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Coração Palhaço!
Jacinto Luigi de Morais Nogueira

Coração Palhaço!
Jacinto Luigi de Morais Nogueira

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© 2001 Jacinto Luigi de Morais Nogueira


 

Coração Palhaço!

 

      Seu olhar era diferente. Não sei porquê, mas poucos olhares são diferentes como o dela. Era um olhar que lembrava tempo. Muito tempo. Fiquei inquieto, curioso como sempre fico diante da possibilidade de uma descoberta.
      A gota d’água foi o seu sorriso infinito. Aproximei-me.
      — Senti uma atração, a qual não pude controlar, pela senhora. Podemos conversar?
      — O que viu em mim?
      — Simplesmente a vi. A percebi, consegue entender? Não só a olhei, eu a vi. Olha-se muito, vê-se pouco nesta vida. Não sei explicar, mas vi o universo em você.
      — Filho, não imagina como o compreendo. Perdoe-me, no entanto. Não posso conversar. Você não saberia escutar.
      — Tente!!!
      Meu desejo era realmente conversar sobre ela, sobre sua vida, dissecar sua existência. Já estava cheio de conversas superficiais.
      Perguntei-lhe qual o momento mais feliz de sua vida. Ela me presenteou mais uma vez com seu sorriso e sem hipocrisia disse:
      “Por toda a minha vida fui desejada e adorada; no início, desejada pela minha beleza. Tive vários homens aos meus pés. Sentia-me orgulhosa, poderosa, sentia-me o centro das atenções, sentia-me feliz. Fui feliz.
      “Depois fui desejada pelo que tinha. Sentia-me a melhor, controladora de tudo e de todos, sentia-me feliz. Fui feliz.
      “Por fim, desejaram-me e adoraram-me pelas experiências, pelo que já havia vivido. Sentia-me sábia, sentia-me dona da verdade, orgulhosa, sentia-me feliz. Fui feliz.”
      O silêncio agora clamava veemente por uma resposta.
      E, com a mesma tranqüilidade, fitou-me. E era olhar de tempo sim. E após alguns segundos, olhou o horizonte, e como por um chamado olhou o céu estrelado. E em momento algum esquecerei aquele semblante.
      Ainda, em meio de uma confusão de encantamento e certezas, seu ser gritava. Sei lá como eu percebi isso. Percebi!!!
      Bastou-lhe dizer, olhando fixamente os seus olhos, que estava maravilhado com o que expunha e que escutá-la-ia o quanto ela precisasse para que aquele vulcão dentro do seu coração entrasse em erupção.
      E ela sussurrou:
      — Como vê, fui feliz em todos os momentos da minha vida. Houve três maneiras com que me perceberam: através de minha aparência, pelo que tive e por quem fui. Ao ser desejada pela minha aparência sentia-me um objeto, usaram-me, vivi superficialmente, e, como disse, fui feliz. Ao ser desejada pelo que tinha, escondi-me por trás dos objetos, por trás de ouro e de dinheiro. Não apareci. Ao ser desejada pelo que havia sido, continuei mostrando algo que não era, escondi-me em um passado.
      — Você é feliz hoje?
      — Sim.
      — Da mesma maneira que foi?
      — Não, sinto com clareza que fui feliz de maneiras diferentes.
      — Perdão, não consigo compreender.
      — Hoje sou feliz pelo que realmente sou, sou feliz por ter descoberto que a felicidade pode ser controlada por outras pessoas. E por nós também. Por muito tempo disseram como eu deveria ser feliz, e não sei por que aceitei. Hoje descobri meu coração, descobri meus próprios olhos, sei que caminho seguir e sou mulher suficiente para assumir as conseqüências deste caminho. Sei que muito tempo se passou para eu sentir o prazer de me conhecer, de fazer o que realmente meu ser desejava. Mas tenho o agora, é uma dádiva. E não vou, de modo algum, perder a oportunidade de conhecer o âmago de uma pessoa, embora ela pense que sou louca por tentar não ser como a sociedade manda: superficial. Imagine outras maneiras de ser feliz sem violentar seus princípios reais. Amor pelas pessoas, honestidade, sinceridade, humanidade...
      — Posso saber como se tornou um ser humano pleno?
      — Apenas percebi que o tempo não espera, não tem piedade, e parei para saber, por exemplo, por que eu gastava milhares de dólares com roupas e não sentia nada ao ver uma pessoa sofrendo fome. De repente tentei encontrar uma explicação para a minha admiração por pessoas que nem conheço. De repente não entendi por que ingeria álcool. Revelou-se-me que alguém me obrigou a gostar, alguém me convenceu a admirar, alguém me controlou tão bem que nem percebi. Tentei descobrir quem EU REALMENTE ERA. Descobri.
      — Por que a maioria ainda é cega?
      — Também procuro respostas para muitas de minhas perguntas. Esta é uma delas.
      — Muitos irão morrer sem descobrir quem são?
      — Outra. Sorriu.
      — Quem são as pessoas que fizeram com que seu corpo e sua mente fossem vítimas de receitas de felicidade?
      — Essa é fácil. Você sabe a resposta. Pense nisso. Pense na sua vida desde o seu nascimento.
      — Por que é feliz?
      — Porque estou tentando ser o que nasci e destruíram: um Ser Humano, com todos as suas emoções!!!

 

Jacinto Luigi de Morais Nogueira
luigi_morais@yahoo.com.br


© 2001 Jacinto Luigi de Morais Nogueira

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Maio 2001

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