano 430 antes de nossa era; 3.º a defecção dos Medas sob Darius Nothus, que este príncipe colocou pouco depois novamente sob jugo. Este acontecimento, que Heródoto conta, e que é certamente da 93a. olimpíada, do 24.º ano da guerra do Peloponeso, e de 408 antes de nossa era, prova que Heródoto teria acrescido este fato em uma idade bem avançada. Ele tinha então 77 anos.

O presidente Bouhier colocou também após a viagem de Heródoto à grande Grécia a retirada de Amirtéia para a ilha de Elbo, de que fala Heródoto. Este sábio, enganado por Syncelle, supunha que este príncipe ter-se-ia refugiado nesta ilha no 14.º ano da guerra do Peloponeso, e no ano 417 de nossa era. Dodwell e Wesseling tinham bem visto que a revolta de Amirtéia tendo começado no segundo ano da 79a. olimpíada, o fim desta revolta foi no segundo ano da olimpíada seguinte, e por conseqüëncia anterior em 14 anos à partida de nosso historiador para a grande Grécia. Não relatarei aqui as provas, já o tendo feito de maneira bem ampla em meu Essay sur la Chronologie.

Foi também nestas viagens que aprendeu diversas peculiaridades sobre as cidades de Rhégium, de Géla, de Zancle, e sobre seus tiranos; particuliaridades que transmitiu à posteridade.

Acabamos de ver que nosso historiador tinha 77 anos quando acrescentou à sua História a revolta dos Medas. Ignora-se até que idade levou sua carreira, e em que país a terminou. É verossímil que morreu em Thurium; e temos, para apoiar esta pressuposição, o testemunho positivo de Suidas, que nos conta também que foi enterrado na praça pública desta cidade. O que pode nos fazer duvidar, é que o mesmo escritor acrescenta que alguns autore o fazem morrer em Pella na Macedônia. Mas como ignoramos até mesmo o nome destes autores, não sabemos que têm qualquer autoridade, e qual o grau de confiança que merecem.

Marcelino escreveu, em Vie da Thucydide, que se ve, entre os monumentos de Cimon em Coelé, perto das portas Mélitides, o túmulo de Heródoto. Poder-se-ia concluir desta passagem que Heródoto morreu em Atenas, e é esse o sentimento do presidente Bouhier. Quem nos garante porém que fosse um verdadeiro túmero e não um cenotáfio? Se foi erigido ao nosso historiador um monumento no lugar destinado à sepultura da casa de Cimon, é porque partindo para Thurium obteve em Atenas o direito de cidade, e que foi provavelmente adotado por alguém desta casa, uma das mais ilustres desta cidade: porque sem esta adoção não lhe teriam erigido um monumento neste lugar, onde não era permitido inumar ninguém que não fosse da família de Miltíades. É o que muito bem provou Dodwell.

Resta entretanto ainda alguma incerteza: a inscrição relatada por Étienne de Byzance a faria desaparecer, se fosse assegurado que tivesse sido encontrada em Thurium; porque o primeiro verso desta inscrição atesta que as cinzas de nosso historiador repousariam sob esta tumba. Creio que não posso melhor terminar sua Vida que por este epitáfio, que relata Étienne de Byzance: “Esta terra encobre em seu seio Heródoto, filho de Lixas, Dório de origem, e o mais ilustre dos historiadores iônios. Ele se retirou para Thurium, que via como uma segunda pátria, a fim de se colocar a coberto das mordidas de Momus.”


 

PLANO DA HISTÓRIA DE HERÓDOTO

 

Heródoto não se propunha, como o diz ele mesmo no começo de sua História, senão celebrar os feitos dos Gregos e dos Persas, e desenvolver os motivos que haviam levado estes povos a se fazerem a guerra. Entre as causas desta guerra, as havia distantes e próximas. As distantes eram os raptos recíprocos e algumas mulheres da Europa e da Ásia, que, tendo dado azo à guerra de Tróia, haviam ulcerado os corações dos Asiáticos contra os Gregos. As causas próximas eram os socorros que os Atenienses haviam dado aos Iônios em sua revolta, a invasão da Iônia e o incêndio de Sardes pelos Atenienses. Os Persas, irritados com estas hostilidades, resolveram praticar uma vingança fragorosa. Os Persas até então eram pouco conhecidos dos Gregos. Era pois necessário fazê-los conhecer esta nação, contra a qual haviam lutado com tanta glória. Para chegar a este fim, Heródoto tomou este povo em sua origem, e nos fez ver por que meios havia sacudido o jugo dos Medas; e, como isso não teria dado aos leitores idéias bem claras e bem nítidas, foi preciso lhes apresentar um vislumbre rápido da história dos Medas. Esta história estava, ela mesma, tão ligada com a dos Assírios, dos quais os Medas tinham sido súditos, que foi preciso instruir os leitores da maneira pela qual romperam o jugo, e dar-lhes igualmente uma súmula da história da Assíria. Estas três histórias não são pois senão aperitivos. Não se pode desvendar uma sem tirar da obscuridade as duas outras; e se se suprime todas as três, não se terá senão um conhecimento muito imperfeito das dificuldades que os Gregos tiveram de suplantar.

Ciro, tendo subjugado a Média, marcha de conquista em conquista. Esse poderio formidável dá inquietude a Creso. Ele a quer reprimir, e ao fazê-lo atrai sobre si as armas de Ciro; foi batido, e seu país conquistado. É ocasião para dar a conhecer os Lídios. Heródoto não a deixa escapar, dando ao menos um esboço destes príncipes que tinham submetido a maioria dos Gregos estabelecidos na Ásia. Contudo, como não perdia jamais de vista o plano de sua História, não diz senão duas palavras sobre a origem do reino da Lídia, de seus progressos e de sua destruição. Ciro, após esta conquista, deixa a seus generais o cuidado de submeter os Gregos asiáticos; marcha em pessoa contra os Babilônios e os povos de sua dependência, e os subjuga. Heródoto só se detém alguns instantes sobre os objetos os mais importantes e os mais interessantes. Assim não fala nem dos Báctrios nem dos Sácios, que Ciro havia subjugado. Se se estende sobre os Masságetas, é porque a guerra que lhes fez Ciro lhe foi muito funesta, e porque pereceu em um combate que lhes deu.

Cambises, seu filho, sucedeu-o. Confiante em seu poderio, marchou contra o Egito. Este pais era então o mais célebre que havia no mundo; e os Gregos começavam a viajar para lá, mais por interesse comercial do que por curiosidade e pelo desejo de se instruir, embora estes dois últimos motivos também existissem. Era pois de última importância dar-lhes conhecimento deste país singular, de suas produções, costumes e religião de seus habitantes, com uma relação sucinto de seus reis. Heródoto dedica a isso seu segundo livro. Submetido o Egito, Cambisses marcha contra os falsos Esmérdis, que haviam se revoltado contra ele; perece por um acidente. Pouco tempo após sua morte, descobre-se a trapaça do mago Esmérdis; ele foi massacrado, e elegem por rei Dario. Este príncipe volta a subjugar os Babilônios que se haviam revoltado, e, como era muito ambicioso, quer sujeitar os Citas. Estes povos só eram conhecidos por seus vizinhos, e pelos Gregos estabelecidos nas cidades limítrofes à Cítia. Os Citas eram então para os Gregos objeto de curiosidade tanto mais espicaçante à medida em que já havia na Trácia e nas bordas do Ponto Euxino, quer na Europa como na Ásia, colônias gregas. Se nosso historiador não se estendeu sobre estas povos com a mesma complacência que sobre os Egípcios, ao menos o faz com extensão suficiente para dar aos Gregos uma idéia da forma de seu governo e de seus costumes, com uma descrição sucinta de seu país. Esta descrição é tão exata, que se encontra confirmada na maioria de seus pontos pelos relatos daqueles entre os modernos que viajaram pela Bulgaria, Moldávia, Bessarábia, Czernigow, Ucrânia, Criméia e os Cossacos do Don. Dario viu-se obrigado a voltar vergonhosamento aos seus Estados. Os Iônios, que não sabiam nem ser livres nem ser escravos, se revoltaram.

Levantam-se contando com o socorro dos Atenienses que, entretanto, não só o deram medíocres. Com estes socorros, apossaram-se de Sardes e a incendiaram. Dario, compreendendo a parte que os Atenisenses tinham tido na tomada e no incêndio desta cidade, jura vingar-se. Começa por colocar novamente sob jugo os Iônios. Submetidos os Iônios, envia contra os Atenienses um exército formidável. Os Persas foram batidos em Maratona. Com esta notícia, Dario, furioso, fez preparativos ainda mais consideráveis. Nestes entretantos, tendo o Egito se sublevado, era necessário reduzi-lo. A revolta do Egito apenas suspendeu a vingança de Dario. Logo que este país foi submetido, retomou o desejo de castigar os Atenienses; mas sua morte, que sobreveio logo depois, suspendeu sua execução. Xerxes, seu filho e sucessor, que não era nem menos ambicioso nem menos vingativo que seu pai, bão contente de castigar os Atenienses, queria também subjugar o resto da Grécia. Resoluto a marchar em pessoa contra os Gregos, levantou o exército mais numeroso e mais formidável de que se ouviu falar. Equipou uma frota considerável, e durante diversos anos não se ocupou senão em fazer transportar para as cidades fronteiriças da Grécia os trigo e os víveres necessários à subsistência desta multidão inumerável de homens. Sofreu logo uma derrota nas Termópilas. Tendo sua frota a seguir sido batida em Salamina, voltou vergonhosamente à Àsia; mas, tendo deixado Mardônio na Grécia com a elite de suas tropas, este general, vencido na Plateia, pereceu na ação com a maioria de seu exercito. No mesmo dia da batalha de Plateia, livrou-se em Mícale, na Cária, um sangrante combate. Os Gregos tiveram aí uma vitória significativa.

É aqui que Heródoto termina sua História. Vê-se, por esta curta exposição, que há em todas as partes desta bela obra uma ligação íntima; que não se pode destrinçar nenhuma sem tirar a obscuridade de outras; que nosso historiador caminha com rapidez, e se pára às vezes pelo caminho, é só para administrar (ménager) a atenção de seus leitores, e para instrui-los agradavelmente de tudo o que lhe é importante saber.

LARCHER


 

Larcher

 

Pierre Henri Larcher (1726–1812), francês, foi um arqueólogo e erudito do século XVIII, nascido em Dijon. Após ter freqüentado um colégio de jesuítas na juventude, seus pais o destinavam a uma carreira na magistratura, mas ele se orientou para as línguas e os escritores da antiguidade.

Apesar de anônima, sua tradução de Callirhoe, de Chariton, em 1763, assinalou-o como um exclente erudito grego. Seu ataque à Filosofia da história, que Voltaire escrevera sob o pseudônimo de Abbé Bazin, suscitou considerável interesse à época. Seu arqueológico e mitológico Memoire sur Venus, de 1775, foi comparada a trabalhos similares de Heyne e Winckelmann.

Traduzido um certo número de obras antigas de autores gregos, tais como Eurípides e Xenofonte. Pela qualidade de seus trabalhos e o renome que adquirira nos estudos clássicos, foi incorporado à Académie des Inscriptions et belles lettres.

Após a fundação da Universidade Imperial, foi indicado como professor de literatura Grega (1809) tendo Boissonade como seu assistente.

Seu trabalho mais memorável foi a tradução de Heródoto (1786), que levou 15 anos para completar e na qual trabalhou até o fim de seus dias, acrescentando-lhe notas e comparando-a com outras traduções.


 

HISTÓRIA

[imagem]

HERÓDOTO

(484 A.C. - 425 A.C.)
Traduzido do grego por
Pierre Henri Larcher
(1726 D.C. - 1812 D.C.)


LIVRO I

CLIO

OS PERSAS — OS MEDOS — BABILÔNIA — CRESO — CANDOLO E GIGÉS — CIRO — SEMÍRAMIS — TÔMIRIS, ETC.


 

Ao escrever a sua História, Heródoto de Halicarnasso teve em mira evitar que os vestígios das ações praticadas pelos homens se apagassem com o tempo e que as grandes e maravilhosas explorações dos Gregos, assim como as dos bárbaros, permanecessem ignoradas; desejava ainda, sobretudo, expor os motivos que os levaram a fazer guerra uns aos outros.

I — Os Persas mais esclarecidos atribuem aos Fenícios a causa dessas inimizades. Dizem eles que esse povo, tendo vindo do litoral da Eritréia para as costas do nosso país, empreendeu longas viagens marítimas, logo depois de haver-se estabelecido no país que ainda hoje habita, transportando mercadorias do Egito e da Assíria para várias regiões, inclusive para Argos. Esta cidade era, então, a mais importante de todas as do país conhecido atualmente pelo nome de Grécia. Acrescentam que alguns fenícios, ali desembarcando, puseram-se a vender mercadorias, e que cinco ou seis dias após sua chegada, quase concluída a venda, grande número de mulheres dirigiu-se à beira-mar. Entre elas estava a filha do rei. Esta princesa, filha de Inaco, chamava-se Io, nome por que era conhecida pelos Gregos. Quando as mulheres, postadas junto aos barcos, compravam objetos de sua preferência, os fenícios, incitando uns aos outros, atiraram-se sobre elas. A maior parte delas logrou fugir, mas Io foi capturada, juntamente com algumas de suas companheiras. Os fenícios conduziram-nas para bordo e fizeram-se à vela em direção ao Egito.

II — Eis como, segundo os Persas — nisto pouco de acordo com os Fenícios — Io veio parar no Egito. Essa questão foi o início de todas as outras. Acrescentam os Persas que, pouco depois, alguns gregos, cujos nomes não gravaram, vieram a Tiro, na Fenícia, e raptaram Europa, filha do rei. Eram, sem dúvida, Cretenses. Ficaram, assim, quites os dois povos, mas os Gregos tornaram-se depois culpados de uma segunda ofensa. Dirigiram-se num grande navio a Aea, na Cólquida, sobre o Faso, e, ultimados os negócios que ali os levaram, arrebataram Medéia, filha do rei, e tendo esse príncipe enviado um embaixador à Grécia para exigir a entrega da filha e a reparação da injúria, responderam-lhe que, como os Colquidenses não haviam dado nenhuma satisfação pelo rapto de Io, eles não o dariam absolutamente pelo de Medéia.

III — Dizem ainda os Persas que na geração seguinte, Páris, filho de Príamo, tendo ouvido falar no caso, quis também raptar e possuir uma mulher grega, persuadido de que se outros não foram punidos, não o seria também. Raptou, então, Helena; mas os Gregos resolveram, antes de qualquer outra iniciativa, enviar embaixadores para exigir a devolução de Helena e pedir satisfações.

Os Troianos, além de invocar aos Gregos o rapto de Medéia, ainda os censuraram por exigirem satisfações, uma vez que eles não as tinham dado aos outros e nem entregue a pessoa reclamada.

IV — Até então, não houvera de uma parte e de outra mais do que raptos; mas depois do acontecido, os Gregos, julgando-se ofendidos em sua honra, fizeram guerra à Ásia, antes que os asiáticos a declarassem à Europa. Ora, conquanto lícito não seja raptar mulheres, dizem os Persas, é loucura vingar-se de um rapto. Manda o bom senso não fazer caso disso, pois sem o seu próprio consentimento decerto não teriam as mulheres sido raptadas. Asseguram os Persas que, embora asiáticos, ainda não haviam tido conhecimento de casos semelhantes, naquela parte do mundo. Entretanto, os Gregos, por causa de uma mulher lacedemônia, equiparam uma frota numerosa, desembarcaram na Ásia e destruíram o reino de Príamo. Desde essa época, os Persas passaram a encarar os Gregos como inimigos, pois julgam que a Ásia lhes pertence tanto quanto as nações bárbaras que ocupam, enquanto consideram a Europa e a Grécia como formando um continente à parte.

V — Tal é a maneira pela qual os Persas narram esses acontecimentos. À tomada de Tróia atribuem eles a causa do seu ódio aos Gregos. No que concerne a Io, os Fenícios não estão de acordo com os Persas. Dizem não ter havido rapto; que apenas a conduziram ao Egito com o seu próprio consentimento. Vendo-se grávida, a princesa, receando a cólera dos pais, entrou em entendimento com o comandante do navio fenício, em Argos, com ele partindo, a fim de ocultar sua desonra. Eis aí como Persas e Fenícios narram os fatos. Quanto a mim, não pretendo absolutamente decidir se as coisas se passaram dessa ou de outra maneira; e depois de ter narrado o que conheço sobre o primeiro autor das injúrias feitas aos Gregos, prossigo minha história, na qual tratarei tanto dos pequenos Estados como dos grandes. Os outrora florescentes, encontram-se hoje, na sua maioria, em completa decadência, e os que florescem hoje, eram outrora bem pouca coisa. Persuadido da instabilidade da ventura humana, estou decidido a falar igualmente de uns e de outros.

VI — Creso era lídio por nascimento, filho de Aliata e rei das nações banhadas pelo Hális, no seu curso. Este rio, corre do sul, atravessa os países dos Sírios e dos Paflagônios, e desemboca ao norte, no Ponto Euxino. Pelo que me é dado saber, foi o príncipe o primeiro bárbaro a forçar uma parte da Grécia a lhe pagar tributo e não ter-se aliado com a outra. Submeteu os Iônios, os Eólios e os Dórios estabeledos na Ásia, e fez aliança com os Lacedemônios. Antes do seu reinado, todos os gregos eram livres. A expedição dos Cimerianos contra a Jônia, anterior a Creso, não fez mais do que arruinar as cidades, pois não passou de incursão seguida de pilhagem.

VII — Eis como o poder soberano, tendo pertencido aos Heraclidas, passou para a casa dos Mermnadas, a que pertencia Creso. Candolo, a quem os Gregos chamavam Mirsila, reinou tiranicamente em Sardes. Descendia de Hércules por Alceu, filho desse herói; Agron, filho de Nino, neto de Belos e bisneto de Alceu foi o primeiro dos Heraclidas a reinar em Sardes, e Candolo, filho de Mírsus, o último. Os reis desse país, anteriores a Agron, descendiam de Lídus, filho de Átis, de onde o nome de Lídios dado a todos os povos da região, outrora conhecidos por Meonianos. Finalmente, os Heraclidas, descendentes de Hércules e de uma escrava de Jardanus, e aos quais esses príncipes haviam confiado o poder, obtiveram o reino em virtude de um oráculo, reinando de pai a filho, pelo espaço de quinhentos e cinco anos, através de vinte e duas gerações, até Candolo, filho de Mírsus.

VIII — Era tal a loucura que esse príncipe devotava à esposa, que julgava possuir nela a mais bela de todas as mulheres. Obcecado pela paixão, não cessava de exagerar-lhe a beleza a Gigés, filho de Dascílus, um dos guardas a quem muito estimava e fazia confidente dos seus mais importantes segredos. Pouco tempo depois, Candolo (não podia evitar sua desgraça) assim falou a Gigés: “Parece-me que não acreditas no que te digo sobre a beleza de minha mulher. Os ouvidos são menos crédulos do que os olhos. Faze, pois, o possível de vê-la nua”. “Que linguagem insensata, senhor! — exclamou Gigés — Refletis no que dizeis? Ordenar a um escravo que veja nua sua soberana? Esqueceis que uma mulher desfaz-se do seu pudor quando se despe? Entre as grandes máximas formuladas há muito pelos homens e que nos cumpre adotar, uma das mais importantes é a de que não devemos olhar senão o que nos pertence. Estou convencido de que possuís a mais bela de todas as mulheres, mas não exigi de mim, peco-vos, uma coisa tão desonesta”.

IX — Assim Gigés recusava a proposta do rei, receando que acontecesse alguma desgraça. “Tranqüiliza-te, Gigés; — disse-lhe Candolo — nada tens a temer de mim. Não estou absolutamente armando um laço para te experimentar, nem tão pouco tua rainha; ela não te fará nenhum mal. Arranjarei as coisas de maneira que ela nem mesmo saberá que a viste. Ocultar-te-ei atrás da porta do nosso quarto de dormir. A porta ficará aberta. À entrada do quarto há uma poltrona, onde a rainha, ao recolher-se ao leito, depositará as vestes à medida que as for tirando. Assim terás muito tempo para apreciá-la. Quando, da poltrona, ela se encaminhar para o leito, terá de voltar-te as costas. Aproveitarás então o momento para escapar sem ser visto.”

X — Gigés, não podendo fugir à situação, declarou-se pronto a obedecer. Candolo, à hora de dormir, conduziu-o ao quarto, para onde a rainha não tardou a se dirigir. O guarda viu-a despir-se, e enquanto ela lhe voltava as costas para alcançar o leito, esgueirou-se para fora do aposento; mas a rainha percebeu-lhe a presença. Compreendeu o que o marido havia feito e suportou o ultraje em silêncio, fingindo nada ter notado, mas decidindo, no fundo do coração, vingar-se de Candolo; pois entre os Lídios, como entre quase todos os povos bárbaros, constitui um opróbrio, mesmo para um homem, o mostrar-se nu.

XI — A rainha permaneceu assim tranqüila e sem deixar transparecer seu pensamento; mas logo ao romper do dia assegurou-se das disposições dos seus mais fiéis oficiais e mandou chamar Gigés. Longe de imaginá-la a par de tudo, ele atendeu-lhe a ordem, como estava habituado a fazer, sempre que ela o chamava. Quando chegou, a princesa disse-lhe: “Gigés, eis aqui dois caminhos que te dou a escolher; decide-te imediatamente: obtém pelo assassinato de Candolo minha mão e o trono da Lídia, ou a morte te impedirá de ver, de ora em diante, por uma cega obediência a Candolo, o que te é vedado. É preciso que um dos dois pereça: o que te deu essa ordem, ou tu, que me viste nua, desprezando todas as conveniências”. Ante tais palavras, Gigés permaneceu suspenso por alguns instantes. Depois suplicou à rainha que não o expusesse à contingência de tão dura escolha. Vendo a impossibilidade de dissuadi-la e a urgência absoluta de eliminar o soberano ou decidir-se a morrer, preferiu poupar a si próprio.

“Já que me forçais — disse ele à rainha — a matar o meu senhor, dizei-me como deverei fazê-lo”. “— Será no próprio lugar onde me viste nua que te lançarás sobre ele; deverás atacá-lo durante o sono”.

XII — Traçados os planos, ela tomou suas providências para evitar que o escravo pudesse, por qualquer meio, escapar à situação. Um dos dois teria de perecer: ou ele ou Candolo. Ao cair da noite, a rainha introduziu-o no quarto, armado de um punhal, e escondeu-o atrás da porta. Mal Candolo havia adormecido, Gigés avançou sem ruído e apunhalou-o, apoderando-se, assim, da esposa e do trono. Arquíloco de Paros, que vivia nesse tempo, faz referência a esse príncipe num poema composto em versos jâmbicos trimétricos.

XIII — Gigés subiu, assim, ao trono, e ali foi confirmado pelo oráculo de Delfos. Os Lídios, indignados com a morte de Candolo, haviam, a princípio, pegado em armas, mas concordaram com os partidários de Gigés que, se o oráculo a este reconhecesse como rei, a coroa ficaria mesmo com ele; de outra maneira, ela voltaria para os Heraclidas. O oráculo pronunciou-se favoravelmente a Gigés, ficando-lhe assegurada a posse do trono. Todavia, a pitonisa acrescentou que os Heraclidas seriam vingados na quinta geração do príncipe. Nem os Lídios, nem os seus reis tiveram em conta semelhante advertência até ser ela justificada pelos fatos. E foi assim que os Mermnadas se apoderaram da coroa, arrebatando-a aos Heraclidas.

XIV — Gigés, senhor da Lídia, fez a Delfos várias oferendas, das quais grande parte em dinheiro. Acrescentou muitos vasos de ouro aos já existentes no templo, bem como seis crateras de ouro, com o peso de trinta talentos, dádiva cuja memória merece ser conservada. Essas oferendas estão incluídas no tesouro dos Coríntios, embora, a bem dizer, esse tesouro não pertença absolutamente à república de Corinto, mas a Cípselo, filho de Etion. Gigés foi, depois de Midas, filho de Górdio, rei da Frígia, o primeiro dos bárbaros conhecidos a fazer oferendas a Delfos. Midas tinha presenteado o templo com o trono no qual costumava fazer justiça. Esse trono constitui obra digna de ser vista. Está colocado no mesmo lugar onde se encontram as crateras de Gigés. De resto, os habitantes de Delfos chamam as oferendas em ouro e prata de “gigeados”, do nome daquele que as fez.

Quando o príncipe viu-se senhor do reino, organizou uma expedição contra as cidades de Mileto e Esmirna, e apoderou-se da de Cólofon. Todavia, como nada mais realizou de notável durante um reinado de trinta e oito anos, contentamo-nos em reportar esse fato, não falando mais em tal reinado.

XV — Passemos agora ao seu filho Árdis. Este príncipe, sucedendo ao pai, subjugou o povo de Priena e entrou com um exército no território de Mileto. Sob o seu reinado, os Cimérios, expulsos do país pelos Citas nômades, vieram para a Ásia e tomaram Sardes, com exceção da cidadela.

XVI — Árdis reinou durante quarenta e nove anos e teve por sucessor o filho Sadiata, que reinou por doze anos. Aliata sucedeu Sadiata. Fez guerra aos Medos e a Ciaxares, neto de Déjoces; expulsou os Cimérios da Ásia; assenhoreou-se da cidade de Esmirna, colônia de Cólofon, e atacou também Clasomene, levantando, porém, o cerco, bem contra a vontade, depois de haver sofrido duro revés. Praticou ainda, durante seu reinado, outros feitos. Vou referir-me aos mais memoráveis.

XVII — Tendo seu pai desistido da guerra contra os Milésios, ele a continuou e atacou Mileto, da maneira que vou narrar: Quando os frutos da terra tinham amadurecido, partiu em campanha. O exército marchava ao som das charamelas, das harpas e das flautas masculinas e femininas(1). Ao chegar às terras dos Milésios, o príncipe não permitiu que se destruíssem as quintas, nem que a elas ateassem fogo ou lhe arrancassem as cancelas; deixou-as permanecer no estado em que se achavam; mas cortou as árvores e devastou os trigais, depois do que se retirou, pois, sendo os Milésios senhores do mar, era inútil bloquear a cidade com um exército. Quanto às casas, Aliata não as fez destruir, para que os Milésios, tendo onde alojar-se, continuassem a semear e a cultivar suas terras, e ele tivesse o que devastar numa segunda invasão.

XVIII — Fez-lhes, dessa maneira, guerra durante onze anos. No decurso dessas campanhas, os Milésios sofreram duas derrotas consideráveis: uma em batalha travada no próprio país, num lugar denominado Limeneion; outra na planície de Meandro. Dos onze anos de luta, seis pertencem ao reinado de Sadiata, filho de Árdis, que naquele tempo ainda reinava na Lídia. Foi ele quem reativou a guerra, entrando à frente de um exército no país de Mileto. Aliata continuou-a com vigor nos cinco anos seguintes, como dissemos atrás. De todos os iônios, foram os de Quios os únicos a socorrer os habitantes de Mileto. Enviaram-lhes tropas, em retribuição ao socorro deles recebido na guerra que sustentaram contra os Eritreus.

XIX — Afinal, no décimo segundo ano, tendo os exércitos de Aliata ateado fogo aos trigais, aconteceu que as chamas, impelidas por forte vento, atingiram o templo de Minerva, denominado Assessiavo, reduzindo-o a cinzas. Os invasores não deram, a princípio, nenhuma atenção a esse acidente; mas Aliata, de volta a Sardes com seus exércitos, tendo caído enfermo e vendo a moléstia prolongar-se, enviou a Delfos delegados para consultar o oráculo sobre o caso, ou porque tivesse tomado essa resolução por si mesmo, ou porque ela lhe houvesse sido sugerida. Em Delfos, a pitonisa declarou aos delegados que nenhuma resposta daria à consulta enquanto não reerguessem o templo de Minerva, por eles queimado em Assessos, na terra dos Milésios.

XX — Ouvi dizer, entre os habitantes de Delfos, que as coisas se passaram dessa maneira; mas os Milésios acrescentam que Periandro, filho de Cípselo, amigo íntimo de Trasibulo, tirano de Mileto, ao inteirar-se da resposta do oráculo a Aliata, enviou um correio a Trasibulo, a fim de instruí-lo com antecedência sobre a decisão dos deuses, tomando medidas de acordo com as circunstâncias. Eis como, dizem os Milésios, se teriam passado as coisas.

XXI — Aliata, assim que recebeu o oráculo, enviou às pressas um arauto a Mileto, para negociar uma trégua com Trasibulo e os Milésios, até a reconstrução do templo. Enquanto o arauto se achava a caminho de Mileto, Trasibulo, bem informado de tudo e não ignorando, absolutamente, os desígnios de Aliata, percebeu a manobra. Mandou que todo o trigo que havia em Mileto, tanto em seus celeiros como nos dos particulares, fosse levado à praça pública, e ordenou, em seguida, aos Milésios, que bebessem e se entregassem a expansões de alegria a um sinal por ele dado.

XXII — Trasibulo divulgou essas ordens, para que o arauto, vendo tão grande quantidade de trigo e os habitantes entregues a tamanho regozijo, fosse relatar o fato a Aliata, o que não deixou de acontecer. O arauto, testemunhando a abundância reinante em Mileto, voltou a Sardes, logo depois de haver comunicado a Trasibulo as ordens do rei da Lídia. Foi isso, como tive notícia, a causa única do restabelecimento da paz entre esses dois príncipes. Aliata estava persuadido de que a escassez de víveres era grande em Mileto e que o povo se achava reduzido a extrema penúria. Ficou pois surpreendido ao saber, pelo seu arauto, da fartura ali existente. Algum tempo depois, os dois príncipes assinaram um tratado, cujas condições foram a de viverem como amigos e aliados. Em lugar de um templo, Aliata construiu dois a Minerva, em Assessos, e recuperou a saúde. Assim passaram-se as coisas na guerra que Aliata fez a Trasibulo e aos Milésios.

XXIII — O Periandro de que falei há pouco e que comunicou a Trasibulo a resposta do oráculo, era filho de Cípselo e reinava em Corinto. Os habitantes da cidade contam haver acontecido nesse tempo um fato realmente extraordinário, e os Lesbianos são os primeiros a confirmá-lo. Dizem que Arião de Metimna, o mais hábil tocador de cítara então existente e o primeiro, que eu saiba, a fazer e a dar nome ao ditirambo, foi carregado nas costas de um delfim até Tenara.

XXIV — Eis como se conta o fato: Arião, depois de haver permanecido por longo tempo na corte de Periandro, teve vontade de navegar para a Sicília e a Itália. Havendo acumulado no país muitos bens, resolveu retornar a Corinto. Aprestou-se para deixar Tarento e alugou um navio coríntio, por confiar mais nesse povo do que em qualquer outro.

Quando se instalou no navio, os coríntios tramaram-lhe a perda; combinaram atirá-lo ao mar para se apoderarem de suas riquezas. Arião, percebendo-lhes o propósito, ofereceu-lhes seus bens, pedindo-lhes para lhe pouparem a vida. Mas, longe de se comoverem com tais súplicas, os coríntios ordenaram-lhe que se suicidasse, se queria ser enterrado, ou se lançasse imediatamente ao mar. Levado a tão terrível dilema, Arião suplicou-lhes que, já que lhe haviam decidido a perda, lhe permitissem vestir os seus mais belos trajes e cantar no tombadilho, prometendo matar-se logo em seguida. Na expectativa de ouvir o mais hábil dos músicos, seus captores retiraram-se da popa para o meio do navio. Arião adornou-se com seus mais ricos trajes, tomou da cítara, subiu ao tombadilho e entoou uma ária ortiana(2). Ao terminá-la, atirou-se ao mar, tal como se encontrava. Enquanto o navio velejava na direção de Corinto, um delfim, dizem, recebeu Arião nas costas e o conduziu a Tenara, onde o cantor pulou em terra, encaminhando-se para Corinto, sem trocar de roupas e contando a todos sua aventura. Periandro, não podendo dar fé à narrativa, manteve-o sob custódia, aguardando a chegada dos marinheiros. Logo que os soube na cidade, fê-los vir a sua presença e pediu-lhes notícias de Arião. Responderam-lhe que o haviam deixado com boa saúde em Tarento, na Itália, onde a sorte lhe era favorável. Arião apareceu, de repente, diante deles, tal como o tinham visto precipitar-se no mar. Tomados de assombro ante aquela aparição, não ousaram negar o crime. Os Coríntios e os Lesbianos contam assim essa história, e existe em Tenara uma pequena estátua de bronze representando um homem sobre um delfim, erguida em homenagem a Arião.

XXV — Aliata, rei da Lídia, faleceu algum tempo depois de terminar a guerra contra Mileto, tendo reinado cinqüenta e sete anos. Foi o segundo príncipe da dinastia dos Mermnadas a enviar presentes a Delfos, depois de haver recuperado a saúde: uma cratera de prata e um pires adamascado, a mais preciosa de todas as oferendas que se viam em Delfos. Era obra de Glauco de Quios, descobridor da arte de soldar o ferro.

XXVI — Morrendo Aliata, seu filho Creso subiu ao trono, com a idade de trinta e cinco anos. Éfeso foi a primeira cidade grega a ser atacada por esse príncipe. Seus habitantes, vendo-se cercados, colocaram-na sob a proteção de Diana, ligando as muralhas ao templo da deusa por meio de uma corda. Depois de haver feito guerra aos Éfesos, Creso atacou sucessivamente os Iônios e os Eólios, alegando motivos graves, quando podia encontrá-los, ou, em caso contrário, pretextos frívolos e desarrazoados.

XXVII — Tendo subjugado os gregos da Ásia, obrigando-os a pagar-lhe tributos, pensou equipar uma frota para atacar os gregos insulares. Tudo estava pronto para a construção dos navios, quando Bias de Priéne ou, segundo outros, Pitacus de Mitileno, veio a Sardes. Perguntando-lhe Creso se havia na Grécia algo de novo, sua resposta fez cessar os preparativos. “Príncipe, — disse-lhe ele — os insulares, estão adquirindo grande quantidade de cavalos, com o propósito de vir atacar Sardes e combater-te”. Creso, julgando ser isto verdade, redarguiu: “Possam os deuses inspirar aos insulares o desejo de atacar os Lídios com cavalaria!” “Parece-me, senhor, — volveu Bias — que desejais ardentemente dar-lhes combate a cavalo, no continente, e vossas esperanças são fundadas; mas logo que souberem que preparais uma frota para atacá-los, aprestar-se-ão imediatamente para surpreender os Lídios no mar, pois outra coisa não aspiram senão vingar em vós os gregos do continente, por vós reduzidos à escravidão”. Creso, encantado com esta observação, que lhe pareceu muito sensata, abandonou o projeto e fez aliança com os Iônios das ilhas.

XXVIII — Em seguida, subjugou Creso quase todas as nações aquém do rio Hális (exceto os Cilicianos e os Licianos), a saber: os Frígios, os Misianos, os Mariandinianos, os Chalibas, os Paflagônios, os Trácios da Ásia (os Tínios e os Bitínios), os Cários, os Iônios, os Dórios, os Eólios e os Panfílios.

XXIX — Todos esses povos, submetidos e incorporados por Creso à Lídia, tinham tornado Sardes florescente e rica. A cidade atraiu os maiores sábios gregos da época, entre os quais Sólon, o Ateniense. Depois de haver dado leis aos compatriotas que lhas haviam pedido, Sólon viajou durante dez anos, com o pretexto de observar os usos e costumes de diferentes nações, mas, na realidade, para não ver-se constrangido a revogar algumas das leis que elaborara, pois os Atenienses não tinham poderes para isso, obrigados como estavam, por juramento solene, a cumprir, durante dez anos, as leis que lhes fossem impostas.

XXX — Sólon, tendo saído de Atenas por esse motivo e, também, para satisfazer a curiosidade, dirigiu-se primeiramente ao Egito, à corte de Amasis, e de lá a Sardes, à de Creso, que o recebeu com distinção e o alojou no próprio palácio real. Três ou quatro dias depois de sua chegada, foi conduzido, por ordem do príncipe, ao tesouro, onde Creso lhe mostrou todas as suas riquezas. Quando Sólon já tinha visto e observado bem tudo, o rei falou-lhe nestes termos: “A notícia de tua sabedoria e de tuas viagens chegou até nós; e não ignoro absolutamente que, percorrendo tantos países, não tens outro fim senão o de instruir-te sobre as suas leis, seus costumes e aperfeiçoar teus conhecimentos. Quero que me digas qual o homem mais feliz que viste até hoje”. Naturalmente, o soberano lhe fazia esta pergunta por julgar-se o mais feliz dos mortais. “É Telo de Atenas” — tespondeu Sólon sem lisonjeá-lo e sem disfarçar a verdade. Ante essa resposta, volveu Creso: “Por que julgas Telo tão feliz?” “Porque, residindo numa cidade florescente, — continuou Sólon — teve dois filhos lindos e virtuosos, e cada um lhe deu netos, que viveram muitos anos, e afinal, depois de haver usufruído uma fortuna considerável em relação às do nosso país, terminou os seus dias de maneira admirável: num combate dos Atenienses com seus vizinhos de Eleusis. Saindo em socorro dos primeiros, pôs em fuga os inimigos e pereceu gloriosamente. Os Atenienses ergueram-lhe um monumento por subscrição pública, no próprio local onde ele tombou morto, e lhe tributaram grandes honras”.

XXXI — Um tanto decepcionado diante da revelação de Sólon sobre a felicidade de Telo, Creso voltou a perguntar-lhe quem, depois desse ateniense, considerava ele o mais feliz dos homens, não duvidando, absolutamente, que o segundo lugar lhe pertencia. “Cléobis e Biton” — respondeu Sólon. “Eram árgios e desfrutavam as rendas de pecúlio honesto. Eram, por outro lado, tão fortes, que haviam ambos conquistado prêmios nos jogos públicos. Conta-se sobre eles o seguinte caso: Os Árgios celebravam uma festa em honra de Juno. A mãe desses dois jovens tinha absoluta necessidade de ir ao templo num carro, e os bois tardavam a chegar do campo. Os rapazes, vendo o tempo passar, puseram-se eles mesmos sob a canga, e puxando o carro, no qual ia a mãe, conduziram-no assim, numa distância de quarenta e cinco estádios, até o templo da deusa. Depois dessa bela ação, testemunhada por grande número de pessoas, terminaram seus dias da maneira mais ditosa, pretendendo a divindade, com isso, mostrar que é mais vantajoso para o homem morrer do que viver: Os Árgios, reunidos em torno dos dois jovens, louvaram-lhes o procedimento, enquanto as mulheres felicitavam a sacerdotisa por possuir tais filhos. Esta, no auge da alegria, cumulada de elogios, de pé, junto à estátua, pediu à deusa que concedesse aos dois jovens, Cléobis e Biton, que a tinham honrado tanto, a maior felicidade que pode alcançar um mortal. Terminada a prece, depois do sacrifício e do festim solene, os rapazes adormeceram no próprio templo, para não mais despertar. Os Árgios ergueram estátuas a ambos e os consagraram a Delfos, como homens perfeitos”.

XXXII — Sólon concedia, com esse discurso, o segundo lugar a Cléobis e Biton. “Ateniense, — replicou Creso colérico — fazes tão pouco caso da minha felicidade, que me julgas indigno de ser comparado com homens comuns?” “Ó Creso, — volveu Sólon — perguntais-me o que penso da vida humana; poderia responder-vos de outra maneira, eu que sei como a divindade tem ciúme da ventura dos seres humanos e como se apraz em perturbá-la. Numa longa peregrinação pela terra vemos e sofremos muitas coisas desagradáveis. Dou a um homem setenta anos como o mais longo tempo de vida. Esses setenta anos fazem vinte e cinco mil e duzentos dias, omitindo os meses intercalados; mas se a cada seis anos acrescentardes um mês, para que as estações caiam precisamente no tempo certo, em setenta anos tereis doze meses intercalados, menos a terça parte de um mês, perfazendo trezentos e cinqüenta dias, os quais, acrescentados aos vinte e cinco mil e duzentos, darão vinte e cinco mil quinhentos e cinqüenta dias. Ora, entre esses vinte e cinco mil quinhentos e cinqüenta dias, perfazendo setenta anos, não encontrareis um que não traga um acontecimento semelhante a outros. É preciso convir, senhor, que o homem não é senão vicissitudes. Possuís certamente riquezas consideráveis e reinais sobre um grande povo, mas não posso responder à vossa pergunta sem saber se terminareis os vossos dias na abundância; pois o homem cumulado de riquezas não é superior àquele que possui o necessário, a menos que a boa sorte o acompanhe e que, gozando de todas essas espécies de bens, termine venturosamente a existência. Nada mais comum do que a desgraça na opulência e a ventura na obscuridade. Um homem imensamente rico mas infeliz tem apenas duas vantagens sobre o feliz, enquanto que este conta com grande número delas sobre o rico infeliz. O homem rico está mais em condições de satisfazer seus desejos e de suportar grandes perdas, mas se o outro não pode resistir a essas perdas, nem contentar os desejos, sua felicidade o põe a coberto de umas e de outros. Aliás, admitindo que ele esteja no uso de todos os seus membros, goze de boa saúde, não sofra nenhum desgosto e seja feliz com os filhos; se a todas essas vantagens acrescentardes a de uma morte gloriosa, aí tereis o homem que procurais. Ele, sim, merece a classificação de feliz. Mas, antes da morte, evitai julgá-lo; não lhe deis esse nome; considerai-o somente bem aquinhoado.

“É impossível um homem reunir as condições necessárias à felicidade da mesma maneira que nenhum país possui todos os bens de que necessita. Se conta com uns, está sempre privado de outros; o melhor será o que possuir maior número deles. Assim acontece com o homem: não há um que se baste a si mesmo. Se possui algumas vantagens, outras lhe faltam. Quem reúne maior número e o conserva até o fim dos dias, deixando tranqüilamente a vida, este, senhor, merece, na minha opinião, ser chamado feliz. Devemos considerar o término de todas as coisas e ver que nisso se encontra a única saída; pois Deus, depois de entremostrar a felicidade a certos homens, costuma destruí-la por completo de um momento para outro.”

XXXIII — Assim falou Sólon. Nada dissera de agradável a Creso e não lhe havia testemunhado a menor estima. Por isso, foi logo despedido. Provavelmente, tratou-se de ignorante um homem que, sem dar importância aos bens presentes, queria que em tudo se encarasse sempre o fim.

XXXIV — Depois da partida de Sólon, a vingança dos deuses caiu de maneira terrível sobre Creso, em punição, como se pode conjecturar, por julgar-se ele o mais feliz dos homens. Um sonho, nessa ocasião, anunciou-lhe os infortúnios que pesavam sobre um dos seus filhos. Creso possuía dois filhos, um dos quais vitimado por uma desgraça de nascença: era surdo-mudo. O outro, de nome Átis, mostrava-se em tudo superior aos jovens de sua idade. O sonho anunciou que Átis pereceria numa ponta de ferro. Ao despertar, o soberano entregou-se a profundas reflexões. Temendo pelo filho, escolheu-lhe uma esposa e afastou-o do exército, à frente do qual costumava enviá-lo. Mandou retirar os dardos, as lanças e toda espécie de armas usadas na guerra, dos alojamentos dos soldados, onde, segundo o costume, eram suspensas na parede, e guardá-las em depósito, temeroso de que uma delas caísse sobre o filho.

XXXV — Enquanto Creso se ocupava das núpcias do jovem príncipe, chegou a Sardes um infeliz, cujas mãos estavam impuras. Tratava-se de um frígio, em cujas veias corria sangue real. Dirigindo-se ao palácio, pediu a Creso para purificá-lo, no que foi atendido. As expiações entre os Lídios assemelham-se muito às praticadas na Grécia. Depois da cerimônia, Creso quis saber de onde vinha aquele homem e quem era. “Estrangeiro, — disse-lhe ele — de que parte da Frígia vieste para sentar em tom suplicante à minha lareira? Que homem, que mulher mataste?” “Senhor, sou filho de Górdio e neto de Midas. Chamo-me Adrasto. Matei meu irmão, sem o querer. Expulso por meu pai e despojado de tudo, vim procurar aqui um asilo”. “Descendes de uma família que muito estimo — volveu Creso. — És meu amigo; nada te faltará em meu palácio enquanto aqui permaneceres. Suportando com resignação tua infelicidade, muito lucrarás com isso”. Adrasto ficou, então, vivendo no palácio de Creso.

XXXVI — Nesse ínterim, apareceu em Mísia um javali de grandes proporções, o qual, descendo do Monte Olimpo, começou a fazer enormes estragos pelos campos. Os Mísios já lhe tinham dado caça várias vezes, mas sem êxito algum, enquanto a fera continuava a causar-lhes inúmeros danos. Em vista disso, foi enviada uma delegação à presença de Creso. “Senhor, — disseram os delegados — apareceu em nossas terras um terrível javali, que devasta os nossos campos, e, apesar de todos os nossos esforços, ainda não conseguimos eliminá-lo. Vimos pedir-vos para enviar em nossa companhia o príncipe, vosso filho, à frente de uma escolta de jovens escolhidos, juntamente com a vossa matilha, a fim de livrar-nos do flagelo”. Creso, lembrando-se do sonho, respondeu: “Não me falem mais de meu filho; não posso enviado com vocês. Recém-casado, ele não se ocupa agora senão da esposa; mas dar-lhes-ei minha equipagem de caça, com a elite da juventude lídia, à qual recomendarei que se empenhe com ardor para livrá-los do javali”.

XXXVII — Os Mísios retiraram-se satisfeitos com a resposta, mas Átis, tendo escutado o pedido e testemunhado a recusa de Creso, entrou logo depois, dirigindo-se ao rei: “Meu pai, as ações mais nobres e as mais generosas me eram outrora permitidas; eu podia me adestrar na guerra e na caça, mas vós me afastais hoje de uma e de outra, embora não tenhais notado em mim nem covardia nem fraqueza. Quando eu for à praça pública ou dali voltar, com que olhos me verão? Que opinião farão de mim os nossos concidadãos? Que idéia formulará a jovem princesa que acabo de desposar? A que homem se julgará ela unida? Permiti-me, pois, ir a essa caçada com os Mísios, ou provai ser mais conveniente fazer o que desejais”.

XXXVIII — “Meu filho, — volveu Creso — se agi dessa forma, não foi por haver notado em ti a menor covardia ou alguma outra coisa que me desagradasse; mas uma visão, em sonho, há pouco tempo, me fez sentir que perecerias ferido por uma arma de ferro. Por esse motivo, apressei-me em casar-te, e por isso não te enviei a esta expedição; e continuo tomando toda sorte de precauções para afastar, pelo menos enquanto viver, o mal que te ameaça. Não tenho senão a ti como filho, já que o outro, privado de ouvir, não existe para mim”.

XXXIX — “Meu pai, — replicou o jovem príncipe — se assim é, vejo que velais por mim. Parece-me, todavia, que não interpretastes bem esse sonho. O que não compreendeis, o que nele vos escapou, devo explicar-vos. O sonho, dizeis, vos revelou que eu deveria morrer ferido por uma ponta de ferro. Mas um javali tem mãos? Está ele armado com o ferro perfurante que tanto temeis? Se o sonho vos advertisse que devo morrer nas garras de um javali ou de maneira semelhante, teríeis motivo para tomar as providências que tomastes. Observai, porém, que se trata de uma ponta de ferro. Já que não irei combater homens, permiti-me tomar parte nessa empreitada”.

XL — “Meu filho, — redarguiu Creso — tua interpretação é mais justa do que a minha, e como me convenceste, mudo de propósito e permito que partas para a caçada”.

XLI — Logo em seguida mandou Creso chamar o frígio Adrasto, a quem se dirigiu nestes termos: “Estavas sob o signo da desgraça, Adrasto (que o céu me preserve de censurar-te); eu te purifiquei, eu te recebi no meu palácio, onde tens vivido confortavelmente. Creio, pois, que sou, pelos meus benefícios, merecedor de uma retribuição tua. Meu filho parte para a caça. Confio-te a guarda de sua pessoa; protege-o dos bandidos que poderão atacá-lo pelo caminho. Aliás, cumpre-te buscar uma ocasião para te distinguires; teus pais te prepararam para isso, e o vigor de tua idade o permite”.

XLII — “Senhor, — respondeu Adrasto — não fora tão justo motivo eu não iria absolutamente a essa caçada, pois preferiria, dada minha atual situação, abster-me de me imiscuir com homens de tão reto procedimento e felizes. Mas, já que assim o desejais, estou pronto a obedecer-vos. Os vossos benefícios vos fizeram merecedor de toda a minha gratidão. Podeis ficar tranqüilo. Vosso filho, cuja guarda me confiais, voltará são e salvo, se isso depender de mim”.

XLIII — Após essa breve entrevista, o príncipe e Adrasto partem com um grupo de jovens de elite e a matilha do rei. Chegando ao Monte Olimpo, procuram o javali, encontram-no, cercam-no e o atacam. Então, Adrasto, o estrangeiro purificado da prática de um homicídio, lança um dardo, que, errando o javali, vai atingir mortalmente o filho de Creso. Realiza-se, assim, o tão temido sonho: Átis perece traspassado por um ferro agudo. Imediatamente um correio despachado para Sardes leva ao soberano a notícia do trágico desfecho da caçada.

XLIV — Creso, atordoado por tão grande desgraça, sentiu-se ainda mais infeliz e culpado, por haver purificado de um homicídio o causador de sua desdita. Abandonando-se à sua imensa dor, invocava Júpiter, tomando-o como testemunha do mal que lhe havia feito aquele estrangeiro; invocava-o como protetor da hospitalidade, porque, concedendo a Adrasto um abrigo em seu palácio, alimentava, sem saber, o assassino de seu filho; invocava-o como deus da amizade, porque havia encarregado Adrasto da guarda do filho e encontrara nele o pior inimigo.

XLV — Algum tempo depois, chegaram os Lídios trazendo o cadáver de Átis, seguido daquele que o matara. Adrasto, de pé diante do cadáver, as mãos estendidas para Creso, roga-lhe que o sacrifique sobre o corpo inanimado do filho, uma vez que a vida se lhe tornara odiosa, desde que, ao seu primeiro crime, acrescentara um segundo, matando o filho de quem o tinha purificado. Apesar do luto que cobria a família, Creso não pôde ouvir o discurso do estrangeiro sem sentir-se tocado de compaixão.

“Adrasto, — disse-lhe ele — condenando-te a ti mesmo à morte, satisfazes plenamente minha vingança. Não te culpo desta morte, pois ela foi involuntária. Não acuso senão o deus que há tempos a previu”. Depois de cumprir os últimos deveres ao filho, Creso ordenou que os funerais fossem realizados de acordo com a sua categoria. Terminada a cerimônia, completo silêncio reinou em torno do túmulo. Então Adrasto, filho de Górdio, neto de Midas, assassino do próprio irmão, assassino involuntário do filho daquele que o havia purificado, sentindo-se o mais infeliz dos homens, pôs termo à vida sobre a campa de Átis.

XLVI — Creso chorou dois anos a morte do filho. Mas a crescente ameaça que vinha constituindo ao seu reino o império de Astíages, filho de Ciaxares, destruído por Ciro, filho de Cambises, e dos Persas, que ganhava, dia a dia, maior desenvolvimento, pôs termo àquela dor. Começou ele a não pensar em outra coisa senão em reprimir esta potência, antes que ela se tornasse mais forte. Inteiramente absorvido por semelhante idéia, resolveu consultar os oráculos da Grécia e o da Líbia. Enviou delegados a diversos lugares, uns a Delfos, outros a Abes, na Fócida, outros a Dodona; alguns ao oráculo de Anfiaraus; outros a Trofônio e aos Branquidas, na Milésia. Estes foram os oráculos da Grécia que Creso fez consultar. Despachou também emissários para a Líbia, com destino ao templo de Júpiter Ámon. Esses delegados eram enviados com o fito de experimentar o acerto e a legitimidade dos oráculos da Grécia e da Líbia. Se suas respostas fossem exatas, consultá-los-ia uma segunda vez, para saber se devia ou não fazer guerra aos Persas.

XLVII — Deu ordem aos delegados para sondar os oráculos e consultá-los no centésimo dia a contar da partida dos mesmos de Sardes, perguntando-lhes o que ele, Creso, filho de Aliata, rei da Lídia, fazia naquele dia, e de trazer-lhe por escrito a resposta de cada um. Conhece-se apenas a resposta do oráculo de Delfos, ignorando-se a dos demais. Logo que entraram no templo, os enviados lídios, cumprindo as instruções recebidas, fizeram à pitonisa a pergunta previamente combinada. A resposta veio prontamente: “Conheço o número dos grãos de areia e a medida do mar; compreendo a língua do mudo, ouço a voz do que não fala. Meus sentidos acusam o cheiro de uma tartaruga que está sendo cozinhada, com a carne de um cordeiro, num caldeirão de bronze; o bronze estende-se sobre ela, o bronze recobre-a”.

XLVIII — Anotando cuidadosamente a resposta da pitonisa, os emissários partiram de regresso a Sardes. Quando os demais delegados, enviados a diversos países, regressaram também com as respostas dos outros oráculos, Creso abriu-as e examinou cada uma em particular. Algumas não condiziam com a realidade, mas ao ler a resposta de Delfos, Creso reconheceu-a como verdadeira e adorou o oráculo persuadido de que esse era o único certo, pois indicara com exatidão o que, no momento, ele fazia. Realmente, depois da partida dos delegados, atentando para o dia combinado, imaginara a coisa mais impossível de adivinhar-se e de conhecer-se. Tendo ele próprio cortado em pedaços uma tartaruga e um cordeiro, cozinhara-os juntos num vaso de bronze, cuja tampa era do mesmo metal. Foi exatamente isso o que dissera a pitonisa de Delfos.

XLIX — Quanto à que receberam os lídios no templo de Anfiaraus depois das cerimônias e dos sacrifícios prescritos, ignoro-o por completo. Sabe-se apenas haver Creso reconhecido também a justeza desse oráculo.

L — O príncipe tratou, em seguida, de captar as boas graças do deus de Delfos por meio de suntuosos sacrifícios, nos quais se imolaram três mil animais pertencentes a todas as espécies cuja imolação às divindades é permitida. Fez, depois, queimar, numa grande fogueira, leitos dourados e prateados, vasos de ouro, roupas de púrpura e outras vestes, imaginando, com isso, tornar o deus mais favorável. Concitou também os Lídios a imolarem todas as vítimas de que dispunham. Mandando fundir, depois desse sacrifício, prodigiosa quantidade de ouro, fez cento e dezessete plintos, os mais longos, de seis palmos, e os menores, de três, por um de espessura. Havia, também, quatro de ouro fino, com o peso de um talento e meio, e outros de ouro fosco, pesando dois talentos. Mandou modelar, igualmente, um leão de ouro fino, com o peso de dez talentos. Esse leão, foi, em seguida, colocado sobre os plintos, de onde mais tarde caiu, quando o templo de Delfos foi queimado, encontrando-se agora incluído no tesouro dos Coríntios. Atualmente não tem o mesmo peso, porque no incêndio do templo se fundiram três talentos e meio.

LI — Terminadas essas obras, Creso enviou-as a Delfos, juntamente com muitas outras oferendas, tais como duas enormes crateras, uma de ouro e a outra de prata. A primeira foi colocada à direita na entrada do templo, e a segunda à esquerda. Retiraram-nas, também, dali, depois do incêndio. A cratera de ouro encontra-se hoje no tesouro dos Clasomênios. Pesa oito talentos e meio. A de prata está no ângulo do vestíbulo do templo. Esta contém seiscentas ânforas. Os Delfenses ali misturam água com vinho nas festas denominadas Teofânios. Dizem que essas valiosas peças foram confeccionadas por Teodoro de Samos, e assim o creio, por me parecerem trabalhos delicadíssimos. Além dessas dádivas, o soberano enviou também ao templo quatro moedas de prata, hoje agregadas ao tesouro dos Coríntios, e duas bacias para água lustral, sendo uma de ouro e outra de prata. Na de ouro acha-se gravado o nome de Lacedemônios, os quais pretendem, sem razão, terem sido os autores dessa oferta, pois o que é certo é que elas constituem um presente de Creso. A inscrição foi ali posta por um habitante de Delfos para lisonjear os Lacedemônios. Omitirei o nome do autor da façanha, embora o saiba muito bem. A essas dádivas Creso acrescentou muitas outras de menor valor.

LII — Quanto a Anfiaraus, em retribuição ao que revelou o oráculo sobre as virtudes e as desgraças do rei, este lhe consagrou um escudo de ouro maciço, com uma lança igualmente de ouro maciço. No meu tempo, viam-se ainda, um e outro, em Tebas, no templo de Apolo Ismênio.

LIII — Os lídios encarregados de levar esses presentes aos oráculos de Delfos e Anfiaraus tinham ordem de perguntar-lhes se Creso devia fazer guerra aos Persas e juntar ao seu exército tropas aliadas. Chegando ali, apresentaram as ofertas e consultaram os oráculos nestes termos: “Creso, rei dos Lídios e de outras nações, persuadido de que sois os únicos verdadeiros oráculos existentes no mundo, vos envia estes presentes que julga dignos de vossa sapiência, e vos pergunta se deve marchar contra os Persas e reunir às suas forças tropas aliadas”. Os dois oráculos concordaram nas respostas. Predisseram, um e outro, ao soberano, a guerra contra os Persas e a conseqüente destruição de um grande império, aconselhando-o a procurar a amizade dos Estados da Grécia que lhe parecessem mais poderosos.

LIV — Ao ter conhecimento dessas respostas, Creso experimentou imensa alegria, e alimentando a esperança de arrasar o império de Ciro, enviou novos emissários a Delfos com a finalidade de presentear cada um dos habitantes (o soberano sabia o número exato deles) com duas balanças de ouro. Os Delfenses, em reconhecimento, concederam a Creso e aos Lídios a prerrogativa de consultar, em primeiro lugar, o oráculo, imunidades e prioridade, e o privilégio perpétuo de se tornarem cidadãos de Delfos, quando o desejassem.

LV — Tendo enviado esses presentes aos Delfenses, Creso consultou o deus pela terceira vez, pois desde que reconheceu-lhe a veracidade não mais cessou de a ele recorrer. Perguntou-lhe se seu reinado seria de longa duração, recebendo esta resposta: “Quando um asno for rei dos Medos, então foge, lídio efeminado, para as margens do Termo pedregoso; não penses em resistir e nem te envergonhes da covardia”.

LVI — Essa resposta agradou a Creso mais do que todas as outras. Persuadido de que não se veria jamais no trono dos Medos um asno, concluiu que nem ele nem os seus descendentes perderiam o império. Procurou, então, saber quais os povos mais poderosos da Grécia, no propósito de fazer amigos, chegando à conclusão de que os Lacedemônios e os Atenienses estavam em primeiro lugar: uns, entre os Dórios, outros, entre os Iônios. Essas nações eram, realmente, outrora, as mais poderosas, pertencendo, uma, ao ramo pelásgico e a outra ao helênico.

LVII — Que língua falavam então os Pelasgos, é um ponto sobre o qual nada posso afirmar. É-nos permitido supor que esses povos, outrora vizinhos dos Dórios e habitando a região atualmente denominada Tessaliótida, assim como os que fundaram Plácia e Silacé, no Helesponto, e que viveram com os Atenienses, falavam uma língua bárbara. Se assim era, segue-se que os Atenienses, pelasgos de origem, esqueceram sua língua ao se tornarem helenos, aprendendo a desse povo.

LVIII — Quanto à nação helênica, desde a origem adotou ela a mesma língua. Pelo menos é o que me parece. Fraca a princípio, separada dos Pelasgos e partindo de débil origem, foi-se desenvolvendo até constituir-se em grande número de povos — principalmente depois que várias nações bárbaras a ela se incorporaram. Foi isso que, na minha opinião, impediu o desenvolvimento dos Pelasgos, que eram bárbaros.

LIX — Soube Creso que os Atenienses, um desses povos fragmentados em diversos grupos, se achavam sob o jugo de Pisístrato, filho de Hipócrates, então tirano de Atenas. Hipócrates era um simples particular. Deu-se com ele, certa feita, nos Jogos Olímpicos, um fato memorável: Estava ele oferecendo um sacrifício aos deuses, quando as caldeiras, perto do altar, cheias de vítimas e de água, começaram a ferver sem fogo, e a água extravasou. Quílon, da Lacedemônia, que por acaso estava presente, testemunhando o milagre, aconselhou Hipócrates a não desposar uma mulher fecunda, ou então, se já era casado, a repudiar a esposa, e se nascesse um filho, não o reconhecesse. Hipócrates repeliu os conselhos de Quílon. Algum tempo depois, nasceu Pisístrato, que na questão entre os Parálios, habitantes do litoral, comandados por Megacles, filho de Alcmeon, e os habitantes da planície, chefiados por Licurgo, filho de Aristolaides, suscitou, para abrir caminho à tirania, a formação de um terceiro partido. Organizou esse partido sob o pretexto de defender os habitantes da montanha. Eis a manobra que forjou: Tendo ferido a si próprio e a seus animais de carga, arrastou seu carro até a praça pública, como se houvesse escapado das mãos do inimigo. Conjurou os Atenienses a lhe concederem uma guarda, lembrando-lhes a glória com que se cobrira à frente dos seus exércitos contra os Megários, a tomada de Niséia, e citando-lhes vários outros exemplos de valor. O povo, ludibriado, deu-lhe por guarda certo número de cidadãos escolhidos, que o escoltavam armados de maças de madeira. Pisístrato sublevou-os e apoderou-se, dessa maneira, da cidadela. Desde então, tornou-se senhor de Atenas, mas sem perturbar o exercício das magistraturas e sem alterar as leis. Pôs em ordem a cidade e governou-a sabiamente, segundo os costumes tradicionais. Pouco tempo depois, as facções reunidas de Megacles e de Licurgo expulsaram o usurpador.

LX — Assim, Pisístrato, tendo-se tornado senhor de Atenas, foi despojado da tirania, que ainda não tivera tempo de lançar raízes profundas. Os que o expulsaram reiniciaram, dentro em pouco, suas antigas disputas. Megacles, acossado de todo lado pela facção contrária, mandou propor a Pisístrato, por um arauto, restabelecê-lo no poder, se ele quisesse desposar-lhe a filha. Pisístrato aceitou a proposta, e empenhando-se no cumprimento da condição, imaginou, de acordo com Megacles, para sua reintegração no poder, um meio tanto mais ridículo, a meu ver, quanto na antigüidade os Gregos sempre se distinguiram dos bárbaros como mais instruídos e despidos de tolas credulidades — e os autores desta trama tratavam com Atenienses, povo que gozava da reputação de ser o mais espiritual da Grécia.

Havia em Peônia, burgo da Ática, certa mulher de nome Fia, com aproximadamente quatro côvados de altura e dotada de grande beleza. Armaram essa mulher, dos pés à cabeça, e fazendo-a subir num carro, depois de instruírem-na sobre o papel que deveria desempenhar, conduziram-na à cidade. Levavam à frente arautos que, à chegada, puseram-se a gritar, de acordo com as ordens recebidas: “Atenienses, acolhei favoravelmente a Pisístrato; Minerva, que o honra mais do que a todos os outros homens, está conduzindo-o, ela própria, à cidade”.

Os arautos iam de um lado para outro, repetindo a mesma proclamação. Logo divulgou-se a notícia de que Minerva conduzia Pisístrato, e os habitantes da cidade, persuadidos de que aquela mulher era realmente Minerva, prosternaram-se para adorá-la e acolherem Pisístrato.

LXI — Tendo, por essa maneira, recuperado a soberania, Pisístrato desposou a filha de Megacles, segundo o compromisso firmado entre ambos; mas como já possuía filhos crescidos, e como os Alcmeônidas passavam por atingidos de maldição, não querendo filhos da nova mulher, teve com ela apenas contatos contra a natureza. A princípio, a jovem esposa suportou em silêncio tal ultraje, mas depois o revelou à própria mãe, espontaneamente ou premida pelas perguntas desta. A mãe comunicou o caso a Megacles, seu esposo, que, indignado com a afronta do genro, reconciliou-se, na sua cólera, com a facção oposta.

Informado do que se tramava contra ele, Pisístrato abandonou a Ática, dirigindo-se para a Erétria, onde pediu conselhos a seu filho Hípias. Este aconselhou-o a recuperar o trono, sendo o alvitre aceito. As cidades às quais Pisístrato tinha prestado outrora algum serviço cumularam-no de presentes. Várias deram-lhe somas consideráveis, mas foram os Tebanos os que mais se distinguiram pela sua liberalidade. Pouco mais tarde, tudo estava pronto para o regresso do tirano. Do Peloponeso foram enviadas tropas árgias mercenárias, e um náxio de nome Ligdâmis acorreu cheio de zelo, com homens e dinheiro para a empresa.

LXII — Partindo da Erétria para entrar na Ática, depois de uma ausência de onze anos, Pisístrato e suas tropas apoderaram-se primeiramente de Maratona, onde ergueram acampamento. Sabedores do seu regresso, seus partidários e de seu filho Hípias acorreram em grande número ao seu encontro, uns de Atenas, outros dos burgos — todos preferindo a tirania à liberdade.

Os Atenienses seus adeptos nenhuma importância lhe deram enquanto estivara ocupado em levantar dinheiro para a sua volta, e mesmo depois que se tornou senhor de Maratona; mas, ante a notícia de que ele avançava desta cidade para Atenas, foram, com todas as suas tropas, reunir-se a ele. Entrementes, Pisístrato e os seus, tendo partido de Maratona num só corpo de exército, aproximavam-se de Atenas. Chegando defronte do templo de Minerva Palenide, ali acamparam. Um adivinho chamado Anfilito, inspirado pelos deuses, veio apresentar-se a Pisístrato e transmitir-lhe este oráculo: “As redes foram lançadas; à noite, ao luar, os atuns acorrerão em cardumes”.

LXIII — Pisístrato, aceitando o augúrio, pôs-se incontinênti em marcha com o seu exército. Os cidadãos de Atenas já haviam feito o repasto, e enquanto uns se divertiam jogando dados, outros entregavam-se ao sono. Foi quando Pisístrato, caindo sobre eles com as suas tropas, os pôs em fuga. A fim de evitar que os fugitivos se concentrassem novamente para oferecer-lhe resistência, o tirano serviu-se de engenhoso meio: Mandou que seus filhos montassem a cavalo e ordenou-lhes que tomassem a dianteira. Alcançando estes os fugitivos, exortaram-nos, da parte do pai, a ficar tranqüilos e a retornar às suas casas.

LXIV — Os Atenienses obedeceram, e Pisístrato, tornando-se senhor de Atenas pela terceira vez, consolidou a tirania por meio de suas tropas auxiliares e de grandes quantidades de prata, que retirava, em parte, do próprio país, e, em parte, do rio Estrímon. Firmou-se ainda no poder devido à sua conduta para com os atenienses que não haviam fugido. Amparou-lhes os filhos, enviando-os a Naxos, pois havia conquistado também essa ilha e confiado o seu governo a Ligdâmis. Por outro lado, purificou a ilha de Delfos, seguindo a ordem dos oráculos. Eis como foi feita essa purificação: Em todos os lugares de onde se avistava o templo, mandou ele exumar cadáveres e transportá-los para outro cantão da ilha. Pisístrato teve ainda menos trabalho para consolidar a tirania sobre os Atenienses, porque muitos dos que a ele se opunham haviam sido mortos em combate, enquanto que outros tinham abandonado a pátria, desertando em companhia de Megacles.

LXV — Tal era a situação em que se encontravam os Atenienses, segundo a informação recebida por Creso. Quanto aos Lacedemônios, disseram-lhe que, depois de haverem sofrido perdas consideráveis, estavam, afinal, levando a melhor na guerra contra os Tegeatas. Realmente, no reinado de Leão e de Agasicles, os Lacedemônios, vitoriosos em outras guerras, tinham fracassado somente contra os Tegeatas. Este povo era, outrora, o menos civilizado entre os Gregos, e não faziam nenhum comércio com os estrangeiros e nem mesmo entre eles próprios; mas, depois, passaram, da maneira que vou contar, a possuir melhor legislação. Licurgo gozava em Esparta da mais alta estima. Chegando certa vez a Delfos para consultar o oráculo, assim que entrou no templo ouviu estas palavras da pitonisa: “Eis que vens ao meu templo, amigo de Júpiter e dos habitantes do Olimpo. Hesito em declarar-te um deus ou um homem; creio-te, antes, um deus”. Acrescentam alguns que foi a pitonisa quem lhe ditou a constituição ora vigente em Esparta; mas como julgam os próprios Lacedemônios, Licurgo trouxe as referidas leis de Creta, no reinado de Leobotas, seu sobrinho, rei de Esparta. Realmente, logo que assumiu a tutela desse jovem príncipe, reformou as leis antigas e tomou medidas contra a transgressão das novas. Regulamentou, em seguida, o que concernia à guerra, os enomotios, os tricados e os sissitos, e instituiu, além disso, os éforos e os senadores.

LXVI — Assim vieram os Lacedemônios a possuir um governo bem organizado. Depois da morte de Licurgo, ergueram-lhe um templo, ao qual tinham grande veneração. Habitando um país fértil e densamente povoado, sua república não tardou a prosperar e a tornar-se florescente; mas entediados com o repouso e julgando-se superiores aos Arcadenses, consultaram o oráculo de Delfos sobre a conquista da Arcádia. A pitonisa respondeu: “Pedis-me a Arcádia? O pedido é excessivo; não posso satisfazê-lo. A Arcádia possui guerreiros fortes e decididos, que repelirão vosso ataque. Todavia, para satisfazer vossa cobiça ofereço-vos a Tegéia, com suas extensas planícies.”

Ante essa resposta, os Lacedemônios renunciaram à Arcádia e, munidos de grilhões, marcharam contra os Tegeatas, considerando-os já escravos seus e confiantes num oráculo um tanto duvidoso. Sofreram, porém, tremenda derrota, e todos os que caíram vivos nas mãos do inimigo foram postos sob os próprios grilhões que traziam e compelidos a trabalhar nas terras dos Tegeatas. Esses grilhões, ainda os vi pendentes das paredes do templo de Minerva Aléia.

LXVII — Os Lacedemônios haviam sido continuamente mal sucedidos em suas primeiras guerras contra os Tegeatas; mas no tempo de Creso, no reinado de Anaxandrido e de Ariston, em Esparta, conseguiram sobrepujá-los pelos meios que passo a expor. Desejosos de vingar as passadas derrotas que lhes infligiu aquele povo, mandaram perguntar ao oráculo de Delfos a que deus deviam recorrer para conquistarem o triunfo. A pitonisa respondeu-lhes que triunfariam se levassem com eles os ossos de Orestes, filho de Agamémnon. Como não conseguiam descobrir o túmulo de Orestes, dirigiram-se novamente ao oráculo para perguntar-lhe em que lugar repousavam os restos do herói, obtendo esta resposta: “Nas planícies da Arcádia fica situada uma cidade denominada Tegéia, varrida por dois ventos que sopram em direções contrárias, e o mal está sobre o mal. É ali que o seio fecundo da terra guarda o filho de Agamémnon. Se levardes seu esqueleto a Esparta, vencereis Tegéia”.

Ante essa resposta, os Lacedemônios se entregaram com maior ardor às suas buscas, cavando o solo em toda parte, até que afinal, Licas, um espartano da classe dos argaturgos. fez a grande descoberta. Denominam-se argaturgos os cavaleiros mais velhos, já reformados. Todos os anos reformam-se cinco, e quando deixam as fileiras, realizam excursões por toda parte, antes de gozarem o repouso merecido.

LXVIII — Nesse número estava incluído Licas, o autor da descoberta do túmulo de Orestes. O acaso e habilidade de Licas cooperaram para a importante revelação. Encontrando-se em Tegéia, entrou ele, certo dia, na oficina de um ferreiro, onde viu malhar o ferro. Percebendo a admiração que isso lhe causava, o ferreiro interrompeu seu trabalho e, voltando-se para ele, disse-lhe: “Lacedemônio, ficarias bem mais espantado se visses a maravilha que eu vi, tu, para quem o trabalho de uma forja é motivo de surpresa! Cavando um poço neste pátio, encontrei um caixão de sete côvados de comprimento. Como não podia admitir que existissem, outrora, homens maiores do que os de hoje, abri-o. O corpo que ali descobri era do tamanho do esquife. Medi-o e depois cobri-o novamente de terra”. Licas, refletindo sobre a narrativa do ferreiro, pensou logo na hipótese de ser aquele o corpo de Orestes, indicado pelo oráculo. Observou também a confluência dos ventos opostos no local, enquanto que o ferro, batido sobre a bigorna, pareceu-lhe a tradução das palavras do oráculo: “o mal sobre o mal”, pois o ferro não havia sido descoberto senão para a infelicidade dos homens.

Com o espírito absorvido por essas conjecturas, retorna ele a Esparta e relata sua aventura aos Lacedemônios. Estes fazem-lhe uma acusação simulada, e ele passa por banido. Licas volta a Tegéia, conta sua desgraça ao ferreiro e empenha-se, com todas as forças, para que ele lhe alugue o pátio. A princípio, o ferreiro recusa-se a atender ao seu pedido, mas acaba concordando. Licas ali se instala, abre o túmulo e retira o esqueleto de Orestes, levando-o para Esparta. A partir daí, os Lacedemônios alcançaram grandes sucessos em todos os combates que travaram contra os Tegeatas. Aliás, a maior parte do Peloponeso já lhes estava submetida.

LXIX — Creso, informado de todos esses fatos, enviou embaixadores a Esparta, com presentes, para solicitarem a aliança dos Lacedemônios. Seguindo as instruções recebidas, assim se expressaram esses emissários: “Creso, rei da Lídia e de várias outras nações, nos enviou aqui para transmitir-vos esta mensagem: “Ó Lacedemônios; ordenando-me o deus de Delfos a contrair amizade com os Gregos, dirijo-me a vós, de acordo com o oráculo, porque sei que sois o primeiro povo da Grécia e desejo vossa aliança, sem fraude nem má fé”. Os Lacedemônios, que não ignoravam a resposta dada a Creso pelo oráculo, regozijaram-se com a chegada dos lídios e fizeram com eles um tratado de amizade e aliança, tanto mais que haviam recebido, antes, alguns benefícios de Creso, entre eles o seguinte: Tendo os Lacedemônios enviado delegados a Sardes para comprar o ouro a ser empregado na estátua de Apolo, que hoje se contempla no monte Tornax, na Lacônia, Creso fez-lhes presente do que pretendiam comprar.

LXX — Tanta generosidade e a preferência que o rei lídio lhes dava sobre todos os Gregos, determinaram a aliança, dispondo-se eles a atender a qualquer apelo de Creso, para quem já estavam fabricando uma cratera de bronze, em retribuição à dádiva recebida. A cratera era constituída de três ânforas e ornada exteriormente até as bordas por muitas figuras de animais em alto-relevo. Todavia, essa cratera não chegou às mãos de Creso, por motivos sobre os quais correm duas versões, uma das quais é dada pelos Lacedemônios, que afirmam ter sido ela roubada nas costas de Samos pelos habitantes, que, informados da viagem, vieram em grandes embarcações assaltar os portadores. Por sua vez, os habitantes de Samos sustentam que os lacedemônios, tendo sido informados, em caminho, da prisão de Creso e da tomada de Sardes, venderam-na em Samos, a particulares, que a ofertaram ao templo de Juno. Por esse motivo, os que a venderam declararam, de regresso a Esparta, terem sido assaltados.

LXXI — Não conseguindo apreender o sentido do oráculo, Creso dispôs-se a marchar em direção à Capadócia, na esperança de deitar por terra o poderio de Ciro e dos Persas. Enquanto se preparava para essa expedição, um lídio de nome Sadânis, famoso pela sua sabedoria e que veio a tornar-se ainda mais célebre entre os Lídios pelo conselho que deu a ele, Creso, falou-lhe nos seguintes termos: “Ó rei, vós vos dispondes a fazer guerra a povos que se vestem apenas de peles e que se alimentam, não do que desejariam ter, mas do que têm, porque o país é estéril; a povos que bebem somente água, por lhes faltar o vinho; que não conhecem o figo e outras boas coisas que regalam a vida. Vitorioso, que podereis arrebatar dessa gente desprovida de qualquer riqueza? Vencido, considerai os bens que ides perder. Se eles experimentarem uma vez a doçura do nosso país, não quererão mais renunciar a ela; nenhum meio encontraremos para expulsá-los. De minha parte, rendo graças aos deuses por não haverem inspirado aos Persas o desejo de atacar os Lídios”. Creso, porém, não se deixou convencer. No entanto, o que Sadânis dizia era a pura verdade. Os Persas, antes da conquista da Lídia, não conheciam nem o luxo nem as comodidades da existência.

LXXII — Os Gregos dão aos Capadócios o nome de Sírios. Antes da dominação persa, tais sírios eram súditos dos Medos, mas estavam sob a obediência de Ciro, porque o rio Hális separava os estados dos Medos dos pertencentes aos Lídios. O Hális desce de uma montanha da Armênia (o Tauros), atravessa a Cilícia, e dali, continuando seu curso, banha, à direita, a terra dos Macinianos, e, à esquerda, a dos Frígios. Depois de haver passado entre esses dois povos, corre para o norte, envolvendo, de um lado, os Sírios Capadócios, e do outro, os Paflagônios. Assim, esse rio separa quase toda a Ásia Menor da Alta Ásia, desde o litoral, defronte de Chipre, ao Ponto Euxino. O país inteiro forma um estreito, que pode ser percorrido em apenas cinco dias por um bom caminhante.

LXXIII — Creso partiu com seu exército para a Capadócia, com o propósito de anexá-la aos seus estados, e animado, sobretudo, pela confiança no oráculo e pelo desejo de vingar Astíages, seu cunhado. Astíages, filho de Ciaxares, rei dos Medos, tinha sido vencido e feito prisioneiro por Ciro, filho de Cambises. Eis como esse príncipe se tornou cunhado de Creso: Uma sedição havia obrigado uma tropa de citas nômades a retirar-se secretamente para as terras da Média. Ciaxares, que então reinava sobre os Medos, recebeu-os primeiro com benignidade, como suplicantes, chegando depois a dedicar-lhes tanta estima que lhes confiou os filhos, a fim de que estes aprendessem a língua cita e a arte de atirar com o arco. Ao cabo de algum tempo, os citas, acostumados a caçar e a trazer caça todos os dias, voltaram, certa vez, com as mãos vazias. Vendo-os assim, Ciaxares, dotado de temperamento violento, tratou-os com toda rudeza. Os citas, indignados com esse procedimento que julgavam imerecido, decidiram entre si cortar em pedaços um dos filhos do rei, cuja educação lhes havia sido confiada, e prepará-los da maneira pela qual costumavam preparar os pratos, servindo-os depois ao soberano como caça, depois do que deveriam retirar-se para Sardes, para junto de Aliata, filho de Sadiata. O plano foi executado. Ciaxares e os convivas comeram o que lhes foi servido, e os citas, perpetrada a vingança, fugiram, colocando-se sob a proteção de Aliata, do qual se tornaram suplicantes.

LXXIV — Ciaxares reclamou-os. Ante a recusa, acendeu-se a guerra entre os dois soberanos. Durante cinco anos, os Medos e os Lídios obtiveram, alternadamente, vantagens, e no sexto ano de luta aconteceu algo extraordinário, que motivou o término das hostilidades. Durante um combate em que os triunfos se equivaliam de parte a parte, o dia transformou-se inesperadamente em noite. Tales de Mileto havia predito aos Iônios esse fenômeno, fixando a data em que se verificaria. Os lídios e os medos, vendo a noite tomar inopinadamente o lugar do dia, cessaram de combater e procuraram, o mais depressa possível, fazer as pazes. Sinésio, rei da Cilícia, e Labineto, rei da Babilônia, foram os mediadores; apressaram o tratado e asseguraram-no por um casamento; fizeram Aliata dar a mão de sua filha Ariénes a Astíages, filho de Ciaxares, convencido de que, sem um laço forte, as convenções não têm nenhuma solidez. Esses povos observam em seus tratados as mesmas formalidades que os Gregos, mas costumam ainda fazer ligeira incisão nos braços e sugar reciprocamente o sangue que daí verte.

LXXV — Ciro mantinha prisioneiro Astíages, seu avô materno, por ele destronado, pelas razões que exporei no decorrer desta história. Creso, irritado contra Ciro por tal procedimento, mandara consultar os oráculos para saber se devia fazer guerra aos Persas. Veio-lhe de Delfos uma resposta ambígua, por ele julgada favorável e em virtude da qual resolveu invadir o território dos Persas. Ao chegar às margens do Hális, fez, segundo se afirma, passar seu exército pelas pontes que ainda ali existem, mas, a dar crédito à maioria dos gregos, foi Tales de Mileto quem lhes facultou a passagem. Creso, dizem os Gregos, ao alcançar a margem do rio viu-se em grande embaraço para transpô-lo com seu exército, pois as pontes ainda não existiam. Tales, que se achava no acampamento, desviou para a direita das forças expedicionárias o curso do rio, procedendo da seguinte maneira: Fez cavar um canal profundo em forma de meia lua, atrás do acampamento, de modo a envolver a retaguarda do exército, e o rio, saindo do antigo leito, entrou pelo novo, retornando, em seguida, ao antigo, depois da passagem das tropas. Dividido o rio em dois braços, tornou-se facílimo vadeá-lo, devido ao desvio das águas. Afirmam alguns que o canal ficou depois inteiramente seco, mas não creio que assim tivesse sido. De fato, como Creso e seu exército poderiam atravessar o rio quando voltaram?

LXXVI — Transpondo o Hális, Creso e suas tropas chegaram à região da Capadócia denominada Ptéria. A Ptéria, o cantão mais poderoso do país, fica perto de Sinope, cidade situada sobre o Ponto Euxino. O soberano ali ergueu acampamento e devastou as terras dos Sírios. Ocupou a cidade dos Ptérios, reduzindo os habitantes à escravidão. Apoderou-se também de todos os burgos vizinhos, deu caça aos Sírios e fê-los transportar para lugares distantes, conquanto eles não lhe tivessem dado motivo de queixa. Entretanto, Ciro reuniu seu exército, convocou todos os homens que pôde encontrar no caminho, e marchou ao encontro do invasor. Antes, porém, de lançar suas tropas em campo, enviou arautos aos Iônios, concitando-os a revoltar-se contra Creso. Não conseguindo persuadi-los, veio acampar à vista do inimigo. Os dois exércitos mediram forças em Ptéria; o choque foi terrível. Afinal, a noite separou os combatentes, sem que a vitória se decidisse para um lado ou para o outro. Assim terminou a primeira batalha.

LXXVII — Censurando a si próprio por não ter evitado a desproporção das forças — suas tropas eram muito menos numerosas do que as de Ciro — e vendo que no dia seguinte o príncipe não tentaria novo ataque, Creso retornou a Sardes, com a intenção de pedir socorro aos Egípcios, de acordo com o tratado concluído com Amasis e anterior ao firmado com os Lacedemônios. Propunha-se, também, a solicitar auxílio aos Babilônios, igualmente seus aliados e que tinham por soberano Labineto, e pedir às tropas lacedemônias que se dirigissem a Sardes dentro do tempo determinado. Contava passar o Inverno tranqüilamente e, então, à entrada da Primavera, marchar contra os Persas com as forças de todos esses povos reunidas às suas.

Assim conjecturando, logo que retornou a Sardes mandou arautos convocar os aliados, com instruções para virem ao seu encontro no quinto mês. Em seguida, despediu as tropas estrangeiras que tinha a soldo e que se haviam medido contra os Persas, deixando-as dispersar-se para todos os lados, longe de imaginar que Ciro, não havendo conseguido vantagens até então, planejava fazer avançar seu exército até Sardes.

LXXVIII — Enquanto Creso se entregava à elaboração de seus planos, a parte extra-muros da cidade enchia-se de serpentes, e os cavalos, abandonando as pastagens, corriam a devorá-las. Esse espetáculo, de que Creso foi testemunha, pareceu, aos olhos do soberano, algo de sobrenatural, e, de fato, o era. Creso mandou logo consultar os adivinhos de Telmesse, e os emissários foram informados da significação daquele fenômeno, não chegando, porém, a comunicá-la ao soberano, pois, ao regressarem por mar, souberam-no já derrotado e prisioneiro. A resposta era que Creso veria um exército de estrangeiros no seu reino e que estes subjugariam os naturais do país, já que a serpente não passava de uma filha da terra, e o cavalo, de um inimigo, de um estrangeiro. Creso já se encontrava prisioneiro quando divulgaram essa resposta, mas ignorava-se ainda a sorte de Sardes e o destino que seria dado ao soberano.

LXXIX — Quando Creso, depois da batalha de Ptéria, retirou-se, Ciro, informado do propósito do rei inimigo de dispensar as tropas estrangeiras, julgou vantajoso marchar sem demora para Sardes, antes que os Lídios reunissem novas forças. Tomando essa resolução, executou-a sem demora, e fazendo avançar seu exército sobre a Lídia, levou, ele próprio, a Creso, a notícia de sua marcha. Embora inquieto por ver suas intenções malogradas, Creso, ainda assim, lançou os Lídios em combate. Não havia, então, na Ásia, nação mais valente nem mais belicosa. Os Lídios combatiam a cavalo, com longas lanças, e eram excelentes cavaleiros.

LXXX — Os dois exércitos encaminharam-se para a planície situada além dos muros de Sardes, planície extensa e estéril, atravessada pelo Hilos e por outros riachos que desembocam no Hermus, o maior de todos eles. O Hermus desce de uma montanha consagrada à deusa Cibele e vai desaguar no mar, perto da cidade de Focéia.

À vista do exército lídio em ordem de batalha nessa planície, Ciro, receando a cavalaria, seguiu o conselho do medo Hárpago. Reunindo todos os camelos que transportavam os víveres e as bagagens na retaguarda das forças, desembaraçou-os da respectiva carga e mandou seus homens montá-los, como cavalerianos, com ordem de investir assim, à frente das tropas, contra a cavalaria de Creso. Ordenou, ao mesmo tempo, à infantaria, que seguisse os camelos, colocando toda a cavalaria atrás da infantaria. Dispondo dessa maneira as forças, deu instruções aos soldados para que matassem todos os lídios que encontrassem pela frente, poupando apenas a Creso, mesmo que ele ainda oferecesse resistência depois de capturado. Tais foram as ordens de Ciro. Opôs ele os camelos à cavalaria inimiga, por saber que os cavalos receiam os camelos, não podendo nem vê-los nem suportar-lhes o cheiro. Daí haver imaginado esse recurso astucioso visando inutilizar a cavalaria lídia, na qual Creso depositava a esperança de uma vitória retumbante.

Mal os dois exércitos avançaram para o choque, os cavalos dos lídios, sentindo a presença dos camelos, recuaram, pondo por terra as esperanças de Creso. Os lídios, contudo, não se desconcertaram com isso. Percebendo o estratagema, desceram dos cavalos e combateram a pé. Por fim, depois de perdas consideráveis de parte a parte, bateram em retirada, encerrando-se atrás das muralhas da cidade, onde os persas os sitiaram.

LXXXI — Iniciado o cerco, Creso, julgando que este se prolongaria por muito tempo, enviou da cidade novos emissários em busca dos aliados. O encontro das tropas aliadas em Sardes só teria lugar no quinto mês, como fora combinado, mas como o soberano estava cercado, deviam os emissários solicitar socorro urgente.

LXXXII — Os embaixadores dirigiram-se aos diversos povos aliados e, particularmente, aos Lacedemônios. Justamente nessa ocasião sobreviera uma disputa entre os Espartanos e os Árgios, por causa de uma região denominada Tiréia. Este cantão fazia parte da Argólida, mas os Lacedemônios o tinham cercado de muros e dele se apropriado. Toda a região para o ocidente até a Maléia pertencia também aos Árgios, tanto em terra firme como no mar, inclusive a ilha de Citera e outras menores. Os Árgios, tendo vindo em socorro do território arrebatado, fizeram um acordo com os Lacedemônios, segundo o qual fariam combater trezentos homens de cada lado, ficando o vencedor de posse do território contestado. Os dois exércitos não estariam presentes ao combate; retirar-se-ia cada qual para o respectivo país, a fim de que o grupo derrotado não pudesse ser socorrido pelos seus compatriotas.

Retiraram-se, realmente, os dois exércitos, depois desse acordo, ficando em campo somente os guerreiros escolhidos de um lado e do outro. Combateram ambas as partes numa tal equivalência de forças, que, dos seiscentos homens, apenas três sobreviveram: Alcinor e Cromius, do lado dos Árgios, e Otríades, do lado dos Lacedemônios, tendo sido ainda necessário que a noite chegasse para separá-los. Os dois árgios correram a Argos a anunciar a vitória. Enquanto isso, Otríades, o guerreiro lacedemônio, despojou das armas os árgios mortos em combate, levando-as para o seu acampamento, e manteve-se firme no seu posto. No dia seguinte chegavam os dois exércitos. Instruídos sobre os acontecimentos, cada qual atribuía a si a vitória; os Árgios, porque ficaram com superioridade numérica; os Lacedemônios, porque os combatentes árgios se haviam retirado, enquanto que seu representante se mantivera no posto e despojara os adversários mortos na peleja. A disputa acalorou-se, e os dois exércitos engalfinharam-se, levando os Lacedemônios a melhor, depois de perdas consideráveis de parte a parte.

Desde essa ocasião, os Árgios, que até ali usavam cabelos compridos, passaram a raspar a cabeça; criaram uma lei regulamentando o assunto e decretaram maldições contra todo árgio que deixasse crescer o cabelo e contra as mulheres que usassem ornatos de ouro, até que retomassem Tiréia. Os Lacedemônios, até então de cabelos curtos, impuseram a si Próprios uma lei contrária, isto é, a de usarem cabelos compridos. Quanto a Otríades, o sobrevivente dos trezentos lacedemônios, dizem que, com vergonha de retornar a Esparta depois da perda dos companheiros, matou-se no campo de batalha, no território da Tiréia.

LXXXIII — Era essa a situação dominante em Esparta quando chegou de Sardes o emissário de Creso, solicitando socorro urgente para o soberano sitiado. Os Espartanos não hesitaram em enviá-lo. As tropas já se achavam prontas e os navios equipados, quando chegou outro correio trazendo a notícia de que a capital dos Lídios havia sido tomada e Creso feito prisioneiro. Tristes ficaram os Espartanos com a notícia, e considerando já inútil o seu auxílio, suspenderam a remessa das tropas.

LXXXIV — Vejamos como se deu a captura de Sardes. No décimo quarto dia do cerco, Ciro mandou anunciar por todo o acampamento que daria uma recompensa a quem subisse, em primeiro lugar, as muralhas. O exército, depois disso, fez diversas tentativas de assalto, sem êxito algum, e mantinha-se em repouso, quando um homem da terra dos Mardas, de nome Hiroeade, procurou escalar certo ponto da cidadela, onde não havia sentinela. Os Lídios nunca recearam que a praça fosse tomada por esse lado. Escarpada, inexpugnável, essa parte da cidadela era a única por onde Meles, antigo rei de Sardes, não levara o leão que recebera de uma concubina. Os adivinhos de Telmesse haviam predito que Sardes tornar-se-ia inexpugnável se se fizesse passar o leão em torno das muralhas. Ante a predição, Meles conduziu o animal por toda parte onde o inimigo pudesse tentar o ataque e forçar a cidadela. Todavia, considerou desnecessário levá-lo ao lado fronteiro ao monte Tmolus, por acreditá-lo inacessível. Hiroeade percebera na véspera um lídio descendo da cidadela por aquele ponto, a fim de apanhar uma moeda que lhe escapara das mãos, e o vira subir, em seguida, pelo mesmo caminho. Esta observação impressionou-o e fê-lo refletir. Subiu, ele próprio, por ali, acompanhado de outros persas. Seguia-o, pouco mais atrás, uma grande quantidade de soldados. Assim foi tomada Sardes, e a cidade inteira entregue à pilhagem.

LXXXV — Quanto a Creso, eis qual foi sua sorte: Tinha ele um filho surdo-mudo, de quem já fiz menção. Na época de prosperidade, Creso empregara todos os recursos para curá-lo, e entre outros meios recorrera ao oráculo de Delfos, tendo-lhe dito a pitonisa: “Lídio, rei de vários povos, insensato Creso, não procureis ouvir no vosso palácio a voz tão desejada do vosso filho. Melhor será para vós não ouvi-la nunca; ele começará a falar no dia em que começar a vossa desgraça”.

Depois da tomada de Sardes, um persa, que não conhecia Creso, investiu contra ele para matá-lo. O soberano viu o movimento do agressor, mas, abatido pelo peso de seu infortúnio, não tentou evitá-lo, pouco lhe importando perecer então. O jovem príncipe mudo, à vista do persa que se lançava contra o pai, sentiu-se apoderado de tão grande terror que, num esforço para gritar, recuperou a voz: “Soldado! — exclamou ele — Não mates Creso!” Foram estas suas primeiras palavras, e até o fim de seus dias conservou ele a faculdade de falar.

LXXXVI — Assim os Persas se apoderaram de Sardes e fizeram Creso prisioneiro. Este reinara pelo espaço de quatorze anos, havendo sustentado um cerco de quatorze dias, e tendo, por fim, destruído seu próprio império. Os Persas, depois de aprisioná-lo, levaram-no a Ciro. Este fê-lo subir, carregado de ferros e cercado de quatorze jovens lídios, a uma grande fogueira erguida para sacrificar a alguns deuses as primícias da vitória, ou para cumprimento de um voto, ou, talvez, para comprovar se Creso, cujo espírito piedoso era tão proclamado, seria preservado das chamas por alguma divindade. Já sobre a fogueira, o rei dos Lídios, apesar da dor cruciante que experimentava, lembrou-se das palavras de Sólon, de que “nenhum homem pode dizer-se feliz enquanto respirar”, palavras que então lhe pareciam inspiradas por um deus. A esse pensamento, assegura-se ter ele, com um longo suspiro, saído do silêncio em que se vinha mantendo, exclamando por três vezes: “Sólon!” Ciro, ouvindo-o, perguntou por intermédio dos intérpretes a quem invocava o prisioneiro. Creso, a princípio, nada respondeu; mas, compelido a falar, disse-lhe: “É um homem cujo convívio eu preferiria às riquezas de todos os reis”. Parecendo aos persas obscura aquela resposta, eles o interrogaram de novo. Vencido pela insistência, Creso respondeu afinal, declarando que certa ocasião Sólon, de Atenas, viera à sua corte, e tendo contemplado todas as suas riquezas, nenhuma importância lhes dera. Tudo acontecera, porém, como Sólon previra, embora seu discurso não tivesse sido dirigido especialmente ao rei dos Lídios, pois era antes uma advertência a todos os homens em geral e, sobretudo, aos que se julgam felizes. Assim falou Creso. O fogo já havia sido ateado e a fogueira já começava a arder pelas extremidades quando Ciro, recebendo pelos intérpretes a resposta do soberano vencido, arrependeu-se do seu gesto. Lembrou-se de que também era um ser humano e que, não obstante, estava fazendo queimar um seu semelhante, que não se julgara menos feliz do que ele. Por outro lado, temia a vingança dos deuses; e refletindo sobre a instabilidade das coisas humanas, mandou apagar imediatamente a fogueira e fazer descer Creso e seus companheiros de infortúnio. Todavia, os maiores esforços já não conseguiam debelar a violência das chamas.

LXXXVII — Então Creso, segundo relatam os Lídios, informado da deliberação de Ciro e vendo aquela multidão açodada, tentando extinguir o fogo sem consegui-lo, invoca em altos brados a proteção de Apolo, suplicando-lhe que, se suas oferendas lhe foram agradáveis, o socorra e o salve de tão iminente perigo. Essas súplicas eram acompanhada de copiosas lágrimas. De súbito, num céu límpido e radioso, nuvens pardacentas se aglomeram; desaba uma tempestade, e a chuva, caindo em abundância, apaga o fogo. Tão prodigioso fato veio mostrar a Ciro o quanto Creso era querido pelos deuses por suas virtudes. Fazendo-o descer da fogueira, falou-lhe nestes termos: “Ó Creso, quem te aconselhou a invadir minhas terras com um exército, declarando-te meu inimigo em vez de buscares a minha amizade?” “Teu destino feliz e a má sorte me arrastaram, senhor, a esta malfadada empresa — respondeu Creso. — O deus dos Gregos foi o culpado de tudo; ele, somente ele, persuadiu-me a atacar-te. É preciso ser muito insensato para preferir a guerra à paz. Na paz, os filhos sepultam os pais; na guerra, os pais sepultam os filhos. Enfim, aprouve aos deuses que as coisas assim se passassem”.

LXXXVIII — Em seguida, Ciro, mandando libertar Creso dos ferros, fê-lo sentar-se a seu lado e tratou-o com toda consideração, não podendo, ele e toda a corte, encará-lo sem espanto. Creso mantinha-se silencioso, entregue a profundas reflexões. Momentos depois, volvendo os olhos, viu os persas ocupados em saquear a cidade de Sardes. “Senhor, — exclamou, dirigindo-se a Ciro — é-me permitido dizer o que penso, ou minha situação obriga-me a calar?” Ciro disse-lhe que podia falar com franqueza. “Pois bem, — volveu Creso — essa multidão, que faz ela com tanto ardor?” “Saqueia tua capital e carrega-lhe as riquezas”. “Não, senhor, não é, absolutamente, a minha cidade que eles saqueiam; não são as minhas riquezas que eles estão pilhando. Nada disso me pertence mais. Eles agora se apoderam do que é teu”.

LXXXIX — Chocado com a observação, Ciro ordena aos presentes que se retirem e pergunta a Creso qual a medida que deveria tomar em semelhante contingência. “Senhor, — responde-lhe Creso — como os deuses me tornaram teu escravo, julgo-me no dever de advertir-te sobre o que mais vantajoso me pareça, quando o percebo melhor do que tu. Os Persas, indisciplinados por índole, são pobres. Se permites que eles pilhem esta cidade e retenham os despojos, é provável que quem lograr o melhor quinhão se disponha à revolta. Se aprecias meus conselhos, ordena a alguns dos teus guardas que se coloquem à entrada da cidade e exijam de tuas tropas os despojos, sob o pretexto de que é preciso consagrar a décima parte a Júpiter. Por esse meio não atrairás o ódio dos soldados, embora privando-os do produto da pilhagem; e quando eles souberem que não queres nada para ti, obedecerão de muito boa vontade.

XC — Aquela observação agradou enormemente a Ciro. Considerando o conselho muito sensato, cumulou seu autor de louvores, e depois de haver dado aos soldados as ordens sugeridas por Creso, dirigiu-se novamente a este: “Creso, — disse-lhe — já que tuas palavras e tuas ações provam que estás disposto a conduzir-te como um rei sábio, podes pedir-me o que te agradar; obtê-lo-ás imediatamente. “Senhor, — respondeu Creso — o maior favor que me poderás prestar será permitir-me enviar ao deus dos Gregos, aquele entre todos os deuses a quem mais louvei, estes ferros, com a ordem de lhe perguntarem se é lícito enganar alguém que sempre se houve no sentido de muito lhe merecer”. Ciro perguntou de que se lamentava ele e qual o motivo do seu pedido. Creso pô-lo a par dos planos que traçara, das oferendas que fizera e das respostas dos oráculos animando-o a fazer a guerra contra os Persas, terminando por solicitar-lhe novamente permissão para mandar apresentar suas queixas ao deus. “Concedo-te — disse-lhe Ciro, rindo-se — não somente essa permissão, como tudo que desejares de ora em diante”. Obtida a permissão, Creso enviou emissários lídios a Delfos, com ordem de colocar os ferros nos umbrais do templo e perguntar ao deus se ele não se envergonhava de havê-lo, por meio de oráculos, incitado à guerra contra os Persas, na esperança de arruinar o império de Ciro; e mostrando as correntes, únicas primícias que podia oferecer-lhe daquela expedição, perguntar se os deuses dos Gregos tinham o costume de ser ingratos.

XCI — Os lídios, havendo executado as ordens de Creso, dizem que a pitonisa lhes respondeu: “É impossível, mesmo a um deus, evitar a sorte determinada pelo destino. Creso está sendo punido pelo crime do seu quinto ancestral, que, simples guarda de um rei da dinastia dos Heraclidas, cedendo às instigações de uma mulher astuta, matou seu soberano e apoderou-se do trono ao qual não tinha direito algum. Apolo queria afastar de Creso a desgraça de Sardes e não fazê-la cair senão sobre seus filhos, mas as Parcas mostraram-se intransigentes. Com o máximo que elas lhe concederam, ele já contemplara o soberano: adiou de três anos a tomada de Sardes. Que Creso saiba ter sido feito prisioneiro três anos mais tarde do que lhe estava reservado pelo destino. Em segundo lugar, Apolo socorreu-o quando ele ia perecer vítima das chamas. Sobre o oráculo ainda, Creso não tem razão de se lamentar. Apolo predissera-lhe que, fazendo guerra aos Persas, destruiria um grande império. Se, ante essa resposta, Creso tivesse demonstrado maior iniciativa, teria mandado perguntar ao deus se se tratava do império dos Lídios ou do de Ciro. Não tendo, nem apreendido o sentido do oráculo, nem interrogado de novo o deus, não deve queixar-se senão de si mesmo. Finalmente, Creso não compreendeu também a resposta de Apolo com relação ao asno. Ciro era esse asno, por pertencerem os autores de seus dias a duas nações diferentes, sendo o pai de origem menos ilustre que a mãe; esta, natural da Média e filha de Astíages; o outro, persa e súdito da Média. Embora inferior em tudo, havia desposado a soberana”.

Tomando conhecimento da resposta da pitonisa, Creso reconheceu ter sido exclusivamente sua a culpa, e não do deus. Eis aí o que concerne ao reinado de Creso e à primeira submissão dos Iônios.

XCII — As oferendas de que falei não são as únicas que Creso fez aos deuses; vêem-se ainda várias outras na Grécia. O soberano deu de presente a Tebas, na Beócia, um tripé de ouro, consagrado a Apolo Ismênio; a Éfeso, novilhas de ouro e a maior parte das colunas do templo; a Minerva Pronaia, em Delfos, um grande escudo de ouro. Essas dádivas subsistiam ainda no meu tempo e muitas outras se perderam. Quanto ao presente que deu aos Branquidos, no país dos Milésios, era, ao que pude saber, em tudo semelhante ao que deu a Delfos e tinha o mesmo peso. Os presentes a Delfos provinham dos próprios bens do príncipe; os outros, ao contrário, vinham dos bens de um inimigo, que formara um partido contra Creso antes da subida deste ao trono, empenhando-se com ardor para dar a Pantaleão a coroa da Lídia. Pantaleão era filho de Aliata e irmão de Creso, mas de outra mãe. Logo que se viu de posse da coroa, transmitida pelo pai, Creso mandou matar — retalhando com espinhos — o que ousara levantar-se contra ele, enviando os bens do morto aos templos dos deuses amigos, como vimos.

XCIII — A Lídia não oferece, como outros países, maravilhas dignas de figurarem na história, exceto as palhetas de ouro arrancadas do Tmolus. Vê-se, entretanto, ali, uma obra bem superior às que admiramos em outras partes (salvo, naturalmente, os monumentos do Egito e da Babilônia): o túmulo de Aliata, pai de Creso. A base é composta de grandes pedras, e o resto, de argamassa. Foi construído às expensas de negociantes, artistas e cortesãs. Cinco placas, colocadas no alto do monumento, subsistiam ainda no meu tempo, assinalando, por inscrições, a contribuição de cada uma das três classes para a ereção do grande monumento. Segundo uma dessas inscrições, a contribuição das cortesãs foi a mais considerável, pois todas as jovens, na Lídia, se entregavam à prostituição. Com isso formavam o dote e continuavam no negócio até casarem-se, cabendo-lhes o direito de escolher o esposo. Ao lado do monumento existe um lago que nunca seca, segundo afirmam os Lídios. É o lago Gigéia, como o denominam.

XCIV — As leis dos Lídios muito se assemelham às dos Gregos, exceto no tocante à prostituição das jovens. De todos os povos dos quais temos conhecimento, foram os Lídios os primeiros a cunhar moedas de ouro e de prata, e também dos primeiros a se dedicarem à profissão de revendedor. Atribuem-se-lhes a invenção de diversos jogos atualmente em uso, tanto entre os naturais do país como entre os Gregos, afirmando-se que, na ocasião em que tais jogos foram inventados, enviou-se uma expedição à região hoje ocupada pela Tirrênia, para a formação, ali, de uma colônia. Eis como se narra o fato: No reinado de Átis, filho de Manes, toda a Lídia se viu flagelada pela fome, suportada com paciência durante algum tempo. Vendo, porém, que a situação não melhorava, o povo começou a procurar um remédio para minorá-la, cada um imaginando-o à sua maneira. Nessa ocasião foram inventados os dados, o jogo da péla e todas as outras espécies de jogos, exceto o das damas, do qual os Lídios não se consideram os autores. Vejamos o uso que os habitantes fizeram de tais invenções para enganar a fome cada vez mais premente. Jogavam alternadamente durante um dia inteiro, a fim de distrair a vontade de comer, e no dia seguinte comiam e não jogavam. Assim continuaram pelo espaço de oito anos; mas o mal, em vez de atenuar-se, mais se agravava. O rei, então, dividiu os Lídios em dois grupos e mandou-os tirar a sorte; um deveria permanecer, e o outro retirar-se do país. Aquele a quem coube a sorte de ficar tinha por chefe o próprio rei, enquanto que seu filho Tirrênio se pôs à frente dos emigrantes.

Banidos da pátria, os lídios dirigiram-se primeiramente para Esmirna, onde construíram navios, dotando-os de todo o necessário, e neles embarcaram para procurar víveres em outras terras. Depois de haverem costeado diversos países aportaram à Úmbria, onde ergueram cidades, habitadas por esse povo até hoje. Trocaram, porém, o nome de Lídios pelo de Tirrênios, em homenagem a Tirrênio, filho do rei e que viera como chefe da colônia.

XCV — Vimos os Lídios submetidos pelos Persas; mas, quem era esse Ciro que destruiu o império de Creso? Como os Persas conseguiram a soberania na Ásia? São detalhes dos quais me ocuparei no decorrer desta narrativa. Tomarei por base informações de alguns persas que procuravam antes engrandecer as ações de Ciro, do que dizer a verdade, muito embora eu não ignore haver sobre o príncipe várias outras opiniões.

Havia quinhentos anos que os Assírios eram senhores da Alta Ásia, quando os Medos, que se encontravam sob o seu domínio, se rebelaram; e com tal ardor se empenharam na conquista da liberdade, que conseguiram sacudir o jugo e tornar-se independentes. As outras nações seguiram-lhes o exemplo.

XCVI — Todos os povos desse continente, libertos da dominação assíria, regeram-se durante algum tempo ainda pelas suas próprias leis, mas acabaram recaindo sob o poder de um único soberano, da maneira que passo a narrar: Havia entre os Medos um sábio de nome Déjoces, filho de Fraorte. Esse Déjoces, seduzido pela idéia de realeza, imaginou, para consegui-la, um plano assaz inteligente. Os Medos viviam dispersos em burgos. Déjoces, gozando de grande consideração no seu burgo, distribuía a justiça com muito zelo e aplicação, embora as leis fossem menosprezadas em toda a Média e ele soubesse que a justiça tem na injustiça um inimigo terrível. Os habitantes do seu burgo, testemunhando-lhe a sabedoria, haviam-no escolhido para juiz. Aspirando à realeza, como dissemos, Déjoces procurava manifestar em todas as ações a maior retidão e um profundo senso de eqüidade. Esta conduta valia-lhe os maiores elogios por parte dos seus concidadãos. Os habitantes de outros burgos, até então oprimidos por injustas sentenças, sabendo que Déjoces era o único a julgar rigorosamente de acordo com as regras da eqüidade, começaram a afluir ao tribunal onde ele distribuía a justiça, não querendo ser julgados senão por ele.

XCVII — O número de solicitantes aumentava dia a dia, pois todos achavam que os processos só chegavam a termo nas mãos dele. Quando Déjoces se reconheceu o único responsável por tantas sentenças, negou-se a voltar ao tribunal, renunciando formalmente às respectivas funções. Pretextou os prejuízos que causava a si mesmo abandonando os próprios negócios, enquanto passava dias inteiros a liquidar questões alheias. O banditismo e a desordem passaram a imperar como nunca nos burgos. Os Medos reuniram-se em conselho para tratar da situação. Aproveitando a oportunidade, os amigos de Déjoces, segundo se informaram, dirigiram-se à assembléia nos seguintes termos: “A situação está se tornando calamitosa, não nos permitindo mais habitar em sossego este país. Por isso, devemos escolher um rei. Estando a Média governada por boas leis, poderemos cultivar em paz nossos campos, sem o temor da injustiça e da violência”. Este discurso persuadiu os Medos a aceitar um rei.

XCVIII — Deliberaram logo sobre a escolha. Todos os louvores e sufrágios reuniram-se em torno de Déjoces, conseguindo ele ser eleito por unanimidade de votos. Mandou, então, construir um palácio de acordo com a dignidade real e pediu guardas para sua segurança pessoal. Os Medos acederam. Construíram-lhe, no local por ele designado, um edifício amplo e bem fortificado, e permitiram-lhe escolher livremente, em toda a nação, uma guarda de sua inteira confiança.

Ao ver-se no trono, Déjoces obrigou igualmente os seus súditos a construir uma cidade, a ornamentá-la e a fortificá-la, sem se preocupar com as outras praças. Os Medos, dóceis a tudo, edificaram essa cidade fortificada e imensa, conhecida hoje pelo nome de Ecbatana, cujos muros concêntricos fecham-se uns nos outros, e são construídos de maneira que cada plataforma não ultrapasse a vizinha senão na altura das ameias. O local, em forma de bacia e elevando-se numa colina, facilitou o sistema. Havia ao todo sete plataformas, ficando situados na última o palácio e o tesouro real. A superfície da plataforma maior quase igualava a de Atenas. As ameias que circundavam a primeira eram pintadas de branco; as da segunda, de preto; da terceira, da cor de púrpura; da quarta, de azul; da quinta, de cor alaranjada; e das últimas, de cor prateada e dourada.

XCIX — Foi essa a cidade mandada construir por Déjoces. A população recebeu ordens para instalar-se aos pés das barreiras. Concluídos todos os edifícios considerados necessários, Déjoces proclamou como regulamento que ninguém poderia entrar nos aposentos reais; que todos os negócios seriam tratados por meio de mensagens, e que o rei não seria visível para nenhum estranho. Ordenou também que ninguém risse ou escarrasse na sua presença, bem como na presença de qualquer outra pessoa, considerando indigno e vergonhoso tal procedimento.

Instituiu Déjoces um cerimonial imponente, para que as pessoas da sua idade e com as quais fora educado, e aqueles de descendência tão elevada quanto a sua e nada inferiores, nem em bravura nem em mérito, não lhe tivessem inveja e não conspirassem contra ele. Acreditava que, tornando-se invisível aos súditos, passaria por possuir outra natureza aos olhos deles.

C — Estabelecidas essas regras e consolidada a autoridade real, Déjoces pôs-se a fazer justiça com toda severidade. Os processos lhe eram enviados por escrito; ele os julgava e os devolvia com a sentença. Tal o seu método quanto aos processos. Com referência ao resto, se tinha conhecimento de que alguém havia proferido uma injúria, mandava prendê-lo e aplicava-lhe uma pena proporcional ao delito. Para isso tinha em todos os seus estados emissários vigiando as ações e as palestras de seus súditos.

Cl — Déjoces reuniu todos os Medos numa só nação, reinando sobre eles. Essa nação compreende vários povos: os Búsios, os Paretacênios, os Estrucatas, os Arizantes, os Búdios e os Magos.

CII — Por sua morte, depois de um reinado de cinqüenta anos sucedeu-o no trono seu filho Fraorte. O reino da Média não bastou à ambição deste último. Atacou primeiramente os Persas, submetendo-os ao seu domínio. Formando assim duas nações, ambas poderosas, subjugou, em seguida a Ásia, marchando de conquista em conquista até sua malograda expedição contra os Assírios e a porção desse povo que habitava Nínive. Embora os Assírios, outrora senhores da Ásia, estivessem, então, sozinhos e abandonados pelos aliados, ainda se achavam em próspera situação. Fraorte pereceu nessa sortida, com grande parte do seu exército, depois de haver reinado vinte e dois anos.

CIII — Com a morte desse príncipe, subiu ao trono seu filho Ciaxares, neto de Déjoces. Dizem ter sido este soberano ainda mais belicoso do que o pai e o avô. Um dos seus primeiros atos ao subir ao poder foi dividir os diversos povos da Ásia em diferentes corpos de tropa, separando os lanceiros dos archeiros e dos cavaleiros, ordens que outrora formavam e combatiam em comum. Foi ele quem fez guerra aos Lídios e travou com eles uma batalha durante a qual o dia transformou-se subitamente em noite. Foi ele, ainda, que, depois de haver submetido toda a Ásia para cima do rio Hális, reuniu todas as forças do império e marchou contra Nínive, decidido a vingar o pai com a destruição dessa cidade. Já havia derrotado os Assírios em batalha campal e cercava Nínive, quando se viu assaltado por um grande exército de Citas, tendo à frente Mádias, o rei, filho de Protótios. Expulsando da Europa os Cimérios, os Citas haviam penetrado na Ásia; a perseguição aos fugitivos conduzira-os até o país dos Medos.

CIV — De Palos-Meótis ao Faso e à Cólquida leva trinta dias de viagem quem caminha com muita rapidez. Para quem se dirige da Cólquida para a Média, o trajeto não é longo, pois entre esses dois países encontra-se apenas a terra dos Saspiros. Atravessando-a, chega-se logo ao território dos Medos. Os Citas, entretanto, não penetraram desse lado; fizeram-no bem mais adiante, por uma estrada muito mais longa, deixando o Cáucaso à direita. Foi ali que os Medos, terçando armas com os Persas e sendo derrotados, perderam o império da Ásia, que passou para os Citas.

CV — De lá, os Citas marcharam para o Egito, mas quando chegaram à Síria, Psamético, rei do Egito, veio-lhes ao encontro, e, à força de presentes e de súplicas, conseguiu demovê-los de ir adiante. Retornaram eles pelo mesmo caminho e passaram por Ascalão, na Síria, sem causar nenhum dano, com exceção de algumas pilhagens no templo de Vênus Urânia, feitas por alguns dos que seguiam na retaguarda. Esse templo, ao que pude saber pelas informações colhidas, é o mais antigo de todos os dedicados à deusa, tendo servido de modelo ao de Cipro, segundo declararam os próprios Cíprios. O de Citera é obra dos Fenícios, originários da Síria. Irada com a ação dos soldados citas, a deusa enviou uma doença para aqueles que haviam saqueado o templo de Ascalão, e o castigo estendeu-se a toda sua posteridade. Os Citas acreditam ser essa doença uma punição pelo sacrilégio, e os estrangeiros que viajam pelo país podem observar o estado daqueles a quem os habitantes chamam de “enareus”.

CVI — Conservaram os Citas, durante vinte e oito anos, o império da Ásia, mas arruinaram tudo pela violência e pela negligência. Além dos tributos ordinários, exigiam ainda de cada particular um imposto arbitrário; e, não satisfeitos com isso, percorriam a região pilhando e arrebatando a cada habitante o que bem lhes convinha. Ciaxares e os Medos, tendo convidado para uma visita a maior parte deles, massacraram-nos, depois de os haverem embriagado. Dessa forma recuperaram os Medos seus estados e o domínio sobre o país que já tinham outrora possuído. Em seguida, tomaram a cidade de Nínive. Sobre a maneira pela qual realizaram essa façanha, falarei em outra ocasião. Finalmente, submeteram os Assírios, com exceção do país da Babilônia. Algum tempo depois desses acontecimentos, Ciaxares morreu, havendo reinado quarenta anos, compreendendo o tempo que durara o domínio dos Citas.

CVII — Astíages, seu filho, sucedeu-o no trono. Teve esse príncipe uma filha, à qual deu o nome de Mandane. Certo dia sonhou que ela urinava com tal abundância que inundava a capital do reino e toda a Ásia. Comunicando o sonho aos magos que se dedicavam a interpretações desse gênero, ficou de tal forma aterrorizado com os detalhes da explicação, que, quando a filha cresceu, não quis dar-lhe por esposo um meda digno pela linhagem; fê-la desposar um persa chamado Cambises, o qual, embora filho de importante família e de muito bons costumes, ele o considerava inferior a um meda de condição medíocre.

CVIII — No primeiro ano do casamento de Cambises com Mandane, Astíages teve outro sonho; pareceu-lhe ver sair do seio da filha uma videira que se estendia, cobrindo toda a Ásia. Tendo consultado novamente os magos, mandou vir da Pérsia Mandane, prestes a dar à luz. Logo que ela chegou colocou-a sob vigilância, com a intenção de eliminar a criança que estava para nascer, pois os magos lhe haviam predito que essa criança devia reinar algum dia no lugar dele. Tendo tomado todas as providências, Astíages, logo que Ciro nasceu, mandou chamar Hárpago, seu parente e aquele, dentre todos os Medos, em quem mais confiava. “Hárpago, — disse-lhe ele — executa fielmente a ordem que te vou dar, sem tentar enganar-me, pois se o fizeres estarás cavando tua própria ruína. Toma esta criança que acaba de nascer de Mandane, leva-a para tua casa e faze-a perecer, enterrando-a em seguida como julgares conveniente”. “Senhor, — respondeu Hárpago — sempre procurei vos ser agradável e farei todo o possível para nunca vos ofender. Se quereis que a criança morra, obedecerei rigorosamente vossas ordens, em tudo que depender de mim”.

CIX — Tramada a sorte da criança, foi ela entregue, toda enfeitada para a morte, às mãos de Hárpago. Este voltou para casa com lágrimas nos olhos e, dirigindo-se à esposa, revelou-lhe a odiosa ordem de Astíages. “Qual a tua resolução?” — inquiriu ela. “Não executarei absolutamente as ordens de Astíages, — replicou ele — ainda que me torne passível da sua ira. Não me prestarei, de forma alguma, a tão nefando crime. Não farei isso por várias razões: primeiro, porque sou parente da criança. Segundo, porque Astíages está em idade avançada e não tem nenhum filho varão. Se depois da sua morte a coroa passar para a princesa, sua filha, cujo filho ele quer que eu hoje mate, não estarei eu ante a perspectiva de maior perigo? Para minha segurança atual é preciso que o recém-nascido pereça, mas isso deverá acontecer pelas mãos da gente de Astíages e não pelas minhas mãos”.

CX — Dizendo isso, enviou sem perda de tempo um recado a um dos boiadeiros de Astíages, que sabia encontrar-se pastoreando o gado nas montanhas mais freqüentadas por animais ferozes. Esse boiadeiro chamava-se Mitrídates. Sua mulher, escrava de Astíages, respondia, como o marido, pelo nome de Spaco, que na língua dos Medos significa o mesmo que Sino na dos Gregos, isto é, “cadela”. As pastagens onde Mitrídates fazia guarda ao gado do rei ficavam ao pé das montanhas ao norte de Ecbatana e na direção do Ponto Euxino. Daquele lado, a Média é um país de terras altas, cheio de montanhas e coberto de florestas, enquanto que o resto do reino é plano e úmido. Quando o boiadeiro chegou, disse-lhe Hárpago: “Astíages ordena-te que tomes esta criança e a exponhas no lugar mais deserto dos montes, a fim de que ela venha logo a perecer. Ordenou-me também a dizer-te que se não a fizeres morrer, se lhe salvares a vida de qualquer forma, condenar-te-á ao suplício mais cruel. Ainda mais: quer que eu me certifique de que cumpriste à risca as suas ordens”.

CXI — Mitrídates tomou o recém-nascido e seguiu para sua cabana pelo mesmo caminho. Enquanto tinha vindo à cidade, sua mulher, que se encontrava em adiantado estado de gravidez, deu à luz um filho, por desígnio especial dos deuses. Quando o boiadeiro recebeu o chamado de Hárpago, ficaram ambos, marido e mulher, muito inquietos; ele, por estar ela em vésperas do parto; ela, porque Hárpago nunca o chamava. Logo que ele regressou, a mulher, como se já não esperasse revê-lo, foi-lhe ao encontro, pressurosa, querendo saber o motivo daquele chamado urgente e imprevisto. “Minha mulher, — disse-lhe ele — mal ali cheguei, vi e ouvi coisas que eu bem desejaria não ter visto nem ouvido. Toda a família de Hárpago estava em prantos. No interior da casa, deitada no chão, vi uma criancinha chorando e esperneando. Estava coberta com tecidos de ouro e envolvida em faixas de diversas cores. Assim que me viu, Hárpago ordenou-me que levasse prontamente a criança e a expusesse no lugar da montanha mais freqüentado por animais ferozes. Assegurou-me ter sido o próprio Astíages a dar-lhe essa ordem e me fez as maiores ameaças se eu deixasse de executá-la. Tomei, pois, a criança, e trouxe-a comigo, convencido de que se tratava de alguém de sua casa, não acreditando fosse ele o verdadeiro pai. Fiquei, entretanto, muito espantado ao ver a criança coberta de ouro e de panos tão preciosos, e toda a família de Hárpago em prantos. Afinal, no caminho, vim a saber pelo criado que me acompanhou até fora da cidade, que o recém-nascido era filho de Mandane e de Cambises, tendo Astíages ordenado que o matassem. Ei-lo aqui”.

CXII — Assim falando, Mitrídates descobriu a criança e mostrou-a à mulher. Encantada pela graça e beleza daquele pequenino ente, ela lançou-se aos pés do marido, suplicando-lhe com lágrimas nos olhos que não o sacrificasse. Ele declarou-lhe que não poderia deixar de fazê-lo, pois os espiões de Hárpago iriam observá-lo, e, se não obedecesse, pereceria da maneira mais cruel. Spaco, vendo baldadas suas súplicas, disse-lhe: “Já que não poderei demover-te desse intento, e já que és obrigado a expor uma criança na montanha, fâze, ao menos, o que te vou dizer: Acabo de dar à luz uma criança morta; leva-a à montanha e passemos a criar a da filha de Astíages como se fosse nossa. Dessa forma, não poderão provar que desobedeceste a teus senhores, e, quanto a nós, teremos tido este proveito: nosso filho morto terá uma sepultura real, e o outro não perderá a vida”.

CXIII — Aceitando as justas considerações da mulher, Mitrídates não hesitou em seguir-lhe o conselho. Entregou-lhe a criança e, tomando o filho morto, colocou-o no berço do jovem príncipe, com todos os enfeites, indo abandoná-lo na montanha mais deserta. Três dias depois, tendo confiado a guarda do corpo a um de seus ajudantes, dirigiu-se à cidade, apresentando-se a Hárpago e declarando-se pronto a mostrar-lhe o cadáver da criança. Hárpago, certificando-se por intermédio de guardas fiéis enviados ao local, do cumprimento da missão, mandou sepultar o que acreditava fosse o neto de Astíages. Este tornou-se depois conhecido pelo nome de Ciro, embora Spaco lhe tivesse dado outro nome naquela ocasião.

CXIV — Quando contava dez anos de idade, a criança teve uma aventura que revelou sua verdadeira identidade. Certo dia, na aldeia onde se achavam os rebanhos e as manadas do rei, o menino brincava na rua com alguns companheiros da mesma idade, quando estes o elegeram rei, a ele, conhecido como o “filho do boiadeiro”. A uns, Ciro ordenou, então, que lhe construíssem um palácio; a outros, nomeou-os seus guardas; a este, seu vigia; àquele, seu mensageiro. A cada um, Ciro dava uma função. O filho de Artembares, homem importante entre os Medos, brincava no grupo. Tendo-se recusado a cumprir as ordens do “rei”, Ciro ordenou aos outros que o segurassem e lhe aplicassem um castigo corporal. Revoltado com semelhante procedimento, tão ofensivo à sua linhagem, o menino foi à cidade apresentar queixa ao pai contra Ciro. Naturalmente, não lhe deu esse nome, pois Ciro ainda não o possuía; chamou-o apenas “o filho do boiadeiro de Astíages”. Cheio de indignação, Artembares dirigiu-se ao rei, em companhia do filho, cientificando-o do ultraje que havia recebido. “Senhor, — disse ele, descobrindo os ombros do filho — eis como nos ultrajou um dos vossos escravos, o filho do vosso boiadeiro”.

CXV — Ante a acusação e os sinais que atestavam sua veracidade, Astíages, querendo vingar o filho de Artembares em consideração ao pai, mandou chamar Mitrídates e o menino à sua presença. Logo que eles chegaram, disse o príncipe a Ciro, encarando-o fixamente: “Como, sendo de origem tão humilde, tiveste a audácia de tratar de maneira tão indigna o filho de um dos grandes da minha corte?” “Assim o fiz, senhor, por um motivo justo. As crianças da aldeia, entre as quais ele se encontrava, escolheram-me, por simples brincadeira, para seu rei, por eu lhes parecer o mais digno. Todos executavam as minhas ordens. O filho de Artembares recusou-se a obedecer-me, e, por isso, eu o castiguei. Se esse procedimento merece alguma punição, eis-me pronto a sofrê-la”.

CXVI — Enquanto o menino falava, Astíages, atentando para os seus traços fisionômicos, que lhe pareceram semelhantes aos seus; para a sua resposta adequada à natureza de um homem livre, e para a sua idade, que correspondia à época em que mandara matar o filho de Mandane, julgou reconhecer nele o neto que ele próprio sacrificara. Tão impressionado ficou com essa súbita revelação, que se quedou inteiramente mudo durante alguns momentos. Recuperando, finalmente, o domínio de si mesmo e querendo sondar Mitrídates em particular, dirigiu-se a Artembares: “Tua queixa, Artembares, não tem, como vês, nenhum fundamento.”. Em seguida, ordenou aos seus oficiais que conduzissem Ciro para fora da sala. Ficando a sós com Mitrídates, perguntou-lhe quem era aquela criança e quem lha confiara. Este respondeu que era seu filho, mas o soberano, convencido de que ele estava ocultando a verdade, ameaçou-o, dizendo-lhe que, já que ele se mantinha em atitude negativa, ver-se-ia compelido a mandar torturá-lo. Dizendo isso, chamou os guardas para que o prendessem. Vendo que ia ser levado à tortura, Mitrídates confessou a verdade, relatando toda a história daquela criança e de como ela veio ter ao seu poder, terminando por suplicar a Astíages que o perdoasse.

CXVII — Senhor da verdade, Astíages decidiu não punir Mitrídates, mas tomado de ira contra Hárpago, mandou incontinênti chamá-lo e o inquiriu nestes termos: “Hárpago, de que maneira eliminaste o filho de Mandane que te entreguei naquela ocasião?” Vendo Mitrídates ali presente, Hárpago compreendeu que de nada lhe valeria mentir, e tudo confessou. “Senhor, — respondeu — quando recebi a criança, pus-me a refletir como poderia cumprir vossas ordens sem faltar ao dever para convosco e sem tornar-me culpado de um crime perante vós e a princesa, vossa filha. Assim, mandei chamar Mitrídates e entreguei-lhe a criança, cientificando-o do vosso desejo. Com isso, não contrariei, absolutamente, a vossa vontade, pois me ordenastes a fazê-la perecer de qualquer forma. Entregando-lhe a criança, obriguei-o a expô-la numa montanha deserta e a permanecer junto a ela, até vê-la morta, ameaçando-o com as mais terríveis torturas, caso não fosse rigorosamente obedecido. Informando-me da sua morte e, portanto, do inteiro cumprimento das vossas ordens, enviei ao local os mais fiéis dos meus servidores para constatar a verdade, fazendo-os, em seguida, sepultar o corpo. Eis aí, senhor, como as coisas se passaram e a sorte que teve a criança”.

CXVIII — Hárpago nada dissimulou na sua narrativa, mas o soberano, ocultando seu ressentimento, repetiu-lhe primeiramente toda a história contada por Mitrídates, informando-o, depois, que a criança ainda vivia e que ele, Astíages, estava satisfeito com isso. “Devo confessar, — acrescentou ele — que fiquei muito penalizado com o destino que lhe reservara, e as lamentações de minha filha muito me sensibilizavam. Já que a fortuna nos foi favorável, envia teu filho para fazer companhia ao jovem príncipe restituído ao nosso convívio e não faltes à ceia desta noite; quero oferecer, pela conservação do meu neto, sacrifícios aos deuses, aos quais esta honra pertence”.

CXIX — A estas palavras, Hárpago prosternou-se diante do rei e voltou para casa satisfeito com o feliz desenlace daquele triste caso e por haver sido, além disso, convidado para a ceia. Chegando ao lar, chamou seu filho único, de treze anos, e enviou-o ao palácio de Astíages, ordenando-lhe que fizesse tudo que o jovem príncipe mandasse. Em seguida, transbordando de contentamento, relatou a aventura à esposa.

Logo que o filho de Hárpago chegou ao palácio, Astíages mandou degolá-lo e cortá-lo em pedaços, fazendo assar uns, fritar outros e preparando tudo com muito cuidado. À hora da ceia, os convivas dirigiram-se para a mesa e Hárpago na companhia deles. A Astíages e a outros comensais foi servida carne de carneiro, e a Hárpago, o corpo do filho, com exceção da cabeça, das mãos e dos pés, que o rei havia colocado à parte, num cesto aberto. Quando pareceu ao soberano que Hárpago já havia comido bastante, perguntou-lhe se estava satisfeito com a refeição, ao que ele respondeu: “Muito satisfeito”. Logo depois, os criados traziam-lhe, no cesto aberto, a cabeça, as mãos e os pés do filho, dizendo-lhe para descobri-lo e servir-se do pedaço que mais lhe agradasse. Hárpago obedeceu, e descobrindo o cesto viu ali os restos do filho. Todavia, não se perturbou, aparentando absoluta serenidade e calma. Astíages perguntou-lhe se sabia que animal havia comido. Respondeu ele que sim, e que tudo quanto seu soberano fazia lhe agradava sempre. Terminada a ceia, Hárpago voltou para casa com os restos do filho, juntando-os e dando-lhes sepultura.

CXX — O rei, tendo-se vingado de Hárpago, mandou chamar os mesmos magos que haviam interpretado os sonhos da maneira a que nos referimos, a fim de indagar deles a sorte reservada a Ciro. Chegando os adivinhos, perguntou-lhes se ainda se recordavam da interpretação que haviam dado outrora ao sonho que tivera, ao que eles responderam: “Se a criança ainda vive, há-de reinar fatalmente”. “O menino vive e passa bem — volveu Astíages. — Foi criado no campo. Seus coleguinhas da aldeia elegeram-no seu rei e ele fez o que fazem os verdadeiros reis: instituiu um corpo de guardas, oficiais, porteiros, mensageiros, numa palavra, dispôs criteriosamente sobre todos os cargos. Que julgais possa isso pressagiar?”

“Como o menino vive — replicaram os magos — e reinou sem nenhum desejo premeditado, podeis tranqüilizar-vos, senhor, nada mais tendes a temer; não reinará ele uma segunda vez. Há oráculos cujo cumprimento se reduz a um ato frívolo qualquer, e sonhos que se realizam com bem pouca coisa”. “Sou também dessa opinião — tornou Astíages. — Já tendo o menino trazido o nome de rei, o sonho realizou-se, e, portanto, julgo já fora de propósito os meus receios. Não obstante, peço-vos que reflitais bem sobre o caso e que me deis o conselho que julgardes mais vantajoso para a minha e para a vossa segurança”. “Senhor, — declararam os magos — a prosperidade e a estabilidade do vosso reino nos importa muito, porque, afinal, o poder vindo cair nas mãos dessa criança, que é persa, passará para outra nação; e os Persas, encarando-nos como estrangeiros, não nos terão nenhuma consideração, e hão-de tratar-nos como escravos, ao passo que vós, senhor, sois nosso compatriota, e enquanto ocupardes o trono poderemos contar com os vossos favores e participar do vosso reinado. Nosso interesse obriga-nos a zelar pela vossa segurança e do vosso império. Se de agora em diante pressentirmos algum perigo, teremos o cuidado de logo vos advertir. Já que a solução do vosso sonho foi destituída de importância, estamos tranqüilos e vos exortamos a tranqüilizar-vos também. Afastai de vós essa criança, mandando-a de volta para a Pérsia, para junto daqueles que lhe deram o ser”.

CXXI — Encantado com a resposta, Astíages mandou chamar Ciro. “Meu filho, — disse-lhe — tratei-te de maneira injusta por causa de um sonho vão, mas, enfim, teu destino feliz conservou-te a vida. Fica tranqüilo; partirás para a Pérsia, escoltado por aqueles que te darei como guardas, e ali verás teu pai e tua mãe, bem diferentes do boiadeiro Mitrídates e da sua mulher”.

CXXII — Astíages enviou Ciro para a Pérsia, onde Cambises e Mandane, sabendo da sua vinda, receberam-no com todo carinho, pois há muito que o haviam dado como morto. Perguntaram-lhe como se tinha salvo, e ele respondeu que até ali tinha vivido na ignorância de tudo e que foram seus guardas quem, em caminho, lhe revelaram toda a verdade sobre o caso. Até então julgava-se filho de um boiadeiro de nome Mitrídates, cuja mulher, Sino (Spaco) o tratara com muito carinho e bondade. Servindo-se do nome dessa mulher, a quem Ciro não cessava de louvar, seus pais procuraram persuadir os Persas de que ele fora preservado pela vontade dos deuses e que uma cadela o amamentara quando abandonado na montanha.

CXXIII — Chegando à idade viril, Ciro tornou-se o mais valente e, ao mesmo tempo, o mais dócil dos jovens. Hárpago, que desejava ardentemente vingar-se de Astíages, enviava-lhe presentes, simulando-lhe confiança e veneração. Na sua condição de plebeu, não via meios de vingar-se, por iniciativa própria, do soberano; mas observando que Ciro, à medida que crescia, lhe trazia a possibilidade dessa vingança, identificava-se com a sorte do jovem e ligava-se a ele de maneira muito particular. Já havia tomado algumas medidas e aproveitara-se do tratamento muito rigoroso que o rei infligia aos Medos para insinuar-se no espírito dos grandes e persuadi-los a tirar a coroa de Astíages e dá-la a Ciro.

Urdida a trama e tudo preparado, Hárpago quis revelar a Ciro o plano, mas como o jovem príncipe se achava na Pérsia e os caminhos eram guardados, lançou mão de engenhoso expediente para dar-lhe a notícia: Obtendo uma lebre, abriu-lhe o ventre sem arrancar a pele e ali colocou uma carta, onde expunha tudo detalhadamente. Recoseu o ventre do animal e confiou-o a um dos seus servos mais fiéis, encarregando-o de levá-lo à Pérsia como um presente a Ciro, devendo, porém, dizer de viva voz ao príncipe que abrisse a lebre sem nenhuma testemunha.

CXXIV — Recebendo a lebre, Ciro abriu-a e encontrou a carta, redigida nestes termos: “Filho de Cambises, os deuses velam por vós; de outra maneira não teríeis tanta sorte. Vingai-vos de Astíages, que pretendia matar-vos e que tudo fez para isso. Se viveis, é aos deuses e a mim que o deveis. Já soubestes, naturalmente, de tudo que ele maquinou para vos eliminar e do que eu sofri por vos haver entregue a Mitrídates, em lugar de vos assassinar. Se quiserdes seguir agora mesmo os meus conselhos, todos os estados de Astíages serão vossos. Convencei os Persas a sacudirem o jugo do tirano e vinde à frente deles atacar os Medos. A empresa será coroada de êxito, quer Astíages me dê o comando das tropas que enviar contra vós, quer confie ele esse comando a outro dos mais distintos entre os Medos. Os grandes da nação serão os primeiros a abandoná-lo; reunir-se-ão a vós e farão os maiores esforços para destruir-lhe o poderio. Tudo está disposto para a execução do plano. Fazei o que vos sugiro e fazei-o prontamente”.

CXXV — Depois de ler a carta, Ciro pôs-se a pensar sobre os meios mais propícios para levar os Persas à revolta. Ao cabo de muitas reflexões, decidiu-se pelo seguinte: forjou cuidadosamente uma carta e leu-a na assembléia dos Persas. Essa carta trazia a notícia de que Astíages o nomeava governador desse povo. “Agora, — disse ele — ordeno-vos a virem aqui, cada um com uma foice”.

Tais foram as determinações de Ciro. As tribos componentes da nação persa são muito numerosas. Ciro convocou algumas dentre estas tribos e concitou-as a rebelar-se contra o domínio dos Medos. Eram as que maior influência tinham sobre todos os outros persas, a saber: os Pasargadios, os Maráfios e os Maspianos, sendo os primeiros os mais civilizados de todos. Os Aquemênidas, dos quais descendem os reis persas, constituem um ramo da tribo dos Pasargadios.

CXXVI — Quando se apresentaram todos, armados de foice, Ciro, levando-os a certo cantão da Pérsia, de dezoito a vinte mil estádios, inteiramente coberto de cardos, ordenou-lhes que o limpassem num só dia. Terminado esse trabalho, deviam banhar-se no dia seguinte e apresentar-se, em seguida, a ele, Ciro. Entrementes, mandou conduzir ao mesmo lugar todos os rebanhos do pai, tanto cabras quanto carneiros e bois, fez matar todos esses animais e prepará-los, como para um lauto banquete. Fez vir também grande quantidade de vinho e as iguarias mais finas para regalar os soldados. No dia seguinte, os persas chegaram; o príncipe fê-los sentar sobre a relva e ofereceu-lhes um grande festim. Terminado o repasto, perguntou-lhes qual das duas situações preferiam; se a presente ou a da véspera. Todos exclamaram que era enorme a diferença entre ambas: no dia anterior haviam sofrido mil penas, enquanto que naquele momento usufruíam toda sorte de regalos. Ciro aproveitou-se dessa resposta para lhes revelar seus planos. “Persas, — disse-lhes — tal é agora a contingência em que vos encontrais: se quiserdes obedecer-me, gozareis desses bens e de uma infinidade de outros ainda, sem submeter-vos a trabalhos servis; se, ao contrário, não quiserdes seguir os meus conselhos, não deveis esperar senão penas sem número e semelhantes às que sofrestes ontem. Tornar-vos-ei livres se me obedecerdes, pois pareço ter nascido por um desígnio especial dos deuses, para vos proporcionar todas as vantagens. Aliás, não vos considero em nada inferiores aos Medos, tanto no que concerne à guerra, como em qualquer outro terreno. Sacudi, pois, o mais cedo possível, o jugo de Astíages”.

CXXVII — Os Persas, há muito inconformados com o domínio dos Medos, encontrando um chefe aproveitaram a ocasião para libertar-se. Astíages, tendo tido conhecimento das manobras de Ciro, mandou chamá-lo com urgência. Ciro encarregou o portador de dizer ao soberano que iria ter com ele bem mais depressa do que ele desejava. Ante a resposta, Astíages ordenou a todos os Medos que pegassem em armas, e, como obedecendo a uma sentença dos deuses, confiou o comando do exército a Hárpago, sem lembrar-se da maneira pela qual o havia tratado. Os Medos, entrando em campanha, enfrentaram os Persas. Todos os que não estavam a par do plano de Hárpago se bateram com denodo. Quanto aos outros, uma parte passou para o lado dos Persas, enquanto a outra, ao brado de guerra, abandonou a corte, fugindo.

CXXVIII — Informado da derrota vergonhosa dos Medos, Astíages prorrompeu em ameaças contra Ciro. “Não, — disse ele — Ciro não terá motivos para regozijar-se”. Isso dizendo, mandou, sem demora, crucificar os magos que lhe haviam aconselhado a deixar partir o neto. Em seguida, fez pegar em armas todos os Medos que ainda restavam na cidade — jovens e velhos — e conduzindo-os contra os Persas, deu-lhes novamente combate. Foi derrotado e caiu, ele próprio, nas mãos dos Persas.

CXXIX — Cheio de júbilo por ver Astíages vencido e sob ferros, Hárpago apresentou-se diante dele e insultou-o, e entre outras palavras mordazes, lembrou-lhe o repasto em que o rei prisioneiro lhe servira a carne do filho, perguntando-lhe que gosto achava ele agora na escravidão e se a preferia à coroa. Astíages perguntou-lhe, por sua vez, se ele atribuía aquela empresa a Ciro, replicando Hárpago que se considerava com inteira justiça o autor da mesma, pois fora e1e que a preparara, escrevendo a Ciro. Astíages chamou-o o mais incoerente e o mais injusto dos homens; o mais incoerente porque, se na verdade provocara aquela revolta, podendo fazer-se rei, pusera a coroa na cabeça de outro; e o mais injusto porque, vingando-se da morte do filho e da afronta que sofrera, reduzira os Medos à escravidão. Se realmente era necessário dar a coroa a outro, e se Hárpago não queria guardá-la para si mesmo, seria mais justo colocá-la na cabeça de um meda do que na de um persa. O que fizera, afinal, fora submeter sua pátria à servidão, tornando os Persas, até então escravos dos Medos, senhores destes.

CXXX — Astíages perdeu assim a coroa, depois de um reinado de trinta e cinco anos. Os Medos, tendo possuído durante cento e vinte e oito anos o império da Alta Ásia até o rio Hális, sem incluir o tempo em que reinaram os Citas, passaram para o jugo dos Persas por causa da desumanidade daquele soberano. É verdade que deles se libertaram mais tarde, no reinado de Dario, mas novamente vencidos, em combate, foram de novo subjugados. Ciro e os Persas, revoltando-se contra os Medos, como acabamos de ver, ficaram com o domínio de quase toda a Ásia. Quanto a Astíages, Ciro o reteve ao seu lado até a morte, não lhe havendo feito outro mal. Pouco depois dessa sua ousada empresa, Ciro derrotou a Creso, que lhe movera uma guerra injusta, tornando-se, assim, senhor de toda a Ásia.

CXXXI — Entre os usos e tradições observados pelos Persas, vale ressaltar os seguintes: não costumavam erguer estátuas, nem templos, nem altares; tratavam, ao contrário, de insensatos os que assim procediam; e isso, na minha opinião, porque não acreditam terem os deuses forma humana. Fazem, todavia, sacrifícios a Júpiter no alto da montanha e dão o nome desse deus à abóbada celeste. Fazem ainda sacrifícios ao Sol, à Lua, à Terra, ao Fogo, à Água e aos Ventos, e juntam a isso o culto de Vênus Urânia, que herdaram dos Assírios e dos Árabes. Os Assírios dão à deusa o nome de Milita; os Árabes, o de Alita, e os Persas chamam-na de Mitra.

CXXXII — Eis aqui os ritos que os Persas observam ao sacrificarem aos deuses a que me referi: Não erguem altares, não acendem fogo, não fazem libações e não se servem nem de flautas, nem de ornamentos sagrados, nem de aveia misturada com sal. Quando um persa quer oferecer um sacrifício, conduz a vítima a um lugar puro e, com a cabeça coberta por uma tiara, ordinariamente de mirto, invoca o deus. Não é permitido a quem oferece o sacrifício fazer votos apenas para si; deverá pedir pela prosperidade do rei e de todos os outros Persas em geral, pois a sua própria pessoa se inclui nesse voto comum. Depois de cortar a vítima em pedaços e cozinhar-lhe a carne, estende no chão uma erva muito delgada, de preferência o trevo, coloca ali os pedaços da vítima, arrumando-os com muito cuidado, feito o que um mago, que se acha presente (sem mago não há sacrifício), entoa uma teogonia, reputada, entre eles, como o mais poderoso motivo de encantamento. Em seguida, o que ofereceu o sacrifício leva as carnes da vítima e dispõe delas como julgar melhor.

CXXXIII — Sentem-se os Persas no dever de festejar seu aniversário de nascimento, mais do que qualquer outra data, pondo nesse dia as melhores iguarias à mesa. Os ricos fazem servir um cavalo, um camelo, um asno e um boi inteiros e assados ao forno. Os pobres se contentam com um cardápio mais modesto. Os Persas comem poucos alimentos sólidos, mas muitas gulodices na sobremesa. Isso os leva a dizer que os Gregos satisfazem logo o apetite porque depois da refeição não lhes servem nada de bom; se lhes servissem, não deixariam de comer. São muito dados ao vinho, e não lhes é permitido vomitar nem urinar na presença de outrem. Observam ainda hoje tais costumes. Têm o hábito de deliberar sobre os negócios mais sérios depois de beberem muito; mas no dia seguinte, o dono da casa onde estiveram reunidos traz novamente à baila a questão, antes de começarem a beber de novo. Se aprovam, ela passa; se não, abandonam o assunto Às vezes, entretanto, dá-se o contrário: o que decidiram antes de beber passam a discutir novamente durante a embriaguez.

CXXXIV — Quando dois persas se encontram na rua, sabe-se logo se são da mesma condição, pois se o forem saúdam-se beijando-se na boca; se um é de origem um pouco inferior ao outro, beijam-se somente nas faces; se a condição de um é muito inferior à do outro, o inferior prosterna-se diante do superior. As nações vizinhas são as que eles mais estimam; às vezes mais do que seu próprio país. Em segundo lugar vêm as que confinam com as vizinhas; e vão regulando assim a estima, proporcionalmente ao grau de afastamento. Aos mais afastados, quase nenhuma importância dão. Isso porque, julgando-se em tudo de um mérito superior, pensam que a maioria dos homens só se torna virtuosa em conseqüência da aproximação deles, devendo, portanto, os mais afastados, que menos recebem essa influência, recair na maldade. Quando do domínio dos Medos, havia uma ordem de subordinação entre os diversos povos. Os Medos governavam a todos, bem como os mais próximos vizinhos. Estes comandavam os que com eles confinavam, os quais, por sua vez, dirigiam os outros vizinhos, e assim por diante. Os Persas, cujo império e administração se estenderam num raio de amplitude imensa, adotaram a mesma atitude com relação aos povos que dominavam.

CXXXV — Os Persas assimilam facilmente os costumes estrangeiros. Dominados os Medos, começaram a adotar os trajes destes por considerá-los mais belos do que os seus. Nas guerras, envergam couraças à maneira egípcia. Entregam-se com ardor aos prazeres de todo gênero, de que ouvem falar, e adquiriram com os Gregos o amor aos jovens. Desposa, cada um deles, em casamento legítimo, diversas mulheres, o que não impede de possuírem ainda várias concubinas.

CXXXVI — Depois das virtudes guerreiras, encaram como grande mérito o ter muitos filhos. O rei gratifica todos os anos os casais mais prolíficos. A razão dessa tendência para uma prole numerosa está em considerarem os Persas que a força viril é demonstrada pelo grande número de filhos. Estes eles começam a instruir aos cinco anos de idade, e daí até os vinte só lhes ensinam três coisas que consideram as mais importantes: montar a cavalo, atirar com o arco e dizer a verdade. Antes de completar cinco anos, um filho não se apresenta ao pai; permanece sempre junto à mãe e sob os cuidados dela. Adotam esse costume para que, no caso do filho morrer muito criança, a perda não cause desgosto ao pai.

CXXXVII — Tal costume me parece louvável. Aprovo também a lei que não permite a ninguém, nem mesmo ao rei, mandar matar um homem por um só crime, nem a nenhum persa punir rigorosamente um dos seus escravos por uma só falta. Se depois de refletido exame o senhor achar que as faltas do servo são em maior número e mais consideráveis do que os serviços, pode então dar expansão à sua cólera. Asseguram os Persas nunca ter alguém, entre eles, matado o pai ou a mãe, pois todas as vezes que se tem notícia de um tal crime, descobre-se, depois de rigorosas pesquisas, que o filho criminoso, ou era suposto ou adulterino. Isso porque os Persas não podem admitir a possibilidade de um homem matar o verdadeiro autor dos seus dias.

CXXXVIII — Não lhes é permitido falar das coisas que não podem fazer. Nada lhes parece mais vergonhoso do que a mentira, e depois da mentira, contrair dívidas; isso por várias razões, mas sobretudo porque quem possui dívidas mente por força. Um cidadão contaminado da lepra branca não pode entrar na cidade e nem ter qualquer espécie de contato com o resto dos Persas, pois vêem nisso uma prova de haver o indivíduo pecado contra o Sol. Todo estrangeiro atacado desse mal é afastado do país; e, pela mesma razão, não podem tolerar os pombos brancos. Não urinam nem escarram nos rios; ali não lavam nem mesmo as mãos e nem permitem que alguém o faça, pois adotam o culto dos rios(3).

CXXXIX — Têm eles também algo de singular que nem eles mesmos percebem e que, no entanto, não nos escapou: Seus nomes, derivados dos atributos do corpo e das qualidades do indivíduo, terminam pela mesma letra a que os Dórios denominam san e os Iônios sigma; e se prestardes atenção, vereis que os nomes dos Persas terminam todos da mesma maneira, sem exceção de um só.

CXL — Sobre o que acabo de expor, posso falar com inteira segurança; mas o que se segue é assunto privado e não se baseia na mesma certeza: Não se enterra, absolutamente, o corpo de um persa, sem ter sido ele, antes, estraçalhado por um pássaro ou cão. Quanto aos magos, estou seguro de que observam esse costume, pois praticam-no à vista de todos. Os Persas untam de cera os mortos e enterram-nos em seguida.

Os magos diferem muito dos outros homens e particularmente dos sacerdotes do Egito. Estes têm as mãos sempre puras do sangue de animais e não matam senão os que imolam aos deuses. Os magos, ao contrário, matam com as próprias mãos toda espécie de animais, com exceção do homem e do cão; vangloriam-se mesmo de matar igualmente as formigas, as serpentes e outros animais, tanto répteis como voláteis. Deixemos, todavia, esse costume, tal como tem sido adotado, e retomemos o fio de nossa história.

CXLI — Mal os Lídios haviam sido subjugados pelos Persas, e já os Iônios e os Eólios enviavam embaixadores a Ciro, em Sardes, pedindo-lhe para acolhê-los no número dos seus súditos, nas mesmas condições em que o foram de Creso. O príncipe respondeu a essa proposta com este apólogo: Um tocador de flauta, tendo percebido peixes no mar, pôs-se a tocá-la, imaginando que eles viriam à terra. Vendo malogrado seu intento, lançou à água uma rede e retirou-a com grande quantidade de peixes, depositando-os no chão; e vendo-os saltar, disse: “Cessai, cessai agora de dançar, pois não quisestes vir a mim ao som da minha flauta”.

Deu essa resposta aos Iônios e aos Eólios porque, tendo outrora concitado os primeiros, por intermédio de embaixadores, a abandonar o partido de Creso, não conseguira convencê-los, e agora via-os dispostos a obedecer-lhe somente porque vencera. Diante disso, os Iônios fortificaram suas cidades e reuniram-se todos no Panionium, com exceção dos Milésios, os únicos com os quais Ciro fez um tratado nas mesmas condições a eles concedidas por Creso. Nesse conselho dos Iônios ficou unanimemente resolvido o envio de um pedido de socorro a Esparta.

CXLII — Os Iônios, aos quais pertence o Panionium, construíram suas cidades nas regiões mais agradáveis que conheço, quer pela beleza do céu, quer pelo clima. Com efeito, os países que circundam a Iônia, ao norte ou ao sul, a leste ou a oeste, não podem absolutamente comparar-se com ela; uns, sujeitos às chuvas e aos rigores do Inverno; outros, ao calor e à seca. Os Iônios não falam todos o mesmo dialeto; suas palavras têm quatro espécies de terminação. Mileto é a primeira de suas cidades ao sul, vindo em seguida Mionte e Priena, que ficam na Cária e onde a língua é a mesma. Éfeso, Cólofon, Lébedo, Teos, Clazômenas e Focéia ficam situadas na Lídia. Estes povos falam entre si um mesmo idioma, mas que não é entendido nas primeiras cidades a que me referi. Há ainda três outras cidades iônias, das quais duas ficam nas ilhas de Samos e Quios, e a terceira, Eritréia, no continente. A língua dos habitantes de Quios e da Eritréia é a mesma; mas os de Samos possuem um idioma particular, deles somente.

CXLIII — Entre os Iônios, apenas os habitantes de Mileto, para se porem a coberto de todo perigo, conseguiram fazer um tratado com Ciro. Quanto aos insulares, não tinham, no momento, nada a temer, uma vez que os Fenícios ainda não estavam submetidos aos Persas, e estes não possuíam marinha. Os Milésios, de resto, se haviam separado dos outros Iônios, porque se todos os gregos reunidos ainda eram muito fracos, os Iônios o eram ainda mais e não gozavam de nenhuma consideração. Realmente, com exceção de Atenas, nenhuma das cidades da Iônia se tornou célebre. A maioria dos Iônios e dos Atenienses não queria que os chamassem de Iônios; o nome desagradava-os, e até hoje quase todos se envergonham de trazê-lo. As doze cidades de que acabo de falar fizeram construir um templo, a que chamavam de Panionium, e tomaram a resolução de excluir dele as outras cidades iônias. Os Esmírnios foram os únicos que solicitaram e tiveram ingresso ali.

CXLIV — A mesma resolução adotaram os Dórios de Pentápolis, outrora chamada Hexápolis. Não admitem no templo triópico nenhum dório da vizinhança; e se alguém da própria Pentápolis viola as leis do templo, é dele excluído. Nos jogos celebrados em honra a Apolo Triópico concediam-se tripés de bronze aos vencedores, não sendo, porém, a estes permitido retirá-los do templo; deviam consagrá-los aos deuses. Um habitante de Halicarnasso, de nome Agasicles, tendo conquistado um prêmio nesses jogos, levou o tripé para casa, desprezando a proibição. As cinco cidades dórias: Lindo, Iáliso, Camiro, Cós e Cnido puniram Halicarnasso, que era a sexta, excluindo-a da comunidade.

CXLV — Os Iônios estão, creio eu, divididos em doze cantões e não querem admitir maior número em sua confederação, pois no tempo em que habitavam o Peloponeso se achavam repartidos em doze grupos, da mesma maneira que ainda o são agora os Aqueus, que os expulsaram. Pelena é a primeira cidade dos Aqueus, do lado de Cicione. Encontramos, em seguida, Egira, Ege, — banhada pelo Crátis, que nunca seca e que deu seu nome a um rio da Itália — Bure, Hélice — onde os Iônios se refugiaram depois de derrotados pelos Aqueus — Égio, Ripe, Patras, Fáris e Oleno, banhada pelo Pírus, rio de grande volume de água. Temos ainda Dimo e Tritéia, as únicas situadas na zona central.

CXLVI — Os doze cantões, hoje habitados pelos Aqueus, pertenciam outrora aos Iônios, e foi isso que levou estes a construir doze cidades na Ásia. Seria rematada tolice acreditar que esses Iônios são superiores ou de linhagem mais ilustre do que os outros, porquanto os Abantes da Eubéia estão, em parte considerável, mesclados com esses povos e nada têm de comum com os habitantes da Iônia, nem sequer o nome. Os Atenienses consideram como os mais nobres e mais ilustres dos Iônios os que saíram do Pritaneu(4). Quando os Pritanes foram fundar sua colônia, não levaram mulheres consigo, mas desposaram mulheres carianas, cujos pais haviam matado. Essas mulheres, furiosas com o massacre de seus pais, maridos e filhos, e pelo fato de os Pritanes as terem, depois disso, tomado por esposas, impuseram a si próprias uma lei: a de nunca fazerem suas refeições em companhia do marido e de jamais lhes dar esse nome, lei essa que juraram observar e transmitida aos seus descendentes. Foi em Mileto que isso se passou.

CXLVII — Os Iônios elegeram como reis, uns os Lícios, descendentes de Glauco, filho de Hipóloco; outros, os Cuacones Pílio, descendentes de Codro, filho de Melantres; outros, enfim, recorreram a ambas as raças. Estou de acordo com os que afirmam que os Iônios estão mais identificados com esse nome do que o resto da nação e que são eles os puros, os verdadeiros Iônios; mas convém que se saiba que todos os que se originaram de Atenas e que celebram a festa das Apatúrias são também Iônios.

CXLVIII — O Panionium é um lugar sagrado, no monte Mícale, dedicado pelos Iônios, em comum, a Netuno Helicônio. Acha-se voltado para o norte. Mícale é um promontório do continente, estendendo-se para oeste, na direção de Samos. Os Iônios de todas as cidades reúnem-se ali para celebrar uma festa denominada Paniônia. Os nomes das festas dos Iônios terminam sempre pelas mesmas letras, tendo elas isso em comum com as dos Gregos e com os nomes próprios dos Persas.

CXLIX — Eis o que eu tinha a dizer sobre as cidades dos Iônios. As dos Eólios são: Cimo, também chamada Fricónis, Larissa, Neontico, Temnos, Cila, Nócio, Egirusa, Pitanéia, Egéia, Mirina e Grínia. Aí estão as onze antigas cidades dos Eólios. Eram doze as cidades, espalhadas no continente, mas os Iônios lhes arrebataram Esmirna. O país dos Eólios é mais fértil do que o dos Iônios, entretanto de clima bem diferente.

CL — Vejamos como os Eólios vieram a perder Esmirna. Os Colofônios, tendo fracassado numa sedição, foram obrigados a expatriar-se. Os habitantes de Esmirna deram-lhes asilo. Algum tempo depois, os fugitivos, observando que o povo de Esmirna celebrava fora da cidade uma festa em honra a Baco, fecharam os portões e apoderaram-se da praça. Os Eólios vieram todos em socorro, mas acabaram transigindo, ficando convencionado que eles deixariam os captores de posse da cidade, desde que estes lhes entregassem todos os móveis. Os Esmírnios, tendo aceito a condição, foram distribuídos pelas onze cidades eólias, que lhes concederam direitos de cidadania.

CLI — Além dessas cidades situadas no continente, os Eólios possuem ainda cinco núcleos urbanos na ilha de Lesbos. Havia um sexto núcleo denominado Arisba, cujos habitantes foram reduzidos à escravidão pelos Metimneus, embora houvesse entre eles laços de consangüinidade. Os Eólios possuem também uma cidade na ilha de Tênedos e outra nas Cem Ilhas. Os Lésbios e os Tenédios não tinham, então, nada a temer, e muito menos os do ramo iônio que habitavam as ilhas; mas os habitantes das outras cidades resolveram seguir os Iônios para toda parte, para onde quer que eles os quisessem conduzir.

CLII — Os embaixadores dos Iônios e dos Eólios, tendo ido a Esparta em diligência, escolheram, logo ao chegar, um fócio de nome Pitermo para falar em nome de todos. Pitermo vestiu um traje de púrpura, a fim de que, ante aquela novidade, os Espartanos acorressem em grande número à assembléia. Adiantando-se para o meio deles, Pitermo exortou-os, com um longo discurso, a tomar-lhes a defesa; mas os Lacedemônios, sem levar em consideração esse pedido, resolveram não lhes conceder nenhum auxílio. Os Iônios retiraram-se. Embora não atendessem àquele apelo, os Lacedemônios decidiram enviar em um navio de cinqüenta remos, emissários para observar o estado em que se encontravam os negócios de Ciro e da Iônia. Chegando a Focéia, os deputados enviaram Lacrines, o mais ilustre dentre eles, a Sardes, para dizer a Ciro, em nome dos Lacedemônios, que não procurasse causar dano a nenhuma cidade da Grécia, pois Esparta não poderia tolerar isso.

CLIII — Tendo Lacrines executado as ordens, dizem haver Ciro perguntado aos gregos presentes que espécie de homens eram os Lacedemônios e qual o número deles para usarem daquela linguagem. Recebendo a resposta, dirigiu-se nestes termos ao arauto dos Espartanos: “Nunca temi essa gente que possui no centro da sua cidade uma praça onde se reúne para enganar uns aos outros por meio de juramentos recíprocos. Se os deuses me conservarem a saúde, encontrará tal povo mais motivos para comentar a própria desgraça do que os Iônios”. Ciro lançou essas palavras ameaçadoras contra todos os Gregos, pois se referia às feiras livres que eles mantêm nas suas cidades. Os Persas não adotam o costume de mercadejar nas praças públicas, não existindo nas suas cidades nenhum mercado.

Confiando o governo de Sardes a um persa de nome Tabalo e encarregando o lídio Páctias de transportar para a Pérsia os tesouros de Creso e dos outros lídios, o príncipe voltou para Ecbatana, levando o soberano vencido em sua companhia, pouco caso fazendo dos Iônios para pensar em marchar primeiramente contra eles. Babilônia, os Bactros, os Sácios e os Egípcios constituíam maiores obstáculos aos seus desígnios. Resolveu ir combater em pessoa esses povos e enviar um outro general contra os Iônios.

CLIV — Mal Ciro partiu de Sardes, Páctias sublevou os Lídios contra o príncipe e Tabalo. Como tinha nas mãos todas as riquezas da cidade, desceu até o litoral, contratou tropas mercenárias, concitou os habitantes da zona costeira a coadjuvá-lo na luta e marchou contra Sardes, atacando Tabalo, que se retirou para a cidadela.

CLV — Tendo tido em caminho conhecimento da insurreição, Ciro assim se dirigiu a Creso: “Qual será o fim de semelhante aventura? Pelo que vejo, os Lídios não deixarão de criar-me dificuldades, provocando-as eles próprios. Quem sabe se não seria mais vantajoso reduzi-los à escravidão? Parece-me que agi como alguém que houvesse poupado os filhos de uma pessoa a quem matou. Eras para os Lídios mais do que um pai; levo-te prisioneiro e entrego-lhes a cidade. Não me causa espanto vê-los rebelar-se”. Essa declaração exprimia a maneira de pensar do príncipe; e Creso, receando que ele destruísse inteiramente a cidade de Sardes, tornou a palavra: “O que acabas de dizer é justo, mas não te abandones à cólera e não destruas, de forma alguma, uma cidade antiga, que não tem culpa das perturbações passadas e nem das de hoje. Fui a causa das primeiras e sofro as conseqüências. O culpado agora é Páctias, a quem confiastes o governo de Sardes; que seja ele punido. Perdoa aos Lídios, e para evitar que no futuro se tornem perigosos e se sublevem, proíbe-os de trazer armas, ordena-lhes a usar túnicas sob os seus mantos, a calçar sapatos de salto alto, a ensinar as crianças a tocar cítara, a cantar e a comerciar. Por esse meio, senhor, verás logo os homens transformados em mulheres e não haverá mais receio de revolta da parte deles”.

CLVI — Creso deu-lhe esse conselho, que lhe pareceu mais vantajoso para os Lídios do que serem vendidos como vis escravos. Sentia que sem alegar boas razões não faria Ciro mudar de resolução. Além disso, receava, no caso dos Lídios escaparem do atual perigo, a tentativa de uma nova revolta, capaz de atrair sobre eles a ruína total. A sugestão foi muito bem recebida por Ciro. Passado o momento de cólera, pareceu-lhe acertado seguir o conselho de Creso. Mandou imediatamente chamar um meda de nome Mazarés, ordenando-lhe que transmitisse aos Lídios a decisão sugerida por Creso e reduzisse à servidão todos os que se haviam aliado para cercar Sardes, trazendo-lhe, principalmente, Páctias vivo. Dando essas ordens, continuou a viagem para a Pérsia.

CLVII — Páctias, informado de que o exército que marchava contra ele se aproximava de Sardes, sentiu-se tomado de pânico e fugiu para Cimo. Entretanto, Mazarés chegou a Sardes com uma pequena parte das tropas de Ciro, e não tendo encontrado Páctias, deu cumprimento às outras ordens de Ciro. Os Lídios submeteram-se e mudaram sua antiga maneira de viver. Em seguida, Mazarés mandou intimar os habitantes de Cimo a entregar-lhe Páctias. Reunindo-se em conselho, os Címios deliberaram consultar o oráculo dos Branquides sobre o partido a tomar. O local em que se encontrava esse oráculo, a que os Iônios e os Eólios costumavam recorrer, estava situado no território de Mileto, acima do porto de Panorma.

CLVIII — Os Címios, por meio de delegados, perguntaram aos Branquides como deveriam proceder com relação a Páctias, a fim de se tornarem agradáveis aos deuses. O oráculo respondeu ser necessário entregá-lo aos Persas. Diante disso, os Címios resolveram satisfazer a exigência de Mazarés, entregando-lhe Páctias. Todavia, embora fosse essa a opinião da maioria dos Címios, Aristódico, filho de Heraclides, homem ilustre e gozando de grande consideração entre seus compatriotas, opôs-se à resolução, impedindo que a tomassem antes de fazer nova consulta ao oráculo, na qual ele figuraria entre os delegados, certamente porque desconfiava da infidelidade destes ou do próprio oráculo.

CLIX — Logo que os deputados chegaram aos Branquides, Aristódico, tomando a palavra, consultou o deus nestes termos: “Grande deus, o lídio Páctias veio procurar asilo entre nós, para fugir à morte de que o ameaçam os Persas. Eles nos intimam a entregá-lo, mas, embora lhes receemos o poder, decidimos não cumprir a ordem sem que primeiro soubéssemos de vós, com segurança, o que devemos fazer”. O oráculo respondeu da maneira que fizera antes, ordenando-lhes que entregassem Páctias aos Persas. Diante disso, Aristódico dirigiu-se, com premeditado propósito, em torno do templo e retirou os pardais e todas as outras espécies de pássaros que ali faziam ninho. Conta-se que, enquanto assim procedia, uma voz, vinda do santuário, invectivou-o: “Ó celerado, tens a audácia de arrancar do meu templo os meus suplicantes?”, ao que Aristódico, sem se perturbar, replicou: “Então, grande deus, socorreis os vossos suplicantes e ordenais aos Címios que entreguem ao inimigo o deles?” “Quero que assim seja; — volveu a voz — e para que, tendo cometido uma impiedade, não incorras no risco de perecer, aconselho-te a não vir mais consultar o oráculo para saber se deves ou não entregar suplicantes”.

CLX — Ante a nova resposta dos delegados, os Címios enviaram Páctias a Mitilene, não desejando, nem expor-se libertando-o, nem serem sitiados continuando a dar-lhe asilo. Tendo Mazarés exigido dos Mitilênios a devolução de Páctias, eles se dispuseram a entregá-lo mediante uma certa recompensa, que não ouso, entretanto, precisar, pois o acordo não se realizou. Os Címios, sabedores da intenção dos Mitilênios, enviaram a Lesbos um navio, que transportou Páctias para Quios.

Os habitantes dessa ilha arrancaram-no do templo de Minerva Polioucos e o entregaram a Mazarés com a condição de este lhes dar Atarnéia, país da Mísia, defronte de Lesbos.

Quando os Persas tiveram Páctias nas mãos, guardaram-no com a maior segurança, para apresentá-lo a Ciro. Depois desse acontecimento, os habitantes de Quios levaram muito tempo sem ousar, nos sacrifícios, espalhar sobre a cabeça da vítima a aveia de Atarnéia, nem oferecer a qualquer deus bolos feitos com farinha desse cantão, excluindo dos templos tudo que dali provinha.

CLXI — Mal os habitantes de Quios entregaram Páctias, Mazarés marchou contra os que se haviam unido ao rebelde para cercar Tabalo. Reduziu os Priênios à servidão, fez uma incursão na planície do Meandro e permitiu aos soldados saquearem tudo. Tratou da mesma maneira Magnésia, depois do que, caindo doente, morreu.

CLXII — Hárpago sucedeu-o no comando do exército. Era meda de nascimento, como Mazarés, e, por causa de uma refeição abominável que lhe oferecera Astíages, auxiliara Ciro a apoderar-se do trono da Média. Logo que Ciro o nomeou general, passou ele para a Iônia e tomou as cidades por meio de entrincheiramentos: assim que encurralava os habitantes por detrás das barreiras, reduzia estas últimas, erguendo terraços ao nível das muralhas. Focéia foi a primeira cidade conquistada.

CLXIII — Foram os Fócios os primeiros entre os Gregos a empreender longas viagens marítimas e a conhecer o mar Adriático, a Tirrênia, a Ibéria e Tartesso. Não se serviam de embarcações redondas, mas de navios de cinqüenta remos. Tendo chegado a Tartesso, caíram nas graças de Argantônio, rei dos Tartéssios e que governou durante oitenta anos, tendo vivido cem anos. Souberam, de certo, fazer-se estimar por esse soberano, que lhes aconselhou a deixar a Iônia e a se estabelecerem na região do Tartesso que mais lhes conviesse; mas não conseguindo persuadi-los e tendo sabido por eles que as forças de Creso aumentavam cada vez mais, deu-lhes certa soma de dinheiro para cercarem sua cidade de muralhas. Essa quantia devia ser considerável, pois eles ergueram um círculo de muralhas de grande amplitude, todas de pedras enormes e agregadas com arte.

CLXIV — Aproximando-se dessa praça, Hárpago estabeleceu o cerco, mandando dizer, ao mesmo tempo, aos Fócios, que ficaria satisfeito se eles demolissem apenas uma de suas ameias e consagrassem uma casa. Como não podiam suportar a escravidão, os Fócios pediram um dia para deliberar sobre a proposta, comprometendo-se, depois disso, a dar sua resposta. Pediram-lhe também para retirar as tropas da frente das muralhas enquanto se mantinham em conselho. Hárpago respondeu-lhes que, embora não ignorasse suas intenções, nada faria para impedi-los de deliberar. Enquanto o meda retirava suas tropas, os Fócios lançaram seus navios ao mar, neles colocando as esposas, os filhos, os móveis e, além do mais, as estátuas e as oferendas que se achavam no templo, exceto quadros e as obras de bronze e de pedra, depois de transportarem tudo para os navios, embarcaram e abriram velas para Quios. Os Persas, encontrando a cidade abandonada, dela se apoderaram.

CLXV — Vendo que os habitantes de Quios não queriam vender-lhes as ilhas Enussas com receio de que eles lhes prejudicassem o comércio, os Fócios retirantes rumaram para Cirne, onde vinte anos antes haviam construído a cidade de Alalia em obediência a um oráculo. Aliás, Argantônio tinha morrido nesse intervalo. Antes porém de aportarem a Cirne, retornaram a Focéia, massacrando a guarnição deixada por Hárpago. Dirigindo, em seguida, as mais terríveis imprecações contra os que se haviam separado da frota, atiraram ao mar um pedaço de ferro em brasa, formulando o juramento de não retornarem jamais a Focéia enquanto o pedaço de ferro não voltasse à tona. Todavia, quando se achavam em caminho para Cirne, mais da metade deles, com saudades da pátria e dos velhos lares, violou o juramento e regressou a Focéia. Os outros, mais religiosos, continuaram a rota, deixando para trás as ilhas Enussas.

CLXVI — Ao chegarem a Cirne, ergueram templos e residiram pelo espaço de cinco anos com os colonos que os tinham precedido; mas como devastavam e saqueavam os vizinhos, os Tirrênios e os Cartagineses lançaram-se ao mar, de comum acordo, em sessenta navios, para dar-lhes combate. Os Fócios, por sua vez, equipando um número correspondente de embarcações, foram-lhes ao encontro no mar da Sardenha. Conseguiram uma vitória cadmiana(5) pois perderam quarenta navios, ficando os outros inutilizados. Retornaram a Alalia, e reunindo as mulheres, os filhos e tudo mais que puderam arrecadar do resto dos seus bens, abandonaram Cirne, rumando para Régio.

CLXVII — Os Cartagineses e os Tirrênios repartiram por sorteio os Fócios que haviam aprisionado, ficando os segundos com maior número. Levaram-nos, então, para terra, massacrando-os com pedradas. Desde essa ocasião, nem gado, nem animal de carga, nem mesmo os homens, numa palavra, ninguém que pertencesse aos Agilenses pôde mais atravessar o campo onde os Fócios haviam sido aniquilados, sem ter os membros deslocados ou tornar-se disformes, estropiados ou paralíticos. Os Agilenses mandaram delegados a Delfos para expiarem o seu crime. A pitonisa ordenou-lhes realizar suntuosas cerimônias fúnebres às suas vítimas e instituir em sua honra jogos gímnicos e corridas de carro. Os Agilenses realizam ainda hoje essas cerimônias.

Tal foi a sorte desses Fócios. Quanto aos que se refugiaram em Régio, partindo dali construíram nos campos da Enótria a cidade hoje conhecida por Hiléia. Isso fizeram a conselho de um habitante de Possidônia, que lhes dissera haver a pitonisa ordenado em resposta a uma consulta, o estabelecimento de uma colônia na ilha de Cirne e a ereção de um monumento ao herói de Cirnos.

CLXVIII — Os Teienses conduziram-se mais ou menos como os Fócios. Realmente, mal Hárpago ocupara suas muralhas por meio de um terraço improvisado, fizeram-se ao mar, passando-se para a Trácia, onde construíram a cidade de Abdera. Timésios de Clazômenas já a tinha fundado antes, mas os Trácios o expulsaram de lá. Os Teienses de Abdera rendem-lhe hoje culto como a um herói.

CLXIX — Esses povos forarn os únicos entre os Iônios, que preferiram abandonar a pátria a suportar o jugo do estrangeiro. É verdade que o resto dos Iônios, com exceção dos de Mileto, lutaram contra Hárpago, a exemplo dos que haviam deixado a Iônia, e deram provas de valor defendendo cada qual sua pátria; mas vencidos e caindo em poder do inimigo, foram compelidos a permanecer no país e a submeter-se ao vencedor. Quanto aos Milésios, tinham eles, como já disse antes, prestado juramento de fidelidade a Ciro, ficando em perfeita tranqüilidade. A Iônia foi, assim, reduzida à escravidão pela segunda vez. Os Iônios habitantes das ilhas, receando destino semelhante ao que Hárpago impusera aos do continente, renderam-se voluntariamente a Ciro.

CLXX — Embora acabrunhados por esses reveses, os Iônios não deixavam de reunir-se no Panionium. Bias de Priene deu-lhes, como dissemos, um conselho útil, que os tornaria os mais felizes de todos os Gregos se o tivessem seguido: Exortou-os a embarcar, todos juntos, numa mesma frota e dirigir-se para a Sardenha, e ali fundar uma única cidade para todos os Iônios. Fez-lhes ver que por esse meio poderiam escapar à escravidão e que, habitando a maior de todas as ilhas, as outras lhes cairiam nas mãos, enquanto que, se permanecessem na Iônia, não teriam nenhuma possibilidade de recobrar a liberdade. Tal foi o conselho dado por Bias ao Iônios depois do desastre destes últimos; mas antes de eles haverem recaído na servidão, Tales de Mileto, cujos ancestrais eram originários da Fenícia, fez-lhes outra excelente sugestão: a de estabelecerem em Teos, no centro da Iônia, um conselho geral para toda a nação, sem prejudicar o governo das outras cidades, as quais continuariam seguindo seus usos e costumes particulares, como se fossem outros tantos estados separados.

CLXXI — Hárpago, tendo subjugado a Iônia, voltou-se contra os Cários, os Cáunios e os Lícios, com um reforço de tropas fornecido pelos Iônios e Eólios. Os Cários, que passaram das ilhas para o continente, tinham sido outrora súditos de Minos. Eram então conhecidos pela designação de Lelegos. Habitavam as ilhas e não pagavam nenhuma espécie de tributo — pelo menos assim depreendo das suas mais antigas tradições —, mas todas as vezes que Minos deles precisava, atendiam prontamente com seus navios. Enquanto esse príncipe, feliz na guerra, ampliava suas conquistas, os Cários angariavam maior celebridade do que todos os povos conhecidos de então. A eles se devem três invenções adotadas mais tarde pelos Gregos. Foram, com efeito, os Cários os primeiros a colocar penachos nos capacetes, a ornar de figuras os escudos, a acrescentar uma alça de couro a essa arma e a manejá-la por meio de um talabarte de couro, passado pelo pescoço e pelo ombro esquerdo. Muito tempo depois, os Dórios e os Iônios expulsaram os Cários das ilhas, e assim passaram estes para o continente. Eis o que os Cretenses contam dos Cários; mas estes historiam de maneira diferente a própria origem. Dizem ser originários do continente, acreditando não haverem jamais tido nome diferente do que hoje trazem. Mostram também em Milassa um antigo templo dedicado a Júpiter Cário, onde só admitem a presença dos Milésios e dos Lídios, em razão da afinidade que possuem com esses povos. Dizem que Lido e Miso eram irmãos de Caro, de onde a aproximação entre esses povos.

CLXXII — Quanto aos Cáunios, parece-me serem eles autóctones, embora se digam originários de Creta. Se moldaram sua língua pela dos Cários, ou se estes moldaram a sua pela deles, é coisa que não posso afirmar com segurança. Possuem, entretanto, costumes bem diferentes dos dos Cários e de todos os demais povos. Constitui entre eles ato muito honesto o reunirem-se para beber, homens, mulheres e crianças, pela ordem da idade ou grau de amizade. Prestavam culto aos deuses estrangeiros, mas, mudando de sentimento, resolveram não mais se dirigirem a nenhuma divindade senão às do país. Todos os jovens cáunios, munidos de armas e terçando no ar as lanças, arrastaram até as fronteiras as estátuas dos deuses estrangeiros, proclamando que os estavam expulsando.

CLXXIII — Os Lícios, originários de Creta, remontam à mais alta antigüidade. Desde os tempos mais recuados, a ilha inteira se achava completamente ocupada pelos bárbaros. Sarpédon e Minos, filhos de Europa, disputaram entre si a soberania. Minos levou a melhor e Sarpédon foi expulso com todos os seus partidários, indo ter à Milíada, cantão da Ásia — o país que hoje habitam os Lícios chamava-se outrora Milíada, e os Mílios tinham o nome de Sólimos. Durante o tempo em que Sarpédon reinou sobre eles, eram chamados Térmilos; mas, tendo Lico, filho de Pandíon, sido expulso de Atenas pelo seu irmão Egeu e procurado refúgio entre os Térmilos, junto a Sarpédon, esse povo passou a chamar-se, com o tempo, Lícios, por causa do nome do referido príncipe. Seguem os Lícios, em parte, os costumes de Creta, e em parte, os da Cária. Possuem um, entretanto, que lhes é muito peculiar: adotam o nome da mãe em lugar do do pai. Se perguntarmos a um Lício a que família pertence, ele dá-nos a genealogia da mãe e dos antepassados da mãe. Se uma mulher de condição livre desposa um escravo, os filhos são considerados nobres. Se, ao contrário, um cidadão, mesmo da mais elevada categoria, desposa uma estrangeira ou uma concubina, os filhos são espúrios.

CLXXIV — Os Cários foram submetidos por Hárpago sem nada terem feito de memorável. E não somente eles. Todos os Gregos que habitavam esse país coisa alguma fizeram que os distinguisse. Figuram ainda nesse número os Cnídios, colonos da Lacedemônia, cujo país, voltado para o mar, forma um promontório chamado Triópio, onde começa a Bibássia. Toda a Cnídia, excetuando uma pequena nesga, é cercada pelo mar: ao norte, pelo golfo Cerâmico; ao sul, pelo mar de Sima e de Rodes. Foi essa estreita faixa de terra, cuja extensão não ia além de cinco estádios, que os Cnídios, querendo, para sua maior segurança, isolar seu país do continente, transformando-o numa ilha, puseram-se a cavar enquanto Hárpago se achava ocupado com a conquista da Iônia. Empregaram grande número de trabalhadores nessa empresa, mas os estilhaços de pedra começaram a feri-los de um modo tão extraordinário nas diferentes partes do corpo e, principalmente, nos olhos, que pareciam revelar uma intervenção divina. Mandando perguntar a Delfos que força se opunha aos seus esforços, a pitonisa respondeu-lhes nestes termos: “Não cavai e nem fortificai o istmo. Júpiter teria feito de vosso país uma ilha, se tal tivesse sido a sua vontade”. Ante essa resposta, os Cnídios deixaram de cavar, e quando Hárpago se apresentou diante deles, renderam-se sem combater.

CLXXV — Os Pedásios habitam uma região central, ao norte de Halicarnasso. Todas as vezes que esses povos e seus vizinhos são ameaçados por uma desgraça, uma longa barba cresce na sacerdotisa de Minerva. Esse fato extraordinário aconteceu três vezes. Os Pedásios foram os únicos povos da Cária a resistir durante muito tempo a Hárpago, causando-lhe inúmeros embaraços com a fortificação da montanha de Lida, mas acabaram sendo subjugados.

CLXXVI — Os Lícios foram ao encontro de Hárpago logo que ele apareceu à frente do seu exército nas planícies de Xanto. Embora não fossem mais do que um punhado de homens em relação ao inimigo, bateram-se valorosamente; mas perdendo a batalha e vendo-se forçados a entrincheirar-se nas muralhas, levaram para a cidadela suas riquezas e, reunindo as mulheres, os filhos e os escravos, fizeram uma fogueira e reduziram a praça a cinzas com tudo o que ali se achava. Tendo, depois disso, selado um pacto pelo juramento mais terrível, realizaram uma sortida contra o invasor e pereceram todos em combate. Assim, a maior parte dos Lícios que existem hoje e denominados Xântios é composta de estrangeiros, com exceção de oitenta famílias que, por se acharem afastadas da pátria, escaparam à ruína comum. Assim foi tomada a cidade de Xanto. Hárpago apoderou-se da de Cauno quase da mesma maneira, pois os Cáunios seguiram, em grande parte, o exemplo dos Lícios.

CLXXVII — Enquanto Hárpago devastava a Ásia Menor, Ciro, em pessoa, subjugava todas as nações da Ásia Superior, sem exceção de nenhuma. Nada direi sobre a maioria delas, contentando-me em falar das que lhe deram mais trabalho e mais merecedoras de um lugar na história. Quando o príncipe colocou sob o seu domínio todo o continente, pensou em ir atacar os Assírios.

CLXXVIII — A Assíria possui várias cidades importantes, mas Babilônia é a mais célebre e a mais forte de todas. Ali os reis do país haviam fixado residência desde a destruição de Nínive. A cidade, situada numa grande planície, forma um quadrado com cento e vinte estádios de cada lado. É de uma tal magnificência, que não conhecemos outra capaz de com ela comparar-se. Um fosso largo, profundo e cheio de água circunda-a, erguendo-se adiante uma muralha de cinqüenta “côvados de rei” de espessura (o côvado de rei é três dedos maior do que o comum).

CLXXIX — Vem a propósito acrescentar ao que acabo de dizer, o emprego que se deu à terra retirada do fosso circular e de que maneira foi construída a muralha. À medida que os construtores cavavam o fosso, convertiam a terra em tijolos, e quando já haviam reunido uma grande quantidade destes, levaram-nos ao forno. Em seguida, à guisa de cimento utilizavam o betume quente, e de trinta em trinta camadas de tijolos punham redes de caniços entrelaçados. Construíram primeiramente, por esse processo, as bordas do fosso. Passaram, em seguida, para as muralhas, construindo-as da mesma maneira. No alto e nas bordas da muralha ergueram-se torres de um único andar, umas diante das outras, entre as quais havia espaço suficiente para dar passagem a um carro puxado por quatro cavalos. Cem portas de bronze maciço completavam a monumental obra. A oito dias de Babilônia fica a cidade de Is, situada à margem de um pequeno rio do mesmo nome e que desemboca no Eufrates. Esse rio arrasta em suas águas grande quantidade de betume, o mesmo utilizado para cimentar os muros de Babilônia.

CLXXX — O Eufrates corta a cidade pelo meio, dividindo-a em dois quarteirões. O rio é grande, profundo e rápido; vem da Armênia e desemboca no mar Eritreu. Algumas das muralhas formam verdadeiros cotovelos sobre o rio, e é desse ponto que parte um muro de tijolos, bordejando o Eufrates. As casas são de três a quatro andares e as ruas retas e cortadas por outras que vão ter ao rio. Frente a estas últimas abriram-se no muro que corre ao longo do rio, pequenas portas, por onde se desce até as margens. Há tantas portas quantas ruas transversais.

CLXXXI — O muro exterior serve de defesa; o interior não é menos resistente, porém mais estreito. A parte central dos dois quarteirões é digna de nota: no primeiro encontra-se o palácio do rei, cujo recinto vasto se acha bem fortificado; no outro, o templo consagrado a Júpiter Belo, cujas portas de bronze ainda hoje subsistem. É um quadrado com dois estádios de largura, no meio do qual se ergue uma torre maciça de um estádio de comprimento por outro de largura. Sobre essa torre eleva-se outra, e sobre essa segunda, outra ainda, e assim por diante até completar oito. Do lado de fora construiu-se uma escada em caracol, que dá acesso às oito torres. Essa escada é provida de postos de parada, com cadeiras para descanso dos que sobem. Na última torre encontra-se uma grande capela, e nesta um amplo e bem guarnecido leito, tendo ao lado uma mesa de ouro. Não se vêem estátuas. Ninguém ali passa a noite, a menos que seja alguma filha da terra, eleita pela divindade, como dizem os Caldeus, sacerdotes dessa divindade.

CLXXXII — Esses sacerdotes afirmam que o deus vem em pessoa à capela e repousa no leito, o que não me parece crível. Coisa idêntica se dá em Tebas, no Egito, a acreditar no que dizem os Egípcios, pois ali também se deita uma mulher no templo de Júpiter Tebano. Dizem que tanto esta como aquela não têm relações com nenhum homem. Ainda o mesmo acontece em Pátaros, na Lícia, quando o deus honra a cidade com a sua presença. A sacerdotisa encerra-se durante a noite no templo, e não se dão oráculos enquanto o deus ali permanece.

CLXXXIII — Na parte inferior do templo de Babilônia há outra capela, onde se vê uma grande estátua de ouro representando Júpiter sentado. Ao lado, uma grande mesa de ouro. O trono e o escabelo são do mesmo metal. Tudo isso, segundo informações dos Caldeus, pesa oitocentos talentos de ouro. Vê-se também, fora da capela, um altar de ouro, e ao lado desse, outro de grandes dimensões, onde se sacrifica o gado adulto, pois no de ouro só é permitido sacrificar cordeiros ainda não desmamados. Os Caldeus queimam também no grande altar, todos os anos, por ocasião das festas em honra do deus, mil talentos de incenso. Havia ainda naquele templo, no recinto sagrado, uma estátua de ouro maciço de doze côvados de altura. Não a vi, contentando-me, portanto, a repetir o que dizem os Caldeus. Dario, filho de Histaspes, forjou um plano para apropriar-se dela, mas não ousou executá-lo. Xerxes, filho de Dario, matou o sacerdote que a ele se opôs nessa empresa e apoderou-se da estátua. Tais são as riquezas do templo, onde se vêem também muitas oferendas particulares.

CLXXXIV — Babilônia teve um grande número de reis. Em minha “História da Assíria” mencionarei os que embelezaram as muralhas e os templos, e, entre outros, duas mulheres. A primeira precedeu de cinco gerações a outra e chamava-se Semíramis. Foi ela quem mandou construir os diques colossais que contêm o Eufrates no leito, impedindo-o de inundar os campos, como acontecia outrora.

CLXXXV — A segunda rainha, Nitócris, era mais prudente que a primeira. Entre as suas obras memoráveis, destaca-se a seguinte: Tendo notado que os Medos, tornando-se poderosos, não podiam permanecer inativos e iam conquistando cidades após cidades, inclusive Nínive, resolveu fortificar, tanto quanto possível, seu reino, prevenindo-se contra qualquer ataque. Foi assim que, como primeira medida de defesa, mandou abrir canais ao norte de Babilônia, de que resultou tornar-se o Eufrates, que atravessa a cidade pelo meio, oblíquo e tortuoso, a ponto de passar três vezes por Arderica, burgo da Assíria; e, ainda agora, os que descem o rio em direção a Babilônia passam pelo referido burgo três vezes em três dias.

Nitócris mandou erguer em seguida, de cada lado da cidade, uma cerca monumental, tanto pela largura como pela altura. Mais distante, ao norte da Babilônia, a pequena distância do rio, mandou cavar um lago destinado a receber o excesso das águas do Eufrates nas cheias. Esse lago media quatrocentos e vinte estádios de circunferência, e quanto à profundidade, sabe-se que cavaram até encontrar água. A terra retirada dali serviu para elevar as ribanceiras do rio. Terminada a abertura do lago, revestiram-lhe as margens de pedras. Essas duas obras tinham por fim tornar mais lento o curso do rio, quebrando-lhe o ímpeto por um grande número de sinuosidades, e obrigar os que se dirigiam a Babilônia por via fluvial, a fazer várias voltas, forçando-os ainda, no fim do trajeto, a seguir o vasto contorno do reservatório. Realizou Nitócris esses trabalhos naquela parte de seus estados mais exposta às incursões dos Medos e do lado onde eles dispõem de caminho mais curto para penetrar na Assíria, a fim de que, não mantendo comércio com os Assírios, eles não pudessem tomar conhecimento dos seus negócios.

CLXXXVI — Concluídas essas obras, atirou-se a rainha a nova iniciativa: Babilônia está dividida em duas partes, e o Eufrates corta-a pelo meio. Nos reinados anteriores, quando se queria ir de um lado a outro da cidade era necessário atravessar o rio de barca, o que não deixava de ser muito incômodo. Atendendo a isso, Nitócris, terminada a construção do lago, empreendeu uma obra digna de admiração. Fez talhar grandes pedras e, quando estas estavam prontas, desviou as águas do Eufrates para o lago. Enquanto este enchia, o rio secava. Mandou então revestir as margens de tijolos, assim como as rampas que iam das pequenas portas ao rio, servindo-se do mesmo processo empregado na construção das muralhas. Mandou erguer também, no centro da cidade, uma ponte de pedras ligadas com ferro e chumbo. Durante o dia, passava-se sobre peças de madeira quadradas, que eram retiradas à noite, para evitar que os habitantes, andando na escuridão, roubassem uns aos outros. Desviadas para o lago as águas do rio, teve início a construção da ponte. Terminada esta, a corrente foi devolvida ao seu antigo leito. O terreno cavado tornou-se um verdadeiro pântano, cuja utilidade os Babilônios reconheceram construindo também uma ponte sobre ele, para utilizá-lo como julgassem necessário.

CLXXXVII — Eis a manobra imaginada ainda por essa rainha: Mandou erguer um mausoléu sobre um dos portões mais freqüentados da cidade, com a seguinte inscrição: “Se a algum dos reis que me sucederem em Babilônia vier a faltar dinheiro, abra ele este sepulcro e lance mão de quanto desejar; mas deve evitar abri-lo por outros motivos, pois, se não tiver do dinheiro grande necessidade, poderá arrepender-se disso”.

O túmulo permaneceu intacto até o reinado de Dario. Este príncipe, indignando-se por não haver ninguém, até ali, feito uso da porta e de não ter lançado mão do dinheiro em depósito (os habitantes não se serviam da porta para não passar sob um cadáver), mandou abrir o sarcófago, encontrando apenas o corpo de Nitócris com esta inscrição: “Se não fosses insaciável de dinheiro e ávido de ganho inconfessável, não terias aberto o túmulo dos mortos”.

CLXXXVIII — Foi contra o filho de Nitócris que Ciro lançou suas tropas. Era o primeiro rei da Assíria e chamava-se, como o pai, Labineto. O grande rei não se pôs em marcha sem levar consigo grande quantidade de víveres e gado. Levou também um carregamento de água do Choaspe, que corre em direção a Susa, pois não bebia outra. A água, fervida e depositada em jarros de prata, era transportada em carros de quatro rodas, puxados por mulas.

CLXXXIX — Ciro, marchando contra Babilônia, chegou às margens do Gindo. Este rio nasce nos montes Macianos, e depois de atravessar o país dos Dardaneus deságua no Tigre, que passa ao longo da cidade de Ópis e desemboca, por sua vez, no mar de Eritréia. Enquanto Ciro procurava atravessar o Gindo (não pôde fazê-lo em barcas), um dos seus cavalos brancos, considerados sagrados, impelido pelo ardor, saltou na água e esforçou-se por ganhar a margem oposta; mas a forte correnteza arrastou-o, afogando-o. Ciro, indignado com a afronta do rio, ameaçou-o de torná-lo tão fraco que, dali em diante, até as mulheres poderiam atravessá-lo sem molhar os joelhos. Assim dizendo, suspendeu a expedição contra Babilônia, dividiu o exército em dois corpos, traçou com uma corda, ao longo do rio, cento e oitenta canais em diversos sentidos, fazendo, em seguida, cavá-los pelas tropas. Conseguiu realizar tão vultosa empresa por haver empregado um número imenso de soldados, mas isso lhe ocupou as tropas durante todo o Verão.

CXC — Tendo-se vingado do Gindo cortando-o em trezentos e sessenta canais, continuou a marcha para Babilônia ao anunciar-se a segunda Primavera. Os Babilônios, pondo suas tropas em campo, esperaram de pé firme. Mal o inimigo apareceu nas vizinhanças da cidade, deram-lhe batalha, mas, batidos, encerraram-se atrás das muralhas.

Como sabiam, de longa data, que Ciro não ficaria sossegado e que atacaria igualmente todas as nações, os Babilônios haviam reunido de antemão provisões para muitos anos. Por conseguinte, o cerco não os inquietava de maneira alguma. Ciro encontrava-se em grande embaraço: cercava a praça há muito tempo e não tinha conseguido outra vantagem que a do primeiro dia.

CXCI — Finalmente, ou porque concluísse por si mesmo sobre o que devia fazer, ou porque alguém, vendo-o em dificuldades, o aconselhasse, o príncipe tomou a seguinte resolução: Colocou o exército, parte no ponto onde o Eufrates penetra na Babilônia, parte no local onde o rio deixa o país, com ordem de invadir a cidade pelo leito do mesmo, logo se tornasse vadeável. Com o exército assim distribuído, dirigiu-se para o lago com algumas tropas menos aguerridas. Ali chegando, a exemplo do que fizera a rainha Nitócris, desviou as águas do rio para o lago pelo canal de comunicação. As águas se escoaram, e o leito do rio facilitou a passagem. Sem perda de tempo, os Persas postados nas margens entraram na cidade, com as águas do rio dando apenas pelas coxas. Se os Babilônios tivessem sido instruídos com antecedência sobre o propósito de Ciro, ou se o percebessem no momento da execução, poderiam ter feito perecer todo o exército, evitando a invasão da cidade; bastaria fechar as portas que conduzem ao rio e atacá-lo do muro marginal; os soldados seriam apanhados como peixes na rede. A verdade é que os Persas surgiram quando eram menos esperados, e, a acreditar no depoimento dos Babilônios, quando os pontos extremos da cidade já se achavam em poder do inimigo, os defensores que se encontravam na parte central ainda não tinham conhecimento disso, tão grande era ela. No momento em que se deu a invasão, os Babilônios estavam realizando um festim, e, longe de imaginar que um perigo iminente os ameaçava, entregavam-se aos prazeres e às danças. Quando se inteiraram da situação, era demasiado tarde. Assim Babilônia foi tomada pela primeira vez.

CXCII — Entre outras provas do poderio dos Babilônios, às quais me reportarei em seguida, insisto nesta: Em todo o território do grande rei, o imposto pago era redistribuído entre os diversos distritos para a manutenção da casa real e do exército. Ora, Babilônia faz essa despesa durante quatro dos doze meses de que se compõe o ano, restando apenas oito para as contribuições do resto da Ásia. A Babilônia corresponde, pois, em riqueza, a um terço da Ásia. O governo dessa província (os Persas dão o nome de satrapias a tais governos) era o melhor de todos. Mantinha ela ainda para o rei, em caráter particular e sem contar os cavalos de guerra, um haras de oitocentos reprodutores e dezesseis mil éguas, de maneira que a cada reprodutor cabiam vinte éguas. Criava-se também ali grande quantidade de cães indianos. Quatro grandes burgos situados na planície estavam encarregados de alimentá-los e isentos, por isso, de qualquer outro tributo. Tais os proventos que o rei retirava de Babilônia.

CXCIII — As chuvas não são freqüentes na Assíria. A água do rio alimenta a semente e desenvolve a messe, não como o Nilo, estendendo-se pelos campos, mas pelo trabalho humano e por meio de máquinas; pois a Babilônia é, à semelhança do Egito, inteiramente cortada de canais, o maior dos quais comporta até navios. De todos os países que conhecemos, é esse, sem dúvida alguma, o mais fértil. Ali não se cultivam árvores; ali não se vêem nem a figueira, nem a videira, nem a oliveira. Em compensação, a terra se presta ao plantio de toda espécie de sementes, desenvolvendo-as na proporção de duzentas por uma, e até de trezentas em alguns anos. Ás folhas da aveia e do centeio chegam a quatro dedos de largura. Embora eu não ignore a altura que ali atingem as hastes do milho e do sésamo, prefiro nada dizer sobre isso, pois sei que os que ainda não estiveram na Babilônia poderão dizer que estou exagerando. Os Babilônios não se servem do óleo extraído do sésamo. A planície em que se estende o país está coberta de palmeiras, a maioria das quais produz frutos; uns utilizados na alimentação e outros na fabricação do vinho e do mel. A palmeira é ali cultivada da maneira que cultivamos a figueira.

CXCIV — Vou falar de outra maravilha que, depois da cidade, é a maior de todas as que encerra o país: os barcos utilizados para descer o rio até Babilônia, feitos de peles e de formato arredondado. Esses barcos são fabricados em uma parte da Armênia, ao norte da Assíria. A carena é feita de salgueiro, e os varais são revestidos exteriormente com peles, emprestando-lhes a configuração de uma prancha. As extremidades são arredondadas como um escudo, não se distinguindo a popa da proa, e o fundo enchem-no de palha. Depois de construídos, são lançados na correnteza do rio carregados de mercadorias e, principalmente, de vinho de palmeira. Dois homens o dirigem com dois remos, manejados um do lado de dentro e outro do lado de fora. Esses barcos variam em tamanho, podendo os maiores comportar até cinco mil talentos de peso. Os menores podem transportar um asno, e os maiores, vários deles. Quando os tripulantes chegam a Babilônia e vendem a mercadoria, põem também à venda os varais e a palha. Carregam depois os asnos com as peles e voltam para a Armênia, tangendo-os pela estrada.

CXCV — Quanto aos trajes, usam os Babilônios uma túnica de linho que vai até os pés, e, por cima, outra de lã, envolvendo-se, em seguida, num manto branco. O calçado em moda no país assemelha-se aos dos Beócios. Deixam crescer o cabelo, cobrem a cabeça com uma espécie de mitra e impregnam o corpo de perfume. Trazem, cada qual, um sinete e um bastão trabalhado a mão, com o cabo em forma de maçã, de rosa, de lírio ou de um objeto qualquer, pois não lhes é permitido usar bengala ou bastão sem um ornamento característico. Tal a sua indumentária. Passemos às leis.

CXCVI — A mais sábia de todas, na minha opinião, é a que vigorava entre os Vênetos, povo da Ilíria: em cada burgo, os que possuíam filhas núbeis levavam-nas, todos os anos, a um certo lugar, onde se reunia em torno delas grande quantidade de homens. Um leiloeiro apregoava-as e vendia-as, uma após outra. Começava sempre pela mais bela, e depois de haver obtido boa soma por ela, passava a apregoar a que se lhe aproximava em beleza, e assim por diante. Só as vendia, porém, com a condição de os compradores desposá-las. Todos os Babilônios ricos e em idade de casamento para lá se dirigiam, fazendo suas ofertas. Quanto à gente do povo que desejava casar-se, como pouca pretensão tinha de desposar belas criaturas, arrematava as mais feias com o dinheiro que davam a estas. Com efeito, mal o leiloeiro terminava a venda das belas, erguia uma das mais feias ou uma das estropiadas, se as houvesse, e apregoando-a pelo mais baixo preço, perguntava quem queria desposá-la como condição essencial, adjudicando-a àquele que o prometesse. Assim, o dinheiro proveniente da venda das belas servia para fazer casar as feias e as estropiadas. Não era permitido ao pai escolher esposo para a filha, e quem comprava uma moça não podia conduzi-la para casa sem a fiança de casamento. Só quando encontrava fiadores tinha o direito de levá-la dali, e se não encontrava, a lei mandava que lhe devolvessem o dinheiro. Era também permitido, indistintamente, aos habitantes de outros burgos, comparecer ao leilão e arrematar as moças.

Esta lei, tão sabiamente instituída, não subsiste mais. De uns tempos para cá imaginaram outro meio para prevenir os maus tratos que pudessem ser infligidos às mulheres e impedir que elas fossem levadas para outra cidade. Depois da tomada de Babilônia e das brutalidades sofridas pelos habitantes, os Babilônios perderam seus bens, e não há mais ninguém que, ao ver-se na indigência, não prostitua as filhas por dinheiro.

CXCVII — Depois do costume concernente ao casamento, o mais sábio é o que diz respeito aos doentes. Como não há médicos no país, os doentes são transportados para a praça pública, e os transeuntes deles se acercam. Os que já tiveram a mesma doença ou conheceram alguém que a tivesse acodem o enfermo com os seus conselhos, exortando-o a fazer o que eles próprios fizeram ou viram outros fazer para curar-se. Não é permitido passar perto de um doente sem inquirir do seu mal.

CXCVIII — Os Babilônios costumam untar os mortos de mel; mas o luto se assemelha muito ao dos Egípcios. Todas as vezes que um babilônio tem relações com a sua mulher, queima essências e senta-se num canto para purificar-se, fazendo a mulher o mesmo. Ao raiar do dia, tomam seu banho, pois não lhes é permitido tocar em nenhum móvel sem se lavarem. Os Árabes observam o mesmo costume.

CXCIX — Os Babilônios possuem, todavia, uma lei vergonhosa: Toda mulher nascida no país é obrigada, uma vez na vida, a ir ao templo de Vênus para entregar-se a um estrangeiro. Muitas dentre elas, não querendo confundir-se com as outras pelo orgulho que lhes inspira a riqueza, dirigem-se ao templo em carro coberto. Lá permanecem sentadas, tendo atrás de si grande número de criados; mas a maioria senta-se no recinto sagrado, com a cabeça cingida por uma corda. Quando umas chegam, as outras se retiram. Vêem-se, em todos os sentidos, alas separadas por cordas estendidas. Os estrangeiros passeiam por entre as alas e escolhem as mulheres que mais lhes agradam. Quando uma mulher toma lugar ali, não pode voltar para casa senão depois que algum estrangeiro lhe atire dinheiro aos joelhos e tenha relações com ela, fora do recinto sagrado. É preciso que o estrangeiro, ao atirar-lhe o dinheiro, diga-lhe: “Invoco a deusa Milita” (os Assírios dão a Vênus o nome de Milita). Por muito módica que seja a soma, o estrangeiro não encontrará recusa; a lei proíbe tal coisa, pois o dinheiro se torna sagrado. A mulher segue o primeiro que lhe atira dinheiro, pois não pode recusar quem quer que o faça. Finalmente, depois de haver-se desobrigado do dever para com a deusa, entregando-se ao forasteiro, regressa ao lar. Depois disso, ela não mais se deixa seduzir por dinheiro algum. As que possuem um belo corpo ou um belo rosto não fazem longa permanência no templo, mas as feias esperam, às vezes, três ou quatro anos, antes que possam cumprir a lei. Costume mais ou menos semelhante observa-se em certos lugares da ilha de Chipre.

CC — Tais são as leis e os costumes dos Babilônios. Há, entre eles, três tribos que se alimentam única e exclusivamente de peixes. Quando os pescam, fazem-nos secar ao sol, amassam-nos num pilão e passam-nos, depois, num pano, comendo-os em forma de bolos ou cozidos como pães. Preparam os peixes ainda de outras formas, porém estas são as mais comuns.

CCI — Quando Ciro subjugou esse país, veio-lhe o desejo de dominar os Masságetas. Dizem que esses povos formam uma nação considerável e que são bravos e corajosos. Habitam um país a leste, além do Araxo, vizinho aos Issédons. Alguns afirmam serem eles descendentes dos Citas.

CCII — O Araxo, segundo certos informantes, é maior que o Íster; segundo outros, é menor. Dizem haver nesse rio muitas ilhas cujo tamanho se aproxima do da de Lesbos, e que os povos que as habitam alimentam-se, no Verão, de diversas espécies de raízes, reservando para o Inverno os frutos maduros, colhidos nas árvores. Dizem também que eles descobriram uma árvore, cujo fruto deitam ao fogo, em torno do qual se reúnem para aspirar-lhe o vapor. Esse vapor os embriaga, como o vinho aos Gregos; e quanto mais frutos atiram ao fogo, mais se embriagam, até o momento em que se levantam e se põem todos a cantar e a dançar. Quanto ao Araxo, vem ele do país dos Macianos, onde corre também o Gindo, reduzido por Ciro a trezentos e sessenta canais. O Araxo divide-se em quarenta braços, na foz, e todos esses braços, com exceção de um, vão ter a pântanos e lagunas onde, ao que dizem, vivem homens que se alimentam de peixe cru e se vestem de pele de veados marinhos. Apenas um braço do Araxo corre livremente até o mar Cáspio. Esse mar apresenta como principal característica não ter comunicação com nenhum outro mar. Todos os outros mares onde navegam os Gregos, bem como o que se estende para além das colunas de Hércules e que se denomina Atlântida, e o da Eritréia, formam, juntos, um só oceano.

CCIII — O Cáspio é um mar isolado e bem diferente de qualquer outro. Um navio, costeando-o, pode percorrê-lo em apenas quinze dias, e em sua maior largura leva oito dias. O Cáucaso margina-o do lado do Ocidente. É esse, talvez, o maior de todos os sistemas de montanhas, quer em extensão, quer em altitude, sendo habitado por diversos povos, que se alimentam, na sua maioria, de frutos selvagens. Assegura-se possuírem eles uma espécie de árvore cujas folhas, pisadas e deitadas n’água, produzem uma tinta com a qual pintam nos trajes figuras de animais. A água não apaga, absolutamente, essas figuras, que ali se gravam como se fossem tecidas, não desbotando senão com o desgaste da própria fazenda. Afirma-se também que esses povos praticam publicamente o coito, como os animais irracionais.

CCIV — O mar Cáspio é limitado a oeste pelo Cáucaso e a leste por uma planície que se estende a perder de vista. Os Masságetas, a quem Ciro decidiu guerrear, ocupam a maior parte dessa vasta planície. Importantes considerações levaram o príncipe a essa guerra. A primeira, a convicção de haver qualquer coisa de sobrenatural no seu nascimento; a segunda, a sorte que sempre o acompanhara em todas as campanhas, pois, em toda parte onde levara suas armas, sempre lograra êxito.

CCV — Tómiris, viúva do último rei, era quem governava os Masságetas nessa ocasião. Ciro enviou-lhe embaixadores, sob o pretexto de lhe propor casamento; mas a rainha, compreendendo estar ele mais apaixonado pela sua coroa do que por ela própria, proibiu-lhe a entrada no país. Vendo o malogro de tais artifícios, Ciro resolveu marchar abertamente contra os Masságetas, avançando até o Araxo. Lançou uma ponte sobre o rio para facilitar a passagem e fez erguer torres sobre os batéis destinados à travessia das tropas.

CCVI — Enquanto se achava ocupado com esses trabalhos, Tómiris enviou-lhe um emissário, ao qual encarregou de fazer-lhe esta advertência: “Rei dos Medos, cessa de apressar uma empresa que ignoras se será bem sucedida e contenta-te em reinar sobre os teus súditos, deixando-nos reinar tranqüilamente sobre os nossos. Se não queres seguir os meus conselhos; se preferes a luta ao sossego, enfim, se tens tanto desejo de medir forças com os Masságetas, desmancha essa ponte que começaste. Nós nos retiraremos a uma distância de três dias do rio, a fim de te dar tempo de passar e penetrar no nosso país; ou, se preferes receber-nos no teu, faze como nós”.

Ciro, depois de ouvir o embaixador, convocou seus principais para pedir-lhes sua opinião. Concordaram todos em receber Tómiris com o respectivo exército.

CCVII — Creso, também presente às deliberações, desaprovou o alvitre, propondo outro inteiramente oposto: “Ó rei, — disse ele a Ciro — já te declarei desde o primeiro dia que, me havendo Júpiter entregue ao teu poder, não cessarei de empregar todos os esforços para procurar desviar de sobre tua cabeça as desgraças que porventura te ameacem. As vicissitudes por que tenho passado trouxeram-me boa dose de experiência. Se te acreditas imortal, se julgas comandar um exército de imortais, de nada adiantará revelar-te o meu pensamento; mas se te reconheces também um ser humano, comandando homens como tu, considera, antes de tudo, a mutabilidade das coisas e a contradança da fortuna; imagina a vida uma roda girando sem cessar, não nos permitindo ser sempre felizes. De minha parte, no caso que acaba de ser discutido, sou de opinião inteiramente contrária à dos que te aconselharam. Se recebemos o inimigo em nosso país e ele nos bate, não terás a temer a sorte do teu império? Pois, se os Masságetas levarem vantagem, em vez de voltar para trás, atacarão naturalmente tuas províncias. Desejo a tua vitória; e não será ela mais completa se, depois de haveres batido os inimigos no seu próprio território, não tiveres outra coisa a fazer senão persegui-los? Procurarei fazer valer essa minha opinião, uma vez que, alcançada a vitória, poderás avançar imediatamente até o interior dos estados de Tómiris. Por outro lado, não seria bastante vergonhoso e insuportável para Ciro, filho de Cambises, recuar diante de uma mulher?

Sou de opinião que deves atravessar o rio, avançar à medida que o inimigo se afastar e, em seguida, procurar vencê-lo pelo meio que te vou expor: Os Masságetas, estou bem informado disso, não conhecem o conforto dos Persas, estando privados de todas as comodidades da vida. Que se mate uma boa quantidade de gado e se prepare um banquete, mandando servi-lo no acampamento, juntando-se vinho em abundância e toda sorte de iguarias. Concluídos esses preparativos, deixaremos no acampamento as piores tropas, retirando-nos em direção ao rio com o resto do exército. As forças masságetas, se eu não me enganar, vendo tanta abundância, correrão para ela, e então teremos o momento oportuno para mostrar-lhes o nosso poderio”.

CCVIII — Entre as duas sugestões opostas, Ciro optou pela de Creso. Mandou, por conseguinte, dizer a Tómiris que se retirasse, pois tinha o propósito de atravessar o rio. A rainha afastou-se, como ficara convencionado. Ciro declarou seu filho Cambises seu sucessor e, confiando-lhe Creso, recomendou-lhe que louvasse esse príncipe e o cumulasse de benefícios, ainda que a expedição malograsse. Dando essas ordens, enviou-os de volta para a Pérsia e atravessou o rio com seu exército.

CCIX — Ciro transpôs o Araxo e, tendo caído a noite, dormiu no país dos Masságetas. Durante o sono teve esta visão: pareceu-lhe ver o filho mais velho de Histaspes trazendo nos ombros asas, uma das quais cobria toda a Ásia com sua sombra, enquanto a outra cobria a Europa. Esse primogênito de Histaspes, de nome Dario, contava, então, cerca de vinte anos. O pai, filho de Arsamo e da raça dos Aquemênidas, deixara-o na Pérsia porque ele ainda não se achava em idade de manobrar armas.

Refletindo ao despertar sobre o estranho sonho e julgando-o de grande significação, Ciro mandou chamar Histaspes e falou-lhe em particular, dizendo-lhe: “Histaspes, teu filho conspirou contra mim e contra o meu reino. Vou contar-te como vim a sabê-lo, de maneira indubitável. À noite passada vi em sonhos teu primogênito com imensas asas nos ombros, uma das quais cobria a Ásia, enquanto a outra se estendia sobre a Europa. Isso me leva a supor, e com muita razão, que ele está tramando alguma coisa contra mim. Parte, pois, imediatamente para a Pérsia, e quando eu regressar, depois da conquista deste país, quero que o leves à minha presença, a fim de que eu o interrogue”.

CCX — Assim falou Ciro, persuadido de que Dario conspirava contra ele; mas o que os deuses pressagiavam com esse sonho era que ele morreria no país dos Masságetas e que sua coroa passaria para a cabeça de Dario. Histaspes, depois de ouvi-lo reverentemente, respondeu-lhe: “Ó rei, os deuses não hão-de permitir que se encontre entre os Persas alguém que pretenda atentar contra a vossa vida; e se existe esse alguém, pereça ele o mais cedo possível. De escravos que eram, vós os tornastes homens livres, e, em lugar de receberem ordens de um senhor, passaram a mandar em todas as nações. Se alguma visão vos deu a entender que meu filho conspira contra vossa pessoa, eu mesmo o entregarei nas vossas mãos para fazerdes dele o que vos aprouver”. Após haver dado essa resposta, Histaspes atravessou o Araxo, a fim de assegurar-se sobre o que fazia o filho e entregá-lo ao soberano, caso tramasse realmente contra ele.

CCXI — Ciro, tendo avançado até a distância de um dia de viagem do Araxo, deixou no acampamento suas piores tropas, segundo o conselho de Creso, e retornou ao rio com as mais aguerridas. Os Masságetas vieram atacar, com um terço de suas forças, as tropas que Ciro deixara guardando o acampamento, e passaram-nas a fio de espada depois de alguma resistência. Em seguida, vendo tudo pronto para o repasto, puseram-se à mesa, comeram e beberam a mais não poder, caindo depois em profundo sono. Era o momento azado. Os Persas, surgindo inesperadamente, mataram sem dificuldade grande número de Masságetas, aprisionando os restantes, inclusive o próprio Espargapiso, seu general e filho de Tómiris.

CCXII — A rainha, informada do desastre ocorrido às suas tropas e ao filho, enviou um arauto a Ciro com esta mensagem: “Príncipe sedento de sangue; que este sucesso não te envaideça; não o deves senão à cepa da videira, a esse licor que nos torna insensatos e que nos penetra no corpo para refluir aos lábios em palavras incoerentes. Levaste de vencida meu filho, não numa batalha e pela força das armas, mas pela atração do veneno sedutor. Escuta e segue um bom conselho: devolve o meu filho, e embora tenhas eliminado um terço do meu exército de maneira ultrajante, permitirei ainda que te retires impunemente dos meus estados. Se não o fizeres, juro-te pelo Sol, senhor dos Masságetas, que te saciarei de sangue, por mais sedento que dele estejas”.

CCXIII — Ciro não deu a mínima importância a essa exortação. Quanto a Espargapiso, voltando a si da embriaguez e tomando conhecimento da lamentável situação em que se encontrava, pediu a Ciro que lhe tirasse as cadeias, e, logo que se viu em liberdade, matou-se. Tal foi o fim do jovem príncipe.

CCXIV — Tómiris, informada de que Ciro repelira sua proposta, reuniu todas as suas forças e ofereceu-lhe combate. A batalha foi, creio eu, a mais famosa até hoje travada entre bárbaros. Tentarei descrevê-la apoiado em informações a mim prestadas: Os dois exércitos rivais lançaram primeiramente flechas à distância; esgotadas as flechas, chocaram-se numa carga de azagaias e punhais. Combateram durante muito tempo, de pé firme, com vantagens equivalentes de ambos os lados e sem que nenhum recuasse. Afinal, a vitória decidiu-se pelos Masságetas. A maior parte do exército persa pereceu no local, e o próprio Ciro perdeu a vida no combate, depois de haver reinado vinte e nove anos. Tómiris, mandando procurar o corpo do soberano entre os mortos, profanou-o, e mergulhando-lhe a cabeça num balde de sangue, disse: “Embora esteja eu viva e vitoriosa, tu me desgraçaste fazendo meu filho perecer por um cobarde estratagema; mas eu te saciarei de sangue, como te prometi”. Há quem relate de maneira diversa a morte de Ciro. Adotei a versão que me pareceu mais verossímil(6).

CCXV — Os Masságetas vestem-se como os Citas e a estes se assemelham na maneira de viver. Combatem a pé e a cavalo, com igual perícia e sucesso. São archeiros e lanceiros, trazendo também sagaras(7). Utilizam o ouro e o cobre numa infinidade de objetos. Empregam o cobre na confecção das lanças, das pontas das flechas e das sagaras, e reservam o ouro para ornar os capacetes, os escudos e os seus largos cintos — que vão até a altura das axilas. As couraças que guarnecem o peito de seus cavalos são de cobre. O ferro e a prata não são utilizados entre eles e nem mesmo existem no país, enquanto que o ouro e o cobre são encontrados ali em abundância.

CCXVI — Passemos aos seus costumes. Desposam, cada qual, uma mulher, mas fazem uso comum das esposas. É entre os Masságetas que se verifica esse costume, e não entre os Citas, como pretendem os Gregos. Quando um masságeta se apaixona por uma mulher, tem o direito de aproveitar-se dela à vontade. Não estabelecem limites para a vida, mas quando um homem chega a uma idade muito avançada e fica aniquilado pela velhice, os parentes reúnem-se e sacrificam-no com o gado. Cozinham-lhe depois a carne e regalam-se com ela. Esse gênero de morte passa, entre esses povos, como o mais feliz. Não comem quem morre de doença; enterram-no e lamentam-no por não haver atingido a idade do sacrifício.

Não plantam e vivem exclusivamente dos seus rebanhos e dos peixes que o Araxo lhes fornece em abundância. O leite é sua bebida comum. De todos os deuses, é o Sol o único que adoram. Sacrificam-lhe cavalos, porque julgam acertado sacrificar ao mais veloz dos deuses o mais veloz dos animais.


LIVRO II

EUTERPE

EGITO — ÍSIS — O ORÁCULO DE DODONA — SESÓSTRIS — RAMPSINITO — HELIÓPOLIS — ELEFANTINA — O NILO — EMBALSAMAMENTOS — SEPULTURAS — OS DOZE REIS — PSAMÉTICO — VECOS — PSÁMIS — ÁPRIES — AMASIS, ETC.


 

I — Morto Ciro, Cambises sucedeu-o no trono. Este príncipe era filho de Ciro e de Cassandana, filha de Farnaspe. Tendo Cassandana morrido antes de Ciro, este ficou tão desolado com a perda, que decretou luto para todos os súditos.

Cambises, filho dessa mulher e de Ciro, dispôs-se a marchar contra o Egito com as tropas dos seus estados, às quais juntara as dos Iônios e as dos Eólios, por ele considerados escravos do pai.

II — Os Egípcios, antes do reinado de Psamético, julgavam-se o povo mais antigo da terra. Tendo esse príncipe procurado saber, ao subir ao trono, que nação tinha mais direito ao referido título, disseram-lhe que pensavam serem os Frígios mais antigos do que eles, Egípcios, embora eles o fossem mais do que qualquer outro povo. Como as pesquisas do soberano haviam sido, até então, infrutíferas, imaginou ele um meio engenhoso para chegar a uma conclusão: tomou duas crianças recém-nascidas e de baixa condição, entregando-as a um pastor para criá-las entre os rebanhos, ordenando-lhe não pronunciar qualquer palavra diante delas, a mantê-las encerradas numa cabana solitária e a levar com regularidade cabras para alimentá-las. Psamético pretendia, com isso, saber qual a primeira palavra que seria pronunciada pelas crianças quando deixassem de emitir sons inarticulados. Suas ordens foram rigorosamente cumpridas. Dois anos depois, o pastor começou a observar que, quando abria a porta e entrava na cabana, as crianças, arrastando-se para ele, punham-se a gritar “Becos”, estendendo as mãos. A primeira vez que o pastor ouviu-as pronunciar tal palavra não deu importância; mas tendo notado que elas repetiam sempre o mesmo vocábulo quando entrava, levou o fato ao conhecimento do rei, exigindo este a presença das crianças. Depois de ouvi-las repetir o vocábulo, o soberano procurou informar-se entre que povos tinha curso a palavra “becos”, vindo a saber que os Frígios denominavam assim o pão. Os Egípcios confessaram-se vencidos e concluíram dessa experiência serem os Frígios mais antigos do que eles.

III — Os sacerdotes de Vulcano me informaram em Mênfis que o fato se passou dessa maneira; mas os Gregos envolvem no caso grande número de circunstâncias frívolas e, entre outras, haver Psamético feito alimentar e criar os recém-nascidos por mulheres às quais mandara cortar a língua. Durante minha permanência em Mênfis, vim a saber ainda outras coisas nas palestras que mantive com os citados sacerdotes; mas, como os habitantes de Heliópolis passam pelos mais sagazes de todos os Egípcios, dirigi-me, em seguida, a essa cidade, bem como a Tebas, para ver se suas declarações condiziam com as dos sacerdotes de Mênfis. De tudo que me contaram com relação às coisas divinas, reportar-me-ei apenas aos nomes dos deuses, persuadido de que todos os homens têm a mesma capacidade de conhecimento; e se digo alguma coisa sobre religião, será somente por ver-me a isso forçado pelo curso de minha narrativa.

IV — Quanto às coisas humanas, todos são unânimes em afirmar que os Egípcios foram os primeiros a estabelecer a noção de ano, dividindo este em doze partes, segundo o conhecimento que possuíam dos astros. Parecem-me eles nisso muito mais hábeis do que os Gregos, que, para conservar a ordem das estações, acrescentam ao começo do terceiro ano um mês intercalado, enquanto que os Egípcios fazem cada mês de trinta dias, acrescentando a todos os anos cinco dias mais.

Disseram-me também que os Egípcios haviam sido os primeiros a dar nome aos doze deuses e que os Gregos tinham adotado tais nomes; que foram também os primeiros a erguer aos deuses templos, altares e estátuas, bem como a gravar na pedra figuras de animais. Acrescentaram ter sido Menes o primeiro homem a reinar no Egito, e que, no seu tempo, todo o país, com exceção da parte denominada Tebaida, era um imenso pântano, pouco se sabendo das terras que hoje se estendem ao norte do lago Méris.

V — O que eles me disseram dessa terra me parece exato. Todo homem sensato que ainda não tenha ouvido falar nisso notará, visitando o país, ser o Egito uma terra nova e um presente do Nilo. Presente desse rio é também a região que se estende ao norte do lago, a três dias de viagem. Quem for ao Egito por mar e, encontrando-se a um dia da costa, lançar a sonda, retirará limo a onze braças de profundidade, o que prova haver o rio levado terra até essa distância.

VI — A largura do Egito na orla marítima é de sessenta esquenos, desde o golfo Plintineto ao lago Serbónis, perto do qual se ergue o monte Cásio.

Os povos que possuem um território muito pequeno medem-no por braças; os que os têm grandes, medem-nos por estádios, e os que possuem extensões consideráveis de terras fazem uso do esqueno.

VII — Do litoral até Heliópolis, com terras férteis, o Egito apresenta-se bastante largo, com um pequeno declive, bem regado e cheio de limo. A distância que vai do mar a Heliópolis é aproximadamente igual à que vai de Atenas a Pisa, partindo do altar dos doze deuses ao templo de Júpiter.

VIII — De Heliópolis em direção à parte alta do país, o Egito é estreito, porque de um lado está a montanha da Arábia, que o comprime e que, correndo do norte para o sul, segue sempre a direção do mar da Eritréia. É ali que a montanha, cessando de avançar, faz um ângulo com o país a que acabo de me referir; é ali que o Egito apresenta seu maior comprimento. Do outro lado, o Egito limita-se com a Líbia por uma montanha de pedra coberta de areia, sobre a qual foram construídas as pirâmides. Estende-se ela ao longo do Egito, da mesma maneira que aquela parte da montanha da Arábia, que se prolonga para o sul. Assim, o país, a partir de Heliópolis, não apresenta grande largura; é mesmo bastante estreito em grande extensão. A planície que separa as duas referidas montanhas mede, nos pontos onde mais estreita se apresenta, cerca de duzentos estádios. É a partir dali que o país começa a alargar-se.

IX — De Heliópolis a Tebas sobe-se o rio durante nove dias, numa distância de quatro mil oitocentos e sessenta estádios, ou sejam oitenta e um esquenos. Do litoral a Tebas a distância é de seis mil cento e vinte estádios; de Tebas a Elefantina, mil e oitocentos estádios. Na sua orla litorânea, o Egito mede três mil e seiscentos estádios.

X — A maior parte do país é uma dádiva do Nilo, como dizem os sacerdotes, e foi essa a minha impressão. Pareceu-me que toda aquela extensão do Egito situada entre as montanhas, ao norte de Mênfis, era outrora um golfo, como o foram as cercanias de Tróia, de Teutrânia, de Éfeso e a planície do Meandro. De todos os rios que formam esses territórios por meio de aluviões, não há um que, pelo seu volume de água, mereça ser comparado a um só dos cinco braços do Nilo. Há ainda muitos outros rios inferiores a esse e que, não obstante, produzem efeitos consideráveis. Poderia citar vários deles e sobretudo o Aqueloo, que, atravessando a Acarnânia e lançando-se ao mar, perto das Equínades, ligou ao continente metade dessas ilhas.

XI — Na Arábia, não muito longe do Egito, há um golfo longo e estreito, formado pelo mar da Eritréia. Do fundo desse golfo ao mar gastam-se quarenta dias de viagem num navio a remo. No ponto onde mais largo se apresenta pode-se atravessá-lo em apenas meio dia de navegação. O fluxo e refluxo das águas ali são contínuos e incessantes. Penso que o Egito era outrora um golfo mais ou menos semelhante a esse; que teria tido início no mar do Norte, estendendo-se em direção à Etiópia, e que o golfo Arábico, por sua vez, estendia-se do mar do Sul à Síria. Assim, os dois golfos, ficando separados um do outro por uma pequena nesga de terra, pouco faltaria para que esta se rompesse, unindo-se os dois golfos pelas extremidades. Se, pois, o Nilo podia desviar-se do seu curso no golfo Arábico, que o impediria de, em vinte mil anos, vir a obstruí-lo com o limo arrastado continuamente pelas suas águas? A meu ver, bastariam dez mil anos para que tal se desse. Por conseguinte, esse golfo egípcio de que falo, ou um outro maior ainda, não poderia, no espaço de tempo que precedeu meu nascimento, ter sido entulhado pela ação de tão grande rio?

XII — O que mais me convence dessa hipótese são os vestígios deixados pelo mar nas terras adjacentes, pois nas montanhas são encontradas conchas e as próprias pirâmides são corroídas pelo sal que existe esparso pelo ar. Além disso a montanha existente acima de Mênfis é o único lugar dessa região onde existe areia. Acrescente-se que o Egito não se parece em nada com a Arábia, que lhe é contígua, nem com a Líbia, nem mesmo com a Síria (há Sírios que habitam a costa marítima da Arábia). O solo do Egito é constituído por uma terra negra, friável, visto ser formado pelo limo que o Nilo traz da Etiópia e acumula por ocasião de suas inundações; ao mesmo tempo que se sabe ser a terra da Líbia avermelhada e arenosa, e a da Síria pedregosa e misturada com argila.

XIII — O que os sacerdotes me relataram sobre o Egito é uma confirmação do que acabo de dizer. No reinado de Méris, todas as vezes que o rio crescia apenas oito côvados regava o país para baixo de Mênfis. Atualmente, novecentos anos transcorridos desde a morte de Méris, se o rio não sobe quinze ou dezesseis côvados não se espraia pelas terras adjacentes. Se o solo do país continua a elevar-se na mesma proporção e a receber novos sedimentos, é de supor-se que, cessando o Nilo de banhá-lo com suas águas, os egípcios que habitam ao sul do lago Méris e em outras regiões circunvizinhas, e, sobretudo, os que vivem no delta, ficarão expostos à mesma sorte da qual eles pretendem estarem os Gregos ameaçados; pois, sabendo que toda a Grécia é regada pelas chuvas e não pelos rios, como o Egito, dizem que, se os Gregos fossem um dia privados dessa dádiva celeste, correriam o risco de morrer de fome(1). Querem dar a entender com isso que, se em lugar de chover na Grécia, sobreviesse uma seca, o povo pereceria de fome por não possuir outro recurso senão a água do céu.

XIV — Esta reflexão dos Egípcios sobre a Grécia é justa; mas não ficarão eles próprios expostos a igual perigo se, como já disse, o nível da região ao sul de Mênfis vier a elevar-se proporcionalmente ao que tem ocorrido no passado? E isto porque não chove no país e o rio não poderia mais fecundar as terras. Entretanto, não existe atualmente no resto do Egito e nem mesmo no mundo inteiro, ninguém que realize sua colheita com menos trabalho. Os habitantes dessa região não são obrigados a abrir com a charrua trabalhosos sulcos, quebrar os torrões e a preparar a terra, como fazem os de outras partes. Quando o rio rega por si mesmo os campos e as águas se retiram, eles ali abandonam seus porcos e semeiam seu terreno; e deixando aos animais o trabalho de afundar as sementes com seu contínuo vaivém pelos campos, esperam tranqüilamente a época da messe. Então, os mesmos animais calcam com os pés as espigas, debulhando-as.

XV — Os Iônios têm uma opinião muito particular com relação ao Egito. Acham eles que não se deve dar esse nome senão ao delta, desde o Echangueto de Perseu, ao longo do litoral, aos Tariqueus de Pelusa, numa distância de quarenta esquenos. Para o interior, o Egito se estende em terras cultivadas até a cidade de Cercasoro, onde o Nilo se divide em dois braços, um dos quais se dirige para Pelusa e o outro para Canopo. O resto do Egito, dizem os Iônios, pertence à Líbia ou à Arábia. Admitindo essa opinião, poderíamos supor que em tempos remotos os Egípcios não tiveram um país próprio, pois o delta estava coberto pelas águas, como eles mesmos afirmam e como observei. Se, pois, os Egípcios não possuíam outrora território próprio, como pretendem ser o povo mais antigo do mundo? Que necessidade tinham de fazer aquela experiência com os recém-nascidos para saber qual seria sua língua natural? Quanto a mim, não sou de opinião que os Egípcios tenham começado a existir com a região denominada Delta pelos Iônios. Penso que eles sempre existiram, desde que há homens sobre a terra, e que, à medida que o país crescia com as aluviões do Nilo, parte dos habitantes se transferia para o Baixo Egito, permanecendo a outra em suas terras de origem. Daí chamar-se outrora Egito à Tebaida, cuja superfície é de seis mil cento e vinte estádios.

XVI — Se, pois, nossa opinião sobre o Egito é correta, a dos Iônios não pode ter fundamento; se, ao contrário, a opinião dos Iônios é verdadeira, ser-me-á fácil provar que os Gregos e os próprios Iônios erram quando dizem que a Terra se divide em três partes: a Europa, a Ásia e a Líbia. Deviarn acrescentar uma quarta: o delta do Egito, pois este não pertence nem à Ásia nem à Líbia; e seguindo esse raciocínio, não é o Nilo que separa a Ásia da Líbia — uma vez que ele se divide no delta, fechando-o entre os seus braços — mas o próprio delta, que se encontra entre as duas regiões.

XVII — Deixemos de lado a opinião dos Iônios e falemos nós mesmos do assunto, de acordo com o que conseguimos apurar. Penso que se deve dar o nome de Egito a toda a extensão do país ocupada pelos Egípcios, da mesma maneira que chamamos Cilícia e Assíria os países habitados pelos Cilícios e pelos Assírios. É o Egito que, a justo título, poderemos considerar como o limite da Ásia e da Líbia. Se quisermos, todavia, seguir a opinião dos Gregos, consideraremos todo o Egito, desde a pequena catarata à cidade de Elefantina, como um país dividido em duas partes, sendo uma da Líbia e a outra da Ásia. O Nilo começa na catarata, divide o Egito em duas partes e lança-se no mar. Até a cidade de Cercasoro, o rio possui apenas um canal; mas acima dessa cidade divide-se em três braços, tomando três caminhos diferentes: um, denominado boca Pelusiana, toma a direção de leste; o outro, a boca Canópica, corre para oeste, e o terceiro dirige-se diretamente do Alto Egito à ponta do delta, dividindo este pelo meio e desaguando no mar. O canal, denominado Sebenítico, não é nem o menos considerável pelo volume d’água, nem o menos célebre. Dele partem dois outros canais, que vão ter igualmente ao mar por duas diferentes bocas: a Saítica e a Mendesiana. A boca Bolbitina e a Bucólica não são obra da natureza, mas dos habitantes que as cavaram.

XVIII — O que acabo de expor sobre a extensão do Egito se acha confirmado pelo testemunho do oráculo de Júpiter Ámon, do qual só tive conhecimento depois de haver feito essa apreciação. Os habitantes de Maréia e de Ápia, cidades fronteiras da costa da Líbia, não se consideram Egípcios, mas sim Líbios. Tomando aversão pelas cerimônias religiosas dos Egípcios e não querendo abster-se da carne de novilha, enviaram delegados ao oráculo de Ámon para declarar-lhe que, habitando fora do delta, tendo culto diferente do dos Egípcios e não possuindo nada de comum com esses povos, queriam permissão para comer toda qualidade de carne. O deus opôs-se ao pedido, dizendo que toda a região abrangida pelo Nilo no seu extravasamento pertencia ao Egito e que todos os que habitavam o trecho para baixo da cidade de Elefantina e bebiam água do rio eram Egípcios.

XIX — Ora, o Nilo, nas suas grandes enchentes, inunda não somente o delta, mas ainda terrenos que se diz pertencerem à Líbia, assim como alguns cantões da Arábia, e se espraia de um lado e de outro numa distância de dois dias de viagem, mais ou menos.

Quanto ao regímen desse rio, nada de novo pude aprender, nem com os sacerdotes, nem com qualquer outro habitante do país. Tinha, entretanto, o maior desejo de saber por que o Nilo começa a encher no solstício de Verão, prosseguindo gradativamente a cheia durante cem dias, e por que razão, enchendo por esse espaço de tempo, ele se retrai, baixando de maneira notável e permanecendo pouco volumoso durante todo o Inverno, até o novo solstício de Verão. Gostaria muito de saber por que o rio possui um regímen diferente do de todos os outros, e por que é o único que não produz brisa. Todavia, nada consegui apurar entre os Egípcios que viesse satisfazer essa minha natural curiosidade.

XX — No entanto, encontramos entre os Gregos pessoas que, procurando adquirir nomeada pela ostentação de sabedoria, explicaram esse movimento das águas de três maneiras, duas das quais não merecem discussão, limitando-me portanto, a indicá-las. De acordo com a primeira, são os ventos estivais que, desviando com seu sopro as águas do Nilo, impede-as de ir para o mar, ocasionando a cheia. Todavia, às vezes não sopram esses ventos, e nem por isso o rio deixa de encher. Além disso, se os ventos estivais fossem a causa da inundação, em todos os outros rios que correm em direção contrária à desses ventos verificar-se-ia a mesma coisa, sobretudo por serem eles menores e menos rápidos. Ora, há na Síria e na Líbia muitos rios em tais condições e nos quais não se manifestam transbordamentos, como no Nilo.

XXI — A segunda versão é ainda mais absurda, embora a bem dizer, encerre qualquer coisa de maravilhoso. Dizem que o oceano envolve toda a terra, e que o Nilo está sujeito a inundações porque vem do oceano.

XXII — A terceira explicação é a mais falsa. Com efeito, pretender que o Nilo provém de fontes de neve, ele que corre da Líbia, passando pelo centro da Etiópia e penetrando por ali no Egito, equivale a não dizer nada. Como poderia ser formado por fontes de neve se vem de um clima muito quente para um país igualmente tórrido? Quem quer que seja capaz de raciocinar com justeza sobre o assunto encontrará muitas provas de não ser verossímil que o Nilo provenha da neve. A primeira e a mais convincente dessas provas é a que diz respeito aos ventos: os que sopram naquela região são quentes. A segunda estriba-se no fato de não se ver jamais no país nem chuva nem gelo. Se nevasse, devia, consequentemente, chover, pois, num país onde cai neve, chove necessariamente no espaço de cinco dias. A terceira provém do fato de ser o calor ali tão intenso que torna os homens negros. Os milhafres e as andorinhas ali permanecem todo o ano, e os grous para lá se dirigem com a chegada do Inverno, fugindo ao frio da Cítia. Se nevasse, mesmo em pequena proporção, na zona cortada pelo Nilo ou naquela onde se acha sua nascente, certamente nada disso se daria, como prova este raciocínio.

XXIII — Os que atribuem ao oceano a causa do extravasamento do Nilo recorrem a uma fábula obscura e não merecem ser refutados. Por mim, não conheço rio algum a que se possa denominar oceano, e penso que Homero ou algum outro poeta mais antigo, tendo inventado esse nome, o introduziu na poesia.

XXIV — Se depois de haver refutado essas opiniões se torna necessário que eu mesmo declare o que penso sobre a questão, direi que me parece ser a seguinte a razão da cheia do Nilo no Verão: no Inverno, o sol, desviando-se de sua rota pelo rigor da estação, percorre a parte do firmamento correspondente à região norte da Líbia. Eis, em poucas palavras, a razão dessa cheia, pois é evidente que, quanto mais esse deus tende na direção de um país e dele se aproxima, mais lhe acarreta a seca e a evaporação dos rios.

XXV — Vou explicar o fenômeno com maior clareza. O ar é sempre sereno na Líbia Superior; ali faz sempre calor e nunca sopram ventos frios. Quando o sol realiza sua trajetória sobre o país, produz o mesmo efeito que costuma produzir no Verão; atrai os vapores e os impele para as camadas mais elevadas, onde os ventos, recebendo-os, dispersam-nos e os transformam novamente em água. Exatamente por essa razão, os ventos que sopram desse país, como o vento sul e o sudoeste, são os que trazem mais chuvas. Creio, entretanto, que o sol não devolve toda a água do Nilo que absorve anualmente, mas reserva dela uma parte para si.

Quando o Inverno se ameniza, o sol retorna ao meio do céu e de lá atrai igualmente os vapores de todos os rios. Até então, estes haviam aumentado consideravelmente por causa das chuvas, que regam a terra e formam as torrentes; mas com a chegada do Verão tornam-se fracos, porque lhes falta a chuva e o sol absorve parte de suas águas. Não se dá o mesmo com o Nilo. Como no Inverno não conta com as águas da chuva e o sol evapora parte das suas, é, com razão, o único rio cujas águas são mais baixas nessa estação do que no Verão. A evaporação dá-se igualmente em todos os outros nos, mas no Inverno é o Nilo o único a contribuir para ela, motivo por que considero o sol a causa de tal fenômeno.

XXVI — É o sol, também, a meu ver, a causa do ar seco que se observa no país, pois que abrasa a atmosfera na sua trajetória; e é por isso que um Verão perpétuo reina na Líbia Superior. Se a ordem das estações e a posição do céu viessem a mudar, de maneira que o norte tomasse o lugar sul e este o do norte, então o sol, afastando-se do meio do céu no Inverno, seguiria, sem dúvida, o seu curso pela parte superior da Europa, como faz hoje pela parte norte da Líbia; e penso que, atravessando assim toda a Europa, ele agiria sobre o Íster como age atualmente sobre o Nilo.

XXVII — Eu disse que não sentíamos jamais ventos frescos sobre esse rio e que, por conseguinte, considerava inteiramente inverossímil a idéia de que ele tenha podido vir de um clima quente, pois esses ventos costumam soprar de um país frio. Como quer que seja, deixemos essas coisas como estão e como sempre estiveram desde o começo do mundo.

XXVIII — Nenhum dos Egípcios, Lídios e Gregos com quem palestrei se vangloriava de conhecer as nascentes do Nilo, a não ser o tesoureiro do templo de Minerva, em Sais, no Egito. Creio, porém, que ele gracejava quando me assegurou saber onde elas se encontravam. Disse-me que entre Siena, na Tebaida, e Elefantina, havia duas montanhas cujos cumes eram pontiagudos como lanças, uma das quais era denominada Crófi e a outra Mófi. As nascentes do Nilo, localizadas em profundos abismos, partiam, afirmava ele, dentre essas montanhas, correndo as águas, metade para o Egito, em direção ao norte, e metade para a Etiópia, em direção ao sul. Para mostrar que essas nascentes estavam situadas em verdadeiros abismos, acrescentou ele que Psamético, querendo tirar a prova disso, mandara lançar ali um cabo de vários milhares de braças de comprimento, sem que a sonda chegasse a tocar o fundo. A dar crédito à narrativa do tesoureiro, parece-me que, se a sonda não chegou ao fundo foi porque existem presumivelmente ali redemoinhos produzidos pelo refluxo das águas que se esbatem com violência contra as montanhas.

XXIX — Não encontrei pessoa alguma que me pudesse adiantar mais sobre esse fato, e isto é tudo o que consegui saber levando minhas pesquisas até onde foi possível. Até Elefantina vi as coisas com meus próprios olhos; de lá em diante, o que apurei foi por informações.

A região acima de Elefantina é elevada. Para subir o rio amarra-se de cada lado do barco uma corda, como se atrelam os bois, e puxa-se o mesmo de maneira idêntica. Se o cabo se rompe, o barco é arrastado pela força da correnteza. O Nilo ali apresenta-se tão tortuoso quanto o Meandro, e para navegá-lo emprega-se o sistema a que me referi, numa distância de doze esquenos. Chega-se, então, a uma extensa planície, onde se encontra uma ilha formada pelas águas do rio e denominada Tachompso. Para cima de Elefantina já encontramos Etíopes. Ocupam eles metade da ilha de Tachompso e os Egípcios a outra metade. Junto à ilha estende-se um grande lago, em cujas margens vivem Etíopes nômades. Atravessando o lago entra-se novamente no Nilo. Dali em diante, abandonando a embarcação, pois nesse trecho o Nilo é cheio de rochas a pique e de pedras de grandes dimensões, tornando impraticável a navegação, viaja-se quarenta dias a pé ao longo do rio. Após essa longa caminhada, toma-se novamente um barco, e depois de doze dias de navegação chega-se a uma grande cidade chamada Méroe, tida como capital dos Etíopes da região. Júpiter e Baco são os únicos deuses adorados pelos habitantes, e as cerimônias do culto são magníficas. Possuem eles também um oráculo de Júpiter, cujas respostas os levam a fazer guerra a quem o deus ordena.

XXX — Deixando para trás essa cidade, atinge-se o país dos Autômolos, em tantos dias de navegação quanto os que foram necessários para vir de Elefantina a Méroe. Os Autômolos se denominam Asmach, que em grego significa “os que estão à esquerda do rei”. Descendem eles de duzentos e quarenta mil egípcios, todos afeitos à guerra, que passaram para o lado dos Etíopes pelo motivo que passo a expor. No reinado de Psamético, tinham sido esses egípcios enviados como guarnição militar a Elefantina para defender o país contra os Etíopes; a Dafne de Pelusa, para impedir as incursões dos Árabes e dos Sírios; a Maréia, para impor sujeição à Líbia. Os Persas possuem ainda hoje tropas onde as possuíam no tempo de Psamético, pois há guarnições persas em Elefantina e em Dafne. Esses egípcios, tendo permanecido três anos ali sem que viessem rendê-los, resolveram, de comum acordo, abandonar Psamético e passar para o lado dos Etíopes. Tendo tido conhecimento disso, o soberano veio ter com eles, empregando todos os meios para convencê-los a não abandonar os seus deuses, seus pais, suas esposas e seus filhos. Um deles, então, segundo se conta, mostrando-lhe o símbolo de virilidade disse-lhe: “Por toda parte onde levarmos isto encontraremos mulheres e teremos filhos”. E chegando à Etiópia, puseram-se à disposição do rei. Este recompensou-os dando-lhes as terras de alguns etíopes rebeldes, dizendo-lhes que os expulsassem dali. Estabelecendo-se os egípcios no país, os Etíopes civilizaram-se, adotando costumes egípcios.

XXXI — O curso do Nilo pode ser percorrido em quatro meses de navegação ou de caminhada pela margem. É certo que o rio vem do oeste, mas nada podemos afirmar sobre o que com ele ocorre para além do país dos Autômolos, onde o calor excessivo torna a região deserta.

XXXII — Eis, entretanto, o que pude saber de alguns Cireneus: Tendo ido consultar, segundo me afirmaram, o oráculo de Ámon, entabularam palestra com Etearco, que governava o país. Insensivelmente, a conversa recaiu sobre as nascentes do Nilo, e pretendeu-se que elas eram desconhecidas. Etearco contou-lhes, então, que certo dia alguns Nasamões chegaram à sua corte (Os Nasamões são um povo da Líbia, habitando a Sirta e uma pequena região a leste da Sirta). Perguntando-lhes o soberano se tinham qualquer coisa de novo a contar acerca dos desertos da Líbia, responderam-lhe que entre as famílias mais poderosas do país, alguns jovens em idade viril e cheios de ardor imaginaram, em meio a outras extravagâncias, escolher por sorteio cinco dentre eles para uma excursão de reconhecimento aos desertos da Líbia, em que deviam penetrar além dos limites já explorados.

Toda a costa da Líbia banhada pelo mar setentrional, desde o Egito ao promontório Solos, onde termina essa terceira parte do mundo, é ocupada pelos Líbios e por diversas nações líbias, com exceção da parte que ali possuem os Gregos e os Fenícios; mas no interior, para lá da costa e dos povos litorâneos, existe uma região onde abundam animais ferozes; e mais além, uma extensão deserta, coberta de areia.

Os jovens aventureiros, enviados pelos companheiros com boas provisões de água e de víveres, percorreram primeiramente os países habitados, alcançando depois a região cheia de animais ferozes. Dali continuaram jornadeando para oeste, através dos desertos, descobrindo, após longa caminhada por uma região bastante arenosa, uma planície coberta de árvores frutíferas. Aproximando-se, colheram alguns frutos e puseram-se a comê-los. Nesse momento, uns homenzinhos, de estatura abaixo da mediana(2), caíram sobre eles e os subjugaram. Os jovens Nasamões não lhes entendiam a língua, o mesmo acontecendo com os seus captores. Estes levaram-nos através de pântanos até uma cidade onde todos os habitantes eram negros e da mesma estatura dos que os conduziam. Um grande rio, onde havia grande número de crocodilos, corria de oeste para leste ao longo da cidade.

XXXIII — Contentei-me em reproduzir até aqui a narrativa de Etearco. O príncipe acrescentou, entretanto, segundo afirmam os Cireneus, que os Nasamões voltaram à pátria e que os homens no meio dos quais haviam estado eram todos feiticeiros. Quanto ao rio que passava pela cidade, Etearco supunha tratar-se do Nilo, e a razão manda concluir assim, pois o Nilo vem da Líbia, atravessando-a pelo meio; e se é permitido conjecturar partindo do conhecido para o desconhecido, penso que ele sai dos mesmos lugares que o Íster. Com efeito, este último rio começa no país dos Celtas, perto da cidade de Pirene, e atravessa a Europa pelo meio. Os Celtas habitam para lá das colunas de Hércules, nas vizinhanças dos Cinésios, os últimos povos da costa do Poente. O Íster(3) desemboca no Ponto Euxino, na região habitada pelos Istrios, colônia de Mileto.

XXXIV — O Íster é bastante conhecido por banhar países muito habitados; mas nada podemos afirmar sobre as nascentes do Nilo, porque a parte da Líbia por ele atravessada é inteiramente deserta. Quanto ao seu curso, disse tudo que pude saber pelas mais minuciosas investigações. Desemboca ele no Egito; o Egito fica quase fronteiro à Cilícia montanhosa; de lá a Sinope, no Ponto Euxino, há, em linha reta, cinco dias de jornada para um bom viajante. Ora, Sinope está situada defronte do Íster. Parece-me, por conseguinte, que o Nilo, que atravessa toda a Líbia, pode ser comparado ao Íster.

XXXV — Estender-me-ei mais no que concerne ao Egito, por encerrar ele mais maravilhas do que qualquer outro país; e não existe lugar onde se vejam tantas obras admiráveis, não havendo palavras que possam descrevê-las.

Assim como os Egípcios vivem num clima bem diferente do dos demais países, e o Nilo difere também dos outros rios, do mesmo modo seus costumes e suas leis se distinguem, na sua maior parte, dos das outras nações. Entre os Egípcios, as mulheres vão ao mercado e negociam, enquanto os homens, encerrados em casa, trabalham no tear(4). Os outros povos tecem puxando o fio para cima; os Egípcios puxam-no para baixo. No Egito, os homens carregam os fardos na cabeça, e as mulheres, nos ombros. As mulheres urinam em pé; os homens, de cócoras. Quanto às outras necessidades naturais, satisfazem-nas em recintos fechados; mas comem nas ruas. Alegam como justificativa para essa conduta, que as coisas indecorosas mas necessárias devem ser feitas em segredo, enquanto que as que não o são podem ser realizadas em público. É vedada às mulheres a função de sacerdotisa de qualquer deus ou deusa; o sacerdócio é reservado aos homens. Se os filhos do sexo masculino não querem sustentar os pais, não se vêem forçados a isso; mas as filhas são obrigadas.

XXXVI — Nos outros países, os sacerdotes usam cabelos compridos; no Egito, raspam-no. Nas outras nações, os habitantes, quando estão de luto, raspam o cabelo e a barba(5), principalmente os parentes mais próximos; os Egípcios, ao contrário, deixam crescer o cabelo e a barba, que, até aquele momento, vinham usando raspados. Os outros povos fazem suas refeições em lugar separado dos animais; os Egípcios comem junto com eles. Todos os outros povos alimentam-se de cevada e trigo; os Egípcios consideram infames os que comem tais coisas, e fazem uso do dourah, como principal alimento. Ao contrário dos outros povos, que deixam as partes sexuais no seu estado natural, eles adotam a circuncisão. Os homens têm, cada um, duas vestes; as mulheres, apenas uma. Os outros povos amarram do lado de fora os cordões dos véus; os Egípcios amarram-nos do lado de dentro. Os Gregos escrevem e calculam com tentos, manejando-os da esquerda para a direita; os Egípcios, ao contrário, manejam-nos da direita para a esquerda, mas afirmam que escrevem e calculam para a direita, e os Gregos, para a esquerda. Empregam duas espécies de letras: as sagradas e as vulgares.

XXXVII — Muito mais religiosos que o resto dos homens, praticam os seguintes costumes: bebem em copos de bronze, que têm o cuidado de limpar todos os dias, sendo este um uso geral, de que ninguém se isenta; trajam roupas de linho, sempre bem lavadas, cuidado rigorosamente observado, e adotam a circuncisão como princípio de higiene, dando maior atenção a isso do que à beleza.

Os sacerdotes raspam todo o corpo de três em três dias, para evitar que os piolhos ou outros parasitas os molestem enquanto estão servindo os deuses. Não usam mais do que um traje de linho e sapatos de papiro, pois não lhes é permitido usar outra roupa nem outro calçado. Lavam-se duas vezes por dia em água fria e outras tantas vezes à noite; numa palavra: observam regularmente mil e tantas práticas religiosas. Gozam, em recompensa, de grandes vantagens. Não despendem nem consomem nada dos próprios bens. Cada um deles recebe sua porção de carne sagrada, que lhes é dada já cozida; e lhes distribuem mesmo, todos os dias, grande quantidade de carne de vaca e de ganso. Recebem também vinho de uva, mas não lhes é permitido comer peixe.

Os Egípcios nunca semeiam favas nas suas terras, e se tal alimento lhes vem às mãos, não o comem, nem cru nem cozido. Os sacerdotes não podem nem mesmo vê-lo, por considerá-lo um legume impuro. Cada deus tem vários sacerdotes e um grão-sacerdote. Quando este morre, é substituído pelo filho.

XXXVIII — Acreditam que os bois pertencem a Épafo, motivo por que os examinam com muito cuidado. Há mesmo um sacerdote designado para essa função. Se ele encontra no animal um só pêlo escuro, já o considera impuro. Examina cuidadosamente o animal colocando-o de pés ou deitado de costas. Manda puxar-lhe a língua e observa se ela está isenta das marcas a que aludem os livros sagrados e das quais falarei oportunamente. Verifica também se os pêlos da cauda são como naturalmente devem ser.

Se o boi é tido como puro sob todos os aspectos, o sacerdote marca-o com uma corda de casca de papiro, ligando-lhe os chifres. Em seguida, aplica-lhe a terra sigilária, sobre a qual imprime sua chancela, pois é proibido, sob pena de morte, sacrificar um boi que não possua essa marca.

XXXIX — Eis as cerimônias que se observam no sacrifício: Conduz-se o animal assim marcado ao altar onde deve ser imolado; acende-se o fogo, espalha-se vinho sobre o altar, perto da vítima, que é, então, estrangulada, depois de se haver invocado o deus. Corta-se-lhe, em seguida, a cabeça, profere-se toda sorte de imprecações sobre ela, após o que é levada ao mercado e vendida a qualquer negociante grego, ou, em caso contrário, atirada ao rio. Entre as imprecações a que nos referimos, os que ofereceram o sacrifício pedem aos deuses para conjurar todas as desgraças que possam cair sobre o Egito ou sobre eles, desviando-as para aquela cabeça. Todos os Egípcios observam os mesmos ritos nos sacrifícios, tanto para a cabeça das vítimas, como para as libações de vinho. Em conseqüência desse costume, nenhum Egípcio come jamais a cabeça de qualquer animal. Quanto ao exame das entranhas e à maneira de queimar as vítimas, seguem métodos diferentes, segundo a espécie de sacrifício.

XL — Vou falar agora da deusa que os Egípcios encaram como a maior de todas as divindades e da festa magnífica que celebram em sua honra. Depois de escorchar o boi, retiram-lhe os intestinos, deixando-lhe, porém, as outras vísceras e a banha. Cortam-lhe as coxas, a parte alta das ancas e o pescoço. Feito isso, enchem o resto do corpo de pães de farinha pura, mel, uvas secas, figos, incenso, mirra e outras substâncias odoríferas. Assim cheio, assam-no, espalhando grande quantidade de óleo sobre o fogo. O sacrifício é precedido de um jejum, e enquanto a vítima está sendo assada, eles se fustigam reciprocamente, depois do que se nutrem dos despojos do animal sacrificado.

XLI — Todos os Egípcios imolam bois e bezerros puros mas não lhes é permitido sacrificar novilhas. Estas são reservadas a Ísis, representada em suas estátuas sob a forma de uma mulher com cornos de novilha. Por isso, os Egípcios têm mais cuidado com as novilhas do que com o resto do gado. Também não há Egípcio ou Egípcia capaz de beijar um Grego na boca, nem servir-se da faca de um Grego, de sua brocha ou de sua marmita, nem provar a carne de um boi puro cortado com a faca de um Grego. Se um boi ou uma novilha vem a morrer, fazem-lhe os funerais desta maneira: se se trata de novilha, atiram-na ao rio; se de boi, enterram-no nos arrabaldes da cidade, com um dos cornos ou os dois cornos para fora da terra, para indicar a presença do corpo ali. Quando o boi se decompõe totalmente, um batel, vindo da ilha Prosópitis, transporta os ossos para Atarbéquis, onde são enterrados. A ilha de Prosópitis, situada no delta e com nove esquenos de superfície, possui grande número de cidades, entre as quais se encontra Atarbéquis, onde existe um templo consagrado a Vênus. É dessa cidade que parte continuamente grande número de pessoas incumbidas da missão de percorrer as outras cidades egípcias para desenterrar os ossos dos bois e levá-los para lá, a fim de enterrá-los num mesmo buraco cavado no solo. Isso acontece não só com os bois, como com qualquer outra espécie de gado que vem a morrer, pois a lei proíbe matá-los.

XLII — Todos aqueles que erigiram templos a Júpiter Tebano ou que são de Tebas não imolam, absolutamente, carneiros, nem sacrificam outros animais senão cabras. Realmente, nem todos os Egípcios adoram os mesmos deuses; não rendem todos o mesmo culto a Ísis e a Osíris, que, na opinião deles, são o mesmo que Baco. Contrariamente, os que possuem um templo em Mêndis e são conhecidos pela designação de Mendésios, imolam ovelhas e poupam as cabras. Os Tebanos e todos os que como eles se abstêm de sacrificar ovelhas, assim procedem em virtude de uma lei, motivada pelo seguinte fato: Hércules, segundo contam, desejava ardentemente ver Júpiter, mas esse deus não queria ser visto. Por fim, como Hércules não deixava de fazer solicitações nesse sentido, Júpiter recorreu a um artifício: matou um cordeiro, cortou-lhe a cabeça e, colocando-a à frente da sua, revestiu-se da lã, apresentando-se assim a Hércules. É por essa razão que as estátuas de Júpiter no Egito representam o deus com uma cabeça de cordeiro. O referido costume passou dos Egípcios aos Amônios. Estes constituem uma colônia de Egípcios e Etíopes, e a língua que falam é uma mistura dos idiomas dos dois povos. Creio mesmo que se chamam Amônios pelo fato de os Egípcios darem o nome de Ámon a Júpiter. É, portanto, por esse motivo que os Tebanos consideram os cordeiros animais sagrados e não os sacrificam absolutamente, exceto no dia da festa de Júpiter, sendo essa a única ocasião em que eles imolam um dos aludidos animais; e da mesma maneira pela qual Júpiter procedera, revestem com a pele do cordeiro a estátua do deus, aproximando-a da de Hércules. Feito isso, todos os que se encontram em torno do templo batem no peito, deplorando a morte do animal, sepultando-o, em seguida, numa urna sagrada.

XLIII — O Hércules a que me refiro é, ao que me informaram, um dos doze deuses dos Egípcios; do outro Hércules, tão conhecido dos Gregos, nada pude saber a respeito em lugar algum do Egito. Entre outras provas que poderei apresentar de que não foram os Egípcios que tiraram dos Gregos o nome Hércules, mas sim estes daqueles — principalmente os que deram esse nome ao filho de Anfitrião — reportar-me-ei à seguinte: O pai e a mãe do Hércules grego, Anfitrião e Alcmena, eram originários do Egito; mais ainda: os Egípcios dizem ignorar até os nomes de Netuno e dos Dióscuros, jamais incluindo esses deuses no número de suas divindades. Ora, se houvessem tirado dos Gregos o nome de algum deus, teriam logo feito menção daqueles. Com efeito, como já viajavam por mar e como havia também, ao que presumo fundando-me em boas razões, Gregos habituados a singrar o salso elemento, eles, Egípcios, teriam conhecido os nomes desses deuses antes do de Hércules.

Hércules é um deus muito antigo entre os Egípcios, e como eles próprios declaram, está incluído no número dos doze deuses nascidos de oito divindades primitivas, dezesseis mil anos antes de Amásis.

XLIV — Como eu desejava encontrar alguém que pudesse instruir-me a respeito, velejei para Tiro, na Fenícia, onde sabia existir um templo de Hércules, muito venerado. Decorado com uma infinidade de oferendas, apresentava o templo duas colunas, uma de ouro fino e a outra de esmeralda, produzindo, à noite, grande brilho. Certo dia, palestrando com os sacerdotes desse deus perguntei-lhes em que época o templo fora construído, e eles não se mostraram mais de acordo com os Gregos do que os Egípcios. Disseram-me haver sido o templo erguido na mesma ocasião em que se construíra a cidade, sendo esta habitada há dois mil e trezentos anos. Vi, também, em Tiro, outro templo de Hércules, cultuado ali sob o nome de Hércules Tásio. Fiz também uma viagem a Tasos, onde encontrei um templo desse deus, construído pelos Fenícios que, singrando os mares em busca da Europa, fundaram uma colônia em Tasos, cinco gerações antes de Hércules, filho de Anfitrião, haver nascido na Grécia.

Tais pesquisas provam claramente que Hércules é um deus antigo. Também os Gregos, erguendo dois templos ao mesmo, agiram, assim me parece, com muita sensatez. Oferecem a um deles, denominado Olímpio, sacrifícios, como a um imortal, e ao outro fazem oferendas fúnebres, como a um herói.

XLV — Os Gregos manifestam também muitos propósitos inconsiderados, entre os quais a fábula ridícula que forjaram sobre o deus. Hércules, dizem eles, tendo chegado ao Egito, os Egípcios lhe puseram uma coroa à cabeça e o conduziram com grande pompa ao templo, revelando a intenção de imolá-lo a Júpiter. O herói permaneceu, a princípio, tranqüilo, mas perto do altar, quando os sacerdotes comecaram o sacrifício, reuniu as forças e matou-os a todos. Os Gregos dão a entender, com essa história, não terem o menor conhecimento do caráter dos Egípcios e de suas leis. Como, na verdade, podemos supor que um povo ao qual não é permitido sacrificar outros animais que não porcos, bois e bezerros, contanto que sejam puros, se decida a sacrificar homens? Por outro lado, é verossímil que Hércules, que então não passava de um simples mortal, como eles próprios dizem, tenha podido matar tantos homens ali reunidos? Como quer que seja, peço aos deuses e aos heróis que interpretem pelo lado melhor o que acabo de dizer sobre esse assunto.

XLVI — Os Mendésios, povo egípcio de que falei, não sacrificam nem cabras nem bodes, e isso pela seguinte razão: incluem Pã no número dos oito deuses e pretendem que tais deuses existiam antes dos doze. Os pintores e os escultores representam o deus Pã, como fazem os Gregos, com cabeça de cabra e pernas de bode, não porque lhe atribuam semelhante aspecto, mas por um motivo que eu teria escrúpulos de dizer. Os Mendésios têm grande veneração pelos bodes e pelas cabras — principalmente pelos primeiros, — havendo mesmo um tipo de bode ao qual tributam maior veneração do que a todos os outros e que, quando morre, eles o pranteiam e põem luto.

O bode e o deus Pã denominam-se, em egípcio, Mêndis. Durante minha permanência no Egito, deu-se um fato espantoso entre os Mendésios: um bode teve contato em público com uma mulher, e a aventura tornou-se conhecida de todos.

XLVII — Os Egípcios olham os porcos como animais imundos. Se alguém toca inadvertidamente num deles, ainda que seja de leve, vai logo mergulhar no rio, mesmo vestido. Os guardadores de porcos, embora egípcios de nascença, são os únicos que não podem entrar em nenhum templo do Egito.

Ninguém lhes quer dar as filhas em casamento, nem desposar as filhas deles. São, por isso, obrigados a casar-se entre eles, isto é, com gente da mesma categoria.

Não é permitido aos Egípcios sacrificar porcos a outros deuses que não à Lua e a Baco, realizando-se a cerimônia sempre no plenilúnio. Nessa ocasião lhes é permitido comer a carne. Por que então os Egípcios, tendo horror aos porcos nos outros dias de festa, sacrificam-nos nesses dias? Apresentam para isso uma razão que não me parece conveniente revelar.

Eis como eles imolam os porcos à Lua: Estrangulada a vítima, colocam junto [a ponta do rabo, o baço e o rim], e, cobrindo-os com toda a banha retirada do ventre do animal, queimam-nos. O resto da vítima é comido no dia do plenilúnio, aquele em que, como já disse, se oferece o sacrifício. Em dia comum, eles nem mesmo provariam semelhante carne. Os pobres, que mal têm com que viver, fazem com massa de trigo figuras de porcos e, depois de assadas, oferecem-nas em sacrifício.

XLVIII — No dia da festa de Baco, cada um imola um porco diante de sua porta à hora da refeição, devolvendo-o depois àquele que o vendeu. Excetuando o sacrifício dos porcos, os Egípcios celebram a festa de Baco quase da mesma maneira que os Gregos, mas, em lugar de falos, inventaram figuras de cerca de um côvado de altura, movidas por meio de uma corda. As mulheres levam pelas aldeias e burgos essas figuras, cujo membro viril é quase tão grande quanto o resto do corpo e ao qual fazem mexer. Um tocador de flauta caminha à frente do cortejo, e elas os seguem cantando louvores a Baco. Por que razão tais figuras possuem o membro viril de tamanho tão desproporcional e por que fazem mexer apenas essa parte? Contam a esse respeito uma lenda sagrada.

XLIX — Parece-me que Melampo, filho de Amitáon, possuía grande conhecimento dessa cerimônia sagrada. Foi ele, com efeito, quem instruiu os Gregos sobre o nome Baco e sobre as cerimônias do seu culto, e introduziu entre eles o cortejo do falo. Transmitiu-lhes esse rito sem que tivesse, contudo, explicado sua exata significação; mas os sábios que vieram depois dele explicaram-na com toda clareza.

Foi, portanto, Melampo quem instituiu a procissão do falo em honra a Baco e o primeiro a instruir os Gregos sobre cerimônias que ainda hoje se praticam. Melampo devia ter sido, na minha opinião, um sábio, hábil na arte da adivinhação. Instruído pelos Egípcios sobre um grande número de cerimônias, inclusive a que se relacionava com o culto de Baco, introduziu-as na Grécia com ligeiras modificações. Não atribuirei ao simples acaso a semelhança entre as cerimônias religiosas dos Egípcios e as dos Gregos. Se essa semelhança não tivesse outras causas, as cerimônias não estariam tão afastadas dos usos e costumes dos Gregos. Não direi também que os Egípcios tenham copiado daqueles essas cerimônias ou algum outro rito. O que me parece é que Melampo divulgou o que se refere ao culto de Baco por intermédio dos descendentes de Cadmo de Tiro, e depois, dos Tírios, que vieram da Fenícia para essa parte da Grécia hoje denominada Beócia.

L — Quase todos os nomes dos deuses passaram do Egito para a Grécia. Não resta dúvida que eles nos vieram dos bárbaros. As perquirições que realizei em torno de suas origens convenceram-me de que assim foi. Efetivamente, com exceção de Netuno, os Dióscuros, Juno, Vesta, Têmis, as Graças e as Nereidas, os nomes de todos os outros deuses eram conhecidos no Egito. Não faço, a esse respeito, senão repetir o que os próprios Egípcios afirmam. Quanto aos deuses que eles asseguram não conhecer, penso que seus nomes vêm dos Pelasgos, com exceção de Netuno, cujo nome procede dos Líbios, entre os quais ele era conhecido e muito venerado desde os tempos mais remotos. Quanto aos heróis, os Egípcios não lhes prestam nenhum culto.

LI — Os Helenos tiraram ainda dos Egípcios outros ritos de que falarei no decurso desta narrativa; mas não foram estes que lhes ensinaram a fazer estátuas de Mercúrio com o membro em ereção. Os Atenienses foram os primeiros a adotar esse costume dos Pelasgos, e, depois, toda a Grécia lhes seguiu o exemplo. Os Pelasgos habitavam o mesmo cantão que os Atenienses, desde essa época incluídos no número dos Helenos, motivo por que eles, Pelasgos, passaram a ter também a mesma denominação. Quem quer que esteja iniciado nos mistérios dos Cabiros, celebrados pelos Samotrácios, compreende o que estou dizendo, pois Pelasgos que vieram morar com os Atenienses habitavam outrora a Samotrácia, e foi deles que os habitantes dessa ilha adotaram os referidos mistérios. Os Atenienses foram, pois, entre os Helenos, os primeiros que aprenderam a fazer estátuas de Mercúrio com o membro ereto. Os Pelasgos oferecem para isso uma versão sagrada, explicada nos mistérios da Samotrácia.

LII — Os Pelasgos sacrificavam outrora aos deuses todas as coisas que lhes podiam oferecer, como vim a saber em Dodona, e lhes dirigiam preces, não lhes dando, todavia, nem nome nem sobrenome, pois nunca os viram designados por tal forma. Chamavam-nos deuses, de um modo geral, considerando-lhes a função de estabelecer e manter a ordem no universo. Não vieram a conhecer senão muito tarde os nomes dos deuses, quando os Egípcios os divulgaram; e o de Baco, só muito depois de haverem conhecido os dos demais. Pouco mais tarde, foram consultar sobre esses nomes o oráculo de Dodona, considerado o mais antigo da Grécia e, na época, o único existente no país. Tendo perguntado ao oráculo se podiam adotar os referidos nomes, que lhes vinham dos bárbaros, ele lhes respondeu afirmativamente.

LIII — Durante muito tempo ignorou-se a origem de cada deus, sua forma e natureza, e se todos eles sempre existiram. Homero e Hesíodo, que viveram quatrocentos anos antes de mim, foram os primeiros a descrever em versos a teogonia, a aludir aos sobrenomes dos deuses, ao seu culto e funções e a traçar-lhes o retrato. Os outros poetas, que se diz tê-los precedido, não existiram, na minha opinião, senão depois deles. Sobre o que acabo de relatar, uma parte colhi com as sacerdotisas de Dodona; mas no que concerne a Hesíodo e Homero, os dois grandes poetas a que acima faço referência, nada mais faço do que emitir minha opinião pessoal.

LIV — Quanto aos dois oráculos, um na Grécia e outro na Líbia, vou aludir ao que dizem os Egípcios. Os sacerdotes de Júpiter Tebano contaram-me que os Fenícios, tendo arrebatado de Tebas duas mulheres consagradas ao serviço do deus, venderam-nas, uma na Líbia e a outra na Grécia. Foram elas as primeiras a estabelecer oráculos entre os povos desses dois países. Perguntei aos sacerdotes como se haviam inteirado disso, e eles me responderam que tinham, durante muito tempo, procurado essas mulheres sem conseguir encontrá-las, mas depois vieram a saber o que acabavam de narrar-me.

LV — Por sua vez, as sacerdotisas de Dodona, referindo-se à origem dos oráculos, contam que duas pombas negras, tendo alçado vôo de Tebas, no Egito, foram ter, uma à Líbia e a outra a Dodona; que esta última, pousando num carvalho, disse, articulando voz humana, que os fados queriam que fosse estabelecido naquele lugar um oráculo de Júpiter, e que os Dodônios, considerando aquilo uma ordem dos deuses, obedeceram. A pomba que voou para a Líbia ordenou, por sua vez, aos Líbios, que estabelecessem o oráculo de Ámon, que é também um oráculo de Júpiter. Aí está o que me contaram aquelas sacerdotisas, a mais velha das quais se chamava Preumênia; a outra Timaretéia, e a mais jovem, Nicandra. Essa narrativa foi confirmada pelo depoimento dos ministros do templo.

LVI — Isso posto, darei agora minha opinião a respeito. Se é verdade que os Fenícios arrebataram essas duas mulheres consagradas aos deuses e as venderam, uma para ser conduzida à Líbia e a outra à Grécia, acho que esta última foi vendida no país dos Tesprótios, hoje uma parte da Grécia e conhecido outrora por Pelásgia, e que durante o cativeiro ergueu ela um templo a Júpiter sob um carvalho. Tendo sido essa mulher retirada dos altares do deus a que pertencia, era natural que ela lhe desse um templo no local para onde a tinham transportado e instituísse um oráculo. E aprendendo a língua grega, teria ela de certo informado aos Gregos de que sua irmã tinha sido vendida pelos mesmos raptores egípcios e levada para a Líbia.

LVII — Os Dodônios deram, segundo me parece, o nome de pombas a essas mulheres porque, sendo elas estrangeiras, falavam uma língua que julgavam semelhante ao arrulho das referidas aves; e algum tempo depois, quando uma delas começou a fazer-se entender, disseram que a pomba havia falado. De que maneira poderia, realmente, uma pomba articular sons inteligíveis? Quando eles aludem a uma pomba negra, dão a entender, naturalmente, que a mulher era egípcia.

LVIII — O oráculo de Tebas, no Egito, e o de Dodona, apresentam muitas semelhanças entre si. A arte de predizer o futuro pela inspeção das vítimas nos veio também do Egito, assim como foram também os Egípcios os primeiros entre todos os povos a instituir festas ou reuniões públicas, procissões e oferendas, costumes esses adotados pelos Gregos. Uma prova do que afirmo é estarem eles em vigor há muito tempo no Egito e só terem sido instituídos ha pouco entre os Gregos.

LIX — Os Egípcios celebram todos os anos grande número de festas. A mais importante e cujo cerimonial é observado com maior zelo é a que se realiza em Bubástis, em honra a Diana, vindo em segundo lugar a que se celebra em Busíris, em honra a Ísis. Em Bubástis, situada no meio do delta, existe um grande templo consagrado à referida deusa, que em grego se denomina Deméter. A festa de Minerva, celebrada em Sais, é a terceira em importância. A quarta realiza-se em Heliópolis, em honra ao Sol; a quinta em Buto, em louvor de Latona, e, finalmente, a sexta, em Paprémis, dedicada a Marte.

LX — A vida em Bubástis por ocasião das festividades transforma-se por completo. Tudo é alegria, bulício e confusão. Nos barcos engalanados singrando o rio em todas as direções, homens, mulheres e crianças, munidos, em sua maioria, de instrumentos musicais, predominantemente a flauta, enchem o ar de vibrações sonoras, do ruído de palmas, de cantos, de vozes, de ditos humorísticos e, às vezes, injuriosos, e de exclamações sem conta. Das outras localidades ribeirinhas afluem constantemente novos barcos igualmente enfeitados e igualmente pejados de pessoas de todas as classes e de todos os tipos, ansiosas por tomar parte nos folguedos, homenagear a deusa e imolar em sua honra grande número de vítimas que trazem consigo e previamente escolhidas. Enquanto dura a festa, não cessam as expansões de alegria, as danças e as libações. No curto período das festividades consome-se mais vinho do que em todo o resto do ano, pois para ali se dirigem, segundo afirmam os habitantes, cerca de setecentas mil pessoas de ambos os sexos, sem contar as crianças.

LXI — A festa de Ísis em Busíris, embora menos movimentada, apresenta uma particularidade digna de nota. Depois do sacrifício vê-se grande número de pessoas de ambos os sexos açoitando a si próprias, sendo-lhes, contudo, vedado dizer em honra de quem se mortificam. Os Cários residentes no Egito distinguem-se nessa cerimônia por cortarem a fronte com a espada, o que logo nos leva a supor tratar-se de estrangeiros e não de Egípcios.

LXII — Vejamos o que se observa em Sais por ocasião das festividades em louvor a Minerva. Numa determinada noite, à hora do sacrifício, a cidade inteira enche-se de luzes de candeias colocadas pelos habitantes às portas de suas casas. Essas candeias são pequenos vasos cheios de sal e óleo, com uma pequena mecha flutuante que arde durante toda a noite. Daí o nome de “festa das candeias ardentes” dado àquela parte das comemorações em Sais. Os Egípcios que não podem lá ir celebram a noite do sacrifício acendendo, também, candeias em suas casas. Assim, não é somente em Sais que elas brilham, mas por todo o Egito. Por que essa iluminação e as celebrações dessa noite especial? Há por trás disso uma lenda sagrada.

LXIII — Os que vão a Heliópolis contentam-se em oferecer sacrifícios às duas divindades ali cultuadas. Em Paprémis observam-se as mesmas cerimônias e fazem-se os mesmos sacrifícios que nas outras cidades; mas quando o sol começa a declinar, um pequeno grupo de sacerdotes executa movimentos estudados e solenes em torno da estátua de Marte, enquanto outros, em maior número, armados de bastão, mantêm-se de pé à entrada do templo. Diante deles agrupam-se mais de mil homens que vêm cumprir o seu voto, tendo cada um o seu bastão na mão. A estátua do deus encontra-se num pequeno nicho de madeira dourada. Na véspera da festa transportam-na para outro nicho. Os sacerdotes que permanecem em pequeno número em volta da estátua colocam esse nicho, com a imagem do deus, num carro de quatro rodas, e põem-se a puxá-lo. Os que se acham no vestíbulo impedem-nos de entrar no templo, mas os que estão diante deles cumprindo seus votos vão em socorro do deus, atacando com seus bastões os guardas da porta e procurando forçar a entrada. Inicia-se então um rude combate a bastonadas, do qual resultam muitas cabeças fraturadas, sendo de duvidar que muitos não morram dos ferimentos recebidos, embora os Egípcios afirmem o contrário.

LXIV — Os naturais do país dizem que a instituição desse rito singular originou-se do seguinte fato: A mãe de Marte morava no templo. Já em idade viril, o deus, criado longe dela, ali foi com a intenção de falar-lhe. Os servos de sua mãe, que não o conheciam, impediram-no que entrasse, afastando-o com violência. Retornando com socorros obtidos em outra cidade, Marte atacou os servos e abriu passagem até o quarto da deusa. Aí está a razão desse combate simulado em honra a Marte, no dia de sua festa.

Os Egípcios foram também os primeiros que, por princípios religiosos, proibiram o comércio sexual com as mulheres nos lugares sagrados, e mesmo de alguém ali entrar, depois de havê-lo praticado, sem ter-se lavado. Todos os outros povos, com exceção deles e dos Gregos, agem de modo contrário, por entenderem que com os homens dá-se o mesmo que com os animais nesse assunto. É comum, dizem eles, verem-se animais e pássaros realizando o coito em lugares consagrados aos deuses. Se esse ato fosse desagradável à divindade, os próprios animais não o praticariam em tais condições. Eis o argumento em que procuram estribar-se; mas não lhes posso dar minha aprovação.

LXV — Entre outras práticas religiosas, os Egípcios observam escrupulosamente as que passo a expor. Embora o país confine com a Líbia, há, entretanto, poucos animais ali; e os que existem, selvagens ou domésticos, são considerados sagrados. Explicar a razão por que eles os consagram seria entrar numa longa dissertação sobre a religião e as coisas divinas. Limitamo-nos, portanto, a mostrar alguns dos aspectos mais interessantes dessa prática com relação aos irracionais. Existe uma lei egípcia que ordena alimentar os animais, havendo determinado número de pessoas de ambos os sexos encarregadas de cuidar de cada espécie em particular. É uma atividade honrosa, passando de pai para filho. Os que moram ou se transferem para a cidade desobrigam-se do voto que fizeram. E eis de que maneira: quando formulam preces ao deus ao qual cada animal é consagrado, raspam a cabeça dos filhos — toda, pela metade ou somente uma pequena parte — e põem os cabelos num dos pratos de uma balança, pesando-os com dinheiro. Quando o dinheiro faz pender a balança(6), entregam o quantia assim reunida à guardiã do animal, para que ela compre peixes e o alimente. Se alguém mata um desses animais com propósito premeditado, é punido com a morte, e se o fizer involuntariamente, paga uma multa a critério dos sacerdotes. Se se trata, porém, de íbis ou gavião, mesmo matando sem querer não escapará à pena máxima.

LXVI — Embora o número de animais domésticos no Egito seja muito grande, seria ainda maior se não houvesse com os gatos acidentes da mais variada natureza. Assim, por exemplo, as gatas, depois de dar cria não procuram mais os machos. Estes, vendo-se repelidos, vingam-se delas arrebatando-lhes os filhotes e matando-os impunemente. As gatas, privadas assim dos filhos e desejando ter outros, pois têm amor à prole, voltam a procurar os companheiros que haviam desprezado. Quando sobrevém um incêndio, acontece aos gatos uma coisa verdadeiramente fenomenal. Os Egípcios, preocupados em zelar pela segurança dos referidos animais, descuidam-se de apagar o fogo, e os gatos, esgueirando-se por entre eles ou saltando-lhes por cima, atiram-se às chamas, deixando-os desolados. Se em alguma casa morre um gato de morte natural, o morador raspa somente as sobrancelhas; se morre um cão, raspa a cabeça e o corpo todo.

LXVII — Os gatos mortos são levados para mansões sagradas, e, depois de embalsamados, enterrados em Bubástis. Quanto aos cães, são enterrados em suas respectivas cidades, dentro de ataúdes sagrados. As mesmas homenagens são prestadas aos icneumos. Os musaranhos, os gaviões e os íbis de Heliópolis são transportados para Buto; mas os ursos, muito raros no Egito, e os lobos, pouco maiores que as raposas, são inumados no próprio local em que foram encontrados mortos.

LXVIII — Falemos agora do crocodilo e de seus hábitos. Esse animal não se alimenta durante os quatro meses mais rudes do Inverno. Embora possua quatro patas, é anfíbio. Põe os ovos em terra e ali os choca. Passa fora d’água a maior parte do dia, e a noite inteira no rio, porque a água é então mais quente do que o ar e o orvalho. De todos os animais que conhecemos, não há um que se torne tão grande depois de haver sido tão pequeno. Seus ovos não são maiores do que os do ganso, e os animalejos que deles saem são-lhes proporcionais em tamanho. O crocodilo é o único animal que não possui língua(7), não move o maxilar inferior(8), e é também o único a aproximar o maxilar superior do inferior. Tem garras muito fortes, e a pele é de tal maneira coberta de escamas, que se torna impenetrável. O crocodilo não enxerga absolutamente na água, mas fora dali, tem a vista muito penetrante. Como vive na água, traz dentro da goela numerosos insetos, que lhe sugam o sangue. Os outros animais e os pássaros o evitam, sendo o troquilídeo o único com quem vive em harmonia, devido aos benefícios que dele recebe. Ao sair da água, o crocodilo espoja-se e põe, habitualmente, as fauces às escancaras na direção de onde sopra o zéfiro. Entrando-lhe pela boca, o troquilídeo (colibri) come todos os insetos que se encontram na sua goela, deixando-o aliviado e reconhecido.

LXIX — Parte dos Egípcios encara o crocodilo como animal sagrado; mas a outra parte move-lhe guerra. Os que habitam as vizinhanças de Tebas e do lago Méris têm pelos referidos anfíbios muita veneração. Escolhem sempre um para criar e domesticar. Enfeitam-no com objetos de ouro ou com pedras falsas e colocam pequenas correntes ou braceletes nas suas patas dianteiras. Nutrem-no com a carne das vítimas e lhe dão outros alimentos apropriados. Enquanto ele vive, cercam-no de cuidados; quando morre, embalsamam-no e depositam-no numa urna sagrada. Os habitantes de Elefantina e das vizinhanças não consideram, absolutamente, os crocodilos animais sagrados, não tendo nenhum escrúpulo em comê-los. Também não lhes dão ali o nome de crocodilos. Essa designação lhes foi dada pelos Iônios, por considerá-los muito parecidos com os lagartos que, em seu país, são encontrados na relva.

LXX — Há diferentes maneiras de capturá-los, citando-se como a mais eficiente a seguinte: Prende-se um pedaço do lombo de um porco num anzol, lançando-o no meio do rio. Enquanto isso, fica-se à margem fazendo grunhir um leitãozinho novo. O crocodilo aproxima-se atraído pelos grunhidos do animalzinho, e encontrando o pedaço de porco, devora-o, ficando preso no anzol. O pescador puxa-o, então, para terra, e atira-lhe areia molhada aos olhos para dominá-lo mais facilmente. De outra maneira, teria muito trabalho para isso.

LXXI — Os hipopótamos, que ali encontramos com o nome de Papremito, são sagrados, não o sendo, contudo, no resto do Egito. É um possante animal de pés e focinho achatados, dentes salientes e possuindo crina e cauda semelhantes às do cavalo, rinchando como este. É tão grande quanto o maior dos bois, e seu couro é tão espesso que, depois de seco, podem-se fazer dardos com ele.

LXXII — No Nilo vivem também lontras. Os Egípcios consideram-nas sagradas e têm a mesma opinião sobre um peixe chamado lepidote e sobre a enguia, que eles consagram ao Nilo. Entre as aves por eles tidas como sagradas, podemos citar a tadorna(9).

LXXIII — Existe outra ave sagrada denominada fênix(10). Não a vi senão em pintura, pois é raramente encontrada; e, a dar-se crédito aos habitantes de Heliópolis, só aparece ali de quinhentos em quinhentos anos. Se é tal como a representam, tem a plumagem das asas parte dourada e parte vermelha. No porte, assemelha-se, sobretudo, à águia. Informaram-me sobre uma particularidade bastante curiosa e um tanto inverossímil com relação a essa ave sagrada. Dizem que ela parte da Arábia com o corpo do pai envolto em mirra e se dirige para o templo do Sol, onde lhe dá sepultura. Eis como procede: Faz, com a mirra, uma massa em forma de ovo, de um peso que lhe seja possível suportar, erguendo-a primeiro, para verificar se não está demasiadamente pesada para as suas forças. Em seguida, abre uma cavidade nesse ovo, ali colocando o corpo do pai. Isso feito, tapa a abertura ainda com mirra, de maneira a perfazer o peso primitivo. Concluída a tarefa, toma do ovo e leva-o para o Egito, indo depositá-lo no templo do Sol.

LXXIV — Nas imediações de Tebas vive uma espécie de serpente sagrada, completamente inofensiva ao homem. É de pequeno tamanho e traz dois cornos no alto da cabeça. Quando morre, enterram-na, ao que dizem, no templo de Júpiter, ao qual é consagrada.

LXXV — Há na Arábia, perto da cidade de Buto, um certo lugar para onde me dirigi, a fim de me informar sobre as serpentes aladas. Vi, logo à minha chegada, uma quantidade prodigiosa de ossos e de espinhas dessas serpentes. Esses ossos — grandes, médios e pequenos — estão espalhados por todos os lados. O local em que se encontram fica situado numa garganta apertada entre duas montanhas, de onde se abre vasta planície que confina com a do Egito. Dizem que as serpentes aladas voam da Arábia para o Egito assim que chega a Primavera, mas que as íbis, indo ao encontro delas no ponto de junção do desfiladeiro com a planície, impedem-nas de passar, matando-as. Os Árabes asseguram que é em reconhecimento desse serviço que os Egípcios têm grande veneração pela íbis, e os próprios Egípcios confirmam isso.

LXXVI — Há duas espécies de íbis. As da primeira espécie são do tamanho do francolim; a plumagem extremamente negra, as coxas como as do grou e o bico recurvo. São as que dão combate às serpentes. As da segunda espécie são mais comuns e freqüentemente encontradas. Parte da cabeça e todo o pescoço são desprovidos de penas; a plumagem é branca, exceto a da cabeça, da extremidade das asas e da cauda, que é muito negra. As coxas e o bico são semelhantes aos da outra espécie. As serpentes voadoras se parecem, no tipo, com as serpentes aquáticas; suas asas assemelham-se às dos morcegos, e, como estas, não têm penas.

LXXVII — Entre todos os Egípcios, os que habitam as imediações da região do país onde se cultivam os cereais são, indubitavelmente, os que mais cultivam a memória, para o que seguem este curioso regímen: purgam-se todos os meses durante três dias consecutivos e procuram conservar a saúde por meio de vomitórios e clisteres, persuadidos de que todas as doenças provêm dos alimentos. Aliás, depois dos Líbios, não há homens mais sadios e de melhor temperamento do que os Egípcios. Creio que tais vantagens decorrem da invariabilidade das estações no país, pois são as oscilações da atmosfera e, sobretudo, das estações, que ocasionam as doenças. Os Egípcios dão ao pão de que se servem o nome de cilestis. Fazem-no com dourah. Como não há vinhas no país(11), bebem cerveja. Alimentam-se de peixes crus secados ao sol ou postos em salmoura; comem igualmente crus as codornizes, os patos e alguns pequenos pássaros, que eles têm o cuidado de salgar antes. Enfim, com exceção dos pássaros e dos peixes sagrados, nutrem-se de todas as outras espécies de animais encontradas no país, comendo-as assadas ou fritas.

LXXVIII — Quando os Egípcios abastados realizam festins em suas casas, têm o hábito de fazer levar à sala, depois do repasto, um esquife contendo uma figura de madeira trabalhada com perfeição e muito bem pintada, representando um morto. Essa figura, que mede de um a dois côvados de comprimento, é exibida a cada um dos convivas, acompanhada desta advertência: “Lança os olhos sobre este homem. Tu te parecerás com ele depois da morte. Bebe, pois, agora, e diverte-te”.

LXXIX — Satisfeitos com os costumes herdados dos pais, os Egípcios não pensam em modificá-los. Alguns deles são realmente louváveis, sobretudo a adoção do Linus, canto usado na Fenícia, em Chipre e em outros lugares, tendo diferentes nomes entre diferentes povos. Supõe-se, geralmente, ser o mesmo a que os Gregos chamam Linus e muito divulgado entre eles. Ignoro onde os Egípcios foram buscar esse canto, a que dão o nome de Maneros. Dizem eles que Maneros era filho único do primeiro rei do país e que, morrendo prematuramente, entoaram em sua honra essas árias lúgubres, e que tal canção foi a primeira e a única conhecida nos primeiros tempos do país.

LXXX — Aqui está mais um costume dos Egípcios, e que, entre os povos gregos, são os Lacedemônios os únicos a adotar: Se um jovem encontra-se com um velho, cede-lhe o passo e desvia-se do caminho; se um velho surge num lugar onde se acha um jovem, este se levanta. Quando os Egípcios se encontram, em lugar de se saudarem com palavras, fazem uma profunda reverência, baixando a mão até o joelho.

LXXXI — Suas vestes são de linho, com franjas em torno das pernas. Por cima das vestes, que têm o nome de calasiris, usam uma espécie de manto de lã branca. A religião os proíbe, todavia, de envergar esse manto nos templos e de serem com ele sepultados — o que está de acordo com as tradições órficas, também chamadas báquicas, e que são as mesmas que as egípcias e as pitagóricas. Com efeito, não é permitido sepultar com roupas de lã quem quer que tenha sido iniciado naqueles mistérios.

LXXXII — Foram também os Egípcios que tiveram a idéia de consagrar cada mês e cada dia do mês a um deus, assim como foram os primeiros a predizer o futuro das pessoas pela observação da data do seu nascimento. Os poetas gregos fizeram uso dessa ciência, mas os Egípcios têm a primazia neste, como em muitos outros ramos do conhecimento humano.

LXXXIII — Ninguém no Egito exerce a adivinhação, atributo concedido apenas a alguns deuses. Existem no país vários oráculos, tais como o de Hércules, o de Apolo, o de Minerva, o de Diana, o de Marte e o de Júpiter, porém o mais venerado é o de Latona, na cidade de Buto. As adivinhações não obedecem às mesmas regras, diferindo umas das outras.

LXXXIV — A medicina está de tal maneira organizada no Egito, que um médico não cuida senão de uma especialidade. Há médicos por toda parte. Uns, para a vista; outros, para a cabeça; estes, para os dentes; aqueles, para os males do ventre; outros, enfim, para as doenças internas.

LXXXV — Com relação aos funerais e ao luto, os Egípcios procedem da maneira seguinte: Quando morre um cidadão conceituado, os elementos femininos da família cobrem-se de lama da cabeça aos pés, descobrem os seios, prendem as vestes com um cinto e, deixando o morto em casa, põem-se a percorrer a cidade, batendo no peito, acompanhadas dos demais parentes. Por sua vez, os homens desnudam também o peito e põem-se a bater neste. Terminada essa cerimônia, levam o corpo para embalsamar.

LXXXVI — Há, no Egito, certas pessoas encarregadas por lei de realizar os embalsamamentos e que fazem disso profissão. Quando lhes trazem um corpo, mostram aos portadores modelos de mortos em madeira, pintados ao natural. O mais digno de atenção representa, segundo eles dizem, aquele cujo nome tenho escrúpulos de mencionar aqui. Mostram depois um segundo modelo, inferior ao primeiro e mais barato, e ainda um terceiro, perguntando, então, por que modelo querem que seja o morto embalsamado. Combinado o preço, os parentes retiram-se. Os embalsamadores trabalham em suas próprias casas, e eis como procedem nos embalsamamentos mais caros: Primeiramente, extraem o cérebro pelas narinas, parte com um ferro recurvo, parte por meio de drogas introduzidas na cabeça. Fazem, em seguida, uma incisão no flanco com pedra cortante da Etiópia e retiram, pela abertura, os intestinos, limpando-os cuidadosamente e banhando-os com vinho de palmeira e óleos aromáticos. O ventre, enchem-no com mirra pura moída, canela e essências várias, não fazendo uso, porém, do incenso. Feito isso, salgam o corpo e cobrem-no com natro, deixando-o assim durante setenta dias. Decorridos os setenta dias, lavam-no e envolvem-no inteiramente com faixas de tela de algodão embebidas em commi(12), de que os Egípcios se servem ordinariamente como cola. Concluído o trabalho, o corpo é entregue aos parentes, que o encerram numa urna de madeira feita sob medida, colocando-a na sala destinada a esse fim. Tal a maneira mais luxuosa de embalsamar os mortos.

LXXXVII — Os que preferem um tipo médio de embalsamamento e querem evitar despesas, escolhem esta outra espécie, em que os profissionais procedem da seguinte maneira: Enchem as seringas de um licor untuoso tirado do cedro e injetam-no no ventre do morto, sem fazer nenhuma incisão e sem retirar os intestinos. Introduzem-no igualmente pelo orifício posterior e arrolham-no, para impedir que o líquido saia. Em seguida, salgam o corpo, deixando-o assim durante determinado prazo, findo o qual fazem escorrer do ventre o licor injetado. Esse líquido é tão forte que dissolve as entranhas, arrastando-as consigo ao sair. O natro consome as carnes, e do corpo nada resta a não ser a pele e os ossos. Terminada a operação, entregam-no aos parentes, sem mais nada fazer.

LXXXVIII — O terceiro tipo de embalsamamento destina-se aos mais pobres. Injeta-se no corpo o licor denominado surmaia, envolve-se o cadáver no natro durante setenta dias, devolvendo-o depois aos parentes.

LXXXIX — Tratando-se de mulher, e se esta é bonita ou de destaque, o cadáver só é levado para embalsamamento decorridos três ou quatro dias após o seu falecimento. Toma-se essa precaução pelo receio de que os embalsamadores venham a violar o corpo. Conta-se que, por denúncia de um dos colegas, foi um deles descoberto em flagrante com o cadáver de uma mulher recém-falecida.

XC — Se se encontra um cadáver abandonado, seja o morto Egípcio ou mesmo estrangeiro; trate-se de alguém atacado por crocodilo ou afogado no rio, a cidade em cujo território foi o corpo atirado é obrigada a embalsamá-lo, a prepará-lo da melhor maneira e a sepultá-lo em túmulo sagrado. Não é permitido a nenhum dos parentes ou dos amigos tocar no cadáver; só os sacerdotes do Nilo(13) têm esse privilégio; e eles o sepultam com as próprias mãos, como se se tratasse de algo mais precioso do que o simples cadáver de um homem.

XCI — Os Egípcios vivem inteiramente alheios aos costumes dos Gregos e, numa palavra, aos de todos os outros povos. Esse alheamento se observa em todo o país, exceto em Quémis, importante cidade da Tebaida, perto de Neápolis, onde existe um templo de Perseu, filho de Danéia. O templo é quadrado e cercado de palmeiras; tem um vasto vestíbulo feito de pedras, notando-se, ao alto, duas grandes estátuas de pedra. No recinto sagrado fica o altar, onde se vê uma estátua de Perseu. Os Quemitas dizem que esse herói aparece constantemente no país e no templo, e que ali encontram, por vezes, uma de suas sandálias com dois côvados de comprimento, achado tido sempre como sinal de grande prosperidade em todo o Egito. Realizam-se em honra do herói e à maneira dos Gregos, jogos gímnicos, de todos os jogos os melhores. Os prêmios disputados são mantos, peles e cabeças de gado.

Perguntei-lhes, certo dia, por que eram eles os únicos a quem Perseu costumava aparecer e por que se distinguiarn do resto dos Egípcios pela celebração dos jogos gímnicos. Responderam-me que Perseu era originário daquela cidade e que Dânao e Lincéia, que velejaram para a Grécia, tinham nascido em Quémis. Apresentaram-me, em seguida, a genealogia de Dânao e de Lincéia até Perseu, acrescentando ter este vindo ao Egito para arrebatar da Líbia — como dizem também os Gregos — a cabeça da Górgona, e que, passando por Quémis, reconheceu todos os seus parentes; que, quando ele chegou ao Egito, já conhecia o nome dessa cidade por intermédio da mãe; enfim, que fora por ordem de Perseu que eles começaram a celebrar os jogos gímnicos.

XCII — Os Egípcios que habitam a região ao norte dos pântanos observam todos esses costumes, mas os que vivem na parte pantanosa seguem os costumes do resto dos Egípcios, e, entre outros, o de não possuir senão uma mulher cada um, como se observa entre os Gregos.

Quanto aos alimentos, imaginaram eles meios engenhosos para obtê-los em abundância. Quando o rio chega ao ponto máximo da cheia e os campos se transformam em verdadeiro mar, aparece na água uma imensa quantidade de lírios, que eles denominam lótus(14). Colhem-nos, fazem-nos secar ao sol e extraem as sementes, que se assemelham às da papoula e que se encontram no centro da flor, amassando-as em seguida e transformando-as em pão, que cozem ao fogo. Comem também a raiz dessa planta, de gosto agradável e adocicado, redonda e da grossura de uma maçã. Há outra espécie de lírio, semelhante às rosas, e que cresce também no Nilo. Seu fruto, que pende de uma haste que sai da raiz e cresce junto de outra haste, contém grande quantidade de sementes comestíveis, do tamanho de uma azeitona. Os Egípcios comem-nas verdes ou secas.

Outra planta que lhes serve de alimento é o biblus(15), que floresce uma vez por ano e é geralmente encontrada nos terrenos pantanosos. Depois de colhida, cortam-lhe a parte superior, utilizada para diferentes fins. A parte inferior, ou seja, o resto da planta, e que mede cerca de um côvado de altura, comem-na crua ou vendem-na. Muitos egípcios alimentam-se exclusivamente de peixes. Depois de abri-los e limpá-los, fazem-nos secar ao sol, comendo-os em seguida.

XCIII — Nos rios encontram-se poucas dessas espécies de peixes que andam em cardumes e crescem nos tanques. Quando começam a sentir os ardores do amor e querem satisfazer-se, dirigem-se eles para o mar em bandos. Os machos vão à frente, espalhando pelo caminho o líquido seminal; as fêmeas seguem-nos e ingerem o líquido, vindo assim a conceber. Após essa fecundação no mar, os peixes sobem o rio em busca de sua morada habitual. Desta vez são as fêmeas que vão na frente dirigindo o grupo; e enquanto o conduz, fazem o que faziam os machos: vão deitando os ovos, da grossura de um grão de milho, que aqueles, seguindo-as de perto, vão devorando. Cada um desses grãos constitui um pequeno peixe. Os que os machos não devoram desenvolvem-se e transformam-se em peixes.

Quando esses peixes vão para o mar têm a cabeça machucada do lado esquerdo; quando retornam ao rio, têm-na machucada do lado direito. O fato é de fácil explicação. Quando vão para o mar, nadam junto à terra, do lado esquerdo; quando voltam, aproximam-se da mesma margem, apoiando-se nela tanto quanto podem, com receio de serem afastados da sua rota pela correnteza. Quando o Nilo começa a subir, a água filtra-se através da terra e enche as fossas e as lagunas perto do rio; e mal começam elas a transbordar, vê-se ali, a formigar, enorme quantidade de pequenos peixes. Qual será a causa provável de semelhante produção? Ei-la: Quando o Nilo se retira, os peixes que, no ano anterior, haviam deposto os ovos no limo, retiram-se também com as últimas águas. No ano seguinte, quando o Nilo volta a transbordar, os peixes saem dos ovos.

XCIV — Os Egípcios que vivem à beira dos pântanos servem-se de um óleo extraído do fruto do siliciprião e chamado kiki. Para isso, semeiam o siliciprião nas margens do rio e perto dos tanques. Na Grécia, essa planta cresce por si mesma, sem cultivo algum; no Egito é semeada e produz grande quantidade de frutos de cheiro forte. Depois de colhidos, os frutos são, uns triturados para a extração do óleo, e outros, cozidos, recolhendo-se o líquido resultante do cozimento. Esse líquido é espesso e utilizado nas candeias com as mesmas vantagens do óleo de oliva, embora de cheiro ativo e desagradável.

XCV — Vê-se no país uma quantidade prodigiosa de moscas, mas os Egípcios encontram meios para se defenderem delas. Os que habitam ao norte dos pântanos põem-se ao abrigo desses incômodos insetos, dormindo no alto de uma torre, pois o vento impede-as de voar muito alto. Os que ocupam a parte pantanosa servem-se de outro meio: a rede. Todos ali possuem uma rede. De dia, utilizam-na para apanhar peixes; à noite, estendem-na sobre o leito, à guisa de cortinado.

XCVI — Os Egípcios constroem seus navios de carga com o espinheiro, que muito se assemelha ao lótus de Cirene e que segrega um líquido que se condensa em goma. Do espinheiro tiram pranchas de dois côvados de comprimento, que ajustam umas às outras, da mesma maneira por que arrumam os tijolos, prendendo-as com cavilhas fortes e longas. Colocam depois as vigas, sem se servirem de cavernas, consolidando o arcabouço pelo lado de dentro com ligas de biblos. Fazem, em seguida, o leme, que ajustam através da querena. Por último, o mastro e as velas, que são confeccionadas com biblos.

Esses navios, dada a forte correnteza, não podem subir o rio, a menos que sejam impelidos por forte vento. Na descida, seus tripulantes procedem da maneira seguinte: Tomam de um caniço de tamarga ligado com junco, e de uma pedra furada pesando cerca de dois talentos; amarram o caniço com uma corda na frente da embarcação e deixam-no ir rio abaixo, enquanto que a pedra é ligada à parte posterior com outra corda. O caniço, levado pela correnteza, arrasta consigo o navio, enquanto a pedra à retaguarda, indo para o fundo da água, serve para moderar o curso da embarcação. Os Egípcios possuem grande número de navios desta espécie, alguns dos quais suportam vários milhares de talentos de carga.

XCVII — Quando o Nilo inunda o país, não se distinguem senão as cidades. Estas, surgindo do meio das águas, fazem lembrar as ilhas do mar Egeu. Efetivamente, todo o Egito se transforma num vasto mar, com exceção dos núcleos urbanos. Enquanto dura a inundação, não se navega pelo curso do rio, mas pelo meio da planície. Os que sobem de Náucratis a Mênfis guiam-se, então, pelas pirâmides. Não é essa, entretanto, a navegação ordinária, feita pela ponta do delta e pela cidade de Cercasoro. Nessa época, os que, partindo do litoral e de Canopo, seguem em direção a Náucratis pela planície, passam perto das cidades de Antila e Arcandra.

XCVIII — Antila é uma cidade considerável, pertencendo, como tributo, à esposa do rei do Egito — uso ali observado desde que o país passou para o domínio dos Persas. Parece-me que a cidade de Arcandra tirou esse nome de Arcandro de Ftia, genro de Dânao e filho de Aqueus. É possível que haja algum outro Arcandro, mas o certo é que esse nome não é egípcio.

XCIX — Disse até aqui o que vi e o que consegui saber por mim mesmo em minhas pesquisas. Falarei agora do país, baseado no que me disseram os Egípcios, acrescentando à minha narrativa o que tive ocasião de observar com meus próprios olhos.

Foi Menes, primeiro rei do Egito, quem, segundo os sacerdotes, mandou construir os diques de Mênfis. O Nilo, até o reinado desse príncipe, corria totalmente ao longo da montanha arenosa situada na costa da Líbia. Menes, tendo ordenado a construção de um dique de cerca de cem estádios pouco acima de Mênfis, fez encher o braço do Nilo que se dirigia para o sul. Pondo a seco o antigo leito do rio, fê-lo retomar o curso por um novo canal, conseguindo, com isso, que ele corresse a igual distância das montanhas. Ainda hoje, sob o domínio dos Persas, tem-se um cuidado todo especial com esse braço do Nilo, cujas águas, retidas pelos diques, correm de outro lado. Esses diques são fortificados todos os anos, pois se o rio viesse a rompê-los e a espraiar-se pelas terras desse lado, Mênfis correria o risco de ser tragada pelas águas. Menes, de acordo com o depoimento dos mesmos sacerdotes, ergueu a cidade que hoje tem o nome de Mênfis, no próprio local de onde havia desviado o rio e convertido em terra firme. A cidade está situada na parte mais estreita do Egito. O mesmo soberano mandou cavar, a oeste de Mênfis, um lago que se comunicava com o rio (o Nilo fecha a cidade a leste), e construiu, nessa mesma cidade, um magnífico templo a Vulcano.

C — Entre os trezentos e trinta reis que governaram o Egito depois de Menes figuram dezoito Etíopes e uma mulher natural do país. Todos os outros eram homens e Egípcios. A mulher chamava-se Nitócris, como a rainha da Babilônia. Contaram-me que os Egípcios, depois de haverem matado o rei, irmão de Nitócris, coroaram-na rainha, e ela, para vingar a morte do irmão, fez perecer, por um artifício, grande número de Egípcios. Mandou construir uma vasta galeria subterrânea e, na aparência para inaugurá-la, mas na realidade com outro propósito, convidou para um banquete vários Egípcios que ela sabia terem sido os principais autores da morte do irmão. Quando eles se achavam à mesa, fez penetrar até o recinto as águas do rio, por um grande canal secreto. Quase mais nada se diz sobre essa princesa, senão que, depois de ter perpetrado essa vingança, precipitou-se num cubículo cheio de brasas, para subtrair-se à vingança do povo.

CI — De todos esses reis, disseram-me os sacerdotes, apenas um se distinguiu pelas suas notáveis realizações — Méris. Esse soberano salientou-se pela construção de vários monumentos no vestíbulo do templo de Vulcano, voltado para o norte, pela ereção de majestosas pirâmides e, acima de tudo, pela abertura de um grande lago que tomou o seu nome e ao qual me referirei adiante. Como os outros nenhum monumento legaram à posteridade, passarei por eles em silêncio, contentando-me em mencionar Sesóstris, que ocupou o trono depois deles.

CII — Esse soberano foi, segundo os sacerdotes, o primeiro que, partindo do golfo Arábico com uma frota de grandes navios, subjugou os povos que habitavam o litoral da Eritréia. Navegou para mais longe ainda, tendo atingido um mar inacessível à navegação por causa dos escolhos. Dali, de acordo com o referido depoimento, voltou ao Egito, organizou um numeroso exército e, avançando por terra firme, subjugou todos os povos que encontrou em sua rota. Quando se defrontava com nações corajosas e ciosas de sua independência, erguia no país colunas, nas quais fazia gravar uma inscrição com seu nome, o de sua pátria e a notícia de haver vencido aquele povo pela força das armas. No país facilmente dominado, erguia colunas com inscrição semelhante, mas gravando sob esta as partes sexuais da mulher, como emblema da covardia daquele povo(16).

CIII — Percorrendo assim o continente de conquista em conquista, Sesóstris passou da Ásia para a Europa, submetendo os Citas e os Trácios. Creio, porém, que o exército egípcio não foi adiante, pois encontramos nessas nações as colunas que o soberano mandou erguer, mas, para além, nenhuma outra é vista. É provável que tenha regressado pelo mesmo caminho e que, ao chegar às margens do Faso, tenha deixado ali uma parte do seu exército para cultivar o país. Não posso assegurar se alguns dos soldados, enfadados pelas longas jornadas, não tenham resolvido ficar às margens do rio.

CIV — Sempre me parecera que os Colquidianos eram Egípcios de origem, e foi para certificar-me disso que resolvi sondar uns e outros. Os Colquidianos tinham mais reminiscências dos Egípcios do que estes daqueles. Os Egípcios pensam que esse povo é descendente de uma parte das tropas de Sesóstris, e eu pensava da mesma maneira por dois motivos: primeiro, por serem os Colquidianos negros e possuírem cabelos crespos, prova um tanto equívoca, pois têm isso de comum com outros povos; segundo, e principalmente, porque os Colquidianos, os Egípcios e os Etíopes foram os primeiros povos a adotar a circuncisão. Os Fenícios e os Sírios da Palestina declaram ter aprendido a circuncisão com os Egípcios; mas os Sírios que habitam as margens do Termodonte e do Partênio, e os Macrões, seus vizinhos, confessam que adquiriram esse costume há pouco tempo, com os Colquidianos. São esses, pois, os únicos povos que praticam a circuncisão, e parece que nisso não fazem mais do que imitar os Egípcios.

Como a circuncisão entre os Egípcios e os Etíopes parece remontar à mais alta antigüidade, não saberei dizer qual das duas nações a imitou da outra. Quanto aos outros povos, tiraram eles dos Egípcios o costume, em conseqüência das relações comerciais que com estes mantinham. Essa minha afirmação baseia-se no fato de terem os Fenícios que mantêm relações com os Gregos, abandonado o costume que adotaram dos Egípcios, de circuncidar as crianças recém-nascidas.

CV — Eis aqui outro traço de semelhança entre os dois povos: são os únicos a trabalhar o linho da mesma maneira, a viver da mesma maneira e a possuir também uma única língua. Os Gregos denominam linho sardônico o que lhes vem da Cólquida, e linho egípcio o que lhes vem do Egito.

CVI — A maior parte das colunas que Sesóstris mandou erigir nos países por ele subjugados não mais subsiste. Cheguei, todavia, a vê-las na Palestina e na Síria, e observei as partes genitais das mulheres, assim como as inscrições a que me referi.

Vêem-se, também, na direção da Iônia, duas figuras daquele príncipe talhadas na rocha; uma no caminho que conduz de Éfeso a Focéia; a outra, no de Sardes a Esmirna. Representam ambas um homem de cinco palmos de altura, tendo na mão direita um dardo e na esquerda um arco. As outras partes da armadura assemelham-se às dos Egípcios e dos Etíopes. Gravaram-lhe no peito, de um ombro ao outro, uma inscrição em caracteres egípcios e sagrados, concebida nestes termos: “CONQUISTEI ESTE PAÍS PELA FORÇA DO MEU BRAÇO”. Sesóstris, porém, aqui não diz quem é nem de onde veio, mas indicou isso em outra parte. Alguns dos que examinaram a referida figura acham que ela representa Mémnon, com o que não estou de acordo, pois trata-se realmente de Sesóstris.

CVII — Os sacerdotes informaram-me, ainda, ter esse soberano, de volta do Egito, trazido grande número de prisioneiros feitos nas nações subjugadas. Dirigindo-se a Dafne de Pelusa, seu irmão, ao qual confiara a direção do reino, convidou-o, juntamente com os filhos, a alojar-se na casa dele, e, cercando a residência de matéria combustível, ateou fogo à mesma. Tendo conhecimento do que se passava, Sesóstris consultou imediatamente a mulher, também em sua companhia, sobre a maneira pela qual devia agir naquela conjuntura. Ela o aconselhou a tomar dois dos seis filhos que possuíam, estendê-los sobre o fogo e fazer com seus corpos uma espécie de ponte, sobre a qual poderiam passar e salvar-se. Sesóstris aceitou a sugestão. Assim pereceram as duas crianças; as outras salvaram-se com a mãe.

CVIII — Depois de haver-se vingado do irmão, Sesóstris, chegando ao Egito, empregou os prisioneiros na tarefa de arrastar para o templo de Vulcano as enormes pedras que hoje ali vemos. Pô-los também a cavar fossos e canais por todo o país. Antes desses trabalhos, executados à força, o Egito era facilmente transitável por animais de tração; mas desde então, embora o solo do país seja plano e contínuo, tornou-se impraticável, devido à infinidade de canais que se encontram por todos os lados e em todos os sentidos. Entretanto, essa iniciativa do soberano foi ditada por uma razão bem plausível. Toda vez que o rio baixava, depois da cheia, as cidades distantes das margens sofriam grande falta de água, não dispondo seus habitantes, para matar a sede, senão da água salobra dos poços.

CIX — Disseram-me ainda os sacerdotes que Sesóstris realizou a partilha das terras, concedendo a cada Egípcio uma porção igual, com a condição de lhe ser pago todos os anos certo tributo. Se o rio carregava alguma parte do lote de alguém, o prejudicado ia procurar o rei e expor-lhe o acontecido. O soberano enviava agrimensores ao local para determinar a redução sofrida pelo lote, passando o dono a pagar um tributo proporcional à porção restante. Eis, segundo me parece, a origem da geometria, que teria passado desse país para a Grécia. Quanto ao gnomo ou relógio solar e a divisão do dia em doze partes, os Gregos devem-nos aos Babilônios.

CX — Sesóstris foi o único soberano do Egito a reinar sobre a Etiópia. Para perpetuar suas conquistas deixou estátuas de pedra diante do templo de Vulcano. Havia duas de trinta côvados de altura, uma representando o rei, e a outra a esposa; e quatro de vinte côvados cada uma, representando os quatro filhos do casal. Muito tempo depois, quando Dario, rei da Pérsia, quis colocar sua estátua diante dessas, o grande sacerdote de Vulcano a isso se opôs, objetando que ele, Dario, não havia praticado tão grandes ações quanto Sesóstris, e que, se submetera muitas nações, não pudera vencer os Citas, que Sesóstris subjugou. Não era, pois, justo, acrescentou o sacerdote, colocar diante das estátuas de Sesóstris a de um príncipe que não o ultrapassara em conquistas. Dizem que Dario acatou, sem ressentimento, esse parecer.

CXI — Morrendo Sesóstris, subiu ao trono seu filho Féron. Este príncipe nenhuma expedição militar realizou, tendo ficado cego logo depois de assumir o poder. Conta-se que tendo o Nilo transbordado dezoito côvados nessa ocasião, submergindo todos os campos vizinhos, começou a soprar um vento impetuoso, agitando as vagas com violência. Féron, numa louca temeridade, tomou de um dardo e lançou-o no meio do turbilhão das águas. Pouco depois, seus olhos eram acometidos de um mal súbito e ele ficava cego. Permaneceu dez anos nesse estado, depois do que lhe trouxeram um oráculo de Buto anunciando-lhe que o tempo prescrito para o castigo havia terminado e que ele recuperaria a vista logo que lavasse os olhos com a urina de uma mulher que nunca tivesse tido contato com outro homem senão com o marido. Féron experimentou primeiramente a urina da própria esposa, mas não obtendo resultado algum, começou a servir-se indistintamente da de outras mulheres. Tendo, por fim, recuperado a vista, fez reunir numa cidade, hoje conhecida por Eritrébolos(17), todas as mulheres a quem recorrera, exceto aquela cuja urina lhe havia devolvido a visão, e queimando-as todas, juntamente com a cidade, desposou a que tinha contribuído para a sua cura.

Logo que se viu curado, enviou dádivas a todos os templos célebres, mandando fazer para o do Sol dois notáveis obeliscos, medindo cada um cem côvados de altura por oito de largura, ambos de pedra inteiriça.

CXII — Féron, de acordo com os citados sacerdotes, teve por sucessor um cidadão de Mênfis, que os Gregos, na sua língua, chamam Proteu. Vê-se ainda hoje em Mênfis, ao sul do templo de Vulcano, um local magnífico e muito ornamentado, consagrado a esse governante. Fenícios originários de Tiro habitam os arredores, e toda a área por eles ocupada denomina-se Campo dos Tírios. Há ali uma capela consagrada a Vênus Estrangeira, que presumo tratar-se de Helena, filha de Tíndaro, não somente por ter ouvido dizer que Helena viveu outrora na corte de Proteu, mas ainda porque a capela tem o nome de Vênus Estrangeira, não havendo, entre todos os outros templos de Vênus, um só que lhe seja consagrado sob essa designação.

CXIII — Tendo interrogado os sacerdotes a respeito de Helena, responderam-me que Alexandre, depois de havê-la raptado de Esparta, abriu velas de regresso à pátria. Ao chegar ao mar Egeu, os ventos contrários o impeliram para o mar do Egito; e como os ventos continuassem sempre contrários, foi dar às costas do Egito, junto à embocadura do Nilo, hoje denominada boca de Canopo. Havia ali — como ainda hoje existe — um templo em honra de Hércules. Se algum escravo nele se refugiasse e se fizesse marcar com os estigmas sagrados para consagrar-se ao deus, a ninguém era permitido pôr a mão nele. Essa lei continua sendo observada até hoje. Os escravos de Alexandre, informados dos privilégios do templo, para lá se dirigiram, e, na postura de suplicantes, puseram-se a acusar seu senhor com a intenção de prejudicá-lo, tornando pública a ofensa por ele feita a Menelau e tudo o que se havia passado a respeito de Helena. Tais acusações eram proferidas na presença dos sacerdotes e de Tónis, governador daquela boca do Nilo.

CXIV — Tónis enviou imediatamente um correio a Mênfis, com a seguinte mensagem dirigida a Proteu: “Chegou aqui um estrangeiro que cometeu na Grécia um crime inominável. Não contente de haver seduzido a mulher do homem que o hospedara, raptou-a, juntamente com riquezas consideráveis. Os ventos contrários forçaram-no a escalar este recanto. Deixá-lo-emos partir impunemente ou confiscaremos o que possuía ao chegar?”

Proteu enviou pelo mesmo correio uma ordem concebida nestes termos: “Prendam o estrangeiro que cometeu tal crime contra o seu hospedeiro. Prendam-no, seja ele quem for, e tragam-no à minha presença, para que possa alegar o que tem em sua defesa”.

CXV — Recebendo a ordem, Tónis apreendeu os navios de Alexandre, deteve-o e conduziu-o a Mênfis, com Helena, as riquezas e os escravos que o delataram. Chegados à presença de Proteu, este perguntou a Alexandre quem era ele e de onde vinha com aqueles navios. O príncipe não escondeu o nome de sua pátria, de sua família, nem de onde procedia; mas quando Proteu o interrogou acerca de Helena, embaraçou-se com as respostas; e como procurasse disfarçar a verdade, os escravos o acusaram, expondo ao soberano todas as particularidades do crime. Afinal, Proteu pronunciou sua sentença: “Se eu não pensasse nas conseqüências que adviriam mandando matar estrangeiros que, forçados pelos ventos, aportam às minhas terras, vingaria com o teu suplício a ofensa que praticaste contra Menelau. Esse príncipe deu-te hospitalidade, e tu, o mais pérfido dos homens, não hesitaste em praticar contra ele uma ação execrável. Seduziste a sua mulher e, não satisfeito com isso, induziste-a a seguir-te e a levaste furtivamente. E ainda mais: saqueaste, ao partir, a casa do teu hospedeiro. Deixar-te-ei partir, estrangeiro, mas não levarás essa mulher nem as riquezas; guardá-las-ei até que aquele a quem de fato pertencem venha buscá-las. Intimo-te a deixar, no prazo de três dias, este país, juntamente com teus companheiros de viagem. Em caso contrário, serás tratado como inimigo”.

CXVI — Foi assim que Helena veio ter à corte de Proteu. Parece-me que Homero ouvira também contar a mesma história; mas como ela convinha menos à epopéia do que aquela de que se utilizara, deixou-a de lado, mostrando, contudo, não ignorá-la. Dá-nos ele disso testemunho certo na Ilíada, quando descreve a viagem de Alexandre, testemunho que não retifica em nenhuma outra passagem do poema. Informa-nos também, no trecho em que trata das expedições de Diomedes, que Alexandre, depois de haver errado durante muito tempo de uma costa a outra com Helena, chegou a Sídon, na Fenícia. Eis aqui os versos(18): “Ali se achavam as velas bordadas, obra dos sidônios e trazidas de Sídon pelo belo Páris, quando regressou a Tróia com a ilustre Helena”. Na Odisséia(19), faz também menção à viagem de Helena: “Tal o benfazejo licor que possuía Helena, filha de Júpiter; ela o recebera de Polidamna, mulher de Tónis, na sua viagem ao Egito, cujas terras produzem uma infinidade de plantas, umas salutares, outras malignas”. Nova referência ao fato é por ele feita nos versos em que Menelau se dirige a Telêmaco(20): “Embora eu desejasse regressar, os deuses me retiveram no Egito, por não lhes haver eu oferecido hecatombes perfeitas”. Com tais versos, Homero mostra-nos sobejamente não ignorar a estada de Alexandre no Egito. A Síria confina realmente com o Egito, e os Fenícios, aos quais pertence Sídon, habitavam a Síria.

CXVII — Esses versos do poeta e, principalmente, a primeira passagem, provam que os Cipríacos(21) não são de Homero, mas de algum outro aedo, pois lê-se nesse poema que Alexandre, aproveitando-se da tranqüilidade do mar e de um vento favorável, atingiu Tróia com Helena, três dias depois de partir de Esparta, no lugar em que Homero diz na Ilíada que, sonhando com ela, errou durante muito tempo.

CXVIII — Perguntei, em seguida, aos sacerdotes, se o que os Gregos contavam da guerra de Tróia devia ser posto no rol das fábulas. Responderam-me terem-se informado a respeito com o próprio Menelau, e eis o que souberam: Depois do rapto de Helena, poderoso exército grego transpôs a Tróade para vingar o ultraje feito àquele rei. Mal os soldados haviam deixado os navios e começado a acampar-se, foram enviados a Ílion embaixadores, entre os quais se achava o próprio Menelau. Ali chegando, os embaixadores reclamaram a devolução de Helena, bem como das riquezas subtraídas por Alexandre, exigindo uma reparação desse ato. Os Troianos asseguraram-lhes, primeiro sem juramento e depois sob juramento, não possuírem nem Helena nem os tesouros reclamados, e que tanto aquela como estes estavam no Egito, não havendo, pois, razão para serem perseguidos por coisas que se achavam em poder de Proteu, rei daquele país. Os Gregos, todavia, supondo que os Troianos ocultavam a verdade e zombavam deles, sitiaram Tróia e continuaram o cerco até se tornarem senhores da cidade. Não encontrando Helena na cidade capturada, e ante a atitude dos Troianos, que continuavam negando estivesse ela em seu poder, não mais duvidaram que assim fosse e enviaram o próprio Menelau para entender-se com Proteu.

CXIX — Chegando ao Egito, Menelau subiu o Nilo até Mênfis, onde fez ao soberano uma narrativa exata do que se havia passado. Foi tratado com toda atenção e consideração, tendo-lhe sido entregue Helena, que não havia sofrido nenhum mal, juntamente com os tesouros.

Menelau encarou, entretanto, essas atenções como ultrajes; e tendo ficado ali retido durante muito tempo pelos ventos contrários, impacientou-se e resolveu sacrificar duas crianças do país. Esta ação execrável, que logo chegou ao conhecimento de todos os Egípcios, tornou-o odioso; perseguiram-no, e ele foi obrigado a fugir por mar para a Líbia, não se sabendo ao certo para onde se dirigiu em seguida.

CXX — Sou da opinião dos sacerdotes egípcios no que se refere a Helena, e eis aqui algumas conjecturas da minha parte: Se essa princesa estivesse em Tróia, tê-la-iam entregue, certamente, aos Gregos, com ou sem o consentimento de Alexandre. Príamo e os príncipes da família real não eram tão desprovidos de senso, a ponto de pôr em perigo sua própria segurança, a de seus filhos e de sua cidade, a fim de que Alexandre permanecesse na posse de Helena. Mas, mesmo supondo que tinham tal propósito no começo da guerra, ao verem que pereciam tantos Troianos em cada combate travado com os Gregos e o sacrifício em vidas que a luta estava custando aos filhos de Príamo, teriam, se Helena estivesse realmente em seu poder, procurado pôr fim à contenda, devolvendo-a aos que a reclamavam. O próprio Príamo, mesmo que estivesse, como muitos afirmam, por ela apaixonado, não hesitaria em entregá-la aos Gregos para livrar-se de tantos males.

Aliás, Alexandre não era herdeiro presuntivo da coroa e não estava encarregado da administração dos negócios na velhice de Príamo. Heitor era o filho mais velho do rei e gozava de grande consideração. Por morte de Príamo, a ele caberia o trono. Assim, não lhe seria honroso nem vantajoso favorecer os erros do irmão, e isso quando ele via todos os outros Troianos expostos a tão graves riscos por causa de Alexandre. Não estava, porém, ao seu alcance devolver Helena, e os Gregos não deram crédito à sua resposta, embora ela fosse verdadeira. Uma divindade havia tudo preparado, creio eu, para ensinar aos homens, pela ruína completa de Ílion, que os deuses infligem castigos de acordo com a enormidade dos crimes.

CXXI — Disseram-me os sacerdotes que Rampsinito sucedeu a Proteu no trono do Egito. Foi ele quem mandou construir o vestíbulo do templo de Vulcano, situado a ocidente, e erguer, na frente desse vestíbulo, duas estátuas de vinte e cinco côvados de altura; uma ao norte, que os Egípcios denominam Verão, e outra ao sul, denominada Inverno. Adoram a primeira e fazem-lhe oferendas, tratando a segunda de maneira inteiramente oposta.

Muitas riquezas possuía esse príncipe, bastando dizer que nenhum dos reis do Egito seus sucessores o igualou em opulência. Para pôr seus tesouros em segurança, mandou erguer um edifício de pedra, um dos muros do qual ficava fora do recinto do palácio. O arquiteto, animado de maus propósitos, planejou e executou o seguinte: dispôs uma das pedras com tanta arte, que dois homens, ou mesmo um só, podiam removê-la facilmente. Acabada a construção, Rampsinito para ali fez transportar suas riquezas. Algum tempo depois, o arquiteto, sentindo-se prestes a morrer, mandou chamar os dois filhos e disse-lhes que ao construir o edifício onde se achavam os tesouros do rei havia usado de um artifício para prover-lhes as necessidades e dar-lhes um meio de viver na abundância. Instruiu-os minuciosamente sobre a maneira de remover a pedra, identificando-a bem pelas dimensões e limites, acrescentando, por fim, que se eles observassem o que ele lhes dizia teriam o tesouro real à sua disposição.

Morrendo o arquiteto, os filhos não perderam tempo em seguir-lhe o conselho. Foram, à noite, ao palácio, e, encontrando a pedra designada, deslocaram-na facilmente e subtraíram dali grandes somas. O rei, entrando um dia no esconderijo, ficou tomado de espanto ao notar sensivelmente diminuído o conteúdo dos vasos onde guardava o dinheiro, não sabendo a quem acusar, pois os selos da porta estavam intactos e tudo muito bem fechado. Voltando ali mais duas ou três vezes e percebendo que o dinheiro minguava cada vez mais (os ladrões não cessavam de tirá-lo), mandou colocar uma armadilha em torno dos vasos. Os ladrões chegaram, como das outras vezes. Um deles, entrando na frente, foi direto aos vasos, caindo na armadilha. Vendo-se apanhado, chamou o irmão e, relatando-lhe sua desdita, pediu-lhe que lhe cortasse a cabeça, a fim de que, não sendo reconhecido, não se tornasse a causa da perda da família. O outro, vendo que ele tinha razão, obedeceu, repôs a pedra no lugar e voltou para casa com a cabeça do irmão.

No dia seguinte, logo pela manhã, o rei dirigiu-se ao compartimento onde guardava o tesouro. Aproximou-se dos vasos e recuou cheio de espanto ante aquele corpo sem cabeça, preso na armadilha. Maior ainda foi o seu assombro ao notar que o edifício não apresentava nenhum sinal de dano, não podendo absolutamente imaginar por onde entrara aquele indivíduo. Confuso e desejando solucionar o enigma, tomou a seguinte resolução: mandou pendurar na muralha o cadáver, colocando guardas ao lado, com ordens de levar à sua presença quem quer que chorasse ou gemesse ao contemplar o morto. A mãe do ladrão, ciente de tudo e indignada com isso, chamou o outro filho e concitou-o a empregar todos os esforços para retirar o cadáver e trazê-lo para casa, ameaçando-o de ir ela própria denunciá-lo ao rei, caso não fizesse o que lhe pedia. O jovem, não conseguindo demovê-la de tão temerário propósito e temendo que ela executasse a ameaça, concebeu este engenhoso plano: Carregou alguns burros com odres cheios de vinho e pôs-se a tocá-los em direção ao palácio. Ao aproximar-se do local onde se achava o corpo do irmão, abriu dois ou três odres, deixando que o vinho jorrasse com abundância e fingindo o maior desespero, como se não soubesse o que fazer em tão embaraçosa situação. Os guardas, observando aquela cena, trataram logo de recolher o vinho que caía, certos de que poderiam aproveitar o que conseguissem salvar. O jovem, simulando cólera, descarregou sobre eles toda sorte de injúrias. Como os guardas procurassem consolá-lo, fingiu abrandar-se e desviou as alimárias do caminho, tratando de fechar bem os odres. Entreteve-se, então, a conversar com os guardas, que procuravam alegrá-lo com motejos e ditos espirituosos, e estabelecendo-se a camaradagem entre eles, ofereceu-lhes um dos odres de vinho. Sentando-se ali mesmo, os guardas, convidando-o a lhes fazer companhia, entregaram-se inteiramente ao prazer da bebida. O jovem, que aceitara prontamente o convite, vendo-os cada vez mais alegres sob a ação do seu generoso vinho, deu-lhes mais um odre. Bebendo em demasia, os guardas embriagaram-se, e, vencidos pelo sono, estenderam-se no chão, adormecendo profundamente. Vendo avançada a noite, o jovem raspou, por zombaria, a barba dos guardas apenas do lado direito, desprendeu o corpo do irmão, colocou-o sobre um dos animais e voltou para casa.

O rei, cientificado do rapto do cadáver do ladrão, encheu-se de cólera; mas como desejava descobrir de qualquer forma o autor da façanha, tomou uma incrível decisão: prostituiu a própria filha num antro de perdição e ordenou-lhe que recebesse igualmente toda classe de homens, obrigando-os, porém, antes de conceder-lhes os favores, a dizer o que haviam feito de mais ardiloso e pérfido na vida. Se algum deles se ufanasse de haver raptado o corpo do ladrão, devia ela retê-lo, não o deixando escapar de maneira alguma. A filha obedeceu às ordens do pai, mas o ladrão, percebendo a manobra, quis mostrar ser mais astuto do que o rei. Cortou, bem junto ao ombro, o braço de um homem recém-falecido, e, ocultando-o sob o manto, foi procurar a princesa. Ao fazer-lhe esta as mesmas perguntas que já fizera aos outros homens que ali haviam estado, contou-lhe o rapaz que a sua ação mais pérfida havia sido cortar a cabeça do irmão apanhado numa armadilha quando roubava os tesouros do rei, e a mais ardilosa, haver-lhe raptado o corpo, depois de ter embriagado os que o guardavam. Ouvindo a tão esperada resposta, a princesa tentou prendê-lo, mas, encontrando-se eles no escuro, o jovem estendeu-lhe o braço do morto, que ela segurou, julgando ser o do ladrão, enquanto este ganhava a porta e fugia.

O soberano, informado do que se passara, ficou assombrado com a astúcia e audácia daquele homem, e abandonando a idéia de vingança, mandou apregoar por todas as cidades que concedia o perdão ao criminoso e que se este quisesse ir à sua presença, cumulá-lo-ia de outros favores. Confiando na palavra do soberano, o rapaz foi procurá-lo. Cheio de admiração por aquele jovem que o ludibriara e não temera sua cólera, Rampsinito deu-lhe a filha em casamento, considerando-o o mais astuto dos homens, pois que se os Egípcios se julgavam superiores a todos os mortais, o jovem se mostrara superior aos Egípcios.

CXXII — Relatam os sacerdotes que em seguida a esses acontecimentos Rampsinito desceu, vivo, aos lugares que os Gregos acreditam serem os infernos, onde jogou dados com Ceres, ganhando algumas vezes, perdendo outras. Ao voltar à Terra, a deusa lhe fez presente de um guardanapo de ouro. Essa aventura de Rampsinito levou os Egípcios, como me informaram os sacerdotes, a instituir uma festa que se prolonga pelo espaço de tempo correspondente à descida de Rampsinito aos infernos, da partida ao regresso. No meu tempo, ainda celebravam essa festa, mas não posso assegurar se a instituíram pelo motivo em questão ou por qualquer outro. Durante a celebração, os sacerdotes cobrem os ombros de um dos seus companheiros com um manto tecido no próprio dia da cerimônia, e, vendando-lhe os olhos, põem-no no meio do caminho que leva ao templo de Ceres, depois do que se retiram. Então, ao que se diz, dois lobos conduzem o sacerdote de olhos vendados ao templo, afastado da cidade vinte estádios, e trazem-no de volta, mais tarde, ao mesmo lugar onde o encontraram.

Se tais propósitos dos Egípcios parecerem verossímeis a alguém, esse alguém que lhes dê crédito. Quanto a mim, não tive outro fito em toda esta história senão o de contar o que ouvi dizer.

CXXIII — Os Egípcios dizem que Ceres e Baco possuem um poder soberano nos infernos. Foi também esse povo o primeiro a afirmar que a alma do homem é imortal e que, morto o corpo, transmigra sempre para o de qualquer animal; e depois de haver passado assim, sucessivamente, por todas as espécies de animais terrestres, aquáticos e voláteis, torna a entrar num corpo de homem, realizando-se essas diferentes transmigrações no espaço de três mil anos. Sei que alguns Gregos esposaram essa opinião, uns mais cedo, outros mais tarde, considerando-a como sua. Não ignoro seus nomes, mas prefiro não mencioná-los.

CXXIV — Os sacerdotes meus informantes acrescentaram que, até Rampsinito, tinha-se visto florescer a justiça e reinar a abundância em todo o Egito, mas que não houve maldade que não praticasse Quéops, seu sucessor. Este soberano, depois de mandar fechar todos os templos e proibir os sacrifícios entre os Egípcios, pô-los todos a trabalhar para ele. Grande número de Egípcios foi empregado na tarefa de cavar as pedreiras da montanha da Arábia e arrastar dali até o Nilo as pedras que iam retirando, levando-as, em seguida, para a outra margem do rio, onde novos trabalhadores recebiam-nas e transportavam-nas para a montanha da Líbia. Utilizavam-se, de três em três meses, cem mil nesse trabalho. Para avaliar-se o suplício a que foi tão longamente submetido esse povo, basta dizer que se consumiram dez anos na construção da calçada por onde deviam ser arrastadas as pedras. Na minha opinião, essa calçada é uma obra não menos considerável do que a pirâmide, pois mede cinco estádios de comprimento por dez braças de largura e oito de altura nos seus pontos mais elevados; é feita de pedras polidas e ornadas de figuras de animais. Aos dez anos gastos para construí-la, convém acrescentar o tempo empregado nas obras da colina sobre a qual se elevam as pirâmides, e nas construções subterrâneas destinadas a servir de sepultura e realizadas numa ilha cortada por um canal e formada pelas águas do Nilo. A pirâmide, em si, consumiu vinte anos de labuta. É quadrada, medindo cada uma das faces oito pletras de largura, e é construída, em grande parte, de pedras polidas e bem unidas umas às outras, não tendo nenhuma delas menos de trinta pés.

CXXV — A pirâmide foi construída em degraus, e alguns desses degraus tomam a forma de pequenos altares. Foi um trabalho realmente complexo o da construção da pirâmide. Para levar as pedras aos diversos planos empregavam-se máquinas feitas de pequenos pedaços de madeira e situadas em diferentes alturas. Ao chegar a pedra ao primeiro plano, era colocada em outra máquina, que a levava para o segundo, onde outra máquina a transportava para o terceiro, e assim sucessivamente, até o alto do monumento. O acabamento da pirâmide processou-se de cima para baixo, passando-se de um plano superior para outro imediatamente inferior, até a base. Concluídas as obras, gravou-se no monumento, em caracteres egípcios, o quanto se despendeu em rábano, cebola e alho para a manutenção dos operários empregados na construção. Quem interpretou para mim essa inscrição disse-me que a despesa montava a mil e seiscentos talentos de prata. Se isso é exato, quanto não se teria gasto no restante da alimentação e em vestes para os operários?

CXXVI — Com os cofres esgotados por tais despesas, Quéops lançou mão da própria filha, fazendo-a prostituir-se num lupanar e ordenando-lhe a tirar de seus amantes certa soma de dinheiro. Ignoro a quanto montou a quantia assim obtida, pois os sacerdotes nada souberam dizer sobre isso. A princesa, não só executou as ordens do pai, como quis deixar, ela própria, um monumento. Para isso pediu a cada um dos que iam vê-la uma pedra; e foi com as pedras assim reunidas que se construiu a pirâmide que se encontra entre as outras três, de face com a grande pirâmide, e que mede um pletro e meio de cada lado.

CXXVII — Quéops, segundo me disseram os Egípcios, reinou pelo espaço de cinqüenta anos. Sucedeu-o, por sua morte, seu irmão Quéfren, que se conduziu como o seu predecessor. Entre outros monumentos, mandou ele construir também uma pirâmide. Se bem que igualmente notável, seu tamanho, como pude verificar, nem se aproxima do da de Quéops; não possui edifícios subterrâneos, nem canal para condução das águas do Nilo, enquanto que a outra, onde dizem achar-se o túmulo de Quéops(22), está, como ficou dito, situada numa ilha formada pelas águas do Nilo e servida por um canal. O primeiro plano da pirâmide de Quéfren é de pedra da Etiópia, de várias cores. O monumento é cerca de quarenta pés mais baixo do que o de Quéops, que lhe fica contíguo. Ambos foram construídos na mesma colina, que mede cem pés de altura, aproximadamente.

CXXVIII — Segundo os sacerdotes, Quéfren reinou durante cinqüenta e seis anos, e por todo esse longo período os Egípcios foram atormentados por males sem conta, tendo os templos permanecido fechados. Tal a repulsa que os Egípcios votam à memória desses dois príncipes, que até evitam mencioná-los, designando, por isso mesmo, as pirâmides pelo nome do pastor Filítis, que naquela época costumava andar com os seus rebanhos pelo local onde elas se encontram.

CXXIX — Falecendo Quéfren, subiu ao trono Micerino, filho de Quéops. Este príncipe, que sempre desaprovara os atos do pai, reabriu os templos e devolveu ao povo, reduzido à extrema penúria e submetido a toda sorte de vexames, a liberdade de escolher suas ocupações e de oferecer sacrifícios; enfim, julgou as pendências entre os seus súditos com maior eqüidade do que todos os antecessores. Por esse motivo, os Egípcios o veneram e cultuam sua memória como nunca o fizeram com relação aos outros governantes do país. Esse soberano, além de saber julgar com acerto e imparcialidade, chegava a lançar mão de seus bens para confortar aqueles que por acaso se queixassem da severidade do seu julgamento.

Micerino, que tratava o seu povo com tanta humanidade, não se preocupando senão em torná-lo feliz, sofreu, certo dia, um rude golpe: perdeu a filha única, por quem tinha verdadeira adoração. Ficou profundamente acabrunhado com esse infausto acontecimento, e desejando dar à morta uma sepultura magnificente e bem diversa da do comum dos mortais, mandou fazer uma novilha de madeira, inteiramente oca, e, depois de dourá-la, nela encerrou os restos mortais da filha.

CXXX — Esse original sarcófago ainda pode ser visto no palácio real de Sais, numa sala ricamente ornamentada. Diariamente queimam diante dele toda sorte de essências, e à noite está sempre iluminado por uma candeia. Em outra sala, contígua a essa, vêem-se várias estátuas representando as concubinas de Micerino — pelo menos é o que afirmam os sacerdotes da cidade de Sais. Seja ou não exata essa afirmativa, o certo é que existem ali cerca de vinte estátuas colossais de mulheres nuas, todas esculpidas em madeira.

CXXXI — Conta-se ainda, com relação à novilha-sarcófago e às estátuas, que Micerino, tendo-se apaixonado pela filha, violou-a, e que a jovem princesa, cheia de desespero e vergonha, enforcou-se, tendo então o soberano colocado o corpo dentro da novilha de madeira. Vingando-se do ultraje, a mãe da jovem mandou cortar as mãos das damas de companhia da filha, pela sua conivência no atentado. As estátuas sem mãos que hoje ali se vêem representam essas indignas criaturas, castigadas em vida pela sua execrável conduta. Creio, porém, que tudo quanto se conta desse amor incestuoso e das mãos das estátuas não passa de pura fábula. O que se observa naquelas estátuas é terem suas mãos caído pela ação do tempo. Quando as visitei, vi algumas dessas peças junto aos pedestais.

CXXXII — A novilha está coberta com um manto carmesim, exceto a cabeça e o pescoço, que são revestidos de espessa camada de ouro. Entre os cornos vê-se o círculo do Sol, também em ouro. O animal, cujo tamanho se equipara ao das maiores novilhas naturais, não está de pé, mas de joelhos. Transportam-na todos os anos para fora da sala, deixando-a, durante alguns momentos, exposta à luz do sol, Essa cerimônia, que é realizada na mesma época em que os Egípcios se fustigam e gemem por um certo deus, cujo nome não devo mencionar aqui, decorre do fato — a que muitos dão crédito — de haver a princesa, ao morrer, pedido a Micerino, seu pai, que a fizesse ver o sol uma vez por ano.

CXXXIII — Pouco depois da morte da filha, foi Micerino abalado por uma nova desgraça: recebeu, da cidade de Buto, um oráculo anunciando-lhe que só lhe restavam seis anos de vida. Acabrunhadíssimo, enviou um emissário ao templo, com instruções para fazer amargas censuras à deusa, fazendo-a ver que o pai e o tio tinham vivido muito tempo, embora houvessem oprimido seus súditos e, sem nenhuma consideração aos deuses, tivessem fechado os templos, enquanto que ele, que tanta piedade pelo povo e tanto respeito aos deuses revelara, ia viver tão pouco. O oráculo respondeu-lhe dizendo ser justamente essa a razão pela qual ele ia morrer cedo; que ele não havia feito o que devia; que ele impedira que o Egito fosse oprimido durante cento e cinqüenta anos, como deveria ser, e que, enquanto seus dois antecessores haviam tido conhecimento disso, concorrendo para tal, ele o ignorara.

Concluindo, por essa resposta, da irrevogabilidade da sentença, Micerino mandou fazer grande número de candeias e, logo que chegava a noite, acendia-as e passava o tempo a beber e a divertir-se sem cessar; ia pelos lagos, pelos bosques, por toda parte onde encontrasse motivo de prazer. Procurava converter as noites em dias e duplicar, dessa maneira, o número de anos que lhe restavam para viver, — de seis fazer doze — para com isso convencer o oráculo de que incidia em erro.

CXXXIV — Micerino também legou à posteridade uma pirâmide. Embora bem menor que a de Quéops, é um notável monumento de base quadrada, de pedra da Etiópia até à metade, medindo cada uma das faces três pletros de largura. Alguns Gregos pretendem ter sido ela construída pela cortesã Ródope. Enganam-se eles, e me parece que nem mesmo sabiam quem era essa cortesã, pois, se soubessem, não lhe teriam atribuído a construção de uma pirâmide que custou milhões de talentos. Aliás, Ródope não viveu no reinado de Micerino, mas no de Amásis, isto é, muitos anos depois da morte dos soberanos que mandaram construir essas pirâmides. Ródope era originária da Trácia, tendo sido escrava de Jádmon, filho de Hefestópolis, da ilha de Samos, e companheira de escravidão de Esopo, o fabulista, pois Esopo foi também escravo de Jádmon. Existem sobejas provas disso, e uma das principais é que, tendo os Délfios mandado perguntar várias vezes por um arauto, de acordo com as ordens de um oráculo, se alguém queria vingar a morte de Esopo(23), não se apresentou senão um neto de Jádmon, com o mesmo nome do avô. Logo, Esopo foi escravo de Jádmon.

CXXXV — Ródope foi conduzida ao Egito por Xanto, de Samos, para ali exercer a profissão de cortesã. Caraxo de Mitilene, filho de Escamandrônimo e irmão de Safo, da qual conservamos as poesias, pagou uma quantia considerável pelo seu resgate. Tendo assim recuperado a liberdade, permaneceu ela no Egito, onde sua beleza lhe proporcionou riquezas realmente consideráveis para uma mulher de sua classe, mas insuficientes para a construção de uma pirâmide. Os bens que se lhe atribuem, embora não excessivos como muitos julgavam, eram, com efeito, substanciosos, e ainda hoje podemos apreciar uma décima parte deles invertida numa iniciativa verdadeiramente extravagante e ainda não imaginada por ninguém. Desejando deixar na Grécia algo que transmitisse seu nome à posteridade, mandou fazer vários espetos de ferro suficientemente fortes e grandes para assar um boi inteiro e de valor correspondente à décima parte de sua fortuna, e enviou-os ao templo de Delfos, onde até hoje os vemos, empilhados atrás do altar erguido pelos habitantes de Quios.

As cortesãs de Náucratis são geralmente dotadas de grande beleza. Ródope, de quem falamos, tornou-se tão célebre, que não havia ninguém na Grécia que lhe ignorasse o nome. Outra cortesã, Arquídice, angariou também, depois dela, grande fama na Grécia, mas não chegou a fazer tão grande rumor. Quanto a Caraxo, ao regressar a Mitilene depois de haver resgatado Ródope, Safo invectivou-o sem piedade nos seus versos.

CXXXVI — Micerino teve por sucessor Asíquis, que mandou construir, em honra de Vulcano, o pórtico que até agora é visto a leste do templo desse deus e considerado o maior e o mais imponente de todos. Os pórticos do templo de Vulcano são decorados com figuras admiravelmente esculpidas e possuem mil outros ornamentos semelhantes aos usualmente empregados no embelezamento dos edifícios, mas o de Asíquis ultrapassa-os em sumptuosidade. No reinado desse príncipe, como o comércio entrasse em crise em virtude da falta de dinheiro, promulgou ele uma lei proibindo os empréstimos, a menos que os que os fizessem dessem como garantia o corpo do próprio pai. Estabelecia ainda essa lei, que o credor reteria em seu poder a sepultura do devedor, e que se este se recusasse a pagar a dívida pela qual havia hipotecado um bem tão precioso, não poderia ser colocado, depois de morto, no sepulcro dos pais e em nenhum outro. Além disso, morrendo qualquer dos seus parentes, era-lhe vedado prestar-lhe essa homenagem derradeira.

Com o intuito de superar todos os que haviam reinado antes dele, Asíquis deixou como monumento uma pirâmide de tijolo, com esta inscrição gravada em pedra: “Não me deprecie comparando-me às pirâmides de pedra. Estou tão acima delas quanto Júpiter dos outros deuses, pois foi mergulhando um chuço no lago e recolhendo a vasa que estava ligada ao fundo, que se fizeram os tijolos com que sou construída”.

CXXXVII — De Asíquis, passou a coroa do Egito para um cego da cidade de Anísis, chamado também Anísis. No seu reinado, Sabacos, rei da Etiópia, marchou sobre o Egito com poderoso exército. Anísis fugiu através dos pântanos, e Sabacos tornou-se senhor do país pelo espaço de cinqüenta anos. Não mandou matar ninguém durante todo esse tempo, por mais grave que fosse a falta cometida, mas, segundo a espécie de crime, condenava o culpado a elevar o nível do solo nas cercanias da cidade onde nascera. Foi assim que o nível das cidades egípcias tornou-se ainda mais alto do que outrora. Já o tinham aumentado no reinado de Sesóstris, quando foram abertos os canais. Elevaram-no ainda mais sob o domínio do Etíope. De todas as cidades do Egito, foi Bubástis a que maior aumento de nível sofreu por ordem de Sabacos.

CXXXVIII — Há, nessa cidade, um templo de Bubástis (Bubástis é o mesmo que Diana entre os Gregos), digno de menção. Embora existam ali outros templos maiores e mais ricos, nenhum é mais atraente e mais sugestivo. Fica ele situado numa espécie de ilhota formada por dois canais do Nilo, os quais, avançando paralelamente até a entrada do templo, ali se separam, circundando-o e deixando uma faixa de terra que permite acesso aos que o visitam. Cada um dos canais mede cem pés de largura e são ambos margeados por árvores frondosas. O vestíbulo do templo tem dez braças de altura e está ornado por lindas figuras de seis côvados. O templo fica no centro da cidade, e os que o contornam podem apreciá-lo de alto a baixo, de qualquer ângulo, pois, achando-se na mesma plataforma onde foi primitivamente construído, e tendo a cidade aumentado de nível com as terras agregadas, ficou ele inteiramente visível de todos os pontos da urbe. Esse local sagrado está rodeado por um muro, no qual estão esculpidas inúmeras figuras. Ao derredor do templo vê-se um bosque cultivado, com árvores viçosas e de grande porte. O local sagrado, onde está encerrada a estátua da deusa, mede, em todos os sentidos, um estádio de comprimento por outro de largura. À entrada estende-se um caminho de pedras, com três estádios de comprimento e margeado por árvores altíssimas, cuja folhagem parece perder-se nas nuvens. O caminho atravessa a praça do mercado, na direção de leste, e vai ter ao templo de Mercúrio.

CXXXIX — O Egito, segundo os sacerdotes, libertou-se do domínio de Sabacos de maneira calma e inesperada. Certa noite, o usurpador viu ou pareceu ver em sonhos um homem que o aconselhava a reunir todos os sacerdotes do Egito e cortá-los em duas partes. Refletindo sobre essa visão, pareceu-lhe discernir naquilo um pretexto dos deuses para fazê-lo violar o respeito devido às coisas sagradas, acarretando-lhe um castigo da parte dos próprios deuses ou dos homens. Resolveu não fazer o que lhe sugerira a visão, julgando mais prudente retirar-se do país, tanto mais que já havia decorrido o período em que devia reinar no Egito. Segundo a predição dos oráculos etíopes(24) que ele consultara quando se achava na Etiópia, deveria reinar no Egito durante cinqüenta anos. Como esse tempo já havia expirado, e ante a estranha visão que o deixara perturbado, decidiu retirar-se voluntariamente do país.

CXL — Assim que Sabacos deixou o Egito, Anísis (o cego) saiu da região pantanosa onde se refugiara e retomou as rédeas do governo. Tinha permanecido cinqüenta anos numa ilha por ele próprio formada com cinza e terra, pois, quando os Egípcios lhe iam levar víveres, cada um de acordo com as suas posses, ele lhes pedia um pouco de cinza, que ia acumulando em mistura com a terra. Essa ilha só foi encontrada no reinado de Amirteu. Durante mais de quinhentos anos, os reis seus predecessores tinham-na procurado inutilmente. Chamam-na ilha de Helbo e mede dez estádios em qualquer sentido, pois é de formato arredondado.

CXLI — Anísis teve por sucessor um sacerdote de Vulcano chamado Setos(25). Esse governante nenhuma consideração teve para com os guerreiros, tratando-os com inteiro desprezo e chegando ao extremo de privá-los dos doze alqueires de terra que os reis seus antecessores haviam dado a cada um como prêmio. Por isso, quando Senaqueribe, rei dos Árabes e dos Assírios(26), veio atacar o Egito com um grande exército, os guerreiros negaram-se a lutar em defesa da pátria. Vendo-se em tão difícil situação, Setos dirigiu-se ao templo, e ali, diante da estátua do deus, pôs-se a lamuriar pela sorte funesta que parecia aguardá-lo; e assim deplorando suas desgraças, adormeceu. Em sonhos, julgou ver o deus encorajando-o e assegurando-lhe que, se marchasse ao encontro dos Árabes, a sorte estaria do seu lado, pois ele próprio, o deus, lhe enviaria socorros.

Cheio de confiança na visão, Setos reuniu todas as pessoas de boa vontade e dispostas a segui-lo, e foi acampar em Pelusa, ponto-chave do Egito. Seu exército era composto exclusivamente de negociantes, artífices e vivandeiras(27). Nenhum guerreiro o acompanhava. Logo que essas tropas improvisadas chegaram à cidade, espantosa multidão de ratos do campo espalhou-se pelo acampamento inimigo, pondo-se a roer os arneses, os arcos e as correias que serviam para manejar os escudos, de maneira que, no dia seguinte, os Árabes estavam sem armas, e assim lutando, foram fragorosamente derrotados. Vê-se ainda hoje, no templo de Vulcano, uma estátua de pedra representando aquele rei, com esta inscrição: “Quem quer que sejas, aprende, vendo-me, a respeitar os deuses”.

CXLII — Tanto os Egípcios com quem privei, como os sacerdotes meus informantes, me fizeram ver que trezentas e quarenta e uma gerações se tinham sucedido desde o primeiro rei até Setos, sacerdote de Vulcano. Ora, trezentas gerações correspondem a dez mil anos, já que três gerações equivalem a cem anos; e as quarenta e uma gerações restantes perfazem mil trezentos e quarenta anos. No decurso desses onze mil trezentos e quarenta anos, acrescentam eles, nenhum deus se manifestou em forma humana e nada se viu de semelhante, nem nos tempos anteriores a essa época, nem entre os outros reis que governaram o Egito posteriormente. Asseguraram-me também que nessa longa seqüência de anos o sol se erguera quatro vezes fora de sua órbita comum, despontando duas vezes no lugar onde hoje se deita, e deitando-se também duas vezes no lugar onde hoje se ergue. Tal fenômeno, contudo, nenhuma alteração provocou no país, quer na produção agrícola, quer nas irrigações do Nilo, quer ainda com relação às moléstias e à mortalidade.

CXLIII — O historiador Hecateu, encontrando-se certa vez em Tebas, falara aos sacerdotes do Egito de sua genealogia, fazendo-a remontar a um deus, que contava como o décimo-sexto dos seus ancestrais. Os sacerdotes procederam para com ele como depois fizeram comigo, embora eu nada lhes tivesse dito sobre minha família. Conduziram-me a uma das dependências do templo, onde me mostraram colossais estátuas de madeira que lhes haviam legado os grandes sacerdotes, pois cada um destes não deixa, em vida, de ali colocar sua estátua. Enumerando-as todas na minha presença, provaram-me, pela do último morto, que cada um daqueles sacerdotes era filho de seu predecessor, mas sem admitir, todavia, que eles tivessem sua origem em algum deus, como Hecateu quisera fazê-los acreditar falando-lhes de sua genealogia. A essa afirmativa do historiador, eles opuseram a genealogia daqueles pontífices, limitando-se a dizer-lhe que cada um deles representava um piromis (termo egípcio, correspondente a bom e virtuoso) gerado por outro piromis, continuando assim até o último daquela geração de sacerdotes. Sua origem, eles não a deviam a nenhum deus ou herói.

CXLIV — Os sacerdotes provaram-me, assim, que todos aqueles representados pelas estátuas, longe de serem deuses, haviam sido piromis(28), e acrescentaram ser verdade que, em tempos anteriores à existência desses homens, os deuses tinham reinado no Egito e privado com os mortais. Órus, conhecido entre os Gregos pelo nome de Apolo, fora o último desses soberanos do Egito, tendo arrebatado a coroa a Tifão(29). Órus era filho de Osíris, a quem chamamos Baco.

CXLV — Os Gregos consideram Hércules, Baco e Pã como os mais novos dos deuses. Entre os Egípcios, ao contrário, Pã passa pelo mais antigo, estando mesmo incluído na categoria dos oito primeiros deuses. Hércules figura entre os deuses de segunda ordem, conhecidos pela designação de doze deuses, e Baco entre os de terceira, gerados pelos doze deuses.

Já fiz ver, pouco mais acima, como os Egípcios contam o período decorrido desde Hércules até o rei Amásis. Diz-se ser ainda maior o período que vai de Pã a Hércules, sendo, entretanto, bem menor o que vai deste último a Baco. De Baco até Amásis contam-se quinze mil anos. Os Egípcios consideram esses fatos incontestáveis, pois têm o hábito de anotar rigorosamente o transcurso dos anos. De Baco, que se diz ser filho de Sémele e Cadmo, até nós, medeiam cerca de mil e seiscentos anos, e de Hércules, filho de Alcmena, perto de novecentos anos. Pã, que os Gregos afirmam ser filho de Penélope e Mercúrio, é posterior à guerra de Tróia, e, por conseguinte, o período que decorre dele até os nossos dias não vai além de oitocentos anos.

CXLVI — Todos têm plena liberdade de adotar entre essas duas opiniões a que lhes parecer mais razoável. Assim, contento-me em expor a minha. Se esses deuses foram conhecidos na Grécia e se ali envelheceram, tais como Hércules, filho de Anfitrião; Baco, filho de Sémele, e Pã, filho de Penélope, pode-se dizer também, embora não tenham sido eles mais do que homens, que estavam adotando nomes de deuses nascidos em séculos anteriores. Asseguram os Gregos que, logo que Baco nasceu, Júpiter coseu-o à sua coxa e levou-o para Nisa, cidade da Etiópia, acima do Egito. Com relação a Pã, ignoram para onde foi transportado logo depois do seu nascimento. Parece-me evidente terem os Gregos aprendido os nomes desses deuses muito depois dos dos outros, determinando a data do seu nascimento pela época em que deles ouviram falar.

CXLVII — Voltemos, porém, à história do Egito propriamente dita e aos soberanos que o governaram.

Depois da morte de Setos, rei e sacerdote de Vulcano, os Egípcios recobraram a liberdade, mas como não podiam viver um só momento sem reis, elegeram doze soberanos a um só tempo e dividiram o Egito em outras tantas partes, entregando-as a cada um deles. Esses doze reis se uniram entre si por laços de família e propuseram a não se prejudicarem reciprocamente, a não procurar nenhum deles obter vantagens sobre os demais, e a se manterem sempre ligados pela mais estreita amizade. O fim desse tratado era fortificarem-se conjuntamente, premunindo-se contra qualquer perigo, pois, logo que assumiram o poder, um oráculo lhes declarara que aquele que fizesse libações no templo de Vulcano com uma taça de bronze reinaria sobre todo o Egito.

CXLVIII — Quiseram também unir esforços para legar à posteridade um monumento digno de admiração. Fizeram, assim, construir um labirinto pouco acima do lago Méris, bem próximo à cidade dos Crocodilos. Tive oportunidade de ver essa obra e achei-a notável sob todos os aspectos. Nenhuma das construções, nenhum dos edifícios dos Gregos se lhe pode comparar, quer no que se refere ao trabalho, quer ao custo. Os templos de Éfeso e de Samos despertam, sem dúvida, admiração; as pirâmides são obras arrojadas e grandiosas, podendo, cada uma em particular, sofrer cotejo com as maiores construções da Grécia; mas o labirinto supera as próprias pirâmides. Compõe-se de doze pátios cobertos, cujas portas são contíguas e situadas frente a frente, seis ao norte e seis ao sul. Uma mesma cintura de muralhas envolve-as pelo lado de fora. O labirinto está construído em seções duplas, sendo mil e quinhentas subterrâneas e mil e quinhentas na superfície — três mil ao todo. Visitei algumas destas últimas, podendo, pois, delas falar com segurança. Quanto às subterrâneas, reproduzo apenas o que sobre elas me disseram. Os Egípcios que a elas montam guarda não permitem que se as vejam, por servirem de catacumbas aos crocodilos sagrados e aos reis aos quais se deve essa obra monumental. Os compartimentos de cima, que tive oportunidade de visitar, estão ligados entre si por amplas passagens e corredores que levam através dos vários pátios igualmente amplos e bem traçados. O teto de todas essas dependências é de pedra, bem como os muros, decorados todos com figuras em baixo-relevo. Em torno de cada pátio vêem-se colunatas de pedra branca simetricamente dispostas. No ângulo em que termina o labirinto ergue-se uma pirâmide de cinqüenta braças de altura, na qual se acham esculpidas figuras amplificadas de animais de várias espécies.

CXLIX — Por mais admirável que seja o labirinto, o lago Méris, perto do qual está situado, causa ainda maior assombro. Medindo três mil e seiscentos estádios de circunferência — o que equivale a sessenta esquenos — tem uma extensão correspondente à da costa do Egito. Sua profundidade máxima é de cinqüenta braças. Foi cavado pela mão do homem, e o próprio conjunto da obra nos dá disso a prova. Vêem-se, realmente, quase no meio do lago, duas pirâmides, medindo cada uma, da base, situada sob a água, ao cume, cem braças de altura. Sobre uma e sobre outra vê-se uma colossal figura de pedra sentada num trono.

As águas do lago Méris não derivam de nenhuma nascente, uma vez que o terreno ocupado por ele é extremamente árido e seco; vêm do Nilo por um canal de comunicação. Durante seis meses, elas correm do rio para o lago, e durante outros seis, do lago para o rio. Neste último período, quando as águas se retiram, a pesca no lago rende ao tesouro real um talento de prata(30) por dia, mas durante os seis primeiros meses, quando correm para o lago, a produção não vai além de vinte minas.

CL — O lago forma um cotovelo a oeste e estende-se pelo meio de terras cultivadas, ao longo da montanha e acima de Mênfis, indo desaguar, segundo informações dos habitantes da região, na Sirta da Líbia, por um canal subterrâneo. Não vendo, em parte alguma, a terra que devia ter sido retirada para a construção do lago, e curioso em saber onde podia ela estar, interroguei, nesse sentido, os moradores das vizinhanças. O que eles me disseram sobre o destino dado a essa terra desvaneceria qualquer dúvida que eu pudesse ter tido a respeito, tanto mais que eu já ouvira dizer ter-se feito algo de semelhante em Nínive, cidade dos Assírios. Os ladrões, procurando carregar os imensos tesouros de Sardanapalo, rei de Nínive, guardados em recintos subterrâneos, começaram a cavar a terra, abrindo uma galeria da sua casa até o palácio do rei. À noite, transportavam a terra retirada para o Tigre, que corre ao longo da cidade. Continuaram, assim, a empresa, até atingirem o fim visado. Fez-se, pelo que ouvi dizer, a mesma coisa no Egito, com a diferença de que não se cavava a bacia do lago durante a noite, mas em pleno dia. À medida que o cavavam, iam transportando a terra para o Nilo, que a dispersava. Foi assim que, a dar-se crédito aos habitantes, o lago Méris foi construído.

CLI — Os doze reis conduziram-se com justiça. Certo dia, porém, por ocasião da festa em honra a Vulcano, terminados os sacrifícios do último dia no templo do deus, o grande sacerdote apresentou aos soberanos, para as libações, as taças de ouro de que costumavam servir-se nessa ocasião; mas enganou-se no número, e em lugar de doze taças, trouxe apenas onze para os doze reis. Então Psamético, que se achava em último lugar, vendo-se sem taça, tomou do próprio capacete, que era de bronze, e dele se utilizou nas libações. Todos os outros reis costumavam trazer um capacete e o tinham naquele momento na cabeça. Foi, portanto, sem nenhum mau propósito, que Psamético se serviu do seu; mas seus companheiros refletiram sobre sua ação, relacionando-a com a predição do oráculo de que aquele que fizesse libações num vaso de bronze tornar-se-ia o único soberano do Egito. Reconhecendo, todavia, pelas respostas sinceras de Psamético, não ter ele agido com premeditação, julgaram injusto matá-lo; mas despojaram-no da maior parte de seus bens e da soberania, e obrigaram-no a retirar-se para a região pantanosa, proibindo-o de sair dali e de manter qualquer contato com o resto do Egito.

CLII — Esse príncipe tinha, anteriormente, procurado abrigo na Síria, fugindo à perseguição de Sabacos, rei da Etiópia, que lhe matara o pai, Necos. Os habitantes de uma região denominada Saíto chamaram-no quando Sabacos abandonou o Egito por causa da visão que tivera. Foi então levado ao trono como um dos doze reis escolhidos pelos Egípcios, mas novamente exilado, desta vez para os pântanos por haver feito libações com seu capacete de bronze. Sentindo-se humilhado e decidido a vingar-se dos responsáveis pelo seu exílio, enviou um emissário a Buto para consultar o oráculo de Latona, o mais verídico dos oráculos do Egito. Respondeu-lhe este que ele seria vingado por homens de bronze saídos do mar. Aquela resposta deixou-o algum tanto em dúvida quanto à possibilidade de que homens de bronze viessem em seu auxílio; mas, pouco depois, alguns Iônios e Cários, em pirataria pelos mares, forçados a aportar ao Egito, desceram em terra envergando armaduras de bronze. Um Egípcio correu a levar a notícia a Psamético, nos pântanos; e como até então esse informante nunca tinha visto seres humanos com tais aparatos, disse-lhe que homens de bronze, saídos do mar, pilhavam os campos. Psamético, deduzindo por essa informação que a predição do oráculo se cumprira, fez aliança com os Iônios e Cários, convencendo-os, com promessas, a tomar o seu partido. Com essas tropas auxiliares e os Egípcios que lhe tinham permanecido fiéis destronou os onze reis.

CLIII — Senhor de todo o Egito, Psamético construiu, em Mênfis, os pórticos do templo de Vulcano, que se acham do lado do sul. Em frente aos pórticos mandou construir uma dependência para Ápis, onde o alimentam quando ele ali aparece. É um peristilo, ornado de figuras e sustentado por colossos de doze côvados de altura, à guisa de colunas. O deus Ápis é o mesmo cultuado entre os Gregos com o nome de Épafo.

CLIV — Psamético recompensou os serviços dos Iônios e dos Cários com terras e habitações próximas uma das outras e separadas apenas pelo rio. A esse conjunto deram o nome de Campo. Além dessas terras, o soberano deu-lhes tudo mais que lhes havia prometido e confiou-lhes crianças egipcias para que eles lhes ensinassem o grego. Dessas crianças iniciadas assim no referido idioma descendem os intérpretes que vemos atualmente no Egito.

Os Iônios e os Cários habitaram durante muito tempo os lugares onde Psamético os tinha situado e que ficam perto do mar, pouco abaixo de Bubástis, na embocadura do Nilo. Mais tarde, porém, o rei Amásis transferiu esses estrangeiros para Mênfis, a fim de utilizá-los na defesa do trono contra os Egípcios insurrectos. Desde que se estabeleceram no Egito, esses Gregos mantiveram com os nativos um comércio tão estreito que, a começar do reinado de Psamético, sabemos com segurança tudo o que se passou no país. Foram eles, realmente, o primeiro povo de outra língua admitido pelos Egípcios no país. Viam-se ainda, no meu tempo, no território de onde haviam sido removidos, os portos por eles construídos e as ruínas de suas casas.

CLV — Embora já tenha falado muito do principal oráculo do Egito, ainda insistirei sobre ele por considerá-lo digno de mais algumas referências. É esse oráculo consagrado a Latona, e encontra-se numa grande cidade situada na embocadura sebenítica do Nilo.

A cidade chama-se Buto, e a ela já tive oportunidade de aludir algumas vezes. Vêem-se ali vários templos, entre os quais o de Apolo, o de Diana e o de Latona. Este último, onde se pronunciam os oráculos, é de grandes dimensões, medindo seus pórticos dez braças de altura. De tudo que vi no recinto consagrado a Latona, foi o nicho em que se encontra a deusa o que maior admiração me causou. O fundo e as partes laterais são constituídos de uma só pedra, e mede quarenta côvados qualquer de suas dimensões. Outra pedra, de quatro côvados de espessura, lhe serve de cobertura.

CLVI — Depois do templo de Latona, o que mais atrai a atenção dos que visitam Buto é a ilha de Quémis, situada num lago extenso e profundo, nas proximidades do templo. Os Egípcios afirmam tratar-se de uma ilha flutuante, mas não a vi flutuar nem mover-se, e muito me surpreendeu ouvir falar em tal coisa. Existe em Quémis um vasto templo de Apolo com três altares. A terra ali produz, sem cultivo, grande quantidade de palmeiras e outras árvores, tanto frutíferas como estéreis.

Eis, segundo os Egípcios, a razão pela qual a ilha flutua. Latona, uma das oito mais antigas divindades, morava na cidade de Buto, onde se encontra agora o seu oráculo. Ísis, tendo confiado Apolo à proteção dessa deusa, ela o ocultou nessa ilha, então fixa como todas as outras, livrando-o, assim, da perseguição de Tifão, que o buscava por toda parte. Dizem os Egípcios que Apolo e Diana nasceram de Baco e Ísis, e que Latona amamentou-os. Apolo chama-se Órus em egípcio; Ceres, Ísis, e Diana, Bubástis. Foi Ésquilo, filho de Eufórion, quem divulgou essa fábula, fazendo, segundo a mesma, Diana filha de Ceres. Todavia, nenhum dos poetas que o precederam fazem qualquer referência ao fato.

CLVII — Psamético ocupou o trono do Egito durante cinqüenta e quatro anos, e manteve o cerco de Azoto, importante cidade da Síria, pelo espaço de vinte e nove anos, até que conseguiu capturá-la. Foi esse o mais longo cerco já suportado por qualquer cidade.

CLVIII — Psamético teve um filho de nome Necos, que ocupou também o trono do Egito. Foi esse príncipe quem projetou e iniciou a abertura do canal que conduz ao mar da Eritréia, obra essa continuada depois por Dario, rei da Pérsia. Esse canal, que começa pouco acima de Bubástis e atinge o mar da Eritréia nas proximidades de Patmos, na Arábia, pode ser transposto em quatro dias de navegação. Sua largura é suficiente para permitir a passagem de dois trirremes ao mesmo tempo.

Os trabalhos de escavação tiveram início na planície egípcia, no ponto em que esta confina com a Arábia e ao sopé da montanha que se estende para Mênfis. Partindo dali, o canal corre primeiramente de oeste para leste, passando pelas gargantas da montanha, voltando-se em seguida para o sul, em direção ao golfo da Arábia.

Para ir-se do mar Setentrional ao mar Austral, também chamado mar da Eritréia, segue-se pelo monte Cásio, que separa o Egito da Síria. É esse o caminho mais curto. Desse monte ao golfo Arábico não há mais que mil estádios, mas o canal torna-se, pelas suas sinuosidades, muito mais longo. Cento e vinte mil homens pereceram nas primeiras fases da abertura desse canal, tendo Necos interrompido as obras por lhe haver dito um oráculo estar ele trabalhando para o bárbaro. (Os Egípcios chamam de bárbaros os que falam outro idioma).

CLIX — Necos, tendo abandonado a empresa, voltou suas vistas para as expedições militares. Mandou construir grande número de trirremes e lançá-los no mar Setentrional, no golfo Arábico e no mar da Eritréia. Vêem-se, ainda hoje, os estaleiros onde esses barcos foram construídos. Sua frota prestou-lhe serviço na ocasião precisa. Necos travou também em terra uma batalha contra os Sírios, perto de Magdala. Vitorioso, capturou Cadítis, importante cidade da Síria. Consagrou a Apolo a roupa que trajava nessas expedições, enviando-as aos Brânquidas, no país dos Milésios. Faleceu pouco mais tarde, depois de haver reinado dezesseis anos, deixando a coroa a Psámis, seu filho.

CLX — No reinado deste príncipe chegaram ao Egito embaixadores da parte dos Eleus. Esse povo se ufanava de haver estabelecido nos Jogos Olímpicos as regras mais justas, mais belas e mais eficazes, e acreditava que os Egípcios, embora os mais sábios de todos os homens, nada podiam inventar de melhor. Chegando à corte e explicando o motivo que ali os levava, Psámis convocou sem demora aqueles dentre os Egípcios que passavam pelos mais sábios, aos quais os Eleus expuseram as regras que lhes parecera conveniente instituir, declarando terem vindo saber se os Egípcios podiam sugerir outras ainda mais interessantes. Os sábios egípcios perguntaram, por sua vez, se eles, Eleus, tomavam parte nesses jogos. Recebendo resposta afirmativa, redarguiram que tal regulamento violava as leis da eqüidade, pois que era impossível que os Gregos não favorecessem seus compatriotas, em detrimento dos estrangeiros. E assim argumentando, os sábios egípcios acrescentaram que se os Eleus desejavam de fato instituir jogos onde se observasse inteira justiça, eles os aconselhavam, se era esse verdadeiramente o motivo da sua visita, a realizar torneios em que só os estrangeiros tomassem parte.

CLXI — Psámis, que reinou apenas seis anos, falecendo logo depois da expedição à Etiópia, teve por sucessor seu filho Ápries. Esse soberano foi, com exceção de Psamético, seu bisavô, mais feliz que todos os seus antecessores, pelo menos nos primeiros tempos do seu reinado, que durou vinte e cinco anos. Realizou uma bem sucedida expedição contra Sídon e travou com o rei de Tiro um combate naval memorável. Das suas desgraças, quando a sorte deixou de favorecê-lo, falarei mais amplamente quando estiver tratando da Líbia. Referir-me-ei aqui apenas aos seus primeiros insucessos.

Enviando um exército contra os Cireneus, sofreu tremenda derrota. Os Egípcios culparam-no desse revés e revoltaram-se contra ele, na suposição de que ele os arrastara a um desastre certo, a fim de fazê-los perecer e reinar com maior segurança sobre o resto dos seus súditos. As tropas, de regresso da infausta batalha, e os amigos dos que haviam perdido a vida, indignados contra o soberano sublevaram-se decididamente.

CLXII — Ante a notícia, Ápries enviou Amásis para tentar apaziguá-los. Este foi ao encontro dos revoltosos, mas enquanto os exortava à obediência e ao cumprimento do dever, um egípcio, atrás dele, cobriu-lhe a cabeça com um capacete, declarando-o, com isso, de posse da coroa. Esse incidente não foi, como logo ficou provado, do inteiro desagrado de Amásis, pois nem bem os rebeldes o tinham proclamado rei, e já ele se preparava para marchar contra Ápries. Nessa conjuntura, Ápries destacou Patarbémis, um dos mais bravos entre os que lhe tinham ficado fiéis, com a missão de trazer Amásis vivo à sua presença. Chegando ao acampamento dos rebeldes, Patarbémis intimou Amásis a acompanhá-lo. Este que se achava casualmente a cavalo, ergueu-se nos estribos e deixou escapar um ruído característico, dizendo a Patarbémis ser aquela a sua resposta a Ápries; e como Patarbémis insistisse em levá-lo à presença do rei, Amásis declarou não ter razão de queixa contra o soberano, afirmando que iria ao seu encontro sem demora e em boa companhia. Percebendo-lhe a intenção e compreendendo pela resposta e pelos preparativos o que ele pretendia fazer, Patarbémis voltou incontinênti para dar a notícia ao rei. Vendo-o regressar sem Amásis, Ápries, num assomo de cólera e sem refletir nas conseqüências, mandou cortar-lhe o nariz e as orelhas. Um tratamento tão ultrajante a um homem tão ilustre irritou a tal ponto os Egípcios que ainda lhe eram fiéis, que estes o abandonaram, passando para o lado de Amásis.

CLXIII — Diante disso, Ápries, reunindo o restante das tropas auxiliares, compostas, em sua quase totalidade, de mercenários, somando trinta mil homens, partiu de Sais, onde havia um grande e soberbo palácio, para desbaratar os rebeldes. Amásis, por seu turno, concluiu seus preparativos e marchou contra os mercenários. Os dois exércitos se encontraram em Momênfis, entrando em luta.

CLXIV — Os Egípcios estão divididos em sete classes: os sacerdotes, os guerreiros, os boiadeiros, os guardadores de porcos, os negociantes, os intérpretes e os pilotos, designados pelos nomes das respectivas profissões. Os que seguem a carreira das armas chamam-se calasírios e hermotíbios e habitam determinadas províncias, pois, como é sabido, todo o Egito está dividido em províncias.

CLXV — São as seguintes as províncias dos hermotíbios: Busíris, Sais, Quémis, Paprémis, a ilha Prosópilis e a metade de Nato. Reúnem-se aí mais de cento e sessenta mil hermotíbios, dedicando-se todos à profissão das armas. Nenhum deles exerce qualquer arte mecânica.

CLXVI — Os calasírios ocupam Tebas, Bubástis, Áftis, Tânis, Mendes, Sebénis, Atríbis, Farbétis, Tumuis, Onúfis, Anísis e Miéforis — ilha situada em frente de Bubástis. Essas províncias reúnem cerca de duzentos e cinqüenta mil homens. Não lhes é permitido também exercer outra atividade que não a guerreira. Nesta, o filho sucede ao pai.

CLXVII — Não saberei dizer com certeza se os Gregos tiraram praxe dos Egípcios, pois eu a encontro instituída entre os Trácios, os Citas, os Persas e os Lídios. Entre a maioria dos bárbaros, os que aprendem as artes mecânicas, e mesmo seus filhos, são encarados como cidadãos inferiores, enquanto que se consideram nobres os que não praticam nenhuma de tais artes e, sobretudo, os que se consagram às armas. Daí a razão dessa preferência pela função guerreira. Todos os Gregos foram educados nesses princípios e, particularmente, os Lacedemônios. Deve-se, porém, excetuar os Coríntios, que têm os artífices em grande conta.

CLXVIII — Entre os Egípcios, são os guerreiros, depois dos sacerdotes, os que maiores privilégios desfrutam. Cada um tem direito a doze jeiras de terra, com isenção de qualquer imposto. (A jeira é uma medida agrária equivalente a cem côvados egípcios em quadrado, e o côvado egípcio é igual ao de Samos). Essa propriedade lhes era particularmente adjudicada, mas gozavam eles ainda de outras vantagens. Todos os anos, mil calasírios e mil hermotíbios iam servir de guardas do rei, e por tal serviço lhes doavam mais doze jeiras de terra. Além disso, cada um deles recebia, por dia de serviço, cinco minas de pão, duas de carne de boi e quatro medidas de vinho.

CLXIX — Ápries, à frente das tropas auxiliares, e Amásis, no comando de todos os Egípcios, encontraram-se em Momênfis e entraram em combate. Os mercenários bateram-se com denodo, mas, muito inferiores em número, não puderam evitar a derrota. Dizem que Ápries estava convencido de que nem mesmo um deus poderia destroná-lo. Foi, não obstante, vencido e feito prisioneiro. Levaram-no para Sais, encerrando-o no próprio palácio que lhe pertencera e que agora pertencia a Amásis. Viveu ele ali ainda algum tempo. Amásis tratava-o com todas as atenções, mas, por fim, como os Egípcios o censuravam por tal procedimento, contrário à verdadeira justiça, poupando a vida ao seu maior inimigo e maior inimigo do povo, acabou entregando-lhes o desventurado príncipe. Mal tiveram-no nas mãos, estrangularam-no, colocando depois o corpo no túmulo dos seus ancestrais, no recinto consagrado a Minerva, perto do templo, à esquerda de quem entra. Os Saítas enterravam nesse recinto todos os reis originários de Sais, e foi ali que também ergueram o monumento a Amásis. Esse monumento está um pouco mais afastado do templo do que o de Ápries. Junto ao pátio desse local sagrado vê-se uma grande sala de pedra, onde se erguem colunas imitando troncos de palmeiras e cobertas de adornos. Existe ali um nicho com uma porta de dois batentes. Nesse nicho puseram o esquife de Ápries.

CLXX — Encontra-se também em Sais o sepulcro daquele(31) que não me julgo autorizado a mencionar aqui. Fica no recinto sagrado, atrás do templo de Minerva e ligado ao muro do mesmo em toda a sua extensão. Logo adiante erguem-se grandes obeliscos de pedra, e junto a estes, um lago com as bordas revestidas de pedra. O lago tem a forma circular, rivalizando em tamanho com o de Delos, igualmente circular.

CLXXI — À noite, os habitantes da cidade reconstituem nesse lago os episódios ocorridos com aquele cujo nome evito citar. Os Egípcios chamam a isso mistérios. Embora possuindo grande conhecimento de tais coisas, não as revelarei, e manterei a mesma atitude com relação aos ritos de Ceres, que os Gregos denominam Tesmofórios. Limito-me a dizer que as filhas de Dânao levaram do Egito esses mistérios e ensinaram-nos às mulheres dos Pelasgos; mas havendo os Dórios expulsado os antigos habitantes do Peloponeso, o culto desapareceu, exceto entre os Árcades, que, naquela região, foram os únicos a conservá-lo.

CLXXII — Perecendo Ápries, de maneira tão trágica quanto inesperada, Amásis, natural de Siuf, na província de Saíta, subiu ao trono. No começo do seu reinado, o povo encarava-o com certo desprezo por ser ele de origem plebéia e não de estirpe ilustre como seus predecessores; mas dentro de pouco tempo ele já havia conquistado a simpatia de todos pela firmeza e habilidade com que agia.

Entre uma infinidade de coisas preciosas que lhe pertenciam figurava uma bacia de ouro, onde ele e seus ilustres comensais lavavam os pés. Amásis mandou fazer com ela a estátua de um deus, colocando-a no principal logradouro da cidade. Os habitantes começaram a reunir-se constantemente em torno dessa estátua para render-lhe culto. Sabedor desse fato, o soberano convocou-os e declarou-lhes que aquela estátua, à qual eles dedicavam tanta veneração, provinha de uma bacia de ouro em que anteriormente se tinha vomitado, urinado e lavado os pés. “A origem dessa estátua — acrescentou ele — faz lembrar a minha própria: eu era plebeu; atualmente sou o vosso rei. Exorto-vos, pois, a prestar-me as homenagens que me são devidas”. Essas palavras calaram fundo no coração de seus súditos, levando-os a modificar totalmente sua atitude para com ele. Começaram a prestar-lhe toda obediência e a servi-lo com a maior boa vontade.

CLXXIII — Amásis sabia regular suas atividades e divertir-se quando os deveres do cargo não exigiam maior atenção sua. Era madrugador, dedicando as primeiras horas do dia à apreciação e julgamento das causas que se lhe apresentavam. À hora do repasto gracejava com os convivas, mostrando-se brejeiro e frívolo. Os que lhe eram mais chegados alarmavam-se com essa conduta, tão imprópria para um rei, e procuravam mostrar-lhe o erro em que incorria olvidando as regras em que se apoiava a dignidade do trono. A um deles, que o exprobrou dizendo-lhe que sua conduta não se coadunava com a função de chefia que desempenhava, e que devia tratar com maior seriedade e interesse os negócios do Estado, a fim de que seus súditos vissem nele um grande homem, capaz de governá-los e abrir novos horizontes para o império, ele retrucou desta maneira: “Não sabes que não se dobra um arco senão quando se quer lançar a flecha, e que, isso feito, deve-se logo afrouxar a corda para conservá-lo sempre em condições de prestar serviço quando necessário? O homem é como esse arco: se se mantiver retesado ante seus inúmeros problemas; se estiver sempre empenhado em coisas sérias, sem nenhum descanso ou distração, acabará arruinando a própria vida. É por isso que procuro repartir bem o meu tempo entre os negócios e os prazeres”.

CLXXIV — Dizem que Amásis, quando simples cidadão, fugiu a tudo que lhe trouxesse preocupações, entregando-se inteiramente à bebida e aos divertimentos. Se lhe faltava dinheiro e não encontrava meios de satisfazer sua inclinação pela boa mesa, procurava obtê-lo de uma maneira ou de outra. Os que se acreditavam lesados por ele ameaçavam-no, ante as negativas mais peremptórias, com os oráculos. Alguns destes o acusavam, enquanto que outros diziam-no inocente. Ao subir ao trono votou total desprezo pelos deuses que o tinham absolvido dessas passadas faltas, não dispensando cuidado algum aos seus templos e não lhes oferecendo sacrifícios, por julgá-los indignos de qualquer culto e falsos os seus oráculos. Manifestou, ao contrário, a maior admiração pelos deuses que o tinham acusado, considerando-os justos, e verdadeiros os seus oráculos.

CLXXV — Mandou construir em Sais, em honra a Minerva, o pórtico do templo dessa deusa. É uma obra digna de admiração, sobrepondo-se a todas as outras do mesmo gênero, tanto pela altura e grandeza, como pela qualidade e tamanho das pedras nela empregadas. Por ordem sua foram ali colocadas estátuas colossais e esfinges de tamanho descomunal, e grossas pedras foram transportadas para o templo, a fim de serem empregadas na sua reparação. As pedras menores foram tiradas das pedreiras situadas nas proximidades de Mênfis, mas as maiores vieram da cidade de Elefantina, vinte dias de navegação distante de Sais.

O que, porém, mais admirei ali foi um edifício feito de uma só pedra trazida de Elefantina. Dois mil homens, todos barqueiros, trabalharam durante três anos no transporte dessa enorme pedra. O edifício mede, na parte externa, vinte e um côvados de comprimento, quatorze de largura e oito de altura, e na parte interna, dezoito, doze e cinco, respectivamente. Acha-se situado à entrada do recinto sagrado. Dizem os habitantes de Sais, que não o levaram para dentro porque, no momento em que tentavam fazê-lo entrar, o arquiteto, fatigado pelo prolongado trabalho, soltou um profundo suspiro, que Amásis interpretou como um mau presságio, ordenando que o deixassem ficar ali mesmo. Dizem outros que um dos trabalhadores, quando ajudava a remover o edifício para o recinto com o auxílio de alavancas, ficou esmagado debaixo do mesmo, motivo por que foi abandonado o intento.

CLXXVI — Amásis presenteou também todos os outros templos célebres com obras admiráveis pela sua magnitude. Mandou colocar em Mênfis, frente ao tempo de Vulcano, uma colossal estátua deitada de costas, medindo setenta e cinco pés de comprimento. Vêem-se de um lado e do outro do templo, duas estátuas de pedra da Etiópia, também de grandes proporções, representando figuras de corpo inteiro, com vinte pés de altura cada uma. O vasto e magnífico templo de Ísis, que suscita a admiração de quantos visitam Mênfis, foi igualmente dádiva de Amásis.

CLXXVII — Dizem que o Egito nunca foi tão próspero e feliz como no reinado de Amásis, não só devido à fecundidade do solo, proporcionada pelo Nilo durante aquele período, de que resultou grande abundância de produtos agrícolas para os habitantes (havia então vinte mil cidades, todas muito bem povoadas), como pelas leis sábias traçadas pelo soberano para regular a economia da nação, como por exemplo a que determinava que cada egípcio declarasse, todos os anos, de que fundos tirava sua subsistência. Quem não obedecia ao preceito da lei ou não podia provar que vivia de meios honestos era punido com a morte. Sólon, o ateniense, adotou em Atenas essa lei, ainda hoje em vigor naquela cidade, por ser muito sensata e justa.

CLXXVIII — Amásis deu inúmeras provas de sua amizade aos Gregos, prestando favores a muitos deles. A muitos dos Gregos que iam freqüentemente ao Egito e demonstravam gostar do país, deu permissão para se estabelecerem em Náucratis, e aos que não queriam ali fixar residência e que não viajavam senão por interesse comercial concedeu locais para a ereção de templos e altares aos deuses de sua predileção. O maior e o mais célebre dos templos construídos no Egito por esses viajantes chama-se Helênio, ou templo grego. Sua construção foi financiada por cidades iônias, dórias e uma eólia, que se cotizaram para a grande obra. As cidades iônias foram: Quios, Teos, Focéia e Clazômenas; as dórias: Rodes, Cnide, Halicarnasso e Fasélis. A única cidade eólia a cooperar foi Mitilene. O Helênio ficou pertencendo a todas essas cidades, tendo elas o direito de ali estabelecer seus juízes. Outras cidades se arrogam o mesmo direito, pretendendo, sem fundamento, haverem contribuído para a construção do templo. Os Eginetas ergueram, para eles próprios, um templo a Júpiter; os Samenses, a Juno, e os Milésios, a Apolo.

CLXXIX — Náucratis era outrora a única cidade comercial do Egito. Se um negociante transpunha outra boca do Nilo que não a Canópica, tinha de jurar não haver entrado voluntariamente, e, depois de haver prestado o juramento, dirigia-se com o navio para a embocadura Canópica. Se os ventos contrários impediam-no de atingi-la, era obrigado a transportar as mercadorias em barcos ao longo do delta até Náucratis.

CLXXX — Tendo um incêndio casual destruído o antigo templo de Delfos, os Anfictiões abriram uma subscrição de trezentos talentos para a reconstrução do mesmo. Os Délfios, taxados com a quarta parte dessa soma, fizeram uma coleta de cidade em cidade, reunindo valiosas dádivas. As recebidas no Egito não foram menos importantes. Amásis contribuiu com mil talentos, e os Gregos estabelecidos no Egito, com vinte minas de prata.

CLXXXI — O soberano firmou um tratado de amizade e aliança com os Cireneus e resolveu também escolher uma esposa na Cirenaica, fosse porque tivesse grande estima aos Gregos, ou porque quisesse dar aos Cireneus uma prova de afeto. Desposou Laódice, segundo uns filha de Bato, que, por sua vez, era filho de Arcésilas, e segundo outros, filha de Critóbulo, figura de destaque entre seus concidadãos. Amásis, porém, não era bastante forte para essa mulher, embora o fosse para as outras, e, certo dia, quando a situação já se tornara insustentável, falou-lhe sem preâmbulos: “Laódice, tu me enfeitiçaste; mas quero que saibas que nada te salvará da morte mais cruel que pode sofrer uma mulher”. Vendo baldados todos os seus esforços para apaziguá-lo, recorreu ela à proteção de Vênus, fazendo um voto, no templo, de enviar uma estátua da deusa à Cirenaica se Amásis fosse procurá-la na noite seguinte. Essa promessa valeu-lhe as boas graças da deusa, pois Amásis reconciliou-se com ela, e a felicidade de ambos nunca mais foi perturbada. Cumprindo sua promessa, Laódice mandou fazer uma estátua da deusa e enviou-a à Cirenaica, onde ainda hoje se encontra. Cambises, tendo-se tornado senhor do Egito e sabendo, pela própria Laódice, quem era ela e de onde viera, recambiou-a para a Cirenaica, sem lhe fazer mal algum.

CLXXXII — Amásis fez também várias oferendas aos templos da Grécia. Enviou à Cirenaica uma estátua dourada de Minerva, juntamente com o seu retrato; ao templo de Minerva, na cidade de Linde, duas estátuas de pedra e uma couraça de linho digna de admiração; ao templo de Juno, em Samos, duas estátuas de madeira, representando ele próprio. Foram ambas colocadas no grande templo, atrás das portas, onde ainda hoje podem ser vistas. As dádivas a Samos, ele as fez por amizade a Polícrates, filho de Ájax; mas o que o levou a presentear o templo de Minerva, em Linde, foi o fato de ter sido ele construído pelas filhas de Dânao, quando ali foram ter, fugindo à perseguição dos filhos de Egito.

Amásis foi o primeiro soberano a impor seu domínio à ilha de Chipre, obrigando-a a pagar-lhe tributo.


 

LIVRO III

TÁLIA

O EGITO — A PÉRSIA — CAMBISES — MÊNFIS — O BOI ÁPIS — A ETIÓPIA — POLÍCRATES — AMÁSIS — O FALSO ESMÉRDIS — DARIO — O CERCO DE BABILÔNIA — ZÓPIRO, ETC.


 

I — Foi contra Amásis que marchou Cambises, filho de Ciro, com um exército composto de povos submetidos, entre os quais os Iônios e os Eólios. Eis aqui o motivo dessa guerra: Cambises, por um embaixador, mandara pedir a mão da filha de Amásis. Movera-o a isso o conselho de um médico egípcio, que desejava vingar-se de Amásis, pois este o tinha separado da esposa e dos filhos para enviá-lo à Pérsia, quando Ciro solicitou ao soberano que lhe enviasse o melhor especialista em moléstia dos olhos existente no Egito. Ressentido com seu soberano por ter a escolha recaído sobre ele, o médico não cessava de animar Cambises a pedir a filha de Amásis em casamento, sabendo que, se este recusasse o pedido, Cambises o odiaria. Amásis, que detestava os Persas tanto quanto lhes temia o poderio, não sabia se devia ou não aceder à solicitação do príncipe persa, tanto mais que não ignorava que sua intenção não era desposar a princesa, mas fazê-la sua concubina. Depois de muito refletir, Amásis tomou a seguinte resolução:

Vivia na corte uma filha de Ápries, por ele destronado, única sobrevivente da família e dotada de grande beleza. Chamava-se Nitétis. Fazendo-a vestir riquíssimo traje, todo bordado de ouro, Amásis enviou-a à Pérsia, como se fosse sua filha. Algum tempo depois, como Cambises a saudasse pelo nome do pai, ela replicou nestes termos: “Amásis, senhor, vos enganou. Enviou-me ele a vós com estas ricas indumentárias em lugar de sua filha. Meu pai chamava-se Ápries, por ele destronado e morto pelos Egípcios que se sublevaram sob seu comando”. Cambises, irado ante aquela revelação, decidiu prontamente vingar-se, declarando guerra ao Egito.

II — Foi essa, segundo os Persas, a causa da guerra que Cambises moveu contra os Egípcios. Estes, porém, pretendem que Cambises era filho dessa filha de Ápries, pedida em casamento por Ciro e não por esse príncipe, como querem os Persas. Reivindicando, assim, a linhagem de Cambises, os Egípcios alteram a verdade histórica, porquanto, estando eles tão bem informados sobre as leis e os costumes dos Persas, devem saber que, na Pérsia, a lei não permite ao filho natural suceder ao pai no trono. Além do mais, Cambises era filho de Cassandana, filha de Farnaspes, da estirpe dos Aquemênidas, e não de uma mulher egípcia.

III — Conta-se ainda, com relação a essa controvertida origem da guerra persa-egípcia, a seguinte história, pouco verossímil na minha opinião: Indo, certa ocasião, à presença da esposa de Ciro, uma mulher persa mostrou-se impressionada com a beleza e a graça dos filhos de Cassandana, fazendo-lhes os maiores elogios. “Pois saiba — teria respondido Cassandana — que, embora mãe de tão belos filhos, Ciro não me vota senão desprezo, dispensando todos os seus cuidados e atenções à escrava egípcia”. Vendo-a falar assim, Cambises, o primogênito, declarou enfaticamente: “Minha mãe, quando eu for homem destruirei o Egito de ponta a ponta”. Essas palavras do jovem príncipe, que contava apenas dez anos de idade, assustaram as duas mulheres. Ao subir ao trono da Pérsia, Cambises, lembrando-se do que prometera, declarou guerra ao Egito.

IV — Pouco antes do início das hostilidades sobreveio um acontecimento que muito contribuiu para o êxito das armas persas. Um oficial das tropas auxiliares de Amásis, de nome Fanes, natural de Halicarnasso, muito sensato e guerreiro destemido, descontente com o soberano abandonou o Egito por mar para ir ter com Cambises. Como ocupava posto importante entre as tropas auxiliares e estava bem a par dos negócios do império, Amásis tudo fez para capturá-lo. Ordenou ao mais fiel dos seus eunucos que o perseguisse num trirreme, o prendesse e o trouxesse à sua presença. Este alcançou-o na Lícia e fê-lo prisioneiro, mas não chegou a reconduzi-lo ao Egito, pois Fanes embriagou os guardas e fugiu, atingindo finalmente a corte persa. Cambises se dispunha então a marchar contra os Egípcios, mas retinha-o a dificuldade de atravessar os desertos. Foi quando Fanes ali se apresentou, informando-o sobre a situação no Egito e sobre a estrada que deveria tomar para atravessar os desertos, aconselhando-o, ao mesmo tempo, a mandar pedir ao soberano da Arábia permissão para passar com segurança pelas suas terras.

V — Era esse, realmente, o único meio de que ele poderia dispor para penetrar no Egito, pois a Síria se estende da Fenícia aos confins de Cadítis. Desta cidade, que rivaliza em tamanho com Sardes, até Jenísus, todas as praças marítimas pertencem aos Árabes. De Jenísus ao lago Serbónis, perto do qual se acha o monte Cásio, que se prolonga até o mar, e onde se penetra novamente em terras dos Sírios, estende-se um imenso deserto. Leva-se três dias de marcha forçada para transpô-lo. O Egito começa no lago Serbónis, no qual se diz ter-se ocultado Tifão.

VI — Entre aqueles que têm ido ao Egito por mar, poucos são os que conhecem este interessante costume ali praticado: Duas vezes por ano, grande quantidade de jarros de barro cheios de vinho procedentes de todas as regiões da Grécia e, também, da Fenícia, é levada para o Egito. Entretanto, não se vê ali nenhum desses jarros. Que é feito deles? Eis a explicação: Em cada uma das cidades, o chefe local é obrigado a reunir todos os jarros ali encontrados e a enviá-los para Mênfis. De Mênfis, são levados, cheios de água, às regiões mais áridas da Síria. Assim, todos os jarros enviados para o Egito cheios de vinho, servem, depois de vazios, para amenizar a aridez das terras sírias. É esse o motivo por que não são encontrados no Egito tais jarros.

VII — Foram os Persas que facilitaram a passagem através do deserto até a Síria por meio desse transporte de água em jarros, quando se tornaram senhores do Egito. Como, porém, na época da aludida expedição não havia absolutamente provisão de água no local, Cambises, seguindo os conselhos de Fanes de Halicarnasso, enviou embaixadores ao rei dos Árabes para pedir-lhe passagem franca pelas suas terras, o que obteve, em seguida a um juramento recíproco.

VIII — Não há povo mais religioso e fiel aos juramentos do que os Árabes. A prestação de um juramento obedece, entre eles, a certos requisitos considerados indispensáveis à sua completa validez e garantia. Quando querem empenhar a palavra a alguém, recorrem à intervenção de um terceiro. Esse mediador, de pé, entre os dois contratantes, faz, com uma pedra aguçada de que se acha munido, uma incisão na palma da mão de ambos, perto do polegar. Toma, em seguida, da pelúcia do traje de cada um e embebe-a no sangue resultante da incisão. Feito isso, toma das sete pedras colocadas entre ambos e atrita-as umas contra as outras, enquanto invoca Baco e Urânia. Terminada a cerimônia, o que empenhou sua palavra oferece ao estrangeiro — ou ao seu concidadão, se for este o caso — seus amigos como garantia. Os Árabes não conhecem outros deuses senão Baco e Urânia, a que denominam Urotal e Alilá, respectivamente. Têm o hábito de raspar a cabeça como, segundo dizem, Baco raspava, isto é, em círculo e em redor das têmporas.

IX — Concluído o tratado com os embaixadores de Cambises, o rei da Arábia mandou encher de água os surrões e carregar com eles todos os camelos existentes no país, enviando-os para as regiões áridas, onde ficaram aguardando o exército de Cambises.

Há, na Arábia, um grande rio denominado Córis, que desemboca no mar da Eritréia. Pouco além desse rio, o rei da Arábia mandou fazer um aqueduto com peles de bois e outros animais, ligadas umas às outras. O aqueduto estendia-se do rio aos lugares áridos, levando a água para grandes cisternas, cavadas especialmente para recebê-la e conservá-la. Do rio ao deserto há doze dias de marcha. Dizem alguns que a água era conduzida de três lugares por três aquedutos diferentes.

X — Psaménito, filho de Amásis, acampou perto da embocadura pelusiana do Nilo, onde esperou o inimigo. Acabava de suceder ao pai, que já não vivia quando Cambises iniciou sua marcha sobre o Egito. Tinha morrido, depois de um reinado de quarenta e quatro anos, durante os quais não sofrera nenhum revés. Depois de sua morte, embalsamaram-no e puseram-no num monumento erguido no recinto sagrado do templo de Minerva.

Logo que Psaménito subiu ao trono, deu-se no Egito um fato bastante curioso e que a todos causou espanto: choveu em Tebas, coisa que ali jamais se registrara e que, como afirmam os próprios Tebanos, nunca mais se registrou desde essa época até os nossos dias. Foi uma ocorrência verdadeiramente excepcional, pois jamais chove no Alto Egito.

XI — Quando os Persas transpuseram a região árida e acamparam a pouca distância dos Egípcios, preparando-se para lhes dar combate, os Gregos e os Cários a soldo de Psaménito, indignados com a atitude de Fanes trazendo ao Egito um exército estrangeiro, vingaram-se nos filhos que o traidor havia deixado no país ao partir para a Pérsia. Levaram-nos ao acampamento e, colocando-os bem à vista do pai, junto a uma cratera, degolaram-nos um após outro. Em seguida, misturando o sangue com vinho e água na cratera, beberam-no, iniciando então o combate. A luta foi rude e sangrenta, ficando o campo juncado de cadáveres de ambos os lados. Por fim, os Egípcios, com suas fileiras dizimadas e esgotadas pela refrega, bateram em retirada.

XII — Visitando o local onde se travou essa batalha, ainda tive oportunidade de ver as ossadas dos que tombaram para sempre na peleja. Alguns dos crânios estavam tão frágeis pela ação do tempo, que, tocando-se-lhes mesmo de leve, logo se desfaziam em pó. Outros, ao contrário, mantinham-se duros e resistentes, fendendo-se somente sob um forte golpe. Os que tão frágeis se mostravam pertenciam a soldados persas; os sólidos, a combatentes egípcios. Foi o que me disseram moradores daquela região, que acrescentaram serem capazes de identificá-los por uma razão muito simples: os Egípcios começam desde tenra idade a raspar a cabeça, de que resulta o endurecimento do crânio pela ação do sol. Daí ser bem menor a proporção de homens calvos no Egito do que nos outros países. Os Persas têm o crânio frágil porque não o expõem ao sol e às intempéries, trazendo a cabeça sempre protegida por uma tiara. Essa observação, que me pareceu muito lógica, eu a fiz pouco mais tarde em Paprémis, com relação às ossadas dos que foram derrotados sob o comando de Aquêmenes, filho de Dario, por Inaros, rei da Líbia.

XIII — Vendo perdida a batalha contra os Persas, os Egípcios se retiraram em desordem para Mênfis, onde se entrincheiraram. Ciente disso, Cambises mandou, por um emissário, convidá-los a negociar com ele. O emissário subiu o rio num navio mitileno. Ao verem a embarcação aportar em Mênfis, os Egípcios saíram em massa da cidadela e destruíram-na, reduzindo a pedaços seus tripulantes e levando os membros decepados para o reduto; os Persas, em vista dessa atitude violenta, resolveram sitiar a cidade, e eles foram obrigados a render-se.

Os Líbios, vizinhos dos Egípcios, receando a mesma sorte, submeteram-se sem luta. Impuseram a si mesmos um tributo e enviaram presentes a Cambises. Sua ação foi imitada pelos Cireneus e pelos Barceus. O soberano recebeu favoravelmente os presentes destes últimos, mas não apreciou os dos Cireneus, naturalmente porque não eram valiosos — não iam além de quinhentas minas de prata, por ele distribuídas entre os soldados.

XIV — No décimo dia após a captura de Mênfis, Cambises, para humilhar Psaménito, que reinara durante seis meses apenas, mandou conduzi-lo, com outros Egípcios, a um arrabalde, e, para pôr à prova sua firmeza de ânimo, fez vestir a filha do príncipe de escrava, enviando-a, com uma bacia na mão, em busca de água. Acompanhavam-na várias outras jovens escolhidas pelo conquistador entre as da melhor categoria e igualmente vestidas de escravas, as quais, ao passarem perto de seus pais, caíram em pranto, pondo-se a gritar e a lamentar-se. Estes, vendo as filhas em tão humilhante situação, não puderam conter as lágrimas. Psaménito, porém, limitou-se a baixar os olhos.

Em seguida àquele espetáculo, Cambises fez desfilar diante do soberano vencido seu filho e mais dois mil compatriotas da mesma idade, tendo uma corda ao pescoço e um freio à boca. Iam aplicar-lhes a pena de morte para vingar os Mitilenos massacrados em Mênfis. Os juízes reais tinham determinado que, para cada vítima daquele massacre, fossem sacrificados dez jovens egípcios, escolhidos entre os das melhores famílias. Psaménito reconheceu o filho entre os outros condenados, mas, ao contrário dos outros pais egípcios, que, em torno dele, choravam e se lamentavam, soube controlar seus sentimentos, como o fizera diante da filha. Logo após a passagem dos jovens, Psaménito pousou os olhos sobre um andrajoso ancião, que identificou prontamente como um dos seus antigos e habituais comensais. Despojado de todos os seus bens, aquele homem, outrora rico e influente, implorava agora a caridade pública, indo de porta em porta mendigando um pouco de alimento. Ante aquela cena, o ex-soberano não conteve as lágrimas e chamou o ancião pelo nome. Os guardas encarregados por Cambises de observar todos os movimentos e atitudes de Psaménito, notando aquele seu procedimento apressaram-se em levar o fato ao conhecimento de seu soberano. Este mandou um emissário inquiri-lo sobre tão estranha conduta. “Cambises, nosso rei e senhor vosso — falou o emissário — deseja saber por que não vos lamentastes nem chorastes ao ver vossa filha tratada como escrava e vosso filho marchando para a morte, enquanto que tão comovido vos mostrastes à vista daquele mendigo que não é nem vosso parente nem vosso aliado”. “Ide e dizei ao vosso soberano — respondeu Psaménito — que as desgraças de minha família são muito grandes para que eu as possa chorar; mas a triste sorte de um amigo que, já na velhice, cai na indigência depois de haver possuído tantas riquezas, merece indubitavelmente minhas lágrimas sinceras”.

Cambises achou essa resposta sensata. Dizem os Egípcios ter ela feito chorar não somente a Creso, que havia acompanhado o rei dos Persas ao Egito, como a todos os Persas ali presentes; e que Cambises ficou de tal maneira comovido, que mandou libertar imediatamente o filho de Psaménito, retirá-lo do número dos condenados à morte e enviá-lo para junto do pai.

XV — O jovem príncipe, porém, foi encontrado já sem vida. Tinham-no executado em primeiro lugar. Levaram, então, Psaménito a Cambises, junto do qual passou o soberano vencido o resto dos seus dias, sem sofrer nenhum mau trato. Cambises ter-lhe-ia mesmo devolvido o trono do Egito se não tivesse suspeitado estar ele, com suas intrigas, procurando perturbar os negócios do Estado; pois os Persas têm o costume de honrar os filhos dos reis, e mesmo de restituir-lhes o trono que seus pais perderam na guerra. Poderia citar vários exemplos como prova disso. Contentar-me-ei em lembrar o de Taniras, filho de Inaros, rei da Líbia, a quem eles entregaram o reino que o pai possuíra, e o de Pausíris, filho de Amirteu, a quem foram restituídos os estados perdidos pelo pai, embora nenhum outro rei tivesse causado maior dano aos Persas do que Inaros e Amirteu. Psaménito foi, todavia, mal sucedido em sua conspiração contra o novo governo. Concitando os Egípcios à revolta, foi descoberto e condenado por Cambises a beber sangue de touro, morrendo instantaneamente.

XVI — Cambises partiu de Mênfis para Sais, com o propósito de ali fazer o que realmente fez. Assim que chegou ao local onde repousava o corpo de Amásis, mandou tirá-lo da sepultura, fustigá-lo e cobri-lo de mil outros ultrajes. Vendo que os executores, apesar dos rudes e contínuos golpes vibrados contra o cadáver, não conseguiam arrancar-lhe nenhum pedaço, pois estava muito bem embalsamado, Cambises ordenou que o queimassem, sem nenhum respeito à religião de seu próprio povo. Com efeito, os Persas consideram o fogo um deus, sendo-lhe vedado, tanto por suas leis, como pelas dos Egípcios, queimar os mortos, pois um deus não deve alimentar-se do cadáver de um homem. Os Egípcios, por sua vez, estão convencidos de que o fogo é um animal feroz, que devora tudo que encontra ao seu alcance e que, depois de saciado, sucumbe em conseqüência daquilo que consumiu. As leis egípcias proíbem que se abandonem cadáveres humanos às feras, e eles são embalsamados para evitar que os vermes os devorem. Cambises praticou, por conseguinte, um ato condenado pelas leis de ambos os povos. Todavia, a dar-se crédito aos Egípcios. não era de Amásis o corpo tratado de maneira tão indigna, mas o de outro egípcio de porte semelhante ao do soberano, a quem os Persas, por engano, profanaram. Dizem que Amásis, informado por um oráculo do que lhe devia acontecer depois de morto, procurou evitar que a predição se cumprisse, mandando colocar no interior do seu monumento, junto à porta, o corpo de um cidadão egípcio, encarregando o filho de colocar o seu bem no fundo do mesmo sepulcro. Julgo, porém, que isso não passa de fábula, inventada para satisfazer a vaidade dos próprios Egípcios.

XVII — Submetido o Egito, Cambises decidiu fazer guerra a três outros povos: aos Cartagineses, aos Amônios e aos Etíopes-Macróbios, que habitam a parte da Líbia do lado do mar Austral. Traçados os planos para essas expedições, resolveu o soberano lançar sua força naval contra os primeiros, e um forte destacamento de suas tropas de terra contra os segundos. Quanto aos Etíopes, preferiu sondar primeiramente suas possibilidades de resistência e preparar o terreno para a invasão, infiltrando espiões entre aquele povo, os quais, sob o pretexto de levar presentes ao rei, procurariam certificar-se da existência da Mesa do Sol e conhecer o que ainda ignoravam sobre o país.

XVIII — Eis em que consiste a Mesa do Sol: Há, nas cercanias da capital dos Etíopes, um prado coberto de carne cozida de todas as espécies de animais quadrúpedes, que os magistrados para ali mandam conduzir durante a noite. Quando surge o dia, cada um pode lá servir-se do que mais lhe agradar. Os habitantes dizem que a terra produz por si mesma todas essas carnes.

XIX — Tendo resolvido enviar espiões a esse país, Cambises mandou incontinênti chamar, na cidade de Elefantina, alguns Ictiófagos que conheciam a língua etíope. Nesse ínterim, ordenou à sua força naval que se dirigisse para Cartago, mas os Fenícios recusaram-se a obedecer porque estavam ligados aos Cartagineses pelos mais solenes juramentos e achavam que, lutando contra eles, estariam cometendo um verdadeiro sacrilégio. Devido a essa recusa, e como o restante da frota não estava em condições de realizar com êxito a expedição, puderam os Cartagineses subtrair-se ao jugo que lhes preparavam os Persas. Cambises não julgou de justiça forçar os Fenícios a obedecer-lhe, porquanto eles se tinham submetido voluntariamente, e, além disso, constituíam parte essencial de sua armada. Os habitantes da ilha de Chipre também se haviam submetido de livre vontade aos Persas e os tinham acompanhado ao Egito.

XX — Quando os Ictiófagos chegaram de Elefantina, Cambises instruiu-os sobre o que deviam fazer na Etiópia, enviando-os para lá com presentes ao rei: um traje de púrpura, um colar de ouro, braceletes, um vaso de alabastro cheio de essência e um barril de vinho de palmeira.

Dizem que os Etíopes são, de todos os homens, os de maior estatura e de mais bela compleição física, tendo também costumes diferentes dos dos outros povos. Entre eles, o mais digno de usar a coroa é o que apresenta maior altura e força proporcional ao seu porte.

XXI — Os Ictiófagos, chegando à Etiópia, entregaram os presentes ao rei, dizendo-lhe: “Cambises, rei dos Persas, desejando a vossa amizade e a vossa aliança, envia-nos para conferenciar convosco e vos oferece estes presentes, coisas muito apreciadas entre eles”.

O soberano etíope, não ignorando tratar-se de espiões, respondeu-lhes nestes termos: “Não foi o vivo desejo de fazer amizade comigo que levou o rei dos Persas a vos enviar aqui com estes presentes. Estais ocultando a verdade. Vindes sondar os recursos dos meus estados, e vosso senhor não é um homem justo. Se o fosse não cobiçaria terras alheias e não procuraria reduzir à servidão um povo que nenhum mal lhe fez. Levai a ele este arco de minha parte e dizei-lhe que o rei da Etiópia o aconselha a vir fazer-lhe guerra com forças bem numerosas e quando os Persas puderem vergar um arco igual a este, tão facilmente como ele; e enquanto aguarda esse momento, que renda graças aos deuses por não terem inspirado aos Etíopes o desejo de alargar o país com novas conquistas!”

XXII — Dito isso, o soberano distendeu o arco e entregou-o aos Ictiófagos. Em seguida, tomou do traje de púrpura e perguntou-lhes o que era a púrpura e como a faziam. E quando os Ictiófagos lhe revelaram que aquilo que ele tinha nas mãos não passava de um tecido grosseiro tingido com uma substância corante, exclamou: “Estes homens são tão falsos como estas vestes!” Interrogou-os, depois, sobre o colar e o bracelete. Como os Ictiófagos respondessem que eram ornamentos, pôs-se a rir, e, tomando-os por correntes, disse-lhes que as dos Etíopes eram bem mais fortes do que aquelas. Chegando a vez da essência e explicando-lhe os estrangeiros sua composição e uso, o soberano respondeu-lhes da maneira como o fizera com relação à púrpura. Ao interrogá-los, finalmente, sobre o vinho, e tendo-lhe sido explicada a maneira de fabricá-lo, mostrou-se muito satisfeito com a bebida. Continuando, perguntou-lhes como se alimentava o rei dos Persas e qual a idade mais longa entre eles. Os espiões responderam que o alimento básico do rei era o pão e esclareceram-no sobre a natureza do fermento. Acrescentaram que a idade mais avançada entre os Persas era de oitenta anos, ao que ele retrucou não admirar que homens que se alimentavam de esterco vivessem tão pouco, dizendo estar persuadido de que se eles não reparassem as forças com aquela bebida (referia-se ao vinho) viveriam menos ainda, pois só naquele invento tinham superioridade sobre os Etíopes.

XXIII — Os Ictiófagos interrogaram-no, por sua vez sobre a longevidade dos Etíopes e seu modo de vida. Respondeu ele que a maioria chegava a cento e vinte anos, atingindo alguns idade mais avançada; que se alimentavam de carne cozida, sendo o leite sua principal bebida. Como os espiões se mostrassem espantados com a longevidade daquele povo, o soberano conduziu-os a uma fonte onde os que ali se banham saem com o corpo impregnado do perfume da violeta e mais lustroso do que se o houvessem friccionado com óleo. De regresso de sua frustrada missão, os espiões disseram que a água dessa fonte era tão leve, que nem mesmo a madeira e outros corpos ainda mais leves podiam nela flutuar. Tudo que nela caía, afundava imediatamente. Se essa água é tão leve assim, é provável que o seu uso permanente seja a causa da longevidade dos Etíopes.

Da fonte, o soberano conduziu os Ictiófagos à prisão. Todos os presos estavam agrilhoados com correntes de ouro, pois, entre os Etíopes, o mais raro e mais precioso de todos os metais é o cobre. Após a visita à prisão foi-lhes mostrada a denominada Mesa do Sol.

XXIV — Por fim, o soberano levou-os para ver os sepulcros etíopes, que, segundo dizem, são feitos de cristal e preparados do seguinte modo: dessecam primeiramente o corpo à maneira dos Egípcios ou de outra maneira qualquer, endurecendo-o, em seguida, com uma pasta onde são desenhadas as feições do morto. Isso feito, colocam-no numa coluna de cristal oca e transparente, de custo bastante acessível, uma vez que o cristal é extraído abundantemente das minas ali existentes. Pode-se ver perfeitamente o morto através dessa coluna. Não exala nenhum mau cheiro e nem apresenta qualquer aspecto desagradável. Os parentes mais próximos do morto guardam a coluna em casa pelo espaço de um ano, durante o qual lhe oferecem sacrifícios e rendem-lhe outras homenagens. Passado esse período, levam-na para um local qualquer nos arredores da cidade.

XXV — Partindo de regresso ao Egito, os espiões de Cambises fizeram-lhe um relato completo do que se passara na corte etíope. O soberano, tomado de cólera ante o inesperado desfecho da missão, decidiu marchar incontinênti contra os Etíopes, e, sem mesmo providenciar sobre o abastecimento de víveres para o exército e sem pensar na distância que o separava do país que ia atacar, pôs-se a caminho com quase todas as tropas de terra, deixando no Egito apenas os Gregos que o tinham acompanhado até lá. Ao chegar a Tebas, escolheu cerca de cinqüenta mil homens, ordenando-lhes que reduzissem os Amônios à escravidão e depois queimassem o templo onde Júpiter concedia oráculos, após o que continuou a marcha para a Etiópia com o restante do exército.

As tropas ainda não tinham feito a quinta parte da jornada, quando se viram inteiramente desprovidas de alimento, sendo obrigadas a lançar mão das bestas de carga para minorar a situação, que, entretanto, continuou precária. Se Cambises, ao constatar a falta de víveres, tivesse reconsiderado o seu erro e regressado com o seu exército, teria agido como homem sensato. Mas, sem levar em conta a gravidade da situação, continuou a marcha para diante Enquanto havia campo, os soldados alimentavam-se com ervas que iam colhendo à sua passagem; mas ao chegarem à região árida, a fome tornou-se cruciante, levando-os a cometer horrível desatino: tiraram a sorte e comeram um companheiro entre cada dez. Ao ter conhecimento do fato, Cambises, receando que os soldados continuassem devorando uns aos outros, resolveu desistir da empresa, regressando a Tebas, onde chegou com suas tropas já bastante desfalcadas. De Tebas foi a Mênfis, onde despediu os Gregos, permitindo-lhes voltar à pátria.

XXVI — Quanto às tropas enviadas contra os Amônios, conta-se que, partindo de Tebas acompanhadas de guias, atingiram Oásis, cidade habitada pelos Sâmios, pertencentes, segundo dizem, à tribo escrioniana. Oásis, que em grego denomina-se ilha dos Bem-aventurados, dista sete dias de Tebas, e a ela pode-se ir por um caminho arenoso. Embora se afirme que as tropas persas foram até lá, ninguém sabe o que lhes aconteceu em seguida, a não ser os próprios Amônios e os que por eles foram informados. O que é certo é que elas não chegaram ao seu ponto de destino, nem regressaram ao Egito. Dizem os Amônios que essas tropas, tendo partido de Oásis, já se encontravam quase na metade do caminho para o seu país quando foram surpreendidas, durante o repasto, por uma tempestade de areia, que os sepultou a todos.

XXVII — Logo após o regresso de Cambises a Mênfis, Ápis, que os Gregos denominam Épafo, manifestou-se aos Egípcios. Estes, surpresos e alegres, envergaram seus mais ricos trajes e puseram-se a festejar o acontecimento. Cambises, testemunhando essas expansões de júbilo e supondo que eles se regozijavam pelo insucesso de suas armas, mandou chamar os magistrados de Mênfis e perguntou-lhes por que razão os habitantes, não tendo manifestado alegria quando ele chegou triunfante à cidade, expandiam-se daquela forma no momento em que ele regressava sem uma boa parte do seu exército. Responderam-lhe que o deus dos Egípcios acabava de manifestar-se, o que raramente fazia, sendo isso sempre motivo de grande alegria e festas públicas. Cambises não se satisfez com a explicação e, dizendo que eles lhe estavam ocultando a verdade, condenou-os à morte por quererem diminuir sua autoridade.

XXVIII — Depois de mandar executá-los, fez vir à sua presença os sacerdotes de Mênfis, e recebendo a mesma resposta perguntou-lhes se o deus que se manifestara aos Egípcios era acessível. Ante a resposta afirmativa dos sacerdotes, ordenou-lhes que o levassem imediatamente à sua presença.

Ápis, também chamado Épafo, manifesta-se sempre sob o aspecto de um boi novo e de porte majestoso. Foi o único gerado por sua mãe. Dizem os Egípcios que um raio de luz, descendo sobre ela, fê-la concebê-lo. É facilmente reconhecido por certas marcas e características que possui. Tem o pêlo negro e luzidio; traz na testa um sinal branco triangular; nas costas a figura de uma águia; na língua a de um escaravelho, e duplos os pêlos da cauda.

XXIX — Logo que os sacerdotes lhe trouxeram Ápis, Cambises, num acesso de fúria, sacou do punhal e vibrou um golpe dirigido ao ventre do animal sagrado, mas atingiu-o apenas na coxa. Vendo-o sangrar, dirigiu-se aos sacerdotes em tom sarcástico: “Intrujões! Então os deuses são de carne e sangue e sentem os golpes do ferro? Este deus é, sem dúvida, bem digno dos Egípcios. Mas não zombareis impunemente de mim”. Dito isso, mandou vergastá-los pelos encarregados de executar tais sentenças e ordenou que se fizesse o mesmo com todos os Egípcios encontrados celebrando o aparecimento do boi Ápis, pondo, assim, termo aos ruidosos festejos. Quanto ao deus, ficou ele a definhar no templo em conseqüência do ferimento recebido e acabou morrendo. Os sacerdotes deram-lhe sepultura às ocultas de Cambises.

XXX — O soberano, ao que dizem os Egípcios, não tardou a sofrer a punição desse crime: enlouqueceu, ele que até então demonstrara possuir espírito lúcido e atilado. Sua primeira demonstração de insanidade foi matar seu irmão Esmérdis, que enviara de volta à Pérsia, despeitado pelo fato de haver este vergado, com dois dedos apenas, o arco do rei da Etiópia, trazido pelos Ictiófagos — façanha que nenhum outro persa conseguira realizar. Tendo visto em sonhos um correio persa anunciando-lhe que Esmérdis, sentado no trono, tocava o céu com a cabeça, e temendo que o irmão o matasse para apoderar-se da coroa, despachou sem demora para a Pérsia seu compatriota Prexaspes, em quem depositava a maior confiança, com ordem de eliminar Esmérdis. Ao chegar a Susa, Prexaspes executou a ordem. Uns dizem ter ele eliminado o príncipe durante uma caçada; outros pretendem ter ele precipitado sua vítima no mar da Eritréia.

XXXI — A este primeiro crime de Cambises seguiu-se um segundo na pessoa de sua irmã. Essa princesa, que o acompanhara ao Egito, era, ao mesmo tempo, sua esposa. Vejamos como se explica essa situação, pois antes de Cambises os Persas não tinham o costume de desposar suas irmãs. Apaixonando-se por uma das irmãs e querendo casar-se com ela, Cambises convocou os juízes reais e perguntou-lhes se não havia alguma lei permitindo o irmão desposar a irmã. Os magistrados reais são homens escolhidos entre todos os Persas. Seu cargo é vitalício, a menos que cometam uma injustiça que os torne indignos dele. São eles que interpretam a lei e julgam os processos, convergindo todas as questões para o seu tribunal. Ante a consulta do soberano, responderam-lhe de uma maneira que, sem ferir a justiça, não os expunha ao seu desagrado. Disseram-lhe não existir absolutamente uma lei autorizando o irmão a casar-se com a irmã, mas que havia uma permitindo ao rei dos Persas fazer o que quisesse. Diante disso, Cambises desposou a irmã a quem amava, e pouco depois casava-se com outra irmã, a mais jovem. Foi essa que o acompanhou ao Egito e veio mais tarde a sucumbir em suas mãos.

XXXII — A morte dessa princesa, como a de Esmérdis, é relatada de duas maneiras. Segundo os Gregos, estava ela assistindo a uma luta entre um leãozinho e um cãozinho, incitados um contra o outro por Cambises. Vendo o irmão em desvantagem, o outro cão rompeu a corda que o prendia e lançou-se em seu socorro. Unindo suas forças, lograram superioridade sobre o leãozinho. O soberano deleitava-se com o espetáculo, mas a irmã, sentada a seu lado, debulhou-se em lágrimas ante aquela demonstração de espírito fraternal. Interrogando-a Cambises sobre aquela estranha atitude, ela respondeu nestes termos: “Não pude conter o pranto ao ver o outro cãozinho ir em auxílio do irmão porque lembrei-me da triste sorte de Esmérdis, cuja morte, bem o sei, jamais será vingada”. Ouvindo-a falar assim, Cambises enfureceu-se e matou-a ali mesmo. Os Egípcios, por sua vez, contam que, achando-se a princesa à mesa com o soberano, apanhou do prato um pé de alface e, tirando-lhe todas as folhas, perguntou-lhe se ele parecia mais belo assim ou com as folhas que arrancara. “Cheio de folhas” — replicou Cambises. “Senhor, volveu ela — este pé de alface é a imagem da casa de Ciro, a qual despojaste”. Irritado, Cambises atirou-se sobre ela, maltratando-a de tal maneira a pontapés, que ela deu à luz prematuramente, falecendo logo depois.

XXXIII — Tais foram os excessos de Cambises contra a família, ou porque sua fúria encerrasse uma punição pela sua ofensa ao boi Ápis, ou porque se manifestasse nele uma inclinação para a prática do mal, inclinação essa talvez congênita, pois dizem que desde a infância estava sujeito a ataques periódicos de epilepsia ou mal sagrado. Não é de admirar que sofrendo o corpo de uma tão grande moléstia, o espírito não se mantenha são.

XXXIV — Igual furor manifestou ele contra o resto dos Persas. Dizem que, certo dia, dirigindo-se a Prexaspes, a quem muito estimava e que tinha um filho escudeiro, um dos mais importantes cargos da corte, perguntou-lhe o que pensavam dele os Persas e que diziam quanto à sua maneira de governar. “Senhor, — respondeu Prexaspes — eles vos tributam os maiores louvores, mas acham que tendes excessiva predileção pelo vinho”. “Querem eles então dizer — tornou Cambises encolerizado — que é o vinho que me faz perder a razão e cometer desatinos? Então os louvores que me dirigem não são sinceros?”

A Creso e aos grandes da Pérsia que compunham o conselho do rei perguntou Cambises, certa ocasião, se o consideravam capaz, pelas suas ações, de ombrear-se com o pai. Os membros do conselho real disseram que o consideravam superior a Ciro porque além de ter mantido sob o seu domínio os países subjugados pelo pai, ainda conquistara o Egito e a supremacia no mar. Creso, porém, não foi da mesma opinião. “Não me parece — disse-lhe ele — que já te possas comparar com teu pai, pois ainda não tens filhos, enquanto que ele possuía um ao morrer”. Cambises, lisonjeado com essa resposta, aprovou o parecer de Creso.

XXXV — O soberano, que não conseguira esquecer a palestra que tivera com Prexaspes sobre seus súditos persas e a opinião destes a seu respeito, mandou-o vir novamente à sua presença, dizendo-lhe com insopitada ira: “Vamos verificar agora, Prexaspes, se os Persas estão com a razão ou se são eles que agem como insensatos quando falam de mim. Se eu atingir com esta seta o meio do coração do teu filho, que ali vês de pé, no vestíbulo, ficará demonstrado que eles se enganam. Se, porém, eu errar o alvo, é que a verdade está com eles e que sou eu o insensato. Assim falando, enristou o arco e expediu a seta, atingindo mortalmente o jovem. Vendo-o cair agonizante, mandou abrir-lhe o peito para ver onde atingira a seta, encontrando-a cravada no centro do coração. Cheio de alegria, voltou-se para Prexaspes e disse-lhe rindo: “Como vês, não sou eu o louco e sim aqueles que me acusam. Dize-me: já viste alguém atingir o alvo com tanta precisão?” Prexaspes, notando que tinha diante de si um demente furioso e receando pela vida, respondeu: “Senhor, não creio que possa o próprio deus acertar com maior precisão”. Algum tempo depois desta cena, Cambises mandou enterrar vivos, de cabeça para baixo, doze Persas de grande projeção no país.

XXXVI — Sabedor desses desvarios, Creso julgou-se no dever de dar-lhe um conselho salutar. “Grande rei — disse-lhe ele — não te abandones à tua cólera e à impulsividade da tua juventude; torna-te senhor de ti mesmo e controla tuas ações. É necessário a um grande príncipe saber prever as coisas, e próprio de um homem sensato guiar-se pela prudência. Fazes morrer injustamente vários dos teus concidadãos e tiras a vida até mesmo de simples crianças. Toma cuidado para que, cometendo freqüentemente tais violências, não forces os Persas a se revoltarem contra ti. Faço-te esta advertência porque o rei teu pai recomendou-me expressamente que te desse bons conselhos e te advertisse sobre tudo aquilo que eu julgasse útil e vantajoso para a tua felicidade”.

Essa linguagem refletia a brandura da alma de Creso. Cambises, porém, sentiu-se ferido no seu orgulho. “Também tu ousas dar-me conselhos, — retrucou — tu, que tão bem governaste teus estados, que acabaste perdendo-os para conquistadores estrangeiros? Tu, que deste tão bons conselhos a meu pai, exortando-o a atravessar o Araxes para atacar os Masságetas no seu próprio país, em vez de esperá-los em nossas terras, que o levaste à derrota e à morte? Esta tua ação não ficará impune; receberás o merecido castigo. Há muito que eu buscava um pretexto para vingar-me”. Assim dizendo, tomou da flecha para trespassar Creso, que esquivou-se ao seu furor numa pronta fuga. Vendo que não podia alcançá-lo, Cambises ordenou a seus guardas que o perseguissem e o matassem. Estes, porém, conhecendo a volubilidade do seu caráter, ocultaram Creso, com a intenção de apresentá-lo ao soberano, se este, arrependendo-se, o quisesse novamente a seu lado. Esperavam, assim, obter uma recompensa por lhe haverem salvo a vida, embora estivessem dispostos a matá-lo se o soberano não reconsiderasse seu ato.

Com efeito, Cambises não tardou a arrepender-se de sua ação impensada, deplorando a morte de seu amigo e conselheiro. Os guardas, percebendo-lhe a mudança de ânimo, disseram-lhe que Creso ainda vivia. Cambises, embora satisfeito com a revelação, mandou matá-los por não haverem cumprido as ordens que lhes dera.

XXXVII — Durante sua permanência em Mênfis teve ainda outros acessos de loucura, tanto contra seus compatriotas como contra seus aliados. Mandou abrir túmulos antigos para identificar os mortos. Entrou no templo de Vulcano, fazendo mil ultrajes à estátua do deus. Essa estátua muito se assemelha aos pataicos(1), colocados pelos Egípcios na proa de suas trirremes, e que, por sua vez, se parecem com pigmeus. Penetrou também no templo dos Cabiros, cujas leis proíbem a entrada a outra pessoa que não seja o sacerdote, e, após dirigir impropérios e motejos às estátuas, mandou queimá-las. As estátuas dos Cabiros assemelham-se às de Vulcano. De fato, há quem afirme serem os Cabiros filhos desse deus.

XXXVIII — Estou convencido de que Cambises estava louco, pois, se assim não fora, jamais ousaria escarnecer da religião e das leis.

Se se propusesse a todos os homens escolher entre todas as leis instituídas nos diversos países as que melhor lhes parecessem, de certo que, após um exame minucioso, cada qual se decidiria pelas de sua própria pátria, de tal modo estão os homens persuadidos de que não existem leis mais belas do que as deles.

Isso é uma verdade, confirmada por muitos exemplos, e, entre outros, pelo seguinte: Um dia, Dario, fazendo vir à sua presença alguns Gregos submetidos ao seu domínio, perguntou-lhes por que soma de dinheiro se decidiriam a comer os cadáveres de seus pais. Todos declararam que jamais fariam tal coisa, qualquer que fosse a quantia que lhes oferecessem. Mandou chamar, em seguida, os Cários, habitantes da Índia, acostumados a comer os pais, e perguntou-lhes, na presença dos Gregos, quanto queriam para queimar os pais depois de mortos. Os Indianos, horrorizados com a proposta, pediram-lhe para não insistir numa linguagem tão odiosa. Assim, nada mais exato do que a sentença que encontramos nos versos de Píndaro: A lei é a rainha de todos os homens.

XXXIX — Enquanto Cambises levava a guerra ao Egito, os Lacedemônios lançavam-se contra Samos e contra Polícrates, filho de Éaco, que, tendo-se revoltado, apoderara-se dessa ilha(2), dividindo-a em três cantões e repartindo-a com Pantanhoto e Silóson, seus irmãos. Logo depois, porém, matou Pantanhoto e expulsou Silóson, o mais jovem, tornando-se senhor de toda a ilha. Fez então com Amásis, rei do Egito, um tratado de amizade, cimentado por presentes recíprocos. Seu poderio cresceu em pouco tempo, e logo sua fama estendeu-se pela Iônia e pelo resto da Grécia. A sorte acompanhava-o por toda parte onde ele levava suas armas Possuía cem navios de cinqüenta remos e mil homens de equipagem. Atacava e pilhava a todos, sem distinção, dizendo que daria maior prazer a um amigo restituindo-lhe o que lhe havia tirado, do que nunca lhe tirando coisa alguma. Apossou-se de várias outras ilhas e tomou grande número de cidades no continente. Venceu em combate naval os Lésbios, que tinham vindo, com todos os recursos de que dispunham, em socorro dos Milésios; e aprisionando-os e pondo-os sob grilhões, obrigou-os a cavar o fosso que circunda os muros de Samos.

XL — Informado da prosperidade de Polícrates, Amásis ficou inquieto, e, como ela se tornava cada vez maior, o soberano escreveu-lhe a seguinte carta:

“DE AMÁSIS A POLÍCRATES.

É para mim muito agradável saber dos sucessos de um amigo e aliado; mas como conheço o ciúme dos deuses, essa grande felicidade me preocupa. Em benefício daqueles por quem me interesso, eu preferiria que os êxitos fossem contrabalançados por um número, correspondente de reveses; que houvesse uma alternação de venturas e azares, em lugar de uma felicidade constante e ininterrupta; pois nunca ouvi falar de homem algum que, tendo sido feliz em tudo, não viesse, por fim, a perecer desastrosamente. Se quiseres pôr à prova o que te digo, faze contra a tua boa fortuna o que te vou aconselhar. Procura ver qual a coisa que mais estimas e cuja perda te seria mais sensível. Feita a escolha, desfaze-te dela, de maneira que nunca mais possas encontrá-la. Se depois disso a fortuna continuar a favorecer-te em tudo, sem envolver alguma desgraça em meio aos favores, avisa-me para que eu me convença da inutilidade do meu conselho”.

XLI — Polícrates, meditando sobre a sugestão de Amásis e achando-a prudente, resolveu segui-la. Procurou entre todas as suas jóias uma cuja perda lhe fosse mais sentida e decidiu-se por um anel de ouro incrustado de esmeralda, que costumava usar e que lhe servia de talismã. Fora gravado por Teodoro de Samos, filho de Telecleu. Disposto a desfazer-se da jóia, mandou equipar um navio e fez-se ao alto mar. Ao ver-se bem afastado da ilha, tirou o anel do dedo e lançou-o às águas profundas, à vista de todos os que o acompanhavam. Feito isso, ordenou que o reconduzissem à terra, e regressou ao palácio, sentindo-se já pesaroso com a perda de tão estimada jóia.

XLII — Cinco ou seis dias depois, um pescador, tendo apanhado um peixe de grandes proporções julgou-o digno de ser oferecido ao rei. Levou-o ao palácio e, conduzido à presença de Polícrates, dirigiu-se-lhe nestes termos apresentando-lhe o pescado: “Senhor, eis aqui um peixe que tive a boa sorte de apanhar. Embora trabalhe arduamente para ganhar a vida, achei que não devia levá-lo ao mercado por julgá-lo um presente digno de vós. Peço-vos, pois, que o aceiteis”.

Envaidecido com as palavras e a atitude do pescador, Polícrates respondeu, apreciando o pescado: “Aceito-o de bom grado, e para te provar que te sou grato, convido-te para cear comigo”. Quando o pescador regressou ao lar, ia radiante de satisfação pelo acolhimento que lhe dispensara seu soberano. Entretanto, abrindo o peixe, os cozinheiros encontraram dentro dele o anel de Polícrates. Cheios de alegria, foram entregá-lo ao rei, contando-lhe como o tinham achado. Maravilhado com o fato, Polícrates imaginou que havia em tudo aquilo algo de divino. Escreveu a Amásis uma descrição minuciosa relatando-lhe o que havia feito e o que lhe acontecera, confiando a carta a um mensageiro para que a levasse sem perda de tempo ao Egito e a entregasse pessoalmente.

XLIII — Lendo-a, Amásis reconheceu a impossibilidade de afastar um homem de seu destino, convencendo-se de que Polícrates não poderia acabar bem os seus dias. A fortuna lhe era de tal maneira favorável, que ele tornava a encontrar tudo que lançava para longe de si. Tomando uma súbita resolução, enviou um arauto a Samos para comunicar a Polícrates que renunciava à aliança que com ele mantinha. Fê-lo porque temia que a sorte de seu amigo e aliado desandasse e ele viesse a sofrer grande mágoa com isso.

XLIV — Foi contra esse soberano tão favorecido pela fortuna, que marcharam os Lacedemônios a pedido dos habitantes de Samos, que fundaram, pouco mais tarde, em Creta, a cidade de Sidônia. Quando Cambises se punha em marcha com seu exército para se lançar contra o Egito, Polícrates, querendo lhe ser agradável e, ao mesmo tempo, livrar-se de alguns elementos que se opunham ao seu mando, ofereceu-lhe parte de suas tropas. Cambises aceitou de boa vontade e pediu-lhe que destacasse uma força naval para acompanhá-lo na expedição. Polícrates escolheu aqueles que lhe pareciam mais inclinados à revolta e embarcou-os em quarenta trirremes, recomendando a Cambises que fizesse com que eles não mais regressassem a Samos.

XLV — Dizem uns que esses homens enviados por Polícrates não foram até o Egito. Ao chegarem ao mar Carpatiano, reuniram-se em conselho e deliberaram não prosseguir viagem. Outros afirmam que eles chegaram ao Egito mas que, embora sob vigilância, lograram fugir, velejando de regresso a Samos, e que Polícrates, indo ao seu encontro, dera-lhes combate, sendo derrotado. Vitoriosos sobre a frota de Polícrates, esses homens teriam desembarcado na ilha, ali sofrendo duro revés, o que os obrigou a se retirarem para os seus navios, indo refugiar-se na Lacedemônia.

Há quem assegure que esses descontentes, de volta do Egito, obtiveram uma vitória total sobre Polícrates. Tal opinião não me parece aceitável, pois se eles fossem suficientemente fortes para derrotar o soberano, não teriam ido solicitar auxílio aos Lacedemônios. Por outro lado, não se poderia conceber que Polícrates, tendo a seu soldo tantas tropas auxiliares e tantos guerreiros nativos, fosse derrotado por um pequeno número de súditos de volta à pátria. Acresce ainda a circunstância de manter ele em seu poder as mulheres e os filhos dos cidadãos de Samos, seus súditos. Tinha-os concentrado nos portos, com o propósito de queimá-los, juntamente com os portos, caso esses cidadãos o traíssem, unindo-se aos que regressavam do Egito.

XLVI — Chegando a Esparta, os habitantes de Samos derrotados em terra pelas forças de Polícrates foram procurar os magistrados, explicando-lhes num longo discurso sua situação e suplicando-lhes auxílio. Nesta primeira audiência os Lacedemônios lhes responderam que haviam esquecido o começo do discurso e que não haviam entendido o fim. Na segunda os habitantes de Samos levaram-lhes um saco de couro e lhes disseram somente que faltava farinha naquele saco. Os Lacedemônios tacharam de supérfluas essas palavras; contudo resolveram socorrê-los.

XLVII — Feitos os necessários preparativos, partiram em direção à ilha. Dizem os habitantes de Samos que os Lacedemônios os auxiliaram nessa ocasião em retribuição à ajuda deles recebida contra os Messênios; mas a dar-se crédito aos Lacedemônios, eles empreenderam essa expedição menos para auxiliar os estrangeiros exilados, do que para vingar-se daqueles que lhes haviam arrebatado a cratera que levavam a Creso, e, um ano antes, a couraça que Amásis, rei do Egito, lhes enviara de presente. Era uma couraça de linho, ornada com figuras de animais, tecidas em ouro e algodão. Embora muito delgados, cada um dos fios compunha-se de outros trezentos e sessenta, todos perfeitamente distintos. Essa couraça era semelhante à que Amásis enviara ao templo de Minerva de Linde.

XLVIII — Os Coríntios também colaboraram entusiasticamente na expedição dos Espartanos contra Samos pelo fato de os habitantes da ilha lhes terem feito várias afrontas algum tempo antes — certamente por ocasião do roubo da cratera.

Periandro(3), filho de Cípselo, enviara a Aliata, em Sardes, trezentos meninos, filhos das melhores famílias da Corcira, para serem feitos eunucos. Os Coríntios que os conduziam escalaram em Samos, e os habitantes da ilha, informados do destino que pretendiam dar àquelas crianças, instruíram-nas a dirigir-se ao templo de Diana na qualidade de suplicantes, depois do que não consentiram mais que as tirassem dali. Como os Coríntios não permitissem que lhes levassem alimentos, os habitantes de Samos resolveram o problema instituindo uma festa, que ainda hoje ali se celebra da mesma maneira: Todos os dias, ao cair da noite, durante todo o tempo que os pequenos corcireus permaneceram no templo como suplicantes, organizavam coros infantis, tendo cada criança na mão doces de sésamo e mel, que repartiam com os corcireus, facultando-lhes assim alimento. Esses coros prosseguiram até a partida dos Coríntios, sendo então os jovens corcireus recambiados para a sua pátria.

XLIX — Se depois da morte de Periandro houvesse amizade entre os Corcireus e os Coríntios, bastaria isso para impedir que estes últimos auxiliassem os Lacedemônios na expedição contra Samos; mas desde a fundação da Corcira pelos Coríntios houve sempre forte animosidade entre os dois povos, embora sejam da mesma origem. Foi para vingar-se de uma afronta que, segundo se afirma, lhe fizeram os Corcireus, que Periandro enviou a Sardes aqueles trezentos meninos para serem reduzidos à condição de eunucos, sendo seus desejos frustrados pela intervenção dos habitantes de Samos.

L — Periandro, matando sua esposa Melissa, não tardou a ser punido por esse crime com o desprezo que lhe votou o seu filho mais moço. Tivera, de Melissa, dois filhos, deixados, um com a idade de dezessete anos, e o outro com dezoito. Procles, o avô materno, tirano de Epidauro, chamara-os para junto de si e os tratara com o carinho que um pai costuma dispensar aos filhos de seus filhos, e ao mandá-los de volta perguntou-lhes, à hora da despedida: “Meus filhos, sabeis que vosso pai matou vossa mãe?” O mais velho nenhuma importância deu a essas palavras, mas o mais jovem, de nome Lícofron, ficou de tal maneira chocado com aquela revelação que, de regresso a Corinto, recusou-se a saudar o pai, por considerá-lo o assassino da mãe, evitando palestrar com ele e negando-se a responder-lhe quando interrogado. Por fim, Periandro, indignado, expulsou-o de casa.

LI — Desejando saber a razão da atitude que o filho mais moço mantivera para com ele de volta ao lar, Periandro inquiriu o outro sobre o que lhes havia dito o avô. O jovem falou-lhe sobre o bom acolhimento que tinham tido, sem contudo fazer nenhuma referência às palavras do avô quando deles se despedira, pois já as havia esquecido. Periandro insistiu, dizendo que era impossível que o avô não tivesse dado algum conselho ou mesmo influenciado o ânimo de Lícofron contra ele; e assediou o jovem com tantas perguntas, que ele acabou por lembrar-se do que lhes revelara Procles. Cientificado do ocorrido, Periandro, após alguns momentos de reflexão, resolveu não usar mais de indulgência para com o filho expulso e proibiu aqueles que lhe deram abrigo de voltar a fazê-lo. Banido de um lugar, Lícofron procurava pousada noutro, mas logo tinha de deixá-lo ante as ameaças de Periandro; e assim ia passando da casa de um amigo para a de outro, pois, embora estes temessem Periandro, não se negavam a dar-lhe asilo por tratar-se do filho do rei.

LII — Por fim, o soberano fez publicar um édito declarando que aquele que acolhesse Lícofron em sua casa ou com ele falasse incorreria numa pena especificada e aplicável no templo de Apolo. Ninguém mais ousou receber o jovem e nem manter qualquer contato com ele. O próprio Lícofron, não querendo burlar a proibição do pai, passou a dormir ao relento. No quarto dia, Periandro, vendo-o sujo e faminto, sentiu-se tomado de compaixão. Aproximando-se do jovem, falou-lhe nestes termos: “Então, meu filho, que vale mais na tua opinião, o teu estado atual ou o soberano poder e as vantagens que desfruto e de que podes compartilhar comigo, prestando-me obediência? Como, sendo tu filho do soberano da rica Corinto, preferes uma vida errante e vagabunda, irritando com a tua teimosia e desdém aquele a quem menos devias ofender? Se alguma desgraça adveio fazendo-te suspeitar da minha conduta, essa desgraça recaiu sobre mim; e sinto-a tanto mais vivamente quanto dela fui o causador. Tu, que sabes por experiência que mais vale despertar inveja do que piedade e onde leva a cólera contra um pai, e, sobretudo, contra um pai que tem a força na mão, reconsidera tua atitude e retorna ao palácio”.

Periandro procurava, assim, chamar o filho à razão, mas este limitou-se a dizer-lhe que, dirigindo-lhe a palavra, ele estava incorrendo na pena por ele próprio estabelecida. O soberano, compreendendo que nada poderia fazer para vencer a aversão que o filho lhe votava, afastou-o para longe de si enviando-o para a Corcira, da qual também era senhor. Em seguida marchou contra seu sogro Procles, a quem considerava responsável por aquela animosidade. Apoderou-se da cidade de Epidauro e aprisionou Procles, poupando-lhe, entretanto, a vida.

LIII — Tempos depois, Periandro, já idoso e não se sentindo mais em condições de zelar pelos negócios do reino e governar por si mesmo, mandou buscar Lícofron na Corcira, para lhe confiar as rédeas do Estado. O filho mais velho era imbecil, e o soberano sabia-o incapaz para tal função. Lícofron nem mesmo se dignou responder à mensagem do pai; mas Periandro, que o amava enternecidamente, enviou-lhe a irmã, na esperança de que ela fosse mais bem sucedida. Ao chegar a Corcira, a princesa assim se dirigiu ao irmão: “Preferes, então, Lícofron, ver o poder passar para as mãos de estrangeiros e os bens de teu pai dissipados, a tomar a direção deles? Volta ao lar e cessa de atormentar a ti mesmo. O orgulho é mau conselheiro. Não procures curar um mal com outro. Muitas pessoas deixam-se vencer mais facilmente pela brandura do que pela severidade, embora justa, e não são poucas as que, defendendo os direitos da mãe, perderam os que tinham junto ao pai. A tirania é como uma mulher volúvel, sempre assediada por mil amantes que aspiram conquistá-la. Sê tolerante. Periandro já está velho e necessita de um continuador. Não abandones a outros o que te pertence”.

Mesmo ante tão convincente linguagem Lícofron mostrou-se irredutível, declarando que não voltaria a Corinto enquanto soubesse vivo Periandro. A princesa regressou para junto do pai e transmitiu-lhe a resposta. Sem se dar por vencido, o soberano enviou pela terceira vez um emissário ao filho para dizer-lhe que pretendia retirar-se para a Corcira, e que ele, Lícofron, podia regressar a Corinto e tomar posse da coroa. O jovem príncipe aceitou a proposta, e Periandro preparou-se para partir para a Corcira; mas os Corcireus, informados do que se passava e não desejando tê-lo na ilha, assassinaram Lícofron. Foi essa a razão que levou Periandro a vingar-se dos Corcireus.

LIV — Chegando a Samos com uma poderosa frota, os Lacedemônios cercaram a cidade e aproximaram-se das muralhas, deixando para trás a torre que fica à beira-mar, nos subúrbios da ilha; mas contra-atacados por forças consideráveis sob o comando do próprio Polícrates, viram-se obrigados a recuar. Quase ao mesmo tempo, as tropas auxiliares, acompanhadas de grande número de habitantes de Samos, saíram da torre superior, localizada no alto da montanha, e caíram sobre eles. Após breve mas encarniçada luta, os invasores puseram-se em fuga; e os vencedores, perseguindo-os, mataram grande número deles.

LV — Se os Lacedemônios que tomaram parte nessa expedição bélica se tivessem conduzido como Árquias e Licopas, Samos teria sido capturada. Árquias e Licopas investiram sozinhos contra os habitantes da ilha e, pondo-os em fuga, entraram na cidade de atropelo, quase se confundindo com os fugitivos; mas como lhes barrassem o caminho e eles não pudessem sair, ali pereceram.

Encontrei-me um dia com outro Árquias, filho de Sâmio e neto desse Árquias de quem acabo de falar. Foi em Pitana, burgo onde ele nasceu. Dava mais importância aos habitantes de Samos do que a todos os outros estrangeiros, e informou-me que haviam atribuído a seu pai o nome de Sâmio, por ser o mesmo filho daquele Árquias morto em Samos quando valentemente combatia. Acrescentou votar particular estima à gente de Samos porque esta havia sepultado seu avô às expensas dos poderes públicos.

LVI — Vendo que o cerco se prolongava e que ao cabo de quarenta dias não tinham feito nenhum progresso, os Lacedemônios voltaram para o Peloponeso. Há quem afirme, mas sem fundamento, que Polícrates deu-lhes grande quantidade de moedas de chumbo douradas, cunhadas num recanto do país, e que, conquistados por esses presentes, retiraram-se de regresso à pátria. Foi essa a primeira expedição dos Lacedemônios-Dórios na Ásia.

LVII — Aqueles dentre os habitantes de Samos que haviam lutado contra Polícrates, vendo-se em risco de serem abandonados pelos Lacedemônios, apressaram-se em deixar a ilha, velejando para Sifnos, por lhes faltar dinheiro. Os Sífnios constituíam então uma nação florescente e das mais ricas entre as insulares. Era tal a quantidade de minas de ouro e prata existentes e exploradas no país, que, com os impostos delas provenientes, os Sífnios ofereceram a Delfos um tesouro comparável aos mais ricos que havia no templo. O produto dessas minas era repartido entre eles todos os anos; e, enquanto trabalhavam na formação desse tesouro, consultaram o oráculo para saber se poderiam desfrutar por muito tempo os bens presentes, tendo a pitonisa respondido: “Quando o Pritaneu de Sifnos ficar branco e a praça pública ganhar o mesmo aspecto, tereis então muita necessidade de um homem sábio e prudente para vos garantir contra uma armadilha de madeira e um arauto vermelho”.

LVIII — A praça pública e o Pritaneu de Sifnos eram de mármore de Paros. Os Sífnios não puderam apreender o sentido do oráculo, nem na ocasião em que lho deram, nem mesmo quando ali aportaram os que se exilavam de Samos. Estes, mal haviam chegado, enviaram à cidade um navio com embaixadores. Os antigos costumavam pintar seus navios de vermelho, e ali estava, portanto, o significado daquele oráculo, advertindo os Sífnios que se guardassem contra uma armadilha de madeira e um embaixador vermelho. Assim que desembarcaram, os embaixadores pediram aos Sífnios que lhes emprestassem dez talentos, e não sendo atendidos saquearam os campos. Sabedores do ocorrido, os Sífnios pegaram imediatamente em armas e deram combate aos estrangeiros, sendo porém derrotados. Grande número deles teve a retirada cortada e não pôde retornar à cidade. Vencedores, os retirantes de Samos exigiram dos vencidos cem talentos.

LIX — Com o dinheiro assim obtido, os exilados de Samos adquiriram dos Hermiônios a ilha de Hidréia, perto do Peloponeso, dando-a como penhor aos Trezênios. Dali velejaram para Creta, onde derrotaram Cidônia, embora não tivessem ali ido com esse propósito. Conquistando-a, nela fixaram residência, e durante cinco anos gozaram de tal prosperidade que, não somente construíram os templos que ainda hoje podem ser vistos em Cidônia, como também o grande templo de Dictínia. No fim desse período foram derrotados pelos Eginetas num combate naval e reduzidos à escravidão, com o auxílio dos Cretenses. Os vencedores desarmaram as proas dos seus navios, retiraram os javalis que lhes serviam de ornamento e ofereceram-nos a Egina.

Os Eginetas foram levados a tal vingança pelo ódio incruento que votavam aos filhos de Samos, que lhes haviam movido guerra na época em que Anfícrates reinava na ilha, causando-lhes grande dano. Derrotando-os, os Eginetas sentiam-se agora bem vingados.

LX — Estendi-me bastante sobre Samos, e por uma razão muito simples: sua gente realizou três das maiores obras existentes em toda a Grécia. Há nessa ilha uma montanha de cento e cinqüenta braças de altura. Perfuraram-na pela base, abrindo um túnel com duas bocas ou aberturas, com sete estádios de comprimento, oito pés de altura e outros tantos de largura. Ao longo do túnel cavaram um canal com vinte côvados de profundidade e três pés de largura, atravessando toda a montanha. Esse canal leva à cidade, através de canos, a água de uma grande fonte. O arquiteto que realizou essa obra era natural de Mégara e chamava-se Eupalino, filho de Naustrofo. Foi esse um dos três grandes trabalhos da gente de Samos. O segundo consiste num dique construído na orla marítima, perto do porto, medindo cerca de vinte braças de altura e dois estádios de comprimento. O terceiro foi um templo, o maior de que temos conhecimento, construído por um natural do país, de nome Récus(4), filho de Fileu. Aí está, como já disse, a razão pela qual discorri tão amplamente sobre Samos.

LXI — Enquanto Cambises, filho de Ciro, perdia seu tempo no Egito e cometia desatinos, dois magos irmãos aproveitaram a ocasião para se revoltarem. O soberano havia deixado um deles na Pérsia para administrar os seus bens, e foi este o organizador da revolta. Esse mago não ignorava a morte de Esmérdis; sabia que a ocultavam; que ela não era conhecida senão por um pequeno número de pessoas, e que a maioria pensava que esse príncipe ainda vivia. Esse fato e outras circunstâncias a que farei referência fizeram-no tomar a resolução de apoderar-se do trono. Acompanhou-o na revolta seu irmão, que apresentava notável semelhança com Esmérdis, morto por Cambises, tendo também o mesmo nome do malogrado príncipe. O outro chamava-se Patizites, e foi ele quem acabou por colocar o irmão no trono, assegurando-lhe que havia de aplainar todos os obstáculos. Pondo o seu plano em execução, enviou emissários a todas as províncias e, particularmente, ao Egito, para fomentar a desobediência entre as tropas de Cambises e levá-las a não reconhecer como rei, dali por diante, senão a Esmérdis, filho de Ciro.

LXII — Cumprindo as ordens, os arautos lançaram essa proclamação por toda parte. O que fora enviado ao Egito encontrou Cambises, com o seu exército, em Ecbatana, na Síria, e, no meio do acampamento, tornou públicas as ordens do mago. Ouvindo a proclamação e julgando dizer o arauto a verdade, Cambises acreditou que havia sido traído por Prexaspes e que este não matara Esmérdis. “Então é assim, Prexaspes, — disse-lhe, encarando-o fixamente — que cumpres o que te ordeno?” “Senhor, — respondeu Prexaspes — é inteiramente falso o conteúdo dessa proclamação. Nada tendes a temer do vosso irmão Esmérdis, pois ele jamais poderá revoltar-se contra vós. Executei pessoalmente as vossas ordens e sepultei o cadáver com as minhas próprias mãos. Se os mortos ressuscitam, então veríeis o medo Astíages erguer-se contra vós. Podeis, porém, estar certo de que as coisas se processam como sempre se processaram e que nenhum mal vos advirá da parte de Esmérdis. Se me permitis, sugiro que façais vir o arauto à vossa presença e que o interrogueis sobre quem o enviou aqui para dizer-nos que devemos obedecer às ordens do rei Esmérdis”.

LXIII — Aceitando a sugestão de Prexaspes, Cambises fez vir o arauto à sua presença e o interrogou nestes termos: “Dizes, meu amigo, que vens da parte de Esmérdis, filho de Ciro. Como não creio nisso, exijo que confesses a verdade. Se o fizeres, te deixaremos ir em paz. Viste, por acaso, Esmérdis? Deu-te, ele próprio, essas ordens? Recebeste-as de algum dos seus ministros?” “Na verdade, — respondeu o arauto — desde a partida do rei Cambises para o Egito não mais vi Esmérdis, filho de Ciro. Foi o mago que ficou administrando os bens de Cambises quem me deu as instruções que acabo de cumprir em nome de Esmérdis, filho de Ciro”.

Ouvindo a resposta do arauto, Cambises voltou-se para Prexaspes, dizendo-lhe: “Estou convencido de que executaste fielmente a missão que te confiei, e nada tenho a censurar-te... mas quem, dentre os Persas, adotando o nome de Esmérdis, terá ousado revoltar-se contra mim?” “Senhor, — volveu Prexaspes — creio haver compreendido o que se passou: os magos sublevaram-se contra vós. Refiro-me, como sabeis, a Patizites, que deixastes na Pérsia administrando os vossos bens, e ao seu irmão Esmérdis”.

LXIV — Ante o nome de Esmérdis, Cambises lembrou-se do sonho que tivera, no qual lhe parecera ver um arauto anunciando-lhe que Esmérdis, sentado no seu trono, tocava o céu com a cabeça. Reconhecendo que havia feito perecer o irmão injustamente, não pôde conter as lágrimas. Depois de muito chorar e lamentar-se pelos seus muitos infortúnios, lançou-se rápido ao cavalo, com o propósito de marchar incontinênti para Susa, contra os usurpadores do trono; mas, ao montar, a bainha da sua cimitarra caiu, e a arma nua feriu-o na coxa, no mesmo lugar onde ele havia, tempos antes, atingido o boi Ápis, deus dos Egípcios. Como o ferimento lhe parecesse mortal, quis saber o nome da cidade onde então se achava. Disseram-lhe que era Ecbatana.

O oráculo da cidade de Buto havia predito que ele findaria seus dias em Ecbatana, e ele julgara, por aquele vaticínio, que deveria morrer de velhice em Ecbatana, na Média, onde se encontravam todas as suas riquezas; mas o oráculo se referia à outra Ecbatana, situada na Síria. Assim, ao ouvir o nome da cidade, o soberano, acabrunhado pela traição dos magos em que confiara e pela dor que lhe causava o ferimento, compreendeu então o verdadeiro sentido do oráculo: “É aqui que Cambises, filho de Ciro, deve acabar os seus dias, segundo os desígnios dos fados”.

LXV — Cambises manteve-se em completo mutismo e mergulhado em seus pensamentos durante vinte dias. Finalmente, tomou uma resolução: convocou os Persas mais importantes que faziam parte do seu exército e fez-lhes o seguinte discurso: “Persas, é chegado o momento de vos revelar algo que até o momento procurei manter em segredo. Quando me achava no Egito, tive, durante o sono, uma visão — e provera aos deuses que eu não a tivesse tido. Pareceu-me ver um correio chegando ao meu palácio e anunciando-me que Esmérdis se achava sentado no trono e que sua cabeça tocava o céu. Acreditando, por tal visão, que meu irmão tencionava roubar-me a coroa, tomei medidas precipitadas, sem dar ouvidos à prudência, pois não é dado aos homens modificar os destinos. Num momento de irreflexão, enviei Prexaspes a Susa para eliminar Esmérdis, que eu supunha uma ameaça para mim. Morto este, fiquei tranqüilo, não podendo imaginar que outro viesse a sublevar-se contra mim. Minhas previsões, porém, foram contrariadas pela realidade dos fatos. Verti inutilmente o sangue de meu irmão, pois nem por isso furtei-me ao risco de ficar sem a coroa. O que um deus me mostrava em sonhos não era quem eu imaginara, mas o mago Esmérdis. Era esse que, segundo os desígnios dos deuses, deveria revoltar-se contra mim. Cumpriram-se os fados. Esmérdis, filho de Ciro, está morto, e o mago a quem encarreguei da gerência dos meus bens, e seu irmão, que traz o mesmo nome do meu, apoderaram-se do trono. Aquele que poderia, melhor que ninguém, vingar-me desse golpe odioso, foi morto pelas mãos ímpias dos seus mais próximos parentes. Enfim, o que está feito está feito, e não me resta senão transmitir-vos as minhas ordens e dizer-vos o que desejo que façais depois de minha morte. Peço-vos, ó Persas, pelos deuses protetores dos reis; eu vos conjuro, a vós, principalmente, Aquemênidas, aqui presentes, não suportardes que o império volte às mãos dos Medos. Se eles conseguirem conquistá-lo pela astúcia, recuperai-o pela astúcia também; se o obtiverem pela força, reconquistai-o igualmente pela força. Se fizerdes o que vos recomendo e conservardes vossa liberdade, possa a terra favorecer-vos com frutos em abundância! Possam vossas mulheres dar-vos grande número de filhos, e vossos rebanhos se multiplicarem numa venturosa fecundidade! Se não recuperardes o império; se nenhum esforço fizerdes para reconquistá-lo, não somente faço votos de que o contrário de tudo isso vos aconteça, como desejo a todos os Persas um fim igual ao meu”.

LXVI — Após esse discurso, Cambises pôs-se a deplorar sua sorte, e os Persas presentes, vendo-o debulhado em lágrimas, puseram-se a rasgar as roupas em desespero e a soltar gemidos prolongados. Pouco depois manifestou-se a infecção no ferimento produzido pela cimitarra, e a gangrena não tardou a propagar-se por toda a coxa do soberano, vindo ele a falecer, após haver reinado sete anos e cinco meses. Cambises morreu sem deixar filhos. Os Persas presentes ao desenlace, embora sentindo a sua perda, não estavam convencidos de que os magos se haviam apoderado da coroa. Pensavam que o que Cambises lhes dissera sobre a morte de Esmérdis era efeito do ódio que votava àquele príncipe, para que todos os Persas lhe fizessem guerra. Acreditavam que o golpe havia sido realmente tramado por Esmérdis, filho de Ciro, e que era este que estava ocupando o trono; e o que mais fortalecia a sua crença era o fato de ter Prexaspes negado terminantemente haver executado o jovem, porquanto, morto Cambises, não achou conveniente confessar que o assassinara com suas próprias mãos.

LXVII — Depois da morte de Cambises, o mago, mercê do nome de Esmérdis, reinou tranqüilamente durante os sete meses que faltavam para completar o oitavo ano de governo do seu predecessor. Durante esse período cumulou de benefícios os súditos, de maneira que, ao morrer, foi pranteado por todos os povos da Ásia, com exceção dos Persas. Logo que assumiu o poder, mandou publicar, em todas as províncias, éditos pelos quais isentava os súditos, por três anos, de todos os tributos, subsídios e, também, do serviço militar.

LXVIII — No oitavo mês teve sua identidade revelada da maneira que passo a expor: Havia na corte um cidadão chamado Otanes, filho de Farnaspe. Sendo de origem nobre e possuidor de grande fortuna, convivia com as figuras mais ilustres da Pérsia. Otanes foi o primeiro a suspeitar que o novo rei não era Esmérdis, filho de Ciro, mas sim o mago, como realmente acontecia. Suas suspeitas fundavam-se no fato de o rei jamais abandonar a cidadela, só se fazendo acessível a alguns dos grandes da Pérsia. Convencido, pois, de que o novo soberano não passava de um impostor, Otanes serviu-se do seguinte meio para desmascará-lo:

Uma de suas filhas, Fédima, havia sido desposada por Cambises, e, como todas as outras esposas do falecido soberano, ela pertencia agora ao mago. Assim, mandou perguntar à filha quem era aquele com quem coabitava; se Esmérdis, filho de Ciro, ou outro qualquer. Fédima respondeu que não sabia ao certo, pois jamais vira Esmérdis, filho de Ciro, nem tão pouco conhecia com segurança aquele que a admitira no número de suas mulheres. “Se não conheceste Esmérdis, filho de Ciro, — mandou ele dizer-lhe pela segunda vez — pergunta a Atossa quem é esse homem com o qual tu e ela vivem; ela deve conhecer perfeitamente seu irmão Esmérdis”. Fédima respondeu: “É-me impossível falar com Atossa, assim como comunicar-me com qualquer das outras mulheres. Desde que esse homem, quem quer que ele seja, se apoderou do trono, dispersou-nos, mantendo-nos em alojamentos separados”.

LXIX — Ante essa resposta, a questão pareceu clara a Otanes. Enviou uma terceira mensagem a Fédima: “Minha filha, é preciso que uma mulher de alta linhagem como tu se exponha ao perigo; é teu pai quem a isso te exorta; é ele quem te ordena. Se o rei não é Esmérdis, filho de Ciro, mas aquele que suponho, não deves continuar sendo sua mulher e nem ocupar ele impunemente o trono da Pérsia; ele merece ser prontamente castigado. Segue, pois, meu conselho e faze o que te vou indicar. Quando ele estiver contigo e o vires adormecido, apalpa-lhe as orelhas; se ele as tiver, é o filho de Ciro; se não as tiver, é Esmérdis, o mago”.

Fédima respondeu que ia expor-se a um grande perigo, pois não tinha dúvida de que, se o rei não tivesse orelhas e a surpreendesse a procurá-las, matá-la-ia imediatamente. Não obstante, prometia executar-lhe as ordens. Convém notar que Cambises mandara cortar, durante seu reinado, as orelhas de Esmérdis, o mago, por uma falta grave que ele cometera.

As mulheres, na Pérsia, têm o costume de deitar-se com o marido cada uma por sua vez. Chegando a vez de Fédima, ela fez o que prometera ao pai. Ao ver o mago profundamente adormecido, tateou-lhe as orelhas, e verificando, sem pesar, que ele não as possuía, informou o pai a respeito, logo ao romper do dia.

LXX — Otanes foi, então, à procura de Aspatino e de Góbrias, que gozavam do mais alto prestígio entre os Persas e nos quais depositava a maior confiança, revelando-lhes o que acabava de descobrir. Aspatino e Góbrias não relutaram muito em lhe dar crédito, tanto mais que já nutriam, desde muito, suas suspeitas. Ficou então resolvido entre eles que cada qual procuraria aliciar um dos Persas em quem mais confiasse, para a revolta. Otanes aliciou Intafernes; Góbrias, Megabizo, e Aspatino, Hidarnes. Eram eles em número de seis, quando Dario, filho de Histaspes, voltando da Pérsia, onde o pai ocupava as funções de governador, chegou a Susa. Logo que o viram de regresso, procuraram obter seu apoio e cooperação.

LXXI — Reunindo-se os sete, juraram fidelidade recíproca e puseram-se a discutir sobre o melhor meio de ação. Ao chegar a vez de Dario emitir sua opinião, declarou ele: “Eu julgava ser o único a ter conhecimento da morte de Esmérdis, filho de Ciro, e a saber que o mago reinava em lugar dele; e foi por isso mesmo que apressei-me a vir aqui, com o propósito de eliminar o usurpador; mas já que estais também a par da mistificação, sou de parecer que devemos agir prontamente e com a máxima energia; de outra forma, correremos perigo”. “Filho de Histaspes, — respondeu Otanes — nascido de pai ilustre e corajoso, mostrais não lhe ser inferior em nada. Procurai, porém, não agir inconsideradamente e com precipitação; que a prudência seja vosso guia. Quanto a mim, sou de opinião que não devemos iniciar o movimento enquanto não tivermos conseguido um bom número de adeptos”. “Persas, — replicou Dario — se seguirdes os conselhos de Otanes estareis perdidos; perecereis miseravelmente. O engodo de uma recompensa levará logo alguém a denunciar-vos ao mago. Devíeis executar a empresa sozinhos e sem comunicá-la a outros; mas como julgastes conveniente participá-la a muitos e envolver-me também no vosso conluio, é forçoso que a executemos hoje mesmo.

Se tentardes adiá-la, eu vos afirmo que tomarei a dianteira e irei, em pessoa, denunciá-la ao mago”.

LXXII — Testemunhando o ardor de Dario, Otanes redarguiu: “Já que nos forçais a apressar a execução do nosso plano e não nos permitis adiá-la, dizei-nos então como havemos de penetrar no palácio e atacar os usurpadores; pois sabeis tão bem quanto nós que há ali guardas por todos os cantos. De que maneira poderemos burlar-lhes a vigilância?”

“Há coisas, Otanes, — volveu Dario — que não podemos conceber por palavras, mas somente por ações; há outras, ao contrário, fáceis de explicar e das quais nada resulta de positivo. Sabeis que não é difícil passar pelos guardas. Em primeiro lugar, ninguém ousará, por uma questão de respeito e temor, impedir a entrada no palácio a pessoas da nossa categoria. Em segundo lugar, tenho um pretexto muito plausível para ali entrar: direi que venho da Pérsia e trago uma comunicação urgente para o rei, da parte de meu pai. Quando é necessário mentir, não devemos ter escrúpulo em fazê-lo. Os que mentem desejam a mesma coisa que os que dizem a verdade: mente-se com o propósito de tirar algum proveito disso; diz-se a verdade, também, tendo em vista alguma vantagem e para conseguir impor confiança. Assim, embora não seguindo os mesmos caminhos, atingimos o mesmo fim. Se não houvesse nada a lucrar, seria indiferente àquele que diz a verdade pregar antes uma mentira, ou ao que mente, dizer antes a verdade. O guarda que nos deixar passar de boa vontade, será recompensado. Aquele que, ao contrário, tentar impedir-nos, será tratado, no mesmo instante, como inimigo. Penetraremos no interior do palácio e realizaremos nosso propósito”.

LXXIII — Tomando a palavra, assim falou Góbrias: “Que honra, meus amigos, há-de ser para nós reavermos o império, ou se não lograrmos êxito, perecermos de armas na mão! Que vergonha para um persa obedecer a um medo, a um mago, ao qual tiraram as orelhas! Todos vós, que permanecestes ao lado de Cambises e acompanhastes os sofrimentos que o levaram à morte, não esquecestes, sem dúvida, as imprecações que ele dirigiu contra os Persas ao ver chegado o seu fim, e o que de mau lhes augurou se eles não se esforçassem para recuperar a coroa. Então, nenhuma importância demos às suas palavras, pois julgávamos que ele assim se expressava para tornar o irmão odiado. Agora, que a verdade foi revelada, sou de opinião que devemos seguir o parecer de Dario e atacar, sem perda de tempo, os usurpadores”. O alvitre de Góbrias foi unanimemente aprovado.

LXXIV — Enquanto eles deliberavam, os magos, por coincidência, também confabulavam entre si. Resolveram ligar-se a Prexaspes, por saberem que Cambises o tratara de maneira indigna, matando-lhe o filho com uma flechada, e que só ele era conhecedor da morte de Esmérdis, filho de Ciro, que ele eliminara com suas próprias mãos. Além disso, não ignoravam que os Persas o tinham em grande estima. Por conseguinte, mandaram chamá-lo, tudo fazendo para conquistar-lhe as boas graças. Exigiram dele a palavra de honra de que não revelaria a ninguém o logro que haviam pregado aos Persas, guardando disso o máximo segredo, prometendo-lhe, em troca, cumulá-lo de riquezas. Prexaspes comprometeu-se a fazer o que desejavam. Diante disso, os magos propuseram-lhe subir a uma torre e anunciar aos Persas convocados junto aos muros do palácio, ser verdadeiramente Esmérdis, filho de Ciro, que reinava sobre eles, e não outro. Os magos assim agiam por conhecerem a grande influência de que aquele homem gozava entre os Persas e por haver ele próprio declarado que Esmérdis, filho de Ciro, ainda vivia, sendo falsa a versão de sua morte, pela qual davam como responsável a ele, Prexaspes.

LXXV — Tendo Prexaspes se mostrado disposto a fazer o que os magos desejavam, convocaram estes os Persas para reunião diante do palácio e fizeram Prexaspes subir a uma torre para dirigir-lhes a palavra; mas este, esquecendo propositalmente o pedido dos magos, pôs-se a discorrer sobre a genealogia de Ciro desde Aquêmenes, e quando, finalmente, chegou a Ciro, fez a enumeração de todos os bens com que este havia cumulado os Persas. Depois desse preâmbulo, revelou toda a verdade, que até ali havia ocultado, disse ele, porque lhe era perigoso confessar o que realmente se passara; mas que nas circunstâncias presentes via-se forçado a fazê-lo. Por fim, confessou ter executado Esmérdis por ordem de Cambises e declarou que eram os magos que reinavam atualmente. Augurando grandes males para os Persas, caso eles não recuperassem o império e não se vingassem dos magos, precipitou-se do alto da torre, de cabeça para baixo. Assim morreu Prexaspes, que durante toda a existência gozara da reputação de homem de bem.

LXXVI — Os sete Persas, tendo resolvido atacar sem demora os magos, marcharam em direção ao palácio, depois de haverem dirigido preces aos deuses. Não sabiam ainda da aventura de Prexaspes, da qual só foram informados na metade do caminho. Ante a notícia, interromperam a marcha para confabular e deliberar entre si. Otanes continuava a opinar pelo adiamento da empresa, achando perigosa qualquer tentativa em situação tão crítica; mas Dario achava que deviam agir imediatamente e executar sem delongas o que haviam planejado. Discutiam ainda o assunto, quando avistaram sete casais de gaviões perseguindo dois casais de abutres, alcançando-os finalmente e estraçalhando-os com o bico e as garras. Ante aquela cena, os Persas concordaram com Dario, e cheios de confiança no presságio encaminharam-se para o palácio.

LXXVII — Ao chegarem às portas da habitação real, deu-se exatamente o que Dario previra: os guardas, respeitando-lhes a alta linhagem e de nada suspeitando, deixaram-nos passar, sem mesmo inquiri-los sobre o motivo que ali os levava. Os conjurados agiam realmente pela mão dos deuses Ao penetrarem no pátio do palácio encontraram os eunucos encarregados de apresentar ao rei as mensagens dos visitantes. Os servos reais perguntaram logo a razão daquela visita, e ameaçando os guardas por terem-nos deixado entrar, tentaram embargar-lhes os passos. Os sete conjurados, encorajando-se mutuamente, caíram de gládio em punho sobre os que pretendiam detê-los, e, matando-os, lançaram-se para o alojamento dos homens. Os dois magos estavam justamente deliberando sobre o procedimento de Prexaspes.

LXXVIII — Chegando-lhes aos ouvidos os gritos dos eunucos, precipitaram-se para o local do tumulto, e vendo o que se passava procuraram pôr-se em guarda. Um deles lançou mão de um arco, e o outro de uma lança. Achando-se, porém, o inimigo já muito próximo, o arco tornou-se inútil a quem o brandia; mas o outro mago procurou defender-se com a lança, conseguindo ferir Aspatino na coxa e Intafernes num dos olhos. Este veio a perder, em conseqüência, o olho atingido, mas não morreu do ferimento. O mago que empunhava o arco, vendo a inutilidade da arma, fugiu para um quarto que se comunicava com o alojamento dos homens e tentou fechar a porta. Dario e Góbrias atiraram-se sobre ele. Góbrias conseguiu agarrá-lo, mas como era grande a escuridão ali reinante, Dario receou ferir Góbrias, ficando bastante embaraçado, sem saber o que fazer. Vendo-o hesitante, Góbrias perguntou-lhe por que não eliminava de uma vez o usurpador. “Receio ferir-te” — respondeu Dario. “Ataca, — volveu Góbrias — ainda que venhas a ferir-me”. Dario obedeceu, e, num golpe feliz, atingiu apenas o mago.

LXXIX — Depois de haverem matado os magos, cortaram-lhes a cabeça, e deixando na cidadela os dois companheiros feridos, não somente para guardá-la, como porque não estavam em condições de acompanhá-los, os outros cinco conjurados, levando nas mãos as cabeças dos usurpadores, deixaram o palácio dando gritos de vitória e fazendo enorme tumulto. Chamando em altos brados os Persas, relataram-lhes o que se tinha passado, mostrando-lhes as cabeças decepadas dos dois intrujões e atacando, ao mesmo tempo, todos os magos que se apresentavam diante deles. Os Persas, informados do golpe dos sete conjurados contra os astutos magos, resolveram secundar-lhes a ação, e desembainhando a espada puseram-se a atacar impiedosamente todos os magos que encontravam; e se a noite não viesse interromper o massacre, não escaparia um só.

Os Persas celebram com muita solenidade essa data, realizando uma de suas maiores festas, denominada Magofonia. Nesse dia não é permitido aos magos aparecer em público, ficando eles encerrados em suas casas.

LXXX — Cinco dias depois do restabelecimento da ordem, os que se tinham sublevado contra os usurpadores reuniram-se em conselho para tratar do estado atual dos negócios. Suas deliberações, embora pareçam inverossímeis a alguns Gregos, não são por isso menos verdadeiras. Otanes, exortando os Persas a exercerem a autoridade em comum, assim lhes falou: “Sou de parecer que não se deve, de agora em diante, confiar a administração do Estado a um único homem, pois o governo monárquico não é nem suave nem bom. Vistes o grau de insolência a que chegou Cambises, e acabastes de experimentar a autoridade do mago. Como, pois, poderá ser a monarquia uma boa forma de governo, se o monarca faz o que quer, sem prestar conta dos seus atos? O homem mais virtuoso, elevado a essa alta dignidade perderá logo todos os seus bons predicados. A inveja é inata nos homens, e as regalias desfrutadas com um monarca levam-no à insolência. Ora, quem possui esses dois vícios adquire todos os outros, e comete uma infinidade de crimes, ora por excesso de orgulho, ora por inveja. Um tirano devia ser um homem exemplar, já que goza de toda espécie de regalias; mas é o contrário que se verifica, e seus súditos sabem-no muito bem por experiência. O tirano odeia as pessoas honestas e parece deplorar que elas ainda existam. Somente com os maus se sente bem. Presta facilmente ouvido à calúnia e acolhe bem os delatores; e o que é mais engraçado, se o louvamos com moderação, ofende-se; se o louvamos com efusão, ofende-se do mesmo modo, atribuindo esse gesto a interesses mesquinhos. Finalmente, temos o mais terrível dos inconvenientes: infringe as leis da pátria, comete violências contra as mulheres e manda matar quem muito bem lhe pareça, sem processo ou qualquer outra formalidade. Não se dá o mesmo com o governo democrático, que chamamos isonomia, que soa como o mais belo de todos os nomes. Neste, não é permitido nenhum dos abusos inerentes ao Estado monárquico. O magistrado é eleito por sorte, e torna-se responsável pelos seus atos administrativos, sendo todas as deliberações tomadas em comum. Sou, por conseguinte, pela abolição do governo monárquico e pela instauração do governo democrático, pois todo poder emana do povo”.

LXXXI — Tomando a palavra, Megabizo opinou pela oligarquia. “Penso, como Otanes, que é preciso acabar com a monarquia e aprovo tudo o que ele acaba de expor; mas quando ele nos exorta a colocarmos o poder supremo nas mãos do povo, afasta-se do bom caminho. Nada mais insensato e insolente do que uma multidão inconseqüente. Procurando evitar-se a insolência de um tirano, cai-se sob a tirania do povo sem freios. Haverá coisa mais insuportável? Quando o soberano toma uma medida, sabe bem por que a toma; o povo, ao contrário, não usa a inteligência nem a razão. E que de outro modo poderia ser, se jamais recebeu instrução e não sabe o que é belo nem o que é mais conveniente? Lança-se num negócio às cegas, sem julgá-lo, qual uma torrente que tudo arrasta. Possam os inimigos dos Persas adotar a democracia! Quanto a nós, escolhamos homens virtuosos e coloquemos o poder em suas mãos. Acho que podemos incluir-nos nesse número, e, de acordo com a lógica, os homens sensatos e esclarecidos só podem dar excelentes conselhos”.

LXXXII — Dario falou em seguida, formulando seu parecer nos seguintes termos: “A opinião de Megabizo sobre a democracia me parece justa e muito sensata, mas discordo quanto ao que ele afirmou em favor da oligarquia. Das três formas de governo que se podem propor — o democrático, o oligárquico e o monárquico — considerados no seu grau possível de perfeição, o monárquico me parece muito superior aos outros dois, pois é opinião geral não haver nada melhor do que o governo de um único homem, quando este é um homem de bem. Em tais condições, ele não poderá deixar de governar de uma maneira irrepreensível. Todas as deliberações serão secretas, e o inimigo não terá nenhum conhecimento delas. O mesmo não acontece com a oligarquia. Sendo o governo composto de vários indivíduos aplicados ao serviço do bem público, surgem freqüentemente entre eles inimizades particulares e violentas. Cada um quer ser o mais poderoso e fazer prevalecer sua opinião; daí os ódios recíprocos, as sedições; e destas ao morticínio, e, finalmente, à monarquia. Aí está por que o governo de um só é preferível ao de muitos. Por outro lado, quando o povo manda, é impossível não implantar-se a desordem no Estado. A corrupção, uma vez estabelecida, não produz ódios entre os maus; ao contrário, une-os por laços de estreita amizade. Os que desmoralizam o Estado agem de combinação e se sustentam mutuamente; continuam a fazer o mal até erguer-se um defensor do povo para reprimi-los. Este que a eles se opõe torna-se, então, admirado, e essa admiração faz dele um monarca — o que prova ainda que a monarquia é a melhor forma de governo. Em conclusão, de onde nos vem a liberdade? De quem a obtemos? Do povo, da oligarquia ou de um monarca? Pois se é verdade que por um único homem fomos libertados da escravidão, concluo ser necessário mantermos o governo monárquico. Aliás, nunca se deve infringir as leis da pátria quando elas são verdadeiramente sábias, pois isso seria perigoso”.

LXXXIII — Foram essas as três opiniões expostas, recebendo a última a aprovação dos outros quatro chefes insurrectos. Então, Otanes, que desejava ardentemente estabelecer a isonomia, vendo seu parecer rejeitado ergueu-se no meio da assembléia e falou assim: “Persas, já que é preciso que um de nós se torne rei; que a sorte ou o sufrágio da nação coloque um de nós no trono; ou que por qualquer outro meio a ele suba um de nós, não me tereis como concorrente. Não desejo nem mandar nem obedecer; cedo-vos o lugar, com a condição, porém, de não ficar sob a autoridade de nenhum de vós, nem eu, nem meus parentes, nem os meus descendentes, até o fim dos tempos”.

Os outros seis acederam ao pedido, com o que ele se retirou da assembléia, não lhes fazendo, como havia prometido, nenhuma concorrência, sendo essa a razão pela qual sua família é hoje a única, em toda a Pérsia, a gozar de plena liberdade, não se submetendo a ninguém, senão quando lhe apraz, contanto que não transgrida as leis estabelecidas do país.

LXXXIV — Os outros seis Persas confabularam sobre a maneira mais justa de eleger um rei, ficando, antes de tudo, deliberado que aquele que dentre eles obtivesse a soberania concederia a Otanes e a seus descendentes, em caráter perpétuo, a túnica meda, fazendo-lhe também dádivas consideradas pelos Persas como as mais honrosas. Tal distinção lhe foi concedida por haver sido ele o primeiro a formular o projeto de destronar o mago e a reuni-los para a execução do mesmo. Essas honras visavam particularmente o companheiro, mas elaboraram para si próprios leis especiais e generosas. Ficou estabelecido que todos os sete teriam entrada franca no palácio, sem necessidade de se fazerem anunciar, exceto quando o soberano estivesse no leito com a esposa; que o rei não poderia desposar uma mulher que não pertencesse à família de qualquer dos que haviam destronado o mago. Quanto à maneira de eleger o novo rei, ficou decidido que, no dia seguinte pela manhã entrariam juntos a cavalo na cidade, sendo reconhecido como rei aquele cujo cavalo relinchasse em primeiro lugar, ao nascer do sol(5).

LXXXV — Dario possuía um hábil escudeiro chamado Ebares. Ao deixar a assembléia, dirigiu-se a ele, dizendo-lhe: “Ebares, ficou decidido entre nós, que amanhã pela manhã montaremos a cavalo, e que será rei aquele cujo cavalo relinchar primeiro. Emprega, pois, tua habilidade, para que eu obtenha esse posto supremo”. “Senhor, — respondeu Ebares — se a vossa eleição depende unicamente disso, tende ânimo e não vos preocupeis; ninguém senão vós será o escolhido; disponho de um segredo infalível”. “Se o possuís verdadeiramente, — volveu Dario — chegou o momento de fazeres uso dele; não há que hesitar; amanhã nossa sorte estará decidida”.

Ao cair da noite, Ebares tomou uma das éguas pela qual mais se inclinava o cavalo de Dario e conduziu-a a um arrabalde; ali amarrou-a, e trazendo o cavalo, fê-lo passar várias vezes em torno dela, permitindo, afinal, o coito entre ambos.

LXXXVI — No dia seguinte, ao alvorecer, os seis Persas encontraram-se a cavalo no local combinado, seguindo para a cidade. Ao chegarem ao arrabalde, no local exato onde, na noite precedente, a égua estivera amarrada, o cavalo de Dario empinou-se e pôs-se a relinchar. No mesmo instante, um relâmpago cortou o espaço e ouviu-se um trovão, embora o céu estivesse sereno. Esses sinais imprevistos, parecendo revelar que o céu estava de acordo com Dario, foram encarados por este último como uma saudação. Seus companheiros, descendo de seus cavalos, prosternaram-se a seus pés, reconhecendo-o como rei(6).

LXXXVII — Tal foi, segundo uns, o meio de que se serviu Ebares para tornar seu amo soberano dos Persas. Outros, porém, contam o fato de maneira diversa, havendo assim duas versões sobre o mesmo, na Pérsia. Dizem que Ebares passou a mão sobre as partes sexuais da égua, mantendo-a oculta na cintura; e que no momento em que o sol começou a despontar e os cavalos se punham em marcha, retirou-a dali, aproximando-a do focinho do cavalo de Dario. O animal, sentindo o cheiro da companheira, pôs-se a relinchar.

LXXXVIII — Dario, filho de Histaspes, foi, assim, proclamado rei, e todos os povos da Ásia subjugados por Ciro e depois por Cambises a ele se submeteram, com exceção dos Árabes. Estes, na verdade, nunca foram escravos dos Persas, mas seus aliados. Haviam simplesmente facultado passagem a Cambises para este penetrar no Egito. Se a isso se opusessem, o exército persa jamais teria podido invadir aquele país. Foi com mulheres persas que Dario contraiu seus primeiros matrimônios: desposou duas filhas de Ciro — Atossa e Aristona. Atossa havia sido mulher de Cambises e, depois, do mago usurpador; Aristona era ainda virgem quando ele a tomou para mulher. Pouco depois, uniu-se a Pármis, filha de Esmérdis, filho de Ciro, e a Fédima, filha de Otanes e que havia descoberto a impostura do mago. Seu poder consolidou-se sob todos os aspectos. Começou por mandar erigir em pedra sua estátua eqüestre, com esta inscrição: “Dario, filho de Histaspes, subiu ao trono imperial dos Persas pela virtude do seu cavalo (o nome deste estava indicado na inscrição) e o engenho de Ebares, seu escudeiro”.

LXXXIX — Feito isso, dividiu o império em vinte Estados, que os Persas denominam satrapias, estabelecendo em cada um deles um governador. Regulamentou o tributo que cada nação deveria pagar-lhe, e, para esse fim, incluía em cada nação os povos limítrofes. Às yezes, porém, passava por cima dos vizinhos, incluindo, num mesmo departamento, povos afastados um do outro.

Eis como distribuiu ele as satrapias e como regulamentou os tributos, que lhe deveriam ser pagos todos os anos. Ordenou que os que deviam pagar sua contribuição em prata, a pagassem ao peso do talento babilônio, e os que tivessem de pagá-la em ouro, o fizessem ao peso do talento da Eubéia. O talento babilônio vale setenta minas da Eubéia.

No reinado de Ciro, e mesmo no de Cambises, nada tinha sido regulamentado nesse sentido; dava-se simplesmente ao rei um donativo. Esses impostos e outras exigências semelhantes levaram os Persas a dizer que Dario era um comerciante, Cambises um senhor, e Ciro um pai: o primeiro, porque transformava tudo em dinheiro; o segundo, por ser cruel e negligente; o terceiro, enfim, por ser benévolo e ter cumulado seus súditos do maior número de benefícios possível.

XC — Os Iônios, os Magnetas da Ásia, os Eólios, os Cários, os Lícios, os Mílios e os Panfílios compunham o primeiro departamento e pagavam, todos juntos, quatrocentos talentos de prata. Os Mísios, os Lídios, os Lasônios, os Cabálios e os Higênios eram taxados em quinhentos talentos de prata e compunham a segunda satrapia. Os habitantes do Helesponto, localizados à direita de quem navega daquele lado, os Frígios, os Trácios da Ásia, os Paflagônios, os Mariandínios e os Sírios constituíam o terceiro departamento e pagavam trezentos e sessenta talentos. Os Cilícios davam todos os dias, como tributo, um cavalo branco, perfazendo trezentos e sessenta por ano, e mais quinhentos talentos de prata, dos quais cento e quarenta eram empregados na manutenção da cavalaria, guarda do país, entrando os trezentos e sessenta restantes para os cofres de Dario. Essa nação constituía o quarto departamento.

XCI — O quinto departamento começava na cidade de Posideu, construída por Anfíloco, filho de Anfiarau, nas fronteiras da Cilícia e da Síria, estendendo-se até o Egito, sem compreender o país dos Árabes, isento de qualquer tributo. Esse departamento pagava trezentos e cinqüenta talentos, e incluía também toda a Fenícia, a Síria da Palestina e a ilha de Chipre.

Do Egito, dos Líbios vizinhos do Egito, de Cirene e da Barcéia, que estavam sob o governo do Egito, vinham como tributo, para os cofres do rei, setecentos talentos, sem contar o produto da pesca do lago Méris e setecentos talentos em trigo, pois eram fornecidas cento e vinte mil medidas de trigo aos Persas componentes da guarnição do castelo branco de Mênfis e às tropas auxiliares que estavam a seu soldo. Era esta a sexta satrapia. A sétima compreendia os Satágidas, os Gandários, os Dadices e os Aparitos, nações submetidas a um mesmo governo e pagando cento e setenta talentos. Susa e o resto do país dos Cisseus constituíam o oitavo departamento e pagavam ao soberano trezentos talentos por ano.

XCII — Da Babilônia e do resto da Assíria vinham-lhe mil talentos de prata e quinhentos jovens eunucos, sendo esse o nono departamento. De Ecbatana e do resto da Média, dos Paricánios e dos Ortocoribântios, que compunham o décimo departamento, tirava o rei quatrocentos e cinqüenta talentos. Os Cáspios, Pausiceus, os Pantimátios e os Daritos constituíam a décima primeira satrapia, pagando, todos juntos, duzentos talentos. A décima segunda compreendia toda a região que se estendia até os Egles, a começar do país dos Báctrios, e rendia um tributo de trezentos e sessenta talentos.

XCIII — O décimo terceiro departamento pagava quatrocentos talentos. Estendia-se da Pactícia, da Armênia e dos países vizinhos, ao Ponto Euxino. Os Sagarteus, os Sarangeus, os Tamaneus, os Outícios, os Mícios e os habitantes das ilhas do mar da Eritréia, para onde o rei enviava aqueles que caíam em seu desfavor, pagavam um tributo de seiscentos talentos e compreendiam a décima quarta satrapia. A décima quinta abrangia os Sácios e os ... [Cáspios](7), que pagavam duzentos e cinqüenta talentos. A décima sexta se compunha dos Partas, dos Corásmios, dos Sogdeus e dos Ários, que contribuíam com trezentos talentos.

XCIV — Os Paricânios e os Etíopes asiáticos formavam a décima sétima satrapia, pagando quatrocentos talentos. A décima oitava compreendia os Matianeus, os Sapiros e os Alaródios, taxados em duzentos talentos. Os Mocos, os Tibarênios, os Mácrons, os Misionecos e os Mardas pagavam trezentos talentos e constituíam o décimo nono departamento. Os Indianos, o mais numeroso de todos os povos que conhecemos, pagavam um tributo igual à soma de todos os outros juntos, estando taxados em trezentos e sessenta talentos de palhetas de ouro. Constituíam eles o vigésimo departamento.

XCV — Se quisermos reduzir ao talento da Eubéia todo esse dinheiro pago ao peso do talento babilônio, teremos nove mil oitocentos e oitenta talentos; e se reduzirmos o valor do ouro, treze vezes superior ao da prata, ao talento da Eubéia, teremos quatro mil seiscentos e oitenta talentos de pó de ouro. Reunindo todas essas somas, ver-se-á que Dario retirava por ano um tributo de quatorze mil quinhentos e sessenta talentos da Eubéia, sem incluir outras somas menores não mencionadas.

XCVI — Tal a renda que Dario extraía da Ásia e de uma pequena parte da Líbia. Criou, em seguida, impostos para as ilhas, bem como para os povos que habitavam a Europa até a Tessália. E eis como agregava essa renda ao seu tesouro: mandava fundir o ouro e a prata em vasilhas de barro, e quando estas estavam cheias retirava o metal já resfriado. Quando precisava de dinheiro, mandava cunhar tantas moedas quantas fossem necessárias na ocasião.

XCVII — Tais os diferentes departamentos e os impostos a eles aplicados. A Pérsia foi a única província não incluída por mim na categoria dos países tributários, porquanto estava isenta de impostos; os Persas apenas faziam donativos. O mesmo acontecia com os Etíopes, vizinhos do Egito, que Cambises subjugara na sua expedição contra os Etíopes-Macróbios, e com os habitantes da cidade sagrada de Nisa, que celebram a festa em honra de Baco. Esses Etíopes e seus vizinhos cultivam a mesma lavoura que os Indianos-Calátios e residem em habitações subterrâneas. Os dois povos levavam, de três em três anos, ao rei, duas medidas de ouro fino, duzentos troncos de ébano e vinte dentes de elefante. Além disso, presenteavam-no com cinco jovens etíopes, e tal costume ainda se observava no meu tempo.

Os povos da Cólquida estabeleciam, eles próprios, aquilo com que deviam contemplar o rei, o mesmo se dando com os seus vizinhos até o Cáucaso; pois todo o país até a referida montanha estava sob o domínio dos Persas; mas os povos que habitam ao norte do Cáucaso não se incluem no número deles. Os habitantes da Cólquida adotaram o costume de enviar, de cinco em cinco anos, ao soberano, cem rapazes e cem raparigas, presente que ainda faziam em meu tempo. Os Árabes presenteavam-no também, todos os anos, com mil talentos de incenso.

XCVIII — Quanto à grande quantidade de pó de ouro que os Indianos pagavam, segundo já disse, como tributo ao rei da Pérsia, vejamos como a obtinham. A parte das Índias que se estende para o levante é bastante arenosa. A leste, o país é deserto, devido justamente à grande quantidade de areia. Sob a designação de Indianos estão compreendidos vários povos falando idiomas diferentes, uns nômades e outros sedentários. Há os que habitam os pântanos formados pelos transbordamentos do rio e que se alimentam de peixe cru, pescado em batéis feitos de caniços. Cortam o caniço de nó em nó, construindo com cada pedaço uma barquinha. Seus trajes são confeccionados com a fibra de uma planta que cresce à beira dos riachos. Colhem-na e, depois de bem batida, entrelaçam as fibras à maneira de uma esteira, revestindo-se com elas à semelhança de uma couraça.

XCIX — Os outros Indianos que habitam a região a leste são nômades e alimentam-se de carne crua. Chamam-nos Padeus. Entre as leis que se lhes atribuem, cita-se a seguinte: Quando alguém entre eles cai doente, se é homem, os parentes mais próximos matam-no, alegando o fato de a doença fazê-lo emagrecer e tornar-lhe a carne menos saborosa. De nada vale ao doente negar que esteja tão doente como parece; é logo estrangulado impiedosamente pelos parentes, que se regalam com a sua carne. Se é uma mulher que adoece, tratam-na da mesma maneira. Matam também os que atingem idade avançada; mas isso raras vezes acontece, pois têm sempre o cuidado de matar os que adoecem.

C — Há outros Indianos com hábitos e costumes diferentes. Não matam nenhum animal; nada semeiam; não possuem moradia e se alimentam de ervas. Existe na região por eles habitada uma espécie de grão que a terra produz por si mesma. Esse grão, um pouco maior que o do milho, está encerrado numa casca. Os habitantes colhem-no, fervem-no com a casca e comem-no em seguida. Quando qualquer desses Indianos adoece, retira-se para um lugar deserto e ali se deita, sem que ninguém dele se ocupe, quer durante a doença, quer quando morre.

CI — Esses Indianos têm relações em público com as mulheres como os animais. São todos da mesma cor, que muito aproxima da dos Etíopes. O líquido seminal, entre eles, não é branco, como acontece entre os outros homens, mas como a sua própria pele e também semelhante ao dos Etíopes. Encontram-se eles localizados numa região distante dos Persas, do lado do sul, e nunca foram submetidos por Dario.

CII — Existem ainda outros Indianos, habitando a região norte, nas vizinhanças das cidades de Caspátira e Pactícia, e cujos costumes muito se assemelham aos dos Báctrios. São tidos como os mais bravos entre todos os de sua raça e utilizados sempre pelos outros na busca do ouro. Há nas proximidades da região que habitam zonas que os areais tornam inabitáveis. Encontram-se ali, entre as areias, formigas maiores do que uma raposa, o que se pode comprovar pelas que existem no viveiro do rei da Pérsia, caçadas na referida região.

Essas formigas têm a forma das que encontramos na Grécia. Cavam abrigos subterrâneos, e para fazê-lo erguem a terra da mesma maneira que as nossas; e as areias por elas revolvidas estão sempre cheias de ouro. Os Indianos são enviados para pesquisar essas areias nos desertos. Cada um deles atrela três camelos, colocando um macho de cada lado e no meio uma fêmea, na qual montam. Têm, todavia, o cuidado de servir-se das que amamentam, que separam das crias enquanto novas. Seus camelos não são menos ligeiros do que os cavalos, nas jornadas, e suportam cargas muito maiores.

CIII — Não tenciono dizer aqui o que seja o camelo; os Gregos conhecem muito bem esse animal. Direi somente o que sobre ele ignoram. O camelo tem duas coxas e dois joelhos em cada perna traseira, e o membro passa entre as coxas, voltando-se para o lado da cauda.

CIV — Escolhidos e atrelados os camelos da maneira que me referi, os Indianos dirigem-nos em marcha regulada para os lugares em que sabem existir ouro, onde geralmente chegam quando o sol já vai bem alto, pois é justamente nas horas mais quentes do dia que as formigas, procurando abrigar-se debaixo da terra, revolvem a areia. Nessa região o sol é mais ardente pela manhã do que ao meio-dia, ao contrário do que se verifica nas outras partes; e os habitantes conservam a cabeça coberta até a hora em que termina, entre nós, o mercado. Ao meio-dia, a temperatura ali pouco difere da dos demais países, e daí em diante começa a declinar, sendo a tarde tão fresca quanto a manhã entre os outros povos. À hora de dormir já se goza de um agradável frescor.

CV — Chegando aos locais onde existe ouro, os Indianos enchem de areia os sacos que trouxeram para esse fim, e se retiram às pressas, porque, segundo os Persas, as formigas, advertidas da sua presença pelo cheiro, saem em sua perseguição. Não há, dizem eles, animal tão veloz quanto essas formigas, e se os Indianos não fogem prontamente, são logo apanhados. É por esse motivo que trazem os camelos machos, menos ligeiros, atrelados às fêmeas. Não fora esse cuidado, na hora da retirada eles não correriam tanto quanto elas, tornando-se presa fácil. Quanto às fêmeas, a lembrança dos filhotes e o desejo de a eles reunir-se dão-lhes novas forças para correr. É assim que, afirmam os Persas, os Indianos obtêm a maior parte do seu ouro; a quantidade que extraem das minas é diminuta.

CVI — A Índia é, como disse há pouco, a última região habitada a leste. Os quadrúpedes e os voláteis ali são bem maiores que nos outros países, mas os cavalos são menores do que os da Média. O ouro existe em abundância nesse país. Tiram-no das minas, dos rios, que o arrastam em suas águas, e da maneira a que me referi. Encontram-se também nessa região árvores selvagens, produzindo, como fruto, uma espécie de lã(8), mais bonita e melhor que a das ovelhas. Os Indianos vestem-se com essa lã, que colhem nas mencionadas árvores.

CVII — Do lado do sul, a Arábia é o último dos países habitados. É também o único onde encontramos o incenso(9), a mirra, a canela, o cinamomo e o ládano. Os Árabes colhem esses produtos com muito trabalho, exceto a mirra. Para colher o incenso, queimam as árvores que produzem uma goma denominada estirace, vendida pelos Fenícios aos Gregos. Queimam essa goma, a fim de afugentar uma multidão de pequenas serpentes voadoras de várias espécies, que permanecem nas árvores. São as tais serpentes que voam em bandos para o Egito. Somente a fumaça do estirace é capaz de afastá-las do seu pouso habitual.

CVIII — Dizem os Árabes que todo o país estaria cheio dessas serpentes se não lhes acontecesse aquilo que sabemos acontecer às víboras. A Providência divina, na sua suprema sabedoria, determinou que todos os animais tímidos e que servem de alimento fossem muito fecundados para que o consumo deles feito não causasse o desaparecimento da espécie, e que, ao contrário, os animais nocivos e ferozes fossem muito menos prolíficos. A lebre encontra por toda parte inimigos; os outros animais, os pássaros, os homens, lhe fazem guerra; mas, em compensação, é extraordinariamente fecunda. É de todos os animais aquele cuja fêmea concebe já grávida, criando ao mesmo tempo filhotes ainda muito tenros e outros já peludos. A leoa, ao contrário, um animal forte e feroz, só concebe uma vez na vida, e dá apenas uma cria, pois seu útero é expelido juntamente com o fruto. A razão disso está em que, quando o leãozinho começa a mexer-se no ventre materno, como possui garras mais aguçadas do que qualquer outro animal, vai dilacerando o útero daquela que o gera, até que, quando a leoa dá à luz não mais o possui.

CIX — Se as víboras e as serpentes voadoras da Arábia não morressem senão de morte natural, a existência se tornaria impossível para os homens; mas acontece que, quando o macho e a fêmea se unem no coito, esta, no momento do espasmo, agarra fortemente a garganta do companheiro, estrangulando-o e devorando-o em seguida. Assim perece o macho. A fêmea recebe, por sua vez, a punição: os filhotes, no momento de nascer, roem-lhe o útero para abrir passagem, vingando, dessa maneira, a morte do pai.

As outras serpentes, que não fazem absolutamente mal aos homens, põem ovos, dos quais vemos sair uma multidão de pequenas serpentes. Há, como ninguém ignora, víboras por toda a terra, mas só na Arábia se encontram serpentes aladas, motivo por que seu número é sempre pequeno em relação às outras.

CX — Mostramos como os Árabes colhem o incenso. Vejamos agora como obtêm a canela. Quando saem à sua procura, cobrem o corpo inteiro, e mesmo o rosto, exceto os olhos, com peles de boi e de cabra. A canela cresce em lagos pouco profundos, em torno dos quais pululam animais alados semelhantes aos morcegos. Esses animais são dotados de grande força e emitem gritos agudos. Os Árabes têm o cuidado de afugentá-los, protegendo os olhos contra sua terríveis picadas, e com essa precaução colhem a canela.

CXI — O cinamomo é colhido de uma maneira ainda mais estranha. Os próprios Árabes não saberão dizer de onde esse produto é originário, nem qual a terra que se presta à sua cultura. Alguns julgam-no originário do país onde Baco foi criado. Dizem que grandes pássaros vão procurar ali essas cascas a que chamamos cinamomo(10), nome transmitido pelos Fenícios, levando-as para os ninhos construídos com lodo em montanhas escarpadas, onde nenhum homem pode subir. Para obter essas cascas de cinamomo, os Árabes — dizem — servem-se deste artifício: tomam da carne de vaca, de burro e de outros animais mortos, cortam-na em grandes pedaços e colocam-nos o mais perto possível dos ninhos, afastando-se em seguida. Os pássaros caem sobre a presa e arrastam-na para os ninhos; mas como estes não são bastante sólidos para sustentá-los, desfazem-se e caem por terra. Os Árabes correm a apanhar as cascas de cinamomo, que depois levam para outros países.

CXII — O ládano é colhido de maneira ainda mais surpreendente. Embora odorífero, procede de um lugar de odor desagradável: extraem-no da barba dos bodes e das cabras, tal qual a goma que escorre lentamente das árvores. Empregam-no na composição de vários perfumes, e é principalmente com ele que os Árabes se perfumam.

CXIII — Os Árabes possuem duas espécies de carneiros de porte admirável e que não encontramos em outras partes. Uma das espécies possui cauda longa, medindo cerca de três côvados de comprimento. Se a deixassem arrastar pelo chão adviriam úlceras, porque o contínuo atrito contra a terra acabaria ferindo-a. Os pastores do país, não ignorando isso, fazem pequenos carros nos quais prendem a cauda desses animais, evitando assim que elas rocem contra o chão. A outra espécie possui uma cauda de um côvado de largura.

CXIV — A Etiópia estende-se do ocidente da Arábia para o sul, sendo o último dos países habitados. Produz grande quantidade de ouro, elefantes monstruosos, toda espécie de árvores selvagens e o ébano. Os homens ali são de grande estatura, belos, bem feitos e vivem muito tempo.

CXV — São essas as partes extremas da Ásia e da Líbia. Quanto às da Europa, para ocidente, nada posso dizer com segurança, e nada posso afirmar sobre a existência de um rio que os bárbaros denominam Erídano e que se lança no mar do Norte, e do qual, segundo dizem, nos vem o âmbar. Muito menos conheço as ilhas Cassitérides, de onde trazem o estanho. O próprio nome do rio indica ser duvidosa sua existência. Erídano não é, absolutamente, um nome bárbaro, mas um nome grego inventado por algum poeta. Aliás, jamais encontrei alguém que me dissesse, como testemunha ocular, que mar é esse situado naquela região da Europa. O que há de verdade é que o estanho e o âmbar nos vêm daquele extremo do mundo.

CXVI — Consta existir ouro em abundância no norte da Europa, mas não saberei dizer como se pode encontrá-lo. Afirma-se, entretanto, que os Arimaspos, que possuem um só olho, subtraem esse ouro aos Grifãos; mas não posso admitir que existam homens que nascem com um só olho, sendo em tudo o mais semelhantes aos outros homens. De qualquer maneira, parece que os extremos da terra encerram o que há-de mais belo e mais raro no mundo.

CXVII — Há na Ásia uma planície cercada de todos os lados por uma montanha que possui cinco saídas. Essa planície pertenceu outrora aos Corásmios e fica situada nas fronteiras do país, limitando-se igualmente com as terras dos Hircânios, dos Partas, dos Sarangeus e dos Tamaneus; mas com o domínio dos Persas, passou a pertencer ao soberano destes.

Da montanha a que nos referimos corre um grande rio chamado Aces. O leito desse rio estendia-se outrora por uma das gargantas, e espraiando-se por vários lados, regava as terras dos mencionados povos; mas com o domínio dos Persas, eis o que aconteceu: O rei mandou construir, em cada uma das gargantas, barreiras e represas, e a água, não tendo mais saída, espraia-se constantemente pela planície, transformando-a num vasto mar. Não podendo mais servir-se dessas águas, como faziam outrora, os referidos povos ficaram expostos às piores dificuldades. É verdade que ali chove bastante no Inverno, mas é no Verão que eles têm mais necessidade de água para o cereal e o sésamo que semeiam. Por conseguinte, quando vêem que é de todo impossível obtê-la, vão, juntamente com as esposas, à procura dos Persas, e diante do palácio põem-se a lamentar-se em altos brados e a pedir-lhes auxílio. Compreendendo sua aflição, o rei ordena a abertura da represa do lado dos que mais necessitam de água, e quando suas terras estão suficientemente regadas, a represa é novamente fechada. Essa operação se repete do lado dos outros necessitados; mas, segundo ouvi dizer, o soberano exige, para satisfazê-los, grandes somas de dinheiro, além de impostos.

CXVIII — Intafernes, um dos sete Persas que haviam conspirado contra o mago, tornou-se culpado de uma injúria que lhe acarretou a pena de morte. Logo depois da sublevação, quis ele entrar no palácio para falar ao novo soberano, pois ficara estabelecido entre os sete comparsas que todos eles teriam entrada franca na residência real, sem formalidades, a menos que o soberano estivesse com alguma de suas esposas. Intafernes quis entrar no palácio sem se fazer anunciar, ciente do direito adquirido, mas os guardas da porta e o introdutor lhe barraram o caminho, alegando encontrar-se o rei com uma de suas mulheres. Julgando que lhe mentiam, Intafernes sacou da cimitarra e decepou-lhes o nariz e as orelhas, atando-os ao bridão do cavalo e passando-os em torno do pescoço das vítimas, afastando-se em seguida.

CXIX — As vítimas apresentaram-se ao rei, expondo-lhe a razão pela qual haviam sido maltratados daquela forma. Receando que semelhante violência tivesse sido praticada de combinação com os outros cinco, Dario chamou-os à sua presença, um de cada vez, sondando-os em particular, para saber se aprovavam tal conduta. Quando chegou à conclusão que o caso se passara à revelia dos outros, tendo motivos para acreditar que Intafernes tramava uma revolta com seus parentes, mandou prendê-lo, a ele, aos filhos e toda a família, e pô-los a ferros, condenando-os à morte.

A mulher de Intafernes dirigia-se todos os dias às portas do palácio, desesperada, soltando gritos comovedores. Seu pranto e sua perseverança em prol do perdão para os seus tocaram o coração do soberano, que fez chegar a ela, por um de seus auxiliares, esta mensagem: “O rei Dario está disposto a conceder o perdão a um dos prisioneiros. Podes escolher entre os de tua família aquele a quem desejas livrar do suplício”. Após um momento de reflexão, ela respondeu: “Se o rei me concede a vida de um dos meus parentes, escolho meu irmão, de preferência a todos os outros”. Dario ficou surpreendido com a resposta. “Que motivo — interrogou ele — te leva a preferir teu irmão a teu marido e teus filhos, que, naturalmente, te deviam ser mais caros?” “Ó rei — tornou ela — se os céus o permitirem, poderei encontrar outro marido e ter outros filhos, enquanto que, como meu pai e minha mãe já estão mortos, não mais poderei possuir outro irmão. Tal o motivo que me leva a preferi-lo aos outros”. Achando a resposta sensata e apreciando-a muito, Dario restituiu-lhe não somente o irmão, como também o primogênito, mandando executar os outros. Assim pereceu, logo no início do novo reinado, um dos sete que para ele haviam contribuído.

CXX — Por ocasião do acidente sofrido por Cambises, acidente esse que o levaria à morte, passou-se o seguinte fato: Orestes, persa de nascimento, a quem Ciro havia confiado o governo de Sardes, concebeu o abominável projeto de aprisionar Polícrates de Samos e de eliminá-lo, embora nunca houvesse dele recebido a menor ofensa, nem por palavras, nem por ações, e sem mesmo conhecê-lo. Mas eis a razão alegada pela maioria das pessoas que contam essa história:

Achando-se um dia à porta do palácio em companhia de Mitróbates, governador de Dascílio, Orestes pôs-se a discutir com este, e enveredando o debate para a questão da coragem pessoal Mitróbates assim se expressou: “Como podes julgar-te um homem corajoso, se ainda não tentaste te apoderar da ilha de Samos, embora ela fique contígua ao teu país e seja tão fácil de subjugar que um dos habitantes conquistou-a com quinze soldados apenas e é agora seu soberano?” Orestes ficou, ao que dizem, tão chocado com essa censura, que buscou os meios para vingar-se, não tanto daquele que a fizera, mas de Polícrates, por causa de quem a recebera.

CXXI — Outros, embora em menor número, contam ter Orestes enviado um arauto a Samos para fazer uma solicitação qualquer ao rei, não se dizendo absolutamente do que se tratava. Quando o emissário chegou, o soberano achava-se em repouso num leito no alojamento dos homens, tendo perto de si Anacreonte de Teos. Quando o emissário se aproximou, Polícrates, que se achava com o rosto voltado para a parede, fosse por mero acaso, fosse por querer manifestar desprezo por Orestes, não se dignou voltar-se para o emissário e nem mesmo responder-lhe.

CXXII — Citam-se esses fatos como a causa da morte de Polícrates. Deixamos a cada qual a liberdade de acreditar naquele que lhe parecer mais provável.

Conta-se ainda que Orestes, achando-se em Magnésia, sobre o Menandro, enviou a Samos um lídio de nome Mirso, filho de Gigés, com uma mensagem para Polícrates, cujo caráter conhecia. Polícrates foi o primeiro de todos os Gregos ao que sabemos, a pretender tornar-se senhor dos mares, se excetuarmos Minos de Cnossa ou outro mais antigo do que este legislador. Mas até onde alcança a história, Polícrates figura como o primeiro a querer apoderar-se da Iônia e de suas ilhas. Foi por haver tido conhecimento disso, que Orestes enviou-lhe a seguinte mensagem:

“ORESTES A POLÍCRATES

Sou sabedor de que tens vastos projetos em mira, mas que teus recursos econômicos não favorecem a realização dos mesmos. Se seguires, porém, os meus conselhos, serás bem sucedido e colocarás a mim próprio a coberto de todo perigo. Cambises nutre o desejo de me eliminar; soube-o de fonte segura. Concede-me abrigo no teu reino; recebe-me com os meus tesouros, e a metade deles será tua. Com ela te tornarás senhor de toda a Grécia. De resto, se tens alguma dúvida sobre o valor dos meus tesouros, envia-me alguém da tua confiança, que eu lhos mostrarei”.

CXXIII — Encantado com o oferecimento de Orestes, Polícrates aceitou-o tanto mais depressa quanto imensa era a sua paixão pelo dinheiro. Apressou-se em enviar-lhe Meândrio, seu secretário e filho de pai do mesmo nome. Esse Meândrio era natural de Samos, e foi ele quem, algum tempo depois, consagrou ao templo de Juno o rico mobiliário dos aposentos de Polícrates.

Sabendo que Polícrates não deixaria de mandar alguém contemplar os seus tesouros, Orestes encheu de seixos oito grandes cofres quase até as bordas, cobriu os seixos com peças de ouro e fechou os cofres com cadeados. Meândrio chegou, contemplou as riquezas e regressou para informar a Polícrates sobre o que vira.

CXXIV — O soberano aprestou-se para partir incontinênti, a fim de entender-se pessoalmente com Orestes, a despeito das advertências dos adivinhos e dos amigos. Aliás, sua filha tivera um sonho no qual julgava ver o pai arrebatado pelos ares, banhado pelas águas do céu e ungido pelo sol. Aterrada com a visão, empregou todos os esforços para dissuadi-lo de partir; e quando ele se preparava para embarcar num navio de cinqüenta remos, fê-lo ouvir maus augúrios. Impacientando-se, ele ameaçou-a de deixá-la solteira se regressasse são e salvo da viagem. “Desejo — respondeu ela — que as vossas ameaças se realizem; prefiro ficar ainda por longos anos virgem, do que ser privada de meu pai”.

CXXV — Sem dar a menor atenção aos conselhos que lhe davam, Polícrates embarcou para ir ter com Orestes, levando em sua companhia vários de seus amigos, entre os quais o médico Demócedes, filho de Califonte, da cidade de Crotona, tido como o mais habilitado na sua profissão, nessa época. Ao chegar a Magnésia, Polícrates ali pereceu miseravelmente e de uma maneira indigna de sua alta categoria e de sua grandeza d’alma; pois é sabido que entre todos os tiranos que reinaram sobre as cidades gregas não houve um só, excetuando o de Siracusa, cujos méritos pudessem ser comparados com os de Polícrates. Orestes fê-lo perecer de uma maneira que não tenho ânimo para narrar, crucificando-o em seguida. Consumado o ato, permitiu que regressassem a Samos todos os nativos que compunham a comitiva real, dizendo-lhes que deviam agradecer-lhe aquela graça, mas reteve como prisioneiros os estrangeiros e os escravos. Pendurado no espaço, Polícrates tornava real o sonho de sua filha: era banhado pelas águas do céu e ungido pelo sol, cujo calor lhe fazia sair os humores do corpo. Assim terminou a prosperidade de Polícrates, como havia predito Amásis.

CXXVI — A morte de Polícrates não tardou a ser vingada. Morto Cambises e caindo o trono em poder dos magos, Orestes, que residia em Sardes, em lugar de prestar algum serviço aos Persas, aos quais os Medos haviam arrebatado a coroa, aproveitou as perturbações e as desordens do momento para eliminar Mitróbates, governador de Dascílio, que o havia censurado com relação a Polícrates, e seu filho Cranape, embora gozassem ambos de grande prestígio entre os Persas. Entre muitos outros crimes por ele cometidos, cita-se o seguinte: Como um correio lhe trouxesse, da parte de Dario, ordens nada agradáveis, contratou assassinos para atacá-lo no caminho, quando regressasse. Os sicários mataram-no, juntamente com o cavalo, fazendo desaparecer os cadáveres.

CXXVII — Subindo ao trono, Dario resolveu não deixar impunes os crimes de Orestes e, particularmente, a morte de Mitróbates e de seu filho: mas não julgou conveniente atacá-lo logo no início do seu reinado, época em que a política do reino ainda estava numa espécie de fermentação. Além disso, sabia que Orestes contava com forças consideráveis, possuindo uma guarda composta de mil persas e abrangendo no seu governo a Frígia, a Lídia e a Iônia. Eis o que ele imaginou: Convocou os persas de maior prestígio e disse-lhes: “Persas, qual dentre vós me promete executar uma coisa que não exige senão habilidade e para a qual não é absolutamente necessário o emprego da força ou de grande número de pessoas? Considero inútil a violência onde só deve prevalecer o engenho. Qual de vós será capaz de matar Orestes ou de trazê-lo vivo à minha presença, ele que jamais prestou serviços aos Persas e que tantos crimes tem cometido? Ele que fez perecer dois dos nossos companheiros, Mitróbates e o filho, e, não contente com isso, mandou matar o correio que lhe enviei para fazê-lo vir à minha presença. São insultos que não podemos suportar. Previnamos com a sua morte maiores males que poderá causar aos Persas”.

CXXVIII — Trinta persas disputaram logo a honra de servir o soberano. Para resolver a contenda, Dario ordenou fosse a escolha feita pela sorte, e realizado o sorteio coube a honra a Bageo, filho de Artontes. Eis como Bageo desincumbiu-se da tarefa: Escreveu várias cartas sobre diferentes negócios, selou-as com a chancela de Dario e partiu para Sardes com os despachos. Ali chegando, foi procurar Orestes, entregando as cartas, uma a uma, ao secretário do rei, para lê-las ao governador; pois todos os governadores de província têm junto a si um secretário do rei. A intenção de Bageo ao fazer entrega dessas cartas era sondar os guardas de Orestes para ver se estariam dispostos a abandoná-lo. Notando o respeito com que encaravam as cartas de Dario, entregou-lhes uma outra concebida nestes termos: “Persas, o rei Dario vos proíbe de continuar prestando obediência a Orestes”. Ante aquela mensagem, eles abandonaram imediatamente suas lanças. Encorajado por essa manifestação de fidelidade, Bageo colocou nas mãos do secretário a última carta, que dizia: “O rei Dario ordena aos Persas que se acham em Sardes a matar Orestes”. Imediatamente, os guardas, sacando da cimitarra, foram em busca do governador, matando-o no próprio local onde o encontraram. Assim foi vingada a morte de Polícrates de Samos.

CXXIX — Os bens de Orestes foram confiscados e transportados para Susa, ali chegando pouco depois de haver Dario sofrido, ao descer do cavalo, numa de suas caçadas, uma tão violenta torcedura no pé que deslocara o tornozelo. O soberano tinha na corte médicos considerados os mais hábeis do Egito; mas estes, chamados a atendê-lo, encanaram-lhe o pé com tanta violência que lhe agravaram os sofrimentos. O rei permaneceu sete dias e sete noites sem poder dormir, tal a dor que o atormentava. Afinal, no oitavo dia, achando-se ele cada vez pior, alguém, tendo ouvido falar dos méritos profissionais de Demócedes de Crotona, indicou-lhe esse médico, que ele se deu pressa em mandar chamar. Foram encontrar Demócedes entre os escravos de Orestes, como um homem do qual não se fazia grande caso, e levaram-no ao soberano, coberto de andrajos.

CXXX — Perguntando-lhe Dario se era realmente versado em medicina, Demócedes absteve-se de responder afirmativamente, receando que lhe fosse fechado o caminho da Grécia se revelasse aptidões. Percebendo estar ele fingindo ignorância de uma arte que lhe era familiar, Dario ordenou aos escudeiros que lhe trouxessem chicotes e outros instrumentos de tortura. Demócedes achou conveniente não dissimular por mais tempo a verdade. Disse não possuir conhecimento profundo da medicina, mas apenas ligeiras noções adquiridas na convivência com um médico. Diante disso, o soberano entregou-se aos seus cuidados. Demócedes tratou-o à maneira dos Gregos; e alternando os sedativos com remédios violentos, conseguiu fazê-lo recuperar o sono em pouco tempo, e, finalmente, curá-lo, embora o soberano já houvesse perdido a esperança de servir-se daquele pé. Findo o tratamento, Dario fez-lhe presente de um par de grilhões de ouro. Demócedes perguntou-lhe se pretendia assim mantê-lo na situação servil em que estivera vivendo e se era aquela a recompensa por havê-lo curado. Dario, encantado com essa observação, enviou-o às suas mulheres. Os eunucos que o conduziram disseram ter ele restituído a saúde e a paz de espírito ao seu senhor, e as mulheres, satisfeitas com a notícia, presentearam-no com moedas de ouro, que tiravam do cofre com um pires. Esse presente foi tão considerável que Citon, um servo que o seguia, calculou em avultada soma as moedas de ouro que apanhava à medida que tombavam dos pires.

CXXXI — Eis como Demócedes veio a deixar Crotona, sua terra natal, agregando-se à corte de Polícrates. Vivia ele em companhia do pai, homem de temperamento rígido e iracundo. Não podendo mais suportar-lhe o perene mau humor, transportou-se para Egina, onde se estabeleceu e superou, desde logo, os médicos mais famosos, embora não estivesse habilitado a exercer ali a profissão e lhe faltassem os instrumentos necessários. No segundo ano, os Eginenses, reconhecendo sua capacidade, deram-lhe um talento de pensão por conta do erário. No terceiro, os Atenienses concederam-lhe uma pensão de cem minas. Finalmente, no quarto, Polícrates ofereceu-lhe dois talentos, proposta que o atraiu a Samos. É a ele que os médicos de Crotona devem, em grande parte, a reputação que firmaram, sendo considerados, na época, os primeiros da Grécia, vindo em segundo lugar os Cireneus. Nessa mesma época, os Árgios eram tidos como os melhores músicos da Grécia.

CXXXII — Em recompensa por haver curado completamente Dario, Demócedes foi contemplado com uma vasta residência em Susa; comia à mesa do soberano e nada lhe faltava senão a liberdade de voltar à Grécia. Obteve de Dario o perdão para os médicos egípcios assistentes do soberano e que, por se terem deixado suplantar na arte por um médico grego, haviam sido condenados a morrer crucificados. Salvou um adivinho da Eléia, componente da comitiva de Polícrates e por isso submetido à escravidão, sem que ninguém se lembrasse mais dele. Enfim, Demócedes passou a desfrutar, junto ao rei, da maior consideração.

CXXXIII — Pouco tempo depois, Atossa, filha de Ciro e mulher de Dario, foi acometida de um tumor no seio, que tomou logo grandes proporções. Enquanto o mal não se agravou, ela ocultou-o de todos, por pudor, mas quando viu que adquiria aspecto alarmante mandou chamar Demócedes e mostrou-lho. Demócedes prometeu curá-la se ela prometesse, sob juramento, satisfazer um pedido seu, assegurando-lhe que não exigiria nada capaz de envergonhá-la.

CXXXIV — Curada pelos remédios de Demócedes, Atossa cumpriu o que havia prometido. Achando-se no leito com Dario, falou-lhe nestes termos: “É para admirar, senhor, que tendo tantas tropas à vossa disposição, permaneçais tranqüilamente no vosso palácio, sem procurar conquistar outros países e estender os limites do vosso império. Acho, entretanto, ser conveniente para um monarca jovem e possuidor de grandes riquezas assinalar-se por atos que revelem aos seus súditos terem eles um homem de valor dirigindo os seus destinos. Sou, pois, de opinião que deveis movimentar os vossos exércitos em busca de novas conquistas, e isso por duas razões: primeiro, para mostrar aos Persas que eles possuem um rei cheio de coragem e galhardia; segundo, para que as atribulações da guerra, evitando-lhes a ociosidade, não os leve a revoltar-se contra vós. Procurai, pois, realizar algumas grandes conquistas enquanto sois jovem. A alma cresce com o corpo, mas, à medida que o corpo envelhece, a alma envelhece também, desaparecendo o entusiasmo para toda e qualquer ação”.

“Tuas observações — respondeu Dario — concordam com os meus propósitos. Eu já havia planejado marchar contra os Citas, fazendo construir, para esse fim, uma ponte ligando o nosso continente ao outro. Dentro de muito pouco tempo poderei levar a cabo esse plano”.

“Senhor, — volveu Atossa — não comeceis, peço-vos, pelos Citas; eles estarão em vosso poder quando assim o quiserdes; marchai, antes, contra a Grécia. O que me disseram, senhor, sobre as mulheres desse país, levaram-me a desejar ardentemente ter a meu serviço lacedemônias, árgias, atenienses e coríntias. Possuís aqui a pessoa mais indicada para vos instruir sobre tudo que diz respeito à Grécia e para vos servir de guia nessa expedição: refiro-me ao médico que vos curou da torcedura”.

“Já que julgas assim, — respondeu Dario — comecemos pela Grécia. Parece-me, antes de tudo, muito a propósito mandar alguns persas com o homem de que falas para tomar conhecimento exato do país; na volta, eles me instruirão sobre tudo que viram e observaram, e então, marcharemos contra os Gregos”.

CXXXV — Dario deu-se pressa em executar o que dissera. Logo ao raiar do dia, mandou chamar quinze persas entre os de maior destaque no país e encarregou-os de acompanhar Demócedes e de fazer com ele um reconhecimento completo de todas as regiões litorâneas da Grécia, recomendando-lhes, sobretudo, que mantivessem o médico sob constante vigilância, a fim de que ele não lhes escapasse, e a voltar com ele, acontecesse o que acontecesse. Dadas essas ordens, instruiu Demócedes sobre a missão, dizendo-lhe que regressasse logo que tivesse mostrado aos persas toda a Grécia. Instruiu-o também a levar consigo todos os bens que recebera, para presentear com eles seus pais e parentes, prometendo indenizá-lo com o cêntuplo do valor por eles representados, e acrescentando que esses presentes e muitas outras riquezas seriam transportados em um navio que o acompanharia até o ponto de destino. As promessas do soberano eram, segundo creio, sinceras; mas Demócedes, julgando que ele queria apenas experimentá-lo, aceitou todos esses favores sem nenhum entusiasmo. Quanto aos bens que lhe pertenciam, declarou que os deixaria em Susa, a fim de dispor dos mesmos quando regressasse. Contentou-se com o navio de carga posto à sua disposição, a fim de levar presentes aos irmãos.

CXXXVI — Dadas essas ordens, Dario disse-lhe que se dirigisse, juntamente com os persas, para o litoral. Chegando à Fenícia, dirigiram-se eles imediatamente para Sido, onde equiparam, sem perda de tempo, dois trirremes e um navio de carga, enchendo-os de toda espécie de riquezas. Concluídos os preparativos, partiram em direção à Grécia, cujas costas visitaram, observando os acidentes e outros aspectos considerados de importância. Finalmente, depois de haverem feito o reconhecimento completo do país rumaram para a Itália, aportando em Tarento, onde Aristofílido, soberano dessa nação, atendendo a uma solicitação de Demócedes, mandou retirar o leme dos navios dos Medos(11) e prendê-los como espiões. Demócedes pôde assim regressar a Crotona, sua terra natal. Todavia, logo que ali chegou, Aristofílido relaxou a prisão dos persas e restituiu-lhes o que mandara retirar dos navios.

CXXXVII — Livres, os persas partiram imediatamente em busca de Demócedes, e chegando a Crotona prenderam-no na praça pública, onde ele se encontrava. Uma parte dos Crotonienses, temendo o poderio dos Persas, se dispusera a entregar seu compatriota, mas a outra o arrancou das mãos dos estrangeiros, escorraçando-os a bastonadas.

“Crotonienses, — disseram-lhes os persas — tomai cuidado com o que fazeis; aquele que acabais de arrebatar do nosso poder é um escravo fugitivo, e pertence ao nosso soberano. Julgais, porventura, que Dario deixará impune tal insulto e que estais procedendo com acerto tirando o prisioneiro das nossas mãos? Não temeis ver a vossa cidade atacada, reduzida a cinzas e à servidão?”

Essas ameaças resultaram inúteis. Os Crotonienses, sem lhes dar ouvidos, arrebataram não somente Demócedes, como também o navio de carga que os Persas haviam trazido. Estes, privados do guia, retornaram à Ásia, sem haverem concluído o reconhecimento da Grécia. Ao partirem, Demócedes procurou-os para lhes pedir que dissessem a Dario ser ele, o escravo, casado com a filha de Mílon, nome muito conhecido na corte persa. Por mim, penso ter Demócedes apressado esse casamento e gasto com ele muito dinheiro, só para mostrar a Dario que também ele gozava de grande consideração na sua pátria.

CXXXVIII — Deixando Crotona, os persas foram impelidos pelos ventos contrários para a Iapígia, onde foram aprisionados; mas Gilo, banido de Tarento, libertou-os, reconduzindo-os a Dario. O soberano, grato por essa conduta, dispôs-se a conceder-lhe tudo que desejasse. Gilo relatou-lhe então sua desgraça, pedindo-lhe que o restabelecesse como cidadão em Tarento. Todavia, para não lançar o terror e a perturbação na Grécia, como não deixaria de acontecer se se enviasse, por sua causa, uma frota considerável à Itália, disse que os Cnídios bastariam para conseguir sua repatriação, pois, amigos dos Tarentinos, um pedido deles nesse sentido jamais seria negado. Dario prometeu-lhe que assim faria, e, sem demora, enviou um emissário à Cnídia, com ordens aos Cnídios para promoverem o regresso de Gilo a Tarento. Os Cnídios obedeceram, mas não conseguiram obter o favor dos Tarentinos, e não estavam preparados para convencê-los pela força. Assim passaram-se os fatos.

Os Persas a que há pouco nos referimos foram os primeiros a virem da Ásia à Grécia para fazerem o reconhecimento desse país.

CXXXIX — Pouco depois desses acontecimentos, Dario apoderou-se de Samos. De todas as cidades, tanto gregas como bárbaras, foi essa a primeira a ser por ele atacada, pelas razões que passo a expor. Muitos Gregos tinham acompanhado Cambises na sua expedição contra o Egito; uns, ao que se acredita, para traficar; outros como mercenários, e alguns ainda pela simples curiosidade de conhecer o país. Entre estes últimos estava Silóson, banido de Samos, filho de Éaco e irmão de Polícrates. Teve ele uma aventura que muito contribuiu para a sua boa fortuna. Passeando, certo dia, pela praça principal de Mênfis, com um manto escarlate sobre os ombros, foi visto por Dario, então simples integrante do corpo de guardas de Cambises e não gozando ainda do destaque que viria a conseguir mais tarde. O futuro soberano dos Persas, encantado com o manto aproximou-se do estrangeiro, perguntando-lhe se queria vender-lhe tão atraente indumentária. Silóson, notando o empenho de Dario, respondeu-lhe, como inspirado por algum deus: “Não venderei por preço algum este manto; mas, já que tanto o desejas, faço-te presente dele”. Dario louvou-lhe a generosidade e aceitou o presente.

CXL — Silóson ficou um tanto arrependido de, pelo seu excesso de generosidade, haver ficado privado do seu manto Algum tempo depois, morrendo Cambises, os sete Persas destronaram o mago usurpador, e Dario, um dos sete, subiu ao trono. Sabendo ter sido a coroa adjudicada àquele a quem ofertara o manto no Egito, Silóson partiu para Susa, dirigiu-se ao palácio e, sentando-se no vestíbulo, declarou haver prestado outrora um obséquio a Dario. Um dos guardas, ouvindo aquela declaração, transmitiu-a ao soberano. “Quem será esse grego — interrogou Dario a si próprio, um tanto perplexo — que afirma me haver contemplado com seus favores? Estou no poder há pouco tempo, e até agora nenhum estrangeiro veio à minha corte. Não me recordo de haver sido obsequiado por um grego. Em todo caso, vou mandar chamá-lo para ver o que tem a dizer”.

Levado à presença de Dario, este perguntou-lhe, por intermédio de intérpretes, quem era e como podia vangloriar-se de haver-lhe prestado favores em dias passados. Silóson relembrou-lhe o que se passara com relação ao manto, acrescentando ter sido ele o autor da oferta.

“Ó homem generoso! — volveu Dario — Então és aquele que me presenteou ao tempo em que eu não gozava da menor autoridade? Embora o presente não fosse dos mais valiosos, considero-me por ele tão obrigado quanto se recebesse hoje outro assaz considerável; e para manifestar a minha gratidão, dar-te-ei tanto ouro e prata, que nunca terás motivo para arrepender-te de haver obsequiado Dario, filho de Histaspes”. “Grande rei, — observou Silóson — não te peço nem ouro nem prata; restitui-me Samos e livra-a da opressão. Desde que Orestes mandou matar meu irmão Polícrates, um dos nossos escravos dela se apoderou. É Samos, a minha pátria, senhor, que vos peço. Libertai-a, senhor, sem derramamento de sangue, e não permitais que ela seja reduzida à escravidão.

CXLI — Atendendo ao seu pedido, Dario enviou uma força expedicionária a Samos, sob o comando de Otanes, um dos sete que haviam destronado o mago, recomendando-lhe que executasse tudo que Silóson lhe pedisse. Otanes partiu para o litoral, onde embarcou com as suas tropas.

CXLII — Meândrio, filho de Meândrio, era então senhor absoluto da ilha; Polícrates lhe havia confiado a regência. Procurou ele mostrar-se o mais justo dos homens, mas as circunstâncias não lho permitiram. Ao ter conhecimento da morte de Polícrates, mandou erguer um altar a Júpiter Libertador, delimitando em torno do altar um recinto sagrado, que ainda hoje se vê nos arredores de Samos. Em seguida, reuniu em assembléia os cidadãos de Samos, fazendo-lhes este discurso: “Sabeis, filhos de Samos, que Polícrates me confiou o cetro com sua autoridade, não me cabendo hoje outro recurso senão continuar exercendo o poder sobre vós. Procurarei, entretanto, não fazer jamais o que condeno nos outros. Censurei Polícrates por ter-se tornado senhor dos seus iguais e não aprovarei, por conseguinte, a mesma conduta num outro. Enfim, ele cumpriu o seu destino. Quanto a mim, estou disposto a demitir-me do poder soberano e restabelecer a igualdade entre todos. Concedei-me, apenas, como uma espécie de distinção que considero justa, seis talentos de prata de Polícrates. Permiti-me, ainda, reservar para mim e os meus descendentes, em caráter perpétuo, o sacerdócio de Júpiter Libertador, ao qual ergui um altar, e restituo-vos a liberdade”.

Tal a proposta de Meândrio; mas um nativo de Samos, erguendo-se no meio da assembléia, disse-lhe: “Nenhum mérito possuís para governar-nos, tu que sempre foste um mau indivíduo, um celerado. Deves, antes de mais nada, prestar-nos conta do dinheiro que administraste”. Quem assim falou foi Telesarco, que gozava de grande prestígio entre os seus concidadãos.

CXLIII — Vendo que se abdicasse da suprema autoridade outro dela se apossaria, Meândrio não pensou mais em renunciar. Retornando à cidadela, mandou chamar os cidadãos, um por um, como se lhes quisesse prestar contas, e foi prendendo-os e pondo-os a ferros à medida que chegavam. Pouco depois, enfermou gravemente. Seu irmão Licareto, crendo que ele não mais se restabeleceria e querendo usurpar facilmente o poder, matou todos os prisioneiros.

CXLIV — Entrementes, os Persas que conduziam Silóson chegaram a Samos, não encontrando ali a menor resistência. Os partidários de Meândrio e o próprio Meândrio declararam-se prontos a capitular e a abandonar a ilha. Otanes aceitou a proposta e, firmado o tratado, os Persas de mais alta categoria instalaram-se diante da fortaleza.

CXLV — O tirano Meândrio tinha um irmão chamado Carileu, de mente um tanto desequilibrada, e que se encontrava acorrentado num calabouço por certa falta que cometera. Informado do que se passava e tendo visto por uma pequena abertura do cárcere os Persas tranqüilamente postados diante da fortaleza, pôs-se a gritar, dizendo que queria falar com o irmão. Meândrio mandou soltá-lo e trazê-lo à sua presença. Assim que chegou, Carileu exprobrou energicamente o irmão, concitando-o a lançar-se contra os Persas e a escorraçá-los dali. “És o mais covarde de todos os homens! Tens o coração bastante duro para acorrentar-me num calabouço, a mim teu irmão, que não cometi nenhum crime para merecer tal tratamento, e não possuís coragem suficiente para vingar-te dos Persas que te expulsam da tua casa e de tua pátria, embora te seja fácil vencê-los. Se os temes, dá-me tuas tropas auxiliares, e eu os farei arrepender-se de terem vindo aqui. Quanto a mim, estou pronto a fazer-te sair desta ilha”.

CXLVI — Meândrio considerou com interesse a proposta do irmão. Não era, entretanto, demasiado insensato para imaginar que poderia, com as forças de que dispunha, obter uma vitória contra os Persas de Dario. Invejava a boa sorte de Silóson, recuperando, sem nenhum esforço, a ilha e recebendo-a na situação florescente em que se encontrava. Se irritasse os Persas, enfraqueceria o poderio de Samos, e se esta fosse recuperada, estaria devastada pela guerra. Sabia perfeitamente que se os Persas fossem maltratados vingar-se-iam sobre os habitantes de Samos. Contava ele com um meio seguro para sair da ilha quando quisesse. Havia mandado abrir uma passagem subterrânea que ia da fortaleza ao mar. Foi realmente por essa passagem que abandonou Samos, rumando para longe dali.

Enquanto isso se passava, Carileu, tendo feito pegar em armas as tropas auxiliares, forçou as portas da cidadela e realizou uma sortida contra os Persas, que não contavam com um tal ato de hostilidade, julgando que o acordo estava perfeitamente estabelecido. As tropas auxiliares caíram sobre os de mais alta distinção, que estavam sendo conduzidos em liteiras, massacrando-os. No momento, porém, em que os passavam a fio de espada, o resto do exército persa veio em socorro dos seus e rechaçou os atacantes com o maior vigor, obrigando-os a retirar-se da cidadela.

CXLVII — Otanes tinha sempre na mente as ordens que Dario lhe dera ao partir, de não matar nem reduzir à servidão nenhum nativo de Samos e de repor Silóson na ilha, sem causar nenhum dano ali; mas à vista da carnificina feita entre os Persas, esqueceu-se de tudo. Ordenou aos soldados a deitarem por terra todos os que encontrassem no caminho, homens e crianças, sem distinção. Assim, enquanto uma parte de suas tropas cercava a cidadela, a outra atacava impiedosamente os que se achavam fora dela, tanto nos lugares sagrados como nos profanos.

CXLVIII — Deixando Samos, Meândrio rumou para a Lacedemônia. Ali chegando com as riquezas que trazia consigo, mandou tirar dos cofres copos de ouro e de prata, e os criados puseram-se a limpá-los. Foi então procurar Cleómenes, filho de Anaxândrio, rei de Esparta, e depois de um cordial entendimento levou-o à sua residência. Vendo o príncipe deslumbrado diante dos vasos, convidou-o a lançar mão de quantos desejasse.

Cleómenes mostrou-se nessa ocasião o mais justo dos homens. Embora Meândrio repetisse duas ou mais vezes o oferecimento, não quis aceitá-lo; e tendo sabido que esse habitante de Samos fazia presente daqueles vasos a outros cidadãos, procurando assim captar-lhes as boas graças e conseguir abrigo ali, foi procurar os Éforos, fazendo-lhes ver que era do interesse da república fazer sair do Peloponeso aquele estrangeiro, para evitar que corrompesse os próprios governantes. Os Éforos aprovaram a idéia de Cleómenes e fizeram comunicação a Meândrio, por intermédio de um arauto, da necessidade de retirar-se da república quanto antes.

CXLIX — Depois de haverem massacrado todos os habitantes de Samos, os Persas entregaram a cidade despovoada a Silóson. Algum tempo depois, Otanes repovoou-a, quando teve em sonho uma visão e se achava atacado de um mal nas partes genitais.

CL — Enquanto a esquadra persa se dirigia para Samos, os Babilônios levaram a efeito a revolta que há muito vinham preparando. Durante o reinado do mago e a insurreição dos sete Persas, aproveitaram-se das perturbações reinantes, tomando todas as providências para sustentar um cerco prolongado, sem que os Persas se apercebessem disso. Colocando-se abertamente contra o jugo do estrangeiro, tomaram as seguintes medidas: de todas as mulheres que se encontravam na Babilônia, cada homem, pondo de parte a mãe, não reservaria senão a que mais amasse. Quanto às outras, reuni-las-iam em determinado lugar e as estrangulariam. Aquela que cada homem reservasse para si ficaria na obrigação de preparar-lhe a comida. Assim foi feito, sendo sacrificadas todas as outras mulheres, a fim de poupar as provisões.

CLI — À primeira notícia da revolta, Dario mobilizou todas as forças de que dispunha no momento e marchou contra os insurrectos. Ao chegar diante da praça, executou o cerco; mas os Babilônios deram-lhe logo a entender que pouco se preocupavam com isso. Subindo às muralhas, puseram-se a dançar e a troçar de Dario e de seu exército, pronunciando um deles esta frase memorável: “Persas, por que perder assim o vosso tempo diante destas muralhas? Retirai-vos, que é o melhor que fazeis. Só conquistareis Babilônia quando as mulas derem cria”. Assim se expressou esse babilônio, certo de que uma mula jamais poderia conceber.

CLII — Havia já um ano e seis meses que Dario e seu exército se mantinham diante de Babilônia, sem conseguir tomá-la, desesperando-se o soberano com aquela situação. Tinha-se, em vão, servido de toda sorte de estratagemas, apelando para o mesmo recurso que dera êxito a Ciro por ocasião de uma de suas campanhas; mas os insurrectos mantinham-se sempre alertas, não se deixando surpreender.

CLIII — No vigésimo mês do cerco, aconteceu algo verdadeiramente fenomenal na casa de Zópiro, filho de Megabizo, que com os seis outros conjurados persas destronara o mago: uma das mulas empregadas no transporte de provisões deu à luz um potro. A princípio, Zópiro negou-se a acreditar no que via, mas verificando a veracidade do estranho fato proibiu expressamente todos os seus de espalharem a notícia. Pondo-se a refletir sobre o fenômeno, lembrou-se das palavras do babilônio, que dissera, no início do cerco, que os Persas só tomariam a cidade quando as mulas dessem cria. Concluiu, em vista desse presságio, que Babilônia poderia então ser conquistada, e que o insurrecto usara daquela expressão por um desígnio dos deuses.

CLIV — Convencido de que o destino assegurava a queda do país sitiado, foi procurar Dario, perguntando-lhe se fazia grande empenho em apoderar-se daquela praça. Dizendo-lhe o soberano que desejava ardentemente conquistá-la, pôs-se a deliberar sobre como faria para capturá-la e para que a façanha não fosse atribuída a outro senão a ele. Os Persas emprestam grande mérito aos atos de bravura, sendo esse, entre eles, um dos meios de alguém obter grandes honras. Refletindo que não poderia tornar-se senhor daquela praça senão mutilando-se para penetrar no reduto na qualidade de trânsfuga, não hesitou um só instante em acarretar para si uma disformidade sem remédio: cortou o nariz e as orelhas, raspou de maneira ridícula o alto da cabeça e, nesse estado deplorável, foi apresentar-se ao soberano.

CLV — Indignado por ver um homem da categoria de Zópiro tão maltratado, Dario ergueu-se precipitadamente do trono e perguntou-lhe, entre pesaroso e revoltado, quem lhe fizera aquilo e qual o motivo por que assim procedera. “Nenhuma outra pessoa senão vós, senhor, seria suficientemente poderosa para me tratar desta maneira — respondeu Zópiro. — Nenhuma mão estranha me pôs neste estado; fui eu o meu próprio agressor, revoltado e desesperado por ver os Assírios troçarem dos Persas”. “Oh, infeliz! — exclamou Dario — dizendo que trataste a ti próprio dessa maneira por causa dos sitiados procuras emprestar um belo nome a uma ação vergonhosa! Insensato! Os inimigos não se renderão mais depressa pelo fato de te teres mutilado dessa maneira. Será que perdeste o senso quando te puseste nesse estado?” “Senhor, — explicou Zópiro — se vos houvesse comunicado minha intenção, não me permitiríeis executá-la. Assim, resolvi agir por mim próprio. Babilônia cairá em nosso poder se não faltardes no momento decisivo. No estado em que me vedes vou penetrar na cidade, como se fora um trânsfuga, e direi aos Babilônios que este tratamento me foi infligido por vossa ordem. Espero, se conseguir persuadi-los, obter o comando de uma parte de suas tropas. Quanto a vós, no décimo dia após minha passagem para Babilônia deveis escolher mil homens entre aqueles cuja perda seja menos sensível para o exército e colocá-los à porta de Semíramis. Sete dias depois devereis colocar mais dois mil homens junto à porta de Nínive. Passados mais vinte dias, enviareis quatro mil homens para a porta dos Caldeus. Convém, todavia, que eles nada tenham para defender-se senão as espadas. Finalmente, vinte dias mais tarde fareis avançar o exército diretamente contra a cidade, para um assalto geral, sendo que as portas Bélidas e Cissianas devem ficar guarnecidas. Não duvido absolutamente de que os Babilônios, testemunhas de minhas grandes ações, me confiem, entre outras coisas, as chaves dessas portas. Agiremos, então, como for preciso”.

CLVI — Tendo exposto o seu plano a Dario, Zópiro dirigiu-se para as portas da cidade, voltando-se de vez em quando, como se estivesse fugindo e temesse estar sendo perseguido. Os que se achavam de sentinela nas torres, percebendo-o, desceram prontamente, e entreabrindo a viseira da porta perguntaram-lhe quem era e o que desejava. Ele declarou chamar-se Zópiro e que vinha entregar-se aos Babilônios. Ouvindo essa declaração, os guardas da porta conduziram-no perante a assembléia. Ali chegando, Zópiro pôs-se a lastimar suas desgraças, atribuindo a Dario o tratamento cruel que recebera, dizendo que o soberano o pusera naquele estado porque, não conseguindo forçar a praça, ele, Zópiro, o aconselhara a levantar o cerco. “Por isso, venho — concluiu ele — aliar-me a vós, para fortuna vossa e para desgraça de Dario, do seu exército e dos Persas. Conheço todos os seus planos, e as mutilações que sofri não ficarão impunes”.

CLVII — Os Babilônios, vendo um persa da mais alta linhagem com o nariz e as orelhas cortadas, o corpo cortado de chibata e ensangüentado, não duvidaram do que lhes dizia e acreditaram que ele viera realmente auxiliá-los para vingar-se de Dario. Dispuseram-se a conceder-lhe tudo que desejasse para esse fim. Zópiro pediu que lhe concedessem tropas, e obtendo-as, fez o que havia combinado com o rei dos Persas.

No décimo dia depois da sua chegada saiu à frente das tropas cujo comando os insurrectos lhe haviam confiado, e investiu contra os primeiros mil homens colocados por Dario no local convencionado, massacrando-os. Reconhecendo que os seus atos correspondiam às suas palavras, os Babilônios manifestaram grande satisfação, mostrando-se mais dispostos ainda a obedecer-lhe. Zópiro deixou passar o número de dias convencionado, e pondo-se à frente da elite das tropas babilônias realizou uma segunda sortida, na qual matou dois mil guerreiros persas. Testemunhando mais esse ato de bravura, os Babilônios puseram-se inteiramente às ordens de Zópiro.

Dias depois dessa segunda sortida, o astuto persa realizou uma terceira, levando suas tropas ao ponto em que Dario havia colocado os quatro mil homens, fazendo novo massacre. Esse terceiro sucesso tornou-o todo-poderoso entre os sitiados, que passaram a obedecer-lhe cegamente, confiando-lhe o comando do exército e a guarda das muralhas.

CLVIII — Finalmente, no dia marcado, Dario reuniu as tropas destacadas em diversos pontos, aproximando-se para o ataque geral. Só então os Babilônios compreenderam o logro em que haviam caído. Enquanto se defendiam do alto das muralhas contra o exército persa, Zópiro abria as portas Cissianas e Bélidas e introduzia os sitiantes na praça. Os Babilônios que perceberam essa manobra refugiaram-se no templo de Júpiter Belo; mas os que não a viram conservaram-se firmes em seus postos, só compreendendo a traição daquele em que haviam confiado quando já era demasiado tarde.

CLIX — Foi assim que Babilônia caiu pela segunda vez em poder dos Persas. Dario, tornando-se senhor da cidade, mandou demolir as muralhas e retirar todas as portas. Ciro, que a conquistara antes dele, não havia feito nem uma coisa nem outra. Mandou, em seguida, crucificar cerca de três mil homens entre os mais ilustres de Babilônia. Aos demais, permitiram continuarem habitando a cidade como antes, dando-lhes mulheres para que a repovoassem, pois os Babilônios, como dissemos atrás, tinham estrangulado a maior parte das suas companheiras, a fim de poupar provisões. Ordenou aos povos vizinhos que enviassem mulheres à Babilônia, e cada nação tinha de contribuir com um certo número delas. Ao todo, para ali se encaminharam cinqüenta mil mulheres, das quais descendem os Babilônios de hoje.

CLX — Nunca houve na Pérsia, na opinião de Dario, desde os séculos mais recuados até os dias de seu reinado, ninguém que em bravura e engenho tivesse ultrapassado Zópiro, com exceção de Ciro, a que nenhum Persa jamais se julgou digno de comparar-se. Conta-se ter Dario declarado que preferia que Zópiro não houvesse procedido com tanta crueldade contra a sua própria pessoa, a tornar-se senhor de vinte outras cidades como Babilônia. Concedeu ao herói as maiores honras, presenteando-o, todos os anos, com aquilo que os Persas julgassem mais digno ao seu merecimento. Deu-lhe a cidade de Babilônia, sem exigir-lhe o menor tributo, para que dela tirasse proveito durante toda sua vida, cumulando-o ainda de muitos outros bens. Zópiro teve um filho chamado Megabizo, que combateu no Egito contra os Atenienses e seus aliados. Desse Megabizo nasceu o Zópiro que deixou a Pérsia para ir estabelecer-se em Atenas.


 

LIVRO IV

MELPÔMENE

A CÍTIA — HÉRCULES — OS GRIFÃOS — OS HIPERBÓREOS — DESCRIÇÃO DA TERRA — O POVO DE CÍLAX — COSTUMES DOS CITAS — ANACÁRSIS — A EXPEDIÇÃO DE DARIO — O PONTO EUXINO — AS AMAZONAS — OS TRÁCIOS — OS GETAS — A LÍBIA — O CULTO DO SOL, ETC.


 

I — Depois da tomada de Babilônia, Dario marchou contra os Citas. A Ásia era, então, rica e muito povoada, encontrando-se em situação florescente. O soberano desejava vingar-se dos Citas, que, tendo invadido a Média, bateram as tropas que a eles se opuseram e entraram a violar a justiça. Esse povo, como já relatei, tinha dominado na Ásia Superior durante vinte e oito anos. Havia ali penetrado perseguindo os Cimérios, e tinha arrebatado o império aos Medos. Depois de uma ausência de vinte e oito anos, os conquistadores citas quiseram retornar à pátria; mas para voltar à Cítia não encontraram menores dificuldades do que as que tinham tido para dominar os Medos. Um exército numeroso erguera-se diante deles, impedindo-lhes a entrada; pois enquanto estiveram ausentes, suas mulheres, entediadas pela longa espera, entregaram-se aos escravos, daí resultando toda uma nova população.

II — Os Citas têm por hábito furar os olhos dos seus escravos, para utilizá-los na ordenha de animais, cujo leite consomem diariamente. Para a extração do leite adotam uns canudos de osso semelhantes a flautas, que introduzem nas partes naturais das jumentas, e os escravos neles sopram, enquanto outros tiram o leite. Dizem eles que empregam esse processo para que o sopro intumesça as veias das jumentas e faça baixar as mamas.

Extraído o leite, despejam-no em recipientes de madeira, que os escravos sacodem e agitam. É a nata que eles mais apreciam, considerando-a saborosíssima e nutriente. É para essa tarefa que eles vazam os olhos dos que submetem à escravidão. Os Citas não cultivam a terra e são nômades.

III — Desses escravos e de mulheres citas nasceram muitos jovens, que, tendo conhecimento da sua origem, marcharam ao encontro dos Citas que regressavam da Média. Começaram por dividir o país em duas partes, cavando um largo fosso que ia dos montes Táuricos ao Palos-Meótis, abrangendo vasta extensão. Foram, em seguida, acampar diante dos Citas que procuravam penetrar no país, aos quais ofereceram combate. Houve entre eles várias escaramuças, sem que os Citas pudessem conseguir a menor vantagem. “Companheiros, que estamos fazendo? — gritou um dos Citas no meio da peleja — se esses homens matam um dos nossos, diminuímos de número; se matamos um deles, diminuímos o número de nossos escravos. Abandonemos os arcos e dardos e marchemos contra eles armados do chicote com que fustigamos nossos cavalos. Enquanto nos virem de armas na mão considerar-se-ão nossos iguais; mas se em lugar de armas nos virem de chicote, lembrar-se-ão de que são nossos escravos, e apercebendo-se da sua baixa origem, não mais ousarão resistir-nos”.

IV — A sugestão foi aceita por todos. Os escravos, atemorizados, puseram-se logo em fuga, sem mais pensar em combater. Assim regressaram os Citas à pátria, depois de haverem dominado a Ásia e terem sido dali expulsos pelos Medos. Foi para vingar-se dessa invasão, que Dario levou contra eles poderoso exército.

V — Os Citas consideram a sua pátria a mais nova de todas as nações, e explicam a sua origem da maneira que vou relatar.

A Cítia era outrora um país deserto. O primeiro homem que ali nasceu chamava-se Targitaus, que os Citas pretendem ser filho de Júpiter e de uma filha de Boristénis, o que não me parece crível. Targitaus, dizem eles, teve três filhos: Lipoxais, Arpoxais e Colaxais, o mais jovem. No seu reinado, caiu do céu, na Cítia, uma charrua, uma canga, um machado e um pires de ouro. O primogênito de Targitaus foi o primeiro a vê-los, e deles se aproximou com o desejo de apanhá-los; mas o ouro se inflamou. Tendo Lipoxais se retirado, veio então o segundo irmão, e o ouro tornou a inflamar-se. Compareceu finalmente o irmão mais novo, e como o ouro não mais se inflamasse, apoderou-se dos objetos e levou-os para sua casa. Diante desse fato, os dois irmãos mais velhos resignaram a seus direitos ao trono em favor de Colaxais.

VI — Aqueles, entre os Citas, conhecidos pela designação de Aucates, são, ao que dizem, descendentes de Lipoxais; os chamados Catiares e Tráspios, de Arpoxais; e os Paralates, de Colaxais. Dá-se a todos esses povos a designação geral de Escolotes, do nome de um dos seus governantes, mas aprouve aos Gregos dar-lhes o nome de Citas.

VII — Assim relatam os Citas a origem de sua nação. Acrescentam que desde Targitaus, seu primeiro rei, até a época em que Dario passou pelo seu país, não decorreram, ao todo, mais de mil anos. Quanto ao ouro sagrado, os reis o guardam com o maior carinho e veneração. Transportam-no todos os anos para seus respectivos estados e lhe oferecem grandes sacrifícios, a fim de que ele lhes seja propício. Se o que se acha encarregado da guarda desse ouro adormece no dia da festa ao ar livre, morre nesse ano, segundo afirmam os Citas. Para compensá-lo de tal desgraça dão-lhe toda a extensão de terra que puder percorrer a cavalo num só dia. Sendo a superfície do país dos Citas muito extensa, Colaxais dividiu-o em três reinos, entregando-os aos seus três filhos. O ouro caído do céu era guardado no maior desses reinos. Quanto às regiões situadas ao norte, além das últimas terras povoadas, dizem os Citas não serem elas nem visíveis nem abordáveis, por causa das plumas que ali caem continuamente. O ar está sempre cheio e a terra coberta dessas plumas, motivo por que a visão ali não penetra.

VIII — É isso o que dizem os Citas com relação a si próprios e ao seu país. Todavia, os Gregos que habitam o litoral do Ponto Euxino dizem que Hércules, conduzindo as boiadas de Gérion chegou ao país hoje ocupado pelos Citas e então deserto. Gérion morava além do Ponto Euxino, numa ilha denominada Erítia pelos Gregos e situada perto de Gades, no oceano, adiante das colunas de Hércules. Acreditam esses Gregos que o oceano começa a leste e envolve a terra com as suas águas; mas nenhuma prova apresentam em apoio a tal crença.

Chegando ao país hoje conhecido por Cítia, Hércules, continuam eles, surpreendido pelo Inverno e sentindo os rigores do frio, estendeu sua pele de leão, nela se enrolou e adormeceu. Enquanto dormia, as mulas que ele havia desatrelado do carro para fazê-las pastar desapareceram misteriosamente.

IX — Ao despertar, Hércules pôs-se a procurá-las por toda parte, e assim chegou ao cantão chamado Hiléia, onde encontrou, numa caverna, um monstro híbrido — mulher da cabeça até abaixo da cintura, e serpente no resto do corpo — a que davam o nome de Equidna. Embora tomado de espanto ante aquela criatura singular, perguntou-lhe se não vira passar por ali os seus animais. “Tenho-os em meu poder, — respondeu ela — mas não tos devolverei enquanto não estiveres comigo”. Hércules cedeu, por tal preço, aos seus desejos, mas, passado o momento, a estranha começou a protelar a entrega dos animais, para retê-lo por mais tempo junto a si. Hércules, por seu lado, desejava apenas recuperar seus animais e partir imediatamente. Finalmente, ela entregou-lhos, fazendo-lhe, porém, esta declaração: “Teus animais vieram ter aqui; eu os guardei e recebi a recompensa. Concebi três filhos teus. Que devo fazer deles quando crescerem? Queres que os deixe aqui neste recanto da terra onde sou soberana, ou preferes que eu os envie para a tua companhia?” “Quando as crianças atingirem a idade viril, — respondeu Hércules, segundo afirmam os Gregos — faze o que te vou dizer, e terás agido com prudência e acerto. Aquele que vires dobrar este arco como eu e cingir-se com este talabarte, como faço, retém junto a ti; mas o que não puder executar nem uma coisa nem outra, envia-o para longe daqui. Se assim procederes não te arrependerás, e ter-me-ás obedecido”.

X — Dizendo essas palavras, Hércules tirou um dos seus arcos — pois tinha consigo dois — e deu-o à mulher. Mostrando-lhe também o talabarte, de onde pendia uma pequena taça de ouro, entregou-lho igualmente, afastando-se em seguida.

Quando os filhos que concebera de Hércules atingiram a idade viril, Equidna deu ao primeiro o nome de Agatirso; ao segundo, o de Génolo, e ao mais jovem, o de Cíntio. Lembrou-se, então, das ordens de Hércules e cumpriu-as. Os dois mais velhos, não tendo forças para dobrar o arco, foram banidos do lugar, indo estabelecer-se em outro país. Cíntio, o mais moço, fez o que o pai havia determinado e permaneceu na sua pátria. É, pois, de Cíntio, filho de Hércules, que descendem todos os reis dos Citas, e até hoje esse povo traz presa ao talabarte uma taça como reminiscência da que Hércules trazia pendente do seu, por ocasião da sua aventura naquele país. É assim que os Gregos habitantes do litoral do Ponto Euxino relatam esse fato.

XI — Há ainda sobre o mesmo assunto outra versão, que de muito boa vontade passo a relatar. Os Citas nômades habitantes da Ásia, batidos pelos Masságetas, com os quais entraram em guerra, atravessaram o Araxo e foram ter à Ciméria — pois o país hoje ocupado pelos Citas pertenceu outrora, ao que dizem, aos Cimérios. Estes, vendo-os invadir suas terras, discutiram a medida a tomar ante tão grave contingência. As opiniões se dividiram em extremos opostos, sendo as dos reis aceitas como as melhores. O povo achava que deviam retirar-se para não se exporem aos azares de um combate contra tão numeroso grupo de invasores, opinando os reis que se desse batalha aos que vinham atacá-los. O povo não queria ceder ante o parecer dos reis, nem estes ante o dos seus súditos. Estes últimos preferiam a desonra à eventualidade de se verem massacrados; aqueles achavam preferível morrer na pátria do que fugir com a população. Por um lado, consideravam as vantagens que haviam desfrutado até ali; por outro lado, previam os males que lhes adviriam fatalmente se abandonassem a pátria.

Como ambos os lados se mantivessem irredutíveis em suas opiniões, a discórdia agravou-se entre eles. Sendo os partidários de uns e de outros equivalentes em número, não tardaram a decidir a questão pela força. Os que pereceram nessa ocasião foram enterrados, pelos partidários do povo, perto do rio Tiras, onde ainda hoje vemos suas sepulturas. Esses sobreviventes da contenda, depois de haverem prestado essa última homenagem aos mortos, abandonaram o país, e os Citas, encontrando-o deserto, dele se apoderaram.

XII — Encontramos ainda hoje na Cítia a cidade de Cimério e a de Portmias Cimérios. Existe também ali uma região denominada Ciméria e um estreito chamado Cimeriano. Parece certo que os Cimérios, fugindo dos Citas, se retiraram para a Ásia, estabelecendo-se numa pequena ilha onde hoje se encontra a cidade grega de Sínope. Não parece menos certo que se tenham extraviado ao persegui-los, penetrando na Média. Os Cimérios, na sua fuga, iam contornando o litoral; os Citas, ao contrário, seguiam sempre mantendo o Cáucaso à sua direita, até que, perdendo a orientação, foram ter ao coração da Média.

XIII — Esta outra versão nos vem igualmente dos Gregos e dos bárbaros; mas Aristeu de Preconésia, filho de Caistróbio, escreve em seu poema épico que, inspirado por Febo, foi até o país dos Issédons, ao sul do qual se encontram os Arimaspes, povo de um só olho; que mais além ficam os Grifãos, que guardam o ouro, e mais longe ainda vivem os Hiperbóreos, cujas terras se estendem para o mar; que todos esses povos, com exceção dos Hiperbóreos, vivem continuamente em guerra com seus vizinhos, a começar pelos Arimaspes; que os Issédons foram expulsos do seu país de origem pelos Arimaspes; os Citas, pelos Issédons, e os Cimérios — habitantes do litoral banhado pelo mar do sul — pelos Citas. Assim, Aristeu não concorda nem mesmo com os Citas no que se refere a essa região.

XIV — Já vimos de que país era o poeta Aristeu; mas não posso deixar de relatar o que ouvi a seu respeito em Preconésia e em Cizico.

Aristeu pertencia a uma das melhores famílias do seu país. Diz-se ter ele morrido em Preconésia, na loja de um pisoeiro, onde entrara por acaso. O pisoeiro, fechando o seu estabelecimento, foi imediatamente avisar a família do morto. A notícia espalhou-se logo por toda a cidade; mas um habitante de Cizico, vindo de Artacéia, assegurou ter encontrado Aristeu a caminho de Cizico e falado com ele. Enquanto o forasteiro fazia essas afirmações, a família de Aristeu dirigia-se à loja do pisoeiro, com todo o necessário para o enterro; mas quando abriram o estabelecimento não o encontraram, nem morto nem vivo. Conta-se ainda que, sete anos depois, ele reapareceu em Preconésia, onde compôs o poema épico que os Gregos denominam Arimáspios, desaparecendo logo depois pela segunda vez. É essa a lenda que corre nas cidades de Preconésia e Cizico.

XV — Vejamos agora o que aconteceu aos Metapontinos, na Itália, trezentos e quarenta anos depois de Aristeu haver desaparecido pela segunda vez. Contam os Metapontinos que o poeta, ali surgindo, ordenou-lhes que erguessem um altar a Apolo, e erigissem, perto desse altar, uma estátua a que dariam o nome de Aristeu de Preconésia, dizendo-lhes serem eles os únicos, entre os Italiotas, a receber a visita de Apolo. Contam ainda que o próprio Aristeu acompanhava o deus sob a forma de um corvo, e que depois de haver dado essa ordem desapareceu mais uma vez. Acrescentam os Metapontinos que, tendo mandado perguntar ao deus, em Delfos, o significado daquela aparição, a pitonisa concitara-os a cumprir as determinações do poeta, não tendo eles outro caminho senão obedecer. Vê-se ainda hoje, na praça pública de Metaponto, perto da estátua de Apolo, outra estátua com o nome de Aristeu, estando ambas cercadas de louros.

XVI — Nada se sabe de positivo sobre o que existe além do país de que falámos. Não encontrei ninguém que lá houvesse estado. Aristeu, de quem fizemos menção, não esteve adiante da terra dos Issédons, como ele diz no seu poema épico. Confessa ele ter sabido dos Issédons o que contava dos países mais afastados. De qualquer maneira, levamos nossas investigações até onde era possível, e vamos dizer o que soubemos de exato pelas fontes a que recorremos.

XVII — Depois do porto dos Boristênidas, que se acha bem no centro do litoral da Cítia, os primeiros povos que encontramos são os Calípides, de origem greco-cita. Um pouco acima ficam os Alazões. Estes e os Calípides seguem os mesmos costumes dos Citas. Cultivam o trigo e comem cebola, alho, lentilhas e favas. Ao norte do território ocupado pelos Alazões vivem os Citas lavradores, que semeiam o trigo, não para se utilizarem dele como alimento, mas para vendê-lo. Acima do país dos Citas encontram-se os Neuros. Pelo que pudemos saber, a parte setentrional do país dos Neuros não é habitada. Todas essas nações estão situadas ao longo do rio Hípanis, a oeste do território dos Boristênidas.

XVIII — Transpondo-se esse rio, encontra-se primeiramente a Hiléia, na direção do litoral. Acima ficam os Citas agricultores. Os Gregos que vivem às margens do Hípanis chamam-nos Boristênidas, mas denominam a si próprios Olbiopólitos. O país desses Citas agricultores, que fica a três dias de viagem do lado do levante, estende-se até o rio Pantícapes. Atravessando-se essa região chega-se a vastos desertos, além dos quais vivem os Andrófagos, que nada têm de comum com os Citas. Ao norte do território por eles habitado existem apenas desertos — pelo menos não se sabe da existência de nenhum povo ali.

XIX — A leste da região ocupada pelos Citas agricultores e para lá do Pantícapes vivem os Citas nômades, que não lavram a terra. Toda a região, com exceção da Hiléia, é desprovida de árvores. Os Citas nômades ocupam, a leste, uma extensão correspondente a quatorze dias de jornada até o rio Gerro.

XX — Além do rio Gerro fica o país dos Citas reais, os mais bravos e mais numerosos entre todos os de sua raça, e considerando os demais como seus escravos. Estendem-se para o sul até a Táurida, e para leste até o fosso cavado pelos filhos dos escravos cegos, e Cremnes, cidade comercial sobre o Palos-Meótis. Uma das partes dessa nação estende-se até o Tánais. Ao norte do território dos Citas reais encontram-se os Melanclenes, que não pertencem à mesma raça. Mais acima, ao que soubemos, não existem mais do que pântanos e terras desabitadas.

XXI — O território situado adiante do Tánais não pertence à Cítia, mas aos Saurómatas, cujas terras podemos atravessar em quinze dias de marcha, durante os quais não vemos nem árvores frutíferas, nem selvagens. A segunda região ao norte dessa nação é habitada pelos Budinos e possui, em abundância, toda espécie de árvores. Ao norte dessa região há um vasto deserto, cuja travessia pode ser feita em sete dias de marcha.

XXII — Atravessando-se esse deserto, para leste, entra-se no território dos Tisságetas, povo indígena e numeroso, que vive exclusivamente da caça. Suas terras confinam com a dos Iircos, também caçadores e que procedem da seguinte maneira para apanhar a presa: Como há bosques por toda parte, sobem nas árvores para pesquisar o mato e localizar a caça. Levam, cada um, seu cavalo, que fazem deitar com o ventre em terra, a fim de parecer menor. Acompanham-nos, também, cães para farejar e perseguir a caça. Logo que o caçador, do alto da árvore, percebe a presa e tem-na ao seu alcance, procura atingi-la com uma flechada; depois, monta a cavalo e persegue-a, auxiliado pelo cão, apresando-a por fim.

Para além dos Iircos, avançando para leste, encontramos os Citas, que, tendo sacudido o jugo dos Citas reais, vieram estabelecer-se nessa região.

XXIII — Toda a extensa zona de que acabo de falar, até o país dos Citas, é plana e muito fértil; mas, para diante, o terreno é estéril e pedregoso. Depois de se ter percorrido grande parte dele entra-se em contato com povos que vivem ao sopé de grandes montanhas e que, segundo contam, são calvos de nascença, tanto os homens como as mulheres, tendo o nariz achatado e o mento alongado. Possuem idioma próprio, mas vestem-se à maneira dos Citas. Alimentam-se do fruto de uma árvore denominada “pontica”, que atinge o tamanho de uma figueira e cujo fruto tem um caroço mais ou menos da grossura de uma fava. Quando o fruto está maduro, colhem-no e espremem-no num pedaço de tecido, extraindo um licor negro e espesso, a que dão o nome de “asqui”. Tomam esse licor misturado com leite. O bagaço é transformado numa massa, que também lhes serve de alimento. É diminuta a quantidade de gado que criam por faltarem bons pastos.

Cada um tem a sua árvore, onde passam o ano inteiro. No Inverno cobrem-na de lã branca, retirando-a à chegada do Verão. Ninguém os molesta, pois são considerados criaturas sagradas. Não possuem arma alguma. Os vizinhos tomam-nos como árbitros em demandas e disputas, e quem se refugia entre eles encontra ali asilo inviolável. Chamam-nos Argipenses.

XXIV — Tem-se um conhecimento exato de toda a região até as terras ocupadas por esses homens calvos, e de todas as nações que ficam do lado de cá, não sendo difícil obter notícias delas por intermédio dos Citas que vão constantemente até lá; pelos Gregos da cidade comercial situada no Borístenes, e pelos habitantes de outras cidades situadas no Ponto Euxino. Esses povos falam sete línguas diferentes. Assim, os Citas que viajam têm necessidade de sete intérpretes.

XXV — Embora essa região seja bem conhecida pelas razões que acabamos de expor, nada se pode dizer com segurança sobre as terras ao norte; montanhas elevadas e inacessíveis interditam a passagem. Os Argipenses afirmam, todavia, serem essas terras habitadas pelos Egípodes, ou homens de pés de cabra, o que, entretanto, não me parece digno de crédito. Acrescentam também que, se avançarmos mais para diante encontraremos outros povos que dormem seis meses do ano, no que também não creio muito. Sabe-se ser o território a leste do país dos Argipenses ocupado pelos Issédons; mas o que fica para baixo não é conhecido nem dos Argipenses nem dos Issédons, que não sabem dele senão o que me contaram.

XXVI — Eis alguns dos costumes observados pelos Issédons, de acordo com o que me contaram: Quando um deles perde o pai, os parentes levam-lhe gado, que abatem e cortam em pedaços, fazendo o mesmo com o cadáver, e misturando todas as carnes realizam um festim. Arrancam os cabelos da cabeça do morto e, depois de haverem limpado o crânio, douram-no, servindo-se dele como de um vaso precioso nos sacrifícios solenes que oferecem todos os anos. Os filhos cumprem esses deveres para com os pais, da mesma maneira que os Gregos celebram o aniversário da morte dos genitores. Os Issédons têm grande amor à justiça, e, entre eles, a mulher tem tanta autoridade quanto o homem.

XXVII — É isso o que se conhece sobre esses povos. Quanto à região que fica mais acima, sabe-se, pelo testemunho dos Issédons, ser habitada por homens de um só olho, e pelos Grifãos, que guardam o ouro. Os Citas colheram essas informações com os Issédons, e nós com os Citas. Nós os chamamos Arimaspes em língua cita. Nessa língua arima significa um e spu olho.

XXVIII — Em toda a região de que acabo de falar, o Inverno é tão rude, e o frio tão intenso pelo espaço de oito meses, que espalhando-se água pela terra não se faz lama, senão quando se acende fogo. O próprio mar gela, assim como o Bósforo Cimeriano; e os Citas da Quersonésia passam com seus exércitos sobre o gelo, conduzindo carroças, para irem ao país dos Sindas. O Inverno mantém-se intenso durante oito meses, sendo que os outros quatro últimos meses também são frios. O Inverno nessas paragens é, aliás, muito diverso do dos outros países. Chove tão pouco durante a estação, que se pode dizer ser ela de completa seca; e no Verão não cessa de chover. Não troveja na época em que costuma trovejar em outros lugares; mas as trovoadas são muito freqüentes no Verão; e se as ouvem no Inverno, encaram o fato como algo fenomenal. O mesmo se dá com os tremores de terra. Quando verificados na Cítia, no Verão ou no Inverno, passam por verdadeiros fenômenos. Os cavalos, na referida região, suportam bem o frio; mas as mulas e os jumentos com ele se ressentem, embora o contrário se dê em outros lugares: os cavalos a ele expostos definham, e as mulas e os jumentos nada sofrem.

XXIX — Penso que é o rigor do frio que impede os bois de terem ali chifres. Homero mostra-se de acordo comigo quando, na “Odisséia”, fala nestes termos: “E a Líbia, onde os cornos vêm prontamente aos cordeiros”; o que é exato, pois nos países quentes os cornos crescem cedo nos animais, e onde o frio é violento, nem chegam a nascer, e se nascem, não crescem muito.

XXX — Nessa região, é o frio a causa disso; mas, observando de passagem, como gosto de fazer e como venho fazendo desde o início desta história, espantou-me saber que em toda a Élida é raro encontrar-se mulas, embora o clima ali não seja frio e não se possa alegar nenhuma causa sensível. Os Eletos dizem ser a conseqüência de alguma maldição. Quando se aproxima a época do cio, os Eletos levam as éguas para os países vizinhos, trazendo-as de volta quanto estão pejadas.

XXXI — Quanto às plumas de que os Citas dizem estar o ar cheio a ponto de perturbar a visão e não permitir a permanência de ninguém ali, eis a minha opinião a respeito: Neva sempre nas regiões situadas ao norte da Cítia, mas, evidentemente, menos no Verão do que no Inverno. Quem tenha visto a neve cair em grossos flocos compreende perfeitamente o que quero dizer. Essa se assemelha, na realidade, a plumas. Penso, pois, que essa parte do continente é inabitável devido ao frio excessivo, e que, quando os Citas e seus vizinhos falam de plumas, referem-se ao que a neve sugere.

XXXII — Nem os Citas, nem qualquer outro povo dessas regiões falam dos Hiperbóreos a não ser os Issédons os quais, a meu ver, também nada dizem. Pois do contrário os Citas (que por informações deles nos falaram sobre os Arimaspes) dir-nos-iam também qualquer coisa. Entretanto, Hesíodo a eles alude, o mesmo fazendo Homero nos Epígonos(1) — a acreditar-se seja ele o verdadeiro autor desse poema.

XXXIII — Os Délios falam mais detalhadamente sobre o referido povo. Contam que as oferendas dos Hiperbóreos lhes vinham envoltas em palha de trigo. Passando pelas mãos dos Citas e transmitidas de povo a povo, essas oferendas alcançavam terras distantes, chegando até o Adriático, a ocidente, de onde eram enviadas para o sul. Os Dodoneus eram os primeiros Gregos a recebê-las. Dali desciam até o golfo Malíaco, de onde passavam para a Eubéia, e, seguindo de uma cidade para outra, iam ter a Cariste. Dali, sem tocar em Andros, os Caristeus levavam-nas para Tenos, de onde os Teneus as transportavam para Delos. A dar crédito aos Délios, era assim que essas oferendas chegavam à sua ilha. Acrescentam eles que, nos primeiros tempos, os Hiperbóreos enviavam as oferendas por intermédio de duas virgens — Hiperoquéia e Laodicéia; que, para segurança dessas jovens, os Hiperbóreos faziam-nas acompanhar por cinco cidadãos, a que atualmente se rendem grandes homenagens em Delos sob o nome de Pérferos; mas que, os Hiperbóreos, não os vendo regressar e ante a desagradável possibilidade de virem a perder muitos outros de seus delegados nessa missão, resolveram, depois de certo tempo, levar as oferendas até as fronteiras, envoltas em palha de trigo, de onde eram enviadas aos vizinhos mais próximos, a quem solicitavam remetê-las a outra nação. Dessa maneira, as oferendas iam passando, segundo os Délios, de país a país, até chegarem ao seu ponto de destino.

Notei, entre as mulheres da Trácia e da Peônia, um curioso costume com relação às coisas sagradas. Elas jamais sacrificam a Diana real sem fazerem uso da palha de trigo. Eis como, segundo dizem, elas procedem:

XXXIV — Os jovens délios de ambos os sexos cortam o cabelo em honra das virgens hiperbóreas que morreram em Delos. As moças cumprem esse dever antes do casamento. Tomando de um cacho dos cabelos, enrolam-no num fuso e colocam-no no túmulo das virgens, no recinto consagrado a Diana, à esquerda de quem entra, à sombra de uma oliveira. Os jovens délios encrespam os cabelos com o auxílio de gravetos e colocam-nos no mesmo local.

XXXV — Os Délios dizem também que, no mesmo século em que os referidos delegados vieram a Delos cumprindo a missão que lhes fora confiada, duas outras virgens hiperbóreas, uma das quais se chamava Argéia e a outra Ópis, já ali tinham estado, muito antes de Hiperoquéia e Laodicéia. Traziam elas oferendas que haviam prometido para terem partos fáceis, e ali chegaram em companhia dos próprios deuses. Por isso os Délios lhes rendem grandes homenagens e suas mulheres lhes celebram os nomes num hino que Ólen de Lícia compôs em seu louvor. Os Délios dizem ainda que aprenderam com os insulares e os Iônios a celebrar nos hinos Ópis e Argéia e a fazer óbolos em intenção delas. Foi esse Ólen que, vindo da Lícia para Delos, compôs os antigos hinos cantados na ilha. Os Délios acrescentam que, depois de queimar no altar as coxas das vítimas, espalham as cinzas sobre o túmulo de Ópis e Argéia. Esse túmulo fica atrás do templo de Diana, a leste, perto do refeitório dos Cenos.

XXXVI — Acho que já disse o bastante sobre os Hiperbóreos, e, por conseguinte, passarei em silêncio sobre o que se conta de Abáris, que era, ao que dizem, hiperbóreo, e que, sem comer, viajou por toda a terra levado por uma flecha. De resto, se há Hiperbóreos deve haver também Hipernoteus. De minha parte, não posso deixar de rir quando vejo os que descreveram a circunferência da terra pretenderem, sem atender à razão, ser a terra redonda, envolvida pelo oceano por todos os lados, e a Ásia igual à Europa. Tentarei mostrar as proporções de cada uma dessas partes do mundo e descrever sua configuração.

XXXVII — O país ocupado pelos Persas se estende até o mar Austral, também chamado mar da Eritréia. Acima, ao norte, habitam os Medos; mais acima os Sápiros, e para além dos Sápiros, os Colquidianos, junto ao mar do Norte, próximo à desembocadura do Faso. Essas quatro nações se estendem de um mar a outro.

XXXVIII — Dali, seguindo na direção do ocidente encontramos duas penínsulas opostas, que avançam mar a dentro. Uma delas começa, do lado do norte, no Faso, estendendo-se ao longo do Ponto Euxino e do Helesponto, até o promontório de Sigéia, na Tróada. Do lado do sul, essa mesma península começa no golfo Meriândrico, adjacente à Fenícia, estendendo-se ao longo do mar até o promontório Triópio. Essa península é habitada por trinta nações diferentes.

XXXIX — A outra península começa no país dos Persas e estende-se até o mar da Eritréia(2). Compreende a Pérsia, a Assíria e a Arábia, e termina, segundo se diz, no golfo Arábico, onde Dario fez chegar um canal partindo do Nilo. Da Pérsia à Fenícia encontram-se grandes vastidões de terras. Da Fenícia em diante a península estende-se ao longo do referido mar, pela Síria da Palestina e Egito, onde termina. Compreende apenas três nações.

XL — Os países a leste, além dos territórios dos Persas, dos Medos, dos Sápiros e dos Colquidianos, são limitados, desse lado, pelo mar da Eritréia, e ao norte, pelo mar Cáspio e pelo Araxo, que segue na direção do nascente. A Ásia é habitada até a Índia. Daí em diante, seguindo para leste, encontramos imensos desertos desconhecidos, sobre os quais nada podemos dizer com segurança.

XLI — A Líbia vem logo depois do Egito e faz parte da segunda península, apresentando-se bastante estreita nos seus limites com aquele país. Com efeito, do litoral, ao norte, até o mar da Eritréia não há mais que cem mil braças, ou sejam mil estádios. Todavia, desse ponto em diante vai-se alargando, e toma então o nome de Líbia.

XLII — Os que descreveram a Líbia, a Ásia e a Europa e lhes determinaram os limites, mostraram-se entendidos no assunto, indicando-lhes as justas proporções. Realmente, a Europa quase iguala em comprimento as outras duas; mas não me parece que lhes possa ser comparada em largura. A Líbia mostra ser envolvida pelo mar, exceto do lado em que confina com a Ásia. Necao, rei do Egito, foi o primeiro, ao que sabemos, a provar isso. Quando renunciou à idéia de abrir o canal que deveria conduzir as águas do Nilo ao golfo Arábico, escolheu experimentados navegadores fenícios e, embarcando-os em seus navios, deu-lhes instruções para que, na volta da viagem que iam fazer, passassem pelas colunas de Hércules, no mar setentrional, regressando dessa maneira ao Egito. Os Fenícios, embarcando no mar da Eritréia, navegaram pelo mar Austral. No Outono, desembarcaram na Líbia, no ponto onde se achavam, e semearam o trigo. Chegada a época da messe, colheram o trigo e fizeram-se novamente ao mar. Depois de dois anos de navegação dobraram as colunas de Hércules e regressaram ao Egito. Contaram, ao chegar, que navegando em torno da Líbia tinham o sol à sua direita, o que não me parece crível(3), embora a muitos possa parecer. Foi assim, pois, que a Líbia tornou-se conhecida pela primeira vez.

XLIII — Contam os Cartagineses que, algum tempo antes dessa aventura, Sataspes, filho de Teáspis, da raça dos Aquemênidas, recebera ordem de fazer a circunavegação da Líbia, não conseguindo, porém, levar a bom termo o empreendimento. Desanimado pela extensão do percurso e aterrorizado com os desertos encontrados pela costa, regressou pelo mesmo itinerário, sem haver completado a tarefa imposta pela mãe.

Sataspes havia violado uma jovem, filha de Zópiro, que era, por sua vez, filho de Megabizo. Estando em vias de ser crucificado por esse crime, por ordem de Xerxes, sua mãe, irmã de Dario, implorou o perdão para ele, prometendo puni-lo de maneira ainda mais rigorosa do que a pena imposta, isto é, forçando-o a realizar a circunavegação da Líbia até o golfo Arábico. Xerxes concedeu o indulto com essa condição. Sataspes dirigiu-se ao Egito, obteve um navio e marinheiros do país, e embarcando, rumou para as colunas de Hércules. Atravessando-as, dobrou o promontório Soloeis e velejou para o sul; mas, depois de haver consumido vários meses na travessia de vasta extensão oceânica, vendo que ainda lhe restava um percurso maior a vencer, tratou de regressar, ganhando o Egito novamente, de onde se dirigiu para a corte de Xerxes. Ali chegando, contou ter visto, à beira dos mares longínquos que percorrera, homenzinhos vestidos com folhas de palmeira, que abandonaram suas aldeias para se refugiarem nas montanhas logo que perceberam o navio; e que desembarcando nessas aldeias nenhum mal haviam feito, contentando-se em lançar mão do gado que teve ao seu alcance. Acrescentou que não completara a circunavegação da Líbia porque seu navio não pudera avançar mais. Xerxes, persuadido de não estar ele dizendo a verdade, manteve sua sentença por não haver ele realizado até o fim a prova imposta, mandando crucificá-lo. Um eunuco de Sataspes, logo que soube da morte do amo refugiou-se em Samos com grandes riquezas, das quais se apoderou um habitante dessa ilha. Não ignoro o seu nome, mas não desejo revelá-lo.

XLIV — A maior parte da Ásia foi descoberta por Dario. Esse soberano, querendo saber em que ponto do mar desembocava o Indo, depois do Nilo o único rio onde se encontram crocodilos, equipou alguns navios, tendo por tripulantes homens adestrados, entre os quais figuravam Cílax e Cariando. Embarcando em Caspatiro, esses homens desceram o rio, a leste, até o mar, de onde navegaram para ocidente, chegando finalmente, depois de trinta meses de viagem, ao mesmo porto em que os Fenícios a que me referi há pouco tinham embarcado para fazer a circunavegação da Líbia. Terminado o périplo, Dario subjugou os Indianos e passou a servir-se do mar que banhava o país. Foi assim que se comprovou que a Ásia, excetuando a parte oriental, se assemelha em tudo à Líbia.

XLV — Quanto à Europa, não me parece que alguém haja, até aqui, descoberto ser ela cercada de mar a leste e ao norte. Sabe-se, todavia, em que extensão ela se liga às outras duas partes da terra(4). Não compreendo por que, sendo a terra uma só, lhe dão três nomes diferentes, e, aliás, nomes de mulheres, e por que se dá à Ásia, por limites, o Nilo, rio do Egito, e o Fásis, rio da Cólquida; ou, segundo outros, o Tánais, o Palos-Meótis e o estreito Cimeriano. Não consegui saber os nomes dos que assim dividiram a terra, nem onde foram buscar esses nomes que lhe atribuíram. A maioria dos Gregos diz que o nome Líbia provém de uma mulher originária do país, e o da Ásia, da mulher de Prometeu; mas os Lídios reivindicam para si a aplicação deste último nome, sustentando vir ele de Ásias, filho de Cótis e neto de Manes, de onde os Asíadas, tribo de Sardes, tiraram também o seu nome.

Quanto à Europa, ninguém sabe, como já disse, se ela é cercada de mar. Também não me parece que se saiba de onde lhe veio esse nome, nem quem lho aplicou pela primeira vez. A não ser que o tenham tirado do de Europa de Tiro; pois outrora, da mesma maneira que as outras partes do mundo, ela não possuía nome. É certo que Europa era asiática, nunca veio a essa imensa extensão de terra a que os Gregos hoje denominam Europa. Esteve somente na Fenícia, de onde passou para Creta e dali para Lícia.

XLVI — O Ponto Euxino, que Dario atacou, é, de todas as regiões da terra, a que possui povos mais ignorantes, com exceção dos Citas. Entre os que vivem para cá do Ponto Euxino não podemos, na verdade, citar um único que tenha dado provas de prudência e habilidade, ou mesmo fornecido um homem que se tenha distinguido pelos seus conhecimentos, excetuando os Citas, como povo, e Anacársis, como homem. Os Citas são, de todos os povos que conhecemos, os que encontraram meios mais seguros para viver e manter as vantagens que alcançaram sobre seus vizinhos, embora nada apresentem digno de admiração. Suas vantagens consistem em não deixarem escapar os que vêm atacá-los e em não se agruparem quando isso não lhes convém, pois não possuem nem cidades nem fortalezas. Transportam, para onde vão, suas respectivas habitações, e são exímios no manejo do arco quando a cavalo. Não vivem do cultivo da terra, mas do gado. Pode-se dizer que, em geral, não possuem moradias outras que não suas próprias carroças. Vê-se, pois, que um povo que adota tal modo de vida não pode ser facilmente subjugado, sendo até mesmo difícil abordá-los.

XLVII — Esse gênero de vida que adotam decorre, principalmente, do fato de ser a Cítia um país favorecido pela natureza, possuindo grande número de rios que lhe servem de defesas naturais contra qualquer agressão. O país é plano, abundante de pastagens e bem regado, sendo quase tão cortado de rios quanto o Egito de canais. Entre os seus rios mais importantes e facilmente navegáveis figuram o Íster, rio de cinco embocaduras; o Tiras, o Hípanis, o Borístenes, o Pantícapes, o Hipacíris, o Gerro e o Tánais, cujos cursos tentarei descrever.

XLVIII — O Íster, o maior de todos os rios que conhecemos, é sempre o mesmo, no Verão ou no Inverno. Vamos encontrá-lo primeiramente na Cítia, a oeste dos outros, e durante o seu curso recebe as águas de vários outros rios e riachos, razão por que se torna o maior de todos eles. Cinco grandes rios figuram entre os que contribuem para aumentar-lhe o caudal. Esses rios, que atravessam a Cítia, são: o Porata, que os Gregos denominam Piretos, o Tiarante, o Arárus, o Náparis e o Ordessos. O primeiro tem um volume d’água considerável e corre para leste, indo confundir-se com o Íster. O segundo, isto é, o Tiarante, é menor e corre mais a ocidente. Os três últimos — o Arárus, o Náparis e o Ordessos — correm entre os dois outros e lançam-se também no Íster.

XLIX — O Máris vem do país dos Agatirsos e deságua no Íster. Do alto do monte Hemo saem três outros grandes rios: o Atlas, o Auras e o Tibísis, que se dirigem para o norte e se perdem no mesmo rio. Da Trácia correm outros três, que vêm lançar-se no Íster: o Átris, o Noes e o Ártanes. O Cios vem da Peônia e do monte Ródope; divide pelo meio no monte Hemo e deságua no mesmo rio. O Ãngrus corre da Ilíria para o norte, atravessa a planície Tribálica e desemboca no Brôngus, que, por sua vez, deságua no Íster; de sorte que o Íster recebe, ao mesmo tempo, as águas de dois grandes rios. O Cárpis e o Ápis saem do país acima dos Úmbrios, correndo para o norte e perdendo-se no mesmo rio. Não devemos, de resto, nos espantar ante o fato de o Íster receber tantos rios, porquanto ele atravessa toda a Europa. Nasce no país dos Celtas (a última nação da Europa a oeste, se excetuarmos os Cinetas), e depois de haver atravessado a Europa inteira penetra na Cítia por um dos seus pontos extremos.

L — A reunião de todos os rios de que acabo de falar e de muitos outros torna o Íster a maior das correntes d’água conhecidas; mas se o compararmos, ele somente, com o Nilo, o rio egípcio terá a primazia, porquanto não possui afluentes para avolumá-lo(5). A razão de ser o Íster, como já disse, sempre o mesmo, quer no Verão, quer no Inverno, parece ser a seguinte: No Inverno ele não se torna mais volumoso porque, nessa estação, chove muito pouco nos países que atravessa, mantendo-se a terra ali coberta de neve. A neve, que cai em abundância durante o Inverno, dissolve-se no Verão e corre para o Íster. Essa neve dissolvida e as grandes chuvas desta última estação contribuem para engrossá-lo. Assim, se no Verão o sol produz maior evaporação do que no Inverno, as águas que confluem para o rio nessa época são também mais abundantes do que no Inverno. Desse fato resulta uma compensação, graças à qual o rio mantém sempre o mesmo volume.

LI — O Íster é, como já dissemos, o primeiro dos rios que banham a Cítia. Encontramos, em seguida, o Tiras, que corre do norte, de um grande lago que separa a Cítia da Nêurida. Os Gregos denominados Tíritas habitam as imediações da sua embocadura.

LII — O Hípanis é o terceiro desses rios. Vem da Cítia, de um grande lago em cujas margens pastam cavalos brancos e ao qual deram o nome de Mãe de Hípanis. É um rio pequeno, cuja água é doce até certo trecho, tornando-se salobra quando atinge a quatro dias de distância do mar. Esse amargor provém de uma fonte cujas águas correm para o rio e são tão amargas que, embora seja pequena sua quantidade em comparação com as que se misturam, bastam para lhes dar tão pronunciado sabor. A fonte está situada nas fronteiras do país dos Citas lavradores e dos Alazões, e tem o mesmo nome do lugar onde se encontra: Exampéia, em linguagem cita, e que em grego significa: via sagrada. O Tiras e o Hípanis aproximarn-se um do outro no país dos Alazões, mas logo se afastam, deixando entre si um grande espaço.

LIII — O Borístenes é o quarto rio e o maior da Cítia depois do Íster. É também, a meu ver, o mais fecundo de todos os rios, não só da Cítia, mas de todo o mundo, se excetuarmos o Nilo, com o qual não há um só que se possa comparar. O Borístenes fornece ao gado boas e abundantes pastagens, e nele se pesca toda espécie de peixes. A água é agradável de beber, mantendo-se clara e límpida, embora os rios vizinhos sejam limosos. Fazem-se, nas margens, excelentes colheitas, e nos lugares não cultivados a erva cresce em abundância. O sal cristaliza-se na embocadura, em grande quantidade. O rio produz grandes peixes sem espinhas denominados “antacés”, que os habitantes salgam antes de comer.

Até o país chamado Gerro há uma distância equivalente a quarenta dias de navegação, e sabe-se que o rio Borístenes vem do norte; mas não se conhece nem a região que ele atravessa mais acima, nem os povos que a habitam. Há, porém, indícios de que ele corre através de um país deserto para atingir as terras dos Citas agricultores. Este povo vive em suas margens, numa extensão correspondente a dez dias de viagem. Esse rio e o Nilo são os únicos dos quais não posso indicar as nascentes, e não creio que algum grego esteja mais informado sobre isso. Quando o Borístenes está prestes a lançar-se no mar, o Hípanis vem unir-se a ele, confluindo no mesmo pantanal. A faixa de terra que fica entre esses dois rios chama-se promontório de Hipolaus. Ali ergueram um templo a Ceres. Adiante desse templo, às margens do Hípanis, vivem os Boristênidas.

LIV — O Pantícapes é o quinto rio que encontramos na Cítia. Vem também do norte, tendo suas nascentes num lago. Entra na Hiléia, e depois de atravessá-la mistura suas águas com as do Borístenes. Os Citas agricultores ocupam a região compreendida entre esses dois rios.

LV — O sexto rio é o Hipacíris. Sai igualmente de um lago e corre pelo meio das terras dos Citas nômades, lançando-se no mar, perto da cidade de Carnicítis, circundando, à direita, o país da Hiléia e o que se denomina Rota de Aquiles.

LVI — O Gerro é o sétimo desses rios. Ao deixar o país que lhe deu esse nome, afasta-se do Borístenes, correndo em direção ao mar, mas lançando-se no Hipacíris, separando, no seu curso, os Citas nômades dos Citas reais.

LVII — Temos, por último, o Tánais, que vem de um país longínquo, tendo suas nascentes num grande lago, do qual sai para lançar-se num outro maior ainda: o Meótis, que separa os Citas reais dos Saurómatas. Entre os seus afluentes encontra-se o Hirges.

LVIII — São esses os principais rios que banham a Cítia. A relva desse país é a melhor para o gado e a mais suculenta que conhecemos, como se pode verificar abrindo-se a barriga dos animais que dela se alimentam. Os Citas têm, assim, em abundância, as coisas mais necessárias à existência.

LIX — Quanto aos seus costumes, eis aqui alguns por eles cuidadosamente observados: procuram manter-se sob a proteção de Vesta, em primeiro lugar, de Júpiter e da Terra, que acreditam ser mulher de Júpiter. Depois dessas três divindades, que reputam as maiores, cultuam Apolo, Vênus-Urânia, Hércules e Marte. Todos os Citas reconhecem e veneram essas divindades; mas os Citas reais sacrificam também a Netuno. Na língua dos Citas, Vênus chama-se Tabítis; Júpiter, Papéus, nome que, a meu ver, lhe é bem adequado; a Terra, Ápis; Apolo, Etósiros; Vênus-Urânia, Artimpasa, e Netuno, Tamimasadas. Erguem estátuas, altares e templos a Marte, e somente a este.

LX — Os Citas sacrificam em todos os lugares sagrados, procedendo da seguinte maneira: a vítima fica de pé, com os pés dianteiros amarrados. O que deve sacrificá-la coloca-se atrás dela e puxa a corda que lhe prende os pés, fazendo-a tombar, enquanto invoca o deus ao qual vai imolá-la. Em seguida, amarra uma corda em torno do pescoço do animal, apertando-a com auxílio de um bastão até estrangulá-lo. Não se acende fogo e nem fazem libações. Estrangulada a vítima, o oficiante esfola-a, esquarteja-a e prepara-se para cozinhá-la.

LXI — Como não há lenha na Cítia, procedem da seguinte maneira para cozinhar a vítima: depois de esquartejá-la, retiram toda a carne que envolve os ossos e colocam-na em caldeiras, se as possuem. Essas caldeiras se assemelham muito às crateras de Lesbos, com a diferença de serem bem maiores. Debaixo delas acendem o fogo com os ossos da vítima. Se, porém, não possuem caldeiras, colocam toda a carne, com água, no ventre do animal, e queimam os ossos por baixo(6). Os ossos fornecem um bom lume, e o ventre mantém muito bem a carne. Assim, os animais sacrificados servem para cozinhar a si próprios. Quando tudo está cozido, o sacrificador faz o oferecimento dos primeiros bocados de carne e de vísceras atirando-os para a frente. Os Citas sacrificam várias espécies de animais, principalmente cavalos.

LXII — Com relação a Marte, os Citas observam o seguinte culto: num campo destinado às assembléias da nação erguem-lhe uma espécie de templo, que é preparado desta maneira: amontoam feixes de gravetos, formando com eles uma pilha de três estádios de comprimento e outros tantos de largura, mas de menor altura. Sobre essa pilha constroem uma espécie de plataforma quadrada, com três lados inacessíveis, e o quarto inclinado de maneira a poder-se por ele subir. Ali são amontoados todos os anos cento e cinqüenta carros de pequenos pedaços de madeira, para manter na mesma altura a pilha que tende a baixar sob a ação das intempéries. No alto, cada nação cita planta uma velha cimitarra de ferro, como símbolo de Marte(7), à qual fazem, todos os anos, sacrifícios, imolando-lhe cavalos e outros animais, em número maior do que aos outros deuses. Sacrificam-lhe também a centésima parte de todos os prisioneiros feitos entre os inimigos, mas a cerimônia é diferente da que procedem com relação aos animais. Fazem primeiramente libações com vinho sobre a cabeça da vítima humana, degolam-na, em seguida, sobre um vaso, e levam-no para o alto da pilha, despejando o sangue sobre a cimitarra. Enquanto o sangue é conduzido para cima, os que se acham embaixo cortam o braço direito, juntamente com o ombro, dos que já foram sacrificados, e atiram-nos para o ar. Terminado o sacrifício, todos se retiram, deixando os braços das vítimas onde foram lançados, enquanto que os corpos ficam estendidos em outro lugar.

LXIII — É assim que esses povos sacrificam animais e criaturas humanas às divindades de sua predileção. Nunca, porém, imolam porcos e nem deles se alimentam.

LXIV — Quanto aos costumes que observam na guerra, vale mencionar os seguintes: o guerreiro cita bebe o sangue do primeiro homem que consegue abater, corta a cabeça a todos os que mata em combate e leva-as ao seu soberano. Quando apresenta a este a cabeça de um inimigo, pode compartilhar dos despojos da luta; em caso contrário, lhe é negado esse direito. Para esfolar a cabeça do inimigo abatido, o Cita faz primeiramente uma incisão em torno da mesma, na direção das orelhas, e, segurando-a pelo alto, puxa a pele, arrancando-a. Em seguida, limpa a pele tirando-lhe toda a carne, depois do que fricciona-a nas mãos para amaciá-la. Tendo-a assim preparado, dela se serve como guardanapo e amarra-a no bridão do cavalo. Isso constitui um título de honra. O Cita que possui tais guardanapos é considerado valente e destemido, e quanto maior o número desses troféus, maior é a consideração de que goza entre os seus. Muitos cosem os fragmentos de pele humana, como as capas dos pastores, e fazem delas vestuários. Outros também esfolam até as unhas a mão direita do inimigo, fazendo da pele bainha para as aljavas. A pele humana é, realmente, espessa e brilhante, e de todas a mais notável pela brancura. Outros há, ainda, que esfolam homens inteiros, e depois de espichar a pele em pedaços de madeira, colocam-na sobre seus cavalos.

LXV — As cabeças, não de todos os inimigos, mas dos mais famosos, são tratadas da seguinte maneira: serram o crânio acima das sobrancelhas e limpam-no. Os pobres contentam-se em revesti-lo de um pedaço de couro, sem ornato algum; os ricos não só o recobrem com pele de boi, como o douram por dentro, dele servindo-se, à semelhança de uma taça, para beber. Fazem o mesmo com a cabeça dos parentes próximos se, depois de alguma disputa com eles, levam a melhor. A decisão da contenda tem de ser feita perante o rei. Se um estrangeiro de categoria visita o país apresentam-lhe esses crânios, relatando-lhe como venceram aqueles a que eles pertenceram, ainda que se trate de parentes, constituindo isso motivo de vaidade e classificando tal procedimento como ações de mérito.

LXVI — Cada governador cita dá anualmente um festim em seu distrito ou província, no qual é servido vinho misturado com água, numa cratera. Todos os que se podem vangloriar de haverem matado inimigos em combate bebem desse vinho; os que nada fizeram de semelhante estão privados desse direito, e permanecem à parte, em situação sumamente humilhante. Os responsáveis pela morte de grande número de inimigos bebem em duas taças ao mesmo tempo.

LXVII — Os adivinhos pululam entre os Citas, e servem-se de varinhas de salgueiro para exercer seu mister. Trazem sempre consigo feixes dessas varinhas, e quando são chamados a predizer o futuro, depositam-nos em terra, desamarram-nos e vão separando as varinhas, uma a uma. Enquanto fazem a predição vão retomando as varinhas, também uma a uma, e enfeixando-as novamente. Aprenderam com seus antepassados essa forma de predição. Os Enareus, homens efeminados, dizem ter recebido de Vênus esse dom. Servem-se, para exercer a arte, da casca da tília: cortam-na em três pedaços, que enrolam nos dedos e depois desenrolam, predizendo, em seguida, o futuro.

LXVIII — Se o rei dos Citas cai doente, manda buscar três dos mais famosos adivinhos que praticam a arte da maneira que acabo de expor. Convidados a explicar, servindo-se dos seus dons, a razão do mal e o meio de combatê-lo, eles geralmente declaram que a razão está em haver tal ou qual indivíduo, cujo nome declinam, feito um juramento falso, invocando os Lares do palácio. Os Citas, com efeito, juram com freqüência pelos Lares do palácio real quando querem fazer um protesto solene. Apontado o acusado, é este levado preso pelos braços à presença do rei. Os adivinhos, então, dizem-lhe que pela sua arte divinatória estão certos de haver ele jurado em falso pelos Lares do palácio, tornando-se, assim, a causa da enfermidade do soberano. Se o acusado nega o crime e mostra-se indignado com a imputação, o soberano chama outros tantos adivinhos, e se estes convencem do perjúrio pelas mesmas regras divinatórias, manda cortar incontinênti a cabeça do acusado, confiscando-lhe os bens em proveito dos adivinhos. Se os adivinhos chamados em segundo lugar declaram inocente a pessoa indigitada, o soberano faz vir outros, depois mais outros, e se o réu for inocentado pela maioria, a sentença que o absolve traz a condenação à morte dos primeiros adivinhos.

LXIX — Vejamos como é executada a sentença imposta a esses adivinhos: os executores enchem de pedacinhos de madeira uma carroça puxada por bois e sobre eles colocam os adivinhos, com as mãos amarradas atrás das costas, amordaçados e com os pés amarrados. Em seguida, ateiam fogo à madeira e espantam os bois. Muitos desses animais morrem com os adivinhos; outros se salvam, embora chamuscados. É assim que os Citas procedem nas sentenças de morte contra os adivinhos que não tiveram seu parecer aprovado no julgamento de casos dessa e de outra natureza, sendo, por conseguinte, considerados falsos adivinhos.

LXX — O rei da Cítia manda matar os filhos dos condenados à morte, poupando, porém, as filhas. Quando os Citas estabelecem um pacto, eis como procedem: despejam vinho numa grande taça de barro, e os contratantes, fazendo pequenas incisões no corpo com uma faca ou espada, vertem ali um pouco do seu próprio sangue, depois do que mergulham na taça uma cimitarra, flechas, um machado e um dardo. Terminada a cerimônia, fazem longas preces e bebem parte do conteúdo da taça, e depois deles, as pessoas presentes de mais alta categoria, uma a uma(8).

LXXI — Os túmulos dos reis citas acham-se no país de Gerro, no ponto em que o Borístenes começa a tornar-se navegável. Quando morre um soberano cita, abrem ali um grande fosso quadrado para receber o cadáver. O corpo do falecido é untado com cera, e o ventre, depois de aberto e limpo, enchem-no de pedra esmigalhada, de essências e de sementes de aipo e de anis, recosendo-o em seguida. Feito isso conduzem o corpo num carro para outra província, onde os habitantes, à maneira dos Citas reais, cortam uma parte da orelha, raspam o cabelo em torno da cabeça, fazem incisões nos braços, fendem a fronte e o nariz e passam flechas através da mão esquerda. Dali, o corpo é levado, ainda de carro, para outra província, acompanhado pelos habitantes daquela por onde passou em primeiro lugar. O soberano percorre assim, depois de morto, todas as nações submetidas ao seu domínio, até chegar ao país dos Gerroneus, na parte extrema da Cítia, onde o colocam na sepultura já preparada, sobre um leito de verdura. Lanças à guisa de estacas são fincadas em torno do corpo, sobre as quais são colocadas peças de madeira coberta com galhos de salgueiro. No espaço vazio deixado no fosso acomodam os corpos estrangulados de uma das concubinas do rei, de um escudeiro, de um cozinheiro, de um pajem, de um dos ministros reais, de um dos servidores, de cavalos, enfim, as premissas de todas as riquezas do soberano, inclusive taças de ouro — os Citas não conhecem nem a prata nem o cobre. Isso feito, enchem de terra o fosso e erguem, trabalhando por turnos, um cômoro elevado sobre a sepultura.

LXXII — Um ano depois da morte do soberano, escolhem entre o restante dos seus servidores os que lhe eram mais úteis.

Esses servidores, diga-se de passagem, são todos de nacionalidade cita, pois o rei da Cítia não tem escravos comprados a dinheiro, fazendo-se servir pelos súditos designados para essa função. Estrangulam uns cinqüenta desses servidores e um número equivalente dos seus mais belos cavalos(9), retiram-lhes as entranhas, limpam-lhes o ventre, e depois de o encherem de palha, cosem-no. Adaptando a duas peças de madeira a metade de uma roda apoiada em terra, e fazendo o mesmo com outras peças, depositam sobre esses semicírculos os cavalos, depois de lhes passarem estacas por toda a extensão do corpo até o pescoço. Os primeiros semicírculos sustentam os ombros dos animais, e os segundos, os flancos e as ancas, de modo que as pernas, sem apoio, ficam suspensas. Adaptam-lhes, em seguida, uma espécie de rédea, que amarram a uma estaca, e tomando dos cinqüenta jovens estrangulados, colocam cada um deles sobre um cavalo, depois de lhes atravessarem a espinha com uma vara, cuja extremidade inferior se encaixa na estaca que passa através do corpo do animal. Chegando ao local onde repousam os restos mortais do soberano, dispõem os cinqüenta cavaleiros em torno do túmulo, retirando-se em seguida.

LXXIII — Tais as honras fúnebres que os Citas prestam aos seus soberanos. Quanto ao comum dos Citas, quando morre, seus parentes mais próximos colocam-no em uma carroça e conduzem-no às casas dos que foram seus amigos em vida. Estes recebem-no, oferecendo, cada qual, um festim aos que acompanham o morto, servindo também a este as iguarias que servem aos vivos. O corpo é assim conduzido de um lado para outro durante quarenta dias, após o que o enterram. Quando os Citas dão sepultura a um morto, purificam-se da seguinte maneira: depois de haverem lavado e enxugado a cabeça, observam, com relação ao resto do corpo, as praxes seguintes: dobram três varas, uma de frente para a outra, e sobre elas estendem panos de lã, no meio dos quais colocam um vaso, em que depositam pedras aquecidas ao rubro.

LXXIV — Na Cítia cresce o cânhamo, que se assemelha muito ao linho, sendo, porém, mais espesso e maior, sendo nisto superior a este último. Essa planta se origina de si própria e da semente que produz. Os Trácios fazem com ela vestimentas, que se confundem com as de linho, sendo necessário conhecer bem uma e outra para distingui-las.

LXXV — Os Citas tomam das sementes do cânhamo e lançam-nas sobre as pedras aquecidas ao fogo. Quando começam a queimar, desprendem grande quantidade de vapor, não havendo na Grécia estufa que o faça de tal forma. Os Citas expõem-se a esses vapores e, sentindo-se atordoados, soltam gritos e fazem imensa algazarra. Esse vapor lhes serve de banho, pois nunca se banham. Quanto às mulheres, trituram sobre uma pedra galhos de cipreste, de cedro ou da árvore do incenso, e esfregam-nos no rosto e no corpo. A espécie de pasta que assim obtêm lhes dá um cheiro agradável, e no dia seguinte, ao removê-la, sentem-se limpas e frescas.

LXXVI — Os Citas manifestam absoluta indiferença pelos costumes estrangeiros. Não adotam os de nenhum povo, sendo maior ainda sua aversão pelos dos Gregos. Anacársis, e depois dele Cílis, exemplificam bem tal ojeriza. Anacársis, tendo percorrido diversos países e mostrado por toda parte grande sabedoria, embarcou no Helesponto para retornar à pátria. Aportando em Cizico, na ocasião em que os habitantes estavam celebrando, com grandes solenidades, a festa da mãe dos deuses, fez promessa de, se voltasse são e salvo à pátria, oferecer à deusa sacrifícios com o mesmo rito e cerimonial que havia presenciado em Cizico, e instituir, em louvor à mesma, a vigília da festa. Ao chegar à Hiléia, região da Cítia, inteiramente coberta de árvores de toda espécie e situada nas proximidades da Passagem de Aquiles, celebrou a festa em honra à deusa, com pequenas imagens ligadas ao corpo e tendo nas mãos um tamboril. Um cita, vendo-o naquelas condições, foi logo denunciá-lo ao rei Sáulio. O soberano foi, ele próprio, certificar-se do fato, e encontrando Anacársis ainda entregue à celebração da festa, matou-o com uma flechada. Ainda hoje, se falarmos de Anacársis aos Citas, eles fingem não conhecê-lo, somente por ter ele viajado pela Grécia e adotado costumes estrangeiros. Ouvi Timneu, tutor de Ariapito, dizer que Anacársis era tio de Idantirso, rei dos Citas, por parte de pai, e filho de Gniro, neto de Lico e bisneto de Espargapito. Se, pois, Anacársis pertencia a essa estirpe, deduz-se ter sido ele morto pelo próprio irmão. Idantirso era, com efeito, filho de Sáulio, responsável pela morte de Anacársis.

LXXVII — Entretanto, os habitantes do Peloponeso se referem ao fato de outra maneira. Dizem que Anacársis, tendo sido enviado pelo rei dos Citas a países estrangeiros, tornou-se discípulo dos Gregos; e de volta à pátria, disse ao soberano que todos os povos se aplicavam às artes, exceto os Lacedemônios, mas que só estes cultivavam a arte de falar e de responder com moderação e prudência. Considero esta história pura invenção dos Gregos. Anacársis foi realmente morto da maneira a que nos referimos, e teve esse triste fim por haver praticado costumes estrangeiros e mantido relações com os Gregos.

LXXVIII — Muitos anos depois, Cílis, filho de Ariapito, rei dos Citas, teve a mesma sorte. Ariapito possuía vários filhos, mas tivera Cílis de uma mulher estrangeira, da cidade de Ístria, que lhe ensinou a língua e as letras gregas. Algum tempo depois, foi ele morto à traição por Espargapito, rei dos Agatirsos. Cílis, subindo ao trono, desposou Ópia, de nacionalidade cita, viúva de seu pai e da qual o falecido rei tivera um filho de nome Órico.

Embora Cílis se tornasse rei dos Citas, os costumes da Cítia não lhe agradavam absolutamente, inclinando-se ele para os dos Gregos, tanto mais que havia sido educado no meio destes desde tenra idade. Por isso, todas as vezes que conduzia o exército cita à cidade dos Boristênidas, cujos habitantes se diziam originários de Mileto, deixava-o diante da cidade, e logo que nela entrava, mandava fechar as portas. Trocava, então, o traje cita por um grego e, assim vestido, passeava pela praça pública, sem ninguém a acompanhá-lo. Enquanto isso, revezavam-se as sentinelas nas portas, para que nenhum cita o percebesse em tais vestes. Além de outros costumes gregos, que ele adotava nessa ocasião, reproduzia-lhes as cerimônias nos sacrifícios aos deuses. Depois de haver permanecido na cidade um mês ou mais, retornava aos trajes citas e ia reunir-se ao exército. Procedia, freqüentemente, dessa forma. Mandou também construir um palácio em Borístenis e desposou uma filha do país.

LXXIX — Os fados, tendo decidido a perda de Cílis, eis o que aconteceu: O soberano desejou fazer-se iniciar nos mistérios de Baco. Quando tinha início a cerimônia e iam colocar-lhe nas mãos os objetos sagrados, deu-se um fato verdadeiramente prodigioso. Havia em Borístenis um palácio, que o próprio soberano mandara erigir. Era um vasto e soberbo edifício, em torno do qual viam-se esfinges e grifos de mármore branco. O deus fulminou-o em sua cólera, reduzindo-o a cinzas. Cílis nem por isso interrompeu a cerimônia iniciada. Os Citas reprovam aos Gregos a celebração de bacanais, e julgam contrária à razão a idéia de um deus que leva os homens a tais extravagâncias. Logo que Cílis se iniciou nos mistérios de Baco, um habitante de Borístenis dirigiu-se secretamente ao exército cita, dizendo aos soldados: “Zombais de nós porque, celebrando bacanais, o deus de nós se apodera. Esse deus apossou-se também do vosso rei; Cílis rende culto a Baco, e o deus lhe perturba a razão. Se não acreditais no que digo, segui-me, que eu vo-lo mostrarei”. As figuras mais representativas da nação seguiram-no. O delator levou-as secretamente a uma torre, de onde elas viram passar Cílis e seu grupo, celebrando as bacanais. Considerando essa conduta pouco digna e perigosa para a nação, os Citas levaram o fato ao conhecimento de todo o exército.

LXXX — Quando Cílis voltou para o palácio, seus súditos revoltaram-se e proclamaram em seu lugar Octamasada, seu irmão e filho da filha de Teres. Sabendo da revolta e do motivo que a determinara, o soberano procurou refúgio na Trácia; mas Octamasada, à frente de um exército, foi em sua perseguição. Ao chegar às margens do Íster, os Trácios vieram-lhe ao encontro; e quando estava prestes a travar-se a batalha, Sitalces enviou um arauto a Octamasada, para dizer-lhe: “Por que precisaremos nós ambos expor-nos à sorte das armas? És filho de minha irmã e tens meu irmão em teu poder. Se mo entregares, eu te entregarei Cílis, sem que te exponhas aos riscos de uma batalha”. O irmão de Sitalces estava, realmente, refugiado junto a Octamasada.

O príncipe aceitou a proposta; entregou o tio por parte de mãe a Sitalces e recebeu, em troca, o irmão, Cílis. Realizada a transação, Sitalces retirou-se com suas tropas, enquanto o novo rei dos Citas mandava cortar a cabeça de Cílis, ali mesmo onde se encontravam.

Tal a intransigência com que agem os Citas na observância de seus próprios costumes e o rigor com que punem os que seguem, nesse terreno, os estrangeiros.

LXXXI — Quanto à população da Cítia, jamais pude saber ao certo o seu número. Dizem uns que o país é muito povoado; outros que, se considerarmos apenas os verdadeiros Citas, seu número é bastante reduzido. Vejamos, porém, o que me foi dado observar pessoalmente.

Entre o Borístenes e o Hípanis existe um cantão denominado Exampeu, do qual fiz menção um pouco atrás, ao referir-me a uma fonte cujas águas muito amargas alteram completamente as do rio Hípanis, tornando-as imprestáveis para beber. Há ali um vaso de bronze seis vezes maior que a cratera existente na embocadura do Ponto Euxino, dádiva feita por Pausânias, filho de Cleômbroto. Esse vaso de bronze comporta o volume de seiscentas ânforas e tem seis dedos de espessura. Os habitantes da região dizem ter sido ele fabricado com pontas de flechas. Ariantas, seu soberano, desejando saber o número exato de seus súditos, ordenou a todos os Citas que trouxessem, cada um, uma ponta de flecha, sob pena de morte; e foi da imensa quantidade de pontas de flechas reunida que foi fabricado o vaso de bronze, mandado colocar pelo soberano no lugar chamado Exampeu, como um monumento por ele legado à posteridade.

LXXXII — Na Cítia nada existe de maravilhoso senão os rios que a banham. Esses rios são de considerável volume e em grande número. Todavia, além dessas soberbas correntes d’água e de suas imensas planícies, a Cítia possui algo curioso e que atrai a atenção daqueles que a visitam. Trata-se da marca do pé de Hércules, num rochedo perto de Tiras. Essa marca assemelha-se à do pé de um homem, medindo, porém, dois côvados de comprimento. Retornemos agora ao assunto de que me propus tratar no começo deste livro.

LXXXIII — Dario fez grandes preparativos para a guerra contra os Citas; despachou emissários para todos os recantos do país, ordenando, a uns, a organização de um exército de terra; a outros, o equipamento de uma frota; a outros, enfim, a construção de uma ponte sobre o Bósforo da Trácia. Entretanto, Artábano, filho de Histaspes e irmão de Dario, não aprovava a idéia do soberano de atacar a Cítia. Chamou-lhe a atenção para a pobreza daquele povo e para as poucas vantagens que lhe adviriam de uma tal guerra; mas quando viu que suas advertências, embora sensatas, nenhum efeito produziam no espírito de Dario, não insistiu mais. Concluídos os preparativos, o soberano, à frente do seu exército, partiu de Susa.

LXXXIV — Quando as tropas se punham em marcha, um persa, de nome Ébaso, suplicou a Dario que deixasse ficar consigo um dos seus três filhos que tomavam parte na expedição. O soberano respondeu-lhe que, em vista de um pedido tão moderado e por tratar-se de um amigo, deixar-lhe-ia, não apenas um, mas os três. O persa ficou encantado com a resposta e satisfeitíssimo por terem os seus filhos sido dispensados; mas o soberano mandou matar os jovens, abandonando-os no local onde foram executados.

LXXXV — Dario dirigiu-se de Susa a Calcedônia, no Bósforo, onde havia sido construída a ponte. Ali embarcou, rumando para as ilhas Ciâneas, que eram outrora errantes, a darmos crédito aos Gregos. Dirigindo-se ao templo, ali sentou-se, pondo-se a tecer considerações em torno do Ponto Euxino. Esse mar é de todos o mais digno de nossa admiração. Mede onze mil e cem estádios de extensão, por três mil e trezentos na sua maior largura. Mede a embocadura desse mar quatro estádios de largura por, mais ou menos, vinte e seis de comprimento. É o estreito de Bósforo. Foi ali que construíram a ponte. O Bósforo estende-se até o Propôntide, que mede quinhentos estádios de largura, por mil e quatrocentos de comprimento, desembocando no Helesponto, que, no seu ponto mais estreito, não mede mais de sete estádios de largura por quatrocentos de comprimento. O Helesponto comunica-se com um vasto mar chamado Egeu.

LXXXVI — As dimensões desses mares foram obtidas da seguinte maneira: nos dias longos um navio cobre, digamos, cerca de setenta mil braças por dia e sessenta mil por noite. Ora, da confluência do Ponto Euxino ao Fásis, onde apresenta a sua maior extensão, há nove dias e oito noites de navegação, o que perfaz um total de um milhão e cento e dez mil braças, ou sejam onze mil e cem estádios. De Síndica a Temiscira, no Termodonte, onde o Ponto Euxino é mais largo, contam-se três dias e duas noites de navegação, perfazendo trezentas e trinta mil braças ou três mil e trezentos estádios. Foi baseando-me nesses cálculos que obtive as dimensões do Ponto Euxino, do Bósforo e do Helesponto. O Palos-Meótis vai ter ao Ponto Euxino e não é muito maior do que esse mar. Chamam-no mar do Ponto.

LXXXVII — Depois de haver feito um reconhecimento do Ponto Euxino, Dario retornou por mar à ponte de batéis construída por Mândrocles de Samos. Examinou também o Bósforo, à margem do qual mandou levantar duas colunas de pedra branca, fazendo gravar numa, em caracteres assírios, e na outra, em caracteres gregos, o nome de todas as nações que figuravam na expedição. Ora, no exército que reunira estavam representados todos os povos submetidos ao seu domínio, num total de setecentos mil homens, inclusive a cavalaria, mas sem contar a frota de seiscentos veleiros.

Depois da expedição dos Persas à Cítia, os Bizantinos transportaram as duas colunas para sua cidade e colocaram-nas no templo de Diana Ortosiana, com exceção de uma pedra por eles deixada junto ao templo de Baco, em Bizâncio, coberta de caracteres assírios. De resto, o ponto do Bósforo onde Dario mandou construir a ponte é, ao que me parece, a metade da distância entre Bizâncio e o templo, situado na confluência do Ponto Euxino.

LXXXVIII — Satisfeito com a ponte, Dario cumulou Mândrocles de Samos, seu construtor, de ricos presentes. Com o produto de alguns desses presentes Mândrocles mandou fazer um quadro representando a ponte do Bósforo e onde aparecia Dario sentado no trono, vendo desfilar suas tropas. Ofereceu esse quadro ao templo de Juno(10), com a seguinte inscrição: “Mândrocles consagrou a Juno esta obra em memória da ponte de batéis que construiu para unir as duas margens do Bósforo. Assim, realizando o desejo do rei Dario, adquiriu para si mesmo uma coroa, e para Samos, a glória”.

LXXXIX — Dario, tendo recompensado Mândrocles pelo seu notável trabalho, passou para a Europa. Tinha ordenado aos Iônios que velejassem para o Ponto Euxino, até o Íster, e lançassem uma ponte sobre esse rio quando ali chegassem, aguardando a sua chegada. Os Iônios, os Eólios e os habitantes do Helesponto conduziam as forças navais. A frota dobrou as Ciâneas, rumando diretamente para o Íster; e depois de subir esse rio durante dois dias, do mar até o ponto onde ele se divide em diversos braços formando outras tantas embocaduras, puseram-se os marinheiros a construir a ponte. Dario, atravessando o Bósforo pela ponte de batéis, continuou em direção à Trácia, e ao chegar às nascentes do Tearos ali acampou durante três dias.

XC — Os povos que habitam as margens desse rio pretendem serem suas águas, umas quentes e outras frias, de grande eficiência contra várias moléstias, curando, principalmente, os homens e os cavalos da sarna. Suas nascentes acham-se no mesmo rochedo, de onde o rio sai em trinta e oito braços, e estão situadas a igual distância da cidade de Hereo, — localizada perto de Perinto e de Apolônia — cidade situada no Ponto Euxino, a dois dias de viagem dessas duas localidades. O Tearos desemboca no Contadesdo, o Contadesdo no Agrianes, o Agrianes no Ebro, e o Ebro no mar, perto da cidade de Enos.

XCI — Chegando às nascentes do Tearos, Dario, como já dissemos, ali ergueu acampamento. Tão encantado ficou com a beleza e majestade desse rio, que mandou erigir no local uma coluna com esta inscrição: “As nascentes do Tearos fornecem as melhores e as mais belas águas do mundo; Dario, filho de Histaspes, o melhor e o mais belo de todos os homens, rei da Pérsia e de toda a terra firme, marchando contra os Citas, chegou às suas margens”.

XCII — Partindo dali, foi ter às margens de um outro rio chamado Artisco, que atravessa o país dos Odrísios. Indicando às tropas um determinado local, ordenou a cada soldado que lançasse uma pedra ali ao passar. A ordem foi executada, e o exército, deixando no local um grande monte de pedras, continuou a marcha.

XCIII — Os Getas, que se dizem imortais, foram o primeiro povo a ser subjugado pelo rei persa, antes de haver atingido o Íster, seguindo-se os Trácios de Salmidéssia e os que habitam ao norte de Apolônia e da Mesâmbria, que se renderam sem opor a mínima resistência. Os Getas, por uma estúpida teimosia, colocaram-se na defensiva, mas foram batidos ali mesmo e reduzidos à escravidão. É esse povo o mais bravo e o mais justo entre os Trácios.

XCIV — Os Getas julgam-se imortais e pensam que os que morrem vão para junto do deus Zálmoxis, que alguns acreditam ser o mesmo que Gebelêizis. De cinco em cinco anos sorteiam um dentre eles para levar notícias ao deus, e dizer-lhe das suas necessidades. Eis como fazem a deputação: três dentre eles são encarregados de manter a respectiva azagaia de ponta para cima, enquanto outros, tomando pelos pés e pelas mãos o que deve ser enviado a Zálmoxis, jogam-no para cima, de maneira a cair sobre as aguçadas pontas. Se ele morre dos ferimentos recebidos, acreditam que o deus lhe foi favorável; se não morre, acusam-no de mau. Depois de lançarem sobre ele as maiores acusações e injúrias, escolhem outro, repetindo o mesmo processo. Esses Trácios têm o costume de lançar flechas contra o céu quando troveja ou relampeja, como para ameaçar o deus que assim se manifesta, pois estão persuadidos de que não existe outro deus senão o que eles adoram.

XCV — Ouvi, entretanto, os Gregos que habitam o Helesponto dizerem que Zálmoxis era um homem, tendo vivido em Samos como escravo de Pitágoras, filho de Mnesarco. Tendo obtido a liberdade, acumulara grandes riquezas, com as quais voltara ao seu país. Observando a vida infeliz e grosseira dos Trácios, ele, que tinha sido educado segundo os costumes dos Iônios e contraído com os Gregos, e particularmente com Pitágoras, um dos mais célebres filósofos da Grécia, o hábito de pensar mais profundamente do que seus compatriotas, mandou construir um soberbo recinto, onde oferecia festas aos grandes da nação. Em meio ao banquete falava-lhes, persuadindo-os de que nem ele, nem os seus convivas, nem os seus descendentes jamais morreriam, mas que iriam para um lugar onde desfrutariam, eternamente, toda sorte de bens. Enquanto assim procedia perante seus compatriotas, entretendo-os com esses discursos, construía em sigilo um subterrâneo. Concluído este, esquivou-se da vista dos Trácios e desceu ao mesmo, onde permaneceu cerca de três anos. Foi lamentado e chorado como morto. Finalmente, passado esse período reapareceu aos olhos de todos, convencendo-os, com esse artifício, de tudo que lhes havia dito.

XCVI — Não rejeito nem admito o que se conta de Zálmoxis e do esconderijo subterrâneo, mas penso ter ele vivido muito antes de Pitágoras. Em todo caso, trate-se de um homem ou de um deus, eis o que concerne a Zálmoxis. Quanto aos Getas que o cultuavam da maneira a que me referi, subjugados pelos guerreiros persas, acompanharam a expedição.

XCVII — Chegando às margens do Íster com suas forças de terra, Dario fê-las passar para o outro lado do rio, ordenando aos Iônios que destruíssem a ponte e os acompanhassem com todos os componentes da frota. Quando os Iônios se preparavam para executar essas ordens, Coes, filho de Erxandro, que comandava os Mitilenos, pedindo permissão a Dario para externar seu modo de ver, falou-lhe nestes termos: “Senhor, já que ides levar a guerra a um país onde não há nem terras cultivadas nem cidades, deixai permanecer a ponte tal como se encontra; ordenai apenas aos que a construíram, que aqui fiquem montando guarda. Dessa forma, quer encontremos os Citas e os vençamos, como é nossa esperança, quer não consigamos encontrá-los, poderemos retirar-nos com segurança. Não é que eu receie sejamos batidos pelos Citas, mas por temer que, não podendo encontrá-los, fiquemos expostos a perigos errando pelos desertos. Dir-se-á, talvez, que falo por mim, com o desejo de ficar aqui; mas, senhor, satisfeito por vos ter proposto este alvitre, declaro-me disposto a acompanhar-vos, e a graça que vos peço é a de não me deixardes aqui”.

Dario, encantado com essas palavras, respondeu-lhe: “Filho de Lesbos, quando eu estiver de regresso, são e salvo, aos meus Estados, depois desta expedição, apresenta-te a mim, a fim de que eu te recompense dignamente pelo bom conselho que acabas de dar-me”.

XCVIII — Assim falando, o soberano fez sessenta nós numa correia(11), mandou chamar os tiranos da Iônia e fez-lhes este discurso: “Iônios, mudei de opinião no que se refere à ponte. Tomai esta correia e atentai bem para o que vou dizer: logo que eu partir para a Cítia, começai a desfazer, cada dia, um destes nós. Se eu não estiver de regresso quando já houverdes desatado todos, podeis voltar para a vossa pátria. Quanto à ponte, não será destruída, e espero que tudo façais para defendê-la e conservá-la durante o período estabelecido. Prestar-me-eis, com isso, um grande serviço”. Dito isso, Dario pôs-se em marcha com o exército.

XCIX — A Trácia tem à sua frente a parte da Cítia que se estende para o mar. No ponto em que termina o golfo da Trácia começa a Cítia. O Íster atravessa uma certa extensão do país, para lançar-se no mar, a sudeste.

A antiga Cítia está situada ao sul, prolongando-se até a cidade de Carcinítis. A região para além da cidade, na direção do mar, é montanhosa, sendo ocupada pela nação táurica, que se estende até a cidade do Quersoneso-Traquéia, à beira-mar, a leste. Os confins da Cítia limitam-se com a Ática em dois pontos; um pelo mar que fica ao sul, e o outro pelo que fica a leste. Os Tauriscos estão, com relação a essa parte da Cítia, na mesma posição em que estaria com relação aos Atenienses um outro povo que habitasse o extremo do promontório Súnio, que se estende do burgo de Tórico ao de Anaflisto, avançando mar a dentro. Tal a situação da Táuride; mas para melhor informar os que nunca costearam aquela parte da Ática vou explicar isso de outra maneira: basta que se suponha que uma outra nação, sem ser a dos lapígios, esteja situada no promontório de Lapígia, a começar do porto de Brentésio, dividindo esse promontório em duas partes, dali até Tarento. De resto, falando desses dois promontórios é como se eu falasse de vários outros aos quais a Táuride se assemelha.

C — Além da Táuride vivem os Citas que ocupam a região ao norte daquele país e a que se estende para o mar que fica a leste, bem como para as costas ocidentais do Bósforo Cimério e do Palos-Meótis, até o Tánais, rio que desemboca numa enseada do Palos. Seguindo depois o Íster e remontando pelo meio das terras, a Cítia aparece limitada primeiramente pelo país dos Agatirsos, em seguida pelo dos Nêuridas, depois pelo dos Andrófagos, e, finalmente, pelo dos Melanclenos.

CI — A Cítia, tendo a forma tetragonal, dois dos seus lados estendendo-se ao longo do mar, o espaço que ocupa no meio das terras é perfeitamente igual ao que fica ao longo da costa. Com efeito, do Íster ao Borístenes há uma distância equivalente a dez dias de viagem; do Borístenes ao Palos-Meótis, a mesma distância; e do mar, subindo pelo meio das terras até o país dos Melanclenos, ao norte da Cítia, a distância equivale a vinte dias de marcha. Calculando-se em duzentos estádios a distância vencida num dia de jornada, tem-se que a Cítia mede quatro mil estádios de través, ao longo da costa, e outros quatro mil numa reta pelo meio das terras.

CII — Considerando que não poderiam, com as forças de que dispunham, vencer em batalha campal um exército tão numeroso como o de Dario, os Citas enviaram embaixadores aos seus vizinhos, solicitando-lhes auxílio. Os reis dessas nações reuniram-se para deliberar sobre as medidas a tomar contra o exército que vinha invadir a Cítia. Eram os seguintes esses soberanos: o dos Tauriscos, o dos Agatirsos, o dos Nêuridas, o dos Andrófagos, o dos Melanclenos, o dos Gelões, o dos Budinos e o dos Saurómatas.

CIII — Os Tauriscos têm costumes bem peculiares. Entre eles vale citar a imolação, à virgem, dos estrangeiros que vão ter às costas do seu país e de todos os Gregos que ali chegam e que lhes caem nas mãos. Depois das cerimônias preliminares habituais, deitam a vítima por terra com uma pancada na cabeça. Há quem diga que eles degolam-na em seguida, pregando a cabeça numa cruz e precipitando o corpo do alto do rochedo onde se ergue o templo. Outros concordam com essa versão no que se refere à cabeça, mas asseguram que eles enterram o corpo da vítima, em vez de lançá-lo do alto do rochedo. Os próprios Tauriscos afirmam que a deusa a quem dedicam esse sacrifício é Efigênia, filha de Agamémnon. Quanto à maneira de tratar os inimigos, se um Taurisco aprisiona um adversário em combate, corta-lhe a cabeça e leva-a para casa. Coloca-a, depois, na ponta de uma vara mais alta do que o teto e mesmo do que a chaminé. Erguem dessa forma a cabeça do prisioneiro, para que — dizem eles — lhes guarde a casa.

CIV — Os Agatirsos trazem quase sempre ornamentos de ouro e são os mais efeminados de todos os homens. Servem-se em comum das mulheres, a fim de ficarem todos sempre unidos por laços de consangüinidade, e para que, formando todos, por assim dizer, uma só família, não fiquem sujeitos nem ao ódio, nem ao ciúme. Quanto aos seus outros costumes, estão muito de conformidade com os dos Trácios.

CV — Os Nêuridas observam os mesmos costumes que os Citas. A geração anterior à expedição de Dario foi forçada a deixar o país por causa de uma multidão de serpentes que ali surgiu, vinda, em grande parte, dos desertos situados ao norte. A região ficou de tal maneira infestada de tais répteis, que os habitantes se expatriaram, indo para o país dos Budinos. Dizem que os Nêuridas dão-se à prática da feitiçaria. A dar crédito aos Citas e aos Gregos estabelecidos na Cítia, cada Nêurida se transforma, uma vez por ano e durante alguns dias, em lobo, voltando depois à forma humana. Por mais que os Citas o afirmem, não posso crer em tal coisa, que, a meu ver, não passa de fantasia, embora eles cheguem mesmo a jurar sobre a sua veracidade.

CVI — Não há homens que possuam hábitos mais selvagens do que os Andrófagos. Não conhecem nem a lei, nem a justiça, e são nômades. Seus costumes assemelham-se muito aos dos Citas, mas falam um idioma próprio. De todos os povos de que acabo de falar são os únicos a comerem carne humana.

CVII — Os Melanclenos se trajam de preto, de onde o nome que possuem. Seguem os costumes dos Citas.

CVIII — Os Budinos formam uma grande e numerosa nação. Têm os olhos extraordinariamente azuis e a pele vermelha. Há no país uma cidade toda construída de madeira; chamam-na Gelono. Suas muralhas são também de madeira e muito altas, medindo cada face três estádios de comprimento. As casas e os templos são igualmente de madeira. Entre os templos, contam-se alguns consagrados aos deuses gregos. São construídos à maneira dos Gregos e ornados de estátuas, altares e capelas de madeira. De três em três anos celebram-se ali festas em louvor a Baco.

Também os Gelos são gregos de origem. Expulsos das cidades de comércio, estabeleceram-se no país dos Budinos. Seu idioma é uma mistura de grego e de cita.

CIX — Os Budinos não adotam a mesma maneira de viver e não falam a mesma língua dos Gelos. São autóctones, nômades e os únicos da região a comerem vermes. Os Gelos, ao contrário, cultivam a terra, alimentam-se de trigo, possuem jardins e não se assemelham aos Budinos, nem pela fisionomia, nem pela cor. Os Gregos se equivocam quando chamam os Budinos de Gelos.

O país inteiro é coberto de árvores de toda espécie, e no cantão onde elas existem em maior número encontram-se um vasto lago e um pântano marginado de caniços. Os habitantes caçam nesse lago lontras, castores e uns animais de focinho quadrado, cuja pele serve para fazer mantas, e os testículos produzem excelente efeito no tratamento das doenças do útero.

CX — Quanto aos Saurómatas, eis o que se diz sobre eles: Quando os Gregos combateram contra as Amazonas, que os Citas chamam Aiórpatas, nome que os Gregos traduzem para Andróctones (que matam homens), pois aior em cita significa “homem”, e pata quer dizer “matar” — quando os Gregos, dizia eu, deram combate às Amazonas, derrotando-as às margens do Termodonte, conta-se que levaram consigo, em três navios, todas as que puderam aprisionar. Ao chegarem em alto mar, as prisioneiras atacaram seus vencedores, reduzindo-os a pedaços. Como, porém, nada entendiam de navegação e não sabiam fazer uso do leme, das velas e dos remos, abandonaram-se ao sabor das vagas, indo ter, finalmente, a Cremnes, no Palos-Meótis. Cremnes faz parte do território dos Citas livres. As Amazonas desembarcaram ali e avançaram pelo meio das terras habitadas. Apoderando-se do primeiro haras que encontraram no caminho, montaram nos cavalos e puseram-se a saquear as terras dos Citas.

CXI — Os Citas mostraram-se admirados ante aqueles inimigos, cujas vestes lhes eram desconhecidas, bem como a língua que falavam. Ignoravam também a que nação pertenciam, e na sua surpresa não podiam imaginar de onde teriam vindo. Enganados pela uniformidade da estatura e porte dos invasores, supuseram, a princípio, tratar-se de homens, e nessa convicção lhes deram combate; mas descobrindo, pelos mortos que ficaram em seu poder depois da luta, tratar-se de mulheres, resolveram, em conselho reunido especialmente para esse fim, não matar mais nenhuma e, em lugar disso, enviar os mais jovens dentre eles, em número correspondente ao das estranhas guerreiras, com ordens para estabelecer acampamento perto delas e imitá-las em todas as suas ações, fugindo, em vez de aceitar o combate, quando elas os atacassem, e retornando prontamente ao acampamento quando cessassem de persegui-los. Essa resolução dos Citas foi ditada pelo desejo de possuírem filhos de tão belicosas mulheres.

CXII — Os jovens citas seguiram à risca as instruções recebidas; e as Amazonas, reconhecendo que eles não tinham vindo com a intenção de hostilizá-las, deixaram-nos tranqüilos. Entretanto, os dois acampamentos se iam aproximando cada vez mais, dia a dia. Os jovens citas não tinham, como as Amazonas, senão suas armas e seus cavalos, e viviam, como elas, da caça e da pilhagem.

CXIII — Percebendo que, perto do meio-dia, as Amazonas se afastavam do acampamento, sozinhas ou de duas em duas, para satisfazerem suas necessidades naturais, os Citas puseram-se a imitá-las. Um deles teve oportunidade de aproximar-se de uma delas, isolada das companheiras, e a jovem, longe de repeli-lo, concedeu-lhe seus favores. Como não podia falar-lhe, pois que não se entendiam nos respectivos idiomas, a jovem disse-lhe por sinais para retornar no dia seguinte ao mesmo lugar, com um de seus companheiros, que ela traria, também, uma companheira. Regressando ao acampamento, o jovem cita relatou sua aventura; e no dia seguinte voltou com um companheiro ao local, onde encontrou a amazona a esperá-lo com uma de suas companheiras.

CXIV — Informados do que se passava, os outros jovens procuraram aproximar-se das outras Amazonas, e, feita a fusão dos dois acampamentos, cada um tomou por esposa aquela de quem havia recebido favores. Os Citas encontraram maior dificuldade em aprender a língua de suas companheiras, do que estas a deles; mas quando, finalmente, começaram a entender-se verbalmente, os jovens assim lhes falaram: “Temos pais, possuímos bens, levamos outra vida; reunamo-nos ao resto dos Citas e vivamos com eles. Prometemos jamais tomar outra por esposa”.

“Não poderíamos — responderam as Amazonas — viver em boa harmonia com as mulheres do vosso país. Seus costumes são diferentes dos nossos: atiramos com o arco, lançamos o dardo, montamos a cavalo e não aprendemos os misteres próprios do nosso sexo. Vossas mulheres nada disso fazem e não se ocupam senão de trabalhos femininos. Não abandonam suas carretas, não vão à caça e nem se afastam do lar. Por conseguinte, nossa maneira de viver jamais se coadunaria. Se quiserdes que continuemos como vossas esposas; se quiserdes agir com justiça, ide procurar vossos pais, pedi a parte dos bens que vos pertence e voltai para o nosso lado, para vivermos a nossa vida”.

CXV — Aceitando as razões que lhes expunham suas jovens esposas, os Citas fizeram o que elas lhes aconselhavam, e, recolhendo a parte do patrimônio que lhes cabia, vieram a elas juntar-se novamente. “Julgamos não ser conveniente — disseram então as Amazonas — permanecermos aqui por mais tempo, depois de vos havermos privado de vossos pais e saqueado vossas terras. Já que escolhestes manter-vos em nossa companhia, nada nos impede de deixar estes lugares para irmos estabelecer-nos para além do Tánais.”

CXVI — Tendo concordado com a sugestão de suas esposas, os Citas atravessaram o Tánais, e depois de haverem jornadeado três dias para leste e outros tantos para o norte a partir do Palos-Meótis, chegaram ao país que ainda hoje habitam e onde fixaram residência. Daí o fato de as mulheres dos Saurómatas terem conservado seus antigos costumes: montam a cavalo, vão à caça, ora sozinhas, ora com os maridos. Acompanham-nos também na guerra, trajando as mesmas vestes que eles.

CXVII — Os Saurómatas adotam a língua cita, mas nunca a falaram com pureza, porque as Amazonas não a conheciam senão imperfeitamente. Com relação ao casamento, estabeleceram uma lei segundo a qual uma mulher não poderia contrair matrimônio enquanto não matasse um inimigo. Por isso, muitas delas, não conseguindo cumprir as disposições da lei, morrem de velhice, ainda solteiras.

CXVIII — Os embaixadores dos Citas, admitidos à assembléia dos soberanos das nações a que recorreram ante a iminência da invasão de seu país pelo exército persa, fizeram-nos conhecedores de que Dario, depois de haver subjugado totalmente os povos do outro continente, se passara para aquele por uma ponte de batéis, construída no ponto mais estreito do Bósforo, e que tendo submetido a Trácia, transpusera o Íster com o propósito de tornar-se senhor da Cítia. “Não será justo, — acrescentaram eles — que, conservando-vos neutros, nos deixeis perecer pelo vosso descaso em tão grave emergência. Marchemos juntos ao encontro do inimigo que está prestes a invadir nossa pátria. Se nos negardes o vosso auxílio e formos batidos pelo inimigo, ver-nos-emos obrigados, ou a deixar nosso país, ou nele permanecer sob as condições impostas pelos invasores. Não penseis que a vossa sorte será melhor do que a nossa e que, satisfeitos por nos terem submetido ao seu domínio, os Persas vos deixem tranqüilos. Sua expedição não visa menos a vós do que a nós. Eis aqui uma prova à qual nada podereis opor: se os Persas não tivessem outra intenção senão a de vingar-se da sujeição que lhes opusemos outrora, ter-se-iam contentado em marchar contra nós, sem atacar outros povos; e com isso fariam ver ao mundo que visavam apenas os Citas. Entretanto, assim que pisaram o continente, foram atacando todos os povos que encontravam em seu caminho, já tendo submetido os Trácios e os Getas, nossos vizinhos”.

CXIX — Depois de ouvirem atentamente as razões dos embaixadores citas, os soberanos entraram a deliberar sobre o caso, dividindo-se as opiniões. Os reis dos Gelos, dos Budinos e dos Saurómatas prontificaram-se a auxiliar os Citas, mas os dos Agatirsos, dos Nêuridas, dos Melanclenos e dos Tauriscos responderam assim à proposta: “Se não tivésseis vós, em primeiro lugar, movido uma guerra injusta contra os Persas, vosso pedido nos pareceria razoável, e de boa vontade vos auxiliaríamos. Invadistes, porém, seu país sem nos participar, mantendo-o sob o vosso jugo enquanto assim aprouve aos deuses. Hoje, quando os deuses impelem os Persas contra vós, nada mais fazem do que pagar-vos na mesma moeda. Quanto a nós, não os ofendemos então, e não seremos hoje os primeiros a agredi-los. Se, entretanto, vierem atacar-nos, saberemos repeli-los. Enquanto tal não se der, permaneceremos tranqüilos, pois, ao que nos parece, os Persas não visam senão os que tomaram a iniciativa de atacá-los”.

CXX — Informados dessa resposta, os Citas decidiram não desafiar abertamente os Persas, nem oferecer-lhes batalha em campo aberto, mas ceder terreno pouco a pouco, retirando-se sempre para diante, obstruindo as fontes que encontrassem no caminho e destruindo as plantações, dividindo-se, com esse propósito, em dois grupos. Decidiram também que os Saurómatas deveriam dirigir-se para os Estados de Escopásis, e que se os Persas se voltassem para esse lado, retirar-se-iam, pouco a pouco, para o Tánais, ao longo do Palos-Meótis, e quando o inimigo se afastasse, começariam, então, a persegui-lo.

Tal o plano de defesa que essa parte dos Citas reais deveria seguir.

Quanto às outras duas partes, ficou combinado que a maior, sobre a qual reinava Idantirso, reunir-se-ia à terceira, governada por Taxácis, e as duas, unidas aos Gelos e aos Budinos, ficariam com um dia de avanço sobre os invasores. De acordo com as resoluções tomadas em conselho, deveriam também retirar-se sempre em ordem, sem precipitações, procurando, sobretudo, atrair o inimigo para as terras dos que lhes haviam negado aliança, a fim de forçá-los também à guerra contra os Persas, embora contra a vontade. Deveriam, em seguida, regressar ao seu país, e até mesmo atacar o inimigo se isso lhes parecesse vantajoso.

CXXI — Tomadas essas deliberações e traçados os planos, os guerreiros citas marcharam ao encontro de Dario, fazendo-se preceder pela elite da cavalaria. Tinham mandado adiante as carroças que serviam de moradia às suas mulheres e filhos, aos quais haviam ordenado avançar sempre para o norte. As carroças eram acompanhadas pelos rebanhos, pois os combatentes só levavam consigo o necessário para sua subsistência.

CXXII — Enquanto as carroças avançavam para o norte, os batedores citas descobriram os Persas a cerca de três dias de jornada do Íster. Como se achavam à distância de apenas um dia de viagem daquele ponto, acamparam ali e destruíram tudo quanto brotava da terra. Logo que os perceberam, os Persas saíram em sua perseguição, procurando cortar-lhes a retirada, e marchando diretamente contra um dos três grupos de Citas reais, perseguiram-no até o Tánais. Os Citas atravessaram o rio, e os Persas, fazendo o mesmo, continuaram sua perseguição, que só cessou quando, depois de haverem percorrido o país dos Saurómatas, chegaram ao dos Budinos.

CXXIII — Na sua passagem pela Cítia e pelo país dos Saurómatas, os Persas nenhum dano causaram, porquanto os habitantes haviam destruído de antemão tudo que existia nos campos; mas, penetrando no país dos Budinos e encontrando a cidade de madeira, já inteiramente deserta, pois seus habitantes a haviam abandonado, levando tudo que puderam, atearam fogo às casas, deixando-as em chamas. Continuando a marcha para a frente, nas pegadas do inimigo, foram ter, depois de haverem atravessado as terras dos Budinos, a um deserto totalmente despovoado. Esse deserto tem uma extensão equivalente a sete dias de caminhada de um extremo a outro, e está situado ao norte do país dos Tisságetas, de onde correm quatro grandes rios: o Licos, o Oaro, o Tánais e o Sírgis, que se lançam no Palos-Meótis, depois de haverem banhado as terras dos Meótis.

CXXIV — Chegando a esse deserto, Dario parou às margens do Oaro, onde acampou com seu exército. Mandou, em seguida, construir oito grandes fortes, distantes sessenta estádios um do outro, cujas ruínas ainda hoje subsistem. Enquanto se ocupava com esses trabalhos, os Citas que ele havia perseguido contornaram o país pelo norte e regressaram à Cítia. Como o inimigo havia desaparecido totalmente, não sendo mais assinalado em parte alguma, Dario, deixando os fortes inacabados, dirigiu-se para oeste, persuadido de que os Citas se haviam constituído numa só nação e se tinham retirado daquele lado. Seguindo em marcha forçada, atingiu rapidamente a Cítia, onde encontrou os dois outros corpos de exército dos Citas. Lançou-se imediatamente em sua perseguição, procurando os fugitivos manterem-se sempre a um dia de distância de seus perseguidores.

CXXV — Seguindo a tática combinada, os Citas iam atraindo Dario e seu exército para as terras daqueles que lhes tinham negado auxílio. Assim foi que lançaram-se primeiramente em direção ao país dos Melanclenos, pondo-os em sobressalto, com os Persas sempre em sua perseguição. Dali atraíram o inimigo para as terras dos Andrófagos, fazendo-os alvoroçar-se, e em seguida para as dos Nêuridas, deixando-os igualmente sobressaltados. Finalmente, desviaram-se para o território dos Agatirsos; mas estes, vendo seus vizinhos alarmados porem-se em fuga, enviaram aos Citas um arauto, antes que eles penetrassem em seu país, a fim de interditar-lhe a entrada, ameaçando-os de dar-lhes combate, caso insistissem em perturbá-los. Fazendo essa ameaça, os Agatirsos enviaram forças para as fronteiras, prontos a lutar pela integridade de seu território.

Os Melanclenos, os Andrófagos e os Nêuridas, vendo os Citas se lançarem com os Persas sobre suas terras, tomados de pânico nem sequer pensaram em defendê-las, fugindo para os desertos, em direção ao norte. Quanto aos Citas, ante a ameaça dos Agatirsos desistiram do seu intento de invadir-lhes as terras, e, deixando a Nêurida, retornaram ao seu país, onde os Persas continuaram a persegui-los.

CXXVI — Observando a tática seguida pelos Citas, que se negavam sempre a dar-lhe combate, Dario enviou um emissário a Idantirso, soberano desse povo, com a seguinte mensagem: “Ó miserável, entre os mais miseráveis dos homens! Por que foges sempre, quando está em tuas mãos oferecer-me combate, se te julgas bastante forte para resistir? Se, ao contrário, achas que não estás em condições de te opor a mim, deixa de fugir à minha frente; entra em acordo com o teu senhor, e traz-lhe terra e água como sinal de submissão”.

CXXVII — “Rei dos Persas, — respondeu Idantirso — não é o medo que me faz fugir diante de ti, como nunca o fez no passado diante de qualquer outro. Se não te dei combate imediatamente, foi porque, como não tememos que te aposses de nossas cidades, pois não as possuímos, e nem que causes danos às nossas terras, já que não são cultivadas, não vemos razão para apressarmos a batalha. Se, entretanto, queres de qualquer maneira forçar-nos a isso, aí tens os túmulos de nossos pais; experimenta pô-los abaixo, e verás se combateremos ou não para defendê-los. A não ser por isso, podes estar certo de que não aceitaremos a luta. Quanto aos meus senhores, não reconheço outros senão Júpiter, um dos meus ancestrais, e Vesta, a rainha dos Citas. Em lugar de terra e de água, enviar-te-ei os presentes que mereces. Se te orgulhas de ser meu senhor, é o caso de chorares por isso”(12). Tal a resposta do soberano cita, transmitida pelo arauto a Dario.

CXXVIII — Ante a palavra servidão, os reis citas, irritados, fizeram partir os Citas sobre os quais reinava Escopásis, em companhia dos Sauromatas que serviam com eles, para conferenciar com os Iônios que ficaram encarregados da guarda da ponte do Íster. Quanto aos Citas que permaneceram no país, resolveram não forçar mais os Persas a correr de um lado para outro, mas atacá-los sempre que estivessem entregues ao repasto; e depois de terem precisado esse momento, puseram em prática sua nova tática. Nesses ataques, a cavalaria dos Citas punha sempre em fuga a dos Persas; mas esta, fugindo, retraía-se sobre a infantaria, que nunca deixava de apoiá-la. Assim, quando os Citas faziam recuar a cavalaria inimiga, o temor aos infantes forçava-os logo a retirar-se, não deixando, todavia, de recomeçar seus ataques durante a noite.

CXXIX — Uma coisa surpreendente favorecia os Persas, ao mesmo tempo que prejudicava os Citas, quando estes atacavam o acampamento inimigo: era o zurrar dos jumentos e o aspecto das mulas. Como já tive ocasião de dizer, não nascem na Cítia nem jumentos nem mulas, e não se vê mesmo um só desses animais no país, sendo a razão disso o frio que ali reina. Daí sentirem-se os cavaleiros citas tomados de pavor ante o zurrar estridente dos jumentos dos Persas. Todas as vezes que carregavam sobre estes, se os cavalos ouviam os jumentos, enristavam as orelhas e recuavam espavoridos, pois não estavam acostumados nem com os gritos nem com o tipo daqueles animais. Todavia, a vantagem que de tal fato advinha para os Persas era mínima.

CXXX — Os Citas, percebendo que os Persas começavam a inquietar-se por não obterem uma decisão na luta, recorreram a um artifício para fazê-los permanecer na Cítia pelo maior espaço de tempo possível e atormentá-los pela falta de víveres. Deixaram-lhes alguns rebanhos, juntamente com os que os guardavam, e retiraram-se para outro cantão, onde ficaram à espera dos acontecimentos. Os Persas precipitaram-se sobre esses rebanhos e deles se apoderaram.

CXXXI — Embora tal fato se repetisse várias vezes, Dario acabou por encontrar-se em extrema penúria com relação ao abastecimento de víveres. Sabedores disso, os soberanos citas enviaram-lhe um arauto com presentes, que consistiam num pássaro, um rato, uma rã e cinco flechas. Interrogado sobre o significado daqueles presentes, o emissário respondeu que apenas recebera ordens de trazê-los e regressar em seguida, cabendo a eles, Persas, descobrir-lhes o sentido, se é que tinham sagacidade para tanto.

CXXXII — Reunindo as tropas e deliberando sobre o assunto, Dario chegou à conclusão que os Citas lhe haviam oferecido, com aqueles estranhos presentes, terra e água como sinal de submissão. Assim imaginara porque o rato nasce na terra e se alimenta de trigo, da mesma maneira que o homem; a rã nasce na água; o pássaro apresenta algumas semelhanças com o cavalo, e, enfim, os Citas, oferecendo-lhe as flechas, era como se estivessem rendendo-se a ele com as suas tropas. Tal a suposição do soberano persa; mas Góbrias, um dos sete que haviam destronado o mago, chegou a uma outra conclusão, que se apressou em transmitir às tropas: “Persas, — assim falou ele — estes presentes significam que, se não voais pelos ares, como os pássaros; se não vos escondeis debaixo da terra, como os ratos; se não saltais nos pântanos, como as rãs, não tomareis a ver vossa pátria, pois morrereis trespassados por estas flechas”.

CXXXIII — O grupo de Citas a que fora confiada a guarda das cercanias do Palos-Meótis e que acabava de receber ordens de ir para as margens do Íster, a fim de entender-se com os Iônios, logo ao chegar à ponte por estes construída sobre o rio a eles se dirigiu nestes termos: “Iônios, vimos trazer-vos a liberdade, se quiserdes ouvir-nos. Soubemos que Dario vos encarregou de guardar esta ponte durante sessenta dias, apenas, e que se não estivesse de volta nesse espaço de tempo, podíeis retirar-vos para a vossa pátria. Se executardes agora essa ordem, ele não terá nenhum motivo de queixa contra vós, e nem nós tão pouco. Os sessenta dias já se passaram. Por que não retornais ao vosso país?” Os Iônios disseram que assim o fariam, e os Citas retiraram-se imediatamente.

CXXXIV — Tendo enviado os presentes a Dario, o resto dos Citas se pôs em ordem de batalha, frente aos Persas, numa atitude decisiva de luta. Quando tomavam posição, uma lebre passou correndo velozmente entre os dois exércitos. Assim que a viram, as tropas citas puseram-se a persegui-la, fazendo grande alarido. Dario perguntou qual a causa daquele tumulto, e como lhe respondessem que eram soldados citas perseguindo uma lebre, dirigiu-se aos Persas com que mantinha maior intimidade: “Esses homens nutrem por nós o maior desprezo. A interpretação dada por Góbrias aos presentes que nos enviaram parece-me agora bastante lógica e justa. Para sairmos desta perigosa situação necessitamos, mais do que nunca, de um bom conselho”. “Senhor, — respondeu Góbrias — eu nada sabia com relação a este povo, a não ser o que dele contavam; mas desde que aqui chegamos passei a conhecê-lo melhor, observando a maneira com que nos tratam, zombando de nós e menosprezando nossa força. Encontramo-nos, realmente, em situação delicada. Sou, portanto, de opinião que devemos partir antes que os Citas se lembrem de destruir a ponte sobre o Íster e os Iônios tomem uma resolução fatal para nós. Logo ao cair da noite mandaremos, como de costume, acender fogos no acampamento, e depois de convencermos, por todas as maneiras, aqueles dos nossos que não estejam em condições de efetuar longas jornadas, a permanecer aqui, deixando também presos todos os jumentos, abandonaremos este local sem sermos pressentidos”.

CXXXV — Aceitando o conselho de Góbrias, Dario, logo que chegou a noite mandou prender os jumentos, para que seus zurros fossem ouvidos pelos Citas; ordenou que deixassem ficar no acampamento os doentes com aqueles cuja perda menos lhe importava; incumbiu parte de seus homens de guardar o acampamento, dizendo ir com a elite das tropas atacar o inimigo, e, mandando acender os fogos, encaminhou-se aceleradamente para o Íster. Os jumentos, sentindo-se sozinhos, puseram-se a zurrar mais forte que de costume, e os Citas, ouvindo-os, não duvidaram de que Persas ainda se encontravam no acampamento.

CXXXVI — Ao nascer do dia, os soldados abandonados por Dario, vendo-se traídos, aliaram-se aos Citas, expondo-lhes a situação e indicando-lhes o caminho presumivelmente tomado por Dario. Os dois grupos de Citas, reunindo-se prontamente ao terceiro, foram em perseguição dos Persas, na direção do Íster, juntamente com os Saurómatas, os Budinos e os Gelos. Como o exército persa era constituído, em sua maior parte, de tropas de infantaria, e estas não conheciam os caminhos, enquanto que os Citas estavam a cavalo e conheciam todas as veredas e atalhos, estes últimos alcançaram a ponte muito antes dos guerreiros de Dario, e sabendo que eles ainda não haviam aparecido, dirigiram-se nestes termos aos Iônios, que já se achavam em seus navios: “Iônios, o prazo que vos foi prescrito para ficar aqui já se esgotou, não havendo mais razão para permanecerdes aqui por mais tempo. Podeis destruir, sem receio, a ponte e rendei graças aos deuses e aos Citas por haverdes recuperado a liberdade. Quanto àquele que era até há pouco vosso senhor, vamos tratá-lo de uma maneira que jamais pensará em fazer guerra a quem quer que seja”.

CXXXVII — Os Iônios reuniram-se para deliberar sobre o assunto. Milcíades de Atenas, o comandante e tirano do Quersoneso do Helesponto, foi de opinião que deviam seguir o conselho dos Citas e reconquistar a liberdade da Iônia, mas Histeu, tirano de Mileto a isso se opôs, fazendo sentir que se ele e seus companheiros reinavam nas suas cidades, era por influência de Dario, e que se o poderio deste fosse destruído, perderiam também a autoridade e seriam destituídos do poder, pois as cidades em que governavam preferiam a democracia à tirania. Os que se sentiam inclinados a aceitar a sugestão de Milcíades passaram logo, ante a exposição de Histeu, a apoiar o parecer deste.

CXXXVIII — Os que formaram ao lado de Histeu gozavam da estima do soberano. Entre os tiranos do Helesponto figuravam Dáfnis de Abido, Hipoclos de Lampsaco, Herofante de Pário, Metrodoro de Preconésia, Aristágoras de Cizico e Aristo de Bizâncio; entre os da Iônia: Estrátis de Quios, Eces de Samos, Leodamas da Focéia e Histeu de Mileto, que se manifestou contrário ao parecer de Milcíades. Aristágoras de Cime foi o único homem ilustre a representar os Eólios no conselho.

CXXXIX — Aprovado o parecer de Histeu, ficou resolvido que seria destruída apenas uma das extremidades da ponte, justamente a que ficava do lado da Cítia, e isso para mostrar aos Citas o desejo de servi-los de qualquer forma e pelo receio de que eles quisessem transpor o Íster pela ponte. Depois de haverem combinado entre si mandar dizer aos Citas que demolindo a ponte do lado do seu país pretendiam com isso dar-lhes inteira satisfação, escolheram Histeu para falar-lhes em nome de todos. Aceitando a incumbência, Histeu assim se dirigiu aos Citas: “Citas, vosso conselho é salutar e vem muito a propósito; e como nos mostrastes o verdadeiro caminho a seguir, agimos de modo a mostrar-vos nossa disposição de vos servir como mereceis: destruímos a ponte, como podeis ver, e agora nos empenharemos com o maior ardor na reconquista de nossa liberdade. Quanto a vós, enquanto concluímos a demolição da ponte, achamos conveniente que sigais imediatamente em busca dos Persas, e encontrando-os, vingar-nos, vingando-vos também, como é justo”.

CXL — Os Citas, confiando pela segunda vez nos Iônios, voltaram pelo mesmo caminho em busca dos Persas, sem todavia encontrá-los. Viram, então, o grande erro que haviam cometido destruindo as culturas e obstruindo as fontes, a fim de que o inimigo delas não se aproveitasse. Não fora isso, ter-lhes-ia sido fácil localizá-los. Desnorteados, puseram-se a procurá-los por todos os cantões da Cítia onde havia água e forragem em abundância para os cavalos, persuadidos de que eles tinham seguido por esse lado. Os Persas, porém, haviam seguido a rota de que se tinham servido para penetrar no país, atingindo, depois de muitas dificuldades, o ponto onde tinham atravessado o rio. Como ali chegassem já noite alta, ao verem a ponte demolida julgaram que os Iônios os haviam abandonado.

CXLI — Havia no exército de Dario um egípcio de voz muito sonora. O soberano mandou-o postar-se à margem do rio e chamar por Histeu de Mileto. Aos primeiros gritos do egípcio, Histeu atendeu prontamente ao chamado, aprestando os navios para a passagem do exército e restabelecendo a ponte.

CXLII — Foi assim que os Persas conseguiram escapar à vingança dos Citas, enquanto estes continuavam a procurá-los inutilmente. Desde aí, passaram eles a considerar os Iônios os mais vis e os mais cobardes dos homens, dizendo que, quando escravos, são os cativos mais fiéis ao seu senhor e incapazes de fugir.

CXLIII — Dario atravessou a Trácia e chegou a Sestos, no Quersoneso, onde embarcou para passar-se para a Ásia. Antes porém, nomeou Megabizo, persa de nascimento, comandante das tropas que deixava na Europa. Certa ocasião, à mesa, em presença de seus íntimos, o soberano fez uma referência altamente honrosa a esse general. Quando se dispunha a comer romãs, logo ao abrir a primeira seu irmão Artábano perguntou-lhe que coisa desejaria possuir em tão grande quantidade quanto os grãos daquela fruta. Dario respondeu que gostaria mais de possuir um número igual de Megabizos do que ter a Grécia sob o seu domínio. Tal foi o tributo honroso que o soberano prestou às altas qualidades de Megabizo, e maior prova de confiança lhe deu ao entregar-lhe o comando dos oitenta mil homens que deixava na Europa.

CXLIV — Uma simples frase de Megabizo tornou-lhe o nome imortal entre os habitantes do Helesponto. Encontrando-se, certa vez, em Bizâncio, soube que os Calcedônios tinham construído sua cidade dezessete anos antes de os Bizantinos haverem fundado a deles. Disse-lhes, então, que deviam ser cegos, pois de outro modo não teriam escolhido para a cidade um local tão desagradável, quando se apresentava um outro mais belo.

Com as tropas deixadas por Dario, esse general subjugou todos os povos do Helesponto que não eram amigos dos Medos.

CXLV — Quase ao mesmo tempo, realizava ele uma grande expedição na Líbia. Para melhor compreensão do motivo que o levou a assim proceder mencionarei alguns fatos importantes ligados ao acontecimento.

Os descendentes dos Argonautas, expulsos da ilha de Lemnos pelos Pelasgos, que haviam arrebatado de Bráuron as mulheres dos Atenienses, abriram velas em direção à Lacedemônia. Acamparam no monte Taígeto, onde acenderam fogo para aquecer-se e preparar alimentos. Os Lacedemônios, percebendo-os, mandaram perguntar-lhes quem eram e de onde vinham. Responderam serem Mineus e descendentes daqueles heróis que haviam embarcado no navio Argos e aportado a Lemnos. Ante essa declaração, os Lacedemônios desejaram saber com que propósito ali tinham vindo e por que razão acendiam o fogo, respondendo eles que, expulsos pelos Pelasgos, vinham para a terra de seus pais, como era justo, e pediam aos Lacedemônios para acolhê-los e deixá-los compartilhar não somente de suas terras, como também das honras e das dignidades do Estado. Os Lacedemônios concordaram em acolhê-los, impondo-lhes, porém, algumas condições. Tal concessão provinha, principalmente, do fato de terem os Tindáridas figurado na expedição dos Argonautas. Receberam os Mineus e deram-lhes terras, que eles distribuíram entre si. Os homens casaram-se logo, e deram a outros as mulheres que haviam trazido de Lemnos.

CXLVI — Pouco tempo depois, os Mineus começaram a praticar toda sorte de insolências, querendo participar da realeza e agindo de modo contrário à lei. Os Lacedemônios, revoltados com tal procedimento, resolveram eliminá-los, mandando, para isso, prendê-los a todos. Na Lacedemônia, as execuções são realizadas à noite, e nunca de dia. Quando os Mineus estavam prestes a serem executados, suas esposas, que eram espartanas e filhas de figuras proeminentes da cidade, solicitaram permissão para entrar na prisão, a fim de vê-los e falar-lhes pela última vez. Os responsáveis pela guarda dos prisioneiros, não desconfiando de nenhum ardil, concederam a licença solicitada. Logo que se viram a sós com os maridos, as mulheres trocaram de trajes com eles, e os Mineus, assim disfarçados, puderam escapar, retornando ao monte Taígeto.

CXLVII — Por esse tempo, Teras partia da Lacedemônia para ir fundar uma colônia. Teras era filho de Autésio, que, por sua vez, era filho de Tisâmeno, neto de Tersandres e bisneto de Polinice. Pertencia à raça de Cadmo e era tio, por parte de mãe, de Eurístenes e de Procles, ambos filhos de Aristodemo. Como estes eram ainda muito crianças quando lhes morreu o pai, Teras ficou como regente durante a menoridade dos mesmos, mas, atingida a idade adulta, assumiram eles as rédeas do governo. Teras, desesperado por ter de prestar-lhes obediência depois de haver experimentado as doçuras do mando, dispôs-se a abandonar a Lacedemônia e a embarcar para ir juntar-se aos seus parentes.

Os descendentes de Membliares, filho de Pécilo, fenício, residiam na ilha hoje denominada Teras e conhecida outrora por Calisto. Cadmo, filho de Agenor, havia aportado a essa ilha quando ia em demanda da Europa, e, ou porque a terra lhe tivesse agradado, ou por qualquer outra razão, deixou ali vários Fenícios com Membliares, um dos seus parentes. Esses Fenícios habitaram a ilha, então denominada Calisto, durante oito gerações, antes da vinda de Teras, procedente da Lacedemônia.

CXLVIII — Teras partiu de Esparta para a ilha com um grande número de Lacedemônios. Sua intenção não era expulsar dali os antigos habitantes, mas viver com eles na mais estreita união. Os Lacedemônios persistiam no propósito de matar os Mineus, que, como dissemos, depois de terem escapado da prisão, haviam acampado novamente no monte Taígeto. Teras solicitou o perdão para eles, comprometendo-se a fazê-los deixar o país. O perdão foi concedido, e Teras, fazendo-se à vela em três navios de trinta remos, dirigiu-se para onde se achavam os descendentes de Membliares, levando consigo apenas uma pequena parte dos Mineus; os outros, tendo expulsado os Paroreatas e os Caúcos de suas terras, dividiram-se em seis grupos e ali construíram seis cidades: Lepreo, Macisto, Frixes, Pirgos, Épio e Núdio, a maior parte destruída no meu tempo pelos Eólios. Quanto à ilha Calisto, passou a chamar-se Teras, do nome de seu fundador.

CXLIX — Como o filho se recusasse a embarcar em sua companhia, Teras disse que o deixava como uma ovelha entre lobos. Essa frase fez com que se desse ao jovem o nome de Oiólico(13), por que passou a ser chamado daí por diante. Oiólico teve um filho de nome Egeu, de onde os Égidas, importante tribo de Esparta, tiraram o seu. Os componentes dessa tribo, vendo que não podiam conservar com vida os filhos, ergueram, ante a resposta do oráculo, um templo às Fúrias de Laio e de Édipo, e, desde então, não perderam mais os filhos. Coisa semelhante aconteceu na ilha de Teras com os descendentes dos que ali habitavam.

CL — Até aqui os Lacedemônios concordam com os habitantes de Teras; mas estes são os únicos a relatar os seguintes fatos da maneira que passo a narrar.

Grino, filho de Esânio, descendente de Teras e soberano da ilha de Teras, foi a Delfos para ali oferecer uma hecatombe. Estava acompanhado de vários habitantes da ilha, entre os quais figurava Bato, filho de Polinesta, descendente de Eufemo, um dos Mineus a que fiz referência. Tendo o soberano consultado o oráculo sobre determinadas coisas, a pitonisa concitou-o a fundar uma cidade na Líbia. “Rei Apolo, — replicou Grino — já estou velho e curvado pelo peso dos anos; encarrega antes desta empresa um desses jovens que vieram comigo”. E dizendo isso apontava Bato. Os Tereus, de volta à ilha, não levaram em consideração a resposta do oráculo, não sabendo absolutamente onde ficava a Líbia e não ousando realizar uma expedição colonizadora ante tal incerteza.

CLI — Passaram-se, então, sete anos sem chover uma só vez na ilha, e todas as árvores foram consumidas pela seca, com exceção de uma única. Indo os Tereus consultar o oráculo sobre o fenômeno, a pitonisa censurou-os por não terem ido fundar a colônia na Líbia, como lhes ordenara. Como não viam remédio para seus males, enviaram emissários a Creta para saber se havia ali algum cretense ou qualquer outro estrangeiro que tivesse viajado para a Líbia. Os emissários percorreram a ilha e, chegando à cidade de Itano, travaram conhecimento com um tintureiro de púrpura, de nome Coróbio, que lhes disse haver sido impelido por um forte vento para a ilha de Plateia, na Líbia. A promessa de uma recompensa levou-o a acompanhá-los a Teras. Organizada a expedição, os Tereus fizeram partir primeiramente um pequeno grupo para tomar conhecimento do local indicado por Coróbio, tendo este por guia. Chegando à ilha de Plateia, o grupo cumpriu a missão que lhe fora confiada, e deixando ali Coróbio com víveres suficientes para alguns meses, regressou a Teras, para expor aos Tereus as observações que havia feito.

CLII — Como seus companheiros ficassem ausentes mais tempo do que o combinado, Coróbio viu-se a braços com a falta de víveres. Por um feliz acaso, um navio de Samos, que seguia com destino ao Egito, e cujo comandante se chamava Cóleo, escalou na ilha. Coróbio expôs aos tripulantes a sua situação, e estes, condoídos, forneceram-lhe víveres para um ano, abrindo novamente velas em direção ao Egito, aproveitando um vento de leste. Sempre ao sabor do vento, esses homens passaram as colunas de Hércules e chegaram a Tartesso, como guiados por algum deus. Como esse porto ainda não tinha sido visitado por um navio mercante estrangeiro, obtiveram grande lucro com a venda de suas mercadorias. Satisfeitos com o negócio, reservaram seis talentos, a décima parte dos lucros obtidos, e mandaram fazer um vaso de bronze do formato de uma cratera, com cabeças de abutres em torno, oferecendo-o ao templo de Juno, onde ainda hoje se mantém sustentado por três colossos de bronze de sete côvados de altura.

A atitude de Cóleo foi o início da grande amizade que os Cireneus e os Tereus contraíram com os habitantes de Samos.

CLIII — Os Tereus, deixando Coróbio na ilha, voltaram a Teras, onde expuseram as observações feitas no local, que acreditavam inabitado. Diante disso, ficou resolvido que todos os cantões de Teras, em número de sete, enviariam um determinado número de homens, escolhidos por sorteio, para ocupar a ilha, tendo Bato por soberano. Feitos os preparativos, partiram com destino a Plateia dois navios com quinhentos homens cada um. Tal a maneira pela qual os Tereus contam essa história.

CLIV — Os Cireneus concordam com ela em tudo, exceto no que concerne a Bato, sobre o qual dizem o seguinte: Etearco, rei de Áxon, em Creta, tendo perdido a esposa, da qual possuía uma filha de nome Frónima, desposou outra mulher, que logo se tornou para Frónima verdadeira madrasta, maltratando-a, injuriando-a por qualquer motivo e chegando até a acusá-la de impudicícia, levando o esposo a acreditar nisso.

Dando crédito à mulher, Etearco procedeu contra a filha de maneira odiosa. Havia, então, em Áxon, um negociante de Teras, chamado Temíson. O soberano mandou chamá-lo, fazendo-o prometer, sob juramento, que o serviria em tudo quanto dele necessitasse. Obtido o juramento de obediência, Etearco entregou-lhe a filha, dizendo-lhe que a lançasse ao mar. Temíson, revoltado com tal procedimento, renunciou à amizade de Etearco e, pondo a princesa num barco, rumou para o alto mar. Ali chegando, amarrou-a com uma corda e, para desobrigar-se do juramento, fê-la descer até as águas, mas retirando-a logo em seguida e conduzindo-a para a ilha de Teras.

CLV — Chegando a Teras, Polineto, homem de alta posição, tomou a jovem como concubina, e o casal teve, no fim de certo tempo, um filho que gaguejava e sibilava. Essa criança, segundo os Tereus e os Cireneus, recebeu o nome de Bato; mas penso que era outro o seu nome e que passou a ser assim chamado depois que chegou à Líbia, tanto devido à resposta que recebeu do oráculo de Delfos, como pela sua alta dignidade, pois batus significa rei na língua dos Líbios, e foi esse o nome que a pitonisa lhe deu respondendo à sua consulta, sabendo que ele haveria de reinar na Líbia. Com efeito, ao chegar à idade viril foi a Delfos consultar o oráculo sobre o defeito que tinha na língua, que o fazia gaguejar, dizendo-lhe a pitonisa: “Bato, aqui vens a respeito da tua voz, mas Apolo te ordena a estabelecer uma colônia na Líbia, fecunda em animais lanígeros.” Foi como se ela lhe tivesse dito em grego: “Ó rei! Aqui vindes por causa da vossa voz...” Bato respondeu-lhe: “Rei, vim consultar-vos sobre o defeito que tenho na língua, e vós me ordenais a realizar coisas impossíveis, dizendo-me para fundar uma colônia na Líbia. Com que tropas, com que forças poderei executar semelhante tarefa?” Apesar das razões invocadas, a pitonisa manteve a resposta que lhe dera. Vendo que o oráculo mantinha-se irredutível, deixou Delfos, regressando a Teras.

CLVI — Logo a seguir, tanto ele como todos os habitantes da ilha viram-se perseguidos por desgraças sem conta. Como não pudessem atinar com a causa daquilo, enviaram delegados a Delfos para consultar o oráculo sobre os males que de pronto começaram a afligi-los, tendo a pitonisa respondido que todos eles voltariam a ser felizes se fundassem, com Bato, a cidade de Cirenes, na Líbia. Diante disso, os Tereus fizeram partir Bato com dois navios de cinqüenta remos. Bato e seus companheiros abriram velas em direção à Líbia, mas, forçados pelas circunstâncias, voltaram ao ponto de partida. Quando iam desembarcar, os Tereus atacaram-nos, ordenando-lhes que executassem a tarefa que lhes tinham confiado. Constrangidos a obedecer, retomaram a rota, indo estabelecer-se numa ilha nas proximidades da Líbia. Essa ilha chama-se, como dissemos atrás, Plateia. Assegura-se ser ela do tamanho da atual cidade dos Cireneus.

CLVII — Os Tereus ali permaneceram pelo espaço de dois anos, findos os quais, vendo que não conseguiam prosperar, embarcaram para Delfos, deixando um dos seus companheiros na ilha. Chegando a Delfos, disseram à pitonisa que se haviam estabelecido na Líbia, mas que nem por isso estavam sendo mais felizes. A pitonisa respondeu-lhes dirigindo-se a Bato: “Admiro a tua habilidade; nunca estiveste na Líbia e pretendes conhecer o país melhor do que eu, que ali já estive”. Ante a resposta, Bato embarcou novamente com os seus companheiros, convencido de que o deus só se daria por satisfeito quando eles se estabelecessem na própria Líbia. Chegando a Plateia, apanharam o companheiro que lá haviam deixado e foram instalar-se na Líbia, defronte da ilha, em Azires, local encantador, cercado por belas colinas e banhado por um rio.

CLVIII — Permaneceram seis anos em Azires, mas, ao cabo desse tempo, decidiram-se a sair dali às vivas instâncias dos Líbios e ante a promessa que eles lhes fizeram de conduzi-los a um território melhor ainda. Fazendo-os deixar aquele lugar, os Líbios conduziram-nos na direção de oeste, e com receio de que os Gregos, passando pela parte mais bela do país, disso se apercebessem, regularam a marcha de modo a fazê-los atravessá-la durante a noite. Essa região chama-se Irasa. Conduzindo-os para junto de uma fonte que dizem ter sido consagrada a Apolo, os Líbios assim lhes falaram: “Gregos, este local, com as suas belezas e vantagens, vos convida a fixar aqui vossa moradia; o céu é sempre limpo e azul nestas paragens”.

CLIX — Sob o governo de Bato, o fundador, cujo reinado se estendeu por quarenta anos, e de Arcesilas, seu filho, que reinou durante dezesseis, os Cireneus não se tornaram em número muito maior do que no início da colônia; mas no governo de Bato, o terceiro rei, cognominado o Feliz, a pitonisa, pelos seus oráculos, concitou os Gregos a embarcarem para a Líbia, onde habitariam com os Cireneus, que os convidavam a morar em suas terras e delas compartilhar. Dizia um desses oráculos: “Quem não for para a fértil Líbia senão depois da partilha das terras terá, um dia, motivo para disso arrepender-se”. Os Gregos dirigiram-se a Cirenes em grande número, apoderando-se de um cantão considerável. Os Líbios, seus vizinhos, e Adícran, seu rei, vendo-se insultados e despojados de suas terras pelos Cireneus, recorreram a Ápries, soberano do Egito, colocando-se sob a sua proteção. Ápries enviou contra Cirenes forças consideráveis, e os Cireneus, formados em ordem de batalha em Irasa e perto da fonte de Teste, enfrentaram-nos com galhardia. Os Egípcios, que com eles ainda não haviam medido forças, subestimaram sua capacidade de luta, sendo de tal maneira batidos, que para o Egito só regressou um pequeno número de soldados. O povo ficou tão indignado com Ápries, que contra ele se revoltou.

CLX — Arcesilas, filho de Bato, foi o seu sucessor. Logo que subiu ao trono, teve ele algumas questões com seus irmãos, mas estes acabaram abandonando o país, indo para outra parte da Líbia, fundando ali a cidade de Barcéia, nome que ainda hoje subsiste. Enquanto a construíam, sublevaram os Líbios contra os Cireneus. Arcesilas marchou contra os revoltosos, e os Líbios, que o temiam, fugiram para junto dos Líbios orientais. Arcesilas perseguiu-os e alcançou-os em Lêucon, na Líbia, onde travaram combate. A sorte das armas foi favorável aos Líbios, ficando estendidos no campo mais de sete mil Cireneus muito bem armados. Depois desse revés, Arcesilas caiu doente, e quando se tratava foi estrangulado pelo seu irmão Learco. Erixas, usando de um ardil, fez perecer o assassino de seu esposo.

CLXI — Bato, seu filho, sucedeu-o no trono. Bato era coxo e não podia manter-se de pé. Os Cireneus, atribulados com seus fracassos, enviaram delegados a Delfos, a fim de saberem que forma de governo deviam adotar para viverem felizes. A pitonisa aconselhou-os a fazerem vir da Mantinéia, na Arcádia, alguém que pudesse restabelecer entre eles a concórdia. Seguindo o conselho, eles se dirigiram aos Mantineus, que lhes cederam um homem, dos mais estimados na cidade, de nome Demónax. Demónax concordou em ir para Cirenes, e informado dos negócios públicos, dividiu os Cireneus em três tribos, uma das quais compreendia os Tereus e seus vizinhos; a outra, os Peloponésios e os Cretenses, e a terceira, todos os insulares. Finalmente, reservou para Bato certas porções de terra, com as dignidades de sacrificador, e devolveu ao povo todas as outras prerrogativas de que os reis cireneus haviam gozado até então.

CLXII — Tais normas subsistiram durante o reinado de Bato, mas no de seu filho surgiram, por causa das mesmas, grandes perturbações. Com efeito, Arcesilas, filho de Bato, o Coxo, e de Ferétima, declarou não tolerar mais que as leis de Demónax prevalecessem e exigiu as prerrogativas desfrutadas pelos seus ancestrais. Arcesilas provocou distúrbios e contendas com essa decisão, mas tendo os seus partidários ficado em situação desvantajosa, teve de refugiar-se em Samos, enquanto que Ferétima, sua mãe, procurou asilo em Salamina, na ilha de Chipre. Salamina era, naquele tempo, governada por Evélton, que consagrou a Delfos um belo turíbulo, que ainda hoje pode ser apreciado como parte do tesouro dos Coríntios. Chegando à corte de Evélton, Ferétima pediu tropas para restabelecer o poder do filho em Cirenes, mas o soberano preferiu dar-lhe outras coisas ao invés de tropas. Ferétima aceitou os presentes, achando-os magníficos, dizendo-lhe, porém, que mais satisfeita ficaria se lhe fossem concedidas tropas; e como repetisse sempre a mesma resposta a cada presente que recebia, Evélton deu-lhe, por fim, um fuso de ouro e uma roca, dizendo-lhe que às mulheres se davam tais mimos e nunca um exército.

CLXIII — Enquanto isso, Arcesilas, aguardando a partilha das terras, reuniu em Samos, onde se encontrava, um exército numeroso, indo, em seguida, a Delfos, consultar o oráculo sobre a possibilidade de sua volta ao poder. A pitonisa respondeu-lhe: “Apolo concede à tua família o domínio de Cirenes por quatro Batos e quatro Arcesilas, isto é, por oito gerações; mas te exorta a não tentares mais nada e a ficares tranqüilo quando regressares à pátria. Se encontrares um forno cheio de vasos de barro, evita levá-los ao fogo; retira-os dali e coloca-os ao ar livre; e se aqueceres o forno, não o faças em local cercado de água, pois, se o fizeres, perecerás, juntamente com o mais belo dos touros”.

CLXIV — Arcesilas voltou a Cirenes com o exército que conseguira reunir em Samos, e, recuperando o poder, mandou processar, sem atenção alguma ao oráculo, os que o tinham combatido e o haviam obrigado a fugir. Uns tiveram de deixar a pátria, condenados a exílio perpétuo; outros, presos, foram enviados a Chipre, para ali serem executados; mas os Cnídios os libertaram, encaminhando-os para a ilha de Teras. Outros, enfim, refugiaram-se numa grande torre pertencente a um particular de nome Aglómaco. Arcesilas mandou colocar lenha em torno da torre e incendiá-la. Só então apreendeu ele o significado das palavras da pitonisa de Delfos, quando lhe disse que não devia levar ao fogo os vasos de barro encontrados no forno. Com receio de ser morto, segundo a predição do oráculo, abandonou voluntariamente a Cirenes, imaginando ser essa cidade o local cercado de água a que a pitonisa se referira. Havia desposado uma de suas parentas, filha de Alazir, rei dos Barceus, e foi junto a esse soberano que procurou refúgio; mas os Barceus e alguns fugitivos da Cirenaica, descobrindo seu paradeiro, mataram-no, assim como ao seu sogro Alazir, que lhe dera guarida. Assim, Arcesilas cumpriu seu destino, perecendo por haver desobedecido ao oráculo, voluntária ou involuntariamente.

CLXV — Enquanto Arcesilas forjava sua própria ruína em Barcéia, Ferétima, sua mãe, desfrutava em Cirenes as honras devidas ao filho; e entre outras prerrogativas, a de tomar parte nas deliberações do Senado; mas ao ter conhecimento da morte do filho refugiou-se no Egito, por haver o filho prestado outrora alguns serviços a Cambises, entregando-lhe Cirenes e pagando-lhe tributo. Chegando ao referido país, suplicou a Ariando que a vingasse, alegando ter sido o filho assassinado por haver favorecido o partido dos Medos.

CLXVI — Ariando havia sido nomeado governador do Egito por Cambises, sendo mais tarde condenado à morte por ter pretendido igualar-se a Dario. Realmente, tendo sabido que esse soberano desejava deixar como monumento a perpetuar-lhe a memória algo ainda não executado por qualquer outro, procurou imitá-lo. Dario havia mandado cunhar moedas do mais puro ouro(14). Ariando, governador do Egito, mandou, por sua vez, cunhar moedas de prata, chamadas ariândicas, ainda hoje tidas como feitas da mais fina prata. Dario, informado a respeito, acusou-o de rebeldia, mandando matá-lo sob esse pretexto.

CLXVII — Tocado pelas súplicas de Ferétima, Ariando pôs à sua disposição um exército composto de todas as forças do Egito, tanto de terra como de mar. As tropas de terra eram comandadas por Amásis, e as de mar, por Bares. Antes, porém, de dar-lhes a ordem de partida, Ariando enviou um emissário a Barcéia, a fim de informar-se sobre a autoria da morte de Arcesilas. Os Barceus assumiram toda a responsabilidade do assassinato, pois o soberano lhes havia causado grandes males. Ante a resposta, Ariando fez partir o exército, juntamente com Ferétima.

CLXVIII — Ariando encontrara aí o pretexto que buscava para justificar sua expedição contra os Líbios, aos quais desejava, a meu ver, subjugar. A Líbia compreende diferentes povos, poucos dos quais se haviam submetido a Dario, sendo que a maior parte deles continuava a não lhe dar a mínima importância. Esses povos acham-se estabelecidos na Líbia na seguinte ordem, a partir do Egito(15): Em primeiro lugar, vêm os Adirmáquidas, que seguem quase os mesmos costumes dos Egípcios, trajando-se, porém, como o resto dos Líbios. As mulheres trazem em cada perna um anel de cobre e deixam crescer os cabelos. Se picadas por um piolho, apanham-no, mordem-no também, e atiram-no fora. É este o único povo líbio a manter semelhante costume, e o único também a apresentar as filhas ao seu soberano, quando vão casá-las. A que cai nas graças do rei, não volta ao lar senão depois de lhe haver concedido seus favores. Essa nação se estende do Egito a um porto chamado Plinos.

CLXIX — Os Giligames confinam com os Adirmáquidas, e habitam o território que se estende para ocidente até a ilha Afrodísias. Nesse ponto está situada a ilha de Plateia, onde os Cireneus estabeleceram uma colônia. Azires, onde também se estabeleceram, fica no continente, bem como o porto de Menelais. Ali se começa a encontrar o silfium. O país onde cresce esta planta estende-se da ilha de Plateia até a embocadura do Sirta. Esses povos seguem os mesmos costumes dos outros.

CLXX — Em seguida aos Giligames, encontramos os Asbistas, para leste, além de Cirenes, estendendo-se até o mar, sendo suas costas marítimas ocupadas pelos Cireneus. Os carros puxados por quatro cavalos estão mais em uso entre eles do que entre os outros povos líbios. Os Asbistas procuram imitar a maior parte dos costumes dos Cireneus.

CLXXI — Os Ausquises ficam a oeste dos Asbistas, com os quais confinam. Habitam a região além de Barcéia e se estendem até o mar, nas imediações das Hispéridas. Os Cábalos habitam o centro dessa mesma região. É uma nação pouco numerosa, alongando-se pelas costas da Tauquira, cidade da Barcéia. Adotam os mesmos costumes dos que habitam a região situada além de Cirenes.

CLXXII — O país dos Ausquises é limitado a oeste pelo dos Nasamões, povo bastante numeroso. No Verão, os Nasamões deixam seus rebanhos à beira-mar e dirigem-se a um certo cantão denominado Augilas, para colher os saborosos frutos das palmeiras que ali crescem em abundância. Os Nasamões dão-se ao hábito de caçar gafanhotos, que fazem secar ao sol, e depois de reduzi-los a pó misturam-no no leite que bebem. Adotam o costume de possuir, cada qual, várias mulheres e de ter relações com elas publicamente, mais ou menos como os Masságetas. Da primeira vez que um nasamão se casa, na noite de núpcias, a mulher concede favores a todos os convivas, recebendo de cada um deles um presente trazido de casa. Eis como esse povo presta juramento e exerce a arte da adivinhação. Para o primeiro, colocam a mão sobre o túmulo de um dos homens mais famosos e mais justos da nação e juram pela sua memória. Na adivinhação, dirigem-se aos túmulos de seus ancestrais e ali, depois de fazerem preces, adormecem. Se durante o sono tiverem algum sonho, guiam-se por ele na maneira de conduzir-se. Fazem pactos de confiança, bebendo, reciprocamente, um na mão do outro. Se nada têm para beber no momento, enchem as mãos de terra e lambem-na.

CLXXIII — Os Psilos eram vizinhos dos Nasamões, extinguindo-se de um momento para outro, da maneira que vou relatar, baseando-me nas informações dos Líbios. O vento sul tinha, com suas fortes rajadas, secado todas as cisternas, e os Psilos, que habitavam a parte central da Sirta e não dispunham de fontes, viram-se totalmente privados de água. Indignados com a ação do vento resolveram, por decisão unânime, mover-lhe guerra; mas ao chegarem aos desertos arenosos para dar-lhe combate foram envolvidos por seus violentos sopros, ficando sepultados sob montes de areia. Desaparecendo os Psilos, os Nasamões apoderaram-se de suas terras.

CLXXIV — Acima desses povos, numa região cheia de animais ferozes, vivem os Garamantes, que fogem ao contato com outros homens.

Os Garamantes, povo extraordinariamente atrasado, não usam armas e nem sequer sabem defender-se.

CLXXV — Esse povo tem por vizinhos os Maces, que habitam a oeste, ao longo do litoral. Os Maces raspam a cabeça, deixando apenas um pequeno tufo no alto da mesma. Quando vão à guerra, levam consigo, como arma defensiva, peles de avestruz. Suas terras são banhadas pelo rio Cinips, que, descendo da colina das Graças, atravessa o país e lança-se no mar. A colina está inteiramente coberta por espessa floresta, embora o resto da Líbia, como já tive ocasião de dizer, seja desprovido de árvores. Dessa colina ao mar há uma distância de duzentos estádios.

CLXXVI — Os Gindanes confinam com os Maces. Dizem que suas mulheres trazem no tornozelo tantos anéis de pele quanto os homens com os quais já tiveram relações, e a que ostenta maior número de anéis é a mais estimada, por ter-se feito amar por um maior número de homens.

CLXXVII — Os Lotófagos habitam o trecho do litoral vizinho aos Gindanes. Alimentam-se exclusivamente dos frutos do loto. Esses frutos são mais ou menos da grossura do lentisco e doces como a tâmara, e deles os Lotófagos extraem também uma espécie de vinho.

CLXXVIII — Esse povo confina, ao longo do mar, com os Máclies, que também se servem do loto como alimento, embora em menor escala. Os Máclies estendem-se até o Tritão, rio considerável que se lança num grande lago, o Tritónis, onde se encontra a ilha Fia. Dizem haver sido predito pelos oráculos que os Lacedemônios estabeleceriam uma colônia nessa ilha, sendo esse fato relatado da seguinte maneira:

CLXXIX — Depois de ter Jasão mandado construir, ao pé do monte Pélion, o navio Argos, colocou nele um tripé de bronze e, embarcando com sua comitiva, fez-se ao mar, dobrando o Peloponeso, tendo em mira atingir Delfos. Ao aproximar-se do promontório Maléia, ergueu-se um forte vento do norte, que o impeliu para a Líbia, vendo-se ele perdido no meio do lago Tritónis, sem saber onde aportar. Não sabia como sair dessa perigosa situação, quando, dizem, um tritão lhe apareceu e lhe pediu o tripé, prometendo-lhe, em troca, indicar-lhe uma rota segura e salvá-lo daquele perigo. Jasão concordou, e o tritão, cumprindo com o que prometera, mostrou-lhe o meio de sair dali. Tomando, em seguida, do tripé, colocou-o no seu próprio templo, e, ali sentando-se, predisse a Jasão e aos seus tudo o que deveria acontecer-lhes. Anunciou-lhes também que, quando algum dos descendentes dele, tritão, se apoderasse do tripé, era absolutamente necessário que os Gregos possuíssem cem cidades às margens do lago Tritónis. Dizem que os Líbios das vizinhanças do lago, sabedores disso, esconderam o tripé.

CLXXX — Depois dos Máclies, encontramos os Auseus. Estas duas nações acham-se estabelecidas em torno do lago Tritónis, mas separadas pelo rio Tritão. Os Mácíies deixam crescer o cabelo atrás da cabeça, e os Auseus na frente. Numa festa que esses povos celebram todos os anos em honra a Minerva, as moças solteiras dividem-se em dois grupos e batem-se, umas contra as outras, a pauladas e a pedradas. Dizem elas ter sido tal rito instituído por seus pais, em honra à deusa, nascida no país, e a que chamamos Minerva. As moças que morrem dos ferimentos recebidos na contenda são consideradas falsas virgens. Antes de empenhar-se no combate, as jovens revestem-se de uma armadura completa, à moda grega, que é, na opinião de todas, a mais bela, e, colocando na cabeça um capacete à coríntia, sobem a um carro e passeiam em torno do lago. Ignoro de que maneira se aprestavam para o combate essas moças, antes de os Gregos terem estabelecido colônias nas imediações. Creio, contudo, que era à maneira dos Egípcios, pois sou de opinião que o escudo e o capacete vieram dos Egípcios para os Gregos. Pretendem elas ser Minerva filha de Netuno e da ninfa do lago Tritónis. Insurgindo-se contra o pai por uma razão qualquer, a deusa procurou a proteção de Júpiter, que a adotou como filha. As mulheres, entre esses povos, pertencem em comum aos homens, embora não coabitem com estes, e são possuídas à maneira dos animais. Os filhos são criados pelas mães, e quando crescem, são levados à assembléia realizada pelos homens de três em três meses. Aquele com o qual a criança mais se parece é considerado seu pai.

CLXXXI — Tais os povos nômades que habitam o litoral da Líbia. Mais acima, avançando pelo meio das terras, encontra-se uma região líbia cheia de animais ferozes, além da qual existe um planalto arenoso, que se estende de Tebas, no Egito, às colunas de Hércules. Há, nessa zona, trechos cobertos de sal nas colinas. Do alto dessas colinas jorra, por entre o sal, uma água fresca e doce. Em torno dessas nascentes se agrupam os habitantes da região, os últimos que encontramos desse lado do deserto e além da Líbia selvagem. Os primeiros povos que encontramos, vindo de Tebas, são os Amônios, a dez dias de viagem dessa cidade. Os Amônios possuem um templo, onde praticam os ritos inspirados nos de Júpiter Tebano. Existe em Tebas, como já disse, uma estátua de Júpiter com cabeça de carneiro.

Entre outras fontes, possuem eles uma cuja água é lépida ao nascer do sol, fresca à hora do mercado e extremamente fria ao meio-dia. É a essa hora que eles costumam regar os jardins. À medida que o dia declina, ela se torna menos fria, até o pôr do sol, quando volta a ser tépida, esquentando depois, pouco a pouco, até a meia-noite, quando chega mesmo a ferver. Daí em diante, passa a esfriar, gradativamente, até o romper da aurora. Chamam-na fonte do Sol.

CLXXXII — A dez dias de marcha a partir do país dos Amônios encontra-se, no mesmo planalto arenoso, outra colina de sal, tendo também uma fonte. O cantão onde ela está situada é habitado e denomina-se Augilas. É ali que os Nasamões vão, no Outono, colher tâmaras.

CLXXXIII — A outros dez dias de jornada partindo desse cantão encontramos outra colina de sal, tendo, igualmente, fontes de água doce e uma grande quantidade de palmeiras, que dão frutos em abundância. A região é habitada pelos Garamantes, nação bastante numerosa. Os Garamantes utilizam-se do sal para o cultivo, espalhando terra sobre ele e semeando em seguida. Dali ao país dos Lotófagos a distância não é grande, mas há trinta dias de percurso do território dos Lotófagos à região onde se vêem bois de estranha espécie, que pastam e andam para trás, por terem os chifres voltados para baixo. Se caminhassem para frente, estes se enterrariam no chão. Não diferem dos outros bois senão nisso e em terem o couro mais espesso e mais flexível. Os Garamantes dão caça aos Trogloditas-Etíopes, servindo-se, para esse fim, de carros puxados por quatro cavalos, isso porque os Trogloditas-Etíopes são, de todos os povos que conhecemos, o mais veloz. Alimentam-se de serpentes, lagartos e outros répteis; falam uma língua que nada tem de comum com as das outras nações e se dizem capazes de compreender os gritos dos morcegos.

CLXXXIV — A dez dias de jornada dos Garamantes encontramos outra colina de sal, com uma fonte e homens em torno. Esses homens, que constituem a nação dos Atarantes, são os únicos, que eu saiba, a não possuírem nome próprio. Reunidos em nação, tomam o nome de Atarantes, mas considerados individualmente, não usam um nome que os distinga uns dos outros. Têm o hábito de lançar maldições contra o sol quando este se acha no seu zênite, por queimar-lhes a pele e secar-lhes as terras.

Depois de mais dez dias de viagem chega-se a uma outra colina de sal, também com nascentes e habitantes em torno. O monte Atlas confina com essa colina. É estreito e arredondado, mas tão alto que, segundo dizem, não se consegue ver-lhe o cume, por causa das nuvens que o envolvem, tanto no Verão como no Inverno. Os habitantes da região dizem ser ele uma coluna do céu, tendo dele o nome de Atlantes, por que são conhecidos. Segundo se afirma, esse povo não come nenhuma espécie de ser vivo e nunca sonha.

CLXXXV — Sei qual o povo que habita esse planalto até o território dos Atlantes, mas nada posso dizer sobre os que se encontram mais para diante, pois essa elevação se estende além das colunas de Hércules. De dez em dez dias de jornada encontramos minas de sal e habitantes, cujas casas são geralmente construídas com sal. Como nunca chove nessa parte da Líbia, seus moradores não correm o risco de verem-nas desmoronar-se sob a ação da água. Extraem-se dessas minas duas espécies de sal: um branco e outro vermelho. Muito além desse planalto arenoso, na direção do sul, e mais para o interior da Líbia, encontra-se um pavoroso deserto, inteiramente desprovido de água, de árvores e até mesmo de animais selvagens.

CLXXXVI — Toda a região que se estende do Egito ao lago Tritónis é habitada pelos Líbios nômades, que se alimentam exclusivamente de carne e de leite, jamais comendo, como se dá também com os Egípcios, vacas ou porcos. As mulheres de Cirenes não se julgam, também, com permissão para comer carne de vaca, por causa da deusa Ísis, adorada no Egito. Chegam a jejuar, e celebram em sua honra. As mulheres de Barcéia também não comem carne de vaca e nem de porco.

CLXXXVII — Os povos que vivem a oeste do lago Tritónis não são nômades; não seguem os mesmos costumes e não tratam seus filhos da maneira como fazem os Líbios nômades. Quando os filhos destes atingem a idade de quatro anos, queimam-lhes as veias do alto da cabeça, e algumas das têmporas, com lã bruta. Não posso assegurar se todos os povos nômades da Líbia seguem tal costume, mas vários deles o adotam. Julgam, com isso, que ficam livres dos humores que correm do cérebro, preservando a saúde. Realmente, entre todos os povos que conhecemos não existe nenhum mais sadio do que os Líbios. Não julgo, porém, ser isso devido ao referido costume. Se as crianças têm espasmos enquanto lhes queimam as veias, molham-nas com urina de bode, remédio por eles próprios descoberto e que consideram infalível para o mal. De resto, estou apenas reproduzindo aqui o que me relataram os Líbios.

CLXXXV1II — Os Líbios nômades celebram seus sacrifícios da seguinte maneira: começam por cortar a orelha da vítima e atirá-la sobre o telhado da casa; depois, torcem-lhe o pescoço. Imolam apenas ao Sol e à Lua. Todos os Líbios oferecem sacrifícios a essas divindades; entretanto, os que vivem às margens do lago Tritónis imolam também a Minerva, a Tritão e a Netuno, mas principalmente a Minerva.

CLXXXIX — Os Gregos copiaram dos Líbios o traje e a égide de Minerva, com a diferença que o traje dos Líbios é feito de pele, e as franjas de suas égides não são de pele de serpente, mas de tiras de couro muito finas. No restante, porém, em nada diferem. O nome desse traje prova que as vestes das estátuas de Minerva vêm da Líbia. As mulheres líbias usam, realmente, por cima do traje, peles de cabra, guarnecidas de franjas e pintadas de vermelho, de onde os Gregos tiraram o nome de égide. Creio também que os gritos agudos que se ouvem no templo da deusa derivam de um costume daquele país. Teria vindo também dos Líbios para os Gregos, o hábito de atrelar quatro cavalos a seus carros.

CXC — Os Líbios nômades enterram seus mortos como os Gregos, com exceção dos Nasamões, que os enterram sentados, tendo, para isso, o cuidado de manter o moribundo nessa posição na hora de expirar. Usam habitações portáteis, feitas de asfódelos(16), entrelaçados com junco.

CXCI — Os Líbios lavradores confinam com os Auseus a oeste do rio Tritão. Possuem habitações e denominam a si próprios Máxias. Deixam crescer o cabelo do lado direito da cabeça, raspando do lado esquerdo, e pintam o corpo de vermelho.

Dizem-se descendentes dos Troianos. A região que habitam é, como o resto da Líbia ocidental, muito mais povoada de animais selvagens e mais cheia de bosques do que a habitada pelos nômades, pois esta última é baixa e arenosa até o rio Tritão.

Seguindo para o ocidente, após esse rio, encontramos a região ocupada pelos Líbios lavradores; é montanhosa, coberta de florestas e cheia de animais selvagens. Na região ocupada pelos Líbios lavradores encontram-se serpentes de tamanho descomunal, leões, elefantes, ursos, áspides, asnos com chifres(17), cinocéfalos e acéfalos, que possuem, segundo afirmam os Líbios, olhos no peito. Vêem-se também ali homens e mulheres selvagens, e uma multidão de monstros fabulosos.

CXCII — No país dos nômades não encontramos nenhum desses animais. Existem, todavia, outros, tais como cabritos, búbalos, burros, não de chifres, mas de uma espécie que tem horror à água. Vêem-se também animais estranhos, do tamanho de um boi e de cujos chifres os habitantes se utilizam para fazer o braço de suas cítaras. Há também raposas, hienas, porcos-espinho, panteras, thoés(18), crocodilos terrestres com três côvados de comprimento e que se assemelham aos lagartos, avestruzes e pequenas serpentes de um só chifre. Não se vêem, porém, ali, nem veados nem javalis, pois a Líbia não possui tais animais.

CXCIII — Os Zavecos confinam com os Líbios-Máxias. Quando vão à guerra, são as mulheres que conduzem os carros.

CXCIV — Logo depois dos Zavecos encontramos os Gizantes, em cujas terras abundam abelhas, que produzem uma quantidade prodigiosa de mel, que ainda assim não é suficiente para o amplo consumo que dele fazem os habitantes. Os Gizantes costumam pintar-se de vermelho e são grandes apreciadores da carne de macaco, animal muito comum nas montanhas que ali existem.

CXCV — Perto desse país fica, segundo afirmam os Cartagineses, uma ilha denominada Cirâunis, muito estreita, mas medindo duzentos estádios de comprimento, inteiramente coberta de oliveiras e vinhedos. Há nessa ilha um lago, de cujo lodo os habitantes extraem palhetas de ouro com o auxílio de penas de pássaros. Se é verdade, não sei; limito-me a repetir o que sobre isso me disseram. É possível, porém, que assim seja, pois já fui testemunha da maneira pela qual se extrai resina de um lago de Zacinto, onde existe uma grande quantidade de lagos, o maior dos quais mede setenta pés de extensão em todos os sentidos, com duas braças de profundidade. Os habitantes do lugar mergulham nele uma vara, na extremidade da qual prendem um ramo de mirta, retirando, em seguida, o ramo com resina, que tem cheiro de betume. Essa resina é colocada num fosso cavado perto do lago, e quando já existe uma grande quantidade dela, retiram-na do fosso, colocando-a em ânforas. Tudo que cai naquele lago, passa por debaixo da terra, indo ter ao mar, embora este diste do lago cerca de quatro estádios. Assim, podem estar com a razão os que dizem que essa ilha está situada nas proximidades da Líbia.

CXCVI — Dizem os Cartagineses existir, além das colunas de Hércules, um país habitado, onde costumam ir comerciar. Quando ali chegam, retiram as mercadorias dos navios e colocam-nas ao longo da praia, voltando, em seguida, para bordo, onde, para atrair a atenção dos habitantes, fazem fumaça em grande quantidade. Os naturais do país, percebendo a fumaça, dirigem-se para a praia e ali depositam uma quantidade de ouro que consideram correspondente ao valor das mercadorias, afastando-se. Os Cartagineses desembarcam novamente, examinam a quantidade do precioso metal ali deixada e, se a julgam razoável, apanham-na e retiram-se. Se, porém, a julgam insuficiente, retornam aos navios, onde permanecem tranqüilos, na expectativa. Os nativos voltam ao local e acrescentam mais alguma coisa, esperando que com isso os Cartagineses se dêem por satisfeitos. As duas partes jamais procuram ludibriar uma à outra. Os Cartagineses não tocam no ouro senão quando ele corresponde ao valor das mercadorias; e os nativos só se apoderam das mercadorias quando os Cartagineses se apoderam do ouro.

CXCVII — Tais os povos da Líbia, cujos nomes posso citar, um por um. A maioria deles não dava, outrora, aos reis dos Medos, maior importância do que lhes dá hoje. Devo acrescentar que o país é habitado por quatro nações: duas indígenas e duas estrangeiras. Os indígenas são os Líbios e os Etíopes; aqueles, habitando a parte norte da Líbia, e estes, a parte sul. As duas nações estrangeiras compõem-se de Fenícios e de Gregos.

CXCVIII — Quanto à fertilidade, a Líbia não pode, ao que me parece, ser comparada à Ásia nem à Europa, exceção feita ao país dos Cinips, povo que possui o mesmo nome do rio que banha suas terras, que podem ser comparadas às melhores para o cultivo do trigo. É uma terra negra, regada por várias nascentes e beneficiada por constantes chuvas, que a fecundam sem lhe causar dano. O país produz tanto trigo quanto a Babilônia. O país dos Hispéridas possui também terras excelentes. Nos anos mais propícios à cultura, as sementes lançadas ao solo centuplicam; mas nas terras dos Cinips, de cada semente plantada obtém-se trezentas.

CXCIX — A Cirenaica é o país de maior altitude dessa região da Líbia, e é habitada por povos nômades, beneficiados por excelentes condições para o cultivo de suas terras, contando com três estações propícias. A colheita e a vindima começam à beira-mar, passando em seguida para as terras altas no centro do país, a que dão o nome de colinas e onde o trigo e a uva já então se encontram maduros, à espera da colheita. Enquanto é feita a colheita na zona central, o amadurecimento vai se processando nas outras zonas mais afastadas; e assim, quando os habitantes realizam a última colheita, há muito já beberam os primeiros vinhos. Os Cireneus se ocupam nessa tarefa durante oito meses do ano.

CC — O exército persa(19) que Ariando tinha enviado do Egito para vingar Ferétima, chegando diante de Barcéia estabeleceu o cerco, depois de haver intimado os habitantes a entregar-lhe os assassinos de Arcesilas. Os Barceus, considerando-se todos culpados da morte do soberano, não atenderam à intimação. O cerco se prolongou por nove meses, durante os quais os Persas minaram as muralhas e atacaram vigorosamente a praça. Um artesão, habituado a trabalhar com o cobre, descobriu as minas(20) por meio de um escudo de bronze. Munido do escudo, pôs-se a andar em torno da cidade, ao pé das muralhas, aproximando-o do chão, aqui e ali. Nos pontos não minados pelo inimigo, o escudo nenhum som produzia; mas ao passar por lugares minados, acusava-o emitindo um som bastante audível. Os Barceus, alertados, contraminaram esses pontos, matando os Persas que se achavam entregues a essa delicada tarefa de guerra. Quanto aos assaltos desfechados pelos sitiantes, os habitantes souberam repeli-los com bravura.

CCI — O cerco de Barcéia ia-se prolongando indefinidamente, já se registrando, de um lado e de outro, perdas consideráveis, quando Amásis, que comandava as forças de terra, vendo a impossibilidade de vencer o inimigo frente a frente, recorreu ao seguinte estratagema: mandou cavar, durante a noite, um largo fosso, no qual colocou pedaços de madeira muito frágeis, cobrindo-os de terra, de modo a ocultá-los e evitando qualquer diferença de nível de terreno. Ao nascer do dia, convidou os Barceus para um entendimento, convite que eles aceitaram com alegra, pois não desejavam outra coisa senão um acordo. As duas partes firmaram, então, um tratado, jurando, sobre o fosso coberto, observar os termos do mesmo, enquanto aquele terreno se mantivesse tal qual se encontrava no momento. O tratado estabelecia o pagamento, pelos Barceus, de um tributo módico ao soberano persa, enquanto que os sitiantes não empreenderiam nenhum novo movimento contra eles. Prestado o juramento por ambas as partes, os Barceus, confiantes no tratado, abriram todos os portões da cidade, deixando entrar os inimigos de há pouco. As tropas persas, destruindo o fosso oculto, invadiram, em massa, a cidade. Destruindo o fosso e, por conseguinte, afundando o terreno naquele ponto, não violavam o juramento que haviam feito, pois o tratado deixava de existir.

CCII — Os Persas entregaram a Ferétima os mais culpados entre os Barceus, pela morte de Arcesilas, e ela mandou, incontinênti, crucificá-los em torno das muralhas. Às suas mulheres, mandou cortar-lhes os seios e colocá-los igualmente em volta das muralhas. Quanto ao resto dos Barceus, deixou-os à mercê dos Persas, como despojos de guerra, com exceção dos Batíades e dos que nenhuma participação tiveram no assassinato de seu filho. Estes ficaram encarregados da guarda da cidade.

CCIII — Depois de haverem reduzido os Barceus à escravidão, os Persas retornaram à pátria. Ao chegarem a Cirenes, os Cireneus, em observância a um oráculo, deixaram-nos passar livremente pela cidade; mas enquanto as forças persas a transpunham, Bares, comandante das tropas navais, ordenou a pilhagem. Amásis, que se encontrava à frente das tropas de terra, foi contrário a tal ação, mostrando-lhe que tinham vindo exclusivamente para aniquilar os Barceus. Atravessando a cidade, acamparam na colina de Júpiter Liceu, mas os soldados de Bares, arrependendo-se de não haverem realizado seu intento, resolveram voltar e penetrar novamente na praça. Os Cireneus, todavia, opuseram-se a essa nova incursão, e os Persas, assombrados ante a firme atitude dos habitantes, retiraram-se precipitadamente, indo acampar a uma distância de sessenta estádios da cidade. Enquanto armavam acampamento, chegou um correio da parte de Ariando, chamando-os de volta à corte. Desprovidos de mantimentos para a viagem de regresso, tiveram de recorrer aos Cireneus, pedindo-lhes que lhes fornecessem víveres, e obtidos estes, puseram-se em marcha para o Egito. Ao passarem pelas terras dos Líbios, estes entraram a perseguir alguns grupos isolados, não deixando de acossá-los durante todo o percurso para o Egito, tirando-lhes as roupas e bagagens, e matando os da retaguarda.

CCIV — Este exército não conseguiu penetrar mais no país dos Hispéridas do que nos Líbios, em face da resistência que encontravam por toda parte. Quanto aos Barceus, reduzidos pelos Persas à servidão, foram enviados do Egito a Dario, que lhes deu terras na Bactriana, juntamente com um burgo que ainda hoje subsiste e o denominaram Barcéia, nome de sua pátria.

CCV — Ferétima teve um fim trágico. Mal havia chegado à Líbia, de regresso do Egito, depois de ter-se vingado dos Barceus, pereceu miseravelmente, devorada pelos vermes que formigavam no seu corpo, o que prova que os deuses repelem e castigam os que levam muito longe seus ressentimentos.


 

LIVRO V

TERPSÍCORE

CONTINUAÇÃO DA HISTÓRIA DE DARIO — ATENAS E ESPARTA — OS PISISTRÁTIDAS — CLEÓMENES — AS ESTÁTUAS DE EGINA — ORIGEM DA INIMIZADE ENTRE OS ATENIENSES E OS EGINETAS — CÍPSELO, TIRANO DE CORINTO — HÍPIAS — TOMADA DE SARDES PELOS IÔNIOS E PELOS ATENIENSES — DARIO LANÇA UMA FLECHA CONTRA O CÉU, PEDINDO AOS DEUSES QUE O VINGUEM DOS ATENIENSES — TODAS AS CIDADES DO HELESPONTO, DA IÔNIA E DA EÓLIA SUBMETIDAS PELOS PERSAS, ETC.


 

I — As tropas persas que Dario havia deixado na Europa sob o comando de Megabizo subjugaram primeiramente, entre os povos do Helesponto, os Períntios, que se recusaram a obedecer a seu soberano. Os Peônios, que vivem às margens do Estrímon, tinham, antes, movido guerra contra os Períntios, em conseqüência de um oráculo, que os concitara a marchar contra esse povo e atacá-los, se, quando os dois exércitos se defrontassem, os Períntios os provocassem chamando-os pelos nomes, devendo, porém, absterem-se de qualquer atitude agressiva se tal não se desse. Os Peônios obedeceram. Os Períntios, tendo assentado acampamento diante da cidade e frente a frente com os Peônios, desafiaram-nos a três combates singulares; um, de um homem contra outro; o segundo, de um cavalo contra outro, e o terceiro, de um cão contra outro cão. Obtiveram supremacia nos dois primeiros combates, e, desvanecidos com essa vantagem, puseram-se a entoar o Péon(1). Foi quando os Peônios, conjecturando que era exatamente isso que o deus lhes havia dado a entender, e dizendo uns aos outros: “O oráculo já se cumpriu; cumpramos nós o nosso dever”, caíram sobre os adversários, que continuavam a entoar o hino, desbaratando-os por completo.

II — Tal foi a vantagem obtida pelos Peônios contra esse povo; mas, com relação aos persas de Megabizo, os Períntios lutaram valorosamente pela própria liberdade, só logrando o inimigo vencê-los pela superioridade numérica. Depois de submeter Perinto, Megabizo percorreu a Trácia com o seu exército, capturando todas as cidades e subjugando todos os povos, impondo-lhes o jugo persa, seguindo as ordens recebidas de Dario.

III — Os Trácios constituem, depois dos Indianos, a nação mais populosa da Terra. Se fossem governados por um único homem, ou se se mantivessem em estreita união, seriam, acredito, o mais poderoso de todos os povos. Tal união é, porém, impraticável, e isso os torna fracos. Possui, cada grupo, um nome diferente, segundo a região que habita. Todavia, adotam as mesmas leis e os mesmos costumes, com exceção dos Getas, dos Trausos e dos que habitam acima dos Crestônios.

IV — Já tive ocasião de me referir aos costumes dos Getas, que se dizem imortais. Quanto aos dos Trausos, são em tudo semelhantes aos dos outros Trácios, exceto com relação aos recém-nascidos e aos mortos. Quando nasce, entre eles, uma criança, os parentes, sentados em torno dela, enumeram os males a que está sujeita a natureza humana e lamentam, com gemidos, a sorte ingrata que fatalmente o acompanhará enquanto viver; mas, quando morre um deles, enterram-no alegremente, regozijando-se com a felicidade desse que acaba de libertar-se de tantos males.

V — Entre os povos que habitam a região ao norte do território dos Crestônios prevalece o costume de cada indivíduo possuir várias mulheres. Quando morre um deles, trava-se entre as viúvas acesa disputa para decidirem qual a que fora mais amada pelo morto, intervindo na contenda os amigos deste. Aquela em favor da qual é pronunciado um tão honroso julgamento recebe os elogios dos homens e das mulheres, depois do que seu mais próximo parente sacrifica-a sobre o túmulo do marido, enterrando-a com ele. As outras mulheres mostram-se profundamente magoadas com essa preferência, que para elas encerra uma grande afronta.

VI — Os outros Trácios adotam o costume de vender os filhos, com a condição de serem eles levados para fora do país. Não mantêm a menor vigilância sobre as filhas, deixando-as com a liberdade de entregar-se a quem melhor lhes pareça, mas conservam as esposas, que adquirem por alto preço dos pais, rigorosamente segregadas. Trazem estigmas no corpo(2), o que constitui um sinal de nobreza, sendo infamante não possuí-los. Nada mais belo para eles do que a ociosidade; nada mais honroso do que a guerra e a pilhagem, e nada mais desprezível do que o amanho da terra.

VII — Esses Trácios não adoram senão Marte, Baco(3) e Diana; mas os reis prestam particular culto a Mercúrio, do qual se julgam descendentes, e juram unicamente por esse deus.

VIII — Os funerais das pessoas ricas são realizados, entre eles, da seguinte maneira: o morto fica exposto às vistas dos parentes e amigos durante três dias, e depois de lhe haverem sacrificado toda sorte de animais, realizam um festim, sempre iniciado por copioso. pranto. Dão-lhe, em seguida, sepultura tal como se encontra, ou depois de o haverem queimado. Erguem um cômoro sobre a cova e celebram jogos de toda espécie, com distribuição de valiosos prêmios aos vencedores dos combates singulares.

IX — Nada se pode dizer com segurança sobre os povos que habitam ao norte da Trácia, mas a região situada além do Íster parece deserta e imensa, sendo habitada apenas pelos Siginos, segundo me informaram. As vestes dos Siginos assemelham-se muito às dos Medos. Os cavalos, nessa região, são pequenos e de pêlo longo, e não têm força suficiente para conduzir homens; mas atrelados a um carro deslocam-se com bastante ligeireza, razão por que esse povo faz amplo uso de carroças. Os Siginos confinam com os Venetos, que vivem no litoral do Adriático, e pretendem ser uma colônia dos Medos. Não posso compreender, entretanto, como os Medos conseguiram transplantar-se para essa região. Enfim, é possível que assim tenha sido. Os Ligúrios, situados além de Marselha, chamam siginos aos comerciantes, e os Cíprios assim denominam seus dardos.

X — Os Trácios asseguram que na região que fica além do Íster existe uma tal quantidade de abelhas, que nenhum ser humano se atreve a avançar mais para diante. Isso não me parece verossímil, uma vez que esses insetos não suportam frio intenso. Na minha opinião, é o rigor do clima que a torna inabitável. Eis o que se diz dessa região, cujo litoral foi submetido por Megabizo.

XI — Dario, atravessando o Helesponto, dirigiu-se para Sardes, onde, lembrando-se do serviço que lhe prestara Histeu e dos bons conselhos de Coes de Mitilene, mandou chamá-los a essa cidade, dispondo-se a recompensá-los com o que fosse de sua escolha. Histeu, que já era tirano de Mileto, contentou-se em pedir-lhe Mircina, cantão dos Edônios, onde tencionava construir uma cidade. Coes, que ainda não exercia poder algum, pediu-lhe a soberania de Mitilene. Obtendo ambos o que desejavam, retiraram-se.

XII — Um fato de que Dario foi testemunha levou-o a ordenar a Megabizo que transportasse os Peônios da Europa para a Ásia. Pigres e Mânties, ambos peônios, aspiravam tornar-se tiranos de sua pátria. Logo que Dario regressou à Ásia, dirigiram-se eles a Sardes, com a irmã, jovem e bela. Espreitando o momento em que o soberano se achava no bairro dos Lídios, enfeitaram a moça da melhor maneira possível e mandaram-na buscar água. Levava ela um vaso na cabeça, puxava o cavalo pela rédea, presa ao braço, enquanto com as mãos fiava o linho. Dario, vendo-a passar, pôs-se a observá-la com interesse, tanto mais que as suas maneiras diferiam dos costumes das mulheres persas, lídias, e mesmo das do resto da Ásia. Ordenou, então, a alguns dos seus guardas que a seguissem e observassem o que ela faria com o cavalo. Os guardas seguiram-na. A moça foi até o riacho, deu de beber ao cavalo e, enchendo de água o vaso, voltou pelo mesmo caminho, o vaso na cabeça, a rédea do animal enrolada no braço e manejando o fuso.

XIII — Espantado com a informação dos guardas e com o que ele próprio presenciara, Dario fez vir a moça à sua presença. Esta chegou acompanhada dos irmãos, que se mantiveram a certa distância, aguardando os acontecimentos. Dario interrogou-os sobre o país a que pertenciam, respondendo eles serem peônios e sua irmã aquela que ali estava. O soberano perguntou-lhes a razão de sua vinda a Sardes, que espécie de homens eram os Peônios e que parte da terra habitavam, respondendo eles que ali tinham vindo para oferecer-lhe seus serviços, e que a Peônia, com suas cidades, ficava situada às margens do Estrímon, rio não muito distante do Helesponto. Quanto ao seu povo, era originário dos Teucros, colônia de Tróia. O soberano quis ainda saber se as mulheres desse país eram todas assim, laboriosas como aquela jovem, respondendo eles prontamente que sim, pois com toda a sua manobra não visavam senão serem levados a essa resposta.

XIV — Diante disso, Dario enviou uma mensagem a Megabizo, que havia deixado na Trácia à frente de um exército, ordenando-lhe que fizesse sair os Peônios do seu país, conduzindo-os, com as mulheres e crianças, para a Ásia. Imediatamente, um correio dirigiu-se a toda brida para o Helesponto e, atravessando-o, chegou ao local onde se encontrava Megabizo, fazendo-lhe entrega da mensagem. O general, cientificado do desejo do seu soberano, obteve guias trácios e marchou incontinênti contra a Peônia.

XV — Ante a notícia de que os Persas vinham atacá-los, os Peônios dirigiram-se com suas forças para o litoral, convencidos de que o ataque viria daquele lado e decididos a repeli-lo por todos os modos; mas Megabizo, alertado de que eles guardavam, com todas as tropas, as passagens do lado do mar, enveredou pelas terras altas com os guias, e caindo de surpresa sobre as cidades, delas apoderou-se facilmente, tanto mais que encontrou-as quase desertas. Sabendo que as suas cidades se achavam em poder de Megabizo, os Peônios dispersaram-se sem mais demora e, regressando aos lares, renderam-se aos atacantes. Assim, uma parte dos Peônios, isto é, os Siropeônios, os Peoples, e os que habitam a região que se estende até o lago Prásias, viram-se arrancados de seus lares e transportados para a Ásia.

XVI — Os Peônios das cercanias do monte Pangeu, os Doberienses, os Agriães, os Odomantes e os Peônios do lago Prásias não puderam, a princípio, ser subjugados, a despeito das tentativas feitas por Megabizo. As habitações do último desses povos a que me referi são construídas sobre pilastras elevadas, enterradas no lago, ligadas à terra firme por uma ponte estreita, que é o único meio de acesso. Os habitantes erguiam outrora essas pilastras por meio de contribuição comum; mas, depois, ficou estabelecido por lei que cada homem devia trazer três delas do monte Orbeto, toda vez que desposasse uma mulher (a poligamia é permitida entre esse povo). Os habitantes armam suas habitações sobre as pranchas colocadas sobre as pilastras, com um alçapão que se abre sobre o lago; e para que as crianças não venham a cair pela abertura, amarram-nas pelo pé com uma corda. Em lugar de feno, dão aos cavalos e às bestas de carga, peixe, sendo este tão abundante no lago, que, lançando-se à água um cesto pelo alçapão, pode-se retirá-lo cheio de papraces e de tilons, as duas espécies mais numerosas ali.

XVII — Os Peônios subjugados foram levados para a Ásia, e Megabizo, concluída essa expedição, despachou para a Macedônia sete persas, detentores de altos postos no exército, para pedirem a Amintas terra e água em nome de Dario. Do lago Prásias à Macedônia não é grande a distância. Com efeito, a mina explorada pelos Macedônios e que passou a render mais tarde um talento por dia a Alexandre, confina com esse lago. Depois dessa mina fica o monte Disorum, e transpondo-se este, entra-se na Macedônia.

XVIII — Chegando à presença de Amintas, os emissários de Megabizo pediram-lhe terra e água em nome de seu soberano, sendo prontamente atendidos. Amintas hospedou-os em seu próprio palácio, oferecendo-lhes um magnífico banquete e tratando-os com a maior cordialidade. Findo o banquete, os emissários persas, já um tanto tocados pelo vinho, disseram a Amintas: “Senhor e hospedeiro nosso; nós, os Persas, quando damos um grande banquete costumamos fazer sentar ao nosso lado nossas concubinas e nossas jovens esposas. Já que nos recebeis com tanta cordialidade e magnificência e concedeis terra e água ao nosso soberano, por que não imitais, em tal ocasião, o costume dos Persas?” “Nossos costumes são outros — respondeu Amintas —, e não é uso, entre nós, as mulheres permanecerem entre os homens; mas como desejais ainda este testemunho de nossa deferência e sois nossos senhores, sereis obedecidos”. Assim dizendo, mandou vir as mulheres, dizendo-lhes que se sentassem lado a lado, em frente aos persas. Estes, encantados com a beleza das jovens, disseram a Amintas que não lhe ficava bem mantê-las assim tão afastadas e que, se elas tinham vindo para ficarem sentadas defronte deles, causando-lhes verdadeiro tormento para os olhos, seria melhor que ali não estivessem. Cedendo às circunstâncias, Amintas fê-las sentar-se ao lado de seus hóspedes. Elas obedeceram prontamente, e estes, excitados pelo vinho, levaram-lhes as mãos aos seios e tentaram abraçá-las.

XIX — Embora revoltado com o espetáculo que tinha diante dos olhos, Amintas aparentava tranqüilidade, tal o temor que lhe inspiravam os Persas: mas seu filho, Alexandre, ainda muito jovem e inexperiente, achando-se presente ao banquete, não pôde conter-se, dirigindo-se ao pai nestes termos: “Cedei às exigências da vossa idade, meu pai; ide repousar, não assistindo por mais tempo a tão deprimente espetáculo. Eu ficarei, e terei o cuidado para que nada falte aos nossos hóspedes”. Amintas compreendeu que o filho tinha na mente algum plano funesto. “Julgo notar pelas tuas palavras, meu filho — disse ele —, que estás um tanto perturbado pelo vinho e queres que eu me afaste para executares o que tens em mente; mas eu te conjuro a nada fazeres contra esses homens, para que não sejas a causa da nossa desgraça. Observa o seu procedimento, mas sem te exaltares. Cedo, apesar disso, às tuas instâncias, e retiro-me”.

XX — Logo que Amintas se retirou, Alexandre dirigiu a palavra aos persas: “Amigos, se desejais os favores de todas essas mulheres, ou somente de algumas dentre elas, basta dizer-me, e eu vos facilitarei em tudo que depender de mim. A hora já vai adiantada e noto que o vinho vos despertou a alegria. Permiti, pois, que elas tomem o seu banho de costume, voltando depois para junto de vós”.

Os persas aquiesceram. As mulheres saíram, e Alexandre mandou-as para os seus respectivos aposentos. Reunindo, em seguida, um grupo de jovens imberbes, fê-los vestir-se de mulher, armou-os de punhal e, voltando com eles à sala do banquete, disse aos hóspedes de seu pai: “Persas, acreditamos ter-vos oferecido um esplêndido banquete e servido o que possuíamos de melhor, contentando-vos com o que nos foi possível nesse sentido, e agora, para vos convencer de que vos dispensamos a maior consideração, trazemos a vós as nossas mães e nossas irmãs. Não deixeis, pois, de dar testemunho ao rei que vos enviou, do acolhimento cordial que vos dispensou um grego, príncipe da Macedônia. Agora, à mesa e ao leito!”. Dito isso, Alexandre ordenou a cada um dos macedônios que se sentasse junto de cada persa, procedendo como uma mulher; mas, no momento em que os persas tentaram tocar-lhes, os jovens massacraram-nos.

XXI — Assim pereceram os emissários de Megabizo e toda a sua comitiva, pois ali tinham ido acompanhados de grande número de criados, carros e bagagem, que desapareceram com eles. Pouco tempo depois os Persas fizeram um inquérito em torno do fato, mas Alexandre agiu com sagacidade, oferecendo, juntamente com grandes somas de dinheiro, sua irmã Gigéia em casamento a Bubares, um dos comissários nomeados para investigar o desaparecimento dos delegados de Megabizo, abafando, desse modo, os rumores em torno do assassínio dos mesmos.

XXII — Alexandre e seu pai são realmente gregos e descendentes de Pérdicas, como eles próprios o afirmam. Estou convencido disso, e o provarei no decorrer desta história. Aliás, os helanódicos, que presidem aos Jogos Olímpicos, assim decidiram quando Alexandre tomou a resolução de participar desses jogos, apresentando-se na liça. Os que disputavam o prêmio de corrida quiseram excluí-lo da prova, sob a alegação de que somente os Gregos deviam ser admitidos no torneio. Ficando, porém, provado ser ele árgio, consideraram-no grego; e quando se apresentou para disputar a prova do estádio, seu nome saiu sorteado, juntamente com o do primeiro concorrente.

XXIII — Chegando ao litoral do Helesponto com os Peônios que subjugara, Megabizo atravessou-o, atingindo Sardes. Informado de que Histeu de Mileto já erguia os muros da cidade denominada Mircina, sobre o Estrímon, com a qual o presenteara Dario como recompensa por haver guardado a ponte durante a expedição contra os Citas, logo que chegou dirigiu-se ao palácio do soberano, a quem falou nestes termos: “Que fizestes, senhor, permitindo a um grego hábil e sagaz assenhorear-se de uma cidade, numa região da Trácia onde há minas de prata e muita madeira própria para a fabricação de remos! Esse país, aliás, encontra-se cercado por grande número de Gregos e bárbaros, que, tomando-o por chefe, segui-lo-ão, a qualquer hora, aonde ele os queira conduzir. Reprimi, senhor, esse homem empreendedor, para evitardes o perigo de uma guerra civil. Chamai-o a vós com doçura, e quando ele estiver em vosso poder, impedi-o de retornar à Grécia”.

XXIV — Estas palavras, pronunciadas por um homem cuja visão penetrante perscrutava o futuro, convenceram facilmente Dario. O soberano enviou logo um correio a Mircina, com instruções para dizer a Histeu: “Histeu, o rei Dario fala-te pela minha boca: depois de muito pensar, cheguei à conclusão de que não poderei encontrar ninguém mais devotado a mim e ao meu governo do que tu. As tuas ações me têm dado prova disso. Encontro-me atualmente empenhado em grandes projetos, e a tua presença aqui me é absolutamente necessária. Espero-te para te comunicar as minhas resoluções”.

Histeu, lisonjeado com essa declaração e sentindo-se honrado por admiti-lo o soberano como seu conselheiro, veio a Sardes, dizendo-lhe Dario, assim que o viu em sua presença: “Mandei chamar-te porque, desde o meu regresso da Cítia, tenho sentido a tua ausência, não desejando outra coisa senão rever-te e confabular contigo, convencido de que um amigo prudente e zeloso dos nossos interesses é o mais precioso dos bens. Ora, notei em ti essas duas qualidades, e folgo com a tua vinda. Escuta, agora, o que te vou propor: Deixa Mileto e a nova cidade que construíste na Trácia, e acompanha-me a Susa; partilharás de todos os meus bens, comerás à minha mesa e serás meu conselheiro”.

XXV — Pouco depois, partia Dario para Susa, levando Histeu consigo, tendo antes nomeado Artafernes, seu irmão por parte de pai, governador de Sardes, e Otanes comandante das costas marítimas. Este último era filho de Sisanés, um dos juízes reais que Cambises mandara executar e esquartejar, por ter-se deixado subornar. Tinham-lhe, em seguida, cortado a pele em tiras, recobrindo com ela a cadeira onde ele exercia a magistratura. Consumado o castigo, Cambises deu ao filho o lugar do pai, dizendo-lhe que se lembrasse sempre, ao ministrar a justiça, da cadeira em que se sentava.

XXVI — Foi, pois, esse Otanes que sucedeu Megabizo no comando do exército persa na Europa. Tomou Bizâncio, a Calcedônia e Lampônia, e tornou-se senhor de Antandro, na Tróada. Os Lésbios deram-lhe, em seguida, navios, com os quais ele subjugou Lemnos e Imbros, até então habitadas por Pelasgos.

XXVII — Os Lémnios combateram corajosamente, defendendo-se com galhardia, mas acabaram por sucumbir. Os Persas deram para governador dos que sobreviveram ao desastre Licaretes, irmão de Meândrio, que havia reinado em Samos. Licaretes morreu à testa do governo que lhe fora confiado.

Otanes subjugou todos esses povos, reduzindo-os à escravidão, acusando-os, uns, de não terem auxiliado os Persas na expedição contra os Citas; outros, de haverem acossado o exército de Dario ao regressar da Cítia. Tal a sua conduta enquanto comandava nessa região.

XXVIII — Foi de curta duração o repouso de que desfrutou em seguida a essas conquistas. Os Iônios experimentaram novas provações, resultantes de desinteligências na ilha de Naxos e na cidade de Mileto. Naxos era, então, a mais rica de todas as ilhas, e a cidade de Mileto atingia um grau de progresso nunca antes experimentado, sendo considerada um verdadeiro ornamento da Iônia. Muito tinha sofrido com as dissensoes intestinas provocadas pelas duas gerações precedentes, mas os Pários haviam restabelecido a união e a concórdia, a pedido dos Milésios, que os haviam escolhido, de preferência aos Gregos, como mediadores.

XXIX — Eis como os Pários conseguiram a harmonia desejada: Seus deputados, pessoas eminentes e de alta reputação, notando, logo ao chegarem, a situação deplorável reinante em Mileto, manifestaram o desejo de percorrer o território. Iniciaram a peregrinação, e quando encontravam, por entre terras devastadas, um campo bem cultivado, anotavam, por escrito, o nome do proprietário. Depois de haverem percorrido toda a região, assinalando apenas um pequeno número de terrenos em bom estado, retornaram à cidade, convocaram a assembléia do povo e nomearam para a gerência dos negócios do Estado aqueles que possuíam campos bem cultivados. Acreditavam, explicaram eles, que tais proprietários teriam com os negócios públicos o mesmo cuidado que tinham com suas terras. Feita a escolha, concitaram a todos, até então empenhados em discórdias, a reconhecê-los como seus magistrados e a obedecê-los. Foi assim que esses deputados de Paros restabeleceram a harmonia em Mileto.

XXX — Os males que afligiram a Iônia vieram-lhe, como já dissemos, dessas duas cidades, originando-se do seguinte fato: Alguns dos mais ricos cidadãos de Naxos, exilados pelo povo, retiraram-se para Mileto, que tinha como governador Aristágoras, filho de Molpágoras, genro e primo de Histeu, filho de Liságoras, que Dario levara em sua companhia para Susa e que ali se achava quando os exilados de Naxos, seus amigos, foram ter a Mileto. Ali chegando, os Náxios pediram a Aristágoras que os auxiliasse a retornar à pátria, mas o governador, refletindo e concluindo que se lhes facultasse os meios para isso passariam a gozar de suprema autoridade em Naxos, tomou por pretexto a aliança que eles mantinham com Histeu, falando-lhes nestes termos: “Não posso conceder-vos as forças necessárias para vos restabelecer em Naxos, porquanto estou informado de que as tropas náxias são em número de oito mil, muito bem armadas, dispondo ainda de vários navios de guerra; mas farei o possível para servir-vos, e eis o meio que me ocorre: Artafernes, filho de Histaspes e irmão de Dario, é meu amigo. Governa ele toda a costa marítima da Ásia, tendo às suas ordens um grande exército e uma poderosa frota. Penso que poderá atender-vos”.

Diante disso, os náxios se empenharam junto a Aristágoras no sentido de obterem a cooperação de Artafernes, comprometendo-se a fornecer mantimentos para as tropas e a recompensá-lo, pois estavam seguros de que, logo que surgissem em Naxos, os habitantes se submeteriam, juntamente com os outros insulares. Com efeito, nenhuma das ilhas que compunham as Cíclades reconheciam, então, o poderio de Dario.

XXXI — Dirigindo-se a Sardes, Aristágoras expôs a Artafernes as razões que ali o levavam, fazendo-o ver que, se a ilha de Naxos não possuía grande extensão, era pelo menos fértil, de clima agradável e rica em prata e em escravos, estando situada nas vizinhanças da Iônia. “Envia para ali tropas com os exilados — disse-lhe ele. — Tuas despesas serão compensadas, e se concordas com a minha proposta, estou pronto a fornecer-te os fundos consideráveis de que disponho; pois é justo que, como autores da empresa, arquemos com as despesas. De resto, tornar-te-ás rei e senhor de Naxos e das ilhas dela dependentes, tais como Paros, Andros e outras Cíclades. Dali poderás facilmente atacar a Eubéia, ilha vasta e rica, não menor do que a de Chipre e cuja conquista não será difícil. Cem navios bastarão”.

“Tuas propostas — respondeu Artafernes — são muito vantajosas para o rei e teu conselho excelente; e nada tenho a acrescentar senão no tocante ao número de navios. Em lugar de cem, terás duzentos, prontos a abrir vela no começo da Primavera, mas precisamos obter também o consentimento do rei”.

XXXII — Aristágoras regressou a Mileto radiante com essa resposta. Quanto a Artafernes, logo que obteve a aprovação do rei ao seu projeto, mandou equipar duzentos trirremes e levantou um poderoso exército composto de tropas persas e aliadas, entregando o comando a Megabates, persa de nascimento e da dinastia dos Aquemênidas, primo seu e de Dario. Sua filha, ao que se diz, foi escolhida para noiva de Pausânias, filho de Cleômbroto, rei da Lacedemônia, que desejava ardentemente tornar-se tirano da Grécia. Artafernes nomeou-o general e o enviou a Aristágoras à frente do exército.

XXXIII — Megabates, embarcando em Mileto com Aristágoras, os Iônios e os exilados de Naxos, fingiu que se dirigia para o Helesponto; mas, passando pela ilha de Quios, foi aportar nas Caucásicas, de onde seguiria para Naxos, aproveitando o vento norte. Como, porém, aquela frota não deveria ser funesta aos Náxios, sobreveio um acontecimento que os livrou da ruína. Megabates, inspecionando as sentinelas a bordo, não encontrou nenhuma a postos num dos navios mindenses. Irritado ante tal negligência, ordenou a seus guardas que fossem à procura do capitão do navio, de nome Silax, e que lhe passassem a cabeça por uma das aberturas dos remos, de maneira a ficar ele com o corpo para dentro e a cabeça para fora da embarcação. Informado do castigo infamante que Megabates infligira ao seu hóspede de Minde, Aristágoras foi imediatamente pedir-lhe que reconsiderasse o seu ato, e, não sendo atendido, dirigiu-se ao navio de Silax e libertou-o ele próprio. Furioso por ver contrariadas as suas ordens, Megabates fez-lhe sentir a sua revolta. “Que tens tu com isso? — replicou-lhe Aristágoras — Artafernes não te enviou para me obedeeeres, navegando para onde quer que eu te ordene? Por que te envolves com o que não te diz respeito?”

Sentindo-se humilhado com a réplica de Aristágoras, Megabates, logo ao cair da noite, mandou advertir os Náxios do perigo que os ameaçava.

XXXIV — Os Náxios, alertados sobre a ameaça que pairava sobre suas cabeças, puseram-se em movimento, levando para a cidade tudo que tinham no campo, abastecendo-a de víveres e de vinho. Em seguida fortificaram as muralhas e nelas se postaram em atitude de defesa, como quem espera um cerco. Entretanto, os Persas passaram-se da ilha de Quios para a de Naxos, cercaram a cidade, que encontraram muito bem fortificada, e atacaram-na seguidamente durante quatro meses. Quando viram esgotados todos os recursos em dinheiro e mantimentos, não podendo, assim, manter o cerco, ergueram na ilha uma fortaleza para os exilados e retiraram-se para o continente, considerando fracassada a empresa.

XXXV — Impossibilitado de cumprir a promessa feita a Artafernes, Aristágoras não sabia como adquirir os subsídios para o soldo reclamado pelas tropas. Além disso, receava o descontentamento dessas tropas e o ressentimento de Megabates, e já começava a temer que a soberania de Mileto lhe fosse arrebatada. Foi quando chegou de Susa um correio concitando-o a tomar armas. A ordem vinha escrita na cabeça do portador. Histeu, querendo pedir a Aristágoras que se sublevasse de armas na mão contra Dario, servira-se desse meio, que considerou o mais seguro, pois todos os caminhos estavam rigorosamente guardados. Mandando raspar a cabeça do mais fiel de seus escravos, nela imprimiu a mensagem a Aristágoras e esperou que os cabelos do servo crescessem novamente. Quando os viu crescidos, enviou-o a Mileto, recomendando-lhe apenas que dissesse a Aristágoras que lhe raspasse a cabeça e a examinasse com atenção. Essa mensagem, como já disse, concitava-o à revolta. Histeu tomara essa resolução por sentir-se desesperado pelo fato de Dario retê-lo em Susa, e alimentava a esperança de, no caso de uma revolta em Mileto, o soberano enviá-lo para prender Aristágoras. Já se convencera de que, se não suscitasse distúrbios naquela cidade, nunca mais voltaria a ela.

XXXVI — A chegada do correio ao palácio de Aristágoras coincidiu com os acontecimentos que acabo de narrar. Tomando conhecimento da mensagem, Aristágoras reuniu seus amigos, fê-los sabedores da sugestão de Histeu e expôs-lhes sua opinião a respeito. Todos o exortaram a sacudir o jugo persa, com exceção de Hecateu, que procurou dissuadi-lo da idéia, mostrando-lhe o poderio de Dario e enumerando-lhe todos os povos a ele submetidos. Não conseguindo convencê-lo, declarou-lhe que o único meio de obter êxito na empresa seria conquistar o domínio do mar, porquanto as forças de Mileto não eram consideráveis, acrescentando que isso poderia ser obtido se ele, Aristágoras, lograsse arrebatar do templo dos Brânquidas as riquezas que Creso, rei da Lídia, lhes havia ofertado, utilizando-as nesse empreendimento e impedindo, ao mesmo tempo, que os Persas as pilhassem. Esse tesouro era realmente prodigioso, como fiz ver na primeira parte desta História.

A opinião de Hecateu não prevaleceu, muito embora Aristágoras e seus outros amigos não deixassem de revoltar-se. Iniciadas as hostilidades, os revoltosos decidiram enviar um deles a Miunte, por mar, para tentar aprisionar os comandantes da frota, que se achava naquele porto desde seu regresso de Naxos.

XXXVII — Iatrágoras, o escolhido para o audaz empreendimento, numa manobra hábil apoderou-se de Oliates, filho de Ibanólis, tirano de Mílasos; de Histeu, filho de Timnes, tirano de Termera; de Coes, filho de Erxandres, a quem Dario havia dado Mitilene; de Aristágoras, filho de Heraclides, tirano de Cime, e de vários outros.

Assim, Aristágoras revoltou-se abertamente contra Dario, causando-lhe os maiores danos e trazendo-lhe grandes dificuldades. Demitindo-se aparentemente do cargo de governador, restabeleceu a igualdade em Mileto, a fim de captar as simpatias dos Milésios e levá-los a apoiá-lo no movimento. Em seguida, expulsou os tiranos do resto da Iônia, e, para conseguir o apoio integral daqueles povos, entregou-lhes os que havia aprisionado nos navios, mandando reconduzi-los às suas respectivas cidades.

XXXVIII — Os Mitilenos, logo que tiveram Coes nas mãos, supliciaram-no e apedrejaram-no. Os Cimeus expulsaram o seu tirano, exemplo esse imitado pela maioria das outras cidades, sendo a tirania abolida na Iônia. Logo depois, Aristágoras de Mileto ordenava a cada cidade a instituição de estrategos; e, embarcando num trirreme, dirigiu-se à Lacedemônia, pois tinha necessidade de conseguir uma grande aliança.

XXXIX — Anaxandrides, filho de Leão, rei de Esparta, tinha morrido. Em seu lugar reinava Cleómenes, seu filho, que obtivera a coroa menos por suas belas ações do que por direitos de nascimento. Anaxandrides desposara uma filha de sua irmã, da qual não conseguia ter filhos. Os éforos interrogaram-no um dia com relação à esterilidade desse matrimônio, acabando por dizer-lhe: “Se não tens nenhum interesse pessoal nisso, nós outros não devemos deixar que, por negligência tua, se finde a raça de Eurístenes. Abandona a mulher que desposaste, já que ela não te dá filhos, e une-te a outra. Esse procedimento agradará aos Espartanos”. Anaxandrides respondeu-lhes que não faria nem uma coisa nem outra; que sua esposa era uma criatura irrepreensível, e que, por conseguinte, não poderia aceitar semelhante conselho.

XL — Os éforos, depois de haverem discutido essa resposta com os senadores, disseram-lhe: “Já que te sentes tão ligado à tua mulher, aceita ao menos a sugestão que te vamos fazer, a fim de que, com a tua teimosia, não forces os Espartanos a tomarem uma resolução desagradável contra ti. Não propomos que abandones tua mulher. Continua a ter a mesma consideração para com ela, mas une-te a uma outra da qual possas ter filhos”. Anaxandrides concordou, passando a ter duas mulheres e duas casas, contra os costumes de Esparta.

XLI — Pouco tempo depois, a segunda mulher deu à luz Cleómenes, a que fizemos menção, sendo por ela apresentado aos Espartanos como herdeiro presuntivo da coroa. Acontece, porém, que a primeira esposa, que até então se mostrara estéril, concebeu também, dando origem ao seguinte fato: os pais da segunda esposa, alarmados com a notícia, que vinha transtornar seus planos de sucessão, espalharam o boato de que a primeira se dizia grávida apenas porque sentia o maior desejo de possuir um filho. Como isso despertasse indignação entre os Espartanos, os éforos, que dela suspeitavam, decidiram vigiá-la durante o parto. Nasceu primeiro Dorieu, depois Leônidas e depois Cleômbroto. Alguns dizem que Leônidas e Cleômbroto eram gêmeos. Quanto à segunda mulher, mãe de Cleómenes, filha de Prinetade e neta de Demarmenes, não teve nenhum outro filho.

XLII — Dizem que Cleómenes não era de espírito muito equilibrado, afirmando-se mesmo que era louco. Dorieu, ao contrário, distinguia-se entre todos os jovens de sua idade, persuadido de que sua coragem e seus méritos o levariam ao trono. Imbuído dessa convicção, encheu-se de revolta quando os Lacedemônios, depois da morte de Anaxandrides, segundo as leis do país elegeram rei a Cleómenes, o filho mais velho. Não querendo sujeitar-se às ordens do novo soberano, Dorieu reuniu um grupo de homens e deixou o país para ir fundar algures uma colônia. Sentia-se tão indignado por se ver preterido, que embarcou para a Líbia sem ao menos consultar o oráculo sobre o lugar onde deveria estabelecer-se e sem observar nenhuma das cerimônias adotadas em tais ocasiões. Ali chegando em companhia dos tereus que lhe serviram de guias, estabeleceu-se em Cinips, belo cantão da Líbia, às margens do rio do mesmo nome; mas sendo dali expulso ao cabo de três anos, pelos Mácios, povo de origem líbia, e pelos Cartagineses, voltou para o Peloponeso.

XLIII — Chegando ao Peloponeso, ali encontrou Anticares de Eleu, que o aconselhou, segundo os oráculos concedidos a Laio, a fundar uma colônia na Sicília Heracléia, porque o país de Erix pertencia, dizia ele, inteiramente aos Heraclidas, por aquisição feita por Hércules. Diante disso, Dorieu foi consultar o oráculo de Delfos, para saber se se tornaria senhor do país para o qual estava prestes a partir. Tendo a pitonisa respondido afirmativamente, fez-se ao mar com a frota que havia trazido da Libia e contornou as costas da Itália.

XLIV — Os Sibaritas dispunham-se então, como eles próprios relatam, a marchar com Télis, seu rei, contra a cidade de Crotona. Acrescentam que os Crotonienses, apavorados, solicitaram o auxílio de Dorieu, e que este, tendo aquiescido, atacou com eles a cidade de Síbaris(4), capturando-a. Foi assim que se conduziram com relação aos Sibaritas, Dorieu e os que o tinham acompanhado. Os Crotonienses afirmam, todavia, não se terem valido, na guerra contra os Sibaritas, do auxílio de nenhum outro estrangeiro senão de Cálias de Eléia. Esse adivinho, da raça dos lâmidas, tendo escapado de Télis, tirano de Síbaris, que o queria eliminar por não lhe ter ele pressagiado nada de favorável na guerra contra Crotona, refugiara-se nesta última cidade.

XLV — Em apoio do que afirmam, ambos os povos apresentam provas que ainda hoje subsistem. Os Sibaritas apresentam, de um lado, o bosque sagrado e o templo que Dorieu mandou erguer junto ao leito seco do Crátis, a Minerva Cratiana, depois de haver tomado a cidade com os Crotonienses; do outro, a morte de Dorieu, sendo esta a mais forte prova que eles poderiam apresentar, pois Dorieu foi morto por ter agido contra as determinações do oráculo. Se em vez de desobedecê-las, as tivesse cumprido, ter-se-ia apoderado do país de Erix, tê-lo-ia mantido sob o seu domínio e não perecido juntamente com o seu exército. Os Crotonienses, por sua vez, apresentam como prova as terras que deram a Cálias de Eléia. Nada ofereceram de semelhante, nem a Dorieu, nem aos seus descendentes. Se dele houvessem, realmente, recebido auxílio na luta contra os Sibaritas, de certo não deixariam de beneficiá-lo muito mais do que a Cálias.

XLVI — Alguns outros espartanos, tais como Téssalo, Parebates, Céleo e Euríleo tinham-se reunido a Dorieu para irem fundar uma colônia. Ao chegarem à Sicília, com toda a frota, foram atacados pelos Fenícios e pelos habitantes de Egesta, perecendo todos na luta, com exceção de Euríleo. Este reuniu o que restou da expedição, apoderou-se de Mínoo, colônia de Selinunte, e libertou os Selinúncios do tirano Pitágoras, de cujo trono se apoderou. Todavia, não reinou durante muito tempo. Os próprios Selinúncios sublevaram-se e imolaram-no junto ao altar de Júpiter Agoreu, onde ele se havia refugiado.

XLVII — Filipe, filho de Butacides, cidadão de Crotona, também acompanhou Dorieu, perecendo com ele. Havia sido banido de Crotona por ter querido casar-se com a filha de Télis, tirano de Síbaris. Obrigado a deixar a cidade, embarcou para Cirene, de onde partiu num trirreme de sua propriedade, para juntar-se à frota de Dorieu, levando consigo um bom número de soldados mercenários. Filipe havia conquistado prêmios nos Jogos Olímpicos, sendo considerado o mais belo homem da Grécia no seu tempo. Devido à sua beleza, os habitantes de Egesta tributaram-lhe honras até então nunca prestadas a ninguém ali. Sobre a sua sepultura ergueram uma capela, como a um herói, onde lhe ofereciam sacrifícios, pedindo sua proteção.

XLVIII — Assim morreu Dorieu. Se tivesse permanecido em Esparta, ainda que sob o domínio de Cleómenes, teria sido rei da Lacedemônia. Cleómenes reinou pouco tempo, morreu sem deixar filhos varões, tendo apenas uma filha de nome Gorgo(5).

XLIX — Aristágoras, tirano de Mileto, chegou, pois, a Esparta, quando Cleómenes ocupava o trono. Ali fora para um colóquio com ele, como dizem os Lacedemônios. Tendo na mão um pedaço de cobre, no qual estava gravado o globo terráqueo com todos os mares e rios, assim se dirigiu ao soberano: “Não vos surpreendais, senhor, de eu me haver apressado a vir aqui. É um assunto urgente. Trata-se da liberdade dos Iônios. Se a escravidão desse povo é para nós um opróbrio, um motivo de dor, com muito mais razão o será para vós, que sois os primeiros dos Gregos. Eles são vossos parentes; são vossos irmãos; libertai-os da escravidão, eu vos conjuro em nome dos deuses gregos. Não se trata de uma empresa difícil. Os bárbaros não são belicosos, e vós, pelo vosso valor, atingistes a maior glória que se pode almejar no campo da luta. Eles lutam apenas com arco e dardos curtos; combatem com trajes que dificultam seus movimentos, e conservam a tiara na cabeça, o que faz com que sejam facilmente vencidos. Os povos desse continente são mais ricos do que todos os outros juntos, possuindo em abundância ouro, prata, cobre, tecidos de diversas cores, animais de carga e escravos. Tudo isso será vosso, se assim o quiserdes. Suas terras confinam umas com as outras, como vos mostrarei em seguida. Os Lídios são vizinhos dos Iônios, e suas terras férteis e muito ricas em prata”. Assim dizendo, mostrou-lhe o mapa da terra traçado na prancha de cobre. “Os Frígios ficam a leste — continuou Aristágoras —; confinam com os Lídios. Seu país é, de todos os que conheço, o mais rico em rebanhos e frutos. Vêm, em seguida, os Capadócios, a que chamamos Sírios, e depois os Cilicienses, que se estendem até este mar aqui, onde está situada a ilha de Chipre. Esses povos pagam ao rei um tributo anual de quinhentos talentos. Seguem-se os Armênios, possuidores de grandes manadas. Limitam-se com os Macianos e ocupam este país, que confina com a Císsia, banhada pelo Coaspes, onde está situada a cidade de Susa, residência do rei e onde se acham os seus tesouros. Se conquistardes essa cidade, podereis rivalizar em riqueza com o próprio Júpiter. Por que, pois, bater-vos contra os Messênios, que vos são iguais em força; contra os Arcádios e os Árgios, por um pequeno país que nem mesmo é fértil, apenas para dilatar um pouco os limites do vosso território? Esses povos não possuem nem ouro nem prata; e são esses metais que excitam a nossa ambição e nos levam a arriscar a vida nos combates. Tendes agora uma oportunidade para vos apoderardes da Ásia inteira. Que de melhor poderíeis desejar?” Assim falou Aristágoras. “Meu amigo — disse-lhe Cleómenes —, dar-te-ei uma resposta dentro de três dias”.

L — No dia fixado para a resposta, reuniram-se os dois novamente para reatarem as conversações. Cleómenes perguntou então a Aristágoras quantos dias de viagem marítima havia do mar que banha as costas da Iônia à cidade de Susa, residência real. Aristágoras, que até ali tinha conseguido, com grande habilidade, enganar Cleómenes, cometeu um grave erro, que deitou por terra os seus planos. Em vez de continuar dissimulando a verdade, já que o seu propósito era atrair os Espartanos para a Ásia, deu-lhe a distância exata, dizendo que havia três meses de viagem até lá. Cleómenes interrompeu-o logo, sem permitir-lhe dizer o que desejava sobre essa viagem: “Meu amigo, se estás propondo aos Lacedemônios uma jornada de três meses além dos mares, isso não lhes será, de maneira alguma, agradável. Abandona Esparta antes do pôr do sol”.

LI — Assim dizendo, Cleómenes retirou-se para o interior do palácio. Aristágoras seguiu-o, tendo na mão um ramo de oliveira, e, alcançando-o quando já transpunha seus aposentos particulares, pediu-lhe, suplicante, que o escutasse e que fizesse sair dali sua filha Gorgo, de oito a nove anos de idade, filha única do soberano, e que na ocasião se encontrava no recinto. Cleómenes autorizou-o a dizer o que quisesse, pois a presença daquela criança nenhum embaraço deveria causar-lhe. Então Aristágoras prometeu-lhe dez talentos de prata se acedesse ao seu pedido, e ante a recusa de Cleómenes, aumentou a soma, chegando a oferecer-lhe cinqüenta talentos. Foi quando a pequena Gorgo gritou: “Fugi, meu pai, fugi; este estrangeiro está querendo corromper-vos”. Encantado com esse conselho, Cleómenes passou para outro aposento, e Aristágoras viu-se obrigado a deixar Esparta, sem ter tido ocasião de dar a conhecer ao soberano o caminho que leva do mar à residência real.

LII — Vêem-se, ao longo dessa estrada, habitações reais e belas hospedarias. A estrada oferece toda segurança e atravessa regiões densamente povoadas, servindo também à Líbia e à Frígia, onde existem vinte outras habitações reais. Saindo da Frígia, encontra-se o Hális, cuja travessia é feita, naquele ponto, através de pontes. Vê-se também ali um forte de tamanho considerável. Da Capadócia à fronteira da Cilícia há, por essa estrada, vinte e oito dias de viagem. Para atingir-se a fronteira, passa-se por dois desfiladeiros e dois grandes fortes. O Eufrates, cuja travessia e feita ali em batéis, serve de limite a essa região, separando-a da Armênia. Depois de percorrermos cinqüenta e seis parasangas e meia pelo interior desse país, encontramos quinze habitações reais, que estão sempre guardadas por tropas. O país é banhado por quatro rios navegáveis, sendo o primeiro deles o Tigre; o segundo e o terceiro têm o mesmo nome, embora sejam diferentes e não venham do mesmo país; um nasce na Armênia, e o outro no país dos Macianos. O Gindo, que Ciro dividiu em trezentos e sessenta canais, é o quarto rio. Da Armênia à Maciana há uma distância de quatro dias de jornada. Vem, em seguida, a Císsia, que pode ser atravessada em onze dias, numa distância de quarenta e duas parasangas, até o Coaspes, sobre o qual fica a cidade de Susa.

LIII — Se a medida da estrada real por parasangas é exata, e se avaliarmos a parasanga em trinta estádios, a que realmente corresponde, temos que, de Sardes ao palácio real de Mémnon, há treze mil e quinhentos estádios, ou quatrocentas e cinqüenta parasangas. A cento e cinqüenta estádios por dia, essa jornada é precisamente de noventa dias.

LIV — Aristágoras de Mileto tinha, pois, razão de dizer a Cleómenes, rei da Lacedemônia, que havia três meses de jornada até Susa, residência real. Mas se quisermos calcular com maior exatidão, devemos juntar a essa estrada a que vai de Éfeso a Sardes. Assim, do mar dos Gregos a Susa (nome que tem a cidade de Mémnon) contamos quatorze mil e quarenta estádios, pois há quinhentos e quarenta de Éfeso a Sardes. Com essa adição, a jornada de três meses se prolonga por mais três dias.

LV — Deixando Esparta, Aristágoras dirigiu-se a Atenas, que acabava de recuperar a liberdade da maneira que passo a expor. Hiparco, filho de Pisístrato e irmão do tirano Hípias, teve, em sonho, uma visão que augurava sua desgraça, sendo, pouco depois, assassinado por Aristogíton e Harmódio, gefireus de origem; mas os Atenienses, longe de se tornarem livres com o seu desaparecimento, continuaram a ser governados, durante quatro anos, de um modo ainda mais tirânico do que antes.

LVI — Eis a visão que Hiparco teve em sonhos: na primeira noite das Panatenéias(6), julgou ver, enquanto dormia, um homem de grande beleza e esbelto, de pé, diante dele, a recitar-lhe estes versos enigmáticos: “Leão, aceita corajosamente tua sorte desgraçada; homem nenhum pode evitar a punição que merece pelas injustiças cometidas”.

Logo ao nascer do dia, comunicou ele a visão aos intérpretes de sonhos; e depois de fazer expiações para conjurar as conseqüências, conduziu a procissão solene, na qual perdeu a vida.

LVII — Os Gefireus, dos quais descendiam os assassinos de Hiparco, eram, como eles próprios se dizem, originários da Erétria; mas, nas pesquisas que realizei, descobri serem eles de origem fenícia, pertencendo ao número dos que acompanharam Cadmo, quando este veio estabelecer-se no país conhecido atualmente por Beócia, tendo-lhes sido dado em partilha o território de Tânagra. Os Cadmeus foram os primeiros a serem expulsos pelos Árgios. Logo em seguida, os Gefireus o foram pelos Beócios, indo para junto dos Atenienses, que os admitiram no número dos seus concidadãos, recusando-lhes, porém, alguns direitos, que não merecem menção.

LVIII — Os Fenícios que haviam acompanhado Cadmo e no número dos quais figuravam os Gefireus, introduziram na Grécia, durante sua permanência nesse país, vários conhecimentos, entre eles os alfabetos que eram, na minha opinião, até então desconhecidos no país. A princípio, os Gregos fizeram uso dos caracteres fenícios, mas, com o correr do tempo, as letras foram-se modificando com a língua e tomaram outra forma. Como os países circunvizinhos fossem, então, ocupados pelos Iônios, estes adotaram os caracteres fenícios, com ligeiras modificações. Achavam justo que lhes dessem o nome de caracteres fenícios, por terem sido introduzidos pelos fenícios da Grécia. Os Iônios chamam, também, por um antigo costume, os livros de difteres(7), porque outrora, quando o biblos era raro, escrevia-se em pele de cabra e de carneiro. Ainda há muitos bárbaros que escrevem em tais peles.

LIX — Eu mesmo tive ocasião de ver em Tebas, na Beócia, letras cadméias no templo de Apolo Ismênio. Estão gravadas nos tripés, e assemelham-se muito às letras iônias. Num dos tripés vê-se esta inscrição: “Anfitrião ma dedicou por ocasião do seu regresso do país dos Telebeus”. Esta inscrição bem poderia ser do tempo de Laio, filho de Lábdaco, cujo pai era Polidoro, filho de Cadmo.

LX — Lê-se no segundo tripé, em hexâmetros: “Céu, vitorioso no pugilato, dedicou-me a Apolo, cujas flechas vinham de longe, para lhe servir de ornamento”. Esse Céu devia ser filho de Hipocoonte, contemporâneo de Édipo, filho de Laio, se realmente foi ele quem consagrou o tripé e não outro do mesmo nome.

LXI — A inscrição do terceiro tripé diz também em hexâmetros: “O tirano Laodamas(8) dedicou este tripé a Apolo, para lhe servir de ornamento no templo”. No reinado desse príncipe, filho de Etéocles, os Cadmeus, expulsos pelos Árgios, refugiaram-se no país dos Enqueleus. Os Gefireus sentiram-se, então, tranqüilos; mas, pouco depois, os Beócios obrigavam-nos a retirar-se para Atenas. Ali construíram templos, que os Atenienses, aliás, nunca freqüentaram, e que nada têm de comum com os outros templos da cidade, sobretudo o de Ceres Aquenéia.

LXII — Já sabemos qual a visão que teve Hiparco em sonhos e a origem dos Gefireus, de onde se originaram os assassinos daquele príncipe. Vejamos agora como os Atenienses foram libertados da tirania.

Indignado com a morte do irmão, Hípias começou a governar com o máximo rigor. Os Alcmeônidas, atenienses de origem, banidos por Pisístrato, tentaram retornar à força, juntamente com outros exilados, sofrendo, porém, fragorosa derrota. Com os seus companheiros de exílio haviam fortificado Lipsídrion, situada ao norte da Peônia, e, empregando todos os meios para destruir os adeptos de Pisístrato, empenharam-se junto aos anfictiões(9) para a construção, por determinado preço, do templo que se vê atualmente em Delfos(10). Esses exilados, de ilustre linhagem e possuidores de grandes riquezas, fizeram desse templo uma verdadeira maravilha, e, embora houvessem combinado não empregar mármore comum na sua construção, ergueram a fachada com mármore de Paros.

LXIII — Encontrando-se em Delfos, esses Alcmeônidas concitaram a pitonisa, à força de dinheiro, segundo afirmam os Atenienses, a sugerir a todos os espartanos que viessem consultar o deus, fosse em caráter particular, fosse em nome da república, a restituição da liberdade a Atenas. Cedendo ante as reiteradas propostas da pitonisa, os Espartanos enviaram a Atenas um exército sob o comando de Anquémolo, filho de Áster, homem de grande influência, a fim de expulsar dali os partidários de Pisístrato, embora a eles estivessem estreitamente ligados por laços de hospitalidade. As ordens dos deuses lhes eram mais imperativas do que todas as considerações humanas. As tropas seguiram por mar, desembarcando no porto de Faleros.

Os partidários de Pisístrato, tendo tido conhecimento do que planejavam contra eles, solicitaram auxílio aos Tessálicos, seus aliados, que atenderam prontamente ao seu apelo enviando-lhes, de comum acordo, mil soldados de cavalaria, comandados por Cíneas, seu rei. Chegados os socorros, os partidários de Pisístrato mandaram limpar toda a planície de Faleros, e quando viram-na em condições para a ação livre da cavalaria, fizeram-na marchar contra os Lacedemônios. Caindo sobre eles, a cavalaria dos Tessálicos fez inúmeras vítimas, entre as quais Anquémolo, obrigando os sobreviventes a se retirarem para suas embarcações. Tal a sorte da primeira expedição dos Lacedemônios contra os Atenienses de Pisístrato. Anquémolo foi sepultado perto do templo de Hércules, em Cinosarges, ginásio situado nos Alopécios, na Ática.

LXIV — Depois dessa primeira derrota, os Lacedemônios enviaram por terra, e não mais por mar, forças mais consideráveis contra Atenas, sob o comando de Cleómenes, filho de Anaxandrides, um de seus reis. Assim que penetraram na Ática, a cavalaria tessálica caiu sobre eles, sendo, porém, rechaçada, retirando-se imediatamente para a Tessália, depois de haver perdido mais de quarenta de seus homens. Cleómenes, chegando a essa cidade com os atenienses que ansiavam pela liberdade, cercou os tiranos, que se tinham refugiado na cidadela construída pelos Pelasgos.

LXV — Era absolutamente impossível dar caça aos adeptos de Pisístrato encerrados na cidadela, e os Lacedemônios, que já não pensavam permanecer durante muito tempo diante da praça, que sabiam abundantemente provida de víveres, preparavam-se, depois de alguns dias de cerco, para retornar a Esparta, quando se deu um fato que veio modificar inteiramente a situação de uns e de outros. Os filhos dos adeptos de Pisístrato foram capturados quando eram retirados secretamente do país. Tal acontecimento veio transtornar por completo os planos dos tiranos, que, para reaverem os filhos, tiveram de submeter-se às condições impostas pelos Atenienses, comprometendo-se a deixar a Ática no prazo de cinco dias. Retiraram-se para Sigéia, cidade situada sobre o Escamandro, depois de haverem governado os Atenienses durante trinta e seis anos.

Esses tiranos exilados eram pílios de origem, da família de Neléia, e seus ancestrais eram os mesmos de Codro e de Melanto, que haviam reinado outrora em Atenas, embora estrangeiros. Hipócrates deu a seu filho o nome de Pisístrato porque um dos filhos de Nestor assim se chamava, e a fim de perpetuar a lembrança dessa origem.

Foi assim que os Atenienses se libertaram dos tiranos. Vou agora relatar os acontecimentos mais memoráveis, auspiciosos ou lamentáveis, que sobrevieram aos Atenienses depois de haverem recuperado a liberdade e antes da Iônia ter sacudido o jugo de Dario, e de Aristágoras de Mileto ter vindo solicitar-lhe auxílio.

LXVI — Atenas, já poderosa, tornou-se mais ainda ao libertar-se dos tiranos. Entre os seus cidadãos havia dois que gozavam do maior prestígio. Clístenes, da raça dos Álcmeônidas e que, como alguns pretendem, subornou a pitonisa, e Iságoras, filho de Tisandro. Este último pertencia a uma família ilustre, mas, quanto à sua origem, não posso dizer. Sei apenas que os membros dessa família costumavam fazer sacrifícios em honra de Júpiter Cário(11). Os dois rivais compartilhavam dos poderes do Estado pelas suas facções e disputavam a autoridade. Clístenes, ficando em desvantagem, tratou de conquistar os favores do público, dividiu as quatro tribos em dez, trocou os seus nomes, tirados dos filhos de Íon: Gélon, Egícora, Argade e Hople, por outros escolhidos entre os dos heróis do país, com exceção de Ájax, que ele conservou, por haver sido esse herói vizinho e aliado dos Atenienses.

LXVII — Assim agiu, penso eu, a exemplo de Clístenes, seu avô materno, tirano de Sícion. Este, achando-se em guerra com os Árgios, aboliu os torneios em que os rapsodos disputavam o prêmio cantando versos de Homero, porque, nas suas poesias, a cidade de Argos e os Árgios eram celebrados acima de todos os outros gregos, ao mesmo tempo que procurava banir dos seus Estados Adrasto, filho de Tanau, por ser ele árgio. Adrasto possuía, na praça de Sícion, uma capela que ainda hoje subsiste. Tendo Clístenes ido a Delfos perguntar ao deus se devia expulsar o rei Adrasto, a pitonisa respondeu-lhe que Adrasto era soberano dos Siciônios e ele, Clístenes, um homem com poucas qualidades. Não lhe permitindo o deus realizar o seu desejo, Clístenes procurou, ao regressar, um meio de desembaraçar-se de Adrasto; e quando julgou tê-lo encontrado, mandou buscar em Tebas, na Beócia, Melanipo, filho de Ástaco, solicitando, para isso, a permissão dos Tebanos. Estes acederam ao pedido, e ele trouxe-o para o país, consagrando-lhe uma capela no próprio Pritaneu e colocando-o em lugar destacado. Procedeu dessa forma (pois não devo deixar ignorado o motivo de seu gesto) porque Melanipo fora grande inimigo de Adrasto e de Tideu, seu genro. Depois de haver dedicado a capela a Melanipo, pôs-se a oferecer-lhe as festas e os sacrifícios que se faziam em honra de Adrasto, festas essas celebradas com grande pompa pelos Siciônios, cujas terras haviam pertencido a Políbio, avô de Adrasto. O soberano, não possuindo filhos ao morrer, havia legado seus Estados aos netos. Entre outras honras prestadas a Adrasto, celebravam também seus infortúnios, com coros trágicos, e tributavam-lhe louvores sem referência a Baco. Clístenes restabeleceu nos coros essa referência a Baco e ordenou que o resto se fizesse em honra a Melanipo.

LXVIII — Finalmente, mudou os nomes das tribos de Sícion, a fim de que as dos Dórios não tivessem, nessa cidade, o mesmo nome que tinham em Argos. Com os novos nomes que lhes atribuiu cobriu-as de ridículo, pois, acrescentando a esses nomes, com a significação de porco e asno, a terminação atai, fez ele os Hiatas, os Oneatas e os Quereatas. Houve uma única exceção: a tribo a que ele pertencia, que recebeu o nome de Arqueleus, por causa da autoridade suprema que ele exercia sobre o povo. Os Siciônios conservaram esses nomes durante o reinado de Clístenes e ainda por sessenta anos depois de sua morte. Por fim, depois de haverem deliberado, mudaram-nos para Hileus, Panfílios e Dimanatas, e deram à quarta tribo o nome de Egialéia, em honra a Egíale, filho de Adrasto.

LXIX — Tal foi a conduta desse soberano. Clístenes, o ateniense, que tirara o seu nome do de Clístenes de Sícion, seu avô materno, não quis, julgo eu, a exemplo deste, que as tribos da Iônia tivessem o mesmo nome das de Atenas, por causa do desprezo que votava aos Iônios. Depois de haver reconquistado as simpatias de seus concidadãos, que haviam perdido todos os privilégios de um povo livre, mudou os nomes das tribos, fazendo de um pequeno número um grande número, criando dez filarcas(12) em vez de quatro e distribuindo os pequenos burgos entre as dez tribos. Granjeando, assim, as simpatias do povo, obteve uma grande ascendência sobre o partido que se lhe opunha.

LXX — Iságoras, vendo-se, por sua vez, em desvantagem, procurou o apoio de Cleómenes, rei da Lacedemônia. Este príncipe tinha-se ligado a ele pela mais estreita amizade por ocasião do cerco aos partidários de Pisístrato, havendo mesmo quem o acusasse de manter relações com a mulher de Iságoras. Cleómenes enviou primeiramente um emissário a Atenas para obter a expulsão de Clístenes e de vários outros atenienses, sob o pretexto de haverem incorrido no anátema. Seguia, nisso, as instruções de Iságoras, pois os Alcmeônidas e os seus partidários tinham sido acusados de um assassinato, de que falaremos a seguir. Iságoras não tivera participação alguma nesse crime, nem tão pouco seus amigos.

LXXI — O nome de Enageus, dado a esse grupo de atenienses, teve sua origem no seguinte fato: Cílon de Atenas(13), vitorioso nos Jogos Olímpicos, levou sua ambição a querer apoderar-se do governo e exercer a tirania. Conseguindo a adesão de pessoas de sua idade, tentou apoderar-se da cidadela, mas, não logrando êxito na empresa, ajoelhou-se suplicante aos pés da estátua de Minerva. Os pritanes dos naucrates(14), que governavam, então, Atenas, perdoaram-no, bem como aos seus adeptos, mas foram depois massacrados e os Alcmeônidas acusados desse ato. Tal acontecimento é anterior a Pisístrato.

LXXII — Tendo Cleómenes, como já disse, enviado um emissário a Atenas para obter a expulsão de Clístenes, assim como dos Enageus, estes se retiraram espontaneamente. Algum tempo depois, acompanhado de pequeno séquito, Cleómenes para lá seguiu. Logo ao chegar, baniu da cidade setecentas famílias designadas por Iságoras, tentando, em seguida, cassar o mandato do Senado e confiar a autoridade a trezentos partidários daquele. Como o Senado a isso se opusesse, recusando-se a obedecer, Cleómenes apoderou-se da cidadela com Iságoras e seus adeptos. O resto dos atenienses manteve-se solidário com o Senado, sitiando-os durante dois dias. No terceiro dia, os sitiantes entraram em entendimento com os Lacedemônios encerrados na cidadela, sendo permitido a estes últimos deixar a Ática mediante certas condições. Cumpria-se assim o que havia sido pressagiado a Cleómenes. Tendo ele subido à cidadela, com o propósito de conquistá-la, quis penetrar no santuário da deusa (Minerva) para consultá-la; mas a pitonisa, levantando-se do seu assento antes que ele transpusesse a porta, disse-lhe: “Lacedemônio, volta por onde vieste; não entres neste templo; não é permitido aos Dórios aqui porem os pés”. “Não sou dório — replicou Cleómenes —, mas aqueu”. E, sem levar em conta a advertência da pitonisa, insistiu nos propósitos que o levaram à cidadela, vendo-se, porém, obrigado a retirar-se com os Lacedemônios, sem lograr êxito. Os demais foram postos sob ferros e condenados à morte. No número destes figurava Timasíteo de Delfos, notável artífice e do qual citam-se muitos atos de bravura. Morreu no calabouço.

LXXIII — Os Atenienses, chamando de regresso Clístenes e as setecentas famílias banidas por Cleómenes, enviaram a Sardes embaixadores para fazerem aliança com os Persas, pois estavam, com efeito, persuadidos que teriam de sustentar uma guerra contra Cleómenes e os Lacedemônios. Chegando a Sardes, os embaixadores expuseram as razões que ali os levavam, perguntando-lhes Artafernes, filho de Histaspes, quem eram eles e que lugar da terra habitavam, para irem solicitar uma aliança com os Persas. Obtendo deles os esclarecimentos desejados, disse-lhes sem mais rodeios: “Se os Atenienses quiserem dar terra e água ao rei Dario, ele fará aliança com os mesmos; se não, podem retirar-se”. Desejando muito essa aliança, os embaixadores, depois de haverem confabulado entre si, declararam aceitar a proposta, mas, ao chegarem a Atenas, foram severamente acusados por isso.

LXXIV — Enquanto isso, Cleómenes, que não ignorava os movimentos e os propósitos insultantes dos Atenienses, mobilizou tropas em todo o Peloponeso, sem dar-lhes a conhecer a sua intenção. O seu intuito era vingar-se dos Atenienses e impor-lhes a tirania de Iságoras, que havia abandonado a cidadela com ele. Penetrou no território de Elêusis com forças consideráveis, e os Beócios, de comum acordo com ele, tomaram Énoe e Hísias, burgos situados num dos extremos da Ática. Os Calcídios tinham também invadido, igualmente de acordo com ele, as terras da república e devastavam-nas. Embora esses ataques causassem dificuldades aos Atenienses, estes deixaram para mais tarde um ajuste de contas com estes dois povos, e, aprestados para a luta, foram ao encontro dos Peloponésios, que se encontravam em Elêusis.

LXXV — Os dois exércitos estavam prestes a travar combate, quando os Coríntios, reconhecendo o seu injusto procedimento, mudaram de resolução e retiraram-se. Demarato, filho de Aríston, também rei de Esparta, e que havia trazido com Cleómenes as tropas da república, seguiu-lhes o exemplo, embora não se houvesse verificado, até o momento, nenhuma questão entre eles. Os dois reis, que vinham, até então, acompanhando o exército, ficaram, daquele momento em diante, proibidos de entrarem juntos em campanha, ficando estabelecido que, se um deles se separasse do outro, deixaria em Esparta um dos dois Tindáridas, que tinham por missão irem em socorro dos reis e acompanhá-los em suas expedições. O restante dos aliados reunidos em Elêusis, ante a divisão dos reis da Lacedemônia e a partida dos Coríntios, retiraram-se também para seus respectivos burgos.

LXVXVI — Foi essa a quarta vez que os Dórios penetraram na Ática. Tinham vindo duas vezes para fazer guerra aos atenienses, e duas vezes para defender os interesses desse mesmo povo: a primeira, quando levaram uma expedição coíonizadora a Mégara, expedição que se poderia, com razão, situar no reinado de Codro; a segunda e a terceira, quando expulsaram os partidários de Pisístrato; a quarta, enfim, quando Cleómenes conduziu os Peloponésios contra Elêusis.

LXXVII — O referido exército tendo-se vergonhosamente dissolvido, procuraram os Atenienses, então, tirar um desforço, marchando primeiramente contra os Calcídios, mas os Beócios vieram em socorro destes últimos às margens do Euripo. Assim que os perceberam, os Atenienses, tomando a iniciativa, atiraram-se contra eles, dizimando suas fileiras e fazendo setecentos prisioneiros — uma vitória completa. No mesmo dia penetraram na Eubéia, chocando-se com os Calcídios. Vitoriosos na refrega, deixaram na ilha uma colônia de quatro mil homens, aos quais distribuíram, por sorteio, as terras dos Hipobotes — nome dado aos mais ricos habitantes da ilha. Puseram sob ferros todos os prisioneiros que haviam feito, tanto entre os Calcídios como entre os Beócios, mantendo-os sob estrita vigilância; mas, pouco depois, restituíram-lhes a liberdade mediante a contribuição de duas minas por cabeça, pendurando seus grilhões nos muros da cidadela. Esses grilhões ainda eram vistos no meu tempo, suspensos nas muralhas, defronte do templo situado a oeste. Consagraram aos deuses a décima parte do dinheiro obtido pelo resgate dos prisioneiros, mandando fazer um carro de bronze puxado por quatro cavalos, que foi colocado à esquerda, à entrada dos propileus da cidadela, com esta inscrição: “Os Atenienses dominaram em suas campanhas os Beócios e os Calcídios, e, pondo-os sob grilhões, puseram fim à sua insolência na escuridão das prisões. Do dízimo do seu resgate ofertaram a Palas estes cavalos”.

LXXVIII — O poderio dos Atenienses aumentava cada vez mais, o que vinha provar ser mais vantajoso o equilíbrio de forças entre os cidadãos e o governo, Basta este exemplo para demonstrá-lo: durante o tempo em que os Atenienses estiveram sob o poder dos tiranos não se distinguiram na guerra mais do que seus vizinhos; logo, porém, que sacudiram o jugo, adquiriram sobre eles uma enorme superioridade. Isso prova que, no tempo da servidão, se portavam com covardia com propósito deliberado, porque trabalhavam para um senhor. Recuperando a liberdade, cada qual se dedicou intensamente a trabalhar com ardor para si mesmo.

LXXIX — Os Tebanos desejando, depois dessa vitória dos Atenienses, vingar-se deles, mandaram consultar o deus de Delfos. A pitonisa respondeu-lhes que não poderiam vingar-se com seus próprios recursos, aconselhando-os a exporem o caso à assembléia do povo e a se dirigirem aos seus mais próximos. Os emissários tebanos convocaram, ao regressarem, a assembléia do povo e comunicaram a resposta do oráculo. Os Tebanos, supondo que o deus lhes dava a entender que se dirigissem aos seus vizinhos mais próximos, disseram uns aos outros: “Os Tanagreus, os Coraneus e os Téspios não são os nossos mais próximos vizinhos? Não fazem a guerra de acordo conosco e não se batem com o mesmo ardor pelos nossos interesses? Que necessidade temos de chamá-los em nosso auxílio? Parece-nos que não é esse o verdadeiro sentido do oráculo”.

LXXX — Assim discorriam, quando alguém na assembléia, tomando conhecimento do motivo da discussão, exclamou: “Creio haver compreendido o significado do oráculo: Tebéia e Egina eram, ao que se diz, filhas de Asópis e, por conseguinte, irmãs. Penso, pois, que o deus nos aconselha a pedirmos aos Eginetas que nos vinguem”. Como essa explicação lhes parecesse plausível, os Tebanos apressaram-se em pedir, de acordo com a resposta do deus, o auxílio dos Eginetas, como seus vizinhos mais próximos. Estes prometeram enviar-lhes os Eácidas.

LXXXI — Confiando na cooperação dos Eácidas, os Tebanos realizaram uma sortida contra os Atenienses, mas sendo mal sucedidos, enviaram novos emissários aos Eginetas, solicitando-lhes tropas. Os Eginetas, orgulhosos dos seus recursos e lembrando-se de sua antiga inimizade com Atenas, acederam ao pedido dos Tebanos, movendo guerra aos Atenienses, sem declaração prévia. Enquanto estes lutavam com os Beócios, passaram para a Âtica em navios de guerra e saquearam Faleros e grande número de povoações situadas no litoral, causando, com isso, enorme dano aos Atenienses.

LXXXII — A inimizade entre os Atenienses e os Eginetas originou-se do seguinte fato: os Epidauros, aflitos com a esterilidade que entre eles se manifestava, consultaram o deus de Delfos sobre a razão disso. A pitonisa aconselhou-os a erguerem estátuas a Dâmia e a Auxésia(15), prometendo-lhes que, depois disso, obteriam melhores resultados. Perguntando-lhe os Epidauros se deveriam fazê-la de pedra ou de bronze, ela lhes disse que não empregassem nem uma coisa nem outra, mas que se utilizassem da oliveira. Convencidos de que as oliveiras da Ática eram as mais sagradas, os Epidauros solicitaram permissão aos Atenienses para cortar algumas. Diz-se mesmo que, nessa época, a Ática era o único país onde elas floresciam(16). Os Atenienses consentiram, com a condição de eles imolarem, todos os anos, vítimas a Minerva-Póleas e a Erecteu. Os Epidauros aceitaram as condições e obtiveram as oliveiras desejadas, com elas fazendo as estátuas designadas pelo deus. Com isso, a fertilidade sobreveio para todo o país, cumprindo eles o compromisso assumido com os Atenienses.

LXXXIII — Os Eginetas reconheciam, antes dessa época e mesmo ainda nesse tempo, a soberania de Epidauro, e eram obrigados a dirigir-se a essa cidade para o julgamento das questões que surgiam entre eles; mas, desde que começaram a construir navios, puseram-se a agir de má fé, acabando por se revoltarem contra os Epidauros, declarando-se seus inimigos. Tornando-se senhores dos mares, devastaram-lhes as terras e arrebataram-lhes as estátuas de Dâmia e Auxésia, colocando-as no centro da ilha, num lugar denominado Ea, distante cerca de vinte estádios da cidade. Depois de transportá-las para esse local, trataram de obter-lhes as graças, instituindo em sua honra sacrifícios e coros femininos, eivados de injúrias e toda sorte de impropérios, não dirigidos contra os homens, mas contra as mulheres do país. Os Epidauros realizavam também entre eles cerimônias dessa espécie e outras de que não se faz referência.

LXXXIV — Privados das referidas estátuas, os Epidauros deixaram de realizar os sacrifícios segundo o compromisso assumido com os Atenienses. Estes, irritados com tal procedimento, testemunharam-lhes seu desagrado; mas os Epidauros provaram aos emissários de Atenas que, enquanto estiveram de posse das estátuas, tinham cumprido com a promessa que lhes haviam feito, vendo-se, porém, impossibilitados agora de continuar a fazê-lo, porquanto os Eginetas lhas haviam arrebatado, sendo a estes que eles deveriam exigir os sacrifícios que vinham realizando às duas divindades. Ante essa resposta, os Atenienses enviaram uma delegação a Egina para exigir a devolução das estátuas, respondendo os Eginetas que nada tinham a ver com eles.

LXXXV — Os Atenienses contam que, em vista da recusa dos Eginetas em devolver-lhes as estátuas, equiparam um trirreme e nele enviaram, em nome do Estado, os mesmos delegados, os quais, chegando a Egina, procuraram arrancá-las dos pedestais, a fim de removê-las dali, por tratar-se de uma madeira a eles pertencente. Vendo logrado o seu intento, ataram-nas com cordas para puxá-las. Estavam todos entregues a essa tarefa, quando sobreveio um forte trovão acompanhado de grande tremor de terra, deixando-os de tal maneira desorientados, que começaram a matar uns aos outros, como se fossem inimigos, escapando apenas um deles, que conseguiu transportar-se para Falero.

LXXXVI — É assim que os Atenienses relatam o fato. Os Eginetas, por sua vez, dizem que, se os Atenienses tivessem enviado, como querem fazer crer, um só navio ou mesmo um pequeno número deles, tê-los-iam enfrentado e derrotado; mas tratando-se, na realidade, de uma poderosa frota, viram-se compelidos a ceder, não querendo arriscar-se a um combate naval. O que os Eginetas não dizem é que se assim procederam foi por se acharem muito fracos para dar-lhes combate no mar, ou com o propósito de executarem o plano que haviam preparado. Acrescentam eles que os emissários atenienses, não vendo ninguém apresentar-se para lhes dar batalha, desembarcaram dos seus navios e dirigiram-se para o local onde se encontravam as estátuas. Não conseguindo arrancá-las dos pedestais, passaram-lhes cordas em torno e puseram-se a puxá-las. As estátuas resistiram, por seu lado, aos puxões, até ficarem ambas de joelhos, postura em que desde então se têm conservado. Esse detalhe não me parece verossímil, ainda que possa sê-lo para algum outro.

Foi essa, segundo os Eginetas, a conduta dos Atenienses. Quanto ao seu próprio procedimento, afirmam que, informados de que os Atenienses vinham atacá-los, puseram os Árgios de sobreaviso, e quando aqueles desembarcaram em Egina, os Árgios acorreram prontamente em auxílio de seus aliados. Passando de Epidauro para a ilha, sem serem pressentidos pelos invasores, caíram de improviso sobre eles, depois de haverem cortado a rota aos seus navios. Acrescentam que, nessa ocasião, sobreveio um forte trovão, acompanhado de tremor de terra.

LXXXVII — Esse relato dos Eginetas encontra confirmação no dos Árgios. Os Atenienses declaram que apenas um dos membros da expedição conseguira escapar a esse desastre na Ática; mas os Árgios afirmam que eles foram totalmente dizimados, não tendo conseguido escapar um só. Todavia, esse homem que os Atenienses dizem haver escapado à pronta vingança dos deuses, não sobreviveu por muito tempo, perecendo da maneira que passo a relatar: De regresso a Atenas, informou o povo do trágico fim da missão à Ática; e as mulheres dos que haviam nela tomado parte, indignadas com o fato de só aquele homem haver escapado, cercaram-no e puseram-se a picá-lo com grampos de suas vestes, enquanto lhe pediam notícias de seus maridos, e assim o mataram. A atrocidade desse ato pareceu aos Atenienses ainda mais deplorável do que a própria derrota; e não sabendo como punir aquelas que o haviam cometido, obrigaram-nas a usar trajes iônios. Elas, que até então usavam trajes dórios, que muito se assemelham aos das mulheres de Corinto, passaram a usar uma túnica de linho, ficando, assim, abolidos os grampos. Diga-se, porém, em nome da verdade, que esse traje não é de origem iônia, mas cária, pois as antigas vestes das mulheres gregas são as mesmas usadas atualmente pelas dórias.

LXXXVIII — Dizem que foi em conseqüência dessa medida que os Árgios e os Eginetas ordenaram às suas mulheres que usassem grampos uma vez e meia maiores do que os comuns; que a principal oferenda das mulheres àquelas deusas(17) consistisse em grampos, e que não oferecessem ao templo nada que viesse da Ática, nem mesmo vasos de barro, só lhes sendo permitido beber nas taças do país. Tais disposições foram levadas tão longe que, no meu tempo, as mulheres Eginetas traziam grampos ainda maiores do que outrora.

LXXXIX — Foi essa, como já disse, a origem da inimizade entre os Atenienses e os Eginetas. Estes últimos, lembrando-se ainda do incidente havido por causa das estátuas, acederam prontamente ao pedido dos Tebanos e enviaram socorro aos Beócios. Os Eginetas devastaram as costas da Ática, e quando os Atenienses se dispunham a marchar contra eles, veio-lhes de Delfos um oráculo, ordenando-lhes que suspendessem o castigo àquele povo pelo espaço de trinta anos, a contar da data em que recebessem os primeiros insultos, e que, se depois de haverem eles erguido um templo a Eaco, os atacassem transcorridos os trinta anos, teriam assegurado o sucesso. Se os atacassem imediatamente, muito haveriam de sofrer nesse espaço de tempo, pois, embora chegassem a causar grandes danos aos Eginetas, acabariam sendo por eles derrotados. Mal tiveram conhecimento desse oráculo, os Atenienses trataram de erguer a Eaco o templo que ainda hoje se vê na praça pública; mas, vendo que não poderiam conter durante trinta anos o ressentimento das injúrias recebidas, resolveram não adiar sua vingança por tanto tempo.

XC — Uma questão suscitada pelos Lacedemônios veio obstar a vingança planejada. Os Lacedemônios, informados da manobra dos Alcmeônidas junto à pitonisa e das intrigas desta contra eles e contra os partidários de Pisístrato, ficaram bastante preocupados, tanto por haverem expulsado de Atenas seus hóspedes e amigos, como porque os Atenienses não os viam com bons olhos. Além disso, sentiam-se revoltados contra os oráculos, que lhes haviam predito que muito teriam ainda de sofrer da parte dos Atenienses. Esses oráculos lhes foram dados a conhecer por Cleómenes, que os levou a Esparta, depois de haver deles lançado mão no templo de Minerva, na cidadela, onde os haviam deixado os partidários de Pisístrato.

XCI — Quando os Lacedemônios se viram senhores da situação e perceberam que os Atenienses recobravam forças e não se mostravam dispostos a obedecer-lhes, decidiram, ao compreenderem que se esse povo fosse livre formaria com eles em pé de igualdade, mandar chamar Hípias, filho de Pisístrato, de Sigéia, sobre o Helesponto, onde se haviam refugiado os partidários de Pisístrato. Hípias acedeu ao convite, bem como os deputados dos aliados, também chamados pelos Lacedemônios. Quando os tiveram reunidos, os Espartanos a eles se dirigiram nos seguintes termos: “Confederados, reconhecemos o nosso erro. Levados por um oráculo ilusório, banimos da pátria amigos leais, empenhados em manter Atenas sob nossas leis, entregando a autoridade nas mãos de um povo ingrato, que, libertado por nós, mostra-se agora arrogante e disposto a resistir-nos. Seu poderio aumenta cada vez mais, como bem o sabem os Beócios e os Calcídios seus vizinhos, e como o saberão outros que tentarem fazer-lhes frente. Já que cometemos um tal erro, convém que o reparemos sem perda de tempo, vingando-nos com os recursos de que dispomos. Foi com esse propósito que convidámos Hípias a vir a Esparta e vos concitámos a fazer o mesmo. Reunamos, pois, nossas forças e marchemos contra Atenas, a fim de que possais reaver o que impensadamente arrebatámos de vós”.

XCII — Esse discurso dos Espartanos foi recebido sem entusiasmo pela maioria dos aliados. Quebrando o silêncio que a ele se seguiu, Sósicles de Corinto dirigiu-se ao grupo nestes termos: “Lacedemônios, considero uma inversão da ordem natural das coisas o querer destruir a isocracia nas cidades, para estabelecer, em seu lugar, a tirania. É o que de mais injusto pode haver no mundo. Se vos parece vantajoso submeter os Estados da Grécia à tirania, por que não começais por vós mesmos uma tal experiência, antes de impô-la aos outros? Jamais tivestes um governo tirânico, e estais sempre alertas, velando para que tal não aconteça em Esparta. Não obstante, procurais estabelecê-lo entre os vossos aliados. Se já tivésseis experimentado o que experimentámos, seria bem outra a vossa maneira de pensar.

“A forma de governo de Corinto — continuou Sósicles — era oligárquica, estando a autoridade concentrada nas mãos dos Báquidas(18), que só se casavam entre si, formando uma grande família. Anfíon, um deles, teve uma filha coxa, de nome Labda. Como nenhum báquida quisesse desposá-la, casaram-na com Eécion, filho de Echacrates, do burgo de Petra, mas Iapite de origem e descendente de Canéia. Eécion, não conseguindo ter filhos dessa mulher, como de nenhuma outra, foi consultar o oráculo para saber se viria a tê-lo. Assim que entrou no templo, a pitonisa dirigiu-lhe estas palavras: “Eécion, não és honrado e respeitado por ninguém, embora muito o mereças. Labda, tua esposa, traz no seio uma grande pedra, que esmagará os déspotas e governará Corinto”.

“Essa resposta do deus chegou, por acaso, ao conhecimento dos Báquidas, que, algum tempo antes, tinham recebido, com relação a Corinto, um oráculo que lhes parecera obscuro e que tinha o mesmo significado daquele que o deus acabava de conceder a Eécion. Esse oráculo dizia o seguinte: “Uma águia conceberá entre os rochedos um leão forte e cruel, que fará perecer muita gente. Refleti sobre isso, vós que habitais a altiva Corinto e as margens da bela fonte de Pirene”.

“Os Báquidas não tinham conseguido apreender o significado desse oráculo, mas ao terem conhecimento do de Eécion, tudo lhes pareceu perfeitamente claro, pois que ambos se ajustavam de maneira bem expressiva. De posse do significado do oráculo, mantiveram-no em segredo, alimentando a intenção de eliminar o filho de Eécion, prestes a nascer. Logo que Labda deu à luz a criança, dez dentre eles dirigiram-se ao burgo onde ela residia, a fim de matarem o recém-nascido. Chegando à residência de Eécion, perguntaram pela criança, e Labda, ignorando o verdadeiro motivo daquela visita e supondo tratar-se de uma manifestação de cordialidade para com seu esposo, colocou o filho nas mãos de um dos visitantes. Ficara resolvido em caminho que o primeiro que tivesse a criança nos braços esmagá-la-ia de encontro ao chão; mas no momento em que ela passou para os braços do estranho, sorriu-lhe, deixando-o tão comovido que não teve coragem de matá-la, passando-a para as mãos de outro companheiro. Este, também tocado de piedade, transferiu-a para as mãos de um terceiro, e assim passou ela de mão em mão, sem que nenhum se animasse a sacrificá-la. Devolvendo o recém-nascido ao carinho de sua mãe, deixaram a casa, pondo-se, logo à saída, a censurarem vivamente uns aos outros, recaindo as maiores acusações sobre o que estivera de posse dela em primeiro lugar, faltando com o compromisso assumido. Depois de haverem discutido durante alguns instantes, decidiram voltar à casa e eliminar, todos juntos, a criança. Mas estava escrito que a descendência de Eécion seria o gérmen de onde sairiam as desgraças de Corinto. Labda, que se encontrava junto à porta, ouviu toda a discussão, e temendo que eles mudassem de resolução e viessem arrebatar-lhe o filho para matá-lo, ocultou-o numa arca de trigo(19) que lhe pareceu o lugar mais seguro e do qual eles certamente menos suspeitariam, pois estava convencida de que, se eles voltassem e não encontrassem a criança, revistariam toda a casa. Foi isso, realmente, o que aconteceu. Depois de terem-na inutilmente procurado por toda parte, resolveram ir-se embora e dizer aos que os tinham enviado que se haviam desobrigado da missão. Quando a criança cresceu, deram-lhe o nome de Cípselo, como lembrança do perigo de que havia escapado graças a uma arca de trigo. Chegando à idade viril, foi ele consultar o deus de Delfos, obtendo uma resposta ambígua. Contudo, cheio de confiança no oráculo, atacou Corinto e dela se apoderou. O oráculo estava concebido nestes termos: “Feliz é esse homem que entra no meu templo, Cípselo, filho de Eécion, rei da ilustre cidade de Corinto, ele, seus filhos, mas não os filhos de seus filhos”.

“Tornando-se tirano de Corinto, Cípselo exilou grande número de corintianos, despojando muitos de seus bens e mandando matar inúmeros outros ainda. Acabou tranqüilamente os seus dias, depois de um reinado de trinta anos, sendo sucedido por seu filho Periandro. Este revelou, no início, maior brandura do que o pai, mas as ligações que veio a manter com Trasibulo, tirano de Mileto, por intermédio de seus embaixadores, tornaram-no ainda mais cruel do que Cípselo. Mandando perguntar àquele soberano que forma de governo devia adotar para reinar com segurança, Trasibulo conduziu o emissário para fora da cidade, pondo-se a passear com ele por entre os trigais, inquirindo-o sobre a viagem de Corinto até ali; e voltando constantemente ao assunto, ia cortando as espigas mais altas e atirando-as por terra, destruindo, assim, o que havia de melhor e mais belo naquela plantação. Depois de haver percorrido todo o campo, despediu o emissário de Periandro, sem lhe dar qualquer espécie de conselho. De regresso a Corinto, foi o emissário logo interrogado por Periandro sobre os conselhos que lhe dera Trasibulo, respondendo ele não haver recebido nenhum e estar surpreendido de ter sido enviado para solicitar o parecer de um homem que se mostrava tão insensato, a ponto de destruir seus próprios bens. Em seguida, contou a Periandro o que vira Trasibulo fazer com o trigal.

“Periandro, compreendendo de pronto o significado daquele procedimento, que tão estranho parecera ao seu enviado, e persuadido de que Trasibulo o aconselhava a eliminar os cidadãos de maior influência em Corinto, começou, desde então, a cometer toda sorte de maldades e perfídias contra eles. Exilou e mandou matar os que Cípselo havia poupado, concluindo assim a obra nefanda iniciada pelo seu antecessor. Obrigou, de uma feita, todas as mulheres de Corinto a se desfazerem de seus trajes, por causa de Melissa, sua falecida mulher. Tendo mandado consultar o oráculo dos mortos, às margens do Aqueronte, no país dos Tesprócios, sobre os bens deixados por um estrangeiro, Melissa, aparecendo, declarou que não revelaria onde se achavam esses bens porque, estando nua, sentia frio; os trajes com que a tinham enterrado de nada lhe valiam, pois não os haviam queimado. E para provar a verdade do que afirmava, acrescentou que Periandro tinha colocado seu pão num forno frio. Esta prova pareceu convincente a Periandro, porquanto tinha realmente violado o cadáver da esposa. Logo que lhe comunicaram o oráculo, expediu uma ordem a todas as mulheres de Corinto, para que se reunissem no templo de Juno. As mulheres para lá se dirigiram, supondo tratar-se de uma festa, envergando os seus mais ricos trajes e cobertas de adornos; mas foram todas, sem distinção de classe, despojadas de seus trajes pelos guardas reais. As suas vestes foram, em seguida, atiradas num fosso, onde as queimaram, endereçando preces a Melissa. Depois disso, o espectro de Melissa indicou o local onde se encontravam os bens procurados.

“É assim, Lacedemônios, a tirania — concluiu Sósicles —; tais os seus efeitos. Foi por essa razão que nos mostrámos surpresos, nós, os Coríntios, quando mandastes chamar Hípias; e mais espantados ficámos com a linguagem que usastes nesta ocasião. Nós vos conjuramos, em nome dos deuses da Grécia, a não estabelecerdes a tirania nas suas cidades. Se, apesar de tudo persistirdes, contra todos os princípios de justiça, em reconduzir Hípias ao poder, em Atenas, já sabeis que os Coríntios não vos aprovarão”.

XCIIÍ — Sósicles, deputado de Corinto, tendo acabado de falar, Hípias tomou a palavra para dizer, depois de haver invocado os mesmos deuses gregos, que os Coríntios teriam algum dia, mais do que todos os outros povos, motivos para recordar com saudade o governo de Pisístrato, isso quando chegasse o tempo determinado pelos fados, em que se veriam humilhados pelos Atenienses. Assim se expressou Hípias, porque nenhum outro homem tinha conhecimento mais perfeito dos oráculos. Os outros aliados, que até então haviam guardado silêncio, ouvindo o discurso de Sósicles manifestaram-se plenamente de acordo com as suas palavras, e, dirigindo-se aos Lacedemônios, conjuraram-nos a nada empreender contra qualquer cidade grega e a não introduzir modificações no seu governo, fracassando assim o plano dos Lacedemônios.

XCIV — Quando Hípias deixou a Lacedemônia, Amintas, rei da Macedônia, ofereceu-lhe Antemunte e o país dos Tessálios Iolcos; mas ele, declinando esse oferecimento, retornou a Sigéia. Pisístrato havia tomado essa praça dos Mitilenos, impondo-lhes, como tirano, um filho natural, de nome Hegesístrato, que tivera de uma mulher de Argos. O jovem, porém, não usufruía com tranqüilidade as prerrogativas do poder. Os Mitilenos e os Atenienses estavam, há muito tempo, em guerra, servindo-lhes de bases estratégicas as cidades de Aquiléia e de Sigéia, de onde faziam freqüentes incursões contra os territórios de uns e de outros. Os primeiros reivindicavam a posse desse país; os outros achavam que ele não lhes pertencia, e procuravam provar que tanto eles como todos os outros gregos que haviam auxiliado Menelau a vingar o rapto de Helena, tinham tanto direito aos territórios de Tróia, quanto os Eólios.

XCV — Nessa guerra e nos combates travados entre os dois povos, tiveram lugar acontecimentos dignos de nota, num dos quais se achou envolvido o poeta Alceu(20). Numa sortida, em que os Atenienses levaram a melhor, o poeta logrou escapar, deixando em poder do inimigo seu escudo, que foi levado para Sigéia e colocado no templo de Minerva(21). Sobre esse fato, compôs o poeta uma ode, que enviou a Mitilene e na qual contava a Menalipe, seu amigo, a desgraça que lhe sucedera.

Periandro, filho de Cípselo, restabeleceu a paz entre os Mitilenos e os Atenienses, que o haviam tomado por árbitro, fazendo ambas as partes cultivarem as terras cuja posse reivindicavam. Sigéia ficou, em conseqüência disso, em poder dos Atenienses.

XCVI — Hípias, transportando-se da Lacedemônia para a Ásia, procurou por todos os meios tornar os Atenienses odiosos aos olhos de Artafernes, envidando os esforços para colocar Atenas sob sua influência e torná-la submissa a Dario; mas, tendo essas manobras chegado ao conhecimento dos Atenienses, estes enviaram emissários a Sardes para dizerem aos Persas que não se deixassem levar pelas insinuações dos exilados. Artafernes, todavia, aconselhou-os a promoverem a repatriação de Hípias, se desejavam conservar sua integridade. Considerando absurda essa condição, os Atenienses declararam-se abertamente contra os Persas.

XCVII — Enquanto deliberavam sobre a melhor resolução a tomar e eram caluniados entre os Persas, chegava a Atenas, a mais poderosa cidade então existente na Grécia, Aristágoras de Mileto, expulso de Esparta por Cleómenes, rei da Lacedemônia. Apresentando-se à assembléia do povo, Aristágoras ali falou, como havia feito em Esparta, das riquezas da Ásia e da facilidade com que se poderia vencer os Persas, que não se serviam nem de escudos nem de lanças. A essas razões, acrescentou serem os Milésios uma colônia de Atenienses, sendo natural que os dali, dispondo de grandes recursos, tomassem a iniciativa de libertá-los. E como tinha necessidade premente do auxílio dos Atenienses, não houve promessa que não lhes fizesse, conseguindo, finalmente, persuadi-los da empresa. Pareceu, com efeito, mais fácil convencer uma multidão do que um só homem; pois Aristágoras, que não lograra êxito junto a Cleómenes, conseguira, no entanto, ludibriar trinta mil Atenienses. O povo de Atenas, aceitando as razões de Aristágoras, resolveu enviar vinte navios em socorro dos Iônios, tendo sido escolhido para comandá-los Melântio, muito estimado por todos os seus concidadãos. Essa frota acarretou uma série de males, tanto para os Gregos como para os bárbaros.

XCVIII — Aristágoras embarcou e tomou a dianteira. Chegando a Mileto, concebeu um plano do qual não deveria resultar nenhum proveito para os Iônios, porquanto ele tinha menos em mira favorecê-los do que causar dificuldades a Dario. Enviou um delegado à Frígia, para entender-se com os Peônios que haviam sido transferidos das margens do Estrímon, onde Megabizo os havia aprisionado, e que habitavam o burgo e o território que lhes foram designados. Chegando à presença deles, o delegado de Aristágoras assim lhes falou: “Peônios, Aristágoras, senhor de Mileto, encarregou-me de vos dar um conselho que, se o seguirdes, vos será sumamente proveitoso. A Iônia inteira levantou-se contra o rei, apresentando-se para vós a oportunidade para voltardes à vossa pátria sem risco algum. Ide apenas até a beira-mar, que do resto da viagem nos encarregaremos nós”.

Os Peônios ouviram essa declaração com o maior júbilo. Reunindo logo suas mulheres e filhos, partiram em direção ao mar, com exceção de um pequeno número, que, temendo os riscos da viagem, preferiu permanecer ali. Do litoral, os Peônios seguiram para Quios. Ao chegarem ali, surgiu-lhes pela frente a cavalaria persa, que se pôs a persegui-los vigorosamente. Não conseguindo alcançá-los, os cavaleiros persas mandaram dizer-lhes que regressassem ao ponto de partida, mas os Peônios não lhes deram ouvidos. Os habitantes de Quios transportaram-nos dessa ilha para a de Lesbos, e os Lésbios para a Dórica, de onde eles seguiram por terra para a Peônia.

XCIX — Os Atenienses chegaram com vinte navios e cinco trirremes dos Erétrios, que os acompanharam, menos por consideração para com eles, do que por gratidão pelos benefícios recebidos dos Milésios. Estes, com efeito, os tinham auxiliado na guerra que tiveram de sustentar contra os Calcídios, apoiados pelos habitantes de Samos. Quando os Atenienses chegaram e se reuniram com o resto dos aliados, Aristágoras levou a efeito uma expedição contra Sardes, que encontrou deserta. Permaneceu, então, em Mileto, nomeando seu irmão Caropino como comandante dos Milésios, pondo Hermofante à frente dos aliados.

C — Os Iônios, tendo chegado ao Éfeso, deixaram seus navios em Coresso, e tomando alguns Efésios como guias, avançaram por terra com forças consideráveis. Acompanhando o curso do Caístro, transpuseram o monte Tmolo e chegaram a Sardes. Não encontrando resistência, apoderaram-se da cidade, com exceção da cidadela, defendida por Artafernes com uma forte guarnição.

CI — Um acidente que se verificou nessa ocasião salvou a cidade da pilhagem. A maioria das casas era de caniço e de bambu, e mesmo as de tijolos eram cobertas de caniço. Tendo um soldado ateado fogo a uma dessas casas, o fogo propagou-se imediatamente às demais, reduzindo a cidade a cinzas. Enquanto as chamas destruíam as habitações, os Lídios e todos os Persas que se encontravam na cidade, vendo-se cercados de todos os lados e não tendo por onde escapar, pois que o fogo já havia atingido os extremos da cidade, dirigiram-se em massa para a praça e para as margens do Pactolo, que a corta pelo meio. Este rio arrasta em suas águas palhetas de ouro arrancadas do Tmolo, e, ao sair de Sardes, desemboca no Hermo, que, por sua vez, deságua no mar. Os Persas e os Lídios, reunidos na praça e nas margens do rio, viram-se forçados a defender-se. Os Iônios, vendo-os dispostos a vender caro a vida e muitos a se encaminharem ameaçadoramente para eles, ficaram atemorizados e retiraram-se para o monte Tmolo, de onde partiram à noite, de regresso aos seus navios.

CII — O templo de Cibele, deusa do país, foi destruído pelo fogo, juntamente com a cidade, tendo o incêndio servido, mais tarde, de pretexto aos Persas para porem fogo aos templos da Grécia.

Ante a notícia da invasão, os Persas que habitavam aquém do Hális reuniram-se e acorreram em auxílio dos Lídios. Chegando a Sardes, não mais encontraram os Iônios. Seguindo-lhes as pegadas, foram alcançá-los no Éfeso, onde, obrigando-os a oferecer-lhes combate, infligiram-lhes amarga derrota. Houve muitos mortos, entre os quais figuras de destaque, tais como Euálcis, comandante dos Erétrios, várias vezes vitorioso nos jogos que têm por prêmio uma coroa, e cujos feitos foram decantados por Simônides de Ceos. Os sobreviventes dessa batalha dispersaram-se pelas cidades.

CIII — Depois dessa malograda expedição, os Atenienses abandonaram completamente os Iônios, negando-se a conceder-lhes qualquer auxílio, a despeito das súplicas que lhes dirigiu Aristágoras por intermédio dos seus delegados. Embora privados da aliança dos Atenienses, os Iônios não se mostraram menos dispostos a continuar a guerra contra Dario, pois a maneira pela qual se tinham conduzido com relação a esse soberano não lhes deixava outro recurso. Fazendo-se à vela em direção ao Helesponto, apoderaram-se de Bizâncio e de todas as cidades vizinhas, dirigindo-se, em seguida, à Cária, obtendo a aliança da maioria dos seus habitantes. A cidade de Cária, que a princípio se recusara a fazer essa aliança, consentiu depois do incêndio de Sardes.

CIV — Os Cíprios, num movimento unânime e espontâneo, ligaram-se também aos Iônios, com exceção dos habitantes de Amatunte. Tinham-se revoltado contra os Medos em resultado do seguinte fato: Górgus, rei de Salamina, filho de Quérsis, neto de Sirómus e bisneto de Evelton, tinha um irmão mais moço, chamado Onésilo. Esse Onésilo o tinha exortado anteriormente a revoltar-se contra o rei. Ao saber que os Iônios se haviam sublevado, redobrou de esforços para fazê-lo tomar essa atitude. Não conseguindo convencê-lo, esperou o momento em que o rei se ausentou de Salamina, para fechar-lhe as portas com o auxílio de seus partidários. Despojado de seus Estados, Górgus retirou-se para junto dos Medos. Onésilo, vendo-se senhor de Salamina, arrastou todos os Cíprios à revolta, exceto os de Amatunte, que não quiseram dar-lhe ouvidos.

CV — Achava-se Onésilo diante dessa praça, quando anunciaram a Dario que Sardes havia sido tomada e incendiada pelos Atenienses e Iônios, e que Aristágoras de Mileto era o chefe da liga formada contra o soberano persa. Conta-se que, ao receber essa notícia, Dario nenhuma importância deu aos Iônios, certo de que a insurreição destes não ficaria impune, mostrando-se, porém, interessado acerca dos Atenienses, procurando saber que povo era esse e anotando bem as informações que lhe deram a respeito. Pediu em seguida seu arco e, pondo nele uma flecha, lançou-a para o céu exclamando: “Oh Júpiter! Possa eu vingar-me dos Atenienses!” E voltando-se para um de seus oficiais, ordenou-lhe que lhe repetisse três vezes, sempre que lhe servisse o jantar: “Senhor, lembrai-vos dos Atenienses”.

CVI — Depois de haver dado essa ordem, mandou chamar Histeu de Mileto, que desde muito vinha mantendo em sua companhia. “Histeu — disse-lhe ele —, acabo de saber que o governador a quem confiaste Mileto promoveu desordens contra mim, reuniu aos Iônios, que saberei punir, povos do outro continente e persuadiu-os a segui-los, arrebatando-me a cidade de Sardes. Tal ação te parece honesta? Poderia ele executar essa empresa sem a tua participação? Toma cuidado para não te tomares culpado outra vez!” “Que dizeis, senhor! Credes que eu seria capaz de dar um conselho que viesse a causar-vos o mais leve desgosto? O que poderia eu pretender agindo dessa maneira? Que me falta ao pé de vós? Não compartilho eu de todos os vossos bens? Não vos dignais a admitir-me em vossos conselhos reais? Se meu substituto promoveu a empresa a que vos referis, senhor, foi por deliberação própria; mas não posso acreditar que ele tenha, juntamente com os Milésios, provocado perturbações contra vós. Se, entretanto, o fizeram; se o que vos disseram é verdade, deveis convir, senhor, que destes, sem o querer, motivo para isso, afastando-me do litoral. Sem dúvida, os Iônios desejavam, de há muito, subtraírem-se ao teu domínio, e o meu afastamento lhes deu o esperado ensejo. Se eu estivesse lá, nenhuma cidade teria ousado cometer tais atos de rebeldia. Deixai que eu parta imediatamente para a Iônia, e eu vos prometo restabelecer de pronto a vossa autoridade ali e trazer à vossa presença Aristágoras, o autor dessa trama. Feito isso, eu vos juro pelos deuses protetores dos reis, que não trocarei de roupa enquanto não houver submetido aos teus domínios a grande ilha de Sardenha”.

CVII — Dario deixou-se persuadir por essas palavras, que não visavam outra coisa senão enganá-lo. Deixou Histeu partir, dizendo-lhe que regressasse a Susa logo que houvesse cumprido com o que prometera.

CVIII — Enquanto essas coisas se passavam, informaram a Onésilo de Salamina, empenhado no cerco de Amatunte, que Cipres de Artíbio, persa de nascimento, estava sendo aguardado a qualquer momento com um poderoso exército composto de tropas de todas as nações. Ante essa notícia, Onésilo enviou arautos aos Iônios, solicitando-lhes socorros. Estes, sem perder tempo em longas deliberações, acorreram em seu auxílio com numerosa frota. Já se encontravam em Chipre, quando as forças persas, tendo passado da Cilícia para, essa ilha, dirigiram-se por terra a Salamina. As tropas fenícias, por seu lado, dobraram o promontório chamado Cleides de Chipre.

CIX — Entrementes, os tiranos de Chipre convocavam os comandantes das forças iônias, falando-lhes nestes termos: “Iônios, nós, os Cíprios, deixamos a vós a escolha de atacar os Persas ou os Fenícios. Se quiserdes experimentar por terra vossas forças contra os Persas, é tempo de abandonar os vossos navios, colocando-vos em ordem de batalha, enquanto que nós, substituindo-vos ali, combateremos no mar contra os Fenícios. Se, porém, preferis atacar os Fenícios, fazei-o. Seja qual for a vossa escolha, lembrai-vos de que de vós depende a liberdade de Chipre e da Iônia”.

“Soberanos de Chipre — responderam os Iônios —, o conselho comum da Iônia nos enviou para lutar no mar e não para entregar os nossos navios aos Cíprios e combater em terra contra os Persas. Procuraremos cumprir com o nosso dever no posto em que nos colocaram. Quanto a vós, lembrai-vos da dura servidão em que vos mantêm os Medos e combatei como homens de coragem”.

CX — Tendo o inimigo atingido a planície de Salamina, os Cíprios escolheram os melhores soldados de Salamina e de Solos para enfrentarem os Persas, enviando as outras tropas contra o resto do exército invasor. Quanto a Onésilo, preparou-se, ele próprio, para enfrentar Artíbio, general dos Persas.

CXI — Artíbio montava um cavalo especialmente amestrado para enfrentar um homem armado. Observando isso, Onésilo disse a seu escudeiro: “Observa como investe o cavalo de Artíbio; com as patas e os dentes matará quem quer que encontre pela frente. Reflete um segundo e dize-me qual preferes visar, se o cavalo ou o cavaleiro”. “Senhor — respondeu o escudeiro —, estou pronto a enfrentar um ou outro; farei o que me ordenardes. Permiti, contudo, que vos diga o que me parece mais conveniente aos vossos interesses. Penso que um rei e um general devem combater contra um rei e um general. Se fizerdes perecer um general, será para vós uma grande glória; se ele vos matar (do que nos livrem os deuses), será menos triste morrer em mãos nobres. Nós, os servos, devemos combater contra outros servos. Quanto ao cavalo de Artíbio, não lhe temamos as manobras. Eu vos asseguro que ele não se erguerá mais contra ninguém”.

CXII — Logo a seguir, os dois exércitos rivais, de terra e de mar, entraram em luta. Os Iônios deram grandes demonstrações de valor no mar, batendo os Fenícios, sendo os habitantes de Samos os que mais se distinguiram. Os exércitos de terra aproximaram-se e chocaram-se violentamente. Enquanto Artíbio impelia seu cavalo contra Onésilo, este atacava-o como havia combinado com o escudeiro; e quando o animal ergueu as patas dianteiras contra o seu escudo, cortou-lhe o ímpeto com um certeiro golpe de lança. O cavalo baqueou, arrastando na queda o general persa.

CXIII — Quando mais acesa era a luta, Estesenor, tirano de Curia, que comandava um grande corpo de tropas, bandeou-se para o inimigo. O exemplo dos Curios, que, segundo se afirma, constituem uma colônia dos Árgios, foi logo seguido pelos ocupantes dos carros de guerra dos Salamínios, obtendo, assim, os Persas superioridade numérica. Os Cíprios bateram em retirada, deixando inúmeros mortos no campo da luta, entre os quais Onésilo, filho de Quérsis, o mesmo que havia incitado os Cíprios à revolta. Aristocipros, rei dos Sólios, perdeu também a vida nessa jornada inglória. Aristocipros era filho daquele Filocipros que Sólon de Atenas, quando veio a Chipre, celebrou em versos, dizendo-o superior a todos os tiranos.

CXIV — Os habitantes de Amatunte cortaram a cabeça de Onésilo, que os tinha sitiado, e levaram-na para Amatunte, colocando-a sobre uma das portas da cidade. Algum tempo depois, estando a cabeça já vazia, um enxame de abelhas encheu-a de favos de mel. Observando isso, os habitantes foram consultar o oráculo, que os aconselhou a enterrar a cabeça e a oferecer, todos os anos, sacrifícios a Onésilo, como a um herói, afirmando-lhes que os deuses lhes seriam mais propícios. Esses sacrifícios eles ainda os realizavam no meu tempo.

CXV — Os Iônios que se tinham batido no mar perto de Chipre, tomando conhecimento da derrota de Onésilo e sabendo estarem cercadas as cidades de Chipre, com exceção de Salamina, voltando Górgus ao seu antigo trono, rumaram, sem perda de tempo, para a Iônia. De todas as cidades de Chipre, foi Solos a que mais longamente resistiu, só conseguindo os Persas capturá-la ao cabo de cinco meses, minando todas as muralhas da valorosa praça.

CXVI — Os Cíprios foram de novo reduzidos à escravidão, depois de haverem desfrutado a liberdade durante um ano. Daurises, genro de Dario, Himes, Otanes e outros generais persas que haviam também desposado filhas do soberano, perseguiram os Iônios que haviam tomado parte na expedição contra Sardes e infligiram-lhes severa derrota, depois de os terem forçado a voltar aos seus navios. Os vencedores repartiram entre si as cidades iônias e saquearam-nas.

CXVII — Daurises voltou-se, em seguida, contra as cidades do Helesponto. Dárdano, Abido, Percote, Lâmpsaco e Paesos não resistiram mais que um dia. Quando, porém, se dirigia de Paesos a Pário, soube que os Cários se tinham revoltado contra os Persas, de comum acordo com os Iônios. Ante essa notícia, deixou o Helesponto e conduziu suas tropas contra a Cária.

CXVIII — Informados da vinda de Daurises, os Cários concentraram-se no lugar denominado Colunas Brancas, às margens do Mársias, que se lança no Meandro depois de haver atravessado o território de Ídrias. Puseram-se, então, a concertar a melhor maneira de ação, dividindo-se as opiniões, sendo a melhor, a meu ver, a de Pixodares, filho de Mausolo, da cidade de Cinde, e que havia desposado uma filha de Sienésis, rei da Cilícia. Aconselhou ele aos Cários a atravessarem o Meandro e a combaterem de costas para o rio, pois que, não podendo recuar, lutariam mais valentemente para conservar sua posição e a própria vida. Essa opinião, todavia, não prevaleceu, ficando resolvido o contrário, isto é, que os Persas teriam o Meandro atrás deles. Assim, no caso de fuga ou retirada, cairiam no rio e não poderiam salvar-se.

CXIX — Como fora previsto e estabelecido, os Persas atravessaram o Meandro, chocando-se com os Cários, que os aguardavam às margens do Mársias. O combate foi rude e longo, vendo-se os Cários, por fim, obrigados a ceder ante a superioridade numérica do inimigo. Terminada a luta, jaziam por terra dois mil homens do lado dos Persas e dez mil do lado dos Cários. Aqueles, dentre estes últimos, que escaparam à derrota, refugiaram-se em Labranda, no templo de Júpiter Estrácio e numa grande floresta de plátanos consagrada ao deus.

Os Cários são os únicos povos, que eu saiba, a oferecerem sacrifícios a Júpiter Estrácio. Refugiados na floresta, reuniram-se e puseram-se a deliberar sobre qual seria o partido mais vantajoso a tomar: entregar-se aos Persas ou abandonar a Ásia.

CXX — Enquanto deliberavam, chegaram para socorrê-los os Milésios e seus aliados. Ante aquele inesperado auxílio, os Cários deixaram de lado suas resoluções e atiraram-se de novo à luta com os Persas, sendo novamente batidos, e de maneira mais completa que da outra vez. Foi grande o número de mortos nessa refrega, sobretudo do lado dos Milésios.

CXXI — Algum tempo depois, os Cários reabilitaram-se dessa derrota numa outra campanha. Informados de que os Persas estavam em marcha para atacar suas cidades, puseram-se de emboscada à beira do caminho que leva a Pédaso, e quando os Persas passavam, à noite, atiraram-se sobre eles, massacrando-os, juntamente com os seus generais Daurises, Amorges e Sisimaces. Mírsus, filho de Giges, foi também morto.

CXXII — Foi Heraclides, filho de Ibanólis, da cidade de Milassa, quem organizou essa emboscada, tão fatal para os Persas. Himes, que figurava entre os que haviam perseguido os Iônios depois da malograda expedição destes contra Sardes, voltou suas forças contra Propôntis, capturando Cio, na Mísia. Tendo sabido, depois disso, que Daurises havia deixado o Helesponto em direção à Cária, abandonou a Propôntis e dirigiu-se com o seu exército para o Helesponto. Subjugou todos os Eólios do território de Ílion e os Gergitas, remanescentes dos antigos Teucros. Enquanto se entregava a essas conquistas contraiu grave moléstia, vindo a falecer na Tróada.

CXXIII — Artafernes, governador de Sardes, recebeu ordens para ir com Otanes, um dos três generais do exército de Dario, à Iônia e à Eólida. Ali chegando, tomaram Clazômenas, na Iônia, e Cimes, na Eólida.

CXXIV — Aristágoras de Mileto, responsável pelo levante da Iônia e pelos motins que a agitaram, mostrou, nessa ocasião, bem pouca firmeza de ânimo. Ficou de tal maneira perturbado com a captura daquelas duas cidades, que resolveu fugir, sabendo, naturalmente, que não poderia levar vantagem alguma sobre o soberano persa. Convocou os seus partidários e perguntou-lhes se não seria conveniente poderem contar com um asilo próximo dali, para quando se vissem expulsos de Mileto, quer fosse na Sardenha, quer em Mircina, no país dos Edônios, cidade que Dario tinha dado a Histeu e que este começara a cercar de muralhas.

CXXV — O historiador Hecateu, filho de Hegesandre, não era de opinião que se estabelecesse uma colônia em qualquer desses dois países, mas que se construísse um castelo na ilha de Leros, para o caso de serem banidos de Mileto, mantendo-se todos tranqüilos ali, pois de lá poderiam retornar facilmente a Mileto.

CXXVI — Aristágoras, porém, inclinava-se mais por Mircina. Confiou Mileto a Pitágoras, homem de grande influência e filho do lugar, e, reunindo todos os que se dispuseram a acompanhá-lo, velejou para a Trácia, apoderando-se do país que tinha em vista ao deixar Mileto. Pouco depois, tendo ido tentar o cerco de uma praça forte, ali pereceu com todo o seu exército, nas mãos dos Trácios que a defendiam.


 

LIVRO VI

ÉRATO

DARIO APODERA-SE DE MILETO — O POETA FRÍNICO — DARIO MANDA PEDIR TERRA E ÁGUA AOS POVOS DA GRÉCIA — PRERROGATIVAS DOS REIS DE ESPARTA — TOMADA DE ERÉTRIA PELOS PERSAS — CLEÓMENES — SUA MORTE — OS PERSAS ATACAM ATENAS — A BATALHA DE MARATONA — MILCÍADES — OS ESPARTANOS SÓ CHEGAM DEPOIS DA VITÓRIA — MILCÍADES DIANTE DE PAROS — O MALOGRO DE SUA EXPEDIÇÃO — CONDENADO A UMA MULTA — OS PELASGOS — LEMNOS.


 

I — Assim pereceu Aristágoras, incitador da sublevação na Iônia contra Dario. Quanto a Histeu, logo que o soberano consentiu na sua viagem, partiu de Susa com destino a Sardes. Ao chegar a essa cidade, Artafernes, que a governava, perguntou-lhe que razões poderiam, na sua opinião, ter levado os Iônios à revolta. Histeu, fingindo completa ignorância sobre o caso, respondeu-lhe estar muito surpreendido com o que se passara. Artafernes, percebendo que ele procurava ocultar a verdade, disse-lhe, como se estivesse inteiramente a par da verdadeira causa do movimento: “Histeu, tu costuraste o sapato e Aristágoras calçou-o”.

II — Histeu, alarmado com essas palavras, que mostravam estar Artafernes ciente de suas manobras, fugiu por mar ao cair da noite, ludibriando Dario. Ele, que havia prometido ao soberano submeter ao seu domínio a grande ilha de Sardenha, acabou assumindo o comando dos Iônios sublevados contra o seu senhor, e passou para a ilha de Quios, cujos habitantes o aprisionaram, acusando-o de ter vindo da parte de Dario para insuflar desordens entre eles: mas quando se inteiraram da verdade e souberam ser ele inimigo do rei, restituíram-lhe a liberdade.

III — Os Iônios, por sua vez, inquiriram-no sobre a razão que o levara a convencer Aristágoras que sublevasse a Iônia, causando a esta tantos males. Ocultando a verdadeira razão, Histeu disse-lhes que assim procedera por haver Dario resolvido deslocar os Fenícios para a Iônia e os Iônios para a Fenícia, muito embora o soberano jamais houvesse pensado em tal coisa. O que Histeu desejava com isso era aterrorizar os Iônios.

IV — Harmonizadas as coisas, Histeu escreveu aos seus amigos persas estabelecidos em Sardes, com os quais se entretivera a respeito da revolta, confiando as cartas a Hermipo de Atárnea; mas o portador, em lugar de levá-las aos destinatários, levou-as a Artafernes. Este, tomando conhecimento do que se tramava, ordenou a Hermipo que as fosse entregar àqueles aos quais eram dirigidas, trazendo-lhe as respostas dos mesmos. Descoberta a conspiração, Artafernes mandou matar grande número de persas nela envolvidos.

V — Verificaram-se, nessa ocasião, algumas perturbações em Sardes. Histeu, vendo malogrados seus planos, resolveu voltar a Mileto, sendo conduzido por habitantes de Quios. Os Milésios, satisfeitos por se verem livres de Aristágoras, não se sentiam inclinados a receber em seu país outro tirano, tanto mais que experimentavam agora as doçuras da liberdade. Vendo-se repelido, Histeu tentou, durante a noite, penetrar à força na cidade, mas foi ferido na coxa por um cidadão de Mileto. Indesejável na sua própria pátria, retornou a Quios, e como não conseguisse convencer os habitantes dessa ilha a fornecer-lhe navios, passou-se para Mitilene, obtendo navios dos Lésbios. Estes puseram à sua disposição oito trirremes, com os quais Histeu fez-se ao mar com destino a Bizâncio, onde, ao chegar, interceptou todos os navios procedentes do Ponto Euxino, deixando livres aqueles cujos tripulantes se declararam prontos a obedecer-lhe.

VI — Enquanto Histeu e os Mitilenos se ocupavam com essas atividades, chegou a Mileto uma poderosa frota, com um numeroso exército de terra. Os generais dos Persas, tendo reunido suas forças esparsas, formando com elas um só corpo de exército, marcharam diretamente para a capital, sem darem importância às pequenas cidades. Dos componentes das forças navais, foram os Fenícios os que demonstraram maior ardor. Os Cíprios, que haviam sido novamente subjugados, acompanhavam-nos, juntamente com os Cilícios e os Egípcios.

VII — Ante a notícia de que essas tropas vinham atacar Mileto e o resto da Iônia, os Iônios enviaram delegados ao Paniônio. Discutido o caso, ficou decidido que não seria enviado nenhum exército de terra contra os Persas; que os Milésios defenderiam, eles próprios, sua cidade; que seriam completadas as equipagens de todos os navios, e que estes se reuniriam o mais cedo possível em Lade, para ali combater a favor de Mileto. Lade é uma pequena ilha situada em frente à cidade de Mileto.

VIII — Concluídos os preparativos, os Iônios dirigiram-se para o local combinado, com todos os Eólios da ilha de Lesbos, ficando assim dispostos para a batalha: os Milésios ocupavam a ala de leste com oitenta navios, vindo em seguida os Priênios, com doze navios, e depois destes os Miontinos, com três navios e os Teios, com dezessete. Estes últimos eram seguidos por cem veleiros de Quios, perto dos quais estavam os Eritreus e os Fócios, estes com três navios, aqueles com oito. Logo depois deles colocaram-se os Lésbios, com setenta veleiros. Finalmente, os habitantes de Samos ocupavam a outra ala a oeste, manobrando sessenta navios, o que perfazia um total de trezentos e cinqüenta e três trirremes do lado dos Iônios.

IX — A frota dos bárbaros era composta de seiscentos veleiros. Quando ela chegou às costas de Mileto, já estando reunidas todas as forças de terra, os generais persas, tendo notícia do grande número de navios Iônios, recearam não serem bastante fortes para vencê-los, e assim, por falta de superioridade no mar, deixaram de tomar Mileto, atraindo sobre eles a cólera de Dario. Depois de haverem confabulado, convocaram os tiranos iônios privados por Aristágoras dos seus Estados e que, tendo-se refugiado junto aos Medos, se achavam com as tropas acampadas diante de Mileto. Quando os viram reunidos, os generais persas assim lhes falaram: “Iônios, chegou o momento de mostrardes o vosso zelo pela causa do rei. O que desejamos é que cada um de vós procure desligar seus concidadãos do resto dos aliados, assegurando-lhes que não serão punidos por se terem revoltado e que não verão incendiados seus edifícios, quer sagrados, quer profanos. Se, porém, repelirem vossas propostas; se persistirem no propósito de combater, ameaçai-os dizendo-lhes das desgraças que lhes poderão advir no caso de serem vencidos; procurai convencê-los de que serão reduzidos à escravidão; seus filhos varões convertidos em eunucos; suas filhas levadas para Bactros, e suas terras entregues a outros povos”.

X — Chegando a noite, os tiranos iônios enviaram delegados aos seus respectivos concidadãos para fazê-los conhecedores da reunião havida com os chefes persas; mas aqueles a que se dirigiram, supondo que as propostas dos Persas eram dirigidas unicamente a eles, repeliram-nas desdenhosamente, não querendo trair a causa comum.

XI — Logo a seguir, os Iônios reuniram-se em conselho na ilha de Lade, onde se haviam concentrado, deliberando sobre assuntos relacionados com a sua segurança, examinando pareceres e discutindo sugestões. Dionísio, chefe dos Fócios, que tomava parte na reunião, dirigiu-se aos presentes nestes termos: “Nossos interesses, Iônios, estão suspensos por um fio. Não há, para nós, meio termo entre a liberdade e a escravidão, mesmo a escravidão em que gemem os escravos fugitivos. Lutando pela liberdade, sofrereis no presente, suportando os trabalhos e as fadigas da guerra; mas, vencidos os vossos inimigos, podereis gozar da condição de homens livres. Se, ao contrário, vos abandonardes à inércia e à desordem, não creio que possais subtrair-vos à punição pela vossa rebeldia. Segui, pois, os meus conselhos; colocai-vos confiantes nas minhas mãos, e eu vos asseguro que, se os deuses mantiverem a balança em equilíbrio, os Persas não chegarão a atacar-nos, ou se o fizerem, não levarão a melhor”.

XII — Impressionados com essas palavras, os Iônios confiaram a Dionísio o comando da frota. Dionísio entregou-se, então, ao treinamento das tripulações, realizando pequenas manobras todos os dias e exercitando os remadores no seu importante mister. Durante o resto do dia, mantinha os navios ancorados, continuando, porém, o treinamento dos Iônios, não lhes dando um momento de descanso. Os Iônios mantiveram-se obedientes a tudo durante sete dias, mas no oitavo dia, abatidos pela fadiga e pelo ardor do sol, deram vazão às suas queixas, expressando-se desta maneira: “Que deus teríamos ofendido para sermos submetidos a tantas torturas? Teríamos perdido a razão para nos entregarmos às mãos de um fócio presunçoso, que nos domina e sobrecarrega de trabalhos penosos, embora tenha contribuído com apenas três navios para a nossa causa comum. Muitos de nossos companheiros já foram vitimados por moléstias, enquanto outros estão delas ameaçados. Qualquer outro mal é preferível a este. A servidão que nos espera será menos penosa do que a que experimentamos atualmente. Insurjamo-nos, Iônios! Não lhe obedeçamos mais!” Ante aquele brado de rebeldia que lhes calou fundo no pensamento, os Iônios deixaram de obedecer, e, erguendo tendas na ilha, ali se deixaram ficar, não querendo mais voltar para os navios nem continuar os exercícios.

XIII — Os generais de Samos, informados da conduta dos Iônios e da desordem que reinava entre eles, aceitaram a proposta de Eácio, filho de Silóson, que já lhes tinha pedido, da parte dos Persas, que renunciasse à confederação dos Iônios. E assim procederam com tanto maior boa vontade quanto lhes parecia impossível levar vantagem sobre um soberano tão poderoso como Dario e por saberem que, se a frota persa fosse derrotada, viria outra cinco vezes mais poderosa. Assim, ao saberem da má conduta dos Iônios, aproveitaram a oportunidade para abandoná-los, considerando a conservação dos seus edifícios sagrados e profanos como uma grande vantagem. Esse Eácio, cuja proposta fora aceita pelos generais de Samos, era filho de Silóson e neto de Eácio. Tinha sido tirano de Samos, sendo despojado da soberania por Aristágoras de Mileto, que agiu da mesma maneira com relação a outros tiranos da Iônia.

XIV — Quando os Fenícios fizeram avançar seus navios contra os Iônios, estes lhes foram ao encontro, mantendo os navios em fila e avançando numa frente estreita. As duas frotas aproximaram-se velozmente uma da outra, e o combate começou. Não sei dizer quais dos Iônios, nessa batalha, se mostraram cobardes ou valentes, pois eles se acusam mutuamente. Quanto aos combatentes de Samos, dizem que, abrindo velas, abandonaram as fileiras, como fora convencionado, singrando na direção de Samos, exceto doze dos seus navios, cujos comandantes, recusando-se a obedecer a seus chefes, mantiveram-se na luta e foram derrotados. O Conselho Geral de Samos ordenou que, em memória dessa bela ação, fosse erguida uma coluna tendo gravados os nomes daqueles combatentes e de seus ancestrais, como um testemunho de seu valor. Essa coluna ergue-se na praça pública da cidade de Samos. Os Lésbios, vendo os combatentes de Samos, que se achavam ao lado deles, abandonar a luta, retiraram-se também, sendo o seu exemplo seguido por grande número de Iônios.

XV — Entre os que sustentaram o combate, os combatentes de Quios foram os mais castigados, por não quererem ceder ante o inimigo poderoso, lutando com desassombro e praticando ações notáveis. Tinham fornecido, como já disse anteriormente, cem navios aos seus aliados, levando cada um quarenta combatentes, escolhidos entre os mais bravos cidadãos de Quios. Embora vendo-se abandonados pela maior parte dos seus aliados, mantiveram-se firmes na luta, passando duas vezes entre os navios inimigos, voltando à carga e aprisionando um bom número deles, até que, privados da maioria dos seus, retiraram-se da batalha, refugiando-se na ilha com os que lhes restavam.

XVI — Aqueles cujos navios desarvorados não podiam segui-los, vendo-se perseguidos, fugiram em direção a Mícale, onde abandonaram suas embarcações, continuando a viagem por terra. Chegando ao território de Éfeso, dirigiram-se, ao cair da noite, para a cidade, justamente na ocasião em que as mulheres dali celebravam as Tesmofórias(1). Os Efésios, que ainda não estavam informados do que havia acontecido aos de Quios, vendo aquelas tropas invadir-lhes a cidade, julgaram tratar-se de bandidos que lhes vinham arrebatar as mulheres, e, lançando-se todos sobre os infelizes fugitivos, massacraram-nos impiedosamente.

XVII — Dionísio da Fócia, ao saber perdida a causa dos Iônios, apossou-se de três navios dos inimigos e deu-se pressa em fugir, não para a Fócia, pois estava certo de que essa cidade seria reduzida à servidão com o resto da Iônia, mas diretamente para a Fenícia, de onde velejou para a Sicília, depois de haver posto ao fundo alguns navios mercantes, não sem antes apoderar-se do dinheiro que levavam. Tomando gosto pela aventura, entregou-se à pilhagem, principalmente contra as embarcações cartaginesas e as tirrênias, mas poupando as gregas.

XVIII — Batida a frota iônia, os Persas sitiaram Mileto por terra e por mar, atacando essa praça com toda sorte de máquinas de guerra. Finalmente, depois de haverem minado as muralhas que a protegiam, conseguiram tomá-la de assalto, submetendo todos os habitantes à servidão, justamente seis anos depois da revolta provocada por Aristágoras, realizando-se assim a predição do oráculo com relação a essa cidade.

XIX — Tendo os Árgios enviado delegados a Delfos para consultar o oráculo sobre a sorte dessa cidade, o deus formulou uma resposta que, em parte, lhes dizia respeito, e em parte, aos Milésios. Mencionarei, no momento oportuno, a que se referia aos Árgios. A resposta concernente aos Milésios estava concebida nos seguintes termos: “E tu, cidade de Mileto, subjugada por máquinas poderosas e de estranho desígnio, tornar-te-ás rica presa para muita gente. Tuas mulheres lavarão os pés a muitos homens de longas cabeleiras, e outras cuidarão do nosso templo em Dídimo”(2). Foi esse o oráculo a que acima me referi e que se cumpriu com o ataque dos Persas à mencionada cidade, cujos habitantes foram, na sua maioria, trucidados pelos vencedores, que usavam cabelos longos, enquanto que suas mulheres e filhos foram feitos escravos, e o recinto sagrado, o templo e o oráculo pilhados e queimados.

XX — Os Persas levaram para Susa os prisioneiros feitos entre os Milésios, e Dario, sem mais hostilizá-los, enviou-os para Ampéia, no litoral da Eritréia, junto à embocadura do Tigre, onde eles fixaram sua nova moradia. Os vencedores Persas reservaram para si as cercanias e a planície de Mileto, entregando as montanhas aos Cários de Pédaso.

XXI — Os Sibaritas que habitavam Laos e Cidra, depois de expulsos de sua cidade, não se conduziram com relação aos Milésios oprimidos pelos Persas, como aqueles se haviam comportado para com eles. Com efeito, quando Síbaris foi tomada pelos Crotonianos, os Milésios de todas as idades rasparam a cabeça, como manifestação de profundo pesar, pois era grande a amizade que ligava as duas cidades. Já os Atenienses, ao terem conhecimento da tomada de Mileto, mostraram-se consternados, testemunhando sua dor de mil maneiras. No teatro, por ocasião da representação de uma tragédia de Frinico, que tinha por tema a captura daquela cidade, os espectadores debulharam-se em lágrimas, sendo o poeta condenado a pagar uma multa de mil dracmas por haver relembrado aos povos aquela imensa desgraça que ele sentia como se sua própria fora. Além disso, a peça ficou proibida de ser representada em Atenas por quem quer que fosse.

XXII — Os habitantes de Samos mais ricos e mais influentes não apreciaram a conduta dos seus generais com relação aos Medos. Reunindo-se em conselho depois da batalha naval, resolveram ir estabelecer-se em outra parte, antes da chegada de Eácio, receosos de, ali permanecendo, caírem sob o jugo deste e também dos Medos. Quase ao mesmo tempo, os Zancleus da Sicília enviavam delegados à Iônia, convidando os Iônios a virem estabelecer-se em Calactéia, onde pretendiam construir uma cidade iônia. Essa região pertencia aos Sículos e está situada na parte extrema da Sicília voltada para a Tirrênia. Os habitantes de Samos foram os únicos a atender a esse convite, partindo para ali em companhia de alguns Milésios que haviam escapado à devastação e à ruína de sua pátria.

XXIII — Enquanto os habitantes de Samos que se dirigiam para a Sicília contornavam o litoral da região habitada pelos Lócrios-Epizefírios, os Zancleus e Sites, seu rei, faziam o cerco de uma cidade da Sicília, que pretendiam destruir. Sabedor disso, Anaxilau, tirano de Régio e que então se encontrava em demanda com os Zancleus, veio ao encontro dos retirantes de Samos, sugerindo-lhes que renunciassem à Calactéia e se apoderassem de Zancle, naquele momento quase desprovida de defensores. Os retirantes aceitaram a sugestão e apoderaram-se daquela cidade. Assim que os Zancleus tiveram conhecimento desse fato, chamaram em seu socorro Hipócrates, tirano de Gela, de quem eram aliados. Esse soberano acorreu com um forte exército, mandando, antes, pôr a ferros Sites, tirano dos Zancleus, que acabava de perder seus Estados, e Pitógenes, irmão do mesmo, enviando os dois a Inuca. Feito isso, em vez de socorrer os Zancleus, entregou-os aos captores de Zancle, depois de haver combinado com eles, com uma troca de juramentos, a partilha dos bens existentes na cidade, ficando ele com a metade dos móveis e dos escravos que se achavam na cidade e com tudo que se achasse nos campos. Em seguida, Hipócrates mandou pôr a ferros a maioria dos Zancleus, tratando-os como escravos, entregando trezentos dos mais influentes dentre eles aos naturais de Samos, para que estes os matassem, mas que, entretanto, os pouparam.

XXIV — Sites, o monarca dos Zancleus, fugiu de Inuca para Hímera, de onde passou para a Ásia, indo juntar-se a Dario. O soberano considerou-o o mais honesto dos gregos que já tinham vindo à sua corte, porquanto ali tinha voltado depois de haver estado na Sicília com a sua permissão. Sites morreu de velhice, gozando, até a sua morte, da maior felicidade entre os Persas, que muito o estimavam.

XXV — Os habitantes de Samos que se haviam furtado ao jugo dos Medos apoderaram-se sem grande esforço da bela cidade de Zancle. Vitoriosos na batalha naval, cujo objetivo era a retomada de Mileto, os Persas fizeram com que regressasse a Samos, reconduzido pelos Fenícios, Eácio, filho de Silóson, a quem muito estimavam e que lhes havia prestado valiosos serviços. Somente os habitantes de Samos não foram punidos, pela revolta, com a destruição de sua cidade e de seus templos, porque os seus navios se tinham retirado durante o combate naval. Depois de retomarem Mileto, os Persas apoderaram-se da Cária, cujos habitantes submeteram-se ao seu jugo, uns voluntariamente, outros pela força.

XXVI — Enquanto Histeu de Mileto interceptava, nas vizinhanças de Bizâncio, as embarcações dos negociantes iônios que deixavam o Ponto Euxino, chegou-lhe a notícia do desastre de Mileto. Sem perda de tempo, confiou a Bisalte, filho de Apolofanes, de Abido, os interesses do Helesponto, e abriu velas para Quios com os Lésbios que tinha sob suas ordens. Como a guarnição da cidade se negasse a recebê-lo, deu-lhe combate no lugar denominado Celes, matando grande parte daqueles que a compunham; e partindo de Policna, de que se tinha apoderado, subjugou, com o auxílio dos Lésbios, o resto dos habitantes da ilha, já tão duramente castigados na batalha naval contra os Persas.

XXVII — Quando uma nação ou uma cidade está destinada a sofrer uma grande desgraça, essa desgraça é geralmente precedida de certos sinais. Assim, os habitantes de Quios sentiram os prenúncios do que de mau lhes ia acontecer. De um coro de cem jovens enviados a Delfos, apenas dois regressaram; os outros noventa e oito morreram de peste. Quase na mesma ocasião, pouco antes do combate naval, o teto de uma escola ruiu sobre as crianças que ali estudavam, e de cento e vinte que eram, somente uma escapou. Esses presságios que a Divindade lhes enviou foram logo seguidos pela derrota sofrida na batalha naval, de que resultou a perda da sua cidade; e em seguida surgia Histeu com os Lésbios para subjugá-los com a maior facilidade, tão esgotados já se achavam eles.

XXVIII — Cheio de confiança em si próprio pelos seus primeiros sucessos, Histeu dirigiu-se de Quios para Tasos com um grande número de Iônios e de Eólios. Enquanto organizava o cerco, teve notícia de que os Fenícios haviam deixado Mileto para atacar as outras praças da Iônia. Erguendo o cerco de Tasos, dirigiu-se precipitadamente para a ilha de Lesbos com todas as tropas de que dispunha; mas, faltando-lhe provisões e a fome já começando a se fazer sentir, passou-se para o continente, em busca do trigo de Atárnea e da planície do Caíque, cuja colheita pertencia aos Mísios. Harpages, persa de nascimento, que se achava por acaso naquelas paragens, à testa de um grande exército, lançou-se contra Histeu no momento em que este desembarcava, dizimando grande parte de suas tropas e fazendo-o prisioneiro, da maneira que passo a relatar.

XXIX — A batalha teve lugar em Malena, na Atárnea, Os Gregos resistiram durante muito tempo, até que a cavalaria persa, caindo sobre eles, pô-los em fuga. Os Persas deveram, pois, essa vitória à sua eficiente cavalaria. A esperança de um perdão alimentada por Histeu inspirou-lhe tal desejo de viver que, vendo-se aprisionado na fuga por um soldado e prestes a ser trespassado pela espada- deste, deu-se a conhecer, dizendo-lhe, em persa, ser Histeu de Mileto.

XXX — Estou convencido de que se o conduzissem à presença de Dario logo que o aprisionaram, longe de sofrer um cruel tratamento, teria sido perdoado pela sua rebeldia. Foi, pois, receando que, em lugar de ser punido, ele reconquistasse os favores de Dario, que Artafernes, governador de Sardes, e Harpages, de quem Histeu era prisioneiro, mandaram crucificá-lo assim que chegaram a Sardes, embalsamando-lhe a cabeça e enviando-a a Dario, em Susa. O soberano, posto ao corrente do que se passara, lamentou amargamente tal procedimento, mostrando-se pesaroso de não lhe terem trazido vivo o prisioneiro. Depois de mandar lavar a cabeça, determinou que a amortalhassem de maneira honrosa e lhe dessem sepultura, como se tivesse pertencido a um homem que houvesse prestado grandes serviços aos Persas e a ele próprio, Dario. Tal o fim de Histeu de Mileto.

XXXI — Depois de haver passado o Inverno nas imediações de Mileto, a frota persa abriu velas de novo, apoderando-se facilmente das ilhas vizinhas ao continente, de Quios, Lesbos e Tênedos. Na captura dessas ilhas, os Persas usaram de um processo bastante eficiente: envolviam os habitantes como numa rede, tornando-lhes impossível a fuga. Essa manobra era o que se podia imaginar de mais simples: mantinham-se de mãos dadas e estendiam-se de um extremo ao outro da ilha, percorrendo-a assim por todos os pontos e dando caça aos habitantes. Apoderaram-se também, e com a mesma facilidade, das cidades iônias do continente, não porém pelo mesmo processo, que ali redundaria impraticável.

XXXII — Cumprindo as ameaças que haviam feito aos Iônios quando os dois exércitos se defrontaram, os generais persas, logo que se assenhorearam das cidades iônias escolheram os mais belos meninos para torná-los eunucos e apoderaram-se das mais belas jovens, enviando-as ao seu soberano; e, não contentes com isso, atearam fogo aos edifícios e aos templos. Assim foram os Iônios subjugados pela terceira vez, depois de o haverem sido pelos Lídios e pelos próprios Persas.

XXXIII — Deixando a Iônia, a frota persa submeteu extensa faixa do Helesponto, situada à esquerda. A região à direita, no continente, havia sido dominada antes pelos Persas. Em seguida, apoderou-se da parte do Helesponto situada na Europa, do Quersoneso e de todas as suas cidades, de Perinto, dos castelos da Trácia, da Selímbria e de Bizâncio. Os Bizantinos e os Calcedônios, que habitam a orla oposta, não esperaram a frota fenícia; abandonaram suas cidades e refugiaram-se na região litorânea do Ponto Euxino, ali fundando a cidade de Mesêmbria. Os Fenícios, depois de terem percorrido toda essa região e de incendiar tudo que encontravam à sua passagem, voltaram-se em direção à Proconesia e Artacéia, incendiando-as também. Logo em seguida retornaram a Quersoneso, a fim de destruir as cidades poupadas no primeiro assalto. A cidade de Cizico, todavia, escapou da destruição, porque seus habitantes, informados da vinda das hordas fenícias, apressaram-se a assinar um tratado de obediência ao rei por intermédio de Ebares, filho de Megabases, governador de Dascílio. No Quersoneso, porém, os Fenícios subjugaram todas as cidades, com exceção de Cárdia.

XXXIV — Milcíades, filho de Címon e neto de Esteságoras, reinava, então, sobre essas cidades, havendo recebido o poder de Milcíades, filho de Cípselo, que havia adquirido a soberania da maneira que passo a expor. Os Dolôncios, povo da Trácia, mantinham o Quersoneso sob o seu domínio. Acossados pelos Apsíntios, com os quais se achavam em guerra, enviaram seus reis a Delfos para consultarem o oráculo, aconselhando-os a pitonisa a levarem consigo, para fundarem uma colônia na região, o primeiro homem que, ao saírem do templo, lhes oferecesse hospedagem. Os Dolôncios retornaram pela Via-Sacra, atravessaram a Fócida e a Beócia(3), e, como ninguém lhes oferecesse hospedagem, seguiram em direção a Atenas.

XXXV — Pisístrato gozava, então, em Atenas, de um poder soberano. Milcíades também tinha ali alguma autoridade. Era de estirpe ilustre, concorrendo com quatro cavalos para os Jogos Olímpicos(4). Descendia de Éaco e Egina(5), tendo sua família, em época mais recente, obtido a cidadania ateniense, a partir de Fileu, filho de Ajax, o primeiro desse tronco a tornar-se cidadão de Atenas. Milcíades, achando-se um dia sentado à porta de sua residência, viu passar os Dolôncios que haviam ido consultar o oráculo de Delfos.

Reconhecendo, pelas vestes e pelas lanças, serem eles estrangeiros, chamou-os e ofereceu-lhes hospedagem. Os Dolôncios aceitaram, e, vendo-se bem tratados, revelaram-lhe o oráculo, pedindo-lhe que obedecesse ao deus. Milcíades aquiesceu tanto mais facilmente quanto já se sentia desgostoso com o domínio de Pisístrato e desejava afastar-se da pátria, e dirigiu-se imediatamente a Delfos, a fim de perguntar aos oráculos se devia realmente atender às súplicas dos Dolôncios.

XXXVI — Tendo a pitonisa respondido favoravelmente, Milcíades, filho de Cípselo, detentor, nos Jogos Olímpicos, do prêmio da corrida de carro a quatro cavalos, reuniu todos os Atenienses que quiseram tomar parte na expedição, e embarcando com eles e os Dolôncios, foi fundar a nova colônia, da qual acabou por tornar-se chefe e feito mais tarde tirano pelos que o haviam acompanhado. Começou por fechar, com uma muralha, o istmo do Quersoneso, estendendo-a, depois, de Cárdia a Páctias, para interditar a entrada aos Apsíntios e impedi-los de devastar suas terras. O istmo, nesse ponto, mede trinta e seis estádios, e o Quersoneso mede, a partir do istmo, quatrocentos e vinte estádios de extensão.

XXXVII — Depois de haver fechado a entrada do Quersoneso por uma muralha que a punha ao abrigo das incursões dos Apsíntios, Milcíades lançou-se sobre os Lampsacênios. Estes, porém, armaram-lhe uma emboscada, aprisionando-o. Sabedor disso, Creso, rei da Lídia, que muito o estimava, enviou ordens aos Lampsacênios para que o libertassem, ameaçando-os de cortá-los como aos pinheiros, caso não obedecessem. Os Lampsacênios ficaram indecisos, sem compreender o sentido dessa ameaça do soberano(6), até que um dentre eles, idoso e mais experiente, entendeu-lhe o significado e o esclareceu aos seus aflitos concidadãos, explicando-lhes que, de todas as árvores, o pinheiro é a única que, uma vez cortada, não brota mais, morrendo completamente(7). Entendendo, afinal, a ameaça contida nas ordens de Creso e temendo o poderio deste, os Lampsacênios puseram Milcíades em liberdade.

XXXVIII — Graças à intervenção de Creso, Milcíades reconquistou a liberdade; mas faleceu pouco depois, sem deixar filhos, legando o principado e as riquezas ao seu sobrinho Esteságoras, filho de Címon, seu irmão uterino. Os habitantes do Quersoneso ofereceram-lhe sacrifícios depois de sua morte, como é de uso fazer tratando-se de um fundador de cidades, e instituíram, em sua honra, corridas de carros e jogos gímnicos, em que não é permitido aos Lampsacênios disputarem o prêmio. Os habitantes do Quersoneso estavam ainda em guerra contra Lâmpsaco, quando Esteságoras morreu também, sem deixar descendentes, vitimado por um golpe de machado na cabeça, que lhe desferiu, no interior do Pritaneu, um indivíduo que passava por trânsfuga, mas que no fundo era um inimigo violento.

XXXIX — Perecendo Esteságoras em tão trágicas circunstâncias, os partidários de Pisístrato enviaram a Quersoneso, num trirreme, Milcíades, filho de Címon e irmão de Esteságoras, para assumir as rédeas do governo. Eles já o haviam tratado com afabilidade em Atenas, como se não tivessem tomado parte no assassínio de seu pai Címon, em circunstâncias que detalharei mais adiante. Chegando a Quersoneso, Milcíades conservou-se encerrado no palácio, sob o pretexto de honrar a memória do irmão. Sabedores disso, os que dispunham de alguma autoridade no Quersoneso vieram juntos, de todas as cidades, testemunhar ao soberano a sua dor. Este, assim que os teve ao seu alcance, mandou prendê-los a todos, tornando-se, assim, senhor absoluto do Quersoneso, mantendo, para sua segurança, uma guarda de quinhentos homens. Desposou, pouco depois, Hegesipila, filha de Oloro, rei da Trácia.

XL — Havia pouco tempo que Milcíades, filho de Címon, tinha chegado a Quersoneso, quando sobrevieram questões que o deixaram em situação extremamente delicada, abalando o seu prestígio. Com efeito, três anos depois desses acontecimentos, ele se via na contingência de fugir do país ante a aproximação dos Citas nômades, que, irritados com a invasão de Dario, se tinham reunido num só corpo de exército, avançando até o Quersoneso. Milcíades, não ousando fazer-lhes frente, abandonou o poder, mas, retirando-se os Citas, os Dolôncios foram buscá-lo, restabelecendo-o no trono..

XLI — Pouco mais tarde, tendo sabido que os Fenícios estavam em Tênedos, Milcíades mandou carregar cinco trirremes com os tesouros que possuía e abriu velas para Atenas. Partindo da cidade de Cárdia, atravessou o golfo Melas, mas, quando se afastava da costa do Quersoneso, os Fenícios caíram sobre ele. Logrando salvar-se do inesperado ataque, Milcíades refugiou-se, com quatro navios, em Imbros; mas Metioco, seu filho mais velho, que comandava o quinto, foi perseguido pelos Fenícios e aprisionado, juntamente com a embarcação. Nascera ele de outra mulher que não a filha de Oloro, rei da Trácia. Os Fenícios, descobrindo que se tratava de um filho de Milcíades, levaram-no à presença de seu soberano, acreditando que este ficaria muito satisfeito com a presa, tanto mais que, no Conselho dos Iônios, Milcíades tinha opinado a favor dos Citas com relação às propostas destes para o rompimento da ponte de batéis. O soberano, porém, em lugar de maus tratos, cumulou o jovem de bens, deu-lhe uma casa e terras, e fê-lo desposar uma mulher persa, da qual ele teve vários filhos, que vieram a gozar dos mesmos privilégios concedidos aos Persas.

XLII — De Imbros, Milcíades passou-se para Atenas, justamente na ocasião em que os Persas deixaram de hostilizar os Iônios, aplicando-se à tarefa de dar leis úteis ao país. Artafernes, governador de Sardes, enviou delegados às cidades iônias e obrigou-as, por um tratado, a resolverem suas pendências pelo direito, ao invés de usarem de violência e saque. Mandou, em seguida, medir as terras por parasangas, medida usada na Pérsia e equivalente a trinta estádios, e regulamentou os impostos atribuídos a cada cidade. Esses impostos continuam a ser pagos até o presente, de acordo com a regulamentação de Artafernes, que pouco diferia da estabelecida anteriormente. Tais disposições se destinavam a pôr fim às desordens ali reinantes.

XLIII — Na Primavera seguinte, o soberano destituiu do comando do exército os generais que então o detinham, nomeando, em seu lugar, Mardônio, filho de Góbrias. Mardônio, que era jovem e acabava de desposar Artozostra, filha de Dario, dirigiu-se para o litoral com poderosas forças de terra e mar. Chegando à Cilícia com todas essas forças, embarcou com o resto da frota, enquanto o exército de terra avançava para o Helesponto sob as ordens de outros generais. Depois de haver contornado a Ásia, Mardônio foi ter à Iônia, onde realizou algo que muito surpreendeu os Gregos que não quiseram convencer-se de que na assembléia dos sete persas Otanes houvesse opinado pela implantação de um governo democrático, como o mais vantajoso: depôs os tiranos da Iônia e estabeleceu nas cidades a democracia. Feito isso, dirigiu-se para o Helesponto, e reunindo uma grande quantidade de navios e de tropas, atravessou o Helesponto e rumou para a Europa, tendo em mira a Erétria e Atenas.

XLIV — Essas duas praças eram, com efeito, o principal objetivo dessa expedição dos Persas, que tinham a intenção de subjugar o maior número de cidades gregas possível. Enquanto a frota submetia os Tásios, sem encontrar a menor resistência, o exército reduzia à servidão os Macedônios que ainda se conservavam livres. Deixando Tasos, a frota contornou o continente do lado oposto, até Acanto, de onde partiu para dobrar o monte Atos. Quando por ali passava, o vento norte pôs-se a soprar com tremendo ímpeto, açoitando as embarcações e impelindo-as de encontro ao monte. Dizem que trezentas dessas embarcações naufragaram ali, perecendo mais de vinte mil homens, uns arrebatados pelos monstros marinhos que existem em grande número naquela zona; outros esmagados de encontro aos rochedos; outros de frio, e outros por não saberem nadar. Tal o triste fim dessa grande armada.

XLV — Enquanto Mardônio acampava na Macedônia com as forças de terra, os Trácios-Briges, surgindo da escuridão da noite, lançaram-se sobre elas, fazendo grande mortandade e ferindo o próprio Mardônio. Não se furtaram, porém, com essa sortida, à sorte que os aguardava. Mardônio não deixou o país enquanto não os subjugou. Submetido esse povo, regressou à Pérsia com o que restava de seus exércitos de terra e de mar, o primeiro rudemente castigado pelos Briges, e o segundo açoitado com perdas consideráveis pela tempestade junto ao monte Atos. Mardônio viu-se, assim, forçado a regressar à Ásia, com as suas forças em condição precária.

XLVI — Um ano depois desses acontecimentos, os Tásios foram acusados pelos seus vizinhos de estarem tramando uma revolta. Dario ordenou-lhes que destruíssem as muralhas que haviam erguido e enviassem para Abdera todos os navios que possuíam. Os Tásios, que já haviam sido sitiados por Histeu de Mileto, tinham empregado as grandes riquezas de que dispunham na construção de navios de guerra e para cercar a sua cidade de muralhas mais sólidas do que as anteriores. Essas riquezas provinham do continente e das minas existentes na ilha. As minas de ouro de Escapetéia-Hiléia rendiam normalmente cerca de oitenta talentos, e as das outras ilhas não rendiam menos. O produto dessas minas era realmente considerável, e os Tásios, tendo permanecido durante muito tempo isentos do pagamento de impostos sobre os gêneros alimentícios, chegaram a obter delas uma renda anual de duzentos talentos e até mesmo de trezentos.

XLVII — Tive ocasião de ver essas minas. As mais notáveis de todas eram as descobertas pelos Fenícios que povoaram com Tasos essa ilha, a que este último deu o seu nome. Estão situadas entre Cenira e uma localidade denominada Enira. Diante da ilha de Samotrácia ergue-se uma grande montanha semidestruída pelas escavações precedentes.

XLVIII — Os Tásios, curvando-se às ordens de Dario, destruíram suas muralhas e conduziram seus navios para Abdera. O soberano sondou, em seguida, os Gregos, para ver se eles tinham a intenção de fazer-lhe guerra ou de se submeterem ao jugo persa. Enviou emissários a uma costa e a outra da Grécia, para pedirem, em seu nome, terra e água. Despachou outros para as cidades marítimas que lhe pagavam tributos, ordenando-lhes que construíssem navios de guerra e batéis para o transporte de cavalos.

XLIX — Chegando à Grécia, os emissários desincumbiram-se de sua missão, tendo vários povos do continente, assim como das ilhas, cedido à solicitação do soberano. O exemplo foi seguido por outros insulares, entre os quais os Eginetas. Os Atenienses, logo que souberam que os Eginetas haviam consentido no pacto de submissão ao soberano, ficaram revoltados com tal conduta, e julgando ser ela fruto do ódio que lhes votava esse povo e do seu desejo de atacá-los de concerto com os Persas, aproveitaram o pretexto para acusar Esparta de trair a Grécia.

L — Ante essa acusação, Cleómenes, filho de Anaxandrides, rei de Esparta, dirigiu-se a Egina, com o propósito de prender os mais culpados, mas os Eginetas a isso se opuseram, destacando-se entre eles Crios, filho de Policrito, que declarou que nenhum egineta seria levado dali impunemente, e que ele, Cleómenes, estava agindo sem o consentimento da república de Esparta e somente por instigação dos Atenienses, que o haviam subornado, pois de outra maneira teria vindo com outro rei para prendê-los. Usando dessa linguagem, Crios seguia as ordens recebidas de Demarato. Cleómenes viu-se assim obrigado a deixar a ilha de Egina; mas antes de partir perguntou a Crios o seu nome, e como este o dissesse, limitou-se a observar-lhe: “Pois bem, Crios, prepara bem os teus cornos, pois terás de lutar contra um rude adversário”.

LI — Demarato, filho de Aríston, que havia permanecido durante esse tempo na cidade e que era também rei de Esparta, acusava, por sua vez, Cleómenes, seu colega. Os dois príncipes tinham a mesma origem, mas a família de Eurístenes, por ser mais antiga, gozava de maior consideração.

LII — Os Lacedemônios(8), que não estavam, nesse ponto, absolutamente de acordo com os poetas, pretendem não terem sido conduzidos para o país em que hoje vivem, pelos filhos de Aristodemo, mas pelo próprio Aristodemo, filho de Aristômaco, neto de Cleodeus e bisneto de Hílus; e que pouco tempo depois, Argia, mulher de Aristodemo, filha de Autésion, neta de Tisâmeno, bisneta de Tersandres e tetraneta de Polinice, deu à luz dois filhos gêmeos. Aristodemo mal conheceu as duas crianças, pois adoeceu gravemente, para morrer logo em seguida. Os Lacedemônios de então resolveram, em conselho, entregar a coroa, segundo a lei, ao filho mais velho do soberano; mas, não podendo distinguir um do outro, pois se pareciam extraordinariamente, e não sabendo qual o mais velho e qual o mais moço, pois que eram gêmeos, interrogaram Argia, a mãe, que declarou não saber, ela própria, distingui-los de um modo ou de outro. Argia deu-lhes essa resposta, não porque de fato não o soubesse, mas porque desejava que ambos os filhos fossem declarados reis. Nessa incerteza, os Lacedemônios mandaram consultar o oráculo de Delfos sobre de que maneira deviam conduzir-se, ordenando-lhes a pitonisa que considerassem as duas crianças como reis, tributando, porém, maiores honras ao mais velho. Continuando os Lacedemônios embaraçados quanto a saber qual a mais velha, um messênio de nome Panites aconselhou-os a observar a conduta da mãe com relação às crianças: se ela lavasse e amamentasse uma antes da outra, eles teriam nas mãos a chave do problema; mas se dispensasse tais cuidados a ambas indistintamente, seria evidente a ignorância em que também se encontrava no caso, e eles teriam, então, de tomar outras medidas. Seguindo o conselho do messênio, os Lacedemônios puseram-se a observar Argia com relação ao seu procedimento para com os filhos. Notando qual o contemplado sempre em primeiro lugar com os cuidados maternos, consideraram-no o mais velho e proclamaram-no publicamente o seu novo rei, dando-lhe o nome de Eurístenes, enquanto o irmão recebia o de Procles. Dizem que esses dois príncipes, quando crescidos, nunca estiveram de acordo, embora irmãos, e que essa divergência subsiste igualmente entre os seus descendentes.

LIII — É isso o que contam os Lacedemônios. Os Gregos referem-se a esses fatos de maneira diversa, e fazem uma enumeração exata dos reis dórios até Perseu, filho de Danéia, sem incluir na mesma o deus(9), provando serem eles Gregos, pois desde os primeiros tempos já eram contados no número dos Gregos. Disse eu que a origem desses reis dórios remontava a Perseu, sem querer avançar mais, porquanto esse herói não tem pai mortal a quem se possa atribuir um sobrenome, como se dá com Anfitrião com relação a Hércules. Tenho, pois, razão para dizer até Perseu; mas se ao chegar a Danéia, filha de Acrísio, investigarmos os seus ancestrais, verificaremos que os chefes dórios são originários do Egito. É assim que os Gregos se referem à sua genealogia.

LIV — De acordo, porém, com as tradições dos Persas, Perseu era assírio, tornando-se grego depois, embora seus pais não o fossem. Concordam, assim, não existir nenhum parentesco entre Perseu e os ancestrais de Acrísio, egípcios segundo os Gregos.

LV — Não direi como, sendo eles egípcios, vieram a tornar-se reis dos Dórios, outros já o disseram antes de mim. Mencionarei apenas fatos a que outros não fizeram menção.

LVI — Os Espartanos concederam aos seus reis as seguintes prerrogativas: dois sacerdócios — o de Júpiter Lacedemônio e o de Júpiter Urânio — e o privilégio de fazer guerra a quem entendessem, sem que nenhum espartano lhes pudesse opor obstáculo, sob pena de incorrer em maldição. Quando o exército entra em campanha, os reis marcham na frente e são os últimos a se retirar. A sua guarda pessoal é composta de cem homens de elite, e nas suas expedições podem requisitar a quantidade de gado que quiserem, cabendo-lhes o lombo e a pele dos animais imolados. Tais as regalias de que gozam em tempo de guerra.

LVII — Vejamos agora os privilégios que lhes são concedidos em tempo de paz. Se se realiza um sacrifício em nome da cidade, os reis sentam-se no lugar de honra e são servidos em primeiro lugar, cabendo-lhes o dobro do que toca a cada um dos outros convivas. São também os primeiros a fazer as libações, e a eles pertence, como já disse, as peles dos animais sacrificados. No dia de lua nova e no sétimo dia do mês recebem uma vítima em perfeito estado, que sacrificam no templo de Apolo. Recebem, além disso, uma medida de farinha de centeio e um quarto de vinho. Um lugar de honra lhes é reservado em todos os jogos(10), e concedem a dignidade de proxenos a quem bem lhes pareça, escolhendo-os, naturalmente, entre os seus concidadãos. A cada um é permitido escolher dois pitonisos, sustentados às expensas do Estado. Pitoniso é o nome que se dá ao delegado enviado a Delfos para consultar o oráculo. Quando os reis não tomam parte em festins públicos, recebe cada qual duas medidas de farinha de centeio e um cótilo de vinho, e quando ali comparecem, serve-se-lhes uma porção dupla. Se um particular os convida para uma refeição, presta-lhes as mesmas honras. Os reis são os depositários dos oráculos concedidos, devendo, porém, manter comunicação com os pitonisos. Os assuntos que passamos a mencionar são os únicos submetidos à decisão dos reis e os únicos que eles podem julgar sem nenhuma interferência. Se uma herdeira ainda não possui noivo escolhido por seu pai, cabe-lhes decidir a quem deverá ela desposar. As vias públicas também constituem assunto da competência real. Se alguém quiser adotar uma criança, só poderá fazê-lo em presença do rei. Eles assistem às deliberações do Senado, composto de vinte e oito senadores, e se não comparecem, os senadores seus parentes mais próximos representam-nos com as prerrogativas reais, isto é, dão mais dois votos além do seu próprio.

LVIII — Tais as honras que a república de Esparta tributa aos seus soberanos em vida. Vejamos agora as que lhes são prestadas depois de mortos. Logo que um deles exala o último suspiro, arautos a cavalo percorrem toda a Lacônia apregoando o triste acontecimento, e as mulheres, em Esparta, percorrem a cidade, batendo em caldeirões. Imediatamente, duas pessoas de livre condição, um homem e uma mulher, correm a envergar trajes de luto. Não podem ser dispensados dessa obrigação, e se a ela faltarem serão severamente punidos.

Os costumes adotados pelos Lacedemônios com referência à morte de seus soberanos muito se assemelham aos dos bárbaros da Ásia. A maioria destes observa, com efeito, o mesmo cerimonial em ocasião como essa. Quando morre um rei da Lacedemônia, certo número de Lacedemônios, independentemente dos Espartanos, vindos de todas as partes da Lacônia, comparece aos funerais. Reunidos num mesmo local com os Ilotas e os Espartanos, somando milhares de pessoas, dão fortes pancadas na fronte, homens e mulheres, gritando e lamentando-se, nunca deixando de dizer que o rei morto era o melhor dos reis. Se o rei morre na guerra, faz-se uma figura apresentando a maior semelhança possível com o mesmo, que é levada para a sepultura num leito ricamente ornamentado. Feito o enterro, o povo interrompe as assembléias, os tribunais deixam de funcionar por dez dias, sendo o luto geral durante esse período.

LIX — Os Lacedemônios possuem ainda isto de comum com os Persas: ao subir ao trono, o sucessor do rei morto cancela as obrigações que os Espartanos tinham para com o tesouro público ou com o próprio soberano. O mesmo se da entre os Persas: o novo soberano cancela os impostos que as cidades deviam por ocasião da morte do rei.

LX — Os costumes dos Lacedemônios apresentam também pontos de semelhança com os dos Egípcios. Entre eles, os arautos, os tocadores de flauta, os cozinheiros sucedem os pais na profissão. Os filhos dos tocadores de flauta, dos arautos e dos cozinheiros são sempre tocadores de flauta, arautos e cozinheiros. Mesmo que surja alguém com voz mais sonora do que a do filho de um arauto, não haverá preterição.

LXI — Enquanto Cleómenes se ocupava, na ilha de Egina, não somente dos interesses de sua pátria, mas ainda do bem geral da Grécia, Demarato o acusava, menos por consideração aos Eginetas do que por inveja e ciúme. Revoltado com essa atitude, Cleómenes decidiu, de volta de Egina, derrubá-lo do trono, intentando contra ele uma ação pelo motivo que passo a expor.

Aríston, rei de Esparta, não tivera filhos das duas mulheres que havia desposado. Convencido de que a culpa cabia mais às mulheres do que a ele próprio, casou-se pela terceira vez. Esse consórcio verificou-se do seguinte modo: Aríston era amigo íntimo de um cidadão de Esparta, cuja esposa, feia na infância, tornara-se, incontestavelmente, a mais bela criatura da cidade. Como seus pais, gente de grandes posses, se afligissem muito com a sua fealdade, sua ama resolveu levá-la todos os dias ao templo de Helena, situado num local denominado Terapnéia, adiante do templo de Febo. Todas as vezes que lá ia com a criança, mantinha-se de pé diante da estátua da deusa, pedindo-lhe para tornar bela aquela criaturazinha. Conta-se que, certo dia, quando a ama voltava do templo, uma mulher lhe apareceu, perguntando-lhe o que levava nos braços. Respondendo tratar-se de uma criança, a mulher pediu-lhe insistentemente que a deixasse vê-la. A princípio, a ama recusou-se a satisfazer-lhe a vontade, pois os pais da menina tinham-na proibido de mostrá-la a quem quer que fosse; mas a mulher insistiu de tal maneira, que ela acabou aquiescendo. Acrescenta-se ter a mulher acariciado a criança, dizendo que ela seria a mais bela criatura de Esparta. Com efeito, a partir desse dia verificou-se uma transformação total na menina, tornando-se bela e graciosa, e ao chegar à idade de casar ligou-se a Ageto, filho de Alcides e amigo de Aríston.

LXII — Aríston, vivamente apaixonado pela esposa do amigo e desejando-a para si, recorreu ao seguinte ardil para obtê-la: prometeu a Ageto dar-lhe o que mais lhe agradasse entre todas as coisas que possuía, com a condição de retribuir-lhe o amigo na mesma moeda. Ageto, sem pensar que a proposta pudesse ter relação com a esposa, aceitou-a, sendo o acordo ratificado por meio de juramentos mútuos, após o que Aríston deu ao amigo o que havia agradado mais a este entre os seus tesouros, pedindo-lhe, em retribuição, a própria esposa. Ageto, porém, disse-lhe que tal pedido não devia estar incluído no acordo, estando disposto a atendê-lo em tudo o mais que desejasse. Levado, todavia, pela insistência de Aríston e pelo juramento que fizera, Ageto não teve outro remédio senão deixá-lo arrebatar-lhe a esposa.

LXIII — Foi assim que Aríston, abandonando sua segunda mulher, desposou uma terceira, que, algum tempo depois, deu à luz Demarato, antes de decorridos dez meses. Aríston encontrava-se sentado entre os éforos quando um dos seus oficiais lhe veio anunciar que acabava de nascer-lhe um filho. Sabendo o tempo exato em que havia desposado aquela mulher, Aríston calculou rapidamente o número de meses pelos dedos(11) e exclamou em seguida, sem poder conter-se: “Essa criança não pode ser minha.” Os éforos ouviram-no, mas, no momento, nenhuma atenção deram às suas palavras. A criança cresceu, arrependendo-se Aríston do que havia tão imprudentemente afirmado perante os éforos, pois já se convencera de que o filho era realmente seu. O menino recebeu o nome de Demarato, porque, antes do seu nascimento, toda a população de Esparta tinha pedido aos deuses, com insistentes preces, que dessem um filho a Aríston, o mais estimado de todos os soberanos que até ali haviam reinado na cidade.

LXIV — Morrendo Aríston, Demarato sucedeu-o; mas os fados haviam, sem dúvida, resolvido que as palavras pronunciadas pelo pai fá-lo-iam perder a coroa. Com efeito, Cleómenes passou logo a detestar o novo soberano, primeiro por haver ele feito regressar o exército de Elêusis, e depois, quando Cleómenes dirigiu-se a Egina para prender os Eginetas que tinham tomado o partido dos Medos.

LXV — Desejando ardentemente vingar-se, Cleómenes prometeu a Leotíquides, filho de Menares e neto de Ágis, do mesmo ramo que Demarato, acompanhá-lo a Egina, se ele conseguisse proclamar-se rei no lugar do filho de Aríston. Leotíquides, que odiava mortalmente Demarato, porque, estando noivo de Percales, filha de Quílon e neta de Demarmenes, ele havia obstado o casamento por meio de um ardil, afirmou sob juramento, a pedido de Cleómenes, que Demarato não era filho de Aríston, não tendo, portanto, direito algum sobre a coroa de Esparta. Depois disso, não cessou de persegui-lo, repetindo o que ouvira dizer de Aríston, quando um dos seus oficiais lhe fora anunciar o nascimento de seu filho. Afirmando não ser Demarato filho de Aríston nem rei legítimo de Esparta, tomou por testemunha os éforos que se achavam presentes quando Aríston deixou escapar aquelas palavras: “Essa criança não pode ser minha”.

LXVI — Por fim, como se tornassem cada vez mais acaloradas as discussões em torno do assunto, os Espartanos resolveram mandar perguntar ao oráculo de Delfos se Demarato era realmente filho de Aríston. Sendo o caso levado ao conhecimento da pitonisa por incumbência de Cleómenes, este obteve, para levar a bom termo o seu plano, a cooperação de Cóbon, filho de Aristofanto, que gozava de grande prestígio em Delfos. Cóbon persuadiu Períale, grande sacerdotisa de Apolo, a responder de acordo com os desejos de Cleómenes. Assim, quando os emissários de Esparta interrogaram a pitonisa, ela declarou que Demarato não era filho de Aríston. Contudo, a trama foi pouco depois descoberta, sendo Cóbon banido de Delfos e Períale, a grande sacerdotisa, demitida de suas funções.

LXVII — Foi assim que agiram para destronar Demarato, que, pouco mais tarde, viu-se forçado a fugir de Esparta e procurar asilo entre os Medos, culpado que fora de uma grande ofensa. Havia ele sido eleito, depois de destituído do trono, para exercer um cargo na magistratura. Certo dia, quando assistia às Gimnopédias(12), Leotíquides, já proclamado rei em seu lugar, mandou perguntar-lhe, apenas para zombar dele e insultá-lo, que tal lhe parecia um lugar de magistrado, depois de haver sido rei. Ofendido com a pergunta, Demarato respondeu que conhecia, por experiência, uma e outra situação, o que não se dava com ele, Leotíquides. Quanto ao resto, essa pergunta seria, um dia, para os Lacedemônios, fonte de mil males ou de bens infinitos. Isso dizendo, retirou-se do recinto cobrindo o rosto, e foi para casa. Ali chegando, fez os preparativos para um sacrifício e imolou um boi a Júpiter. Terminado o sacrifício, mandou pedir à mãe que fosse ter com ele.

LXVIII — Quando ela chegou, depôs-lhe nas mãos uma parte das entranhas da vítima, dirigindo-lhe estas palavras em tom suplicante: “Minha mãe, eu vos conjuro por Júpiter Herceu(13) e pelos outros deuses que tomo por testemunhas, a dizer-me, sem subterfúgios, quem é o meu verdadeiro pai. Leotíquides afirmou, numa questão que tivemos, que já estáveis grávida do vosso primeiro marido quando vos casastes com Aríston. Outros afirmam coisas mais insultuosas a vosso respeito, dizendo que vós vos entregastes a um almocreve que tínheis a vosso serviço, e que eu sou filho dele. Eu vos conjuro, pois, em nome dos deuses, minha mãe, a dizer-me a verdade. Se cometestes alguma das faltas de que vos acusam, não tereis sido a única; muitas são aquelas que erram. É também voz corrente em Esparta que Aríston não podia ter filhos, pois, em caso contrário, tê-lo-ia tido de suas primeiras mulheres”.

LXIX — “Meu filho, — respondeu ela — já que me forças a dizer a verdade, vou dizê-la sem nenhum disfarce. Na terceira noite depois do meu casamento, um espectro, que muito se parecia com Aríston, deitou-se, comigo no leito, depois do que colocou-me na cabeça as coroas que trazia, retirando-se silenciosamente. Aríston entrou logo em seguida, e percebendo as coroas perguntou-me quem mas havia dado. Respondi ter sido ele próprio, mas ele negou terminantemente. Tornei a afirmar sob juramento, dizendo-lhe não ser muito decente da sua parte manter-se negando, porquanto havia estado comigo momentos antes, ofertando-me as coroas. Ante a minha atitude, reconheceu haver naquilo algo de divino. Ao que supunha, as coroas tinham sido trazidas da capela do herói Astrábaco, situada junto à porta do pátio do palácio. Inquirindo os adivinhos, estes lhe asseguraram que fora o próprio herói que viera ter comigo. Eis aí, meu filho, tudo o que desejavas saber. O herói Astrábaco é o teu pai, és filho dele ou de Aríston, pois foste concebido naquela noite. Teus inimigos insistem, sobretudo, no fato de haver Aríston, ao receber a notícia do teu nascimento, declarado perante várias pessoas que não podias ser seu filho, pois ainda não eram transcorridos dez meses. Assim afirmou porque não estava bem instruído sobre o assunto. As mulheres dão à luz nove meses ou sete meses depois de conceberem, e o próprio Aríston reconheceu isso mais tarde, lamentando as palavras imprudentes que pronunciara naquela ocasião. Quanto a ti, meu filho, eu te pus no mundo ao cabo de sete meses. Não dês crédito ao que propalam por aí sobre o teu nascimento. O que acabo de dizer-te é a pura verdade. Possa a mulher de Leotíquides; possam aquelas que andam por aí a propalar inverdades, dar a seus maridos filhos de almocreves!”

LXX — Inteirado de toda a verdade, Demarato muniu-se de provisões para uma longa viagem e partiu para a Élida, pretextando ir consultar o oráculo de Delfos. Os Lacedemônios, supondo que ele pretendia fugir, foram em sua perseguição, mas ele, informado disso, passou-se da Élida para a ilha de Zacinto. Seus perseguidores ali chegaram pouco depois, apossando-se de seus escravos e tentando prendê-los; mas os Zacíntios a isso se opuseram, e ele retirou-se para a Ásia, refugiando-se junto ao rei Dario. O soberano recebeu-o bem, dando-lhe terras e cidades.

Foi assim que Demarato foi ter à Ásia, depois de ter experimentado tão dura sorte. Distinguira-se ele sempre, entre os seus concidadãos, pelo seu correto proceder, pela sua prudência e, sobretudo, pelo prêmio na corrida de carro a quatro cavalos, conquistado nos Jogos Olímpicos, honra não alcançada por nenhum outro rei de Esparta.

LXXI — Demarato foi substituído no trono, como já dissemos, por Leotíquides, filho de Menares. Teve ele um filho de nome Zeuxidamo, a que muitos espartanos chamavam de Cinisco e que não chegou a reinar em Esparta, pois morreu antes do pai, deixando um filho chamado Arquidamo. Essa perda levou Leotíquides a casar-se. Desposou Euridaméia, irmã de Mênio e filha de Diactorides. Não teve filhos varões, mas uma única filha de nome Lampito, que desposou, por vontade própria, Arquidamo, filho de Zeuxidamo.

LXXII — Leotíquides não acabou tranqüilamente os seus dias em Esparta, e Demarato foi, de certo modo, vingado, como vou relatar. Comandava ele, na Tessália, o exército lacedemônio, sendo-lhe muito fácil tornar-se senhor de todo o país; mas, em vez de prosseguir na empresa, aceitou uma grande soma do inimigo, sendo apanhado em flagrante no próprio acampamento, sentado sobre um saco de dinheiro. Julgado por crime de suborno, viu-se banido de Esparta, sendo a sua casa destruída. Retirou-se para Tégea, onde morreu. Tais fatos, todavia, tiveram lugar muito tempo depois de haver ele subido ao trono.

LXXIII — Cleómenes(14), bem sucedido na sua ação contra Demarato, juntou-se logo a Leotíquides e foi atacar os Eginetas, contra os quais se achava grandemente irritado pelo insulto que deles recebera. Os Eginetas, notificados de que os dois reis vinham atacá-los, consideraram inútil qualquer resistência. Escolhendo então dez dos cidadãos mais influentes pelo nascimento e pela riqueza, entre os quais Crios, filho de Policrites, e Casambo, filho de Aristócrates, que gozavam da maior autoridade na ilha, os dois reis levaram-nos para a Ática, onde os entregaram, como reféns, aos Atenienses, seus maiores inimigos.

LXXIV — Depois dessa expedição, Cleómenes, cujas intrigas contra Demarato tinham sido descobertas, receando a cólera dos Espartanos, retirou-se secretamente para a Tessália. Dali dirigiu-se para a Arcádia, onde provocou desordens, incitando os Árcades contra Esparta; e, entre outros juramentos que deles exigiu, fê-los prometer que o seguiriam por toda parte onde ele os quisesse conduzir. Sua intenção era levar os cidadãos mais influentes do país à cidade de Nonácris, para ali fazê-los jurar pelas águas do Stix, que corre, segundo dizem, nessa cidade da Arcádia. Ao que parece, as águas desse rio são muito escassas, caindo gota a gota de um rochedo para um vale cercado por uma muralha. Nonácris, onde se encontra essa fonte, é uma cidade da Arcádia, perto de Fenéia.

LXXV — Tendo as intrigas de Cleómenes chegado ao conhecimento dos Lacedemônios, estes o chamaram a Esparta, confiando-lhe a autoridade que ele havia exercido anteriormente; mas Cleómenes, logo ao chegar, foi tomado de loucura furiosa. Aliás, ele nunca fora de espírito equilibrado. A partir de então, quando encontrava um espartano no seu caminho, batia-lhe no rosto com o cetro. Seus parentes, testemunhas desses desatinos, prenderam-no com entraves de madeira. Numa ocasião em que ele se achava sozinho com um guarda, pediu-lhe uma lança. O guarda recusou-lha a princípio, mas, intimidado pelas ameaças do rei louco, deu-lhe o que pedia. De posse da lança, Cleómenes pôs-se a rasgar as próprias pernas de alto a baixo, passando para as coxas e destas para os quadris, chegando finalmente ao ventre, que golpeou fortemente, morrendo dessa forma. A maioria dos Gregos pretende ter sido isso um castigo, por ter ele subornado a pitonisa para pronunciar-se contra Demarato. Os Atenienses, por sua vez, afirmam que foi uma punição, por haver ele cortado, quando penetrou no território de Elêusis, lenha no bosque consagrado às deusas. Os Árgios, por seu lado, atribuem esse triste fim ao fato de Cleómenes ter arrancado do recinto consagrado a Argos, os Árgios que ali se haviam refugiado depois da batalha, fazendo-os passar a fio de espada, depois do que, num momento de desatino, ateou, ele próprio, fogo ao bosque.

LXXVI — Indo, certo dia, consultar o oráculo de Delfos, Cleómenes ouviu da pitonisa a notícia de que viria a apossar-se de Argos. Pôs-se, então, à frente dos Espartanos e conduziu-os às margens do rio Erasino, que sai, segundo se afirma, do lago Estinfalo. Dizem que esse lago desaparece num abismo, para surgir novamente no território de Argos, recebendo, daí por diante, o nome de Erasino. Chegando às margens do rio, Cleómenes realizou sacrifícios; mas, como as entranhas das vítimas nada anunciassem de favorável no caso de ele atravessar o rio, disse que achava justo não querer o Erasino trair seus concidadãos, mas que os Árgios não teriam motivo para regozijar-se disso. E tomando um novo caminho com o exército, conduziu-o à Tiréia, onde imolou um touro ao mar. Feito isso, embarcou com as tropas, seguindo para a Tiríntia e de lá para Náuplia.

LXXVII — Sabedores dos seus propósitos, os Árgios dirigiram-se com suas forças para a beira-mar, e chegando perto de Tirins, onde está situada Sépia, assentaram acampamento frente a frente com os Lacedemônios, a uma pequena distância dos mesmos. Não receavam uma batalha em campo aberto, mas sim as surpresas e as emboscadas. A resposta que a pitonisa havia dado a eles e aos Milésios estava concebida nestes termos: “Quando a fêmea vitoriosa tiver repelido o macho e houver conquistado a glória entre os Árgios, então, grande número de mulheres árgias dilacerarão o rosto, de sorte que, um dia, as gerações futuras dirão: Uma serpente pavorosa, com três pregas no corpo, foi morta a golpes de lança”(15).

O encontro de todas essas circunstâncias fazia com que os Árgios se enchessem de pavor, receando pela sua sorte. Resolveram, por isso, regular seus movimentos pelos do arauto dos inimigos. Toda vez que o arauto espartano dava uma ordem aos Lacedemônios, eles executavam a mesma coisa do seu lado.

LXXVIII — Notando que as tropas árgias regulavam-se pelo arauto, Cleómenes ordenou aos Lacedemônios que se mantivessem de arma em punho quando o arauto desse o sinal de repouso, lançando-se sobre o inimigo. Quando o arauto deu o sinal de descanso, as tropas lacedemônias caíram sobre os Árgios quando estes começavam o repasto, fazendo grande número de mortos. Os que lograram escapar ao massacre refugiaram-se no bosque consagrado a Argos, ficando, todavia, sob as vistas do inimigo.

LXXIX — Tendo sabido pelos trânsfugas que foram ter ao seu acampamento, os nomes dos que se haviam refugiado no bosque sagrado, Cleómenes enviou-lhes um emissário, o qual, seguindo as instruções recebidas, chamou-os pelos nomes, dizendo-lhes estar de posse de seu resgate. O resgate é fixado, pelos Peloponésios, em duas minas por prisioneiro. Ouvindo a declaração do arauto, cerca de cinqüenta árgios saíram do bosque, mandando Cleómenes massacrá-los. Como o bosque era denso, os que lá permaneceram não puderam ver o que acontecera aos seus companheiros menos avisados. Um deles, porém, subindo a uma árvore para observar o movimento do inimigo, viu o que se passava, e, desde então, foi inútil chamá-los, pois nenhum deles quis deixar o seu refúgio.

LXXX — Vendo malogrado o seu plano de exterminá-los a todos por esse meio, Cleómenes mandou os Ilotas amontoarem matéria combustível em volta do bosque sagrado, ateando-lhe fogo. Quando o bosque começou a arder, o soberano perguntou a um dos trânsfugas a quem era ele dedicado. Ao ouvir a resposta: “A Argos” Cleómenes soltou um profundo suspiro, exclamando: “Oh Apolo! Vós me enganastes na vossa resposta, dizendo-me que eu me apossaria de Argos. Julgo que o oráculo acaba de cumprir-se!”

LXXXI — Permitindo, em seguida, que a maior parte de suas tropas retornasse a Esparta, mantendo consigo apenas mil homens dos mais bravos, Cleómenes dirigiu-se a Hereu(16), para ali fazer um sacrifício. Quando se dispunha a oferecê-lo, ele próprio, no altar, o sacerdote disse-lhe não ser permitido a um estrangeiro sacrificar naquele templo, proibindo-o de fazê-lo. Cleómenes, porém, ordenou aos Ilotas que afastassem o sacerdote do altar e o fustigassem com vara, depois do que levou a cabo o seu intento, regressando, em seguida, a Esparta.

LXXXII — Logo que ali chegou, seus inimigos moveram-lhe um processo junto aos éforos, acusando-o de não ter-se apoderado de Argos, de fácil captura, porque se havia deixado subornar. Não posso dizer com segurança se o que ele declarou em sua defesa era verdadeiro ou falso. Como quer que seja, respondeu o acusado que, como o oráculo se cumprira com a tomada do bosque consagrado a Argos, julgara inútil tentar apoderar-se da cidade, já que o deus se oporia a tal empresa. Acrescentou que, indo fazer um sacrifício em Hereu, uma chama brotara do peito da estátua, sinal de que jamais conquistaria a cidade de Argos. Se tivesse saído da cabeça, aí sim, estaria certo de que a tomaria de assalto. Essa declaração pareceu plausível e verossímil aos Espartanos, sendo ele absolvido por grande maioria de votos.

LXXXIII — Ficando a cidade de Argos quase despovoada em conseqüência do extermínio provocado por Cleómenes entre os seus habitantes, os escravos apoderaram-se facilmente da administração pública, ocupando os diversos cargos das diferentes magistraturas. Quando, porém, os filhos dos que haviam sido mortos na luta chegaram à adolescência, expulsaram os escravos usurpadores, os quais, vendo-se escorraçados, apoderaram-se de Tirins, depois de uma dura batalha. A concórdia voltou a reinar entre eles por algum tempo, até que um adivinho de nome Cleandro, natural de Figália, na Arcádia, convenceu os escravos a atacar seus senhores. Isso ocasionou uma guerra muito longa, que só terminou com a vitória dos Árgios, vitória duramente conquistada.

LXXXIV — Os Árgios pretendem terem sido esses atos praticados por Cleómenes contra eles a causa da sua loucura e de sua morte trágica; mas os Espartanos asseguram que o desvario do soberano não foi um castigo dos deuses, mas resultante da sua demasiada predileção pelo vinho, adquirida no convívio com os Citas. Estes, persistindo no seu intuito de vingar-se da invasão de Dario, enviaram embaixadores a Esparta para obterem a aliança dos Lacedemônios. Ficou combinado entre eles que os Citas realizariam a invasão pelo lado do Faso, na Média, e que os Espartanos partiriam do Éfeso, dirigindo-se para a Ásia Superior, devendo os dois exércitos fazerem junção em lugar previamente combinado. Os Lacedemônios dizem que Cleómenes manteve-se em estreito contato com os Citas que vieram a Esparta fazer essas negociações, adquirindo com eles o hábito de beber vinho puro, sendo essa, segundo os Espartanos, a causa do seu desequilíbrio mental, acrescentando que, desde aí, quando querem beber vinho puro, dizem uns aos outros: “Imitemos os Citas”.

LXXXV — Assim que souberam da morte de Cleómenes, os Eginetas enviaram delegados a Esparta para acusarem Leotíquides da detenção de concidadãos seus em Atenas como reféns. Os juízes reuniram-se para deliberar sobre o caso, concluindo terem sido os Eginetas tratados indignamente por Leotíquides, decidindo que este seria entregue àqueles, para que o levassem para Egina em lugar dos homens detidos em Atenas. Os delegados eginetas dispunham-se a executar essa sentença, quando Teasides, filho de Leoprepes, conceituado cidadão de Esparta, assim lhes falou: “Que ides fazer, Eginetas? Levar convosco o rei de Esparta, a vós entregue pelos seus próprios concidadãos? Não pensais que, se os Espartanos, num momento de cólera, vo-lo entregaram, poderão, vendo que realmente o levais, lançar-se sobre o vosso país como um terrível flagelo?” Diante disso, os Eginetas abandonaram seu intento, mas com a condição de Leotíquides acompanhá-los até Atenas e de lhes entregar os reféns.

LXXXVI — Chegando a Atenas, Leotíquides reclamou os reféns, mas os Atenienses, não querendo entregá-los, puseram-se a contemporizar, dizendo que aqueles homens lhes haviam sido confiados pelos dois soberanos, não sendo justo, por conseguinte, restituí-los a um na ausência do outro. Ante a recusa, Leotíquides falou-lhes nestes termos: “Atenienses, agi como melhor entenderdes; mas eu vos digo que se entregardes os reféns estareis agindo com justiça; se, ao contrário, não os entregardes, estareis cometendo uma injustiça. Deixai que eu vos relate um fato algo parecido com este, passado em Esparta.

“Na terceira geração antes de mim viveu na Lacedemônia um cidadão de nome Glauco, filho de Epícides, que se distinguiu entre todos os seus compatriotas por vários predicados e, sobretudo, pela sua probidade. Um dia, veio a Esparta um milésio para fazer-lhe uma proposta. “Sou de Mileto — disse-lhe ele —, e venho provar os frutos da tua probidade, cuja fama já se espalhou pela Iônia e pelo resto da Grécia. As reflexões que venho de fazer com relação ao estado precário em que se encontra a Iônia, sempre exposta a perigos, e à insegurança das fortunas no meu país, em contraste com a tranqüilidade e segurança de que se goza no Peloponeso, levaram-me à resolução de converter em dinheiro metade dos meus bens e depositá-lo nas tuas mãos, convencido de que ele aí estará em segurança. Peço-te, pois, que guardes este dinheiro para mim, juntamente com esta ficha, só o entregando a quem te apresentar outra igual”. Glauco aceitou a incumbência e guardou o dinheiro que lhe confiara o milésio.

“Algum tempo depois, os filhos do milésio vieram procurar Glauco, pedindo-lhe a devolução da soma que lhe fora confiada por seu pai, apresentando-lhe uma ficha igual à outra que lhe fora dada quando do ajuste feito entre ambos. Glauco procurou esquivar-se ao pedido dizendo-lhes: “Não me lembro absolutamente disso. Se, porém, conseguir lernbrar-me, podeis estar certos de que procederei com justiça. Se realmente recebi alguma coisa para guardar, é claro que a devolverei; mas se vindes exigir de mim a devolução de algo não confiado à minha guarda, servir-me-ei das leis dos Gregos contra vós. Marco a decisão deste caso para daqui a quatro meses a contar de hoje”.

“Os milésios retornaram ao seu país tanto mais aflitos quanto já consideravam perdido aquele dinheiro. Entretanto, Glauco foi a Delfos consultar o oráculo, perguntando ao deus se lhe era permitido apoderar-se daquele dinheiro por meio de um juramento. Respondeu-lhe a pitonisa: “Glauco, filho de Epícides, a vitória que obterás com um juramento e as riquezas que dela te advirão muito agradáveis te poderão ser. Jura, pois a morte não poupa nem mesmo aqueles que se mantêm fiéis aos seus compromissos. Pensa, todavia, que do juramento nasce uma criatura sem nome, sem mãos e sem pés, que num vôo rápido se lança sobre o perjuro, só o largando depois de tê-lo aniquilado, a ele, a família e toda a sua raça; enquanto que os descendentes daquele que soube cumprir com a sua palavra prosperam e vivem felizes”.

Impressionado com as palavras da pitonisa, Glauco pediu perdão ao deus pelo que dissera. “Tentar os deuses — tornou a pitonisa — ou cometer uma injustiça é a mesma coisa”. Então, Glauco mandou chamar os milésios e entregou-lhes o depósito.

“Compreendeis agora, Atenienses, a razão que me levou a contar-vos esta história. Não existe mais, em Esparta, nenhum descendente de Glauco ou de família à dele ligada. Sua raça foi destruída até os últimos rebentos”.

Assim falou Leotíquides; mas, notando que os Atenienses não se dispunham, nem mesmo depois de ouvi-lo, a atender ao seu pedido, resolveu retirar-se.

LXXXVII — Vejamos como agiram os Eginetas, antes de terem sofrido a punição dos primeiros insultos que praticaram contra os Atenienses, com o propósito de constranger os Tebanos. Revoltados contra os Atenienses, dos quais julgavam ter razão de queixa, dispuseram-se a vingar-se deles. Armando uma emboscada, capturaram o “Theoris”, navio ateniense que se achava no promontório de Súnio, pondo a ferros alguns dos mais eminentes cidadãos de Atenas que se encontravam a bordo da embarcação.

LXXXVIII — Sentindo-se ofendidos com tal ato de violência, os Atenienses tomaram toda sorte de medidas para punir os agressores. Nicódromo, filho de Cneto, que gozava de grande prestígio em Egina, descontente com os seus compatriotas, que o tinham banido anteriormente, ao saber que os Atenienses se dispunham a tirar um desforço dos Eginetas, prometeu-lhes entregar Egina, combinando com eles o dia em que tentaria a empresa com o auxílio deles. Cumprindo com a promessa, Nicódromo apoderou-se da parte de Egina denominada Cidade Velha.

LXXXIX — Os Atenienses não puderam, todavia, chegar na data marcada, porque sua frota não era suficientemente forte para dar combate à dos Eginetas. Vendo perigar a empresa, solicitaram aos Coríntios que lhes emprestassem alguns navios. Os Coríntios, que se achavam a eles ligados por laços de estreita amizade, aquiesceram ao pedido, mas exigindo-lhes cinco dracmas por embarcação, pois a lei não lhes permitia fornecê-las gratuitamente. Com esse reforço, a frota ateniense atingiu o total de setenta navios. Os Atenienses abriram velas em direção a Egina, mas só chegaram ali no dia seguinte ao combinado.

XC — Nicódromo, não vendo os Atenienses chegarem na data aprazada, fugiu de Egina num barco, com alguns Eginetas seus partidários, indo para Súnio, de onde puseram-se a realizar incursões, saqueando os Eginetas que haviam permanecido na ilha.

XCI — Os Eginetas ricos, tendo conseguido impor-se ao povo, que se sublevara com Nicódromo, mandaram supliciar todos os que lhes caíram nas mãos. Cometeram, nessa ocasião, um sacrilégio, que não puderam reparar por meio algum, nem com sacrifícios, vendo-se expulsos da ilha, antes que tivessem conseguido aplacar a cólera de Ceres. No momento em que setecentos homens do povo, feitos prisioneiros, eram conduzidos para o local de suplício, um deles logrou escapar, refugiando-se no vestíbulo do templo de Ceres Tesmofória. Apanhando a argola da porta, manteve-se fortemente agarrado a ela. Os Eginetas que o perseguiam procuraram em vão fazê-lo soltar a argola em que se apegara, acabando por cortar-lhe as mãos, que ficaram penduradas na porta, levando-o naquele estado ao suplício.

XCII — Foi assim que os Eginetas trataram seus próprios compatriotas. Pouco depois, eram atacados pelos Atenienses com os seus setenta navios, e, vencidos, imploraram o auxílio dos Árgios, aos quais já se haviam dirigido anteriormente. Os Árgios, porém, negaram-se a socorrê-los, queixando-se do fato de terem os navios de Egina, que Cleómenes havia arrebatado à força, aportado à Argólida; de terem suas tropas descido em terra com as dos Lacedemônios, e de os navios de Sícion se terem juntado aos deles nessa mesma invasão. Os Árgios tinham condenado os Eginetas e os Siciones a uma multa de mil talentos, quinhentos para cada um dos dois povos. Os Siciones concordaram, mas os Eginetas não quiseram reconhecer-se culpados. Assim, quando pediram aos Árgios para auxiliá-los, o governo recusou-se a atendê-los; mas mil voluntários Árgios, tendo à frente Euríbates, que se havia distinguido nos Jogos Olímpicos, vencendo o Pentátlon, ofereceram-lhes os seus serviços, sendo logo aceitos. Esses voluntários foram derrotados em Egina pelos Atenienses, perecendo a maioria deles, inclusive seu comandante. Este matou três adversários em combate singular, mas foi morto pelo quarto, Sofanes de Deceléia.

XCIII — A frota de Egina, aproveitando-se da confusão reinante entre os Atenienses, conseguiu a vitória, capturando quatro navios, com as tropas que neles se achavam.

XCIV — Enquanto esses dois povos faziam a guerra um contra o outro, Dario não se esquecia do insulto dos Atenienses, tanto mais que um dos seus oficiais lho recordava constantemente, e os partidários de Pisístrato o incitavam, caluniando os Atenienses. Dario, que alimentava o desejo de subjugar todos os povos da Grécia que lhe haviam recusado terra e água, aproveitou a oportunidade para declarar-lhes guerra. Tirou de Mardônio o comando das forças que não haviam sido bem sucedidas no mar e entregou-o a Dátis, medo de nascimento, e ao seu sobrinho Artafernes, filho de Artafernes, governador de Sardes(17), enviando-os contra Atenas e Erétria, com ordem de reduzir todos os habitantes à escravidão, trazendo-os para a Pérsia nessas condições.

XCV — Os dois generais despediram-se do soberano e puseram-se em marcha. Chegando à Cilícia com um poderoso exército de terra bem provido de tudo, acamparam na planície de Aleiene, ao mesmo tempo que iam dirigindo a concentração das forças navais que cada uma das nações sob o domínio de Dario tinha recebido ordem de fornecer. Os navios de transporte, para a cavalaria, encomendados no ano precedente por Dario aos povos que lhe pagavam tributo, foram também reunidos no mesmo local, sendo neles embarcados os cavalos. O exército de terra, embarcando por sua vez, dirigiu-se para a Iônia, acompanhado de seiscentos trirremes; mas, em lugar de partirem dali diretamente para o Helesponto e a Trácia, os Persas passaram-se para Samos, de onde navegaram pelo mar Icária, através das ilhas, a fim de evitar, a meu ver, o monte Atos, que a experiência do desastre no ano anterior, quando procuraram dobrá-lo, levou-os agora a temê-lo. Por outro lado, havia naquela rota a ilha de Naxos, da qual ainda não tinham conseguido apoderar-se e que era para eles uma presa cobiçada.

XCVI — Ao saírem do mar Icária, abordaram Naxos, com o desejo de conquistá-la desta vez em primeiro lugar. Os Náxios, lembrando-se dos acontecimentos anteriores, refugiaram-se nas montanhas, sem esperar serem atacados. Os Persas atearam fogo aos templos e à cidade, e depois de reduzir à escravidão todos os que lhes caíram nas mãos, dirigiram-se para as outras ilhas.

XCVII — Os Délios, sabendo da sua aproximação, abandonaram sua ilha, refugiando-se em Teno. Os Persas já rumavam para Delos, quando Dátis, que seguia no navio capitânia, proibiu-lhes de abordá-la, ordenando-lhes a se dirigirem para a ilha de Renéia, situada mais adiante. Quando soube da retirada dos Délios, enviou-lhes um emissário, com a seguinte mensagem: “Homens sagrados, por que fugis? Por que formais de mim uma opinião tão pouco favorável? Estou, podeis crer, inclinado a poupar o vosso país que viu nascer Apolo e Diana, e a não fazer mal algum aos habitantes. Aliás, recebi ordens do rei nesse sentido. Voltai, pois, às vossas casas e continuai cultivando as vossas terras em paz”. Depois de dirigir-lhes essa mensagem, Dátis mandou queimar trezentos talentos de incenso sobre o altar.

XCVIII — Feito isso, o general avançou com suas forças navais em direção à Erétria, acompanhado dos Iônios e dos Eólios. Assim que se afastou de Delos, registrou-se ali um forte tremor de terra, segundo afirmam os Délios, o primeiro a verificar-se na ilha até o meu tempo. Parece que os deuses quiseram, por meio desse fenômeno, anunciar aos homens os males que lhes adviriam, porquanto a Grécia sofreu mais sob os três reinados consecutivos de Dario, filho de Histaspes; de Xerxes, filho de Dario, e de Artaxerxes, filho de Xerxes, do que durante as vinte gerações que precederam o primeiro desses soberanos. Esses males lhes vieram, em parte, dos Persas, e, em parte, dos mais poderosos desses povos(18) que disputaram a soberania. Não é, pois, inverossímil que essa ilha, até então imóvel, tenha tremido. O oráculo já havia anunciado esse acontecimento: “Farei estremecer a ilha de Delos, por mais firme que ela seja”. Dario significa, em grego, aquele que reprime; Xerxes, um guerreiro, e Artaxerxes, um grande guerreiro. Não nos enganaríamos chamando assim esses soberanos em nossa língua.

XCIX — Partindo de Delos, os bárbaros levantaram tropas nas ilhas que abordaram, tomando como reféns os filhos dos habitantes. Depois de haverem contornado essas ilhas, chegaram à Carístia, cujos habitantes negaram-se a lutar com eles contra os Erétrios e os Atenienses, e não lhes permitiram levar compatriotas seus como reféns. Em vista disso, os invasores cercaram-nos e puseram-se a saquear suas terras, obrigando-os, por fim, a render-se.

C — Avisados de que a frota persa avançava contra eles, os Erétrios solicitaram auxílio aos Atenienses. Estes enviaram-lhes prontamente quatro mil homens, aos quais haviam sido distribuídas, por sorteio, as terras dos chamados Hipobotes. Chegando os Atenienses, os Erétrios, mostrando-se sem resolução para lutar, puseram-se em desacordo com eles, querendo uns abandonar a cidade e refugiar-se entre os escolhos da Eubéia, enquanto que outros, atentando apenas para suas vantagens particulares e para as recompensas que esperavam dos Persas, preparavam-se para trair a própria pátria. Ésquines, filho de Nóton, e que gozava de grande prestígio entre os Erétrios, pôs os Atenienses a par da situação, aconselhando-os a retornarem à pátria, a fim de não se verem envolvidos na ruína da Erétria. Os Atenienses, seguindo o seu conselho, puseram-se a coberto do perigo passando para a Europa.

CI — Chegando às costas da Erétria, passando por Tamines, Quéreas e Egilia, os Persas ancoraram os seus navios e desembarcaram a cavalaria, preparando-se para atacar os Erétrios. Estes tinham resolvido não lhes oferecer combate e não realizar nenhuma sortida, limitando-se apenas a defender as muralhas, depois de haver prevalecido a decisão de não abandonarem a cidade. Os Persas lançaram violentos ataques contra as muralhas, sendo grande o número de mortos durante os seis dias que durou essa investida. No sétimo dia, Euforbo, filho de Alcimaco, e Filágrio, filho de Cíneas, ambos figuras de grande destaque, considerando inútil a resistência, entregaram a cidade aos atacantes, os quais, logo que nela penetraram, puseram-se a saquear os templos, queimando-os em seguida, para vingar-se do incêndio do de Sardes, depois do que reduziram os habitantes à escravidão, segundo as ordens de Dario.

CII — Depois de haverem permanecido durante alguns dias na cidade dominada, abriram velas para a Ática e atacaram os Atenienses, pensando tratá-los da maneira como haviam feito com os Erétrios. Hípias, filho de Pisístrato, ordenou o desembarque em Maratona, o local mais apropriado em toda a Ática para o movimento da cavalaria e o ponto mais próximo da Erétria.

CIII — Informadas do desembarque, as tropas atenienses dirigiram-se ao encontro dos invasores. O exército ateniense era comandado por dez generais, entre os quais figurava Milcíades, filho de Címon e neto de Esteságoras. Címon se havia expatriado para subtrair-se aos maus desígnios de Pisístrato, filho de Hipócrates. Durante o exílio, aconteceu-lhe levantar, nos Jogos Olímpicos, o prêmio da corrida de carro a quatro cavalos, êxito já obtido por seu irmão Milcíades. Na Olimpíada seguinte, obteve nova vitória com os mesmos cavalos; mas fez proclamar Pisístrato em seu lugar, o que lhe valeu a reconciliação com o tirano, retornando à pátria. Depois disso, obteve ainda outra vitória nos Jogos Olímpicos, com os mesmos cavalos; mas os filhos de Pisístrato, que então já não existia, mandaram matá-lo, à noite, perto do Pritaneu, por sicários aliciados especialmente para esse fim. Címon foi enterrado nas cercanias da cidade, além da estrada que atravessa a Celéia; e ao seu lado os cavalos com que havia alcançado por três vezes o prêmio nos Jogos Olímpicos.

Os cavalos de Evágoras da Lacedemônia haviam realizado feito igual, mas nenhum conseguira tão grande número de vitórias como os de Címon. Esteságoras, o mais velho dos filhos de Címon, achava-se, então, no Quersoneso, na casa de Milcíades, seu tio pelo lado paterno, e o mais moço, de nome Milcíades, em Atenas, com Címon.

CIV — Era esse Milcíades, que tinha vindo do Quersoneso, um dos generais que comandavam as tropas atenienses que tinham ido ao encontro dos Persas em Maratona. Milcíades tinha escapado por duas vezes à morte; a primeira, quando os Fenícios o perseguiram até Imbros, tudo fazendo para prendê-lo e levá-lo ao seu soberano; a segunda, quando, tendo escapado a esse perigo e julgando-se em segurança na sua pátria, foi, pouco depois de haver ali chegado, atacado pelos seus inimigos, que o acusaram, perante a justiça, de ter implantado a tirania no Quersoneso. Tendo-se justificado contra seus acusadores, foi proclamado general dos Atenienses por sufrágio popular.

CV — Antes de deixarem a cidade, os generais atenienses enviaram a Esparta, na qualidade de delegado, Fidípides, ateniense de nascimento e hemeródromo de profissão. A acreditar-se no depoimento do próprio Fidípides ao regressar da sua missão, Pã apareceu-lhe perto do monte Partênio, pouco acima da Tégea, chamando-o em altas vozes pelo nome e ordenando-lhe que perguntasse aos Atenienses por que não lhe rendiam nenhum culto, a ele que sempre os tratara com benevolência, sendo-lhes útil em várias ocasiões, como ia sê-lo mais tarde. Os Atenienses deram fé às declarações de Fidípides, e quando a situação financeira lhes permitiu, ergueram uma capela a Pã, pouco abaixo da cidadela.

Desde aí, passaram a prestar culto a esse deus, oferecendo-lhe sacrifícios anuais e realizando em sua honra a corrida de fachos.

CVI — Chegando a Esparta no dia seguinte ao de sua partida de Atenas, Fidípides, desincumbindo-se da missão que lhe confiaram os generais, apresentou-se diante dos magistrados, dizendo-lhes: “Lacedemônios, os Atenienses solicitam o vosso auxílio, impedindo, assim, que a mais antiga cidade da Grécia caia sob o domínio dos bárbaros. A Erétria já foi subjugada, e a Grécia se acha enfraquecida pela perda dessa cidade célebre”. Os Lacedemônios, ouvindo essas razões, decidiram prestar socorro aos Atenienses, mas não podiam fazê-lo imediatamente, pois não queriam infringir a lei que os proibia de se porem em marcha antes da lua cheia, e estavam apenas a nove do mês.

CVII — Enquanto os Lacedemônios aguardavam a lua cheia para irem em socorro dos Atenienses, Hípias, filho de Pisístrato, concluía o desembarque de suas tropas em Maratona. Na noite precedente tivera um sonho, no qual se via deitado com a própria mãe. Esse sonho levou-o a imaginar que retornaria a Atenas e que, depois de haver recuperado a autoridade suprema, morreria de velhice no seu palácio. Tais as deduções que tirara do estranho sonho que tivera. Ordenando aos seus comandados que transportassem os prisioneiros feitos na Erétria para a ilha de Egilia, que se achava na dependência dos Estireus, mandou colocar os navios na enseada de Maratona, dispondo em ordem de batalha os bárbaros que já se encontravam em terra. Quando se entregava a essa tarefa, sentiu-se tomado de um acesso de tosse mais forte que de ordinário, ao mesmo tempo que deixava escapar um violento espirro. Como a maior parte dos seus dentes já estivesse abalada pela idade, um deles saltou-lhe da boca com a violência da tosse, caindo na areia. Depois de havê-lo inutilmente procurado, disse, suspirando, aos que se encontravam a seu lado: “Esta terra não é nossa e não poderemos submetê-la; meu dente ocupa tudo que dela me adviria”. Este incidente fê-lo conjecturar que o sonho se cumprira.

CVIII — Enquanto os Atenienses postavam-se em ordem de batalha num campo consagrado a Hércules, os Plateus chegaram em seu socorro com todas as forças de que dispunham. Os Plateus se tinham colocado sob a proteção dos Atenienses, que já se haviam envolvido em muitos conflitos por causa deles. Eis como esse povo realizou esse pacto de amizade com os Atenienses. Acossado pelos Tebanos quis, primeiramente, colocar-se sob a proteção de Cleómenes, filho de Anaxandrides, e dos Lacedemônios; mas estes, recusando o oferecimento, disseram-lhes: “Achamo-nos tão afastados de vós, que o auxílio que poderíamos prestar-vos seria muito precário, e seríeis subjugados antes que algum de nós pudesse fazer alguma coisa. Nós vos aconselhamos, pois, que vos coloqueis sob a proteção dos Atenienses, que são vossos vizinhos e que estão em condições de vos proteger”. De resto, os Lacedemônios davam esse conselho aos Plateus, menos por generosidade do que pelo desejo de esgotar os Atenienses, impelindo-os à luta com os Beócios. Os Plateus seguiram o conselho dos Lacedemônios, enviando emissários a Atenas, os quais, na ocasião em que ali se fazia um sacrifício aos doze deuses, sentaram-se perto do altar em postura de suplicantes e entregaram-se à proteção dos Atenienses. Sabedores disso, os Tebanos marcharam contra os Plateus, e os Atenienses lançaram-se em socorro destes. Os dois exércitos estavam prestes a chocar-se, quando os Coríntios intervieram como árbitros com o consentimento das duas partes, resolvendo o conflito. Impuseram eles a condição de os Tebanos deixarem tranqüilos os povos da Beócia que não quisessem continuar pertencendo à mesma. Dando por encerrada sua tarefa de conciliação, os Coríntios retiraram-se, e as tropas Atenienses fizeram o mesmo; mas os Beócios atacaram-nas no caminho, derrotando-as. Transpondo, em seguida, os limites fixados pelos árbitros coríntios no território de Plateias, estabeleceram como fronteira entre eles e os Plateus, o Asopo e Hísias. Os Plateus, tendo-se ligado aos Atenienses da maneira que acabamos de relatar, vieram socorrê-los em Maratona.

CIX — Os generais atenienses não estavam de acordo, dividindo-se as opiniões com relação à luta contra o invasor. Uns achavam que não se devia combater, porque eram em número muito pequeno, enquanto que outros eram de parecer que deviam oferecer batalha aos bárbaros. Ante tal divergência de opiniões, Milcíades dirigiu-se ao polemarca(19), que, de acordo com uma antiga lei, se acha em pé de igualdade com os generais. Calímaco de Afine era quem então se achava revestido dessa dignidade. “Calímaco — disse-lhe ele —, a sorte de Atenas se encontra atualmente em tuas mãos; depende de ti levá-la à escravidão ou assegurar sua liberdade, conquistando uma glória imortal, superior mesmo à alcançada por Harmódio e Aristogíton. Nunca, desde a fundação da sua cidade, correram os Atenienses um tão grave perigo. Se vencidos pelo poderio dos Medos e entregues a Hípias, estarão desgraçados; se vencedores, esta cidade poderá tornar-se a primeira da Grécia. Vou dizer-te como a felicidade ou a desgraça da república depende inteiramente de ti. Nós, generais, divergimos de opinião, querendo uns oferecer combate aos invasores, enquanto que outros acham que não estamos em condições de oferecer-lhes resistência. Se não lhes dermos combate, é de recear que surjam entre os Atenienses dissensões que os disponham a favorecer os Medos. Se, porém, formos à luta antes que tão nefastos pensamentos medrem no espírito de algum de nós, espero, se os deuses se mantiverem neutros, que conseguiremos a vitória. A situação, como vês, é delicada, cabendo inteiramente a ti a decisão. Se apoiares aqueles que são contrários à resistência, experimentarás também das vicissitudes que nos advirão e das conseqüências da nossa indecisão”.

CX — Impressionado com essas palavras sensatas, o polemarca juntou sua voz à de Milcíades, e a batalha ficou resolvida. Os generais favoráveis à resistência ao inimigo renunciaram o comando em favor de Milcíades, e este aceitou, não querendo, todavia, fazer uso do mesmo senão quando chegasse a sua vez.

CXI — Os Atenienses colocaram-se em ordem de batalha, tendo Calímaco à frente, na ala direita, em virtude de uma lei que dispunha, entre os Atenienses, ocupar o polemarca essa ala. Em seguida ao polemarca vinham as tribos, de acordo com a sua categoria dentro do Estado. Em último lugar vinham os Plateus, que compunham a ala esquerda. Daí a razão por que os Atenienses, quando oferecem sacrifícios nas festas celebradas de cinco em cinco anos em comemoração da vitória nessa batalha, incluem também, pela voz do seu arauto, os Plateus nos votos que fazem pela prosperidade da sua pátria. Seguindo essa ordem de batalha, a frente do exército ateniense ficava igual à dos Medos. No centro, as fileiras não eram muito compactas, tendo aí o exército o seu ponto fraco; mas as duas alas eram numerosas e fortes.

CXII — Dispostas as tropas em ordem de batalha, foram realizados sacrifícios aos deuses, sendo estudadas as entranhas das vítimas, que nada de favorável anunciaram. Os dois exércitos ficaram separados por uma distância de oito estádios. Ao primeiro sinal, as tropas atenienses avançaram velozmente ao encontro dos Persas, e estes, vendo-as aproximar-se, prepararam-se para recebê-las, considerando-as, ao atentar para o pequeno número delas, que nem dispunham do apoio da cavalaria, insensatas e marchando ao encontro de uma morte certa. Os Atenienses, porém, cerrando fileiras, lançaram-se sobre eles, praticando feitos memoráveis. Foram esses bravos, ao que pudemos apurar, os primeiros de todos os Gregos a enfrentar impetuosa e desassombradamente os Medos, quando até então o simples nome de Medos inspirava terror aos Gregos.

CXIII — A batalha de Maratona foi longa e cheia de peripécias. Os bárbaros conseguiram desbaratar as fileiras do centro do exército ateniense, pondo em fuga os remanescentes; mas as duas alas compostas de Atenienses e Plateus atacaram as forças persas que haviam rompido o centro do exército, impondo-lhes uma derrota irreparável. Vendo-as fugir, lançaram-se em sua perseguição, matando e esquartejando quantos encontraram pela frente, até a beira-mar, onde se apoderaram de alguns dos navios inimigos.

CXIV — O polemarca Calímaco pereceu nessa batalha, depois de haver combatido com bravura e desprendimento. Estesilo, filho de Trasilo, um dos generais que comandavam as forças atenienses, também perdeu a vida. Cinegiro(20), filho de Eufórion, ao tentar apoderar-se de um navio persa escalando-o pela popa, teve as mãos cortadas por um golpe de machado, morrendo, juntamente com outros atenienses de alta categoria.

CXV — Deixando sete de seus navios nas mãos dos Atenienses, os bárbaros retiraram-se com o restante da sua frota, e, retomando os escravos da Erétria na ilha onde os haviam deixado, dobraram o promontório de Súnio, com a intenção de burlar as forças atenienses a alcançar Atenas antes delas. Diz-se, em Atenas, que eles conceberam esse plano pelo fato de terem os Alcmeônidas, segundo ficara combinado entre eles, mostrado um escudo quando os Persas já se encontravam nos seus navios.

CXVI — Enquanto os Persas dobravam o promontório de Súnio, as tropas atenienses, adivinhando a sua intenção, dirigiram-se em marcha forçada para Atenas, a fim de defender a sua cidade de um possível ataque dos bárbaros. Partindo de um lugar consagrado a Hércules, em Maratona, foram acampar em um outro dedicado ao mesmo deus, em Cinosarges. Os Persas ancoraram ao norte de Faleros, que então servia de porto aos Atenienses, e depois de ali permanecerem durante algum tempo, retomaram o caminho da Ásia.

CXVII — Na batalha de Maratona pereceram cerca de seis mil e quatrocentos homens do lado dos bárbaros, e cento e noventa e dois do lado dos Atenienses. Deu-se, durante o combate, um fato curioso com um ateniense de nome Epizelo, filho de Cufágoras. Quando se empenhava em luta com o inimigo, conduzindo-se com valentia e desprendimento, perdeu repentinamente a vista sem haver sido atingido por nenhum golpe, ficando cego para o resto da vida. Disseram-me ter ele afirmado, ao referir-se a esse estranho acidente, que julgara ver diante de si, naquele momento, um homem de estatura descomunal, armado da cabeça aos pés e com uma barba tão longa que lhe cobria o escudo. Esse espectro passou por ele, indo matar o que combatia junto a ele.

CXVIII — Ao retornar à Ásia com o seu exército, Dátis teve em Mícono uma visão durante o sono, não se sabendo, todavia, que visão foi essa. O certo é que, logo ao amanhecer, mandou ele fazer uma vistoria geral na frota, e tendo encontrado em um navio fenício uma estátua dourada de Apolo, perguntou de que templo a tinham subtraído. Informado sobre a procedência da estátua, dirigiu-se, ele próprio, a Delos e depositou-a no templo, pedindo aos Délios, já de regresso à ilha, que a levassem ao Délium(21) dos Tebanos, situado à beira-mar, em frente a Cálcis. Feito isso, voltou para reunir-se à sua frota. Os Délios não levaram a estátua, como ele lhes pedira; mas, vinte anos mais tarde, os próprios Tebanos transportaram-na para o Délium, em obediência a um oráculo.

CXIX — Chegando à Ásia, Dátis e Artafernes conduziram a Susa os Erétrios que haviam aprisionado na guerra que, sem justo motivo, tinham movido contra os Persas. Dario, embora irritado ante essa atitude dos Erétrios, em vez de vingar-se sobre os prisioneiros, enviou-os para Arderica, dependência da Císsia, que estava sob o seu domínio, onde eles ainda viviam por ocasião da minha passagem por ali, tendo conservado seu antigo idioma.

CXX — Logo depois da lua cheia, dois mil lacedemônios chegaram a Atenas. Tão ansiosos estavam em medir forças com o inimigo, que não gastaram mais de três dias para virem de Esparta à Ática; mas, quando chegaram, a batalha já tinha terminado. O seu desejo de ver os Medos era, porém, tão grande, que se dirigiram imediatamente a Maratona para contemplá-los, já em seus navios. Em seguida, congratularam-se com os Atenienses pela vitória e regressaram à pátria.

CXXI — Correu, de pronto, contra os Alcmeônidas, o boato de terem eles, em conivência com os invasores Persas, mostrado a estes um escudo, como se fosse do seu desejo ver Atenas sob o jugo dos bárbaros e de Hípias. Tal versão me surpreende e não lhe posso dar crédito. Parece, com efeito, que eles tinham mais aversão pelos tiranos do que Cálias, filho de Fenipe e pai de Hipônico, ou que, pelo menos, ela era muito grande. Cálias foi o único homem em Atenas que ousou comprar os bens de Pisístrato, quando a república mandou pô-los à venda depois de havê-lo banido. Entretanto, Cálias nunca perdeu ocasião de mostrar a Pisístrato o ódio que lhe votava.

CXXII — Cálias merece menção, não só por se ter empenhado com ardor pela liberdade de sua pátria, como por ter, em Olímpia, vencido a corrida a cavalo, obtendo a segunda colocação na de carro a quatro cavalos, saindo também vitorioso nos jogos píticos, obtendo uma magnífica vitória sobre todos os outros competidores gregos. Merece-o, também, pela maneira com que se conduziu com relação às suas três filhas, dando-lhes um rico dote quando chegaram à idade de casar-se e permitindo-lhes escolher livremente seus esposos em toda a nação.

CXXIII — Os Alcmeônidas, como já disse, não odiavam menos os tiranos do que Cálias, circunstância que me leva a estranhar a acusação que lhes fazem de haverem eles mostrado um escudo aos Persas, eles, que haviam vivido longe da pátria durante todo o tempo da dominação dos tiranos; que haviam forçado, pelas suas manobras, os partidários de Pisístrato a abandonar a tirania, e que, pela sua conduta, tinham contribuído, mais do que quaisquer outros, assim julgo, para a liberdade de Atenas, mais até do que Harmódio e Aristogíton. Estes, com efeito, em vez de fazerem cessar a tirania dos partidários de Pisístrato, não fizeram senão incentivá-la matando Hiparco, enquanto que os Alcmeônidas contribuíram evidentemente para a independência de seus concidadãos, chegando a convencer, ao que se diz, a pitonisa a concitar os Lacedemônios a libertarem Atenas.

CXXIV — É possível que tivessem querido trair a pátria para vingar-se de alguma afronta recebida do povo; mas, em Atenas, ninguém era mais estimado e mais cumulado de honras do que eles. Por isso, considero inverossímil a versão do escudo. Não resta dúvida de que um escudo foi mostrado aos Persas naquela ocasião, mas não se pode afirmar se aquilo era um sinal convencionado, e se fosse, qual o fim a que se destinava. Nada mais posso dizer sobre o caso, além do que aí fica.

CXXV — Os Alcmeônidas sempre gozaram da mais alta consideração em Atenas, desde os mais antigos tempos, e esse prestígio lhes veio principalmente de Alcméon e de Megacles. Alcméon, filho de Megacles, prestou aos Lídios que Creso havia enviado para consultar o oráculo de Delfos, todos os serviços que dele dependiam. O soberano, informado do acolhimento por ele dispensado aos seus delegados, mandou chamá-lo a Sardes, presenteando-o com tanto ouro quanto pudesse ele levar de uma só vez. Em vista disso, Alcméon serviu-se de todo o seu engenho, a fim de tirar a maior vantagem possível de tão belo quão inesperado oferecimento. Envergando um traje dos mais amplos e os maiores borzeguins que pôde encontrar, dirigiu-se ao tesouro real em companhia dos oficiais do soberano. Atirando-se sobre um monte de pó de ouro, pôs-se a encher sofregamente os borzeguins e as vestes, polvilhando ainda os cabelos e enchendo a boca com o precioso pó, dali saindo com as bochechas intumescidas, o corpo vergado, arrastando com dificuldade os borzeguins, parecendo tudo menos um homem. Ao vê-lo, Creso pôs-se a rir, e não somente o deixou ficar com todo o ouro que assim conseguira reunir, como o cumulou de outras riquezas. Com essa fortuna tão facilmente adquirida, a casa de Alcméon ganhou nomeada, e ele, tendo-se dedicado à criação de cavalos, venceu, nas Olimpíadas, a corrida de carro a quatro cavalos.

CXXVI — Na geração seguinte, Clístenes elevou ainda mais alto a fama dessa casa, dando-lhe, entre os Gregos, um esplendor não atingido até então. Clístenes, filho de Aristônimos, neto de Míron e bisneto de Andréias, tinha uma filha chamada Agarista, a quem só daria por esposa àquele, entre os Gregos, que se revelasse digno de sua mão pelos seus predicados invulgares. Durante a celebração dos Jogos Olímpicos, Clístenes, que havia saído vencedor na corrida de carro a quatro cavalos, fez proclamar por um arauto que aquele, dentre os Gregos, que se julgasse digno de tornar-se seu genro, viesse a Sícion dentro de sessenta dias, ou mesmo mais cedo, pois ele havia fixado o casamento da filha para um ano depois do sexagésimo dia. Todos aqueles que, confiantes nos seus méritos pessoais e na fama de sua cidade natal, aspiravam a honra de desposar Agarista, dirigiram-se a Sícion, onde os reteve Clístenes, que para eles mandara preparar um estádio e um ginásio, com a intenção de pô-los à prova.

CXXVII — Entre os candidatos à mão de Agarista figuravam Esmindírides, filho de Hipócrates, procedente da Itália. Esmindírides era natural de Síbaris, cidade então muito florescente, ostentando grande luxo e magnificência; Dâmaso de Siris, filho de Amíris, cognominado o Sábio, também procedente da Itália; Anfinesto, natural de Epidamno e filho de Epistrofo, vindo do golfo Iônio e o único dali a comparecer; um etólio, irmão de Titormo, que sobrepujara os Gregos pela sua força extraordinária e que, fugindo ao convívio dos homens, se retirara para o ponto extremo da Etólia. Esse jovem chamava-se Males; Leocedes, filho de Fídon, vindo do Peloponeso. Fídon era tirano de Argos, tendo ditado leis ao Peloponeso. Foi ele, de todos os Gregos, o que se conduziu da maneira mais insolente, expulsando os agonotetas dos Eleus(22) e julgando, em lugar deles, os Jogos Olímpicos; Amianto, filho de Licurgo e natural de Trepazunto, na Arcádia; Lafanes Azânio, do burgo de Peos, filho daquele Eupórion que recebeu em sua casa os dióscuros, segundo a tradição dos Arcádios, e que, desde então, deu hospitalidade a todos os estrangeiros que os procuravam; e Onomasto Eleu, filho de Egeu, vindo também do Peloponeso. De Atenas vieram Megacles, filho daquele Alcméon que havia estado na corte de Creso; Hipoclides, filho de Tisandro, o homem mais rico e mais elegante de Atenas, e Lisânias de Erétria, cidade então bastante florescente. Da Tessália vieram Diactorides Cranônio, da casa dos Escopades, e Álcon, do país dos Molossos.

CXXVIII — À medida que esses pretendentes iam chegando, Clístenes ia interrogando-os sobre o seu país de origem e a sua linhagem, e para melhor aquilatar dos méritos, inclinações, hábitos e conhecimentos de cada um, reteve-os em sua companhia durante um ano, observando-os nas palestras que mantinham entre si, nos exercícios em que se empenhavam os mais jovens dentre eles, e, sobretudo, o comportamento de cada um nos festins. De todos eles, os procedentes de Atenas pareceram-lhe os mais bem dotados de atributos, principalmente Hipoclides, filho de Tisandro, que se distinguia entre todos pela sua coragem, tendo, entre seus ancestrais, parentes dos Cipsélidas de Corinto.

CXXIX — No dia fixado por Clístenes para declarar qual o que escolhera para seu genro e celebrar o casamento, o soberano imolou cem bois e deu um grande festim, não só para os pretendentes da filha, mas para os Siciones em geral. Terminado o banquete, os candidatos puseram-se a conversar sobre música e outros assuntos banais de palestra. Enquanto bebiam, Hipoclides, para o qual se voltavam todas as atenções, pediu ao flautista que tocasse uma emelia. O flautista obedeceu, e Hipoclides pôs-se a dançar. Sentia-se satisfeito com a sua dança, mas Clístenes, que o observava, não viu com bons olhos o que se passava. Depois de um breve momento de descanso, Hipoclides mandou vir uma mesa, sobre a qual dançou primeiramente à maneira da Lacedemônia, e em seguida, à moda de Atenas. Finalmente, apoiando a cabeça na mesa, equilibrou-se com as pernas para cima, movimentando-as em todos os sentidos. Embora a imodéstia e imprudência das duas primeiras danças do jovem pretendente tivessem inspirado aversão a Clístenes, levando-o a afastar a idéia de tomá-lo por genro, ele se continha num grande esforço, ocultando a revolta que aquele espetáculo deprimente lhe causava; mas ao vê-lo naquela ridícula posição, sacudindo as pernas no ar, não pôde mais dominar-se, exclamando: “Filho de Tisandro, perdeste a noiva, dançando!” “Pouco se importa Hipoclides com isso” — retrucou o ateniense. Essa resposta, pela sua sobriedade e espontaneidade, com o correr do tempo veio a tornar-se um provérbio.

CXXX — Então Clístenes, pedindo um momento de silêncio, assim falou a seus hóspedes: “Meus amigos, pretendentes à mão de minha filha. Tenho por vós a maior estima, e a todos satisfaria se pudesse. Não queria, realmente, pela escolha de um dentre vós, excluir todos os outros; mas como não posso contentar a todos, pois só tenho uma filha para casar, darei um talento de prata a cada um dos que forem excluídos da escolha, para demonstrar o quanto me senti honrado por terdes acedido ao meu convite, deixando a pátria distante para virdes até aqui. Concedo a mão de minha filha Agarista, segundo as leis de Atenas, a Megacles, filho de Alcméon”. Megacles aceitou a aliança, e o casamento foi ratificado por Clístenes.

CXXXI — Assim procedeu Clístenes para escolher um genro entre tantos pretendentes, e foi dessa maneira que os Alcmeônidas adquiriram tão alto prestígio na Grécia. O primeiro filho de Megacles e Agarista recebeu o nome de Clístenes, do avô materno, tirano de Sícion. Foi esse príncipe quem dividiu o povo daquela região em dez tribos e implantou o governo democrático. Megacles teve outro filho chamado Hipócrates, e deste nasceu um outro Megacles e uma outra Agarista, do nome da mãe, filha de Clístenes. Agarista desposou Xantipo, filho de Arífron. Quando já se encontrava em adiantado estado de gravidez, sonhou que dava à luz um leão, e alguns dias depois nascia Péricles.

CXXXII — Com a vitória sobre os Persas em Maratona, o prestígio de que já gozava Milcíades em Atenas aumentou ainda mais. Apoiado na confiança que o povo lhe depositava, solicitou-lhe setenta navios, tropas e dinheiro. Não disse aos Atenienses a quem pretendia fazer guerra, mas prometeu enriquecê-los se quisessem segui-lo, assegurando que os levaria a um país de onde poderiam trazer sem trabalho uma grande quantidade de ouro. Entusiasmados ante essa perspectiva, os Atenienses concederam os navios que ele pedia.

CXXXIII — Concluídos os preparativos, Milcíades abriu velas em direção a Paros, com as tropas postas à sua disposição. Tomara como pretexto para essa expedição contra os Pários, o terem eles acompanhado os Persas a Maratona com um trirreme, colocando-se, por conseguinte, contra os Gregos. O verdadeiro motivo, porém, era o ódio que ele nutria contra os Pários, desde que Liságoras, filho de Tírias, pário de nascimento, tinha querido tornar Hidarnés odioso ante os olhos dos Persas. Chegando a Paros, Milcíades cercou a cidade, onde os Pários se tinham encerrado, mandando, em seguida, por um arauto, pedir cem talentos, sob pena de não retirar suas tropas senão depois de havê-los subjugado a todos. Os Pários, em lugar de enviar-lhe a soma exigida, procuraram reforçar as defesas da cidade, erguendo durante a noite, nos pontos considerados mais vulneráveis, um muro duas vezes mais alto do que o já existente.

CXXXIV — Todos os Gregos relatam o fato da mesma maneira, até este ponto. Vejamos, porém, como os Pários relatam os acontecimentos que se seguiram. Enquanto Milcíades se preocupava com as providências a tomar para o prosseguimento do cerco, Timo, sacerdotisa dos deuses infernais, natural de Paros e sua prisioneira, veio procurá-lo, aconselhando-o a fazer exatamente o que lhe ia dizer, se desejava apoderar-se da cidade. Depois de ouvi-la atentamente, Milcíades dirigiu-se à colina situada diante da cidade. Não conseguindo abrir as portas do recinto consagrado a Ceres Tesmofória, escalou o muro que o protegia e foi direto ao templo, não se sabendo se com a intenção de subtrair alguns dos objetos sagrados, nos quais não é permitido tocar, ou com qualquer outro propósito. Ao chegar à porta do templo, sentiu-se, de repente, tomado de tão grande pavor, que voltou sobre os seus passos; e ao saltar novamente o muro, deslocou o joelho.

CXXXV — Esse desagradável acidente forçou-o a abandonar a empresa iniciada, regressando ele sem levar o dinheiro que havia prometido aos Atenienses. Tinha mantido o cerco de Paros durante vinte e seis dias, causando, nesse espaço de tempo, grande devastação na ilha. Os Pários, informados de que Timo, sacerdotisa dos deuses infernais, tinha servido de guia a Milcíades, quiseram puni-la por crime de traição. Logo que voltou a calma à cidade, enviaram delegados a Delfos, para perguntarem ao deus se deviam condenar a sacerdotisa à morte por haver indicado ao inimigo o meio de apoderar-se de sua pátria e por ter revelado a Milcíades os mistérios interditos aos homens. A pitonisa, porém, proibiu-os de matar Timo, dizendo não ser esta culpada, pois servira de guia ao inimigo para conduzi-lo à desgraça.

CXXXVI — Quando Milcíades regressou da ilha de Paros, tornou-se assunto principal entre os Atenienses a sua malograda expedição, que mereceu os mais desfavoráveis comentários, sobretudo de Xantipo, filho de Arífron, o qual, revoltado com o fato, acusou Milcíades, perante o povo, de haver traído a nação. Milcíades, preso ao leito pela gangrena que se alastrava pela perna ferida no acidente perto do templo de Paros, não pôde defender-se pessoalmente das acusações que lhe eram feitas. Seus amigos, porém, tomaram a sua defesa, evocando a glória de que ele se cobrira na memorável jornada de Maratona e a conquista de Lemnos, por ele entregue aos Atenienses, vingando-os, assim, dos Pelasgos. O povo, impressionado com esses argumentos, poupou-o da pena de morte, condenando-o, todavia, a uma multa de cinqüenta talentos. Entretanto, a gangrena continuou progredindo, morrendo ele pouco tempo depois, e Címon, seu filho, pagou os cinqüenta talentos.

CXXXVII — Eis como Milcíades, filho de Címon, apossou-se da ilha de Lemnos: Os Atenienses haviam, tempos antes, expulsado os Pelasgos da Ática. Se tiveram razão para assim agir, ou se cometeram uma injustiça, é o que não me compete, absolutamente, decidir. Limito-me a reproduzir o que me disseram. Hecateu, filho de Hegesandro, diz, na sua história, que foi uma injustiça, afirmando que os Atenienses, vendo que o terreno que haviam cedido aos Pelasgos ao pé do monte Himeto, como recompensa por terem eles erguido o muro que circunda a cidadela, estava sendo bem cultivado, embora eles o tivessem considerado estéril e sem valor algum, desalojaram-nos dali, levados apenas pela inveja e pelo desejo de recuperá-lo. Os Atenienses, por sua vez, afirmam que assim procederam por um justo motivo. Dizem eles que os Pelasgos puseram-se a fazer, do local onde moravam, junto ao monte Himeto, incursões às suas terras, dirigindo insultos às jovens atenienses que iam buscar água na fonte de Eneacrounos — pois então não existiam escravos em Atenas, nem em lugar algum da Grécia. Todas as vezes que as jovens iam à fonte, os Pelasgos usavam de violência contra elas, com orgulho e desprezo; e, não contentes com esses ultrajes, conceberam um plano de se apoderarem do Estado, convencidos da possibilidade disso. Os Atenienses alegam que foram até generosos para com eles, pois, podendo matá-los, já que os surpreenderam a tramar contra a segurança do Estado, contentaram-se em expulsá-los do país. Obrigados a abandonar a Ática, os Pelasgos espalharam-se por vários lugares, procurando, de preferência, Lemnos. É isso o que contam os Atenienses.

CXXXVIII — Os Pelasgos que se haviam estabelecido em Lemnos procuraram um meio de vingar-se dos Atenienses. Conhecedores dos costumes destes e sabendo quais os seus dias de festa, equiparam alguns navios de cinqüenta remos, e, pondo-se de emboscada, raptaram grande número de mulheres atenienses, quando estas prestavam culto a Diana no burgo de Bráuron. Fazendo-se novamente à vela, levaram-nas para Lemnos, onde as tornaram suas concubinas. Essas mulheres tiveram muitos filhos, aos quais ensinaram a língua e os costumes de Atenas. Essas crianças evitavam qualquer contato com as das mulheres dos Pelasgos, e se uma delas era agredida, as outras iam em seu socorro, defendendo, assim, umas às outras. Julgavam-se, mesmo, superiores às outras, e eram, realmente, mais fortes. Observando o que se passava, os Pelasgos reuniram-se em conselho, e enquanto deliberavam, o medo apossou-se deles. Se eles já se põem de acordo, diziam os Pelasgos, para socorrerem uns aos outros contra os filhos das mulheres que desposamos virgens; se já se consideram seus senhores, que não farão quando crescerem? E tendo decidido eliminar todos os filhos das mulheres atenienses, executaram o seu propósito, matando também as mães. Foi desse ato de crueldade e de um outro antes verificado, em que as mulheres de Lemnos estrangularam seus maridos, juntamente com Toas, seu rei, que se originou o hábito de chamar de ações lêmnias a todos os procedimentos criminosos(23).

CXXXIX — Depois que os Pelasgos trucidaram suas concubinas e os filhos que delas haviam tido, a terra deixou de produzir frutos e os rebanhos tornaram-se estéreis. Tomados de aflição ante a escassez de alimentos e a esterilidade que se apossou também de suas mulheres, enviaram delegados a Delfos, a fim de pedirem ao deus para livrá-los desses males. Em resposta, a pitonisa ordenou-lhes que dessem aos Atenienses as satisfações que estes lhes exigissem. Os Pelasgos dirigiram-se a Atenas e declararam-se prontos a submeter-se à pena que lhes impusessem para reparar o seu crime. Os Atenienses prepararam um leito no Pritaneu, com toda a magnificência possível, e cobrindo uma mesa com toda sorte de iguarias, disseram aos Pelasgos para entregar-lhes a ilha de Lemnos nas mesmas condições daquela mesa. Entregá-la-emos, responderam os Pelasgos, quando um de vossos navios for, por um vento nordeste, daqui a Lemnos em um só dia. Assim responderam porque julgavam a façanha impossível, pois a Ática está situada ao sul de Lemnos, a grande distância dessa ilha.

CXL — As coisas ficaram nesse pé. Alguns anos mais tarde, tendo os Atenienses conquistado o Quersoneso e o Helesponto, Milcíades, filho de Címon, foi em um só dia, navegando a favor do vento nordeste, da cidade de Eleunte, porto do Quersoneso, à ilha de Lemnos. Lembrou aos Pelasgos o que haviam dito com relação àquela façanha, que eles acreditaram impossível de ser realizada e mandou-os sair da ilha. Os habitantes de Heféstia obedeceram, mas os de Mirina, não reconhecendo o domínio da Ática sobre o Quersoneso, negaram-se a obedecer, sendo, finalmente, forçados a capitular. Foi assim que os Atenienses, por intermédio de Milcíades, se apoderaram de Lemnos.


 

LIVRO VII

POLÍMNIA

A MORTE DE DARIO — XERXES SUCEDE-O NO TRONO — SUBMETE O EGITO — QUER VINGAR-SE DOS GREGOS E FAZER DA TERRA UM SÓ IMPÉRIO — REÚNE UM CONSELHO — RESOLVIDA A GUERRA CONTRA A GRÉCIA — MANDA PERFURAR O MONTE ATOS — PÍTIO — UMA PONTE LANÇADA SOBRE O MAR — O EXÉRCITO DESFILA DIANTE DE XERXES DURANTE SETE DIAS E SETE NOITES SEM INTERVALO — ENUMERAÇÃO À MANEIRA DE HOMERO — PASSANDO EM REVISTA A FROTA — XERXES CONSULTA DEMARATO — O ARAUTO DE ESPARTA DIANTE DE XERXES — TEMÍSTOCLES — EMBAIXADA A GÉLON — AS TERMÓPILAS — LEÔNIDAS — DIENECES — INSCRIÇÃO NAS TERMÓPILAS.


 

I — Ao ter conhecimento da derrota das forças persas em Maratona, Dario, já irritado contra os Atenienses por causa do incêndio de Sardes, sentiu sua cólera crescer contra eles, mostrando-se, mais do que nunca, decidido a levar a guerra à Grécia. Expediu, incontinênti, ordens a todas as cidades sob o seu domínio, para levantarem grande número de tropas e fornecerem cavalos, víveres, navios de guerra e de transporte, em quantidade maior ainda do que a que haviam fornecido para a primeira expedição. Essas ordens, expedidas para todos os cantos, pôs a Ásia inteira numa agitação contínua durante três anos. No quarto ano, quando já quase ultimados os preparativos e feito o recrutamento dos homens mais bravos entre todos os que prestavam obediência ao soberano, soube-se que os Egípcios, subjugados por Cambises, se tinham revoltado contra os Persas. Ante essa notícia, Dario decidiu-se, com maior ardor ainda, a marchar contra esses dois povos.

II — Quando se preparava para lançar-se sobre os Egípcios e os Atenienses, surgiu entre os príncipes seus filhos forte desentendimento com relação à soberania, pois as leis persas proibiam o rei de empreender uma expedição sem haver designado seu sucessor. Dario possuía, antes de ser aclamado rei, três filhos de sua primeira mulher, filha de Góbrias, e depois de ter subido ao trono tivera quatro outros de Atossa, filha de Ciro. Artobazanes era o mais velho dos filhos da primeira mulher, e Xerxes, dos da segunda. Como não eram filhos da mesma mãe, disputavam a sucessão, julgando-se Artobazanes com direito à coroa por ser o mais velho de todos, segundo a praxe aceita em toda parte. Xerxes, por sua vez, reivindicava para si esse direito, apoiando-se no fato de ser Atossa, sua mãe, filha de Ciro, a quem os Persas deviam a liberdade de que gozavam.

III — Dario ainda não se havia pronunciado acerca dessa questão, quando chegou a Susa Demarato, filho de Aríston, que havia fugido da Lacedemônia, depois de ter sido despojado dos seus Estados. Tendo sabido da pendência existente entre os filhos de Dario, aconselhou Xerxes a acrescentar às razões já apresentadas, o fato de haver nascido depois da subida do pai ao trono, enquanto que Artobazanes nascera quando Dario era ainda um simples cidadão, não sendo, por conseguinte, justo nem natural aceitar este último em lugar dele, Xerxes. Demarato acrescentou que era esse o costume seguido em Esparta; que quando um filho nascia depois de haver o pai subido ao trono, sucedia-o no poder, mesmo que o pai tivesse tido outros antes de ter assumido o poder. Aceitando o conselho de Demarato, Xerxes expôs ao pai as razões por ele sugeridas. Dario achou-as justas e nomeou-o seu sucessor. Acho, porém, que Xerxes teria reinado de qualquer maneira, pois Atossa contava com todo poder para isso.

IV — Dario, declarando Xerxes seu sucessor, dispôs-se a marchar para a guerra; mas a morte o surpreendeu em meio aos preparativos, no ano seguinte ao da sublevação do Egito, depois de haver reinado trinta e seis anos, sem ter tido a satisfação de punir os Egípcios e vingar-se dos Atenienses.

V — Morrendo Dario, subiu ao trono seu filho Xerxes. A mobilização de tropas levada a efeito pelo jovem soberano ao tomar as rédeas do governo visava principalmente o Egito, pois, de início, ele não nutria nenhum propósito de fazer guerra à Grécia. Mas Mardônio, filho de Góbrias e de uma irmã de Dario, e, por conseguinte, primo-irmão de Xerxes, sendo, de todos os Persas, o que maior ascendência tinha sobre este, falou-lhe nestes termos: “Senhor, não é razoável deixardes impunes os insultos que nos dirigiram os Atenienses. Levai avante, como desejais, o empreendimento que tendes em mão, mas, logo que tiverdes punido a insolência dos Egípcios, voltai o vosso poderio contra a Grécia. Com isso conquistareis a celebridade, e ninguém mais ousará, daí por diante, penetrar nos vossos Estados de armas na mão”. A esses motivos de vingança, Mardônio acrescentou o fato de ser a Europa um belo país, de terras extremamente férteis, produzindo todas as espécies de árvores frutíferas, e de que somente ele, Xerxes, merecia ser possuidor.

VI — Mardônio assim agia levado pela sede de aventuras e porque cobiçava o governo da Grécia. Conseguiu, realmente, com o concurso de outras circunstâncias, persuadir Xerxes a realizar essa empresa. Da Tessália vieram embaixadores a mando dos Aleuades, soberanos dessa região, especialmente para incitá-lo contra a Grécia, sendo secundados nos seus esforços pelos partidários de Pisístrato que foram ter a Susa, levando em sua companhia Onomácrites, célebre adivinho, que havia reunido todos os oráculos de Muséia. Onomácrites tinha sido expulso de Atenas por Hiparco, filho de Pisístrato, por haver vaticinado, com base num oráculo de Muséia, a submersão das ilhas vizinhas de Lemnos. Antes de irem a Susa, os partidários de Pisístrato reconciliaram-se com o adivinho. Chegando à presença do soberano persa, Onomácrites pôs-se a recitar-lhe os oráculos, silenciando sobre os que anunciavam alguma desgraça aos bárbaros, mas insistindo nos que prediziam acontecimentos felizes. Concluindo a apresentação dos oráculos, falou-lhe da passagem do exército persa pela Grécia, dizendo que estava escrito no livro do destino, que um persa ligaria, por meio de uma ponte, as duas margens do Helesponto.

VII — Deixando-se convencer pelas insinuações dos embaixadores dos Aleuades, dos partidários de Pisístrato e pelos oráculos apresentados por Onomácrites, Xerxes resolveu fazer guerra aos Gregos. Atacou primeiramente os Egípcios, no segundo ano da morte de Dario, e, derrotando-os, impôs-lhes um jugo mais severo do que o que haviam experimentado sob o reinado de seu pai, dando-lhes como governador Aquêmenes, seu irmão. Esse príncipe foi morto, pouco depois, por Inaros, filho de Psamético, rei da Líbia.

VIII — Submetido o Egito, Xerxes preparou-se para marchar contra Atenas. Convocou os principais da Pérsia, para expor-lhes os seus planos e ouvir-lhes as sugestões. Quando os viu reunidos, assim lhes falou: “Persas, não pretendo introduzir entre vós novos costumes, mas seguir aqueles que nos foram transmitidos pelos nossos ancestrais. Desde que Ciro arrebatou a coroa a Astíages, e desde que arrebatámos este império aos Medos, jamais ficamos inativos, como nos asseguraram nossos avós. Um deus nos conduz, e sob seus auspícios marchamos de vitória em vitória. Considero desnecessário falar-vos das façanhas de Ciro, de Cambises e de Dario, meu pai, bem como das províncias que acrescentaram ao nosso império; pois já estais perfeitamente a par de tudo isso. Quanto a mim, desde o momento que subi ao trono, cioso de não desmentir o sangue dos meus ancestrais, vivo a cogitar de como poderei dar aos Persas um poderio não menos considerável que aquele que me foi legado. Depois de muito refletir, cheguei à conclusão de que poderemos engrandecer mais e mais o nosso nome, conquistando um país em nada inferior ao nosso e até mesmo mais fértil, tendo, ao mesmo tempo, a satisfação de punir aqueles que nos injuriaram. Eu vos convoquei para fazer-vos conhecedores das minhas intenções. Pretendo, depois de haver construído uma ponte sobre o Helesponto, passar para a Europa e dirigir-me à Grécia, a fim de vingar meu pai e meu povo dos insultos dos Atenienses. Não ignorais que Dario tinha o firme propósito de marchar contra esse povo; mas a morte não lhe permitiu realizar seu intento. Cabe a mim vingar meu pai e os Persas, e não descansarei enquanto não me apoderar de Atenas e reduzi-la a cinzas. Seus habitantes, vós o sabeis, iniciaram as hostilidades contra meu pai, primeiro, vindo a Sardes com Aristágoras de Mileto, nosso escravo, e pondo fogo aos templos e aos bosques sagrados; em seguida, tratando-vos da maneira de que deveis estar bem lembrados, quando fostes à Grécia sob o comando de Dátis e Artafernes. Tudo isso me anima e impele a fazer a guerra contra os Atenienses. Quanto mais reflito, mais vantagens vejo nessa expedição contra eles. Se viermos a subjugá-los e a seus vizinhos, os habitantes do país de Pélope o Frígio, a Pérsia não terá outros limites senão o céu, e o sol não iluminará país algum que não nos pertença. Percorrerei a Europa inteira, e, com o vosso concurso, tornarei toda a terra num só império. Vencidos os Gregos, não haverá mais, ao que me asseguram, nação alguma que possa resistir-nos. Assim, culpados ou não, todos serão igualmente submetidos ao nosso jugo. Conduzindo-vos com acerto e bravura, sereis merecedores da minha estima e gratidão. Reuni aqueles que estiverem dispostos a seguir-vos e vinde, sem demora, ao local que designarei. Àquele que ali chegar com as melhores tropas, darei o que mais for do seu agrado. Assim prometo e cumprirei. Para vos mostrar que não quero regular tudo pelas minhas próprias idéias e sentimentos, permito-vos resolver entre vós este assunto, expondo-me, em seguida, o vosso ponto de vista”.

IX — Calando-se Xerxes, Mardônio tomou a palavra: “Senhor, sois o maior de todos os Persas, não só dentre os que já existiram, como dos que ainda estão para nascer. Atentei bem para as palavras sensatas que acabais de pronunciar, e estou convencido de que não permitireis que os Iônios da Europa, esse povo vil e desprezível, nos insulte impunemente. Se, com o propósito único de alargar as fronteiras do nosso império, submetemos os Sácios, os Indianos, os Etíopes e várias outras nações poderosas, que nenhum ato de hostilidade haviam cometido contra nós, como poderíamos deixar impune a insolência dos Gregos, que nos insultaram sem razão plausível? Que temos a temer? O número de suas tropas? Seus recursos econômicos? Não ignoramos nem a sua maneira de combater, nem a sua fraqueza, já subjugamos aqueles de seus filhos que habitam nosso país e que são conhecidos pelos nomes de Iônios, Eólios e Dórios. Conheço bem as forças dos Gregos; já as experimentei quando marchei contra eles por ordem de vosso pai. Penetrei na Macedônia, e pouco faltou para que eu chegasse até Atenas, sem que tivesse encontrado resistência. A ignorância e a estupidez dos Gregos não lhes permitem, ordinariamente, agir com prudência na guerra. Eles sempre escolhem, como campo de batalha, a planície mais nua e mais extensa. Assim, vencedores e vencidos sofrem as mais pesadas perdas. Quanto à sua maneira de tratar os vencidos, confesso que a ignoro.

“Uma vez que todos os Gregos falam a mesma língua, não deviam resolver as pendências que surgem entre eles por intermédio de arautos e embaixadores, não deviam experimentar outros meios, antes de chegarem às vias de fato? E se se torna necessário resolvê-las pelas armas, não deviam escolher um terreno mais propício à defesa para uns e para outros? Por causa desse costume de tentar a sorte das armas em campo aberto, os Gregos não ousaram oferecer-me combate quando cheguei até a Macedônia. Serão eles, por conseguinte, capazes de opor-se a vós, senhor, que ireis conduzindo as mais poderosas forças de terra e mar da Ásia? Não acredito que eles ousem oferecer-vos resistência. Se, entretanto, eu estiver enganado; se a sua insensatez levá-los a medir forças conosco, aprenderão que somos, de todos os homens, os mais bravos e os mais hábeis na arte da guerra. De uma maneira ou de outra, cabe-nos estar bem preparados para a empresa. Nada se realiza por si mesmo, e o sucesso é, geralmente, o preço de um grande esforço”. Assim, Mardônio com sua habitual habilidade procurou atenuar o que podia haver de excessivamente duro no discurso que Xerxes proferira.

X — Como os outros Persas guardassem silêncio, não ousando emitir uma opinião contrária, Artábano, filho de Histaspes, tio de Xerxes pelo lado paterno, manifestou-se nestes termos: “Senhor, quando, em um conselho, as idéias não são compartilhadas por todos, não se pode escolher a melhor; tem-se que confiar naquele que as expôs. Quando, porém, todos delas compartilham, escolhe-se a mais vantajosa, da mesma maneira por que se distingue o ouro puro: confrontando umas com as outras. Aconselhei o rei Dario, vosso pai e meu irmão, a não fazer guerra aos Citas, pois que nenhuma vantagem lhe adviria subjugando povos nômades, que nem cidades possuem. Dario, entretanto, levado pelo desejo de dominá-los, repeliu o meu conselho, e o resultado foi uma expedição malograda, da qual voltou sem suas melhores tropas. Por isso, senhor, já que vos dispondes a marchar contra homens mais bravos e mais adestrados que os Citas, é justo que eu vos advirta dos perigos que ides correr.

“Dizeis que, depois de haver lançado uma ponte sobre o Helesponto, passareis para a Europa com o vosso exército para ir ter à Grécia. Pode bem acontecer sermos batidos em terra ou no mar, ou tanto num como noutro, pois esse povo tem fama de bravo, fama essa que não parece sem fundamento, uma vez que os Atenienses sozinhos derrotaram o poderoso exército que penetrou na Ática sob o comando de Dátis e Artafernes. Mas, suponhamos que eles não consigam bater-nos em terra e no mar a um só tempo; se nos oferecerem combate naval e, depois de haver-nos derrotado, destruírem a ponte sobre o Helesponto, encontrar-nos-emos, então, senhor, em grande perigo.

“Essas minhas conjecturas não estão baseadas na minha simples prudência, mas na terrível experiência por que passámos quando o rei, vosso pai, tendo mandado lançar uma ponte sobre o Bósforo da Trácia e outra sobre o Íster, passou para a Cítia. Então os Citas tudo fizeram para que os Iônios, a quem havia sido confiada a guarda da ponte, a destruíssem, e se, nessa ocasião, Histeu, tirano de Mileto, não fosse de parecer contrário ao dos outros tiranos, que não seria feito dos Persas e do Império? Trememos só ao pensar que a sorte do rei dependeu de um único homem.

“Convém, pois, senhor, que reflitais sobre os azares da guerra, antes de expor-vos a tão grandes perigos, que reputo absolutamente desnecessários. Segui os meus conselhos, dissolvei esta assembléia; fazei novas e maduras reflexões, e quando julgardes oportuno, dai as ordens que vos parecerem mais acertadas. Considero mais proveitosas as deliberações tomadas depois de prolongadas conjecturas, pois, mesmo que os resultados não correspondam à nossa expectativa, resta-nos a satisfação de havermos decidido com sabedoria; a falta de sorte é que terá suplantado a nossa prudência. Quando tomamos uma decisão apressada, mesmo que a fortuna nos favoreça, o sucesso não impede de pensarmos que agimos perigosa e inconsideradamente.

“Não vedes que Deus lança o raio sobre os animais mais fortes, exterminando-os, poupando os pequenos e mais fracos? Não vedes que a faísca mortífera cai sempre sobre os edifícios mais altos e sobre as árvores de maior porte? Sabeis por quê? Porque Deus se compraz em fazer baixar tudo que se eleva. Assim, também, um grande e poderoso exército é, muitas vezes, destroçado por outro pequeno, e isso pela vontade de Deus, que não permite que simples mortais se elevem e se glorifiquem tanto quanto Ele próprio. A precipitação acarreta erros que ocasionam desgraças irreparáveis. A ponderação, ao contrário, traz-nos sempre vantagens. Se não as percebemos imediatamente, viremos a reconhecê-las com o tempo.

“São esses, senhor, os conselhos que tomo a liberdade de vos dar. Quanto a ti, Mardônio, filho de Góbrias, não tires deduções apressadas e talvez falhas sobre os Gregos, que não merecem que deles se fale com desprezo. Caluniando-os, incitas o rei a marchar em pessoa contra esses povos. Eu te exorto, em nome dos deuses, a que não te entregues à calúnia, o mais odioso de todos os vícios e uma injustiça que se pratica contra um semelhante. O caluniador viola todas as regras da eqüidade quando aquele a quem acusa está ausente. Não menos culpado é o que lhe dá fé antes de estar bem informado sobre o caso. O ausente, enfim, recebe uma dupla injúria, ao ser pintado com cores falsas por um e aceito sob esse aspecto por outro.

“Se, todavia, é forçoso fazer-se guerra aos Gregos, que o rei, pelo menos, permaneça na Pérsia, e que os nossos filhos respondam perante ele pelos nossos conselhos. Quanto a ti, Mardônio, leva contigo as melhores tropas e o maior número de soldados possível; coloca-te à testa da empresa, e se alcançares os sucessos que prometes ao rei, que me tirem a vida a mim e a meus filhos. Se acontecer o que prevejo, que a punição recaia sobre os teus e sobre ti também, caso voltes da expedição. Se não queres aceitar essas condições e teimas em marchar contra a Grécia, asseguro-te que os que aqui ficarem saberão que Mardônio, depois de pôr em jogo a segurança dos Persas, foi servir de pasto aos cães e aos pássaros nas terras dos Atenienses ou nas dos Lacedemônios, a menos que essa desgraça não lhe suceda em caminho, mostrando ao rei que espécie de homens o persuadem a fazer a guerra”.

XI — Esse discurso de Artábano encheu Xerxes de furor. “Se não fosses irmão de meu pai — disse ele —, receberias o merecido castigo pelas tuas palavras insensatas; mas como és um covarde, um homem sem brio, punir-te-ei de outra maneira: não irás comigo à Grécia; ficarás aqui com as mulheres. Executarei, mesmo sem ti, todos os meus planos. Que não me considerem mais filho de Dario, que contava entre seus ancestrais Histaspes, Arsames, Armnes, Teispes, Ciro, Cambises e Aquêmenes, se eu não me vingar dos Atenienses. Sei muito bem que se não os atacarmos seremos, mais cedo ou mais tarde, por eles atacados, como é fácil deduzir pelas suas façanhas anteriores, pelo incêndio de Sardes e pelas tropelias que já fizeram na Ásia. Não podemos mais, nem nós nem eles, recuar, ou iremos sobre eles, ou eles virão sobre nós; ou as nossas terras passarão para o domínio dos Gregos, ou toda a Grécia para o nosso. Não há meio termo; a inimizade que reina entre as duas nações não o permite. Convém vingar as injúrias que esses povos nos fizeram em primeiro lugar, a fim de que eu possa julgar do perigo oferecido por uma nação subjugada por Pélope o Frígio, escravo dos meus ancestrais”.

XII — Foram essas as palavras de Xerxes encerrando aquela movimentada assembléia. Ao chegar a noite, porém, Xerxes, já mais calmo e mais senhor de si, pôs-se a refletir sobre as advertências feitas por Artábano, chegando à conclusão de que não seria, realmente, vantajoso realizar uma expedição contra a Grécia. Assim conjecturando, adormeceu, e em sonhos julgou ver, segundo contam os Persas, um homem de grande estatura e de belas feições, que lhe dizia o seguinte: “Então, rei da Pérsia, já não queres fazer guerra à Grécia, depois de haveres ordenado a mobilização de um grande exército? Não procedes com acerto, mudando assim de resolução; ninguém aprovará tua conduta. Se queres confiar em mim, segue o caminho que traçaste durante o dia”. Ditas essas palavras, a visão desapareceu como que voando.

XIII — No dia seguinte, Xerxes, sem dar nenhuma importância a esse sonho, convocou as mesmas pessoas que reunira na véspera, e falou-lhes nos seguintes termos: “Peço que me perdoem se mudo de resolução. Ainda não atingi esse grau de prudência a que devo algum dia chegar. Aliás, sentia o espírito um tanto perturbado ante as contínuas exortações que me faziam para levar a cabo a empresa que ontem discutimos aqui; e quando ouvi a sugestão de Artábano, deixei-me de tal maneira levar pelos ímpetos da mocidade, que cheguei a falar de maneira pouco conveniente com uma pessoa que pela sua idade é merecedora de toda consideração. Reconheço agora a minha falta e decidi seguir os seus conselhos. Ficai tranqüilos; renuncio a fazer guerra à Grécia”.

XIV — Arrebatados com essa declaração, os Persas presentes prosternaram-se diante do rei. Na noite seguinte, a mesma visão apresentou-se novamente em sonhos a Xerxes, dizendo-lhe: “Filho de Dario, renunciaste, perante a assembléia dos Persas, à expedição contra a Grécia, sem nenhuma atenção à sugestão que te fiz, como se não a tivesses compreendido. Advirto-te que, se não te pões imediatamente em marcha, sofrerás as conseqüências da tua obstinação: de grande e poderoso que te tornaste em pouco tempo, também em pouco tempo te tomaras pequeno e humilde”.

XV — Aterrorizado com essa visão, Xerxes saltou do leito e mandou chamar Artábano. “Artábano — disse-lhe, assim que o viu chegar —, não estava no meu bom senso quando retruquei aos teus conselhos com palavras injuriosas; mas, logo me arrependi e reconheci que tinhas razão. Não posso, entretanto, embora seja esse o meu desejo, renunciar ao meu propósito, e digo-te por que: Quando já tinha mudado de resolução, apareceu-me, em sonho, uma visão insinuando-me que devia levar avante a minha idéia e fazendo-me terríveis ameaças caso eu voltasse atrás. Se é um deus quem ma envia, desejando decididamente que eu faça guerra à Grécia, acredito que ela te aparecerá também, sugerindo-te o mesmo que a mim, se envergares os meus trajes reais e, depois de haveres sentado no trono, deitares no meu leito”.

XVI — A princípio, Artábano negou-se a aceitar o convite, porque não se julgava digno de sentar-se no trono real, mas, ante a insistência do soberano, acabou acedendo, depois de haver-lhe falado desta maneira: “Grande rei, considero tão glorioso seguir um bom conselho, como tê-lo dado. Reconheço a vossa grandeza e a vossa magnanimidade, que a companhia dos maus ameaça prejudicar. A vós pode-se bem aplicar o que se diz do mar: Nada mais útil aos homens do que o oceano; mas o sopro impetuoso dos ventos agita-o, tirando-lhe a calma natural. Quanto às vossas palavras, que vós mesmo reputais de injuriosas, senti-as menos do que ver que de dois conselhos, um tendente a aumentar a insolência dos Persas, e o outro a reprimi-la, mostrando como é perigoso aos homens não imporem limites aos seus desejos, escolhestes o mais perigoso para vós e para a nação. Agora, quando já tínheis reconsiderado a vossa atitude e optado pelo melhor partido, renunciando à expedição contra a Grécia, dizeis que uma visão enviada por um deus vos proíbe de desmobilizar o exército que levantastes. Tais sonhos, senhor, nada encerram de divino; ocorrem por acaso e provêm de objetos e coisas em que concentramos o pensamento durante o dia. Ora, como sabeis, no dia anterior, a expedição à Grécia foi assunto bastante debatido no conselho. Se, porém, esse sonho encerra, como dizeis, algo de divino, é, com efeito, provável que a visão se apresente a mim, revestido como estarei nas vossas vestes reais, ordenando-me o mesmo que ordenou a vós. Convém, todavia, observar que, se ela quiser revelar-se mais uma vez, logo perceberá, embora eu esteja em vossas vestes, que não sou o rei. Se pelo simples fato de eu envergar os vossos trajes, ela se revelar a mim, tomando-me por vós, então é porque nada encerra de divino. Se, ao contrário, apresentar-se unicamente a vós, será porque há nela, realmente, um desígnio superior. Em todo caso, estou pronto a obedecer às vossas ordens, deitando-me no vosso leito; mas, enquanto essa visão não se revelar a mim, manterei minha opinião a respeito”.

XVII — Depois de haver assim falado, Artábano, esperando poder provar a Xerxes que o sonho nada significava, fez o que ele lhe havia ordenado. Vestiu seus trajes reais, sentou-se no trono e depois recolheu-se ao leito. Logo que adormeceu, surgiu-lhe em sonho a mesma visão que se apresentara a Xerxes, dirigindo-lhe estas palavras: “Então és tu quem procura demover Xerxes da sua expedição contra a Grécia, como se pudesses dirigir as suas ações? És tu quem se opõe ao destino? Pois bem, serás, por isso, punido no presente e no futuro. Quanto a Xerxes, já lhe fiz ver as desgraças a que estará sujeito se desobedecer”.

XVIII — Tais as ameaças que Artábano julgou ouvir. Pareceu-lhe também que a visão queria queimar-lhe os olhos com um ferro em brasa. Despertando num grito, saltou do leito e foi à procura de Xerxes, relatando-lhe o acontecido. “Como já vi, senhor — falou ele, depois de fazê-lo ciente da visão que tivera —, nações poderosas serem destruídas por outras muito inferiores, procurei dissuadir-vos da empresa que tínheis em mente realizar e evitar que vos abandonásseis ao ardor da vossa mocidade, pois sei o quanto é perigoso nutrir desejos demasiadamente ambiciosos. Lembrando-vos o destino da expedição de Ciro contra os Masságetas; da de Cambises contra os Etíopes, e da de Dario contra os Citas, da qual ele fazia parte, desejava apenas poupar-vos algum desgosto promovendo essa guerra, contribuindo, assim, para a vossa tranqüilidade e felicidade. Mas, já que os próprios deuses vos incitam a essa empresa, parecendo ameaçar os Gregos com uma grande desgraça, dou-me por vencido e mudo de opinião. Comunicai aos Persas a visão que os deuses vos enviaram e dizei-lhes que, em vista do ocorrido, devem continuar os preparativos necessários para a expedição. Quanto a vós, senhor, conduzi-vos com prudência, para que a ajuda dos deuses não vos falte em nada que fizerdes”.

Encorajado com a visão que se lhe revelara tão insistentemente, Xerxes, logo ao amanhecer, pôs os Persas a par de tudo, e Artábano, o único que se mostrara contrário à idéia da expedição, agora era o primeiro a estimulá-lo a realizá-la.

XIX — Enquanto Xerxes se preparava para marchar contra os Gregos, teve, durante o sono, uma terceira visão. Pareceu-lhe ter a fronte cingida por um ramo de oliveira, que, espalhando-se, cobria toda a terra. Comunicando o sonho aos magos, estes disseram-lhe que tal visão significava que todos os homens sobre a terra ficariam submetidos ao seu domínio. Logo após a interpretação desse sonho pelos magos, os Persas que haviam tomado parte no conselho reassumiram seus postos e puseram-se a executar, com todo ardor, as ordens do soberano, para receberem as recompensas prometidas.

XX — Xerxes realizou, então, o levantamento de tropas, buscando-as por todo o continente, e, submetido o Egito, levou quatro anos a armazenar provisões. Concluídos os preparativos, pôs-se em marcha, no quinto ano, à frente de poderosas forças. De todas as expedições de que temos conhecimento, foi essa, sem dúvida, a maior e a mais bem organizada, a ela não se podendo comparar nem a de Dario contra os Citas, nem a dos Citas, que, perseguindo os Cimérios, penetraram na Média e subjugaram quase toda a Ásia Superior, o que levou Dario, pouco mais tarde, a vingar-se deles. O mesmo podemos dizer da expedição dos Atridas contra Tróia e da dos Mísios e dos Teucros, que, antes da guerra de Tróia, transpuseram o Bósforo para lançar-se sobre a Europa. Tendo subjugado todos os Trácios, desceram em direção ao mar Iônio, avançando para o sul, até Peneu.

XXI — Essas expedições e todas as outras de que não fiz menção não podem, como disse, comparar-se com a de Xerxes. Realmente, que nação da Ásia não arrastou ele contra a Grécia, que rios não esgotou ele formando provisões de água para suas tropas, com exceção das grandes e caudalosas correntes d’água? Entre os povos mobilizados para essa guerra, uns forneceram navios; outros tropas de infantaria; outros cavalaria; estes, navios de transporte para os cavalos e tropas; aqueles, navios longos para o lançamento de pontes; outros, enfim, forneceram víveres e barcos para transportá-los. Os preparativos incluíram a perfuração do monte Atos, que, na expedição anterior, havia causado a perda da maior parte das unidades da frota persa, sacrificando grande número de vidas. Trabalhou-se ali durante três anos. Dos trirremes fundeados na enseada de Eleunte partiam destacamentos de todos os corpos do exército, os quais eram obrigados, a chicotadas, a perfurar o monte, revezando-se as turmas para apressar a tarefa. Os habitantes desse monte também ajudaram nos trabalhos de perfuração, que eram dirigidos por Bubares, filho de Megabizo, e Artaqueu, filho de Astreu, ambos persas de nascimento.

XXII — O monte Atos é uma vasta e famosa montanha, bastante habitada, que avança para o mar e termina no lado do continente, formando uma península, cujo istmo mede cerca de dez estádios. Nesse ponto estende-se uma planície pontilhada de pequenas colinas que vão do mar dos Acântios até o de Torone, situado em frente. No istmo, onde termina o monte Atos, ergue-se uma cidade grega denominada Sanos. Aquém dessa cidade e em volta do monte encontram-se as de Dio, Olofixo, Arcrotoon, Tissos e Cleonas.

XXIII — Vejamos como foi feita a perfuração dessa montanha. Traçou-se primeiramente uma linha reta até a cidade de Sanos, dividindo-se o terreno por nações. Quando o canal chegou a uma certa profundidade, enquanto uns continuavam a cavá-lo, outros iam entregando a terra solta aos que achavam nas escadas construídas para esse fim; estes passavam-na de mão em mão, até fazê-la chegar aos que se encontravam no alto, que então a levavam para longe dali. As bordas do canal ficaram abauladas, exceto na parte confiada aos Fenícios, dando aos homens duplo trabalho para nivelá-las. Isso tinha, fatalmente, de acontecer, porque o canal não tinha declive, apresentando, em cima e em baixo, a mesma largura. Foi aí que os trabalhadores fenícios revelaram todo o seu talento em se tratando de escavações. Para cavar a parte que lhes fora confiada, fizeram uma abertura bem maior do que a largura que o canal deveria ter, e, à medida que cavavam, iam estreitando-a, de sorte que o fundo acabou igual ao das partes confiadas às outras nações. Havia nas imediações um prado, onde eles instalaram um mercado, para onde transportaram uma grande quantidade de farinha vinda da Ásia.

XXIV — Acho que Xerxes mandou rasgar esse canal no monte Atos por uma questão de orgulho, a fim de dar uma demonstração do seu poder e legar um monumento à posteridade. Poder-se-ia levar, sem dificuldade alguma, os navios de um mar para o outro, através do istmo; mas ele preferiu abrir um canal comunicando-se com o mar, e bastante largo, de modo a poderem dois trirremes por ele navegar ao mesmo tempo. As tropas encarregadas de abri-lo tinham também ordem de construir uma ponte sobre o Estrímon.

XXV — Para a construção dessa ponte, o soberano persa mandou preparar cordames de linho e de biblos. Dando ordens aos Fenícios e aos Egípcios para transportarem os víveres destinados ao exército, a fim de que as tropas e os animais de carga que ele conduzia à Grécia não viessem a sofrer fome, informou-se da situação dos países que contribuíam para essa expedição e fez transportar, de todos os recantos da Ásia, grandes quantidades de farinha em navios apropriados para a travessia, mandando depositá-la nos lugares mais cômodos, parte num sítio, parte noutro. A maior parte dessa farinha foi levada para a costa da Trácia e depositada num lugar chamado Leuce Acte. Levaram-na também para Tirodize, nas terras dos Períntios, para a Dórica, para Éjon, sobre o Estrímon, e para a Macedônia.

XXVI — Deixando uma pequena parte de seus comandados entregues a essa tarefa, Xerxes partiu com um poderoso exército de terra, de Critália, na Capadócia, onde se haviam concentrado, de acordo com as suas ordens, todas as tropas que deviam acompanhá-lo por terra, e marchou em direção a Sardes. Não sei dizer qual foi o general que recebeu a recompensa que ele prometera a quem lhe trouxesse as melhores tropas, e ignoro mesmo se se chegou a tratar disso.

As forças persas, tendo atravessado o Hális, penetraram na Frígia, e, atravessando esse país, chegaram a Celenas, onde se encontram as nascentes do Meandro e as de um outro rio não menos considerável, a que se dá o nome de Cataratas. O Cataratas nasce justamente na praça pública de Celenas e se lança no Meandro. Vê-se, na cidadela, a pele do sileno Mársias, ali colocada por Apolo em figura de um simples mortal, segundo dizem os Frígios, depois de havê-lo esfolado.

XXVII — Pítio, filho de Átis, lídio de nascimento, morava nessa cidade. Recebeu Xerxes e as suas tropas com toda pompa e cortesia, e ofereceu-lhe dinheiro para as despesas da guerra, tendo o soberano perguntado aos Persas que se achavam presentes quem era esse Pítio e quais as suas posses para fazer-lhe tal oferecimento. “Senhor — respondeu um dos interrogados —, esse homem é o mesmo que fez presente a Dario, vosso pai, de um plátano e de uma vinha de ouro. É, depois de vós, o homem mais rico de que já tivemos conhecimento”.

XXVIII — Surpreso com estas últimas palavras, Xerxes foi, ele próprio, inquirir Pítio sobre as suas riquezas. “Não pretendo ocultar-vos, grande rei, o montante das minhas riquezas. Dir-vos-ei com toda a franqueza. Ao saber da vossa vinda e tendo a intenção de vos oferecer dinheiro para a expedição, calculei as minhas riquezas e vi que possuía dois mil talentos de prata e quatro milhões de estáteres dáricos em ouro, menos sete mil. Ofereço-vos todo esse dinheiro, reservando para mim apenas os meus escravos e as minhas terras, que bastam para a minha subsistência”.

XXIX — Xerxes, encantado com a oferta, disse-lhe: “Meu hospedeiro, desde a minha partida da Pérsia ainda não havia encontrado ninguém que quisesse dar acolhida às minhas tropas ou oferecer-me qualquer soma para cobrir as despesas com a expedição. Tu, porém, não contente de receber a mim e ao meu exército com cortesia e prodigalidade, ainda me fazes essa generosa oferta. Aceita, pois, em troca, a minha amizade; e, para que nada falte aos teus quatro milhões, dou-te os sete mil estáteres que não possuís, e a tua conta ficará redonda. Goza, tu sozinho, dos bens que adquiriste e procura ser sempre assim, como te mostraste para comigo; nunca haverás de arrepender-te, nem no presente nem no futuro”.

XXX — Cumprindo a promessa de completar a soma declarada por Pítio, o soberano pôs-se em marcha, passando perto de Anava, cidade da Frígia, e de um lago de onde se extrai sal, e chegou a Colossos, outra grande cidade da Frígia, onde o Lico desaparece, precipitando-se num abismo, indo reaparecer mais adiante, para lançar-se no Meandro. Deixando Colossos, o exército atingiu Cidrara, na fronteira da Frígia com a Lídia, onde uma inscrição gravada numa coluna erguida por ordem de Creso indicava os limites dos dois países.

XXXI — Deixando a Frígia, Xerxes entrou na Lídia, onde a estrada se divide em dois braços. Um deles, à esquerda, conduz à Cária, e o outro, à direita, a Sardes. Tomando-se este último, tem-se, necessariamente, de atravessar o Meandro e passar pela cidade de Calatebos, onde se fabrica mel com mírica(1) e trigo. Tomando esse caminho, Xerxes encontrou um plátano que lhe pareceu tão belo, que mandou orná-lo com colares e braceletes de ouro, confiando a sua guarda a um imortal. Continuando a marcha, chegou, no dia seguinte, à cidade dos Lídios.

XXXII — Logo que chegou a Sardes, enviou arautos a toda a Grécia, exceto Atenas e a Lacedemônia, para pedirem terra e água e ordenarem o aprovisionamento da mesa do rei. Assim agiu por julgar que os que haviam outrora recusado terra e água a Dario não deixariam de satisfazer agora a ele, Xerxes, atemorizados que deviam estar com a sua marcha sobre a Grécia.

XXXIII — Enquanto se preparava para prosseguir a marcha em direção a Abido, adiantavam-se os trabalhos de construção da ponte sobre o Helesponto, para a travessia da Ásia para a Europa. Do Quersoneso ao Helesponto, entre as cidades de Sesto e Mádito, estende-se uma costa escarpada, que se alonga para o mar diante de Abido. Foi ali que Xantipo, filho de Arífron, general dos Atenienses, capturou, pouco tempo depois, Artaictes, persa de nascimento e governador de Sardes, mandando crucificá-lo, por haver ele levado mulheres para o templo de Protesilau, em Eleunte, e ali cometido atos iníquos.

XXXIV — Os encarregados da construção da ponte iniciaram-na do lado de Abido, estendendo-a até o trecho a que acabamos de nos referir. De Abido à costa oposta há uma distância de sete estádios. Enquanto os trabalhadores fenícios ligavam os navios com cordames de linho, para a formação da ponte, os Egípcios serviam-se, para o mesmo fim, de cordames de biblos. Aconteceu, porém, que, logo que a ponte foi dada por terminada, levantou-se uma terrível tempestade, rompendo os cordames e despedaçando os navios.

XXXV — Sabedor do ocorrido, Xerxes, indignado, mandou aplicar trezentas chicotadas no Helesponto e lançar ali um par de cadeias. Ouvi dizer que ele ordenou também aos executores que marcassem as águas com um ferro em brasa; mas o que é certo é que, juntamente com as chicotadas, ordenou a um dos executores que proferisse este discurso bárbaro e insensato: “Onda traiçoeira, teu senhor assim te pune porque o ofendeste sem que ele te houvesse dado motivo para isso. O rei Xerxes passará por ti, quer queiras, quer não. É com razão que ninguém te oferece sacrifícios, pois que és um rio(2) traidor e vil”. Depois de castigar assim o mar, fez cortar a cabeça dos que haviam dirigido a construção da ponte.

XXXVI — Executada essa ação bárbara, encarregou outros da construção de uma nova ponte. Eis como procederam esses homens: Ligaram, de um lado, trezentos e sessenta navios de cinqüenta remos e vários trirremes, e do outro, trezentos e quatorze. Os primeiros tinham os costados voltados para o Ponto Euxino, e os demais, do lado do Helesponto, resistiam à correnteza, mantendo os cordames bem estendidos. Dispostas assim as embarcações, lançaram grossas âncoras, parte do lado do Ponto Euxino, para resistir aos ventos que sopram desse mar, e parte do lado do ocidente e do mar Egeu, por causa dos ventos que sopram do sul e do sudoeste. Deixaram, em três pontos diferentes, uma passagem livre entre os navios de cinqüenta remos, para as pequenas embarcações que quisessem entrar ou sair do Ponto Euxino. Terminado o trabalho, estenderam os cabos com auxílio das máquinas de madeira que se achavam em terra. Não se serviram de cordames simples, como os outros fizeram da primeira vez; trançaram os de linho branco, dois a dois, e os de biblos, quatro a quatro. Esses cabos eram todos da mesma espessura, mas os de linho eram mais fortes, pesando um talento por côvado. Estendidos os cabos, cortaram grossos pedaços de madeira, seguindo a largura projetada da ponte, e colocaram-nos, um ao lado do outro, sobre os referidos cabos. Uniram bem os pedaços de madeira, estendendo, em seguida, sobre os mesmos, as pranchas previamente preparadas, cobrindo-as com terra, que aplainaram. Feito isso, ergueram de cada lado uma barreira, a fim de que os cavalos e outros animais de carga não se assustassem ao verem o mar por baixo deles.

XXXVII — Terminada a construção da ponte e dos diques na embocadura do canal aberto no monte Atos, destinados a impedir a obstrução da entrada pelo fluxo das águas, foi a notícia levada a Sardes, e Xerxes pôs-se novamente em marcha. Deixando aquela cidade no começo da Primavera, depois de haver passado ali todo o Inverno, tomou a estrada de Abido, com o seu exército em boa ordem. Já havia vencido uma boa parte do percurso, quando, de súbito, o sol desapareceu do céu, sereno e sem nuvens, e o dia cedeu lugar à noite. Inquieto ante esse fenômeno, o soberano consultou os magos sobre o significado do mesmo, respondendo eles que os deuses pressagiavam aos Gregos a destruição de suas cidades, pois que o sol anunciava o futuro da Grécia, e a lua o dos Persas. Satisfeito com a resposta, continuou a jornada.

XXXVIII — Nesse momento, o lídio Pítio, aterrorizado com o fenômeno, veio procurá-lo. Os presentes que havia feito ao soberano, e os que, em troca, dele recebera, encorajaram-no a falar-lhe desta maneira: “Senhor, eu desejava uma graça; dignar-vos-eis a conceder-ma? É pouco para vós e muito para mim”. Xerxes, esperando um pedido bem diferente do que lhe ia ser feito, prometeu satisfazê-lo no que desejasse. Pítio, cheio de confiança, continuou: “Grande rei, tenho cinco filhos, e a sorte quis que todos fossem chamados a fazer parte da vossa expedição contra a Grécia. Pensai, senhor, na minha velhice; não permiti que eu fique ao desamparo; deixai comigo pelo menos o primogênito, para que possa cuidar de mim e administrar os meus bens. Quanto aos outros, levai-os convosco, e possam eles voltar depois de haverdes conseguido a vitória, segundo os vossos desejos”.

XXXIX — “És egoísta e mau — respondeu-lhe Xerxes, indignado —; eu próprio marcho contra a Grécia com meus filhos, meus irmãos, meus parentes, meus amigos; e tu ousas falar-me do teu filho, tu, meu escravo, que devias seguir-me com tua mulher e toda a tua criadagem. Convém que saibas que o espírito do homem reside nos ouvidos. Quando ele ouve coisas agradáveis, regozija-se, e a alegria se expande por todo o corpo; mas quando ouve coisas desagradáveis, irrita-se. Se a princípio te conduziste bem; se teus oferecimentos foram altamente louváveis, não poderás, entretanto, vangloriar-te de haveres suplantado um rei em liberalidade. Assim, embora hoje te mostres pouco digno das tuas ações passadas, tratar-te-ei menos rigorosamente do que mereces. A hospitalidade que ofereceste a mim e aos meus salva a tua vida e a de quatro dos teus filhos; mas punir-te-ei com o sacrifício daquele que mais amas”. Depois de assim falar, mandou procurar o filho mais velho de Pítio e cortar-lhe o corpo em duas partes, colocando uma metade à direita e a outra à esquerda do caminho por onde devia passar o exército.

XL — Executadas essas ordens, o exército passou entre as duas partes do corpo do filho de Pítio, as bagagens e os animais de carga em primeiro lugar, seguidos das tropas de todas as nações que tomavam parte na expedição. Essas tropas, em absoluta confusão, marchavam separadas do grosso do exército, onde se encontrava o soberano, estando dele separadas por um considerável intervalo. À frente do corpo principal do exército seguiam mil cavaleiros escolhidos entre todos os Persas, seguidos de mil infantes armados de lanças com as pontas para baixo, também tropa de elite como a que a antecedia. Vinham, em seguida, dez cavalos sagrados niseus, com soberbos arneses. Eram chamados niseus porque provinham da vasta planície de Niséia, na Média, que os produz da melhor qualidade. Logo a seguir vinha o carro sagrado de Júpiter, puxado por oito cavalos brancos, com um condutor segurando-lhes as rédeas. A ninguém era permitido subir nesse carro. Atrás dele vinha o de Xerxes, puxado por cavalos niseus, tendo ao lado o condutor, um persa de nome Patiranfes, filho de Otanes.

XLI — Foi com suas tropas assim dispostas que Xerxes deixou Sardes. Quando lhe dava vontade, passava do seu carro para uma harmamaxe(3), sendo seguido por mil homens armados de lanças com a ponta para cima, segundo o costume. Os que compunham esse grupo eram escolhidos entre os mais nobres e os mais bravos da Pérsia. Atrás desse grupo vinham outros mil cavaleiros de elite, seguidos por dez mil infantes, escolhidos entre as outras classes persas. Mil desses homens levavam granadas de ouro em lugar de ferro no cabo da lança, formando no centro dos outros nove mil, que conduziam granadas de prata na ponta das suas lanças. Os que marchavam com as lanças voltadas para baixo levavam também granadas de ouro, mas os que vinham logo depois de Xerxes traziam pomos de ouro nas suas lanças. Esses dez mil homens eram seguidos de dez mil persas a cavalo, havendo, entre esse corpo de cavalaria e o resto das tropas que marchavam em confusão, um intervalo de dois estádios.

XLII — Deixando a Lídia, o exército tomou a direção do Caíque, penetrou na Mísia e, deixando à esquerda o monte Cane, passou por Atárnea e dirigiu-se para a cidade de Carene. Dessa cidade, prosseguiu a marcha para a planície de Tebas, passou próximo a Adramíteo e Antandro, cidade pelásgica, e, deixando à esquerda o monte Ida, penetrou na Tróada, onde acampou com a chegada da noite. Sobrevindo uma grande tempestade, acompanhada de terríveis trovões e relâmpagos, que matou muitos dos seus componentes, o exército abandonou o local, indo acampar às margens do Escamandro. As águas desse riacho, o primeiro encontrado desde a partida de Sardes, não foram suficientes para matar a sede das tropas e dos animais de carga.

XLIII — Logo que chegou às margens do Escamandro, Xerxes subiu a Pérgamo de Príamo(4), que desejava muito ver. Depois de tê-la examinado e se inteirado das suas particularidades imolou ali mil bois a Minerva de Tróia, e os magos fizeram libações em honra aos heróis do país. Depois disso, uma espécie de terror pânico manifestou-se no acampamento durante a noite, e Xerxes dali partiu ao nascer do dia, tendo à esquerda as cidades de Reteu, Ofrínio e Dárdano, vizinha à de Abido, e à direita a dos Gergites-Teucros.

XLIV — Chegando a Abido, Xerxes desejou passar em revista todas as tropas. Para isso, os habitantes da cidade fizeram erguer sobre o outeiro uma grande plataforma de mármore branco, de acordo com as instruções que haviam recebido antes da chegada do soberano. Dali, lançando o olhar para as praias e para a paisagem imensa, Xerxes contemplou orgulhoso seus exércitos de terra e mar. Depois de haver gozado, durante algum tempo, desse soberbo espetáculo, manifestou o desejo de assistir a um combate naval, no que foi prontamente satisfeito. Do combate simulado saíram vencedores os Fenícios, mostrando-se o soberano encantado com o desenrolar da luta e com a demonstração de suas forças.

XLV — Vendo o Helesponto coalhado de navios, e as praias e as planícies de Abido cheias de guerreiros, Xerxes felicitou-se pela sua boa sorte e sentiu-se tomado de intenso sentimento de felicidade; mas, logo em seguida, inexplicavelmente pôs-se a chorar.

XLVI — Artábano, seu tio pelo lado paterno, que havia procurado dissuadi-lo da idéia de uma guerra contra a Grécia, falando-lhe sem rodeios e com toda a franqueza sobre um tal empreendimento, vendo-o a chorar, a ele se dirigiu nestes termos: “Senhor, vossa conduta de agora é bem diferente da de há pouco. Há momentos, vós vos consideráveis feliz, e agora derramais lágrimas”. “Quando refleti — volveu Xerxes — sobre a brevidade da vida humana e ao pensar que de tantos milhões de homens não restará um só dentro de cem anos, senti-me tomado de compaixão”. “Experimentamos, no decurso de nossa vida — tornou Artábano —, coisas bem mais tristes do que o próprio sentimento da morte. Apesar da brevidade da vida humana, a que vos referistes, não há homem feliz, seja no meio dessa multidão, seja em todo o universo, ao qual não venha ao espírito, já não digo uma vez, mas freqüentemente, o desejo de morrer. As vicissitudes por que passamos, as enfermidades que nos perturbam, fazem com que a vida nos pareça bem longa, por mais curta que ela seja. Numa existência tão infeliz, o homem vive a suspirar pela morte, encarando-a como um porto de salvação. Se temperamos a acridez de nossa vida com alguns prazeres, os deuses logo manifestam o seu ciúme”.

XLVII — “Artábano — redarguiu Xerxes —, a vida humana é tal como a apresentas, mas ponhamos fim a tão tristes cogitações, quando a nossa sorte se mostra venturosa. Dize-me, a visão que tiveste não foi bastante clara? Serias ainda capaz de procurar dissuadir-me de levar a guerra à Grécia, ou mudaste realmente de opinião? Fala-me sem rodeios. “Senhor — replicou Artábano —, possa a visão que tivemos levar-nos à realização daquilo que ambos desejamos. Confesso-vos, todavia, que continuo bastante temeroso; que não me sinto senhor de mim quando, entre as coisas sobre que reflito, vejo duas da mais alta importância, que te são contrárias”.

XLVIII — “Quais essas duas coisas que, na tua opinião, me são contrárias? — interrogou Xerxes. — Será que julgas que o meu exército de terra não é suficientemente poderoso e que os Gregos poderão opor-nos um mais forte? Consideras a nossa frota inferior à deles? Se nossas tropas te parecem pouco consideráveis para a empresa, ainda há tempo para fazermos novos recrutamentos”.

XLIX — “Senhor — obtemperou Artábano —, nenhum homem de senso seria capaz de julgar os vossos exércitos de terra e mar insuficientemente poderosos ou pouco adestrados para um tal empreendimento. Se fizerdes novos recrutamentos, as duas coisas de que vos falei ser-vos-ão ainda mais contrárias. Essas duas coisas, senhor, são a terra e o mar. Com efeito, se se levanta uma tempestade, não há, como presumo, porto no mundo bastante vasto para abrigar vossa frota, colocando-a em segurança; e mesmo que houvesse um porto em tais condições, seria preciso que existissem outros com a mesma capacidade em todos os lugares aonde ireis. Ora, não existindo portos que satisfaçam essas condições, estaremos, senhor, à mercê de acontecimentos fortuitos, nos quais não podemos influir. Isso com relação ao mar, ao deslocamento da vossa frota. Quanto à terra, senhor, o problema que se nos oferece não é menos importante. Senão, vejamos: se ninguém se opuser às vossas conquistas, à medida que avançardes, ela se irá tornando insensivelmente, sem perceberdes, cada vez mais contrária aos vossos desígnios. Os homens nunca estão satisfeitos com os primeiros sucessos que obtêm; estão sempre sedentos em busca da glória. Assim, se não fordes detido na vossa marcha, a extensão do trajeto e o tempo que passa vos farão experimentar as agruras da fome. O homem prudente pensa sempre nas suas deliberações, as más circunstâncias que possam sobrevir nos seus empreendimentos, mas, no momento da execução, mostra-se ousado e intrépido”.

L — “Artábano — replicou Xerxes —, concordo com o que acabas de dizer, mas não devemos encarar todas as coisas com a mesma circunspecção. Se em todos os negócios fôssemos deliberar com o mesmo escrúpulo, nunca faríamos nada. É melhor proceder com ousadia, medir apenas a metade dos males possíveis, do que deixar-se dominar por temores prematuros, nada fazendo. Se combates todas as opiniões sem propor em seu lugar algo mais acertado, nada conseguirás sobre aquele que foi de opinião contrária à tua. Ora, ao homem nunca é dado acertar em todas as suas previsões. As pessoas ousadas geralmente obtêm sucesso em suas iniciativas, enquanto que as que agem com excesso de cautela raramente o conseguem. A que grau de poderio já não chegaram os Persas! Se os reis que me precederam houvessem pensado como tu, ou tivessem conselheiros que assim pensassem, não veríamos agora, como vemos, o nosso povo elevado às culminâncias da glória. Foi enfrentando os perigos e os azares da guerra que eles estenderam as fronteiras do império; pois o triunfo, nas grandes empresas, só se conquista enfrentando o perigo. Ciosos das nossas tradições de conquista e desejosos de ombrear com os nossos antepassados, lançamo-nos a mais uma campanha, na mais bela estação do ano, e, depois de havermos subjugado a Europa inteira, voltaremos à Pérsia, sem havermos experimentado a fome nem qualquer outra desgraça. Trouxemos conosco víveres em quantidade suficiente para levarmos a bom termo o nosso empreendimento, e, como todas as nações que faremos experimentar o nosso poderio cultivam a terra e não são nômades, havemos de encontrar muito trigo para dele nos apropriarmos”.

LI — “Já que achais, senhor — volveu Artábano —, que nada temos a temer, permiti ainda um conselho. Quando se tem muito que dizer, é preciso falar muito. Ciro, filho de Cambises, subjugou toda a Iônia, com exceção de Atenas, e tornou-a tributária dos Persas. Eu vos aconselho, pois, a não lançar os Iônios contra os seus ascendentes. Não necessitamos deles para sermos superiores aos nossos inimigos. Pode-se dizer dos que nos acompanham, que é preciso que sejam os mais injustos dos homens, para tomarem parte numa empresa que visa submeter sua própria pátria. O mais certo é que ajudem a mantê-la livre. Refleti, senhor, na justeza desta velha sentença: Ao iniciarmos uma empresa, geralmente ignoramos as conseqüências que poderão advir”.

LII — “Artábano — redarguiu Xerxes —, são errôneas as tuas impressões, principalmente no que diz respeito ao procedimento dos Iônios que conosco colaboram. Temos prova da fidelidade deles. Tu mesmo foste testemunha disso, bem como todos os que tomaram parte na expedição de Dario contra os Citas. Dependia deles a salvação ou a desgraça das nossas tropas, e eles se mantiveram fiéis e solidários conosco, auxiliando-nos em vez de prejudicar-nos. Aliás, não devo recear nenhuma sortida da parte de um povo que deixou como garantia, nos meus Estados, seus bens, suas mulheres e seus filhos. Fica, pois, tranqüilo; enche-te de coragem; vela pela conservação da minha casa e do meu império; é a ti, a ti somente que confio o meu cetro”.

LIII — Depois dessa palestra, Xerxes enviou Artábano de volta a Susa e fez vir à sua presença os mais ilustres dentre os Persas. Quando os viu reunidos diante de si, assim lhes falou: “Persas, eu vos convoquei para vos exortar a conduzir-vos como homens de coragem e a não deslustrar as tradições e os empreendimentos dos nossos antepassados. Que todos em geral e cada um em particular demonstrem igual ardor e alto espírito de luta. Trabalhai com zelo pelo interesse comum, aplicando toda a vossa capacidade na guerra que vamos travar com povos, segundo me informaram, muito belicosos. Se os batermos nos primeiros encontros, não encontraremos mais resistência em parte alguma. Passemos, pois, para a Europa, depois de endereçarmos nossas preces aos deuses tutelares da Pérsia”.

LIV — Nesse mesmo dia os Persas se prepararam para ganhar o outro continente. Na manhã do dia seguinte, enquanto aguardavam o levantar do sol queimaram sobre a ponte toda espécie de essências aromáticas, juncando o caminho de mirto. Logo que o sol apareceu, Xerxes, empunhando uma taça de ouro, fez libações no mar, rogando ao astro-rei para afastar os obstáculos que pudessem impedi-lo de subjugar a Europa. Terminada a prece, lançou a taça no Helesponto, juntamente com uma cratera de ouro e um sabre de um tipo usado na Pérsia e denominado acinaces. Não posso afirmar se, lançando esses objetos ao mar, ele prestava uma homenagem ao sol, ou se, arrependido de haver fustigado o Helesponto, procurava apaziguá-lo com tais oferendas.

LV — Terminada a cerimônia, iniciou-se a travessia da ponte, passando a cavalaria e a infantaria do lado do Ponto Euxino, e do lado do mar Egeu os animais de carga e os servos. Os dez mil persas iam na frente, tendo todos uma coroa na cabeça. Logo atrás seguiam os corpos de tropas compostos de soldados de todas as nações. Com a chegada da noite, foi interrompido o movimento das forças através da ponte.

No dia seguinte, foi concluída a travessia, passando em primeiro lugar os cavaleiros que levavam suas lanças com a ponta voltada para baixo, tendo também uma coroa na cabeça. Vinham, em seguida, os cavalos e o carro sagrado, e logo atrás o próprio Xerxes, os lanceiros e o grupo de mil cavaleiros, seguidos pelo resto do exército. Enquanto isso, os navios dirigiam-se para a margem oposta. Segundo ouvi dizer, o soberano foi o último a passar.

LVI — Atingindo o continente, Xerxes assistiu ao desfile de suas tropas, que marchavam sob golpes de chicote(5). Esse espetáculo durou sete dias e sete noites sem interrupção. Conta-se que, quando o soberano atravessou o Helesponto, um habitante do litoral exclamou: “Oh Júpiter! Por que, sob a forma de um persa e sob o nome de Xerxes, arrastais convosco tantos homens para destruir a Grécia? Ser-vos-ia fácil fazê-lo sem o concurso deles”.

LVII — Quando terminou o desfile das tropas, verificou-se um fenômeno, a que Xerxes não deu nenhuma importância: uma égua deu à luz uma lebre. Isso queria significar que o soberano levaria à Grécia, com muito fausto e ostentação, um exército numeroso, mas que voltaria ao ponto de partida, forçado que seria, por motivo de saúde, a bater em retirada. Quando ele ainda se encontrava em Sardes, verificara-se um fenômeno semelhante: uma mula gerou um potro que trazia as partes que caracterizam os dois sexos, estando as do macho por cima.

LVIII — Xerxes, sem dar atenção a esse segundo fenômeno, como não dera ao primeiro, pôs-se em marcha com o exército de terra, enquanto a frota zarpava do Helesponto e contornava a costa, seguindo uma rota oposta à do exército, isto é, velejando para o Poente, em demanda do promontório de Sarpédon, onde tinha ordem de estagiar. O exército de terra, ao contrário, tomando a direção do Levante em rota para o Quersoneso, atravessou a cidade de Ágora, deixando, à direita, o túmulo de Heléia, filha de Atamas, e à esquerda, a cidade de Cárdia. Dali, contornando o golfo Melas, atravessou o rio do mesmo nome, cujas águas foram esgotadas pelas tropas, não bastando para matar a sede de todos. Transpondo esse rio, o exército voltou-se para o ocidente, passou ao longo de Enos, cidade eólia, e do lago Estentóris, chegando finalmente a Dorisco.

LIX — Dorisco é o nome dado a uma grande planície da Trácia, banhada pelo Ebro, rio bastante considerável. Ali foi construído um castelo real denominado Dorisco, onde os Persas mantêm uma guarnição desde a época da expedição de Dario contra os Citas. Como o local parecesse a Xerxes apropriado para dispor as tropas e passá-las em revista, deu ordens nesse sentido. Tendo todos os navios chegado à costa de Dorisco, os comandantes colocaram-nos, a mando do soberano, na margem que toca o castelo, onde se encontram Sala, cidade dos Samotrácios, e Zona, bem na extremidade de um promontório chamado Sérrio. Essa região pertencia outrora aos Cícones.

LX — Ignoro o número exato de tropas que cada nação forneceu a Xerxes, mas, ao que se afirma, o exército de terra somava um milhão e setecentos mil homens. Eis como foi feita a contagem das tropas concentradas no local. Reunindo um corpo de dez mil homens em determinado espaço e juntando-o o máximo possível, traçaram um círculo em torno. Em seguida, fizeram sair dali esse corpo de tropas e ergueram em torno do círculo um muro à altura do umbigo. Isso feito, mandaram entrar outras tropas no local j