Crônicas da Guerra Fria (1889-1991)
Janer Cristaldo (1947— )
Edição
eBooksBrasil.com
www.eBooksBrasil.com
Fonte digital
Documento do Autor
Copyright
©2000-2006 Janer Cristaldo
cristal@altavista.net
CRÔNICAS
DA
GUERRA FRIA
Janer Cristaldo
Tudo que é sólido se desmancha no ar.
Karl Marx
A luta pela memória é a eterna luta do homem contra o poder.
Milan Kundera
Índice
Sobre o autor
Gades, el atarantado
Mãe é uma só
Santiago segundo Littín
Favor não brandir Martí
Aos novos inquisidores
Cumbre en Cubanacan
Primeira Epístola ao aiatolá de Forquilhinha
Idade Média, volver!
Pornô para o povo, por favor!
Carta aberta aos hematófagos
Tovaritch Gorbachov nas Índias Ocidentais
Lá!
Na corda bamba
Gin disse assim? Amém!
De como passei fome na Argentina
Gorbachov mas não molha
Fé é poda
Carta aos cornúpetos
Ode ao Ocidente
Sobre senhores e servos
De onde nascem as flores
Ceaucescu tem medo
No ovo, a serpente
Beijinho beijinho tchau tchau
O drama das viúvas
A longa linhagem
Sob as saias do Vaticano
Vivam nós!
Paunescu e os nossos
Sartre e os pica-paus de Berlim
A paranóia cede
Bronzear-se em Berlim
O fim da guerra
Um escritor sem medo
O muro sexual
Baitas machos
Aos amigos de Cuba
Sobre virgens e ixiptlas
Prestes pode
Minha fúria demente
In memoriam Deutschmarx
A indústria textil
Eu, sem terra
Justiça aos brancos
A Desunião Soviética
Ao Nove de Novembro
Por um fio
O pálido aspargo de Pablo
Culo clavado
O estranho amor das vivandeiras
Sobre cães e comunistas
Filhos ingratos
Remember Nurenberg
Percebes en los pendejos
Questões teolóxicas
Carta aberta à velhinha de Taubaté
A dura vida de campus
Chez les belingues
Os cravos murchos do 25 de abril
SOBRE O AUTOR
Janer Cristaldo nasceu em 1947, em Santana do Livramento, RS. Cursou o secundário em Dom Pedrito e Santa Maria, onde formou-se em Direito. Em Porto Alegre, em Filosofia. Iniciou-se em jornalismo no extinto Diário de Notícias, Porto Alegre. Escreveu no Correio do Povo e Folha da Manhã. Nos anos 71 e 72, exilou-se voluntariamente em Estocolmo, onde estudou cinema e língua e literatura suecas.
De volta ao Brasil, publicou suas primeiras traduções: Kalocaína, de Karin Boye (do sueco), e Crônicas de Bustos Domecq, de Jorge Luís Borges e Adolfo Bioy Casares (do espanhol). Em 1973, publicou O Paraíso Sexual Democrata, que teve quatro edições no Brasil e uma em espanhol, em Buenos Aires, proibida na Argentina. Em 1975, passa a assinar coluna diária para a Folha da Manhã, Porto Alegre. Em 77, recebe bolsa do governo francês para um doutorado em Letras Francesas e Comparadas. De Paris, mantém correspondência diária para a Folha da Manhã. Em 1981, doutorou-se pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris III), com a tese La Révolte chez Ernesto Sábato et Albert Camus, traduzida ao brasileiro sob o título de Mensageiros das Fúrias. Participou de diversos colóquios na França e Alemanha, como também de festivais cinematográficos em Berlim, Cannes e Cartago, na condição de jornalista. Ainda em Paris, iniciou a tradução da obra ficcional e ensaística de Ernesto Sábato, a pedido do próprio autor.
No Brasil, foi professor visitante de Literatura Brasileira e Comparada, na Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis, de 1982 a 1986. Neste período, traduziu vários outros romances, introduzindo no universo literário brasileiro autores como Roberto Arlt, Camilo José Cela, José Donoso, Michel Déon e Michel Tournier. Em 86, publica seu primeiro romance, Ponche Verde, que tem como fulcro a peregrinação dos exilados brasileiros por Estocolmo, Berlim, Paris e Lisboa.
Em 87, recebe bolsa do governo espanhol para um curso de Língua e Literatura Espanholas. Residiu seis meses em Madri. De 91 a 93, foi redator de Política Internacional da Folha de São Paulo e do Estado de São Paulo.
Crônicas da Guerra Fria é uma compilação de artigos publicados em sua maior parte entre 1989, ano da queda do Muro de Berlim, e 1991, ano da dissolução da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.
GADES, EL ATARANTADO
Florianópolis — Carmen me libera, dizia Nietzsche. Bizet, infelizmente, não teve ocasião de ouvir esta confissão proferida pelo espírito mais refinado de seu século: amargurado pelas violentas e injustas críticas feitas à ópera, morreu na noite de sua 33ª apresentação. Antonio Gades, bailaor alicantino e emérito pizzaiolo, traz ao Brasil sua versão de Carmen e pode estar seguro de que não sofrerá o que sofreu Bizet. Desde que dance e se mantenha silente.
Não sei se Gades sabe, mas em meu último ano sabático em Madri, freqüentei sua casa quase todas as semanas. Falo da Casa de Gades, pizzaria que fica próxima à Biblioteca Nacional e ao Museu do Prado, o que tem suas vantagens e desvantagens. Vantagens, porque após uma aula sobre Velázquez ou Goya, era sagrado um osso bucco chez Gades. Desvantagens, porque após umas que outras de Valpolicella, embalados pela ambiência afável do restaurante, atravessar o Paseo de Recoletos para chegar até a biblioteca é esforço que exige fibra sobre-humana. Sem falar que entre a Casa de Gades e a Biblioteca Nacional se situam, solertes, El Gijón e Los Espejos, à espreita do pesquisador incauto. Assim que, se jamais consegui atravessar o Paseo de Recoletos, a culpa é um pouco do atarantado alicantino que ora nos visita.
Digo atarantado por alusão a Nietzsche, este alemão enamorado de Carmen, que dizia não poder acreditar em um deus que não soubesse dançar. Assim falava Zaratustra: “Olha, esta é a toca da tarântula! Queres vê-la, a ela mesma? Está aqui a sua teia: toca-lhe para a veres tremer!”
Tarântula é uma aranha grande que vive entre as pedras e buracos profundos e abunda na cidade de Taranto, Itália. Sua picada é extremamente venenosa e de seu nome vem a tarantela, dança napolitana de movimentos muito vivos. Daí vem “Los Tarantos”, grupo de dança espanhol. Como também atarantado, isto é, Gades falando em vez de sapatear.
Falando em sapatear, meus interlocutores de esquerda dão pulinhos de ódio quando sugiro que rezem ao bom Deus para que conceda longos anos de vida e governo a Alfredo Stroessner. Não que eu nutra simpatias pelo homem. Acontece que quando Stroessner morrer, a desconfortável comenda de decano dos ditadores latino-americanos será carregada por Castro, guru de Gades.
Pois o bailaor, em suas declarações à imprensa, sempre vai além de suas pizzas. Diz que Carmen representa o ideal da própria Espanha, que renasceu das cinzas após uma ditadura brutal de quarenta anos. Castro sapateia em cima dos direitos mínimos dos cubanos — para começar a liberdade de ir e vir — já faz quase trinta anos e, para Gades, esta ditadura é boa, pois é de esquerda. Seus contínuos salamaleques ao gulag tropical gerido por Moscou já quase me fizeram renunciar a seus dotes de pizzaiolo. Meus colegas, mais realistas, acabavam arrastando-me à Casa de Gades: “Calma, Cristaldo. Estamos com fome e o resto é veleidade ideológica”.
Siete son las fases de la castaña — dizem os espanhóis — e por castaña, no caso, leia-se porre. A saber:
— copeo
— rudo copeo
— cantos marítimos y regionales
— franca amistad
— insultos al clero y autoridades constituídas
— negación de la evidencia
— y devolución del ingerido.
Devo ter chegado, nas tardes que passei chez Gades, certamente até à quinta fase, lembro ter erguido brindes como “¡Muerte a los maridos!” e “¡Las putas al poder, que sus hijos allá ya están!” Mas Gades, mesmo sóbrio, parece chegar à sexta fase, sem passar pelas precedentes. O que é deplorável em seu caso, de homem que se pretende cosmopolita e bem-informado.
Dizer que Carmen é um ideal libertário renascido das cinzas do franquismo é afirmação de um homem que fez toda sua carreira sob o regime de Franco. A Espanha é hoje país livre, com eleições livres e se dá até mesmo ao luxo de ter rei e família real. Constituí atualmente uma das mais dinâmicas economias do continente europeu e um dos mais belos países para se descobrir e viver. Não fosse Franco, os espanhóis viveriam hoje certamente sob ditaduras de economia ao estilo do Leste europeu, onde até para se comprar uma máquina de escrever é necessário registrá-la na polícia. Escritores como Ramón Sender e Jorge Semprún, que lutaram décadas contra Franco, viveram a clandestinidade e sofreram prisão e exílio, ao conhecer a realidade dos países socialistas, concluíram amargamente ter combatido o mau combate. Gades, que não combateu nem foi forçado a exilar-se, vira o cocho condenando o regime onde viveu e cresceu como artista.
Em algo, no entanto, o bailaor é coerente: comunista exemplar, como seu guru Castro, adora dólares. Ou capitalistas marcos ocidentais, que marcos do outro lado do Muro pouco lhe interessam. E seu espetáculo no Brasil não se dirige ao proletariado, mas a um público burguês capaz de despender quase um salário mínimo em uma noite. Gades justifica que numa sociedade justa, em um Estado socialista, os espetáculos seriam de graça. Pela experiência que tenho de tais “sociedades justas”, nelas os espetáculos nunca são de graça e mais: o turista é sistematicamente despojado de seus dólares.
Se o leitor viajar um dia a qualquer país europeu e não souber orientar-se em sua geografia gastronômica, sugiro procure alguma célula ou sede do partido Comunista. Todo militante, à força de lutar contra a fome no mundo, sabe onde melhor matá-la. Não é por acaso que um dos mais orgíacos festivais de bem comer na Europa é a Fête de l’Humanité, a festa do PC francês, que se realiza a cada segundo fim-de-semana de setembro no parque La Courneuve, ao norte de Paris. Afinal, como dizia aquele outro emérito gourmet, Bertold Brecht, não pode ser revolucionário quem não sabe comer bem, beber bem e bem tratar uma mulher na cama.
Mulheres à parte, a Casa de Gades em Madri é uma verdadeira escola revolucionária. De excelente cozinha, vinhos de boa cepa, nela o militante se prepara para o agir revolucionário bem melhor que nos canaviais de Cuba ou nos cafezais da Nicarágua. Neste sentido, Gades se revela autêntico revolucionário, e de revolução muito aprendi em sua escola. Freqüentada por intelectuais, escritores, jornalistas, artistas de teatro e cinema, toreros, verdade que nela jamais vi aqueles operários de macacão azul que abundam nos demais cafés e restaurantes de Madri. Mas, enfim, a revolução é assunto por demais importante para ser entregue às mãos de operários.
Assim que, parece-me absolutamente improcedente a queixa de um estudante pobre no Rio, que perguntava ao bailaor porque não fazer um espetáculo acessível a quem tem pouco dinheiro. Revolução é affaire para elites, ora bolas! “Compañero — respondeu Gades — guarde uma pergunta dessas para quando falar com um inimigo de classe”. Pois eu sou amigo de classe de Gades e confesso que já morro de saudades das etílicas tardes que passei em sua Casa.
Carmen é como Che Guevara, declarou Gades em São Paulo, e os ossos do argentino nesta altura já devem estar se contorcendo em sua tumba desconhecida. Pois, se bem me lembro, Che empunhava um fuzil. Quanto a Carmen, com todo meu respeito pela obra de Merimée, do que ela empunhava já nem falo.
O sr. Antonio Gades está subestimando o nível de informação no país que ora o recebe. Para promover seu espetáculo não precisa usar recursos assim demagógicos. A mítica Cuba revolucionária hoje não passa de uma Disneylândia das esquerdas, para onde partem em românticas revoadas aburguesados senhores em busca dos sonhos de adolescência, pois sentir-se-iam ligeiramente ruborizados se fossem visitar a Disneylândia gringa.
Dito isto, vou assistir Gades. Que dance. ¡Y, por favor, hombre: cállese!
Blumenau, Jornal de Santa Catarina, 07.05.88
MÃE É UMA SÓ
Florianópolis — Com A Última Tentação de Cristo, de Martín Scorcese, parece que vai repetir-se no Brasil o mesmo fiasco gerado pelo anódino Je vous salue, Marie, de Jean-Luc Godard. Em países catolicíssimos como França, Espanha e Portugal, o filme de Godard passou completamente despercebido e em poucas semanas saiu de cartaz. No Brasil, graças à publicidade gratuita decorrente de sua proibição, foi visto por jovens que jamais haviam ouvido falar de Godard e que, se tivessem visto seus filmes anteriores, provavelmente não repetiriam a façanha. Ao que tudo indica, apesar de sua experiência milenar, a Igreja romana ainda não aprendeu que todo index prohibitorum é contraproducente: só serve para vender o que pretende proibir.
Curiosamente, um filme como A Vida de Brian, dos Monty Python, este sim blasfemo e deletério, passou e repassou em todas as telas do país, sem que censor algum, laico ou religioso, desse um pio. Neste filme, de refinado humor, Maria é apresentada como prostituta e representada por um ator do grupo, travestido. Quando chegam os três reis para ver o Menino, Maria os recebe de péssimo humor, afinal já era tarde da noite. Quando sabem que trazem ouro, incenso e mirra, sorri pragmaticamente: bom, o ouro vocês deixam aqui e o incenso e a mirra podem levar de volta”.
Verdade que no filme dos Monty Python o personagem é Brian, uma espécie de profeta que só dá certo por acaso e que, inclusive, assiste ao Sermão da Montanha, pregado pelo próprio Cristo. Mas para quem conhece os Evangelhos, os ingleses não enganam: é o próprio Cristo que é submetido ao ridículo e disto só parecem ter-se dado conta os censores da Noruega, único país, segundo me consta, a proibir o filme. No Brasil, a Igreja dormiu de touca. Ou então Godard passou alguma grana ao papa para que promovesse seu abacaxi em geografia tupiniquim.
Em A Vida de Brian, Cristo inclusive se mostra como foi crucificado. Ou seja, nu. Só que não está na cruz, e sim com uma discípula revolucionária e é flagrado na cama, tanto por seus seguidores como por sua mãe. No filme todo, perpassa a imagem de uma espécie de bobo alegre envolvido pelas circunstâncias e que em momento algum sabe o que está acontecendo, o que aliás não difere muito da circunstância do Cristo histórico. Ao ser crucificado, acaba cantando e acompanhando com o pé batendo no madeiro, em coro com seus colegas de cruz, uma espécie de samba britânico e fatalista no melhor estilo de M. Pangloss. Confesso jamais ter visto — e já vi seis vezes — filme mais hilariante e corrosivo do que este. Em matéria de hilaridade, só é comparável a Mash e ao Incrível Exército Brancaleone. Em matéria de derrisão, às vezes me pergunto se Swift terá conseguido ir mais longe.
Pois bem: este filme desopilou o fígado de platéias do mundo inteiro e só os luteranos noruegueses, que pouco ou nada têm a ver com o profeta fracassado e maquiado pela Igreja romana, perceberam seu caráter herético.
Neste Brasil 88, a Conferência Nacional de Bispos do Brasil (CNBB) parece estar pretendendo, com sua censura prévia e desaforada — pois o foro censório em um Estado laico não é o eclesiástico, sem falar que a nova Constituição abole a censura tornando-a apenas classificatória — render mais royalties a Mr. Scorcese. O fulcro da condenação está nos delírios sexuais de Jesus. Mesmo partindo do pressuposto de que fosse Deus, tais fantasias seriam perfeitamente inteligíveis, já que se fez homem e humano é o desejo. O filme é baseado em um romance de Kazantzakis, místico cretense que cometeu maiores despautérios ao nivelar Cristo a Lênin e nem por isso foi apedrejado. O que só nos ensina que os ianques têm mais senso de merchandising que os helenos.
A realidade histórica, no entanto, está mais para os Monty Python que para Scorcese. Que Cristo tenha tido seus desejos, mais do que natural é absolutamente lógico, ou então humano não era nem em homem havia-se encarnado. Se isto não consta no relato de seus biógrafos tidos como oficiais, será talvez porque os evangelistas não dominavam as modernas técnicas narrativas do diálogo interior, desenvolvidas a partir de Bergson, Proust e Joyce. Sem falar que os quatro evangelhos aceitos pela Igreja romana constituem, para o leitor mais atento, uma antologia incoerente e mal-costurada. Mas o problema não é esse. Ao que tudo indica, a partir de depoimentos históricos e inclusive bíblicos, Maria era efetivamente prostituta, e isto não é descoberta dos Monty Python.
Para começar, deve-se eliminar de toda e qualquer discussão essa versão puritana de que Jesus era o único filhos de Maria. Jesus tinha cinco irmãos e se, parir uma só vez e permanecer virgem já é em si paradoxal, mais misterioso se torna ainda parir seis filhos e preservar a “graça original”. A nenhum pesquisador honesto é permissível a aceitação desta tradução desonesta chamada Vulgata.
Assim sendo, a realidade histórica parece ser bem mais contundente que os inocentes delírios eróticos de um Cristo perdido em meio ao caldeirão de uma situação pré-revolucionária. Que não é filho de José, isto a própria Bíblia nos diz. Para o crente que leva ao pé da letra o texto bíblico, só resta outra alternativa: é filho de Maria com uma pombinha. Para o cético que aceitaria prazerosamente tal circunstância apenas se inserida na mitologia grega, restaria uma última opção, a partenogênese, fenômeno já observado em certos pulgões da lavoura, mas jamais em ser humano.
Jesus é então filho de quem? Segundo Celso, filósofo pagão, que viveu na segunda metade do século II, Cristo seria filho de um soldado romano chamado Pantera. Tal afirmação está no livro intitulado Discurso Verdadeiro, onde o pensador romano, perplexo, faz uma análise da religião então emergente. Sua hipótese não pode ser ignorada pelos historiadores por várias razões.
Uma delas é que a Igreja queimou os oito tomos de seu livro onde os encontrou. Do Discurso só nos restam os fragmentos reunidos por Orígenes no seu Contracelso, onde, no afã de contestar o nobre romano, acabou transmitindo à posteridade a voz do homem que queria calar. Uma outra razão está na tradição talmúdica, que fala de Jesus Ben Panthera, ou seja, Jesus filho de Pantera. O que é bem mais verossímil, pois filho de algum pai teria de ser, e de José não era.
Analisemos o texto de Celso, transcrito e contestado por Orígenes, graças ao qual, ironicamente, chegaram até nós alguns fragmentos do pensador pagão:
“Voltemos às palavras atribuídas ao Judeu (personagem criado por Celso, parêntese meu), onde ele escreve que a mãe de Jesus foi repelida pelo carpinteiro que a havia pedido em casamento, por ter sido convencido de adultério e ter sido engravidada por obra de um soldado romano chamado Pantera”.
Mais adiante:
“Admitamos que haja verdade na doutrina dos fisiognomistas Zopyros, Loxos, Polémon, e de todos aqueles que escreveram sobre o tema, gabando-se de um saber espantoso sobre o parentesco de cada corpo com o caráter de sua alma: a esta alma, destinada a viver miraculosamente e cumprir grandes feitos, seria necessário um corpo, não como crê Celso, nascido de um adultério entre Pantera e a Virgem, pois de uma união assim impura teria antes nascido um louco nocivo aos homens, mestre da intemperança, da injustiça e de outros vícios, e não do domínio de si, da justiça e de outras virtudes”.
Apoiar-se nos tratados de Zopyros, Loxos e Polémon, dos quais hoje pouco ou nada sabemos, podia ser de grande valia a Orígenes, mal tal argumentação hoje nada nos diz. Por outro lado, boatos havia em torno de Maria e, dada a fúria censória da Igreja em relação ao livro de Celso, é bastante provável que nele exista mais verdade que no absurdo e incongruências dos Evangelhos. Celso — pelo menos no que dele resta — não nos fala de prostituição. Mas onde iríamos situar, em uma cultura judaica e patriarcal, uma mulher com seis filhos de pai desconhecido, sendo um deles oriundo de um soldado do exército invasor? A resposta a esta pergunta talvez explique o respeito de Cristo, sempre manifesto nos Evangelhos mais divulgados, às adúlteras e prostitutas.
A santa ira que se ergue nas comunidades católicas do Ocidente é, no fundo, cortina de fumaça erguida por clérigos que desconhecem a Bíblia — como também por outros que a conhecem muito bem — para eludir o drama vivido por Jesus e Judas em sua luta contra o império romano. Afinal, mãe só se tem uma, e Paulo de Tarso quis dividi-la em duas. E o resto é publicidade gratuita a um filme ianque.
Joinville, A Notícia, 11.09.88
SANTIAGO SEGUNDO LITTIN
Santiago do Chile — A cidade é feia, pobre e suja. Pelos buracos e lixo acumulado nas amplas avenidas, adivinha-se uma capital que um dia foi próspera e cujos habitantes desfrutaram, em passado pouco distante, um alto nível de vida. Cidadãos pobremente vestidos, em seus ternos ainda restam farrapos de dignidade — e nada mais triste do que ver um homem cheio de remendos, mas elegantemente vestido, estendendo a mão súplice para pedir alguns centavos. Lojas vazias, de vazias e tristes vitrines, restaurantes entregues às moscas, garçons olhando para nada. Mal o sol se põe sobre o Pacífico, a capital escurece e os raros privilegiados da tirania se escondem em suas tocas, temerosos da fome e da justa violência dos deserdados. Mesmo durante o dia, nota-se tensão e medo nos rostos e gestos, como se alguém que agora circula livremente pelas ruas, no momento seguinte, sabe Deus lá por que razões, pudesse estar algemado nos porões da ditadura. Um exército parece ter postos suas patas sobre a cidade. Estou em Santiago do Chile. Do Chile de Pinochet.
O poder do tirano é onipresente. Em um país privilegiado pelos deuses, que por sua geografia se permite quatro estações simultâneas, mar e montanha, deserto e neve, os tentáculos da ditadura envolvem o território todo, manifestando-se principalmente na capital. Raríssimas bancas de jornais exibem apenas a imprensa laudatória ao regime. Jornais de oposição, nem em sonhos. A imprensa internacional está banida do país e só pode ser adquirida em hotéis de luxo, onde o cidadão comum só pode entrar se estiver disposto a sérios interrogatórios pela polícia do regime ao sair, mesmo que saia sem jornal algum. As raríssimas livrarias, de paupérrimas estantes, exibem não mais que literatura técnica e alguma ficção de escritores coniventes com a ditadura.
Miséria, lixo, decadência, medo, opressão, silêncio, desconfiança: estes são os odores que todo visitante, isento de quaisquer preconceitos ideológicos, respira em um rápido giro por Santiago. Mas as cidades são como árvores, quem quiser destruí-las terá de cortar-lhes as raízes. Estão vivas as raízes de Santiago. Que um dia será Salvador. Salvador Allende.
Terminasse eu aqui esta crônica, sem ajuntar sequer uma linha a mais, conquistaria platéias e simpatias, sem falar em tribunas, lugar ao sol e quem sabe até mesmo uma sinecura num órgão público qualquer. Acontece que estaria mentindo, transmitindo, é verdade, uma mentira que todos gostam de ouvir. Como não gosto de mentir, renuncio a eventuais simpatias e passo a contar o que vi.
Para quem está acostumado a bater pernas pelas ruas de cidades como Porto Alegre ou São Paulo, Santiago exerce um poderoso impacto pela conservação e limpeza de suas ruas e passeios. Nas capitais brasileiras, há muito resignei-me a enfrentar ruas sujas e esburacadas, sem falar no lixo cotidiano nelas jogado por transeuntes sem noção alguma de cidadania, meros habitantes, nefastos usuários da cidade. Passear pelas margens do Mapocho — rio que atravessa um aglomerado de cinco milhões de almas — respirar milagre, suas águas preservam a limpidez com que descem da Cordilheira. Para quem sofre a Beira-Mar Norte de Florianópolis — já nem falo do riacho Ipiranga ou Tietê — o Mapocho mais parece miragem de viajante perturbado pela travessia dos Andes.
Pelo Paseo de la Ahumada, rua Estado, Huérfanos, uma fauna humana e bem vestida (insisto em dizê-la humana, pois os transeuntes das ruas centrais do Rio ou São Paulo, sem ir mais longe, mais parecem animais machucados na luta pela vida) que há muito não se vê nas metrópoles da América Latina. Antes de Santiago, estive em Buenos Aires e a outrora elegante Florida, hoje, proporções à parte, mais parece rua Direita ou Nossa Senhora de Copacabana. Deixada de lado a agressão idiota — mas não perigosa — de cambistas à cata de divisas fortes, senti no centro de Santiago sensação que brasileiro algum pode hoje sentir em nossas capitais: a sensação de segurança. As ruas da capital chilena têm um ar de praça; nela vi velhos, jovens e crianças sentados, degustando sorvetes e o espetáculo da rua em si, tanto à tarde como à noite, sem preocupação alguma com assaltos ou violência gratuita. Para mim, que já penso duas vezes quando em Porto Alegre ao atravessar a Borges e a Praça XV para freqüentar o Chalé à noite, Santiago me fez evocar a Praça da Alfândega dos anos 60, quando filosofávamos madrugada adentro preocupados com a enteléquia aristotélica ou o ser em Sartre, jamais com punhais ou revólveres.
Outra surpresa, e das melhores, os quiosques de jornais e revistas. Penso que tais quiosques são uma excelente amostragem da cultura e liberdade de expressão de um país, neles podemos auscultar que tipo de informação consomem os cidadãos e, ao mesmo tempo, que qualidade ou quantidade de informação não proíbe o Estado de ser consumida. Pois bem: nesta Santiago que imaginava cidade sitiada e sob censura, vi nas bancas uma profusão e diversidade de jornais que sequer encontrei em Paris ou Madri. Jornais em cirílico do Leste europeu, imprensa de toda Europa, Escandinávia, Alemanha, França, Itália, Espanha, Estados Unidos, América Latina, Brasil. Sabendo como esta imprensa toda é gentil a Pinochet, o espanto do turista vira perplexidade. E mais: jornais chilenos malhando, em primeira página, a ditadura. Ocorre-me evocar os quiosques tristes e monocórdios que vi em cidades do Leste europeu, mas nem preciso ir tão longe. nenhuma banca do Rio ou São Paulo, neste Brasil 88, me oferece tal quantidade e diversidade de informação.
Livrarias imensas, bem sortidas, onde não faltam livros de Fidel Castro ou Garcia Márquez, o mais ferrenho adversário de Pinochet e, curiosamente, defensor incondicional do ditador cubano. Tampouco faltam nas prateleiras obras de José Donoso ou Isabel Allende, isso para citar apenas dois opositores do regime chileno já conhecidos do leitor brasileiro. O que é no mínimo insólito em uma ditadura.
Nas vitrines e gôndolas das mercearias, víveres e bebidas do mundo todo, desde arenques do Báltico a foie gras trufado, dos mais diversos uísques da Escócia a vinhos alemães, franceses, italianos, espanhóis. E chilenos, naturalmente. Preços? Abordáveis. Para se ter uma idéia, pode-se comprar um scotch — com a certeza de que não são da reserva Stroessner — a partir de dez dólares, ou seja, o preço de um Natu Nobilis hoje. Que mais não seja, qual intelectual de esquerda não gostaria de viver em uma sociedade onde uma dose de um bom escocês custa, em bares, um dólar? Conheço não poucos exilados traumatizados com a democrática França de Mitterrand, onde um gole de uísque só é viável a partir dos cinco dólares. Piadas à parte, a farta oferta de tais produtos evidencia uma sociedade habituada a comer bem e com requinte, afinal comerciante algum seria insano a ponto de importar iguarias para turista ver.
Contava eu estas e outra coisas a uma moça ilhoa e bem-nascida, cidadã da Santa e Bela Catarina, dessas que julgam ser todo empresário um canalha, mas que jamais recusam uma cobertura facilitada por um pai empresário, dessas que jamais subiram o morro do Mocotó mas estão preocupadas com a colheita do café na Nicarágua, em suma, falava eu com um espécime típico da raça que chamo de os Novos Cafeicultores, e a objeção — a primeira objeção — caiu como um raio:
— E a miséria? Aposto que não foste visitar os bairros pobres, a periferia de Santiago.
Tinha razão em parte a jovem cafeicultora. Não visitei os bairros pobres de Santiago, afinal se troco as margens do Atlântico pelas do Pacífico, não será para ver miséria que conto meus parcos dólares. Não tenho a psicologia do francês médio, por exemplo, que mal chega ao Brasil, quer visitar favelas. Este comportamento, a meu ver doentio, parece-me ser vício de europeu inculto e de consciência pesada, que insiste em ver a miséria do Terceiro Mundo que explora, para depois contribuir com avos de seu bem-estar para guerrilhas suicidas. Se junto meus trocados para visitar um país, quero receber o que de melhor esse país tem a me oferecer. Nos anos que vivi em Paris, descia certa vez de Montmartre e enveredei pelas ruelas da Goutte d'Or, encrave árabe e paupérrimo que se alastra na cidade como mancha de óleo. Senti-me, de repente, em um território miserável para o qual jamais teria pensado em viajar, que mais não seja não será minha indignação ou revolta que resolverá o problema árabe na França. Dei meia volta, enfurnei-me na primeira boca de metrô e só voltei à superfície na Rive Gauche, a margem que mais me fascina do Sena. Não, não vi a miséria de Santiago. Mas consolei a cafeicultora: podes estar certa de que miséria existe, pois miséria está presente em qualquer metrópole do mundo.
Ela sorriu por dentro, parecia dizer: que bom que existe miséria em Santiago. O que me deixou um tanto perplexo, eu sorriria intimamente se soubesse que não existe miséria em lugar algum do mundo, independentemente de regimes políticos ou ideológicos. Ela, por sua vez, admitia a veracidade de meu relato. Ajuntei que a inflação era de seis por cento. Quando digo isto a um brasileiro, a reação normal é: "seis por cento ao mês?" Acontece que é seis por cento ao ano. Isto é sonho que, brasileiros, já nem ousamos sonhar. Se eu passar a alguém os preços de um restaurante que visitei em Santiago no mês passado, e se este alguém visitar o Chile no ano que vem, é provável que os preços continuem os mesmos ou, no máximo, tenham variado em torno de uns dez por cento a mais. Cá entre nós, não conseguimos recomendar para amanhã um restaurante no qual comemos ontem. Caiu, então, fulminante, a segunda objeção:
— Sim. Mas que preço pagaram os chilenos por este bem-estar?
Houve, no Chile, um assalto marxista e armado ao Estado e negá-lo é paranóia. Deste confronto resultaram, segundo alguns, dez mil mortes. Segundo outros, quarenta mil. De qualquer forma, um preço infinitamente inferior ao preço pago pelos russos a Josiph Vissarionovitch Djugatchivili — que oscila entre vinte e sessenta milhões de cadáveres — para dar no que deu: uma confederação forçada de países pobres, alguns vivendo a nível de fome, como a Romênia e a Albânia. Bem mais barato que o preço pago pelos cambojanos a Pol Pot: dois milhões e meio de mortos, em um país de cinco milhões de habitantes, e disto não mais se fala. Sem falar que os que ficaram se jogam ao mar em jangadas, enfrentando tempestades, tubarões e piratas, ou já esquecemos os boatpeople? Sem falar nos que matou Castro — número que nenhum Garcia Márquez aventa — para instalar no Caribe seu gulag tropical. Em Cuba também há farta escolha de bebidas e gêneros alimentícios. Mas só o turista pode comprá-los, e com dólar. O cidadão cubano fica chupando no dedo. Nas praias, cheias de peixe, não há atividade pesqueira alguma, pois quem tem barco vai pra Miami.
— Justificas então tais mortes? — quis saber a moça — referindo-se, é claro, aos mortos do Chile, já que tornou-se tácito, para os fanáticos contemporâneos, que é lícito fazer correr sangue de certas pessoas e criminoso o de outras. Em suma, para usar dois conceitos que não me agradam, porque multívocos, é perfeitamente permissível fazer jorrar sangue da assim chamada direita e constitui sacrilégio, quase tabu, sangrar a assim chamada esquerda. Não justifico morte alguma, a humanidade tem pelo menos uns três mil anos de experiência histórica, milênios suficiente, parece-me, para concluirmos que não é matando que se chega a erigir a cidade humana.
— Cristaldices! — jogou-me na cara minha cafeicultora, digo, interlocutora. Pode ser. Chamo então um cineasta exilado que voltou clandestinamente ao Chile, em depoimento tomado por Gabriel Garcia Márquez, intitulado A Aventura de Miguel Littín Clandestino no Chile, já traduzido ao brasileiro por Eric Nepomuceno e encontradiço em qualquer livraria. No capítulo significativamente intitulado "Primeira desilusão: o esplendor da cidade", depõe Littín:
— Eu atravessei o salão quase deserto seguindo o carregador que recebeu minha bagagem na saída, e ali sofri o primeiro impacto do regresso. Não notava em nenhuma parte a militarização que esperava, nem o menor traço de miséria. (...) Não encontrava em nenhuma parte o aparato armado que eu tinha imaginado, sobretudo naquela época, com o estado de sítio. Tudo no aeroporto era limpo e luminoso, com anúncios em cores alegres e lojas grandes e bem sortidas de artigos importados, e não havia à vista nenhum guarda para dar informação a um viajante extraviado. Os táxis que esperavam lá fora não eram os decrépitos de antes, e sim modelos japoneses recentes, todos iguais e ordenados.
Mais adiante:
— Na medida em que chegávamos perto da cidade, o júbilo com lágrimas que eu tinha previsto para o regresso ia sendo substituído por um sentimento de incerteza. Na verdade o acesso ao antigo aeroporto de Los Cerrillos era uma estrada antiga, através de cortiços operários e quarteirões pobres, que sofreram uma repressão sangrenta durante o golpe militar. O acesso ao atual aeroporto internacional, em compensação, é uma auto-estrada iluminada como nos países mais desenvolvidos do mundo, e isto era um mau princípio para alguém como eu, que não só estava convencido da maldade da ditadura, como necessitava ver seus fracassos na rua, na vida diária, nos hábitos das pessoas, para filmá-los e divulgá-los pelo mundo. Mas a cada metro que avançávamos, o desassossego original ia se transformando numa franca desilusão. Elena (militante da esquerda chilena que acompanha Littín) me confessou mais tarde que ela também, ainda que estivesse estado no Chile várias vezes em épocas recentes, tinha padecido o mesmo desconcerto.
Coragem, leitor de esquerda. Adelante! Leiamos Littín, só mais um pouquinho:
— Não era para menos. Santiago, ao contrário do que contavam no exílio, aparecia como uma cidade radiante, com seus veneráveis monumentos iluminados e muita ordem e limpeza nas ruas. Os instrumentos de repressão eram menos visíveis do que em Paris ou Nova York. A interminável Alameda Bernardo O'Higgins abria-se frente a nossos olhos como uma corrente de luz, vinda lá da histórica Estação Central, construída pelo mesmo Gustavo Eiffel que fez a torre de Paris. Até as putinhas sonolentas na calçada oposta eram menos indigentes e tristes do que em outros tempos. De repente, do mesmo lado em que eu viajava, apareceu o Palácio de La Moneda, como um fantasma indesejado. Na última vez que eu o tinha visto, era uma carcaça coberta de cinzas. Agora, restaurado e outra vez em uso, parecia uma mansão de sonho ao fundo de um jardim francês.
Fico por aqui. Se o leitor ainda alimenta dúvidas, que visite o Chile, preferentemente após ter deambulado por Havana. O homem só conhece comparando. Para finalizar, apenas mais uma observação, não minha, mas de Littín, que talvez elucide a prosperidade atual de seu país.
— Uma das primeiras medidas que ele (Allende) tomou no governo foi a nacionalização das minas. Uma das primeiras medidas de Pinochet foi privatizá-las outra vez, como fez com todos os cemitérios, os trens, os portos e até o recolhimento do lixo.
O que esclarece, a meu ver, o fascínio das ruas de Santiago.
Joinville, A Notícia, 27.11.88. Porto Alegre, RS, 10.12.88
FAVOR NÃO BRANDIR MARTÍ
Florianópolis — Fui convidado, certa vez, a um debate em torno ao socialismo, do qual participavam vários intelectuais marxistas. Por socialismo, no caso, entenda-se socialismo soviético, é melhor deixar claro isto desde o início, particularmente nestes dias em que todo mundo fala de socialismo sem especificar a qual se refere, se ao socialismo do Leste europeu, da Iugoslávia ou da Albânia, ou das social-democracias européias, regimes estes fundamentalmente capitalistas mas de economia muito mais socializada do que a das ditas “democracias populares”, pleonasmo só concebível em intelectuais sem noções mínimas de grego. Enfim, etimologia à parte, meus colegas de mesa abriram o debate louvando a eficácia, o humanismo e o caráter revolucionário das teorias marxistas.
De Marx, pouco ou nada entendo, e vou dizer porque não entendo. No dia em que me dispus a enfrentar O Capital, percebi que necessitaria de bases anteriores de matemática, estatística, economia, história da Europa e particularmente da Inglaterra no período da Revolução Industrial. Em suma, para poder entender o economista Marx (até hoje não sei porque o consideram filósofo) eu necessitava de alguns anos de formação que não me dispunha a desperdiçar para tão-somente entender um livro. Leigo em matéria de teorias, modestamente me restringi a contar o que vi em minhas andanças por países socialistas, favor não confundir com as social-democracias.
Estive em Berlim Oriental, na Romênia e na Bulgária. Estive ainda na Iugoslávia, regime socialista peculiar, o único onde os nacionais podem sair do país sem maiores problemas e onde, em certas repúblicas, há uma economia dinâmica. Pequenos fatos do cotidiano nos oferecem robustos elementos de comparação.
Por exemplo: é meio-dia e você quer almoçar. Sem ir muito longe, até em Florianópolis o turista encontra um restaurante onde, com mais ou menos sorte, há boa oferta de pratos. Pois estive um dia em uma das capitais mais ricas do mundo socialista e localizar um restaurante foi uma epopéia que me exigiu mais de hora. Mesmo com amigas que falavam fluentemente o alemão, não foi tarefa fácil encontrar um, escondido no segundo andar de um monstruoso bloco de concreto, sem placa alguma que o anunciasse.
Enregelado, minha carcaça submetida a sei lá quantos graus abaixo de zero, esperei mais de hora em uma fila de resignados cidadãos. Tomasse o metrô e voltasse a Berlim Ocidental, quatro mil casas de restauração me atenderiam em um segundo, com carinho e calefação. Enfim, cheguei finalmente à porta, quando Sua Eminência, o Garçom, com um gesto ríspido me ordenou entrar. Penetrei em um galpão imenso, onde mesas imensas, situadas a enormes distâncias umas das outras, esperavam humildemente ser atendidas. Um cardápio me oferecia uma vintena de pratos, mas pelo menos na hora de escolher o garçom foi gentil: melhor nem tentar, só tem o prato do dia. Eu estava em um restaurante de luxo, em Berlim Oriental.
Transportei-me então — em meio ao debate — para Mangália, cidade balneária romena, às margens do Mar Negro. Era verão e a moça que me acompanhava, julgando muito caros os maiôs de Paris, decidiu deixar para comprar um honesto maiô socialista. Não sei, não — objetei — tens certeza de encontrar maiô por lá? Respondeu-me com um gesto indignado, quase ofensivo. Resumindo: após revirar Mangália inteira — cidade balneária e dirigida ao turismo europeu, insisto — em pleno verão, ela teve a ventura de encontrar dois maiôs: um era verde e outro azul. Quanto às dimensões, que se lixasse. Mas isto é o de menos.
Estávamos em um hotel de primeira classe e já na primeira noite o garçom perguntou-me que desejávamos para o almoço do dia seguinte e estendeu-nos uma tira suja de papel mimeografado onde devíamos optar entre porco ou frango. Não que fôssemos muçulmanos, mas preferimos frango. Café ou chá? Café. Dia seguinte, deu porco com chá da China. “Desculpe, mas frango e café estão em falta”. Hóspede de um hotel de primeira classe, pago em moeda forte, imaginei então o que seria a vida de um romeno, detentor de magros leu, a moeda local. Nem foi preciso imaginar: supermercados vazios, clientes disputando a tapas um pedaço de carne e isso que o pedaço era disputado por aqueles que tinham poder aquisitivo suficiente para comprá-la.
O verão fazia jus ao nome. Céu de brigadeiro, na praia os turistas eram brindados com alegres canhoneios de barcos de guerra ao largo. Minha companheira, ostentando seu magnífico maiô verde — e magnífico aqui é superlativo de grande mesmo, que outro número não tinha — desceu comigo à praia, justo no momento em que dois garçons começavam a abrir um bar. Uma hora de sol e pensamos em uma cerveja. Fui lá buscar.
Ah, cerveja não tem. Enfim, água mineral? Muito menos. Tentei outras hipóteses. Existe na Romênia uma cachaça feita á base de ameixa, o haidouc, aguardente típico do país. Também não tem.
Estávamos sob domínio soviético, pensei, quem sabe um vodca. Nem pensar. Parti então para a utopia: serve então um uísque, pode ser? Nem em sonhos. Por curiosidade, já que nem no deserto me ocorreria tal idéia, pedi uma Coca, Pepsi, ou um refrigerante qualquer. Negativo. Não há nada para beber, então? Nada. E para comer, o que é que tem? Nada.
Nada não entendia eu. Era aquilo um bar? Era, disse o garçom. Estava aberto? Claro que estava, o senhor não está vendo? Eu estava vendo. Mas não há nada para comer ou beber? Não. E por que não há? Porque o distribuidor não trouxe, ora bolas!
Contava eu estas histórias — e contei muitas outras, por exemplo, a dos turistas internos tirando fotos junto a maquetes de veleiros, porque veleiro, que é bom, nem pra remédio, pois bom velejador em dois dias chega às costas da Turquia, sem falar nos vigias de praia, assessorados por cães e metralhadoras de baioneta calada, assestadas contra o primeiro nacional que ousasse abordar um turista em busca de dólares, sem falar na moça da portaria com cara de sargento, que quando reclamei da falta de papel higiênico me perguntou: “quantos dias o senhor vai ficar aqui?”. Neste hotel, dois dias. Olhou-me então de alto a baixo, avaliou meu metabolismo, rasgou uns dois metros de um rolo e passou-me as tiras — enfim, contava eu essas coisas e muitas outras contaria se mais tempo tivesse, quando o organizador do debate interrompeu-me:
— Não é para isso que te convidamos. Estamos discutindo o socialismo em teoria.
Desculpei-me. De teoria eu nada entendia, só conhecia os dados da realidade. As teorias são brilhantes. Na prática, a teoria é outra.
Estas considerações surgem à propósito do artigo de Gilson Pereira, “O coro dos contentes”, publicado domingo passado, onde o autor contesta algumas observações minhas após uma visita a Santiago do Chile. Diz Gilson jamais ter ido a Santiago — o que já não o autoriza muito a falar de Santiago — e acresce ser um daqueles 80 por cento de brasileiros que provavelmente jamais cruzará a fronteira, por absoluta falta de condições. Cantiga para ninar pardais, como dizem os lusos. O articulista demonstra excelente domínio do vernáculo, e mesmo da lógica — a ponto de sofismar à vontade — e hoje, qualquer pessoa que tenha chegado a este quociente mínimo intelectual é homem que, ou viajou, ou não viajou porque não quis. Diz não ser economista, mas brande a teoria da escola monetarista de Chicago. E assim explica o atual período de prosperidade vivido no Chile. Cito literalmente: “repressão ao movimento de massas, arrocho salarial e grandes investimentos estruturais”.
Confesso que nada sei da escola de Chicago. Mas de Stalin entendo um pouco. Sua política foi exatamente essa e mais, continua sendo. Mesmo sob o signo da glasnost e perestroika gorbachovianas, as massas continuam sendo reprimidas (vide os armênios do Azerbaijão e, certamente dentro em breve, os estonianos) e liberdade sindical, que dizem os petistas ser bom, digno e justo e justo, nem sombra dela nas repúblicas soviéticas. Esta política começou com a repressão e morticínio dos kulaks sob Stalin e tem sua seqüência com Lech Walesa. Os grandes investimentos estruturais na América do Sul, pelo menos, ainda não se traduzem em armamento nuclear e militarização do espaço. Em suma, como lemos no Eclesiastes, nada de novo sob o sol.
Com uma diferença: nos países soviéticos esta política não deu certo e hoje a URSS é uma “confederação” que permanece um século atrás da era moderna, onde instrumentos banais do nosso cotidiano, como o xerox e o telefone, são inacessíveis ao cidadão comum. Estou apenas seguindo a argumentação de meu interlocutor, pois não sendo especialista em questões econômicas — e muito menos chilenas — não tenho a mínima idéia a que se deve a atual prosperidade do Chile. É curioso, no entanto, que alguém que jamais atravessou a Cordilheira, tenha uma resposta certinha para explicar uma realidade que jamais viu. O que mais fascina os jovens no marxismo, a meu ver, é esta possibilidade de entender o mundo através de fórmulas figées. Acontece que o universo é por demais complexo para ser captado a partir de doze lições.
Gilson Pereira tem também uma resposta na ponta da língua para explicar a pluralidade de informações que encontrei em Santiago, seja em livrarias como em quiosques de jornais: “para mim está meridianamente claro que o Chile colhe hoje o que plantou no passado”. O que não passa de uma colossal lapalissade, afinal, todo presente, seja qual for, é conseqüência imediata de um passado.
Acontece que o passado do articulista é imediatíssimo, é o de ontem: “Seriam necessários pelo menos mais duzentos anos de ditadura para apagar do Chile as marcas da experiência socialista do governo Allende”. A assertiva carrega em seu bojo a fé de um crente. Mais cauteloso, não me parece que alguns anos de governo possam criar leitores que consomem jornais russos, poloneses, suecos, franceses, ingleses, italianos, americanos e vou ficando por aqui, já que não me preocupei em listar tudo que vi nas bancas.
Que mais não seja, que fatores teriam levado Eça de Queiroz a escrever, em 1890: “Haverá talvez Chiles ricos e haverá certamente, Nicaráguas grotescos”? Todo presente decorre fatalmente de um passado, mas o passado de Gilson é por demais curto e tendencioso. Passado é um conceito elástico, espichado por cada um conforme suas próprias conveniências. Na Espanha, eu me divertia às custas dos madrilenhos quando tentavam provar-me, por exemplo, que Sêneca era um pensador espanhol.
Allende se professava marxista. Desafio meu interlocutor a citar um regime, um só regime marxista, onde haja pluralidade de expressão e informação, onde livrarias e quiosques estejam repletos das mais diversas formas de pensamento.
É ocioso contar mortos, afirma Gilson. Eu diria que não. Até mesmo por uma questão de ofício, jornalistas, estamos sempre contando mortos. O que me desagrada é a diagramação da contagem. Em julho de 83, eu estava na Itália quando começaram uma série de manifestações em Santiago. DOIS MORTOS NO CHILE — titulava um jornal italiano. CINCO MORTOS NO CHILE — dizia outro na manhã seguinte. Passei à França: DEZ MORTOS NO CHILE. (Estes números eu os cito de memória, talvez não sejam exatamente estes, mas a progressão era esta).
Já na Espanha — e sempre em garrafais nas primeiras páginas dos jornais — Pinochet havia matado uma dúzia ou mais. Que a imprensa denuncie tais fatos é salutar. Foi aí que apanhei um Le Monde, talvez um Le Matin, em Madri. Posso não lembrar muito bem o jornal. Lembro apenas que, na última página, uma notinha telegráfica, sem destaque algum, noticiava: russos matam 250 no Afeganistão. Gilson cita Engels: a violência é a parteira da história. Pode ser que tenha sido, meu caro. Mas já está na hora de fugirmos a esse fatalismo tão grato a velhotes gagás como Antônio Callado, que quando babam na gravata, babam ódio e sangue. Não penso ser ocioso contar mortos. Infelizmente, temos de contá-los.
Ao reivindicar como seu modelo intelectual o cubano José Martí, o articulista faz-me lembrar meus alunos de Letras que, ao ver na televisão Quanto mais Quente Melhor ou O Anjo Azul sonhavam, idílicos: “já pensou? Eu tomando um trago com a Marylin na Florida, convidando a Dietrich para uma esticada noturna em Paris?” Nesta nossa era televisiva, passado, presente e até mesmo o futuro parecem ter sido mesclados em um tempo só. Como as imagens são oferecidas simultaneamente no vídeo, os jovens gostariam talvez de achar o número de telefone da Monroe ou quem sabe contemplar as pernas célebres da Dietrich, que hoje tem pelo menos o pudor de escondê-las em seu refúgio parisiense.
Pior mesmo, só quando essa mixagem de tempos — recurso inerente ao cinema — é transporta para a história ou literatura e é isto que faz Gilson, quando insere Martí na Cuba contemporânea. Que sempre lutou pela independência de Cuba e dos países latino-americanos, isto todos sabemos, e talvez muito poetinha de esquerda que adora falar em Nuestra America ignore ter sido Martí quem cunhou tal expressão. Gilson tem em mãos o epistolário. Boa leitura. Mas conheceria melhor o poeta se tivesse suas obras completas.
Constataria, por exemplo, nos Discursos, a fé de Martí no futuro de Cuba e na capacidade de os cubanos governarem-se livremente, a fé de Martí no continente que ele considerava ser o da esperança humana. Seria também interessante ler El Presídio en Cuba, de 1871, fruto de sua condenação ao regime de trabalhos forçados. O livrinho tem mais de um século, mas sua publicação seria atualíssima na Cuba de Castro, afinal presídios, sejam os de ontem, sejam os de hoje, em pouco ou nada diferem.
Martí contesta efetivamente a hegemonia ianque. Mas contestou-a estabelecido em Nova York, onde foi cônsul, sucessivamente, do Uruguai, Paraguai e Argentina. Constituiria um interessante exercício intelectual imaginá-lo hoje em Cuba, contestando a ditadura de Castro.
Por outro lado, se contestava a hegemonia econômica e política dos Estados Unidos, era homem fascinado pela cultura de seus irmãos do Norte, a ponto de estudar, em Norte-americanos, as obras de Emerson, Beacher, Cooper, Wendell Philips, Grant, Sheridan, Whitman e fico por aqui.
Yo quiero cuando me muera
sin patria, pero sin amo
tener en mi losa un ramo
de flores y una bandera.Martí, pensador libertário, morreu em 1895. Que seu cadáver — por favor! — não seja brandido em defesa de tiranetes dos trópicos.
Joinville, A Notícia, 11.12.88
AOS NOVOS INQUISIDORES
Florianópolis — Cristo decide voltar à terra, mostrar-se a seu povo sofredor e miserável e para isso escolhe Sevilha, em pleno século XVI, quando mais intensamente crepitavam as fogueiras acendidas ad majorem Dei gloriam. No dia anterior, o cardeal Grande Inquisidor havia feito queimar uma centena de hereges. Cristo surge discretamente, sem se fazer notar, mas todos o reconhecem. Ressuscita uma menina e o cardeal manda prendê-lo nos porões do Santo Ofício. À noite, vai visitá-lo.
— És Tu? Tu?
Face ao silêncio do Cristo, ajunta:
— Não diz nada, cala a boca. Por que vieste nos atrapalhar?
Assim vê Dostoievski o Cristo. No livro V de Os Irmãos Karamazov, o genial e histérico místico russo, católico ortodoxo e sempre hostil à igreja de Roma, desenvolve o eterno paradoxo do cristianismo, a oposição entre um Cristo humilde e pobre e uma igreja rica e arrogante. O Grande Inquisidor, considerando os homens excessivamente débeis e mesquinhos para viver segundo os mandamentos de Jesus, decidira corrigir sua obra: a fé na liberdade e no amor é substituída pelo poder, pelo milagre e pela autoridade.
— Não há nada mais sedutor para o homem do que o livre arbítrio — acusa o cardeal — mas também nada mais doloroso. Tu ampliaste a liberdade humana em vez de confiscá-la e assim impuseste para sempre ao ser moral os tormentos desta liberdade.
O inquisidor vai longe em seus considerandos e Dostoievski é à prova de síntese. Transcrevo apenas as palavras finais do cardeal:
— Amanhã, a um sinal meu, tu verás essa tropa dócil trazer carvões ardentes para a fogueira onde subirás, por ter vindo atrapalhar nossa obra. Pois se alguém mereceu mais que todos a fogueira, foste tu. Amanhã, eu te queimarei. Dixi.
Voltarei em breve, diz Cristo ao final do Apocalipse. Se ainda não voltou, totalitário e triunfante como o quer João, tem seguidamente reaparecido nas artes e particularmente na literatura, sempre provocando em crentes e sacerdotes a mesma inquietação manifestada pelo Inquisidor: por que vieste nos atrapalhar?
E sempre que volta, atrapalha. Perturba até mesmo a vida dos que mais o veneram. Nietzsche, por exemplo, não saiu ileso de seu corpo-a-corpo com ele: em seus dias de insânia, assinava-se “O Anticristo”. Ernest Renan, outra das maiores sensibilidades do mesmo século de Nietzsche, tampouco escapou a seu charme. Vida de Jesus, qualificado como um dos grandes acontecimentos do século passado, é um poema em torno ao Cristo, travestido em ensaio histórico. Para escrevê-lo, Renan preparou-se estudando línguas semíticas e refazendo o percurso do biografado na Galiléia e Palestina. Em 1862, ao assumir uma cátedra no Collège de France, teve de interromper seu curso por ordem do governo: em sua primeira aula, ousara falar de Jesus como “um homem incomparável”.
Giovanni Papini, outro apaixonado pelo nazareno, escreveu uma História de Cristo e nem por isso escapou ao Index Prohibitorum. E hoje em dia, tanto Dostoievski como Nietzsche, tanto Renan como Papini, são anatematizados pelos inquisidores, grandes ou pequenos, de qualquer igreja. Qualquer dia destes, até Hegel cai em desgraça, pois na juventude escreveu — o que muito marxista ignora — uma Vida de Jesus, onde o sentido espiritual da revelação cristã e mesmo o drama da vida, morte e ressurreição do cristo estão explicados através da doutrina ético-religiosa de Kant.
Martin Scorsese, cineasta americano, está sendo vítima de insultos e interdições no mundo todo, por ter levado às telas o romance A Tentação de Cristo, de Nikos Kazantzakis. Curiosamente, o livro foi recentemente traduzido ao brasileiro, está em todas as livrarias e, pelo que me consta, os novos inquisidores, cientes de que seus seguidores são mais ou menos analfabetos, pouco estão ligando para a difusão literária da obra. Cinema já é mais perigoso, pode gerar idéias no mais inculto dos espectadores. Perigoso a tal ponto que um distribuidor catarinense, em crise de atroz provincianismo, proibiu o filme em suas salas. Freira de dia, puta à noite, tudo bem, tais obras-primas parecem não ofender credo algum. Já uma madura reflexão, oriunda sensibilidade de um criador fascinado pelo Cristo, esta merece a fogueira.
Pois uma grande injustiça está sendo cometida em relação à Kazantzakis e sua obra. Para começar, duvido que a literatura deste século tenha produzido autor tão febrilmente religioso como este cretense, que já conhecíamos através de Zorba, o Grego. Ou será ateu e herege quem escreveu “Três espécies de alma, três preces”?
a Eu sou um arco em tuas mãos, Senhor; tende-me, senão apodreço.
b Não me tende muito, Senhor; eu quebrarei.
c Tende-me quanto quiseres, Senhor, e tanto pior se eu quebrar.
Poeta, tradutor, místico e viajante, Kazantzakis percorreu o mundo em busca de fé e encontrou nessas andanças quatro degraus decisivos para sua ascensão: Cristo, Buda, Lênin e Ulisses. Como funcionário do Ministério de Assuntos Sociais de seu país, salvou da fome, na Rússia, 150 mil gregos expulsos da Ásia Menor, no final da II Guerra. Os cardeais e inquisidores menores que têm condenado o filme de Scorsese certamente não ignoram tais fatos e, caso os ignorem, deveriam procurar conhecê-los antes de abrir a boca para dizer bobagens.
Mas o fascínio de Kazantzakis pelo Cristo não se esgota em A Última Tentação. Em Cristo de Novo Crucificado, um dos momentos culminantes da novelística contemporânea — também já traduzido e disponível em qualquer livraria — o cretense volta à carga e desta vez com artilharia de grosso calibre. A ação se desenrola em Licovrisi, aldeia grega encravada em território turco. Seus habitantes seguem a religião grega ortodoxa e têm por hábito, a cada sete anos, representar o drama da paixão. Os atores são escolhidos e cabe a um pastor de olhos azuis e barba curta e loura, Manolios, representar o Cristo. A partir da escolha, os atores devem imbuir-se de seus papéis, procurando identificar-se, na vida cotidiana, com os personagens interpretados.
É quando acontece o imprevisível: um grupo de gregos, perseguidos pelos turcos, pede abrigo em Licovrisi. Os aldeões, liderados pelo pope Grigoris, o organizador da Paixão, recusam-se a recebê-los. O final, este sim, é previsível. Manolios e seus companheiros, os que deviam representar os apóstolos, imbuídos do espírito evangélico, advogam pelos gregos. A paixão se consuma, só que desta vez não é teatro. Manolios é assassinado na igreja, por instigação do pope, pelo aldeão que fazia o papel de Judas.
Estamos em pleno Dostoievski, novamente. Os que se dizem seguidores do Cristo não hesitam em crucificá-lo quando volta. Não terá sido por acaso que, ao perguntar a um sacerdote grego o que pensava de seu conterrâneo de Creta, obtive resposta curta e grossa: “louco, doido varrido”.
Quanto a mim, se por um lado abomino a santa ira dos moralistas de cueca que hostilizam o filme de Scorsese, por outro não partilho do enamoramento de Renan ou Kazantzakis. Vejo o Cristo como um iluminado, como tantos outros que brotavam às margens do Jordão como cogumelos após a chuva. Sua doutrina, é verdade, rejeita o ódio imanente ao Antigo Testamento, mas pouco ou nada tem de original. Para o leitor atento, os evangelhos já estão todos embutidos nos textos judaicos. E como homem — já que só assim posso vê-lo — Cristo desaparece se comparado, por exemplo, a um Sócrates, Platão, Aristóteles ou Alexandre.
Há um certo zelotismo, diga-se de passagem, na impermeabilidade de Cristo à cultura grega e em seu recurso exclusivo à cultura judia. Paulo, que desde menino falava grego, a língua comum de Tarso, é quem efetivamente inventa o cristianismo a partir de fontes helênicas, mesclando conceitos do gnosticismo e das religiões de mistério, particularmente do culto de Átis.
Sócrates, por exemplo. Guerreiro e pensador, ousou contestar os deuses de Atenas e, uma vez condenado à morte, acusado de introduzir novas divindades e corromper a juventude, não pediu a seus juizes clemência, como era praxe pedir. Nem quis fugir, como poderias ter feito. No momento de contrapor à pena imposta pelos juizes a pena que julgava merecer, Sócrates ri dos que o condenam ao declarar que merecia não uma punição, mas um prêmio, por seus serviços prestados à Atenas. Morreu por não querer humilhar-se e bebeu serenamente a cicuta, rodeado de amigos e discípulos. Quando vemos um Cristo lamuriento, balbuciando Eli, Eli, lama sabachtani?, aceitando sem revolta alguma a crucificação, salta-nos aos olhos a superior fibra moral do ateniense.
Ou um Alexandre, que desbravou a pata de cavalo e a ponta de espada a Ásia Menor, fundando cidades por onde passava e criando a primeira universidade da História, a Biblioteca de Alexandria, isso três séculos antes de Cristo. Rei, ao entrar em combate ia sempre à frente de seus comandados. Quase perdeu a vida quando, impaciente ante o vagar com que seus homens tomavam uma fortaleza, apanhou uma escada e nela penetrou sozinho, para perplexidade dos inimigos, que não sabiam se enfrentavam um louco ou um deus. Quando os sacerdotes do Sinédrio perguntam a Cristo se é lícito ou não pagar tributos a César, Cristo tenta fugir: “Daí, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Mas tarde piou.
Decididamente, se busco homens a cultuar, antes e depois de Cristo, a história nos oferece centenas de nomes ornados pela decisão, coragem e feitos e não pela indefinição, covardia e palavras dúbias. As visões de Dostoievski, Renan ou Kazantzakis, ainda que respeitáveis, a meu ver são românticas. Apenas acho que os novos inquisidores, que se presumem defensores da civilização cristã, deveriam examinar carinhosamente — e não condenar sem ler — as obras destes escritores fascinados pelo Cristo.
Joinville, A Notícia, 18.12.88
CUMBRE EN CUBANACAN
Havana (Urgente) — Em sua recente entrevista com Fidel Castro, o Dr. Luís Inácio da Silva, candidato do PT à presidência da República, revelou insuspeitados dotes de estadista, emergindo deste encontro no Caribe como um dos mais lúcidos líderes de Nuestra America. Hóspede oficial do governo cubano, Dr. Lula sequer necessitou deslocar-se de Cubanacan para discutir com o Líder Máximo os destinos do continente: na noite mesmo de sua chegada, mais precisamente às 23h30min de sábado passado, Fidel foi, verborrágica e pessoalmente, cumprimentá-lo. Exausto pela longa viagem e ciente da monologomania do velho ditador, mal Fidel esboçou um “bienvenido sea el compañero de luchas por la felicidad y bienestar de nuestro pueblo latinoamericano, impertérrito adversário del capitalismo y de la libre iniciativa, líder incontestable de las luchas laborales en Brasil...”, Dr. Lula cassou-lhe o verbo.
— Sei, sei — resmungou Dr. Lula, com a nonchalance de um plenipotenciário — e além do mais dispenso salamaleques, em verdade estou aqui apenas de passagem, mais diria em campanha eleitoral, pois se stalinismo passou de moda na Europa, ainda rende votos no Brasil. Quero em todo caso cumprimentá-lo por esta permanência de três décadas no poder, façanha que sequer foi atingida pelos militares brasileiros, com armas e atos institucionais em punho, sonho longe do alcance de caudilhos menores como Pinochet, desautorizado em plebiscito mal completou década e meia de governo. E quero particularmente cumprimentá-lo, camarada Fidel, por façanha bem mais insólita, a de preservar a simpatia da imprensa toda do Ocidente após trinta anos de ditadura, a propósito, bem gostaria que me passasse esta fórmula, nunca se sabe quantos séculos são necessários para educar uma nação.
Perplexo ante o sangue frio do jovem estadista, mal Castro esboçou um tímido “pero...”, Dr. Lula o atalhou:
— Ni pero, ni pera, Fidel. Você há de convir que trinta anos é um exagero. Se nem a CIA e o cigarro conseguiram te matar, mais dez aninhos e empatas com Franco. Visitar a ilha é uma espécie de batismo, sei disso, o Caetano e o Chico também sabem, acontece que nós envelhecemos e as gerações se renovam, estou aqui apenas para um gesto de aceno a meus companheiros de geração, acontece que conseguimos introduzir na Nova constituição o direito de voto a maiores de dezesseis anos, o que nos fornece uma fatia virgem no mercado eleitoral, são cinco ou seis milhões de eleitores, em sua maioria em fase de revolta com os pais, ou seja, voto certo no PT. Cá entre nós, camarada, esta minha visita até que me desprestigia, a imprensa burguesa vai gozar com a minha cara, ainda nem voltei e aposto que nalguma redação algum jornalista reacionário já deve estar me preparando alguma. Cuba já não dá mais crônica social, Fidel. A moda agora é Nicarágua e é pra lá que estou indo. Há centenas de jovens da classe média e alta classe média pagando mil dólares para passar fome e colher café para os nicas, que afinal isso de ser revolucionário não é para qualquer pé-rapado, não é qualquer zé-povinho que se pode dar ao luxo de pagar tanto para passar tão mal, e a classe média é muito intuitiva, assim que penso comer algumas lagostas em Havana, daquelas que você reserva para quem traz dólares e no meio da semana já estou voando pra Manágua, que mais não seja para abraçar “compa” Ortega. Desculpe o camarada Fidel minha franqueza, mas há razões que a razão não desconhece, são as famosas razões de Estado.
— Pe... pe... — quis balbuciar um Fidel perplexo — no que foi calado pelo líder petista.
— Ni pe ni pa, camará! Estou em campanha eleitoral e fica cada vez mais difícil, para um homem que ambiciona o poder e precisa namorar as esquerdas, explicar tua ilha. Quando jovem, vibrei com teu combate em Sierra Maestra, brindamos a queda de Fulgencio Batista, inovamos a autodeterminação dos povos e a Doutrina Monroe por ocasião da invasão da Baía dos Porcos. Pena que vivemos na era das comunicações, compañero, e não há hoje quem não saiba que na Cuba de Batista quem quisesse abandonar o país só precisava fazer as malas. Aquela fuga em massa pra Miami, lá por 80, caiu muito mal, meu caro Castro. Até o general Pinochet já fez plebiscito, mais ainda, aceitou o resultado da consulta, o que nos deixa numa situação muito desconfortável quando, convidado a confirmar tua legitimidade, declaras que os cubanos já fizeram um plebiscito há trinta anos. Como é que eu fico, Fidel, logo eu que lutei e luto pelas eleições diretas, como ficamos nós que denunciamos que há vinte e sete anos não votamos para presidente? Você há de convir que não é fácil explicar às novas gerações estas contradições dialéticas, certamente inevitáveis no processo histórico, mas dificilmente inteligíveis em um país onde a imprensa infelizmente é livre. Estamos te mandando turistas, camarada, e todos com os bolsos cheios de dólares e é claro que te somos gratos pela recepção, temos acesso a mordomias com as quais cubano algum ousa sonhar. O Chico, por exemplo, sempre cantou tua revolução, claro que ele sempre prefere sua cobertura no Rio, seu apartamento em Paris, mas isto é humano, Brecht já dizia que quem não sabe bem comer, bem beber e bem tratar uma mulher na cama não pode ser revolucionário. A reflexão é pertinente, só que dificilmente inteligível pelas massas. E nunca falta o jornalista de má-fé que insista em perguntar: mas se turismo é comércio de ida-e-volta, por que não vemos turistas cubanos no Brasil? Para os menos esclarecidos sempre podemos alegar que não se faz omelete sem quebrar os ovos, ameaça imperialista ao Norte, fortaleza sitiada pelo capitalismo, etc., mas meu suporte é a classe média e a classe média bem ou mal lê ou viaja e já não engole mais tais potocas. Camarada Castro! — e então Lula tentou erguer o braço até os ombros do Líder Máximo — até Gorbachov está conquistando o Ocidente, com não mais que duas palavrinhas, glasnost e perestroika. Custa muito ao camarada fazer uma concessãozinha aos ventos do Leste?
— Pe... pe... peres... que? — balbuciava atônito o Líder Máximo.
— Perestroika, camarada. Glasnost. Reestruturação. Transparência. Words, words, only words. Você acha que Gorbachov vai abrir fronteiras ou permitir críticas a seu governo na imprensa? Você imagina que vai liberar o xerox ou derrubar o Muro de Berlim? Nada disso, companheiro. Gorbachov está apenas tentando chegar ao século XX, antes que o Ocidente chegue ao século XXI. Mera ofensiva de charme. Estou até pensando em ver se descolo um encontro com o perestroistchki tovaritch Gorbachov, não há hoje quem não saiba que se ele deixa de enviar dólares aos bilhões à tua ilha, dia seguinte estás sem emprego. E depois, Fidel, isso de nomear sucessor. Logo um irmão! Eu, que fiz minha fortuna política xingando os militares, nem disso pude acusá-los! Trinta anos, meu caro — e Lula esfregou sua barbicha nas vetustas barbas do Caudilho — bem que eu gostaria de um período assim para endireitar aquele país, infelizmente lá a imprensa é livre, repito, e nunca falta um negativista profissional que nos cobre alternância de poder, eleições livres, em suma, esses empecilhos democráticos que nos impedem de construir a utopia.
Nesta cumbre, como dizem meus colegas de fala espanhola, o líder petista deixou claro que, uma vez presidente da República, só pensaria em uma aproximação com Cuba a partir do momento em que o Líder Máximo devolvesse aos cubanos o direito de voto.
— Não que eu acredite lá muito em eleições, camarada Fidel. Bem sabemos que a violência é o fórceps da História. Acontece que os brasileiros desde há muito estão contaminados pelos tais de ideais democráticos, culpa talvez em parte nossa, admito, afinal tanto falamos em democracia para contestar a ditadura que o povo acabou por intoxicar-se. A última tentativa de chegarmos ao poder pelas armas, o camarada viu no que deu e até hoje deve doer-lhe no bolso, meu caro Castro, aquele milhão de dólares repassadas a El Ratón, é assim que vocês chamam o Brizola aqui em Cuba, não é verdade? Por outro lado, compañero, isso de manter intelectuais e opositores na prisão, isso já era, Fidel, já era. As “autocríticas” de prisioneiros políticos não convenceram nem na época do Stalin. Aquela do Heberto Padilha, que desastre, hombre! Perdeste teus melhores garotos-propaganda, o Sartre, a Simone, Pasolini, Alain Resnais, Susan Sontag, Carlos Fuentes, Juan Rulfo, Vargas Llosa e vou ficando por aqui. O Gorbachov já está reabilitando Trotsky e você insiste em manter intelectuais no cárcere. Perestroicisesse, hombre, perestroicisesse antes que seja tarde.
— Pero pa qué si yo... — tentou atalhar Castro, impotente ante a verve do ex-metalúrgico.
— Ni pa que sí ni pa que no, camarada. Tua sorte foi a Armênia, não fosse aquele terremoto o Gorbachov dava entrevista no “Granma” e eu pagava pra te ver censurando o chefe, dia seguinte ele dispensava teu açúcar e fechava a torneira dos dólares. A propósito, isso do jornal da revolução ter um nome ianque, isso também cai mal, meu querido. Sem falar que eu tenho vergonha de voltar para o Brasil com um exemplar dele, lá no Brasil qualquer jornaleco de província tem mais informação e crítica do que este Diário Oficial. E mais, Fidel — e então o ex-metalúrgico foi de dedo em cima do Líder Máximo — tem mais, meu caro, isso de fazer discurso com pombinha branca no ombro é recurso fajuto de tua assessoria, imagina se lá no Brasil um milico, com farda e tudo, subisse a uma tribuna de pombinha ao ombro pra comemorar datas, ia ser mais divertido que ouvir o Sarney falando espanhol. Ou achas que alguém ignora tua presença armada em Angola? Isto nos coloca problemas terríveis, a nós, intelectuais de esquerda — (e neste momento o rosto do camarada Lula foi perpassado por um ligeiro rubor) — como explicar às massas que o cidadão cubano só come macarrão com ketchup o dia todo, isso quando tem a sorte de encontrar os dois? Como explicar os dois pares de sapato por ano a que tem direito os cubanos, quando não faltam coturnos para tuas tropas em território africano? Cá entre nós, Fidel, não é fácil vender tua revolução, quando se sabe que o turista em tua ilha tem acesso às dollarshops, ao que de mais sofisticado o capitalismo oferece, enquanto o ilhéu fica chupando no dedo. Acontecesse isso no Brasil, tuas lojinhas de caça ao dólar viravam cacos de vitrine no dia seguinte.
— Pe... pe... pero, Lula — tentava protestar o Supremo Comandante, já próximo à apoplexia, quando o futuro presidente da nação brasileira acalmou-o com um gesto imperioso:
— Tranqüilito, Fidelito, tranqüilito. Te convido para uma missa, sabes muito bem que só existo graças à Igreja, não é por acaso que me assessora um dos maiores ficcionistas catarinenses, frei Leonardo Boff. Ele vai oficiar uma missa e nós vamos rezar, meu querido, por muitos e muitos anos de vida a Stroessner. Sim, o Líder Máximo paraguaio. Pois se o homem morre, camarada, vais ganhar a desconfortável comenda de Decano dos Tiranetes da América Latina.
Joinville, A Notícia, 22.01.89
PRIMEIRA EPÍSTOLA AO AIATOLÁ DE FORQUILHINHA
Florianópolis — De Forquilhinha, Santa Catarina, conheço dois cidadãos. Ou melhor, um cidadão e uma cidadã, o Paulo e a Albertina. O Paulo, conheço apenas de nome. A Albertina, de meu dia-a-dia. Ambos nasceram em lares humildes mas — coisas da vida! — tiveram diferentes destinos. Albertina veio a ser minha faxineira e Paulo doutorou-se pela Sorbonne. Paulo viu no sacerdócio sua chance de chegar ao poder e a Albertina, coitada, enfrenta bravamente o mundo com sua vassoura. Paulo, ao que tudo indica, prefere uma metralhadora.
Falar em metralhadora me faz lembrar um distante 1º de abril, como também aquela pergunta que nos anos 70 se tornou moda: onde você estava no 1º de abril de 1964? Eu estava em Santa Maria, mais precisamente na sede dos Sindicato dos Ferroviários, mais conhecido como Casa Rosada. Era jovem e idiota. Do alto de meus dezessete anos, trepado em uma mesa, trazia aos operários o apoio da classe estudantil, denunciava Carlos Lacerda, louvava Brizola e exigia do comandante da guarnição local, general Pope de Figueiredo, uma definição sobre o governo João Goulart. Em meio a meu discurso, o salão foi se esvaziando aos poucos, o que era no mínimo desconfortável para quem se julgava bom orador. Mas o problema não era o verbo. Era a definição que chegava, trezentos homens armados de fuzis e metralhadoras, baionetas caladas. Minha platéia se evaporava. Desci da mesa, sentindo-me ridículo até a medula. Na Casa Rosada, restamos eu e mais dez operários. Fui até a porta. A um metro e meio de mim, centenas de soldados, todos de minha idade, formavam semicírculos concêntricos de baionetas. Não senti medo, não acreditava que alguém desse ordem de fogo. Mas tive de desarmar um operário bêbado que, com seu facão, pretendia enfrentar o exército. Algum tempo depois, surgiram os mensageiros da guerrilha. Convidado para a luta armada, recusei-me. Considerava suicídio lutar de bodoque contra tanques. A esta mesma conclusão chegaram meus companheiros de geração, só que vinte anos mais tarde, após centenas de mortes e sofrimentos no exílio. Mas falava de Paulo. Não no de Tarso, o maior matador de cristãos de seu tempo e que acabou construindo o cristianismo, Stalin precursor que se tornou um enviado de Deus para suas vítimas. Falava do Paulo de Forquilhinha. Conterrâneo de Albertina.
Pois o Paulo, ou Dom Paulo, como prefere ser chamado, ou melhor ainda, Dom Paulo Evaristo Arns, escreveu há pouco afável cartinha a um dos mais antigos tiranos da América Latina, que há trinta anos oprime com seus coturnos toda uma nação. Não, a carta não foi dirigida a Stroessner. Bem poderia ser. Pois como disse o estafeta episcopal, o ficcionista Carlos Alberto Libânio Christo, vulgo frei Betto, o pecador não deve ser confundido com o pecado. Muito menos a Pinochet, que parece ainda pouco maduro nos meandros do poder — afinal tem só quinze anos de ditadura! — para merecer tapinhas no ombro de um príncipe da Igreja. A carta foi dirigida a Fidel Castro Primeiro e Único, Real Imperador de la Isla de Cuba. E eu que me queixava da Albertina, a coitada, cujo único pecado é tentar organizar por altura das lombadas os livros de minha biblioteca.
Pois Dom Paulo, de certa forma, já me aprontou outra. Quando estava sendo traduzido ao brasileiro o livro Nunca Mais, o relatório da Conadep (Comisión Nacional sobre la Desaparición de Personas), cujos trabalhos foram coordenados por Ernesto Sábato, Dom Paulo tomou a dianteira: endossou trabalho semelhante feito no Brasil, o que é bom, digno e justo. Só não é bom, digno e justo roubar título alheio como o fez, usufruindo indevidamente da publicidade internacional de que gozava o trabalho coordenado por Sábato. A Albertina de vez em quando junta Casanova com Tomás de Aquino, só porque os tomos são da mesma altura, mas jamais subtraiu nada de minha biblioteca.
"Queridíssimo Fidel" — começa o corajoso cardeal — "Paz e bem". Digo corajoso porque coragem intelectual é o mínimo que se exige de um homem culto e bem informado para assim saudar o único ditador do continente que ainda mantém intelectuais no cárcere e proíbe aos nacionais saírem de seu gulag tropical. Em sua epístola ao tirano, Paulo abraça Castro e saúda o povo cubano pelo trigésimo aniversário da ditadura: "Hoje em dia Cuba pode sentir-se orgulhosa de ser no nosso continente, tão empobrecido pela dívida externa, um exemplo de justiça social". Não é bem o que pensa a Anistia Internacional, cujas investigações embasam em boa parte o Brasil: Tortura Nunca Mais, de Dom Paulo. Muito menos o que pensam dois milhões de cubanos que votaram com os pés, fugindo para Miami. Como dizia a Albertina, "que paraíso é esse, professor, onde as pessoas estão proibidas de sair e quando saem não voltam mais?"
"A fé cristã descobre" — continua Paulo em sua epístola aos castrenses — "nas conquistas da Revolução, os sinais do Reino de Deus que se manifestam em nossos corações e nas estruturas que permitem fazer da convivência política uma obra de amor". Ora, se fronteiras fechadas, ausência de eleições livres, imprensa e oposição sufocadas e vida a nível de miséria são sinais do Reino de Deus, vamos então canonizar logo este santo homem chamado Joseph Vissarionovitch Djugatchivili, mais conhecido como Stalin, "o de aço".
Ao dar notícias do Brasil, sua Excelência Reverendíssima, nosso cardeal Arns, não perde a oportunidade de evocar "a vitória popular alcançada nas últimas eleições". Supomos que quando fala de vitória popular se refira ao avanço do PT, pois não é de hoje que temos conhecimento deste namoro entre a Igreja e o partido que se diz dos trabalhadores mas, fundamentalmente, é constituído por acadêmicos. Tal vitória, continua o cardeal, "renova o marco político do país e abre esperanças de que o indescritível sofrimento do nosso povo possa ser minorado no futuro".
Que em algo renova, disso não tenho dúvida alguma, pois pela primeira vez vejo uma prefeita, Luiza Erundina, eleita folgadamente pelo voto popular, declarar via Embratel que a solução dos problemas nacionais passa pela luta armada. Marília Gabriela, sua entrevistadora na TV Bandeirante, em vez de ficar esbanjando charme, bem que poderia propor-lhe três questõezinhas mais:
a) Luta armada exige preparação. O PT está se preparando para ela?
b) Se está, quem o prepara e financia?
c) Se a luta armada é necessária, contra quem vai ser a luta? Contra os empresários? Contra as Forças Armadas? Contra o Congresso? Quem é o inimigo?
Pois atribuo mais sensatez à minha inculta Albertina: "Derramamento de sangue, Deus nos livre, professor!"
Não contente em esfregar-se junto à caspa da ditadura, Paulo Evaristo, cardeal Arns, vai mais longe, reza diariamente por Castro e pede "ao Pai que lhe conceda sempre (o grifo é meu) a graça de conduzir os destinos de sua Pátria". Ora, conceder sempre a graça de conduzir os destinos da pátria, a meu ver não tem diferença alguma de conceder a graça de sempre conduzir os destinos da pátria. Estará Paulo, o de Forquilhinha, pedindo ao Pai pela permanência do tirano?
Paulo de Tarso, que na verdade, não era de Tarso, mas da Cilícia, fariseu fanático que mais matou cristãos no primeiro século do cristianismo, era mais singelo e não usava de meias palavras, matava quem quer que seguisse o Cristo e estamos conversados. Quando viu no cristianismo então emergente um potencial instrumento de controle do poder, não teve dúvidas, converteu-se às novas circunstâncias. Dom Paulo de Forquilhinha parece estar percorrendo a estrada de Damasco em rumo contrário. Depois de velho, vai esfregar-se em prepostos de Moscou, que preferem manter um país a nível de fome para garantir a presença soviética na África, regada com o sangue de jovens cubanos.
Passou aqui em Florianópolis, há coisa de um ano e pouco, um destes senhores que adora sangue e cultua quem o faz derramar. Chamava-se Antonio Callado e fez palestra nos salões da Universidade Federal de Santa Catarina. Hospedou-se em hotel de luxo, foi caitituado pelos intelectuais autóctones e vinha financiado por uma multinacional. Disse esperar que no Brasil estoure uma revolução violenta. Desafiado por um repórter, disse que assinava embaixo. E assinou mesmo, o velhote sanguinário. Disse ainda que este caminho, o da revolução violenta, passa pela Igreja e pelo PT. Os sinais do Reino de Deus parecem estar fechando. Frei Betto levando quitutes da mamãe para o tiranete das Antilhas, portando cartas de Paulo de Forquilhinha ao ditador. Leonardo Boff namorando Ernesto Cardenal, mais conhecido internacionalmente como o aiatolá do Caribe por seu apoio a Khomeiny. Erundina falando em luta armada. Lula estabelecendo vínculos com os aprendizes de tirano da Nicarágua. Estará próximo o Reino de Deus?
Ou talvez o da estupidez, como diria Albertina, sem talvez ter idéia da profundidade do que diz. Nenhum homem medianamente informado desconhece o preço pago em sangue pelos espanhóis durante a Guerra Civil. A nenhum homem honesto é permissível ignorar quem foi Pol Pot. Latino-americanos, todos sabemos em que resultaram essas tentativas desvairadas de tomada do poder no Uruguai, Chile, Argentina e Brasil. O massacre está sendo reeditado no Peru. Um grupo de assassinos com vocação para o suicídio tomou recentemente um quartel em Buenos Aires. Eram paranóicos a ponto de portar no bolso um programa de governo. Luís Carlos Prestes, outro sanguinário impenitente, do alto de suas oito décadas de vida, que nada parecem ter-lhe ensinado, declarou que o assalto a La Tablada foi uma loucura. Nisto concordamos. Mas preferiria que o Cavaleiro da Esperança (sic!) reconhecesse, antes de morrer, seu ataque de loucura em 1935, quando, aterrissando na praia do Campeche, cá na ilha, voltou de Moscou para inaugurar a guerra civil, em sua tentativa messiânica de instalar no Brasil o reino, sei lá se de Stalin ou de Deus, pois afinal estes dois eram bastante confundidos na época e — o que é pior — parece que até hoje, pelo menos na América Latina, em pouco ou nada se distinguem.
Tenho mais de quarenta anos. Há umas boas décadas deixei de ser o jovem idiota de 64, que obedecia palavras de ordem que não entendia e que levaram parte de minha geração ao massacre. Não quero mais viver, nem quero ver alguém vivendo, aqueles dias de opressão, medo, exílio, desconfiança mútua, prisões arbitrárias e tortura, inerentes a tais processos de assalto ao poder. Vivi dias em que a amizade era exercício quase impossível, pois se buscávamos a convivência de um colega já contaminado pelo vírus da ideologia, ou tínhamos de concordar em tudo ou, automaticamente, éramos classificados como inimigos. Vivi seis meses na Espanha, em 87. A Guerra Civil terminara há meio século e observei que, até hoje, os espanhóis continuam divididos e ainda alimentam velhos rancores. Pior ainda: a Espanha é hoje nação livre, rica e democrática, e nunca falta intelectual que continue a sonhar com a vitória dos republicanos, o que teria levado o país, e certamente toda a Europa junto, à paupérrima condição dos países do bloco soviético.
Paulo Evaristo, cardeal Arns: bem ou mal, pertenço à sua Igreja. Fui batizado, à revelia, é verdade, como à revelia se tornam partícipes do Corpo Místico de Cristo crianças que prefeririam uma chupeta a serem aspergidas com água benta. Dentro de vossa ótica, talvez seja um membro doente deste Corpo. Mas a ele pertenço. Uma vez a ele pertencendo, sinto-me no direito de pedir a meu pastor que não mais abrace tiranos. E não mais escreva bobagens. Não fica bem para um cardeal.
Ou o cardeal nos deseja um novo Primeiro de Abril?
Joinville, A Notícia, 05.02.89
IDADE MÉDIA, VOLVER!
Florianópolis — Valayaté-Faghih, Kachfol-Astar e Towzihol-Masael são os três livros-chave de um escritor que, em 1979, recebeu generoso asilo em terras de França, em cidade nas cercanias de Paris. Traduzindo, pela ordem: O Reino do Erudito, A Chave dos Mistérios e A Explicação dos Problemas. Pinço cá e lá algumas reflexões do erudito autor:
No momento de urinar ou defecar, é preciso se agachar de modo a não ficar de frente nem dar as costas para Meca.
Não é necessário limpar o ânus com três pedras ou três pedaços de pano, uma só pedra ou um só pedaço de pano bastam. Mas, se se o limpa com um osso ou com coisas sagradas como, por exemplo, um papel contendo o nome de Deus, não se pode fazer orações nesse estado.
É preferível agachar-se num lugar isolado para urinar ou defecar. É igualmente preferível entrar nesse lugar com o pé esquerdo e dele sair com o pé direito. Recomenda-se cobrir a cabeça durante a evacuação e apoiar o peso do corpo no pé esquerdo.
Durante a evacuação, a pessoa não deve se agachar de cara para o sol ou para a lua, a não ser que cubra o sexo. Para defecar, deve também evitar se agachar exposto ao vento, nos lugares públicos, na porta da casa ou sob uma árvore frutífera. Deve-se igualmente evitar, durante a evacuação, comer, demorar e lavar o ânus com a mão direita. Finalmente, deve-se evitar falar, a menos que se seja forçado, ou se eleve uma prece a Deus.
A carne de cavalo, de mula e de burro não é recomendável. Fica estritamente proibido o seu consumo se o animal tiver sido sodomizado, quando vivo, por um homem. Nesse caso, é preciso levar o animal para fora da cidade e vendê-lo.
Quando se comete um ato de sodomia com um boi, um carneiro ou um camelo, a sua urina e os seus excrementos ficam impuros e nem mesmo o seu leite pode ser consumido. Torna-se, pois, necessário matar o animal o mais depressa possível e queimá-lo, fazendo aquele que o sodomizou pagar o preço do animal a seu proprietário.
Onze coisas são impuras: a urina, os excrementos, o esperma, as ossadas, o sangue, o cão, o porco, o homem e a mulher não-muçulmanos, o vinho, a cerveja, o suor do camelo comedor de porcarias.
O vinho e todas as outras cervejas que embriagam são impuros, mas o ópio e o haxixe não o são.
O homem que ejaculou após ter tido relações com uma mulher que não é sua e que de novo ejaculou ao ter relações com a legítima esposa, não tem o direito de fazer orações se estiver suado; mas, se primeiro tiver tido relações com a sua mulher legítima e depois com uma mulher ilegítima, poderá fazer as suas orações mesmo se estiver suado.
Por ocasião do coito, se o pênis penetrar na vagina da mulher ou no ânus do homem completamente, ou até o anel da circuncisão, as duas pessoas ficarão impuras, mesmo sendo impúberes, e deverão fazer as suas abluções.
No caso de o homem — que Deus o guarde disso! — fornicar com animal e ejacular, a ablução será necessária.
Durante a menstruação da mulher, é preferível o homem evitar o coito, mesmo que não penetre completamente — ou seja, até o anel da circuncisão — e que não ejacule. É igualmente desaconselhável sodomizá-la.
Dividindo o número de dias da menstruação da mulher por três, o marido que mantiver relações durante os dois primeiros dias deverá pagar o equivalente a 18 nokhod (três gramas) de ouro aos pobres; se tiver relações sexuais durante o terceiro e quarto dias, o eqüivalente a 9 nokhod e, nos dois últimos dias, o eqüivalente a 4½ nokhod.
Sodomizar uma mulher menstruada não torna necessários esses pagamentos.
Se o homem tiver relações sexuais com a sua mulher durante três períodos menstruais, deverá pagar o eqüivalente em ouro a 31½ nokhod. Caso o preço se tiver alterado entre o momento do coito e o do pagamento, deverá ser tomado como base o preço vigente no dia do pagamento.
De duas maneiras a mulher poderá pertencer legalmente a um homem: pelo casamento contínuo e pelo casamento temporário. No primeiro, não é necessário precisar a duração do casamento. No segundo, deve-se indicar, por exemplo, se a duração será de uma hora, de um dia, de um mês, de um ano ou mais.
Enquanto o homem e a mulher não estiverem casados, não terão o direito de se olhar.
É proibido casar com a mãe, com a irmã ou com a sogra.
O homem que cometeu adultério com a sua tia não deve casar com as filhas dela, isto é, como suas primas-irmãs.
Se o homem que casou com uma prima-irmã cometer adultério com a mãe dela, o casamento não será anulado.
Se o homem sodomizar o filho, o irmão ou o pai de sua esposa após o casamento, este permanece válido.
O marido dever ter relações com a esposa pelo menos uma vez em cada quatro meses.
Se, por motivos médicos, um homem ou uma mulher forem obrigados a olhar as partes genitais de outrem, deverão fazê-lo indiretamente, através de um espelho, salvo em caso de força maior.
É aconselhável ter pressa em casar uma filha púbere. Um dos motivos de regozijo do homem está em que sua filha não tenha as primeiras regras na casa paterna, e sim na casa do marido.
A mulher que tiver nove anos completos ou que ainda não tiver chegado à menopausa deverá esperar três períodos de regras após o divórcio para poder voltar a casar.
Qualquer comércio de objetos de prazer, como os instrumentos musicais, por menores que sejam, é estritamente proibido.
É proibido olhar para uma mulher que não a sua, para um animal ou uma estátua de maneira sensual ou lúbrica.
Cansei. Acho que chega. Pois o autor destes eruditos preceitos não é nenhum doente mental — ou pelo menos assim não é oficialmente considerado — nem, pelo que me conste, está sob camisa de força. Ao contrário, é um dos chefes de Estado contemporâneos que mais freqüenta as primeiras páginas da imprensa internacional e, do alto de sua sabedoria e humanismo, ousa reptar as potências. O autor de tão doutas prescrições é nada menos que o aiatolá Ruhollah Khomeiny. Excertos destas suas três obras foram publicadas em vários países, no Brasil inclusive, sob o título genérico de O Livro verde dos Princípios Políticos, Filosóficos, Sociais e Religiosos do Aiatolá Khomeini.
Paris, 1979. Eu me preparava para credenciar-me junto ao Festival de Cinema de Teerã, quando Khomeiny recebeu asilo da França e, ao arrepio das leis que regem este estatuto, sentado em seu tapete em Neauphle le Chateau, desfechava suas baterias contra o xá Reza Palhevi. O festival gorou, o xá caiu e o aiatolá entrou a ferro e fogo no Irã, de Corão em punho, fuzilando homossexuais e prostitutas. Uma de suas primeiras providências foi proibir a música e o cinema.
Mas as esquerdas parisienses continuavam abominando o xá e louvando o potencial revolucionário do islamismo. Só começaram a preocupar-se quando Khomeiny, empunhado uma esquecida surata do Corão, que assimila o consumo de ovas de esturjão a um ato impuro, decidiu proibir a exportação de caviar. A União Soviética passou então a dominar o mercado e aproveitou a prescrição de Alá para aumentar o preço das ovas de beluga (um primo do narval, que habita o Ártico). Caíra um aiatolá no caviar dos intelectuais de esquerda.
Não sei se o leitor sabe, mas no Irã de Khomeiny, como aliás em todo o mundo islâmico, as mulheres têm o clitóris cortado, lá pelos cinco ou seis anos, e a vagina infibulada, isto é, costurada com fibras vegetais. Ao casar, o marido corta as fibras com uma faca e depois a pendura às costas, para exibi-la, pingando sangue, aos vizinhos. Após o parto, a mulher volta a ter a vagina costurada, para ser novamente rasgada. A esta prática estão submetidas cerca de cinqüenta milhões de mulheres, na África e no Oriente Médio, hoje, 1989. A genitália de muitas muçulmanas transformou-se em cloaca, o que esclarece a alta incidência de Aids nos países africanos, pois dadas as lesões internas da mulher, toda relação sexual sempre é de alto risco. Isto é o Islã, século XX.
Pois Khomeiny, cuja primeira providência ao assumir o poder foi provocar uma guerra que produziu um milhão de cadáveres, não contente de legislar sobre a maneira de defecar ou copular com animais, quer agora impor seu obscurantismo ao Ocidente. Ao entrar em Teerã, afirmou: “Criminosos não devem ser julgados, e sim executados”. Começou fechando os bordéis e fuzilando as prostitutas. Mas casar por uma hora, tudo bem.
Continuou fuzilando homossexuais. Mas se o homem sodomizar o filho, o irmão ou o pai de sua esposa após o casamento, este continua válido. Numa França de baixo crescimento demográfico, estes fuzilamentos sumários causaram, diga-se de passagem, muita apreensão. Pois, como me dizia um colega de imprensa, “se a moda pega na França, vamos chegar ao final do século com a população reduzida à metade”.
Com a nonchalance de um deus, Khomeiny condenou à morte o escritor Salman Rushdie, autor de Versos Satânicos, romance onde Maomé, à semelhança do Cristo de Kazantzakis, é visto como um ser humano. Rushdie, a propósito, não é cidadão persa, o que o colocaria sob a “legislação” do atual Estado teocrático iraniano. O escritor condenado à morte é um hindu, goza de cidadania britânica e vive em Londres. Para o assassino, o aiatolá oferece não só o paraíso, como também três milhões de dólares, que já subiram para seis. Mais ainda: a pena de morte é extensiva aos editores do livro. Stalin era mais modesto. Mandou matar Trotsky no México, sem maiores alardes.
Em outras palavras, o terrorismo com a bênção de um chefe de Estado. Terrorismo previamente anunciado, premiado com o paraíso vírgula seis milhões de dólares. A liberdade de expressão, talvez a mais importante conquista da cultura ocidental, é ameaçada pelo fanatismo de um sacerdote à beira das morte. Rushdie, provavelmente, deverás viver escondido pelo resto de seus dias. E editores e livreiros correm risco de vida em função das aiatolices de um padre no poder.
“As linhas da batalha estão se formando” — escreve Rushdie em Versos Satânicos -, “o secular contra o religioso, a luz contra a escuridão. É melhor escolher o lado”. Com sua sentença, o aiatolá decreta não apenas a morte de um homem, mas a volta do Ocidente aos dias cinzentos da Idade Média.
A Europa acaba de chamar seus embaixadores em Teerã. É chegada a hora, para todo homem que pensa, de escolher seu lado, ainda que com risco da própria vida.
Joinville, A Notícia, 26.02.89
PORNÔ PARA O POVO, POR FAVOR!
Florianópolis — Em Teerã, em mais uma de suas sinistras aiatolices, Khomeiny conclama os iranianos a dois dias de ódio contra o Grande Satã ocidental. Em Brasília, o Conselho Superior de Defesa da Liberdade de Criação e Expressão, do Ministério da Justiça, pretende restabelecer oficialmente, através de projeto enviado ao Congresso nacional, a censura. E digo oficialmente não por acaso, pois a censura continuou sempre existindo, mesmo após a declaração de sua morte, nos primeiros dias da “Nova República”. O fim da censura na atual Constituição, aliás, só serviu para produzir seu primeiro transgressor, o próprio presidente da República que, seguindo orientação do aiatolá de Roma, proibiu em território nacional a exibição de um anódino filme de Godard, Je vous salue, Marie. Estamos vivendo dias de Orwell.
Dois dias de ódio. Em 1984, Orwell não chega a tanto, são apenas dois minutos, verdade que diários. Por outro lado, ao ver um Conselho Superior de Defesa da Liberdade de Criação e Expressão institucionalizar a censura, estuprando esta Carta que, mal tendo meio ano de idade já sei foi sei lá quantas vezes violada, impossível deixar de lembrar as três divisas do Partido imaginado por Orwell:
GUERRA É PAZ
LIBERDADE É ESCRAVIDÃO
IGNORÂNCIA É FORÇA
Trocando em miúdos:
LIBERDADE É CENSURA
Pois outra coisa não é o que nos transmite o absurdo projeto quando pretende proibir a transmissão de programas pornográficos através do rádio e da televisão. Antes mesmo de entrar no mérito da questão, a redação do projeto demonstra a pouca familiaridade de seu redatores com o vernáculo. Pornografia, conforme a palavra indica, é algo escrito, grafado e, por extensão, gravado ou filmado. Pornografia através de ondas hertzianas soa como barbarismo a qualquer pessoa alfabetizada. Pornofonia seria a palavra exata, aliás já registrada no Aurélio.
A extinção da censura no novo texto constitucional foi hipocritamente saudada por “intelectuais” como o início de uma nova era. Digo hipocritamente, porque pessoa alguma que goze plenamente de suas faculdades mentais vai pensar que a censura pode ser abolida por decreto. Se não mais existe em texto legal, ela continua no entanto a existir na escola, universidade, na imprensa, rádio e televisão. Vou mais longe: ela continua existindo em nós mesmos.
Se dispomos um pingo de autoridade moral, nossa simples presença já é uma espécie de censura a eventuais manifestações de estupidez. Sem falar na censura ideológica, até hoje praticada pelas esquerdas brasileiras, que clamam por liberdade de expressão e riscam dos meios de comunicação — e se possível da História — o nome de quem quer que delas discorde. Diga-se de passagem, as tais de esquerdas, nas duas últimas décadas, censuraram tanto ou mais do que os governos militares. Hoje ainda, em certos círculos, afirmar que Cuba ou Nicarágua são regimes ditatoriais é crime imediatamente punido com banimento e mesmo morte intelectual.
Dito isto, sou, sempre fui e sempre serei defensor incondicional da pornografia. Pornografia não faz mal a ninguém. Muito antes pelo contrário. E às provas me remeto.
A indústria pornográfica, que hoje manipula bilhões de dólares no Ocidente, sai da clandestinidade nos anos 60, nos países nórdicos, mais precisamente na Suécia. Estocolmo, apesar de situar-se próxima ao Círculo Polar Ártico, tornou-se centro de colóquios e simpósios de cientistas do mundo todo. Os sexklubbar proliferam pela cidade, oferecendo a qualquer cidadão ou turista uma farta oferta de pornografia. Uma nova palavra surgiu nos circuitos internacionais, o liveshow, ou seja, sexo em cena.
Por algumas coroas, qualquer Svensson podia dar-se ao luxo de contemplar, ao vivo, as míticas louras nórdicas empenhadas em acrobáticas proezas sexuais, e mais, podia até mesmo ser convidado a participar do teatro. O pragmatismo europeu, invejoso das divisas que fugiam rumo ao Ártico, deixou de lado quaisquer pruridos de puritanismo e a pornografia desceu lentamente ao Sul, invadindo hoje catolicíssimos países como França, Itália e Espanha.
Em 1973, quando distribuir os “catecismos” de Carlos Zéfiro dava cadeia no Brasil, publiquei O Paraíso Sexual Democrata, onde afirmava que em menos de dez anos, pornografia seria rotina em nossos cinemas. Se na época minha previsão causou espanto, devo confessar que exagerava, não foram necessários sequer dez anos. Afirmava-se então que a pornografia era estratégia comunista para desestabilizar o Ocidente. Mas disto os camaradas são inocentes, e mesmo os membros da Nomenklatura necessitam passar clandestinamente estes subprodutos do capitalismo para alegrar as noites do paraíso soviético. Verdade que a nossa economia anda abaixo do rabo do cachorro, mas não acredito que alguém possa creditar este desastre aos “miasmas” da pornografia, como diria — e disse — certa vez, um cardeal.
A pornografia é hoje uma poderosa indústria, tanto na Europa como nos Estados Unidos, a ponto de certos bairros dos centros mais parecerem um exótico açougue, onde ao lado da carne de gado oferecida pelos restaurantes vende-se também carne humana, não por quilos ou gramas, é claro. Qual turista que, passando em Amsterdã, não passeou seu espanto pelo Bairro Vermelho? Entremeando lojas e restaurantes, mulheres de sonho e praticamente nuas estão expostas em vitrines noite e dia, inverno e verão. E juro que já vi, tanto crianças voltando da escola ou fiéis da missa, atravessando aquele feérico mercado, com a mesma indiferença de quem passeia por um largo qualquer.
E tanto em Amsterdã como em todos os grandes centros europeus, existem nas sexshops as cabinas individuais para masturbação. O cliente fecha-se em um cubículo e assiste ao filme que bem entende, ou ainda, tendo por meio um vidro, assiste uma mulher que exibe seu corpo. Não deixa de ser triste este voyeurisme. Mas, nestes dias de Aids, é prática das mais profiláticas.
Em Paris, nos últimos anos, tanto a pornografia como a pornofonia estão ao alcance de qualquer cidadão que disponha de um televisor, telefone... ou terminal de computador. De alguns anos para cá, o Canal Plus passou a transmitir filmes pornográficos no meio da noite. Pelo telefone, o usuário tem acesso a interlúdios eróticos. E pelo minitel, terminal que é oferecido gratuitamente junto com o telefone (paga-se apenas a utilização do serviço) você pode, entre milhares de serviços, estabelecer os contatos eróticos que vem entender. Esta pornografia ao alcance de todos está plenamente institucionalizada na Europa, de Sul a Norte, incluindo recentemente países mais conservadores como Portugal e Espanha.
Desestabilização econômica? Caos social? Desintegração dos valores morais? Nada disso. Apesar dos problemas inerentes a cada país, a Europa é hoje continente próspero, que garante a seus cidadãos saúde, ensino, livre expressão e mais ainda, esperança no futuro, este direito que a nós, brasileiros, há tanto tempo nos falta. Pornografia, vai ver quem quer. Sem falar que tem seus efeitos benéficos. Na Suécia, por exemplo, após sua liberação, diminuiu consideravelmente o índice de crimes sexuais.
Já neste país de economia desvairada, barco que ninguém sabe rumo a que abismos navega, os senhores defensores da liberdade de expressão estão preocupados em impedir que a televisão e o rádio (sic!) transmitam pornografia. Ou seja, pornografia torna-se luxo de elite, privilégio de quem pode viajar à Europa, pagar motel, ou de quem dispõe de videocassete. Ou que aceita pagar o tributo de enfrentar cinemas imundos e mal-freqüentados. Nestes dias demagógicos, em que tudo é feito em nome do povo, pergunto-me porque o PT não empunha logo a bandeira:
PELA DEMOCRATIZAÇÃO DA PORNOGRAFIA
Pornografia, a meu ver, é ver senadores fraudando votos, ministros atolados até o pescoço na corrupção premiados com prebendas em tribunais superiores, governadores administrando estados como quem gere um curral, presidentes violando a Constituição, candidato à Presidência pedindo a benção a tiranos, cardeais abençoando assassinos e torturadores.
Ano passado, um colega de ofício pregou-me uma bela peça. Pegou-me de supetão numa manhã de domingo e, de microfone em punho, queria saber minha opinião sobre a prisão do ministro fulano de Tal. Eu não sabia de nada. “Mas como, não sabes que o ministro foi preso na noite de sábado?’ Eu, jornalista, não sabia. “Desculpa a brincadeira, hoje é 1º de Abril”.
Ministro na cadeia, no Brasil, só pode ser mesmo piada de abril. Mas, voltando à pornografia: qual é o custo social desta impunidade? Pauperização crescente de uma nação, fome, miséria, capitais envoltas por cinturões de ressentimento e ódio, em suma, um caldo extremamente fértil para fanáticos famintos de poder. E Pasionárias é o que não nos falta, estão aí dando entrevistas a jornais, rádio e TV, sem Conselho algum que censure estas criminosas incitações à guerra civil.
Senhor ministro da Justiça:
Em vez de encaminhar ao Congresso propostas idiotas de assessorias analfabetas, que sequer conseguem dominar o vernáculo, oriente suas baterias contra esta pornografia maior, de conseqüências infinitamente mais graves que um inocente filminho erótico. Que mais não seja, todo televisor tem um botãozinho. Liga-o quem quer. E quem não quer o desliga.
Joinville, A Notícia, 12.03.89
CARTA ABERTA AOS HEMATÓFAGOS
Florianópolis — “O lugar digno de execração onde o cristianismo chocou seus ovos de basilisco” — escreveu Nietzsche, em O Anti-Cristo — “será completamente arrasado, e este lugar maldito sobre a terra inspirará horror às gerações futuras. Nele serão criadas serpentes venenosas”. Se interpretamos a frase lato sensu, tomando o Egeu e o Mediterrâneo como focos primeiros de transmissão do cristianismo, estive em uma dessas chocadeiras, mais precisamente Lindos, na ilha de Rodes.
Entra-se na cidade pela baía onde, segundo a tradição, Paulo teria aportado em sua terceira viagem de apostolado, introduzindo os Evangelhos no Ocidente. A entrada da baía é árida e escarpada e fiz a mim mesmo um propósito: vou subir no penhasco mais alto e fazer xixi lá de cima. Não foi preciso nem seria conveniente. Na praia, em vez de serpentes venenosas, miríades de suecas nuas. Pelo menos ali os ovos haviam gorado. Melhor mergulhar daquele barco sem pressa e varar a braço os poucos metros que me separavam do Valhala. Junto com outros apressadinhos que haviam tido a mesma idéia, joguei-me do barco e lá me fui, braço e braço, rumo às suecas, rumo às suecas, nuas, nuas.
Paulo sempre me lembra sangue, perdoem-me os “leitores” da Bíblia que só a carregam sob o sovaco. De maior assassino de cristãos no século de emersão do cristianismo, travestiu-se em maior divulgador do novo monoteísmo. Cansado de derramar o sangue dos primeiros cristãos, passou a vender o sangue de Cristo como elixir da salvação. “O cálice de benção que benzemos” — escreve aos coríntios — não é a comunhão do sangue de Cristo?” Aos efésios, lembra: “Naquele tempo estáveis sem Cristo, sem direito de cidadania de Israel, alheios às alianças, sem esperança da promessa e sem Deus neste mundo. Mas em Jesus Cristo, vós, que antes estáveis longe, agora vos aproximastes pelo seu sangue”.
Na Epístola aos Hebreus, Paulo — ou quem quer que tenha sido seu ghostwriter — nos mostra um Cristo como Sumo Sacerdote dos bens vindouros, penetrando um tabernáculo mais excelente e mais perfeito, não feito por mãos do homem. Não leva consigo o sangue de carneiros ou bezerros, “mas com seu próprio sangue entrou uma só vez no santuário, adquirindo-nos uma redenção eterna. Pois se o sangue de carneiros e de touros e a cinza da novilha, com que se aspergem os impuros, santificam e purificam pelo menos os corpos, quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito Eterno ofereceu a si mesmo como vítima sem mácula a Deus, purificará a nossa consciência das obras mortas para o serviço do Deus vivo?”
Na narrativa bíblica, do Antigo ao Novo Testamento, o sangue é conditio sine qua non da salvação. Moisés inaugura a Antiga Aliança entre Deus e o povo eleito com o sangue dos animais sacrificiais e Cristo sela a Nova Aliança com seu próprio Sangue. Seria possível, mas monótono, enumerar as dezenas de vezes em que os autores bíblicos clamam por sangue para salvar-se. No Apocalipse, os puros, envoltos em vestes brancas, são salvos pelo sangue do cordeiro: “Esses são os sobreviventes da grande tribulação: lavaram as suas vestes e as alvejaram no sangue do cordeiro”. Jeová, ou Adonai ou Eloim, ou como quer que se chame o deus judaico, é deus sedento de sangue, inclusive humano. A Abraão, ordenou que lhe oferecesse o sangue de Isaac. Pode-se objetar que interrompeu a trajetória do punhal do pai de Isaac. Mas sua sede de sangue não fora saciada: Cristo não teve sursis.
Em meio a isso, correu solta a farra-do-boi, nesta Semana Santa, na ilha e no litoral catarinense. Seus defensores — que são legião — alegam tratar-se de uma antiga tradição açoriana e que, como tal, não pode ser proibida ou reprimida. Não demonstram conhecer história, estes senhores. Esta sede de sangue, como vimos, vem de bem mais longe. Esta orgia de sangue e sadismo só pode ser concebida dentro de um caldo cultural cristão. E não é por acaso que a farra atinge seu auge nos dias da Paixão.
Que a farra seja cruenta, isto a mim não espanta. Para se ter uma idéia do que é capaz o ser humano, não precisamos de grandes leituras. Basta um livrinho, e dele estamos falando. A Bíblia toda é um desfile de massacres e torturas, plenamente justificáveis quando feitas em nome — ou por ordem — de Deus. Há quem afirme que o Novo Testamento vem suavizar a Lei Antiga. Os defensores desta idéia certamente esqueceram de trechear, que mais não seja, o último livrinho do Livro. Crueldade não constitui novidade para ninguém. O espantoso em tudo isto é que, tendo a farra existido desde sempre, só agora, nos últimos três anos, venha sendo denunciada.
A Igreja sempre se manteve silente sobre o assunto. Cardeais, bispos e padres, sempre tão preocupados em proibir filmes ou ocupar terras, jamais disseram uma palavra ou assinaram uma linha condenando a orgia infame, pelo menos antes da repercussão internacional da farra. Se bem que isto tampouco me espanta. Quem bebe sangue todos os dias, deve ter pego gosto pela coisa. De hematófagos profissionais, nada se pode esperar.
Literatos, intelectuais e artistas em geral, todos cientes da coisa fétida que ocorria sob suas vistas, jamais abriram o bico. Sempre preocupados em definir a identidade ilhoa, em cantar o verde e o azul dos morros e praias não perceberam — ou preferiram deixar de perceber — que o cerne desta identidade é a farra, tanto que persiste desde o povoamento da Ilha de Santa Catarina e até hoje resiste com armas, inclusive, como já ocorreu na praia de Ganchos, a qualquer tentativa de proibição. Verdade que agora começamos a ouvir tímidos chiados, afinal não fica bem compactuar com a ignomínia. Sem falar que, hoje, denunciar a farra já rende prestígio e até mesmo votos.
Na universidade, onde trafeguei pela área de Humanidades, jamais ouvi um pio sequer em torno à farra, o que não deixa de ser coerente. Boa parte dos professores desta área são défroqués ou ex-seminaristas (particularmente nos cursos de Letras) e, apesar de terem largado o hábito ou a batina, continuam cultuando o deus sanguinolento nascido no deserto. Deles, portanto, nada esperar.
Quanto ao governo e demais autoridades, menos chances ainda de qualquer reação. Fornecer bois para a farra rende votos e, o que é mais importante, preserva a incultura do ilhéu e do homem litorâneo, isto é, o mantém sob o jugo. Para perpetuar-se no poder, nada melhor que pequenos currais de eleitores estupidificados pela barbárie.
Mas uma sensibilidade nova parece estar contagiando a ilha nos últimos anos, a idiossincrasia de uma cultura onde o boi, em prosa e verso cantado, sempre foi considerado amigo e companheiro de trabalho. A partir da migração gaúcha rumo a Santa Catarina, forma-se uma massa crítica que permite a denúncia da farra. A internacionalização da denúncia, segundo me consta, foi obra de um gaúcho junto aos grupos antitaurinos em Madri. Para os que, em defesa da farra, brandem o argumento da existência das touradas, é bom lembrar que tanto na Espanha como em toda a Europa, há um movimento organizado e aguerrido lutando pelo fim das “tardes de sangre y de sol”. Com a entrada da Espanha na comunidade européia, tal propósito deixa de ser utópico, pois os demais países-membros podem muito bem optar por sanções econômicas que afetariam duramente a vida dos espanhóis. Mas voltemos à farra.
Os antitaurinos, sem conseguir acreditar na existência de um ritual mais sangrento e estúpido do que a tourada, quiseram ver para crer. Receberam um dossiê com as primeiras e tímidas denúncias da imprensa catarinense e, a partir destas, o escândalo tomou dimensões internacionais. Todo jornalista que, escandalizado com as hecatombes de todas as páscoas, registrou em seu espaço seu protesto, pode orgulhar-se de ter contribuído para esta tentativa de acabar com a farra. Verdade que esta não acabará tão cedo. Mas enquanto existirem, carregaremos a pecha de viver entre bárbaros.
Alegar que a farra é tradição açoriana, inocentando a cultura local, é prático e confortável e parece ser sinônimo de: “se é tradição, nada se pode fazer”. Mas é falso. Porto Alegre e parte do litoral rio-grandense foram colonizados por açorianos e naquelas plagas boi algum é torturado. Por outro lado, mesmo sem conhecer as Açores, não consigo acreditar que nelas se pratiquem tais vilezas. Se nelas a farra existisse, há muito teria sido denunciada pelos milhões de turistas nórdicos, alemães ou franceses que constituem seu suporte econômico.
A tradição, dizia, vem de bem mais longe. Vem do livro que está na base da cultura ocidental e que tanto sangue fez — e ainda faz — correr mundo afora. Não consigo ver como acabar, seja com a farra, seja com as corridas de touros, participando de uma cultura onde milhares de homens, todos os dias, bebem sangue. Não sei se o leitor sabe, mas quando o sacerdote consagra o vinho na missa, o vinho não é mais vinho. É sangue. E muita gente foi queimada e sangrada pela Igreja, por julgar que o vinho continuava sendo vinho, que a consagração era meramente simbólica. E se o leitor duvidar, pode perguntar até para o Leonardo Boff. Por mais avançadinho que se pretenda, aposto que não vai negar que bebe sangue todos os dias. É dogma, e fim de papo.
Enfim, voltando à farra, devo confessar que nela não é exatamente o sofrimento do boi o que mais me preocupa. E sim o que deve existir de hediondo e perverso nos seres que a praticam. Vistos de longe, até parecem gente. A tortura não degrada apenas o torturado, mas também o torturador. Na farra, no fundo, o ilhéu é o boi.
Joinville, A Notícia, 02.04.89
TOVARITCH GORBACHOV NAS ÍNDIAS OCIDENTAIS
Florianópolis — Falei outro dia de dois cidadãos de Forquilhinha, o Paulo e a Albertina. Paulo é o cardeal aquele que reza pedindo ao Pai para que sempre permaneça no poder o tirano que tanto sangue fez rolar em Cuba. Albertina é a minha faxineira e detesta sangue. Mas não consegue viver sem açúcar. Quanto a mim, de doce já me basta a vida. Desaparecesse o açúcar do mercado, em função de algum desses planos mágicos para combater a inflação, eu só ficaria sabendo da coisa pelo olhar súplice da Albertina. Pois sempre reservo uma ração para seu café. Em sua insciência, a coitada nem sonha que desde sempre o açúcar teve sabor de sangue. Mas não era disto que pretendia falar.
Carson Ritchie é um cidadão americano — ou talvez britânico, mas isto pouco importa — que um dia convidou alguns amigos a um bom restaurante. Jantaram à la farta e tudo transcorreu muito bem, pelo menos até o momento da dolorosa. Ritchie puxou a carteira e nela não encontrou dinheiro suficiente. Teve de apelar aos amigos que convidara para jantar. Passado o episódio, considerou que a história da alimentação em algo se parece com esta anedota: quando chega o momento de pagar o banquete, podemos descobrir que aquilo que desfrutamos custa bem mais do que estávamos dispostos a pagar quando nos sentamos à mesa. Terá sido talvez esta gafe o que levou Ritchie a escrever um belo ensaio, Food in Civilization — How History Has Been Affected by Human Tastes.
"O açúcar para adoçar o chá e o café europeu — escreve Ritchie — foi cultivado às custas da escravidão negra. Os peles vermelhas foram expulsos sem piedade das pradarias onde caçavam para que o homem branco pudesse cultivar trigo e milho, e seus búfalos foram exterminados para dar lugar a grandes rebanhos vacuns. Os escritores norte-americanos responsabilizaram as grandes multinacionais fruticultoras pelo caos das economias centro-americanas, construindo ferrovias ilegais, sonegando impostos, manipulando os baixos salários da mão-de-obra não qualificada (já por si suficientemente baixos), expropriando as terras dos camponeses e exaurindo a fertilidade do solo. E tudo isso para que os norte-americanos tivessem bananas como sobremesa!"
Ao debruçar-se sobre os efeitos dos alimentos sobre a História, Ritchie descobre que foram os conceitos errôneos de alimentação e não os corretos, os que demonstraram ter maior influência. "Crenças em que as especiarias aumentavam a virilidade, que o açúcar era essencial para a saúde, ou que para ser forte devia-se beber muita cerveja, condicionaram mais os destinos da humanidade que as autênticas e consolidadas leis da ciência da alimentação". Mas como convencer minha Albertina de que seu vício não passa de um hidrato de carbono sem nenhum valor alimentício? Se os europeus, para açucarar suas tardes, destruíram homens e culturas, na África e nas ditas Índias Ocidentais, como queixar-me de minha faxineira?
Já vi universitários e professores universitários se lambuzando com sorvetes, que além de açúcar contém algo mais nocivo, o sal. Pior ainda, já vi muitos destes senhores que, por uma questão de ofício possuem, ou deveriam possuir, noções de bem comer, dando sorvetes a seus filhos. Assim sendo, sempre tenho em casa um açucareiro cheio para saciar os instintos primários de Albertina e de eventuais formigas que já descobriram o mapa da mina. Sem falar que, quando o café é forte, tipo exportação, não me furto a ajuntar-lhe uma colherinha de veneno.
Pois este hidrato tão prestigiado, que no fundo só serve para produzir cáries, obesidade e doenças cardíacas, produziu mais estragos na trajetória do ser humano do que o próprio sal, que pelo menos tem a virtude de conservar as carnes, fator aparentemente banal mas decisivo na caminhada do Homo Sapiens, seja rumo ao combate, seja rumo a descobertas. E já fez levas de jovens do mundo todo partirem em revoadas rumo àquela ilha tanto amada por Paulo, Cardeal Arns, o conterrâneo de minha voraz consumidora de açúcar.
Pois a cana-de-açúcar deve ser colhida rapidamente quando madura e Castro, preocupado em seguir as diretrizes de Moscou, mandou para Angola a juventude cubana, onde, em vez de ceifar cana, ceifam vidas alheias e muitas vezes perdem as suas. Mas Estados Unidos, Europa, América Latina e mesmo o Brasil, pronto supriram a falta de mão-de-obra. Milhares de jovens, que jamais haviam visto de perto um canavial, bravamente acorreram, de machete em punho, em apoio à ditadura. Verdade que Cuba está passando de moda, o supra-sumo agora é colher café na Nicarágua.
A esta geração, costumo chamá-los de os Novos Cafeicultores. A cada época de colheita, filhinhos de papai da Europa democrática, e mesmo daqui, rumam à Manágua em alegres revoadas onde, sem precisar muita sorte, se pode fazer um rápido estágio na guerrilha, com possibilidades de pós-graduação na Líbia. Mas do que era mesmo que eu falava? Ah, do açúcar.
Foi introduzido no mundo mediterrâneo por Dario, o rei dos persas, trazido da Índia após suas conquistas por lá. Difundiu-se pela Europa e passou ao Novo Mundo graças aos colonizadores espanhóis. Hernán Cortez introduziu a cana-de-açúcar no México. O Caribe proporcionava ao açúcar o clima mais adequado que seu próprio lugar de origem, a Índia, pois lá chovia muito mais. Acontece que os espanhóis jamais iriam trabalhar se encontrassem alguém que o fizesse por eles.
A tarefa foi delegada, se assim se pode dizer, aos índios caribes e arawaks, culturas que logo foram exterminadas. Tendo de buscar mão-de-obra em outra parte, os colonizadores das "Índias Ocidentais" deram uma piscadela de olhos aos portugueses. Estes, tendo observado que os índios, não se adaptando ao trabalho duro, morriam na colheita de açúcar, os deixaram de lado e foram buscar escravos na África.
"Já que espanhóis e portugueses haviam começado a desenvolver suas plantações de cana com a colaboração dos escravos negros, todos os demais pensaram que tinham de seguir seu exemplo. Se assim não faziam, expunham-se a produzir um açúcar mais caro, sem saída no mercado. Resulta irônico comprovar a que ponto haviam chegado os primeiros colonos franceses e ingleses no Caribe: homens idealistas, freqüentemente perseguidos por suas crenças religiosas, e muitas vezes indivíduos de princípios elevados que queriam viver de uma forma mais livre da qual lhes era permitido viver na Europa". Pois estes senhores, diz-nos Ritchie, tornaram-se escravocratas nas Índias Ocidentais. Para satisfazer o paladar europeu.
Outro subproduto da cana, o rum, serviu para incrementar o tráfico de escravos. Quando surgem as primeiras campanhas abolicionistas, seus líderes implantam o primeiro boicote ao comércio infame, adoçando o café com nata em vez de açúcar, e pedindo conhaque francês em lugar de rum. Para ajudá-los a propagar suas idéias, lady Henderson, comerciante em Londres, vende açucareiros com gravado em letras douradas: "Açúcar das Índias Orientais, não produzido por escravos".
Falar nisso, sei lá porquê, lembrei uma historinha que li recentemente. Uma galinha surge nas ruas de Havana e é perseguida por um bando de cubanos famintos. A galinha descobre um bueiro e nele se esconde. Em seguida, um ovo surge rolando na esquina e é logo perseguido. A galinha o chama para seu esconderijo. Aparece então na calçada um filé. Antevendo o perigo, a galinha e o ovo chamam o filé para o esconderijo. Mas o filé, sem se apressar, responde calmamente: "não se preocupem, não há nenhum problema. A mim, eles não reconhecem mais".
Confesso não saber porque me ocorreu a anedota. Enfim, falava de comida e civilização. Em verdade, não era disto que pretendia falar. Em verdade, pretendia comentar a visita do líder soviético Mikhail Gorbachov à Cuba de Castro. Vai ver que é por isso que lembrei do filé. Pois os cubanos estão vivendo a nível de fome, enquanto Castro se dá ao luxo de mandar soldados para a África e exportar sua "revolução" para a América Latina. Com todo seu messianismo, o Líder Máximo não conseguiu livrar seu feudo da fase da monocultura. Cuba, hoje, só subsiste graças aos cinco bilhões de dólares anuais fornecidos por Moscou. Trocados por açúcar vendido por preço acima da cotação de mercado.
Pouco entendo de protocolo, mas imagino que Castro oferecerá um café a Mikhail e Raíssa. Seria bom ver com que tipo de açúcar tovaritch Gorbachov adoça o seu, se com o açúcar de homens livres ou com o açúcar da ilha.
Joinville, A Notícia, 09.04.89
LÁ!
Florianópolis — Lá! Lá onde nos bares não há cerveja e quando cerveja há, sempre está morna; onde todos falam baixinho, temendo que ao lado o vizinho pertença à polícia; onde em um restaurante se espera duas horas na fila para se comer um frango com fritas, isso quando não falta nem frango nem fritas; onde o garçom lhe joga o prato na cara julgando estar prestando um favor; onde os restaurantes de luxo, se de luxo se pode falar, são proibidos ao cidadão comum e somente acessíveis ai turista com dólares; onde só o dólar compra, nas berioskas, o que de melhor o Ocidente oferece; onde a moeda local compra menos que um cruzado-louvado-seja Machado; e mesmo se algo comprasse, pouco ou nada há a comprar. Lá!
Lá onde telefones são grampeados e uma ligação interurbana exige três ou quatro horas de es