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MEU SERTÃO

Catulo da Paixão Cearense

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Meu sertão
Catulo da Paixão Cearense

Versão para eBook
eBooksBrasil

Fonte Digital
Digitalização da edição em papel da Bedeschi – Rio


© 2002 - Catullo da Paixão Cearense


ÍNDICE

Nota da eBooksBrasil
Apresentação
José Oiticica
Nota do Editor
O poeta único do Brasil
(por José do Patrocínio Filho)
A Catullo Cearense
(soneto, por Luiz Carlos)
Um grande Poeta,
por Afrânio Peixoto
Catullo Cearense,
por Alberto d'Oliveira
Homenagem a Catullo Cearense
Discurso
de Humberto de Campos
Discurso
de Roquete Pinto
Crônica do “Mercure” de France
Em caminho do sertão
Quinca Micuá
O Marroeiro
O Lenhador
A Promessa
O Passador de Gado
A Vaqueijada
O Cangaceiro
Terra Caida
Trovas


Nota da eBooksBrasil

Quem não conhece ou já não cantou “O Luar do Sertão” de Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco?

Mas quantos das novas gerações sabem que Catulo foi um poeta de rara inspiração e 15 livros publicados?

Onde estão estes livros?

Impossível achá-los nas livrarias físicas ou online.

Tenho notícia, apenas, de uma compilação de poemas editada pela Ediouro:

[www.ediouro.com.br]

intitulada “Luar do Sertão e Outros Poemas Escolhidos” que reúne “alguns dos poemas de Catullo da Paixão Cearense, selecionados, organizados, anotados e revistados por Guimarães Martins”.

Nos sebos, só após poeirentas garipagens.

Como não se passaram ainda 70 anos que a Poesia perdeu Catulo e que ele foi reencontrá-la pessoalmente, chamo a atenção do leitor para a Nota de Copyright no fim da edição.

E sem mais, boa leitura!

eBooksBrasil
Outono 2002


 

Catulo da Paixão Cearense

“...tudo o que se lê em “Meu Sertão”, é pura fantasia e, se não fosse fantasia, não era obra de arte. A alma de Catulo é que nos canta ali e é por isso que o admiramos a ele. As imagens são de invenção dele, mas sabemos que os caipiras são mui capazes de as ter assim belíssimas, por vezes maravilhosas. Ainda há pouco, ouvi das mais originais na boca de um carreiro analfabeto, o célebre Sabino Grajaú, de Alagoas.

“Meu Sertão” não é o sertanejo fotografado; é o sertão no que tem de poético, simples e selvagem, compreendido, sentido, evocado pela alma de seu filho, que se educou no Rio. É uma saudade posta em verso; saudade que se deleita em ir pintando as cenas mortas, refazendo gentes, vistas, costumes interessantes, usanças particulares, pondo em tudo certa nostalgia bem real, muito emotiva.

É a missão do poeta. O poeta não decalca, não trasfolha, não cobre riscos; debuxa apenas os contornos, calca os tragos de reforço, faz sombras, combina cores, que sejam transuntos de sua alma, pedaços de suas emoções.”

José Oiticica


NOTA DO EDITOR

EM outros livros do poeta, o leitor encontrará outros muitos elogios de homens de ciência, de letras e de artistas, brasileiros e estrangeiros, pois o seu renome ultrapassou os limites da pátria. O poeta, antes de ser o cantor desses poemas sertanejos, foi um afamado cantor de modinhas e um belo cultor do violão. Escreveu mais de seis livros de canções, que foram as delícias da geração passada. Essas canções, cantadas e acompanhadas por ele, fascinaram e seduziram os mais exigentes auditórios. Que o digam o príncipe Alberto de Oliveira e Mucio Teixeira, que o ouviram muitas vezes em festas familiares e em serenatas, ao luar. Rui Barbosa, Pedro Lessa e muitos outros grandes literatos e homens de ciência, disseram um dia que o Luar do Sertão, conhecido em todo o mundo, era o Hino Nacional do coração dos brasileiros. Hermes Fontes, escrevendo sobre cantadores e violonistas, afirmou que Catulo foi o civilizador das nossas modinhas. E, se na opinião de Rui Barbosa, o Catulo dos poemas é um maravilhoso poeta, na opinião de José do Patrocínio, que não lhe ouviu os poemas, mas só lhe ouviu as saudosíssimas modinhas, o Catulo do violão foi o divino trovador das saudosíssimas serenatas.


O POETA ÚNICO DO BRASIL

EMBORA nessa época as suas canções já andassem por aí de boca em boca, quem primeiro falou, lá em casa, em Catulo da Paixão Cearense foi um compadre de meu Pai, por nome Luiz Goulart — que nós chamávamos (não sei porque) Garrafa de Leite... E foi esse homem banal, gordinho, baixinho, que passava a semana a vender milho no Centro de Cereais, mas que morava na estação da Piedade e era vizinho do Bardo, quem no-lo trouxe à nossa casa na rua do Riaehuelo, ele, com o seu violão...

Nesse tempo, Catulo era tão somente o que entre nós se qualifica, com tão injustificado pouco apreço, “um fazedor e cantador de modinhas”. Os seus livros, editados em papel de embrulho, tinham títulos popularmente modestos: Cancioneiro Popular, Choros ao violão.... Mas, se a sua poesia ainda se não impusera à admiração das nossas altas esferas sociais, já conquistara a popularidade das massas e empolgara o coração dos simples.

Papai, que era, sobretudo, um emotivo, tocado na sua sensibilidade, desde logo adorou-o. E houve uma festa, lá em casa, para “produzi-lo” aos poetas, aos literatos, aos músicos, aos artistas que, até então, ainda nos freqüentavam ...

Nesse tempo, com raríssimas exceções, a nossa poesia continuava a ser, mais do que nunca, um decalque mais ou menos hábil do estro estrangeiro. O próprio Cruz e Souza, que morrera de miséria, abraçado ao madeiro do seu orgulho e do seu gênio — embora tendo trazido à lingua um novo rítmo e uma excepcional audácia de expressão — fora (como muito bem disse, creio que o sr. Victor Orban) uma mentalidade germânica enxertada num negro pelo ensino miraculoso do sábio Fritz Muller...

As tentativas de “índianismo” de Gonçalves Dias tinham-se tornado obsoletas. O vulcão que Victor Hugo descobrira no cérebro de Castro Alves extinguira-se.

A maviosa ingenuidade de Casemiro de Abreu esvaíra-se, “na flor dos anos”, como um canto de “sabiá na laranjeira, à tarde...”

Desde o hugoano Pedro Luis Pereira de Souza — quase sempre tão injustamente esquecido entre os grandes nomes da nossa poesia — a inspiração e as idéas e os assuntos tratados pelos nossos poetas chegavam empacotados do exterior. E, naquele momento — em que, aliás, vivia e rimava o surpreendente B. Lopes — os nossos grandes poetas, entre outros de incontestável valor, como Luiz Murat e Mucio Teixeira, eram, como Olavo Bilac, Alberto de Oliveira, Emílio de Menezes, reflexos de Heredias e Lecontes, ou, como Raimundo Corrêa, reminiscentes de Heines e de Stechettis...

Brasileiro, positiva, sinceramente brasileiro — nada. Os “simbolistas”, mesmo quando eram o inesquecível Mario Pederneiras, na Agonia, ou nas Sondas Noturnas, nada tinham de nacional. Os “místicos”, como esse imortal Alfonsus de Guimarães, podiam ter escrito em latim a Câmara Ardente, ou o Septenário das Dores de Nossa Senhora... Só Mello Morais Filho, timidamente, apagadamente, escrevia, no intervalo de duas receitas (porque era médico), coisas assim:

À sombra de enorme e frondosa mangueira,
Coberta de flores, da tarde ao cair...

Foi quando Catulo da Paixão Cearense apareceu.

***

E aquela noite, na rua do Riachuelo, foi um triunfo como devia ser. A poesia de Catulo da Paixão Cearense, apesar de ainda toda confinada nas palpitações do coração e dedicada a glórias ou martírios de amor, era uma coisa completamente nova, estranha, surprendente e, sobretudo, brasileira!

Tínhamos, enfim, diante de nós, um poeta!

E o que principalmente se requer do poeta é que ele seja um evocador. “Cada um de nós tem em si um exemplar de cada poeta que lhe agrada — exemplar que ninguém mais conhece e que conosco perecerá com todas as suas variantes, quando nada mais sentirmos ...” — diz Anatole .

Um belo verso é um arco que tange as nossas fibras sonoras. Não são os seus, são os nossos pensamentos que o poeta desperta, e revive em nós. Quando nos fala da mulher que ele ama, são os nossos amores que ele canta e deliciosamente focaliza em nossa alma...”

Ora, o poeta que de fato nos produz tal emoção, não é o parnasiano, nem o simbolista, nem o penumbrista, nem nenhum dos outros desnaturadamente envenenados de literatura. É aquele em que as grandes emoções singelas do homem se concretizam nessa ingente aspiração de harmonia, que já entre os trogloditas desabrochara nos primeiros rítmos guerreiros ou religiosos, a princípio apenas emulativos das caminhadas nômades da tribo, e, por fim, sensual, voluptuoso, dolente, nas fases perturbadoras e sentimentais do cio... É o Trovador.

Mas um Trovador é fruta rara — sobretudo no nosso ambiente de dilettanti, em que as manifestações de Arte raramente explodem de um instinto inato e irreprimível, e são quase sempre uma manifestação de esnobismo, ou um meio de aparecer, com o fim de alcançar renome e conquistar posições.

Catullo, porém, era um Trovador. Por isso mesmo, o que primeiro sentiu, o que primeiro realizou foi a modinha — “a modinha, que, como disse o nosso João do Rio (coitado!...), na Alma Encantadora das Ruas, é o nosso instinto bárbaro de independência e de maravilha no homem — que louva os deuses, incita à guerra, canta a mesa, chora desejos da carne...”

A modinha de Catulo tinha tudo isso, e tinha mais — para nós, brasileiros, tinha a evocação das selvas, dos eitos, das lavouras ancestrais, da nossa bucólica, do nosso sentimentalismo ingênuo e rude. Ah! que emoção, quando ouvimos o Sertanejo Enamorado, esses versos virgilianos que todo o Brasil cantou e canta!

     Na minha choça
     Teu escravo sou até...
     Tenho uma roça
     E uma casa de sapé...
     Foi para dar-te
     Que a fiz.
     Aqui vivo por amar-te,
     Feliz...
     Nela contigo serei
     Mais que um rei!
     Ai! mais que um rei!

E, logo em seguida, numa só estrofe, dois sentimentos tão nossos, bem nossos — a confiança na vida que nos dão os dons da nossa natureza exuberante; o abatimento em que caímos, se nos fere a flecha sentimental da saudade:

     Como eu sou rico,
     Se floresce o cafezal,
          Nem sei...
     Ah! como eu fico,
     Se me cresce o milharal,
          Sou rei...
     Mas fico mudo
          Sem ti...
     Chora tudo, tudo, tudo,
          d’aqui!...

E a Martha, evocando todo o drama sombrio das senzalas da escravidão, e todos os outros temas imprevistos, singelos, verdadeiros, dos poemas que ele pautava dentro da nossa música, que Bilac, numa das suas raras expressões felizes, disse ser “lasciva dor, beijo de três saudades, flor amorosa de três raças tristes...”

Sim, Catulo era uma poesia inteiramente nova, e inteiramente brasileira, empolgante, espontânea, verídica, expressando-se, enfim, na nossa língua, sem temer grafar os brasileirismos da sintaxe que estamos criando, sentindo, exprimindo, incarnando a nossa verdadeira alma, indolente, combativa, rude, sentimental, impulsiva, obstinada, que se está filtrando num tipo definitivo, lá, muito longe do litoral cosmopolita, no caldeamento da nossa mestiçagem. E, por isso mesmo, destinado a empolgar, como empolgou, a comover, como comove, a vencer, como venceu.

É possível, entretanto, que, em toda a sua obra, as modinhas de Catulo me impressionem tanto, até hoje, porque as ouvi, um pouco depois daquela noite, durante dois anos, à cabeceira da cama em que Papai agonizou.

Catulo foi o sabiá desse ocaso. Quase todas as noites batia à porta do casebre em que — vanitas vanitatum — o “Herói da Abolição” ia morrendo aos poucos, esquecido, apagado, sozinho... Acolitavam-no mais dois ou três boêmios, “irmãos da opa”, corações de ouro, como ele, artistas: o Irineu, ofeclide, um mulato gordo, que quando tocava, fechava os olhos empapuçados, de que lhe escorriam lágrimas de emoção; o Luiz de Souza, piston, que do agudo instrumento tirava sons de flauta e de violino, e o famoso Mario Cavaquinho... E Catulo cantava!

Catulo cantava... Era uma cigarra, embalando outra cigarra “na tormentosa estação”...

     Passa o vento do outono,
     Uma prece a gemer!....

Ah! essa modinha de que ele já não se lembra, e do que tantas vezes lhe tenho falado! Como ela me ficou gravada no coração!...

As folhas que o sol do estio amarelecera e crestara jaziam caídas sob a ramaria da floresta. Vinha o outono. O vento erguia-se e soprava. E as pobres folhas murchas valsavam, tresmalhadas, desorientadas, perdidas, ao léu...

     Assim como ides, folhas
     Irão os sonhos meus...

A noite passava, Papai ouvia com os olhos rasos de água. Eles iam-se embora, continuando a cantar e a tocar na rua deserta...

     Sois a imagem da vida,
     Pobres folhas, adeus
!...

***

Depois que Papai morreu, longos anos Catulo e eu andámos separados. Ele, irradiando e crescendo para a Perfeição e para a Glória. Eu debatendo-me na rude e obscura labuta de escrevinhar para as gazetas o corriqueiro “dia a dia”. Ele, cada vez mais irmanado e identificado com a beleza e a grandeza do Brasil. Eu, vagabundo, por terras alheias, freqüentemente em contato com as alheias misérias, com os hospitais, com a cadeia... Ele, erguendo-se cada vez mais, ao sol dos trópicos, como a palmeira, cujo caule, ereto e nu é um círio votivo, emergindo do seio da nossa terra ante a Divina Onipotência, e cujas folhas jaldes da sua fronde são a chama verde da nossa esperança. Eu, como a folha amarela, caída sob a ramada triste, que o vento do outono enxota e leva por aí...

Verde... amarelo...

De entre todos os plumitivos brasileiros, sou, por conseqüência o menos autorizado para interpretar e dizer sobre a obra, já tão vasta e sempre maior, de Catulo da Paixão Cearense, mormente quando já a consagraram nomes como os de Rui Barbosa, de Pedro Lessa, que a citou numa sessão do Supremo Tribunal, como a do Padre João Gualberto, que a interpretou numa das conferências na Catedral do Rio — como nos diz, prefaciando O Evangelho das Aves, Mario José de Almeida, espírito de fulgor e de eleição, que todo ele se retrai e recolhe em si mesmo, como a sensitiva, no temor do contato amesquinhante da literatice nacional...

Catulo quis, entretanto, que algumas linhas do meu punho precedessem os poemas deste livro, que intitulou Meu Brasil. E, se falece toda autoridade ao prefaciador dos presentes versos do grande Bardo, ninguém mais do que ele tem direito de dar a um livro o título que a este deu.

A obra de Catulo da Paixão Cearense são as canções de gesta do Brasil contemporâneo. Nos seus versos imperecíveis ele tornou a descobrir a Pátria, e começou a ensinar-nos a amá-la. Até que ele aparecesse (e mesmo depois...), quase todos pensávamos sobre nós mesmos o que esse fulgurante e cruel espírito, que é Monteiro Lobato, disse de Jeca Tatu...

Mas Catulo vem-nos dizer a pujança e a energia da raça, cantando a arrancada dos vaqueiros; o orgulho generoso do nosso sertanejo, que manda bater na “estrela da testa” do cavalo encantado que lhe tinham roubado, para que os matungos não desonrem o seu velho companheiro, capturando-o cavalgado pelo ladrão; a pureza dos seus sentimentos, quando, tendo à sua mercê, na choça solitária, a cabocla adorada, e sentindo ferver as tentações da carne, põe entre o seu e o corpo dela, estirado na mesma enxerga, o velho crucifixo familiar.

E é a Terra Caída, com a sua estupenda beleza descritiva; e é o Marroeiro e o Velho Marroeiro, com uma profunda filosofia, revestindo-se de admiráveis imagens, como a da lagoa e o coração da mulher — varium et mutabile semper, como concorda Virgílio... É, finalmente, esse litúrgico Evangelho das Aves, uma lenda do sertão, transformada em apólogo bíblico, e tratada em versos de inexcedível fluência, de insuperável espontaneidade musical — como, aliás, são todos os versos de Catulo.

Mas para que citar ainda? De resto, fora preciso citar cada poema, cada verso, talvez, da sua obra imperecível!

E que dizer mais também? Que toda essa literatura regionalista desabrochada nestes últimos lustros é um reflexo do estro de Catulo? Que o encanto e a atração dos seus poemas têm sido um auxiliar incontestável e eficaz de emulação do nosso patriotismo e de difusão de cultura nas massas nacionais?...

Mas, senhores, Catulo da Paixão Cearense é um fenômeno tão excepcional nas letras nacionais, que a sua obra foi até hoje a única que, no idioma original, vadeou as nossas fronteiras e se tornou, de fato, conhecida, senão popular, em toda a América Latina e em Portugal — que até então só tinha lido, do que é nosso, o sr. Coelho Netto...

Não nos enganemos, pois: Catulo da Paixão Cearense é um dos maiores poetas nascidos no Continente Sul-Americano. Na literatura brasileira só lhe são comparáveis Gonçalves Dias, Castro Alves, José de Alencar — os grandes Bardos em verso e em prosa da Nacionalidade. É o nosso pequeno Homero, que estará vivo, juvenil e pujante, quando de há muito já se tiver perdido a memória dos pigmeus, que por aí rimam consoantes e alinham períodos.

***

Enfim, leitor amigo, perdoa-me, a mim, escriba obscuro e tão desautorizado, ter-te privado tão longamente de leres os primorosos poemas que este livro enfeixa. Aliás, se foste prudente, terás saltado, sem as ler, as páginas em que se alinha a minha prosa chilra...

Um prefácio a um livro de Catulo? Para que? Dizer, no Brasil, quem é Catulo da Paixão Cearense? Para que?...

Só se o Brasil nem sequer tem consciência do que em si é belo e grandioso...

Bois de Villemoisson (Seine-et-Oise), maio de 1928.

JOSÉ DO PATROCÍNIO, FILHO.

(Patrocínio escreveu este prefácio, 3 dias antes de falecer.
Foi o seu canto de cisne).


A CATULLO CEARENSE

(Espírito e Coração da Natureza Brasileira)

A TUA musa, já não mais só tua,
por ser lírica irmã da água da fonte,
que, de muito correr para o horizonte,
rola, por fim, no mar que a perpetua,

tanto apura a beleza, quando estua
nas vertigens de luz da tua fronte,
que a terra do Brasil faz que desponte
na glória virgem da beleza nua.

Primeiro trovador entre os primeiros,
o sol e a lua são teus dois tinteiros
de tintas velhas de esplendor tão novo!

Por isso, eternos, o teu estro encerra
o espírito de sol da nossa terra
e o coração de luar do nosso povo.

     Rio, 8-10-1918.

LUIS CARLOS.
(Da Academia de Letras)


UM GRANDE POETA

... a poesia vem do amor.
CATULLO CEARENSE.

NADA mais vulgar no Brasil do que um poeta; entretanto, é aqui bem rara a verdadeira poesia. Então poesia brasileira, “nossa”, sentida, vivida, extremamente difícil de se achar no milheiro de livros de versos que se publicam anualmente.

É a poesia o gênio da juventude. Adolescência de homens ou de povos, tudo é um, será a causa da abundância. Como a idade da razão custa a chegar, te-los-emos, felizmente, os poetas, por muito tempo, se não sempre. Quase nos podemos dispensar de fazer outra coisa. Neste ponto nos parecemos com a Grécia antiga, que fez tudo em versos, anais militares, narrações de viagens, religião, até política ... Também dela se disse que era a infância do mundo.

O que parecerá menos justificável é que os nossos sejam poetas estrangeiros. Foi Gonçalves Dias o nosso grande poeta lusitano. Anglo-saxônio era Álvares de Azevedo, até no “humour”.

Os que chamamos românticos e parnasianos são franceses, propriamente de Paris. Alguns se presumem de atenienses; Camilo já arrolou assim o nosso Gonçalves Crespo.

Foi e é a Europa a nossa aia, mestra, e por vezes e ainda senhora, tanto que não admira sejamos todos europeus, peregrinos aqui nessa terra em que vivemos. A vida brasileira é fictícia. Sobre um tronco indígena enxertaram planta exótica, que dá flores e frutos de outros céus.

Deles é a língua, são deles as imagens e as idéas. Nem nos preocupa traduzi-las: vão, como nos vêm. Há certo livro de ciência, de doutô e mestre, que começa: “O Brasil é um país da América Meridional”... Queria dizer, “do Sul”. Meridional, de meio dia, só é sul em França: o midi seria, aqui, lá para o norte; América Meridional é a do Centro. “Carvalhos” e “loureiros”, “rouxinóis” e “cotovias“ concorrem nas nossas comparações, em prejuízo de bichos e plantas natais. Nossas praças e jardins estão adornados de estátuas forasteiras: no Pharoux treme um velho sob a neve, no Campo de Sant’Anna está uma bela mulher nua, cercada de pámpanos e parras, que pretendem ser inverno e outono no Brasil. Somos tão adventícios aqui, já reparou o nosso João Ribeiro, que indo ao outro lado do oceano, não “vamos” à Europa, “voltamos” à Europa.

Não o digo por censura, nem com pena. Assim é e deve ser. Apenas essa cultura estranha não se afez bem à terra e isso tira à gente como que a naturalidade, nessa roupa de empréstimo, sem nossa medida, com resguardos incômodos, fora do nosso gosto, na qual não nos sentimos a jeito. E sem espontaneidade, graça, naturalidade, não há arte. Dela a condição é a sinceridade.

Como nos sobram estímulos de vaidade, o gênio verbal da raça supre-a na eloqüência, a imitação contorna atitudes e expressões e nós conseguimos versos ricos, trabalhados, difíceis, de rítmos magníficos e rimas preciosas, talvez perfeitos versos, mas versos estrangeiros... em nossa língua que atormentamos por eles, para nossa gente que não divertimos com eles... Muitas vezes, versos sem poesia. Quase sempre sem poesia “nossa”, emoção sentida e vivida, no Brasil, por coração brasileiro, que se communique por íntimas afinidades com a sua terra e nos traduza “seus” sentimentos e “suas” idéias.

***

     Ora, este poeta que ides ler, que de nome conheceis, poeta cujos versos andaram na boca do povo antes da letra de fôrma desta edição, como a Homero precederam os rapsodos, Catulo da Paixão Cearense, esse é um poeta, que tem poesia, e poesia brasileira, nesses versos que escreveu, depois de os sentir e de os dizer. Não faço comparações. Digo apenas: Catulo Cearense é um grande poeta; é um grande poeta “brasileiro”. Seus versos têm poesia, tanto que alguns dos seus poemas valem por livros inteiros.

Há quem dilua a gota de essência, imagem feliz ou comoção sincera, num oceano de palavras, escolhidas e preciosas, mas escusadas.

Catulo é perdulário e generoso, como a natureza; concentra n’uma quadrinha, em dois ou três versos simples da “medida velha”, tão idiomática, tão nossa, todo um jardim ou uma várzea inteiras com o seu deslumbramento, de frescura, de luz, de aroma e de melodia, para essa comunhão que tem o homem, distraído pelas coisas, com o seio materno de sua terra, consciência de amor que só lhe pode dar, tão sentida e vivida, a grande obra de arte.

Porque a arte é isto mesmo. É a “realidade”, que a beleza nos tornou “sensível”.

Junto a minha casinha de Petrópolis há um canto do Piabanha que eu nunca soubera “ver”; admiro-o agora que o “vi”, reproduzido numa deliciosa paisagem de Baptista da Costa. Sertanejo exilado que sou na cidade, os versos e novelas que me falam do meu sertão enternecem-me até as lágrimas, mas de lembrança do que sentí, sem dar por isso, e me repassam agora na memória do coração. A vida não é isso mesmo, gozar ou sofrer, no desejo ou na saudade, sem jamais a consciência do presente, atônita e efêmera realidade? O artista é assim um vidente; a arte, uma “profecia”, porque virá a ser, para os que a contemplem e gozem, uma “realização”. A de Catulo é magnífica; ele sentiu tão bem que o “seu” sertão é o “meu”, é o “nosso” sertão. Idealizado? Que importa! É o dom da arte, só ela é capaz do milagre da transfiguração.

As imagens lhe borbotam frescas e novas, límpidas e aljofradas, como a veia dos olhos dágua dos nossos córregos, que vão saltando e correndo e sofrendo, e cantando através dos seus leitos de pedra e de esmeril, pelo estirado das rechans, pelo declive das ribanceiras.. . como as lágrimas, tristes ou felizes, da terra.

Os quadros da natureza, manhãs, crepúsculos, noites, luares e madrugadas, em nenhum poeta são mais profusos e tão “nossos’, pela linguagem, pelas comparações, pelas evocações, tanto, que constituem o mais formoso e mais parecido retrato do Brasil. Os enfeites da terra são as dela, flores do campo, frutas bravas, paus do mato, e o homem, se não é mais o bronco aborígene, não é também o adventício imigrante, mas o sertanejo, esse mixto que nos formaram as raças colonizadoras, amassado com o barro, cozido ao sol, naturalizado por quatro séculos de provações e de esperanças e para quem ela, a sua terra, é o seu único amor e a sua certeira perdição. Ela é também, essa terra brasileira, o “meu sertão”, a namorada de Catulo.

Mas não só o amor canta o poeta, canta toda a vida: a vida rude, sofredora, de labuta, e de decepção, e de confiança; vaquejando, passando gado, fazendo votos, nas “premessas”; com o sentido na honra, até a do seu cavalo, antes que da ambição de ganho ou satisfação do rude amor próprio; cangaceiro, capaz de topar a tropa de linha, para vencê-la e que se vence, com ajuda de um santo lenho, para respeitar a honra da mulher amada que se lhe confia: coração terno e macio, que se rende e se deixa estrepar dos olhos de uma cabocla, para o engano terno do amor, “terra caída”, que na indiferença, na traição, no esquecimento, desmancha, apaga, e troca, e substitui, no logro da vida, como essas do rio inconstante, que esborôa aqui, no cotovelo de uma volta e restitui adiante, na praia de uma coroa... Que importa um coração enganado, se haverá outro contente? Que chore e cante!

É o que faz Catulo Cearense. Por isso, muitos dos seus poemas são obras primas. Mais: enlevam, entusiasmam, enternecem e fazem chorar. E isto é que é poesia.

AFRANIO PEIXOTO.
(Da Academia de Letras)


CATULLO CEARENSE

RESIDO há quatro anos no Brasil e só agora me foi dado conhecer o mais inspirado e representativo menestrel do seu sertão — Catulo da Paixão Cearense, poeta bravio, poeta cujos versos não foi preciso semear e ainda menos cultivar, poeta igualmente entendido e apreciado pelos sábios e pelos ignorantes, poeta do povo e da raça, poeta e só poeta, que só pôde dar poesia, como as abelhas só podem dar mel...

Não posso deixar de ralhar docemente aos meus amigos brasileiros, que assim tardaram em me pôr em contato com um tão direto e exato intérprete da alma nacional. Mas se eles, ao ouvir os versos de Catulo, com razão se eletrizam e vibram perante o que neles encontram de essencial e intimamente brasileiro — eu, por meu lado, apurando ainda melhor o ouvido, todo me enterneço e desvaneço de nesses versos sentir ao longe, intata, imortal, inconfundível, a velha alma portuguesa.

Sem dúvida, outras almas de outras raças colaboraram na formação do lirismo brasileiro e contribuíram para lhe dar a fisionomia original que lhe não nego. Mas quem poderá também negar, sem negar a evidência, que nessa melodia nova e bela, se há vozes diversas formando o coro ou o acompanhamento, é sempre a voz de Portugal, a antiga voz, jamais enrouquecida, da antiga Lusitânia, que dirige o canto e nele sobresai e predomina? E que outros ouvidos no mundo, além dos brasileiros e portugueses, serão capazes de ir atrás dos poemas de Catulo com o alvoroço e a comocão que eu experimentei agora, e que experimentariam todos os meus patrícios, se o poeta sertanejo fosse recitar e cantar a Lisboa os seus versos?

Catulo Cearense fala, chora e ri em verso portuguesíssimo — a redondilha maior, que é a forma métrica instintiva e inconsciente da nossa linguagem comum. Catulo conversa com a Natureza, e a Natureza conversa com Catulo, (assim diria Eça de Queiroz), por meio de diálogos a que poderá oferecer a réplica justa o grande poeta português Antônio Correia d’Oliveira, mestre da redondilha também ele, e também ele língua ou turgimão fidelíssimo das vozes, dos gestos, dos sentimentos, dos risos e lágrimas das Coisas, essas aparentes surdo-mudas — mas tão falantes a quem sabe entendê-las. Catulo traduz o canto dos pássaros, e decifra o cachoeirar das águas, e o murmúrio das florestas, e o fulgor dos luares, por maneira para mim tão inteligível e penetrando-me tão dentro da alma, que parei a perguntar-me se, além da mentalidade, da sensibilidade, da gente, de alguma fauna e de alguma flora, em boa hora transplantadas de Portugal, ou por Portugueses, para o Brasil, também foram os nossos comuns Avós que para cá trouxeram as cataratas dos rios, as árvores das matas-virgens e as estrelas e aves do céu! Enfim Catulo entende o amor à nossa moda, e bastava esse traço das suas feições, para lhe descobrir o parentesco e me permitir sentenciar: dize-me como amas e eu te direi a que raça pertences... E, todavia, Catulo Cearense encarna a alma brasileira com fidelidade e eu poderia agora, voltando a compará-la com a nossa, apontar as suas diferenças, tão facilmente, como já assinalei as suas semelhanças. Lembrarei apenas o sabor regional (mas por vezes também arcaico) do seu vocabulário; o nacionalíssimo entrecho e cenário dos seus poemas; a originalidade das figuras, das paisagens, dos costumes, superstições e lendas, que deles se destacam. É que o Brasil não é uma imitação: é um prolongamento e um crescimento. O Brasil não é um eco ou um reflexo: tem voz e luz próprias — e ainda bem que as tem, para nosso maior orgulho e admiração. Mas cego será quem imaginar que o transforma melhor e mais depressa, ou de qualquer modo o engrandece, consagrando-se a destruir as raízes majestosas que tão profundamente o entroncam num tão belo e fecundante passado. Aliás essas raízes só Deus poderia destrui-las, e Deus não quer... Elas erguem-se vigorosas de todos os lados, inacessíveis à aberração humana. Ainda há dias, folheando um dicionário corográfico do Brasil, descobri com surpresa que há neste país vinte e três lugares, a que a palavra saudade serviu de batismo: 10 no Estado do Rio, 9 em Minas, 2 em S. Paulo, 1 na Bahia e 1 em Pernambuco. Dezenove desses lugares chamam-se Saudade, a dois deu-se o nome ainda mais bonito de Saudades, e aos dois restantes chama-se pitorescamente, a um Saudades de Cima, e ao outro Saudades de Baixo. Ora, eu já escrevi uma vez, e aqui confirmo, que as sete letras da palavra saudade são o brasão da nossa Raça, tão legitimamente como os cinco sinais das Quinas o são da minha Pátria. E muito antes de mim, e bem melhor que eu, escrevera o grande Joaquim Nabuco que essa palavra é a mais bela da nossa fala; a gema da linguagem humana; a alma, a essência da raça, que nos lábios a traz constantemente...

Os poemas de Catulo são, como disse o grande educador Fernando de Azevedo, de uma voluptuosidade ingênua.

Saudemos, pois, em Catulo da Paixão Cearense um descendente e um continuador dos nossos trovadores populares da Idade-Média, que dos seus cangaceiros fez, com certo engenho, os novos csvaleiros-andantes do Sertão. E indiquemos ao futuro os solaus e xacaras desse poeta do Povo, como o início de um Romanceiro novo em que vai reproduzir-se e desdobrar-se, sob céus mais luminosos, em terras mais vastas e mais ricas, e porventura com maior exuberância e esplendor, a alma eternamente lírica da Lusitânia — de aquém e de além-mar!

ALBERTO D’OLIVEIRA
(Da Academia de Ciências de Lisboa)

_______________

     “Eis os três mestres da nossa vida: — Alencar, a alvorada; Euclides, o meio dia e Catulo, a noite com os seus mistérios.”

SAUL DE NAVARRO.


HOMENAGEM A CATULLO CEARENSE

No dia 12 de Setembro de 1918, realizou-se no Theatro S. Pedro, hoje Theatro João Caetano, no Rio de Janeiro, uma festa em honra do poeta Catulo Cearense, promovida pelos senhores: Ministros Guimarães Natal, Muniz Barreto, Pedro Lessa (do Supremo Tribunal) e Alberto d’0liveira (Plenipotenciário de Portugal); Drs. Miguel Calmon, Pandiá Calogeras, Afranio de Mello Franco, Eloy de Souza, Augusto de Lima e Juvenal Lamartine (homens d’Estado); Cons. Nuno de Andrade; Ministro Ataulfo de Paiva (da Corte Suprema); Professores Afranio Peixoto, Fernando de Magalhães, Pacheco Leão, Miguel Couto e Dias de Sarros (da Fac. de Medicina); Roquette Pinto (do Museu Nacional), e Assis Chateaubríand (da Fac. de Direito do Recife); Alberto de Oliveira, Mario de Alencar, Coelho Netto, e Paulo Barreto (da Academia Brasileira); Drs. Pires Brandão, James Daroy, Francisco Solano Carneiro da Cunha, Primitivo Moacyr, Baul Caracas, Alfredo Pinto (advogados); Drs. Paulo ãa Silva Araújo, Murtinho Nobre, David Sanson, Edmundo de Oliveira, Antônio Austregesilo, Abel Porto, Agenor Porto, Carlos Silva Araújo (médicos); Drs. Luie Carlos, Humberto de Campos, José Maria Belo, Humberto Gotuzsto, Pereira da Silva, Antônio das Neves, Carlos Costa (publicistas e homens de letras), e Manoel Vieira Martins, (capitalista em S. Paulo), que decidiram publicar a primeira edição deste livro.

Com o concurso gracioso da exma. sra. Da. Angela Vargas Barbosa Vianna, e dos senhores Mario Pinheiro, Frederico Rocha e o ator Alberto Pires foram ditas e cantadas várias produções do poeta. Em cena aberta os Srs. Humberto ãe Campos, poeta e jornalista, e Roquette Pinto, sábio e literato, pronunciaram os seguintes discursos:

“Entre os nossos contos populares de origem européia, colecionados por Silvio Romero, eu coloco em primeiro lugar, pela delicadeza e ornamentação verdadeiramente oriental, a linda história do “Papagaio do Limo Verde”. Certa moça, muito bonita, moradora nas vizinhanças de uma grande cidade, capital de um grande reino, vivia em tal opulência, cercada de tanta pedraria, aue não se via outra tão rica entre todas as princesas do mundo. Estranhando o exagero dessa magnificência misteriosa, as vizinhas ficaram de aleatéa, até que descobriram a maravilha daquele segredo. À noite, quando todos dormiam, a moça abria a janela do palácio, e por ela penetrava um papagaio muito verde, que entrava reclamando água. A moça corria a trazer-lhe uma bacia de ouro ondulante da linfa mais límpida, dentro da qual o papagaio se atirava sofregamente, ruflando as grandes asas insofridas. E cada pingo d’água que voava da bacia, transformava-se em um diamante que a rapariga ia apanhando, ficando, assim, dia a dia, mais rica. Ao fim do banho, o papagaio estava transformado em um formoso mancebo, como outro mais formoso não havia na terra. Era o Príncipe do Limo Verde.

Eu não posso ler ou ouvir os versos sertanejos de Catulo da Paixão Cearense, — esses mesmos versos que ele vos oferece nesta festa, sem que me assalte à imaginação a faiscante história desse encantado príncipe perdulário. O ourives que trabalhou no ouro virgem da linguagem popular as jóias rústicas e maravilhosas que por aí andam, é necessariamente um grande e lídimo artista, um fidalgo poeta, que se disfarça em ave cantadeira, para melhor espalhar, a mancheias, como o Príncipe do Limo Verde, a rutilante pedraria do seu erário. Catulo é realmente um misto de singeleza e de opulência, um ponto em que se misturam, formando o mais pitoresco dos riachos, os veios que passam pelos campos cultivados e as fontes que descem, gementes e ligeiras, do largo seio das matas indomesticadas. A sua poesia simples, doce e ingênua, mas em versos de métrica perfeita, é uma resina do sertão a arder, cheirosa, num turíbulo de prata ou de ouro. Evolam-se das suas rimas os mais inocentes perfumes da terra: cheiro de baunilha, de leite, de folha machucada, de gado sadio, de benjoim, do rola virgem, de campina desabrochada: cheiro, enfim, do sertão do Norte, em Maio, pelos fins d’água...

Passados esses versos para a linguagem correntia, não teríamos nós, entre os dos nossos melhores líricos, outros que se lhes avantajassem em meiguice. Catulo não quer, porém, que os seus frutos nasçam no jardim ou brilhem em vasos de porcelana: quer conservá-los no mato, envoltos nas folhas. A seiva para o fruto quem a dá é Deus. À árvore compete, apenas, dar fôrma ao pomo. Catulo tem toda a inspiração dos grandes e verdadeiros poetas; e como é sertanejo, vasa essa forte seiva nos rústicos moldes que ihe fornece o sertão. Dos seus versos ele poderia dizer, como o velho poeta espanhol:

— “Yo los escribo: dictalos Apolo!

HUMBERTO DE CAMPOS.
(Da Academia de Letras)

***

“A poesia popular do Brasil, orfã, anônima, mal acolhida nas páginas de alguns notáveis estudiosos do “folk-lore”, andava por aí representada nas estrofes choramingas das modinhas, em quadras de crítica faceta, ou nas lendas ingênuas do sertão boiadeiro, como as do “Espaço” e do “Riachão”.

O poeta, que nossa elite social hoje aplaude, realizou o milagre de compor, na linguagem de sua gente, poemas do largo fôlego, onde se descobrem duas características bem marcadas. Primeiro, aparece nos versos de Catulo Cearense a nota profundamente humana; todos os seus personagens são reais, vivos e agitados por sentimentos da espécie. Depois, surgem daquelas frases, que parecem informes, o perfume, a luz, a cor, o doce e o amargo da nossa natureza integral. Há, espalhados pela sua obra, fascículos de um tratado de história natural; fenômenos geológicos, feições da flora, hábitos da fauna, etnografia, tudo ali conspira, dando o verdadeiro feitio do habitat brasileiro. Não é o “poeta do Sertão” apenas; quem escreve a “Terra caída” — é poeta da Amazônia; quem escreve o “Lenha-dor” — é do Brasil inteiro, que se alcantila de matas...

Os nossos poetas que entoavam hinos ao torrão natal, até agora, pertenciam a duas categorias: uns falavam como a plebe, e não sabiam escrever; outros, sabiam escrever... e traçavam seus versos na língua dos nossos maiores, bem diferente da que vive na boca do nosso rude povo.

Mas, quem poderá exprimir, no formoso, clássico e polido idioma, a bruteza de recantos travados: o ímpeto primitivo de afeições desabridas, que estalam no coração dos que mourejam nos seringais? Que imagem, nascida na Ibéria, pôde servir ao paroára, quando deseja pintar a ruína global de sua existência, a perda completa de seus devaneios e de seus haveres, senão a figura da derrocada subitânea de um trecho de margem, onde plantou o rancho, a roça e armou a rede para sonhar com a doçura de um primeiro beijo, ali, no canto do mato limpo pelo seu carinho e adornado pelo seu amor? E o fato geológico, brutal, como um terremoto que se não esquece, inspira o poeta; a saudade, então, deixa de ser o “delicioso pungir de acerbo espinho”, que magoava docemente os avoengos... No Brasil, é “a terra caída de um coração que sonhou”...

Este cantor não se utiliza dos mirtos, das verbenas nem dos jacintos que nunca viu; suas flores são colhidas no ipê e no imbirussú. Não se aproveita das águias, nem dos condores, nem dos rouxinóis, que já tem visto... engaiolados; mas compara os gritos lancinantes de sua dor ao metálico explodir da voz de uma araponga. O sabiá é a sua “viola de penas”; o curiango, a jaçanã, o urutau, tipos das ornis do Brasil, esvoaçam nas suas produções.

Dele, nunca, ninguém dirá que é um poeta português, escrevendo no Brasil.

Seja qual for o juízo que se forme do idioma semi-bárbaro de que se ele serve, é preciso reconhecer que tal língua não morrerá. Há de ser polida, modificada pelas influèncias extranhas, que o progresso do país fará avultar; mas há de viver.

Quem escreve para o público, no Brasil, tem o dever de zelar pelas vozes clássicas, sem exageros anacrônicos, para cumprir uma missão frenadora, servir de elemento conservador, moderando a velocidade da vaga popular, conservando tradições. Mas não deve combater, senão aprimorar o formoso dialeto, áspero, como a maior parte da terra em que nasceu.

Ninguém, no Brasil, escreve como ele a língua da gente inculta, que é a maioria da nação; ninguém, como ele, sabe cantar ingenuamente a pátria, nos sons que por ela circulam.

Simples naturalista, estou aqui a falar do poeta, porque a poesia é como a luz. Uma desce do céu azul e penetra nos palácios e nas choupanas; lava os mares e as terras; espalha-se por sobre florestas e se derrama nos campos. A outra sobe da natureza inteira, e se exalça para ganhar o infinito. Rompe do solo, nos acidentes do terreno, que é vário, como a alma dos homens; nasce na existência diária de todos os seres vivos; sublima-se no sentimento do “grande escravo”, que se não move senão à custa de cega obediência a leis fatais. Ela entra na arte, para vivificá-la; na indústria, para dar-lhe brilho; e, na ciência, prestígio.

Esta poesia semi-bárbara me fascina, porque sinto, nela, as louçanias e as imperfeições da minha terra.

Este poeta foi o escolhido da sorte, para arquivar, no coro dos povos que cantam, a voz do seu próprio povo. Seus poemas estão escritos no lenho das grandes árvores, gravados nos penhascos da pátria; foram compostos com as harmonias reais deste meio natural dominador.

ROQUETTE PINTO.
(Da Academia de Letras)


Crônica do “Mercure de France”

CATULLO Cearense est unique en son genre et il nous a donné le frisson nouveau. La matière de sés poèmes est simple, vaste et riche.

Elle est la contemplation du monde et contemporaine de tous les âges. Ele a l’image forte, profonde, cosmique. Sou âme est au centre de la forêt, comme un écho sonore, tele l’âme de Victor Hugo au centre de tout, selon le vers célèbre. Il a une façon aisée et sure d’entrer en matière, une famíliarité jamais vulgaire, qui me fait penser à l’incomparable Lafontaine. Catulo ne dit point ses vers ni les declame. Il les vit. La voix, le geste, la masque et les mouvements, tout a cette verité, cette force spontanée et juste d’un art qui rejoint la vie. Il est simples, naturel et exact, comme un chant d’oiseau.

(Mercure de France, Paris,
1 de Maio de 1919).


Em caminho do sertão


EM CAMINHO DO SERTÃO

(Asterio de Campos)

BARDO ou Poeta, cujas rimas
são da poesia o tesouro,
que cantas em rimas de ouro
a tua consagração,
fecha os cristais dos ouvidos,
não ouças, por caridade,
a virgem rusticidade
desta viola do sertão.

     Esta linguagem bravia,
     como aquela natureza,
     não contém essa beleza
     paciente do teu buril!
     São os versos deste livro
     como as águas das cascatas
     e o vento, açoitando as matas
     das florestas do Brasil.

Tange as cordas da tua lira
nos seus dulcíssimos trenos!
Entoa canções à Vênus
no teu rítmo lapidar,
mas deixa-me a liberdade
de descantar n’uma prima,
sem arte, sem voz, sem rima,
uma cabocla a sambar.

     Quisera ser ignorante,
     como um cantor sertanejo!...
     Era esse o meu desejo!...
     Não ter nenhuma instrução,
     mas ter o dom do improviso,
     para dizer, de momento,
     as dores do pensamento
     e as mágoas do coração.

Excelso, divino poeta,
que levas um mês inteiro,
beliscando no tinteiro,
para um soneto compor,
deixa um momento a Avenida,
vai lá nos matos sombrios
ouvir esses desafios
de um cabra improvisador.

     Não vais sentir a rijeza
     de eretos alexandrinos!
     Vais ouvir os dons divinos,
     que Deus concede a um mortal!
     Não te importes com a sintaxe,
     que isso é coisa sem valia!
     Sorve somente a poesia,
     que é um licor celestial.

Basta de Pan, de Netuno!
Deixa a Grécia! Deixa a Itália!...
Deixa a fonte de Castália,
que, de há muito, já secou!
Vai beber as águas frescas
de uma cacimba, que é tua,
onde, à noite, a nívea lua
seus versos brancos deixou.

     Musset, D’Annunzio e Leconte,
     Byron, Hugo, Campoamor,
     já te imploram, por favor,
     que os deixes lá descansar.
     Demos um pouco de tréguas
     a tanta coisa estrangeira,
     que esta terra brasileira
     tem muito e muito que dar.

Eu bem sei que esses poemas
nunca serão recitados
nos salões opulentados,
por um moço de altivez.
Seria um crime ultrajante
dizer estas frioleiras
nessas rodas brasileiras,
onde se diz em francês.

     Mas, que importa? Nada aspiro
     neste país, nesta terra,
     que tantos bardos encerra,
     e tanto filho abandona!
     Eles têm a lira ebúrnea!
     São Orfeus!... São divindades!
     E eu só sei cantar saudades
     nesta inefável sanfona.

Se não traduzo, a contento,
as queixas lá da viola,
uma coisa me consola: —
é cantar tudo o que ouvi!
E embora vilipendiado
com inofensível fereza,
pertencer à natureza
desta terra em que nasci.

     Nada achareis neste livro,
     Narcisos afrancezados!
     Vós estais acostumados
     com essas liras de além mar!
     Este instrumento que eu trago
     aqui, por cima do peito,
     é tão bárbaro e imperfeito,
     que só eu posso escutar.

Nesta floresta de versos,
nesta espessa mataria,
não se escuta a melodia
de um CHANTECLER de Rostand!
No sertão destes poemas,
não canta um galo estrangeiro,
mas um galo brasileiro,
saudando a luz da manhã.

Quereis saber de que cor
são estes meus pobres trenos?
São da cor das folhas verdes,
pisadas pelos serenos!

     Nos dedos rudes que escrevem
     estas cantigas bucólicas,
     não reluzem os fulgores
     de anéis de pedras simbólicas.
     Qual seria o anel do poeta,
     se o poeta fosse um doutor?
     Uma Saudade brilhando
     na cravação de uma Dor!

          ....................

E vós, gentis senhoritas,
que falais o italiano,
como o francês soberano,
as línguas em que cantais,
cuidado com a língua bárbara
desses sertões lá do Norte,
trescalando o cheiro forte
dos gigantes vegetais!

     Fechai meu livro, senhoras!
     Com o vestido decotado,
     com o cabelo penteado,
     e esses finos sapatinhos,
     voltareis arrependidas,
     trazendo os vossos sapatos
     cheirando a folha dos matos,
     e as vestes cheias de espinhos.

Nada, pois, de sacrifícios,
sem colher um resultado!
Cuidado! Muito cuidado
com os acúleos... do espinheiro!
Em vez de um terno “je t’aime;
de um moço guapo e bonito,
ouvireis somente o grito
da paixão de um marroeiro.

     Nada, pois, de sacrifícios!
     Nas margens de uma Avenida,
     não se vê “Terra caída”,
     coisa que não tem valor!
     Não crescem árvores rudes
     que depois de decepadas,
     nós já vimos revoltadas
     contra um fero “lenhador”!

Fechai meu livro, Senhoras!
Certo, eu sei, não interessa
a história de uma “Promessa”,
uma flor do coração!
Um meigo e simples transumpto
das saudades sertanejas
das noites de São João.

     Que há n’um “passador de gado”,
     (direis vós) um homem rude,
     com sua bronca virtude,
     que vem ver a Capital,
     e volta vociferando,
     comparando esta cidade
     com a rudeza e a soledade
     da sua terra natal?!

Não! Lêde-a com dor, com magua,
essa história, essa romança
de um homem feito criança,
esse “Quinca Micuá”,
alma pura, nobre e santa,
como uma flor redolente,
que, talvez, tão inocente,
não exista igual por cá.

     Não reciteis, senhoritas,
     o poema religioso
     de um “cangaceiro” extremoso,
     o matador das estradas,
     porque vereis, sem surpresa,
     esses moços que escutarem,
     as gargantas rebentarem
     em tremendas gargalhadas!!

Vós, que lágrimas verteis,
lendo a insulsa serenata
de um poeta nefilibata,
um poetastro verlainal,
admirai, na “vaquejada”,
como um rude boiadeiro
respeita o seu companheiro,
mesmo sendo um animal!

          ....................

     Com prazer ouço uma orquestra
     no multicor dos sonidos
     e, logo após, os carpidos
     da viola, cantando a dor,
     assim como, lendo o Dante,
     logo depois ouviria
     um canto dessa poesia,
     que tem cheiro de verdor!

Tenho lido, desde Homero,
tudo o que se tem escrito
em versos de ouro e granito,
de impecável perfeição, mas,
(talvez seja ignorância),
ás vezes fico encantado
com um verso imetrificado
de um Manoel do Riachão!!!(*)

          ....................

     Formosos, doces Narcisos,
     que andais vestidos de Imprensa,
     cheios de orgulho, a doença
     dos “Grandes”, dos “Imortais”,
     que de cinco em cinco dias
     tendes o rosto gravado
     sob um soneto plagiado,
     nas colunas dos jornais!...

Vates, Poetas principescos,
vestidos de seda e de ouro,
a minha veste é de couro,
são rudes os versos meus!
Mas só reconheço um Príncipe
da Universal Monarquia,
Rei e Papa da Poesia,
cujo nome é — Deus!

          Só Deus!

          CATULLO CEARENSE.


Quinca Micuá

(O GAITEIRO DO SERTÃO)

O gaiteiro Quinca Micuá, fugido de sua terra, vai contar o que lhe succedeu à primeira pessoa que dele se condói, aqui, na Capital Federal.


QUINCA MICUÁ

(O GAITEIRO DO SERTÃO)

A Plínio Motta.

NOSSO Sinhô dê bons dia
a vasmincê, meu patrão,
e a toda a sua famia.

     Cheguei há cinco sumana
     nesta grande Capitá.

Sou musgo!... Musgo gaitêro!.
E, não é prú me gavá,
fui o terrô dos violêro
dos sertão do Ceará.

     Os samba daquela terra,
     adonde canta a viola,
     adonde geme o ganzá,
     não via o nacê do dia,
     sem o gimido chorado
     do gaitêro arriliado,
     do seu Quinca Micuá.

Cumo o rio — da nascente;
cumo a pranta — da simente;
cumo a simente — de coisa
que ninguém sabe... ninguém,
nací gaitêro tombém!

     Vasmincê póde me crê:
     não fazia duas hora
     que acabava de nacê,
     e já levava parmada
     de minha mãe, cumo quê!!

Toda a vez que ia mamá,
a pobrezinha gritava,
pruque eu, mamando, apertava
aquela santa maminha,
pensando já, meu patrão,
que fosse uma sanfôninha!!

     Eu sêmpe fui um cabôco
     bunito, cumo ele só!
     As tapuia lá dos verde
     dizia que eu tinha uns óio
     facêro de noitibó!

     Quando eu intrava num samba,
     todo pimpão e gostoso,
     cum os cabelo ingurdurado
     d’um gósméco, bem chêroso,
     a cabrochada assanhada
     ficava logo inciumada
     de me vê dengoso ansim!

     Tudo que era fermuzura
     ficava doida prú mim!

Eu tombêm fazia cêra,
mas porém, cumo brinquedo!
Dêxava sêmpe as cabôca
lambendo os óio dos dedo.

     Querê bem?! Não! Que isperança!

Nunca pude creditá
im tanta jura de amô
que me fazia a Tudinha,
a Miritinha, a Izabé,
naquelas caraminhola,
que é o visgo que sáe da boca
da pió sucúrújuba
que Deus criou: — a muié!

          _________

     Agora iscute, patrão.

Prós lado lá do sertão
do meu santinho Ceará,
vivia um homem chamado
— Lotéro Carácará.
Era rico, apois pissuía
uma fortuna de gado.

          _________

     Findava o mês da mutuca.

     Na minhã daquele dia,
     tinha chegado da Corte
     uma afiada do véio,
     cum o nome de Cunceição.

          _________

Era um dia de fôncão!

Lotéro, que era casado
cum a sinhora Cunegunde
e tinha um érmão doutô,
tinha mandado inducá,
na Corte... na Capitá,
essa tá de Cunceição,
cum carinho e munto amô!

     Tinha a mocinha seis ano,
     quando saiu do sertão.

Era férmosa, apois não!
Os óio dela fazia
pipoca no coração.
Tinha um nariz paricido
cum o bico do tinconcão.

     As corda dos seus cabelo,
     im duas trança ispaiáda,
     era cumo dois sedenho
     d’uma vaquinha amojada.

Cunceição era sarada!!...
Não tinha a cô das cabôca!

Era da cô da passóca,
tirante a batata assada.
Cantava e tocava musga
n’um caxão grande, — o priano,
que eu vi a prêmêra vez
im casa do seu doutô

     Batia língua cum ele,
     falando as língua da instranja,
     que inté mitía pavô!

Cunceição tinha o segredo
de contá, riscando os númbro
no papé, sem sé percizo
contá cum as ponta dos dêdo!

     N’um instantezinho inscrivia
     tudo o que ela bem quiria!

Im pé, andando ou deitada,
im quarqué livro ela lia,
si li dava na venêta!
Lia pru-riba e correndo,
que eu ia prá mim dizendo
que era coisa do Capêta!

     Quando falava... hinspanhó,
     o doutô chamava ela
     murzela... ou... miudamurzéla!

Eu vi, patrão, munta vez
que ela logo arrespundia
“murciú“, falando ingrêz!

Cunceição vinha passá
argum tempo no sertão
cum Lotéro e cum sá dona!

Era um dia de fônção!...

Eu ia tocá sanfôna.

     Naquela noite, patrão,
     meu insturmento gritava,
     parece que arrebentava
     as tripas do coração!

A minha gaita cantava,
cumo si fosse um vim-vim!

     Aquela moça já táva
     achamegada prú mim!

Ela se poz cum inxirisse!...

     óiáva p’ra mim!... si ria!.

Eu, na sanfona, gimía!...

Ela uma “coisa“ me disse!...

Eu logo me dirritía!...

Mas a canela da onça,
meu patrão, não assubía!..

     Foi o diabo, patrão!

O cara de barbatão,
que se danava de fêio,
mais fêio que São Simão,
oiáva ansim de réis-véis,
arripiava a quêréca,
imquanto a véia sapéca
me óiáva cum danação.

A muié tinha o nariz,
(não ofendendo os presente),
— de castanha de caju!...

Era uma véia barbada!...
Tinha uma cô de imbuzada!..
Só tinha uns óio bunito,
cumo os óio do tatu!!

     Um gaitêro, o Zé Fréchão,
     me óiando, inté paricía
     me querê cume cum as mão!

Baxinho, a ruê coirana,
Inluminata, a Rosinha,
a Chica, a Luiza, a Tudinha
xingava a mim e xingava
a sinhora Cunceição.

     Quando isquentava a fônção,
     apois, agora, o doutô
     tava tocando o caxão
     prás moça toda porká,
     a Cunceição, a danada,
     me puxou, num safanão,
     p’ra me dizê: “Micuá!

     “Eu tôu mêmo apaxonada!...
     “Tu firiu meu coração!”

Ela contou que o padrinho
quiría que ela casasse
cum o érmão, o tá doutô,
um moço todo lampêro,
que istudou na Capitá
seis ano, prá curandêro,
e que ela não tinha amô!!!

Que não quiria casá,
somentes p’rú sé doutô,
cum esse cara de intanha
e bico de picapáu.

     Levasse a bréca a sabença,
     que ela amava uma sanfona,
     o insturmento mais bunito
     ao despois do marimbáu.

Patrão, este seu criado,
o seu Quinca Micuá,
uvíndo o que ela dizia,
trimía, patrão, trimía,
cumo o junco da lagôa
im dia de ventania!

     P’rá pude me arritirá,
     ante da festa acabá,
     foi perciso que eu jurasse
     p’ra sá dona Cunceição
     que eu ia no outro dia,
     sem fárta, tocá sanfona
     no samba do Zé Chícão.

          _________

Quando eu cheguei, no outro dia,
na guarapêra do cabra,
já Cunceição incontrei.

Óie, patrão: a verdade
nunca mereceu castigo!

     Eu tombêm me apaxonei!!!

No samba do Zé Chicão,
foi o diabo, patrão!

     Um cantadô de viola
     fez esta impruvisação: —

“Eu já vi um sapo-boi,
“n’um aguaçá d’um bréjão,
“dizendo que a sua gaita
“parecia um azulão”.

Preguntando um outro cabra:
— E o que tu disse, Janjão?!
O prêmêro arrespondeu: —
“Eu varejei uma pedra
“no fucinho desse cão”.

     Puxei pula intiligença,
     e arrespundi pró zangão:
     “Estes verso bem amostra
     “que saiu dessa cachóla!
     “O sapo-boi, que tu viu,
     “táva tocando viola”.

O cabôco tiriúma
cuspiu do couro o quicé!

     Eu, no meio das cabôca,
     isgruvitava cum os pé!

Se as muié não cunsintía
que eu me ispaiásse à vontade.
(não minto, não, falo séro!)
garrei na minha sanfona,
e... perna p’rá quê te quero!

     Apois, esse violêro
     do samba do Zé Chicão,
     o cabra da gaforinha,
     se as muié não me garrasse,
     não cumía mais farinha!

Apois, dona Cunceição
me pidía!... Supricava
pula santa de seu nôme!!

Caxinxe, é sêmpe caxinxe,
e um hôme, é macaco é hôme!

     Ao despois, o seu Lotéro,
     sabendo daquelas coisa,
     disse a sinhá Cunceição
     p’rá não fala mais cumigo!

Ora, vêje que pirigo!

     Sá Cunceição, que era fina,
     cumo a gente diz prú cá,
     de minhã, todos os dia,
     imquanto os véio drumia,
     lá ia assuntá cumigo,
     imbáxo d’um biribá.

Eu nunca vi coisa ansim:
a muié, que era inducada,
gostava mêmo de mim!

Caisse as água do céo,
ou fizesse o Só bom dia,
certinho, toda a minhã,
o biribá já me via
tocaiando a Cunceição!

     Na minhã que ela não vinha,
     era que o véio babão
     e a rabujenta madrinha
     tinha acordado mais cedo.

Ora, um dia eu tive medo!

     O coirão da marvadinha
     me catucou p’rá fugi!

“Sá dona!” eu arrespundi:
“váincê é moça inducada!
“Eu sou um pobre gaitêro,
“um tocadô de sanfona!
“Isso é coisa munto feia
“p’ra uma mocinha dizê!
“Não fale nisso, sá dona!...

“Óie, Sá dona, o Tinhoso
“tá tentando vasmincê!”

     Inda eu táva supricando,
     e a muié me dava as costa,
     indo imbóra, arresmungando.

               *

Passêmo duas sumana,
sem tá junto... sem nos vê!

Despois que a gente arengou,
de minhã, naquela hora,
eu passava munto longe,
iscundido atrás das moita
das verde jaráuácíca,
p’rá vê se via o diabo
da mocinha tiririca!

     Tinha perdido a aligria!

Nunca mais toquei n’um samba!

     E a minha gaita gimia,
     cumo a curuja avuando,
     quando a noite côme o dia!

A tia Angérca, uma véia
da casa de seu Lótéro,
que cumigo se incontrou,
me disse que o tá doutô
fazia cêra cum ela!...

Cum ela!... Sim!... Sim, sinhô!

Senti nos bófe um calô!...

     O carcanhá me trocêu!...
     Eu juro a váíncê, eu juro,
     que, sem tocá cum estes dêdo,
     a minha gaita gemêu!

Naquela noite eu andei!...
Andei pulas mataria!...
A sanfona não tocava!...
Táva muda!... Não gimia!

Eu apertava... afróxava!!...
táva sem voz!... Só bufava!

     Quando se perde a vrégonha,
     abasta o amô querê,
     faz do hôme uma pamonha!

Fui pedi a tia Angérca
p’rá dizê p’rá Cunceição
que eu táva isperando ela,
ante do Só acordá,
no outro dia, cumo sêmpe,
imbáxo do biribá.

Dito e feito. No outro dia,
naquela hora marcada,
eu isperava a marvada!

A sanfona, pindurada
n’um ramo, a se imbalançá,
quando uviu ela falá,
sem eu tocá cum estes dêdo,
introu de novo a cantá!

     Pula arage balançada,
     no ramo, d’aqui p’ra lá,
     parecia inté, patrão,
     que a gaita era o coração
     do férmoso biribá!!!

Eu entonce preguntei
se ainda me tinha amô.

     Não disse nada!... Calou!

Eu falei nesse inxirído,
no moço... no... no doutô!

     Foi entonce que falou,
     dizendo que ela falava
     siturdia cum esse moço,
     prú via d’um má de rengo...
     e prú via d’uma dô.

D’outra feita, foi prú via
d’uma grande narvragía
no miolo do coração!

     Mas porém já táva boa,
     despois que o doutô fisgou
     nos dois braço uma injerção..
     (lá nela)... de fôia sêca,
     e simente de gervão.

Despois, zangada, me disse
que eu amava sem calô!!!
Que eu tinha sido o prêmêro,
o prêmêro que ela amou!

     Que tinha munto dinhêro
     p’rá nós vivê afórgado,
     sem se importá cum o Lótéro,
     nem cum o diabo do doutô.

Entonce, apouzando o braço
cá prú-riba do meu ômbo,
sintí cumo uma friáge
nos grugumío do istômbo!

     Trimí, seu patrão, trimí!
     Mas porém, quando outra vez
     me catucou p’rá fugí,
     não sei cumo não murri!

Ai, que moça tão marvada,
mas porém... tão bunitinha!

Despois, me disse no uvido:
“Micuá, uma boquinha!...”

Apois, juro a vasmincê!...
Eu não sabia o sintido
da palavra... Pode crê!

Quando ela me disse o que era,
gritei: “Dona Cunceição!!!

“Não quero sabe de nada!!!

“Eu amo váincê, sá dona,
“cum todo este coração,
“que bate aqui neste peito!
“Não tire paluxo, não!...
“Não me farte cum o arrêspeito!”

     O sinhô Carácará,
     que já tinha alevantado,
     uvindo eu falá mais arto,
     como uma onça n’um sarto,
     garrou na minha gaitinha,
     que nem cachorro inraivado!

     Eu fiquei ajuêiádo,
     sem pude arrispirá,
     vendo que o hôme quiria
     a sanfôninha quebrá!!!

Quando eu disse pró padrinho
que a sua linda afiada
foi e haverá de sé sempre
cá prú mim arrespeitada,
cumo sempre arrespeitei,
     o raio da iscummungada
     me fez cum os dêdo... uma figa,
     que eu nem sei cumo fiquei!!

Seu patrão, não digo nada!!!
A muié táva ispritada!!!

     O véio tinha o insturmento
     alevantado nas mão,
     me óiando cumo o capêta,
     cum uns óio de sucuri!

Foi quando, entonce, n’um grito,
ela gritou: “Meu padrinho,
“este hôme sem vrêgonha,
“me achando sozinha aqui,
“me pidíu uma boquinha,
“me catucou p’ra fugi,
“dizendo umas coisa feia,
“que váincê nem faz indéa!”

     O hôme entonce, o mardito,
     cumo uma fera acuada,
     fisgou-me im riba do quengo
     a minha gaita adorada!

A minha gaita, a sanfona
que eu não trocava prú nada!

Quanto tempo, quantas hora,
eu ali fiquei ansim!

     E, quando dei fé de mim,
     táva no meio do véio
     e d’uns cabra da Fazenda,
     que o diabo mandou chamá!

Entonce levei no lombo
levei tanta gurungumba,
cumo se fosse um zabumba...
tanta corda de crôá,
que se eu vivesse cem ano,
inda guardava siná!!!

Correu prú todo o sertão
que o seu Quinca Micuá
tinha tirado paluxo
cum a dona!... a miúdamurzéla,
afiada do Seu Lótéro!...
A Sá dona Cunceição!

Todo mundo preguntava:
“Cumo é que esse Micuá,
“um sanfonero de nome,
“foi se inxirí cum uma moça,
“que era noiva d’um doutô,
“e afiada desse hôme?!”

     Tudo virou contra mim!

Fugi de lá do sertão,
da minha terra!... De lá!!

     Despois daquela muxinga,
     vim drúmindo pulos mato,
     im caminho da cidade,
     ispinhando de sôdade
     da minha pobre sanfona,
     que lá ficou dispenáda
     imbáxo do biribá!

Ai, quantas noite, sozinho,
nos mato da minha terra,
gemendo na sanfôninha,
e de barriga prô à,
óiáva o céo e me ria
de vê cumo as istrelinha
lá no céo táva a sambá!

     A vida é um samba, patrão!

     Apois, quem é que na vida
     samba mais?
          É o coração!

Leva a cabeça assuntando
todo o dia, mas porém,
de noite, vai discançá!

Somentes o coração,
ante da gente nacê,
inté a gente morrê,
leva a sambá... a sambá!!!

O coração é fié!...

     A cabeça, ai, a cabeça
     é que é maléva e crué!

Foi a cabeça, foi ela
que me perdeu!... me impuiôu!

     Quantas vez o coração
     não chorou... e... arresmungou!

Dêxei a Luiza, a Tudinha,
a Inluminata, a Rosinha,
a Craciúna, a Lulú,
a Bastiana Sanhassú,
a Sanda, a Felicidade,
a Vitóca das Sôdade,
a fia do Zé Chicão,
a Chica do Zé da Serra,
a cabôca mais bunita
dos mato da minha terra...
prú móde dessa murzéla
ou dessa miúdamurzéla,
dessa dona Cunceição!!!

A Inluminata, a Rosinha,
a Bastiana, a Tudinha,
nenhuma sabia lê!

Mas porém, p’rá quê? P’rá quê?!
Só p’rá vregônha perdê?!

P’rá jura farso e mintí?!

P’rá cunvidá p’rá fugí?!

     P’rá té o discaramento
     de me querê dishonrá,
     pidindo um bêjo, que é coisa
     que a gente não deve dá,
     sem prêmêro arrecebê
     a santa benção de Deus,
     n’uma ingrêja, ao pé do artá?!

     Tudinha era uma muié
     inguinorante, sarvage!...
     Tudo o que váíncê quizé!!

Mas porém, meu patrãozinho,
aquilo é que era muié!

Muié, que teve a corage,
a corage, sim, sinhô,
d’uma noite, lá n’um samba,
no meio de toda a gente,
tirá do pé a chinela,
a chinela, Seu doutô,
p’rá me castigá na cara,
só prú via de eu tê dado
p’rá uma cabôca uma frô!

     Isso, sim, é que é muié!...
     Isso, sim, é que é o amô!!

A outra butou a rosa
nos cabelo, e, orguiósa,
se pôs-se logo a sambá!

Mas porém, aqui, na cara,
ficou tômbém outra rosa,
vremêia, grande e férmosa,
a frô da dó de canela,
do disispero do amô,
o siná lá da chinela,
que tômbém era uma frô!

     Óie, o ciúme é treidô!
     É o fio mais macriado
     que tem a Amizade e o Amô!

Seus pae, o Amô e a Amizade,
tem munta e munta vontade
de vê seu fio inducado!
O minino é discarado!!
Mas porém, óie!!... é bom fio!

Quando ele vê sua mãe
e seu pae amachucado,
     si da muié cá da Corte
     faz um bruto assarvajado,
     se faz d’um hôme outro bruto,
     crué, disprepositado,
     séje, como eu, um gaitêro,
     ou sêje um doutô fromádo,
     quanto mais um coração,
     um coração de cabôca,
     que não foi cirvilizado!?

Patrão, agora, eu pregunto:
o que era aquilo? O que era?

     Vasmincê vai me dizê
     que aquilo era estupideza
     da muié lá do sertão!...

     Que a muié tinha a fêrêza
     d’um urutu, d’uma fera!
     E vasmincê tem rézão!

Era uma fera, firida
no fundo do coração!

     Isto, sim, é que é muié
     que sabe amá, meu patrão!

Vindo do amô, do ciúme,
das mãos do amô, das mão dela,
ante o siná da chinela
na cara, cum um bofetão,
que um bêjo, um bêjo de Juda
na boca da Inducação!

     A Tudinha não prendeu
     a batê língua, ispritada,
     cumo essa moça inducada,
     que tinha o tempo vadio!...
     Mas porém a Cunceição
     não sabia batê roupa,
     cumo a Tudinha, a cabôca,
     lavando à bêra do rio!!

Eu ánte quiria sé
a pedra adonde lavava
sua roupa a lavadêra,
do que sê todos os livro
que ensinava a Cunceição
p’ra falá tanta porquêra!

     A muié mais sem vrêgonha
     é a Sinhora Inducação!

     Inducação!!? Que hirizia!

Danada! Eu te discunjuro,
im nome da Mãe de Deus,
da Santa Virge Maria!

Os mato, as árve, as choupana,
os rio, os córgo, a boiada,
as roça e mais as quêmada,
o machado, a foice, a inxada,
a lua, as noite istrelada,
as viola e as magua chorada
no coração das tuada,
o canto da passarada...
não pércisa de ti, não!

Inducaçãoü Prú piadade!

Tu naceu cá na cidade!!

     Não vai mexê cum essa gente
     das terra do meu sertão.


VOCABULÁRIO

Ganzá — instrumento de folha, com pedrinhas dentro.
Tapuio — descendente de índio.
Dos verde — do sertão, dos matos.
Pipoca — milho torrado na cinza.
Fazer cêra — namorar.
Sedenho — cauda do animal.
Amojada — que ia dar à luz.
Passóca — carne seca com farinha, socada no pilão.
Instranja — das terras estrangeiras.
Guarapêra — choça.
Imbuzada — comida do fruto do imbuzeiro e leite.
Tiriúma — desconsolado, desconcertado.
Isgruvitá — fazer piruetas.
Jaráuacica — planta.
Gurumgumba — cacete.
Cróá — corda feita dessa planta.
Barbatão — touro bravio.
Capeta — o diabo.
Vim-Vim — passarinho, cujo canto diz seu nome.
Sarado — experimentado na vida.
Inxirido — intrometido.
Ruê coirana — estar enciumado.
Assuntá — considerar, conversar, pensar, etc.
Muxinga — sova.
Caxinxe — macaquinho.
Intanha — sapo-boi.
Sucúrújuba — cobra venenosa.
Dor de canela — ciúme.
Córgo — córrego.
Má de rengo — doença que dá no gado.


O Marroeiro

Este marroeiro (moço) vai contar o seu caso a outro marroeiro velho, centenário, celibatário e tocador de viola, como ele.

O “Velho Marroeiro”, novo poema em resposta a este, encontra-se no livro “Mata Iluminada”.

Esta a razão por que o autor substituiu o vocativo — Sá dona — por — Marroeiro.

É a primeira vez que este poema é publicado na integra, sob as vistas do autor.


O MARROEIRO

A Alberto Nunes Filho

MARRUÊRO, eu sou marruêro!...
Nacendo, cumo tinguí,
fui ruim, cumo piranha,
mais pió que sucuri.

Pixúna daquelas banda,
véve a gente a campiá!...
Deus fez o hôme, marruêro,
prá vivê sêmpe a lutá.

Meu pae foi bixo timíve
e eu fui timíve tombém!
O pinto já sáe do ovo
cum a pinta que o galo tem.

Se meu pae foi marruêro,
havéra de eu tá na tóca,
a rapá no caitetú
a massa da mandioca?!

Bebedô de maduréba,
pissuindo carne e caroço,
eu nunca vi cabra macho
que me fizesse sobroço!

Nunca drumí uma noite
imbaxo de tejupá!...
Nascí prá vivê nas gróta,
prá vivê nos môcôsá...
prá drumi longe dos rancho,
prú-riba duns gravatá...
vendo a lua pulas fôia
d’um férmôso iriribá!

               *

Nos gaio da umarizêra,
o cantá do sanhassú;
na boca triste da noite,
o gimido da inhabú...

e as tuada da cabôca,
lavando n’agua do rio,
e os canto, prú via dela,
nos samba... nos disafio...

nada disso, não, marruêro,
me dava sastifação,
cumo o mugido bravio
dos valente barbatão!

Nada fazia, marruêro,
o coração me pulá,
cumo uvi pulas varjóta,
os berro dos marruá!

               *

Na paz de Deus eu vivia
nos brêdo dos matagá,
tocando a minha viola
só prá meu gado iscutá.

Lá, prás banda onde eu nascí,
já se falava do amô:
todas as boca dizia
que era farso e matadô!

Mas porém, foi trazantonte,
no samba do Zé Benito,
que eu panhei uma chifrada
que me deu esse mardito!

Nas marvadage do Amô
não hay cabra que não cáia,
quando o diabo tira a roupa,
tira o chifre e tira o rabo
prá se vistí c’uma saia!

Se adisfoiando no samba,
cantando uma alouvação,
eu vi a frô dos cabórge
das morena do sertão!

Trazia dento dos óio
istrépe e mé, cumo a abêia!
Oiôu-me cumo uma onça!...
E, ao despois, cumo uma ovêia!

Aqueles óio xingôso,
eu confesso a vasmincê,
ruía a gente prú dento
que nem dois caxinguêlê!

Sem mardade, um bêjo dado
naquela boca orvaiada,
havéra de tê, marruêro,
o chêro das madrugada!

A fala dela, marruêro,
era o gemê do regato,
que vae bêjando as fôiáge,
que cáe da boca dos mato!

As duas rôla morena,
prú baxo do cabeção,
trimia, cumo a água fresca,
quando o vento bêja as água
das lagoa do sertão!...

Pruquè os dois peito alembrava
dois maduro cajá-manga,
e a boca, toda vremeia,
parecia uma pitanga.

Chêrava as mão da cabôca,
cumo os verde maturi!...
Era taliquá, marruêro,
dois ninho de juruti!

Os pezinho da curumba,
quando dançava o baião,
parecia dois pombinho,
a mariscá pulo chão!

Eu me alembro!... A saia dela,
cô das pena da irerê,
tinha a sôdade dos mato,
quando vae anoitecê!!

Aqueles braço de fogo,
(Deus não me castigue, não!!)
quêmava, cumo as fuguêra
das noite de São João!...

Marruêro!... Os cabelo dela
tinha o calô naturá
da pomba virge dos mato,
quando cumeça a aninhá!...

Apois, os cabelo dela
tão preto prô chão caia,
que toda a frô que butava
nos cabelo, a frô murchava,
pensando que anoiticia!!

O suô que ela suava
no samba, chêrava tanto,
que inté a gente sintia
um chêro de ingreja nova,
um chêro de dia santo!

As anca, as cadêra dela,
surrupiando no côco,
toda a se tamborilá,
a móde que parecia
o xaquaiá de uma onda,
que vem jupiando, redonda,
na praia se derramá!

Japiaçóca dos brejo,
no arrastado do rojão,
cantava cum tanta magua,
cum tanto amô e paxão,
que ispaiava, no terrêro,
o ôrôma do coração!!

O coração das viola
aparava, de mansinho,
se os dois fióte de rola,
quando ela táva sambando,
pulava fora do ninho!...

Entonce, aqueles dois óio,
sereno, cumo o luá,
vinha prá riba da gente,
taliquá dois marruá.

Intrava dento da gente,
cumo duas zelação!...
Mas porém, a gente via,
no fundo daqueles óio,
a hora da Ave-Maria,
gemendo nas corda fria
das viola do sertão!!!

               *

Prú móde daqueles óio,
dois marvado mucuim,
um violêro, afulémado,
partiu prá riba de mim!

Temperei minha viola,
intrei logo a puntiá,
e ambos os dois se peguêmo,
n’um disafio, ao luá!

Premití a Santo Antônio,
se eu vencesse o cantandô,
de infeitá o seu fiínho
cum um ramaiête de frô!!

Só despois que nestas corda
fiz pinto cessá xerêm,
vi que o bichão se chamava:
— Manué Joaquim do Muquêm!

Manué Joaquim era um cabra
naturá de Piancó!...
Quando gimia no pinho,
chorava, cumo um jaó!

Eu, marruêro, arrespundia
nestas corda de quandú,
e os acalanto se abria,
cumo as frô do imbiruçú!

Foi despois do disafio,
quando eu saí vencedô,
que os canto e os gemê dos pinho
n’um turumbamba acabou!!

Imquanto nós dois cantava,
sem ninguém té dado fé,
tinha fugido a cabôca
cum o Pedro Cachitoré!!!

Tinha fugido a curumba
cum aquele bode ronhêro,
um tocadô de pandêro
e runfadô de zabumba!

Tinha fugido, marruêro,
aquela frô dos meus ai,
cumo uma istrela que foge,
sem se sabê prá onde vai!!!

Na luz do Só, que acordava,
lá, no coró do Nascente,
a móde que Deus, contente,
cum a natureza sonhava!

O canto alegre dos galo
nos capoerão amiudava!...
Nos taquará das lagoa
as saracúra cantava!...

Alegre, passava um bando
das verde maracanã!...
Férmosa, cumo a cabôca,
vinha rompendo a minhã!

O vento manso da serra
vinha acordando os caminho!
Vinha das mata chêrosa
um chêro de passarinho!...

Lá, no fundão d’uma gróta,
adonde um córgo gimía,
gargaiava as siriêma
cum o fresco nacê do dia!

Uma araponga, atrépada
n’um braço de mato, im frô,
gritava, cumo si fosse
os grito da minha dô!!

E a sabiá, lá nos gaio
da tabibúia, serena,
trinava, cumo si fosse
uma viola de pena!

Um passarinho inxirido,
mardosamente iscundido
nas fôia de um tamburi,
sastifeito, mangofando,
de mim se ria, gritando
lá de longe: “bem te vi”!

               *

Chegando na incruziada,
despois do dia rompê,
sipurtei o meu segredo
n’um véio tronco de ipê!

Dendê essa hora, inté hoje,
eu conto as hora, a pená!...
Eu vórto a sê marruêro!...
Vou vive cum os marruá!

Eu tinha o corpo fechado
prá tudo o que é marvadez!
Só de surúcúcútinga
eu fui murdido trez vez!...

Tândo cum o corpo fechado,
prás feitiçage do Amô,
pensei que eu tava curado!

Dos marruá mais bravio,
que nos grotão derribei,
munta chifrada penosa,
munta marrada eu levei!!

Prá riba de mim, Deus pôde
mandá o que ele quizé!

O mundo é grande, marruêro!...
Grande é o amô!... Grande é a fé!...

Grande é o pudê de Maria,
ispôsa de São José!...

O Diabo, o Anjo mardito,
foi grande!... Cumo inda é!!

Mas porém, nada é mais grande,
mais grande que Deus inté,
que uma chifrada, marruêro,
dos óio d’uma muiéü!


VOCABULÁRIO

Marruá — touro.
Marruêro — pastor do gado.
Tinguí — erva venenosa.
Piranha — peixe mordedor.
Sucuri — cobra.
Pixuna — rato selvagem.
Mandurêba — cachaça.
Campiá — andar à busca de gado, pelos campos.
Sobroço — medo.
Tejupá — cobertura de palha.
Mocôsâ — caverna.
Borbatão — touro.
Alouvação — canto, louvando alguém.
Cabórge — feitiço.
Istrépe — espinho.
Caxinguelê — animal roedor.
Baião — dança.
Irerê — ave palmípede.
Japiaçóca — ave ribeirinha.
Rojão — toque de viola.
Zelação — estrela cadente.
Mucuim — parasita que se introduz na pele.
Afulémado — raivoso.
Puntiá — preludiar na viola.
Pinto cessá xerém — fazer bonito.
Jaó — ave de canto melancólico.
Maracanã — periquito.
Araponga — ave também chamada Ferreiro, de grito agudíssimo.
Corpo fechado — aquele que por meio de rezas e outras superstições, fica isento de mordeduras e feitiços.
Surúcúcútinga — cobra venenosíssima.


O Lenhador


O LENHADOR

À memória de Paulo Silva Araújo

UM lenhadô derribava
as árve, sem percizão,
e sêmpe a vó li dizia!
“Meu fio: tem dó das árve,
que as árve tem coração!”

O lenhadô, n’um muchôcho,
e rindo, cumo um sarváge,
dizia que os seus consêio não
passava de bobage.

Às vez, meu branco, o marvado,
acordando munto cedo,
pegava no seu machado,
e levava o dia intêro,
iscangaiando o arvoredo.

E a vó, supricando im vão,
sêmpe, sêmpe li dizia:
“Meu fio: tem dó das árve,
que as árve tem coração!”

N’uma minhâ, o mardito,
inda mais bruto que os bruto,
sem fazê caso dos grito
da sua vó, que já tinha
mais de noventa janêro,
botou no chão um ingazêro,
carregadinho de fruto.

D’outra feita, o arrenegado
fez pió, munto pió!
Disgaiou a laranjêra
da pobrezinha da vó,
uma veia laranjêra,
donde ela tirou as frô
prá leva no seu vistido,
quando, virge, si casou
cum o véio, que tanto amou,
cum o difunto... o falicido!!

E a vó, supricando im vão,
sêmpe, sêmpe li dizia:
“Meu fíio: tem dó das árve,
que as árve tem coração!”

Do lado do capinzá,
adonde pastava o gado,
táva um grande e véio ipê,
que o avô tinha prantado.

Despois de levá na roça
c’uma inxada a iscavacá,
debáxo d’aquela sombra,
nas hora quente do dia,
vinha o véio discansá.

Se era noite de luá,
ali, num banco de pedra,
c’uma viola cunversando,
o véio, já caducando,
rasgava o peito a cantá.

Apois, meu branco, o tinhoso,
o bruto, o máo, o tirano,
a fera disnaturada,
um dia jogou no chão
aquela árve sagrada,
que tinha mais de cem ano!

Mas porém, quando o tinhoso
isgaiava o grande ipê,
viu uns burbuio de sangue
do tronco véio iscorrê!

Sacudiu fora o machado,
e deu de perna a valê!

E foi correndo!... correndo!!

Cada tronco que ia vendo
das árve que ele torou,
era um braço alevantado
d’um hôme, meio interrado,
a gritá: “Vae-te, marvado!...
Assassino!... Matadô!
Foi Deus quem te castigou!”

E foi correndo!... correndo!!

Cada vez curria mais!

Mas porém, quando, já longe,
uma vez ôiou prá-traz,
vendo o ipê alevantado,
cumo um hôme insanguentado,
cum os braço todo torado...
cada vez curria mais!

Na barranca do caminho,
abandonado, um ranchinho,
entre os mato entonce viu!
Quê vê se isbarra e discansa
e o ranchinho, prú vingança,
im riba d’ele caiu!

E foi correndo e gritando!
E as árve, que ia topando,
e que má pudia vê,
cumo se fosse arrancada
cum toda a raiz da terra,
n’uma grande adisparada
ia atrás d’ele a corrê!!

Na boca da incruziada
vendo uma gruta fechada
de verde capuangá,
o hôme introu pulos mato,
que logo que viu o ingrato,
de mato manso e macio,
ficou sendo um ispinhá!

E foi outra vez correndo,
cansado, pulos caminho!...

Toda a pranta que incontrava,
o capim que ele pisava
táva crivado de ispinho!!

Curria... e não aparava!!!

Ia correndo, sem tino,
cumo o marvado, o assassino,
que um inocente matou!

Mas porém, na sua frente,
o que ele viu, de repente,
que, de repente, impacou?!

Era um rio que passava,
ali, n’aquele lugá!!
O rio tinha unia ponte,
que nós chamemo — pinguéla...

O hôme foi travessá!
Pôs o pé... Ia passando...
E a ponte rangeu, quebrando...
e toca o bicho a nadá!!!

O bruto tava afogando,
mas porém, sêmpe gritando:
“Socorro, meu Deus, soccorro!
“Socorro, que eu vou morrê!!
“Eu juro a Deus, supricando,
“nunca mais na minha vida
“uma só árve ofendê!!!

Entonce, um verde ingazêro
que táva im riba das água,
isticou um braço verde,
dando ao hôme a sarvação!

O hôme garrou no gaio,
no gaio cum os dente aférra,
foi assubindo... assubindo..
e quando firmou im terra,
chorava, cumo um jobão!

Bêjando o gaio e chorando,
dizia: “Munto obrigado!
“Deus te faça, abençoado,
“todo o ano té verdô!
“Vou rebentá meu machado!
“Quero isquecê meu passado!
“Não serei mais lenhadô!”

          ....................
          ....................
          ....................

Despois d’esta jura santa,
prá tê de todas as pranta
a graça, o perdão intêro
dos crime de hôme ruim,
foi se fazê jardinêro,
e não fazia outra coisa
sinão trata do jardim.

A vó, que já carregava
mais de noventa janêro,
dizia que neste mundo
nunca viu um jardinêro,
que fosse tão bom ansim!

Drumia todas as noite,
dêxando a jinela aberta,
prá iscutá todo o rumô,
e às vez, inté artas hora,
ficava, ali na jinela,
uvíndo o sonho das frô!

De minhã, de minhã cedo,
lá ia sabê das rosa,
dos cravo, das sêmpe-viva,
das manguinolia chêrosa,
se tinha drumido bem!
Tinha cuidado cum as rosa
que munta vó carinhosa
cum os seus netinho não tem!

Dizia a uma frô: “Bom dia!
“Cumo tá hoje vremêia!...”
Dizia a outra: “Coitada!
“Perdeu seu mé!... Foi róbada!
“Já sei quem foi!... Foi a abêia!”

Despois, cum pena das rosa,
que parece que chorava,
batia leve no gaio,
e as rosa disavexava
daqueles pingo de orvaio!

Ia panhando do chão,
as frô que no chão caia!

Despois, cum as costa da mão,
alimpando os pingo d’agua
que vinha do coração,
batia im riba do peito,
cumo quem faz cunfissão.

Quando no sino da ingrêja
tocava as Ave-Maria,
nos cantêro, ajueiado,
pidia a Deus pulas arma
das frô, que naquele dia
no jardim tinha interrado!

E agora, quando passava
junto das árve, cantando,
cheio d’agua carregando
o seu véio regadô,
as árve, filiz, contente,
que o lenhadô perduava,
no jardinêro atirava
as suas parma de frô!


A Promessa


A PROMESSA

Ao meu ex-editor A. J. Castilho

A JUANINHA era a morena
mais facêra do lugá.
O páe, o Antônio Preá,
jurava que ela cumigo
nunca havéra de casá.

A mãe, a vó, a madrinha,
o seu capitão Penido,
o páe de todo o sertão,
tudo já tinha pidido!...
E sêmpe o véio, danado,
dizendo: — Não dêxo, não!

Um dia... (Era o mês de Maio!)
a mãezinha da piquena,
que tinha um bom coração,
disse a nós que nós fizesse,
de juêio, uma prémessa
pró milagroso São João.

Apois bem. Dito prú dito,
Juaninha, róbando o santo
do oratóro da mãezinha,
cum o santo iscundido, às pressa,
lá foi se incontrá cumigo
imbáxo d’uma jaquêra,
adonde nós ajustêmo
prá si fazê a prémessa!

Entonce, os dois, ajuêiado,
bêjanto o santo infeitado,
tudo que ao Santo eu dizia
a Juaninha arrêpitia.

E foi ansim a prémessa
que ambos os dois nós fazia!

“São João!... São João!... São Joãozinho!.
“Se um dia o véio Preá,
“dexá nós dois se casá,
“nós dois irêmo, juntinho,
“no teu dia abençuado,
“a prêmêra missa uví,
“a missa da manhãzinha,
“no Arraiá, lá na Ingrejinha,
“ a duas légua daqui . ”

Nós acabêmo a prémessa,
chorando de coração!

Juaninha iscondeu o santo
prú báxo do cabeção!

E foi correndo... E já táva
munto pertinho de casa,
quando deu um grito, um ai,
vendo no arpende da choça,
o Antônio Preá — o pae!

Isfiapando as barba branca,
cum os cabelo arripiado,
o véio táva azougado,
c’uma açoutêra na mão!

Mas porém vendo a bichinha
cum aquela image sagrada
purriba do coração,
istacou... ficou banzêro!...
Mansinho, cumo um cordero!...
Sem quage pude falá!

Despois, sungando a açoutêra
prá menina iscurraçá,
quando quis baxá o braço,
ficou cum o braço no á!

A mãezinha de Juaninha,
que vinha lá da cacimba,
vendo o pobre do Preá
e a sua fia a gritá...
foi mêmo quando se bóta
água fria na frevura!

Puxando o braço do véio,
e fazendo uma oração,
o véio arriava o braço,
dizendo, entonce, despois,
que abençuava nós dois,
im nome de São João!!

          _________

Tendo sabido de tudo,
ao despois daquele dia,
o seu Preá premitía
que nós fizesse a viage,
a viage de duas légua,
prá cumpri nossa prémessa,
só, nós dois, sem mais ninguém!

Quando a gente se quê bem,
o santo protege o amô!

               *

Vinte e três do mês de Junho,
a vespra do grande santo,
filiz e bela chegou!

A noite daquele dia
parece que madrugou!...
Apois o dia, quetinho,
ia morrendo, morrendo,
cumo morre um passarinho.

O dia vinha findando,
quando eu me puz im caminho
prá casinha de Juaninha,
a minha santa noivinha,
que já táva me isperando
im báxo d’um cabuí,
cum um vistido todo novo,
todo gamenho e da cô
das pena do sibirí.

Cum uma frô de tajujá
nos seus cabelo istrelada,
e uma chinela arrendada,
prontinha prá viajá,
táva bunita e pachola,
chêrando mêmo a nuvía,
que não saiu do currá.

Entonce, os dois, eu e ela,
tomando a benção dos véio,
saimo naquela hora,
cum a noitinha, istrada a fóra.

No céu, de todos os canto,
prá festa do grande Santo
que bautisou, lá, n’um rio,
o Fio de Deus, seu Fio,
que foi chamado Jesus,
vinha saindo as istrêla,
cumo um bandão de frumiga,
um frumiguêro de luz!

Havia festa no céo!

Nenhuma istrêla prá festa
tinha fartado!... Nenhuma!

A lua vinha lavando
o argudão branco das nuve,
cumo uma bola de iscuma!

E ôiando a lua e as istrela,
a gente foi caminhando!

Quando cheguêmo na ponte
chamada — As cinco Manguêra —
vimo a prêmêra fuguêra,
que ispaiava uma puêra
de sangue vivo e vremêio,
cumo as fruta do café!

Na sôdade dos gimido
das prima, sêmpe maguada,
já nós uvía da istrada
esta sôdosa tuada,
no samba do Catolé.

          CANTO
            1.°

“Vamo, vamo, minha gente,
“toca a ri, toca a sambá!
“São João gosta da gente
“prá seu dia festejá!”

          CORO

— Aruhê! Aruhá!...
— Prá seu dia festejá!...

          CANTO
            2.°

“Esta noite tá chêrando,
“cumo um jasmim generá!
“Cumo é gostoso um abraço
“n’uma noite de luá!”

          CORO

Aruhê!... Aruhá!...
N’uma noite de luá.

          ....................
          ....................

E nós fumo caminhando!...
Caminhando!... Mas porém,
quando a gente si assumia
n’um cutuvelo da istrada,
outra fuguêra assanhada,
cô da pele das cabôca,
ardia na incruziada!

E ansim, naquele papougo,
alevantando prás nuve
o seu penacho de fogo,
inluminando o arvoredo,
todo o mato do sertão,
parece inté que quiria
quêmá toda a mataria,
im louvô de São João!

Era a fuguêra mais grande
da casa do capitão.

Im roda do fugaréo,
os moço, as moça, as famía,
d’um lado e d’outro curria,
imquanto lá, no terrêro,
imbaxo d’uma latada,
o capitão e os mais véio
cumía batata assada,
cana doce, macachêra,
e o mio verde, que chêra,
cumo o chêroso aluá!

Nas água d’uma bacia,
as moça a cara ispiava,
prá sabe si no outro ano
o Santo ainda dêxava
sua festa festejá!

Quebrando as outra a quilára
d’um ovo, n’um copo d’agua,
quiría sabê si a sorte
li dava o noivo da morte,
ou um noivo de si casá.

Um bando de sertanejo,
cum as viola toda infeitada,
prá festa do seu Penido
passava lá pula istrada,
cantando uns canto tão lindo,
que fez a gente apará!

Era o Chico Cambaxirra,
o namorado da Quima,
que ia na frente, a cantá.

          CORO

“Adeus, Quima, adeus, Quima!...
“Vou toda a noite
“gemê na prima!

          CANTO

“Tu foi prá festa
“Do Zé Biribita,
“toda vistida de novo e bunita!

“Ai, quem me dera,
“meu bem, ladrãozinho,
“que eu fosse as fita
“do teu vistidinho!

“Si arguem quizé
“sambá cumtigo,
“pensa im mim!...
“Não samba, não!

“óia, si tu quebra a prémessa,
“te castiga São João!”

          ....................
          ....................
          ....................

Nós passêmo pula casa
do capitão, iscundido,
apois, se ele visse a gente,
seria entonce percizo
eu li contá todo o causo,
há dois mês assucidido.

Quando písêmo a varjóta,
o quilarão da fuguêra,
que já ia si assumindo,
foi pouco a pouco... foi indo...
inté que infim... si apagou.

Lá, na quebrada da serra,
um galo cocoricou!

E a gente foi caminhando!...

Mas porém o sete istrelo
lá no céo táva briando.

Despois de passá no acêro,
mais a chapada e os grotão,
vímo uma choça e um brazêro,
e um hôme, só, na viola
cantando estes pé de verso,
cheio de amô e paxão.

A casinha era tão triste,
mas porém limpinha e bela!

Se a Sôdade tem morada,
deve morá n’uma casa,
só e triste, cumo aquela!!

E o hôme dizia ansim: —

          CANTO

“Levei três mês iscavando
“uma cacimba bem funda,
“prá meu roçado móiá!
“Mas porém, já tão cansado,
“prú mais que a terra iscavasse,
“não achei d’água siná!

“Há munto tempo, cabôca,
“cum a inxada da minha magua,
“eu cavo im teu coração,
“im teu coração tão seco,
“que não dá um pingo d’agua,
“nem um só, prú cumpaxão!

“Há munto tempo o roçado
“já morreu isturricado!
“Já não sabe o que é pena!
“E a minha dô inda cava
“na cacimba do teu peito...
“E continua a cavá!”

     E lá ficou saluçando
     na viola, à puntiá!

Ainda agora eu jurava
que o hôme que ansim cantava,
     era a Sôdade a cantá!

          _________

Eu caminhava, assuntando
naquelas coisa que o hôme
táva ali, triste, cantando,
quando, chegando na Ponta
da Pedra, im Santa Luzia,
outra fuguêra indiabrada,
roxa, cumo as madrugada,
fogo e fumaça cuspia,
e já de longe se uvia
o baticum do xerêm,
do coco e do miudinho,
no meio da gritaria!!!

As parma agora istralava
e os hôme e as muié gritava: -
— Olá!... Olé! Olarí!
— Cala a boca, minha gente!
— Vai canta o Bemteví. —

Bemtevi era um cafuzo
que veio de Pernambuco,
e andava meio maluco,
despois que a Juana dos Pato
prú via dele morreu.

As língua toda dizia
que o cabra sussúárána,
prú via lá d’uma cêra,
tinha matado a Juana,
e, despois, indoideceu!

Só cantava esta tuáda
o canto do bemteví
que eu vou dizê, mas porém
não sei si já me isquici.

          CORO

Gentes, eu vou me imbora!
Eu já não posso mais, não!
— É só prú via d’um passo.
— que eu me vou cá do sertão.
Ah! Ah! Ah! Não se ria, não! —

          CANTO
“Já não posso nos caminho
“vê uma muié passá,
“que esse cabra, sem vregonha,
“não pegue logo a gritá!!!
“Ih! Ih!
“Oh, que marvado bemteví!

          CORO

— Gentes, eu vou me ímbora etc. —

          CANTO

“Bem me disse, siturdia,
“a Josefa Caprimbú
“que essa pásso era afiádo
“de curuja e de aribú!
“Eh! Eh!
Quem é que pôde me valê!”

          CORO

- Gentes etc. —

          CANTO

“Mariquinha Bruzundanga
“bem me disse e eu creditei,
“que esse passo era o isprito
“da muié, que iscurracei!”
     Ah!... Ah!... Ah!...
          Pode sê!...
     Quem sabe lá!

          CORO

— Gentes etc. —

          CANTO

Trazantônte eu isperava
Miquilina Cumzambê,
iscundido lá nos mato,
prá um segredo li dizê!
     Ih!... Ih!...
Lá suviava o bemteví!

          CORO

— Gentes etc. —

          CANTO

Quando um tiro bem certêro
te joga mêmo no chão,
eu entonce hei de dizê
te isfrangaiando o coração!
     Ri!... Ri!... Ri!...
     Disgraçado bemtevi!

          CORO

— Gentes etc. —

          _________

E as parma istralou de novo
e era um barúio inferná!
O istralado da fuguêra,
que era feita das madêra
mais dura de si quêmá!...
O bate boca dos hôme
e das muié, que um instantinho
não cessava de falá!...
E mais os grito, a chalaça!...
A manduréba!... A cachaça!...
E o chêrinho das cabôca...
E o ôrôma do macassá!...

Era um barúio inferná!

Dois cabra que tinha vindo
de longe e que era mais duro
que o tronco das carnaúba,
ia agora si isbarrá!!

Era o grande disafio
do Bastião Bacatuba
e do Pedro Sabiá!

Era um barúio inferná!

As cabôca mais bunita
dizia que o Bacatuba
tinha um chamego istourado
pula cabôca Jovita!

Mas porém ninguém sabia,
prá si falá cum verdade,
quá dos dois ela quiria.

Essa muié tanjúra
era uma frô da sôdade,
mas porém que só si abria
im riba das sipurtura.

Despois é que eu me alembrei
que ali morava a tapuia
mais bunita e mais fermosa
daquelas banda, chamada: —
Jovita Boca de Rosa.

          _________

Sarafina Bêja-Frô,
Reimundinha das Inháca,
Girtrude do Zé dos Côvo,
a Mariquinha Macaca,
Vitóca, Chica Bemvinda,
Maria da Cunceição,
Lolóca, frô das viola...
Quitéra dos Maracá...
imquanto um bando gritava: —
Viva! Viva o Bacatuba!
Logo o outro arrespundia: -
Viva o Pedro Sabiá!!!

Seu Bacatuba — o facêro —
entonce cantou prêmêro:

          DESAFIO

          Bacatuba:

Minha viola morena
é uma gaiola de pinho,
adonde canta e saluça
tudo quanto é passarinho!

          Sabiá:

Toda viola foi árve,
que o machado derribou!
Prú via disso ela canta
o que dos pásso iscutou.

          Bacatuba:

Isso é mintira, seu Pedro!
Vassuncê é um bôbaião!
A viola só acumpanha!
Quem chora é o meu coração!

          Sabiá:

Eu arripito, sem medo,
que a viola, sim, sinhô,
já foi árve e agora canta
o que dos pásso iscutou.

          Bacatuba:

Sem os dedo, que nas corda
sabe gemê cum carinho,
que seria da viola?!
Gaiola sem passarinho!

          Sabiá:

Seu Bacatuba, um violêro,
cumo é tu, que eu não sei, não,
não martráta uma viola,
que tem arma e coração.

          Bacatuba:

Si eu martratasse a viola,
inda tinha duas mão,
prá pidí perdão às corda,
fazendo a minha oração.

          Sabiá:

Eu amo tanto a viola,
minha dó, minha aligria,
cumo adoro, rezo e canto
à Santa Virge Maria!

          Bacatuba:

A viola que eu mais adoro,
a mais férmosa que eu vi,
é um diabo que veste saia,
e não tá longe d’aqui!

          Sabiá:

Cabôco, si tu é hôme,
cospe fora e abre a boca,
prá dizê cumo si chama
o nome dessa cabôca.

          Bacatuba:

Seu cabra, eu não tenho medo
da cobra mais venenosa!
Essa cabôca si chama: —
Jovita Boca de Rosa...

          ....................

Quando o cabra disse o nome
da cabôca mais quirida,
mais fermosa do sertão,
se apagou-se os candiêro!...
Virou tudo n’um sarcêro!...
Foi tudo dos pé prás mão!

E entonce foi cacetada!...
E foi cabeça quebrada!

Gemeu a faca de arrasto
e a paruaíba matrêra,
que nós dois, numa carrêra,
fugímo logo d’ali,
prá discansá, lá, distante,
n’um campo de mata-pasto,
imbaxo d’um imbuí!

Naquela sombra da noite,
só se uvía a quéda d’agua
dispencando do penedo,
contando ás fôia dos mato
a históra da sua magua,
no sangue branco das água,
que era o sangue do rochedo.

Ali, imquanto, assentado,
eu uvía a gargaiada
das água, que não si via,
e Juaninha, inda cansada,
do sarcêro lá do samba
ria, ria, ria, ria,
o nosso amô, cumo um fruto,
no peito amadurecia!

Quanto tempo nós tivêmo
uvíndo a musga chorosa\
dos matagá, que gimia!

Mas porém era perciso
saí daquela parage,
prá gente chegá mais cêdo
no fim da nossa viage!

          _________

Depois de mais de uma hora
d’outra boa caminhada,
quando a gente ia trócêndo,
prá caí n’uma baxáda...
ânte de intrá pula istrada
de terra seca e areosa,
outra fuguêra bunita,
que paricia uma rosa,
si abria n’uma istralada.

Os cabôco e as cabôquinha,
apostando na carrêra,
sartava dos quatro lado,
fazendo cruz na fuguêra.

Um tropêro acachimbado,
cum as barba cô de timbó,
um cabra distabócado,
cum os óio, cumo socó,
um comboêro sestroso,
cum um nariz incurujado,
tocando o pife, o zabumba,
e gemendo no ganzá,
era os três musgo da festa,
prós cunvidado sambá.

São João im riba da mesa,
n’uma montanha de frô,
paricia tá gostando
de vê o samba isquentando,
e uví estes pé de verso,
que cantava um cantadô.

Era um cabra apaxonado,
cum uma viola abraçado,
cantando quáge chorando,
vendo a cabôca sambando,
vendo sambando a Lionô!

          CANTO

“Ai,tem pena do pobre,
          Lionô,
do meu coração,
          Lionô!...
que cum tantas pena, Lionô,
não avôa, não, Lionô,
que cum tantas pena, Lionô,
não avôa, não, Lionô!...

          _________

Dança, dança, cabôca, Lionô!
Não apára, não, Lionô!
Si tu tem piádade, Lionô!...
do meu coração!... Lionô!
É S. João quem pede,
          Lionô,
pula Virge Cunceição!...
E eu te peço pulo amô,
pulo amô de São João!

          _________

Todo o passo avôa,
          Lionô,
cá no teu e meu sertão!...
Pruquê não avôa, Lionô,
esse pásso — o Coração?!
Prá quê tantas pena, Lionô?!
Tantas pena, im vão?...
          Lionô!!
Pruquê não avôa, Lionô,
esse pásso — o coração?!!

          _________

Mas porém... apára!...
Ai, não dança, minha frô!
Não machuca a minha dó!...
Dêxa o coração im paz!...
Dêxa o coração im paz!
Mas porém... Requebra mais!...
          Lionô!!
               Lionô!!”

          ....................

No coração do cabôco,
que supricava a Láonô,
eu via o que ninguém via:
— outra fuguêra que ardia,
e era a fuguêra do Amô!
Sim!... A fuguêra do Amô!

Pruque, longe, munto longe,
vremêia, cumo a rumã,
lá, im riba da montanha,
na hora im que o Só nacia,
a mão de Deos acindia
a fuguêra da minhã!

Juaninha me catucando,
me disse entonce: “Juanico,
é percizo andá de pressa!...
óia a premessa, a premessa!”

E a gente apressêmo o passo!
E a gente andemo depréssa!

Apois, linda e bunitinha,
já se inxergava a Ingrêjinha,
adonde filiz nós vinha,
prá crumprí nossa promessa!

O Só, férmoso e tão lindo,
cumo uma lua de fogo,
ia assubindo!... assubindo!

Um ventozinho mimoso,
nas mata verde bulindo,
passava todo chêrôso,
as fôia sêca das árve
pulos campo sacudindo!...
Fazendo as fôia das árve
dançá na istrada o xerêm,
cumo se aquele ventinho
fosse brincando prá ingrêja
uví a missa tombém!

Que ventozinho tão lindo!

E o Só, mais mêno vremêio,
ia assubindo... assubindo!

Mas porém, nós impaquêmo,
prá um disafio iscutá
de dois cabra tupetudo,
que se danava a cantá!

Um, nos gaio da aruêra,
outro, n’uma laranjêra,
e um cabra era o pintasirgo,
e outro cabra o sabiá.

Só prá uví o disafio
dos dois pásso famanado,
o rio táva aparado,
sem uma arruga, que, inté,
paricía de tão branco,
entre o verdô das foiáge,
— uma fôia de papé.

Mais adiente, um riachinho,
um rio piquinininho,
vinha correndo, aos pulínho,
cheio de amô e tristeza,
sartando, de quando im quando,
fazendo renda nas pedra
e disfraçando a pobreza!

Quantas fulô piquinina
ria prá gente iscundida
entre o verdô das campina!

Quando um hôme do sertão,
passando, vê uma frô,
não panha a fulô cum a mão!
Apára e, despois, siguindo,
leva a frô no pensamento
e o ôrôma no coração!

Era impussive, despois,
dizê as vez que nós dois
tinha aparado prá vê:
duas rolinha dengosa
pulas pedrinha a corrê!...
Uma graúna!... um xenxéu!
Um azulão, que parece
que tinha manchado as pena
nas nuve azú lá do céo!

Um cancão!... Um guanumbi!...
Um bando de juruti!...
Um tiê-sangue!... Uma chóca!...
As inhambú!... As piaçóca!...
Um xofrêu!... Mais um vim-vim!...
Um cara-suja, bebendo
o sereno do capim!...
Mais um galo de campina!...
E tanta coisa divina!...
Um carro de boi cantando,
e os boiadêro gritando: —
“Vamo! Vamo, Lapiado!
“Istrela!... Toma cuidado!...
“Dêxa o capim, Bêja Frô!...”

E outras tanta maravia
daquele nacê do dia!...
Daquela minhã de amô!!!

     Pulas arêia da istrada,
     cum as cara toda impuêrada
     de toda a noite sambá,
     um dispotismo de gente,
     cum os tapiruca na frente,
     vinha imbolando, a cantá!

          CANTO

“Lá no azú do céo
tanta luz brotou!
Minha istrela d’arva
já se apagou!

Vem nacendo o dia
cum tanto amô!
São João naceu,
cumo um pé de frô!...”

          ....................
          ....................
          ....................

N’isto, um bando de fuguête
as nuve do céu furava,
e o sino lá da capela,
cumo um doido, xocaiava,
imquanto um bandão de gente,
que era a gente sertaneja,
gritando o nome do santo
e acumpanhando uma musga,
vinha saindo da ingrêja!

Juaninha, cumo eu, curpada,
tapando os óio, baxinho
me xingando, invregonhada,
se assentou-se, saluçando,
n’uma pedra do caminho!

     Prú via de tanta festa,
     de tanta musga e fuguêra,
     que fez nós dois se atrazá,
     nós não cumprimo a premessa
     do Santinho, tão quirido,
     apois nós tinha perdido
     a missa da minhãzinha,
     na Ingrejinha do Arraiá!

Juaninha entonce chorava,
me xingando cum carinho,
assentada, saluçando,
lá na pedra do caminho!

Vendo a bichinha chorando,
eu sinti munta aligria!
Criança que nace e chora,
é criança que tá sadia!
Entonce eu disse: Juaninha!...
Tem fé no Santo!... De juêio,
pede cumigo perdão!

E ela chorava!... chorava!...
E os dois óio, cheio d’agua,
era duas cacimbinha,
quando chove no verão!

Foi quando nós ajuêiemo
prá fazê nossa oração!

“Meu Santo! Pru caridade!
Tem compaxão! Tem piadade!
Não castiga a gente, não!
Tua noite é tão bunita,
que inté a gente se isquece
das suas obrigação!!!”

Apois, no Rêno Sagrado,
Nosso Sinhô Jesú Cristo
prá sêmpe séje alouvado!!

          ....................
          ....................

Quando nós dois, ajuêiado,
cumo quem faz cunfissão,
óiando pró céo, chorando,
rezando, cum fé rezando,
pidía ao Santo perdão,
a gente viu, munto longe,
lá prás banda do nacente,
o Santo rindo prá gente,
cum um carnêrinho na mão!!


O Passador de Gado

Chico Míronga, o passador de gado, a convite do seu compadre Dezidério, vem, dos fundos sertões do Norte, ver a Capital Federal. Furioso com o que seu compadre lhe mostrou, em poucos dias, volta, desiludido para o sertão. Ao chegar na roça, na casa do coronel e de seu filho, no meio de todos os habitantes daquela localidade e acedendo ás exigências do coronel, do doutor e de todos os presentes, conta o que viu, ouviu e sentiu na grande Capital.


O PASSADOR DE GADO

Aos Drs. Affonso Mac-Dowell e Galdino Travassos

 

O PÉ DE PATO, o Capêta,
me adiscurpe o Seu doutô,
d’esta viage mardita
foi, tarvez, o causadô.

Seu coroné não magina,
e nem póde maginá
o que eu passei na bestêra
da Capita Federá!

Meu cumpade Dizidéro,
sementes prá me impuiá,
má cheguei, me foi pinxando
lá prá Avinida Cintrá.

Entre aquele frumiguêro,
Seu doutô, fiquei bestando,
vendo aquelas casa toda
uma na outra atrepando.

     Aqueles impalamado,
     cum cara de matruá,
     faz aquela giringonça
     só cum priguiça de andá.

Do meu mucambo ao cambêmbe
do Trancoso das Farrage,
digo a Vossa Sinhoria
que é três dias de viage.

De tanto oiá prás artura,
Seu doutô, fiquei duente!!
Não sei cumo aquelas casa
não cae im riba da gente!

Lá, naquele turumbamba,
treçuêro jupiá,
me preguntou Dizidéro
pruquê é que eu táva a chorá!!!

     No meio daquela izórde,
     de todo aquele rumô,
     que sôdade da boiada!...
     Cum perdão do Seu doutô!!

Quando eu vi a hirizia
de tanta quilaridade,
dos candiêro de azeite,
Seu doutô, quanta sôdade!

     Tive sôdade da lua,
     da lua assertanejada,
     que parece uma tijela
     toda cheia de quaiáda!

               *

Prá contentá Dizidéro,
digo a Vossa Sinhoria
que intremo n’uma armanjarra,
chamada: Cunfeituria.

Veio um hôme rompe-rasga,
cum cara de socóboi,
trazendo dois copo cheio
de baba branca de boi!

     Era o sarvete!!! E o mardito
     que gosto ruim que tinha!!
     Seu Coroné: que alembrança
     eu tive da sinháninha!!

Tive sede!... Água me déro!!
Seu Coroné póde crê: —
que sôdade das cacimba,
onde a lua vai bebê!!

               *

Vendo aquelas vistimenta
das muié, que anda prú lá,
eu preguntei ao cumpade
si aquilo era o Carnavá!

Apois, as muié passava
cum as cara toda impuerada,
carregando na cabeça
umas coisa cumpricada!!!

Argumas inté fazia
de longe os hôme apará!
Todo o mundo táva óiando!..
Eu tombem fui ispiá!
Mas porém, fechei os óio!
Tive vrégonha de óiá!...

Vasmincê quê que eu lhe fale
lá da Avinida Cintrá?!

É os hôme, d’aqui prá lá,
no sucáro das muié,
n’uma grande atrapaiada,
fazendo váíncê pensá
que táva nos matagá,
vendo o arranco da boiada!

Era mió que esses hôme
tivesse no meu sertão
trabaiando cum uma inxada!!

               *

O cumpade me levou
n’uma casa paricida
gaiola de papagaio,
que tá no fim da Avinida.

Um hôme táva lá dento
cum um papé véio na mão,
martratando os outro hôme,
e a dizê uns palavrão!...
A chamá os cumpanhêro
de discarado e ladrão!

De repente, aquela joça,
que eu não sabia o que é,
lá virou num bate-boca
de fardunço de muié!!!

Preguntando a Dizidéro
se era ali que era o mercado,
cumpade disse que eu táva
na Cambra dos Diputado!!!
Saí d’ali a corrê
cumo um cavalo isquipado!...

               *

Fui vê uma inspuzição
dos pintô mais famanado!...
Fui assubindo uns banquinho!...
Cheguei im riba cansado!...
Mas porém, pulas parede,
só vi uns papé borrado!

Mió que aquelas borráge
d’aquelas pinturaria,
cá, no céo da nossa terra,
a gente vê todo o dia!

     Apois, que pintô no mundo
     pinta um quadro mais mió,
     que Deus pinta dos dois lado,
     donde náce e morre o Só!!?

               *

Não satisfeito o cumpade,
nós fumo ao Municipá,
vê um hôme intaliano,
chamado — Tenô, cantá.

Gritei, seu doutô, no meio
daquela gente instrangêra,
que o Tenô táva bem longe
do cantadô do sertão: —
O Inaço da Catinguêra!!
E uma muié assoprano,
(que eu não vi nada assoprá!!)...
Seu doutô, Seu coroné,
era uma gata a miá!

Um cara de bode véio,
cum um quirim fixe na mão,
táva danado cum os musgo,
n’uma grande afobação!
     Entonce, quando o Tenô
     xingava o tá Baritáno,
     pru via d’uma questã
     que ele teve cum a Assoprano,
     que era fia d’uma érmã
     d’um hôme chamado Baxo,
     — um marruá de cupim,
     cum cara de mamão macho...
     Quando os hôme e as muié
     que saía lá de dento
     cumeçou tudo a gritá,
     foi o diacho d’um berrêro,
     que nem cem boi rebolêro,
     que se danasse a berrá!

Apois, na órxestra dos musgo,
ali, naquela bestêra,
naquela carangajóla,
Seu doutô, não vi um hôme
puntiando na vióla!!!

Triato e musga prú musga,
eu tenho cá na umburana,
que sacode a sombra verde
na minha véia choupana!...

Pintasirgo, Gaturamo,
Quero-Quero, Chorôrão,
Viuvinha e Patativa,

     Curió, Sanã, Cancão,
     Graúna, Azulão, Pipíra,
     o Canaro apaxonado...
     tudo canta na umburana,
     que é um triato infóiado!!

          Deitado im minha tipoia,
          eu vejo ao longe passá,
          entre as moita de môfumbo,
          Mariquinha Quixadá!

     Ela inda vem munto longe,
     lá, pulo jacatirão,
     e eu tôu sintindo as pisada
     da musga no coração!

     Me diga o Seu Coroné
     se tem um Municipá
     mais lindo que o mato verde,
     n’uma noite de luá?!

               *

     No dia que Dizidéro,
     que é um rapaz adivirtido,
     me levou dento d’um báilum...
     Fiquei de quexo caído!

Eu vi os hôme warsando
cum as muié, peito cum peito,
a cuchichá nos uvído
umas farta de arrespeito!

     Se vasmincê visse um dia,
     na bêrada do caminho,
     uma cabôca sambando,
     na porta do mucambinho,
     parecendo a pecuapá,
     que vem saindo do ninho;
     alevantando os pontinho
     da saia, óiando pró chão,
     e amostrando os dois “bichinho”
     prú baxo do cabeção,
     vasmincê, que já tá véio,
     e já não sabe chorá,
     havéra de vê dos óio
     as lágrima arrebentá!

               *

D’uma feita, Dizidéro
táva ispiando um papéu,
quando iscutei um baruio
lá munto im riba do céo!

     Era um bicho arriziguento
     que vinha vindo dos fundo
     das artura, taliquá
     um aribú do outro mundo!

     Seu Coroné!... Quage eu morro,
     a tremê ansim... ansim,
     quando eu vi um ôtrômóve,
     avuando im riba de mim!!!

               *

     Era um sábo. Dizidéro
     intrando n’uma vendinha,
     que lá se chama café,
     me disse que ia falá...
     no... não me posso alembrá!

Dêxe vê!... O nome é...
É uma cáxa de segredo,
tendo im riba dois xucáio,
uma ôrêia e um uvido,
e, cumo pinduricaio,
um osso preto e pintado,
rombôio, fino e cumprido!
E ao despois de batê língua
c’um cirdadão, que eu não vi,
cumpade disse: Mironga,
apouza o uvido aqui!!

Apozei e arguem falou!...

Ah! Nhôr sim, Seu Coroné!...
Quage morri de pavô!
Apois juro, se quizé,
que uvi a voz do difunto
Zé Craváio, o meu avô!!

               *

D’outra feita... Agora aquilo
já não fiz caso de vê!
Era um caxote quadrado,
tinha um nome acanáiádo,
que eu aqui não vou dizê!
Esse trombôio que eu vi,
tinha prú riba um funi!

Cumpade mexeu num ferro...,
butou um ispinho no tá...
Diasfraga!... Vêje lá!
(Outro nome, seu doutô,
que ofende agora a morá!)
Meteu um ispinho na roda,
e a roda pôs-se a rodá!

Ora, perdão, Seu doutô!
Ia dizendo um istrupício,
que inté nem é bom falá!

Aquela musga im conserva,
que táva ali conservada,
era aquela atrapaiada
que eu vi no Municipal!!

               *

Outra coisa que eu não vi
foi o tá Sinhô Aéro
dos Pão de Açúca de lá,
que, cumo disse o cumpade,
andando im riba do fio,
leva a gente pulo á!

Ah! Nhôr sim, Seu Coroné!
Se esse pae ruim, crué,
anda im riba do seu fio,
sem piadade, sem té dó,
cumigo, entonce, é capaz
de fazê munto pió!!!

Nós fumo vê um Cinima,
que se paga dez tustão,
e onde os hôme bate boca,
mas porém, sem falação!!

A gente nos assentemo
n’um lugá munto ruim!!
Duas muié do meu lado
óiava e ria prá mim!!

Despois, de repentemente,
sem se isperá, sim, Sinhô,
pára a musga e os candiêro
n’um assôpro si apagou!

Sintindo aqui pulas perna
uns movimento de mão,
Seu doutô, dei de canela,
e fugi, cumo um ladrão,
jurgando que aquilo tudo
era arguma assombração!

Quando, na rua, o cumpade,
gargaiando, me incontrou,
entonce a pouca vregonha
da assombração me ixpricou!!

               *

Prá minha históra acabá,
iscute lá, Seu doutô,
o que eu vi de mais mió
na Capita Federá!

Cum licença. Dizidéro,
tarvez prá me arriliá,
me levou n’outro triato,
que tinha o nome d’um Santo,
e que se diz lá na Corte
que é o triato mais populá.

Fica quáge im frente a um hôme
cum um braço têzo, amuntado
n’um cavalo isquipadô,
cum um trapo véio na mão
e um chapéu acanôado,
chamando a gente afobado,
não sei prá que, Seu doutô!

Me dissêro que esse cabra
era um Rei e pae do fio
que os tá de repubricano
lá da Corte iscurraçou!

Fosse um Rei ou cirdadão,
dêxêmo o hôme vistido
cum a sua roupa de couro,
amuntado im seu cavalo,
cum parte de valentão!

     Vamo ao triato...

Um cara de come-longe,
que tava na jinelinha,
arrecebeu três mi ré
e despois deu pró cumpade
dois pedaço de papé!!

Mais prá adiente, outro bóde,
que táva n’uma portêra,
um carrascão, um fubêra,
que não tinha inducação,
na cara de Dizidéro
rompeu os papé cum as mão!!

Oiôu prá mim... pró cumpade,
e só prú munto favô
deu prá gente a outra ametade!

     Que trabaião dos diabo,
     prá nós dois pudê intrá!
     Um, impurrava prá ali,
     outro, impurrava prá lá!!

Quando eu puz o pé lá dento,
suava, cumo um animá!

Despois, tocando um xucáio,
quando o Cabeça dos musgo
fez cum a varinha um siná,
a canaiáda dos musgo
cumeçou tudo a tocá!!

Uma corcha de retaio
foi assubindo, assubindo,
lá prá riba... na carrêra!

Veio um hôme lá de dento,
e cumeçou a dizê
tanta e tanta bandaiêra,
que, se não fosse o cumpade,
eu disparava a corrê!!

Despois!... Despois!... Meu Sinhô!...
Era demais!... Seu doutô!...
Butei o chapéu de couro
na cabeça e fui me imbora!

Sim, Seu doutô, fui me imbóra!

Eu sou chefe de famia,
pae de dois fio e três fia!

Vim vê os hôme inducado,
e não, gastá meu dinhêro,
prá vê canela de fora!...

Deus me perdoe!!! O triato
se chamava — São José!!

Ora vêje, Meu Sinhô!
Se eu fosse cum a Furtunata,
a minha santa muié!!!

     Seu doutô! Seu Coronel!

Nós tâmo no mês da férra!
Aminhã, de minhã cedo,
vórto, a pé, prá minha terra!

Mais um dia que eu ficasse
cum aquela gente curinga,
eu vórtava inda mais fino,
que cipó pirapitinga!

Agora posso morrê!!
Já sastifiz meu desejo!
Vi o pôgresso dos hôme,
que si ri dos sertanejo!

O pôgresso dessa gente,
que se diz gente inducada,
eu só vi, Seu coroné,
prú fora!!... Prú dento?!! Nada!!

               *

Se a gente sae da Avinida,
topando pulos caminho
uns hôme pidindo ismola,
prá leva pão prós fiínho!...

Mais adiente, outros hôme,
nas carçada, quáge nu,
amostrando umas firída,
cuberta de tapurú!...

Se nessa idade im que ainda
não namora uma cabôca,
eu vi uns anjo perdido!...
Seu doutô!... Cala-te, boca!...

Se os hôme, cumo o cumpade
leu na porta d’um jorná,
táva insanguentando a terra,
na bestêra d’uma guerra,
lá prá outras banda do Má!!!...

Vale mais do que as ôrópa,
do que a Avinida Cintrá,
(que, cum todo o seu pôgresso,
não se pode cumpará
cum as Avinida dos mato
da minha terra natá,
adonde as casa de páia,
que as Avinida não tem,
parece o currá sagrado,
adonde, im meio do gado,
naceu Jesus, im Belém!...)

vale mais que os mata-gente
dos bonde, sem pangaré,
e os ôtrômove, bufando
cum os mardito dos chôfé...

vale mais que essa porquêra
da tá Cirvilização,
— um carro de boi, cantando
pulos mato do sertão!!!

O João Branco, do “O Sertão em Flor”, é o complemento deste poema.


VOCABULÁRIO

Pé de pato — o diabo.
Capeta — o diabo.
Pinxâ — impurrar.
Impalamado — amarelo, opilado.
Matruá — bobo.
Mucambo — choça.
Jupiá — redemoinho.
Sinhaninha — cachaça.
Rebôlero — arisco.
Umburana — árvore da família das therebinthaceas.
Tipóia — rede.
Curinga — pelintra.
Pangaré — cavalo magro.
Come-longe — faminto.
Mês da Ferra — mês em que se ferram os animais.
Inâço da Catinguêra — afamado cantador do sertão, nascido na localidade que tem o nome de Catingueira, na Paraíba.

Theatro São José. — O antigo teatro da Empreza Paschoal Segreto, onde foi representada uma peça do autor, fazendo ele o papel do protagonista, em que, com extraordinário sucesso, declamou o seu famoso poema “O Marroeiro”. Com raríssimas exceções, era esse o teatro das brejerices e liceneiosidades.


A Vaqueijada

O nosso sertanejo, bondoso e amoroso, tem grande amor a sua mulher e a seus filhos, mas, em primeiro lugar, está o seu cavalo, o seu companheiro de triunfos nas célebres vaquejadas.


A VAQUEIJADA

Ao Dr. Annibal Pereira

FOI coisa d’uns vinte ano.

               *

Na Fazenda do Moitão,
eu fiz, n’uma vaquejada,
a mais grande das currida
dos sertão do meu sertão.

Mais de vinte boiadêro,
vindo de todo lugá,
tinha chegado de fora
prá pega do boi-Crôá.

Há munto tempo ele andava,
pulos mato amucambado,
disafiando os vaquêro
da minha terra natá.

Boca Negra, Chico Quebra,
Liôpôrdo Cabeça Sêca,
Zé Braúna, Mâoquitóla,
João Furréca, Zé Cachimbo,
Manué Francisco Pelado...
os cabra mais surungado,
chegava naquele dia
prá péga do arrenegado,
o boi de mais arrilia!

João Peráo, que era um vaquêro
de mais de oitenta janêro,
nacido no Ciará,
inda sendo chamurrinho,
tinha insinado o boizinho
prá não dexá se pegá.

Aquele boi rebolêro
nunca teve no currá.

João Peráo era o avô
d’uma linda cabrochinha
d’uns óio munto quiláro
e uma bunita carinha,
que tinha o nome de — Amparo,
mas porém que era chamada
lá na Fazenda: — A Lindinha.

O véio, que, no seu tempo,
foi o mais grande campêro,
e dos cabeça de campo
o premêro sêmpe foi,
jurou, prú vida e prú morte,
que a Lindinha só casava
cum o curibóca de sorte
que inxucaiásse esse boi.

Quando eu pensei, meu patrão,
um dia casá cum ela,
senti frio na ispinhéla,
e cósca no coração.

A cabrocinha era linda
cumo a frô do mussambé!

Tinha relampo nos óio,
que nem fôia de quicé!

Foi dendê piquinininha
que eu amava a ela ansim...

Quando eu não via Lindinha,
ficava longe de mim!

Prá quê tá róbando ainda
o tempo de vassuncê,
se é impussive dizê
cumo Lindinha era linda?!

Se aqueles grande vaquêro
vinhéro lá d’outras banda,
cum tamanha afobação,
não foi só prú móde a neta
de João Peráo, meu patrão!!

Foi prá fazê meu cavalo
perde a fama que tinha
prú todo aquele sertão!

Mas porém, patrão, eu ria
de toda essa cabruada,
pruquè eu, patrão, cunhicía
a corage do cavalo,
que se chamou: — Ventania!

Nos sertão da Paraíba,
de Maceió, da Bahia,
do Piauí... do Ciará...
a fama desse animá
de boca im boca curria.

          ....................
          ....................

Agora eu vou li falá
do casarão da Fazenda,
prá vassuncê me iscutá.

O casarão da Fazenda
táva no meio da varge
de rastêro capinzá.

D’um lado táva a muenda,
a roda da bôlandêra,
o ingenho de muê cana,
tândo a casa de farinha
do outro lado de lá.

O currá de pau a pique,
junto a ipuêra aguaçada,
cercado de xique-xique,
era a casa da boiada.

No pé da serra, prú baxo
dos verdoso catolé
que assombriava o terrêro,
táva as casa de sapé,
que era os rancho dos vaquêro.

Ha munto já que era noite!

Os cabra, naquela hora,
os que chegáro de fora,
já táva tudo arranchado,
nos seus fiango deitado,
iscutando o Mãoquitóla,
brincando cum os cinco dedo
na boca d’uma viola!

óiando a cara da lua,
iscundida atrás do tronco
do impinado macujé,
Manué Pelado cantava
uns acalanto tão triste,
que lá prá os mato avuáva,
cumo a percura do ninho
d’um coração de muié.

Manué Pelado cantava!...
Mãoquitóla acumpanhava!

E esse violêro mingóla
só pindurou a viola,
quando o galo romanisco,
fogoso, as asa bateu,
sortando o grito sôdoso
do prêmêro disafio,
e acordando os cupanhêro,
que, de longe, arrespondeu!

Tudo entonce arrépozava!

A vaquêrama roncava!

Não se uvía mais um pio,
a não sé o disafio
dos sapo, dento dos brêdo,
os cachorro da Fazenda
latindo prás sombra roxa
das foiáge do arvoredo,
e, longe, n’uns arripio,
o choro doce e macio
desse violêro o — Silenço —
cantando... chorando as magua
nas corda d’água do rio!

Toda a Fazenda drumía!

Táva a noite que nem dia!

A lua inté paricia
uma frô dos aguapé,
e as istrela era as abêia,
de todo o lado avuando,
prá vim chupa o seu mé!

Vendo a lua cumo táva,
váincé jurava, jurava
que as água que lá da crista
da serra vinha rolando,
era o lua que caia
do céo e, branco, iscurria,
nas pedra se isfrangaiando!

Ansim, levei artas hora,
pitando o meu catimbáo,
inté que ferrei no somno,
pensando no meu cavalo,
e nela... (o patrão já sabe!...)
a neta do João Peráo.

          ....................
          ....................

De minhã, quando acordei,
cum os suspiro das foiáge,
saluçava as ribaçã!

O Só — rocêro do céo —
quêmáva os mato das nuve,
na quêmada da minhã!

Cum a passarada a cantá,
a vaquêrama acordando,
foi os cavalo arriando,
prá viage cumeçá.

Cum a roupa toda de couro:
Boca Negra, n’um turdío;
Chico Quebra, n’um pedrez;
Cachimbo, n’um alazão;
Liôpôrdo Cabeça Seca,
n’um lindo russo pratiado;
Zé Braúna, n’um cardão;
Mãoquitóla, n’um fouvêro;
Furréca, n’um russo pombo;
Manué Francisco Pelado,
n’um bagacêro mazombo,
um cavalo trupizúpe,
cum um fucinho de gambá...
os cabra mais famanado...
já táva tudo amuntado,
correndo daqui prá lá.

Meu cavalo Ventania,
que tinha uma istrela branca
purriba mêmo da testa,
e apostando uma carrêra
cum o vento, o vento perdia,
batendo o pé, iscarvando,
e óiando prá cabôquinha,
rinchava inté de aligria.

Seu capitão fazendêro
deu o siná da partida,
e a vaquêrama partia.

               *

Distante, já munto longe,
a Fazenda se assumia,
e a cabôquinha indiabrada,
num guabijuêro atrepâda,
ainda adeus me dizia!

          ....................
          ....................
          ....................

Os vaquêro já sabia,
mais ou mêno, onde pastava
esse bôióte mardito,
que im toda parte morava.

Era prá raiz da serra
que pastava o barbatão:
logo, entonce, lá prá serra
a gente trôcêu a mão.

Um carguêro que tópêmo
na meia lua da istrada,
disse té visto o bôióte
na sumana arretrazada.

Pulos sina que ele dava,
se não era a caruára,
o diabo do boi andava
cruzando a varge da Arara.

               *

Assuntando nessas coisa,
im caminho lá da serra,
a gente já tinha andado
um bom pedaço de terra.
O dia táva no meio,
e o Só quente de matá!

Entonce, disapiêmo,
e fumo tudo armuçá.

Tirando o armoço do arfórge,
que já táva apreparado,
o armoço era tão gostoso,
que im mêno de dois minuto
a gente táva armuçado.

Rapadura cum farinha!...

Meu Deus!... Que sastifação!

Ai, que sôdade das água
que tem o chêro da terra,
e esse gosto de sereno
das cacimba do sertão!!

          ....................
          ....................

Já tândo tudo armuçado,
de novo, tudo amuntado,
caminhando lá prá varge,
cum Deus e a Virge Maria,
fumo siguindo a viage.

As duas hora da tarde
a gente se suparoü.

Cada um da vaquêrama
o seu atáio tumou.

Rezei prú mim, prú Lindinha,
prú meu cavalo, e, despois,
sortando a camba do freio,
pidi a Deus que levasse
pulos caminho a nós dois!

Fui andando! Fui andando!

O Só, patrão, discambava,
quando eu passava na bêra
d’uma pequena lagoa,
e uvindo cumo o mugido
do boióte amucambado,
ispirrei pulos ispinho,
cumo um diabo ispritado.

O mato táva crivado
dos istrépe mais danado!!

Mandacaru, xique-xique,
lambe-bêço, parmatóra,
faxêro e crôa de frade,
macambira, unha de gato...
é os ispinho mais duro
que a gente incontra nos mato!

Desses ispinho, patrão,
o sangue já iscurria
da minha cara e das mão,
cumo iscurria, vremêio,
do peito de Ventania,
desse cavalo turéba!

Tumei mêmo pulo buzo
um trago de manduréba.

Mas porém, quando o cavalo
amarrava n’um oiti,
lá, da perna da baxada,
de donde o vento assoprava,
parece que inda isentava
o mugido que eu uví!!

Sartei de novo na sela,
sôrtei a camba do freio,
na istrela branca da testa
bati ansim, cum esta mão,
e me afundei pulas sombra
dos ispinho do grotão!!

Pulando, curno um danado,
fui rompendo mato a dento!...
Era impussive, patrão,
ficá na sela um momento!

Os gaio seco das árve,
os ramo dos móróró,
o arrendado dos cipó...
é uma infernêra, é um pirigo!...
É o mais lapiado inimigo!
É a morte, sim, meu patrão,
e morte tão disgraçada,
que sementes pula sorte,
pulo sabê campiá,
um hôme pôde iscapá
do istrépe frio da morte!!!

Às vez, um hôme, patrão,
tem de ficá prú dibáxo
da barriga do animá,
que vai baxando, baxando,
cum a gente, rente do chão,
sem na carrêra apará!!...

É uma coisa naturá!!

O hôme foge da morte,
e o animá quê se sarvá!

               *

Vassuncê tá custumado
a vê só essas porquêra
das curtida de bestêra
da Capitá, meu patrão!
Não pode fazê indéa
do valô da cabruada,
no corrê das vaquejada
das terra do meu sertão.

Esses cavalo cumprido,
fidargo, de perna fina,
não vale, não, meu sinhô,
o cavalo d’um vaquêro,
que é manso, cumo um amigo,
mas porém, vendo o pirigo,
é um animá de valô.

Currida n’um campo aberto,
é munto bom de corrê!...
Mas porém, mande esse Joke,
vistido de bunequinho,
corrê nos mato de ispinho...
e entonce é que eu quero vê!...

               *

Patrão, discurpe! Eu dizia
que pulos mato curria
no sucáro do Crôá,
quando isbarrei, de repente,
uvindo lá p’ra outras banda,
danado, o buzo assopráü!

Vortei prá atrás! Cum certeza,
eram argum dos cumpanhêro,
que tinha inxergado o vurto
desse boi caromboêro.

Vim topá cum o Mãoquitóla,
que táva assoprando o buzo,
na ponta d’uma chapada,
chamando, cum desispêro,
pulos outro camarada.

Im mêno de dez minuto,
n’uma valente currida,
a vaquêrama chegando
de toda banda, afobada,
já táva ali riunida.

Mãoquitóla, esse vaquêro
que dos sertão da Bahia
o prêmêro sêmpe foi,
apontava prá o caminho,
adonde táva o sucáro
das pisada desse boi.

Prú dibaxo da coirama
os coração parpitava!

O Crôá não munto longe
daquelas mata pastava.

Táva a gente arrezôrvendo
o cerco do boi, patrão,
quando passava a boiada,
cum os boiadêro guiando,
uns atraz e outros cantando
na frente do boiadão.

Tinha fartado um campêro!...
Zé Braúna... Sim, sinhô!!!

Mãoquitóla pega o buzo
e cum sustança assoprou,
quando um boi... um boi arisco,
pulos mato adisparou!

Os outro foi istórando
prá todo os lado da istrada,
cum a armação alevantada,
n’uma carrêra inferná,
que inté fazia pensá
que o mundo se ia acabá
naquela grande istralada!

Era o arranco da boiada!!

Cum seiscentos mir diabo!...
Era prá dá o cavaco!...
Apois se tinha perdido
todo o siná do sucáro
do Crôá, do boi veiáco!

Caía a tarde, patrão!

Mais longe, um tamarinêro,
cum o Só purriba das fôia,
lá num monte impulêrádo,
paricia um passo verde
cum o seu tupéte incarnado.

Cada um, de vez im quando,
no buzo um assopro gimia,
prá iscutá se o Zé Braúna
cum outro assôpro arrespundia.

E, cumo a noite caía,
nossos cavalo amarrando,
cada quá, naqueles mato,
bem ou má, foi-se deitando.

A sela é um bom cabecêro,
macio, cumo ele só!

Era noite! Já se uvia,
lá, na serra, os noitibó!...

Despois, entre a iscuma verde
d’uma moita de tabóca,
a lua vinha nacendo,
cumo um bolo de mandioca.

Manué Pelado, o ciarenço,
cum o bahiano Mãoquitóla,
cantava outro disafio,
sem as corda da viola.

E, ansim, uvindo os dois cabra,
pitando o meu catimbáo,
ferrei no sono, pensando
no meu cavalo e sonhando
cum a neta do João Peráo!

          ....................
          ....................

De minhã, quando acordei,
e, cumo os outro vaquêro,
fui meu cavalo arriá,
butei o buzo na boca,
apois o Manué Pelado,
esse ladrão disgraçado,
que veio lá do Ciará,
tinha, de noite, róbádo
o meu cavalo adorado,
dêxando o seu trupizúpe,
o seu cavalo zarôio,
cum o fucinho de gambá!!!

Mas porém, eu bem sabia
que o ladrão não cunhicia
o segredo lá da istrela
do meu alazão dorado!

Não se batendo na istrela,
o cavalo não curria,
era um pangaré pesado!

E Ventania sabia
que já não era seu dono
que táva nele amuntado!

Se eu tivesse um bom cavalo,
quem sabe se inda eu pudia
pegá o Manué Pelado?!

Liôpôrdo Cabeça Sêca,
que era um vaquêro danado,
jurou prá mim que ele havára
de arcançá meu Ventania
cum o seu russo Pratiado!!!!

Bem sei o que ele quiria,
esse cabra iscumungado!!!

Não teve um só cumpanhêro
que não sintisse, patrão!

Cumo é que um hôme, cantando
cumo esse hôme cantava,
pudia sê um ladrão?!!!

E dendê aquele momento,
nem mais no boi se falou!

Os campêro, ispóriado,
nos seus cavalo amuntou!
O que haverá eu de fazê?!
Amuntei no trúpizúpe,
no pangaré do Pelado,
e dei de ispóra a valê!

D’aqui, d’ali, d’acolá,
infim... de todos os lado,
era pérciso ataiá
esse cabrocha safado!

A gente entonce ajustou
que o prêmêro que inxergasse
Manué Pelado, assoprasse
no buzo, cum toda a força
que Deus nos peito butou!

          ....................
          ....................
          ....................

Meia hora já passada!
Inda nem buzo!... Nem nada!

Táva andando ao Deus dará,
amuntado no tanjão,
no cavalo do ladrão,
quando inxerguei o Crôá,
fugindo da cavalada,
n’uma grande disparada,
— farsiá n’uma barrêra,
e rolá, na ribancêra,
prós fundo d’um cacimbão!!!

N’um abri e fechá dos óio,
butei a mão do mardito
travessada na armação!...

Cortei um pau n’um Pau Ferro,
puz no pescoço o cambão,
butei despois o xucáio...
e fui me imbora, siguindo,
a percura do ladrão!

Mais adiente, patrão,
(vêje a sorte cumo é!)
firido de metê dó,
táva o Braúna deitado
na sombra de um bóróró!

Contando o causo passado,
eu disse que ele pudia
dizê pró véio, pró avô,
que ele táva ansim firido,
pruquê foi ele somentes
quem deu no boi a mussica,
e, despois, inxucaiou.

Eu sabia que esse cabra
trazia pula bichinha
o peito cheio de amô.

Contei que o Manué Pelado
tinha o cavalo róbado,
e, sem o meu cumpanhêro,
não pudia ali ficá!

Dexava de sé vaquêro,
prá nunca mais campiá!!

Eu disse pró Zé Braúna:
“Zé Braúna, se eu topasse,
“agora, o meu Ventania,
“inda sortava o Crôá,
“prá despois, n’outra currida,
“esse boi inxucaiá,
“e entonce, cum orguio e glóra,
“cum a Lindinha me casá”.

Não acabava a prépósta,
que fazia pró cafuzo,
quando, de todos os lado,
uvi o grito dos buzo!

Era os vaquêro correndo
no meio do discampado,
atraz da sombra mardita
do ladrão arrenegado!!!!!

Liôpôrdo Cabeça Sêca,
cabra sarado e valente,
galopando a todo freio,
era o que vinha na frente.

Boca Negra, cum o cavalo
trupicando na carrêra,
tinha caído, firido,
ao pé d’umas pacovêra.

Chico Quebra e Zé Cachimbo,
travessando um córgozinho,
apontava lá prá longe,
prá istirada do caminho.

João Furreca e Mãoquitóla,
do outro lado da serra,
varava um mato de ispinho.

Liôpôrdo, sêmpe na frente,
riscando, tútúbiou;
e, cumo dizadorado,
prú té perdido de vista
o miserave, o marvado,
puxando o freio... isbarrou.

Eu vinha atraz!... Mas porém,
quando arcancei o Liôpôrdo,
que ainda táva aparado
no xancro da incruziada,
o ladrão ia cruzando
o atáio d’uma picada!!!!!

Foi tanta a sastifação,
que se eu não tapasse a boca,
ficava sem coração!!!!

Liôpôrdo Cabeça Sèca
me disse entonce: “Eu te juro
“que im mêno de três minuto,
“o meu Russo Pratiado
“vórta aqui cum o teu cavalo,
“esse cuéra famanado!”
................ E disparou!

Ele curria!... Eu curria!
Ele, na frente! Eu, atraz!
Liôpôrdo, dizimbestado,
cada vez curria mais!

Cada vez mais, meu patrão,
Liôpôrdo Cabeça Sêca
ia ficando mais rente,
mais pertinho do ladrão!...

Curria!... Curria!... E quando
a mão dereita istendia
prá agarrá no tapití!...

Quando assuntei, quando eu vi
que esse cabra só quiria
dishonrá meu Ventania,
meu cavalo dishonrá,
eu li ensinando o segredo,
gritei pró ladrão: “Marditoü
“Bate na istrela da testa,
“e corre e foge sem medo,
“que nem Deus te pegará!!!”

               *

     Ai!! patrão!!

          ....................
          ....................

Im mêno de dois minuto,
férmoso, socando a terra,
vi meu cavalo assubindo,
avuando, cumo uma pena,
pulas groguéia da serra,
dêxando o Cabeça Sêca
atraz, prá atraz, munto atraz,
imquanto eu chorava e ria,
mandando pró meu cavalo,
que lá no espigão da serra,
do outro lado se assumia,
— um adeus, prá nunca mais!!!

          ....................
          ....................

          *

Perdi a muié, que amava,
e esse animá, que adorava,
cumo eu nem sei dizê, não!...
Mas porém sarvei a fama,
sarvei a honra e a nobreza
do meu cavalo, patrão!


O Cangaceiro

Para a boa compreensão deste poema, peço permissão a Gustavo Barroso, para transcrever as seguintes observações que faz sobre os cangaceiros, no seu livro “Terra do Sol”:

“Anda um desses bandidos românticos por uma ribeira. Chega-lhe a notícia de que um indivíduo por astúcia ou força, desonrou pobre e ingênua moça, sem irmãos ou pai que a desafronte, recusando-se, vilmente, a reparar o mal.

“Dá-lhe caça, alcança-o; e se se recusa à reparação, criva-o de balas, espeta-o na faca e deixa insepulto o cadáver, como lição aos sedutores atrevidos. O cangaceiro desta espécie é incapaz de roubar e jamais consente que os seus acostados roubem.

“Tem em grande conta a sua honra e não há mais susceptível pundonor que o seu. Um chefe de cangaceiros paira por uma região. Todos os foragidos, todos os criminosos, procuram-no para se alistarem no seu bando. O cangaceiro vai recebendo-os, indagando-lhes a vida.

“Fugindo o indivíduo à perseguição por crime de morte, entra para o bando; por atentado ao pudor ou à bolsa, é, imediatamente, fusilado.”


O CANGACEIRO

A Luís Carlos

EU me chamo Sivirino
Sapiranga, sim, sinhô.

     Sou fio de Zé Fôstino,
     que era fio d’um tropêro,
     Frô dos Santo, meu avô.

Sou naturá de Umbuzêro,
da Paraíba do Norte,
a terra das patativa
que eu amo cum todo o amô
de valente cangacêro!...
apois cangacêro eu sou.

     Não paga a pena, seu moço,
     eu dizê pruquê rézão
     já varei cum a parnaíba
     mais de vinte coração!

Minha históra é atrapaiada,
é toda cheia de ispinho,
e, cumo lá diz o outro,
seu moço, as água passada
já não move mais muinho.

     Óie, moço!... Não há munío,
     distante um casa de légua
     de S. Migué de Traipú,
     eu fisguei um cavaiêro,
     o fio d’um fazendêro,
     cumo quem fisga um tatu.

     Esse garoto e canáia
     um dia róbou de casa
     a neta de um comboêro,
     que era um hôme tão bondoso,
     e despois, abandonou
     aquele anjo fermoso,
     cumo se fosse, seu moço,
     um cachorro, um cão leproso!!!

Prú té matado o canáia,
a justicia que divía
me té dado uma medáia,
me chama de criminoso!!

               *

     Quando meu pae, que Deus tenha
     no Santo Reno da Glóra,
     ao pé d’um monte de lenha,
     mazômbo, os óio fechou;
     a fia que mais amava
     nestes braço me intregou.

Inda me alembro, seu moço!

Abraçado no pescoço
do véio, que se finava,
eu chorava, eu saluçava,
garrado cum minha érmã,
cumo à boquinha da noite,
chora e geme uma acauã!!

     De noite, fazendo quarto,
     óiando o pobre do véio,
     taliquá, má cumparando,
     — São Pedro cum as barba branca,
     cum os seus cabelo branquinho,
     drumindo o sono da morte
     n’um véio banco de pinho...
     chorava, cumo, sintido,
     o pásso que foi firido,
     cum um tiro, dento do ninho!!

E quando, ao rompe da ôróra,
o véio foi carregado
n’uma rede, istrada à fora’!...
Quando ele foi sipurtado
prú báxo d’uns cajuêro,
ali, naquele momento,
eu fiz este juramento:
me torna n’um cangacêro.

               *

     Dêxei meu pae sipurtado,
     vortei lanhado de pena,
     chorando a sorte tirana!

     Mas porém, quando cheguei,
     e intrei na minha choupana,
     a minha mãe incontrei
     cum o coração mais lanhado,
     e mais duente que o meu!!

Prá dizê tudo, seu moço,
n’um domingo amarfadado
aquela santa morreu!!!

     A morte era naturá!
     Despois da morte do véio,
     não poude mais suportá!

               *

Meu pae não perdeu a vida
pulos ano!! Não, Sinhô!

Morreu prú via d’um hôme
que era rico e, prú capricho,
uns mulambinho de terra
do pobre véio róbou!

     O jaburu quiz um dia
     que meu pae jurasse farso
     n’uma questã que ele teve
     cum um honrado lavradô.

O lavradô era pobre...

Meu pae, que era um hôme nobre
bateu o pé!... Não jurou.

     A Justicia que fazia
     tudo o que o hôme quiria,
     im mêno de duas hora,
     butou o véio prá fora!...
     E tudo ansim se acabou!!

Despois que eu vim pró cangaço,
há munto que o tá ricaço
cumigo as conta ajustou!!

               *

óie, moço: vêje lá
se eu tenho rêzão
     ou não.

               *

Um dia, eu táva banzando,
deitado n’uma toucêra
de verde sanacurí,
quando vejo vim, d’ali,
o Antônio dos Picapáu,
amuntado n’um quartáu.

     O coração piquinino
     sartava, cumo um cabrito!

Vendo o Antônio que era eu,
gritou de lá: “Sirvirino!...
“A tua érmã!...“ Dei um grito,
que o cabôco istremeceu!

     Apois, quando eu disse: — “Fala”
     ele gritou lá da istrada:
     “Foi trazontônte róbada!!..”
     E alevantando a çoitêra,
     deu de ispóra no quartáu,
     e se assumiu entre as fóia
     de duas guapurinhêra!!

               *

Três dia andei a percúra,
atraz do tarapantão,
(o fio d’um figurão...)
mato abáxo, mato arriba,
e só discansei, seu moço,
quando eu tirei o pirão
do buxo daquele cão,
cum a ponta da parnaíba.

               *

     Gibão e chapéu de côro
     n’uma orêia derribado;
     um guarda-peito de onça
     no peito sarapintado;
     cravinóte sêmpe iscravo
     dos bom, cumo vassuncê,
     aqui tá um cangacêro,
     mas um cangacêro honrado,
     taliquá, cumo me vê.

          ....................
          ....................
          ....................

Seu moço, váíncê prégunta
se argum dia eu fui murdido
da tátájuba do Amô?

     Arrespondo a vassuncê!

De tanto e tanto sofrê,
o coração, que padece,
fica duro, cumo um calo!
No sufrimento indureceü!!
Calêja na disventura,
cumo as pata dos cavalo
na istrada de pedra dura!

Dêxe acende meu cachimbo,
e iscute um causo, seu moço,
se um causo quê me iscutá.

               *

     Amuntado no Caxito,
     eu siguía de viage,
     e passava pula Serra...
     d’ali, de Jabitacá,
     quando vi uma morena,
     fazendo renda de birro,
     imbáxo d’uma guaipá.

A cabôca, cum o pézinho
im riba d’um panacú
de páia de burití,
era fermosa, era bela,
e tinha a pele amarela,
cumo a frô do muricí.

     Do lado, d’onde se via,
     de tarde, o Só se iscondê,
     o mio novo cricia
     entre os pé de macachêra!!...
     E, do outro lado, prú báxo
     d’uma grande ribancêra,
     o vento fresco da tarde
     brincava, cumo um minino,
     cum as fôia das goiabêra!

Bem im frente do currá,
da banda do copiá,
as cabra mansa, as ovêia,
cumía o capim mimoso
do mimoso capinzá.

     Num lindo itapinhoã,
     cantava um guriatã.

Um papagaio, assanhado,
táva gritando, atrepado
na roda véia d’um carro,
e a casa, onde as trepadêra
pulas parede assubia,
tão piquena, paricía
um ninho de João de Barro!

     O avô da moça iscutando
     as pisada do animá,
     trazendo dois pote cheio
     de leite fresco, “Bás tarde”
     me disse lá do currá.

Pediu que eu disapiasse.

     Amarrou o meu cavalo
     n’uma cuiêra viçosa,
     imquanto a moça, bondosa,
     cum os cabelo preto, preto,
     cumo os pena dos anum,
     me trazia uma tijela
     de leite, adonde boiava
     o ouro do girimum.

Do girimum tinha ela
o ôrôma, o chêro e a cô!
Tinha uns óio piquinino
de guanumbí, que seu moço
cunhece prú bêja-frô.

     Não tinha a boca da rosa
     vrêmêia e munto piquena!
     Tinha o tamanho d’um bêjo
     aquela boca morena!!!

Eu não sei li dizê, não,
o que nós dois, eu e ela,
sintiu, naquele instantinho,
muxurundando, seu moço,
na boca do coração!!

     Eu óiava!! Ela me óiava!...
     N’um abri e fechá dos óio,
     ambos os dois já se amava!

     Já era a boca da noite.

     E cumo a noite nacía
     um bocadinho arrufada,
     eu pidi uma apouzada.

Tio Luca, que era ansim
que o avô era chamado,
era um hôme arrespeitado
im todo aquele lugá.

Sem medo de não inrrá,
tinha mais de cem jánêro;
mas porém era um véínho
alegre e cunversadêro.

     Apois, a noite passei
     n’uma cunversa cumprida,
     uvíndo o véio contando
     a históra da sua vida.

Virúca, (apois era esse
o nome da tentação),
fazia renda do lado!...
Mas porém, moço, o pió,
é que o Amô, esse ispião,
cá dento e lá dento delia,
fazia renda o marvado
nos nossos dois coração!

     Tio Luca me contou
     que a sua neta quirida
     já táva prá se casa
     cum o fio d’um fazendêro,
     fermoso, rico e bunito!

E, despois, prú via dela
im segredo me tê dito,
súbe que ela não amava
o moço, que munto longe
da sua casa morava!...

Me perdoe, patrãozinho,
se o diabo d’um pingo d’água
me quizé atreiçuá!

     E prá cunversa cortá,
     no outro dia, patrãozinho,
     quando o véio Tio Luca
     foi meu cavalo arriá,
     eu e ela, ambos os dois,
     n’um grande abraço, a chorá,
     n’um adeus se adispidíai...

Ela ficava!... Eu partia!!

     Nunca mais eu travessei
     a Serra Jabitacá.

Apois Virúca não ia
cum um moço rico casá?!

     Pulas cunversa do véio,
     eu assuntei que ele tinha
     pulo moço munto amô,
     e se ela não se casasse
     cum o moço, o pobre do véio
     murria louco de dó!

O moço tombêm amava
Virúca, que era uma frô!
Mas porém, do meu amô,
do prêmêro amô que eu tive,
era pussive isquecê?!

     Não, seu moço, era impussive!
     Mas porém se era impussive,
     era esse o meu devê.

          ....................
          ....................
          ....................

Já três mês era passado.

     Lá, no fundo do sertão,
     lá, bem no fundo, patrão,
     eu morava num ranchinho,
     mais maiô um mucadinho
     do que um ovo de jacú.

Lá dento, a casa, a casinha
de riqueza táva cheia!...

     Óie só: uma candeia,
     um pote d’água, um urú,
     uma coitemba, uma cuia,
     um tronco de tabibúia,
     um couro seco de ovêia,
     uma garruncha, um quicé,
     a istêra de catolé...
     e, na parede apregado,
     um Sinhô Curcificado,
     uma image do Sinhô,
     image que tinha sido
     d’um dos meus tataravô.

De tudo que eu pissuia,
(que eu nunca pissuí nada!...)
só tinha aquela riqueza,
aquela image sagrada!

     Patrão!... Aquele mucambo,
     aquela triste casinha,
     adonde morreu meu pae,
     e a minha mãe, coitadinha,
     era cumo uma ingrêjinha,
     lá nos mato do sertão,
     adonde, seu moço, eu vinha
     fazê minha dévônção!

Crêia váíncê, se eu pudesse,
prá todo lugá que eu fosse,
carregava aquela casa
dento do meu coração!

     Mas porém... Sim!... Eu dizia
     que três mês era passado.

Uma vez, táva assentado
na porta do meu ranchinho,
quando abispei, munto longe,
n’uma dobra do caminho,
um vurto, vindo da istrada!!

A tarde táva, eu me alembro,
um bucado anevuáda.

Saquei do canto a garruncha,
e, entonce, firme, isperei.

     “É um caçadô!... é um tropêro!...”
     cummigo mêmo eu pensei.

     E o vurto vinha siguindo!...
     Vinha vindo!... Vinha vindo!.,.

De repente, se assumia
n’outra vorta do caminho!...
Mas, logo, n’um instantizinho,
outra vez, aparecia!

“É uma muié!” eu dizia!...

E o vurto vinha siguindo!...
Vinha vindo!... Vinha vindo!...

E quando mais se chegava,
sôrtei um grito da boca!

Meus óio não me inganava!

Ora, vêje vassuncê!...

Era... Virúca!! A cabôca!!

Sim!!... Patrão!... Era a Virúca!...
A neta do Tio Luca!!

Agora, vêje, patrão,
o que foi que ela me disse.

“Me disse que há uma sumana
“táva de casa fugida,
“correndo os capão de mato,
“cumo uma pomba perdida!

“Que fartava pouco tempo
“pró dia de se casá!

“Que tinha andado iscundida,
“drumindo dento das toca,
“noite e dia, na isperança
“de me vê, de me incontrá...

“Que ante quiria morrê,
“disprezada, cumo o Cão,
“que vendê seu coração,
“cumo o avô ia fazê!”

Chorou, seu moço!... Chorou!...
De vez im quando dizia
que uma coisa só sintia: —
era matá de disgosto
o pobrezinho do avô!

Despois, dizia que Deus
seus pecado perduava!...

Dizia que me adorava!...

Que não casando cumigo,
cum outro hôme não casava!!

E entonce, assungando a sáia,
fazendo a sáia de lenço,
os pingo d’água alimpava!

     Apois, eu falei! Eu disse
     que tômbém amava munto!
     Mas porém, que ante quiria
     morrê ansim, cumo o Cão,
     que sangrá o coração
     d’um véínho, sim, sinhô,
     que um dia este cangacêro
     na choupana gasaiou.

Pidi que se assucegasse,
e, despois, cunsiderasse
quantos pingo d’água o véio
já não tinha derramado!

     Tarvez que, já sipurtado,
     drumisse, naquela hora!...

Pidi, supriquei, roguei
que era perciso í se embora!...

     Acunsêiêi que casasse
     cum o moço, que era inducado,
     e só quiria fazê
     a sua filicidade!...

Que era uma coisa bunita
fazê, tão perto da morte
do véínho, esta vontade!

     Cum mais corage eu lhe disse:
     “quatro légua, bem puxada,
     “fica o sapé do vovô!

“O tempo amiaça chuva,
“mas porém tenho um cavalo,
“que corre mais que um prêá.

     “Vassuncê váe na garupa...
     “n’um instantinho tâmo lá”.

Introu de novo a chorá,
dizendo que o aguacêro
não tardava dispencá!

     Saluçando, de juêio,
     supricava que eu dexasse,
     (não pulo amô, — prú piadade)
     debáxo daquelas páia
     aquela noite passá.

Despois, é que eu vi que a noite
táva mêmo arrenegada!

Gimía a mata assombrada
cum os bêjo bruto do vento,
apois, naquele momento,
arrebentou, n’um tôrrangue,
o istrondo da trêvuada,
e lá no céo, de repente,
uma gibóia de sangue
passou n’uma adisparada!!!

E ela chorava, assustada!

Entonce, forrando o chão
cum o couro seco de ôvêia,
butei a ceia que eu tinha.

     Um coração de viado,
     im riba da trempe, assado
     no brazêro da cuzinha...
     Um pouco de macachêra...
     Café frivido im chalêra...
     e uma cuia de farinha.
     Ela, calada, fingia
     que cumia um pedacinho
     de macachêra... e bibia
     uns gólinho de café.

Eu, cumendo, disfraçava!...

Prú báxo dos óio, óiava!...
E o coração me dizia:
“Sivirino!... cumo é triste
“uma casa sem muié!!!”

A chuva braba caía,
e, às vez, inté paricía
querê levá pulos mato
a casinha de sapé!!

     Iscouciando e bufando,
     se ispojando entre as fôiage,
     lá fora, o vento curria,
     cumo um cavalo sarvage!

Istremeceu de sobrôço,
pidindo um tiquinho d’água,
fingindo que tinha sede.

Despois, caiu de juêio,
cum as mão cruzada pró Cristo,
que táya im pé, na parede!
     Rezava!!!

Ispetada nos cabelo,
trazia uma frô dos mato,
frô quirida das abèia!!
E ela, ansim, istremecendo,
mansinha, cumo uma ovêia!...
Piando, cumo um pintinho,
quebrando a casca do ôvinho,
táva, seu moço, mais bela,
mais triste e mais amarela
que as areia dos caminho!

Quando acabou de rezá,
introu de novo a chorá,
me pidindo que eu dêxasse,
     (não pulo amô, — prú piadade,)
     debáxo daquelas páia
     aquela noite passá.

Cumo táva linda e bela!

Ai, de quem bebe, patrão,
o mais pio dos veneno,
n’uns pinguinho de sereno
de dois óio, cumo os dela!

     Entonce, cum mais corage,
     eu disse, sem mais aquela: -
     “aminhã, de minhã cedo,
     “vassuncê vórta cumigo
     “prá Serra Jabitacá.

“O noivo não sabe nada!...
“Druma a noite assucegada!

     “Aminhã, cumo o avôzinho
     “vendo váíncê, vae ficá!”

Butando a istêra no chão,
supriquei: “vá se deitá!”

Tirando o pé da chinela,
na istêrinha se assentou;
n’um véio gibão de couro,
a cabecinha apousou;
e ao despois, a luz dos óio
foi, pouco a pouco, iscondendo,
taliquá dois vagalume
se adispidindo da noite,
quando o dia vem rompendo.

Drumia!... Se não fingia,
paricia tá sonhando!

     O azeite de carnaúba
     na luz morta da candeia
     foi se apagando!... apagando!

Fui de vagá!... de mansinho!...

De vagá!... de vagarinho!...

E a frô dos cabelo dela,
cumo quem bêja uma santa,
não nego, patrão!... Bêjei!

Tive entonce uma vertige!!...

Sinti um gosto na boca
das fôia dos mato virge!!

Correu pru todo o meu corpo
um mistéro, que eu não sei!
Pensei na Virge Maria
e im minha mãe eu pensei!
Despois, a imagem do Cristo
da parede dispreguei!...

Do outro lado da istêra
de catolé, me deitei!!!...
Pra me livrá do pecado,
entre nós dois, eu e ela,
a Santa Image butei!!!

     Quando, às vez, o coração
     mais dizinquiéto batia,
     eu me agarrava cum o Cristo,
     rezando uma Ave-Maria!

Quiria a carne uma coisa
que o isprito não quiria!!
E ansim passei toda a noite,
garrado cum Jesú Cristo,
rezando cum devonção!
Pru São Cosme e São Damião!
Im certas ocasião,
quando o diabo nos consome,
um hôme deve sé hôme,
e eu fui hôme e fui cristão!

Váincê me intende, patrão!!

          ....................
          ....................

Má vinha rompendo o dia,
ainda a gente sintia
pulos mato mangangá
o ôroma frio da noite
e o chêro do têmpora,
e o meu cavalo curria
cum seu dono e cum Virúca,
prá casa do Tio Luca,
na Serra Jabitacá!

O que eu não posso dizê
é aquela sastifação
que o avô, vendo a netinha,
sintia no coração!

O avôzinho inda chorava
cum a sua neta abraçado,
e cumo um doido, chorando,
eu rumpia pulos mato,
no meu cavalo isquipado.

               *

     Im riba da serrania,
     o girasó da minhã,
     lá, munto longe, si abria!

     N’uma festa de aligria,
     no meio da mataria,
     parece que indoidicía
     todos os passo, a cantá!!

Paricia uma cabôca,
vistida toda de verde,
a Serra Jabitacá!...

Seu moço!... A minhã chêrava!!

     Não vale a pena alembrá!!!

Não vale a pena, seu moço,
pruquê é uma grande verdade: —
que é a mais grande das bestêra,
na bestêra desta vida.
a gente dá de cumida
na boca d’uma sôdade!!

          ....................
          ....................

Mas porém, naquela noite,
naquela istêra deitado,
ou, mió, curcificado,
cumo se fosse uma cruz,
sarvei minh’arma, seu moço!...

Seu moço, eu sarvei minh’arma!!
Mas porém, (pul’esta luz!...)
Im nome do Pae, do Fio,
do Isprito Santo e Maria,
e do Amô, prú quem sufria...

— Nosso Sinhô me perdoe!... —
Eu sufri mais que Jesus!!!


VOCABULÁRIO

Parnaíba — faca.
Camboêro — guia dos comboios.
Mazombo — triste, isolado.
Acauã — ave de canto triste e agoureiro.
Carregado n’uma rede — é como se carregam os cadáveres no sertão.
Cangaço — bando de cangaceiros.
Banzá — estar pensativo.
Quartáo — cavalo manso, castrado.
Tarapantão — que diz ser valente.
Caxito — nome do cavalo.
Panacú — cesto.
Burití — espécie de palmeira.
Macacheira — aipim.
Muríci — árvore malpigeácea.
Copiá — alpendre.
João de Barro — pássaro que faz o ninho de barro, do feitio de uma casa.
Guanumbi — beija-flor.
Quicé — faquinha.
Mucambo — choupana.
Sobroço — medo.
Tôrrangue — estrondo.
Sarvei minh’alma — expurguei-a de todos os crimes, pela nobreza da ação.


Terra Caida

     Começa este poema na noite em que o grande violeiro — Chico Mindélo, de volta ao Ceará, depois de uma ausência de sete anos no trabalho dos seringais, no Amazonas, a pedido do povo do sertão, vai contar o que se passou cnsigo, por aquelas paragens.

               *

     Terra Caida são as terras que se desmoronam, à margem do rio, com fragor, levando grande extensão de frente e fundos.


TERRA CAIDA

Ao insígne Mário-José de Almeida

FAZ hoje sete janêro,
que eu dêxei o Ciará,
e rumei lá pró Amazona,
a terra dos siringá.

N’aquelas mata bravia,
lá, nos centro arritirado,
as arve tem munto leite,
mas nós já tâmo cansado!

O inverno, n’aquele inferno,
é uma grande infernação!
No inverno não se trabaia,
que é o tempo da alagação.

Isperei. Veio o verão.

É mais mió não falá!...
Tu qué sabe, meu amigo,
o que é os siringá?!

É trabaiá... Trabaiá!
É um hôme se individá!
É vive n’uma barraca,
n’um miserave casebre
e sé ferrado da febre,
que anda danada prú lá!

É trabaiá, trabaiá,
dendê que rompe a minhã,
prá de dia sé chupado
pulo piúm, que é marvado,
e de noite sé sangrado
pulo tá carapanã!!

É um hôme dá todo o sangue
pró mardito do piúm,
e vortá mais disgraçado,
cumo eu — o Chico Mindélo,
duente, feio e amarelo,
cumo a frô do girimúm.

Ansim, lá dos siringá,
no fim de três, de três ano,
sem um vintém ajuntá,
ia vortá prá Manáu,
tândo fixe na tenção
de Manáu vim pró sertão
do meu quirido Ciará.

Apois!... siguindo os consêio
que me dava o coração,
arrêzôrvi não vortá!

          _________

N’um terreno, im ribancêra,
na bêra mêmo do rio,
despois d’um ano gastado
de trabaio cum o machado,
prá aquelas árve gigante
na derrubada quêmá,
incoivarei um roçado
e cumecei a prantá:
feijão, mio, mandioca,
e fui filiz no lugá.

A terra era munto boa
prá fazê um roçadao:
tão boa, que era percizo
vivê cum a inxada na mão!
Se um hôme mamparriasse,
a imbaúba, a gitirana,
o mata-pasto, a caíva,
o taxizêro danado,
o taquarí... n’um instantinho,
tudo cubria o roçado.

“Cabôco Onça” era ansim
que eu ali era chamado.

Apois, no fim de dois ano,
cumpade, eu já pissuía
umas cabeça de gado!

Mas porém, meu véio amigo,
tudo o que hoje o hôme faz,
n’outro dia Deus disfaz!

          _________

Ouve. Um dia, Zé Pacú,
indo a Igarapé-Assú,
onde tinha um ajury,
levou cum ele uma fia,
que se chamava — Maiby.

O pagode, a festa, o samba,
era im casa d’um rocêro
de nome: — Antônio Truamba.

No pagode do Truamba,
chorei tanto na viola,
de noite inté de minhã,
que a fermosa cünhatã
teve uns caído prá mim!

óia, a coisa foi ansim.

A cabôca fez premessa
de nunca mais me isquecê!

Que pena não sabe lê!

Ela disse tanta coisa,
tanta palavra bunita,
que eu, inté, nem sei dizê!

Nunca tive tanta pena
e tanta malincunia
de não sabe inscrevê!

Agora váincês me diga:
o que havéra eu de fazê?!

A festa tinha acabado!
Eu táva discambimbado!

Na hora que toda gente
já táva se adispidindo...
a muié táva chorando!
Vendo a muié saluçando...
fui assuntando... assuntando...
e... despois, arresôrvi!

Pidí a mão de Maiby!

Nos óio dos cunvidado
correu uma ispantação!

A cara dos namorado
de Maiby, n’aquele instante,
ficou taliquá se visse
uma grande assombração!

Maiby ficou tão contente,
quando o pae, arrêzôrvido,
no meio de toda gente,
sastifez o meu pidido.

Eu não quiria!... É verdade!
Mas porém, era mardade,
era mardade e perrice
não crê n’aquelas denguice
d’uma muié adorada,
nem nas coisa que jurava
cum a sua palavra honrada!

Apois, ficou ajustado
que, despois de mais dois ano
de trabáio no roçado,
nós havéra de casá.

Despois da festa acabá,
a festa do seu Truamba,
uns prá aqui, outros prá lá,
cada um siguiu viage.

               *

A barraca do Pacú,
do véio pae de Maiby,
ficava lá da outra marge,
da outra banda do rio,
n’um bunito massapês.

Só de três mês im três mês,
eu fazia a travessia,
(duas hora de canoa...)
prá í vê a curumim,
e só quatro mês fartava
prás coisa chegá no fim.

Zé Pacú dava um pagode
no dia oito, im Dezembro,
que é o dia da Cunceição.

Cum rézão ou sem rézão,
João Capixaba, um caúchêro,
das banda de Saíré,
me contou que a cabôquinha,
n’uma festa, im Caeté,
no dia de S. João,
só c’um vaquêro dançou,
e prú via disso a festa
im tempo quente acabou!!!

Dei tempo ao tempo: isperei.

O dia oito chegou!!!
“Vamo vê”, disse cumigo,
“se o cabra não me inganou”.

               *

N’aquele braço da costa,
de todo lado se via,
atupetada de gente,
as canoa, as montaria.

Vinha descendo um Gaiola.

Peguei na minha viola,
e dicí pulo barranco!

A lua, branca arupêma,
toda redonda e cheínha,
penêrava lá de riba!
E o rio táva tão branco,
cumo um montão de farinha!

Remando n’aquela hora
prá barranca da outra marge,
um bando de montaria,
carregando os cunvidado,
foi siguindo de viage.

O Pacú era quirido
e cunhicido de tudo!
Vinha gente inté de longe,
lá das banda do Serudo.

Nunca vi tanta canoa
atupetada de gente!
As água mansa do rio
se ria inté de contente!

A noite táva bunita,
cum seu vistido de chita,
da cô da frô dos ipé!!
A noite infeitica a gente,
pruquê a noite é uma muié!

Ansim, bunita e fermosa,
cum uma saia toda azú,
cheguei a pensá que a noite,
a noite da Mãe de Cristo,
tinha sido cunvidada
prá festa do Zé Pacú!

Sartei no barco velêro,
e a viola temperando,
bejei as águas do rio,
e fui cantando e cantando:

“Nosso Sinhô, quando andava
“pulos dizerto, a rezá,
“gostava de uví São Pedro
“na viola puntiá.

“São Pedro diz que a viola
“foi feita, n’um disafio,
“da canoa im que ele andava
“cum o Cristo a pescá no rio.

“Não foi feita da canoa,
“mas porém da sua cruz!
“A viola ainda sofre
“tudo o que sofreu Jesus!

“Quando Deus fez a viola
“e cumeçou a cantá,
“seu coração ficou roxo,
“cumo a frô do manacá!...

“Deus é o rei dos violêro,
“quando canta o seu amô,
“nas corda santa da lua,
“que é a viola do Sinhô!”

E fui remando... remando...

E há duas hora eu remava
e um bom cigarro pitava
de páia de tauary,
quando abispei a barraca
do véio pae de Maiby.

Mais umas duas remada
e, entonce, filíz, cheguei!

No porto, entre as canarana,
a igarité amarrei!

Ali, na bêra do rio,
manso, cumo uma lagoa,
os cunvidado da festa
vinha chegando e sartando
d’uma prução de canoa.

Nunca vi tanta canoa,
atupetada de gente!

As água mansa do rio,
todo inrugado, increspado,
se ria inté de contente!

A casa táva no arto!

Pulo um caminho insombrado,
assubi pulo barranco!...
Isvisguei pulo terrêro!...
Quebrei do lado da mata,
onde tinha um assacuzero!...

A barraca do cabôco
táva toda inluminada
e quage toda afogada
n’uma moita de abiêro!

Nas pórka e warsa e quadria,
a dança táva animada!

O som da frauta e a viola
se misturava cum o chêro
das fulô d’um jasminêro,
que intrava pula jinela!

A Mãe de Cristo, tão bela,
n’um óratóro infeitada,
táva no meio das vela,
morena e toda istrelada,
rezando, cumo uma istrela,
na boca da madrugada!

De repente, im toda a festa,
nem um rumô mais se uvía!

O nome d’ela — Maiby, —
de boca im boca curria!

Um matêro ou um seringuêro,
bateu parma no terrêro,
e fez prá tudo um siná.

Era o samba e era ela,
era Maiby quem prêmêro
no samba vinha sambá,

Do lado da caiçara,
na quina da ribancêra,
me iscundi atraz do tronco
d’uma véia piranhêra.

Quando avistei a cabôca,
quage chorei de verdade!
Ai, meu Deus, cumo é bunita
a morte d’uma sôdade!!

As viola gemeu de novo,
e ela se-pôz-se a brincá,
tremendo n’um miudinho,
sem se arredá do lugá!

Ao despois, a sala toda
correu n’um sapatiado,
disafiando prá dança
os pobre dos cunvidado,
que logo baxava os óio,
ansim cumo invregonhado.

As cobôquinha, inciumada,
já não pudia mais, não!

Quando os noivo se assanhava,
elas ferrava nos braço
dos seus noivo um biliscão.

Maiby quebrava no côco
cum tanta requebração,
que se a Mãe de Deus sambasse,
tarvez que váíncês jurasse
que quem sambava era Ela!...
A Virge da Cunceição!...
A Mãe de Deus, do Sinhô!!!

Nisto, um roquête de parmas
im toda sala istrondou!

Foi quando, entonce, um vaquêro,
ainda moço e temêro,
prá riba d’ela imbicou!!!

De camisa toda branca,
cum o peito todo arrufado,
no pescoço axamurrádo
um lenço cô de limão...
butão de ouro nos punho!...
Purriba das carça nova
um pesado correntão...
O cabra, remunhetando,
castanholando cum as mão,
imbigando prá morena,
requebrava as suas pena,
no requebrado das perna,
zunindo, cumo um pinhão!!!

Quando o vaquêro cansava,
ela os pézinho apressava,
que nem si via os seus pé!...
Quando o vaquêro avançava,
ela ia arrecuando,
fugindo, cumo a marrêca
da boca do jacaré!!...

Se o vaquêro abria os braço,
atirando uma laçada,
Maiby fugia do laço,
sortando uma gargaiadaí

E agora é que ela dançava
e os musgo a musga apressava
e ela sambava, sambava,
sem um momento apará!...

“Ai, meu tempo!” n’um gimido,
gritava as véia aculá!
Xingava as véia os marido,
que alevantando os pescoço,
xingando tombém as véia,
dava parma, cumo os moço,
vendo o demônio rodá!

Deus me perdoe a hirizia!
Mas porém, eu vi a Santa,
eu vi a Virge Maria,
batendo parma do artá!!

O vaquêro, arrenegado,
ficou n’um canto, isbarrado,
capiongo, discunchavado,
sem quáge pudê falá!

Tinha cansado o marvado!
Já não pudia sambá!

E o pae, óiando prá ela,
e achando a fia mais bela,
acendeu o seu cachimbo,
e... era pae... pôs-se a chorá!

               *

Entre as nuve de puêra,
a cabôca paricia
taliquá uma nuvia,
saindo dos capuêrão,
doida, às tonta e às marrada,
fugindo, entre os ispinhêro,
d’um valente boiadêro,
pulos mato do sertão.

Entonce, currupiando,
sem tomá fôrgo na dansa,
a móde cumo criança,
abria a boca dengosa,
e entonce a língua trimía
entre os dente da cabôca,
querendo saí da boca,
cumo uma cobra de rosa.

Os dois copuassú moreno,
maduro, fresco, fermoso,
dois curumim vregonhoso,
que ninguém pudia vê,
prú báxo d’aquelas renda,
tinha o chêro, inda quentinho,
da boca d’um bizerrinho,
quando acaba de nacê.

Os pézinho da cafuza,
que se tu visse, chorava,
não dançava, parpitava,
taliquá dois coração!
Tão leve, que paricía,
n’um roda de carrapêta,
um casa de barbuleta,
brincando rente do chão!

Os óio, que tinha o fogo
das tarde, quando se intôna,
tinha no fundo a beleza
de toda aquela tristeza
que tem o rio Amazona.

Não tinha boca!... Era a boca
uma gaiola de sangue,
adonde, quando falava,
a gente logo iscutava,
saluçando, um irachué!
Mas porém, quando calava,
pidindo, tarvez, um bêjo,
ficava a boca mais roxa
do que a frô do mururé.

Um bêjo naquela boca
era um má, que não tem cura!
Se tinha a doce frescura
da sombra das quixabêra,
tinha a frevura do bêjo,
que o rio, vindo dos cume,
arrebenta no ciúme
da boca das cachoêra!

Ai! os cabelo!... Os cabelo,
que às vez, n’um riviramento,
tapava a cara da dona,
n’aquele adivértimento,
era preto, cumo o sonho
d’um cego de nacimento!

Quando um momento aparava,
dêxando o suó moreno,
cumo os pingo de sereno,
prú todo o corpo corrê,
a sala ficava cheia
desse ôrôma que se sente
do chêro da terra quente,
quando cumeça a chuvê.

Ansim, quando ela sambava,
uma rosinha amarela,
que táva ainda im butão,
caiu dos cabelo d’ela,
amachucada no chão.

Os musgo, tudo suado,
cum os óio de urúiáuára,
os insturmento aparou!

Entonce, o cabra sarado,
de venda de ripolêgo,
do chão a rosa panhou!

A cabôca, óiando os musgo,
que ainda táva cansado,
cum as língua toda de fora,
de tanto e tanto tocá,
deu um muchôcho brejêro,
fez um ixe — pró vaquêro,
e introu de novo a sambá,
cumo a fôia do trapiá,
que o vento brabo da serra
vae rolando, pula terra,
n’um currupio inferná!

E as parma ainda istralava,
no meio da cunfusão,
quando se uviu um baruio,
que paricía um truvão!

Todo o mundo prá barranca
naquele instante correu!...

A noite táva mais branca
que Jesus, quando morreu!

O cabra, fazendo infuca,
pruveitando a cunfunzão,
fez um bico prá cabôca,
e deu um bêjo na boca,
um bêjo!... Sim!... Mardição!!

João Capixaba, o cauchêro,
não mintiu!... Tinha rêzão!...
Era o vaquêro mardito
da festa de Caeté,
da festa de São João!...

“O que foi, gente, o que foi?!”
todo o mundo preguntava
pró pae, que lá da barranca,
já sastifeito vortava,
                         a gritá:

“Vamo!... Vamo! Minha gente!
— Não dêxa a festa isfriá!
— Não foi nada!... Não foi nada!...
— Foi coisa munto sabida!
— Arguma Terra Caida!...
— Toca a ri!... Toca a sambá!”

Na verde guarapiranga
chorava um camêtaú!

Agora é que se isquentava
a festa do Zé Pacú!...

Saindo detraz do tronco
da fermosa piranhêra,
rumpi pula tacaniça!...
Dicí pula ribancêra!

Uma tuada sôdosa
nos gimido das viola
se misturava cum o chêro
das fulô do jasminêro,
que vinha lá da jinela.

Arguem cantava!... Era ela!...

Rasguei cum o quicé a corda
da igarité!... Imbarquei!...
Baxinho disse um segredo
pró rio!... E remei!... remei!..

Cada vez remava mais!

Só despois de munto tempo,
aparei... e ôiei prá traz!

A barraca inluminada,
cum a musga, que inda se uvia,
longe, longe... munto longe,
cumo uma istrela... murria!

O céo, de todos os lado,
paricia uma tigela
cum o fundo azú imbórcádo,
todo ismartado de novo,
adonde a lua, tão bela,
ia boiando, amarela,
cumo uma gema de ovo!

Já trazia de viage
duas hora, bem puxada.

Lá, prás banda do Nacente,
entre as suas cumpanhera,
n’outra festa inluarada,
sambava a mais feiticêra
das istrêla amorenada,
essa Maiby dos incréu!...
Essa cabôca do céo: —
— A istrela da madrugada!

Entonce, pequei do remo,
rasguei as água do rio,
que, fazendo um arripio,
do sono d’água acordou.
Remei!... Remei!... Fui remando!...
E... não cheguei!... Foi somentes
a canoa que chegou!...

Neste sertão do Ciará,
onde naceu nossos pae,
filizmente, ninguém sabe
que coisa é terra que cáe!...

Aquele instrondo, de longe,
que lá na festa se uviu,
foi quando a terra, essa ingrata,
a minha terra adorada,
farciou!... tremeu!... caiu!

Os juaí, as bacabêra,
os coité, as laranjera,
as moita de cacáuêro,
os verde ginipapêro,
os grande canarassú,
adonde todas as tarde
cantava um iapurú...
as fermosa mongubêra,
as mongubêra inda im frô...
a juruparipirêra,
que táva im frente da choça...
a criação... gado... roça...
tudo o rio me levou!

Mas, que isso, minha gente?!
Váíncês tudo ficou triste,
despois que a históra acabou?!
Tristeza não dá vantage!
O que passou, já passou!

          ....................
          ....................

Deus, que um dia fez o hôme,
pula sua santa image,
fez o nosso coração,
cumo as frorésta bravia
das terra virge... sarvage!

Virge, im suas mataria!...
Sarvage, im sua grandeza!...
Mas porém, que tem beleza
prá quem aprêcêia as coisa
mais grande da natureza!

Um dia, vem a muié!

A muié pega um terçado,
pega uma foice, um machado,
disgaia o mato fechado
das terra do coração!
E ao despois da derrubada,
despois do fogo — a quêmada —
a muié péga uma inxada,
cava a terra, bem cavada...
e samêia!... É a prantação!

Tudo quanto é frôração,
toda a frô que a terra cria,
tudo nace, ali, n’um dia,
onde táva a mataria
no fundo do coração!

Se a muié sabe que é ingrata,
prá quê vae mexe nas mata
daqueles grande arvoredo,
e quêmá, cumo um brinquedo,
o mato virge, cerrado,
iscuro e sêmpe fechado,
adonde não tinha intrado
a luz do Só, que é o Amô!?

É prá despois, sem rezão,
derruba prá toda a vida
o jardim do coração,
sem um tiquinho de dó!

Maiby!... Maiby me inganou!!

O rio, n’uma treição,
o trabáio de seis ano,
as terra da prantação
im suas água levou!

Maiby!... Maiby me inganou!!

Bem feito! Fui castigado!
Foi praga da minha terra!
E praga de Deus inté!

Mas peço à Virge Maria
que, cumo Muié divina
e Mãe de Jesus, perdoe
Maiby, que é tombém muiéü

Tudo foi uma inluzão!

Do jardim que ela prantou
nas mata do coração,
só véve agora uma frô!...
Só a Sôdade tem vida!!!

E o que é, meu Deus, a Sôdade?!

Sôdade é a Terra Caida
de um coração, que sonhou!


VOCABULÁRIO

Axamurrado — atarracado.
Remunhetá — fazer piegas, sambando.
Capiongo — triste.
Currupiando — rodando, girando.
Copuassú — fruto desta árvore.
Quando se intona — quando se avermelha no arrebol.
Irachué — espécie de sabiá.
Mururê — vegetação aquática.
Quixabeira — árvore, cujas flores são muito cheirosas.
Uruíáuára — onça pequena.
De ripolêgo — achatada.
Trapiá — árvore silvestre.
Fazendo infuca — tentando.
Guarapiranga — árvore do Amazonas.
Cametaú — pássaro que canta de madrugada.
Quicé — faquinha.
Terçado — machado grande.
Piúm — mosquito noturno.
Carapanã — mosquito noturno.
Girimum — abóbora enxuta.
Fixe — seguro, certo.
Mamparriasse — descuidasse.
Imbaúba — planta nociva.
Jitirana — planta nociva.
Coíva — planta nociva.
Taxizêro — planta nociva.
Cunhatã — cabocla.
Assuntá — pensar.
Ajury — mutirão.
Massapës — terra fértil.
Curumim — caboclinho ou caboclinha.
Cauchêro — seringueiro.
Montaria — canoa.
Gaiola — vaporzinho.
Arupema — peneira.
Frô dos ipê — flor amarela, dessa árvore.
Temperando — afinando.
Âbispei — avistei.
Canarana — canavial bravio das margens do rio.
Igaraté — pequena canoa.
Ássacuzêro — árvore amazonense.
Caiçára — ruínas de um arvoredo.
Bacabeira — espécie de palmeira.
Iapurú — ave cauora que, voando, leva sempre um bando de outras traz de si, para ouvi-la cantar.


Trovas


TROVAS

Ao meu grande amigo José Bandeira Brandão

SE me sorris, quando passas,
a minh’alma prasenteira
viçosa, fica sorrindo,
como a rosa na roseira.
Mas se passas, sem me olhares,
o meu coração, pequeno,
sente a magua de uma rosa,
pisada pelo sereno.

Quando te vejo, em meu peito
brota uma flor de impiedade
no lugar em que inda há pouco
soluçava uma saudade.
Mas se partes, se te ausentas,
voltam logo mais acesas
as borboletas da noite
das minhas velhas tristezas.

Os teus olhos de esmeralda
têm, nos brilhos singulares,
as seduções das florestas
e a verde atrcção dos mares.

Quando foges do meu lado,
minh’alma anciosa te espera,
como a roseira, sem rosas,
a volta da Primavera.

Se vejo as tuas roseiras
por essas manhãs cheirosas,
tenho a ilusão de estar vendo
um grande incêndio de rosas.

Aproximei-me do bosque
para ouvir os passarinhos
e os passarinhos, voando,
abandonaram seus ninhos.
Se tento ouvir das quimeras
os cantos, com que me iludo,
fogem todas, apressadas,
e o coração fica mudo.

Meu coração é uma fera,
é um leão esfomeado,
que, a rugir, vai devorando
o cadáver do Passado.

Do teu anel primoroso
a pedra viva, encarnada,
é um grande pingo de sangue
n’uma flor amorenada.

Pedi! Chamei por teu nome!
Tu te fizeste de mouca!
Dei-te um beijo, e então ficou-me
um mel de fogo na boca.

Uma Vênus tão somente
existe nos céus serenos
e em teu rosto alvinitente
vejo sempre duas Vênus.

Se a paixão deu-te um desgosto,
tens uma cura ligeira:
procura, à tarde, ao sol posto,
a sombra da laranjeira.
Se n’alma sentes ciúmes,
com teus olhos rasos d’agua,
o aroma da tua magua
mistura com os seus perfumes.
Mas, se esse arbusto impiedoso
não te acolher complacente,
vai assentar-te, saudoso,
à beira de uma corrente.
Afina o teu instrumento,
serenamente sombrio,
canta e afoga o pensamento
nas águas fundas do rio.

No jardim, quando, formosa,
colheste a rosa amarela,
perguntando o cravo à rosa: —
Quem é? — Disse a rosa: “É ela.”
E o cravo, sem teu afago,
de tal maneira chocou-se,
que sobre as águas de um lago,
desfolhado, suicidou-se.

Morto, eu peço-te esta esmola,
peço, em nome de Jesus,
que partindo esta viola,
faças d’ela a minha cruz.

Vive o homem doido e vario
por ter mais ouro na mão,
e eu seria um milionário,
se encontrasse um coração.

Quando suspiro a teu lado,
não julgues que é brincadeira,
pareço um mocho pousado
na rosa de uma roseira.

Se me volves do sobrado
um teu olhar divinal,
vejo um lírio debruçado
sobre um verde pantanal.

Nestas campinas, agora,
a relva, cheirando a flor,
tudo, tudo, tudo chora!...
Se alguém canta, é a minha dor!!
Um sabiá doce e ameno
nos seios da tarde fria,
rorejado de sereno,
descanta uma Ave-Maria.

As tuas mãos candorosas
e o teu rosto, ó feiticeira,
parecem mesmo três rosas,
e tu — o hastil da roseira.

Trindade do coração,
em que minh’alma descansa,
é minha religião: —
amor, saudade e esperança.

Qualquer frase acerba e dura
que ela me atira, eu sorrio:
pois encerra tal doçura
que parece um elogio.

O cego implora, chorando,
um pouco de luz, de pão;
e eu vivo a ti mendigando
um farrapo de ilusão.

Tão cruel é minha sina
que eu vivo esta vida austera,
como uma flor na campina,
de luto na primavera.

Do inverno adoro os rigores!...
Minh’alma, que nada espera,
nada tem que ver com as flores,
nada tem com a primavera.

Porque em lugar de um poeta
não me fez Deus um banqueiro?
Tu viverias repleta,
não de versos... de dinheiro.

Canto a tarde, o dia inteiro,
canto a noite de luar,
pois que a fama de violeiro
só Deus me pode tirar.
Neste sertão não respeito
nem viola nem cantador!
Comigo é preciso jeito!
Não podem com a minha dor!
Se vocês estão folgando,
é porque não sabem, não,
como o ciúme está sambando
cá dentro do coração.

Podem brincar à vontade,
ao som do canto dançar!...
Gosto de ver a saudade
lacrimejando a sambar!

Na tua branca janela,
bate o luar de marfim!
Eu quero crucificar-me
nas flores do teu jardim.
Se és minha cruz, sou teu Cristo!
Hei de cumprir meu fadário!
Na tua branca janela
é onde está meu calvário,
No teu jardim toda a noite
choro estas trovas fagueiras!...
Rezo n’ele, como Cristo
no Jardim das Oliveiras.
No teu canteiro de rosas
também sinto maus odores!
Será talvez o cadáver
de um coração entre as flores!?

“Quais são as cores do beijo?”
ela a mim me perguntou!
— Os teus — lhe disse — são verdes!
Maduros — os que eu te dou.

No meu livro de orações
guardo uma rosa sombria,
que das preces do meu livro
é a mais bela Ave-Maria.

A dor mandou que eu chorasse,
para alívio dos pesares,
mas já não tendo mais lágrimas,
estou chorando cantares.

Muita imagem lá na igreja
sorri, com um sorriso etéreo!
Mas quando sais lá da igreja,
a igreja fica tão triste
que parece um cemitério!

Não tenho mais uma lágrima
no cofre do peito meu!
Quantas pedras preciosas
o coração derreteu!

Quis contar a minha vida
das flores à mais formosa,
mas de pronto arrependi-me,
fiquei com pena da rosa.

Tu partes hoje, querida!...
Muito a noite já chorou!
Para te dar os adeuses,
até o sol madrugou.

No luar deste silèncio,
d’esta noite abençoada,
parece andar pelos ares
uma trova enfeitiçada.

Todo o azul do firmamento,
quando em meus olhos te miras,
corre doido em tuas veias,
como um bando de safiras.

Juntando os lábios à terra,
teu nome eu disse baixinho,
e quando o dia brotava,
brotou da terra um espinho.

No deserto do teu peito,
dia e noite perfumados,
se levantam, veludosos,
dois montes acaboclados.

Quando me negas um beijo,
sacodes os meus pesares,
como o vento das procelas
na branca areia das praias,
sacode a espuma dos mares.

O meu amor, que é de fogo,
não dá flores entre o gelo...
O coração das mulheres
é escasso para contê-lo.

Esses teus olhos formosos
de um azul límpido e leve,
são como dois beija-flores
n’um ninho feito de neve.

Tu remoças dia a dia,
e eu vivo mais alquebrado:
dá-me o beijo prometido,
para eu morrer descansado.

Quando passas pela estrada,
acendendo mil desejos,
atrás de ti vais deixando
um doce cheiro de beijos.

Tu queres crucificar-me?
Abre os braços! Forma a cruz!
Dá-me o fel que tens nos lábios!
Morrerei, como Jesus.

Quando passas pelas rosas,
soluçando os teus odores,
eu ouço os jardins rezando
um Padre-Nosso de flores.

Saias ontem da igreja,
depois da missa acabar,
e eu gritei: — olha uma Santa,
fugindo do seu altar.

Eu tive um sonho esta noite,
que não me sai da lembrança:
sonhei que eu via a Saudade
chorando aos pés da Esperança!
Depois eu tive outro sonho
de oposta desigualdade:
sonhei que eu via a Esperança,
chorando aos pés da Saudade!!

Não há maior desventura
neste mundo desgraçado,
que ver um bardo, um poeta,
por uma mulher formosa
deveras apaixonado.
Mas não há coisa mais bela,
para quem é sonhador,
do que vê-lo inebriado
pelo sorrir de uma flor.

Prefiro a Dor ao Prazer,
por esta razão somente:
todo o Prazer vai-se embora,
toda a Dor fica com a gente.

Não há nada neste mundo
que mais me possa inspirar
que um cemitério de noite,
sonhando à luz do luar.

Quando mais com uma ferida
tu me feres... eu não choro!
É mais uma boca aberta,
para eu dizer que te adoro.

Tu és feia, mas contudo,
vejo em ti muita poesia:
se teu rosto é um lírio murcho,
tua alma é uma Ave-Maria.

A Primavera é tão boa,
preza tanto as nossas dores,
que até mesmo o cemitério
enfeita todo de flores.

Tu bem sabes toda a história
deste amor, hoje desfeito:
nasceu dentro de minh’alma
e sepultou-se em teu peito.

Quem dormir sobre teu peito
uma noite bem dormida,
há de acordar no outro dia
com a ilusão apodrecida.

Meu ideal era ver-te,
formosa, como tu és,
amando a todos os homens
e eles todos a teus pés.

Tens tanta flor na janela,
que mais um jardim parece;
no entanto, só quando chegas,
é que a janela floresce.

“Que flor tu querias ser”,
se um dia me perguntasses,
— um mal-me-quer — eu diria,
para que me desfolhasses.

Para mim, a maior glória,
mais sublime e ambicionada,
era eu ser a sepultura
onde fosses enterrada.

Sou como a flor. E os brilhantes
que trazes, de alto valor,
não são pingos de sereno,
que mata a sede da flor!


NOTA DE COPYRIGHT

Esta edição é feita em “fair use”, reputando a obra como de domínio público e em benefício de um direito moral do autor infelizmente não contemplado pela Lei 9.610 de 19/02/1998 [Lei dos Direitos Autorais].

Ela não menciona, entre os Direitos Morais do Autor (Artigo 24) o mais importante dentre eles, como qualquer autor sabe: o de ter sua obra divulgada, em vida e, principalmente, após sua morte.

Caso haja, nesta publicação, a violação de qualquer direito patrimonial (o que não acreditamos, visto a obra não ter sido republicada por mais de 60 anos e a presente edição estar sendo disponibilizada com cessão pública, que aqui fica declarada, de todo e qualquer direito patrimonial sobre ela), o detentor legítimo de tal direito, ou quem tiver conhecimento de algum, está cordialmente convidado a enviar seu e-mail para livros@ebooksbrasil.org para que o presente título seja prontamente retirado da apreciação pública e possamos informar aos apreciadores da obra de Catulo onde poderão adquiri-la.


Nota

(*) – Célebre violeiro e cantor dos sertões de Pernambuco.


©2001 — Catullo da Paixão Cearense

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