Correinha
o Caçador de Bandidos
Líder do Verdadeiro Esquadrão da Morte
Astorige Corrêa
Edição Supervirtual
Versão para eBook
eBooksbrasil
[Texto integral. As imagens omitidas estão indicadas.]
Fonte digital: digitalização da edição em papel
Edição do Autor
São Paulo 2005
ISBN 85-905174-1-1
1ª Edição — Volume I — Março de 2005
Copyright 2005 by Astorige Corrêa
Editor: Astorige Corrêa de Paula e Silva
Capa e Design Gráfico: Danillo Santos Aiosi
Digitação: Ana Carolina Valfogo
Revisão: Luciene Romano de Sá
Ficha catalográfica
Corrêa, Astorige
Correinha, O Caçador de Bandidos, Líder do Verdadeiro Esquadrão da Morte/Astorige Corrêa;
l. ed. São Paulo — SP — 2005
ISBN 85-905174-1-1
1. Policial. 2. Auto-biográfico. I.Título.
Contatos:
ARBO Graphic Design
11 5669 1803
cacadordebandídos@terra.com.br
www. arbodesign.com.br
2005 Impresso no Brasil
Foto da Capa:
Correinha, após a prisão de dois assaltantes de banco no antigo morro da Bela Vista, 1967
Copyright
©2006 Astorige Corrêa
A leitura deste livro é emocionante. Enaltece, com justiça, a bravura, a valentia e a honra. A vida de um homem, cujo espírito de luta, garra e determinação são notáveis. Aqui, você tomará conhecimento das lutas diárias contra o crime e os criminosos. Sentirá também que um bom policial traz em sua alma ternura, sensibilidade e beleza no espírito. Esta narrativa põe a descoberto não só as mazelas e as virtudes da polícia e dos seus dirigentes. Revela, também, a arrogância de alguns magistrados e a grandeza de outros. Critica com veemência a atuação daqueles que acusam simplesmente por acusar e, para fazê-lo, o fazem sem critério algum. Esta obra, por certo, fará com que a coisa pública que trata sobre polícia e justiça seja vista e revista em sua dura e cruel realidade. Fará com que os legisladores, ao legislar sobre a matéria, estudem com mais atenção o assunto e busquem saber dos que realmente sabem, os policiais e as vítimas, subsídios para legislarem com sabedoria e conhecimento de causa.
O Autor
Índice
Epígrafe
Agradecimentos
Dedicatória
Prefácio por Afanasio Jazadji
Prólogo
Capítulo I
Saponga: O Facínora
Capítulo II
O Mutirão
Capítulo III
O Caso dos Irmãos Cardoso
Capítulo IV
O Milagre de Natal
Capítulo V
O Caso de Taquarituba (SP)
Capítulo VI
O Homem que Prendia é Preso entre Bandidos
Capítulo VII
Carta ao Juiz Corregedor
Capítulo VIII
Momentos de Reflexão
Epílogo
Astorige Corrêa
CORREINHA
O CAÇADOR DE BANDIDOS
LÍDER DO VERDADEIRO ESQUADRÃO DA MORTEvolume I
As flores que glorificam tua vida,
desabrocham em sua plenitude de doces
aromas, lindas cores e suaves perfumes.
Última homenagem da natureza ao teu
espírito de luz nunca compreendido.
O Autor
Agradecimentos:
Danillo Santos Aiosi e Alexandre Mena. Pessoas cuja colaboração foi determinante na feitura desta obra.
E ainda, a Marinês Campos do Jornal da Tarde.
Ao Deputado Afanasio Jazadji.
Ao Vereador Antônio Goulart.
Ao Dr. David Santos Araújo.
Ao Jornalista Percival de Souza.
Ao Jornalista Gil Gomes.
Ao Dr. Joseval Peixoto Guimarães.
Ao Dr. Abdala Aschcar.
Ao Dr. Ney Gonçalves Dias.
Homenagem póstuma ao Jornalista Hélio Ribeiro.
A eles minha eterna gratidão pelo apoio e a ajuda humanitária nos piores momentos da minha vida.
Dedicatória:
Ao meu filho Sinouhe a quem muito amo e
também por ter sugerido o título desta obra.
Ainda às minhas filhas Eliana e Semíramis.
A todos os policiais que perderam a vida
no cumprimento do dever, civis ou militares.
E aos seguintes policiais que estiveram ao meu lado em momentos cruciais:
Massaro Honda
Dr. Ernesto Milton Dias
Oscar Matsuo
W. Veneziano
Juliano
Geraldo Jorgino
Oscar Caser
Ciganinho
Geraldo Jacareí
Valdinir Vilela de Oliveira
Walkir Vilela de Oliveira
Salvio Fernandes do Monte
[imagem]
Correinha aos 27 anos de idade.
Prefácio
Por AFANASIO JAZADJI
Este livro é um marco na nossa história recente. É a primeira vez que alguém não só assume ter pertencido ao Esquadrão da Morte, como também declara ter sido o líder do verdadeiro EM que atuou em São Paulo nas décadas de 60 e 70.
Astorige Corrêa passou boa parte de sua vida preso. Dizem que “segurou” a situação de muitos policiais. Calado, com dignidade, sofrendo pelos outros, mantendo a postura de policial durão...
Correinha foi um caçador de bandidos. Invejado dentro e fora da Polícia Civil paulista, com ele toda missão tinha de ser cumprida. Na sua época, criminoso famoso ou não era procurado pelas “quebradas”, tinha seus “mocós” (esconderijos) invadidos e, irremediavelmente, “caía” (era preso ou morto).
Com sua têmpera de homem de sangue quente, nunca deixando de falar o que lhe vem à cabeça, e sempre se colocando como policial em favor do bem, não fazendo acordo com delinqüente, endinheirado ou não, agindo às vezes com extrema valentia, Correinha ajudou a promover na carreira inúmeros delegados.
Muitos foram guindados à condição de diretores de Departamentos e acabaram sentando-se no cobiçado Conselho da Polícia Civil, tornando-se “cardeais”. Astorige Corrêa nunca combateu idéias, razão pela qual sempre se recusou em trabalhar no DOPS, a polícia política. Sabe-se de gente “com culpa no cartório” que o abandonou temendo até mesmo ser visto ao seu lado...
Correinha, como se diz na gíria policial, “segurou todas as broncas sozinho”, assumindo o que fez, abominou denúncias descabidas, recebeu apenas uma condenação por um crime que não praticou. Passou pelo Presídio da Polícia Civil e Penitenciária do Estado, ainda que tivesse direito à prisão especial, correu risco de ser assassinado no cárcere, mas a tudo enfrentou, com honra, dignidade e principalmente de “bico calado”.
Conheci Correinha como repórter de polícia, iniciando na grande imprensa, no começo do ano de 1968. Por força do ofício, fiz dezenas de coberturas jornalísticas de casos policiais com a participação direta do Investigador Astorige Corrêa de Paula e Silva.
Com seu indefectível colete de couro preto e tendo à mão sua inseparável Winchester calibre 44, Correinha escreveu seu nome na galeria dos investigadores mais destemidos da Polícia Civil de São Paulo. Nunca se envolveu em corrupção e nem no consumo de tóxicos.
O ideal de Correinha era catar bandido. Estivesse aonde fosse. Quanto pior era o cara, mais Correinha vibrava e se lançava na sua captura. Foi assim, por exemplo, com Saponga, assassino do Investigador David Romeiro Pare, cuja vingança Correinha jurou na hora do sepultamento e cumpriu a palavra, não muito tempo depois, matando Saponga nas matas do Tremembé. Aliás, fui o primeiro repórter a chegar ao local e essa notícia foi a primeira que assinei no dia seguinte em matéria publicada pela “Folha da Tarde”.
Pela leitura deste livro teremos clara noção de que mesmo com o sofrimento, dele e principalmente da família, Correinha não perdeu sua convicção e nem teve sua moral arranhada. Continua sendo um homem de fibra. Fica aqui patente a coragem de assumir a condição de líder do verdadeiro Esquadrão da Morte. Por quê verdadeiro? O Correinha explica neste livro...
Alguns relatos feitos neste livro são inéditos. Nem seus amigos mais próximos, e aí eu me incluo, tinham conhecimento de certas passagens. Vale ressaltar que este não é um livro de ficção. Na ótica de um dos seus principais membros, a história do verdadeiro Esquadrão da Morte que existiu em São Paulo, e do qual muita gente do povo ainda tem saudades, começa a ser contada.
AFANASIO JAZADJI
* Jornalista * Radialista * Advogado *
* Publicitário * Deputado Estadual *
* Vice-Presidente da API — Associação Paulista de Imprensa *
Prólogo
POR QUE ESCREVER UM LIVRO?
Amigos, familiares, pessoas ligadas à mídia, me afirmam sempre que devo narrar minha história e fazer dela um livro. Nesses anos todos, tenho essa iniciativa evitado. De minha existência já longeva, avisto, não muito distante, o final do caminho se aproximando.
Gostaria que tivesse lá chegado, antes de tantas lutas e porfias.
Decidi agora escrevê-lo. São acontecimentos por demais penosos que vi e vivi com meus próprios olhos e sofri com meu corpo (um templo sagrado), por várias vezes ferido e meu sangue, em vão derramado. Aqueles que lerem este texto, tomarão conhecimento de uma história sem precedentes e nisso está seu valor e sua beleza. Minha alma, desde a juventude, sempre buscou a verdade e a sabedoria. Encontrei-as, não obstante a busca incessante, apenas em parte. Nem poderia ser diferente.
Muitos desejam conhecer a verdade em detalhes das lutas e das glórias passadas. Cálice amargo que me impôs o implacável destino. Gostariam também, acredito eu, de tomar conhecimento dos infortúnios que ainda agora me acompanham. Quero mostrar aos leitores minúcias e causas da suprema ruína que me atingiu através do maquiavelismo de homens pequenos, de baixa estatura moral, sem honra, e sem dignidade, que usaram seus cargos e a justiça a quem deveriam servir com imparcialidade, e assim não o fizeram, muito pelo contrário, a usaram para atingir seus objetivos torpes, e praticar uma das maiores injustiças contra um policial que apenas cumprira com o seu dever. Começarei a narrativa, não obstante meu espírito recue ante tanto luto, tristezas e humilhações que a vida e os homens me impuseram.
Entretanto, verão, nas linhas traçadas em meu limite, pois escritor não sou, que a valentia e a coragem não deixaram de habitar meu espírito, nem meu coração. Virtudes que nasceram comigo em longínquo sertão e haverão, com certeza, de acompanhar-me até a derradeira morada. Qualidades que terminam por gerar ódio nos corvos que se acovardam ao sentir a presença de uma águia em seus ninhos.
Quando terminarem de ler essa contemporânea odisséia, repleta de mil emoções humanas, não me nomeiem de mito ou lenda viva, como o fazem alguns órgãos da imprensa. Saberão que fui apenas um sertanejo, tolo e idealista que passou pela vida e pelas páginas da mídia, como um simples dente da engrenagem do poder público, que nunca foi corrompido, e que nunca se desviou dos seus valores e princípios. Aos meus filhos, deixo como única herança, a honra e a lealdade, valores maiores que sempre nortearam minha caminhada.
Os rastros que deixarei neste solo brasileiro, terra que amo e onde com orgulho nasci, serão com certeza, pelo implacável tempo, apagados. Mas minha história, escrita, viverá após a morte e me dará vida. Ides notar também, que nas linhas onde o meu pensamento tenta, através de palavras, levar ao seu conhecimento e ao seu espírito, emoções, ora de alegria, que foram poucas, ora de tristeza, que foram muitas, aventuras e desventuras, que em diversos pontos dessa narrativa escrevo, vezes várias, refiro-me a bravura e valentia. Entretanto não há nisso, jactância, orgulho, ou falta de modéstia, são apenas fatos que posso, com documentos, todos prová-los. Tangencio muito também, as palavras honra e dignidade. Assim, pergunto pois, qual dessas virtudes são vistas pelos olhos humanos, ou que sejam percebidas por qualquer um dos outros sentidos?
Afirmo serem todas elas coisas abstratas e invisíveis, por um motivo claro e lógico: Todas são parte integrantes de um homem tido como temerário, mas que na verdade tem a alma sensível e o caráter íntegro e brando, tolerante e paciente, que tem buscado sempre o saber e a cultura, para aprimorar em si essas virtudes. O homem que traz em seu ser, a coragem e a valentia, assim o é porque há muito aprendeu a dominar o medo, sentimento inerente a todos os seres humanos. Assim sendo, deixou de dar ao seu corpo material a importância que deveria dar ao colocá-lo em risco. Quando me recolho ao mais recôndito do meu ser, para, num momento prolongado de reflexão e auto-crítica, e assim buscar melhor me conhecer, de repente, não sinto mais o meu corpo. Sinto apenas meu espírito com quem consigo uma conexão única. Nesse momento, procuro de forma incessante, a sabedoria e a verdade. A primeira, sei, posso alcançar em parte, a segunda, com certeza, só tomarei conhecimento após a morte.
“Somente depois da morte podemos julgar se fomos felizes ou infelizes em vida”
Montaigne — Ensaios — I
Ao bravo, pouco lhe importa o destino do seu corpo, desde que esteja lutando por uma causa justa, Entretanto o destino da alma, se lhe é muito mais importante, pois sabe, que através dela virá, um dia, tomar conhecimento da verdade eterna, fato que nesta existência nos é vedado saber. Ao valente a morte não aborrece, ocorra como e quando ocorrer e com certeza, não sentirá nesse momento supremo da vida, qualquer temor.
Com a separação do corpo físico, a alma que é etérea, seguirá para sua morada em algum lugar no universo. Ali, presumo, a verdade que em vida tanto buscou, lhe será revelada.
Por isso tudo, que creio, ter bem explicado, que na valentia, na honra, na dignidade, e na coragem, mérito algum existe. Pois o homem que as possui, consciente do que acima foi dito, não anda pela vida em busca de lauréis ou glórias, dois impostores passageiros, que nada lhe acrescentarão à vida mais adiante e em breve estarão por todos esquecidos. Busca sim, o saber e a verdade, coisas reais que à nossa alma eterna, revela a paz, o amor verdadeiro a tudo o que existe no universo, e a sensação de que durante sua vida física fez o melhor que pôde e lutou até o último segundo em defesa de valores nobres, e por isso, lá no Hades, com certeza, terá alcançado a tão almejada felicidade eterna. Não desejo e nem posso tecer uma comparação entre a minha vida e a de Sidartha (BUDA), entretanto, temos algumas coisas em comum: ambos saímos do fausto e da riqueza para a miséria — não miséria moral e (nem intelectual — e sim, material. Encontramos nossos demônios e neutralizamos suas flechas de fogo. Ele encontrou sua árvore da iluminação espiritual, eu ainda a procuro. Ele atingiu o Nirvana, há tanto não espero chegar.
“Os homens, quaisquer que sejam os favores com que os acumule a sorte, não podem estimar-se felizes enquanto não vêem chegar o seu último dia”.
SOLON
[imagem]
Na foto, Correinha aparece momentos antes da invasão de um “barraco” onde se homiziavam perigosos assaltantes de banco.
DEIC 1968 — Setor de Assaltos a Banco
Fonte: Última Hora — Novembro/1967
Capítulo I
SAPONGA:
O FACÍNORA[imagem]
Na foto, Saponga. Um facínora que não respeitava a vida humana
Não possuo, ao meu julgar, um belo estilo. Episódios que narro em minha escrita estão distantes de transmitir belas cenas, ou traduzir lindas e tocantes pinturas. Talvez não haja brilho nem erudição nesta composição. É em intuições espirituais que tento, e não consigo, psicologicamente o meu intento de vos transmitir emoção, o que desejo. Busco, então, na autenticidade dos fatos e na verdade, duas virtudes em que creio, honrar um homem, cujo destino não escolheu e ante o inevitável, com valentia e coragem essa vida viveu!
Durante anos trabalhando nas lides e nos meios policiais, nunca abandonei o hábito de estar sempre atento a tudo o que ocorria à minha volta. As pessoas nascidas no sertão aprendem logo, no limiar de suas vidas, a aguçar os sentidos, em virtude dos inúmeros perigos a que estão sempre expostos no ambiente rural. Uma planta venenosa que fere, (Urtiga), uma serpente que rasteja no solo ou nos galhos de uma árvore, uma aranha venenosa que se esconde sob folhas, escorpiões, ou ainda um ataque de animais de grande porte como uma onça, ou uma silenciosa e faminta sucuri. E muitas outras ameaças que se ocultam nas florestas. Por isso o sertanejo é um ser sempre alerta. Uma questão de sobrevivência.
Quando, além dos atributos acima se juntam um cérebro que analisa, olhos que observam, a perspicácia capaz de ler e interpretar um olhar, um gesto, uma expressão facial que se modifica e, após isso tudo, formar analiticamente um conceito ou um raciocínio, que tragam ao seu espírito um quadro claro da realidade que o cerca, fica mais fácil relacionar-se com as pessoas com as quais se convive no dia a dia e a se defender ou prevenir-se das que não se conhece muito bem. Convivi com policiais que traziam em si as mais diversas personalidades. Cada ser humano é um universo apartado de outro. Cada caso é um caso e como tal deve ser tratado de forma e conceito diferente. Não se cogita, com essa assertiva, qualquer tipo de discriminação. Mas, acima de tudo, de um método disciplinado, cuja prática, muito nos ajuda na arte de viver. E com o passar do tempo, esse método vai se tornando mais eficiente. Vi e acompanhei a trajetória de jovens que entravam para os quadros funcionais da Secretária de Segurança, e que traziam consigo educação de usos e costumes, a prática da religiosidade, o vocabulário limpo, sem gírias ou impropérios, o esmero no se vestir, etc.
Entretanto, o meio em que vieram militar os obrigava a tratar com o que de pior existe no seio da sociedade. A pressão a que eram submetidos para apresentar resultados, o medo e a apreensão causavam, às vezes, como resultado, serem acometidos por incontrolável tanatofobia ao enfrentar situações de violência, para as quais não estavam preparados, ou não tinham o espírito afeito para tal. Assim, iam, no dia a dia, modificando suas personalidades e sua maneira de ser, de falar, de pensar e de agir ou reagir diante de diferentes situações. Ficavam irreconhecíveis e, na maioria das vezes, levavam para seus lares esse comportamento, o que lhes causava sempre grandes infelicidades pessoais. Nisso se percebe claramente o descaso dos dirigentes e governantes, que preferem ignorar esses fatos tão prejudiciais que, aos poucos, vão destruindo a estrutura emocional de um policial, levando-o, não raras vezes ao vício das drogas ou do alcoolismo ou até mesmo à prática de crimes. Esses jovens não eram devidamente preparados para tão ingrata profissão. E hoje, menos ainda, pois passam cerca de 90 dias fazendo um curso na Academia de Polícia, que nada acrescenta de positivo, pois é falho e ineficiente. Não há um preparo psicológico especificamente dirigido ao jovem que vai para as ruas enfrentar a brutalidade e a violência.
Nem há, durante sua carreira, nenhum acompanhamento médico-psíquico que possa detectar o início dessa nefasta modificação de comportamento. Nada é feito nesse sentido. E o resultado é as mazelas que surgem a cada dia em maior número em Departamentos e Delegacias de Polícia e as vítimas são os policiais que ficam entregues à sua própria sorte, sofrendo a aplicação de medidas disciplinares, sem que alguém lhes aquilate a verdadeira causa de seu comportamento anômalo.
Ao invés de tratamento necessário, punições grosseiras e injustas. Esse é o quadro que se nos é apresentado. E os cegos que não querem ver continuam cada vez mais cegos. Lavar as mãos é mais fácil do que buscar soluções para proteger e salvar um profissional que exerce sua áspera função sem nenhum reconhecimento, e sem nenhum amparo. E na maioria das vezes, paga um alto preço, que termina por destruí-lo como policial e como ser humano. O Presídio da Polícia Civil está com super lotação. Nenhum dos policiais ali detidos foi submetido a qualquer tipo de exame médico, clínico ou psiquiátrico. Delegados Corregedores, Juízes e Promotores, jamais atentaram para esse detalhe, num flagrante desrespeito à figura humana do policial e às agruras por que passa no exercício de suas funções.
Até quando?
Faço essas considerações, para que o leitor possa melhor compreender o episódio de que trata esse capítulo.
Em 1968, uma gentil senhorita, estudante, com 16 anos de idade, ao voltar do Colégio, foi atacada por dois marginais na zona leste da cidade. Arrastada para um drive-in abandonado, foi brutalmente estuprada de todas as formas possíveis e imagináveis e em seguida assassinada com requintes de perversidade e crueldade tão vis, que seria atentar contra o espírito e à sensibilidade de qualquer pessoa normal descrever aqui os detalhes do crime. Estava de serviço na RUDI, e fui chamado para atender, juntamente com uma equipe da Delegacia Especializada de Homicídios, à ocorrência. A cena com que nos deparamos no local foi tão chocante, que ficamos todos, policiais experientes e afeitos à toda forma de violência, emocionalmente abalados. Convocamos a Polícia Técnica e os Peritos do Instituto Médico Legal, para as providências de praxe e posterior remoção do corpo para o IML, onde seria procedida a autópsia exigida por lei nesses casos. Durante essas providências, um dos Investigadores da Delegacia de Homicídios perdeu completamente o controle emocional e chorava alto. Tentei acalmá-lo. Só depois de muito conversar com ele, consegui que se controlasse e voltasse à normalidade. Era um jovem policial. Iniciante na carreira, era o que chamávamos de “Tira dente de leite”. Seu nome, fiquei sabendo posteriormente, era Davi Romero Pare. Antes de prosseguir a narrativa a que me proponho, abro um parêntesis, para informar ao leitor que trabalhei nesse caso dia e noite. Identifiquei os autores do hediondo crime, que o confessaram em detalhes, e assim, tiveram o que mereciam. Nos dias que se seguiram, nasceu entre mim e Davi uma amizade sólida e sincera. Nos identificávamos muito na maneira de ser. Não na de agir. Meu novo amigo procedia do Estado de Mato Grosso. Estudara em seminário e chegou mesmo quase a ser ordenado sacerdote, carreira da qual abdicou por achar que não tinha a necessária vocação. Seu pai era um Oficial de alta patente do Exército. Sua mãe vinha de humilde família de agricultores. Era casado e possuía um lindo casal de filhos ainda de tenra idade. Nesse meio tempo, fui transferido da RUDI, para voltar à Delegacia de Roubos, exatamente para o Setor de Assaltos Roubos e Extorsões, e voltar a chefiar o conhecido “Esquadrão da Morte”. Esse fato foi noticiado em todos os jornais da época, e essas manchetes serão todas apresentadas nos próximos capítulos. Almoçava com Davi, sempre que as circunstâncias o permitiam.
Nos finais de semana, freqüentávamos sempre um a casa do outro. Davi era um jovem brilhante, possuidor de grande cultura erudita. Gostávamos de ouvir óperas e músicas clássicas. Enfim. uma amizade que nos satisfazia a ambos, pois nos identificávamos nos gostos e na forma de pensar, filosófica e intelectualmente falando. E, durante nossas conversas, ele sempre me solicitava que usasse de minha influência pessoal, para que ele fosse transferido da Delegacia de Homicídios para a Delegacia de Roubos, onde achava que poderia ter mais ação e aprender a ser um policial mais eficiente, dado às limitações de competência administrativa do Departamento onde exercia suas funções. Eu desconversava sempre. Dizia a ele que a Delegacia de Roubos era um local que expunha todos os policiais a grandes riscos, e que achava que ele ainda muito jovem e inexperiente para trabalhar ali.
Transcorria o segundo semestre de ano de 1968. Davi sempre insistindo nas solicitações para ser transferido para a Delegacia de Roubos. Acabei cedendo. Pois, para um amigo, deve-se fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para fazê-lo feliz. Assim, conversei com o Diretor do DEIC, e no dia seguinte meu amigo assumia suas funções na nova Delegacia. Conversei com o Chefe Geral dos Investigadores, e pedi-lhe que o colocasse em uma equipe, que fosse tranqüila e mais amena em suas ações. Davi passou então a fazer parte da turma do Investigador Xavier. Um grande Policial, calmo e tranqüilo, que conduzia o seu pessoal com mais equilíbrio e cuidados. Com isso, fiquei despreocupado com a segurança de Davi. Eu, no comando de minha equipe, estávamos trabalhando dia e noite. Os períodos de descanso eram muito poucos, pois até mesmo nos finais de semana estávamos nas ruas. Investigando, prendendo, formalizando inquéritos. Não raras vezes, as prisões eram difíceis e perigosas com troca de tiros, correria pelas ruas do submundo do crime. Entretanto, estávamos todos vivos. Apresentávamos ferimentos leves que não nos impediam de continuar a busca do nosso objetivo de lutar sem tréguas contra bandidos e criminosos de alta periculosidade. Outras equipes da Delegacia estavam agindo da mesma forma. Como resultado desse árduo trabalho, e o esforço conjunto de todos, os índices de criminalidade já haviam caído 70%. Sua Excelência, o Desembargador Hely Lopes Meirelles, então Secretário de Segurança Pública, estava satisfeito com esses resultados. Sua ordem de combater a onda de violência, crimes e assaltos que assolavam a cidade de São Paulo, com ação enérgica e contínua estava sendo cumprida e obtendo os resultados desejados. Já podíamos, com isso, diminuir um pouco o ritmo. Descansar um pouco mais. Passar pelo ao menos um ou outro domingo com a família. Essas pausas traziam como conseqüência um melhor desempenho de todos. As férias, aos que tinham esse direito, haviam sido suspensas. Todo efetivo da Polícia Civil estava empenhado em pôr cobro à ação dos delinqüentes e dos traficantes de droga. Os entorpecentes sempre foram a mola propulsora do crime. Eu e minha equipe sabíamos desse fato. Isso é tão verdadeiro — nos dias de hoje a situação não é diferente — que a maioria das prisões de bandidos, os mais procurados e violentos, ocorreu nas “bocas” de venda de drogas e, como conseqüência, os traficantes também eram presos e autuados em flagrante por tráfico e venda de substâncias proibidas. Com a diminuição dos pontos de venda de entorpecentes, tivemos dois resultados:
a) Diminuição do volume de ocorrências e atos criminosos;
b) O surgimento de uma guerra interna das dependências do DEIC.
O primeiro item, por si só se explica. Entretanto, o segundo, merece uma explanação mais detalhada, para que o leitor possa entender com maior clareza os seus motivos. Corrupção sempre foi um mal presente nos meios policiais. Naquela época, o número de policiais corruptos era bem reduzido. Nos dias atuais, nada posso afirmar nesse sentido, por estar, há muitos anos afastado da Polícia e não manter, quase nenhum contato com policiais que hoje exercem suas funções e nem freqüentar qualquer dependência da Secretaria de Segurança. Nossa ação, firme e resoluta, foi eliminando pouco a pouco as “bocas” e os traficantes. Isso gerou grande revolta e animosidade em alguns policiais que exerciam suas funções na Delegacia especializada de combate às drogas. (Hoje, DENARC). Em virtude de receberem vultuosas quantias de dinheiro, semanalmente, dos traficantes. Com o fim dessa renda ilegal e vergonhosa, começaram a alardear ameaças, as mais variadas, inclusive de morte, contra mim principalmente e a outros policiais da Delegacia de Roubos. Ameaças vãs. Pois o homem que não possui coragem moral, por conseqüência, não possui coragem física. O confronto que pregavam jamais aconteceria. O corrupto traz consigo, como parte inerente de sua personalidade, a covardia. Por isso, nunca demos importância a tais desconchavos verbais, principalmente por partirem de quem partiam. Houve apenas um incidente no corredor da Delegacia de Roubos, situada no terceiro andar do edifício do DEIC. O Chefe dos Investigadores da Especializada de Entorpecentes, ao cruzar comigo, dirigiu-me um desaforo de passagem.
Em seguida, entramos em luta corporal. Obeso, viciado em drogas, embora armado, não teve tempo de fazer uso de sua arma. O despreparo físico, sem condições morais para dizer o que disse, perdeu a razão. E tomou uma surra bem dada. Não podendo evitar a derrota, correu rumo às escadas, para buscar ajuda e abrigo no oitavo andar, onde se encontrava seu local de trabalho, e talvez, quem sabe, a intervenção de um dos seus parceiros, canalhas como ele. De nada lhe adiantou correr. Persegui-o pelas escadas, dando-lhe tapas na orelha, e alguns pontapés no opulento traseiro.
Uma vez no oitavo andar, ele, já no limite de suas forças, entrou inadvertidamente na sala do seu Titular, indo se esconder atrás da cadeira do surpreso e espantado Delegado que, diga-se de passagem, tratava-se de autoridade honrada e moralmente inatacável, e por certo desconhecia as mazelas de seus subordinados. Uma vez ali, “Russinho”, essa era sua alcunha, pedia aos gritos, socorro ao Dr. Carlos, dizendo que eu pretendia matá-lo. Eu disse ao Delegado, que não tinha tal intenção. Pois aquele canalha, não valia uma bala de cal. 38. Dei-lhe mais uns tapas no rosto gordo e já avermelhado pelas pancadas recebidas. Em nenhum momento quis machucá-lo de verdade. Adversário tíbio, sem honra e sem nenhuma condição de me enfrentar em uma luta para valer. Desculpei-me com aquela Autoridade o lamentável fato, e disse a ele que poderia, se quisesse, tomar as providências disciplinares cabíveis, e retirei-me do local, indo em seguida, comunicar ao meu superior hierárquico o ocorrido. Ele me disse que poderia ficar tranqüilo. Que deveríamos esperar a outra parte mexer a primeira pedra no tabuleiro. Não houve nenhuma medida disciplinar. “Russinho” não quis que isso ocorresse, porque eu revelaria suas ações vergonhosas, e as poderia provar, e a verdade viria à tona com clareza. Ele não quis correr o risco e o incidente foi encerrado. Esses acontecimentos foram alvo dos mais variados comentários entre os policiais de todas as Delegacias, virando, no final, falácia de gozação e chacota. Nunca me preocupei com qualquer tipo de represália. Sabia, com que tipo de escória estava lidando. Como afirma a sabedoria popular, cães que muito ladram não mordem.
“DIÁRIO DA NOITE”
04/02/1969 — Número 13.334
“Pistoleiros contratados pelos traficantes.
GANG vai enfrentar Esquadrão”
Dois meses antes de todos os acontecimentos até aqui narrados, um marginal dos mais, ousados, atrevido e violento, havia sido personagem de um dos fatos mais incríveis da crônica policial. Havia fugido da Penitenciária do Estado, um presídio de segurança máxima, sem contar com a ajuda ou conivência de quem quer seja. Um feito fantástico, o que, por si só, demonstra a personalidade e o grau de periculosidade de tal indivíduo. Já estava condenado por dezenas de delitos graves. Latrocínios, assaltos e homicídios. E agora, nas ruas, por certo, voltaria a agir com mais virulência. Carlos Eduardo da Silva, vulgo “Saponga”, esse era o nome do facínora. Já nosso velho conhecido, pois praticava crimes desde a menor idade.
Oriundo de pequena cidade do interior, onde se iniciou em pequenos furtos, pressionado pela família e pela polícia local fugiu de casa, vindo para São Paulo, onde passou a agir com mais liberdade. Logo se juntou a marginais mais velhos e mais experientes, com quem aprendeu, com grande desenvoltura, os caminhos do crime e da violência desmedida. Era a ovelha negra da família, gente correta e ordeira, entretanto, como já afirmamos anteriormente, quem nasce com a tendência de delinqüir, vai delinqüir sempre, sem que haja qualquer terapia de recuperação. Fazia parte de nosso dia a dia examinar todos os boletins de ocorrência que versassem sobre assaltos, enviados pelos Distritos da Capital. E, entre eles, já havíamos notado que, em vários, a descrição do autor e seu “modus operandi” coincidiam com as características de Saponga.
Urgia, pois, detê-lo, antes que prosseguissem as barbáries que vinha cometendo. Deveríamos, então, dedicar nosso tempo e atenção em levantar o paradeiro dessa besta e devolvê-lo para trás das grades, local de onde nunca poderia ter saído, por ser uma terrível ameaça aos membros da sociedade. Estávamos no dia 18 de Novembro de 1968. No dia seguinte, ficou concertado entre mim e os membros de minha equipe, iniciaríamos os trabalhos de investigação e busca ao bandido. Comunicamos o fato aos nossos superiores, que determinaram prioridade absoluta para a captura de Saponga. O dia seguinte. Melhor mesmo, nunca ter existido. Um dia sem brilho. Um dia de sombras, de dor e desespero.
19/11/68. Mais ou menos 15 horas. Estávamos na zona leste, a procura de um informante, que ficamos sabendo, poderia nos indicar o paradeiro do marginal. O rádio da viatura, como sempre, permanecia o tempo todo ligado.
Até ali, só havia transmitido ocorrências de rotina. Nenhum fato mais grave. Entretanto, alguns minutos depois, o controlador entrou no ar e sua voz, transtornada, pedia prioridade para as viaturas que estivessem na zona sul da cidade, para que acorressem, a determinado endereço, em auxílio e apoio a uma equipe da Delegacia de Roubos, da qual, um dos policiais havia sido ferido a tiros por um marginal. Em seguida, já todos nós em alerta total, solicitamos maiores e melhores esclarecimentos do controle. Entretanto, ele também não possuía outras informações, a não ser as já comunicadas. Pediu que aguardássemos, pois estava empenhado em obter os nomes dos envolvidos e maiores detalhes e que, quando de posse dessas informações, passaria para toda a rede. Interrompemos nosso trabalho, e com a sirene aberta, nos deslocamos rumo ao DEIC, na esperança de ali tomar conhecimento de todo o ocorrido, bem como com qual equipe a tragédia havia ocorrido. Nesse ínterim, a primeira viatura do Departamento que chegou ao local, também pouco pode informar. Disse apenas que o policial ferido já havia sido levado por seus companheiros para algum Hospital da zona sul, até então, desconhecido. Chegamos ao DEIC. Uma vez na Delegacia, corremos até a Chefia Geral, onde o Chefe, consternado, em silêncio, em sua mesa, ao me ver, levantou-se, veio ao meu encontro e já chorando, me abraçou. E entre soluços, me disse que a equipe envolvida, era a do Investigador Xavier, e o policial, cuja morte já fora confirmada, era Davi, o meu amigo, quase um irmão.
Musa, lembra-me as causas:
Que divindade foi ofendida
Ou por que a rainha dos Deuses,
Ressentida, obrigou um varão
Insigne pela piedade
A correr tantas aventuras,
A sofrer tantos trabalhos?
Eneida de Virgílio
[imagem]
Momentos antes do sepultamento do investigador Davi, assassinado por Saponga, Correinha, após pronunciar o panegírico, jura vingança e aí começa a grande caçada
O que senti nesse momento, não há como descrever. Sei que chorei. Muitos choraram. Outros muitos, em silêncio as frontes baixaram. Cada um, teve sua forma e intensidade no sentir. Em comum, a revolta pela perda de mais um companheiro de lutas. A vingança, nunca fez parte do meu ser, e nunca habitou o meu espírito. Mas naquele instante, meu coração foi tomado por esse sentimento pequeno e vil, peculiar às almas tacanhas que o cultivam, na maioria das vezes, por motivos fúteis. Retirei-me do tumulto. Desci até a rua. Entrei em nossa viatura, e ali, em silêncio dei vazão à minha dor chorando em silêncio, até ao anoitecer. Ninguém me interrompeu. Uma demonstração de respeito ao meu estado de alma. Mais tarde, nos dirigimos ao IML, para apressar a liberação do corpo. O nosso Delegado Titular já havia ido à residência de Davi, comunicar à sua esposa o ocorrido e prestar-lhe todo o apoio necessário, deixando uma viatura com dois policiais à porta de sua residência, para atender-lhe no que fosse preciso.
E também a ambulância do Departamento ali permaneceu com uma equipe médica que prestou socorro àquela jovem senhora, que não suportando a dor da perda brutal, necessitou de cuidados médicos, até ser conduzida para o velório. Seu casal de filhos ainda era muito jovem para entender a extensão da tragédia que os atingira. Nunca antes, tantos policiais compareceram à guarda do corpo de um companheiro. O ambiente, repleto de tristeza e dor, coberto pelas trevas na noite, continha ainda em si o sentimento da revolta coletiva de toda uma classe de profissionais. As horas se arrastaram lentamente. Após o dilúculo, as Autoridades mais representativas da Polícia também compareceram e ali ficaram até a hora da inexorável despedida final.
Coube a mim, a honra e a tristeza de proferir o panegírico. O fiz entre lágrimas. Pois me sentia culpado pela morte de Davi, ao ter promovido, com minha interferência, sua remoção para a Delegacia de Roubos. E encerrei a minha fala, segurando suas mãos cruzadas sobre o peito, com as seguintes palavras: “Vai amigo querido, para os braços do Criador. Por certo, hoje à noite, haverá no firmamento um novo e fulgurante astro. Pois todo bravo que na luta perece, sem covardia, tem o espírito conduzido pelas Valkírias ao infinito e se transforma, de resplandecente brilho, numa estrela. E a sua luz, tenho certeza, será nosso guia. E te prometo, amigo meu, na frente de todos aqui presentes, à tua querida esposa e aos teus filhos, que só voltarei para casa, quando tua morte for vingada”. Após a urna funerária baixar à sepultura, e essa ser lacrada, me afastei alguns metros e disparei minha arma para cima, no que fui de imediato seguido por todos policiais ali presentes. Nesse dia nasceu a tradição que até hoje é repetida como parte do ritual de sepultamento de um policial morto em combate. A longa caçada, dali mesmo, teve início.
“DIÁRIO DA NOITE” — 20/11/1968
“Foi neste momento que o colega de Davi jurou vingar sua morte”.
(Legenda sob foto do momento em que toco as mãos de Davi e me encontro ladeado pelos policiais José Pedro e Xavier)
Até então, não sabíamos quem havia assassinado Davi. A equipe da Especializada de Homicídios encarregada do caso, pouco acrescentou nas primeiras horas de investigação. Naquela tarde, nos juntamos a ela, e no dia seguinte já tínhamos identificado o autor do crime: Saponga!. Os fatos: No dia 19/11/68, por volta das 14,00 horas, Xavier e Davi deixaram a Delegacia de roubos, levando na viatura três marginais, para que os mesmos os conduzissem até à residência de um contumaz receptador, para quem haviam vendido produto de roubo. A diligência, por não apresentar nenhum risco, pois iriam apenas entregar uma intimação ao acusado e, em sua residência, fazer uma rápida acareação entre as partes envolvidas, não carecia de um número maior de policiais para realizá-la.
Ao chegarem à casa indicada pelos ladrões, como sendo a do receptador, Davi desceu da viatura com o bloco de intimações nas mãos, e bateu à porta. Em seguida, de dentro do imóvel, uma voz se fez ouvir, indagando: “quem é?”. Davi, em sua inexperiência, respondeu em alto e bom som: “É a Polícia!”, Nesse momento, houve um grande rebuliço e barulhos estranhos, dando a entender, que havia pessoas em fuga pelos fundos. Davi, intrigado com tal reação, de imediato, deu a volta ao redor do prédio, para ver o que estava acontecendo. Ao chegar à parte de trás da residência, teve a infelicidade de dar de frente com Saponga, que vinha fugindo em desabalada carreira, estava já com seu revólver calibre 38 na mão esquerda, pois era canhoto.
Ao dar de cara com o policial, não titubeou, ergueu a arma e fez um disparo à queima-roupa que atingiu Davi no olho esquerdo. Davi cambaleou para a esquerda, onde passava um pequeno córrego de águas imundas, e caiu de bruços com o rosto dentro do infecto riacho. Já estava morto.
Saponga continuou sua fuga, deixando o local em companhia de seus comparsas. Xavier, ao ouvir o disparo, desceu imediatamente do veículo e acorreu em auxílio ao colega. Ao chegar ao local, de arma em punho, deparou com Davi caído, e seu sangue, manchando a água de vermelho. Olhou em volta e não viu mais ninguém. Entrou rapidamente na casa e a encontrou vazia e abandonada. Voltou rápido, pegou Davi nos braços, e o conduziu para o interior da viatura, a fim de proceder de forma mais rápida o socorro necessário. A Veraneio estava vazia; os marginais detidos e algemados uns aos outros, aproveitando-se da ausência dos policiais, também haviam empreendido fuga. Com a sirene aberta, dirigindo o mais depressa possível, Xavier passou via rádio a informação do ocorrido, da qual o controlador somente depreendeu o endereço do local e que havia um policial ferido, que estava sendo conduzido para um dos hospitais da região. Coisas do destino, das quais não podemos fugir.
A investigação: Após o sepultamento de Davi, em conjunto com o pessoal da Homicídios, voltamos ao sítio onde tudo ocorrera. Uma vez ali, nos dividimos e interrogamos um sem número de pessoas. Detivemos vários marginais da região. Um dos vizinhos nos informou que o receptador proprietário da residência, palco dos acontecimentos e que estava foragido, procedia de uma cidade do interior do estado, onde ainda residia sua família. Chegamos à conclusão de que o mesmo tentaria fugir para a cidade referida como Mirassol do Oeste. Passamos essa informação para toda a rede de rádio da Polícia Civil, por ser de suma importância. Em alguns minutos, uma equipe da nossa Delegacia esclareceu que conhecia muito bem a figura do receptador foragido, e que estava já se dirigindo à Estação Rodoviária, enquanto outras viaturas já estavam indo realizar barreiras nas estradas que davam acesso àquela cidade. A sorte estava do nosso lado; após o anoitecer, o homem que procurávamos foi preso tentando embarcar num ônibus que se destinava a uma cidade daquela região. Conduzido ao DEIC, e ali interrogado, revelou a identidade do assassino. E esclareceu que recebera Saponga e mais os membros de sua quadrilha, que ali foram para negociar a venda de jóias roubadas, provenientes de vários assaltos por eles praticados. E o mais importante: revelou também os nomes de todos os bandidos que faziam parte da quadrilha. Vale também informar, que os marginais que fugiram algemados, foram vistos por uma guarnição da radiopatrulha, que os prendeu, conduzindo-os ao Distrito da área. Foram interrogados pelos policiais do Distrito e confessaram ser foragidos de uma viatura da Delegacia de Roubos, mas que nada tinham a ver com a morte do policial. O que era verdade. Foram em seguida recambiados ao DEIC. De posse dos nomes dos bandidos, iniciou-se uma grande caçada. Sendo todos já conhecidos dos policiais da Delegacia de Roubos, cada equipe que conhecia este ou aquele delinqüente, saiu à procura de cada um.
Após um mês de intensas buscas, onze componentes do bando já haviam sido localizados e presos, alguns, tombaram ao enfrentar à bala os policiais. Entretanto, faltava Saponga, o nosso alvo principal e o mais perigoso de todos. Já o havíamos perdido em diversas ocasiões, às vezes por questão de minutos.
Pelo menos uma dessas oportunidades perdidas vale a pena ser citada. Através de um informante, levantamos um endereço na zona leste, onde o bandido se refugiava. Tratava-se da casa de uma de suas amantes. Algumas mulheres sentem forte atração por relacionar-se com marginais.
Isso, talvez, algum psiquiatra possa esclarecer o porquê desse estranho comportamento. Adentramos a casa por volta das 16,00 horas. Detivemos a mulher e a retiramos do local em nossa viatura que foi colocada bem distante, a fim de que não afugentasse o procurado. Não foi preciso esperar muito; por volta de 17,00 horas, no final da rua, onde havia na pequena praça, avistamos Saponga. Desceu de um veículo, provavelmente roubado, de japona escura, e com as duas mãos nos bolsos da mesma, onde sabíamos, estava de posse de dois revólveres, informação obtida de sua assustada amante. Do lado esquerdo da rua, havia uma escola municipal de primeiro grau. Loiro, alto, figura inconfundível, veio subindo a rua em direção à casa. De uma janela, eu já o tinha sob mira de minha Winchester. Estava aguardando que chegasse mais perto para feri-lo numa das pernas. Mas, nesse instante, as crianças saíram da escola. Todas de camisetinha branca e shorts vermelhos. Em meio às crianças, Saponga parou. Desconfiado, como se possuísse um sexto sentido, deu meia volta e retornou ao carro, saindo rapidamente do local. Não atirei, para preservar a integridade física das crianças. O bandido, ferido, poderia começar a disparar suas armas a esmo, com grande possibilidade de atingir um ou mais menores, que inadvertidamente estavam ao seu redor. Assim, tivemos que começar tudo da estaca zero. Libertamos sua amante. O local estava irremediavelmente queimado. Ele ali não mais retornaria. Cuidando do caso, com determinação, só ficamos eu e minha equipe. Esta se revezava. Mas eu prosseguia. Há mais de quarenta dias não ia à minha residência, fiel ao juramento que havia feito ao amigo morto. Cansado, abatido, me alimentando mal nas periferias, dormindo dentro da viatura e tomando banho nesses hotelecos de quinta categoria. A busca prosseguiu. Nesse ínterim, soubemos que Saponga, ao roubar o carro de um médico já idoso, o havia matado friamente e fugido em seguida com o veículo após ter jogado o corpo da vítima no asfalto. O filho do médico, que havia presenciado o crime, saiu em perseguição do mesmo e ao emparelhar o carro também havia sido baleado.
Socorrido por populares, foi salvo após cirurgia delicada. Ele havia reconhecido o bandido, cuja foto saía nos jornais todos os dias. Após muitas diligências sem resultado, nos chegou uma informação que prometia. No bairro do Jardim Tremembé, havia uma “boca de fumo”. O traficante, conhecido como Nelsão, havia sido assassinado por rivais do tráfico, numa disputa por pontos de venda de drogas. O seu único irmão, ainda jovem, havia timidamente assumido os negócios. Soubemos que Saponga havia sido amigo de Nelsão na prisão, e conhecia o irmão Carlinhos, quando este visitava o parente na cadeia.
O nosso informante nos confirmara ter estado com Saponga, e este, acuado e quase levado ao desespero total, havia dito a ele que iria procurar Carlinhos, para pegar algum dinheiro, e droga e em seguida fugir para o interior. A informação nos foi passada por volta do meio dia. Imediatamente nos dirigimos para o bairro do Jardim Tremembé. Uma vez ali, tivemos grande facilidade em descobrir a casa de Carlinhos. Batemos à porta, todos de armas em punho. Não sabíamos o que poderia vir lá de dentro. Entretanto, fomos atendidos por uma senhora já idosa, toda vestida de preto, sinal de luto pelo filho mais velho recentemente assassinado, parecia mais uma virago, que uma mulher. Identifiquei-me, e perguntei por seu filho. Respondeu-me que ele não se encontrava, mas que voltaria dentro de duas horas, pois fora à cidade tratar de algum negócio que ela desconhecia. Contei a ela sobre a informação que tinha, e que seu filho, se desse cobertura ao bandido, poderia sofrer graves conseqüências por isso. Ela me pediu que esperasse numa padaria distante, e que assim que o filho retornasse, iria se informar com ele a respeito do assunto e que viria ao meu encontro para conversarmos, e que não queria a viatura da polícia parada em frente à sua casa. Aceitei a proposta e nos retiramos para a padaria. Por volta de 16,00 horas, divisei seu vulto fantasmagórico. Sai da Padaria e fui ao seu encontro.
Paramos na calçada e ela me disse o seguinte: “Meu filho voltou da cidade. E segundo me disse, marcou um “aponto” com Saponga, às 17,00 horas, no meio de uma trilha que sai do Sítio dos Coqueiros, e vai até a Vila Amália. Ali há uma grande pedra, e nesse local, deverá ocorrer o encontro. Saponga está trajando uma camisa azul de gola olímpica, e portando a arma dentro da sunga. O senhor não pode falhar, senão, meu filho correrá grande risco de vida. O senhor sabe como são perigosas essas coisas”. Prometi-lhe que não haveria falhas. Disse-lhe ainda que deixaria seu único filho em paz. Agradeci-lhe a lealdade e firmeza com que havia se portado e dela me despedi com respeito. Agora, era comigo. Mais uma vez, o local estava a meu favor. Uma floresta.
Reuni o pessoal. Passei a informação pela metade. Pois queria me defrontar sozinho com o bandido. Deixamos a viatura longe, e nos dirigimos a pé ao Sítio dos Coqueiros. Atravessamos a propriedade, até atingirmos o sopé da colina. Ali, disse aos meus quatro companheiros que fossem fazendo uma busca cuidadosa dos dois lados da trilha, onde o mato espesso poderia servir de esconderijo e abrigo ao marginal que deveria estar por ali aguardando o traficante. Enquanto isso, disse-lhes que iria subir um pouco mais acima e iniciar a procura de cima para baixo.. Todos concordaram e deram início ao trabalho. Já passavam cinco minutos das 17h. Andei rápido trilha acima. E numa das curvas do caminho divisei a grande pedra indicada. Sentado sobre ela, um homem de camisa azul de gola olímpica. Ele deve ter ouvido o ruído dos meus passos. Por isso estava de costas. Pois, por essa trilha transitavam muitas pessoas. E ele não esperava um policial naquele local ermo. Em situações análogas já passadas, meu coração acelerava os batimentos cardíacos. Sentia a adrenalina fluir em minha corrente sangüínea. E agora, após 50 dias de buscas, sofrimentos e privações de toda a espécie, com o bandido à minha mercê, estava calmo, relaxado e tranqüilo. Aproximei-me um pouco mais. Não quis, e nem é do meu feitio, atirar em quem quer que seja, pelas costas, por isso, chamei-o pelo nome: “SAPONGA!”.
“Recusa-se a golpear Horode, lançar-lhe um dardo que fira por trás, corre a ele e é de frente, homem a homem que o ataca. Quer vencer, mas não pela surpresa e sim e unicamente pela força das armas”.
Virgílio
De um salto, ele virou-se para mim com a arma na mão. Nossos olhares se fitaram por segundos, diretamente. Ele ergueu a arma e fez três disparos. O curioso e que eu não ouvia os estampidos de seu revólver. Ouvia somente o barulho dos projéteis, passando pelas folhas dos arbustos às minhas costas: vrrruuum! vrrruuum! vrrruuum!. Em seguida, apenas com uma mão, manobrei a Winchester 44 e disparei. O projétil o atingiu no peito. Com a violência do impacto da arma de grosso calibre, ele bateu na pedra e caiu de costas atrás dela.
Corri em sua direção e notei que suas pernas faziam um movimento. Um movimento reflexo de quem pretendesse correr, ou estar mesmo correndo. Isso fazia com que seu corpo girasse em direção aos ponteiros do relógio. Nesse instante, perdi total e absolutamente o controle emocional. Não havia mais raciocínio, não havia mais pensamento, não havia mais bom senso, na verdade, senso de mais nada. Só queria matá-lo de vez. Descarreguei a 44 em seu corpo que ainda se mexia. Quando acabaram as balas, saquei minha 9,0 mm. E atirei nele até acabar a munição. Nesse instante, um colega meu chegou correndo, pois ouvira os tiros. Me pegou pela cintura, me ergueu do solo, e me retirou do local. Entrei em crise nervosa incontrolável. Chorava e ria ao mesmo tempo. Não sentia o meu ser. Positivamente, não era mais eu. Não tinha mais consciência de minha personalidade. Meu amigo me deu alguns safanões, e me abraçou, chorando comigo. Aos poucos, fui voltando ao natural. Minha promessa fora cumprida. Lembrei-me de Davi, de sua esposa e do seu casal de filhos tão bonitos. Deixamos o corpo no local e nos retiramos. De um telefone público, liguei para a Delegacia de Homicídios e, anonimamente, comuniquei o fato e o local, para que tomassem as providências de praxe. Em seguida, voltamos para o DEIC. No trajeto, um dos componentes de minha equipe nos contou que examinou o corpo mais detidamente, e que no pescoço do marginal havia uma corrente, com um crucifixo, e que a bala que o atingira no peito havia atingido também a figura sagrada do Cristo crucificado. Uma casualidade que eu gostaria que não tivesse acontecido.
Quando chegamos na Delegacia de Roubos, a notícia já havia se espalhado e havia grande euforia entre todos. Fui até minha sala, peguei alguns pertences que havia deixado ali.
E sai rumo à minha casa para, finalmente, poder repousar por alguns dias. Estávamos no dia 08 de janeiro de 1969. 50 dias haviam se passado desde a morte do meu estimado amigo. Não tenho explicação que justifique o excesso cometido por mim naquele momento crucial. Entretanto, agi em legítima defesa e no estrito cumprimento do dever legal. O meu comportamento naquele instante, espero que Deus o julgue e possa entender o que se passou dentro de mim.
E aos leitores deste livro, que formem seu juízo livremente e qualquer que seja o veredicto, eu o aceitarei com humildade e sem censuras. Às vezes, a vida nos apresenta circunstâncias, nas quais não podemos manter em nossos corações o sentimento do que é nobre, belo, grande e generoso e nem sempre nos acompanha “Virtus — Justitia — Pietas”. Valores e princípios de vida cultivados desde a infância, desaparecem.
A seguir a transcrição de jornais da época:
“DIÁRIO DA NOITE”
“Última fuga de Saponga. Houve guerra na Cantareira para matar o bandido”
“Ele chegou a ser cercado duas vezes, mas sempre encontrava uma maneira de escapar.
Entretanto, o fugitivo acabou sendo encontrado pelo Esquadrão da Morte. Que justificou o seu nome. Houve cerrado tiroteio, conforme depoimento de moradores do “Sítio dos Coqueiros”, no Jardim Tremembé.
Depois do pipocar dos tiros, o silêncio total... Agora todo mundo sabe que Saponga parou de fugir”.
“Saponga já havia abatido três policiais, entre outras inúmeras vítimas. Dentre estas, encontrava-se o Investigador Davi Romero Pare. Ele foi assassinado em 19 de novembro do ano passado, abatido a traição por esse bandido. Desde então, vinha se escondendo da Polícia que lhe movia intensa caçada. Sabia que era um homem marcado e que fatalmente viria a encontrar a morte. Todos os jornalistas que acompanhavam a ação dos vingadores tinham também certeza de que esse marginal estava condenado”.
P.S.: Dos três policiais mortos por Saponga, dois eram policiais militares.
“REVISTA FATOS & FOTOS”
Número 411 — Ano VIII
Dezembro de 1968
“A História do homem que mata frente a frente”
“Quem dá as ordens no Esquadrão da Morte, Astorige Corrêa é um rapaz paranaense, de 27 anos, nascido em Londrina, criado em Arapongas... Pequeno 1.68 m. de altura, franzino, a pele morena, cabelos precocemente esbranquiçados, já respondeu a vários processos. Todos por crime de morte. Absolvido em 3, inocentado por legítima defesa. Os 2 processos restantes ainda correm em Juízo, mas Astorige acredita que sairá limpo, pois sempre mata em duelo frente a frente deixando o bandido atirar primeiro...”.
H O M E N A G E M
Caro amigo David:
Beijo à distância, tuas mãos inertes, mãos de herói, agora cruzadas sobre o coração guerreiro que já não bate. Vendo-te adormecido, com o azul do céu velando teu cadáver insepulto, admiramos todos a grandeza e o valor do teu último gesto. Sacrificaste tua vida, na prática do trabalho que tanto amava. Salve triunfador! Vossa morte gloriosa e honrada, jamais será esquecida. E você, jamais será esquecido pelos teus amigos e por aqueles que mais de perto te amam. Não morreste em vão. A justiça será feita com certeza!.
O AUTOR
[imagem]
Foto: Folha da Tarde — Abril de 1968
...e a vida continua!
Capítulo II
O MUTIRÃO
[imagem]
Fazenda do Embaú, década de 1930.
Em destaque, os pais de Correinha
Já lá se vão muitos sóis e muitos luares desde o dia em que, sob os céus do Estado do Paraná, eu despontei para a vida. Pessoas existem que vêm ao mundo para viver uma grande e tumultuada aventura; outras, para uma vida sossegada entre o limiar dos acontecimentos e outras ainda somente para vivenciar o sofrimento e a dor.
Sou um privilegiado. Passei por todas essas circunstâncias e sobrevivi. Verdade que tomarão conhecimento nas páginas seguintes deste relato, escrito com a mesma emoção com que tudo foi vivido. Estou trilhando, quem sabe, os últimos quilômetros de uma épica caminhada. Caminhada repleta de alegrias e tristezas, venturas e desventuras, vitórias gloriosas e derrotas honrosas. Não obstante isso tudo, sempre estive revestido com a armadura da coragem, da honra e da valentia. Estou descrente da maioria dos homens. Busquei, vezes muitas, em meus sonhos utópicos, me transportar em pensamento, para uma ilha paradisíaca, onde reinasse a paz, a alegria, a sinceridade e a verdade. E nesses momentos de introspecção encontrei instantes de rara paz e felicidade. Pequenas gotas perfumadas de amor, ternura e carinho. Entretanto, a realidade dura e cruel da vida fez com que meus sonhos mais bonitos, minhas esperanças mais acalentadas, fossem morrendo ao longo do caminho e às suas margens ficaram sepultos para sempre. Apesar de tudo, nunca perdi a garra e o élan que fazem parte de minha personalidade e, graças a isso, pude superar todas as vicissitudes que a vida me colocou à frente, em forma de grandes desafios.
“Nós sabemos quem somos, de onde viemos e para onde vamos”.
Assertiva milenar do povo Xavante de quem, com orgulho, descendo.
Naquele início de outono, quando os dias em quentes e ensolarados iam se transformando em dias chuvosos, frios e úmidos, o bucolismo da paisagem das terras da Fazenda do Embaú era o mesmo. Apenas a roupagem da natureza ia tomando cores cinzas e tristes em substituição ao verde tropical e luxuriante. O crepúsculo estava prestes a ocorrer. A natureza começava a silenciar. Hora mágica em que tudo parece reverenciar e agradecer ao Criador por mais um dia de vida. Havia no ar, nas plantas, animais e pessoas, um certo recolhimento. Uma necessidade de aconchego e proteção. Até os insetos se calavam à espera das chuvas e do frio que, inevitavelmente, haveriam de chegar.
O pequeno e plácido Ribeirão do Engano que serpenteava as terras da fazenda e que nos dias ensolarados se encontrava eivado de sons, aromas e cores, parecia agora, uma lenta e triste procissão, como aquelas que acompanham os sepultamentos nos longínquos rincões de nosso Brasil. A noite chegou. O céu se adornou, miríades de cintilantes estrelas e planetas avermelhados se espalharam pela abóbada celeste. A lua em plenilúnio, lentamente foi se erguendo por sobre a mata e esparramando sua luz argêntea sobre a terra. Foi uma noite de paz. As pessoas da casa grande e mais uma dezena de empregados se empenharam até bem tarde na azáfama de adiantar os preparativos para o grande acontecimento do dia seguinte: O mutirão!
Acontecimento aguardado por todos na fazenda e pelos vizinhos, e também por várias famílias amigas que residiam mais distantes.
O dia amanheceu sorrindo, a natureza parecia em festa. O céu cinzento que ofuscava a luz do sol e que posteriormente se transformou em nuvens negras e conseqüente chuva torrencial, no dia anterior, havia desaparecido. O sol brilhava emoldurado por um azul profundo, como se soubesse de sua importância naquele momento, para pessoas humildes e ingênuas que haviam aguardado esse acontecimento com grande entusiasmo e a melhor das expectativas. Iriam divertir-se e alegrar-se. Encontrar amigos e pessoas queridas. Iriam também trabalhar muito, entretanto, a recompensa viria com certeza, à noite, quando aconteceria o grande baile, a grande festa e que seria o ponto culminante daquele dia de mutirão. Fugindo da rotina, naquela manhã, na Fazenda do Embaú, todos levantaram de madrugada. A escuridão ainda reinava. Lampiões e lamparinas foram acesas. A casa grande fervilhava com a atividade de dezenas de pessoas. Muito havia a ser feito. Muito havia que ser organizado.
Abro aqui uma pequena dicotomia nessa narrativa, para alertar aqueles que se interessam por antigos usos e costumes e que tomarão conhecimento de um retrato antropológico de uma comunidade cabocla, ao tempo da colonização do Norte do Paraná.
Aos quatro anos de idade, gozava eu ainda do privilegio de ficar na cama até que o café estivesse, pronto. Do meu quarto da casa grande, podia ouvir com clareza os ruídos que me eram familiares: o grasnar dos gansos sendo alimentados, os galos cantando para demarcar seus territórios, os pássaros em sua algaravia matinal saudando a vida, o crepitar da lenha queimando no velho fogão de taipa, o cheiro da fumaça se misturando com aroma do café que estava sendo coado, o ruído do sarilho e do balde sendo movimentados para tirar água do poço e ainda o diálogo mugido entre os pequenos bezerros e suas mães, separados desde a noite anterior para que a ordenha fosse preparada.
A ordenha já estava sendo realizada no grande mangueirão, serviço feito com maestria pelo preto Lachico. Na fazenda, ninguém sabia o seu nome verdadeiro. Nem mesmo ele, que até sua idade e local de nascimento ignorava. Muito jovem ainda, quando nas matas que viriam a ser a Fazenda do Embaú, com apenas um casebre e alguns barracos à guisa de acampamento, ele se apresentou ao meu pai solicitando serviço. Informado dos riscos que por certo haveria de correr em tão perigosa empreitada, mesmo assim aceitou, sendo contratado para exercer o mister de ajudante geral. Entretanto, com o passar do tempo, revelou-se um trabalhador de respeito. Tal sua força e disposição para executar bem e com rapidez qualquer tarefa que lhe fosse determinada. Poucos igualavam sua resistência e destreza na lida diária. Humilde, bom, calmo e tranqüilo. Não me lembro nunca de vê-lo exaltado por qualquer que fosse o motivo. Alguns anos depois, nas noites de inverno, quando a conversa se prolongava muito após o jantar, ouvi dizer que quando a Fazenda quase foi invadida por uma malta de facínoras dada ao crime de invadir e grilar terras alheias, a luta que se seguiu, foi uma refrega brutal e sangrenta. Meu pai recebeu dois balaços, ferimentos graves, mas não mortais. E quando caiu ferido, quem o pegou nos braços e o levou para um lugar seguro foi o velho Lachico que em seguida voltou ao combate, sendo o mais valente e aguerrido dos combatentes, até que os invasores fossem expulsos. Com este fato, dali em diante, ninguém mais tentou tomar a Fazenda do Embaú. A valentia do proprietário e de seus empregados se tomou lendária naquelas plagas. E em muitas rodas a história era contada com entusiasmo pelos narradores, muitos dos quais juravam ter participado da luta. Depois disso tudo Lachico passou a ser um homem de confiança. Seu serviço foi amenizado. Seu ganho foi consideravelmente melhorado. Assim, onde quer que meu pai fosse, Lachico estava sempre por perto como um fiel cão de guarda e sempre fumando seu velho cachimbo, acessório que já fazia parte da sua personalidade. O dia estava lindo. Sentindo o cheiro aromático do café, gritei por minha mãe. Entretanto, quem apareceu para me vestir e calçar, foi nossa empregada Alvarina. Alvarina, sertaneja de porte esguio, fronte sempre erguida pelo orgulho da beleza e do corpo saudável e escultural que possuía. Sua disposição para o trabalho era incansável. Fui levado por ela até a bacia de esmalte branco colocada sobre uma armação metálica num canto da grande cozinha. Ali, meu rosto foi ensaboado por mãos rudes e fortes e senti na pele a água naturalmente morna, saída há pouco da cisterna. Os olhos arderam um pouco como todos os dias acontecia.
O sabão de pedra feito em casa à base de vísceras de porco e soda cáustica, não se compara com os sabonetes neutros hoje à venda em farmácias e supermercados, entretanto no mister de desinfetar e limpar continuam imbatíveis. Escovei os dentes o mais rápido que pude. Após o que, corri em direção ao grande fogão de lenha, encostei-me em sua taipa e fiquei ali, sentindo a deliciosa sensação de calor que me aquecia o corpo e acariciava minha alma infantil.
Minha mãe entrou agitada. Deixou no chão da cozinha os dois baldes de leite recém ordenhado e após me beijar e acariciar os cabelos, ordenou à menina Francisca, caboclinha de 12 anos de idade que levasse o leite para a despensa grande, onde seria colocado em latas de vinte litros e em seguida seria adicionado o coalho, o que possibilitaria sua transformação em delicioso queijo. O café foi servido, O pão, feito em casa e assado no forno de lenha, foi retirado dos cobertores onde se encontrava envolto, (para não endurecer a casca) e colocado à mesa A manteiga, o queijo fresco, o mel, o café, tudo enfim surgia em nossa casa como as flores e as araucárias do campo, naturalmente. O negrinho Irineu entrou na cozinha para tomar o seu café. Francisca com sarcasmo na voz, e um pouco de inveja das regalias que o menino gozava na fazenda por ser meu pajem, logo o criticou, mandando-o lavar as mãos e chamando-o de guloso, virou bruscamente as costas num gesto de suposto desprezo. Meu pai (Osório Silva), nome pelo qual todos o conheciam, entrou em seguida.
Ambos iriam mais tarde ser personagens de uma das mais lindas e místicas histórias que aconteceram em minha vida. História cujo primeiro capítulo já tinha sido vivida e escrita e que será contada em um ponto mais adiante nas páginas deste volume. Um fato repleto de beleza, de fé e de ternura, como se a provar aos seres humanos que o destino é uma certeza em nossas vidas. E pela conversa que aconteceu à mesa, lembrei-me entusiasmado de que neste dia (um Sábado), já estava acontecendo o tão aguardado mutirão. A tarefa, (uma derrubada) deveria ser executada em apenas um dia. E a batalha já havia começado nas frentes de trabalho. Quase uma centena de trabalhadores convidados já se encontrava nos domínios da fazenda. Vieram acompanhados de suas famílias. Chegaram todos dispostos a trabalhar e a ajudar, pondo em prática suas habilidades para lidar com uma gama variada de serviços. Pessoas, outras, que residiam muito distante, ainda estavam chegando. Homens, mulheres, velhos e jovens, meninos e meninas, crianças de todas as idades se faziam presentes e todos ostentavam um largo sorriso em seus rostos. E vieram para viver um dia de festa e alegria. Todos teriam muito que fazer. A união faz a força. Esse refrão seria provado neste dia. Do alto dos meus 60 anos de idade e muita experiência acumulada, conhecendo como conheço o espírito dos homens de hoje, lamento afirmar, com tristeza no coração e no espírito, que nunca mais vi nada parecido em matéria de unidade e solidariedade espontânea. Gesto grandioso. Já que tudo era feito por livre vontade, não havia obrigação, não havia vaidade pessoal.
Um mutirão é coisa de um dia. Mas sua preparação é demorada. Ao tomar a decisão de realizar esse evento, o dono da propriedade deve, antes de mais nada, mandar um mensageiro a cavalo fazer o convite a todos os vizinhos da zona rural. Eram convidados também amigos e conhecidos residentes no povoado que é a sede do município. Como em todo acontecimento festivo, apareciam invariavelmente os “penetras”, que não deixavam de ser bem-vindos. Necessário se fazia receber dos convidados a confirmação de presença, para que se pudesse calcular a quantidade da vitualha a ser preparada para o consumo. O mensageiro, ao entrar em contato com os convivas, tinha por obrigação deixar bem clara a natureza do trabalho a ser executado, com o objetivo de que todos pudessem trazer consigo as ferramentas adequadas para sua realização. Pois um mutirão pode acontecer para se executar uma variedade de tarefas tais como: derrubada de mato, terminar uma colheita que esteja atrasada ou ainda a construção de uma casa ou celeiro entre outras. Um dia antes do mutirão, chegam os “lidadores”. Os lidadores são pessoas altamente especializadas no trato de sacrificar os animais. Sabem a forma correta de cortá-los para que sejam melhor aproveitados. Trazem ainda consigo as mais variadas receitas de preparo que culminam por dar um sabor especial a cada prato. Esses especialistas, quando chegam, já se fazem acompanhar de suas respectivas famílias. Ao dono da propriedade compete providenciar alojamento e alimentação para todos. As esposas desses personagens, em sua maioria, são ótimas cozinheiras. À minha mãe competia comandar esse pequeno exército a quem se juntavam mulheres e moças residentes na fazenda para exercerem as funções de ajudantes de cozinha. As refeições a serem servidas nesse dia, obedeciam a seguinte ordem: café da manhã, almoço, merenda da tarde, e finalmente, com os pratos mais requintados, o grande jantar. Engoli o café o mais rápido que pude. Em seguida sai correndo até a grande varanda que circundava a casa grande. Desci a pequena escada de um salto e já me encontrei em meio à grande balbúrdia que ali se formara. Nosso capataz, o preto Lachico orientava as pessoas que iam chegando Fazia-se uma rápida verificação nas ferramentas que cada um trazia às mãos, para aquilatar a condição de uso de cada uma. Se o machado, foice ou facão não se encontrassem em seu melhor estado de uso, o seu proprietário era encaminhado incontinenti ao afiador para proceder ao complicado ritual de bem afiar a ferramenta. Só então o convidado era conduzido à frente de trabalho por um dos meninos que ficavam por ali para essa finalidade. Um fato que vale a pena ser referido é que os homens possuidores de ferramentas de boa qualidade, geralmente importadas como as da marca “Sollingem”, se orgulhavam disso. E em tom de brincadeira, enalteciam a qualidade de seus equipamentos e depreciavam as dos outros. Até apelidos eram dados a essas raridades, tais como: “corta tudo”, “engole mato”, etc. E nesse clima de alegria e descontração os próprios sertanejos, em sua simplicidade, faziam, inconscientes, um jogo psicológico que resultava em maior e melhor aproveitamento e desempenho de todos no trabalho a ser levado a cabo. Esse jogo consistia do seguinte: O capão de mato a ser derrubado era dividido em eitos, (faixas de floresta com iguais medidas em comprimento e largura). Em cada eito, um igual número de homens.
As equipes assim distribuídas competiam entre si e o repto era lançado: “Vamos ver quem vara lá em cima primeiro!.” Dado o comando de início, o som das ferramentas contra a floresta, os gritos de incentivo e de desafio se misturavam no espaço, formando uma sinfonia rude, alegre e franca, que dentro de sua pureza tocava a alma de todos, como uma marcha heróica de Wagner, concitando à luta. Oito horas da manhã. Todas as crianças capazes de carregar um corote de água estavam enchendo os pequenos recipientes de madeira com água pura da mina, e dali, em fila, qual formigas, caminhavam até ao sopé do serrado onde a derrubada já ia adiantada. Não obstante ser outono, a manhã que se apresentara fria se transformara em manhã de sol aberto, nuvens brancas, ligeiras corriam em festa pelo céu azul. Corriam rumo ao horizonte, como se tivessem, ali, um encontro marcado. E em seu passeio, se olhassem para baixo, e vislumbrassem a atividade que no solo se desenrolava, por certo, repetiriam a frase de Sócrates: “Em festim de bravos, bravos vão livremente”. Pois todo sertanejo é um bravo!.
Os aromas, os mais variados, enchiam o ar no terreiro à frente da casa grande. O vozerio, o colorido das chitas e dos brins, os sorrisos e a movimentação quase coreografia de todos, trazem hoje ao meu espírito a comparação com um grande palco, onde a peça mais singela e terna estaria sendo representada por um sem número de atores de todas as idades. Nós, crianças, já tentávamos sem muito sucesso nos apoderar de algumas guloseimas. Entretanto, nossos pedidos e súplicas não encontravam o eco de um sim como resposta. Apenas o invariável: “esperem até ficar tudo pronto!”.
Assim, só nos restava ficar à espreita e aguardar um momento de distração de guardiãs tão implacáveis, e então surrupiar um pedaço de bolo de fubá ou de milho, ou qualquer outro petisco que estavam dispostos sobre as longas mesas ali armadas com tábuas e cavaletes. Quando conseguíamos êxito, saíamos correndo o mais rápido possível para saborear o quitute em local seguro. Em meio a esse turbilhão de acontecimentos, fomos convocados para nossa primeira tarefa do dia: levar o café da manhã até a frente de trabalho. Essa refeição consistia em café puro, que era conduzido em bules e chaleiras, pedaços de bolo dos mais variados sabores, virado de frango e de carne desfiada ao que se misturava ainda farinha de milho e ovos. As colheres e canecas de alumínio iam acondicionadas em grandes embornais. O virado, os pedaços de mandioca frita, as batatas doce cozidas eram transportados em travessas de cerâmica, bacias de alumínio e gamelas de madeira. Às nove horas daquela manhã, o café já havia sido servido e os homens voltado ao trabalho. Satisfeita a fome e renovado o ânimo, a competição ficou mais acirrada. Os representantes da fazenda sede se desdobravam para manter a hegemonia. Quando o preto Lachico juntou-se à turma, o nosso Narciso, outro funcionário dotado de muita força e habilidade no manejo do machado, sua ferramenta predileta, deu o grito de guerra: Eia! Rapaziada, o negão chegou!, vamos pra frente!, vamos ganhar de novo!. De imediato, como se um acelerador fosse acionado, o ruído das ferramentas contra a floresta multiplicou seu ritmo e o pessoal foi avançando morro acima. A nós, restou concluir a próxima etapa de nossa tarefa, ou seja, levar todos os utensílios de volta para a casa grande. Contávamos agora com a ajuda das mocinhas casadoiras, cujos eleitos ou pretendentes se encontravam na frente de trabalho Durante a refeição já finda, acontecia entre eles, (acanhados namorados ou pretensos candidatos), trocas de olhares repletos de promessas de amor. Só as mais atrevidas dirigiam um cumprimento ou algumas breves palavras aos seus preferidos. Tudo com muito recato e alguns rostos ficando corados de ingênuo pudor.
“Sem amor, nem cidades, nações ou indivíduos serão capazes de produzir grandes e belas obras em qualquer tipo de atividade humana”.
(Fedro)
Tantos outonos já se foram. Lembranças, muitas, já quase perdidas nas dobras do tempo. Entretanto, apesar desse passado tão distante, essas recordações ainda se encontram vivas e coloridas em minha memória. Fecho os olhos e me transporto em pensamento para o terreiro da casa grande, onde me encontro sorrindo, brincando ouvindo os mesmos sons. sentindo os mesmos aromas e a mesma alegria dos meus folguedos infantis. Que coisa maravilhosa é ser humano e gozar de tantos recursos que nossa constituição biológica é capaz de realizar. Proezas que nem os mais sofisticados engenhos cibernéticos poderão sequer tangenciar mesmo num futuro distante. Naqueles tempos, o amor que fazia pulsar os corações muito se assemelhava ao nascimento de uma flor, sem pressa e desabrochando aos poucos até mostrar-se em todo seu esplendor e perfume. Nos dias tumultuosos de hoje, as pessoas já não trazem mais consigo a paciência, virtude dos sábios e nem têm tempo para o romance, moldura dourada de qualquer união entre dois seres que verdadeiramente se amam. O amor verdadeiro vai — com o recrudescer da luta pela sobrevivência — estiolando-se a cada dia, a cada hora, a cada minuto, até desaparecer dos corações e dos espíritos e será quem sabe, no futuro, apenas una lenda, uma lenda bonita que há de comprazer as almas, que apesar de tudo, ainda estarão sensíveis à beleza, à ternura e à felicidade que só tão nobre e quase divino sentimento pode trazer em si. Nosso retorno para a sede da fazenda foi muito animado. Cada um de nós levando consigo aquilo que sua capacidade física permitia. Os meninos maiores, além dos utensílios, davam um jeito de ainda levar arrastadas serpentes de vários tamanhos, amarradas em cipós. Ali iam cascavéis, urutus, e até uma Jararaca do rabo branco, esta última muito temida pelo terrível efeito de sua peçonha.
Todos esses répteis haviam sido mortos pelos homens que trabalhavam na derrubada. O objetivo dessa mórbida atitude era, não outro, senão o de unicamente, pregar enormes sustos em mulheres, senhoritas e crianças no terreiro, o que causava grande alvoroço e muita diversão a todos os presentes.
Após nos desfazer de nossas incomodas cargas, tivemos, até a hora do almoço, algum tempo para brincar no grande pomar localizado nos fundos da casa grande, contínuo à horta que minha mãe cuidava todos os dias com muito desvelo. A folga foi breve. Logo fomos chamados para o almoço. Pois, em seguida, deveríamos voltar até a frente de trabalho levando água e o almoço para os heróis da grande jornada. A quantidade de coisas a ser agora transportadas era bem maior. Isso exigiu um reforço de pessoal. Cozinheiras, ajudantes e até alguns lidadores foram convocados para levar a bom termo a tarefa. Quando lá chegamos, notamos o grande avanço realizado pelos trabalhadores. Mais da metade do serviço já estava concluído. Por isso, encontramos grande dificuldade para alcançar o ponto onde o pessoal se encontrava trabalhando. O mato derrubado formava uma barreira difícil de ser transposta. Quando estávamos nos aproximando, alguns homens pararam o trabalho e abriram, com facões e foices uma pequena picada por onde pudemos passar com certa facilidade. Na clareira aberta, o almoço foi servido. Foi um momento bonito. Todos brincavam entre si e elogiavam o sabor da refeição. O grupo da fazenda sede, que estava à frente dos demais, dirigia gozações e desafios aos componentes das outras equipes. Estes, por sua vez, prometiam melhorar o rendimento e afirmavam que o dia ainda não havia acabado e haveriam de alcançar e vencer os ponteiros. O almoço foi rápido. Em seguida todos se apresaram na volta ao trabalho. A competição estava cada vez mais acirrada. Eu estava sentado sobre um tronco caído. Não possuía ainda o saber da importância da preservação do meio ambiente. Não tinha consciência de que aquelas árvores, ali derrubadas, eram seres vivos. Que sentiam também dor e medo. Meu pai sim; estava à frente da maioria das pessoas do seu tempo. Era o único fazendeiro da região que preservava mais de um terço das matas e, à beira do rio Laranjinha que fazia parte das divisas de nossa fazenda, deixou um quilômetro de floresta nas margens do rio para proteger a fauna e as barrancas contra a erosão fluvial. Em nossas terras, podia-se ver dezenas de capões de mato de cinco e de dez alqueires preservados entre as áreas de plantio. Muitos o criticavam pela perda inútil (segundo pensavam) de tanto terreno arável. O cheiro do mato derrubado composto de diferentes e variadas espécies produz aromas e fragrâncias diversificados e seu perfume é indescritível. Só mesmo quem já o sentiu pode saber com exatidão sobre o que estou falando. É tão marcante esse aroma, que até hoje, tantos lustros já passados, posso, sem muito esforço, reviver aquele instante repleto de magia e sentir aquele exótico perfume, que ainda agora me fascina. Poucas horas depois, tivemos que repetir tudo. A merenda da tarde foi servida. Os homens demonstravam um grande cansaço. E após o breve repasto, voltaram ao trabalho. As horas seguintes, que precederam o crepúsculo, foram ocupadas por grande parte das crianças com a tarefa de levar água para os trabalhadores. Essa ocupação deixou a todos extenuados porque o calor forte e a grande distância percorrida cobraram o seu preço. Muitos adormeceram sob a sombra das árvores frutíferas no pomar, inclusive eu. Enquanto isso, nas frentes de trabalho, os sertanejos não esmoreciam em sua labuta. Empenhados em terminar o serviço antes do anoitecer, e procurando vencer a disputa a qualquer preço, (havia um prêmio para a equipe vencedora). Os caboclos davam o máximo de si, buscando forças que já quase não mais existiam. Apenas a garra e o espírito de luta os compelia a continuar com tanta determinação. Quando acordei do meu sono reparador, me dei conta que estava em minha cama, levado que fui, por mãos que até hoje desconheço. “Como são belos os dias do despontar da existência, respira a alma inocência, como perfumes à flor”.
Que doce saudade em meu coração. Casemiro de Abreu deve, com certeza, ter tido uma infância feliz, como foi feliz ao escrever os seus tocantes versos. O sol estava se pondo. Todas as aves já estavam ávidas em busca dos seus ninhos aconchegantes. Bandos de pombas do ar, de papagaios, araras, baitacas e tantos outros, passavam em vôos velozes rumo às florestas adjacentes. O cheiro dos assados recendia forte e gostoso nas dependências da casa grande e no espaçoso terreiro à sua frente. Ali, homens trabalhavam terminando de erguer um enorme empaliçado de lona, sob o qual seria servido o grande banquete, festim que deveria durar a noite inteira.
O dia, assim vivido, passou célere. Por trás da serra verde escuro, silenciosa em seu poder, majestade e grandeza, o astro rei já havia desaparecido. A noite se aproximava lenta e sorrateira. Não era um crepúsculo triste como quase todos o são. Somente a natureza seguiu sua imutável liturgia de silêncio e respeito, como se grata, por mais um dia de vida. A natureza não transgride as suas leis, porque não possui livre arbítrio. Houve também, naquele momento bonito, um rápido instante, instintivo quase, de meditação e reverência. Era como se a terra parasse por uma fração de segundo. À frente do empaliçado nossa atenção foi desperta pela enorme fogueira que ali estava sendo erguida. Lembrava muito a forma de uma torre medieval de observação, tal a sua altura. Sua armação era composta de troncos dispostos de forma quadrada em sua base e assim sucessivamente, colocados uns sobre os outros, diminuindo seu comprimento o que lhe dava uma aparência piramidal. Quando estivesse acesa, forneceria luz e calor ao ambiente onde aconteceria a grande festa. Nesse momento, ouvimos um vozerio vindo dos lados da pequena elevação topográfica que bruscamente decaía em direção ao terreiro da casa grande. O primeiro grupo de trabalhadores, os vencedores do grande desafio, que já haviam terminado o seu “eito” e voltavam alegres, como só os ganhadores sabem ser, e traziam em seu entusiasmo o ingrediente principal para a noite festiva que iria começar: a alegria!. Os louros da vitória ficaram com a equipe da Fazenda Bela Manhã. O Dr. Natel, seu proprietário, exultou com o feito dos seus peões. O nosso pessoal foi derrotado nos últimos metros do seu eito, pois que era composto de grandes árvores de peroba e cedros gigantescos, uma fatalidade da sorte. Isso lhes tirou a vitória e tiveram que se contentar com um modesto terceiro lugar. Entretanto não se lhes foi tirado o mérito de haver lutado muito. Com élan e garra. Mas logo tudo foi deixado para trás. O que importava mesmo, era o divertimento, o jantar, os namoricos e ainda os dois casamentos que seriam celebrados pelo velho padre Júlio que já havia chegado. Meus pais seriam os padrinhos de ambos os casais. Os noivos eram residentes em nossa colônia. A Fazenda do Embaú orgulhava-se de possuir em seus domínios uma Escola Municipal e uma farmácia. O Sr. Oswaldo e Da. Hilda eram, respectivamente, ele farmacêutico e ela professora, formados em universidade o que não deixava de ser um fato surpreendente naquelas paragens. Percebiam um salário generoso, mas isso não explicava o fato de terem vindo exercer suas profissões em ambiente tão agreste e inóspito. Só muito mais tarde, pude entender o porquê. Encontrei ocasionalmente esse casal mais de quarenta anos depois residindo na cidade de Quinta do Sol, localizada no norte do Estado do Paraná. Com os filhos já criados, muitos netos, idosos, ainda tocando uma moderna farmácia. Fui levado até eles por um amigo de infância que ali residia. Fui apresentado e, quando me identifiquei, houve uma grande alegria. Conversamos muito, fiquei para o jantar. Rememoramos os velhos tempos. Revivemos fatos e histórias. E nesse clima de cordial amizade agora revivida, fui informado que quando receberam a proposta de trabalho feita pelo meu pai, proposta que foi intermediada pelo pai de Da. Hilda que era um amigo, não foi de imediato aceita. Somente resolveram aceitar depois de alguns dias após sopesar os prós e os contras que tal decisão naturalmente envolvia. E o que mais pesou, para que aceitassem, foram as informações sobre o caráter e a correção do futuro empregador. Em entrevista posterior, segundo me informaram, meu pai lhes transmitiu tanta honestidade, bondade e firmeza de propósitos, que eles se sentiram seguros e atraídos pelo grande desafio, pois ambos eram dotados de espírito aventureiro. Fiquei muito orgulhoso, quando me disseram ainda que sempre tiveram meu pai como um grande homem, e que sempre o recordaram com carinho e saudade. Esse encontro me deixou muito feliz. Nunca mais os vi. Espero que ainda estejam com saúde e felizes como sempre.
Os homens continuavam chegando. O trabalho estava concluído. As ferramentas eram depositadas em um galpão que fora para isso destinado, além do que servia também de vestiário masculino. Ali, cada homem ou rapaz apanhava sua roupa de festa e dirigia-se rapidamente para as margens do ribeirão de águas límpidas e cristalinas, para o banho restaurador das energias gastas em dia tão extenuante de trabalho pesado. Para melhorar as condições do local, tábuas de pinho já estavam ali dispostas para que os homens pudessem, após o banho, calçar seus sapatos, sem sujar os pés de lama ou areia. As senhoras, meninas e senhoritas, começavam bem antes o seu ritual de beleza. A espaçosa cozinha da casa grande, agora já limpa com esmero e capricho, onde apenas o velho fogão continuava aceso, transformava-se, como num passe de mágica, em um grande salão de beleza. Local para onde senhoras, senhoritas e meninas se dirigiam após o banho, já vestidas, começavam a pentear seus longos cabelos. Umas ajudavam as outras nesse ritual. Amarrar as fitas nos cabelos se transformava, às vezes, em complicadas operações que exigia o concurso de até duas auxiliares. Fitas de cores as mais variadas. Os vestidos de chita estavam impecáveis, bem passados e limpos. Havia também algumas mulheres ou moças cujas famílias ostentavam uma melhor condição econômica, que se vestiam com roupas mais refinadas de linho ou seda. O doce aroma das águas de cheiro volatilizavam o ar. Na ausência do rouge, eram usados pedaços de papel de seda vermelhos ou cor de rosa, para dar um colorido bonito e vistoso naqueles rostos trigueiros. No espaçoso terreiro, a grande fogueira já estava sendo acesa. Acender aqueles troncos de grande diâmetro, exigia o uso de galhos secos de araucária com as respectivas folhas, muita palha de milho e muitos gravetos. Isso tudo era embebido por querosene e só então se ateava fogo. A molecada, entre os quais eu me encontrava, ficava ali ao redor observando o preto Lachico em sua tarefa e tentávamos em vão ajudá-lo. Ajuda que ele repelia pacientemente, em virtude do risco de alguém mais desavisado sofrer algum tipo de queimadura. Foi nesse momento que ouvimos o espoucar dos primeiros rojões de vareta. Outros rojões foram subindo deixando para trás um rastro de faíscas brilhantes e seu estrondo ecoava pelo espaço daquelas terras sem fim. Entre as pessoas ali reunidas, que já eram muitas, houve um grande alvoroço. A causa de tanta agitação era a chegada do sanfoneiro, personagem de vital importância, pois sem ele não poderia haver o tão esperado baile. Chegou com sua charrete leve e bonita, roupas coloridas, e um ar altaneiro que só os artistas famosos sabem ostentar em seu rosto. Fazia-se acompanhar de sua esposa e de seu filho, ambos músicos, ela tocava o pandeiro e o mocinho uma viola sertaneja. Parou seu veículo à frente da casa grande. O cavalo que puxava a charrete estava muito agitado. O estouro dos rojões e a agitação faziam o pobre animal ficar muito irrequieto. O Sr. Arlindo, Da. Nair e seu filho Luizinho desceram sorridentes e alegres com a forma carinhosa como foram recebidos pelas pessoas ali presentes, em seguida, dirigiram-se à comissão de recepção. Ali estavam meu pai, minha mãe e outros casais de fazendeiros da região. Foram recebidos com alegres e respeitosos cumprimentos, sorrisos e abraços, pois todos se conheciam de longa data e de outras festas.
Nesse clima foram conduzidos ao grande salão da residência, já todo iluminado pelos lampiões petromax e decorado a caráter para a festa. A grande sanfona de oito baixos e os outros instrumentos foram trazidos pelos peões e colocados na mesa postada sobre estrados que formavam o palco improvisado.
Antes do trabalho, os artistas precisavam alimentar-se, uma vez que haviam viajado mais de dez léguas, desde São Jerônimo da Serra, cidade paranaense onde residiam. Todos se dirigiram para a cozinha. Ali, sobre a grande mesa, já estavam os melhores quitutes destinados aos convidados mais importantes. Os outros fariam sua refeição sob o empaliçado armado no terreiro. Assim, entre “causos” e casos, muitos sorrisos e muita cordialidade, foram servidos aos artistas frangos, cabritos, leitões e farofas. Por sobremesa, toda uma variedade de doces caseiros feitos de abóbora, moranga, batata doce, banana e outros. As bebidas mais finas foram também ali servidas. Lá fora, sob o gigantesco empaliçado, o jantar já estava sendo servido. Moças e senhoras traziam os pratos que eram colocados sobre as grandes mesas feitas de tábuas e cavaletes de madeira; os bancos ao redor já estavam todos ocupados. Os sertanejos que não puderam sentar comiam em pé. A animação e a alegria galvanizavam a todos. Os cães latiam, a criançada corria pelo terreiro e pelo pasto, os rojões subiam rumo ao céu ativados com maestria pelo o Sr. João fogueteiro, (ele mesmo os fabricava e vendia), o firmamento agora já bordado de estrelas, a lua cheia começava a despontar majestosa por detrás da serra ao mesmo tempo que alguns violeiros cantavam suas mágoas e alegrias em modas eivadas de sentimento caboclo e poesia sertaneja.
A fogueira, já incandescida, iluminava todo o ambiente. As caboclinhas faceiras andavam pra lá e pra cá, num vai e vem incessante ante os olhares da rapaziada impaciente. Os meninos, em disparada, corriam ora para o pasto, ora para o mangueirão e até a horta para se apoderar dos rojões de vareta que caíam acolá. Hoje, recordando este momento, penso que os homens são assim mesmo, como os rojões de vareta, em sua trajetória pela vida: Ambos têm o seu instante de ascensão, apogeu e queda. E àqueles que caem, só lhes resta a ternura das crianças. No galpão, um pouco distante, alguns homens e rapazes se divertiam ao som ritmado da viola, sapateando um catira forte e viril. Foi nesse clima, que o som bonito e romântico da sanfona chegou a todos. Em seguida, as damas acorreram ao salão e, em feminina expectativa, tomaram seus lugares em dezenas de cadeiras dispostas junto às paredes, pois dali seriam tiradas para dançar pelos rapazes, que foram chegando meio acanhados, uns se postavam à esquerda e outros à direita. Dali, tinham uma visão ampla do lugar onde se encontrava a cabocla de sua preferência.
A primeira música, uma valsa, seguindo a tradição, seria para o casal anfitrião dançar enquanto todos deveriam ficar assistindo. Relembrando esse momento, posso ver ainda meu pai. Alto, porte elegante, rodopiando com minha mãe, morena, bonita, ambos felizes sorrindo para todos. Saudades do Matão foi a valsa escolhida para homenagear os donos da festa. Essa valsa trazia em si romantismo e tristeza e emocionava a todos que a ouviam. Ainda hoje, quando a ouço, lágrimas de saudade e sentimento afloram aos meus olhos. Lágrimas por um passado que não mais há de voltar, dias maravilhosos cuja lembrança espero me acompanhem até ao meu derradeiro instante nessa vida. Brincamos muito. Comemos todas as guloseimas que podíamos. Assim, embalado por tantos sons, sentindo os aromas dessa noite de festa, recordando as aventuras do dia vivido com tanta intensidade e alegria, fui mergulhando num sono profundo nos braços de minha mãe. Meu espírito criança deixava os companheirinhos da terra, para, quem sabe, ir brincar com os pequenos anjos no céu.
Deus, em sua sabedoria, proporcionou a mim uma infância maravilhosa e feliz. Prevendo já, quem sabe, as asperezas do meu destino no futuro. Não poderia encerrar este capítulo, sem prestar uma homenagem de amor e ternura ao meu pai.
Pai, você foi um daqueles homens cuja trajetória pela vida muito se assemelhou a uma estrela. Pois, muito após tua partida, tua luz continua iluminando a terra, o meu caminho e a eternidade. Fui testemunha viva de tua luta colossal e heróica. Você segue sendo para mim o ponto de referência e orientação, tua honradez e correção, tua bondade e valentia, são atributos repletos de magia que forjaram o meu caráter íntegro e determinado. Observo e sigo sempre tua luz, luz que ilumina minha trilha, e me abençoa com certeza, todos os dias, até o fim dos tempos. Tenho feito o melhor que posso para honrar teu nome, dignificando-o, e assim, sob a influência do teu nobre exemplo, merecer essa bênção. Obrigado por tudo.
“O amor que honra a verdade do amor, ama antes de tudo a alma que é eterna e então o amor funde-se entre as pessoas e torna-se apenas um e vive para a vida e para além dela, até após a morte e continua pela eternidade do espírito”. (Pausanias)
[imagem]
Correinha aos 3 anos de idade em companhia de sua mãe Djanyra Corrêa
Capítulo III
O CASO DOS IRMÃOS CARDOSO
[imagem]
Capa da revista Manchete N° 791, Rio de Janeiro, 17 de Junho de 1967
Decorria o mês de junho de 1967. Inverno brasileiro. Véspera do início da guerra dos seis dias entre a RAU e Israel. Nessa manhã, teria início, para a Polícia Civil de São Paulo, um dos casos de maior repercussão de sua história. Em primeiro lugar por ser um fato inédito, e em segundo por estar em jogo a vida de duas crianças.
O dia havia amanhecido frio, o céu nublado e o sol aparecendo entre nuvens cinzentas.
Qualquer policial que leve a sério sua função, que desempenhe sua atividade profissional com dedicação e responsabilidade, agradece, naturalmente, o fato de estar vivo a cada dia que tudo recomeça. Nessa manhã, comigo não foi diferente. Após o banho desci para o café. A noite anterior havia sido tensa e desgastante. Terminada a refeição matinal, caminhei até a sala onde se encontrava o aparelho de som, coloquei um LP de música clássica e fiquei ouvindo “La Traviatta”, de Verdi, para acalmar o espírito. Em seguida, retirei o carro da garagem e me dirigi ao Departamento de Investigações, onde trabalhava no Setor de Assaltos, Roubos e Extorsões. Abro aqui uma dicotomia, para explicar ao leitor o porquê do meu estilo de vida de classe média alta, sendo um funcionário do Estado cujo salário não permitiria viver nesse nível. Entre outros bens deixados pelo meu pai como herança, estava uma fazenda de café, com mais de setenta mil pés plantados, o que nos proporcionava, anualmente, ganhos elevados e, conseqüentemente, uma vida financeira muito folgada. Não há esnobismo nessa citação. Nunca abandonei a simplicidade que acompanha as pessoas que são criadas na zona rural. O meu lado caipira nunca foi deixado de lado, não obstante ter tido uma educação de alto nível em colégio de irmãos Maristas, mestres pelos quais até hoje nutro a mais profunda e respeitosa gratidão. A vida e as circunstâncias, anos mais tarde, tiraram de mim todos os bens materiais. Mas o pouco saber e cultura apreendidos, esses ficaram comigo e foram de grande valia nos momentos difíceis pelos quais tive que passar. Àqueles que promoveram as injustiças que me foram impostas, quero deixar uma mensagem: Não os odeio, não guardo mágoas e nem rancores, porque nunca os temi. E quem nada teme, nada odeia. Deixo tudo nas mãos da lei universal de causa e efeito que, por ser justa e imparcial, fatalmente colocará coisas e pessoas em seus lugares devidos, a seu tempo.
Cheguei ao edifício do Departamento de Investigações no número 527 da Rua Brigadeiro Tobias. Uma vez no terceiro andar, dirigi-me à minha sala de trabalho. Ali estavam os membros de minha equipe, nomes que faço questão de citar, por terem sido policiais de primeira linha no combate ao crime e a criminosos da mais alta periculosidade: Juliano, Ciganinho, Geraldo Jorgino, Geraldo Jacareí e Oscar Caser. Chefiei essa equipe em centenas de missões do mais alto risco. Jornais da época comprovam esses fatos. Eram todos veteranos nas lides policiais; entretanto, aceitavam minha liderança com satisfação e respeito. Durante minha carreira, não conheci homens mais valentes, por isso minha homenagem a eles, já que a instituição jamais reconheceu o seu valor e os relevantes serviços prestados à sociedade. Seus nomes, até hoje, são lembrados como uma lenda de coragem e honradez nos meios da Polícia Civil deste Estado. Cumprimentei a todos e ficamos examinando os boletins de ocorrência lavrados na noite anterior. Não havia nada fora da rotina. Entre os papéis sobre minha mesa, havia uma solicitação do Cartório Central para que fôssemos até a Penitenciária do Estado buscar um sentenciado para ser ouvido em um processo, atendendo a uma cota do Ministério Público. Anexa, uma ordem judicial que autorizava a operação. Solicitei que eles fossem cumprir a ordem. Fiquei para atender o público. Mas naquele dia frio e úmido, nem isso estava ocorrendo. Por volta das 13:00 horas, o Encarregado Geral da Delegacia adentrou minha sala; era o Sr. Rogério da Cruz Jorge; estava muito agitado. Era também um grande policial. Um grande líder. Eu o cumprimentei com respeito. Ele respondeu ao cumprimento e não disse nada. Ficou em silêncio me fitando por longos instantes e deve ter pensado consigo mesmo: “Esse menino não serve, é muito jovem e com pouca experiência”. Em seguida, perguntou pelos homens de minha equipe. Expliquei que haviam ido cumprir a uma ordem de remoção da Penitenciária para o Departamento. “Isso é um problema”, disse ele, “terei que escalar outros investigadores; não há tempo para esperar que eles voltem.” Em seguida saiu apressado. Necessário se faz registrar, nesse relato, que o Sr. Rogério foi vítima, poucos anos depois, de uma grande e desumana injustiça. Já nessa época, ele contava com tempo para se aposentar, só não o fazendo porque a polícia era sua vida. Por motivos nebulosos, ele foi exonerado do cargo. Perdeu direito à aposentadoria a que fazia jus com todos os méritos. O desgosto e a amargura fizeram com que falecesse prematuramente, na mais negra e cruel miséria, cercado ainda do mais desprezível e glacial abandono.
Chorei sua morte. Beijei sua fronte respeitável e encanecida durante o seu velório, onde estive presente em circunstâncias insólitas que mais adiante tratarei de esclarecer.
Com a espada de Dâmocles sobre a cabeça: assim vive um policial. Terminei de examinar a grade (relação de presos) de minha equipe e saí em seguida até a Chefia para me inteirar do que devia estar ocorrendo. Ali não havia ninguém. Percorri as equipes e fui informado que vários encarregados foram convocados para irem com urgência para a Diretoria do D.I.(Departamento de Investigações). Entretanto, numa das salas da equipe sul, ainda encontrei o Cataldo e o Godoy, a quem chamávamos carinhosamente de detetive Zé Pedro, pois seu nome completo era José Pedro Marcondes de Godoy. Estavam fechando as gavetas de suas mesas, e apanhando armas de grosso calibre. Indaguei o motivo de tanta pressa e agitação. Me responderam gentilmente que não sabiam do que se tratava, mas que deveria ser algo de muita importância e que estavam se dirigindo para o gabinete do Dr. Nemr Jorge para uma reunião de emergência, para a qual foram convocados.
Deixei as dependências da Delegacia de Roubos e subi até ao quinto andar onde se localizava a Diretoria do Departamento.
Portas trancadas. Corredores vazios. Silêncio e mistério. Minha auto-estima estava abalada. Me senti o pior dos policiais. Entretanto, a curiosidade em mim aumentava. Ainda restava uma esperança: a sala de imprensa no oitavo andar. Subi correndo. A sala estava aberta, mas no seu interior não havia sequer um único jornalista. Desanimado, sentei-me numa das poltronas ali existentes e fiquei em silêncio, com mil conjecturas se passando no bestunto, pois era como eu me sentia: uma besta!.
Nesse instante, adentrou a sala, apressado, o repórter fotográfico Armando Vieira, que trabalhava para uma cadeia de jornais. Enquanto abria seu armário para apanhar material de fotografia, câmeras e filmes, dirigiu-me a palavra: “Fala Correinha!, a coisa está fervendo.” “Armando — disse eu — por favor, o que é que está acontecendo? Tanto mistério, é um golpe de estado?” “Não menino, é muito pior. Isso nunca aconteceu no Brasil”. “Isso o quê?”, perguntei ao agitado repórter. “Correinha, jurei pros majuras lá no quinto andar sigilo absoluto e colaboração total. E só por ser quem sou fui autorizado a sair da sala e vir buscar o meu material de trabalho e em minutos devo voltar para lá e ficar em “cana” até que o caso se resolva. O resto do pessoal já está lá detido e não podemos passar nada para as redações. O Criscuolo, o Cascolac, o Percival de Souza, o Ramão, o Furquim, o Pegoraro, o Elias turco, e outros jornalistas. Nós todos aceitamos e fizemos um pacto de permanecer incomunicáveis, até segunda ordem. Vou te dizer, porque boto fé em você: está em andamento o seqüestro de duas crianças, filhos de um grande milionário, e a quadrilha está pedindo alto pelo resgate e pela vida dos pivetes, mas vê lá hein? “Boca de siri”, eu não disse nada!. Tchau!, meu tempo está acabando”. E saiu, em seguida, rapidamente.
A FORÇA DO SILÊNCIO
Texto transcrito do jornal O GLOBO de 02/06/1967
“Desde o dia do seqüestro o industrial Manuel Cardoso (pai dos menores) vinha recebendo numerosos telefonemas, ameaçando-o caso o ocorrido fosse comunicado à polícia. Em virtude da ameaça de morte que pairava sobre os meninos, a imprensa concordou em manter-se afastada das atividades policiais, recebendo informações com o compromisso de nada ser publicado até que os seqüestradores fossem detidos e os menores postos a salvo. Durante a noite e a madrugada de ontem, os jornalistas credenciados na Secretaria de Segurança Pública permaneceram nas salas da Diretoria do D.I., a par de toda a movimentação, porém sem qualquer possibilidade de comunicação com o exterior.”
Surpreso, e sem saber o que pensar ou fazer, permaneci naquela sala em silêncio, nem sei por quanto tempo. Daria minha vida para estar naquele caso. Mas isso parecia impossível. Mergulhado em profunda frustração e tristeza, voltei para minha sala de trabalho. As horas se escoavam lentamente. Às 18:15 horas, as dependências da Delegacia foram interditadas como era de praxe nesse horário. Portas de aço e grades foram trancadas a cadeado. Uma outra espécie de trabalho iria começar. Os homens de minha equipe, já acima referidos, tinham ido levar de volta o sentenciado e, de lá, estavam dispensados.
Desci para a rua. Fazia frio e garoava forte. Ali, sob a grande marquise, conversei com muitos colegas policiais. E nessas conversas percebi que ninguém sabia nada sobre os acontecimentos que estavam rolando, sob absoluto sigilo, na sala da Diretoria. Não comentei o que sabia com ninguém, pois havia empenhado minha palavra com o Armando e a cumpri.
O plantão noturno do Departamento já estava prestes a iniciar o seu expediente. A porta da outra extremidade do prédio se encontrava aberta, sinal evidente que os policiais da equipe escalada para aquela noite já estavam chegando para o trabalho.
Foi nesse instante que passou pela rua à minha frente uma viatura da RUDI, (Rondas Unificadas do Departamento de Investigações) e estacionou diante das dependências do plantão. Majestosa, bonita e imponente, só a sigla estampada em sua porta já impunha respeito a todos. Respeito adquirido pelas proezas, pelos atos de bravura e heroísmo dos seus componentes. Fatos que ficaram pirografados na memória de policiais, jornalistas e nas páginas da história da Polícia Civil de São Paulo.
Ao ver aquela viatura, vislumbrei uma possibilidade de ainda participar dos acontecimentos que naquele instante, sob sigilo, se desenrolavam nos bastidores. Andei rápido, passei pelo plantão, cumprimentei os policiais ali presentes, e subi para a sobreloja rumo às dependências da RUDI. No início de minha carreira, fui designado para exercer minhas funções naquele organismo. Ser escolhido para fazer parte daquela corporação, por si só, já era motivo de orgulho. Tratava-se da elite da Secretaria de Segurança e seus policiais eram selecionados por rigorosos critérios físicos e morais. Éramos treinados para operações de alto risco, dávamos apoio e cobertura para todas as delegacias do Departamento e para todas as autoridades dos Distritos Policiais de toda a Capital. Quando as ocorrências se complicavam, uma viatura da RUDI era chamada e seus homens tomavam a frente da ação para resolvê-la de maneira satisfatória. Éramos instruídos a tratar todos do povo com lhaneza e respeito, entretanto, com marginais, podíamos empregar a força necessária para dominá-los e detê-los. Por isso a fama de melhor polícia do Brasil. O que identificava um policial da RUDI era o uso de um colete de couro preto com a sigla bordada em branco do lado esquerdo. Ali estavam todos os meus amigos. Cumprimentos, sorrisos, abraços e recordações. Estávamos conversando, quando chegou o Dr. José Carlos Baptista, Delegado titular. Nos cumprimentamos com satisfação e cordialidade. Dr. José Carlos vinha de uma família tradicional. Filho único, educação refinada, amante do esporte. Residia em uma mansão no bairro do Pacaembú com sua mãe, já que havia perdido seu pai há alguns anos. Em seguida, me dirigi a ele, dizendo que precisava falar-lhe em particular. Fui convidado a entrar em sua a sala. A porta foi fechada. Ele sentou-se em sua cadeira, mandou-me sentar à frente de sua mesa e me perguntou: “E então menino, quer voltar para cá?”. Respondi que não. E expliquei a ele que minha presença ali era motivada por um assunto relativo aos acontecimentos já citados. Expus a ele os fatos, sem entretanto revelar a natureza dos mesmos. Expliquei minha vontade de obter sua autorização para, naquela noite, fazer parte de uma das guarnições que iriam rondar. Disse ainda que alguma coisa muito séria e importante deveria acontecer nas próximas horas e com certeza, se algo saísse errado, a RUDI seria chamada para dar apoio e eu poderia participar da ocorrência. Ele me ouviu com atenção e disse: “Por isso que o Dr. Nemr não me recebeu hoje na Diretoria, alegando uma reunião importante. Tudo bem, Correinha, também estou curioso, vou chamar o Campos para lhe passar instruções. Ficarei com o H.T. ligado, se você precisar de alguma coisa é só me chamar pelo rádio. Só não vou rondar essa noite por ter um compromisso social ao qual não posso faltar”. Em seguida, chamou o Sr. Washington Gomes de Campos, o “Campinho”, apelido pelo qual nós todos o chamávamos. Campinho entrou. Elegantemente vestido como sempre. Andar gingado, subserviente, “pois não meu chefe, às suas ordens”. “Campos, o Correinha vai rodar hoje com o nosso pessoal. Ele vai escolher a guarnição que quiser e você dê-lhe zona livre de patrulhamento. Se ele quiser, forneça-lhe também uma Wichester calibre 44 e munição. Vou sair agora; qualquer eventualidade, me chame através do Cepol.” Despediu-se e saiu, não sem antes nos desejar boa sorte. Campinho me abraçou, nos cumprimentamos, ele deixou clara sua satisfação de me reencontrar. Disse a ele que gostaria de sair com a RUDI-3, com cuja guarnição já havia trabalhado. Fomos até ao armeiro e ele deu ordens para que o mesmo me fornecesse a arma anteriormente referida e devidamente municiada. Campos convocou os componentes da RUDI 3 e participou-lhes que iriam trabalhar comigo e sob as minhas ordens. O Renatinho, motorista, e os Investigadores Valdinir (Bolinha) e o Roberto Cavalcante. Todos ficaram muito contentes, dizendo com verdadeira euforia: “Que legal, o Chefe voltou!”. Apanhamos armas e munições, a prancheta com os impressos onde deveriam ser anotadas as ocorrências e escritos, os relatórios de cada uma e saímos rumo a viatura postada à frente do D.I..
Pedi pelo rádio o número do talão e o horário do início dos trabalhos. Isso feito, começamos a rodar pela zona centro. Pois dali, em qualquer parte da cidade que viesse a ocorrer um pedido de apoio, teríamos a possibilidade de chegar ao local com maior rapidez.
Atendemos algumas ocorrências de rotina. Nada digno de nota. As horas foram passando. Minha expectativa aumentava. Estava impaciente. Após a meia-noite, o rádio permaneceu em silêncio absoluto. Em noites de baixa temperatura, pouca coisa ocorre no âmbito policial. O número de pessoas nas ruas havia diminuído.
Sugeri que fizéssemos uma parada para tomar um lanche. Ao adentrar a padaria alguém gritou para o balconista: “Sai a mamadeira do chefe! e bem geladinha hein?”. Alusão ao meu hábito de só tomar leite e todos se divertiram muito com a saudosa lembrança. Voltamos para a viatura. Nesse momento, passou por nós um carro em velocidade não compatível para aquela via. Saímos em sua perseguição, mandamos que parasse com as cautelas devidas, pedimos aos seus ocupantes que descessem. Foram todos cuidadosamente revistados como também o interior do veículo. Verificados os documentos, nada foi encontrado de irregular. Adverti o motorista para ser mais cuidadoso e os dispensei. Voltamos à nossa monótona ronda. De repente, a voz do controlador do Cepol se fez ouvir alta e nervosa:
“Atenção todas as viaturas da RUDI!, prioridade absoluta, dirijam-se imediatamente à Rodovia Fernão Dias, mais ao menos entre os quilômetros nove e vinte, próximo ao Jardim Brasil!. Velocidade liberada!, no local, auxílio e apoio à equipe da Diretoria do D.I.. Desconhecemos a natureza da ocorrência!. O canal de comunicação a partir de agora, está vedado a outras viaturas em ronda; prioridade única para a RUDI!.”
Acusei o recebimento da mensagem: “RUDI 3 entendido e a caminho!”.
As outras três viaturas fizeram o mesmo. Finalmente!, meu espírito estava exultante.
Ao passar pela Avenida Tiradentes a mais de 140 quilômetros por hora, olhei de soslaio para o grande relógio da Estação da Luz, e ele marcava 1:36 hs. do dia 1 de junho de 1967.
Atingimos a Rodovia Presidente Dutra. Renato Radamés era um piloto como poucos. Em minutos já estávamos na Rodovia Fernão Dias. Contávamos ainda com o favorecimento da quase ausência total de tráfego, dado ao avançado da hora. Após alguns quilômetros, divisamos um Ford Galaxie estacionado no acostamento da estrada à esquerda da direção em que seguíamos e, à nossa direita, um Willys Itamarati pendurado no barranco e vários policiais portando armas de grosso calibre, sinalizando com os braços erguidos. Nos desviamos para o acostamento e a viatura parou bruscamente com a violenta freada.
“O ÚLTIMO TELEFONEMA”
Fonte : O Globo de 02\06\1967
“Meia noite. O seqüestrador telefonou ao comerciante dando as últimas instruções: “Saia de sua casa dentro de quarenta minutos, em seu carro, mantendo apenas as lanternas e a luz interna acesas. Siga para a Rua Maria Cândida até a avenida Júlio Buono. No final desta, entre a direita e dirija-se até o primeiro posto de gasolina. Pare ali e encontrará quem lhe dê novas instruções. Faça essa pessoa embarcar no veículo e cumpra suas ordens. Traga o dinheiro e terá seus filhos de volta.” O complexo policial se movimentou.
Manuel Cardoso deixou sua residência e no local indicado, teve seu carro invadido por dois indivíduos que lhe determinaram seguir para a Rodovia Fernão Dias. Nesse momento a viatura S-5 (um Galaxie) acercou-se do veículo e os agentes intimaram-nos a parar, dando-lhes voz de prisão. Os meliantes, que já haviam obrigado o proprietário a passar para o banco de trás, sacaram suas armas e dispararam contra a polícia. Teve então início o tiroteio com os dois carros em alta velocidade. Depois de seis quilômetros de perseguição, o carro de Manuel teve seu pneu traseiro furado por um projétil. Nessa ocasião os seqüestradores, para distrair a atenção dos perseguidores, atiraram Manuel para fora do veículo. Mas em virtude dos disparos de metralhadora, o condutor do veículo descontrolou-se e lançou o carro sobre um barranco que margeia a estrada. Ali embrenharam-se no matagal levando consigo o dinheiro do resgate”.
Foi nesse momento que as viaturas da RUDI. foram acionadas via rádio. Dera tudo errado. Os seqüestradores não haviam sido identificados. O dinheiro estava praticamente perdido. O pai dos meninos, único contato com os bandidos, estava fora de ação, uma vez que seus ferimentos, incluindo um grave traumatismo craniano, o haviam deixado em coma e a vida das crianças ameaçadas mais do que antes pela interferência da polícia. Uma grande tragédia e um fracasso rotundo das autoridades estava para ser concretizado. A falta de planejamento e o despreparo dos policiais envolvidos diretamente na operação levaram os acontecimentos a um ponto em que os responsáveis se desesperaram. Seus cargos e carreiras ficaram no fio da navalha.
Entretanto, nem tudo estava perdido. Restava o sentimento abstrato da esperança.
Para piorar tudo, não havia sequer um indício ou informação do local do cativeiro dos meninos. O Sr. Rogério estava muito nervoso e agitado; o seu superior, Delegado Titular da Delegacia de Roubos, não sabia que atitude tomar. As viaturas da polícia civil continuavam a chegar. O grande número de policiais que foi se juntando tumultuava ainda mais o ambiente com os palpites que se multiplicavam, cada um querendo aparecer ou ser o dono da verdade. Finalmente, resolveu-se por um grande cerco por toda imediação. A maior parte das viaturas e dos policiais se deslocou do local para cumprir a determinação.
Antes de sair com a viatura da RUDI para participar do cerco, resolvi dar uma olhada no local por onde os seqüestradores haviam fugido. A região, além de pantanosa, era coberta por densa vegetação, o que aumentava em muito as dificuldades das tentativas de busca por ali. Notei, entretanto, do lado esquerdo do terreno, uma abertura na vegetação, o que me levou a crer que por ali alguém havia passado em desabalada carreira. Guardei a informação comigo. Acostumado desde a infância a rastrear animais desgarrados em matagais, aquele sinal para mim significava muito. Parti para a tarefa determinada pelos superiores. Do outro lado do pântano, já no Município de Guarulhos, pedindo informação para poucos transeuntes que ainda circulavam por aquela periferia fui informado por um rapazote que num barraco, situado a poucos metros dali, residia um bandido, ex-presidiário, assaltante e perigoso que vivia pondo a população do lugar em sobressalto. Invadimos o barraco. Encontramos o bandido e o mesmo estava com dois revólveres sob o travesseiro e um pé de meia repleto de balas. Detivemos o mesmo e o interrogamos durante alguns minutos. O suficiente para saber que não estava envolvido no seqüestro. Entretanto, o detive para investigações posteriores.
Retornamos para o local dos fatos, às margens da Rodovia. Ali já se encontravam algumas unidades da Polícia Militar. O Corpo de Bombeiros havia trazido, em um caminhão, gigantes holofotes para iluminar o ambiente, onde policiais militares com cães pastores faziam uma busca até aquele momento inútil. O dia já se prenunciava no horizonte. O Delegado que comandava a operação já estava convocando todos os policiais presentes para que se reunissem às margens da Rodovia. Deveriam voltar todos para o D.I., para rearticular uma nova linha de investigação. O frio aumentara. A densa neblina que saía das águas do pântano dificultava ainda mais a visibilidade. A aura do fracasso envolvia a todos.
A PRISÃO
Interrompo minha narrativa e passo a palavra a um jornalista da Revista Manchete, em cujas páginas, no número 791, de 17 de junho de 1967, escreveu o seguinte:
“O carro, desgovernando-se, foi bater num barranco, onde permaneceu parado. Os raptores correram para o mato, conduzindo a pasta com o dinheiro. A estrada corta a esta altura, uma região quase deserta e pantanosa. Era através desses alagadiços que os dois bandidos esperavam fugir à polícia. Tudo isso aconteceu em plena madrugada. Mas os homens da lei não descansam. Novos elementos são chamados. Chega um batalhão de choque da Polícia Militar, trazendo cães pastores amestrados, para farejar os fugitivos. O Corpo de Bombeiros empresta seus holofotes. E a busca recomeça, às 3 horas da madrugada, na área pantanosa.
[imagem]
Local onde o carro usado pelos seqüestradores parou na beira do barranco.
Revista Manchete, N° 791, Rio de Janeiro, 17 de Junho de 1967
Os cães, levados ao lugar onde o Itamarati parara, começaram logo a procurar o rastro dos bandidos. De armas em punho, a polícia ia se internando cada vez mais no mato, varrido pelos holofotes. Os cães soltavam latidos. A atmosfera se tornava tensa. Todos estavam convencidos de que os seqüestradores não conseguiriam escapar ao cerco. TODAS AS BUSCAS PARECEM, NO ENTANTO, INÚTEIS. Surgem as primeiras luzes da manhã, ainda vacilantes. QUANDO TUDO PARECIA PERDIDO, O INVESTIGADOR CORRÊA, DA DELEGACIA DE ROUBOS, DESCOBRE RASTROS QUE SE PERDEM NA ÁGUA. Aprofunda suas pesquisas nessa área e, já às 6 horas da manhã, encontra alguém dentro do riacho tendo na mão a maleta com o dinheiro. Dá-lhe voz de prisão, sem encontrar resistência. E leva o prisioneiro para a estrada”.
Sob o título: A PRISÃO DO PRIMEIRO, o Jornal o Globo de 02/06/67 escreveu:
“Mas somente ao clarear do dia foi que o Investigador CORRÊA conseguiu prender Mário dos Santos. Tinha em seu poder uma maleta de plástico com fecho “zip”. Dentro dela o dinheiro. Foi algemado e conduzido a uma viatura da RUDI”.
Manchete do Jornal da Tarde de 01/06/67:
“CÃES ERRAM A PISTA. MAS AGENTE ACERTA.”
E ainda:
“O AGENTE SOLITÁRIO CONTRA O BANDIDO ATOLADO”
Sobre a prisão do primeiro seqüestrador, o grande e respeitável jornalista Percival de Souza escreveu o seguinte, na edição de 01/06/67 do Jornal da Tarde:
“São 3 horas da manhã, muito frio e neblina na Fernão Dias. É preciso andar com cuidado no terreno, de vez em quando um cachorro afunda latindo. À distância soldados indicam aos gritos, onde os holofotes devem iluminar. Vários grupos de Investigadores dão uma volta bem grande, cercando todo o terreno, que vai dar num pequeno morro com alguns barracos de madeira. Corrêa, um investigador da Delegacia de Roubos, descobre uma picada no matagal. Pede auxílio. Ninguém ouve o que ele diz.
Corrêa está parado, sozinho, olhando a picada que ele viu. Vai entrando por ela, andando com cuidado. Às 6 horas encontra alguém no riacho. Está desarmado. Corrêa põe algemas em suas mãos, segura a maleta com o dinheiro, ao chegar com o prisioneiro à beira da estrada desabafa: Eu não disse? Eu não falei?”.
Retomo agora a minha narrativa desses fatos. Procurarei fazê-lo da melhor e da mais verdadeira forma, como eles ocorreram. Após termos retornado do cerco, com um marginal detido na viatura, ouvi as ordens do desorientado Delegado chamando aos gritos todos os policiais para irem para o D.I.. Foi nesse momento que chamei o Investigador da RUDI, Valdinir Vilela de Oliveira, o “Bolinha”, e lhe disse: “Fique aqui à beira do barranco, vou descer para o pântano e fazer uma vistoria na picada que vi logo que aqui chegamos. Caso precise de auxílio, chamarei você”. Desci até ao terreno alagadiço, e fui andando pela trilha que ainda estava visível. Enquanto andava pelo terreno de difícil acesso, me veio à lembrança que estava em jogo a vida de duas crianças. Caso eu obtivesse sucesso, a minha vida também estaria em grande risco. Não sentia medo. Entretanto, a perspectiva de fracasso me atormentava o espírito. A picada terminava num pequeno riacho, fundo o bastante para que suas águas chegassem à minha cintura e, à medida que prosseguia, às vezes aumentava sua profundidade. Depois dos primeiros metros percorridos pelo leito do pequeno rio, havia uma curva. A densa neblina não me permitia enxergar mais do que dois metros à frente. O frio era cortante. Houve um momento em que ouvia, ao longe, vozes exasperadas. Latidos de cães. Sirenes. Mas tudo distante. Sabia que, naquele momento, o que quer que viesse a acontecer só dependeria de mim mesmo. Estava completamente só. Depois de uma segunda curva, avistei algo que me pareceu um sapato. Não dei muita importância e prossegui em frente. Estava encontrando grande dificuldade em me locomover. A correnteza do riacho, que naquele ponto se alargara consideravelmente, acrescida ainda pelo fundo lodoso, tornava cada passo adiante muito difícil. Ao chegar mais perto, divisei por entre a neblina um outro pé de sapato e duas pernas. Era o seqüestrador. Ele não havia percebido, ainda, a minha presença. Meu coração aumentou o ritmo de batidas; a adrenalina despejada instantaneamente em minha corrente sangüínea já estava fazendo o seu efeito. A boca secou. O cansaço desapareceu. Não ouvia mais os sons vindos da estrada. Ouvia somente o meu coração e um leve arrulho na água que corria em sentido contrário. Saquei minha arma. E em seguida, com maior cuidado, fui procurando uma posição que me permitisse abordá-lo com alguma segurança. Segurança relativa, pois de um marginal de tal periculosidade, que teve a audácia de realizar um seqüestro, trocar tiros com policiais experimentados e fugir quase ileso, poder-se-ia esperar qualquer coisa. Caso ele optasse por uma reação, fazendo uso de sua arma, eu levaria nítida vantagem, não só pelas posições em que nos encontrávamos, como também por minha habilidade e precisão de tiro ao usar arma curta. Se estivesse desarmado e tentasse enfrentar-me em luta corporal, aí sim, minha vantagem seria ainda maior, por anos de prática de artes marciais. Encurtei a distância. E como um animal selvagem, dei o bote e o agarrei pela blusa, levantando-o em seguida e dando-lhe voz de prisão. Não houve reação. Entretanto, em sua mão direita estava um revólver calibre 38 com três cápsulas deflagradas. Tomei-lhe a arma, coloquei-a em meu bolso. Em seguida, o algemei. Não levantou a cabeça. Permaneceu em absoluto silêncio. Não trocamos sequer um olhar, não obstante eu procurasse ver seus olhos e mais claramente o seu rosto. Pretendia com isso, no primeiro caso, sentir o seu estado de espírito, para em seguida tentar identificá-lo como um marginal já conhecido. Não foi possível. Eu estava num estado psicológico indescritível. Entre a euforia do s