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O SOBREVIVENTE

Jorge Alberto Canale

www.supervirtual.com.br


O Sobrevivente
Jorge Alberto Canale
Título original: “The Survivor”

Tradução de José Roberto Romeiro Abrahão

Edição Supervirtual

Versão para eBook
eBooksBrasil

Fonte Digital:
Documentos da Editora

Copyright
© 2006 Jorge Alberto Canale


Índice

Prefácio (1968-1969)
     O Jovem Jorge Alberto Canale
     Jean Llobet Valls
O Meu Manifesto
Homenagens especiais - Agradecimentos
Sobre o livro
Dedicação Especial
Gatos, Pombos e Filhote de Leão
Entre Histórias de Guerra e Histórias de Amor
Hann a Enfermeira
A Guerra dos 6 Dias - 1967
Iêmen e o Grande Khat, o Cão
Lábios Leporinos e Maus Policiais
Christiane
Sanduíche de Mortadela e Meio Copo de Água de Torneira por Apenas US$100
Instituições Religiosas
O MG, Meu Automóvel, a Grande Perdida
Quarto Dia - Amor a Primeira Vista
Tchecoslováquia
Croácia, Bósnia... Não me Lembro Bem
As Ditaduras
O Encontro com a Dra. Rita Moreno não Concretizado
O Mexicano Rodolfo Zapata
Livros de Jorge Alberto Canale
Nota do Editor


 

PREFÁCIO
(1968-1969)

 

O JOVEM JORGE ALBERTO CANALE

 

Não apenas um jovem como outros, digamos que jovem-adulto, diferente dos demais da sua idade. Sua pessoa sempre nos chamou a atenção.

É pessoa grandiosa, sensível ao extremo e de coragem indômita. Está sempre polindo sua inteligência e imaginação inventiva para enfrentar as circunstâncias da vida, novos combates. Sempre de posse de grande material em potencial, ele sabe que é difícil ganhar batalhas pelo mundo que vivemos, mas não é de desistir ou se render frente as maiores dificuldades.

O Sobrevivente, penso que é mais uma maravilhosa literatura sua, obra magnífica. Culto, sábio, gosta do que é bom e do melhor, mas também sabe aceitar o pior. Fala pouco, ouve muito, enxerga longe e sabe o que faz.

Embora muito jovem é bem relacionado mundialmente com grandes personalidades. Jorge Canale, de caráter firme, é ético, porém simples e até humilde demais. O Sobrevivente, talvez ele manifeste neste livro sua própria vida, ou de tudo aquilo que ele foi espectador no mundo, experiências das suas profissões e das suas missões.

Aprecia o glamour que perfuma as flores silvestres dos campos, respeita a natureza em si. Ouve os cultos e os mais velhos, é tolerante com a ignorância e a brutalidade humana. Isto às vezes é mais que surpreendente em demasia.

Aceita qualquer clima, enfrenta qualquer tempestade, natural e humana. Nos mais graves dos seus momentos, este se torna agradável e afável. É impetuoso, quase não desfrutou da sua juventude. Considerado por elevadas autoridades da Europa e dos Estados Unidos, com um grande gênio.

Jorge Canale, mais uma vez com um dos seus tantos livros e acredito que como os anteriores também este, O Sobrevivente, seja do seu agrado. Ame-o ou odeie-o.

 

Jean Llobet Valls
Professor Universitário e amigo.


O MEU MANIFESTO
(2002)

O meu manifesto, como leitor, como observador e como ex-diretor daquele que fora o jovem Jorge Canale, hoje mais que um adulto, aliás, ele imerso na tenra idade já era adulto e cheio de sabedoria. Ele, sempre mostrou sua grandiosidade humana e profissional, como médico, arqueólogo, combatente mundial, entre outros e mais que outros.

De extraordinária disciplina. Trabalhamos juntos. O vi por infinitas vezes confeccionar artefatos, máquinas, instrumentos e armas; inventar tudo que imaginamos e nem imaginamos; escrever com afinco. Sempre nos chamou a atenção. Seus livros são destaque e em poucos dias se esgotam. O Sobrevivente, eu tinha um exemplar que se extraviou e me foi impossível conseguir outro. Resido em Nova York e um dia lendo um jornal me deparei com um anúncio, alguém buscava livros da autoria de Jorge Canale, entre eles O Sobrevivente e o Emissário do Diabo.

Em pouco tempo vi mais procura destes em outros jornais e na internet, desta vez com persistência de uma Dra. da Áustria e pessoas da Alemanha e Bélgica. Eles não só pagariam bem pelos exemplares como também gratificariam sobre qualquer informação do paradeiro do autor.

No último terremoto de São Francisco, preocupado com um amigo residente na zona mais atingida, fui à sua procura e chegando ao local do sinistro, só achei os bombeiros e os escombros do edifício onde este morava. Na lista dos bombeiros constava meu amigo como vivo, pois este no momento do terremoto estava pescando.

Vasculhando os escombros do edifício ou do que este outrora fora, me deparo com algo de maior surpresa, ali jogado estava todo chamuscado e meio amarelado, um livro de Jorge Canale, aliás, um dos tantos mas, este era o mais procurado nos últimos anos — era O Sobrevivente. A vida não é irônica? Meu amigo salvo pela pescaria. O Sobrevivente sobreviveu ao terremoto. Eu fiquei eufórico, mais uma vez depois de tantos anos, mais que surpreso com a pessoa que é Jorge Canale.

O Sobrevivente, talvez um dos únicos livros de maior repercussão mundial nos anos 70. Sua capa ainda mantinha sua cor, apesar de estar chamuscada; folhei-o reparando que faltavam folhas, talvez umas 45 delas, outras estão danificadas como que parecendo as cicatrizes do Canale. Penso que o livro sobreviveu tanto quanto sobreviveu Jorge Canale durante estes anos todos. O Sobrevivente, propriamente a vida árdua do Canale, o autêntico Jorge Canale, digno homem de luta.

Assim que retornei à minha residência, constatei que as pessoas que estavam à procura do tão requisitado livro, manifestavam o desejo que este seja reeditado, talvez esta edição seja a 3ª ou 4ª, há muitos leitores e admiradores; calcula-se que mais de 12.000 no mundo todo à procura do livro.

Um certo repórter, de renomado jornal de Nova York, sabendo do assunto tentou adquirir o livro, mesmo este estando danificado e me oferecendo uma quantia elevada, mas não aceitei. O Sobrevivente, ele sobreviveu, eu o achei, o livro, no meio do terremoto. Não vendo, não dou e não empresto. A determinação de uma pessoa americana que morou no Brasil. O livro ficará hospedado na minha residência pelo tempo necessário para traduzir o livro.

A questão é que este livro seja reeditado, como meu presente para Jorge Canale, que para nós amigos do mundo todo, acreditamos seja uma das maiores alegrias e grande gratificação.

 

Dr. Robert Gross.
USA


 

HOMENAGENS ESPECIAIS:

 

• Dr. Robert Groos, Médico (USA);
• Professor Dr. Jean Llobet Valls (França) — in memoriam;
• Dr. Manuel Joaquim R. do Valle Neto, Médico (Brasil);
• Marcia Karolczyk, Enfermeira (Brasil);
• Marco Cézar Bassi, Empresário (Brasil);
• Milton Ortega Calvo, Administrador de Empresas (Brasil);
• Sylvia Sarah Jorge da Silva, Professora de Inglês (Brasil).

 

AGRADECIMENTOS:

 

Ao Dr. Robert Gross, meu sincero respeito e admiração. Embora com idade avançada, sempre se manteve lúcido e forte e teve uma grande vitória em ter localizado uma das minhas obras, na qual dediquei muito tempo da minha vida.

Sem sua pessoa este livro, O Sobrevivente, não seria reeditado, satisfazendo a solicitude de milhares de leitores e amigos nele interessados.

Há sempre procura dos meus livros antigos e reelaborá-los não é muito fácil, mas faz-se o possível para atender aqueles que solicitam, sejam eles instituições culturais, centros acadêmicos, amigos ou admiradores.

Ao Dr. Robert Gross, meu grande amigo e meu ex-diretor, o meu grande obrigado.

 

Jorge A. Canale
O autor.


 

 

 

Fiz este livro quando tinha talvez 26 ou 27 anos de idade, não me lembro exatamente. Naquela época eu era novo mas com longa experiência de trabalho profissional e é claro, da vida que o mundo nos oferece.

A primeira edição, com tiragem de 4.300 exemplares, se esgotou em trinta e oito dias. Posteriormente foram impressas mais 6.500 cópias, que também se esgotaram em pouco tempo. Houve novas propostas para reedição do livro, mas por várias razões desisti das mesmas.

O livro em si, seu conteúdo, digamos que relata fatos reais, embora alguns países, cidades, instituições e nomes de pessoas foram trocados para preservar sua integridade. Das pessoas que conhecia na época, hoje restam apenas cinco.

O livro achado pelo Dr. Gross, do qual foi copiado este, está muito danificado e chamuscado; acredito que faltarão cerca de 30 páginas. Portanto estas foram completadas ou substituídas por outros fatos ou histórias.

 

Jorge Canale
O autor.


 

 

 

DEDICAÇÃO ESPECIAL:

 

 

 

Ao Sobrevivente
À minha gata Ana Maria (Aninha)

 

 

 

 

A: Sou elevado funcionário ou oficial autoridade. Sirvo aos órgãos competentes que confiam em mim. Preservaram minhas profissões, habilidades, tarefas e missões encomendadas. Respeitam meu perfil e ética. Estou muito treinado e preparado para dar a vida se for necessário, em defesa para concluir a missão que fora encomendada.

B: Nunca, jamais desistir da missão ou trabalho encomendado. Não me deixarei subornar, corromper e não me venderei por livre vontade, pressão, tortura ou humilhação. Se estiver no comando, nunca entregarei ou trairei meus funcionários enquanto houver meios e forças para resistir física e mentalmente. Farei de tudo para escapar, resistir e lutar, para ajudar os outros a escaparem e salvar suas vidas.

C: Se eu for feito prisioneiro, capturado ou seqüestrado, serei fiel ao meu órgão, país e aos meus colegas e companheiros de prisão.

D: Não tomarei parte no que possa prejudicar meu serviço, missão, camaradas e departamento. Se eu for o mais veterano ou o mais velho, assumirei o mando de comando, se não for pessoa de habilidade e responsabilidade para as circunstâncias e cargo, renunciarei ao mesmo para dar lugar a outra pessoa competente.

E: Preservarei a minha educação, ética, bons princípios e disciplina, recebida no meu lar, escola, faculdade e academia. Não temerei ninguém, mas sim respeitarei tudo e todos. Respeitarei religiões, credos e seitas. Evitarei submissão, humilhações e atacarei conforme as circunstâncias, com as mais profundas das minhas habilidades técnicas e táticas de sabedoria.

F: Feito prisioneiro e interrogado, fornecerei apenas nome, posto, número de documento, data de nascimento e grau. Nunca farei declarações por escrito, gravadas ou orais que traiam a lealdade e honra das minhas tarefas ou missões, todas elas por razões humanitárias e de ciência.

G: No possível serei pontual e formal nos meus serviços e com as minhas obrigações, respeitarei meus superiores, colegas e camaradas de trabalho. Me afastarei de maus funcionários, gente inconveniente e viciados em drogas, álcool e mau comportamento, que estejam fora dos bons princípios.

H: Sobreviverei a qualquer custo e sacrifício e cumprirei com o que me foi encomendado, tarefa ou missão designada. Obedecerei meu superior ou superiores, mesmo que estes estejam errados.


 

GATOS, POMBOS E FILHOTE DE LEÃO.

 

São duas horas da manhã, sentado na beirada da minha cama começo a pensar em tudo e não consigo entender. Me levanto, ando, paro e penso, sinto que minhas emoções aceleram as batidas do meu coração. Tenho sede, tomo um copo d’água, mas os pensamentos continuam. Será que há no mundo outros sobreviventes além de mim? Eu não seria o único?

Tenho insônia!

A psiquiatria e a neurologia, no seu estágio atual, não são competentes o bastante para diagnosticar com precisão o grau de deficiência do metabolismo do meu corpo e os profissionais consultados ficam desnorteados e confusos. Indicam outro profissional, com nível mais elevado para estudar o meu caso e este por sua vez também não consegue chegar a um diagnóstico.

Enfim, até hoje nenhuma destas duas áreas médicas conseguiu ajudar-me a dormir nem que seja uma hora a mais por noite ou mesmo durante o dia.

Vou me deitar às 22:00 h, leio até as 23:00 h, depois durmo profundamente até às 24:00 h ou em raros casos, como já citado, até as 2:00 h. Acordo e não mais prego os olhos. Ao acordar, volto a ler ou a ouvir um pequeno rádio de pilha com meus fones de ouvido, para não incomodar a mulher que dorme tranqüilamente ao meu lado (fico pensando se há sobreviventes jovens amantes da música de Strauss ou de outra música clássica).

Mas, a mulher percebe meus movimentos e se irrita, motivo pelo qual temos tido tantas brigas e atritos. Aliás, fui casado quatro vezes e em todos os casamentos foi o mesmo problema!

Às 3:00 h da manhã já estou na minha pequena empresa.

Abro a janela e Ana Maria pula no meu colo. É a minha gata “Aninha”, como os amigos mais chegados costumam chamá-la. Irá completar 14 anos e tem a aparência de um tigre com uma faixa de pelos brancos na barriga.

Já publicaram em jornais, revistas e periódicos fotos da “Aninha” em muitos países. Ela entende chamados e algumas conversas em cinco idiomas. Poderia chamá-la de inteligente não fosse ela um animal. Quando sai comigo na rua anda como se fosse um cão, do meu lado. É muito disciplinada. A primeira coisa que faço ao chegar à empresa, é a limpeza do seu tapete e asseio da “Aninha” e sua alimentação. Michel, o dono do bar vizinho ao meu prédio, vê a luz acesa pela minha janela e envia o café da manhã, o qual, é claro, compartilho com a minha gata.

Deixe-me contar o que aconteceu com esta gata e como sobreviveu a um massacre de animais.

Num colégio famoso de São Paulo, de renomado conceito, o seu diretor permitia todo tipo de atrocidades para com os pombos e gatos. Certo dia recebi uma denúncia anônima a respeito desses maus tratos com animais e imediatamente comuniquei o fato a um jornalista, à polícia e até aos bombeiros. Fomos ao local, ou seja, ao colégio. Lá chegando, surpreendemos o diretor em seu gabinete e imediatamente soltamos todos os animais que estavam com suas patas amarradas com fios e entre eles, pombos e a gata que se tornou minha estimada “Aninha”. Reunimos os alunos no pátio do colégio, explicamos que aquelas atrocidades cometidas aos animais eram passíveis de severa punição judicial e que poderia levar à detenção.

Eu já estava cuidando de duas gatas que recolhi da rua, uma delas a Minu, estava com treze meses de idade e acabara de dar à luz dois gatinhos, mas apenas um deles sobreviveu. Quando trouxe a Aninha para o meu convívio, ela era a única sobrevivente duma ninhada de cinco gatinhos, entre eles seus pais e irmãos. Todos trucidados pelos professores, alunos e porteiros que trabalhavam no colégio, sendo que os filhotes tinham apenas quarenta dias de vida.

Aninha estava suja e ensangüentada, parecia até que havia saído de um bombardeio. Dei-lhe banho, fiz assepsia, mas ao examiná-la constatei que ela sofrera várias fraturas, além de outros ferimentos e estava desnutrida. Na opinião de um amigo veterinário, era melhor sacrificá-la, mas algo no fundo me dizia que ela ainda tinha muitas vidas e iria sobreviver (se gato tem 7 vidas, acho que Aninha perdeu 6).

Conscientemente eu não poderia sacrificá-la e então resolvi pessoalmente fazer a cirurgia de que ela precisava, e disse a ela:

— Olha gatinha, não prometo nada, mas vou tentar fazer o máximo por você. Embora eu não sou mais aquele cirurgião, mas vou fazer o possível.

Preparei o material cirúrgico e às 16:00 h duma tarde quente de dezembro de 1988 comecei a operar a gata, tarefa que foi até às 24:00 h. Ela reagiu bem à cirurgia, era forte e resistiu. Alguns dias mais tarde a gata Minu começou a dar-lhe de mamar e eu criteriosamente lhe ministrava alimentação na hora certa com as vitaminas necessárias. Cerca de tanta dias mais tarde, ela já estava totalmente recuperada.

Certo dia, cheguei na minha firma, por volta das 5:00 h e ao abrir a porta, deparei com uma cena horrível. Os corpos de dois gatos mortos pelo chão e a Aninha miando ao lado do corpo de sua mãe adotiva. O que teria acontecido?

Observei a janela e percebi que ela havia sido forçada. Pensei comigo mesmo, será que alguém entrou aqui apenas para matar estes pobres bichinhos?

Estava enterrando a Minu e seu filhote quando recebi um chamado telefônico. Era uma enfermeira que trabalhava na redondeza e assistiu a esse ato de atrocidade quando saía de seu trabalho. Ela viu um elemento mal-intencionado jogar pela janela um pouco de alimento envenenado (embora ela não soube precisar exatamente que tipo de alimento), mas o fato é que os gatos o comeram, exceto a Aninha, estes vindo a falecer rapidamente.

A enfermeira seguiu o elemento até o referido colégio de onde eu havia resgatado a Ana Maria, por conseguinte percebi que eram atritos com o diretor.

Novamente comuniquei o fato à Polícia, dois repórteres e a testemunha dos fatos. Fomos ao colégio à procura do senhor diretor, que quando nos viu mudou até de cor e eu lhe disse:

— Sr. Diretor, o crime não compensa.

Ele foi levado ao DP e seu colégio foi matéria policial em todos os jornais, seus pedreiros demitidos e ele renunciou, tamanha a pressão sofrida, justamente.

Estes casos, quando resolvidos com o respaldo da Lei, deixa-me muito satisfeito, embora muitos desses animais sofram toda forma de atrocidades até que alguém, de boa índole, resolve arregaçar as mangas e enfrentar esses humanos que são piores que feras. A grande diferença desses com os animais, é que os animais matam para se defenderem ou para saciar a fome, ao passo que os humanos sentem prazer em ver suas vítimas, indefesas e agonizando, sem o menor remorso, ao contrário, se deleitam com a morte dessas indefesas criaturas.

Às vezes provocam-lhes a morte por ingestão de veneno, introdução de pedras de vários tamanhos em seus organismos e abrem suas vísceras com o animal ainda vivo, etc. Podem existir animais piores que este?

Mas nem sempre alguém que quer defender um animal das mãos desses assassinos o consegue, quando então são bem sucedidos.

Tomem o exemplo de um filhote de leão de 8 meses de idade, enclausurado num porão de um hotel de luxo, na praça Roosevelt, em São Paulo. Recebi uma denúncia anônima sobre a situação. Obtive o mapeamento do local onde o leão se encontrava e planejei vê-lo para confirmar a denúncia.

Encenei uma hospedagem no hotel com uma mala vazia. Cheguei à recepção e me hospedei. Conforme a informação, com muito cuidado, desci as escadas para chegar ao porão, com medo de ser descoberto e após meia hora localizei o animal num canto do porão, jogado no chão frio, amarrado com uma corrente, sua respiração era fraca, estava desnutrido e sem uma parte da sua cauda.

Revoltado, saí imediatamente do hotel, pagando a conta e alegando uma viagem de urgência. Imediatamente ao chegar ao meu atelier contatei o IBAMA, a Polícia Florestal e até a Organização Protetora dos Animais, e aguardei horas, para ser mais exato, oito horas, mas não houve manifestação de nenhuma destas entidades. A minha luta para salvar o filhote de leão continuou por horas a fio. Contatei oito organizações de Meio Ambiente e também não recebi qualquer apoio. Os meus apelos chegaram até o gabinete do Presidente da República mas, como todas as outras tentativas, não recebi nenhum retorno. O que fazer? A quem recorrer? talvez ao partido verde? Negativo, não recebi apoio!

Estava completando 38 horas de luta para salvar o pobre animal quando uma fonte de dentro do hotel me informou que o filhote de leão não resistiu e morreu. Isto soou para mim como um fracasso na minha luta para salvar um animal.

Que mal teria feito tal animal para ter esse fim?

Onde está a sensibilidade humana?

Será que para estes há algo de maior importância que a vida?

Será que este país, tão bonito e rico em fauna e flora, não tem órgão competente para resolver um caso como este?

Agora, eu entendo porque o governo deixa uma boa parte do povo da região norte e nordeste passando fome.

O termômetro para se medir o cuidado que o governo tem para com seu povo está no modo como trata sua fauna e flora. Assim sendo, se não cuidam de suas crianças carentes, jogadas na rua, que dirá dos cuidados com um filhote de leão? A imprensa não se interessa por este tipo de assunto? Ou a prioridade é para sensacionalismo, política e novelas? Se um criminoso, como nesse caso, fica impune isso é com a justiça. No entanto, cuidar dos nossos animais, preservando a flora e fauna, isso é tarefa também para cada um dos nossos cidadãos.

Temos o caso do Japão e da Noruega. Eles massacram baleias, golfinhos e filhotes de focas, usando métodos cruéis e arcaicos alegando questões de estudos científicos. Ora bolas, esses países são do primeiro mundo e portanto não precisam destes métodos para se alimentarem. Isto é apenas uma desculpa para que assassinos predadores continuem a solta, livremente com suas atividades insanas e inescrupulosas.

A rotina diária continua. Agora, são 3:40 h. Já terminei de fazer a higiene da Aninha, seu toalete e utensílios de alimentação. Recebo o café da manhã enviado pelo Michel, e compartilho o iogurte, creme de abacate, suco, ovos e frutas com a Aninha que se recolhe novamente até as 11:00 h. Às 4:36 h, está tudo OK. Está mesmo? É importante me certificar disso, pois preciso sair à rua e antes de sair observo com cuidado o trajeto que irei fazer. Preciso buscar o jornal. Geralmente as bancas abrem cedo.

Há na esquina uma viatura policial, vários motoristas de táxi, então sinto-me um pouco mais seguro e desço até a banca mais próxima. Ela ainda está fechada, então preciso andar um pouco mais, mas tudo bem, andar faz bem a saúde. Então encontro alguns amigos e conhecidos. Pago o jornal, folheio as manchetes e ao longe ouço Cavalheiros Ingleses. É uma marcha militar executada até os dias de hoje pelos ingleses em batalhas, desfiles ou troca de guarda.

De onde vem? Em meio a dezenas de prédios da avenida, alguns já com suas luzes acesas, fico tentando localizar a procedência daquela música-marcha. É linda, bela letra e dura aproximadamente 4 a 5 minutos.

Em seguida, só ouço barulho de carros que já começam a rodas em alta velocidade. Retorno à empresa, mas antes paro para tomar um cafezinho no bar do Wilson. Ao sair do bar e andando pelo quarteirão, onde fica a minha firma, ouço um canto de galo — canto de galo? Nessa selva de pedras? Onde está ele? O galo continua cantando quase intermitentemente. Aqui onde eu estou só há prédios enormes, de escritórios, hotéis e alguns de moradia. Mas penso comigo mesmo, deve ser um hotel restaurante que abate aves para consumo, mas galos? Lá vou eu pesquisar onde posso encontrar o habitat desse galo. Procuro em hotéis, um após outro, mas nada. Volto à minha firma.

Na madrugada seguinte acordei com o canto do galo mais próximo de mim. Pensei que estivesse imaginando coisas, mas não, o canto continuava. Então decidi que precisava achar esse galo ainda hoje, enquanto ele está cantando. Percebi que se eu estivesse no alto do meu prédio poderia vê-lo com facilidade.

O prédio onde estou, tem três andares e é de arquitetura antiga. Não tem elevadores, mas preciso subir. Subo todas as escadas e no final estou sem fôlego; ainda mais, preciso subir outra escada de ferro par alcançar um alçapão fechado com um ferrolho enferrujado com seu tampão antigo. Pensei, se eu subir por ele chego ao telhado e de lá posso ouvir o canto e localizar o galo. E assim se deu. Abri o alçapão e olhei ao redor. Silêncio total. Metade do meu corpo está pra fora do prédio e a outra metade dentro. Preciso tomar cuidado parta toda esses estrutura não ruir. De repente, ouço canto do galo e desta vez mais audível. Ele canta com se estive ouvindo um eco ou resposta de um outro canto de galo. Mas em vão, ele está sozinho.

Percebo que o som vem da minha esquerda e se eu andar uns dez metros por sobre o telhado — e se ele não afundar — com certeza vou achá-lo. E lá vou eu me equilibrando e me segurando onde fosse possível até chegar na caixa d’água. Nos fundos do meu prédio há um outro em forma de L invertido e no meio do L uma grande árvore, uma seringueira, de aproximadamente 50 anos ou mais.

Olho pra baixo, há também uma moradia e... cocoricó, cocoricó... Eureca, achei o danado! Lá estava o galo, num espaço máximo de 6 metros quadrados. É o seu reduto sagrado. Um reduto espremido pela falta de espaço e com falta de harém. No entanto, um galo sabe demarcar o seu território e ser imperador mesmo que sobre uma só galinha. Estava em cima dum caixote de maçãs e se esticava todo para soltar o seu canto, batendo as asas.

— Viva, glória a tua existência, — grito eu de cima do telhado, me segurando na caixa d’água. Ele olha pra mim como se perguntando quem és? E não volta a cantar. Penso que estraguei o seu barato. Desço do prédio e contorno a rua a procura do responsável pelo galo.

Estou na frente da enorme porta do prédio vizinho, toco a campainha e o zelador veio atender-me.

— Dionízio?

Fico surpreso ao reconhecer o zelador.

— Olá Doc, tudo bem?

— Tudo bem Dionízio, venho trazer um pouco de milho para o seu galo.

— Ah! Como o senhor conhece ele?

— Acabei de conhecê-lo há alguns minutos atrás. É um galo muito bonito. O zelador meio tímido, perguntou-me:

— Ele perturbou o senhor?

— Oh, não, de maneira alguma. Acho fantástico como ele sobrevive nessa selva de pedras.

— O senhor tem razão, não é fácil mantê-lo vivo, ainda bem que o síndico do prédio permitiu que eu e minha esposa cuidássemos do galo e da única galinha que veio da Bahia, há uns dez anos atrás, numa sofrida viagem por causa do transporte e falta d’água quase morreram, e a barreira policial tentou impedir a viagem até São Paulo mas, graças a um sargento que sensibilizou-se, liberou a passagem, — explicou ele.

— Hoje são para nós os nossos bichinhos de estimação e ficarão conosco até morrer.

Fiquei satisfeito por saber que embora não estivessem no seu habitat natural, estavam sendo bem cuidados e tratados.

Volto aos meus afazeres me lembrando que há trinta anos atrás, quando vim morar neste bairro, todos os dias às 5:00 h, lá no alto de um prédio de aproximadamente 30 andares — um banco, havia um bem-te-vi e um sabiá que anunciavam o seu império cantando por uns 30 ou 40 minutos. Isso se repetia também no final da tarde, mas por incrível que pareça, não brigavam entre si.

Trinta anos se passavam e lá estão no mesmo prédio, no mesmo lugar, um bem-te-vi e um sabiá cantando do mesmo jeito. Será que são os mesmos? Devem ser seus filhos, netos ou bisnetos. Como sobreviveram?


 

ENTRE HISTÓRIAS DE GUERRA
E
HISTÓRIAS DE AMOR

 

Quem seriam meus pais.

Um médico militar da linha alemã, lutava na África (Tubruk? ...não sei precisar exatamente), durante a Segunda Guerra Mundial. Ele se perde no deserto, durante uma tempestade de areia. Um coronel inglês captura esse médico alemão e o deixa sob sua custódia. O coronel sofre acidentalmente uma queda e fica ferido vindo a ser imediatamente atendido pelo médico alemão, ministrando-lhe tratamento até a chegada da filha do coronel, que também era médica, na época com 19 anos. Quando a filha do coronel chega é apresentada ao médico alemão e acontece o inevitável — ficam apaixonados. O resto da história é uma fuga com um avião chamado de Fortaleza Voadora, onde morrem deixando como sobrevivente apenas o filho pequeno.

Isto prova que por mais perversa que seja a guerra, o amor supera todas as circunstâncias desastrosas e está latente no ser humano, não importa as circunstâncias.

Falando de guerra, a Segunda Guerra Mundial nos trás fatos muito surpreendentes. As histórias de guerra estão cheias de dramas e até comédias. Numa certa noite estava eu chegando ao Peru, os restaurantes já estavam fechados mas achei um bar em que eu podia comer algo, para enganar o estômago. Eram aproximadamente 23:00 h. Eu beliscava uns camarões até sair a janta dentro de um ambiente com 6 ou 7 pessoas. Uma dessas pessoas me avistou e puxou assunto comigo:

— Eu sou John, John Whit, — apresentou-se.

— E eu... — ia me apresentando quando ele interrompeu... — Já sei, li muito a seu respeito, sou seu fã.

Ele estava um pouco alterado, bêbado.

— Dr., eu não gosto de bar ou sair após as 23:00 h, mas hoje é um caso especial, — continuou John, — estou triste e precisei sair para beber. O caso é o seguinte, a minha mulher foi embora e me deixou só. Nós estávamos juntos desde o Dia D (invasão da Normandia em 1944).

Isso me interessou.

— Viu quantos anos Dr., — continuou John.

— É, eu entendo, — retruquei.

— Quando da invasão dos aliados nós já estávamos na Europa. Eu era o capelão, complementa John, e a Emma era freira. Nós nos apaixonamos e tivemos um caso de amor, amor pra valer! Mas não havia condições de excluir nossos hábitos e nem tampouco nossos votos, mas o fato é que Emma ficou grávida e imagine, um padre engravidar uma freira?

— Como sair daquela situação? — continuou John.

— Fugir seria a melhor solução, — explicou.

— Nós tínhamos dinheiro, mas nossos nomes, hábitos e etc, causavam-nos empecilhos, então me veio a idéia: vamos trocar de identidade. Mas de que forma? — continuava John a me contar sua história.

— Ora, numa guerra o que não falta são cadáveres, então troquei nossas placas metálicas pelos documentos, roupas e subornei um piloto comercial português e este nos trouxe até o Peru. Vivemos muito felizes, criamos.

— Com licença, — interrompeu o garçom, com o meu jantar.

Com a fome que eu estava devorei tudo em dois tempos. Mas a conversa continuava...

— E aí John, — indaguei.

— Pois é Dr., Emma foi embora e me abandonou. Eu estou arrasado, muito infeliz. Eu ainda a amo, a amei desde que a vi, mesmo naquele habito de freira.

— Olha John, eu preciso ir, mas quero que você tome um café comigo, visto que não aceitou jantar, aceita?

— Aceito.

— E veja só meu amigo John, se a Emma te amou durante todo esse tempo, eu acho que logo logo ela estará de volta, você precisará ter paciência.

Aí ele começou a soluçar ainda mais forte.

— Dr., ela não voltará, ela fugiu com nosso mordomo, imagine só uma ex-freira?

— É John, imagino que também você, um padre, um capelão, fez por assim dizer o mesmo. Quando uma mulher vai embora é porque ela não gosta mais da gente. A melhor coisa que temos de fazer nesse caso, é esquecer superando o episódio com um outro amor! Saia à rua amanhã, e verá que existem centenas de mulheres carentes com muito amor pra dar e pode ter certeza, alguém pode encaixar-se perfeitamente no teu perfil.

— Não fique enchendo a cara por aí, — e continuei. — Vá a lugares públicos onde existe gente descente, lá poderá encontrar alguém do jeito que você procura!

Despedimo-nos. Fui para minha hospedagem e John With para sua vida.

A época da guerra faz muitas pessoas quebrarem barreiras que antes não conseguiam quebrar. Fazerem coisas que antes não conseguiam fazer.

Então, no calor da guerra criam coragem. Alguns que não conseguiam divórcio, por exemplo, fogem, se fazem passar por mortos, desaparecidos, entre outras coisas e até mudam de identidade.

Militares que são excelentes militares, mas na vida privada são um verdadeiro fracasso.


 

HANN A ENFERMEIRA

 

Faltavam uns três meses para terminar o curso de medicina, a reitoria aceitou meu pedido de licença por sessenta dias, visto que eu estava adiantado com as matérias, eles mesmos recomendaram que eu descansasse alguns dias e o restante desse palestras para um Hospital-Escola sobre ética médica e enfermagem. Poderia me recuperar do Stress que me abatera. Na opinião da secretária eu era de longe o melhor e o mais novo monitor daquela universidade européia; era a pessoa ideal para ir à Jerivan.

O meu nome havia sido citado várias vezes pela diretoria desse Hospital-Escola à Cruz Vermelha, por eu ter escrito vários livros e embora sendo jovem tinha feeling suficiente para a explanação de assunto em questão.

De fato o emissário da Cruz Vermelha me mostrou que a universidade insistiu por vários abaixo-assinados pelo meu nome. Então, respondi: — Irei à Jerivan.

Ademais, iria me render uns dólares e seria muito bom.

Chegando em Jerivan me apresento ao Dr. Sharkis, o reitor.

Formalmente simpático aparentando ter mais ou menos 48 anos de idade e de estatura média.

Ele estava feliz por seu pedido ter sido aceito pela Cruz Vermelha que me enviou à sua escola, para fazer as palestras. Por isso imediatamente forma uma assembléia para comunicar a minha presença e o período das minhas palestras.

O Dr. Sharkis me leva ao hotel onde eu deveria ficar hospedado que é enorme e cujos móveis e adereços estão cuidadosamente limpos e arrumados, exceto por alguns detalhes que para mim seriam imprescindíveis: o barulho e a distância. Sendo assim, então aceitei ficar ali.

Ela me convida a sentar enquanto vai buscar um chá tipicamente indiano em bule e xícara de porcelanas que eu adorei.

Conversamos rapidamente sobre vários aspectos de nossas vidas e estabelecemos o valor da hospedagem: cinqüenta dias custaria US$ 76,00 e incluía café da manhã, refeições completas a noite, incluindo sobremesa e até licor. Também teria a liberdade de sair e retornar a hora que desejasse, desde que respeitasse os limites do espaço e silêncio no ambiente.

Hann era uma senhora lituana, loira, de lindos olhos azuis, tristes pelo sofrimento da guerra, pois, perdera toda sua família.

A Cruz Vermelha tinha contratado-a para esse lugar e depois o Hospital-Escola a efetivou tornando possível que ela se estabelecesse comprando essa residência que ela a transformou em pensão. Agradecia muito a Deus por ter conseguido estar bem de vida, levando em conta que perdera tudo na guerra.

A Sra. Hann me mostra um quarto pequeno mas aconchegante. Havia uma pequena pia no canto, uma ampla janela para o jardim e do outro lado um guarda-roupa e uma cama. Havia também uma pequena estante, uma TV e até livros.

— Gostei, fico com este quarto!

A Sra. Hann me leva até um pequeno escritório, faz minha ficha e eu lhe pago a vista.

Passo rapidamente os olhos nas fotos antigas que ela tem sobre a estante e a reconheço, mesmo em uniformes militares, mais jovem, com seus pais e com um militar major. Outras fotos com um garoto e uma especial que ela mostra-me onde aparece um outro militar, ela diz:

— Este é o Alexieis, meu primeiro marido e este garoto é o meu filho de 17 anos, e o nome dele é Yuri.

— Este outro militar, — continua ela, — é o Demétrius, meu atual marido. Ele também é médico-militar; está na reserva, mas ainda trabalha como médico, ele deve voltar em torno das 20:00 h.

Um miado dengoso me chama atenção e ao olhar do meu lado, já tenho em meu colo um gato, um persa branco de belos olhos cinza.

— Este é King, — comenta Hann. — Ele é muito, temperamental...

— Como temperamento de mulher, não é? — comentei.

O gato pula do meu colo, fica olhando a distância e vai embora.

— Sr. Albert, será chamado logo mais à noite para o jantar, fique a vontade!

Fico no meu quarto, arrumo minhas coisas e após o banho começo a preparar a matéria para a palestra do dia seguinte. Fico imaginando a reação que terão os alunos sobre o assunto e me pergunto: será que irão gostar? Bem, vou fazer o melhor e se não gostarem pelo menos terei cumprido a minha designação. Se eles me chamaram é porque acreditam no meu trabalho. Ler sobre minha vida é uma coisa e ouvir as minhas palestras é outra bem diferente.

O cansaço me faz desistir de ler e vou me descontrair vendo TV.

Veja noticiário, mas numa língua que eu não entendo, então desligo a TV e ligo o rádio, mas... sou chamado para o jantar.

Na sala havia 3 pessoas, a Sra. Hann, um garoto e um senhor idoso.

Fico sabendo então, que o garoto é o filho de Hann e o senhor o seu marido. Observando que a mesa é relativamente pequena pergunto:

— E os outros pensionistas? Virão depois?

— Ah não, — responde Hann, — a sala dos pensionistas é outra. O Senhor é nosso convidado especial e queremos que fique aqui conosco.

— Muito agradecido, Sra. Hann, eu realmente estou feliz por tamanha acolhida e ser tratado com tanta gentileza. Além disso o jantar não poderia estar melhor!

Assim, minha rotina como palestrante do Hospital-Escola continua indo muito bem e diariamente conduzia turnos de palestras aos funcionários do hospital, ou antes de começarem o turno ou logo após o horário de serviço, para aqueles que não assistiam antes.

Meu horário de palestra se estendia das 8:00 às 19:00 h, mas não me sentia cansado, pelo contrário, me sentia revigorado por fazer aquilo que eu mais gostava.

Certo dia, retornando da minha rotina de trabalho encontro a Sra. Hann chorando e isto me deixou preocupado. Hesitei para perguntar sobre o que estava acontecendo, mas me dirigi a Hann e perguntei:

— Está tudo bem?

— Mais ou menos, — respondeu ela.

— Posso ajudar em alguma coisa?

— Infelizmente não Albert, é que esta noite sonhei com o Alexieis retornando pra mim; eu jamais esquecerei o Alexieis. Ainda o amo muito.

— Entendo Hann, mas seja razoável, sua vida agora é outra. Você precisa esquecer. Se passaram quase dezoito anos, na guerra ele foi dado como morto, desaparecido; o serviço de inteligência da Cruz Vermelha informou. Você tem que aceitar. Se o Alexieis estivesse vivo estaria com você, não é? Sendo assim, você tem que aceitar!

Meu sexto sentido me dizia que algo iria acontecer, portanto me retiro, vou ao meu quarto. Algo me dizia que o dia seguinte haveria algo diferente.

Pensando nisso, achei melhor telefonar ao hospital e avisar que trabalharia apenas meio período, argumentando com a reitoria que estava um pouco cansado e eles aceitaram.

Durante o jantar, observo que a Sra. Hann estava atenta ao menor ruído ao redor da pensão ou da porta mas, vou dormir.

Acordo cedo para a rotina do dia, tomo café da manhã e trabalho até às 14:00 h.

Volto rapidamente para a pensão, atravessando a rua quase que correndo e ao chegar lá vejo alguém, um homem, sentado na calçada, as mãos cobrindo o rosto e soluçando muito.

Ofereço-me para ajudar. Aí ele tira as mãos do rosto e eu tomo a iniciativa de apresentar-me.

— Eu sou Albert, estudante de medicina e cadete militar, estou aqui para... bem, quero saber de você.

— Meu nome é Alexieis... e veja como estou, não muito bem, não é?

Aí, penso eu: agora o que farei? Tenho um problema e tanto nas mãos, preciso agir rápido tirando-o daqui.

— Quer ir para algum lugar onde a gente pode tomar um café, trocar idéias e quem sabe eu poderei ajudá-lo?

Ele prontamente aceitou, estendeu a mão e se levantou. Eu não imaginava que fosse tão alto, se eu tenho 1,83 ele era mais alto que eu.

Andamos a procura de um bom ambiente para conversarmos e encontramos um bar-café onde nos sentamos.

Conta a sua relação com a Sra. Hann e como tornou-se oficialmente morto pelas autoridades. Como aviador, numa missão na África, na Segunda Guerra Mundial, uma pane no aparelho obrigou-o a fazer um pouso forçado colidindo com o solo. Esta colisão causou-lhe várias fraturas, especialmente no crânio, deixando-o por muito tempo em coma.

Foi o período mais difícil de sua vida, visto que ficaria sem família, com amnésia cerebral e numa terra estranha. Por mais que se esforçasse a Cruz Vermelha não conseguiu contato, por isso, considerou-o morto.

Mas, uma missão especial da Cruz Vermelha, após dezoito anos localiza-o numa pequena cidade da África. Após um tratamento recuperou a memória e retornou ao Ministério do Exercito onde foi promovido a coronel, recebendo os honorários de todos os anos.

Então, para quem estava na pior, pelo menos materialmente, agora estava bem e só faltava a parte emocional para completá-lo. Era necessário ir atrás do seu grande amor, a mulher da sua vida!

Por isso resolveu vir à procura de Hann.

Por muito tempo tentou achá-la, obtendo informações daqui e dali, até que bateu na porta da casa de uma vizinha da pensão de Hann. Esta vizinha falou mais do que devia, revelando como era a nova vida de Hann e como vivia. De uma certa forma isto foi bom, pois ele ficou sabendo que a Hann casara de novo e tinha nova família.

Do caminho da casa da vizinha até a pensão, Alexieis começou a raciocinar e antes de bater na porta da pensão caiu em prantos, e foi nesse momento que eu cheguei.

Agora, fico imaginando o que faz com que eu tenha este sexto sentido e programar um horário para estar na pensão exatamente onde estaria o Alexieis?

O que fez a senhora Hann pressentir alguma coisa o tempo todo, na noite anterior? E isto após dezoito anos?

A nossa conversa no bar convenceu o Alexieis a ver a realidade de sua vida e usando de bastante tato para não magoá-lo ainda mais, argumentei da seguinte forma:

— Alexieis, sei que não é nada fácil, entendo perfeitamente o seu sentimento, mas, veja pelo lado prático das coisas. Tanto você como eu sabemos que a guerra tem seu lado cruel! Quantas vezes alguém se dirigiu a você para dizer chorando que havia perdido um ente querido, pai, mãe ou outro parente na guerra, o que você respondia?

— Infelizmente não há nada que se possa fazer, — respondeu ele. Então, acrescentei:

— É justamente assim que você deve encarar essa nova faceta da tua vida. Nada, ninguém, nem mesmo você pode fazer coisa alguma, pois, veja bem, se amou a Hann, deixe-a viver a vida dela. Você foi importante para ela, mas tudo indicava que você estava morto; ela esperou por anos para confirmar o seu desaparecimento e como a Cruz Vermelha e outras autoridades asseguraram o seu desaparecimento, não havia mais nada a ser feito. Ela tinha de continuar a sua vida. Houve a oportunidade de um novo emprego, apareceu um homem que cuida bem dela e teve filho com ele, então, como é a ordem natural das coisas, a vida continua. Pode ter a certeza de que ela nunca esqueceu. É feliz com a vida atual. Imagina você aparecendo nessa nova vida dela, o que pode acontecer? Nem você e nem ela serão felizes! Se você ainda ama Hann, a melhor coisa a fazer é deixa-la viver a vida dela. Você conseguirá, com certeza refazer a sua vida com uma outra pessoa. Coloque uma pedra nesse assunto, assim como ela colocou e serás muito mais feliz. A vida é realmente um jogo. Feliz daquele que consegue colocar as cartas certas nesse jogo e se for perdedor, saber perder, embaralhar novamente as cartas e tentar a sorte outra vez. Há sempre uma chance de ser feliz, basta tentar de outra forma e a sua chance é agora. Jogue de maneira certa, seja feliz!

Alexieis olhava atentamente pra mim enquanto eu falava e percebi que entendeu perfeitamente a minha mensagem. Estendeu-me a mão, deu-me um grande abraço e... lá vai Alexieis com passos firmes para um bom futuro.

Volto à pensão e ao colocar a chave na fechadura, a porta se abre e... era a Sra. Hann com ar ansioso, perguntando:

— O Senhor estava conversando com alguém aqui?

— Não, acabei de chegar.

— Olha, o senhor me desculpe por ontem, mas raciocinei sobre o que me disse e acho que tem razão, de hoje em diante não vou mais pensar no Alexieis, já o tirei da minha vida.

O sentido da minha vida sempre foi o de sobrevivência. A fauna e flora sempre me deram ânimo para acreditar na vida e sinto que estes correspondem aos meus anseios.

A vida sempre foi um desafio. Nasci num ambiente hostil da Segunda Guerra Mundial. Como todos sabem, até hoje não houve devassa maior.

Fui cursar dessa crueldade animalesca do homem. No entanto tive forças para cursar 3 carreiras universitárias; medicina, arqueologia e engenharia, cursos esses que não ultrapassaram quatro anos. Hoje esses mesmos cursos duram muito mais. Garotos perdem a sua juventude nos estudos. Na minha juventude tive ainda que trabalhar para custear meus extras e projetos de vida, afinal, precisava me alimentar, vestir e outras necessidades básicas.

Fiz todo tipo de trabalho: colheita de frutas, legumes, transportava cavalos e camelos de uma cidade para outra, cuidei de idosos, doentes, cuidei de animais, etc.

As necessidades da vida impeliram-me a fazer isso. Não tive juventude, pois o trabalho e estudos me tomavam todo o tempo, afinal eu não tinha ninguém por mim. Era eu para eu mesmo.

Estas dificuldades da vida jamais me jogaram para dentro das drogas ou da desonestidade, mesmo que os caminhos para isso estivessem abertos.

A vida nos dá muitas chances para sermos felizes, dependerá de cada um de nós aproveitá-las.

O homem é o que tem!

O respeito e dignidade do ser humano estão no seu trabalho e no que ele possui, pois as pessoas nos julgam por aquilo que possuímos.

Se temos uma posição financeira razoável, somos tratados por Doutor, no mínimo. Somos bajulados por banqueiros, em restaurantes, convidados a festas, eventos e etc.

Se nada temos, as pessoas não se interessam pela nossa existência e até nos negligenciam. Dificilmente somos convidados para algum evento e nos olham com suspeita numa fila de banco, por exemplo. Ou quando muito somos tratados por você.

Acredito que eu sou sujeito de muita sorte e habilidades e talvez isso tenha me ajudado a sempre superar as crises que assolam o mundo.

Já tive muitos bens e perdi tudo, cheguei até a ser considerado rico, muito bem de vida e por erros que cometi, voltei a ser pobre.

Quando se é jovem, temos ânimo para fazer muitas coisas, mas após os 50 anos é muito difícil conseguir ter a chance de ganhar dinheiro. Mas, a pior pobreza que existe è aquela em que, mesmo tendo muito dinheiro não conseguimos comprar alimentos ou água, porque estes são escassos; como no deserto por exemplo. Em época de guerra eu possuía mochilas de dólares, mas nenhum prato de comida ou mesmo um copo d’água para beber.

Quando encontrei alguém que podia me oferecer um prato de comida tinha de pagar de US$ 100,00 a US$ 500,00. Em outros lugares o dinheiro não tinha valor, ou era mesmo desconhecido.

O frio da noite no deserto era algo desesperador. Cheguei a fazer fogueira com boa parte do dinheiro que possuía, pois na mochila eu tinha de US$ 10.000,00 a US$ 30.000,00, que naquela ocasião nada valiam, nada significavam.

Cada um de nós faz o seu destino, conforme sua habilidade e inteligência.

Se até os 35 anos não é e nada tem, mau sinal. Se chegou aos 45 anos e perdeu tudo e nada mais consegue, não consegue se equilibrar, não sobrevive psiquicamente e se descontrola, acaba ficando jogado na rua — a sociedade não é culpada. Porém o governo, que deveria dar-lhe uma chance não o faz; não quer saber do assunto. O governo não o leva para um asilo de velhos, para uma instituição de recuperação ou albergue, até que este seja útil novamente. Para o governo, este ser é puramente um LIXO. Tanto faz que este ser humano um dia contribuiu com seus impostos. No seu estado de calamidade nada mais representa para o Estado ou prefeitura, dane-se! Como outros seres humanos, este acaba ficando na sarjeta, são apenas excremento humano.

Trabalhei em uma infinidade de lugares, com a Cruz Vermelha Internacional, Cruz de Resgate Internacional, ONU, OTAN, ONGs (estas terceirizadas, que aparentemente não existem, mas são formais), TA (instituições religiosas fortes, algumas nem conhecidas) e Medicina sem fronteiras. Entre tudo e todos sempre fui contratado, ora por serviço, ora temporário, ora por tempo indeterminado. contratado, mas sem seguro.

Todas elas com serviços de alto risco — com risco de vida. Formas de pagamento: algumas 30 % adiantado; se o contratado é pessoa já competente que executou serviço anterior e é de suma confiança 45 ou 50 % adiantado; o restante no fim do serviço, se este fosse 100 % executado, do contrário... vai para o grande conselho ou congresso. Não é o contratado que vai até a Sede ou Matriz, são eles que fazem o contato; contrato mais US$ 2.000,00 para suborno ou obter informações ultra-secretas.

Pagamento final, nem sempre final, após o serviço, sempre é enrolado para receber; este se torna um verdadeiro inferno e por demais demorado para receber, até cinco ou oito meses de espera. Após ter recebido o dinheiro já pouco valia. Há centos de lugares para acertar contas e dívidas a serem pagas. Um novo contrato... às vezes há infinidades deles e às vezes infinidade deles não se realizam.

E a nossa sobrevivência? É a mesma coisa ser contratado por um hospital ou instituição de saúde do governo, que nem sempre estão em dia com o profissional ou os profissionais, além de pagarem pouco é claro. É o que acaba com a subsistência de um profissional.

Este tipo de problema, comum em qualquer parte do mundo, principalmente em países pequenos, onde ocorre mais antes ou após as eleições, pois as verbas para saúde são colocadas para fins políticos.

Nestas organizações a gente é contrato como:

Médico: ora como médico militar, ora pela Saúde Internacional ou Planejamento Internacional, etc.

Emissário de resgate: de feridos (presos políticos), intercâmbio de prisioneiros e de reféns.

Ajuda internacional para saúde, alimentação, financeiro, outros,

Agente supervisor: prisão de políticos, prisões comuns, prisões militares e desaparecimento de pessoas, etc.

Arqueologia: várias.

Meio-ambiente: em geral.

Engenharia: em geral.

Agente para assuntos: desvio de verbas ou descobrir onde foi desviado material didático; suprimentos em geral e matérias.

Todos os contratos e/ou serviços são de elevado risco de vida e de saúde.

Não há Seguro. Ganha-se bem nos contratos, mas sempre temos que, em caso de morte, deixar um documento com o nome de uma pessoa para receber o restante do pagamento e... boa sorte. Se fizer bom trabalho nós o reconheceremos e sua ficha estará sempre em primeiro plano. Se sua tarefa salvar vidas, nosso governo o condecorará.

Em todas as missões, sempre estará totalmente sozinho, nunca espere ajuda, nos piores momentos sempre espere o mais grave. Em alguns lugares, dependendo do caso ou gravidade, terá ajuda; dependendo do lugar terá que se valer por si só. Dependendo da missão ou assunto, talvez terá um contato ou ajuda de uma ou duas pessoas.

Sempre tem que ser um artista, inteligente e habilidoso. Os US$ 2.000,00 a mais do combinado, é para suborno, para salvar sua vida ou obter informações super valiosas, mas nunca para se divertir ou esbanjar.

Assim, tive um nascimento em plena Segunda Guerra Mundial e dentro de uma Fortaleza Voadora, avião inglês, bombardeiro-artilheiro. Estudei-trabalhei arduamente e me alistei como médico militar, oficial durante sete meses, até obter licença por ferimentos graves.

Para quem levou vários ferimentos de guerra e mutilações os recursos humanos e departamento médico não o liberam para tais tarefas. Aí os órgãos citados nos contratam para amenizar a nossa subsistência, só que pode se tornar pior, ou o trabalho mais difícil.

Assim, começa o grande martírio para se arrumar emprego, muito difícil. Quando conseguimos, é por meios de padrinhos ou por que fizemos algo de extraordinário e assim chamamos a atenção de alguém. Mas se a gente fez algo fora de série e o nome aparece nos jornais... nossa! Aí sim chovem ofertas, principalmente das organizações citadas anteriormente. O ser humano tem que mostrar que sabe fazer algo, aí ele é alguém; se ele nada sabe fazer ele nada é.

Depois de me recuperar dos ferimentos do joelho, ganho um pequeno curso de repórter-escritor, não profissional mas amador ou júnior. No meu último dia de curso, ainda sem saber qual seria o meu próximo destino, ao chegar onde residia, em um quarto de apartamento de casal de idosos em pleno centro de Nova York, alguém me espera na sala (living). É um representante da ONU. Ele gostaria que minha pessoa fosse contratada por trinta e cinco dias; um tanto pelo contrato mais despesas de alimentação, estada (não em hotel 5 estrelas, é claro) e despesas extras. Se fosse necessário teria um contato de Carlos — de Carlos, só isso.

O serviço seria na Saúde Pública, escolaridade, bem-estar e etc. Nos trinta e cinco dias eu teria que executar tais tarefas em três países da América Central.

Após o treinamento de seis dias me advertiram: “Tome cuidado você vai receber ameaças de morte, seqüestro e tentativa de suborno, entre outros.”

Para desembarcar nos citados países de América Central, eu teria que começar pelo último, ou seja do sul para o norte. Começando pelo sul seria mais seguro, enquanto que, se começasse pelo norte, a chefia considerava inseguro e eu poderia sofrer até atentados de risco, mas não graves.

Um dia após minha chegada, fui atendido pelos ministros da Saúde e Bem Estar Social. Como toda autoridade das Américas, arrogância, petulância e corrupção. Logo eles foram direto ao assunto e com clareza; o primeiro ministro diz:

— Dr. Karebff, o senhor é judeu?

— Não Sr. ministro, não sou.

— Mas esse sobrenome?

— Parece, mas não é Dr. Kanosky.

— O senhor parece muito jovem e esse sobrenome parece polonês, tchecoslovaco ou russo. Parece que o Dr. é novo demais e sem muita experiência com grandes negócios, transações de grandes volumes de dinheiro. Imagine o senhor elegante bonitão, cheio de saúde e ter acidente fora do seu país?

— Sim, sim, claro Sr. Ministro. Sou jovem, mas já fui oficial-médico, enfrentei algumas batalha e fui emissário. Já tratei com alguns presidentes da Ásia e Oriente. Quanto a acidentes, a agente sempre está alerta.

O Ministro manifesta que há muita pobreza e que precisa de recursos (dinheiro urgente). Eu digo que conforme o meu relatório o conselho da ONU dará o parecer ao FMI e só os dois poderiam resolver e não eu. Porém antes, eu teria que olhar e examinar as periferias e abe.

Assim é combinado que no dia seguinte às 9:00 h, haveria um passeio por estes lugares, antes de fazer meu relatório e assim entregá-lo às minhas autoridades.

Na hora da janta, o restaurante indicado é fino e de primeira qualidade; a salada é cheia de lagartas vivas, não reclamei; o peixe grelhado cheirava a podre, o pão era duro e cheio de mofo, etc. Paguei a conta e me perguntaram se foi do meu agrado a grande janta.

— Ah sim, claro, estava ótima, adorei.

A janta ruim seria uma das ameaças? Um atentado? É possível.

Ao chegar ao hotel, no quarto mais uma surpresa — a cama não estava mais no seu devido lugar e sim perto da janela, o travesseiro estava enforcado com uma das minhas gravatas — sem dúvida era um aviso e temendo algum atentado fui dormir no banheiro, lugar seguro para atentados e ninguém imagina que a vítima estará lá. Cedo de manhã fiz a barba, tomei e banho. Desisti do café da manhã e sai à rua. Andei com cuidado até chegar a uma praça, uma feira-livre de alimentos, peixes e frutas. Uma das bancas vendia peixe tipo milanesa com ovos mexidos e notei que ali os peixes se mexiam, ou pulavam — ova, bom sinal. Solicitei ao peixeiro um peixe à milanesa e com ovos mexidos. Eu deveria ser o seu primeiro cliente, pois ele deu um pulo de alegria e foi dizendo:

— Si Senor, en la horita.

— Quanto custa?

— US$2,00. Ok?

— Ok! Eu lhe darei US$ 8,00 se o senhor me fizer o favor de arrumar uma fruta, um suco de fruta e um bom café com leite, Ok?

Assim comi o que seria minha janta anterior e o café da manhã. Sai de lá satisfeito e retornei ao hotel.

Cinco minutos depois de ter chegado, a comitiva que me levaria aos subúrbios e abe já estava pronta para a minha investigação. Eram três carros (velhos); as pessoas que viriam comigo, claro, seriam assistentes e secretários do ministro da Saúde e Bem Estar Social. No total havia 9 pessoas. O que pensei ser um secretário do Bem Estar Social, era na verdade uma secretária. Logo me apresentaram esta. Uma bela morena de uns 29 anos, estatura mediana de mulher e estonteante fisicamente. Belos seios e lábios cheios; olhos castanhos claros. Não era muito discreta para se vestir (ou capturar homens). Usava saia curtíssima, os seios quase para fora e mocassins de salto médio, que faziam com que suas pernas se destacassem normalmente.

No treinamento já fora avisado: belas e exuberantes mulheres são parte das armadilhas para atrair agentes ou emissários. Por mais carente que esteja, nunca se deixe envolver, não caia nos braços delas. A maiorias das vezes elas nem são o que parece, ora autoridades, ora verdadeiras damas; se o agente cair no charme delas, estas usam todos os tipos de artimanhas para que assine documentos valiosos. O agente pode ser dopado, intoxicado, pode ter até lavagem cerebral. Nunca aceite nada delas, jantares, festas e etc., ainda mais quando estas possuem belos corpos.

Assim, conheci a bela secretária e sua comitiva que o dia inteiro me levaria para conhecer a periferia e parte do abe. Ela se chamava Rita Moreno, ou Dra. Rita Moreno. Primeiro tinha feito sociologia e depois psicologia, conforme as minhas perguntas de algumas matérias e professores, ela se saíra bem. Assimilava bem e era muito inteligente.

O longo caminho até a periferia por precárias estrada e ruas era sinuoso e acidentado. O povo, a maioria favelados, morava em palafitas sem nenhuma infra-estrutura e planejamento para moradia digna de pessoas ou seres humanos.

A Dra. Rita a cada movimento que fazia cruzava as pernas... sua minúscula saia parecia que ia sair pela cabeça, pois esta subia além dos limites mostrando suas lindas coxas e às vezes mostrando seu mapa. As minhas observações eram discretas para com ela e seu corpo. Minha idéia era saber se estava realmente boa como parecia, se era uma mulher usada ou se realmente era uma funcionária do elevado escalão do governo.

Às vezes a gente parava em algum bar-café para fazer um lanche ou simplesmente tomar café. Num dos carros, só ia ela, eu, o que parecia ser um segurança e o motorista. Porém, todos cultos, educados e comportados. A Dra. Rita, não portava luxo como jóias, correntes, anéis e etc., ou sinal de aliança. Isso tornava difícil saber se ela era ou não casada, mas não havia sinal de aliança nos seus dedos.

Seus olhos eram lindos e naturais, fundo amplo-claro, o mesmo que seus dentes e língua. Seus dentes de uma brancura perfeita; sua pele, natural e sem maquiagem. Nas paradas, eu a via andar rápido e agitada e seu corpo não mostrava flacidez. Aparentemente era uma mulher sozinha e não tinha alguém sexualmente freqüente. Sorte de quem conseguir, pois era uma bela fêmea. A cada ponto de parada, ela mostrava a área no mapa e era marcado por um F (vistoriado ou visto). Assim foi até altas horas da noite. O calor e umidade insuportáveis na América Central deixam a gente indisposto e com vontade de ficar seminu, portanto a Dra. Rita não exagerava ao vestir sua pouca roupa.

Assim transcorreu toda aquela sexta-feira, examinando a periferia. O que eu pensei resolver em um dia levaria muito mais. Sábado e domingo, nada feito, eles não trabalham, portanto eu ficaria no hotel fazendo o meu relatório, fazendo com que o fim-de-semana passasse rápido para que logo no começo da semana saísse desse país.

A comitiva me deixou no hotel já bastante tarde. Aquele carro mais parecia uma prisão, a única coisa que aliviava um pouco o desconforto era a imagem da Dra. Rita. Ela foi atenciosa, me levou até a recepção do hotel e agradeceu pelo meu trabalho. Também eu agradeci a ela e na despedida ela segura a minha mão e diz:

— Gostei da sua pessoa, o senhor parecer ser um bom profissional, embora de falar pouco. O Dr. precisa falar mais. Eu sei, eu sei, o senhor fala só o justo e necessário. Mais tarde, após ter descansado um pouco eu entro em contato. Posso ou não telefonar aqui para o hotel?

— Claro, a Dra. pode ficar a vontade.

Aí ela olha para trás, como se evitasse que alguém a ouvisse e disse:

— Por favor, não me chama de Dra. e sim somente de Rita, isso ao menos quando estivermos a sós, OK?

Fiz barba, tomei banho e deitei um pouco. Após 30 minutos de descanso sai para jantar. Geralmente os habitantes da América Central são divertidos e alegres, o mesmo pode-se dizer de sua música. Era o que eu não estava vendo naquela noite quente de verão. Ameaçava chover e as chuvas são torrenciais. Mas isto não tira a alegria do povo. Eu notava silêncio e quietude nas ruas. Ou era impressão minha? Será que para o povo ter uma vida mais amena, dependia de mim? do meu relatório? Será que o povo sabia que eu estava ali e eles estavam dependendo de mim? Acho que não. Tudo era imaginação ou impressão minha.

Já no restaurante, escolhi a mesa e examinei o cardápio. Até o garçom parecia diferente dos dias anteriores; ele estava mais atencioso e gentil e o prato escolhido, também bem melhor que o anterior. Sim, alguma coisa estava diferente.

Retornando ao hotel, fiz meu relatório. Os meus relatórios eram autênticos, eu não tinha condições de ajudar a população. Eu não poderia ser um Ser Milagroso. Apenas teria que fazer aquilo que minha missão tinha me mandado fazer. Olhar, examinar, analisar e concluir. O restante dependia dos conselhos da ONU, Saúde Mundial ou FMI. Eu era um mero funcionário e não quem toma serias decisões. Sou neutro e um correto observador da realidade destes povos. Assinei os relatórios e fui dormir, embora sempre com dificuldade de pregar os olhos, desta vez durmo assim me deito.

Acordei as 3:00 h. Chovia torrencialmente e se abrisse a janela, ouviria melhor a chuva e sentiria o ar puro e aqueles pingos d’água bater e se desintegrar no meu rosto. Sei que é arriscado aparecer em frente à janela, mesmo assim a abro e deixo a chuva bater no meu torso e rosto.

 

Chuva que cai e refresca as plantas, flores e a terra.
Chuva que cai e me molha, molha meu corpo.
Chuva que cai e me lava.
Chuva que cai e lava minha alma e meus pecados.
Chuva que cai e me alivia e lava minhas feridas.
Chuva que cai e alivia minhas dores.

Fecho a janela; a chuva castiga impiedosamente o vidro, deito novamente e retorno dormir.

Acordo cedo e não sei se tive uma boa noite. Como sempre dormi pouco, isto faz com que eu sempre esteja de mau-humor. Fico de mau-humor até duas horas depois de ter acordado. Assim que acordo meu corpo está frio e dolorido; as infinidades de fraturas e cicatrizes do meu corpo são também motivos para que eu não durma em paz, portanto acordo com dores e mais dores... e de mau humor. Para ninguém notar isto, eu disfarço bem ou finjo que esta tudo bem. Para me aliviar acordo e faço exercício durante uns 10 ou 20 minutos, o que alivia 80 % e as dores são amena. Tomo uma ducha e fico 96 %, quase bom, pronto para mais uma batalha.

Minha primeira mulher Sanny, era Dinamarquesa, de pai Libanês, um ano mais nova que eu. Ela também era médica militar. A gente se dava bem, tínhamos quase os mesmos gostos e praticávamos os mesmos esportes. Como toda mulher, geniosa porém muito companheira. Ela encarava qualquer situação por mais difícil que esta fosse e sempre estava junto. Muito psicóloga e observadora. Conforme ela, quando eu sentia dores dormindo eu gemia e me virava constantemente na cama. Ela então de imediato, com talco, mãos suaves e carinho, massageava as minhas áreas doloridas. Se a dor fosse aguda ela recorria a compressas; estas então se dissipavam e eu retornava dormir. Sanny, se eu tivesse que excursionar pelo deserto, montanha ou selva lá estava ela, junto. Parecia que, como mulher, ela sempre queria estar ao lado como companheira, por que eu estava precisando dessa sua grande companhia e ou... como mulher protetora. Se a gente estivesse com grupos de pessoa, assim que eu ficasse um pouco afastado, ela logo estava me olhando, como se perguntasse “Está tudo bem?”.

Ela... era diferente. Nunca entendi seu perfil diferente do meu. Eu, não era muito social ou comunicativo, porém oportunista conforme as circunstâncias. Às vezes possuía senso de humor, com piadas ou algo engraçado, raras vezes sorria, isto causava surpresa; me ver sorrindo era coisa estranha, as mulheres diziam que meu rosto sorrindo era outro, mais chamativo e lindo...

Nunca existia o não ter nada para fazer, sempre estava ocupado ou tentava estar ocupado. Não dava chance do meu corpo esfriar. Sanny, como já citei, era diferente: sociável, comunicativa e sorria a todo instante, de capacidade extraordinária para administrar o lar e sua profissão, ora como médica, ora como militar-médica.

Nas minhas falhas ela tinha tato e qualidade para me corrigir, para me observar ou dar aquelas broncas com classe. Era uma excelente amazona, mesmo que o cavalo fosse bravo ou brioso (agitado); ela conseguia dominá-lo com maestria; era segura. Até, que numa das suas missões, após seis dias, algo veio a minha mente, que tinha acontecido alguma coisa com ela. Uma hora após esse meu pensamento, um oficial bate à porta da nossa residência na vila militar comunicando-me:

— Sr., o Comando lamenta lhe comunicar mas é a pura realidade, ela perdeu a vida em missão de trabalho!

Assim, naquele dia, recebi o mais duro golpe emocional da minha vida.

Sanny, viria a ser para mim um dos mais grandiosos seres humanos e a mulher que eu mais amaria; uma pessoa de caráter e ética. Nunca entenderei como ela chegara a me amar e se preocupava por mim vinte e quatro horas. Ela me defendia e tomava conta da mim como uma leoa defende seus filhotes com garras e dentes.

Às 7:00 h, no mesmo hotel, tomo o café da manhã. O garçom, gentilmente me serve e trás o jornal da manhã para eu ler. Sempre li jornais cedo; acho que ler jornais fora desse horário ou ler jornais após as 12:00 h só trás notícias que já são obsoletas ou ultrapassadas. Geralmente as notícias que chegam aos jornais já chegam atrasadas e quando os jornais as publicam chegam ainda mais atrasados aos leitores. As notícias mais atrasadas para os leitores são aquelas que vem de conflito, ou de revolução ou de uma guerra. Um correspondente nem sempre possuem recursos e formas para suas matérias chegarem aos seus jornais em tempo, portanto, se este repórter documentou a vitória de uma batalha num país “A” esta matéria chegaria ao jornal cinco ou oito dias depois, quando então o jornal a publica, só que neste dia o país “B” pode ter revidado e derrotado o país “A”.

O garçom tenta puxar conversa comigo ou ser gentil, mas esta manhã eu não estou a fim de papo e ele acaba dando o fora. O jornal destaca tumultos no norte dos Estados Unidos, exaltações do pastor Martin King, ativistas de estudantes liderados por jovem, que o jornal destaca ser alcoólatra e drogado, etc. Há agitações na Polônia e Tchecoslováquia; teme-se a invasão da União Soviética... mau sinal. Os focos explosivos continuam espalhados pelo mundo todo. A ONU, OTAN e outros conseguem a paz (ou apagar esses focos explosivos num lugar) e de imediato aprecem outros em novos lugares. O certo é que nunca acabará.

Após tomar o café, continuo a ler o jornal. Há uma música ambiental suave do hotel. A música é boa e muitas vezes serve de estímulo e acalma a as pessoas irritadas. O atendente me comunica que há um telefonema para mim. Tão cedo? Será que há alguém mais que acorda tão cedo?

Atendo num box (cabine estreita); é a voz da Dra. Rita Moreno, além de ser bonita e sensual, também é dona de uma voz de gata. Ouço dela:

— Dr., quer tomar café da manhã comigo? Explico que já tomei e agradeço.

— Não está a fim de tomar um banho de piscina?

— Dr. Estou na piscina, faz companhia?

— Oh! Bem... gostaria... mas não dá Dra.

— Afinal, do que gosta? Gosta de mulher?

— Adoro! Não existe coisa melhor no mundo, principalmente se estas forem morenas.

— É, mas não parece, — é sua resposta.

— Dra., é meu serviço; a gente não pode misturar, fogueira e ética. Mais cedo ou mais tarde, a chefia fica sabendo e os riscos e de perder o emprego... Eu adoraria estar aí com você na piscina, ser a água e outras coisas, Rita.

— Dr., Hoje e a noite o ministro dará uma festa em sua residência oficial. Festejará o aniversário de sua filha e ele sugeriu para eu lhe convidar; eu mesma irei buscá-lo no hotel, aceita?

— Ok, combinado. Aguardo sua vinda para ir à festa. — Então Dr., não virá tomar banho de piscina comigo?

— Dra., é inviável.

— Você não sabe o que está perdendo.

— Eu sei que você tem razão; estou perdendo o contato e calor do seu corpo. Acredito que seja um potencial, como também é a sua grandiosa companhia.

— Dr., és guloso?

— Eu? Sinceramente sou, e demais.

— É o que imaginei, — responde ela e desliga o telefone.

Subo ao meu quarto. Hoje não estou preparado para festas; não possuo roupa adequada além de um simples terno para casos eventuais. Quem viaja a serviços a países tropicais não pode carregar muita roupa a rigor e era o meu caso.

Solicitei ao conciergue que desse uma arrumada ou passasse o meu terno a ferro quente. Paguei o serviço dando uma caixinha.

Saí à procura de algo para ler. Aos sábados costumo ler boas revistas de nível internacional, aos domingos um bom livro. Quando estou em alguma cidade grande do mundo, alguns jornais sempre trazem as notícias mais frescas, embora como já disse obsoletas.

Transcorrido o sábado, fiquei pronto e a espera da Dra. Rita Moreno e conforme o combinado, chegou pontualmente às 19:00 h. Lá estava ela na porta do hotel, num Citroen, não muito velho, muito bem conservado e cuidado. Assim que entrei no carro, me senti agredido com suas beleza. Estava usando um vestido escuro, decotado ao extremo, mostrava tudo. Pulseira e correntinha de ouro e relógio. Eu me manifestei:

— Rita, está a fim de me deixar louco? Para que tanta provocação?

Ela fica em silêncio total, ergue mais o vestido e encosta o carro à beira da estrada.

— Doctorcito, estou afim de você desde aquele primeiro dia que saímos para trabalhar. Acho que já mostrei o meu potencial feminino, ou não mostrei?

Ela pega a minha mão e leva para alisar suas coxas e seus seios.

— Claro, você está no ponto.

Ela realmente estava no ponto e muito mais que isso. Toda dura, suas coxas e seios.

Sua boca, de tamanho médio, lábios cheios, prenderam os meus; parecia que esta mulher me levaria para subir as paredes, ou iria me virar do avesso. Apalpei suas coxas e entre pernas, estava encharcada então tentei me controlar.

— Rita, não é bom nem para você nem para mim. A gente corre o risco de escândalos, perda dos empregos e de diplomas. Ser alto funcionário de grandes instituições quer muita disciplina e rigor. A gente é observado e vigiado constantemente. Qualquer motivo que nós damos já somos colocados na rua. Eu também e nos meus trabalhos não posso ir para cama com toda mulher que cruza o meu caminho ou que esteja a fim de mim. Eu não sou também de confiar. Mulheres sempre estão a fim de pregar algo para nós. Elas são treinadas para nos aprontar, elas são usadas, pagas para isso. Quantos ministros secretários e elevados emissários já caíram, em armadilhas?

— Eu sei que você é uma funcionária mesmo, portanto precisa estar no chão com pé firme. Ok?

— Neste momento eu posso estar sendo vigiado, assim como você. A gente é jovem e não podemos perder o futuro que nos oferecem. As chances são poucas de aparecer alguém e nenhum órgão brinda com chances para nós quando somos muitos jovens. Quando nos brindam, é por que mostramos bons serviços e disciplina, entende?

Silêncio total. Dentro do carro há cheiro do fluxo-vaginal, abaixo o vidro.

O olhar de Rita está longe, no vazio, não querendo aceitar a realidade dos fatos.

Ela se manifesta:

— Esta capital, desta cidade da América Central, é grande e muita coisa pode ser feita escondido. Eu sei que você tem razão, mas é tão difícil aparecer um homem do seu tipo, culto, educado e reservado. Eu sou carente; por ser bonita torna-se mais difícil achar alguém; estou com quase 30 anos, não sei o é que o calor de um homem há mais de três ou quatro anos. Durmo pensando em sexo acordo toda dolorida e pensando em sexo, meus ovários parecem que vão estourar. No meu trabalho, no meu gabinete, é impossível ter um caso com alguém. No dia seguinte todo o ministério saberia que abri as pernas.

— Eu entendo tudo isso. talvez um dia a gente possa se ver; se encontrar num lugar fora do seu país, Ok?

— É, mas quando? — pergunta ela.

— Olha, um dia a gente pode se encontrar no México, lá você não é conhecida, está fora do seu país, mesmo que encontre alguém do seu trabalho, mas você está no exterior, é diferente.

— Como me comunico com você Doc.?

— É difícil, — respondo.

Aí ela dá um murro no volante do carro e diz:

— Tudo para mim, para meu lado emocional e intimo é difícil.

Eu não tenho país para morar, não tenho pátria, residência. A cada quarenta dias estou trabalhando em lugares ou países diferentes. Não sou eu que escolho o lugar e as missões. Tenho que ser médico, emissário, militar, observador, repórter ou analista. Sou só no mundo, sem lugar fixo. Se ao menos tivesse um parente ou familiar, teria um endereço para correspondência. Portanto se nada tenho, às vezes nada sou. Apenas possuo duas caixas postais, uma em Nova York e outra na Europa. Ou, você se comunica comigo através de código nos jornais. Aos finais de semana eu leio New York Times, The Guardian, etc.

Meus serviços são duros e de risco. Ninguém sabe onde eu estou, se estou vivo ou morto, prisioneiro, etc. Se eu executar direito meu serviço serei contratado novamente; ao contrário sou esquecido. Às vezes fico sem novo contrato durante meses, passando até fome. Em plena cidade grande sou obrigado fazer Sobrevivência.

O controle emocional retorna e ela se recompõe.

— Precisamos ir para a festa, senão chegaremos atrasados, — repito duas vezes. — Troque de calcinha, trate da sua parte íntima, está muito molhada e cheira muito, manchará o vestido.

Aí ela responde:

— Estou pegando fogo, hoje daria e faria tudo e você Doctorcito, nada faz para me acalmar.

— Quando chegar o momento certo prometo que tiro o atraso.

Ela se arruma, arruma os cabelos, o vestido e partimos. Chegamos a uma mansão cheia de gente. Aí noto a minha falha, não estou levando o presente de aniversário para a filha do ministro; mas a Dra. Rita diz para eu não me preocupar, isso não é importante e sim a minha pessoa na festa.

Há algumas pessoas, todo tipo de bebidas, petiscos e alimentos, até caviar.

Cumprimento várias autoridades apresentadas pela Dra. Rita, até que o Ministro do Bem Estar Social gentilmente me apresenta sua família e sua filha aniversariante, uma garota de 18 anos, morena e bonita, me desculpo pela ausência do meu presente.

A Dra. Rita pede licença por uns minutos e sai, suponho rumo ao toalete. Ela chama a atenção, com os saltos altos, o mini-vestido e vejo que realmente é estonteante.

Logo ela está de volta, o ministro e sua comitiva-família continua sua relação social. A Dra. Rita desta vez colocou batom nos seus lábios e fez maquiagem geral, está uma gata.

Ela quer que eu beba alguma coisa ou jante. Olho tudo, examino a festa; é uma festa e tanto... Chamo o garçom e solicito que me traga uma Coca-cola gelada, ela dá risada, bebendo, é claro, o que parece um Martini; ascende um cigarro e me convida a acompanhá-lo. Alego que não fumo, só esporadicamente.

Pergunto a ela:

— Dra., quem paga esta festa?

Ela titubeia e diz:

— Bem... acho que o Estado.

— O Estado Dra. Rita? O que é isso? Quem paga é o povo, aquele povo pobre que nós visitamos para eu examinar e conseguir os fundos; esses pobres e o povo do país inteiro... até você Dra.? Também explora esses coitados? Altas autoridades sugam e espremem eles, depois querem que eu tente liberar os fundos junto ao FMI e a ONU? Me dá nojo do poderio e autoridades das Américas. O povo passa fome enquanto vocês enchem a barriga às custas deles!

— Dr., seu puritano e idiota. Vai estragar a festa? A minha festa, na qual eu tanto gostaria de ficar ao seu lado? O único lugar e a única oportunidade de sentir você e ter você do meu lado?

E despeja o Martini do seu copo no meu rosto. Me limpo com um lenço, chamo o garçom e solicito a este que providencie um táxi para me levar ao hotel. Antes de sair do salão, pergunto a ele:

— Garçom, quanto custa uma Coca-cola?

— 50 centavos de dólar, senhor.

— Tome, aqui tem l dólar, ao menos o povo, o pobre povo não pagará a minha Coca-cola. Boa noite Dra., — e saio à procura de um táxi.

São 22:00 h quando chego ao hotel. Telefono para a companhia aérea; o próximo vôo para Costa Rica será as 3:00 h. Faço a reserva, acerto a conta do hotel, recolho as minhas poucas coisas e vou embora para o aeroporto.

Os vinte e oito dias transcorrem pelos três países que fora designado na minha tarefa, não é difícil. Também não muito fácil. Nos três países, o perfil seria o mesmo. As autoridades mal são autoridades incompetentes, sem noção de como administrar uma nação e ou seu povo, maior parte dele faminto. Os únicos bem-de-vida são sempre as autoridades. 90 % dos políticos que conheci, não tinham noção ou formação universitária de ciências políticas, todos corruptos e é claro, ricos à custa do povo.

Assim, antes dos trinta e cinco dias (calculo aproximadamente entre trabalho e locomoção) entreguei a documentação e o dinheiro que tinha sobrado, uns US$ 3.400,00. Eles alegaram que ainda estava dentro do período designado de trabalho. Era melhor conservar este dinheiro para alguns dias de hospedagem e alimentação, pois não saberiam me informar ao certo a data correta do restante do pagamento, o que poderia ser demorado. Acabado estes recursos, infelizmente teria que me virar até receber o restante.

Fui até o apartamento do casal de idosos, onde já tinha me hospedado duas vezes e eles foram atenciosos. Comuniquei-os porém do meu serviço. Eles ainda tinham o quarto vago e eu poderia ficar o quanto desejar e ainda ter o café de manhã e uma pequena janta.

No segundo dia após ter chegado, fui chamado para uma reunião a respeito do meu serviço. Na marcada reunião, não saberia quanta gente era autoridade, entre banqueiros, etc., se eu poderia responder o mesmo que estava nos meus relatórios assinados. Meio sem jeito ou sem falar direito o idioma, manifestei autenticidade dos fatos, do que tinha visto e que tentaram me subornar, que fui ameaçado e ainda citei o fato da festa. Fui dispensado e disseram que eu tinha feito um excelente trabalho.

Nunca soube se a ONU ou o FMI liberaram ou não os recursos para os três países. Eu, apenas tinha feito a minha parte; tinha sido contratado para isso, o resto já não era assunto meu.

Fui pago com o restante do valor combinado. O casal de idosos me sugeriu abrir uma conta corrente no banco de Boston, com 30% do valor depositado a juros e 20% para movimentação, para trânsito ou outras necessidades, sendo possível usar o endereço deles como minha residência.


 

A GUERRA DOS 6 DIAS — 1967

 

Uma instituição mista canadense-alemã patrocinou um levantamento de arqueologia no deserto do Paran (ao sul do deserto do Sinai), mas a expedição não ia em frente e a toda hora algum funcionário se acidentava e não trabalhava; alguma coisa estava errada. Eu, com uma equipe, teria que resolver o problema ou suspender os trabalhos para uma outra oportunidade. Além do mais, surgiram conflitos entre árabes e israelenses e a coisa por aqueles lados estava mais que feia.

A equipe seria formada pela Dra. Nancy Limberg (chefe da expedição), Dra. Clarisse Muller, arqueólogas, e pelos técnicos Giovanne Conti, Silvio Gatti, Karina Simong e eu. O nosso encontro foi em Gênova, Itália. Tomamos o avião para Aiffa e ao chegarmos lá tudo estava agitado e as autoridades não estavam afim de que continuássemos para o deserto do Paran. A área estaria fervilhando de guerrilheiros árabes e outros aliados para entrar em guerra com Israel, portanto o país não se responsabilizaria pelo que viesse a acontecer, ou seja, ninguém poderia nos dar segurança ou nos proteger.

Contratamos um avião bi-motor para 8 lugares e carregamos a bagagem. Ao sobrevoar o Sul do deserto do Sinai, o piloto do avião nos comunica que teria que desviar de rota aérea, pois lá embaixo havia muito material bélico e grande movimentação militar, o avião poderia ser confundido e abatido. Por tanto voaria duas horas mais e pousaria no deserto do Paran. Abasteceria com combustível e partiria de imediato; nada mais poderia fazer por nós.

O avião pousou numa pequena pista no deserto. Em dois Jeeps continuamos rumo ao sítio arqueológico. A temperatura estava a 42° C. Uma barreira israelense nos pára e pede identificação. A comandante, uma capita de uns 23 anos, já sabia da nossa missão e nos explica que até o sítio arqueológico ainda seriam 40 km. Ali com eles, no posto militar, nós teríamos que nos equipar com armas, provisões e kits de primeiros-socorros. As armas são necessárias, pois há muitos guerrilheiros — estes são aliados dos árabes em conflito com Israel. Além disso, eles fazem prisioneiros, comercializam as mulheres e executam os homens. Fora do posto militar eles mais nada poderão fazer.

Como chefe de equipe dou tarefa a cada um de nós:

— Karina Simons, você arrume de imediato os kits de primeiros-socorros, alimentos em lata e em comprimidos; plásticos para condensadores solares para recolher água, OK?

— Ah? Sim, sim, entendi.

A mulher mais Parecia estar no ar ou conturbada que prestando atenção.

— Dra. Limberg, A Sra. arrume um tonei com 50 litros de água e cantil para 6 pessoas, entregue os cantis de mão em mão.

— Dra. Muller, a senhora escolha 6 pistolas e 6 fuzis, com o Sr. Conti, entregue a cada pessoa.

— Sr. Gatti, o senhor entende de armas, arrume a munição e oriente como se usa e explique sua segurança para evitar acidentes, OK? Sei que todos sabem atirar com armas, talvez falta treinamento mas, o Sr. Gatti dará instruções rápidas. Nós não temos tempo para detalhes e formalidades, em 15 minutos partimos.

As pistolas são todas Browning High Power 9 mm com dois carregadores; os fuzis, Martin 305 de pente com 10 tiros, 10 tiros? Acho que é melhor que nada.

Em 15 minutos a gente estava a caminho, pela estrada poeirenta. Os 40 km eram intermináveis. Poeira, calor acima de 40° C, 9:30 h. Nós teríamos que chegar ao sítio até as 13:00 h. São 12:48 h e a gente chega ao sítio arqueológico. Fomos apresentados ao chefe responsável, arqueólogo Aminn Azzem. O lugar estava quase descoberto, apareciam algumas muralhas e habitações históricas. Expliquei a Azzem a ordem que nos foi dada, era cobrir de novo as áreas descobertas, isto teria que ser feito em 4 horas, no máximo até as 20:00 h a partir dali.

O lugar tinha 12 funcionários e eles teriam que ser pagos. Não tinham alimentos nem água e há um ferido que precisa ser suturados, pois tem um corte no braço de uns 10 cm.

Examino o ferido e vejo que realmente precisa de sutura. Digo ao Azzem que ele será tratado por mim e que ponha os homens para trabalhar; serão pagos de imediato. Chamo a Srta. Karina Simons.

— Sim. Sr!

Peço para ela me trazer o kit de primeiros-socorros e distribuir os alimentos enlatados aos operários assim com a água.

Se passaram mais de 15 minutos. Cadê a Karina? Vou atrás dela e lá está ela, falando com a Dra. Limberg. Eu as interrompo:

— E o material que pedi?

A Dra. Limberg fala por ela:

— Dr., a Karina esqueceu de por no Jeep, o material ficou no acampamento militar...

Silêncio total até eu explodir.

— Irresponsável! Falta de seriedade e respeito para com sua equipe e o ser humano! Saia da minha frente, sua incompetente!

Pego minha mochila e dela o pequeno kit de primeiros-socorros. Chamo o ferido e mando apoiar seu braço numa rocha. Ele se chama Salim e digo a ele que terei que fazer o meu serviço e que será um pouco dolorido. Ele aceita e diz que tudo bem.

Faço a assepsia na área ferida e anestesio com xilocaína a 2 %; faço a sutura, cubro com curativo e mando ele proteger a ferida do Sol e tomar um antibiótico a cada seis horas. Dispenso ele de trabalhar.

São 19:00 h, o trabalho de cobrir novamente está quase está no fim e o sítio arqueológico ficara apagado, só Deus sabe até quando. A gente paga os operários e dispensa eles. Azzem, solicita para um deles ir até uma pequena aldeia e providenciar alimentos e água para nós todos. Todos contribuímos com dinheiro e ele é levado por um dos nossos motoristas.

Hora e meia depois eles estão de volta com alimentos e água. Após aquela janta típica do deserto, simples demais, mas com proteínas e calorias suficiente para quem trabalha durante o dia abaixo do sol de 44° C, perdendo quantidades de energia.

Um dos motoristas dos Jeeps, que fora procurar cigarros deixados no veículo, retorna eufórico, este tinha ligado o rádio e ouvido que Israel estava em guerra com o Egito. Havia aliados guerrilheiros e rebeldes, portanto por toda a fronteira com o Sinai havia muitos inimigos e nós estávamos bem próximos deles. Para evitá-los, teríamos que nos afastar da lateral esquerda do Sinai e ir ao acampamento militar israelense pelo centro do deserto. Sugeri esperar mais um dia ou dois, nos fortalecer bem em alimentação e combustível, descansar, viajar de madrugada e parar após as 7:00 h. Durante o dia nos esconder. Todos concordaram e fizemos o planejado.

Fazer 40 km até o acampamento militar israelense não é nada fácil, evitar barulhos, os Jeeps não são tão barulhentos, porém os caminhões que transportam os operários e o material de arqueologia, seus motores são barulhentos demais. Depois de andar uns 23 km paramos, alguma coisa me diz que, aquilo será um inferno. É quando um morteiro e mais outro explodem próximo ao pequeno comboio. O pessoal fica descontrolado; procuro acalmá-los, e orientá-los. Eu, tomo os fuzis da Dra. Limberg, de Gatti, e três pentes de pistola. Mando sair do meu Jeep o Gatti e Clarisse para estas se juntarem ao pessoal dos caminhões, em qualquer circunstância, aconteça o que acontecer, se ocorrer algo comigo, para eles irem em frente até chegar ao acampamento militar israelense. Chegando lá, haveria chances de saírem do país com vida? Não sei.

Fico com o Jeep e o motorista atrás do comboio e mando todo mundo saírem dali o mais rápido possível. — Vão embora! Dêem a partida!

Com um fuzil Martin 305 em mãos, olho para ele e me pergunto o que farei com isso contra rifles AK 47, morteiros e ponto 50?

Os morteiros e tiros começam de novo, explodindo bem próximo do comboio, os tiros de AK 47 são em maior número, Olho para as montanhas e vejo a fumaça, seus pontos, de onde são disparados são centos e centos e mais morteiros. O meu Jeep é atingido e capota dando várias voltas; sou jogado que nem uma bola de futebol, caindo 10 metros fora da estrada de terra, estou atordoado e sangrando, tenho um corte no rosto e meu corpo está um trapo, procuro achar fraturas, mas não tenho, ainda assim sinto dores e o mundo parece girar... Olho o comboio, eles estão longe, distantes da área de fogo e dos morteiros.

Tiro do coldre a pistola. O que farei com uma pistola contra toda aquela gente lá cima? Bem, ao menos ainda tenho mais dois pentes cheios de balas. Procuro com minha vista localizar o motorista, não o vejo, até que noto seu corpo no lado oposto da estrada, tento me levantar para auxiliá-lo, mas o impacto do meu corpo na queda causou lesões. Tento mais uma vez sair correndo em sentido do corpo do motorista e consigo. É quando vários tiros são disparados no meu sentido, mas chego sem ser atingido até o motorista. Ele está de bruços, ainda com a pistola em sua mão, mas não respira mais; suas costas estão crivadas de balas. Viro-o e vejo o mesmo no seu peito e estômago. Mais nada posso fazer por ele. Observo ao meu redor e vejo os atiradores; não sei quem são, se rebeldes, guerrilheiros ou soldados egípcios; todos eles descendo das montanhas indo na minha direção.

Afinal, o que faço? O que posso fazer com uma simples pistola? Também não é a minha guerra, não estou ali por causa de guerra e sim por causa da ciência. Ciência? Será que eles entenderão isso? Se me rendo serei tratado bem como prisioneiro? Não sei, difícil saber, ainda mais quando já se foi prisioneiro outras vezes e os direitos internacionais não foram respeitados — pelo menos não comigo. Me rendo, é o jeito... é de grande risco. É melhor me livrar da pistola, com ela não pensarão bem de mim. Enterro ela (uma pena, uma bela arma, leve e precisa). Desta vez ela ficará debaixo da terra.

Me ponho em pé, com os braços bem alto, pego meu lenço branco e ergo balançando-o. Num minutos estou rodeado do que pareciam, ora rebeldes, ora soldados e começo a gesticular com os meus documentos:

— Ciência! Cientista! Arqueologia!

Sou rodeado por vários combatentes; uns vasculham o Jeep e o motorista morto, tomando dele a pistola, o soldado que a recolheu a traz para o sargento que está na minha frente e entrega a ele. O sargento a examina, sopra a terra aderida nela e esfrega na sua farda, então a coloca na cintura. Chegando mais perto de mim, me interroga; dou meu nome e grau, mostro meus documentos — ele os examina e me chama de espião.

— Espião?...

Eu procuro explicar que não mas recebo um soco no meu rosto e caio, tento me levantar e recebo um chute nas costas; não consigo respirar, meu pulmão foi atingido e meu rosto sangra. Dois soldados me levantam e me seguram de pé, recebo mais um soco no rosto e uma coronhada. O mundo parece que vai acabar...

— Cão! Espião! Para quem trabalha? Quem o mandou aqui? Ingleses? Americanos? Israelenses? — E mais um tapa, outro...

Quando sinto que estou para desmaiar, ouço um veículo freando bruscamente. Mal consigo enxergar, meus olhos estão cobertos por sangue. Aparece o que seria uma combatente (mulher) que me joga água no rosto, limpa minha vista com meu lenço e fica ali estática. Quem desceu do veículo que parece um Jeep é um jovem oficial; teria minha idade e altura; examinada a pistola do motorista morto. O sargento fala com ele e aponta em minha direção, este então se dirige para mim; minha respiração está um pouco melhor, mas ainda sou segurado pelos dois soldados que me mantêm quase de pé. O que eu achava que era uma combatente feminina, na realidade é também uma oficial; parece uma tenente. Ao se aproximar o jovem oficial me cumprimenta militarmente (continência). Ele me examina dos pés a cabeça e peço para falar com ele em particular. Este anda ao meu redor e alega que na minha situação não estou em condições de reivindicar nada e que serei fuzilado.

— Mas porque? — pergunto.

Examina meus documentos e chama a mulher-oficial porque ela fala inglês. Porque inglês? Não deveria ser árabe? Ou será que ela é uma assessora soviética ou de um outro país comunista?

Ele discute com ela e o sargento e diz:

— Ele, não tem cara de ser americanos, inglês ou israelense, pode ser um espião, mas não é dessas nacionalidades, vejam a cor da sua pele. Vamos levá-lo para interrogatório.

O sargento se aproxima de mim e me dá mais um soco, aí o oficial grita para parar. O mundo gira... eu estou girando com ele e perco os sentidos. Acordo quando já é tarde e escuro e vejo uma fraca luz que deveria vir de uma lâmpada fraca. O lugar é quente, úmido e mau-cheiroso. Meus olhos estão inchados, assim como meu rosto com várias feridas e talvez com fratura no malar-esquerdo. Tento enxergar com dificuldade e desejo saber as horas. Tiraram meu relógio, meu isqueiro, os poucos cigarros que tinha, além dos meus documentos. O lugar onde estou parecer uma cela, com palha. Estou com sede, meu rosto dolorido e meus lábios abertos por feridas.

Preciso beber. Ouço passos de botas pesadas e passos de botas leves; a porta da cela range, sinal de que esta tem um longo ferrolho que deve ser forte, de aço, e eu jogado ali que nem um saco de batatas. A porta se abre e três pessoas estão ali me olhando. De baixo, visto da minha posição, estes parecem que são gigantes e cruéis.

Alguém se inclina e examina meu rosto. É a jovem mulher oficial, aquela que no deserto me jogou água e limpou meus olhos. Eu reclamei:

— Oficial, não estou sendo respeitado dentro dos direitos internacionais; eu não sou espião e preciso falar com seu comandante.

—Negativo, Sr. Kareboff ou Doc?

Ela se inclina, um soldado lhe entrega um balde com água gelada e um pano. O pano molhado e gelado faz com que eu sinta mais dor; ela me lava o rosto e passa o pano no meu corpo, depois me cobre com uma manta. As mulheres... por mais inimigas que estas sejam, às vezes também me deram carinho e amor; algumas foram sensíveis.

Eu digo:

— Tenente, de que lugar é a Sra., da Polônia? Ela não responde.

— O que faz aqui no meio do deserto? Continuo sem resposta, então ela diz:

— Aqui está uma tigela com leite de cabra, cereais e pão sírio. Eu dou risada e sou cínico:

— Típico de masmorra, né? O que farão comigo?

— Assim que melhorar será interrogado e talvez fuzilado, agora trate de se alimentar e descansar.

— Ah é? Aqui neste palacete?

Ela vai embora. A porta se fecha, corre o ferrolho, colocam cadeado nele e também ouço o rangido de uma chave (sem chance de fugir).

Estou com fome, acostumado a jantar ou a me alimentar entre as 19:30 e 20:00 h. A fome é tal que afinal como a comida que ali me foi deixada pela linda oficial. Leite de cabra, cereais, pão sírio e um pouco de água, penso, não é qualquer um que tem toda essa sorte. Sou um prisioneiro de privilégios? Pela reclamação do meu estômago, penso que são as 21:00 ou 22:00 h. Tento me sentar, mas o mundo continua girando, estou fraco. Preciso saber onde estou e sair daqui e para isso é necessário que eu esteja forte, com bastante energia e bem de saúde, recuperado das feridas, é claro, se não for fuzilado antes. Consumos os cereais, o leite e o pão, mas tenho um companheiro de cela; terei que compartilhar com ele? Ele está a uns 40 cm de distância de mim, tem uns 20 cm e deve pesar uns 300 g; é de cor preta. Nunca tinha visto um rato de cor preta. O rato olha para mim, senta sob suas patas e me cheira, mexe e gira seus bigodes.

Penso que o rato deve ser hóspede ou habitué deste grande hotel. Ok, vou dividir minha ração com você, se você não for mais rápido que as dores são mais intensas. Tenho sono e penso que um dia preciso me dedicar mais a mim mesmo. Quando era pequeno, pensava o mesmo: ouvir mais música, ler mais, me tratar mais, cuidar e ficar mais sadio e forte.

Lembro de minha casa, aquela grande residência, seus grandes jardins floridos, cheirando a flores, grama e pinheiros. O jardim sempre estava cheio de pássaros e eles sempre vinham se alimentar comigo; os esquilos, eles comiam na minha mão. Lembro da minha bicicleta, daquela motocicleta que eu tinha feito com um velho motor e canos hidráulicos e todo mundo dava risada, mas eu fiz funcionar a minha moto.

Lá eu treinava com meu arco e flecha, tinha tudo montado, um belo stand de tiro. Depois que meus pais morreram nunca mais fui lá, nem sei que fim levou aquela residência, se ficou com algum herdeiro ou foi vendida. Ir lá pra ver? Pra que? Ver aquela residência me traria lembranças, saudades e por demais tristeza, talvez um dia eu volte lá para saber. Claro, se eu sair desta com vida.

Dormi. Acordei com trovoadas, confuso. Trovoadas ou explosões? Devem ser 5:00 h pelas estrelas. Ouço gritos, choros, gemidos e depois:

— Atenção... preparar... apontar... fogo!

Me levanto, dolorido, mas consigo pôr-me em pé e vou até a janela, esta com grades de aço. Lá fora havia um enorme pátio e vários soldados que descansavam com suas armas no solo e mais à frente vários corpos caídos, aparentemente vestidos com roupas claras e todos com aparência de serem brancos; acredito que todos ele seriam funcionários de instituições religiosas, médicos, enfermeiros ou missionários.

O que eu estava vendo era, segundo os disparos que tinha ouvido, o segundo fuzilamento desta manhã. Os fuzilamentos sempre são executados de manhã, bem cedo. Alguns corpos, jogados no chão com suas roupas manchadas de sangue, ainda se debatiam ou estavam em convulsões. Os ferimentos das balas não tinham atingido seus pontos vitais. Um oficial, o que parecia ser um capitão tira do seu coldre uma pistola, o que deveria ser uma 9 mm ou uma 45 e dá um tiro em cada um dos fuzilados, bem na cabeça, ficando estes inertes.

Eu era o espectador daquele quadro horrível. O próximo seria eu? Teria que estar pronto a qualquer momento. Mas lembrei que a mulher oficial disse que primeiro eu seria interrogado e depois fuzilado. Fuzilado? Isto é um pesadelo, ou não?

Observo minha cela e não há como fugir dela. Suas grades são fortes e de aço, a porta consistente, as paredes feitas de pedra (granito). Observo lá fora e vejo que os corpos não mais estão lá. As paredes estão manchadas de sangue, não acredito, estando no deserto onde a água é escassa, esse quadro de sangue nas paredes não será lavado e lá ficará até secar formando uma pintura. Arte, só que horripilante. Com o tempo o sangue seco descasca e as películas de sangue acabam caindo.

O muro, onde as pessoas foram fuziladas são altos e suas paredes também feitas de granito ou rocha sólida. Essas paredes devem ter uns 50 ou 60 cm de espessura, mais do que difícil de derrubar, nem com uma bazuca ou explosivo poderoso conseguiria total sucesso.

É uma fortaleza usada como base militar árabe. Uma fortaleza de arquitetura medieval, ou pós-medieval, talvez construída na época das cruzadas, por volta do ano 1099 ou 1100.

O ferrolho da cela range e a porta se abre. Um oficial com vários soldados me diz para sair e que os siga. Caminhamos por um longo corredor onde há uma infinidade de celas, todas vazias, só vejo ratos correndo e se escondendo. Ao menos o rato da minha cela não mais terá que competir pela pequena refeição comigo.

Depois de andar uns 50 m subimos uma estreita escada e viramos a direita, onde sou empurrado e obrigado a entrar no gabinete do comandante. Nele há um coronel de uns 40 anos, de estatura média, lendo uma papelada. Nos cantos opostos há mais dois oficiais em pé, em sentido de alerta.

O comandante me manda sentar e me interroga, quer saber o que eu e as outras pessoas fazíamos próximo ao local onde eu fora capturado. Explico do sítio arqueológico, mas sou obrigado a repetir várias vezes a ele. Para o comandante sou um observador ou espião israelense. Manifesto que não.

Ele observa meu nome e sobrenome, quer saber a origem dele, explico que não sei, talvez seja sírio, libanês, grego-turco, e que meu pai era de lá ou daqueles lados. Quer saber onde moro e qual é meu endereço. Digo que também não tenho. Ele dá risada e alega que um cidadão do meu nível deveria ter residência fixa. Explico que sou uma das vítimas da Segunda Guerra Mundial, motivo pelo qual fui bolsista de vários países, oficial-médico e das minhas atividades.

— Soube, do seu relacionamento internacional, é bom?

— Não senhor, ninguém que luta possui bom relacionamento, principalmente quando falamos algumas verdades. Todos nós temos prós e contras e somos catalogados às polêmicos ou rebeldes.

O coronel me observa e diz:

— O senhor é muito jovem, mas tem personalidade e nome, o senhor já xingou o Papa, também o presidente dos Estados Unidos, ou não? É o que dizem. Não é qualquer um que chega ao Vaticano, janta com o Papa e depois o xinga. Não é qualquer um que ingressa no gabinete do Presidente dos Estados Unidos e passa a mão na bunda das suas namoradas. Levem ele à sua cela e tratem-no.

Sou levado de volta à minha cela e antes de esta ser trancada, um soldado me entrega uma bandeja de cobre, com o café da manhã: queijo de cabra, leite de cabra, pão sírio, mel, um ovo, café e chá. Ouço novamente o ranger do ferrolho, a cela é trancada e lá fico eu. O que será de mim? Após ser interrogado seria fuzilado? Mas o interrogatório não foi rude.

Consumo o café da manhã. O rato preto está lá num canto me olhando mas não se aproxima. Claro, está cheio! Ele comeu o que restou da noite anterior. Após ter consumido o café da manhã e antes de saber que será de mim, preciso dar um trato no meu rosto, tratar da fratura do malar pois o osso fraturado está afundado e logo começará a se solidificar e obstruirá a irrigação sangüínea, aprisionando algum nervo da face, assim evito futuras cirurgias de correção. Futura cirurgia de correção? Ainda não sei se sairei vivo daqui. Tenho que tentar ver se a fortaleza tem médico. Pela pequena janela da porta da cela chamo o guarda e peço a ele para falar com um médico. Este titubeia, chama o cabo de plantão e de novo explico que preciso falar com um médico. Este sai e em 20 minutos aparece com um capitão, um jovem médico e três soldados. O capitão, petulante e arrogante, logo diz:

— O senhor está pensando que isto aqui e uma clínica de plástica? Quem define sua situação é o comandante e seus assessores, entende?

— Não! Não capitão, eu não fui tratado como prisioneiro, fui ferido pelos seus homens e preciso ser tratado. Conforme o tratado e convenção da Tchecoslováquia e de Genebra, se o senhor não tomar providências, eu terei problemas de face e respiratórios. Por enquanto ainda há tempo, antes que a fratura solidifique. Se mais tarde serei ou não morto já e outra questão, mas preciso ser tratado. Se eu fosse um soldado e fosse capturado, detido em combate ainda vivo, deveria ser tratado conforme as convenções. No meu caso, eu me rendi e minha rendição não foi respeitada, estava desarmado e indefeso; aqui o Sr. capitão vê o resultado. Serei ou não tratado?

— Ok, o nosso médico o examinará e avaliará seu problema para depois discutir autorização junto ao comandante.

O capitão se retira, e o médico e o soldados ficam, sou examinado pelo médico que diz:

— O senhor é um problema muito grande para eles, aliás, para todos nós. Ele examina minha fratura trêmulo, não sabe o que fazer. Eu o oriento.

— Dr. Salim Harann, tenente médico, o osso está fraturado, há um fragmento de osso em formato de baleia, e pequeno, não mais que uns 3 cm. O senhor precisa anestesiar a área com xilocaína a 2 % e depois inserir uma agulha de sutura média com linha n° 3, esta inserção tem que ser por baixo do osso fraturado. Com o fio de sutura, o senhor formara um “U”, aí puxe para fora as duas extremidades do fio; o osso fraturado irá para a posição correta e para segurá-lo o senhor pegue uma abaixador de língua (palito tipo sorvete), quebre-o, forre com algodão e amarre as duas extremidades, o palito fará uma trava. Em quatro dias o osso começará a solidificar e tudo bem, ok?

O médico, surpreso olha para mim e diz:

— O senhor pensa em sair daqui com vida? Acha que meu trabalho será útil?

Ah! Aí está e digo:

— Todo prisioneiro, quando tem vida e está com energia, tenta sair com vida... tenta fugir. É igual quando capturamos uma ave silvestre e colocamos numa gaiola, ela, por todas as formas, tentará fugir, demora, mas tenta e... consegue. Ela, não nasceu para ficar presa e eu... menos ainda.

— Tudo bem, vou levar seu caso ao meu superior, se não voltar em uma hora, não será por culpa minha, acredite.

E vai embora.

Após duas horas, o trinco da porta volta a ranger, deve ser 8:00 h já era para estar morto. Por que ainda não fui fuzilado? O médico entra com seus apetrechos e diz:

— Sinceramente... não entendo, não entendo, o senhor está marcado para morrer e o comando me manda tratar dos seus ferimentos.

Ele abre sua mala, estende um pano no chão e coloca em ordem o instrumental cirúrgico. Com uma seringa de 5 cm põe 2 ml de xilocaína, faz assepsia na área e aplica o anestésico em quatro lugares, poucos minutos depois minha face fraturada esta adormecida. A agulha de sutura é inserida, ela gira em forma de “U”, ele puxa esta e o fio de sutura formando um “U”. O abaixador de língua já foi reduzido para uns 3 cm e está forrado com algodão. Mando ele puxar o fio em para fora, segurando firme as duas extremidades, sinto um rangido — o fragmento do osso retornou ao seu lugar. Solicito para ele, com a mesma seringa inserir por baixo do osso fragmentado e remover um coágulo, a recuperação será mais rápida e logo eu voltarei a respirar melhor.

Ele tira a agulha e amarra o palito com o fio de sutura. Agora o osso não mais caíra pra dentro. Peço ainda para ele me arrumar alguns antibióticos e antiinflamatório. E ele se manifesta:

— Mais uma lição técnica que aprendi, no meio do deserto, para melhora de um prisioneiro...

Agradeço e peço que ele providencie água pois estou com muita sede. Um soldado traz água e os remédios, todo mundo sai da cela e após esta ser trancada, um silêncio total. O rato preto, anda no meu sentido desconfiado, olha a porta e gira seus bigodes, se aproxima de mim até uns 40 cm, gira seus bigodes e chega a me observar como perguntando “esta tudo bem”?

— Oh, claro companheiro de cela, comigo esta tudo Ok, sou um cara de sorte, ainda não fui fuzilado, estou sendo tratado decentemente.

Como prisioneiro eu consegui ser ouvido e reivindique os meus direitos, parte deles foi atendido, não posso me queixar. E durmo.

Acordo. Deve ser perto do meio-dia — meu estômago é quem me diz. O efeito da anestesia não mais existe e a fratura esta dolorida, mas nem tanto e respiro melhor. Estou com fome (bom sinal). Preciso me alimentar bem, recuperar as forças. Tentar fugir desta fortaleza não será fácil e se tiver que andar pelo deserto terei que estar bem de saúde e fisicamente.

O trinco range, a porta se abre, dois soldados apontam suas armas pra mim, outro soldado desarmado entra com uma espécie de “caixa” de metal, atrás dele entra a oficial feminina (a polonesa) e me pergunta:

— Good?

— Ah!. Wonderfull! Só me falta uma biblioteca, um Grunding e vários 78 ou 45 de jazz, clássicos e melodias, mas sou um prisioneiro. Até que estou bem, obrigado tenente.

Ela dá meia volta e vai embora, os soldados recuam sem deixar de apontar suas armas. A porta é trancada. Me levanto, já não estou tão dolorido, penso que tenho boa saúde, bons tecidos, sempre tive uma boa dieta, isto faz com que sempre me recupere rápido e parta para outra.

Olho para fora. Realmente é uma fortaleza e tanto, seus muros são impossíveis de serem ultrapassados. Há guardas bem armados e bem atentos.

Faz calor, a temperatura deve estar uns 45° ou 47° C. Há nuvens escuras — num deserto é difícil esperar chuvas, mas não impossível, em alguns lugares só chove a cada quatro ou dez anos. Uma chuva hoje... seria uma boa.

O que há dentro da caixa de metal? Abro esta e logo o rato preto está ali perto (ele é meu companheiro de cela, terei que convida-lo para almoçar). Há uma panela, abro essa, que está bem cheia. É Fistekn, isso é comida de Sheik. Fistekh é bucho de cabra com creme e farinha, pimenta, alho, entre outros temperos (não lembro). É um prato forte, de muitas calorias. Se eu me alimentasse com Fistekh por dois ou três dias seguidos viro um touro! Minha recuperação seria total. Sirvo um pouco ao meu amigo (o rato-preto) e vira aquele almoço.

Agora seria bom um chá. Não sou muito chegado a café, mas nessa hora, se viesse um, também não desprezaria. Guardo o resto da comida, longe do rato-preto, e ando pela cela, preciso digerir e examinar a fortaleza. Não faço a barba há uns três dias e preciso tomar banho, mas como?

Se chover... Se chover coloco uma das tigelas para fora e encho esta, transportando a água para a caixa de metal, ali posso juntar uns 10 litros d’água e daria para tomar banho.

Exploro a cela. Ela até que é grande, tem uns 5 m. Parece maior por estar vazia, sem móveis ou objetos. A janela até média, deve ter l m por 80 cm, distância de uma grade para outra com não mais que 25 cm, uma pessoa magra passaria por ali, mas ninguém sabe qual e o fim do pátio. No pátio há algumas árvores frutíferas, devem ser de Damasco, Tâmaras ou Romãs, há outras plantas e algumas flores. Alguém gosta de verde pois se vê que está bem cuidado.

Removo a palha da cela, num canto há um ralo. No fundo da cela há uma porta consistente, tento abrir e esta não cede, faço força, abre um pouco, empurro e ela abre uns 40 cm. Forço mais e ela range abrindo por completo. É um pequeno quartinho onde há um banheiro arcaico e um tanque, o que deveria ser uma pia. Bem, pelo menos ali já dá para fazer as necessidades, mas, não tem água. Num canto, sobre uma pedra, há uma velha escova de dente, um pedaço de pente amarelo e um sabão velho, tudo corroído por ratos. Já está melhorando, ao menos posso me pentear, e se tiver água, o sabão não é de Paris, mas daria pra tomar banho.

Começa a chover. Aí esta a chuva que deve ser abençoada para as árvores e plantas e... para mim. A tigela, estendo-a para fora e ela rapidamente enche. Transporto para caixa de metal e assim continuo até enchê-la. É uma tempestade. Junto mais água, tiro a roupa e tomo um banho. Ah! Que delícia! Lavo a minha camisa tipo safári, a camiseta e a cueca.

Hoje “estou feito”. Trataram da minha fratura, me deram boa comida, uma “visita feminina” venho me ver... o que mais quero. Pois é... quero a liberdade.

Assim, pela janela, depois de me dar um trato, olho a chuva cair, ela continua até o final da tarde. Refresca, a temperatura cai e ao longe se vê um arco-íris. Há muitos anos que não via um. Eles são bonitos. Nos charcos d’água que ficaram no pátio da fortaleza pousam alguns passarinhos e eles fazem a festa, tomam banho. Ao menos eles estão em liberdade e com vida, até quando? Até aparecer algum predador.

Mesmo tendo feito muita coisa, ter dormido após a tração da fratura e ter me tratado, o resto das horas foram longas. Devem ser 20:00 h, a esta hora não acredito que tragam mais nada para mim. Todo lugar de prisioneiro ou militar, as refeições são cedo: café da manhã das 5:00 as 6:00 h (para oficiais não há hora certa), almoço entre as 11:00 e 11:20 h e janta das 18:40 às 19:20 h. E já é mais que 20:00 h. Ia adorar uma fruta, uma sobremesa ou uma panqueca. Vou tocar o sino, talvez a copeira venha e diga “Sr.” aí eu digo:

— Srta. Jane, por favor uma sobremesa e um licor.

Mas tudo isso esta mais que longe de acontecer, estou sonhando demais..

Abro a panela de comida que guardei do almoço, o Fistekh, embora frio, ainda cheia bem. Ele foi bem elaborado, o cozinheiro é bom. O Fistekh não é comida comum nas Arábias, geralmente é consumido pela classe média, por demais nutritivo. Os prisioneiros, eles não são bem alimentados, pelo contrário, estes ao contrário são mantidos fracos, subnutridos e dessa forma o prisioneiro ou os prisioneiros não tem força suficiente para gerar uma rebelião, sem energia não há poder físico. Se estes tiverem sucesso, não andarão muito após a fuga e logo são recapturados.

E no então por que eu estou sendo bem alimentado. A minha janta é interrompida por uma música, clássica: Straus, Tchaikowski, depois Ray Charles e por último uma polca. Uma polca? Ah, já sei quem está ouvindo música. Se não fosse pela polca, seria qualquer um ouvindo música, mas agora o assunto muda. Penso que dentro da fortaleza, entre os que me consideram inimigos, há um que é meu aliado ou admirador, e já sei quem é: a tenente Wazelouska.

E aí o motivo do café da manhã reforçado e da boa alimentação. Já outros prisioneiros não tiveram a mesma sorte. Mas por que eu estou tendo algumas regalias? Sem dúvida alguma, não obterei resposta tão logo ou talvez nunca a tenha.

Minha roupa esta quase seca. No deserto não há umidade e isso faz com que tudo seque logo. Examino a roupa, até que não esta tão enrugada, mas ao menos esta limpa, sem cheiro e sem manchas de sangue dos meus ferimentos.

Me sinto melhor hoje (ou agora), embora seja incerto o que será de mim amanhã, se continuarei vivo ou se serei fuzilado. Acho que esta noite dormirei melhor, estou limpo, e a noite está mais fresca. Devem ser 22:00 h tudo é silêncio. Há lua cheia. A lua no deserto faz parecer com que seja quase de dia, claridade plena. Ouço o manifesto de uma coruja, ela deve estar numa das torres da fortaleza (seu império) e de repente o ruído das suas assas. Quando a coruja sai, é por que focalizou um rato, uma lagartixa ou um sapo. Ela logo retorna, sinal que sua caça estava perto.

Ouço um chiado forte, dever ser de uma ave noturna. Depois o som de um chacal do deserto e ainda sinal de outro mais distantes, eles se fazem destacar, para mostrar seu território e seu império. O deserto que deveria ser deserto, na realidade é o contrario, possui sua vida, sua fauna, que só está ausente durante o dia por causa do intenso calor. De noite o deserto se torna totalmente vivo, de animais. Tenho que enfrentar a noite, preciso dormir, acordar e enfrentar o incerto do amanhã.

Sou acordado com o ranger do ferrolho da porta. Tão cedo? Será que é hoje? Hoje serei fuzilado? Acho que não é tão cedo, eu que dormi bem, será? A porta se abre, dois soldados apontam suas armas para mim e entra o médico que fez a tração na fratura. Estranho... estranho.

— Vim examinar sua fratura.

Mas não fala bom dia nem me pergunta como estou. Penso que tenho que aceitar tudo, ainda mais sendo do inimigo. Ele se inclina, examina a fratura e diz:

— Está tudo bem, quase não está mais inchado.

Com um chumaço de algodão unta a área do fio com iodo. E eu digo:

— Sua ajuda Dr., foi muito boa. Gostaria de fazer a barba, há condições de me arrumar um aparelho e um espelho?

Ele nada responde e depois de alguns segundos diz:

— Falarei com a tenente Wazelouska, ela é responsável pelo senhor, OK?

— Obrigado Dr.

Antes de ele sair, um soldado entra com o café da manhã. Fico só, aliás com o rato preto, ele também quer o café da manhã, afinal merece, é uma boa companhia.

O café, um ovo cozido, bacon, suco de damasco e café com leite de cabra. Nada mal, nada mal. Acabo de tomar minha pequena refeição e ouço passos fortes e alguns mais fracos. Passos de botas fortes, mau sinal. A porta se abre e lá está ela, com as mãos para trás examinando tudo e encarando meu rosto. Ela é branca demais, o sol do deserto nem sequer fez com que ela ficasse bronzeada. É bonita, possui personalidade.

— Vejo que está melhor e mais disposto, sua roupa está melhor.

— Ah, sim estou melhor graças à Sra., tenente Wazelouska.

— Sabe meu nome?

— Não, não tenente, só sei seu sobrenome.

Ela vai até a janela, olha para fora e diz baixinho, meu nome é Tatiana. Sou de Varsóvia e estende sua mão, nela está o barbeador e um pequeno espelho.

— Há um porém. Terá que se barbear estando eu aqui, até terminar, por questões de segurança.

Molho o velho sabão na água da tigela e unto o meu rosto. Assim faço a barba, propositadamente demoro para que ele fique mais tempo e eu possa observá-la melhor e examiná-la mais. Examinar seu corpo, embora muito difícil saber de uma mulher militar se tem ou não corpo bonito. Só vemos algo quando estas estão menstruadas e usam saias-uniformes ou saias -fardas, aí elas mostram as pernas, geralmente as saias-fardas são justas e dá para ver os contornos das suas coxas e da bunda.

Quase por acabar de me barbear aparece uma sargento, também de rosto bonito e mais escuro. Esta já não fala em polonês mas sim em inglês e diz para a tenente:

— A guerra deve acabar em dois dias. Mose Dayan deve assinar a paz e os termos, mas não devolverá os territórios ocupados aos árabes. — e fica em silêncio.

Lavo meu rosto, me enxugo e me viro enfrentando as duas. Agradecendo pelo barbeador, devolvo este. A tenente comenta que estou bem melhor, pareço outra pessoa.

Saíram todos, mas Tatiana retorna e diz:

— Acredito que a partir de agora as coisas não serão tão boas para sua pessoa, desejo-lhe boa sorte e sinto muito, acredite, foi um grande prazer tê-lo conhecido e ter ficado bem próximo de você. Há poucos anos fui sua fã.

Saiu e a porta é trancada.

Acho que ela tem razão, as coisas não estão boas para meu lado. Se eu não for fuzilado, posso ser anistiado e solto. Tudo é possível para um prisioneiro quando a guerra está por acabar. Também, conforme as circunstâncias e mente de cada comando do campo de prisioneiros, o melhor é acabar com tudo, nem sempre testemunhas ficam vivas.

Qual seria o meu caso? Vi os fuzilamentos de mais de cem pessoas civis.

Ouço passos de botas firmes e de várias pessoas — mau sinal. A porta enguiçou, não conseguem abrir. O rato preto se esconde, ele sabe que o clima é ruim (animal sabe). E digo para ele:

— Amigo rato preto, foi um prazer tê-lo conhecido e tê-lo como companheiro de cela.

A porta se abre e o rato some. O sargento grita:

— Em pé e estique as mãos!

Minhas mãos são acorrentadas numa corrente de uns 30 ou 40 cm. Sou empurrado para fora da cela. Estou confuso e começo a suar. Sou levado pelo corredor oposto ao que já andei antes e vejo as paredes da fortaleza. Ainda há escudos e espadas da época das cruzadas, mas as espadas parecem dos Templários. Templários? Templários. Será que eu sou um deles? Preciso me controlar, preciso controlar meu emocional. Viramos a esquerda e descemos uma escada com poucos degraus. Uma porta de grades é aberta por um soldado e saímos num pátio. Nos detemos... é o pátio que eu via da minha janela de cela, onde aconteceram os fuzilamentos. Vejo as árvores e plantas e... vários soldados em posição e armados com fuzil. São uns 15 ou mais soldados... não consigo contá-los, começo tremer e parece que vou vomitar. Preciso me controlar, meu Deus! Controlar? E se luto? De que forma? Estou acorrentado e sem uma arma, mesmo que tivesse uma, poderia até enfrentá-los, mas num segundo seria morto.

Minhas pernas estão trêmulas, estou suado. De nada adiantou ter tomado banho e me barbeado se serei morto. Sou empurrado e obrigado a andar no sentido do paredão onde as pessoas foram fuziladas. Lá sou deixado, há silêncio total. Faz calor e minha respiração é ofegante. É necessário que eu recupere o controle e enfrente a situação. Estou só nos piores momentos, sempre estou só, sempre estive só, nasci só cresci só e vou morrer só. O controle volta a mim, já quase não tremo, não mais estou suando. E começo a olhar ao meu redor. É uma linda fortaleza, mas cadê minha cela? E a janela onde eu estava? E... lá está ela, fácil de identificar, pois sobre a janela olhando para o pátio está o rato preto. É uma piada, minha vida é uma piada e por demais emotiva. Um rato assistindo o que seria minha execução, só vendo para acreditar. Acho que o rato, neste momento não é apenas um rato, talvez ele sinta o que um ser humano não sinta, ao menos ele sinta gratidão por ter tido um companheiro de cela que compartilhou o pouco de alimento que tinha. O rato viu que este parceiro de cela, para com ele não fez dano. Agora na janela, girando seus bigodes, assiste o que será a minha morte.

Bem, pelo menos serei morto limpo e barbeado, ou seja, com disciplina, ética e postura. É o que um homem digno faz. São 15, 17 ou 18 soldados que logo atirarão em mim e se todas as baladas me atingirem num ponto vital, coração e cérebro, eu morra em poucos instantes. Tudo bem, o meu sofrimento será ameno, mas se eles tiverem má pontaria, não gostaria de ficar jogado no chão me debatendo em convulsões até receber o tiro de misericórdia.

Estando no pátio é que vejo a amplitude da fortaleza. Se fosse em outro momento melhor ou numa visita social, diria “que bela arquitetura”, mas agora, nesse momento, só me resta dizer, “que merda!”. Vou morrer amarrado e mijado nas calças!

Discussão, berros, ou briga? Em algum lugar dos oficiais, acima, mas não localizado. Parece ser do gabinete do comandante, que seria algo acima do nível do pátio. Minha execução é demorada. Há mais de 5 minutos que estou aqui, até quando? A discussão continua, se eleva, é por demais exaltada e cheia de insulto. Olho para cima; lá segurando para o lado a cortina da janela, vejo uma figura sem o quepe militar. É a tenente Wazelouska, seus cabelos estão soltos, olhando para mim, como dizendo “olhe para mim, antes de morrer, veja como sou linda”. Ela, lá em cima, se parece a Julieta olhando para baixo na espera do seu Romeu. Só que eu não sou o Romeu, nesse instante não sou nada nem ninguém.

Ela fech