eBookLibris

A DIVINA
COMÉDIA
Dante Alighieri


Tradução
José Pedro Xavier Pinheiro


A DIVINA COMÉDIA
DANTE ALIGHIERI

Tradução
José Pedro Xavier Pinheiro
1822-1882

Versão para eBook
eBooksBrasil

Fonte Digital
Digitalização do livro em papel
COMPOSTO E IMPRESSO
NAS OFICINAS DE
D. GIOSA - INDÚSTRIAS GRÁFICAS S/A
SEÇÃO: ATENA EDITORA
RUA JAVAÉS
, 465 - SÃO PAULO
MARÇO - 1955

© 2003 — Dante Alighieri


A DIVINA
COMÉDIA
Dante Alighieri


Índice

Nota Editorial
Orelha do livro
Notícia Biográfica
A DIVINA COMÉDIA
INFERNO
PURGATÓRIO
PARAÍSO
Índice dos Cantos


Nota Editorial

Aqui está uma obra que deveria figurar na “cesta básica” de qualquer estudante. E não apenas por ser a famosa “Comédia” de Dante Alighieri, a que os pósteros houveram por bem acrescentar, por seus méritos tantos, “A Divina”.

A tradução, feita pelo brasileiro José Pedro Xavier Pinheiro, enobrece a língua portuguesa e, em particular, as letras pátrias. Mas isso o leitor irá constatar por si mesmo.

Nela, gastou Xavier Pinheiro anos de sua vida. Seu filho, J. A. Xavier Pinheiro, acrescentou-lhe um Rimário, para uma segunda edição editada por Jacintho Ribeiro dos Santos, nos anos 10 do século passado, enriquecida com as gravuras de Gustave Doré, em folhas à parte.

Por que cito tais fatos? Porque a única finalidade que movia os Xavier Pinheiro, pai e filho, era contribuir para o enriquecimento cultural de nossa gente, sem subsídios como condição prévia e sem láureas ou pecúnia como retribuição.

A presente edição em eBook, infelizmente, não preserva o Rimário, que não consta da edição digitalizada, editada pela Atena Editora, que, com sua Biblioteca Clássica, ainda encontrada nos bons sebos, familiarizou gerações com o que havia de melhor nas letras e no pensamento universais. E, não é demais salientar, sem os ranços de nacionalismos estreitos, freqüentemente disfarçando interesses outros em nome da “defesa dos autores nacionais”, mas cujo único resultado é distanciar nossa gente do pensamento universal, que nunca teve, nem jamais terá outra barreira que não a da língua.

É exatamente esta barreira que, no caso, Xavier Pinheiro transpôs, com sua tradução.

Na presente versão para eBook, tentamos fazer justiça aos esforço do tradutor, cuidando ao máximo da revisão. Infelizmente, como quem quer que já tenha feito uma digitalização sabe, ao digitalizar 516 páginas, aqui e ali sempre passará algum “gato”. Esperamos que os que tenham passado não miem muito...

Atualizamos a grafia, preservando, contudo, as apócopes e as elisões do tradutor que, com tais recursos, evidentemente visava conservar o sabor e a métrica originais. Para facilitar a leitura, apenas para isso, adicionamos acentos. Por exemplo, quando na fonte digital estava cir’clo, adicionamos o acento círc’lo, como apoio à leitura.

Como não temos preocupação com economia de papel, separamos os tercetos de forma mais clara, acompanhando a edição digital da LiberLiber (www.liberliber.it). A numeração dos versos foi preservada para facilitar a consulta às notas e para a leitura em determinados formatos em tela pequena. As notas não foram “lincadas” e estão ao fim de cada Canto, como na edição digitalizada. Alguns, como eu, sentirão a falta deste recurso que só é possível nas edições digitais... Mas...

E apenas ilustramos esta edição com as gravuras de Doré. Na internet, o leitor mais interessado poderá encontrar recursos para aprofundar seu conhecimento da obra em pelo menos quatro excelentes websites:

1. Destaque especial para o esforço individual de Helder da Rocha com seu site “A Divina Comédia”.

2. O Dante Digital da Columbia University.

3. O Dante On Line, em italiano, com direito a ver na tela alguns manuscritos... sem ter que fazer download de nenhum recurso extra.

4. O Divine Comedy, excelente, mas nem sempre disponível.

E todos os mais que o google pode lhe indicar.

Boa leitura!


Uma nota final (já ia me esquecendo): A presente edição em eBook pode ser distribuída à vontade, sob uma única condição: todo uso comercial é PROIBIDO, além de obviamente INDECENTE. Quem fizer — se alguém fizer, melhor diria, restasse em mim alguma esperança na honestidade pátria, caso em que nem colocaria a nota — é melhor começar a leitura por aqui, para ir se acostumando com o cenário.

eBooksBrasil


A DIVINA COMÉDIA
DE
DANTE ALIGHIERI

 

Dedicando-lhe o “Paraíso” escrevia Dante a Cangrande della Scala: “O sentido desta obra não é simples; ao contrário ela é “polisensa”, pois outro é o sentido literal, outro aquele das coisas significadas”.

Declarava Dante com essas palavras que a “Divina Comédia” é um poema alegórico. Não somente no poema há alegorias particulares, mas o poema, na sua inteireza, tem uma significação, ou melhor, várias significações alegóricas.

Muitas foram as interpretações que da “Divina Comédia” se fizeram sob esse ponto de vista. Alguns comentadores puseram em maior evidência o seu sentido moral e teológico; outros consideram o poema dantesco como uma obra de inspiração política e ligada intimamente às vicissitudes pessoais do poeta.

Não são, porém, as intenções alegóricas que consagram a imortalidade da “Comédia” dantesca, à qual os pósteros atribuíram a qualificação de divina. A “Divina Comédia” é, principalmente, uma formidável obra de fantasia e de representação poética, talvez um dos pontos limites que a inteligência humana pode alcançar.

Na presente edição, o poema dantesco ê apresentado na tradução em tercetos rimados como no texto original, de José Pedro Xavier Pinheiro. Não há dúvida de que poucas obras apresentam as dificuldades que apresenta a “Divina Comédia” para a tradução em outros idiomas, especialmente para quem às outras dificuldades queira ajuntar aquelas decorrentes da conservação do metro original e da rima. A tradução de Xavier Pinheiro constitui uma obra digna de admiração. Fiel, bastante clara, consegue reproduzir grande parte da força poética do maravilhoso poema italiano.

Fonte: “orelha” da edição digitalizada


NOTÍCIA BIOGRÁFICA

 

Dante Alighieri nasceu em Florença, em maio de 1265, de dona Bella e de Aldighiero Alighieri. De família nobre e abastada, dedicou-se desde cedo aos estudos, sendo que o célebre Brunetto Latini foi um dos seus mestres. Estudou letras e ciências, não se descuidando do desenho e da música. Mais tarde aplicou-se também à teologia.

Moço ainda, Dante participou da vida política da sua cidade. Em 1289, os exilados florentinos, juntando-se aos outros gibelinos de Toscana, tentaram invadir a República. O exército florentino deu-lhes batalha em Campaldino no dia 11 de junho de 1289, conseguindo derrotá-los. Dante participou destas operações militares, combatendo na cavalaria. Pouco depois, participou também do assédio ao castelo de Caprona.

Sendo necessário, para conseguir cargos da República, pertencer a uma corporação, Dante se inscreveu na dos médicos e farmacêuticos, que era a sexta entre as assim chamadas Artes Maiores. Sua atuação na vida pública foi brilhante. Conforme diz Boccaccio, em Florença não se tomava nenhuma deliberação sem que ele desse a sua opinião. Várias vezes foi embaixador da República, várias vezes pertenceu ao Conselho do Estado, e, finalmente, em 1300, obteve o cargo de “priore”, que era a suprema magistratura política de Florença.

Conforme ele mesmo diz, numa de suas cartas, as suas desgraças se originaram da sua eleição ao priorado. A cidade de Florença era dividida em dois partidos: os Brancos e os Pretos, que determinavam freqüentes conflitos, disso resultando que os priores, entre os quais Dante, resolvessem exilar alguns entre os cabeças, pertencentes às mais ilustres famílias de Florença.

Os Pretos, porém, encontraram uma ocasião propícia para obter o mando na cidade e oprimir os seus inimigos. Aproveitando-se da passagem por Florença de Carlos de Valois, irmão do rei da França, em viagem para Roma, conseguiram convencê-lo e convencer ao Papa Bonifácio VIII, de que os Brancos eram inimigos da Casa de França e da Cúria Romana. Os notáveis da cidade enviaram embaixadores ao Papa, e entre eles, Dante, para dissiduadí-lo do intuito de entregar a cidade à parte mais facciosa. Bonifácio, porém, tergiversando, manteve os embaixadores florentinos na expectativa, enquanto Carlos de Valois empossava os Pretos no mando de Florença, resultando daí um período de violências e saqueios.

Maldizendo a perfídia da Cúria Romana, partiu Dante de Roma para voltar para a Toscana. Chegando, porém, nas proximidades de Florença, soube que os seus inimigos, acusando-o de ser gibelino, e, ainda, de ter-se aproveitado do dinheiro público, o tinham condenado ao exílio, e a pagar uma pesada multa e que as suas possessões haviam sido depredadas. Começou, então, para Dante, a vida dura do exilado e do perseguido que conhece

... come sa di sale
Lo pane altrui e come é duro calle
Lo scendre e ’l salir per l’altrui scale.

Mudando freqüentemente de cidade, servindo a vários senhores, viveu Dante os últimos anos de sua vida. Morreu, com a idade de 56 anos, em Ravena a 14 de setembro de 1.321.

A obra poética de Dante se prende, na sua máxima parte, ao seu amor puramente espiritual por Beatriz de Folco Portinari. Dante conheceu Beatriz, quando ele tinha nove anos e Beatriz oito. Tornou a vê-la depois de nove anos, e, mais tarde, outras poucas vezes, pois Beatriz casou-se, e morreu em 1290. Embora, também, Dante se casasse em 1291 com Gemma Donati e com ela tivesse vários filhos, o amor por Beatriz constantemente inspirou a sua poesia. A maior parte das canções, dos sonetos e das baladas que constituem o “Canzoniere“ são dedicados à sua amada; a Vida Nova é uma história dos seus amores com Beatriz; a Divina Comédia, o sublime poema que talvez a humanidade nunca verá superado, prende-se também ao seu amor por Beatriz, bem como ao desejo de vingar-se de seus inimigos e de expor as suas idéias políticas.

Além dessas obras, escreveu o Convite, compêndio da filosofia do seu tempo, exposta eloqüentemente sob a forma de comento a três das suas canções; o De monarquia, tratado político; o De vulgari eloquentia, tratado filológico, deixado incompleto.

 


A DIVINA
COMÉDIA

Dante Alighieri


—INFERNO—


CANTO I

 

Dante, perdido numa selva escura, erra nela toda a noite. Saindo ao amanhecer, começa a subir por uma colina, quando lhe atravessam a passagem uma pantera, um leão e uma loba, que o repelem para a selva. Aparece-lhe então a imagem de Virgílio, que o reanima e se oferece a tirá-lo de lá, fazendo-o passar pelo Inferno e pelo Purgatório. Beatriz, depois, o guiará ao Paraíso. Dante o segue.

 

DA nossa vida, em meio da jornada,
Achei-me numa selva tenebrosa,
3 Tendo perdido a verdadeira estrada.

Dizer qual era é cousa tão penosa,
Desta brava espessura a asperidade,
6 Que a memória a relembra inda cuidosa.

Na morte há pouco mais de acerbidade;
Mas para o bem narrar lá deparado
9 De outras cousas que vi, direi verdade.

Contar não posso como tinha entrado;
Tanto o sono os sentidos me tomara,
12 Quando hei o bom caminho abandonado.

Depois que a uma colina me cercara,
Onde ia o vale escuro terminando,
15 Que pavor tão profundo me causara.

Ao alto olhei, e já, de luz banhando,
Vi-lhe estar às espaldas o planeta,
18 Que, certo, em toda parte vai guiando.

Então o assombro um tanto se aquieta,
Que do peito no lago perdurava,
21 Naquela noite atribulada, inquieta.

E como quem o anélito esgotava
Sobre as ondas, já salvo, inda medroso
24 Olha o mar perigoso em que lutava,

O meu ânimo assim, que treme ansioso,
Volveu-se a remirar vencido o espaço
27 Que homem vivo jamais passou ditoso.

Tendo já repousado o corpo lasso,
Segui pela deserta falda avante;
30 Mais baixo sendo o pé firme no passo.

Eis da subida quase ao mesmo instante
Assoma ágil e rápida pantera
33 Tendo a pele por malhas cambiante.

Não se afastava de ante mim a fera;
E em modo tal meu caminhar tolhia,
36 Que atrás por vezes eu tornar quisera.

No céu a aurora já resplandecia,
Subia o sol, dos astros rodeado,
39 Seus sócios, quando o Amor divino um dia

A tais primores movimento há dado.
Me infundiam desta arte alma esperança
42 Da fera o dorso alegre e mosqueado,

A hora amena e a quadra doce e mansa.
De um leão de repente surge o aspecto,
45 Que ao meu peito o pavor de novo lança.

Que me investisse então cuido inquieto;
Com fome e raiva atroz fronte levanta;
48 Tremer parece o ar ao seu conspeto.

Eis surge loba, que de magra espanta;
De ambições todas parecia cheia;
51 Foi causa a muitos de miséria tanta!

Com tanta intensa torvação me enleia
Pelo terror, que o cenho seu movia,
54 Que a mente à altura não subir receia.

Como quem lucro anela noite e dia,
Se acaso o tempo de perder lhe chega,
57 Rebenta em pranto e triste se excrucia,

A fera assim me fez, que não sossega;
Pouco a pouco me investe até lançar-me
60 Lá onde o sol se cala e a luz me nega.

Quando ao vale eu já ia baquear-me
Alguém fraco de voz diviso perto,
63 Que após largo silêncio quer falar-me.

Tanto que o vejo nesse grão deserto,
— “Tem compaixão de mim” — bradei transido —
66 “Quem quer que sejas, sombra ou homem certo!”

“Homem não sou” tornou-me — “mas hei sido,
Pais lombardos eu tive; sempre amada
69 Mântua lhes foi; haviam lá nascido.

“Nasci de Júlio em era retardada,
Vivi em Roma sob o bom Augusto,
72 Quando em deuses havia a crença errada.

“Poeta, decantei feitos do justo
Filho de Anquíses, que de Tróia veio,
75 Depois que Ílion soberbo foi combusto.

“Mas por que tornas da tristeza ao meio?
Por que não vais ao deleitoso monte,
78 Que o prazer todo encerra no seu seio?”

“— Oh! Virgílio, tu és aquela fonte
Donde em rio caudal brota a eloqüência?”
81 Falei, curvando vergonhoso a fronte. —

“Ó dos poetas lustre, honra, eminência!
Valham-me o longo estudo, o amor profundo
84 Com que em teu livro procurei ciência!

“És meu mestre, o modelo sem segundo;
Unicamente és tu que hás-me ensinado;
87 O belo estilo que honra-me no mundo.

“A fera vês que o passo me há vedado;
Sábio famoso, acude ao perseguido!
90 Tremo no pulso e veias, transtornado!”

Respondeu, do meu pranto condoído;
“Te convém outra rota de ora avante
93 Para o lugar selvagem ser vencido.

“A fera, que te faz bradar tremante,
Aqui passar não deixa impunemente;
96 Tanto se opõe, que mata o caminhante.

“Tem tão má natureza, é tão furente,
Que os apetites seus jamais sacia,
99 E fome, impando, mais que de antes sente.

“Com muitos animais se consorcia,
Há-de a outros se unir té ser chegado
102 Lebréu, que a leve à hórrida agonia.

“Por ouro ou por poder nunca tentado
Saber, virtude, amor terá por norte,
105 Sendo entre Feltro e Feltro potentado.

“Será da humilde Itália amparo forte,
Por quem Camila a virgem dera a vida,
108 Turno Eurialo, Niso acharam morte.

“Por ele, em toda parte, repelida
Irá lançar-se no infernal assento,
111 Donde foi pela Inveja conduzida.

“Agora, por teu prol, eu tenho o intento
De levar-te comigo; ir-te-ei guiando
114 Pela estância do eterno sofrimento,

“Onde, estridentes gritos escutando,
Verás almas antigas em tortura
117 Segunda morte a brados suplicando.

“Outros ledos verás, que, em prova dura
Das chamas, inda esperam ter o gozo
120 De Deus no prêmio da imortal ventura.

“Se lá subir quiseres, um ditoso
Espírito, melhor te será guia,
123 Quando eu deixar-te, ao reino glorioso.

“Do céu o Imperador, a rebeldia
Minha à lei castigando, não consente
126 Que eu da cidade sua haja a alegria.

“Em toda parte impera onipotente,
Mas tem no Empíreo sua augusta sede:
129 Feliz, por ele, o eleito à glória ingente!”

— “Vate, rogo-te” — eu disse — “me concede,
Por esse Deus, que nunca hás conhecido,
132 Porque este e maior mal de mim se arrede.

“Que, até onde disseste conduzido,
À porta de São Pedro eu vá contigo
E veja os maus que houveste referido”.

136 Move-se o Vate então, após o sigo.

 

1. Em meio etc. Aos 35 anos. Dante tinha 35 anos no dia 25 de março de 1300, ano no qual o papa Bonifácio VIII proclamou o primeiro Jubileu. — 2. Tenebrosa etc., simbólica selva dos vícios humanos. — 32. Pantera, símbolo da luxúria e da fraude; politicamente, de Florença. — 44. Um leão, símbolo da soberba e da violência; politicamente, da França. — 40. Loba, símbolo da avareza e da incontinência; politicamente da Cúria Romana. — 62. Alguém etc., o poeta Virgílio Maro, símbolo da razão humana. — 105. Entre Feltro e Feltro, entre Montefeltro e Feltro. — 122. Espirito melhor, Beatriz, a mulher que Dante amou.


CANTO II

 

Depois da invocação às Musas, Dante, considerando a sua fraqueza, duvida de aventurar-se na viagem. Dizendo-lhe, porém, Virgílio, que era Beatriz quem o mandava, e que havia quem se interessava pela sua salvação, determina-se segui-lo e entra com o seu guia no difícil caminho.

 

FORA-se o dia; e o ar, se enevoando,
Aos animais, que vivem sobre a terra,
3 As fadigas tolhia; eu só, velando,

Me aparelhava a sustentar a guerra
Da jornada, assim como da piedade,
6 Que vai pintar memória, que não erra.

Ó Musas! Ó do gênio potestade!
Valei-me! Aqui, ó mente, que guardaste
9 Quanto vi, mostra a egrégia qualidade.

“Poeta”, — assim falei, — “que começaste
A guiar-me, vê bem se em mim persiste
12 Calor que, à empresa que me fias, baste.

“Que o pai do Sílvio fora, referiste,
Corrutível ainda, até o inferno
15 Sem perder o que em corpo humano existe.

“Se do mal assim quis o imigo eterno,
Origem vendo nele do alto efeito,
18 O que e o qual, segundo o que discerno,

“Pela razão bem pode ser aceito;
Que para Roma e o império se fundarem
21 Fora no céu por genitor eleito;

“À qual e ao qual cabia aparelharem,
Dizendo-se a verdade, o lugar santo
24 Aos que do maior Pedro o sólio herdaram.

“Nessa empresa, em que o hás louvado tanto,
Cousas ouviu, de que surgiu motivo
27 Ao seu triunfo e ao pontifício manto.

“Lá foi o Vaso Eleito ainda vivo:
Conforto ia buscar, à fé, que à estrada
30 Da salvação princípio é decisivo.

“Por que irei? Quem permite esta jornada?
Enéias, Paulo sou? Essa ventura
33 Nem eu, nem outrem crê ser-me adatada.

“Receio, pois seja ato de loucura,
Se eu me resigno a cometer a empresa.
36 Supre, és sábio, o que digo em frase escura”.

Como quem ora quer, ora despreza,
Sua alma a idéias novas tem disposta,
39 Mostrando aos seus desígnios estranheza,

Assim fiz eu na tenebrosa encosta,
Porque, pensando, abandonava o intento,
42 Formado à pressa, que ora me desgosta.

“Do teu dizer se atinjo o entendimento”
— Do magnânimo a sombra me tornava, —
45 “Eivado estás de ignóbil sentimento,

“Que do homem muita vez faz alma ignava,
Das honrosas ações o desviando,
48 Qual sombra, que o corcel ao medo trava.

“Desse temor livrar-te desejando,
Por que vim te direi e quanto ouvido
51 Hei logo ao ver-te mísero lutando.

“No Limbo era suspenso: eis requerido
Por Dama fui tão bela, tão donosa,
54 Que as ordens suas presto lhe hei pedido.

“Brilhavam mais que a estrela radiosa
Os seus olhos; suave assim dizia
57 De anjo com voz, falando-me piedosa:

— “De Mântua alma cortês, que inda hoje em dia
No mundo gozas fama tão sonora,
60 Que, enquanto existir mundo, mais se amplia,

“Amigo meu, que a sorte desadora,
Pela deserta falda indo, impedido
63 De medo, atrás os passos volta agora.

“Temo que esteja tanto já perdido,
Que tarde eu tenha vindo a socorrê-lo,
66 Pelo que lá no céu dele hei sabido.

“Parte, pois, e com teu discurso belo
E quanto o salvar possa do perigo
69 Lhe acode; e me console o teu desvelo.

“Sou Beatriz, que envia-te ao que digo,
De lugar venho a que voltar desejo:
72 Amor conduz-me e faz-me instar contigo.

“Voltando ao meu Senhor, em todo o ensejo
Repetirei louvor, que hás merecido”. —
75 “Tornei-lhe, quando já calar-se a vejo:

— “Senhora da virtude, a quem tem sido
Dado só que proceda a espécie humana
78 Quanto é no mundo sublunar contido,

“Tanto praz-me a ordem que de ti dimana,
Que, já cumprida, houvera inda demora:
81 Em me abrir teu querer não mais te afana.

“Diz-me, porém, por que razão, Senhora,
Baixar a este centro hás resolvido
84 Do céu, a que ardes por voltar agora”.

— “Se queres tanto ser esclarecido
Eu te direi” — tornou-me — “frase breve
87 Por que sem medo às trevas hei descido.

“Somente as cousas recear se deve
Que a outrem podem ser causa de dano
90 Não das mais: a temor a causa é leve.

“De Deus favor criou-me soberano
Tal, que a vossa miséria não me empece
93 Nem deste incêndio assalta o fogo insano.

“Nobre Dama há no céu, que compadece
O mal, a que te envio; e tanto implora,
96 Que lá decreto austero se enternece.

— “Volvendo-se a Luzia, assim a exora:
“O teu servo fiel tanto periga,
99 Que ao teu amparo o recomendo agora”. —

“Luzia, sempre do que é mau imiga
Ergue-se e ao lugar foi, em que eu sentada
102 Ao lado estava de Raquel antiga.

“De Deus vero louvor!” — diz-me apressada —
“Por que não socorrer quem te amou tanto,
105 Que só por ti deixou do vulgo a estrada?

“Não lhe ouves, Beatriz, o amargo pranto?
Não vês que junto ao rio é combatido,
108 Que ao mar não corre, por mortal espanto?” —

“Os danos, tão veloz, não tem fugido
Ninguém, nem procurado o que deseja,
111 Como eu, em tendo vozes tais ouvido;

“O trono meu deixei, por que te veja,
Fiada em teus discursos eloqüentes,
114 Honra tua e de quem te ouvindo esteja”. —

“Assim falava e os olhos fulgentes
Com lágrimas a mim ela volvia,
117 Para apressar-me a vir assaz potentes.

“A ti vim, pois, como ela requeria;
Da fera te livrei, que da colina
120 Tão perto já, teus passos impedia.

“Que fazes, pois? Por que, por que domina
Tanta fraqueza o peito espavorido?
123 Por que ao valor tua alma não se inclina,

“Quando és pelas três santas protegido,
Que na corte do céu por ti se esmeram,
126 E gozar tanto bem lhe é prometido?” —

Quais flores, que, fechadas, se abateram
Da noite ao frio, e, quando o sol aquece,
129 Erguem-se abertas na hástea, tais como eram,

Tal meu valor renova e fortalece.
Tanto ardimento o coração me aviva,
132 Que exclamei, como quem jamais temesse:

“Ó Dama em socorrer-me compassiva!
E tu, que a voz lhe ouvindo, obedeceste,
135 Cortês ao rogo e com vontade ativa,

“Por teu dizer no peito me acendeste
Desejo tal de vir, que sou tornado
138 Ao propósito, a que antes me trouxeste.

“Vai, pois nosso querer ’stá combinado.
Serás meu guia, meu senhor, meu mestre!”
Disse-lhe assim. Moveu-se ele; ao seu lado

142 Pelo caminho entrei alto e silvestre.

 

13. O pai de Sílvio, Enéias. — 28. O Vaso — São Paulo que nos Atos dos Apóstolos é chamado o Vaso de eleição. — 76. Senhora da virtude, Beatriz simboliza a teologia. — 94. Nobre Dama, Maria, mãe de Jesus, símbolo da misericórdia divina. 97. — Luzia, mártir e santa, símbolo da graça iluminante. — Raquel, filha de Labão e mulher do patriarca Jacó, simboliza a vida contemplativa.


CANTO III

 

Chegam os Poetas à porta do Inferno, na qual estão escritas terríveis palavras. Entram e no vestibulo encontram as almas dos ignavos, que não foram fiéis a Deus, nem rebeldes. Seguindo o caminho, chegam ao Aqueronte, onde está o barqueiro infernal, Caron, que passa as almas dos danados à outra margem, para o suplício. Treme a terra, lampeja uma luz e Dante cai sem sentidos.

 

“POR mim se vai das dores à morada,
Por mim se vai ao padecer eterno,
3 Por mim se vai à gente condenada.

“Moveu Justiça o Autor meu sempiterno,
Formado fui por divinal possança,
6 Sabedoria suma e amor supremo.

No existir, ser nenhum a mim se avança,
Não sendo eterno, e eu eternal perduro:
9 Deixai, ó vós que entrais, toda a esperança!”

Estas palavras, em letreiro escuro,
Eu vi, por cima de uma porta escrito.
12 “Seu sentido” — disse eu — “Mestre me é duro”

Tornou Virgílio, no lugar perito:
— “Aqui deixar convém toda suspeita;
15 Todo ignóbil sentir seja proscrito.

“Eis a estância, que eu disse, às dores feita,
Onde hás de ver atormentada gente,
18 Que da razão à perda está sujeita”.

Pela mão me travando diligente,
Com ledo gesto e coração me erguia,
21 E aos mistérios guiou-me incontinênti.

Por esse ar sem estrelas irrompia
Soar de pranto, de ais, de altos gemidos:
24 Também meu pranto, de os ouvir, corria.

Línguas várias, discursos insofridos,
Lamentos, vozes roucas, de ira os brados,
27 Rumor de mãos, de punhos estorcidos,

Nesses ares, pra sempre enevoados,
Retumbavam girando e semilhando
30 Areais por tufão atormentados.

A mente aquele horror me perturbando,
Disse a Virgílio: — “Ó Mestre, que ouço agora?
33 “Quem são esses, que a dor está prostrando?” —

“Deste mísero modo” — tornou — “chora
Quem viveu sem jamais ter merecido
36 Nem louvor, nem censura infamadora.

“De anjos mesquinhos coro é-lhes unido,
Que rebeldes a Deus não se mostraram,
39 Nem fiéis, por si sós havendo sido”.

“Desdouro aos céus, os céus os desterraram;
Nem o profundo inferno os recebera,
42 De os ter consigo os maus se gloriaram”.

— “Que dor tão viva deles se apodera,
Que aos carpidos motivo dá tão forte?” —
45 “Serei breve em dizer-to” — me assevera. —

“Não lhes é dado nunca esperar morte;
É tão vil seu viver nessa desgraça,
48 Que invejam de outros toda e qualquer sorte.

“No mundo o nome seu não deixou traça;
A Clemência, a Justiça os desdenharam.
51 Mais deles não falemos: olha e passa”.

Bandeira então meus olhos divisaram,
Que, a tremular, tão rápida corria,
54 Que avessa a toda pausa a imaginaram.

E após, tão basta multidão seguia,
Que, destruído houvesse tanta gente
57 A morte, acreditado eu não teria.

Alguns já distinguira: eis, de repente,
Olhando, a sombra conheci daquele
60 Que a grã renúncia fez ignobilmente.

Soube logo, o que ao certo me revele,
Que era a seita das almas aviltadas,
63 Que os maus odeiam e que Deus repele.

Nunca tiveram vida as desgraçadas;
Sempre, nuas estando, as torturavam
66 De vespas e tavões as ferroadas.

Os rostos seus as lágrimas regavam,
Misturadas de sangue: aos pés caindo,
69 A imundos vermes o repasto davam.

De um largo rio à margem dirigindo
A vista, de almas divisei cardume.
72 — “Mestre, declara, aos rogos me anuindo,

“Que turba é essa” — eu disse — “e qual costume
Tanto a passar a torna pressurosa,
75 Se bem discirno ao duvidoso lume?” —

Tornou-me: — “Explicação minuciosa
Darei, quando tivermos atingido
78 Do Aqueronte a ribeira temerosa”.

Então, baixos os olhos e corrido
Fui, de importuno a culpa receando,
81 Té o rio, em silêncio recolhido.

Eis vejo a nós em barca se acercando,
De cãs coberto um velho — “Ó condenados,
84 Ai de vós! — alta grita levantando.

“O céu nunca vereis, desesperados:
Por mim à treva eterna, na outra riva,
87 Sereis ao fogo, ao gelo transportados.

“E tu que estás aqui, ó alma viva,
De entre estes que são mortos, já te ausenta!”
90 Como não lhe obedeço à voz esquiva,

“Por outra via irás” — ele acrescenta —
“Ao porto, onde acharás fácil transporte;
93 Lá pássaras sem barca menos lenta”. —

“Não te agastes, Caronte! Desta sorte
Se quer lá onde” — disse-lhe o meu Guia —
96 “Quem pode ordena. E nada mais te importe”.

Sereno, ouvido, o gesto se fazia
Da lívida lagoa ao nauta idoso,
99 Quem em círculos de fogo olhos volvia.

As desnudadas almas doloroso
O gesto descorou; dentes rangeram
102 Logo em lhe ouvindo o vozear raivoso.

Blasfemaram de Deus e maldisseram
A espécie humana, a pátria, o tempo, a origem
105 Da origem sua, os pais de quem nasceram.

Todas no pranto acerbo, em que se afligem,
Se acolhem juntas ao lugar tremendo,
108 Dos maus destinos, que se não corrigem.

Caronte, os ígneos olhos revolvendo,
Lhes acenava e a todos recebia:
111 Remo em punho, as tardias vai batendo.

Como no outono a rama principia
As flores a perder té ser despida,
114 Dando à terra o que à terra pertencia,

Assim de Adam a prole pervertida,
Da praia um após outro se enviavam,
117 Qual ave dos reclamos atraída.

Sobre as túrbidas águas navegavam;
E pojado não tinham no outro lado,
120 Mais turbas já no oposto se apinhavam.

“Aqui meu filho” — disse o Mestre amado —
“concorrem quantos há colhido a morte,
123 De toda a terra, tendo a Deus irado.

“O rio prontos buscam desta sorte,
De Deus tanto a justiça os punge e excita,
126 Tornando-se o temor anelo forte!

“Alma inocente aqui jamais transita,
E, se Caronte contra ti se assanha,
129 Patente a causa está, que tanto o irrita”.

Assim falava; a lúrida campanha
Tremeu e foi tão forte o movimento,
132 Que do medo o suor ainda me banha.

Da terra lacrimosa rompeu vento,
Que um clarão respirou avermelhado;
Tolhido então de todo o sentimento,

l36 Caí, qual homem que é do sono entrado.

 

37. De anjos etc., que não tomaram posição na luta entre os fiéis e os rebeldes a Deus. — 59-60. Daquele etc., Celestino V que renunciou ao papado, tendo por sucessor Bonifácio VIII, inimigo de Dante e do seu partido. — 136. Caí etc. Dante perdendo os sentidos, atravessa o Aqueronte, sem saber de que modo.


CANTO IV

 

Dante é despertado por um trovão e acha-se na orla do primeiro círculo. Entra depois no Limbo, onde estão os que não foram batizados, crianças e adultos. Mais adiante, num recinto luminoso, vê os sábios da antigüidade, que, embora não cristãos, viveram virtuosamente. Os dois poetas descem depois ao segundo círculo.

 

DESSE profundo sono fui tirado
Por hórrido estampido, estremecendo
3 Como quem é por força despertado.

Ergui-me, e, os olhos quietos já volvendo,
Perscruto por saber onde me achava,
6 E a tudo no lugar sinistro atendo.

A verdade é que então na borda estava
Do vale desse abismo doloroso,
9 Donde brado de infindos ais troava.

Tão escuro, profundo e nebuloso
Era, que a vista lhe inquirindo o fundo,
12 Não distinguia no antro temeroso.

“Eia! Baixemos, pois, da treva ao mundo!” —
O Poeta então disse-me enfiando —
15 “Eu descerei primeiro, tu segundo”. —

Tornei-lhe, a palidez sua notando:
“Como hei-de ir, se és de espanto dominado,
18 Quando conforto estou de ti sperando?” —

“Dos que lá são o angustioso estado
Causa a que vês no rosto meu impressa,
21 Piedade, medo não, como hás cuidado.

“Vamos: longa a jornada exige pressa”.
Entrou, e eu logo, o círculo primeiro
24 Em que o abismo a estreitar-se já começa,

Escutei: não mais pranto lastimeiro
Ouvi; suspiros só, que murmuravam,
27 Vibrando do ar eterno o espaço inteiro.

Pesares sem martírio os motivavam
De varões e de infantes, de mulheres
30 Nas multidões, que ali se apinhoavam.

“Conhecer” — meu bom Mestre diz — “não queres
Quais são os que assim vês ora sofrendo?
33 Antes de avante andar convém saberes

“Que não pecaram: boas obras tendo
Acham-se aqui; faltou-lhes o batismo,
36 Portal da fé, em que és ditoso crendo.

“Na vida antecedendo o Cristianismo,
Devido culto a Deus nunca prestaram:
39 Também sou dos que penam neste abismo.

“Por tal defeito — os mais nos não mancharam —
Perdemo-nos: a pena é desesp’rança,
42 Desejos, que para sempre se frustaram”.

Ouvi-lo, em dor o coração me lança,
Pois muitos conheci de alta valia,
45 A quem do Limbo a suspenção alcança.

“Ó Mestre! Ó meu Senhor! diz-me — inquiria,
Para ter da certeza o firme esteio
48 À fé, que os erros todos desafia,

“Por seu merecimento ou pelo alheio
Daqui alguém ao céu já tem subido?”
51 Da mente minha ao alvo o Mestre veio,

E falou-me: “Des’pouco aqui trazido,
Descer súbito vi forte guerreiro;
54 De triunfal coroa era cingido.

“Almas levou — do nosso pai primeiro,
Abel, Noé, Moisés, que legislara,
57 Abraam, na fé, na obediência inteiro,

“Davi, que sobre o povo hebreu reinara,
Israel com seu pai e a prole basta,
60 E Raquel, por quem tanto se afanara.

“Para a glória outros muitos mais afasta
Do Limbo; e sabe tu que antes não fora
63 Salvo quem pertencera à humana casta”.

Andávamos, enquanto isto memora,
Sem parar, pela selva penetrando,
66 Selva de almas, que aumenta de hora em hora,

E da entrada não longe ainda estando,
Eis um clarão brilhante divisamos
69 Das trevas o hemisfério alumiando.

Dali distantes ainda nos achamos
Não tanto, que eu não discernisse em parte
72 Que à sede de almas nobres caminhamos.

“Ó tu, que és honra da ciência e da arte,
Quem são” — disse — “os que, aos outros preferidos,
75 Privilégio tamanho assim disparte?”

Falou Virgílio: “— Assim são distinguidos
Do céu, que atende à fama alta e preclara,
78 Com que foram na terra engrandecidos”.

Eis voz escuto sonorosa e clara:
“Honrai todos o altíssimo poeta!
81A sombra sua torna, que ausentara”.

Quatro sombras notei, quando aquieta
O rumor, que a nós vinham: nos semblantes
84 Nem prazer, nem tristeza se interpreta.

E disse o Mestre, após alguns instantes:
“Aquele vê, que, qual monarca ufano,
87 Empunha espada e os três deixa distantes.

É Homero, o poeta soberano;
O satírico Horácio é o outro, e ao lado
90 Ovídio, em lugar último Lucano.

Como lhes cabe o nome assinalado
Que soou nessa voz há pouco ouvida,
93 Me honrando, honrosa ação têm praticado”.

A bela escola assim vi reunida
Do Mestre egrégio do sublime canto,
96 Águia em seu vôo além dos mais erguida.

Discursado entre si tendo algum tanto,
A mim volveram gracioso o gesto:
99 Sorriu Virgílio, dessa mostra ao encanto.

Mais foi-me alto conceito manifesto,
Quando acolher-me ao grêmio seu quiseram,
102 Entre eles me cabendo o lugar sexto.

Té o clarão comigo se moveram,
Prática havendo, que omitir é belo,
105 Sublime no lugar, onde a teceram.

Chegamos junto a um fúlgido castelo
Sete vezes de muro alto cercado:
108 Cinge-o ribeiro lindo, mas singelo.

Passei-o a pé enxuto; acompanhado
Entrei por sete portas, caminhando
111 De fresca relva até ameno prado.

Graves, pausados olhos meneando
Stavam sombras de aspecto majestoso,
114 Com voz suave rara vez falando.

A um lado, sobre viso luminoso
Subimo-nos: de lá se divisava
117 Dessas almas o bando numeroso.

No verde esmalte o Mestre me indicava
Egrégias sombras: inda me extasia
120 O prazer com que vê-los exultava.

Eletra vi de heróis na companhia,
Enéias com Heitor e guarnecido
123 Grifanhos olhos César nos volvia.

Pentesiléia vi e o rosto ardido
De Camila, e sentado o rei Latino
126 Junto a Lavinia estava enternecido.

Notei Márcia, Lucrécia e o que Tarquino
Lançou, Cornélia e Júlia; retirado
129 De todos demorava Saladino.

Alçando os olhos, de respeito entrado,
O Mestre vejo dos que mais se acimam
132 Em saber, de filósofos cercado.

Todos com honra e acatamento o estimam.
Aqui Platão e Sócrates estavam,
135 Que na grandeza mais se lhe aproximam.

Demócrito, o atomista, acompanhavam
Tales, Zeno, Heráclito e Anaxagora.
138 Empédocle e Diógenes falavam,

Dióscoris, o que a natura outrora
Sábio estudara, Orfeu, Túlio eloqüente,
141 Sêneca, o douto, que a moral explora,

Lívio, Euclides, Hipócrates ingente,
Ptolomeu, Galeno e o Avicena;
144 Averróis, nos comentos sapiente.

Resenha não me é dado fazer plena
De todos; longo o assunto está-me urgindo,
147 E a ser omisso muita vez condena.

A companhia então se dividindo,
Comigo o Mestre outra vereda trilha,
Do ar sereno ao ar, que treme, vindo:

151 Chegados somos onde luz não brilha.

 

95. Mestre egrégio etc., Homero, príncipe da poesia épica. — 121. Eletra, mãe de Dardano, fundador de Tróia. — 122. Enéias, príncipe troiano, filho de Anquise e de Vênus. — Heitor, filho de Príamo, rei de Tróia. — 124. Pentesiléia, rainha das Amazonas, morta por Aquiles. 125. — Camila, filha de Metabo, rei latino. — O rei Latino, rei dos aborígenes, pai de Lavínia, que foi mulher de Enéias. — 127. Márcia, mulher de Catão Uticense. — Lucrécia, mulher de Colatino que, ao ser violada por Sesto Tarquínio, se matou. — 128. — Cornélia, mãe dos Gracos. — Júlia, filha de César e mulher de Pompeu. — 129. Saladino, sultão do Egito e da Síria, que conquistou Jerusalém. — 131. O mestre etc., Aristóteles. — 140. — Orfeu de Trácia, poeta e músico. — Túlio, eloqüente, Marco Túlio Cícero. — 143. Ptolomeu, o autor do sistema do mundo que se chamou sistema ptolemaico. — Galeno e Avicena, famosos médicos, o primeiro de Pérgamo, no Ponto, o segundo árabe.


CANTO V

 

No ingresso do segundo circulo está Minos, que julga as almas e designa-lhes a pena. No repleno desse círculo estão os luxuriosos, que são continuamente arrebatados e atormentados por um horrível turbilhão. Aqui Dante encontra Francesca de Rimini, que lhe narra a história do seu amor infeliz.

 

DESCI desta arte ao círculo segundo,
Que o espaço menos largo compreendia,
3 Onde o pungir da dor é mais profundo.

Lá stava Minos e feroz rangia:
Examinava as culpas desde a entrada,
6 Dava a sentença como ilhais cingia.

Ante ele quando uma alma desditada
Vem, seus crimes confessa-lhe em chegando,
9 Com perícia em pecados consumada.

Lugar no inferno, Minos, lhe adaptando,
Do abismo o círc’lo arbitra, a que pertença,
12 Pelas voltas da cauda graduando.

Sempre muitas se lhe acham na presença;
Cada qual tem sua vez de ser julgada,
15 Diz, ouve, cai, se some sem detença.

Minos, logo me vendo, iroso brada,
Do grave ofício no ato sobrestando:
18 — “Ó tu, que vens das dores à morada;

“Olha como entras e em quem stás fiando:
Não te engane do entrar tanta largueza!”
21 — “Por que falar” — meu guia diz — “gritando?”

“Vedar não tentes a fatal empresa:
Assim se quer lá onde o que se ordena
24 Se cumpre. Assaz te seja esta certeza!”

Eis já começo da infernal geena
A ouvir os lamentos: sou chegado
27 Onde intenso carpir me aviva a pena.

Em lugar de luz mudo tenho entrado:
Rugia, como faz mar combatido
30 Dos ventos, pelo ímpeto encontrado.

Da tormenta o furor, nunca abatido,
Perpetuamente as almas torce, agita,
33 Molesta, em seus embates recrescido.

Quando à borda do abismo as precipita,
Ais, soluços, lamentos vão rompendo.
36 Blasfema a Deus a multidão maldita.

Ouvi que estão no padecer horrendo
Os que aos vícios da carne se entregavam,
39 Razão aos apetites submetendo.

Quais estorninhos, que a voar se travam
Em densos bandos na estação já fria,
42 Em rodopio as almas volteavam,

Ao capricho do vento, que as trazia.
De pausa não, de menos dor a esp’rança
45 Conforto lhes não dá nessa agonia.

Como nos ares longa série avança
De grous, que vão cantado o seu grasnido,
48 Assim no gemer seu, que não descansa,

Traz o tufão as sombras desabrido.
— “Mestre” — disse eu — “quais almas são aquelas
51 Que o vendaval fustiga denegrido?”

— “A primeira” — tornou Virgílio — “entre elas
De quem notícias ter desejarias,
54 Regeu nações, diversas nas loquelas.

“De luxúria fez tantas demasias
Que em lei dispôs ser lícito e agradável
57 Para desculpa às torpes fantasias.

“Semíramis chamou-se: o trono estável
Herdou de Nino e foi a sua esposa.
60 Do Soldão teve a terra memorável.

“A morte deu-se a outra, de amorosa,
Às cinzas de Siqueu traidora e infida;
63 Cleópatra após vem luxuriosa”.

Helena vi, a causa fementida
De tanto mal, e Aquiles celebrado
66 Que teve por amor a extrema lida.

Páris, Tristão e um bando assinalado
De sombras me indicou, nomes dizendo,
69 Que à sepultura amor tinha arrojado.

A compaixão me estava confrangendo,
Dessas damas e antigos cavaleiros
72 Nomes ouvindo e mágoas conhecendo.

Então disse eu: — “Poeta, aos companheiros
Dois, que ali vêm, falar muito desejo:
75 Ao vento ser parecem tão ligeiros!”

“Hás de ter” — me tornou — “asado ensejo,
Quando forem mais perto; então lhes pede
78 Pelo amor que os uniu: virão sem pejo”. —

Quando acercar-se o vento lhes concede
A voz alcei: — “Ó! vinde, almas aflitas,
81 Falar-nos, se alta lei não vo-lo impede”. —

Quais pombas, que saudosas de asas fitas,
Ao doce ninho, em vôo despedido,
84 Vão pelo ar, aos desejos seus adstritas:

Tais saíram da turba, em que era Dido,
A nós as duas sombras se inclinando,
87 Tanto as moveu da voz o tom sentido!

— “Entre beni’no, compassivo e brando,
Que nos vem visitar por este ar perso,
90 Tendo nós dado o sangue ao mundo infando,

“Se amigo o Senhor fosse do universo,
Da paz aos rogos nossos, gozarias,
93 Pois te enternece o nosso mal perverso.

“Enquanto o vento é quedo, o que dirias
Havemos nós de ouvir atentamente;
96 Diremos quanto ouvir desejarias.

“Onde, a paz desejando, o Pado ingente
Com seus vassalos para o mar descende,
99 A terra, em que hei nascido, está jacente.

“Amor, que os corações súbito prende,
Este inflamou por minha formosura,
102 Que roubaram-me: o modo inda me ofende.

“Amor, em paga exige igual ternura,
Tomou por ele em tal prazer meu peito,
105 Que, bem o vês, eterno me perdura.

“Amor nos igualou da morte o efeito:
A quem no-la causou, Caína, esperas”.
108 Após tais vozes foi silêncio feito.

Daquelas almas as angústias feras
Em meditar amargo a fronte inclino
111 Té que o Mestre exclamou: “Que consideras?”

Quando pude, falei: “Cruel destino!
Que doce cogitar! Que meigo encanto,
114 Precederam do par o fim maligno!” —

Aos dois voltei-me e disse-lhes, entanto:
“Teus martírios, Francesca, me angustiam,
117 Movem-me o triste, compassivo pranto.

“Quando os doces suspiros só se ouviam,
Como, em que Amor mostrar-vos há querido
120 Os desejos, que ainda se escondiam?” —

— “Não há” — disse — “tormento mais dorido
Que recordar o tempo venturoso
123 Na desgraça. Teu Mestre o tem sentido.

“Mas porque de saber és desejoso,
Como nasceu a flor do nosso afeto,
126 Direi chorando o lance lastimoso.

“Por passatempo eu lia e o meu dileto
De Lanceloto extremos namorados;
129 Éramos sós, de coração quieto.

“Nossos olhos, por vezes encontrados,
Cessam de ler; ao gesto a cor mudara.
132 Um ponto só deu causa aos nossos fados.

“Ao lermos que nos lábios osculara
O desejado riso, o heróico amante,
135 Este, que mais de mim se não separa,

“A boca me beijou todo tremante,
De Galeotto fez o autor e o escrito.
138 Em ler não fomos nesse dia avante”.

Enquanto a história triste um tinha dito,
Tanto carpia o outro, que eu, absorto
Em piedade, senti letal conflito,

142 E tombei, como tomba corpo morto.

 

4. Minos, rei de Creta e que na mitologia pagã era juiz do Inferno. — 58. Semíramis, rainha de Babilônia, viúva do rei Nino. — 61. Dido, rainha de Cartago, que amou a Enéias. — 63. Cleópatra, rainha do Egito. — 64. Helena, mulher de Menelau, rei de Esparta que causou a guerra de Tróia. — 67. Páris e Tristão, cavaleiros dos romances medievais. — 73. Companheiros dois, Francesca de Rimini e Paulo Malatesta, que foram mortos por Gianciotto Malatesta, marido de Francesca e irmão de Paulo, por eles terem ficado apaixonados um pelo outro.


CANTO VI

 

No terceiro círculo estão os gulosos, cuja pena consiste em ficarem prostrados debaixo de uma forte chuva de granizo, água e neve, e ser dilacerados pelas unhas e dentes de Cérbero. Entre os condenados Dante encontra Ciacco, florentino, que fala com Dante acerca das discórdias da pátria comum.

 

DO soçobro tornando a aflita mente,
Que da cópia infelice contristado
3 Havia tanto o padecer pungente,

Achei-me novamente circundado
De outros míseros, de outras amarguras,
6 Que via em toda parte, ao longe e ao lado.

Sou no terceiro círculo, onde escuras,
Eternas chuvas, gélidas caíam,
9 Pesadas, sempre as mesmas, sempre impuras.

Saraiva grossa, neve, água desciam
Desse ar pelas alturas tenebrosas:
12 No chão caindo infeto odor faziam.

Latia com três fauces temerosas,
Cérbero, o cão multíface e furente,
15 Contra as turbas submersas, criminosas.

Sangüíneos olhos tem, o ventre ingente,
Barba esquálida, as mãos de unhas armadas;
18 Rasga, esfola, atassalha a triste gente.

Uivam à chuva, quais lebréus, coitados!
Mudam de lado sem cessar, buscando
21 Defensa e alívio, as almas condenadas.

Cérbero, o grão réptil, nos divisando
Os dentes mostra, as bocas escancara,
24 De sanha os membros todos convulsando.

Meu Guia, as mãos abrindo, se prepara:
Enche-as de terra, e às guelas devorantes
27 Lança da fera essa iguaria amara.

Qual mastim, que em latidos retumbantes
Brada de fome, e, apenas a sacia
30 Devorando, aquieta as iras de antes:

Tal, aplacando a fúria, parecia
O demônio que as almas atordoa:
33 Surdez de ouvi-lo o mal lhes pouparia.

O solo, onde pisamos, se povoa
Das sombras, que essas chuvas derrubavam:
36 Forma e aparência tinham de pessoa.

Sobre a terra estendidas, a alastravam;
Mas uma surge, súbito sentada,
39 Aos passos que adiante nos levavam.

“Tu” — disse — “que és guiado pela estrada
Do inferno, vê se acaso me conheces:
42 Nasceste antes de eu ser nesta morada”.

Tornei-lhe: “A grande angústia em que padeces,
Tua feição lembrar-me não consente:
45 Inota face aos olhos me ofereces.

“Quem és que em tal lugar tão duramente
Pelos pecados teus stás dando a pena?
48 Se há maior, nenhuma é tão displicente”. —

— “Em tua pátria” — responde — “que tão plena
Já é de inveja, que transborda o saco,
51 Existência gozei leda e serena.

“Vós, Florentinos, me chamastes Ciacco:
Por ter da gula a intemperança amado,
54 À chuva peno enregelado e fraco.

“Mas sou nesta miséria acompanhado;
Pois quantos aqui estão de igual castigo
57 Punidos foram por igual pecado”. —

— “Com dor sincera” — lhe falei — “te digo
Que esse tormento o peito me enternece.
60 Saberás se os partidos a perigo

“Florença levarão, que já padece?
Algum justo ali vive? A que motivo
63 A cizânia se deve, que ali cresce?” —

— “Virão a sangue após ódio excessivo;
E o partido selvagem triunfante
66 O outro lançará feroz e esquivo.

“Três sóis passados, chegará o instante
De ser pelos vencidos suplantado,
69 Que esforça alguém, que aos dois faz bom semblante.

“Por algum tempo o vencedor ousado
A cerviz calcará do outro partido
72 Que se aflige oprimido e envergonhado.

“Justos há dois: ninguém lhes presta ouvido.
Três brandões — Avareza, Orgulho, Inveja,
75 Incêndio têm nos peitos acendido”. —

Assim a flébil narração boqueja.
Eu lhe respondo: “A informação completa;
78 Favor farás a quem te ouvir almeja.

“Farinata e Tegghiaio, de alma reta,
Jacopo Rusticucci, Mosca, Arrigo,
81 E os mais que da virtude o amor inquieta,

“Onde estão? Diz e franco sê comigo!
Saber qual seja anelo a sorte sua:
84 Stão no céu, ou no inferno têm castigo?” —

“Entre os que sofrem punição mais crua
Estão, por seus maus feitos, lá no fundo:
87 Se lá desces, verão a face tua.

“Quando tomares ao saudoso mundo,
De mim aviva aos meus o pensamento...
90 Não mais: volto ao silêncio meu profundo” —

Os olhos que não tinham movimento,
Torcendo fita em mim; já curva a frente
93 E cai entre os mais cegos num momento.

E disse, o Vate: “Em sono permanente
Hão de aguardar a angélica chamada,
96 Quando os julgar severo o Onipotente.

“Cad’um, a triste sepultura achada,
Ressurgindo na carne e na figura,
99 Voz ouvirá pra sempre reboada”. —

A passo lento assim pela mistura
Das sombras e da chuva caminhando,
102 Falávamos da vida, que é futura.

— “Mestre” — lhe disse então — “irá medrando
Depois da grã sentença esse tormento?
105 Igual pungir terá? Será mais brando?” —

— “Do teu saber recorre ao documento:
Verás que ao ente quando mais se eleva
108 Do bem, da dor mais cresce o sentimento.

“Bem que esta raça condenada à treva
Jamais da perfeição se eleve à altura
111 Ressurgindo, há de ter pena mais seva”. —

Perlustramos do círculo a cintura,
De cousas praticando que não digo,
Té descer um degrau na estância escura.

115 Ali’stá Pluto, o nosso grande imigo.

 

14. Cérbero, monstro, meio cão, meio dragão, com três cabeças, que, segundo a mitologia antiga, estava à guarda do inferno. — 52. Ciacco, parasita florentino. — 65. O partido selvagem, os Brancos. — 80. Farinata etc., nomes de florentinos ilustres.


CANTO VII

 

Pluto, que está de guarda à entrada do quarto círculo, tenta amedrontar a Dante com palavras irosas. Mas Virgílio o faz calar-se, e conduz o discípulo a ver a pena dos pródigos e dos avarentos, que são condenados a rolar com os peitos grandes pesos e trocarem-se injúrias. Os Poetas discorrem sobre a Fortuna, e, depois, descem ao quinto círculo e vão margeando o Estiges, onde estão mergulhados os irascíveis e os acidiosos.

 

PAPE Satan, pape Satan, aleppe:
Pluto com rouca voz, ao ver-nos brada.
3 Para que eu do conforto não discrepe,

Virgílio, em tudo sábio: — “Da aterrada
Mente” — me diz — “se desvaneça o susto!
6 Poder Pluto não tem, que tolha a entrada”.

E, se volvendo ao vulto, de ira adusto,
Lhe grita: — “Cal’-te, ó lobo abominoso!
9 Em ti consome esse furor injusto!

“Se ao abismo descemos tenebroso,
A lei se cumpre do alto, onde, em castigo,
12 Suplantara Miguel bando orgulhoso”. —

Como o mastro, abatendo, traz consigo
Velas, que o vento de feição tendia,
15 Baqueou-se por terra o monstro imigo.

E, pois que o quarto círculo se abria,
Mais penetramos pela estância horrenda,
18 A que todo seu mal o mundo envia.

Ah! justiça de Deus! Que lei tremenda,
Dores, penas, quais vi, tanto amontoa?
21 Por que da culpa nos obceca a venda?

Como em Caribde a vaga que ressoa
Embate noutra, e quebram-se espumantes:
24 Assim turba com turba se abalroa.

Almas em cópia, nunca vista de antes,
Fardos de um lado e de outro, em grita ingente,
27 Rolavam com seus peitos ofegantes.

Batiam-se encontrando rijamente,
E gritavam depois, atrás voltando:
30 “Por que tens?” “Por que empurras loucamente?”

Assim no tetro círc’lo volteando
Iam de toda parte ao ponto oposto,
33 Por injúria o estribilho apregoando.

Nos semicírc’lo novamente rosto
Faziam, té o embate reiterarem.
36 Eu, me sentindo à compaixão disposto,

— “Quem são? Que razão há para aqui estarem?”
Ao Mestre disse — “À esquerda os colocados
39 Clérigos são para tonsura usarem?”

— “Da mente sendo vesgos, transviados”
— Tornou — “andaram na primeira vida,
42 Sempre os bens aplicando desregrados.

“Quem seus clamores ouve não duvida:
Levantam grita aos termos dois chegados,
45 Onde oposta os separa a culpa havida:

“Os que então de cabelos despojados
Clérigos, papas, cardeais hão sido,
48 Pela nímia avareza subjugados”. —

— “Entre eles” — respondi — “Mestre querido,
Muitos serão, por certo, que eu conheça,
51 Imundos desse mal aborrecido”. —

— “Te enganas, quando assim — diz — “te pareça:
Da sua ignóbil vida a oscuridade
54 Vestígio não deixou, que ora apareça:

“Eles se hão de embater na eternidade:
Ressurgindo, uns terão as mãos fechadas,
57 Os outros de cabelos pouquidade.

“Por dar mal, por mal ter, viram cerradas
Do céu as portas; penam nesta lida,
60 Com mágoas, que não podem ser contadas.

“Vês quanto é de vaidade iludida
A ambição, em que os homens a porfiam,
63 Da Fortuna anelando os bens na vida.

“Todo o ouro, que as entranhas conteriam
Da terra, não pudera dar repouso
66 A um dos que em fadiga se cruciam”. —

— “Quem é Mestre” — falei — “o portentoso
Ser, que chamas Fortuna, que à vontade
69 Bens distribui ao mundo cobiçoso?” —

Responde o Vate: — “Ó cega humanidade,
Quanta ignorância a mente vos ofende.
72 Do meu pensar direi toda a verdade.

“Quem pelo seu saber tudo transcende,
Os céus criando, guias elegeu-lhes;
75 E toda parte a toda parte esplende,

“Pela luz que igualmente concedeu-lhes.
Assim fez aos mundanos esplendores,
78 Geral ministra e diretora deu-lhes,

“Que em tempo os bens mudasse enganadores
De nação a nação, de raça a raça
81 Contra esforços de humanos sabedores.

“A pujança de um povo é grande ou escassa
Segundo o seu querer, que, se escondendo
84 Qual serpe em erva triunfante passa.

“Contra ela o saber vosso não valendo,
No seu reino ela tem poder e mando,
87 Como os outros o seu, estão regendo.

“Mudanças incessante efetuando,
Se apressa por fatal necessidade,
90 E assim tantas no mundo vai formando.

“Tal é Fortuna, a quem por má vontade
Insulta o que louvá-la deveria,
93 Censurando-a com dura iniqüidade.

“Mas, feliz, não escuta a vozeria,
E entre iguais criaturas primitivas,
96 Volvendo a esfera, em paz goza alegria.

“Desçamos ora a dores mais esquivas;
Estrelas baixam, que ao partir surgiram;
99 Demoras são defesas, são nocivas”. —

Os nossos passos através seguiram
Do círculo até fonte, que, fervendo,
102 As águas brota, que torrente abriram,

A cor mais negra do que persa tendo.
Ao longo do seu curso nós baixamos,
105 Por caminho diverso nos movendo.

Lagoa, dita Stígia, deparamos,
Junto à encosta maligna produzida
108 Pelo triste ribeiro, que notamos.

Eu, que tinha a atenção toda embebida,
Vi sombras, nesse pântano, lodosas,
111 Desnudas, de face enfurecida.

Não só co’as mãos batiam-se raivosas;
Peitos, cabeças, pés armas lhes sendo,
114 Com dentes laceravam-se espantosas.

— “As almas, filho meu, que ora estás vendo
São dos que” — disse o mestre — “venceu ira.
117 Como certo também fica sabendo

“Que sob as águas multidão suspira,
E em borbulhões as águas entumece
120 Por toda essa extensão, que vista gira”. —

— “Nos doces ares, a que o sol aquece”
— No ceno imersas dizem — “tristes fomos:
123 Dentro em nós fumo túrbido recresce.

“Ora no lodo inda mais triste somos”. —
Com voz cortada assim gargarejavam,
126 De palavras somente havendo assomos.

“Os passos, em grande arco, nos levavam.
Do paul sobre a borda seca; o bando,
Tendo à vista, que assim lodo tragavam,

130 E junto de uma torre alfim chegando.

 

1. Pape Satan etc., verso obscuro. Muitos comentadores o entendem: “Como Satã, como Satã, príncipe do Inferno”... um mortal ousa penetrar aqui?” — 30. Por que etc. “por que seguras tanto?” é a interrogação dos pródigos; “por que jogas fora?” é a interrogação dos avaros. — 78. Geral ministra, a Fortuna.


CANTO VIII

 

Flégias corre com a sua barca para os dois Poetas serem conduzidos, passando à lagoa, à cidade de Dite. No trajeto encontram a Filipe Argenti, florentino, que discute com Dante. Chegando às portas de Dite, os demônios não o querem deixar entrar. Virgílio, porém, diz a Dante que não lhe falte a coragem, pois vencerão a prova e que não há de estar longe quem os socorra.

 

ACRESCENTAR eu devo, prosseguindo,
Que da torre inda estávamos distantes,
3 Quando os olhos ao cimo dirigindo,

Dois fanais brilhar vemos vacilantes,
A que outro de tão longe respondia,
6 Que mal se avistam seus clarões tremantes.

E eu de todo o saber ao mar dizia:
— “Os lumes dois por que? Por que o terceiro?
9 Para acendê-los quem razão teria?” —

— “Pela onda impura” — me tornou — “ligeiro
Quem se aguarda já vês, se não te empece
12 A vista do paul o nevoeiro”. —

Qual seta, que pelo ar veloz corresse
Da corda arremessada, discernimos
15 Tênue batel, que vir pra nós parece.

A regê-lo um arrais distinguimos:
— “Alfim chegaste, espírito execrando!”
18 Em retumbante grita nós lhe ouvimos,

— “Flégias, Flégias, estás em vão bradando!” —
Disse-lhe o Mestre — “nos terás somente
21 Enquanto formos o paul passando.” —

Como quem reconhece, e pesar sente,
Um grande engano, que se lhe há tecido,
24 Flégias assim na sua ira ardente.

Tendo Virgílio à barca descendido,
Eu segui-o: somente aos meus pesados
27 Passos mostrou ter carga recebido.

Em sendo o Mestre e eu no lenho entrados,
O lago foi cortando a antiga proa
30 Com sulcos mais que de antes profundados,

Enquanto assim corremos, eis me soa
De lutulenta sombra voz que exclama:
33 — “Quem és que em vida vens para a lagoa?”

— “Sim, venho, mas não fico nesta lama.
E tu quem és que imundo te hás tornado?” —
36 — “Bem vês: um sou que lágrimas derrama.”

E eu então: — “Fica em lodo mergulhado.
Em dor, em pranto, espírito maldito!
39 Sei quem és, se bem stás desfigurado”. —

Tendeu à barca as mãos aquele aflito,
Mas por Virgílio, que o repele presto
42 — “Com teus iguais vai, cão, te unir!” — foi dito.

Abraçando-me então com ledo gesto
Me oscula e diz: — “Abençoado seja,
45 Quem tão altivo te gerou e honesto!

“Essa alma, que de orgulho inda esbraveja,
Avessa ao bem, de raiva possuída,
48 Deixou em si memória, que negreja.

Quantos reis, grandes na terrena vida,
Virão, quais cerdos, se atascar no lodo,
51 Fama de si deixando poluída!” —

— “Mestre, grato me fora sobremodo
Vê-lo no ceno mergulhar profundo,
54 Antes de eu ter daqui saído em todo”. —

— “Antes que a margem — respondeu jocundo —
Avistes, gozarás dessa alegria,
57 Verás penar o espírito iracundo”. —

E logo ao pecador, como à porfia,
Tanta aflição causou a imunda gente,
60 Que ainda louvo a Deus, que o permitia.

Gritavam todos: — “A Filipe Argenti!” —
E a florentina sombra, se volvendo
63 Contra si, se mordia insanamente:

Lá o deixei, não mais nele entendendo.
Súbito, ouvindo um lamentar amaro,
66 Os olhos fitos para além e atendo.

E o bom Mestre me disse: — “Ó filho caro,
Stá perto Dite, de Satã cidade,
69 Que há povo infindo para o bem avaro”. —

— “Lá do vale no fundo em quantidade
Mesquitas” — respondi — “rubras discerno
72 De flama, creio, pela intensidade”. —

E o Mestre a mim: — “As faz o fogo eterno
Vermelhas, que lá dentro está lavrando
75 Como tens visto neste baixo inferno”. —

Já nos profundos fossos penetrando
De que o triste alcáçar é circundado,
78 Me estavam ferro os muros semelhando.

Mas, após grande giro, hemos tocado
Na parte, onde o barqueiro com voz forte
81 — “Saí” — gritou — “à entrada haveis chegado!”

À porta vi daqueles grã coorte
Que o céu choveu; bramiam de despeito:
84 “Este quem é que, antecipando a morte,

“Tem dos mortos no reino sido aceito?” —
Meu sábio Mestre então lhes fez aceno
87 Para, em secreto, expor-lhe seu conceito.

Contendo um pouco às sanhas o veneno
Disseram: — “Vem tu só; vá-se o imprudente,
90 Que neste reino entrou, de audácia pleno;

“Só deixe a empresa em que embarcou demente;
Tente-o, se sabe; ficarás no entanto;
93 Pois és seu guia à região nocente”. —

Imagina, ó leitor, qual fosse o espanto
Meu escutando a horrífica ameaça:
96 Não deixar a mansão temi do pranto.

“Ó Mestre meu, que tanta vez a graça
Fizeste de alentar-me o peito aflito
99 No perigo iminente e atroz desgraça,

“Não me deixes” — disse eu — “neste conflito!
E, se avante passar é defendido,
102 Ambos voltemos do lugar maldito!” —

Quem tão longe me havia conduzido
— “Não temas” — diz — “não pode ser vedado
105 O passo, que por Deus foi permitido.

“Aqui me espera e o ânimo prostrado
Fortalece e alimenta de esperança:
108 Não hás de ser no inferno abandonado”. —

O doce pai se afasta e à porta avança.
Ficando assim na dúvida e incerteza,
111 No pró, no contra a mente se abalança.

Não pude o que propôs ouvir; na empresa
Curta há sido a detença: de repente
114 Esquivam-se os precitos com presteza.

De roldão cerra a porta a imiga gente
Do Mestre à face, que, ficando fora,
117 A mim se restitui mui lentamente.

De olhos baixos, faltava-lhe a de outrora
Afouteza, e dizia suspirando:
120 “Quem me tolhe da dor a estância agora?” —

E logo a minha alteração notando
“Não te aflijas; que os óbices te digo
123 Hei de vencer que a entrada estão vedando.

“Não é nova esta audácia do inimigo;
Em mais patente porta há já mostrado,
126 Que sem ferrolho está: viste-a comigo,

“E a lúgubre inscrição lhe hás contemplado.
Deixou atrás e desce a penedia,
Pelos círc’los passando não guiado,

130 Abrir quem pode esta cidade ímpia”. —

 

19. Flégias, personagem da antiga mitologia, que incendiou o templo de Apolo, por ter este violado a sua filha. — 61. Filipe Argenti, dos Adímari de Florença, inimigo político de Dante.



CANTO IX

 

Dante pergunta a Virgílio se havia já percorrido outra vez o Inferno. Virgílio responde que já percorreu todo o Inferno e narra como e quando. Na torre de Dite se apresentam, no entanto, as três Fúrias e depois Medusa, que ameaçam a Dante. Virgílio, porém, o defende. Chega um anjo do Céu que abre aos Poetas as portas da cidade rebelde.

 

DO medo a cor, que o gesto me alterara,
Ao ver tornar Virgílio em retirada,
3 Serenou turvação, que o seu mudara.

Como escutando, espreita; que a cerrada
Névoa os ares em torno enegrecia,
6 E a vista, incerta, achava-se atalhada.

— “Mas é mister vencer nesta porfia...” —
Lhe ouvi — “se não ... socorro é prometido...
9 Oh! quanto a vinda sua é já tardia!” —

Bem vi que das palavras o sentido,
Que a declarar apenas começava,
12 Fora por outros logo confundido.

Porém maior receio me assaltava,
Na reticência auspício triste vendo,
15 Que na expressão talvez não se encerrava.

— “A esta hórrida estância, descendendo
Do limbo, pode vir quem só padece,
18 A esperança”, — inquiri — “toda perdendo?”

O Mestre respondeu: — “Raro aparece
Ensejo, que um de nós a andar obriga
21 Pelo caminho, que aos abismos desce.

“Ali, porém, já fui, quando inimiga
Esconjurou-me Ericto, que os esp’ritos
24 Constrangia a fazer c’os corpos liga.

“Des’pouco eu me finara: por seus ritos
Ao círculo de Judas fui trazido
27 Para a sombra tirar de um dos precitos.

“É o lugar mais fundo e denegrido,
Mais remoto do céu, que os orbes gira.
30 Sei o caminho: esforça-te, ó querido!

“Este paul, que o bruto cheiro expira,
A cidade circunda do tormento,
33 Onde entrar não podemos já sem ira”.

Deslembro o que mais disse: o pensamento
Da torre altiva ao cimo chamejante,
36 Que os olhos me prendia, estava atento.

Lá o aspecto se erguia horripilante
De fúrias três; de sangue eram tingidas,
39 Feminis no meneio e no semblante.

De hidras verdes mostravam-se cingidas,
Cerastes, serpes cada uma tinha
42 Por coma, em torno à fronte entretecidas.

Virgílio, que conhece da rainha
Do eterno pranto essas ancilas cruas,
45 — “Nas Érinis atenta” diz-me asinha.

“Megera à esquerda está das outras duas,
Chora à direita Aleto e fica ao meio
48 Tisífone”. — E pôs termo às vozes suas.

Co’as unhas cada qual rasgava o seio,
Com seus punhos batiam-se, em tal brado,
51 Que ao Vate me acerquei, de pavor cheio.

Olhando-me dizia: — “Transformado
Em pedra seja por Medusa; o assalto
54 Do ímpio Teseu não foi assaz vingado.

— “Volta a face; de luz o rosto falto
Conserva; que, se a Górgona encarar-te,
57 Tu não mais tornarás da terra ao alto”. —

Disse o Mestre, e volveu-me à oposta parte;
E as mãos juntando às minhas que não bastam,
60 Os olhos amparar-me quis dessa arte.

Ó vós cujas idéias não se afastam
Das leis da sã razão, vede os preceitos
63 Que destes versos sobre o véu se engastam.

Eis sobre as águas túrbidas desfeitos
Troam sons de fracasso temeroso;
66 Tremendo, as margens sentem-lhe os efeitos.

O tufão assim freme impetuoso,
Que, de ardores contrários se excitando,
69 Sem pausa fere a selva, e furioso,

Quebrando ramas, flores arrancando,
Entre nuvens de pó soberbo assalta
72 Feras, pastores e lanoso bando.

Os olhos descobriu-me e disse: “Exalta
A vista agora até a espuma antiga,
75 Onde mais acre a cerração ressalta”.

Quais rãs, divisando a cobra imiga,
Todas da água no seio desaparecem,
78 E cada qual no lodo entra e se abriga,

Tais milhares de espíritos parecem,
Em derrota fugindo ante a figura
81 Que passa; nágua os pés não se umedecem.

Movendo a esquerda mão, a névoa escura,
Que lhe era em torno ao vulto, dissipava:
84 Só este afã lhe altera a face pura.

Ser ele conheci que o céu mandava;
A Virgílio voltei-me, e mudo e quieto
87 Ao aceno, que fez, eu me acurvava.

Quantos lumes reflete o iroso aspecto!
À porta chega: ao toque de uma vara
90 Abre-se a entrada do alcáçar infecto.

— “Ó turba vil, que o céu de si lançara!” —
Ao limiar falou da atroz cidade,
93 — “Donde vos vem da audácia a insânia rara?

“Por que recalcitrais à alta vontade,
Que sempre cumpre o seu excelso intento,
96 E à dor já vos cresceu a intensidade?

“Cuidais pôr ao destino impedimento?
Cérbero, o vosso, na memória tende:
99 Trilhados inda estão-lhe o colo e o mento”.

Então pelo caminho imundo estende,
Sem nos falar, os passos semelhante
102 A quem outros cuidados a alma prende,

Daqueles, que há presentes, bem distante.
Nós à cidade afoutos caminhamos:
105 Deu-nos esforço o seu falar pujante.

Já, removido todo o pejo, entramos.
Eu, que sentia de saber desejo
108 Quanto o forte contém que franqueamos.

Como fui dentro, a tudo pronto, vejo
Campanha em toda parte ilimitada,
111 Mas não espaço às punições sobejo.

Como em Arle, onde o Rône faz parada
Ou junto a Pola, de Quernaro perto,
114 De que à Itália a fronteira está banhada,

Stá de sepulcros desigual e incerto
O solo: outros assim a estância feia,
117 Mas de modo mais agro, tem coberto.

Entre eles chama horrífica serpeia
E os abrasa inda mais que frágua ardente
120 Que arte para amolgar o ferro ateia.

Alçada a tampa, é cada qual patente.
Dali surgia um lamentar profundo,
123 De miséreo gemido permanente.

— “Ó Mestre meu, quais foram lá no mundo” —
Eu disse — “aqueles, que no duro encerro
126 Denunciam tormento sem segundo?” —

“Aqui stão os hereges por seu erro,
Com seus sequazes dos diversos cultos:
129 São mais do que tu crês em cada enterro.

“Iguais com seus iguais estão sepultos,
Uns túmulos mais que outros são candentes”.
À destra então voltou: com tristes vultos

133 Passamos entre o muro e os padecentes.

 

22-27. Ali, porém etc.: a alma de Virgílio já desceu no mais profundo do Inferno acompanhada pela bruxa Eríton. — 43. A rainha, Prosérpina. — 53-54. O assalto etc., Teseu desceu no Inferno para raptar Prosérpina. — 45. Erínis, ou as três Fúrias, filha de Érebo e da Noite. — 56. Górgona, o rosto de Medusa que petrificava quem o olhasse. — 98. Cérbero, guardião do Inferno, que foi vencido por Hércules, quando este desceu no Inferno. — 112-15. Em Aries etc., alusão aos túmulos romanos, numerosos na Provença perto de Arles e em Pola, na Ístria.


CANTO X

 

Caminhando os Poetas entre as arcadas, onde estão penando as almas dos heresiarcas, Dante manifesta a Virgílio o desejo de ver a gente nelas sepultada e de falar a alguém. Nisto ouve uma voz chamá-lo. É Farinata degli Uberti. Enquanto o Poeta conversa com ele é interrompido por Cavalcante Cavalcanti, que lhe indaga por seu filho Guido. Continua Dante o começado discurso com Farinata, que lhe prediz obscuramente o exílio.

 

ENTRA Virgílio por vereda estreita,
Que entre o muro e os martírios vai seguindo:
3 Após os seus meu passo se endireita.

— “Virtude suma! Ó tu, que, dirigindo
Me estás, ao teu sabor na estância triste,
6 Me instrui, ao meu desejo deferindo.

“A gente ver se pode que ora existe
Naquelas sepulturas descobertas,
9 A que nem guarda, nem defesa assiste?” —

— “Serão” — me respondeu — “todas cobertas
No dia, em que, de Josafá tornando,
12 Os corpos tragam, de que estão desertas.

“Epicuro aqui jaz com todo o bando
Dos discípulos seus, que professaram
15 Que alma fenece, a vida em se acabando.

“O que as tuas palavras declararam
Satisfeito há de ser, como o que vejo
18 Dos votos que em teu peito se ocultaram”. —

— “Não te expus, meu bom Mestre, quanto almejo,
Porque de breve ser tenho o cuidado,
21 E a mais longo dizer não deste ensejo”. —

— “Ó Toscano, que, vivo hás penetrado
Do fogo na cidade e és tão modesto,
24 Detém-te um pouco, se te for de agrado.

“Por teu falar me está bem manifesto
Que nessa nobre pátria tens nascido,
27 A que fora eu talvez assaz molesto”. —

Ouço este som, de súbito saído
De um dos jazigos: tanto eu me torvara,
30 Que ao Mestre me achegava espavorido.

— “Que temes tu?” — Virgílio diz — “Repara:
É Farinata em seu sepulcro alçado,
33 Do busto em toda a altura, se depara”. —

Na sombra os olhos tinha eu já fitado:
Altiva levantava a fronte e o peito,
36 Como em desprezo do infernal estado.

Por entre as tumbas me levou direito
Ao vulto o Mestre com seu braço presto,
39 Dizendo-me: — “Sê claro em teu conceito!” —

Junto ao sepulcro apenas fui, com gesto
Severo um pouco olhou-me e desdenhoso
42 — “Teus maiores?” — falou — “Faz manifesto”.

Eu, já de obedecer-lhe desejoso,
Quanto sabia expus-lhe francamente.
45 O sobrolho arqueava um tanto iroso,

E tornou: — “Guerra crua fez tua gente
A mim, aos meus avós, ao partido;
48 Mas duas vezes bani-os justamente”. —

— “Mas todos os que expulsos tinham sido
Se hão, de uma e de outra vez repatriado:
51 Não têm essa arte os vossos aprendido”. —

Surgindo então de Farinata ao lado
Somente o rosto um vulto nos mostrava,
54 Sobre os joelhos, cheio, levantado.

Com ansiosos olhos me cercava
A ver se alguém viera ali comigo.
57 Mas, perdida a esperança, que o animava,

Pranteando inquiriu: — “Se ao reino imigo
Por prêmio baixas do teu alto engenho,
60 Onde é meu filho? Pois não vem contigo?

— “Por moto próprio aqui” — volvi — “não venho;
Perto me aguarda quem meus passos guia,
63 Vosso Guido talvez teve-o em desdenho”.

A pena sua e as vozes, que lhe ouvia,
Denunciado haviam-me o seu nome:
66 Pude assim responder quanto cumpria.

Súbito ergueu-se o espírito e gritou-me:
“Teve disseste: não mais vive agora?
69 O corpo seu a terra já consome?”

Como eu tivesse em responder demora
À pergunta, de costas recaía,
72 E novamente não mostrou-se fora.

Mas esse outro magnânimo, que havia
De antes falado não mudou de aspeito;
75 No colo e busto imóvel persistia.

— “Se aquela arte não dera ao meu proveito” —
Prosseguiu — “me produz esta certeza
78 Maior tormento no adurente leito.

“Porém vezes cinqüenta a face acesa
Não mostrará do inferno a soberana
81 Sem que tu saibas quanto essa arte pesa.

“Assim possas voltar à vida humana!
Contra os meus, diz, por que tanta maldade
84 Em cada lei, que desse povo emana” —

Eu respondi: — “O estrago, a mortandade,
Que do Árbia as águas de rubor tingira
87 A cúria nossa move à austeridade”. —

Inclinando a cabeça então, suspira
E diz: — “não fui lá só naquele dia,
90 Nem sem motivo aos outros eu seguira.

“Porém achei-me só, quando exigia
De Florença a ruína o geral brado:
93 A peito descoberto eu defendia-a”. —

— “Seja o descanso à vossa prole dado:
Mas, vos suplico, de penoso enleio
96 Fique o juízo meu descativado.

“Se bem percebo, do futuro ao seio
Subindo e ao tempo o curso antecipando,
99 Do presente ignorais todo o rodeio”. —

— “Os que têm vista má nos semelhando” —
Tornou-me — “as cousas mais distantes vemos,
102 De Deus última luz em nós raiando.

“Quando estão perto ou no presente as temos
Se apaga a lucidez, e a mente aprende
105 Por outrem só o que de vós sabemos.

“Ciência nossa do porvir depende;
Em sendo a porta do porvir cerrada,
108 Essa luz morre em nós, não mais se acende”.

Então minha alma, de remorso entrada,
“Dize” — replico — à sombra, a quem falava,
111 Que o filho inda entre os vivos tem morada.

Se presto lhe não disse o que exorava,
Da dúvida, que, há pouco, heis-me explicado
114 Pela influência dominado eu stava”. —

Se bem fosse do Mestre apelidado,
Rogando a sombra a me dizer prossigo
117 As almas, de quem stava acompanhando.

Respondeu: — “Muitos mil jazem comigo
Aqui dentro, o Segundo Frederico,
120 Com ele o cardeal, de outros não digo”. —

Dos olhos se apartou. A cismar fico,
Voltando ao sábio Mestre, na ameaça
123 Desse, que ouvira, vaticínio único.

Ele caminha, e, enquanto avante passa,
Me diz: “Por que és torvado?” — Eu tudo conto
126 Expondo o que me inquieta e me embaraça.

— “Do que ouviste a memória cada ponto
Conserva!” — o sábio ordena; e, logo, alçando
129 O dedo, segue: — “Agora escuta pronto.

“Ante o doce raiar daquela estando,
Que tudo aos belos olhos tem presente,
132 Se irão da vida os transes revelando”. —

Moveu-se logo à esquerda diligente;
Deixando o muro, ao centro caminhava
Por senda, que descia ao vale horrente,

136 Que hediondos vapores exalava.

 

32. Farinata degli Uberti, nobre florentino, chefe dos gibelinos, que combateu os guelfos em Montaperti (1260); e depois, com a sua autoridade, impediu que a cidade fosse destruída. — 48. Mas duas vezes etc., os ascendentes de Dante, guelfos, duas vezes foram banidos de Florença. — Um vulto, Cavalcante Cavalcanti, pai de Guido, poeta e amigo de Dante. — 111. Que o filho, Guido Cavalcanti ainda está vivo. — 119. O segundo Frederico, Frederico II da Suábia, tido como herege. — 120. O cardeal, Otávio degli Ubaldini, também tido como herege.


CANTO XI

 

Os Poetas chegam à beira do sétimo círculo. Sufocados pelo mau cheiro que se levanta daquele báratro, param atrás do sepulcro do papa Anastácio. Virgílio explica a Dante a configuração dos círculos infernais. O primeiro, que é o sétimo, é o círculo dos violentos. Como a violência pode dar-se contra o próximo, contra si próprio e contra Deus, o círculo é dividido em três compartimentos, cada um dos quais contém uma espécie de violentos. O segundo círculo, que é o oitavo, é o dos fraudulentos e se compõe de dez círculos concêntricos. O terceiro, que é o nono, se divide em quatro compartimentos concêntricos. Fala-lhe também acerca dos incontinentes e dos usurários. Movem-se depois para o lugar de onde se desce para o precipício.

 

À BORDA de alta riba assim chegamos,
Que em círc’lo rotas penhas conformavam:
3 De lá mais crus tormentos divisamos.

Do fundo abismo exalações brotavam,
Tão acres, que a fugir nos obrigaram
6 Para trás das muralhas elevadas

De um sepulcro, em que os olhos decifraram:
“Sou do papa Anastácio a sepultura,
9 Que de Fotino os erros transviaram”.

“Lentamente desçamos desta altura:
Assim, o olfato ao mau odor afeito,
12 Não hemos de sentir-lhe a ação impura”.

A Virgílio tornei: “Proceda a jeito,
Ó Mestre, por que o tempo consumido
15 Na demora, não corra sem proveito”. —

— “Já stava o meio, ó filho, apercebido.
Nestas penhas três círc’los há menores,
18 Por degraus, como os outros, que hás descido.

“Plenos stão de malditos pecadores.
Por que, em vendo, os conheças logo, atende:
21 Direi seus crimes e da pena as dores.

“Todo mal, que no céu cólera acende,
Injustiça há por fim, que o dano alheio,
24 Usando fraude ou violência, tende.

“Próprio do homem por ser da fraude o meio
Mais descontenta a Deus; mores tormentos
27 Em lugar sofre de aflições mais cheio.

“Dos círc’los o primeiro é dos violentos;
Mas, força a três pessoas se fazendo,
30 Foi construído em três repartimentos.

“A Deus, a si, ao próximo ofendendo,
Nas pessoas, nos bens a força fere,
33 Como hás de convencer-te, me entendendo.

“Morte ou dor força ao próximo confere.
Com ruína, com fogo os bens lhe invade.
36 Quando pela extorsão não se apodere.

“Homicidas, os que usam feridade,
Ladrões, desvastadores, torturados
39 Stão no primeiro, em turmas, sem piedade.

“Homens há contra si cruéis, irados
Ou contra os próprios bens: pois no segundo
42 Recinto jazem sempre amargurados,

“Quem se privara do terreno mundo,
Os que seus cabedais malbarataram,
45 Quem chora onde pudera estar jucundo.

“Contra Deus violências homens preparam,
Se o negam, se o blasfemam, desdenhando
48 Natura e os dons, que nela se deparam.

“No recinto menor sinal nefando
Caors marca igualmente com Sodoma,
51 E os que pecaram contra Deus falando.

“A fraude em que o remorso tanto assoma,
Ou trai a confiança ou premedita
54 Danos a quem desprevenido toma.

“A fraude desta espécie se exercita
Contra os laços de amor, que faz natura:
57 Portanto no segundo círc’lo habita

“Adulação com simonia impura,
Hipócritas, falsários, feiticeiros,
60 Rufiães e outros dessa laia escura.

“Transtorna a outra afetos verdadeiros,
Que inspira a natureza e os que origina
63 A mútua fé nos ânimos inteiros.

“E, pois, no círc’lo extremo, que domina
Da terra o centro e onde Dite pesa,
66 Eterna pena aos tredos se destina”. —

“Tem, Mestre” — eu disse — “o cunho da clareza
O que expões, distinguindo exatamente
69 A geena do inferno e a gente presa.

“Diz-me: os que jazem na lagoa ingente,
Os que flagela o vento ou chuva imiga,
72 Os que se encontram em frêmito insolente,

“Por que Deus lá em Dite os não castiga,
Se a ira a Deus seus feitos acenderam?
75 Se não, por que a aflição tanto os fustiga?” —

“Deliras? Da tua mente se varreram
Princípios sãos” — tornou — “a que és afeito?
78 A que rumo as idéias se volveram?

“Olvidas, porventura, esse preceito,
De que houveste na Ética a ciência,
81 Das três disposições, que em mau conceito

“Estão do céu, — malícia, incontinência
E furor bestial? — como a segunda
84 Importa a Deus menor irreverência?

“Se atentas em verdade tão profunda,
Se lembras quais são esses que padecem
87 Acima da mansão, que o fogo inunda,

“Verás então ser justo não sofressem
Daqueles maus a par, menos pesada
90 Punição culpas suas merecessem”. —

“Sol, que me aclara a vista perturbada,
Às lições tuas dou tamanho apreço,
93 Que o duvidar, como o saber, me agrada.

“Tornando ao que disseste, expliques peço,
Por que motivo, Mestre, usura ofende
96 A divina bondade em tanto excesso”. —

“Filosofia” — disse — “quem a atende
Tem demonstrado, quase em toda parte,
99 Que a natureza a sua origem prende

“Do divino intelecto e da sua arte.
Da Física em princípio hás conhecido
102 Preceito, que hei mister recomendar-te:

Que é da vossa arte ir sempre que há podido
Após natura — à mestra obediente; —
105 Neta de Deus chamá-la é permitido.

“Da natureza e da arte, se tua mente
O Gênese em começo lembra, colhe
108 O seu sustento e haver a humana gente.

“Usura bem diversa estrada escolhe
Natura e a aluna sua menospreza,
111 Esperança e cuidado e mal recolhe.

Mas andemos; prossiga a nossa empresa.
Vão no horizonte os Peixes assomando;
Voltando sobre o coro o culto pesa

115 E, além, a rocha está passagem dando”. —

 

8-9. Anastácio, engano de pessoa em que cai Dante, em conformidade com as crônicas do seu tempo. Não foi o papa Anastácio II, mas o imperador grego Anastácio I que foi transviado pela heresia de Fotino. — 80. Ética, a Ética de Aristóteles.


CANTO XII

 

O Minotauro está de guarda ao sétimo círculo. Vencida a ira dele, chegam os Poetas ao vale, em cujo primeiro compartimento vêem um rio de sangue fervendo, no qual são punidos os que praticaram violências contra a vida ou as coisas do próximo. Uma esquadra de Centauros anda em volta do paul vigiando os condenados, frechando-os se tentam sair do rio de sangue. Alguns desses Centauros pretendem deter os Poetas, porém Virgílio os domina, conseguindo que um deles os escolte e transporte na garupa a Dante. Na passagem o Centauro, que é Nesso, fala a respeito dos danados que sofrem a pena no rio de sangue.

 

DA descida era o passo tão fragoso
E tal por quem lá estava à guarda e atento,
3 Que se fazia à vista pavoroso.

Como a ruína, que daquém de Trento,
O Ádige feriu, por terremoto
6 Ou por faltar de chofre o fundamento;

Do viso ao val do monte, que foi roto,
Tão derrocada vê-se a penedia,
9 Que a descê-la o caminho é quase imoto.

A ribanceira assim nos parecia.
E à borda do penedo fracassado
12 De Creta o monstro infame se estendia,

Da falsa vaca torpemente nado.
Apenas viu-nos, se mordeu fremente,
15 Como quem pela raiva é devorado.

“Cuidas” — bradou-lhe o sábio incontinente —
“Ser de Atenas o príncipe, o que à morte
18 Lá sobre a terra te arrojou valente?

“Arreda, bruto! Que este é de outra sorte;
Da tua irmã não recebera ensino;
21 De vós outros vem ver a pena forte”.

Qual touro desprendido, quando o tino
Mortal golpe lhe rouba, que não pode
24 Correr, mas salta a vacilar mofino:

Assim o Minotauro. O Mestre acode
Dizendo-me: “Demanda presto a entrada
27 E desce, enquanto em vascas se sacode”. —

A quebrada descíamos formada
De pedras soltas; cada qual, movida,
30 Cedia, em sendo por meus pés calcada.

E eu cismava. Ele disse: — “Tens sorvida
A mente na ruína, que do horrendo
33 Monstro a ira defende já vencida.

“Deves saber que, de outra vez descendo
Até o extremo lá do baixo inferno,
35 Esta rocha não vi, como a estás vendo,

“Mas, pouco antes de vir se bem discerno,
Aquele que há tomado a grande presa,
39 A Dite, lá no círculo superno,

“Deste val tremeu tanto a profundeza,
Que sentisse pensei todo o universo
42 O amor, com que alguém diz ter certeza

“De que ao caos muita vez será converso.
Foi aqui, noutras partes, nesse instante,
45 Roto o velho penhasco em treva imerso.

“Mas olha o vale: o rio é não distante
De sangue, onde verás fervendo aquele,
48 Que violência exerceu no semelhante.

“Ó ira louca, ó ambição, que impele
Na curta vida nossa, ao inferno arrasta
51 E para sempre nos submerge nele!” —

Eis uma cava divisei mui vasta,
Que abrangia, arqueada, o plano inteiro,
54 Como dissera quem do mal me afasta.

No espaço, a que o penhasco é sobranceiro,
Centauros correm, setas agitando,
57 Como soíam no viver primeiro.

Descer nos vendo, pára o ardido bando.
Três de entre eles então nos demandaram,
60 Os arcos e arremessos preparando.

Os brados de um de longe nos soaram:
— “Vós, que desceis, dizei a pena vossa;
63 De lá falai, ou tiros se disparam!” —

Virgílio respondeu: — “Resposta nossa
Terá Quiron de perto, sem demora.
66 Sempre te dana a pressa que te apossa”. —

Tocou-me e disse: — “Quem nos fala agora
É Nesso, o que morreu por Dejanira;
69 Mas se vingou de quem fatal lhe fora.

“Esse do meio, que o seu peito mira,
Aio de Aquiles, é Quiron famoso;
72 Esse outro é Folo, sempre aceso em ira”. —

Aos mil em volta ao rio sanguinoso
As almas seteavam, que excediam,
75 Mais do que é dado, o líquido horroroso.

Àqueles monstros que ágeis se moviam,
Chegamo-nos. Quiron com seta ajeita
78 Os cabelos, que os lábios lhe encobriam.

Quando desta arte a larga boca afeita,
Disse à companha: — “Haveis já reparado
81 Que move aquele tudo, em que os pés deita?

“Nunca assim pés de morto hão caminhado”.
O Guia meu, que junto já lhe estava
84 Do peito, onde era um ser noutro enleado,

— “Vivo está, vem comigo” — lhe tornava —
“A visitar o val maldito, escuro
87 Para cumprir dever, que lho ordenava.

“Deixando de cantar o hosana puro
Alguém me há cometido o cargo novo.
90 Não é ladrão, nem eu esp’rito impuro:

Em nome do poder, por quem eu movo
Os passos meus em tão medonha estrada,
93 Envia algum, que escolhas no teu povo,

“Por nos mostrar a parte acomodada
Ao vau, e no seu dorso haver transporte
96 Quem não é sombra ao vôo aparelhada”.

Quiron volveu-se à destra e a Nesso forte
— “Torna atrás” — disse — “e serve-lhes de guia:
99 Que outro bando o caminho lhes não corte!” —

Já partimos na fida companhia,
As ondas costeando rubras, quentes,
102 Donde agudo estridor ao ar subia.

Té os cílios no sangue os padecentes
Eu vi. Disse o Centauro: — “São tiranos
105 Truculentos e em roubo preminentes.

“Chora-se aqui por feitos desumanos.
Alexandre aqui está, Dionísio antigo
108 Que gemer fez Sicília tantos anos.

“De negra coma, aqui sofre o castigo
Azzolino; e o que está, louro, ao seu lado
111 Obizzio d’Este, ao qual (verdade eu digo)

“Roubara a vida o pérfido enteado”. —
E o Vate, a quem voltei-me, assim dizia:
114 — “O segundo lugar me é reservado”. —

Pouco além parou Nesso: olhar queria
Uma turba, que, estando submergida,
117 Toda a cabeça para fora erguia,

Disse, indicando uma alma retraída:
“Perante Deus um coração ferira,
120 Que inda Londres venera estremecida”. —

A cabeça vi de outros, que subira
Do rio à superfície e o inteiro busto,
123 Suas feições no mundo eu distinguira:

Ia baixando o sangue até que a custo
Os pés cobria a quem passar quisesse:
126 O fosso ali vencemos já sem custo.

“Se desta parte o borbulhão parece
Do rio escassear, eu te asseguro”
129 — Disse Nesso — “que mais engrossa e desce

“Na parte oposta até juntar-se ao escuro
Pego em que, como hás visto, a tirania
132 As penas dá no seu tormento duro.

“A divina justiça lá crucia
Esse Átila, que açoite foi da terra,
135 Pirro e Sexto; e redobrar-se a agonia

“Dos dois Renatos, que tamanha guerra
Fizeram nas estradas, salteando,
— O Pazzo e o de Corneto”. — E a fala cerra.

139 Voltou depois do rio o vau passando.

 

12-13. De Creta o monstro infame, o Minotauro, nascido de um touro e de Pasifae, o qual foi morto por Teseu. — 64. Quiron, centauro morto por Hércules, quando do rapto de Dejanira. — 107 Alexandre, tirano de Fere na Tessália ou Alexandre de Macedônia. — Dionísio, tirano de Siracusa. — 110. Azzolino, Ezzelino III de Romano, tirano da Marca Trevisana. — Obizzio, d’Este, tirano de Ferrara. — 118-120 Uma alma, etc., Guido de Monfort, que matou a Arrigo, irmão de Eduardo I, rei da Inglaterra, cujo coração foi colocado num monumento. — 134. Átila, rei dos Hunos, chamado o flagelo de Deus. — Pirro, filho de Aquiles que matou a Príamo.


CANTO XIII

 

Os dois Poetas entram no segundo compartimento, onde são punidos os violentos contra si mesmos e os dilapidadores dos próprios bens. Os primeiros são transformados em árvores, cujas negras folhas as Hárpias dilaceram; os outros são perseguidos por cães famintos que os despedaçam. Dante encontra Pedro des Vignes, de quem ouve os motivos pelos quais se suicidou e as leis divinas em relação aos suicidas. Vê depois o senense Lano e o paduano Jacob de Sant’Andréa. Ouve, enfim, de um suicida florentino, qual é a causa dos males da sua pátria.

 

NÃO stava ainda Nesso do outro lado,
Quando nós por um bosque penetramos,
3 Dos vestígios de passos não marcado.

Não fronde verde, mas escura, ramos
Não lisos, mas travados e nodosos,
6 Não pomos, puas com veneno achamos.

Por silvados mais densos, mais umbrosos,
Do Cecina a Corneto, a besta brava,
9 Não foge, agros deixando deleitosos.

Das Hárpias o bando aqui pousava.
Que expeliram de Strófade os Troianos,
12 Vaticinando o mal, que os aguardava.

Asas têm largas, colo e rosto humanos,
Garras nos pés, plumoso e ventre enorme,
15 Soam na selva os uivos seus insanos.

E disse o Mestre: “Convém já te informe
Que o recinto segundo vais entrando,
18 Onde verás spetáculo disforme,

“Até que ao areal chegues infando.
Atenta! E darás fé à narrativa,
21 Que fiz, ainda lá no mundo estando”.

Em toda parte ouvi grita aflitiva:
Como não via quem assim gemesse,
24 Parei e a torvação se fez mais viva.

Creio que o Mestre cria então que eu cresse
Que esses lamentos enviava aos ares
27 Uma turba, que aos olhos se escondesse;

Pois disse-me: “De um tronco se quebrares
Um só raminho, ficarás ciente
30 Desse erro em que se enleiam teus pensares”. —

O braço estendo então e prontamente
Vergôntea quebro. O tronco, assim ferido
33 “Por que razão me arrancas?” diz fremente.

De sangue negro o ramo já tingido,
“Por que me rompes?” — prosseguiu gemendo —
36 Assomos de piedade nunca hás tido?” —

“Fui homem, hoje o lenho, que estás vendo!
Mais compassiva a tua mão seria
39 Se alma aqui fosse de um dragão tremendo”.

Como acha verde, quando se incendia
Num extremo s’estorce, no outro estala,
42 Chiando e a umidade fora envia:

Daquela arvora assim brotava a fala,
E o sangue; a minha mão já desprendera
45 O ramo, e, entanto, o horror no peito cala.

“Se de antes ele acreditar pudera”
Lhe torna o sábio Mestre “alma agravada,
48 O que eu nos versos meus lhe descrevera,

“Por te ferir sua mão não fora alçada.
Não crera eu mesmo, e tanto que o induzira
51 Ao feito, que me pesa e desagrada.

“Diz-lhe quem foste e as dúvidas lhe tira.
O mal te compensando, a fama tua
54 Há de avivar no mundo, a que retira”. —

E o tronco: “Alívio tanto à dor, que atua,
Causais, que de bom grado eu já explico:
57 Ao triste dai que a mágoa exprima sua.

Fui quem do coração de Frederico
As chaves tive e usei com tanto jeito,
60 Fechando e desfechando que era rico

“Da fé com que a mim só rendeu seu peito
No glorioso cargo fui constante,
63 Força, alento exauri por seu proveito.

“A torpe meretriz, que, a todo instante
Ao régio paço olhos venais volvendo,
66 Morte comum, das cortes mal flagrante,

“Contra mim ódio em todos acendendo,
Por eles acendeu iras de Augusto,
69 Que honras ledas tornou-me em luto horrendo.

“Ressentindo-me então do mundo injusto,
Por fugir seus desdéns, buscando a morte,
72 Comigo iníquo fui eu, que era justo.

“Pelo tronco em que peno desta sorte,
Que jamais infiel hei sido, juro,
75 Ao Rei meu, que houve a glória por seu norte,

“De vós o que voltar à luz adjuro
Que a memória me salve ao nome honrado,
78 Que vulnerou da inveja o golpe duro”. —

O vate inda esperou. — “Pois se há calado”. —
Disse-me “fala, se tu mais desejas
81 E pede-lhe: do tempo és apressado”. —

Tornei: “Tu mesmo inquires quanto vejas
Mais convir-me; que eu sinto-me inibido
84 Por mágoas, que em minha alma são sobejas”.

Ele então: “— Se o desejo teu cumprido
For por este homem, nobremente usando,
87 Te apraza, encarcerada alma, ao pedido

“Nosso atender, e como nos mostrando
Se liga ao tronco o esp’rito e se é factível
90 Soltar-se um dia, o vínculo quebrando”. —

Soprou de rijo o lenho; e perceptível
Aquele som desta arte nos dizia:
93 — “Resposta breve dou quanto é possível.

“Quando os laços do corpo uma alma ímpia
Destrói por si, do seu furor no enleio
96 Ao círc’lo sete Minos logo a envia.

“Na selva tomba e aonde acaso veio,
E como o seu destino lhe consente,
99 Aí, qual grão germina de centeio,

“Vai crescendo até ser árvore ingente:
As Hárpias, que a fronde lhe devoram,
102 Causam-lhe dor, que rompe em voz plangente.

“Hemos de ir onde os corpos nossos moram,
Como as outras, mas sem que os revistamos,
105 Mor pena aos que em perdê-los prestes foram.

“Arrastados serão por nós: aos ramos
Pendentes ficarão nesta floresta
108 Nos troncos, em que, assim, vedes, penamos”. —

Ouvíamos ainda a sombra mesta,
De mais dizer cuidando houvesse o intento.
111 Eis sentimos rumor, que nos molesta.

Assim monteiro, à caça pouco atento,
Do javardo e dos cães ouve o estrupido
114 E das ramadas o estalar violento.

Súbito vejo à esquerda, espavorido,
Fugindo esp’ritos dois nus, lacerados,
117 Ramos rompendo ao bosque denegrido.

“Ó morte!” um clama — “acode aos desgraçados!”
O segundo, que tardo se julgava:
120 “Ninguém, ó Lano, os pés tanto apressados

“De Toppo nas refregas te observava!”
Porém, de todo já perdido o alento,
123 Numa sarça acolheu-se que ali stava.

Corria, enchendo a selva, em seguimento
De famintas cadelas negro bando,
126 Quais alões da cadeia ao todo isento

A sombra homiziada se enviando,
A fez pedaços a matilha brava,
129 E logo após levou-os ululando.

Então meu Guia pela mão me trava,
Conduz-me à sarça, que se em vão carpia
132 Pelas roturas, que o seu sangue lava.

“Ó Jacó Santo André!” triste dizia —
“Podia eu ser-te acaso amparo certo?
135 Em mim por crimes teus que culpa havia?” —

Disse-lhe o Mestre, quando foi mais perto:
“Quem és tu, que o teu sangue e mágoas exalas
138 Por golpes tantos, de que estás coberto?” —

Tornou-lhe: “Ó alma que dessa arte falas
E tu que o dano vês, que me separa,
141 Da fronde minha, agora amontoá-las

“Dignai-vos junto à rama, que as brotara.
Na cidade nasci que por Batista
144 Deixou prisco patrão, que da arte amara

“Sempre pelos efeitos a contrista.
E se do Arno na ponte não restasse
147 Um vestígio, que traz seu culto à vista

“Talvez ela à existência não tornasse,
E quem das cinzas, que Átila há deixado,
Levantou-a os esforços malograsse.

151 “Na minha própria casa hei-me enforcado”. —

 

58. Fui quem do coração de Frederico etc., Pedro des Vignes, secretário de Frederico II que se suicidou por ter sido acusado de trair o seu rei. — 118. Um clama etc., Lano de Siena, que morreu em Pieve del Toppo, na batalha entre Senenses e Aretinos. — 119. O segundo etc., Giacomo di S. Andrea, morto por Ezzelino de Romano. — 143. Por Batista etc., Florença, antes de tornar-se cidade protegida por S. João Batista, tinha como protetor Marte, do qual restava uma estátua sobre a ponte Vecchio.


CANTO XIV

 

O terceiro compartimento no qual agora chegam os Poetas é um campo de areia ardente, devastado por grandes chamas de fogo. Aí estão os violentos contra Deus, contra a natureza e contra a arte. Entre os primeiros está Capaneo, que desafia a Deus. Seguindo, Dante e Virgílio chegam a um regato sangüíneo. Deste e dos outros rios do Inferno Virgílio narra a origem misteriosa.

 

DE amor do pátrio ninho comovido,
Essas dispersas folhas reunindo,
3 À sarça as dei, que tinha a voz perdido.

Ao limite, dali, fomos seguindo,
Em que parte o recinto co’ terceiro,
6 Onde a justiça horrível stá punindo.

Para expressar-lhe o aspecto verdadeiro,
Eu digo que à charneca então chegamos,
9 De plantas nua em seu espaço inteiro.

Da dor a selva a cerca dos seus ramos,
Como o fosso a torneia sanguinoso:
12 Ali, rente co’a borda, os pés firmamos.

O plaino era tão árido e arenoso,
Como o que de Catão os pés outrora
15 Na jornada calcaram fadigoso.

Ó vingança de Deus, quem não te adora
Nos tremendos efeitos meditando,
18 Que eu próprio olhei, que a minha voz memora!

De almas nuas eu via infindo bando,
Por modos diferentes torturadas,
21 Miseráveis, mesquinhas pranteando.

Jaziam sobre o dorso umas deitadas,
Outras, dobrando os membros, se assentavam,
24 Muitas andavam sempre aceleradas.

Maior a turba destas se mostrava,
Menor a que, prostrada no tormento.
27 Maior dor nos lamentos denotava.

Largas flamas com tardo movimento
Choviam do areal em todo o espaço,
30 Qual neve em serra, quando é mudo o vento.

Na Índia sobre o exército, já lasso,
Fogos cair viu Alexandre outrora,
33 No chão ardendo livres de embaraço.

Que aos pés no solo os calquem sem demora
Suas falanges avisado ordena:
36 Matá-los um por um fácil lhes fora.

Assim baixava, para agravo à pena,
Lume eterno que à areia se prendia,
39 Como à isca a fagulha mais pequena.

Cada qual sem repouso se estorcia,
A um lado e a outro os braços revolvendo
42 A cada chama, que do ar chovia.

“Mestre” — falei — “que vais tudo vencendo,
Somente exceto a legião furente,
45 Que em Dite a entrada estava-nos tolhendo,

“Diz quem seja a grã sombra, que não sente,
Ao parecer, o incêndio, e não domado
48 Pela chuva, já rápido, insolente?” —

Reconhecendo o próprio condenado
Que da minha pergunta fora objeto,
51 “Morto sou qual fui vivo!” clama irado.

“Que Jove canse o armeiro seu dileto,
De quem tomou fremente o agudo raio
54 Para em mim saciar rancor abjeto;

“Que os seus cíclopes sintam já desmaio
De Mongibello na oficina negra,
57 Aos gritos — “Bom Vulcano, acode ou caio!” —

“Como fez na peleja lá de Flegra;
Que me fulmine de ódio e sanha cheio:
60 No gozo da vingança em vão se alegra”. —

Virgílio então, com voz, como não creio
Lhe ter ouvido, sonorosa e forte,
63 Bradou-lhe: “Capaneu, pois no teu seio

“Não mitiga a soberda a própria morte,
Sofre mor pena; igual não há castigo
66 Ao que a raiva te inflige desta sorte!” —

Para mim se voltou; com gesto amigo
Falou: — “Dos Reis que Tebas sitiaram
69 Foi um; de Deus se declarara imigo.

“Os crimes seus no inferno se agravaram;
Já disse-lhe, as blasfêmias, os furores
72 Digno prêmio em seu peito lhe deparam.

“Vem agora após mim; pelos fervores
Não caminhes da areia incandescente;
75 Da selva ao longo evitas-lhe os ardores”. —

Fomos andando, cada qual silente,
Até onde jorrar do bosque eu via
78 Rubro arroio, que lembro inda tremente.

Do Bulicame qual o que saía,
Das pecadoras em serviço usado:
81 Tal pela adusta areia este corria.

As margens e orlas são de cada lado
Feitas de pedra e assim também seu leito:
84 Caminho ali notei ao passo azado.

“De quanto aqui te conhecer hei feito,
Depois que atrás deixamos essa porta,
87 A cujo ingresso todos têm direito,

“Não se há mostrado à tua vista absorta
Maravilha que iguale a desta veia,
90 Em que a flama adurente fica morta”. —

O Mestre diz e assim desejo ateia
De rogar-lhe me preste esse alimento,
93 Que excitado, o apetite haver anseia.

“Do mar em meio jaz” — ouvi-lhe atento —
“Destruído país, Creta afamada.
96 Com seu rei foi do mal o mundo isento.

“Alça-se ali montanha outrora ornada
De fontes e verdor: chama-se Ida:
99 Erma está, como cousa desprezada.

“Foi ao filho pra berço preferida
De Réia, que abafava o seu vagido
102 Fazer mandando grita desmedida.

“Nas entranhas do monte um velho erguido
Está: voltando à Damieta as costas,
105 Como a espelho, olha Roma embevecido.

“De ouro faces e fronte são compostas,
De pura prata são braços e peito,
108 Enéias do busto as partes bem dispostas.

“De ferro estreme tudo o mais foi feito,
O pé direito exceto, que é de argila,
111 Mas o corpo sustém, sendo imperfeito.

“Salvo do ouro, do mais sempre destila
De lágrimas por fenda crebro fio,
114 Que fura a gruta e rápido desfila.

“Aos negros vales vem correndo em rio,
Forma Stige, Aqueronte e Flegetonte,
117 Desce depois neste canal esguio

“Até do inferno o fundo, aonde é fonte
Do Cocito. O que o rio acaso seja
120 Verás: mister não é que ora te conte”. —

— “Se desde o nosso mundo ele serpeja,
Dize, ó Mestre, a razão por que a torrente
123 Só neste abismo lôbrego se veja”. —

“É circular este lugar horrente,
E posto haja vencido extenso trato,
126 Descendo tu à esquerda, inteiramente

“Não hás feito inda ao círc’lo o giro exato.
Não revele o teu rosto maravilha.
129 Novas cousas em vendo e estranho fato”. —

Ainda eu perguntei: — “Por onde trilha
O Flegetonte e o Letes? De um te calas,
132 E do outro a veia é dessa origem filha”. —

Tornou: — “Muito me agrada quanto falas;
Da água rubra o fervor, porém, solvera
135 Uma dessas questões, que me assinalas.

“Do inferno fora o Letes ver espera:
Na linfa sua as almas vão lavar-se
138 Depois que a penitência o perdão gera”. —

Disse depois: “É tempo de deixar-se
A selva; os passos meus sempre acompanha,
Pela margem caminho há para andar-se.

142 Do fogo ali se extingue toda sanha”. —

 

32. Alexandre, alusão a uma aventura de Alexandre Magno. — 55. Cíclopes, gigantes com um só olho no meio da testa, que fabricavam armas para Júpiter. — 56. Mongibello, o vulcão Etna, na Sicília. — 63. Capaneu, um dos sete reis que sitiaram Tebas. — 79. Bulicame, fonte de água quente perto de Roma. — 101. Réia, mulher de Saturno e mãe de Júpiter. — 103-105. Velho de Creta, símbolo da humanidade e, segundo outros, da monarquia, que, em princípio boa e reta, vai depois degenerando.


CANTO XV

 

Prosseguindo os Poetas, encontram um grupo de violentos contra a natureza. Entre estes está Brunetto Latini, que reconhece o discípulo e lhe pede para aproximar-se dele, a fim de conversarem. Falam de Florença e das desventuras reservadas a Dante. Brunetto dá ao Poeta ligeiras notícias a respeito das almas que estão danadas com ele e foge para reunir-se a elas.

 

POR uma dessas margens empedradas
Imos: vapor do rio resguardava
3 Das chamas o álveo e as bordas elevadas.

Como do mar temendo a força brava
De Bruge a Cadsand, Flamengos fazem
6 Os diques, com que o mal se desagrava;

Ou como o dano atalha, que lhe trazem
Do Brenta as invasões de Pádua a gente,
9 Se em Quiarentana os gelos se desfazem,

Assim as bordas desse rio horrente,
Posto altura e grossura lhes não desse
12 Iguais, quem quer que fosse artista ingente.

A selva já distante de nós era
Tanto, que eu divisá-la não podia,
15 Quando os olhos por vê-la atrás volvera,

Eis encontramos multidão sombria,
Que a margem costeava, nos olhando,
18 Como sói caminhante, ao fim do dia,

Que vai, por lua nova, outro encarando:
Para nos ver os cílios contraindo,
21 Qual a agulha o artesano aparelhando.

Assim, de mira à turba nós servindo,
Conhecido fui de um que me travava
24 Da roupa — “Ó maravilha!” — repetindo.

Quando o seu braço para mim se alçava,
Atentei-lhe no rosto requeimado;
27 Posto que demudado, não vedava

Que de mim fosse nas feições lembrado.
À sua face inclinando a mão, lhe digo,
30 — “Messer Brunetto! vós aqui!” — torvado.

“Filho meu! complacente sê comigo!
Vir Brunetto Latini ora consente,
33 Deixando a turba, um pouco assim contigo!” —

Tornei: — “muito vos rogo; e que me assente
Convosco se quereis, prazendo ao guia
36 Dos passos meus, assentirei contente”. —

— “Se um momento um de nós” — me respondia —
Aqui parasse, imóvel anos cento,
39 Pelo fogo ferido jazeria.

“Caminha: que eu te irei no seguimento.
Depois hei de juntar-me à companhia
42 Dos que pranteiam no eternal tormento”. —

Eu da estrada a descer não me atrevia
Por ir com ele; mas a fronte inclino
45 Reverente; e, falando prosseguia.

— “Que fortuna” — me disse — “ou que destino
Antes da morte aqui te há conduzido?
48 De quem recebes na jornada ensino?”

— “Antes de haver da idade o tempo enchido
Sobre a terra na vida sossegada;
51 Num vale” — respondi — “fiquei perdido.

“Ontem costas lhe dei por madrugada;
Ele acudiu-me, quando atrás voltava,
54 E me conduz assim por esta estrada”. —

— “Se bem vaticinei, quando gozava,
Da vida bela, glorioso porto
57 Te há de o teu astro conduzir” — tornava.

“Se antes do tempo eu não stivesse morto.
Vendo que tanto o céu te era benigno,
60 Te dera nos trabalhos o conforto.

“Mas esse ingrato povo é tão maligno,
Que outrora de Fiesole viera
63 E tem de penha o coração ferino,

“Em ti, por seres bom, mal considera.
É justo: que entre acerbos sovereiros
66 Crescer doce figueira não se espera.

“Velha fama os diz cegos, sempre useiros
Na soberba, na inveja, na avareza.
69 Deles te esquiva; em vícios são vezeiros.

“Te guarda a sorte de honras tal grandeza,
Que hás de ser dos partidos cobiçado;
72 Mas das garras lhes fica longe a presa.

“Ceve em si própria o fiesolano gado
Os instintos brutais; não toque a planta,
75 Que inda haja em tal nateiro germinado,

“E em que a semente ressuscite santa
Dos romanos, que ali restaram, quando
78 Teceu-se o ninho de malícia tanta”. —

— “Se o céu” — tornei — “meus votos escutando,
Deferisse, da vida o lume agora
81 Ainda aos olhos vos raiara brando;

“Que a doce imagem vossa inda memora
Saudosa a mente e o paternal desvelo
84 Com que me heis ensinado de hora em hora

“Como homem faz-se eternamente belo.
Enquanto eu vivo for, agradecido
87 Ao mundo bem patente hei de fazê-lo.

“O vaticínio vosso, reunido
A outro, há de explicar-me sábia Dama,
90 Quando à sua presença houver subido.

“E como a consciência me não clama,
Sabei que, quando a sorte avessa esteja,
93 A todo o mal sou prestes, que ela trama.

“O que ouvi não cuideis novo me seja:
Volva-se a roda como a sorte a lança,
96 Lavre a terra o vilão como deseja”. —

Então meu douto Mestre, que se avança,
Girando à destra e me encarando, disse:
99 “Bem compreende quem tem boa lembrança!” —

Não me vedou, porém, que eu prosseguisse
Na prática; e a Brunetto os mais famosos
102 Pedi que dos seus sócios referisse.

— “Alguns convém saber, mais numerosos
Em silêncio deixar louvável sendo:
105 Míngua o tempo aos discursos copiosos.

“Sabe, em suma, que clérigos havendo
Todos sido e letrados mui famosos.
108 Se mancharam num só pecado horrendo.

“Vão na turba daqueles desditosos
Acúrio e Prisciano; alguns protervos
111 Se ver quiseres, por tal lepra ascosos.

“Olha o que, como quis servo dos servos,
Pra Bacchiglione foi do Arno mudado
114 E ali deixou seus deformados nervos.

“Não mais dizer, nem ir posso ao teu lado,
Pois do areal já vejo de repente
117 Vapor novo surgir afogueado.

“Não devo andar com bando diferente.
O meu Tesouro eu muito te encomendo:
120 Nele inda vivo, e rogo isto somente”. —

Voltou-se; e foi tão rápido correndo,
Como os que correm pelo pálio verde
No campo de Verona, parecendo

124 Mais ser quem vence do que ser quem perde.

 

30. Messer Brunetto, Brunetto Latino, autor do “Tesouro”, e mestre de Dante. — 62 Fiesole, pequena cidade perto de Florença. — 110. Acúrcio, Francesco d’Accursio, jurisconsulto bolonhês. Prisciano, gramático de Cesaréia — 112. Olha o que, etc. Andréia de Mozzi, bispo de Florença e, depois, de Vicência.


CANTO XVI

 

Perto do limite do terceiro compartimento do sétimo círculo os Poetas encontram outro bando de almas de sodomitas, no qual se destacam três ilustres compatriotas de Dante. Reconhecendo-o, falam da decadência das virtudes políticas e civis de Florença. Chegam, depois à orla de outro precipício, onde a um sinal de Virgílio, sobe, voando pelos ares, uma figura estranhíssima.

 

EM lugar stava já donde se ouvia
Rumor, igual de abelhas ao zumbido,
3 De água, que noutro círculo caía:

Eis três sombras partir vi comovido,
Correndo, de uma turba que passava
6 Debaixo do martírio desmedido.

Vinham a nós, e cada qual gritava:
“Detém-te; por teus trajos se afigura
9 Seres alguém da nossa terra prava”. —

Ah! que chagas nos membros, na figura
O fogo lhes abria, novas e antigas!
12 Só recordando, eu sinto mágoa pura.

O mestre, que escutara — “Não prossigas!
Cumpre-te” — disse, o rosto me voltando, —
15 “Aguardando, lhes dar mostras amigas.

“Não estivesse o fogo dardejando,
Como o lugar requer, te caberia
18 Mais pressa do que estão manifestando”. —

Paramos. Renovando a vozeria
Um círc’lo junto a nós os três formaram,
21 Em que as mãos cada qual dos três unia.

Como atletas, que, nus, de óleo se untaram,
Mas, antes de lutar, dos adversários
24 No fraco atentam, no seu prol reparam:

Eles, se revolvendo em giros vários,
Olhavam-me em tal modo colocados,
27 Que os colos aos seus pés stavam contrários.

“Se a miséria, em que somos trateados,
Se o triste aspecto da tostada face
30 Te move a desdenhar súplices brados,

“Nossa fama o teu ânimo traspasse;
E pois, dize quem és que, ufano, o inferno
33 Calcas antes que a vida se finasse.

“Este, por quem os passos meus governo,
Escoriado e nu, que ora estás vendo,
36 Mais do que o crês no mundo foi superno.

“Da famosa Gualdrada o neto sendo,
Chamou-se Guido Guerra, e foi na vida
39 Por esforço e prudência reverendo.

A Tegghiaio Aldobrandi, que em seguida
Me vai, por sua voz, por seus bons feitos
42 Devera ser a pátria agradecida.

Eu que também da pena sofro efeitos
Jacopo Rusticucci fui: da esposa
43 O maior mal causaram-me os defeitos”. —

Se houvesse amparo à chuva pavorosa
(Virgílio o consentira), eu me lançara
48 Entre eles, da alma na expansão piedosa;

Porém naqueles fogos me abrasara,
Sobrepujou temor vivo desejo,
51 Que de abraçá-los súbito me entrara.

“Não desdém, mas piedade neste ensejo,
Que não se extinguira, me tem movido”
54 Lhes disse — “o padecer em que vos vejo,

“Tanto que o Senhor meu há proferido
Palavras, que a presença me indicaram
57 De almas quais sois neste lugar temido.

“Da vossa terra sou: sempre exaltaram
Meu apreço e o dos que vos conheceram
60 Ações que os nomes vossos tanto honraram.

“Por meu Guia veraz esperançado,
Deixo o fel por doçura permanente
63 Tendo primeiro o centro visitado”. —

“Que no teu corpo a vida longamente
Persista!” — a sombra disse. — “Dure a fama
66 Do nome teu com lume resplendente!

“Na pátria nossa inda revive a flama
Da honra, do valor, que ali brilhara,
69 Ou de todo a expeliu ódio que infama?

“Pois Guilherme Borsiere, que baixara,
Há pouco, e vai chorando nesta ardência,
72 Cruciou-nos contando o que notara”. —

“Íncolas novos, súbita opulência,
— Florença, orgulho e vícios te acenderam,
75 De que tu própria temes a influência!” —

Gritei alçando a fronte: e os três, que me eram
Atentos, à resposta se encararam,
78 Como se essas verdades lhes prouveram.

“Se tão pouco te custa” — me tornaram —
“Sempre aos outros expor teu pensamento,
81 Feliz tu! Vozes tais assaz te honraram.

“E, pois, voltando a luz do firmamento,
Se alfim saíres desta estância horrente,
84 Quando — “Lá fui!” — disseres, de contente,

“Nos olvidar não deixa a humana gente”. —
Então, rompendo o círculo, fugiram,
87 Como se asas tiveram, velozmente.

Em menos tempo aos olhos se esvaíram
Do que proferir amen se gasta.
90 Logo aos passos do Mestre os meus seguiram.

Dali distância curta nos afasta,
Eis da água os sons ouvimos, tão de perto,
93 Que a voz forçar para se ouvir não basta.

Como o rio que, no álveo próprio aberto,
Em Veso nasce e vai para o oriente,
96 Ao lado esquerdo do Apenino, e ao certo

Aquaqueta se chama, da eminente
Parte enquanto não desce, mas, tomando
99 Nome diverso em Forli de repente,

Rebomba e cai pela quebrada, quando
Acerca-se a S. Bento, o grão mosteiro
102 Que dar a mil pudera asilo brando:

Assim desde um penhasco sobranceiro
Da água rubra troava alto estampido,
105 Que fora de surdez risco certeiro.

De uma corda eu me achava então cingido
Com que outrora prender quis a pantera,
108 De pêlo em malhas várias repartido.

Que a tirasse Virgílio me dissera:
Eu descingi-me presto, lha entregando
111 Enrolada, como ele prescrevera.

Então ele à direita se voltando,
A distância da borda alcantilada
114 Lançou-a longe para o abismo infando.

— “Àquela ação não de antes praticada,”
— Pensei — “há de seguir-se estranho efeito,
117 Que do Mestre a atenção tem despertada”. —

Quanta cautela deve haver e jeito,
Tratando-se com quem vê não somente
120 Os atos, mas também o que há no peito!

— “Surgirá” — disse o Mestre — “brevemente
O que espero: o que tens no pensamento
123 Logo aos teus olhos ficará patente.”

Verdade, que pareça fingimento,
Evita proferir homem discreto:
126 Sofre desar, de culpa estando isento.

Nada posso omitir, leitor dileto:
Desta comédia pelos cantos juro
129 (Sejam assim de longo aplauso objeto!)

Que subir por aquele ar grosso, escuro
Nadando vi figura temerosa
129 Ao peito mais intrépido e seguro:

Tal quem desceu pela onda perigosa
A desprender de ocultos embaraços,
Lá no fundo, a fateixa vagarosa,

136 Subindo, encolhe as pernas, tende os braços.

 

38. Guido Guerra, florentino, combateu em Montaperti. — 40. Tegghiaio Atdobrandi, também patriota florentino. — 44. Jacopo Rusticucci, valoroso cavaleiro florentino que combateu também na batalha de Montaperti. — 70. Guilherme Borsiere, gentil-homem florentino. — 135. Fateixa, pequena âncora.

 


CANTO XVII

 

Enquanto Virgílio fala com Gerion, para convencer essa horrível fera a levá-los ao fundo do abismo, Dante se aproxima das almas dos violentos contra a arte. Dante reconhece alguns deles. A cada um pende do peito uma bolsa na qual são desenhadas as armas da sua família. Volta depois o Poeta para o lugar onde está Virgílio, que assentado já sobre o dorso de Gerion, põe-no diante de si, e assim descem ao oitavo círculo.

 

“EIS a fera, que a horrenda cauda enresta,
Que arneses, montes, muros atravessa
3 E com seu bafo impuro o mundo empesta!”

Assim Virgílio a me falar começa.
Para acercar-se logo lhe acenava
6 Ao marmóreo anteparo que ali cessa.

Da fraude o vulto imundo aproximava!
A cabeça avançou e o torpe busto,
9 Porém pendente a cauda lhe ficava

A cara assomos tinha de homem justo,
Tanto era o parecer beni’no e brando!
12 No mais serpe, movia horror e susto.

Grandes, hirsutos braços dilatando,
Alçava peito, ilhais, dorso malhados,
15 Mil rodelas e nós se entrelaçando.

Mais cores nos estofos recamados
Tártaros, Turcos nunca misturaram,
18 Nem Aracne em tecidos variegados.

Como os batéis, que à praia se amarram,
No mar a popa têm, a proa em terra;
21 E, como em regiões, que se deparam

Sob o voraz Tudesco, a fazer guerra
Embosca-se o castor: assim se via
24 O monstro à orla, que as areias cerra.

No ar a extensa cauda revolvia;
E a venenosa ponta bipartida,
27 Do escorpião qual dardo, se erigia

“Té onde a fera atroz jaz estendida.
Convém seja o caminho desviado
30 Da senda” — disse o Vate — “prosseguida” —

Descendo, pois, pelo direito lado
Para o fogo fugir e a areia ardente
33 Passos dez pela borda hemos andado.

Chegados nós de Gerião em frente,
Um tanto além sentado um bando achamos
36 Na areia, perto desse abismo ingente.

— “Do recinto por teres, em que estamos” —
Virgílio disse — “a experiência inteira
39 A sorte vai saber dos que avistamos.

“Os discursos, porém, filho aligeira.
Entanto impetrarei da fera infanda
42 Que prestar-nos seus ombros fortes queira”. —

Só pela borda, como o Vate manda,
Vou do círculo sétimo seguindo,
45 Dos mestos pecadores em demanda.

A dor, que brota em lágrimas, sentindo,
Socorre-se das mãos a aflita gente
48 Contra o solo e o vapor, que está caindo.

Assim lebréus, durante a calma ardente
Dos dentes e unhas valem-se, mordidos
51 De tavões por enxame impertinente.

Quando encarei nos rostos doloridos
De alguns, que os fogos tanto cruciavam,
54 Que eram todos achei desconhecidos.

Bolsas pendentes dos seus colos stavam,
Pelos sinais distintas, pelas cores:
57 Contemplando-as, seus olhos se enlevavam.

E vi já me acercando aos pecadores
Bolsa, na qual em campo de ouro havia
60 Azul, que era leão nos seus lavores,

A vista, que já noutra se embebia,
Em sangüíneo rubor ganso eu notava,
63 Que a brancura do leite escurecia.

Grávida, azul jardava um, que ostentava,
Broslada sobre cândida escarcela,
66 — “Que buscas neste abismo?” perguntava.

“Retira-te! Se a vida gozas bela,
Sabe que à sestra mão Vitaliano,
69 Vizinho meu terá condigna sela.

“Entre estes Florentinos sou Paduano;
A todo instante aturdem-me os ouvidos,
72 Bradando: — O nobre venha, o soberano,

“Que os três bicos na bolsa traz sculpidos”. —
Depois, torcendo a boca, a língua tira,
75 Qual boi, que os beiços lambe, ressequidos.

Não querendo mover desgosto ou ira
Em quem mor brevidade me ordenara,
78 Os mesquinhos deixei: assaz ouvira.

Disse-me o Guia então, que cavalgara
O dorso do animal fero e possante:
81 “Sê forte, a tudo o ânimo prepara!

“Se desce em tal escada de ora avante;
Sobe-te ao colo; ao meio irei sentado:
84 Que não te ofenda a cauda penetrante.”

De quartã qual doente, que, chegado
Supondo o acesso, lívido estremece
87 Somente ao ver lugar fresco, assombrado

Tal quando ouvi, meu peito, desfalece.
Ante o Mestre dá-me o pejo alento:
90 Bom amo o servo esforça que esmorece.

Já sobre a espalda do animal cruento,
Quero ao vate gritar: “Senhor, me abraça!”
93 A voz, porém, não corresponde ao intento.

Ele, que a mente espavorida e lassa
Em circuito mais alto me animara,
96 Sustendo-me, nos braços seus me enlaça,

E disse a Gerião: “Vai, mais não pára.
Em circuitos largos sem ter pressa:
99 Na carga, que ora tens, nova repara!” —

Bem como esquife, que voar começa,
Manso e manso recua: assim moveu-se.
102 Quando ao largo sentiu-se, eis endereça

A cauda aonde o peito seu tendeu-se.
Meneando-a, a retesa como enguia;
105 Das patas agitado o ar fendeu-se.

Feton, quando as rédeas já perdia,
Ao ver do céu o incêndio, ainda aparente;
108 Ícaro, quando lhe cair sentia

Da cera cada pluma ao sol ardente,
Gritando o pai; — “Ai! filho! Erraste a strada!”
111 De pavor não se entraram mais veemente,

Do que eu nessa viagem desusada,
No ar quando me vi, quando enxergava
114 Só a cerviz da fera maculada:

Com tardo movimento ela nadava,
Que gira e baixa pelo vento eu sinto
117 Que em torno ao rosto e abaixo se agitava.

Já ouvia à direita bem distinto,
Troar da catadupa fragorosa:
120 Olhos inclino ao fundo do recinto.

A mente estremeceu mais temerosa
Ao chamejar de fogo, ao som de pranto:
123 Encolhi-me ante a cena pavorosa.

De que descia então, com mor espanto,
Pelos males, que via, fiquei certo,
126 A mim se avizinhar a cada canto.

Qual falcão que no ar pairava incerto,
Sem ver reclamo ou cobiçada presa
129 Perdida a esp’rança ao caçador esperto,

Descamba, fatigado e sem presteza,
Em voltas mil por onde se arrojara,
132 E longe pousa, ou de ira, ou de tristeza:

Tal Gerião, enfim, no fundo pára
Ao pé da penedia alcantilada,
Livre do peso já que carregara,

136 Sumiu-se como seta disparada.

 

18. Aracne, personagem da mitologia grega, transformada por Minerva em aranha. — 68. Vitaliano, usurário paduano, ainda vivente. — 72. O nobre venha, Giovanni Baiamonti, florentino, que tinha como brasão três bicos de pássaro. — 106. Feton, filho de Apolo, que, no guiar o carro do Sol, precipitou-se. — 108. Ícaro, filho de Dédalo, que voando com as asas de cera fabricadas pelo pai, precipitou ao solo.


CANTO XVIII

 

Encontram-se os Poetas no oitavo círculo, chamado Malebolge, o qual é dividido em dez compartimentos concêntricos. Em cada um deles é punida uma espécie de pecadores, condenados por malícia ou fraude. No primeiro compartimento são punidos com açoites pela mão de demônios os alcoviteiros; e entre eles Dante reconhece Venedico Caccianemico e Jasão. No segundo jazem em esterco os aduladores e as mulheres lisonjeiras, entre outros, Alessio Interminelli, de Lucca e Taís.

 

TEM o inferno, de rocha construído,
De férrea cor, de muro igual cercado
3 Um lugar: Malebolge o nome havido.

Lá no centro do plaino inficionado
Se escancara grão poço, amplo e profundo:
6 Direi a compostura em tempo asado.

Espaço em torno estende-se rotundo
Entre o poço e o penhasco pavoroso:
9 Reparte-se em dez cavas o seu fundo.

Qual de fossos dobrados, cauteloso,
Se apercebendo, o alcáçar se assegura
12 Dos assaltos de imigo poderoso:

De abismos tais o aspecto se afigura.
Como da levadiça ponte entrada,
15 Aos de fora, do mundo na cintura,

Assim, do val no fundo começada,
Cada cava uma rocha atravessava
18 Em arco, para o poço concentrada.

De nós o monstro aqui se descargava:
À sestra mão seguiu logo o poeta,
21 E eu de perto fiel o acompanhava.

Novo tormento à destra me inquieta,
Novos algozes vejo, novas dores,
24 De que a primeira cava era repleta.

Stão lá no fundo nus os pecadores:
Do meio contra nós muitos caminham,
27 Outros conosco, em passos já maiores.

Em Roma, assim, às turbas, que se apinham
Do jubileu no tempo, sobre a ponte
30 Se abriu aos que iam trânsito e aos que vinham:

De um lado andavam, os que tendo em fronte
O castelo, a S. Pedro se endereçam,
33 E do outro lado os que iam para o monte.

Daqui, dali nas bordas, os apressam
Cornígeros demônios, açoitando
36 Com grandes azorragues, que não cessam,

Como aos golpes primeiros cada bando
Se apressa! Como cada qual evita
39 Que se repita o estímulo execrando!

Nesse andar minha vista num se fita,
Da parte oposta vindo, e logo eu disse:
42 — “Hei conhecido esta figura aflita”. —

Atentei mais, por que melhor o visse;
Deteve-se comigo o doce Guia
45 E deu que atrás o passo eu dirigisse.

Aos olhos esquivar-se-me queria,
Os seus baixando; mas foi vão o intento.
48 —“Tu, que te curvas, já te hei visto um dia.

“Se as feições não mudou-te o passamento
Venedico tu és Caccianemico.
51 Por que trato padeces tão cruento?” —

— “De mau grado o que exiges significo;
Mas cedo ao claro som dessa loquela,
54 Que à memória me traz o mundo inico.

“Eu fui aquele, que Ghisola bela
Do Marquês entreguei ao vil desejo:
57 Ora a verdade a minha voz revela.

“Comigo de Bolonha muitos vejo;
Com tantos nesta cava choro e peno,
60 Que a menos lá no mundo dá-se ensejo.

“De dizer sipa entre o Savena e o Reno,
Se a prova queres, lembra-te somente
63 De que em nós da avareza influi veneno”. —

Mas um demônio o atalhou. Furente,
Disse tangendo: — “Ó rufião, avante!
66 Mulher não há que vendas impudente!” —

Ao Mestre me tornei; — pouco distante
Era um rochedo, a que nos acercamos;
69 Da riba se elevava pra diante.

Assaz ligeiramente nos alçamos;
Fomos pela fragura à mão direita
72 E o eterno recinto assim deixamos.

Chegados onde a curva estava feita
Para passagem dar aos fustigados,
75 O sábio Guia disse: — “A face espreita

“Agora desses outros malfadados,
Em que ainda atender não conseguiste,
78 Porque não stavam para nós voltados”. —

Da antiga ponte divisamos triste,
Longa fileira: contra nós andava.
81 Cruel açoite em flagelar persiste.

Virgílio, quando eu nada perguntava,
— “Repara bem” — me diz — “na sombra altiva,
84 A quem pranto de dor faces não lava.

“De Rei conserva a majestade viva!
É Jasão: conquistou por força e manha
87 O velocino em Colcos fera e esquiva.

“A Lenos foi, depois que horrenda sanha
Feminil aos varões cortara a vida,
90 Nenhum poupando aquela fúria estranha.

“Ali, de amor no enlevo embevecida,
Hipsífile enganou, que já iludira
93 Suas irmãs, de compaixão movida.

“Grávida e só deixou-a: atroz mentira
Mereceu-lhe dos tratos a amargura.
96 Vingada está Medéia, a quem traíra.

“Quem perjurou como ele, há pena dura.
Do val primeiro baste o que sabemos
99 E de quantos aqui sofrem tortura”. —

Numa estreita vereda já nos vemos,
Que co’a borda segunda se cruzava,
102 Sustentando outra ponte, a que tendemos.

Turba dali ouvimos, que chorava
De outra cava no encerro e que, assoprando,
105 Com suas próprias mãos se arrepelava.

Estava-lhe as paredes incrustando
A exalação que sobe e ali se prende.
108 Ferindo o olfato e a vista horrorizando.

E tanto pelo abismo a cava estende,
Que só divisa quando está no fundo
111 Quem lá do cimo, perscrutando, atende.

Subimo-nos: então no fosso imundo
Vi gente em tal cloaca mergulhada,
114 Que a sentina figura ser do mundo.

Enquanto olhava ali tão conspurcada
Cara notei, que distinguir não pude,
117 Se padre ou leigo fora a alma danada.

— “Dizei por que tua vista não se mude
De mim, a imundos tantos desatenta!” —
120 Gritou-me. — E eu: — “Se a mente não me ilude,

“Te vi sem cabeleira tão nojenta.
Alessio Interminei de Lucca hás sido:
123 Em ti por isso a vista é mais atenta”. —

Ferindo a face, disse-me o descrido:
— “Aqui lisonjas vis me submergiram;
126 Língua indefessa em bajular hei tido”. —

Logo depois que vozes tais se ouviram,
Meu Guia: — “Olhos dirige um pouco avante,
129 E as feições me declara se atingiram

“De mulher desgrenhada e petulante
Que de unhas asquerosas se lacera,
132 Mudando de postura a cada instante.

“É Taís, a meretriz, que respondera
Ao namorado seu, quando dizia:
— “Te devo gratidão?” — “Muita e sincera!” —

136 Mas vamos: temos visto em demasia”. —

 

50. Venedico Caccianemico, bolonhês, que induziu sua irmã Ghisola a entregar-se a Obizzo d’Este, marquês de Ferrara. — 61. Dizer sipa etc., palavra do dialeto bolonhês que vale por sim ou seja. — 86. Jasão, chefe dos argonautas, que, auxiliado por Medéia, que ele seduziu e depois enganou, conquistou em Cólquida o velocino de ouro. — 92. Hipsífiles, enganada por Jasão. — 122. Aléssio Interminei, patrício de Lucca. — 133. Taís, meretriz, personagem de uma peça de Terêncio.


CANTO XIX

 

No terceiro compartimento, onde os Poetas chegam, são punidos os simoníacos. Estão eles, de cabeça para dentro, metidos em furos feitos no fundo e nas encostas do compartimento. As plantas dos pés, que estão fora dos buracos, são queimadas por chamas. Dante quer saber quem era um danado que mais do que os outros agitava os pés. É o papa Nicolau III da Casa Orsini, o qual diz que estava à espera de ser rendido por outros papas simoníacos. O Poeta, indignado, rompe numa veemente invectiva contra a avareza e os escândalos dos papas romanos. Virgílio, depois, o leva novamente para a ponte.

 

Ó SIMÃO MAGO, ó míseros sequazes
Por quem de Deus os dons só prometidos
3 A virtude, em rapina contumazes,

Por ouro e prata estão prostituídos!
Por vós tange ora a tuba sonorosa:
6 Jazeis na tércia cava subvertidos.

À outra tumba chegamos temerosa,
Da rocha nos subindo àquela parte,
9 Que, a prumo ao centro, eleva-se alterosa.

Saber supremo! Que inefável arte
Mostras no céu, na terra e infernal mundo!
12 Oh! teu poder quão justo se reparte!

Por toda a cava, aos lados e no fundo
Furos na pedra lívida se abriam,
15 De igual largura e cada qual rotundo.

Semelhar na grandeza pareciam
Aos que em meu S. João belo e esplendente
18 Para batismo ministrar serviam.

Quebrei um, não há muito, mas somente
Para infante salvar, que ali morria:
21 Fique a verdade a todos bem patente.

De cada um orifício eu sair via
Os pés, até das pernas a grossura,
24 De um pecador: o resto se sumia.

Stavam ardendo as plantas na tortura,
E tanto as juntas rijo se estorciam,
27 Que romperiam a prisão mais dura.

Do calcanhar aos dedos percorriam
As chamas, como a superfície inteira.
30 Em corpo de óleo ungido morderiam.

— “Quem padece” — disse eu — “por tal maneira,
Que mais que os sócios estorcer-se vejo
33 Em mais rúbida flama e mais ligeira?

— “Se ao fundo eu te levar, por teu desejo,
Por declive, que jaz mais inclinado,
36 De ouvir-lhe o nome e os crimes dou-te ensejo”. —

— “Aceito o que te praz, muito a meu grado:
Senhor do meu querer, és quem conhece
39 Quanto hei mister e a mente há reservado”. —

Passando à quarta borda, ali se desce
Para a esquerda voltando, até chegar-se
42 Lá onde tanto furo se oferece.

De mim não quis o Mestre aligeirar-se
Senão quando daquele, que gemia
45 Pelos pés, conseguiu apropinquar-se.

— “Tu, és assim voltada” — eu lhe dizia —
“Como estaca plantada, ó alma opressa,
48 Responder-me possível te seria?” —

Eu stava aí, qual monge, que confessa
Assassino, que em cova já fincado
51 O chama, pois, em tanto, a pena cessa.

— “Já tens” — gritou: já tens aqui chegado?
Já, Bonifácio, como tens descido?
54 Em anos muitos tenho a conta errado.

“Tão depressa desse ouro te hás enchido,
Pelo qual bela esposa atraiçoando,
57 A tens por tantos crimes afligido?”

Eu fiquei como quem, não penetrando
No sentido do que outro respondera,
60 Enleado e corrido fica olhando.

Mas Virgílio: — “Depressa lhe assevera:
Eu não sou, eu não sou quem tu cogitas” —
63 Respondi como o Vate prescrevera.

Ouvindo, as plantas estorceu malditas;
Depois a suspirar, com voz de pranto
66 — “Por que” — disse — “a falar assim me excitas?

“Se conhecer quem sou anelas tanto,
Que assim baixaste ao vale tenebroso,
69 De Papa sabe que hei vestido o manto.

“Filho de Ursa, deveras, cobiçoso
Em bolsa tudo pus por meus Ursinhos,
72 Lá ouro, aqui o esp’rito criminoso.

“Sob a cabeça minha estão vizinhos,
Em simonia os que me antecederam,
75 Sobrepondo-se um no outro esses mesquinhos.

“Hei de ao fundo descer, como desceram,
Logo em chegando aquele, que eu cuidara
78 Seres tu, quando as vozes me romperam.

“Mas, ardendo-me os pés se me depara
Intervalo mais longo, assim voltado,
81 Do que em tormento igual se lhe prepara.

“Virás de mores culpas outro inçado,
Pastor sem lei, das partes do ocidente
84 Que há de ser sobre nós depositado.

“Jasão novo será: condescendente
Teve o outro seu Rei, diz a Escritura,
87 Da França este o senhor terá potente”.

Não sei se ousado fui e se foi dura
A resposta, que dei ao condenado.
90 — “Tesouros exigira porventura

“Nosso Senhor de Pedro, ao seu cuidado
E zelo quando as chaves cometia?
93 — Segue-me — apenas lhe há recomendado.

“Dinheiro não tomaram de Matia
Pedro e os outros, por ser o preferido
96 Ao lugar, que o traidor perdido havia.

“Pena, pois: mereceste ser punido;
E guarda a que extorquiste, vil moeda
99 Que te fez contra Carlos atrevido.

“Não fora a referência, que me veda,
Das santas chaves, que empunhaste outrora,
102 No tempo, em que fruíste a vida leda,

“Voz mais severa eu levantava agora
Contra a avidez, que o mundo assaz contrista,
105 Que os bons oprime, o vício exalta e adora.

“A vós vos figurava o Evangelista,
Quando a que é sobre as águas assentada
108 Prostituir-se aos Reis foi dele vista:

“Nascera de cabeças sete ornada,
E o valor nos dez cornos possuía,
111 Enquanto ao esposo seu virtude agrada.

“De ouro a vossa cobiça um Deus fazia:
Por um dos que os gentios adoraram
114 Abrange cento a vossa idolatria.

“Constantino! Ah! que males derivaram,
Não do batismo teu, mas da riqueza
117 Que deste a um Papa e a quem outras se juntaram!”

Sentindo destas notas a aspereza,
Ele tomado de remorso ou de ira,
120 Agitava os dois pés com mor braveza.

Virgílio, creio, com prazer me ouvira:
Aplaudir seu semblante revelava
123 Verdades que eu, sincero, proferira.

Jubiloso nos braços me levava,
E, depois que apertara-me ao seu peito,
126 Por onde descendera, se tornava.

Sempre cingido desse abraço estreito,
Do arco ao cimo transportou-me o Guia:
129 Caminho à quinta cava era direito.

Ali suavemente me descia
Em rochedo tão íngreme e empinado,
Que às cabras ínvio ser me parecia,

133 De lá foi-me outro val descortinado.

 

1. Simão Mago queria comprar dos Apóstolos a virtude de chamar o Espírito Santo. O mercado das coisas sagradas é, por isso, chamado simonia. — 17. São João, pia na qual Dante foi batizado. — 53. Bonifácio, Bonifácio VIII, que o danado (Nicolau III) pensa seja vindo para substituí-lo. — 83. Pastor sem lei, Clemente V, ligado a Filipe, o Belo, rei de França e que mudou a sede do papado para Avinhão. — 85. Jasão, que comprou o sumo sacerdócio de Antíoco, rei da Síria. — 106. O Evangelista, S. João. — 115-117. Constantino, no tempo de Dante se acreditava que Constantino, ao mudar-se para Bizâncio, teria doado ao papa Roma e o domínio temporal.


CANTO XX

 

No quarto compartimento são punidos os impostores que se dedicaram à arte divinatória. Eles têm o rosto e o pescoço voltados para as costas, pelo que são obrigados a caminhar ao reverso. Virgílio mostra a Dante alguns entre os mais famosos, entre os quais a tebana Manto, da qual se origina Mântua, cidade natal de Virgílio.

 

NOVA pena convém dizer em versos
E dar matéria ao meu vinteno canto,
3 Do cântico onde punem-se os perversos.

Eu era já disposto tanto, quanto
Fora preciso para ver o fundo
6 Da cava, que banhava amargo pranto.

De almas vi turba, pelo val rotundo,
Que taciturna vinha e lacrimosa
9 Ao passo usado em procissões no mundo.

Mirei mais baixo e cada desditosa
Notei que fora o mento retorcido
12 Do colo ao começar: cousa espantosa!

Para o dorso era o rosto seu volvido:
Só recuando caminhar podia;
15 Que em frente olhar estava-lhe tolhido.

Talvez por força já de par’lisia
De alguém o corpo ao todo se torcesse;
18 Não vi: crê-lo difícil me seria.

Que te seja, Leitor, a Deus prouvesse
Proveitosa a lição! Pensa, atilado,
21 Quanto em mim, vendo, a compaixão crescesse,

O parecer humano tão mudado,
Que o pranto, que dos olhos derivava
24 Banhava o tergo a cada condenado.

Do rochedo eu a um ângulo chorava
Com tanta dor, que o Mestre de repente
27 — “Insensato és também?” — me interrogava.

“Aqui piedade é morte em toda mente:
Quando Deus condenou, quem mais malvado
30 Do que esse, que ternura por maus sente?

“Alça a fronte, alça, atento ao condenado,
Que ante os Tebanos se abismou na terra.
33 Gritavam-lhe: — Como andas apressado,

“Anfiarau? Como assim foges da guerra? —
Ele tombava entanto, ao val descendo,
36 Onde Minos os réprobos aferra.

“Pelo futuro penetrar querendo,
Tem o dorso adiante em vez do peito,
39 E a recuar caminha, atrás só vendo.

“Eis Tirésias, o que mudara o aspeito,
Femíneas formas e feições tomara,
42 Sendo-lhe o que era varonil desfeito.

“Ao sexo seu tornou, quando encontrara,
Inda uma vez, travadas serpes duas
45 E outra vez com bordão as separara.

“Volta-lhe Arons ao ventre as costas nuas:
De Luni em monte, aos agros iminentes,
48 Onde o Carrara ergueu moradas suas,

“Teve em gruta marmórea permanente
Estância, donde contemplar podia
51 As estrelas, as ondas livremente.

“Essa mulher” — continuou meu Guia —
“Que o seio oculta em traça flutuante
54 E de velos a pele tem sombria,

“Foi Manto, que vagara incerta e errante
Até pousar na terra, em que hei nascido.
57 No que ora digo irei um pouco avante.

“Vendo o pai já da vida despedido
E a cidade de Baco em jugo triste,
60 O mundo largo tempo há percorrido.

“Junto ao Alpes na bela Itália existe,
Além Tirol, já perto da Alemanha,
63 Um lago, que chamar Benaco ouviste.

“Veia de fontes mil, que a plaga banha
Entre Garda, Camônica e Apenino,
66 De águas conduz ao lago cópia manha.

“Ilha há no meio, em que o Pastor trentino,
E com ele os de Bréscia e de Verona,
69 Possuem de benzer juro divino.

“Onde é mais baixa do Benaco a zona,
A Bérgamo fazendo e a Bréscia frente,
72 Pesqueira, forte em bastiões, se entona.

“É dali que das águas o excedente,
Que ter em si não pode o lago, brota
75 Em rio e cobre os prados largamente.

“Quando prossegue, outro apelido adota,
Chama-se Míncio, perde o nome antigo:
78 No Pó junto a Governol, há fim sua rota.

“No verão à saúde traz perigo;
Em vasto plaino o álveo dilatando,
81 Forma paul, das infeções amigo.

“Manto, a virgem selvage ali passando,
Terreno viu desabitado, inculto
84 Naquele pantanal, que o está cercando

“Esquiva a humano trato e estranho vulto,
Fez ali de suas artes oficina
87 E viveu té sofrer da morte o insulto.

“Povo, ao diante, para ali se inclina,
Em torno esparso, e abrigo, o julga forte:
90 De águas cercado com pauis confina.

“Onde aqui o elegeu colhera a morte,
A cidade erigiram, que chamaram
93 Mântua, do nome seu sem tirar sorte.

“Os habitantes lá mais avultaram,
Quando ainda os ardis de Pinamonte
96 De Casalodis a insânia não fraudaram.

“Ciente fica, pois: se de outra fonte
A pátria minha originar quiserem,
99 A mentira à verdade nunca afronte”. —

— “As cousas, que tuas vozes me referem,
Tão certas são” — disse eu — “que me parece
102 Carvão extinto o que outros me disserem.

“Mais dize, ó Mestre: acaso não merece
Dos que avançam nenhum reparo ou nota?
105 Na mente de o saber desejo cresce”. —

— “Aquele, a quem do mento ao dorso brota
Barba esquálida, um áugur se dizia,
108 Quando de homens a Grécia tal derrota

Teve, que infantes só no berço havia.
Em Áulide com Calcas indicara
111 Tempo, em que a frota desferrar devia.

“Eurípilo chamou-se: assim narrara
Num dos seus cantos, a tragédia minha,
114 Bem sabes, pois tua mente a arrecadara.

“Esse, que, tão delgado, se avizinha,
Miguel Escotto foi, que, certamente,
117 Perícia em fraudes da magia tinha.

“Olha Guido Bonati, encara Asdente
Que cuidar só devera da sovela:
120 Arrepende-se agora inutilmente.

“Das tristes ora a turba se revela,
Que, desdenhando a agulha, a horrível arte
123 De encantos infernais acharam bela.

“Mas no limite, que hemisférios parte,
É Caim com seu fardo, o mar tocando,
126 Lá de Sevilha além do baluarte.

“A lua, a face plena já mostrando
(Te lembras?) ontem viste na sombria
Selva, em que te ajudou seu fulgor brando”. —

130 Assim falando, a passo igual seguia.

 

34. Anfiarau, que morreu no sítio de Tebas, e prevendo a sua morte tentara esquivar-se de tomar parte nesse sítio. — 40. Tirésias, adivinho tebano, que foi transformado em mulher e depois retornou homem. — 46. Arons, adivinho lembrado na “Farsália” de Lucano. — 55. Manto, filha de Tirésias, que a tradição diz ter fundado a cidade natal de Virgílio, Mântua. — 63. Benaco, hoje lago de Garda. — 95-96. Quando ainda etc. Pinamonte dei Bonacolsí para apoderar-se de Mântua induziu o governador Alberto de Casalodi a praticar atos violentos que revoltaram o povo contra ele. — 110. Calcas, adivinho da antigüidade. — 112. Eurípilo, outro célebre adivinho.— 116. Miguel Escotto, célebre adivinho do tempo de Frederico II. — 118. Guido Bonati, astrólogo do conde Guido de Montefeltro. — Asdente, sapateiro e adivinho de Parma.

 


CANTO XXI

 

No quinto compartimento são punidos os trapaceiros que negociaram os cargos públicos ou roubaram aos seus amos. Eles estão mergulhados em piche fervendo. Os dois Poetas presenciam a tortura de um trapaceiro luquense por obra de um demônio. Virgílio domina os demônios que queriam avançar contra eles. Virgílio e Dante, escoltados por um bando de demônios, tomam o caminho ao longo do aterro.

 

ASSIM, de ponte em ponte, discursando
Do que nesta comédia se não cura,
3 De outro arco acima nos subimos, quando

Detemo-nos por ver a cava escura,
Por ouvir de outros prantos vão sonido;
6 Com pasmo olhei a hórrida negrura.

No arsenal de Veneza, derretido
Como referve o pez na estação fria
9 Para reparo ao lenho combalido,

Incapaz de vogar: qual com mestria
Baixel novo constrói; qual alcatroa
12 O que teve em viagens avaria;

Qual pregos bate à popa qual à proa;
Qual remos faz, qual linho torce ou parte;
15 Qual mezena e artemão aperfeiçoa:

Assim, por fogo não, por divina arte
Betume espesso, ao fundo refervia,
18 As bordas enviscando em toda parte.

Mas no pez só na tona eu distinguia
Borbulhão, que a fervura levantava,
21 Que ora inchava, ora rápido abatia.

No fundo enquanto os olhos eu fitava,
Exclamando Virgílio: — Eia! Cuidado! —
24 Para si donde eu era me tirava.

Voltei-me então como homem, que apressado
É por saber o que fugir convenha,
27 De súbito pavor sendo atalhado,

Olha sem que por isso se detenha,
E logo atrás de nós eu vi correndo
30 Negro demônio sobre aquela penha.

Ah! que aspecto feroz! Ah! quanto horrendo
Nos meneios parece e temeroso,
33 Veloz nos pés e as asas estendendo!

No dorso agudo e enorme um criminoso,
Escarranchado, em peso, carregava:
36 Dos pés prendia o nervo ao desditoso.

— “Malebranche!” já perto ele bradava —
— “Eis um dos anciões de S. Zita!
39 Mergulhai-o, pois torna à gente prava,

“Que nessa terra em grande soma habita.
Venais todos lá são menos Bonturo.
42 O no, por ouro, lá se muda em ita“.

Ao pez o arroja, e pelo escolho duro
Se torna: após ladrão tanto apressado
45 Não vai mastim, que estava antes seguro:

O maldito afundou; surdiu curvado.
Sob a ponte os demônios lhe gritaram:
48 — “Não acharás aqui Vulto Sagrado,

“Nem banhos, quais no Serchio se deparam.
Se não queres no pez star imergido.
51 A te espetar as fisgas se preparam”. —

Com croques cem mordendo esse descrido
— “Bailar” — disseram — “deves bem coberto;
54 Se puderes furtar, furta escondido”. —

Tal ordem em cozinha o mestre esperto
Aos ajudantes seus que na caldeira
57 Mergulhem naco à tona descoberto.

— “Por que” — falou-me o Guia — “alguém não queira
Molestar-te em te vendo, busca abrigo:
60 Num recanto o acharás desta pedreira.

“Não temas que me ofenda o bando imigo;
Muito bem sei como o furor lhe afronte;
63 Já venci de outra vez igual perigo”. —

Até o extremo então passou da ponte;
Mas, quando a sexta borda já subia,
66 Mister lhe foi mostrar serena fronte.

Qual fremente matilha, que se envia
Ao pobre, quando pára esbaforido
69 E pede alívio à fome que o crucia:

De baixo arremeteu-lhe o bando infido,
Aceso em ira, os croques seus brandindo.
72 Mas gritou-lhes: — “Nenhum seja atrevido!

“Os croques suspendi: até mim vindo
Me preste algum de vós atenção toda.
75 Fere, se ousais porém antes me ouvindo”.

Clamaram todos: — “Ouça — o Malacoda!”
Enquanto os mais ficavam no seu posto,
78 — “Que queres?” — disse alguém que sai da roda;

E o Mestre: — “És, Malacoda, a crer disposto
Que as ameaças vossas superasse
81 Para aqui vir, se por celeste gosto

E supremo querer não caminhasse?
Deixa-me ir; pois a lei divina ordena.
84 Que eu nesta agra jornada outrem guiasse”.

De Malacoda o orgulho já serena;
Aos pés lhe cai o croque; aos ais voltado
87 Lhes disse: — “Este não pode sofrer pena”.

E o Mestre me falou: — “Tu, que abrigado
Estás entre os penedos cauteloso,
90 Volve a mim, do temor descativado”.

Corri para Virgílio pressuroso.
Eis os demônios todos investiram:
93 Roto o concerto, pois, cria ansioso.

De Caprona os soldados, que saíram
A partido assim vi que estremeciam,
96 Quando envoltos de imigos se sentiram.

Nos sevos gestos seus se me prendiam
Os olhos, e a Virgílio vinculado
99 Os braços o meu corpo todo haviam.

Os croques inclinados: — “No costado
Fisguemo-lo” — entre si dois prorromperam.
102 E os outros: — “Oh! pois não! seja espetado!”

Ao que o Mestre falava desprouveram
Palavra tais, e então bradou depressa:
105 “Sê quedo, Scarmiglione!” — Emudeceram.

Depois assim nos disse: — “Andar por essa
Rocha não podereis; jaz destruído
108 Todo arco sexto sem restar-lhe peça.

Se avante quereis ir, seja seguido
Desta borda o caminho: não distante
111 Está rochedo ao passo apercebido.

“Ontem, cinco horas mais do que este instante
Mil e duzentos com sessenta e seis
114 Anos houve: é então a rocha hiante.

“Dos sócios meus na companhia ireis;
Vão ver se alguém ao banho quer furtar-se.
117 Ide em paz: molestados não sereis.

“Calcabrina, Alichino vão juntar-se
Com Cagnazzo, a decúria comandando
120 Barbariccia! E não podem separar-se

“Droghinaz, Libicocco, deste bando!
Graffiacane, o dentudo Ciriatto,
123 Farfarel, Rubicante vão marchando!

“Na ronda cada qual se mostre exato!
Sejam a salvo os dois encaminhados
126 Da ponte ao arco até agora intato!”

“Que vejo, ó Mestre!” — eu disse — “Acompanhados!”
Se sabes ir só, vamos prontamente;
129 De guias tais dispensam-se os cuidados.

“Se tu és, como sóis, Mestre, prudente,
Não vês que os dentes seus estão rangendo,
132 Que nos encaram com furor crescente?”

“Não temas” — disse o Mestre, respondendo —
“Ranger os dentes deixa-os a seu gosto:
135 É contra os que ardem lá no pez horrendo”.

À sestra os dez então fizeram rosto;
Nos dentes cada qual mostra primeiro,
Por mofa a língua ao cabo já disposto;

139 E ele trompa fazia do traseiro.

 

38. Anciões de S. Zita, supremos magistrados de Lucca, cidade de que S. Zita é protetora. — 41. Bonturo, Bonturo Dati, magistrado mais venal do que os outros. — 42. O no, por ouro etc., por dinheiro o não se transforma em sim. — 112-114. Ontem, etc., o demônio falava cinco horas antes do meio-dia de 26 de março de 1300. Ao meio-dia teriam transcorrido 1266 anos da morte de Cristo.


CANTO XXII

 

Andando os dois Poetas pelo aterro à esquerda, vêem muitos trapaceiros, que, por aliviar-se, boiam acima do piche fervendo. Sobrevêem os diabos e um deles é lacerado. É este Ciampolo, de Navarra, que consegue, depois, livrar-se das garras dos diabos, o que dá motivo a uma briga entre os demônios.

 

MARCHAR vi cavaleiros à peleja,
Travar luta, enlear-se no combate
3 E até pedir à fuga que os proteja;

Em vossa terra esquadras dar rebate
Vi, Aretinos; vi as cavalgadas,
6 Torneios, justas no mavórtico embate,

De tubas ao clangor, às badaladas,
Com sinais de castelos, de tambores,
9 Com artes novas ou entre nós usadas:

Não vi mover peões, nem corredores,
Nem baixéis, que regula a terra ou estrela,
12 De igual clarim aos sons atroadores.

Com dez demônios (que companha bela!)
Partimo-nos, porém rezar com santo,
15 Urrar com lobos discrição revela.

Minha atenção no pez se engolfa, entanto,
Por saber quanto encerra a negra cava,
18 Ali quem pena, quem derrama pranto.

Como o delfim, que da tormenta brava
O nauta avisa, o dorso recurvando,
21 Presságio do mau tempo, que se agrava.

Um lenitivo à pena, assim, buscando,
Mostrava o tergo algum dos condenados,
24 Qual relâmpago, logo se esquivando.

Como à borda de charcos enlodados
A fronte deixa à rã ver da água fora,
27 Pernas e corpo tendo resguardados:

Assim no pez a gente pecadora.
Mas, Barbariccia próximo já sendo,
30 Na resina se esconde abrasadora.

Eu vi (e ainda agora estou tremendo!)
Em cima retardar-se um desditoso
33 Qual rã, que fica, as mais desparecendo.

Perto ali stava Grafiacane iroso:
Fisgou-o na enviscada cabeleira,
36 E alçou, qual lontra, ao ar o criminoso.

Sabia os nomes da caterva inteira;
Ouvindo-os, atentei nos escolhidos:
39 Distingui-los podia de carreira.

“Eia! depressa os teus ferrões compridos
No costado lhe crava, ó Rubicante!”
42 Os demônios gritaram-lhe incendidos.

“Ó Mestre” — disse — “inquire insinuante
Quem seja aquele mísero e mesquinho
45 Que em mãos caiu da turba petulante”.

Moveu-se o Mestre e, à cava já vizinho,
Perguntou-lhe em que terra ele nascera.
48 — “Em Navarra” — tornou-lhe — eu tive o ninho.

“De um fidalgo ao serviço me pusera
Minha mãe, quando o pai meu devastara
51 Fazenda e a própria vida com mão fera.

“D’El-rei Tebaldo eu na privança entrara:
Vendia os seus favores fraudulento;
54 Sofro a pena do mal, que praticara”.

Então os dentes lhe cravou cruento,
De javardo quais presas, Ciriatto:
57 Armam-lhe a boca, servem de instrumento:

Nas mãos de imigo seu caíra o rato:
Barbariccia, entre os braços o estreitando,
60 — “Alto!” — lhe diz — “A mim cabe seu trato”.

E o rosto para o Mestre meu voltando,
Falou: — “Pergunta, se ainda mais desejas
63 Antes que o tenha lacerado o bando”.

“Algum dos pecadores, com quem stejas”
Virgílo interrogou — “Latino há sido?”
66 Tornou: — “Vou contentar-te no que almejas.

“No pez deixei alguém por tal havido...
Ah! não temera, estando lá coberto,
69 Ser de unhas e farpões ora ferido”.

— “É demais!” — Libicocco diz, que perto
Estava; e um braço ao triste dilacera,
72 Do croque ao golpe, aquele algoz esperto.

Às pernas Draghignaz também quisera
Do mísero investir; o cabo iroso
75 Acesos olhos volve e os dois modera.

Cessa um pouco o rumor e pessuroso
Pergunta o Mestre àquela sombra aflita,
78 Que do golpe olha o efeito doloroso:

“Quem foi essa alma, como tu prescita,
Que, por vires à tona, hás lá deixado?”
81 Responde o pecador: — “Foi Frei Gomita

De galura, nas fraudes consumado
Que do seu amo a imigos poupou dano,
84 E, traidor, foi por eles premiado.

“Por ouro os deixou ir, como de plano
Confessa; e em tudo o mais provou ter foro
87 Nas tretas, ser nos dolos soberano.

“Miguel Zanche, o Juiz de Logodoro,
Com ele ostenta, em práticas freqüentes
90 De crimes, em Sardenha, o seu tesouro.

“Ai! vede como esse outro range os dentes!
Iria por diante; mas receio
93 Na pele a fúria dos ferrões pungentes”.

Atenta o cabo de olhos no meneio
Com que a ferir se apresta Farfarello.
96 “Vai daí!” — lhe gritou — “pássaro feio!”

— “Se Toscanos, Lombardos tens anelo
De ver e ouvir” — o triste prosseguia —
99 “Traça darei, com que satisfazê-lo.

Suspendam Malebranche essa porfia;
Não temam sócios meus dura vingança,
102 Que eu, sentado, um só não, muitos faria

“De lá surdir, segundo a nossa usança,
Ao sinal de assovio, que de ausente
105 Perigo ao vir à tona dá fiança”.

Cagnazzo alça o focinho, de repente,
E, abanando a cabeça, diz — “Cuidado!
108 Astúcia é por lançar-se ao pez fervente”.

Ele, que em cópia ardis tinha guardado,
Tornou: — “Sutil astúcia, na verdade,
111 Causar aos meus tormento redobrado!”

Dos outros contra o aviso, por vaidade,
Alichino lhe disse: — “Se abalares,
114 Não provarei de pés agilidade,

“Hei de, voando, te agarrar nos ares.
Vamos do cimo e à riba retiremos:
117 Maravilha, se a tantos enganares!“

Leitor, logração nova contemplemos.
Já todos volvem de outro lado a vista:
120 Quem mais avesso assim primeiro vemos.

O Navarro estudara-o como invista;
E arrancando, de súbito, ao betume
123 Se arroja e a liberdade então conquista.

Da afronta sentem todos o azedume,
Inda mais quem motivo dera ao feito,
126 Gritando: — “Preso estás!” — salta do cume,

Porém do medo se avantaja o efeito
Ao das asas: um baixa ao fundo presto,
129 No ar sustém-se o outro, alçando o peito.

Assim mergulha o pato na água lesto,
Quando avista o falcão: perdida a presa,
132 Se torna o caçador cansado e mesto.

Calcabrina, da raiva na braveza,
Após o sócio voa, por ter briga,
135 Se a alma como deseja, vence empresa.

Vendo que ao fundo o malfeitor se abriga,
As garras volta contra o companheiro:
138 Furor à luta sobre o lago o instiga.

As unhas o outro, gavião ligeiro,
Lhe crava e, entrelaçando-se espantosos,
141 Tombam ambos no pez, de corpo inteiro.

Separa o grão fervor os dois raivosos;
Em vão, porém, subir-se pretenderam,
144 Que as asas prendem borbulhões viçosos.

Os outros vendo o caso, se doeram:
Envia quatro o cabo diligente;
147 E de croques armados acorreram.

De um lado e de outro chegam velozmente.
Tendem farpões aos sócios enviscados,
Cozidos já naquela crusta ardente,

151 E desta arte os deixamos atalhados.

 

48-54. Em Navarra etc., Ciampo de Navarra, o qual serviu na corte do rei Tebaldo II de Navarra. 81. Frei Gomita, vicário de Ugolino Visconti, por dinheiro deu liberdade aos inimigos do seu senhor. — 88. Miguel Zangue, vicário do rei Enzo em Logodoro.


CANTO XXIII

 

Prosseguem os dois Poetas o seu caminho, descartando-se dos diabos. Vendo-os, porém, voltar novamente, Virgílio abraça-se com Dante e deixam-se resvalar pelo declive do precipício. Encontram os hipócritas vestidos de pesadas capas de chumbo dourado. Falam com dois frades, Catalano e Loderigo, bolonheses. Um dos frades, inquirido por Vigílio, indica-lhe o modo de subir ao sétimo compartimento.

 

EM silêncio, a companha má deixada,
Seguíamos, após um do outro andando,
3 Como frades menores em jornada.

Meu pensamento à rixa se voltando,
A fábula de Esopo relembrava,
6 Em que ao rato arma a rã laço nefando.

Se aqueles casos dois eu confrontava,
Como issa e mo, iguais me pareciam,
9 Quando o princípio e fim seus recordava.

E, como os pensamentos se associam,
Outros logo daquele me brotaram,
12 Que em dobrado temor a alma envolviam.

Pensava: — esses demônios que passaram,
Por causa nossa, tal vergonha e dano,
15 Do fato certamente se enojaram.

Se a maldade agravar rancor insano,
Eles no encalço nos virão ferozes,
18 Qual cão, que a lebre aboca enfim no plano.

Aguardando os horríficos algozes,
Arrepiam-se as carnes e o cabelo.
21 — “Ó Mestre meu, as garras temo atrozes!”

Exclamo: — “Ache depressa o teu desvelo
Para nós contra o bando amparo e abrigo.
24 Após os passos nossos cuido vê-lo”.

“Se espelho eu fora, a imagem tua, amigo,
Tanto não refletira claramente,
27 Quanto às idéias na tua alma sigo.

“Agora iguais me estão surgindo à mente,
Concordes tanto nas feições, em tudo,
30 Que um parecer entre ambos há somente.

“À destra inclina a encosta, ou eu me iludo:
Por lá baixando à mais vizinha cava,
33 Teremos contra assaltos seus escudo”.

Não acabava, quando a turba prava
Assoma: de asas pandas se enviando
36 Contra nós, não mui longe a divisava.

De súbito nos braços me tomando,
Qual mãe, que ao despertar se vê cercada
39 De furiosas flamas, e, apertando

Ao seio o filho, foge acelerada,
E ao pudor véus esquece angustiosa,
42 Só por salvar aquela prenda amada:

Lá do cimo da riba alta e fragosa
Resvala o Mestre pela penha dura,
45 Muralha de outra cava tenebrosa.

Água não corre mais veloz da altura
Por canal a impulsar de engenho a roda,
48 Quando, vizinha aos cubos, se apressura,

Do que a descer o Guia meu se açoda,
Como a filho estreitando-me ao seu peito,
51 Não como a companheiro a quem se engoda.

Da cava, apenas atingira o leito,
Quando ao cimo os demônios se mostraram:
54 Mas de iras suas malogrou-se o efeito.

Por lei da Providência terminaram
Funções, que exercem na caverna quinta,
57 Toda vez que o recinto seu deixaram.

Gente, que de brilhante cor se pinta
Vemos, que a tardo passo em torno andava;
60 Chorava e em forças parecia extinta.

Capa e capuz trazia, que ocultava
Seus olhos, dessa forma de vestidos
63 De Colônia entre os monges mais se usava.

De ouro por fora, dentro guarnecidos
De chumbo: comparando a peso tanto,
66 De palha os de Fred’rico eram tecidos.

Por toda a eternidade, ó duro duro manto!
Com tais almas, à sestra, caminhamos,
69 Atentos escutando o triste pranto.

Tanto as oprime o peso, que as passamos
No lento caminhar; e a cada instante
72 De nova companhia ao lado estamos.

“Mostra-me — eu disse ao Guia, suplicante —
Algum por nome ou feitos afamado;
75 Busca, sem te deter, Mestre prestante!” —

Tendo vozes toscanas escutado,
Um atrás nos gritou: — “Cessai da pressa,
78 Com que ides a correr pelo ar cerrado!

“Cousa talvez direi, que te interessa”.
Volta-se o Mestre e diz-me: — “Agora espera;
81 Para o passo igualar-lhes não te apressa”.

Cessando, vejo um par que se acelera;
Seus gestos dizem que acercar-se aspiram,
84 Malgrado a estrada e o peso, que os onera.

Aqueles dois, já próximos, remiram
Com vesgos olhos, sem falar, meu rosto;
87 Depois entre eles vozes tais se ouviram:

“O que respira ainda em vida é o posto?
Se mortos ambos são, por que motivo
90 Da plúmbea capa evadem-se ao desgosto?”

E disseram: — “Toscano, que, inda vivo,
Vens de hipócritas ver o grêmio triste,
93 Dizer quem sejas, não recusa esquivo”.

— “Nasci na grã cidade, à qual assiste
Com suas belas margens o Arno ameno,
96 E o corpo, em que hei crescido, lá persiste.

“Quem sois que da aflição tanto veneno
Na face amargo pranto denuncia?
99 Qual penar tendes de esplendor tão pleno?”

“Tanto chumbo se encobre” — um me dizia —
Destas capas sob o ouro, que oscilamos,
102 Qual balança, que ao peso hesitaria.

“De Bolonha e Godente, nos chamamos
Um Loderigo e o outro Catalano:
105 Juntos ambos Florença governamos,

“Por que ficasse a paz livre de dano.
Em vez de um regedor; do que hemos sido
108 O Gardingo dá prova e desengano”.

“Ó irmãos” — comecei — “o mal nascido...”
Atalhei-me: jazendo um condenado
111 Com puas três em cruz via estendido.

Em vendo-me estorceu-se angustiado.
Altos suspiros arrancou do peito.
114 Catalano acercou-se apressurado.

“Este” — disse — “que geme em duro leito,
Que a um homem dessem morte, aconselhara
117 Aos Fariseus, do povo por proveito.

“Através do caminho é nu, repara:
De quem passa, desta arte, ele conhece
120 O peso, quando por calcá-lo pára.

“Igual martírio o sogro seu padece,
Assim como cada um desse concilio,
123 Semente pra os Judeus de horrenda messe”.

Maravilhar-se então mostrou Virgílio,
Posto em cruz o prescito contemplando
126 Com tanto opróbrio lá no eterno exílio,

Voltou-se a Catalano assim falando:
“Dizei, se assim vos apraz e é permitido,
129 Se à direita há vereda, onde, passando,

Deste recinto vamo-nos temido,
Sem que os anjos perversos obriguemos
132 Caminho a nos mostrar não conhecido”.

Tornou: — “Mais perto do que julgas temos
Rochedo, que, do muro se estendendo,
135 Dá ponte a cada val, em que gememos.

“Este não cobre, outrora se rompendo;
Mas subir podereis pela ruína,
138 Que do declive ao fundo se está vendo”.

Ouvindo, o Guia um pouco a fronte inclina
E diz: — “Bem más explicações nos dava
141 Quem tanto os pecadores amofina”.

Logo o frade: “Em Bolonha me constava
Que o demônio, entre os vícios com que stenta,
144 De ser pai da mentira se ufanava”.

A passo largo o Mestre já se ausenta;
Ira ressumbra o rosto carregado.
Deixa a turba, que em capas se atormenta,

148 As pegadas seguindo-lhe apressado.

 

8. “Mo” e “issa” advérbios que, ambos, significam: agora. — 66. De Frederico etc., em comparação, as capas que Frederico II mandara colocar nos presos eram levíssimas. — 104. Loderigo e Catalano, frades que foram chamados a governar Florença, depois da derrota de Manfredo (1266) e que se aproveitaram da sua posição, causando um motim no qual foi incendiada a casa dos Uberti, perto do Gardingo. — 115. Este etc., Caifás, o sumo sacerdote de Israel, que aconselhou a morte de Jesus. — 121. O sogro seu etc., Anah, sogro de Caifás.


CANTO XXIV

 

Encaminham-se os Poetas pelo rochedo e chegam ao sétimo compartimento no qual estão os ladrões, os quais, picados por serpentes horríveis, inflamam-se e, depois, ressurgem das cinzas. Entre eles Dante reconhece Vanni Fucci, o qual por desafogar o despeito de ser colhido em tal vergonha e miséria, prediz-lhe a derrota dos Brancos.

 

NAQUELA parte do ano incipiente,
Em que as comas do sol se fortalecem
3 No Aquário, e a noite iguala o dia ausente,

Quando as geadas matinais parecem
Da alva irmã figurar a imagem pura,
6 Mas tais feições em breve se esvaecem.

Campino, que a indigência já tortura,
Ergue-se, e vendo o prado embranquecido.
9 No coração calar sente a amargura.

Torna ao tugúrio e carpe-se abatido,
Como quem toda a esp’rança já perdera;
12 Mas vendo em breve o campo estar despido

Do triste manto, o alento recupera.
Revigorado então, corre ao cajado
15 E as ovelhas ao pascigo acelera.

De temor me senti, dessa arte, entrado
Do mestre merencóreo ante o semblante;
18 Mas logo ao mal foi bálsamo aplicado.

À ruína chegamos: nesse instante
Virgílio volve àquele doce gesto,
21 Que eu da colina ao pé vira ofegante.

Reflete um pouco, o estado manifesto
Da rocha examinando: eis-me, estendendo
24 Os braços, resoluto ergueu-me presto.

Como aquele que uma obra entre mãos tendo.
Logo noutra tarefa põe o intento,
27 Num rochedo Virgílio me sustendo,

Já de outro acima me avisava atento.
“Mais alto agora sobe” — me dizia —
30 “Vê se a rocha está firme! Toma tento!”

De capa ali ninguém transitaria;
Pois nós, leves e eu sempre transportado,
33 Subíamos a custo a penedia.

Se mais alto o declive do outro lado
Não fora do que esse outro, em que ora estamos,
36 — Dele não sei — ficara eu lá prostrado.

Que Malebolge inclina-se notamos
À boca enorme do profundo poço;
39 As encostas, são tais — expr’imentamos —

Que uma é baixa, outra excelsa em cada fosso.
Vimos, enfim, do topo à roca extrema,
42 Dessa ruína ao último destroço.

Lá chegado, afã tanto o peito prema,
Que avante um passo dar eu mais não pude;
45 Sentei-me então na inanição suprema.

“Eia! toda a fraqueza em ti se mude!
Em ócio” — disse o Mestre — “ou sobre a pluma
48 Prêmios ninguém conquista da virtude.

“Aquele que a existência assim consuma,
Tal vestígio de si deixa na terra,
51 Como o fumo no ar e na água a espuma.

“Ergue-te, pois! Torpor de ti desterra!
Recobra o esforço que os perigos vence!
54 Impere alma no corpo em que se encerra!

“Que vais subir muito alto a mente pense;
Desse abismo não basta haver saído.
57 Será teu prol, se a minha voz convence”.

Alço-me então, mostrando-me impelido
De alento, que não tinha; e ao Mestre digo:
60 “Avante! Forte já me sinto e ardido!”

Pela rocha asperíssima prossigo
Mais estreita, inda menos acessível
63 Que a outra: os passos de Virgílio sigo.

Por provar-me às fadigas insensível
Falando andava. Eis ouço de outra cava
66 Ressoar voz bem pouco perceptível.

O que disse não sei, posto me achava
Da ponte sobre a parte culminante;
69 Mais parecia iroso quem falava.

Curvei-me para ver no fosso hiante,
Mas alcançar não pude o fundo escuro.
72 Ao Mestre disse então. “Se apraz-te, avante

Passando, desceremos deste muro;
Daqui ouço uma voz, mas não a entendo;
75 Fito os olhos, mas nada me afiguro”.

“Respondo aos teus desejos, acedendo;
Que o pedido discreto assim declaro
78 Se cumpre, não falando, mas fazendo”.

Fomos da ponte à parte, donde é claro
Que se vai ter à ribanceira oitava:
81 Ficou patente a cava ao meu reparo.

De serpes tal cardume se enroscava,
Horríficas na infinda variedade,
84 Que ao sangue, inda ao lembrar, terror me trava.

Não tenha a Líbia de criar vaidade,
De quersos, fares, cencris no seu seio
87 E anfisbenas, tamanha quantidade.

Nem do mar Roxo* em plagas, nem no meio
Da Etiópia, tropel tão pavoroso
90 De flagelos jamais a lume veio:

Por entre o enxame atroce e temeroso
Almas corriam nuas e transidas,
93 Heliotrópia não sperando ou pouso.

Atrás as mãos por serpes são tolhidas,
Que, transpassando os rins, cauda e cabeça,
96 Lhes tinham por diante em laços unidas.

Eis uma de repente se arremessa
Ao prescito, que perto nos demora:
99 Morde-lhe o colo aonde a espádua cessa.

Um O traçar ou I mais custa agora
Do que ser o mesquinho incendiado:
102 Em cinzas cai o pecador, que chora.

Stando em terra desta arte derribado,
Juntando-se a cinza e logo reformou-se,
105 Como de antes, o triste condenado.

Dos sábios na escritura já narrou-se
Que a Fênix morre e logo após renasce,
108 Quando aos anos quinhentos acercou-se.

Viva, já nunca em cibo ela se pasce,
Em lágrimas, porém, de incenso e amono;
111 De nardo e mirra em ninho extremo apraz-se.

Como aquele que cai sem saber como,
Do demônio ao poder, que à terra o tira,
114 Ou de outra opilação sentindo o assomo;

Levantando-se, em torno a si remira,
Da angústia inda aturdido, que o mordera,
117 E, em seu soçobro, pávido suspira:

Assim parece o pecador, que ardera.
Contra os pecados na final vingança,
120 Ó Justiça de Deus, quanto és severa!

Quem fora inquire o Mestre, e dele alcança
Estas vozes: — “Há pouco, da Toscana
123 Chovi no abismo, onde ninguém descansa.

“Vida brutal vivi, não vida humana.
Chamei-me Vanni Fucci, híbrida besta;
126 Pistóia, meu covil, de mim se ufana”.

Ao Mestre eu disse: — “Referir-nos resta
O crime, que deu causa à morte sua:
129 Sei que em sangue banhara a mão funesta”.

O pecador, que me ouve, não se amua:
Volta-me presto a cara, em que a tristeza
132 Com sinais de vergonha se insinua

E diz: — “Sinto da dor mais a aspereza,
Porque em miséria tanta me vês posto,
135 Do que quando da morte hei sido a presa.

“Ao que exiges respondo com desgosto:
Por ter roubado alfaias e ornamento
138 Da igreja, aqui estou, sendo meu gosto

“Que pelo crime houvesse outro tormento.
Se deste antro saíres algum dia,
141 Por que não sejas do meu mal contento,

“Ouve bem o que a voz minha anuncia:
De si Pistóia os Negros expulsando,
144 Povo, modos, Florença então cambia.

“Vapor de Val de Magra Marte alçando,
O traz em torvas nuvens envolvido;
147 E, enquanto a tempestade está raivando,

“No campo de Picen será ferido
Combate; a névoa logo se esvaece;
Dos Brancos cada qual será batido.

151 “Sabe-o, pois: certo, a nova te entristece”.

 

125. Vanni Fucci, ribaldo que roubou o tesouro de S. Jacopo em Pistóía. — 143-150. De si Pistóia etc., Vanni Fucci sabendo que Dante era do partido dos Brancos, lhe prediz que os Brancos serão exilados de Florença e, depois, derrotados em Campopiano.
* NE: Roxo na fonte digitalizada. No original italiano, Mar Rosso [che sopra al Mar Rosso] (Mar Vermelho) – Traduzido por Roxo para efeito de métrica?


CANTO XXV

 

Vanni Fucci depois das negras predições desafia a Deus, pelo que o centauro Caco, todo coberto de serpentes, lhe corre atrás. Dante reconhece entre os danados alguns florentinos que, em Florença, desempenharam funções importantes, aproveitando-se dos dinheiros públicos e descreve suas transformações de homens em serpentes e vice-versa.

 

ASSIM dizia o roubador e, alçando
Ambas as mãos, que figuravam figas:
3 “Toma, ó Deus” exclamou “o que eu te mando”.

Serpes me foram desde então amigas:
Porque logo uma ao colo se enroscava,
6 Como a dizer: — “Não quero que prossigas!”

Tolhendo-lhe outra os braços, se enlaçava
Diante sobre o peito, e o movimento
9 Com rebatido vínculo atalhava.

Ah! Pistóia! ah! Pistóia! o incendimento
Teu decreto, extinguido nome impuro,
12 Pois dás da extirpe tua ao vício aumento!

Tão soberbo não vi no abismo escuro,
Contra Deus outro esp’rito; nem o ousado,
15 Que de Tebas caiu morto do muro.

Sem mais dizer fugira o condenado.
Eis rábido centauro vi correndo
18 A gritar: — “onde está o celerado?”

Nem tem Marema de répteis horrendo
Bando igual ao que o dorso carregava
21 Té onde a humana forma está-se vendo.

Na espádua, abaixo da cerviz pousava,
As asas estendendo, atroce drago,
24 Que fogo a quanto encontra arrevessava.

“É Caco” — o Mestre diz — “que a imane estrago
Afeito do Aventino se aprazia,
27 Sob as penhas, de sangue em fazer lago.

“Dos seus irmãos não segue a companhia,
Por haver depredado, fraudulento,
30 Armentio, que próximo pascia.

“Tiveram fim seus crimes: golpes cento
Sobre ele desfechou de Alcide a clava:
33 Aos dez perdera já a vida o alento”. —

Foi-se o centauro enquanto assim falava.
Abaixo eis três espíritos chegando,
36 Nos quais nenhum de nós inda atentava,

“Quem sois?” — romperam súbito bradando.
A Narração então suspende o Guia;
39 E só deles curamos, escutando.

Nenhum dessa companha eu conhecia;
Mas então, como às vezes acontece,
42 Um, chamando por outro, assim dizia:

“Onde é Cianfa, que assim desaparece?”
Dedo nos lábios fiz nesse momento
45 A Virgílio sinal, por que atendesse.

Em crer o que eu contar se fores lento,
Não há de ser, leitor, para estranhado;
48 Quase o que eu vi descrê meu pensamento.

Quando eu dos três a vista era engolfado,
Sobre seis pés se via uma serpente
51 Contra um deles e o tem todo enlaçado.

Abraçam-lhe os do meio rijamente
O ventre; aos braços aos de cima rendem,
54 Ambas as faces morde-lhe furente.

Os de baixo nas coxas já se estendem,
Interpondo-se a cauda, que, subindo
57 Por detrás, voltas dá que os rins lhe prendem.

Hera, de árvores os ramos recingindo.
Não os enleia tanto, como a fera
60 Alheios membros ao seu corpo unindo.

Fundiram-se depois, de quente cera
Com feitos; travando as suas cores,
63 Um nem outro parece o que antes era:

Como em papel, do fogo ante os ardores
Procede escura cor; inda não sendo
66 Negro, vão fenecendo os seus albores.

Os dois, a maravilha percebendo,
Gritavam-lhe: — “Ai! Agnel, quanto hás mudado!
69 Um já não és mas dois ser não podendo!”

Numa cabeça as duas se hão tornado;
Confundidos estavam dois semblantes
72 Num rosto, em que se haviam misturado.

São dois os braços, que eram quatro de antes,
Foram coxas e pernas, ventre e peito
75 Membros, que nunca hão tido semelhantes.

Perdeu-se assim todo o primeiro aspeito;
Seres dois e nenhum nessa figura
78 Se via; e o montro foi-se a passo estreito.

Quando o fervor canicular se apura,
Cruza o lagarto, como o raio, a estrada,
81 E uma mouta deixando, outra procura.

Tal menor serpe, lívida, inflamada.
Negrejando, qual bago de pimenta,
84 Aos outros dois se arroja acelerada.

E na parte, por onde se alimenta
Primeiro a vida nossa, um dos dois fere
87 E ante ele tomba em queda violenta.

Olha o ferido, mas nem voz profere;
E sobre os pés imóvel bocejava,
90 Como quem sono prenda ou febre onere.

Fitava olhos na serpe, e esta o encarava;
A chaga de um eu via, do outro a boca
93 Fumegar; e o seu fumo se encontrava.

Emudeça Lucano, quando toca
Em Sabelo infeliz mais em Nascídio.
96 Escute: mor portento ora se evoca.

De Cadmo e Aretusa cale Ovídio:
Se fonte a esta, àquela fez serpente,
99 Não o invejo: aqui há pior excídio,

Não converteu dois seres frente a frente,
Tanto que permutasse formas duas
102 Sua própria matéria de repente.

Desta sorte compõem-se as partes suas:
A cauda à serpe fende-se em forquilha,
105 Cerra o ferido em uma as plantas nuas.

Tal prisão coxas, pernas envencilha
Que em breve nem vestígio há de juntura,
108 Sinal, ou numa ou noutra, de partilha.

Fendida a cauda assume essa figura
Que perde o homem; numa é tão macia
111 A pele, quanto noutro fez-se dura.

Entrar os braços nas axilas via;
Tanto estendia os curtos pés a fera,
114 Quanto o outro os seus braços encolhia.

Os pés o drago extremos retorcera,
Na parte, que se esconde, se mudando,
117 Que em duas no mesquinho se fendera.

Enquanto o fumo os dois ia velando
De nova cor e a serpe o pêlo empresta,
120 Que em todo perde o pecador nefando,

Ergue-se um, cai o outro e no chão resta,
Os ímpios olhos sem torcer, que viram
123 Dos gestos seus a conversão funesta.

Ao que era em pé às frontes lhe subiram
Do rosto as sobras: cada face afeita
126 Uma orelha, de duas, que saíram.

Quanto de mais ficara então se ajeita,
O nariz conformando-lhe na cara
129 E de lábios lhe ornando a boca estreita,

A beiça o que jazia dilatara;
Qual caramujo, que as antenas cerra,
132 À cabeça as orelhas retirara.

A língua unida e no falar não perra
Partiu-se, enquanto a do outro, forquilhada,
135 Uniu-se; o fumo desde então se encerra.

Essa alma, que em réptil era mudada,
Pelo vale arremete sibilando,
138 Falando, a outra escarra e a segue irada.

Depois, seu novo dorso lhe voltando,
Disse à terceira sombra: “Corra o Buoso,
141 Como eu, por esta senda rastejando”.

Assim vi no antro sétimo espantoso
Mútuas transformações: tanta estranheza
144 Desculpe o canto rude e descuidoso.

Posto empanar dos olhos a clareza
E entrar o assombro no ânimo eu sentisse,
147 Não fugiram com tanta sutileza,

Nem tão prestes que eu bem não discernisse
Puccio Sciancato, que dos três somente
Fora o que transmudado se não visse,

151 Deu-te o outro, Gavili, dor pungente.

 

14. Nem o ousado etc., Capaneu, V. Inf. XIV. — 25. Caco, ladrão, ao roubar o rebanho de Hércules, para despistar, puxou as ovelhas pela cauda. — 43. Cianfa dei Donati, ladrão florentino que veremos transformado em serpente. — 68. Agnel, Agnello Brunelleschi, ladrão florentino. — 95. Sabelo e Nascidio, personagens dos “Farsálias” de Lucano que, mordidos por cobras, mudam de aspecto. — 97. Cádmio e Aretusa, personagens das “Metamorfoses” de Ovídio que se transformam o primeiro em serpente e o segundo numa fonte. — 149. Puccio Scianeato, ladrão florentino.


CANTO XXVI

 

Chegando os Poetas ao oitavo compartimento, distinguem infinitas chamas, dentro das quais são punidos os maus conselheiros. Numa chama bipartida estão Diômedes e Ulisses. Este último, a pedido de Dante, narra a sua última navegação, na qual perdeu a vida com os seus companheiros.

 

FOLGA, ó Florença! A fama tens tão grande,
Que asas bates por terra e mar, vaidosa!
3 Até no inferno o nome teu se expande!

Entre os ladrões, ó cousa vergonhosa!
Principais cinco achei, que em ti nasceram:
6 Serás por honra tal, vangloriosa?

Se os veros sonhos por manhã se geram,
Em breve hás de sentir o que os de Prato,
9 Quanto mais outros, por teu dano esperam.

Presto que venha, será tarde o fato;
Se o mal tem de ferir, fira apressado:
12 Mais velho me há de ser mais grave e ingrato.

Partimos: do rochedo alcantilado
Os degraus, em que havíamos descido,
15 Sobe o Mestre e por ele eu fui levado.

Em nosso ermo caminho e desabrido
Prosseguimos por entre agras fraguras,
18 Pelas mãos sendo o pé favorecido.

Inda nalma exacerbam-se amarguras,
Do que hei visto lembranças avivando;
21 E, quanto posso, o coração nas puras

Veredas da virtude vou guiando,
Por que o bem, por bom astro ou Deus doado,
24 Eu próprio não converta em mal nefando.

O rústico, no outeiro reclinado,
Na estação, em que o sol o mundo aclara,
27 Mais lhe mostrando o seu semblante amado,

Já quando a mosca o sucessor depara,
Pririlampos não vê tão numerosos
30 No vale, onde vindima, ou ceifa ou ara,

Quando, no fosso oitavo, os temerosos
Fogos, que avisto, dos que, ao cimo alçado,
33 Fito no fundo os olhos curiosos.

Como aquele que de ursos foi vingado,
Quando voou de Elia o carro ardente,
36 Ao céu por frisões ígneos transportado,

Seguiu c’a vista o lume, que somente
Dos ares na extensão aparecia,
39 Qual nuvens se elevando velozmente;

Assim naquele abismo se agitando
As flamas via; em cada qual estava
42 Uma alma, em seus fulgores se ocultando.

Para ver, lá da ponte, me inclinava:
Se amparado da rocha eu não stivesse,
45 Tombara ao fundo dessa hiante cava.

O Mestre, ao ver que a mente se embevece,
“Em cada fogo” — diz-me — “um condenado,
48 Como em hábito, envolto, arde e padece”.

“Sou, te ouvindo” — tornei — “certificado
Do que era, há pouco, em mim simples suspeita.
51 Pretendia inquirir, maravilhado,

Que significa o fogo, que endireita
A nós, e se partindo, iguala a pira,
54 Para imigos irmãos outrora feita”.

— “Estão lá dentro dessa flama dira
Diômedes e Ulisses: em castigo
57 Sócios são, como outrora hão sido em ira.

“Lá dentro geme o pérfido inimigo,
Inventor do cavalo, que foi porta,
60 Por onde a Roma veio o início antigo;

“Chora-se a fraude, que Deidamia morta,
Ainda exprobra a Aquiles, ressentida;
63 Pelo Paládio a pena se suporta”.

“Se à labareda, ó Mestre, é permitida
A fala” — eu disse — “te suplico e rogo
66 Com instância, mil vezes repetida,

“Aguardar me concedas esse fogo,
Que, bipartido para nós caminha.
69 Vês meu anelo: ah! dá-lhe o desafogo!”

“Merece toda a complacência minha
Teu rogo: eu de bom grado o atendo e aceito.
72 Mas cala-te; que hás de ser contente asinha.

“Falar me deixa; sei qual teu conceito,
Talvez que desses Gregos na alma esquiva
75 Produza o teu dizer ingrato efeito”.

Propínqua estando a nós a flama viva,
E, asado ao Mestre, parecendo o ensejo,
78 Nesta linguagem disse persuasiva:

“Ó vós, que nesse fogo eu juntos vejo,
Se por serviços meus, quando vivia,
81 Revelei de aprazer-vos o desejo,

“Nos sonoros versos que escrevia,
Detende-vos: benévolo um nos diga
84 Onde viu fenecer o extremo dia”.

A parte superior da flama antiga
A tremular começa murmurando,
87 Como a que o vento lhe assoprando instiga.

E a um lado e a outro o cimo meneando,
Como se língua fora, que falasse,
90 Estas vozes profere, e diz-nos: “Quando

“De Circe a encantos me esquivei fugace,
Em que um ano passei junto a Gaeta,
93 Antes que assim Enéias a chamasse,

“A saudade do filho, a mui dileta
Velhice de meu pai, de alta consorte
96 Santo amor, em que ardia sempre inquieta,

“Não dominaram esse anelo forte
Que me impulsava a ser do mundo esperto,
99 Das manhas das nações, da humana sorte.

“Lancei-me às vagas do alto mar aberto;
Sobre um só lenho me seguiu companha
102 De poucos, mas de afouto peito e certo.

“As ondas perlustrando, hei visto a Espanha,
Marrocos, logo a ínsula dos Sardos
105 E as outras que o cerúleo pego banha.

“Já da velhice nos sentidos tardos,
Alfim chegamos ao famoso estreito,
108 Onde Alcides aos nautas pôs resguardos,

“Que devem respeitar por seu proveito.
Deixei Septa, que jaz ao esquerdo lado,
111 E Sevilha, que ao lado está direito.

“Perigos mil vencendo e avesso fado”
Lhes disse — “irmãos, chegastes ao Ponente!
114 Da existência este resto, já minguado,

“Razão não seja, que vos tolha a mente
De além do sol, tentar nobre aventura,
117 E o mundo ver, que jaz órfão de gente.

“Da vossa raça refleti na altura!
Viver quais brutos veda-o vossa origem!
120 De glória vos impele ambição pura!

“Com tanto esforço os ânimos se erigem,
Falar me ouvindo assim, que ir por diante
123 De entusiasmo sôfregos, exigem.

“Já, com popa ao Nascente flamejante,
Asas os remos são na empresa ousada,
126 E o lenho sempre à esquerda voga avante.

“Já do outro polo a noite levantada,
Via os astros brilhar: o nosso, entanto,
129 Na planície imergia-se salgada:

“Cinco vezes a luz do etéreo manto
A lua difundira e após minguara,
132 Depois que arrosto do oceano o espanto,

“Quando imensa montanha se depara:
Envolta em cerração, longe aparece;
135 Na altiveza outra igual nunca avistara.

“O prazer nosso em pranto se esvaece:
Da nova terra eis súbito irrompendo
138 Contra o lenho um tufão medonho cresce.

“Vezes três em voragens o torcendo,
A quarta a popa levantou-lhe ao alto,
E a proa, ao querer de outrem, foi descendo”.

142 Cerrou-se o pego sobre nós de salto.

 

8. Prato, pequena cidade perto de Florença. — 56. Diômedes e Ulisses, heróis gregos que combateram juntos no assédio de Tróia. — 58-63. O Poeta lembra três façanhas astuciosas de Ulisses: o cavalo de madeira para enganar os troianos; a descoberta de Aquiles disfarçado em mulher entre os companheiros de Deidâmia; e o roubo de uma estátua de Palas que tornava Tróia inexpugnável. — 92. Gaeta, Enéias ao fundar a cidade de Gaeta deu-lhe o nome de sua nutriz. — 107. Famoso estreito, Gibraltar, cujos montes (as colunas de Hércules) eram considerados como aviso para que não se passasse além.


CANTO XXVII

 

Outro danado, entra a falar com Dante. É Guido de Montefeltro, o qual pede notícias da Romanha sua terra natal. Conta, depois, que foi condenado por causa de um mau conselho que, fiado na prévia absolvição, dera ao papa Bonifácio VIII.

 

A FLAMA já se erguia e estava quieta,
Não mais falando, e já se retirava
3 Com permissão do meu gentil Poeta,

Quando outra, que de perto caminhava,
Pelos confusos sons, que desprendia,
6 Olhar nos fez seu cimo, que oscilava.

Como o sículo touro, que mugia
A vez primeira, o pranto ressoando
9 Do inventor, que seu prêmio recebia;

Berrava pela voz do miserando,
Na brônzea forma, em dor tanto pungente,
12 Que parecia vivo estar penando:

Assim se convertia o som plangente
De flama no rumor, lhe falecendo
15 Caminho, em que irrompesse prontamente.

Mais se exalar pelo ápice em podendo
Dar-lhe impulso por ter já conseguido
18 Desse mesquinho a língua, se movendo,

“Tu, a quem me dirijo” — hemos ouvido —
“Que, inda há pouco, dizias em lombardo:
21 Podes ir, tens assaz já respondido.

“Posto em chegar um tanto eu fosse tardo,
De ouvir-me não despraza-te a demora;
24 Bem vês, me não despraz: entanto eu ardo.

“Se a este abismo tenebroso agora
Tombas saudoso dessa doce terra
27 Latina, onde hei pecado tanto outrora,

“Se os Romanhóis têm paz, dize-me, se guerra,
Pois eu fui lá dos montes, entre Urbino
30 E essa, origem do Tibre, altiva serra”.

Para escutar atento a fronte inclino.
Eis, tocando-me a um lado, diz meu Guia:
33 “Podes ora falar, que este é Latino”.

Eu, que já prestes a resposta havia,
Tornei ao pecador incontinente:
36 “Alma, que o fogo assim veste e crucia,

“Tua Romanha em guerra permanente
Sempre é no coração dos seus tiranos.
39 Porém nenhuma agora tem patente.

“Hoje é Ravena o que era, há longos anos,
De Polenta a águia forte ali se aninha;
42 Com largas asas cobre à Cérvia os planos.

“A terra, que no tardo assédio tinha
Pelo sangue francês sido inundada
45 Sob verde leão, sofre mesquinha.

“Dos Mastins de Verruchio a subjugada
Gente os dentes cruéis inda sentia:
48 Morte a Montagna deram desapiedada.

“Em Lamone, em Santerno inda regia
Do alvo ninho o leão, se convertendo
51 De um pra outro partido cada dia.

“A cidade que o Sávio banha, sendo
Entre o plaino e a montanha, em liberdade
54 Ou vive ou sob o jugo vai sofrendo.

“Ora nos diz quem foste na verdade;
Condescendente sê, como hemos sido:
57 No mundo haja o teu nome longa idade”.

O fogo rumoreja e comovido
De um lado a outro a ponta aguda agita;
60 Depois emite a voz neste sentido:

“Se esta resposta minha fosse dita
A quem do mundo à luz daqui voltasse,
63 Queda ficara a minha língua aflita.

“Mas como é certo que jamais tornasse
Quem no inferno caiu, se não me engano,
66 De falar não hei medo, que embarace,

“Homem de armas, depois fui Franciscano,
Crendo pelo cordão ser emendado;
69 Por crê-lo certo, me esquivara ao dano,

“Se o Papa (todo o mal seja-lhe dado!)
Não me volvesse à primitiva estrada.
72 Como e por que te fique declarado.

“Enquanto a humana forma era habitada
Por mim, não provei ser leão por feitos,
75 Mas raposa, por astúcia abalizada.

“Estratégia sutil, ardis perfeitos
Tantos soube, que os âmbitos da terra
78 Eram à fama de meu nome estreitos.

“Da existência na quadra, em que muito erra
Quem, de surgir no porto esperançado,
81 Nem colhe os cabos nem as velas ferra,

“Odiei quanto houvera mais amado
E humilhei-me confesso e arrependido...
84 E o perdão, ai de mim! fora alcançado...

“Dos novos Fariseus Príncipe infido,
Em Latrão guerra crua declara:
87 Não contra Mouro, nem Judeu descrido,

“Contra cristãos as iras ateara;
Nenhum traidor contra Acre combatera
90 Ou do Soldão na terra traficara.

“Sacras ordens em si não considera,
Nem cargo excelso, em mim o da humildade
93 Cordão, que os penitentes seus macera.

“Como foi de Sirati à soledade
Constantino a Silvestre pedir cura
96 Da lepra: assim também à enfermidade

“De seu febril orgulho este procura
Remédio em meu conselho. Escrupuloso
99 Calei-me: de ébrio vi nele a loucura.

“Fala — insistiu — não sejas temeroso!
Absolto és desde já, se Palestrino
102 A vencer me ensinares ardiloso.

“Eu abro e fecho o céu: poder divino
As duas chaves têm, a que há negado
105 O meu antecessor preço condi’no.

“Já destas razões graves abalado,
Pior partido no silêncio vendo,
108 Lhe tornei: — Padre Santo, se o pecado,

“Em que ora vou cair, stás-me absolvendo,
Darás ao sólio teu glória e conforto
111 Prometendo demais, pouco fazendo.

“Francisco me acudiu, quando fui morto;
Mas clamou anjo negro apressurado:
114 — Não mo tomes; assim me causas torto!

“Lugar foi-lhe entre os meus assinalado:
Dês que há dado o conselho fementido,
117 Ficou pelos cabelos agarrado.

“Perdão só tem quem geme arrependido;
Pecado à penitência não se amanha,
120 Não pode aquele andar a esta unido.

“Ai! qual foi meu pavor, quando, com sanha
Empolgando-me, disse: — Creste acaso
123 Que me falta de lógico arte e manha?

“A Minos me arrastou, que sem mais prazo,
Da cauda em voltas oito o dorso enreda,
126 Raivoso morde-a e diz: — É neste caso

“Que aos maus prisão se dá na labareda.
Assim onde me vês, fiquei perdido,
129 Vou chorando, em tais vestes, minha queda”.

Tendo, pois, desta sorte concluído,
Aquela flama se partiu gemendo
132 E agitando o seu vórtice estorcido.

Eu e Virgílio, então, seguido havendo
Pelo rochedo, ao arco nós subimos,
Que o nono fosso cobre, onde sofrendo

136 Os que cizânia semearam vimos.

 

7. Sículo touro, o touro de bronze de que Falarides, tirano de Agrigento, se servia para queimar os seus inimigos. — 29. Fui lá dos montes etc., Guido de Montefeltro, que, depois de valoroso guerreiro, fez-se franciscano. — 41. De Polenta a águia forte etc., a família de Polenta, que tinha uma águia por emblema, dominou Ravena e Cérvia. — 46. Mastinos de Verruchio, Malatesta e Malatestino de Verruchio, senhores de Rímini. — 48. Montagna, prisioneiro guelfo que Malatestino mandou matar. — 49 Lamone e Santerno, as cidades de Faenza e Imola. — 52. A cidade etc. Cesena. — 70. O papa, Bonifácio VIII. — 86. Em Latrão etc., os Colonenses moravam perto da igreja de S. João em Latrão. — 89. Contra Acre, que os Sarracenos tomaram aos cristãos em 1291. — 94. Como foi de Sirati etc., conforme uma lenda Constantino foi curado da lepra por São Silvestre, que morava numa gruta do monte Sirati. — 102. Palestrina, onde os Colonenses se tinham retirado. — 105. O meu antecessor, Celestino V.

 


CANTO XXVIII

 

No nono compartimento os Poetas encontram os semeadores de cismas e escândalos civis e religiosos. Dante vê Maomé, que o encarrega de uma embaixada para o herege rei Dolcino; fala também com outros danados.

 

DIZER o sangue e as chagas espantosas,
Que eu vi neste lugar, quem poderia,
3 Em livre prosa e em vezes numerosas?

Nenhuma língua, certo, bastaria;
Fraca a palavra, inábil nossa mente
6 Para horror tanto compreender seria.

Quando junta estivesse toda gente,
Que lá da Apúlia na infelice terra,
9 Perdera o sangue seu na luta ingente

Dos romanos por mãos; e em crua guerra
A que tantos de anéis deixou vencida,
12 Como refere Lívio, que não erra;

E a que fora por golpes abatida,
Quando a Roberto Guiscardo resistia;
15 E a que tem sua ossada inda espargida

De Ceperan no campo, onde traía
Cada Apulhês; e que no Tagliacozzo
18 O Velho Alard sem combater vencia:

Das feridas o aspecto lastimoso
Não fora, qual no fosso nono imundo
21 Apresentava o bando criminoso.

Qual tonel, que aduelas perde ao fundo,
Estava um pecador, que roto eu via
24 Das fauces ao lugar que é menos mundo.

As entranhas pendiam-lhe; trazia
Patentes os pulmões e o saco feio,
27 Onde o alimento de feição varia.

A contemplá-lo estava de horror cheio,
Eis me encara e me diz, abrindo o peito:
30 “Vê como eu tenho lacerado o seio!

“Mafoma sou, quase pedaços feito;
Antecede-me Ali, que se lamenta:
33 Do mento à testa o rosto lhe é desfeito.

“Todos, que a dor aqui tanto atormenta,
De escândalos, de cismas inventores,
36 Pendidos têm, qual vês, pena cruenta.

“Demônio deixo atrás que os pecadores
Aos fios passa de cruel espada.
39 Da multidão nenhum aos seus furores

“No giro escapa da afrontosa estrada.
Cerrar-se em todo cada golpe horrendo
42 Antes que torne a olhar-lhe a face irada.

“Mas quem és, que, na rocha te detendo,
Estás dessa arte a dilatar a pena,
45 Que Minos te aplicou, teus crimes vendo?”

— “Não é morto; sentença o não condena” —
Torna o Mestre — “não vem por seu castigo,
48 Mas, para ter experiência plena.

“Descendo ao mais profundo vai comigo,
Que morto sou, dos círculos temidos:
51 Tão certo é como falo ora contigo”.

Ouvindo mais de cento dos punidos,
De espanto a me encarar se demoraram,
54 Dos seus próprios tormentos esquecidos.

— “A Frei Dolcino diz, pois não findaram
Teus dias e hás de ao sol tornar em breve,
57 Se desejos de ver-me o não tomaram,

“Que se aperceba; pois, cercando-o, a neve
Dará triunfo à gente de Novara,
60 A quem vencê-lo assim há de ser leve”.

Para partir um pé Mafoma alçara
Ao tempo, em que palavras tais dizia:
63 Baixou-o e foi-se, apenas rematara.

De guela golpeada outro acorria;
Té as celhas nariz tendo truncado,
66 Uma orelha somente possuía.

Como os mais, contemplando-me pasmado,
Aos mais se antecipou e, escancarando
69 O canal, que de sangue era inundado,

“Ó tu” — falou-me — “que não stás penando,
Que outrora hei visto em região latina,
72 Se eu não erro, aparências aceitando,

“Recorda-te de Pier de Medicina
Se tornar-te for dado ao belo plano,
75 Que de Vercello a Marcabó se inclina.

“E aos dois nobres varões dize de Fano,
Misser Angiolello e Misser Guido,
78 Se o futuro antevendo, eu não me engano,

“Que do baixel, que os haja conduzido,
De Católica ao pé, ao mar lançados
81 Serão por ordem de um tirano infido.

“Por Gregos, por piratas perpetrados,
Entre Chipre e Maiorca ao infame feito
84 Não viu Netuno crimes igualados.

“O traidor, que de um olho tem defeito,
Dessa terra opressor, que um companheiro
87 Meu tivera em não vê-la mor proveito,

“Irão a seu convite prazenteiro
Para acordo; mas votos de Foscara
90 Não fará por temer vento ponteiro”.

“Revela-me” tornei-lhe — “e me declara,
Desse favor, que deprecaste, em troca,
93 Quem de ver essa terra se pesara”.

As mãos de um pecador alçando à boca,
Escancarou-a e disse-me gritando:
96 — “É este; a voz, porém, se lhe sufoca.

“Exulado, ele foi quem, dissipando
Hesitações de César, lhe afirmava
99 Que a ocasião perdia demorando”.

Oh! quão pávido Cúrio se mostrava,
Tendo cortada a língua na garganta,
102 Que outrora tanta audácia aconselhava!

Dos decepados braços alevanta
Outro os cotos ao ar caliginoso:
105 Banha-lhe o sangue a face, que me espanta.

Gritou: — “Memora Mosca desditoso!
Fui quem disse: — O seu fim tem cousa feita!
108 Fatal dito, à Toscana, ai! bem danoso!”

“E à tua raça, que à morte foi sujeita!”
Atalhei. Sobre a dor, dor se acendendo
111 Em desesp’rança se partiu desfeita.

Aquela multidão stava atendendo,
Cousa assombrosa eis vejo, que inda hesito
114 Em narrar, provas outras eu não tendo.

Da consciência já me alenta o grito,
Sócia fiel, que o homem torna forte,
117 Sob o arnês da verdade, sempre invicto.

Eu via, e cuido ver na mesma sorte
Apropinquar-se um corpo sem cabeça,
120 Por entre os outros da infeliz coorte,

Caminha, alçando-a pela coma espessa,
Da mão pendente a modo de lanterna:
123 Gemendo, os olhos seus nos endereça.

Servia ele a si próprio de luzerna,
Eram duas em um, era um em duas:
126 Como ser pode, sabe o que governa.

Chegado ao pé da ponte, das mãos suas
Um ao alto a cabeça levantava
129 Para lhe ouvirmos as palavras cruas.

“Vê meu duro castigo!” — assim falava —
“Tu, que os mortos visitas, sendo em vida:
132 Outro já viste igual ao que me agrava?

“Eu sou — faz minha história conhecida,
Voltando à luz — Bertran de Born, que há dado
135 Ao jovem Rei consulta, em mal tecida.

“Pai e filho inimigos hei tornado:
As iras de Absalão mais não movera.
138 Contra Davi Aquitofel malvado.

“Laços tais como eu, pérfido, rompera,
Meu cérebro assim levo desunido
Desse princípio, que no corpo impera:

142 Por lei sou, pois, de talião punido”.

 

14. Roberto Guiscardo, combatendo contra os Sarracenos, conquistou o reino de Nápoles. — 15. De Ceperan, onde Manfredo foi derrotado por Carlos d’Anjou. — 17. Tagliacozzo, onde morreu Corradino. — 31. Mafoma, Maomé, fundador do Islamismo. — 32. Ali, parente de Maomé. — 55. Frei Dulcino, cismático, pertencente à seita dos Irmãos Apostólicos. — 73. Pier de Medicina, por dinheiro fomentou a discórdia entre os senhores da Romanha. — 76-90. E aos dois etc., Pier de Medicina prediz a morte violenta de Messer Guido del Cassero e de Messer Angiolello de Carignano. — 106. Mosca dei Lamberti, induziu à matança de Buondelmonte dei Buondelmonti, dando inicio à luta em Florença entre guelfos e gibelinos. — 134. Bertran de Born, poeta e guerreiro francês, infiltrou a discórdia entre o rei Henrique II da Inglaterra e seu filho. — 137-38. As iras de Absalão, Arquitofel induziu Absalão a rebelar-se contra o seu pai, o rei Davi.


CANTO XXIX

 

Chegando ao décimo compartimento, os Poetas ouvem os lamentações dos falsários, que aí são punidos com úlceras fétidas e enfermidades nauseantes. Em primeiro lugar estão os alquimistas, entre os quais Griffolino e Capocchio.

 

MEUS olhos tanto inebriado haviam
A turba enorme e o seu cruel tormento,
3 Que alívio em pranto procurar queriam.

“Por que assim” — diz Virgílio — “estás atento?
Por que a vista dos tristes mutilados
6 Prende-te ainda o duro sofrimento?

“Tal não fizeste em antros já passados.
Estão, se os resenhar é tenção tua,
9 Por milhas vinte e duas derramados.

“Já sob os nossos pés evolve a lua;
É-nos escasso o tempo concedido:
12 O que ainda hás de ver detença exclua”.

“Talvez se houveras” — torno — “conseguido
Ver o motivo, por que eu tanto olhava,
15 Mais demora tivesses permitido”.

Já se partia; e eu logo caminhava,
Enquanto assim falava-lhe em resposta,
18 Acrescentando: “Lá, naquela cava,

“Onde a vista cuidosa estava posta,
Da stirpe minha um spírito carpia
21 Por culpa, a que mor pena está disposta”.

“Não te confranjas mais” — responde o Guia —
“Nos males, que padece, cogitando.
24 De aí cuida; estar nesse antro merecia.

“Ao pé da ponte o vi, que, te indicando,
O dedo alçava em cominante gesto:
27 Geri del Bello estavam-no chamando.

“Eras absorto no semblante mesto
Daquele que senhor foi de Altaforte:
30 Quando atentaste, se ausentara presto”.

“Ó Mestre” — eu disse — “a violenta morte
Que ainda não punia justa vingança
33 De quem naquela afronta era consorte,

“Deu causa a usar, ao ver-me, essa esquivança
Talvez e ao seu silêncio: assim pensando
36 Maior piedade do seu mal me alcança”.

Ao rochedo chegamos praticando,
Donde outro vai divisa-se: o seu fundo
39 Todo se vira, a luz não lhe faltando.

Subidos do final claustro profundo
De Malebolge à ponte, onde os conversos
42 Já distinguia do recinto imundo.

Lamentos e ais feriram-me diversos;
De mágua tanta o peito assetearam,
45 Que os ouvidos tapei aos sons adversos.

Tão penetrante dor denunciaram,
Como se da Marena e da Sardenha
48 Enfermos no verão se incorporaram.

De outros à turba, que remédio venha
Nos hospitais buscar de Valdichiana.
51 Odor surdia, igual ao que já tenha

Corrupto corpo, e se gangrena o dana.
Baixando à sestra até a riva extrema
54 Mais claramente da caverna insana

Então vimos o fundo, onde a Suprema
Infalível Justiça, a raça ímpia
57 Dos falsários em pena infinda prema.

“De Egina quando o povo adoecia,
E o ar maligno aos animais a morte
60 Trazendo, os próprios vermes extinguia,

Deserta sendo a terra de tal sorte
Que às formigas (poetas o afirmavam)
63 Deveu a antiga gente o alento forte:

Cenas tais mais tristeza não causavam
Do que almas ver, que essa prisão sombria
66 Em rumas várias lânguidas juncavam.

Qual sobre a espalda de outro se estendia,
Qual sobre o ventre seu, qual se arrastando
69 Na dolorosa estrada se estorcia.

Silentes, passo a passo caminhando,
Vemos, ouvimos míseros prostrados,
72 Em vão para se erguerem se esforçando.

Sentados dois, um no outro recostados,
Quais torteiras que juntas se aquecessem,
75 Vi do alto aos pés de pústulas manchados

Os criados, que os amos seus apressem,
Ou que estejam velando de mau grado
78 Almofaça não vi que assim movessem,

Como cada um se agita acelerado,
Com implacáveis unhas se mordendo,
81 De raivoso prurido atormentado.

Iam da pele as crostas abatendo,
Como a faca do sargo arranca a escama
84 Ou de peixe, na casca mais horrendo.

“Ó tu” contra um dos dois Virgílio exclama,
Que os dedos teus convertes em tenazes
87 Por desmalhar do corpo a extrema trama,

“Diz-me se entre estas almas contumazes
Existe algum Latino; eternamente
90 Sejam-te as unhas de servir capazes!”

“Latinos somos” — torna diligente
Um dos dois padecentes lacrimoso,
93 “Mas tu quem és? Em declarar consente”.

— “Eu sou que” — diz Virgílio ao desditoso
“De círc’lo em círc’lo este homem vivo guia
96 Por lhe mostrar o abismo pavoroso”.

Já cessa o mútuo arrimo, que os unia:
A mim volveu-se cada qual tremendo;
99 Turba imitou-os, que em redor ouvia.

Acercou-se-me o Guia assim dizendo:
“Quanto quiseres tu agora dize”.
102 Eu logo comecei lhe obedecendo:

“Nunca a memória vossa finalize!
Na primeira mansão da humana raça!
105 Mas por sóis numerosos se abalize!

“Quem sois? E donde? De o dizer a graça
Fazei: a vossa pena, imunda é certo,
108 De responder-nos pejo vos não faça.

“De Arezzo fui” disse um “de Siena Alberto
Morte me deu nas chamas, truculento,
111 Por feito a que não fora o inferno aberto.

“Dissera, em gracejar só pondo o intento.
“Alçar-me aos ares posso velozmente”.
114 Essa arte, por ter curto o entendimento,

“Houve ele de saber desejo ardente.
Como o não fiz um Dédalo, à fogueira
117 Mandou-me quem seu pai foi certamente.

“Mas das cavas caí na derradeira
Por sentença de Minos rigorosa:
120 Foi meu crime a alquimia traiçoeira”.

E ao Vate eu disse: “Nunca tão vaidosa
Gente, pôde alguém ver como a de Siena?
123 Nem a de França há sido tão sestrosa!”

O segundo leproso então me acena
Dizendo: “Salvo Stricca, homem poupado,
126 Que todo o excesso em desprender condena!

“Salvo Nicoló, aquele que inventado
Do cravo tinha a rica especiaria,
129 O seu uso deixando enraizado!

“Salvo Caccia de Ascian e a companhia,
Com quem vinhas e bosques esbanjava
132 E o Abbagliato as chanças esgrimia!

“Para que saibas quem desta arte agrava
Contra os de Siena o teu severo asserto,
135 No meu triste semblante os olhos crava.

“De que ora vês Capocchio já estás certo,
Que alquimista, os metais falsificara,
Sabes como eu, se em recordar acerto,

139 Natura, hábil bugio, arremedara”.

 

27. Geri del Bello, primo do pai de Dante, morto a traição por um da família Sachetti. — 58. Egina etc. Segundo Ovídio, Egina, despovoada por pestilência, foi repovoada pelas formigas que se transformaram em homens. — 109. De Arezzo etc., Griffolino de Arezzo, alquimista, que foi mandado queimar por Alberto de Siena. — 125-32. Salvo etc., por ironia — Strica, Nicoló Salimbene, Caccio de Asciano e Bartolomeu dei Folcacchieri, alcunhado o Abbagliato foram todos de Siena e conhecidos como dissipadores de dinheiro. — 136. Capocchio de Siena, alquimista que foi queimado vivo.


CANTO XXX

 

No décimo compartimento são punidos outras espécies de falsários. Os falsificadores de moedas, tornados hidrópicos, são constantemente atormentados por furiosa sede; entre eles está mestre Adão de Brescia, o qual narra que, à instigação dos condes Guidi, falsificou o florim de Florença. Os que falaram falsamente são perseguidos por febre ardentíssima. O canto termina com uma altercação entre mestre Adão e o grego Sinon. Virgílio repreende Dante pois este pára, escutando as injúrias que os dois trocam entre si.

 

QUANDO Juno, de Semele ciosa,
Contra o sangue tebano se inflamava,
3 Como o provou por vezes impiedosa,

Tanta insânia Atamante perturbava,
Que a esposa ao ver, ao colo seu trazendo
6 Os filhos dois, que a ele encaminhava,

Gritou: “Redes tendamos! Já stou vendo
Leoa e leõzinhos da embosacada!”
9 Disse e, raivoso, os braços estendendo

De um, Learco, travava e de pancada
Rodou-o e o percutiu em penedia.
12 Ao mar lançou-se a mãe com outro abraçada

Quando a fortuna a cinzas reduzia
A pujança de Tróia, em tudo altiva,
15 E com seu reino o morto rei jazia,

Hécuba triste, mísera, cativa,
Depois de morta Polixena vira,
18 Do Polidoro seu em plaga esquiva,

Súbito quando o corpo descobrira
Uivou qual cão, de angústia possuída.
21 Tanto a pungente dor nalma a ferira!

Mas em Tebas ou Tróia destruída
Homens ou feras nunca revelaram
24 Raiva, em tantos extremos desmedida,

Como almas duas lívidas, que entraram
Nuas correndo, os dentes amostrando,
27 Quais cerdos, que à pocilga se esquivaram.

Uma alcançou Capocchio e, lhe cravando
No colo as presas, rábida, arrastava
30 Sobre o ventre na rocha o miserando.

Mas o de Arezzo, que tremendo estava
“É Gianni Schicchi” — disse — esse raivoso:
33 De outros a pena o seu furor agrava!”

“Possas livrar-te do outro esp’rito iroso!”
Falei — “Se não te causa assim fadiga,
36 Diz quem seja, antes de ir-se o furioso”.

“Aquele é” — respondeu — “uma alma antiga;
É Mirra infame, que paixão impia
39 Instigou ser do pai a sua amiga.

“Para o seu crime consumar fingia
De outra pessoa as formas e o semblante.
42 Igual ardil usara Schicchi um dia:

“Para em prêmio alcançar égua farfante:
Contrafez Buoso morto e ao testamento
45 Falso a norma legal deu, que é prestante”.

Aos dois raivosos estivera atento
Até que de ante os olhos se apartaram;
48 De outros volvi-me ao cru padecimento.

Num do alaúde as formas se notaram
Se as pernas lhe tivessem cerceado
51 Na parte, em que do tronco se separam.

Da grave hidropisia molestado,
Que tanto o humor vicia e tanto ofende,
54 Que o rosto estreita e faz o ventre inchado,

A boca ter cerrada em vão pretende,
Qual hético de sede ressequido.
57 A quem um lábio se alça e o outro pende.

“Ó vós, que ao negro abismo haveis descido
(Não sei por que razão) de pena isentos,
60 Olhai” — disse — “prestando atento ouvido,

“De mestre Adam miséria e sofrimentos
Tive abastança; agora, ai! desejando
63 De água uma gota, passo mil tormentos,

“Dos ribeiros, que ao Arno, murmurando
Do Casentino lá na verde encosta
66 Se vão, por moles álveos inclinando,

“Na mente a imagem sempre tenho posta.
Não em vão: mais me seca e me fustiga
69 Que o mal, de que esta face é descomposta.

“Quer Justiça, que austera me castiga,
Que o teatro, onde hei crimes cometido,
72 Mais me acendendo anelos, me persiga.

“Lá demora Romena, onde hei fingido
Em falso cunho a imagem do Batista;
75 Assim meu corpo o fogo há consumido.

“Se a sombra achasse aqui, se aqui já exista,
De Guido ou de Alexandre ou seu germano!
78 Fonte-Branda esquecera ante essa vista.

“Mas um já veio, se induzir-me a engano
Os raivosos, que giram, não quiseram.
81 Que importa? Para andar em vão me afano.

“Se os meus pés transportar-me inda puderam,
De um sec’lo ao cabo, espaço de uma linha,
84 Já postos a caminho se moveram,

“A fim de o ver na multidão mesquinha
Do val, que milhas onze em torno amplia,
87 Com largura, que de uma se avizinha.

“Star lhes devo em tão triste companhia:
Florins cunhei, aos três obedecendo,
90 Nos quais quilates três de liga havia”.

“Quem são” — lhe disse — os dois que ora estou vendo?
Quais no inverno mãos úmidas fumegam,
93 À destra tua próximos jazendo”.

“Já stavam quando vim: eles se entregam,
Dês que desci, a quietação completa;
96 E creio, assim a eternidade empregam.

“Uma acusou José, falsária abjeta,
Outro é Sinon, de Tróia o Grego tredo:
99 Lançam por febre essa fumaça infecta”.

Anojado um do par, que estava quedo,
Por ver em vozes tais afronta e ofensa,
102 À pança o punho lhe vibrou sem medo:

Soou, qual de zabumba a pele tensa.
O braço Mestre Adam lhe envia à face
105 E assim lhe dá condi’na recompensa.

“Inda que” — disse — os membros meus enlace
Moléstia, que me tolhe o movimento,
108 Presteza a destra tem, com que rechace”.

“Foste” — o outro tornava — “mais que lento
Quando forçado ao fogo caminhavas.
111 Só presto eras no ofício fraudulento”.

“É certo; mas verdade não falavas”
O hidrópico diz — “quando exigiram
114 Em Tróia essa verdade, que ocultavas”.

“Se os lábios meus perjúrio proferiram,
Tu falsaste moeda: eu fiz um crime,
117 Aos teus nunca em demônio iguais se viram”.

“Do cavalo a façanha inda te oprime”
— Responde o que a barriga tinha inchada —
120 Sobre o teu nome infâmia o mundo imprime”.

“Arda em sede tua língua já gretada!”
Grita o Grego — “Hajas de água saniosa
123 O ventre impando, a vista embaraçada!”

“Escancaras a boca venenosa”
O moedeiro diz — “por mal somente;
126 Se sede eu tenho e a pança volumosa

“Ardes tu e a cabeça tens fervente.
Por lamberes o espelho de Narciso
129 A um aceno correras de repente”.

Atento estava aos dois mais do preciso,
Eis Virgílio me fala: — “Oh! toma tento!
132 Quase que eu contra ti me encolerizo!”

Iroso assim falar neste momento
O Mestre ouvindo, voltei-me corrido:
135 Ainda sinto rubor em pensamento.

Como quem sonha danos ter sofrido,
Que em sonho espera que sonhando esteja
138 E anela que o que é já não tenha sido,

A mente, sem dizer, falar deseja.
Desculpas aspirando à falta sua;
141 Stá desculpada e cuida que o não seja.

“Menos rubor lavara a culpa tua”
Disse o Mestre — “se houvera mor graveza:
144 Fique-te a mente da tristeza nua.

“E quando queira o acaso que à torpeza
De iguais debates se ofereça ensejo.
De que eu steja ao teu lado faz certeza,

148 Que é ter querendo ouvi-los, vil desejo”.

 

1-2. Juno etc., por ciúme de Semele, tebana, mãe de Baco, vingou-se de toda a sua estirpe, tornando louco a Atamante, rei de Tebas, o qual matou um dos filhos, e no entanto a mulher com outro filho se lançou ao mar. — 16. Hécuba, viúva de Príamo, ao ver mortos todos os seus filhos, pela dor foi transformada em cadela. — 32. Gianni Schicchi, florentino, de acordo com o filho do morto, fingiu-se de Buoso Donati moribundo, ditando o testamento. — 38. Mirra, filha de Cinira, rei de Chipre, apaixonou-se pelo pai. — 61. Adam, de Brescia, falsificador de moedas. — 77. Guido etc., dos condes Guidi, induziu mestre Adam a falsificar o dinheiro de Florença. — 97. Falsária abjecta etc., mulher de Putifar, que acusou injustamente a José. — 98. Sinon de Tróia, que com as suas mentiras induziu os troianos a introduzirem na cidade o cavalo de madeira.

 


CANTO XXXI

 

Dando as costas ao oitavo círculo, caminham os Poetas para o centro, onde se abre o poço pelo qual se desce ao nono. Em torno do poço estão os gigantes rebeldes, cujas figuras horrendas Dante descreve. Um deles, Anteu, a pedido de Virgílio, toma nos braços os dois poetas e suavemente os depõe sobre a orla do último reduto internal.

 

A LÍNGUA, que me havia vulnerado
E a vergonha nas faces me acendera,
3 O bálsamo aplicava ao mal causado:

Assim de Aquiles e seu pai fizera,
Dizem, outrora a lança portentosa:
6 Sarava o corpo, que cruel rompera.

Damos costas à estância desditosa,
Sem proferir palavra atravessando
9 Sobre a borda, que em torno jaz fragosa.

Noite não sendo e dia não reinando,
Pouco distante eu divisar podia,
12 Eis som de trompa escuto, retumbando

Tão alto, que o trovão transcenderia,
Donde irrompera contra a parte andava
15 E sôfrego a um só ponto olhos prendia.

A de Orlando tão forte não soava
Na derrota fatal, que a santa empresa
18 De Carlos Magno o desbarato dava.

Já assim por diante: eis a grandeza
De muitas e altas torres me aparece.
21 “Qual é” — digo — “essa vasta fortaleza?”

“Pois de tão longe e em trevas te apetece
Julgar” — Virgílio diz — “um erro agora
24 Imaginando estejas acontece.

“Verás ali chegado, sem demora,
Quanto a distância a vista nos engana:
27 O passo acelerar convém por ora”.

Da mão travou-me e em voz suave e lhana
O Mestre prosseguiu: “Antes que avante
30 Passes, dessa ilusão te desengana.

“O que torre imaginas é gigante.
Da cinta aos pés imergem-se no poço,
33 E alçam bustos em torno ao espaço hiante”.

Quando o sol gasta o nevoeiro grosso,
Pouco a pouco se mostra e é discernido
36 Quanto oculta o vapor ao olhar nosso:

Vendo assim por esse ar escurecido,
Da borda mais e mais me apropinquando,
39 Fugia o erro, o horror tinha crescido.

Como torres em roda se elevando,
Montereggion guarnecem de coroa:
42 Assim do poço a margem circundando,

Torreiam com metade da pessoa
Os horríveis gigantes, que ameaça
45 Do céu ainda Jove, quando troa.

Distingo a cara de um (e me transpassa
O medo), logo os braços, peitos e parte
48 Do ventre, que da borda a altura passa.

Bem fez a natureza, quando essa arte
De tais monstros criar há descurado,
51 De iguais agentes desarmando Marte.

Se ainda a selva e mar têm povoado
Do elefante e baleia, sutilmente
54 Quem pensa justa e sábia a tem julgado.

Mal seria aos humanos permanente,
Se perspicaz engenho encaminhasse
57 Maligno instinto em robustez ingente.

Larga e comprida, pareceu-me a face,
Qual de S. Pedro, em Roma, a brônzea pinha:
60 A proporção nas outras partes dá-se.

O corpo, que da borda acima vinha,
Tanto ao ar elevava a grã figura,
63 Que três Frisões, por lhe atingir a linha

Da cerviz, não fariam tanta altura,
Porquanto eu esmava em trinta grande palmos
66 Do colo ao pescoço a válida estatura.

Rafael mai amècch zabi almos
A pavorosa boca assim bradava;
69 Não podia entoar mais doces salmos.

Disse-lhe o Mestre: “Ó alma bruta e brava!
Tange a trompa, se queres lenitivo
72 À paixão, que te acende ardente lava.

“A roda busca do pescoço altivo
O loro, a que se prende alma confusa!
75 Vê que te cruza o vasto peito esquivo”.

Depois a mim: “De quanto fez se acusa,
É Nemrod; por tomar estulta empresa
78 O mundo uma linguagem só não usa.

“Deixêmo-lo: falar-lhe é vã despesa.
Como idioma de outros não compreende,
81 A quem o escuta o seu move estranheza”.

Vamos então caminho, que se estende
À sestra. Outro, de besta quase a tiro,
84 Está mais fero, o ar mais alto fende.

Que mão cativa o monstro, que admiro
Dizer não sei: o seu direito braço
87 Ao dorso preso vi, e ao peito diro

O outro, de grilhão no estreito laço,
Que com círculos cinco lhe cercava
90 Do enorme corpo o descoberto espaço.

“Esse réprobo” — diz Virgílio — “ousava
Medir forças com Jove soberano:
93 Eis o fruto do orgulho, que o danava!

“Era Efialto: executou seu plano,
Quando aos Deuses gigantes aterraram.
96 Jamais os braços mover pode o insano”.

“Os meus olhos, ó Mestre, assaz folgaram,
De Briaréu se vissem desmarcado
99 As formas” vozes minhas lhe tornaram.

“Anteu verás”, — me diz — muito afamado:
Stá solto, fala e nos demora perto,
102 Há de ao fundo levar-nos de bom grado.

“Remoto esse outro fica, e tem por certo
Que em grilhões e estatura àquele iguala:
105 Mais fero em vulto, em mal é mais esperto”.

Jamais um terremoto a torre abala
Em convulsões tão rápido, tão forte,
108 Como Efialto a mover-se. Eu já sem fala,

Assombrado, cuidei ter perto a morte;
E de pavor sem dúvida expirara,
111 Se ele preso não fosse, e de tal sorte.

Presto ao lugar seguimos, onde pára
Anteu: fora a cabeça, em cinco braças
114 À borda sobreleva, o que separa.

“Tu, que no val feliz, aonde as graças
E as palmas de Cipião colheu da glória,
117 Quando Aníbal vexavam só desgraças,

“Mil leões apresaste por memória;
Que, aos irmãos se ajudaras na alta guerra,
120 Se crê triunfo registrasse a história

“Dos fortes filhos da fecunda Terra!
Ao fundo transportar-nos sê servido,
123 Onde ao Cocito o frio as águas cerra:

“Te hemos a Tifo e a Tício preferido.
Dar pode este varão o que mais se ama:
126 Curvando-te compraz ao seu pedido.

“No mundo pode restaurar-te a fama,
Pois vive e ainda longa vida espera,
129 Salvo se a Graça antes do tempo o chama”.

Falara o Mestre. Anteu não considera:
Toma-o logo nas mãos, que lesto of’rece
132 E a que sentira Alcide a força fera.

Quando entre os dedos seus Virgílio vê-se,
Diz-me: “Faze-te prestes, que eu te abrace!”
13S Ao Mestre o meu querer pronto obedece.

Quem Carisenda, em seu pendor olhasse,
Cuidara, ao passar nuvem, que iminente
138 Ruína ao lado oposto ameaçasse:

Tal Anteu parecia de repente
Do corpo ao menear; quando o inclinava,
141 Estrada eu preferia diferente.

Mas de leve no fundo nos pousava,
De Judas e de Lúcifer assento.
A postura deixando, que o dobrava,

145 Qual mastro empertigou-se num momento.

 

4-6. Assim etc., a lança de Peleu e do seu filho Aquiles curava as feridas que produzia. — 16-18. A de Orlando etc., a trompa de Orlando, ferido em Roncisvalle foi ouvida a oito milhas de distância por Carlos Magno. — 41. Montereggion, castelo do val d’Elsa. — 63. Prisões, habitantes da Frísia, de elevada estatura. — 67. Rafael, etc., palavras cujo significado é ignorado [NE: No original: «Raphèl mai amècche zabi almi”]. — 77. Nemrod, que edificou a torre de Babel, da qual adveio a confusão das línguas. — 94. Efialto, um dos gigantes que moveram guerra aos deuses. — 98. Briareu, gigante com cem mãos. — 100. Anteu, gigante que lutou com Hércules. — 124. Tifo e Tício, outros gigantes. — 136. Carisenda, torre pendente de Bolonha.


CANTO XXXII

 

Os dois Poetas se encontram no círculo, em cujo pavimento de duríssimo gelo estão presos os traidores. O círculo é dividido em quatro partes; na Caina, de Caim, que matou o irmão, estão os traidores do próprio sangue; na Antenora, de Antenor, troiano que ajudou os Gregos a conquistar Tróia, os traidores da pátria e do próprio partido; na Ptoloméia, de Ptolomeu, que traiu Pompeu, os traidores dos amigos; na Judeca, de Judas, traidor de Jesus, os traidores dos benfeitores e dos seus senhores. Dante fala com vários danados, enquanto atravessam o gelo procedendo para o centro.

 

SE usasse rimas ásperas, rouquenhas,
Próprias do poço lôbrego e tristonho,
3 Que do inferno sustém as outras penhas,

Melhor idéia do lugar medonho
Dera; mas tal vantagem me falece.
6 O meu conceito, pois, tímido exponho.

É árdua empresa, em que o ânimo esmorece
O centro descrever do mundo inteiro:
9 Para empenho infantil ser não parece.

Das Musas se ajudar poder fagueiro,
Como a Anfião em Tebas o mostraram,
12 Fiel serei dizendo e verdadeiro.

Ó malfadada turba, a quem tocaram
Deste abismo os castigos, bruto gado
15 Sendo, fados melhores te aguardaram.

Descidos nós ao poço negregado
Das plantas muito abaixo do gigante,
18 O alto muro mirava-lhe espantado,

Quando ouvi: “Tem cuidado, ó caminhante!
Não calques de irmãos teus desventurados
21 As frontes”. Eu, voltando-me, adiante

E sob os pés, de um lago vi gelados
Os planos tanto, que os dizer podia,
24 Não de água, de cristal, porém, formados.

Do Danúbio a corrente não seria
Tanto em Áustria no inverno enrijecida,
27 Nem do Tanais, na zona sempre fria.

Do lago sobre a face empedernida
Caísse ou Tambernich ou Pietrana:
30 Não fora ao peso enorme combalida.

Qual rã, que no paul coaxando, ufana
Um pouco emerge, enquanto a camponesa
33 Sonhando está que a respigar se afana:

Tais gemiam as sombra na frieza
Té a cintura lívidas, batendo,
36 Como a cegonha, os queixos com presteza.

Para o seio a cabeça lhes pendendo,
Do frio a boca indícios claros dava,
39 Nos olhos a tristeza está-se vendo.

Quando atentei no quanto em roda estava,
Duas vi aos meus pés, em tal abraço,
42 Que, travado, o cabelo se enleava.

“Quem sois que os peitos nesse estreito laço
Apertais?” — perguntei. Então, voltando
45 Os colos para trás, um curto espaço

Me encararam; porém dos olhos quando
Lhes brotavam as lágrimas, a neve
48 Cerrou-os entre os cílios as coalhando.

Nunca dois lenhos tanto unidos teve
Cavilha: eles, de irados, se investiram,
51 Quais capros, que a marrar o furor leve.

Terceiro, a quem, geladas lhe caíram
As orelhas, com rosto baixo fala:
54 “Por que teus olhos sôfregos nos miram?

“O par desejas conhecer, que cala?
Próprio lhes fora e ao genitor Alberto
57 O vale, onde o Bisênzio faz escala.

“De um só ventre nasceram; tu, por certo,
Não acharás mais di’nos em Caína,
60 De ter de gelo o vulto seu coberto,

“Nem esse, a quem de Artus destra assassina
De um bote o peito e a sombra transpassara;
63 Nem Focácia e o que a fronte agora inclina,

“A vista me tolhendo, e se chamara
Mascheroni Sassol, bem conhecido:
66 Se és Toscano, esse nome te bastara.

“Fique, por vozes escusar, sabido
Que Pazzi eu sou e que, em Carlin chegando,
69 Serei por menos criminoso havido”.

Mil outros via roxos tiritando:
Desde então de arrepios sou tomado
72 Ante gélidos vaus, este lembrando,

E o centro demandando, em que firmado
Do universo gravita todo o peso,
75 Trêmulo havia a treva eterna entrado,

Eis, sem querer, da sorte ou por desprezo,
Entre tantas cabeças caminhando,
78 A face de um calquei no gelo preso.

“Por que me pisas?” reclamou chorando,
“De Monte Aperti ao feito por vingança
81 Inda me estás desta arte molestando?

“Mestre, espera-me aqui” — disse — “Me lança
Em dúvida este mau: solvê-la quero.
84 Eu depois correrei, se houver tardança”.

Parou; e ao pecador falei, que fero,
Duras blasfêmias proferia agora:
87 “Quem és tu, que me increpas tão severo?”

“E tu mesmo quem és, que na Antenora”
Tornou — “dessa arte as faces me espezinhas?
90 Um vivo, certo, menos cru me fora”.

“Sou vivo e posso entre as memórias minhas
Do nome teu apregoar a fama”
93 Respondi — “se te aprazem louvaminhas”.

“Só quer o olvido quem te fala” — exclama
“Vai-te! De sobra já me estás molesto.
96 Aqui não cabe da lisonja a trama”.

Travei da nuca ao pecador infesto
E disse: — “Ou perderás todo o cabelo,
99 Ou quem tu foste me declara presto!”

“Mil vezes podes arrancar-me o pêlo,
De ver-me a face não terás o gosto
102 E de saber qual foi meu nome e apelo”.

As mãos lhe havia no cabelo posto;
Da guedelha uma parte arrepelara:
105 Ganindo ele abaixava sempre o rosto,

Quando outro brada: “Ó, Boca, isso não pára?
Pois os queixos bater não te é bastante?
108 Já lates! Que demônio em ti dispara?”

“Não mais, ímpio traidor” — no mesmo instante
Respondo — “exijo; o que de ti stou vendo
111 Contarei por te ser mais infamante”.

“Vai! Se saíres deste abismo horrendo,
Quanto queiras refere, do apressado,
114 Que de língua assim foi, não te esquecendo.

“Ouro chora, que a França lhe há doado.
Eu vi — podes dizer — Boso Duera
117 De outros muitos no gelo acompanhado.

“Se perguntarem quem aqui mais era,
Olha e terás ao lado Beccaria,
120 A quem Florença degolar fizera.

“Gian del Soldanier, há pouco eu via
Além com Ganellon e Tribaldello.
123 Que abriu Faenza, enquanto se dormia”.

Deixâmo-lo; mas súbito de gelo
Postos em furna vi dois condenados:
126 Cabeça de uma a de outra era cabelo.

Como a pão se agarrando os esfaimados,
Por cima um no outro os dentes aferrava
129 Onde a cerviz e o crânio estão ligados.

Qual Tideu, que a dentadas lacerava
De Menalipo a fronte enraivecido,
132 Ele o cérebro e os ossos mastigava.

“Tu, que, de ódio tão sevo possuído,
Te encarniças feroce no inimigo,
135 “Dize — exclamo — por que foi produzido.

“Se eu souber que a justiça está contigo
E houver da culpa e réu conhecimento,
No mundo a compensar-te ora me obrigo,

139 Se não perder a língua o movimento”.

 

11. Anfião, foi auxiliado pelas Musas na edificação dos muros de Tebas. — 27. Tanais, o rio Don, na Rússia. — 55-60. O par etc, filhos de Alberto degli Alberti, os quais brigaram e se mataram reciprocamente. — 61. Nem esse Mordrec, filho do rei Artur, morto pelo pai. — 63. Focaia, dei Cancellieri matou alguns parentes do partido inimigo. — 65. Mascheroni Sassuol, florentino, assassinou traiçoeiramente um seu primo. — 68. Pazzi, Comicion dei Pazzi matou o seu primo Ubertino. — Carlin, Carlino dei Pazzi traiu os seus companheiros, entregando várias fortalezas aos florentinos Negros. — 88. Antenora, onde são punidos os traidores da pátria, de Antenor, troiano, que favoreceu os gregos que sitiavam Tróia. — 106. Boca, Bocca degli Abati, na batalha de Montaperti (1260) causou a derrota dos florentinos, passando ao inimigo. — 116. Boso Duera, traiu o rei Manfredo, por ter recebido dinheiro de Carlos d’Anjou. — 119. Beccaria, de Pavia, legado pontifício na Toscana, foi decapitado pelos florentinos, na suposição de ter favorecido os gibelinos. — 121. Gian del Soldanier, gibelino, que em 1266 chefiou uma rebelião em Florença. — 122. Ganellon, Gano de Mogunça, traidor de Carlos Magno. — Tribaldello, faentino, traiu a sua cidade natal Faenza.


CANTO XXXIII

 

O conde Ugolino della Gherardesca conta a Dante a sua trágica morte na torre dos Gualandi. Na Ptoloméia o Poeta encontra o frade Alberico de Manfredi, o qual lhe explica que a alma dos traidores cai no Inferno logo depois de consumada a traição e que um diabo toma conta do corpo até chegar o tempo do seu fim no mundo.

 

DO fero cevo os lábios desprendendo,
Na coma o pecador os enxugava
3 Desse crânio, a que estava atrás roendo.

“Queres de infanda mágoa” — começava —
Renove a dor, que, só pensando a mente,
6 Antes que falte, o coração me agrava.

“Mas se a voz minha deve ser semente,
Que ao traidor, que eu devoro a infâmia brote.
9 Falar, chorar, verás conjuntamente.

“Não sei quem sejas, não sei como note
Tua presença aqui, por Florentino
12 Te ouvindo a língua, é força que te adote.

“Saber deves que fui Conde Ugolino,
Que Arcebispo Rogério aquele há sido:
15 Direi qual nos juntou cruel destino.

“Contar não hei mister como iludido
Por minha confiança, em cárcer posto.
18 Fui morto por maldade deste infido.

“Não conheces, porém, que atroz desgosto
O meu fim precedera: atenção presta,
21 Quanto ofendido fui verás exposto.

“Por vezes da prisão por breve fresta,
Torre da fome — após o meu tormento,
24 Que há de a outros ainda ser funesta

“Brilhava a lua em pleno crescimento,
Quando o véu do futuro horrível sonho
27 Rasgou, do exício meu pressentimento.

“Este, como senhor, então suponho
Ao monte, que ver Lucca a Pisa obstava
30 Lobo e pequenos seus correr medonho.

“Magros cães, destros, feros açulava
Dos Galandis, Sismondis e Lanfrancos
33 A companha, que à frente cavalgava.

“Em breve o pai e os filhos, lassos, mancos,
Já dos famintos galgos mal feridos,
36 Dar pareciam últimos arrancos.

“Desperto ao primo alvor; dos meus queridos
Filhos que eram comigo, choro soa:
39 Pedem pão, stando ainda adormecidos.

“És cruel, se a tua alma não magoa
O prenúncio da dor, que me aguardava:
42 Se não choras, que pena há que te doa?

“Despertaram; e a hora já chegava
Em que alimento escasso nos traziam:
45 O sonho a cada qual nos aterrava.

“Da horrível torre à porta então se ouviam
Martelos cravejar: eu mudo e quedo
48 Nos filhos encarei, que esmoreciam.

“Não chorava; era o peito qual penedo.
Choravam eles, e Anselmuccio disse:
51 Assim nos olhas, pai? Do que hás tu medo?”

“Nem lágrimas, nem voz dei, que se ouvisse,
No dia e noite, que seguiu-se lenta,
54 Até que ao mundo novo sol surgisse.

“Quando a luz inda escassa se apresenta
No doloroso carcer, meu semblante
57 Nos quatro rostos seus se representa.

“Mordi-me as mãos de angústia delirante.
Eles, cuidando ser a fome o efeito,
60 De súbito e com gesto suplicante,

“Disseram: “Menos mal nos será feito
Nutrindo-te de nós, pai; nos vestiste
63 Desta carne: ora sirva em teu proveito”.

“Contendo-me, evitei lance mais triste.
Em silêncio dois dias se passaram. ..
66 Ah! por que, terra esquiva, não te abriste?

“Do quarto dia os lumes clarearam:
Gaddo caiu-me aos pés desfalecido:
69 “Pai me acode!” os seus lábios murmuraram.

“Morreu; e, qual me vês, eu vi, perdido
O sizo, os três, ao quinto e ao sexto dia,
72 Um por um se extinguir exinanido.

“Apalpando os busquei — cego os não via
Dois dias, os seus nomes repetindo:
75 Da fome mais que a dor, pôde a agonia”.

Calou-se e os torvos olhos retorquindo,
Como de antes cravou no crânio os dentes
78 E os ossos, qual mastim, foi destruindo.

Ah! Pisa, opróbrio aos povos residentes
Na bela terra, onde o si ressona!
81 Pois te não vêm punir vizinhas gentes.

Presto a Capraia mova-se e a Gorgona
Do Arno à foz, entupindo-lhe a saída
84 Teu povo assim pereça, que se entona.

E se foi a Ugolino atribuída
De entregar teus castelos à maldade,
87 Por que à prole em tal cruz tirar a vida?

Tebas moderna! Pela tenra idade
Ugoccione e Briga tá insontes eram
90 E os irmãos, em que usaste a feridade.

Seguindo além, os olhos se of’receram
Outros, que em gelo têm duro tormento:
93 Destes os rostos para trás penderam.

Lhes causa o pranto ao pranto impedimento;
E a dor, que desafogo em vão procura,
96 Lhes cresce, recalcada, o sofrimento.

As lágrimas coalhando em neve dura
Formam nos olhos seus vítrea viseira,
99 E todo o espaço interior se obtura.

Conquanto quase a faculdade inteira
De sentir no meu rosto se embotasse
102 Dês que era nessa perenal geleira,

Cuidei que um sopro me tocara a face.
“Do que este sopro” — inquiro — “se origina?
105 Se aqui não há vapor, donde ele nasce?”

E o Mestre: “Irás onde a resposta di’na
Os teus olhos darão; e ali chegando
108 O que virem do sopro a causa ensina”.

Dos tristes padecentes um gritando,
Nos disse: “Almas cruéis, almas danadas
111 (Pois que no extremo abismo estais penando)

“Tirai-me aos olhos gélidas camadas,
Por desafogo dar-me ao peito aflito,
114 Antes de eu ter as lágrimas coalhadas”.

“Se o lenitivo queres, que tens dito,
Teu nome diz: se não me desobrigo,
117 Desça eu do gelo ao pelágio maldito”.

Respondeu logo: “Eu sou frei Alberigo,
Pelos pomos famoso do mau horto:
120 Aqui recebo tâmara por figo”.

“Oh!” — disse — “porventura tu stás morto?”
“Não sei como é meu corpo lá no mundo”,
123 Tornou “e se vivendo tem conforto.

“Este condão possui sem ter segundo
Ptoloméia: aqui star alma é freqüente
126 Antes que a mande Atropos ao profundo.

“E por que mais de grado e prontamente
Estas vidradas lágrimas romovas,
129 Sabe que apenas de traição a mente

“Inquina-se, como eu, por funções novas
Passa o corpo a demônio, que o governa
132 Té completar da vida últimas provas:

“Rui a alma, entanto, à lôbrega cisterna,
Talvez na terra folgue o corpo ledo,
135 Cuja sombra após mim trêmula inverna.

“Se és recém-vindo, sabe que esse tredo
É Branca d’Ória: há prolongados anos
138 Jaz enleado no infernal enredo”.

“Este é” tornei “mais um dos teus enganos:
Desfruta alegre Branca d’Ória a vida
141 E come e bebe e dorme e veste panos”.

“Dos Malebranche em cava denegrida,
Não era“ disse ainda “em pez viscoso
144 Alma de Miguel Zanche submergida,

“E um demônio esse infame criminoso
Deixou no corpo; o mesmo um seu parente,
147 Que de traição foi sócio proveitoso.

“Das mãos auxílio presta ora clemente,
Me abrindo os olhos!” Tal não fiz; que errara
150 Com tal vilão me havendo cortesmente.

Ah! Genoveses! raça impura e avara,
Que nos costumes tem mancha tamanha!
153 Quem da face da terra vos lançara!

Junto ao pior esp’rito da Romanha
De entre vós um traidor vi tanto imundo,
Que a alma sua em Cocito já se banha,

157 Enquanto o corpo vida finge ao mundo.

 

13. Conde Ugolino, della Gherardesca, de Pisa, foi acusado pelo arcebispo de Pisa, Ruggiero degli Ubaldini, de ter traído a sua cidade natal. Preso com dois filhos e dois netos numa torre, onde todos morreram de fome. — 29. Monte, San Giuliano, entre Pisa e Luca. — 32. Galandis etc., famílias pisanas. — 118. Frei Alberigo, Manfredi, de Faenza, convidou dois parentes seus a comerem na sua casa e, no fim do jantar, ao pedir que trouxessem a fruta, os criados penetraram na sala e mataram os hóspedes. — 137. Branca d’Ória, genovês, convidou o sogro Miguel Zanche a comer em sua casa e matou-o para usurpar o castelo de Logodoro.


CANTO XXXIV

 

Na Judeca estão os traidores dos seus senhores e benfeitores. No meio está Lúcifer, que com três bocas dilacera três entre os mais horrendos pecadores: de um lado Judas, do outro Bruto e Cássio, que mataram a Júlio César. Virgílio, ao qual Dante se agarra, desce pelas costas peludas de Lúcifer até o centro da terra. Dai seguindo o murmúrio de um regato, saem e avistam as estrelas no outro hemisfério.

 

VEXILIA regis prodeunt inferni
Contra nós; pra diante os olhos tende
3 Disse o Mestre, se a vista já discerne”.

Como quando no ar névoa se estende,
Ou ao nosso hemisfério a noite desce,
6 Um moinho distante a atenção prende.

Um edifício igual verme parece.
Tanto era o vento, que eu busquei guarida
9 Atrás do Mestre, que outra não se of’rece.

À parte era chegado, onde imergida
Cada alma em gelo está (tremo escrevendo),
12 Bem como aresta no cristal contida.

Erguidas umas stão, outras jazendo
Qual sobre a fronte ou sobre os pés firmada
15 Qual com seus pés o rosto arco fazendo.

Quando distância tal foi superada,
Que aprouve ao Mestre me tornar patente
18 A criatura bela ao ser formada,

Se afastando de mim, disse: “Detém-te!
Eis Satanás! Eis o lugar horrendo
21 Em que deves te armar de esforço ingente!

Quanto assombrei-me aquele aspecto vendo
Não inquiras leitor: não te expressara
24 Com verbo humano o que encarei tremendo.

Não morto, porém vivo não ficara.
Qual me achava te pinte a fantasia,
27 Se morte ou vida em mim se não depara!

Do aflito reino o imperador eu via:
Do gelo acima o seio levantava.
30 A um gigante igualar eu poderia,

Se um gigante a um seu braço eu comparava!
Do todo vede a proporção qual fora,
33 Quando tão vasta a parte se ostentava!

Quem foi tão belo, quanto é feio agora,
Contra o seu criador a fronte alçando
36 Vera causa é do mal, que o mundo chora.

Qual meu espanto há sido em contemplando
Três faces na estranhíssima figura!
39 Rubra cor na da frente está mostrando;

Das outras cada qual, da pádua escura
Surdindo, às mais ajunta-se e se ajeita
42 Sobre o crânio da infanda criatura.

Entre amarela e branca era a direita;
A cor a esquerda tem que enluta a gente
45 Do Nilo às margens a viver afeita.

Via asas duas sob cada frente,
Tão vastas, quanto em ave tal convinham:
48 Velas iguais não abre nau potente.

Plumas, como em morcego, elas não tinham;
De contínuo agitadas produziam
51 Os três gélidos ventos, que mantinham

Os frios, que o Cocito enrijeciam.
Chorava por seis olhos, por três mentos
54 Pranto e sangüínea espuma se espargiam.

Qual moinho, com dentes truculentos
Cada boca um prexito lacerava:
57 Padecem três a um tempo assim tormentos.

Mas ao da frente a pena se agravava,
Porque das garras o furor constante
60 Do dorso a pele ao pecador rasgava.

“O que esperneia em dor mais cruciante”
O Mestre disse: “É Juda Iscariote:
63 Prende a cabeça a boca devorante.

“Dos dois, que estão pendendo, coube em dote
A negra face Bruto: sem gemido
66 Se estorce da dentuça a cada bote.

“O outro é Cássio, de membros bem fornido.
Mas a partir a noite insta, assomando:
69 Aqui já tudo havemos conhecido”.

Do Mestre o colo enlaço por seu mando.
Ele em lugar e tempo apropriado,
72 De Lúcifer as asas se alargando,

Ao peito hirsuto havia-se agarrado;
Depois de velo em velo descendia
75 Entre os ilhais e o lago congelado.

Chegado àquela parte, em que se unia
Da coxa o extremo dos quadris à altura,
78 Com grande ofego e mor abalo o Guia

Pôr a fronte onde os pés firmou procura,
Como quem sobe às crinas agarrado:
81 Assim tornar cuidei do inferno à agrura.

“Segura-te! Por tais degraus alado”
Lasso Virgílio já disse anelante,
84 “Deste império do mal serás tirado”.

De uma rocha então sai por fresta hiante;
Sobre a borda me assenta cauteloso;
87 Depois a mim se acerca vigilante.

Olhos alcei julgando curioso
Ver Lúcifer, qual de antes o deixara;
90 De pernas para o ar vi-o em seu pouso!

De que enleio a minha alma se tomara,
Deixo ao vulgo pensar pouco instruído,
93 Que o ponto não compreende, em que eu passara.

“Eia! Vamos!” o Mestre diz querido,
“Longa jornada e mau caminho temos;
96 E a meia terça o sol já tem corrido”.

De paço em salas nós de andar não temos;
Mas de antro natural em solo duro
99 Os passos nossos dirigir devemos.

“Antes que eu deixe em todo o abismo escuro
Erro, em que estou, meu Mestre, desvanece”
102 Disse erguendo-me um pouco mais seguro.

“Onde o gelo? Por que nos aparece
Assim Lúcifer posto? E já tão presto,
105 Cessando a noite, o sol nos esclarece?”

“Tu cuidas ser, do que ouço é manifesto
Lá no centro, onde ao pêlo me prendera
108 Do que atravessa o mundo, verme infesto.

“Ali stiveste, enquanto descendera
Ao voltar-me do ponto além tens sido,
111 Que o peso atrai na terreal esfera.

“Foste àquele hemisfério transferido,
Que se opõe ao que a terra está lançado,
114 Em cujo excelso cume há padecido;

“Quem nasceu, quem viveu sem ter pecado
Sobre uma esfera estreita os pés agora,
117 Da Judeca ao reverso, tens firmado.

“É noite lá; nós temos luz nesta hora;
E o que nos velos seus nos deu a escada
120 Na postura se firma, em que antes fora.

“Caiu aqui da altura sublimada,
E a terra, que se alçava entumescente,
123 Do mar fez véu e veio de enfiada

“Para o nosso hemisfério de repente.
Também fugiu de medo, a que se avista;
126 Vácuo deixando aqui, fez monte ingente”.

Lá no profundo há um lugar, que dista
Tanto de Belzebú, quanto se estende
129 Seu sepulcro: ali não penetra a vista.

Revela-o som de arroio, que descende
Por brecha do rochedo, que escavara,
131 Em torno serpeando, e pouco pende.

Para voltar do mundo à face clara
Nessa vereda escusa penetramos:
135 De nós nenhum de repousar cuidara.

Virgílio e eu, logo após, nos elevamos,
Té que do ledo céu as cousas belas
Por circular aberta divisamos:

139 Saindo a ver tornamos as estrelas.

 

1. Vexilas etc. — Aparecem os vexilos do rei do Inferno. É o primeiro verso de um hino da Igreja. — 38. Três faces etc., Lúcifer tem três faces em contraposição à Trindade divina. — 62. Juda Iscariote, que traiu Jesus. — 65-67. Bruto e Cássio, que mataram Júlio César. — 80. Como quem sobe etc. Passado o centro da terra, Virgílio para encaminhar-se ao hemisfério oposto deve subir e não mais descer. — 113-15. Que se opõe etc., ao hemisfério que cobre a terra em cujo cume (Jerusalém) foi crucificado Jesus Cristo. — 130. Arroio, o rio Lete que desce do Purgatório. — 137. As cousas belas, as estrelas que Dante percebia da pequena abertura a que chegaram.


—PURGATÓRIO—


CANTO I

 

Saindo do Inferno, Dante respira novamente o ar puro e vê fulgentíssimas estrelas. Encontra-se na ilha do Purgatório.O guardião da ilha, Catão Uticense, pergunta aos dois Poetas qual é o motivo da sua jornada. Ele os instrui, depois, relativamente ao que devem fazer, antes de iniciar a subida do monte.

 

DO engenho meu a barca as velas solta
Para correr agora em mar jucundo,
3 E ao despiedoso pego a popa volta.

Aquele reino cantarei segundo,
Onde pela alma a dita é merecida
6 De ir ao céu livre do pecado imundo.

Ressurja ora a poesia amortecida,
Ó Santas Musas, a quem sou votado;
9 Unir ao canto meu seja servida

Calíope o som alto e sublimado,
Que às Pegas esperar não permitira
12 Lhes fosse o atrevimento perdoado.

Suave cor de oriental safira,
Que se esparzia no sereno aspeito
15 Do ar até onde o céu primeiro gira,

Recreia a vista; e eu ledo me deleito
Em surdindo da estância tenebrosa,
18 Que tanto os olhos contristara e o peito.

A bela estrela, a amor auspiciosa
Sorrir alegre faz todo o Oriente,
21 Vela os Peixes, que a seguem, luminosa.

Ao outro pólo endereçando a mente,
Volto-me à destra, e os astros quatro vejo,
24 Que vira só a primitiva gente.

Folgar o céu parece ao seu lampejo.
Do Norte, ó região, viúva hás sido,
27 De os contemplar te não foi dado ensejo.

Depois de os remirar, já dirigido
Olhos havia para o pólo oposto,
30 Donde a Carroça havia-se partido,

Eis noto um velho, perto de mim posto,
Que reverência tanta merecia,
33 Que mais do pai não deve o filho ao rosto.

Nas longas barbas nívea cor saía,
Sendo na coma sua semelhante,
36 Que em dupla trança ao peito lhe caía.

A luz dos santos astros rutilante
De fulgor tanto lhe aclarava o gesto,
39 Que o vi, como se o sol lhe fosse adiante.

— “Quem sois que em contra o rio escuro e mesto
Do eterno cárcere heis fugido os laços?” —
42 Movendo as nobres plumas, disse presto.

“Quem vos guiou alumiando os passos
Para a profunda noite haver deixado,
45 Que enluta sempre os infernais espaços?

“As leis do abismo acaso se hão quebrado?
O céu dá, seus decretos revogando,
48 Que dos maus seja o meu domínio entrado?” —

Travou de mim Virgílio, me exortando
Por voz, aceno e mãos: como queria
51 Os joelhos curvei, olhos baixando.

— “De motu meu não vim” — lhe respondia —
De Dama aos rogos, que do céu descera
54 Socorro este homem, sirvo-lhe de guia.

Pois que é desejo teu que a nossa vera
Condição definida mais te seja,
57 Prestar me cumpro explicação sincera.

“Aura da vida este home’inda bafeja,
Mas tanto, de imprudente, se arriscara,
60 Que é maravilha vivo ainda esteja.

“Disse como a salvá-lo me apressara:
Por onde os passos dirigir pudesse
63 Essa vereda só se deparara.

“Mostrei-lhe a gente, que por má padece;
Mostrar-lhe intento os que ora estão purgando
66 Pecados no lugar, que te obedece.

“Longo seria como o vou guiando
Dizer-te: é força do alto a que me impele,
69 Para te ver e ouvir o encaminhando,

Digna-te, pois, bení’no ser com ele:
A liberdade anela, que é tão cara:
72 Sabe-o bem quem por ela a vida expele.

“Por ela a morte não te há sido amara
Em Útica, onde a veste foi deixada,
75 Que em Juízo há de ser de luz tão clara.

“Por nós eterna lei não é violada:
Ele inda vive; Minos não me empece;
78 No círc’lo estou, onde acha-se encerrada

“Tua Márcia, que em casto olhar parece
Rogar-te ainda que por tua a tenhas:
81 Lembrando-a em favor nosso te enternece.

“Ir deixa aos reinos teus, não nos retenhas;
Hei de a Márcia dizê-lo agradecido,
84 Se lá de ti falar-se não desdenhas.” —

— “Márcia, a meus olhos tão jucunda há sido
Que — tornou-lhe Catão — eu de bom grado
87 No mundo quanto quis lhe hei concedido.

“Estando além do rio detestado,
Mover-me ora não pode: este preceito
90 Me foi, deixando o Limbo, decretado.

“Se por dama celeste hás sido eleito,
Como disseste, é vã lisonja agora;
93 O que requeres em seu nome aceito.

“Vai, pois: cingindo este homem sem demora
De liso junco, lava-lhe o semblante;
96 Toda a impureza seja posta fora.

“Cumpre que, quando ele estiver perante
O anjo, que do céu vier primeiro,
99 Névoa nenhuma os olhos lhe quebrante.

“Lá onde baixa o ponto derradeiro
Do mar batido, esta ilha tem viçoso
102 Juncal que alastra todo o seu nateiro.

“Não pode vegetal rijo ou frondoso
Ter vida ali; porque não dobraria
105 Ao embate das ondas caprichoso.

“Aqui tornar inútil vos seria.
Vereis ao sol, que surge, o melhor passo
108 Para subir do monte à penedia.” —

Sumiu-se. Ergui-me, então, sem mais espaço,
E em silêncio; olhos fitos no semblante
111 De Virgílio, amparei-me com seu braço.

— “Comigo, ó filho” — diz-me — “segue avante.
Atrás voltemos; pois daqui se inclina
114 O plano para o mar, que jaz distante.” —

Fugia ante a alva a sombra matutina;
Já nos ficava aos olhos descoberta,
117 Posto remota, a oscilação marina.

Pela planície andávamos deserta,
Como quem trilha a estrada, que perdera,
120 E teme não achar vereda certa.

Chegando à parte, onde não pudera
Do rocio triunfar o sol nascente,
123 Porque à sombra o frescor pouco modera,

Sobre a relva meu Mestre brandamente
As mãos ambas abriu: o movimento
126 Lhe noto e, o compreendo, diligente,

As lacrimosas faces lhe apresento.
Virgílio as cores restaurou-me ao gesto,
129 Que desbotara o inferno nevoento.

Vimos à erma praia a passo lesto:
Nunca sobre águas suas navegara
132 Homem que o mundo torne a ver molesto.

Cingido fui, como Catão mandara.
Portento! A humilde planta renascida,
Qual antes vi no solo, onde a arrancara,

136 Sem diferença, de súbito crescida.

 

10. Calíope — Musa da epopéia. — 11. Pegas, as filhas de Pierio, desafiaram as Musas para cantarem com elas e, vencidas, foram transformadas em pegas. — 19. A bela estrela, Vênus. — 21. Os Peixes, a constelação dos Peixes. — 31. Um velho etc., Catão Uticense, que, para não entregar-se a Júlio César, suicidou-se em Útica. — 40. Rio escuro e mesto, o Aqueronte. — 79. Márcia, esposa de Catão.


CANTO II

 

Estão os Poetas ainda na praia, incertos em relação ao caminho, quando chega uma barca, guiada por um Anjo, da qual saem almas destinadas ao Purgatório. Uma delas, o músico Casella, amigo de Dante, a convite do Poeta, começa a cantar uma sua canção. Os dois Poetas e as almas ficam a ouvir o canto harmonioso. Sobrevém. porém, o severo Catão, que as repreende, e as almas fogem para o monte.

 

RESPLENDECIA o sol já no horizonte
Que tem meridiano, onde iminente
3 O zênite fica de Solima ao monte.

Na parte oposta a noite diligente
Do Ganges co’as Balanças se elevava,
6 Que lhe caem da mão, quando é excedente.

Já nesse tempo a idade transformava
A branca e rósea cor da bela Aurora
9 Noutra, que a de áureos pomos simulava.

Do mar ao longo inda éramos nessa hora,
Como quem, na jornada embevecido,
12 Se apressa em mente, os pés, porém, demora:

Eis, qual sobre manhã, enrubescido,
Das névoas através, Marte chameja
15 No ponente das ondas refletido,

Uma luz (praza a Deus de novo a veja!)
Tão veloz pelo mar vi deslizando,
18 Que não há vôo de ave, que igual seja.

Maior mostrou-se e mais fulgente, quando,
Depois de ter-me ao Guia meu voltado,
21 De novo olhei o seu brilho contemplando.

Nívea forma também, a cada lado,
Lhe divisei; abaixo aparecia
24 De igual cor outro vulto assinalado.

Té asas discernir permanecia
O sábio Mestre meu silencioso.
27 Mas então, como o nauta conhecia,

Bradou: “Curva os joelhos respeitoso,
Junta as mãos: eis de Deus um mensageiro!
30 De ora avante hás de ver outros ditoso.

“Vê que, aos humanos meios sobranceiro,
Para vir de tão longe velas, remos
33 Possui das asas no volver ligeiro.

“Como ele as alça para o céu já vemos,
Eternas plumas suas agitando;
36 Não mudam como dos mortais sabemos.” —

Em tanto, mais e mais se apropinquando,
Mais clara sobressai a ave divina:
39 Olhos abaixo à luz me deslumbrando.

O anjo logo à riba a nave inclina,
Tão rápida, tão leve, que parece
42 Voar somente na amplidão marina.

Na popa erguido o nauta resplendece:
Feliz quanto é lhe está na fronte escrito;
45 Das almas turba ao mando lhe obedece.

In exitu Israel de Egypto
A uma voz cantavam juntamente
48 E o mais, que foi no santo salmo dito.

Sinal da Cruz lhes fez devotamente:
Todos então à riba se lançaram
51 E tornou, como veio, incontinente.

Em volta remirando, os que ficaram
Pareciam de espanto apoderados,
54 Como quem a estranheza se acercaram.

O sol frechava os lumes seus dourados,
Lá do meio do céu tendo expelido
57 O Capricórnio a tiros reiterados,

Quando as almas, que haviam descendido,
Perguntam-nos: — “Sabeis, para indicar-nos,
60 Por onde o monte pode ser subido?”

Tornou Virgílio: — “Vos apraz julgar-nos
Do lugar sabedores; mas viandantes,
63 Como sois vós, deveis considerar-nos.

Chegáramos aqui, de vós, pouco antes,
Por estrada tão árdua e temerosa,
66 Que esta subida a par, jogo é de infantes.” —

Notando aquela turba, curiosa,
Que eu, pelo respirar, era homem vivo,
69 Enfiou ante a vista portentosa.

E como, a quem da paz ramo expressivo
Presenta, o povo acerca-se cuidoso
72 Em tropel de notícias por motivo:

O bando assim das almas venturoso
Em meu rosto atentava alvoroçado,
75 Quase esquecido de ir a ser formoso.

Uma, tendo-se às mais adiantado
A me abraçar correu com tanto afeito,
78 Que fui de impulso igual arrebatado.

Sombras vãs, verdadeiras só no aspeito!
Três vezes quis nos braços estreitá-la,
81 Só as três vezes estreitei ao peito.

Ante o espanto, que o gesto me assinala,
Sorriu-se; e, como já se retirasse,
84 Avançando, eu tentei acompanhá-la.

Suavemente disse que eu parasse,
Pedi-lhe, com certeza a conhecendo,
87 Que um pouco a praticar se demorasse:

— “Como te amei” — me respondeu — “vivendo
No mortal corpo, assim eu te amo agora.
90 Por que vais? Dize: ao teu desejo atendo.” —

“Caro Casella” — disse-lhe — “hei de embora
Tornar, ao fim desta jornada, à vida.
93 Por que de vir hás delongado a hora?” —

“Se a passagem negou-me requerida
Anjo, que as almas, quando apraz-lhe, guia,
96 Ofensa não me fez imerecida;

“Pois a justo querer obedecia.
Na barca em paz, três meses há somente,
99 A todos dá a entrada apetecida.

“Eu, que na plaga então era presente,
Onde no mar o Tibre as águas deita
102 Por ele aceito fui benignamente,

“A essa foz seus vôos endireita;
Pois sempre ali a grei stá reunida,
105 Às penas do Aqueronte não sujeita.” —

— “Se não é por lei nova proibida
Memória e usança do amoroso canto,
108 Que as mágoas todas me adoçou da vida,

“Praza-te amigo, confortar um tanto
Minha alma, que molesta, que amofina
111 Star envolta no corpóreo manto.” —

— “Amor que em minha mente raciocina” —
Entoou ele então com tal doçura,
114 Que o som donoso inda alma me domina.

Ao Mestre, a mim, a todos a brandura
Do saudoso cantar tanto elevava,
117 Que de ai a mente nossa então não cura.

Na toada, absorvida, se engolfava,
Eis de repente o velho venerando:
120 — “Que fazeis, descuidosos?” — nos bradava.

“Pois estais na indolência assim ficando?
Ide ao monte, a despir essa impureza,
123 Que a vista vos está de Deus vedando!” —

Quais pombos, que dos agros na largueza,
Em desejado pascigo embebidos,
126 Como olvidada a natural braveza,

Súbito arrancaram, de temor pungidos,
Se algum mal iminente lhes parece,
129 De cuidados maiores possuídos:

Tal a recente grei o canto esquece,
E, como homem, que vai sem ter roteiro,
Corre à costa, que aos olhos se oferece:

133 Não foi nosso partir menos ligeiro.

 

1-3. Resplendecia etc., colocando o Purgatório num hemisfério antípoda àquele da terra, o Poeta nota que onde ele estava o sol despontava e na mesma hora em Jerusalém (Solima) descia a noite. — 46. In exitu, etc., primeiro verso do Salmo 114. — 91. Casella, músico florentino amigo de Dante e que havia musicado algumas canções dele. — 119. O Velho, Catão.


CANTO III

 

Os dois Poetas se aprestam a subir o monte. Enquanto estão procurando o lugar onde a subida seja mais fácil, vêem um grupo de almas que lhes vêm ao encontro. Perguntam a elas onde seja a subida. Uma das almas se dá a conhecer a Dante. É Manfredo, rei de Nápoles e da Sicília. Ele narra como morreu, pedindo a Deus, na hora extrema. Estão juntas com ele, as almas dos que foram inimigos da Santa Igreja.

 

ENQUANTO aquela fuga repentina
Pela planície as sombras impelia
3 Ao monte, que a razão a amar ensina,

Ao sócio meu fiel eu me cingia:
Como sem ele houvera prosseguido?
6 Quem para alçar-me esforço me daria?

De remorsos parece possuído.
Ó consciência pura e sublimada,
9 Leve falta pesar te dá subido!

Quando atalhava a pressa, que é vedada
A quem dos atos no decoro atente,
12 Eu, que sentira a mente angustiada,

Tornando ao meu intento afoutamente
Os olhos à eminência levantava,
15 Que para o céu mais alto eleva a frente.

Nas espaldas o sol nos dardejava
Rubra luz, que o meu corpo interrompia,
18 Pois aos seus raios óbice formava.

Escuro ante mim só aparecia
O solo: eu, de abandono receoso,
21 Voltei-me ao lado onde era o sábio Guia.

Virgílio então me encara. — “Suspeitoso
Te mostras?” — diz — “Cuidavas, porventura,
24 Que eu não mais te acompanhe cuidadoso?

“Surge Vésper lá onde a sepultura
Guarda o corpo em que sombra já fizera
27 Tomando-o a Brindes, Nápole o assegura.

“Se ante mim não a vês, não te devera
Dar pasmo como lá no firmamento
30 Se a luz a luz não tolhe e não movera.

“Para calma sentir, frio ou tormento
Dispôs-nos corpo a suma Potestade.
33 Como o fez? Não nos deu conhecimento.

“Fátuo é quem julga à humana faculdade
Franco o infindo caminho e sempiterno,
36 Por onde segue o Ente Uno em Trindade.

“Homem, vos baste o quia: se ao superno
Saber alevantar-vos fosse dado,
39 Da Virgem ao seio não baixara o Eterno.

“Já viste porfiar sem resultado
Os que, cevar podendo seu desejo,
42 Em perpétua aflição o têm tornado.

“De Aristóteles falo neste ensejo,
De Platão, de outros mais.” — Baixando a fronte,
45 Calou; mostrava torvação e pejo.

Chegamos nós em tanto ao pé do monte
Onde era a rocha de tal modo erguida,
48 Que de subir capaz ninguém se conte.

A vereda mais erma e desabrida,
Que de Léria a Túrbia se encaminha,
51 Dá, confrontada, cômoda subida.

E o Mestre, assim falando, os pés detinha:
“Quem sabe onde a este monte o passo ascende?
54 Como aqui sem ter asas se caminha?”

Enquanto, baixo o rosto, o Mestre entende
Na jornada, em sua mente interrogando,
57 E pela altura a vista se me estende,

Divisei turba a nós endireitando
Da mão destra; o seu passo era tão lento,
60 Que não me parecia estar andando.

— “Aos que vêm” — disse ao Mestre — “mira atento;
Por eles pode ser conselho dado,
63 Se o não te of’rece o próprio pensamento...” —

Olhou-me, e com semblante asserenado
— “À turba vagarosa” — tornou — “vamos,
66 E a esperança te esforce, ó filho amado!” —

Passos mil para a grei nos caminhamos
E de tiro de pedra inda à distância,
69 Por mão destra arrojada, nos chamamos

Quando aqueles espíritos estância
Junto aos penhascos vi fazer, cerrados,
72 Qual transviado da incerteza em ânsia.

“Vós, eleitos ao bem, no bem finados” —
Disse Virgílio — “pela paz ditosa,
75 Em que sois todos, creio, esperançados,

“Dizei-me onde a montanha alta e fragosa
Subir permite, um pouco se inclinando:
78 Do tempo a perda ao sábio é desgostosa.” —

Como as ovelhas o redil deixando
A uma, duas, três e a cerviz tendo
81 Baixa as outras vão tímidas ficando;

Todas como a primeira, se movendo,
Conchegam-se-lhe ao dorso, se ela pára,
84 O porque, simples, quietas não sabendo:

Assim a demandar-nos se apressara
A venturosa grei, que no meneio
87 Traz a moléstia e o pudor na cara.

Tomada foi, porém, de tanto enleio,
Por minha sombra em vendo a luz cortada
90 A destra, em direção da rocha ao seio,

Que a vanguarda parou, como torvada:
Pelos mais sem detença foi seguida,
93 Mas sem lhes star a causa revelada.

— “A explicação previno apetecida:
Que um vivo corpo vedes confesso
96 E a luz do sol por este interrompida.

“Não haja em vós de maravilha excesso;
Do céu pela virtude socorrido,
99 Da montanha atingir quer o cabeço.” —

Disse Virgílio. — E foi-lhe respondido:
— “Voltai-vos; caminhai de nós diante.” —
102 E o lugar indicavam referido.

— “Sem que um momento deixes ir avante,
Quem quer que sejas, olha-me e declara”, —
105 Disse um deles, — “se hás visto o meu semblante.” —

Volvi-me, olhos fitando em quem falara.
Formoso e louro, tinha heróico aspeito;
108 Um golpe o seu sobrolho separara.

Tornei-lhe — “não” — tomado de respeito.
— “Olha!” — falou a sombra me indicando
111 Larga ferida no alto do seu peito.

“Vês Manfredo — sorriu-se me falando —
Que neto foi da Imperatriz Constança.
114 A minha bela filha diz, voltando,

(Mãe daqueles por quem tanta honra alcança
Aragão com Sicília) o que hás sabido,
117 Qual a verdade seja lhe afiança.

“Depois que foi o corpo meu ferido
De golpes dois mortais, a Deus piedoso
120 Alma entreguei, chorando arrependido.

“Fui de horrendos pecados criminoso,
Mas a Bondade Infinda acolhe e abraça
123 Quem perdão lhe suplica pesaroso.

“Se o Bispo que enviou Clemente à caça
Do meu cadáver, respeitado houvesse
126 Esse preceito da Divina Graça,

“Do corpo meu os ossos me parece,
Que em frente à ponte, ao pé de Benevento,
129 Em guarda o grave acervo inda tivesse.

“Agora os banha a chuva e açouta o vento,
Do reino meu distantes, junto ao Verde,
132 Onde os lançou sem luz, sem saimento.

“Mas anátema tanto alma não perde
Que, quando verde a esp’rança lhe floresce,
135 Do eterno amor do Criador deserde.

“Por certo, em contumácia o que fenece
Contra a Igreja, ainda quando se arrependa
138 Na hora extrema sua, aqui padece

“Tempo, que trinta vezes compreenda
Da impenitência o espaço, se ao decreto
141 Preces não trazem benfazeja emenda.

“Vês, pois, que podes me tornar quieto:
Revelando à piedade de Constança
Que interdito me hás visto ainda exceto

145 Pelas preces de lá muito se alcança.” —

 

25. Surge Vésper etc., o cadáver de Virgílio de Brindes foi transportado para Nápoles, onde, neste momento, descia a noite. — 37. Vos baste o guia, chega saber o que é, sem procurar a razão. — 50. De Léria a Túrbia, o caminho entre estas duas aldeias da Ligúria. — 112. Manfredo, filho do imperador Frederico II e neto da imperatriz Constança. — 114-16. Minha bela filha, Constança, esposa de Pedro III de Aragão teve dois filhos: Jaime que sucedeu ao pai em Aragão e Frederico, rei de Sicília. — 124. Se o bispo etc., Bartolomeu Pignatelli, bispo de Cosenza, por ordem do papa Clemente IV, desenterrou o corpo de Manfredo, que era excomungado, e o mandou jogar no Rio Verde. — 133. Anátema, excomunhão dos papas.


CANTO IV

 

Seguindo os conselhos recebidos, os Poetas, através de um caminho apertado e difícil, sobem ao primeiro salto. Virgílio explica a Dante que, encontrando-se em hemisfério antípoda àquela terra, o Sol gira em direção contrária. Vendo muitas almas recolhidas à sombra de um rochedo, e aproximando-se a elas, Dante reconhece o seu amigo Belacqua. Ai estão os espíritos preguiçosos dos que esperaram para arrepender-se o termo da vida.

 

QUANDO ou pelo prazer ou por desgosto
Das faculdades uma é possuída,
3 Concentrando-se, o espírito indisposto

Se mostra à ação, de outra qualquer nascida;
Verdade, que refuta a crença errada
6 — Quem em nós uma alma está noutra acendida.

E, pois, se vendo, ouvindo, alma engolfada,
Lia-se à cousa, que a atenção cativa,
9 Sem sentir vai-lhe o tempo à desfilada.

Pois faculdade só no ouvir ativa
Difere dessa, em que alma se domina:
12 Uma presa, outra a vínculos se esquiva.

Experiência ao claro isto me ensina.
Aquela sombra atônito escutando,
15 Já com cinqüenta graus o sol se empina,

Sem que eu me apercebido houvesse, quando
Ao ponto fomos, onde a turba, unida,
18 — “Haveis o que anelais!” — disse, bradando.

Estando a vinha já madurecida,
Pelo aldeão de espinhos com braçada
21 Da sebe a estreita aberta é defendida.

Mais larga é que a vereda alcantilada
Por onde fui subindo após meu Guia,
24 Quando a grei nos deixou abençoada.

A Noli e a San-Leo por árdua via
Com pés se vai, Bismântua assim se alcança;
27 Ter asas de ave aqui mister seria;

Ou asas de um desejo, que não cansa,
Para o vate seguir que, desvelado,
30 Me servia de luz, me dava esp’rança.

Por carreiro entre penhas escavado,
Sempre de agudas pontas empecido,
33 Pelas mãos cada passo era ajudado.

Chegados da alta escarpa ao topo erguido
Da eminência no dorso descoberto,
36 — “Por onde ir”— disse então —“Mestre querido?”

— “Eia!” — tornou — “não dês um passo incerto!
Vai subindo após mim pela montanha;
39 Guia acharemos no caminho esperto.” —

Não mede a vista elevação tamanha:
Linha que o centro corte de um quadrante,
42 Por certo a ingrimidez não lhe acompanha.

Sem forças já, falei-lhe titubante:
— “Volve a face, pai meu: olha piedoso
45 Que só me deixas, indo por diante” —

— “Para ali, filho” — diz — “te alça animoso!” —
E o seu braço indicava uma planura,
48 Que torneia o declive temeroso.

Dessas vozes esforça-me a doçura
Tanto, que a rastos lhe seguia o passo
51 Até meus pés tocarem nessa altura.

Sentamo-nos a par, então, de espaço
Ao nascente voltados, qual viageiro
54 A estrada olhando, que calcara lasso;

Abaixo os olhos dirigi primeiro,
Ao sol voltei depois; notei pasmado
57 Da esquerda o lume vir desse luzeiro.

Disse Virgílio ao ver quanto enleado
Stava, o carro da luz considerando
60 Que era entre nós e o Aquilão entrado:

— “Se um e outro hemisfério alumiando,
Castor e Pólux junto a si tivera
63 O vasto espelho, que ora está brilhando,

“Da Ursa ainda mais propínqua à esfera,
A roda do Zodíaco observaras,
66 Se a costumada estrela não perdera.

“Meditando, a verdade logo acharas,
Se colocados de Sião o monte,
69 E este outro na terra imaginaras,

“Ambos guardando idêntico horizonte
E hemisférios diversos, onde passa
72 Estrada, em que tão mal correu Fetonte,

“E se a razão em ti não for escassa,
Verás que, enquanto a um vai por um lado,
75 Ao outro pelo oposto o sol perpassa.” —

— “Tanto ao claro jamais, ó Mestre amado,
Como ora, o meu esp’rito compreendera,
78 Quando estava por dúvida nublado.

“Que o círc’lo médio da mais alta esfera,
Que sempre Equador chama-se em certa arte
81 Entre o inverno e o sol se considera,

“Deve (se pude a mente penetrar-te)
Para o norte volver-se, e, no entretanto,
84 Viam-no Hebreus de Áustro pela parte.

“Agora, se te apraz, dize-me quanto
Hemos de andar; que os olhos, da eminência
87 Não atingindo o fim, se enchem de espanto.” —

— “Da montanha” — responde — “é a excelência
Fadiga no começo causar grave;
90 Quem mais sobe acha menos resistência.

“Ao tempo, em que te parecer suave
Tanto, que a subas ágil e ligeiro,
93 Como descendo da água o curso a nave,

“No termo te acharás deste carreiro:
Após afã desfrutarás repouso:
96 Quanto digo hás de ver que é verdadeiro” —

Mal acabando o Mestre carinhoso,
Perto soa uma voz: — “Talvez te seja,
99 Antes de lá chegar, preciso um pouso.” —

Volveu-se cada qual para que veja
Quem falara; alta penha deparamos;
102 Então só vemos que à mão sestra esteja.

Multidão, cercando-nos, achamos
Que à sombra demorava quietamente;
105 Por desídia detidos os julgamos.

Mostra-se um mais que os outros negligente:
Sentado abraça as pernas, tendo o rosto
108 Recostado aos joelhos, qual dormente.

Disse então: — “Vê senhor, quanto disposto
É à inércia o que ali stá parecendo:
111 Como irmão da preguiça fica posto.” —

Ele um pouco voltou-se olhos movendo
Para o meu lado, sem mudar postura,
114 — “Pois vai tu, que és valente!” — me dizendo.

Reconheci quem era. Inda me dura
Da agra ascensão em parte o grande ofêgo;
117 Mas endereço os passos à figura.

A fronte mal ergueu, quando me achego.
— “Como conduz o sol carro à esquerda
120 Tens reparado?” — disse com sossego.

Por meneio tão lento e voz tão lerda
Fui algum tanto a riso provocado.
123 — “Belacqua” — disse eu — “mas a tua perda

Não choro. Por que estás aqui sentado?
Esperas guia? Acaso, como outrora,
126 Da preguiça te sentes cativado?” —

Tornou-me: — “Irmão, subir que importa agora?
De Deus o anjo, que defende a entrada,
129 Me deixaria dos martírios fora.

“Tanto a porta me tem de ser vedada,
Quanto no mundo me durara a vida:
132 Pesei-me só a morte ao ver chegada.

“Mas antes ser me pode permitida
Pela oração de quem da Graça goza;
135 Que vai outra, do céu desatendida?” —

Mas o Vate seguia na penosa
Jornada. — “Vem!” — dizia — “Resplandece
O sol no meio-dia; e tenebrosa

139 Sobre Marrocos ora a Noite desce.” —

 

5. A crença errada etc., de atribuir ao homem diversas almas, crença dos platônicos e dos maniqueus. — 15. Já com cinqüenta graus etc., o Sol percorre 15 graus por hora; portanto haviam passado quase 3 horas e meia. — 25-26. Noli, na Ligúria; São Leo, perto de Urbino; Bismântua, perto de Urbino. — 57. Da esquerda etc., o Purgatório se encontra num hemisfério antípoda, e portanto o sol aparecia a Dante pela esquerda quando no nosso hemisfério parece levantar-se à direita e caminhar à esquerda. — 68. Sião, Jerusalém, que é o lugar antípoda ao Purgatório. — 123. Belacqua, florentino, fabricante de instrumentos musicais, amigo de Dante. — 139. Sobre Marrocos, sendo meio-dia no Purgatório, em Jerusalém, no hemisfério oposto, era meia-noite, e a noite começava em Marrocos.


CANTO V

 

Prosseguindo os dois Poetas a sua viagem, encontram uma multidão de almas que se aproximam deles, depois de ter percebido que Dante é vivo. São espíritos de pessoas que saíram da vida por morte violenta, mas no fim se arrependeram e perdoaram a seus inimigos.

 

OS passos do meu Guia acompanhando,
Dessas almas um pouco era distante,
3 Quando uma, atrás de nós, o dedo alçando,

— “Vede! A luz” — exclamou — “não é brilhante
À sestra do que vai mais demorado;
6 Pelo meneio a um vivo é semelhante.”

Olhos volvi daquela voz ao brado,
E as vi notar, de maravilha cheias,
9 Como eu, andando, a sombra tinha ao lado.

— “Por que tanto, ó meu filho, assim te enleias?”
Disse o Mestre. — “Por que deténs o passo?
12 Acaso o murmurar daqui receias?

“Segue-me: a vozes vãs ouvido escasso!
Qual torre, inabalável sê, dos ventos
15 À fúria opondo válido embaraço;

“Quem firmeza não tem nos pensamentos,
Do fim se aparta, a que alma se endereça
18 E, assim, malogra, instável, seus intentos.

— “Sigo-te!” — ao Mestre meu tornei depressa.
Cumpria assim falar; meu voto incende
21 O rubor, que ao perdão a falta apressa.

Entanto por atalho a costa ascende
Adiante de nós turba cantando
24 Devota Miserere, e ao cimo tende.

Ao ver que estava o corpo meu vedando
Dos luminosos raios a passagem
27 O canto suspendeu, rouco “oh!” soltando

E dois dos seus em forma de mensagem
Correndo contra nós assim falaram:
30 “Quem sois, que assim fazeis esta viagem?”

Disse Virgílio: — “Aos que vos enviaram
Tornai que ao corpo do homem que estais vendo
33 Vitais alentos inda não deixaram.

“Se os passos, como cuido, estão detendo,
Por ver-lhe a sombra, a causa é conhecida;
36 Terão proveito, as honras lhe fazendo.” —

Mais prontos que os vapores à descida
Da noite, o ar sereno aluminando,
39 Ou névoa, ao pôr do sol, do céu varrida,

Partem, à grei de novo se ajuntando;
Como esquadrão, que corre à desfilada,
42 Voltam todos, a nós se arremessando.

“Ao nosso encontro vem turba avultada;
Pretensões todos têm” — disse-me o Guia
45 — “Andando, os ouve; não convém parada.”

— “Ó alma, que do céu vais à alegria
No próprio corpo, em que feliz nasceste,
48 Demora o passo um pouco” — a grei dizia,

“De entre nós vê se alguém reconheceste
Para ao mundo levares a notícia;
51 Por que deter-te ainda não quiseste?

“Morte a todos causou cruel nequícia;
Pecamos sempre até que à final hora
54 Do céu a luz se nos mostrou propícia.

“Assim, contritos, perdoando, fora
Fomos da vida, a paz com Deus já feita;
57 De o ver desejo nos acende agora.”

— “A feição vossa” — eu disse — “é tão desfeita,
Que nenhum reconheço; mas, se acaso
60 Ser útil posso no que a vós respeita,

“Pela paz, a servir-vos já me emprazo,
Que busco, deste sábio acompanhado,
63 De mundo em mundo, no mais breve prazo.”

“Cada qual” — me tornou — “está confiado
Em ti, mister não há teu juramento,
66 Se não faltar poder ao teu bom grado.

“Aos outros me antecipo: ao rogo atento,
Tu se fores à terra que demora
69 Entre a Romanha e a que é de Carlo assento,

“Aos meus em Fano compassivo exora
Que com preces sufraguem-me piedosos
72 Para o mal expurgar que fiz outrora.

“Nasci lá, sofri golpes espantosos,
Que a existência cortaram-me tão cara,
75 De Antenórios nos planos pantanosos,

“Onde o funesto fim nunca esperara.
Assim o quis do Marquês d’Este a ira,
78 Que o exício meu injusto aparelhara.

“Ah! se, fugindo, me acolhesse a Mira
Quando alcançou-me de Oriais perto,
81 Eu fora inda hoje aonde se respira.

“Mas, correndo ao paul, sem rumo certo,
Caí, no ceno e juncos enleado:
84 De sangue um lago fez meu peito aberto.”

“Se for” — outro então disse — “executado
Desejo que te impele ao alto monte,
87 Sê por mim de piedade impressionado.

“De Montefeltro fui e fui Buonconte;
De mim Joana, e ninguém mais, não cura;
90 Entre todos por isso abaixo a fronte.”

— “Que força — que má ventura
Tão longe te arrastou de Campaldino,
93 Que se ignora onde tens a sepultura?”

— “Oh!” — replicou-me — “Ao pé de Casentino
Um rio passa que se chama Arquiano,
96 Nascido lá sobre o Ermo, no Apenino.

“De dor lá onde o perde o nome, insano,
Cheguei: ao pé fugia, e, traspassado,
99 O colo meu ensangüentava o plano.

“Da vista e fala ao ser desamparado,
No suspiro final bradei — Maria! —
102 E o corpo meu tombou, da alma deixado.

“Direi verdade: aos vivos o anuncia.
De Deus anjo tomando-me, o do inferno
105 — “Servo do Céu, mo tomas?” lhe bramia.

“Dele me usurpas o princípio eterno
Por uma tênue lágrima fingida;
108 Mas do seu corpo cabe-me o governo.

“Bem sabes que nos ares recolhida
Vaporosa umidade em chuva desce,
111 Quando é do frio às regiões subida

“Como quem com maldade o engenho tece,
Névoas e vento acumulava, usando
114 Da pujança infernal que lhe obedece.

“Depois, o dia terminado estando,
Do Pratomagno à serra, o vale envolve
117 Em treva, ao céu a abóbada enlutando.

“Túmido o ar, em catadupas volve,
E a água que na terra não se entranha,
120 Espumosa em torrentes se revolve.

“Veloz os álveos aos arroios ganha,
E para o régio rio se arrojando,
123 Os óbices abate, que se assanha.

“Junto à foz meu cadáver encontrando
Levanta-o Arquiano impetuoso
126 Ao Arno o impele, os braços desligando

“Da cruz que fiz no transe doloroso.
Por fundo e margens rola-o, sepultado
129 Na areia o deixa, que arrastara iroso.” —

— “Ah! quando à luz do mundo hajas tornado,
Quando repouses da jornada extensa” —
132 Foi por terceiro espírito impetrado:

“De Pia recordando-te, em mim pensa;
Siena fizera o que desfez Marema.
Sabe-o quem me esposara e em recompensa

136 No dedo pôs-me anel com rica gema.” —

 

24. Miserere, o salmo que começa com essa palavra. — 68-69. A terra que demora etc., a Marca de Ancona. — 73. Nasci lá etc. Quem fala é Jacopo de Cassero, de Fano, que foi assassinado pelos sicários do Marquês Azzo III d’Este, quando se dirigia a Milão, em 1298. — 75. De Antenórios etc. no território de Pádua (cidade que se diz fundada por Antenor). — 88. Buonconte de Montefeltro, filho de Guido (Inf. XXVII), capitão gibelino, morreu na batalha de Campaldino. — 89. Joana, sua esposa. — 96. Ermo de Camaldoli. — 122. Regio rio, o Arno. — 133. Pia del Guastelloni. Casada com um gentil-homem da família Tolomei, ficou viúva e casou novamente com Nello Pannocchieschi, que a fez matar, talvez desconfiado da sua fidelidade, num castelo da Marema, em 1295.


CANTO VI

 

Dante promete às almas que a eles se recomendaram que não se esquecerá delas quando voltar ao mundo dos vivos. Os dois Poetas encontram o poeta Sordello, o qual, ao ouvir o nome da sua pátria, Mântua, abraça o mantuano Virgílio. Esse espisódio move Dante a uma violenta invectiva contra as divisões e as guerras internas que devastam a Itália.

 

QUANDO o jogo da zara é terminado,
Na amargura, o que perde, só ficando,
3 Os bons lances ensaia contristado.

A turba o vencedor acompanhando,
Qual vai diante qual por trás o prende,
6 Ao lado qual se está recomendando:

A este e àquele sem deter-se atende;
O que lhe alcança a mão parte se apressa;
9 De importunos desta arte se defende.

Cerca-me assim a multidão espessa,
Ora a uns ora a outros me volvendo,
12 De cada qual me livro por promessa.

O Aretino aqui stava: golpe horrendo,
De Ghin Tacco por mau, cortou-lhe a vida,
15 E o que na fuga se afogou, horrendo.

Aqui rogou-me em súplica sentida,
Frederico Novello e esse Pisano
18 Por quem Mazucco ação fez tão subida.

Vi o Conde Orso e aquele que o seu dano
Mortal, pelo ódio e inveja, recebera,
21 Como dizia, não por feito insano.

Aludo a Pedro Brosse. A que ora impera,
Do Brabante, se apressa a ter cautela,
24 Se não, da grei maldita a estância a espera.

Quando enfim, pude me esquivar àquela
Turba, que preces sôfrega pedia
27 Para a entrada apressar na mansão bela,

— “Em texto expresso” — eu disse — “ó douto Guia,
Do teu livro afirmaste que a vontade
30 Do céu por orações não se movia.

“Mas pede-as essa grei com ansiedade:
Seria acaso vã sua esperança?
33 Ou compreender não pude essa verdade?” —

— “Seu sentido a tua mente” — disse — “alcança;
Por vã essa esperança não falece;
36 Quanto é certa a razão nô-lo afiança:

“A Justiça do céu não desfalece,
Porque flama de amor num só momento
39 O devedor redime, que padece.

“Lá onde expus aquele pensamento
Não podia oração solver pecado,
42 Pois distante de Deus estava o intento.

“Porém neste problema sublimado
À mente por que há suma ciência
45 Te será puro lume revelado.

“Por quem? Por Beatriz. A continência
Feliz ridente lhe verás, ao viso
48 Quando houveres subido da eminência.” —

Tornei: — “Andar mais presto ora é preciso;
Como de antes, não sinto mor fadiga,
51 E da montanha a sombra já diviso.” —

— “Como podemos, é mister prossiga
O passo, enquanto o dia não se finda;
54 Mas te engana o desejo que te instiga.

“Antes do cimo aguardarás a vinda
Desse astro oculto agora pela encosta;
57 Não refranges os raios seus ainda.

“Aquela sombra vê, de parte posta,
Que, em soledade, atenta nos esguarda:
60 A vereda dirá melhor disposta.” —

Chegamo-nos. Ó nobre alma lombarda,
Como estavas altiva e desdenhosa.
63 Dos olhos no meneio grave e tarda!

Ela em nós encarou silenciosa,
Mas deixava-nos vir, nos observando,
66 Qual leão no repouso, majestosa.

Virgílio apropinquou-se, lhe rogando
Nos mostrasse a mais cômoda subida:
69 Respondeu-lhe, somente perguntando

Qual fora a pátria nossa e a nossa vida.
A falar o meu Guia começava:
72 “Em Mântua...” quando a sombra, comovida,

A ele se enviou donde se achava,
“Sordello sou” — dizendo — “em Mântua amada
75 Nasci também.” — E amplexo os estreitava.

Ah! serva Itália, da aflição morada!
Nau sem piloto em pego tormentoso!
78 Rainha outrora em lupanar tornada!

Esse espírito nobre e deleitoso
Nome escutando só da doce terra,
81 Logo o patrício acolhe carinhoso:

Os vivos raivam no teu solo em guerra;
Se encarniça um no outro ferozmente
84 Os que um só muro, uma só cava encerra.

Busca, ó mísera Itália, diligente
No mantimo teu, busca em teu seio:
87 Onde acha paz a tua infausta gente?

Justiniano em vão te ajeitar veio
A brida; a sela fica abandonada:
90 Maior vergonha te há causado o freio.

Ah! Cúria! Aos teus deveres dedicada
Deixar-te cumpre a César todo o mundo,
93 Como a lei quer por Cristo decretada!

Vê como, aos maus instintos se entregando
Ira-se a fera por faltar-lhe espora,
96 Depois que inábil mão stá governando.

Alberto de Germânia! Atente agora
Que é tornada indômita e bravia:
99 Cavalgado a deveras ter outrora!

Do céu justo castigo deveria
Os teus ferir — tão novo e tão sabido,
102 Que espante o sucessor da monarquia!

Tu e o teu genitor heis consentido,
Distantes, por cobiça, em terra estranha,
105 Que do Império o jardim steja esquecido.

Vê, descuidoso, na aflição tamanha,
Capelletti e Montecchi entristecidos.
108 Monaldi e Filippeschi, alvo de sanha.

Vem, cruel, ver fiéis teus suprimidos:
De tanto opróbrio seu toma vingança.
111 Vê como em Santaflor estão regidos!

Vem ver tua Roma! De carpir não cansa!
Viúva e só a todo o instante clama:
114 Vem, César! Vem! Não mates minha esp’rança!

Vem ver como a si próprio o povo se ama!
E se por nós piedade não te move,
117 Mova-te o zelo pela tua fama!

Se me é dado dizer, Supremo Jove,
Dos homens por amor sacrificado,
120 Mal tanto a nos olhar não te comove?

Ou tens ao nosso mal aparelhado,
Lá dos conselhos teus no abismo imenso,
123 Algum bem, ao saber nosso vedado?

As cidades de Itália um tropel denso
De tiranos subjuga e, qual Marcelo
126 Se aclama o faccioso, à pátria infenso.

Hás de, Florença minha, haver por belo
Este episódio a ti não referente,
129 Mercê do povo teu, de outros modelo.

Muitos, justiça tendo em peito e mente,
Por desfechar seu arco ensejo aguardam:
132 Teu povo a tem nos lábios permanente.

Muitos de encargos públicos se guardam;
Mas teu povo solícito se of’rece,
135 Gritando: — ”Pronto estou! em darmos tardam!” —

Exulta! A causa o mundo bem conhece:
Tens prudência, tens paz, possuis riqueza.
138 Falo a verdade, e o efeito transparece.

Atenas, Sparta, que a tão suma alteza
Por leis e instituições se sublimaram,
141 Sem governo viveram na incerteza,

Se, Florença, contigo se comparam,
Que em novembro tens visto revogadas
144 Leis sutis, que em outubro se forjaram.

Quantas vezes hão sido transformadas,
Em breve tempo, lei, moeda, usança?
147 Quantas índoles e forma renovadas?

Se vês ao claro e tens viva a lembrança,
Ao enfermo hás de achar que és semelhante,
Que, no leito jazendo, não descansa;

151 Em vão se agita, a dor vai por diante.

 

1. Jogo da zara — jogo de dados. — 13. O Aretino etc., o juiz Benincasa de Laterina, que foi assassinado pelo famoso bandoleiro Ghino del Tacco. — 15. E o que etc., Guccio Tarlati, de Pietramala, morreu afogado no Arno, perseguindo os inimigos derrotados numa batalha. — 17. Frederico Novello, morto ao socorrer os Tarlati de Pietramala. — Esse Pisano, Farinata degli Scornegiani, morto a traição. Seu pai Mazucco, que se fizera frade, perdoou ao assassino do filho. — 19. Conde Orso degli Alberti, assassinado por um seu primo. — E aquele, Pedro Brosse, médico de Filipe III de França, enforcado sob falsas acusações. — 28-30. Em texto expresso etc. Virgílio na “Eneida” (livro VI) negou que pudessem modificar-se os decretos do Céu. — 42. Pois distante etc., a prece só foi aceita depois do advento do Cristianismo. — 74. Sordello de’ Visconti de Mântua, poeta, jurisconsulto e guerreiro do século XIII. — 88. Justiniano, que consolidou a legislação romana. — 97. Alberto de Germânia, Alberto I, filho do imperador Rodolfo, eleito em 1296. — 107-8. Cappelletti e Montecchi, famílias de Verona. Monaldi e Filippeschi, famílias de Orvieto. — 111. Santaflor, feudo imperial nas vizinhanças de Siena. — 118. Supremo Jove, Jesus Cristo. — 125. Qual Marcelo, Cláudio Marcelo, adversário de Júlio César.


CANTO VII

 

Sordello, ao saber que aquele que abraçou é Virgílio, lhe faz novas e ainda maiores demonstrações de afeto. O Sol está próximo ao ocaso e ao Purgatório não se pode subir à noite. Guiados por Sordello, os dois Poetas param num vale, onde residem os espíritos de personagens que no mundo desfrutaram de grande consideração e que somente no fim da vida elevaram o seu pensamento a Deus.

 

DE doce afeto as mútuas mostras sendo
Por três ou quatro vezes reiterado
3 — “Quem sois?” — se retraiu Sordel dizendo.

— “Tinha Otávio os meus ossos sepultado
Já quando a este monte se elevaram
6 Almas que ao bem havia Deus chamado.

Virgílio sou: do céu não me afastaram
Pecados; me faltava a fé somente.” —
9 Do meu Guia estas vozes lhe tornaram.

Como quem ante si vê de repente
Maravilha: ora crê, ora duvida,
12 E diz: — É certo ou minha vista mente? —

Assim essa alma. Dobra a frente erguida
Humildemente, ao Vate se avizinha
15 E lhe abraça os joelhos comovida.

— “Ó glória dos Latinos!” — disse asinha —
Que ergueste a língua nossa a tanta altura!
18 Honra eterna da amada pátria minha!

“De ver-te o que me dá graça e ventura?
Dize, se di’no de te ouvir hei sido,
21 De qual círculo vens da estância escura.”

— “Tenho aqui” — Virgílio diz — “subido,
Do triste reino os círc’los visitando,
24 Sou do céu por virtude conduzido.

“Não por fazer, mas de fazer deixando,
Ver o sol, que desejas, me é vedado:
27 Conheci-o já tarde — ai miserando!

“Lá embaixo um lugar foi destinado
Não a martírio, à treva onde há somente
30 Suspiros, não gemer de angustiado.

“Ali stou eu, no meio da inocente
Grei, que a morte cruel mordeu, enquanto
33 Da culpa humana inda era dependente.

“Com aqueles stou eu, em quem seu manto
Três celestes virtudes não lançaram,
36 Lhes dando à vista o mais suave encanto.

“Mas sabes se veredas se deparam
Que ao Purgatório a entrada facilitem?
39 Os indícios nos diz, se te constaram.” —

Tornou: — “Lugar não há, que almas habitem
Aqui; na direção vou, que me agrada;
42 Guiarei quanto os passos me permitem.

“Mas vê: declina o dia; na jornada,
Que fazeis, caminhar a noite veda:
45 Busquemos sítio a cômoda pousada.

“À destra e à parte multidão stá queda:
Iremos até lá, se acaso o queres,
48 Talvez te seja a sua vida leda.” —

E o Mestre: — “Como? Pelo que proferes,
Impossível será subir sem dia?
51 Ou a alguém, que o proíba, te referes?” —

Com seu dedo Sordel linha fazia
No chão e disse: — “Além ninguém passara
54 Se, ausente o sol, a noite principia.

“Mas óbice qualquer não deparara
Quem caminhar, subindo, pretendesse:
57 Para tolhê-lo a noite já bastara.

“Bem pudera baixar, se lhe aprouvesse,
Pelo declive em volta da montanha:
60 Enquanto o sol sob o horizonte desce.” —

Torna Virgílio, então, que ouvindo estranha:
— “Ao lugar, que nos dizes, pois, nos guia,
63 Onde a demora o júbilo acompanha.” —

Pouco longe dali notei que havia
Depressão na montanha, semelhante
66 À que na terra um vale formaria.

— “Iremos” — disse a sombra — “um pouco avante
Té onde a encosta encurva, se escavando:
69 De lá voltar vereis a luz brilhante.” —

Entre a escarpa e o plano se inclinando
Trilha ao vale conduz obliquamente,
72 O pendor mais que ao meio, se adoçando.

Prata, alvaiade, grão, ouro fulgente,
Índico lenho límpido e lustroso,
75 Pura esmeralda, ao lapidar, luzente,

Por flores e ervas desse val formoso
Se achariam na cor escurecidos
78 Como cede o mais fraco ao mais forçoso.

Aos donosos males espargidos
Mil suaves aromas se ajuntavam,
81 Em peregrino muito reunidos.

Sobre a relva entre as flores entoavam
Salve Regina, as almas, que da vista
84 Externa no recinto se ocultavam.

“Do sol enquanto a luz inda persista” —
O Mantuano disse, que nos guia,
87 “Ir não queiras à grei que de nós dista.

“Gestos e vultos seus conheceria
Qualquer de vós daqui mais claramente
90 Do que, de perto os vendo, o poderia.

“O que parece, aos outros, eminente.
Da quebra em seus deveres pesaroso
93 E a geral melodia ouve silente,

“É Rodolfo que fora poderoso.
Conta o mal que já tem a Itália morta:
96 Quem lhe dará porvir esperançoso?

“O que com seu semblante ora o conforta
Governava esse reino onde a água brota,
99 Que o Molta ao Álbia, o Álbia ao mar transporta.

“É Otocar: na infância melhor nota
Teve que o filho, Venceslau barbudo,
102 Na luxúria e preguiça a vida esgota.

“Morrendo, o que não tem nariz agudo
E fala a esse outro de benino aspeito,
105 Deixou dos lizes deslustrado o escudo.

“Atentai: como bate ele no peito!
Vede aquele que ao ar suspiros lança
108 Da mão fazendo à sua face um leito.

“Sogro e pai do flagelo são da França;
Cientes do viver seu vergonhoso,
111 Dor stão sentindo, que ora não descansa.

“Esse membrudo, que o cantar piedoso
Segue do que nariz tem desmarcado,
114 Das virtudes no culto foi zeloso.

“Se o mancebo, ora atrás dele assentado,
Ao trono sucedera-lhe, subira
117 Valor de um Rei por outro fora herdado.

“Dos maus herdeiros qual pôs nisso a mira?
Jaime Fred’rico havendo o reino tido,
120 Nenhum a melhor parte possuíra.

“Rara vez tem nas ramas ressurgido
Primor alto da estirpe; assim o ordena
123 Aquele, a quem ser deve o bem pedido.

“Ao narigudo aplicação tem plena
Meu dito e a Pedro, que ao seu lado canta:
126 Apúlia com Provença, geme e pena.

“Tanto ao seu fruto excede em preço a planta,
Quanto, mais que Beatriz e Margarida,
129 Constança ações do esposo seu decanta.

“Ali vedes o Rei de simples vida
Sentado à parte, Henrique de Inglaterra:
132 Teve este em ramos seus melhor saída.

“Mais abaixo notai sentado em terra
Marquês Guilherme e para o alto olhando,
Por quem, sofrendo Alexandria guerra,

136 Montferrat, Canavese estão chorando.” —

 

4. Otávio, o imperador Augusto. — 94. Rodolfo, de Habsburgo, imperador de 1273 a 1291. — 96. Quem etc., o imperador Henrique VII, que tentou pôr ordem na Itália. — 98. Esse reino etc., a Boêmia, onde nasce o rio Moldava (Molta), que desemboca no Elba (Albia). — 100. Otocar II, adversário de Rodolfo, foi de melhor índole que seu filho Venceslau. — 103. O que não tem nariz agudo, Filipe III de França, pai de Filipe o Belo e de Carlos de Valois. — 104. Esse outro, Henrique I de Navarra, sogro de Filipe o Belo e pai de Joana I. — 109. Do flagelo da França, Filipe o Belo. — 112. Esse membrudo, Pedro III de Aragão, que, depois da revolução das Vésperas, conquistou a Sicília. — 113. Ao que nariz tem desmarcado, Carlos I de Ànjou que, vencendo Manfredo, conquistou a Sicília. — 115-20. Se o mancebo, Afonso III, primogênito de Pedro de Aragão, que morreu moço, foi melhor príncipe do que os seus sucessores, Jaime II no reino de Aragão e Frederico na Sicília. — 126. Apúlia etc., os reinos de Provença e de Nápoles lamentam a morte de Carlos I, pois são mal governados pelo seu sucessor Carlos II. — 127-29. O fruto etc., tão inferior é Carlo II de Anjou a Carlos I, quanto este foi inferior a Pedro III. — 131. Henrique III, da Inglaterra, o qual teve um bom sucessor na pessoa de Eduardo I. — 134. Marquês Guilherme, senhor de Monferrato, cuja morte originou uma guerra desastrosa para os seus súditos.


CANTO VIII

 

No começo da noite dois anjos descem do Céu para expelir a serpe maligna que quer entrar no vale. Entre as sombras que se aproximam dos Poetas, Dante reconhece Nino Visconti, de Pisa. Conrado Malaspina pede a Dante notícias de Lunigiana, sua pátria; Dante responde elogiando a sua família.

 

ERA o tempo, em que mais saudade sente
Do navegante o coração no dia
3 Do adeus a amigos, que relembra ausente;

E ao novel peregrino amor crucia,
Distante a voz do campanário ouvindo,
6 Que ao dia a morte, flébil, denuncia.

Não mais ouvia os olhos dirigindo
Perto um espírito vi que levantado,
9 Acenava, que ouvissem-no pedindo.

E, havendo as duas mãos juntas alçado,
Parecia, olhos fitos no Oriente,
12 A Deus dizer: És todo o meu cuidado!

Te lucis entoou devotamente
Com tão suave, tão piedoso canto,
15 Que me enlevava em êxtase a mente.

Com igual devoção e igual encanto,
Nas supernas esferas engolfados,
18 Repetiram os outros o hino santo.

Leitor, tem da alma os olhos afiados
Para os véus da verdade penetrares:
21 Fácil é, tão sutis são, tão delgados.

A nobre turba, após os seus cantares,
Calou-se; então notei que, como à espera,
24 Pálida e humilde a vista erguia aos ares.

E vi sair descendo, da alta esfera
Anjos dois, empunhando flamejantes
27 Gládios a que truncada a ponta era.

Verdes quais folhas novas vicejantes
As vestes suas são, as agitando
30 As plumas das suas asas viridantes.

Um acima de nós se colocando,
Baixara o outro sobre o lado oposto,
33 Desta arte as almas de permeio estando.

A flava coma via-lhes: seu rosto
Contemplar impossível me seria:
36 Confunde a vista o lúcido composto.

“Do sólio ambos descendem de Maria”
Sordelo diz — “a do vale por amparo,
39 Onde a serpente vai chegar ímpia.”

Por onde ela viesse estando ignaro
Em torno olhei e, do terror tomado,
42 Busquei refúgio ao pé do amigo caro.

Sordel prossegue: — “É de falar chegado
Àqueles grandes spíritos o instante:
45 Ledos serão de ver-vos ao seu lado.” —

Para baixar ao val me foi bastante
Três passos dar: um spírito fitava
48 Perscrutadora vista em meu semblante.

Já de sombras o ar se carregava;
Mas aos seus e aos meus olhos embaraço
51 Não era para ver-se o que ali stava.

A mim vem, eu para ele aperto o passo:
— “Nino exímio juiz quanto me agrada
54 Ver-te liberto do infernal regaço!”

De afeto após a mostra reiterada,
Inquiriu: — “Por longínquas águas quando
57 Chegaste ao pé da altura alcantilada?”

— “Oh!” — lhe tornei — “esta manhã, passando
Pela triste mansão: ainda a vida
60 Primeiro gozo e a outra vou buscando.” —

Mal fora esta resposta proferida,
Nino e Sordel, de pasmo, recuaram;
63 Como se fora maravilha ouvida.

Ao Vate este volveu-se; e se escutaram
Vozes de Nino a outro: — “Vem, Conrado, —
66 De Deus ver o que as leis determinaram!”

— “Por essa gratidão” — a mim voltado
Disse — “que ao Ente deves invisível,
69 Cuja ação compreender nos é vedado.

“Te imploro que, em passando o mar temível,
Digas à filha minha que suplique
72 Por mim: Deus à inocência é tão sensível!

“Não creio que em prol meu a mãe se aplique
Depois que os brancos véus trocou demente:
75 Dor terá infeliz! — que mortifique.

“Se conhece, por ela, facilmente
Quanto em mulher de amor fogo perdura
78 Se o caminho falece e o olhar freqüente.

“Não lhe fará tão bela sepultura
A víbora com que Milão se ostenta,
81 Como a fizera o galo de Galura.” —

Assim dizia Nino. Ainda o alenta
O justo zelo, que traduz no rosto,
84 Que brando ardendo, o ânimo aviventa.

Ávido os olhos tinha eu no céu posto,
À parte em que os luzeiros são mais lentos,
87 Qual roda onde o seu eixo está disposto.

E o Mestre: — “Os olhos ao que tens atentos?” —
Respondi-lhe: — “Aos três astros luminosos,
90 Que o pólo acendem, célicos portentos.” —

— “As quatro estrelas” — me tornou — “formosas,
Que por manhã já vimos, se ocultaram.
93 Aí mesmo estas surgem fulgurosas.” —

Sordel, quando estas vozes me voaram,
O tira a si dizendo: — “eis o inimigo!” —
96 Os olhos o seu dedo acompanharam.

Do val na parte exposta ver consigo
Uma serpe, que a rastos coleava:
99 Talvez o pomo deu, de Eva perigo.

Entre as ervas e flores avançava,
A um lado e a outro a fronte volteando;
102 Lambendo o dorso, a língua dilatava.

Não pude ver como ao réptil nefando
Os celestes açores se enviaram;
105 Mas atônito os vi ambos pairando.

O sussurro que as asas no ar formaram,
Em sentido, fugiu presto a serpente:
108 Os anjos logo aos postos seus tornaram.

A sombra, que viera incontinênti
Do juizo ao chamado enquanto o assalto
111 Durou, me estava olhando atentamente

— “Tenha o fanal, que te conduz ao alto
No teu desejo válido alimento!
114 De luz para subir não sejas falto!

“Mas se houveste” — me diz — “conhecimento
De Valdimagra ou terra que confina,
117 Declara: eu de poder lá tive aumento.

“Chamado fui Conrado Malaspina;
Não o antigo, porém seu descendente:
120 Amor, que tive aos meus aqui se afina.” —

— “Lá não fui” — respondi-lhe reverente —
“Mas da Europa em que parte a excelsa fama
123 Dos feitos vossos não tem eco ingente?

“A glória que o solar vosso proclama,
Honra o domínio, honra os seus senhores
126 Quem nunca os viu louvores seus aclama.

“Juro, e tão certo eu veja os esplendores
Do céu, que a vossa raça guarda intatos
129 Da opulência e bravura altos primores.

“Por sua índole egrégia, por seus atos,
Enquanto ao mundo um chefe mau transvia,
132 Só ela segue o bem e o prova em fatos.” —

— “Vai!” — disse — “Antes que o belo astro do dia
Sete vezes penetre nesse espaço,
135 Que o Áries cobre na celeste via,

“Tão boa opinião com fundo traço
Melhor será na tua fronte impressa
Do que de outro por voz a cada passo,

139 Se do Sumo Querer ordem não cessa.” —

 

1. Era o tempo etc., começava a cair a noite. — 13. Te lucis etc., começo de um hino da Igreja. — 19-21. Leitor etc., o Poeta adverte que além do sentido literal o que vai dizer tem um sentido alegórico. — 53. Nino exímio juiz, Ugolino Visconti, juiz de Galura, na Sardenha. — 65. Conrado, Conrado Malaspina, marquês de Lunigiana. — 71. À filha minha, Joana, filha de Nino. — 73. A mãe, Beatriz d’Este, viúva de Nino, desposara em segundas núpcias a Galeazzo Visconti. — 80. A víbora, brasão da família Visconti. — 119. O antigo, o avô de Conrado Malaspina, do mesmo nome. — 136. Tão boa opinião etc., em 1306 Dante teve boa acolhida nos Castelos dos Malaspina, em Lunigiana.


CANTO IX

 

Ao despontar do novo dia Dante adormece e, no sono é transportado por Luzia até a Porta do Purgatório. Aproximam-se da entrada e aqui um anjo abre-lhes a porta, depois de ter gravado na testa de Dante sete PP.

 

JÁ clareava de Titão antigo
A concubina as fímbrias do oriente,
3 Deixando os braços do seu doce amigo;

Era-lhe a fronte de astros refulgente,
Figura do animal frio formando,
6 Que vibra a cauda contra a humana gente.

No lugar, em que estávamos, se alçando
Dos passos seus havia a Noite andado,
9 E o terceiro ia as asas inclinando,

Quando eu, tendo o que Adam nos há legado,
De sono sobre a relva fui vencido,
12 Lá onde junto aos quatro era sentado.

Ante-manhã, na hora, em que gemido
Triste a andorinha a soluçar começa,
15 Talvez na antiga dor pondo o sentido;

Já não stando da carne mais opressa
A mente e livre do pensar terreno,
18 Quase divina por visões pareça,

Pairar sonhei que via no ar sereno
De áureas plumas uma águia, que mostrava
21 Querer baixar, das asas pelo aceno.

Estar eu na montanha imaginava,
Onde os seus Ganimede abandonara
24 Alado à corte excelsa, que o esperava.

E eu pensava: talvez esta ave rara,
Caçar aqui soindo, a nédia preia
27 Fazer noutros lugares desdenhara;

A traçar giros vários avistei-a:
Eis, terrível, qual raio, a mim se envia,
30 E lá do fogo à região me alteia.

Esta águia, então julguei, comigo ardia
Tanto, que foi o sonho meu quebrado
33 Pelo fingido incêndio, que eu sentia.

Como, acordando, Aquiles espantado
Ficou por não saber onde se achava
36 No lugar aos seus olhos devassado,

Quando a mãe que a Quíron o arrebatava,
O transportou a Sciro adormecido,
39 Donde astúcia depois lho retirava:

Assim fiquei ao ser desvanecido
Das pálpebras o sono, semelhante
42 A quem desmaia em cor de horror transido.

Junto a mim eu só vi naquele instante
Virgílio; o sol duas horas já media;
45 Ao mar tinha eu voltado inda o semblante.

— “Não teme!” — estas palavras proferia —
“Sê tranqüilo, o bom porto não mais dista,
48 Alarga o coração, não entibia;

“O Purgatório já daqui se avista.
Onde a rocha é fendida está a entrada,
51 A rocha o cinge e tolhe o aspeto à vista.

“Ao romper da alva ao dia antecipada,
Quando no vale em sono eras jazendo
54 Sobre a ervinha de flores esmaltada,

“Eis mostrou-se uma Dama nos dizendo:
Sou Luzia; pois dorme, vou trazê-lo,
57 Leve assim a jornada lhe fazendo —

“Ficando as nobres almas com Sordelo,
Tomou-te; e como já raiasse o dia
60 Subiu: seguiu seus passos, com desvelo

“Depôs-te; e por seus olhos me dizia
Que próxima ali stava a entrada aberta.
63 Ela se foi e o sono te fugia.” —

Como quem stando em dúvida, se acerta,
Converte o seu temor em confiança,
66 Logo em sendo a verdade descoberta:

Assim me achei mudado. Ele que alcança
Que esforçado já stou, vai por diante
69 Pela altura; o meu passo após avança.

Vês, leitor, que assunto altissonante
Se faz; e não estranhes se mais arte
72 Mor lustre lhe acrescenta de ora avante.

Acercamo-nos, pois, da rocha à parte,
Onde eu antes rotura divisava
75 Como em muralha fenda que reparte;

Ora uma porta e degraus três notava
Para entrar, cada qual de cor dif’rente,
78 E um porteiro que tácito ficava.

E, de mais perto olhando, claramente
No mais alto degrau o vi sentado:
81 Ofuscava-me a face refulgente.

Na destra um gládio eu tinha empunhado,
que tão vivos lampejos refletia,
84 Que em vão fitava os olhos deslumbrado.

— “Parai e respondei-me” — principia —
“Que intentais? Quem vos guia na jornada?
87 Efeitos não temeis dessa ousadia?” —

— “Dama do céu, de tudo isso inteirada”
— Falou Virgílio — “disse-nos: — Avante!
90 Não longe fica a porta desejada.” —

— “Seja ela aos vossos passos luz brilhante”
— Logo beni’no o anjo nos tornava —
93 “Aos degraus nossos vinde por diante.” —

Chegamos: o degrau primeiro estava
De alvo mármor tão terso, tão polido,
96 Que a minha imagem nele se espelhava.

Era escuro o segundo e não brunido,
Tosca pedra o formava e calcinada;
99 Ao longo a via e de través fendido.

De pórfiro o terceiro e carregada
Tinha a cor de vermelho flamejante,
102 Qual sangue, que da veia flui rasgada.

Neste firmava o anjo rutilante
Os pés, ao limiar sentado estando,
105 Que ser me pareceu de um só diamante.

Tirado por Virgílio vou-me alçando
Jubiloso. Ele disse — “Humildemente
108 Requer, que te abra a porta deprecando.” —

Aos sacros pés dobrei devoto a frente;
Misericórdia, vezes três batendo
111 Nos peitos, para abrir pedi fervente.

Da espada a ponta sete PP me havendo
Na testa aberto, disse o anjo: — “Lava
114 Lá dentro estes sinais te arrependendo.” —

Chaves duas tomou quando acabava,
De sob as vestes, onde a cor, atento
117 De terra seca eu cinzas observava.

Uma era de ouro, a outra era de argento.
Primeiro a branca, após a flava aplica
120 À porta: foi completo o meu contento.

— “Se emperrada das duas uma fica
E não dá volta” — disse — “à fechadura,
123 Isto entrada defesa significa.

“Se mais preço um tem, noutra se apura
Mais arte para abrir e mais engenho,
126 Das molas cede-lhe a prisão mais dura.

“Mandou Pedro de quem as chaves tenho
Que em abri-la antes erre que em cerrá-la
129 Aos que a exoram com ardente empenho.” —

Tocando a santa entrada, ainda nos fala:
— “Penetrai; mas, de agora, vos previno,
132 Quem olha para trás pra fora abala.” —

Os portões já se movem do divino
Recinto, e os espigões, rangendo, giram
135 Nos gonzos de metal sonoro e fino:

Quando, vãos de Metelo os esforços, viram
Roubado o erário, com estrondo tanto
138 As portas de Tarpéia não se abriram.

Aos rumores atento, doce canto —
Te Deum laudamus escutar julgava,
141 De conceitos unido ao meigo encanto.

Ouvindo, em mim a sensação calava,
Que a voz bem modulada nos motiva,
Quando com ternos sons de órgão se trava;

145 Que uma voz emudece, outra se esquiva.

 

1. De Titão antigo etc., a concubina do velho Titão é a aurora. — 5-6. Animal frio etc., talvez a constelação dos Peixes ou do Escorpião. — 23. Onde os seus Ganimede abandonara, quando Júpiter o fez raptar para servir de copeiro aos deuses, no Olimpo. — 34. Aquiles espantado etc., Tétis, mãe de Aquiles, o transportou para a ilha de Sciro, de onde os gregos Ulisses e Diômedes o conduziram à guerra de Tróia. — 56. Luzia, Santa Luzia. — 112. Sete PP, os sete pecados mortais. — 136. Quando vãos de Metelo os esforços etc., as portas do Purgatório se abriram com maior estrondo do que se abriram as portas da rocha Tarpéia, quando, apesar da resistência de Cecílio Metelo, Júlio César as abriu para apossar-se do dinheiro público.


CANTO X

 

Os dois Poetas sobem ao primeiro compartimento do Purgatório, cuja escarpa é de mármore, no qual estão esculpidos vários espisódios de humildade. Eles os observam e no entanto vêem em sua direção várias almas curvadas sob o peso de grandes pedras. São as almas dos que no mundo foram soberbos.

 

PASSADO estando o limiar da porta,
Das paixões pelo excesso desusada,
3 Que reta faz supor a estrada torta,

Pelo estrondo senti que era cerrada.
Se atrás volvesse os olhos, qual seria
6 A desculpa da falta perpetrada?

Subíamos por fenda que se abria
Na rocha, a um lado e ao outro serpeando,
9 Qual onda, que ora acerca, ora desvia.

“Aqui ser destro cumpre, acompanhando” —
Disse o Mestre — “o caminho árduo, fragoso,
12 Que as sinuosas voltas vai formando.” —

A passo íamos, pois, tão vagaroso,
Que a lua o crescente reclinado
15 Era já no seu leito de repouso,

Quando aquela estreiteza hemos deixado
Espaços livres alcançando e abertos,
18 Onde o monte pra trás era inclinado;

Eu inanido e ambos nós incertos
Da vereda, em planura enfim paramos,
21 Mais solitária que áridos desertos.

Do precipício a borda calculamos
Distar da oposta, em que o rochedo alteia,
24 Comprimento que em homens três achamos.

Na extensão, que ante mim se patenteia,
Da direita ou da esquerda igual largura
27 Nessa cornija aos olhos se franqueia.

Não déramos um passo na planura,
Quando notei que a escarpa sobranceira,
30 Que ascender não permite a sua altura,

Era alvo mármor, tendo a face inteira
Talhada com primor, que a Policleto
33 Tomara e à natureza a dianteira.

O anjo, que da paz trouxe o decreto,
Tantos séc’los com lágrimas pedido,
36 Que o céu abriu, donde o homem stava exceto,

Ao vivo ali mostrava-se insculpido,
No gesto e no meneio tão suave,
39 Que em pedra não parece estar fingido.

Quem não jurara que profere o Ave,
Pois juntamente figurada estava
42 Quem do supremo amor volvera a chave?

Seu semblante estas vozes expressava
Ecce ancilla tão propriamente,
45 Como na cera imagem, que se grava.

— “Num ponto só não prendas tanto a mente” —
Virgílio me falou, tendo-me ao lado,
48 Aonde o coração bater se sente.

Para mais longe olhei: maravilhado
Após Maria então vi que disposta,
51 Da parte, em que era o Mestre colocado,

Fora outra história em mármore composta.
Ao sábio adiantei-me: de mais perto
54 Aos meus olhos melhor ficara exposta.

O carro com seus bois na rocha aberto
E a Arca santa que conduz, mirava:
57 Lembra aos profanos o castigo certo.

Em coros sete o povo ali cantava:
Do olhar em mim o ouvido dissentia,
60 Pois se um dizia sim, outro negava;

De igual modo na pedra percebia
Ao ar o fumo se elevar do incenso:
63 Da vista o asserto o olfato desmentia.

Da Arca adiante, com fervor imenso,
Dançando humilde via-se o salmista,
66 Mais e menos que um Rei no zelo intenso.

Mícol, do régio paço, em frente, a vista
No Rei fitava, o ato lhe estranhando,
69 Que lhe move desgosto e que a contrista.

Desse lugar depois eu me afastando,
De perto contemplar fui outra história,
72 Que além um pouco, estava branquejando.

Aqui brilhava a preminente glória
Desse famoso Imperador romano,
75 Por quem Gregório obteve alta vitória.

Ao natural tirado era Trajano:
Do freio do corcel mulher tratava;
78 Dizia o pranto sua dor, seu dano.

De cavalheiros tropa se apinhava,
E nas bandeiras a águia de ouro alçada
81 Acima dele aos ventos tremulava.

A infeliz, dos guerreiros rodeada,
Parecia dizer: — “Senhor, vingança!
84 Morto é meu filho e eu gemo atribulada.”

E Trajano tornar: — “Toma esperança
Até que eu volte.” — E a mísera pungida
87 Da dor que, em mãe, a tudo se abalança:

— “Senhor, se não voltares?” — “Deferida
Serás de herdeiro meu.” — “Bem que outro faça
90 Que val’, se a obrigação tens esquecida?” —

E ele: — “Ânimo esforça na desgraça.
Meu dever cumprirei sem mais espera,
93 Justiça o exige, compaixão me enlaça.” —

Quem novas cousas nunca vê, fizera
Visível sobre a pedra esta linguagem:
96 Arte não sobe a tão sublime esfera.

Enquanto me enleava em cada imagem,
Em que há dado aos extremos da humildade
99 De operário a perícia mor vantagem,

— “Eis almas lentamente em quantidade
Acercam-se; a mais alta” — disse o Guia —
102 “Nos pode encaminhar sua bondade.” —

A vista, que em portentos se embebia,
De olhar outros já sôfrega, volvendo,
105 Atentei no que o Mestre me advertia.

Mas, leitor, que esmoreças não pretendo,
Nem que os bons pensamentos te faleçam,
108 Como os pecados pune Deus sabendo.

Nem os martírios nímios te pareçam;
Pensa bem no porvir; pois, em chegando,
111 O grão Juízo, em caso extremo, cessam.

E eu disse: — “O que ora a nós vem caminhando
Não creio sombras ser: o que é portanto?
114 Não sei, a percepção turbada estando.” —

— “Do seu tormento, que te movo espanto
É condição à terra irem curvados:
117 Também a vista duvidou-me um tanto.

“Olhos fita; imagina levantados
Os que vêm dessas pedras oprimidos:
120 Já vês quanto eles são atormentados.”

Cristãos soberbos, míseros, perdidos,
Cegos da alma, que haveis pra trás andado,
123 De tanta confiança possuídos,

Que vermes somos não vos stá provado,
De que surge a celeste borboleta,
126 Que incerta voa ao tribunal sagrado?

Por que do orgulho assim passais a meta,
Se sois insetos no embrião somente,
129 Vermes de formação inda incompleta?

A modo de pilar ver-se é freqüente,
Joelhos, peito unindo, uma figura
132 Cornija ou teto a sustentar ingente.

Da dor mera ficção move tristura
Em quem olha: senti então notando
135 Das almas penitentes a postura.

Mais umas, outras menos, se dobrando
Iam, segundo o fardo, que traziam;
E as que eram mais sofridas, pranteando,

139 Não posso mais! — dizer me pareciam.

 

32. Policleto, célebre escultor grego. — 34. O anjo, Gabriel. — 42. Quem, etc., a virgem Maria. — 57. Lembra aos profanos o castigo certo, Oza caiu fulminado por ter-se aproximado da Arca, que ameaçava cair (Samuel II-6). — 65-66. Dançando humilde via-se o salmista, Davi dançava precedendo a Arca. — 67. Mícol, esposa de Davi manifestava censura pelo ato humilde do esposo. — 74-75. Desse famoso imperador, Trajano, que, segundo uma lenda, o papa Gregório I conseguiu, com suas preces, voltasse à vida terrena e, batizado, fosse para o Céu. — 124-126. Que vermes somos etc., como do verme nasce a borboleta, assim nós homens outra coisa não somos senão vermes dos quais devem surgir as borboletas dignas de subir ao Céu.


CANTO XI

 

Virgílio pergunta às almas que purgam o pecado da soberbia qual é o caminho para subir ao segundo compartimento, e uma delas dá a indicação requerida. Umberto Aldobrandeschi dá-se a conhecer e fala com Dante, que, depois, reconhece Oderisi de Gubbio, pintor e gravador. Oderisi dá-lhe notícia de Provenzano Salvani, que está junto com eles.

 

VÓS, que nos céus estais, ó Padre nosso,
Não circunscrito, mas porque haveis dado
3 Mais aos primeiros seres o amor vosso,

“Vosso nome e poder seja louvado!
Graças à criatura jubilosa
6 Ao saber vosso renda sublimado!

“Do reino vosso a paz venha ditosa!
Que vão de havê-la o empenho nos seria,
9 Se não vier da vossa mão piedosa.

“Como a vós a vontade se humilia
Dos vossos anjos, entoando hosana,
12 Façam assim os homens cada dia!

“A substância nos dai quotidiana
Hoje: sem ela em áspero deserto
15 Se atrasa quem por ir além se afana!

“E como a quem nos faz mal descoberto
Damos perdão, nos perdoai clemente,
18 Indi’nos sendo nós, Senhor, por certo.

“Oh! não deixeis cair a defidente
Virtude nossa em tentação do imigo!
21 Livrai-nos dele, em nos pungir ardente!

“Não mais somos, Senhor, nesse perigo,
Em que precisa esta oração nos seja;
24 Mas não os que hão mister na terra abrigo.” —

Ao céu rogando que ao seu bem proveja
E ao nosso, as almas sob o peso andavam,
27 Como o que oprime a quem sonhando esteja.

Com desigual gravame se arrastavam
Ofegantes no círculo primeiro,
30 E do pecado as névoas expurgavam,

Se em bem nosso com zelo verdadeiro,
Oram, como em seu prol fará no mundo
33 Quem tem no bem querer seu peito useiro?

Ajudemo-las, pois, vestígio imundo
A lavar, por que leves, puras sejam,
36 Do céu se alando ao brilho sem segundo.

“Ah! compaixão, justiça vos consigam
Presto alívio, e possais, o vôo erguendo,
39 Ir até onde os desejos vos instigam!

“Valei-nos a vereda nos dizendo
Mais curta ou a que é menos escarpada,
42 Mais de um caminho a se ascender havendo.

“Ao companheiro meu assaz pesada
É a carne de Adam, que inda o reveste:
45 Por mais que esforce, o afana esta jornada.” —

A voz, que respondeu ao Mestre a este
Dizer, não sei a que alma pertencia
48 Por indício qualquer, que o manifeste:

— “Vinde à direita em nossa companhia
Pela encosta, e vereis o passo estreito,
51 Que uma pessoa viva subiria.

“Se este penedo não tolhesse o jeito,
A cerviz orgulhosa me domando
54 E obrigando a juntar o rosto ao peito,

“Deste homem para a face, atento olhando,
(Não sei quem é) talvez o conhecera,
57 E assim me fora compassivo e brando.

“Toscano fui, ilustre pai tivera.
Guilherme Aldobrandeschi se chamava:
60 O nome seu algum de vós soubera?

“Tanta arrogância a glória me inspirava
Do meu solar e os feitos valorosos,
63 Que a nossa mãe comum não mais pensava,

“Olhos volvendo a todos desdenhosos.
Perdi-me assim; os atos meus em Siena
66 Foram em Campagnatico famosos.

“Chamei-me Umberto; da soberba a pena
A mim não coube só: de igual desgraça
69 Vem a causa que aos meus todos condena.

“Este fardo, que os passos me embaraça
Mereço, por cumprir-se a lei divina:
72 Vivo o não fiz, é justo que ora o faça.” —

Enquanto, ouvindo, a fronte se me inclina,
Uma das almas (não a que falava)
75 Sob o peso se torce, que a amofina.

E viu-me e, conhecendo-me, chamava,
Os olhos seus fitando esbaforida
78 Em mim, que, recurvado a acompanhava.

— “Oderisi não foste” — eu disse — “em vida,
Honra de Agubbio, honra daquela arte
81 Que iluminar Paris ora apelida?” —

— Tornou-me: — “Hoje o pincel (cumpre informar-te)
De Franco de Bolonha mais agrada:
84 A honra é toda sua, minha em parte.

“Por mim não fora em vida proclamada
Esta verdade, quando esta alma ardia
87 Na ambição de primar nessa arte amada.

“Aqui de tal soberba o mal se expia;
Staria alhures; mas a Deus eu pude
90 Mostrar que de pecar me arrependia.

“Quanto a vaidade o peito humano ilude!
Dessa flor como esvai-se a formosura,
93 Se não seguir-se um séc’lo inculto e rude!

Cimabue cuidou ter na pintura
A liça dominado: mas vencido
96 Ficou: a glória Giotto fez-lhe escura.

Assim de estilo na arte cede um Guido,
A palma a outro: agora é bem provável
99 Seja de ambos o mestre já nascido.

“Rumor mundano é como vento instável
Que a direção varia de repente:
102 Conforme o lado, o nome tem mudável.

“De ti que fama ficará manente,
Se da velhice cais no extremo passo,
105 Ou se findas na infância inconsciente,

“De hoje a mil anos, tempo mais escasso,
Da eternidade em face, que um momento
108 Ante a esfera a mais tarda lá no espaço?

“Quem me precede e vai assim tão lento
Na Toscana entre todos foi famoso:
111 Apenas salvo está do esquecimento.

“Em Siena, que há regido poderoso,
Quando perdeu-se a raiva florentina.
114 Soberba então, objeto hoje asqueroso.

“A fama vossa iguala-se à bonina,
Que flore e morre: o sol, por quem nascera
117 Na terra a prostra e a cor cresta à mofina.” —

Respondi-lhe: — “O dizer teu em mim gera
Saudável humildade e o orgulho mata.
120 Esse, que apontas, conta-me quem era.” —

“De Provenzan Salvani” — diz — “se trata:
Aqui stá, porque Siena ele cuidara
123 Ter nas mãos — presunção de alma insensata!

“Caminha assim curvado, e nunca pára
Dês que a vida perdeu eis o castigo
126 De quem tanto à soberba se entregara!” —

— “Se o que demora até final perigo
A penitência” — eu disse — “e errado corre,
129 Subir não pode e aqui não acha abrigo,

“Se uma oração piedosa o não socorre,
Durante prazo igual ao da existência,
132 Como ao martírio Provenzan concorre?” —

— “Quando era” — torna — “no auge da influência,
Sobre a praça de Siena, suplicando,
135 Ter ante o povo humilde continência,

“De um amigo o resgate procurando,
Que era por Carlos em prisão detido,
138 Tremeu angustiado e miserando.

“Não mais: não sou, de obscuro, compreendido,
Mas te há de ser em breve isto explicado
Por filhos dessa terra em que hás nascido. —

142 “Por tão bom feito o ingresso lhe foi dado.”

 

59. Guilherme Aldobrandeschi, senhor de Grosseto. Quem fala é o filho Umberto, que guerreou contra Pisa. — 79. Oderisi de Gubbio, excelente pintor e miniaturista. — 83. Franco de Bolonha, célebre miniaturista. — 94-96. Giotto e Cimabue, célebres pintores. Giotto, discípulo de Cimabue, superou o mestre na sua arte. — 97-98. Um Guido e outro, Guido Cavalcanti superou a Guido Guinicelli na arte da poesia. — 121. Provenzano Salvani, de Siena, senhor muito poderoso, morto na batalha de Colle em 1269. — 133-138. Quando era etc., para obter a libertação de um amigo prisioneiro de Carlos d’Anjou, ele se humilhou a pedir a esmola aos seus concidadãos.


CANTO XII

 

Os dois Poetas continuam a viagem. No pavimento do círculo estão pintados vários exemplos de soberbia castigada. Um anjo vem junto dos Poetas e os guia até a escada que sobe ao compartimento sucessivo. Com a asa, depois, apaga da testa de Dante um dos PP.

 

A PAR, como dois bois, que o jugo unira,
Eu com essa alma opressa e titubeante
3 Ia, enquanto Virgílio permitira.

Eis disse-me: — “Deixando-a, segue avante:
Deve fazer de vela e remos força
6 Quem quer à parca impulso dar constante.” —

A caminhar dispus-me à voz, que esforça,
Erguendo logo o corpo, inda que a mente
9 Na humildade a modéstia acurve e estorça.

Já os pés acelero e facilmente
A Virgílio acompanho: de porfia,
12 Se mostra cada qual mais diligente.

— “À terra olhos inclina” — então dizia —
“Para a jornada aligeirar atenta
15 No solo, onde o meu passo aos teus é guia.”

Assim como na campa se aviventa
A memória dos mortos, insculpindo
18 Imagem, que a existência representa,

Que de saudade os corações ferindo,
À piedade propensos e à ternura,
21 Os vai ao pranto muita vez pungindo:

Assim, com perfeição sublime e pura,
Figuras via sobre aquela estrada,
24 Que sobe, serpeando, pela altura.

Via, a um lado, dos céus precipitada
Das criaturas a mais bela e nobre,
27 Qual raio, pelo espaço arremessada.

A vista, o outro, Briaréu descobre
De projétil celeste transpassado:
30 Gélido a terra desmedido cobre.

Com Marte e Palas stava figurado
Timbreu, em torno ao pai de armas fornidos,
33 Vendo o campo de imigos alastrado.

Nemrod olhos volvia espavoridos,
Junto à feitura imensa, aos companheiros,
36 Que a Sanaar seguiram-no, descridos.

Ó Níobe, com braços verdadeiros
Que dor nos olhos teus aparecia,
39 Os filhos mortos vendo, quais cordeiros!

Saul, a própria espada te extinguia
Sobre a montanha Gelboé — maldita,
42 Orvalho ou chuva ali não mais caía.

Ó louca Aracne, tua face aflita,
De aranha parte entre os destroços stava
45 Da teia, origem da fatal desdita.

Não mais a tua imagem cominava;
Num carro foges, Roboam cruento,
48 À fúria popular, que te assombrava.

Amostrava ainda o duro pavimento
Como fez Alcmeon pagar tão caro
51 À mãe o funestíssimo ornamento.

Mostrava mais como flagício raro
Senaqueribe no templo assassinado
54 Por filhos, que deveram ser-lhe amparo.

Mostrava também Ciro degolado
E Tamíris dizendo acesa em ira
57 — Sede tinhas de sangue, sê saciado! —

A multidão de Assírios que fugira,
Mostrava ao verem de Holoferne a morte,
60 E o castigo que os passos lhes seguira.

Via no pó, nas cinzas Tróia forte:
Ó soberba Ílion, a pedra dura
63 Mostrava a tua lamentável sorte!

Que mestre no pincel ou na escultura
Posturas, sombras tais traçar pudera,
66 Pasmo ao gênio, que atinja a suma altura?

Real ou morte ou vida aos olhos era:
A verdade não viu na própria cena
69 Melhor que eu quando a efígie a olhar stivera.

A fronte entonai, pois, de orgulho plena,
Ó filhos de Eva, os olhos não baixando
72 Ao caminho, onde achais devida pena!

Mais íamos no monte caminhando
E no seu giro o Sol mais avançara
75 Do que eu cuidava, absorto contemplando,

Quando aquele, que sempre me guiara
Desvelado, me disse: — “Alça a cabeça!
78 Não te engolfes! atento sê! repara!

“Olha aquele anjo que caminha à pressa
Ao nosso encontro: acaba a terra sexta
81 Do dia o lavor certo e outra começa.

“Reverência em teu gesto manifesta
Para o anjo à viagem ser propício,
84 Não volta o dia de que pouco resta.” —

Aproveitar do tempo o benefício
Era do Mestre a regra; e, pois, naquela
87 Matéria não lhe achei de obscuro o indício.

Já nos demanda a criatura bela:
Trajava branco, a face resplendia,
90 Qual, tremulando, matutina estrela.

Braços abria e asas estendia,
Dizendo: — “Vinde! que os degraus stão perto:
93 A jornada já fácil se anuncia.” —

Raros escutam essa voz, por certo:
Ó gente humana, para o céu nascida,
96 Por que decaís do vento a um sopro incerto?

Imos à rocha, por degraus partida:
De uma das asas me roçou na fronte,
99 Prometendo-me próspera subida.

Como à direita quem se erguer ao monte,
Donde se avista a igreja que domina
102 A bem regida ao pé de Rubaconte,

Sente que aos pés a ingremidade inclina
Pela escada talhada antes que houvesse
105 Em livros e medidas a rapina:

Adoça-se o pendor assim; pois desce
De um círc’lo a outro a rocha que alterosa
108 A um lado e ao outro augusto passo of’rece.

Subindo em melodia tão donosa
Beati pauperes spiritu escutamos,
111 Que a voz, que o diga é pouco vigorosa

Quão dif’rentes os áditos que entramos,
Dos infernais! Aqui suave canto,
114 Lá gritos de ira ouvindo caminhamos.

Vencendo esses degraus do monte santo
Mais ágil me sentia: lá no plano
117 Fácil nunca a jornada fora tanto.

Eu disse: — “Ó Mestre, de que peso insano
Sinto-me livre, pois no estreito passo,
120 Como de antes agora não afano!” —

— “Quando os PP que inda tens em vivo traço
Sobre a fronte” — tornou-me — “se apagarem,
123 Como não hás de ter mais embaraço,

“Segundo o teu desejo os pés andarem
Sentirás sem fadiga, e até gozando
126 Deleite, para a altura ao caminharem.”

Como o que traz, na praça passeando,
Cousa, que ignora, na cabeça posta,
129 E, por ver sinais de outrem, suspeitando,

À mão pede socorro; ela, em resposta,
Procura, acha, um serviço assim rendendo,
132 A que a vista não pode ser disposta:

Assim, da destra os dedos estendendo,
Conheci que das letras, que o anjo abrira,
Stavam somente seis remanescendo.

136 Sorriu-se o Mestre, que o meu gesto vira.

 

25-27. Via, a um lado etc., Lúcifer, o anjo que se rebelou contra Deus. — 28. Briareu, gigante que se rebelou contra Júpiter e foi fulminado. — 31. Marte, Palas e Timbreu (Apolo), que dominaram os gigantes rebeldes. — 34-35. Nemrod etc., que na planície de Senaar, começou a construção da torre de Babel. — 37. Níobe, desprezando Latona por ter esta somente dois filhos, quando ela tinha doze, por castigo foram todos mortos por Apolo e Diana. — 40-41. Saul, rei de Israel, derrotado em Gelboé, suicidou-se. — 43-45. Aracne, tendo desafiado Minerva para saber quem melhor tecia, foi por esta transformada em aranha. — 47. Roboam, filho de Salomão, oprimiu o povo de Israel no seu reinado e foi obrigado a fugir em conseqüência de revolta popular. — 50. Alcmeon, matou a própria mãe Erifiles, pois esta, para ganhar um colar de ouro, havia revelado o esconderijo do seu marido Anfiarau aos inimigos. — 53. Senaqueribe, rei dos Assírios, foi morto pelos filhos. — 55-57. Tamíris, rainha dos Massagetas, tendo vencido Ciro, o mandou matar num odre cheio de sangue, dizendo: Sacia-te de sangue, monstro. — 59-60. Holofernes, general assírio, morto por Judite durante o sítio da cidade de Betúlia. — 61-63. Tróia ou Ílion, destruída pelos gregos. — 80. A terra sexta, a hora sexta, meio-dia. — 102. Rubaconte, ponte de Florença.


CANTO XIII

 

Chegam os Poetas ao segundo compartimento, no qual estão os pecadores que expiam o pecado da inveja. Os invejosos têm os olhos cosidos com fio de arame. Entre eles está Sápia, senhora de Siena, com a qual Dante fala.

 

DA escada ao topo havíamos chegado,
Onde, outra vez cortado, o monte estreita,
3 Que alma sobe, expiando o seu pecado.

Como a primeira, outra cornija feita
Circundava a colina, só dif’rente
6 Em que a um arco menor ela se ajeita.

Relevo, formas, como a precedente,
Não mostra: e, lisa sobre a escarpa a entrada,
9 Lívida cor a pedra tem somente.

— “Se a presença de alguém fosse esperada,
Que nos preste conselho” — diz meu Guia —
12 “Temo que fique a escolha retardada.” —

Os olhos para o sol depois erguia,
E, sobre o pé direito se firmando,
15 Para a esquerda girava e se volvia.

— “Tu, de quem tudo fio, ó lume brando
No caminho conduz-nos que se of’rece
18 Como o exige o lugar” — disse — “guiando!

“Raiando, o teu calor o mundo aquece:
Se motivo não surge de embaraço,
21 De conduzir-nos teu fulgor não cesse!”

Vencido em breve tínhamos espaço,
Que por milha na terra calculamos,
24 Porque o desejo estimulava o passo:

Em direitura a nós voar julgamos
Invisíveis espíritos, chamando
27 De amor à mesa em lépidos reclamos.

A voz primeira que passou voando,
Vinum non habent proferiu sonora
30 E ainda muito além foi reiterando.

Mas antes de perder-se pelo ar fora,
Outra acercou-se. — “Orestes sou!” — dizia;
33 E apartou-se igualmente sem demora.

— “Que vozes estas são, Mestre?” — inquiria.
Mas, apenas falara, eis vem terceira.
36 — “Amai imigos vossos!” — eu lhe ouvia.

— “Pune este círc’lo a culpa traiçoeira” —
O Mestre diz — “da inveja; o açoite aplica
39 O amor, que os rigores lhe aligeira.

“Contrário som, porém, o freio indica.
Antes que atinjas do perdão a entrada,
42 Terás de ouvi-lo; e disto certo fica.

“Tem ora a vista para além fitada;
De espíritos, ao longo do alto muro,
45 Assentados verás soma avultada.” —

Mais que de antes então a vista apuro;
Almas distingo, que envolviam mantos,
48 Que a cor imitam do penhasco duro.

Um pouco avante ouvi de esp’ritos tantos
A voz bradar: — “Por nós orai, Maria,
51 Pedro, Miguel e todos os mais Santos!”

Na terra homem tão fero não seria,
Que não sentisse o coração pungido
54 Em vendo o que aos meus olhos se of’recia.

Acerquei-me por ser mais distinguido
De cada sombra o menear e o gesto:
57 Pelos olhos à dor alívio hei tido.

Então foi claramente manifesto
Que entre si, uns aos outros se arrimavam,
60 Todos à pedra, em seu cilício mesto.

Assim os pobres cegos mendigavam
Nos dias de Perdão da igreja à porta,
63 Mutuamente as cabeças encostavam;

Pois a piedade o coração nos corta,
Quando ao som das palavras se acrescenta
66 Da vista a ação que o peito desconforta

E como o sol aos cegos não se ostenta,
Assim também às sombras que alivia,
69 Não mais do céu a luz olhos alenta.

Fio de ferro as pálpebras prendia
A todas, como ao gavião selvage
72 Para domar-lhe a condição bravia.

Cuidei, se andasse, lhes fazer ultraje,
Lhes vendo as faces e ocultando a minha:
75 E o Mestre olhei em tácita linguage.

E o Mestre, bem sabendo o que convinha,
Antecipou-se logo ao meu desejo
78 E disse: — “Arguto sê, e fala asinha.” —

Virgílio caminhava neste ensejo
Do lado, onde à cornija falta amparo;
81 Dali cair se pode e o risco eu vejo.

As almas do outro lado eram; reparo
Que dos olhos a hórrida costura
84 Provoca pranto copioso e amaro.

Voltei-me e disse: — “Ó almas, que a ventura
De ver tereis ao certo o excelso Lume;
87 De que somente o vosso anelo cura,

“Dissolva a Graça em vós todo o negrume
Da consciência e nela manar faça
90 Da mente o rio em límpido corrume!

“Concedei-me o que mais me satisfaça:
Dizei-me qual de vós latina há sido;
93 De eu sabê-lo algum bem talvez lhe nasça.” —

— “Por pátria, irmão, só hemos conhecido
A cidade de Deus: dizer quiseste
96 Peregrina na Itália haja vivido.” —

De mim remota a voz parece deste,
Que assim disse; e portanto, passo avante
99 Por saber certo a quem atenção preste.

E uma senhora entre as mais vi, que, distante,
Aguardava-me. E como eu a distinguia?
102 Qual cego, alçava o mento pra diante.

— “Tu, que para subir penas” — dizia —
“Quem foste, onde nasceste diz: te imploro,
105 Se é tua voz que, há pouco, respondia.”

— “Fui de Siena” — tornou — “com este choro
Os graves erros de perversa vida,
108 E a Deus que se nos dê, clemente, exoro.

“Chamei-me Sápia, mas não fui sabida.
Mais deleite me deu o alheio dano
111 Do que a dita a mim própria concedida.

“E por que não presumas que te engano,
Se fui louca verás pelo que digo.
114 Já no declínio do viver humano

“Eu era, quando a rebater o inimigo
Em Colle os meus patrícios campearam;
117 A Deus roguei que lhes não fosse amigo.

“Destroçados, à fuga se lançaram,
E a mim, que estava aquele transe vendo,
120 Indizíveis prazeres me tornaram,

“Em modo, que atrevida, olhos erguendo,
— “Não mais Deus tenho!” — contra o céu gritava
123 Qual melro, instantes de bonança tendo.

“Com Deus quis paz, mas quando já tocava
Da vida o termo; e ainda não pudera
126 A dívida solver, que me onerava,

“Se Pedro Pettinanho não se houvera,
Nas santas operações de mim lembrado:
129 Em prol meu, caridade o comovera.

“Mas quem és, que nos tens interrogado,
Que estando, creio, de olhos não tolhidos
132 E respirando indagas nosso estado?” —

— “Olhos” — disse — “terei também cerzidos,
Porém por pouco tempo; que da inveja
135 No mundo hão sido rara vez torcidos,

“Maior receio o peito me dardeja
De outro tormento; e tanto me angustia,
138 Que o seu fardo a sentir cuido já steja.” —

— “Mas quem ao monte” — me tornou — “te guia,
Pois de voltar ao mundo tens certeza?” —
141 — “Quem tenho ao lado e voz não pronuncia.

“Inda vivo; e, pois fala com franqueza,
Alma eleita, se queres que os pés mova
144 Em prol teu lá na terra com presteza.” —

— “O que dizendo estás, cousa é tão nova
Que por mim rogues fervorosa peço,
147 Pois da divina dileção dás prova.

“E pelo que te merecer mais preço
Suplico-te: ao pisar terra toscana
150 Ao meu nome entre os meus aviva o apreço.

“Terás de vê-los entre a gente insana,
Que espera em Talamone, mas como antes,
Quando buscava as águas do Diana:

154 Mor engano há de ser dos almirantes.” —

 

29. Vinum non habent, é a frase que Maria disse a Jesus para incitá-lo a fazer o milagre da transformação da água em vinho. — 32. Orestes sou, Orestes para salvar Pílades, condenado à morte, apresentou-se em seu lugar. — 36. Amai imigos vossos, v. Evang. S. Mateus V. — 44-51. Por nós orais etc., prece. — 109. Sápia, senense, casada com Ghinigaldo Saraceni. — 116. Em Colle, onde os senenses foram derrotados pelo florentinos. Sápia rejubilou-se disso, pois era inimiga do senhor de Siena, Provenzano Salvani. — 127. Pedro Pettinanho, morto em fama de santidade. — 151-154. A gente insana, os senenses. Tendo eles comprado Telamone, queriam transformar essa cidade em porto de mar, mas não foi possível devido à insalubridade do clima. Não tiveram êxito também na descoberta de um rio subterrâneo que devia passar debaixo de Siena e que chamaram Diana. Mais do que outros serão enganados os almirantes.


CANTO XIV

 

Dante conversa com outras almas de invejosos. Respondendo o Poeta a uma pergunta de Rinieri de Calboli, intervém Guido del Duca, imprecando contra as cidades de Toscana e lamentando, depois, a degeneração das famílias nobres de Romanha. Os Poetas ouvem vozes que lembram episódios nos quais o pecado da inveja foi castigado.

 

“ESTE quem é ao nosso monte vindo,
Sem ter-lhe a morte as asas desatado,
3 Os olhos, quando quer, fechando e abrindo?” —

— “Ignoro; mas vem de outro acompanhado.
Tu, que és mais perto, a perguntar começa,
6 E, para nos falar, mostra-lhe agrado.” —

De dois esp’ritos junto se endereça
A mim desta arte a voz: stão-me a direita,
9 Cada um para trás alça a cabeça.

— “Ó alma” — disse-me uma — “que, na estreita
Prisão corpórea ainda, aos céus ascende,
12 Dá-nos consolo, à caridade afeita.

“Quem és e donde vens? Porque nos prende
Pasmo notando a Graça, que te ampara,
15 Portento que ninguém viu, nem compreende.” —

Tornei-lhe: — “Na Toscana se depara
Rio, que brota em Falterona escasso
18 E nunca, milhas cem correndo, pára:

“Este corpo dali conduzo lasso.
Dizer quem sou discurso vão seria:
21 Meu nome inda não soa em largo espaço.” —

— “Se bem te entendo” — assim me respondia
A sombra, que antes de outra eu tinha ouvido —
24 “Ao Arno o dizer teu se referia.” —

— “Por que” — lhe atalha a outra — “ele escondido
Nos tem do rio o nome verdadeiro?
27 Cousa horrível se encerra em seu sentido?” —

Disse-lhe a sombra, que falou primeiro:
— “Não sei; mas fora bem feliz o instante,
30 Em que o nome pereça ao vale inteiro:

“Dês que nasce lá onde é redundante
De águas a serra que o Peloro unira,
33 Noutras partes, porém, pouco abundante,

“Até que o mar do seu tributo aufira
Reparo ao que no seio o céu lhe suga,
36 E vida assim pra novos rios tira,

“Todos ali virtude hão posto em fuga,
Qual víbora inimiga, ou por efeito
39 Do clima, ou por moral, que o bem refuga.

“Natureza por vícios se há desfeito
Na gente desse vale impuro,
42 Como de Circe apascentada a jeito.

“Cava o rio primeiro o leito escuro
Entre porcos mais di’nos de bolota
45 Do que de cibo, em que haja humano apuro.

“Baixando, acha de gozos mó abjeta,
Em que o furor à força não se iguala,
48 E, como por desdém, busca outra meta.

“Essa maldita e desgraçada vala
Tantos mais cães em lobos vê tornados
51 Quanto mais corre e mais caudal resvala.

“Imerge em princípios mais rasgados,
Onde encontra raposas tão manhosas,
54 Que os laços mais sutis ficam frustrados.

“Do porvir direi cousas espantosas,
E quem me ouvir conserve na lembrança
57 Verdades que há de ver bem dolorosas.

“Teu neto os lobos a caçar se lança
Desse rio maldito sobre a riva:
60 Enquanto os não destroça não descansa.

“A carne sua vende, estando viva,
Como reses depois mata-os cruento;
63 Muitos da vida e a si da glória priva.

“Da triste selva sai sanguinolento
E a deixa, tal que ainda após mil anos
66 Tornar não há de ao primitivo assento.” —

Como, ao presságio de futuros danos,
Merencório se mostra o interessado,
69 Onde quer que a fortuna urda os enganos;

Assim o outro espírito: voltado
Para escutar se havendo, se entristece,
72 Depois que teve o sócio terminado.

Como saber seus nomes eu quisesse,
Ouvindo aquele, ao outro o gesto vendo,
75 A pergunta entre rogos se oferece.

O que falara respondeu dizendo:
“Pedes que eu, pronto, quanto anelas faça,
78 A instância minha em pouco apreço tendo.

“Mas como em ti de Deus transluz a Graça,
Não te há de ser Guido del Duca esquivo
81 Tanto, que o teu querer não satisfaça.

“Da inveja o fogo ardeu em mim tão vivo,
Que ao ver sorriso de outrem no semblante,
84 Em meu rosto o libor era expressivo.

“Semeei: colho o fruto repugnante.
Oh! por que, raça humana, o que repele
87 Qualquer partilha almejas ofegante?

“Este foi Rinieri: estava nele
Dos Calboli o primor: ao nome honrado
90 Herdeiro não deixou que a glória zele.

“Não só à prole sua tem faltado,
Entre o Pó e a montanha, o mar e o Reno
93 O bem para a verdade e o prazer dado;

“Pela extensa amplidão desse terreno
Alastram tudo abrolhos perigosos:
96 Quando extirpar se pode um tal veneno?

“Onde Mainardi e Lizio estão famosos?
Qual de Carpigna e Traversaro o fado?
99 Ó Romanhóis bastardos desbriosos!

“Quando um Fabro se tem nobilitado,
Como em Faenza um Fosco Bernardino,
102 Varas gentis de tronco definhado!

“O pranto meu não julgues pouco di’no,
Se com Guido de Prata rememoro
105 O companheiro nosso, Azzo Ugolino;

“Se Fred’rico Tignoso e a prole choro;
Solares de Anastagi e Traversara,
108 Sem herdeiros extintos, se eu deploro,

“Cavaleiros e damas, glória rara,
Que inspiravam amor e cortesia
111 Na terra, que a virtude desampara!

“Cai em ruínas, Brettinoro ímpia!
Em ti viver tua gente não quisera;
114 Com mais outras, temendo o mal, fugia.

“Bem faz Bagnacaval: prole não gera,
Castrocaro faz mal e pior Cônio
117 Que a tais condes da vida o lume dera.

“Os Pagani irão bem, quando o Demônio
Deixá-los; mais não podem nome puro
120 Já nunca possuir no solo ausônio.”

Ugolin Fantolin, ficou seguro
Da fama tua o lustre; pois já agora
123 Não terás filhos pra torná-lo escuro.

“Podes, Toscano, prosseguir embora:
Pranto, mais que discursos, me deleita;
126 Lembrando a pátria, o coração me chora.” —

O passo as almas na vereda estreita
Ouviam-nos, silêncio elas guardando.
129 Era a jornada com certeza feita.

Já ficaríamos sós, avante andando,
Eis brada voz nos ares de repente;
132 Veloz, qual raio, vinha a nós chamando:

— “Quem me encontrar me mate incontinênti” —
E fugiu qual trovão que distancia
135 Se o vento a nuvem rasga de repente.

O terrível clamor cessado havia,
Com medonho fracasso eis outra brada,
138 Como um trovão que a outro sucedia:

— “Aglauro sou, em rocha transformada” —
E a Virgílio acercar-me então querendo,
141 Dei, não avante, um passo atrás na estrada.

Tranqüilo o ar por toda parte vendo,
— “Este é” — falou-me o Mestre — “o duro freio,
144 Que os homens deve estar sempre contendo:

“Mas vós mordeis a isca em triste enleio
E o prístino inimigo do anzol tira:
147 De conter ou pungir que vale o meio?

“O céu vos chama, em torno de vós gira,
Esplendores eternos vos mostrando;
Mas a vista, enlevada, a terra mira,

151 “E quem vê tudo então vai castigando.” —

 

17. Rio que brota em Falterona, o Arno. — 32. Peloro, promontório siciliano. — 42. Circe, sereia que transformava os homens em animais. — 58. Teu neto, Fulcieri de Calboli, neto de Rinieri, que foi “podestà” de Florença perseguiu o partido dos Bancos, ao qual Dante pertencia. — 80. Guido del Duca, senhor de Bertinoro, na Romanha. — 88. Rinieri dei Paolucci, senhor de Calboli. — 97 e seg. Mainardi e Lizio, Carpigna e Troversaro, Fabbro, Fosco Bernardino, Guido de Prata, Azzo Ugolino, Frederico Tignoso, Anastagi e Traversara, senhores e famílias da Romanha notáveis por cortesia e generosidade. — 115-117. Bagnacaval, Castrocaro, Cônio, cidades da Romanha cujos senhores eram maus. — 118. Pagani, nobre família de Faenza, da qual fazia parte Mainardo (Inf. XXVI, 49-51) alcunhado o demônio pelas suas crueldades. — 121. Ugolin Fantolin, gentil-homem de Faenza. — 133. Quem me encontrar me mate incontinênti, palavras pronunciadas por Caim depois de ter assassinado o irmão Abel. — 139. Aglauro, filha de Eretero rei de Atenas, foi transformada em pedra por Mercúrio, por ter inveja da irmã Erse que era amada pelo deus.


CANTO XV

 

Caindo a noite, os dois Poetas chegam ao terceiro compartimento. Aí Dante, em êxtase, vê exemplos de mansuetude e misericórdia. Voltando a si, encontra-se imerso num fumo que obscurece o ar e impede a visão.

 

QUANTO caminho faz da tércia hora,
No giro seu, a luminosa esfera,
3 — Sempre a mover-se qual criança — à aurora,

Tanto, para acabar o curso, espera
O sol, e para dar à tarde entrada:
6 Lá vésperas, aqui meia-noite era.

De luz me estava a face então banhada;
Porque, em torno à montanha prosseguindo,
9 Do ocaso em direção ia a jornada,

Quando, mais vivo resplendor fulgindo,
Ofuscado fiquei mais do que dantes:
12 Desse portento a ação pasmei sentindo.

Acima de meus olhos, por instantes,
As mãos alcei — sombreiro, que antepara
15 O mor excesso aos raios deslumbrantes.

Assim como de espelho ou linfa clara
Ressalta a luz de encontro à oposta parte,
18 Subindo logo após, como baixara;

Da linha vertical não se disparte,
Uma distância igual sempre mantendo,
21 Como nos mostra experiência e arte:

Em frente à luz, assim, se refrangendo,
Tão penetrante a vista me feria,
24 Que a dirigi a um lado, olhos volvendo.

“Qual é” — ao Mestre amado então dizia —
Aquele objeto, que me ofusca tanto
27 E ao nosso encontro, ao parecer, se envia?” —

— “Que inda te ofusque não te mova espanto
A celeste família” — me há tornado: —
30 “Falar-te vem um mensageiro santo.

“A veres com delícia aparelhado
Serás em breve um lume refulgente,
33 Quanto ser pode ao ente humano dado.” —

Acercados ao anjo, alegremente
Nos disse: — “Aqui passai, menos penosa
36 Subida nesta escada está patente.”

Andando, atrás cantar em voz donosa
Beati Misericordes nós ouvimos
39 E “Exulta na vitória gloriosa”,

Para cima, portanto, nós subimos;
E eu das vozes do Vate cogitava
42 Colher proveito, enquanto sós nos imos.

E, me voltando, assim lhe perguntava:
“O que Guido del Duca nos dizia,
45 Quando em bens não partíveis nos falava?” —

— “Do seu vício pior” — tornou — “sabia
Os danos; não se estranhe, se o acusando,
48 Do mal que fazer possa prevenia;

“Porque, do mundo os bens vós desejando,
A que partilha todo o apreço tira,
51 Arde a inveja, suspiros provocando.

Mas, se a esfera imortal vossa alma aspira,
Levantando-se o anelo àquela altura,
54 Esse temor no peito voz expira.

“Tanto mais lá cad’um goza ventura,
Quanto por muitos ela mais se estende,
57 Quanto mais caridade lá se apura.” —

— “O entendimento” — eu digo — “ora compreende
Menos do que antes de eu te haver falado;
60 À mente ora mor dúvida descende.

“Como um bem, que é de muitos partilhado,
A cada possessor dá mais riqueza
63 Do que se a posse fora apropriado?” —

— “Teu spírito” — replica — “na rudeza
Das cousas terreais stando imergido,
66 Vê trevas onde a luz tem mais clareza,

“Esse inefável bem, no céu fruído,
Infindo, para o amor, correndo desce,
69 Qual raio a corpo lúcido e polido.

“Se ardor acha mais vivo, mais se of’rece;
Quanto mais caridade está fulgindo,
72 Virtude eterna mais sobre ela cresce.

“Quanto mais vai a multidão subindo,
Mais amar podem, mais a amor se aplicam,
75 Bem como espelho, um no outro refletindo.

“Se persistindo as dúvidas te ficam,
Hás de ver Beatriz: da sábia mente
78 Razão escutarás, que tudo explicam.

“Para apagares, pois, sê diligente.
As chagas cinco, que inda em ti stou vendo:
81 Há de cerrá-las contrição pungente.” —

Quando eu ia dizer — Mestre, compreendo —
No círculo eis penetro imediato:
84 Calei-me, a vista alucinada tendo.

Julgava então, de uma visão no rapto,
Extático, que em templo se mostrava
87 Multidão grande, de oração no ato.

Com piedoso semblante, à entrada estava
Meiga matrona. — “Ó filho meu querido,
90 Por que assim procedeste?” — interrogava.

“Eu e teu pai, com ânimo dorido,
Te buscamos.” — E como se calara,
93 Logo a visão fugiu-me do sentido.

Depois de outra no rosto se depara
Pranto acerbo, que mágoas anuncia
96 De quem de ira no incêndio se inflamara.

“Se mandas na cidade” — assim dizia —
“Por cujo nome os deuses contenderam
99 E onde a luz da ciência se irradia,

“Pune os braços, que ímpios, se atreveram,
Pisístrato, a estreitar a filha tua!” —
102 Ele, a quem vozes tais não comoveram,

Tranqüilo respondia à esposa sua:
“O que faremos a quem mal nos queira,
105 Se ira ao amor corresponder tão crua?”

Vi depois multidão, que a raiva aceira:
A pedradas mancebo assassinava,
108 Bradando — morra! morra! — carniceira.

A dolorida fronte debruçava,
Já mal ferido, o mártir para a terra:
111 Portas ao céu os olhos seus tornava,

Pedindo a Deus, naquela horrível guerra,
Que aos seus perseguidores perdoasse:
114 Riso piedoso os olhos lhe descerra.

Quando em minha alma o êxtase desfaz-se,
Conheci que no sonho aparecia,
117 Não da ficção mas da verdade a face.

Virgílio, a quem talvez eu parecia
Homem, que o sono deixa de repente,
120 — “Por que estás vacilante?” — me inquiria.

“Tens meia légua andado certamente
Com titubante pé, de olhos caídos,
123 Como quem desse ao vinho ou sono a mente.” —

— “Vou expor, meu bom mestre, aos teus ouvidos” —
Tornei — “quanto os meus olhos contemplaram,
126 Quando os joelhos tinha enfraquecidos.”

— “Se másc’ras cento a face te ocultaram” —
Disse Virgílio — “ocultos não seriam
129 Pensamentos, que, há pouco, te enlevaram.

“As imagens, que hás visto, te induziam
Águas da paz a receber no peito,
132 Que as fontes perenais dos céus enviam.

“Não perguntara, como quem de feito
Somente vê por olhos, obcecados
135 Quando o corpo da morte jaz no leito;

“Mas por serem teus pés mais apressados:
Excitar assim cumpre os preguiçosos,
138 Que se esquivam à ação stando acordados.” —

Nas horas vespertinas pressurosos
Andávamos, os olhos alongando,
141 Do sol cadente aos raios luminosos,

Eis pouco a pouco, um fumo se elevando.
Se condensa ante nós, qual noite, escuro;
Abrigo ali de todo nos faltando,

145 A vista nos tolheu, tolhendo o ar puro.

 

1-5. Quanto caminho etc., faltavam três horas para o ocaso, pois o Poeta nota que deveria transcorrer tanto tempo para o pôr do sol quanto transcorre entre o princípio do dia até a hora terça. — 6. Lá vésperas etc., no Purgatório faltavam três horas para o ocaso, eram vésperas; na Itália era meia-noite. — 16-21. Assim como etc., o poeta descreve o refletir-se da luz que bate sobre um espelho ou na água, no qual o ângulo de refração é igual ao ângulo de incidência. — 38. Beati misericordes, Evang. S. Mateus V, 7. — 80. As chagas cinco, os cinco PP, que ainda Dante tem na testa. — 89. Meiga matrona, Maria Virgem, a qual tendo perdido o seu filho, encontrando-o depois de três dias, o repreende com mansuetude. — 94. De outra etc., a mulher de Pisístrato, príncipe de Atenas, pediu ao marido vingança contra um jovem que beijara publicamente a sua filha. — 107. A pedrada mancebo assassinava, Santo Estevão que foi apedrejado pela multidão.


CANTO XVI

 

Sempre ao lado de Virgílio, Dante continua a viagem. Denso fumo envolve os iracundos. Entre eles está Marco Lombardo, o qual lamenta os tempos, que eram bons e agora ficaram maus. Dante pergunta de que depende essa mutação, e Marco responde que a corrupção dos tempos novos procede do mau governo do mundo e especialmente da confusão entre o poder espiritual e o poder temporal.

 

SOMBRA de inferno e noite carregada,
Em que o céu de um só astro não se aclara,
3 De nuvens, quanto o pode ser, toldada,

Véu tão grosso ao meu rosto não lançara,
Nem, ao contacto, fora tão pungente,
6 Como o fumo, que ali nos rodeara.

Fechados tinha os olhos totalmente:
Fiel o sábio sócio, me acudindo,
9 Deu-me em seu ombro arrimo diligente.

Qual cego, que ao seu guia vai seguindo
Por se não transviar, correr perigo,
12 Ou sofrer morte, de encontrão caindo,

Tal eu por aquele ar escuro sigo,
Atento ao Mestre meu, que repetia:
15 — “Cuidado! Não te afastes! Vem comigo!” —

Então vozes ouvi; me parecia,
Que paz, misericórdia suplicavam
18 Ao Cordeiro, que as culpas alivia.

Por Agnus Dei suaves começavam,
A letra era uma só como a toada,
21 Consonância entre si todas as guardavam.

— “Por quem esta oração, que ouço, é cantada?” —
Perguntei. Disse o Mestre: — “É bom que o aprendas:
24 Assim da ira a culpa é mitigada.” —

— “Quem és para que a névoa nossa fendas
E assim fales, qual viva criatura,
27 Que inda o tempo calcula por calendas?” —

Disse uma voz do fundo na negrura.
E Virgílio falou: — “Responde e exora
30 Se por aqui se sobe para a altura.” —

— “Ó alma, que” — disse eu — “a graça implora
De ir a Quem te criou mais pura e bela,
33 Maravilha ouvirás, segue-me embora.” —

— “Até onde for dado” — tornou-me ela —
“Irei, e, se te ver não deixa o fumo,
36 Nos tornará propínquos a loquela.” —

— “Nas mantilhas, que a morte acaba, ao sumo
Assento” — comecei — “ora me alteio,
39 Do inferno tendo vindo pelo rumo.

“Se Deus permite, de bondade cheio,
Que a dita eu goze de lhe ver a corte
42 Por este, hoje de todo estranho, meio,

“Revela-me quem foste antes da morte
E qual nos deva ser a melhor via:
45 Guiarás nossos passos desta sorte.” —

— “Fui Lombardo e de Marco o nome havia;
O mundo exp’rimentei, feitos amando,
48 Pelos quais ninguém mais hoje porfia.

A subir bom caminho vais trilhando.” —
Falou-me assim e acrescentou: — “E rogo
51 Intercedas por mim, ao céu chegando.” —

— “Quanto me pedes” — lhe replico logo —
“Juro fazer, mas acho-me oprimido
54 Por dúvida a que anelo desafogo.

“Era simples; te ouvindo, tem subido
A duplo grau, e assim me torna certo
57 Do que hei aqui e noutra parte ouvido.

“O mundo de virtude está deserto;
Tens sobeja razão, quando o lamentas,
60 Impa de mal, de vícios é coberto.

Dize-me a causa, se na causa atentas?
Sabendo-a, aos outros revelá-la quero;
63 Virá do céu ou lá na terra a assentas?”

Suspiro em que se exprime dó sincero
Com hui, do peito exala. — “Irmão — prossegue —
66 Que o mundo é cego em ti bem considero.

“Vós, os vivos, julgais o céu entregue
De toda causa, a tudo assim movendo
69 Por necessária lei, que o mundo segue.

“Desta arte o livre arbítrio fenecendo,
Ao homem não coubera o que merece,
72 No bem prazer, no mal dor recebendo.

“Primeira inspiração aos atos desce
Do alto; a todos não; mas quando o diga,
75 No mal, no bem a luz não vos falece.

“Livre sendo o querer, quem se afadiga
E a primeira vitória do céu goza,
78 Vencerá tudo, se em querer prossiga.

“Natureza melhor, mais poderosa
Vos sujeita — a que cria e vos concede
81 Mente, que ao céu não prende-se humildosa.

“Se a causa, que do bom caminho arrede
O mundo em vós a tendes persistente;
84 Explorarei, fiel, o que sucede.

“Alma surge das mãos do Onipotente
Que, inda antes de nascida, lhe sorria
87 Qual menina, que ri, chora, inocente.

“Ingênua e simples, ela só sabia
De um Deus beni’no ser meiga feitura,
90 E a tudo, que a deleita, se volvia.

“Dos mais frívolos bens prende-a a doçura,
E, deles namorada, após lhes corre,
93 Se guia ou freio o amor lhe não segura.

“Nas leis consiste o freio, que a socorre;
Rei foi mister, que, ao menos, acertasse
96 Da cidade de Deus em ver a torre.

“Leis há, mas não quem leis executasse;
Rumina esse pastor que os mais precede,
99 Mas a unha fendida não lhe nasce.

“E vendo a grei que o próprio guia a excede
Em almejar os bens que mais deseja,
102 Nestes se engolfa e mais nem quer nem pede.

“Portanto, porque mau governo veja,
Fica o mundo de culpas inquinado,
105 Não porque em vós a corrupção esteja.

“Bens sobre o mundo havendo derramado,
Tinha Roma dois sóis, que alumiaram
108 O caminho de Deus e o do Estado.

“Um ao outro apagou, e se ajuntaram
Do Bispo o bago e do guerreiro a espada:
111 Por viva força unidos, mal andaram.

“Não mais se temem na junção forçada:
Vê a espiga que prova estes efeitos;
114 Pela semente é a planta avaliada.

“Valor e cortesia altos proveitos
Deram na terra que Ádige e Pó lavam,
117 Antes que visse de Fred’rico os feitos.

“Por ali os que outrora se pejavam
De entrar dos bons na prática e na liga,
120 Livres passam do quanto receavam.

“Só três velhos opõe a idade antiga,
Como censura, à nova: é-lhe já tardo
123 Que Deus os chame dessa terra imiga:

“Conrado de Palazzo, o bom Gherardo
E Guido de Castel, que foi chamado,
126 Ao estilo francês simples Lombardo.

“De Roma a Igreja fique proclamado,
Cai no ceno os poderes confundido,
129 Se enloda a si e o fardo seu pesado.”

— “Tuas sábias razões, Marcos, ouvindo,
Vejo” — disse — “por que a Lei da herança
132 Partiu, de Levi os filhos excluindo.

“Mas qual Gherardo trazes à lembrança,
Como glória e brasão da antiga gente,
135 Que censura a este séc’lo impuro lança?” —

— “Queres” — tornou — “tentar-me ou certamente
Iludir-me? Em toscano me falando
138 Do bom Gherardo dizes-te insciente?

“Sobrenome de todo lhe ignorando,
Dou-lhe o de Gaia, sua filha cara.
141 Guarde-vos Deus, que eu vou-me, vos deixando.

“Do fumo a densidão se torna rara,
Branqueja o dia: devo já partir-me,
Que a apresentar-se o anjo se prepara.” —

145 Assim falando, mais não quis ouvir-me.

 

19. Agnus dei, Jesus símbolo de mansuetude, virtude contrária ao vício da ira. — 27. Calendas, uma das três partes em que o mês era dividido pelos romanos. — 46. Fui Lombardo e de Marco o nome havia, Marco de Veneza, chamado o Lombardo, homem sábio e prudente. — 98. Rumina esse pastor etc. A imagem deriva da lei mosaica pela qual se proibia se comessem os animais não ruminantes e que não tivessem a unha partida. O ruminar exprime a sabedoria, a unha partida a ação. — 116. Na terra etc., a Lombardia e o Marca Trevisana. — 117. De Frederico os feitos, as guerras entre os papas e Frederico II da Suábia. — 124-25. Conrado de Palazzo, da Brescia; Gherardo de Camino; e Guido de Castello, de Reggio — 131-132. Lei da herança etc., segundo a lei mosaica os descendentes de Levi, isto é, os levitas (os sacerdotes) não podiam possuir bens temporais.


CANTO XVII

 

Saindo do denso fumo, Dante, novamente em êxtase, vê exemplos de ira punida. Tornando a si, vê um anjo que está perto da escada do quarto compartimento. Os dois Poetas continuam a subir. Sobrevindo, porém, a noite, param e Virgílio explica ao discípulo que o amor é o princípio de todas as virtudes e de todos os vícios.

 

LEITOR, se lá na alpina cordilheira
Te colheu névoa, que de ver tolhia,
3 Como se olhos tivemos de toupeira,

Lembra que, quando a úmida e sombria
Cortina a delgaçar começa, a esfera
6 Do sol escassa luz ao ar envia.

E mal tua mente imaginar pudera
Como de novo à vista se mostrava
9 O sol, que ao seu poente descendera.

Ao lume, que nos planos se finava,
Do Mestre os passos fido acompanhando
12 Saí da cerração, que me cercava.

Fantasia que, o espírito enlevando,
Tanto o homem dominas, que não sente
15 Clangor de tubas mil, juntas soando,

O que te move, estando o siso ausente?
Luz que desce por si, no céu formada,
18 Ou por querer do céu onipotente.

Cuidei súbito ver a que mudada,
Dos crimes seus em pena, foi nessa ave,
21 Que em trinar mais se mostra deleitada.

Tanto minha alma, na visão suave,
Extática ficou, que não sentia
24 Outra impressão qualquer que a prenda e trave.

Naquele êxtase logo após eu via
Em cruz um homem de feroz semblante:
27 Nem a morte a arrogância lhe abatia:

Stava o grande Assuero não distante,
Ester, a esposa e Mardoqueu prudente,
30 Justo nos feitos, no dizer prestante.

E fugiu-me esta imagem prontamente,
Como a bolha, que de água se formara
33 E à falta de água esvai-se de repente.

Donzela eis na visão se me depara
Que em prantos exclamava: — “Ó mãe querida
36 Por que tomaste irosa a morte amara?

“Perdes, por não perder Lavínia, a vida
E perdida me tens: teu fim deplora,
39 Mas não o de outro, a filha dolorida.” —

Como se rompe o sono, se de fora
Luz repentina às pálpebras nos desce;
42 Não morre logo, em luta se demora:

Minha visão assim se desvanece,
Quando as faces clarão tão vivo lava,
45 Que na terra outro igual nunca esclarece.

Volvi-me para ver onde me achava;
Mas, ouvindo uma voz — “Sobe esta escada” —
48 De qualquer outro intento me apartava.

Por saber quem falara foi tomada
Minha alma de um desejo tão veemente,
51 Que fora, se o não viesse, conturbada.

Como ao sol, que deslumbra em dia ardente,
Sendo-lhe véu seu lume flamejante,
54 Senti perdida a força incontinênti.

— “Espírito é celeste: vigilante
Sem rogos, o caminho nos indica:
57 O próprio brilho esconde-o fulgurante.

“Como o homem consigo, assim pratica;
Quem, mal extremo vendo, só rogado
60 Acode, esquivo ser já significa.

“A tal convite o pé seja apressado!
Antes da noite rápidos subamos;
63 Depois somente quando o sol for nado.” —

Disse o meu Guia; e logo encaminhamos
Os passos, de uma escada em direitura.
66 Ao primeiro degrau quando chegamos

Mover de asas ao perto se afigura,
Bafejo sinto; e ouço: — “É venturoso
69 Quem ama a paz, isento de ira impura!” —

No alto já do céu o luminoso
Rasto, da noite precursor, surgira,
72 De astros assoma o exército formoso.

— “Ai de mim! Por que a força minha expira?”
Disse, entre mim, sentindo que, esgotada,
75 Súbito às pernas o vigor fugira.

Tendo alcançado o topo já da escada,
Imóveis nos quedamos, imitando
78 A nau, que aferra a praia desejada.

A escutar stive um pouco, interrogando
Daquele novo círc’lo algum sonido;
81 Depois ao Mestre me voltei falando:

— “No lugar em que estamos, pai querido,
Que pecado recebe a pena sua?
84 Parando os pés, teu verbo seja ouvido.”

Tornou-me: — “Se do bem o amor recua
No seu dever, aqui se retempera;
87 Sobre o remisso a expiação atua.

“Por melhor compreenderes, considera
No que digo: a detença, porventura,
90 Dará o fruto, que tua mente espera.

“Ao Criador, meu filho, e à criatura
Nunca falece amor — tens já sabido —
93 Ou venha da alma ou venha da natura.

“O amor natural de erro é despido;
Pode pecar o outro pelo objeto,
96 Por nímio ardor, por star arrefecido.

“Quando aos bens principais ele é direto
E nos bens secundários moderado,
99 Causar não pode criminoso afeto.

“Se ao mal, porém, se torce ou, desregrado,
De menos ou de mais ao bem se move,
102 Ofende ao Criador quem foi criado.

“Tens, pois, o necessário, que te prove
Que amor em vós semente é de virtude,
105 Como é dos feitos, que o céu mais reprove.

“E como o amor o bem somente estude
Do seu sujeito, quando o amor domina,
108 Não pode ser que em ódio a si se mude.

“E porque nenhum ente se imagina
Sem ter no que criou a causa sua,
111 Ódio em nenhum contra este se origina:

“Contra o próximo é, pois, que se insinua
Do mal o amor, pecaminoso.
114 No humano limo em modos três atua.

“Qual, da grandeza, e glória cobiçoso,
As espera em ruína de outro, e anela
117 Vê-lo em terra prostrado e desditoso;

“Qual, temor de perder, triste, revela
Valia, honra e poder, se outro os partilha
120 E em querer-lhe o contrário se desvela;

“Mágoa sentindo de uma injúria filha,
Qual porfia em vingar-se, e, de ira ardendo,
123 De mal fazer os meios esmerilha.

“Do mal este amor tríplice nascendo,
Lá embaixo se expia; mas atende
126 Ao que vai desregrado, ao bem correndo.

“Confusamente cada qual se acende
Por certo bem e sôfrego o deseja:
129 Por ter-lhe a posse, afana-se e contende.

“O que do bem no amor inerte seja
Depois que do pesar sofrerá agrura,
132 É justo que em martírio aqui se veja.

“Há outro bem; não dá, porém, ventura.
Felicidade não é, não é a essência
135 De todo o bem, o fruto, a raiz pura.

“O amor, que a tal bem vota a existência,
Acima em círc’los três há seu tormento:
Por que assim se divide, a inteligência,

139 Sem te eu dizer, dar-te-á conhecimento.” —

 

20. Nessa ave etc., Filomena, por vingar-se de ter sido ultrajada por Teseu, deu-lhe de comer os próprios filhos e foi por isso transformada pelos deuses em rouxinol. — 26. Em cruz um homem etc. Aman, ministro do rei Assuero, foi crucificado na cruz que ele havia mandado levantar para o inocente Mardoqueu (Ester II, 5). — 34. Donzela, Lavínia, filha do rei Latino e da rainha Amata. — 37-39. Perdes etc., A rainha Amata supondo que Turno, noivo de Lavínia, tivesse sido morto por Enéias, suicidou-se.


CANTO XVIII

 

Virgílio continua a falar sobre o amor. No entanto as almas dos preguiçosos vão passando diante dos Poetas, lembrando exemplos da virtude contrária à preguiça, e, depois, de punição da preguiça. Uma das almas dá-se a conhecer a Dante. É o abade de S. Zeno, em Verona. Dante cai em profundo sono.

 

PALAVRAS tais já proferido havia
O Vate excelso e, atento, me observava
3 Por ver se eu satisfeito parecia;

E eu, em maior sede me inflamava,
Calando-me, entre mim dizia: “O excesso,
6 Que nas perguntas há, talvez o agrava.” —

Mas o sincero pai, sempre indefeso,
Meu silêncio notando e o que o motiva
9 Logo animou-me a lho fazer expresso.

— “Minha vista” — falei — “tanto se aviva
À luz do verbo teu, Mestre, que ao claro
12 Vejo o que da razão tua deriva.

— “Rogo-te, pois, ó pai beni’no e caro,
Me ensines esse amor, de que descende
15 Todo o mal, todo o bem ao mundo ignaro.” —

— “Volve a mim” — disse — “a luz, que mais se acende
No espírito e há de ser-te bem patente
18 Quanto erra o cego que guiar pretende.

“Alma criada para amar ardente,
A tudo corre, que lhe dá contento,
21 Se despertada do prazer se sente.

“Do que é real o vosso entendimento
Colhe imagens que em modo tal desprega,
24 Que alma pra elas sente atraimento.

“Se alma, enlevada, ao seu pendor se entrega,
Esse efeito é amor, própria natura,
27 Em que o prazer novo liame emprega.

“E, como o fogo se ala para a altura
Por sua forma, que a elevar-se tende
30 Ao foco, onde o elemento seu mais dura,

Assim pelo desejo a alma se acende,
Ação esp’ritual que não se aquieta,
33 Se não consegue a posse, que pretende.

“Vê, pois, que da verdade excede a meta
Quem acredita e aos outros assevera
36 Que todo o amor de si é cousa reta.

“Em gênero talvez se considera
O amor sempre bom; mas todo selo
39 É bom, inda que seja boa a cera?

— “Se, te ouvindo” — tornei — “com mor desvelo
Do que ser pode o amor fico inteirado,
42 Dúvidas hei, que esclarecer anelo.

“Pois que amor é de fora derivado,
Pois que a alma de outra sorte não procede,
45 No bem, no mal o mérito é frustrado.” —

— “Dizer-te posso o que a razão concede” —
Tornou — “do mais a Beatriz somente,
48 Por ser ato de fé, solução pede.

“Forma substancial, não depende
Da matéria, porém com ela unida,
51 Specífica virtude tem latente.

“Só, quando atua, pode ser sentida;
Denúncia do que seja dá no efeito,
54 Como em planta a verdura indica a vida.

“Das primeiras noções onde o conceito
Nasceu? Donde apetites vêm primeiros,
57 A que o homem no mundo está sujeito?

“Como o instinto do mel na abelha, inteiros
Em vós estão, louvor não merecendo,
60 Nem censura também, ínscios obreiros.

“Tudo desses pendores dependendo,
Inata a faculdade é que aconselha,
63 A porta do consenso em guarda tendo.

“Em tal princípio a causa se aparelha,
De que procede em vós merecimento:
66 Repele o mau amor, no bom se espelha.

“Os sábios, estudando o fundamento
Das cousas, vendo inata a liberdade,
69 Da moral vos tem dado o ensinamento.

“E, supondo que por necessidade
Nascesse todo o amor, que vos incende,
72 Tendes para contê-lo potestade.

“Nobre virtude ser Beatriz entende
O livre arbítrio; e, quando lhe falares,
75 A isto mesma a memória atento prende.” —

Como alcanzia a flamejar nos ares,
A lua à meia-noite, já tardia,
78 Escurecia os outros luminares;

E, contra o céu, caminho percorria,
Por onde o sol vai pôr-se, quando a Roma,
81 Entre Sardenha e Córsega, alumia.

Havia a sombra ilustre, por quem toma
A fama Ande à cidade mantuana,
84 Do peso meu aliviado a soma:

Quando eu, que explicação lúcida e plana
Sobre as minhas questões tinha alcançado,
87 Sinto que a mente sonolência empana.

Desse quebranto súbito arrancado
Por turba fui, que, após se encaminhando,
90 A nós vinha com passo acelerado.

E como o Ismeno e Asopo, outrora, em bando,
Correr viam Tebanos ofegantes,
93 Por noite Baco em alta voz cantando,

A multidão, assim, dos caminhantes,
De bom querer e justo amor tocados
96 Pelo círc’lo apressavam-se anelantes.

E, pois, tinham-se em breve apropinquado;
Na carreira chorando afadigosa,
99 Assim gritavam dois mais avançados:

— “Maria corre ao monte pressurosa;
César rende Marselha, e contra Ilerda
102 Rápido voa à Espanha revoltosa. —

— “Pressa; pressa! De tempo já sem perda!
Pouco zelo não haja!” — outros clamaram —
105 “Não refloresce a Graça nalma lerda!” —

— “Vós, em que tais fervores se deparam,
Que talvez negligência ides remindo
108 Dos tempos, que no bem não se empregaram,

“Dizei a um vivo (estais verdade ouvindo),
Que partir-se pretende à nova aurora.
111 Se é perto a entrada, donde vá subindo.”

A voz do Mestre meu desta arte exora.
Dos espíritos um lhe respondia:
114 — “Vem conosco: não longe ela demora.

“Anelo de ir avante nos desvia
De detença: perdoa, por bondade,
117 Se há, cumprindo um dever, descortesia.

“De S. Zeno em Verona fui abade
De Barba-roxa, o bom, sob o reinado
120 De quem Milão se lembra sem saudade.

“Alguém que à sepultura está curvado
Há de em breve chorar esse mosteiro
123 E o poder, com que o tinha dominado;

“Pois, em dano ao pastor seu verdadeiro,
Ao filho mal nascido, o cometera,
126 No corpo horrendo, na maldade useiro.”

Não sei se inda falou, se emudecera,
De nós já velozmente se alongara,
129 Mas ouvi-lo e notá-lo me aprazara.

Então disse-me quem me guia e ampara:
— “Volve-te, atenta nestes dois: correndo
132 Nos lentos mordem com censura amara.” —

— “Avante!” — os dois no couce vêm dizendo —
Os que se abrir o mar viram, morreram,
135 A herança do Jordão não recebendo,

“E os que o filho de Anquises não quiseram
Seguir até seu fim nas árdua jornada
138 Fama e glória por gosto seu perderam.” —

Depois, daquela grei stando afastada
Tanto, que eu divisá-la não podia,
141 De nova idéia a mente foi tomada,

Outras surgindo após de romaria;
E tanto de uma em outra vagueava.
Que pouco a pouco o sono me invadia,

145 E o pensamento em sonho se mudava.

 

76. Alcanzia, bola de barro. — 77. A lua a meia noite, etc., a lua que demorava a surgir até quase meia-noite, com o seu fulgor escurecia as outras estrelas. — 79. E contra o céu etc., corria de ponente para o levante por aquele caminho do Zodíaco no qual está o sol quando o habitante de Roma o vê descer entre a Sardenha e a Córsega. — 83. Ande (depois Pietola) aldeia perto de Mântua, na qual Virgílio nasceu. — 91. Ismeno e Asopo, rios da Beócia. — 100. Maria corre ao monte etc., a Virgem Maria, logo depois do anúncio do nascimento de Jesus, correu a visitar a sua prima Isabel (Evang. S. Lucas I, 39). — 101. César rende etc., Júlio César, com grande celeridade, deixando parte do seu exército no assédio de Marselha, com a outra parte dirige-se para Ilerda. — 118. De S. Zeno em Verona etc., Geraldo, abade de S. Zeno. — 119. Barba-roxa o imperador Frederico I, que em 1162 destruiu a cidade de Milão. — 121. Alguém que à sepultura está curvado etc., o velho Alberto della Scala, que destituiu Geraldo do seu cargo de abade, substituindo-o por um seu filho bastardo que, além de coxo, era malvado. — 134-135. Os que se abrir o mar viram etc., os filhos de Israel que, pela sua preguiça, morreram no deserto, não alcançando a Terra Prometida. — 136. E os que o filho de Anquise etc., os Troianos que não tiveram a coragem de seguir a Enéias (Eneida V, 604).


CANTO XIX

 

No sono, Dante tem uma visão misteriosa. Acordando, conta-a a Virgílio, o qual a explica. Sobem, depois, os Poetas ao quinto compartimento, no qual se purificam os avarentos, debruçados no chão. Entre eles está o papa Adriano V, Ottobuono de Fieschi, que lhe pede que a recomende à sua sobrinha Alagia.

 

CHEGADA essa hora, em que o calor diurno
Não mais da lua a frigidez aquece,
3 Pela terra vencido ou por Saturno,

Quando ao geomante fúlgida aparece
A Fortuna Maior lá no Oriente,
6 Donde rápida a noite se esvaece,

Sonhando vi mulher balbuciente,
Que vesga era nos olhos, nos pés torta,
9 De mãos truncadas e de tez palente.

Eu a encarava; e como o sol conforta
Os membros a que a noite o frio agrava,
12 Ao meu olhar assim a quase morta

Língua movia; o corpo já se alçava,
E no terreno e lívido semblante
15 A cor, que amor estima, se mostrava.

Soltando a voz, há pouco titubante,
Doce canto entoava tão donosa,
18 Que me absorvia o enlevo inebriante.

— “Sereia sou” — cantava — “deleitosa,
Que da rota desvia os mareantes,
21 Tanto prazer lhes movo poderosa.

“Detiveram meus cantos fascinantes
Ulisses vago; e raros me deixaram,
24 A todos prende o som dos meus descantes.” —

Junto a mim, mal seus lábios se fecharam,
Eis se mostrava dama santa e presta:
27 A sereia os seus olhos conturbaram.

— “Dize, ó Virgílio: que mulher é esta?” —
Bradava irosa; e o Vate lhe acorria.
30 Respeitoso ante aquela face honesta.

Dela a dama travava e prosseguia,
Seus véus rasgava, o ventre desnudando:
33 Desperto ao cheiro infando que saía.

Olhos abri. Virgílio, me falando:
— “Três vezes te chamei” — disse — “eia! asinha
36 Vamos, o passo onde entres, procurando.” —

Ergui-me logo. Alumiados tinha
O dia os círculos todos do alto monte;
39 Pelas costas surgindo o sol nos vinha.

Após o Mestre se me inclina a fronte,
Como a quem, de cuidados oprimido,
42 Curva a cerviz, semelha arco de ponte,

— “Aqui se passa: vinde!” — proferido
Foi por voz tão suave, tão beni’na,
45 Que não fora igual som na terra ouvido.

Da rocha entre os dois muros nos desi’na
Quem falara, o caminho, asas abrindo,
48 Que tem do cisne a alvura purpurina.

Depois as níveas plumas sacudindo,
— “Os que choram” — bradou — “são venturosos
51 De consolo a esperança possuindo!” —

— “Por que os olhos no chão fitas cuidosos?” —
O Mestre perguntou, depois que alçou-se
54 Voando o anjo aos ares luminosos.

— “Em recente visão, Senhor, mostrou-se
Imagem” — respondi — “que tanto instiga
57 Que inda a sua impressão não mitigou-se.” —

— “A mágica” — me disse — “viste antiga,
Que lá mais alto tanta dor motiva?
60 Como o homem viste dela se desliga?

“Não mais! Avante segue, o alento aviva!
Olhos volve ao reclamo, com que gira
63 Do Rei Eterno cada esfera altiva.” —

Como faz o falcão, que os pés remira,
Depois ao grito acode e, acelerado,
66 Contra a ralé, que avista, ao ar se atira:

Assim eu; e por onde era cortado,
Para trânsito dar ao monte erguido,
69 Corri té outro círculo, apressado.

Tendo ao círculo quinto já subido,
Jazer vi turba inúmera em lamento:
72 Para baixo era o rosto seu volvido.

Adhaesit anima mea pavimento” —
Com tanta dor diziam suspirando,
75 Que da voz mal caí no entendimento.

— “Dizei, de Deus eleitos, que, penando,
Colheis alívio na justiça e esp’rança,
78 Por onde ao cimo iremos caminhando.” —

— “Se a nossa punição não vos alcança
E mais pronta quereis ter a subida,
81 À direita e por fora que se avança.” —

Do meu Guia a pergunta respondida
Foi por uma alma, que adiante estava:
84 Ser outra idéia eu cri nisso escondida.

Então, olhos voltando, interrogava
Virgílio, que aprovou com ledo gesto
87 O desejo, que o rosto denotava.

Da permissão do Mestre usando presto,
Daquele ente acerquei-me doloroso,
90 Que se fez por palavras manifesto.

— “Tu, que, expiando as culpas lacrimoso,
Apressas de te erguer à glória o dia,
93 Por mim pára em teu pranto fervoroso.

“Quem foste? Por que assim jazeis?” — dizia
“No mundo, donde venho vivo, impetre
96 Por teu bem querer cousa da valia?” —

— “Convém que o teu espírito penetre
Desta pena a razão; porém primeiro
99 Scias quod ego fui sucessor Petri.

“Do meu solar o título altaneiro
Origem teve nesse rio belo,
102 Que entre Chiaveri e Siestre flui ligeiro

“Em pouco mais de um mês vi que desvelo
Custa guardar o grande manto puro:
105 Todo outro fardo é pluma em paralelo.

“Quanto — ai de mim! — de converter fui duro!
Mas, apenas Pastor em Roma eleito,
108 Eu soube quanto mente o mundo impuro.

“Não gozou paz, nem quietação meu peito;
Mais alto já subir se não pudera:
111 Então da vida eterna ardi no afeito.

“Minha alma, triste e mísera, perdera
De Deus o amor em sórdida avareza:
114 Esta pena, que vês, bem merecera

“De tal pecado mostra-se a graveza
Aqui pelo castigo, em que se expia:
117 No monte outro não há de mor asp’reza.

“Como ao céu nossa vista não se erguia,
Nas cousas terreais embevecida,
120 Assim justiça à terra a prende e lia.

“Como a avareza em nós tinha extinguida
A propensão ao bem, aos santos feitos,
123 Assim nos tem justiça a ação tolhida.